sexta-feira, 7 de outubro de 2011 By: Fred

<> livros-loureiro <> anexo: Vargas Llosa - O sonho do celta

O SONHO DO CELTA


Mário Vargas Llosa


Quetzal


Digitalização e Revisão


ASC


Este livro foi digitalizado para
ser lido por Deficientes Visuais


O Sonho do Celta baseia-se na vida do irlandês
Roger Casement, cônsul britânico no Congo Belga,
em inícios do século XX - e que durante duas décadas
denunciou as atrocidades do regime colonial, antes de
rumar à Amazónia peruana. E no cenário deslumbrante e
perturbador do rio Congo, revelado por Roger Casement
ao escritor Joseph Conrad - e de que este se serviu para o
seu romance O Coração das Trevas-, que Mário Vargas
Llosa situa o início do seu novo livro. Roger Casement,
defensor dos direitos humanos, nacionalista irlandês,
condenado à morte por traição, é mais do que um
personagem de romance, a sua vida extraordinária, cheia
de aventuras, ousadias, sonhos e perseguições é também
um fragmento da história da humanidade que não
desiste de ser humana e justa apesar das muitas
desilusões que a cercam.


Tinha deixado de chover há um bocado, mas a atmosfera continuava húmida e pesada, parecia que em volta tudo germinava, crescia e se espessava. Dezoito anos depois,
Roger, entre as imagens desordenadas que a febre fazia revoar na sua cabeça, recordava o olhar inquiridor, surpreendido, por momentos trocista, com que Henry Morton
Stanley o inspeccionou.
- A África não se fez para os fracos - disse ele por fim, como se falasse consigo mesmo.
- As coisas que o preocupam são um sinal de fraqueza.

O Sonho do Celta


Tradução de Cristina Rodriguez


QUETZAL

série américas - Mário Vargas Llosa


Título: O Sonho do Celta


Título original: El Sueno del Celta


Autor: Mário Vargas Llosa


Tradução: Cristina Rodriguez


Revisão: Pedro Ernesto Ferreira


Projecto gráfico original: RPVP Designers
Design da capa: Rui Rodrigues . Quetzal Editores


Composição: José Campos de Carvalho


Execução gráfica: Bloco Gráfico, Lda.
Unidade Industrial da Maia


(c) 2010 Quetzal Editores
Todos os direitos para publicação desta obra em língua portuguesa, excepto Brasil, reservados por Quetzal Editores]
(c) Mário Vargas Llosa, 2010


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Para Álvaro, Gonzalo e Morgana.
E para Josefina, Leandro, Ariadna,
Aitana, Isabella e Anais.
"Cada um de nós é, sucessivamente, não um, mas muitos. E estas personalidades sucessivas, que emergem umas das outras, costumam oferecer entre si os mais estranhos
e assombrosos contrastes."

José Enrique Rodo, Motivos de Proteo


Paginação - cabeçalho
Número de páginas 438


CONGO


I.


Quando abriram a porta da cela, com o jorro de luz e um golpe de vento entrou também o barulho da rua que as paredes de pedra abafavam e Roger acordou, assustado.
Pestanejando, ainda confuso, esforçando-se por se acalmar, vislumbrou, recostada no vão da porta, a silhueta do xerife. A sua cara flácida, de louros bigodes e olhinhos
maldizentes, contemplava-o com a antipatia que nunca tinha tentado disfarçar. Eis aqui alguém que sofreria se o Governo inglês lhe concedesse o pedido de clemência.
- Visita - murmurou o xerife, sem tirar os olhos de cima dele.
Pôs-se de pé, esfregando os braços. Quanto teria dormido? Um dos suplícios da prisão de Pentonville era não se saber as horas. No cárcere de Brixton e na Torre de
Londres ouvia as badaladas que marcavam as meias horas e as horas; aqui, as espessas paredes não deixavam chegar ao interior da prisão o alvoroço dos sinos das igrejas
de Caledonian Road nem o bulício do mercado de Islington e os guardas perfilados na porta cumpriam estritamente a ordem de não lhe dirigir a palavra. O xerife pôs-lhe
as algemas e indicou-lhe que saísse à sua frente. Traria o seu advogado alguma boa notícia? O gabinete ter-se-ia reunido e tomado uma decisão? Talvez o olhar do
xerife, mais carregado do que nunca com a aversão que ele lhe inspirava, se devesse a terem-lhe comutado a pena. Ia a caminhar pelo

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longo corredor de tijolos vermelhos enegrecidos pela sujidade, entre as portas metálicas das celas e umas paredes descoloridas nas quais a cada vinte ou vinte e
cinco passos havia uma alta janela com grades através da qual conseguia avistar um bocadinho de céu acinzentado. Porque é que tinha tanto frio? Era Julho, o coração
do Verão, não havia razão para aquele gelo que lhe eriçava a pele.
Ao entrar no estreito parlatório das visitas, afligiu-se. Quem o esperava ali não era o seu advogado, Maítre George Gavan Duffy, mas sim um dos seus ajudantes, um
jovem louro e desengonçado, de maçãs do rosto salientes, vestido como um peralvilho, a quem ele tinha visto durante os quatro dias do julgamento a levar e a trazer
papéis aos advogados de defesa. Porque é que o maitre Gavan Duffy, em vez de vir em pessoa, mandava um
dos seus estagiários?
O jovem atirou-lhe um olhar frio. Nas suas pupilas havia irritação e repugnância. O que é que aquele imbecil estaria a pensar? "Olha para mim como se eu fosse uma
besta", pensou
Roger.
- Alguma novidade?
O jovem negou com a cabeça. Inspirou antes de falar:
- Sobre o pedido de indulto, ainda não - murmurou, com secura, fazendo um esgar que ainda o desengonçava mais. -É preciso esperar que o Conselho de Ministros se
reúna.
A Roger incomodava-o a presença do xerife e do outro guarda no pequeno parlatório. Embora permanecessem silenciosos e imóveis, sabia que estavam suspensos de tudo
o que diziam. Essa ideia oprimia-lhe o peito e dificultava-lhe a
respiração.
- Mas, tendo em conta os últimos acontecimentos - acrescentou o jovem louro, pestanejando pela primeira vez e abrindo e fechando a boca com exagero -, tudo se tornou
agora mais
difícil.
- A prisão de Pentonville não chegam as notícias do exterior. O que é que aconteceu?

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E se o Almirantado alemão tivesse decidido por fim atacar a Grã-Bretanha a partir das costas da Irlanda? E se a sonhada invasão estivesse a acontecer e os canhões
do Kaiser vingassem naqueles mesmos instantes os patriotas irlandeses fuzilados pelos Ingleses na Revolta da Páscoa? Se a guerra tivesse tomado aquele rumo, os seus
planos realizavam-se, apesar de tudo.
- Agora tornou-se difícil, talvez impossível, ter êxito - repetiu o estagiário. Estava pálido, continha a sua indignação e Roger adivinhava sob a pele esbranquiçada
da sua tez a sua caveira. Pressentiu que, atrás de si, o xerife sorria.
- De que é que está a falar? O senhor Gavan Duffy estava optimista relativamente à petição. O que é que aconteceu para que mudasse de opinião?
- Os seus diários - soletrou o jovem, com outra careta de desagrado. Baixara a voz e Roger tinha alguma dificuldade em ouvi-lo. - Foi a Scotland Yard que os descobriu,
na sua casa de Ebury Street.
Fez uma longa pausa, esperando que Roger dissesse alguma coisa. Mas como este tinha emudecido, deu rédea solta à sua indignação e franziu a boca:
- Como é que pôde ser tão insensato, homem de Deus? -falava com uma lentidão que tornava mais patente a sua raiva.
- Como é que pôde pôr em tinta e papel semelhantes coisas, homem de Deus? E, se o fez, como é que não tomou a precaução elementar de destruir aqueles diários antes
de se pôr a conspirar contra o Império Britânico?
"É um insulto este imberbe chamar-me "homem de Deus"", pensou Roger. Era um mal-educado, porque ele tinha pelo menos o dobro da idade daquele rapazola amaneirado.
- Circulam agora por todo o lado fragmentos desses diários
- acrescentou o estagiário, mais sereno, embora sempre desagradado, agora sem olhar para ele. - No Almirantado, o porta-voz do ministro, o capitão-de-mar-e-guerra
Reginald Hall em pessoa, entregou cópias a dezenas de jornalistas. Estão por toda a Londres. No Parlamento, na Câmara dos Lordes, nos clubes

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liberais e conservadores, nas redacções e nas igrejas. Não se fala de outra coisa na cidade.
Roger não dizia nada. Não se mexia. Tinha, outra vez, aquela estranha sensação que se havia apoderado dele muitas vezes nos últimos meses, desde aquela manhã cinzenta
e chuvosa de Abril de 1916 em que, transido de frio, fora detido entre as ruínas do Forte McKenna, no Sul da Irlanda: não se tratava dele, era doutro que falavam,
doutro a quem aconteciam aquelas coisas.
- Já sei que a sua vida privada não é um assunto meu, nem do senhor Gavan Duffy, nem de ninguém - acrescentou o jovem estagiário, esforçando-se por baixar a cólera
que impregnava a sua voz. - Trata-se de um assunto estritamente profissional. O senhor Gavan Duffy quis pô-lo ao corrente da situação. E preveni-lo. A petição de
clemência pode ver-se comprometida. Esta manhã, nalguns jornais, já há protestos, inconfidências, rumores sobre o conteúdo dos seus diários. A opinião pública favorável
à petição poderá ver-se afectada. Uma mera suposição, claro. O senhor Gavan Duffy mantê-lo-á informado. Deseja que lhe transmita alguma mensagem?
O prisioneiro negou, com um movimento quase imperceptível da cabeça. No mesmo instante, girou sobre si mesmo, encarando a porta do parlatório. O xerife deu uma indicação
com a sua cara bochechuda ao guarda. Este correu o pesado ferrolho e a porta abriu-se. O regresso à cela pareceu-lhe interminável. Durante o percurso pelo longo
corredor de pétreas paredes de tijolos vermelhos enegrecidos teve a sensação de que a qualquer momento tropeçaria e cairia de bruços sobre aquelas pedras húmidas
e não voltaria a levantar-se. Ao chegar à porta metálica da cela, recordou: no dia em que o trouxeram para a prisão de Pentonville, o xerife disse-lhe que todos
os réus que ocuparam aquela cela, sem excepção, tinham acabado no patíbulo.
- Poderei tomar um banho, hoje? - perguntou ele, antes de entrar.

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O obeso carcereiro negou com a cabeça, olhando-o nos olhos com a mesma repugnância que Roger tinha notado no olhar do estagiário.
- Não poderá tomar banho até ao dia da execução - disse o xerife, saboreando cada palavra. - E, nesse dia, só se for a sua última vontade. Outros, em vez do banho,
preferem uma boa refeição. Um mau negócio para Mr. Ellis, porque então, quando sentem a corda, cagam-se. E deixam o lugar feito uma porcaria. Mr. Ellis é o verdugo,
para o caso de não saber.
Quando sentiu a porta fechar-se atrás de si, foi deitar-se de barriga para cima no pequeno catre. Fechou os olhos. Teria sido bom sentir a água fria daquele cano
a arrepiar-lhe a pele e a azulá-la de frio. Na prisão de Pentonville, os réus, com excepção dos condenados à morte, podiam tomar banho com sabão uma vez por semana
naquele jorro de água fria. E as condições das celas eram sofríveis. Em contrapartida, recordou com um calafrio a sujidade do cárcere de Brixton, onde se tinha enchido
de piolhos e pulgas que pululavam no colchão do seu catre e o tinham coberto de picadas nas costas, nas pernas e nos braços. Procurava pensar nisso, mas voltavam
várias vezes à sua memória a cara descontente e a voz odiosa do louro estagiário ataviado como um janota que maitre Gavan Duffy lhe tinha enviado em vez de vir ele
em pessoa dar-lhe as más notícias.


II.


Do seu nascimento, A 1 de Setembro de 1864, em Doyle's Cottage, Lawson Terrace, no subúrbio Sandycove de Dublin, não se lembrava de nada, é claro. Embora sempre
tenha sabido que tinha sido dado à luz na capital da Irlanda, uma boa parte da sua vida deu como assente o que o seu pai, o capitão Roger Casement, que tinha servido
oito anos com distinção no Terceiro Regimento de Dragões Ligeiros, na índia, lhe inculcou: que o seu verdadeiro berço era o condado de Antrim, no coração do Ulster,
na Irlanda protestante e pró-britânica, onde a linhagem dos Casement estava estabelecida desde o século XVIII. Roger foi criado e educado como anglicano da Igreja
Irlandesa, tal como os seus irmãos Agnes (Nina), Charles e Tom - os três mais velhos que ele -, mas intuiu, ainda antes de ter o uso da razão, que em matéria de
religião nem tudo na sua família era tão harmonioso como no resto. Até para um menino de poucos anos era impossível não reparar que a mãe, quando estava com as suas
irmãs e primos da Escócia, agia de maneira que parecia esconder alguma coisa. Já adolescente, descobriria que, Anne Jephson, embora aparentemente, se tinha convertido
ao protestantismo para casar com o seu pai, e às escondidas do marido continuava a ser católica ("papista" teria dito o capitão Casement), confessando-se, ouvindo
missa e comungando, e, no mais cioso dos segredos, ele próprio tinha sido baptizado como católico quando fez quatro anos, durante uma viagem de
férias que ele e os seus irmãos fizeram com a mãe a Rhyl, no Norte do País de Gales, a casa das tias e tios maternos que lá viviam.
Naqueles anos, em Dublin, ou nos períodos que passaram em Londres e em Jersey, Roger não lhe interessava nada a religião, ainda que, para não desgostar o pai, durante
o ofício dominical rezasse, cantasse e seguisse o serviço com respeito. A mãe havia-lhe dado aulas de piano e tinha uma voz clara e temperada que costumava granjear-lhe
aplausos nas reuniões familiares em que entoava velhas baladas irlandesas. O que verdadeiramente lhe interessava naquele tempo eram as histórias que, quando estava
bem-disposto, o capitão Casement lhe contava a ele e aos seus irmãos. Histórias da índia e do Afeganistão, sobretudo as suas batalhas contra os Afegãos e os Siques.
Aqueles nomes e paisagens exóticos, aquelas viagens atravessando florestas e montanhas que escondiam tesouros, feras, alimárias, povos antiquíssimos de estranhos
costumes, deuses bárbaros, disparavam-lhe a imaginação. Os seus irmãos, às vezes, aborreciam-se com aqueles relatos, mas o pequeno Roger poderia ter passado horas
e dias a escutar as aventuras do seu pai nas remotas fronteiras do Império.
Quando aprendeu a ler, gostava de mergulhar nas histórias dos grandes navegadores, viquingues, portugueses, ingleses e espanhóis que tinham sulcado os mares do planeta
volatilizando os mitos segundo os quais, chegadas a um certo ponto, as águas marinhas começavam a ferver, abriam-se abismos e apareciam monstros cujas fauces podiam
engolir um barco inteiro. Contudo, entre as aventuras ouvidas e as lidas, Roger sempre havia preferido escutar as da boca do pai. O capitão Casement tinha uma voz
quente, descrevia com rico vocabulário e animação as florestas da índia ou os rochedos de Khyber Pass, no Afeganistão, onde a sua companhia de Dragões Ligeiros foi
uma vez emboscada por uma massa de enturbantados fanáticos que os bravos soldados ingleses enfrentaram, primeiro a balázios, depois a baioneta, e, por fim, com punhais
e com mãos nuas, até os obrigarem a retirar-se derrotados. Mas não eram os

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feitos de armas o que mais deslumbrava a imaginação do pequeno Roger, mas sim as viagens, abrir caminhos por paisagens nunca pisadas pelo homem branco, as proezas
físicas de resistência, vencer os obstáculos da natureza. O seu pai era agradável, mas severíssimo e não vacilava em açoitar os filhos quando se portavam mal, mesmo
Nina, a mulherzinha, pois assim se castigavam os erros no Exército e ele tinha verificado que só aquela forma de castigo era eficaz.
Embora admirasse o pai, de quem Roger verdadeiramente gostava era da mãe, aquela mulher esbelta que parecia flutuar em vez de andar, de olhos e cabelos claros e
cujas mãos, tão suaves, quando se enredavam nos seus caracóis ou lhe acariciavam o corpo na hora do banho o enchiam de felicidade. Uma das primeiras coisas que aprenderia
foi - teria cinco, seis anos? -que só podia correr a atirar-se para os braços da mãe quando o capitão não estava por perto. Este, fiel à tradição puritana da sua
família, não era partidário de que as crianças crescessem com muitos mimos, pois isso tornava-os moles para a luta pela vida. Diante do pai, Roger mantinha-se à
distância da pálida e delicada Anne Jephson. Mas quando aquele partia para se juntar aos amigos no seu clube ou para dar um passeio, corria para ela, que o cobria
de beijos e carícias. Às vezes, Charles, Nina e Tom protestavam: "Gostas mais do Roger que de nós." A mãe garantia-lhes que não, que gostava igualmente de todos,
só que Roger era muito pequeno e precisava de mais atenção e carinho que os mais velhos.
Quando a mãe morreu, em 1873, Roger tinha nove anos. Aprendera a nadar e ganhava todas as corridas com meninos da sua idade e até mais velhos. Ao contrário de Nina,
Charles e Tom, que derramaram muitas lágrimas durante o velório e o enterro de Anne Jephson, Roger não chorou nem uma única vez. Naqueles dias tétricos, o lar dos
Casement converteu-se numa capela funerária, cheia de gente vestida de luto, que falava em voz baixa e abraçava o capitão Casement e as quatro crianças com caras
pesarosas, pronunciando palavras de pêsames.
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Durante muitos dias não conseguiu pronunciar uma frase, como se tivesse ficado mudo. Respondia com movimentos de cabeça ou gestos às perguntas e permanecia sério,
cabisbaixo e com o olhar perdido, até mesmo de noite no quarto às escuras, sem conseguir dormir. Desde então e para o resto da sua vida, de quando em quando, nos
seus sonhos, a figura de Anne Jephson viria visitá-lo com aquele sorriso convidativo, abrindo-lhe os braços, onde ele se ia encolher, sentindo-se protegido e feliz
com aqueles dedos finos na sua cabeça, nas suas costas, nas suas faces, uma sensação que parecia defendê-lo das maldades do mundo.
Os irmãos depressa se conformaram. E Roger também, aparentemente. Porque, embora tivesse recuperado a fala, era um tema que ele nunca referia. Quando algum familiar
lhe recordava a mãe, emudecia e mantinha-se encerrado no seu mutismo até aquela pessoa mudar de tema. Nas suas insónias, pressentia na escuridão, olhando para ele
com tristeza, o semblante da infortunada Anne Jephson.
Quem não se conformou nem voltou a ser o mesmo foi o capitão Roger Casement. Como não era efusivo e nem Roger nem os irmãos o tinham visto alguma vez ser pródigo
em gentilezas para com a mãe, as quatro crianças ficaram surpreendidas com o cataclismo que o desaparecimento da esposa significou para o pai. Ele, tão bem ataviado,
andava agora vestido de qualquer maneira, com a barba crescida, o sobrolho franzido e um olhar de ressentimento como se os filhos tivessem a culpa da sua viuvez.
Pouco tempo depois da morte de Anne, decidiu deixar Dublin e despachou as quatro crianças para o Ulster, para Magherintemple House, a casa de família, onde, a partir
de então, o tio-avô paterno John Casement e a sua esposa Charlotte se encarregariam da educação dos quatro irmãos. O pai, como que a querer desinteressar-se deles,
foi viver a quarenta quilómetros dali, no Adair Arms Hotel de Ballymena, onde, como às vezes o tio-avô John acabava por dizer, o capitão Casement, "meio louco de
dor e solidão", dedicava os seus dias

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e noites ao espiritismo, tentando comunicar com a mulher morta através de médiuns, cartas e bolas de cristal.
Desde então, Roger raramente viu o pai e nunca mais o ouviu voltar a contar aquelas histórias da índia e do Afeganistão. O capitão Roger Casement morreu de tuberculose
em 1876, três anos depois da esposa. Roger acabava de fazer doze anos. Na Escola Diocesana de Ballymena, onde esteve três anos, foi um estudante distraído, que tirava
notas regulares, excepto a Latim, Francês e História Antiga, disciplinas em que se destacou. Escrevia poesia, parecia sempre metido consigo mesmo e devorava livros
de viagens pela África e pelo Extremo Oriente. Praticava desporto, sobretudo natação. Aos fins-de-semana ia ao Castelo de Galgorm, dos Young, para onde um colega
da turma o convidava. Mas Roger passava ainda mais tempo com Rose Maud Young, bela, culta e escritora, que percorria as aldeias de pescadores e camponeses do Antrim,
recolhendo poemas, lendas e canções em gaélico. Da sua boca ouviu pela primeira vez os épicos conflitos da mitologia irlandesa. O castelo, de pedras negras, torreões,
escudos, lareiras e uma fachada catedralesca tinha sido construído no século XVII por Alexander Colville, um teólogo de cara maldisposta - segundo o seu retrato
do vestíbulo - que, dizia-se em Ballymena, tinha feito um pacto com o Diabo e o seu fantasma deambulava pelo lugar. Tremendo, nalgumas noites de luar, Roger atreveu-se
a procurá-lo pelos passadiços e aposentos vazios, mas nunca o encontrou.
Só muitos anos mais tarde aprenderia a sentir-se confortável em Magherintemple House, o solar dos Casement, que antes se tinha chamado Churchfield e fora uma reitoria
da paróquia anglicana de Culfeightrin. Porque nos seis anos que ali viveu, entre os nove e os quinze anos, com o tio-avô John e a tia-avó Charlotte, e restantes
parentes paternos, sempre se sentiu um pouco estranho naquela imponente mansão de pedras cinzentas, de três andares, altos tectos lisos, muros cobertos de hera,
telhados de falso gótico e cortinados que pareciam ocultar fantasmas. Os vastos aposentos, os longos corredores

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e as escadas com gastos corrimãos de madeira e degraus que gemiam aumentavam a sua solidão. Em compensação, tinha prazer ao ar livre, entre os robustos olmos, sicômoros
e pessegueiros que resistiam aos ventos ciclónicos e as suaves colinas com vacas e ovelhas das quais se avistava a localidade de Ballycastle, o mar, os escolhos
que investiam contra a ilha de Rathlin e, nos dias claros, a esbatida silhueta da Escócia. Ia com frequência às aldeias vizinhas de Cushendum e Cushendall que pareciam
o cenário de antigas lendas irlandesas, e aos nove glens da Irlanda do Norte, aqueles estreitos vales cercados de colinas e ladeiras rochosas em cujos cumes as águias
traçavam círculos, espectáculo que o fazia sentir-se corajoso e exaltado. A sua diversão preferida eram as excursões por aquela terra áspera, de camponeses tão velhos
como a paisagem, alguns dos quais falavam entre eles o irlandês antigo, acerca do qual o seu tio-avô John e os amigos faziam às vezes cruéis chacotas. Nem Charles
nem Tom partilhavam o seu entusiasmo pela vida ao ar livre, nem tiravam prazer das caminhadas pelos campos ou a escalar as lombas escarpadas do Antrim; Nina, pelo
contrário, e por isso mesmo, apesar de ser oito anos mais velha do que ele, foi a sua preferida e com quem sempre se daria melhor. Com ela fez várias excursões até
à baía de Murlough, eriçada de rochas negras e com a sua praiazinha pedregosa, junto do Glenshesk, cuja recordação o acompanharia toda a vida e à qual sempre se
referiria, nas suas cartas à família, como "aquele recanto do Paraíso".
Mas ainda mais que dos passeios pelo campo, Roger gostava das férias de Verão. Passava-as em Liverpool, junto da tia Grace, irmã da sua mãe, em cuja casa se sentia
querido e acolhido: pela tia Grace, claro, mas também pelo seu esposo, o tio Edward Bannister, que tinha corrido muito mundo e fazia viagens de negócios a África.
Trabalhava para a companhia de navegação Elder Dempster Line, que transportava carga e passageiros entre a Grã-Bretanha e a África Ocidental. Os filhos da tia Grace
e do tio Edward, os seus primos, foram melhores companheiros de brincadeira de Roger do que os seus próprios
irmãos,
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sobretudo a sua prima Gertrude Bannister, Gee, com a qual, desde muito pequeno, teve uma proximidade que nunca foi manchada por um só desgosto. Eram tão
unidos que uma vez Nina brincou com eles: "Vocês ainda vão acabar por casar." Gee riu-se, mas Roger corou até à ponta dos cabelos. Não se atrevia a erguer o olhar
e balbuciava: "Não, não, porque é que dizes essa palermice?"
Quando estava em Liverpool, junto dos primos, Roger vencia por vezes a sua timidez e fazia perguntas ao tio Edward sobre África, um continente cuja simples referência
lhe enchia a cabeça de florestas, feras, aventuras e homens intrépidos. Graças ao tio Edward Bannister ouviu falar pela primeira vez do doutor David Livingstone,
o médico e evangelista escocês que andava há anos a explorar o continente africano, percorrendo rios como o Zambeze e o Chire, baptizando montanhas, paragens desconhecidas
e levando o cristianismo às tribos de selvagens. Tinha sido o primeiro europeu a atravessar a África de costa a costa, o primeiro a percorrer o deserto do Calaári
e tinha-se convertido no herói mais popular do Império Britânico. Roger sonhava com ele, lia os folhetos que descreviam as suas proezas e ansiava por fazer parte
das suas expedições, enfrentar os perigos a seu lado, ajudá-lo a levar a religião cristã àqueles pagãos que não tinham saído da Idade da Pedra. Quando o doutor Livingstone,
procurando as fontes do Nilo, desapareceu engolido pelas selvas africanas, Roger tinha dois anos. Quando, em 1872, outro aventureiro e explorador lendário, Henry
Morton Stanley, jornalista de origem galesa empregado por um jornal de Nova Iorque, emergiu da selva a anunciar ao mundo que tinha encontrado vivo o doutor Livingstone,
acabava de fazer oito. O menino viveu a história novelesca com assombro e inveja. E quando, um ano mais tarde, se soube que o doutor Livingstone, que nunca quis
abandonar o solo africano nem voltar a Inglaterra, falecera, Roger sentiu que tinha perdido um familiar muito querido. Quando fosse crescido, também ele seria explorador,
como aqueles titãs, Livingstone e Stanley,

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que estavam a alargar as fronteiras do Ocidente e a viver umas vidas tão extraordinárias.
Ao fazer quinze anos, o tio-avô John Casement decidiu que Roger devia abandonar os estudos e procurar um trabalho, dado que nem ele nem os irmãos tinham rendas das
quais podiam viver. Aceitou de boa vontade. Decidiram de comum acordo que Roger iria para Liverpool, onde havia mais possibilidades de trabalho que na Irlanda do
Norte. Com efeito, pouco depois de chegar junto dos Bannister, o tio Edward arranjou-lhe um lugar na mesma companhia onde ele tinha laborado tantos anos. Começou
os seus trabalhos de aprendiz na companhia de navegação logo a seguir a fazer os quinze anos. Parecia mais velho. Era muito alto, de profundos olhos cinzentos, magro,
de cabelos negros encaracolados, pele muito clara e dentes certos, frugal, discreto, ajuizado, amável e serviçal. Falava um inglês marcado por um toque irlandês,
motivo de zombarias entre os seus primos.
Era um rapaz sério, empenhado, lacónico, não muito preparado intelectualmente, mas esforçado. Levou as suas obrigações na companhia muito a sério, decidido a aprender.
Colocaram-no no departamento de administração e contabilidade. A princípio, as suas tarefas eram as de um mensageiro. Levava e trazia documentos de um escritório
para o outro e ia ao porto fazer os trâmites entre barcos, alfândegas e depósitos. Os seus chefes tinham-no em boa consideração. Nos quatro anos em que trabalhou
na Elder Dempster Line não chegou a ser íntimo de ninguém, devido à sua maneira de ser retraída e aos seus costumes austeros: inimigo de festarolas, quase não bebia
e nunca o viram frequentar os bares e lupanares do porto. Desde então, foi um fumador empedernido. A sua paixão por África e o seu empenho em conquistar mérito na
companhia levavam-no a ler com cuidado, enchendo-os de anotações, os folhetos e as publicações que circulavam pelos escritórios relacionados com o comércio marítimo
entre o Império Britânico e a África Ocidental. Depois, repetia, convencido, as ideias que impregnavam aqueles textos. Levar para África os produtos

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europeus e importar as matérias-primas que o solo africano produzia era, mais que uma operação mercantil, um empreendimento a favor do progresso de povos parados
na Pré-História, imersos no canibalismo e no tráfico de escravos. O comércio levava para lá a religião, a moral, a lei, os valores da Europa moderna, culta, livre
e democrática, um progresso que acabaria por transformar os infelizes das tribos em homens e mulheres do nosso tempo. Neste empreendimento, o Império Britânico estava
na vanguarda da Europa e as pessoas tinham de se sentir orgulhosas por fazerem parte dele e do trabalho que realizavam na Elder Dempster Line. Os seus colegas de
escritório trocavam olhares trocistas, interrogando-se se o jovem Roger Casement seria um tonto ou um espertalhão, se acreditava naquelas palermices ou as proclamava
para ter mérito perante os seus chefes. Nos quatro anos em que trabalhou em Liverpool, Roger continuou a viver com os seus tios Grace e Edward, a quem entregava
parte do seu salário e eles tratavam-no como um filho. Dava-se bem com os primos, sobretudo com Gertrude, com a qual aos domingos e dias feriados ia remar, pescar,
se estivesse bom tempo, ou ficava em casa a ler em voz alta junto à lareira, se chovia. A sua relação era fraterna, sem pitada de malícia ou de sedução. Gertrude
foi a primeira pessoa a quem mostrou os poemas que escrevia em segredo. Roger chegou a conhecer de cor o movimento da companhia e, sem nunca ter posto os pés nos
portos africanos, falava deles como se tivesse passado a vida entre os seus escritórios, lojas, diligências, costumes e gentes que
os povoavam.
Fez três viagens à África Ocidental no SS Bounty e a experiência entusiasmou-o tanto que, depois da terceira, renunciou ao seu emprego e anunciou aos irmãos, tios
e primos, que tinha decidido ir para África. Fê-lo de uma maneira exaltada e, segundo lhe disse o tio Edward, "como aqueles cruzados que na Idade Média partiam para
o Oriente para libertar Jerusalém". A família foi despedir-se ao porto e Gee e Nina deitaram grossas lágrimas. Roger acabava de fazer vinte anos.


III.


Quando o xerife abriu a porta da cela e o apequenou com o olhar, Roger estava a recordar, envergonhado, que sempre tinha sido partidário da pena de morte. Tornara-o
público há poucos anos, no seu Relatório sobre a Amazónia para o Foreign Office, o Livro Azul, reclamando para o peruano Júlio César Arana, o rei da borracha no
Putumayo, um castigo exemplar: "Se conseguíssemos que pelo menos ele fosse enforcado por aqueles crimes atrozes, isso seria o princípio do fim daquele interminável
martírio e da infernal perseguição contra os infelizes indígenas." Não escreveria agora aquelas mesmas palavras. E, antes, tinha-lhe vindo à cabeça a recordação
do mal-estar que costumava sentir ao entrar numa casa e descobrir nela uma gaiola. Os canários, pintassilgos ou papagaios engaiolados tinham-lhe parecido sempre
vítimas de uma crueldade inútil.
- Visita - murmurou o xerife, observando-o com desprezo nos olhos e na voz. Ao mesmo tempo que Roger se levantava e sacudia a farda de condenado com as mãos, acrescentou
com sarcasmo: - Hoje está outra vez na imprensa, senhor Casement. Não por ser traidor à sua pátria...
- A minha pátria é a Irlanda - interrompeu-o ele.
- ... mas sim pelas suas nojeiras - o xerife estalava a língua como se fosse cuspir. - Traidor e malvado ao mesmo tempo. Mas que lixo! Será um prazer vê-lo a dançar
numa corda, ex-Sir Roger.

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- O gabinete rejeitou o pedido de clemência?
- Ainda não - demorou a responder o xerife. - Mas irá rejeitar. E também Sua Majestade o rei, é claro.
- A ele não lhe pedirei clemência. É o vosso rei, não o
meu.
- A Irlanda é britânica - murmurou o xerife. - Agora mais do que antes, depois de ter esmagado aquela cobarde Revolta da Páscoa, em Dublin. Uma punhalada nas costas
contra um país em guerra. Eu não teria fuzilado os seus líderes, mas sim
enforcado.
Calou-se porque já tinham chegado ao parlatório.
Não era o padre Carey, o capelão católico da prisão de Pentonville, quem tinha vindo visitá-lo, mas sim Gertrude, Gee, a sua prima. Abraçou-o com muita força e Roger
sentiu-a tremer nos seus braços. Pensou num passarinho paralisado. Como Gee tinha envelhecido desde a sua prisão e julgamento! Recordou a rapariga travessa e alegre
de Liverpool, a mulher atraente e amante da vida de Londres, à qual devido à sua perna doente os amigos chamavam carinhosamente Coxinha. Era agora uma velhinha encolhida
e adoentada e não a mulher sã, forte e segura de si mesma de há poucos anos. A luz clara dos seus olhos tinha-se apagado e havia rugas na sua cara, pescoço e mãos.
Vestia de escuro, umas roupas já gastas.
- Devo cheirar a todas as porcarias do mundo - brincou Roger, indicando a sua farda de lã azul já acinzentada. - Tiraram-me o direito a tomar banho. Devolvê-lo-ão
só por uma
vez, se me executarem.
- Não vão fazer isso, o Conselho de Ministros aprovará a clemência - afirmou Gertrude, movendo a cabeça para dar mais força às suas palavras. - O presidente Wilson
intercederá por ti junto do Governo britânico, Roger. Prometeu enviar um telegrama. Vão conceder-ta, não haverá execução, acredita em
mim.
Dizia aquilo de uma maneira tão tensa, com uma voz tão quebrada, que Roger sentiu pena dela, de todos os amigos que,

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como Gee, sofriam durante aqueles dias a mesma angústia e incerteza. Tinha vontade de lhe perguntar pelos ataques dos jornais que o carcereiro mencionara, mas conteve-se.
O presidente dos Estados Unidos intercederia por ele? Deviam ser iniciativas de John Devoy e restantes amigos do Clan na Gael. Se o fazia, a sua diligência teria
efeito. Ainda restava uma possibilidade de que o gabinete lhe comutasse a pena.
Não havia onde sentar-se e Roger e Gertrude permaneciam de pé, muito juntos, de costas para o xerife e para o guarda. As quatro presenças transformavam o pequeno
parlatório num lugar claustrofóbico.
- Gavan Duffy contou-me que te tinham despedido da Queen Anne's School - desculpou-se Roger. - Já sei que foi por minha culpa. Peço-te mil perdões, querida Gee.
Causar o teu mal era a última coisa que eu quereria.
- Não me despediram, pediram-me que aceitasse o cancelamento do meu contrato. E deram-me uma indemnização de quarenta libras. Não me importa. Assim tive mais tempo
para ajudar Alice Stopford Green nos seus esforços para te salvar a vida. Isso agora é o mais importante.
Pegou na mão do primo e apertou-a com ternura. Gee ensinava há muitos anos na escola do Queen Anne's Hospital, em Caversham, onde chegou a ser subdirectora. Sempre
gostara do seu trabalho, acerca do qual contava divertidos episódios nas suas cartas a Roger. E agora, pelo seu parentesco com um pestilento, seria uma desempregada.
Teria de que viver ou alguém que a ajudasse?
- Ninguém acredita nas infâmias que estão a publicar contra ti - disse Gertrude, baixando muito a voz, como se os dois homens que ali estavam pudessem não a ouvir.
- Todas as pessoas decentes estão indignadas pelo Governo se valer dessas calúnias para tirar força ao manifesto que tanta gente importante assinou em teu favor,
Roger.
Embargou-se-lhe a voz como se fosse soluçar. Roger abraçou-a de novo.

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- Sempre gostei tanto de ti, Gee, queridíssima Gee - sussurrou-lhe ao ouvido. - E agora, ainda mais que antes. Agradecer-te-ei sempre teres sido leal comigo nas
coisas boas e nas más. Por isso, a tua opinião é uma das poucas que me interessa. Sabes que tudo o que fiz foi pela Irlanda, não é verdade? Por uma causa nobre e
generosa, como é a da Irlanda. Não é assim, Gee? Ela tinha-se posto a soluçar, baixinho, com a cara esmagada contra o seu peito.
- Tinham dez minutos e já passaram cinco - recordou o xerife, sem se virar para olhar para eles. - Ainda lhes restam
cinco.
- Agora, com tanto tempo para pensar - disse Roger, ao ouvido da sua prima -, recordo muito aqueles anos em Liverpool, quando éramos tão jovens e a vida nos sorria,
Gee.
- Todos julgavam que éramos namorados e que um dia nos casaríamos - murmurou Gee. - Eu também recordo essa época com nostalgia, Roger.
- Éramos mais que namorados, Gee. Irmãos, cúmplices. As duas faces da mesma moeda. Tão unidos. Tu foste muitas coisas para mim. A mãe que perdi aos nove anos. Os
amigos que nunca tive. Contigo senti-me sempre melhor do que com os meus próprios irmãos. Davas-me confiança, segurança na vida, alegria. Mais tarde, em todos os
meus anos em África, as tuas cartas eram a minha única ponte com o resto do mundo. Não sabes com que felicidade recebia as tuas cartas e como as lia e relia, querida
Gee.
Calou-se. Não queria que a prima reparasse que ele também estava quase a chorar. Desde novo tinha detestado, sem dúvida pela sua educação puritana, as efusões públicas
de sentimentalismo, mas nestes últimos meses incorria por vezes em certas fraquezas que antes lhe desagradavam tanto nos outros. Gee não dizia nada. Permanecia abraçada
a ele e Roger sentia a sua respiração agitada, que lhe inchava e desinchava o peito.
- Tu foste a única pessoa a quem eu mostrei os meus poemas. Lembras-te?

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- Lembro-me de que eram péssimos - disse Gertrude. -Mas eu gostava tanto de ti que tos elogiava. Até aprendi um ou outro de cor.
- Eu apercebia-me bem que não gostavas deles, Gee. Foi uma sorte nunca os ter publicado. Estive quase, como sabes.
Olharam um para o outro e acabaram por se rir.
- Estamos a fazer tudo, tudo, para te ajudar, Roger - disse Gee, pondo-se de novo muito séria. A sua voz também tinha envelhecido; antes era firme e risonha e, agora,
vacilante e alquebrada. - Nós, os que gostamos de ti, que somos muitos. Alice, em primeiro lugar, claro. A mover céus e terra. A escrever cartas, a visitar políticos,
autoridades, diplomatas. A explicar, a rogar. A bater a todas as portas. Ela anda a tentar vir ver-te. É difícil. Só estão autorizados os familiares. Mas, Alice
é conhecida, tem influências. Conseguirá a autorização e virá, vais ver. Sabias que aquando da Revolta da Páscoa em Dublin a Scotland Yard revistou a casa dela de
cima a baixo? Levaram muitos papéis. Ela gosta de ti e admira-te tanto, Roger.
"Eu sei", pensou Roger. Ele também gostava de Alice Stop-ford Green e admirava-a. A historiadora, irlandesa e de família anglicana como Casement, cuja casa era um
dos salões intelectuais mais frequentados de Londres, centro de tertúlias e de reuniões de todos os nacionalistas e autonomistas da Irlanda, havia sido mais que
uma amiga e uma conselheira para ele em matérias políticas. Tinha-o educado e dado a descobrir e a amar o passado da Irlanda, a sua longa história e a sua florescente
cultura antes de ser absorvida pelo seu poderoso vizinho. Recomendara-lhe livros, esclarecera-o em apaixonadas conversas, incitara-o a continuar com aquelas lições
da língua irlandesa que, infelizmente, ele nunca chegou a dominar. "Morrerei sem falar gaélico", pensou. E, mais tarde, quando se tornou um nacionalista radical
foi Alice a primeira pessoa que começou a chamá-lo em Londres com a alcunha que Herbert Ward lhe tinha dado e a que Roger achava tanta graça: o Celta.

