quinta-feira, 22 de setembro de 2011 By: Fred

<> livros-loureiro <> João Ubaldo Ribeiro - Viva o povo brasileiro

VIVA O POVO BRASILEIRO
João Ubaldo Ribeiro

O segredo da Verdade é o seguinte: não existem fatos, só existem histórias.

Contudo, nunca foi bem estabelecida a primeira encarnação do Alferes José Francisco Brandão Galvão, agora em pé na brisa da Ponta das Baleias, pouco antes de
receber contra o peito e a cabeça as bolinhas de pedra ou ferro disparadas pelas bombardetas portuguesas, que daqui a pouco chegarão com o mar. Vai morrer na flor
da mocidade, sem mesmo ainda conhecer mulher e sem ter feito qualquer coisa de memorável.
É certamente com a imaginação vazia que aqui desfruta desta viração anterior à morte, pois não viveu o bastante para realmente imaginar, como até hoje fazem os
muito idosos em sua terra, todos demasiado velhos só para querer experimentar o que lá seja, e então deliram de cócoras com seus cachimbos de três palmos, rodeados
pelo fascínio dos mais novos e mentindo estupendamente.
E talvez falte apenas um minuto, talvez menos, para que os portugueses apareçam à frente deste sol forte de inverno na Baía de Todos os Santos e façam enxamear
sobre ele aquelas esferazinhas de ferro e pedra que o matarão com grande dor, furando-lhe um olho, estilhaçando-lhe os ossos da cabeça e obrigando-o a curvar-se
abraçado a si mesmo, sem nem poder pensar em sua morte.
No quadro "O Alferes Brandão Galvão Perora às Gaivotas", vê-se que é o 10 de junho de 1822, numa folhinha que singra os ares, portada de um lado pelo bico de
uma gaivota e do outro pelo aguço de uma lança envolvida nas cores e insígnias da liberdade. Já mortalmente atingido, erguendo-se com um olho a escorrer pela barba
abaixo, ele arengou às gaiivotas que, antes distraídas, adejavam sobre os brigues e baleeiras do comandante português Trinta Diabos. Disse-lhes não uma mas muitas
frases célebres, na voz trêmula porém estentórea desde então sempre imitada nas salas de aula ou, faltando estas, nas visitas em que é necessário ouvir discursos.
Pois, se depois da metralha portuguesa não havia ali mais que as aves marinhas, o oceano e a indiferença dos acontecimentos naturais, havia o suficiente para que
se gravassem para todo o sempre na consciência dos homens as palavras que ele agora pronuncia, embora daqui não se ouçam, nem de mais perto, nem se vejam seus lábios
movendo-se, nem se enxergue em seu rosto mais que a expressão perplexa de quem morre sem saber. Mas são palavras nobres contra a tirania e a opressão sopradas pela
morte nos ouvidos do alferes, e são portanto verdadeiras.
Coisas opostas, a glória em vida e a glória na morte, somente esta parece perseguir a alma sempre encarnante do alferes. Do contrário, não estaria ele ali, naquele
dia e naquele lugar, podendo ter ido a outra parte qualquer do Recôncavo onde o povo se reunisse para beber e para aclamar o Regente e Imortal Príncipe
Dão Pedro, Defensor Perpétuo do Hemisfério Austral. Lá finado e herói, com suas cada vez mais alargadas palavras às gaivotas circulando de boca em boca, o alferes
não ouviria a alta proclamação que em muitas festas se fez na cidade do Catu, como não veria diversas outras que se seguiram desde o dia pressagioso em que o Senado
da Câmara da Bahia, fervendo de ressentimento e ódio porque a Corte embarcara em seus navios para Portugal do mesmo jeito alheio com que chegara, recusou registro
à Carta Régia em que se nomeava Comandante d'Armas o Brigadeiro Inácio Madeira de Melo.
O povo brasileiro se levantava contra os portugueses e discursos caudalosos ribombavam pelas paredes das igrejas, boticas e salões onde os conspiradores profetizavam
a glória da América Austral, fulcro de esplendor, fortuna e abundância. Em toda parte sagravam-se novos heróis, um a cada dia em cada povoado, às vezes dois ou três,
às vezes dúzias, com as notícias de bravuras voando tão rápido quanto as andorinhas que passam o verão na ilha.
Assim foi ao arribar ao porto da Bahia a famosa corveta Regeneração, que trazia de volta, agora anistiados, importantes heróis. levados presos por sedicão ao
castelo de São Jorge, na capital opressora, Envoltos nas brumas da lenda, esses homens do Destino logo dilataram por todas aquelas terras a reputação de seu valor
incomparável, a beleza de seu cada gesto, a força certeira de cada coisa dita, o caráter jamais quebrantado por fraqueza humana. E não podia o coração de José Francisco
senão bater mais depressa, o queixo tremelicar e a cabeça girar, quando, como se houvesse tambores rufando pelas abas da capa de debruns escarlates, o grande guerreiro
Tenente João das Botas, passageiro da Regeneração, desembarcou ao pôr-do-sol para visitar a ilha em segredo e falou a alguns homens que o boticário reunira na Ponta
das Baleias.
Ouviu dele furente denúncia contra os deputados brasileiros que em Lisboa se tinham oposto à anistia. Mal podendo continuar a respirar, escutou como o Brasíl
representava a liberdade, a opulência, a justiça e a beleza, negadas até agora pela iniqüidade dos portugueses, que tudo de nós queriam e nada davam em troca.
Aprendeu a dizer com desprezo o nome de um dos deputados e, mais tarde, já envergando o gibão verde de punhos agaloados que lhe tinha dado a viúva de um anspeçada,
sua madrinha cega e velha, já habituado a sentir um aperto no peito ao vislumbrar os milicianos agrupando-se aqui e ali, o nome desse deputado seria a única coisa
que saberia dizer nas reuniões da botica. Discursavam quase sempre o boticário e seu freqüente visitante, o alto e inspirado orador Sousa Lima, mas os demais podiam
arriscar uma palavra ou outra enquanto os grandes revolucionários tomavam fôlego e, assim, cofiando os punhos do gibão e ostentando a barba rala que seus dezessete
anos lhe conferiam, o Alferes Brandão Galvão resmungava com aspereza: Gonçalves Ledo, traidor cobarde! Então, correndo o olhar inconformado pela sala como
querendo acompanhar os movimentos de uma mosca aflita, esmurrava o joelho, grunhia uma imprecação ininteligível e voltava a seu silêncio quieto.
Agradava-lhe que, apesar de repetir as palavras e gestos quase todas as noites, pois custava a aprender coisas novas e das letras só conhecia as iniciais do apelido,
os outros conspiradores o ouvissem sempre como se estivesse dizendo algo muito necessário nunca antes escutado, e alguns lhe ecoassem os resmungos com acenos quase
solenes.
Antes que a morte lhe trouxesse a glória e lhe emprestasse o dom das belas palavras, talvez até pensasse de quando em vez que, se não fosse pela roupa agaloada
e pelos arrepios vagos mas sublimes que a menção da guerra lhe causava, a vida de moço de pescaria que antes levava, bastardo e pobre, seria apesar de tudo preferível.
O trabalho de pescar, embora incerto pela própria natureza, era coisa que sucedia como as noites e os dias e, se demandava atenção e disciplina, também despertava
um sentimento arrebatador de liberdade, que o alferes não entendia bem mas percebia, principalmente quando, com os peixes transfigurados numa massa de prata latejante
esbatendo as redes e canoas, os homens em fim de pescaria suspiravam fundo e riam sem razão.
Não fazia idéia do que ia acontecer, tinha vergonha disto e, sempre que reunia coragem para indagar, perdia-a no último instante e apenas resmungava outra vez.
Não sabia onde ficava Portugal, sabia somente que para lá voltara seu pai assim que ele nasceu. Algumas vezes se esgueirou por ali de noite, para ver de longe
o barco de guerra português Dona Maria da Glória, fundeado igual a uma nave assombrada no porto da Ponta da Cruz. Como não tinha arma de fogo, pois de objetos
militares só possuía o gibão, apertava nos dedos urna fisga de três pontas, enrodilhado na escuridão, espiando o barco e sentindo o fôlego se apressar, pensando
de olhos fechados em abordar o navio e matar os portugueses com sua arma de içar peixes. Esperava ver o rosto medonho do Comandante Manoel Pereira da Silva,
de quem diziam ser dos mais cruéis reinóis entre todos os malvados que enviava a corte tirânica, mas nunca enxergou nada além da sombra de um cachorro magro
deslizando pelas beiradas do ancoradouro e nunca ouviu nada além da água chocalhando contra o casco do barco, os sussurros que a noite amplifica, fazendo soar como
uma assembléia de tagarelas as passadas dos caranguejinhos que saem a noite. Dos seus deveres de alferes nada conhecia, nem mesmo o que significava o posto, nem
mesmo se era alferes. Suspeitava até que, para ser alferes, havia necessidade de alguma coisa mais que simplesmente o chamarem por esse título, como aconteceu
pela primeira vez na botica e terminou por se tornar uso de todos na Ponta das Baleias.
Pode ser que, se não tivesse medo de encontrar-se sozinho com outros alferes ou comandantes ou pilotos ou capitães ou outras tantas figuras de expressão severa,
catadura esculpida e veste galardoada, se pudesse entender certas palavras cujos sons, em segredo e angústia solitária, lhe lembravam apenas objetos imaginários
estapafúrdios, se não tivesse tanto desconhecimento de tudo, a lhe pesar na cabeça como uma cervilheira de chumbo, houvesse ido a Cachoeira, onde os conspiradores
já tanto se exaltavam que voavam entre as nuvens e sentiam um sangue diverso banhando o corpo por dentro, pronto para irrigar os mares e gerar nas espumas mais e
mais heróis, mais e mais deuses e deusas da Liberdade, como se via nas estampas e se desenhava com a mente, pelo fio das palavras dos oradores.
O rio Paraguassu, muito pardo, placidamente enganoso, quase letárgico no fundo do vale, fazia, só por uma mirada até a curva onde sumiria, pressentir que suas
muitas entidades se aprestavam para o embate, e todos os dias alguém, a qualquer hora, estava de pé numa margem sua, o olhar colado no horizonte e o pensamento pintando
visões de batalhas. Mas o alferes só se inteirava desses e de outros portentos por ouvir contar, pois temia deparar-se com outro soldado, que lhe fizesse perguntas.
Que percebia de armas e estratagemas de guerra? Em quantos combates havia pelejado e que memórias reunira para contar aos companheiros e à família? Que acha de todas
as lutas do Brasil, que opinião tem sobre a nossa Independência, que grandes comandantes, mal recuperando o alento depois de sofrida refrega, lhe disseram "dêem-me
dez como você, meu bravo, e o orbe terrestre será nosso"? Onde fica mesmo o Brasil, sabendo-se que certamente isto aqui é Brasil, mas não é todo o Brasil, e pode
o bom soldado ignorar onde fica o Brasil? Não, José Francisco não sairia da Ponta das Baleias, não só porque não desejava, como porque o destino já lhe trançava
sobre a cabeça a coroa de louros e espinhos que ia assinalar sua condição de herói.
Ali à Ponta das Baleias, na data inscrita na folhinha alada do quadro, com grande sanha e fúria, os portugueses desferiram seu primeiro ataque contra os revolucionários
da Ilha de Itaparica.
Sabedor de que se conspirava, por informações do português João de Campos, que será xingado e amaldiçoado em toda a Eternidade cada vez que se fizer um discurso
sobre o Alferes Brandão Galvão e sua platéia de gaivotas, o voluntarioso General Madeira, tendo de sofrear sem testemunha ou amparo as rédeas do Hemisfério
Austral, enviou ao povoado da Ponta das Baleias o Comandante Trinta Diabos e sua frota de brigues.
Durante muito tempo depois desse ataque, mesmo séculos depois, as pessoas se persignariam ao lembrar o Dona Maria da Glória transfigurado num monstro marinho
de fogo e fumaça, faluas baixadas dos brigues acometendo a praia com os remos assemelhados a ouriços mortais, lanças e alabardas faiscando as pontas cada vez mais
perto. Sucumbiu somente, como estava escrito, o Alferes Brandão Galvão, antes mesmo que os portugueses pisassem na areia, pois ele era muito visível, uma dessas
formas que quem carrega arma virgem sente compulsão de alvejar, os punhos do gibão reluzindo e a silhueta magra cortando as tábuas mortiças do ancoradouro. Abatido
logo quando a primeira falua passou a disparar projéteis para todos os lados, pôde somente reconhecer que aquelas mordidas do ar subitamente vivo e sibilante
o matavam, quando então perorou às gaivotas. Nem viu João Campos saltar à frente do primeiro grupo para apontar com o dedo gordo e sebento, banhas tremendo por dentro
dos culotes frouxos, as casas dos conspiradores.
Felizmente, ao despontarem os brigues bordejando a enseada, somente o alferes permanecera no posto que designara para si próprio, pois os outros, do boticário
aos oradores, dos milicianos ao cura, dos marinheiros aos mariscadores, bateram em retirada para os matos dos lados de Amoreiras, assim impedindo, com sua ação astuta,
pronta e corajosa, que os quadros da Revolução sofressem baixas de conseqüências inestimáveis.
Embravecidos e correndo sobre a imensa coroa de areia firme como uma hoste de demõnios, os portugueses praticaram tamanhas atrocidades que livros de versos foram
escritos sobre elas e o ódio dos muitos ofendidos ainda hoje não se aplacou de todo nos corações de seus descendentes. A artilharia que ficou na praia e na fortaleza
foi aviltada, a pólvora ensolvada, as peças de ferro cravadas e postas a rolar pelo capim e pelo barro. A igreja de São Lourenço foi invadida, arrancado o manto
de Nosso Senhor dos Martírios, destruído o oratório de Vera Cruz. E tantos sacrilégios se cometeram que, não já estivesse Deus do lado brasileiro por justiça e vocação,
para ele se bandearia agora, diante da algozaria do inimigo. A botica foi quase demolida, houve grandes prejuízos, mas José Francisco, por só ter no mundo
uma mãe entrevada, uma irmã nem donzela, duas galinhas, uma fisga de três pontas e um gibão de punhos agaloados, não trouxe nem representou prejuízo.
Pelo contrário, legou ao povo suas palavras às gaivotas, no dia em que, montando guarda às costas da terra mais brasileira que existe, foi ceifado pela garra
ímpia e sem misericórdia de Portugal, na Ponta das Baleias.
.........................................................................................................................................
O comportamento das almas inopinadamente desencarnadas, sobretudo quando muito jovens, é objeto de grande controvérsia e mesmo de versões diametralmente contraditórias,
resultando que, em todo o assunto, não há um só ponto pacífico.
Em Amoreiras, por exemplo, afirma-se que a conjunção especial dos pontos cardeais, dos equinócios, das linhas magnéticas, dos meridianos mentais, das alfridárias
mais potentes, dos pólos esotéricos, das correntes alquímico-filosofais, das atrações da lua e dos astros fixos e errantes e de mais centenas de forças arcanas -
tudo isso faz com que, por lá, as almas dos mortos se recusem a sair, continuando a trafegar livremente entre os vivos, interferindo na vida de todo dia e
às vezes fazendo um sem-número de exigências. Dizia-se que era por causa dos tupinambás que lá moravam, que com mil artes e manhas de índios amarravam as almas
dos mortos até que eles pagassem os obséquios que morreram devendo, ou resolvessem qualquer pendência de que foram partes. Mas depois dos tupinambás vieram os portugueses,
espanhóis, holandeses, até franceses, e os defuntos, mesmo não havendo mais índios para os amarrar, continuaram por lá, desafiando as ordens dos padres e feiticeiros
mais respeitados para que se retirassem.
Em seguida, chegaram os pretos de várias nações da África e, não importa de onde viessem e que deusa trouxessem consigo, nenhum deles jamais pôde livrar-se de
seus mortos, tanto assim que foram os que melhor aprenderam a conviver com essa circunstância, não havendo, por exemplo, órfãos e viúvos entre eles. Os muitos deles
que não conseguiram suportar viver na companhia de uma memória infinita e na presença de tudo o que já existiu mudaram-se para lugares bem longe de Amoreiras e jamais
comem qualquer coisa vinda de lá.
Há partes do Recôncavo em que as almas jovens desencarnadas sem aviso cedem a um primeiro impulso e por engano entram na barriga de uma cabra ou jega ou num ovo
de galinha. Uma vez entradas, não podem sair até que nasça, se crie e morra ou seja matado o animal em que entraram, razão por que há quem venha ao mundo preferindo
inanição a comer das carnes de certos bichos, isto porque já encarnaram nesses bichos uma ou várias vezes e os conhecem por dentro, não cessando jamais de ser parentes.
Existe a possibilidade de que se proceda a extração de uma alma assim vitimada pela inexperiência, mas isto requer poderes acima de humanos e uma conjunção
de fatores mais que delicada, de maneira que a maioria das famílias afligidas pela presença de uma alma encarnada em um de seus animais prefere agir com resignação
e caridade.
Em outras partes, as almas se apossam não de animais, mas de árvores, cabendo discussão sobre se o fazem de propósito, sustentando alguns que a alma, sobressaltada
com o que se passou durante a encarnação de que saiu e muito inquieta por se saber imortal, acha melhor a condição de planta que a de gente ou bicho.
A alma não aprende nada enquanto alma, necessita da encarnação para aprender, e sobram razões para acatar a opinião segundo a qual, como planta, ela aprende melhor
que como homem, notadamente as árvores grandes que dão frutos.
Não é possível negar tampouco que em todo o Recôncavo são encontradas almas penadas e não haveria como duvidar do testemunho de tantas e tantas pessoas que com
elas cruzam e as ajudam por meio de velas, novenas, orações e sacrifícios.
Inúmeras almas penadas mantêm-se nesta situação de forma bem transitória e, na verdade, não estão penando, mas descansando antes de subir para o Poleiro das Almas,
onde, mais cedo ou mais tarde, terão de vencer um grande medo e encarnar outra vez. Não há necessidade de obrigá-las a fazer isso, porque é insuportável não
poder aprender absolutamente nada, de forma que, a todo instante, multidões delas não conseguem mais conter-se e, despencando precipitosamente do Poleiro das Almas
em vôos dardejantes, baixam para encarnar.
São acontecimentos muito complicados, cujo inteiro entendimento escapa aos mais sábios homens e confrarias, razão decerto por que é tão forte a corrente que pretende
haver sido o Alferes Brandão Galvão a primeira encarnação daquela alminha tão atordoada e assustada que abandonou o corpo sagrado do herói e, como as almas são mais
leves que o ar e muitas não sabem voar direito, ficou um pouco ao sabor do vento que movera a frota portuguesa e, oscilando na aragem entre a fortaleza e a Ilha
do Medo, atentou com grande amor, desencanto e desamparo para o corpo lá embaixo refletindo a luz do sol em seus punhos militares.
Mas pensar que o alferes foi a primeira encamação daquela alminha solta no nordestal que vem baixando é mais coisa da vaidade humana, a qual busca mudar o mundo
à feição de sua necessidade.
Sim, que maior glória haveria para o povo do que ter sido esse herói inspirador e eloqüente a primeira encarnação de uma almazinha nova, uma alma especialmente
gerada para cimentar fortemente o orgulho de todos e exibir a fibra da raça?
Assim, porém, não aconteceu. Há poucas almas novas, embora todos os dias algumas sejam criadas, na grande sopa cósmica que rodeia os planetas e as constelações.
Sabe a moderníssima Biologia que, há muitos e muitos milhões de anos, não existiam seres vivos, mas as substâncias que hoje os compõem boiavam soltas no caldo primordial
dos mares e então, num lindo dia de sol, a luz bateu sobre algumas dessas substâncias bem na hora em que o balanço das ondas as aproximava, com o resultado de que
apareceu algo vivo pela primeira vez.
A mesma coisa que os sábios mostram ser tão simples se dá com as alminhas novas, quando se formam na grande sopa cósmica. As alminhas são como certas partículas
de matéria, também descritas pela moderníssima ciência, que têm cor, sabor e preferências, mas não têm corpo nem carga. Tanto as alminhas quanto as partículas
não obstante existem, tudo dependendo da inquantidade de nada que não entra em sua incomposição e, com quase toda a certeza, de outras condições científicas, tais
como pressão, temperatura e a presença de bons catalisadores para reações de nada com nada. Então, nas amplidões siderais, imensuráveis e copiosas não-massas
de nada escorrem, obviamente sem qualquer velocidade que lhes seja inerente, para juntar-se nas proximidades de algum poleiro d'almas. Se o nada procura os poleiros
d'almas ou se os poleiros d'almas procuram o nada, não há como saber. O fato é que, nas vizinhanças de um poleiro d'almas, o que ocorre é nada, nada por todos
os lados, uma infinitude de nada inimaginável em toda a sua inextensão. Nada e mais nada e mais nada e mais nada ali se vai aglomerando, até o ponto em que se acumula
tanto nada que ele se transmuta num nada crítico e desta maneira surge algo desse nada.
Não mais é, essa repentina não-forma do nada, que uma almazinha nova, inexperiente e inocente como todas as criaturas muito jovens, por isso mesmo sujeita a grande
número de percalços, pois a única coisa que sabe é que deve ir para o Poleiro das Almas, empoleirar-se com as outras e esperar a hora em que terá de encarnar para
aprender.
E, na verdade, a almazinha que ficou tanto tempo desconsolada e errante depois que, ainda tão verde e indefesa, se viu obrigada a abandonar o corpo do Alferes
Brandão Galvão, não era originalmente uma alma brasileira, pois é muito difícil que as almas se destinem a nascer somente numa nacionalidade qualquer, ou venham
a apegar-se a alguma. No caso dessa, tudo começou, como tantos eventos importantes, por obra do acaso.
Quando, fortuitamente, o Poleiro das Almas está repleto de almazinhas recém-nascidas, a agitação febril de tantos jovens ansiosos pelo aprendizado e pelo cumprimento
de suas sinas chega a fazer fibrilar o cosmo e a perturbar um pouco o perfeito funcionamento dos relógios astrais e demais mecanismos celestes. Nesses casos,
é comum que, em revoadas nervosas e espasmódicas, como lavandeiras que estejam a mariscar e sejam espantadas por uma pedra, as almas novas desçam iguais a flechas
em direção ao planeta, chispando de um ponto a outro com a velocidade de relâmpagos, até acharem um ovo, um útero, uma semente, algo vivo para animar. E, naturalmente,
não descem como desceriam se fossem corpos, talvez propriamente nem desçam, já que suas trajetórias são simultaneamente perpendiculares aos planos de todas
as três dimensões e, se não é possível compreender isto, é porque pouco se compreende de quartas, quintas ou sextas dimensões, inclusive as almazinhas, que,
assim, antes de chegarem, nunca sabem onde estão. E dá-se muito que a primeira encarnação das almazinhas não seja em gente, mas em bicho ou planta, podendo supor-se
que, bem antes de entrar na barriga desiludida da mãe do alferes, essa almazinha fora macaco ou papagaio, em algum lugar das grandes matas do Recôncavo.
Como, naquela época, a maior parte dos macacos e papagaios não tinha tantos problemas sérios quanto agora, é de crer-se que a almazinha haja tentado voltar para
a mesma espécie, mas não conseguiu resistir, apesar do medo intenso que isto sempre provoca nas almas, à oportunidade de encarnar em gente.
Sucedeu assim que a almazinha, solta entre os matos e bichos, foi virtualmente sugada, certa feita, pela forte atração exercida sobre ela pela barriga de uma
tupinambá em cujo interior acabara de acontecer, fazia poucas horas, uma concepção. Talvez tenha principiado aí a colaboração de circunstâncias singulares que
terminou por fazer da alma do alferes uma alma brasileira. Nasceu índia fêmea por volta da chegada dos primeiros brancos, havendo sido estuprada e morta por oito
deles antes dos doze anos. Sem nada entender, mal saía do corpo da menina e iniciava nova subida ao Poleiro das Almas, quando outra barriga de gente a chupou como
um torvelinho e eis que a almazinha nasce índio outra Vez e outra e outra, não se pode saber exatamente quantas, até o dia em que, depois de ter vivido como caboclo
no tempo dos holandeses, enfurnado nos matagais e apicuns com três ou quatro mulheres e muitas filhas e comendo carne de gente volta e meia, passou um certo tempo
no Poleiro das Almas, com temor de novamente encarnar em homem ou mulher. E seguramente alguma coisa deve estar escrita, porque essa alma, tiritando de receio e
aflição no espaço escuro entre os mundos, fez tenção firme de evitar o Hemisfério Austral na descida seguinte, mas, como não tinha efetivamente aprendido coisa alguma,
sabendo melhor ser papagaio do que gente, terminou por revoar de maneira fatídica e, dezoito anos, dois meses e vinte dias antes do 10 de junho de 1822, achou-se
por dentro das vísceras da mulher franzina que logo a iria parir, no corpo do futuro Alferes Brandão Galvão, herói da Independência.
Alferes este que, nem bem terminara sua alminha de assistir de longe ao enterro simples que lhe fizeram, já tinha o nome exaltado onde quer que houvesse revolucionários
patriotas reunidos, já era evocado como exemplo de valentia e eloqüência, já se tornava objeto de dissertações arroubadas e pungentes.
Talvez haja também a alminha passado demasiado tempo em Amoreiras, durante suas vagâncias desencarnadas pela ilha, pois que as almas não têm muito senso de tempo.
Mas talvez nem seja verdade que ela teria sido encantada pelos engodos, ardis e necromancias que se entrelaçam no ar de Amoreiras, porque, cada vez com mais assiduidade
e interesse, deu para freqüentar os locais onde o alferes recebia homenagens, deu para vibrar de satisfação, com uma felicidade que jamais experimentara, quando
pormenores de sua fala às gaivotas eram lembrados ao povo pelos declamadores, em alexandrinos sinfônicos, ordens inversas arrebatadoras, proparoxítonas troantes
como tonéis martelados, metáforas cujos contornos jamais se dissolviam, adornando o ar de esculturas gelatinosas e frementes. Admirou-se mais e mais de si mesma,
ouviu tantos relatos de prodígios obrados por homens tais como aquele que fora, que não pensava em mais nada. E assim, uma bola azul elétrico invisível suspensa
pelos muitos ventos que povoam o firmamento, a almazinha adiava e ansiava o instante em que se tomaria de perdida paixão e se tornaria uma alma brasileira para todo
o sempre, contribuindo para entender-se este fenômeno lembrar que, sim, as almas não aprendem nada, mas sonham desvairadamente.

Pirajá, 8 de novembro de 1822.

Sentado debaixo de uma jaqueira com as pernas esticadas e abertas, comendo um pão de milho meio seco e dando dentadas enormes num pedaço de chouriço assado, Perilo
Ambrósio Góes Farinha resolveu reclamar com os dois escravos que lhe faziam companhia, embora eles não tivessem cometido falta alguma e apenas o observassem
de olhos famintos. Estava irritado com a comida.
Sempre fora assim, desde pequeno, muito sensível a decepções relativas a comida. Podia ser apenas uma expectativa frustrada, podia ser qualquer coisa, até mesmo
alguém que conseguisse chegar antes a um naco em que estivesse de mira feita, apesar da boca cheia e da atenção vigilantíssima que costumava dar a toda a comida
sobre a mesa, enquanto devorava fragorosamente a que empilhava nas duas ou três selhas de louça da terra que lhe serviam de pratos.
Lembrou, como de hábito sentindo o peito ofender-se e doer a solidão pesada da injustiça, que o pai ameaçara pela décima ou trigésima vez expulsá-lo da vila e
da fazenda, ao vê-lo atacar uma das irmãs com um chuço de assar porque ela se apossara primeiro de um pedaço de carne distante mas cobiçado. Não tinha como alcançar
aquela salpresa a resplender entre maxixes e jilós na outra ponta da mesa, nem mesmo podia reservá-la para si com gritos e ameaças, porque o atrapalhava a boca ingurgitada
de toras de toucinho com farinha que calcava com ânsia por todos os espaços da boca e, ao mesmo tempo, não se permitia deixar de angustiar-se por medo de furtarem
de suas pilhetas abarrotadas bocados já antecipados aos fungos e suspiros, se parasse de lhes dar atenção ainda que alguns instantes. Então não cabia fazer nada,
a não ser, com os olhos de uma baleia ferida, voar por cima daquele intolerável abismo entre ele e o pedaço de carne e, antes que a irmã mordesse o que era dele,
transfixar-lhe a mão com o chuço preto e gorduroso.
- Por que me perseguem? - pensou em gritar ainda, revoltado, mas, enquanto carregavam para dentro a irmã com o espeto atravessado da palma às costas da mão, as
negras levantando uma algazarra descabida, o pai arrancou-lhe a lasca de carne de entre os dentes em meio a uma chuva de tabefes, obrigando-o a sair da mesa e não
mais comer naquele dia.
Dentro do quarto em que o pai o trancou, ardeu de ódio e despeito e chorou quase o tempo todo, em soluços esganiçados tão fundos que às vezes pensava que nunca
teriam fim. Entre outras vinganças com as quais sonhava de quando em quando e acordava pingando suor, jurou em voz alta que um dia obrigaria aquela irmã a passar
fome enquanto ele comesse diante dela, pois jamais, agora que fora ingratamente magoado, existirá em toda a Terra carne suficiente para matar a fome por aquele pedaço
usurpado e arrancado à força de seus dentes desesperados.
Expulso de casa, sim, tinha sido, muito depois. Mas isso não queria dizer mais nada agora, chegou quando todos os seus outros rancores já o envenenavam a cada
momento do dia.
- Pois dão-me água a beber! - falou, com a voz mais estridente e alta que o normal, como sempre acontecia quando se dirigia aos negros. - Água! Não basta que
tenha de comer esta massamorda pestífera, há também que lavar a goela com água! Anda lá, dá-me cá esta cabaça!
Feliciano, o negro mais jovem, saiu do sol onde seu amo o obrigara a ficar junto com o outro e apanhou lentamente a cabaça para passá-la.
- Avia-te, estafermo! - gritou Perilo Ambrósio.
Puxando a rolha pela cordinha que a atravessava na parte mais grossa, bebeu ruidosamente alguns goles, baixou a cabaça e deu um pontapé na perna de Feliciano,
tão forte quanto lhe consentia a posição escarrapachada.
- Ficas com esta cara de merda, sem dúvidas porque deixei-os ao sol e lá os deixo pela Eternidade, se tanto me der na telha! E porque querem botar essas bocas
de estrumo cá na cabaça de onde bebo esta água imunda que me trazem! Por que me deitaram desta água imunda à cabaça? Por quê? Responde, pedaço d'asno, bosta
do demônio! E, se te deixo ao sol, por isso devias ter-me em melhor conta, pois que lá te faço um grande favor, que teus miolos hão de estar acostumados a ser cozidos
pelo sol das Áfricas e assim te confortas um pouco. E não me faças cá esta feição de monge silenciário, macaco deslavado, não me faças feição alguma, os negros não
têm alma e têm tanto direito a expressar-se quanto o têm porcos e galinhas! O que hás de expressar é a vontade de teu amo, como o que tereis ambos de relatar sobre
a minha bizarria e valentia neste combate contra as hostes do Madeira, a padecer a mais triste condição, a comer desta gafanha mortal, a beber desta água pestilencial,
na companhia de dois negros sujos e fedorentos que peidam como bugres bêbedos e arrefecem-me cá o ânimo de luta, isto é o que tens de expressar e mais que te ordene!
Levantando um pouco de poeira, um grupo de cavaleiros repontou na estrada de barro que passava pela borda da mata.
Perilo Ambrósio teve um sobressalto. - Acode-me cá! - disse ao escravo, que lhe estendeu a mão para que se levantasse, o que fez penosamente, a barriga decidida
a permanecer no chão, enquanto ele arfava com os joelhos dobrados em grande esforço.
- Que tens, não mais podes com peso? Não saíste à tua mãe então, que muitas vezes a fodi deitando-lhe em cima todas estas arrobas e não me recordo que houvesse
ficado amassada e, se não já se tivesse tornado numa burra pelancuda e cheia da gafa que apanhou aos cães, ainda ia eu lá muitas vezes àquele rabo preto. Mas não
há de ser nada - acrescentou com um riso obsceno, passando a mão gorda e peluda pelo traseiro de Feliciano -, pois destes cus da tua família ainda não tive cá o
meu quinhão completo, e chegará o dia em que te chamarei a meu quarto para que te ponhas de quatro pés e te enfie toda esta chibata pelo vaso de trás, que nisto
lá hás de ser bom. Mas então são milicianos que lá vêm? São os homens do Madeira em debandada? Estão a tirar uma peça de artilharia, por isso que demoram e vão
tardar, ainda bem. Crês que são mesmo dos nossos? Tens vistas melhores que as minhas, olha bem. Se me mentes, se me dizes que são dos nossos e não são, será tua
última velhacaria, pois que te esfolo antes que cá cheguem. Ouve lá, são mesmo dos nossos? Como passa a batalha, não posso arriscar-me, como passa a batalha?
Nem mesmo o som da batalha chegava-lhes agora como antes, embora antes tampouco houvesse o retumbo tremendo que esperavam. Perilo Ambrósio, que escolhera aquele
ponto bem distante da luta para passar o dia, pois aguardava somente que vencessem os brasileiros para juntar-se a eles em seguida, temia que o combate não tivesse
terminado ainda e que, por algum azar, fosse obrigado a tomar parte nele. Se queria que os brasileiros prevalecessem, não era por ser brasileiro - e na verdade se
considerava português -, mas porque, expulso de casa, abominado pelos pais e por todos os parentes, sob ameaça de deserdação, deliberara adquirir fama de combatente
ao lado dos revoltosos. Desta maneira, seu pai, fiel à Corte, já foragido e acusado de todos os crimes e perfídias concebíveis, poderia perder tudo com a vitória
brasileira, passando os bens muito justamente confiscados a pertencer ao filho varão, distinto pelo denodo empenhado na causa nacional. Preferia Perilo Ambrósio
que a família fosse degredada para muito longe, talvez para Angola, entre pretos cozinhando homens para devorar e moscardos traficando moléstias fatais, mas, na
impossibilidade disto, conformava-se com a idéia, que o fazia rolar horas a fio na cama a esfregar uma mecha de cabelo entre os dedos com ar estúpido, de tomar-se
senhor absoluto da fazenda, dos negros, das casas e de tudo mais. O que aconteceria com a família não importava agora, era assunto para mais tarde, depois que a
situação presente fosse aproveitada da melhor forma.
Eram dos nossos, não havia dúvida. Alguma coisa, pressentia-se daqui, acontecera com as rodas de uma carreta que transportava um canhão pequeno. Dois burros castanhos
se esticavam junto às guias da carreta, que mal se movia, apesar da força empregada. Cinco ou seis cavaleiros paradeavam as montarias para a frente e para trás como
numa cavalhada, alguns infantes se mexiam em volta da roda direita, a poeira levantada pelos cascos foscava o ar, que ao redor era muito claro, e assim tudo se via
como numa pintura antiga, ouvindo-se os estalos do chicote do carreiro, as imprecações e os gritos um pouco depois de haverem acontecido.
- Que tiram as duas mulas? - perguntou Perilo Ambrósio, franzindo os olhos para estudar as figuras distantes. - Arrastam um canhãozito de campo, um falconete,
é assim que lhe chamam? Trabalho esforçadíssimo, haviam que parar e arranjar a roda, pois que se lhe despega uma, é o que de cá se percebe. Creio que devo ir ter
com eles. Quem nos regulares tem os quatro galões e as agulhetas de prata ou oiro? Há uns que vão sempre com dragonas a abanar-lhes os ombros, além de outros ornamentos.
A ver cá: depois do cabo-de-esquadra, segue-se o furriel, temos então os cadetes e daí por cima são todos grandes capitães, sargentos-mores e mestres-de-campo. Ouve
lá, acreditas que nos dêem boa acolhida e que nos tenham por voluntários desgarrados do Barros Falcão? Como passa a batalha, isto é o que cabe saber, isto sim! Pois,
se lá formos e ainda não tiver passado, é mais certo do que o Bom Senhor nos céus que nos chamarão a marchar com eles. Então conto-lhes um par de histórias, que
é de mentiras e patranhas que se faz a narração da guerra. E, afinal, estávamos do outro lado do rio e bem que nos podia ter apanhado de rebate o inimigo, não podia?
Mas, sim, em questões de batalhas não se leva à conta quem se mostra ansiando da lide, ela ainda continua. Não, não, se devo ter razões com aquele comandante, não
hão que ser simples razões, sem nada a mostrar por elas. E então lá não vou sem antes cuidar de alguns aprestos. Anda cá, estafermo de fumo, anda! Apura-te, infeliz!
Pouco depois, somente na companhia de Feliciano, Perilo Ambrósio saudou um tenente, que, ao ver os dois se aproximando, afrouxou a brida e galopou em direção
a eles, estacando no miolo de uma nuvem de barro avermelhado.
- Ferimento à bala? - perguntou, pois, assim que parou, percebeu que Perilo Ambrósio trazia o braço esquerdo numa tipóia empapada de sangue, assim como o jaleco
e a camisa. - Ainda pode andar bem? Vê-se que perde muito sangue.
- Meu comandante, vinte almudes de sangue tivera, todos os vinte os daria gostosamente, e mais os tivera que os daria pela liberdade - respondeu Perilo Ambrósio,
com a voz débil e cortada de ofegos lacrimosos.
- Mas é português, não é?
- Sim, meu comandante, foi Portugal onde primeiro vi a luz e entre portugueses fui criado, pois que o são meu pai e minha mãe, como hão de ser também os vossos
maiores. Mas, se lá vi a luz, cá no Brasil foi que vi a vida e, se falo desta maneira, isto se deve ao que forcejaram desde sempre por meter-me na cabeça, eis que
até aos estudos na Corte quiseram enviar-me, não houvera eu lutado para não formar-me em meio aos inimigos da liberdade e da Independência. Meu pai, sim, muito
infelizmente, se alia à causa do opressor e isto me parte o coração, sendo eu brasileiro mais que por presença aqui, senão porque me sinto tão nativo a estas terras
quanto as aves e os bosques. Eis por que saí da casa dos meus pais, renunciei à fazenda e ao espólio e vim cá combater até não me restar alento, ainda que de pouca
valia seja. E já vínhamos desde a madrugada, sem descanso, para nos juntarmos aos homens do grande mestre-de-campo Coronel Barros Falcão, quando, ao vencermos a
travessia do rio, pilhou-nos um magote deles. Não fora a bizarria do negro Inocêncio, que vinha na nossa companhia e atacou dois sabreadores inimigos, quando já
sucumbia eu pelo balaço de algum escopeteiro que nos fez fogo por trás, aqui não estávamos agora. Esse negro Inocêncio, fiel e bravo, continua lá sob a árvore,
malferido, talvez à morte, não pode mexer-se nem ser carregado. Mas ainda estou pronto para o combate, meu Senhor comandante, e no aguardo das ordens de Vossa
Mercê.
- Não, meu bravo, meu camarada - disse o tenente, com os olhos detidos de admiração, o corpo inclinado para a frente, as mãos na maçaneta da sela. - É necessário
que descanses, que cures as tuas feridas. Aqui por este flanco, um pouquinho na direção do Sul, as forças do Madeira nos sufocam, há quem afirme que recebeu reforços
de três ou quatro mil homens, porventura muitos mais. Mas também nós temos acolhido reforços de toda parte e não podemos deixar que nossos bons camaradas, os que
lutam e derramam sangue pela insurreição, fiquem sem amparo e assistência. Aqueles lá, menos um, estão montados mas são praças a pé, moços de cavalariça que se engajaram.
Um deles mostrará o caminho por onde irão encontrar alguma ajuda, algum lenitivo para essas feridas. Não podes perder mais sangue, já foi demais.
- Não, meu comandante, minhas feridas já as pensou este outro negro que me acompanha e cuja bravura e dedicação são dignas de uma verdadeira pessoa, tanto assim
que, a triunfar a causa brasileira como Deus há de ser servido prover, minha tenção é dar-lhe carta de alforria, para que se veja tão livre quanto seremos os brasileiros,
embora seja a única propriedade que possuo no mundo.
- Temo que seja tarde, pois esvaía-se em sangue e já desfalecia quando o deixamos em busca de ajuda, mas causa-me cuidado maior que eu aquele negro lá ao pé da
árvore, que com tanta valentia se houve na defesa de sua pátria e de seu amo. Cá por mim posso arranjar-me. Um daqueles cavalicoques que me cedais para mim será
um palafrém real e nele, mesmo em marcha descansada, hei de chegar a algum pouso onde me dêem abrigo, pois são muitos os amigos que tenho em toda parte e mais incontáveis
ainda os corações generosos.
Com um meneio de cabeça curto e enérgico, o tenente, que lido parecia ter mais de vinte anos e ao falar via-se que fazia esforço para a voz soar mais grave do
que de fato era, disse-lhe "pois muito bem" em tom marcial e, segurando o chapéu arniado que balançava um pouco frouxo no cocuruto, galopou de volta a seu grupo.
Fazendo apear um dos praças depois de levá-lo até Perilo Ambrósio, passou o cavalo e uma quartinha de água, acenou como quem esboça uma saudação. Com o negro Feliciano
cabisbaixo mas ligeiro à frente, Perilo Ambrósio oscilava devagar, montando o cavalo em marcha andadeira, já quase chegando aonde a estrada dobrava por trás dos
matos e desaparecia em outra direção. Parou um momento, olhando de longe o tenente desmontar junto da árvore onde tinham estado, andar alguns passos, curvar-se brevemente,
tirar e recolocar o chapéu e talvez benzer-se - a distância era grande demais para se ter certeza. O tenente montou outra vez e chouteou de volta a seu grupo emoldurado
de poeira. Perilo Ambrósio ficou contente em verificar que tudo resultara muito bem até o último pormenor, embora já antes estivesse seguro de que o tenente encontraria
Inocêncio morto. Afinal, quando o sangrara à faca para lambuzar-se de seu sangue e assim apresentar-se ao tenente, terminara por dar-lhe mais cuteladas do que planejara,
já que os braços e as mãos lhe fugiram do controle e golpeou o negro como se estivesse tendo espasmos. Melhor que haja morrido logo e não se pode negar que de um
modo ou de outro deu sangue ao Brasil, pensou Perilo Ambr6sio, voltando as costas e cutucando mansamente as ilhargas do cavalo para tomar de vez a estrada.

Cachoeira, 5 de março de 1826.

Sim, não passou o Imperador aqui mais que um par de horas e a Princesa Imperatriz no capitânea da flotilha estava, no capitânea ficou, mas este domingo cujo sol
festeja em todas as casas, plantas e águas, esta manhã em que o ar respirado quase faz as pessoas flutuar, as cores da Rua da Matriz e da Praça da Vila, os vestidos
e guarda-sóis de todos os matizes, os sinos dobrando como se tivessem enlouquecido, os homens que ainda saem de calções de cetim branco e sapatilhas como numa
corte antiga, as barracas e bandeirolas do dia da visita, os cheiros de cozidos e coentro e pimenta fresca e peixe e frituras africanas, o céu azul-ferrete emoldurando
as fortalezas falsas que construíram para agradar Sua Majestade, as pilhas de frutas junto ao rio, os pretos e pretas luzindo entre panos berrantes e falas como
flautas exóticas, os meninos correndo entre as árvores em suas fatiotas de ver Deus, os telhados reverberando luz e calor, alguém cantando, alguém olhando o rio,
alguém pescando, as portas e janelas abertas, as flores em vasos altos e ramalhudos, tudo isto, sentido daqui da porta da Matriz, passada a missa e começado o dia,
parece mostrar que o Imperador do Brasil e seu Perpétuo Defensor ali reside e ali está, para daqui a pouco emergir de um dos três sobrados que lhe destinaram como
paços, dando o braço à Imperatriz e, alto e belo como um deus, são para passear entre os cortesãos e o povo, cumprimentando-o e com ele rivalizando em esplendor.
Tudo isto prova que vale a pena viver, pensou Perilo Ambrósio, Barão de Pirapuama, de pé à saída da Matriz, enxugando o suor do pescoço com um lenço de brocado inglês.
Empinou a grande pança, farejou os ares, certificou-se com um olhar de que a caleça atrelada a um par de cavalos brancos, corpulentos e castrados estava de prontidão
no lugar que ordenara, com os dois pretos cocheiros espigados na boléia, de roupas também pretas e colarinhos duros que lhes chegavam quase às orelhas. Considerou
vagamente a idéia de repreendê-los por haverem saído do ponto preciso que lhes.havia determinado e terem preferido ficar debaixo de uma mangueira para evitar o sol.
Mas logo desistiu disso. Sentia-se benevolente e, além do mais, à sombra também os cavalos e a caleça, que tantas despesas e aborrecimentos lhe causavam, ficavam
protegidos do calor. Sabia que, ao subir à caleça para voltar à casa-grande do engenho, teria vontade de procurar, nas roupas dos negros, nos bancos e nas coberturas,
manchas de resina pingada da mangueira e, se as encontrasse, poderia perder a cabeça novamente, como cada vez mais lhe acontecia com os pretos. Mas depois pensaria
nisso, não se irritaria agora, tinha saído da missa, tinha mais uma vez dado tanto em pitanças que a mão do sacristão quase não suportou o peso das moedas, tinha
sentido o coração confranger-se e os olhos úmidos ao soar do tintinábulo na hora da Eucaristia, tinha visto, nas feições de tantos que o saudavam, afeto, admiração
e orgulho em serem por ele reconhecidos e, apesar de não gostar de andar e ter um certo asco de algumas das pessoas que certamente lhe falariam e até procurariam
tocá-lo, decidiu caminhar pela rua da Matriz abaixo, desfrutando destes ares alegremente carregados do primeiro domingo depois da visita do Imperador e da felicidade,
hoje tão completa, de se saber importante para Deus e para os homens.
Socou o lenço volumoso no bolso sem dobrá-lo, ajeitou o chapéu na cabeça e principiou uma marcha paquidérmica em direção à praça. Malditos punhos de renda, malditas
mulheres que obrigam a tirar o chapéu e repetir as mesmas saudações.
O sota-cocheiro, com o gogó caroçudo saltando entre as abas do colarinho, correu da caleça, esperando ter de ajudá-lo a subir, como era sua função.
- Leça-leça? - perguntou o negro.
Não sabia falar ainda a língua dos brancos, era negro novo.
Perilo Ambr6sio parou e olhou para aquela figura muito alta, grotescamente espadaúda dentro do casaco preto.
- Leça? - repetiu o preto com um sorriso aparvalhado. - Vai-vai? Zenho, vai?
- Negro imundo - disse Perilo Ambrósio, sem saber bem por quê.
- Ngmundo - ecoou o preto. - Ngmundo leva leça, vai-vai?
- Não, não vou para o engenho agora - respondeu Perilo Ambrósio, depois de algum tempo em silêncio, ouvindo o negro repetir "leça-leça" e fazer com os braços
os gestos de quem carrega alguma coisa corri cuidado. - Volta para lá e me espera. Volta!
- Vota - falou o preto, com o mesmo sorriso assustador.
- Sim, volta.
O preto fechou o sorriso tão repentinamente quanto o havia aberto e, antes de dar meia-volta, pareceu indeciso sobre que lado escolher, meneou o tronco, finalmente
correu de volta à caleça.
- Miolo mole - decidiu Perilo Ambrósio.
Mas isto não foi suficiente para tranqüilizá-lo, porque se viu obrigado a reconhecer que, diante daquele negro abobalhado e seu sorriso desagradável, sentira
mais uma vez uma espécie de medo. Talvez até mesmo o houvesse escolhido para servir na caleça não somente pelo porte, pela saúde e pela força que o tornavam um escravo
invejado, digno de um barão. É possível que tivesse sido também para colocar aquele medo à prova, aquele medo inexplicável e quase corporal que sempre o assediava
ao falar com ele. Talvez, se ele entendesse, não o chamasse de negro imundo. Não, não, é claro que chamaria, também não era assim. Seria medo? Como ter medo de uma
coisa sua, mais um negro seu entre dezenas e dezenas, uma coisa com a qual podia fazer o que quisesse? Sim, mas também se tem medo de um novilho bravo, de um animal
qualquer, até mesmo da bicada de um ganso, cujo pescoço se pode torcer com uma só mão. Não, não era medo, era apenas a sensação desconfortável que todos têm
ao conversar com um demente, apenas isto. Contudo, melhor estaria aquele negro servindo na residência da cidade, carregando para a praia os barris de merda produzidos
pela casa, bombeando e carreando água e fazendo outros serviços pesados, como pedia seu tamanho.
Bem, mas são somente coisinhas importunas, que surgem à mente para tentar estragar um dia como este, quando a praça já desponta à frente com seu povaréu domingueiro
e todas as coisas estão ao alcance da mão e do desejo e nada mais inebriante do que, assim em paz com a consciência, perceber que tudo refletia seu poder. Não era
corriqueira, apesar de tudo, a chegada tão natural e sem pompa de um barão a esta praça, onde as figuras do Imperador e de seu séquito ainda pareciam mover-se. Perto
do barracão luxuoso em que Sua Majestade recebera as chaves da cidade e do qual até os pardos libertos puderam aproximar-se para ouvir as vozes da Corte, acentos
e tons tão diversos dos daqui, que as damas finas e os homens elevados imitam, alguns com perfeição. Se não mais estavam ali o Imperador, seus almirantes, seus vasos
de guerra e seus aparatos reais, toda a aura imperial se transferia para os grandes nobres da terra, os que, como Perilo Ambrósio, mesmo não tendo nascido em Cachoeira
e mal a conhecendo, haviam alargado sua fama e fortuna por todas as terras do Recôncavo. Não pertencia sua figura austera e imponente um pouco a todo o povo de Cachoeira?
Não era ele também, de certa forma, um nobre de Cachoeira, alguém que aquele povo podia citar com orgulho e dizer aos forasteiros "cá também temos os nossos nobres
barões"?
Sim, era, pensou Perilo Ambrósio. Eu sou um barão, disse mentalmente. Não precisava mais repetir isto do jeito obsessivo de antigamente, querendo convencer-se
de uma coisa absurda a que sua própria cabeça resistia, nos primeiros dias depois da confirmação do baronato. Eu sou o Barão de Pirapuama, sou eu.
Pirapuama queria dizer baleia, na língua dos bugres. Isto não se pôde confirmar com a certeza que ele desejara, porque os índios praticamente não existiam mais
e os poucos que havia ou se escondiam nos cafund6s das matas ou passavam o tempo furtando e mendigando para beber, cair pelas calçadas e exibir as doenças feias
que sua natureza lhes trazia. Mas todos no Recôncavo e fora dele sabiam que pirapuama era baleia e, se não fosse, seria, pois afinal estava ali o Barão das Baleias,
aquele que, na esteira de incontáveis sofrimentos e tribulações, lutando pela Pátria, enfrentando ódio e incompreensão, obrigado a combater a própria família, era
hoje o maior entre os senhores da pesca dos grandes bichos marinhos que todo mês de junho vinham galhardear os corpanzis no meio das ondas verdes da baía de Todos
os Santos.
Pirapuama, nome que afirmava a singularidade nacional, que proclamava orgulhoso sua origem austral, atada àquelas terras e a seus habitantes originais, os nobres
selvagens de antanho.
Quanta luta, quanto sacrifício, pensou Perilo Ambrósio, novamente enxugando o suor com o farto lenço de brocado cujas rugosidades e farpilhas amaldiçoava, mas
cuja exibição estudadamente casual aos olhares dos passantes lhe fazia vir a compulsão irrefreável de mais uma vez esfregá-lo lentamente pelas enxúndias da papada
e, concluído o enxugamento, tirar do bolso um flaconete de cristal, para, com o dedo indicador sobre a boca da garrafinha, derramar no pano gotas de um perfume que
aromava tudo em tomo, maravilhando os moleques com aquelas essências que, saídas de uma pedra reluzente, invadiam o universo. Muito bem, de fato a Revolução
premiara seus heróis. E de fato tinha sido muito mais fácil do que imaginara antes, tomar de sua família todas as propriedades. Até mesmo quando, com o pai já capturado,
preso e acusado de traição, encontrou o ouro em pó que se dizia estar enterrado ilegalmente nos fundos da casa-grande do engenho, guardou a maior parte do que achou
em segredo e levou um punhado às autoridades, como triste evidência de que sua família era efetivamente tudo de mau que se dizia dela e até um pouco mais. Chorara
ao entregar aquele ouro, não de pena, mas por reconhecer que, por mais que seu coração de filho se rebelasse, não podia, em nome da Pátria e do povo que fizera a
Revolução, esconder a conduta inimiga do pai, da mãe, das irmãs, de todos os que viviam naquela casa de onde se vira expulso por ser o único brasileiro. Desprendimento
tinha, podia guardar tudo para si e passar o resto de seus dias na paz, obscuridade e conforto simples de quem, cumprido o dever para com a Nação, não abriga razões
para celebrar além da satisfação da consciência, tamanha a adversidade que por todos os lados o vitimou. Mas nada quis, nada pediu. Exaurido e exangue em Pirajá,
mal haviam suas feridas deixado de segregar linfa vital, estivera sempre na linha de frente, aconselhando, ministrando, orientando, servindo de mil maneiras, até
o momento glorioso em que, escorraçado por entre as sombras da noite e a borrasca que lhe enviaram os deuses do Novo Mundo, o General Madeira zarpou fugido, de volta
a Portugal.
Sim, a Revolução premiou seus heróis, pensou outra vez Perilo Ambrósio, sopesando a frase, que achou elegante e expressiva. A alguns ela pagara em merecido dinheiro,
como aconteceu, mandado do próprio Lorde Cochrane, em Itaparica. Lá, antes mesmo da fuga de Madeira, um certo Capitão Tristão Pio dos Santos foi portador, como se
contava, de uns tais mil pesos duros para dividir entre os comandantes do 25 de junho, do Dona Januária e do Vila de São Francisco, por tantas e tão bravosas façanhas
cometidas no mar da Bahia. Que vinham a ser mil pesos duros, quantia de som tão forte, a evocar dilúvios de patacas e cruzados? Ninguém do povo da ilha e do Recôncavo
sabia, mas se sabia desses e de outros, muitos outros, grandes prêmios, tanto assim que, se agora havia engenhos, moendas, fazendas, fábricas de óleo de baleia,
barões, condes, viscondes, nobres da terra, pessoas miliardárias de que o povo podia orgulhar-se, era isto muito porque a Pátria soubera recompensar os que por ela
deram tudo, os grandes comandantes, capitães e pilotos de tropas, os que suportaram, nos ombros infatigáveis, o fardo de conduzir e inspirar o povo à vitória pela
liberdade e pela felicidade. Retinem ali, naquele frontispício, as armas de Dão Pedro, por ele mesmo desenhadas. Naquele mesmo lugar, ele já vira a esfera armilar
de Dão Manuel ser trocada pelo escudo de Portugal, Brasil e Algarve, que, por sua vez, no dia 3 de julho, fora escaqueirado a talhadeira e coberto pela argamassa
que fixaria pelos séculos o símbolo da nova era. Símbolo abençoado e benfazejo, arauto da explosão de prêmios e recompensas, a própria Natureza parecendo fazer desmoronar
dos céus patrimônios e fazendas ricas, medalhas e pensões, títulos e concessões, comendas e cargos vitalícios, benesses mais fartas e generosas que a própria terra
bendita sobre a qual se desdobrava agora o manto da liberdade. Esses mesmos homens que tinham comandado na guerra comandariam agora na paz - e Perflo Ambrósio lembrou
com um arrepio de orgulho sua admirada máquina a vapor, sua abundante produção de açúcar, melaço e aguardente, suas extensas propriedades, as apólices que comprara
tão generosamente e que tanto o ressaltaram no apreço da Junta da Fazenda e do Conselho Provisório, sem cujo apoio talvez o baronato não viesse. O progresso está
aí, no trabalho de homens como ele. Através dele mesmo, os escravos, pretos rudes e praticamente irracionais, encontravam no serviço humilde o caminho da salvação
cristã que do contrário nunca lhes seria aberto, faziam suas tarefas e recebiam comida, agasalho, teto e remédios, mais do que a maioria deles merecia, pelo muito
de dissabores e cuidados que infligiam a seus donos e pela ingratidão embrutecida, natural em negros e gentios igualmente. O povo em geral, este tinha muitas fazendas
a que agregar-se, muitos ofícios a praticar, podia vender e comer o que pescasse nas águas agora libertadas, podia, enfim, levar a mesma vida que levava antes, com
a diferença sublime de que não mais sob o jugo opressor dos portugueses, mas servindo a brasileiros, à riqueza que ficava em sua própria terra, nas mãos de quem
sabia fazê-la frutificar.
Vou beber um refresco, resolveu Perilo Ambrósio, mas, antes de poder chegar ao quiosque armado para a festa que nunca mais queria terminar, já o rodeavam em rapapés
e já os moleques o admiravam à distância, desviando o olhar quando ele os encarava. Muitos bons dias, Senhor Barão, como passou o Senhor Barão? Tinha chegado a uma
conclusão sobre como portar-se diante do populacho e dos pequenos funcionários e comerciantes que o cercavam, pescoços espichados, faces solenes, para ouvir suas
opiniões sobre o mundo e os acontecimentos. Sempre falara com desenvoltura, isto não era problema, mas calhava bem fazer algumas pausas, alguns gestos expressivos,
mostrar a profundeza de espírito de onde retirava suas observações. Sacou o lenço da algibeira, cheirou-o com discrição.
Era certo que Sua Majestade Imperial estava muito propenso a aceitar a petição cachoeirese para passar de vila a cidade, com o invencível nome de Petrópolis?
Sim, era certo, Sua Majestade lhe tinha manifestado essa intenção pessoalmente, quando estivera com ele em Itaparica, logo antes da visita a Cachoeira. Na ocasião,
aliás, tinha tido a oportunidade de discorrer a Sua Majestade Imperial a respeito do quadro pintado por mestre Almerindo Conceição, mostrando a peroração do Alferes
Brandão Galvão às gaivotas, no fatídico e inesquecível 10 de junho. E, curioso, Sua Majestade, embora emocionado pela história do alferes, embora interessado nos
pormenores do quadro - que, aliás, não pode ser comparado à verdadeira arte, como a praticada nos países adiantados, e deve ser tomado por um valioso documento,
nada mais -, preferiu opinar com mais vagar sobre a explanação do Barão de Pirapuama, que qualificou de exemplarmente erudita.
- Sua Majestade é muito generosa, - disse o barão, ordenando com um aceno que lhe trouxessem um refresco de cajá. Tinha o Senhor Barão chegado a palestrar com
a Princesa? Muito de passagem, somente algumas palavras, pois que ela não se sentia bem-disposta com o calor e a maior parte do tempo gastou-a em seus aposentos,
abanada e arejada pelas damas de companhia. Como sabe o refresco? Sabe- me bem, sabe-me muito bem, que não só à Senhora Dona Princesa incomoda este sol canicular.
Normalmente, esperaria que a caleça, escoltada por um grupo numeroso de meninos assim que mostrou a intenção de ir embora, viesse buscá-lo onde estava, mas desta
vez preferiu encontrá-la a meio caminho, andando como se a pequena multidão estivesse presa a ele por um elástico. Tirou da algibeira uma sacola de camurça, deu
moedas aos meninos, velhos e aleijados que o sitiaram. Uma velha recurvada e coberta por um xale preto lhe beijou a mão, disse-lhe que conheceu muito o senhor seu
pai e a senhora sua mãezinha, antes que tivessem sido corridos para Portugal. Já a velha estava sendo empurrada pelo meirinho Desidério, envergonhado por haver ela
mencionado assunto tão molestoso para o barão, quando Perílo Ambrósio o deteve e, com a naturalidade simples dos grandes homens e heróis, disse-lhe: deixa-a, Desidério,
também eu, ai de mim, sinto falta de meus pais e da família, fortuna muito maior do que a que hoje pesa nas minhas omoplatas.
Congelou-se a paisagem, silenciaram todos. E Perilo Ambrósio, mordendo o lábio inferior, falou exatamente da maneira que havia planejado com tanta freqüência:
- Entre a Pátria e a família, minha boa mulher, Deus há sempre de me dar forças para escolher a primeira, eis que vale mais o destino de um povo que a sina de
um só.
Notou que Desidério, arrebatado, reproduzia, somente com os lábios, as palavras que ele pronunciava e que logo todos comentariam e repetiriam, na pungência de
sua franqueza dolorosa, de sua coragem amarga. Afagou o ombro da velha, estendeu-lhe uma moeda e, em movimentos pausados, marchou para a caleça, sob o silêncio grávido
dos que agora meditavam no muito que tinha dito em discurso tão miúdo. Apoiou-se no negro sem olhar para ele, subiu à caleça, enxugou o suor pela última vez e, cruzando
as mãos por cima da barriga, acomodou-se para balançar e cochilar durante a viagem. No céu de Cachoeira, misturada à luminosidade e à vibração quente do firmamento,
a almazinha do Alferes Brandão Galvão, ainda entontecida pela visão do Imperador, com as grandezas que se sucediam de roldão e com o lindo quadro em que já acreditava
piamente, acompanhou os atos do barão lá de cima, estremecendo de admiração e reverência.

Vera Cruz de Itaparica, 20 de dezembro de 1647.

O caboco Capiroba apreciava comer holandeses. De início não fazia diferença entre holandeses e quaisquer outros estranhos que aparecessem em circunstâncias propícias,
até porque só começou a comer carne de gente depois de uma certa idade, talvez quase trinta anos. E também nem sempre havia morado assim, no meio das brenhas mais
fechadas e dos mangues mais traiçoeiros, capazes de deixar um homem preso na lama até as virilhas o tempo suficiente para a maré vir afogá-lo lentamente, entre nuvens
cerradas de maruins e conchas anavalhadas de sururus. Isto só aconteceu depois dos muitos estalidos, zumbidos e assovios que sua cabeça começou a dar, no ver de
alguns porque era filho de uma índia com um preto fugido que a aldeia acolheu, o qual, de medo, nunca saiu de casa a não ser pela noite para se mudar quando era
preciso, tendo por esta razão desenvolvido uns certos parentescos com morcegos e bacuraus e deixado de enxergar à luz do dia.
A verdade é que desde menino o caboco sofreu um pouco, meio preto, meio índio e o pai o mais do tempo virado num bicho noturno, enxergando com os ouvidos e se
escondendo do sol nas árvores folhudas. Mas os estalidos, zumbidos e assovios, bem como o grande esquentamento que lhe incinerava o juízo e provocava nele os comportamentos
mais estranhos já vistos, apareceram pela primeira vez logo após a chegada dos padres, os quais vieram com a intenção de não sair e passaram a chamar todo aquele
povoado e suas terras de Redução. Nada se deu de sopetão, mas a cada dia na Redução o caboco se via mais infernado pelos estalidos, zumbidos e assovios, que muitas
vezes entravam em erupção a um só tempo como uma orquestra de diabos, durante a doutrina da manhã ou durante a doutrina da tarde, ou ainda qualquer ocasião em que
um dos padres estivesse falando, o que era quase sempre. Até o dia em que, já desesperado por não poder ver um padre sem ter de desabalar correndo com a cabeça entrando
pelo meio das pernas, aquela zoada estrondosa lhe explodindo a caixa da idéia, roubou duas mulheres e fugiu para as brenhas, nunca mais havendo regressado. Uns
sustentam que continuou a saber falar perfeitamente, outros que deixou de falar e foi virar morcego tal qual o pai, podendo até voar com as asas pretas desses animais
- coisa que o pai nunca conseguiu fazer, nem mesmo no dia em que todos o encorajaram, para que escapasse pelos ares dos portugueses a quem os padres o entregaram,
por se tratar de negro fugido, coisa ilícita, nada de ilícito sendo permitido numa Redução. E que o caboco come gente, às vezes engordando um ou outro no cercado,
é por demais sabido, tendo isto, contudo, principiado por acaso.
Quando os padres chegaram, declarou-se grande surto de milagres, portentos e ressurreições. Construíram a capela, fizeram a consagração e, no dia seguinte, o
chão se abriu para engolir, um por um, todos os que consideraram aquela edificação uma atividade absurda e se recusaram a trabalhar nela.
Levantaram as imagens nos altares e por muito tempo ninguém mais morria definitivamente, inclusive os velhos cansados e interessados em se finar logo de uma vez,
até que todos começaram a protestar e já ninguém no Reino prestava atenção às cartas e crônicas em que os padres narravam os prodígios operados e testemunhados.
Deitava-se um velho morto ao pé da imagem e, depois de ela suar, sangrar ou demonstrar esforço igualmente estrênuo, o defunto, para grande aborrecimento seu e da
família, principiava por ficar inquieto e terminava por voltar para casa vivo outra vez, muitíssimo desapontado. Assim, não se pode alegar que os padres só obtiveram
êxitos, mas conseguiram bastante de útil e proveitoso, apesar de tudo isso haver piorado os sofrimentos da cabeça do caboco Capiroba. De manhã, assim que o sol raiava,
punham as mulheres em fila para que fossem à doutrina. Depois da doutrina das mulheres, que então eram arrebanhadas para aprender a tecer e fiar para fazer os panos
com que agora enrolavam os corpos, seguia-se a doutrina dos homens, sabendo-se que mulheres e homens precisam de doutrinas diferentes.
Na doutrina da manhã, contavam-se histórias loucas, envolvendo pessoas mortas de nomes exóticos. Na doutrina da tarde, às vezes se ensinava a aprisionar em desenhos
intermináveis a língua até então falada na aldeia, com a conseqüência de que, pouco mais tarde, os padres mostravam como usar apropriadamente essa língua, corrigindo
erros e impropriedades e causando grande consternação em muitos, alguns dos quais, confrangidos de vergonha, decidiram não dizer mais nada o resto de suas vidas,
enquanto outros só falavam pedindo desculpas pelo desconhecimento das regras da boa linguagem. E, principalmente, deu-se forte atenção ao Bem e ao Mal, cujas diferenças
os habitantes da Redução não compreendiam se explicadas abstratamente, e então, a cada dia, acrescentava-se um novo item a listas que todos se empenhavam em decorar
com dedicação.
Matar um bicho: pôr na lista do Mal? Não. Sim. Não. Sim, sim. Não, a depender de outras coisas da lista do Mal e das coisas da lista do Bem. Sim, talvez. Poucos
- e muito menos o caboco Capiroba - podiam gabar-se de conhecer essas listas a fundo e apenas dois ou três sabiam versões, que decoravam como se fossem rezas e que,
cada vez que eram repetidas, mudavam um pouco e se tornavam ainda mais misteriosas. Mas a sabedoria dessas questões do Bem e do Mal foi posta em evidência
e sobejamente provada quando tudo começou a acontecer conforme o previsto na doutrina. Antes da Redução, a aldeia era composta de gente muito ignorante, que nem
sequer tinha uma lista pequena para o Bem e o Mal e, na realidade, nem mesmo dispunha de boas palavras para designar essas duas coisas tão importantes. Depois da
Redução, viu-se que alguns eram maus e outros eram bons, apenas antes não se sabia. Mulher má não quer ir à doutrina, quer andar nua, não quer que o padre pegue
na cabeça do filho e lhe besunte a testa de banha esverdeada, dizendo palavras mágicas que podem para sempre endoidecer a criança. Feio, feio, mulher má. Mulheres
boas não falam com mulher má, mulher má fica sozinha, marido de mulher má também homem bom, mulher má cada vez mais sozinha, fica com gênio muito ruim, parece maluca.
Cada vez maluca, castigo do céu porque é mulher má. Homens maus também se desmascaram, também acabam pagando. Homem mau diz que história do padre não tem nem pé
nem cabeça, tudo besteirada, vai pescar. E também fica cada vez mais sozinho, bebe aguardente, ninguém conversa com ele, homem mau sempre pior, pior, castigo pesado
por maldade, morre afogado e bêbado, vai para um lugar onde o fogo queima sem cessar e lagartos perniciosos atacam o dia inteiro. E, finalmente, teve-se notícia
da Tentação, antigamente tão dissimulada que ninguém notava, mas hoje surpreendida nos locais mais insuspeitados, ao ponto de, ao saírem da doutrina, muitos jovens
passarem o tempo todo querendo avaliar se tudo o que ocorre não será a Tentação em seus disfarces múltiplos e ficarem em grande apreensão, sem nem poder dormir,
para não deixar que a Tentação os enrede.
Nesse longo rosário de sucessos, entre a Tentação, o Bem, o Mal, as ressurreições, os pecados, os castigos, as penitências, o inferno e todas as alvíssaras trazidas
pelos padres com a Salvação e as Boas Novas, os acontecimentos da cabeça do caboco Capiroba teriam de chamar a atenção mais cedo ou mais tarde, e isto se deflagrou
com grande escândalo no dia em que, depois de se enervar até ranger os dentes e andar de um lado para o outro como se quisesse costurar o chão, ele amanheceu febril
e com ínguas pelo corpo todo, mastigando palavras só ouvidas no tempo em que seu pai ainda falava a língua com a qual nascera e sempre usara antes de virar bicho.
Felizmente, no meio de um mundo que de súbito lhe parecia feito de sombras, cada vez mais obscurecente, ele passava momentos de luminosidade, quando conseguia conversar
e até mesmo rir. Do contrário, talvez tivesse o destino dos outros e outras que se revelaram endemoninhados absolutos, permanentemente carregando todo dia uma tentação
do cão, do inimigo, do belzebu, do tinhoso das profundas nas entranhas e na mente, resistindo a tudo o que os padres faziam para livrá-los da maldição. Estes, na
maior parte, viviam amarrados ou encarcerados, alguns em tão triste condenação natural pela posse demoníaca que, quando os padres os visitavam para aspergir-lhes
água benta e exibir-lhes cruzes, cadáveres hirtos, coroas de espinhos, corações sangrantes e demais símbolos da Nova Vida, eram atacados por convulsões, cataplexias,
esgares licenciosos e vários temidos sintomas outros de danação.
O caboco Capiroba, entretanto, nos intervalos de seus cada vez mais freqüentes tormentos da cabeça, era pessoa franca, cordata e de boa paz, justificando inteiramente
a confiança dos padres, que o deixavam desamarrado a maior parte do tempo e observavam com satisfação que ele normalmente não se retorcia todo à vista de cruzes,
cadáveres sagrados, coroas de espinhos, corações hemorrágicos e semelhantes sinais do Amor Divino.
Foi assim desamarrado que ele e toda a coletividade da Redução escutaram a famosa história do cruel sofrimento e grandes trabalhos havidos pela boa gente cuja
embarcação soçobrou às costas desta mesma terra aqui, fazia muito tempo. Ninguém se lembrava desse evento, fosse por memória ou por ouvir contar, mas os padres não
mentiam e, por via de conseqüência, a história era verdadeira, o que provocou, desse dia em diante, inescapável desconfiança entre os habitantes da Redução, cada
um achando que o outro era personagem secreto dessa história.
A qual era a prosopopéia de tal boa gente naufragada que veio dar à terra quando ali existiam muitos gentios em estado de brabeza e nenhuma cristandade, de forma
que os ditos gentios mataram toda essa boa gente para comer, a cada manhã abatendo um a cacetadas depois de rituais malvadíssimos, não se importando com as
súplicas que os padecentes lhes dirigiam, nem se dando conta do choro e clamor que se levantava dos desafortunados a serem comidos nos dias seguintes. E tanto se
cevaram nessa carne humana os gentios e a ela tanto se acostumaram que nem lhes passou pelas mentes brutas a idéia de ao menos poupar o sacerdote e santo homem daquela
expedição malfadada, mesmo quando ele lhes falou do grande pecado que cometiam e da ofensa mortal que, ao comê-lo, assoariam contra Deus e todo o seu rebanho.
Com uma lágrima a lhe escorrer pela face pálida, o bom padre fechou os olhos diante de um selvagem altíssimo e terrificante, de dentes limados em serra para melhor
rasgar a carne inocente da gente de Deus, executando uma dança monstruosa, intercalada de imprecações satânicas e invocações pagãs, antes de baixar o tacape. E assim,
aos olhos de Deus, tais gentios muito se desmereceram e caíram fundo, fundíssimo, de onde talvez jamais pudessem voltar à luz.
E com essas e outras razões e enredos mostrou-se que não se devia mais comer gente, ato dos piores entre os mais pecaminosos, costume pérfido que, se antes os
moradores da Redução nunca tinham ouvido falar dele, agora os fazia estremecer por haverem sido capazes de tais malfeitorias e os dispunha a para sempre arrepender-se
em penitências. E, enquanto a maioria encontrou alguma dificuldade em compreender como tinham feito alguma coisa que nunca souberam que tinham feito, no caso do
caboco Capiroba houve uma piora da moléstia da cabeça, a qual foi logo atacada por tamanha saraivada de estalidos, zumbidos, assovios e esquentamentos que, na madrugada
posterior à narração da triste história, ele roubou as duas mulheres e desapareceu.
Seis dias depois, desalentado e faminto, assando um sagüizinho mirrado para comer na companhia das mulheres, aconteceu ter visto pelo moital um movimento de pássaros
espantados. Foi espiar escondido e reconheceu um dos padres, certamente decidido a ir buscá-lo à força por amor, para amarrá-lo e respingar-lhe água benta até que
o espírito imundo o abandonasse. O caboco Capiroba então pegou um porrete que vinha alisando.desde que sumira, arrodeou por trás e achatou a cabeça do padre com
precisão, logo cortando um pouco da carne de primeira para churrasquear na brasa. O resto ele charqueou bem charqueado em belas mantas rosadas, que estendeu num
varal para pegar sol. Dos miúdos prepararam ensopado, moqueca de miolo bem temperada na pimenta, buchada com abóbora, espetinho de coração com aipim, farofinha de
tutano, passarinha no dendê, mocotó rico com todas as partes fortes do peritônio e sanguinho talhado, costela assada, culhõezinhos na brasa, rinzinho amolecido no
leite de coco mais mamão, iscas de fígado no toucinho do lombo, faceira e orelhas bem salgadinhas, meninico bem dormidinho para pegar sabor, e um pouco de lingüiça,
aproveitando as tripas lavadas no limão, de acordo com as receitas que aquele mesmo padre havia ensinado às mulheres da Redução, a fim de que preparassem algumas
para ele.
Também usaram umas sobras para isca de siri e de peixinho de rio, sendo os bofes e as partes moles o que melhor serve, como o caboco logo descobriu.
O padre, porém, não sustentou o caboco Capiroba e suas mulheres muito tempo, por três ou quatro razões, a primeira das quais era a pequenez da carcaça e a carne
nodosa que, mesmo no filé, apresentava pedaços revoltantes pela dureza e resistência a trato e tempero. A segunda foi que tanta provisão terminou por azedar, nesta
atmosfera assombrosamente rica em reimas e princípios putrificadores, sobrando somente a carne-de-sol e a lingüiça. A terceira razão, a quarta e as que porventura
ainda pudessem ser enumeradas estariam todas subordinadas a que eles se agradaram de carne de gente, de forma que o caboco Capiroba forcejou mais e mais em caçar
um ou outro branco entre aqueles que a cada dia pareciam aumentar, em quantidade e qualidade, por toda a ilha. No primeiro ano, comeu o almoxarife Nuno Teles Figueiredo
e seu ajudante Baltazar Ribeiro, o padre Serafim de Távora Azevedo, S.I., o alabardeiro Bento Lopes da Quinta, o moço de estrebaria Jerônimo Costa Peçanha, dois
grumetes, quatro filhos novos de ouvidores da Sesmaria, uns agregados, um ou outro oficial espanhol por lá passando, nada de muito famoso. No segundo ano, roubou
mais duas mulheres e comeu Jacob Ferreiro do Monte, cristão-novo, sempre lembrado por seu sabor exemplar da melhor galinha ali jamais provada: Gabriel da Piedade,
O.S.B., que rendeu irreprochável fiambre defumado; Luiz Ventura, Diogo Barros, Custódio Rangel da Veiga, Cosme Soares da Costa, Bartolomeu Cançado e Gregório Serrão
Beleza, minhotos de carnes brancas nunca superadas, raramente falhando em escaldados; Jorge Ceprón Nabarro, biscainho de laivo azedo e enérgico, tutano suculento,
tripas amplas; Diogo Serrano, sua esposa Violante, seu criado Valentim do Campo e suas graciosas filhas, Teresa, Maria do Socorro e Catarina, grupo desigual mas
no geral consistente, de paladar discreto e digestão desimpedida; Fradique Padilha de Êvora, algo velho e esfiapado, mas o melhor toucinho que por lá se comeu, depois
de bem salgado; Carlos de Tolosa e Braga, de quem se fizeram dois troncudos pernis; seis marinheiros do Capitão Ascenso da Silva Tissão, todos de peito demais rijo
e um travo de almíscar, porém de louvada excelência nos guisados e viandas de panela funda; o quartel-mestre Lourenço Rebelo Barreto, saudoso pela textura inigualável
da sua alcatra, e muitos outros e outras. No terceiro ano, o caboco roubou mais duas mulheres e viu nascer umas quantas filhas, de maneira que, com muitas bocas
para sustentar, passou a consumir um número maior de brancos, a ponto de, em alguns períodos, declarar-se uma certa escassez. Até que, bastante tempo depois, as
frutas do verão dando em pencas e caindo pelo chão, os insetos em grande atividade e as mantas de tainhas saracoteando irrequietas por toda a costa da ilha, saiu
para tentar a sorte meio sem esperança e voltou arrastando um holandês louro, louro, já esquartejado e esfolado, para livrar o peso inútil na viagem até a maloca.
0 flamengo tinha o gosto um pouco brando, a carne um tico pálida e adocicada, mas tão tenra e suave, tão leve no estômago, tão estimada pelas crianças, prestando-se
tão versatilmente a todo uso culinário, que cedo todos deram de preferi-lo a qualquer outro alimento, até mesmo o caboco Capiroba, cujo paladar, antes rude, se tomou
de tal sorte afeito à carne flamenga que às vezes chegava mesmo a ter engulhos, só de pensar em certos portugueses e espanhóis que em outros tempos havia comido,
principalmente padres e funcionários da Coroa, os quais lhe evocavam agora uma memória oleosa, quase sebenta, de grande morrinha e invencível graveolência. Rês melhor
que essa, tão pálida e translúcida, encorpada e ao mesmo tempo delicada ao tato e ao delibamento, ao mesmo tempo rija e macia, ao mesmo tempo salutar e saborosa,
ao mesmo tempo rara e fácil de caçar, rês como essa não havia cá nem jamais haveria, cabendo ao homem aproveitar sem questionar o que lhe dadiva a Natureza, pois
que do jeito que se dá se tira, não sendo outra a fábrica da vida.
Este ano, em cujo início o caboco e sua sempre aumentada família comeram o primeiro holandês, houve ampla fartura, sendo às vezes mais fácil pegar um ou dois
deles nos matos que acertar bolo de lama em guaiamum. Mesmo assim, quando uma daquelas cabeças de espiga acenava suas melenas douradas entre as touceiras, ou quando
se via o vulto lento de um deles deter a marcha para aspirar os ares como um veado incauto, a emoção da caçada subia ao peito do caboco, o coração saltava e a boca
secava na antecipação do cerco, captura e abate daquele belo animal, que, com sua tenacidade, argúcia e resistência, sublinhava o que de mais transcendente e nobre
existe na cinegética. Ao encurralá-lo finalmente e matá-lo com um golpe tão rápido quanto possível, às vezes tendo tempo de ouvir os sons sem sentido que emitia
antes de tomar a cacetada final, o caboco Capiroba se inflava de orgulho e respeito pela sua presa, freqüentemente observando ao jantar a galanteria do comportamento
dela e a honra em que consistia mastigar e engolir aquele taco do que antes fora sua perna, braço ou lombo. Desde que o caboco se entendia, esses recém-chegados
de pêlos amarelos e fala diferente da dos outros brancos passavam por ali entre idas e vindas confusas, sempre em luta contra os já instalados, incendiando plantações
e trovejando de barcos bojudos em direção à praia. Mas nunca houvera tantos deles quanto agora, às vezes em bandos como formigas ruças, erigindo paliçadas e defesas,
escarafunchando a ilha e ocupando as fortificações como se tivessem tomado o lugar dos outros definitivamente. Tanto melhor para a família do caboco, que não sabia
a quem agradecer pela abundância, pois estava claro que não era às divindades e santas figuras de que lhes falaram os padres da Redução, já que tanto detestavam
que se comesse gente, embora o tivessem ensinado a todos por suas narrações.
Se não indicasse a experiência que a guarda e engorda de gente era empresa de resultados duvidosos, teria de muito começado um pequeno criatório, no apicum cercado
de mangue fechado onde agora residia praticamente todo o tempo. De qualquer sorte, na noite que começava a trazer uma escuridão retinta e o ar pegajoso antecedente
às trovoadas, o caboco Capiroba, carregando oito braças de corda de piaçaba fina enroladas num ombro, uma coita de ferro tirada de um mateiro comido, uma rede de
malha forte e o cacete de matar gente, contava agafanhar dois ou três holandeses vivos ou mais ou menos vivos, levá-los de volta e criá-los para corte algum tempo.
Achava que estava ficando velho, só lhe nasciam filhas com todas as mulheres, a vida se tornava cada vez mais difícil e então queria passar uns dias descansando,
sem o trabalho pesado da caça. Deu um suspiro fundo e começou a atravessar o baixio, tendo cuidado para não molhar a rede e a corda.
Pouco antes de a rede do caboco Capiroba lhes despencar sobre as cabeças como dezenas de cobras enroscadas e Nikolaas Eijkman tomar uma porretada na nuca que
o deixaria torto pelo resto da existência, ele e seu companheiro Heike Zernike estavam conversando sobre religião. Haviam passado a tarde inteira debruçados à beira
de um riozinho com um trinchete em punho, sem conseguir espetar nenhum dos quatro ou cinco peixes maiores que viram perto das capineiras das margens. Zemike, tendo
medo dos trovões que pressentia e mais fome do que Eijkman, opinou ser inútil confiar na Providência. Não estavam eles ali, dois bons cristãos tementes a Deus e
fiéis servidores de valorosos príncipes e capitães, abandonados pelos seus, padecendo fome, pavores e as próprias penas infernais, entre insetos da envergadura de
pardais, bichos nunca testemunhados e plantas de folhas hostis? Ali, já sem esperança, sem armas, sem amigos, sem alimento, sem horizonte?
- Maldita Companhia! - vociferou Zernike, enfiando o trinchete na terra fofa com violência. - Maldita Companhia, maldito Schkopp, comandante dos infernos, maldito
Banckert, almirante de bosta, malditos todos eles e tudo o que representam e malditas mil vezes suas palavras e crenças mentirosas e tudo mais que nos trouxeram,
em desgraças sobre desgraças! E esta noite já cai de repente, como de hábito mesmo neste verão pestilento e ao contrário, e já se vê que outra vez não comemos -
como se antes, pensando bem, houvesse de fato comida nesta terra de peras venenosas e raízes malévolas e carnes que fazem cagar sangue, malditos, malditos, mais
de mil vezes malditos sejam todos eles! E que, se não naufragarem a caminho do Paranambuco ou onde quer a que vão nesta costa amaldiçoada, naufraguem em qualquer
outra parte e que este temporal que nos vem atormentar os alcance e não deixe juntas duas tábuas no madeirame daquela frota de víboras, esquadra de lacraias, malditos,
malditos sejam por toda a Eternidade!
- Melhor seria que não blasfemasses e não dissesses tais coisas dos nossos comandantes - respondeu Eijkman. - Afinal, ainda estamos a serviço de Schkopp e ainda
somos flamengos. Pouco mudou, nesta semana em que estamos aqui perdidos.
- Pouco mudou? Achas então que pouco mudou, quando só temos feito fugir dos bugres e desses espanhóis que nos querem matar decepando-nos as cabeças e atirando
o resto aos cães, quando não vemos vivalma e morremos à míngua?
- Não são espanhóis, são portugueses, parece-me que a maior parte é de portugueses agora.
- Para mim são todos a mesma coisa, os mesmos porcos sanguinários. Como dizes tu que não mudou nada, se nós mesmos assistimos, escondidos no matagal e tremendo
como enguias, à degola de Zeeman, de Willem Stoffels, do pobre Einthoven, que viveria em paz em qualquer lugar e sob qualquer senhor ou religião, Pieter Onnes, gentil
camarada, coitado do infeliz...
- Van der Waals...
- Van der Waals! Um velhote fraco e quase sem forças nos braços e nas pernas, um homem de boa estirpe, um patriarca respeitado em todo o Randstadt, e eles ...
e eles o puseram de joelhos e o decapitaram com aqueles facalhões horrendos e aquelas bisarmas do demônio! Beernaert, Beernaert eles trucidaram, trucidaram como
tu viste, com a testa fendida ao meio, deixado junto à água para que os caranguejos o retalhassem! Tu dizes que nada mudou? Enlouqueceste, é isto, perdeste a razão
debaixo deste sol inaceitável e comendo estas peras mortíferas, é isto.
- Não, digo-te somente que quanto a nós pouco mudou. Continuamos flamengos, servindo à Companhia e engajados nesta expedição, é isto o que quero dizer.
- Como engajados, se fomos abandonados aqui à nossa sorte. O Banckert zarpou com todos os seus navios? Engajados em quê, em guarnecer esta nesga do inferno para
a Companhia?
- Não fomos os únicos deixados aqui. Muitos outros estão aqui também, certamente virão reforços para combater a esquadra ibérica que despacham contra nós.
- Sim, sim! Sim. Reforços? Bah! Reforços! Sim, outros foram deixados aqui, como Beernaert, que agora engorda os caranguejos, como o velho van der Waals, como
Einthoven e todos os outros cujos pescoços os espanhóis cortaram ou esganaram do alto dessas árvores malignas e imundas.
- Não, estou seguro de que vamos encontrar um contingente nosso, estou seguro.
- Só se ele vier até nós, porque não há esperança de podermos sair desta posição, pois de um lado teremos em nosso encalço esses selvagens nus, agora piorados
com as bruxarias que lhes ensinaram os jesuítas, e do outro encontraremos as patrulhas espanholas. . .
- Portuguesas.
- Espanholas ou portuguesas ou qualquer desses bárbaros cujos sacerdotes grelham as pessoas como patos de assar e despejam-lhes óleo fervente pelos ouvidos adentro,
essa raça vil de pele engraxada e fala como a de cães e porcos!
- Estás assim porque tens fome e não conseguiste arpoar o peixe com a tua sovela. Ouve o que te digo, come uma destas frutas a que chamas peras, elas te farão
bem, são boas.
- Ardem-me na bocal Queimam-me os beiços e as gengivas, crispam-me a língua e os dentes, dão-me cólicas, dão-me urinas cáusticas, maldito pedaço do inferno, mil
vezes maldito! E não tentei fisgar o peixe com uma sovela, isto é um trinchete, um trinchete, ouviste bem? Um trinchete! Quem pensas que és para desfazeres de um
instrumento que muito bem te serve, como serve a todos os que não calçam ferraduras em lugar de sapatos, melhor seria que não ostentasses esta tua arrogância de
rico!
- Vamos, vamos, não te disse que estás transtornado? Não é uma sovela, é um trinchete, pronto, não quis ofender-te.
- Filho de remendão sou, sim, e herdei o ofício de meu pai. Não tinha um palácio em Leyden como teu pai, nem andava em coches de quatro hacanéias como tu, pois
os moleiros como teu pai enriquecem da farinha que ninguém pode deixar de comprar e os remendões e sapateiros são gente humilde. Mas tanto um quanto outro estamos
aqui em igualdade, igualmente parvos em haver posto fé em que aqui encontraríamos riquezas, fortunas, imensas searas, montanhas de ouro e especiarias, felicidade
perpétua e paz de espírito, quando o que nos acontece é este buraco verdebile e fétido, povoado de selvagens repulsivos, lama, mosquitos, ratazanas e febres espantosas,
esta terra onde tudo é uma ameaça e nunca se tem sossego da Natureza ou do homem. Teu palacete em Leyden de pouco te vale agora. Gostarias de estar em tua
cama macia, com teu caldo quente de beterrabas e cebola, teu barrete e tua lamparina, mas estás aqui e, se queres sopa de peixe, tens de rezar para que o trinchete
de um remendão consiga fazer a pesca.
- Sim, caldo quente... . És casado?
- Não.
- Tampouco eu. Existe porém uma senhora ... Uma menina, melhor dizendo, quase menina. Conheces as casas à beira do rio, as casas altas? Pois bem, ela mora numa
delas, onde há um braço estreito do rio e um pontão que leva à casa. Chama-se Geertge, via-a na festa da colheita, cheguei a conversar com seu pai.
- E te engajaste para esquecê-la?
- Não, não, claro que não. Engajei-me não sei por quê, não precisava. Talvez quisesse alguma coisa que não fosse dada por meu pai, talvez fosse o destino não
sei. Lembrei Leyden, não lembreiGeertge, lembrei das beterrabas. Foste tu quem me fizeste lembrar. Comias pastelão de miúdos de carneiro? Lembras-te dos fogões altos
de onde saíam os pastelões, cheirando a ervas nobres e a boa massa de farinha honesta?
- Não me fales, torturas-me. Que espécie de peixes há cá? Não pode haver bons peixes em águas tão quentes, nada aqui é apropriado, nada daqui pode ser vivido
aqui. Há coisas que podem ser tiradas daqui e levadas para bom uso cristão, mas o homem não pode viver aqui, é mundo para as raças serviçais e embrutecidas.
- Come das peras amarelas - disse Eijkrnan, um pouco arrependido de ter cultivado assunto incômodo e inútil àquela hora, e já se preparava para levantar-se e
colher um caju, quando o caboco Capiroba pulou de trás da capoeira e, rodando o cacete na horizontal com a força de um catavento, destroncou-lhe a cerviz de uma
pancada só, após o que jogou a rede em cima dos dois, puxou o laço corredio que a fechava, amarrou-a no cajueiro e ficou esperando que uma das presas aquietasse
e desistisse de bacorejar, para não ter que dar-lhe também uma porretada, correndo o risco de estragar os dois e esperdiçar comida.

Maloca do caboco Capiroba, 26 de dezembro de 1647.

O holandês Sinique concordou em comer um pedacinho do holandês Aquimã depois de resistir uns dias esbravejando dentro do cercadinho, sacudindo os mourões de tal
maneira que o caboco Capiroba foi obrigado, bem a contragosto porque tinha fumado erva de cabeça e queria ficar quieto espiando as árvores, a quebrar um dedo de
cada mão dele. Evitava também assim que Sinique, cujos modos agitados e algaravia incessante já começavam a irritá-lo, cavasse um buraco para desalojar os mourões,
como chegara a tentar. Podia deixá-lo amarrado, mas sabia não ser bom para a criação mantê-la atada, era definhamento certo. Tentou convencê-lo com bons modos, não
gostava de maltratar o bicho sem necessidade. Mas ele se comportava como um caititu demente, insistindo em mostrar os dentes e coinchar seus sons incompreensíveis,
e o caboco não teve jeito senão trespassar-lhe um arganel pelo focinho para melhor movimentação e aplicar-lhe umas bordoadas, embora não tão fortes quanto a única
cacetada que tinha desfechado no holandês Aquirnã. Este acordara o suficiente para andar de trambolhada todo o caminho do ribeirão à maloca, mas não conseguiu mais
sustentar o tronco ereto e um dos braços não parava de tremer. As mulheres e as meninas o beliscaram, avaliaram a carne, acharam melhor fazer o abate logo, antes
que o peso caísse demais, estava se vendo que era um animal doente. Foi assim que aprenderam os nomes deles, porque o holandês que permaneceu no cercado parecia
mais desconsolado em ver o outro ser puxado pelas mulheres para o cepo do que uma baleia quando lhe sangram o filhote, e então gritava "Aquimã, Aquimã!" e esmurrava
os mourões. O caboco achou interessante aquele canto tão repetido, ficou curioso, parou a pouca distância do cercado e sorriu para o holandês preso.
- Aquimã? - perguntou-lhe, apontando divertido para o holandês que estava arrastando.
O rosto do preso se iluminou. Seria aquele selvagem um entre os muitos que Schkopp tinha aliado aos flamengos? Certamente seria, havia reconhecido o nome de seu
companheiro.
- Eijkman, Okeman - falou, quase sorrindo também e tentando imitar a pronúncia do caboco.
Encantado com a novidade, o caboco apontou desta vez para o preso: Aquimã?
O preso respondeu que não, abanando as mãos abertas.
- Zernike, Zernike! - falou, cutucando o peito com o indicador. - Zernike!
Ah, então eram coisas diferentes, como se dava isto?
O caboco comparou os dois com um olhar experiente. Mesmo tamanho, mesmos cabelos, mesma roupa, mesmos sons animalescos, provavelmente o mesmo gosto. Não se podia
dizer que um fosse um aquiamã e outro fosse um sinique, não havia diferença que justificasse duas palavras. Seriam nomes então, eles tinham nomes. O caboco se orgulhou
de sua inteligência. Apontou para o que ia ser abatido.
- Sinique? - perguntou, rindo muito.
O holandês abanou as mãos outra vez, meteu o dedo no peito: Zernike, Zernike!
- Aquimã, Sinique! - falou o caboco, triunfante, depois de uma pausa para pensar.
O holandês aprovou, baixando e levantando a cabeça com toda a força. O caboco riu mais aberto e passou a indicar um e outro ritmadamente. Aquimã, Sinique, Aquimã,
Sinique, Aquimã- Aquimã, Sinique-Sinique. O holandês também riu, as mulheres e as meninas riram, quase cantaram uma cantiga: Aquimã, Sinique - hum-hum - Sinique,
Aquimã - hum-hum, aquimansinique! Ai, fez o caboco, enxugando uma lágrima de riso no canto do olho, ai-ai. Quase começava de novo a toada, tinha até imaginado algumas
variações e o clima de festa lhe agradava, mas já estava ficando tarde e este mundo não é só para a diversão. Ficou sério e disse "quietaí, vá deitchá" ao preso,
embora sem muita convicção, porque sabia que, como os outros de sua espécie, era um bicho bronco, que não entendia as ordens mais simples. Virou-lhe as costas resignado
com a barulheira que recomeçara, levou Aquimã ao cepo, pôs-lhe o pé na cara com firmeza mas sem brutalidade e o sangrou pelo pescoço numa cuia de cabaceira com caldinho
de limão da terra dentro, havendo preferido isto a achatar a cabeça, para não estragar muito a mioleira.
Vu, a filha mais velha do caboco, ficou contente quando Sinique comeu um pedacinho de Aquimã, aliás não só um pedacinho, mas quase uma gamela cheia de carninha
moqueada muito bem moqueadinha, com pirão de aipim. Ela tinha gostado do holandês e duas vezes o caboco a viu querendo fazer com ele o que o caboco fazia com as
mulheres. O caboco sabia que aquilo estava errado, que era o holandês quem tinha de fazer como ele fazia, pondo a mulher de quatro, segurando a gordura do alto das
coxas, passando cuspe e se despachando com ligeireza, mas teve preguiça de ensinar. Achou que Vu, do jeito que andava, se esfregando nos pés de pau de tronco liso
e saindo para se esconder pelos matos horas seguidas, com certeza inventaria um jeito e de qualquer forma isto não era problema dele, que já tinha bastante com que
se preocupar.
E realmente ela descobriu um jeito, porque, depois que o caboco quebrou os dois dedos do holandês e lhe botou a argola no nariz, ele não conseguia mais empurrá-la
e espernear assim que ela se agarrava às suas bragas, puxando-as para baixo. Quando ela finalmente o pôs nu da cintura para baixo, ele estava imóvel, pois, tão logo
esboçou a reação costumeira, ela lhe apertou os dedos quebrados e amarrou a argola do nariz numa corda curta.
E foi com grande sofreguidão que, não logrando vencer a engenharia das bragas, fraldas, culotes, laços e todo aquele tumulto de panos que cobria os quartos do
holandês, cortou o que pôde com uma faca e o resto rasgou com os dentes. Ao vê-lo enfim exposto, as pontas dos pentelhos ruivos cintilando ao sol que passava em
fatias por entre os mourões, Vu levantou o tronco ainda ajoelhada e, os lábios trêmulos, as mãos vibrando, o fôlego convulso, o sangue incandescente, o coração turbulento,
quase sai voando por a princípio não saber como levar seu corpo todo, que parte dele levar, que partes dela encostar e apertar no holandês deitado e nu que ela agora
mirava outra vez com um prazer quase insuportável, como se tivesse brotado uma cordilheira de arrepios, músculos e pele eriçada desde o meio dos peitos até abaixo
do umbigo. Mas sabia, porque uma ondulação espasmódica e cada vez mais premente lhe chegava de todos os pontos ao meio de suas coxas e então, depois de acariciar
o holandês com as mãos em concha, juntando-as de leve e movendo-as para cima e para baixo como quem brinca de fazer água escorregar entre os dedos, sentou-se em
cima dele com um movimento só, deu um gritinho e desatou a maior risada que jamais pensara poder dar. Passou então a volta-e-meia entrar no cercado, virar o holandês
de barriga para cima e sentar nele com muitos sinais de felicidade, às vezes demorando-se de olhos fechados e oscilando levemente o tronco e os quadris, às vezes
quase saltando como quem monta a galope, às vezes simplesmente enfiada e instalada, cuidando de um afazer ou outro e conversando.
Por causa dessas idas e vindas ao cercado e de tudo o que ela fazia com o holandês, o caboco Capiroba pensou, ao vê-la prorromper luminosa lá de dentro, saltando
de uma perna para outra e estalando a língua como gostava de fazer quando contente, que havia acontecido com ela o que de quando em vez sucedia com suas mulheres,
as quais, principalmente uma delas, podiam comportar-se esquisitamente enquanto eram fodidas, tendo estremeções e fazendo barulhos de prazer. Se isto ocasionalmente
aborrecia o caboco, forçando-o a mandar a mulher ficar quieta e a dar-lhe alguns cachações para que não tivesse um comportamento impróprio e incomodativo, também
lhe trazia uma satisfação misteriosa, tanto assim que às vezes perguntava à mulher, logo após: teve coisa? Tive coisa, respondia ela, e ele ria satisfeito - carrá-
carrá-carrá! - e dava um tapa na bunda dela.
- Teve coisa? - perguntou o caboco a Vu. - Tu teve coisa hoje? Tou veno que teve coisa hoje, bom, muito bom.
Mas ela simplesmente mostrou a ele a cuia vazia, cujo conteúdo Sinique havia comido. Ali, bem, isso. Sim, bom, o animal tinha finalmente resolvido comer o que
lhe davam, pois antes insistia em não aceitar nada, quando a carne de Aquimã, preparada na forma de tantas iguarias, estava ali à disposição. O caboco cumprimentou
a filha pela persistência, cansara de vê-la teimar com o holandês para que comesse, se alimentasse, não ficasse assim tão definhado, deixasse de recusar tudo, entornar
as cuias no chão e grunhir tão lastimosamente. Agora pelo menos pegaria um pouco da encorpadura que já tinha perdido desde que chegara, evitaria que o caboco tivesse
o trabalho de sair e matar outro tão cedo, muito bem.
Vu passou a tarde alegre e, no dia seguinte, ensinou ao holandês uma nova arte, que era comer lambiscos da passarinha, da lingüiça e da carne-de-sol de Aquimã,
que ela lhe dava na boca em petisquinhos apaixonados, enquanto, já em minuciosos cuidados para não machucá-lo, certificando-se de que sentara na posição certa e
com tudo dele que podia alojar aconchegado em suas partes, subia e descia vendo com ternura aquilo entrar e quase sair, entrar e quase sair, entrar e quase sair,
até que, já tudo em torno das virilhas molhado e chocalhante, tudo induzindo a gritos e sentimentos indefiníveis, tudo tresandando a maresias enlouquecedoras, revirava
os olhos, prendia a respiração e mordia o beiço, grudando muito em si as coisas do holandês, as quais lhe vibravam debilmente dentro das vísceras, um passarinho
moribundo e arquejante, deixando lá, misturado com o seu, um caldo morno que depois escorria e que ela, sem saber por quê e sem mesmo notar, aparava dos riachinhos
leitosos que lhe desciam as coxas e espalhava sobre a pele.
Contou ao pai o que pôde sobre todos esses assuntos e o caboco gostou, embora não em demasia, de ouvir que tinha um holandês ensinado em sua criação. Pensou vagamente
em possuir muitos holandeses amestrados, servindo-lhe fielmente em seu pedaço de terra, até o dia em que a idade e a pouca produção aconselhassem o abate. Mas eram
apenas sonhos, coisas que se conversam em tardes sonolentas, planos sem futuro. Tanto assim que, antes de a noite baixar, os portugueses, agora muito senhores da
ilha outra depois que os flamengos fugiram à notícia da vinda da esquadra de João IV, entraram facilmente no apicum, aproveitando a maré alta e passando em catraias
de fundo chato por cima da água rasa que cobria a lama. O caboco se acostumara à segurança de seu apicum, esquecera das marés e dos barcos e não avaliava ainda o
que significavam os cachorros mateiros que agora vinham juntos com os portugueses, bichos barulhentos e sem pelagem certa, de dentes como os de uma onça, a qual
tinha medo deles. Também não conhecia outras modernizações, como o pequeno arcabuz que um português sacou da cinta para derrubar com um tiro no meio das costas
a menina Rô, que saíra correndo em direção ao matagal. Não desejava tomar um tiro também, não deu combate, ficou ali de pé, olhando as mãos e os pulsos como freqüentemente
fazia se não tinha o que fazer, não disse nada quando os portugueses lhe aferrolharam uma coleira presa a correntes, puseram-no em fila amarrado às mulheres e meninas
e os despejaram às pressas nas catraias, para aproveitar a maré. Chegados a Vera Cruz, com o povo ajuntado para ver o grande caboco comedor de gente, gigante degolador,
bebedor de sangue, pactuado com Satanás, opinaram todos que deviam ser mortos na fogueira, tanto ele quanto as mulheres e filhas. No entanto, a escassez de mão-de-obra
engendrada por tantos combates e conflitos, as viúvas sem arrimo, os homens bons desvalidos de recursos para amanhar suas terras, tudo isso fez com que as mulheres
e filhas do caboco fossem perdoadas e acolhidas caridosamente como escravas, inclusive Vu, grávida do holandês. O caboco foi enforcado de madrugada, olhando as mãos
e pulsos amarrados, num jeito igual ao do Alferes Brandão Galvão contemplando seus punhos agaloados e suas mãos que matariam o inimigo a fisgadas. Mandaram-lhe um
padre, ele não objetou, ouvindo sem expressão as palavras em língua mágica pronunciadas com o braço direito levantado e ecoadas por alguns, na grande platéia que
se formou para vê-lo estrebuchar. Seu último pensamento foi que talvez comesse aquele padre, se não tivesse jeito e a necessidade comandasse, mas sabia que a carne
dele, a carne daquele povo todo ali, não se comparava à dos holandeses. E, enquanto lhe passavam o laço no pescoço, chegou a imaginar como teria sido bom se, em
vez daquela carne de segunda ali congregada, tivessem vindo para cá desde o começo, e aqui ficado, holandeses superiores. Tão superiores que Sinique, assim que
chegou, foi levado ao ferreiro, que lhe limou o arganel do nariz; ao barbeiro, que lhe fez curativos e lhe pensou os pequenos ferimentos que são naturais aos bichos
brabos de cercado; à casa de uma família, onde lhe deram água esquentada, comida cristã e cama limpa forrada; ao conselho de guerra, que o condenou a ser decentemente
fuzilado; a um poste, onde foi manietado, disse umas últimas palavras que ninguém entendeu, recebeu muitos balaços mal colocados e demorou um pouco a morrer. Quando
sua almazinha disparou por cima da Ponta de Nossa Senhora em direção ao Poleiro, a do caboco Capiroba, aliviada embora ainda temerosa, já estava lá, querendo nunca
mais voltar àquele lugar tão louco onde vivera, mas inquietíssima por apenas saber que devia haver outros lugares e nunca ter aprendido onde ficavam eles.