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- Dez minutos - sentenciou o xerife. - Hora de se despedirem.
Sentiu que a prima se abraçava a ele e que a boca dela tentava aproximar-se do seu ouvido, sem conseguir, pois ele era muito mais alto do que ela. Falou com ele
sumindo a voz até torná-la quase inaudível:
- Todas aquelas coisas horríveis que os jornais dizem são calúnias, mentiras abjectas. Não é verdade, Roger?
A pergunta apanhou-o tão desprevenido que demorou uns segundos a responder.
- Não sei o que é que a imprensa diz de mim, querida Gee. Não chega aqui. Mas - procurou cuidadosamente as palavras -, de certeza que o são. Quero que tenhas presente
uma única coisa, Gee. E que acredites em mim. Enganei-me muitas vezes, claro. Mas não tenho nada de que me envergonhar. Nem tu nem nenhum dos meus amigos têm por
que se envergonhar de mim. Acreditas em mim, não é verdade, Gee?
- Claro que acredito em ti. - A prima soluçou, tapando a boca com as duas mãos.
De regresso à sua cela, Roger sentiu que os olhos se enchiam de lágrimas. Fez um grande esforço para que o xerife não reparasse nisso. Era estranho ter vontade de
chorar. Que se lembrasse, não tinha chorado naqueles meses, desde a sua captura. Nem durante os interrogatórios na Scotland Yard, nem durante as audiências do julgamento,
nem ao ouvir a sentença que o condenava a ser enforcado. Porquê agora? Por Gertrude. Por Gee. Vê-la sofrer daquele modo, duvidar daquele modo, significava que pelo
menos para ela a sua pessoa e a sua vida eram preciosas. Não estava, pois, tão sozinho como se sentia.


IV.


A VIAGEM DO CÔNSUL BRITÂNICO ROGER CASEMENT pelo rio
Congo acima, que começou a 5 de Junho de 1903 e que mudaria a sua vida, devia ter-se iniciado um ano antes. Ele tinha vindo a sugerir esta expedição ao Foreign Office
desde que, em 1900, depois de servir em Old Calabar (Nigéria), Lourenço Marques (Maputo) e São Paulo de Luanda (Angola), passara a ter residência oficial como cônsul
da Grã-Bretanha em Boma -uma aldeia disforme - alegando que a melhor maneira de apresentar um relatório sobre a situação dos nativos no Estado Independente do Congo
era sair daquela capital remota para as florestas e tribos do Médio e Alto Congo. Ali se efectuava a exploração da qual vinha informando o Foreign Office desde que
chegara àqueles domínios. Por fim, depois de ponderar as razões de Estado que faziam revoltar o estômago do cônsul, embora as compreendesse - a Grã-Bretanha era
aliada da Bélgica e não queria atirá-la para os braços da Alemanha -, o Foreign Office autorizou-o a empreender a viagem para as aldeias, estações, missões, postos,
acampamentos e feitorias onde se levava a cabo a extracção da borracha, o ouro negro avidamente cobiçado agora em todo o mundo para as rodas e pára-choques de camiões
e automóveis e mais de mil usos industriais e domésticos. Devia verificar no terreno o que havia de verdade sobre iniquidades cometidas contra os nativos no Congo
de Sua Majestade Leopoldo II, o rei dos Belgas, nas denúncias feitas pela

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Sociedade para a Protecção dos Indígenas, em Londres, e algumas Igrejas Baptistas e missões católicas na Europa e nos Estados Unidos.
Preparou a viagem com a sua meticulosidade habitual e um entusiasmo que disfarçava perante os funcionários belgas e os colonos e comerciantes de Boma. Agora sim,
poderia argumentar perante os seus chefes, com conhecimento de causa, que o Império, fiel à sua tradição de justiça e fair play, devia liderar uma campanha internacional
que pusesse ponto final àquela ignomínia. Mas nessa altura, em meados de 1902, teve o seu terceiro ataque de malária, este ainda pior que os dois anteriores, sofridos
desde que, num ímpeto de idealismo e de sonho aventureiro, decidira em 1884 deixar a Europa e vir trabalhar para África a fim de, através do comércio, do cristianismo
e das instituições sociais e políticas do Ocidente, emancipar os Africanos do atraso, da doença e da ignorância.
Não eram meras palavras. Acreditava profundamente em tudo aquilo, quando, com vinte anos de idade, chegara ao Continente Negro. As primeiras febres palúdicas só
se abateram sobre ele anos depois. Acabava de se concretizar o desejo da sua vida: fazer parte de uma expedição encabeçada pelo mais famoso aventureiro em solo africano:
Henry Morton Stanley. Servir às ordens do explorador que numa lendária viagem de cerca de três anos, entre 1874 e 1877, tinha atravessado a África de este a oeste,
seguindo o curso do rio Congo desde a sua nascente até à sua foz no Atlântico! Acompanhar o herói que encontrara o desaparecido doutor Livingstone! Então, como se
os deuses quisessem apagar a sua exaltação, teve o primeiro ataque de malária. Nada, comparado com o que foi o segundo, três anos depois - 1887 - e, sobretudo, este
terceiro de 1902, em que pela primeira vez julgou morrer. Os sintomas foram os mesmos naquela madrugada de meados de 1902 quando, já volumosa a malinha com os seus
mapas, bússola, lápis e cadernos de notas, sentiu, ao abrir os olhos no quarto do andar superior da sua casa de Boma, no bairro dos colonos, a poucos

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passos do edifício do Governo, que servia ao mesmo tempo de residência e escritório do Consulado, que tremia de frio. Afastou o mosquiteiro e viu, pelas janelas
sem vidros nem cortinas, mas com redes metálicas para os insectos, fustigadas pelo aguaceiro, as águas lamacentas do grande rio e as ilhas em volta carregadas de
vegetação. Não conseguiu pôr-se de pé. As pernas dobraram-se-lhe, como se fossem de trapos. John, o seu buldogue, começou a brincar e a ladrar, assustado. Deixou-se
cair novamente na cama. O seu corpo ardia e o frio entrava-lhe nos ossos. Chamou por Charlie e Mawuku aos gritos, o mordomo e o cozinheiro congoleses que dormiam
no andar de baixo, mas nenhum respondeu. Deviam estar fora e, surpreendidos pela tempestade, terão corrido para se abrigar sob a copa de algum baobá até que amainasse.
"Malária, outra vez?", maldisse o cônsul. Precisamente em vésperas da expedição? Teria diarreias, hemorragias e a fraqueza obrigá-lo-ia a ficar na cama dias e semanas,
estonteado e com arrepios.
Charlie foi o primeiro dos criados a voltar, a pingar água. "Vai chamar o doutor Salabert", ordenou-lhe Roger, não em francês, mas em lingala. O doutor Salabert
era um dos dois médicos de Boma, antigo porto negreiro - chamava-se então Mboma - onde, no século XVI, vinham os traficantes portugueses da ilha de São Tomé para
comprar escravos aos pequenos chefes tribais do desaparecido reino do Congo e convertido agora pelos Belgas na capital do Estado Independente do Congo. Ao contrário
de Matadi, em Boma, não havia um hospital, só um dispensário para casos de urgência onde duas freiras flamengas atendiam. O médico chegou meia hora depois, a arrastar
os pés e a auxiliar-se com uma bengala. Era menos velho do que parecia, mas o clima rude e, sobretudo, o álcool, tinham-no envelhecido. Parecia um ancião. Vestia-se
como um vagabundo. Os seus botins não tinham atacadores e levava o colete desabotoado. Apesar de o dia estar a começar, tinha os olhos abrasados.
- Sim, meu amigo, malária, o que é que há-de ser? Mas que febrão. Já sabe o remédio: quinino, líquidos abundantes,

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dieta de caldo, panatelas e muito agasalho para suar as infecções. Nem sonhe levantar-se antes de duas semanas. E muito menos ir de viagem, nem à esquina. As terçãs
dão cabo do organismo, já sabe isso de cor e salteado.
Não foram duas, mas três semanas em que esteve prostrado pelas febres e pelas tremedeiras. Perdeu oito quilos e no primeiro dia em que conseguiu pôr-se de pé ao
fim de poucos passos caiu no chão, exausto, num estado de debilidade que não se lembrava de ter sentido antes. O doutor Salabert, olhando para ele fixamente nos
olhos e com voz cavernosa e humor ácido, avisou-o:
- No seu estado, seria um suicídio empreender essa expedição. O seu corpo está enfraquecido e não resistiria nem sequer à travessia dos montes de Cristal. Menos
ainda a várias semanas de vida à intempérie. Nem chegaria a Mbanza-Ngungu. Há maneiras mais rápidas de se matar, senhor cônsul: um balázio na boca ou uma injecção
de estricnina. Se precisar, conte comigo. Ajudei vários a empreender a grande viagem.
Roger Casement teve de telegrafar para o Foreign Office dizendo que o seu estado de saúde o obrigava a adiar a expedição. E como depois as chuvas tornaram intransitáveis
as florestas e o rio, a expedição ao interior do Estado Independente do Congo teve de esperar mais alguns meses, que se converteriam num ano. Mais um ano, a recuperar
muito lentamente das febres e a tentar readquirir o peso perdido, voltando a empunhar a raqueta de ténis, a nadar, a jogar brídege ou xadrez para enganar as longas
noites de Boma, enquanto retomava os aborrecidos trabalhos consulares: tomar nota dos barcos que chegavam e partiam, dos produtos que os mercadores de Antuérpia
descarregavam - espingardas, munições, chicotes, vinho, pagelas, crucifixos, continhas de vidro coloridas - e que levavam para a Europa, as imensas pilhas de borracha,
peças de marfim e peles de animais. Era este o intercâmbio que, na sua imaginação juvenil, ia salvar os Congoleses do canibalismo, dos mercadores

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árabes de Zanzibar que controlavam o tráfico de escravos e abrir-lhes as portas da civilização!
Esteve três semanas abatido pelas febres palúdicas, de vez em quando a delirar e a tomar gotas de quinino dissolvidas nas infusões de ervas que Charlie e Mawuku
lhe preparavam três vezes ao dia - o seu estômago só aguentava caldos e bocadinhos de peixe fervido ou de frango -, e a brincar com John, o seu cão buldogue e o
seu mais fiel companheiro. Nem sequer tinha força para se concentrar na leitura.
Naquela inacção forçada, Roger recordou muitas vezes a expedição de 1884 sob o comando do seu herói Henry Morton Stanley. Tinha vivido nas florestas, visitado inúmeras
aldeias indígenas, acampado em clareiras cercadas por paliçadas de árvores onde guinchavam os macacos e rugiam as feras. Sentiu-se tenso e feliz apesar das feridas
dos mosquitos e de outros bichos contra os quais era inútil esfregar com álcool canforado. Praticava natação em lagoas e rios de beleza deslumbrante, sem medo dos
crocodilos, convencido ainda de que fazendo o que faziam, ele, os quatrocentos carregadores, guias e ajudantes africanos, a vintena de brancos - ingleses, alemães,
flamengos, valões e franceses - que compunha a expedição e, claro, o próprio Stanley, eram a ponta de lança do progresso neste mundo onde mal despontava a Idade
da Pedra e que a Europa tinha deixado para trás há milhares de anos.
Anos depois, no dorme-acorda visionário da febre, corava pensando em como tinha sido cego. Nem sequer se apercebia bem, a princípio, da razão de ser daquela expedição
encabeçada por Stanley e financiada pelo rei dos Belgas, a quem ele, é claro, considerava então - como a Europa, como o Ocidente, como o Mundo - o grande monarca
humanitário, empenhado em acabar com aquelas máculas que eram a escravidão e a antropofagia e em libertar as tribos do paganismo e da servidão que as mantinham no
estado feral.
Ainda faltava um ano para que as grandes potências ocidentais oferecessem a Leopoldo II, na Conferência de Berlim

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de 1885, aquele Estado Independente do Congo com mais de dois milhões e meio de quilómetros quadrados - oitenta e cinco vezes o tamanho da Bélgica -, mas já o rei
dos Belgas se tinha posto a administrar o território com que iam obsequiá-lo para que exercitasse nos vinte milhões de congoleses que se julgava habitarem-no, os
seus princípios redentores. O monarca das barbas penteadas tinha contratado para isso o grande Stanley, adivinhando, com a sua prodigiosa aptidão para detectar as
fraquezas humanas, que o explorador era igualmente capaz de grandes façanhas como de enormes vilanagens se o prémio estivesse à altura dos seus apetites.
A razão aparente da expedição de 1884 em que Roger fez as suas primeiras proezas de explorador era preparar as comunidades espalhadas nas margens do Alto, Médio
e Baixo Congo, ao longo de milhares de quilómetros de selva espessa, quebradas, cascatas e montes cobertos de vegetação, para a chegada dos comerciantes e administradores
europeus que a Associação Internacional do Congo, presidida por Leopoldo II, traria assim que as potências ocidentais lhe dessem a concessão. Stanley e os seus acompanhantes
deveriam explicar àqueles sobas seminus, tatuados e emplumados, às vezes com espinhas na cara e nos braços, às vezes com funis de juncos nos seus falos, as intenções
benévolas dos Europeus: viriam ajudá-los a melhorar as suas condições de vida, libertá-los de pragas como a mortífera doença do sono, educá-los e abrir-lhes os olhos
sobre as verdades deste mundo e do outro, graças ao que os seus filhos e netos alcançariam uma vida decente, justa e livre.
"Não me apercebia porque não queria aperceber-me", pensou. Charlie tinha-o agasalhado com todas as mantas da casa. Apesar disso e do sol candente do exterior, o
cônsul, encolhido e gelado, tremia sob o mosquiteiro como uma folha de papel. Mas, pior que ser um cego voluntário, era encontrar explicações para o que qualquer
observador imparcial teria chamado "um embuste". Porque, em todas as aldeias onde chegava a expedição de 1884, depois de distribuir continhas de vidro

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coloridas e bagatelas e depois das explicações habituais por meio de intérpretes (muitos dos quais não chegavam a fazer-se entender pelos nativos), Stanley levava
os sobas e bruxos a assinar uns contratos, escritos em francês, comprometendo-se a fornecer mão-de-obra, alojamento, guia e sustento aos funcionários, representantes
e empregados da Associação Internacional do Congo nos trabalhos que empreendessem para a realização dos fins que a inspiravam. Eles assinavam com cruzes, riscos,
manchas, desenhinhos, sem refilar e sem saber o que é que assinavam nem o que era assinar, divertidos com os colares, pulseiras e adornos de vidro pintado que recebiam
e os golinhos de aguardente com que Stanley os convidava a brindar pelo acordo.
"Não sabem o que fazem, mas nós sabemos que é para seu bem e isso justifica o engano", pensava o jovem Roger Casement. Que outra maneira havia de o fazer? Como dar
legitimidade à futura colonização com gente que não conseguia entender uma palavra daqueles "tratados" nos quais o seu futuro e o dos seus descendentes ficava comprometido?
Era preciso dar alguma forma legal ao empreendimento que o monarca dos Belgas queria que se realizasse através da persuasão e do diálogo, ao contrário de outros
feitos a sangue e fogo, com invasões, assassínios e saques. Essa forma não era pacífica e civilizada?
Com os anos - tinham passado dezoito desde a expedição que fez às suas ordens, em 1884 - Roger Casement chegou à conclusão de que o herói da sua infância e juventude
era um dos espertalhões mais sem escrúpulos que o Ocidente excretara sobre o continente africano. Apesar disso, como todos os que tinham trabalhado às suas ordens,
não podia deixar de reconhecer o seu carisma, a sua simpatia, a sua magia, aquela mescla de temeridade e cálculo frio com que o aventureiro misturava as suas proezas.
Ia e vinha por África semeando por um lado a desolação e a morte - queimando e saqueando aldeias, fuzilando nativos, descarnando as costas dos seus carregadores
com aqueles chicotes de tiras de pele de hipopótamo

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que tinham deixado milhares de cicatrizes nos corpos de ébano de toda a geografia africana - e, por outro, abrindo rotas ao comércio e à evangelização em imensos
territórios cheios de feras, alimárias e epidemias que a ele pareciam respeitá-lo como a um daqueles titãs das lendas homéricas e das histórias bíblicas.
- O senhor, às vezes, não tem remorsos, má consciência pelo que fazemos?
A pergunta brotou dos lábios do jovem de maneira não premeditada. Já não podia retirá-la. As chamas da fogueira, no centro do acampamento, crepitavam com os raminhos
e os insectos imprudentes que nela ardiam.
- Remorsos? Má consciência? - O chefe da expedição franziu o nariz e avinagrou a cara sardenta e muito queimada pelo sol como se nunca tivesse ouvido aquelas palavras
e estivesse a adivinhar o que queriam dizer. - De quê?
- Dos contratos que os obrigamos a assinar - disse o jovem Casement, vencendo a sua perturbação. - Põem as suas vidas, as suas populações, tudo o que têm nas mãos
da Associação Internacional do Congo. E nem um único sabe o que assina, porque nenhum fala francês.
- Se soubessem francês, também não entenderiam os contratos - riu-se o explorador com o seu riso franco, aberto, um dos seus atributos mais simpáticos. - Nem eu
entendo o que querem dizer.
Era um homem forte e muito baixinho, quase anão, de aspecto desportivo, ainda jovem, olhos cinzentos cintilantes, bigode espesso e personalidade dominadora. Calçava
sempre botas altas, usava pistola à cintura e um casaco claro com muitos bolsinhos. Voltou a rir-se e os capatazes da expedição que com Stanley e Roger tomavam café
e fumavam em volta da fogueira, riram-se também, adulando o seu chefe. Mas o jovem Casement não se riu.
- Eu, sim, ainda que, para dizer a verdade, a charada em que estão escritos os contratos pareça de propósito para que não se percebam - disse ele, de maneira respeitosa.
- Reduz-se a uma coisa muito simples.

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Entregam as suas terras à Associação Internacional do Congo em troca de promessas de ajuda social. Comprometem-se a apoiar as obras: caminhos,
pontes, embarcadouros, feitorias. A dar os braços que fazem falta para o campo e para a ordem pública. A alimentar funcionários e soldados, enquanto durarem os trabalhos.
A Associação não oferece nada em troca. Nem salários nem compensações. Sempre acreditei que estamos aqui pelo bem dos Africanos, senhor Stanley. Gostaria que o senhor,
a quem admiro desde que tenho uso da razão, me desse razões para continuar a acreditar que é assim. Que aqueles contratos são, verdadeiramente, para o bem deles.
Houve um longo silêncio, quebrado pelo crepitar da fogueira e esporádicos grunhidos dos animais nocturnos que saíam para procurar o sustento. Tinha deixado de chover
há um bocado, mas a atmosfera continuava húmida e pesada, parecia que em volta tudo germinava, crescia e se espessava. Dezoito anos depois, Roger, entre as imagens
desordenadas que a febre fazia revoar na sua cabeça, recordava o olhar inquiridor, surpreendido, por momentos trocista, com que Henry Morton Stanley o inspeccionou.
- A África não se fez para os fracos - disse ele por fim, como se falasse consigo mesmo. - As coisas que o preocupam são um sinal de fraqueza. No mundo em que estamos,
quero dizer. Não é os Estados Unidos nem a Inglaterra, já se deve ter apercebido disso. Em África os fracos não duram. As picadas, as febres, as flechas envenenadas
ou a mosca tsé-tsé acabam com eles.
Era galês, mas devia ter vivido muito tempo nos Estados Unidos porque o seu inglês tinha a música, as expressões e a gíria norte-americanas.
- Tudo isto é pelo bem deles, claro que sim - acrescentou Stanley, com um movimento de cabeça para o círculo de cabanas cónicas do casario em cujas margens se erguia
o acampamento. - Virão missionários que os tirarão do paganismo e lhes ensinarão que um cristão não deve comer o próximo. Médicos

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que os vacinarão contra as epidemias e os curarão melhor que os seus feiticeiros. Companhias que lhes darão trabalho. Escolas onde aprenderão as línguas civilizadas.
Onde os ensinarão a vestir-se, a rezar ao verdadeiro Deus, a expressar-se em língua cristã e não nesses dialectos de macacos que falam. Pouco a pouco substituirão
os seus costumes bárbaros pelos de seres modernos e instruídos. Se soubessem o que fazemos por eles, beijar-nos-iam os pés. Mas, o seu estado mental está mais próximo
do crocodilo e do hipopótamo que de si ou de mim. Por isso, nós decidimos por eles o que lhes convém e fazemos com que assinem estes contratos. Os seus filhos e
netos agradecer-nos-ão. E não seria estranho que, daqui a uns tempos, começassem a adorar Leopoldo II como adoram agora os seus fetiches e espantalhos.
Em que sítio do grande rio ficava aquele acampamento? Parecia-lhe vagamente que num lugar entre Bolobo e Chumbiri e que a tribo pertencia aos Bateques. Mas não tinha
a certeza. Aqueles dados encontravam-se nos seus diários, se assim se podia chamar ao amontoado de notas espalhadas em cadernos e papéis soltos ao longo de tantos
anos. Em todo o caso, recordava com nitidez aquela conversa. E o mal-estar com que se foi deitar no seu catre depois da troca de palavras com Henry Morton Stanley.
Terá sido naquela noite que começou a desfazer-se a sua santíssima trindade pessoal dos três cês? Até então acreditava que o colonialismo se justificava com elas:
cristianismo, civilização e comércio. Desde que tinha sido um modesto ajudante de contabilidade na Elder Dempster Line, em Liverpool, supunha que havia um preço
a pagar. Era inevitável que se cometessem abusos. Entre os colonizadores não só viria gente altruísta como o doutor Livingstone, mas também malandros abusadores.
No entanto, feitas as contas, os benefícios superariam largamente os prejuízos. A vida africana foi-lhe mostrando que as coisas não eram tão claras como a teoria.
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No ano em que trabalhou às suas ordens, sem deixar de admirar a audácia e a capacidade de comando com que Henry Morton Stanley conduzia a sua expedição pelo território
longamente desconhecido banhado pelo rio Congo e pela sua miríade de afluentes, Roger Casement aprendeu também que o explorador era um mistério ambulante. Todas
as coisas que se diziam sobre ele estavam sempre em contradição entre si mesmas, de maneira que era impossível saber quais eram verdadeiras e quais eram falsas e
quanto havia nas verdadeiras de exagero e fantasia. Era um daqueles homens incapazes de distinguir a realidade da ficção.
A única coisa clara foi que a ideia de um grande benfeitor dos nativos não correspondia à verdade. Soube-o ouvindo capatazes que tinham acompanhado Stanley na sua
viagem de 1871-72 à procura do doutor Livingstone, uma expedição, diziam, muito menos pacífica do que esta em que, sem dúvida seguindo instruções do próprio Leopoldo
II, se mostrava mais cuidadoso no trato com as tribos, a cujos chefes - quatrocentos e cinquenta, no total - obrigou a assinar a concessão das suas terras e da sua
força de trabalho. As coisas que aqueles homens rudes e desumanizados pela selva contavam da expedição de 1871-72 punham os cabelos em pé. Povoações dizimadas, sobas
decapitados e a suas mulheres e filhos fuzilados se se recusassem a alimentar os expedicionários ou a ceder-lhes carregadores, guias e desbravadores de mato que
abrissem caminhos na floresta. Aqueles velhos companheiros de Stanley temiam-no e recebiam as suas reprimendas calados e com os olhos baixos. Mas tinham uma confiança
cega nas suas decisões e falavam com reverência religiosa da sua famosa viagem de novecentos e noventa e nove dias entre 1874 e 1877 em que morreram todos os brancos
e uma boa parte dos africanos.
Quando, em Fevereiro de 1885, no Congresso de Berlim a que não assistiu um único congolês, as catorze potências participantes, encabeçadas pela Grã-Bretanha, Estados
Unidos, França e Alemanha, deram gratuitamente a Leopoldo II - ao lado do qual Henry Morton Stanley sempre esteve - os dois milhões e meio de quilómetros quadrados
do Congo e os seus vinte milhões de habitantes para que "abrisse aquele território

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ao comércio, abolisse a escravatura e civilizasse e cristianizasse os pagãos". Roger Casement, com os seus vinte e um anos recentes e o seu ano de vida africana,
festejou isso. Assim fizeram todos os empregados da Associação Internacional do Congo, os quais, já prevendo esta concessão, estavam há tempos no território, assentando
as bases do projecto que o monarca se dispunha a levar a cabo. Casement era um rapaz forte, bastante alto, magro, de cabelos e barbinha muito pretos, fundos olhos
cinzentos, pouco propenso às brincadeiras, lacónico, parecia um homem maduro. As suas preocupações desconcertavam os seus companheiros. Qual deles é que ia levar
a sério aquilo da "missão civilizadora da Europa em África" que obcecava o jovem irlandês? Mas tinham-lhe apreço porque era trabalhador e estava sempre disposto
a dar uma ajuda e a substituir num turno ou numa tarefa a quem lho pedisse. Excepto fumar, parecia isento de vícios. Quase não bebia álcool e quando, nos acampamentos,
uma vez as línguas desatadas pela bebida, se falava de mulheres, parecia incomodado, com vontade de se ir embora. Era incansável nos percursos pela floresta e um
imprudente nadador nos rios e lagoas, que dava braçadas enérgicas em frente dos sonolentos hipopótamos. Tinha paixão pelos cães e os seus companheiros recordavam
que naquela expedição de 1884, no dia em que um javali cravou os caninos no seu fox terrier chamado Spindler, ao ver o animalzinho a esvair-se em sangue com o flanco
aberto, teve uma crise nervosa. Ao contrário dos outros europeus da expedição, o dinheiro não lhe interessava. Não tinha vindo para África com o sonho de se tornar
rico, mas sim movido por coisas incompreensíveis como trazer o progresso aos selvagens. Gastava o seu salário de oitenta libras esterlinas por ano a pagar coisas
aos seus companheiros. Ele vivia frugalmente. No entanto, cuidava da sua pessoa, arranjando-se, lavando-se e penteando-se à hora do rancho como se em vez de acampar
numa clareira ou na praiazinha de um rio estivesse em Londres, Liverpool ou Dublin. Tinha facilidade para as línguas; aprendera francês e português e arranhava

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palavrinhas dos dialectos africanos ao fim de poucos dias de estar na vizinhança de uma tribo. Andava sempre a anotar o que via nuns caderninhos escolares. Alguém
descobriu que ele escrevia poemas. Troçaram dele por causa disso e a vergonha só lhe permitiu balbuciar um desmentido. Uma vez confessou que, em criança, o pai lhe
tinha dado cinturadas e por isso ficava irritado pelos capatazes açoitarem os nativos quando estes deixavam cair uma carga ou não cumpriam as ordens. Tinha um olhar
um pouco sonhador.
Quando Roger se lembrava de Stanley ficava embargado por sentimentos contraditórios. Continuava a recuperar lentamente da malária. O aventureiro galês só tinha visto
em África um pretexto para as façanhas desportivas e o saque pessoal. Mas como negar que era um desses seres dos mitos e das lendas, que à força de temeridade, desprezo
pela morte e ambição, pareciam ter quebrado os limites do humano? Tinha-o visto carregar nos seus braços crianças com a cara e o corpo comidos pela varíola, dar
de beber do seu próprio cantil a indígenas que agonizavam com a cólera ou a doença do sono, como se a ele ninguém pudesse contagiá-lo. Quem tinha sido na verdade
este campeão do Império Britânico e das ambições de Leopoldo II? Roger tinha a certeza de que o mistério nunca se desvendaria e que a sua vida continuaria sempre
oculta atrás de uma teia de aranha de invenções. Qual era o seu verdadeiro nome? O de Henry Morton Stanley foi buscá-lo ao comerciante de Nova Orleães que, nos anos
obscuros da sua juventude, foi generoso com ele e porventura o adoptou. Dizia-se que o seu nome verdadeiro era John Rowlands, mas ninguém sabia. Como também não
sabiam que tinha nascido no País de Gales e passado a sua infância num daqueles orfanatos aonde iam parar as crianças sem pai nem mãe que a Polícia Municipal de
Saúde recolhia na rua. Segundo parece, muito jovem partiu para os Estados Unidos como clandestino num barco de carga e lá, durante a Guerra Civil, lutou como soldado
nas fileiras dos confederados, primeiro, e a seguir nas dos ianques. Depois,

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julgava-se, tinha-se tornado jornalista e escreveu crónicas sobre o avanço dos pioneiros em direcção ao Oeste e as suas lutas com os índios. Quando o New York Herald
o mandou para África à procura de David Livingstone, Stanley não tinha a menor experiência de explorador. Como é que conseguiu sobreviver percorrendo aquelas florestas
virgens, tal como quem busca agulha num palheiro, e conseguiu encontrar, em Ujiji, a 10 de Novembro de 1871, aquele a quem, segundo uma confissão presunçosa, deixou
estupefacto com o cumprimento: "Doutor Livingstone, suponho?"
O que Roger Casement na sua juventude mais admirou das realizações de Stanley, mais ainda que a sua expedição desde as nascentes do rio Congo até à sua irrupção
no Atlântico, foi a construção, entre 1879 e 1881, do caravan trail. A rota das caravanas abriu uma via ao comércio europeu desde a foz do grande rio até à pool,
enorme lagoa fluvial que com os anos se chamaria como o explorador: Stanley Pool. Depois, Roger descobriu que esta foi outra das operações previstas do rei dos Belgas
para ir criando a infra-estrutura que, a partir do Tratado de Berlim de 1885, lhe permitisse a exploração do território. Stanley foi o audacioso executor daquele
desígnio.
"E eu", diria muitas vezes Roger Casement nos seus anos africanos ao seu amigo Herbert Ward, à medida que ia tomando consciência do que significava o Estado Independente
do Congo, "fui um dos seus peões desde o primeiro momento." Embora não totalmente, pois, quando ele chegou a África, Stanley já andava há cinco anos a abrir o caravan
trail, cujo primeiro troço, desde Vivi até Isanguila, oitenta e três quilómetros rio Congo acima de selva intrincada e palúdica, cheia de quebradas profundas, árvores
em forma de vermes e pântanos pútridos onde as copas das árvores tapavam a luz do Sol, ficou concluído nos princípios de 1880. Dali até Muyanga, uns cento e vinte
quilómetros de travessia, o Congo era navegável para pilotos experientes, capazes de contornar os remoinhos e, nas horas de chuva e subida das águas, refugiar-se
em vaus ou grutas para

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não serem atirados contra as rochas e desfeitos nos rápidos que se faziam e desfaziam sem cessar. Quando Roger começou a trabalhar para a Associação Internacional
do Congo, que, a partir de 1885, se converteu no Estado Independente do Congo, Stanley já tinha fundado, entre Kinshasa e Ndolo, a estação que baptizou com o nome
de Léopoldville. Era Dezembro de 1881, faltavam três anos para que Roger Casement chegasse à selva e quatro para que nascesse legalmente o Estado Independente do
Congo. Nessa altura, este domínio colonial, o maior de África, criado por um monarca que nunca poria nele os pés, era já uma realidade comercial a que os homens
de negócios europeus podiam aceder a partir do Atlântico, vencendo o obstáculo de um Baixo Congo intransitável devido aos rápidos, quedas-d'água, voltas e reviravoltas
das cataratas de Livingstone, graças àquela rota que, ao longo de quase quinhentos quilómetros, Stanley abriu entre Boma e Vivi até Léopoldville e a pool. Quando
Roger chegou a África, mercadores audazes, os avançados de Leopoldo II, começavam a embrenhar-se no território congolês e a tirar os primeiros marfins, peles e cestas
de borracha de uma região cheia de árvores que transpiravam o látex negro, ao alcance de quem quisesse apanhá-lo.
Nos seus primeiros anos africanos, Roger Casement percorreu várias vezes a rota das caravanas, rio acima, de Boma e Vivi até Léopoldville, ou rio abaixo, de Léopoldville
à foz no Atlântico, onde as águas verdes e espessas se tornavam salgadas e por onde, em 1482, a caravela do português Diogo Cão entrou pela primeira vez no interior
do território congolês. Roger chegou a conhecer o Baixo Congo melhor que nenhum outro europeu estabelecido em Boma ou em Matadi, os dois eixos a partir dos quais
a colonização belga avançava para o interior do continente.
Roger lamentou o resto de toda a sua vida - dizia-o uma vez mais agora, em 1902, no meio da febre - ter dedicado os seus primeiros oito anos em África a trabalhar,
como peão numa partida de xadrez, na construção do Estado Independente do Congo, investindo nisso o seu tempo, a sua saúde,

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os seus esforços, o seu idealismo e julgando que, deste modo, agia por um desígnio filantrópico.
As vezes, procurando justificações, interrogava-se: "Como é que eu me podia ter apercebido do que acontecia naqueles dois milhões e meio de quilómetros quadrados
a fazer aqueles trabalhos de capataz ou de chefe de grupo nas expedições de Stanley em 1884 e na do norte-americano Henry Shelton Sanford entre 1886 e 1888, em estações
e feitorias recém-instaladas ao longo da rota das caravanas?" Ele era apenas uma minúscula peça do gigantesco aparelho que tinha começado a ganhar corpo sem que
ninguém, fora do seu astuto criador e de um grupo íntimo de colaboradores, soubesse em que é que ia consistir.
No entanto, as duas vezes em que falou com o rei dos Belgas, em 1900, recém-nomeado cônsul em Boma pelo Foreign Office, Roger Casement sentiu uma profunda desconfiança
por aquele homenzarrão robusto, revestido de condecorações, de longas barbas cardadas, nariz impressionante e olhos de profeta que, sabendo que ele se encontrava
em Bruxelas de passagem para o Congo, o convidou para jantar. A magnificência daquele palácio de alcatifas fofas, lustres de cristal, espelhos cinzelados, estatuetas
orientais, causou-lhe vertigens. Havia uma dúzia de convidados, além da rainha Maria Henriqueta, a sua filha, a princesa Clementina, e o príncipe Vítor Napoleão
de França. O monarca monopolizou a conversa toda a noite. Falava como um pregador inspirado e quando descrevia as crueldades dos comerciantes árabes de escravos
que partiam de Zanzibar para fazer as suas "correrias", a sua voz forte atingia tonalidades místicas. A Europa cristã tinha a obrigação de pôr fim àquele tráfico
de carne humana. Ele havia-se proposto a isso e essa seria a oferenda da pequena Bélgica à civilização: libertar aquela humanidade sofredora de semelhante horror.
As senhoras elegantes bocejavam, o príncipe Napoleão sussurrava galanterias à sua vizinha e ninguém ouvia a orquestra que tocava um concerto de Haydn.
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Na manhã seguinte, Leopoldo II chamou o cônsul inglês para que falassem a sós. Recebeu-o no seu gabinete particular. Tinha muitos bibelôs de porcelana e figurinhas
de jade e de marfim. O soberano cheirava a perfume e tinha as unhas brilhantes. Como na véspera, Roger quase não conseguiu dizer palavra. O rei dos Belgas falou
do seu empenho quixotesco e de como era incompreendido pelos jornalistas e políticos ressentidos. Cometiam-se erros e havia excessos, sem dúvida. A razão? Não era
fácil contratar gente digna e capaz que quisesse arriscar-se a trabalhar no longínquo Congo. Pediu ao cônsul que se notasse algo a corrigir no seu novo destino o
informasse a ele, pessoalmente. A impressão que o rei dos Belgas lhe causou foi a de uma personagem pomposa e ególatra.
Agora, em 1902, dois anos depois, dizia a si mesmo que sem dúvida era isso, mas, também, um estadista de inteligência fria e maquiavélica. Assim que foi constituído
o Estado Independente do Congo, Leopoldo II, através de um decreto de 1896, reservou como "domínio da Coroa" uns duzentos e cinquenta mil quilómetros quadrados entre
os rios Kasai e Ruki, que os seus exploradores - principalmente Stanley - lhe indicaram ser ricos em árvores-da-borracha. Aquela extensão ficou fora de todas as
concessões a empresas privadas, destinada a ser explorada pelo soberano. A Associação Internacional do Congo foi substituída, como entidade legal, pelo Estado Independente
do Congo cujo único presidente e trustee ("mandatário") era Leopoldo II.
Explicando à opinião pública internacional que a única maneira eficaz de suprimir o tráfico de escravos era através de "uma força de ordem", o rei enviou para o
Congo dois mil soldados do Exército regular belga ao qual devia juntar-se uma milícia de dez mil nativos, cuja manutenção deveria ser assumida pela população congolesa.
Embora a maior parte desse Exército fosse comandado por oficiais belgas, nas suas fileiras e, sobretudo, nos lugares de chefia da milícia, infiltraram-se pessoas
da pior índole: rufias, ex-presidiários, aventureiros famintos de

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fortuna saídos das cloacas e dos bairros prostibulares de meia Europa. A Força Pública enquistou-se, como um parasita num organismo vivo, no emaranhado de aldeias
disseminadas numa região do tamanho de uma Europa que iria de Espanha até às fronteiras com a Rússia para ser mantida por aquela comunidade africana que não entendia
o que lhe acontecia, excepto que a invasão que caía sobre ela era uma praga mais predadora que os caçadores de escravos, os gafanhotos, as formigas-vermelhas e os
conjuros que traziam o sono da morte. Porque os soldados e milicianos da Força Pública eram gananciosos, brutais e insaciáveis tratando-se de comida, bebida, mulheres,
animais, peles, marfim e, em suma, de tudo o que pudesse ser roubado, comido, bebido, vendido ou fornicado.
Ao mesmo tempo que deste modo se iniciava a exploração dos Congoleses, o monarca humanitário começou a dar concessões a empresas para, segundo outro dos mandatos
que recebeu, "abrir através do comércio o caminho da civilização aos nativos de África". Alguns comerciantes morreram derrubados pelas febres palúdicas, picados
por serpentes ou devorados pelas feras devido ao seu desconhecimento da selva, e alguns poucos caíram sob as flechas e lanças envenenadas dos nativos que ousavam
rebelar-se contra aqueles forasteiros de armas que rebentavam como o trovão ou queimavam como o raio, os quais lhes explicavam que, de acordo com os contratos assinados
pelos seus sobas, tinham de abandonar as suas sementeiras, a pesca, a caça, os seus ritos e rotinas para se tornarem guias, carregadores, caçadores ou recolectores
de borracha, sem receber qualquer salário. Um bom número de concessionários, amigos e protegidos do monarca belga fizeram em pouco tempo grandes fortunas, sobretudo
ele.
Mediante o regime de concessões, as companhias foram-se estendendo pelo Estado Independente do Congo por ondas concêntricas, embrenhando-se cada vez mais na imensa
região banhada pelo Médio e Alto Congo e pela sua teia de aranha de afluentes. Nos seus respectivos domínios, as companhias