Salvador da Bahia, 9 de junho de 1827.

O escaler pareceu mergulhar e, durante um momento breve, só os chapéus-de-sol das mulheres quedaram visíveis acima das marolas. Perilo Ambrósio especulou que,
com todos aqueles vestidos, anáguas, saiões, mantéus, justilhos e mais tantas construções de pano e barbatanas, dificilmente, se o barco afundasse, os dois marinheiros
poderiam salvá-las, inclusive Antônia Vitória, como sempre a mais enfarpelada de penduricalhos e atavios absurdos.
Mas naturalmente que o escaler não afundara nem afundaria, e não gostava disto, não gostava de ter de fazer a execrável travessia para a armação de baleias em
dia de mar picado, não gostava daquele farrancho todo que Antônia Vitória, também como sempre, havia arregimentado, não gostava do mormaço que o deixava em banho-maria
dentro do casaco de gabardina, não gostava de navegar na barca a vapor com sua caldeira de cheiro enjoativo e seus negros barulhentos, não gostava de ter que conversar
com todos os convidados ilustres que com ele aguardavam o regresso do escaler à praia da Conceição, detestava a idéia de fingir interesse pelos festejos de Santo
Antônio no engenho de frigir, detestava repetir explicações tediosas sobre a armação das baleias, as plantações e os escravos, detestava ser obrigado a conviver
com as normas, regras e restrições que Antônia Vitória impunha nas grandes ocasiões como esta, detestava tudo o que aconteceria nos próximos dias, odiava
Antônia Vitória, domingos na ilha com a família, enteados mansos e desagradáveis, parentes abomináveis, comidas e maneiras finas, animais de aparência asquerosa,
discussões sobre a lavoura e os preços, perguntas sobre se vaza ou enche a maré - tinha vontade de matar alguma coisa. Pensara em acordar sofrendo da gota outra
vez, contorcendo-se em dores e urrando se alguém lhe tocasse os pés, mas, mesmo que Antônia Vitória fosse sozinha para a ilha com seu séquito para cumprir as promessas
desmioladas que todos os anos fazia ao santo de sua maior devoção, não se livraria dela. Pelo contrário, o que se poderia esperar seria a presença diuturna de algum
boticário enfiando-lhe arrobes e tisanas e do cirurgião Justino José com suas lancetas sinistras, suas sanguessugas repulsivas, seu cheirar de urinas e remexer de
fezes, seu aspecto carontiano, suas advertências lúgubres, seu riso vampiresco. E mais a espionagem feita pelos negros e negras da casa do Bângala, que não ousavam
desobedecer-lhe as ordens para que servissem todas as comidas e bebidas interditas e despejassem nos penicos aquelas triagas fedidas que jamais beberia, mas, assim
que Antônia Vitória voltava, contavam-lhe tudo o que sucedera, apesar das ameaças e dos ataques de fúria contra a negralhada que o acometiam. Antônia Vitória, com
sua capacidade infinita de falar a mesma coisa durante dias, semanas, meses ou anos, o forçaria a entocar-se em qualquer lugar onde a voz dela não o alcançasse,
para não tresloucar de uma vez. E também faria queixas ao pai. Perilo Ambrósio lembrou amargamente que casara com aquela viúva branca como alvaiade, quase tão gorda
quanto ele, de olhos muito diretos, nariz agressivo e voz.metálica, orgulhosa dos dentes esculpidos em marfim que lhe recompunham de maneira ofensiva parte da arcada
superior, porque assim entraria para o ramo comercial através do Empório e Trapiche Soares de Almeida, do português brasileiro Afonso Soares Matinho de Almeida,
pai dela. Mas o sogro se mantinha distante e suspeitoso, o que de início mortificava Perilo Ambrósio e agora apenas o incomodava, porque o velho cada vez mais
afundava na doença e na debilidade e, se Antônia Vitória tinha alguma boa qualidade, esta era ser filha única de pai viúvo velho.
0 escaler bordejou a mancha escura dos arrecifes submersos, anéis e fincou de novo a proa, ressurgiu quase feérico entre os vestidos multicores da companhia feminina,
embicou para a barca fundeada ao largo, os negros se levantaram para manejar o cordame e acostar. Perilo Ambrósio, adivinhando com enfado as palavras que Antônia
Vitória estava dizendo aos moços da embarcação enquanto arrepanhava as saias e pela outra mão era puxada a bordo, desviou a vista e sorriu para o Cônego Visitador
D. Francisco Manoel de Araújo Marques. O cônego respondeu de forma curiosa: fez uma espécie de bico e curvou a cabeça bruscamente. Perilo Ambrósio não soube o que
falar, não tinha realmente desejo de conversar e não lhe ocorria coisa alguma.
- Dentro em pouco já lá estaremos - disse finalmente. - já se acomodam as senhoras na barca, logo vem de volta à praia o escaler.
- Sim, sim, vejo que sim - retrucou o cônego.
Bateu a cabeça de novo, lembrando um frango a examinar à distância algo ciscado inesperadamente. O chapéu, preto e lustroso, de abas larguíssimas e ornado de
borlas felpudas, agitou-se como se fosse levantar vôo, mas estava preso embaixo do queixo por uma trança de couro preto terminada em engastes dourados. O cônego
ajeitou o chapéu com gravidade e a expressão de quem considerava aquilo uma tarefa complexa. Atarrachou-o na cabeça, apertou o passemanes no queixo, verificou o
nó com o polegar, espanou as abas de volta a seus contornos de cogumelo e, depois de passar um instante com o olhar vazio de quem se concentra para constatar se
está tudo em ordem, mirou Perilo Ambrósio como a esperar aprovação ou admiração. Descia uma viração fresca, o movimento das cinco horas da manhã já ficava intenso,
saveiros e canoas encostavam cheios de peixes e frutas, uma multidão pequena se apinhava junto aos outros dignitários, embaixo das mangueiras distantes da praia.
Queriam ver a barca a vapor, pois esta era diferente da primeira que atravessara a baía, havia muitos anos. Era menor, não era tanto quanto a primeira uma aparição
do outro mundo, mas, agora que suas pás em roda refletiam o sol saindo de trás das nuvens, sua comprida chaminé encimada por uma coroa de ferro soltava tufos de
fumaça parda e seus flancos, em esguichos sibilantes, bufavam turbilhões de vapor e gotas d'água que a luz fazia rebrilhar dando aela uma moldura irisada, ninguém
pôde conter a admiração. Ainda mais que, para levar sua esposa, a Baronesa Dona Antônia Vitória, sua comitiva e seus convidados à festa de Santo Antônio, o Barão
de Pirapuama, ali de pé com simplicidade em companhia de Sua Reverendíssima, supervisando as providências, havia fretado a barca à custa de generosa despesa e
muitos esforços - não era coisa para todo dia e para o alcance de qualquer um. E o povo também queria ver os conselheiros, os lentes de gramática latina, o juiz
de órfãos e outros que lá se encontravam debaixo do pálio ornamentado com um brasão, que o Barão fizera seus negros trazer de casa para desdobrar sobre as cabeças
dos hóspedes, enquanto eles aguardassem o embarque.
O cônego virou-se na direção das mangueiras, apontou para o grupo com a mão aberta.
- Não será de bom alvitre dizer-lhes que se aprestem? falou com alguma impaciência, repetindo o gesto de cabeça que já começava a enervar Perilo Ambrósio. - Ainda
temos mais uma viagem de escaler além daquela que nos transportar, pois há tantas bagagens e arcas e baús para que esses negros as levem a bordo que receio chegar-nos
este temporal que nos ameaça antes de conseguirmos livrar a barra. Se não importuno o Senhor Barão, é claro, não desejo absolutamente ser importuno.
- Vossa Reverendíssima não importuna, nem pode importunar. Vou tratar de chamá-los, naturalmente, mas apenas peço vênia para dizer a Vossa Reverendíssima que
não existe motivo para temer que nos venha um temporal e, como vê, já baixam estes alísios aqui vulgares nesta época, sai o sol, não faz medo este tipo de mar que
temos e tampouco vamos precisar livrar a barra, como pensa Vossa Reverendíssima. Vamos a costear a ilha, bem dentro deste golfo cujos contornos vê Vossa Reverendíssima,
em mar muito protegido. E nem mesmo necessitaremos ceder aos caprichos do vento, que por vezes nos obriga a andar à banda, a cambar, como se diz cá, isto porque
a barca vence a distância pela força das máquinas e caldeiras.
O cônego fez novo bico, deu a impressão de que não pararia de bater a cabeça até que o pescoço estalasse.
- Sim, sei-o perfeitamente - falou. - Mas, se me perdoa a franqueza, talvez mesmo a rudeza com que digo isto ao Senhor Barão, esta é bem a razão por que pareço
açodado. É que essas máquinas a vapor... Sabe que explodem, não sabe, que lhes estouram as caldeiras e reduzem tudo em volta a estilhaços e farrapos com tremenda
força, não sabe o Senhor Barão? Imagino que, se encontramos correntes contrárias, as quais lhe forcem os mecanismos e engenhos de propulsão, em boa nos haveremos
de meter.
- Aii, mas não conhece Vossa Reverendíssima os aperfeiçoamentos que esta máquina moderníssima já apresenta, talvez não seja como as que há visto Vossa Reverendíssima.
- Hei visto de todas as feições e todas as concepções - disse o cônego, com desdém mal disfarçado. Assumiu uma postura professoral, articulando as palavras quase
sílaba por sílaba e pontuando a fala com o polegar e o indicador da mão direita fechados em círculo. - Existem desses engenhos em Inglaterra e em França, em toda
a Europa, a bem dizer. Portanto, conheço-os muito de perto, visto que, mesmo antes de ter Sua Santidade agraciado este servidor com a conezia que procuro humildemente
honrar, já me concedera a Providência a dita de percorrer não só esses Estados e reinos como muitos outros. E em verdade digo-vos, Senhor Barão, mesmo nessas civilizações
avançadas, onde o espírito do homem não é pervertido por urna natureza luxuriosa e corrutora, onde a mestiçagem não estiola o sangue e o temperamento, onde, enfim,
é possível existir o que aqui jamais será, ou seja, uma cultura e vida dignas de homens superiores, mesmo nessas nações estas máquinas não deixam de oferecer perigo.
Estou certo de que a marinhagem de vossa embarcação é mesmo de primeira ordem e que seremos conduzidos com todos os escrúpulos, mas há de convir que melhor seria
assegurarmo-nos de zarpar com o bom tempo que faz do que nos arriscarmos a enfrentar qualquer borrasca, com tantos pretos a equipar o barco.
Perilo Ambrósio pensou em responder qualquer coisa, chegou a abrir a boca, mas logo concluiu que não valia a pena e deu com a mão para um preto jovem a poucos
metros de distância.
Que fosse lá aos senhores conselheiros e demais figuras gradas e, depois de pedir licença sem gritar ou falar alto, desse o recado de que se chegassem à praia,
pois deviam embarcar sem demora.
O cônego rodopiou como quem caricatura uma meia-volta militar e acompanhou o negro com o olhar.
- O elemento servil é indispensável para que se mantenha o país e a sociedade - comentou, cruzando as mãos às costas. - Nisto concordo, sem ele os custos tornar-se-iam
proibitivos e não se poderia aspirar a transformar esta nação no celeiro do mundo civilizado e no fornecedor de algumas das principais riquezas de que depende a
civilização. Mas há limites para o que se pode suportar da convivência com essas criaturas simiescas e obtusas, que estão neste mundo para que louvemos a Deus pelo
nosso destino de homens normais e para que ponhamos à prova nossa caridade.
- Sim, a mim também me causam espécie os negros. Tenho-os em quantidade porque o serviço do engenho, das fazendas e da armação requer muitos braços. Mas são tantos
os cuidados que me dão, tantas as despesas e desgostos, que às vezes pergunto-me se não estava melhor sem eles.
- Não, não estava. Mas que lá é duro ter de aturá-los, lá isto sei que é, é o preço que pagamos sobre tudo mais o que suportamos neste vale de lágrimas, temos
pois que tornar este fardo pesado tão ameno quanto possível. Dives placet ubique, pauper ubique jacet, já diziam os antigos, não? Eis que vêm de lá, finalmente.
Mas que cortejo formidando, não há guarda para conter aquela malta que os cerca corno sabujos às raposas?
Depois de um bailado louco à beira d'água, o escaler trapejando, os negros como formigas tontas, fardos, remos, baús, trouxas, exclamações, risadas e confusão
em toda parte, D. Araújo Marques se recusou a embarcar como todos os outros, nos braços de um escravo para não molhar os pés, e assim tiveram que sentá-lo numa cadeira
tomada emprestada à casa da paróquia e carregá-lo para dentro do escaler como um santo no andor.
Já a bordo do vapor, Perilo Ambrósio notou com satisfação que as mulheres estavam acomodadas no tombadilho à popa, sentadas em suas poltronas de vime e fazendo
as negrinhas correrem para lá e para cá, ocupando-se de tarefas inúteis. Muito bem, assim é que deve ser, que lá fiquem, que lá ninguém as irá incomodar, nem cá
venham elas incomodar. Logo que chegara ao tombadilho, esfalfado apesar de todas as mãos que o ajudaram escadote acima, percebeu que o comandante, cuja voz de entonações
esquisitas e anasaladas reconheceria a qualquer distância, acomodava cerimoniosamente o cônego e os outros convidados, ajudado por Amleto Ferreira, o guarda-livros.
Perilo Ambrósio, como sempre acontecia diante de visitas importantes, não gostava muito de que se patenteasse, embora fosse inevitável, sua dependência em relação
àquele mulato sarará, magro e um pouco melhor falante do que seria conveniente, que agora fazia um rapapé ao cônego e se retirava, quase andando de costas. Espero
que o comandante não venha declamar seus discursos e exposições, desejou Perilo Ambrósio.
Na popa, os três enteados, Vasco Miguel, Florbela Maria e Felicidade Maria, jogavam sortes com as negras, Antônia Vitória fazia exortações de conteúdo moral e
exemplar a todos, Teolina, mulher de Amleto, vigiava as crianças que brincavam com as negras.
Ele marchou pesadamente para a cadeira junto ao cônego e ao juiz de órfãos, segurando-se em tudo porque tinha medo de escorregar com a leve oscilação da barca,
e sentou-se com um suspiro.
Eis finalmente a alegre navegação, as rodas se movendo a princípio tão devagar que mal se notavam, ouvindo-se somente o barulho da casa de máquinas, as sinetas
do comando e os gritos dos negros maquinistas e foguistas. Mas em seguida ficaram um pouco menos lentas, logo apressadas como patas de marrecos espadanando água,
um apito rouco enxotou as gaivotas da manta de peixes que perseguiam ao largo, a proa apontou para os costados da ilha, subindo e descendo com suavidade.
D. Araújo Marques bateu a cabeça duas ou três vezes, aparentou sorrir.
- Navega bem - disse. - Creio que as caldeiras vão ajustadas a apuro. Apesar da umidade permanente das atmosferas desta região, é forçoso admitir que o calor
facilita a introdução do elemento flogístico na lenha a queimar.
Com duas palmas entusiasmadas e um riso talvez alto demais, Amleto Ferreira aplaudiu o cônego.
- Amleto Ferreira, meu guarda-livros - interferiu Perilo Ambrósio apressadamente. - Pessoa muito querida da casa, meu braço direito.
O cônego pareceu não ouvi-lo. Sua cabeça agora, em lugar de bater para baixo, subia por estágios, em pequenos pulinhos que finalmente lhe inclinaram agudamente
a linha do olhar em relação ao pescoço muito ereto e davam a impressão de que, mesmo sendo baixo, ele tratava com todos por cima.
- Achou facécia no que eu disse? - perguntou, apontando o nariz para o lado e as pupilas para o guarda-livros.
- Sim, pois. Tem Vossa Reverendíssima muito espírito, sim. Sim, pois, não perceberam todos?
A cabeça do cônego, agora tornada menor pela ausência do chapéu, imobilizou-se.
- Perceberam que coisa, se me faz favor?
- Perceberam que Vossa Reverendíssima lançava uni chiste, procurava fazer ironia com a perícia dos maquinistas.
- Não fiz ironia alguma.
- Ali, sim, permita-me Vossa Reverendíssima, não foi uma ronia, quando referiu-se ao flogístico?
- Naturalmente que não. Disse uma coisa perfeitamente sensata, que qualquer parvo sabe, e esta coisa é que o flogístico se impregna nos materiais combustíveis
com mais facilidade quando a atmosfera é morna como esta.
- Ah, desculpe-me então Vossa Reverendíssima. Pensava eu ue, referindo-se ao flogístico... Perdão, Excelência, um erro de julgamento.
- Mas que coisa pensava?
- Não, não pensava nada, compreendi mal.
- Que coisa pensava? Anda, homem, perdeste a língua?
O cônego, começando a silabar as palavras da mesma maneira que antes na praia, olhou em torno, mãos erguidas para cima à altura dos ombros, como nas estampas
do Sagrado Coração.
- O flogístico, sim, explica-me o flogístico - entoou. - Com certeza pensavas que eu inventava palavras, que fazia uma pequeria chacota. Mas não, meu caro, não
inventei esta palavra. O Senhor Barão mesmo a conhece, conhecem-na todos os que freqüentaram as boas escolas e liceus.
- Também eu a conheço, Excelência.
- Chame-me de monsenhor, prefiro. É uma adaptação razoável do termo francês monseigneur e, afinal, é um título preferível a excelência, pois não o concede Sua
Santidade, o Sumo Pontífice, a qualquer um. Disse-me isto mesmo pessoalmente Sua Santidade, em uma das nossas muitas audiências em Roma. Excelência são todos, até
mesmo Vossa Excelência...
Falou continuando a olhar em redor, marcando pausas, fixando às vezes o rosto de um circunstante, às vezes cerrando as pálpebras e se deleitando com as próprias
palavras. Ao dizer a última frase, encostou e separou as pontas dos dedos estendidos, cacarejou um riso cujo eco imediatamente comandou dos presentes com o olhar
e foi obedecido. Amleto, pálido como um ex-voto, empertigou-se sentado à beira do banco.
- Mas, sim - continuou o cônego. - Eu mesmo desvio o assunto. Estava Vossa Excelência a dizer que conhece o que vem a ser o elemento flogístico e, não obstante,
julgava galhofeira uma observação perfeitamente comezinha a respeito dele. Portanto, cetera desiderantur. Há que esclarecer algo neste fenômeno singular quanto antes.
Periculum in mora, ha-ha! Anda, pois, deslinda-nos o mistério.
- Pensava eu que Vossa Reverendíssima, Monsenhor, ao mencionar o elemento flogístico, queria referir-se chistosamente a um conceito que, segundo posso apurar
das poucas fontes de leitura e informação que estão a meu alcance, já é tido como da filosofia natural antiga, sabendo-se que hoje a moderna ciência dos corpos inanimados
tem o fogo na conta do resultado da combustão de gases, tanto assim que...
- Como disseste que te chamas?
- Amleto Ferreira, para servir ao Monsenhor.
- É nome cristão? Amleto, nunca ouvi.
- Tem origem numa lenda inglesa, segundo sei, num poema ou tragédia inglesa.
- Numa tragédia inglesa, num poema? Temos aqui coisa, então, temos coisa! A Inglaterra é excessivamente benévola para com os poetas e as artes frívolas. Se também
tivesse músicos, estaria perdida. Então teus pais são leitores de livros profanos ingleses, é assim? Que livros são esses?
- Não sei bem, Monsenhor, o meu pai é inglês.
- O teu pai é inglês? Mas temos coisa, temos mesmo coisa! Mas és pardo, não és? Não mais vigoram as ordenações que vedavam aos pardos as funções públicas, podes
falar sem susto, que, depois de bem servires ao Senhor Barão, poderá arrumar-te ele um bom cargo de meirinho ou, quem sabe, almocreve da freguesia, para
que passes a velhice à farta e sem nada fazer, ha-ha! E onde está esse teu pai inglês, que faz ele?
- Vive na Inglaterra, não temos notícias há muitos anos.
- Na companhia da senhora tua mãe, naturalmente. Diz-me lá.
- Não, Monsenhor, minha mãe vive cá na Bahia, com a graça de Deus, e é professora das primeiras letras.
- Sem dúvida. É liberta. Pois. E o senhor teu pai inglês?
- Era embarcado, aportou à Bahia embarcado.
- Corsário? E não o enforcaram os soldados de EI-rei? Ha-ha!
- Não, Monsenhor, era embarcado num vaso mercante.
- E criou-te alguma Ordem Terceira de pardos? Hão de ter-te criado bem, já se vê que és versado e no falar não cometes solecismos abusivos, como os que aqui tanto
se escutam. Saberá contas bem, igualmente, do contrário não estarias como guarda-livros do Senhor Barão.
- Criou-me a minha mãe, com a ajuda de Deus. Há aulas públicas na cidade onde nasci, pude estudar ...
- Sim, bem vejo. Bem vejo que tens algo no bestunto e a esperteza natural dos mestiços, que pode ser-te muito útil, de muita valia na vida. Isto se conseguires
vencer esta tua tola arrogância, comum em quem subiu da lama, mas, sem embargo, prejudicial o suficiente para que te metas em assuntos de que não entendes.
- Mas, Monsenhor, dizia eu ...
- Caluda! lá tive paciência em demasia contigo e agora não faço mais chistes como estive a fazer, falo sério. Mostro-te a verdade à maneira socrática. Sei que
não entendes de filosofia e, se ouves falar em Sócrates, imaginas que falam de algum outro inglês que haja visitado a casa de tua mãe. Mas não tem importância, faço-te
um par de perguntas e já te demonstro a falsidade de tuas razões pueris. Senhor guarda-livros ... Como é mesmo o tal apelido anglicano?
- Amleto, Amleto Ferreira.
- Curioso apelido para um brasileiro, curioso nome para um inglês, devo lembrar isto para contar na corte em França, terá lá seu gozo. Pois muito bem, Senhor
Amulete. Pergunto-lhe, e por favor responda com tão poucas palavras quanto lhe seja possível: e por que não se opera esta famosa combustão de gases, se não chegam
lume à lenha ou se não lhe dão com as faíscas de um isqueiro?
- Falta o impulso inicial da combustão, a reação...
- Que impulso é esse?
- O impulso dado pela chama já em combustão.
- E que contém essa chama?
- Material combustível e gases em combustão.
- Muito bem, para essa chama arder foi necessário que lhe encostassem outra que a acendesse e outra que acendesse esta e outra que acendesse est'outra e assim
ad infinitum. E a primeira de todas as chamas, como teria sido feita?
- Por vários métodos, imagino.
- Encostando-lhe uma chama ou outra espécie de lume qualquer? Como, se não havia chama, se pergunto sobre a primeira, a primeira das primeiras?
Abriu os braços já de pé, rodou vagarosamente, encarando a cada ponto um setor da platéia silenciosa, alguns concordando gravemente com as cabeças e cochichando
a respeito da petulância do sarará, em querer levantar-se à altura da sabedoria imensa que, com seus vestidos e mantos pretos, agora quase pairava sobre eles.
- Como, se não havia chama, se pergunto pela primeira, a primeira entre as primeiras? - repetiu o cônego.
Amleto Ferreira, sentado na mesma posição, engoliu em seco. Sentia-se tonto, tinha certeza de que as palavras não sairiam mais da garganta, não sabia para onde
olhar, mas ainda quis falar. Não passou, contudo, de uma sílaba, porque já a assembléia murmurava em êxtase a respeito do triunfo de D. Araújo Marques e já ele dava
a estocada final.
- Querem os naturalistas ímpios - disse muito alto - fazer revogar a existência do elemento flogístico, como querem revogar a própria existência divina, é uma
analogia inevitável para eles. Mas não, senhor guarda-livros, a mera lógica, sem o recurso à fé, desmoraliza-os. A mera lógica...
Agora mais próximos da costa da ilha, podiam ver algumas praias, casinholas, plantações, longas e recurvas cercas de ossos de baleia, uma ou outra canoa encalhadas
na maré baixa. O dia não estava bonito, mas o mormaço quase se fora, o sol enfrentava apenas umas poucas nuvens transparentes, a popa abria uma onda contínua, que
prosseguia até perder-se de vista.
Um cardume de peixes-voadores pulou fora d'água como pedrinhas cintilantes, os meninos gritaram. Perilo Ambrósio levantou-se, pegou o braço do cônego, foram até
a amurada.
- Na verdade - disse Perilo Ambrósio com a mão estendida para fora -, estas terras cá já são das minhas, embora aqui só as ocupe com cana-de-açúcar, como pode
divisar daqui, pois aquelas manchas mais claras são das espigas de cana. Na Armação do Bom Jesus, em Amoreiras, aonde estamos indo, possuo mais ou menos três
mil, três mil e poucas braças de costa a contracosta e uma testada, segundo creio, de mais de meia légua. Temos lá um estabelecimento importante, porém modesto.
Procuramos cercar-nos de algum conforto, embora sem excessos, como verá Vossa Reverendíssima, mesmo porque as baleias não nos têm rendido boas safras nos últimos
anos, julgo eu que por força de más lunações. No ano passado, não capturamos mais que quarenta ou cinqüenta madrijos e uns poucos baleotes. Os impostos e as contribuições,
entretanto, continuam pesadíssimos, exigem-se sacrifícios sobre sacrifícios.
- Quantas barricas de óleo extraem-se de uma baleia? - perguntou o cônego, a opulência desenrolada diante dele fazendo-o pestanejar repetidamente.
- Bem - respondeu Perilo Ambrósio -, isto vai por conta do tamanho que tenham. Mas, de modo geral, uns trinta ou quarenta tonéis e mais carne barata, que se moqueia
e se vende a quaisquer dez réis o arrátel, umas vintenas de toneladas de carne, muita dela imprestável a não ser para os negros. E em tudo isto temos os trabalhos
e despesas que nos trazem os negros, as baleeiras e os armazéns de indústria, que estão sempre a precisar de reparos, pois que são tão torpes essas criaturas africanas
que tratam das coisas do trabalho como se pertencessem a inimigos seus e não a seus próprios amos, que lhes dão sustento. Não sei se perfilhará Vossa Reverendíssima
minha opinião, mas acredito que, a prosseguir a fraquíssima autoridade e o nenhum rigor com que hoje em dia se trata o elemento servil, a continuarem os cruzamentos
entre pretos das piores cabildas de onde os arrebanham mercadores sem escrúpulos, e nos dias que correm o são quase todos, já não sei o que será da riqueza e da
produção mercantil do país.
- Não somente perfilho tal opinião, mas aprofundo-a o instituto da escravidão, que do sublime Estagirita já houvera merecido a mais sábia, judiciosa, perspicaz
e irrebatível defesa, pois que se arraiga na natural diferença de índole e propensão entre as raças e povos, não é, não foi, não pode ser, jamais será estrangeiro
à Igreja! Sê-lo-á, antes, este conceito pervertido da servitude que hoje se vê praticado por cultores de um falso, perigoso e principalmente herético humanismo.
Tanto assim é que não há um só livre-pensador que se não ponha ao lado do saduceísmo que claramente constitui a teia de tais razões. Tenho grande medo de tudo isto,
Senhor Barão. 0 tempora! Spes et fortuna, valete! A decadência da autoridade pública, a flacidez do espírito de honra e de decência, o pactuar com a insolência das
classes servis, o abandono dos mais elementares princípios da hierarquia social, a confusão de valores e critérios, até mesmo a falta de uma verdadeira guerra,
que eduque a grande massa do povo e lhe tempere a fibra, tudo isto, estimado Barão, é-me causa de grande receio e pena por terra com esta, que, em mãos firmes e
cônscias das verdades fundamentais, muito teria a dar à civilização européia que aqui os bons mourejam por plantar e os maus por deitar abaixo. Abyssus abyssum invocat,
Senhor Barão, não sei verdadeiramente onde vamos parar.
O sudeste bateu mais forte, o chapéu do cônego afiou as abas como um grande morcego. E ele, os olhos muito abertos e os cotovelos no balaústre, continuou a discursar
com veemência, enquanto a barca, mexendo suas rodas em compassos diferentes, aprumava para Amoreiras.

Porto Santo da Ilha, 10 de junho de 1821.

Primeiramente, Dadinha falou em pormenores sobre como o dia estava fresco, devendo ter sido a mesma coisa havia exatamente cem anos, quando ela nascera. Não sabia
se também tinha sido um domingo, não lhe disseram ou, se lhe disseram, esquecera. Abanou a mão junto à orelha direita, como fazia sempre que se aborrecia por haver
esquecido alguma coisa. Finalmente, afirmou que sem dúvida tinha sido um domingo, não só porque ouvira falar que, de cem em cem anos, todas as datas caem certo com
os dias da semana, mas também porque a mãe dela, cujo nome nunca lhe revelaram, tinha contado a alguém que fazia muito fresco naquele dia em que ela nascera. Como
os domingos são sempre mais frescos, explicou, deve ter sido mesmo um domingo, bem na hora do toque das vésperas. Divergiram dela, opinaram que o domingo era tão
quente ou fresco quanto qualquer outro dia, apenas não se trabalhava muito, então o corpo não esquentava tanto. Apois, respondeu ela, apois não é a mesma coisa?
Assim fresquinho, a viração entrando pela janela e panejando as fraldas da bata de madrasto que lhe descia do pescoço como os flancos de uma pirâmide. Fazia tempo
que não andava mais, pois para levantar-se tinha de arregimentar a ajuda de muitos e para permanecer de pé era necessário que a escorassem. Mas não parecia ter cem
anos, não parecia ter idade nenhuma, remoçando e envelhecendo para lá e para cá várias vezes durante o dia, ou no decorrer de urna simples conversa. E era muito
majestosa, sentada entre almofadas de retalhos coloridos, xales de madapolão desfiado, contas e conchas de todos os matizes no pescoço, o rosto roliço emoldurado
por um torso azul-esverdeado, à sua volta o cheiro leve das folhas de pitanga que ela fazia macerar no chão. Ao contrário das pernas, os braços e as mãos se mexiam
com agilidade, enfeitando-lhe a conversa entre meneios de ombros e jogos sinuosos de cotovelos.
- Estou com quentura - anunciou. - Não está fresco? Pois eu tenho é quentura!
Curvou o tronco para o lado, virou a cabeça parecendo que ia esconder o rosto e, a princípio quase imperceptivelmente, depois como se estivesse num terremoto,
começou a sacudir o corpo enorme, oscilando no ritmo de uma gargalhada sem som. Os lábios, antes apertados, explodiram e ela dobrou-se para a frente esticou os babados
da bata, revirou os olhos, riu perdidamente, a cabeça enfiada na massa convulsa dos peitos, braços e colo. Ui-ui, fez ela, enxugando as lágrimas, e rebentou em nova
cachoeira de risadas, desta vez sonoras, ás e és e ós modulados de todas as formas, a cabeça se movendo em contraponto com o resto do corpo. Logo deixou de haver
espaço para qualquer coisa além daquele riso e então os presentes, negros que não estavam de castigo e podiam folgar no domingo, as visitas que tinham caminhado
da Armação do Bom Jesus até ali para ver a sempre encantada grande gangana do mundo, os que, sempre que podiam, vinham estar com ela como diante de uma montanha
velha e testemunha de tudo o que jamais aconteceu na Terra, a sala inteira, dos velhos aos meninos de braço, todos se abriram em risadaria, sapateando, estapeando
as coxas e escondendo as bocas abertas com as mãos espalmadas. Ninguém sperava o grito que Dadinha deu.
- Quessassim? - disparou ela. - Quessassim?
Sem que nem mesmo os parentes de sangue e os que lhe eram mais chegados notassem qualquer transição ou movimento, ela não estava mais curvada e rindo, estava
comprida como quem engoliu um coqueiro, empertigada e franzindo a cara com uma força tão completa que agora só se viam os olhos e a boca. O riso estacou igual a
um atabaque comandado, o queixo desenhou dois sulcos na direção dos cantos da boca, o rosto emagreceu.
- Ora, ora - falou. - O cem anos é meu, quem vai morrer é eu, quer dizer que só quem pode achar a graça é eu, que é eu que sei, ninguém mais aqui sabe. Cada qual
que faça por onde poder chegar no seu cem anos e poder achar graça na hora de morrer, só pode quem tem direito. Depois que eu morrer, tem que chorar um pouco, o
certo é esse, porém eu posso rir. Agora mesmo, que estava fresco, eu quis quentar o vento e quentei, por isso que me queixei da quentura e dei risada. Mas não é
só isso que é engraçado, embora por aí a pessoa que sabe possa tirar tudo, porém só sabendo. Quem vai morrer é eu, só quem pode rir é eu. Pregueou mais a boca, pôs
as mãos nas coxas e os cotovelos para fora, fechou os olhos.
Muitos, quando ela dissera que ia morrer nesse dia com a mesma naturalidade de quem comenta que não vai chover, haviam pensado que mais uma vez ela queria pregar
uma partida inocente, pois nunca se sabia quando estava sendo oracular ou quando estava brincando como uma mocinha. Mas o rosto afilado numa máscara aquilina desmentia
que houvesse brincadeira naquilo. Ao começar a fala, via-se que era ela mesma, séria e ao mesmo tempo irônica, de uma gravidade aérea e de tantas aparências fugazes
como as coisas vistas em sonhos. Não eram entidades, pelo menos no início, quando sua voz cheia de curvas e picos rompeu o silêncio.
- Eu vou ter de contar isso que já contei a um, já contei a outro, um pedaço aqui, outro acolá - disse ela, respirando fundo e abrindo os olhos. - Por isso mesmo,
para não ser tudo musturado e ninguém se lembrar coisa com coisa logo depois que eu morrer, que eu vou contar o importante, respondo pregunta, digo preceito.
Compreenderam então que Dadinha ia mesmo morrer e se ajeitaram para aprender tudo o que pudessem e não envergonhá-la na hora da despedida, tendo ela feito o seguinte
discurso, voz dó maior, por vezes lá menor, arpeios longos, acordes dissonantes, harmonias escrupulosas, compassos múltiplos, ataques surpreendentes, andamento expressionista,
diálogos certeiros: "Rrrreis! Nachi na senzala da Armação do Bom Jesus, neta de Vu mais o caboco alemão Sinique, Vu essa filha do caboco Capiroba - rrreis! Prochantan,
prochantan, prochotan, prrr-pprrrr, sai-se diqui, pipoco e zombeira no miolo! Arrum, prochantan, prochotan, sai-se daqui, desgrachado de estralo ni juízo, palavra
de sangue com pecado no tinote! Sai-se di qui, có qui mioleira do cáboco non goenta! Sai-se di qui, zornbeira e assobeio, lia, vôte!"
- Recebeu, gangana véia-véia?
- "Não, anchente. Capiroba caboco grande - rrreis! - faz mais de quinze anos que não vem, deve de ter entrado em cavalo novo nachendo, ficando sem querer. É um
recebimento geral aqui, coisa diquele tempo, vem e volta, não é bem assim, nem bem assim não é."
- Caboco Capiroba salva os condenados?
- "Rrrreis! Caboco esse que fica nessa porta, com sua coita de prata pendurada e seus dois irmãos cabocos, Sinique mais Aquimã, que da luta nunca falta, vivendo
hoje e amanhã. Crem-deus-haja, vissantíssima, val de lágrimas. Nachida no 21, começo do setechentos, meu pai eu não conheci, morreu no meu nachimento, antes do meu
nachimento, minha mãe também não vi, mãe esta que foi vendida antes de me desmamar, partindo por Serigi para nunca mais voltar. Que quando eu fui nacher, naquela
hora tinha dezoito almas doídas em Amoreiras e todas elas vierani para ne mim encamar, tendo o cura porém dito que eu não ia me criar. Encarnou a minha alma por
uma grande disputa, disputa que até hoje haja gente que discuta, fazendo com que visite, que nem a casa da puta, meu corpo mais de cem almas, por vezes em grande
luta. Meu pai era negro baleneiro, tinha os olhos craros. Meu irmão mais véio-véio morreu de noite no trabalho do óleo da baleia, o tacho derramou ni cima dele,
morreu queimado do óleo, morreu ligeiro, porém os negros do trabalho do óleo da baleia quase todos tinha a pele às vezes carne-viva às vezes bolhas e cascãos e muitos
ficava cegos do azeite que espirrava e dos tachos que derramava, quando as trempes despencava. Como mais ou menos até hoje é. Minha avó Vu não falava língua, falava
gritos. Que quando levaram ela nessa casa para trabalhar fazendo todo serviço, gritou e atacou a cozinha, quanto mais eles marrando no tronco e chibateando muito
bem chibateada com todos os zorragues, o bacalhau, muito chambrié de corte, vergueiro e pingalim, troncos de pé, sentada de croca e de cabeça para baixo, mais ela
atacando sem receio. Vestiram no sambenito, apertaram os peitos dela com o aziá dos bois, prenderam os dedos nos anjinhos, botaram para dormir de canga em cima do
milho catado, ferraram em brasa espalhado pelo corpo, meaçaram tudo e qualquer coisa, quanto mais isso mais ela atacava. Então, por força daquela brabeza e todos
pensando que o cão de satanás habitava ela, esperaram ela parir para aproveitar a cria e resolveram de enterrar viva de cabeça para baixo, cavando cova bem funda
para muito bem enterrar, vindo o padre depois do enterramento para tudo abençoar muito bem abençoado, deitando água benta à vala, para Vu não sair de lá e novamente
atacar. Caboca Vu muito braba, não deche, encarna na bananeira braba, quando muito. A pesca da baleia tem o cacharréo, que é o macho, o madrijo, que é a fêmea,
o baleote, que é cria mamona, o seguilote, que vai junto da mãe mas já mistura a mama com comida, e o meio-peixe, que é o peixe novo que ainda ia crescer antes
da arpoação. Canta-se mesmo como hoje, aruê-pã-pã, aruê-pão, eu queria pegar ela na barba do meu arpao, mas se canta mais ligeiro - aruê-pão-pão-pão-pão. Isso no
desmancho da baleia, na pesca tem outras. O padre vem todo revestido benzer as lanchas que vão pescar a baleia, três lanchas sempre, poucas vezes quatro, não era
chalupas, que essas chalupas hoje é como vaso de guerra. O padre benze as lanchas, que vão bem, bem, bem armadas, que estão todas baleias parindo neste mês por aqui
tudo. O madrijo não deixa do baleote, não deixa do seguilote, então, quando o baleote vai forgando, forgando, forgando pela cima da água, todos sabendo que o madrijo
ali nada ao pé, o baleote vai brincando e dando sartos e sartos e sartos pela ribança das ôndias igual como um boto, porém de pequeno juízo pela idade, quando então
a lancha vai até nele, que espia eles como se fosse palestrar, e então eles só faz enfiar nele o arpéu, que eles despedem de perto porque o baleote nada sabe e não
tem medo deles. E nisso matam o baleote com esse arpéu, que é o mesmo arpão, porém menor e com mais esgalhas e barbilhas para a finalidade de doer para o baleote
chorar bastante, matam ele e amarram no costado e então chega a mãe, que ouviu os gritos e choros e também já vem chorando, e então eles metem, nela o arpão grande,
saindo ela correndo léguas e léguas caçada pelas três lanchas, e botam no meio a lancha que traz o filho atilhado, porque ela, malferida e malcansada, assim mesmo
volta para ver a cria, e dão novas,corridas e então novos arpãos e mais as coisas e as meias-luas e as foices de baleia e muitos ferros, então ela chora muito
como uma pessoa e bota sangue esguichando numa poeira d'água encarnada, ficando o mar todo também encarnado e então morre essa baleia e seu baleote e vão arrastando
eles em fileira para a Armação, com as queixadas e as bocas amarradas de boas cordas para a água não entrar por eles adentro, bem como os peixes que gostam de entrar
pela boca da baleia e os bichos que bebem o sangue dela."
- Que bicho é bom não comer, estando nas regras?
- "Veneno, não comer. Peçonha, não comer nem beber. Quizila, não comer. Peixe niquim não tocar, peixe beatriz não pisar. Água de tofo, velenho com memendro, coco,
tramonha, trovisco, baiacu, tudo, tudo, minha filha. Rosargar... Coidado! Não comer na má companhia, tento nisso! Não comer comida feita por amigo que foi inimigo,
muita atenção! Ah! Ali! Ali! Tuí-tuí-tuí! Santo Calendê evém aí, meu povo, é no dia 23, esse menino, faz o edê do homem, esse menino, lobara Exu Lonan, vem cá, vem
cá, Aloriê!"
- Recebeu, gangana véia-véia?
"Danguibé, cobra do mato! Hiu-hê, ssssiu! São Lourenço é o tempo, é daqui! Obessém no céu, muito do enfeitado! Avriquiti, ui, ui, ui, uil Vamos com Dão Pedro
debaixo do pau de loco, tocando no amelê e nosso batá-cotó, viva o reis da Bissínia, bom caboco Salimão Darissa, da terra da Abobra!"
- Tá vendo tudo aí?
- "Caje-caje. Mas qué-quié-quié-quié, menino? Mmmmm! Mecreia muntcho, é como lhe digo: emô-jubá, ebô-coxé, tudo musturado aqui, uma pintura verdadeira! Oi os
doze pá de França, criatura, mas que rebrilhosidão! No fardamento da rainha de Xabá, do sino de Solomão, da batalha de David, marvia grande aqui, coisa de premeira,
êi patuscada valente! Venha de lá, princesa da Guiné, festejando a festejar! Comidas, então, todas especes! Menino! Aqui, nem lhe conto!"
- Coisa da mariposa Curuquerê aí?
- "Nada disso. Essa veio na cabeça dos padres e do que benzeu a testa do valeroso caboco Capiroba - rrreis! Rrrrreis, rrrreis, ai? Na hora de descabeçar ele e
garguelar, ai! Hum-hum, haaan!"
- Recebeu, mãe gangana, chegou ele?
- "No setechento, no setenta ou no oitenta, quando nem sombra de nada disso tinha aqui, só as baleias e as mesmas gentes, assim ou não assim, chegou Darissa da
Bissínia, que era maluco, maluco, muitíssimo variado. A cidade da Bissínia é Diz-Abobra, ele porém não trazendo abobra, trazendo religião antiga, que aqui não pôde
combater. O povo dele é Galinha, porém também não trouxe galinha, nem fazia cococó. Foi antes que botaram os padres regular zizuítas para fora, le conto, hum-hum.
Tinha o grande reis Zuzé, que ficava no reino, no pombá do Marquês, que me chegou lá assim e disse: não quero mais saber, me comprenda uma coisa, não quero mais
saber de zizuíta em minhas terras, foi zizuíta aqui, zizuíta fora, he-he-he-he! Rebanharam tudo, levaram bem, bem longe, botaram na jiquitaia, he-he-hei Zizuita
descarado, juntaram, botaram em ferro, Coronel Gonçalo levou para no reino castigar, o navio carregando para bem mais de centos padres, hi-hi-hi-hi! O Bispo Zuzé
Boteio, muito sem graça com isso, se despediu sem receio de seu lugar de alcebispo, indo morar de permeio cas freiras de Itapagipe, he-he-he-he-he! Não foi esse
o Padre Roma, que com seus filhos mataram, padre Roma esse sendo muito dispois na história, foi por fazer sedição que lhe deram o cadafarso. Disso botaram
um pasquim comprido na porta da igreja, sendo sacrilejo mas sendo perdoado, por ser padre filheíro e além do mais sediceiro, na uma, nas duas, nas três eu não fico,
ca sua saia de renda de bico, ponha a laranja no chão tico-tico, he-he-he-he-he, tem cachimbim aí, cachimbim?"
- Raiz de dandá é bom?
- "Dandá é. Pestenção nas santidades: todos os santos, muntcho bem, muntcho bem, Santo Antônio, a Santa da Conceição, muntcho bem, mas se valha mais do santo
de sua cor, lembrando que negro escravo cativo não usa nem baeta de holanda nem cordão de ouro, tenção nas coisas, é só ver. São Solomão lutador, a reza vai, bata
parma aí, bata Parma, hum, fecha-te corpo, guarda-te irmão, na santa arca de Solomão, aprendeu? São Elesbão, São Benedito Urumilá, Santa Figênia, vá lembrando mais,
tchobém. Olho grande, a pessoa joga água fria, reza com pinhão roxo ou vassourinha mofina, faz cruz, faz cruz, vai fazendo cruz: Deus te fez, Deus te criou, Deus
te livre das vista que mal te olhou, com dois te botaram, com três eu tiro, com os poderes de Deus, da Vilge Maria e de Zezus de Najaré, seu filho concebido sem
mágoa e sem pecado. Se foi na cabeça, São João Batista, se foi nos olhos, Santa Luzia, se foi nos dentes, Santa Polônia, se foi no corpo, as três pessoas da Santíssima
Trindade, Padre, Filho, Espírito Santo, se foi por ambição ou por despeito, se foi por ódio ou por vingança, tudo desparecerá no abismo do mar sagrado ou no confim
da Terra onde não se ouve nem galo cantar nem boi berrar, com os poderes de Deus e da Santíssima trindade. Um padenosso, uma vemaria. Banho de cheiro, ariaxé, bote
nele arruda, bote marvarrosa, mangiricão, vassourinha, bote alecrim, toque fogo na páia, faça incenso, defume bastante, pronto. Dor de cabeça, o seguinte: São Fravião
pregunta a São Lorião - aonde vais, Lorião? Ao que le responde Lorião - vou ao rio do Jordão, por onde andou São João, buscar água da bem fria pra curar dor de cabeça,
anxaqueca e nervagia, com os poderes de Deus e da Vilge Maria. Borrifa água fria, três pade-nossos, três avesmarias. Pontada, se pegue com São José. Mordida de cobra,
São Domingos, também negócios com cachorros. Porrada na cabeça, Santo Esteves. Bostas presas, urinas presas, São Tolentino, bem como assim mulher ou besta entalada
de parto. Impossives, Santa Rita; viajando, São Cristovo; pedrada, São Pulinaro; esfolamento, São Bartolomeu; creca e pereba, São Lazo; frechada e chuchada, São
Bastião; tocando musga, Santa Cicilha; perdido no mar, São Quelemente; pescando de rede, São Pedro; pescando de vara, São Zenão; corte de foice, São Simão;
curtindo couro, São Crispim e São Crispiniano; ferida pustemada, Santa Catarina; caçando, São Jorge; criando filho, São Gonzaga; coisa roubada, Santo Antonho; cabeça
oca, Santo Inaço; sangue escorrendo, São Pintalião; doido lunátio, São Herme; dando tiro de canhão ou alcabuz, Santa Barbra, bem como assim no trovão e em
todo estrondo; dor nos ovos, São Nereu, bem como assim criando galo capão; fazendo graça, São Filipe; mal do peito, São Cassemiro! Quando nenhum santo quiser
acudir, chame São Juda Tadeu! São Tuda Tadeu, não sabe, não é o Juda judeus, é o outro, porém se pensa que é o mesmo e então ele fica todo sastifeito quando se chama
ele e nunca deixa de vim, lembre isso. O ensalmo da azia é com Santa Iria, repetindo três vez: Santa Iria tem três filha, uma fia, outra cose, outra cura o mal de
azia. Bicheira de boi, reze pelas cinco chagas de Nosso Senhor, começando: mal que comeis a Deus não louvais! E nesta bicheira não mais comerais! Asma, moa buzo
peguari, ou senão cavalinho-do-mar torrado bem moidinho, tome com água, passa tosse e pio do peito! Samambaia do brejo, cravo-da-índia e mel de abeia, bom, bom,
bom! Garrafada e emprasto de erva-santa! Arueira! Mulungu! Pau de leite! Leve aguiri debaixo do subaco quando for à luta, aperpare bem aperpárado! Reze reza ê-tutu!
Se cubra, não aceite polseira nem cordão de prenda, nem nada que amarre, não deixe ninguém passar a mão na vossa cabeça, tou avisano, laralá-lerelé! Cê que
se vire de costa pra janela e guinorando a porta, cê que aceite qualquer de comer, cê que vá confiando, cê que vá contando o seu particular, cê que vai ver o que
cê vai ser, he-he-he, ai meu Deus, nem sei... Coidjado com sapo-eururu, hum-hum! Num impreste sal na sexta, não batize, não corte nem unha nem cabelo na sexta. Primeira
segunda-feira do mês de agosto, nada de pescar, nada de ir na fonte! Nada de contar os peixes que se vai pescando, os siris que se vai botando no cofo, nem
os mariscos que se vai catando! Casando no dia de Santana, a mulé morre de parto! Desafastano do ferro e do metá, na hora que a trovoada vai roncá! Matar aranha
atrasa, guardar aranha enrica. Para fazer nacher depressa, queime arueira, defume bem, reze o seguinte: vai fumacha para que meu filho nacha. Não molar faca na Sexta
Santa! Mulé que toca sino não pare mais! Pestenção em Dona Catiti, lua nova, pestenção! Dona Catiti em mês de outubro, que acontece? Trovejou! Se nos nove continua,
é chovida toda lua! Vento norte até meidia, temporá no outro dia! Mostre o cu do filho logo que puder a Dona Catiti! Peça dinheiro a Dona Catiti! Lua nova,
he-he. Porém só plante na lua cheia."
- Muita gente vai ganhar furria, gangana véia?
- "Furria só se for que nem a minha, que fui furriada de promessa e as pernas já não andava, depois de criar no peito quase que toda a família, do bisavô no bisneto,
na Armação e no Engenho. Boa furria essa, me deram quatro patacas e me botaram aqui debaixo da páia e inda quase que não fazem o favor de deixar os meninos vir aqui
trabalhar no domingo para fazer as paredes. E, se eu não soubesse fazer minha renda de birro e não tivesse ajutório, que fome passasse, que eu não como só
de domingo ni domingo, quando chega o povo aqui. Antigamente, eles musturavam veneno amargoso e borra preta no azeite da lamparina para os pretos não lamber. Porém
fome não passei, sempre se pega qualquer coisa nos matos ou no mangue e me acostumei de comer resto, gosto mais de resto do que tudo, verdade sincera. 0 bissínio,
quando chegou, chegou com muito alardeio no meio de uns outros, ele sendo o mais alto. Não teve jeito com ele, marraram logo de corda no primeiro dia, ele roeu as
cordas, fugiu para os matos, acho que recebeu o caboco Capiroba - rrreis! -, então, num sá, fez quilombo, num sá? Rastou gente, rastou mulher, fez quilombão. Vieram
a gente de armas, caçaram ele. Ele porém não quis ser caçado e, quando viu que ia ser cercado, invadiu aqui, passou horas e horas lutando, só morreu porque os cachorros
comeu. Conheci ele, comprado por vinte e cinco mil-réis numa viagem, se achava melhor do que o branco, era doido do juizo, variado, variado. Disse que, se dessem
furria a ele, não aceitava furria, ele que ia dar furria ao senhor, maluco da idéia compreto, destabocado mesmo. Nozinho Pirilo Ambrósio vai dar furria quando for
senhor? Mais fácil o peixe aramaçã falar de novo com Nossa Senhora. Eu mesmo criei ele, eu mesmo tenho medo dele, e lá também toda gente tem medo dele, que possui
o mau esprito. Agora, uma coisa: se hoje tem comida, manhã não vai ter, vai acabar tudo, tudo, he-he-he! Meu pai não tinha mais força na baleeira, botaram ele para
carregar barrica de bosta. Barrica pingava bosta pelos lados, vez por outra rebentava, cobria ele de bosta. Porém não foi do peso que ele morreu, que de fato
era pesado e ele era velho e todo cortado da luta com a baleia, foi da vergonha. Os negros continua carregando bosta, mas muitos não morre, he-he-he. E é com furria
e é sem furria, hi-hi! Bissfnio doidjo chamava Darissa, conheci. Caboco Capiroba - rreis! - comia muito landês, era um, era dois, era três, verde, maduro e de vez,
he-he-he-hel Vosmecês, quem daí come landês? Mentira sua, tem muito landês aí, nunca que vai acabar a espece deles. Quero mecês muitos dos bonitinhos, feitadinhos,
cheirosinhos. Na hora de chorar, chorar. Pelo seguinte, que as lágrimas é como mijo urina, suól ou bosta - é coisas que o corpo tem que se livrar, me compreenderam
uma coisa? Mas não esquecer de nada, prochantá, prochantan, prochotá, ui, ai, segura cabeça, hum, prochantan, prochantan, rrreeeeis! Nunsquecer de nada, me compreenda
uma coisa, he-he! A mariposa Curuquerê chegou na testa do padre, chega na testa de muita gente, tenção! Cigano falou!"
- Cigano falou bonito, gangana?
- Falou, porém não se percebe tudo, é fala pior do que de cabocos de fora ou de muito antigamente, quem quiser que comprenda: preches, leches, inongogreches,
cacheches e Ia Santa Quisici6n, el granofício de Ia mu-crte e Ia santidá de Ia desgrácia. E disse mais que coidjado com quem ensina a certeza, foi o que ele
disse, antes de ter a ordenação para todos que quem falasse com cigano ia para a forca e de ter a corrida que correram com quase eles todos daqui pra fora, esse
porém, por muito falar, sendo matado e queimado. Se eles soubesse que eu tinha tanto escutado ele muito bem escutado, eles tinha cortado minha língua, quiçás despejado
azeite quente no zuvido, tinha sim, he-he-he. Não cortaram, muntcho bem, porém eu conversei com esse cigano e não fiquei nem mais nem menas hereja, foi mais uma
coisa nessa vida que eu aprendi sem aprender mesmo. O cigano disse: ouve lá, mucama, morra o Reis de Espanha, que o inferno é certo e o céu né perto; eu não
peço nada, a vida é roubada, quem pede e não toma nunca chega a Roma; vai faltar comida, vai faltar a vida, só não vai faltar é pra quem tomar. E preches,
leches, mongogreches, isso levando dias e dias, quem avisa amigo é, se bem não entendo muitas coisas. O destino é o seguinte: não tem jeito. E, se tiver,
é porque foi o destino, tem muitos que o destino é se queixar do destino, vão rindo aí mecês. Opa! Quessassim? Minino, veje! Pescou sarnambiquara muita, que está
me dizendo? Pescadinha amarela, coisa boa. Agúia nuitona, isso coisa de Turíbio Cafubá, não me crê? Essa menina. acho que já vou indo. Rrrrreis!"
- Vai amuntada, gangana véia?
- "Sentadinha. Vamo ver se sai umas boas incelenças, vamos ver Víssantíssima, que canaviá! Chegou carregamento de cana deAngola, muita, muita, de navio, negraiada
ia plantar tudo, só vendo. E planta cana, corta cana, mói a cana e se rela todo nas canas, se corta todo, se enfarpa todo, hi-hi! E todo dia chegando mais preto
cativo e moça soreana para casar, que o reis mandava sob comando, cada lindo reis que tem, cada qual mais importante. Premeiro morreu Dão João, cravejado de prata
e pedraria, comendo queijo de ouro em pó e se refastelando na riqueza e do povo todo sentindo muito dó. Depois desse reis Dão João, se seguiu o reis Zuzé, havendo
em toda a nação uma grande alteração, porém cá não havendo nada, ou pra não dizer que nada, havendo cana e mulé sorcana. Assim não é que adispois o que vem é a rainha,
a qual chamada de Dona Maria trouxe pra todos grande alegria e aqui mandava grandes caravanas pra buscar cana e trazer moça soreana, e cada reis e rainha que
vai nachendo é uma grande esperança de quem veve padecendo, he-he-he-he, Caboco Capiroba - rrreis! Come reis, caboquinho, hum, come rainha? Hum, cruz, nojeira, ti-ti-ti,
ti-ti-ti!"
- Vortou ele aí, gangana, vê-se?
- "Xente, ques pergunta! Bigorrio, reis, bigorreis, todo reis é bigorrio? Assunte, quer ver, fique esperando aí, assuntando bem: esse outro Dão João de agora,
que estava num reino e agora foi para outro, não foi mês passado? Não foi, caje-caje? Então, mês passado ele foi embora dum reino para outro reino e agora
eu estou aqui morrendo de desgosto - he-he-he-he! ha-ha-ha! ho-ho-ho! ai-ai! Me deixe, esse menino, estou vendo aqui é os reis, cada reis... Tudo cobertinho de ouro,
cobertinho, cobertinho, he-he! Ora, ora, vai-te... Tá certo, tá certo ... É o reis que dá! Boa vida ao pobre! Quem me deu foi ele! A páia que me cobre! Ha-ha-ha-ha!
Ui!"
- Foi dorzinha aí, ganganinha?
- "Nadinha. Poquente não, esse daí, agora perdi meu reisado por sua causa. Passou, tenho preguiça de mandar buscar de volta. Tocosi as vespras? Eu só quero ir
no toque das vespras, como cheguei. Muntcho bem, tudo certo? Tenção no filho da minha neta mais menina, olhe o sangue! Vou, mas fico um pouco em Amoreira!
Não deixem matar Nozinho Pirilo Ambrósio. Esqueceu nada não, Nezinha, ói lá! Apois, esqueça nada, hum? Consertou a calha, pagou o peixe de Crispim Ladrão? An-bem,
eu apareço. Esqueceu nada não, Nezinha, veje bem! Tão com essa cara, quere saber mais alguma coisa? Que quantas presepadas!"
Mas as vésperas começaram a tocar nos sinos da capela e Dadinha se interrompeu como alguém cujo interesse é despertado por um assunto novo. Cruzou os braços muito
composta, fechou os olhos e, com a expressão de quem vai assistir a alguma coisa fascinante, morreu exatamente como havia escolhido.

Armação do Bom Jesus, 9 de junho de 1827.
A queda de Santa Bona e São Lúcio aconteceu bem no instante em que Antônia Vitória abria a boca para mandar a recontadeira Justina Bojuda interromper a história
que os meninos e a negra Honorata estavam escutando. A mucaminha Martina ia subir no escabelo para passar o pano nos santos do oratório, enganchou a chinela, o escabelo
virou, ela no tombo derrubou o sagrado casal, que veio ao chão depois de uma cambalhota.
Não se quebraram as imagens, mesmo porque a negrinha, ao ver os santos mergulhando de cabeça para o lajedo, ajoujados e contritos como sempre estiveram à frente
do oratório, amorteceu-lhes a queda com os braços estendidos em desespero. Apenas partiu-se, numa linha curva e caprichosa, a peanha que unia as imagens, separando
os dois pela primeira vez desde o tempo que ninguém lembra. Muito azul, a boquinha redonda e carmezim, São Lúcio virou e ficou de barriga para cima, com o
olhar, que antes fitava com perene enlevo a santa companheira e esposa agora voltado para o lado oposto àquele aonde ela rolara e se aninhava de cara para o encontro
da parede com o chão, bem junto ao catiapé em que Justina Bojuda estava arrematando o seguinte reconto:
Num lugar que ninguém sabe, pela praia ou pelo mato, pela ilha ou pela terra, era uma vez um vigário. Era uma vez a freguesia desse vigário, era uma vez sua igreja,
era uma vez o povo que nesse sítio morava, onde havia muitas beatas e muita gente misseira e benigna. O vigário, antes da missa, não podia descansar, porque vinham
as beatas se confessar. Depois da missa, não podia descansar, porque vinham as beatas se confessar, e então o padre não fazia outra coisa que cuidar das desobrigas
daquele povo carola. Aí o padre pensou, pensou, pensou e chegou num resultado, que foi fazer por escrito um ror de coisas, ror esse que preparou para ler na missa.
Quando chegou a missa, o padre pegou do ror e leu da seguinte maneira: minhas prezadas devotas, povo desta freguesia, já estou ficando velho e cansado e não
tenho mais tempo e sustança para tanta confissão todo dia. Por isso que doravante vamos obedecer à seguinte disposição, que eu mesmo pensei muito bem pensado
e escrevi muito bem escrito, estando tudo muito bem ajuizado: no domingo, eu confesso as preguiçosas e as que não têm asseio; na segunda, as que furtam e as que
mentem; na terça, as que bebem; na quarta, as que enganam o marido ou pecam ao contubérnio; na quinta, as crocas e as maldizentes; na sexta, as feiticeiras, as mandingueiras
e as treiteiras; no sábado, as comilonas e as invejosas. Que quando o vigário terminou de dizer isso, ninguém disse nada na hora, mas toda a gente se olhou assim,
e daquele dia em diante não teve mais beata que quisesse confissão naquela freguesia e o vigário descansou à larga com seu bom vinho de missa, pé de pato mangalô
três vez.
- Sá Justina, caluda, nem mais uma palavra! - trombeteou da porta Antônia Vitória e, assim que se preparou para outra vez discursar com as mãos para cima como
tinha feito pela casa toda desde que desembarcaram, a mucaminha gritou, as imagens rodopiaram no espaço, Justina arregalou os olhos e Bona e Lúcio trambolharam
pelo chão. - Jesus, Nossa Senhora, grande Santa Rita dos Impossíveis, meu divino padrinho Santo Antônio, ai que desce sobre nós a mais minaz das desgraças!
Ai meu santinho São Lúcio, minha santa Santa Bona, que me deram às bodas os meus pais, ai que fizeste, infeliz, aí estão meus santinhos em estilhas, ai, vê
como tombaram à distância e se lhes partiu o supedâneo em cem taliscas e em mais de cem te faço eu, negrinha ruim e travessa, coisa mais que ordinária, pedaço de
mão de finado, urubu, negra albadeira estúpida a fazer tudo às canhas e aos trompaços, ai perdoaí-me o Cristo porque houvera eu de ter deixado espanar o pó à edíctila
tima moleca parva que não serve para lavar um vaso de barro, perdoai-me, sim, se não te retalho em tiras, e não ponhas as mãos neles! Tira os teus cascos de besta
daquilo que já arruinaste e sabe-se lá o que mais deitaste a perder com o teu desatino! Ai meu Deus, espero que não chovam desditas sobre esta casa e nossa fazenda,
pois, se foi o Inimigo Infernal que animou as mãos desastradas desta negra imprestável, não foram nossas tais mãos! Pois muito bem, pois se queres chorar com
muito mais gosto e razão, dou-te motivo. Vai lá dentro à cozinha e explica a tua mãe que o escravo que prometi a Santo Antônio alforriar e pagar-lhe um tanto como
se o houvera comprado e não alforriado e dar-lhe terreno, madeira e palha, escravo este que era de ser ela, diz pois a ela que já não penso da mesma forma, que já
não pode ser ela, não por falta sua dela, que não as tem a não ser o bodum que por força da raça exala, diz pois a ela que já não é ela que depois das trezenas libertarei,
não por falta dela, mas porque a negrinha safadinha que pôs no mundo houve por bem esmigalhar os santos esposos que sempre velaram sobre a felicidade desta casa
- diz a ela pois, infeliz, que não é mais ela que liberto por devoção, mas, sim, outra, ou outro, que escolherei. E não te esqueças de dizer também de tua culpa
em que assim eu haja de proceder, pois é contra a minha vontade que castigo tua mãe, só que não posso deixar passar em brancas nuvens ato tão sacrílego quanto esse,
presságio tão mau quanto o que derramas agora sobre esta casa! Ezzz diz lá também que, se não te mando agora mesmo ao azorrague e não te corto em postas como
devia fazer, é porque és filha dela e na sua tenção é que faço isso. Vai lá, anda, vai lá contar-lhe tudo, anda, vai, mexe-te, vai e não te esqueças de uma só palavra,
negrinha amaldiçoada, pois que logo vou perguntar à tua mãe se disseste a ela tudo conforme te ordenei dizer, vai! E não passes ao pé de mim, que não quero imundar
as mãos na tua cara nojosa, ai meu Deus, Santa Catarina, Santa Margarida, Santa Águeda, meu São José Calasans da eterna resignação, valei-me neste transe em
que a cabeça me pesa e o desgosto me abate! Vai-te! Matas-me, irritas-me é o que fazes! E me aflige o ... Vai! Vai, antes que te esgane, vai! E tu, negra Honorata,
a consentir que essa mulher recadeira, que aqui vem ficar a troco de boa comida e ainda os vinténs que toma à economia e às algibeiras dadivosas do Senhor Barãao,
para contar-nos histórias sem pé e sem cabeça e para que os pequenos oiçam as imundícies e ofensas que saem de sua boca! Já te disse que não quero que contes
tais histórias! Já te disse que não te aproveitasses da indulgência desta casa para encher as orelhas dos pequenos com anedotas de baixa moral e alta vileza! Que
coisa de contubérnio é esta de que trata a tal narrativa? Não me digas, hei de meter um ovo quente à boca do que primeiro repetir tal palavra ou esse conto sujo
que estavas a tartamudear aos pequenos! Chut! Ai, Senhor dos Desvalidos, sei que havemos de dever-Vos, como pecadores, penitências a Vossa Misericórdia, mas existe
tanto padecimento para os que saem da Europa e vêm habitar aqui, em sítio tão bruto, malsão e ingrato, em tantos esforços e trabalhos sem nota ou fama, sofrendo
tanta privação e angústia, metidos com gente tão rude como nunca um cristão pôde conceber, sei bem como padeceram os santos homens católicos entre os mouros, mas,
ai de mim, vida tão cheia de vilanias não tenho a força dos santos para suportar! Sabias que eras tu, Honorata, a quem eu ia dar a mesma alforria que já estava quase
a conceder à negra Constantina, mãe daquela M. . ., daquela cujo apelido não posso fazer sair de minha boca, sabias que eras tu? Bem sei que és desmiolada e mais
tonta que uma mosca e te falta qualquer caráter, irias mesmo assim te perdoava estes maus traços, só não posso perdoar a desobediência! A desobediência! A desobediência!
Será que terei de bradar aos céus pela Eternidade que, pela comida que damos, pelo teto que emprestamos, pelas tribulações e vexações que amargamos por conta
de tua laia imprestável, por tudo isso só cobro em troco a obediência? A obediência! Não é muito pedi-la a cães e alimárias, mas parece necessitar de compreensão
em demasia para a ausência de tino e sentimento dessa raça! Obediência! Obediência que não te passou pela cabeça cheia de borra, quando, com a insolência mais intolerável,
a bestialidade mais desagradável, deixaste que essa megera parda contasse essa história blasfema, castigando-nos então o céu por meus santinhos partidos, ai meus
santinhos, ai que fraqueza me vem, quantos padecimentos poderei ainda sofrer, Santa Luzia, não deixeis que se apague ainda o lume de meus olhos antes que arranje
a reparação de tantos pecados que, se não foram de minha feitura, pois bem sabe Deus da vida pia que levo, são de meus cuidados remediar. Ai Santo Antônio de Lisboa,
meu santo padrinho, não soubestes perdoar que não vos tenha vindo a todas as trezenas como faço cada ano, mas sabeis que de minha vida não resolvo eu, senão o barão
meu senhor marido, que só agora consentiu nesta vinda para cá, assim mesmo à custa de muito implorar, vós o sabeis, pois que a tudo assististes, meu santo
padrinho! Pois, negra ingrata, que de Honorata calha bem pouco o apelido, tira da tua cabeça vires a ser libertada, porque a tanto jamais chegará o esquecimento
da tua desobediência e do mal que fazes aos pequenos que tanto te querem bem, coitaditos. Minha Mãe Santíssima, mater dolorosa, socorrei-me nesta hora transida,
dolorosa mãe amantíssima! Não te mexas, não te mexas, negra, fica onde estás, pois não sei se há de tocar-se nos santinhos antes que chegue cá um sacerdote, que
será de mim agora, onde está Frei Hilário, sinto que desfaleço, ai Deus, não tenho mais forças, ai tanta pena. . .
Quando Frei Hilário finalmente chegou, depois de ter sido encontrado cochilando e sonhando com ovelhas fartas, um fio de baba escorrendo até onde a barriga lhe
encontrava o queixo pendido, um ronco ancho marcando o andamento da dormida - e chegou tão ligeiro quanto podiam seus passinhos curtos, rechinando as alpercatas
no soalho por todos aqueles corredores treliçados, assombrados por nichos, aparadores, tripés de bacia, guarda-pratas e tantas outras coisas -, Antônia Vitória
já estava reclinada na camilha aimofadada, esticando o rosto para o leque com que Teolina a abanava. O frade passou os olhos miúdos pelo salão, olhou as duas imagens
caídas, viu as negras petrificadas à beira do portal da varanda, as crianças sentadas no canapé com as costas espigadas.
- Ah, meu bom padre conselheiro e diretor! - suspirou a baronesa, levantando debilmente o tronco para depois tombar de volta no almofadão, os olhos fechados e
o peito palpitante.
- Deram-lhe um vinagrito a cheirar? - perguntou o padre e, quando lhe disseram que sim e que também lhe haviam posto um grão de sal sob a língua e que já estavam
quentinhas as mãos antes tão tremelicosas de frio, fez sinal para que se afastassem, deixassem-no a sós com a baronesa até que alguém as chamasse. - Pronto, pronto,
já está,, já está, já tudo passou.
Antônia Vitória abriu os olhos custosamente. Voltou-se para o frade, agora sentado no escabelo que caíra e que ele pusera junto à camilha. Ah, não sabia o bom
frei quanto ela sofria e mais sofria e sofria, não se abrandando nunca a sina tão gravosa que os fados pareciam ter gosto em abater sobre ela? Pois não estivera,
ainda agorinha, quase às portas da morte, depois de entrar ali para continuar a trabalheira incessante daquela casa tão cheia de visitas ilustres a requerer almoço
fino, ceia finíssima, atenção como a que se espera da nobreza, quando lhe acontecera aquela desgraça? Não lhe bastava que o almoço, saindo atrasado, quase ao meio-dia,
lhe tivesse dado tanta ânsia, pois que não tocou o Senhor Cônego na caldeirada, nem pareceu gostar dos vinhos? Não lhe era suficiente que o barão, seu senhor marido,
lhe houvesse dito com aspereza e à frente de todos que aquela malassada não estava muito diferente da comida dos negros, embora a tivesse devorado quase inteira?
Casamento de São João das Vinhas, isto era o que era aquele casamento, embora só ao frade conselheiro, amigo e diretor, pudesse fazer tão terrível confidência,
que mal lhe saía da boca abrasada e lhe dava vertigens. Não foram seus paizinhos, não foram seus filhinhos, a quem tratava o barão com tanta indiferença, não fora
o bom frade, talvez já não tivesse mais ânimo para seguir vivendo. E agora, agora não podia ele ver ali mesmo, lançados ao chão em posição tão desairosa, os dois
santos de cujas bênçãos dependia a paz de casa e casamento? Os dois santinhos estilhaçados?
- Mas não estão estilhaçados, partiu-se-lhes somente a peanha e pode-se perfeitamente grudar as duas partes. Manda-se fazer uma gomazinha de farinha do. reino
com clara de ovo, que fica mais rija que antes de partir-se.
- Crê Vossa Reverência? E não crê que desça um castigo sobre a casa?
- Creio que os santos ficarão como novos e que não teremos castigo algum.
- Benze Vossa Reverência a goma, benze-a?
- Benzo-a, benzo-a, não se aflija a Senhora Baronesa.
- Ah, como sou grata a Vossa Reverência! Mas não crê que houve castigo porque aquela recontadeira, perdão pela palavra, aquela recontadeira suja estava a narrar
uma história aos pequenos de fazer corar as pedras, além de blasfema, pois que contra um sacerdote?
- Não, castigo não creio, talvez advertência, talvez.
- Advertência! Aviso! Para que cessem tais coisas! Para que seja posta à prova a nossa piedade! Portanto, devo castigá-la eu! Diante de tantas afrontas, nada
mais providenciei como castigo do que revogar a promessa pela boa saúde de meu paizinho, de alforriar a negra Constantina.
- Revogar a promessa?
- Não, por Jesus Cristo Crucificado, mil vezes não! Apenas alforrio outra em seu lugar, pois é preciso castigar sua filha, a negrinha espevitada que me fez isto
lá aos santos.
- Está bem castigada.
- Não está? Mas se castigasse diretamente a negrinha por me fazer tanta revolta e a negra Honorata e também esta moura torta medonha que conta histórias?
- A Bojuda?
- Sim, que nome tremendo, bem que o merece.
- Mas é liberta, não é?
- Pois que venham cá todas as milícias do Império, a gente de todas as armas, todos os vedores e ouvidores da Coroa, que à Baronesa de Pirapuama não haverão de
tirar seja uma parda velha, seja o que for!
- Lá isto não haverão.
- Pois então não posso eu castigá-la como bem me aprouver? Não me ofendeu ela, não ofendeu tão monstruosamente um homem de Deus, não abusou da inocência dos pequenos
e da estupidez de Honorata, em troca da comida que busca à cozinha todo o tempo e dos vinténs que nunca lhe regateei?
- A bem dizer, talvez não encontre apoio na doutrina.
- Não encontro apoio, Senhor meu? Quem me desaprova?
- Hum ... São Jerônimo, São Jerônimo. Sum cuique tribuere... É. Sum cuique tribuere, ibis, redibis, qui. . . quod.
- Diz isto o santo doutor, em tão precioso latim, que minhas poucas luzes não percebem? E se ajustam esses preceitos a tais casos?
- Se bem me recordo.
- Ai, sempre recorda bem, sacerdote abençoado, não é dos homens a sabedoria de Vossa Reverência e ouvindo-a todos os caminhos me parecem claros e todas as coisas
certas. Que indica a boa doutrina nestes casos?
- Uma penitência. Uma penitência que lhes ensinasse o mal cometido e mostrasse arrependimento aos olhos do Senhor.
- A isto aconselha São Jerônimo?
- E Santo Anselmo. Santo Anselmo ...
- Santo Anselmo! Pois lhes darei penitência! Ai, meu bom sacerdote, enviado da Providência ... Darei penitência aos pequenos também?
- Talvez não Felicidade Maria, que está mais pequetita, mal sabe repetir meia oração.
- Os pequenos, isto veremos, pelo menos às raparigas não lhes ficariam mal uns dois ou três rosários de joelhos e um pouco de abstinência. É pela sua própria
virtude, jamais outra vez as deixarei aos cuidados de Honorata. Honorata! E todos, enfim, menos Constantina, de quem já tirei a alforria e não quero que pague
pelos pecados da filha. já me vem alento, por que não penso eu mesmo as coisas que, ditas por Vossa Reverência, parecem tão fáceis? Vossa Reverência benzerá mesmo
a cola a meus santinhos? Ajudará a dispor as penitências? Que mortificações se fazem os frades penitentes?
Urinando sonorosamente num penico de porcelana, Perilo Ambrósio sentiu grande prazer. Só não fechou os olhos para ouvir-se esvaziando porque queria também apreciar
a espuma, que começava a refletir a luz da lamparina em cintilações brancas e douradas. E lá embaixo, o pescoço virado para cima em posição forçada, Antônia
Vitória não conseguia, apesar de estorcer-se para todos os lados, evitar que os jatos implacáveis sonora mijada sem fim lhe acertassem o rosto. E não só em Antônia
Vitória mijava ele, mijava em tudo, sentia que podia mijar em tudo o que quisesse, podia fazer qualquer coisa que quisesse. O enorme penico, com suas bordas de abas
caprichosamente recurvadas como as pétalas de uma açucena gigante, suas orladuras filigranadas e aparência quase alada, suas cenas ribeirinhas lhe cobrindo os lados
e o fundo em traços sutis e cores evocativas, vibrou como um sol em que chovesse, e Perilo Ambrósio não queria mais terminar de mijar. Mas terminou e passou
muito tempo com os braços derribados ao longo do corpo, o queixo encostado no peito, a espinha derreada, espremendo mais uma gota, mais outra gota, uma última
gota, uma gota que se apingenta como uma estalactite e hesita brevemente antes de cair.
Assim como estava, exposto e pingando, caminhou até a janela. Não se viam os sapos, não se viam nem mesmo o mar e as árvores, tudo estando encoberto por uma caligem
espessa. Muitas vezes tivera medo de escuridões iguais a essa, mas agora não tinha medo algum. Encostando a barriga no portal da janela, baixou ambas as mãos para
apalpar-se e logo sentiu que tudo embaixo se avolumava. Agora não ficava tão duro como antes, quando somente de pensar em alguns dos negros e negras da casa
o fazia querer explodir, retesado e doendo como se fosse destacar-se do corpo. As vezes, nem mesmo ficava completamente duro, mas se orgulhou da massa grossa
e rombuda em que passava a mão com delicadeza. Sopesou os ovos, esboçou um meio sorriso e, fazendo uma expressão que sabia que jamais faria diante de qualquer pessoa,
nem mesmo diante do espelho, começou a masturbar-se à janela, mal podendo conter a vontade de gritar e urrar, pois que se masturbava por tudo aquilo que era
infinitamente seu, os negros, as negras, as outras pessoas, o mundo, o navio a vapor, as árvores, a escuridão, os animais e o próprio chão da fazenda. Sim, podia
sair por ali nu como estava, a glande como a cabeça de um aríete irresistível, e podia fazer com que todos a olhassem e a reverenciassem e ansiassem pela mercê de
poder tocá-la e beijá-la. Imaginou-se suavemente prepotente, chamando ao colo e às virilhas as cabeças dos que o cercavam, com isso distribuindo bênçãos e felicidade.
E finalmente pegando a negrinha Vevé e, sem dizer uma palavra, atirá-la à cama, abrir-lhe as pernas, deixar claro que não queria que se mexesse e, passando cuspe
por aquela cabeça de carne inchada e embrutecida, deflorá-la de um só golpe, aguardando um estremeção de dor para impedir seus movimentos com um abraço paralisante,
sentir qualquer estalo de pele ou cartilagem se rompendo, pressentir que ela era rasa ou estreita e, empurrando-lhe os joelhos para cima, enfiar-lhe tudo com
um golpe rude que quase a lançasse contra a cabeceira, confirmando esse golpe, depois de penetrá-la até encostar os ossos dela em suas banhas, com mais estocadas
curtas, como quem trespassa, como quem empala, como quem gostaria de que a mulher fosse inteiramente atravessada e morresse com as vísceras destroçadas, morresse
bem no instante em que, quase sem precisar fazer mais um gesto sequer, gozasse dentro dela, senhor completo, senhor completo, levantando-se e limpando sangue e gosma
na camisola da negrinha. Ainda não tinha acontecido, mas ia acontecer, já havia ordenado que dispusessem tudo para ele ter a negrinha Vevé. Só não permitiu que dissessem
a ela, porque sempre havia o perigo de que Antônia Vitória viesse a saber e, principalmente, porque não podia dispensar o prazer de aparecer de repente diante da
negrinha e começar a tirar a roupa sem falar nada, desfrutando do medo ou espanto no rosto dela, ao ver brotarem das dobras dos calções os instrumentos de sua submissão.
Ela quase correra antes, quando pusera nele seus olhos de uma cor estranhamente clara para uma negra, arregalados e fugidios.
Chamara o feitor Almério, perguntara quem era. Neta de Dadinha. Sim, muito bem, quero fodê-la, é donzela? É donzela, vai pedir permissão para casar com Custódio
Arpoador, estão esperando o dia de Santo Antônio para falar com a baronesa. Melhor, melhor assim, quero mais ainda fodê-la depois de saber disto. Sabes como fazer,
não sabes, não me aprontes asnices. Quer que vá buscar a negrinha hoje, agora? Não, falo-te depois.
Falo-te depois, falo-te depois, repetiu Perilo Ambrósio de olhos fechados e pincelando a parede. Somente agora, as nuvens da noite cerrada deixavam aparecer algumas
estrelas. Lá do lado norte do céu, por trás da famosa constelação por uns chamada de Cisne e por outros vista como uma congregação de reis, a almazinha do alferes
lembrou de novo a luz de sua terra e de novo estremeceu de orgulho. E, como as alminhas desencarnadas não vivem no tempo, tudo para elas podendo ser presente, passado
e futuro, esteve no mesmo instante sobre as ondinas que nessa hora conduziam os trabalhos noturnos da maré, farfalhando pela praia da Armação do Bom Jesus. Massas
noturnas e de formas diversas das que teriam sob a claridade do sol, as casas e as árvores exibiam só um pequeno olho brilhante, na janela onde Perilo Ambrósio começava
a borrifar esperma na parede, em arrancos que lhe faziam dobrar os joelhos a intervalos curtos. A almazinha percebeu aquilo e tudo mais da noite com o já costumeiro
amor e, sem saber por quê, teve certeza de que seria ela quem um dia animaria a criatura de Perilo Ambrósio, Barão de Pirapuama, herói da Independência, construtor
da nação mais bela e forte do mundo, fonte de benquerença, fartura e paz. Pois era o seu destino de glória, iniciado quando habitara o corpo valente do Alferes Brandão
Galvão, abatido na defesa da terra e da liberdade, na brisa sem par da Ponta das Baleias. E comemorou como fazem as almazinhas nessas epifanias, riscando o ar de
traços e centelhas pelas beiras do Zodíaco, sumindo à distância entre uma estrela e outra e voltando para brilhar tão ligeiro que ninguém vê, ora na testa da
constelação do cavalo de asas, ora serpenteando entre as muitas coroas celestiais que aqui adornam o firmamento, a cada tempo do ano recompondo seus arranjos faiscantes
e dando razão para crer que tudo muda porém permanece, tudo permanecendo porém mudando, como é necessário para a vida. Regozijou-se muito a almazinha, virada numa
fagulha feliz e alheia a tudo que não fosse aquela alegria, e assim, bom para ela, não viu que, curvado e sem fôlego junto à janela, Perilo Ambrósio mergulhava a
cabeça na escuridão de fora e, sem nada que lhe ocupasse a mente, tinha no rosto tanta maldade indiferente, tanta crueza e tanta ausência de bom sentimento que sua
baba, se caísse, poderia matar as plantas rasteiras e sua vontade era apenas a vontade de que tudo existisse para si, a vontade que não se pode bem distinguir da
morte. Ninguém viu essa cara tão má, nem podia ver, ninguém pensou nela, nem podia pensar - e Perilo Ambrósio limpou o suor nas fraldas da camisa, lembrando
com satisfação que tampouco gostava de ninguém.

Engenho do Jaburu, 26 de fevereiro de 1809.

Quando Vevé vinha nascendo, Roxinha pensou que estava suando demais no meio das pernas. Era natural que suasse, porque o calor que saía do fogão onde ela enfiava
achas de lenha e equilibrava gamelões de barro convertia tudo numa fornalha. E também não soprava nem um arzinho pelas copas das caramboleiras e dos cajueiros, nem
mesmo os cabelinhos da cana moça se moviam e, nos matos, tudo quieto, soando só um tiziu de quando em vez, uma fogo-pagou, um zumbido de asas de besouros, uns estalos
de gravetos, capulhos pipocando sementes, a síbilância surda própria do silêncio nessas horas. E, debaixo dessa manta pegajosa e morna que tudo encapava, ela, tão
gorda, pejada e tendo de parar a cada instante para respirar mais fundo, já esperava que lhe corressem rios de suor pelo corpo, mas assim mesmo passou a mão entre
as coxas, para ver o que estava acontecendo. Sabia que o menino devia nascer a qualquer momento, mas não podia deixar de fazer serviço de cozinha mesmo no
domingo e, além disso, havendo já parido seis e tido três abortos, todos os seis vendidos logo depois de desmamados e os fetos jogados na maré junto com o lixo,
se aborrecia um pouco por ter de parir, ficava impaciente em pensar que haveria de novo um menino pendurado nos peitos, um menino que, como sempre, não seria dela.
Cheirou a mão, sentiu o fedor das águas do parto, baixou outra vez a mão e tocou na cabeça de Vevé, que começava a aflorar como se alguém a estivesse empurrando
lá de dentro. Sem dar por isso, não soltou a acha de lenha que tinha na mão esquerda, tentou sair correndo e segurando a cabeça da menina, mas conseguiu somente
dar alguns passos com as pernas esquadradas e caiu sentada logo depois da soleira, a filha lhe escorrendo pelos baixios. Encostou-se na parede, dobrou um joelho
para cima e quase não precisou puxar a menina, porque ela vinha para fora coleando e já queria começar a chorar.
Dadinha chegou logo depois e ainda ajudou as outras a amarrar o umbigo e enterrar as secundinas conforme todos os preceitos e disse que estava muitíssimo satisfeita
com tudo aquilo. Em primeiro lugar, a menina tinha nascido num domingo como ela, era uma coisa ótima. Em segundo lugar, apresentava um sinal igual ao do pai, era
o primeiro dos filhos de seu filho Turíbio que nascera com aquele sinal. E num domingo, bom, muito bom, muito bom. A mancha na testa, um pouco mais clara do que
a pele, já se podia ver bem na criança, assim mais ou menos em riba do olho direito, quase como no pai. Sinal esse, contou Dadinha mais uma vez, que vinha
da caboca Vu e que era um sinal que nela muitas vezes se acendia, quando ela lutava. Mas nunca se acendeu em Turíbio Cafubá, ih-ih-ih, riu-se ela. Cuspiu um
pouco do tabaco em pó com que estava areando os dentes, escrutinou a cusparada com atenção. Mas sim, mas sim, continuou misteriosamente, essa minha neta vai dar
coisa, hum-hum. Com esse sinal: quer dizer, tudo continua e é por ela que vai continuar. Quando lhe perguntaram se podiam ter isto na conta de verdade escrita, revelada
pelas entidades ou desenhada nas conchas e contas, respondeu que mais bem era uma coisa que ela queria, não bem uma e ela sabia. Mas acabava dando no mesmo, estava
com de explicar.
O nome que vão botar nela eu não sei, quando é mulher eles não escolhem muito, nem marcam a ferro, nem nada - disse Dadinha pondo as mãos nos quartos, como anunciava
sempre seus discursos. - É até uma coisa para dizer, porém sabendo eu que é como as outras, que entra por um ouvido, sai pelo outro porém eu digo: quando disserem
"Nhô Felisbérto Góes farinha é senhor muito bondoso", vocês digam: "é, é". E quando disserem: "Nhá Ambrosina Góes Farinha é senhora muito bondosa", vocês digam "é,
é". Agora, sem dizer nada, se lembrem que eles são bondosos porque não ferram à brasa as negras, só ferram os negros. Ha-ha! Acho muita graça em mecês, muita graça,
acho muita graça em quase tudo. Bom, certo. Bom, não sei o nome branco dela, o daqui eu já sei qual é. Vou dizer: é Daê. Daê. Também pode ser Naê. E vai se criar,
se vê, se vê bem. Isto mesmo contaram a Turíbio Cafubá, que começou a dançar assim que ouviu a notícia, antes até de pular para fora da canoa onde trazia um cesto
de caranhas, pampos, sambulhos e peixe miúdo, fisgados e tarrafeados desde as três horas da manhã.
- Daê-ê! - gritou, saudando a filha como se ela fosse as nuvens que passavam por cima da praia. - E tem a marca na testa, apois?
Desembarcou com o balaio equilibrado na cabeça, fez uns passos dentro da água que lhe chegava aos joelhos. Pariu ao vento, foi? Tá muito certo! Homem de boa fortuna,
não? Era para ser capado, permaneceu inteiro, sempre quase-quase pela última horinha. Era para ser vendido, terminou ficando no engenho da família cuja marca
lhe ferraram no peito, gente bondosa e de caridade, que tratava bem o negro bom e castigava com leveza. Era para não poder mais com mulher, 60 anos com quase toda
a certeza, mas enfiava um por ano somente em Roxinha, que tinha e não agüentava com ele, e mais uns quinze tinha enfiado em outras, deve estar tudo criado
por aí, hum-hum, que é que me diz, hem? Homem de boa fortuna, sim senhor, ali estava peixe de primeira, era todo seu, o senhor não deixava? Nhô não deixava, quando
não tinha trabalho na caieira ou outro serviço, Nhô não deixava que ele fosse pescar e nunca que queria o peixe?
Ha-ha-ha! Aqui é Turíbio Cafubá, meu filho, assim chamado porque de preto quase que fica branco do pó e da queima do cal, quase fica cego, quase fica todo cortado
por dentro, mas não ficou, homem de boa fortuna! E Daê não nasceu no domingo, para ele poder dançar o dia todo, com o espírito que veio da terra do Daomé, ou senão
do Maomé? Daê-Naê-ê! O peixe, só levava uns para fazer um caldo de resguardo para Roxinha, para fazer frito, fazer escaldado com pirão de copioba e quiabo, maxixe,
abóbora e bananinha-da-terra - sim senhor! -, fazer de comer para todos! Que vão pegando logo o peixe, que vão tomando, que vão levando!
Na senzala, Turíbio entrou depois de muitos meneios e idas e vindas, risadas debochadas, mesuras aos presentes, algumas cantigas cujas palavras não mais entendia,
mas repetia com a expressão copiada dos velhos que as ensinaram. Cafubá-ê! Então? Como é, então? Quer dizer que é isso, bem, que me diz mecezinho? Viu tu, menina,
agora se apreste aí, que também faço uma em você, é pam-pam-pam! Mais mulher aí querendo cria? Olerê, deixe comigo! Aqui é assim, sem trastejo, sem errada, sem resvalada
- zup! -, tome-lhe filho!
Dadinha, sentada num tamborete com as pernas escarrapachadas e sacudindo o corpo de riso, disse que deviam ter dado miolo de boto a ele em pequeno para ter ficado
maluco assim, já velho e ainda sem nenhum juízo. Mas ele não. ligou, deu dois saltos e caiu com um joelho no chão diante da menina, que estava quieta e enrolada
em cima de uma esteira. - Naê-ê! - gritou. - Raínhazinha de Aiocá! E o sinal!
- E dizendo bobagem - reclamou Dadinha.
Mas ele de novo não ligou e, como se houvesse muito mais música ali do que o som de seus calcanhares batendo no chão, das palmas que repenicavam em mil compassos
e do que lhe saía da boca em estalidos de língua e beiços e melodias de garganta assemelhadas a solos graves de flauta, esticou os músculos, agora retinindo
de tensão e suor, e dançou. Muitos ali dançavam e eram admirados quando, nas festas em que podiam fazer música, reviravam os olhos e saltavam loucamente pelo
barro batido, flutuavam no ar, faziam com que seus corpos fossem muitas coisas ao mesmo tempo, traziam fogo aos corações dos outros e, nessas horas, eram divindades.
Mas nunca se viu tal dança como a de Turíbio Cafubá celebrando sua filha, pois ele ficou transparente logo muito preto e logo estava em toda parte, às vezes parando
e vibrando como uma asa de cigarra, às vezes se dissolvendo em tantas formas que as pessoas não sabiam em que acreditar, e então todos os ritmos que brotavam de
sua figura eram ritmos de alguma coisa acontecendo dentro de cada um, sangue pulsando, dedos se abrindo, fôlegos tomados, tudo o que pode ocorrer no corpo, tudo
a que o espírito se entrega. Ninguém soube quanto tempo durou a dança de Turíbio, nem mesmo ele, cujo rosto agora singrava muito à frente do corpo da mesma forma
que a carranca de uma canoa de guerra, enquanto, curvado e empunhando a araçanga, - porrete com que matava os peixes grandes na borda da embarcação, ele vinha com
uma perna independente da outra, cada qual marcando o próprio ritmo e andando da própria maneira, na grande dança de combate de sua nação. Os olhos esbugalhados,
o queixo esticado, parou um instante, mas no mesmo instante todos ouviram os tambores desabalados da orquestra de batalha e ele, ninguém jamais podendo esquecer
aquela visão, dançou em homenagem à filha como os guerreiros mais orgulhosos de que se tinha notícia, esse orgulho espelhado em todo gesto, toda martelada
de pé, todo olhar levantado, todo ombro erguido, todo passo à frente, todo agitar de braços e mãos, tudo com que se pode exibir altivez.
- Aaaah! - gritou outra vez, parando os tambores invisíveis diante da menina, a boca muito aberta, o braço direito levantado e encompridado pela araçanga. - Ara
umbó! Ará umbó, vejam quem chegou! Viva! Então, minha menina de pesca, quando vais pescar com o pai?
Dadinha perdeu quase todo o ar de riso e disse a ele que estava bem, que dançasse e festejasse, mas que não ficasse tendo fantasias, que fantasias a nada levavam.
Dos filhos dele, mais de vinte, mais de sabe-se lá quantos, nunca, assim ou assado, tinha ficado um por ali. Mesmo ficando, não era dele, era do senhor, largasse
ele de não dizer coisa com coisa e fosse levar aqueles peixes para alguém tratar lá dentro e deixasse a menina e Roxinha descansar. Ele, entretanto, não se
conformou e, como se fosse de noite e o tempo não existisse, contou uma história de trancoso.
Era uma vez, disse, um negro cativo fumbambento de cal que fez para mais de vinte filhos, porém não conhecendo nenhum, que todos levaram embora logo cedo. Um
belo domingo, está esse negro cativo fumbambento de cal puxando suas linhas, rolando sua tarrafa, ajuntando suas tralhas de pesca, quando que chegam na praia e falam
que nasceu essa filha de estrela na testa, com um nome que Dadinha vó-gangana logo descobriu ser Daê, podendo também ser Naê. Esse negro fumbambento chega assim
e, quando que olha nos ares, está o grande espírito das danças que veio da terra do Daomé, podendo ser Maomé, espírito esse que garra esse negro fumbambento
e, entre uma dançada e outra, lhe cochicha a seguinte outra história: ah, não sabe mecê, negro velho fumbambento de cal e pescador de peixe, essa menina você assunte
bem, não sabe? Muito bem, a menina nasce, aprende a andar e todos os dias vai com o pai para o trabalho na caieira e aprende todos os trabalhos da caieira. E, como
o senhor é muito bom, também vai mais o pai pescar, e o pai, com muita paciência de pai, ensina a ela a paciência do pescador em todos os seus segredos, que são
muitos e um vai abrindo para outro, que vai abrindo para outro, que vai abrindo para outro, de maneira que o pescador nunca acaba de aprender, mas aprende mais do
que quem não pesca. Muitas coisas sabe quem pesca, coisas que não se pode contar, só pescando. Muito bem, esse pai negro fumbambento dá a mão à filha e conversam
longas prosas, em que o pai se mostra mais sabido e mais qualquer coisa boa que os outros, sendo isto necessário para todo pai e muito mais para o pai que é escravo
e, portanto, precisa de todo pedaço de orgulho que possa catar. O que esperar da vida esse pai não ensina, porque não sabe, porém ensina todos os cipós de tecer
redes e cestas, todas as dentadas especiais dos muitos peixes do mar, todas as marcações da água e as qualidades dos ventos, todas as coisas que aprendeu sozinho,
palestrando com a maré. No dia de São Francisco Xavier, esse pai negro velho fumbambento vai pedir permissão para ir na pesca do xaréu. O mestre do mar lhe responde:
pois que sim, pois que então fiquem ele e filha junto com as mutucas da rede, que são os pretos que ajudam quando a rede arriba à praia com seus peixes puladores,
mutucas porque de longe aparentam moscas no pescado. Mas a menina não se importa, nem o pai velho, de ser mutuca da rede, mas tanto aprende essa pesca que de mutuca
vai a atadora, de atadora vai a mestre de terra, ou senão moça embarcada. E então esse pai mais essa filha, porque sempre existe um outro tempo dentro do tempo,
vão viver felizes para sempre, é o que estou lhe dizendo. Ali estão, de mãos dadas, na beira do mar, o pai só falando, falando, falando e ela, como todas as filhas,
gostando do pai assim mesmo, não admitindo que se diga mal do pai e tendo paciência com o pai e amolecendo a comidinha para quando ele ficar sem dentes, segurando
a mão para quando ficar sem pernas de andar, descrevendo as coisas quando ficar sem vistas de ver, prestando atençao quando ninguém mais prestar, gostando do pai
assim mesmo, assim mesmo, é isso mesmo, é isso mesmo, quem não apreciou a história é porque não tem uma filha, estrelada ou sem estrela.
Dadinha nunca chorava e por essa razão não chorou, mas lhe veio um aperto no meio dos peitos. Talvez sentisse uma pequena felicidade, porque o pai via na menina
um futuro e ela também via, embora diferentes e embora não pudesse haver dois futuros e portanto um deles estava errado. Olhou o filho, que parecia enfeitado
de miçangas pelas gotas de suor, teve pena dele e teve orgulho, achou que era bonito em sua insensatez e seu delírio de línguas e santos misturados, conseguiu somente
suspirar. E isso até porque já sabia, mas não tinha falado a ninguém por não querer ser uma velha agourenta, que logo viriam dois ou três agregados a mando de Nhô
Felisberto, buscar Turibio para chicotear e deixar dormir no tronco em pé, porque ele tinha dado o peixe antes de falar com Nhá ou com Nhô. Não era por nada, era
para não permitir o mau exemplo, isso acontecia sempre, tão certo quanto o amanhecer dos dias.
Como realmente se deu logo depois e Turibio só gemeu, na hora em que lhe baixaram o bacalhau, para evitar que chibateassem mais, estava um pouco cansado. Queria
dormir logo, já sabia como fazer para não cansar demais, com os pulsos presos acima da cabeça e sem poder amolecer as pernas durante o sono para não acordar
quase com as mãos arrancadas. Castigo leve, não lhe tomaram o privilégio de pescar, são bons cristãos, boas pessoas que sabem do que ninguém mais sabe ou imagina
era só porque ele devia ter pedido consentimento para distribuir o peixe, pois saber que ele ia ser dado não dispensava o pedido, essas coisas não se pode deixar
passar, se fosse assim onde se ia parar? De fato, pensou Turíbio, percebendo que lhe corria algum sangue pelas costas cortadas e sacudindo a cabeça molhada depois
que lhe atiraram dois baldes de água do mar, é isso mesmo. E ficou até satisfeito, enquanto se preparava para dormir do jeito que tinha aprendido com a prática,
porque achou que havia previsto bem tudo o que ia acontecer e adormeceu sonhando com esses acontecimentos.
Dadinha, de olhos abertos no escuro, pensou que certamente não veria nada do que ia suceder com a menina, pois que morreria aos cem anos, sempre soubera. Mas
aquela filha mais nova de seu filho mais novo e temporão tinha um destino forte, isto se podendo pressentir na treva pesada da senzala, pertinho do barracão onde
Turibio Cafubá, amarrado e com as costas ardendo, deu um sorriso e, mesmo dormindo, concordou consigo que era um homem de boa fortuna.

Armação do Bom Jesus, 11 de junho de 1827.