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gozavam de soberania. Além de serem protegidas pela Força Pública, contavam com as suas próprias milícias sempre encabeçadas por algum ex-militar, ex-carcereiro,
ex-preso ou foragido, alguns dos quais se tornariam célebres em toda a África pela sua selvajaria. Em poucos anos, o Congo converteu-se no primeiro produtor mundial
da borracha que o mundo civilizado reclamava cada vez em maior quantidade para fazer rodar os seus carros, automóveis, caminhos-de-ferro, além de todo o tipo de
sistemas de transporte, vestuário, decoração e irrigação.
De nada disto foi Roger Casement cabalmente consciente durante aqueles oito anos - 1884 a 1892 - em que, suando por todos os poros, padecendo de paludismo, torrando
com o sol africano e enchendo-se de cicatrizes devido às picadas, arranhões e rasgões de plantas e animais, trabalhava com empenho para escorar a criação comercial
e política de Leopoldo II. Daquilo que se apercebeu, sim, foi do aparecimento e reinado naqueles domínios infinitos do emblema da colonização: o chicote.
Quem inventou aquele delicado, manejável e eficaz instrumento para incitar, assustar e castigar a indolência, a incompetência ou a estupidez daqueles bípedes cor
de ébano que nunca mais faziam as coisas como os colonos esperavam deles, fosse o trabalho no campo, a entrega da mandioca (kwango), a carne de antílope ou de javali
e restantes alimentos atribuídos a cada aldeia ou família, ou fossem os impostos para sufragar as obras públicas que o Governo construía? Dizia-se que o inventor
tinha sido um capitão da Força Pública chamado "Monsieur Chicot", um belga da primeira vaga, homem sob todos os prismas prático e imaginativo, dotado de um poder
de observação agudo, pois reparou primeiro que ninguém que da duríssima pele do hipopótamo se podia fabricar um látego mais resistente e destrutivo que os das tripas
de equinos e felinos, uma corda áspera capaz de causar mais ardume, sangue, cicatrizes e dor que qualquer outro açoite e, ao mesmo tempo, ligeiro e funcional, pois,
encaixado num pequeno cabo de madeira, capatazes, vigias de quartéis, guardas, carcereiros, chefes de
grupo,
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podiam enrolá-lo no cinto ou pendurá-lo ao ombro, quase sem se aperceber que o traziam por pesar tão pouco. A sua simples presença entre os membros da Força
Pública tinha um efeito intimidatório: os olhos dos pretos, das pretas e dos pretinhos ficavam maiores quando o reconheciam, as pupilas brancas das suas caras retintas
ou azuladas brilhavam assustadas imaginando que, perante qualquer erro, tropeço ou falta, o chicote rasgaria o ar com o seu assobio inconfundível e cairia sobre
as suas pernas, nádegas e costas, fazendo-os gritar.
Um dos primeiros concessionários no Estado Independente do Congo foi o norte-americano Henry Shelton Sanford. Tinha sido agente e emissário de Leopoldo II perante
o Governo dos Estados Unidos e peça-chave da sua estratégia para que as grandes potências lhe cedessem o Congo. Em Junho de 1886, formou-se a Sanford Exploring Expedition
para comercializar marfim, goma de mascar, borracha, óleo de palma e cobre, em todo o Alto Congo. Os forasteiros que trabalhavam na Associação Internacional do Congo,
como Roger Casement, foram transferidos para a Sanford Exploring Expedition e os seus empregos assumidos por belgas. Roger passou a trabalhar para a Sanford Exploring
Expedition por cento e cinquenta libras esterlinas por ano.
Começou a trabalhar em Setembro de 1886 como agente encarregado do depósito da carga e do transporte em Matadi, palavra que em quicongo significa "pedra". Quando
Roger se instalou ali, aquela estação construída na rota das caravanas era apenas uma clareira aberta na floresta à força de catana, nas margens do grande rio. A
caravela de Diogo Cão tinha chegado até ali quatro séculos antes e o navegador português deixara inscrito o seu nome numa rocha, que ainda se podia ler. Uma empresa
de arquitectos e engenheiros alemães começava a construir as primeiras casas, com madeira de pinho importada da Europa - importar madeira para África! -, embarcadouros
e depósitos, trabalhos que, uma manhã - Roger recordava nitidamente aquele percalço -, foram interrompidos por um ruído

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de terramoto e pela irrupção na clareira de uma manada de elefantes que por pouco quase fazia desaparecer a povoação nascente. Seis, oito, quinze, dezoito anos,
Roger Casement foi vendo como aquela aldeia minúscula que ele começara a construir com as suas próprias mãos para que servisse de depósito das mercadorias da Sanford
Exploring Expedition, se ia alargando, trepando pelas suaves colinas à volta, aumentando as casas cúbicas dos colonos, de madeira, de dois andares, com longas varandas,
tectos cónicos, jardinzinhos, janelas protegidas com rede metálica e enchendo-se de ruas, esquinas e gente. Além da primeira igrejinha católica, a de Kinkanda, havia
agora em 1902 outra mais importante, a de Notre-Dame Médiatrice, e uma missão baptista, uma farmácia, um hospital com dois médicos e várias freiras enfermeiras,
um posto de correios, uma bela estação de caminho-de-ferro, uma esquadra, um tribunal, vários depósitos alfandegários, um embarcadouro sólido e lojas de roupa, alimentos,
conservas, chapéus, sapatos e instrumentos de lavoura. Em volta da cidade dos colonos tinham surgido um heterogéneo bairro de bacongos feitos de palhotas de canas
e lama. Aqui, em Matadi, dizia Roger para si mesmo às vezes, estava presente, muito mais que na capital, Boma, a Europa da civilização, a modernidade e a religião
cristã. Matadi tinha já um pequeno cemitério na colina de Tunduwa, junto à missão. Dessa altura dominavam-se as duas margens e um longo trecho do rio. Ali se enterravam
os europeus. Pela cidade e pelo embarcadouro circulavam só os indígenas que trabalhavam como criados ou carregadores e tinham um passe que os identificava. Qualquer
outro que franqueasse aqueles limites era expulso para sempre de Matadi depois de pagar uma multa e receber umas chicotadas. Ainda em 1902, o governador-geral podia
gabar-se de que nem em Boma nem em Matadi se tinha registado um único roubo, homicídio ou violação.
Dos dois anos em que trabalhou para a Sanford Exploring Expedition, entre os seus vinte e dois e vinte e quatro anos, Roger Casement recordaria sempre dois episódios:
o transporte

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do Flórida ao longo de vários meses, de Banana, o minúsculo porto na foz do rio Congo no Atlântico, até Stanley Pool, pela rota das caravanas, e o incidente com
o tenente Francqui, a quem - e perdendo pela primeira vez a calma, que era motivo de brincadeira por parte do seu amigo Herbert Ward - estivera prestes a atirar
aos remoinhos do rio Congo e de quem milagrosamente se salvara de um balázio.
O Flórida foi um imponente barco que a Sanford Exploring Expedition trouxe para Boma, para que servisse de navio mercante no Médio e Alto Congo, isto é, para o outro
lado dos montes de Cristal. As cataratas de Livingstone, a cadeia de cataratas que separava Boma e Matadi de Léopoldville, terminavam num nó de torvelinhos que lhe
granjearam a denominação de "Caldeirão do Diabo". A partir dali e para oriente o rio era navegável em milhares de quilómetros. Mas, para ocidente, perdia mil pés
de altura na sua descida para o mar, o que em longos troços do percurso o tornava não navegável. Para ser levado por terra até Stanley Pool, o Flórida foi desmontado
em centenas de peças que, classificadas e empacotadas, viajaram aos ombros de carregadores nativos os quatrocentos e setenta e oito quilómetros da rota das caravanas.
Encarregaram Roger Casement da peça maior e mais pesada: o casco do navio. Fez de tudo. Desde vigiar a construção do enorme guindaste onde foi içado até recrutar
a centena de carregadores e desbravadores de mato que puxaram através dos cumes e quebradas dos montes de Cristal a imensa carga, alargando o trilho a poder de catanadas.
E construindo terraplanagens e defesas, levantando acampamentos, curando os doentes e acidentados, sufocando as contendas entre membros das diferentes etnias e organizando
os turnos de vigilância, a distribuição de refeições e a caça e a pesca quando os alimentos escasseavam. Foram três meses de riscos e preocupações, mas também de
entusiasmo e a consciência de fazer algo que significava progresso, um combate vitorioso contra uma natureza hostil. E Roger repetiria isso muitas vezes nos anos
vindouros, sem usar o chicote nem permitir que abusassem

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dele os capatazes apelidados de "zanzibarianos" porque provinham de Zanzibar, capital do tráfico de escravos, ou se comportavam com a crueldade dos traficantes de
escravos.
Quando, já na grande lagoa fluvial de Stanley Pool, o Flórida foi remontado e posto a navegar, Roger viajou nesse barco pelo Médio e Alto Congo, assegurando os depósitos
e o transporte das mercadorias da Sanford Exploring Expedition por localidades que, anos mais tarde, visitaria de novo durante a sua viagem ao inferno de 1903: Bolobo,
Lukolela, a região de Irebu e, por fim, a estação do Equador rebaptizada com o nome de Coquilhatville.
O incidente com o tenente Francqui, o qual, ao contrário de Roger, não tinha qualquer repugnância pelo chicote e usava-o com liberalidade, aconteceu no regresso
de uma viagem à linha equatorial, a uns cinquenta quilómetros rio acima de Boma, numa ínfima aldeia inominada. O tenente Francqui, ao comando de oito soldados da
Força Pública, todos nativos, tinha levado a cabo uma expedição punitiva pelo eterno problema dos carregadores. Faziam sempre falta mais do que os que havia para
carregar as mercadorias das expedições que iam e vinham entre Boma-Matadi e Léopoldville-Stanley Pool. Como as tribos resistiam a entregar a sua gente para esse
serviço esgotante, de vez em quando a Força Pública e às vezes os concessionários privados levavam a cabo incursões nas aldeias refractárias, onde, além de levarem
os homens em condições de trabalhar amarrados em fila, se queimavam algumas cabanas, se confiscavam peles, marfins e animais e se dava uma boa surra aos sobas para
que no futuro cumprissem os compromissos contraídos.
Quando Roger Casement e a sua pequena companhia de cinco carregadores e um "zanzibariano" entraram no casario, as três ou quatro palhotas estavam já em cinzas e
a população tinha fugido. A excepção era aquele rapaz, quase uma criança, deitado no chão, com as mãos e pés atados a umas estacas, em cujas costas o tenente Francqui
descarregava a sua frustração à chicotada. Geralmente, os açoites não eram dados pelos oficiais,

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mas sim pelos soldados. Mas o tenente sentia-se certamente ofendido pela fuga do povo todo e queria vingar-se. Vermelho de ira, a transpirar a jorros, dava um pequeno
sopro a cada chicotada. Não se perturbou ao ver aparecer Roger e o seu grupo. Limitou-se a responder ao seu cumprimento com uma inclinação de cabeça e sem interromper
o castigo. O menino já devia ter perdido os sentidos há um bocado. As suas costas e pernas eram uma massa sanguinolenta e Roger recordava-se de um pormenor: perto
do corpinho nu desfilava uma carreira de formigas.
- O senhor não tem o direito de fazer isso, tenente Francqui - disse ele, em francês. - Já chega!
O pequeno oficial baixou o chicote e virou-se a fim de olhar para a silhueta alongada, de barbas, desarmado, que levava nas mãos uma estaca para experimentar o solo
e afastar a folhagem durante a marcha. Um cãozinho dava voltinhas entre as suas pernas. A surpresa fez com que a cara redonda do tenente, de bigodinho recortado
e olhinhos pestanejantes, passasse da congestão à lividez e de novo à congestão.
- O que é que você disse? - rugiu. Roger viu-o largar o chicote, levar a mão direita ao cinto e debater-se na cartucheira onde espreitava a culatra do revólver.
Num segundo compreendeu que na sua raivinha o oficial podia disparar contra ele. Reagiu com vivacidade. Antes que ele conseguisse sacar a arma, já o tinha agarrado
pelo pescoço ao mesmo tempo que com uma palmada lhe arrebatava o revólver que ele acabava de empunhar. O tenente Francqui tentava soltar-se dos dedos que o asfixiavam.
Tinha os olhos a saltar como um sapo.
Os oito soldados da Força Pública, que contemplavam o castigo fumando, não se tinham mexido, mas Roger supôs que, desconcertados com o que acontecia, tivessem as
mãos sobre as espingardas e esperassem uma ordem do seu chefe para actuar.
- Chamo-me Roger Casement, trabalho para a Sanford Exploring Expedition e o senhor conhece-me muito bem, tenente Francqui, porque umavez jogámos póquer em Matadi
-disse ele, soltando-o, agachando-se para apanhar o revólver

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e devolvendo-lho com um gesto amável. - A forma como açoita este jovem é um delito, seja qual for o erro que ele tenha cometido. Como oficial da Força Pública, sabe
isso melhor do que eu, porque, sem dúvida, conhece as leis do Estado Independente do Congo. Se este rapaz morrer por culpa das chicotadas, carregará um crime na
sua consciência.
- Quando vim para o Congo tomei a precaução de deixar a minha consciência no meu país - disse o oficial. Agora tinha uma expressão trocista e parecia interrogar-se
se Casement era um palhaço ou um louco. A sua histeria tinha-se dissipado. -Ainda bem que o senhor foi rápido, estive quase a dar-lhe um tiro. Ter-me-ia metido num
bom sarilho diplomático matando um inglês. De qualquer maneira, aconselho-o a não interferir, como acaba de fazer, com os meus camaradas da Força Pública. Têm mau
feitio e com eles poderá ser pior do que comigo.
Tinha-lhe passado a ira e agora parecia deprimido. Resmungou que alguém os havia prevenido da sua chegada. Ele teria de regressar agora a Matadi com as mãos vazias.
Nada disse quando Casement ordenou à sua tropa que desamarrasse o rapaz, o deitasse numa padiola e, com esta pendurada entre duas estacas, partiu com ele rumo a
Boma. Quando ali chegaram, dois dias depois, apesar das feridas e do sangue perdido, o rapaz continuava vivo. Roger deixou-o no posto sanitário. Foi ao tribunal
para fazer uma denúncia contra o tenente Francqui por abuso de autoridade. Nas semanas seguintes chamaram-no duas vezes para prestar declarações e nos longos e estúpidos
interrogatórios do juiz compreendeu que a sua denúncia seria arquivada sem que o oficial fosse sequer admoestado.
Quando por fim o juiz decidiu, rejeitando a denúncia por falta de provas e porque a vítima se recusou a corroborá-la, Roger Casement tinha-se demitido da Sanford
Exploring Expedition e estava a trabalhar outra vez sob as ordens de Henry Morton Stanley - a quem, agora, os quicongos da região tinham dado a alcunha de Bula Matadi
("Quebrador de Pedras") - no caminho-de-ferro que se havia começado a construir, paralelo

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à rota das caravanas, de Boma e Matadi até Léopoldville-Stanley Pool. O rapaz maltratado ficou a trabalhar com Roger e foi a partir de então o seu criado, ajudante
e companheiro de viagens por África. Como nunca soube dizer qual era o seu nome, Casement baptizou-o de Charlie. Há dezasseis anos que continuava com ele.
A demissão de Roger da Sanford Exploring Expedition deveu-se a um incidente com um dos dirigentes da companhia. Não o lamentou, pois trabalhar ao lado de Stanley
no caminho-de-ferro, embora exigisse um esforço físico enorme, devolveu-lhe o entusiasmo com que viera para África. Abrir a floresta e dinamitar montanhas para assentar
as chulipas e os carris do caminho-de-ferro era o trabalho pioneiro com que tinha sonhado. As horas que passava à intempérie, torrando ao sol ou encharcado pelos
aguaceiros, dirigindo trabalhadores braçais e desbravadores de mato, dando ordens aos "zanzibarianos", vigiando para que os grupos de operários fizessem bem o seu
trabalho, pisando, nivelando, reforçando o solo onde se estenderiam as chulipas e desobstruindo as ramagens densas, eram horas de concentração, e o sentimento de
estar a fazer uma obra que beneficiaria de igual modo europeus e africanos, colonizadores e colonizados. Herbert Ward disse-lhe um dia: "Quando te conheci, julguei
que eras apenas um aventureiro. Agora já sei que és um místico."
Roger gostava menos de passar do monte para as aldeias a fim de negociar a concessão de carregadores e desbravadores de mato para a via-férrea. A falta de braços
tornara-se o problema número um à medida que o Estado Independente do Congo crescia. Apesar de terem assinado os "tratados", os sobas, agora que compreendiam do
que se tratava, eram renitentes em deixar que os homens do seu povo partissem para abrir caminhos, construir estações e depósitos ou recolher borracha. Roger conseguiu,
quando trabalhava na Sanford Exploring Expedition, que, para vencer esta resistência e apesar de não ter obrigação legal, a empresa pagasse um pequeno salário, geralmente

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em géneros, aos trabalhadores. Outras companhias começaram também a fazer o mesmo. Mas, nem assim era fácil contratá-los. Os sobas alegavam que não podiam separar-se
de homens indispensáveis para cuidar das sementeiras e procurar a caça e a pesca de que se alimentavam. Muitas vezes, perante a proximidade dos recrutadores, os
homens em idade de trabalhar escondiam-se no mato. Então, começaram as expedições punitivas, os recrutamentos forçados e a prática de encerrar as mulheres nas chamadas
maisons d'otages ("casas de reféns") para garantirem que os maridos não escapariam.
Tanto na expedição de Stanley como na de Henry Shelton Sanford, Roger foi muitas vezes encarregado de negociar com as comunidades indígenas a entrega de nativos.
Graças à sua facilidade para línguas, podia fazer-se entender em quicongo e lingala - mais tarde também em suaíli -, ainda que sempre com a ajuda de intérpretes.
Ouvi-lo a arranhar a sua língua atenuava a desconfiança dos nativos. Os seus modos suaves, a sua paciência, a sua atitude respeitosa facilitavam o diálogo, além
das ofertas que lhes levava: roupas, facas e outros objectos domésticos, bem como as continhas de vidro coloridas de que tanto gostavam. Costumava regressar ao acampamento
com um punhado de homens para o desbravar do monte e os trabalhos de carga. Ganhou fama de "amigo dos pretos", coisa que alguns dos seus companheiros julgavam com
comiseração, enquanto para outros, sobretudo alguns oficiais da Força Pública, era motivo de desprezo.
A Roger, aquelas visitas às tribos provocavam-lhe um mal-estar que aumentaria com os anos. A princípio fazia-o de boa vontade pois satisfazia a sua curiosidade por
conhecer um pouco dos costumes, línguas, vestimentas, usos, comidas, danças e cantos, as práticas religiosas daqueles povos que pareciam estagnados no fundo dos
séculos, nos quais uma inocência primitiva, sã e directa, se misturava com costumes cruéis, como sacrificar as crianças gémeas em certas tribos, ou matar um número
xis de criados - escravos, quase sempre - para os enterrarem juntamente com os chefes, e a prática do canibalismo entre

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alguns grupos que, por isso, eram temidos e desprezados pelas outras comunidades. Saía daquelas negociações com um indefinível mal-estar, a sensação de estar a fazer
um jogo sujo com aqueles homens de outro tempo, que, por mais que se esforçasse, nunca poderiam entendê-lo totalmente e, como tal, mesmo com as precauções que tomava
para atenuar o carácter abusivo daqueles acordos, com a má consciência de ter agido contra as suas convicções, contra a moral e aquele "princípio primeiro" como
ele chamava a Deus.
Por isso, em finais de Dezembro de 1888, antes de fazer um ano no caminho-de-ferro de Stanley, demitiu-se e foi trabalhar na missão baptista de Ngombe-Lutete, com
os esposos Bentley, o casal de missionários que a dirigia. Tomou a decisão bruscamente, depois de uma conversa que, iniciada à hora do crepúsculo, acabou com as
primeiras luzes do amanhecer, numa casa do bairro dos colonos de Matadi, com uma personagem que estava ali de passagem. Theodore Horte era um antigo oficial da Marinha
britânica. Tinha deixado a Marinha para se tornar missionário baptista no Congo. Os Baptistas estavam ali desde que o doutor David Livingstone se lançara a explorar
o continente africano e a pregar o evangelismo. Tinham aberto missões em Palabala, Banza-Manteke, Ngombe-Lutete e acabavam de inaugurar outra, Arlhington, nas imediações
de Stanley Pool. Theodore Horte, visitador destas missões, passava o tempo a viajar de uma para a outra, prestando ajuda aos pastores e vendo a maneira de abrir
novos centros. Aquela conversa causou em Roger Casement uma impressão que iria recordar para o resto da sua vida e que, naqueles dias de convalescença das suas terceiras
febres palúdicas, em meados de 1902, teria conseguido reproduzir em pormenor.
Ninguém imaginava, ouvindo-o falar, que Theodore Horte tinha sido um oficial de carreira e que, como marinheiro havia participado em importantes operações militares
da Marinha britânica. Não falava do seu passado nem da sua vida privada. Era um cinquentão de aspecto distinto e maneiras educadas. Naquela

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noite tranquila de Matadi, sem chuva nem nuvens, com um céu cravejado de estrelas que se reflectiam nas águas do rio e um murmúrio pausado do vento quente que lhes
agitava os cabelos, Casement e Horte, deitados em duas redes contíguas, iniciaram uma conversa após a refeição que, julgou Roger a princípio, duraria só os minutos
que levam ao sono depois de um jantar e seria uma dessas trocas de impressões convencionais e esquecíveis. No entanto, pouco depois de entabulada a conversa, houve
algo que lhe fez bater o coração com mais força que de costume. Sentiu-se acalentado pela delicadeza e calor da voz do pastor Horte, induzido a falar de temas que
nunca partilhava com os seus companheiros de trabalho - excepto, algumas vezes, com Herbert Ward - e muito menos com os seus chefes. Preocupações, angústias, dúvidas,
que ele ocultava como se se tratasse de assuntos desprezíveis. Teria sentido tudo aquilo? A aventura europeia de África seria porventura o que se dizia, o que se
escrevia, o que se acreditava? A civilização traria o progresso, a modernidade graças ao comércio livre e à evangelização? Poder-se-ia chamar "civilização" àquelas
bestas da Força Pública que roubavam tudo o que podiam nas expedições punitivas? Quantos, entre os colonizadores - comerciantes, soldados, funcionários, aventureiros
-, teriam um mínimo de respeito pelos nativos e os consideravam irmãos, ou, pelo menos, humanos? Cinco por cento? Um em cada cem? Na verdade, na verdade, em todos
aqueles anos que tinha andado por ali sozinho encontrara um número, para o qual sobravam os dedos das mãos, de europeus que não tratassem os pretos como animais
sem alma, que podiam ser enganados, explorados, açoitados, até mortos, sem o mais pequeno remorso.
Theodore Horte escutou em silêncio a explosão de amargura do jovem Casement. Quando falou, não parecia surpreendido pelo que lhe tinha ouvido dizer. Pelo contrário,
reconheceu que também a ele, há anos, o assaltavam dúvidas terríveis. No entanto, pelo menos na teoria, aquilo da "civilização" tinha muito de verdade. Não eram
atrozes as condições de vida

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dos nativos? Os seus níveis de higiene, as suas superstições, a sua ignorância das noções de saúde mais básicas, não fazia com que morressem como moscas? Não era
trágica a sua vida de mera sobrevivência? A Europa tinha muito a trazer-lhes para que saíssem do primitivismo. Para que acabassem certos usos bárbaros, o sacrifício
de crianças e doentes, por exemplo, em tantas comunidades, as guerras em que se matavam reciprocamente, a escravidão e o canibalismo que ainda se praticavam nalguns
lugares. E, além disso, não era bom para eles conhecer o verdadeiro Deus, que substituíssem os ídolos que adoravam pelo Deus cristão, o Deus da piedade, do amor
e da justiça? É verdade, havia caído ali gente muito má, talvez o pior da Europa. Isso não tinha remédio? Era imprescindível que viessem as boas coisas do Velho
Continente. Não a ganância dos mercadores de alma suja, mas sim a ciência, as leis, a educação, os direitos inatos do ser humano, a ética cristã. Era tarde para
fazer marcha atrás, não é verdade? Era inútil perguntar se a colonização era boa ou má, se, abandonados à sua sorte, os Congoleses teriam vivido melhor sem os Europeus.
Quando as coisas não tinham marcha atrás, não valia a pena perder tempo a perguntar se teria sido preferível não terem acontecido. O melhor era tentar levá-las pelo
bom caminho. Era sempre possível endireitar o que estava torto. Não era este o melhor ensinamento de Cristo?
Quando, ao amanhecer, Roger Casement lhe perguntou se era possível para um laico como ele, que nunca havia sido muito religioso, trabalhar nalguma das missões que
a Igreja Baptista tinha pela região do Baixo e Médio Congo, Theodore Horte lançou um risinho:
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- Deve ser uma das partidas de Deus! - exclamou. - O casal Bentley, da missão de Ngombe-Lutete, precisa de um ajudante laico que os auxilie na contabilidade. E,
agora, o senhor pergunta-me isto. Não será alguma coisa mais que uma mera coincidência? Uma daquelas armadilhas que Deus nos estende
às vezes para nos recordar que está sempre presente e que nunca devemos desesperar?
O trabalho de Roger, de Janeiro a Março de 1889, na missão de Ngombe-Lutete, embora curto, foi intenso e permitiu-lhe sair da incerteza em que vivia há algum tempo.
Ganhava só dez libras mensais e com elas tinha de pagar o seu sustento, mas vendo trabalhar o reverendo William Holman Bentley e a esposa, de manhã à noite, com
tanto ânimo e convicção, e partilhando com eles a vida naquela missão que, ao mesmo tempo que centro religioso, era dispensário, lugar de vacinação, escola, loja
de mercadorias e local de descontracção, assessoria e conselho, a aventura colonial pareceu-lhe menos cruel, mais razoável e até civilizadora. Este sentimento estimulou-se
ao ver como em torno daquele casal tinha surgido uma pequena comunidade africana de convertidos à Igreja Reformada, que, tanto nas suas vestimentas como nas canções
do coro que ensaiava diariamente para os serviços do domingo, bem como nas aulas de alfabetização e de doutrina cristã, pareciam ir deixando para trás a vida da
tribo e começando uma vida moderna e cristã.
O seu trabalho não se limitava a ocupar-se dos livros de receitas e despesas da missão. Isto tomava-lhe pouco tempo. Fazia de tudo, desde limpar as folhas e as ervas
do pequeno descampado em volta da missão - era uma luta diária contra a vegetação empenhada em recuperar a clareira que lhe tinham arrebatado -até sair para caçar
um leopardo que andava a comer as aves do galinheiro. Ocupava-se do transporte pelo trilho ou pelo rio numa pequena embarcação, levando e trazendo doentes, utensílios,
trabalhadores, e vigiava o funcionamento da tenda da missão, onde os nativos dos arredores podiam vender e adquirir mercadorias. Faziam-se sobretudo trocas, mas
também circulavam francos belgas e libras esterlinas. Os esposos Bentley troçavam da sua inépcia para os negócios e da sua vocação de mãos rotas, pois Roger achava
os preços todos altos e queria baixá-los, ainda que assim privasse a missão da pequena margem de lucro que lhe permitia completar o seu magro orçamento.

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Apesar do afecto que chegou a sentir pelos Bentley e pela boa consciência que lhe dava trabalhar a seu lado, Roger soube desde o princípio que a sua estada na missão
de Ngombe-Lu-tete seria transitória. O trabalho era digno e altruísta, mas só tinha sentido acompanhado daquela fé que animava Theodore Horte e os Bentley, e que
ele não tinha, embora imitasse os seus gestos e manifestações, assistindo às leituras comentadas da Bíblia, às aulas de doutrina cristã e ao ofício dominical. Não
era um ateu, nem um agnóstico, mas sim algo mais incerto, um indiferente que não negava a existência de Deus - o "princípio primeiro" - mas incapaz de se sentir
à vontade no seio de uma Igreja, solidário e irmanado com outros fiéis, parte de um denominador comum. Tentou explicar isso naquela longa conversa de Matadi a Theodore
Horte e sentiu-se desajeitado e confuso. O ex-marinheiro tranquilizou-o: "Percebo isso perfeitamente, Roger. Deus tem os seus procedimentos. Desassossega, inquieta,
impele-nos a procurar. Até que um dia tudo se ilumina e ali está Ele. Vai acontecer-lhe, vai ver."
Naqueles três meses, pelo menos, não lhe aconteceu. Agora, em 1902, treze anos depois daquilo, continuava na incerteza religiosa. Tinham-lhe passado as febres, havia
perdido muito peso e, embora por vezes ficasse tonto devido à debilidade, retomara as suas tarefas de cônsul em Boma. Foi visitar o governador-geral e restantes
autoridades. Prosseguiu com as partidas de xadrez e de brídege. A estação das chuvas estava em pleno apogeu e duraria muitos meses.
Nos finais de Março de 1889, quando acabou o seu contrato com o reverendo William Holman Bentley e depois de cinco anos de ausência, regressou pela primeira vez
a Inglaterra.


V.


- Chegar aqui foi uma das coisas mais difíceis que fiz na minha vida - disse Alice em jeito de cumprimento, estendendo-lhe a mão. - Julguei que não conseguiria.
Mas, finalmente, aqui me tens.
Alice Stopford Green mantinha a aparência de pessoa fria, racional, alheia a sentimentalismos, mas Roger conhecia-a o suficiente para saber que ela estava comovida
até aos ossos. Reparava na tremura ligeiríssima da sua voz que não conseguia disfarçar e naquela palpitação rápida do nariz que aparecia sempre que alguma coisa
a preocupava. Já roçava os setenta anos, mas conservando a sua silhueta juvenil. As rugas não tinham apagado a frescura do seu rosto sardento nem a luminosidade
dos seus olhos claros e penetrantes. E neles brilhava sempre aquela luz inteligente. Usava, com a sóbria elegância do costume, um vestido claro, uma blusa leve e
umas botinas de salto alto.
- Que prazer, querida Alice, que prazer! - repetiu Roger, agarrando-lhe as duas mãos. - Julguei que nunca mais te veria.
- Trouxe-te uns livros, uns doces e alguma roupa, mas os funcionários da entrada tiraram-me tudo - fez um esgar de impotência. - Lamento. Estás bem?
- Sim, sim - respondeu Roger ansioso. - Tens feito tanto por mim este tempo todo. Ainda não há notícias?
- O gabinete reúne-se na quinta-feira - disse ela. - Sei de fonte segura que este assunto encabeça a agenda. Fazemos

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o possível e até o impossível, Roger. A petição tem cerca de cinquenta assinaturas, todas de gente importante. Cientistas, artistas, escritores, políticos. John
Devoy garante-nos que a qualquer momento deverá chegar o telegrama do presidente dos Estados Unidos ao Governo inglês. Todos os amigos se mobilizaram para impedir,
enfim, quero dizer, para neutralizar esta campanha indigna na imprensa. Estás a par, não?
- Vagamente - disse Casement, com um gesto de desagrado. - Aqui não chegam notícias de fora e os carcereiros têm ordens para não me dirigirem a palavra. Só o xerife
é que o faz, mas para me insultar. Achas que ainda há alguma possibilidade, Alice?
- Claro que acho - afirmou ela, com força, mas Casement pensou que era uma mentira piedosa. - Todos os meus amigos me garantem que o gabinete decide isto por unanimidade.
Se houver um único ministro contrário à execução, estás salvo. E parece que o teu antigo chefe no Foreign Office, Sir Edward Grey, está contra. Não percas a esperança,
Roger.
Desta vez, o xerife da prisão de Pentonville não estava no parlatório. Só um guarda novinho e prudente que lhes virava as costas e olhava para o corredor pela janelinha
da porta simulando desinteresse pela conversa de Roger e da historiadora. "Se todos os carcereiros da prisão de Pentonville tivessem assim consideração, a vida aqui
levar-se-ia muito melhor", pensou. Recordou que ainda não tinha perguntado a Alice acerca dos acontecimentos de Dublin.
- Sei que, aquando da Revolta da Páscoa, a Scotland Yard foi revistar a tua casa de Grosvenor Road - disse ele. - Pobre Alice. Fizeram-te passar um mau bocado?
- Nem tanto, Roger. Levaram muitos papéis. Cartas pessoais, manuscritos. Espero que mos devolvam, não penso que lhes sirvam para alguma coisa - suspirou, entristecida.
- Em comparação com o que sofreram na Irlanda, o que me aconteceu não foi nada.

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A dura repressão continuaria? Roger esforçava-se por não pensar nos fuzilamentos, nos mortos, nas sequelas daquela semana trágica. Mas Alice deve ter lido nos seus
olhos a curiosidade que ele tinha por saber.
- As execuções cessaram, ao que parece - murmurou ela, dando uma olhadela para as costas do guarda. - Há uns três mil e quinhentos presos, calculamos. Trouxeram
a maioria para aqui e foram distribuídos por prisões em toda a Inglaterra. Localizámos umas oitenta mulheres entre eles. Há várias associações a ajudar-nos. Muitos
advogados ingleses ofereceram-se para se ocupar dos seus casos, sem cobrar.
As perguntas amontoavam-se na cabeça de Roger. Quantos amigos entre os mortos, entre os feridos, entre os presos? Mas conteve-se. Para quê averiguar coisas sobre
as quais nada podia fazer e que só serviriam para aumentar a sua amargura?
- Sabes uma coisa, Alice? Uma das razões pela qual eu gostaria que me comutassem a pena é porque, se não o fizerem, morrerei sem ter aprendido o irlandês. Se a comutarem,
meter-me-ei nele a fundo e prometo-te que neste mesmo parlatório ainda havemos de falar em gaélico.
Ela fez que sim com um sorrisinho que só lhe saiu incompleto.
- O gaélico é uma língua difícil - disse ela, dando-lhe palmadinhas no braço. - É preciso muito tempo e paciência para aprendê-lo. Tu tiveste uma vida muito agitada,
querido. Mas, consola-te, poucos irlandeses fizeram tanto pela Irlanda como tu.
- Graças a ti, querida Alice. Devo-te tantas coisas. A tua amizade, a tua hospitalidade, a tua inteligência, a tua cultura. Os serões das terças-feiras em Grosvenor
Road, com gente extraordinária, naquela atmosfera tão gratificante. São as melhores recordações da minha vida. Agora posso dizer-te isto e agradecer-te, amiga querida.
Tu ensinaste-me a amar o passado e a cultura da Irlanda. Foste uma professora generosa, que me enriqueceu imenso a vida.

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Dizia o que sempre tinha sentido e calado, por pudor. Desde que a conhecera, admirava e gostava da historiadora e escritora Alice Stopford Green, cujos livros e
estudos sobre o passado histórico, as lendas e mitos irlandeses e o gaélico, tinham contribuído acima de tudo para dar a Casement aquele "orgulho celta" de que se
gabava com tanto ânimo que, às vezes, provocava a troça dos seus próprios amigos nacionalistas. Tinha conhecido Alice há onze ou doze anos, quando lhe pediu ajuda
para a Associação para a Reforma do Congo que Roger tinha fundado com Edmund D. Morei. Começava a batalha pública daqueles amigos ardentes contra Leopoldo II e a
sua maquiavélica criação: o Estado Independente do Congo. O entusiasmo com que Alice Stopford Green se entregou à sua campanha denunciando os horrores do Congo foi
decisivo para que muitos escritores e políticos seus amigos se juntassem a ela. Alice converteu-se na tutora e guia intelectual de Roger, o qual, sempre que estava
em Londres, comparecia semanalmente no salão da escritora. A estes serões assistiam professores, jornalistas, poetas, pintores, músicos e políticos que, em geral,
tal como ela, eram críticos do imperialismo e do colonialismo e partidários do Home Rule ou regime de autonomia para a Irlanda, e até nacionalistas radicais que
exigiam a independência total para o Eire. Nos salões elegantes e repletos de livros da casa de Grosvenor Road, onde Alice conservava a biblioteca do seu falecido
marido, o historiador John Richard Green, Roger conheceu W. B. Yeats, Sir Arthur Conan Doyle, Bernard Shaw, G. K. Chesterton, John Galsworthy, Robert Cunninghame
Graham e muitos outros escritores em voga.
- Tenho uma pergunta que estive para fazer ontem a Gee, mas não me atrevi - disse Roger. - Conrad assinou a petição? Nem o meu advogado nem Gee referiram o seu nome.
Alice negou com a cabeça.
- Eu própria lhe escrevi, pedindo-lhe a sua assinatura -acrescentou, desgostosa. - As suas razões foram confusas. Sempre foi escorregadio em assuntos políticos.
Talvez, na sua situação

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de cidadão britânico assimilado, não se sinta muito seguro. Por outro lado, como polaco, odeia a Alemanha tanto como a Rússia, que fizeram desaparecer o seu país
durante muitos séculos. Enfim, não sei. Todos nós, os teus amigos, lamentamos muito. Pode-se ser um grande escritor e um medroso em assuntos políticos. Tu sabes
isso melhor que ninguém, Roger.
Casement anuiu. Arrependeu-se de ter feito a pergunta. Teria sido melhor não saber. A ausência daquela assinatura iria atormentá-lo agora tanto como foi ficar a
saber pelo advogado Gavan Duffy que Edmund D. Morei também não tinha querido assinar o pedido de comutação da pena. O seu amigo, o seu irmão Buldoguel O seu companheiro
de luta a favor dos nativos do Congo também se recusou, alegando razões de lealdade patriótica em tempos de guerra.
- O facto de Conrad não ter assinado não vai mudar muito as coisas - disse a historiadora. - A sua influência política junto do Governo de Asquith é nula.
- Não, claro que não - concordou Roger.
Talvez não tivesse importância para o êxito ou fracasso da petição, mas, para ele, no seu foro íntimo, tinha. Ter-lhe-ia feito bem recordar, naqueles arrebatamentos
de desespero que o assaltavam na sua cela, que uma pessoa do seu prestígio, por quem tanta gente - incluindo ele - tinha admiração, o apoiava neste transe e lhe
fazia chegar, com aquela assinatura, uma mensagem de compreensão e de amizade.
- Conheceste-o há muito tempo, não é verdade? - perguntou Alice, como que a adivinhar os seus pensamentos.
- Há vinte e seis anos, exactamente. Em Junho de mil oitocentos e noventa, no Congo - precisou Roger. - Ainda não era escritor. Embora, se bem me lembro, me tenha
dito que começara a escrever um romance. Almayer's Folly, sem dúvida, o primeiro que ele publicou. Enviou-mo, com dedicatória. Conservo o exemplar nalgum lado. Ele
ainda não tinha publicado nada. Era um marinheiro. O inglês dele quase não se entendia, devido à forte pronúncia polaca.