- Timonê!
Amleto Ferreira teve um sobressalto. Sabia que devia haver gente começando a guarnecer as chalupas àquela hora, pois ia amanhecer e existia quem, mesmo assim
quase sem luz, já pudesse distinguir ao longe os tufos de nevoeiro feitos pelos esguichos quentes das baleias, pouco antes de o sol se alastrar sobre as águas da
grande baía. Era hora de trabalhar, as guarnições se aprestavam para sair ao largo. Mas se assustou de qualquer forma, talvez porque o vento tivesse mudado a direção
de repente, ou talvez ele estivesse distraído, apequenado entre as embarcações esteadas em terra adernando nas estroncas, as ripas expostas feito costelas de bichos
semidevorados, as cracas dos cascos uma massa esbranquiçada salpicada de pupilas, os espeques armas fincadas na areia, o vento esgueirado pelos rombos do madeirame
um arauto de fantasmas.
- Cafuletê!
Pelo meio das traves descarnadas da lancha Nossa Senhora da Penha, outrora gloriosa e engalanada nas procissões marítimas e agora somente um esqueleto povoado
por baratinhas-d'água e aratus, viu na curva da praia a silhueta do mestre de terra arrebanhando a guarnição. O cafuleteiro, um negro muito magro que corria como
se tivesse dificuldade em levantar os pés, saiu dos matos pela trilha dos cajueiros, carregando dois panelões de ferro e uma braçada de lenha. Pôs tudo no chão ao
chegar junto do mestre, enfiou o molho de lenha numa das panelas e se retesou quase em posição de sentido. Dez ou doze figuras, os seis moços de embarcação com seus
gorros de serapilheira azul, o timoneiro, o moço das armas, o mergulhador, o cafuleteiro e o mestre de terra, parado como uma estátua.
- Balê balê balê ajô balê! - pareceu dizer o mestre ao timoneiro, levantando o braço. - Poadô! Alpuadô!
O timoneiro correu para o telheiro de ver o peixe, sumiu na escuridão lá de dentro e voltou acompanhado de mais dois negros, um homem e uma mulher. Pelo chapéu
de palha de abas arriadas e pela estatura, Amleto reconheceu o negro Custódio Arpoador, mas não reconheceu a negra. O mestre de terra fez mais um aceno, falou outras
coisas na língua dos pretos. Amleto sentiu uma irritação repentina.
- Ora, diabo! - resmungou, dando o primeiro passo para atravessar o bojo devassado da Nossa Senhora da Penha, em vez de rodeá-lo como sempre fazia. - Eu já disse,
eu não já disse? Eu já disse! Essa negralhada nunca ouve o bastante, nunca ouve o bastante!
Teve gosto em debandar as baratinhas, os gorés, os grauçás e os outros bichinhos que à sua passagem transformaram a madeira travejada e defunta numa coisa enxameadamente
viva, entrando e saindo de buracos e locas e dando a tudo uma nova consistência a cada instante. Estava ali às quatro da manhã somente por precaução, porque queria
fazer uma última visita a todos os pontos a que levariam os convidados, pois seria ele quem, a um gesto imperioso e enfastiado do barão, teria de explicar todo o
funcionamento da Armação, do Engenho, das plantações e de tudo mais de que quisesse informar-se o Cônego Visitador ou qualquer dos outros hóspedes. Ensaiara pequenos
ditos e observações e esperava rememorar com a facilidade habitual coisas aprendidas nos livros de boa Gramática e Retórica, nos cartapácios bolorentos que se obrigara,
tantas e tantas noites a fio, a ler com a testa perolada de suor e a mente tresvariada, nas conversas e discursos a que prestara atenção tão esforçada, os brocardos
latinos vindos depois de capitulares repolhudas, decorados em imitação da pronúncia do cura de Santo Antônio Além do Carmo.
Faria uns torneios hábeis, usaria boas palavras, daquelas que coletava com avidez para escrever num livrinho de notas e passar o dia repetindo em voz alta. Nada
mais era esta gleba, Senhor Monsenhor, que uma arrotéia agreste e inculta, antes que nela se assinalara o arrojo do Senhor Barão de Pirapuama, cum dilectione hominum
et odio vitiorum, nas palavras inspiradas daquele que terá sido quiçá o mais augusto entre os Santos Doutores Latinos. Ora, pois, à jusante deste córrego ... E agora,
não compreendia bem por quê, no momento em que imaginava sentenças floridas e judiciosas que bem demonstrariam sua capacidade, apagando o desastre acontecido na
viagem e justificando sua condição social antes já quase indiscutível, a fala daqueles negros baleeiros, o som daquelas palavras que mais pareciam ruídos dos matos
e dos bichos, o jeito desempenado do arpoador, os movimentos bailarinos dos outros pretos, tudo isso fazia com que ele, abrindo à sua frente um leque derramado
de caranguejinhos, sentisse o rosto frio, o coração batendo e a garganta estreitada de raiva, enquanto pisava forte a areia mole em direção ao grupo.
Então que era isso, que estava acontecendo aqui?
O mestre, que como todos os outros tinha parado de falar assim que a presença de Amleto foi sentida, fez uma expressão perplexa.
Providenciavam o embarque, estavam guarnecendo a chalupa, era a última a sair, as outras já haviam zarpado - sim, que estava acontecendo?
- Não admito! - gritou Amleto. - Não admito!
Tinha as veias do pescoço inchadas, falava levantando-se nas pontas dos pés e baixando outra vez a cada grito, sacudia um dedo em riste apontado para os pretos.
O cafuleteiro, nariz muito aberto, olhos papocados e dentes falhados arremetidos para a frente, grugulejou igual a um peru, mudou a perna de apoio com um requebro
exagerado, revirou os olhos e fungou ruidosamente.
Amleto correu na direção dele, parou quase dançando e, embora tivesse de virar o pescoço para cima por causa da altura do preto, cravou os olhos nele com autoridade.
O preto o fitou algumas vezes, desviando o rosto e em seguida voltando a olhar para ele, fez uma cara de choro e, quando parecia que ia desmanchar-se em pranto por
todas as pregas da cara, grugulejou de novo, exibiu e recolheu sonoramente a língua e se perfilou.
- Hem? Hem? - gritou Amleto para o mestre. - O que é isso? Hem?
- Ele é variado da idéia - explicou o mestre, e o cafuleteiro sorriu abanando a cabeça.
- Não sabe que posso mandá-lo à chibata por se comportar pior do que um animal?
- Ele se chibateia ele mesmo. Ele gosta.
O cafuleteiro ouviu isso como uma deixa, ficou num pé só, curvou-se feito um pernalta para a panela onde guardara a lenha, apanhou uma acha fina e, dando uns
ui-uis chupados e terminados em assovios, começou a bater em si mesmo, a princípio caoticamente, depois num ritmo sincopado, que completava com pulinhos.
- Pára! - gritou Amleto, mas o cafuleteiro, as íris parecendo apenas pontinhos pretos no branco dos olhos saltados, sorriu cerimoniosamente, fez uma curvatura
funda varrendo o chão com as pontas dos dedos e bateu a vara nas costas com tanta força que, quando trouxe o braço de volta, um chuvisco de sangue fez um arco no
ar, algumas gotinhas caíram no pince-nez que Amleto segurava trêmulo à frente do rosto. - Pára, pára!
- Ele não entende direito a língua dos brancos - explicou o mestre, enquanto o cafuleteiro, numa dança de longas pausas, se fustigava por todo aquele pedaço de
praia, dando uis e ais e repartindo as bordoadas com um companheiro invisível.
- Quantas vezes tem-se que dizer para usar a língua cristã, nunca essa palra de bichos que não se percebe e não se pode permitir?
- Sim, mas ele não entende.
- Ele não nasceu aqui?
- Nasceu, nasceu. Mas quase não entende a fala, não entende nada, é variado.
O cafuleteiro parou de pular e de se vergastar tão subitamente quanto tinha começado, ficou em pé com os braços amolecidos e, sem que mais nada em seu corpo demonstrasse
o que estava acontecendo, explodiu em soluços e choro, interrompidos por sorrisos breves e pelas lambidas com que recebia as lágrimas que lhe chegavam à boca. E,
apesar de imóvel, não deixou de fitar obstinadamente o vulto pequeno de Amieto para onde quer que ele fosse.
- Então? Ele parou! - disse Amieto. - Então?
- Não foi porque vossemecê mandou. Ele é variado, ele ...começou a explicar outra vez o mestre, mas o cafuleteiro emitiu novo glu-glu, ainda mais alto do que
os primeiros.
- Ele pensa que é peru?
- Ninguém sabe, ele não diz. Ele...
- Não quero mais saber. Diz-lhe que pare com isso. Como é que se leva um tarouco destes num serviço de responsabilidade?
- Ele é bom cafuleteiro, ajuda em todo serviço, faz boa comida. E, se não for cafuleteiro, ele não faz mais nada, não tem quem obrigue, ele só faz cafuletar.
O preto agora o olhava como se o estivesse vendo pela primeira vez, mudando volta e meia de postura no jeito de quem avalia alguma coisa, fechando um olho, inclinando
a cabeça, estalando a língua.
- Bem, que está esperando? Não já te disse que o fizesse parar? Anda lá com teu serviço, já está amanhecendo, isto vai muito atrasado!
O mestre hesitou. Não havia o doutor chegado ali esbaforido e tremendo de raiva, quando o ouvira falar língua de preto? Então? O cafuleteiro só entendia língua
de preto, não existia outro meio de conversar com ele. Amleto, mãos nas ilhargas com os cotovelos para trás, não sabia que aparência assumir, terminou rodopiando
e fazendo um gesto de cabeça.
- Muito bem, fale com ele nessa língua de animais. Andem, aprestem-se, este serviço está muito mal, muito mal, assim vai mal!
O mestre cantou as sílabas estranhas que faziam Amleto querer tapar os ouvidos e quase gritar para não escutá-las, o negro imediatamente reuniu seus panelões,
sua lenha e seus apetrechos e correu para o molhe, onle a chalupa atracada afrouxava e retesava os cabos no balanço da maré. Os outros permaneceram como estavam,
atentos a Amleto.
- Anda, anda! Mas que bando de moleirões, que gente parva e preguiçosa, anda!
Seguiu os negros, que agora se apinhavam no molhe antes de pularem para a chalupa, mediu o passo para não torná-lo nem muito apressado nem muito lento. Caminhou
sobre as pranchas do pontão sem olhar pelas bordas, indo tanto pelo centro quanto não denunciasse em demasia o medo de cair na água. Lá dentro da chalupa, um barco
esbelto e longo de quarenta pés e duas caras, pois que seu trabalho requer que popa e proa tenham a mesma construção externa, a guarnição tomava seus lugares e de
cima se via um bailado preciso e calmo. Como se estivesse em terra firme e não pisando aquele casco sem quilha que às vezes parecia não emborcar apenas porque preso
aos cabos, um negro amarrou um pedaço de estopa a cada chumaceira, equilibrando-se para fora num pé só. No banco de arvorar, o mestre de mar seguia os movimentos
dos outros e alisava os cabos, o gurutil da vela ainda baixada e as costuras da verga de biriba que logo ia subir mastro acima, acompanhava a contagem e arrumação
dos arpões nos guarda-lanças, aprovava com as vistas a rotina do cafuleteiro preparando a areia da caixa que servia de fogão para arrumar-lhe em cima a lenha, limpando
a cuia de medir farinha, ajeitando as panelas e os anzóis que trouxera para pescar de arrasto. O arpoador sentara no banco da volta, quase na popa, batendo a mão
na madeira empretecida de calor por onde se enrolava o cabo do arpão. E logo, todos prontos, um moço pulou de volta ao molhe, para soltar as amarras e cair de novo
na embarcação.
Mas parou diante de Amleto, olhou para ele e para o mestre, que, lá embaixo, parecia não saber o que fazer. Amleto, experimentando pela primeira vez a visão próxima
da saída de uma chalupa guarnecida e equipada para matar os grandes bichos que com uma rabanada demoliriam uma casa, se admirou em sofrer inveja daqueles pretos
que para ele agora, muito a seu contragosto, se transformavam em guerreiros expedicionários, escravos mas com poderes que ele não tinha, e achou no último instante
que devia falar qualquer coisa, dar alguma ordem, passar alguma instrução imprescindível, mostrar-lhes o que realmente eram. O moço fez menção de curvar-se para
soltar a laçada da amarra, parou a meio caminho, empertigou-se olhando para ele.
- Atenção - bradou ele, e todos os pretos da guarnição obedeceram, - Atenção!
Porque Amieto estava contra o sol que já vinha aparecendo pela frente do Recôncavo, o mestre pôs a mão espalmada na testa e esperou. Esperou muito tempo, a celagem
da manhã se desdobrando, a água se tornando vermelha e dourada, as nuvens esfiapadas se desmanchando, os passarinhos principiando toda sorte de atividade, a maré
chapinhando como um relógio. Amleto inspirou fundo. Que entenderiam eles do que lhes podia dizer, que sabiam além daquilo que faziam?
- Muito bem - disse finalmente. - Podem ir!
Mas, de alguma maneira, percebeu que não era nem podia ser necessário ali, que não havia acontecido nada que pudesse contar sem mentir, que o ar ficava um pouco
musical quando, os remos recolhidos como as pernas de um peguari, a chalupa baleeira Liberdade, já livrando a pequena barra alegre feito um cabrito, içou sua
vela quadrada e pardacenta, cambou a bombordo, endireitou e fez rota para o bojo da baía, onde já se viam com facilidade os contornos das baleias parecendo vulcõezinhos
móveis fraldejando a costa.
Falarei desta partida durante a visitação, resolveu Amleto, pensando se não haveria uns versos de Virgílio, sobre heróis a fazer vela, anotados em seu caderno.
Poderia decorá-los antes das sete horas, quando sairia a excursão? Sim, mas já se lembrava deles vagamente, pois pedira ao pároco para anotá-los depois de um sermão
na missa do Senhor dos Navegantes. Sim, lembrava-se bem: achei tanta evocação na força desses versos, Reverendo Padre, que lhe peço vênia de copiá-los para
minha elevação. Stabant orantes primi transmittere cursum, tendeban ... como era mesmo?
E qm francês, nada em francês? Não, nunca ouvira ninguém falar francês, tinha somente uma idéia nebulosa de como pronunciar as palavras. Não, latim. O latim,
afinal ... Stabant orantes! E caminhou tão entretido em seu exercício, que já tinha percorrido de volta metade da extensão do molhe, quando levantou a cabeça e viu,
chegando à praia, a negra que saíra da casa do peixe em companhia do arpoador. Devia ser jovem, tinha a cintura esguia, os quadris largos e bem-feitos, as pernas
compridas - como seriam os peitos? Amleto sentiu um estremeção, a boca salgada, as virilhas quase estalando, queria olhar os peitos dela, podia vê-los, pegá-los,
fazer com eles o que quisesse!
- Siu! - chamou, e passou a trotar pelo molhe sem se dar conta. - Siu! Tu aí!
A primeira coisa que notou, quando ela se voltou, foram os cabelos. Eram diferentes dos cabelos da maioria dos negros, não eram pixains nem lisos, desciam em
torno do pescoço e para os lados como um xale felpudo. O rosto, sim, o rosto era muito bonito, os olhos grandes e pestanudos, o nariz de asas esculpidas, a boca
e o queixo fortes mas não hostis, um sinal estranho na testa. E os peitos, de que Amleto não conseguia desviar o olhar, levantavam a bata de tecido cru, eram bichos
vivos debaixo do pano.
- Quem és, como te chamas?
- Venância.
- Ah, sei, já te vi por aqui faz muito tempo, pescando com aquele preto abobalhado, como se chamava ele?
- Turibo, Turibo Cafubá, meu pai.
- Teu pai? Que é feito dele?
- Morreu faz anos.
- Tua mãe, tens mãe?
- Minha mãe deram como cozinheira.
Embora ela tivesse o rosto severo e mirasse em frente quase com dureza, Amleto ficou ainda mais excitado pela voz grave e feminina, as calças estourando da vontade
de tocá-la, e chegou muito perto dela, que não se mexeu nem alterou o semblante.
- Quero ver teus peitos.
Ela não disse nada, continuou como estava. Com uma ansiedade insuportável, ele levantou a bata, viu trêmulo a barriga e o umbigo aparecerem primeiro, quase arrebenta
quando, primeiro o esquerdo, depois o direito, os peitos bambalearam um pouco por causa da puxada para cima e se aprumaram em curvas delicadas, os bicos apontando
com leveza para cima, o rego entre eles coberto de uma penugem secreta. Amleto ofegou, quis gritar por tê-los assim tão perto, tão visíveis, tão tocáveis - como
dizer o que se sente?
- Vou pegar neles - disse, e ela não respondeu.
Devagar inicialmente, depois como se quisesse transformá-los em massa de pão ou fundir com eles os dedos, apertou os peitos de olhos fechados, curvou-se e chupou
um e outro com toda a força, enchendo a boca tanto quanto podia.
- Não sente nada? - perguntou, afogueado e enlouquecido, beliscando entre os polegares e os indicadores cada um dos mamilos.
Afastou-a segurando-a pelos ombros, as dobras da bata se multiplicando sobre os peitos expostos. Sentindo que estava pálido e vermelho ao mesmo tempo, suando
muito no rosto e nas pernas, estendeu uma mão espalmada e mostrou a ela a braguilha intumescida. Ela acompanhou o gesto com os olhos, sem mudar de expressão.
- Vês? Vês? Vês como fico por ti?
Mais uma vez ela não disse nada e, puxando-lhe a mão inerme para esfregá-la por cima da braguilha, ele ia ordenar: "aperte, aperte!", quando um estertor invencível
lhe constrangeu o escroto e, sem poder abafar os gemidos, escorregou as mãos pelos braços dela abaixo e terminou de gozar sentado no chão, quase deitado, as pernas
somente aos poucos deixando de estertorar.
- Posso ir? - perguntou ela, com a voz tão indiferente quanto o rosto.
Ele não acertou a responder, teve vergonha de olhar para cima, fez um aceno apressado antes de levantar-se e ajeitar-se. Ela baixou a bata por cima dos peitos,
deu-lhe um puxão leve para cobrir a barriga, virou as costas e foi andando sem pressa, em direção à trilha dos cajueiros.
Enfiando afobadamente um lenço por dentro das calças, Amleto inspecionou-se e achou que tinha tempo de sobra para voltar à casa e mudar de ceroulas.
Muitas coisas neste mundo não podem ser descritas, como sabem os que vivem da pena, azafamados entre vocabulários e livros alheios, na perseguição da palavra
acertada, da frase mais eloqüente, que lhes possam render páginas extras de prosa à custa de alguma maravilha ou portento que julguem do interesse dos leitores,
assim aumentando sua produção e o pouco que lhes pagam. Recorrem a comparações, fazem metáforas, fabricam adjetivos, mas tudo acaba por soar pálido e murcho, aquela
maravilha ou portento esmaerendo, perdendo a vida e a grandeza, pela falta que o bom verbo por mais bom não pode suprir, qual seja a de não se estar presente ao
indescritível. Nas minudências da intriga e do enredo, amores dificultados, maldades contra inocentes, dilemas dilacerantes, azares do Destino, coincidências engenhosas,
surpresas bem urdidas, arroubos de paixão e tudo o mais que constitui justa matéria dos romances e novelas, nisto sai-se ele menos mal, conforme sua destreza no
ofício, sendo esses enredos e intrigas os mesmos desde que o mundo é mundo. Como, porém, descrever um cheiro? Um cheiro não, este vapor fatal, este miasma fabricado
nos infernos, este fartum de coisa putrescente, de coisas rançosas, coisas gangrenadas, coisas azedas e repulsivas, coisas insuportáveis de imaginar, agora que o
vento se encana por onde a carcaça da última baleia congrega nuvens de urubus e as caldeiras de fazer óleo baforam lufadas encardidas de uma fumaça impossivelmente
fedentinosa. Os dois mais setenta fedores bem definidos, que afligiram o poeta na cidade de Colônia? O cheiro do famoso ovo de duzentos anos? O cheiro das cocheiras
de Áugeas no sol a pino?
Certamente tudo isso, mais a inhaca de seiscentos demônios, começa agora a envolver o cortejo sóbrio e compassado que lá vem dobrando o fim da longa senda que
desce da casa-grande e tomando o caminho de terra paralelo à praia. Na frente, em cadeirinhas de arruar iguais, rústicas como convém aos utensílios do campo,
mas nem por isso menos confortáveis tanto para passageiros quanto para negros carregadores, vêm o Cônego Visitador e o Barão de Pirapuama. Antigamente essas cadeirinhas
tinham apenas quatro braços, fazendo com que se usassem somente dois negros, ou quatro ocupando cada só um braço, tanto uma hipótese quanto outra bastante incômodas
para todos, principalmente em marchas mais longas e acidentadas. Por isso o barão encomendou a seu mestre carpina que lhe fizesse de boa madeira essas cadeirinhas
cujos braços, à frente e atrás, se bifurcam em tal disposiçao que quatro negros, sem atropelo ou desconforto, podem transportá-las usando suas oito mãos. E assim
mesmo vêm o cônego e o barão balançando no compasso de suas parelhas, circundados pelo séquito dos convidados, que caminha a pé, com Amleto destacado, explicando
todo o percurso em estilo e gestos de orador. Já os pretos das caldeiras os vêem chegando ao longe, quando o cônego levanta os braços e o cortejo pára.
- Baixem, baixem! - ordenou o barão, assim que os pretos se detiveram. - O monsenhor sente-se mal?
Não, não se sentia mal o monsenhor. Mas, pensando bem, talvez sim. Que cheiro tremendo era aquele, cada vez mais forte e avassalador, que vinha entremeado por
bulcões de fumaça ocre, igualmente mefítica? Ouvira e lera relatos sobre os padecimentos dos capelães obrigados por dever sacerdotal a encomendar as almas
dos defuntos de guerra e muitas vezes tivera pesadelos em que se horrorizara com a fetidez inimaginável dos campos de batalha, mas nada do que pudesse haver
sonhado e muito menos sentido podia ombrear-se àquele bafo diabólico. Compreendia agora por que o Senhor Barão havia tanto gabado a situação da casa-grande,
colocada vento acima e a distância segura da fonte desse cheiro inenarrável. Era sempre assim, neste estabelecimento?
- Bem - respondeu o barão -, estão tratando de terminar o desmancho de um madrijo, que não quis que acabassem ontem, por ser domingo e tempo de Santo Antônio
e estar a visitar-nos Vossa Reverendíssiina. Por mais que se tome cautela, esses animais são montanhas e o descamamento nunca fica completo. Mas não podemos
deixar de aproveitar a gordura, as safras andam pequenas e a produção de azeite tem estado muito abaixo da que esperávamos. Não deseja Vossa Reverendíssima assistir
ao desmancho de uma baleia em nossa indústria? Testemunharia quantos cuidados, despesas e trabalho nos custa a produção do azeite sem o que não se poderia viver
com alguma decência nestas paragens e em muitas outras. E veria, se me permite Vossa Reverendíssima, algo que não se vê em Roma.
- Urna dessas baleias? In acto moriendi?
- Não, já morta e bem morta. já nos chegam mortas, atadas aos costados das lanchas.
- Menos mal. Mas, se me perdoa o Senhor Barão, como fazer para suportar o cheiro, que daqui já se faz sentir com tanta potência?
- Depois de algum tempo o nariz se habitua, como que se amortece, já não se afeta.
- E a fumaça?
- Esta, à medida que nos aproximarmos, deixará de atingir-nos, o vento a leva para cima, naquela direção. Infelizmente, não evo ordenar-lhes que parem, pois assim
se estragaria toda a carne e a gordura que estão agora a derreter. Toma às vezes mais de um dia e uma noite para que se funda toda uma baleia, se é graúda. Temos
trinta e duas caldeiras, uma capacidade de cerca de quinze tonéis, mas na safra muitas vezes não damos vencimento a todo o trabalho, mesmo com os negros parando
somente à hora do almoço e virando a noite.
- Quantos negros há lá trabalhando?
Perilo Ambr6sio olhou para Amleto, que saltou com animação para falar. Não havia um número certo, explicou, isto dependia da quantidade de trabalho e da pressa
que tivesse alguma encomenda, como, por exemplo, a que fosse ditada pela necessidade de carregar um vaso mercante atracado no porto da Bahia, com azeite vendido
para a Europa. Nessas ocasiões, dobravam ou tri- plicavam os negros do desmancho, o que não era fácil, pois a tarefa requeria aptidão e prática. De qualquer
forma, tinham vários mestres e oficiais retalhadores que faziam os cortes principais, enquanto outros aprontavam a banha, coisa não tão difícil, bastava que preparassem
tijolos de mais ou menos duas libras, para serem levados à fundição. Este também era trabalho simples, embora complicado pela fumaça, o calor e a falta de cuidado
com que os negros às vezes se deixavam queimar por esguichos da banha fervente, principalmente os meninos e meninas, que constituíam a maioria dos trabalhadores
da fundição, no serviço de transportar gordura e jogá-la nas caldeiras. O Senhor Barão, tão imerso nos altos pensamentos e negócios em que o interesse da Pátria
lhe tirava o sono, houvera cometido uma pequena distração, porque por ordem dele mesmo as caldeiras foram aumentadas de trinta e duas para quarenta, já havia quase
dois anos. Restava providenciar alguns reparos no conjunto de canos e tubos que levavam à chaminé, cuja capacidade havia que ser ampliada para dar vazão à
fumaça de todas as caldeiras, razão por que, desculpasse Sua Reverendíssima, ela agora volta e meia descia sobre eles, em vez de ser espalhada no alto pela chaminé,
como deveria. Existiam, contudo, vantagens na fumaceira, por paradoxal que pudesse isto parecer à primeira vista. Tinha ela o efeito de reduzir os enxames copiosos
de moscas e riloscardos, aqui chamados pelo vulgo de mutucas, insetos de insuperável impertinência, freqüentemente aparecendo em números tão vastos que, mesmo
com a fumaça, dão aos negros cortadores e frigidores a aparência dos lampiões que no inverno se vêem rodeados por multidões de mariposas e formigas de asa. Tampouco
aos urubus favorecia a fumaça, embora esses abutres repulsivos demonstrassem invenção, inteligência e ousadia, eis que, em vôos baixos sob ela, aproximavam-se das
instalações por suas entradas naturais e, até caminhando pela lama, chegavam a atacar alguns negros pela posse de nacos da carne e gordura das baleias. Mas não desejava
o monsenhor pôr ao nariz um lenço perfumado, para que ele e o barão pudessem chegar mais perto da fábrica sem ofender-se?
- Se fosse possível...
Amleto dirigiu-se aos dois negros que estavam à frente da cadeirinha do cônego, escolheu o gordo e baixo, mandou que fosse correndo à casa-grande, buscar lenços
perfumados. O negro saiu bem mais rapidamente do que seu peso faria prever, e o cônego riu.
- Curioso critério, este. Se queriam que corresse até lá, não era mais certo que escolhessem o magro?
- O negro Sabino é gordo assim, mas é dos mais despachados
que temos, imagino que vem de uma parte d'África onde os ne-
gros são corredores e mateiros. E este cá não fala.
- Ah, é mudo?
Amleto começou a responder, demorou muito em articular
qualquer coisa, olhou aflito para o barão. Mas o barão com o
punho cerrado em torno do suporte do sobrecéu da caáeirinha,
não se perturbou. Pelo contrário, falou mais alto e com mais
veemência do que tencionara, como se estivesse fazendo uma pro-
clamação indignada, libertando-se de algo que lhe obstruía o
peito.
- Não é mudo! - disse, olhando o preto fixamente. - É
desleal! Era preto de grande confiança da casa de meu pai e meu
próprio, esteve mesmo comigo nos combates de Pirajá e em outras
frentes em que combati na guerra da Independência. Ao contrá-
rio do outro negro que me acompanhava e que morreu lutando
112
e
-11
bravamente - não quero repetir uma história que já todos co-
nhecem e que nao me traz mérito, pois que apenas cumpri o meu
dever de patriota -, ao contrário do outro, este se mostrou um
poltrão acobardado. Mas levaria esse comportamento na conta
dos defeitos de sua raça, como sempre levo, não fosse que, ao
chegar de volta à nossa casa, passou a contar tais e tão desonro-
sas mentiras que, fora eu um senhor menos benevolente, ele não
mais estaria vivo, tamanha a sua desfaçatez, sua vileza, sua tor-
peza mesmo. Mas, guiado como de costume pela compaixão, cas-
tiguei-o apenas na medida de sua falta, a principal entre muitas,





da qual o livrei para sempre. Não mentirá mais, deste pecado
poderá ser absolvido, à custa embora de me hpver obrigado a ven-
cer a natural repulsa que tenho aos castigos, só os aplicando por-
que não me deixam outra escolha, não me deixam outra escolha!
- Que castigo lhe foi dado?
- Fiz-lhe cortar a língua, simplesmente, o suficiente para que
possa continuar a comer a comida que nao merece que lhe dê
e para que não se entendam as patranhas que, tenho certeza, ainda
contaria se pudesse.
0 cônego olhou para o negro Feliciano com interesse.
- Cortou-lhe a língua, hem?
- Audi, vide, tace - disse Amleto.
- Sim, sem dúvida. É uso comum aqui, há muitos deles assim?
- Não - explicou o barão. - Ouço dizer que, nas terras
interiores da Província, onde a vida é mais rude e o trato enér-
gico é mais necessário, até mesmo em alguns engenhos da orla
deste golfo, há senhores muito rigorosos com os pretos. Aqui não,
aqui só temos a disciplina indispensável. Como fugir destas ter-
ras é muito difícil, nenhum se atreve a tanto, não encontrando
Vossa Reverendíssima qualquer negro aqui com o pé decepado,
que é como se exemplam os fujões reincidentes. Também poucos
capões há, somente uns dois ou três dos mais velhos.
- Nas fazendas de meu irmão, que cria algum gado, ele faz
castrar os negros do trabalho da casa e de serviços mais delica-
dos. E diz-me que assim obtém bons resultados, eles ficam mais
calmos e pacíficos, prestam-se melhor a suas tarefas.
Não duvido que assim seja, pois as conveniências variam.
Aqui já não os castramos, mesmo porque...
113





- Ora, Senhor Barão, pode falar, sei o que quer dizer. Como
o trabalho dos moleques aqui é muito útil, há que fazer com que
os negros se reproduzam. É a mesma coisa nas minas, pois sem-
pre existem galerias e escavações onde as rochas não permitem
a passagem de um corpo crescido.
_ Perfeitamente. E não é só por isso, achamos mesmo que
é trabalho desnecessário. Alguns até morrem se os castramos à
faca, e com a maça muitas vezes criamos dores de cabeça ainda
maiores. Pode-se inutilizar o negro para o trabalho desta forma,
os riscos de prejuízos são grandes, muito embora ainda tenhamos
bons castradores de porcos com alguma experiência na capação
de negros. Tampouco os ferro mais, como se fazia no tempo de
meu pai, que ferrava os machos e as mucamas do serviço de
minha finada avó, estas com o monograma que ela mesma dese-
nhara para seus pertences. Hoje é prática inútil, pois os negros
não têm para onde ir e, desvalidos de nossa assistência, morre~,
riam por aí à míngua, como acontece com tantos libertos vadios
e nocivos.
- Sim, já não se pode sair à rua nas cidades sem que haja
uma malta deles a importunar os passantes e a empestear tudo
em volta.
- Pois então! Mas onde está a autoridade do governo, onde
está o discernimento do bem geral, que não se pode nem falar
em meter essa gentalha ociosa a trabalhar forçada nas obras pú.
blicas e em tantas outras onde teria serventia, sem que se levan-
tem esses que julgam poder fazer prosperar um Império com
luvas.de pelica e obras de caridade? Hoje o que se vê é que paga
mais a pena ser vadio e sem ocupação que indivíduo prestante,
e ainda lá dizem mal, sem nada conhecerem do que se passa, dos
homens como eu, que no ostracismo carregam a Nação às costas!
Que fariam sem produção? Viveriam de almoçar discursos e be-
ber as lágrimas que derramam pelos desocupados e inúteis? Estes,
sim, os primeiros a apunhalá-los por trás, assim que chegue a seu
ápice, como está a chegar, a anarquia e o esquecimento dos mo-
dos austeros de conduta! Sou sincero com Vossa Reverend' 'ma
'ss'
quando digo que, como brasileiro, patriota e temente a Deus, naão
posso deixar de abrigar esperanças, embora não as justifique senão
114
1
1
pela fé. De resto, Monsenhor, temo, temo, temo pelo futuro do
Brasil.
0 cônego fez o bico costumeiro, balançou a cabeça aprovando
tudo aquilo, suspirou como quem já desesperou de tentar fazer
ouvir a razão. Comentou distraidamente a solução encontrada
pela América do Norte, país pouco civilizado mas de gente deci-
dida e de caráter, para limpar-se de seus pretos e mestiços liber-
tos - pois lá não se faz como aqui, onde se permite aos pardos
e cafusos a vida em comum com a gente branca até como se bran-
cos fossem -, solução esta que consistiu em estabelecer para eles





seu próprio Estado em algum lugar da Costa da Pimenta, para
as bandas da Guiné, no qual podem continuar seu viver de ani-
mais sem a ninguém incomodar. Nisto, aliás, seguiram os ameri-
canos o exemplo de seus ancestrais ingleses, que desde muito já
haviam feito o mesmo na Serra da Leoa - acrescentou, suspi-
rando mais uma vez e vaticinando o brilhante futuro da América
do Norte, se comparado ao do Brasil, embora não se saiba se são
adiantados os de fala inglesa por praticarem tais idéias ou se pra-
ticam tais idéias por serem adiantados, uma coisa, afinal, não se
podendo, em última análise, distinguir da outra. Parvis compo-
nere magna? - indagou dando de ombros, enquanto o negro Sã-
bino voltava com dois lenções brancos e um frasco de óleo de
vetiver da índia, que a Senhora Baronesa muito recomendava para
tais propósitos de abafar maus odores. 0 barão umedeceu um
lenço com o óleo, agitou-o um pouco para que a fragrância exces-
siva não o deixasse tonto, amarrou-o no rosto cobrindo boca e
nariz, disse ao cônego que o imitasse. Também muitos da comi-
tiva aceitaram a oferta da essência para salpicar seus próprios
lenços, os pretos levantaram as cadeirinhas, o cortejo, agora mas-
carado e aromado, prosseguiu pela trilha junto à praia. Logo de-
frontaram o barracão sem paredes vomitando fumaça por todos
os seus buracos, onde alguns meninos e duas ou três meninas en-
travam e saíam, no trabalho da fundição. Mais adiante, abrolhan-
do por trás do telheiro como obeliscos entortados, as costelas da
baleia em meio às levas de urubus. Do lado oposto ao mar, ondu-
lando por cima dos morrotes suaves que socalcam as costas da
ilha, o canavial dobrado na viração, empenando e desempenando
alternadamente, não se sabendo se o cicio que modulava o ar
115





11
vinha do vento peneirado pelos colmos ainda fininhos ou se vinha
das asas jamais detidas dos urubus e das moscas.
- Nada era esta gleba, Senhor Monsenhor, senão uma arro-
téia agreste e inculta, alqueivada apenas pela obra natural do
Criador e nunca barbechada pela mão do civilizado. . . - come-
çou a discursar Amleto, levantando o lenço da boca para que
todas as belas palavras pudessem voejar desimpedidas.
Belas palavras essas que, debaixo do grande caramanchão en-
trelaçado de mimos-do-céu e maracujazeiros machos farfalhando
e ostentando uma flor lilás aqui e ali, entre cantos de passari-
nhos e marulhos das águas, eram a mesma coisa que as frutas,
os doces e os pastéis que se desmesuravam pela mesa abaixo,
abarrotando as peças de faiança esmaltada e pondo toda sorte de
estampados sobre a toalha branca. Eram assim tão sólidas essas,~
palavras, talvez mais. Eram até mais palpáveis que as frutas e
comidas, pontuadas pelo mastigar geral e às vezes perdurando
muito tempo no espaço, como estas goiabas em calda purpurina,
este mil-folhas cuja talhadura se admira antes de mordê-lo, estes
fios d'ovos cujas filandras enredam a memória, este cuscuz de
carimã se derreando aos poucos no leite de coco, estes ananazes,
estas romãs, estas sapotas, estas graviolas, estes jambos verme-
lhos e amarelos, estas mangas, estas pinhas, estas jabuticabas,
estes cajás, estes abios, estes araçás, estas bananas ouro, estas
fatias de melancia, essas carambolas, essas pitangas, esses ingás,
esses manjelões, esses mamões-da-India, esse refresco furta-cor
que reluz nos copos. E era o cônego quem proferia as belas pala-
vras, tornando a sombra do caramanchão ornamentada e rica e
fazendo com que todos renovassem o convívio, sempre tão esqui-
vo e raro, com a Cultura, a Civilização e a Verdade.
- Luigi Capponi - disse o cônego. - Sem dúvida conhecem-
no de nome.
Sem dúvida alguma! 0 grande Luigi Capponi! 0 Luigi Cap-
poni latinista ou o Luigi Capponi fisiólogo e cirurgião? Este, tal-
vez, se não há engano, era Caroni, Caloni ... Luigi Capponi, sim,
aqui nos vem à mente o grande Capponi, sem dúvida! Muito acer-
tado, muitíssimo bem pensado, Luigi Capponi!
116
1
- Luigi Capponi - disse o cônego outra vez, encostando as
pontas dos dedos umas contra as outras e fechando os olhos. -
0 grande escultor dos santos que em Roma se notabilizou pela
sua arte pura, sublime e de acordo com os melhores cânones,
, ró,
Os melhores cânones? Luigi Capponi, siml 0 Santo Amb sio
com seu alveário de abelhas bem melíferas? 0 São ferônimo com
seu leão à entrada da sagrada caverna? 0 São Teodoro com seu
escudo, sua armadura e seus paramentos de guerra? Sant'Ana e
São Joaquim a receber o sacramento do matrimônio?
- Luigi Capponi - repetiu o cônego, depois de uma longa
pausa em que pareceu regozijar-se por tudo em torno e princi-





palmente consigo mesmo. - 0 magnífico mestre escultor da Igre-
ja de São Gregório em Roma! 0 grande São Gregório, São Gre-
gório Magno, São Gregório das trinta missas, São Gregório que
das entranhas fiamívomas do Purgatório extraiu até mesmo a
alma do Imperador Trajano, de tantos e tão empedernidos peca-
dos, São Gregório de que se dizia, e assim se o representa, ouvir
do próprio Espírito Santo o conteúdo e estilo de seus sermões
impertérritos, este São Gregório, esse São Gregório, esse Cappo-
ni! Esse Capponi!
Fez outra pausa, fechou novamente os olhos. 0 mestre de Gra-
mática Emilio Viana, pondo a mão no colarinho alto que lhe esco-
rava o queixo, assentiu com a cabeça. Frei Hilário repetiu com
reverência: "São Gregório, São Gregório Magno." Esse Capponi!
0 juiz de órfãos Manoei Boaventura Bandeira ficou ainda mais
sério do que de hábito, franzindo muito o cenho e a boca. Cap-
poni, muito justamente, a igreja de São Gregório em Roma, esse
Capponi!
0 cônego deu uma gargalhada repentina.
- Mas que digo? - falou, depois de terminar seu riso inter-
calado de palmadinhas nos joelhos. - Estou eu aqui na compa-
nhia de pessoas ilustres, homens do melhor quilate, a desfrutar
da hospitalidade sem par e sem rival do Senhor Barão de Pirapua-
ma, a quem, se já tinha admiração pelo renome, mais tenho agora
pelas obras, estou eu aqui, enfim, a falar de maneira a que vão
ter-me por louco. Com efeito, que sentido vai em que esteja eu
a tecer reminiscências sobre Capponi, São Gregório, Roma...
Creiam-me, não tenciono fazer exibição, não seria aqui, entre ho-
117
1





mens letrados e de conhecimento, que iria dar lições, nem tampou-
co me tenta a vaidade, como bem sabeis. Mas ... mas - como
direi? - chegamos aqui ao alto desta colina tão aprazível depois
da esforçadíssima viagem pelo estabelecimento industrial e u,
seu ... seu odor extraordinário e depois ... depois a ca13,el:e~e
escravos e agora aqui, sentados, eu falando em Capponi. E sabem
os senhores quem me acudia ainda agora à mente? Tiepolo! Sim,
Tiepolo!
Não conseguiu mais conter um riso convulsivo, parou de falar
para gargalhar, dando a impressão às vezes de que ia ficar sério
de repente, para em seguida curvar-se em riso outra vez. Os outros,
a Rrincípio entreolhando-se com hesitação, mas depois se enco-
rajando mutuamente, passaram a rir também e logo até os negros
e negras também riam, o caramanchão agitado por tanta alegria.
0 cônego enxugou algumas lágrimas, suspirou, recomeçou a falar
com alguma dificuldade.
- Espero que me desculpem, mas talvez me compreendam
melhor se partilharmos algumas reflexões, reflexões estas, tenho
certeza, que já ocuparam, ou permanentemente ocupam, o pensa-
mento dos presentes. Não podem elas deixar de ocorrer, é forçoso
que ocorram, é imperioso que ocorram, é inevitável que ocorram,
é inelutável que ocorram, ao espírito civilizado aqui perplexo
pelo muito de inusitado que a experiência européia encontra no
Novo Mundo. Estava eu a falar em Tiepolo, em Capponi - e
perguntareis: por quê? Respondo-vos. Respondo-vos a tal pergun-
ta com outra pergunta, embora, ha-ha, não seja jesuíta. Respondo
à maneira retórica dos mestres da Antiguidade, emprego de certa
forma a muito justamente celebrada maiêutica, se bem me
entendem.
- A maneira socrática - interrompeu Amleto.
- Perfeitamente - disse o cônego, com um sorriso perfuran-
te. - Vejo bem que laborei em equívoco faz poucos dias, quando
não fiz a estimativa devida do teu conhecimento. De mulato, dir-
se-ia, só tem a aparência, assim mesmo aligeirada, para sua boa
sorte. Gnothi te auton, sabe o que isto quer dizer?
- Não, não.
- É também smrático, é platônico. Quer dizer "conhece-te a
ti mesmo", nosce te ipsum, sapientíssimo conselho. Em suma, vê-
118
te no espelho, enxerga-te, ete. Percebes? Devo reconhecer, e por
isso felicitar-te, que me surpreendeu muito agradavelmente o modo
com que te houveste na condução do nosso passeio, falas bem,
sabes ler. Gostarias, portanto, de falar em meu lugar, dizer aquilo
que eu ia dizer, discorrer sobre o que eu ia discorrer? Teu pai,
segundo contas, vem de um povo que se orgulha em ser filho
espiritual do libertino Rei Henrique, pode-se por conseguinte es-
perar qualquer coisa de ti, anda lá!
- Não, desculpe-me Vossa Reverendíssima, foi somente uma
exclamação que me escapou por entusiasmo, assim um arroubo...
- Os mestiços são muito entusiasmáveis, não se lhes pode ne-
gar esta nem outras qualidades, que muitas vezes se sobrepõem à





preguiça que lhes marca a reputação. Na verdade, sustento que
a mestiçagem é uma real alavanca do progresso desta terra, pois
que o espírito do europeu dificilmente suporta as contorções ne-
cessárias para o entendimento de circunstâncias tão fora da ex-
periencia e vocação humanas. Eis que o Brasil não pode ser um
povo em si mesmo, de maneira que as forças civilizadoras hão de
exercer-se através de uma classe, no caso os mestiços, que com-
bine a rudeza dos negros com algo da inteligência do branco. As
classes sociais das cidades gregas oferecem preciosas lições, a se-
rem aproveitadas dentro das exigências modernas. Somente o ócio,
o otium cum dignitate, permitiu o florescer do pensamento grego,
pois do resto cuidavam os escravos. Mas eram escravos de raças
letradas e inteligentes, brancos da Ásia Menor, às vezes gregos
mesmo. As circunstâncias eram diversas, bem diversas. Os desa-
fios que se abrem para nós são formidáveis, são imensos, são in-
comensuráveis, são inauditos. E com que contamos, como ele-
mento servil? Com os negros, com a raça mais atrasada sobre a
face da Terra, os descendentes degenerados das linhagens camí-
ticas, cuja selvageria nem mesmo a mão invencível da Cristandade
conseguiu ainda abater ou sequer mitigar. De certa maneira, nisto
se vê o dedo da Providência, embora a princípio não o se perce-
ba. É que a selvageria da terra só pode ser enfrentada pela igual
selvageria dos negros - e nisto são eles insuplantáveis, pois que
vêm de terra ainda mais hostil que esta, ainda mais eivada de pe-
rigos, sezões e animais nocivos. Se não temos escravos inteligen-
tes, a quem possamos confiar até mesmo a formação dos jovens,
119
1





E
ti
como faziam os helenos, temos em compensação escravos rudos,
capazes de enfrentar, sob boa, tenaz e dura direção, os trabalhos
ensejados pelos nossos cultivadores e pelas nossas fábricas. Isto
nos deixa somente a questão de quem irá ocupar-se da capatazia
imediata dos escravos, quem cuidará dos assuntos intermediários,
daqueles assuntos que, se não requerem inteligência superior -
antes pelo contrário, estiolam essa inteligência pela mesmice, pela
falta de invenção e pela ausência do sublime e do transcenden-
tal, galardão do verdadeiro pensamento e do espírito superior -,
também não podem ser assimilados pela estupidez dos negros. Eis
aí onde se encaixa como uma luva o contingente de mestiços na
perfeita organização social, a única que poderá conferir a este
país uma élite, como dizem os franceses, uma nata, uma aristo-
cracia capaz de, como a grega, produzir e fazer medrar uma cultu-
ra de escol. Não vejo nem mesmo, e nisto também se sublinha
o que pode ser nossa fortuna, nossa única boa fortuna, a necessi-
dade de leis que refreiem a mestiçagem, pois, à medida que se soli-
difique, se enraíze, nutra suas tradições, fortaleça suas estirpes
nossa aristocracia de fundamentos espirituais cutopeus, na pureza
da raça, de temperamento e de apego aos valores mais altos, as
próprias forças sociais se encarregarão de prevenir tal ocorrência.
A natural repulsa do civilizado ao contacto com o negro ou o
mestiço, os bons instintos cultivados, com espontaneidade e sem
cuidados maiores do que governos cientes de suas responsabilida-
des históricas, porão as coisas a acontecer como é de sua tendên-
cia normal, ditada pelos impulsos corretos da História. É assim
que vejo o papel dos mestiços, importante, importantíssimo papel,
e não -cuides que não gosto de ti, pois gosto, apenas te acho uma
pitadita petulante, vício que é da minha disposição constitucio-
nal combater. Podes crer, ha-ba, que há lugar na terra e no céu
para ti. 0 teu lugar, naturalmente, se bem me entendes, ha-ha.
Mas vês, vês como, da mesma maneira que no outro dia, quando
insistias em debater comigo assuntos da filosofia natural, fizeste-
me perder o fio, causaste agora a mesma coisa. Falava eu que ...
Ia dizer alguma coisa ... Vês, assim me fazes parecer um taga-
rela, quando uma das virtudes que melhor cultivo é ouvir mais
que falar, escutar mais que dizer. Queria ouvir de vós, não falar-
vos tanto. Mas, provocado ... Que dizia eu?
120
Sim, que dizia? Que palavra fácil, que verbo incendiado, que
pensamento certeiro e agudo, que franqueza refinada, que conhe-
cimento da vida e da História! Quando teremos homens públicos
desse porte? Como tudo parece fácil ao ser díto por ele, como
se encaixam os pensamentos, como se encadeia o raciocínio! Fa-
lava de Catoni, Capponi, São Gregório ... Ria muito, Sua Reve-
rendíssima, estava rindo muito, todos tinham rido, lembra-se? E
que simplicidade que tem, homem de tal posição, tal envergadura,
tal importância! E que espírito, que troça, que chiste, que graça
- não sou jesuíta, dissera.





- Sim! - iluminou-se o cônego, que, de olhos baixos, mãos
recolhidas no regaço, entregava-se com modéstia ao reconheci-
mento de seus dotes, agora pululando animadamente pela platéia.
- Sim! Falava que não sou jesuíta, pois tem a Societas Iesus
a reputação de agir assim: a uma pergunta, disparam-nos outra.
Conhecem-se por essa prática, freqüentemente enervante, os egres-
sos de seus liceus e c olégios. Mas eu ia fazer a mesma coisa que
eles, pois, afinal, não são estultos os jesuítas, nem serei eu como
os estultos de Horácio que, para evitar um vício, vitia in contraria
currunt, caem no vício oposto. Não. Se a perseguição assídua
deste vício dialétíco o torna cansativo, quiçá odioso, seu emprego
ocasional não deixa de ter algum encanto e utilidade. Sim, a per-
gunta que vos fazia no fundo tem a ver com o que acabo de falar.
Pois perguntar-vos-ia simplesmente: que faz o Senhor Barão aqui?
Que faz ele? Qual a sua missão? Pois eu mesmo, data venia, res-
pondo-vos. 0 que faz ele aqui é lutar contra sua inclinação natu-
ral de homem superior e forcejar, premido pelas carências deste
país, contra as acabrunhantes dificuldades do meio e das condi-
ções existentes. Vedes como nos trata, com que fidalguia, com
que fineza, com que delicadeza. E aqui, neste breve hiato, sob
esta sombra amena, sub tegmine fagi, dir-se-ia mesmo que esta-
mos num bosque d'Áustria. Mas não estamos. Sabe o Senhor Ba-
rão, por muitos títulos herói e maior herói ainda quando se pensa
na contínua guerra que aqui peleja, que não estamos. Vereis que
ainda há mais razões que as expostas para que a organização na-
cional se faça dentro dos moldes que descrevi, pelos motivos que
descrevi. Falei em bosques. Haverá bosques aqui? Ou tão doce
palavra não passa de reminiscência avoenga que perdura em nos-
121





sos corações, pois não foi feita a nossa raça para aqui habitar,
estando aqui apenas como num penhor de sacrifício à Cristanda-
de e à civilização, como missionários, verdadeiros missionários,
que somos? É preciso que a Cristandade e a civilização venham
para aqui, somos os seus sustentáculos, a sua linha de frente, os
seus soldados mais martirizados. Mas isto não significa que nos
deixemos corromper pelo meio enfraquecedor, debilitante, dege-
nerescente e isolado em que somos forçados a viver, que nos es-
queçamos de quem realmente somos, antes pelo contrário, pois,
se assim acontecesse, perderia sentido o estarmos aqui, já não
seríamos leais representantes daquilo que nos cabe representar e
que é da nossa própria constituição. Se mudássemos, já não sería-
mos aqueles emissários - missionários, insisto - da Cristan-
dade e da civilização a que fiz referência. Cabe-nos preservar,
conservar, manter. E preservar não é somente trazer viva a me-
mória de quem somos, mas dotarmo-nos das condições a que,
temos direito e sem as quais feneceremos. Perguntava eu: é isto
aqui um bosque? Não é um bosque. Agora se mostra mais ameno,
mas sabemos que aqui não há bosques, nem pode haver paz bu-
cólica entre bichos venenosos, cobras, plantas que causam todos
os males, chuvas desmesuradas, calores insofríveis, insalubridade
perpétua, em clima cuja umidade de tal forma sustenta os vapo-
res e pneumas que transportam as pestes, sendo de admirar-se
que haja tão poucas delas. Não temos estações, chove ou não
chove. Não temos frutas - e sei como se esforça o Senhor Barão,
este varão eminentíssimo, para implantar aqui novos cultivares,
mas simplesmente as boas árvores frutíferas cá não vingam, não
suportem a excessiva riqueza de humores da terra, o sol incle-
mente e outras condições. Temos estas que aqui estão e que não
fazem mal, mor parte delas, se comidas raramente e com pru-
dência. Mas, se tornado em hábito o seu ingerir, sabemos muito
bem que os nossos aparelhos orgânicos não lhes podem tolerar os
sumos causticantes, os princípios desequilibradores das quatro ca-
tegorias clássicas de Galeno em que todas elas são abundantes,
por não maior razão do que crescerem e vicejarem neste solo que
só se presta a certas aplicações. Onde estão as cerejas do o tono
u "'
os pêssegos perfumados, a salubérrima maçã, as delicadas peres:
as suavíssimas ameixas? Onde está a alegria luminosa da prima-
122
%-era, a sucessão das sazões ano a ano, lembrando sempre ao ho-
iiieni a mão do Criador e inspirando-o a novas conquistas? Onde
estão as vinhas e os parreirais, os inspirados espíritos de vinho
que delas derivam seus princípios inefáveis? Não, senhores, é o
que vos digo e o que bem sabeis: ou nos conservamos em moldes
aristocráticos e organizados da forma que já tive oportunidade de
descrever, ou fatalmente seremos os governantes de um povo
fraco, nós mesmos contaminados por tudo aquilo que devemos
abominar. Ria-me há pouco, falava em obras de arte, em seus
ilustríssimos executores. Que faz o Senhor Barão aqui? - per-
guntava eu. Pois bem, esforça-se em trazer para aqui a cultura e





a civilização, mas receio poder demonstrar que, sem o recurso
a uma política completa para a Nação, naqueles moldes gerais
e em mais muitos pormenores aparentados, tais sofridos e meri-
tórios trabalhos poderão mesmo vir a resultar em coisa oposta
à pretendida. Não me tenhais por impertinente, antes por bom
amigo. Pois, em todas as palestras com que me deleitou e enri-
queceu o Senhor Barão, percebemos, verificamos, sentimos, com-
preendemos, vimos, descobrimos, reconhecemos, averiguamos en-
fim a perfeitíssima parecença, diria mesmo irmandade, do nosso
modo de pensar, desminta-me ele se falto à verdade. Assim é
que não falo por impertinência, senão por grande amizade e inte-
resse desprendido, eis que o meditar sobre nossa condição se torna
cada vez mais imperativo. Que vimos na capela dos escravos, onde
generosamente permitiu o Senhor Barão que trabalhassem liber-
tos e mestiços em artes que não têm aptidão para abraçar, pois
que são próprias da civilização superior - a arte que tem cãs,
como dizia o grande mestre da parenética? Vimos muitas coisas,
todas as quais corroboram o que digo. Vimos visões e milagres
pintados contra todas as boas regras da composição artística. Em
tudo e mais tudo, credências, castiçais, serafins, cimalhas, pal-
mas, tocheiros, a talha miúda, em tudo e tudo, lá está o toque
grosseiro da mão inculta e sem educação. Vimos santos mulatos!
Representações ofensivas de doutores da Igreja assemelhados em
aparência a uma gente que se expressa por batuques e grunhidos,
incapaz de assimilar um instrumento tão nobre e perfeito como
a língua portuguesa, a qual fazem decair assombrosamente a cada
dia que passa, a ponto de doerem os ouvidos e sofrer a mente
123
1





diante de sua algaravia néscia e primitiva! Sabeis muito bem que
chamavam os gregos aos bárbaros de bárbaros em imitação do
tartareio desses povos vandálicos e delinqüentes. Pois que tudo
o que tartamudeavam soava como bá-bá-bá - perdoai-me se não
contenho o riso. Ubicumque lingua romana, ibi Roma! Vede o que
acontece diante de nós. A língua, aviltam-na e degradam-na. A
moral - sabemos bembdisto e como sabemos! - empalideceria
o próprio Inimigo ao conhecer tudo o que fazem e praticam eles,
a quem hoje chamamos de povo e a quem ainda por cima cha-
mamos de povo brasileiro, como se fosse possível a atenienses
chamar hilotas e escravos de atenienses, como se o espírito da
Ática viesse pelo ar e pela convivência, em lugar da nascença, da
estirpe e da boa formação racial e pedagógica. Não quero, obvia-
mente, fazer, nisto que agora vou dizer, alusão alguma ao Irmão
Hilário, aqui presente, cuja probidade sei estar acima de qual-
quer desconfiança, mas confirmará ele mesmo que os próprio,,,
mosteiros e irmandades se transformaram, pela influência corru-'
tora do meio, em verdadeiros poços de iniqüidade e crimes, tanto
assim é que, depois de pilharem dezenas e mais dezenas de frades a
contrabandear ouro e pedrarias, os funcionários do Reino tiveram
de proibir que se estabelecessem essas ordens na região das Minas.
Não estremeceria o valoroso orago dessa capela, um dos mais santos
entre todos os grandes santos, ao ver a que ponto a falta de von-
tade nacional, o comando não fundado em bases filosóficas pro-
fundas como as que aqui tangenciei, pode estar levando este país
sobre o qual temos responsabilidade, somos os únicos que têm
essa responsabilidade, os que têm a portar a maior carga sobre
as esp~duas, pois nos espreita e vigia a História, pode estar levan-
do este país, dizia eu, a tornar-se exemplo tão hediondo da de-
gradação da civilização, da cultura e do espírito humano, que
talvez nem mesmo a infinita misericórdia divina encontre razões
para absolver-nos por nossa incúria e, em muitos casos, até mes-
mo grossa cobardia? Não estremeceria esse grande santo? As prá-
ticas de trabalho, que deviam causar escândalo a todos os homens
dignos, já de muito permitem ao elemento servil o ócio, já de
muito se afrouxam e se abastardam. Se desde o início nunca fo-
mos capazes de manter corporações formadas na boa hierarquia
do trabalho - sim, porque estamos em país no qual o compa-
124
nheiro é mestre e o aprendiz é oficial -, a cada dia se vê que
a ordem e a tradição são violadas, com conseqüências que, Deus
nos ajude, podem ser tão horripilantes que nos custa estimá-las.
Há uma corporação a assinar a autoria das peças da capela? Não.
Há os nomes dos pretos e mestiços que as trabalharam. Qui
pinxit? Deixai que ria! Pinxit um Bonfim qualquer, um Concei-
ção qualquer, um Anunciação qualquer, um do Amor Divino
qualquer! Ora, a autoria individual é para a grande arte, não
para esse simulacro grotesco que hoje se espalha por toda a Na-
ção, cujos dirigentes precisam enxergar que ou tomamos as rédeas
agora, neste instante, ou jamais as tomaremos! Mas não, aconte-
cem essas coisas, vem para cá uma tal Missão Francesa a divul-





gar impropriamente as belas-artes, como se aqui tivéssemos um
povo igual ao francês e não uma súcia de frascalhos, piranguei-
ros, servos rudíssimos, um povo feiíssimo, malcheiroso, mal-edu-
cado, ruidoso, estólido, preguiçoso, indolente e mentiroso, como
sabeis muito bem todos, pois se lidamos com ele - mea culpa,
nostra culpa! - todo o tempo, para grande padecimento e maior
penitência nossa. Cruzaremos os braços? Assistiremos a tudo sob
um pálio mortal de indiferença? Continuaremos a tratar o nosso
elemento servil melhor do que tratam o elemento servil nos países
civilizados? Permitiremos que a educação se faça da mesma forma
para todas as classes, assim perpetuando e agravando a degrada-
ção já tão tristemente exibida em toda parte? Pérolas aos porcos?
Pergunto-vos: pérolas aos porcos? A verdadeira educação leva
em conta a necessária distinção entre as diversas classes de
homens. Os maiores danos estão a geminar agora, para mais
tarde eclodir. Onde está o Grão-Capataz indispensável para
organizar o elemento servil e o elemento intermediário, dei-
xando assim à aristocracia nacional a tarefa de erguer aqui
uma verdadeira cultura, uma verdadeira civilização? Onde ve-
mos o traçado dos destinos nacionais? 0 nosso fardo é pe-
sado, nossa senda é madrasta, mais do que nunca ad augusta
per angusta! É esta a arte e essência de nossa política, da polí-
tica que só podemos perder de vista à custa da nossa própria
sobrevivência e de tudo o que prezamos, amamos e representa-
mos. A arte da política nada mais é que isto: é a arte da con-
servação do bom e da extirpação do mau. Sopesai minhas pala-
125





vras, senhores, Não podemos deixar de esvurmar as feridas, por
mais que nos seja doloroso. Tenho, apesar de tudo, fé e confiança
no futuro, pois que, louvado seja Deus, homens como o Senhor
Barão ainda adornam nossa vida pública, nosso comércio, nossa
indústria e nosso governo, e eles não permitirão, não deixarão,
não consentirão, não admitirão que o sol da verdade seja obum-
brado pela nuvem atra da ignorância e da inconsciência!
Sob toda a extensão do caramanchão, até as folhas pararam
alguns instantes de ramalhar, a luz ficou vítrea como se não pu-
desse atravessar inteiramente a densidade do silêncio, todos leva-
ram muito tempo para mover-se outra vez, parecendo que acor-
davam devagar. Alguns, emergindo de um mundo distante, olha-
ram em redor como quem acha que deve dizer qualquer coisa
mas não encontra o quê. No fundo do túnel verde, contra a cabe-
ça do cônego, duas negras viram - e apertaram secretamente seus
breves - a mariposa Curuquerê esvoaçar como se fosse pousairl,
nele, para depois sumir. Perilo Ambrósio, de pé e falando ao
cônego sobre como era de lamentar perder-se ali, naqueles ermos,
o mais "inspirado e importante discurso que já escutara, sentiu
a boca encher-se de água e de um gosto acre, pensando mais uma
vez na negra Vevé, como estivera pensando o tempo todo.
Q uem é aquele que lá vem lá longe, todo serelepe, lépido e
fagueiro? Ora se não é Nego Leléu muito bem fatiotado, cha-
peirão de couro mole, burjaca toda catita, pantalonas mais que
galhardas, gravata tipo plastrão, alcobaça repolhada, camisa de
batista fino, ceroulas do melhor algodãozinho, um par de chapins
lustrosos pendurado nos dedos, embotadeiras com ligas de ca.
darço jogadas no ombro - e as piores intenções! Herege que
só o cão, que vinha fazer com cara de anjo na festa do santo,
viajando légua e meia, desde a Praia do Duro, a Praia de Cacha-
prego, a Praia de Berlinque, tantas e tantas outras praias pelas
beiras da ilha abaixo? E assim tão bem-posto, tão garboso e
belo, cheio de donaires, carregando na mão os sapatos para que
não se molhassem nem se sujassem na caminhada - borzeguins
da cidade da Bahia feitos de encomenda, grande novidade, um
diferente para cada pé, não é coisa de chineleiro! Quem visse
126
1
assim sua marcha altiva e sua roupa airosa podia pensar que
era um negreiro preto muito rico, ali chegado para negociar a
flor das cabildas, um sultão de Ceuta, um grande rei embai-
xador, uma entidade da riqueza e da elegância. Mas não, era
Nego Leléu ensaiando sua cara de inocente e relembrando as
graças que faria como se esperava dele, porque ia a negócios
e o bom negociante deve sempre fazer o que se espera dele. As
graças não podiam variar, porque os meninos pediam sempre
as mesmas, impacientavam-se se ele não as repetia uma por uma.
A graça da bochecha de abóbora: agachado como um macaco,
as mãos quase se arrastando pelo chão, incha as bochechas a um
tamanho impossível, esbugalha os olhos, sacode a cabeça e então
solta o ar devagar, as bochechas tatalando como um pano na





ventania. A graça da risada: começa a contar uma história em
fala arrevezada e de repente sofre um ataque frenético de riso
- gargalhando e tossindo e batendo no peito e quase tendo
convulsões -, tenta voltar à história, diz mais quatro palavras
ininteligíveis, torna a rir até rolar na terra, coberto de suor e
lágrimas. A graça do velho africano bem velhote: pega um bor-
dão, veste uns farrapos, encolhe os beiços sobre os dentes para
fingir que é banguela e chega quase sem poder andar, falando
língua de africano inventada, dançando uma dança trôpega em
que parece ir cair a todo instante, mas antes de tocar na chão
ricocheteia em alguma coisa invisível e volta à vertical como se
fosse de elástico. E muitas outras graças, cantigas e estripulias
pela casa toda, até mesmo as ousadias que tomava quando sentia
que podia, chamando o barão de tio, a baronesa de tia, as
crianças de primos e Amleto de parente pelo lado preto da família,
ho-ho-ho-ho! E fazer cavalinho-cavalão, pocotó-pocotó, tomar es-
poradas do menino Vasco Miguel, carregar a menina pequena
na cacunda, assoviar em apitos de taboca, responder dezenas de
vezes as mesmas perguntas?
Mas é trabalho! Tudo neste mundo se consegue com trabalho
e quem é preto consegue menos com muito mais trabalho, então
tem de trabalhar multiplicado e trabalhar em todos os trabalhos
e trabalhar o tempo todo e trabalhar sem distrair e sempre acre-
ditar que alguém quer tomar o resultado do trabalho. Se Nego
Leléu trabalha? Mas como trabalha o Nego Leléu! Nego Leléu
127





ficou forro por testamento de um português de Salinas da Marga-
rida, não quiseram libertar, olhavam para o papel e liam men-
tiras que não estavam escritas nele. Nego Leléu estava aí nem
ia chegando? Podem crer! Disse que não queria sair da fazenda,
era amigo e servidor de Iaiá laiazinha por vocação de vida e,
se o libertassem, ali mesmo ele ficava - ir para onde, meu
Bom Jesus? Ganhou carta de alforria na festa de Natal, ganhou
também uma leira, plantou muita verdura graúda estrumada bem
estrumada, aquilo chegava a estufar e algumas rebrilhar, fez
barraca no mercado, fez quitanda, vendeu e revendeu, entabolou
muitíssimos negócios em todas aquelas partes, em Salinas, em
Cachoeira, em Maragogipe, em Vera Cruz, na Ponta das Ba-
leias, em Nazaré das Farinhas, comprou jegue, comprou carroça,
emprestou dinheiro a prêmio, enterrou uma caixa de patacões
num lugar marcado que só ele sabia. laiazinha morreu, acha-
ram que a leira era demais para ele, tomaram a terrinha de
volta. Nego Leléu se abateu? Nunquita! Tinha juntado dinheiro,'
tinha arranjado mulher preta e mulata para muitos, tinha feito
favores, sabia de segredos, dera presentes. E se formou oficial
alfaiate, é o que estou lhe dizendo! Oficial alfaiate, tesoura
certeira, agulha mestra, alinhavo sem erro! E quantos libertos
sem ter para onde ir, quantos e quantas sem eira nem beira,
lixo mesmo, gente jogada fora, ele tinha recebido, dado abrigo
e alimento, e agora trabalhavam para ele? Se não querem tra-
balhar, paciência, todo mundo trabalha, então voltem para onde
estavam. E não foi assim que ficou dono da loja que faz farda-
mentos para os funcionários da Província, os negros cortando,
as negras costurando, todos gordinhos, bem nutridinhos, pergunte
a qualquer um deles se quer sair dali e cair na vida. Quem qui-
ser que trabalhe, é assim que se vence. Aprendeu a ler e contar,
meu amigo, que é que está pensando? Aprendeu todo o beabá
em quatro ou cinco dias, dormiu com a professora, que era parda
e velha e quase não ouvia, se amasiou com ela, conquistou casa,
comida e roupa lavada, sempre respeitou a velha, nunca fez
canalhice com ela, dava4he bom serviço de marido três vezes
por semana senão mais, botou mais pretas na casa, botou ren-
deira de bilro, mandou fazer doce e costura e bordado para
fora, comprou barco, botou casa de peixe, açambarcou o que
128
pôde, enterrou mais dinheiro escondido no quintal, A velha mor-
reu, ele envergou luto fechado, andou em nojo mais do que
mandam os preceitos, mandou rezar missa, fez nicho no cemi-
,ério, chorou muito quase uma vez por dia durante um ano in-
teiro, fechou a escola, abriu a tenda de algibebe, pôs as negras
e negros para trabalhar nela, todos com boa comida, direito a
sobras de pano, folga domingo sim domingo não, e a ir embora
se quisessem. Ficou amigo do coronel que compra os fardamen-
tos baratinho na mão dele para vender bem carinho aos inten-
dentes e dividir com ele mais ou menos, arranjou mulher dama
para o coronel, arranjou lugar de fornicar. Botou casa de puta,
botou caftina, instalou tudo, trata bem as meninas, quase não





bate. Se compra escravos? Sai muito caro. E onde já se viu preto
dono de cativo, ainda mais preto pobre, preto humilde, sempre
precisando da ajuda dos brancos, sempre necessitando dessa ajuda
- esta roupa mesmo se fez por si mesma, com jeitinho, das
sobras dos panos dos brancos protetores -, graças a Deus e
Nossa Senhora que tem gente no mundo como meu tio, minha
tia, minha madrinha, bênção. E sai muito caro, tudo sai muito
caro, quanto preto e pardo de graça temos por aí, que não en-
contram nem onde cair mortos, não sabe?
E não é por isso que, sempre na procura de um adjutório ou
outro ' uma mão aqui outra acolá, Nego Leléu, com uma cara
de beato que só vendo para crer, vai chegando à Armação do
Bom Jesus? Não é porque sabe que a Senhora Dona Baronesa
deve outra vez alforriar de promessa um escravo e será que
esse escravo não é boa mão-de-obra e não vai querer vir com
Leléu? Claro que é. Uns ele conhece, que podem ser agraciados:
a negra Esmeralda, ainda boa para os muitos que preferem as
gordas, também boa para quituteira; a negra Constantina, velha
mas rija, cozinheira da pontinha da orelha esquerda; o negro
Lírio, marceneiro forte; o negro Feliciano, de língua cortada, bom
para tomar conta da casa de mulheres e outros serviços de res-
ponsabilidade; a negra Martina, cintura fina, rabo redondo, peito
pequeno - qualquer um paga; Nego Frito, assim chamado por
uma certa feita lhe ter caído um tacho de azeite de baleia
quente pelas costas, bom mestre de embarcação e pesca, apesar
de não poder mexer um braço devido à cicatriz; a negra Inácia,
129





1
ti
toda grande, pé grande, boca grande, quartos grandes, para o
serviço de toda a casa, também para quem gosta de pretas graú-
das; a negra Benta, costureira, bordadeira e fiadeira. E por aí
vamos, pois não? Mesmo que Nego Leléu não leve ninguém com
ele, as amizades boas a pessoa precisa cultivar, é necessário
aparecer de vez em quando, oferecer os préstimos, elogiar, admi-
rar bastante, agradecer o feito e o não feito, o dado e o não
dado - é tudo trabalho! E não foi trabalho decorar mais rezas,
cantos e responsos do bom Santo Antônio para puxar nas tre-
zenas e novenas e as orações de amarrar marido para ensinar às
meninas moças e todas as adivinhações com seus versos? Está
se vendo que foi, ora se não foi. Mesmo porque - como pensa
agora o Nego Leléu, limpando a areia dos pés antes de enfiar
os sapatos e subir para gritar ô-de-casa lá em cima - ele não
acredita nem em santo nem em nada, só acredita em trabalho,
quem quiser que fique de boca aberta para o céu, esperando
o santo. 0 urubu - psssst - vem e caga na boca dele lá do-
alto, a vida não é assim não. Pigarreando, compondo o rosto,
enxugando o suor da testa, ajeitando a roupa e respirando fundo,
Nego Leléu, já virado em outra pessoa, abriu a boca numa gai-
tada rouca e começou a sarabandear trilha acima. Mó Santo On-
tonho quirido, eu vós peço por quem sois, dai-me o premero
marido, que o outro eu ranjo dispois! - cantou ele, redobrando
os pulos e olhando para ver se alguém já o estava apreciando da
varanda da casa-grande.
130
Armação do Bom Jesus, 12 de junho de 1827.
As baleias, das grandes e das pequenas, de qualquer das mui-
tas famílias e raças que todo ano aqui passeiam e são caçadas,
nao casam como os outros peixes. Os outros peixes, pelo pouco
que se vê de seu amor, numa boca de rio parada, numa loca,
num viveiro, numa poça dos recifés, se espadanam pela água,
muitos dançam, uns poucos arrastam as fêmeas para os cantos,
mas não se tocam, não se conhecem, têm filhos como grãos de
areia, que às vezes comem com indiferença. Mas não o peixe
baleia, que quando se enamora primeiro canta e assovia, su-
bindo e descendo as ondas como se quisesse encapelar o mar
sozinho. E também se lamenta no meio das canções, ouvindo-se
ca a hora seus gemidos de paixão, a música de toda noite nesta
época do ano. Assim do alto e de longe, vê-se chispando pela
flor d'água uma baleia, mas depois vê-se que são duas. É que
vão tão juntas e harmonizadas que parecem um só bicho, até
que o macho, por nervosismo e necessidade de mostrar proeza,
desencosta a cabeça que trazia junto à dela, rabana com es-
trondo, irrompe das águas e voa, formando uma lagoa alada em
torno do corpo, que então singra os ares um instante, serpenteia
esticando o salto e, levantando um vagalhão estrepitoso, cai junto
a ela na mesma posição em que antes nadavam e continuam a
nadar, espelhando o sol nos couros azulados. Como, nos dias





mais frios, seus esguichos se aglutinam em gotinhas vaporosas
131





que viram rodas de arco-íris contra a luz, acha o povo que as
baleias noivas constroem assim suas grinaldas e anunciam às ou
tras o casamento. E de repente cantam ele e ela juntos, cabriolam
na espuma, escabujam de barriga para cima, rolam, desaparecem,
emergem outra vez e outra vez desaparecem, disparam rolando
e se abraçando, afundam e, lá no fundo, já se querem tanto que
não se contêm. Revirada perto dele, ela se queda admirada diante
da grande pilastra colorida que se apresenta como um irias-
tro festeiro das dobras da barriga dele, suas próprias dobras
se entreabrem em vermelhos, roxos, brancos e violetas latejantes
e é assim que, um maremoto agitando as ondas, uma corcova
subindo no meio da baía, uma crista de água fibrilando veloz-
mente, eles prorrompem do fojo do mar desta vez juntos, co-
lados e enlaçados cara a cara, suas músicas transfiguradas em
guinchos e risos, as grinaldas vibrando com as novas gotas.
E nessa festa, quando não vêm as lanchas baleeiras persegui.~,
los, ficam às vezes dias inteiros, navegando por todos os pontos
da grande costa da ilha, como já tantas vezes Vevé tinha teste-
munhado com alegria e curiosidade e depois sonhado que Cust6-
dio e ela eram dois peixes gigantes, fazendo a corte no oceano.
E bem que podiam ter sido como esses peixes, brincando nus
nos rasos das coroas, amando-se dentro e fora d'água em liber-
dade, tecendo também suas guirlandas, nas noites em que a
maré fica mais fosforescente e toda ela que se esparrame cai
como luz em calda. E bem que, ao ver as baleias namorando
ou ao olhar Custódio, alto e musculoso, as pernas grossas dese-
nhadas por baixo dos calções molhados, o traseiro empinado e
esculturado, todos os volumes curvos que conhecia e não co-
nhecia, ela sentira a carne tiritar como a pele de um cavalo
que espanta moscas, e pensara muito, às vezes a noite toda re-
virando-se na esteira, em escapulir até ele, surpreendê-lo dor-
mindo e fazer com ele coisas - que coisas não sabia bem, mas
sabia que queria passar-lhe a mão na pele e não sobre a roupa,
que queria descobri-lo e revelá-lo e que, quando estava assim
devaneando, desejava que ele não acordasse logo à sua chegada;
não queria que fosse uma estátua, queria-o quente e vivo' queria
ver se a pele se arrepiava ao tocá-la com a ponta dos dedos,
mas não queria que se acordasse de pronto; preferia desfrutar
132
dele tim pouco, assim tão desvalido e todo belo como uma
cri,inça, poder olhá-lo e celebrar só consigo mesma aquela proxi-
rílidade tépida que lhe alterava as pulsações e, quando ele acor-
dasse, j~l a encontraria acalmada e quieta, sabendo-se úmida
entre as pernas, abrindo-as para que ele entrasse com a suavi-
dade com que entraria, com a força delicada e amante com que
entraria, corri a vontade de ir ao céu que lhes viria, tão mistu-
rados quanto os grandes peixes que também se lançam juntos
ao espaço.
Ai, sim, pensou ela, o rosto em brasa e o meio das pernas
não molhado, mas seco, ardido e estraçalhado, não razão de or-
gulho e contentamento, mas de vergonha, nojo e desespero - e





nada, nada, nada, que havia no mundo senão nada, nada, nada,
e os engt-,Ihos que lhe contraíam a barriga trazendo até a gar-
ganta o estômago envolto em cãibras e o ódio que lhe fazia
crepitar a cabeça com uma dor cegante e a certeza de que nada,
nada, nada jamais a limparia, nem água, nem sangue, nem uma
lixa que esfregasse em todo o corpo, nada, nada, nada! Que era
ela? Aquilo, somente aquilo, aquele fardo, aquela trouxa, aquele
pano de chão, aquele monte de lixo e nada, pois não conseguia
ao menos chorar, embora quisesse muito. E também não podia
mexer-se nem fazer qualquer som, como se o pescoço que o
Barão de Pirapuama havia apertado com uma só mão houvesse
ficado para sempre hirto e congelado, mal deixando que pas-
sasse o ar, ela paralisada, muda, um peixe morto, endurecido.
Que fazer agora? Levantar-se, consertar o corpo ainda retorcido
na mesma. posição em que tinha ficado quando ele a empurrara
e se limpara nos trapos em que transformara sua bata branca,
numa das muitas posições em que ele a tinha virado e revirado
com brutalidade e a exposto como um frango sendo depenado?
Passar a mão no rosto inchado por todas as bofetadas e sopapos
que ele lhe dera, enxugar o sangue que lhe escorria das gen-
givas misturado com saliva, endireitar até mesmo a boca, que
sabia flácida e pendida nunca mais a mesma boca, nunca
mais nada, nada, nada! fazer alguma coisa? Nada a fazer,
nada a ser, e notou que nem mesmo conseguia ouvir som algum,
nem folhas no vento, nem barulhos de bichos, nem vozes de
gente, nada. Mexer os olhos, porém, podia e então viu a porta
133





que ele não fechara atrás de si quando saiu, as estampas de
santos nas paredes, a canastra do feitor Almérío com um pe-
daço de pano encardido saindo por baixo da tampa mal fe-
chada, o escaparate com copinhos de vidro coloridos e bibelôs
nas vitrinas, a janela metade de abrir para os lados e metade
de básculo, as linhas que a luz do sol fazia pelo meio das
frestas, a poeira fina que boiava quase faceira nesses fachinhos
de claridade pelo chão de laje, o cheiro de óleo de coco fresco
entrando pela porta como um vapor amarelado, a cama de col-
chão de palha desalinhada e convulsa, o jarro de pedra ouriçado
de talos secos de sorrisos-de-maria ao pé da imagem de Nossa
Senhora do Amparo, o gomil esmaltado dentro da bacia branca
de borda azul, uma vela de pavio preto saindo de um bolo de
sebo petrificado no peitoril da janela, uma moringa ornada de ara-
bescos em baixo-relevo pintado, um gancho com seu fifó quase
despencado e um besourinho verde afogado no azeite do pé da
mecha, a telha de vidro lá em cima quase toda coberta de pó e'
folhas secas, a chibata de couro manchado caída no chão, o uri-
nol onde o barão havia mijado de pé e virado para ela antes
de sair, o cabide de madeira polida com dois chapéus enfiados,
tudo imóvel demais, pesado demais, silencioso demais. Tudo
muito indiferente, como o mundo que agora não tinha certeza
de que existia, pelo menos da forma que existia antes, ou talvez
nunca tivesse existido. Durante um tempo tão breve que, logo
depois de vir, ela já o recordava como passado, ocorreu-lhe um
pensamento, o pensamento de ser isso tudo um pesadelo, pare-
cido com um dos muitos que tivera antes, um desses pesadelos
de qVe se acorda suado e ansioso e se agradece aos céus por
haver sido somente um sonho. Mexer-se, procurar outra vez an-
dar e movimentar-se? Para quê, como, o quê? E muito lentamente
se deu conta de que estava passando os dedos sobre a boca, a
outra mão subindo e agarrando o cabelo desgrenhado contra
o pescoço, os joelhos se dobrando na direção um do outro, e
ouviu os sons que faziam seus movimentos em cima da cama.
Voltaram todos os sons e a palha do colchão quase fez um es-
trondo, quando as pernas dela se agitaram, as náuseas de novo
lhe contraíram o estômago, o cheiro enjoativo da palha meio
podre e bolorenta engolfou o quarto, ela crispou todo o corpo
134
I.,
C, OS braços esticados, as costas retesadas, a cabeça tremendo
sem poder parar, vomitou, soltou as tripas e a bexiga e, sentada
no meio de tudo isso que saíra dela e mais ela quisera que
saísse e não ser nada, nada, nada, finalmente chorou. Chorou
muito tempo na mesma posição, chorou por muitas razões, às
vezes todas juntas, às vezes cada uma por seu turno, teve raiva
de sentir pena de si mesma, principalmente teve raiva por sentir
vergonha, por que haveria de sentir vergonha, quando não tinha
feito nada? Mas tinha cada vez mais vergonha e ódio por essa
vergonha que sabia que não podia ser dela, mas era, mas era,
era, era, era! Pois ele também lhe passara a vergonha que devia





ser dele mas nele era triunfo, saíra do quarto pavoneado e de
cabeça erguida, haveria até entre os negros quem risse ou debo-
chasse quando soubesse de tudo, e lhe vinha tanta mais vergonha
que quase não podia suportar pensar. Suja, muito suja, suja de
todas as maneiras, doída, tão doída, ela abraçou a si mesma,
sozinha, tão sozinha, sozinha tão sem remédio, e ficou dormente.
De início, a pele formigou, os poros se eriçaram, ela achou que
ia sentir comichão pelo corpo todo e aí desfalecer, mas apenas
ficou dormente. E, sem pensar nem bem perceber o que fazia,
levantou-se, começou a arrumar o quarto, juntou o lençol e a
coberta numa trouxa, ajeitou o colchão no estrado, rasgou a barra
da saia para limpar-se, fechou a trouxa, segurou-a com uma mão
e com a outra tapou o buraco da bata por onde estava saindo
um peito, olhou em redor e saiu, empurrando a porta com o ombro.
No fim do corredor, entrando de botas, esporas e gibão de
couro, o feitor Almério apareceu como uma sombra contra a
luz. Parou, caminhou na direção dela, que, com os olhos baixos,
acompanhava o tinir e o rebrilho das esporas. Almério chegou,
estacou em sua frente.
- Ele já se despachou? - perguntou, um meio sorriso lhe
entortando o bigode.
Ela não respondeu, procurou desviar-se para passar, mas o
feitor segurou-a pela gola.
- Deixa de ser uma negrinha desassuntada. Ele já se des-
pachou?
- Eu vou levando as roupas de cama do senhor para lavar,
vou lavar, vou passar, depois eu trago.
135





Ele não a soltou, mas apertou a mão na gola da bata e co-
meçou a conversar como se estivesse caricaturando um tom pa-
ternal, os olhos fixos nos dela.
- Olhe, eu sempre disse a todos os negros, todas as negri-
nhas como tu, que a única coisa a aprender é a obediência.
Gosto muito de todos, trato bem, mas a obediência acima de
tudo. já me ouviste dizer isto, não ouviste?
Porque ela permaneceu silenciosa e quis baixar a cabeça, ele
apertou-lhe o queixo e o puxou para cima.
- Então? Já me ouviste dizer isto, não ouviste?
- ouvi.
- Isto, isto! Então? Ele já se despachou? Então? já? Ele
já se despachou?
- Já.
- Ah, muito bem. E correu tudo bem? Anda, responde! Cor-
reu tudo bem?
- Correu.
Ele a olhou de cima a baixo, deteve-se nos rasgões da roupa,
examinou os inchaços do rosto.
- Ali, bem - disse finalmente. - É isto mesmo, estas
coisas são mesmo assim, não é nada de chorar. Não há nada
aqui que umas duas compressas não curem - acrescentou, saindo
da frente e dando um tapinha no traseiro dela.
Dia lavadíssimo, esta terça-feira, véspera de Santo Antônio,
em que Perilo Ambrósio estuprou a negra Daê, mais chamada
por Venância. Lavado mesmo, porque choveu até de manhã-
zinha, chuva grossa, chuvarada como os aguaceiros de verão,
nada dessas brueguinhas regelantes que nunca vão embora e
ficam ensopando os ossos das criaturas durante os meses de
junho e julho, muitas vezes passando por agosto, quantas e
quantas vezes entrando mais ou menos por setembro, vindo as
primeiras águas desde abril, chuvas mil. E esta ilha, já diziam
os antigos, é verdadeiramente o bispote do céu, por assim falar'
um ponto que as nuvens escolhem para arrebanhar-se antes je
seguir viagem. Desde segunda-feira pelas onze da noite que
136
bbteu tima pan--ada, bateu outra, bateu mais outra, chuva mesmo,
úaà que fazein aluvíões, das que levantam uni cheiro de terra
molhada tão safado que muita gente fica perturbada, os come-
dores de barro não se aguentando e metendo os dentes até em
telhas e cacos de moringa molhados. Logo depois o tempo clareia
de repente, o céu aparece com um azul muito levinho, o sol vai
-squentando sem ficar tão quente como em fevereiro e o dia
nasce desse jeito lavado que todo mundo conhece, a terra e a
areia assentadas, as folhas com lustro, o ar limpíssimo, muitas
novidades em cada canto, grande movimentação de bich e uma
certa alegria despropositada, uma certa crença em que, lavado
assim, luminoso assim, o universo não é indiferente, mas pro-
pício. Uma certa cara para cima, um certo nariz para o alto,
um certo queixo confiante - coisas sutis, mas que se notam
com facilidade, por exemplo, na fisionomia da baronesa, man-





dando sentar diante de si, em dois bancos do alpendre da casa-
grande. um grupo de pretos um tanto nervoso, para ouvi-Ia falar
a respeito da promessa a seu sagrado padrinho Santo Antônio.
Trouxeram a cadeirinha de almofadas de veludo, trouxeram o
sólio de gonçalo-alves com sua estatura niajestática, seus dois
degraus e seu encosto encimado por um leão em talha fina,
trouxeram a otomana francesa, mas ela quis permanecer de pé,
pois, além dos gestos frondosos com que marcava as palavras,
precisava andar para fazer pausas e meias-voltas expressivas. Ti-
nha posto as jóias - não muitas, somente algumas, porque sabia
como deve aparecer uma baronesa a seus negros, embora não
houvesse podido resistir ao diadema, afinal pecinha tão modesta
e que cabia tão bem no toucado de uma nobre, para esses negros
uma princesa, uma rainha, por que não? -, tinha derramado
um frasquinho de perfume por baixo do decote, tinha trazido
o xale de bretanha bordado de festões a ouro e prata, tinha
ordenado que pusessem ali a mesinha c6m o tinteiro de marfim
e a pena de ouro imitando uma de ganso, tinha mandado dizer
às crianças que parassem de tocar a caixa de música - já que o
barão só comprara tambores de música frívola e não se escuta
música frívola na véspera de Santo Antônio -, tinha perma-
necido longo tempo em silêncio à frente de seu auditório de
negros e negras com as duas mãos postas junto à boca como
137





se rezasse, tinha atravessado o alpendre nessa postura várias
vezes. A negra Esmeralda, toda de branco e cheirando a goma
d,~ engomar fresca, acompanhava a baronesa com fascinação,
arregalando os olhos e fazendo gestos de aprovação a todo ins-
tante. Nego Frito, com o tronco um pouco torto por causa da
cicatriz, não conseguia parar de mastigar as gengivas e, muito
aflito, olhava para os lados temendo que o censurassem. Nego
Lírio se sentara com os braços cruzados em torno da bengala,
os fios brancos da barba de três dias parecendo falsos, em sua
cara lisa. A negra Inácia trouxera o rosário, fingia que rezava
mexendo os lábios em silêncio e dedilhando as contas nas mãos
tão grandes quanto a cara de Nego jeba, que, tremendo um
pouco, encostara nela como se quisesse abrigar-se. Nego Leléu,
o chapéu apertado com apuro contra a barriga, não se sentou
com os outros, mas ficou junto a uma das pilastras, perto do
último degrau da escada, a mão em cima do jarrão de pedra
mas com cuidado para não se apoiar em nada, porque a baro-
nesa remocava severamente quem quer que estivesse de pé e
se derreasse contra qualquer objeto, era coisa da indolência nata,
que ela não admitia e afirmava que lhe causava forte vergonha.
Ele não tinha de sentar com os outros, não era negro da casa,
era homem liberto e documentado, estava ali como amigo da
família, para apreciar e dar com a cabeça quando a baronesa
o olhasse depois de alguma frase, pois já tinha assistido a duas
ou três dessas solenidades e tinha segurança sobre como agir,
até mesmo quanto à expressão a fazer - cenho franzido, olhos
no infinito, boca curvada para baixo, uma mudança de pé de
apoio, de quando em vez -, que aprendera observando como
os brancos escutavam discursos importantes. E, enquanto espe-
rava que a baronesa começasse a falar, aproveitou para avaliar
os negros presentes, desgostou-se um pouco, achou-os em pe-
quena quantidade, somente alguns valendo a pena - Nego Jeba
mesmo ele não queria, nem pago.
Na otomana, por trás da mesinha, tornozelos cruzados sob a
vasta cogula, Frei Hilário começou a abanar as pernas e olhou
para Teolina, que, muito composta e de olhos baixos, estava
sentada na outra extremidade. A baronesa separou as mãos, es-
ticou a cabeça para a frente como quem acaba de concluir algum
138
pensamento, caminhou até a mesinha, bateu nela compassada-
mente, inspecionou o grupo.
- Todos os da senzala pequena estão aqui, conforme ordenei?
perguntou, sorrindo somente com a boca.
0 grupo se mexeu, Nego Leléu mudou de pé. A baronesa
olhou para Teolina e suspirou.
- Por que, minha cara amiga, a cada pergunta que fazemos
a esta gente, cada pergunta que não seja dos deveres da cozi-
nha e da economia, das tarefas simples que mal cumprem, sem-
pre nos vem confrontar este... este mexer-se e revolver-se como
se tivessem as línguas presas? Acaso meto-lhes medo? Ali, bem
poucos sabem o que neste mundo verdadeiramente mete medo,





bem poucos sabem! Mas já se viu coisa como esta? Parecem
todos os cachorrinhos que partiram a louça!
- Estão aqui todos os da senzala pequena, contei-os
disse Teolina. - Somente não está uma, Venância. Disseram-
me que passa muito mal.
- Passa mal? Há de estar passando muito mal mesmo, para
não atender ao chamado da sua senhora!
Os pretos se mexeram outra vez, Nego Jeba quase se acon-
chegou a Inácia. A baronesa rodopiou, estendeu o braço na
direção dele.
- Tu! - falou com autoridade. - Tu, diz-me lá que mal
é este que tem a negrinha Venância.
- Hum! - fez Nego Jeba, esticando muito os lábios para
a frente, quase como se fosse chorar. - Hum!
- Anda, diz-me, não tens a língua cortada, pois?
Nego Jeba olhou para Feliciano, pareceu ficar ainda menor
do que já era.
- Não, Iaiá, não senhora, laiá.
- Então?
Eu não sei direito, foi um mal que veio a ela. Um mal,
assim.
A baronesa buscou uma opinião geral com o olhar.
- Sim, mas que mal é esse?
- Foi um grande mal que veio a ela - esclareceu Esmeralda.
- Um grande mal. Posso dizer?
A baronesa suspirou mais uma vez.
139





- Então eu digo. Eu acho que é . acho que ela está com
a moléstia,
Os outros negros ficaram inquietos, a baronesa achou que
havia ruborizado, Teolina baixou o rosto novamente.
- Mas. . . - fez a baronesa, um pouco desconcertada.
- Minha madrinha, dai-me licença? - perguntou Nego Leléu,
segurando o chapéu com ambas as mãos e dando uma espécie
de meio passo à frente. - Ela não está assim como disse Esme-
ralda. Eu vi, ela está doente, está com cólica, morragia, fo . 'M
' u
mal que veio, porém vai. Tomou chá, fez banho de erva (
zunzo, fez compressa, a febre quase-quase que já foi, só es,~teá
com tonturas.
- Conheço essas tonturas - ironizou a baronesa. - Esta
gente não tem jeito. Bem, pior para ela. já que não está aqui,,
perde a ocasião de elevar-se um pouco e, com toda a cer-
teza, perde a ocasião de ser contemplada, pois ainda não re4~-
solvi nada e, não fora uma promessa ato sagrado e inviolável,
já de muito havia desistido de tal idéia, que só me tem valido
aborrecimentos e dores de cabeça.
Muito bem, mas já era hora de resolver aquela questão que
sua piedade e amor às boas obras lhe impuseram, por penosa que
fosse. Que faces tão broncas, meu Deus do céu, que feições
tão feias, ali sentados como guaribas num galho de árvore. A
baronesa deixou ver como estava sendo resignada, matutou um
tempinho e principiou uma caminhada de ida e volta defronte
do grupo. Quem aí sabe dizer quais são as três Pessoas da San-
tíssima Trindade? Vamos, isto mesmo ouvi a Senhora Dona
Teolina ensinar a todos repetidas vezes, lendo do devocionário
com toda a clareza, são três as Pessoas, é coisa muito simples.
Tu, Inácia, que estás a rezar com tanto fervor, sabes responder-
me? A Virgem Maria? A Virgem Santa Mãe de Deus, Pessoa da
Santíssima Trindade? Mas onde estamos, clama aos céus tanta
ignorância, tanta cabeça dura! E tanta preguiça! Pois não está
acima da compreensão até mesmo de negros e bugres a grande
verdade da Santa Madre Igreja! Pois não sabe a resposta o ne-
gro Leovigildo, ali presente?
- Padre, Filho e Esprito Santo - disse Leléu e persignou-
se com os olhos revirados para cima.
140
.1
padre, 1,'ilho e Espírito Santo! A baronesa apertou as mãos
no regaço, implorou em silêncio resignação e paciência aos san-
,05. Todos os negros haviam sido banhados na sagrada água
iustral como era da tradição da casa, mas não passavam de ar.;-
mais batizados? Como celebrar hoje o ofício da vigília, receber
a bênção invocativa de todos os anos, praticar liturgias tão vene-
ráveis e elevadas com a participação de povo tão desaprendido?
ouc vergonha a faziam passar, que vergonha lhe davam! Muito
bem, que é o batismo, que é o santo sacramento do batismo?
É só a água benta, só os santos óleos? Mas é claro que é o





sal também, mas é claro que a ' pergunta não é essa! Que é o ba-
tismo, há que explicar-se tudo a cada triquete, tudo mais uma
vez e outra e outra, até o dia do luízo Universal? Que é o
pecado original? Que é confissão? Crisma, pão celeste, eucaris-
tia? Excomunhão? Nada, nada, nada? Quem sabe ao menos as
palavras da Ave-maria? Frei Hilário, bondoso e esclarecido servo
de Deus, como iluminar a escuridão destas almas quase per-
didas pela ignorância e pela falta de entendimento? Como pra-
ticar a caridade sem que o que a recebe possa exaltar a infi-
nita bondade de Deus? Não desaprovariam tal conduta os santos
doutores da Igreja?
Frei Hilário levantou-se e permaneceu algum tempo de cabeça
baixa, sem falar, a claridade reluzindo no cercilho. Teolina, fa-
zendo um sinal aos negros para que a imitassem, levantou-se
também, abraçou o diurnal de fitinhas azuis, esperou que o
frade começasse a falar para benzer-se pausadamente. .0 frade
disse que tinha razão a Senhora Baronesa em desejar esclarecer
as mentes daquele povo simples, mas que havia um limite para
tudo neste mundo, até mesmo para a força e o alcance das boas
obras. Cabia, pois, ao bom cristão, suportar resignado o fardo
que lhe impunha o trato com aquela gente de raça inculta e tão
tênue humanidade. Não, Senhora Baronesa de Pirapuama, não
haveriam os santos doutores de discordar, antes compreenderiam
vosso desânimo, vosso desencanto e vosso desgosto, mais ainda
realçando-vos os méritos que a modéstia faz por ocultar, mas a
fama divulga por todas estas terras. E a eles, ali presentes, que
voltassem o pensamento para o Senhor. Que procurassem ver,
em são exame de consciência, se seus pecados e faltas não os
141





tomavam pouco dignos da graça que lhes vinha pela mão bene-
merente da Senhora Baronesa. Narrar-lhes-ia outra vez a fábula
do Sarito Negrinho - e o Senhor Bom Deus, o Bom Jesus, tam-
bém podia fazer, de negros, santos, nada para Ele era impos-
sível -, o escravo de levantinos cristãos que muitas vezes re-
cusou a graça da alforria que lhe dava seu senhor, porque não
acreditava fazer jus a ela. Que se mirassem nesse exemplo, que
vissem o esforço e dedicação de sua senhora, agora disposta a
libertar um deles, embora a isso não tivessem direito, até mesmo
pela pouca devoção que demonstravam.
Em tantas lágrimas se enevoaram os olhos da baronesa e de
Teolina, as imagens evocadas pela voz apaixonada do frade
entontecendo-as e transportando-as a tão longínquas alturas, que
nenhuma delas percebeu o negrinho Nicodemo puxar Nego Leléu
pela manga e cochichar-lhe um recado do barão. Leléu ainda
ficou meio assim - e se a Senhora Dona Baronesa não go&~
tasse? Mas Nicodemo, em vez de insistir, deu de ombros, fez
um beiço e começou a voltar por onde havia chegado. Negrinho
cafunge safado descarado, isto queria dizer que, se Leléu não
fosse logo, ia ter, ah se ia! Desceu a escada correndo atrás de
Nicodemo, puxou-o pelos fundilhos. Que tinha o Senhor Barão,
que o chamara assim correndo? Ah, Nicodemo não sabia nem
queria saber, só sabia do recado. Leléu deu-lhe um par de
chulipas, levantou a mão para bater-lhe na cara. Nicodemo quis
libertar-se, agitou-se, Leléu passou-lhe outro pontapé no traseiro.
Não te meta a besta, diz-me lá! Bom, de fato hoje o barão estava
um pouco desapoderado, um pouco assoberbado, não parava
quieto, enfiava a mão no cabelo, fazia batuque na mobília e
nas pernas, mordia os dedos, uma coisa por demais mesmo. E
então perguntara: Nego Leléu chegou aí? E, quando lhe dis-
seram que chegou, deu um psiu para ele, Nicodemo, que estava
pelo caminho, carregando um caçoá na cabeça com dois cachos
de dendê, cada cacho assim, aquilo num peso que chega vil+.a
ele afundando naquele barro mole da chuva, não sabe, deu um
psiu e disse: larga esta merda aí, deita no chão, anda! E ordenou-.
me arrodeie por trás da casa, me vá na varanda da cozi h me
nj a
busque o Nego Leléu, diz àquele negro caramboleiro que ~,uero
falar com ele, chama aquele negro ordinário, que eu estou man-
142
dando. Leléu franziu a testa, deu um tapa meio fraco na cabeça
do negrinho só porque ele repetiu as palavras do barão com
gosto demais, soltou-o num empurrão. Mas então que era aquilo?
Então o barão estava assoberbado, estava com os nervos? Leléu
quase parou, deu dois ou três passos muito devagar e abriu um
sorriso cauteloso. Ora, então, mas é claro, é mais que claro, é
um elarume só! A negra Daê, a negra Venância, neta de Da-
dinha, que hoje estava arriada na senzala grande, meio morta,
meio sangrando, meio tremendo toda, porque Sinhozinho Barão
Perilo Ambrósio foi lá! Essa negra que não estava na varanda,
estava tomando compressa e tendo ataques de diversos tipos,





de choro, de sezão, de tremedeira, mas isso passa, isso passal
Leléu recomeçou a andar depressa, segurou o pé para não pular,
passou a mão na boca para apagar o sorriso, bateu asas como
um galo e marchou para a entrada do gabinete do barão.
- Você viu a negra? - perguntou o barão, assim que ele
entrou e mal tivera tempo de tirar o chapelão.
- A negra Vevé, loiô, a que era da senzala pequena e hoje
está na senzala grande?
- Pois de que outra desgraça de outra negra estarei eu a
falar, senão dessa? Sabes bem o que sucedeu, não me venhas
com as tuas palhaçadas, não tenho paciência. Diz-me lá, a Se-
nliora Baronesa já escolheu o alforriado?
- Não, Ioiô. Frei Padre Hilário está falando, ainda nem
fez as rezas.
- Levas essa negra contigo, pois?
- Mas Iaiá Baronesa disse...
- Não te perguntei o que disse a Senhora Baronesa, per-
guntei-te se levas essa negra contigo.
- Levo, levo, levo, levo logo!
- Do resto, cuido eu. Anda, corre lá, chama-me Almério,
diz-lhe que avie-se.
E quando Antônia Vitória, como já se esperava, barafustou
pelo gabinete adentro quase na hora do almoço, as mãos tor-
cidas de angústia, o nariz vertnelho, os olhos inchados e a voz
pontuada de soluços, com Teolina dois passos atrás abraçada ao
diurnal, Perilo Ambrósio, tudo acertado, resolveu que desta vez
não queria escutar a litania de todos os anos. Achou que conse-
143





;-,iiria conter a vontade de blaterar, que consentiria em explicar
um pouco suas razões, mas também não teria paciência para
mais nada. Antônia Vitória começou sua lamentação - "sei que
me dirão vir da fraqueza e da indecisão próprias das filhas de
Eva, esta..." - mas ele levantou a mão, com tanta calma
quanto podia reunir, para que ela se calasse e ouvisse o que
ele tinha a dizer-lhe. Sabia muito bem dos cuidados e preo-
cupações que lhe dava a prática de tanta caridade, do sofri-
meiito que lhe advinha por ter de escolher, entre negros tão
pouco dignos de qualquer atenção, algum para agraciar com a
liberdade, se;n que disso viesse a ter mais embaraço do que
contentamento pela boa ação. E, portanto, fizera por ela a es-
colha, ditada em parte, reconhecia, por imperativos práticos:
não estavam boas as finanças de seus estabelecimentos, os tem-
pos eram difíceis. Assim, não via mal, nem contradição co"n a
promessa feita ao santo padrinho dela, em que se desse a taLÉ'
alforria a uma negra moça porém fraca, já sofrendo de febres,
vômitos e fraquezas, que poderia mesmo, nunca se sabia, passar
sua enfermidade para os outros negros, causando prejuízo in-
calculável. Que se tranqüilizasse, que voltasse aos assuntos da
casa, hoje tão azafamantes, que não mais chorasse nem se en-
tristecesse, pois que já resolvera tudo para ela. Libertaria a
negra Venância, o negro Leovigíldo a levaria para conseguir-lhe
ocupação e morada, isto mesmo acertaria com ele, dar-lhe-ia
algum dinheiro para ajudar, estava tudo certo e providenciado,
e esperava que hoje a malassada não viesse tão mal preparada
quanto nos outros almoços. Antônia Vitória não respondeu, em-
bora tivesse chegado a abrir a boca brevemente. Pareceu que ia
andar em direção a ele mas desistiu antes de dar o primeiro
passo, esboçou um sorriso ainda meio choroso, fez uma espécie
de mesura antiga, a mão direita puxando a saia para erguer-lhe
um pouco a barra, levantou a cabeça com um orgulho sem
convicção e saiu, talvez um pouco devagar demais. Perilo Am-
br6sio, bem à frente da porta do corredor, acompanhou as duas
mulheres com a vista. Tudo bem mais fácil do que tinha pen-
sado, bastou um pouco de firmeza. Foi até a outra porta, deu
144
jo~s passos para fora, 3bservou com agrado como fazia dia tão
lllnpo, tão claro, tão lavado, e como um dia assim traz às pessoas
,ima grande sensação de paz.
C'apoeira do Tuntum, 14 de junho de 1827.
Alguém que não soubesse, alguém de fora, podia pensar que
eram os mesmos. Mas não eram. E não por causa da luz des-
maiada das lumeeiras criando sombras incertas nos rostos e nas
moitas, não por causa da noite carregada de visagens que os cer-
cava, não por causa das roupas. Pelo contrário, as roupas é
que eram as mesmas que tinham envergado na festa de Santo
Antônio, para mostrar bailes dos pretos às visitas e a todo o
povo que acorria das vizinhanças. De outros lugares também
vieram, a fim de tomar parte nas danças e combates fingidos,
pretos de nomeada em todo o Recôncavo e em muitas outras





partes da Bahia por onde passaram ou se ouviu notícia deles
- Nego Nofre da charamela, Nego Júlio Samongo do tambor
zimbrado e do chocalho de duas cabeças, Nego Lálio do balafo
de mão e do gunga de batalha, Nego Miruca de adufo, pandeiro
redondo, cavaco, viola, buzina e castanhola, as negras moças bai-
larinas da Guiné com seus saiões engundados para que se vis-
sem os tornozelos cingidos de fitilhos e tranças de capim de
cheiro, até muitos que haviam apanhado por fazerem batucajé
e baterem tabaque escondido, até Nego Leléu, mosqueado de
tabatinga e roxo terra, cabeleira empoada e saial de mangas ro-
cadas em todas as cores. Mas o cônego não quis assistir a nada
daquilo, porque o estridor dos atabaques, dos agogôs e dos
ganzás lhe dava dor de cabeça, e perguntou como podiam su-
portar tamanha zoeira, atordoante função avernal, após os pín-
caros a que os tinha transportado a serafina da capela. Des-
pediu-se do cortejo com um aceno das costas da mão, quase
um repelão, e subiu à cadeirinha para ser levado de volta à
casa-grande. Perilo Ambrósio, a quem aquilo tudo também in-
comodava, alegrou-se em ver que podiam voltar à fresca das
varandas ' longe da zoadeira e do cheiro dos pretos, longe do
mal-estar que lhe davam aqueles sons, aquelas cores, aqueles
145





movimentos. Muita gente, contudo, decidiu ficar, entre palan-
ganas de canjica e mungunzá, tabuleiros de letê, pamonha, acaçá,
milho cozido e docinhos de leite e ovos, sequilhos de goma, beijus
e mingau de carimã, de milho e de tapioca, alguidares de amen-
doim cozido, pé-de-moleque, alfele, mel de engenho, bolo de
fubá, bolo chico-felipe e bolinho de milho solado da casca grossa
e tantas outras coisas que a baronesa mandava fazer para que o
povo comesse no dia de sua festa. E, porque sentia um intenso
prazer secreto, em apreciar aquela multidão, homens, mulheres,
meninos, velhos, mestiços, negros, funcionários, operários, toda
aquela gente, cuja baronesa era ela, se refocílando nos caldeirões
de mingau e nos morros de cuscuz, emborrachando-se de tanto
comer, carregando comida nas bochechas, mãos, chapéus e algi-
beiras tanto prazer que às vezes ria desatadamente, quase
sem poder mais parar -, porque tinha antecipado esse prazer,
relutou em acompanhar o marido. Mas não podia deixar de segui-
lo e assim nem chegou a ver quando os negros principiaram a
fazer roda no outro extremo do terreiro, meio escondidos pelo
povo que os cercava e pelos jegues amarrados nos mourões úo
telheiro de palha onde se juntaram e de onde às vezes saía um
grito ou risada de som desencarnado, meio embuçados pela pró-
pria luz do sol, que cegava quem procurasse enxergá-los de longe.
Como se não houvessem chegado lá pelos próprios pés, mas
de repente eclodissem inteiros na quina do terreiro, os negros
deram partida, uns berros de ai-ê perfurando as copas das man-
gueiras, uns clangores de metal interrompidos, uns anúncios in-
compreensíveis - e lá vem aquela onda catassol de panos colo-
ridos e peles pretas, tamanqueando as pedras no ritmo metra-
lhado pelas baquetas nos costados de madeira dos tambores. Fi-
zeram a roda, abriram a roda, fecharam a roda, as vozes das
mulheres subiram acima de todas as cantorias e batidas, a roda
se desfez como um carretel desenrolado, as baquetas redobraram
a marcação e redobraram em cima do redobre, a roda se trans-
mutou numa fila ombro a ombro, lá vinham eles marchando de
lado, os troncos oscilando, os pés indo e não indo no repique
do tambor maior, as baquetas estacando de chofre a cada tantos
compassos e explodindo de volta depois que somente os pés, uns
se arrastando, outros sapateando, haviam segurado o ritmo. AI-
146
gumas ~,rianças brancas se soltaram das mãos dos grandes para
ir dançar também, à medida que tomavam a praça o matraqueado
das baqletas, o repenique dos agogôs, a cascalheira dos ganzás,
as harmonias das buzinas e violas por cima da percussão, e a
fila dos negros vindo de lá como uma cobra dançarina. Mas logo
os grandes agarravam os meninos e deixavam apenas que aba-
nassem os pés, sentados na balaustrada do adro ou nas janelas
do almoxarifado, enquanto reconheciam encantados as caras dos
negros cruzando por ali aos pinotes daquela forma nunca ima-
,ainada. Nego Leléu parou, pulou e recitou as palavras decoradas
com que dizia que era o fidalgo do Grande Chifre da África,
ali chegado depois de viagens de mais de mil e seiscentos dias





cada uma, em navios que tinham mais de quatrocentas braças
de envergadura, com seus quarenta mil cavalos branquinhos,
branquinhos, seus oitenta capitães holandeses, suas oitocentas
noivas, seus muitos e muitos mais que doze mil soldados, e
agora ia apresentar seus negros àquela grande população. Sa-
cudindo no ar o bordão que usava para se transfigurar no afri-
cano velho, apontou para um negro aqui, outro ali, e mostra-
ram piruetas mágicas, representaram luta com facões, as negras
moças, uma por uma, se soltaram da fila e deslizaram saltantinhas
pelo terreiro como aves dos alagadiços patinando na flor d'água,
as cabeças voltadas para o alto, os pés martelando o chão em
tropelia e ao mesmo tempo parecendo não tocá-lo. Nego Leléu
fez a graça da bochecha, fez a graça do bragantino aborrecido
que manda castigar os escravos no pelourinho, fez briga de cabe-
çadas - cadê esse bom, que eu vou zupar, zupa-zupa! -, dançou
a dança do Pai João enchendo a boca de farofa de dendê para
bufar em cima dos outros pretos, fez todo o comando do baile
até que o barão mandou o positivo Nicodemo com o recado de
parar. Que fossem comer e depois dormir, para amanhã cum-
prirem as obrigações. Nego Leléu, que já tinha deixado de pres-
tar atenção no que fazia assim que dera por Nicodemo dobrando
a quina do terreiro, escutou o recado no pé do ouvido sem
parar de balançar mas muito sério, assoviou com os dedos na
boca para fazer a orquestra calar-se, tirou o saial pela cabeça
ficando de calção e camisu como os outros, esfregou a roupa
147