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- Ainda não se percebe muito bem - sorriu Alice. - Ainda fala inglês com aquela pronúncia atroz. Como que a "mastigar seixos", diz Bernard Shaw. Mas escreve-o de
maneira celestial, gostemos ou não.
A memória devolveu a Roger a recordação daquele dia de Junho de 1890 quando, transpirando devido ao calor húmido do Verão que começava e aborrecido pelas picadas
dos mosquitos que se assanhavam contra a sua pele de estrangeiro, chegou a Matadi aquele jovem capitão da Marinha Mercante britânica. Trintão, com a testa ampla,
barba pretíssima, corpo forte e olhos fundos, chamava-se Konrad Korzeniowski e era polaco, nacionalizado inglês há poucos anos. Contratado pela Sociedade Anónima
Belga para o Comércio com o Alto Congo, estava ao serviço como capitão de um dos pequenos vapores que levavam e traziam mercadorias e comerciantes entre Léo-poldville-Kinshasa
e as distantes cataratas de Stanley, em Kisan-gani. Era o seu primeiro destino como capitão de barco e isso trazia-o cheio de ilusões e de projectos. Chegava ao
Congo impregnado de todas as fantasias e mitos com que Leopoldo II tinha cunhado a sua figura de grande humanitário e monarca empenhado em civilizar a África e libertar
os Congoleses da escravidão, do paganismo e de outras barbáries. Apesar da sua longa experiência de viagens pelos mares da Ásia e da América, do seu dom para as
línguas e das suas leituras, havia no polaco algo de inocente e infantil que seduziu imediatamente Roger Casement. A simpatia foi recíproca, pois Korzeniowski, a
partir daquele mesmo dia em que se conheceram até três semanas depois, em que partiu na companhia de trinta carregadores pela rota das caravanas em direcção a
Léopoldville-Kinshasa,

onde devia tomar o comando do seu barco Le Roi des Belges, viram-se de manhã, à tarde e à noite.
Deram passeios pelos arredores de Matadi, até à já inexistente Vivi, a primeira e fugaz capital da colónia, da qual não restavam nem os escombros, e até à foz do
rio Mpozo, onde, segundo a lenda, os primeiros rápidos e saltos das cataratas de

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Livingstone e do "Caldeirão do Diabo" tinham feito deter o português Diogo Cão há quatro séculos. Na planície de Lufundi, Roger Casement mostrou ao jovem polaco
o lugar onde o explorador Henry Morton Stanley construíra a sua primeira casa, desaparecida anos depois num incêndio. Mas, sobretudo, conversaram muito e de muitas
coisas, principalmente do que acontecia naquele ardente Estado Independente do Congo que Konrad acabava de pisar e onde Roger estava há seis anos. Ao fim de poucos
dias de amizade, o marinheiro polaco já tinha feito uma ideia muito diferente da que trazia sobre o lugar para onde vinha trabalhar. E, como disse a Roger ao despedir-se,
no amanhecer daquele sábado, 28 de Junho de 1890, rumo aos montes de Cristal, "tirou-me a virgindade". Foi assim que disse, com a sua pronúncia pedregosa e rotunda:
"Você tirou-me a virgindade, Casement. Sobre Leopoldo II, sobre o Estado Independente do Congo. Talvez, sobre a vida." E repetiu, com dramatismo: "Tirou-me a virgindade."
Voltaram a ver-se várias vezes, nas viagens de Roger a Londres, e escreveram algumas cartas um ao outro. Treze anos depois daquele primeiro encontro, em Junho de
1903, Casement, que se encontrava em Inglaterra, recebeu um convite de Joseph Conrad (agora chamava-se assim e já era um escritor de prestígio) para passar um fim-de-semana
em Pent Farm, a sua casinha de campo em Hythe, no Kent. O romancista vivia ali com a mulher e o filho uma vida frugal e solitária. Roger conservava uma calorosa
recordação daqueles dois dias com o escritor. Agora, tinha madeixas prateadas nos cabelos e as barbas espessas, havia engordado e adquirido uma certa arrogância
intelectual na sua maneira de se expressar. Mas com ele mostrou-se extraordinariamente efusivo. Quando Roger o felicitou pelo seu romance congolês, O Coração das
Trevas, que acabava de ler e que - disse-lho - lhe tinha remexido as entranhas porque era a descrição mais extraordinária dos horrores que se viviam no Congo, Conrad
deteve-o com as mãos.

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- Você devia ter figurado como co-autor desse livro, Casement - afirmou, dando-lhe palmadinhas nos ombros. - Nunca o teria escrito sem a sua ajuda. Você tirou-me
as ramelas dos olhos. Sobre África, sobre o Estado Independente do Congo. E sobre a fera humana.
Num fim de jantar a sós - a discreta senhora Conrad, uma mulher de origem muito humilde, e o filho tinham-se retirado para descansar -, o escritor, depois do segundo
cálice de porto, disse a Roger que pelo que tinha vindo a fazer em favor dos indígenas congoleses mereceria ser chamado "o Bartolomeu de las Casas britânico". Roger
corou até à raiz dos cabelos com semelhante elogio. Como era possível que alguém que tinha tão bom conceito dele, que os havia ajudado tanto a ele como a Edmund
D. Morel na sua campanha contra Leopoldo II, se tivesse recusado a assinar um memorando que só pedia que lhe comutassem a pena de morte? Em que é que isso podia
comprometê-lo perante o Governo?
Recordava outros encontros esporádicos com Conrad, nas suas visitas a Londres. Uma vez, no seu clube, o Wellington Club de Grosvenor Place, onde estava reunido com
colegas do Foreign Office, encontraram-se. O escritor insistiu para que Roger ficasse a tomar um conhaque com ele quando se despedisse dos seus acompanhantes. Evocaram
o desastroso estado de espírito com que, seis meses depois da sua passagem por Matadi, o marinheiro voltara a aparecer por lá. Roger Casement continuava a trabalhar
naquele lugar, encarregado dos depósitos e do transporte. Konrad Korzeniowski não era nem a sombra do jovem entusiasta, pleno de ilusões, que Roger conhecera meio
ano atrás. Os anos haviam-lhe caído em cima, tinha os nervos alterados e problemas de estômago por causa dos parasitas. As diarreias contínuas levaram-no a perder
muitos quilos. Amargurado e pessimista, só sonhava voltar quanto antes a Londres, para se pôr nas mãos de médicos a sério.
- Já vejo que a selva não foi clemente consigo, Konrad. Não se alarme. A malária é assim, demora a ir-se embora, mesmo que as febres tenham desaparecido.

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Conversavam ao fim de jantar, na varanda da casinha que era lar e escritório de Roger. Não havia luar nem estrelas na noite de Matadi, mas não chovia e o zumbido
dos insectos embalava-os enquanto fumavam e davam pequenos golos no copo que tinham nas mãos.
- O pior não foi a selva, este clima tão insalubre, as febres que me mantiveram numa semi-inconsciência cerca de duas semanas - queixou-se o polaco. - Nem sequer
a espantosa disenteria que me manteve a cagar sangue cinco dias seguidos. O pior, o pior, Casement, foi ser testemunha das coisas horríveis que acontecem diariamente
neste maldito país. Que os demónios negros e os demónios brancos cometem, para onde quer que se vire os olhos.
Konrad tinha feito uma viagem de ida e volta no pequeno vapor da companhia que supostamente iria comandar, Le Roi des Belges, de Léopoldville-Kinshasa até às cataratas
de Stanley. Tudo lhe tinha saído mal naquela travessia para Kisangani. Esteve quase a afogar-se porque se virou a canoa em que os remadores inexperientes foram apanhados
por um remoinho, perto de Kinshasa. A malária manteve-o deitado no seu pequeno camarote com ataques de febre, sem forças para se levantar. Soube lá que o anterior
capitão de Le Roi des Belges tinha sido assassinado com setas numa disputa com os nativos de uma aldeia. Outro funcionário da Sociedade Anónima Belga para o Comércio
com o Alto Congo, a quem Konrad tinha ido buscar num casario afastado e onde aquele estava a recolher marfim e borracha, morreu de uma doença desconhecida durante
a viagem. Mas não eram as desgraças físicas que se encarniçaram contra ele o que trazia o polaco fora de si.
- É a corrupção moral, a corrupção da alma que invade tudo neste país - repetiu com voz retumbante, tenebrosa, como que tomado por uma visão apocalíptica.
- Eu procurei prepará-lo, quando nos conhecemos - recordou-lhe Casement. - É pena não ter sido mais explícito sobre o que você ia encontrar lá no Alto Congo.

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O que é que o tinha afectado tanto? Descobrir que práticas muito primitivas como a antropofagia estavam ainda vigentes nalgumas comunidades? Que nas tribos e nos
entrepostos comerciais ainda circulavam escravos que trocavam de dono por uns quantos francos? Que os supostos libertadores submetiam os Congoleses a formas ainda
mais cruéis de opressão e servidão? Sentira-se esmagado pelo espectáculo das costas dos nativos abertas pelas chicotadas? Que, pela primeira vez na sua vida, viu
um branco açoitar um preto até lhe deixar o corpo convertido num crucigrama de feridas? Não lhe pediu pormenores, mas sem dúvida que o capitão de Le Roi des Belges
fora testemunha de coisas terríveis, agora que acabava de renunciar aos três anos de contrato que tinha a fim de regressar o mais depressa possível a Inglaterra.
Além disso, contou a Roger que em Léopoldville-Kinshasa, no regresso das cataratas de Stanley, tivera uma violenta disputa com o director da Sociedade Anónima Belga
para o Comércio com o Alto Congo, Camille Delcommune, a quem chamou "bárbaro de colete e chapéu". Agora queria voltar à civilização, o que para ele queria dizer
Inglaterra.
- Leste O Coração das Trevas? - perguntou Roger a Alice. - Achas que aquela visão do ser humano é justa?
- Suponho que não - retomou a historiadora. - Discutimo-lo muito numa das terças-feiras, quando apareceu. Aquele romance é uma parábola segundo a qual África torna
bárbaros os europeus civilizados que para lá vão. O teu Relatório sobre o Congo mostrou precisamente o contrário. Que fomos nós, os Europeus, que levámos para lá
as piores barbáries. Além disso, tu estiveste vinte anos em África sem te tornares um selvagem. Melhor, voltaste mais civilizado do que eras quando saíste daqui
a acreditar nas virtudes do colonialismo e do Império.
- Conrad dizia que, no Congo, a corrupção moral do ser humano vinha à superfície. A de brancos e pretos. A mim, O Coração das Trevas acordou-me muitas vezes. Eu
acho que não descreve o Congo, nem a realidade, nem a história, mas sim
o inferno.

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O Congo é um pretexto para expressar essa visão atroz que certos católicos têm do mal absoluto.
- Desculpem interrompê-los - disse o guarda, virando-se para eles. - Passaram quinze minutos e a autorização para as visitas era de dez. Têm de despedir-se.
Roger estendeu a mão a Alice, mas, para sua surpresa, ela abriu-lhe os braços. Apertou-o com força. "Continuaremos a fazer tudo, tudo, para te salvar a vida, Roger",
murmurou-lhe ao ouvido. Ele pensou: "Para que Alice se permita estas efusões, deve estar convencida de que o pedido será rejeitado."
Quando regressava à sua cela, sentiu tristeza. Veria Alice Stopford Green mais alguma vez? Quantas coisas ela representava para si! Ninguém encarnava tanto como
a historiadora a sua paixão pela Irlanda, a última das suas paixões, a mais intensa, a mais recalcitrante, uma paixão que o tinha consumido e provavelmente o mandaria
para a morte. "Não lamento", repetiu para si mesmo. Os muitos séculos de opressão tinham causado tanta dor na Irlanda, tanta injustiça, que valia a pena ter-se sacrificado
por esta nobre causa. Tinha fracassado, sem dúvida. O plano tão cuidadosamente estruturado para acelerar a emancipação do Eire associando a sua luta à Alemanha e
fazendo coincidir uma acção ofensiva do Exército e da Marinha do Kaiser contra a Inglaterra com o levantamento nacionalista não saiu como ele previra. Também não
foi capaz de parar aquela rebelião. E, agora, Sean McDermott, Patrick Pearse, Eamont Ceannt, Tom Clarke, Joseph Plunkett e muitos outros tinham sido fuzilados. Centenas
de companheiros apodreceriam na prisão sabia Deus por quantos anos. Pelo menos, ficava o seu exemplo, como dizia com orgulhosa determinação o destroçado Joseph Plunkett,
em Berlim. De entrega, de amor, de sacrifício, por uma causa semelhante à que o fez lutar contra Leopoldo II no Congo, contra Julio C. Arana e os exploradores da
borracha do Putumayo na Amazónia. A da justiça, a do desvalido contra os atropelos dos poderosos e dos déspotas. Conseguiria a campanha que lhe chamava "degenerado
e traidor" apagar tudo o resto?

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Depois de tudo, que importava? O importante decidia-se lá em cima, a última palavra tinha-a aquele Deus que, por fim, há algum tempo começava a compadecer-se
dele.
Deitado no seu catre, de costas, com os olhos fechados, voltou-lhe à memória Joseph Conrad. Ter-se-ia sentido melhor se o ex-marinheiro assinasse a petição? Talvez
sim, talvez não. O que lhe teria querido dizer, naquela noite, na sua casinha de Kent, quando afirmou: "Antes de ir para o Congo, eu não era mais que um pobre animal"?
A frase tinha-o impressionado, ainda que sem entendê-la totalmente. O que significava? Talvez o que fez, deixou de fazer, viu e ouviu naqueles seis meses no Médio
e Alto Congo lhe tenha despertado inquietações mais profundas e transcendentes sobre a condição humana, sobre o pecado original, sobre o mal, sobre a história. Roger
podia entender isso muito bem. O Congo também o tinha humanizado a ele, se ser humano significava conhecer os extremos que a ganância, a avareza, os preconceitos,
a crueldade podiam alcançar. A corrupção moral era isso, sim: algo que não existia entre os animais, uma exclusividade dos humanos. O Congo tinha-lhe revelado que
aquelas coisas faziam parte da vida. Abrira-lhe os olhos. "Tirado a virgindade" também a ele, como ao polaco. Então lembrou-se que tinha chegado a África, com os
seus vinte anos, ainda virgem. Não era injusto que a imprensa, como lhe dissera o xerife da prisão de Pentonville, o acusasse só a ele, dentro da vasta espécie humana,
de ser uma escória?
Para combater a desmoralização que o ia invadindo tentou imaginar o prazer que seria tomar um demorado banho de banheira, com muita água e sabão, apertando contra
o seu outro corpo nu.


VI.


Partiu de Matadi, a 5 de Junho de 1903, na via-férrea construída por Stanley e em que ele próprio tinha trabalhado quando era novo. Nos dois dias de viagem que demorou
o lento trajecto até Léopoldville esteve a pensar, de maneira obsessiva, numa proeza desportiva dos seus anos de juventude: ter sido o primeiro branco a nadar no
maior rio da rota das caravanas entre Manyanga e Stanley Pool: o Nkissi. Já o tinha feito, com total inconsciência, em rios mais pequenos do Baixo e Médio Congo,
o Kwilo, o Lukungu, o Mpozo e o Lunzadi, onde também havia crocodilos e nada lhe aconteceu. Mas o Nkissi era maior e com grande corrente, tinha cerca de cem metros
de largura e estava cheio de remoinhos nas proximidades da grande catarata. Os indígenas avisaram-no que era imprudente, podia ser arrastado e atirado contra as
pedras. Na verdade, ao fim de poucas braçadas, Roger sentiu-se puxado pelas pernas e arremessado para o centro das águas por correntes desencontradas das quais,
apesar do seu batimento de pernas e enérgicos movimentos de braços, não conseguia safar-se. Quando já lhe faltavam as forças - tinha engolido golfadas de água -,
conseguiu aproximar-se da margem deixando-se rebolar por uma onda. Ali aferrou-se a umas rochas, como pôde. Quando trepou a encosta estava cheio de arranhões. O
coração saía-lhe pela boca.
A viagem que finalmente empreendia durou três meses e dez dias. Roger pensaria depois que naquele período mudou a

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sua maneira de ser e transformou-se noutro homem, mais lúcido e realista do que tinha sido antes, sobre o Congo, a África, os seres humanos, o colonialismo, a Irlanda
e a vida. Mas aquela experiência fez dele, também, um ser mais propenso à infelicidade. Nos anos que lhe restavam viver diria muitas vezes a si mesmo, em momentos
de desânimo, que teria sido preferível não ter feito aquela viagem ao Médio e Alto Congo para verificar o que havia de verdade sobre as acusações de iniquidades
contra indígenas em zonas de exploração de borracha que certas Igrejas lançavam em Londres e aquele jornalista, Edmund D. Morel, que parecia ter consagrado a sua
vida a criticar Leopoldo II e o Estado Independente do Congo.
No primeiro troço da viagem entre Matadi e Léopoldville ficou surpreendido com o despovoamento da paisagem, que aldeias como Tumba, onde passou a noite, e as que
salpicavam os vales de Nsele e Ndolo, que antes fervilhavam de gente, estivessem semidesertas, com velhos fantasmagóricos a arrastar os pés no meio da poeira, ou
acocorados contra os troncos, com os olhos fechados, como mortos ou a dormir.
Nesses três meses e dez dias a impressão de despovoamento e eclipse das pessoas, de desaparecimento de aldeias e assentamentos onde ele tinha estado, passado a noite,
negociado, há quinze ou dezasseis anos, se repetia vezes e vezes, como um pesadelo, em todas as regiões, nas margens do rio Congo e dos seus afluentes, ou no interior,
nas entradas que Roger fazia para recolher o testemunho de missionários, funcionários, oficiais e soldados da Força Pública, e dos indígenas, que podia interrogar
em lingala, quicongo e suaíli, ou nas suas próprias línguas, servindo-se de intérpretes. Onde estavam as pessoas? A memória não o enganava. Tinha muito presente
a efervescência humana, os bandos de crianças, de mulheres, de homens tatuados, com os incisivos limados, colares de dentes, às vezes com lanças e máscaras, que
antes o rodeavam, examinavam e tocavam. Como era possível que tivessem desaparecido em tão poucos anos? Algumas aldeias tinham-se extinguido, noutras a

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população reduzira-se a metade, a um terço e até a um décimo. Nalguns lugares, conseguiu cotejar números muito precisos. Lukolela, por exemplo, em 1884, quando Roger
visitou pela primeira vez aquela comunidade populosa, tinha mais de cinco mil habitantes. Agora, apenas trezentos e cinquenta e dois. E, a maioria, num estado ruinoso
pela idade ou pelas doenças, de modo que, depois da inspecção, Casement concluiu que só oitenta e dois sobreviventes estavam ainda com capacidade para trabalhar.
Como é que se tinham esfumado mais de quatro mil habitantes de Lukolela?
As explicações dos agentes do Governo, dos empregados das companhias recolectoras de borracha e dos oficiais da Força Pública eram sempre as mesmas: os pretos morriam
como moscas por causa da doença do sono, da varíola, do tifo, das gripes, das pneumonias, do paludismo e outras pragas que, devido à má alimentação, dizimavam aqueles
organismos não preparados para resistir às doenças. Era verdade, as epidemias faziam estragos. A doença do sono, sobretudo, resultante, como se tinha descoberto
há poucos anos, da mosca tse-tsé, atacava o sangue e o cérebro, causava nas suas vítimas uma paralisia dos membros e uma letargia de que nunca sairiam. Mas, nesta
altura da sua viagem, Roger Casement continuava a perguntar qual a razão para o despovoamento do Congo, não à procura de respostas, mas sim para confirmar que as
mentiras que ouvia eram frases feitas que todos repetiam. Ele sabia muito bem a resposta. A praga que tinha volatilizado uma boa parte dos congoleses do Médio e
Alto Congo era a ganância, a crueldade, a borracha, a desumanidade de um sistema, a implacável exploração dos Africanos pelos colonos europeus.
Em Léopoldville decidiu que, para preservar a sua independência e não se ver coagido pelas autoridades, não utilizaria nenhum meio de transporte oficial. Com autorização
do Foreign Office, alugou à União Missionária Baptista Americana o Henry Reed com a sua tripulação. A negociação foi lenta, bem como o armazenamento de madeira e
provisões para a viagem.

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A sua estada em Léopoldville-Kinshasa teve de prolongar-se de 6 de Junho a 2 de Julho, data em que zarparam rio acima. Aquela espera foi sábia. A liberdade que lhe
deu viajar no seu próprio barco, meter-se e atracar onde quisesse, permitiu-lhe averiguar coisas que nunca teria descoberto subordinado às instituições coloniais.
E nunca teria podido ter tantos diálogos com os próprios africanos, que só se atreviam a aproximar-se dele quando verificavam que não ia acompanhado por nenhum militar
nem qualquer autoridade civil belga.
Léopoldville havia crescido muito desde a última vez que Roger ali estivera, há seis ou sete anos. Tinha-se enchido de casas, depósitos, missões, escritórios, tribunais,
alfândegas, inspectores, juízes, contabilistas, oficiais e soldados, de lojas e de mercados. Havia padres e pastores por todos os lados. Algo na cidade nascente
lhe desagradou desde o primeiro momento. Não o receberam mal. Desde o governador até ao comissário, passando pelos juízes e inspectores a quem foi cumprimentar,
até aos pastores protestantes e missionários católicos que visitou, acolheram-no com cordialidade. Todos se prestaram a dar-lhe as informações que ele pedia, embora
estas fossem, como confirmaria nas semanas seguintes, evasivas ou descaradamente falsas. Sentia que alguma coisa hostil e opressiva impregnava o ar e o perfil que
a cidade ia adquirindo. Em compensação, Brazzaville, a vizinha capital do Congo Francês, que se erguia ali à frente, na outra margem do rio, para onde atravessou
umas duas vezes, causou-lhe uma impressão menos opressora, até agradável. Talvez pelas suas ruas abertas e bem traçadas e o bom humor das suas gentes. Nela não notou
aquela atmosfera secretamente funesta de Léopoldville. Nas quase quatro semanas que lá passou, negociando o aluguer do Henry Reed, obteve muitas informações, mas
sempre com a sensação de que ninguém chegava ao fundo das questões, que até as pessoas mais bem-intencionadas lhe ocultavam alguma coisa e ocultavam-na a si mesmos,
receosos de enfrentar uma verdade terrível e acusadora.

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O seu amigo Herbert Ward dir-lhe-ia depois que tudo aquilo era puro preconceito, que as coisas que viu e ouviu nas semanas posteriores lhe turvaram retroactivamente
a recordação de Léopoldville. Além disso, a sua memória não só conservaria más imagens da sua permanência na cidade fundada por Henry Morton Stanley, em 1881. Uma
manhã, depois de uma longa caminhada aproveitando a frescura do dia, Roger chegou ao embarcadouro. Ali, de repente, a sua atenção concentrou-se em dois rapazes morenos
e seminus que descarregavam umas lanchas, a cantar. Pareciam muito jovens. Levavam um ligeiro tapa-rabos que não chegava a ocultar a forma das suas nádegas. Ambos
eram magros, elásticos e, com os movimentos rítmicos que faziam descarregando os fardos, davam uma impressão de saúde, harmonia e beleza. Esteve a contemplá-los
longamente. Lamentou não ter consigo a sua máquina fotográfica. Gostaria de os ter retratado, para recordar depois que nem tudo era feio e sórdido na emergente cidade
de Léopoldville.
Quando, a 2 de Julho de 1903, o Henry Reed zarpou e atravessava a suave e enorme lagoa fluvial de Stanley Pool, Roger sentiu-se comovido: na margem francesa avistavam-se,
na limpa manhã, umas escarpas de areia que lhe fizeram lembrar os brancos farelhões de Dover. Ibis de grandes asas sobrevoavam a lagoa, elegantes e soberbas, exibindo-se
ao sol. Uma boa parte do dia, a beleza da paisagem manteve-se invariável. De vez em quando os intérpretes, carregadores e desbravadores de mato apontavam, excitados,
para as marcas na lama de elefantes, hipopótamos, búfalos e antílopes. John, o seu buldogue, feliz com a viagem, corria de um lado para o outro pela embarcação lançando
de repente estrondosos latidos. Mas ao chegar a Chumbiri, onde atracaram para recolher lenha, John, mudando bruscamente de humor, encolerizou-se e acabou por morder
em poucos segundos um porco, uma cabra e o guardião da horta que os pastores da Sociedade Baptista Missionária tinham junto à sua pequena missão. Roger teve de recompensá-los
com ofertas.

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A partir do segundo dia de viagem começaram a cruzar-se com pequenos vapores e grandes lanchas carregados com cestas cheias de borracha que desciam o rio Congo em
direcção a Léopoldville. Este espectáculo acompanhá-los-ia todo o resto da viagem, bem como, de vez em quando, divisar através dos ramos das margens os postes de
telégrafo em construção e as coberturas de aldeias de onde, ao vê-los aproximar-se, os habitantes fugiam, metendo-se pela floresta dentro. Posteriormente, quando
Roger queria interrogar os nativos de alguma aldeia, optava por enviar primeiro um intérprete que explicasse aos habitantes que o cônsul britânico vinha sozinho,
sem qualquer oficial belga, para averiguar os problemas e as necessidades que eles enfrentavam.
Ao terceiro dia de viagem, em Bolobo, onde havia também uma missão da Sociedade Baptista Missionária, teve a primeira antecipação do que o esperava. No grupo de
missionários baptistas, quem mais o impressionou, pela sua energia, pela sua inteligência e pela sua simpatia, foi a doutora Lily de Hailes. Alta, incansável, ascética,
loquaz, estava no Congo há catorze anos, falava várias línguas indígenas e dirigia o hospital para nativos com tanta dedicação como eficácia. O local estava a abarrotar.
Quando percorriam as redes, os catres e as esteiras onde jaziam os pacientes, Roger perguntou-lhe com toda a intenção porque é que havia tantas vítimas de feridas
nas nádegas, pernas e costas. Miss Hailes olhou para ele com indulgência.
- São vítimas de uma praga que se chama "chicote", senhor cônsul. Uma fera mais sanguinária que o leão e a cobra. Não há chicotes em Boma e em Matadi?
- Não se aplicam com tanta liberalidade como aqui.
A doutora Hailes devia ter tido quando jovem uma grande cabeleira arruivada, mas, com os anos, tinha-se enchido de cabelos brancos e só lhe restavam algumas madeixas
acesas que escapavam do lenço com que cobria a cabeça. O sol tinha-lhe tostado a cara ossuda, o pescoço e os braços, mas os seus olhos

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esverdeados continuavam jovens e vivos, com uma fé indomável a palpitar neles.
- E, se quiser saber porque é que há tantos congoleses com curativos nas mãos e nas partes sexuais, também lhe posso explicar - acrescentou Lily de Hailes, desafiadora.
- Porque os soldados da Força Pública lhes cortaram as mãos e os pénis e esmagaram-nos à machadada. Não se esqueça de pôr isso no seu relatório. São coisas que não
é costume dizer-se na Europa, quando se fala do Congo.
Naquela tarde, depois de passar várias horas a falar através de intérpretes com os feridos e os doentes do hospital de Bolobo, Roger não conseguiu jantar. Sentiu-se
em falta para com os pastores da missão, entre eles a doutora Hailes, que tinham assado um frango em sua honra. Desculpou-se, dizendo que não se sentia bem. Tinha
a certeza de que, se comesse alguma coisa, vomitaria para cima dos seus anfitriões.
- Se o que viu o alterou assim, talvez não seja prudente entrevistar o capitão Massard - aconselhou-o o chefe da missão. - Ouvi-lo é uma experiência, bom, como direi,
para estômagos fortes.
- Foi para isso que vim ao Médio Congo, senhores.
O capitão Pierre Massard, da Força Pública, não estava destacado em Bolobo, mas sim em Mbongo, onde havia uma guarnição e um campo de treino para os africanos que
seriam soldados naquele corpo responsável pela ordem e pela segurança. Encontrava-se em viagem de inspecção e tinha armado uma pequena tenda de campanha junto à
missão. Os pastores convidaram-no a conversar com o cônsul, avisando este que o oficial era famoso pelo seu carácter irascível. Os nativos chamavam-lhe Malu Malu
e entre as façanhas sinistras que lhe atribuíam figurava a de ter matado três africanos rebeldes, que tinha colocado em fila, com um só tiro. Não era prudente provocá-lo
pois dele podia esperar-se qualquer coisa.
Era um homem fortalhão, um pouco para o baixo, de cara quadrada e cabelo cortado à escovinha, com uns dentes

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manchados de nicotina e um sorrisinho congelado na cara. Tinha uns olhos pequenitos, um pouco rasgados e uma voz aguda, quase feminina. Os pastores haviam preparado
uma mesa com bolinhos de mandioca e sumo de manga. Eles não bebiam álcool, mas não puseram objecções a que Casement trouxesse do Henry Reed uma garrafa de brande
e outra de clarete. O capitão estendeu a mão a todos, cerimonioso, e cumprimentou Roger fazendo-lhe uma vénia barroca e chamando-lhe "Son Excellence, Monsieur le
Cônsul". Brindaram, beberam e acenderam cigarros.
- Se o senhor me permite, capitão Massard, gostaria de lhe fazer uma pergunta - disse Roger.
- Que bom francês, senhor cônsul! Onde é que o aprendeu?
- Comecei a estudá-lo quando era novo, em Inglaterra. Mas, sobretudo, aqui, no Congo, onde estou há muitos anos. Devo falá-lo com pronúncia belga, calculo.
- Faça-me todas as perguntas que quiser - disse Massard, bebendo outro golinho. - O seu brande é excelente, diga-se de passagem.
Os quatro pastores baptistas estavam ali, quietos e silenciosos, como que petrificados. Eram norte-americanos, dois jovens e dois velhos. A doutora Hailes tinha
ido para o hospital. Começava a anoitecer e ouvia-se já o zumbido dos insectos nocturnos. Para espantar os mosquitos, tinham acendido uma fogueira que crepitava
com suavidade e de vez em quando fumegava.
- Vou dizer-lho com toda a franqueza, capitão Massard -disse Casement, sem erguer a voz, muito lentamente. - Aquelas mãos trituradas e aqueles pénis cortados que
eu vi no hospital de Bolobo parecem-me de uma selvajaria inaceitável.
- São, claro que são - admitiu logo o oficial, com um gesto de pesar. - E uma coisa pior que essa, senhor cônsul: um desperdício. Aqueles homens mutilados já não
poderão trabalhar, ou fá-lo-ão mal e o seu rendimento será mínimo. Com a falta de braços de que padecemos aqui, é um verdadeiro crime.

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Ponha-me diante dos soldados que cortaram aquelas mãos e aqueles pénis e eu racho-lhes as costas até os deixar sem sangue nas veias.
Suspirou, esmagado pelos níveis de imbecilidade de que o mundo padecia. Voltou a beber outro golo de brande e a dar uma boa passa no cigarro.
- As leis ou os regulamentos permitem mutilar os indígenas? - perguntou Roger Casement.
O capitão Massard deu uma gargalhada e a sua cara quadrada, com o riso, ficou mais arredondada e apareceram-lhe umas covinhas cómicas.
- Proíbem-nos de forma categórica - afirmou ele, agitando a mão contra qualquer coisa no ar. - Faça lá compreender a esses animais de duas patas o que são leis e
regulamentos! Não os conhece? Se já está há tantos anos no Congo, deveria conhecê-los. É mais fácil fazer entender as coisas a uma hiena ou a uma carraça do que
a um congolês.
Voltou a rir-se, mas, nesse instante, enfureceu-se. Agora a sua expressão era dura e os seus olhinhos rasgados quase tinham desaparecido debaixo das pálpebras inchadas.
- Vou explicar-lhe o que acontece e, então, compreenderá
- acrescentou, suspirando, antecipadamente cansado por ter de explicar coisas tão óbvias como a de a Terra ser redonda. - Tudo nasce de uma preocupação muito simples
- afirmou ele, agitando outra vez a mão com mais fúria contra aquele inimigo alado.
- A Força Pública não pode desperdiçar munições. Não podemos permitir que os soldados gastem as balas que lhes distribuímos matando macacos, cobras e outros animais
asquerosos que eles gostam de meter na pança às vezes até crus. Na instrução ensina-se-lhes que as munições só se podem utilizar em defesa própria, quando os oficiais
lho ordenarem. Mas, estes pretos têm dificuldade em acatar as ordens, por mais chicotadas que levem. O regulamento foi feito por isso. Compreende, senhor cônsul?
- Não, não compreendo, capitão - disse Roger. - Que regulamento é esse?

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- Que cada vez que dispararem cortem a mão ou o pénis àquele que atirou - explicou o capitão. - Para provar que não desperdiçam as balas a caçar. Uma maneira sensata
de evitar o desperdício de munições, não é verdade?
Voltou a suspirar e a beber outro golo de brande. Cuspiu para o vazio.
- Pois não, não foi assim - queixou-se logo o capitão, novamente enfurecido. - Porque estes merdas encontram a forma de ludibriar o regulamento. O senhor adivinha
como?
- Não me ocorre - disse Roger.
- Simplicíssimo. Cortando as mãos e os pénis aos vivos, para nos levarem a acreditar que dispararam contra pessoas, quando o fizeram contra macacos, cobras e outras
porcarias que eles comem. Compreende agora porque é que há ali no hospital todos aqueles pobres diabos sem mãos e sem gaitas?
Fez uma longa pausa e bebeu o resto do brande que lhe restava no copo. Pareceu ficar triste e até fez beicinho.
- Fazemos o que podemos, senhor cônsul - acrescentou o capitão Massard, lastimoso. - Não é nada fácil, garanto-lhe. Porque, além de brutos, os selvagens são uns
falsários de nascimento. Mentem, enganam, falta-lhes sentimentos e princípios. Nem sequer o medo lhes abre o entendimento. Garanto-lhe que os castigos na Força Pública
aos que cortam mãos e gaitas aos vivos para enganar e continuar a caçar com as munições que o Estado lhes dá são muito duros. Visite os nossos postos e verifique,
senhor cônsul.
A conversa com o capitão Massard durou o tempo que durou a fogueira que crepitava aos seus pés, duas horas pelo menos. Quando se despediram, os quatro pastores baptistas
já se haviam retirado para dormir há um bocado. O oficial e o cônsul tinham bebido o brande e o clarete. Estavam um tanto ou quanto tocados, mas Roger Casement conservava
a lucidez. Meses ou anos depois conseguiria referir ao pormenor as grosserias e confissões que ouviu, e a maneira como a cara quadrada do capitão Pierre Massard
se foi congestionando com o álcool.

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Nas semanas seguintes teria muitas outras conversas com oficiais da Força Pública, belgas, italianos, franceses e alemães, e ouviria das suas bocas coisas
terríveis, mas na sua memória destacaria sempre, como a mais gritante, um símbolo da realidade congolesa, aquela conversa, na noite de Bolobo, com o capitão Massard.
A partir de certo momento, o oficial ficou sentimental. Confessou a Roger que sentia muitas saudades da mulher. Não a via há dois anos e recebia poucas cartas dela.
Talvez tivesse deixado de o amar. Talvez tivesse arranjado um amante. Não era de estranhar. Acontecia isso a muitos oficiais e funcionários que, para servirem a
Bélgica e Sua Majestade o rei, vinham enterrar-se naquele inferno, contrair doenças, ser mordidos por víboras, viver sem as comodidades mais elementares. E para
quê? Para ganhar uns salários mesquinhos, que mal lhes permitia fazer poupanças. Alguém lhes agradeceria depois aqueles sacrifícios lá na Bélgica? Pelo contrário,
na metrópole havia um preconceito tenaz contra os "colonialistas". Os oficiais e funcionários que regressavam da colónia eram discriminados, mantidos à distância,
como se, de tanto se darem com selvagens, se tivessem tornado selvagens também.
Quando o capitão Pierre Massard derivou para o tema sexual, Roger sentiu-se antecipadamente incomodado e quis despedir-se. Mas o oficial já estava bêbado e para
não o ofender nem ter uma altercação com ele teve de ficar. Enquanto o ouvia, aguentando as náuseas, dizia para si mesmo que não estava em Bolobo para fazer de justiceiro,
mas para investigar e acumular informação. Quanto mais exacto e completo fosse o seu relatório, mais eficiente seria a sua contribuição para lutar contra aquela
maldade institucionalizada em que o Congo se havia transformado. O capitão Massard tinha pena dos jovens tenentes ou soldados do Exército belga que vinham cheios
de ilusões de ensinar aqueles infelizes a ser soldados. Então e a sua vida sexual? Tinham de deixar lá na Europa as suas namoradas, esposas e amantes. E depois aqui?
Nem sequer prostitutas dignas desse nome havia nestas paragens abandonadas da mão
de Deus.

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Só umas pretas nojentas cheias de bichos que para ir com elas era preciso estar muito bêbado, correndo o risco de apanhar chatos, um esquentamento ou um
cancro mole. Ele, por exemplo, tinha dificuldades. Dava negas, nom de Dieu! Nunca lhe havia acontecido antes, na Europa. Negas na cama, ele, Pierre Massard! Nem
sequer o broche era recomendável porque, com aqueles dentes que tantas pretas tinham o costume de afiar, de repente davam uma mordidela e capavam-no.
Agarrou na braguilha e desatou a rir fazendo uma careta obscena. Aproveitando o facto de Massard continuar a diver-tir-se, Roger pôs-se de pé.
- Tenho de me retirar, capitão. Preciso de partir muito cedo amanhã de manhã e gostaria de descansar um pouco.
O capitão apertou-lhe a mão de maneira mecânica, mas continuou a falar, sem se levantar do seu assento, com a voz mole e os olhos vidrados. Enquanto Roger se afastava,
ouvia-o atrás de si, a murmurar que escolher a carreira militar tinha sido o grande erro da sua vida, um erro que continuaria a pagar durante o resto da sua existência.
Zarpou no dia seguinte no Henry Reed rumo a Lukolela. Esteve lá três dias, falando dia e noite com todo o tipo de gente: funcionários, colonos, capatazes, nativos.
Depois avançou até Ikoko, onde penetrou no lago Mantumba. Nos arredores encontrava-se aquela enorme extensão de terra chamada "domínio da Coroa". Em volta dela operavam
as principais companhias privadas da borracha, a Lulonga Company, a ABIR Company e a Société Anversoise du Commerce au Congo, que tinham vastas concessões em toda
a região. Visitou dezenas de aldeias, algumas nas margens do imenso lago e outras no interior. Para chegar a estas últimas era preciso deslocar-se em pequenas canoas
a remo ou à vara e caminhar horas em pleno mato escuro e húmido, que os indígenas iam abrindo à machadada e que, muitas vezes, o obrigavam a chapinhar com a água
até à cintura por terrenos inundados e pântanos pestilentos entre nuvens de mosquitos e silhuetas silenciosas de morcegos.

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Durante todas aquelas semanas resistiu à fadiga, às dificuldades naturais e às inclemências do tempo sem desanimar, num estado de febre espiritual, como que enfeitiçado,
porque a cada dia, a cada hora, lhe parecia estar a mergulhar em camadas mais profundas de sofrimento e de maldade. Seria assim o Inferno que Dante descreveu na
sua obra A Divina Comédia? Não tinha lido esse livro e durante aqueles dias jurou a si mesmo lê-lo assim que pudesse deitar mão a um exemplar.
Os indígenas, que, a princípio da sua viagem, desatavam a fugir assim que viam o Henry Reed aproximar-se, julgando que o pequeno vapor trazia soldados, rapidamente
começaram a vir ao seu encontro e a enviar-lhe emissários para que visitasse as suas aldeias. Tinha-se espalhado a notícia entre os nativos de que o cônsul britânico
percorria a região a escutar as suas queixas e pedidos e, então, iam ter com ele com testemunhos e histórias cada uma pior que a outra. Julgavam que ele tinha poderes
para endireitar tudo o que andava torto no Congo. Explicava-lhes isso em vão. Não tinha qualquer poder. Ele iria relatar aquelas injustiças e crimes e a Grã-Bretanha
e os seus aliados exigiriam ao Governo belga que pusesse fim aos abusos e castigasse os torturadores e criminosos. Era tudo o que ele podia fazer. Percebiam? Nem
sequer tinha a certeza de o ouvirem. Tinham tanta urgência em falar, contar as coisas que lhes aconteciam que não lhe prestavam atenção. Falavam aos borbotões, com
desespero e raiva, engasgando-se. Os intérpretes tinham de interrompê-los, pedindo-lhes que falassem mais devagar para poderem fazer bem o seu trabalho.
Roger ouvia, tomando notas. Depois, durante noites inteiras, escrevia nas suas fichas e cadernos o que tinha ouvido, para que nada daquilo se perdesse. Quase não
comia. Angustiava-o tanto o medo de que todos aqueles papéis que ele rascunhava pudessem extraviar-se que já não sabia onde ocultá-los, quais as precauções a tomar.
Optou por levá-los consigo, sobre os ombros de um carregador que tinha ordens para nunca se afastar do seu lado.

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Quase não dormia e, quando o cansaço o vencia, atacavam-no os pesadelos, fazendo-o passar do medo ao pasmo, de visões satânicas a um estado de desolação e tristeza
em que tudo perdia sentido e razão de ser: a sua família, os seus amigos, as suas ideias, o seu país, os seus sentimentos, o seu trabalho. Nesses momentos sentia
mais que nunca a falta do seu amigo Herbert Ward e do seu entusiasmo contagioso por todas as manifestações da vida, daquela alegria optimista que nada nem ninguém
conseguia abater.
Depois, quando aquela viagem chegou ao fim e ele escreveu o seu relatório, partiu do Congo e os seus vinte anos passados em áfrica foram só memória. Roger Casement
disse muitas vezes que se havia uma única palavra que estivesse na raiz de todas as coisas horríveis que ali aconteciam, essa palavra era "ganância". Ganância por
aquele ouro negro que, para desgraça das suas gentes, as florestas congolesas albergavam em abundância. Aquela riqueza era a maldição que tinha caído sobre aqueles
infelizes e, se assim continuasse, os faria desaparecer da face da Terra. Chegou a essa conclusão naqueles três meses e dez dias: se a borracha não se esgotasse
antes, seriam os Congoleses a esgotar-se com aquele sistema que os estava a aniquilar às centenas e aos milhares.
Naquelas semanas, a partir da sua entrada nas águas do lago Mantumba, as recordações iriam misturar-se como cartas baralhadas. Se não tivesse feito nos seus cadernos
um registo tão minucioso de datas, lugares, testemunhos e observações, na sua memória tudo aquilo andaria em revoada e misturado. Fechava os olhos e, num torvelinho
vertiginoso, apareciam e reapareciam aqueles corpos de ébano com cicatrizes avermelhadas como viborazinhas a fender-lhes as costas, as nádegas e as pernas, os cotos
dos braços cerceados das crianças e dos velhos, as caras macilentas e cadavéricas, de onde parecia terem extraído a vida, a gordura, os músculos, ficando nelas apenas
a pele, a caveira e aquela expressão ou esgar fixo que indicava, mais que a dor, a infinita estupefacção por aquilo que sofriam. E era

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sempre o mesmo, factos que se repetiam vezes sem conta em todas as aldeias e vilórias em que Roger Casement punha os pés, com os seus cadernos, lápis e a sua máquina
fotográfica.
Tudo era simples e claro no ponto de partida. Tinham fixado a cada aldeia umas obrigações precisas: entregar umas quotas semanais ou quinzenais de alimentos - mandioca,
aves de capoeira, carne de antílope, javalis, cabras ou patos - para sustentar a guarnição da Força Pública e os trabalhadores que abriam caminhos, erguiam os postes
de telégrafo e construíam embarcadouros e depósitos. Além disso, a aldeia devia entregar uma determinada quantidade de borracha recolhida em cestas tecidas com lianas
pelos próprios indígenas. Os castigos por não cumprir estas obrigações variavam. Por entregar menos que as quantidades estabelecidas de alimentos ou de borracha,
a pena eram as chicotadas, nunca menos de vinte e às vezes até cinquenta ou cem. Muitos dos castigados ficavam exangues e morriam. Os indígenas que fugiam - muito
poucos - sacrificavam a sua família porque, neste caso, as suas mulheres ficavam como reféns nas maison d'otages que a Força Pública tinha em todas as suas guarnições.
Ali, as mulheres dos fugitivos eram açoitadas, condenadas ao suplício da fome e da sede e às vezes submetidas a torturas tão rebuscadas como obrigá-las a engolir
o seu próprio excremento ou o dos seus guardas.
Nem sequer as normas ditadas pelo poder colonial - tanto as de companhias privadas como as de propriedades do rei - eram respeitadas. Em todos os lugares o sistema
era violado e piorado pelos soldados e oficiais encarregados de o fazer cumprir, porque em cada aldeia os militares e agentes do Governo aumentavam as quotas, a
fim de ficarem eles com parte dos alimentos e umas cestas de borracha, com os quais faziam pequenos negócios revendendo-os.
Em todas as aldeias que Roger visitou, as queixas dos sobas eram idênticas: se todos os homens se dedicassem a extrair a borracha, como é que podiam sair para caçar
e cultivar mandioca e outros alimentos para dar de comer às autoridades,

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chefes, guardas e trabalhadores? Além disso, as árvores-da-borracha iam-se esgotando, o que obrigava os recolectores a embrenhar-se cada vez mais longe, em regiões
desconhecidas e inóspitas onde muitos tinham sido atacados por leopardos, leões e víboras. Não era possível cumprir todas aquelas exigências, por mais esforços que
fizessem.
A 1 de Setembro de 1903, Roger Casement fez trinta e nove anos. Navegavam no rio Lopori. Na véspera tinham deixado atrás de si a povoação de Isi Isulo, nas colinas
que trepavam pela montanha de Bongandanga. O aniversário ficaria gravado de maneira indelével na sua memória, como se Deus, ou talvez o Diabo, tivesse querido que
naquele dia verificasse que, em matéria de crueldade humana, não havia limites, que era sempre possível ir mais além inventando maneiras de infligir tormento ao
próximo.
O dia amanheceu nublado e com ameaça de tempestade, mas a chuva não chegou a rebentar e durante toda a manhã a atmosfera ficou carregada de electricidade. Roger
preparava-se para tomar o pequeno-almoço quando chegou ao embarcadouro improvisado, onde o Henry Reed estava amarrado, um monge trapista, da missão que aquela ordem
tinha na localidade de Coquilhatville: o padre Hutot. Era alto e magro como uma personagem de El Greco, com uma longa barba grisalha e uns olhos em que bulia algo
que podia ser ira, espanto ou pasmo, ou as três coisas ao mesmo tempo.
- Sei o que faz por estas terras, senhor cônsul - disse estendendo a Roger Casement uma mão esquelética. Falava um francês atropelado por uma exigência imperiosa.
- Rogo-lhe que me acompanhe à aldeia de Walla. Fica só a uma hora ou hora e meia daqui. O senhor tem de ver com os seus próprios olhos.
Falava como se tivesse a febre e tremuras de paludismo.
- Está bem, mon père - concordou Casement. - Mas, sen-te-se, tomemos um café e coma alguma coisa, primeiro.
Enquanto tomava ó pequeno-almoço, o padre Hutot explicou ao cônsul que os trapistas da missão de Coquilhatville

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tinham autorização da ordem para quebrar o estrito regime de clausura que os regia noutras partes, a fim de prestar ajuda aos nativos, "que tanto precisam, nesta
terra onde Belzebu parecia estar a ganhar a batalha ao Senhor".
Não era só a voz que tremia ao monge, também os olhos, as mãos e o espírito. Pestanejava sem parar. Vestia uma túnica rústica, suja e molhada, e os seus pés cheios
de lama e arranhões estavam metidos numas sandálias de tiras. O padre Hutot encontrava-se há cerca de dez anos no Congo. Há oito que percorria as aldeias da região
de vez em quando. Tinha subido até ao cume de Bongandanga e visto de perto um leopardo que, em vez de lhe saltar para cima, se afastou do caminho abanando a cauda.
Falava línguas indígenas e ganhara a confiança dos nativos, em especial os de Walla, "aqueles mártires".
Puseram-se em marcha por um trilho estreito, entre altas ramagens, interrompidos de vez em quando por ribeirinhos. Ouvia-se o canto de pássaros invisíveis e às vezes
um bando de papagaios voava gritando sobre as suas cabeças. Roger reparou que o monge caminhava pela floresta com desenvoltura, sem tropeçar, como se tivesse uma
longa experiência nestas marchas através do mato. O padre Hutot foi-lhe explicando o que acontecera em Walla. Como a população, já muito esgotada, não conseguira
entregar por completo a última porção de alimentos, borracha e madeiras, nem ceder o número de braços que as autoridades exigiam, veio um destacamento de trinta
soldados da Força Pública sob o comando do tenente Tanville, da guarnição de Coquilhatville. Quando os viram aproximar-se, a população inteira fugiu para a montanha.
Mas os intérpretes foram procurá-los e garantir-lhes que podiam voltar. Nada lhes aconteceria, o tenente Tanville só queria explicar-lhes as novas normas e negociar
com a população. O soba ordenou-lhes que regressassem. Assim que o fizeram, os soldados caíram sobre eles. Homens e mulheres foram atados às árvores e açoitados.
Uma grávida que pretendia afastar-se para ir urinar foi morta com um tiro por um soldado que julgou que ela fugia.

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Outras dez mulheres foram levadas para a maison d'otages de Coquilhatville como reféns. O tenente Tanville deu uma semana de prazo a Walla para que completassem
a porção que
deviam sob pena de aquelas dez mulheres serem fuziladas e a aldeia queimada.
Quando, poucos dias depois daquela ocorrência, o padre Hutot chegou a Walla deparou-se-lhe um espectáculo atroz. Para poderem satisfazer as quotas que tinham em
dívida, as famílias da aldeia haviam vendido filhos e filhas, e dois dos homens as suas próprias mulheres, a mercadores ambulantes que faziam comércio de escravos
às escondidas das autoridades. O trapista calculava que as crianças e as mulheres vendidas deviam ser pelo menos oito, mas talvez fossem mais. Os indígenas estavam
aterrorizados. Tinham mandado comprar borracha e alimentos para satisfazer a dívida, mas não era certo que o dinheiro da venda chegasse.
- Consegue acreditar que aconteçam coisas assim neste mundo, senhor cônsul?
- Sim, mon père. Agora já acredito em todas as coisas terríveis que me contam. Se alguma coisa eu aprendi no Congo, é que não há pior fera sanguinária que o ser
humano.
"Não vi chorar ninguém em Walla", pensaria depois Roger Casement. Também não ouviu ninguém queixar-se. A aldeia parecia habitada por autómatos, seres espectrais
que deambulavam na clareira, entre a trintena de palhotas de pauzinhos de madeira e coberturas cónicas de folhas de palma, de um lado para o outro, desorientados,
sem saber para onde ir, esquecidos de quem eram, onde estavam, como se uma maldição tivesse caído sobre a aldeia convertendo a sua população em fantasmas. Mas fantasmas
com costas e nádegas cheias de cicatrizes frescas, algumas com rastos de sangue como se as feridas estivessem ainda abertas.
Com a ajuda do padre Hutot, que falava fluentemente a língua da tribo, Roger realizou o seu trabalho. Interrogou cada um e cada uma dos habitantes, ouvindo-os repetir
o que já tinha escutado e escutaria depois muitas vezes. Também aqui,

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em Walla, ficou surpreendido por nenhum daqueles pobres seres se ter queixado do principal: com que direito é que aqueles forasteiros vieram invadi-los, explorá-los
e maltratá-los? Só tinham em conta o imediato: as quotas. Eram excessivas, não havia força humana que pudesse juntar tanta borracha, tantos alimentos e ceder tantos
braços. Nem sequer se queixavam dos açoites e dos reféns. Só pediam que descessem um pouco as quotas para poderem satisfazê-las e deste modo as autoridades estarem
contentes com as gentes de Walla.
Roger pernoitou na aldeia. No dia seguinte, com os seus cadernos carregados de anotações e testemunhos, despediu-se do padre Hutot. Tinha decidido alterar a trajectória
programada. Voltou ao lago Mantumba, atracou o Henry Reed e dirigiu-se a Coquilhatville. O povoado era grande, de ruas irregulares e de terra batida, com casas espalhadas
entre palmeiras e pequenos quadrados de cultivo. Assim que desembarcou, foi à guarnição da Força Pública, um vasto espaço de construções rústicas e uma paliçada
de estacas amarelas.
O tenente Tanville tinha saído em missão de trabalho. Mas foi recebido pelo capitão Marcel Junieux, chefe da guarnição e militar responsável por todas as estações
e postos da Força Pública da região. Era um quarentão alto, magro, musculoso, com a pele curtida pelo sol e o cabelo já grisalho cortado rente. Tinha uma medalhita
de Nossa Senhora pendurada ao pescoço e a tatuagem de um animalzinho no antebraço. Fê-lo entrar para um gabinete rústico onde havia, presas nas paredes, algumas
bandeirinhas e uma fotografia de Leopoldo II em uniforme de parada. Ofereceu-lhe uma chávena de café. Fê-lo sentar em frente da sua pequena mesa de trabalho cheia
de cadernos, réguas, mapas e lápis, numa cadeirinha muito frágil, que parecia prestes a cair a cada movimento de Roger Casement. O capitão vivera na sua infância
em Inglaterra, onde o pai tinha negócios, e falava bem inglês. Era um oficial de carreira que se oferecera como voluntário para o Congo há cinco
anos,
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"para servir a pátria, senhor cônsul". Disse isto com ironia ácida.
Estava prestes a ser promovido e a regressar à metrópole. Escutou Roger sem o interromper uma única vez, muito sério e, aparentemente, muitíssimo concentrado no
que ouvia. A sua expressão, grave e impenetrável, não se alterava perante nenhum pormenor. Roger foi preciso e minucioso. Deixou muito claro quais as coisas que
lhe haviam contado e quais é que tinha visto com os seus próprios olhos: as costas e as nádegas fustigadas, os testemunhos dos que haviam vendido os seus filhos
para completar as quotas que não tinham conseguido reunir. Explicou que o Governo de Sua Majestade seria informado sobre aqueles horrores, mas que, além disso, ele
julgava ser seu dever apresentar, em nome do Governo que representava, o seu protesto porque a Força Pública fora responsável por abusos tão atrozes como os de Walla.
Era testemunha presencial de que aquele povoado se tinha convertido num pequeno inferno. Quando ele se calou, a cara do capitão Junieux continuava imutável. Esperou
um bom bocado, em silêncio. Por fim, fazendo um pequeno movimento de cabeça, disse, com suavidade:
- Como certamente saberá, senhor cônsul, nós, quero dizer, a Força Pública, não ditamos as leis. Limitamo-nos a fazer com que se cumpram.
Tinha um olhar claro e directo, sem ponta de incomodidade nem irritação.
- Conheço as leis e regulamentos que regem o Estado Independente do Congo, capitão. Nada neles autoriza que se mutile os nativos, que sejam açoitados até ficarem
exangues, que se tenha as mulheres como reféns para que os seus maridos não fujam e se explore as aldeias ao ponto de as mães terem de vender os seus filhos para
poder entregar as quotas de comida e borracha que vocês lhes exigem.
- Nós? - exagerou o capitão Junieux a sua surpresa. Negava com a cabeça e ao mexer-se o animalzito da tatuagem movia-se. - Nós não exigimos nada a ninguém. Recebemos
ordens

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e fazemo-las cumprir, é tudo. A Força Pública não fixa essas quotas, senhor Casement. São fixadas pelas autoridades políticas e pelos directores das companhias concessionárias.
Nós somos os executores de uma política em que não interviemos em nada. Nunca ninguém nos pediu a nossa opinião. Se o tivessem feito, talvez as coisas tivessem corrido
melhor.
Calou-se e pareceu distrair-se, por um momento. Pelas grandes janelas com redes metálicas, Roger via um descampado quadrangular e sem árvores onde marchava uma formação
de soldados africanos, que usavam calças de cotim e andavam em tronco nu e descalços. Mudavam de direcção à voz de comando de um suboficial, ele sim com botas, camisa
de uniforme e quépi.
- Farei uma investigação. Se o tenente Tanville cometeu ou favoreceu exacções será castigado - disse o capitão. - Os soldados também, claro, se se excederam no uso
do chicote. É tudo o que posso prometer-lhe. Mais que isso está fora do meu alcance, corresponde à justiça. Mudar este sistema não é tarefa de militares, mas sim
de juízes e de políticos. Do Governo Supremo. Isso, também o senhor sabe, calculo.
Na sua voz tinha assomado de repente um ligeiro tom de desalento.
- Nada me daria mais gozo que o sistema mudasse. A mim também me desagrada o que acontece aqui. O que somos obrigados a fazer ofende os meus princípios - tocou na
medalhinha do pescoço. - A minha fé. Eu sou um homem muito católico. Lá, na Europa, sempre tentei ser consequente com as minhas crenças. Aqui, no Congo, isso não
é possível, senhor cônsul. Essa é a triste verdade. Por isso, estou muito contente de voltar à Bélgica. Não serei eu que porei outra vez os pés em África, garanto-lhe.
O capitão Junieux levantou-se da sua mesa, aproximou-se de uma das janelas. Virando as costas ao cônsul, esteve um bocado calado, observando aqueles recrutas que
nunca mais conseguiam marchar compassadamente, tropeçavam e tinham as filas de formação todas tortas.

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- Se assim é, o senhor poderia fazer alguma coisa para pôr fim a estes crimes - murmurou Roger Casement. - Não foi para isto que nós, os Europeus, viemos para África.
- Ah, não? - O capitão Junieux voltou-se para olhar para ele e o cônsul reparou que o oficial tinha empalidecido um pouco. - Então para que é que viemos? Já sei:
para trazer a civilização, o cristianismo e o comércio livre. Ainda acredita nisso, senhor Casement?
- Já não - respondeu imediatamente Roger Casement. -Antes acreditava, sim. De todo o coração. Acreditei durante muitos anos, com toda a ingenuidade do rapaz idealista
e ingénuo que fui. Que a Europa vinha para África para salvar vidas e almas, para civilizar os selvagens. Agora sei que me enganei.
O capitão Junieux mudou de expressão e a Roger pareceu-lhe que, de repente, a cara do oficial tinha substituído aquela máscara hierática por outra mais humana. Que
até olhava para ele com a piedosa simpatia que os idiotas merecem.
- Tento redimir-me desse pecado de juventude, capitão. Foi para isso que vim até Coquilhatville. Foi por isso que estou a documentar, com a maior prolixidade, os
abusos que se cometem aqui em nome da suposta civilização.
- Desejo-lhe sucesso, senhor cônsul - troçou com um sorriso o capitão Junieux. - Mas, se me permite que lhe fale com franqueza, receio que não o venha a ter. Não
há força humana que mude este sistema. É demasiado tarde para isso.
- Se não se importa, gostaria de visitar a prisão e a maison d'otages, onde têm as mulheres que trouxeram de Walla - disse Roger, mudando bruscamente de assunto.
- Pode visitar tudo o que quiser - concordou o oficial. -O senhor está em sua casa. Mas permita que lhe recorde uma vez mais o que lhe disse. Não fomos nós que inventamos
o Estado Independente do Congo. Só o fazemos funcionar. Isto é, também somos suas vítimas.
A prisão era um armazém de madeira e ladrilhos, sem janelas, com uma só entrada, guardada por dois soldados nativos
com espingardas.
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Havia uma dúzia de homens, alguns velhos, seminus, deitados no chão, e dois deles amarrados a umas argolas embutidas na parede. Não foram as caras
abatidas ou inexpressivas daqueles esqueletos silenciosos cujos olhos o seguiram de um lado para o outro enquanto percorria o recinto o que mais o chocou. Mas sim
o cheiro a urina e a excrementos.
- Tentámos inculcar-lhes que façam as suas necessidades naqueles baldes - apontando para um recipiente, o capitão adivinhara-lhe o pensamento. - Mas não estão habituados.
Preferem o chão. É lá com eles. Não se incomodam com o cheiro. Talvez nem o sintam.
A maison d'otages era um recinto mais pequeno, mas o espectáculo tornava-se mais dramático porque estava abarrotado, ao ponto de Roger mal ter conseguido circular
entre aqueles corpos apinhados e seminus. O espaço era tão estreito que muitas mulheres não podiam sentar-se nem deitar-se, tinham de permanecer de pé.
- Isto é excepcional - explicou o capitão Junieux, apontando. - Nunca há tantas. Esta noite, para que possam dormir, iremos transferir metade delas para as casernas
de soldados.
Aqui o cheiro a urina e a excrementos também era insuportável. Algumas mulheres eram muito novas, quase crianças. Tinham todas o mesmo olhar perdido, sonâmbulo,
para lá da vida, que Roger veria em tantas congolesas ao longo daquela viagem. Uma das reféns tinha um recém-nascido nos braços, tão quieto que parecia morto.
- Que critério é que segue para as ir soltando? - perguntou o cônsul.
- Não sou eu que decido, senhor, é um magistrado. Há três em Coquilhatville. O critério é só um: quando os maridos entregam as quotas devidas, podem levar as mulheres.
- E se não o fizerem?
O capitão encolheu os ombros.
- Algumas conseguem fugir - disse, sem olhar para ele, baixando a voz. - Outras, levam-nas os soldados e fazem delas
suas mulheres.
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Essas são as que têm mais sorte. Algumas ficam loucas e matam-se. Outras morrem de desgosto, de cólera e de fome. Como você viu, não têm quase nada
que comer. Também não é uma falha nossa. Não recebo alimentos suficientes nem para sustentar os soldados. E, muito menos, os presos. Às vezes, fazemos pequenas colectas
entre os oficiais para melhorar o rancho. As coisas são assim. Sou o primeiro a lamentar que não sejam de outro modo. Se o senhor conseguir que isto melhore, a Força
Pública agradecer-lhe-á.
Roger Casement foi visitar os três magistrados belgas de Coquilhatville, mas só um deles é que o recebeu. Os outros dois inventaram pretextos para o evitar. Maître
Duval, em contrapartida, um cinquentão gordinho e saudável que, apesar do calor tropical, usava casaco, punhos postiços e sobrecasaca com relógio de bolso, mandou-o
entrar para o seu desguarnecido gabinete e ofereceu-lhe uma chávena de chá. Ouviu-o com educação, transpirando copiosamente. Limpava a cara de quando em quando com
um lenço já encharcado. Às vezes reprovava com movimentos de cabeça e expressão aflita o que o cônsul lhe expunha. Quando este acabou, ele pediu-lhe que pormenorizasse
tudo aquilo por escrito. Desta maneira ele poderia levar ao tribunal de que ele fazia parte um pedido a fim de se abrir uma investigação formal sobre aqueles lamentáveis
episódios. Embora talvez, rectificou maître Duval com um dedo reflexivo no queixo, fosse preferível que o senhor cônsul levasse aquele relatório ao Supremo Tribunal,
estabelecido agora em Léopold-ville. Por ser uma instância mais alta e influente, podia actuar com mais eficácia em toda a colónia. Não só para dar um remédio àquele
estado de coisas, como também ressarcir com compensações económicas as famílias das vítimas e elas próprias. Roger Casement disse-lhe que assim faria. Despediu-se,
convencido de que maître Duval não mexeria um dedo e o Supremo Tribunal de Léopoldville também não. Mas, mesmo assim, apresentaria o relatório.

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Ao entardecer, quando ele estava para partir, um nativo veio dizer-lhe que os monges da missão trapista queriam vê-lo. Encontrou-se lá novamente com le père Hutot.
Os monges -eram meia dúzia - queriam pedir-lhe que levasse às escondidas no seu pequeno vapor um punhado de fugitivos que eles tinham escondido na trapa, há dias.
Eram todos provenientes da aldeia de Bonginda, rio Congo acima, onde, por eles não satisfazerem as quotas de borracha, a Força Pública tinha levado a cabo uma operação
de castigo tão dura como a de Walla.
A trapa de Coquilhatville era uma grande casa de barro, pedras e madeira, de dois andares, que, por fora, parecia um forte. As janelas estavam entaipadas. O abade,
Dom Jesualdo, de origem portuguesa, era já muito idoso, tal como outros dois monges, mirrados e como que perdidos nas suas túnicas brancas, com escapulários pretos
e toscos cintos de couro. Só os mais velhos é que eram monges, os outros eram leigos. Todos, tal como o padre Hutot, tinham aquela magreza semiesquelética que era
como que o emblema dos trapistas daquele lugar. Por dentro, o local era luminoso, pois só a capela, o refeitório e o dormitório é que tinham telhado. Havia um jardim,
uma horta. Um galinheiro, um cemitério e uma cozinha com um grande fogão.
- Que delito é que esta gente cometeu para que os senhores me peçam para os tirar daqui às escondidas das autoridades?
- Ser pobres, senhor cônsul - disse Dom Jesualdo, compungido. - O senhor sabe isso muito bem. Acaba de ver em Walla o que significa ser pobre, humilde e congolês.
Casement concordou. Certamente que era um acto misericordioso prestar a ajuda que os trapistas lhe pediam. Mas, hesitava. Como diplomata, tirar fugitivos às escondidas
da justiça, por mais que fossem perseguidos por razões indevidas, era arriscado, podia comprometer a Grã-Bretanha e perverter por completo a missão de informação
que estava a cumprir para o Foreign Office.
- Posso vê-los e falar com eles?

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Dom Jesualdo concordou. Le père Hutot retirou-se e voltou quase imediatamente com o grupo. Eram sete, todos homens, entre os quais três crianças. Todos tinham a
mão esquerda cortada ou desfeita à coronhada. E marcas de chicotadas no peito e nas costas. O chefe do grupo chamava-se Mansunda e usava um penacho de plumas e uma
série de colares com dentes de animais; a sua cara mostrava cicatrizes antigas dos ritos de iniciação da sua tribo. O padre Hutot serviu de intérprete. A aldeia
de Bonginda tinha faltado ao cumprimento por duas vezes consecutivas nas entregas de borracha - as árvores da zona já estavam exauridas de látex - aos emissários
da Companhia Lulonga, concessionária da região. Então, os guardas africanos destacados na aldeia pela Força Pública começaram a açoitar e a cortar mãos e pés. Houve
uma efervescência de indignação e a aldeia, rebelando-se, matou um guarda, enquanto os outros conseguiam fugir. Dali a poucos dias, a aldeia de Bonginda foi ocupada
por uma coluna da Força Pública que deitou fogo a todas as casas, matou um bom número de habitantes, homens e mulheres, alguns queimando-os no interior das suas
cabanas e trazendo o resto para a prisão de Coquilhatville e para a maison d'otages. O chefe Mansunda pensava serem eles os únicos que tinham conseguido fugir, graças
aos trapistas. Se a Força Pública os capturasse seriam vítimas de punição exemplar, tal como os outros, porque em todo o Congo a rebeldia dos nativos castigava-se
sempre com o extermínio de toda a comunidade.
- Está bem, mon père - disse Casement. - Levá-los-ei comigo no Henry Reed até os afastar daqui. Mas só até à margem francesa mais próxima.
- Deus há-de pagar-lhe, senhor cônsul - disse le père Hutot.
- Não sei, mon père - retorquiu o cônsul. - Os senhores e eu estamos a violar a lei, neste caso.
- A lei dos homens - rectificou o trapista. - Estamos a transgredi-la, precisamente, para sermos fiéis à lei de Deus.
Roger Casement partilhou do jantar frugal e vegetariano dos monges. Conversou um longo bocado com eles.

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Dom Jesualdo brincou dizendo que em sua honra os trapistas estavam a violar a regra do silêncio por que se regia a ordem. Monges e leigos pareceram-lhe, tal como
ele próprio, esmagados e vencidos por aquele país. "Como é que se pôde chegar a isto?", reflectiu em voz alta diante deles. E contou-lhes que, há dezanove anos,
tinha vindo para África cheio de entusiasmo, convencido de que o empreendimento colonial ia trazer uma vida digna aos Africanos. Como é que era possível que a colonização
se tivesse transformado naquela horrível rapina, naquela crueldade vertiginosa em que gentes que se diziam cristãs torturassem, mutilassem, matassem seres indefesos
e os submetessem a crueldades tão atrozes, incluindo crianças e velhos? Nós, os Europeus, não tínhamos vindo para cá para acabar com o negócio de escravos e trazer
a religião da caridade e da justiça? Porque, isto que acontecia ali ainda era pior que o tráfico de escravos, não era assim?
Os monges deixaram-no desabafar, sem abrir a boca. Seria por, ao contrário do que dissera o abade, não quererem quebrar a regra do silêncio? Não: estavam tão confusos
e penalizados com o Congo como ele.
- Os caminhos de Deus são insondáveis para pobres pecadores como nós, senhor cônsul - suspirou Dom Jesualdo. -O importante é não cair no desespero. Não perder a
fé. Que haja aqui homens como o senhor, alenta-nos, devolve-nos a esperança. Desejamos-lhe sucesso na sua missão. Rezaremos para que Deus lhe permita fazer algo
por esta humanidade infeliz.
Os sete fugitivos subiram para o Henry Reed ao amanhecer do dia seguinte, numa curva do rio, quando o pequeno vapor se encontrava já um tanto distante de Coquilhatville.
Durante os três dias que ali permaneceram, Roger andava tenso e angustiado. Tinha dado uma explicação vaga à tripulação para justificar a presença dos sete nativos
mutilados e pareceu-lhe que os homens desconfiavam e olhavam com suspeitas para o grupo, com o qual não tinham comunicação. Perto de Irebu, o Henry Reed aproximou-se
da margem francesa do rio Congo

104
e naquela noite, enquanto a tripulação dormia, sete silhuetas silenciosas deslizaram e desapareceram no mato da margem. Ninguém perguntou depois ao cônsul o que
é que lhes tinha acontecido.
Nesta altura da viagem, Roger Casement começou a sentir-se mal. Não só moral e psicologicamente. O seu corpo também acusava os efeitos da falta de sono, das picadas
de insectos, do esforço físico desmedido e, talvez, sobretudo, do seu estado de espírito em que a raiva se sucedia à desmoralização, a vontade de cumprir o seu trabalho
à premonição de que o seu relatório também não serviria para nada, porque, lá em Londres, os burocratas do Foreign Office e os políticos ao serviço de Sua Majestade
decidiriam que era imprudente inimistar-se com um aliado como Leopoldo II, que publicar um report com acusações tão sérias teria consequências prejudiciais para
a Grã-Bretanha pois equivaleria a atirar a Bélgica para os braços da Alemanha. Os interesses do Império não seriam mais importantes que as queixas chorosas de uns
selvagens seminus que adoravam felinos e serpentes e eram antropófagos?
Fazendo esforços sobre-humanos para vencer as vagas de abatimento, as dores de cabeça, as náuseas, a alteração do corpo - sentia que emagrecia porque tinha tido
que abrir novos furos no cinto -, continuou a visitar aldeias, entrepostos, estações, a interrogar aldeões, funcionários, empregados, guardas, recolectores de borracha
e superando como podia o espectáculo quotidiano dos corpos martirizados pelas chicotadas, as mãos cortadas e as histórias de pesadelo de assassínios, encarceramentos,
chantagens e desaparecimentos. Chegou a pensar que aquele sofrimento generalizado dos Congoleses impregnava o ar, o rio e a vegetação que o rodeava com um cheiro
particular, uma pestilência que não era só física, mas também espiritual, metafísica.
"Acho que estou a perder o juízo, querida Gee", escreveu ele à prima Gertrude da estação de Bongandanga, no dia em que decidiu dar meia volta e empreender o regresso
a Léopoldville.

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"Hoje iniciei o regresso a Boma. Segundo os meus planos, deveria ter continuado para o Alto Congo mais umas duas semanas. Mas, na verdade, já tenho material de sobra
para mostrar no meu relatório as coisas que aqui acontecem. Temo que, se continuar a esquadrinhar os extremos a que pode chegar a maldade e a ignomínia dos seres
humanos, não seja sequer capaz de escrever o meu report. Estou à beira da loucura. Um ser humano normal não pode mergulhar tantos meses neste inferno sem perder
a sanidade, sem sucumbir a alguma perturbação mental. Algumas noites, na minha insónia, sinto que isso me está a acontecer. Algo se está a desintegrar na minha mente.
Vivo com uma angústia constante. Se continuar a conviver com o que se passa aqui acabarei eu também a distribuir chicotadas, a cortar mãos e a assassinar congoleses
entre o almoço e o jantar sem que isso me cause o mais pequeno mal-estar de consciência nem me tire o apetite. Porque é isso que acontece aos europeus neste condenado
país."
No entanto, aquela longuíssima carta não versava principalmente sobre o Congo, mas sim sobre a Irlanda. "Pois é, Gee querida, vai parecer-te outro sintoma de loucura,
mas esta viagem às profundezas do Congo serviu-me para descobrir o meu próprio país. Para entender a sua situação, o seu destino, a sua realidade. Nestas florestas
não encontrei só a verdadeira cara de Leopoldo II. Também encontrei o meu verdadeiro eu: o incorrigível irlandês. Quando nos voltarmos a ver vais ter uma surpresa,
Gee. Terás dificuldade em reconhecer o teu primo Roger. Tenho a impressão de ter mudado de pele, como certos ofídios, de mentalidade e talvez até de alma."
Era verdade. Durante todos os dias que o Henry Reed levou para descer o rio Congo até Léopoldville-Kinshasa, onde finalmente atracou ao entardecer do dia 15 de Setembro
de 1903, o cônsul quase não trocou uma palavra com a tripulação. Mantinha-se encerrado na sua estreita cabina, ou, se o tempo o permitia, estendido na rede da popa,
com o fiel John

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deitado a seus pés, quieto e atento, como se o pesadelo em que via o seu amo mergulhado o tivesse contagiado.
Só o pensar no país da sua infância e juventude, pelo qual ao longo desta viagem sentira de repente uma nostalgia profunda, é que afastava da sua cabeça aquelas
imagens do horror congolês empenhadas em destruí-lo moralmente e em perturbar o seu equilíbrio psíquico. Recordava os seus primeiros anos em Dublin, mimado e protegido
pela mãe, os seus anos de colégio em Ballymena e as suas visitas ao castelo com o fantasma de Galgorm, os passeios com a sua irmã Nina pela planície do Norte do
Antrim (tão mansa comparada com a africana!) e a felicidade que lhe davam aquelas excursões aos pequenos picos que escoltavam Glenshesk, o seu preferido entre os
nove glens do condado, aqueles cumes varridos pelos ventos de onde às vezes avistava o voo das águias com as suas grandes asas abertas e a crista levantada, desafiando
o céu.
A Irlanda não era também uma colónia, como o Congo? Embora ele se tivesse empenhado tantos anos em não aceitar aquela verdade que o seu pai e tantos irlandeses do
Ulster, como ele, rejeitavam com uma certa indignação. Porque é que o que estava mal para o Congo estaria bem para a Irlanda? Não tinham os Ingleses invadido o Eire?
Não o haviam incorporado ao Império através da força, sem consultar os invadidos e ocupados, como os Belgas aos Congoleses? Com o tempo, aquela violência tinha-se
mitigado, mas a Irlanda continuava a ser uma colónia, cuja soberania desaparecera por obra de um vizinho mais forte. Era uma realidade que muitos irlandeses se recusavam
a ver. O que diria o seu pai se o ouvisse dizer semelhantes coisas? Sacaria do seu pequeno "chicote"? E a sua mãe? Anne Jephson ficaria escandalizada se soubesse
que nas solidões do Congo o seu filho se estava a tornar, se não de facto, pelo menos de pensamento, um nacionalista? Naquelas tardes solitárias, rodeado pelas águas
castanhas e carregadas de folhas, ramos e troncos do rio Congo, Roger Casement tomou uma decisão: assim que voltasse à Europa procuraria uma boa colecção

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de livros dedicados à história e à cultura do Eire, que conhecia tão mal.
Esteve apenas três dias em Léopoldville, sem procurar ninguém. No estado em que se encontrava, não tinha ânimo para visitar autoridades e conhecidos e ter de falar
com eles - mentindo-lhes, claro - da sua viagem pelo Médio e Alto Congo e do que tinha visto naqueles meses. Telegrafou em código para o Foreign Office dizendo que
possuía material suficiente que confirmava as denúncias sobre os maus tratos dos indígenas. Pediu autorização para se transferir para a possessão portuguesa vizinha
e assim poder escrever o seu relatório com mais tranquilidade do que submetido às pressões do serviço consular em Boma. E escreveu uma longa denúncia, que era também
um protesto formal, à Procuradoria do Supremo Tribunal de Léopoldville-Kinshasa sobre os acontecimentos de Walla, pedindo uma investigação e sanções para os responsáveis.
Levou o seu texto pessoalmente à Procuradoria. Um funcionário circunspecto prometeu-lhe pôr o procurador, maitre Leverville, a par de tudo assim que este regressasse
de uma caçada a elefantes com o chefe do Gabinete de Registos Comerciais da cidade, Monsieur Clothard.
Roger Casement apanhou o comboio para Matadi, onde pernoitou só uma noite. Dali desceu até Boma num pequeno vapor de carga. No gabinete consular encontrou um monte
de correspondência e um telegrama dos seus chefes a autorizá-lo a viajar para Luanda a fim de redigir o seu relatório. Era urgente que o escrevesse e com o maior
rigor possível. Em Inglaterra, a campanha de denúncias contra o Estado Independente do Congo estava em pleno auge e participavam nela os principais jornais diários,
confirmando ou negando "as atrocidades". Às denúncias da Igreja Baptista tinham-se juntado, há já algum tempo, as do jornalista britânico de origem francesa, Edmund
D. Morel, amigo secreto e cúmplice de Roger Casement. As suas publicações causavam grande agitação na Câmara dos Comuns, bem como na opinião pública. Tinha havido
já um debate sobre o tema no Parlamento.