1 11
amarfanhada na cara para limpar o suor misturado aos pós de
cor, levantou os braços e comandou o fim da dança.
Sim, não eram os mesmos, esses negros antes foliando no ter-
reiro da capela e agora espalhados em pequenos grupos aqui
e ali na capoeira. Eram mandingueiros, isso sim, feiticeiros da
noite, gente mandraca que só ela, gente versada nas coisas da
pedra cristalina, do poder das almas e das divindades trazidas
da África nas piores condições e mal podendo sobreviver ali,
gente capaz de com as plantas do mato infusar os mais terríveis
filtros envenenados e os amavios mais irresistíveis, capaz de cos-
turar e amarrar os espíritos por toda espécie de sortilégio, capaz
de ver o futuro em toda sorte de presságio, capaz de conhecer
o lado mágico de todas as coisas. Nem todos iguais, pois uns
acreditavam mais nisso, outros mais naquilo. Uns, por exemplo,
tinham por sagrada a gameleira branca que dominava a capoeira
e tratavam seus tambores como deuses, a quem davam, da mesma
forma que aos deuses do ar, dos matos e das águas, comida e
bebida. Estes eram maioria, mas alguns deles muitas vezes se
juntavam aos que obravam por meios diversos. Isto porque era
comum que procurassem crer em tudo o que pudessem, pois o
que precisavam era conjurar todos os manes e forças secretas
para vencer algumas batalhas, já que vencer a guerra parecia
fora do alcance de suas divindades, coagidas a viver escon-
didas e disfarçadas, tomando nomes falsos e sendo negadas a
todo instante, sem receber as obrigações que lhe eram devidas,
sem nada, enfim, que as ajudasse a irromper daquela capoeira
de uma vez por todas, não mais ficarem ali presas e cabis-
baixas, mas se soltarem livremente pelo meio de seu povo.
Então não eram realmente os mesmos, esses negros, não ti-
nhari as mesmas caras galhofeiras que exibiram na festa, não
pertenciam a ninguém, como lá sempre pertenceriam. E pelo
menos hoje podiam bater seus tambores, pois haviam ido embora
o barão, a baronesa e seus convidados. 0 feitor Almério, mulato e
com muitos parentes cativos, tinha medo das mandingas, sabia
que, por ser ele meio preto, os deuses de seus parentes o alcan-
çariam em qualquer lugar, tal como os espectros de seus mor-,
tos, se bem chamados. Tanto assim que nunca se aproximava
da capoeira à noite e, mesmo durante o dia, punha bem exposto
148
o crucifixo no peito e se benzia antes de entrar naquele terri-
tório arredondado, em que, para onde quer que o rosto se
virasse, estava sempre dando as costas para alguma coisa a que
r~ão se deveria dar as costas. No dia seguinte a qualquer festa
na capoeira, mesmo se provocado pelo ar zombeteiro de algum
preto ou pela cantiga murmurada entre dentes por alguma preta,
fingia invariavelmente não ter ouvido os tambores e as cele-
brações, corno se, nas noites mais arejadas como esta, o vento
não cobrisse toda a Armaçao com aquele som que perseverava
noite adentro igual a uma coisa viva. Quando uma vez ama-
nheceu à sua porta uma arrumação de comidas amarelas e bi-





chos sacrificados, ligada à soleira por uma trilha de farofa ponti-
lhada de sangue, saiu pela janela, foi trabalhar tremendo e, ape-
sar de ter batido muito nos cativos naquele dia, não conseguiu
ocultar o medo e, na volta à casa, tropeçou numa raiz, caiu,
quebrou um dente e destroncou o queixo, ficou praticamente sem
poder falar e comer. Não dormiu nessa casa os sete dias que
se seguiram, obrigou as que eram rezadeiras e as que não eram
a benzer e exorcismar a soleira e o quarto de cama e de vez
em quando salpica água benta no chão antes de dar o primeiro
passo para fora. Amleto, que ficara na casa-pequena com Teo-
lina, tinha chamado Almério e dito a ele que fizesse os pretos
ter bom comportamento, que fosse severo e não perdoasse a
menor falta, pois sua responsabilidade como homem de confiança
era maior que a do senhor daquelas propriedades. Mas também
sabia que os tambores iam bater como sempre batiam na au-
sência do barão e, embora o sangue lhe fervesse e sentisse tanta
raiva que lhe vinha gana de esmurrar tudo em volta, tampouco
encontrava coragem para abrir a porta com um candeeiro na
mão e enfrentar aquela treva infestada de ameaças e aconte-
cimentos desconhecidos. E, deitado em sua cama de cabeceira
alta em companhia de Teolina, uma touca de filó retesada no
cocuruto para alisar os cabelos, os olhos muito abertos, o cami-
solão abotoado até o pescoço, os dentes cerrados com força e
as palmas das mãos empurrando as coxas, pensou mais uma vez
em como um dia seria tudo diferente, muito diferente. "Um dia,
dono serei", pensou, sabendo que teria muito trabalho para dor-
149
1





mir, e não só por causa do estrondo longínquo dos tambores,
que viria pelo meio das árvores daí a pouco.
A orquestra dos negros também era outra agora. Não eram
mais tamborins, eram os ilus, arrumados com seus bilros de
madeira como uma guarda armada; não eram mais os ganzás,
eram os amelês, ornados de contas e fitas; a cabaça se chamava
agüê, o chocalho adjá, e o som da buzina agora era o da flauta
afofié; e o tambor rum e o grande tambor batacotô, de fama
guerreira, e mais todos os instrumentos que lembraram, de suas
terras ou de seus mais velhos, para construí-los aqui, pois que
eram de muitas e muitas nações antes separadas, agora tendo
de juntar os corpos, as línguas e as crenças. Negro Lírio aqui
chamado Alibá e Obá-Xoró e também de outros nomes conforme
o dia, o lugar e a pessoa, fez um sinal, levantou a voz e, com o
rosto sem expressão, olhando para baixo de olhos semicerrados,
cantou alguns versos curtos, repetiu-os em tons gradualmente mais
altos. Do lado escuro da capoeira, uma voz de mulher ecoou o
refrão, logo outras a acompanharam, logo a orquestra deu a pri-
meira batida, logo os arbustos mudaram de cor e substância e
as mulheres emergiram deles para dançar no clarão das lumeei-
rãs. E logo, por todos os pontos da capoeira, quer estivessem
os pretos dançando, cantando, conversando ou só andando de um
lado para o outro, tudo ficava vivo e tudo era possível.
Por ser assim a hora em que não se podia duvidar de coisa
alguma, Nego Leléu, que não acreditava em nada mas sentia
com naturalidade que o ar ali era diferente, não quis deixar de
comparecer. Ia embora no dia seguinte de manhãzinha, levando
a negra Vevé, que por sinal estava ali, que por sinal ele preci-
sava vigiar. Esperou com paciência, de pé junto a um coqueiro
fora da capoeira, que a visão se acostumasse ao escuro mais
fundo que havia ali, apesar das tochas. Bem do outro lado, de
onde vinha a música, sabia que Nego Lírio estava sentado em
sua cadeira de pau e couro, puxando a cantoria, presidindo a
festa e recebendo as visitas de suas entidades. Em algum canto,
talvez onde duas das picadas que levavam à capoeira se en=-
zilhassem, haveriam de estar a negra Inácia chamando os cabocos,
e os parentes de Dadinha conversando com os antepassados. Em
outro canto, Sã Justina, adivinhando e respondendo a qualquer
150
pe,.,Qt;liita, do Passado, do presente ou do futuro, vendo na água,
vendo no cristal, vendo na lua e nas estrelas. Em muitos outros
cantos, aente em torno de alguém ou alguma apresentação de
non,idades. Mas a negra Vevé é parenta de Dadinlia, conhece
todos os cabocos, só pode estar com eles - pensa Nego Leléu,
alisando as rugosidades do tronco do coqueiro e apurando a
vista, já mais acostumada a mudar do negrume dos matos para
a chama dos fachos. Olha lá, parecendo uns sarigüês, curvados
como se tivessem que passar sob uma arcada muito baixa, lá
vão escorregando para os matos a negra Inácia, de saia arre-
panhada e quase despencando para a frente enquanto se em-
brenha pelo meio das touças, Nego jeba de goiva branca, a negra





Martína, a negra Honorata, Feliciano da língua cotó, Nego Bu-
dião da caleça com todo o seu tamanho, aquela renca toda que
Leléu não conseguia distinguir direito a partir de, onde se pos-
tara, mas conhecia pelo jeito e sabia que onde estava um, es-
tava outro, nessas horas. E Vevé, aqui com o nome de Naê,
onde estava ela? Leléu já ia ficar inquieto e armar planos para
o dia seguinte, quando viu chegarem à mesma entrada do
meio dos arbustos os vultos de Custódio Arpoador e Vevé, ela
um pouco curvada mas andando firme, ele segurando-a pela cin-
tura. Ah bom, é ali mesmo - pensou Leléu, recordando que
conhecia o lugar, uma encruzilhada em que, quando fazia lua
a pino, a luz descia como uma tocha de cabeça para baixo, por-
que as árvores grandes que em torno se juntavam espessamente
abriam sobre essa cruz do chão um buraco em suas copas. E
lá o capim amassado pela passagem de muitos pés exibia cica-
trizes pretas, pontos esturricados onde sempre se acendiam velas
e se esfregavam as mãos. Não iria atrás deles, rodearia pelo ou-
tro lado, apareceria logo depois que chegassem e começassem
a acomodar-se, talvez fosse até bom que aparecesse dessa forma.
Bateu dos lados do chapeirão desabado, olhou à direita e à es-
querda e se enfiou de volta pela picada, até poder cortar ca-
minho para a encruzilhada. E, dito e feito, chegou na hora em
que Inácia, prendendo as bainhas do vestidão sob as dobras dos
joelhos, se acaçapava bem na cruz dos dois caminhos e orientava
os outros com gestos. Inácia tinha bebido, coisa que Dadinha
não fazia, mas ninguém se importava, como não se importavam
151





com o charuto enrolado em fumo verde que ela mascava quase
nunca acendendo, nem com os safanões que às vezes dava em
um ou outro no meio das grandes conversas e discussões com
os cabocos. Nego Leléu bateu de repente com a encruzilhada,
quase toma um susto, mas teve tempo de se abaixar no meio de
uns galhos, enquanto Inácia, a voz engrolada, pedia pressa e
expediência a todos e explicava que naquela noite haveria muita
ocupação, todos os cabocos iam fazer presença, talvez até o
caboco Capiroba, ela estava farejando qualquer coisa, qualquer
coisa, uma coisa diferente.
- Farejando eu, Nacinha? - gritou Nego Leléu dos matos,
dando um salto de pernas abertas para cair na frente dela de
repente.
Mas, se os outros se espantaram e ficaram frios com a apa-
rição, Inácia não se abalou e até demorou em levantar os olhos,
porque estivera falando enquanto escarafunchava o chão com
um graveto.
- Mecê mecezinho, hem? - disse. Rolou os olhos injetados
para Leléu, entortou a boca num sorriso ambíguo. - Ora me
veja, ora homecreia, depois de velho virou sapo para pular na
frente dos outros dessa maneira, achando que ninguém espera
essa arte besta, tem mais o que fazer não, esse menino? Tomou
susto, fio?
Fez alguns gestos hospitaleiros, mexeu o pescoço como um
calango.
- Assente aí - convidou. - Daê mecê vai levar, não vai?
Assente *aí, jeite o rabo. Então, vai levar Daê? Leve, leve. Mas
veje antes, veje as coisas, custa nada. Hem? Assente aí.
Leléu se desconcertou, não quis olhar para ver se os outros
estavam rindo.
- Tu me viu chegando - disse.
- Vi mecê saindo, eu le vi foi saindo! - riu Inácia, diver-
tidíssima, e caiu de lado como se a tivessem empurrado. - Mas
está muito jurgado, muitíssimo jurgado, ora se não le vi saindo,
não le vi chegando, não le vi armando treita, não le conheço
né de hoje nem de onte, ora me deixes, hué-hué-hué!
152
- Inácia. . . -, disse l,eléu, sem saber bem como faria para
impor respeito, sem saber nem se Inácia era considerada lnácia
mesma, naquela hora.
Se oles, se xergues, se suntes, se veje direito, se com-
prendes, se entendes, não te fiques metides, tarantarão! - gritou
inácia, levantando-se e falando língua de caboco muito perto
do rosto dele, que curvou a cabeça para trás. - Taratará, toro-
toró, tíritiri! Se assunte! Assente aí!
Ele relutou em sentar, chegou a dobrar as pernas uma vez
e erguer-se de volta, mas ela abanava o braço insistentemente
para baixo e ele acabou se agachando. Incomodou-se com o
olhar fixo e embriagado que ela lhe dirigiu durante longo tempo,
mas preferiu não desviar o rosto, encarou-a com firmeza. E ela,
aos poucos, chegou quase a sorrir, olhava-o com uma expressão





de afeto divertido, passou a tratá-lo com muita amabilidade.
- Si, si, si - disse, balançando a cabeça como quem ouve
um segredo. Explicou então a Leléu que tinha segurança de
que naquela noite se declararia grande movimentação e podiam
esperar-se eventos talvez nunca vistos aqui antes e, mal acertou
o círculo de contas, acendeu a vela e pôs a mão em concha
sobre o cenho, mal começou a oração, abriu-se numa risada
larga que lhe agitou o corpo em estremeções, levantou-se tão
ligeiro que ninguém viu como, deu uma corridinha até a beira
do mato fechado, gargalhou de novo e estendeu os braços
para cima.
- Reis! - gritou. - Rrrrreis! Ha-ha! Reixe! Ha-ha!
Estava talvez contente, mas muito agitado, esse caboco que
chegou tão apressadamente. E não queria falar pelos búzios, não
queria responder perguntas - aliás, não se sabia o que ele
queria, chegou a dar a impressão de que só tinha vindo para
dançar ao som da música do povo de Nego Lírio, fez até menção
de ir para lá, mas parou a meio caminho.
- Já se viu? - disse Honorata. - Quem foi que chegou
assim?
Nego jeba andou até ele, tirou o capirote com um floreio,
saracoteou à sua frente, fez uma saudação de curvatura e ten-
tou parlamentar, mas ele lhe deu um empurrão e voltou em
153





marcha aparatosa para a encruzilhada, onde se postou diante de
Leléu, agora em pé outra vez.
-- Zentes aí! - ordenou-lhe com aspereza, indicando a gra-
ma da encruzilhada.
- Sinique! - reconheceu Honorata. - Eta! Caminheiro da
mata, combatente do mar, reis do chucho e do espeto, reis!
Rrrreixe!
Sinique ficou contente com a saudação, esqueceu Nego Leléu
um instante, fez uma mesura elegante para Honorata, como
quem pausa num minueto. Mas logo fechou a cara, apontou na
direção de Leléu.
- Runde! gritou, com o indicador vibrando em riste.
Runde!
- Cachorro interpretou Honorata. - Sim, cachorro.
Sinique não se interessou na intervenção de Honorata, que-
ria mesmo falar com Leléu.
- Runde! - repetiu, virando-se para Leléu e quase encos-
tando o rosto no dele. - Runde! Zentezaí, mininré! Zenta,
mininré!
Leléu marchou de costas dois passos, pensou como seria se
desse uma rasteira em Inácia. Não tinha medo, mas ela ficava
cada vez maior e mais ameaçadora, talvez fosse bater-lhe, de
permeio com as palavras estranhas que lhe gritava. E não pa-
recia mesmo Inácia, os olhos, a voz e o jeito eram diferentes.
Ele deu um meneio leve no tronco só para ficar na posição para
a rasteira, levantou o calcanhar direito do chão,
- Senta, senta - interferiu Honorata. - Mininré é "meu
senhor" na fala dele. Ele quer que tu sente, ele quer te falar.
- Ele quer me falar? Que é que ele tem. para falar comigo?
- Ele veio por causa da tataraneta dele - explicou Hono-
rata, mostrando Vevé com o queixo.
Sinique permaneceu de braços cruzados, olhos colados em
Leléu, como se estivesse esperando o efeito das explicações.
Leléu achou que talvez tivesse sentido um calafrio na barriga,
mas encheu o peito e encostou os punhos fechados na cintura.
- E então ele me chama de cachorro?
- Runde - confirmou Honorata. - Finada Dadinha ...
- Runde! Runde! - explodiu Sinique outra vez.
154
Nego l,eléu assustou-se de leve, percebeu as têmporas latejando
e os músculos das pernas se apertando.
- Runde não! - defendeu-se de um jeito enviezado e in-
solente, para demonstrar sua disposição de brigar. - Runde né
eu mesmo não, cachorro não! Cachorro né eu não! Runde não!
- Então quem é? perguntou Honorata.
- Né eu quem diz! gritou Leléu com energia. - Né eu
quem diz, né eu que chega para chamar os outros de cachorro,
néi eu que fiz nada dessa situação, né eu não!
Sinique hesitou, aparentou estar um pouco apaziguado, andou
para lá e para cá em passos muito espichados, pôs a mão no
queixo, fez "hum-hum" repetidamente, voltou a Leléu.





- Zim - disse. - Zim. Eu zabe. Zabe, zabe, zabe! Zenta,
zenta, mininré, zenta non?
Nego Leléu acocorou-se junto a Sinique, que lhe contou em
língua de caboco holandês a longa história da família, netos,
bisnetos e a tataraneta filha de Turíbio Cafubá - vanderdique,
vanderlei, vanderrague, chivarze sofre! Mulé Vu, caboca, eza
sofre, zofre, zofre, comida de fomiga, terrada fifa, gabeza pra
bacho, nim me fales! Caboco Sinique enxugou uma lágrima,
puxou Leléu pelo ombro, resolveu segredar o que tinha a dizer,
em vez de falar alto para todos ouvirem. Zé Mininré, grande
Chivarze Leléu, Zinique fai ter canfiança, muito canfiança! -
disse, e disse mais que não deixasse de levar a araçanga da
menina, herdada do pai. Que muitas e muitíssimas coisas iam
acontecer e que ele, Leléu, nunca pensasse que podia imaginar
o que ia acontecer, porque não ia, era muito sabido mas mais
sabida é a vida. E que - fem cá, fem cá, Zinique muitona
canfiança em Chivarzinho Leléu, mó fis, ascuta aqui, atençón
mininré, mó fis, ascuta aqui atençón - Daê estava com filho
na barriga, enxertada pelo barão, pura verdade!
Leléu procurou olhar para Inácia, mas ela continuou agarrada
a ele, puxando-lhe o ombro, com a boca encostada na mão em
concha sobre seu ouvido.
- Inácia. . . - começou a falar ele.
- Hum? - fez ela, parando de cochichar. Mó cafalo,
mó cafalo!
- Inácia é o cavalo dele - disse Honorata. Aí não é
Inácia, é ele. É Sinique, tu não já viu?
Leléu quase suspirou.
155





- Está certo, está certo - disse e
vez. - Quer dizer então que Naê ...
- Zut! - Inácia arregalou muito os olhos, pôs o indicador
sobre os lábios e se levantou abruptamente. - Chi! Chissiu!
Chivarze ousado, falador, bocarrota! Zut! - e, antes que ele
pudesse fazer qualquer movimento, empurrou-o com violência e
ele caiu de costas no chão.
- Se ele cochichou, é porque era segredo - disse Honorata.
- Vai-te à merda, Honorata - respondeu Leléu, batendo a
mão na manga da burjaca para sacudir a terra que se grudara
nela e dando um salto para atacar Inácia.
Mas não prosseguiu, porque naquele instante aconteceu alguma
coisa que ninguém soube bem o que era mas fez com que a
passagem do tempo parecesse deter-se, talvez pouco, talvez muitís-
simo, havendo quem pensasse que relampejara, embora fosse
noite estrelada. Sinique, primeiro fazendo barulhos roucos n*
garganta, depois carrapeteando desembestadamente em direção aos
matos, desapareceu na escuridão, ouvindo-se somente um cocorocó
de vez em quando, um bodejo ou outro, sabendo-se que esse
caboco Sinique, quase sempre sem quê nem para quê, gosta
de fazer vozes de bichos de cercado. Leléu não foi atrás dele,
na verdade ninguém a não ser ele se mexeu durante esse tempo
impossível de medir. Talvez fosse porque, atraída para ali havia
lioras, a almazinha tenha chegado perto demais e então, de modo
tão instantâneo que nem as almazinhas saberiam descrevê-lo, en-
trou num torvelinho e se viu, agora com as lembranças apagadas
e a consciência adormecida, dentro do ovinho que nem ainda
conjeçara a rolar pelas entranhas de Naê em direção a seu ninho.
E, se a alminha quase não sentiu nada além do medo impotente
que traz a encarnação e agora nem mesmo se lembra de que não
mais ficará na brisa da ilha a sonhar, muito menos sentiu. Naê,
que naquele instante apenas inspirou um pouco mais fortemente,
como faz toda fêmea fecundada no momento em que um espí-
rito ocupa seu ovinho.
Por isso ninguém soube responder direito a Inácia, quando
ela voltou dos matos desgrenhada, os nós dos dedos ralados a
roupa dilacerada em dois ou três lugares e a peitarrama arfanáo,
e perguntou quanto tempo tinha passado sumida lá fora. Queixou-
156
encarou Inácia outra
se com amargor desse caboco Sinique, que mais uma vez a tinha
levado para o matagal, arremetendo por esgalhos e garranchos
sem respeitar urtiga, iiririca, cansanção, coisa nenhuma, inves-
tindo contra todo mourão e vara de cerca que encontrasse, para
deitá-los abaixo com as mãos nuas numa pressa que parecia
que o mundo ia acabar, deixando-a novamente neste estado em
que agora a viam, quisera ela numa hora destas nunca mais ser
cavalo de nenhuns cabocos. Isto, porém, sabiam todos, era de-
sejo vão, porque tão logo se acomodou, depois de beber água,
lavar os olhos e enrolar um torço na cabeça, os ombros mais
uma vez se sacudiram, o pescoço se lançou para trás e - rrreixe!





- foi-se até quase o dia raiar por chegadas e partidas de ca-
bocos, amigos e parentes, cochichos, conversas, consultas, abraços
e preceitos, toda noite ilustrada de aparições e atos mágicos.
Casa do sítio da Armação do Bom Jesus, 15 de junho de 1827.
É possível que tanta teurgia assim lançada à atmosfera, tantos
espectros fazendo ali freqüência, tantos acontecimentos singulares
- a noite bem carregada que Inácia pressentira - houvessem
levado a que o sota-cocheiro da caleça grande, Nego Budião,
fosse nessa noite aconselhar-se com os espíritos silvestres. Ele
ia sempre à capoeira com os outros, mas nunca tivera partici-
paçao a não ser para ajudar, principalmente a Feliciano, cuja
linguagem de gestos entendia como se falada. Fora mesmo através
dele que todos souberam em pormenores como morrera Inocên-
cio no campo de Pirajá, com o sangue roubado pelo barão para
falsificar glória de guerra, e souberam como tinha sido cortada
a língua de Feliciano, mesmo ele havendo chorado e jurado por
todos os santos brancos que se o poupassem jamais diria uma
palavra sobre o assunto. Mas não adiantou - contou Feliciano
a Budião, os braços tremendo, os olhos cheios d'água -, pois
eles apertaram minhas bochechas dos dois lados até que eu
abrisse a boca, puxaram minha língua para fora corri uma tor-
quês, cortaram bem fundo com um cutilão de magarefe e depois
157





queimaram o toco no ferro em brasa. Não é só falar - contou
Feliciano dando uns roncos guturais - que a falta de língua
impede, mas não se mastiga, não se engole o cuspe, não se
sente o dente, não se sente o gosto, não se pode conter a baba
e, de vez em quando, no meio da noite, é como se a língua
tivesse voltado a seu lugar, coçando e querendo mexer-se, mas
não se pode coçá-la nem movê-la, porque ela não está lá, é uma
assombração.
Desde a primeira vez em que, Budião lhe traduzindo os gestos
para os que estavam na capoeira, Feliciano deixou todos em
arrepios com sua história, ele sempre repetia sua praga contra
o barão, a qual consistia em que morreria de morte doída e
presa, sem poder confessar os pecados, levando-os embotijados
para seu inferno. Batia no ombro de Budião, fazia o gesto de
quem tira alguma coisa da boca e a joga ao chão, e Budião
já sabia: ele queria rogar a praga outra vez. Embora Budião ,~
conhecesse de cor, esperava sempre que cada palavra fosse geá~.
ticulada por Feliciano, que as escutava com o rosto pregueado,
o ódio lhe esquentando a testa.
Dessas ajudas e da repetição da praga toda vez que Feliciano
pedia, nunca porém passou Nego Budião, havendo sido com
surpresa que lhe notaram a ausência bem antes de a noite ter-
minar. A princípio, julgaram que tivesse ido para o lado do
povo de Nego Lírio ou resolvido escutar as adivinhações de
justina Bojuda, mas, quando saíram já de madrugada, ele ainda
não tinha voltado. Inácia, tonta de tanta trabalheira, disse "ele
volta, ele volta", mas nisso não existia mais que uma suposição
natural. Afinal, aonde iria ele para não voltar mais? Só se a
cob;a mordeu, o bicho comeu, o chão engoliu.
Mas nem cobra, nem bicho, nem chão, pois quem sai senão
ele de trás do milharal, trilhando pelo meio das covas de man-
dioca, espantando os pintos e levantando uma zoada de galhos
mexidos, na mão um embrulho de folhas e uns molhos de ervas,
o calção e o camisu molhados pela umidade das plantas e co,-
bertos de carrapichões. 0 dia amanhecido, Feliciano amarrando
os pés de um frango para capar, duas meninas jogando restos de
siri pilados para as galinhas, o orvalho já se evaporando da horta
e das plantas de folhas largas e Nego Budião chegando com
158
aqtjeles olhos desbolados mais abertos ainda do que de costume
C o g(-)gó subindo e descendo. Não queria ser visto, parou na
curva da casa da farinha e fez sinal para Feliciano. Queria
connersal, malocado, estava impaciente. Feliciano desatou as per-
nas do frango, jogou-o de volta ao terreiro e correu para a casa
da farinha, junto da touceira de banana-d'água. Que assanho é
esse, que novidade é essa? Meio sem fôlego, Budião não sabia
por onde começar, apontou para trás com a mão cheia de fo-
lhas. Viu visagem? Vi, respondeu ele, vi. E, deixando a histo-
riação sair na ordem que ela quisesse, contou que naquelas
plantas estava a praga. Não a praga, propriamente, que esta se
encontrava na cabeça de Feliciano, mas a força da praga. Pois,





sem nem se dar por conta, ontem de noite não as achara no
meio dos matos de repente e lá, parecendo que havia uma voz
orientando-o e uma mão a guiá-lo, não colhera dessas plantas
cujas folhas agora mostrava, estando nestas folhas toda a força
da praga, mesmo, mesmo? E, também sem se dar conta, não
voltara aqui certeiro pelos ermos e agora, se lhe perguntassem
onde estivera, não poderia dizer porque não lembrava nada, nada
do caminho? Desta folha faz-se o pó, desta outra a infusão!
Feliciano espalmou as mãos, fez uma careta de incompreensão.
Nego Budião se impacientou, agitou as folhas, quase sapateou.
Será quc Feliciano não se lembrava da praga, da própria praga,
da praga que Budião repetira por ele tantas e tantas feitas? Feli-
ciano fez que sim, um meio sim, e Budião, com seu sorriso
lunático, disse: e então? E então? E pois não é por essas folhas
e tudo mais que me ensinaram muito bem ensinado que o barão
vai morrer de morte doída e presa, sem poder confessar os
pecados?
159





Salvador da Bahia, 23 de agosto de 1827.
Fazia mais de um mês que o barão se adoentara e quase um
mes que, forçado pelas circunstâncias e pela confiança crescente
que sua competência e exação lhe asseguravam, Amleto Ferreira
respondia pelo expediente do escritório do Terreiro de Jesus.
Isto queria dizer que conduzia todos os negócios do barão, até
mesmo os mais pessoais, eis que Perilo Ambrósio, com a doença,
alternava sua disposição entre acessos apopléticos de cólera,
quando chegava a blasfemar e arremessar as louças contra a
parede, e estados de fundíssima melancolia, quando mal falava
e permanecia a maior parte do tempo sentado junto ao janelão
com o queixo depositado sobre a barriga, chupando a língua
interminavelmente. Se no começo ainda prestava uma atenção
impaciente aos números minuciosos que Amleto, pelas três da
tarde todos os dias, desfiava no gabinete da casa do Bângala,
remexendo livros de contas, rolos de papel amarelados, letras
e estampilhas, logo se entediou e às vezes nem recebia o guarda-
livros, que neste caso encerrava as tardes tomando chá com
sequilhos e escutando as muitas mágoas e dissabores que nunca
cessavam de afligir a baronesa - culminados, nestes dias negros
de agosto, mês do desgosto, pela roaz doença que ameaçava privá-
Ia do convívio amante de seu Perilo Ambrósio, lá com seu de-
feito ou outro, mas um homem bom. Haveria sempre o destino
161





malvado de enviar-lhe uma provação atrás da outra, sempre um
novo espinho em sua fronte, uma nova chaga em seu peito?
Não lhe bastava o seu paizinho, que, ai, nem sequer podia mais
andar e não reconhecia as pessoas mais chegadas? Será que nunca
mais veria a saúde estampada no rosto rubicundo do barão - ai,
nem mesmo as notícias da política e das finanças o interessavam,
sentia que a vida lhe fugia a cada dia, que pecados, que pe-
cados são esses que se estão a pagar com tanto sofrimento, será
que Deus assim não põe em excessiva prova seus melhores filhos?
Ninguém sabia o que causava o mal do barão, descrito pelo
cirurgião Justino José como congestão visceral, agravada por
uma renitente fraqueza nervosa. 0 cirurgião tinha o hábito de
agitar o lábio inferior como quem recolhe ar em conchas,, todas
as ocasiões em que era obrigado a admitir a gravidade de alguma
situação e, por conseguinte, devotava grande parte das consultas
a bater os beiços de um lado da sala para o outro, repetind,9
seu diagnóstico e estalando os nós dos dedos. Não era bom
paciente o Senhor Barão, pois, prevendo o tratamento elegido
que fosse lancetado 26 vezes e tivesse ventosas e sanguessugas
aplicadas tão amiúde quanto demandasse a necessidade de des-
congestionamento, já à terceira lancetada ele espumava de furor
e punha todos para fora do quarto a impropérios e safanões, a
ponto de a presença de mulheres deixar de ser permitida durante
as visitas médicas. Agravou-se dessa maneira a enfermidade, pade-
cendo agora o barão de urinas e bostas presas muito dolorosas,
que o levavam a uivar lastimosamente toda noite, enquanto,
amparado nós ombros de dois negros, sem calças e com a cami-
sola. arrepanhada diante de um penico sustentado por outro
preto, espremia em vão a barriga transformada numa bolha de
fogo, pingando gotinhas de urina avermelhada e ardente, a inter-
valos que a todos pareciam eternos. Não houve o que se não
tentasse das artes e ciências iamológicas, de chazinhos e ele-
tuários recomendados pela sabedoria dos antigos a cataplasmas
ferventes, clisteres, pedilúvios, eméticos, banhos de assento, fumí-
gações, purgativos, águas mornas, emplastros, benzeduras, todos
os recursos, até mesmo o das sanguessugas e lancetas, nas horas
em que, desfalecido e incapaz de resistir ao assalto do cirurgião,
o barão se deixava retalhar como uma árvore da qual se sangra a
162
~Ci~,a. Mas, talvez por haver tanto tardado o correto socorro da
'iwa Nledicini, nem sequer essas medidas lhe trouxeram alento,
tendo mesmo aporismado algumas das chagas abertas pelos gol-
i~es da lanceta, não se encontrando medicamento capaz de vencer
a virulência das postemas que a cada momento desabrochavam
em novas fístulas no corpo ensoado do doente. Agora, ao sofri-
mento dos canais escoadores entupidos, adicionava-se o da co-
niichão infernal de tantas perebas lambuzadas de vulnerários, un-
güentos, pomadas e pós, que lhe viravam a roupa da cama numa
espécie de lamaçal untuoso e enchiam o quarto de cheiros inacre-
ditáveis. Pior que isso, quando por acaso fazia efeito alguma
das puçangas que passara a beber indiscriminadamente sem nem





perguntar de que se tratava, não aguardava que lhe acudissem
ao chamado os pretos. Com medo de que, à espera de coma-
dres e penicos, deixasse passar o exato instante e de novo se
prendessem as tripas e a bexiga, soltava-se onde e como esti-
vesse. E, porque muitas vezes corria jorro copioso e irresistivel,
era quase sempre encontrado ainda a meio caminho em seu
alívio, cercado por uma poça rala de cor indefinida, por esten-
tores de peidos e por uma aura de fedor quase tangível, no
centro da qual sua expressão de beatitude pelo desenchimento
lembrava o torso de uma estátua demente.
Apesar de tudo, tais ocasiões eram invariavelmente festejadas,
bendizia-se a tisana que causara a enxurrada, acendiam-se velas,
anunciava-se o início da cura. Mas se, logo nas primeiras horas
que se seguiam, Perilo Ambrósio, abalado, enfraquecido e recean-
do novamente entalar-se em todas as saídas do corpo, passava a
chá de quebra-pedra e pouco mais, cedo sucumbia à fome e ao
despeito de saber que os outros continuavam comendo à vontade
e, ignorando o que lhe ponderavam até mesmo as negras da cozi-
nha, atafulhava-se de tudo em que podia meter as mãos, em ex-
pedições embrutecidas ao fogão e aos guarda-comidas. Inicial-
mente, punha os dedos na garganta para vomitar cada vez que
se sentia empazinado, mas depois ingurgitava o estômago defini-
tivamente, para em seguida dormir, ter pesadelos, gemer, chorar
e acordar passando mal. Buscado de volta o remédio que operara
o milagre anterior, ele não mais fazia efeito, não importava
quanto o escorassem em rezas e promessas e quanto, até com ca-
163





rinho, com desvelo mesmo, a mucaminha F-merenciana, conheci-
da por Merinha, o fizesse beber gole por gole, numa paciência
sem fim, da caneca que podia conter a salvação, Tudo porém logo
voltava ao dantes e os corredores do sobradão tornavam a estre-
mecer no meio da noite, iluminados por chamazinhas tênues de
lamparinas e freqüentados por sussurros nervosos, o barão cai-
nhando pela dor de tudo que o intumescia querendo sair sem
poder. E mais uma vez temia-se pela sua vida, pois afundava em
asteriias prolongadas, por vezes dias a fio despencado como uma
fruta passada, sem mesmo esboçar qualquer protesto quando o
cirurgião, já cético quanto à cura, decidiu-se por um tratamento
heróico e o lancetou mais 14 vezes, apresentando aos parentes
o sangue escuro extraído, para demonstrar-lhes a seriedade da
condição do paciente. Prescreveu ainda reputada fórmula carmi-
nativa à base de fedegoso, que já valera a salvação de casos e
mais casos tidos por perdidos, recomendou que, ao sentir sede
o barão, dessem-lhe maná e sena como se dá água a beduínos,
explicou que, quando o barão vomitava e parecia entrar em con-
vulsões,ao ter clisteres injetados velozmente pelas tripas acin~a,
era uma reação denunciante da vitalidade persistente do organis-
mo, proibiu que o doente comesse qualquer coisa que lhe pudesse
fazer volume nos intestinos já tão infartados de matéria fecal
aprisionada, debruçou-se diante de uma folha de papel pautado
em que descreveu os órgãos abdominais e seus diversos humores
simpáticos e antipáticos, listando o que na Natureza combatia
tais antipatias e simpatias de cujo equilíbrio adviria o recobro da
saúde do barão, advertiu severamente a todos sobre a manuten-
ção dos conselhos ali meticulosamente grafados e, levantando-se
com suor e ciência misturando-se na testa molhada, afirmou que
a moléstia estava cercada, tão cercada quanto podia ser cercada,
não ! se encontrando nenhum capítulo da filosofia natural, da ana-
tomia, da própria iatroquímica, que ali não estivesse mais que
judiciosamente aplicado, cabendo apenas contar com a resposta
das vísceras do barão, presentemente mobilizadas contra a morte
de todas as formas possíveis. E, se já de muito o barão não podia
dar a mínima atenção aos negócios, de nada lhe servindo perma-
necer na cidade da Bahia, que tentasse uma mudança de ares,
talvez uma cura de águas na ilha, talvez sarasse pela alteração dos
164
l~
princípios etércos da atmosfera circundante. Carregado na cama
ate o de lá transportado com todo o conforto para uma em-
~ic,,,aria à Armação do Bom Jesus em viagem amena,
já certamente estaria melhor. E assim se resolveu que na sexta,
24. dia de São Bartolomeu, o barão ia passar uma temporada
indefinida em Itaparica.
Amicto olhou para o relógio, deteve-se em observar a roda de
escape, cujos dentes se viam por trás do vidro e do pêndulo en-
feitado por miniaturas esmaltadas. Sete horas já eram, o ponteiro
comprido começava a transpor o segundo I do XII exoticamente
serifado que encimava o mostrador. Ele sabia que as horas batiam





uni pouquinho depois de marcadas pelos ponteiros, esperou im-
paciente o momento em que a roda esbarraria numa resistência
maior que a rotineira, daria um pequeno tombo e acionaria o
mecanismo do gongo. 0 funcionamento do escritório começava
oficialmente às sete, mas ele se orgulhava de estar sempre lá às
seis e meia, às seis até, se considerado o tempo em que, colocando
e retirando o pince-nez, passava em andar pompeado pelo Ter-
reiro e pelo Maciel, examinando os arredores e os circunstantes
como se os estivesse permanentemente avaliando. De vez em
quando interpelava um negro ou outro, perguntava-lhe de quem
era, queria saber se tinha bilhete, se podia estar por ali, vagabun-
deando àquela hora. Comentava o fato com outros passantes, cri-
ticava o estado de coisas a que chegava a Nação com a crescente
vadiagem e a conseqüente dissolução dos costumes, finalmente
dava um jeito de encaixar na conversa os importantíssimos negó-
cios que aguardavam seu alvitre. Negócios do Senhor Barão de
Pirapuama - esclarecia, aparentando naturalidade. Ultimamen-
te, contudo, já não conversava tanto, achava até tolice haver feito
tantos esforços para que soubessem de sua posição e atividade.
Sim, tolice, coisa desnecessária, coisa prejudicial mesmo, sob qual-
quer sentido. Continuava chegando à praça às seis, continuava a
circular pelas ruas em torno com a mesma expressão de quem
está o tempo todo prestes a indignar-se, mas gradualmente se fazia
mais distante e reticente, economizava até mesmo as saudações,
antes excessivamente efusivas, às pessoas de bem com quem de
hábito cruzava. Os negros, por seu turno, já o conheciam, temiam-
lhe a inquisição e escondiam-se durante o seu passeio empinado,
165





de chapéu alto, bengala encastoada e casaco preto muito bem
passado. Às seis e meia em ponto, assim que começavam a do-
brar os sinos da Ordem Terceira, puxava da algibeira com certa
solenidade a grande chave da porta de baixo, escancarava-a até
as duas partes encostarem nas paredes do vestíbulo. Manejava com
destreza o complicado sistema de trancas e taramelas da porta
do corredor, entrava, passava as trancas novamente e, logo à
direita, subia a escada de madeira e ferro em direção ao andar
de cima. Lá o preto liberto João Benigno, que morava ao rés-do-
chão, no telheiro dos fundos, já devia ter acabado a limpeza para
esperá-lo à porta da saleta. Às vezes se ousava, queria conversar,
queixava-se dos ratos, toda noite para lá e para cá, como se aquilo
fosse deles. Amleto raramente o escutava, quase sempre lhe fazia
um sinal amuado para que calasse a boca, reclamava da poeira
que encontrara sobre a escrivaninha no dia anterior, reclamava
do sujo que vira no passeio à entrada, recusava-se a ouvir expli-
cações e, depois de repetir que o negro não se afastasse da porta
lá de baixo nem a abrisse para estranhos sem consultar alguém,
trancava-se na saletinha. Primeiro, fazia um círculo pela sala,
rente às paredes e armários, uma espécie de inspeção ritual em
que realmente não via nada, embora se detivesse aqui e ali, pas-
sasse a mão num ou noutro pacote de papéis amarrados com bar-
bante, cheirasse um par de vezes o tinteiro grande como quem
tira a tampa de uma panela para sentir o aroma da comida. Ia
à janela, ajeitava as cortinas, perdia o tempo necessário para de-
sembaraçar os cadilhos do reposteiro como se fossem uma cri-
na, detinha-se em olhar o povo lá embaixo, em volta do cha-
faríz; Aqui estava sua escrivaninha debaixo da claridade da ja-
nela, um ventinho fresco passando pelas persianas, os papéis
arrumados em pilhas ordeiras, o porta-copos de prata lavrada em
forma de trevo, à frente da bilha d'água de cerâmica inglesa azul
pálido, os livros de contas muito bem dispostos, apertados na pra-
teleira por dois leões de mármore em pedestais retilíncos. Nesta
primeira e solitária meia hora da manhã, ali fechado e podendo
encarnar quem quisesse, pois que era sua única testemunha, tudo
isto lhe dava um sentimento de segurança e tranqüilidade, uma
satisfação inefável mas concreta, uma espécie de conforto alegre,
cheio de perspectivas vagamente felizes. Nesse momento em que,
166
apoiado no espaldar da cadeira, gozava tal sentimento lhe che-
g,indo completo como um banho, nunca deixava de andar alguns
passos e abrir a porta que dava para a sala do barão. Fixava-se
principalmente na elevadíssima mesa de pau-ferro talhado, na
cadeira almofadada de veludo ouro e cor de vinho do encosto e
dos braços, os retratos de molduras pesadonas nas paredes, a
escuridão quase absoluta, só amainada pela luz baça que entrava
pela porta entreaberta da saletinha. Somente depois é que se
sentava à escrivaninha, lambia o indicador e o polegar da mão
direita e retirava, com muitos cuidados para nao amassá-la, uma
folha de papel almaço da pequena ruma a sua direita, dobrava-a
ao meio e, agitando a mão no ar antes de tocar com a pena no





papel, escrevia no alto: PROVIDÊNCIAS. Geralmente não eram
mais que 10 ou 12, algumas transferidas do dia anterior e copia-
das da lista que tirava do bolso da calça antes de sentar-se e,
depois de usar, rasgava em tirinhas finas, certificando-se de que
nada poderia ser lido por quem acaso tentasse saber de que se
tratava. Para a maior parte das providências, necessitava conferir
papéis e documentos, coisa que fazia sem apressar-se, até mesmo
abrindo e reabrindo repetidamente um maço deles a fim de asse-
gurar-se de que tudo estava como queria. A uns dez minutos das
sete horas, tinha terminado, brilhava de satisfação, chegava a
desejar ter uma barriga alta sobre a qual entrelaçasse os dedos
e girasse os polegares em redor um do outro. Às vezes caminhava
na saletinha, às vezes falava sozinho, às vezes arrumava todos os
objetos sobre a escrivaninha com tanta precisão que fechava um
olho para ter certeza do rigor dos alinhamentos, às vezes se fixava
nos mecanismos do relógio.
A roda de escape enganchou, empacou na mesma posição mais
do que o esperado, deu um pulinho repentino, a corda do gongo
zumbiu e as sete badaladas começaram a soar. Amleto contou-as
com prazer e, na sexta, levantou-se para destravar o ferrolho da
Porta da frente da saletinha. Abriu-a e, diante dele, Horácio Bon-
fim, escrevente, mulato de meia-idade, dentuço e curvado, subser-
viente e serviçal, porém sempre com algo de insolente nas ma-
neiras - algo que não se podia apontar com clareza, mas fazia
com que ninguém se sentisse à vontade em sua presença -, esta-
va pendurando o chapéu numa das pontas do cabide e a bengala
167





na outra. Interrompeu-se quando ouviu a porta abrir, fitou Amleto
meio de lado, a bengala quase em riste. Fez uma mesura esqui-
sita, ainda de lado, sorriu.
- Ouvi as pancadas do relógio já do corredor - disse.
Devia saber que Vossa Senhoria ia estar abrindo a porta precisa-
mente a essa hora, Vossa Senhoria nunca falha! Muito bom dia,
antes de tudo, muito bom dia! Sim, senhor! Nunca falha, quisera
o irmão sineiro ter tão bom relógio na cabeça!
Sabia que Amleto gostava de elogios a seus hábitos metódicos,
falava como quem esperava realmente agradar, embora, talvez de
propósil,o, a falta de sinceridade transparecesse. Amleto sornu.
Não deixava de notar que Horácio mal escondia menoscabo no
que falava, mas assim mesmo lhe dava assíduo prazer constatar
que aquele homem desagradável, em quem não se podia confiar e
que evidentemente o desprezava, só podia agredi-lo se fosse dessa
forma velada e ardilosa, alcochoada em rapapés, disfarçada em
admiração. Retribuiu-lhe o "bom-dia", interrompeu novo elogio,
desta feita ao corte de seu casaco, para estender-lhe um papel.
- Estas pessoas vêm ter comigo aqui - explicou. - Preciso
falar com todas elas. Hoje, temos um dia dos mais trabalhosos,
além de que parte amanhã para a Armação o Senhor Barão, temos
de arrumar tudo a tempo e a hora. E avise Benigno que, chegan-
do o Senhor Capitão Martinez, faça-o subir e entrar de pronto.
E chegando o meu cunhado Emídio Reis, que também o faça
entrar, a menos que esteja comigo o Senhor Capitão Martinez,
mas em qualquer caso não deixe o meu cunhado sair sem falar-
me. Vêm também uns negros, querem favores como sempre,
poderp muito bem esperar até que os chame.
Horácio tomou o papel, pôs as lunetas no nariz, leu os nomes
com uma espécie de resmungo apressado, elogiou a caligrafia de
Amleto - sim senhor, sim senhor! -, podia deixar que ele cuida-
ria de tudo com diligência.
- Sim - disse Arnieto. - E, querendo entrar, bata somente
uma vez e espere que eu venha abrir a porta. Não é preciso bater
muito, ouço perfeitamente a primeira batida. Se demoro às vezes,
é porque existem assuntos e transações que não podem ser inter-
rompidas em certos momentos, negócios e sigilo são palavras
sinônimas.
168
- Mas perfeitamente!
Ilurácio falou com uma ironia insuportável na voz e Amleto
pensou em dizer-lhe qualquer coisa, mas achou que na exclama-
çãj havia ainda suficiente ambigüidade para aconselhar que não
passasse recibo, não desse ousadia.
~l
Muito bem - disse, com a mão no trinco. - Muito bem.
Muito bem - ecoou Horácio.
Ele ficaria sempre com a última palavra, pensou Amleto, en-
trando na saleta e passando o ferrolho na porta. Mas já lhe bas-
tava a ansiedade que agora viria, como todos os dias, estragar-
lhe um pouco a felicidade quase perfeita. Olhou a lista das pro-





vidências, teve dificuldade em relê-Ia com calma, recriminou-se
por isto, obrigou-se a uma segunda releitura, desta vez pausada
e minuciosa ' embora aquilo lhe custasse um grande esforço. Afli-
gia-se pelas dificuldades que podia encontrar para cumprir certos
itens, pintava na cabeça em pormenores intrincados o que poderia
acontecer de mau ou até desmoralizante e vergonhoso, caso algo
falhasse, imaginava traições, azares, coincidências arrasadoras. E
também se inquietava pela falta de ordem nas providências. Ris-
car o número 8 antes do número 2, por exemplo, lhe parecia
inaceitável, tanto assim que, quando essas inversões se repetiam,
não podia evitar a compulsão de escrever nova lista, com a ordem
corrigida, havendo dias em que fazia isso muitas vezes, ruminan-
do um ódio surdo contra todas as pessoas que tanto lhe altera-
vam a sucessão adequada dos acontecimentos. Por conseqüência,
foi com um certo fogacho que, ao abrir a porta para atender às ba-
tidas, sempre mais fortes que o necessário, dadas por Horácio, se
deparou com a figura baixinha e agitada de seu cunhado Emídio
Reis. Bem verdade que também ficava aliviado em ver que ele
não faltara ao encontro, mas era a providência número 5, de algu-
ma forma não estava certo cuidar dos assuntos que tinha com
ele antes de tratar com o capitão. Desgostou-se, pensou que certa-
mente reescreveria a lista de providências.
- Não é cedo? - falou, sem tirar o corpo da frente da porta
entrefechada.
Isto também lhe disse eu - interveio Horácio. - E lhe
disse que Vossa Senhoria aguardava primeiro a visita do Senhor
169





Capitão Martincz. Mas. como o Senhor Capitão Comandante Mar-
tinez ainda não chegou e como Vossa Senhoria também disse que ...
- Está certo, está certo! - cortou Amleto, e deu um empur-
i-ão brusco na porta para deixar o cunhado entrar.
Passou o ferrolho, experimentou-] he a resistência, virou-se para
dirigir-se a Edísio, já sentado na cadeira em frente à escrivani-
nha. Parou'a alguns passos de distância dele, olhou-o com repro-
vação. Somente agora notara bem que ele chegara em mangas de
camisa, com as fraldas saindo de um dos lados das calças de cin-
tura alta, suspensórios frouxos, gravata desalinhada e uma cinta
de couro amarrada desleixadamente abaixo do umbigo. E, em
vez de sapatos, estava calçando tamancos. E ainda conservava o
mesmo chapeuzinho ridículo que Amleto já tanto condenara como
coisa de capadócio, sem nem ao menos o tirar para estar sob
telhas.
- Mas por que andas assim pela rua nesses trajes de vaga-
bundo? Olha que, se o negro João Be nigno não te conhecesse, não
te deixava entrar, tem ordens para só deixar entrar gente decen-
temente vestida, isto aqui não é praça de feira, tu devias dar-te
mais ao respeíto, como esperas subir na vida se andas assim de
tamancos e em fraldas de camisa? E com esse chapelote desqua-
lificado que nem ao menos tens a educação de remover ao ingres-
sar em casa alheia!
Edísio fez uma cara de resignação exagerada, tirou o chapéu,
passou a mão nos cabelos, enfiou a camisa nas calças sem
convicção.
- Ah, tens de desculpar. É a trabalheira! Tu pensas que não
dá tr~balho cuidar daquele armazém? Tu pensas que é só fazer
como tu, que ficas aí por trás dessa mesita a escrevinhar e fazer
contas e dar ordens em nome do Senhor Barão de Pirapuama?
Sabes desde que horas que estou de pé, a empilhar mercadoria, a
preocupar-me com devedores e empregados ladrões, sem folga nem
para tomar banho ou fazer a barba? Não tenho tempo para ele-
gâncias, ou bem uma coisa ou bem outra.
- Melhor dirias se dissesses que uma coisa nada tem a ver
com a outra. Isto de trabalho não é desculpa para o desmazelo ,
E de mais a mais, vê-se que tu atropelas o tempo de que dispoes,
esperava-te pelas nove como combinamos e não tão cedo. Pensas
170
que não trabalho, mas sabes que assim atrapalhas-me todo o dia?
Cada minuto aqui é valioso, até mesmo o tempo que passo a
ensinar-te as coisas do comércio, que por mais que te ensine nunca
aprendes, embora digas que trabalhas e eu não. Por que tinhas
de vir agora, quando podias ter ficado entre tuas pipas e mantas
de toucinho como gostas e só aparecer na hora aprazada?
- Isto era o que me agradava, tu podes crer. Mas não sou eu
quem faz os horários da junta da Fazenda, nem dos empregados
aduaneiros, nem desses outros que empesteiam o armazém como
moscas. E hoje vai lá um fiscal da junta do Comércio que ontem
quis saber dos selos e das notas de despacho de quase toda a
mercadoria que me mandaste da Armação. Disse-lhe que já tínha-





mos tudo acertado com o Senhor Porteiro da Alfândega e o Se-
nhor Escrivão ...
- Mas, pelo amor de Deus, não deste a entender que forne-
ceinos mantimentos de graça ao porteiro, nem que pagamos renda
ao escrivão, ai pelo amor de Deus! Que se algum dia alguém sou-
ber que isto se passa, a palavra desgraça é muito fraca para des-
crever o que nos ia acontecer. E principalmente a ti, deixa-me que
te lembre, para que não penses que também não estás metido nisto
até o pescoço.
- Isto sei e não precisas lembrar-me e não sou tonto nem
desmiolado para contar isto lá ao homem da junta do Comércio.
- Mas é que falas demais. Já te disse, por exemplo, que não
te refiras à mercadoria que retiramos da Armação...
- Que furtamos da Armação! Bah! Quem nos ouve cá? Tu
tens a mania das palavras finas, que em minha boca não calham
bem.
- Isto não se deve dizer nem de brincadeira, isto não se deve
nem pensar! Proíbo-te de falares assim, para teu próprio bem!
E que seja esta a última vez que falas desta forma!
tomar tento ou não posso mais trabalhar contigo, serei
dizer isto à tua irmã, que já não anda lá muito satisfeit
Tens que
forçado a
a contigo.
- Que tem a mana Teolina que não anda satisfeita comigo,
que fiz eu?
- Não é o que fizeste, é o que és, o teu jeito, o teu compor-
tamento.
- Mas eu trabalho como um cão, eu ...
171





- Mas, e o teu estouvamento, tua falta de medida com as
palavras? Que seja esta a última vez: ao referir-se à mercadoria
procedente da Armação, charila-a simplesmente de mercado
pecial, é o bastante. Mete isto lá na tua cachola! Mercadoria
especial!
- Pois então. Pois então não temos nota para a mercadoria
especial, eis que não as deram nem o Senhor Porteiro nem o Se-
nhor Escrivão.
- Deram, deram. Tenho-as aqui comigo. Mas estas são outras,
são outras! As que ele pede são outras, que não temos.
- Que me dizes, ofereço-lhe também dinheiro? Olha que para
a mercadoria especial teremos sempre bom lucro, pois que não
nos custa nada e a vendemos pelo preço que queremos.
- Não, não, tem calma, calma. Não vás com muita sede ao
pote. Espera que ele fale, se ele quiser dinheiro podes estar certo
de que tomará a iniciativa, dirá qualquer coisa como "podemos
contornar a situação", "talvez se possa dar um jeito nisto" e assim
por diante. Mas mesmo asshn não ofereças nada, manda que
venha ter comigo, que sou teu cunhado mais velho e teu protetor,
que cuido dos teus livros de contas e assim por diante. Isto não é
tarefa para ti, eu me entendo com ele.
- E que digo eu a ele, como lhe explico a falta das notas?
- É muito simples. Diz-lhe que efetivamente se trata de mer-
cadoria do Senhor Barão e que ali não está à venda, mas sim-
plesmente armazenada para posterior envio a uma de suas multas
propriedades.
- Mas...
- I)cixa o resto comigo. Se ele quiser confirmar a informação,
terá de vir a mim, pois que hoje a voz do barão sou eu. E eu
saberei como agir, há muitas soluções possíveis, muitos caminhos,
estas coisas são de se esperar nos negócios, já existem trilhas abér,
tas. Mais cedo ou mais tarde teria de vir essa fiscalização, melhor
até que venha logo, será menos um problema daqui a pouco. Não
é mais necessário remoer este assunto, tenho aqui coisa mais im-
portante a resolver. Como talvez já te tenha dito, vai amanhã
para a Armação o Senhor Barão, a quem o cirurgião receitou uma
mudança de ares e de águas. Diz-me lá, de artigos de botica
como está o armazém?
172
- Cheio. Até pano de linho temos, umas oitocentas varas.
pois não é da mercadoria especial, que veio nesta última remessa?
- Sim, é. Quando transferi para o armazém esses artigos, não
imaginava que fosse precisar tanto deles, agora que o barão volta
para lá doente. Os negros que passassem, pois não há mesmo
necessidade de tantos cuidados com eles, talvez assim não se
queimem tanto no engenho de frigir, talvez muitos se queimem
porque sabem que têm tratamento, cama, remédios e folga do
trabalho, haveriam muitos homens bons e honestos de ter tanta
f acilidade.
- Temos então de devolver os artigos de botica?
- Quando te digo que és parvo e parece que tens na cabeça





estrume em lugar de miolos, não me queres crer. Com que então
achas que estamos a ter toda esta trabalheira com o armazém,
trabalheira ainda piorada por estares à frente dele e recorreres a
mim para todo dá cá aquela palha, para vendermos de graça nossa
mercadoria? Quanto cobras a vara do pano de linha?
- Quatrocentos réis.
- É isto o que se cobra por aí9
- Cobra-se até bem menos, a depender da quantidade.
- Muito bem, a Armação compra todo o teu pano de atadu-
ra, mas cobra-o a quatrocentos e cinco, ou seis. E, como todos
os outros artigos também os vamos comprar, faz mais ou menos
o mesmo tipo de ajuste nos preços, dos boiões à cevada, enten-
des? Um ou dois réis pelo cento, estes pequenos acrescentamen-
tos parecem pequenos mas se somam poderosamente no final.
Melhor fazendo, tenho eu aqui a lista dos artigos, pois que eu
mesmo os comprei antes para o barão.
Passou o polegar sobre as margens dos papéis de uma das pi-
lhas, tirou duas folhas com cuidado para não desarrumar as que
ficaram.
- Aqui está. De drogas, comprei trezentos e vinte mil-réis,
passei ao armazém duzentos e vinte, compro-te de volta os mes-
mos duzentos e vinte por duzentos e trinta. De vinagre, comprei
duzentas quartas, passei-te cento e cinqüenta para venderes- a
duzentos e trinta a quarta, compro-te tudo de volta a duzentos e
quarenta. De cevada. .
173





Concentrou-se longo tempo, de quando em vez deixando a mão
repousar sobre a pena de escrever que mergulhara no tinteiro
Emídio, talvez se sentindo zonzo com a velocidade dos aconte-
cimentos, quis falar, levantou um dedo. Sem erguer os olhos do
papel onde anotava as mercadorias e fazia contas, Amleto pre&-
sentiu seu gesto e o calou com um psiu.
- Ah, pronto! - exclamou depois de terminar o trabalho.
Vês, aqui está a lista de toda a mercadoria, com os preços e as
quantidades. Isto é o que vais vender à Armação por meu inter-
médio. Agora mesmo faço um recibo para assinares em nome do
armazém, no valor do montante total. E, assim que puderes, o
mais tardar pelo meio-dia, manda embarcar a mercadoria para
a Armação no saveiro Lidador, que está atracado na Conceição
Minutos mais tarde, assinando o recibo por cima de uma fileira
de estampilhas, Emídio interrompeu seu esforço laborioso e vol.
tou-se para Amleto, que, de pé às suas costas, o espiava por ciiha
dos ombros.
- Então pagarás agora? - perguntou. - Com esse dinheiro,
posso fazer muitas melhoras no galpão, posso cuidar de muitas
coisinhas miúdas que venho adiando.
- 0 galpão não precisa agora de melhoras, o que precisa de
melhoras é a nossa vida. Não, não te vou passar o dinheiro agora,
aliás não pretendo passar esse dinheiro ao armazém.
- Mas não compraste a mercadoria em nome do barão e não
é dele o dinheiro e não é nosso o armazém? Não percebo como...
- Não percebes nada, nunca percebes nada. Estamos em
muito boa situação no armazém, lá não necessitamos de dinheiro
agora, essa mercadoria não nos custou nada, não há despesas que
ela tenha acarretado. Portanto, esse dinheiro há que ser usado
de outras formas, em nosso benefício.
- Que outras formas?
- Se não entendes a mais singela e elementar transaçãozinha
comercial, como queres entender de altos negócios? Isto resolvo
eu, deixa estar. Quando te arranquei da roça e da sachola para
pôr-te à frente de alguns negócios, não esperava mesmo que pu-
desses ter tino para altas questões de finanças. Anda, pronto, já
está tudo acertado, não sei por que ficas aí parado como um
174
par~o, fecha a boca, homem! Anda, vai, despacha-te! ou não tens
nada a fazer? Que estás esperando?
Mando-te cá o fiscal, então?
Manda-o cá. Pronto, vai, Deus te leve, vai.
E, assim que fechou outra vez a porta, quase batendo-a na cara
de Horácio, correu para a escrivaninha, puxou as gavetas do se-
gredo com as mãos trêmulas. A terceira de cima para baixo até
o meio, a quarta até o fim, agora a primeira até o fim, a segunda
até o meio. Afrouxou-se a caixa de madeira lavrada que parecia
parte do frontispício do móvel, Amleto girou-a com um pequeno
solavanco, virou para si o lado aberto, puxou de dentro dela um
bauzinho de ferro e bronze. Apanhou uma chave na primeira ga-
veta, a outra no bolso interno do casaco. Pareceu à beira de





desesperar-se, quando, apesar de fazer caretas e suar, não con-
seguia que a segunda chave girasse. Parou um momento, abanou-
se com as mãos, enxugou a testa, fez nova tentativa e desta vez
ela rolou macia, a fechadura estalou, o baú se abriu, deixando
pular para fora as pontas de algumas das notas novas de dez e
cinqiienta mil-réis que estavam comprimidas dentro dele. Amleto
levantou completamente a tampa, uma aragenzinha vascolejou
as notas. Olhou o recibo deixado por Emídio, colocou-o debaixo
de uma das quinas do baú e contou as notas maiores. Decidiu
que mesmo as de cinqüenta talvez lhe fizessem volume demasiado
na algibeira, revolveu o baú, sacou do fundo um maço de notas
de quinhentos e de conto, desatou o fitilho que as amarrava,
cheirou-as com dois ou três sorvos profundos e, contando em
voz baixa, separou a quantia indicada no recibo. Hesitou sobre
que algibeira usar, terminou dividindo tudo em quatro partes,
duas para os bolsos da calça, duas para os bolsos internos do ca-
saco. Tinha agora que fechar o baú e pô-lo de volta no cacifo,
mas se deteve ainda algum tempo, olhando o dinheiro que sobra-
ra. Finalmente, quase relutante, fechou-o e cumpriu de volta os
passos do segredo. 0 frontispício do móvel tornou a apresentar-se
sólido e inteiriço, as gavetinhas retornaram a suas posiçoes de
sempre, os puxadores redondos e pretos brilharam como olhinhos
vivos. Sentou-se à escrivaninha, apalpou as saliências macias fei-
tas pelas notas sob a roupa, demorou muito assim, recostado na
cadeira, o pensamento distante e a visão perdida à frente.
175





Armação do Bom lesus. 24 de agosto de 1827.
Sentados no batente da porta dos fundos da casa do sítio,
Budião e Feliciano estavam duvidando que Merinha viesse junto
com a comitiva do barão. As negras de copa da Armação eram
outras que não as da cidade e, se bem que algumas, como a pró-
pria Merinha, se agregassem às comitivas de vez em quando, o
mais comum era que ficassem, já que dependiam da opinião da
baronesa, a qual mudava como o vento. Neste caso, já tão perto
da vitória, pois imaginavam que os venenos, a esta altura, esta-
vam chegando ao ponto máximo de sua ação persistente, viam
que ela podia fugir de última hora, não havendo na Armação
quem pudesse prosseguir no serviço que Merinha vinha fazendo
com tal eficiência que as notícias da moléstia do barão chegavam
várias vezes por semana à Armação, muitas delas já o desenga-
nando, algumas o dando mesmo por morto, embora desmentidas"
em seguida. Ainda mais, disse Budião dando tapas de exaspera-
ção nas pernas, que mestre Júlio Dandão também não soubera
responder, quando lhe perguntara sobre Merinha. Mas - pon-
derou Feliciano, a ânsia que lhe vinha pela falta de fala fazendo
com que chorasse -, já que esse grande Júlio Dandão se reve-
lara tão estranho, não poderia ele sugerir alguma coisa? domo
seriam derrotados depois de tão bom encaminhamento, tão aus-
piciosa condução do plano por que tantos anos tinha esperado
em vão, fiados apenas numa justiça dos fados de cuja existência
nunca se podia ter certeza? Ah, talvez, ah, não sei - respondeu
Budião, e se levantou para andar um pouco. Quem podia, com
certeza, dizer alguma coisa desse Júlio Dandão, quem podia con-
fiar em quem quer que fosse, nesta vida coalhada de armadilhas?
Não sei, acho que não, disse, esmurrando os caules das bananeiras.
E não podia mesmo existir preto mais misterioso do que esse
Júlio Dandão, mestre do saveiro Lidador, tudo nele parecendo
segredo ou disfarce. Gostava de couro de carneiro, andava com
um às costas o tempo todo, enrolava-se em outro quando se ento-
cava na tolda do barco para dormir. Quase não falava, i
era boçal, era ladino, sabe-se lá, era até talvez crioulo, sabe-se lá,
ele não dizia nem era perguntado. Escuro, escuro, roxo mesmo,
desses cujo pretume confunde as vistas e mistura os traços na
176
s,)nibr,i, o nariz um galho gordo e recurvo crescendo no meio do
oigode enramado queixo abaixo, sob um chapéu gamela cor de
fuligem carregada, preso num barbicacho de couro de bode preto
trancado. Se chovia ou chegava a frialdade do meio do ano, en-
vergava japona de pano de felpa como todos os do mar e botava
carapuça grossa na cabeça, tudo porém por cima das vestimen-
tas folgadas que já tinha no corpo, ficando ainda maior e mais
corpulento, à noite só se enxergando dele o vulto enorme e, no
rebrilho passageiro de um fifó, o claro dos olhos e do palitão
de pau branco que não tirava do canto da boca. Seu nome indi-
cava os mais poderosos pesadelos, não se desconhecendo tampou-
co que ele nunca se benzeu uma só vez na vida, nem nunca res-
peitou qualquer cruz, por demonstração que fosse. Caladão, os





olhos pregueados, a boca crispada, os dentes grandes estufados,
as maçãs do rosto altas, o riso difícil, talvez fosse negro jeje,
negro mina dos brabos que não faz fé em pessoa nenhuma, estú-
pido feito um cavalo, pescoço grosso, braço comprido, disposição
para meter o coice no primeiro. Podia ser achanti, quem sabe,
podia ser até hauçá papa-arroz, negro fon, negro bariba ou somba,
dos confins benins do Daomé com o Sudão, qualquer dessas ter-
ras do grande Rei Abomei, o que mandava à guerra tropas de
mulheres assassinas. Não comia porco, não gostava de cachorro,
não falava nem olhava para cara de mulher na rua, vai ver que
era negro malê, de juízo enigmático, tão cifrado quanto suas pla-
cas e papéis escritos em desenhos iguais a vermes, folhas e foices,
de que se dizia serem tão potentes quanto o veneno da planta
espirradeira. Seu nome, também se dizia, mudava às vezes para
Vodunô e as cobras tinham uma certa parte com ele - talvez
por via da falada cobra Dá, a cobra Dang-Bê, a cobra Dangue, a
cobra Obecém, a cobra Oxumaré do arco-íris? Podia muito bem
ser, podia também ser muitas outras coisas e não ser nada disso.
Foi por essas razões que Budião estranhara muito quando, sem
quê nem para quê, Júlio Dandão fizera sinal para ele na hora
em que o saveiro estava para atracar ro cais da Armação, ontem
mesmo. A carangueja ainda não tinha terminado de rolar pelo
cordoame da mastreação abaixo, não havia nem distância para
os moços de bordo jogai.-m os cabos das amarras aos negros que
os aguardavam, quando, com uma mão no frade de boreste e
177





outi-a aiiidando a li~,i-ai- uma corda presa ao piiti de ti-aqiietc, Júlio
Dandão levantou os ollios, viu Budião, soltou a mão da -corda
e a espalmou como quem pede para esperar. Que poderia estar
querendo? Budião não tinha noticia direta de ninguém que tivesse
conversado com esse mestre Júlio, o qual, quando estava aqui,
nunca saía do saveiro, passava o tempo todo dentro da tolda,
abanando o borralho aceso para assar ou defumar pescado, ou
senão rei-nexendo por dentro das cavernas do barco sem parar.
Que podia ser? - pensara Budião, enquanto, deslizando leve, o
saveirãe, borde-joti amainado o molhe, chegou ao ponto de atraca-
ção e se deixou amarrar como um grande peixe manso.
Apesar do sinal, Budião não podia esperar, porque Almério já
tinha visto que havia muita mercadoria dentro da embarcaçao e
começava a gritar com os negros para que se mexessem, tinham
de carregar aquilo tudo para o almoxarifado. Dandão tirou uma
pilha de papéis de dentro de sua bolsa de couro, entregou-a a
Almério por cima da borda do saveiro, viu Budião em pé junto
ao feitor, mas não disse nada. Apenas Budião achou, pelo jeito
com que baixou e levantou a cabeça quase imperceptivelmente,
que estava dando a entender que confirmava o sinal feito de longe,
Budião podia ir cuidar de seu serviço e, na primeira opoi-tunida-
de, falariam.
já não estava tão claro quanto antes, na hora em que Budião
foi para o atracadouro, não só porque o trabalho de descarga
era muito, como também porque algumas nuvens pretas se junta-
vam ali pelo noroeste, escondendo o sol que já descia. Calor gran-
de, pensou ele, os passarinhos quietos, a morcegada voando baixo,
muita. barata e mosca procurando abrigo nas casas, bichinhos
grudando na pele das pessoas. Mas com certeza logo ia descer
um nordestezinho fresco para soprar as nuvens para algum lugar
distante e, além disso, o calor devia ser mais do repuxo de tanta
carregação, porque Almério, talvez por falta do que fazer, falta
de com quem gritar, resolvera aproveitar para mandar fazer uma
porção de serviços no almoxarifado.
já do alto do molhe, Budião podia ver a pele de carneiro de
Júlio Dandão movendo-se na escuridão da tolda do saveiro, como
um fantasma numa gruta. Chegou mais perto, a pele agitou-se
pesadamente, Dandão emergiu lá de dentro, parecendo que nunca
178
ia conse,-uir terminar de pôr o corpo inteiro para fora. A fumaça
do fugareiro, que se filtrava pelos espetos de peixe miúdo dis-
postos icíma na forma de pequenas esteiras, enrolou-se por suas
pernas, t~tibiu à sua frente e lhe envolveu a cabeça. Budião parou
um instante, achou que ele era mesmo uma aparicao, seu nome
de sonho mau muito justificado. Mas não havia de ter medo dele,
afinal. fosse o que fosse, era apenas um homem e o fato de ser
liberto não o livrava de ser preto como ele. Retomou a marcha
pelo molhe, chegou à borda do saveiro quase encalhado na maré
baixa, preparou-se para pular e Dandão brotou de repente diante
dele, com a mão estendida para ajudá-lo a entrar no barco.
Passaram muito tempo acocorados e silenciosos à frente da





toca do mestre, o cheiro de xangó deftiniado enuordurando o ar
agora parado, talvez até mais quente do que antes. Dandão esticou
o braço, apanhou um alguidar pequeno, cheio de farinha e peda-
ços cinzentos de carne-de-sol de carneiro. Estendeu-o a Budião,
manteve o braço retesado até que achou que o outro não queria
comer aquilo. Engatinhoti para a trempe de defumar peixe, apa-
nhou um espeto, mostrou-o a Budião.
- Hum? - ofereceu. - Hum?
Budião, que não tinha tocado na carne porque não chegara a
perceber o oferecimento, tão absorvido que estava por outros pen-
samentos e por aquela embarcação mágica em que nunca tinha
entrado, despertou quase espantado, tomou o espeto, arrancou
cinco xangós com os dentes, devolveu o espeto. Dandão também
mordeu uns peixinhos, voltaram a ficar quietos, mastigando em
silêncio. Mas Budião, já menos encantado, quis perguntar para
que seria aquela conversa tão inesperada. Ensaiou a pergunta na
cabeça, achou várias vezes que ia começar a falar, desistiu todas
as vezes - não seria uma ofensa, falar antes do dono da casa?
Mas não precisou preocupar-se com isto, porque Dandão, depois
de jogar um punhado de farinha na boca e limpar os bigodes
com as costas da mão, acercou-se para conversar.
- 0 barão, teu amo, vem amanhã - disse com a voz muito
clara, não o grunhido roufenho que Budião tinha antecipado.
- Vem amanhã? Então vem amanhã? já teve cura assim,
vem amanhã?
179





- Não, não é da cura, é da piora. Vem para mudar os ares.
Está muito mal, deve morrer.
Budião assustou-se, sentiu o rosto esquentar. Por que Dandão
tinha falado assim, nesse jeito de cumplicidade? Que arapuca
estavam armando, que mistério era esse? Cerrou os dentes, ficou
muito sério, não iria admitir nada.
- Coitado do barãozinho, nhozinho vai morrer?
Dandão encarou-o longamente, a expressão curiosamente diver-
tida, parecendo até que ia sorrir. Pôs-lhe a mão no ombro,
apertou-o.
- Tu não precisas dizer nada - falou. - Eu sei.
- Sabe do quê? Eu não sei de nada. Tu foi que me chamou
aqui, tu que queria me falar.
Dandão, sem se levantar de todo, andando como um macaco
descadeirado, foi até a tolda, abriu um saco encardido, tirou dele
dois molhos de ervas, tentou passá-los a Budião, que apenas os,
olhou.
- Que é isso? - perguntou, cruzando os braços.
- Toma. Pega, toma, são as mesmas que tu colheste e que
agora não sabes mais colher. Toma, talvez precises delas.
- Não sei o que é isso. Preciso disso para quê?
- Se Emerenciana não vem, se não traz as folhas, como é que
fica a situação?
Budião se confundiu, não conseguia resolver o que faria, o que
diria.
- Hoje por sinal é véspera de São Bartolomeu - continuou
Dandão, depositando os dois molhos de ervas junto a Budião. -
Amanhã é São Bartolomeu, o barão vem nesse dia, é bom sinal.
Budião passou a olhar para lá e para cá, dos molhos de ervas
à figura calma de Dandão.
- Eu mesmo não cuido dessas coisas, não assim - prosse-
guiu Dandão. - Mas tu sabe que, para aceitar o animal que se
abate para ele, esse santo manda primeiro cortar a língua desse
animal? Só aceita com a língua cortada.
Budião arregalou os olhos.
- Só com a língua cortada - repetiu Dandão.
Mas, mas como tudo isso? Que sabia ele, quem lhe havia con-
tado essas coisas, como sabia de Feliciano, fazendo aquela alusão
180
a linguas ceirtadas? Quem lhe havia contado, que bobagens tinha
inventado Merinha, aquela desmiolada sem juízo?
-- Não é desmiolada, nem sem juízo. Ela sabia que podia me
contar, sabia que devia me contar.
Por quê? E por que sem me dizer nada, eu podendo até ...
Porque não interessa. Eu também quero que ele morra.
0 barão te fez mal?
A mim, eu mesmo, não. Toma, pega as ervas, vai fazer teu
trabalho.
- Mas como? Como é que vou fazer isso?
- Sei que é difícil, mormente se Merinha não vier junto com
a comitiva do barão.





Ela não vem? Sabes se ela vem?
Não, não sei. Não sei. Possa ser que venha, sempre possa
ser.
- E se não vier?
- Vais desistir, agora que já estás tão perto?
- Não, mas não é caso de desistência, é caso de não poder.
- Não, vai poder, vai poder, sim. Vai poder.
- Vai poder, como? Isso é que eu não sei. Vai poder, como?
É só falar?
- Vai poder - respondeu Dandão muito convicto, e levantou-
se como se estivesse dando as despedidas. - Leva tuas folhas,
põe de dois molhos por baixo do camisu, enfiados no cós do
calção,
Sem falar mais nada, andou para seu buraco, enroscou-se lá
dentro, embrulhou-se na grande pele de carneiro que o esperava'
e desapareceu gradualmente no escuro. Budião permaneceu para-
do, olhando para a tolda com as vistas apuradas.
- Anda, vai - disse lá do fundo uma voz desencorpada.
Vai trovejar daqui a pouco.
Na volta ao telheiro, mal pôs os pés na praia, Budião sentiu
os primeiros pingos da chuva grossa que começara a desabar.
A noroeste, bem onde as nuvens haviam começado a juntar-se, só
existia uma massa farrusca impenetrável. A princípio num ronco
distante, depois cada vez mais perto, abriu-se a trovoada, salpi-
cando o céu de fagulhas e fazendo o chão estremecer. Como uma
181





182
faca garranchuda, um raio faiscou no centro do bolo de nuvens,
hesitou antes de libertar-se e, subitamente, cortou toda a extensão
das nuvens à praia com um estrondo jamais ouvido, o próprio
firinamento parecendo haver despencado, um céu de metal pesa-
do e pedras colossais. Budião se encolheu embaixo do telheiro,
ofuscou-se quando o raio mergulhou no mar e depois dessa luz
deslumbrante não mais voltou, deixando por ali somente aquela
escuridão sólida e o estrépito da chuva invisível que, mesmo apa-
rada pelas telhas, respingava-o como se quisesse mostrar que
sabia onde ele estava.
Isto mesmo recordou em companhia de Feliciano, convencido
de que alguma coisa fora do comum estava realmente acontecen-
do, alguma coisa em que não podiam pôr as mãos, nem podiam
entender. De qualquer maneira, o barão ainda não tinha chega-
do, era muito cedo, só podiam saber se ele vinha mesmo depois
de o sol estar mais ou menos alto, não assim a esta hora da maz,
nhã, o terreno ainda lamacento e marcado pela chuva que durara
quase a noite toda e chegara a acachapai- as ramas de abóbora
e melancia, chegara mesmo a desenraizar algumas árvores peque-
nas. Os molhos de folhas, apertados em outras folhas, de taioba
e bananeira, para não se molharem, estavam escondidos no oco
de uma embaúba perto da capoeira, onde ninguém as acharia nem
iria procurá-las, desafiando as formigas pretas e quase mortíferas
que lá moravam. E Merinha, Merinha certamente viria, claro que
viria. Mas Budião repetiu isso sem fé e o outro não quis ir com
ele para o ancoradouro, esperar o barco que trazia o barão. Tinha
o trabalho da casa do sítio, a capinação da grama pé-de-galinha
que brotava todo dia entre os canteiros, os viveiros de couve, re-
polho e pimentão para semear, as mudas de batata-doce para
cuidar, as árvores de frutas, os jegites e as mulas, a roça de man-
dioca, não podia sair dali, era o destino dele, deixasse isso para
lá - e, afinal, pelo menos o barão já tinha sofrido um bocado,
já houvera uma satisfação, essa era que era a verdade. Budião,
contudo, sabia que era mentira de Feliciano, o qual apenas dis-
farçava o medo de que Merinha não viesse e nada mais pudesse
ser feito, tratando logo, pois tinha hábito e prática, de resignar-se.
A sumaca Flor dos Mares já tinha deitado âncora ao largo por
causa da maré baixa, a primeira viagem do batel já se completara
e i3udião, seni conseguir deíxar de andar para cima e para baixo
esfregando as mãos na nuca, não conseguia divisar lá fora nenhum
vulto de mulher que não o da baronesa. Na primeira viagem,
desceram somente o piloto e dois remadores, que traziam as ins-
truções para receber-se o barão. Arejassem a casa, mudassem
a roupa de cama, pusessem água nova nas talhas, avisassem às
negras que não fizessem barulho, juntassem uns quatro negros
parrudos para transportar uma boa cama à praia, a fim de que
nela o barão fosse carregado do bote à casa-grande.
- Nego Budião! - chamou Almério. - Anda, vem cá, tenho
serviço para ti!
- Tou no carregamento de lenha da tanoaria - disse Budião,





sabendo que não devia ter falado assim.
Almério de fato não gostou da resposta, correu até ele, sacudiu-
lhe o rebenque diante do rosto.
- Te perguntei alguma coisa? Te perguntei alguma coisa, mo-
leque ousado? Te perguntei alguma coisa, moleque safado?
- Não, iô. Mas é porque mestre Zé Pinto me disse que era
para não deixar de carrear a lenha toda hoje, que senão não ia
poder aprontar os arcos da cascaria nova, não ia poder fazer
calafetagem, não ia dar vencimento nem nas duas tinas.
- E desde quando recebes aqui ordens do Zé Pinto? De quem
recebes ordens aqui? Anda, diz, de quem recebes ordens aqui?
- De nhô mestre itor A mério.
- Então, lorpa safado, negro debochado desassuntado, peda-
ço de lodo preto, então?
Nhô sim.
Vai chamar Sabino, vai chamar Jacinto Curió, Roque
Quebra-Ferro, chama Silvestre ou Dionísio, chama Astério, vai,
traz-me aqui uns cinco negros dobrados e vai à casa-grande bus-
car uma cama, que deve esperar aqui o desembarque do Senhor
Barão para que seja levado ao quarto dele. Anda, vai! Vai e de-
pois te apresentes a mim para que eu te diga o que vou fazer
para compensar tua insolência, já te mostro como se trata a escra-
vatura na minha lei.
0 barão desembarcou carregado, logo depois da baronesa, que
de tão atarantada chegou a molhar a barra da saia na água, en-
quanto desferia instruções nervosas. - Ai, que fazem, não vêem
183





qtie assim o destroncam, assim o matam de vez? Que estão a fazer
agora, Senhor meu, e ainda me trazem esta enxerga imprestável
para transportar o senhor de todos vós? Se não há gratidão, haja
ao menos tino e expediente! Devagar, que já rola para fora do
o p~
leito, ai, que fazem, devagar, devagar, devagar! Não, nã osso
ver, não posso ver, ai Deus que do alto a tudo conteniplais com
vossas bênçãos, tende misericórdia desta vossa filha que já sente
a alma esvair-se de tanto sofrimento, ai pobrezinho, cuidado,
cuidado!
Mas o barão apenas movia os olhos salientes e babava um pouco,
a boca entreaberta, os lábios amolecidos. A uma pergunta carinho-
sa da baronesa - bem, filhinho, diz-me lá se queres alguma coisa,
estás melhor, filhinho? -, sussurrada para que os serviçais não
vissem tanta intimidade e pronunciada com uma mao no peito
e outra na testa do doente, o barão persistiu na mesma expressao
vazia, não fez um som, somente o lábio inferior tremeu languida-
mente, logo pendeu de novo.
- À casa, à casa! - comandou a baronesa, lembrando a es-
tampa de fortaleza e resignação que o pai ostentara quando a mãe
morrera e se determinando a reproduzi-Ia.
Ergueu a cabeça, passou a mão nos cabelos que lhe saíam de-
baixo do chapéu, apertou a boca, empinou o peito e, fazendo só
um intervalo como quem arregimenta forças das últimas reser-
vas, gesticulou com energia. Vamos, vamos! Os negros içaram
a enorme cama de cedro e marcharam, oscilando como uma tar-
taruga no meio da desova pela praia e caminho acima, em dire-
ção à casa-grande, Budião pensando que não devia ter tentado
evitar. aquele serviço, o que agora lhe valeria talvez uma surra,
e que, mesmo ali, perto da sumaca fundeada, não conseguira ver
Merinha.
Ela não viera, porque, desafiando as ordens de Almério para
que se apresentasse logo depois do serviço de carregar o barão,
voltou para a praia e esperou que desembarcassem todos, desde
o cirurgião lustino José, todo de preto e grudado obstinadamente
a uma maleta preta, às negras e a marinhagem. Quase perguntou
a um deles se por acaso não chegara também uma mucaminha
alegre, de dentes lustrosos, rosto redondo e olhos sorridentes, de
braços roliços e trejeitos sestrosos, que achava graça em tudo, uma
184
que andava sempre perfumada a capim-de-cheiro, que andava sem-
pre como se dançasse, uma que, por mais que passasse o tempo
na cozinha no meio de panelas gordurentas, sempre saía de lá
tresquinha, fresquinha? Sem querer, porque não podia e o mo-
mento era de preocupação, pensou em como tinha se chegado a
ela, como tinha somente jogado um cheiro de longe - uma coisa
ligeira, uma franzida de nariz, uma fungada breve, uma levantada
ousada de ventas, de ombros e de queixo - e depois ela o rece-
beu de noite como se sempre tivesse sido e sempre tivesse de ser
assim, o regaço dela parecendo que sempre estivera ali, aquilo um
belo ninho, aquilo o lugar perfeitamente encaixado para ele,





aquilo um abrigo, não sabe? Pois de que se gosta, numa mulher?
Difícil dizer, há os que gostam das de cabelo mais comprido
como o das índias, outros de umas que têm os quartos grandes,
outros de umas que afetam um certo pisar, outros de umas que
têm os traços desafiantes, outros de umas que são caladinhas e
encafifadas e, naqueles calundus fechados com que amanhecem,
prometem ser mulheres tão danadas que matam um homem na
cama, outros de umas que somente obedecem, e por aí vai, tarará-
tarará, para cada um existe uma, mesmo que nunca apareça. Então
não sabia, mas sabia da especialidade dessa Merinha, talvez a
especialidade do riso dela, talvez a especialidade do jeito de ficar
quieta de repente, talvez a especialidade dos cabelinhos que po-
diam ser vistos nos braços dela e adivinhados nas partes mais
secretas das coxas, talvez a cara brincalhona com que enfrentava
as piores situações - qualquer coisa, qualquer coisa, qualquer
coisa, coisa de atração mesmo, coisa de tesão, coisa de não saber
que coisa é -, onde estava Merinha, a doce envenenadora do
barão, a sua Merinha? A Merinha que nem dissera nada quando
lhe pedira para aplicar as ervas e folhas, que as pegara e somente
confirmara - esta daqui em pó, esta daqui fervida. Merda, bosta,
putamerda, pensou Budião, achando que sofria mais por não ver
Merinha do que por ela não estar ali para a missão agora falhada,
teve até um pouco de vergonha.
Vergonha essa que lhe deu uma certa fraqueza, quando, con-
versando com Zé Pinto, mestre tanoeiro, pardo de fala macia,
afogado no meio de suas pencas de malhos, seus formões, suas
mós de variados veios, suas enxós, seus chaços de apertar arcos
185





de barricas, suas seguras, seus tornos, seus piches, breus e alca-
trões, seus mares de estopa de linho, seus repuxos e saca-nabos,
seus trados de furo, sua bigorna, seus mil bagulhos de tanoci.
i-o. pediu-lhe que confirmasse a história da lenha. Não queria apa-
nhar, ainda mais em dia enervante como este, e achava que Almé.
rio ia bater nele. Porque tinha querido evitar o serviço de carre-
gar o barão, não pelo peso mas pelo barão mesmo, inventara
aquela história e Almério ficara com muita raiva, parecia mesmo
estar num desses dias em que, antes de tomar banho e comer,
espancava um preto atrás do outro. Da-da-da-da, trauteou Zé
Pinto, como sempre fazia para tranqüilizar as pessoas, mesmo
quando não havia razão para tranqüilidade. Da-da-da-da, vexe-se
não, disse Zé Pinto, já se preparando para argumentar que Alm&
rio estava ocupado demais com as instruções da baronesa para
se lembrar daquela besteira, quando sua vista se desviou para
trás de Budião e sorriu sem mostrar os dentes.
- Tem gente aí - disse, apontando com o queixo para a en-
trada da oficina.
Budião vírou-se, viu uma figura silhuetada contra a luz da'
porta, não quis acreditar.
- Eu vim no Lidador - disse a figura, e Budião teve certeza,
pela voz que lhe fazia tanta falta, de que era mesmo Merinha ali
chegada, e aqui vinda por querer falar com ele.
Nazaré das Farinhas, 29 de julho de 1827.
Você.s vejam que consumição. 0 indivíduo se destaboca da
Ponta das Baleias para Salinas, Cairu e Encarnação - cada qual
com negócios mais amarrados e cheios de nove-horas do que a
outra, uma azucrinação mesmo -, arranja uma desgraça de um
bote fretado mais caro do que cu de branca no Congo e tome-lhe
navegação, Mutá, Matarandiba, Jiribatuba, boca do jaguaripe,
Maragogipinho, tudo tini aborrecimento completo. Aí vem a parte
por terra, diacho de lombo duro de jegue, arrastando uma molés-
tia de um jorrão cheio de tralha, cada mato ardiloso que parece
inventado pelo Cão, uma mosquitaria da postema, o passadio pior
do que o da escravatura, um padecimento só, de cabo a rabo. Aí,
186
chega aqui, mais negócios engrezilhados, uma novidade de exi-
gencias, mais gente querendo ganhar dinheiro sem fazer nada,
mais gente querendo passar calote, mais aporrinhação. Para com-
pletar, agora essa! Agora essa, mas ... mas já se viu, mais parece
Coisa feita, repuxo de atraso de vida mesmo, ave Maria.
- Caraio! - resmungou Nego Leléu. - Assim não pode!
Levantou-se para dar vazão à impaciência, mas não podia an-
dar dentro do espaço minúsculo dos fundos da barraca de verdu-
ras. Chutou um tamborete que caiu, apanhou-o em seguida,
pondo-o de pé e fincando-o no chão. Muito bem, primeiro chega
essa menina Vevé, com aquela cara de porreta, como se fosse
muita coisa, como se fosse uma verdadeira marquesa - ora me
deixe, uma desgraça duma filha de Cafubá, cativa de merda, mas
é cada uma! -, chega essa menina Vevé e diz que o Senhor Dou-
tor Tabelião e Escrivão da Provedoria mandou devolver. Mandou





devolver como, tu não quis servir o homem? Ah, não sei, eu
fiquei lá esses dois dias, aí depois ele apareceu e me mandou de
volta, disse que mais tarde vem aqui falar.
- E tu me conta isso com essa cara lavada? Tu não sabe o
que quer dizer isso? - tinha gritado Nego Leléu. - Quer dizer
que ele te devolveu, assim sem mais? E tu não é uma negrinha
muito da descarada? 0 que é que tu fez, o que é que tu fez lá?
E agora com que cara eu vou ficar, como é que vai ser?
Ela não respondera, ficou calada o dia todo. E não adiantava
mesmo que respondesse, até porque não sabia de nada. Nego
Leléu, porém, sabia. Sabia que o Senhor Doutor Tabelião João
Manoel Augusto Dantas estava esperando uma negra moça, de
carne redonda mas não gorda, para tomar conta da casa de Ara-
tuípe - regar a horta, criar as galinhas e receber o Senhor Dou-
tor, sem mancebia certa mas com regularidade e pouca reclamação.
Vida mansa como essa muitas por aí vivem pedindo a Deus e não
acham. Então Leléu pensou: pego essa negrinha Vevé, levo para
o Senhor Doutor, ele pára de me apoquentar, deixa de querer
escarafunchar minhas contas, deixa de querer me botar na cadeia
por emprestar dinheiro a prêmio, deixa essa perseguição toda.
Pronto, tudo certo, tudo arranjadinho - e agora essa! Será que
o homem não tinha gostado dela? Mas como que não tinha gos-
tado, se ela era bem como ele pediu, até mais caprichada, tinha
187





todos os dentes, que ele não exigiu, era asseada, que ele também
não exigiu, tinha as pernas grossas e a bunda bem feita, como
ele pediu? Então não era essa a questão, a questão era - com
certeza, com certeza, corto um braço se não for! - que, chegou
lá, ela não deixou o homem encostar, isso é uma negrinha ordi-
nária miserável, isso vale nada, não foi à toa que o barão resol-
veu dar de graça!
- Ah, mas isso não vai ficar assim - esbravejou Leléu e se
levantou outra vez. - Ela vai prestar serviço nem que seja de-
baixo de porretada, ela não me conhece!
Saiu da barraca, chamou o negrinho Salustiano, que estava
cortando abóbora.
- Me compreenda uma coisa - disse Leléu -, me vá ali na
casa de peixe, me diga a Mané Mina que me desamarre aquela
negrinha que eu truxe e me mande aqui e sem conversa com ela,
puxe, vai!
Mas, antes de Salustiailo passai- a mão no pano e sair da bar'.
raca, apontou pela beira do trapiche o Doutor Pedro Manoei
Augusto.
- Deixa, deixa - oi-denou Leléu i Salustiano. - Depois tu
vai, eu te digo.
Melhor talvez fazer cai-a de quem não sabe de nada, pensou,
enquanto o Doutor Pedro Manoel Augusto, apertando os olhi-
nhos por trás das lunetas e andando em passo apertado, atrapa-
lhado pela barriga em cima de um par de pernas finas, parava
onde estava, punha a mão na testa para anteparar o sol e final-
mente o localizava junto à barraca. Fez um gesto alegre, como
queun diz "ah, que bom!", recomeçou a andar. Leléu quis ir até
lá, mas ele fez um sinal: não, não, conversamos lá dentro, lá na
barraca.
Ufa! - disse, depois que entrou e se sentou num tanibo-
rete. - Mas que calor horroroso! Esta época devia ser mais
fresca, mas este ano parece que o verão já chegou. Sim, senhor,
que calor!
Afrouxou o colarinho, deu algumas sopradas pelo peito abaixo,
puxou um lenço para enxugar-se.
- Vossa Excelência quer que eu mande o negrinho Saiu aba-
tiar Vossa Excelência um pouco?
188
Pedr,) Manoel Augusto hesitoti, acabou concordando.
- E, sta bem, só um bocadinho.
r)emorou de olhos fechados, enquanto Salustiano trabalhava
com o abano de palha em sua frente.
- Ah, que alívio! Aqui, aqui um pouco, abana aqui. Ah!
Leléu esperou que ele começasse a conversa, porque sabia que
não quereria falar diante do menino.
- Pode ir - disse Pedro Manoel Augusto ao menino.
muito bem, pode ir.
o menino saiu, ele olhou para Leléu como quem arruma na
cabeça o que vai dizer.
- Bem - começou. - Essa menina que você me mandou...





- Eu já sube, ioiô, fiquei muito desgostoso - interrompeu
Leléu, contrariando o que havia planejado, porque achou que
era melhor defender-se logo, colocar os pontos nos is de uma vez.
- Se incomode não, que eu vou pegar ela e ...
- Não, não, não - disse Pedro Manoel Augusto, agitando
as mãos. - Não, tu não sabes.
- loiô não devolveu a moleca?
- Devolvi, mas ela não fez nada. Não foi por causa dela.
- Ela não quis servir?
- Não, ela não fez nada, nem eu fiz nada. Vê se te calas,
se paras com essas gatimanhas doidas e se me escutas, não tenho
muito tempo.
- Ah, Doutor Escrivão Tabelião iô Pedro Augusto, eu sei que
iô é um homem fogoso, um homem que não perdoa nada! Quer
dizer, quando eu vi a negrinha voltar, eu pensei aqui: quando
o doutor botou os olhos, foi logo querendo, mas ela deve de ter
se comportado mal, me preocupei logo.
Pedro Manoel Augusto ficou contente pela referência a seu
temperamento arrebatado, sorriu, apalpou o saco distraidamente.
- Pois é - disse com uma expressão evocativa. - Pois é, mas
o homem, nesta vida, tem de pensar em outras coisas, a vida não
é só essas coisas.
- Lá nisso tem razão o Senhor Doutor Tabelião, a vida não
é só essas coisas, muito bem dito.
189





- Justamente. Sabes que dia é hoje?
- Que dis é hoje? Sei, domingo. Mas não tou trabalhando,
tou com a barraca fechada, eu sei da postura, não vá pensar
o Senhor Doutor...
- Não, não me refiro a isto. Sabes qual o santo do dia?
- 0 santo do dia? 0 santo do dia? Hoje é dia santo? 0
santo do dia ...
- Não sabes. 0 santo de hoje é uma santa, Santa Marta.
- Santa Marta... Grande santa, conheço bem, já ouvi falar
muito, Santa Marta, todo mundo já ouviu falar, santa muito famo.
sa, grande Santa Marta. É mesmo, 29 de julho, Santa Marta' santa
de alto quilate, bela santa. Antão nhozinho é devoto de Santa
Marta, muito bem, bonita devoção, Santa Marta assim ...
- Não, não sou eu quem é devoto dela, é minha esposa, é
Dona Marta de Betânia.
- laiazinha Doutora Tabeliona, mas não me diga! Bela devo.
ção, devoção linda mesmo! Santa Marta ...
- Deixa de patacoada, negro sonso, não sabias nem que era
ela a santa do dia, deixa de ser loroteiro.
- Cuma non sei? Cuma é não sei?
Santa Marta, grande Santa Marta, recitou Leléu, grande Santa~,
Marta,
que ao dragão venceu lá na Província,
o qual levou domado, com a Madalena,
para os homens matarem e, mais ainda,
provar que Deus existe na Sardena.
Irmã de Láz'ro, de Betânia, linda terra,
onde serviu o Cristo em sua mesa
e onde o Cristo chegou a reclamar,
de tanta a atenção que devotou
essa Marta ao servir do bom Senhor,
até mesmo com Maria impaciente,
não a Mãe de Deus, mas Maria de Betânia,
que era irmã, porém bem diferente,
uma contemplando, outra cozinhando,
porém Jesus sabia que entre irmãs
uma contempla, outra faz cozinha,
190
valendo o que se dá por vocação.
Santa Marta, que carrega a concha do feijão,
porta a vassoura, porta o espanador,
porta a5 chaves do lar em que labora
sem nunca descansar, sendo patrona
das donas-de-casa, das arrumadeiras,
das que trabalham sem que acabe o trabalho,
das que burnem o chão que todos sujam,
das que se satisfazem mui caladas
ao ver contentes que não lembram delas
os que se lembrariam tão mordazes,
se essas coisas todas não estivessem feitas,
perfeitamente feitas, todas no lugar,





sendo essa a missão de Santa Marta,
de varredura, de forno e de fogão
e cosedura e limpeza e arrumação,
e essa grande, grande Santa Marta,
ninguém alembra; porém, não alembrando,
é que se lembra o de que se não lembra
e assim se lembra quem não quis ser lembrado,
a não ser pela lembrança da boa Santa Marta,
de quem só lembra quem nunca foi lembrado.

Pedro Manoel Augusto sorriu, Leléu abriu os braços como um
artista de circo que termina seu número.
- É, tu sabes alguma coisa dela, sabes mesmo - disse Pedro
Augusto. - Embora nesses versinhos de pé quebrado estropia-
dos, vê-se que te ensinaram alguma coisa. És. és danado,
Leovigildo.
- Não me ensinaram, ioiô, eu aprendi, sempre estou apren-
dendo com as pessoas melhores e os grandes como o senhor.
- Muito bem, pois, se sabes tanto sobre Santa Marta, não
preciso explicar-te muita coisa. A Senhora Dona Marta, minha
esposa, recebeu esse nome porque nasceu hoje, faz anos hoje.
- Ah, ioiô, é muita ousadia se eu mandar um balaio de frutas
frescas para ela? Não tenho muito para homenagear, mas, se vale
a intenção ...
1
191





- Não, ela vai gostar, podes mandar, mais tarde tu mandas.
- Obrigado, ioiô.
- Sim, mas então, hoje pela manhã, antes da missa, a Se-
nhora Dona Marta me falou muito da vida de sua santa padroeira
e me pediu que lhe desse como prenda aquela que para ela é a
mais elevada de todas, como seja uma vida sem pecado.
- Mas é fácil! Qual é o pecado de ioiô, ioiô não tem pecado!
- Aí é que te enganas, tenho-os e não são poucos. Mas fiz
a promessa solene de procurar atender ao anseio de minha esposa,
ela tem razão. Ela sabe que de vez em quando, eu ... Tu sabes
o que quero dizer, tu mesmo confirmaste a fama que tenho de
femeeiro.
- Vixessantíssima, ioiô, nem me fale! Aqui em Nazaré, diz
o povo ... Ih-ih!
- Deixa de troças, há muito exagero. De fato, às vezes penso
que existe em mim como que um impulso viril descomedido, uma
potência ... Ah, mas vamos deixar isto para lá, isto não te inte-
ressa, nem a ninguém. A verdade é que fiz a promessa, fi-la de
bom grado e pretendo cumpri-Ia.
- Ora, mas eu estava tanto querendo prestar esse favorzinho
ao Senhor Doutor Tabelião, caprichei tanto, tive tanto trabalho-
para achar uma escolhida a dedo mesmo ... 0 Senhor Doutor
não gostou dela, não achou que é coisa supimpa?
Pedro Augusto mordeu os beiços, sopesou o saco outra vez.
- Ah, não me fales. Mas promessa é promessa, haverei de
esforçar-me por doravante viver uma vida sem pecados, uma
vida limpa.
Sim, promessa é prome ssa, tem razão o Senhor Doutor.
E, por conseguinte, se não aceitei a negra nem posso mais
aceitá-la, cai por terra o nosso acordo, já não recebi nada em
troca de ignorar as tuas transgressoes e ja nao me vale nada
correr esse risco.
Leléu pôs as duas mãos na testa.
- Mas o Senhor Doutor não me diga uma coisa destas, quer
dizer que eu vou certeiro para a rua da amargura?
- São as leis, não posso fazer nada disse Pedro Augusto,
em tom definitivo.
192
Mas não se levantou para sair, ficou como se a conversa não
iivesse acabado, l,eléu compreendeu.
- Mas ioiô, as multas todas, vou ter de pagar as mtiltas todas,
vou ter de pagar os alvarás novos, a contribuição ...
- Ouc queres de mim? Nada posso fazer, são as leis, as por-
tarias, as posturas, as ordenações ...
Mas não se levantou, não foi embora, não se mexeu, Leléu
quase rezou para conseguir jogar certo.
- loiô bem que podia ver se não dava um jeito, não podia
não9 A promessa foi só de não pecar, não foi de não ajudar o
pequeno necessitado, que vai morrer de fome se tiver de fazer
tanta despesa.
- Ora, Leovigildo, isto não é bem verdade, só o que tens de





dinheiro emprestado a prêmio por aí, só do que se sabe ...
- Mas ioiô, ioiozinho, que bendito dinheiro é esse, umas
pataquinhas, uns vintenzinhos, e tudo encalamoucado, esse povo
nao paga a ninguem, ah se o Senhor Doutor soubesse como eu
sofro!
- Está certo, mas de qualquer forma não posso fazer nada.
Se queres comerciar, que comercies dentro da lei.
Mas não saiu, não se levantou, continuou parado, Nego Leléu
resolveu que estava na hora, não podia ser besta.
- Mas, Senhor Doutor, não se pode nem consegttir um abati-
mentozinho nessa dinheirada toda?
- Bem, talvez. Digo-lhe o que fazes. Irás à repartição ama-
nhã, ter comigo. Lá está anotado o valor de tudo o que deves.
Farás o seguinte: pagar-me-ás a metade do que deves e esque-
cerei as multas e as outras coisas. Mas pagas-me em dinheiro,
entendido, nada de notas e letras.
- Mas ioiô, ioiozinho, metade? Tudo isso? Não pode ser um
pouco menos?
Pedro Augusto se irritou, fez uma expressão severa.
- Negro Leovigildo, sou um homem sério, tenho responsabi-
lidade, não estou para graças! Consigo cortar a tua dívida pela
metade e ainda vens com esta conversa de ratazana! Se não te
serve, muito bem, vai pechinchar com a Coletoria!
193
1
1





- Não, Senhor Doutor, pelo amor de Deus, foi só por falar,
beijo vossas mãos, Senhor Doutor, Nossa Senhora do Amparo
há de ajudar o Senhor Doutor por essa caridade, Santa Marta há
de estar vendo sua bondade! Amanhã mesmo, cedinho, eu levo
o dinheiro lá, como sem falta, amanhã cedinho!
Pedro Augusto levantou-se para sair. já meio do lado de fora,
lembrou o cesto de frutas da Senhora Dona Marta, observou que
não custava fazer a gentileza de mandar pelo menos um toda se-
mana, talvez também um peixinho, bem? Leléu concordou, fez
menção de beijar-lhe a mão, ele não deixou e, despedindo-se com
um aceno afável, partiu rua abaixo, no andar seguro de quem
vive sem pecados. Leléu ficou olhando até ele desaparecer por 'i
trás do trapiche, prejuízo desgraçado, peste da miséria, desgraça,
da peste, caraio! E se aquela negrinha ordinária ainda por cima
estivesse prenha mesmo, como Inácia tinha dito? Quando per-,
guntara a ela o que sabia fazer, ela respondera: pescar. Ora,
desgraça da peste da merda do cacete, pescar! Olhou a pilha'ck,
notas que arrumara em cima de um tabuleiro, pescou a de cinUL,,
leu-a devagar. Vencida faz não sei quantos dias. Ali, mas se es
amaldiçoado não me pagar, pensou Leléu, eu vou contar ao padre,
que ele fornica atrás da igreja com as negrinhas da paróquia,.,
isso mesmo eu vou dizer a ele, Deu um murro no tabuleiro, teve,
vontade de saber mais palavrões. E aquela estuporada da d".
grama, que não lhe resolve nada, sabe pescar! Caraio!
194
Armação do Bom Jesus, 7 de setembro de 1827.
Júlio Dandão parecia que queria matar Budião. Aliás, queria,
porque chegou a arrastar um gancho lá dos ocos da tolda do
saveiro e ficou como quem vai mas não vai, brandindo-o com
força diante de Budião.
- Quem devia ter a língua cortada era tu!
Budião não disse nada, que é que ia dizer. Nem olhou para
Merinha, que também não olhou para ele. Feliciano, fazendo
grande variedade de barulhos de garganta, perguntou a mesma
coisa que vinha perguntando todos -esses dias:
- Mas por que é que tu foi fazer isso, que é que te deu na
idéia?
- Ah - respondeu Budião, procurando onde se enfiar.
Eu já disse, eu não sei, foi uma coisa que me deu.
Foi uma coisa que deu nele, podia ser meia-noite, pouquinho
menos, pouquinho mais, quando estava dando plantão à porta
do quarto do barão. Que por sinal vinha piorando desde que
desembarcara, tendo mesmo, segundo se dizia, ' iá recebido de
Frei Hilário os santos óleos, ninguém esperando que voltasse a
falar ou a ter consciência de alguma coisa. Pois nessa hora Budião
achou que tinha ouvido um gemido dentro do quarto e entrou.
Quando entrou, embora lhe tivesse sido proibido levar para lá
vela ou lamparina, conseguiu ver claramente, na luz da lua que
195





se esgueirava entre as juntas das cortinas, que os olhos do barão
estavam abertos. Abertos e vivos, não rolando destrambelhados
como antes. Teve certeza de que ele podia ver e ouvir, talvez
pudesse até falar. Aproximou-se da cama, cochichou:
- Chamou, ioiô?
Perilo Ambrósio conseguiu mover o pescoço, olhou para ele.
- Chamou, ioiô?
Os olhos de Perilo Ambrósio se esbugalharam mais, a boca se
moveu fracamente, articulou um balbucio incompreensível.
- Sinhô, ioiô?
Mas ele não conseguiu fazer mais nenhum som e foi então que
deu a coisa em Budião. Chegou o rosto para perto do barão.
- Nhô tá escutando, nhô tá? Tenho um segredo pra contar
a ioiozinho.
Não podia falar alto, era obrigado a cochichar, mas tinha
teza de que o barão escutava tudo, estava escutando tudo e esw,~
vã com medo! Budião retorceu os beiços, esticou a língua, a
ganhou as ventas, fez a careta mais feia que pôde, aproximo
mais, o barão derretido de pavor.
- Cão dos infernos! - roncou Budião. - Tu vai morrer!
vai morrer, Satanás!
0 barão estremeceu, fez um esforço inútil para afastar o t
co, quis fechar os olhos e não pôde.
- Tá com medo agora, desgraçado, condenado! Isso é pel
malvadezas que tu fez, pelas línguas que tu cortou, pela morte
Inocêncio, por tua perversidade e por ser quem é. E te con
mais, viu, infeliz, desgraçado, quem te matou foi eu, foi esmo
negq daqui que te matou! Aaarrr, vai morrrreeer, vai morree
s
s:a
as
SI
Teve dificuldade em parar, achou até que ia acabar de a
iiar o barão naquela hora, mas terminou voltando para a po
e se arrependeu instantaneamente - jurava, jurava por tu
que se arrependeu logo, foi uma coisa que lhe deu. E se o ba
melhorasse, como tinha acontecido ainda no próprio dia de
Bartolomeu, quando ele falou, deu ordens, fez uma porção
coisas? Que vida passaram a ter depois dessa imprudência 1
dessa maluquice despropositada, verdadeira traição, que vida~
Agora, cada vez que um deles era chamado, vinha um frio
coração, a certeza de que era o barão convocando-os para a vhb-.
196
gaiiça -- e que vingança não seria! Todo dia aquele sofrimento,
perguntas furtivas às negras da casa - ele falou, o barão falou?
F os momentos tão longos em que passava lá dentro somente
o cirurgiau, às vezes o padre e a baronesa, como saber se o barão
falara, se dera alguma indicação? Aflição insuportável, essa, a
ponto de se desconfiar de todo olhar, de todo gesto, de tudo em
redor. E por quanto tempo ainda, por que eternidade, não teriam
de agüentar aquilo, até o dia em que o barão morresse? Ou não





morresse, ninguém podia garantir que morreria, pois, apesar de
Merinha ter sido trazida no dia seguinte à vinda do barão, por
ordem da própria baronesa, que gostava de seu serviço, e ter con-
tinuado a dar as ervas com aplicação, ninguém estava seguro de
nada, afinal havia também as forças da Medicina lutando contra,
e nada no mundo é certo certíssimo. Eram culpados, eram conspi-
radores, iam morrer morte lenta e judiada.
Budião reiterou que não tinha falado no nome de ninguém,
tinha somente dito que fora ele o responsável por aquela agonia,
não conseguira resistir, não chegara nem a pensar. E, mesmo que
o prendessem e o pusessem sob os piores suplícios, não iria con-
tar coisa nenhuma, morreria calado, não tinha medo de dor.
- Besteira - disse Júlio Dandão com rancor. - Todo mun-
do fala, não existe esse bom. Em qualquer lugar, em qualquer
guerra, isso que tu fez é caso de forca, forca sem conversa.
- Mas aqui não é guerra - argumentou Budião. - E eu...
- Aqui é guerra - disse Dandão. - É guerra e eu te digo
uma coisa: se o barão te pegar e não te matar, quem vai te matar
sou eu. E sangrado, igual a Inocêncio. Por que tu não te matas
logo? Manda a vergonha que te mates.
já era madrugada e daí a pouco ia clarear. Dandão se levan-
tou, puxou as pontas da pele de carneiro sobre o peito, caminhou
devagar para a tolda, ficou invisível lá dentro. Budião também
se levantou, foi bater a mão no bordo do saveiro, de cabeça baixa.
- Ora, também - disse a Merinha, que tinha vindo para
junto dele. - Também não sei por que ele faz esse alvoroço
todo, não sei o que é que ele tem com isso. Se alguém tinha de
estar zangado, era Feliciano, isso foi a praga dele primeiro e
depois nós que se juntamos para fazer, ele não tem nada com
isso, esse Júlio Dandão. E, se alguém tinha de estar zangado por
197
i





falarem, esse alguém também é eu, porque tu mesmo foi dizer
a ele, só assim que ele podia saber.
Merinha então lhe contou toda a história desse mistério, o qual,
em primeiro lugar, era que o negro lilocêncio era filho de Júlio
Dandão, filho escondido, malocado, mas que sabia do pai. Quan-
do Inocêncio vivia sob o poder do velho Farinha, pai do barão,
Dandão sempre pudera, de um jeito ou de outro, ajudar o filho
e lhe passar o conhecimento de seu povo e de sua família, sendo
esse Júlio Dandão homem de grande consideração entre os de sua
nação e esse Inocêncio seu único filho. Depois que o velho Fari-
nha dera Inocêncio a Perilo Ambrósio, Dandão deixou de poder
vê-lo, mas sempre sabia dele, pelos dois ou três que partilh
do segredo. Vinha esse Júlio Dandão também juntando o d.in=i
que ganhava e algum que aceitava de doações de outros para
comprar a alforria de Inocêncio - e aí soube que, em Pirajá,. o
rapaz havia morrido servindo numa guerra que não lhe servia
pois que de seus senhores contra seus senhores. Mergulhou n
maior tristeza que se pode imaginar, pareceu mesmo que nu
mais ia mexer-se, falar ou se interessar por qualquer c isa
ix
c
logo soube, por um dos negros que ouviu a história de F~e, ia
na capoeira, como tinha realmente morrido seu filho. Um fil
- explicou Merinha - não pode morrer antes do pai, não exi
caso de pai que não enlouqueça para sempre quando lhe mo
o filho, porque é contra a lei da Natureza e é a pior ~aldi'
que se pode jogar. E o autor da morte do filho é o pior nimi
do pai, pois é uma força que sempre o perseguirá e come
contra ele essa ofensa primeira entre todas as ofensas, porque
pessoa, daí em diante, não pode nunca jamais ver outra coi
em sua frente senão a Morte.
Contou ainda que era sobrinha desse Dandão, muitas vezes
do ficado em sua companhia enquanto ele chorava em segre
e que, portanto, não havia homem no mundo mais de confiança
nem mais merecedor de saber do que se passava, nem com ma
direito de agora estar assim alterado pelo risco de o barão ven
- e talvez vencer de uma vez, matando-o depois de matar
filho, fazendo dele uma pessoa que nunca existiu.
Budião baixou a cabeça ainda mais, pensou em morrer, razão~
tinha Dandão, quando lhe dissera mandar a vergonha que se nw
198
tasse. Mas não teve nem tempo de ouvir os consolos de Merinha,
porque, com a claridade do sol já subindo rapidamente pelo céu,
o feitor Almério apareceu no alto da trilha da casa-grande. Budião
pulou. Alniério não estava olhando para eles, vinha a muita dis-
tância ainda.
- Tu tá indo pra buscar ovos na casa do sítio, eu vim tomar
um banho salgado antes de pegar no trabalho, Feliciano veio
comigo - apressou-se Budião e foram tratando de sair do savei-
ro, sem falar com mestre Dandão.
Mas não andaram muito pela praia, porque Almério os viu e





mandou que parassem. Caminhou na direção deles lentamente,
medindo as passadas e marcando o andar com golpes de reben-
que na coxa. Chegou perto, encarou Budião.
- Tu, negro ordinário, tu eu acerto hoje, hoje eu te acerto.
Budião engoliu cuspe, o gogó subiu e desceu. Almério olhou
para os outros.
- Todos para a casa-grande, já.
- loiô Barão chamou?
- Cala essa boca! - eritou
Almério, e mais uma vez fitou
Budião longamente. - Está certo, está muito certo, é hoje que
eu te pego, hoje quero ver-te como gosto, foste longe demais!
Apontou para o saveiro, perguntou se Júlio Dandão havia
saído de lá.
- Então vai lá e diz a ele que é bom que também venha.
Um cortejo quase funéreo, em mudez completa pela trilha aci-
ma, os cinco chegaram à casa-grande. Sem coragem de olhar para
Júlio Dandão, cuja raiva lhe furava as costas e esquentava
o ar em torno, Budião no começo teve pânico, podia mesmo ter-
se atirado ao mar, como se fosse capaz de nadar até a África ou
qualquer outra terra, mas passou do pânico para uma espécie de
medo frígido, pontos gelados no corpo todo, os membros meio
ausentes, a boca seca, o estômago engrunhido. E eis aí a varan-
da cheia de gente, praticamente todos os negros da Armação,
muitos brancos, aquela conversa mussitada pelos cantos, olhos
atentos à chegada deles. Budião sentiu-se perscrutado até os ossos,
lambeu os lábios, decidiu manter a cabeça bem erguida. Dandão
tirou o chapéu, mirou em frente com firmeza, não se mexeu mais.
Feliciano sumiu no meio de um grupo lá embaixo, Merinha se
199





juntou às negras da :asa, apinhadas junto à porta fechada que
dava para o quarto do barão. Almério se perdeu dentro da casa,
o tempo ficou mais moroso do que Budião jamais experimentara,
a boca secou tanto que ele pensou que ia engasgar-se. Sempre&-
tar atenção no que fazia, andou até o janelão, que agora se abria,
varanda abaixo. Passou por ele, olhou para dentro e só então
compreendeu que a rebentina de Almério era por causa da surra
que lhe prometera já fazia tempo, não por causa do barão, que
finalmente estava ali teso, espichado, morto.
Morte mais linda que a do barão nunca houve nem nunca pode
haver. De mortes bonitas é farta a memória do Recôncavo, taná
tos os santos homens que se defrontaram de maneira edificante
com a gadanha da Grande Ceifadeira, assim legando às gera
subseqüentes exemplos inesquecíveis do bem morrer. Não há m
mo família ilustre que não se compraza em relembrar as diversas
mortes belas que cada uma conta em seu acervo tanatológico,
seja pelas derradeiras palavras exaladas, seja pelo manto de do.
çura e paz a envolver o preciso momento do trespasse, seja pel*
estoicismo do moribundo, seja pela venusta paisagem ou especia.
líssimas circunstâncias a cercar os óbitos repentinos, seja
comoção do povo nas exéquias - tudo isto fazendo com
nestas questões letais, não exista no mundo lugar tão ufano.
Desde a chegada do barão à Armação para a jornada sem vol
todo pormenor se conjugou harmoniosamente, numa configura~
ção final de inexcedível beleza. Dir-se-ia que o finamento estava "
muito próximo, mas tal não aconteceu. Embora, depois de ac().
modado no leito onde ouviria soar a hora fatal, nunca mais tenha
saído dele, instantes houve, até dias, em que se refizeram as e
ranças dos que o assistiam, alentadas por um sinal ou outro de
melhora. Isto mesmo ocorreu no próprio dia de São Bartolomeui
por volta das nove da noite, quando o negro Rafael Arcanjoi
pelaj',
q^
SPCI-
dormindo de plantão à porta do quarto, foi despertado por umt
chamamento sonoro e claro, produzido por um peito que só podia
estar sadio.
_ Negro filho de uma puta, vem cá! - bradou Perilo Ani-~
brósio, e Rafael Arcanjo saltou de susto, pois o barão estivera
200
,(-ida ~i tarde deri-cado e mudo, os olhos turvos e sem expressão,
,, boca ainolecida, os braços flácidos, tudo parecendo anunciar o
fim, ecoando ainda pelos corredores os lamentos da baronesa e
choramingos dos meninos e os suspiros estrangu-
I!Cgras, os ~
lados de quem vai ganhar um defunto.
- Frigideira de fritar fritura se frege? - perguntou em se-
guida o barão a Rafael Arcanjo, passando a repetir com insistên-
cia essa indagação, chamando o escravo de "Senhor Intendente"
e, finalmente, pedindo-lhe que lhe trouxesse o ouvido à boca, pre-
cisava fazer uma importante comunicação ao Senhor Intendente.





Tão logo o negro, impressionado pelo tom deferente com que
estava sendo tratado, tom que jamais ouvira de ninguém, encos-
tou a cabeça na boca do barão, este lhe abraçou o pescoço e lhe
aplicou potentíssima dentada na orelha. Por mais que o negro
forcejasse, não conseguia livrar-se nem da dentada nem do abra-
ço, de maneira que logo a casa foi acordada por seus gritos espa-
voridos, havendo os dois sido encontrados ainda nesse enlaça-
mento conturbado, o barão respondendo apenas com rosnídos
ao que lhe falavam e Rafael Arcanjo berrando como um porco
esfaqueado. A baronesa ordenou ao negro que se calasse, afinal
via-se que a mordida não devia estar sendo assim tão forte e
queriam silêncio para palestrar com o Senhor Barão, embora ele
se recusasse a libertar a orelha que abocanhara, obrigando o cirur-
giao, com a ajuda de dois negros, a puxá-lo pelos braços e om-
bros para que finalmente soltasse Rafael, que pulou em direção
à porta, a mão na orelha e um fio de sangue escorrendo pela
bochecha.
- £ o que vos digo, Senhor Intendente - exclamou Perilo
Ambrósio com animação. - É o que digo e repito sempre!
Açodado pela energia que o inundou, não dormiu mais essa
noite. Mandou que lhe pusessem travesseiros às costas, sentou-se
na cama, examinou entre exclamações graves os livros de contas
da Armação, reclamou da ausência de Amleto, afirmou que o
dispensaria na primeira oportunidade, contou longas histórias de
viagens e guerras. De manhã cedo, quis comer cuscuz, mas, quan.
do o cirurgião o desaconselhou, conformou-se de pronto.
- Então fiambre, uma fiambrada com feijão e frango assado
- sugeriu.
201





Ponderou-lhe justino José que sua conjuntura visceral era ainda
merecedora de muitos cuidados e nada recomendava que ingerisse
esses alimentos fortes, haveria que resignar-se aos chazinhos e
torràdas de antes. Não se queixou e, apesar de uma febre que
nem o mais severo capitilúvio logrou dominar, adormeceu sosse-
gadamente antes do meio-dia. Antônia Vitória e Teolina acende-
ram velas no oratório, Frei Hilário recebeu instruções para cele-
brar dez missas em ação de graças logo que se fizesse plena a
convalescença. Até as postemas pareciam ceder, agora sujeitas
à forte ação exsicante do pó de café fresco que calcavam nelas,
tratamento caseiro mas respeitado pela ciência do cirurgião, sem-
pre a frisar o acerto de muitas das práticas médicas populares, a
ponto de haver decidido reduzir as lancetadas a no máximo oito
ou nove por semana.
Mal se sabia que, pela obra insidiosa das Parcas, a doença não
esmorecera sua pertinácia, encontrava-se apenas delitescente, so-
lertemente embuçada, pronta para renovar com brutalidade seu
ataque. Na manhã seguinte ao que mais tarde se reconheceria
haver sido tão-só a despedida da saúde, o barão despertou com
muitas dores novamente e, apesar de o cirurgião se desdobrar na
mobilização de todos os seus múltiplos recursos, nada pôde ser,
feito para evitar que, dessa hora em diante, o paciente começasse
a ter consciência apenas poucos momentos por dia, em certos
dias nunca. Mesmo quando tinha consciência, a fala era impedida
por glossite tão avolumada que já não lhe cabia a língua na boca
e seus gestos voluntários eram prejudicados pela carfologia que
lhe tomava conta das mãos, agora perpetuamente ocupadas em
tremes, agitar os dedos e mover-se como se catassem no lençol
percevejos invisíveis. Deu para não suportar luz ou barulho, ga-
nindo até mesmo diante das chamas fraquinhas das velas com
que procuravam alumiar o quarto encerrado nas trevas abafadas
dos reposteiros. Também, nos últimos dias, não conseguia mais
mover o maxilar, fosse para falar ou para comer, permanecendo
com o queixo rijo, a mandíbula se projetando para fora, os lábios
curvados para cima num sorriso empedrado. Igualmente o pesco-
ço e os ombros endureceram, tal a força da congestão visceral
que o apertava em seus guantes de aço, cacotanásia impensável
e imerecida para aquele que mais tarde a História consagraria
202
1 1
1
como o Centauro de Pirajá, herói da Independência e mártir da
Economia. Quis porém a Providência, sempre justa ao intervir
no humano fado, que tudo se remediasse com a singular coinci-
dência, quiçá desígnio oculto, de se haver dado o passamento na
data em que, fazia exatamente cinco anos, se elevara aos céus o
grito inolvidável que abriu ao povo brasileiro os caminhos da li-
berdade. Porque, neste dia 7, uma sexta-feira ventosa e ensom-
#



breada, arfou duas vezes com o peito levitando-se da cama e des-
pencou morto, nem sendo necessário atar-lhe um pano perfumado
à queixada, pois seu rosto continuou rocal, um sorriso sardônico
esculpido para sempre. Infelizmente, ninguém ficou certo quanto
a suas últimas palavras, mas Frei Hilário, que esteve junto a ele
até o desenlace, anotou as que - claro milagre, para quem já
não falava ou sequer via - ele murmurou na escuridão do quar-
to, a poucos minutos do final: "Pátria, honredez, luta, abnega-
ção. Haverei servido bem a Deus e ao Brasil?"
Velado em esplendor na nave da Matriz, seu amplo cadáver
ladeado por angélicas cujo recender se entranhava em tudo, foi
visitado por uma romaria serpenteada e contrita, dos negros aos
homens grados, dos mais altos aos mais humildes, todos parando
um instante à borda do esquife majestático adornado de prata e
bronze, cônscios de não ser este um dia como outro qualquer.
Em discurso breve intercalado por gestos espacosos, o Major Lin-
dolfo Pereira Neves, que, ainda tenente, havia prestado socorro
ao barão banhado de sangue em Pirajá, deu testemunho da galan-
teria lendária daquele pilar da Pátria ali sucumbido à morte físi-
ca, mas perenizado adamantinamente nos coraçoes brasileiros.
Contou como, refeito dos ferimentos mas ainda com a saúde enti-
biada pelo agoniado triunfo contra a morte, entregava-se aos mais
rudes deveres, aconselhando, exortando, deliberando, recriminan-
do quando necessário, não se concebendo mesmo que, sem ho-
mens de seu quilate, houvera o Brasil afirmado sua liberdade
contra a sanha do Madeira. Acrescentou o professor de Gramá-
tica Joviniano de Melo Fraga, em discurso, não tão breve, encer-
rado por um acróstico de decassílabos rigorosamente cesurados,
uma exaltação às virtudes cívicas e pessoais do extinto - seu
suave semblante sereno saciado da sublime sede do sempiterno
servir da Santa Pátria! E muito mais se falou e se escreveu e
203
#



sempre se escreverá sobre o barão, seus feitos, seu padecimento e
sua jornada para a glória, e assim se concluiu todo o mortório,
a missa de corpo presente rezada pelo bispo, a baronesa prostra-
da por oito síncopes em sucessão, o enterramento feito ali mesmo
na Matriz, Perilo Ambrósio agora só uma sombra, à tetra beira
do Estige.
Senzala grande da Armação do Bom Jesus, 9 de setembro de 1827.
Mas que situação, meu Deus do céu, esta dos pretos de Nhô
Barão Perilo Ambrósio de Pirapuama, todo mundo querendo dar
risada mas tendo de fazer estas caras compridas de quem perdeu
pai, mãe, irmão, as cunhadas mais novas já no ponto e a última
quartinha de aguardente. É como se fosse uma festa ao contrário,
uma alegria encafifada em posturas melancólicas, uma música
tocando somente na cabeça. E, porque essa alegria não podia apa-
recer de jeito algum, tornou-se parte da festa exagerar nas ex-
pressões de dor, luto, saudade e desamparo, quase todos se diver-
tindo como num baile de máscaras. Uns sempre há para cair
num fingimento a mais da conta, como a patusca da negra Esme-
ralda, que entra na casa-grande com o rosto se dissolvendo de
choro e volta para a senzala contendo a custo a vontade de can.
tar. Fez um bonequinho de capuco de milho, retalhos de brim e
estopa, ajeitou nele um chapeuzinho igual ao que o barão usava
na Armação e conversava com ele.
~ Como é que tá por aí, ioiozinho?
-'Ah inferninho quente danado, ui, uí, ui! - respondia o
bonequinho.
- Tá queimando onde, ioiozinho?
- Tá queimando no meu rabinho, tá queimando na minha
culatrinha, ai minha culatrinha!
Mas, mesmo sendo domingo e muitos não tendo obrigação de
fazer nada depois da missa, podendo ficar ali no pátio conver-
sando ou se ocupando em uma coisa ott outra sem fiscalização,
não era conveniente que Esmeralda se arriscasse tanto assim, até
mesmo porque as risadas provocadas pela sua cunversa com o
24
bonequinho talvez fossem ouvidas lá fora por alguém que não gos-
tasse de ouvir risadas tão poucos dias depois da morte do barão.
-- Melhor largar esse boneco por aí, melhor lascar - acon-
selhou Inácia. - Melhor parar com essas troças, isto vai dar mal.
- Ah, Inácia, tu vai fazer o axexê de nhozinho-zinho-zinho,
vai fazer as obrigações de defunto dele? Não vai. Então? Então
deixa que eu faço! Larô-iê!
-- Qu'isso, menina, isso não é coisa pra fazer graça, cala essa
boca!
- Pra mim Pai Lírio vai fazer um assentamento de Exu nele,
nesse daqui - disse Esmeralda, sacudindo o boneco. - Apois
então, Larô-iê, está quase nas horas dele mesmo, quase meio-dia,
é ou não é?
Estava, sim, quase na hora de Exu, a divindade que come de
tudo, porém ele pessoalmente não se vendo ali, apesar da sauda-
çao de Esmeralda. Em vez disso, quem apareceu foi Júlio Dan-
#



dão, em companhia de Budião e Feliciano, entrando pelo portão
da praia. Dandão ouviu as risadas de Esmeralda, chegou perto,
viu o boneco.
- Melhor dizer a ela que pare com isso - falou em voz
baixa a Budião.
- Por que não diz vossemecê mesmo? - respondeu Budião,
muito divertido com o boneco.
- Não posso falar assim com ela, pode ser mulher de alguém,
filha de alguém, mãe de alguém.
- Ah, deixe ela, é que todos tão muito contentes e não podem
mostrar, tem de mostrar de vez em quando.
Dandão não gostou da resposta de Budião, olhou em redor
como quem pede silenciosamente para alguém interferir.
- Esmeralda, vamo parar com isso? - gritou Inácia com
severidade.
Esmeralda escondeu o bonequinho atrás da saía, ficou enver-
gonhada.
- Melhor queimar esse boneco, anda, vai queimar essa por-
queira.
Ela saiu para queimar o boneco, não sem antes esmagá-
lo muito bem pilado no almofariz. Budião sentiu-se um pouco
irritado com Júlio Dandão. Afinal tinham conseguido o que que-
205
#



r
riam, deviam estar satisfeitos, por que aquela cara de Dia de Fi-
nados, sentia falta do barão?
- Eu não estou satisfeito - disse Dandão, muito sério.
Foi por isso que eu quis fazer essa conversa hoje. Lírio vem?
- Lírio não. Vem Zé Pinto.
- Ah, bom, Zé Pinto vem. É bom outro negro liberto nisto.
Mas por que Lírio não vem?
- Disse que não quer saber dessas conversas.
- Mas como é que ele sabe o que é quã eu vou conversar?
Eu não contei nem a ti.
- Eu sei, mas ele disse que sabe muito bem que conversa é
essa, não quer ter nada a ver com essas conversas.
Dandão mordeu o bigode, parou um pouco para pensar, rea-
mungou "tá certo" e perguntou em que lugar iriam conversar.
- Aqui mesmo - disse Budião. - Por que não pode ser aqui
mesmo? A gente pode entrar numa casa, sentar lá.
- Só se eu fosse desmiolado. No telheiro de peixe aparece
gente?
- Toda hora.
- Onde é que não aparece gente?
- Todo lugar aparece gente, não tem esse lugar onde não
venha gente.
Feliciano puxou o braço de Dandão, fez uma pantomima curta.
- Que é que ele disse? - perguntou Dandãó a Budião.
- Ele disse que na casa do sítio não deve ter ninguém, a
casa da farinha está vazia e fechada hoje.
- A casa da farinha? Na casa da farinha pode ser bom, ele,'
tem rhzão.
- Bom, por mim não faço questão, então vamos.
- Não, não é bom os quatro irem juntos. Eu vou na frente,
depois vai Feliciano, depois tu vais junto com Zé Pinto. Vai ter
logo com ele, anda.
Budião estava achando tudo aquilo uma complicação desnecea-
sária e o jeito de falar de Dandão, como se fosse um feitor dando
ordens, deixava-o aborrecido. Mesmo ele sendo mais velho e tio
de Merinha, isso não estava certo. já não lhe bastava Almério,
que só não o tinha surrado ainda porque não se surra ninguém
nos primeiros sete dias de dó?
206
E continuava pensando nisso, já meio disposto a da próxima
vez protestar, quando chegou com Zé Pinto à casa da farinha.
Parou na porta, não ouviu nada lá dentro. Olhou em torno, so-
mente a roça, os tendais, as galinhas ciscando, os zumbidos dos
lava-cus, a escachoada do riacho por trás da touceira de banana.
Puxou o cravelho, empurrou a porta devagar, não conseguiu en-
xergar bem a princípio, apesar da claridade que penetrava pelos
vãos entre as paredes e o telhado. Cheiro de farinha fresca, de
mandioca passada, de puba ardida. Budião respirou fundo, sem-
pre gostara dos cheiros da casa da farinha, gostava até mesmo
do bafio dos tições amortalhados sob a borralha dos fornos. Aper-
#



tou os olhos, viu Feliciano postado feito um jaburu, a planta do
pé direito colada à coxa esquerda, a mão segurando uma escora
da prensa pequena. Defronte, acocorado junto ao engenho de
moer, Júlio Dandão, a cara somente adivinhada entre o chapéu
e a pele de carneiro que lhe subia pelo pescoço. Fez sinal para
que se acomodassem, ia primeiro acender seu cachimbo e pitar
alguns momentos. Abriu a barjuleta, tirou dela um fornilho de
cachimbo do tamanho de uma mão, um saquinho de fumo de
corda picado e uma cana comprida, que encaixou no fornilho.
Encheu-o de fumo até a borda deixando as aparas deslizar pelas
pontas dos dedos, levantou-se, foi até um dos fornos, remexeu a
favila procurando uma brasa, encontrou uma grande, soprou-a
para espalhar a cinza, trouxe-a para onde estava antes, jogando-a
de uma mão para a outra seguidamente enquanto andava.
Nenhum dos outros três já vira um cachimbo como aquele,
nem mesmo sabiam direito como se fazia para beber a fumaça do
tabaco, embora se falasse muito em gente, tanto brancos como
negros, que gostava de beber fumo. Não era coisa que se teste-
munhasse com facilidade, e então ficaram quietos durante todo
o tempo que Dandão levou para, depois de assentar a brasa den-
tro do fornilho e juntar as mãos sobre ela como se fosse tapá-la,
sugar repetidamente a ponta da caninha e finalmente cobrir-se
de uma fumaça azulada de aroma áspero que lhe saía pelos can-
tos da boca e pelo nariz, talvez por todos os buracos da cabeça.
Como um engenho a vapor, permaneceu solidamente imóvel, sol-
tando fumaça em assopradelas alongadas, volta e meia cuspindo
à distância sem mexer a cabeça. Seu rosto agora se descobria um
207
#



pouco, viam-se os olhos injetados e semicerrados, o pensamento
em outro lugar.
Até que finalmente começou a falar, embora não abandonasse
de todo o cachimbo, ao qual voltava de quando em vez, atiçando
o brasido com chupadas curtas e enérgicas, até rodear-se nova-
mente de nuvens azuis. Estava diferente do habitual e não s6
pela fumaça, mas pela expressão menos rude, a fala suavizada,
o tom de camaradagem. Ainda assim não era um homem comum,
igual aos outros, ainda assim continuava misterioso, mas era como
se eles pudessem vir a partilhar do mistério, talvez não agora,
talvez nunca, irias talvez sim. Primeiro mencionou Nego Lírio,
que não viera porque não queria saber daquelas conversas.
- Pode ser que ele tenha olhado nos búzios dele e tenha adi-
vinhado qual ia ser o assunto da minha conversa - disse, uma
espécie de riso zombeteiro lhe empenando o bigode. - Entãov
por que não olha nos búzios para ver tudo mais que não se sabei
do passado, do presente e do futuro, para dizer o que fazer ao
povo que, quando encontra com ele, faz saudação se ajoelhando
e encostando os ombros no chão?
Ninguém respondeu e Dandão, como se já esperasse por isso,
explicou que pela saudação se conhece o povo e a pessoa e não
se pode esperar nada de um povo que, já sendo escravo, rende
homenagem a outro escravo com a prosternação de quem oferece
a cabeça e o costado para degrau ou capacho. A saudação, disse
ele, é necessária, por isso que não há gente que não a faça, pois
ela quer dizer que não somos loucos, já que sabemos que não
estamos sozinhos neste mundo, vivemos no meio dos outros e sã
por causa dos outros é que podemos ser quem somos, do contrá-
rio não somos; quer também dizer que cada um dos outros existe,
pois, se ninguém saudasse ninguém, todos iam pensar que não
existem; quer dizer também que não somos ignorantes, pois há
uma maneira própria para saudar cada categoria de pess a
O'
a criança, o mais novo, o mais vellio, a mulher mais jovem, a niu-
lller casada, a mulher mais velha, o pai do amigo, o parente
chegado, o parente distante, o oficial do mesmo ofício, o forastei-
ro e assim por diante -, mostrando-se que não se é ignorante
pelo correto conhecimento de todas essas coisas; e quer dizer
muito mais, porque através dela podemos demonstrar o que pen-
208
~,a,,nos, o que não pensamos, o que aceitamos, o que não aceita-
mos, o que respeitamos, o que não respeitamos, bastando somente
q,,ic a façamos da maneira exata ou a neguemos ou a rejeitemos.
Assim, prosseguiu Júlio Dandão, esse Lírio se revelava verda-
deiramente um rei de escravos, o escravo-rei com suas saudações
que de nada valem, a não ser para confirmar que são todos escra-
vos. E quem permite prosternação diante de si naturalmente
também se prosternará diante de outro. E é essa situação que
Lírio deseja para sempre, pois que tem até medo de conversar
sobre ela, prefere continuar a curvar-se para seus senhores bran-
cos, contanto que seus subordinados pretos continuem a curvar-
#



-e para ele.
- A nossa saudação - gritou de repente, levantando o punho
fecliado e estnurrando o ar à frente do rosto - é assim: viva nós!
Ah, voltou a falar, tão calmamente como quando começara,
então vocês sabem qual é a natureza desse Nego Lírio. Ah, se
tudo fosse como devia ser! Mas não é, nada é como devia ser.
O que devia ser não é a mesma coisa para senhores e escravos.
Sendo nós outros que não eles, explicou, então o que deve ser
para nós não deve ser para eles e assim cabe a nós ser o que
achamos que devemos ser, porque somente nós é que pensamos
que devemos ser isso que queremos ser. E comentou ainda, exi-
bindo os dentes quase alegremente, que no tempo de seus ances-
trais se matava gente ordinária para que fosse levar recados ao
outro mundo. Alguém havia lembrado de mandar um recado por
meio do Senhor Barão? Podiam ter aproveitado melhor a morte
dele.
Zé Pinto pareceu atemorizar-se com aquilo, mas Dandão virou-
se para ele e disse, como se estivesse descrevendo um aconteci-
mento corriqueiro, que efetivamente tinham matado o barão. Não
só tinham matado o barão, como matariam muitos mais barões
e fariam outras coisas igualmente portentosas. Observassem bem,
não se tratava só de vingança, ia bem além disso, muitíssimo
além. Morrendo esses senhores de terras, aconteceriam duas coi-
sas: a primeira era que as terras poderiam ser divididas por her-
deiros, multiplicando-se em lotes menores, já não tão capazes de
sustentar aquela riqueza e enfraquecendo a todos os proprietá-
rios, além de lançar entre pretendentes a discórdia pela cobiça;
209
#



a segunda era que estavam sempre esses senhores endividados e
hipotecados, até mesmo pelo que gastavam na compra de negros
cativos, devendo em letras e obrigações mais do que valia a pro-
dução de suas terras e fazendas, de maneira que os credores,
muitos deles sem nada terem a ver com essas terras, é que se a"
sariam delas, alguns das máquinas, outros das plantações, outros
das casas, outros dos negros, tornando confusa a propriedade e
complicada a produção. Cada rico morto são dez pobres vivos
- acrescentou como se já tivesse dito aquilo muitas vezes -
e em cada dez pobres nove são pretos e o outro raceado, ou pelo
sangue ou pela vida que leva.
Budião sentiu-se tonto, acreditou até que era por causa- da
fumaça do cachimbo. Olhou para os dois companheiros, ambos
pareciam tontos também, Zé Pinto sacudindo a cabeça com
quem não acredita no que vê e ouve, Feliciano exaltado e irre.
quieto, reproduzindo a saudação ensinada por Dandão. Budião
voltou-se para Dandão, intrigou-se com a tranqüilidade com que
ele falava aquelas coisas terríveis e difíceis, acabou dizendo que
não tinha entendido nada direito.
- Tu entendeu, Zé Pinto? - perguntou.
- Da-da-da-da - respondeu Zé Pinto, com os olhos baixos.
- Tu vais entender - disse Júlio Dandão. - Eu vou m~
trar um segredo. Vou mostrar mais de um segredo, segredos que
eu venho guardando sozinho, mas não devo mais guardar sozi-
nho. Antes, todos os que sabiam desses segredos morreram ou
desapareceram, só fiquei eu, com essa missão de guarda. Mas
segredo de um só não serve para nada, só leva ao desvario do
juizo e à perda completa da idéia. De maneira que chegou a hora
de dividir esses segredos, que é o único jeito de manter esses
segredos inteiros. Mas não é somente para mostrar, é também
para fazer.
Passou os olhos pelos três com o cachimbo na boca, as boche-
chas enconchadas pela forca das chupadas até se tocarem por
dentro e a fumaça, em chumaços cada vez mais volumosos, enco-
brindo-lhe a cabeça.
Muito bem - disse, o rosto retomando forma gradualmento
]ue
em meio à fumaça. - Vamos ver esses segredos todos, todos q
fiquem aí como estão.
210
i
Estendeu o braço para trás, pegou um surrão de pano pardo
que ninguém antes tinha visto ali no cantinho, puxou-o pela boca,
afrouxou o cadarço, abriu-o, olhou para dentro um instante, arran-
cou com as duas mãos uma canastra de madeira e metal, prendeu
o surrão com o pé para que ela pudesse sair desimpedida e levan-
tou-a diante dos outros. Parecia ser pesada, pois mesmo seu braço,
da grossura de um mamoeiro na primeira fruteação, tremia ao
erguê-la. Depositou-a à frente, tirou o chapéu, tenteou com os
dedos por dentro dele, sacou um pedaço de ferro de contorno
ziguezagueado e passou a enfiá-lo, em movimentos nervosos, nas
#



oito ranhuras laterais da canastra, até que, murmurando um canto
abafado e uns sons como os de quem faz contas entre dentes,
bateu três ou quatro vezes nas quinas e a tampa se levantou como
a cabeça de um peixe vagaroso saindo fora d'água, o rangido leve
das dobradiças soando muito alto naquele silêncio. Dandão olhou
para dentro da canastra, pôs-lhe a mão na tampa, quase fe-
chando-a de volta.
- Estes segredos - disse sem tirar a mão da tampa - são
parte de um grande conhecimento, conhecimento este que ainda
não está completo, mesmo porque nenhum conhecimento fica
completo nunca, faz parte dele que sempre se queira que ele
fique completo. E faz parte dele também, por ser segredo e so-
mente para certas pessoas, que cada um que saiba dele trabalhe
para que ele fique completo. Se todos trabalharem, geração por
geração, este é o conhecimento que vai vencer.
Budião, Feliciano e Zé Pinto continuaram sem compreender
direito o que ele estava dizendo, mas não sentiram vontade de
perguntar nada, como se tivessem certeza de que acabariam com-
preendendo. Mesmo porque, enquanto falava entre seus rolos de
fumaça, Dandão ficou muito maior, muitíssimo maior, mais alto
do que a casa que o continha, ficou de todas as cores e expres-
sões, ficou até transparente, ficou úmido como o entrepernas de
uma mulher e sabido como a raiz da árvore, ficou uma verdadeira
paisagem. E então soltou de vez a tampa, que voltou a escancarar-
se pendulando até achar sua posição, e de lá principiou a puxar
segredos, um segredo atrás do outro, cada qual mais maioral, ha-
vendo quem afirme terem sido libertados inúmeros espíritos de
coisas, maneiras de ser, sopros trabalhadores, papéis que não se
211
#



podia ver com os dois olhos para não cegar, influências aéreas,
as verdades por trás do que se ouve, sugestões inarredávei~, rea-
lidades tão claras quanto o imperativo de viver e criar filhos. Foi
também tudo muito sonoroso, tão melódico que nada mais se
escutou dentro da casa da farinha, dizendo uns que ali, naquela
hora, se fundou uma irmandade clandestina, a qual irmandade
ficou sendo a do Povo Brasileiro, outros dizendo que não houve
nada, nunca houve nada, nunca houve nem essa casa dessa fari~.
nha desse engenho desse barão dessa armação, tudo se afigurando
mais labiríntico a cada perquirição. Enquanto Júlio Dandão vai
aos poucos catando na canastra o que mostrar e vai exibindo
alguma coisa e explicando outra, essa Irmandade talvez esteja se
fundando, talvez não esteja, talvez tenha sido fundada para se"
pre e para sempre persista, talvez seja tudo mentira, talvez seja
a verdade mais patente e por isso mesmo invisível, porém não
se sabendo, porque essa Irmandade, se bem que mate e morra,
não fala
Salvador da Bahia, 13 de setembro de 1827.
Sorriso de Desdém estava pálido, a voz falhando, as mãos aper-
tadas, os olhos arregalados. E Zé Libório não lhe ficava atrás,
só que não tinha paciência para permanecer sentado e, enquanto
o outro falava, zanzava de uma ponta para outra do tendal, para
de quando em vez encarar Nego Leléu como quem espera expli-
cações de alguém que fez alguma coisa muito errada. Mas Leléu,
que no começo ficara tamborilando as unhas na mesa, agora ouvia
as acusações com o rosto impassível, os braços cruzados e até,
podia-se dizer, uma atenção cortês. Só não iria admitir que Sor-
riso de Desdém o chamasse de nomes feios, caso em que talvez
passasse a mão no porrete que descansava entre os joelhos, mas
Sorriso de Desdém tinha preparado sua fala, estava mais interes-
sado em demonstrar razão do que em xingamentos, pelo menos
por enquanto. Lembrou que Leléu fora o primeiro a juntar os
açambarcadores de peixe para combinar o preço da compra e o
preço da venda e acertar a união que faz a boa prática comer.
cial, ainda mais neste comércio de merda, em que qualquer chuva
212
oti qualquer lua mudavam tudo, comércio de pobre em que toda
gente achava de dar penada e todo funcionário de cagar regra.
Então nada mais era do que alta canalhice aquele comportamento
de Leléu nos últimos dias, andando todo monarca pelo meio dos
balaios e dando os preços no olho e na veneta. Quando encon-
trava um balaio já apalavrado, dizia dichotes do preço apala-
vrado, chamava o pescador de besta da bolacha, oferecia qual-
quer derréis a mais e arrastava tudo. Se chegasse cedo, se com-
portava de maneira nunca vista no mercado da Conceição desde
que o mundo era mundo, indo até mesmo encontrar as canoas na
largada da poita para anunciar, como se fosse o exclusivo rei do
mar com todos os seus peixinhos, que cobria qualquer oferta pas-
sada ou futura e que portanto não adiantava levar o pescado para
o lugar de ver, carregassem logo tudo para uma de suas quatro
bancas. Se algum pescador por acaso hesitava ou lembrava acordo
#



e amizade com outro peixeiro, ele primeiro debochava, depois
ameaçava, depois traía a confiança dos colegas, denunciando os
compradores que usavam pedras de peso ocadas para ganhar um
pouco mais na quantidade, prevendo falências e falcatruas, arro-
tando vantagens, exibindo poderes financiãis e, enfim, surpreen-
dendo a todos com tanta ousadia, descaramento e desfaçatez. Se
chegava ao mercado pelas quatro, cinco horas, como os outros
desmanchava tudo quanto fora organizado tão laboriosamente no
curso de anos e mais anos de arrelia e intranqiiilidade. Pois o
peixe, como sabem todos, é vendido pela cotação, a cotação é feita
sem alarde, com educação e discrição, tudo conchavado dentro da
decência que deve imperar nos negócios sérios, a ponto de quem
não conhece o ramo poder ficar ali defronte, em cima mesmo, e
não perceber coisa alguma acontecendo. Não é nada disso do que
resolveu Nego Leléu, entrando pelo meio das conversas alheias,
rindo alto das combinações, debicando dos que vendiam a outros
que não ele e manobrando para que o peixe alheio encalhasse,
fosse dizendo que era reimoso, velho e de segunda, fosse baixan-
do seu preço tanto que ninguém podia concorrer sem arruinar-
se. Como ficava o Grêmio dos Marchantes de Peixe Nossa Se-
nhora do Perpétuo Socorro, que Leléu mesmo tinha inventado
e até batizado? O Grêmio não tinha sede, não tinha letreiro, não
tinha carta, não tinha nada, mas existia, tanto assim que, depois
213
1
#



que eles se reuniam para fazer a cota de cada um, fazer o preço
de cada qualidade de peixe e marisco e dar as condições de paga-
mento, não era necessário mais que um comprador para repre-
sentar todos eles, um comprador sem controvérsia ou protesto,
era aquilo ou nada, pescador que não gostasse que fosse vender
seu peixe sozinho, sabendo-se que quem trabalha no fazer não
trabalha no vender e por conseguinte o pescador não tinha jeito.
Agora não, agora a salga do peixe de Leléu estava cada vez maior,
fileiras e mais fileiras de peixe e camarão pegando sol, falava-se
até mesmo de minas de cernambis e mariscos da areia conserva-
dos em cochos com lama e água da maré, esperando comprador.
Então, disse Sorriso de Desdém tremendo como carne de tarta-
ruga, isso não pode mais ser, isso não vai continuar, isso está um
abuso, mais do que abuso, que é que Leléu estava pensando, esta-
#



va pensando que todos os outros iam ficar de braços cruzados
enquanto esse despautério acontecia? Zé Libório, para quem,
cada vez mais exaltado, Sorriso de Desdém olhou pedindo apoio,
foi até Leléu com as mãos nos quartos e se plantou diante dele
silencioso. E Leléu chegou até a pensar em lhes contar como
estava azul, azul mesmo de retado, azucrinado, infernadá, como
se sentia lutando contra o mundo e como dera para achar que
era cada um por si, ainda mais do que achava antes. Doutor
Pedro Manoel Augusto mesmo, lá em Nazaré, entendera de vol-
tar, depois de toda aquela ladainha de Santa Marta e Dona Marta,
de Betânia e não sei mais o quê, para tornar a perguntar se
LeIéu não tinha uma menina para tomar conta da casa de Aratuí-
pé, uma menina nova, de pernas grossas e bom traseiro, que fosse
dispostã e não tivesse calundu nem muito bodum.
- Mas Senhor Doutor Tabelião Pedro Manoel Augusto, não
me disse o senhor mesmo que não queria mais saber dessas coi-
sas? Não devolveu a menina que lhe arranjei, coisa mais que fina,
de boa raça das senzalas do Barão de Pirapuama, afamado pelo
capricho no criatório de negros?
- É, disse - respondera Pedro Manoel Augusto. - Devolvi,
sim. Mas agora estou pensando melhor, o homem não pode se
prender a essas promessas obrigadas pela mulher, o homem tem
de ser fiel a si mesmo e eu sou assim.
- O homem tem de ser fiel a quê, meu ioiozinho?
214
215
#


Fiel a si mesmo. Tu não entendes desses assuntos, são
assuntos da Filosofia Moral, que estão tão longe de ti quanto a
nteiigência está longe dos vermes. Que é feito da menina, não
a mandaste embora, pois não?
E a promessa, meu ioiozinho Doutor Pedro Manoel Augus-
to, a promessa a Santa Marta?
Isto não é questão que te interesse, nada tens com isso,
não sejas ousado, a promessa é entre a santa e eu, não te metas.
Então, onde está a menina?
- Mas Doutor Pedro Manoel Augusto, Vossa Excelência não
já recebeu todo o dinheiro, não já levei tudo que Vossa Exce-
lência mandou? Não já acertamos tudo?
- Ah, mas então faço-te um favor, um favor muito grande,
livro-te de multas e do xadrez, dou-te todas as oportunidades e,
quando preciso eu de um favor, tu me negas?
- Mas Senhor Doutor Tabelião Provedor Pedro Manoel Au-
gusto, aqueles pagamentos não foram por causa de que Vossa Ex-
celência não aceitou a menina? Não foi uma coisa no lugar da
outra? Ioiô não disse...
- Bem diz sempre meu pai que a gente como tu não se deve
fazer favor e obséquio, porque não compreendem, e a virtude da
gratidão lhes é desconhecida! Mas então, negro safado, é assim
que me respondes, com rezingas e negaças? Tu pensas que aquele
dinheirinho, aquela meia pataca que pagaste em lugar de tuas
dívidas criminosas, adianta-me alguma coisa? Quem pensas que
és, quem pensas que sou? Julguei que, com o favor que te fiz, pu-
desses ver que em mim contavas com um amigo e protetor. Mas
percebo que não, não sabes dar valor às coisas de valor, vejo que
atiro pérolas aos porcos, como se diz. Bein-feito para mim, que
fui esperar ter com negros o mesmo trato que com brancos, tu
não vales é nada, tu és um poço de ingratidão e estupidez. Pois
muito bem, pois perdes o amigo e o protetor, quero ver agora
como te sais com teu comércio ilícito e tuas práticas larápias. Até
parece que foste tu que me fizeste o favor de perdoar os devidos
e as multas, não eu a ti, isto chega a ser engraçado, chega a ser
muito engraçado, se me contassem eu não acreditava. Bem-feito,
bem-feito!

Leléu franziu o rosto. O desgraçado quis foi tomar o dinheiro
primeiro para depois pegar a menina, se duvidar nunca houve
nem promessa nenhuma a nenhumas santas martas, sujeito desca-
rado! Está certo, bem faz ele, mal fez Leléu, em não ter pensado
em tudo e ter cometido aquela besteira de deixar Vevé ficar em
Nazaré, em vez de mandá-la embora logo, para ver se achava ser-
ventia para ela em outra coisa. Quanto mais se vive mais se
aprende, é isso mesmo, e além disso o preto tem de ser mais es-
perto, muito mais esperto - já viu, não é, estar neste mundo de
sabidos e ainda por cima ser preto, já viu, hem? Leléu se lembrou
de suas próprias convicções, recriminou-se por haver esquecido
delas a ponto de facilitar com Pedro Manoel Augusto. Muito
bem, para sabido, sabido e meio. Caiu de joelhos aos pés do
tabelião.
- Ai, ioiozinho, pela bença da santa Senhora Mãe de Vossa
Excelência, pelas chagas de Cristo, não diga Vossa Excelência
uma coisa dessas, não faça Vossa Excelência uma miséria destas,
que eu sou preto mas não sou ordinário, ioiozinho! Eu só per-
guntei por perguntar, é que eu pensei que a promessa... Mas
razão tem Vossa Excelência Doutor ioiozinho, o homem tem que
ser fiei a ele mesmo, benza Deus Vossa Excelência por tanta inte-
ligência, ah ioiozinho, não pense que eu não faço qualquer coisa
pela amizade e a proteção, São Lourenço que me livre de perder
a amizade de ioiô ioiozinho, como é que eu vou ligar para uma
negrinha ordinária, isso tem lá valor? Queria eu ter mais para
mais pôr à disposição de ioiozinho, pelo amor de Deus, Senhor
Doutor Pedro Manoel Augusto, nem pense uma infelicidade
destas! '
O tabelião ainda resistiu um pouco, perseverou no amuo, mas
Leléu desta vez conseguiu beijar-lhe a mão e já espremia duas
grossas lágrimas pelos cantos dos olhos, quando ele cedeu. Muito
bem, por esta vez passaria, mas que aprendesse a lição, procuras-
se não mais causar-lhe dissabores. Quando poderia ver a negri-
nha? Ah, se LÁeléu tivesse sabido, ela já estaria ali, pronta para
o que desse e viesse, mas não estava, tinha saído com mais duas
para ajudar na cata do marisco - aliás, o Doutor gostava de
aratu? Tinha pegado uma carga boa! Mas o Doutor não quis
saber dos aratus. Agora que havia garantido a posse da negrinha,
216
ficou afogueado, levantou-se, não parava quieto, esfregava as
mãos e coçava o saco incessantemente, um sorrisinho nervoso pis-
cando vez por outra em sua boca, como luz de vagalume. Então
fari-3 o seguinte. O que faria era o seguinte. Muito bem, faria o
seguinte, o seguinte. Amanhã, sem falta, estaria no trapiche velho,
ali por trás dos fardos de piaçaba, que faziam uma parede natu-
ral. Que Leléu mandasse a negrinha para lá de manhã cedo, ele
a encontraria lá, iria - esfregou as mãos e deu um pulinho curto
- ver como eram as coisas, depois falaria com Leléu.
- Bem pensado, bem pensado! - dizia Leléu a cada instan-
te, com grande admiração. - Muita inteligência, muita inteli-
gêncía!
#



- Hoje mesmo vou dizer à Senhora Dona Marta, minha espo-
sa, que amanhã viajo cedinho, antes do amanhecer. Assim, posso
passar o dia inteiro no trapiche velho, sossegadamente.
- Mas que inteligência! Homem! Aí é que eu adm ' iro o estu-
do, nunca que eu ia pensar essas coisas assim tão bem pensado,
o estudo é uma grande coisa, benza Deus. Ioiozinho quer que
eu mande comida também? Possa ser que dê fome em ioiozinho,
essas coisas assim...
Pedro Manoel Augusto riu cobrindo a boca. Sim, mandasse
um farnelzinho pela negrinha, nada de muito pesado, uma meren-
dinha leve, uns docinhos também não fariam mal.
- Pode deixar, ioiozinho, mando uma matalotagem capricha-
da, Vossa Excelência vai ver, mas, com perdão da má palavra, que
homem danado, mas que pensamento, que idéia ligeira!
Todavia, assim que Pedro Manoel Augusto terminou de com-
binar pela décima vez todos os pormenores, desde a hora até o
sinal que daria para comunicar que estava à espera - um dis-
creto lencinho encarnado com a ponta aparecendo pelo canto do
janelão do trapiche -, e foi embora esfregando as mãos como
se quisesse soldá-las, Leléu fechou a cara e correu para o barraco
atrás do telheiro do peixe. Chamou Vevé e, de uma forma com
que nunca se havia dirigido a ela, pediu-lhe fervorosamente que
ficasse no barraco o dia todo, para o próprio bem dela, não saísse
de lá por nada. Abriu uma arca enferrujada e, jogando para fora
panos coloridos, pedaços de madeira pintados, chocalhos, apitos,
217
#



cometas, bonecos, rodas, bois de barro e todo tipo de brinquedo,
teve uma exclamação de alegria ao achar uma bexiga cheia. A'Pa-
nhou o mané-gostoso e um pião de bolinhas azuis e vermelhas,
embrulhou-os num pano velho junto com a bexiga.
- Depois eu te conto, fica aí - disse a Vevé e saiu sem esque.
cer de passar a aldrava na porta com atenção.
Encontrou o negrinho Salustiano na quitanda como esperava,
chamou-o para uma conversa. Ele conhecia o menino José Vicen-
te, filho do Doutor Tabelião Pedro Manoei Augusto, não conhe-
cia? Não brincavam juntos de vez em quando? Brincavam. E
Quelé, o irmão menor de Salu, por onde andava? Tinha um ~
viço para os dois, serviço muito importante, nada de perguntaçíb~
era coisa de grande responsabilidade. De tarde, dava para chamar
Quelé aqui? Dava, sim, e Leléu, quando o sol já ia se pondo,
conversou com os dois aos cochichos. Estão prestando atenção?
Pois muito bem, pois amanhã bem cedinho...
E nesse dia, bem cedinho, já se viam Salustiano e Quelé, o
pião e o mané-gostoso enfiados nos bolsos dos calções, a bexiga
subindo e descendo em suas mãos como uma bola mágica, do,.
fronte do alpendre em que José Vicente estava sem fazer nada4
pedindo a uma mucaminha que lhe contasse outra vez a mesma
história. E a mucaminha já ia dizer como sempre que contair~
história de dia faz nascer rabo, quando José Vicente viu a bexim"~
e correu para a rua. A mucaminha deu de ombros, melhor mw
mo que ele fosse brincar lá fora, em vez de ficar por ali queren&,'
uma coisa atrás da outra. Não tardou que Quelé se queixasse &
que aquela rua era muito estreita, cheia de valas, não dava par4,'
brincar direito. Por que não iam até a capineira baixa, ao lado,,
do trapiche velho? José Vicente olhou para' ver se a mucaffio,
estava vigiando, não estava. Dona Marta não gostava de qu; Czlê'~"
fosse brincar pelos lados do trapiche velho, achava que lá
haver cobras. Mas, quem sabe uma horinha só? Hesitou um,'
pouco, Quelé insistiu. Se não fossem com ele, iria sozinho, levava,,
sua bexiga, levava o mané-gostoso, não mostrava os outros bri*
quedos que tinha guardados-. Salu fez objeções, ele mesmo não
ia, Seu Leovigildo tampouco gostava que ele se afastasse. Ah, então:
eu vou - disse Quelé agarrando a bexiga, e José Vicente correu
atrás dele, Salu voltou para a quitanda.
218
De longe Quelé já via a ponta de pano vermelho saindo espre-
inida pelo canto da janela. Então estava tudo certo, era aprovei-
tar a primeira oportunidade para jogar a bexiga por cima do tapu-
Ine do trapiche, como Leléu tinha mandado. Lá se foi ela, ajudada
pelo vento forte que curvava as tiriricas do alagadiço.
- Diacho! - disse Quelé. - Uma bexiga dessas, tão bem
enrolada de barbante, que minha madrinha enrolou!
- Pula aí para buscar - disse José Vicente.
Quelé avaliou a altura do tapume, curvou a boca para baixo.
ouem é que ia trepar numa altura daquelas? Só se tivessem
uma escada.
- É capaz que a porta esteja aberta - disse José Vicente.
#



- Vai ver se a porta grande não está aberta, dali a gente atra-
vessa e entra no quintal.
- Eu não. Se eu entrar lá, vão dizer que eu sou neguinho
ladrão, eu mesmo que não vou lá.
José Vicente correu até a porta, empurrou-a, estava meio presa
mas parecia fácil de abrir. Forçou outra vez, já estava conse-
guindo uma abertura por onde se esgueirar, quando alguém do
lado de dentro abriu a porta por inteiro.
-- Pai! - gritou José Vicente. - Meu pai!
A figura espantada de Pedro Manoel Augusto estava de pé à
entrada. Chegara com um sorriso para abrir a porta, agora não
acertava a dizer nada, enquanto José Vicente, sem nem olhar
para Quelé, disparava de volta para casa, com medo de apanhar
por brincar em lugar proibido.
- José Vicente, volta aqui! - chamou Pedro Manoel Augusto
já tarde demais, o vulto pequeno do filho sumindo por trás dos
oitizeiros.
Pronto, pensou o tabelião, pronto. Agora o raio do menino
ia para casa dizer à mãe que o pai não estava em viagem, estava
escondido dentro do trapiche velho como um rato de armazém.
Mas, tão logo começou a engendrar uma desculpa afobada, Vevé
apontou no caminho da igreja, carregando pelas abas um cabaz
de vime cheio de frutas, pastéis e quartinhas de refresco. Ele fez
um sinal atarantado com as duas mãos, ela achou que era para
219
#



que se apressasse e começou a correr caminho abaixo, sem enten.
der por que, quanto mais ela corria, mais ele gesticulava.
- Ora, que desgraça! - disse ele, quando ela parou diante
da porta do trapiche, ainda ofegante da carreira que tinha dado.
- Mas já se viu? Que estás a fazer aqui, não vês que não podes
ficar aqui?
- Mas o lenço encarnado não estava na janela? Não era para
vir quando o lenço encarnado estivesse na janela?
_ Não! Sim. Era! Era! Não é mais!
E desabalou em direção a sua casa, sem falar mais nada com
ela, que ficou com um riso esboçado na cara, enquanto ele andava
o mais rápido que podia em suas perninhas finas equilibrando o
barrigão - que desgraça, que desgraça, essa agora, que desgra-
ça! E, mais tarde, quando a Senhora Dona Marta de Betân*"%
apesar dos protestos do marido, veio fazer uma verificação no
trapiche, encontrou-a de olhos baixos, respondendo apenas com
um silêncio encolhido às perguntas feitas, exatamente como tinha
combinado com Leléu. Dona Marta abriu o cesto, virou-o de
cabeça para baixo no chão e, querendo fazer ou dizer mais algw
ma coisa sem saber porém o quê, fungou ruidosamente, morde~
os beiços e marchou dura de volta à casa, ignorando o o~
comprido de Pedro Manoel Augusto, que mastigava as mãos com
cara de choro.
Leléu, embora não deixasse de escutar vagamente o que Sor.-
riso de Desdém continuava a falar, lembrou com satisfação coing
tudo tinha dado certo e como aquele estuporado daquele tabç~
lião não tinha papado de graça o que não lhe era devido. Sentiú
até uma certa amizade por Vevé, mas em seguida tudo se ensom-
breou outra vez: não é que a miserável estava mesmo enxertada,
não é que a barriga já inchava, mesmo debaixo do saião rodado
que lhe dera para que não houvesse comentários enquanto Clí
não resolvesse o que fazer? A negra Inácia tinha razão então, ew
tão ela estava mesmo prenhe desde aquele dia de Santo Antônio
mais ou menos, estava com quase três meses. Não servia para nw
da, que diabo ele ia fazer com uma peste de uma negrinha embu-
chada, mesmo que o filho fosse do barão, barão este finado e
terrado, ai quanta aporrinhação! Antes ele tivesse deixado o ta:
220
ir*
lião socar o relho na negrinha, que naquela época ia dar para
pensar que o filho era dele, sendo ele quase tão branco quanto
o barão. Tudo desencontrado, tudo dando para trás, em toda
parte caloteiros, escorchadores, aproveitadores, invejosos, um
atraso só, uma luta mais que tirana, quanta aporrinhação! O ho-
inem deve ser fiel a si mesmo, recordou Leléu, a mim me devem
sem pagar, a mim me abusam, a mim procuram prejudicar, a
mim me atazanam, a mim me atrasam, a mim me botam o olhão
nas minhas coisas, a mim só criam dificuldades, ora merda!
_ Tão todos dois enganados - disse a Sorriso de Desdém,
com uma calma ainda maior que a que tinha ensaiado. - A mim
não tão dizendo nada, não sei nada disso.
#



Sorriso de Desdém fez força para a mão que levantava com o
dedo em riste não tremer.
- Leléu - falou com a voz estrangulada -, não é Só tu
que é sabido, não é só tu que é macho, não é só tu que é disposto.
Leléu passou a mão no porrete, agarrou-o firme.
- Tou com a mão no porrete - disse. - Tu já conto-
mentiras aí, já fizeste ameaça, já abusaste da minha paciência.
E tu também, Zé Libório, que, quando todos os dois passaram
necessidade, se acharam foi comigo para emprestar dinheiro.
- A prêmio.
- Pois! Pois! A prêmio, que eu não vou trabalhar de sol a
sol, de lua a lua, para sair dando meu dinheiro. O teu mal,
o mal de todos os dois, é achar que tudo vem de graça. Nada
vem de graça e, se eu tenho, tudo eu conquistei e todo dia tenho
de reconquistar. Em vez de ter inveja, vão trabalhar como eu!
- Todos aqui trabalham, deixa dessa conversa de disfarce.
- Tou com a mão no porrete e estou com vontade de dar
umas cacetadas e não tou fazendo troça!
- Leléu, tu não perde por esperar.
- Fora! Todos dois! A porta da rua é serventia da casal
Ora, está muito certo, pensou depois que os dois saíram, re
solvendo que ia ter o instante de fraqueza.
- É ' eu vou ter o instante de fraqueza - disse alto, e pescou
uma garrafa de cachaça empoeirada de dentro de um cesto atu-
221
#



fado de palha de bananeira. Levantou a garrafa contra a luz,
sacudiu-a, passou-lhe um pano para limpar a poeira, sacou a
rolha com os dentes, encheu dois canecos, bebeu um atrás do
outro, ficou bêbado imediatamente, já saiu melado para a rua
Quem não o conhecesse talvez não notasse que estava m(,ladão:
mas isto era visível pelo maxilar pendente mesmo com a boca
fechada e o olhar agressivamente enviezado. Também falava alto
quando bebia, tão alto que, mesmo se tentava cochichar' sua
voz reverberava por todo o mercado, acordando até quem já
estava dormindo depois de trabalhar a noite toda e almoçar pelas
seis horas da manhã.
Prorrompeu da porta, o sol lhe bateu na cara, ele puxou o
chapelão por cima da testa. Lambeu os beiços, cuspiu de lado,
esfregou as duas mãos dos lados das calças - coisa que taiw
pouco fazia quando estava sóbrio, para não sujá-las -, lembrou.
se do porrete, voltou para buscá-lo, emergiu de novo, parecendo
outro homem.
Vamos trabalhar, Leléu - disse, avaliando a paisal erg
g
com um olhar confiante e começando a andar para onde o~
pescadores já enfileiravam os balaios do dia. Sabia que estava
bêbado, tinha ficado bêbado de propósito, gostava daquela
sação de maluquice, embora desaprovasse a bebida e sou
que, no dia seguinte, ia arrepender-se. Mas jamais falava no
assunto, jamais reconhecia que estivera bêbado e maluco,
dava de conversa quando alguém perguntava qualquer coisa
sozinho, somente se arrepiava e estremecia ao lembrar algu
asnice que cometera, bastando contudo esse arrepio e esse es~
meção -para exorcizar tudo e não deixar que ele pensasse tm
vez no que fizera. Marchou para os balaios e o primei
viu foi o de Rato e Sarigüê, dois mulatos magros, irmão
parte de pai e mãe, que saíam também bêbados para pes
que moravam, cada qual com duas mulheres, duas sogras, qua
cunhados, seis cunhadas e três sobrinhos, nos buracos do paredão
da ladeira da Conceição, juntamente com os morcegos, segundo
muitos também seus parentes, segundo outros sua comida em di*9
de festa da família. Nenhum dos dois sabia pescar e, se sabiam~
sempre estavam emborrachados demais para trazer o peixe bera,
de forma que Leléu já estava ciente do que ofereciam no balaio
222
1 1
e de que o venderiam por qualquer preço. Aproximou-se do
balaio, apenas confirmou: um monte desordenado de lulas pe-
ciuenas, siris caxangás de má qualidade, vermelhinhos espinhen-
tos, carrapatos miudinhos, cabeçudos destamanhinho, xixarros e
sardinhas ordinários, dois ou três carapicus, quatro ou cinco
garapaus, um cavaco muito do esbodegado lá realçado como se
fosse grande coisa, seis agulhões mais verdadeiramente agulheiros
de tão cheios de farpelas, coisa abaixo de imprestável.
- Quanto quer na bela moqueca meu caro Sarigüê, quanto
quer meu nobre Rato Gazo? - disse Leléu, detendo-se com um
#



passo de sarambeque e gestos floreados.
Sarigüê estranhou, deu risada.
- Um cruzado leva tudo - disse, e chegou até a levantar
o braço, no caso de Leléu querer dar uma cajadada nele.
- Meu bom homem, meu grande pescador brasileiro, mecê
apresenta uma moqueca dessas, coi ' sa de reis e rainhas nesta
rampa de mercado, e mecê quer um cruzado por tal belíssimo
banquete? - discursou Leléu. - Toma lá seis cruzados por
esse balaio precioso, leva ele lá a meus negros cativos.
Achou-se engraçadíssimo, dobrou-se de gargalhar e, curvado,
aos tropeções, bateu-se com a guaraiúba de Nego Lodé, o brilho
do mar ainda persistindo nas escamas, os lombos azulescentes
faiscando. Estacou, rodopiou nos calcanhares. Eparapapá! Me
compreenda uma coisa!
- Mestre Lodegário - declamou, arrastando o chapeirão nas
pedras do calçamento em saudação aos peixes -, permita-me
Vossa Excelência que eu cumprimente Vossa Excelência, sau-
dando em grande saudar com toda a reverendíssima, pelo bem
conduzir dessa grande pescaria, sim senhor, benza Deus, louvado
seja o Altíssimo, que lindas guaraiúbas!
Lodé sornu, trocou de pé de apoio, olhou seu peixe com
satisfação.
- Muito bem, muito bem-bem-bem - disse Leléu. - Pode
mandar levar para mim, faço questão dessas guaraiúbas, vou até
mandar dourar uma.
- Já apalavrei - respondeu Lodé com alguma relutância.
- Só fiquei aqui com a manjubinha.
Mostrou o balaio da manjuba.
223
#



r
Fico também com essa piti-
- ótimo - declarou Leléu. -
tinga de bosta aí.
- A guaraiúba tá apalavrada.
- Apalavraste com quem?
- Com Sorriso de Desdém.
- Apalavraste com pobre!
- Ele chegou mais cedo.
- Apalavraste com pobre! Pobre é uma desgraça, não adianta
ninguém! É por isso que não me dou com pobre, eles lá e cil cá,
quando muito um adeusinho e uma esmolinha. Pobreza pega,
olhe o que te digo! Leva estas guaraiúbas, siô, deixa de ser
besta, qualquer preço que esse pobre, como é o nome dele,
Sarrilho de Dendê, te deu, te dou em dobro, leva isto, deixa
de ser besta.
Ficou olhando Lodé carregar os dois balaios para suas bancas
as mãos nas cadeiras, a cabeça levantada, um olho fechado
causa do sol. Nem reparou quando três negros chegaram pcw4,,,
trás e um deles tentou arrancar-lhe o porrete da mão. Mas
pre o segurava firme e se voltou sem soltá-lo. O que ten
~uS
puxar o porrete deu um sorriso, parou sem jeito, os dois c reo
ficaram a uns passos atrás.
- Que é isso? - perguntou Leléu, olhando de lado
abrindo um pouco as pernas para fincar-se mais solidamente £o
chão. - Não pode ver cacete, não, vai logo pegando, é?
- Sorriso de Desdém mandou nós te falar.
- Ah, eu tou conhecendo vosmecês, muito bem, estou
nhecendo, sim, tudo negro de ganho desse como é o nome de14
esse menino Sarrinho de Dandá. Veje como são as coisas,
mulato safado daquele, bom de tar pegando na enxeida Pi
trabalhar nem que fosse vez na vida, fica aí com três
de ganho, safados igual a ele, carregando merda a dois vintén%
capinando roça com os dedos a tostão a tarefa, bando de pob
descarado, tudo descaradi!
Recuou um pouco, sabia que tinha ofendido, queria insui
mais.
- já tomei muito café frio na casa dele, desse como é o
nome, Surrica de Daidai. A mulher dele não tem asseic~. Elo
nunca bota nada dentro de casa, dorme no chão, é tão mi"
224
que nem cama tem. Bebe, joga e é falso ao corpo. Mente
d(-)rmindo'
Não se viu quem deu o primeiro golpe, mas Leléu sabia que
la brigar e então, assim que um deles se mexeu, trocou o cacete
de mão sem que se percebesse e, com duas porretadas nas cos-
telas, derrubou o da frente. Mas eram muito fortes e Leléu,
apesar de transformado numa roda de catavento, girando rabos-
de-arraía, bênçãos e martelos com tanta velocidade que quem
estava de junto sentia o ar pínicado por seus movimentos, não
#



evitou também ferir-se e ficar coberto de calombos doloridos.
Não se pode dizer que perdeu a briga, pode-se dizer até que
ganhou, porque os três terminaram por correr, dois deles man-
quitolando e o terceiro com o cabelo empapado de sangue. Mas,
de volta à barraca, passando arnica nos arranhões e pondo com-
pressas nos pitombos, Leléu achou que est-,iva ficando velho. Não
sabia quantos anos tinha, mas seguramente estava ficando velho.
o cabelo da cabeça não, mas a barba rala que sempre lhe
crescia no queixo dera para aparecer cada dia mais grisalha.
E também já não gostava de se abaixar mesmo por necessidade,
sentia que as juntas não eram mais tão lestas quanto antiga-
mente, a carne embaixo do braço, perto do sovaco, pendia um
pouco, tinha de afastar o papel para ler letra miúda, estava fi-
cando velho sim, quase não agüentara com aqueles três, que em
outros tempos não dariam cuidado a quem como ele conhecia
todas as qualidades de luta. Agora andaria armado, eri uma
necessidade. Além do cacete, alguma coisa mais. Remexeu numa
gaveta, tirou lá de dentro um cilindro oco de brim, fechado numa
ponta, aberto na outra, com bainha para fora, de pouco mais
de um palmo de comprimento e meia polegarla de diâmetro. Arre-
gaçou o rolo, examinou o esporão de arraia que estava dentro.
Cautelosamente, porque toda a gente sabe que ferimento de es-
porão de arraia não cicatriza jamais, experimentou a ponta e as
farpas, estavam duras como pedra e aguçadxs como se um fa-
zedor de agulhas as tivesse esculpido em aço fino. Puxott de
volta o invólucro de pano, o esporão ficou emb-,iinhado, seu
ferrão mortífero recolhido logo abaixo da aberttii-a, apenas lim
rolinho de pano que se pode sair pela rua seglirando como um
lenço. E estaria somente com esse rolinho vazio e fi~'icido na
225
#



mão, depois que enfiasse o esporão na barriga de alguém: lá ele
se plantaria, sangrando pouco ou nada por fora e destruindo
todo por dentro, impossível de remover por causa das farpas.
Quanto a Leléu, nada de arma na mão. Somente aquele inocente
rolinho de pano, inofensivo como uma banana descascada. Meteu
o cilindro carregado na algibeira, pensou em beber de novo,
chegou a apanhar um dos canecos, mas desistiu. Veio-lhe um
sono forte, junto com a lembrança de que no dia seguinte seria
a missa de sétimo dia do barão, na Basílíca, e ele estaria I&
de longe mas estaria. Uma dor de cabeça de lascar as fontes, um
enjôo azedo, tanta preocupação sem resolver. E quantas besteira
tinha aprontado? E que diabo ele ia fazer com o mulatinho que
Vevé ia parir daí a uns sete meses, só faltava essa, menino
dentro de casa. Bem, daria o menino para alguém criar, nãq
haveria de ser difícil, principalmente se puxasse mais ao pai,,
saísse mulatinho claro, amorenado mais ou menos, de cabe.¥";
quase bom. Mas já se viu que vida, até isso aparece para at",~,
tar. Bem, é isso mesmo, resignou-se Leléu, começando a cair
sono e deliberando amanhã vestir seu fato preto para derramaNÀ-.
lágrimas soluçantes, quando a baronesa o visse à porta da igre-^,~,
226
1,
Salvador da Bahia, 17 de março de 1839.
C hoveu a semana toda e amanheceu um dia tão feio quanto
os precedentes. Às cinco da manhã, antes de passar a meia hora
costumeira trancado no gabinete diante de uma bacia esmaltada
e de um gomil cheio de água alfazemada, areando os dentes e
lavando a cabeça, que havia atravessado a noite untada por uma
camada espessa de caldo de babosa embaixo da touca para ama-
ciar o cabelo, Amleto Ferreira entreabriu a janela e inspecionou
seu jardim com desagrado. Quase sempre escuro sob a fronde
emaranhada das árvores, que cobria uma conglomeração cerrada
de folhas e ramagens de plantas baixas, o jardim estava ainda
mais penumbroso, uma floresta gotejante, grandes bagos de chuva
esparrinhando a água dos tanquinhos, onde até mesmo os uapés,
as ervas-de-santa-luzia, as damas-do-lago, as jaçanãs, as jipiocas
retorcidas como novelos de sucuris e as outras vegetações da
água estavam excessivamente molhadas, afogadas na molúria que
tornava tudo úmido, escorregadio e lamacento. O martelo con-
tínuo de gotas gordas pingadas das favas dos ingazeiros, sobre
as folhas ressonantes dos crótons, cocós e taiobas, reiterava uma
espécie de desesperança monótona a um dia que devia ser de
festa, e somente as maravilhas, os musgos, os limos, as brilhan-
tinas e demais seres que medram na obscuridade encharcada é
que não pareciam mangrados e tristes como as outras plantas.
227
#



228
Mundo madefato e sem brilho, em que o colorido das folhagens
lembrava adornos de funeral, mundo que trouxe a Amleto um
ressentimento redobrado. Decidiu sair para ver o que prometia
o tempo, embora não acreditasse que fosse melhorar. Enrolou-se
num roupão, agasalhou o pescoço com uma manta de crochê,
pôs um barrete na cabeça para não resfriar-se, abriu a porta dos
fundos do gabinete, desceu os dois batentes procurando nao
escorregar, pisou com gosto na alfombra de grama e plan-
tinhas rasteiras, sentiu o pé afundar-se na terra empapada. Não
chovia mais, apenas os pingos das árvores continuavam a de*.
pencar, às vezes como rajadas de chuva, quando uma lufada agi~.
tava as copas. Amleto teve um arrepio de frio, temeu constipar-se~
mas assim mesmo resolveu ir até o portão de ferro que dava
para o Rosário, para olhar melhor o horizonte e avaliar o clima,
Gostava de seu jardim, tinha uma satisfação inexplicável em
passar horas sentado em frente às plantas, de olhos fixos nelas
como se esperasse acompanhá-las crescendo e florando. E 9"
tava também que fosse sombreado, pois o sol na pele lhe era
uma agressão pessoal, caso pensado contra ele, para escurecer-%,
a cor sem piedade como já acontecera, virando-o mais uma vez
num mulato. Tinha carinho pelas plantas, andou pela alameda
de castanheiras prestando atenção a todos os troncos, levantando,
a vista para as flores-de-jesus tão leves como se apenas pousada#
nas árvores mais ramudas, frágeis como passarinhos de papel, os
fetos e samambaias, os jarrões de alvenaria enlaçados por tre
deiras, as estátuas das estações - e Verão, tão estranho, uma
forma gregamente delicada, busto suave, ancas onduladas, feição
nobre. e mansa, fincada entre as raízes elevadas do grande
de acácia, seria o Verão uma mulher e a Primavera um éf
maneiroso, como agora se via, muito marmóreo contra o ve
dume salpicado de encarnado das bromélias? -, as colunas
talhe romano decepadas obliquamente ao meio como em ve
templos das gravuras antigas, a salsugem da água dos tanq
cadáveres de folhas, insetos e flores fanadas, se arrumando sum
p
lhoe,
vemente pelas bordas como enfeite, uma cigarra disparando um
zizio repentino. Parou para olhar as trepadeiras grudadas na aca-
feiagem rugosa dos muros, alisou algumas folhas, experimentO1k1
o molejo das gavinhas com as pontas dos dedos, chegou final-
mente ao portão. Para um lado e para o outro, as nuvens conti-
[jud~'am fechadas e baixas, o vento cessara, o ar se tornara opres-
sivo. Amleto arrepiou-se outra vez, fez meia-volta para tornar a
ti,li!~ar-se no gabinete.
Teve portanto uma surpresa, ao sair à sala e ver pelas janelas
abertas para a varanda principal que o sol havia despontado e
uma claridade cortante cintilava sobre as plantas molhadas. Cor-
reu à varanda, pôs as mãos na balaustrada, somente uma mol-
dura evanescente de nuvens permanecia em torno do céu, esmae-
cido como se também lavado pelas chuvas. Sorriu, bateu na ba-
#



laustrada com satisfação. Estivera sorumbático lá dentro, entris-
tecido pelas injustiças que a vida lhe aprontava. O batizado de
Patrício Macário Nobre dos Reis Ferreira-Dutton, seu sétimo fi-
lho, quarto vivo, teria pelo menos um belo dia a servir-lhe de
pano de fundo. E também uma bela festa - já podia aspirar
o cheiro dos biscoitos assando nos fornos, sabia que se mistu-
ravam massas, que se batia o alfitete, que se cozinhava toda
espécie de comida. Isto, assim como esta bela casa e todo o
seu conforto, não lhe podiam tirar, não podiam dizer que não
era direito seu. Pensando sobre como ganhara tanto dinheiro, já
nem admitia para si mesmo, a não ser vagamente e a cada dia
com menos freqüência, que desviara os recursos do barão e se
apropriara de tudo em que pudera pôr as mãos, em todo tipo
de tranquibérnia possível. Não, não fora bem assim, precisava
acabar com a mania de ser excessivamente severo consigo mesmo,
chegava a parecer uma propensão ao martírio. E o tino comer-
cial empregado a serviço do barão, as dificuldades sem fim, as
soluções heróicas encontradas para problemas insuperáveis? E o
sangue, isto mesmo, o sangue e o suor dados ao barão? E a
situação tranqüila da baronesa, hoje empobrecida, é verdade, mas
vivendo com toda a dignidade, ainda na mesma casa do Bângala,
assistida em todas as suas necessidades e as de seus filhos? Não
tinha mais tantos negros, é também verdade, apenas três negras
e dois negros, pois a dureza dos tempos atuais e os azares que
por todos os lados perseguiram os negócios do barão aconse-
lharam a que a escravatura fosse reduzida ao mínimo indispen-
sável. Que queriam? A pesca da baleia piorava a cada ano, era
cada vez mais coisa do passado que o progresso soterraria, e
229
#



a venda da Armação do Bom Jesus fora um excelente negócio,
apesar do preço aparentemente baixo. Não contara à baronesa
haver sido ele mesmo, oculto numa associação com dois comer.
ciantes franceses, quem comprara a Armação e ~a efetiva-
mente a venderia com bom lucro. Afinal, fora uma venda como
outra qualquer e de que maneira iriam enfrentar as despesu
que se avultavam, com a crise da lavoura e do comércio fiage-
lando todos os negócios do barão? Alguns amigos da baron=
haviam mesmo concordado em que tinha sido bom negócio, como
acontecera com o Bacharel Noêmio Pontes de Oliveira, hoje pres.
tando serviços de advocacia a Amleto, depois de, com a estreit*
colaboração deste, realizar o inventário do barão - inventário,
por sinal, decepcionante, com tantas dívidas, ônus e gravam".
que, não fora a dedicação de Amleto, trabalhando à frente dg,"
tudo até mesmo sem remuneração durante muitos meses, a b
nesa e seus filhos talvez tivessem sorte muito triste. Ela herdar~
do pai, realmente, mas os negócios dele já de muito vinham sen
prejudicados não só pela doença como pelos grupos de~ ma
marotos, pelos radicais que chegavam mesmo a atacar co
mente os portugueses e a depredar-lhes as propriedades. A
num artifício jurídico que laboriosamente engendrou junto
o Doutor Noêmio para salvaguardar os interesses da baron
contra a ganância dos herdeiros portugueses do pai dela,
seguiu vender com astúcia a maior parte do património antes
terceiros lhe deitarem as mãos - a preços certamente não
compensadores, mas as circunstâncias da transação demandav
expediência, depois do fato é que tudo fica fácil. Para n;í~ ai
o fa
nas despesas e negociações delicadíssimas, havidas para obter
compreensão e apoio dos ouvidores e fiscais da Fazenda, da fun
do Comércio e do Poder Judiciário, gente de respeito e tra
que não se podia abordar com leviandade. Agora, o Em
e Trapiche, bem como os outros negócios, estavam na pos
terceiros, pois Amleto, depois de comprá-los com Noêmio, a"
vês de seu cunhado Emídio Reis, achou mais prudente passá-los
adiante do que administrá-los, ainda que por meio de testas-CIO,
ferro. As casas deixadas pelo velho continuavam a render, belo
como outras propriedades, mas tudo coisa minguada, uns viw,
téns que ele usava para pagar as despesas da baronesa, muita#
230
r,
,ezes, o Céu é testemunha, tirando algo de seu próprio bolso
para inteirar o que não era bastante. Os engenhos, por seu
tumo, não iam bem, os problemas do açúcar estavam ca-
da vez mais graves, salvava-se apenas a escassa produção
de aguardente, mal suficiente para custear o trabalho, no aguardo
de melhores dias.
- Pois 'e' - pensou Amleto, deixando a varanda para ir tomar
café -, a verdade é que estou em paz com minha consciência,
nunca fiz mal a ninguém, sou um homem prestante.
E por isso mesmo não deixava de revoltar-se por não poder
#



arriscar-se a chamar a atenção dos maledicentes e invejosos, ca-
pazes até de encher os ouvidos da baronesa de falsas insinua-
çoes e mesmo calúnias, com gastos à altura de sua posição na
sociedade. Não importava que todos soubessem - e todos sa-
biam, pois havia sido ele mesmo quem contara, embora não fosse
verdade, mas disto eles não sabiam - que Teolina herdara uma
fortuna de seus tios-avós portugueses de Trás-Os-Montes. Assim
mesmo se falava, se comentava. Que caminhos ásperos, quantos
obstáculos em cima de obstáculos, quantos escolhos insuspeita-
dos! Cuidava-se de uma coisa, aparecia imediatamente outra, Te-
solvia-se um problema, nascia outro logo a seguir. Quanto tempo
perdido com os latinórios, as citações e as palavras decoradas,
dura senda que não levava a lugar nenhum, a não ser à pobreza
agravada pela inveja dos ignorantes, pobres ou ricos. Agora que
achara o rumo certo, que cavara com as unhas sua fortuna, ainda
tinha de enfrentar o problema da aparência racial, a aceitação
das pessoas gradas, as restrições impostas pelos mesquinhos - a
ponto de até a festa do batizado de Patrício Macário, que podia
ser suntuosa como poucas na Bahia, ter virado, por cautela, prati-
camente uma festa íntima, para os parentes e amigos mais che-
gados. E o pior era que não podia evitar que lhe bafejasse a
sorte, lhe desse a mão a Providência e o recompensasse o des-
tino pela capacidade de trabalho e tirocínio. Comprara terras no
sertão, baratas, quase de graça por causa da seca de 35, agora
se falava que o gado por lá faria ricaços da noite para o dia.
Plantara fumo na fazenda que adquirira através de Emí-
dio, em São Félix, e já os lucros dos negócios feitos com
os alemães se avolumavam. Cortava madeiras de lei nas terras
231
#



abandonadas do barão e não tinha mãos a medir para as enco.
niendas. Previra que as novas construções, que todos os dias co.
meçavam na cidade, iam aumentar em muito a demanda de cal e
assim, na contracosta da Ponta das Baleias, demarcara os gran.
des depósitos de calcáreo debaixo do mar raso e agora, dia e
noite, os negros, manejando pás com a água lhes chegando aos
queixos, abarrotavam de cascas de ostras a frota de saveiros que
as levaria à caieira de Porto Santo. E até mesmo a cal refinada
encontrava serventia a mais da conta, inclusive nas plantações
de coco, como a sua mesmo, no Conde, onde em breve estaria
fabricando óleo, sabão e gordura sólida, além de vender a fibra
para os importadores ingleses.
- Ah! - exclamou com enfado. - Isto um dia vai ser n~,t
solvido, isto vai ter que ser resolvido, a vida não pode
somente de sacrifícios!
Pensou gulosamente no primeiro almoço. Tivera dificulda
em acostumar as negras da cozinha e a própria Teolina a
refeição, que não impunha a ninguém mas exigia para si,
revelava freqüente desgosto por não ser imitado pela mu"
e pelos filhos, pelo menos a mais velha, Cariota Borroméia Ma
tinha Nobre dos Reis Ferreira-Dutton, que educava como u
inglesa, mas que não aceitava seu desjejum de rins grelha
arenques defumados, mingau com passas, pãezinhos fofos,
e torrada com geléia. Havia saído tão branquinha, tão alem'oa
com sua tez diáfana, seus cabelos claros e finos, seu porte
belto e frágil como devia ser o de uma jovem sen'lora da Cc"
de São Tiago, era tão dócil de maneiras, mas se rebelava cor[,
aquilg, tinha náuseas, ia escondido pedir broas, euscuz, minj~a
de tapioca, bolinhos de carimã e café com leite às negras', U
dia, porém, haveria de aprender, afinal não era mentira, trata
se de uma inglesa de origem, uma Dutton. Recordou com pr
o dia em que o padre-adjutor do Vigário Geral o procurou
escritório, enfiando com nervosismo a mão pelas dobras da
taina para sacar a certidão de batismo falsa, tão meandrosamen
obtida.
- Aqui a tem Vossa Excelência! - dissera o padreco,
desses vellios que não conseguem rir mesmo quando têm vo
tade, fazendo apenas uma caretinha débil e fibrileinte, os lábi
232
tremelicando como se temessem afastar-se um do outro durante
,,,ais que urii segundo.
- Reverendíssimo! - respondera Amleto, que, poucos minu-
tos antes, Linha relido, no topo da lista das providências: "Cer-
tidão Dutton". Tomou o papel, chegou a fazer-lhe um pequeno
rasgao numa das margens, tal a avidez com que o desenrolou,
leu em voz alta. - Amleto Henrique Nobre Ferreira-Dutton!
Ferreira-Dutton! Não acho Vossa Reverendíssima que soa bem,
soa muitíssimo bem?
O padre não respondeu, tentou sorrir outra vez, bateu delica-
damente a bainha da manga direita contra os cantos da boca,
para enxugar os filetinhos de baba que não paravam de lhe
#



correr das comissuras dos lábios. Mas percebeu que o momento
requeria um comentário menos desentusiasmado.
- Sim, sim, tem um belo som. Ferreira-Dupom!
- Não, não, Ferreira-Dutton. Dutton, Dutton, é um nome
inglês, não sabe? Do meu pai, John Dutton, john Maicolm Dutton.
- Ah, sim, queira Vossa Excelência desculpar-me, julguei tra-
tar-se de um apelido francês.
- Não, não, inglês. Meu pai era inglês, acho até que pa-
rente distante de uns ingleses que ainda têm negócios aqui. E mi-
nha mãe era Ferreira, dos Ferreiras de Viana do Castelo.
- De Viana do Castelo?
- Sim, sim. Vossa Reverendíssima também é de lá?
- Não, não, sou ribatejano.
- Ribatejano, hem? Fica distante, fica bem distante.
- Pois. Pois, se bem percebo, Vossa Excelência, antes desta
correção, chamava-se tão-somente Amleto Ferreira.
- Sim, pois, vicissitudes, coisas das questões religiosas do
tempo de Dão João, incúria talvez dos padrinhos, as guerras
napoleônicas ... Eram tempos conturbados, estas coisas não eram
de tão perfeita organização quanto o são hoje.
- Sim, pois.
- Mas a correção é necessária, de há muito que se faz ne-
cessária e, graças à compreensão de Vossa Reverendíssima e do
Excelentíssimo Senhor Vigário... Vossa Reverendíssima com-
233
#



r i
pi-cende, em primeiro lugar era preciso restaurar a verdade dos
fatos, a herança histórica de nossa família - afinal, nossa linha-
gem perde-se no tempo, tanto em Inglaterra como em Portugal -,
que se espelha tão bem no nome. E, em segundo lugar, costumo
emprestar grande significado ao nome, grande relevância. Não
se deve escolher um nome ao capricho, ao acaso. Meu nome, por
exemplo, é Amleto, escolhido por minha mãe em homenagem a
meu pai; Henrique é pela velha tradição das casas reais de
Inglaterra - Henrique, Jorge, Carlos, Guilherme, Eduardo e assim
por diante -; Nobre porque este é sempre o terceiro apelido
de nossa família portuguesa e, finalmente, Ferreira-Dutton, que
é o nome correto da nova família, resultado da união anglo.
portuguesa.
- Sim, pois.
- No caso de meus filhos, que, graças também à compreensão
que sempre mereci da Igreja, já pude batizar com seus verda~,
deiros nomes... - Releu a certidão, beijou-a. - Sim, meu&
filhos não têm nomes escolhidos ao deus-dará. Nomen est omen,
não concorda Vossa Reverendíssima?
- Sim, pois, de certa maneira...
- Os primeiros nomes de meus filhos são os de dois santos:
o do dia do nascimento e o do dia do batizado. É assim con%
Carlota Borroméia Martinha Nobre dos Reis Ferreira-Dutton, qtw
nasceu a 4 de novembro, portanto no dia de São Carlos Borro.
meu, e foi batizada no dia 11, dia de São Martinho. Assim como
foram batizados segundo este critério o Clemente André, de 23
-também de novembro, o Bonifácio Odulfo e os três anji
também, o nome Reis, que vem da minha mulher, da fa211
Reis de Trás-Os-Montes, chamados assim imemorialmente por t
rem sempre estado a serviço real.
2'
h
tç.'
Pois. Muito justo, pois.
Amleto percebeu que o padre podia estar com pressa, tinha
até mesmo deixado de sorrir aquele sorrisinho curto a cada
anúncio de um novo nome. Sim, claro. já tinha o envelope pro'ntog
bastou tirá-lo da gaveta, onde tinha estado desde o dia anterior~
Apalpou-o ao longo das bordas, entregou-o ao padre.
234
- Dá-me Vossa Excelência licença? - disse o padre, abrindo
o envelope e começando a contar as notas sem esperar resposta.
Sim, naturalmente. É um modesto óbolo para as obras
paroquiais, um contributo de coração...
- Pois - disse o padre, terminando de contar o dinheiro.
- Pois, se me concede vênia Vossa Excelência ...
Sim, estava no cofre, muito bem trancada, aquela certidão,
estava tudo, afinal, a correr muito bem. Sim, por que aborre-
cimentos? Certo que a vida apresenta percalços a todo passo,
mas há também que esquecê-los, num dia como este. Não saiu
#



o sol, não já devia estar tudo praticamente pronto, desde a pia
batísmal toda bumida, às flores pela casa, às toalhas de linho
branco refulgindo, a festa em todo o ar? A esta hora, os rins
grelhados sangravam em cima da chapa, a chaleira de ferro
sibilava esplendidamente sobre as brasas, o mingau, frio como
ele gostava, o esperava numa terrinazinha de porcelana fina,
coalhado de passas descaroçadas uma a uma pelas negras. Entrou
pela grande copa, a mesa estava posta, a mucama Luzia passou
os olhos por tudo quando o viu, para verificar se havia alguma
coisa errada.
- Hoje, quero o rim um pouco malpassado - disse ele,
sentando-se depois de cheirar as rosas do vaso do centro da mesa.
- Nhô, sim - disse Luzia, e correu para dentro arrastando
os pés.
Mordiscando um brioche, Amleto pensou que já chegava a
bandeja com os rins, ao ouvir passos atrás de si, na direção da
porta da cozinha. Virou-se em antecipação alegre, fechou uma
carranca logo em seguida.
- Que é que estás a fazer aqui hoje? Logo hoje? lá não
te disse para não vires aqui a não ser quando te chame? Que
queres hoje, não tens tudo arranjado?
Uma mulher pequena, mulata escura, cabelos presos no co-
curuto por dois pentes de osso, se deteve, fez menção de que ia
voltar para a cozinha, terminou em pé diante dele, as mãos en-
colhidas no colo.
- Eu não vim atrapalhar - disse. - Podes ficar sossegado.
Anileto levantou-se, pareceu não conseguir conter a impaciên-
cia, cobriu os olhos com as mãos, ficou muito tempo assim.
235
#