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O Foreign Office e o chanceler Lorde Lansdowne em pessoa esperavam com impaciência o testemunho de Roger Casement.
Em Boma, como em Léopoldville-Kinshasa, Roger evitou até onde pôde as pessoas do Governo, quebrando até o protocolo, coisa que nunca tinha feito em todos os seus
anos no serviço consular. Em vez de visitar o governador-geral enviou-lhe uma carta, desculpando-se por não o cumprimentar pessoalmente, alegando problemas de saúde.
Não jogou ténis uma única vez, nem bilhar, nem às cartas, nem deu nem aceitou almoços ou jantares. Nem sequer foi nadar de manhã cedo nos remansos do rio, uma coisa
que costumava fazer quase diariamente, até com mau tempo. Não queria ver gente, nem fazer vida social. Não queria, sobretudo, que lhe fizessem perguntas sobre a
sua viagem e ver-se obrigado a mentir. Tinha a certeza de que nunca poderia descrever com sinceridade aos seus amigos e conhecidos de Boma o que pensava de tudo
aquilo que tinha visto, ouvido e vivido no Médio e Alto Congo nas últimas catorze semanas.
Dedicou todo o seu tempo a resolver os assuntos consulares mais urgentes e a preparar a sua viagem para Cabinda e Luanda. Tinha a esperança de que saindo do Congo,
nem que fosse para outra possessão colonial, se sentiria menos abatido, mais livre. Tentou várias vezes pôr-se a escrever um esboço do relatório, mas não conseguiu.
Não era só o desânimo que o impedia; a mão direita contraía-se-lhe atacada por uma cãibra assim que começava a fazer correr a pena sobre o papel. As hemorróidas
voltavam a incomodá-lo. Quase não comia e os dois criados, Charlie e Mawuku, diziam-lhe, preocupados de o verem tão fraco, que chamasse o médico. Mas, apesar de
ele próprio estar inquieto pela sua falta de sono, de apetite e pelos incómodos físicos, não o fez, porque ver o doutor Salabert significaria falar, recordar, contar
tudo aquilo que para já só queria esquecer.
A 28 de Setembro, partiu num barco para Banana e ali, no dia seguinte, outro barco a vapor transportou-os a ele

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e a Charlie até Cabinda. John, o buldogue, ficou com Mawuku. Mas nem sequer nos quatro dias que passou naquela localidade, onde tinha conhecidos com quem jantou
e que, como desconheciam a sua viagem ao Alto Congo, não o obrigaram a falar do que ele não queria, se sentiu mais calmo e seguro de si mesmo. Só em Luanda, onde
chegou a 3 de Outubro, começou a sentir-se melhor. O cônsul inglês, Mr. Briskley, pessoa discreta e serviçal, proporcionou-lhe um pequeno escritório no seu gabinete.
Começou ali por fim a trabalhar de manhã e de tarde traçando o esboço das grandes linhas do seu report.
Mas só sentiu que começava a estar bem de verdade, a ser o de antes, três ou quatro dias depois de chegar a Luanda, certo meio-dia, sentado numa mesa do antigo Café
Paris, onde ia comer qualquer coisa depois de trabalhar toda a manhã. Estava a dar uma olhadela a um velho jornal diário de Lisboa quando reparou, na rua em frente,
em vários nativos seminus a descarregar uma grande carroça cheia de fardos de um produto agrícola, talvez algodão. Um deles, o mais novo, era muito belo. Tinha um
corpo alongado e atlético, com músculos que sobressaíam nas costas, pernas e braços com o esforço que fazia. A sua pele escura, um pouco azulada, brilhava de suor.
Com os movimentos que fazia ao deslocar-se com a carga aos ombros desde a carroça até ao interior do depósito, o ligeiro pedaço de tecido que trazia em volta das
ancas abria-se e deixava entrever o seu sexo, avermelhado e pendente e maior do que o normal. Roger sentiu uma vaga quente e desejo urgente de fotografar o charmoso
carregador. Não lhe acontecia isso há meses. Animou-o um pensamento: "Volto a ser eu mesmo." No pequeno diário que trazia sempre consigo, anotou: "Muito belo e enorme.
Segui-o e convenci-o. Beijámo-nos ocultos pelos fetos gigantes de um descampado. Foi meu, fui dele. Uivei." Respirou fundo, febril.
Naquela mesma tarde, Mr. Briskley entregou-lhe um telegrama do Foreign Office. O chanceler em pessoa, Lorde Lansdowne, ordenava-lhe que regressasse imediatamente
a Inglaterra

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para redigir em Londres o seu Relatório sobre o Congo. Roger tinha recuperado o apetite e naquela noite jantou bem.
Antes de apanhar o Zaire, que partiu de Luanda para Inglaterra, com escala em Lisboa, só a 6 de Novembro, escreveu uma longa carta a Edmund D. Morel. Trocava correspondência
com ele secretamente há uns seis meses. Não o conhecia pessoalmente. Soube da sua existência, primeiro, por uma carta de Herbert Ward que admirava o jornalista,
e, depois, ao ouvir em Boma os funcionários belgas e pessoas de passagem a comentar os artigos severíssimos, carregados de críticas ao Estado Independente do Congo
que Morel, que vivia em Liverpool, publicava denunciando os abusos de que eram vítimas os nativos da colónia africana. Discretamente, através da sua prima Gertrude,
procurou alguns folhetos editados por Morel. Impressionado com a seriedade das suas acusações, num gesto audacioso, Roger escreveu-lhe, enviando-lhe a carta através
de Gee. Dizia-lhe que já estava há muitos anos em África e que podia dar-lhe informações em primeira mão para a sua campanha justa, com a qual se solidarizava. Não
podia fazê-lo abertamente dada a sua condição de diplomata britânico, e, por isso, era preciso que tomassem precauções com a correspondência a fim de evitar que
o seu informador de Boma fosse identificado. Na carta que escreveu a Morel de Luanda, Roger resumia-lhe a sua última experiência e dizia-lhe que, assim que chegasse
à Europa, se poria em contacto com ele. Nada o entusiasmava tanto como conhecer pessoalmente o único europeu que parecia ter tomado consciência cabal da responsabilidade
que o Velho Continente tinha na transformação do Congo num inferno.
Na viagem para Londres, Roger recuperou a energia, o entusiasmo, a esperança. Voltou a ter a certeza de que o seu relatório seria muito útil para pôr fim àqueles
horrores. A impaciência com que o Foreign Office esperava o seu report demonstrava-o. Os factos eram de uma tal magnitude que o Governo britânico teria de actuar,
exigir mudanças radicais, convencer os seus aliados, revogar aquela disparatada concessão pessoal

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a Leopoldo II de um continente como era o Congo. Apesar das tempestades que sacudiram o Zaire entre São Tomé e Lisboa, e que mantiveram a tripulação com enjoos e
vómitos, Roger Casement conseguiu arranjar-se de modo a continuar a redigir o seu relatório. Disciplinado como outrora e entregue com zelo apostólico à tarefa, procurava
escrever com a maior precisão e sobriedade, sem incorrer no sentimentalismo nem em considerações subjectivas, descrever com objectividade só o que tinha podido verificar.
Quanto mais exacto e conciso fosse, mais persuasivo e eficaz seria.
Chegou a Londres num glacial dia 1 de Dezembro. Mal teve tempo de dar uma vista de olhos àquela cidade chuvosa, fria e fantasmagórica, porque, assim que deixou a
bagagem no seu apartamento de Philbeach Gardens, em Earl's Court, e passou os olhos pela correspondência acumulada, teve de ir a correr ao Foreign Office. Ao longo
de três dias sucederam-se reuniões e entrevistas. Ficou muito impressionado. Não havia dúvida, o Congo estava no centro da actualidade desde aquele debate no Parlamento.
As denúncias da Igreja Baptista e a campanha de Edmund D. Morel tinham feito mossa. Todos exigiam uma tomada de posição do Governo. Este, antes de o fazer, contava
com o seu report. Roger Casement descobriu que, sem querer nem saber, as circunstâncias tinham feito dele um homem importante. Nas duas exposições, de uma hora cada
uma, perante funcionários do ministério - a uma delas assistiram o director para Assuntos Africanos e o vice-ministro -, reparou no efeito das suas palavras nos
ouvintes. Os olhares incrédulos do princípio tornavam-se depois, quando ele respondia às perguntas com novas precisões, expressões de repugnância e espanto.
Deram-lhe um gabinete num lugar tranquilo de Kensington, longe do Foreign Office, e um dactilógrafo jovem e eficiente, Mr. Joe Pardo. Começou a ditar-lhe o relatório
na sexta-feira, 4 de Dezembro. Tinha corrido a notícia de que o cônsul britânico no Congo havia chegado a Londres, com um documento exaustivo sobre a colónia e a
agência Reuters, The Spectator,

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The Times e vários correspondentes de jornais dos Estados Unidos tentaram entrevistá-lo. Mas ele, de acordo com os seus superiores, disse que só falaria com a imprensa
depois de o Governo se ter pronunciado sobre o tema.
Nos dias seguintes não fez outra coisa senão trabalhar no report de manhã e de tarde, acrescentando, cortando e refazendo o texto, relendo várias vezes os seus cadernos
com os apontamentos de viagem que já conhecia de cor. Ao almoço comia apenas uma sandes e todas as noites jantava cedo no seu clube, o Wellington. Às vezes Herbert
Ward juntava-se-lhe. Fazia-lhe bem conversar com o seu velho amigo. Um dia, este arrastou-o para o seu estúdio, no número 53 de Chester Square e distraiu-o mostrando-lhe
as suas antigas esculturas inspiradas em África. Outro dia, para o fazer esquecer por umas horas a sua preocupação obsessiva, Herbert obrigou-o a sair e a comprar
um dos casacos em voga, com tecido aos quadradinhos, um gorro à francesa e uns sapatos com o peito do pé artificial e branco. Depois, levou-o a almoçar ao lugar
preferido dos intelectuais e artistas londrinos, um restaurante na Torre Eiffel. Foram as suas únicas diversões naqueles dias.
Desde a sua chegada, tinha pedido autorização ao Foreign Office para se encontrar com Morel. Deu como pretexto querer cotejar com o jornalista algumas das informações
que ele trazia. A 9 de Dezembro obteve a autorização. E, no dia seguinte, Roger Casement e Edmund D. Morel viram-se cara a cara pela primeira vez. Em vez de apertarem
as mãos, abraçaram-se. Conversaram, jantaram juntos no Comedy, foram ao apartamento de Roger em Philbeach Gardens onde passaram o resto da noite a beber conhaque,
a conversar, a fumar e a discutir até que descobriram através das persianas que já era o novo dia. Estavam há doze horas num diálogo ininterrupto. Ambos diriam,
depois, que aquele encontro tinha sido o mais importante das suas vidas.
Não podiam ser mais diferentes. Roger era muito alto e muito magro e Morel mais para o baixo, fortalhaço e com

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tendência para engordar. Sempre que o via, Casement tinha a impressão de que os fatos do amigo lhe ficavam apertados. Roger tinha feito trinta e nove anos, mas,
apesar do seu físico afectado pelo clima africano e pelas febres palúdicas, parecia, talvez pelo cuidado com a sua aparência, mais novo que Morel, que só tinha trinta
e dois e que em jovem fora bem-parecido, mas agora estava envelhecido, com o cabelo cortado já meio grisalho, tal como o seu bigode de foca e uns olhos ardentes
e um pouco salientes. Bastou verem-se para se entenderem e - a palavra não lhes teria parecido exagerada - gostarem um do outro.
De que é que falaram durante aquelas doze horas ininterruptas? Muito de África, claro, mas também das suas famílias, das suas infâncias, dos seus sonhos, ideais
e desejos de adolescentes e de como, sem se proporem a isso, o Congo se tinha instalado no coração das suas vidas e as havia transformado dos pés à cabeça. Roger
ficou maravilhado por alguém que nunca lá tinha posto os pés conhecer tão bem aquele país. A sua geografia, a sua história, a sua gente, os seus problemas. Escutou
fascinado como, há já muitos anos, aquele obscuro empregado da Élder Dempster Line (a mesma empresa em que Roger tinha trabalhado quando era novo, em Liverpool)
que era Morel, encarregado no porto de Antuérpia de revistar os barcos e fazer auditorias do seu carregamento, começou a ter suspeitas ao verificar que o comércio
livre que, supunha-se, Sua Majestade Leopoldo II tinha aberto entre a Europa e o Estado Independente do Congo, era não só assimétrico, como também uma farsa. Que
tipo de comércio livre era aquele em que os barcos que vinham do Congo descarregavam no grande porto flamengo toneladas de borracha e quantidades enormes de marfim,
óleo de palma, minerais e peles, e carregavam para levar para lá apenas espingardas, chicotes e caixas de continhas de vidro coloridas?
Foi assim que Morel começou a interessar-se pelo Congo, a investigar, a interrogar os que iam para lá ou voltavam para a Europa, comerciantes, funcionários, viajantes,
pastores, sacerdotes, aventureiros, soldados, polícias, e a ler tudo o que lhe

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caía nas mãos sobre aquele imenso país cujos infortúnios chegou a conhecer na ponta da língua, como se tivesse feito dezenas de viagens de inspecção parecidas com
as de Roger Casement pelo Médio e Alto Congo. Então, sem renunciar ainda ao seu lugar na companhia, começou a escrever cartas e artigos em revistas e jornais da
Bélgica e da Inglaterra, a princípio com pseudónimo e depois com nome próprio, denunciando o que descobria e desmentindo com dados e testemunhos a imagem idílica
do Congo que os editorialistas ao serviço de Leopoldo II ofereciam ao mundo. Já andava há muitos anos neste combate, publicando artigos, folhetos e livros, falando
em igrejas, centros culturais, organizações políticas. A sua campanha tinha dado frutos. Muitas pessoas o seguiam agora. "Isto também é Europa", pensou muitas vezes
Roger Casement naquele 10 de Dezembro. "E não só os colonos, polícias e criminosos que mandámos para África. A Europa também é este espírito cristalino e exemplar:
Edmund. D. Morel."
A partir de então viram-se frequentemente e continuaram aqueles diálogos que a ambos exaltavam. Começaram a chamar-se com pseudónimos afectuosos: Roger era Tigre
e Edmund, Buldogue. Numa daquelas conversas surgiu a ideia de criar a Associação para a Reforma do Congo. Ambos ficaram surpreendidos com o vasto apoio que conseguiram
nas suas diligências em busca de patrocinadores e aderentes. A verdade é que muito poucos dos políticos, jornalistas, escritores, religiosos e figuras conhecidas
a quem pediram ajuda para a Associação lha negaram. Foi assim que Roger Casement conheceu Alice Stopford Green. Herbert Ward apresentou-lha. Alice foi uma das primeiras
a dar dinheiro, o seu nome e o seu tempo à Associação. Joseph Conrad também o fez e muitos intelectuais e artistas o imitaram. Reuniram fundos, nomes respeitáveis
e muito rapidamente começaram as actividades públicas, em igrejas, centros culturais e humanitários, apresentando testemunhos, promovendo debates e publicações para
abrir os olhos da opinião pública sobre a verdadeira situação do Congo. Embora

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Roger Casement, pela sua condição de diplomata, não pudesse figurar oficialmente na direcção da Associação, dedicou-lhe todo o tempo livre, assim que, finalmente,
entregou o seu relatório ao Foreign Office. Doou uma parte das suas poupanças e do seu salário à Associação e escreveu cartas, visitou muitas pessoas e conseguiu
que um bom número de diplomatas e políticos se convertessem também em promotores da causa que Morel e ele defendiam.
Passados anos, quando Roger Casement recordava aquelas semanas febris de finais de 1903 e as primeiras de 1904, diria a si mesmo que o mais importante, para ele,
não tinha sido a popularidade que alcançou mesmo antes de o Governo de Sua Majestade publicar o seu Relatório, e muitíssimo mais depois, quando os agentes ao serviço
de Leopoldo II começaram a atacá-lo na imprensa como um inimigo e caluniador da Bélgica, mas sim, graças a Morel, à Associação e a Herbert, ter conhecido Alice Stopford
Green, de quem, a partir de então, seria amigo íntimo e, como ele alardeava, discípulo. A partir do primeiro momento houve entre ambos um entendimento e simpatia
que o tempo não faria senão tornar mais profundos.
À segunda ou terceira vez que estiveram sozinhos, Roger abriu o coração à sua flamejante amiga, como teria feito um crente ao seu confessor. A ela, irlandesa de
família protestante como ele, atreveu-se a dizer-lhe o que ainda não dissera a ninguém: lá, no Congo, convivendo com a injustiça e a violência, havia descoberto
a grande mentira que era o colonialismo e tinha começado a sentir-se um "irlandês", isto é, cidadão de um país ocupado e explorado por um Império que havia sangrado
e tirado a alma à Irlanda. Envergonhava-se de tantas coisas que dissera e pensara repetindo os ensinamentos paternos. E tinha o propósito de se emendar. Agora que,
graças ao Congo, descobrira a Irlanda, queria ser um irlandês de verdade, conhecer o seu país, apropriar-se da sua tradição, da sua história e da sua cultura.
Carinhosa, um pouco maternal - Alice era dezassete anos mais velha do que ele -, chamando-lhe a atenção às vezes por

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aqueles arrebatamentos infantis de entusiasmo que ele tinha, sendo já um quarentão, mas ajudando-o com conselhos, livros, conversas que para ele eram aulas magistrais,
enquanto tomavam chá com bolachas ou scones com manteiga e compota. Naqueles primeiros meses de 1904, Alice Stopford Green foi sua amiga, sua professora, sua introdutora
num antiquíssimo passado em que história, mito e lenda - a realidade, a religião e a ficção - se confundiam para construir a tradição de um povo que continuava a
conservar, apesar do empenhamento desnacionalizador do Império, a sua língua, a sua maneira de ser, os seus costumes, algo de que qualquer irlandês, protestante
ou católico, crente ou não crente, liberal ou conservador, devia sentir-se orgulhoso e obrigado a defender. Nada ajudou tanto a serenar o espírito de Roger, a curá-lo
daquelas feridas morais que a viagem ao Alto Congo lhe tinha causado, como ter feito amizade com Morel e com Alice. Um dia, ao despedir-se de Roger que, tendo pedido
uma licença de três meses no Foreign Office, estava prestes a partir para Dublin, a historiadora disse-lhe:
- Já te apercebeste que te converteste numa celebridade, Roger? Toda a gente fala de ti, aqui, em Londres.
Não era uma coisa que o fizesse sentir adulado pois nunca tinha sido vaidoso. Mas Alice dizia a verdade. A publicação do seu Relatório pelo Governo britânico teve
uma repercussão enorme na imprensa, no Parlamento, na classe política e na opinião pública. Os ataques que recebia na Bélgica nas publicações oficiais e de colunistas
ingleses propagandistas de Leopoldo II, só serviram para fortalecer a sua imagem de grande lutador humanitário e justiceiro. Foi entrevistado na imprensa, convidado
a falar em actos públicos e em clubes privados, choveram-lhe convites dos salões liberais e anticolonialistas, e apareciam prosas soltas e artigos elevando às nuvens
o seu Relatório e o seu compromisso com a causa da justiça e da liberdade. A campanha do Congo, ganhou um novo impulso. A imprensa, as Igrejas, os sectores mais
avançados da sociedade inglesa, horrorizados com as revelações do Relatório, exigiam que

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a Grã-Bretanha pedisse aos seus aliados que se revogasse aquela decisão dos países ocidentais de entregar o Congo ao rei dos Belgas.
Oprimido por aquela fama súbita - as pessoas reconheciam-no nos teatros e restaurantes e assinalavam-no na rua com simpatia -, Roger Casement partiu para a Irlanda.
Esteve uns dias em Dublin, mas de repente seguiu para o Ulster, para o Norte do Antrim, Magherintemple House, a casa familiar da sua infância e adolescência. Tinha-a
herdado do seu tio e homónimo Roger, filho do seu tio-avô John, falecido em 1902. A tia Charlotte ainda estava viva. Recebeu-o com grande carinho, tal como os seus
outros parentes, primos e sobrinhos. Mas ele sentia que tinha surgido uma distância invisível entre ele e a sua família paterna, que continuava a ser firmemente
anglófila. No entanto, a paisagem de Magherintemple, o grande casarão de pedras cinzentas, rodeado de sicômoros resistentes ao sal e aos ventos, muitos deles sufocados
pela hera, os álamos, olmos e pessegueiros dominando os prados onde preguiçavam as ovelhas, e, para lá do mar, a visão da ilha de Rathlin e da pequena cidade de
Ballycastle com as suas alvas casinhas, comoveu-o até aos ossos. Percorrendo os estábulos, a horta atrás da casa, as grandes divisões com galhos de veados nas paredes,
ou as antiquíssimas vilórias de Cushendum e Cushendal, onde estavam enterradas várias gerações de antecessores, ressuscitavam as recordações da sua infância ou enchiam-no
de nostalgia. Mas as suas novas ideias e sentimentos sobre o seu país, fizeram com que esta estada, que se prolongaria por vários meses, se convertesse noutra grande
aventura para ele. Uma aventura, contrariamente à sua viagem ao Alto Congo, grata, estimulante e que lhe daria a sensação, ao vivê-la, de estar a mudar de pele.
Tinha levado um monte de livros, gramáticas e ensaios, recomendados por Alice, e passou muitas horas a ler sobre as tradições e lendas irlandesas. Tentou aprender
gaélico, primeiro por sua conta e, ao verificar que nunca o conseguiria, com

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ajuda de um professor, com quem tinha lições umas duas vezes por semana.
Mas, sobretudo, começou a dar-se com gente nova de County Antrim que, sendo do Ulster e protestantes como ele, não eram unionistas. Pelo contrário, queriam preservar
a personalidade da antiga Irlanda, lutavam contra a anglicização do país, defendiam o regresso ao velho irlandês, às canções e costumes tradicionais, opunham-se
ao recrutamento de irlandeses para o Exército britânico e sonhavam com uma Irlanda isolada, a salvo do moderno industrialismo destruidor, vivendo uma existência
bucólica e rural, emancipada do Império Britânico. Foi assim que Roger Casement se vinculou à Liga Gaélica, que promovia o irlandês e a cultura da Irlanda. O seu
motto era o Sinn Fein ("Nós Mesmos"). Quando foi fundada, em Dublin, em 1893, o seu presidente Douglas Hyde recordou ao auditório no seu discurso que, até então,
"só se tinham publicado seis livros em gaélico". Roger Casement conheceu o sucessor de Hyde, Eoin MacNeill, professor de História Antiga e Medieval da Irlanda no
University College, de quem se tornou amigo. Começou a assistir a leituras, conferências, recitais, marchas, concursos escolares e edificação de monumentos a heróis
nacionalistas que o Sinn Fein promovia. E começou a escrever nas suas publicações artigos políticos a defender a cultura irlandesa com o pseudónimo de Shan van Vocht
("A Pobre Velhinha") tirado de uma antiga balada irlandesa que ele costumava cantarolar. Ao mesmo tempo aproximou-se muito de um grupo de senhoras, entre elas a
castelã de Galgorm Rose Maud Young, Ada MacNeill e Margaret Dobbs, que percorriam as aldeias de Antrim recolhendo velhas lendas do folclore irlandês. Graças a elas
ouviu um seanchai, ou contador ambulante de histórias numa feira popular, embora só tenha conseguido entender uma ou outra palavrinha do que ele dizia.
Numa discussão em Magherintemple House com o seu tio Roger, Casement, exaltado, afirmou uma noite: "Como irlandês que sou, odeio o Império Britânico."

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No dia seguinte recebeu uma carta do duque de Argyll a informá-lo de que o Governo de Sua Majestade tinha decidido distingui-lo com o título de cavaleiro da Ordem
de São Miguel e São Jorge pelos seus excelentes serviços prestados no Congo. Roger escusou-se a assistir à cerimónia de investidura alegando que uma infecção no
joelho o impediria de se ajoelhar perante o rei.


VII.


- Você odeia-me e não consegue disfarçar - disse Roger Casement. O xerife, após um momento de surpresa, concordou, com um esgar que por instantes lhe desfez a cara
balofa.
- Não tenho por que disfarçar - murmurou. - Mas, o senhor engana-se. Não lhe tenho ódio. Desprezo-o. Os traidores só merecem isso.
Iam a caminhar pelo corredor de lajes sujas da prisão até ao parlatório, onde o capelão católico, padre Carey, esperava o réu. Pelas janelinhas com grades Casement
avistava umas manchas de nuvens inchadas e escuras. Estaria a chover, lá fora, sobre Caledonian Road e sobre aquele roman way pelo qual séculos atrás deviam ter
desfilado por aquelas florestas cheias de ursos os primeiros legionários romanos? Imaginou as tendas e as vendas do mercado vizinho, no meio do grande parque de
Islington, encharcadas e sacudidas pela tempestade. Sentiu um assomo de inveja pensando nas pessoas que compravam e vendiam protegidas por impermeáveis e chapéus-de-chuva.
- O senhor teve tudo - resmungou atrás dele o xerife. -Cargos diplomáticos. Condecorações. O rei fê-lo nobre. E foi vender-se aos Alemães. Mas que vileza! Mas que
ingratidão!
Fez uma pausa e pareceu a Roger que o xerife suspirava.
- Cada vez que penso no meu pobre filho lá morto, nas trincheiras, digo a mim próprio que você é um dos seus assassinos, senhor Casement.

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- Lamento muito que tenha perdido um filho - respondeu Roger, sem se voltar. - Sei que não vai acreditar em mim, mas eu ainda não matei ninguém.
- Já não terá tempo de o fazer - sentenciou o xerife. - Graças a Deus.
Tinham chegado à porta do parlatório. O xerife ficou no exterior, junto ao carcereiro de guarda. Só as visitas dos capelães é que eram privadas, em todas as outras
mantinham-se sempre no parlatório o xerife ou o guarda e às vezes ambos. Roger alegrou-se ao ver a estilizada silhueta do religioso. O father Carey saiu ao seu encontro
e apertou-lhe a mão.
- Fiz averiguações e já tenho a resposta - anunciou-lhe ele, a sorrir. - A sua recordação era exacta. Com efeito, o senhor foi baptizado quando era criança na paróquia
de Rhyl, lá no País de Gales. Consta no livro de registos. Estiveram presentes a sua mãe e duas suas tias maternas. Não precisa de ser novamente recebido na Igreja
Católica. Sempre esteve nela.
Roger Casement concordou. Aquela impressão longínqua que o tinha acompanhado toda a sua vida era, então, certa. A mãe baptizara-o às escondidas do pai, numa das
suas viagens ao País de Gales. Alegrou-se pela cumplicidade que aquele segredo estabelecia entre ele e Anne Jephson. E porque deste modo se sentia mais em consonância
consigo mesmo, com a sua mãe, com a Irlanda. Como se a sua aproximação ao catolicismo fosse uma consequência natural de tudo o que tinha feito e tentado naqueles
últimos anos, incluindo os seus equívocos e fracassos.
- Tenho estado a ler Tomás de Kempis, padre Carey - disse ele. - Antes, mal conseguia concentrar-me na leitura. Mas nestes últimos dias consegui. Várias horas por
dia. A Imitação de Cristo é um livro muito belo.
- Quando eu estava no seminário líamos muito Tomás de Kempis - assentiu o sacerdote. - A Imitação de Cristo, sobretudo.
- Sinto-me mais sereno quando consigo meter-me naquelas páginas - disse Roger. - Como se saísse deste mundo e entrasse noutro, sem preocupações, uma realidade puramente
espiritual.
122
O padre Crotty tinha razão em recomendar-mo tanto, lá na Alemanha. Ele nunca imaginou em que circunstâncias eu iria ler o seu admirado Tomás de Kempis.
Tinham instalado há pouco uma pequena banqueta no parlatório. Sentaram-se. Os seus joelhos tocavam-se. O father Carey era capelão de prisões em Londres há mais de
vinte anos e tinha acompanhado até ao fim muitos condenados à morte. Aquele contacto constante com as populações prisionais não lhe tinha endurecido o carácter.
Era ponderado e atento e Roger Casement sentiu simpatia por ele desde o primeiro encontro. Não se lembrava de alguma vez o ter ouvido dizer algo que o pudesse magoar;
pelo contrário, na altura de lhe fazer perguntas ou de conversar com ele a sua delicadeza era extrema. Sentia-se sempre bem a seu lado. O padre Carey era alto, ossudo,
quase esquelético, com uma pele muito branca e uma barbinha grisalha e pontiaguda que lhe cobria parte do queixo. Tinha sempre os olhos húmidos, como se acabasse
de chorar, mesmo que estivesse a rir-se.
- Como era o padre Crotty? - perguntou-lhe. - Já estou a ver que se entenderam bem, lá na Alemanha.
- Se não tivesse sido o father Crotty teria dado em doido naqueles meses, no campo de Limburg - confirmou Roger. -Era muito diferente do senhor, fisicamente. Mais
baixo, mais robusto e, em vez da sua palidez, tinha uma cara corada que se intensificava muito mais com o primeiro copo de cerveja. Mas, doutro ponto de vista, sim,
era parecido com o senhor. Quero dizer, na generosidade.
O padre Crotty era um dominicano irlandês que o Vaticano tinha enviado de Roma para o campo de prisioneiros de guerra que os Alemães haviam instalado em Limburg.
A sua amizade tinha sido uma tábua de salvação para Roger naqueles meses de 1915 e 1916 em que tentava recrutar, entre os prisioneiros, voluntários para a Brigada
Irlandesa.
- Era um homem vacinado contra o desalento - disse Roger. - Acompanhei-o a visitar doentes, a administrar sacramentos,

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a fazer com que os prisioneiros de Limburg rezassem o terço. Um nacionalista, também. Embora menos apaixonado que eu, father Carey.
Este sorriu.
- Não pense que o padre Crotty me tentou aproximar do catolicismo - acrescentou Roger. - Era muito cuidadoso nas nossas conversas para que eu não sentisse que queria
conver-ter-me. Foi-me acontecendo a mim sozinho, aqui dentro - tocou no peito. - Nunca fui muito religioso, já lhe disse. Desde que a minha mãe morreu, a religião
foi para mim uma coisa mecânica e secundária. Só depois de mil novecentos e três, daquela viagem de três meses e dez dias ao interior do Congo que eu lhe contei,
é que voltei a rezar. Quando julguei que ia perder a razão perante tanto sofrimento. Descobri assim que um ser humano não pode viver sem acreditar.
Sentiu que a voz se lhe ia quebrar e calou-se.
- Ele falou-lhe de Tomás de Kempis?
- Tinha grande devoção por ele - confirmou Roger. - Ofereceu-me o seu exemplar da Imitação de Cristo. Mas, naquela altura, não consegui lê-lo. Não tinha cabeça,
com as preocupações daqueles dias. Deixei esse exemplar na Alemanha, numa mala com a minha roupa. No submarino não nos permitiram levar bagagem. Ainda bem que o
senhor me conseguiu outro. Receio que não tenha tempo de o terminar.
- O Governo inglês ainda não decidiu nada - admoestou-o o religioso. - Não deve perder a esperança. Lá fora há muita gente que gosta de si e está a fazer esforços
enormes para que o pedido de clemência seja ouvido.
- Eu sei, father Carey. De qualquer maneira, gostaria que o senhor me preparasse. Gostaria de ser aceite pela Igreja de modo formal. Receber os sacramentos. Confessar-me.
Comungar.
- É para isso que aqui estou, Roger. Garanto-lhe que já está preparado para tudo isso.
- Há uma dúvida que me angustia muito - disse Roger, baixando a voz como se mais alguém pudesse ouvi-lo.

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- A minha conversão não parecerá, a Cristo, inspirada pelo medo? A verdade, father Carey, é que tenho medo. Muito medo.
- Ele é mais sábio que o senhor e eu - afirmou o religioso. - Não penso que Cristo veja alguma coisa de mal em que um homem tenha medo. Ele teve-o, tenho a certeza,
no caminho do Calvário. É o mais humano que há, não é verdade? Todos temos medo, está na nossa condição. Basta um pouco de sensibilidade para que nos sintamos às
vezes impotentes e atemorizados. A sua aproximação à Igreja é pura, Roger. Eu sei.
- Nunca tive medo da morte, até agora. Vi-a de perto muitas vezes. No Congo, em expedições por paragens inóspitas, cheias de feras. Na Amazónia, em rios repletos
de remoinhos e rodeado de foragidos. Há pouco, ao sair do submarino, em Tralee, na praia de Banna Strand, quando o bote soçobrou e pareceu que nos íamos afogar.
Senti muitas vezes a morte pertíssimo. E não tive medo. Mas, agora tenho, sim.
A voz embargou-se-lhe e fechou os olhos. Há alguns dias, aqueles assomos de terror pareciam gelar-lhe o sangue, parar-lhe o coração. Todo o seu corpo se tinha posto
a tremer. Fazia esforços para serenar, sem conseguir. Sentia o ranger dos dentes e ao pânico juntava-se agora a vergonha. Quando abriu os olhos viu que o padre Carey
tinha as mãos juntas e os olhos fechados. Rezava em silêncio, quase sem mover os lábios.
- Já passou - murmurou, confuso. - Peço-lhe que me desculpe.
- Não tem por que se sentir pouco à vontade comigo. Ter medo, chorar, é humano.
Agora estava novamente sereno. Havia um grande silêncio na prisão de Pentonville, como se os réus e os carcereiros dos seus três pavilhões enormes, aqueles cubos
com tectos de duas águas, tivessem morrido ou adormecido.
- Agradeço-lhe por não me ter perguntado nada sobre aquelas coisas nojentas que, segundo parece, dizem de mim, father Carey.

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- Não as li, Roger. Quando alguém tentou falar-me delas, mandei-o calar. Não sei nem quero saber do que se trata.
- Eu também não sei - sorriu Roger. - Aqui não se pode ler jornais. Um ajudante do meu advogado disse-me que eram tão escandalosas que punham em perigo o pedido
de clemência. Degenerações, vilezas terríveis, pelos vistos.
O padre Carey ouvia-o com a expressão tranquila do costume. Da primeira vez que tinham conversado na prisão de Pentonville contou a Roger que os seus avós paternos
falavam entre si em gaélico, mas que passavam para inglês quando viam os filhos aproximar-se. O sacerdote também não tinha chegado a aprender o antigo irlandês.
- Acho que é melhor não saber de que me acusam. Alice Stopford Green acha que é uma operação montada pelo Governo para contrariar a simpatia que há em muitos sectores
a favor do pedido de clemência.
- No mundo da política nada se pode excluir - disse o religioso. - Não é a mais limpa das actividades humanas.
Ouviram-se umas discretas pancadinhas na porta, esta abriu-se e apareceu a cara inchada do xerife:
- Mais cinco minutos, padre Carey.
- O director da prisão concedeu-me meia hora. Não lho disse?
O xerife fez cara de surpresa.
- Se o senhor o diz, acredito - justificou-se. - Desculpe a interrupção, então. Ainda lhe restam vinte minutos.
Desapareceu e a porta voltou a fechar-se.
- Há mais notícias da Irlanda? - perguntou Roger, de maneira um tanto abrupta, como se de repente tivesse querido mudar de tema.
- Os fuzilamentos pararam, pelos vistos. A opinião pública, não só lá, mas também aqui em Inglaterra, foi muito crítica com as execuções sumárias. Agora, o Governo
anunciou que todos os detidos pela Revolta da Páscoa passarão pelos tribunais.

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Roger Casement distraiu-se. Olhava para a janelinha da parede, também com grades. Só via um quadradinho minúsculo de céu acinzentado e pensava no grande paradoxo:
tinha sido julgado e condenado por trazer armas para uma tentativa de secessão violenta da Irlanda, e, na realidade, ele havia empreendido aquela viagem arriscada,
talvez absurda, da Alemanha até às costas de Tralee, para tentar evitar aquela revolta que, desde que soube que se preparava, tinha a certeza de que iria fracassar.
Seria assim toda a História? A que se aprendia na escola? A escrita pelos historiadores? Uma fabricação mais ou menos idílica, racional e coerente do que na realidade
crua e dura tinha sido uma caótica e arbitrária mistura de planos, acasos, intrigas, factos fortuitos, coincidências, interesses múltiplos, que tinham ido provocando
mudanças, transtornos, avanços e retrocessos, sempre inesperados e surpreendentes relativamente ao que foi antecipado ou vivido pelos protagonistas.
- É provável que eu passe à História como um dos responsáveis da Revolta da Páscoa - disse ele, com ironia. - O senhor e eu sabemos que vim até aqui arriscando a
vida para tentar deter essa rebelião.
- Bom, o senhor, eu e alguém mais - riu-se o father Carey, apontando para cima com um dedo.
- Agora sinto-me melhor, finalmente - riu-se também Roger. - Já me passou o ataque de pânico. Em África vi muitas vezes, tanto pretos como brancos, a cair de repente
em crises de desespero. No meio do mato, quando nos perdíamos no caminho. Quando penetrávamos num território que os carregadores africanos consideravam inimigo.
No meio do rio, quando uma canoa se virava. Ou, nas aldeias, às vezes, nas cerimónias com cantos e danças dirigidas pelos feiticeiros. Agora já sei o que são aqueles
estados de alucinação provocados pelo medo. Será assim o transe dos místicos? Aquele estado de suspensão de si mesmo, de todos os reflexos carnais, que o encontro
com Deus causa?
- Não é impossível - disse o padre Carey. - Talvez seja o mesmo caminho que os místicos e todos aqueles que vivem

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nesses estados de transe percorrem. Os poetas, os músicos, os feiticeiros.
Estiveram um bom bocado em silêncio. Às vezes, pelo canto do olho, Roger espiava o religioso e via-o imóvel, com os olhos fechados. "Está a rezar por mim", pensava
ele. "É um homem compassivo. Deve ser terrível passar a vida a auxiliar pessoas que vão morrer no patíbulo." Sem nunca ter estado no Congo nem na Amazónia, o padre
Carey devia conhecer tão bem como ele os extremos vertiginosos que a crueldade e a desesperança entre os seres humanos podiam alcançar.
- Durante muitos anos fui indiferente à religião - disse ele, muito devagar, como que a falar consigo mesmo mas nunca deixei de acreditar em Deus. Num princípio
geral da vida. Isso sim, father Carey, muitas vezes me interroguei com espanto: "Como é que Deus pode permitir que aconteçam coisas assim?" "Que tipo de Deus é este
que tolera que tantos milhares de homens, de mulheres, de crianças sofram semelhantes horrores?" É difícil de entender, não é verdade? O senhor, que deve ter visto
tantas coisas nas prisões, às vezes não faz essas perguntas?
O padre Carey tinha aberto os olhos e escutava-o com a expressão deferente do costume, sem confirmar nem negar.
- Aquelas pobres gentes açoitadas, mutiladas, aquelas crianças com as mãos e os pés cortados, a morrer de fome e de doenças - recitou Roger. - Aqueles seres espremidos
até à extinção e ainda por cima assassinados. Milhares, dezenas, centenas de milhares. Por homens que receberam uma educação cristã. Eu vi-os a ir à missa, rezar,
comungar, antes e depois de cometerem esses crimes. Houve muitos dias em que julguei que ia ficar louco, padre Carey. Talvez, naqueles anos, lá em África, no Putu-mayo,
tenha perdido a razão. E tudo o que me aconteceu depois tenha sido a obra de alguém que, embora não se apercebendo, estava louco.
O capelão também nada disse dessa vez. Ouvia-o com a mesma expressão afável e com aquela paciência que Roger sempre lhe agradecera.