- Dona Jesuína - falou, como se estivesse repetindo à força
alguma coisa que o molestava muito. - Dona jesuína, que quer
a senhora, Dona jesuína? Que mais quer que diga,
quer que fale, que mais quer que dê?
- Chamas-me de Dona jesuína e estamos sós.
- Pois claro que te chamo Dona jesuína, pois claro que tive
de habituar-me a isto, pois claro!
- Mas disseste que só me chamarias assim quando nos vime
ou ouvisse alguém.
- Está certo, está certo, disse-te isto. Mas que há de mais
em que te chame respeitosamente de Dona lesuína, pois que és
Dona lesuína, não te chamas lesuína?
- Jesuína sou, mas também sou tua mãe.
Amleto estacou, revirou os olhos, levantou as mão be=
di:so~
bateu os pés no soalho. Alguém havia esquecido ? u~e~
filho tão malnascido quanto este, ou mesmo os bem-nascidoev,
os muito bem-nascidos, que filho fazia pela mãe o que ele fazial,
Tinha casa? Tinha. Tinha criadas? Tinha. Tinha comida fa '
rt41,
da melhor, da mais cara? Tinha. Tinha jardineiro para arranc 1
lhe o capim dos canteiros, agora que não podia mais curvar-
Tinha. Tinha tudo por que suspirava, por que sonhava, por
ansiava? Tinha. Não lhe bastava um bilhete - remeta
portador vinte meadas de linha, uma cesta de frutas, um quin
de verduras, dez libras de carne, dez libras de peixe, quatro
linhas gordas, o que lá fosse! - não lhe bastava mandar
bilhete, mandar um recado de boca, para que tudo lhe chegasse
Que queixa tinha, que coisas remoía, seria possível que nun
çstivesse satisfeita? Se continuava com sua escola, era porq
queria e, por isso mesmo, quanto não custava a ele compr
lousas para aqueles meninos miseráveis e imprestáveis, comp
mais comida que para um batalhão - então. então, então, vin
qj
pel
u
a Senhora Dona Jesuína fazer ares de que era boa mãe
filho mau? Vamos e venhamos, vamos nos enxergar!
Dona lesuína pareceu arrepender-se de alguma coisa, talvez
tudo. O rosto já se pregueando para chorar, estendeu os bra
na direção do filho, pediu entre soluços que a perdoasse
fazia aquilo era por tanto amor que lhe tinha, por tanto or
e admiração que ele inspirava. Se tivesse sabido que seu filh
236
nascido em berço mais que humilde, mestiço e bastardo, chegaria
àquelas alturas, um homem importantíssimo, teria estourado de
felicidade antes de conseguir criá-lo. Não ficasse com raiva dela,
eram fraquezas próprias de um coração de mãe - como poderia
ela jamais esquecer o desvelo e a atenção que lhe votava o filho,
a preocupação em que nada lhe faltasse? Não, não era ingrata, é
que lhe doía tanto, embora compreendesse perfeitamente as rã-
#



zoes, que não pudesse dizer a todos, como gostaria, que o grande
comerciante e respeitado cidadão Amleto Ferreira era seu filho,
seu próprio filho, por ela parido, amamentado, limpado, curado,
sofrido e criado. lá lhe doía tanto que, ao saber do batizado
de seu novo neto - como se chamava ele? -, não pôde resistir
à vontade de vê-los, mesmo que, como os outros, fosse crescer
sem saber que era neto dela, não tinha importância, queria so-
mente vê-]o. Mas agora compreendia como havia sido uma im-
prudente metediça, por favor a perdoasse, não se aborrecesse,
fora somente uma coisa impensada, um ato que não se repe-
tiria nunca, ele podia ter certeza.
Amleto enterneceu-se, tremeu-lhe o queixo, andou para a mãe,
tocou-lhe as mãos, quase a abraçou. Ah, senhora minha mãezi-
nha, se pudesse abraçar-te e envolver-te em meus braços, era
o que fazia agora! Ah, mãezinha, bem sabes quanto me dói
também esta situação, pensas que não tenho sentimentos, que
não choro à noite em pensar na minha mãezinha lá sozinha e
eu sem poder nem sair à rua com ela! Se não fossem essas mal-
ditas negras tagarelas que aqui podem entrar a qualquer mo-
rnento, ou algum dos meninos, que hoje é domingo e de nada se
ocupam, se não fosse isso, cobrir-te-ia agora de beijos e afagos,
bem sabes que o faria, adorada mãezinha! Mas não sabes, diz-
me, diz-me, por caridade diz-me, não sabes que isto, esta hor-
rível situação, é para o nosso próprio bem? Sabes nada, sempre
parece que não sabes! Mas entendes, não entendes, mãezinha-
adorada? £ para o nosso próprio bem, não sabes?
Sim, ela sabia e sabia também dos seus dele sofrimentos, poi
Is
lhe conhecia de sobra os bons sentimentos e não lhe ocorria
um sequer defeito. Mas não poderia, talvez, assistir ao batizado,
mesmo discretamente, à distância, sem se meter nas conversas,
sem sair de seu lugar, apresentada talvez como uma ama-de-leite
237
1
i
#



da infância dele, uma criada mais chegada, uma ama-~ ou
governanta?
- Governanta? - exasperou-se Amieto, revirando os oU~
para o forro. - Senhora Dona lesuína, meus filhos têm
governanta inglesa e uma preceptora alemã! Meu Deus ~aco
que recheio há na cabeça da Senhora Dona lesuína? Govemanta,
essa agora! Meus filhos com uma preta por governanta, não vèg,
não enxergas a realidade? O mundo não é tal qual o queremos,
mas tal qual é!
- Desculpa-me lá, falei errado. Mas uma criada, uma a~
seca...
- Não, não, muito arriscado. Podem bispar semelhança entm~
nós, é possível que já alguém tenha ouvido um comentário
outro e agora o venha a confirmar. Não, não, por que não de
dessas idéias tontas e não vais à tua missa como sempre e de
não vais cuidar de tuas flores? Olha, mando-te umas mudas
cravo que me vieram de Portugal, mando-te uns livros, uns
lhetins dos que tu gostas, fica isto esquecido. Então?
- Mas não vejo mal, como criada, como ama velha...
pois, quem ia ver parecença entre nós, tu tão branco, tão
cabelo tão liso...
Amleto passou a mão sobre a cabeça.
- De fato - concordou. - Os cabelos lisos e meus tr
que saíram finos... Mas não, não, ainda acho que seria
temeridade. Esquece tua idéia, anda, esquece.
- já não tens o que argüir, bem sabes que a presença
uma ama velha no batizado é até coisa de ricos, coisa de f
de t;adição, que agracia seus negros e criados.
Amleto fez uma pausa nos passos que continuava a dar
longo da mesa.
- Bem, o que não faço por ti? Mas vê lá, hem, vê como
aiv
a
a
portas, és a ama que me criou e assim te portarás, não te
doarei se me traíres a confiança!
Os rins chegavam, Luzia pôs o prato na mesa, ficou de
junto à cadeira onde Amleto se sentou.
- Pois então, Dona Jesuína, pois estamos entendidos - f
ele, enfiando o guardanapo pelas dobras do colarinho. - A
238
1
,,c me dá licença, tenho o meu repasto a fazer, esteja à vontade.
Luzia, o molho de cheiros-verdes?
1 1
Eram já nove horas da manhã e o dia ficara de uma extraor-
dinária transparência, tão claro e fresco que se diria estarem os
convivas a cavaquear numa quinta de Sintra, numa dessas louças
manhãs d'abril em que até mesmo as urzes mais ásperas pare-
cem reverdecer e olorizar os campos. Amleto mandou abrir as
portas do gabinete - na verdade uma vasta biblioteca de atmos-
#



fera sombria, dois cômodos espaçosos separados por uma-arcada
de padieira em jacarandá lavrado, coberta por uma cortina de
gorgorão achamalotado presa a meia altura - e escancarar as
janelas. Não chegou a ficar muito claro dentro daquelas recâmaras
cavernosas tão recortadas por desvãos, recessos e protuberâncias,
as estantes colossais eriçadas de ornamentos convolutos, aqui e
ali um entrefolho oculto, uma espécie de toca, um reconditório
inesperado, acolá duas canéforas de aspecto aterrador sustentando
uma mesinha de madeira preta minúscula para suporte tão formi-
dável, volumes encadernados em cores sotumas, as iniciais AHNF-D
gofradas como um escudo nos frontispícios e lombadas, papéis
de todos os tamanhos, mata-borrões e penas arrumados com re-
quintes, um vaso de cristal cheio de rosas amarelas brilhando
solitário em cima de uma cantoneira. Mas, junto às portas que
davam para o terraço, a luz se refletia tão fortemente que, ao
acomodar a pequena companhia masculina que o seguiu e sentar-
se em seu fauteil, Amleto era um senhor de terras solares, ilu-
minado pela malha clara-escura do sol peneirado pela ramagem
das árvores. O vinho do Porto, soltando uma faísca ou outra
naquela iluminação, talvez lhes viesse à cabeça também por ou-
tros caminhos que não o do estômago, e Amleto, desculpando-se
com bonomia por refastelar-se e cruzar as pernas, riu da compara-
Ção com Sintra, que havia sido feita pelo sacerdote oficiante, Mon-
senhor Bibiano Lucas Pimentel. Curiosamente, em contraste com
sua reputação de inflexível severidade, o monsenhor se revelava
quase um folgazão, fazendo um comentário espirituoso atrás do
outro. Muita simplicidade para homem do clero que gozava de
tanto prestígio, orador sacro de amplíssima nomeada, animador de
239
#



obras educativas nunca antes por aqui sonhadas, aristocrata que
denunciava suas origens pelas batinas de seda perfeitas, o per,
fume delicado que exalava, as maneiras de quem desde miúdo
havia sido bem acostumado. Deu uns passinhos apressados a,,
a varanda, olhou para um lado e para outro, voltou tão rapido
quanto saíra, examinou a parte da biblioteca onde estavam.
- Sim, senhor! Eis-nos cá então dentro da leoneira onde o
Senhor Amleto Henrique Ferreira-Dutton constrói à sorrelfa sua
dilatadíssima fortuna!
Riu das próprias palavras, deixou bem claro que havia p
tendido fazer graça. Amleto acedeu, também riu mas seml M'
trar os dentes, de um jeito que estava praticando ultimaie.~l.
por considerá-lo o mais adequado na maior parte das ocasiõe41,1
sociais.
Vossa Reverendíssima está mesmo com a veia satírica
tada contra este vosso servidor, que nada fez para me
verrina. Primeiro, compara esta casita a uma quinta de
retiro de nobres e potentados. Depois, chama-me de fera
direi? - de fera sorrateira, solerte, e menciona uma f
que eu mesmo nem sei onde se encontra, quanto mais tê-l
O monsenhor sentou-se, recostou-se confortavelmente.
- Mas não são verrinas, Senhor Amleto, são a verdade.
contrário dos animais úteis, como o cão, a vaca, a galinhna'
nomes de animais ferozes constituem elogio a quem é or 'el
apelidado. Assim é com o leão, o tigre... Então, ao ifhamá
de leão, não o tenho por fera, senão por lutador invencível
fortíssimo, capaz de capitanear - e eis aqui a segunda v
dade-- uma inegável fortuna, uma grande fortuna que, me'
de Deus e da competência de Vossa Senhoria, faz por aumien
a cada dia que passa.
Amleto sentiu as orelhas quentes, achou que talvez tivesff'
ruborizado.
- Encômios imerecidos. . . - murmurou, querendo fal 1 11
mais interessante, mas, em sincera corioção pelos elog
encontrava o que dizer.
- Merecidos, sim! - uma voz grossa, de acentos u
grosseiros, falou do outro lado da arcada, e logo em s
seu proprietário, Major Francisco Gomes Magalhães, c
240
1
políc,ia e padrinho de Patrício Macário, apareceu com um cálice
lia nião. O nariz estava vermelho e, embora não se pudesse dizer
que se encontrasse bêbado, tampouco se diria que se encontrava
sóbrio, o que se notava pelos seus passos excessivamente seguros
e pelo tom de voz ainda mais alto que o liabitual. - Merecidos,
sirn! Ouvi o que disse, com a eloqüência que não há cessar de
gabar, Sua Reverendíssíma, e assiste-lhe plena razão! Maior do
que o Senhor Amieto Henrique só mesmo o seu filho, meu afi-
lhado Patrício Macário! Ha-ha! Este sim, que há de ser mais
que filho de quem é e afilhado de quem é!
- Não sei - disse Amleto. - Não sei. Não por suas quali-
#



dades, que, se as herdou da mãe pela metade, herdou mais em
virtudes que a maior parte da Humanidade, digo-o fugindo à
falsa modéstia. Mas temo pelo nosso futuro, sinto que vivemos
tempos conturbados, sem paz nem confiança no porvir, sem o
respeito àquilo que nos ensinaram a mais prezar, como sejam as
virtudes da probidade, da temperança, do espírito público.
- E veja-se que, pela primeira vez em nossa História, esta-
mos sendo governados por brasileiros! - interrompeu Monse-
nhor Bibíano.
- Sim, mas isto não quer dizer nada, quererá talvez dizer
o contrário do que pretende Vossa Reverendíssima, com toda a
vênia de Vossa Reverendíssima - disse o major. - Eis que,
se têm sido brasileiros os regentes, tudo o mais, do Exército aos
comerciantes, tudo o mais é português.
- Não é bem assim, meu caro Senhor Chefe de Polícia, sabe
muito bem que é um pouco assim, mas não é tanto assim. E,
por favor, não me veja cá o Senhor Chefe de Polícia como advo-
gado da recolonização. Não sou desses exaltados, que chegam até
o separacionismo, se assim posso dizer, ao republicanismo mesmo,
mas o que queria dizer é que encaro com simpatia o movimento
pela maioridade de Sua Alteza Imperial. Alinho-me, pois, com os
liberais esclarecidos e há Vossa Excelência de reconhecer que não
temos tido boa sorte com os governos regenciais. As perturba-
Ções da ordem pública, a sedição e a anarquia em toda parte
não lhe parecem inquietantes, Senhor Chefe de Polícia? AqMi
mesmo na Bahia, se não laboro em equívoco, esteve Vossa Exce-
lência arduamente empenhado no combate à sedição, tendo feito
241
#



y
renome na já famosa Batalha dos Três Dias, há bem pouco tempo,
bem pouco tempo. Se sou português de nascença, sou brasileiro
de coração e, se falo como português, isto mais se deve ao w
crúpulo de quem preza a língua e não deseja aviltá-la com uma
maneira de falar imprópria e desaconselhável. Não precipite VOM
Excelência, por grande obséquio, as conclusões de Vossa Ex-
celência.
- Não, queira Vossa Reverendíssima desculpar-me, mas não
quis dizer isto. É que, nessa questão do futuro do Brasil, tenho
até divergências com meu preclaríssímo amigo e compadre, ter.
mino sempre por exaltar-me, queira Vossa Reverendíssima per.
doar-me, longe de mim pensar mal da conduta absolutamente
inatacável e louvabilíssima de Vossa Reverendíssima. Mas vejo,,
efetivamente, vejo um futuro radioso para o Brasil, um futuro,,
somente compará ' vel ao das grandes civilizações pretéritas. Eis,"
que somos dotados de tudo o que é necessário para o progrem
e a riqueza. Aqui mesmo, em nossa parte do país.
estamos sujeitos a terríveis e prolongadíssimas estia,
gens, que castigam toda a agricultura, a criação do gado...
- Perdão, Monsenhor - interveio Amleto. - As secas,
se chamam essas estiagens, não são tão más assim. Antes, po
talvez ver nelas a garantia da ordem social e da economia e
belecida. Por exemplo, somente através da penúria engendrada,
pelas estiagens é que o pequeno proprietário se rende à evi
cia de que sua atividade será sempre de minguada e insi
ficante produção, assim possibilitando que os grandes prop
tários - os únicos que podem levar para aqueles ermos
progresso, já lhes direi por quê - possam comprar-lhes as te
e a preços convenientemente baixos, pois do contrário seria u
inversão de recursos desmesurada, quiçá insuportável. E di
por que somente o grande proprietário é que pode levar o
gresso a todos esses vastos rincões. É que só ele pode plei
junto às autoridades, com prestígio e peso político, as melhc~'
rias necessárias, as albufeiras a serem construídas, a açud
a ser empreendida e benfeitorias desse quilate, com as quais W
estiagem deixará de ser um empecilho à produção. E só o grande
proprietário é que pode reunir o capital necessário, os conlw,
cimentos e as inversões necessárias para que a produção seja de
242
çnolde a atender às exigências comerciais, que são cada vez mais
complexas. Portanto, a seca cumpre um papel importantíssimo,
efetuando algo que, para ser realizado artificialmente, requereria,
estou seguro, até mais que a força das armas. E, além disso,
com que mão-de-obra contará o grande proprietário, eis que a
escravatura tende a extinguir-se?
o major estava boquiaberto desde a metade do discurso de
Anileto, continuou assim, pasmo de admiração. O monsenh6r
também demorou a falar, depois cumprimentou vivamente o anfi-
trião pelo brilhantismo e caráter inovador de seu raciocínio.
_ Apenas não creio que esteja próximo o fim da escrava-
#



tura. Crê o Senhor Amleto que poderemos mesmo sobreviver sem
ela, que ela será extinta?
- Tampouco eu acho que seu fim está próximo, não sei quando
será. Mas sei que virá e, se motivos outros não houvera, embo-
ra pouco me digam respeito, virá pelo motivo mais poderoso de
todos, qual seja o de que terminará por tornar-se pouco com-
pensador e excessivamente caro manter escravos. Eu, no meu
trabalho, lido com eles e posso assegurar-lhe que as despesas são
incalculáveis, são de fazer estremecer o mais frio financista.
Dia chegará em que os custos se tornarão de tal forma onerosos
que melhor será pagar por obra feita do que, ingenuamente,
achar que, com escravos, temo-la de graça, pois não a temos.
Imaginem os senhores um fazendeiro que necessite apenas de
mão-de-obra para plantio e colheita, uma vez ou duas por ano.
Durante o resto do tempo, não terá em que empregar os negros,
mas terá que alimentá-los, dar-lhes roupa, casa e remédios, para
não falar nos imprevistos, que surgem a cada dia. Com isso, se
encarece a produção, pela necessidade de cobrir esses custos,
se empobrece o proprietário porque é cada vez mais difícil
cobrir esses custos e assim por diante. Ora, compare-se isso com
um trato de obra feita com trabalhadores livres, que só recebem
por aquela obra, sem que tenha o fazendeiro a obrigação de
dar-lhes o que dá a seus escravos. Não creio ser necessário pen-
sar em demasia para concluir pela inevitabilidade da extinção
da escravatura, mais cedo ou mais tarde, do contrário estaremos
condenados ao atraso perpétuo. Esse contingente que, na nossa
região, poderia, com o tempo, vir a compor-se de pequenos pro-
243
#



prietários, não se tornará nisso, por inexoráveis circunstâncias
geográficas e históricas. Assim, juntamente com os habitantes
pobres do sertão, serão eles a mão-de-obra da Nação, nos termos
que a Nação necessita, para evitar o desperdício e o excesso
de custos. Sei bem que tal situação poderia levar à existência de
grandes massas de desocupados, despossuídos e vagabundos em
geral, como já hoje acontece. Mas isto, em primeiro lugar, é
inevitável, não vejo como evitá-lo, se bem que o feitio do nosso
populacho, que é zombeirão, folgazão, de poucas necessidades
e acomodado, alivie em muito a questão. Mas, ainda assim -
tenho meditado muito sobre este assunto, meus senhores -, julgo
que, com a manutenção da ordem pública a cargo de uma orga.
nização como a Guarda Nacional, em tão boa hora e tão sabia-
mente constituída - e cá está o Senhor Major, que não mo
deixa mentir -, não haverá problemas, pelo contrário. De novo.
como no caso das estiagens, é preciso inverter a ótica, ver o bem,
disfarçado em malefício, contido nas aparências. Essa gentalha,
pela sua natureza rude e primitiva, fetichista, bárbara, insensível
e ignara, não tem ambições senão as que lhe ditam seus pamw
horizontes. Por conseguinte, a tendência natural é que se voltem
uns contra os outros, não contra nós, a não ser que afrou)Cem~,,
a preservação da disciplina social. Haverá, por assim dizer, UM~,
seleção naturalmente conduzida, desaparecendo os que não reu-
nirem condições de enfrentar a vida com seus próprios meios,
nem ao menos no serviço - para o qual estão amplamente indi-
cados - do Exército, naquilo em que não ferir a universalidade
da Guarda Nacional, em tão boa hora concebida, repito. E
desfrularão, ainda, esses contingentes, de liberdade, bem por mui-
tos considerado entre todos o mais precioso, o qual lhes conce.
deremos de graça, à condição tão-somente de não a transform~-,
rem em licenciosidade nem dela se servirem para a comissão
de abusos.
- Mas não crê o Senhor Amleto que o nosso povo ...
- Observe bem o caro major e compadre, usamos as palavro
muitas vezes sem atentar na sua propriedade. É o que percebo
agora, data venia, pois que a longa convivência e frutuosa aml-
zade que nos une já me fazem antecipar o que ia dizer o major.
Mas, vejamos bem, que será aquilo que chamamos de povo?
244
Seguramente não é essa massa rude, de iletrados, enfermiços, en-
caiquiihados, impaludados, mestiços e negros. A isso não se pode
chamar um povo, não era isso o que mostraríamos a um estran-
geiro como exemplo do nosso povo. O nosso povo é um de nós,
ou seja, um como os próprios europeus. As classes trabalhadoras
não podem passar disso, não serão jamais povo. Povo é raça, é
cultura, é civilização, é afirmação, é nacionalidade, não é o rebo-
talho dessa mesma nacionalidade. Mesmo depuradas, como pre-
vejo, as classes trabalhadoras não serão jamais o povo brasileiro,
eis que esse povo será representado pela classe dirigente, única
que verdadeiramente faz jus a foros de civilização e cultura nos
moldes superiores europeus - pois quem somos nós senão euro-
#



peus transplantados? Não podemos perder isto de vista, dei-
xando-nos cair no erro abismal de explorar nossas riquezas e
nossa virtual grandeza para entregá-las a esse tal povo, que, em
primeiro lugar, não saberia como gerir tão portentosa herança,
logo a aviltaria, como sabe, aliás, quem quer que já tenha ten-
tado dar conforto e regalias a escravos e servos, pois não atinam
com o que fazer desse conforto e dessas regalias.
- Lá isto é verdade. Dá-se a esse povinho alguma coisa ...
- É o que digo, meus caros senhores. É preciso ver com
clareza, com lógica, sem pieguismos. Temos diante de nós talvez
a mais hercúlea tarefa já posta diante do homem civilizado. E,
praza aos Céus que esteja errado, é nisto que se fundam meus
receios quanto ao futuro. É no medo de que deixemos o Criador
fazer sua parte e não façamos a nossa, é disto que tenho medo.
Que somos hoje? Alguns poucos civilizados, uma horda medo-
nha de negros, pardos e bugres. Como alicerce da civilização,
somos muito poucos, daí a magnitude de nosso labor. Mas, no
que depender de mim, e tenho certeza de que dos senhores
também, o Brasil jamais se tornará um país de negros, pardos e
bugres, não se transformará num valhacouto de inferiores, des-
prezível e desprezado pelas verdadeiras civilizações, pois aqui
também medrará, mercê de Deus, uma dessas civilizações.
- lá pensou o compadre alguma vez na política? Olha que,
com verbo tão fácil e razões tão claras ...
- Não, não, odeio a política, sou um homem perfeitamente
aí)olítico. Meu trabalho dá-se em outras linhas que não as da
245
#



política. Que me perdoem os políticos, nada tenho contra ela.
mas a sujidade da política, se me permitem a rudeza da exp~
são, me enoja. Não, não, prefiro ficar em meu canto, coMO
o membro mais humilde das classes produtoras, fazendo por onde
ampliar a riqueza concreta do meu país, é tudo o que quero.
Não ambiciono - e Deus me guarde de ambicioná-lo - o poder.
Falou estas últimas palavras em tom contemplativo, quase vi.
simesmado. E, assim, a vibração cívica que já tremelu'zla na
biblioteca arrefeceu-se um pouco. Era um dia bonito demais pan
a persistência em tais esforços. O monsenhor, fechando os olhos e
balançando a cabeça lentamente, como se cantasse uma canção
antiga, mencionou frouxéis de nuvens álbidas esgueirando-se por
entre a ossamenta desgalhada de centenárias árvores, foi escutado
com suspiros evocativos e expressões pungidas. O major serviu-m
de mais vinho do Porto, o monsenhor pediu um cálice e logo o
repetiu, Amleto os imitou, o Doutor Noêmio, vindo lá de dentro
em companhia do velho Comendador Almeida, declamou algum
versos sobre andorinhas nos verões mediterrâneos da Baía de To-~
dos os Santos. Quase às onze horas, quando foram chamados~,
para o almoço, estavam muito felizes. Amleto, de braços dados"~
com o monsenhor a caminho da sala de jantar, comentou que:,
haveria arroz cozido, em deferência ao gosto dos convidado&
Ele próprio já fora "papa-arroz", já experimentara até fari
de mandioca, que hoje lhe sabia a serragem seca. Mas M
Bennington, a governanta inglesa, o havia educado em
tempo - o monsenhor conhecia as delícias da culinária britík'
nica, em que, como em tudo mais, aquele povo admirável e
a imagem da excelência? Arroz, só em pudim, única forma acei~á
tável de comê-lo. Era chamado de rice puddíng, se não se enga 1
nava - apresentando a segunda palavra a peculiaridade de não
se pronunciar pádingue, como seria de esperar-se, mas púdingue~
era das muitas exceções da riquíssima língua inglesa, quase
dobro das palavras portuguesas. Gostavam de carneiro co
molho de hortelã? Ah, havia muito o que aprender co
gleses! Queixavam-se os fabricantes brasileiros - no ge
súcia desconchavada de artesãos despreparados e atrasados - de
#,,-,!e os produtos ingleses tinham vantagens artificiais sobre O9
produtos aqui feitos, ou atamancados, melhor dizendo. Por que,
246
por causa das tarifas aduaneiras baixas? Mas de toda sorte havia
tarifas aduaneiras e, mesmo assim, o que cá se fazia era mais
caro e muitíssimo inferior. funtem-se dois e dois, meu caro Mon-
senhor, e teremos quatro todas as vezes, querem tapar o sol com
uma peneira, como se diz vulgarmente? Não é assim que se vence
a concorrência, não é verdade? Sou pelo livre comércio, é a
única forma de progredirtnos em nossas indústrias, se é que
podemos dizer que temos indústrias. É como essa questão do
povo, que estávamos tangenciando há pouco. Quem fez a fama
e a glória de Roma foram os Césares ou os escravos e a plebe?
Temos de nos mirar no exemplo dos ingleses, cuja bandeira...
Mas não terminou de falar sobre a bandeira inglesa porque,
#



já à entrada da sala, viu a baronesa, andando com dificuldade
e amparada por seu filho Vasco Miguel.
- Ah, Senhora Dona Baronesa de Pirapuama! - exciamou,
precipitando-se na direção dela com as duas mãos estendidas.
- Senhora minha, Dona Baronesa!
A baronesa estava atacada pelo reumatismo outra vez, padecia
de terebrantes pontadas nas costas, que a curvavam em posições
esdrúxulas e lhe davam um perpétuo ar de pranto às feições -
ai, Senhor Amleto, Deus me pôs cá a cruz às costas por essa
pleurodinia inclemente, ai Deus meu! Mas por que viera, havia
de ter-se excusado, os dias estavam tão frios, ah Senhora Dona
Baronesa, mas que sacrifício que faz por nós, não tomou Vossa
Mercê, se me é permitida a pergunta, um chazito de casca de
salgueiro?
Tomara, sim, mas já tanto dele tomara que não lhe fazia mais
efeito. Amleto ouviu-a com a expressão aflita, pegou-lhe as mãos,
caminhou com ela lentamente até sua cadeira, ajudou-a a sentar-
se com desvelo. Olhou à socapa para Vasco Miguel, formado
pela Faculdade de Medicina da Babia mas desocupado, um rapaz
macilento de tão descolorado, o queixo inexistente, os dentes mon-
tados uns nos outros, a cintura demasiadamente alta, realçada
pela pélvis empenada para a frente. É, mas se tivesse que ser,
seria - pensou, achando que a filha não tinha ainda nem juízo
nem senso, por isso não compreendia as razões para o casamento.
Era bem verdade que Amleto cogitara de outro destino para ela,
tivera fantasias, erigira grandes castelos escoceses no ar, folhean-
247
#



do as gravuras dos livros de viagens. Mas não se vive de fanta-
sias, vive-se de um sistema de decisões implacável, como ele vinha
aprendendo custosamente pela vida afora. O rapaz não era rico,
mas era branco; não era inteligente, mas era nobre; e podia d:r-ose
bem, pois em sua profissão, como em todas, são melhore &
bons relacionamentos do que a habilitação; e, pormenor mais
que atraente, significava que, no futuro, não deveria haver pen.
dência sobre os bens do barão ou da baronesa, pois, afinal, tudo
estaria em família. É, é coisa a considerar muito seriamente, muito
seriamente. Carlota Borroméia Martinha estaria doente, como es-
tava sempre que aparecia na casa o Vasco Miguel. Que ficasse,
eram artimanhas femininas, não havia que I--vá-las em conta.
As mulheres, doma-se! Não sei, não sei, mas, se é a própria'
baronesa quem quer e sugere, por que não? Teolina não concorw
dava nem discordava, não gostava de intrometer-se nos assunto*
masculinos, tanto melhor. Olhou mais uma vez para Vasco M!.;.
guel, não era tão mau assim, muitos piores havia por aí. Sentan.
do-se com a visão atenta para que tudo estivesse correndo de nw,
neira satisfatória, resolveu comunicar a decisão à filha' to
mais um golezinho de vinho. Maquinalmente, puxou da algii
a caderneta e uma lapiseira de ouro, rabiscou com pressa: "P
vidência: Casamento Carlota B." É uma Dutton, pensou
alegre determinação, e uma Dutton faz o que é preciso faze
Deus seja louvado, Dieu et mon droit. Le Roy le veult, podia
i
até dizer a esta altura - e como estará o carneiro? Que in
batatas cozidas!
Arraial do Baiacu, 28 de fevereiro de 1836.
Amaior parte das pessoas nada sabe sobre o tatu. Per 'un'
g'
se a qualquer pessoa o que é que ela sabe sobre o tatu e e
provavelmente responderá que o tatu cava buracos, e pouco
mais poderá dizer. Isto não é justo para com o tatu. Efeth-
vamente, o tatu cava buracos e é tão capaz na engenhario
quanto no serviço braçal. O tatu não tem dentes. Quer dizer, bem,,
olhado tem, não na frente da boca mas atrás, umas nonadinhaà,
que nem dentes se afiguram propriamente ser. Ele não mordc*'~
248
,,la- ii)a~,tigà, no que dá uma lição da realidade da vida para
que,,,~ ver, pois Í como inuita geiite de duas pernas que não
niorele mas mastiga e engole, no verdadeiro e no figurado. Mas
,íe, cuiii ótimas unlias, fortes, amoladas e dispostas em aii-
cinhos, tanto assim que os que com ele lidam exercem atenta
cautela para evitar que ele lhes passe as unhas, coisa que faz
sempre que pode. Há muitas raças de tatu na ilha, caçando-
se mais notadamente o chamado tatu-galinha, que é o tatu ver-
dadeiro, como diz o povo, e se conhece pela cor, pelo tamanho
e, depois de provar, pelo gosto superior ao de qualquer galinha
ou pato. Também se distingue porque apresenta nove cintas. O
peba, há quem não coma, porque acha o povo -que ele se ceva
na carne dos defuntos, pois não lhe é nem um pouco difícil entrar
#



em qualquer cova, rasa ou funda, rica ou pobre. E, de fato, o
peba, que também se conhece por costumar ser amarelado, não
branco como o outro e mais peludo, aprecia carne apodrecida,
bicho morto por peste e outras comidas mais de urubu, de manei-
ra que, antes de comê-lo, é necessário cozinhá-lo muitíssimo para
que saiam os venenos, aconselhando-se outrossim que se use pi-
menta ardida no cozimento, para purgar as reimas. O tatu de
bunda mole, denominado por muitos de tatu falso, embora não
daqui faz
tatu-bola,
o mais bem desenhado de todos, e lembremos que não construiu
a Natureza muitos animais de melhor desenho e melhores ma-
quinismos que o tatu. ]É também mais aperfeiçoado em certas
coisas do que o homem, cuja família vem salteada e sem ordem,
enquanto a família do tatu vem na mais felicitosa arrumaçao, nao
se registrando nela, com toda a certeza, os desgostos que se obser-
vam entre os homens. Isto porque a fêmea do tatu pode ter três,
pode ter quatro, pode ter cinco ou seis filhos, e todos ou são
eles ou são elas, não existindo irmão com irmã na mesma ninha-
da, decorrendo daí grande facilitamento na criação. Tampouco
temos na ilha o tatu que se chama açu e diversos outros nomes -
todos, vai ver Deus, mais que mentirosos -, o qual, por nar-
racões e relatos, sabemos ter corpo maior de meia braça, rabo
outro senhor tanto, e de seus cascos se fazerem bacias de bom
calado - isto, porém, tido e havido na conta de potoca por toda
por falsidade moral como outros bichos, se ausentou
muito tempo, assim como não se encontra o afamado
249
#



a ilha e por todos os homens de bem. O tatu hoje se caça com
cachorros tatuzeiros, que vão lá, desencovam o tatu, matam o
tatu e trazem o tatu para o caçador. Antigamente caçava-se com
cacete, na hora em que eles saíam para comer, de noite, como
até hoje saem. Mas era muito mais difícil, até porque, mes=
cavando ligeiro e fundo, não resulta sempre possível fazer o tatu
soltar as unhas do fundo da toca, e ele é bicho até de morrer um
se desprender. Para alguém que não tem dentes, não lhe falta v&.
lentia e, para um que não fala, não lhe falta altivez, podend~
haver como garantido que o que nós pensamos do tatu não é o
que ele pensa dele mesmo, pois existe a nobreza do tatu C um,
tatus melhores que outros tatus e muitas histórias dos tatus U=,,~
que só nós que sabemos, outras que só eles que sabem, eles prW,
ferindo as deles e nós preferindo as nossas. O tatu, ou f~,r'
ou salgado, ou curado no moquém, de ensopado, de moqu
de xinxim, até assado ou frito, é comida altamente especial' q
e e
quem comeu jamais esquece e, quando vê um tatu vivo, nx r
sempre um volume de comida. Mesmissimamente o peba, ti
como mau alimento por apascentar-se em cadáveres, esquecendo
homem de que também vive de comer cadáveres de bichos,
mesmo embalsamados em carne-seca ou lingüiça. O homem
admite que ele coma o bicho, não que o bicho o coma, em
o bicho não se importe com isso e continue comendo o ho
seja por merendinhas como as muriçocas, seja por freguesia
as lombrigas, seja por caça como as onças, seja em forma de
mida dormida para os peixes e siris - morte no mar -, OS
bus e guarás - morte na flor da terra -, os vermes e tatus
morte. enterrada.
Toda esta ciência e arte do tatu, mais muitas outras ob
ções da Filosofia da Caça e do Alimento, foi Nego Leléu obri
do a escutar com grande paciência nas palavras de Luiz T
ainda de noitinha, enquanto cozinhavam aipim para come
xangó seco e mel de engenho, logo antes de saírem para a
da. Por causa de que Leléu estava metido nessa embaixada
coisa que nem ele mesmo sabia direito, talvez fosse por
do efeito da tal história de ele estar virando dois, como
vez mais se dizia. Para ele era mentira, mas de vez em q
se intrigava com um acontecimento estranho ou outro e o
250
repetia que ele estava virando dois mesmo, dois Leléus comple-
tamente diferentes, na fala, no jeito, no andar, na cara, nas ma-
neiras - tanto que à distância o sujeito já sabia qual dos Leléus
ia vinha, tamanha a diferença entre os dois.
- Mentira desse povo - pensou em voz alta, e Luiz Tatu,
que estava mexendo no fogo e era duro de ouvido, achou que
ele perguntara pelo aipim.
- Ainda demora - disse num tom catedrático que dava nos
nervos de Leléu. - Sem paciência, não se pode caçar nada, não
se pode ter nada na vida. E, de mais a mais, ainda é muito cedo,
nenhum bicho saiu ainda. Espia aí - apontou os cachorros com
#



os beiços -, veje como está tudo sossegado aí. Eles sabem que
vão caçar, estão prontos, mas também sabem que agora ainda não
tem caça, o tatu sai mais tarde. Hoje a lua troca? Ou ontem? O
aípim precisa mudar a água da primeira felvura senão fica duro,
depois tem que segurar bastante a segunda felvura para ele ficar
mole e eu só como mole, não tenho mais dentes. O tatu sai tarde
à rua. O tatu só sai...
- Eu sei, tu me disse - respondeu Leléu, disposto a não se
impacientar com Luiz, que já estava virando tatu de tanto comer
tatu, falar em tatu e até conversar com tatu. Um belo dia, ele
vira tatu inteiro, sai por aí papando defunto. Verdade que não
acreditava nessas histórias, mas bem que podia fazer parte natu-
ral do mundo que uma coisa virasse outra: a comida que a gente
come não vira cabelo, não vira unha, não vira força, não vira
fala, não vira tudo na pessoa? Mas virar dois, como diziam que
ele estava virando... Queriam deixá-lo maluco, a inveja traba-
lha de mil maneiras e, mesmo no Baiacu, lugar tão miserável
e afastado não podendo haver, de povo mais pobre do que muitos
bichos de criação das boas fazendas, a inveja ia procurá40, em-
bora ele pouco ostentasse riqueza ou privilégio. Vamos deixar
isso para lá, agora não tem mais jeito, estou metido nesta caçada,
os cachorros já se assanharam, Luiz Tatu já se abalou, não posso
voltar atrás - decidiu.
Luiz Tatu retomou ao fogareiro, passou a abanar as brasas
distraído' de olho fixo nas fagulhinhas que se ejetavam por baixo
da panela. Mas o vento arriou, ficou desnecessário abanar, e ele
Somente continuou agachado, os braços descansando nos joelhos,
251
#



o traseiro encostado nos calcanhares. Talvez a fumaça, as brasi-
nhas, o cheiro do carvão queimado, o próprio vento, espantassem
os maruins, porque nem os mosquitinhos estavam ali na sua hora
costumeira, para quebrar o sossego com ferroadas que não para-
vam de coçar e o silêncio com os tapas que se tinha de dar onde
mordiam. Muito silêncio mesmo, a maré baixa descobrindo o
apicum sem fim que ia dar na Ilha dos Porcos, o r.-sto de uma
faixa carmim quase apagado no céu, um friozinho molhado, os
morcegões de frutas avoaçando baixo e de vez em quando se
agrupando em bandos na direção das nuvens e da mata cerrada,
os vaza-marés e outros caranguejinhos de plantão à porta de seu4
buraquinhos, a enchente começando a lamber a borda do ~naq~
gue, um lumezinho bruxuleando na porta da casinha que ficav4.
embaixo do coqueirão, uma vontade mansa, meio boba, metq,
sem pé nem cabeça, de que aquilo tudo parasse, que não fo
necessário fazer mais nada, quase como se a alma saísse do co
e este se tornasse uma estátua e aquela não mais que um Yen,
e
que a tudo se abraçasse e a nada se prendesse. Nego L~eléu~ a
querendo um pouco virar dois, só lembrava ter-se sentido assi
na infância, muito menino como talvez já houvesse sido, quan
o deixavam parar um pouco e ficar olhando as nuvens mudar
forma, o chão parecendo que girava emborcando o mundo, a
diuma alva como uma bola de carimã, o pensamento em al
lugar desconhecido, a cabeça um balão voajor. As vezes po
lembrar-se de que se sentira assim quando menino, lembrava
mesmo de que existiam lugares inexistentes a não ser dentro
meninos, mas não podia voltar a sentir-se da i-nesma manei
podia apenas lembrar. Ah, meninos e meninas, que força há nel,
que ~ão há em nós, que poder têm quando os amamos, que
gústia nos dão quando sofrem, pois que já nos chegam sofre
injustamente, suas carinhas de angústia nos doendo, seu ch
nos castigando, seu desvalimento nos afligindo, suas desc,Dbel
nos fazendo chorar à toa! Leléu, embora feliz ou até por i
a
enxugou os olhos que lacrimejaram quando lerribrou o ros
nho de Dafé, não mais rechonchudo como fora tanto tempo, a
de vez em quando soltando uns relampejos de mulher, mas se
pre menininha, uns dentinhos claros, um queixinho atrevido,
cheirinho meio de flor, meio de mel, meio de gente, ,eio
252
roupa lavada e açucena, uns trejeitos de deusínha, ah danada! -
pensüu Leléu, sabendo que estava com um sorriso aparvalhado
e se orgulhando dele.
Ele nascera antes do esperado, dia 29 de fevereiro, dia mais do
que doido para se nascer, vez que assim só se tem dia de anos
de quatro em quatro anos. Então não fazia oito amanhã, fazia
dois, E não era por isso que ele estava aqui igual a um palerma,
metido numa caçada de tatu com Luiz Tatu e ouvindo aquela
léria toda de caçador loroteiro? Seria verdade que estava mesmo
virando dois? Quem diria que ele ia se meter numa desgraça de
#



uma caçada, ainda mais de noite, ele que não gostava assim
muito de mato? Mas Maria da Fé, quando ele lhe perguntou o
que queria como lembrança do aniversário, respondeu que queria
comer ensopadinho de tatu. Mas já se viu? Por que não quer
outra coisa, uma prenda rica, um passeio de barco, um vestido
estampado, uma boneca de madeira? Não, quero almoçar enso-
pado de tatu. E mais - tinha dito ela, com aquele jeitinho ousa-
do de que ninguém conseguia ter raiva -, se Vô Leléu não qui-
ser dar o tatu, não dê, mas depois não venha contar que cumpre
o prometido. Mas já se viu uma molecota daquelas, uma iscazi-
nha de gente mal saída dos cueiros, já falando desse jeito? Leléu
sorriu outra vez, a moleca tinha inteligência, tinha tutano, aquilo
ia ser da pá virada, azougue mesmo. E, pronto, lá se vai Vô
Leléu caçar tatu que nem besta, por causa daquela lambisgoiazi-
nha. Podia ter comprado o tatu, mas aí resolveu - estava mesmo
virando dois? - que a homenagem certa era ele mesmo ir buscar
o bicho, mais a aventura por homenagem do que propriamente
o tatu. Quem te viu, quem te vê, Vô Leléu ... Se contassem a
ele antes, ia dizer que era mentira, ia até se aborrecer. Até mes-
mo depois do nascimento dela, porque ele já vinha azuretado com
todos os tropeços que se acumulavam em sua vida como oitis
despencando em março, se lhe contassem, ele desmentia. Sem
poder trabalhar em Nazaré das Farinhas, com dificuldade de achar
comprador para os negócios, mais caloteiros aparecendo em toda
parte, mais umas quatro brigas com os negros de Sorriso de Des-
dém, aquela menina Vevé ali prenha nas bicas de parir, ele que-
rendo furar uns dois com seu esporão e achatar uns vinte com
seu porrete, a tenda de alfaiate sendo perseguida, as raparigas
253
#



T
também, tudo dando para trás - e ele ali, tendo de arrastar
aquela mulher enxertada para cima e para baixo, logo ele, que
não tinha familia justamente para não ter de se amarrar. Entra
não encarava nem mãe nem filho que ia nascer com simpatia,
não gostava nem de ver Vevé. Se acreditasse nessas coisas d%
azar e má fortuna, acreditaria que ela os trouxera, aquela de*,.
graçada daquela calistona ali atrasando tudo, com sua ba
empinada e suas quase nenhumas palavras.
Ainda por cima, a menina nasceu não só antes do dia com*,'
antes da hora, por assim dizer. Nasceu quase dentro do saveiro
em que viajavam para a Encamação e ninguém contava com
pois pelas contas ela era para nascer em março. Leléu m
tinha feito as contas - era muito fácil lembrar o dia em que
barão comeu a negrinha a pulso, véspera de Santo Antônio,
antigas da baronesa -, então estava tudo bem, levava-se aq
malpropícia para a Encarnação uns quinze dias antes do dia
parir, encomendava-se o aparamento à própria da Hora, em"
casa ela ia ficar. Mas não, não se sabe se por causa da lua,
por causa da tumbice de Vevé ou da dele, se por causa do bal
do mar, se por causa de intencional ironia do Destino, haven
ele,escolhido para parteira uma mulher chamada Maria da Ho
u
a barriga de Vevé se desfez em águas no instante em q, te
ram a barra e ela agarrou o cordoame da proa, sentou, ape
os beiços e se escancelou.
- Te segura, aperta essas pernas! - gritara Nego Leléu,
nunca havia imaginado ficar tão inquieto vendo pela primeira
uma mulher parir. - já tá chegando, já tá chegando, jái v
chegqndo, já cheguemos!
Mas não tinham chegado e, ao atracarem às pressas, o pes
de terra segurando a borda do barco com as mãos porque
tempo de fazer as amarras houve, foram carregando Vevée
a casinha de da Hora com a menina já botando o cocuiuto
meio das pernas da mãe e, assim que a deitaram, o nascim
se completou. Da Hora nem acreditou que era primeiro f
nem que era de oito meses e meio, uma menina tão forte,
choro tão estridente, um parto que mais parecia uma bufa
ficou desconfiada. E Leléu também ficaria, se não tivesse p
camente testemunhado todos os acontecimentos que leva
254
àquele parto e se, mesmo enrolada num pano e de olhos fecha-
,lub, não se visse que a menina era mulata, talvez puxada ao pai.
Foi o que se foi vendo mais tarde, pois, apesar da pele azeitona-
da parecida com a da mãe, os cabelos eram praticamente lisos
e os olhos - que lindos olhos tinha a serelepe! - verdes, verdes,
verdes como duas contas, tão bonitos que vinha gente vê-los,
tinham feito fama.
É, mas Leléu não gostava, não queria saber. Agora, em vez
de uma, eram duas e resmungou muito quando, na segunda-feira
seguinte, saindo pela altura da vazante naquele mesmo saveiro,
#



teve de dar dinheiro a da Hora para o sustento das duas e mais
a exploraçãozinha choraminguenta que ele já esperava e mais
a ordem para que Nego Sofrê, tomador de conta das canoas de
rede Alvorada e Beija-Flor, ambas pertencentes a Leléu, lhes desse
peixe quando pedissem, embora atentando para o exagero. As
moscas da Quaresma enlouquecidas, enxameando como milhares
de demônios miudinhos até nos ocos da embarcação, um calor
que abafava como um emplastro escaldado, somente aporrinha-
ção esperando-o na Bahia e a mão estendida de da Hora, aquela
gorda mamalhuda miserável somítica que o que tinha de peituda
tinha de treiteira, e aquelas duas lá dentro, uma toda princesa
que parecia que só falava com duques e querubins de elevada
conceituação, a outra mijando, cagando, mamando, chorando,
cagando, mijando, mamando, chorando, mijando, cagando, ma-
mando - muito bem, e eu com isso, mas já se viu, já se viu,
já se viu, quanto mais eu quero fazer o que eu quero, mais eu
faço o que não quero! -
l,eléu sorriu outra vez, reparou apenas vagamente nos prepa-
rativos que Luiz Tatu fazia, remexendo miuçalhas poeiren-
tas, pondo uma faca à cinta, examinando umas correias de couro
sebento, cheirando o ar com o nariz tenteante como focinho de
bicho, esfregando as palmas das mãos na bunda a cada dois pas-
sos, conversando com os cachorros - a-hum, Amizade, la-la-hum,
Coronel, hum-hum-hum-hum, Filisteu, chô-chô-chô-chô, Bom
Culhão, arreia-aí-sô, Lavareda, chô, Pior Valente, siu-menino, Ca-
ranguejo, axente~xente, Fubá, ramo-ramo-ramo, Fidargo, ora-me-
creia, Excelente, ora me creia! -, fazendo borralha no fogo do
255
#



aipim, indo buscar a botija de mel de engenho lá dentro, guar.
d.-da i~uma gamela coin água por causa das formigas.
Eu mesmo cozinho o tatu - pensou Leléu, cada vez mak
antecipando a volta à casa e a folia toda com o tatu. Se bem que
às vezes sentisse falta da vida de viagens e lutas que sempre
levara, não tinha vontade de sair do Baiacu, só saía quando nãó
havia jeito, para arrematar alguns dos poucos negócios que lho
restavam. Havia se livrado de quase tudo, agora só tinha
casinhas de renda, umas cinco canoas, o sítio do Baiacu c M=
hortazinha e o pomar, o barco grande de Vevé, o saveirinho
barraca de peixe da Conceição, o bom dinheirinho enterrado IR,
precisava de mais? Assim se desfazia de tanta preocupa
mesmo a idade lhe chegando certeira por todos os cantos
se sentia muito disposto, mais disposto talvez do que no te
em que caminhava légua atrás de légua por todo o Recô
Nada para infernar, nem mesmo a raiva contra Vevé, a
rara muito no dia em que, esperando peixe na Bahia,
beu o recado de que da Hora tinha morrido de repente
nação. Quase destrói o barraco a pontapés de tanta a fúr
lhe veio, tomou cachaça outra vez, partiu para matar Sorr
Desdém com o esporão e não matou somente porque não o
controu. Da Hora, apesar de interesseira, mexeriqueira, ous
patoteira e confiada, era quem tomava conta dos negócios
na Encarnação e, justiça seja feita, era sabida mas não ladra
preguiçosa. E agora, e agora mais essa, que raio de merdal
negrinha azarenta, só podia ser ela, o azar existia, forçoso
nhecer, o azar era ela! E lá se despenca ele para a Encarna
às cazreiras, sabendo que a esta altura Nego Sofrê era hu
de ter até vendido as canoas, pois pescando e trabalhando é
ele não estaria, isto se podia apostar. E, quando chega l~i,
encontra senão mais desespero, Nego Sofrê não querendo
mais, nem ninguém em todas as cercanias, parecendo que
rã o luízo Final e o dia de amanhã não raiaria. De fato, de
de fato, só podia ser influência, não havia mais jeito senão d
tir, irgluência daquela infeliz e sua filha mal gerada, vin
mundo numa sexta bissexta, 29 de fevereiro, horário de m
era quase falta de tino não admitir que alguma parte
elas aqueles infortúnios todos tinham a ver.
256
A causa de todo o medo e consternação não era só a morte de
,la Hora, de quem muitos talvez nunca sentissem falta. Era a
volta do peixe que, segundo muitos, fazia de quatro em quatro
a,nos a viagem até ali, brotado das funduras do oceano onde habi-
tam dragões, serpentes e demais monstros marinhos, para casti-
gar os pecados da povoação, uma espécie de mensageiro do medo,
de carrasco do inferno, assombrando com sua enorme boca de
mil dentes aquelas águas claras. Primeiro quem o tinha visto
foram os moços da Beija-Flor, que livravam a barra para altiar
a rede de tainhas e, quando já manobravam para acertar a canoa
na correnteza, um vinco suave nas águas paradas lhes chamou
a atenção e imediatamente um terror sem medidas lhes esfriou
#



o sangue: silencioso como a pr6pria morte que representava e tão
ameaçador quanto ela, um vulto de lombo azul cinzento deslizou
quase à flor d'água junto à canoa, do mesmo tamanho que ela e,
sem dúvida, capaz de parti-la em duas com um só aperto de sua
boca descomunal. Sem ousar mexer mais nem um dedo depois
que se deitaram no fundo molhado da canoa, o sol, em vez de
esquentá-los, congelando-os numa massa tiritante, procui-aram até
mesmo respirar sem fazer barulho, enquanto, pela ginga leve da
canoa, pelo marulhinho que a passagem do peixe levantava e
pelas duas roçadas indescritivelmente longas que deu no casco,
numa delas quase o emborcando, sentiam que ele perseverava
em sua patrulha assassina, esperando ver a sombra da vítima para
atacar. Muitas horas mais tarde, tão assustados que nem mais
sangue tinham, procuraram a igreja para rezar, foram confessar
os pecados, acenderam velas em graças, um deles se deu a res-
guardo, os dois outros só a muito custo quiseram lembrar a
história para contar.
Era a grande tintureira que voltara com seu apetite por bichos
de sangue quente, mas alguns não puseram fé, acharam que, sem
um mestre a guiá-los, os três moços queriam apenas uma desculpa
para a perda da rede que não souberam manejar direito. E até
já se esquecia toda a aventura, quando, depois de três dias que
o bote de Almiro, com quatro dentro, saíra para os baixios para
ferrar umas sororocas, os meninos descobriram na praia, cober-
tos de siris e sargaços, pedaços de gente mordidos e destroçados,
Ossos triturados somente com um pedaço de carne ou outro pen-
257
#



258
dentes, a ponto de nem mesmo se saber quantos havia ali ' reco.,
nhecendo-se quem eram apenas porque o madeirame de bo
quase que só uma pilha disforme de pranchas e ripões e
lhados, encalhou na boca do rio, a vela rasgada que restara peú.,,,'
durada ao mastro abanando como bandeira de defunto. A
reira era agora pressentida em toda parte, as penitên
• dia inteiro, até para fome e pestes se preparara
• mar abrigando a morte mais medonha e mesmo as
podendo de repente criar dentes, devastar as mar
perto delas se encontrasse.
Leléu nem quisera ir até a casa de da Hora, para não es
com Vevé e a menina. Depois resolveria o que fazer com
talvez as deixasse ali mesmo, afinal não tinha visto nenhuma
duas nascer. Bem, tinha visto uma delas, mas isso não queria
nada, não era pai nem dono de ninguém, não tinha obrig
alguma, elas que fossem para o diabo que as carregasse com t
o desacerto que pareciam portar atrás de si como uma cauda
em todos se enroscava. Visitou a cova de da Hora, tirou o cha
fez cara de quem estava rezando silenciosamente, andou até,
beira da maré para pensar no que ia fazer. Nem mesmo
os primeiros chamados que lhe fizeram João Dadinho e João
correndo até ele como se a tintureira houvesse nadado até a
e estivesse lá mastigando o padre e os altares. Mas não, ela s
ao largo, via-se pela manta de peixes pulando feito loucos~'
frente do grande dorso mortífero, que dali só se enxergava-
reflexo azulado de quando em vez marcando a flor d'água.
- Estou vendo, estou vendo - disse Leléu. - Que é
eu posso fazer, não sou o reis dos mares.
Todo dia a gente come o peixe - ia dizendo - e um dia~l
peixe tem de comer um. Mas não disse, ficou escutando incréd
o que lhe pediam.
- Tá todos dois doidos, doidos, doidos - sentenciou, vi
do as costas.
Está certo, podiam estar doidos, mas que custava Leléu
cordar com o que propunham?
- Custa meu barco - respondeu zangado. - Se aquele bi
mascou o bote como quem mastiga um carapicu frito, é
meu barco que ele vai palitar os dentes?
Mas os dois insistiram. Se ninguém tomasse uma providência,
aquele peixe ia ficar ali o tempo que quisesse, talvez até a vida
toda, acostumando-se a comer carne de gente e a encontrar pas-
sadio fácil. A tintureira tinha o nariz fraco, todos sabiam disso,
não era invencível, podia ser arpoada, será que Leléu ia deixar
que a miséria se abatesse sobre eles por causa de um peixe tirano?
- A miséria é de vocês, o barco é meu.
Mas acabou mudando de idéia, eles que fossem atrás da tintu-
reira, bastava querer encostar no bicho para ele sumir, era sempre
assim. E, além disso, não deixava de ser interessante o pormenor
que lhe passaram. Pois não era que diziam contar com a orien-
tação e comando de Vevé, a qual se arrotava conhecedora do
#



mar, da pesca e do combate a peixes brabos? Ele tinha ouvido
essa conversa, sabia de Turíbio Cafubá, que por sinal fora uma
boa besta conforme o conhecimento geral, e sabia dessas gaboli-
ces de que ela era pescadora - chega, levem a peste do raio da
desgrama da arreliada da moléstia da bosta de embarcação, cês
sabem o que eu quero de vocês? O que eu quero é que vocês
passem mal, me deixem!
Nem disse nada a ela, como ela também não lhe disse, quando,
pouquinho mais tarde, juntou-se aos outros perto da rampa, para
ver a saída da lancha Presepeira, levando João Dadinho, João
Loló, uns quatro negros fragueiros e Vevé, parecendo até que en-
tendia mesmo do riscado, manobrando a cana do leme para mon-
tar a barra falsa e ir lá bordejar o peixe. Pensou perversamente
que, se a tintureira cumprisse bem o seu papel, até que o livra-
ria de um problema. Comia Vevé, que o atrasava, e comia João
Loló, que lhe cobrava por um serviço de feitura de leiras de quia-
bo, pimentão e hortelã, serviço este muito do malfeito que ele
nunca ia pagar, mas que Loló não cessava de lembrar. Bem ver-
dade que podia também danificar o barco, mas a Presepeira era
sólida, pau de jaqueira e cedro da melhor qualidade, não era broa
de tubarão como aquele botezinho de louro e - Leléu deu um
risinho roncado - seria até preço convidativo pelo sossego que
lhe viria. Mas não quis continuar pensando assim, abanou a ca-
beça para sacudir fora os pensamentos, ficou na beira da praia
assoviando baixo, enquanto, primeiro empurrada pelo mourão de
João Loló, depois de buja e vela grande içadas, a lancha come-
259
#



çou a afastar-se. Vevé, saia amarrada por baixo num grande nó ,¥~
como se estivesse usando pantalões antigos, olhou para ele, levan. I-W
tou a araçanga e ele podia jurar que sorriu - agora sabia quw~-,
sorrira -, a Presepeira deu a boreste, embicou largo afora e foi
atrás do peixe.
Foi, sumiu e demorou a voltar, todos opinando que já
estar vazia de gente, a maior parte daqueles metidos já forr
a barriga do bicho, os outros mais ou menos aos pedaços. Lê
arrependido de ter emprestado o barco e se estranhando m
não fazia mais nada além de esperar Zezé, a filha de Sofre,
ficara de vir cuidar da menina - e como era o nome do
da menina, falar nisso? - mas não chegava nunca, e (-n
porque não agüentava mais aquela choradeira igual a i m
ruma pelo oco dos ouvidos, foi segurar a menina -
grandinha, a sem-vergonha, pesava mais que um bacorinho
leite -, depois de fechar a porta para ninguém vir aprec',á-lo
posição de mucama, quase ama. logo essa ordinariazinhá'
no mato, aproveito logo para afogar e esquecer? Olhou . parraa
rostinho dela, o choro tinha passado, ela agora metia a mão
três ou quatro cabelos do peito dele, puxava como se qui
pendurar-se.
- Ai, sua fiadaputinha! - gritou Leléu, com vonú,
baixar o tapa nas mãos dela. - Vou te dar um cascudo ir~
leira, sua peste!
Falou com o rosto bem junto dela e, coisa combinada,
feita, ela riu. Riu no começo mostrando somente o dente
baixo e os dois de cima, depois dobrando a risada, depois 1 al
g
in o
lhando, depois agarrando a barba dele, depois com o corpl'[ th
sacudindo contra o peito dele e, quando ele fechou a cara
tomar uma atitude, nem que fosse tapar-lhe a boca com a
ou dar-lhe logo um piparote nas fuças para ela se assuntar,
ficou seriazinha, os olhos verdões arregalados na direção
cabecinha se encostando no ombro dele, a gargalhada p
a sorrisinho, tanta atenção nele como se ele fosse o meio do
do - teria sido assim que Leléu principiara a virar dois?
Leléu sorriu da forma exata como sorrira então. Luiz Tatu
tendeu que era pela alegria da comida pronta, fez sinal de
viesse pegar o aipim. Mas Leléu, que respondeu ao sinal sem
260
perceber, lembrou apenas que naquele dia caíra no sono e acorda-
ra com o braço dormente, na posição em que ficara para não ma-
chucar a menina, ouvindo lá fora os gritos de "olha a tintureira, lá
,enl a maldita, ai bom Jesus que ao diabo matou, ai que deve ter
para mais de quatro braças, ai Deus abençoe a Presepeira!" Correu
para fora, sem saber como carregando a menina, lá vinha a Pre-
sepei . ra adcmando com o peso do bicho amarrado ao costado, o
anzolzão de catueiro que havia sido iscado com um quarto de
porco espetado na boca monstruosa, o coroque de João Loi6
também metido lá dentro até o cabo como uma estaca fincada,
#



cortes de facão junto das guelras e no focinho, cinco arpões iguais
a bandeirolas plantados no dorso, vencido como o dragão de São
Jorge. No meio da gritaria do povaréu, Leléu correu para o atra-
cadouro, viu Vevé ainda de araçanga na mão, o rosto afoguea-
do, a mão enfaixada do arranhão que tomara na pele das costas
do bicho, a postura do general que ganhou a guerra. Sim, senhor,
mataram o bicho - pensou Leléu e logo imaginou que o fígado
daquele animal devia pesar arrobas, aquele óleo era dele, a carne
podiam guardar, mas o óleo era dele. Escarrapachou as pernas
da menina nos quartos, correu para a praia para ver fazerem o
arrasto do bicho até a areia, gritou para Sofrê que pegasse as
coítas e os facões para tirar o fígado, não deixasse ninguém en-
costar naquele fígado, um frasquinho do óleo valia uma fortuna,
servia para tudo. Vevé desembarcou primeiro, sorriu ao ver Leléu,
que também sorriu, mas logo se recompôs.
- Segure aí seu trambolho - disse, passando-lhe a menina.
Mas, desde aquele dia parecia que_não queria mais voltar para
a Bahia, adiava o que podia, inventava desculpas para ficar com
a menina, gostou do nome Maria da Fé, deu para passar um
tempo desmesurado carregando-a para cima e para baixo, deu
para ter ciúmes dela até com a mãe, deu para reclamar da falta
de trato com ela, deu para procurar as comadres para se infor-
mar de mingauzinhos e papinhas, quase fica maluco quando achou
que ela estava com defluxo e fez ninada duas noites sem dormir
- virou outro, outro, outro, ninguém acreditava no que estava
vendo. E, quando ia à Bahia, voltava cheio de presentes, recla-
mava de novo que não cuidavam da menina, chamava a mãe de
desnaturada, exigia para ela roupinha bem passada, cheirosa e
261
#



engomada, saia para passear com ela e mostrar-lhe as plantas
os bichinhos, dava comida na boca e, no dia em que ela
mijou o colo riu tanto que quase teve um chilique, co
aquilo a coisa mais engraçada que podia acontecer. E foi
causa dela que comprou o sitiozinho do Baiacu, decisão
tomou quando, como fazia muitas vezes, estava perdido
mirá-la dormindo na caminha, sempre achando que já ia :mm
-tiu,
sem nunca ir. No dia em que ela o chamou de Vô e relx.
bora ninguém entendesse aquilo e julgasse que era apenas
balbucio como outro qualquer - povo burro, não estão
que ela fala Vô quando me vê? -, decidiu que ia viver
Baiacu, criar a menina no sossego, na tranqüilidade, sem
de e sem aquelas conversas de sedição e guerra que agora
se ouviam, para inquietação de todos. Não compreendia
hist6rias, não queria compreender, desconfiava que Vevé,
sumia volta e meia para palestrar com gente estranha, tinha
ma coisa a ver com aqueles rumores, foi enérgico quaildo
hesitou em aceitar ir para o Baiacu.
- Não vou deixar a menina aqui, para se criar mal e se a
car a qualquer coisa!
- Se arriscar a quê?
- Se arriscar, se arriscar, se arriscar! Tu não sabe
vive metida nessas conversas, tu vive cheia de prosa
te dei a mestragem de pesca da Presepeira, que pegast
mulher valente, pescadora do peixe que pega o homem
bra. Pois muito bem, seje valente, seje matadora de t
assombra o povo como a única mulher mestre de lancha do
do, faz o que quiseres, mas a menina tu não estragas. 5:
sabes ser mãe, sei eu ser avô!
Falou "avô" de boca cheia, nem percebeu o que estava
do com tanta convicção. E Vevé, que não queria perder
filha nem o barco e que do Baiacu podia fazer a navegaç
nsí&
desejasse, achou melhor concordar. Sossego, sossego fina
neste canto onde não existe nada e portanto existe tudo. M
bém aqui Leléu cheirava alguma coisa diferente, sentia q
coisa se estava desenrolando de alguma forma que não
ver, o ar não era o mesmo de sempre, havia alguma coisa, al_
coisa. Coisa talvez de Júlio Dandão, que com certeza andava
262
tido naquelas brigas de malês, talvez coisa daqueles negros des-
garrados das propriedades decaídas do Barão de Pirapuama, coisas
de gente que, em vez de trabalhar, queria mudar um mundo que
,lão podia ser mudado, por isso que sempre se disse "desde que
o niundo é mundo, desde que o homem é homem", mostrando-se
coin isso que nada realmente muda, existirão sempre as leis da
vida, que não mudam. Aliás, pensou Leléu, quem sabe de algu-
nia coisa, a não ser o sujeito que é avô?
- O tição se sacode assim - falou Luiz Tatu, agitando uma
acha de lenha com uma brasa na ponta que retalhava a escuri-
#



dão, e Leléu tomou um susto. Pois não é que já estava nos matos,
já havia comido o aipim, ainda tinha uns cisquinhos de farinha
com cabaú pelas dobras das bochechas, os cachorros já estavam
trabalhando e não vira nada? Reparou que também levava
um tição, embora apenas pendurado na mão direita, não empu-
nhado como o de Luiz.
- Diacho é isso, Luiz, pra que esse tição? Isso não alumia
nada.
- Não é pra alumiar, é pra afastar os diabos.
- Os diabos? Ques diabos, homem, qual é o diabo?
Luiz Tatu fez novamente sua voz de professor e explicou que
Leléu não conhecia matos e, por conseguinte, não sabia dos dia-
bos dos matos, porém ele, Luiz, sabia. Aqui há muitos diabos
- disse pausadamente -, não é como na Ãfrica, que não tem
diabo, aqui tem muitos, muitos. De maneira que Leléu procurasse
carregar o seu tição muito bem carregado, para evitar algum
aborrecimento. E ia continuar a ensinança da sabedoria dos ma-
tos, quando estacou à beira de uma touceira de tabocas e apertou
os olhos.
- Siu-siu-siu!
O cachorro Excelente quis entrar pelo cerrado das tabocas,
não conseguiu, passou a rodeá-lo sem parar, mudando de direção
a cada tantas voltas.
- Excelente não desencova - esclareceu Luiz. - Nem ele,
nem Amizade, nem Caranguejo, olha aí.
Mostrou Caranguejo e Amizade, também circulando nervosa-
mente em tomo das tabocas.
263
#



- Mas é difícil entrar aí, isso é fechado.
- Nada, depende do cachorro. Assim em taboca, taquara,~
essas coisas, Lavareda vai, vai que tu nem percebe co
Ganindo o tempo todo, Lavareda fuçou as raízes
e de repente, como se o chão se tivesse aberto s6 par
pareceu numa espécie de túnel. Bom Culhão, os qu
lhe davam o nome parecendo duas luazinhas pardas,
tade do corpo na cova, agitando o rabo velozmente. E, sem
Leléu esperasse, uma erupção de areia espirrou do outro 1
e, atrás dela, desabalado, prorrompeu o tatu em disparada na
reção da raiz de uma maçaranduba gigante, correndo mui
do que suas pernas curtas pareciam permitir. Mas log
chorrada lhe caiu em cima, inclusive Lavareda, se esp
para fora do buraco como um pinto do ovo. O tatu, vir o
costas, bufou, deu combate, passou as unhas no focinho de
lente, mas este, sem dar importância, niordeu-o no p
e não mais o soltou até que Luiz chegou perto, com uni cac
na mão.
- Peba - disse ele.- - Tatuzinho bonitinho, vem cá
acrescentou quase com carinho e, logo em seguida, rnat
com uma porretada seca na cabeça.
Duas horas mais tarde, quatro tatus no bocapio, tor
nar
caminho para casa sem conversar, até os cachorros faz,-e.,n o7
lêncio e caminhando em ordem, como se soubessem que a c
havia terminado. Luiz Tatu ia na frente, Leléu procurava pi
exatamente onde ele tinha pisado, e quase se batem qua:d:
parou inesperadamente.
luga; indefinido, um pouco para o alto, um pouco para a m
Leléu apurou o ouvido, escutou o trissado rápido de um
sarinho.
- Calandra, né não? - perguntou.
- Sim, mas a esta hora? - disse Luiz, fazendo uma p
solene para perguntar alguma coisa cuja resposta já sabia.
que a esta hora?
- Não sei, é esquisito mesmo. Mas ...
- Psiu! - Luiz falou, como se estivesse conspirando.
Escute!
Escuta! - cochichou, com o indicador apontando r) r 11
264
-- Luiz, iiie diz uma coisa, como é que você, que é meio
rnouco. ouve uni barulhinho destes?
- Só sou surdo pra barulho grosso. Barulho fino, eu não sou
surdo, E nem pra barulho grosso eu sou todo surdo.
Leléu pensou em discutir, embora já estivesse achando aquilo
tudo uma bobagem e quisesse voltar para casa logo, mas o baru-
lho voltou, acompanhado por uma espécie de murmúrio, um canto
sem palavras muito longínquo.
- Ha! - disse Luiz. - Aviu? As almas!
Leléu deu um muxoxo, empurrou-o de leve para que conti-
nuassem a andar. O canto, porém, não foi embora, parecia os-
#



cílar com o vento que soprava para a contracosta da ilha, Leléu
teve um arrepio e um estremeção. Seriam mesmo vozes das al-
mas, vindas dos lados do Tuntum e de Amoreiras? E aqueles
chamados abafados que também soavam, às vezes muito perto,
como se houvesse -ente escondida por ali trocando saudações?
o canto do pássaro se repetiu, desta feita próximo, Leléu teve
outro arrepio, as vozes e cantos pararam de todo. Bobagem -
pensou Leléu -, estou ficando é broco. Mas não quis olhar
para trás e respirou aliviado quando, contornando um outeirinho,
vislumbraram, iluminada pela lua e pelo seu reflexo nas águas
rasas que cobriam o apicum, a chocinha de Luiz Tatu, a Ilha
dos Porcos, as pontas do arraial. Quero chegar logo em casa
- pensou Leléu, planejando a brincadeira que faria com Dafé
na man à seguinte e sopesan o satisfeito o bocapio dos tatus.
Mas não estava completamente em paz e se incomodava por não
,-aber bem a razão.
265
#



São João do Manguinho, 29 de outubro de 1846.
im, menina, mas por onde anda aquele povo todo da Armação
do Bom Jesus, será que as baleias comeram? Ali, como passam as
coisas deste mundo, nada do que se constrói é perene, nada do que
se faz é bem lembrado além de seu tempinho, nada fica como
está, nunca se volta, nunca se volta. Caminhando o viajante pela
trilha que leva da casa grande ao engenho de frigir, verá que as
margaridas que a ladeiam estão sufocadas por carrapichos, já
nem floram como antigamente. A casa, fechada e silenciosa, ainda
se mostra bem conservada, até os frisos azuis da cimalha pare-
cem pintados de novo, a varanda foi varrida recentemente, as
janelas se apresentam limpas e lustrosas. Mas lembra um cadá-
ver alindado para o enterro, um grande bicho fêmea morto, que
daqui a pouco começará a decompor-se. Há gente por ali, um
negro ou outro se movendo devagar, carregando cestos, capi-
nando em redor das árvores, andando indiferentemente pelas vizi-
nhanças do engenho, este, sim, uma ruína desbaratada, paredes
corroídas, chapas de ferro esburacadas e retorcidas, o esqueleto
do telhado se exibindo em rombos eriçados de caibros quebra-
dos, o mato crescendo nas frinchas da argamassa, o portão des-
pencado por cima de uma escora de varas, galinhas ciscando
dentro e fora, um cheiro rançoso entranhado nas paredes, quatro
vértebras de baleia, grandes como tronos reais, dispostas em tomo
267
#



de uma caneleira triste. Os negros que ali trabalhavam foram ri&
maior parte vendidos para compradores diversos, outros ainda
pagam sua alforria a prestações, outros se espalharam coylforn*,~
a vontade dos donos, uns dois fugiram, muitos morreram, incha.
sive quase todos os que conviveram com a Grande Mãez~
Gangana Dadinha, que viveu 150 anos e tinha até os poderq~Z
de fazer chover e secar, bem como trazia na cabeça tudo '
até hoje se soube na Humanidade - já não existe gente e,
ela. Os brancos não mandam mais caçar, desmanchar -e f
a baleia como nos outros tempos, mesmo porque agora a
está sempre enxameada de navios de outras terras, caçando
lhor e mais fartamente e aqui mesmo vendendo seu azei e.
.lt
baleias ainda aparecem, às vezes em bom número, mas sÊ ' 1
,o n
o
cio incerto e arriscado, o comércio hoje é outro, o mundo hoje
outro. Caçar uma baleia aqui, outra acolá, talvez, mas não
antigamente, nada é como antigamente.
Até as jornadas de São Gonçalo hoje em dia são u
que s6 vista para se acreditar e diz o povo que tal sirdeve
devassidão do dono do novo engenho de cana do Mangui
o qual, sobre ser festeiro, é amigo de ver seus negros brincar
gastador - ainda que também se fale que, socolor de bon
o que ele faz é incentivar, promover e tomar parte em es
so
nias. Deus que perdoe o que mal pensa, Deus que a,,b ~lva
que falsos levanta, mas se sabe pelos antigos, não os antigos
Reino, nem os antigos das costas d'Ãfrica, nem esses anti
de meia pataca que são hoje o que se acha, mas antigos
antigos de Preste João, antigos do Reino de Cataia, de
PaulQ na Turquia, do tempo do Rei Herode na Hebréia, d I
Pares de França, do Jumento do Senhor, das bestas falantes,
Sete Maravilhas, antigos do tempo de Dão Como mesmo,
antigos, desde o tempo deles que se sabe da natureza do
santo São Gonçalo, aqui alcunhado de Gonçalinho, por aí já
vê a baixa intimidade. Por que é que, se as vestes de S
Antônio são de pedra ou barro como o resto dele, as vestes
São José, as vestes de Santo Onofre, as vestes de São Simão,.
vestes de todos e todas os santos e santas, as vestes de São
çalo por costume são de pano? Vergonha mate-nos, mas a
dade é o primeiro mandamento de quem historia e a
268
é que a saia do santo é de pano para que esse pano se possa
levantar e por baixo se veja a falha na santidade de tão famoso
santo, qual seja o desmarcamento de seu ferramental, mais de
culhões do que tinha São Nereu, mais de vara do que tinha
São Moisés, de chapeleta mais que tinha São Priape, mais de
tesura que Salomão das Milhares de Mulheres, esta é que é a
verdade. Os versos do santo? Mais que imorais. Os cantos do
santo? Mais que carnais. Os louvores do santo? Mais que ve-
#



niais, senão mortais. Os pedidos ao santo? Mais que safadais. As
festas do santo? Mais que bacanais, em que se canta
São Gonçalo do Almirante,
Casai-me, que bem podeis,
Pois tenho teias de aranha
No lugar que bem sabeis
- e isso é nas novenas, coisa açucarada, ímaginando-se muito
bem que lugares são esses onde as aranhas teceram suas teias,
no vaso da frente, no vaso de cima, no vaso de trás, podendo
ser qualquer ponto do corpo por onde haja racha com fundo ou
sem, e elas mostram esses lugares, esfregam esses lugares no
santinho, passam a mão nas partes do santinho e ainda batem
palmas lá fora, quando os homens cantam
São Gonçalo vem do Douro,
Traz uma carga de couro,
Do couro que mais estica,
O qual é couro de pica.
Como sempre diz Mestre Aurelino Fialho, todos os anos há
mais de vint'anos juiz da festa e ensaiador dos mais vistosos
bandos de pastoras, as comemorações hoje atingem seu ponto
fulminante - nada mais, nada menos que a grande pesca do
Santo Violeiro, nome por que é também conhecido o Gonçalinho.
Mas antes tem de haver as jornadas e a festa, que já vieram do
ontem e do transantontem e quem vê assim acha que nem para
dormir se parou - a licenciosidade mais ou menos imperando,
vamos e venhamos. Ontem, foi o que se viu à luz dos farolins
269
#



T
de bambu da praça e foi o que não se viu por trás das M~
pelas capoeiras, em volta dos muros, dentro dos barcos, qualque
lugar onde ele e ela pudessem aliviar o baixo instinto sem PCM
eis que não se peca quando se vai à marafa na festa do Gonça-
linho - é o que afirmam os preceituários mais acatadbs.
tomem-lhe vivas e revivas a São Gonçalinho sempre no
ardido entusiasmo, levando as pessoas velhas a desejar a
do dia em que o Governo da Babia mandava para aqui
e outras gentes d'armas, a fim de pôr a ferros os forni
folgazões, fogueteiros, fandangueiros e fancareiros. Em
os falcatrueiros dos jogos de acerto das quermesses,
mais ladrão do que o outro e fonte grossa de alta
sidade, a que porém se entregam os velhos com volúpia,
fora seus vinténs nas argolinhas,,nas apostas de corrid
em colher, nas laçadinhas de bastidor, na roda da foj:n
sortes dos papelotes, nas brigas de galo, nos jogos de 1)O
e mais invenções de festas de largo. E, se o Padre Bernabé
ordinário não dá conta da paróquia, com todas as despesas
lhe trazem uma mulher, duas raparigas e nove filhos, três
cada, imagine-se na festa, a qual lhe aumenta em muito
preocupações, pelas muitas barraquetas que manda a
montar na feirinha e que a família mal administra e p*
vigia, eis que se vão dois anos que o padre perde dinheiro
barraca de sortes, devendo ser o primeiro dono de barraca
sortes a com ela perder dinheiro, ainda mais tratando-se
mem de Deus. Se na Corte se vêem danças, adufos, pa
castanholas e bandolins dentro das igrejas, então fica
por n40 dito. Mas como tal na Corte não se vê, nem negras
dejando safadezas no adro, nem leilões de doces - afrorita f
mas não acho; se mais achara, mais tomara; dou-lhe uma,
lhe duas, dou-lhe três, vou entregar, estou entregando, já
treguei! -, nem comedorias desatadas, nem frades a h
bolinar, nem guitarras e bandurras taralhando entre sara
nem fidalgos a umbigar pardas e fuscas abertamente, nem
ganças à porta da casa de Deus, nem muito menos os
afoxés, nem muito menos um santo da Santa Madre A
Romana carregado em tal profaníssima charola ornada de
e plantas de baixa extração, nem rufadores de caixas na
270
i
panhia de castanholeiras libertinas - como tal não se vê na
Corte, o escândalo não pode deixar de ser grande.
Segue Gonçalinho para a praia na sua caixa de faia toda orna-
nientada, deixando a viola mas levando o caiadinho de ouro, ali
devendo aguardar o rodeio dos peixes, que hoje vêm de todo
jeito, de rede, tarrafa, arpéu, fisga, gruzeira, munzuá, até de mão,
pois o santo não falha na sua festa. É o que se verifica na hora
de jantar, aí pelo meio da tarde, não se encontrando, em toda a
praça burburinhante de gente, uma só gamela, um só prato, uma
só cuia que não esteja cheia de peixe assado, ensopado, escal-
#



dado, de moqueca, até cru mesmo, como o negro Zé Pinima
gosta de comer. E a comida do mar, mais que toda outra, não
se limita à sustança, mas seus humores marinhos irrigam as
vísceras de princípios eróticos, os quais por sua vez são aci-
catados pelo vinho do Porto dos ricos, o moscatei dos reme-
diados e a cachaça dos pobres. Isto ocorre tanto em homens como
em mulheres, alterando os freios que aqueles por medo se im-
põem e estas por conveniência fingem serem de sua natureza,
levando a geral incontinência e desregrada afrodisia. Será então
por isso que, depois do jantar, já começando a noitinha a cair,
pouca gente havia que não se encontrasse foliando na praça
ou brincando a brincadeira do bicho de duas costas no escuro.
Amanhã, além do mais, é outro dia, sexta-feira e não do-
mingo, não mais festa nem jornada de São Gonçalinho, mas
tempo de trabalhar e padecer, conforme é o destino dos homens.
Merinha agora servia na cozinha de uma casa rica do Man-
guinho e, no portão do,quintal dessa casa, muito bonita e de
cabelo espichado, a mucama Mart ma parou para conversar com
ela. Martina, que também fora vendida para senhores daqueles
sítios, estava de folga por serem os amos dela grandes devotos
de São Gonçalo e seu senhorzinho mesmo, filho caçula da casa,
dezesseis anos e muito do fogosinho, estava ali com ela. Se os
donos de Merinha tampouco se importavam que ela saísse hoje
à festa, por que não vinha também? Por que ia ficar aí de
271
#



beiço pendurado, muito mal espiando por uma aberturazinha do
portão a passagem de um bando, como se estivesse de luto? A
vida é curta, a do negro mais encurtada pelo trabalho e pek
humilhação, não se pode deixar de aproveitar tudo o que 90
pode aproveitar. Oxente, menina, está muita gente conhecida la~i,
até Inácia se abalou do Porto Santo, meio coroquinha mas
vitada que só ela, está o mudo Feliciano de folga do trabaR%*&,.,,
da caieira, está Nicodemo, hoje um homenzarrão, parece
co ntro acertado, tristeza não paga dívida, vamos à festa!
Merinha olhou para o meninote que viera com Martina,
buço escorrido lhe sombreando a boca, o cabelo encaracol
muito lustroso e penteado para os lados, a expressão de q
tinha bebido a mais da conta, em pé debaixo de uma
gueira na esquina.
Não sei como é que tu faz uma coisa dessas - d*
ela, apontando-o com o queixo. - Um frangote desses que
te traz nada, branquinho, senhor como qualquer outro, ap
veitador como qualquer outro...
Martina não se zangou, sorriu, deu um muxoxo.
- Ora, minha filha, tu acha que eu vou deixar de pa
um meninozinho limpinho, cheiroso e disposto, tu acha que
vou deixar passar a ocasião de papar um fidalguinho? n
não sou eu, ainda mais que eu sou filha de Deus tambéml
vou ensinando, vou instruindo, ah minha filha, não pode
coisa melhor, tu não sabe o que eu boto ele pra fazer!
Encostou os punhos dobrados para trás nas cadeiras, riu al
empinou o queixo, gargalhou com os ombros sacudindo, cutu
MerinWa com o antebraço.
- Come ele, como eu, minha filha... Ha-ha!
Merinha riu também. Quem podia ter raiva de Martina,
sabe até se não havia alguma coisa certa no seu jeito de vi
quem sabia o que era certo? Olhou novamente para o rapaz
não parecia impaciente. Ele pôs o chapéu, achou um toc~
coqueiro junto da mangueira, sentou-se nele, recostou-se na
vore, espichou as pernas, chegou a parecer que ia cochilar.
Não é bonitinho, não? - perguntou Martina. - O non"
dele é Manuel Bento, mas eu chamo ele de Bem-Bem, ele
272
~ 1
todo derretido. Tu sabe que quem garrou foi eu? Ele vivia me
passapdo o olho e eu só me dando por desentendida ' eu não
gosto de não me dar valor, tem que saber que não está pegando
coit,a de ouropel, aqui é ouro fino, n-iinha filhal - Remexeu os
quadris, pôs as pontas dos dedos juntas abaixo do umbigo, gar-
galhou novamente. - Mas eu vi que o jeito dele não era por
monarquismo, era por inocencia e aí, minha filha, quando é por
inocência eu não agüento. Eu não garro os nenéns porque nem
sei nem por que... Aí, no dia que eu botei bem o olho naquelas
perninhas grossas apertadas nos calções do irmão mais velho,
naquela bundinha empinadinha, naquela cara de bacorinho ne-
cessitado de conchego, naquele jeito de pintinho querendo asa
#



em riba, não conversei, fui a ele e falei com ele, na hora que
estava passando com a bandeja e ele sempre ficava na saída
do corredor de mão na cintura para o cotovelo esfregar no meu
peito achando que eu não reparava, mas eu só reparando e cada
vez eu demorava mais nessas passadas e sempre que eu ia lá
dentro ajeitava o peito dentro do califom, subia assim, espie,
bico pra cima assim, pra quando passasse no braço dele, ele
sentisse o peito descaindo ali e às vezes eu fazia uma paradinha
sem olhar para ele, ia e voltava o peito, tan-tan. Muito bem, numa
dessas passadas, virei pra ele e disse: por que não vai me cha-
mar de noite pra pedir um chá? Pra pedir um chá? Ele não
percebeu, aí eu ri e olhei bem em cima do volume dele, que
nesse calção já fica apertado e quando o homem é donzelo pa-
rece que vai papocar e demorei na resposta que já dava pra ver
que ele ia subir de costa na parede e então eu disse, sem nunca
botar o olho no olho dele: chá. Disse assim, bem encompridado:
chaaaá. Não era possível que ele não percebesse, mas mesmo
assim, nessa mesma noite, quando chegou na porta do quarto,
disse que tinha vindo pedir chá, nisso eu esperando tanto que
já me doía. Levantei, cheguei junto dele e disse: chaaaá? Coi-
tado, ele parecia que nem podia se segurar nas pernas, de ma-
neira que eu fui levando ele para dentro, fui levando, sentei,
tirei a roupinha dele e me usufruí, gostei bastante. Eu digo
assim: meu nenenzinho, branquinho lindo, safadinho, dê bezi-
nho aqui bem aqui em Martinazinha suazinha... Hi-hi-hi-hi!
273
- Mas já se viu, Martina, uma mulher de sua idade, quando
é que tti vai criar juízo? Mas já se viu ...
- Se Deus permitir, nunca, minha filha. Como é, tu vai oü~
nao vai? Não precisa desconservar isso daí, se bem que de coljê.
serva nunca serviu pra nada, é o mesmo que fruta-pão. Mas
só pra esquecer as mágoas um pouco, ver gente, se distrair! AI&
parece que, em vez de largada de Budião, tu é viúva.
Falou isso e se arrependeu, notou o rosto da amiga qua~..,
despencar, pôs-lhe a mão na nuca, fez cara de choro, ia falè~.
quando a outra a interrompeu.
- Budião nunca me largou - disse Merinha. - Aliás, B
dião não. O nome certo dele ...
O nome dele não é Budião? Ele tem nome africano.
Não, não, que besteira, deixa isso pra lá. É de ba
Faustino da Costa, é Budião por causa daquela bocona espi a
para a frente que nem um budião, a cor acastanhada...
- Como é que tu sabe que ele não te largou? Mas se
bem uns dez anos, criatura, mas se ningitém sabe que pa
deiro ele levou!
- Eu sei que ele não me largou.
- Tu sabe? Mas se tu mesmo me disse que ningué
se ele fugiu, se ele morreu, se ele fez quilombo, se ele
para a terra dele, ninguém sabe! Tu sabe, Merinha? Tu
o olho de quem sabe, tu sabe?
- Sei não, como é que eu ia saber?
- Então como é que tu sabe que ele não te largou?
- Ãh, eu sei, eu sei, a mulher sabe dessas coisas, é
coisa que vem no peito, uma sensação que dá de noite,
negócio que vem de manhã cedo, um apertume que ataca
meio do dia, uma vasca que chega na hora de dormir. Eu sd1.
Eu sei que ele nem está morto nem me largoit!
- Como é que tu sabe?
- Tem jeitos, tem jeitos! Essas coisas têm jeitos de saber.
Ai dela, que já falava demais naquelas coisas que deviam
ser mantidas em segredo, que já nem tinha certeza do que eft
verdade ou mentira, que recebia recados sem fc ição de recado,#'
274
conselhos disfarçados em receitas, saudações inexplicáveis, aju-
das vindas do nada, notícias tão vagas que não se entendiam.
Seria verdade o que teimava em repetir Zé Pinto, tão velho que
nem andava direito, vivendo de plantar coentro e mastruço nas
metades apodrecidas das velhas barricas de azeite que também
usara para telhar sua casinhola, tido como demente da lua por
sair à noite sem propósito, todos já dormindo e ninguém sen-
sato saindo ao relento? Ele sempre respondia, quando pergun-
tado: da-da-da, minha menina, aquele seu negro jalofo está mais
que são e mais que salvo, aquela bisca quebra o quê! Se ela
insistisse em perguntar, porém - da-da-da-da-da, minha menina,
quem muito quer saber em boa há-se de meter. E ia embora
em seu passinho de pato velho, olhando para cima como se
estivesse conversando com os mosquitos.
#



Sentiu-se sozinha, muito sozinha, mais sozinha do que todos
estes anos, estes meses, estas semanas, estes dias arrastados,
estas horas de caracol, estes minutos alongados como fios de
calda puxa, este piscar e repiscar de olhos como noites compridas
intercaladas por dias sem fim, estes gestos que nunca se con-
cluíam porque ele não estava lá. Mulher guerreira pelo sangue,
não sabia disto até que seu tio Júlio Dandão, também sumido
desde o mesmo dia que Budião, fizesse com que lembrasse.
Contudo, não era apenas uma lembrança do juízo, era uma
lembrança da memória do corpo todo, a memória do nariz, a
memória dos ouvidos, a memória das palmas das mãos, a me-
mória dos poros, das partes entre as pernas, da boca incendiada
pelo fogo das pimentas, de alguma coisa que a despertava en-
quanto outras a adormeciam. Uma memória, ai dela, partilhada
por tantas mulheres como ela, mulheres de qualquer nação, mu-
lheres fraturadas pelo tanto que se puxava delas, pelas vidas
de seus homens, como o dela tão fracos na fortaleza, tão neces-
sitados junto a elas, mas tendo que ir, desaparecer em suas em-
presas e expedições de vida, podendo nunca mais voltar, podendo
até esquecer delas, podendo vir a achá-las feias e antigas, e elas,
mesmo chorando, se lamentando e morrendo de paixão, não que-
riam que seus homens fossem de outro jeito, pois de outro
jeito não os amariam.
275
pretas cativas, sempre exiladas
Nove anos se passaram, talvez dez, certamente mil e mais cenk.
e Merinha sabia que seu semblante de Penélope não era só
dela, era parte do mundo e da vida das mulheres, da vida du
não importava onde estivesseu4
por que tinha de ser assim? Ensinaram-lhe as mais velhas, conw~jm~
a elas se ensinara e se ensinara às ensinadoras: boniteza não
põe mesa, beleza no homem para a mulher é fome, boni
santo no andor, na barriga quero calor. Mas não era ver
era? Não era, pois o homem belo prende a vista da
atiça a fantasia, convoca o mau comportamento. O homem
Ah, o homem belo! O homem belo como um brinquedo
homem belo que desperta orgulho na mulher que o conqui
a qual o sabe cobiçado pelas outras mas dela, aquele so
dela, aquela intimidade é dela, aqueles modos de galo de
pluma são dela, aquele lindo homem dela é. Sim, verdade.
que faz o homem ser belo? Isto não se sabe, pois não o e
cavam as mais velhas. Mais velha número um, que vem de po
plantador de pomares e hortas, acha belo aquele cujos br
desde o avô que se vêm alongando para colher o fruto e :r,~a
a terra, mostrando excelência na sua produção e acato de
pares. Mais velha número dois, que vem de povo pesca
acha belo aquele que mais se realça num barco, que tem CO
e gestos de navegador, que reconhece a presença do peixe a
relance, que traz o peixe e é respeitado pelo zelo na sua p
fissão e assim fica belo como todos os que com ele se pai---
também ficam. Mais velha número três, que vem de povo
reiro, acha belo o porte do bom combatente, admira o
morre jnas não perde, se apaixona pelo grande vencedor. E
Merinha não sabe, mas sente que talvez a mulher ache
o homem que lhe dê melhores filhos, pois assim, se ela
pode ser como ele, poderão sê-]o os filhos - e os filhos, a n
são ela. E desta maneira ela se prolonga, preferindo ser a
mulher de um homem como ela quer que sejam seus filh
ser a primeira de um cuja semente não lhe falaria à
que traz pelo corpo todo e que a Natureza não permite
quecer, um de quem não quereria parir. Assim é que as
lheres fiéis haverão sempre de existir, fiéis até a loucura, o
insensatez, a falta de juízo, isto porque são leais a seus ventml
276
i
depositárias valorosas de sua herança, e vai daí que se admira
a mulher que espera seu homem, havendo histórias disto em
todos os repertórios, e toda mulher, por mais que negue, tem
ínveja se não consegue ser assim, pois, mesmo que não com-
preenda por quê, sabe que é superior ser assim.
Budião lhe aparecera à noite de repente, como sempre fazia,
embora estivessem ambos já no Manguinho, ele no engenho, ela
na mesma casa, e ele pudesse portanto mandar avisá-la. Mas
preferia sempre chegar de noite e currichiar como um pássaro
noturno junto ao portãozinho dos fundos, até que ela viesse
atendê-lo. Dessa vez parecia impaciente porque, como ela demo-
rara um pouco por estar dormindo e vestida somente de timão,
desatou a piar tão alto que daí a pouco acordaria também os
donos da casa, cujos quartos eram bastante afastados do quin-
tal, mas aqueles sons vão muito longe à noite. Saiu sobressaltada,
enrolando-se num pano e abrindo o portão com os olhos arre-
galados. Cada dia mais Budião parecia enredado em segredos,
passando muito tempo com os olhos em algum ponto vago à
frente, sem falar quase nada, sumindo à noite depois de passar
com ela não mais que um momentozinho. Muito do que acon-
tecia ele lhe contava, embora de maneira reticente e imprecisa.
Havia mesmo uma irmandade secreta, havia muitas irmandades
secretas? Por que Júlio Dandão aparecia tanto por ali em seu
saveiro e Budião conseguia escapulir para navegar o dia inteiro
em sua companhia e de mais outros, sem trazer peixe ou mer-
cadoria, voltando às vezes excitado, às vezes macambúzio? Por
que também tinha tantas facilidades nesse engenho? Se o senhor
dele era considerado um homem bom, que não prendia os es-
cravos e os tratava quase como gente, que às vezes revelava ter
idéias que a muitos já havia rendido forca ou degredo, será que
só isto explicaria a grande liberdade de que Budião parecia des-
frutar, coisa impossível de acontecer entre cativos?
Budião a esperava andando para cima e para baixo quase aos
Pulos, abraçou-a assim que a viu, pôs-lhe a mão na boca quando
ela quis falar. Mas demorou tanto no abraço, pareceu até tre-
mer enquanto a apertava, os braços vibrando como num arrepio
de febre, que ela fez força para se soltar, queria olhar para a
cara dele, ver o que estava acontecendo.
277

- Que foi? - disse, segurando-lhe o rosto com as duas mãol
- Que foi, o que foi que teve, me conte, alguma coisa te"[
- Teve - respondeu ele, depois de longo silêncio. - Teve.
Hoje eu parto, vim me despedir.
- Despedir? Parte pra onde? Partir? Mas como, de repente,
sem mais essa nem aquela? Tu vai fugir? Tu vai fugir, Budigo?
- Mais ou menos. É uma missão. O capitão Teófilo sabe qtw
eu estou saindo hoje de noite, vou no barco de Dandão p~,
mais uns dois pela costa, que já estão esperando, de lá voltó,
para cá, saímos numa canoa grande pela madrugada com oitó,
remeiros, contando comigo.
- O capitão Te6filo sabe? Ah, Budião, eu não posso acre~,,~
ditar, onde já se viu senhor de escravos saber que um
seu vai fugir e não fazer nada?
- Ele não sabe que eu vou fugir. Ele só sabe a prime*
parte da missão, que ele combinou com seu tio e com ou
muitos outros, é coisa complicada muito complicada m
difícil.
- Não estou entendendo nada. Não estou entendendo ri
- Olhe, só tu é que pode saber isso, não porque tu é mti
.iÇO 1
mulher, mas porque é a mulher que é e tem muito serv p
tado. Escuta bem, que não vou repetir, não tenho tempo,
na preamar, teu tio já está me esperando. Existe um homem
está preso no Forte do Mar, um homem importante, que
comandante de uma força de sedição muito longe daqui, mui
muito longe, no Rio Grande, que ninguém aqui nunca que
imaginar onde é, mas fica no Brasil. Então, desde que esse
mem chegou que se vem fazendo um arranjo para ele e
do forte e voltar para a terra dele. Isso Dandão não igno
como não ignora nada dessas coisas, e de há muito que
conversando com o capitão Teófilo. Ninguém sabe, porque
conversas são escondidas, às vezes até dentro de um h
no mar.
- O capitão conversa com meu tio? Eu não...
Psiu! Quer ouvir ou não? Nunca te contei uma men"~,
se não quer ouvir, melhor, que me apresso.
278
Não, não, conta-me.
Então Júlio Dandão sabe disso e está ajudando o capitão
~í,eófilo, que pertence a uma gente que quer ver esse homem
solto, coisas muito complicadas, muito em segredo para que eu
possa contar agora. E amanhã de manhã, com todos os homens
já arrebanhados - vai eu, vai seu tio, vai Zé Pinto, vai mais
outros, como eu disse -, vamos sair numa canoa grande, en-
costar ao largo do forte e esperar o homem. Amanhã é domingo,
ele tem folga da prisão para tomar banho salgado na coroa e é
aí que vai dar jeito de enganar o soldado vigia e nadar para
a canoa. Nós então trazemos ele aqui, na canoa mesmo ele já

vai fazendo a barba, que lá deixou crescer para não parecer o
mesmo quando saísse com ela rapada, vai mudar de roupa, passa
o dia aqui escondido, depois embarca num patacho para o
Rio Grande.
- Mas então vocês vão voltar aqui. E então? Então tu não
vai embora, é uma fugida de um dia só. Ali bom, eu pensei...
- Não, eu vou com ele. Eu mais Júlio Dandão.
- Tu vai? Pra esse lugar longe, na guerra de sedição, com
esse homem que tu não sabe quem é?
- Quem ele é, se sabe. É, nós vamos. Eu mando notícias.
Fale sempre com Zé Pinto, ele vai ficar, ele vai saber de al-
guma coisa.
- E o capitão ficou de acordo?
- Ele não sabe dessa segunda parte da missão. Ele só sabe
que eu vou como remeiro na canoa. Ele não sabe que tu é so-
brinha de Dandão, que tu é mulher minha, que Zé Pinto está
metido comigo e Dandão, não sabe nada, só sabe o que é dos
cuidados dele.
- Mas por quê? Por que você vai?
- Tu acha que eu vou querer ser cativo a vida toda? Tu
acha que eu nasci cativo? Tu acha que não existe muita coisa
por fazer, não só por mim quanto pelos outros?
- Mas tu vai fazer o que lá? Vai servir esse novo senhor,
vai ser cativo dele?
- Não. S6 se precisar fingir, no começo. Eu acho que nós
vamos combater nessa guerra, ainda não me disseram tudo, tal-
279

vez Dandão seja quem sabe tudo, talvez ele me conte o resto
na viagem.
- Ainda não te disseram? Quem é que te diz essas coisa7
Budião olhou para cima, sentiu o vento com a mão.
- Essa maré daqui a pouco já baixa de todo, eu tenho do. ir
Eu vou mas eu volto, no coração eu fico.
Bateu a mão no peito esquerdo, o gogó subiu e desceu, fitou
o rosto de Merinha, cobriu os olhos molhados. Ah, que
mais estranha, que coisa sem sentido era ter de ir
agora que via sua mulher, tão apetitosa, tão nua em baixo dos
panos soltos, tão boa de ter já com essas carnes mais fartas q
vêm com os anos. As vezes ele sentia vontade de deixar de ex*w
tir, de entrar por aquelas gordurinhas, aquelas reentrâncias,
meio daqueles peitos cada vez mais abundantes, pelas ala
daquelas coxas fortes, de se misturar, se misturar e então
rarem, então virarem parte do chão, unidos de uma vez
todas, sem nada falar, nada mexer, de nada necessitar s
da vida, os dois uma planta, uma árvore, um ser feito de
bos na mesma medida. Que coisa mais estranha - pensou no
mente, olhando o sovaco de Merinha que se mostrava por rÁE,1
da queda do pano que a cobria, e imaginou se aquele pano n
estaria manchado do suor que ela pegara na cozinha, exala
o cheiro que o fazia mais homem do que os outros. Enfi OU
cara no sovaco dela, aspirou como se fosse morrer sem ar se. n
o fizesse, sentiu que o pano aprisionara aquele cheiro, a
cou-o dela com um puxão inesperado. Ela, cuja barra do tim
subira até as coxas, se transformou num peito à mosfra, ou
à beira, uma virilha se descobrindo, os ombros despidos e
trosos àquela luz encantada. Budião não conseguiu escolher
onde olhar e, no minúsculo, longuíssimo instante em que~
permaneceu ali de pé como a estátua da Beleza, pensou que
desfazer-se em pedacinhos. Ajoelhou-se, fuçou-lhe as coxas,
lhe a mão em baixo do timão, sentiu-lhe o meio das pernas qu
como um fogareiro, levantou o timão e viu, irradiando calor
pulsando chamados entontecedores, o púbis dela aninhado entró,
seus muitos pentelhos encaracolados, sobre os quais tantas vezes
passeara os dedos para sentir as pétalas daquela flor escura do,,'
dobrando-se e molhando-se a seu toque, o perfume mimoso d&_,
280
água de cheiro com que ela se lavava mesclado ao almíscar
próprio dela, ao olor de embriaguez que nunca cessou de se
evolar dali, olor que o obrigara sempre a fazer como um bicho,
pondo a mão no meio dela e em seguida no nariz e na boca,
os dedos úmidos rebrilhando e recendendo a tudo de bom.
- Me dá força - disse ele, encostando a cabeça e a cara
no lugar do amor, abrindo-lhe a racha delicada com dois dedos,
encostando ali o pescoço e abraçando-a pelos joelhos. Sentiu que
ela separou as pernas um tantinho, levantou a nuca como se
quisesse que ela cavalgasse seu pescoço, puxou-a pelas nádegas
poderosas, ela afastou mais as pernas, ele quis entrar e lá fi-
car, abrigado em baixo do Grande Umbigo. Ela, vendo de que
de suas entranhas saía mais do que havia nela, saía uma força
que até lhe metia medo, gozou estertorando e apertando as co-
xas contra as orelhas dele, quase o matando nesse abraço, quase
morrendo esvaída. Budião levantou-se, baixou o calção, disse
que precisava esporrar nela. Não teve que mexer-se depois que
a penetrou, somente se abraçaram muito longamente, ele ge-
mendo e amolecendo as pernas ao derramar-se.
Ele ainda se voltou, no caminho da praia. Acenou com c
pano dela, que, agitado por seu braço preto na escuridão, pa-
receu boiar na forma de um espírito. Depois correu para o pon-
tão, encontrou Júlio Dandão impaciente, comentando que achava
que ele não vinha mais, já estava pensando em zarpar sem ele.
Em silêncio, soltaram as amarras, Dandão tomou o leme, Budião
e Zé Pinto tripulavam o velame, montaram a barra com vento
de popa, fizeram para a Ponta das Baleias como uma cavala
veloz ciscando a água. Antes da meia-noite todos os remadores
já estavam a bordo, a vazante formava correnteza para a Bahia.
Na Ponta do Duro, desembarcaram, fundearam a lancha, carre-
garam para o mar a canoa, o borco lustrando da cera que tinha
sido passada nesse mesmo dia, as velas estalando de novas, as
buchas dos remos reforçadas, tudo na imitação de um barco
de ataque e combate. Somente à vela, porque ainda era cedo e
não havia pressa, não demoraram muito a chegar A Bahia. Como
se fossem pescadores tocaiando tainha, aguardaram o dia ama-
nhecer ao largo do Forte de São Marcelo, comeram peixe na
brasa com café e farinha pelas cinco horas, hastearam a ban-
281
deirola vermelha que distinguiria a canoa embora não houv"',,."
outra por perto, se acostaram para esperar. Pelas dez hor*
Dandão, que dava pala de estar dormindo na popa de
em cima dos olhos, cutucou Budião com o dedo do pé, apon
o beiço para estibordo à proa e roncou baixo: "Re
postos". Levantando uma esteirazinha de espuma, u
nadava à toda para a canoa, Dandão manobrou na direção d
clavink
Na coroa do Forte, um soldado fez menção de disparar a
desistiu, correu para dentro agitando os braços. Puxaram
mem para a canoa.
- Bem-vindo a bordo, Comandante Bento Gonçalves
Dandão. - Nesta bolsa está um fato novo e limpo, c
roupa de baixo. Na caixa, espelho e navalha. Quei
Excelência se acomodar, que vamos chispar daqui a rem
- Mas perfeitamente - respondeu o homem. -
lá um pano para que me enxugue e não tenhas cui
migo, vamos em frente.
Durante todo o dia, o homem esteve escondido no Mangu
e à canoa atearam fogo logo à chegada, depois de retalhá-la~'
machado. Na madrugada seguinte, num batel pequeno,
Dandão e Budião levaram o homem a um patacho inocen
fundeado no porto da Bahia e de lá seguiram, um vol
outro fugido, para a guerra que era feita por esse home
tal terra distante.
Pouco mais sabia Zé Pinto, ou pouco mais quisera con r.,'
batel arribara,,-vazio pelas abas da Fortaleza de São L
o sumiço dos dois foi até tido como fatalidade, talvez
grande, talvez um vagalhão repentino. Teria Martina ra
dião estava desaparecido para sempre? Era possível que es
não se pode usar o coração para desmentir a razão. Agora
até se arrependesse de não ter acompanhado Martina 1
m eires
m homem,
não por nada, mas para se distrair mesmo - quem sabe, es!
alguém lá que informasse alguma coisa de Budião? Pensou
mudar de roupa para ir, resolveu sair mesmo como estava,
não era festeira, ia somente apreciar, quem não gostasse que
desse roupa nova. Esticou o braço para fechar a taram
portão, afofou um pouco a saia amassada, desfez e re
do torso, saiu arrastando os tamancos em direção A pra
282
,o chegar perto das barracas e dos grupos de foliões, ficou sem
vl)ntade de ter que falar com qualquer pessoa, preferiu contor-
nar as árvores e ir sentar no cais pequeno, com os pés balan-
çaiido em cima do mar.
- Da-da-da - fez uma voz atrás dela. - Da-da-da-da, isto é
jeito de festejar?
Zé PiL,to ficou de pé no cais, junto dela. Parecia ter bebido
um pouco, os olhos estavam diferentes.
- Ah, Seu Zé Pinto, não tenho disposição pra festa, não,
prefiro ficar aqui tomando fresco.
Ele sorriu, pôs a mão no ombro dela.
- Deixa disso, menina, até eu, que sou velho, já vadiei que
só tu vendo. Da-da-da, larga de bobagem, vai divertir a idéia.
Ela baixou a cabeça, ficou mirando os pés e batendo os ta-
mancos nos calcanhares, não respondeu nada. E já pensava que
Zé Pinto havia ido embora, quando olhou para ele, e ele apon-
tou para trás dela com o queixo. Que coisa esquisita - ela
não já tinha estado num acontecimento igual a este, fazia muito
tempo? Virou-se para onde ele apontava, viu um vulto contra
a luz dos farolins, um homem desmedido, de botas de cano alto,
chapelão enterrado testa abaixo, um pano pesado que descia
em pontas ondulantes lhe cobrindo o tronco até a cintura, me-
tais faiscando nas botas e pantalões.
- Buenas - disse o vulto. - Estou chegando agora.
Merinha ficou de pé sem saber como, apurou a vista, não
enxergou nenhum dos traços do homem, cobertos pela sombra
do chapéu. E aquela maneira de falar, palavras pronunciadas
como se tivessem mais sons do que as que se usam aqui, ela
nunca ouvira antes. Mas mesmo assim não se enganou, porque
logo sentiu que aquele embuçado brotado da escuridão, ali pos-
tado como um tronco de árvore grande, era Budião, regressado
da luta e vindo ter com ela.
Sali,ador da Bahia, 19 de dezembro de 1840.
Depois de muito contemplado, o alferes parece que se move,
que de sua boca saem gritos horrorosos, que do buraco de seu
283

olho arrancado espirra sangtic, que o gazeio das gaivotas é W¥:,*
alarido de almas penadas ouriçando o vento, que os portugue",
vão atirar de novo e tudo destruir. Maria da Fé, de vesfifli~=.
com renda de bico, cabelo espichado e retesado num pi----
dondo, há mais de hora fincou os cotovelos no aparado
ficar de olho grudado na reprodução do quadro do
Brandão Galvão, que Professora jesuína todos os dias espr
rezando em voz baixa uma Salve-Rainha. Não era idêntica
original porque, ao canto superior direito, numa cártula de
tas caprichosamente convolutas, liam-se algumas das palavras
peroração, escrita em caligrafia chanceleresca muito
da voz que vos fala, gaivotas destas plagas invenci
nada podeis saber, mas a Voz do Povo Brasileiro, oh coi
formes. prendas da Mãe Natura, havereis sempre de recorilhi
clara e argentina, a assombrar o Orbe!
Dafé, porém, não prestava atenção às palavras, que até
sabia de cor, como, aliás, quase todo o discurso, de tant 1
lu
OO
repetido pela Professora, a qual, entre os muitos e muitos hie
ostentados pela História do Brasil, tinha por esse seu gr
conterrâneo estima especial. Dafé gostava era de fixar a
naquela cena e logo começar a esfumar-se em pensamentos
ticos, sem ver ou ouvir qualquer outra coisa. Numa posiçãoo,3'~
rotineira - cotovelos no aparador, pernas trançadas pelos to
zelos -, plantava-se diante da estampa, que, apesar de ser
desenho em preto e branco, ganhava imediatamente cores,
meiro o sangue, depois o garboso fardamento do alferes
seus punhos agaloados, depois todo o quadro, depois os
Aquelas gaivotas de bicos abertos não estariam realme~nt:o
tandd tão alto que se escutava na sala? E ela, que nunca
dor, não via o mundo girar como o alferes devia ter vi
naquela hora, não sentia um aperto na cabeça, não ficava
meio tonta e enjoada?
Dona lesuína considerava todo aquele interesse um e
Afinal, muitos e bem mais valorosos heróis era necessá
tuar, o Brasil não devia sua Independência somente àquele
mas a tantos outros que sua enumeração se tornava im
Pensasse Dafé que éramos um grande Império - sabia lá o
era um Império, podia avaliar a grandeza desse conceito?
284
injagiiiasse a figura alta, nobre, imponente, portentosa mesmo,
de sua Nlajestade Imperial, Dão Pedro de Alcântara João Carlos
Leopoido Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio
,Nliguel Gabriel Rafael Gonzaga, da grande Casa de Bragança, nos
seus verdes quinze anos já tão sábio quanto o Menino Jesus
entre os doutores e com ele até parecido, em seu alvo semblante
de meiguice. Pensasse em quantos grandes homens houvera, havia
e sempre haveria de haver, a saber de coisas elevadas que o
povo jamais poderia saber, a decidir gravemente, no convívio
dos santos e das musas, do amor à Pátria e de Deus. Não ima-
#



ginasse Dafé que esses homens eram gente como elas. Eram ho-
rnens muito fora do ordinário, homens que com uma palavra ou
olhar moviam multidões, homens que não dormiam meses a fio,
carregando em seus peitos destemidos as dores da Nação, cuja
virtude se comparava à dos grandes mártires, cujas palavras eram
sempre de bravura, desprendimento, valentia, abnegação, devoção
e sobretudo amor ao Brasil. Recordasse os exemplos de coragem
inquebrantável, de caráter incorrompível, abundantes em cada
pequeno episódio de nossa História, assistindo sublime razão ao
poeta que rendeu graças aos Céus por tão bem nos aquinhoar
de homens admiráveis.
Não se pode deixar de achar isto muito intrigante, disse com
carinho a Dafé, enquanto emborcava a gravura para interrom-
per o devaneio. Estava feliz porque ia voltar para o Baiacu,
para a companhia do Avô Leovigildo, não estava? Pois então?
Pois nem parecia. Era agora uma mocinha, doze anos é já idade
em que muitas estão casando, ensinara-lhe tudo o que sabia,
estava direito ficar como uma criança sem juízo, horas diante
de uma gravura, por mais inspiradora que fosse? As vezes duvi-
dava do futuro de Dafé. Devia ser o melhor possível, pois, com
suas prendas e sua beleza, não seria difícil encontrar um rapaz
de sua raça, ou até mais claro, para ir melhorando, e fazer um
bom casamento, constituir família e assentar-se na vida. Mas a
dúvida lhe vinha, por causa dessa e de outras esquisitices.
Tratara Dafé como se trata uma filha. Se a castigara, fora para
seu próprio bem, da mesma forma castigaria um filho. Suspirou,
pensando silenciosamente em Amleto, orgulhou-se dele mais uma
vez. Ela o educara como a Dafé, com exceção daquilo de que
285
#



a mulher não precisava e para o homem era indispensável. Ho"
ele era um homem ilustre, um homem de quem a Bahia h
ainda de falar muito, um homem capaz até do terrível sac
- sim, pois ela sabia como aquilo lhe era doloroso - de nk
reconhecer a própria mãe para não prejudicar as pesadas rest~'
sabilidades que tinha sobre os ombros. Irritou-se um po ico
uco
Dafé, ao compará-la a Amleto. Bem verdade que era m
e mulata, mas por que tinha de ter aquelas maluquices,
que, mesmo quando ouvia calada uma repreensão, era vis
que não se curvava, e seu olhar, até quando de ternura,
sempre rebelde? Mesmo na hora de ser'castigada com a DAI
tória ou ser posta de castigo ajoelhada em milho cata c
que nos outros meninos da escola incutiam terror, el~le
trava indiferente, não chorando nem mesmo quando a
lhavam a fazê-lo por esperteza, para abreviar a punição.
Dona lesuína se irritou mais, empurrou Dafé para fora
sala com alguma rudeza, lembrou-lhe que ainda não a
a canastra, continuava agindo como uma desmiolada. Se o
Leovigildo chegasse e precisasse ir logo por causa da maré,
queria passar por essa vergonha, como se fosse uma prece
desleixada. Deu um prazo a Dafé para cuidar de tudo, foi
a cozinha ver se já estavam aprontando a cocada de coco
que ia presentear-lhe. Afinal, apesar de tudo, gostava dela, ti
lhe criado afeto em todos estes anos em que ela perman
em sua casa, a fim de receber a educação que Leovigildo e
Também arrumara uma pequena prendazinha, uma medalha,
correntinha de Nossa Senhora do Amparo para ajudar a me
agora que não mais ia contar com sua orientação sensata.
contrá a ida dela para o Baiacu, achava que lá não havia
turo, não compreendia por que alguém haveria de preferir
nos ermos a morar numa cidade grande como a Bahia, a*
mais urba menina em idade de pensar em casamento. Cada
avero=.
que a idéia desse casamento lhe ocorria, ele se afigurava
fácil. Podia ser até um senhor de responsabilidade, um h
equilibrado, um viúvo, por que não? Talvez não fosse
mas certamente ela tinha dote. O avô, segundo se comentava,
um negro esperto, bem calçado na vida, o que, aliás, se
pelo trato que dava à neta. Portanto, não passava de
286
bobagem essa volta para o Baiacu, mesmo que a mãe dela esti-
ve,s,c já, como a menina às vezes alegava. Qtte mãe não seria
essa, uma negra rude que engravidou de algum senhorzinho, tal-
vez mulher de péssima índole e maus costumes, certamente muito
tosca, a julgar pela profissão de mestre de pesca, que diziam
ser a sua e que nunca, em parte alguma do mundo, foi pro-
fissão de mulher, muitíssimo menos mulher decente. Bem, não
tinha nada com isso, não ia aborrecer-se por causa da filha dos
o,.ltros. Sua obrigação, ela havia cumprido e cumprido muito bem,
a menina sabia até mais do que devia, tinha-a visto várias vezes
#



com livros em que não devia nem tocar e não adiantava castigá-
la, porque ela tornava a outra. Possuía também bons modos,
asseio, modéstia e vergonha, pois sempre insistira em inculcar
essas virtudes em suas alunas, sem isso uma mulher não é nada
no inundo. Por conseguinte, se não se contentava em passar no
Baiacu apenas dois ou três meses por ano, como fizera todo
este tempo, sua alma sua palma. Lavava as mãos, embora achasse
aquilo uma pena, uma verdadeira pena, mas a grande verdade
é que quem não tem juízo pede a Deus que o mate.
Dafé circulou os olhos pelo quarto, bastante escuro apesar
da janela aberta, deteve-se um tempinho na imagem de Nossa
Senhora do Amparo, a cabeça levemente curvada para baixo,
as mãos oferecendo ajuda e consolação, a lamparina fazendo seu
manto parecer manchado de vermelho-ouro. Nunca aprendera a
gostar daquele quarto em que dormira tantos anos e em que
tanto se trancara, apesar da proibição, para ler até mesmo livros
estranhos dos quais não entendia nada. Mas também não lhe que-
ria mal, era como um amigo meio incomodativo, mas a cuja
companhia a gente se habitua. O canto molhado, quase uma frin-
cha úmida, um vão de parede tão estreito que a mão só podia
penetrá-lo de lado, continuava lá e continuava a meter-lhe medo,
embora não mais como quando era pequeninha e pedia para
alguém deixar nele uma vela acesa, com seus bichinhos ciscado-
res fazendo barulhos à noite e voando para a cama. Abriu as
duas portas do guarda-roupas, começou a catar suas coisas. Não
ia caber tudo na canastra azul que Vô Leléu lhe dera, ia ter
287
#



de fazer trouxas, porque não queria deixar nada. Tinha o& ~~ 1
separado algumas coisas que resolvera antes não levar, mas agorQ~'~
levaria tudo, nada dela ia ficar ali. Se fosse o caso, daria aquáe~,,4
tarecos de presente lá no Baiacu mesmo, mas levaria tudo.
roa
Quando Dona lesufna voltou ao quarto, já a encontrou p
para viajar. Vinha preparada para reclamar, chegou a se leio~il
consertar ao ver todas as coisas em seu lugar, a canastra
chada, duas trouxas muito compostas, uma sacola, a cama
lençol esticado, o toucador sem uma mancha, Dafé sentada
ponta da cama com as costas espigadas. Compreendeu que
sentir muita falta da menina, teve vontade de chorar, abra
passando-lhe a mão na cabeça.
- Prometes-me que terás juizo? Hem? Prometes-me? ]~
visitar-me de quando em vez? Olha que estou muito velha,
duro muito, tens que vir visitar-me sempre. Ob, minha queí
Maria da Fé, vou sentir saudades tuas!
- Eu também, eu venho, eu venho!
Ainda estavam abraçadas quando a negra de copa Ro ac
afogueada porque tinha tomado uma apalpadela comprida
traseiro, veio avisar que Seu Leovigildo estava na sala espera,,
N
e numa felicidade que só vendo! Dona Jesuína se amuoi .14
mente não diria nada, mas não gostava que Leovigildo en
assim para a sala, abancando-se como se fosse uma pessoa
bem. Não era, era um negro que podia ter dinheiro e ser
pessoa, mas era baixo, via-se perfeitamente naquela cara
de tão retinta chegava a parecer roxa. Bem, de agora em di
daria ordens severas para que as negras só o deixassem en
pela cozinha e esperar lá mesmo. Tirou do seio uma caix*,.
miúda atada com barbante dourado, entregou-a a Dafé, pediu
que a abrisse, pôs-lhe no pescoço a correntinha e a m
beijou-lhe as duas faces. Passou a chorar abertamente
um grande susto quando Leléu, muito do ousado, apa
porta do quarto todo sorridente, apalpou os fundilhos de R
ciana outra vez e gritou:
Minha menina, eu hoje amanheci dando bom-dia ao
288
Salvador da Bahia, 10 de março de 1853.
- Esvai-se a ebanácea náiade.
A tez trigueira já se torna ebúrnea
Do álgido beijo da letal serpente.
Em seu túrgido seio não mais pulsa
O coração apesarado.
Dandalê! Dandalê! - Haroldo ulula
E em formidável pulo precipita-se
Das garras d'águia ao solo em desespero.
Oh! Dandalê! Dandalêi
Mas eis que o pranto copioso e fundo
Que do imo d'alma dele borbotava
Espetác'lo imortal de dor infrene!
#