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- Curiosamente, acho que foi lá no Congo, quando tinha aqueles períodos de grande desmoralização e me interrogava como é que Deus podia permitir tantos crimes, que
comecei a interessar-me novamente pela religião - prosseguiu ele. - Porque os únicos seres que pareciam ter conservado a sua sanidade eram alguns pastores baptistas
e alguns missionários católicos. Nem todos, claro. Muitos não queriam ver o que acontecia para lá do seu quintal. Mas, uns quantos faziam o que podiam para parar
com as injustiças. Uns heróis, na verdade.
Calou-se. Recordar o Congo ou o Putumayo fazia-lhe mal: remexia no lodo do seu espírito, resgatava imagens que o mergulhavam na angústia.
- Injustiças, suplícios, crimes - murmurou o padre Carey. - Cristo não os sofreu na própria carne? Ele pode entender o seu estado melhor que ninguém, Roger. Claro
que a mim acontece-me às vezes o mesmo que a si. A todos os crentes, tenho a certeza. É difícil compreender certas coisas, claro. A nossa capacidade de compreensão
é limitada. Somos falíveis, imperfeitos. Uma coisa lhe posso dizer. Errou em muitas coisas, como todos os seres humanos. Mas, relativamente ao Congo, à Amazónia,
não pode censurar-se de nada. O seu trabalho foi generoso e destemido. Fez com que muita gente abrisse os olhos, ajudou a corrigir grandes injustiças.
"Todo o bem que eu possa ter feito está a ser destruído por esta campanha lançada para arruinar a minha reputação", pensou ele. Era um tema em que preferia não tocar,
que tentava afastar da sua mente. O bom das visitas do padre Carey era que, com o capelão, só falava do que ele queria. A discrição do religioso era total, parecia
adivinhar tudo aquilo que poderia contrariar Roger e evitava-o. Às vezes, permaneciam um grande bocado sem trocar palavra. Mesmo assim, a presença do sacerdote acalmava-o.
Quando ele se ia embora, Roger mantinha-se algumas horas sereno e resignado.
- Se a petição for rejeitada, o senhor estará comigo, ao meu lado até ao fim? - perguntou, sem olhar para ele.

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- Claro que sim - disse o padre Carey. - Não deve pensar nisso. Ainda nada está decidido.
- Já sei, father Carey. Não perdi a esperança. Mas, faz-me bem saber que o senhor estará lá, a acompanhar-me. A sua companhia dar-me-á coragem. Não farei nenhuma
cena lamentável, prometo-lhe.
- Quer que rezemos juntos?
- Conversemos um pouco mais, se não se importa. Esta será a última pergunta que lhe farei sobre o assunto. Se me executarem, o meu corpo poderá ser levado para a
Irlanda e enterrado lá?
Sentiu que o capelão hesitava e olhou para ele. O father Carey tinha empalidecido um pouco. Viu-o negar com a cabeça, incomodado.
- Não, Roger. Se isso acontecer, o senhor será enterrado no cemitério da prisão.
- Em terra inimiga - sussurrou Casement, tentando fazer uma piada que não resultou. - Num país que cheguei a odiar tanto como o amei e admirei em novo.
- Odiar não serve de nada - suspirou o padre Carey. -A política de Inglaterra pode ser má. Mas há muitos ingleses decentes e respeitáveis.
- Sei muito bem, padre. Digo-o sempre que me encho de ódio contra este país. É mais forte do que eu. Talvez me aconteça porque quando era rapaz acreditei cegamente
no Império, em que a Inglaterra estava a civilizar o mundo. O senhor ter-se-ia rido se me tivesse conhecido nessa altura.
O sacerdote concordou e Roger deu um risinho.
- Dizem que nós, os convertidos, somos os piores - acrescentou. - Os meus amigos sempre me censuraram por isso. Por ser demasiado apaixonado.
- O irlandês incorrigível das fábulas - disse o padre Carey, sorrindo. - Era assim que me dizia a minha mãe quando, em pequeno, eu me portava mal. "Já pareces o
irlandês incorrigível."
- Se quiser, agora podemos rezar, padre.

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O father Carey assentiu. Fechou os olhos, juntou as mãos e começou a murmurar em voz muito baixa um pai-nosso, e, depois, ave-marias. Roger fechou os olhos e rezou
também, sem deixar ouvir a sua voz. Durante um bom bocado fê-lo de maneira mecânica, sem se concentrar, com imagens diversas a esvoaçar-lhe na cabeça. Até que pouco
a pouco se foi deixando absorver pela oração. Quando o xerife bateu à porta do parlatório e entrou para avisar que lhes restavam cinco minutos, Roger estava concentrado
na oração.
De cada vez que rezava lembrava-se da mãe, aquela figura esbelta, vestida de branco, com um chapéu de palha de abas largas e uma fita azul que dançava ao vento,
caminhando sob as árvores, no campo. Estavam no País de Gales, na Irlanda, em Antrim, em Jersey? Não sabia onde, mas a paisagem era tão bela como o sorriso que resplandecia
na cara de Anne Jephson. Que orgulhoso se sentia o pequeno Roger por ter na sua aquela mão suave e terna que lhe dava tanta segurança e alegria! Rezar assim era
um bálsamo maravilhoso, devolvia-o àquela infância onde, graças à presença da sua mãe, tudo era belo e feliz na vida.
O padre Carey perguntou-lhe se ele queria enviar alguma mensagem a alguém, se podia trazer-lhe alguma coisa na próxima visita, dali a dois dias.
- Tudo o que eu quero é voltar a vê-lo, padre. O senhor não sabe o bem que me faz falar consigo e ouvi-lo.
Separaram-se apertando as mãos. No longo e húmido corredor, sem ter planeado, Roger Casement disse ao xerife:
- Sinto muito a morte do seu filho. Eu não tive filhos. Calculo que não haja dor mais terrível na vida.
O xerife fez um pequeno ruído com a garganta, mas não respondeu. Na sua cela, Roger deitou-se no catre e pegou na Imitação de Cristo. Mas não conseguiu concentrar-se
na leitura. As letras dançavam diante dos seus olhos e na cabeça explodiam imagens numa roda enlouquecida. A figura de Anne Jephson aparecia várias vezes.

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Como é que teria sido a sua vida se a mãe, em vez de morrer tão nova, tivesse continuado viva enquanto ele se tornava adolescente, homem? Provavelmente não teria
empreendido a aventura africana. Teria ficado na Irlanda, ou em Liverpool, e feito uma carreira burocrática e tido uma existência digna, obscura e cómoda, com esposa
e filhos. Sorriu: não, semelhante género de vida não casava com ele. A que havia vivido, com todos os seus percalços, era preferível. Tinha visto mundo, o seu horizonte
ampliou-se imenso, entendeu melhor a vida, a realidade humana, as entranhas do colonialismo, a tragédia de tantos povos por causa dessa aberração.
Se a etérea Anne Jephson tivesse vivido ele não teria descoberto a triste e bela história da Irlanda, aquela que nunca lhe ensinaram na Escola Diocesana de Ballymena,
aquela história que ainda se ocultava às crianças e adolescentes do Norte de Antrim. A eles ainda os levavam a acreditar que a Irlanda era um país bárbaro sem passado
digno de memória, elevado à civilização pelo ocupante, educado e modernizado pelo Império que o despojou da sua tradição, da sua língua e da sua soberania. Aprendera
tudo isso lá em África, onde nunca teria passado os melhores anos da juventude e a primeira maturidade, nem nunca teria chegado a sentir tanto orgulho pelo país
onde nascera e tanta cólera pelo que a Grã-Bretanha lhe fizera, se a sua mãe tivesse continuado viva.
Estavam justificados os sacrifícios daqueles vinte anos africanos, os sete anos da América do Sul, o ano e pico no coração das florestas amazônicas, o ano e meio
de solidão, doença e frustrações na Alemanha? Nunca lhe tinha importado o dinheiro, mas não era absurdo que depois de ter trabalhado tanto toda a sua vida fosse,
agora, totalmente pobre? O último balanço da sua conta bancária eram dez libras esterlinas. Nunca soube poupar. Tinha gasto todos os seus ganhos com os outros -
com os seus três irmãos, em sociedades humanitárias como a Associação para a Reforma do Congo e instituições nacionalistas irlandesas como a St. Enda's School e
a Liga Gaélica,

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às quais durante bastante tempo entregou os seus salários na íntegra. Para poder dar a essas causas tinha vivido com grande austeridade, alojando-se, por exemplo,
longas temporadas em pensões baratíssimas, que não estavam à altura da sua categoria (os seus colegas do Foreign Office haviam-lhe insinuado isso). Ninguém recordaria
aqueles donativos, ofertas, ajudas, agora que tinha fracassado. Só seria recordada a sua derrota final.
Mas, isso não era o pior. Maldita seja, ali estava outra vez aquela ideia danada. Degenerações, perversões, vícios, uma imundície humana. Era isso que o Governo
inglês queria que ficasse dele. Não as doenças que os rigores de África lhe tinham inflingido, a icterícia, as febres palúdicas que lhe minaram o organismo, a artrite,
as operações às hemorróidas, os problemas rectais que tanto o tinham feito padecer e envergonhar desde a primeira vez que teve de ser operado a uma fístula no ânus,
em 1893. "O senhor devia ter vindo já há mais tempo, esta operação há três ou quatro meses teria sido simples. Agora, é grave." "Vivo em África, doutor, em Boma,
um lugar onde o meu médico é um alcoólico consuetudinário a quem tremem as mãos devido ao delirium tremens. Ia deixar-me operar pelo doutor Salabert cuja ciência
médica é inferior à de um feiticeiro bacongo?" Tinha sofrido daquilo quase toda a vida. Há poucos meses, no campo alemão de Limburg, teve uma hemorragia que um médico
militar rude e grosseiro lhe suturara. Quando decidiu aceitar a responsabilidade de investigar as atrocidades cometidas pelos exploradores da borracha na Amazónia
já era um homem muito doente. Sabia que aquele esforço lhe custaria meses e só lhe acarretaria problemas e, no entanto, assumiu-o, pensando que prestava um serviço
à justiça. Também nada restaria dele, se o executassem.
Seria verdade que o father Carey se tinha recusado a ler as coisas escandalosas que a imprensa lhe atribuía? Era um homem bom e solidário, o capelão. Se tivesse
de morrer, tê-lo junto de si ajudá-lo-ia a manter a dignidade até ao último instante.

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A desmoralização inundava-o dos pés à cabeça. Convertia-o num ser tão desvalido como aqueles congoleses atacados pela mosca tse-tsé aos quais a doença do sono impedia
de mover os braços, os pés, os lábios e até ter os olhos abertos. Impedi-los-ia também de pensar? A ele, infelizmente, aquelas vagas de desmoralização aguçavam-lhe
a lucidez, convertiam-lhe o cérebro numa fogueira crepitante. Aquelas páginas do diário entregues pelo porta-voz do Almirantado à imprensa, que tanto horrorizaram
o rubicundo estagiário de maître Gavan Duffy, seriam reais ou falsificadas? Pensou na estupidez que era parte essencial da natureza humana, e, também, claro, de
Roger Casement. Ele era muito minucioso e tinha fama, como diplomata, de não tomar uma iniciativa nem dar o menor passo sem prever todas as consequências possíveis.
E, agora, ei-lo ali, apanhado numa estúpida armadilha construída ao longo de toda a sua vida por ele mesmo, para dar aos seus inimigos uma arma que o afundasse na
ignomínia.
Assustado, apercebeu-se de que estava a rir-se às gargalhadas.

A AMAZÓNIA


VIII.


Quando, no último dia de Agosto de 1910, Roger Casement chegou a Iquitos depois de seis semanas e tal de viagem esgotante que os transpôs a ele e aos membros da
Comissão desde Inglaterra até ao coração da Amazónia peruana, a velha infecção que lhe irritava os olhos tinha piorado, bem como os ataques de artrite e o seu estado
geral de saúde. Mas, fiel ao seu carácter estóico ("senequista", chamava-lhe Herbert Ward), em momento nenhum da viagem deixou transparecer os seus achaques e, pelo
contrário, esforçou-se por levantar o ânimo aos seus companheiros e ajudá-los a resistir aos sofrimentos que os atormentavam. O coronel R. H. Bertre, vítima da disenteria,
teve de dar meia volta e regressar a Inglaterra ao fazer escala na Madeira. O que resistia melhor era Louis Barnes, conhecedor da agricultura africana pois tinha
vivido em Moçambique. O botânico Walter Folk, especialista na borracha, sofria com o calor e padecia de nevralgias. Seymour Bell temia a desidratação e andava com
uma garrafa de água na mão de onde bebia aos golinhos. Henry Fielgald tinha estado na Amazónia um ano antes, enviado pela companhia de Julio C. Arana, e dava conselhos
sobre como se defenderem dos mosquitos e das "más tentações" de Iquitos.
Estas abundavam, claro. Parecia incrível que numa cidade tão pequena e tão pouco atractiva, um imenso bairro enlameado com construções de madeira e adobe, cobertas
de folhas de palma,

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e uns quantos edifícios de material nobre com telhados de calamina e amplas mansões de fachadas iluminadas com azulejos importados de Portugal, proliferassem
de tal modo os bares, tabernas, prostíbulos e casas de jogo, e as prostitutas de todas as raças e cores se exibissem com tanto descaramento nas altas calçadas desde
as primeiras horas do dia. A paisagem era soberba. Iquitos ficava nas margens de um afluente do Amazonas, o rio Nanay, rodeada de uma vegetação exuberante, árvores
altíssimas, um runrum permanente do arvoredo e das águas fluviais que mudavam de cor com os deslocamentos do Sol. Mas poucas ruas eram empedradas ou asfaltadas,
por elas corriam esgotos arrastando excrementos e lixos, havia uma pestilência que ao anoitecer se espessava até causar náuseas, e a música dos bares, bordéis e
centros de diversão não parava durante as vinte e quatro horas do dia. Mr. Stirs, o cônsul britânico, que os recebeu no cais, informou que Roger ficaria alojado
em sua casa. A companhia tinha preparado uma residência para os comissários. Naquela mesma noite, o prefeito de Iquitos, o senhor Rey Lama, dava um jantar em sua
honra.
Era pouco depois do meio-dia e Roger, indicando que em vez de almoço preferia descansar, retirou-se para o quarto. Tinham-lhe preparado um aposento simples com tecidos
indígenas de desenhos geométricos pendurados nas paredes e uma pequena varanda da qual se avistava um pedaço de rio. O barulho da rua diminuía aqui. Deitou-se sem
sequer tirar o casaco nem os botins e adormeceu de imediato. Invadiu-o uma sensação de paz que não tinha tido ao longo do mês e meio de viagem.
Não sonhou com os quatro anos de serviço consular que tinha acabado de cumprir no Brasil - em Santos, Pará e Rio de Janeiro -, mas sim com o ano e meio que passara
na Irlanda entre 1904 e 1905, depois dos meses de excesso de excitação e canseiras loucas, enquanto o Governo britânico preparava a publicação do seu Relatório sobre
o Congo e o escândalo subsequente que fariam dele um herói e um pestilento, sobre o qual choveriam ao mesmo tempo os elogios da imprensa liberal

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e das organizações humanitárias e as diatribes dos editorialistas de Leopoldo II. Para fugir àquela publicidade, enquanto o Foreign Office decidia o seu novo destino
- depois do Relatório era impensável que "o homem mais odiado do Império Belga" voltasse a pisar o Congo -, Roger Casement partiu para a Irlanda, à procura do anonimato.
Não passou despercebido, mas livrou-se daquela curiosidade invasora que em Londres o tinha deixado sem vida privada. Aqueles meses significaram a redescoberta do
seu país, a imersão numa Irlanda que só conhecera através de conversas, fantasias e leituras, muito diferente daquela em que tinha vivido em criança com os pais,
ou em adolescente com os seus tios-avós e restantes parentes paternos, uma Irlanda que não era à imagem e semelhança do Império Britânico, que lutava por recuperar
a sua língua, as suas tradições e costumes. "Querido Roger: tornaste-te um patriota irlandês", brincou numa carta a prima Gee. "Estou a recuperar o tempo perdido",
respondeu-lhe ele.
Naqueles meses tinha feito uma longa caminhada por Donegal e Galway, tomando o pulso à geografia da sua pátria cativa, observando como um apaixonado a austeridade
dos seus campos desérticos, a sua costa bravia, e conversando com os pescadores, seres intemporais, fatalistas, indomáveis, e com os camponeses frugais e lacónicos.
Tinha conhecido muitos irlandeses "do outro lado", católicos e alguns protestantes que, como Douglas Hyde, fundador da National Literary Society, promoviam o renascimento
da cultura irlandesa, queriam devolver os nomes nativos aos lugares e às aldeias, ressuscitar as antigas canções do Eire, as velhas danças, a fiação e o bordado
tradicionais do tweed e do linho. Quando saiu a sua nomeação para o Consulado de Lisboa, atrasou a partida até ao infinito, inventando pretextos de saúde, para poder
assistir ao primeiro Festival dos Glens, no Antrim, onde compareceram perto de três mil pessoas. Naqueles dias, Roger sentiu várias vezes que os olhos se lhe humedeciam
ao ouvir as alegres melodias executadas pelos gaiteiros e cantadas em coro, ou a ouvir

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- sem perceber o que diziam - os contadores de histórias que relatavam em gaélico romanças e lendas que mergulhavam na noite medieval. Até um jogo de burling, esse
desporto centenário, se disputou naquele festival, em que Roger conheceu políticos e escritores nacionalistas como Sir Horace Plunkett, Bulmer Hobson, Stephen Gwynn
e voltou a reunir-se com as amigas que, tal como Alice Stopford Green, tinham feito seu o combate em favor da cultura irlandesa: Ada MacNeill, Margaret Dobbs, Alice
Milligan, Agnes OTarrelly e Rose Maud Young.
A partir de então, dedicava parte das suas poupanças e salário às associações, às escolas dos irmãos Pearse, que ensinavam gaélico, e a revistas nacionalistas em
que colaborava com pseudónimo. Quando, em 1904, Arthur Griffith fundou o Sinn Fein, Roger Casement entrou em contacto com ele, ofereceu-se para colaborar e subscreveu
todas as suas publicações. As ideias deste jornalista coincidiam com as de Bulmer Hobson, de quem Roger se tornou amigo. Era preciso ir criando, junto das instituições
coloniais, uma infra-estrutura irlandesa (escolas, empresas, bancos, indústrias) que pouco a pouco fosse substituindo a imposta por Inglaterra. Deste modo, os Irlandeses
iriam tomando consciência do seu próprio destino. Havia que boicotar os produtos britânicos, recusar o pagamento de impostos, substituir os desportos ingleses como
o críquete e o futebol por desportos nacionais e também a literatura e o teatro. Deste modo, de maneira pacífica, a Irlanda ir-se-ia apartando da sujeição colonial.
Além de ler muito sobre o passado da Irlanda, sob a tutela de Alice, Roger tentou de novo estudar gaélico e arranjou uma professora, mas progrediu pouco. Em 1906,
o novo ministro dos Negócios Estrangeiros, Sir Edward Grey, do Partido Liberal, ofereceu-lhe o lugar de cônsul em Santos, no Brasil. Roger aceitou, embora sem alegria,
porque o seu mecenato pró-irlandês tinha acabado com o seu pequeno património, vivia de empréstimos e precisava de ganhar a vida.
Talvez o pouco entusiasmo com que retomou a carreira diplomática tenha contribuído para fazer daqueles quatro anos

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no Brasil - 1906-10 - uma experiência frustrante. Nunca conseguiu acostumar-se àquele vasto país, apesar das suas belezas naturais e dos bons amigos que chegou a
ter em Santos, Pará e Rio de Janeiro. Talvez o que mais o tenha deprimido tenha sido que, ao contrário do Congo, onde, apesar das dificuldades, teve sempre a impressão
de trabalhar por algo transcendente, que transbordava o quadro consular, em Santos a sua actividade principal tinha que ver com os marinheiros britânicos bêbados
que se metiam em sarilhos e aos quais era preciso tirar da prisão, pagar-lhes as multas e devolvê-los a Inglaterra. No Pará ouviu falar pela primeira vez de violência
nas regiões da borracha. Mas o ministério ordenou-lhe que se concentrasse na inspecção da actividade portuária e comercial. O seu trabalho consistia em registar
o movimento dos barcos e facilitar a gestão dos ingleses que chegavam com a intenção de comprar e vender. Onde passou pior foi no Rio de Janeiro, em 1909. O clima
piorou todos os seus males e acrescentou-lhe umas alergias que o impediam de dormir. Teve de optar por ir viver a oitenta quilómetros da capital, em Petrópolis,
situada numa altitude onde o calor e a humidade diminuíam e as noites eram frescas. Mas as idas e vindas diárias de comboio ao gabinete converteram-se num pesadelo.
No sonho recordou com insistência que, em Setembro de 1906, antes de partir para Santos, tinha escrito um longo poema épico O Sonho do Celta, sobre o passado mítico
da Irlanda, e um panfleto político, juntamente com Alice Stopford Green e Bulmer Hobson, Os Irlandeses e o Exército Inglês, rejeitando que os Irlandeses fossem recrutados
para o Exército britânico.
As picadas dos mosquitos acordaram-no, arrancando-o daquela sesta agradável e mergulhando-o no crepúsculo amazônico. O céu tinha-se tornado um arco-íris. Sentia-se
melhor: ardia-lhe menos o olho e as dores da artrite tinham amainado. Tomar duche em casa de Mr. Stirs acabou por ser uma operação complicada: o tubo do chuveiro
saía de um recipiente para

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onde um criado ia deitando baldes de água enquanto Roger se ensaboava e enxaguava. A água tinha uma temperatura morna que o fez pensar no Congo. Quando desceu ao
primeiro andar, o cônsul aguardava-o junto à porta, pronto para o conduzir até à casa do prefeito Rey Lama.
Tiveram de caminhar alguns quarteirões, no meio de um vento terral que obrigava Roger a ter os olhos semicerrados. Tropeçavam no meio da escuridão com os buracos,
as pedras e os lixos da rua. O barulho tinha aumentado. De cada vez que passavam à porta de um bar a música crescia e ouviam-se brindes, brigas e gritaria de bêbados.
Mr. Stirs, já entrado na idade, viúvo e sem filhos, estava há meia dúzia de anos em Iquitos e parecia um homem sem esperança e cansado.
- Qual é o ambiente que há na cidade em relação a esta Comissão? - perguntou Roger Casement.
- Francamente hostil - respondeu logo o cônsul. - Suponho que já saiba disso, meia Iquitos vive do senhor Arana. Melhor dizendo, das empresas do senhor Julio C.
Arana. As pessoas suspeitam que a Comissão traz más intenções contra quem lhes dá emprego e comida.
- Podemos esperar alguma ajuda das autoridades?
- Antes todos os obstáculos do mundo, senhor Casement. As autoridades de Iquitos também dependem do senhor Arana. Nem o prefeito, nem os juízes, nem os militares
recebem os seus salários do Governo há muitos meses. Sem o senhor Arana morreriam de fome. Tenha em conta que Lima está mais longe de Iquitos que Nova Iorque de
Londres, pela falta de transporte. São dois meses de viagem, no melhor dos casos.
- Vai ser mais complicado do que imaginei - comentou Roger.
- O senhor e os outros senhores da Comissão têm de ser muito prudentes - acrescentou o cônsul, agora sim, a vacilar e a baixar a voz. - Aqui em Iquitos não. Lá,
no Putumayo. Nessas lonjuras poderá acontecer-vos qualquer coisa. Aquilo é um

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mundo bárbaro, sem ordem nem lei. Mais ou menos como o Congo, calculo.
A Prefeitura de Iquitos ficava na Plaza de Armas, um grande bocado de terra sem árvores nem flores, onde, indicou-lhe o cônsul apontando para uma curiosa estrutura
de ferro que parecia um mecano meio construído, se estava a armar uma casa de Eiffel ("Sim, o mesmo Eiffel da Torre de Paris"). Um explorador da borracha próspero
tinha-a comprado na Europa, trouxera-a desmontada para Iquitos e agora estavam a refazê-la para que fosse o melhor clube social da cidade.
A Prefeitura ocupava quase meio quarteirão. Era um casarão deslavado, de um só andar, sem graça nem formas, de divisões grandes, janelas com grades, que se dividia
em duas alas, uma dedicada aos escritórios e outra à residência do prefeito. O senhor Rey Lama, um homem alto, grisalho, de grandes bigodes encerados nas pontas,
usava botas, calças de montar, uma camisa fechada no pescoço e um colete estranho com adornos bordados. Falava um pouco de inglês e deu umas boas-vindas a Roger
Casement excessivamente cordiais, de retórica grandiloqüente. Os membros da Comissão já ali estavam todos, enfiados nos seus fatos de sair à noite, a transpirar.
O prefeito foi apresentando os outros convidados a Roger: magistrados do Supremo Tribunal, o coronel Arnáez, chefe da guarnição, o padre Urrutia, superior dos Agostinhos,
o senhor Pablo Zumaeta, director-geral da Peruvian Amazon Company e mais quatro ou cinco pessoas, comerciantes, o chefe da Alfândega, o director de El Oriental.
Não havia uma única mulher no grupo. Ouviu abrir champanhe. Ofereceram-lhe copos de um vinho branco espumoso que, embora morno, lhe pareceu de boa qualidade, sem
dúvida francês.
Tinham preparado o jantar num pátio grande, iluminado com candeeiros de azeite. Um sem-número de criados indígenas, descalços e com aventais, serviam aperitivos
e traziam travessas de comida. Estava uma noite tépida e no céu cintilavam algumas estrelas. Roger ficou surpreendido com a facilidade

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com que entendia a fala dos Loretanos, um espanhol um pouco sincopado e musical em que ele reconheceu expressões brasileiras. Sentiu alívio: poderia entender muito
do que ouviria na viagem e isto, embora levasse um intérprete, facilitaria a investigação. À sua volta, na mesa, onde acabavam de lhes servir uma gordurosa sopa
de tartaruga que deglutiu com dificuldade, havia várias conversas ao mesmo tempo, em inglês, em espanhol, em português, com intérpretes que as interrompiam criando
parênteses de silêncio. De repente, o prefeito, sentado em frente de Roger e os olhos já a faiscar com os copos de vinho e de cerveja, estalou os dedos. Todos se
calaram. Fez um brinde pelos recém-chegados. Desejou-lhes uma feliz estada, uma missão de sucesso e que desfrutassem da hospitalidade amazônica. "Loretana e especialmente
iquetenha", acrescentou.
Assim que se sentou, dirigiu-se a Roger em voz suficientemente alta para que cessassem as conversas particulares e se entabulasse outra, com participação da vintena
de convidados.
- Permite-me uma pergunta, estimado senhor cônsul? Qual é exactamente o objectivo da sua viagem e desta Comissão? O que é que vêm os senhores averiguar aqui? Não
tome isto como uma impertinência. Pelo contrário. O meu desejo, e o de todas as autoridades, é ajudar-vos. Mas temos de saber para que é que a Coroa britânica vos
envia. Uma grande honra para a Amazónia, claro, de que gostaríamos de mostrar-nos dignos.
Roger Casement tinha percebido quase tudo o que Rey Lama dissera, mas esperou, paciente, que o intérprete traduzisse as suas palavras para inglês.
- Como sem dúvida sabe, em Inglaterra, na Europa, houve denúncias sobre atrocidades que se terão cometido contra os indígenas - explicou, com calma. - Torturas,
assassínios, acusações muito graves. A principal companhia da borracha da região, a do senhor Julio C. Arana, a Peruvian Amazon Company, é, calculo que esteja a
par, uma companhia inglesa, registada na Bolsa de Londres. Nem o Governo nem a opinião pública tolerariam na Grã-Bretanha que uma companhia inglesa violasse

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assim as leis humanas e divinas. A razão de ser da nossa viagem é investigar o que há de verdade naquelas acusações. A Comissão é enviada pela própria companhia
do senhor Julio C. Arana. Eu sou enviado pelo Governo de Sua Majestade.
Tinha caído um silêncio gelado sobre o pátio desde que Roger Casement abrira a boca. O barulho da rua parecia ter diminuído. Notava-se uma imobilidade curiosa, como
se todos aqueles senhores que, momentos antes, bebiam, comiam, conversavam, se mexiam e gesticulavam, tivessem sido vítimas de uma súbita paralisia. Roger tinha
os olhares postos sobre ele. A atmosfera cordial fora substituída por um clima de receio e desaprovação.
- A companhia de Julio C. Arana está disposta a colaborar em defesa do seu bom nome - disse, quase gritando, o senhor Pablo Zumaeta. - Não temos nada a ocultar.
O barco que vos vai levar ao Putumayo é o melhor da nossa empresa. Lá terão todas as facilidades, para que verifiquem com os seus próprios olhos a infâmia dessas
calúnias.
- Agradecemo-lo, senhor - concordou Roger Casement.
E, naquele mesmo momento, num ímpeto invulgar nele,
decidiu submeter os seus anfitriões a uma prova, que, tinha a certeza, desencadearia reacções instrutivas para ele e para os comissários. Com a voz natural que teria
utilizado para falar de ténis ou da chuva, perguntou:
- A propósito, senhores. Sabem se o jornalista Benjamin Saldaña Roca, espero pronunciar correctamente o seu nome, se encontra em Iquitos? Seria possível falar com
ele?
A sua pergunta teve o efeito de uma bomba. Os participantes trocaram olhares de surpresa e desagrado. Às suas palavras seguiu-se um longo silêncio, como se ninguém
ousasse tocar num tema tão espinhoso.
- Mas, como?! - exclamou por fim o prefeito, exagerando teatralmente o gesto. - O nome desse chantagista chegou a Londres?

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- Assim foi, senhor - confirmou Roger Casement. - As denúncias do senhor Saldaña Roca e as do engenheiro Walter Hardenhurg fizeram rebentar o escândalo em Londres
sobre as companhias da borracha no Putumayo. Ninguém respondeu à minha pergunta: o senhor Saldaña Roca está em Iquitos? Poderei vê-lo?
Houve outro longo silêncio. A incomodidade dos assistentes era notória. Por fim, falou o superior dos Agostinhos:
- Ninguém sabe onde ele está, senhor Casement - disse o padre Urrutia, com um espanhol castiço que se distinguia nitidamente do dos Loretanos. A ele, Roger tinha
mais dificuldade em entendê-lo. - Desapareceu de Iquitos há já algum tempo. Diz-se que está em Lima.
- Se ele não tivesse fugido, nós, os Iquitenhos, tê-lo-íamos linchado - afirmou um idoso, agitando um punho colérico.
- Iquitos é terra de patriotas! - exclamou Pablo Zumaeta. - Ninguém perdoa àquele sujeito ter inventado essas canalhices para desprestigiar o Peru e afundar a empresa
que trouxe o progresso à Amazónia.
- Fê-lo porque a malandrice que ele tinha preparado não resultou - acrescentou o prefeito. - Informaram-vos que Saldaña Roca, antes de publicar essas infâmias, tentou
sacar dinheiro à companhia do senhor Arana?
- Como nos recusámos, publicou essa historieta sobre o Putumayo - afirmou Pablo Zumaeta. - Tem um processo por difamação, calúnia e coacção e tem a prisão à espera
dele. Por isso é que fugiu.
- Não há como estar no terreno para ficar a saber as coisas - comentou Roger Casement.
As conversas particulares desfizeram a conversa geral. O jantar prosseguiu com um prato de peixes amazônicos, um dos quais, chamado gamitana, Roger achou que tinha
uma carne delicada e saborosa. Mas o condimento deixou-lhe um forte ardor na boca.

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Quando o jantar acabou, depois de se despedir do prefeito, conversou brevemente com os amigos da Comissão. Segundo Seymour Bell tinha sido uma imprudência tocar
de forma abrupta no tema do jornalista Saldaña Roca, que tanto irritava os notáveis de Iquitos. Mas Louis Barnes felicitou-o pois, disse, tinha-lhes permitido estudar
a reacção irritada daquela gente contra o jornalista.
- É uma pena não podermos falar com ele - retomou Casement. - Gostava de o conhecer.
Despediram-se e Roger e o cônsul regressaram a pé até à casa deste último, pelo mesmo percurso que tinham feito para lá. O bulício, a pândega, os cantos, as danças,
os brindes e brigas haviam subido de tom e Roger ficou surpreendido com a abundância de rapazinhos - esfarrapados, seminus, descalços - encostados às portas dos
bares e prostíbulos a espiar com caras maliciosas o que acontecia lá dentro. Havia também muitos cães a esgravatar no lixo.
- Não perca tempo à procura dele, porque não o vai encontrar - disse Mr. Stirs. - O mais provável é que Saldaña Roca esteja morto.
Roger Casement não ficou surpreendido. Ele também suspeitava, ao ver a violência verbal que o nome apenas do jornalista tinha provocado, que o seu desaparecimento
fosse definitivo.
- O senhor conheceu-o?
O cônsul tinha uma careca redonda e o seu crânio brilhava como se estivesse cheio de gotinhas de água. Caminhava devagar, tacteando as terras enlameadas com a bengala,
receoso talvez de pisar uma serpente ou uma ratazana.
- Conversámos duas ou três vezes - disse Mr. Stirs. - Era um homem baixinho e um pouco malfeito. O que aqui chamam um cholo, um cholito. Isto é, um mestiço. Os cholos
costumam ser afáveis e cerimoniosos. Mas Saldaña Roca, não. Era brusco, muito seguro de si. Com um daqueles olhares fixos que os crentes e os fanáticos têm e que
a mim, na realidade, me põem

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sempre muito nervoso. O meu temperamento não vai por aí. Não tenho grande admiração pelos mártires, senhor Casement. Nem pelos heróis. Aquelas pessoas que se imolam
pela verdade ou pela justiça muitas vezes causam mais danos do que os que querem remediar.
Roger Casement não disse nada: tentava imaginar aquele homem pequeno, com deformações físicas, com um coração e uma vontade parecidas com as de Edmund D. Morel.
Um mártir e um herói, sim. Imaginava-o a dar tinta com as suas próprias mãos às pranchas metálicas dos seus semanários La Felpa e La Sanciótt. Devia editá-los numa
pequena tipografia artesanal que, certamente, funcionaria num canto da sua casa. Esta habitação modesta seria, também, a redacção e a administração dos seus dois
jornalecos.
- Espero que não leve a mal as minhas palavras - desculpou-se o cônsul britânico, rapidamente arrependido do que acabava de dizer. - O senhor Saldaña Roca foi muito
corajoso ao fazer aquelas denúncias, claro. Um temerário, pouco menos que um suicida, ao apresentar uma denúncia judicial contra a Casa Arana por torturas, sequestros,
flagelos e crimes na extracção da borracha do Putumayo. Ele não era nenhum ingénuo. Sabia muito bem o que lhe ia acontecer.
- O que é que lhe aconteceu?
- O previsível - disse Mr. Stirs, sem pingo de emoção. -Queimaram-lhe a tipografia da Rua Morona. Ainda pode vê-la, toda chamuscada. Também atiraram sobre a casa.
Os disparos ainda estão à vista, na Rua Próspero. Teve de tirar o filho do colégio dos padres agostinhos, porque os colegas faziam-lhe a vida impossível. Viu-se
obrigado a despachar a família para um sítio secreto, sabe-se lá qual, pois a sua vida estava em perigo. Teve de fechar os seus dois jornalecos porque ninguém voltou
a dar-lhe um anúncio sequer nem nenhuma tipografia de Iquitos aceitou imprimi-los. Balearam-no duas vezes na rua, como aviso. Salvou-se por milagre das duas vezes.
Uma delas deixou-o coxo, com uma bala incrustada na barriga da perna. A última

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vez que foi visto foi em Fevereiro de mil novecentos e nove, no paredão junto ao rio. Levavam-no aos empurrões para o rio. Tinha a cara inchada pelas pancadas que
um bando lhe dera. Meteram-no numa embarcação com rumo a Yurimaguas. Nunca mais se soube dele. Pode ser que tenha conseguido fugir para Lima. Oxalá. Também pode
ser que, amarrado de pés e mãos e com feridas a sangrar o tenham deitado ao rio para que as piranhas acabassem com ele. Se assim foi, os seus ossos, que é a única
coisa que esses bichos não comem, já devem ter chegado ao Atlântico. Suponho que não lhe esteja a dizer nada que o senhor não saiba. No Congo deve ter visto histórias
iguais ou piores.
Tinham chegado a casa do cônsul. Este acendeu o candeeiro da salinha da entrada e ofereceu um cálice de porto a Casement. Sentaram-se junto da varanda e acenderam
cigarros. A Lua tinha desaparecido atrás de umas nuvens, mas restavam estrelas no céu. Ao bulício distante das ruas misturava-se o sincrónico rumor dos insectos
e o chapinhar das águas ao chocar contra os ramos e juncos das margens.
- De que é que serviu tanta coragem ao pobre Benjamin Saldaña Roca? - reflectiu o cônsul, erguendo os ombros. - De nada. Desgraçou a família e se calhar perdeu a
vida. Nós, aqui, perdemos aqueles dois jornalecos, La Felpa e La Sanción, que era divertido ler todas as semanas, pelas suas bisbilhotices.
- Não penso que o sacrifício dele tenha sido de todo inútil - corrigiu-o Roger Casement, suavemente. - Sem Saldaña Roca, não estaríamos aqui. A menos, claro, que
o senhor pense que a nossa vinda também não vá servir para nada.
- Oxalá que vá! - exclamou o cônsul. - O senhor tem razão. O escândalo todo lá nos Estados Unidos, na Europa. Sim, Saldaña Roca começou tudo isso com as suas denúncias.
E, depois, as de Walter Hardenburg. Eu disse um disparate. Espero que a sua vinda sirva de algo e que as coisas mudem. Perdoe-me, senhor Casement. Viver tantos anos
na Amazónia pôs-me um pouco céptico acerca da ideia de progresso. Em Iquitos, uma pessoa acaba por não acreditar em nada disso.