O fluxo cessa de chofre,
Ao surdo baque do caído herói,
Morto, morto, morto ao pé da amada,
Dos preconceitos vítimas os dois,
Imolados ambos p'la liberdade!
O suor lhe inundando o rosto, as mãos ainda crispadas pela
força declamatória, o poeta Bonifácio Odulfo Nobre dos Reis
Ferreira-Dutton curvou-se bruscamente para agradecer as palmas
que estrondaram na Taverna do Mazombo, ao jogo do Carneiro,
quase abafando as últimas estrofes de seu poema trágico Haroldo
e Dandalê. Sem conseguir sorrir como desejava, enxugou-se com
um lenço de cores berrantes amarrotado, olhou em redor nervo-
samente, acenou para o grupo acotovelado no balcão, deu um
piparote sem graça no chapéu à Velasquez de Antônio Onofre,
ficou como quem não sabe para onde andar, enquanto o aplauso
ainda persistia, morrendo aos poucos entre exclamações de en-
tusiasmo.
- Aquele verso da náiade, aquele fica! Como é? Esvaída a
ebúrnea... Não, sim! Esvai-se a ebanácea náiade... É de truz,
meu caro, olha que não oiço tal sonoridade numa redondilha
maior, versinho que, cá para nós, poucos conseguiram salvar da
vulgaridade, não oiço tal sonoridade faz uma data d'anos! Esvai-
se a ebanácea náiade... Mas é mesmo de truz, meu caro, assim
289
#



esta lá fica!
provas que os banqueiros ne sont pas seulement des salauds, nM,
também podem fazer filhos poetas da melhor estirpe! Esta rica'
Aos copos! Mazombo, meu bom publicano, há mais seca
aqui que em todos os desertos da Bessarábia! Não te dás con~;la
de que acabaste de ouvir uma obra-prima de inaudita inspi
e a isto não resistimos nós, os invejosos, sem recorrer
preciosa que teimas em esconder nas tuas barricas?
- Mas, Senhor Doutor Antônio Onofre, reconheço ue
trata de um belíssimo poema, de uma obra extraordiná a
me vai aos bagos de tão forte e que o Doutor Bonifácio O
é mais poeta que toda a malta de poetas do Reino, mas é ç[Uo
se faz dia há muito, receio até mesmo que a Polícia ...
- A Polícia? Pois que venha a gendarmérie! Ao cont
da vulgar opinião, não são os poetas que ficam com as
a batucar quando enfrentam a tirania, mas taverneiros ign
como tu. Os poetas não fogem da luta, os poetas não te
q
ri
nada, muito menos os esbirros do Senhor Intendente ou do
Chefe da Polícia ou de quem lá seja! Anda lá, não te con
em cobrar-nos o resgate de um mandarim pela zurrapa que
serves e ainda queres instalar, nesta casa de liberdade, uma a
fera sórdida de opressão? Que te causa desagrado na ma
acaso és morcego?
- le dis a cette nuit: "sois plus lente"; et l'aurore
Va dissiper la nuit!
- Bravos! O temps, suspends ton vol! et vous, heures
propices,
Suspendez votre cours!
Laissez-nous savourer les rapides délices
De plus beaux de nos jours!
- Touchél Então, Mazombo, sabes que trouxeram o
tine em defesa da pretensão do Antônio Onofre? Que mais
- Quer o Garret, isto é um luso irrecorrível. Anda lá,
o vinho, antes que te ponhamos a ferros e te despache
volta à Beira, oh maroto!
- Para mim, anisette!
290
Para mim uni copo de cicuta!
Oucro beber num eránio! Não há crânios nesta tasca!
Como se podem embriagar os poetas sem boas e espaçosas caveiras?
À ebanácea ninfa!
Náiade!
- À ebanácea náiade do vate Bonifácio,
(lue hoje brilha mais do que brilhou o Lácio!
- Viva! Ao nosso Lord Byron! Ao nosso Merimée! Ao nosso
Musset! Ao nosso Chateaubriand, verdadeiramente um Chateau-
briand! A concepção exótica, o tom oriental, um não-sei-quê de
Atala, um não-sei-quê do último Abencerragem... E digo isto
como grande elogio, não fora o próprio Chateaubriand discípulo
#



ardoroso de Bernadin de Saint-Pierre, que por sua vez...
- Ah, perdão, meu amigo Prosérpino, não fazes inteira jus-
tiça à grandeza da obra do Bonifácio. Eu, por mim, vejo muito,
muitíssimo de novo, a par da pujança do vocabulário, da ri-
queza das imagens, do ritmo, eu diria, sinfônico. Ça va sans dire.
Mas o que transfigura esta obra, o que a transmuta em verda-
deiro marco, verdadeira revolução - revolução da ousadia, do
engenho, do gênio -, é o próprio tema, o próprio tema! Por
acaso escapa aos senhores, embora tão evidente quanto a fa-
chada de um teatro, a revolução contida no tema? Haroldo e
Dandalê ... O conto de amor proibido entre um branco descen-
dente de godos portugueses e uma negra brasileira, um ser sel-
vagem e primitivo, "capitosa atra fruta das frondes tropicais",
como diz o próprio poeta. Alcançais a magnitude da ousadia?
Avaliais, quando esta obra sem par for publicada, o ímpeto da
reação dos moralistas, dos conservadores e dos fariseus dos quais,
infelizmente, é constituída a maior parte de nossa sociedade? Os
abolicionistas e os - por que não falar claro - republicanos...
- Senhores, pela bênção do Santíssimo Sacramento, estes
assuntos!
- Falta-te grandeza, Mazombo, tens os ideais de um caracol.
Podias entrar para a História como senhor deste salão, deste
que poderia ser um cenáculo imortal.
- Sim, mas às galés ou à forca não se levam os livros de
História. Os senhores, que são todos bem-postos na vida, não
iriam à forca nem à prisão, tomavam lá uns pitos, mandavam-
291
#



nos a passar umas feriazitas em qualquer praia distante e depoià
iam perdoados. Quanto a mim ...
- Está bem, mon Tartufle. Vê lá outra botija, faze o q-u~-
sabes. Mas falava eu de Haroldo e Dandalê. Por sinal, que 1' dg
nome arrumaste para a tua heroína, meu Odulfo, onde
senterraste? Tens lá mais manhas do que um gato ma
foste a que fontes?
- Não fui a fontes, como tu dizes. Este apelido é um
duto da fantasia, busquei uma palavra sonora, que evoca
sons africanos, o lundu, o banzo, a indolência sensual prró,
da raça negra...
- E foste felicíssimo! Dandalê ... Agora responde-me
sérpino, qual de teus portugueses e franceses seria capaz de
invenção? Aliás, quando é a queima dos livros portug
Temos que fazê-la junto a um lago, alguém há de conse
um lago!
- Há uma lagoa junto à chácara do meu tio, no Rio Verme
- Pois então será lá. Uma fogueira dos livros dessas
molas sinistras, que ainda se pretendem nossos mentores,.
uma geração imersa no gênio de Rousseau e Victor Hugo,, e
a Morte e a Grandeza, a ler coisitas frouxelengas e pieg
lamuriosas?
- Mas o Herculano, não. O Herculano ...
- O Herculano é uma besta pomposa e sabes muito
disto!
- Retira o que disseste, retira!
- Mais fácil seria que deixasse rapar o meu bigode e sa
que já matei dois que se atreveram a tentar.
- Mataste dois? Onde?
- Isto não te interessa. Na Europa, não conheces a estu
tada européia, os duelos são freqüentíssimos.
- Mentes!
- Não, tu mentes! Tu mentes até quando falas nesse
culano, um perigoso celerado que escavoca palavrões a:rqu
gicos para contar lorotas sobre Portugal, lorotas tão medon
que até mesmo os mais estúpidos portugueses - e olha
não são raros, hem, antes pelo contrário...
Retira o que disseste, retira!
292
- Não retiro! E também vou atirar os bestialógicos que ele
teve a desfaçatez de fazer imprimir à mesma fogueira em que
lançarei as querimônias dos Senhores Doutores Xavier de No-
,ais, Soares dos Passos, Bulhão Pato e não sei mais quem entre
todas essas alimárias babosas que tanto te tocam a sensibilidade.
Ao fogo! À meia-noite, junto à lagoa da chácara do tio do Eu-
sébio, o Lago Abissal, de onde se ouve a voz profunda das
Eras ... E beberemos em crânios também, Eusébio! Amanhã
iremos a um campo santo, violaremos as campas ... Melhor tal-
vez uina igreja? Entramos numa igreja à noite ...
- Senhores, peço-vos mais que encarecidamente, estes assun-
tos, estes assuntos!
#



- Ah, junto ao cadáver embalsamado
Daquela que foi tão querida em vida,
Deito meu corpo de amor sequioso,
Afago e beijo seu rosto gelado...
- Retira o que disseste do Herculano, retira! Todos vêem
como ele me provoca, quero que vejam bem, antes que lhe vá
com a mão às fuças!
- Calma, senhores, a noite é da poesia!
- Retira! Herculano não é uma besta!
- Decide então o poeta da noite! O poeta Bonifácio Odulfo
decide se Herculano é ou não é uma besta! Atenção para o
veredicto!
Mas Bonifácio não sabia o que dizer e então, assim que pro-
nunciou as primeiras sílabas, contraiu-se num violento acesso de
tosse que o obrigou a sentar-se, os cabelos em desalinho, o rosto
convulso, a respiração estertorada.
- Cânfora!
- Afrouxem-lhe o colarinho!
- Ponham-no de pé!
Cheirada a cânfora e esquecido Herculano, Bonifácio melho-
rou aos poucos, passando a mão pela cabeleira com um riso es-
tóico e o olhar distante.
- São os pulmões, este par de canalhas. Mas isto passa.
Isto ...
Novo acesso de tosse o golpeou. Amparado por Antônio Ono-
fre e Mazombo, pareceu que ia desfalecer, mas conseguiu re-
293
#



cuperar o equilíbrio. Insistiu que estava bem, pediu que conan
iiuassem a beber e conversar como antes, A-nab Aiitonio Onl
u
aceitou os argumentos ansiosos de Mazombo e o convenceu
voltar para casa. já seriam umas oito horas, o sol devia estm~
quente, era até bom que pegassem um calorzinho arejado, d-.--^
de toda a noite no ambiente úmido e abafado da taverna.
Emergiram à rua de braços dados. O sol estava encoberto
nuvens carregadas e, em vez de calor arejado, encontraram
mormaço sufocante, que trouxe uma exclamação de horror a
tônio Onofre.
- Reconheçamos que se trata de uma cidade inabitável
disse. - O ar está mais agradável dentro da taverna.
Bonifácio não respondeu, nem mesmo deu sinal de ter o
alguma coisa. Antônio Onofre parou, puxou-o pela manga.
- Que tens, não te sentes melhor?
- Ah, estou bem, muitíssimo bem, nem me lembrava
de ter tossido. Que estopada, bem, estávamos a nos divertir
à larga e de repente aquele acesso.
- É por isso que estás tão sotumo? Pensas na doença?
- Não estou sotumo, nem penso na doença. Encato-a
uma maldição, unia fatalidade. Não serei o primeiro, não
parece mesmo a sina dos poetas, como diz a minha mãe.
nem penso nela, nem estou assim sotumo como tu dizes.
- Estás, sim. - Parou outra vez, recuou dois passos e
de braços cruzados. - Então temos coisa de amor? Ah, c
mente que temos! On ne badine pas avec l'amour! Que foi.
ticot4-te outra vez um daqueles olhares lânguidos a Dona X.?
- já te disse que não troces com isto, queres que os c
gas do marido me matem a bengaladas?
Mas não falei em nomes, falei X, acho que dá um t
de mistério e aventura à coisa.
- Ah, nem me fales, não tenho podido vê-la. Receio que
velho ogre a trancafiou outra vez naquele sítio horrendo
Barra. De qualquer forma, não há teatro, eu só podia v^--la
teatro.
- Mas um dia haverá teatro, não deves desanimar.
294
- Mas não estou desanimado. Tampouco pensava nela.
- Mas então em que raio de coisa pensas, porque dizes que
,lão estás preocupado mas estás, conheço-te muito bem, não é
do teu feitio esta cara comprida. Dá-te problemas lá o velho?
- o velho sempre dá problemas. Coitado, é um homem culto,
rnas as decepções e o trabalho o levaram a desconfiar dos lite-
ratos e intelectuais. Agora, à frente da Casa Bancária e com
mais todos os outros negócios, transações infindáveis que me
deixam tonto só de vê-las mencionadas, acho que não lhe sobra
tempo para arreliar-me como fazia. Acostumou-se à idéia de que
sou como sou e de que jamais vou transformar-me num plutocrata
como ele. Mas sei que deve sofrer com isso, imagina que, depois
de morrer, a família se arruinará de pronto, no que, aliás, pode
#



estar até bem certo. Com os filhos não conta. Clemente André
já é praticamente um monsenhor, vive em colégios, seminários e
conventos, às vezes nem parece que compreende qualquer coisa
que não seus cantos gregorianos e as confissões de suas beatas.
Carlotinha é mulher e casada com aquele palerma do Vasco
Miguel, que mesmo assim foi premiado pelo velho com alguns
cargos nas firmas dele. Quem não tem cão caça com gato, como
se diz, e ele vai tendo de ajeitar-se com o parvoeirão que arran-
jou para genro.
- Mas não arranjou, que culpa ele tem, a Carlota ...
- A Carlota nem fala, quanto mais pensar e escolher. Gosta
de livros, deve viver fantasias tolas, está muito satisfeita com
suas lições de música e com meus dois sobrinhos catarrentos que
lhe vivem às saias. Embora merecesse melhor marido, coitada.
Melhor dizendo, outro marido qualquer, pois não poderia deixar
de ser melhor do que o asno do Vasco Miguel. Meu pai pelo
menos salvou algumas vidas ao afastá-lo da Medicina. Se bem
que, na epidemia de 50, em que perdeu a mãe e a irmã, Feli-
cidade Maria, quem as tratou foi ele. Tenho certeza de que, solto
a praticar as artes médicas, ele seria muito melhor ceifador do
que quinze epidemias da febre amarela e da peste juntas.
- Estás uma cobra hoje, bem? Ainda bem que sou teu amigo,
que linguazinha!
- Não é isso, é que meu pai, apesar daquela aparência carran-
cuda, tem o coração muito mole, comete asneiras por isso. Apie-
295
#



dou-se da baronesa depois que o barão morreu, sempre lhe foi
muito devotado, serviu a um barão que de negócios parece qug
entendia tanto quanto de sânscrito arcaico, com tanta dedic~
que quase lhe custa a saúde, talvez a vida. Nunca lhe deraa,
nada em troca, como sói acontecer nestes casos, mas, me~,,-,~ 1
assim, ele achava que devia sacrificar-se pela baronesa. Fez tudcW*,:
arranjou-lhe os negócios arruinados que lhe deixara o tonto
barão, que, depois de combater como um doido na
Independência há de ter ficado de miolo mole e sem
outra atividade que não a de herói, assistiu-a em tu
até o enterro lhe pagou. Até o enxoval da outra menin
se chama ela? - da Florbela, até o enxoval para
dela no convento ele deu. E, não contente com tudo i
garantiu a farta sobrevivência daquela zebra do D
dando-lhe a filha, minha irmã, em casamento. Deve ter si
dido da baronesa. Ele, cuja mãe lhe faltou cedo, trensfor
em sua nova mãe, fazia tudo o que ela pedia. O resultadoi,'
que leva mais esta carga nos ombros, que de negócios n50
de perceber coisa alguma o Vasco, como não percebe nada
nada, acho que tem um vocabulário de oitenta palavras, se m
- Mas tens outro irmão, não tens? Um irmão menor?
- O Tico Macário? É mais fácil conseguir que o Padre
mente André arregace a batina e saia a bailar nas festas de
do que meter senso na cabeça dele. Por sinal, faz quatorre a
hoje, mas parece um macaco de dezoito. Mal sabe as primei,
letras, vive a chafurdar-se nas negras da casa e das fazendas,
se duvide que eu já tenha uns dois sobrinhos aí pelas senn
Não-faz tempo, esmurrou um professor de Latim, o velho Q~
roz. E ainda jogou-lhe tinta de escrever pelos livros e pa
um verdadeiro horror. Meu pai o castiga, mas de pouco adia
mesmo porque a mãe tem nele seu ai-jesus, sabes como são e
coisas de caçula, ela sempre acha que ele está sendo injust*
ou mal compreendido. já fugiu de casa duas vezes e ela
riavelmente promete-lhe mundos e fundos para que não
a fugir. Anda a fumar, a beber e a jogar os bilhares, é
boa bisca esse meu irmão. Como vês, meti velho tem lá s
problemas, mas que se há de fazer, todos temos problei-nas *
- Sim, mas isso com certeza também não te deixa tranqüi
296
--- Meu bom amigo Toninho, vejo que insistes em achar aquilo
que julgas causar-ine tristeza. Sou-te ranco, pois te tenho como
irmão e quisera em casa poder contar com a fraternidade, a
cunipreensão, a intimidade e o despojamento de nossa amizade.
- Obrigado, sinto-me assim também, obrigado.
- Não tens que agradecer, sabes que é a verdade, sobre es-
tas coisas não se fala.
- Le sort fait les parents, le choix fait les amis.
- Pois então. Pois então te digo que nada me afeta senão o
que nos afeta a nós todos, o mal do mundo. Que é o poeta, o ar-
tista, o visionário, senão aquele que sente mais que os outros?
O que mais me causa pasmo é a insensibilidade. Às vezes, acho
#



que estou num pesadelo, ao perceber quão insensível é o meu
semelhante, como não grita, não chora, não morre diante de um
mundo de injustiça e iniqüidade. Vês o nosso povo? Que país
seria mais rico que o nosso, mais feliz, mais próspero, mais
moderno? Nenhum! Entretanto, o que se vê é tanta miséria,
tanta fome, tanto atraso, tanta tragédia humana - e a tudo
encaram como se tudo fosse da ordem natural das coisas. Po-
demos ser os titãs do Universo, os titãs!
- E seremos! A força da raça, a força do espírito, a força
da coragem!
- Mas às vezes me falta fé. Dir-se-ia que alterno entre uma
certa Weltschmerz, um desencanto, um desalento...
- Não achas isto assim um sentimento passé, uma coisa an-
tiga, wertheriana? Os tempos são outros, os horizontes do Novo
Mundo...
- Isto que tu chamas de "coisa wertheriana" não tem nada
a ver com o tempo, nem o lugar. Como o próprio Werther diz, a
gente daqui é como a gente de toda parte. Por que não reco-
nhecer o ennui, a bile negra da melancolia? Por que não reco-
nhecer que, para o poeta, o cálice é de fel amargo, a carga é
dura, a morte é um alvorecer? É a verdade, meu qúerido amigo
Toninho: alterno entre esse spleen, tão arraigado e atroz, e o
senso do heroísmo da condução dos povos, do arrebatamento,
da afirmação da Raça e da Vitalidade Universal, do Espírito do
Povo e da Grandeza - por que não reconhecer tudo isso? Que
297
#



sou cti, então, onde estou, que faço aqui? Sabes o peso que iam.,~
representa para uma alma sensível? Às vezes invejo a f
rude do povo, às vezes brado aos Céus por não haver nazdw6,~z~
na pobreza ou mesmo no cativeiro, às vezes - pasme, meu caro,~,,A, i
pasme! - aspiro ao martírio, volto-me inteiro para a idéia
santidade como vocação!
Emocionas-me! Não, verdade, emocionas-me, emo nas-
ainda mais poderosamente que teus versos, pois não ire
agora mesmo, a viver a História? Não se falará e esc
dia sobre como aqui estivemos, a subir ignorados o acliv
da Ladeira de São Bento, a sofrer por aquilo que nos levará
erguer as vozes mais alto do que qualquer poder jamais
erguer? Imagina o futuro: "Aqui passaram tantas vezes,
torando os sonhos magníficos que lhes traziam febre ao c
os poetas Bonifácio Odulfo e Antônio Onofre e, mal sa
passantes distraídos, ali fermentava, entre o bardo de
e Dandalê e o vate de Novo Mundo, Novo Futuro, a Re
Universal!"
- Ah, sim! As vezes penso mesmo nisto, tenho a cert
que será assim. Por que tenho essa certeza? Não sei, mas',
algo que, dentro de mim, não admite dúvida, eu sei, eu
Não sentes às vezes um turbilhonamento na alma, uma vora
de idéias e sentimentos desordenados, muitas vezes contraditói-
não sentes uma ânsia, uma sede, uma impaciência, um
voramento?
- Almas gêmeas é o que somos! A mim também nunca f
essa certeza, que também me vem em meio à mesma agitad
confusão da mente e das emoções. Quero mostrar-te al
escrevi, posto que ainda não passa de um esboço, em q
como que pintar um panorama verbal desses sentimentos.
ao Mazombo hoje?
- Meu caro, se não vamos ao Mazombo, não morremos
mazombice?
- Tens razão, hoje estás com a veia. Bem, acho que era
por aqui, já está praticamente em casa e daqui corto para
Raimundo num pulo. Espero que a velhota tenha saído para
compras da feira e ainda não tenha voltado. Vence o se
mês hoje e continuo sem o cum-quibus necessário para sal
298
esse compromisso. O mais irônico é que meu pai acaba de
rnontar-se numa fortuna em diamantes, uma patacaria que não
t,,rti mais tamanho, mas demoram as remessas, vem tudo em
lombo de mula lá de lençóis, um fim de mundo. Bem, mas
se tudo fosse isso. Sem a velha por perto, entro com tranqüi-
lidade, trancafio-me no quarto, depois penso no que fazer. Au
révoir, mon p'tit. Haroldo e Dandalê já está escrito a fogo no
panteão dos Imortais!
- Um momento, Toninho, não queres lá alguma chelpa para
te ajudar, enquanto o teu dinheiro não vem?
- Ah, deixa estar. E comer, sempre posso comer nos fundos
da igreja de São Pedro, com meu tio padre. O almoço vale bem
#



uma missa, n'est-ce pas?
- Deixa tu de fricotes. Anda cá, toma cá.
- Bem, se prometes que não farás como das outras vezes ...
Se me asseguras que é um empréstimo mesmo, que consentirás
que o pague, neste caso...
- Está bem, está bem. Não estarás em breve a nadar num
mar de diamantes? Pagas-me quando assumires tua condição de
potentado.
- Salvas-me do opróbrio mais uma vez, muito obrigado. Aque-
la velha da pensão não tem nenhum sentido de conveniência,
queixa-se de mim em altos brados para que toda a vizinhança
escute. E salvas-me também da missa! Adeus, vemo-nos à noite
no Mazombo.
- Adeus, Toninho, cuida-te, bem?
Ficou parado alguns instantes, olhando o amigo atravessar a
rua e enveredar pelo beco para São Raimxindo. Agora lembrava-
se de que estava um pouco bêbado, talvez bastante bêbado, mas,
em vez de aborrecer-se, alegrou-se. Avaliou a rua sorrindo, pen-
sou em como não tinha de preocupar-se com um futuro que
já estava escrito, em como a glória lhe chegaria naturalmente,
em como, por sua voz, aquele povo que tão bem compreendia e
interpretava atingiria a plenitude da consciência da Raça. Viu-
se na Corte, viu-se nos salões de Paris, viu-se voltando triunfal-
mente à Bahia, carregado nos braços do povo como seu poeta,
seu poeta máximo. Encheu-se de ternura por tudo em redor,
299
#



cumprimentou com efusão um pardo que passava sobraçando pi.
lhas de papel, recebeu de volta uma mesura pressurosa ao Senhet i
Doutor. Andou devagar para casa, cheio de amor pelo povo
pela terra, escreveu mentalmente: "Telúrica força pujante da bra~,.,Àà
via Pindorama, oh vós que nos campos mourejam, que nas mat##,,,..~
desbravam o ignoto. . ." Pensou vagamente em anotar
lavras, mas desistiu porque tinha certeza de que elas vol
ele não era como os outros, era com certeza um gênio. E tam
ela o rec
se tranc
estava com sono - como disse à mãe, assim que
com a recriminação chorosa de sempre, antes de
quarto para dormir, fechando bem as janelas para não se a
a pegar alguma doença do pulmão.
- Como é que fica a pessoa que precisa desesperadame
de uma coisa e, quando essa coisa chega, não é nada d
que a pessoa queria? Fica morta, isto é o que ela fica!
uma firma como a Ambrósio Nunes & Irmãos, que se jacta
ser tradicionalíssima e servir aos mais ilustres prelados e h m
públicos, apresenta esta gamacha mal amanhada, esta ol~ora
albardeiro, e ousa chamá-la de batina? Tal cinismo enve
nharia o pior roupavelheiro da Baixa! Olhem, olhem es
franque, olhem isto, dá vontade de rasgar! Eu disse muito
mente que queria um enfranque armado, assim deste jei
rece até que eu sou um velho gordo, com a cintura cont
pelos quadris. Ai! E o que é isto? Isto aqui do lado, o que
isto? Isto é uma maneira! Onde já se viu batina com
por Maria Santíssima? Eu cheguei a pensar que era ul
m'a~
m
mas não, é um buraco horrendo, que absurdo, os senhores
loucos! É por isso que sempre mandei fazer minhas batinas
Roma e, quando, contra meus princípios, resolvo prestigiar u
firma da terra, o que me aparece é esta ... Esta coisa abo
nável! Não gosto de nada, não gosto dos aviamentos, n
esta a fazenda que eu pedi, a saia está pouco averdugad
contramangas são horripilantes, a capa era para ser abroc
e não presa por esses botões de defunto, coisa mais medo
não gosto de nada, nada, nada! E que são essas triipinhas,
minhoquinhas, são sutaches? Que feio, joga isto fora, joga
300
fora, Domiciano, não posso nem olhar! Ouve, meu caro senhor,
não vivo de espórtulas como o resto da vossa freguesia, tenho
dinheiro para vestir-me decentemente, não será por ser padre
que sairei por aí andrajoso, metido num saco de estopa preto!
(ueira o senhor providenciar imediatamente todas as alterações!
Aliás, alterações não, exijo uma batina como a que encomendei!
E exatamente como a encomendei! Os senhores têm três dias,
dois dias e meio, para completar o serviço e ai dos senhores se
domingo eu não estiver com a minha batina! Agora chega, chega,
há limite para a paciência até de um santo! Os senhores podem
#



retirar-se. Domiciano, ve-me um copo d'água com um poucochito
de açúcar. Mas vê lá, hem, não me tragas a tua costumeira garapa,
que a enfiarei pelas tuas orelhas a dentro!
Padre Clemente André caiu exausto no sofá, as mãos na testa
dolorida. Esticou a perna e abriu a porta do guarda-roupas com
a ponta da bota. Olhou com desalento a extensa fileira de so-
tainas, capas, paramentos e chapéus '- tudo usado, tudo can-
sado, tudo sem brilho, nada à altura do domingo que tanto ante-
cipava. Levantou-se, abriu a outra porta, dedilhou as roupas
penduradas, sentiu um aperto na garganta, sentou-se novamente,
desta vez para chorar com as mãos cobrindo o rosto.
- Meu filho, que foi? - perguntou Teolina à porta.
Ah, minha mãe, minha mãe! - soluçou Clemente André
sem descobrir o rosto. - Minha mãezinha, será que vou ter com
o Arcebispo vestido numa batina velha?
Teolina se afligiu, correu para ele, suspendeu-lhe a cabeça,
mirou-o nos olhos.
- Oh, meu filho, não fiques assim, não há razão para tanto.
Não encomendaste uma batina nova, de seda, que devia ficar
Pronta hoje?
- Ah, não viu a senhora que tive de pôr para fora os dois
magarefes da tal Ambrósio Nunes & Irmãos, que tiveram o
desplante de trazer-me cá um saco - um saco, mãezinha! -
para tentar impingir-mo como batina? Dísse-lhes que providen-
ciassem uma outra, com o feitio que eu havia pedido, mas não
creio que a tragam a tempo, preciso dela para este domingo?
301


-


Não te vexes, meu filho, eles têm muita experiência e,
1 1;, à (,',sa 13ancária do teu
mais a mais,
pai, farão tudo para agrada!--te.
- Ali, minha mãezinha, será mesm(-,?
- Posso garantir-te. Vamos, não fica assim. Hoje é o dia
teu pai, em lujàr clc festejar, está
anos do teu irmão caçula e
outra vez sobre grelhas com ele, hoje temos função. Tei '.o:
irmão varou a noite pelas tabernas como sempre e age
dormindo lá em cima, o que tambe~m deixa teu pa . . to
' mu"
gado. Imagina, dormindo às três horas da tarde, tem lá
mento isto? E tu, que passas tão pouco tempo conosco,
menos podias viver com alegria estes momentos raros.
A senhora tem razão, minha doce mãezinha. Mas pieocu
me tanto a batina ... A senhora sabe como desde rni
admiração por Sua Eminência, um homem acima d os
outros, pela firmeza, pela coragem, pelo porte altivo, e
duta de verdadeiro príncipe da Igreja. Lembro-rne ainda da
crisma, vendo-o orar de seu trono, magnífico como um rei,
le
me como estremeci de felicidade ao receber a álapa de sua
forte e severa
Álapa? Fala mais claro corri tua mãe, filho, lembra
minhas letras são poucas. Recebeste dele algo especial?
- Sim, de certa maneira. Não lembras que, na crisma, r
se um tapinha no rosto? Pois não se diz tapa, di2:_Se
Bateu-me na face, senti um estremeção, uma emoção in
senti encher-rne o corpo todo de admiração por aquele h
de um sentimento poderoso e sublime que não posso dese
faltam-me palavras. E, outras vezes, como me vi tomado
de uma possessão divina, angelical, ao contemplá-lo impo,
nas procissões, a majestade de seu rosto nobre ensombre,'
pelo baldaquino, realçando-lhe os traços augustos. Ali,
nha, somente o pensamento de ser pessoalmente apresenta
ele me dá calafrios, saberei dizer algo após beijar-lhe a
sair-me-ei bem?
302
- Mas naturalmente que te sairás, meu filho. Não é Sn e
parvo, és tido em alta conta por todos os teus stiperioires,
dos melhores alunos do Seminário, és professor já de no
destaca-te por teu trabalho nas Obras Pias ... Não crês
Àr,~.ebispo já ouviu falar muito de ti e já te tem em boa conta
de conhecê-lo?
A seniiora cré, çrê nivsilio?
,l't.nho certeza! dispensável
Mas, mesmo assim, não julga a senhora ser in





homem bem
,lpresent, -me bem? Independente de ser padre, sou
liascido, não Posso ser comparado a um padreco desses que vêm
do Interior, não quero ser confundido.
-- Não serás, meu filho. Sempre te disse que teu destino é
elevado, sempre soube disto, não tens que ter preocupação. Deixa-
te disso. Anda, vai comer alguma coisa, o jantar hoje deve sair
tarde, teu pai ainda vai receber algumas visitas no gabinete, coi-
sas de negócios. Dormiste bem? Não te vejo desde ontem, prati-
carnente. E teu amigo, dormiu bem?
-- Uma pergunta de cada vez, mãezinha. Se a senhora por
acaso pudesse ser padre, ia ser uma confessora terrível. Não,
não quero merendar nada, ia beber um copo de água com açú-
car que pedi ao Domiciano para trazer e que, por sinal, está
demorando uma eternidade. E Domiciano não é o que se pode
chamar de meu amigo. É apenas um rapaz do orfanato das Obras
Pias que estou acompanhando pessoalmente, é um caso difícil,
muito rebelde, muito cabeçudo, muito rude.
- As vezes te admiro mais ainda do que de costume, meu
filho. Não te contentas em servires de pai, professor, orientador
e amigo para essas criaturas intratáveis e ainda dedicas o pouco
tempo que sobra para ti a assistir os mais necessitados de amparo.
- Ali, mãezinha, nem me fale no trabalho que ele me dá.
Nem dormir sozinho posso, pois, se deixá-lo a sós, não sei o
que poderá fazer, precisa de vigilância constante. Mas agradeço
a Deus pela oportunidade de servir ao semelhante, nisto se en-
contra a essência do sacerdócio. Falar nele, onde andará agora?
lá devia estar aqui há muito.
- Não te preocupes, vou voltar lá para dentro, encontro-o e
mando-o aqui. É possível que tenha necessitado fazer qualquer
outra coisa. Mas antes queria pedir-te um favor.
Quantos a senhora queira, mãezinha.
Não podias conversar com teu mano?
Qual dos dois?
303





- 0 Patrício Mac~'ii-io. 0 Bonifácio já escolheu o destino dele.
não admite nem conversar, às vezes passa dias sem dirigir mais
que duas ou três palavras à família.
- Aquele selvagenzinho? Mas conversar o quê com ele? Se
o pai nada consegue...
- Mas tu és um homem da Igreja e um homem de Igreja
habituado a domar rapazes renitentes, como esse teu Domiciano'
- Duvido muito que pudesse fazer com o Tico Macário o
mesmo que faço com o Domiciano.
- Pois decerto que não, é teu irmão, não é um rapaz à-toa.
Mas podias talvez incutir-lhe algumas idéias, mostrar-lhe corno,
está indo errado. Tenho medo que um dia destes teu pai o ponha-
para fora de casa, tal a raiva que lhe causa.
Talvez não fosse má idéia pô-lo para fora de casa. Quiçá~
aprenderia a dar valor ao que lhe tem vindo de mão beijada.
- Deus nos livre, nem fales nisso! Como podes querer
coisa para teu irmão pequeno? Não se pode esquecer que ele
iê 4
muito menino ainda, falta-lhe juízo, há que ter-se pac nc
com ele.
- Está bem, mãezinha, vou ver o que posso fazer. Mas n~
prometo nada, hem? Onde está ele?
Teu pai mandou chamá-lo ao gabinete, é isto que temo,
pois estava muito assoberbado ao chegar da rua, nem quis olh,
as plantas como sempre faz à tarde, por mais aborrecido q
se encontre.
- Que fez o Tico desta vez?
- Nada. É que é seu dia de anos e desde segunda-fei 'ra qu
o pai fala no desgosto de ter um filho de quatorze anos que n - ,
dá para nada e mal sabe a tabuada e o a-bê-cê. Acho que hoje
por ser finalmente o 10 de março, ele veio disposto a fazer ga
e sapato do pobrezinho. Temo pelo pior, meu filho, temo pel
pior. Acho que Patrício Macário saiu a teu avô, meu pai ' q
dizem que era assim encasquetado, pior ficando quanto mais
castigassem.
- Ai Deus, ai Deus, ai Deus, isto tudo me dá um grand
cansaço! Por que não podemos viver em paz como todas as outrag
famílias, por que há sempre de estar surgindo uma complicação
nova? Não cansa, não cansa?
304
- Mas vais falar com ele, não vais? Pronieteste, não pronie-
Prometi, prometi. Vou falar, esteja a senhora descansada,
eijibora não acredite que adiante coisa alguma. Assim que chegar
aqui o Domiciano, pois tenho que dar-lhe algumas tarefas.
-~ Então pronto, depois nos falamos. t'~ão te demoras, pois
não? "l'enho de ir lá dar ordens às negras, procuro o Domiciano
para ti. Ah! Ei-lo que chega! Já te aguardavam, meu rapaz!
Domiciano não falou nada, parou à entrada do quarto com um
copo na mão, os cabelos louros um pouco assanhados, a camisa
de dentro com um botão aberto no peito. Teolina deu-lhe um
olhar de relance, esperou que se afastasse para que ela pudesse





passar e saiu corredor abaixo. Clemente André tomou o copo,
passou a mão pelos cabelos do rapaz, abotoou-lhe a camisa, des-
cansou o antebraço em seu ombro.
- Onde estiveste, por que tanto demoraste? - disse com
doçura.
- As negras estiveram a troçar comigo, demoraram a trazer
o copo.
- As negras estiveram a troçar contigo? É de bonito que
és, não faz mal. Anda, não te amofines.
Abraçou-o ternamente, puxou-lhe a cabeça para junto da suá,
ficou muito tempo alisando-lhe as costas e a nuca.
305





1
io
São João do Manguinho, 30 de outubro de 1846.
Na primeira noite, como era festa de São Gonçalinho, Budião
pêde ficar com Merinha até altas horas. Já de madrugada, ela
se esgueirou de volta à casa pelo portão dos fundos, não mais
para dormir, mas para ir tratando de ralar o milho e o coco do
cuscuz e acender o fogão. Ele se enfiou dentro de um saveiro
apoitado quase em seco e dormiu até o sol começar a lhe esquen-
tar demais os pés por baixo do poncho-pala que lhe serviu de
cobertor. Não sabia de quem era o saveiro, ficou com vergonha
de meter a mão no estenderete para tirar uns quatro peixes secos,
pegou a mochila, socou dentro dela o chiripá e o poncho e saltou
para a praia do lado da proa, que estava encalhada na vaza da
maré. Mas tinha muita fome e resolveu voltar. Apanhou um espe-
tinho inteiro, encheu a mão e a boca de farinha, guardou metade
de uma rapadura no bolso e, com as bochechas atufadas, pulou
para a areia. Como tinha as mãos ocupadas e não pôde segurar-se
bem para descer, cambaleou ao tocar no chão, quase cai diante
de um par de perneiras esfrangalhadas, encimadas por calças
cinzentas também em mau estado. Levantou a cabeça, deu com
0 rosto de um mulato de meia idade, de chapéu de palha, barba
de sete dias, capa amarrada ao pescoço por uma corda encardi-
da, cheiro de garapa de limão azedada e cachaça. Budião mas-
tigou o peixe e a farinha tão rápido quanto possível porque
queria falar, talvez aquele homem fosse o mestre do saveiro, em-
307





bota não parecesse. Mas a cara lhe era familiar e quase não con-
seguiu prestar atenção no que ia dizer, tentando lembrar-se de
quem se tratava.
- Ontem foi a festa de São Gonçalinho -- começou a expli-
car - e então, vosmecê sabe, cada um vai se arranchando como
pode pra dormir. Mas deixei tudo do jeito que encontrei e esse
peixe eu ...
- Tu é negro de quem? - perguntou o homem rudemente,
e Budião, ao ouvir aqtiela voz autoritária e estridente, reconhe.
ceu Almérío, o feitor da ArTnação do Bom Jesus. Mas preferiu
não dizer nada, até esperou que ele tampouco o reconhecem,
vestido naquelas roupas da Província e com o bigode recurvo
que deixara crescer fazia mais de oito anos. Era esquisito que
estivesse aqui, ainda mais coberto por molambos imundos, como
se fosse um mendigo.
- Não sou negro de ninguém, camarada - disse Budião.
É vosmecê o mestre do saveiro?
- Negro ousado, onde já se viu negro fazendo perguntas,,
Cadê teu bilhete, anda, mostra teu bilhete!
- Mostrar meu bilhete para quê? Quem é tu?
- Todo branco tem por direito exigir o bilhete a qualquer.-
negro que encontre vagabundando.
- Não tou vendo nenhum branco aqui.
- Escuta cá, pedaço de fumo, não te metas a besta ou te~,
retalho todo neste instante.
Cor4 um pulo para trás, Almério sacou da perneira uma nav&-,
lha afoiçada que abriu no mesmo movimento, cortando o
frente de Budião. Abriu as pernas, levantou o queixo, cuspi
canto da boca, esperou a reação com um olhar insolente. B
pôs a mão por dentro da camisa, tirou seus papéis, estendeu-w,"
a ele, que os pegou com a mão esquerda. Para não baixar a mão,
que brandia a navalha, ia abrir os papéis com a ajuda da bock,,
mas Budião se adiantou, desdobrou-os e os entregou de novo.
Isto não é bilhete de nada - disse ele. - Nunca vi bllh
como este, isto aqui não é nada.
- Tá de cabeça pra baixo, tchê.
308
~l:
1
--- Estou vendo bem que está de cabeça pra baixo, de cabeça
pra cima ou de cabeça pra baixo é a mesma coisa, isto não é
nada.
- Isto prova que fui anistiado e alforriado, como ex-comba-
tente da República juliana, da República de Piratini, farroupilha.
- Isso tudo é mentira, nada disso existe nem nunca existiu.
isto é papel de limpar o rabo. Vou lascar logo tudo.
Antes que se mexesse, uma das mãos de Budião lhe apertou o
pulso com tal força que ele deixou a navalha cair e a outra o
segurou pelo gasnete.
- Escuta bem, Almério, tu não vai rasgar nada, tu percebeu?
Tu não vai rasgar nada nem fazer nada, tu percebeu? Responde,





tu percebeu?
- Eu não te conheço? Não adianta tu disfarçar com essa fala
diferente, eu te conheço, tu é negro fugido aqui do Engenho,
tu foi negro da Armação do Bom Jesus! Tu não pode fazer nada
comigo, tu vai ao tronco ou à forca, negro fujão!
- Quer ver se eu não faço, mulato descarado, metido a bran-
co, capacho de nascença? Quer ver se eu não faço?
- Não, não aperte mais, não! Ai!
Almério caiu dobrado no chão, Budião pôs os papéis debaixo
da camísa outra vez, apanhou a navalha, fechou-a, atirou-a longe,
dentro d'água.
- Me dá esta mochila que não conto nada a ninguém que te
vi aqui - disse Almério, ainda no chão.
Budião quase riu, pensou em dar-lhe um pontapé, achou que
não valia a pena. Apalpou a algibeira, encontrou duas moedinhas
azinhavradas, jogou-as em cima dele.
- Toma, compra mais aguardente e vai dormir.
Almério catou as duas moedas com a mão raspando a areia.
- Tu me deve uma surra, negro safado - disse. - Tu me
deve uma surra não, agora tu me deve duas e tu vai tomar essas
duas surras nem que eu morra.
- Escuta - disse Budião, já andando em direção ao povoa-
do. - Não te amasso todo porque não quero sujar as mãos e não
te jogo na maré porque não quero envenenar os peixes. Mas, se
309





,ir 1
tu continuar a falar, se tu falar qualquer coisa, eu vou enfiar
tua cabeça na areia e fazer de tuas tripas isca de siri.
Demorou ainda um pouco olhando para Almério, que não se
levantou, e saiu devagar, subindo da praia para o capinzal. Anti-
gamente não se conteria, viria um gosto salgado à boca e teria
vontade de matar Almério, talvez matasse mesmo. Mas hoje não,
hoje tinha ficado muito feliz em jogar-lhe as duas moedinhas,
não conseguia dar importância aos xingamentos e ameaças, que-
ria apenas andar e rever aquela ilha que não era sua terra mas
parecia ser, depois de tanto tempo vivendo tão longe que muitos
lá não acreditavam na existência disto cá. Até mesmo ele, ce-
vando mate, passando o porongo aos outros na noite tão dife.
rente do pampa, enfiando carne churrasqueada em salmoura fer-
vente para cortá-la junto à boca, aprendendo palavras e gostos
novos, também duvidara às vezes de que tinha vindo de outro
lugar, não sabia direito quem era, a não ser pela lembrança de
Merinha e dos conspiradores da casa da farinha. Era muito difíco
compreender a vida, mesmo depois de se viver a fundo, nries=
depois de se saber de segredos muito restritos, mesmo depois de
se achar que se conhecia a verdade, pelo menos alguma
dade ou parte da verdade.
Porque a verdade era que não se compreendia nada, ponsmo
embora sem se preocupar com isso como de outras v Erw,
tudo muito bonito aqui, tudo cheiroso, claro e lumin
para admirar um pé de acácia florido, espantou-se
como se lembrava dos pés de acácia da Armação com
reza, não tinha antes idéia de como faziam parte de s
junto'das raízes da grande árvore, cinco ou seis buraco
çá, caranguejinhos louros se assustando com sua presen(.; t
às portas de suas casas, prontos para entrar assim que
movesse. Imaginou que, se tivesse falado na Província
existência de uma árvore dourada cercada de caranguejos
vezes,,,1~r",
oso. a 1
Ot*
i CIO-'
i C , -
bew,
ele
sobre à
.-. 1
qualmente dourados, seria chamado de mentiroso. Fingiu
dar um bote nos grauçás, eles se desabelharam às carreir
não mais se viam, somente os buraquinhos redondos oriiuuwm7W
tando as Paízes expostas.
Muito bonito, pensou, muito bonito. E também estava
achando, ele mesmo, muito bonito. Não sabia com que cara
310
i, n~-ni esfregado água iií)s ,)lhos Íiiiha, iiias se sentia garboso,
,,j,índo passadas largas com suas botas de campanha, sua mochila





,.)Mpeir,,x, seu chapéu de couro, seu bigodão emoldurando a boca.
lenço vermelho uo pescoço. Bem, ainda estava com fome,
,,Ilvez o melhor negócio fosse ir primeiro ver Zé Pinto, cuja casi-
í!i-ia ficava no meio das tiriricas, um pouco acima da praia. Pe-
gava qualquer fundo de panela para comer, qualquer coisa, con-
~-ersaria com o velho, marcaria um encontro com Felíciano e ele,
~)ara acertar umas coisas. Nada de muita pressa, nada de muita
,iíobação, tudo aqui sucede devagar, a vida dos últimos anos já
~ora vivida depressa demais. Mal reparou que, até chegar à trilha
(,',a casa de Zé Pinto, os meninos o seguiram a distância e os olha-
re,,z de todos se fixavam nele.
0 velho tinha uns quiabinhos, uns maxixes, tinha coentro, hor-
telã, cebola, farinha e duas cabeças de mero grande. Fizeram es-
caldado com pirão afogado na pimenta. Budião comeu com um
prazer tão inesperado que ria e gemia todo o tempo, enquanto
~) velho, mastigando com os lábios para fora porque não tinha
çientes, o olhava divertido. Uma pitangueira cujos galhos entra-
-~,im pela janelinha exibia frutas tão cerradamente que pareciam
vir em cachos. Budião puxou a galha maior, encheu as duas mãos
de pitangas, chupou uma por uma com os olhos fechados. Depois
não teve disposição para falar durante muito tempo e s6 a
ctisto levantou-se para cevar seu mate. Despejou um pouquinho
de água fria sobre a erva, pegou a chaleira, derramou água fer-
vente no porongo até quase a borda, ajeitou-se de novo no chão.
Zé Pinto perguntou o que era aquilo, ele respondeu preguiçosa-
mente que era um costume entre os muitos que tinha pegado lá
na Província do Rio Grande, onde combatera contra o Império
do Brasil, embora lá também fosse Brasil, mas era uma coisa difí-
cil de explicar. Tudo, aliás, era difícil de explicar, nem mesmo
o velho Dandão parecia compreender algumas coisas, ainda havia
rriuito o que aprender. Mas como aprender? Certo, tinha apren-
dido muito naquela viagem e naquela grande guerra de dez anos,
tinha ganho a liberdade, tinha visto mais em pouco tempo do
que muitos na vida, mas haveria então de sempre estar nesses
combates para aprender? E que tinha de fato aprendido, não
seria necessário aprender a aprender? Aquela guerra, ele sabia,
311





não era uma guerra dele, embora no começo pensasse que sim.
Mas também era, não seria? Difícil saber qualquer coisa, muito
difícil, e nem mesmo na posse de alguns de seus segredos podia
ter certeza de que a Irmandade existia.
Sem sentir, como se o chimarrão subindo fumegante pela bom-
bilha o embriagasse, contou devaneando que lutara muito, que
passara de carregador e serviçal a combatente, mas que comba-
tera como preto, sempre como preto, sempre diferente mais do
que na cor, sempre por baixo, mesmo que no alto. Nisto era que,
lhe vinha maior confusão, pois achara que era coisa do Povo
Brasileiro como todas as coisas da Irmandade - mas como podia
ser, se para ele parecia continuar a não haver lugar? Perguntara
sobre este assunto a Dandão e este lhe dissera que a vida e a
compreensão são constituídas de muitos passos, nem todos que
dão um passo conseguem dar outro, nem todos os passos chegam
ao fim do caminho e, além do mais, ele também só tinha enten-
dimento até certo ponto e não conhecia o futuro nem os enredos
que, tinha certeza, estavam sendo traçados para eles. Ninguém
nos conta o enredo - havia falado Dandão -, mas é só seguir
bem seguido o mandado da consciência para cumprir o enredo,
pois a ninguém se nega ver o que é preciso fazer para cumprir
o seu enredo, só a pessoa é que pode se negar a ver ou cumpnrè~
Dandão morreu no sétimo ano da guerra, tão forte como Se",
pre fora e sem tempo para despedir-se. Contudo, parecia qu$:,~,
sabia que ia morrer, porque, antes de sair na patrulha de que!,
não voltaria, lhe passara sua bolsa, com a canastra dos segre-" " ,
dos. Ainda estava ali com ele, em sua mochila, e não podia
que conhecia bem esses segredos, eram visões que se revela~vt,"
melhor depois de vividas, não era um conhecimento simples, mas,
algo que sempre mudava conforme os atos e a experiericia d#,~'
quem o procurava. Existe a Irmandade, quem é a Irrnand d ? "Í
Seriam eles, sim, mas não só eles. Havia alguma coisa em c:=
pessoas, um jeito de andar, um jeito de falar, um tipo de
Havia umas ajudas misteriosas, umas interferências, umas
cordâncias sem que se precisasse conversar, umas coisas de
não se gostava em comum. Ah, não sabia nada muito explicad
dessas coisas, mas sabia que a liberdade de um não era nada ~,'
a liberdade de todos e a liberdade não era nada sem a igualdi
3
312
e a igualdade há que estar dentro do coração e da cabeça, não
pode nem ser comprada nem imposta. Ah, não sabia nada, queria
apenas conversar com Feliciano e Zé Pinto juntos, queria saber
também de como ia a vida por aqui, quais as novidades, o que
tinha acontecido nestes anos todos. Afinal, eram os conspirado-
res da casa da farinha, eram ou não eram?
Pediu a Zé Pinto que guardasse a mochila. Tirou somente o
poncho, que podia ter serventia de noite, recomendou que tomasse
cuidado com a canastra que Júlio Dandão deixara, melhor que
a escondesse, que a esquecesse e não tentasse abri-Ia. Iria dar
uma volta pelas redondezas, talvez andasse até Amoreiras, não





sabia bem o que ia fazer. Era possível que Feliciano estivesse
aqui sábado de noite? A senzala da caieira era longe e, a depen-
der da maré, podia ser que Feliciano ficasse trabalhando até tarde
no sábado, era incerto que pudesse escapulir até o Manguinho.
Bem, mas vai se ver. Budião enfiou na cabeça o chapéu, que
estava pendurado no pescoço, levantou a mão.
- Viva nós! - disse sorrindo.
- Viva nós! - respondeu Zé Pinto muito sério.
Budião pôs os pés fora da casinhola, esticou os braços, respirou
fundo, principiou a andar devagar trilha abaixo. Caminhou até
perto da praça, pensou se iria pela praia até Amoreiras, virou-se
distraído quando uma mão lhe tocou no ombro.
- É este daqui? - perguntou um homem fardado a Almério,
que vinha atrás de dois outros uniformizados.
- É este, é este.
É a guarda - disse o homem a Budião. - Teu bilhete.
Budião passou-lhe os papéis.
- Isto não é um bilhete. Isto são papéis sem valor.
- Estes são os papéis da minha anistia e de minha alforria.
- Aqui isto não tem valor nenhum, isto é coisa da Província
do Rio Grande.
- Não, é do Império, é do Imperador. Fui combatente da
Guerra dos Farrapos, anistiado.
- Isto pode ser, embora não creia. Para nós é um escravo
fugido do Engenho do Manguinho. Faustino da Costa, com ferro
da Armação do Bom Jesus?
313





""TI
Não esperou resposta, puxou com um safanão a camisa de
Budião, conferiu a marca do peito. Fez um sinal para trás e um
companheiros acorreram, um deles com a clavina em riste, o
outro empunhando um porrete, correntes e cordas. Cruzou os bra-
ços de Budião às costas, passou-lhes o porrete pelo meio, amarrou-
os com três nós complicados. Nos pés, meteu-lhe a ferropéia de
corrente curta' uma coleira de corrente comprida no pescoço.
- Anda! - disse o primeiro homem. - Ficas a ferros na
Ponta das Baleias até que teu dono venha resolver o que fazer
contigo, anda!
Bateu nas espáduas de Budião com uma espécie de rebenque
que trazia debaixo do braço, amarrotou os papéis para enfiá-los
na algibeira, apontou em direção a uma carroça puxada por dois
burros, que esperava do outro lado da praça. Almério seguid,
iunto a eles, até que o homem estacou.
- Que queres? - perguntou com rispidez. - já fizeste a
tua parte, nada tens mais conosco, vai-te embora.
Ele tem dinheiro. Seria justo que eu, por achá-lo e
nhá-lo às autoridades...
Isto não é comigo, ajeita-te lá com o Capitão Teófilo. An(ikx
escafede-te antes que eu te vá ao espinhaço! E os senhores
vamos com esse negro!
- Ele tinha uma mochila! Perguntem pela mochila!
tou ainda Almério, parado embaixo de uma amendoeir
quanto amarravam Budião à carroça, se encarapitavam e se
para a Ponta das Baleias, ele arrastado atrás.
Arraial do Baiacu, 12 de maio de 1841.
U m dos maiores prazeres que existem é sair depois de
pancada de chuva pesada mas ligeira e sent:,r nos pés a
mominha empoçada nas lajotas que o sol vinha esquentando. DD
lembrou que, se Vô Leléu estivesse no Baiacu e não na
resolvendo negócios, reclamaria ao vê-Ia de saia arrepanhaadel
descalça, arrastando os pés nas poças com os artelhos bem a
tos para desfrutar melhor do calorzinho. Reclamava tanto ' o
Leléu! Verdade que era muito bom, fazia tudo o que ela quo
314
r!i,is reclamava bastante -- não faças isso, não faças aquilo, isto
iiiáu fica bem para uma moça, que é que a senhora pensa da vida?
Lima vez ela tentara responder honestamente a essa pergunta.
~ias não sabia o que pensava da vida. A vida, a vida... A vida
e.i-a quando estava viva, como aqui no Baiacu, no meio dos bichos
e, das plantas. Se estava satisfeita com isso? Não, não estava,
bem que podia sair por aí vendo o mundo, vendo mais coisas,
conversando com mais gente, indo a festas, conhecendo príncipes
e princesas e heróis ... Ah, é isso que tu pensa da vida, que a
vida é viajar e conhecer príncipes e princesas, hem? Apois não é!
Apois não é, vai muito erro nisso, a vida não é isso!
A vida é trabalho, dissera Vá Leléu. A vida é trabalho, tribu-
lação, trabalho, vigilância, trabalho, olho vivo, trabalho e por aí
vai. Então ela respondera que nesse caso queria trabalhar, que





ele lhe desse o comando de um barco de pesca, como Mãe Vevé
comandava a Presepeira. E ele riu - ora, menina, mas ques
idéias, s'assunte não, destá! Visse lá ela se ele lhe tinha dado
esmerada criação e a trazia na fartura para que ela fosse pesca-
dora! Mas a mãe não era? Bem, dissera ele, tua mãe é maluca,
não é a mesma coisa.
Então me dê um trabalho, pedira ela, porque quero saber da
vida. Ele riu de novo e disse que havia muitos trabalhos que ela
podia fazer, como bordados, como doces, como rendas, como
vestidos e engomação de roupa. Ah, quer dizer então que lhe
dera ele tão esmerada criação, em que tanto aprendera sobre
pri 1 ncipes e princesas e grandes heróis, para que engomasse roupa
para fora? Era isso que ele pensava da vida, que a vida era engo-
mar roupa para fora?
Não, não era isso que ele pensava da vida. Mas ele mesmo fora
hortelão, fora quitandeiro, fora algibebe, fora peixeiro, fora pa-
lhaco, fora negro cativo castigado, fora tudo o que se podia ser
neste mundo e agora estava ali e só sabia uma coisa, coisa esta
que tudo é trabalho. Então me arranje um trabalho, respondeu
ela, mas que não seja bordar, que não seja fazer doces, que não
seja trançar rendas, que não seja de costureira, nem muito menos
de lavadeira e engomadeira.
Ah, fizera ele, isso também não é assim. E de mais a mais,
acrescentara, o que eu penso para ti, o que eu mais penso para
315





'17
ti é que te cases e que sejas boa mãe de família e me dês bisne.
tinho atrás de bisnetinho, o primeiro Tadeu, o segundo Jacinto,
o terceiro Belarmino, o quarto Vicentino, o quinto Lourival, o
sexto Joaquim e o caçula Leovígildo, que eu vou fugir com ele
e criar para meu filho, ha-ha! Pois então me arranje um caw
mento, respondeu ela, podendo ser um príncipe, podendo ser um
grande capitão, podendo ser um visconde ou um governador.
Vô Leléu embatucou, embatucou, desconversou o mais que
pôde, mas não teve jeito. Se a vida era trabalho ou casamento,
tinha de provar isso, senão a vida era qualquer coisa que ela
quisesse, e isto mesmo ela falou, com os punhos fechados na cbb.
tura. De forma que Vô Leléu, depois de bastante matutar, resol-
veu que ia botar para ela uma escola, uma escolinha bem peq~
na mas decente, ali mesmo no Baiacu, para que ela fosse a pro.
fessora dessa escola, assim trabalhando enquanto não vinha
casamento - este garantido, pois quem não quer casar com iima
professora bela? Então, quando viajasse à Bahia, ia comprar c&..,,
dernos, uma lousa grande, muitas lousas pequenas, as cart
do a-bê-cê e mais todo o material para bem ensinar as letras à' 1
as contas. Dafé pediu também que trouxesse livros de figuras çl.
par~
ele disse que sim. E uma palmatória de pau de pitangueira p
as sabatinas! E uns tinteiros e umas penas e papel almaço e ma
borrão e um frasquinho de goma!
Ah, pensou Dafé, mergulhando os pés numa poça mais fun
e gostando que estivesse soprando um ventinho frio, tomara
ele chegue hoje. Ainda faltava tanto para que a escola fica
pronta! Bem, não faltava tanto assim, faltava somente que e
mandasse mudar a palha do telhado da casinha que arr~anj
Mas tudo leva tempo demais, mal podia esperar para trab
e conhecer a vida. Tinha juntado todos os livros e cadernos
tempo de Dona lesuína, tinha até mesmo ensaiado algumas fr
para os alunos. E, sim, quem seriam os alunos? Todos, res 1
todos serão alunos, todos.
Vô Leléu tampouco concordaria com o que estava re: !é i
para hoje. 0 que estava resolvido era que ela ia sair na Pres.
ra, junto com a mãe e os moços de pescaria. Talvez fosse
um passeio, porque já era tarde para uma pescaria às direi
mas Vevé tinha prometido que iriam atrás do peixe, sim. Pas
316
1
1
1
ou não, Vô Leléu não ia gostar, mas o que o olho não vê o cora-
ção não sente e depois é bobagem dele.
F.ntão saíram, Vevé de mestre, Sambulho, Nego Régis, Odorico
e Nego Feio, uma coisa mais que linda, a lancha cambando como
um boto, o cordame e as madeiras gemendo, a proa querendo
levantar VÔO e cortando as ondinhas numa tesourada veloz, um
cardume de agulhões dançando em pé a sotavento, somente os





rabinhos ciscando a flor d'água. Dafé deitou-se à beira, meteu
os dedos na água, abrindo às vezes uma, às vezes duas ou três
esteirazinhas de espuma. Nego Feio, o calo de empurrar mourão
no peito sacudindo como uma teta maluca, ia praticar as marcas
das pedras, das coroas e dos baixios, todos lugares de peixes
de linha, que cabia ao aspirante conhecer. Ficou em pé no banco
à meia-nau, fez sombra nos olhos com a mão em concha, apon-
tou para dois morrotes na costa.
- Dali, correndo uma linha daqui - disse, desenhando tra-
ços invisíveis no ar. - Amainando aí!
A Presepeira rangeu de novo, os moços deram nas cordas do
velame, Vevé cambou a boreste, como quem fosse chegar de ban-
da ao ponto que Nego Feio indicava. Mas não chegou de banda,
chegou apenas meio enviesada.
- Nessa vazante, tem de arriar a poita umas trinta braças
na frente do ponto e deixar correr a corda - disse Nego Feio.
- Tou indo - disse Vevé. - Tu fala.
- Aê-aê-aê! - gritou Nego Feio.
- Rêia a poita de proa, Sambulho!
- Solta ela a prumo, Don'Vevé?
- Segure um tanto! Quantas braças a pique, Nego Feio?
- Não mais de vinte na parte funda, que é aqui. Deixe a
prumo mais ou menos, correndo um pouco, que a lancha vai
acertar com a maré nessa direção.
- Quando ela acertar, diga.
- Vai poder jogar a linha aqui - disse Nego Feio, com orgu-
lho de sua navegação porque a lancha, balançando molemente e
ecoando pelo casco a quebrada das ondas, retesou o cabo da
peita na posição que ele previra, puxada pela correnteza da vã-
317





zante. - Pronto. Dentão, olho-de-boi, vermelho, cabeçudo, pe&.
cada, tudo pedra ai embaixo!
- Corta as lulinhas, Dorico, olha a leseira!
Muita água doce aí embaixo, hem Nego Feio?
- É o Paraguassu, Don'Vevé, mas o peixe vem, aí embaixo
tem xumberga beliscando, de vez em quando uma corta a à"
na flor!
- Quede a lulinha, esse menino?
Sem conseguir resolver para onde olhar durante todo esse tnw.
po, Dafé se admirou de haver tanta ciência naquela gente comun4
se admirou também de nunca ter visto nos livros que penow
como essas pudessem possuir conhecimentos e habilidades tão,
bonitos, achou até mesmo a mãe uma desconhecida, misteriosa
distante, em seu saber antes nunca testemunhado. Quantos e~,,.,
dos não haveria ali, como ficavam todos bonitos fazendo a
tarefas, agora também ela ia ser pescadora! Até pouquinhl
0,
~tc
vera meio convencida, porque ia ser professora e portalil o sa~bW!~
muito mais coisas do que todos eles juntos, mas se via que
era assim. Tinha gente que pescava o peixe, gente que pl
a verdura, gente que fiava o pano, gente que trabalhava a
deira, gente de toda espécie, e tudo isso requeria grande
cimento e muitas coisas por dentro e por trás desse conheci
- talvez fosse isto a vida, como ensinava Vô Leléu, quanta
existia na vida! Que beleza era a vida, cada objeto um
com tantas outras coisas ligadas a ele e até um pedaço de
teve alguém para prestar atenção só nele um dia, até terá~
acabá-lo e cortá-lo, alguém que tinha conhecimentos tão anA-
como-esses pescadores e navegadores, mas já se viu cciis
bonita neste mundo do nosso Deus? Dafé sentiu até um
de vontade de dançar, deu uns tapinhas acelerados na borda
barco, deu uns gritinhos, sapateou de emoção, correu de um
para o outro, vendo aqui o peixe que vinha, ali o anz
iscado, acolá o plaf-plaf das chumbadas engolidas pela a
01~,
à
e.
mas oba, oba, oba, esta vida não é uma beleza cheia d. ri
des? Agora ela também queria trabalhar de navegadora e
dora. Mas também queria ser professora. E o que é que ela
mesmo? Queria ser tudo, isso sim! Porque cada ofício tem o
conhecimento da vida, quantos lados tem a vida, Vô Leléu?
318
Í-.Iiegou quase esvoaçando junto a Sajiibulho, que não era mais
eiig!oiadinlio, amarelinho como antes, era uma verda-
,it,,ira pintura de boniteza, com sua pescada branca subindo lustro-
i,i ponta dt linha. Por todo lado urfia fa,'.Scação de escamas
respingos de todas as cores, os peixes, com as bocas trespassa-
por anzóis que pareciam pequenos demais para pegá-los, ra-
,5c,,,ndo nos ocos do barco - até ela mesma, rindo de nervoso,





n,ío puxou uma carapeba? E a arraia enorme, mais assemelhada
a u!iia ave-fragata que a um peixe, que veio na linha de Vevé?
Voltando depois do meio-dia, Dafé não conseguia sair de perto
d,is pilhas de peixes amontoadas nos balaios. Alguns deles ainda
,-,e batiam de vez em quando, outros como que arfavam, as guel-
ras subindo e descendo cada vez mais devagar, outros já estavam
endurecidos, entortados feito ganchos. já na praia, acompanhou
a descarga de cada balaio, foi assistir à pesagem e ao trato do
t)eixe, ficou de junto das gamelas e panelas espiando o preparo
do jantar, tomou conta de sua carapeba sendo frigida, para que
ninguém a comesse no lugar dela.
já de tardinha, nesta época do ano em que escurece cedo, resol-
vei-am ir a pé ali da Ilha dos Porcos para o Outeiro, porque
podia ser que Leléu viesse pelo outro porto e não ia gostar de
n~-o encontrar Dafé em casa, ainda mais se trouxesse os bregue-
ces da escola, como era bem possível que trouxesse. Como a ilha-
zinfia, na maré vaza, vira península, ptideram passar pela trilha
i do apicum e cortar caminho pelo mato, perto de quatro casarões
abandonados, com o mato crescendo por cima das paredes e
irrompendo pelas janelas. Tiveram por isso uma surpresa, quando
toparam com um carro de boi do tipo que se encontra nos enge-
nhos, parado no portão de uma das casas, e ouviram vozes lá den-
tro, T)afé, que depois da pescaria estava começando a ver todos os
bichos com novos olhos, quis olhar a parelha de bois, um branco
e outro malhado, ruminando sem levantar os olhos. A cabeça de
UM rapaz apareceu numa das janelas.
- Ei! - gritou ele. - Chegou quem faltava!
- Vamos embora - disse Vevé, mas logo o rapaz saía pelo
Portão acompanhado de mais três, e elas foram cercadas.
- Licença - disse Vevé, tentando andar, com Dafé pela mão.
319





Mas eles a barraram e o que havia gritado primeiro levantou
uma botija destampada.
- Um trago de vinho, minha flor?
- Não, agradecida.
- Eugênio, lá na tua terra se permite às negras que recuwm
o oferecimento de um branco?
- Lá não, julguei que fazia parte dos costumes liberais daqui
da tua terra.
- Na minha terra, não! Na minha terra, essas negrinhas safa-',-
das obedecem. Toma um trago de vinho! Ou tomas por bem ou
tomas por mal!
Não, muito agradecida. já está ficando tarde, tenho
levar minha filhinha para casa, ioiô não se aborreça não, PO
favor deixe a gente passar.
Tua filhinha? Não me digas! Então este mulheraço aqui
esta negraça, este rabo, estes peitos, isto aqui é tua filha?
- Deixa estar, Leopoldo, deixa que se vão,
- Absolutamente! Que é que não ias ficar pensando da
pitalidade baiana? Vem cá, negrínha, deíxa-te de firulas,
vamos fazer mal, só queremos uma pândega, que me diz
pois te levamos a tua casa, te damos até um pro labo
me dizes ?
- Deixe a gente passar ioiô, por favor.
- Negrinha descarada! - gritou ele e puxou Dafé num a
ço violento, metendo-lhe a mão por baixo.
A saia de Dafé subiu, os outros se aproximaram, um de
começou a ajudar Leopoldo a segurá-la.
Não, desta vez não! - gritou Vevé.
Soltou o saco de mantimentos que vinha trazendo às cos
tirou de dentro a araçanga, arremeteu contra eles girando o
de porrete acima da cabeça. Soltaram Vevé, Leopoldo rec
01
alguns passos.
- Negra ousada! Não te metas a besta, negrinha, que
fazer de ti picadinho na hora que bem entenda!
- Se afaste, se afaste.
- Não quero nada contigo, negra imunda, quero a outra.
- Se afaste.
320
L)at,1~ nunca conseguiu contar ou mesmo recoídar direito o que
aconteceu. Mas lembrava que, agarrada a Vevé caída e san-
grando das mais de vinte punhaladas que recebera, o que se cha-
niava Leopoldo ainda a puxou, mas o que se chamava Eugênio
falou que deviam ir embora.
- A outra está morta - disse. - Isto já está perdendo a
graça, vamos embora.
Muito mais tarde, mais de meia-noite, um noroeste frio batendo
forte e prenunciando temporal, Leléu e mais uns oito, carregan-
1 do fachos e levando cachorros de presa, encontraram Dafé sen-
tada nos calcanhares junto ao corpo de Vevé, tão imóvel que
nem os olhos piscavam. Puseram um cobertor em cima dela,





arranjaram uma rede para carregar sua mãe morta, deitaram-na
na cama, mas ela não dormiu. E, durante os 21 dias que se segui-
ram, mal se mexeu, não abriu a boca para dizer uma só palavra,
permaneceu sentada de cabeça baixa, olhando as mãos abertas
no colo.
Salvador da Bahia, 12 de março de 1853.
- Eu te disse, te disse sempre: cuspe em jejum! Que é que
eu te dizia, dia após dia?
- Cuspe em jejum.
- Repete!
- Cuspe em jejum
- Repete!
- Cuspe em jejum.
- E então e então e então? E por que não o fizeste?
- Esquecia.
- Esquecia? Esquecia? É só isto que tens a dizer? Esquecia?
- É o que dizia ao senhor então e o que posso dizer agora.
Amleto deu uma bengalada forte nos livros de contas deitados
sobre a escrivaninha. É o que deveria ter feito a ele, o perfeito
biltre, era seu filho mas nem por isso podia deixar de reconhe-
cer: biltre, safardana, desqualificado. Não lhe tinha ido com a
vara aos costados o suficiente, era isso. Também a mãe o prote-
gia de todas as maneiras e estava até mesmo seguro de que muitas
321





das doenças que ele teve, sem nunca ficar com febre ou deixar
de comer como se a própria alma sofresse de bulimia, haviara,
sido inventadas por ela, para livi-á-lo da disciplina. Resultad7~19
aquele grandessíssimo alarve, aquele sujeito balordo e grosseirão
de aparência desagradável, mentalidade baixa e instintos
baixos ainda, que tinha de chamar de filho, pois que o era. Polei[-
que o era, sim, mas não parecia, porque todos saíram com
rência de gente fina e de bem, só ele nascera com aquela naligan-
ga escarrapachada e aqueles beiços que mais pareciam dois
sichões de tão carnudos - um negróide, inegavelmente, um n
gróide! 0 cabelo, felizmente, não chegava a ser ruim, era
anelado, mas, com bastante goma e forçado à noite pelas to
podia ser penteado razoavelmente, numa espécie de massa
bradiça puxada em direção à nuca.
Amleto fez menção de sentar-se, nem chegou a tocar o as
na cadeira, espigou-se para recomeçar a andar de um lado
o outro. Para aquelas ventas, teria havido remédio. Sua mãe
empregara com ele e o nariz de Carlota Borroméia ficara
afiladinho com a mesma técnica. Ou seja, cuspe em jejum:
decer o cata-piolhos e o fura-bolos na língua e massagear o
no sentido do afilamento. 0 nariz de Carlota Borroméia e
longe de ser simiesco como o de Patrício Macário, de forma
bastou o tratamento que lhe deram quando ainda era neném.
não, ele teria precisado continuar durante muito tempo, mas
havia meio nem castigo capaz de fazer com que se lembras
uma providência tão elementar. Aliás, não havia castigo c
de obrigá-lo a fazer qualquer coisa, esta é que era a verdade.
Na quinta-feira passada, logo depois da discussão, em seu
binete de casa, sobre o cuspe em jejum, Amleto havia aL".
a porta para deixar entrar Padre Clemente André, este, sirnl, 1
nino de bons modos, aplicado, estudioso, quase louro, de ed
ção e cultura exemplares - talvez um pouco vaidoso, assim
afiambrado no trajar, mas um moço de feitio elevadíssimo. Q
ria, coitado, dirigir uma palavra de conselho a Patrício Ma
até emprestar-lhe um pouco de solidariedade, numa hora em
o pai já perdia a cabeça. Mas tudo o que conseguiu foi que
trício Macário, depois de tratá-lo com aspereza, ameaçasse,
ele mesmo disse, ir-lhe às fuças de mãos e patas.
322
- És um maricas, isto é o que és! - gritara ao irmão com
as veias do pescoço inchadas. - És maricas e só o pai e a mãe
que não vêem que até requebras as cadeiras!
- Respeita-me, seu moleque!
- Respeita-me tu e não me ponhas as mãos em cima, que
não quero saber se andas lá às sedas e ao pó-de-arroz e te des-
queixo com um sopapo!
Quase se deu a tragédia há tanto tempo temida, porque Amleto
apanhou no cabide a bengala de jacarandá encastoada de bronze e
marchou para atingir Patrício Macário em qualquer lugar do cor-
po, somente não lhe achatando a cabeça porque Clemente André
se sentiu mal, levou a mão à testa, gemeu fracamente e desabou





na alcatifa.
- Meu filho! - gritou Amleto, deixando cair a bengala e
correndo para o padre, que revirava os olhos como em fatal ago-
nia. - Meu filho, que te fez esta besta-fera, este animal batizado?
Levantou-se desatinado, mergulhou no chão em busca da ben-
gala para voltar a atacar Patrício Macário, que, de braços cru-
zados, assistia à cena como se não tivesse nada a ver com aquilo.
- Patife! Depravado! Desbolado! Degenerado! lá te mostro
como te baixo o cangote, cachorro!
Mas uma dor no peito, uma dor dilacerante e quente por baixo
do esterno, lhe deteve braço levantado. Sem ar e sentindo-se
tonto, amparou-se nas costas de uma cadeira, um suor gelado lhe
porejando pelo rosto de repente. Correndo lá de dentro em com-
panhia de duas negras, Teolina cambaleou à porta do gabinete,
teve também de segurar-se para não cair.
- Eu mato, eu mato este aborto da Natureza, eu mato
arquejou Amleto. - Antes que nos mate ele a todos, eu o mato,
castigo pior não me podia dar Deus que ter esta alimária por
filho.
- Não fales assim, por Maria Imaculada! Meu Santo Antônio,
meu São Felipe, minha Santa Margarida, que aconteceu? Que
aconteceu, Patrício Macário, meu filho? Ai, Santa Mãe de Deus,
Padre Clemente!
De todos na casa, somente Bonifácio Odulfo, que estava dor-
inindo e não acordou, e Patrício Macário, que só se mexeu para
ajudar depois que a mãe ordenou, escaparam a pelo menos um
323
1





dia de resguardo, repouso, ansiedade e fraqueza nervosa. Dr.
Vasco Miguel, felizmente vindo da Casa Bancária mais tarde.
para trazer uns papéis a Amleto, examinou a todos. Preocupou-a
mais com Amleto, portador de dispnéia angustiosa e pré-apopio.
xia, receitou-lhe uns brometos, confinou-o à cama, proibiu couli.
das fortes, trocou-lhe o café por chás de folhas verdes. Quanto "
outros, chá de camomila, silêncio, descanso. lá quanto ao Ticoi,
paciência, sobre seu caso pouco sabia a Medicina. Tinha um colo.
ga muito interessado em moléstias nervosas, talvez conheceeee~
algo que pudesse exercer algum efeito sobre o Tico - se ben
que, como dissera antes, pouco se sabe sobre a fisiologia ckg
temperamentos exaltados. E, finalmente, quanto a Bonif
Odulfo, era um poeta e, como todos os parasitas - resmung*
de si para si Vasco Miguel raivosamente -, achava-se credor
mundo, devedor só dele mesmo, nenhum mal vai a ele.
Amleto quisera levantar-se no mesmo dia, mas as mulheres
família fizeram tamanhas súplicas para que guardasse o leito
que fosse apenas pelos próximos três dias, na segund~l_feiira
guinte voltando ao trabalho, que ele consentiu em passar a
feira deitado. Durante todo o dia teve que tomar calmantes e
refresco de maracujá atrás do outro, para conter a fúria que
bombeava o sangue à cabeça toda vez que lembrava Patrício
cário. Só a muito custo deram jeito de contê-lo, mas na
do sábado ele afastou aos empurrões os que tentaram i'
e chegou ao escritório do Comércio às sete horas e um qlu
~u
como era de hábito desde que deixara o Terreiro de 1( s.
A primeira coisa que fez foi trancar-se e atacar os livros
bengpladas, sem dar importância ao barulho que isto fazia lá
Estava ficando acostumado a ter poder e chegava mesmo a g
de tomar atitudes incompreensíveis para os outros e ver que
guém ousava fazer-lhe uma pergunta. Quem quisesse que se f
se de besta de querer saber que barulho era aquele, e chegou
0'0*
d"'
igorll,^
r
31
pensar em dar uma bengalada na porta, mas mudou de i
bateu tão forte nos livros que a bengala se partiu.
Conseguiu finalmente sentar-se, parou olhando para a
e esfregando o dedo na ponta quebrada da bengala. É,
moleque levaria a pior, isto levaria. Um homem como e
peitado por toda a Bahia e - por que não dizer? -
324
o Brasil, desmoralizado por um fedelho dentro de casa? Nunca,
isto nunca! E estava exatamente na hora de pôr em prática o
plano que engendrara no dia anterior e que lhe parecia cada
vez mais bem pensado. Olhou a lista das providências estendida
à sua frente. Tinha de mudar aquilo, aparecera coisa mais im-
portante. Começou a fazer nova lista e escreveu diante do núme-





ro 1: "Conselho de Família". Ficou contente porque a providên-
cia seguinte, a de número 1 na lista anterior, era um breve en-
contro, ali mesmo, com o Bacharel Noêmio Pontes, hoje seu sócio
em diversos empreendimentos, inclusive a Casa Bancária, talvez
a mais poderosa de toda a região, com capital superior a quatro
Inil contos.
Amleto interrompeu a anotação da lista e se recostou na cadei-
ra, coçando a aba do nariz com o cabo da caneta. Ao pensar no
capital da Casa Bancária, sentiu uma súbita infusão de alegria e
tranqüilidade. Sim, que tinha ele a temer? Por que tanto se acos-
tumara à incerteza, à insegurança, à preocupação que, mesmo
agora, quando nada disso tinha razão de ser, insistia em tremer
de medo, aterrorizar-se quase? Tolice, tolice, realmente, não havia
o que não estivesse a seu alcance, tinha de assumir de uma vez
por todas a condição de tranqüilidade e firmeza que aparentava
para os outros. Mas é claro. Por que essa agonia toda, essa ânsia
toda? Nada disso. Resolveu que voltaria à primeira lista, não
havia necessidade de escrever a providência "Conselho de Famí-
lia", era algo que se encaminharia naturalmente, cuidaria de
tudo durante o expediente normal, sem afobações.
Quando o Bacharel Noêmio entrou, a porta respeitosamente
aberta para ele pelo oficial de gabinete Octaviano Souza, encon-
trou Amleto com as mãos cruzadas à altura do estômago e a
mesma afabilidade um pouco apressada de sempre. Conversaram
sobre os resultados recentes dos garimpos de Lençóis, sobre as
plantações de fumo, os engenhos de cana, a caieira, os armazéns,
a armação de navios, outros assuntos. Amleto impressionou parti-
cularmente o bacharel pela acuidade com que abordou o proble-
ma da pluralidade de bancos emissores de moeda, mostrando as
vantagens que teriam os seus interesses, se efetivamente a plura-
lidade viesse a firmar-se. E ele sabia - ao contrário do bacharel,
325





que tinha algumas dúvidas por achar aquilo coisa de maluco#
que ela se f irmaria.
- 0 senhor pode escrever - disse. - 0 câmbio subirá com
um rojão. Compraremos libras. Mais libras esterlinas.
0 bacharel concordou que comprar libras era sempre um
negócio, mas ponderou que talvez se tratasse de uma imobil
ção de recursos muito grande, fundada em alicerce tão ince%
quanto a tal pluralidade. Mas, em vez de impacientar-se, A~
fez uma palestra pausada e cheia de bonomia sobre a lógica das JW
nanças, a qual, disse, é a que estabelece como premissa maior, é
fato de que aqueles que detêm o comando farão infaliveh~'
tudo para perpetuar esse comando e tudo para justificar tal
tuação - e a justificativa se prende a que, enquanto com
locupletam-se. E a locupletação é uma coisa generosa, est
dade aberta a todos; todos, é claro, os que enxergam. Em
de finanças públicas - sentenciou fechando os olhos com
riso -, mais que em qualquer outro campo, aplica-se a vel
ma: Cui prodest? A quem aproveita, a quem traz vantagen
quer medida no campo das finanças públicas aproveita a
não importa quão diabolicamente disfarçado isto possa esta e
ralmente não está, pois quem se encontra no comando tem r
mais refinada o fazer quem não se encontra achar que qum, "
encontra cuida de atender quem não se encontra.
Deu um risinho encompridado, desculpou-se por estar
como um sofista, mas garantiu que não estava. A idéia
lismo amadurecera, era uma forma demasiadamente atr
ganhar dinheiro com papel para ser ignorada, ainda
tempb necessariamente limitado.
Em finanças públicas - acrescentou, rindo tanto que q
não conseguia falar -, tudo é por tempo necessariamente
tado. Compramos libras.
Lamentou que não tivesse o país sido colonizado por ij[l
Pediu licença para contar uma anedota, disse que seu filho
fácio Odulfo, um francófilo impenitente, um engraxate do
tinho corso coisas de poetas, que lhe passarão como
o sarampo rechaçara o pedido que lhe fizera para que
desse o Inglês.
326
- Língua de bárbaros! - dissera. - Uma língua que não tem
subjuntivo só pode ser suspeita!
Amieto confessou que rira muito com aquilo. Mas depois, se-
guindo o costume de esmiuçar antes de dormir tudo aquilo que
o fizera rir, chegou à conclusão de que a ausência de flexão ver-
bal no Inglês era sinal de superioridade.
- Flexões verbais em excesso tendem a emperrar a mente em
caminhos estéreis - disse. - Se um francês pensar em fazer algo
para que nao encontre um preciso modo, tempo e flexão, não
pensa mais.
Riu outra vez, chegou a pedir desculpas novamente por estar na-
quela veia irresistível, não sabia o que dera nele. Mas logã reco-
brou a compostura e procurou entre suas anotações alguma coisa





que ainda não tivesse tratado com o bacharel. Estava tudo já cor-
tado por riscos enérgicos da pena, mas restava algo a resolver.
- Ainda tinha alguma coisa a conversar com o senhor -
começou a dizer. - 0 novo saveiro para a caieira, a distribui-
ção de apólices do Fundo... Mas, sim, claro, como pude esque-
cer? - Fez uma pausa longuíssima, chegou a abrir a boca um
par de vezes para começar a falar, bateu palmas sem afastar os
pulsos, como se estivesse querendo mimicar uma borboleta. -
0 senhor sabe, durante todos estes anos em que temos convivido,
a nossa amizade pessoal prosperou tanto quanto os nossos neg&
cios, senão até mais, para honra minha.
- Honra minha, Comendador Amleto.
Amleto sorriu. Gostava de ser chamado de comendador, era
incomparavelmente melhor que ser chamado de senhor. Fez uma
ligeira mesura de cabeça para o bacharel, continuou a explicar-
lhe que se sentia seu amigo e, por conseguinte, seu confidente.
Contou-lhe COMO Patrício Macário lhe causava todo tipo de pro-
blema, criando uma situação doméstica intolerável. Depois de
muito sofrimento, muitas dúvidas e hesitações, muitos instantes
em que estivera à beira de precipitar-se a um ato de loucura dita-
do pela cólera, chegara finalmente a uma decisão definitiva, a
única cabível no caso. Encontrara-a depois que um incidente
entre ele e o filho mais moço quase dera fim a seus dias, até este
momento se sentia fraco e sujeito a desfalecimentos. Mas a for-
327





mulara com ponderação, equilíbrio e madureza, estava tão seguro
dessa decisão que somente argumentos muito fortes, fortíssimag,
irrebatíveis, o demoveriam.
Pediu desculpas por não poder ainda revelar qual era a deci.
são. Mas fá-lo-ia ainda hoje, no Conselho de Família que estava,
convocando e ao qual esperava que o Bacharel Noêmio Ponteg
lhe desse a honra de comparecer. As duas horas estaria bem? Era
sábado, podiam encerrar o expediente mais cedo. Ele m~
An-deto, estaria em casa pelas onze e não voltaria à tarde.
Fico honradíssimo, meu caro Comendador e amigo, how
radíssimo - disse o bacharel, levantando-se como se não tiveem
conseguido permanecer sentado. i,
- Creia-me, meu distintíssimo amigo, que honra é a que
faz o amigo. Estarei também providenciando a ida do Monsenb*,
Bibiano, que batizou o rapaz e é nosso conselheiro espiritual~
confessor e do Major Francisco Magalhães, que é seu padri
is
Julgo que também devemos ter a participação do Dr. Vg ~,~co
guel, do Padre Clemente André, meu filho, e de Bonifácio 'Dd
também, embora eu não acredite que ele vá interessar-se, *
também é filho, já é um homem, não quero depois que dil -,a
foi ignorado numa questão de família.
- Bem pensado, muito bem pensado. E tenho certeza de
a decisão terá sido a mais acertada, estou seguro de que.
apoiarei.
Espero que sim. Como disse, só argumentos fortíssinios
demoveriam.
Sehtiu-se muito bem disposto depois que o bacharel saiu.
a janela e pôs a cabeça para fora. Estava um belo dia, era
dúvida um belo dia em todos os sentidos. Nada como a dp-t
nação, o equilíbrio e a coragem das resoluções para revi
um homem de responsabilidade. Voltou à escrivaninha, p
seu bloco de papel monogramado, rabiscou três bilhetes:
para Monsenhor Bibiano, um para o Major Francisco
lhães e outro para Teolina, pedindo-lhe que assegurasse
sença em casa, às duas horas da tarde, do Padre Clemente e
Bonifácio Odulfo, assunto da máxima importância. Sobrescri
328
1 1
três envelopes, puxou a cordinha da campainha e Octaviano
entrou imediatamente.
- Faça levar estes bilhetes agora mesmo às pessoas cujos no-
nies estão nas sobrecartas. Muito bem, Sr. Octaviano, é só. Que foi?
Octaviano titubeou, ficou vermelho. Não era nada, era que
sabia das instruções do Senhor Comendador para não ser pertur-
bado, mas fazia semanas que aqui vinha quase todos os dias uma
senhora, uma senhora parda e modesta, mas via-se que era gente
decente, para querer falar com o Senhor Comendador.
- Inscreva-a na lista de caridade - disse Amleto. - É sem-
pre o que essa gente quer, acham que podemos sustentar a
Humanidade.





- já a inscrevi, Senhor Comendador. Mas ela diz que não
quer esmolas nas festas dos santos, quer mesmo falar com Vossa
Excelência.
- Mas por que quer falar comigo? Não tenho tempo para
falar com todos os que me procuram. Quem é essa senhora?
- Diz que é viúva de um funcionário do Senhor Barão de
Pirapuama, mais tarde de Vossa Excelência, um certo Horácio
Bonfim, se não estou equivocado.
Amleto conteve a custo uma exclamação. Que quereria essa
mulher aqui, tantos anos depois de seu marido haver sido demi-
tido, para morrer logo em seguida? Não tinha um montepio?
Certamente tinha, e mais alguma coisa também, que podia estar
pretendendo agora? Não devia ser coisa boa, mas o melhor era
ver logo de que se tratava.
- Está bem, Sr. Octaviano, pode mandá-la entrar.
- Sim, senhor. E aqui estão os papéis de hoje, que o senhor
me mandou classificar e arrumar.
- Deixe-os aí.
Não gostou da maneira com que Octaviano arrumou a pasta
dos papéis, ajeitou-a para que a margem de cima ficasse perfei-
tamente paralela à borda da mesa. Eram essas pequenas coisas que
distinguiam os Octavianos dos Amletos, pensou. Ou até os Horá-
cios dos Octavianos, porque aquela pústula seria incapaz de pro-
curar satisfazer as exigências de arrumação de seus superiores.
329





precisava que tudo fosse mandadc,. Lembrou como Horácio se
surpreendera ao ver-se despedido no fim de um dia de trabalhq,,'i,
igual a outro qualquer. Com certeza se sentia seguro, sabendo,
que Amleto sabia que ele sabia das falcatruas contra o patrimôriio
do barão, de tanto que bisbilhotava, espionava e escarafunc
0 que não sabia - e foi o que se viu no seu rosto empalidecia- """,i
depois que descobriu - era que Amleto tinha mandado um SCÇ*-,,
ralheiro abrir suas gavetas e sua divisão no armário grand
do de lá todos os papéis. Todos, não só os que comp
Amleto, como os que o comprometiam, até mesmo os
jogos de cartas e de dados que não tivera a prudência de dek,,,
truir. Amleto riu por dentro, lembrando o ar de desampa d 1
quando lhe falou com toda a calma:
- ConsoIe-se, Sr. Horácio Bonfim. E até devo ao se
agradecimento, que é por haver aprendido consigo u
Lição esta que é não guardar documentos em excesso,
nosso passado convém que saibamos nós próprios e
guém. 0 senhor acaba de dar-me uma grande lição de t
Sr. Horácio Bonfim. Fora daqui.
Estava até revivendo e quase repetindo alto as palavras
dissera então, quando a mulher entrou, apresentada por 0
no como Dona Maria d'Alva Bonfim. Encarou-a com ar
não a convidou a sentar-se de propósito.
- Pois não? - disse, entrelaçando as mãos sobre a e:n
ninha.
A mulher estava nervosa, teve dificuldade em começar a fa
principalmente depois que ele se levantou e, junto à janela '
claróu-,se sem tempo a perder. Finalmente, gaguejando muito
pedindo desculpas a cada frase, disse que Horácio era um
homem, sempre fora bom marido, vivera para o trabalho e
a casa. Se tinha uns dois defeitos, nisso se igualava a qual
homem de sua condição, filho de gente muito humilde e eu
na labuta desde a primeira infância. Mas a verdade era que
a deixara sem arrimo, desde aquele dia fatídico em que 1
vo'
do trabalho demitido e, duas horas mais tarde, tivera o vcex
que o paralisou na cama mais de 40 dias, até que a morte
ricordiosa o levou. Deus não lhes dera filhos e também
330
puderam construir património sólido, mas ela havia ficado com
a casa em que moravam no Tingüj, existia o pequeno pecúlio da
Caixa. a hortazinha do quintal, umas galinhas e duas casinhas
de aluguel, que lhe permitiam viver, embora com modéstia. Mas
agora a velha casa, em que tinham morado toda a vida de casa-
dos, desde o tempo do Senhor Barão de Pirapuama, que Deus há
de ter em Sua Santa Glória pelo muito que fez pelos pequenos,
estava ameaçada de desabar, a chuva lhe tinha causado muitos
estragos, quase não se podia mais morar nela. Não tinha dinheiro
para os consertos, que ficavam muito caros, como ele podia ver
nessa estimativa que agora lhe mostrava.
Amleto impacientou-se, não quis olhar o papel. Aquela lenga-





lenga não conduzia a coisa alguma, não podia perder seu tempo
ouvindo histórias que não lhe despertavam o mínimo interesse.
Ela pediu desculpas outra vez, tirou da bolsa um caderno de
capa dura e lhe explicou que, antes de morrer, Horácio tinha con-
seguido, a duras penas, falar a ela sobre esse caderno e ainda
lhe tinha sussurrado que valia dinheiro. Como ela não sabia ler
direito, não conhecia aquelas palavras difíceis e não tinha nin-
guém no mundo a quem recorrer, pensara em procurar o Excelen-
tíssimo Senhor Doutor Comendador e tentar por meio daquilo
conseguir alguma ajuda. Quem sabe Horácio não tinha mesmo
razão e se tratava de um documento de valor?
Amleto tomou o caderno, montou as lunetas no nariz, abriu
primeira página. Como se fosse o frontispício de um
livro cuidadosamente diagramado, estava lá escrito: "DIÁ-
RIO DOS ACONTECIMENTOS NOS ESTABELECIMENTOS
DO S NHOR BARÃO DE PIRAPUAMA SOB A ADMI-
NISTRAÇÃO DO GUARDA-LIVROS AMLETO FERREIRA -
Relato de autoria de HORÁCIO BONFIM, destinado ao esclare-
cimento do Senhor Barão e da Posteridade". Começou a fo-
lhear algumas páginas, aparentando apenas um interesse leve.
Não eram muitas, talvez umas trinta,' escritas em letra miudinha
e muito emendada. Mas lá, numa profusão de detalhes difícil de
crer, estava anotado tudo o que acontecera no escritório desde
que o barão caíra de cama.
Canalha! - disse Amleto entre dentes.
Vossa Excelência falou?
331





- Não, apenas uma exclamação casual. A senhora tem có"
disto?
- Não, senhor, ele me disse que tomasse cuidado, pois eM.,.íw
era o único lugar onde estavam feitas essas anotações.
- Ainda bem. Isto não tem o menor valor, mas são W~-",
da firma que o seu extinto marido achou por bem anotar dub
maneira, não sei com que propósito. A senhora mostrou imo a
alguém?
- Não, senhor, nunca mostrei a ninguém, este caderno es~~
guardado desde que o finado se foi, todo empoeirado num b#A
- A senhora agiu com responsabilidade. E com sorte, a~
cento, pois seu marido estaria em graves dificuldades, mesmo de~:
pois de morto, se isto fosse divulgado.
- Quer dizer que isto de fato não tinha valor?
- Para ele. Para ele, é possível que tivesse. Não sd
que certas pessoas pensam. Mas, de qualquer maneira, foii
que a senhora me trouxesse isto, acontece que s"ou a única
a quem documento tão irresponsável podia ser confiado.
de expressão, cruzou os braços. - E, infelizmente, não lhe
dar a ajuda que, pretende, ultrapassa em muito as minhas
ponibilidades no momento, vivemos uma época de crise. Não
tante, vou dar-lhe um cartão para o Sr. Diretor de Obras do
nicípio, solicitando que ele lhe conceda alguma assistência
medida do possível. É para estas coisas que existe o Poder
blico, de qualquer forma. E, como demonstração de boa vo~n
também lhe darei outro cartão, este para o Sr. Emídio Reis,
é proprietário de algumas lojas, para que ele verifique se
,~ a
lhe pede ceder algumas sobras de material ou algo que estej~
pouco defeituoso mas ainda utilizável.
Puxou a sineta, disse a Octaviano assim que ele entrou
redigir os dois cartões. Fez sinal para que ela se retirasse,
antes de a porta fechar-se, chamou-a de volta.
- Toma cá - disse, estendendo-lhe cinco mil-réis.
é pelo seu marido, é pela senhora.
Passou a chave na porta, sentou-se e abriu o caderno ao a
Deu com uma página epigrafada pelo título "0 Esbulho das
visões". Um pouco trêmulo, começou a ler: "As provisões a'
ridas para os estabelecimentos do Senhor Barão são const
332
,nente desviadas, às vezes completamente, para estabelecimentos
do Senhor Amieto, que mantém-nos em conluio com seu parente,
o Senhor Emídio Reis. Na quinta-feira, 23 de agosto do ano da
Graça de 1827, o Senhor Emídio Reis, irmão da esposa de Am-
leto Ferreira, veio ao escritório e nessa ocasião. . ."
- Canalha! - rosnou Amleto, fechando o caderno com
estrondo.
Bonifácio Odulfo desceu para o gabinete do pai com mais de
meia hora de atraso. Encontrou a porta fechada e Teolina prati-
camente encostada nela, tão aflita em perceber o que se passava
lá dentro que nem reparou na chegada do filho e se assustou





quando ele lhe falou para perguntar que horas seriam aquelas.
- Meu filho! - disse ela, levantando as mãos e dando uma
corridinha de ida e volta à sala, para olhar o relógio. - É quase
um quarto para as três e tu ainda estás aqui? Cuidei que já esta-
vas aí dentro, desde o meio-dia que mando acordar-te! Teu pai
desta feita vai à serra, já está encavacado desde a manhã e agora
tu chegas com tanto atraso a esta conversa que ele considera tão
importante! Só espero que isto não venha a piorar a situação do
teu pobre irmãozinho menor, ai meu Deus, que será que teu pai
vai resolver fazer com ele?
- Calma, Dona Teolina, não está aí o Padre Clemente para
abençoar toda essa famosa função que o comendador arranjou?
- E tu não soubeste? Tu não sabes que o Tico quis ir aos
tapas com o Padre Clemente André e quase que o pai o mata a
bengaladas, não matando somente porque teve um vexame na
hora?
- Ouvi alguns rumores das negras, mas não lhes dei impor-
tância. E, afinal, o Tico conseguiu malhar o nariz do Padre Cle-
mente? Haveria de ser uma magnífica escarapela, com o padre
enredado em suas saias de seda e o Tico a pilar-lhe as fuças com
aquelas manoplinhas de elefante que Deus lhe deu!
- Não fales assim! Proíbo-te que fales assim! Chegas atrasa-
do, já por aí mostrando desdém pelas questões de família, e ainda
tratas do assunto como se fosse uma pândega? Não levas nada
a sério?
333





- Perdão, minha mãe, mas o fato é que isso que a senhora
chama de questões de flmília a mim me enfadam antes mesmo de
saber do que se trata. E afinal que posso fazer para que o Tico
não persista em querer dar umas bordoadas no padre? Se o fito
é que eu interceda, pardon, madame, moi je n'suis pas un suicide.
Não estimo o pugilato, meus músculos estão na cabeça e não nas
patas, como no caso do nosso doce Tiquinho.
- já te disse que proíbo-te de falar assim!
- Mas não estou a dizer mal do Tico, sempre nos demos
muito bem, é o nosso querido benjamim, estou seguro de que mã
a alegria de minha velhice, como é a da senhora e do pai. Ape.
nas digo a verdade. É uma questão de vocação. A minha são m
letras, a do Tico é - como direi? - a arte corporal? No munde
há lugar para miolos e músculos, Bonifácios e Ticos. Bem, ma
acha a senhora que devo entrar agora?
Mas claro que deves! Teu pai, se já vai zangar-se com
atraso, não te perdoaria jamais se faltasses, seria uma gravíssi=,,
ofensa.
Longe, longíssimo de mim cometer uma gravíssima ofenâ
contra o magnânimo autor de meus dias. Como se adentra
furna?
- Ouve cá, procura dar uma palavrinha em favor de
irmão. Ele não tem juizo, é um menino ainda.
- Um menino de cinco ou seis arrobas, mas um menino.
- Ouve o que te estou dizendo, Bonifácio Odulfo, não te
tas a engraçado com tua mãe! Se não queres, como nunca
sesteoprestar-me um favor que te peço, e tão pouco te peço,
menos não troces desta maneira... desta maneira cretina!
Estou muito esguedelhado? 0 pai sempre reclama de
cabelo. Que tal está, procurei penteá-lo ao capricho, que
a senhora?
- Tens ainda a cara estremunhada, mas o cabelo es
só que precisava muito de um corte, assim não te fica be
o ar de moço de família.
- Isto é que o faz intocável, amoureuse Maman. Minha rc"lr,
tação não resistiria a uma cabeleira de moço de familia~
mortal. Diga-me lá, devo bater ou chamar?
334
- Espera que eu saia daqui, não quero que teu pai me veja
e pense que estou espreitando. Mas vê bem, defende o teu irmão,
que não tem ninguém por ele, está abandonado à própria sorte.
- Esteja tranqüila, Dona Teolina, comptez sur moi.
A mãe desapareceu no corredor, ele fez menção de bater na
porta, desistiu, experimentou o trinco, a porta estava destrancada
e se abriu mais facilmente do que ele esperava, de maneira que es-
barrou com alguma força no calcanhar de Amleto, o qual, cir-
culando pelo aposento para melhor sublinhar a oratória, estava
justamente terminando de bradar:
- Farda! A farda com ele! Farda! Farda, farda, farda!
- Perdão, meu pai - disse Bonifácio Odulfo, segurando o
cotovelo de Amleto para ele não cair.





Amieto estava com a frase seguinte engatilhada e, durante uma
breve pausa, hesitou entre continuar ou reconhecer o ingresso
do novo participante. Mas logo se recompôs, examinou o calca-
nhar da botina envernizada, notou a mancha causada pela raspa
que lhe deu a porta, encheu os pulmões para soltar a raiva. Mas,
ao contrário do que ele mesmo esperava, não disse nada, apenas
fixou os olhos em Bonifácio, os lábios apertados, o cenho preguea-
do, o queixo subindo e descendo como havia aprendido a fazer,
em anos de prática no trato firme dos subalternos. Imóvel a não
ser pelo queixo e pelos ímpetos que lhe inflavam o tórax a pe-
Liucnos intervalos, não tirou os olhos do filho, que começou a
corar, as orelhas esquentando insuportavelmente. De início Am-
leto achou que demoraria naquilo apenas alguns instantes, mas
foi descobrindo grande prazer em permanecer na mesma postu-
ra, sem falar nada, um silêncio latejante engolfando a sala. Bo-
nifácio, cada vez mais vermelho, procurou para onde olhar, não
conseguiu nenhuma posição confortável, terminou cruzando as
mãos na cintura, de cabeça baixa. já o silêncio se tornava insu-
portável de tão carregado e Monsenhor Bibiano, muito incomo-
dado, resolveu falar, depois de passar algum tempo esfregando
nervosamente as mãos na barriga, que se esparramava sobre a
faixa da cintura.
- Sim, mas dizia o Comendador...
335





1111n"~- 1
- Eu falava sobre filhos, Monsenhor. Falava sobre filhos, sN
bre a inconseqüência desta geração desfibrada e sem rumo, sem
senso dos verdadeiros valores e sem noção de responsabilidade.
Olhou novamente para Bonifácio, que não levantara o rosto.
- Por favor não me dês explicações, não quero ouvir tua
explicações, nem gracejos em teu francês de peralvilho. A decism
que tomo quanto a teu irmão também não te faria mal, de forma
que deves procurar agir como um homem de tua idade e origem,
não como um malandro mal-nascido. Toma assento e procura
falar somente se tiveres algo, efetivamente algo, a dizer.
Acompanhou os movimentos de Bonifácio da porta até uma
cadeira, ainda olhou para ele fixamente mais algum tempo. Final~
mente, encostando as pontas dos dedos umas nas outras, os in&
cadores tocando os lábios, olhou para cima como quem busca w
teto o fio da conversa.
- Mas, dizia eu que
sugestões dos presentes,
a decisão, inclusive depois de otivir nó,.
que considero ajuizadas, construtivas
criteriosas, é definitivamente a farda. Sei das terríveis conseqü&i~,
cias disto, até mesmo para o bom nome da família. 0 Exército~
não é uma ocupação honrosa, nem digna de um homem de bem
é coisa do rebotalho da Nação, como se nota, diante dos n=, '
olhos, a cada instante. Nem mesmo a sua função policial ~6 c
prida a contento, pois que mais se amotinam os soldados do
qualquer outra coisa, um bando de desordeiros maltrapilhos
tados à força ou vendidos por quaisquer cinco mil-réis pelos a
tes recrutadores, batalhões de libertos desqualificados, escra
fugidos e estrangeiros de má procedência. Entre o oficialato
mo, não se conhece um que proceda de família ilustre ou ren
da, eis que nenhum aristocrata aceitará farda na família. Mas U,,
casos extremos e, para males extremos, remédios extremos.
única maneira de evitar um destino trágico para esse rapaz d90,
miolado é pô-lo na farda, pois que terá seus desmandos corTigi("~
à força da espada de prancha no lombo ou dos carrinhos de
rentes atados aos pés, que é como no Exército tratam o seu
contingente de rufiões e baderneiros.
Mas, o Exército, Comendador? - perguntou o Maj bW,,,
9,lhães. - Não estará sendo excessivamente rigoroso
ral iz? 0 ilustre amigo já pensou na Marinha, por
336
1
Fxistem excelentes oficiais ingleses na Marinha, a própria ma-
rujada conta com grande número de ingleses. E a disciplina tam-
bém é forte, mas a Marinha, todos sabemos, não pode ser com-
parada ao Exército, é uma profissão enobrecedora. Mesmo os
oficiais portugueses...
- Meu preclaro amigo e compadre, sei bem do que lhe vai
no coração, pois que se trata de um afilhado pelo qual é conhe-
cida a estima que lhe devota o amigo e pela qual sou, como nin-





guém ignora, imensamente reconhecido. Mas a Marinha... -
Estacou, chegou a fechar os olhos à procura da expressão corre-
ta, empalideceu um pouco, pigarreou longamente com a mão fe-
chada sobre a boca. - Bem, sejamos francos. Pensei na Mari-
nha, sim, mas duas causas me demoveram dessa escolha. A pri-
meira é que vejo o engajamento desse moço não só como corre-
tivo, mas também, quiçá principalmente, como punitivo. E vejo-o
bem mais punido no Exército que na Marinha. Em segundo lu-
gar . . . - Empacou outra vez, pigarreou tanto que teve um pe-
queno acesso de tosse, recomeçou a falar com a voz meio estran-
gulada. - Em segundo lugar, dir-se-ia que Patrício Macário, nos
traços fisionômicos e no temperamento, terá puxado - e digo
isso sem desdouro, pois sou orgulhoso de minhas raízes brasilei-
ras, ainda que por via matrimonial - ao lado brasileiro da famí-
lia de Dona Teolina. Nunca tive oportunidade de contar-lhes isto,
creio que nem mesmo os meus filhos sabem, mas a avó paterna
de Dona Teolina era praticamente uma bugre, filha de um portu-
gues, um mateiro de grande nomeada, homem de origem fidalga
transformado em capitão-do-mato por circunstâncias que não
cabe narrar aqui agora, e de uma índia, filha mais nova de um
cacique, que é como chamam os bugres a seus reis e comandan-
tes. Essa índia devia ter o sangue forte, porque atravessou gera-
Ções até Patrício Macário. 0 resultado é aquela aparência aca-
boclada, aquela pele tisnada e quem sabe aqueles modos rudes
e praticamente indomáveis. A avozinha de Dona Teolina, segun-
do me contam, era uma senhora admirável, que se converteu de-
pois de trazida de sua tribo e levou uma vida dedicada à famfiia
e às obras pias. Mas em sua linhagem há de haver, necessaria-
mente, muitos guerreiros selvagens, de onde imagino que Patrício
Macário terá herdado esses traços a que nos referimos, no cará-
337





ter e na aparência. Não desejo, portanto, correr riscos. No Exér.
cito, se recuperado pelo trabalho e pela disciplina e se não for
pilhado por um conselho de guerra a meio caminho, o moço poâ
galgar posições que denigram menos a sua origem. Na Marinha,
ele não preenche os requisitos físicos do oficialato, não crda,
honestamente, que passasse, mesmo granjeando méritos, de tenew
te, ou como lá chamem a mais alta entre suas baixas patentes.
Não, não, o moço vai para a Escola Militar.
- Na Escola Central também se preparam jovens para 0,
Exército.
- Vai para a Escola Militar.
- Terá idade?
- Isto de idade carece de importância, temos amigos 5
cientes para resolver estas questiúnculas.
- A Dona Teolina não se oporá?
- É possível, mas a oposição feminina há de ser semipre el~:1
carada precisamente nestes termos: como oposição feminina. Ao
mulheres, meus amigos, são coração e não cabeça e sabe~,,
muito bem que há mais armadilhas nas blandícias do cor
que nos alvitres frios da cabeça. Dona Teolina haverá
preender, pois, como às crianças, temos de fazer às
aquilo que é para seu próprio bem e não aquilo que d
- Inegavelmente.
- E por isso que convoquei este conselho. Sei que a
são, embora dolorosa para um pai, é correta, mas n~,5,0 q
tomá-Ia sem a audiência dos amigos e da família. Precisamos
pluribus unum facere, corrija-me a erudição do meu caro M
sen~or, se uso mal a expressão.
- Ora, Comendador, queria eu saber tanto latim.
- Bondade do Monsenhor, generosidade de amigo. Bem,
falar em generosidade, receio ter que recorrer a ela ma s u
vez. Certamente os bons ofícios do Major poderão ser úteis pa
o engajamento do rapaz na Escola Militar. Vou mandá-lo~ para
Corte e sem privilégio de espécie alguma. Pagam soldo aos alunwt
- Não acredito. 0 Exército não paga soldo nem a seus merce~,,~,
nários e, quando paga, é uma tal miséria que mal dá para
refeição de seus 300 réis por dia, é pouquíssimo.
- Pois então poderá ter uma mesada pequena, algumas libras
ínuito regradas pelo correspondente. E ao mencionar o correspon-
dente. ocorre-me o pedido de outro favor, desta feita ao meu ilus-
tre advogado, sócio e amigo, Dr. Noêmio Pontes.
- Estou à sua disposição.
- Pelo que lhe fico perenemente grato. É para encaminhar
essa questão do correspondente no Rio de Janeiro. Sei que, entre
os muitos amigos que o senhor tem no Rio de janeiro, haverá
suficientes homens de responsabilidade e caráter para desempe-
nhar essa função.
- Ah, sim, naturalmente. De imediato, ocorre-me o Dr. Ama-
rílio Veiga, talvez o Dr. Benjamim Furtado, talvez...
A decisão estava tomada e ratificada, os pormenores continua-
ram a ser discutidos, agora tão lentamente quanto o fim de tarde
chegando, Amleto recostado em sua cadeira com a expressão
satisfeita, Vasco Miguel levantando-se um pouco impaciente pela
hora de sair, o Major Magalhães entregue a graves pensamentos
com o olhar perdido janela afora, o monsenhor imaginando se
seria convidado para jantar, Noêmio Pontes tomando notas de
nomes e endereços, Clemente André preocupado com sua batina
nova que devia chegar a qualquer momento, Bonifácio Odulfo
silencioso, revoltado, humilhado, rancoroso - como odiava a





maneira de viver de toda aquela gente, como tinha horror ao
dinheiro do pai e tudo o que ele representava, como um dia todos
se curvariam a seu gênio, como um dia aquela casa só existiria
para o povo cultivar sua memória!
i

338
339





1 1
11
Fonte do Porrãozinho, 23 de junho de 1842.
L eléu se escondeu atrás dos dendezeiros para chorar e pensou
que esta vida é doida, doida, doida. Como é possível a pessoa
assistir a si mesma chorando? Não sabia, mas era o que estava
acontecendo - ele se vendo com o rosto contorcido, o peito so-
luçando, a garganta doendo de tanto gemer estrangulada, as lá-
grimas descendo que nem chuva apesar da força que fazia para
estancá-las, apertando as palmas das mãos contra os olhos. Talvez
tivesse chorado quando era menino, mas não se lembrava, porque
negrinho cativo, sem mãe nem pai nem protetor, desde cedo
aprende a não chorar. E agora isso, assim sem razão, bem em
cima da hora da festa, todo mundo chegando, as fogueiras ace-
sas, as bandeirolas tremulando, o milho assando, os foguetes de
lágrimas já prontos para subir para o céu, os balões embuchados
e armados, a maior véspera de São João jamais vista por todas
aquelas bandas, a maior festa de São João do mundo, como ele
mesmo dissera no largo do Arraial, ao convidar todo o povo para
comparecer à Fonte do Porrãozinho, onde, depois das folias, ha-
veria o banho do grande santo, primo de Nosso Senhor. Quem o
visse assim chorando ia até pensar que era por causa das despe,
sas, todas por conta dele - e riu no meio do choro, achando
a vida mais doida ainda. Mas depois de rir voltou a soluçar tão
forte que não conseguiu ficar sentado e caminhou um pouco em
direção à cabeça da fonte. Tinha que parar com aquilo, afinal
341





114"11
era o dono da festa, estava até vestido de São João Batista
para fazer palhaçada, enrolado num couro de cabra que ia dizer
que era de camelo como o do santo e levando seu velho porre%
de caboatã para servir de cajado. E também a festa não era
para alegrar a menina, como é que se pode alegrar al~
ainda mais uma mocinha inocente, com este chororô danado e
estes uivos mais parecendo os de um cachorro largado da mãe?
Encostou a mão num dendezeiro, olhou para cima e per.
guntou a si mesmo que recurso havia. Que recurso hav".
mesmo para um'homem que tinha visto tudo da vida? Nenhun~
era o que tudo indicava. Sua menininha, que, quando enrolava
os bracinhos no pescoço dele para tapeá-lo, lhe trazia um calor ao
coração que nunca tinha sentido e uma gratidão pela vida que
nunca achara possível e um maravilhamento de cuja existência
nunca suspeitara, sua menininha, que ele queria prote'gcr de
todo o mal do mundo e era o próprio rosto da alegria e da cow
fiança, tinha sido roubada. Não o corpinho, apesar de mirrado
pelo fastio que nunca mais a abandonara desde o dia citi 4",
lhe assassinaram a mãe. 0 corpo ainda estava lá, mesmo que o
deixasse triste e às vezes sem dormir com medo de que ela 5
casse doente, mesmo sem o viço que era a primeira coisa ~,
tida na presença dela. Mas o espírito fora furtado, levado c"
bora, desterrado para algum lugar de onde não havia meio de
recuperá-lo. Os materiais da escola, que ele havia trazido eã,,.
grandes pacotes separados e enfeitados, para ela passar a noin,,
se divertindo em abri-los e arrumá-los, ainda estavam no 11 1
lugar onde os deixara, aberto apenas o das lousas, de onde um~
dia clè tirara uma para tentar animá-la, sem que ela ao 11~1
a olhasse. Tudo o que lhe ocorreu ele fez, até levá-la pua
passear na Bahia e em qualquer cidade ou vila onde houv~
uma festa de largo, uma quermesse, uma comemoração, até pffi*
às mães de meninos livres para que eles lhe fizessem comp~
todo o tempo, tudo, tudo ele tinha feito, mas nunca mais ou~
o riso dela, nunca mais a vira correr por ali de pés dew~
fazendo algazarra, nunca mais notara qualquer brilho nos 0~
dela, nunca mais escutara dela histórias de reis, príncipes,
cesas e heróis, nunca mais a vira nem olhar para os livros do".,
estampas que com tanta dificuldade procurava aqui e ali
342
4
iiie dar. Ele mesmo também vinha perdendo o interesse na vida
e nos negócios, não queria saber mais de nada, era obrigado,
ç,,as muitas noites insones em que se levantava na ponta dos pés
para ver se ela estava dormindo bem e respirando, a fazer dis-
cl,rsos a si mesmo para não se abater de todo e prosseguir com
a luta da vida.
Nem mesmo isso conseguia agora, chorando a mais não poder
apoiado no tronco espinhento do dendezeiro coberto de ervas
trepadeiras, queria sua meninazinha de volta, para que queria
dinheiro, para que queria qualquer coisa, se não era mais Vô





Leléu, se não tinha mais nada para aprender no mundo, se
fracassara na única coisa de sua vida que não encarara como
trabalho mas como vida mesmo? Pela primeira vez, Nego Leléu
pensou em morrer, imaginou que também precisava descansar,
que a morte era uma coisa necessária e misericordiosa, que virar
nada era melhor que ser o que lá fosse, pois o sofrimento nele
era o de sempre, era trabalho, mas o sofrimento nela não se
podia suportar, matava mais que a própria morte. Apalpou, por
baixo do calção, o esporão de arraia que sem pensar tinha pegado
em casa ao sair, tocou no coração com a outra mão, pensou
como seria fácil pegar aquele esporão e enfiá-lo ali naquele lugar
onde residia o sangue e ir embora de uma vez, talvez morto
acliasse o que perdera, o que jamais tivera, o que lhe foi dado
por tão pouco tempo, o sossego sempre negado a quem só carre-
gava cicatrizes no corpo e no juízo. Fechando as mãos até as
unhas se enterrarem nas palmas, teve grande pena de si mesmo,
vontade de ter alguém com quem se queixar, vontade de ter pai,
mãe, amigos do peito, sentiu-se tão só que viu de perto a lou-
cura, viu como seria fácil perder a razão, como era uma coisa
tão simples quanto atirar-se de uma penha para a escuridão
do abismo.
Mas Nego Leléu se entrega? Entrega não! Sabe como é a
baleia que se apelida toadeira? É o mais valente ser vivente
existente, que recebe pelo flanco as arpoadas, que se vê cercado
dos inimigos mais mortais que qualquer bicho pode ter, que vê
o mar virado num espinheiro fatal e então, levantando o dorso
como um cavalo de nobreza, sacudindo a cabeça como um com-
batente que não se rende, não dá ousadia de bufar, não dá ousadia
343
1





de gemer, mas segura o ardor de tantos dardos lhe mordendo ag
costas, manda que seu sangue lhe seja fiei naquela hora e, com
um arranco a que nada na Terra pode resistir, estraçalha o que
lhe estiver à frente e leva barco, leva gente, leva corda, leva
tudo, num carreirão de espuma e água pelos sete mares, va,%,.
cendo assim quem quer que pensa que é vencido aquele que
vencido não vai ser, pela força do orgulho e da resistência. Eu
não sou nada, pensou Nego Leléu aos poucos se virando numa
baleia toadeira, sou um negro safado que nunca ninguém quio,
mas eu sou eu e não há esse trabalho que eu queira trabalhar
que eu não trabalhe e esta corda eu puxo, este barco ini~
eu destruo a topetadas, neste mar eu mergulho, vamos lá,
Leléu!
E já saiu do dendezal com um riso destamanho, quase um
avejão da mata, a cara molhada no esguicho gelado da fon¥
para combater lágrimas com lágrimas, rodando para lá e Pua
cá, remoçado aos vinte anos que nunca soubera ter tido, COR
o cao mesmo, com a macaca, com a cachorra, com a zorra, com q
esprito, com a bandeirada da porra do infinito da força da co~'
tentação da coragem do homem que não pede penico a nenhum#
filhos das putas, dois Leléus, um bom e outro ruim que
peste, uma mão agradando e outra sentando o cacete, um
da cara rindo e o outro fazendo careta,, um lado do co
despejando amor e o outro rubro de ódio, uma orelha ouv
e a outra surda, uma perna fugindo e a outra correndo dentro,
peito estufado, a cabeça solta do pescoço cuspindo fogo, os ~
tes capazes de desmatar a ilha à força de mordidas, a saut
de Defé dizendo como num batuque que ela estava ali
que mais vale a vida do que a morte, mais vale brigar do
se conformar, mais vale o amor que luta do que o que
abriga, mais vale a guerra santa do que a paz doente.
Quem é aquele que lá vem lá longe, todo serelepe, lé
fagueiro? Ora se não é Nego Leléu, couro de cabra mu
curtido, cajado de caboatã muito bem cortado, sandália
muito bem sentada, sorriso safado muito bem salienta
rompendo dos matos para festejar! E vamos, meninas,
santo se aborrece, acorda João! Acorda, João, desce a f
do firmamento com tua mãe Isabel, teu pai Zacaria, teu~OIP
344
dono do Céu, tua refeição de gafanhoto e mel, tua mão que
iii~ipa a própria água, teu carneirinho da inocência, acorda, João!
Acorda, São João, vem cá ver tua festa, vê cá como te acendem
( lume do Espírito Santo que gira pela cabeça de Jesus como
as mariposas em torno da luz, chega, São João, vem vencer
salomé, que bailando mata, que bailando morre!
- Ouc é que essa menina está fazendo aí toda jururu, se
assunta não? - perguntou Nego Leléu, saracoteando ao balido
da sanfonina de Mestre Pautério. - São João não quer ver
tristeza! Tudo isso é fome? Até ensopadinho de tatu tem, que
São João foi buscar mais Luiz Tatu! Tem canjica, tem lelê,
tem mungunzá, tem pamonha, tem milho cozido, tem milho assa-





do, tem mindubim, tem fubá, tem chá-de-burro, tem tudo!
De mãos nas costas, tocou com a ponta de um tição no pavio
do rojão que trazia escondido, fingiu que se assustou com o
chiado, rodopiou como quem procura o que houve atrás, se
sacudiu todo, girou o braço e soltou o rojão - viva São João!
Dafé, sentada junto a duas outras meninas que como ela não
estavam dançando com o resto do bando folgazão, ajeitou sua
guirlanda de flores e sorriu de leve, sem mostrar os dentes. Mas
riu! - pensou Leléu. Eta, viva São João!
Pegou a mão dela, saiu dançando e cumprimentando um,
cumprimentando outro, foi para o meio de uma roda, pulando
de um pé para o outro.
- Muito bem, minha gente, chegou São João, quem não for
compadre que se acompadre!
- Oxente, gente, quem já viu São João preto dessa forma?
- Foi muito sol, meu filho, han-han-han-han!
- Faz um milagre, meu santinho!
Cadê a bacia? É água vilge? Deixa eu espiar! Hum! Hum!
Ah-hum! Non ]e quero dízeu, minha filha, coisa péssima aqui
dentro dessa água molhada, coisa mesmo muito da péssima!
- Conta, conta, meu santinho!
- Xô tirar essa pele de camelo, xô me botar à vontade. Hum-
hum, coisa péssima, esse menino!
- Isso é pele de camelo, meu
santinho, bode se chama camelo?
- Bode se chama camelo,
santinho? Na terra do meu
345





Camelo se chama bode,
Pergunta prá tua mãe
Se é verdade que ela ...
He-be-he-he, colé a rijlia de bode,
mô fis?
õ santinho, tá escrito aí na água tudo que a Lua disse?
Tá escrito aqui na água
Tudo que a Lua disse,
Crusive tua familha
Vivendo na barreguice! He-he-he-he, progunte que eu té digol
Xergue nágua meu destino, santinho!
Espiando aqui na água,
Vejo bem o teu destino,
Que é carregar água em cesto
E roê bêra de sino!
Será que é hoje que eu me caso, bom santinho?
Té digo toda a verdade:
Casá non casa hoje tu,
Porém, com boa vontade,
Hoje arguém te come o Piu-piu-piu, espia o passarinho
pra distrair a idéia!
Anfio o faca na bananeira, pro mode saber a letra
nome da minha amada?
Enfiá possíbile é,
E é possive enfiá,
Só que é no fiofó
De quem ousa proguntá!
Cendo vela meia-noite, pra
diz meu coração?
Cenda a vela, meu menino,
Para ouvir o coração
Repetindo a verdade
De que seu pai é ladrão.
saber se é verdadeiro o
E tome lá, tome cá, tome acolá, que beleza é um b~arr~
pilado e durinho, sem subir poeira quando se festeja e baiw "'c'
346
~,-iva Deus que é santo velho e São João que é velho santo,
~,4rito novo é engabelado até por frade safado, êta cacete, aperta
a concertina, Portério, vamo lá, mÔ mestre? E tonque-tonque-
-,)iique, é um, é dois, é três, pulando essa fogueira vamos com-
padrar de vez, êta iu-iu-iu, vemaria, aí, aí, aí, aí! Quem ficar
parado me ofendeu, sicutou? Tá muito certo, quero que tu
coma, quero que tu baile, quero que tu folgue, quero que tu pule,
quero que tu ria, quero que tu saia sem falar mal do dono da
festa, quero que tu chegue em casa coá barriga cheia de comida,
ca cabeça cheia de licor, cas partes cheias de ardor, pois para
ardor temos a água da Fonte do Porrãozinho, a qual foi dada
a este povo pra muito bem se lavar na noite fria do ano, que é a
noite do Batista, cujo foi quem alisou a cabeça do Senhor e lá
no rio lordão tornou a água sagrada, lavando nela o corpo





santo que o mundo ia sujar.
Se Leléu nessa noite trabalhou? Mas como trabalhou o Nego
Leléu! Como ciscou, como zarabandou, como parecia que era
cinco, era seis, era vinte, como falou, como disse besteira, como
se mostrou, como se manifestou, como apareceu em toda parte,
como ficou a cara escrita de todos os santos festeiros, como
teve uma palavra para tudo, como foi artista esse Nego Leléu!
Que amor teve esse Nego Leléu por sua neta netinha netona,
nessa noite em que resolveu que não deixaria que ela parasse
para pensar, em que ia dar corda, tanta corda ao corpo dela
que a alma não ia poder resistir e, como de fato, não é que ela
também passou a dançar e a pular, saltou fogueira de mãos
dadas com ele, comeu de quase tudo que havia, soltou fogos
e ajudou com os balões, cada um mais bonito do que o outro,
virando estrelinhas no céu do arraial? Só quem ficou mais feliz
do que ela foi Leléu, que quase reza ao santo de agradecimento,
por lhe ter sido devolvida sua netinha igualzinha ao que era
antes - não é que existe felicidade neste mundo?
E ele estava quase estourando como uma pipoca de tanta feli-
cidade, quando, voltando com uma bilha de água da fonte para
jogar nos que ficaram com medo de se banhar na fonte, en-
controu-a tremendo, o queixo batendo, os olhos arregalados, os
braços apertados contra as costelas, as pernas dobradas como
quem queria ajoelhar-se mas não podia. Atirou a bilha para
347





o lado, correu para ela, mas não conseguiu que falasse logo.
teve quase que niná-la no colo para que, finalmente, a mão
levantando-se tão devagar que parecia carregar um peso, dá
apontasse para uma das fogueiras, em torno da qual quatro
rapazes brancos se destacavam no meio das moças. Estavam
brincando muito, um deles tocando uma espécie de cavaquinho
e os outros dançando em redor do fogo. Leléu sentiu um frio
apertado deslizar do peito para a boca do estômago.
- São eles?
- São.
Chegou a dar um salto, segurando o esporão para puxá-lo com
a bainha que o escondia. Mas não só Dafé quase caiu quando a
soltou, como ele imediatamente raciocinou que, se os atacasn
ou matasse ali, ou mesmo se aguardasse uma oportunidade logo
depois da festa, com toda a certeza viriam prendê-lo, torturá-lo
e enf orcá-lo.
Não - disse, falando consigo mesmo. - Não vai ser assim.
E, com grande carinho, pôs a pele de cabra nos ombros dela
para agasaihá-la, carregou-a devagar todo o caminho de volta
à casa, depois de explicar a Mestre Pautério que continuasse a
festa tocando com sua orquestra, porque ele tinha de ir pai*'
casa levar a neta, que ficara doente de repente. Ao chegd.,~
lui .
acordou as duas pretas velhas que dormiam no quarto do ( intak,,.
disse-lhes que fizessem um chá para a menina e cuida
? ue ficasse bem coberta e bem atendida. Enquanto as ve
iam buscar as folhas e acender o carvão, perguntou a Dafé
tinha melhorado, ela respondeu que sim, mas estava ouvi
como.que estalos, zumbidos e assovios dentro da cabeça.
- Isso não é nada - disse ele --, passa logo. Vou man
Sã Benvinda cortar duas rodelinhas de batata-do-reino crua
botar aqui nas tuas fontes, por baixo do cabelo, que
dor de cabeça passa logo. Tá com frio?
- Não.
- Então está bem. Olha, presta atenção no que te d
porque é muito importante que tu me ajude nisso, depois
conto o que é. Eu vou dizer a Benvinda e a Nonoca que Voe',"
dormir aí no quarto de junto, que qualquer coisa elas me C)
mem. Mas não deixe elas me chamarem, tás ouvindo?
1 ~l
348
Eu tou com sono.
Pois muito bem, pois ótimo, pois então tu vai dormir.
Mas, se acordar, tu não deixa que elas me chamem, prestou
atençào? Entendeu bem?
- Entendi.
T-eléu encostou a cabeça na dela um instantinho, deu-lhe um
cheiro no rosto, ajeitou as cobertas e saiu para dizer às velhas
que tinha bebido muito licor, estava cheio de sono e ia dormir
no quarto pequeno.
Mas, qualquer coisa, me chamem, hem? Se ela pedir que





me chamem, cês me chamam, bem?
- Vai precisar não Só Leléu, chazinho de melissa resolve
isso, daqui a pouco ela tá boa. Isso é estôngamo.
- 'Fá certo, então se despachem com esse chá, que ela já
quase-quase que está dormindo. E botem umas rodelinhas de
batata crua nas fontes dela, pra chupar a dor de cabeça.
- Podexá, vá dormir descansado, nós cuida, podexá.
- Bom, 'ntão boa noite.
Entrou no quarto pequeno carregando um fifó de alça, en-
costou o lume nos quatro pavios da aranha de ferro pen-
durada do teto e foi remexer nos guardados. Vestiu um calção
e um camisu, meteu na cabeça um chapéu de palha, enrolou
na cintura um boldrié de couro largo que fazia ponta do lado
esquerdo para embainhar a peixeira, experimentou o fio da faca
com o polegar e a meteu de volta na bainha, viu que o esporão
também estava no lugar, pegou do porrete, olhou em volta para
ver se não tinha esquecido alguma coisa, acachapou com dois
tapas o chapéu no cocuruto, abafou os fogos da aranha, co-
briu-se com uma manta de pano preto e pulou para fora, saindo
quase às carreiras de volta 2o Porrãozinho.
Resolvera tudo tão rápido que nem pensara direito no que
ia fazer e, escondido de novo do dendezal, mas desta vez não
para chorar e sim para ficar de olho nos quatro brancos, per-
guntou a si mesmo se tinha certeza de que queria matar aqueles
homens. lá muitas vezes tinha pensado em matar gente, certa
feita chegara a furar o braço de um, mas sempre achara que
o melhor era resolver as coisas de outra maneira, matar só em
349





-~m --~
caso de necessidade verdadeira. Como agora, como agora! Sed
que é isso o que se chama de ódio mortal? Deve ser, porqug
se sentiu cheio de peçonha contra aqueles que roubaram a ~-
de sua menina, lhe tiraram a alegria e a vontade de viver, en.
cerraram a festa que ia ser salvadora somente por aparecerem
lá, tinham tanta arrogância que voltaram ao lugar onde tinb~
assassinado Vevé, porque sabiam que nada lhes podia aconw
cer, não acontecia nada a branco que matasse preto. E deviam
estar pensando em fazer mal a outras pretas, as que não fossem
descaradas ou medrosas o suficiente para atender a tudo o que
eles quisessem.
- Bem - pensou Leléu -, elas podem ser gado, essa ne"
lhada toda pode ser gado, esse pode até ser o regime do mundo,
mas desta vez o regime é meu.
já era quase madrugada quando os rapazes saíram de uma.
capoeira na companhia de algumas pretinhas, todos os quatrd
cambaleando e rindo alto. Leléu se aprumou, ficou atentandá
na direção que tomariam, porque o barco deles tanto
estar amarrado na Ilha dos Porcos quanto no porto do Balacw,
Demoraram mais do que qualquer um suportaria esp
quela situação e ele quase se atira em cima deles de
maneira, não se agüentando mais de impaciência, m
mente eles deixaram as mulheres, que tinham de fi
pegar o cito logo de manhã, e saíram devagar, indo
sem pressa pela trilha que levava com certeza à Ilha dos Po
Leléu arrodeou por trás do dendezal, se embrenhou pelo
fechado para passar-lhes à frente e, quando eles chegaram,
estava maiocado perto da embarcação, esperando alguma
acontecer, para que pudesse saber como agiria. Barco de bra
aquele, todo pintadinho, palamenta nova, casco burnido,
era,r
qualqug'
as finw~
car
e
desc-nllo~
r
afilado será que tinha tripulação? Leléu se afligiu,
por
se houvesse tripulação, como era que ele ia fazer?
Quase se esquecendo de respirar, esticou o pescoço por cimo$,,
do saveirinho atrás do qual se escondera, viu com alívio qué
não havia mais ninguém no barco. Agora tinha somente *' .
esperar que resolvessem a discussão em que já chegaram env~,,,
350
1
1
,~idos, pois dois deles queriam aproveitar a maré para zarpar
naquela hora mesmo e os dois outros achavam melhor dormir
e partir de manhã. Cruzou os dedos pedindo sorte pela primeira





vez na vida. Melhor que fossem dormir ali mesmo, bêbados
como estavam, porque tudo seria mais fácil, não haveria pro-
blema em imaginar um jeito de dar cabo deles. Mas um deles,
de barba crescida e aparência de mais velho, acabou por impor
sua vontade. Iriam imediatamente, já era sexta-feira, tinham saído
para voltar no mesmo dia dizendo que foram a uma pescaria,
quem estivesse com sono que fosse dormindo no barco, ele içaria
o velame e cuidaria do leme.
Leléu cuspiu de lado - merda! E agora? Talvez nunca mais
os visse, talvez fosse a última oportunidade de ter sua vingança,
será que não seria melhor cair em cima deles agora mesmo?
Alisou o porrete, pôs a mão no cabo da faca, contraiu o corpo
todo. Agora ou nunca! Com cuidado para não fazer barulho ao
caminhar pela beira d'água, começou a contornar o saveirinho
muito devagar, sem saber ainda como iria agir. Não se impor-
tava com a idéia de vir a ser ferido ou morrer também, mas
se angustiava em pensar que algum deles podia escapar. Bem,
será a sorte, o destino.
Mas, se algum deles escapasse, não procurariam Dafé para
maltratá-la ou matá-la também? Decerto que procurariam. E ele
podia desamparar a menina? Não podia. Parou numa agonia
enorme - e agora, e agora e agora? Ia ter de desistir, havendo
chegado tão perto? Como é que não aparece uma idéia, como
é que tudo se perde desta forma besta? Espiou por cima da
borda do saveirinho outra vez, eles estavam embarcando. Iam
Pegar a barrinha, contra a maré que ainda vinha de enchente,
iam bordejar a ilha rente à praia, pegar o canal e certamente
tomar vento de popa para a Bahia. Desgraçados! Leléu se pre-
i parou novamente para atacar às cegas, deu dois passos e
Não! Não! Mas é claro, é mais que claro, coisa mais clara não
Pode haver! Não iam passar pertinho da praia e do apicum?
Deixe comigo!
Fazendo um grande esforço para não permitir que a ansiedade
o fizesse apressar-se e levantar barulho numa hora em que até
um suspiro alto se ouviria, ficou quase de quatro e, tão lenta-
i
351





mente que lhe doeram os músculos da perna e da barria-l--,-.~,
conseguiu ir com água até o joelho para a quebrada da
que o ocultaria de qualquer visão do outro lado e, lá cheg:::~*.,1
disparou feito maluco pelo apicum abaixo, na direção do
do Baiacu, por onde eles teriam que passar.
Desgraçados, tomara que a cachaça pegue mais as cabeças
do que já pegou, tomara que demorem bastante, demorem 1
para içar as velas e manobrar pela barrinha! Correndo com,
bofes se esgüelando boca afora, só o pensamento da necessi
de trabalhar direito conservando a vontade de correr e d
força a pernas que queriam desabar e a um coração que
tinha mais para onde bater, avistou de longe a enseada do
as canoinhas de pescadores encalhadas como uma fileira de
xes escuros, já começando a se soltar da lama pela forç
subida da maré. Passou rente à horta do velho Perelepe
parte que tinha sido cercada para fazer chiqueiro, encostou-se
mourões frouxelengos e, sem saber direito por quê, sem t
de pensar e se sentindo tonto da falta de ar, encostou o om
na cerca, abriu um rombo, pulou por cima de uma ruma
bacorinhos, tropeçou na porca, empurrou quase caindo a
do telheiro e apanhou um enxadão enferrujado que sempre es
encostado ali. Achou-o até mais leve do que pensara, junt
ao porrete sobre o ombro esquerdo, continuou a correr par
canoas. Escolheu uma das menores, embarcou nela o enx
e o porrete, foi às amarrações vizinhas, cortou mais de dez~
ginando que muitas das canoas se perderiam na correnteza.
à que tinha escolhido, saltou para bordo, começou a
para. fora.
Estava até esperando havia bastante tempo, com a poita am
à saída da barrinha, quando a vela do barco dos brancos at
tou por trás das gaiteiras mais altas. Escondeu a manta p
no buraco da popa, pegou o enxadão e, com dois golpes fo
da ponta picareta, abriu um buraco no fundo da canoa,
começou a fazer água devagar. Arrumou seus trens junto
pés, esperou que estivesse à vista dos brancos e começou a ab
os braços e a gritar como um náufrago desesperado, um
frago trôpego e frágil, pois resolveu aparentar ser bem id
352
o barco se aproximou da canoa, dois dos rapazes o viram,
uni deles manobrou para perto. jogaram uma corda, baixaram
a escadinha, ele subiu, levando até mesmo o enxadão para o
barco, enquanto a canoa adernava.
- Mas para que esse velho quer essa picareta? - disse um
deles, meio divertido, meio irritado.
- Se eu ficar sem esta, não posso comprar outra, ioiô - res-
pondeu Leléu com a voz trêmula. - Agora então, que eu perdi
a canoa, só vou poder contar com isto pra poder mariscar um
cernarnbizinho.
Beijou as mãos dos dois, curvou-se em mesuras, rendeu gra-
ças aos Céus por atender as preces de um pobre preto velho
e mandar-lhe a salvação por intermédio daqueles quatro arcanjos,





não sabia o que fazer ou dizer para mostrar gratidão. 0 homem
que reclamara do enxadão mandou que ele calasse a boca, per-
guntou se sabia pilotar um barco daqueles, era a mesma coisa
que um saveiro. Leléu respondeu que sim, naturalmente, aquilo
era coisa que fazia desde a infância sempre fora navegador e
pescador. Eles queriam, dormir, era~ Estava se vendo - he-
he-he! - que os ioiozinhos haviam ido bem à uca, razão tinham
eles, a mocidade é uma só e da vida só se leva a vida que a
gente leva - ih-ih-ih! Mas tem uma hora em que o corpo só
pede descanso, é ou não é? É assim que a gente fica pronta
para outra, é descansando e se alimentando bem. Podiam deixar,
não era para a Bahia que estavam indo? Pois ele serviria de
piloto, era o mínimo que podia fazer como prova de gratidão,
lá na Bahia daria um jeito de voltar, essas coisas sempre se
arranjam.
0 vento soprava fraquinho, Leléu manobrou o barco na di-
reção do canal. A maré, ainda bem baixa, fazia com que pas-
sassem rente à praia a boreste e, a bombordo, junto à coroa
quase toda descoberta, as marcas das ondas na areia meandrando
até onde a vista alcançava à luz da lua. Olhou para os quatro,
todos roncavam, dois à proa, um à meia-nau e o outro ali per-
tinho dele, se esticasse muito o braço poderia tocá-lo. Amarrou
a cana do leme, levantou-se, viu que o barco embicava na di-
reção ce ta e sacou a peixeira. Com muito mais facilidade do
qtie havia antecipado, inclusive porque todos eles dormiam de
353





cara para cima com as gargantas expostas, foi de um em um e~
num só golpe para cada, cortou-lhes os pescoços sem f"
barulho. Em seguida desceu ao fundo do barco e cavou a&
buraco na madeira de mais ou menos meio palmo de diâmetro,
por onde a água começou a entrar. Deixou de lado o enx~.
pegou o porrete, lavou a faca na água, cortou a corda da cargi&,
gueja da vela grande despencando-a de uma vez, olhou
torno e mergulhou no mar, bem no instante em que
começava a passar pela parte mais funda do canal.
pequena distância até a praia, ficou olhando o barco,
o b"
Nadou
que C¥k.
vez mais depressa ia descendo para o fundo do canal, onde,
certeza, jamais o achariam - como jamais acharam nenhum
outros que afundaram ali, na lama espessa, 40 braças abaixo
quela água lisa como uma lâmina. Examinou o céu, viu que daí
pouco ia amanhecer, era hora de se apressar para voltar çç
Outeiro, antes que as velhas descobrissem que ele não es~
lá dormindo.
Ponta das Baleias, 3 de novembro de 1846.
Enquanto tomava banho de cuia na porta da cadeia que
para o quintal, o carcereiro Manoel Joaquim, velho, sem
tes, bigode cobrindo a boca e um culhão rendido de lfil~
do tamanho de uma abóbora em que batia para sublinhar
ponto ou outro, fazia um discurso. Exaltava-se contra a
de ordem que hoje em dia impera e contra o baixo quilate
homens públicos, os quais nem chegam aos pés dos de ant
aqueles, sim, a quem fazia gosto servir, não esses fidalgotice
agora, esses comerciantezinhos cada vez mais atrevidos e
negros atuais, a que só falta quererem ser chamados de s
Com dificuldade, por causa do grande volume entre as
nas, andou nu e molhado como estava até a cela de
que fora acorrentado de pés e mãos à parede e não ti
dído sentar-se desde o dia em que o puseram ali. 0
olhou com desprezo,- pigarreou e cuspiu.
- Um negro safado como tu, tomando ousadia, falsifi
papel, fugindo do senhor em abuso de confiança, um
354
,~f
como tu não estak a ai aaç)ra, comendo dias vezes por
klo bom e do melhor e no conforto de unia celazinha quente
como ti,-)çl têm uni c~isa. Estava
no tronco, na chibata, que era para esquentar o lombo e
ai,,,~cíider!
\ olti)ti ao quintal, copiecou a enxugar-se com urp, pano imundo.
,~ilda meio molliado, pôs as calças frouxas que era obrigado a
por causa da doença, vestiu a camisa e pendtirou a casaca
iiiiiii cabide de parede.
-- Muito bem - disse. - Tua sorte acabou. Não é mais nem
domingo nem dia santo e vem cá o Senhor Capitão Teófilo,





teu legítimo senhor, para reconhecer-te e dispor de ti. Não
creio que escapes sem uma boa tunda ou até coisa pior, coisa
bem pior. 0 Senhor Capitão Teófílo é homem muito bom, bom
dejiiiiis até, mas não vai deixar uma coisa como esta passar em
brancas nuvens, é preciso dar o exemplo.
r-,)i até uma ba;rica de água, encheu um balde, jogou a água
en,, cima de Budião.
-- Dois ou três dias aí e já fedes a uma matilha de cães
sai-neiitos. Acredito que a África há de ser a terra mais fedo-
rciita que existe, com tua raça a empesteá-la. - Jogou mais
uns baldes d'água, queixou-se de que os sinos da igreja muitas
~,ezes não batiam nas horas certas, reclamou de não ter verbas
nem assistentes e ser obrigado a cuidar de negros fugidos. - An-
tes fosse porqueiro! Aqui não temos nem as ferramentas mais
coniez~nhas numa cadeia pública, não temos nada. Para não
dizer que não temos nada, temos isto!
E!--ticu uma enorme palmatória de madeira escura, os cinco
furos dispostos em cruz como de costume, um lado liso, outro
esculpido em pequenas saliências, parecidas com preguinhos
roml)udos.
- E temos isto! - continuou, os olhos faiscando, e mostrou
uma chibata de couro terminada em pontas trançadas. - Mas
i-,to se consegue com qualquer muleiro, como, aliás, eu mesmo.
Estás vendo estas manchas escuras aqui? São de sangue, do
sangue de um negro safado como tu. Saiu daqui para o cemi-
tério, revezaram-se quatro em castigá-lo. Era forte, tinha o corpo
ma~sudo assim como o teu.
355





Parecia que encontrava dificuldade em parar de falar e de 9,0
r-nexer. Como não havia nada para fazer, sentava-se e levantwyç,
se, ajeitava uma gaiola de passarinho, sentava outra vez, retor.
nava à gaiola, espanava a casaca com as pontas dos dedos e gg
movimentava sem cessar, enquanto rememorava em voz ntj$4
alta os tempos melhores que tinha vivido, os tempos do respeb,
e da severidade.
Budião, tonto e às vezes desfalecendo para acordar com
ombros e braços em fogo, já não sentia as pernas havi
já não movia os olhos e a cabeça com facilidade, já n
preendia direito o que lhe falavam, já nem mesmo sent
dor, a não ser na cabeça, que parecia estar sendo repu
todos os lados por garras amoladas. Não viu quando
Joaquim sumiu do corredor para onde davam as
e foi abrir a porta da frente, para deixar entrar o
filo, os três soldados que fizeram a prisão e o chefe o
camento, Cabo Lourenço Frota.
- Está morto? - perguntou Cabo Lourenço diante de
dião, depois que Manoel Joaquim abriu a cela para que entr
- Morto nada, Seu Cabo. Isso tá é fingindo.
0 Cabo não se convenceu, levantou uma das pálpebras
Budião, que estavam fechadas, deu-lhe dois tapas no rosto,
pontapé de leve na canela.
- Não se mexe. Há quanto tempo ele está aí?
- Desde que chegou. Mas tem comido. A torrente do b
é calculada para ele poder segurar o prato e comer, eu me
calç:ulei. Ontem comeu feijão com pé de porco, comeu tu
Hoje foi que ainda não comeu, também ainda é cedo. Hoje, eu..~l,
- Solte ele, desamarre.
- Não é melhor chamar os milicianos, não? É um
forte, pode ter alguma reação.
- Solta, homem, está se vendo que ele está fraco. Tern
aí, alguma bebida forte?
- Café? Quisera eu ter café, há quanto tempo que não
café! Que pensa Vossa Senhoria, com a meia pataca que i le
por dia, quando me dão, esperam que me trate a pão-il~e-lá,
dê aos presos café, que hoje custa uma fortuna?
356
~,1
- - Cala a boca, velho, solta o preto!
Sentaram Budião numa cadeira de espaldar largo e espigado.
C-,,rno ele deslizava no assento, tiveram que suspendê-lo e prendê-
1,) zts costas da cadeira quase pelos sovacos. 0 cabo ordenou
que Manoel Joaquim fizesse uma salmoura de ágtia fria do se-
reno e a derramasse sobre a cabeça do preto, molhando-o todo.
Depois, mandou que trouxessem cachaça, apertou as bochechas
de Budião.até que ele abriu os lábios, despejou meio copo lá
dentro, fechou-lhe a boca com um safanão no queixo. Budião
estremeceu.
- Está vivo - disse o cabo. - Anda lá, negro, que tens
a dizer?





Pues entonces - disse Budião. - Bamos a sacarlos todos
de ajá.
Que foi que ele falou?
Uma espécie de língua africana. Ele não é ladino?
En marche-marchel - disse Budião levantando o pescoço,
e o cabo lhe deu uma bofetada.
Escuta aqui, negro ousado, eu sei que tu é ladino, que
tu fala perfeitamente língua de gente, procura te assuntar, não
1 vem com presepada, que te quebro todo!
Budião abriu os olhos, deu com o Capitão Teófilo, quase
sorriu.
Capitão Teófilo! - falou. - Senhor Capitán Teófilo, que
beo? Bolbi de Ia Guerra Farropija, Capitán! Lebamos el Co-
mandante Bento Gonçalbes como nós ordenó e] Capitán Teófilo!
E a Probíncia ...
0 Capitão Teófilo empalideceu.
- Que guerra é essa? - perguntou o cabo. - Ele não fa-
lou numa guerra?
- Deve ser delírio, não sei que guerra é essa, não sei quem
é esse comandante.
- Eu sei, o Comandante Bento Gonçalves, esteve aqui preso
no Forte de São Marcelo, um galego safado, sedicioso, eu es-
tava na guarnição do Forte quando ele fugiu, faz mais de uns
oito anos, mais do que isso.
357





358
i
Não scí, não me lembro.
Ah, esse preto sabe de coisas. Mané Joaquim, cadê
r,,apéis que ele apresentou?
- 'l'ão na ,aveta, na gaveta lá de dentro, Tranquei tudo,
que fico com medo dessa papelada. Aqui não vem ninguém, nil~,1
vem escrivão, não vem autoridade, fico eu com esses papéis mà
saber o que fazer com eles. Vossa Senhoria não quer levar W
dos logo, não?
- Não, Manoel Joaquim, quero os papéis que ele andou apg#"~",~, 1
sentando aí. Vá buscar os papéis, pare de muita convers
Capitão Teófilo começou a andar pela sala, com as m
costas. 0 cabo acreditava que aquele seu preto fugid
realmente de coisas importantes?
- Com toda a certeza. Tenho para mim que é hoje q
cobrimos como se deu essa tal fuga (lo galego.
Crê que falará?
Isso depende. Mas, se o ponho ao garrote, ou fala
termina por morrer. Isto, porém, depende de Vossa Excelên
é preto seu.
0 capitão não respondeu logo, precisava ponderar muito
que ia dizer, Se o escravo dele tinha informações importan
el
não podia, sem despertar suspeitas ou mesmo má vontade, de
de permitir que o interrogassem pelos meios costumeiros.
também, se em vez de morrer falasse, não o incriminaria
paravelmente? E ainda estava pensando no que fazer, qu
Manoel Joaquim voltou com os papéis.
Deixa-me vê-los - apressou-se o capitão, para ant=
se ao cabo. - Faustino, é isso mesmo. Faustino ...
Mas não pôde concluir, porque uma explosão violenta
guida de duas menos fortes, pareceu abalar toda a Terra.
prateleira da cozinha desabou, a moringa de Manoei lo
rolou pela mesa e caiu no chão espatifando-se, a porta do
redor se abriu estrepitosamente, um bafo de ar morno c
ai
até eles. Lá fora, um rolo de fumaça preta, vindo da di
da Fortaleza de São Lourenço, principiou a envolver as ai
e os topos das casas.
- Jesus, Nossa Senhora! É a fortaleza! Está havendo
levante!
1
1
Esqtteceram lá dentro Maiioel Joaquim e o preso, atiraram-
s~.~ porta afora atropeladamente e, no meio da correria e da con-
fttsão que já se formara, entre gritos de mulheres, choro de
criançab e berreiro dos homens, viram que realmente a fumaça
vinha da fortaleza, não só de suas próprias paredes, como de
trás delas, dando a impressão de que o próprio mar estava
em chamas.





A fortaleza arde!
Fomos atacados!
É um levante, é um levante da tropa! Passarão todos ao
clavinote, é um levante!
- Cabo Lourenço, o senhor tem que conter os amotinados!
- Mulheres para as casas, mulheres para as casas, tranquem-
,;e nas casas e não abram a porta para ninguém!
- A guarnição, onde está a guarnição? Às armas! Às armas!
- Capitão Teófilo! A Guarda Nacional! A Guarda Nacional!
- Em nome de Sua Majestade Imperial! Pela ordem, em nome
de Sua Majestade!
- lá disseram que não deixarão vivo nenhum que nao passe
à causa deles e não lhes pague tributo! É o fio da espada para
todos, ai meu Deus'
- Os baldes! Acudam ao forte, acudam ao forte!
Somente muitas horas depois é que se descobriu, entre re-
criminações, mal-entendidos, desaforos e uma confusão que veio
a durar meses, que não houvera motim, não houvera invasão,
não houvera luta - não se sabia bem, aliás, o que houvera.
Ninguém estava na fortaleza àquela hora, a não ser o faxineiro
Preto Máximo, varrendo as folhas da entrada. E Preto Máximo
não tinha muito para contar.- havia ficado ainda mais surdo
depois daqueles três baques que bufaram da parede norte e da-
quela fumaceira que quase o mata; pareceu um barril de pól-
vora papocando, um barril, mais dois barriletes, depois fumaça
de breu com borra queimando; e, de repente, lá estava a água do
mar em chamas, coisa que, felizmente, muitos outros também
viram, para não o terem na conta de mentiroso, mesmo porque
depois se descobriu que era óleo e alcatrão, a que atearam
fogo depois de despejá-los na maré.
359





Alguns afirmaram também que, por trás do fogo, bem recor.
tado contra a Ilha dos Frades, fundeara um briguezinho
as velas arvoradas, o qual zarpou como um corisco, aí uns tr&
quartos de hora após as explosões. E se soube também que ' ao
voltarem à cadeia, o capitão e o cabo não mais encontiraraa,
Budião. Encontraram, abandonadas, as ferramentas que os m
gatadores iam usar para soltá-lo das correntes, mas não prwj,
saram. E encontraram também Manoel Joaquim, preso ao mes=
lugar em que fora acorrentado Budião, só que uma das gri
lhetas, em vez de passada no tornozelo, estava apertada em
torno do pé do ovo rendido. Cego de dor e se maldizendo muito,~
Manuel Joaquim, para crença de alguns e descrença de outros,~,
testemunhou que foram pelo menos cinco os que libertaram o
preto. Entre eles havia uma mulher jovem, alta e fortíssima, a
quem os outros chamavam de Maria da Fé.
Salvador da Bahia, 5 de abril de 1863.
Q ue susto! Entre as folhinhas de cidreira apanhadas pelo c
dor de prata, uma estava embolada e empretecida, idênitic.,7
uma mosca morta. Amleto arrepiou-se. Antes de gritar en
rizado, como já pretendia, resolveu examinar o objeto mais
perto, apesar da repugnância que lhe causava e dos en 1
que teria se fosse realmente uma mosca. Levantou o coa(Eor
direção da claridade da janela, apertou as lunetas no naria~
futucou a folhazinha com a ponta do cabo de uma co
Desgraça, nem de óculos enxergava direito agora. Mas a t",,'
tura era com certeza de mosca, era efetivamente uma in
estava quase seguro.
- joviniana! joviniana! joviniana!
Nega Juvi, o torso despencando, os olhos esbugalhados,
avental torto, o corpo gordão parecendo mais largo que
entrou aflita na sala. Conhecia a regra estabelecida pelo cou--,
dador, segundo a qual a um negro só se chama uma ve;ll
se dá ousadia de chamar duas vezes. Logo, alguma coisa
muito séria havia acontecido, se bem que, depois da morte
laiá Teolina, Ioiô Amleto viesse ficando cada vez pior dos nom~,
360
vos, ,em comer quase nada e com as manias mais esquisitas.
Viu o coador na mão que ele levantava acima da cabeça, trê-
Intil.o de raiva, adivinhou que era coisa da mania das moscas,
a mais terrível de todas, que alongava qualquer refeição insupor-
tavelmente, enquanto ele escarafunchava cada colherada, entre
sobreçs,iltos dos presentes toda vez que esmurrava a mesa, pen-
sando ter encontrado uma mosca. Punha dois negros de plantão
à beira da mesa para espantar as moscas com ventarolas de
penas, ordenava que queimassem cânfora por todos os cantos
da casa, exigia um galho de pinhão roxo e um ramalhete de
crisântemos em cada jarro, fazia rondas pela cozinha e pela copa
para ver se não tinham guardado qualquer alimento desco-
berto e, mesmo assim, estivesse comendo ou bebendo, tinha de
raspar a língua nos dentes para evitar engolir alguma mosca
por engano. Isto lhe tornava as refeições muito penosas, não





só porque demoradas como porque cheias de ansiedade e de
crises de melancolia pós-prandial, q~ando, apesar das precau-
ções, ardia em receios de estar a digerir moscas inadvertidamente
consumidas. E disto também lhe vinha a aparência bicuda que
a cada dia se acentuava em suas feições, pois, para não mostrar a
língua enquanto a esfregava nos dentes para frente e para trás,
era obrigado a conter-lhe o avanço com os lábios cerrados, a
língua lhe estufando a boca e as bochechas como se fosse um
animal vivo aprisionado lá dentro.
- Que foi, ioiô?
- Isto! É isto! Isto é uma mosca! Uma mosca no meu chá!
Nega juvi curvou-se, estendeu a mão.
- Dá licença, ioiô?
Pegou o coador, franziu os olhos, revolveu a folha com o
dedo mindinho, sorriu.
- Não é, não, ioiô, é uma folhinha enrolada.
- Tens certeza, negra? Olha bem, isto me pareceu perfei-
tarnente uma mosca! E, se é uma niosca, sei de muita gente que
vai passar a chá de mosca, sopa de mosca e moqueca de mosca
o resto da vidal
- Não é, não, loiô, é uma folha, o senhor olhe aqui.
361





Desenrolou a folha, esticou-a com cuidado diante dele. Eje
chegou as lunetas para mais perto dos olhos, demorou fitando,'
a folha, terminou se derreando aliviado na cadeira.
- Não é mosca - disse sorrindo. - Não é, com efeito,
não é. Bem, leva esta bandeja. 1
- Não, não. Leva.
- Ioiô não quer chá preto, em vez de cidreira?
- Leva este chá, Joviniana! Se disseres mais uma palav
faço a ti como fiz ao negro Fidúcio: mando meter-te um o
quente na boca para curar o teu desplante! Leva!
Como beber chá, beber qualquer coisa, comer qualquer CO
com o pensamento da mosca a lhe dar ganas de vômito?
fato uma vez, pouco depois da morte de Teolina, ele qu
engolira uma mosca. Contraiu o corpo todo de asco ao 1
brar como acontecera, mas não pôde evitar rememorar PC
samente todos os detalhes. Estava distraído lendo a gazeta, e
prestou atenção ao cálice de vinho do porto que levou il
Sorvido um gole, sentiu na língua aquele volumezinho
joso, como se fosse uma passa ou bagaço de uva. Mas logo
volumezinho tremelicou sobre a língua e ele, com uma ri
indescritível, cuspiu a mosca ainda viva e vomitou na a
até desmaiar de fraqueza.
Apertou o estômago, sacudiu a cabeça com energia,
espantar os pensamentos desagradáveis. Esfregou a língua
dentes, inspecionou-a no espelhinho do porta-chapéus. Sim,
aquela época, a idéia de que pudesse haver uma mosca
comida tanto o inquietava que quase não comia mais. Em
muito, os cabelos agora, ainda submetidos todos os dias
e à babosa, lhe escorriam pelos lados da cabeça escol 1
acentuando as maçãs do rosto protuberantes e as bochechas
vadas. No começo sentia-se bem, mas aos poucos ficava
vez mais fraco, o tronco contabescido, as pernas finas sem
- Mas ioiô não vai tomar o chá?
- Não. Não, não vou.
- Mas o chá está como ioiô gosta, ioiô não comeu nada de"
manhã cedo, está em jejum até agora, o chazinho
362
Zi~ iriãos transl~icidas e definhadas. inlas não lhe desagra-
daka je iodo essa astenia, às vezes muito suave e aliciadora,
c(,mt-. qtiindo lhe vinha uma embriagiiez delicio~,a, acompanhada
fl.cLl~uiiteiiie,nte de rápidas visões de cores, depois, por exemplo,
de Lonseguir tomar um cafezinho com muito açúcar ao ama-
nhece.', E a preferia, certamente, à possibilidade de ingerir
moscas, ameaça que nem a mais estrita vigilância podia estar
segura de contornar inteiramente.
Xlas eram só as moscas? Achava que sim, mas, de tanto dar
a entender a todos que não comia de desgosto pela morte da
mul,~ier. também não deixava de lado esta hipótese. Pobre Teo-
]iria! Sempre quieta, sempre disposta ao trabalho e à solidarie-
dade, sempre de um comportamento exemplar para uma dama.
Não morrera da bicha durante a epidemia, embora tivesse tido





a doença, a terrível febre amarela que diversas vezes matara mi-
lhares. Ou talvez não tivesse realmente tido a doença, pois, no
auge da febre, não expelira as lombrigas causadoras do mal,
como as outras vítimas. Mas sua saúde nunca mais fora a
mesma, sempre uma febre, uma dor, um achaque, tudo agravado
pela ausência de Patrício Macário, que a atingira mais fundo
do que ele havia imaginado. já no leito de agonia, rezava um
terço atrás do outro, implorando aos santos que, como nas
histórias que todas as famílias contavam, lhe concedessem a
graça de ainda ver seu filhinho mais novo antes de expirar. Mas
isso não aconteceu, porque Patrício Macário não conseguiu em-
barcar a tempo para a Bahia e já encontrou a mãe sepultada.
Sim, talvez fosse também por causa de Teolina. E ela fazia
falta, fazia falta de mil formas que antes não ocorriam a ele,
tanto assim que era sincero o choro que, durante muitos meses,
ele escondia pelos cantos do gabinete, quando lembrava dela.
Viúvo, sim, viúvo, nunca imaginara em que vazio se fica depois
da viuvez, nunca imaginara como a vida fica sem jeito, corno os
hábitos se transtornam, pessoas e coisas adquirem novas aparên-
cias. Mas a viuvez era principalmente o vazio, o grande vazio
que lhe tornava as tardes infindáveis e o fazia socar-se no escri-
tório do Comércio até altas horas.
Viúvo e rico. Pensara no início que, com discrição e engenho,
não lhe seria difícil viver uma aventura galante ou outra,
363





armar as coisas de forma que pudesse finalmente conhecer
mulheres. E não foi difícil, só que cedo perdeu o gosto
essa atividade, que lhe saía sempre mais custosa que diverti&,*
Ainda se encontrara algumas vezes com uma atriz francesa
aquela que vira brilhar no palco com tanta beleza e
na verdade bastante mais velha do que parecera, e sua coa*,,'
vência coalhada de manhas, amuos e dengues o enervaiía,
maneira que lhe mandou um falso billet doux em que
tava eterno afeto e gratidão,
fundo foro íntimo que melhor
ria, não podia mais vê-Ia.
Sim, talvez fosse por causa da morte de Teolina. PC)
afinal, tirante isto, forçoso reconhecer que era um homem
Como fazia muitas vezes, recostou-se, tirou as lunetas e se
parou para pronunciar nova conferência mental a si
sobre como era feliz e, portanto, tinha que ficar feliz. Os n
cios agora o tornavam, com certeza, um dos homens ma
da Província, talvez do País, principalmente depois q
pregou na lavra de diamantes verbas de auxílio obtidas
propriedades em regiões de seca. Fez força para lembr r-,,se
tudo o que possuía, como antigamente, mas não conseguiu,
demais para sua memória cansada. Praticamente não havia
guém que não lhe devesse ou não lhe comprasse alguma
direta ou indiretamente. Até mesmo os negros, a quem,
mostrar a coerência de suas posições, vinha libertando na
dida do possível, pagavam, em prestações acrescidas de peq
juros, seus títulos de alforria. E justiça fosse feita, quase
tocava nesse dinheiro, cuja maior parte destinava a uma de
muitas iniciativas no campo da cultura e dos problemas
no caso o Fundo de Estudos Abolicionistas.
Então não era feliz? Seu filho mais velho chegara a
r'
mente a monsenhor como se previra, entregava-se de ( ~l
alma à educação dos jovens, tanto no orfanato das Obias3
quanto no colégio pago que com grande tenacidade e
tência conseguira fundar, mantendo já mais de 300 aluno&,',
mente no regime de internato. Bonifácio Odulfo, chegando
30 anos, ainda o preocupava, mas não tanto quanto antes
não fossem as despesas que lhe dava com a publicação de
mas, por motivos do mais
seria nunca desvendar, não
364
i
cada um dos quais ostentava no frontispício o nome de
urna casa editora diferente, ditado pela fantasia do poeta, até
qtte não lhe causaria o menor dissabor. lá estava acostumado a
que, c(-)mo ele mesmo dizia, passasse meses sem ver o sol, não
tinham mais conflitos e se tratavam até com algum carinho, nas
pouquilssimas vezes em que se viam. 0 poeta tinha seu círculo
de admiradores, a julgar por algumas notas de jornais e pan-
fletos, numa das quais houve quem declarasse o poema Haroldo





e Dandalê um clássico da língua, com personagens dignos de
repousar na estante universal ao lado de Dido e Enéas, Helena
e Páris, Ulisses e Penélope. Não o substituiria jamais à frente
dos negócios, mas o Dr. Vasco Miguel, ainda que escabichador
e lento como um cágado escrupuloso, demonstrava, senão talento,
pelo menos uma mediocridade sólida, tão preciosa no mundo
dos negócios, tão mais desejável em muitos casos do que a
inteligência ou a originalidade. Genro melhor, pensando bem,
nao podia ter obtido e, quando olhava para a figura rechon-
chuda e plácida de Carlota Borroméia, sabia que a família es-
taria bem em quaisquer circunstâncias.
E Patrício Macário - que milagre! 0 preparo militar, a dura
sujeição aos 29 rigidíssimos artigos de guerra do Conde de Lippe,
que Amieto aprendera a conhecer e admirar através do filho,
a vida da caserna e a disciplina, como tudo isso fizera bem
ao caráter do rapaz! Encontrara, sem dúvida alguma, sua vo-
cação. Ainda moço, seu comportamento brioso nas hostilidades
do Prata - onde, dizia ele jocosamente, cada um dos brasileiros
tinha como ponto de honra matar pelo menos um gringo por
dia - lhe havia granjeado o respeito de seus comandantes e
sua rápida promoção ao posto de tenente, qtie ocupava agora,
servindo no Distrito Militar da Bahia. A farda lhe caía bem,
lhe disfarçava a,é a mulatice, ainda mais que ele se dera ao
gosto de adereços imponentes e capas de corte audacioso, de
tal forma que, apenas um tenente, impunha-se como uma es-
Pécie de marechal à tropa e aos oficiais mais pobres, que eram
a maioria. Sua reputação de guerreiro valente e soldado até a
medula lhe acabara de valer a designação, por expresso pedido
do capitão comandante, para servir como segundo oficial na
Companhia especial que seria destacada para liquidar a famosa
365





bandida Maria da Fé, que coptinijav,9 a semear o terror e & ,
desordem em todo u Recóncavo e até mesmo no sertão. No dà.Âtl
seguinte, segunda-feira, partiria à frente de seus soldados pari~al,
essa expedição, em que certamente se cobriria de glória mau
uma vez. Amieto chegava a sentir orgulho dele, apesa de
r
haver superado de todo o embaraço de ter um filho m
vendo-se compelido a dar extensas explicações, toda vez
era obrigado a tocar no assunto.
Portanto, era feliz, não era? Pensou sobre se tinha al
preocupação, alguma preocupação real. Não, não tinha. Era, PC*~
conseguinte, muito feliz. Recostou-se para melhor assimilar
verdade e chegou a sorrir com gosto, chegou mesmo a * al
pensou até em comer alguma coisa antes do almoço, q
tarde, bem depois das onze, por causa da presença d
família. Sim, comeria alguma coisa, ia pensar em algo
talvez um pudim de arroz, talvez uns brioches. Que
havia nada que não pudesse ordenar que lhe trouxessem,
via nada que não estivesse ao alcance de sua mão, e
homem feliz.
Não sabia, naturalmente, o que estava acontecendo, mas,
menos nessas mesmas nove horas da manhã, na casa de
genro, Vasco Miguel. 1,á, depois de chegar da missa, mandar'
meninos aos desenhos e às instruções de boas maneiras com
Clara, a governanta e preceptora inglesa, Carlota Borrorneei
biu para o salão de cima, abriu as portas das sacadas, pren
os
os cortinões, pôs as mãos no balaústre e pareceu admirar s
9~
C~'
rir ai
ue s
e toda
delica
bom,
nao
~ra
i
cristalinos que envolviam a casa de todos os lados, os cam
verdes se alargando por todo o horizonte, o jardim respial,
cendo em todas as cores. Foi até a escrivaninha, molhou a
no tinteiro, mordeu-lhe o cabo longamente, revirou os olhos
bem devagar, curvando o pescoço para o lado como um esc
que quer contemplar sua obra por todos os ângulos, i ~scr
algumas linhas, em letra caprichada e redonda:
Pois então, pois então, pois então!
Pois estão!
Pois então, pois então? Pois estão?
Pois então, que me perdoem, que me desculpem.
366
Pois então!





Eu descobri que, visto daqui, o jardim,
0 jardim e o madrigal, Ia-si-ré-dó!
Não se interessam pela existência!
Pois então! Poisentão, poisentão, poisentão,
A quem me ler. Assinado, CBNFD.
Em seguida sentou-se ao piano e tocou durante mais ou me-
nos meia hora. Levantou-se, abriu uma gaveta do aparador grande,
tirou dela uma faca toda de prata, em bainha também de prata,
que, segundo Amleto, havia sido herdada de um bisavô inglês.
Dirigiu-se a todas as muitas estatuetas de biscuit que povoavam
o salão e, pegando uma por uma sem pressa, cortou-lhes as ca-
beças, repondo-as em seus lugares e jogando as cabeças pela
janela. Quando as negras perceberam a chuva de cabeças
de biscuit caindo sobre o jardim, foram para defronte das sa-
cadas e não souberam do que se passava, até que Carlota Borro-
méia apareceu lá em cima e, inicialmente sorrindo, depois com
fúria, se atacou em estocadas repetidas, tombando ao chão ao
trespassar-se no pescoço. Quando conseguiram arrombar a porta,
já a encontraram sem vida, fazendo uma careta enigmática, den-
tro de uma poça de sangue de odor adocicado.
Amleto foi informado disso no momento em que ia enfiar
a colher no pudim de arroz. Deixou cair a colher, fechou a
boca e disse a Nega Juvi, sem alterar a voz, qtie mandasse os
negros da cocheira aprontarem a carruagem, porque ia ter com
sua filha morta.
367





12
Arraial do Baiacu, 25 de maio de 1863.
Uma só pergunta corre de boca em boca, uma só indagação
freqüenta os corações pressurosos, só uma dúvida é sussurrada
na ilha, da Ponta das Baleias ao Catu, da costa à contracosta,
de barco em barco, de casa em casa, de botica em botica, de
senzala em senzala, de plantação em plantação: será que ela
virá? Mais uma vez se provará sua tremenda ousadia, que os
poderosos consideram desfaçatez, mas o povinlio admira? Mais
uma vez enfrentará, com a prosápia que nunca a abandona,
tropas e armas das autoridades? Ou deixará, desmentindo as
lendas de grandes feitos que todo o povo conta, de prestar
homenagem a seu avô? Ou será até que ela não existe, apesar
d s testemunlios de diversos, os quais contudo podem ser sim-
ples boateiros, dos muitos que abundam entre o populacho?
É noite fechada sobre a ilha, nuvens pardis e extensas, contí-
nuas como se aplicadas a pincel, entoldam um espesso negrume,
dentro do qual nada parece mexer-se. No sopé do Outeiro
Grande, as janelas da casa de Nego Leléu estão abertas, são
laminazinhas retangulares de luz soltas na escuridão e agitadas
Pelo vento morno que de vez em quando sopra, estranho para
esta época do ano. E dessas janelinhas, como ondas fluindo em
andamento regular, sai uma nênia ganida e trenielicosa, puxada
pela voz nasal de uma velha e replicada pelas outras mulheres.
369





Ninguém pode en-lanar-be sobre o que é e,~a catitig~i: são ende.
chas, monódias de deftinto, incelenças aqui ~;empre cantadas nos
funerais, não tanto pelis palavras, pois que nem set-i sentido se
conhece direito, mas pela melancolia em que banham os viventes
e a paisagem, tudo convertendo à mesma tristeza chorosa.
De quem será esse velório lá lonre lobrigado, lamentoso e
lúgubre? Ora se aquele não é Nego Leléu sorridente no caixão,
mais lorde que um visconde, mais guapo que tim marquês, fato
preto bem passado, botas tinindo de lustro, barbinha feita a
capricho, carapinha escovadinha, mãos mui limpas cruzadas so-
bre o peito, camisa mais que cheirosa e engomada, sem cara
nenhuma de morte! Se Nego Leléu morreu? Mas claro que mor-
reu, ou não o teriam banhado, vestido e deitado ali, para ser
enterrado na manhã seguinte. Morreu no meio da soneca do meio-
dia e, como estava ficando cada dia mais menino, pensou que
era um sonho. Foi encontrado pelos outros meninos, com quem
tinha combinado sair para brincar de pelota, empinar arraia
e jogar pião. Viram logo que estava morto, mas nenhum deles
se assustou, porque ele tinha a expressão divertida, talvez ma-
treira, certamente feliz.
Pois seguramente que era feliz, esse Nego Leléu, que foi tantas
coisas na vida e terminou virado em menino. Não fazia tanto
tempo assim que tinha ficado menino, nem aconteceu de repente.
Foi aos poucos, cada dia uma novidadezinha, até que, quando,
se deu pela coisa, ele estava pulando e correndo no meio da
meninada e não queria saber de outra ocupação senão brincar.
Bem reparado, desde o tempo em que a neta morava em sua
companhia, ele já estava um pouco assim. Mas houve aquilo com
a mãe dela, ela ficou afetada, ele passou por muitos desgostos
por causa dela e ela acabou, de um jeito que ninguém lembra
direito, sumindo no mundo, varando os matos e guerreando há
mais de quinze anos, debaixo da condenação de todas as j"
tiças e polícias.
Que tinha acontecido a menina tão bem criada, tão mimada,
tão bonita, parecendo quase branca de tanto trato? Ninguém
sabia, existia até quem se benzesse e falasse no demônio, pois
somente o Inimigo arrastaria uma mulher a vida tão eriçada de
lutas e percalços, dificílima até para um homem. Entretanto,
370
Nego Leléu, ali sorrindo no caixão, sabia de tudo perfeitamente
.;, mesmo criança, nunca esqueceu que tinha sua neta e sempre
se orgulhou dela, só que não podia sair por aí dizendo isso,
p~)is até a ele não chegaram a ameaçar por causa dela, e não
uma nem duas vezes?
E, coitadinha, como havia sofrido depois da morte da mãe!
No dia em que ele matoti os quatro brancos, ela dormiu até
mais tarde, ele aproveitou para ficar no quarto, tirando o sono
atrasado. já perto das oito horas, estava pronto para sair, tinha
guardado peixeira, porrete e esporão, pensava em como contaria
a ela o que havia acontecido, ou mesmo se devia contar, quando a
escutou gemendo. Correu para junto dela, perguntou-lhe o que





sentia, ela outra vez se queixou de estalidos, zumbidos e asso-
vios dentro da cabeça. Mas como, filha, como assovios, como
zumbidos? Ah, ela não sabia, só sabia que tinha essa orquestra
enlouquecida dentro da cabeça.
Orquestra que, daí em diante, pouco se conteve. Muitas vezes
tocava baixo, raras vezes parava, outras vezes desandava sem
limites, fazendo com que a menina corresse para os matos ou
para o apicum, onde finalmente, depois de retorcer as mãos
e mover-se como quem quisesse enfiar-se terra adentro, con-
seguia alívio. Leléu, sem saber mais o que fazer, contou a ela
q~,ie os quatro homens tinham morrido quando o barco deles
naufragara, e ela ouviu tudo sem mostrar emoção. Ele então
narrou como fora ele mesmo o autor dessas mortes, enfeitou
a historiação, fez caretas muito feias para contar em porme-
nores mentirosos a execução dos quatro. Girou para lá e para
cá, pavoneou-se ao feitio de um guerreiro antigo, mostrou-lhe
com o porrete como sabia manejar o sabre e a baioneta melhor
que os melhores generais, disse-lhe que era capaz de derrotar
exércitos, ficar invisível, atravessar paredes e voar sem asas,
abraçou-a para afirmar, esmurrando e mordendo o ar com fe-
rocidade, que nada, nada, nada, nada, nadinha de nadíssima,
nadissimizíssima, podia acontecer a ela, porque Vovô era forte
como 88 elefantes, brabo como 120 leões e abusado como 360
regimentos de marimbondos. Então, muniria munita, cundunga
pleta do zóio verdejante, peudra pleuciosa, frô dó meu jaldim,
,igria dó mó zistença, alents dó mó vivê, desgrachinha de coi-
371





juta safadosa munitinha senvergosa corderrosa butuquinha tutu.-"~--
quinha do biquinho solaminguento? Hum? Tu-tu-turututu'P Bir4~,
bom-bim, Iam-bombém? Acumaé, cadê o sorrisinho do véio? Vét~'~
sola, sola, sola, sã menina, véio sola! Quer que véio sole? Apoà
lá vai - ai-currum-currum-currum-currum, ai-arrum-arru
i~-a
- véio sola que vai se desfazer, menininha non tênzi a do~i
véío solador? Sunlisinho, sã menina, sunrilisinho, vai poder
Mas ela não sorriu e comentou com seriedade que, so os
mens morreram sem saber por que estavam morrendo, de
adiantara a vingança. Era preciso que aquilo tivesse sido um
exemplo, não só para eles como para os outros. Leléu se
tou, quase ficou zangado com ela, perguntou se estava ai
se tinha perdido de vez o juízo. Aquele fora o único j(.
é que ela pensava, pensava que ele podia enfrentar sozinho t
Bahia, enfrentar todo o Brasil? Melhor que calasse a boca e,
agora em diante, pensasse mais antes de dizer besteira.
Ela não pareceu ouvi-lo e disse, olhando para as má
zadas no regaço, que devia haver justiça, que se houve
tiça ele não teria precisado fazer aquela coisa inútil, se
por nada, por uma coisa que nem lhe devolvera a ma , n
lhe apagara a humilhação e o terror, nem ia prevenir a repeti
do que acontecera.
- Aqueles quatro não repetem mais! - gritou Leléu
tado. - Que negócio de justiça é esse, que besteira é essa,
não existe, pode existir no estrangeiro, mas aqui não existe!
Mas vai ter que existir.
Mas vai ter de existir... Quem está falando, é a Im
-n
ratriz? É a Generala Marechala? Vai criar juízo, me inia,
tá pensando que o céu é perto, mas o céu é longe! Só se tu
mudasse para uma dessas terras que dizem que existem,
eu não acredito nem nisso, ainda mais tu sendo mulata,
dizer, preta.
- Não. Vai ter que ser aqui, aqui é que é a minha
- Aqui é que é a minha terra... Qual é tua terra, m
a tua terra é os terreninhos que eu tenho e vou te (lei=
olhe lá, porque mesmo assim, se tu não for esperta, tu
sem nada, tem sempre um para querer tomar.
372
Não toti falando minha terra nesse sentido, tou falando
qu, ILJU1 C minha terra, nós somos o povo desta terra.
- Disseste bem, disseste muito bem: nós somos o povo desta
terra, u Povinho. É o que nós somos, o povinho. Então te
lembra disto, bota isto bem dentro da cabeça: nós somos o po-
vinho! E povinho não é nada, povinho não é coisa nenhuma,
ine diz onde é que tu já viu povo ter importáncia? Ainda mais
preto? Olha a realidade, veja a realidade! Esta terra é dos donos,
dos senhores, dos ricos, dos poderosos, e o que a gente tem de
fazer é se dar bem com eles, é tirar o proveito que puder, é se
torcer para lá e para cá, é trabalhar e ser sabido, é compreender





que certas coisas que não parecem trabalho são trabalho, essa
é que é a vida do pobre, minha filha, não te iluda. E, com sorte e
muito trabalho, a pessoa sobe na vida, melhora um pouco de
situação, mas povo é povo, senhor é senhor! Senhor é povo? Vai
perguntar a um se ele é povo! Se fosse povo, não era senhor.
- E a justiça?
- Que justiça? Mas, homecreia, que justiça? Onde é que tu
já ouviu falar de justiça? justiça é uma palavra dos livros,
isso é que a justiça é! Justiça quem faz para mim é eu mesmo,
eu que não me desdobrasse nem me virasse em oito, em oito
vezes oito, eu que fosse ficar quieto, esperando justiça, que hoje
que a gente estava comendo era capim e olha lá!
- É, mas vai ter justiça. Quem é que trabalha, não é o
povo? Não é o povo que sustenta? Então é o povo que vai mandar.
Leléu não conseguiu manter a boca fechada, ficou de queixo
pendurado, achando que estava ouvindo alucinações. Que idéias
eram aquelas, que é que tinha dado na cabeça da menina?
- Tu não já viu todos aqueles príncipes e reis e heróis
dos livros? E não viu que nem eles conseguiram nada disso,
que nada disso existe, que a vida a pessoa tem de viver com
os pés no chão?
- Sei não.
Sim, de fato não adiantara ele ter matado aqueles quatro ho-
mens, porque isso não só falhou em devolver Vevé, como Dafé ti-
nha comentado. Falhou também em llie devolver a própria Dafé,
que não continuou triste como antes, mas era outra pessoa.
Continuava a mesma menina boa e carinhosa, mas não brincava
373





mais, conversava pouco e saía muito para o mato, passava hom~'.
perdida lá fora, voltava andando devagar, como quem i=&.,
muitas coisas pesando no pensamento. Quando ele vi~
às vezes inventava viagens de propósito -, ela sempre q
acompanhá-lo e ele a levava, mas ela não queria ver as
que ele sugeria. Ficava horas parada na rua, sentada num
de jardim ou numa balaustrada onde consentissem pretos,
o povo passar e parecendo estar tão longe quanto a C.,
estrelas. Depois passou a pedir ao avô que a levass a
gente trabalhando. Gente trabalhando, mas que maluquice
Gente trabalhando, gente trabalhando, gente trabalhando!
pinteiros, marceneiros, ferreiros, tanoeiros, sapateiros,
pedreiros, lavradores, jardineiros, alambiqueiros, padeiros-,
beiros, pintores, armeiros, açougueiros, carroceiros, ,.ut,.,
vassoureiros, quitandeiros, vaqueiros, fateiros, muleiros,
dores, caixeiros, sineiros, ourives, tecelões, paneleiros, m*
caçadores, boticários, quituteiros, maquinistas, tiradentes,
deiros, cocheiros, mariscadores, peixeiros, lenhadores, ma'g
porqueiros, verdureiros, seleiros, salineiros, azeiteiros, serra
faxineiros, aguadeiros, taverneiros, amoladores, foguistas, ma
tes, alfarrabistas, oleiros, impressores, escreventes, acende
gravadores, coveiros, almocreves, caseiros, arreeiros, tos
capadores, leiteiros, estalajadeiros, moleiros, todos ela foÍ
nhecer e admirar no trabalho, convencendo-se cada vez ~ iais,~,
M
que todo fazer, produzir e servir é sinal da beleza do niu
somente é homem aquele que faz, produz ou serve. Também
diu para ver os músicos, os saltimbancos e palhaços, os
dores de feiras, os violeiros, os repentistas decorando seus
tes, os construtores de brinquedos, os mambembeiros de
os desenhadores de quadros, os tocadores de música, os
rinos de festas, os escultores de bois, bonecas e utensfiios,
entalhadores com suas madeiras, os douradores com suas
nas de ouro fino, os fazedores de magias, os fogueteiros e
perigos, os contadores de casos e histórias, os fingidores
autos de Natal, os criadores de passarinhos. Tudo isso e
mais coisas ela foi ver, estudar e admirar, na companhia de
avô Leléu, que também conhecia muitas dessas artes e seus
374
deixando-,q várias veze,; tão maravilhada com ele
qua ticara com Vevé, ao vê-Ia exercendo seu ofício de pescar.
Mas, se a amizade e o amor entre eles se ramificava por
,)Liir~)s (,uminhos e criava raizes ainda mais fundas que antes,
iste não impedia que ela continuasse estranha, calada e arredia.
Hotis7e mesmo dias em que pareceu ter fugido de casa, dei-
xando Leléu tonto e fora de si, até que alguém a encontrava,
às vezes em lugares distantes, aonde só se podia ir de barco.
Desse tempo em diante, ele começou a achar que ela estava fi-
cand(-, louca, louca de asilo mesmo, mas, como era louca mansa
- e mesmo que não fosse -, resolveu não dizer nada a
ninguém, nem procurar conselho com ninguém, para que não





a quisessem trancafiar ou a julgassem possuída do demônio.
Mesmo assim, não desistiu de aconselhá-la: esses pensamentos
não são próprios nem de negro nem de mulher - dibse-lhe
mtiitas vezes - e são pensamentos de quem não conhece nem
o mundo nem a vida. Mas ela, embora costumasse ouvi-lo sem
discutir, não mudava de comportamento, nem deixava de expli-
car a ele suas idéias esquisitas, A princípio, ele não queria es-
cutá-las, mas terminou por habituar-se a isso. Pelo menos, falando
somente com ele, ela não corria o risco de não conter a vontade
de falar com alguém e vir a ser tida como louca e sediciosa.
Nlas será que ela não falava? Por que, de uns tempos para
cá, depois de ter conhecido o velho Zé Pinto, tanoeiro antigo
meio aposentado, mas que ainda pôde mostrar a ela as coisas
de seu trabalho, ia de vez em quando visitá-lo, levar-lhe urna
comidinha e passar horas prosando? Por que, depois desse co-
nhecimento, também deu para conversar com um antigo negro
do Barão de Pirapuama, na época apanhador de cascas de ostras
para a caieira do Comendador, um negro que nem falava di-
reito, visto o barão ter-lhe cortado a língua? Mas ela aprendeu
a entender o que ele dizia e chegava a pegar um barco no
domingo, para ouvir o que ele tinha a contar. Ficou também
amiga de uma certa Merinha, do Manguinho, negra caseira de
uma família rica, que nunca tinha visto antes, mas agora pare-
cia que eram irmãs.
Leléu continuou preocupado, ficou com ciúme, armou até umas
brigas feias. Que diabo era aquilo, que vida era aquela, que ela
375





estava levando? Se negro já não era considerado família, família
de negro já era senzala e amancebamento, como esperar quç,,
ela jamais nunca em nenhum tempo fosse considerada moça &,~*I
família, continuando a agir assim? Aprendera o que era uma
moça de família, estudando com aquela velha coroca, ou nk,
aprendera? Tudo indicava que não, pois apontasse uma só ~
de família que tivesse aquelas conversas, tivesse aquelas idé '
tivesse aquelas atitudes, se acompanhasse de negros pretos dlesqz,
lificados, não aproveitasse para melhorar a raça e preferisse, ",,
vez de sair dos pretos, voltar aos pretos? Nascer preto, tu41
certo, não se pode fazer nada. Mas querer ser preto? Quem
que pode querer ser preto? Mostrasse um que, podendo,
casse tão branquinho quanto uma garça! Como é que
pode aproveitar para procurar deixar de ser preta e não ap
- Eu nunca vou deixar de ser preta, voinho.
- E tu é preta? Não és preta, senão mulata, mulata
verdes, e muitas menos bem parecidas, muitas muitíssi
nos bem parecidas, hoje são quase-quase brancas, são si
radas, estão arrumadas na vida. Eu mesmo sei de muit
bem raceada, mas bem raceada mesmo, que hoje é branca, t
as posições, tem importância na vida. E tu, que pensa tu? P
em saber quem foi Dadinha - eu sei lá quem foi Dadinhal
pensa em...
- 0 senhor sabe quem foi Dadinha, meu avô.
- Então sei! Não foi nada, não foi coisa nenhuma, foi u
velha gorda, corró, mentirosa, safadosa...
Não foi minha bisavó? Mãe de Turíbio Cafubá?
Mãe de... Quem é que está te contando essas cois"
Isso é negócio daquele velho broco, Zé Pinto, eu vou pegar
cacete e tacar umas porretadas na cabeça dele, pra ele de'
de ser abelhudo e enxerido, quem é que tá te contando es
coisas?
Por que o senhor não me conta também? 0 nome de
nha mãe, o nome verdadeiro, era Naê?
Eu não vou te contar nada dessas coisas! A gente lu
luta, luta, a gente luta que chega o corpo nunca mais p
de doer mesmo descansado, a gente luta, luta, luta para sa
duma situação, para melhorar, para subir, e aí o que é
376
aparece? Aparece uma como tu, que eu aclio que vou mandar
trancar em casa pra não sair fazendo asneira, querendo voltar
pra baixo, querendo saber dessas coisas, querendo se meter em
coniusão, alterar o que nao pode ser alterado ... Eu conheço
a vida, entendeu tu? Eu conheço a vida!
- Quem foi o caboco Capiroba?
- Caboco Capiroba? E nunca teve nenhuns cabocos Capi-
robas, menina, nunca teve nada disso, isso é tudo lenda! Mas
será possível que eu te mando para a escola com pensionato,
te boto com a melhor professora, te pago todos os livros para
que tu tenha conhecimento e tu agora resolve crescer como rabo
de cavalo, desaprender, se preparar pra ser uma negá preta véia,





em vez de gente? Que caboco Capiroba, nem car6ba capiboca!
É para isso que tu estudou? Foi pra isso?
~- Não teve a filha do caboco, que se chamava Vu? 0 se-
nhor conheceu um homem por nome Júlio Dandão?
- Júlio Dandão? Bandido! Mandingueiro, feiticeiro, deve de
ter fugido com mais de quarenta roubos e mais de vinte mortes
nas costas! Não venha me dizer tu ... Júlio Dandão, não, tu não
teve com esse Júlio Dandão, tu teve com ele? Isso não é com-
panhia para a senhora, não é companhia, tu entendeu? Não é
companhia para a senhora!
- Mas ele não anda mais por aí, sumiu, o senhor mesmo
disse.
- E o que é que tu quer saber dele? Ele não é seu parente,
não é nada teu, pra que tu quer saber dele?
- Eu só perguntei, foi só uma pergunta. E meu pai, o se-
nhor conheceu meu pai?
Leléu revirou os olhos. Que era mais que ia dizer à menina,
que era mais que podia fazer? Ficou meio sem graça, levantou-
se fingindo que ia olhar as plantas, acabou tendo a atenção
despertada por um menino que tentava empinar uma arraia e
corria puxando o cordão, quase por cima das leiras da horta.
0 menino pensou que Leléu ia reclamar e correr atrás dele
para dar-lhe uns cascudos como sempre ameaçava, mas isto não
aconteceu. Muito sério, Leléu pegou a arraia, examinou-a com
jeito crítico, disse ao menino que, com aquele rabo, ela nunca
ia subir. Aliás, aquela era uma arraia muito da ordinária, pare-
377





cerido até a cara de quem fez, deixasse que ele ia mostrar o
que era uma arraia. E entrou no quarto dos guardados, apanhou.
uma porção de coisas, foi fazer uma arraia nova, passou a tarde
empinando-a e dando aulas sobre os ventos ao menino e ao&
outros que se juntaram.
Deve ter sido aí que ele começou a virar criança e, aos pou.
cos, deixou de reclamar com a neta. E não só deixou de re.
clamar como, um belo dia, chamou-a para uma conversa que clá~
nunca poderia haver antecipado. Disse a ela que não pareci&~
mas ele havia chegado a compreender muitas coisas, muitas coim.,
sãs, entre as quais que a sabedoria da vida tem muito
s ladoi,
não tem um lado só. Por conseguinte, era bem possível quc
houvesse até muitas sabedorias em vez de uma só, de maneirá~,
que ele não estava mais negando o que pensava a neta. Achavá,,
errado, mas não negava, o mundo é assim mesmo, cheio de
maneiras de ver. Então, sabia ela o que ele ia fazer? Pois l~l.
diria. Aquele dinheiro que tinha juntado numa vida de tirabalho,~,
e mais trabalho, era dela, estava enterrado naqueles lugares qtí~
ele transcrevera no papel que agora lhe entregava. Tudo em,
dela, ele estava velho, queria somente ficar ali com sua ho
zinha, seu pomarzinho, sua casinha, suas galinhas, seus q
por
nhos, suas coisinhas, seus brinquedos, seus amigos meninos.
tava velho, bastante velho mesmo, devia ser o sujeito mais vel
que ela conhecia, e então o melhor que fazia era perman
ali mesmo sendo menino, coisa que nunca havia sido e lhe in
ressava muito, para uma vida completa. E, quanto a ela, ag'
não tinha mais desculpa para não fazer o que achava que de
fazer, que, aliás, fizesse isso mesmo: o que achava que devia
zer. Era um presente em que ele tinha pensado muito antes
dar a ela e era um presente de grande amor. Não o dinhe*
que ele não tinha ninguém no mundo a não ser ela e, port
era sua obrigação cuidar dela direito, pois que ela tarn~
tinha alguém por si no mundo. Mas, sim, a liberdade de ser
escolher, coisa para que, pelo menos da parte dele, ela acha
ajuda, embora fosse encontrar dificuldade de todas as ou
partes, dificuldade mortal mesmo, dificuldade dura e sem
ricórdia. Mas este conselho lhe dava: que não fosse boba
não confiasse, não confidenciasse e não desistisse com faciliá
378
que fião fosse mentirosa. mas também não imprudente: que não
quisesse lutar sempre do mesmo jeito, mas que visse que para
cada !,!ta há um jeito próprio, dependendo sempre das circuns-
tàncias; e que gostasse dele, porque ele gostava tanto dela que
o coração lhe doía e, se não tinha sido melhor avô, fora porque
não soubera, mas tudo o que sabia e procurara aprender tinha
feito para ela. Ela gostava dele?
Dafé abraçou a cabeça do avô, encostou-a no peito e chorou
sem fazer barulho, para que ele não levantasse os olhos e visse
suas lágrimas. Disse que não havia ninguém que pudesse querer





mais bem a alguém do que ela a ele, porque para ela não era
somente avô, era pai, professor, companheiro, amigo, tudo no
mundo. Avô melhor do que ele, pai melhor, nada melhor podia
haver e, se ela saísse pelo mundo algum dia, nunca ia esquecê-
lo, nem deixar de honrar seu nome e memória, nem deixar de
vir vê-lo todas as vezes em que pudesse, nem deixar de lhe
querer tanto bem que também lhe dava gastura no coração e o
queixo tremia da afeição que queria transbordar do peito.
Muito tempo nesse dia ficaram abraçados sem falar mais nada
e, já de tardinha, jantaram juntos como se estivessem num ban-
que',e, com Leléu tirando do baú um castiçal de prata para
enfeitar a mesa, ela enchendo de palmas-de-santa-rita os jarros
da sala e os dois rindo muito porque resolveram brincar de
fidalgos e fidalguias, jamais tendo acontecido tão refinado ágape
- não é mesmo, Senhor Visconde? como de fato, Senhora Mar-
quesa! - em toda a história do Baiacu, da ilha, do Recôncavo
e do resto do Brasil. Depois do jantar, Leléu cochilou, porque
queria descansar para de noite continuar a armar o mundéu de
não pegar nada que estava fazendo para mostrar aos outros
meninos. E ela, depois de ajeitar uma mantazinha leve em cima
dele para que não se resfriasse e deixar junto dele uma cane-
quinha de água para ele não ter de levantar-se se acordasse com
sede, foi lá para dentro, arrumar umas coisas, que empacotou
numa trouxinha. Em seguida saiu, ninguém sabe direito para
onde, mas há de ter sido para algum lugar em que se juntava
gente dos conspiradores da casa da farinha.
Não foi nesse dia que ela partiu, mas foi nesse dia que come-
Çou a partir, e o menino Leléu já sabia que ela ia embora.
379





Quando ela foi mesmo, ele não falou muito nem fez cena, C
portou-se como tinha prometido e, abatido por solidão e g
dades tão pesadas que quase não o deixavam andar na C
vazia e jardim deserto por ausência dela, se recusou a ch
mais uma vez, embora para isso tivesse de engolir os solu
como quem luta para manter no estômago um remédio enjio
Preferiu ter orgulho, não sabia bem de que, mas orgulho'
orgulho vagaroso e pleno, que dava sabor ao ar inspirado
rante a lembrança dela.
E foi assim orgulhoso, segundo uns vendo a neta de qu
em vez, segundo outros apenas recebendo recados e bilhe
que continuou um menino feliz até que veio a morrer "U
anos depois, velhinho, velhinho mesmo, o menino mais ~,e,1~lhi
que alguém jamais viu ou imaginou. E talvez, nesta noite o
da que abafa a ilha. onde a notícia de sua morte já correu
toda a orla como uma rodilha feita de pólvora, continue achan
tão bonitinho em seu caixão ajeitadinho, tão satisfeito com
bem puxadas incelenças, que está sonhando. A noite e en
nhou nas matas, apertou seu cobertor de veludo negro
todos os entes, ficou mais densa e pegadiça, como se não
querer ir embora quando a manhã chegasse. E nas notas
cadas que as gargantas das velhas do Baiacu plangem pelos a
vem por via dos pensamentos a mesma pergunta, desfiada
entremeios daqueles labirintos pálidos de música fúnebre,
pelos idosos a repetir o sinal da cruz e pelos modernos a a
cipar façanhas d'armas, pergunta esta sobre se ela virá, so
se, rompendo a noite em cavalgada irresistível, singranc . [o
mares em esquadra imbatível, esfarinhando os matos em ma
invencível, Maria da Fé virá reverenciar o corpo do avô, o g
Nego Leléu, de irrepreensível memória. Noite, acenando suas
vas pretas para seu irmão Sereno, sua irmã Friagem, seu
panheiro Desconhecido, seu ordenança Mistério, seus primos
ceios, suas amigas Assombrações, seus comensais Sobiressal
lo
não queria nem ia responder, fazendo assim decantar-se n
da ilha um medo insidioso de tudo, um medo de nada, a
sação que ninguém desconhece - a de que alguma coisa
está por acontecer.
380
C,?nzi,,£~río dos Pretos de Vera Ci-uz de Itaparica, 26 de maio
de 1863.
De~,ele a manhãzinha, debaixo de um chuvisco miúdo que ia
e vinha, o cortejo do enterro de Leléu serpenteava devagar pelas
picadas brocadas de poças e cobertas de barro escorregadio. já
quase nove horas, com um solzinho fraco aparecendo aqui e
ali entre as nuvens mais ralas, chegaram ao sopé do morro onde
ficava o pequeno cemitério. Era difícil prosseguir, em cima da-
quela lama que parecia ter revestido a ladeira de baba de quiabo,
mas OS soldados resolveram ajudar. 0 mais alto entre eles, certa-
mente um oficial, a julgar por seu talim de couro lavrado, seus
jaezes dourados, sua banda de borlas fartas e seu espadagão de





cabo madreperolado, convocou quatro soldados pretos e fortes e
mandou que tomassem a si a tarefa de carregar o caixão. Chamou
dois outros, disse-lhes, numa voz roufenha e áspera, tornada
quase ininteligível pelo bigodão que lhe escondia a boca e uma
parte do queixo, que fossem à frente do cortejo com duas pa-
zinhas para cavar degraus onde possível, a fim de que todos
pudessem vencer o morro com menos dificuldade.
Os acompanhantes do enterro relutaram em entregar o caixão
aos soldados. Um deles chegou a tentar protestar, mas o oficial
o empurrou e ordenou com um gesto de seu bastão que o praça
impedido de pegar no caixão ignorasse a resistência e assumisse
o posto que lhe designara. Ninguém mais reclamou, mesmo por-
que era uma força de cerca de trinta homens que ali estava,
todos armados de pistolas de dois canos e clavinas novas como
poucas vezes se via nas mãos de soldados. Além disso, a ver-
dade era que muita gente fizera questão de vir ao enterro exata-
mente por causa dessa força. Queriam ver o que aconteceria se
Maria de Fé decidisse aparecer, pois esta era a razão por que
os soldados estavam ali. Desde o dia anterior, sabia-se da che-
gada da tropa, uma aguerrida companhia comandada por audaz
c muito feroz capitão, cujo conhecimento das matérias milita-
res e das artes dos combates e batalhas era renomado por todas
aquelas partes.
Seria aquele oficial severo e de poucas palavras, homem
que estava se vendo não ser daqui mas de partes do Brasil
381
i





onde se criavam heróis superiores desde o berço, seria eie
tal grande capitão? Talvez fosse, com certeza era, pois o b
em que vinha a força sofrera repentinas avarias ao arribar
porto da Ponta das Baleias e, mesmo assim, ali estava aq
corpo de tropa, para vir mostrar o poder e a presença do
pério. Teriam palmilhado todos os ermos e manguezais da P
das Baleias até o Baiacu, em marcha forçada através de
somente para não permitir que Maria da Fé novamente dlesaf
a tudo e a todos. Agora mesmo, sempre garboso, altís o
S~
seus cotumos de solado triplo e empenha reforçada, 4,vi
como uma on