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Sobretudo, em que algum dia a justiça vá fazer retroceder a injustiça. Talvez esteja na hora de regressar a Inglaterra, de levar um banho de optimismo inglês. Já
vejo que o senhor todos estes anos a servir a Coroa no Brasil não o tornaram pessimista. Quem me dera ser como o senhor. Invejo-o.
Quando deram as boas-noites e se retiraram para os seus quartos, Roger permaneceu acordado durante bastante tempo. Tinha feito bem em aceitar esta responsabilidade?
Quando, uns meses antes, Sir Edward Grey, o ministro dos Negócios Estrangeiros, o chamou ao seu gabinete e lhe disse: "O escândalo sobre os crimes do Putumayo atingiu
limites intoleráveis. A opinião pública exige que o Governo faça alguma coisa. Ninguém como o senhor para viajar até lá. Irá também uma comissão investigadora, de
gente independente que a própria Peruvian Amazon Company decidiu enviar. Mas eu quero que o senhor, embora viaje com eles, prepare um relatório pessoal para o Governo.
Tem grande prestígio pelo que fez no Congo. É um especialista em atrocidades. Não pode recusar." A sua primeira reacção tinha sido procurar uma desculpa e declinar
o convite. Depois, reflectindo, disse a si mesmo que, precisamente pelo seu trabalho no Congo, tinha a obrigação moral de aceitar. Fizera bem? O cepticismo de Mr.
Stirs parecia-lhe um mau presságio. De vez em quando, a expressão de Sir Edward Grey, "especialista em atrocidades", martelava-lhe na cabeça.
Ao contrário do cônsul, ele achava que Benjamin Saldaña Roca tinha prestado um grande serviço à Amazónia, ao seu país, à humanidade. As acusações do jornalista em
La Sanción - Bisemanario Comercial, Político y Literário, fora a primeira coisa que tinha lido sobre as companhias da borracha do Putumayo, depois da sua conversa
com Sir Edward, que lhe deu quatro dias para se decidir a viajar com a Comissão investigadora. O Foreign Office pôs-lhe imediatamente nas mãos maços de documentos,
em que se destacavam dois testemunhos directos de pessoas que tinham estado naquela região: os artigos do engenheiro norte-americano Walter Hardenburg no semanário

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londrino Truth e os artigos de Benjamin Saldaña Roca, parte dos quais tinha sido traduzida para inglês pela The Anti-Slavery and Aborigines Protection Society, uma
instituição humanitária.
A sua primeira reacção foi de incredulidade: o jornalista, partindo de factos reais, tinha exaltado de tal modo os abusos que os seus artigos transpiravam irrealidade,
e, inclusivamente, uma imaginação um pouco sádica. Mas logo Roger recordou que aquela tinha sido a reacção de muitos ingleses, europeus e norte-americanos, quando
ele e Morel tornaram públicas as iniquidades no Estado Independente do Congo: a incredulidade. Assim se defendia o ser humano contra tudo aquilo que mostrava as
indescritíveis crueldades a que podia chegar incitado pela ganância e pelos seus maus instintos num mundo sem lei. Se aqueles horrores tinham acontecido no Congo,
porque é que não podiam ter acontecido na Amazónia?
Angustiado, levantou-se da cama e foi sentar-se na varanda. O céu estava escuro e tinham desaparecido também as estrelas. Havia menos luzes na direcção da cidade,
mas o bulício continuava. Se as denúncias de Saldaña Roca fossem verdadeiras, o mais provável era que, como acreditava o cônsul, o jornalista tivesse acabado atirado
para o rio atado de pés e mãos e a sangrar para incitar o apetite das piranhas. Os modos fatalistas e cínicos de Mr. Stirs irritavam-no. Como se aquilo não acontecesse
porque havia gente cruel, mas sim por determinação fatídica, como se movem os astros ou se erguem as marés. Tinha-o chamado de "fanático". Um fanático da justiça?
Sim, sem dúvida. Um temerário. Um homem modesto, sem dinheiro nem influências. Um Morel amazônico. Um crente, talvez? Fizera aquilo porque acreditava que o mundo,
a sociedade, a vida não podiam continuar a ser aquela vergonha. Roger pensou na sua juventude, quando a experiência da maldade e do sofrimento, em África, o inundaram
daquele sentimento beligerante, daquela vontade pugnaz de fazer qualquer coisa para que o mundo melhorasse. Sentia algo fraterno por Saldaña

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Roca. Gostaria de lhe ter apertado a mão, de ser seu amigo, de lhe dizer: "O senhor fez da sua vida uma coisa bonita e nobre."
Teria lá estado, no Putumayo, na gigantesca região onde operava a companhia de Julio C. Arana? Ter-se-ia ido meter ele próprio na boca do lobo? Os seus artigos não
diziam isso, mas as precisões de nomes, lugares, datas, indicavam que Saldaña Roca tinha sido testemunha ocular daquilo que contava. Roger lera tantas vezes os testemunhos
de Saldaña Roca e de Walter Hardenburg que às vezes parecia-lhe ter lá estado, em pessoa.
Fechou os olhos e viu a imensa região, dividida em estações, sendo as principais as de La Chorrera e El Encanto, cada uma delas com o seu chefe. "Ou, melhor dizendo,
o seu monstro." Gente como Victor Macedo e Miguel Loaysa, por exemplo, só podiam ser isso e só isso. Ambos tinham protagonizado, em meados de 1903, a sua façanha
mais memorável. Cerca de oitocentos ocaimas chegaram a La Chorrera para entregar as cestas com as bolas de borracha apanhadas nas florestas. Depois de as pesar e
armazenar, o subadministrador de Le Chorrera, Fidel Velarde, chamou a atenção do chefe, Victor Macedo, que estava ali com Miguel Loaysa, de El Encanto, os vinte
e cinco ocaimas separados do resto por não terem trazido a quota mínima de jebe - látex ou borracha - a que eram obrigados. Macedo e Loaysa decidiram dar uma boa
lição aos selvagens. Indicando aos seus capatazes - os negros de Barbados - que tomassem conta do resto dos ocaimas com as suas espingardas Mauser, ordenaram aos
"rapazes" que embrulhassem os vinte e cinco em sacos encharcados de petróleo. Então, deitaram-lhes fogo. Dando gritos, convertidos em tochas humanas, alguns conseguiram
apagar as chamas rebolando sobre a terra, mas ficaram com queimaduras horríveis. Os que se atiraram ao rio como bólides flamejantes afogaram-se. Macedo, Loaysa e
Velarde acabaram por matar os feridos com os seus revólveres. De cada vez que recordava aquela cena, Roger sentia vertigens.

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Segundo Saldaña Roca, os administradores faziam aquilo como exemplo, mas também, por diversão. Gostavam. Fazer sofrer, rivalizar em crueldades, era um vício que
tinham contraído de tanto praticar as flagelações, as pancadas, as torturas. Muitas vezes, quando estavam bêbados, procuravam pretextos para aqueles jogos de sangue.
Saldaña Roca citava uma carta do administrador da companhia a Miguel Flores, chefe de estação, admoestando-o por "matar índios por puro desporto" sabendo que havia
falta de braços e recordando-lhe que só se devia recorrer àqueles excessos "em caso de necessidade". A resposta de Miguel Flores era pior que a acusação: "Protesto,
porque nestes dois últimos meses só morreram uns quarenta índios na minha estação."
Saldaña Roca enumerava os diferentes tipos de castigo infligidos aos indígenas pelas faltas que cometiam: chicotadas, prisão no cepo ou potro de tortura, corte de
orelhas, de narizes, de mãos e de pés, até ao assassínio. Enforcados, baleados, queimados ou afogados no rio. Em Matanzas, garantia ele, havia mais restos de indígenas
que em nenhuma das outras estações. Não era possível fazer um cálculo, mas os ossos deviam corresponder a centenas, talvez milhares de vítimas. O responsável de
Matamzas era Armando Normand, um jovem boliviano-inglês, de apenas vinte e dois ou vinte e três anos. Afirmava ter estudado em Londres. A sua crueldade tinha-se
convertido num "mito infernal" entre os Huitotos, que ele tinha dizimado. Em Abissínia, a companhia multou o administrador Abelardo Agüero, e o seu assistente, Augusto
Jiménez, por fazerem tiro ao alvo com os índios, sabendo que deste modo sacrificavam de maneira irresponsável braços úteis para a empresa.
Apesar de ficarem tão longe, pensou uma vez mais Roger Casement, o Congo e a Amazónia estavam unidos por um cordão umbilical. Os horrores repetiam-se com variantes
mínimas, inspirados pelo lucro, pecado original que acompanhava o ser humano desde o seu nascimento, segredo inspirador das suas

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infinitas maldades. Ou havia algo mais? O Diabo teria ganhado a eterna contenda?
No dia seguinte esperava-o uma jornada muito intensa. O cônsul havia localizado em Iquitos três negros de Barbados que tinham nacionalidade britânica. Haviam trabalhado
vários anos nos locais de extracção de Arana e aceitaram ser interrogados pela Comissão se depois os repatriassem.
Embora tivesse dormido muito pouco, acordou com as primeiras luzes. Não se sentia mal. Lavou-se, vestiu-se, pôs um panamá, pegou na máquina fotográfica e saiu de
casa do cônsul sem o ver, a ele e aos criados. Na rua, o Sol despontava num céu limpo de nuvens e começava a fazer calor. Ao meio-dia, Iquitos seria um forno. Havia
gente nas ruas e circulava já o pequeno e barulhento eléctrico, pintado de vermelho e azul. De vez em quando, vendedores ambulantes índios, de traços achinesados,
peles amarelentas e caras e braços pintalgados com figuras geométricas, ofereciam-lhe frutas, bebidas, animais vivos - macaquinhos, araras e pequenos lagartos -
ou flechas, malhos e zarabatanas. Muitos bares e restaurantes continuavam abertos com poucos clientes. Havia bêbados esparramados debaixo de tectos de folhas de
palma e cães a remexer no lixo. "Esta cidade é um buraco vil e pestilento", pensou. Deu um longo passeio pelas ruas de terra batida, atravessando a Plaza de Armas
onde reconheceu a Prefeitura, e desembocou num passeio fluvial com varandins de pedra, um bonito passeio do qual se avistava o enorme rio com as suas ilhas flutuantes,
e, longe, refulgindo sob o Sol, a fila de altas árvores da outra margem. No final do passeio, onde este desapareceria numas ramagens e numa ladeira com árvores ao
pé da qual havia um embarcadouro, viu uns rapazes descalços só com uns calções a espetar umas estacas. Tinham posto uns chapéus de papel para se proteger do sol.
Não pareciam índios, mas sim cholos. Um deles, que não devia ter ainda vinte anos, tinha um tronco harmonioso, com músculos que se destacavam a cada martelada. Depois
de hesitar
um momento, Roger aproximou-se dele, mostrando-lhe a câmara fotográfica.
- Permite-me tirar-lhe uma fotografia? - perguntou-lhe em português. - Posso pagar.
O rapaz olhou para ele, sem entender. Repetiu-lhe duas vezes a pergunta no seu mau espanhol, até que o rapaz sorriu. Tagarelou qualquer coisa com os outros que Roger
não adivinhou. E, por fim, virou-se para ele e perguntou, fazendo estalar os dedos: "Quanto?" Roger rebuscou nos bolsos e tirou um punhado de moedas. Os olhos do
rapaz examinaram-nas, contando-as.
Tirou-lhe várias fotos, entre os risos e a troça dos seus amigos, mandando-lhe tirar o chapéu de papel, levantar os braços, mostrar os músculos e adoptar a postura
de um discóbolo. Para esta última teve de tocar por instantes no braço do rapaz. Sentiu que tinha as mãos encharcadas pelos nervos e pelo calor. Deixou de tirar
fotografias quando reparou que estava rodeado de rapazinhos esfarrapados que o observavam como a um bicho raro. Deu as moedas ao rapaz e regressou depressa ao Consulado.
Os seus amigos da Comissão, sentados à mesa, tomavam o pequeno-almoço com o cônsul. Juntou-se a eles, explicando-lhes que todos os dias começava a jornada dando
uma boa caminhada. Enquanto tomavam uma chávena de café aguado e enjoativo, com bocados de mandioca frita, Mr. Stirs explicou-lhes quem eram os barbadianos. Começou
por preveni-los que tinham trabalhado os três no Putumayo, mas haviam acabado de más relações com a companhia de Arana. Sentiam-se enganados e extorquidos pela Peruvian
Amazon Company e, portanto, o seu testemunho estaria carregado de ressentimento. Sugeriu-lhes que os barbadianos não comparecessem perante todos os membros da Comissão
ao mesmo tempo porque se sentiriam intimidados e não abririam a boca. Decidiram dividir-se em grupos de dois ou três para a sessão.
Roger Casement fez grupo com Seymour Bell, o qual, como ele esperava, pouco depois de começada a entrevista com

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o primeiro barbadiano, alegando o seu problema de desidratação, disse que não se sentia bem e foi-se embora, deixando-o sozinho com aquele antigo capataz da Casa
Arana.
Chamava-se Eponim Thomas Campbell e não tinha a certeza da sua idade, embora julgasse não ter mais de trinta e cinco anos. Era um negro de cabelos compridos encaracolados
onde brilhavam já alguns cabelos brancos. Vestia uma blusa descorada aberta no peito até ao umbigo, umas calças de pano cru que só lhe chegavam aos tornozelos, presas
à cintura por um bocado de corda. Estava descalço e os seus pés enormes, de unhas compridas e muitas crostas, pareciam de pedra. O seu inglês era cheio de expressões
coloquiais que Roger tinha dificuldade em entender. Às vezes misturava-se com palavras portuguesas e
espanholas.
Usando uma linguagem simples, Roger garantiu-lhe que o seu testemunho seria confidencial e que em caso algum se veria comprometido por aquilo que declarasse. Ele
nem sequer tomaria notas, limitar-se-ia a ouvir. Só lhe pedia uma informação verdadeira sobre o que acontecia no Putumayo.
Estavam sentados na varanda que dava para o quarto de Casement e na pequena mesinha, em frente do banco que partilhavam, havia um jarro com sumo de papaia e dois
copos. Eponim Thomas Campbell fora contratado há sete anos em Bridgetown, a capital de Barbados, com outros dezoito barbadianos pelo senhor Lizardo Arana, irmão
do senhor Júlio César, para trabalhar como capataz numa das estações no Putumayo. E ali mesmo começou o engano, porque, quando o contrataram, nunca lhe disseram
que teria de dedicar uma boa parte do seu tempo às "correrias".
- Explique-me o que são as "correrias" - pediu Casement.
Sair para caçar índios nas suas aldeias para que viessem recolher borracha nas terras da companhia. Fossem quais fossem: huitotos, ocaimas, muinanes, nonuias, andoques,
rezígaros e boras. Quaisquer índiosdos que havia pela região. Porque todos, sem excepção, eram contra o recolher de jebe. Era preciso

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obrigá-los. As "correrias" exigiam longuíssimas expedições, e às vezes para nada. Chegavam e as aldeias estavam desertas. Os habitantes tinham fugido. Outras vezes,
não, felizmente. Caíam em cima deles aos tiros para os assustar e para que não se defendessem, mas eles faziam-no, com as suas zarabatanas e paus. E armava-se uma
luta. Depois era preciso arreá-los, atados pelo pescoço, os que estivessem em condições de caminhar, homens e mulheres. Os mais velhos e os recém-nascidos eram abandonados
para que não atrasassem a marcha. Eponim nunca cometeu as crueldades gratuitas de Armando Normand, apesar de ter trabalhado às suas ordens durante dois anos em Matanzas,
onde o senhor Normand era administrador.
- Crueldades gratuitas? - interrompeu-o Roger. - Dê-me alguns exemplos.
Eponim remexeu-se no banco, incomodado. Os seus grandes olhos bailaram nas órbitas brancas.
- O senhor Normand tinha as suas excentricidades - murmurou, desviando o olhar. - Quando alguém se portava mal. Melhor dizendo, quando não se portavam como ele esperava.
Afogava-lhes os filhos no rio, por exemplo. Ele próprio. Com as suas próprias mãos, quero dizer.
Fez uma pausa e explicou que, a ele, as excentricidades do senhor Normand o punham nervoso. De uma criatura tão estranha podia esperar-se qualquer coisa, inclusivamente
que um dia lhe desse o capricho de esvaziar o revólver na pessoa que estivesse mais perto. Por isso pediu que o mudassem de estação. Quando o passaram para Ultimo
Retiro, cujo administrador era o senhor Alfredo Montt, Eponim dormiu mais calmo.
- Alguma vez teve de matar índios no exercício das suas funções?
Roger viu que os olhos do barbadiano olhavam para ele, fugiam, voltavam a olhar.
- Fazia parte do trabalho - admitiu, encolhendo os ombros. - Dos capatazes e dos "rapazes", a quem também chamavam

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"racionais". No Putumayo corre muito sangue. As pessoas acabam por se habituar. Ali a vida é matar e morrer.
- Era capaz de me dizer quantas pessoas teve de matar, senhor Thomas?
- Nunca fiz contas - respondeu Eponim com prontidão. -Fazia o trabalho que tinha de fazer e procurava passar a página. Eu cumpri. Por isso mantenho que a companhia
se portou muito mal comigo.
Embrulhou-se num longo e confuso monólogo contra os seus antigos empregadores. Acusavam-no de estar comprometido com a venda de uma cinquentena de huitotos a exploradores
da borracha colombianos, os senhores Iriarte, com os quais a companhia do senhor Arana andava sempre a lutar por causa dos trabalhadores braçais. Era mentira. Eponim
jurava e voltava a jurar que ele não tinha tido nada que ver com o desaparecimento daqueles huitotos de Ultimo Retiro que, soube-se depois, reapareceram a trabalhar
para os colombianos. Quem os tinha vendido fora o próprio administrador dessa estação, Alfredo Montt. Um ganancioso e um avarento. Para esconder a sua culpa denunciou-os
a ele, a Dayton Cranton e Simbad Douglas. Só calúnias. A companhia acreditou nele e os três capatazes tiveram de fugir. Passaram penas terríveis para chegar a Iquitos.
Os chefes da companhia, lá no Putumayo, tinham dado ordem aos "racionais" para matar os três barbadianos onde quer que os encontrassem. Agora, Eponim e os seus dois
companheiros viviam da mendicidade e de pequenos trabalhos eventuais. A companhia recusava-se a pagar-lhes as passagens de regresso a Barbados. Tinha-os denunciado
por abandono do posto de trabalho e o juiz de Iquitos dera a razão à Casa Arana, claro.
Roger prometeu-lhe que o Governo se encarregaria de os repatriar, a ele e aos seus dois colegas, uma vez que eram cidadãos britânicos.
Exausto, foi deitar-se na cama assim que se despediu de Eponim Thomas Campbell. Transpirava, doía-lhe o corpo e sentia um mal-estar itinerante que o ia atormentando
aos poucos,

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órgão por órgão, da cabeça aos pés. O Congo. A Amazónia. Não havia, então, limites para o sofrimento dos seres humanos? O mundo estava empestado daqueles enclaves
de selvajaria que o esperavam no Putumayo. Quantos? Centenas, milhares, milhões? Podia-se derrotar aquela hidra? Cortava-se-lhe a cabeça num sítio e reaparecia noutro,
mais sanguinária e horripilante. Adormeceu.
Sonhou com a mãe, num lago do País de Gales. Brilhava um sol ténue e esquivo entre as folhas dos altos carvalhos, e, agitado, com palpitações, viu assomar o jovem
musculoso que ele tinha fotografado naquela manhã no passeio fluvial de Iquitos. O que é que ele fazia no lago galês? Ou seria um lago irlandês, no Ulster? A espigada
silhueta de Anne Jephson desapareceu. O seu desassossego não se devia à tristeza nem à piedade que aquela humanidade escravizada no Putumayo provocava, mas sim à
sensação de que, mesmo não a vendo, Anne Jephson andava pelos arredores a espiá-lo daqueles arvoredos circulares. O medo, porém, não atenuava a crescente excitação
com que via o rapaz de Iquitos aproximar-se. Tinha o tronco molhado pela água do rio de cujas águas acabava de emergir como um deus fluvial. Os seus músculos sobressaíam
a cada passo e tinha na cara um sorriso insolente que o fez estremecer e gemer no sonho. Quando acordou, verificou com asco que havia ejaculado. Lavou-se e mudou
de calças e de cuecas. Sentia-se envergonhado e inseguro.
Encontrou os membros da Comissão abatidos pelos testemunhos que acabavam de receber dos barbadianos Dayton Cranton e Simbad Douglas. Os ex-capatazes tinham sido
tão chocantes nas suas declarações como Eponim com Roger Casement. O que mais os espantava era que tanto Dayton como Simbad pareciam sobretudo obcecados por desmentir
que eles tivessem "vendido" aqueles cinquenta huitotos aos exploradores da borracha colombianos.
- Não se preocupavam nada com as flagelações, mutilações nem assassínios - repetia o botânico Walter Folk, que não

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parecia suspeitar da maldade que a ganância pode suscitar. -Tais horrores parecem-lhes a coisa mais natural do mundo.
- Eu não consegui aguentar toda a declaração de Simbad - confessou Henry Fielgald. - Tive de sair para vomitar.
- Os senhores leram a documentação que o Foreign Office reuniu - recordou-lhes Roger Casement. - Julgavam que as acusações de Saldaña Roca e de Hardenburg eram meras
fantasias?
- Fantasias, não - replicou Walter Folk. - Mas exageros,
sim.
- Depois deste aperitivo, pergunto-me o que é que vamos encontrar no Putumayo - disse Louis Barnes.
- Devem ter tomado precauções - sugeriu o botânico. -Vão mostrar-nos uma realidade muito maquilhada.
O cônsul interrompeu-os para lhes anunciar que o almoço estava servido. Excepto ele, que comeu com apetite um sável preparado com salada de chonta e envolto em folhas
de milho, os comissários mal provaram a comida. Mantinham-se calados e absorvidos pelas suas recordações das recentes entrevistas.
- Esta viagem vai ser uma descida aos infernos - profetizou Seymour Bell, que acabava de se reintegrar no grupo. Voltou-se para Roger Casement: - O senhor já passou
por isso. Sobrevive-se, então.
- As feridas demoram a fechar - esclareceu Roger.
- Não é caso para tanto, senhor - tentou levantar-lhes o ânimo Mr. Stirs, que comia de muito bom humor. - Uma boa sesta loretana e sentir-se-ão melhor. Com as autoridades
e os chefes da Peruvian Amazon Company vai correr melhor do que com os pretos, vão ver.
Em vez de dormir a sesta, Roger, sentado na pequena mesinha que fazia de mesa-de-cabeceira no seu quarto, escreveu no caderno de notas tudo o que recordava da conversa
com Eponim Thomas Campbell e fez resumos dos testemunhos que os comissários tinham recolhido dos outros dois barbadianos. Depois, num papel à parte, anotou as perguntas
que faria essa

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tarde ao prefeito Rey Lama e ao director-geral da companhia, Pablo Zumaeta, o qual, revelara-lhe Mr. Stirs, era cunhado de Júlio C. Arana.
O prefeito recebeu a Comissão no seu gabinete e ofereceu-lhes copos de cerveja, sumos de frutas e chávenas de café. Tinha mandado trazer cadeiras e distribuiu-lhes
uns leques de palha para se abanarem. Continuava com as calças de montar e as botas que trazia na véspera, mas já não vestia o colete bordado, mas sim um casaco
branco de linho e uma camisa fechada até ao pescoço, como as blusas russas. Tinha um ar distinto com as têmporas brancas e maneiras elegantes. Disse-lhes que era
diplomata de carreira. Tinha servido vários anos na Europa e assumira aquela prefeitura por exigência do próprio presidente da República - apontou para a fotografia
da parede, um homem pequeno e elegante, vestido de fraque e chapéu de feltro, com uma faixa cruzada sobre o peito - Augusto B. Leguía.
- Que vos faz chegar por meu intermédio as suas saudações mais cordiais - acrescentou.
- Que bom o senhor falar inglês e podermos prescindir do intérprete, senhor prefeito - respondeu Casement.
- O meu inglês é muito mau - interrompeu-o com afectação Rey Lama. - Terão de ser indulgentes comigo.
- O Governo britânico lamenta que os seus pedidos para que o Governo do presidente Leguía inicie uma investigação sobre as denúncias no Putumayo tenham sido inúteis.
- Há uma acção judicial em curso, senhor Casement - interrompeu o prefeito. - O meu Governo não precisou de Sua Majestade para a iniciar. Designou para tal um juiz
especial que já está a caminho de Iquitos. Um distinto magistrado: o juiz Carlos A. Valcárcel. O senhor sabe que as distâncias entre Lima e Iquitos são enormes.
- Mas, nesse caso, para quê enviar um juiz de Lima? - interveio Louis Barnes. - Não há juizes em Iquitos? Ontem, no jantar que nos ofereceu, apresentou-nos alguns
magistrados.

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Roger Casement reparou que Rey Lama lançava sobre Barnes um olhar piedoso, aquele que merece uma criança que ainda não alcançou a idade da razão ou um adulto imbecil.
- Esta conversa é confidencial, não é verdade, senhores? -perguntou por fim.
Todas as cabeças confirmaram. O prefeito vacilou ainda antes de responder.
- O facto de o meu Governo enviar um juiz de Lima para investigar é uma prova da sua boa-fé - explicou. - O mais fácil teria sido pedir a um juiz instrutor local
que o fizesse. Mas, então... - Calou-se, incomodado. - Para bom entendedor, meia palavra basta - acrescentou.
- Quer o senhor dizer que nenhum juiz de Iquitos se atreveria a enfrentar a companhia do senhor Arana? - perguntou Roger Casement, suavemente.
- Esta não é a Inglaterra culta e próspera, senhores - murmurou o prefeito amargurado. Tinha um copo de água na mão e bebeu de uma só vez. - Se uma pessoa demora
meses a chegar aqui vindo de Lima, os emolumentos de magistrados, autoridades, militares, funcionários, ainda demoram mais. Ou, simplesmente, nunca chegam. E de
que é que podem sobreviver aquelas pessoas enquanto esperam pelos seus salários?
- Da generosidade da Peruvian Amazon Company? - sugeriu o botânico Walter Folk.
- Não ponham na minha boca palavras que eu não disse - respingou Rey Lama, levantando a mão. - A companhia do senhor Arana adianta os salários aos funcionários na
qualidade de empréstimo. Essas quantias têm de ser devolvidas, em princípio, com um juro módico. Não é uma oferta. Não há suborno. É um acordo honrado com o Estado.
Mas, mesmo assim, é natural que magistrados que vivem graças àqueles empréstimos não sejam totalmente imparciais ao tratar-se da companhia do senhor Arana. Entendem,
não é verdade? O Governo enviou um juiz de Lima a fim de realizar uma investigação
absolutamente independente. Não é a melhor demonstração de que está empenhado em averiguar a verdade?
Os comissários beberam dos seus copos de água ou cerveja, confusos e desmoralizados. "Quantos deles estarão já à procura de um pretexto para regressar à Europa?",
pensava Roger. Não previam nada disto, sem dúvida. Exceptuando talvez Louis Barnes, que tinha vivido em África, os outros não imaginavam que no resto do mundo nem
tudo funcionasse da mesma maneira que no Império Britânico.
- Há autoridades na região que vamos visitar? - perguntou Roger.
- Tirando os inspectores que passam por lá quando o rei faz anos, nenhuma - disse Rey Lama. - É uma região muito afastada. Até há poucos anos, floresta virgem, povoada
apenas por tribos selvagens. Que autoridades é que o Governo podia mandar para lá? E para quê? Para que os canibais os comessem? Se agora há vida comercial ali,
trabalho, um começo de modernidade, deve-se a Júlio C. Arana e aos seus irmãos. Também devem ter isso em consideração. Eles foram os primeiros a conquistar aquelas
terras para o Peru. Sem a companhia, todo o Putumayo já teria sido ocupado pela Colômbia, que tem grande apetite por aquela região. Os senhores não podem pôr esse
aspecto de lado. O Putumayo não é Inglaterra. É um mundo isolado, remoto, de pagãos que, quando têm filhos gémeos ou com alguma deformação física, os afogam no rio.
Júlio C. Arana foi um pioneiro, levou para lá barcos, medicamentos, a religião católica, roupa, o espanhol. Os abusos têm de ser sancionados, claro. Mas, não se
esqueçam, trata-se de uma terra que desperta cobiças. Não acham estranho que nas acusações do senhor Hardenburg todos os exploradores da borracha peruanos sejam
uns monstros e os colombianos, uns arcanjos cheios de compaixão pelos indígenas? Eu li os artigos da revista Truth. Não acharam estranho? Que coincidência os colombianos,
empenhados em apoderar-se daquelas terras, terem encontrado um defensor como o senhor Hardenburg que só viu

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violência e abusos entre os peruanos, e nem um único caso semelhante entre os colombianos! Lembrem-se que ele trabalhou antes de vir para o Peru nos caminhos-de-ferro
do Cauca. Não poderá tratar-se de um agente?
Arquejou, cansado, e optou por beber um golo de cerveja. Olhou para eles, um por um, com um olhar que parecia dizer: "Um ponto a meu favor, certo?"
- Flagelações, mutilações, violações, assassínios - murmurou Henry Fielgald. - Chama a isso levar a modernidade ao Putumayo, senhor prefeito? Não foi só Hardenburg
que deu testemunho. Também Saldaña Roca, seu compatriota. Três capatazes de Barbados, que interrogámos esta manhã, confirmaram esses horrores. Eles próprios reconhecem
tê-los cometido.
- Então, devem ser castigados - afirmou o prefeito. - E tê-lo-iam sido se no Putumayo houvesse juízes, polícias, autoridades. Por agora não há nada, a não ser barbárie.
Não defendo ninguém. Não desculpo ninguém. Vão. Vejam com os seus próprios olhos. Julguem por vós mesmos. O meu Governo poderia ter-vos proibido a entrada no Peru,
pois somos um país soberano e a Grã-Bretanha não tem por que se imiscuir nos nossos assuntos. Mas não o fez. Pelo contrário, deu-me instruções para vos conceder
todas as facilidades. O presidente Leguía é um grande admirador de Inglaterra, meus senhores. Ele gostaria que o Peru fosse um dia um grande país, como o vosso.
Por isso estão aqui, livres de ir a qualquer lado e averiguar tudo.
Desatou a chover a cântaros. A luz amainou e o tamborilar da água contra a calamina era tão forte que parecia que o telhado viria abaixo e as trombas-d'água cairiam
sobre eles. Rey Lama tinha adoptado uma expressão melancólica.
- Tenho uma esposa e quatro filhos que adoro - disse ele, com um sorriso tristonho. - Há um ano que não os vejo e só Deus sabe se os verei novamente. Mas, quando
o presidente Leguía me pediu que viesse servir o meu país neste canto afastado do mundo, não vacilei. Não estou aqui para defender criminosos, meus senhores. Pelo
contrário. Só vos peço que
compreendam que não é a mesma coisa trabalhar, fazer comércio, montar uma indústria no coração da Amazónia, que fazê-lo em Inglaterra. Se um dia esta selva atingir
os níveis de vida da Europa Ocidental será graças a homens como Júlio C. Arana.
Estiveram ainda um grande bocado no gabinete do prefeito. Fizeram-lhe muitas perguntas e ele respondeu a todas, às vezes de maneira evasiva e outras vezes com crueza.
Roger Casement não conseguia fazer uma ideia clara da personagem. Às vezes parecia-lhe um cínico a representar um papel, e outras, um bom homem, com uma responsabilidade
esmagadora da qual tentava sair da forma mais airosa que podia. Uma coisa era certa: Rey Lama sabia que aquelas atrocidades existiam e não gostava disso, mas o seu
trabalho exigia-lhe que as minimizasse como pudesse.
Quando se despediram do prefeito, tinha deixado de chover. Na rua, os telhados das casas ainda gotejavam, havia charcos por todo o lado onde chapinhavam os sapos
e o ar enchera-se de varejeiras e mosquitos que os crivavam de picadas. Cabisbaixos, calados, foram para a Peruvian Amazon Compa-ny, uma ampla mansão com telhados
de telhas e azulejos na fachada, onde os esperava o director-geral, Pablo Zumaeta, para a última entrevista do dia. Restavam-lhes uns minutos e deram uma volta ao
grande descampado que era a Plaza de Armas. Contemplaram, curiosos, a casa de metal do engenheiro Gus-tave Eiffel abrindo as suas vértebras de ferro à intempérie
como o esqueleto de um animal antediluviano. Os bares e restaurantes dos arredores estavam já abertos e a música e o bulício atroavam o entardecer de Iquítos.
A Peruvian Amazon Company, na Rua Peru, a poucos metros da Plaza de Armas, era a construção maior e mais sólida de Iquitos. De dois andares, edificada com cimento
e placas metálicas, tinha as paredes pintadas de verde-claro e na salinha contígua ao seu escritório, onde Pablo Zumaeta os recebeu, havia uma ventoinha de grandes
pás de madeira suspensa do tecto, imóvel, à espera da electricidade. Apesar do forte calor,

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o senhor Zumaeta, que devia rondar os cinquenta, usava um fato escuro com um colete de fantasia, um papillon e uns botins que brilhavam. Apertou cerimoniosamente
a mão a cada um e a todos foi perguntando, num espanhol marcado pela pronúncia amazónica cantarolada que Roger Casement tinha aprendido a identificar, se estavam
bem alojados, se Iquitos era hospitaleira para com eles, se precisavam de alguma coisa. Repetiu a todos que tinha ordens enviadas por cabograma de Londres pelo senhor
Júlio C. Arana em pessoa de lhes dar todas as facilidades para o sucesso da sua missão. Ao falar em Arana, o director-geral da Peruvian Amazon Company fez uma reverência
ao grande retrato que estava pendurado numa das paredes.
Enquanto uns criados índios, descalços e com túnicas brancas, passavam recipientes com bebidas, Casement contemplou durante um bocado a cara séria, quadrada, morena,
de olhos penetrantes, do dono da Peruvian Amazon Company. Arana tinha a cabeça coberta por uma gorra de lã francesa (le béret) e o seu fato parecia cortado por um
dos bons alfaiates parisienses ou, talvez, do Savile Row de Londres. Seria verdade que este todo-poderoso rei da borracha com palacetes em Biarritz, Genebra e nos
jardins da Kensington Road londrina, tenha começado a sua carreira a vender chapéus de palha pelas ruas de Rioja, a aldeia perdida da floresta amazónica onde ele
nascera? O seu olhar revelava boa consciência e grande satisfação de si mesmo.
Pablo Zumaeta, através do intérprete, anunciou-lhes que o melhor barco da companhia, o Liberal, estava pronto para embarcarem. Tinha-lhes arranjado o capitão mais
experiente nos rios da Amazónia e os melhores tripulantes. Mesmo assim, a navegação até ao Putumayo exigir-lhes-ia sacrifícios. Levava entre oito e dez dias, dependendo
do tempo. E, antes que alguns dos membros da Comissão tivesse ocasião de lhe fazer alguma pergunta, apressou-se a entregar a Roger Casement um monte de papéis dentro
de uma capa:
- Preparei-vos esta documentação, adiantando-me a algumas das vossas preocupações - explicou ele. - São as normas

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da companhia para os administradores, chefes, subchefes e capatazes de estações no que diz respeito ao tratamento do pessoal.
Zumaeta disfarçava o nervosismo elevando a voz e gesticulando. Enquanto mostrava os papéis cheios de inscrições, selos e assinaturas, enumerava o que continham com
tom e gestos de orador de rua:
- Proibição estrita de infligir castigos físicos aos indígenas, esposas, filhos e familiares chegados, e de os ofender por palavras ou obras. Repreendê-los e aconselhá-los
de maneira severa quando tenham cometido uma falta comprovada. Consoante a gravidade da falta, poderão ser multados ou, no caso de falta muito grave, despedidos.
Se a falta tiver conotações criminosas, transferi-los para a autoridade competente mais próxima.
Demorou-se a resumir as indicações, orientadas - repetia aquilo sem cessar - para evitar que se cometessem "abusos contra os nativos". Fazia um parêntese para explicar
que, "sendo os seres humanos o que são", às vezes os empregados violavam aquelas normas. Quando isso acontecia, a companhia sancionava o responsável.
- O importante é fazermos o possível e o impossível para evitar que se cometam abusos nos locais de extracção. Se se cometeram, foi uma excepção, obra de algum descarrilado
que não respeitou a nossa política para com os indígenas.
Sentou-se. Tinha falado muito e com tanta energia que se notava que estava esgotado. Limpou o suor da cara com um lenço já encharcado.
- Encontraremos no Putumayo os chefes de estação incriminados por Saldaña Roca e pelo engenheiro Hardenburg ou terão fugido?
- Nenhum dos nossos empregados fugiu - indignou-se o director-geral da Peruvian Amazon Company. - Porque é que haveriam de o fazer? Por causa das calúnias de dois
chantagistas que, como não conseguiram arrancar-nos dinheiro, inventaram essas infâmias?

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- Mutilações, assassínios, flagelações - recitou Roger Casement. - De dezenas, porventura centenas de pessoas. São acusações que comoveram todo o mundo civilizado.
- A mim também me comoveriam se tivessem acontecido - protestou indignado Pablo Zumaeta. - O que agora me comove é que gente culta e inteligente como os senhores
dêem crédito a semelhantes patranhas sem uma investigação prévia.
- Vamos fazê-la no terreno - recordou-lhe Roger Casement. - Muito séria, pode ter a certeza.
- O senhor acha que Arana, que eu, que os directores da Peruvian Amazon Company somos suicidas para matar indígenas? Não sabe que o problema número um dos exploradores
da borracha é a falta de quem a recolha? Cada trabalhador é algo precioso para nós. Se aquelas matanças fossem verdadeiras já não restaria no Putumayo um único índio.
Teriam já fugido todos, não é verdade? Ninguém quer viver onde o açoitam, mutilam e matam. Essa acusação é de uma imbecilidade sem limites, senhor Casement. Se os
indígenas fugirem, nós ficaremos arruinados e a indústria da borracha afunda-se. Os nossos empregados de lá sabem-no. E, por isso, esforçam-se por ter os selvagens
contentes.
Olhou para os membros da Comissão, um por um. Estava sempre indignado, mas agora, também, entristecido. Fazia umas caretas que pareciam beicinhos.
- Não é fácil tratá-los bem, trazê-los satisfeitos - confessou, baixando a voz. - São muito primitivos. Os senhores sabem o que isso significa? Algumas tribos são
canibais. Não podemos permitir isso, não é verdade? Não é cristão, não é humano. Proibimos-lho e às vezes zangam-se e actuam como o que são: selvagens. Devemos deixar
que afoguem as crianças que nascem com deformidades? O lábio leporino, por exemplo. Não, porque o infanticídio também não é cristão, não é verdade? Enfim. Os senhores
irão ver com os vossos próprios olhos. Então, compreenderão a injustiça que a Inglaterra está

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a cometer com o senhor Júlio C. Arana e com uma companhia que, à custa de enormes sacrifícios, está a transformar este país.
Roger Casement pensou que Pablo Zumaeta ia soltar umas grandes lágrimas. Mas, enganou-se. O director-geral fez-lhes um sorriso amistoso.
- Já falei muito e agora cabe-vos aos senhores - desculpou-se. - Perguntem-me o que quiserem e eu responder-vos-ei com franqueza. Não temos nada a ocultar.
Durante cerca de uma hora, os membros da Comissão interrogaram o director-geral da Peruvian Amazon Company. Respondia-lhes com longos discursos que, às vezes, despistavam
o intérprete, o que o obrigava a repetir palavras e frases. Roger não interveio no interrogatório e em muitos momentos distraiu-se. Era evidente que Zumaeta nunca
diria a verdade, negaria tudo, repetiria os argumentos com que a companhia de Arana tinha respondido em Londres às críticas dos jornais. Havia, talvez, ocasionais
excessos cometidos por indivíduos descontrolados, mas não era política da Peruvian Amazon Company torturar, escravizar e muito menos matar os indígenas. A lei proibia-o
e teria sido coisa de loucos aterrorizar os trabalhadores braçais que tanto escasseavam no Putumayo. Roger sentia-se transportado no espaço e no tempo para o Congo.
Os mesmos horrores, o mesmo desprezo pela verdade. A diferença era que Zumaeta falava em espanhol e os funcionários belgas em francês. Negava o evidente com a mesma
desenvoltura porque ambos acreditavam que extrair borracha e ganhar dinheiro era um ideal dos cristãos que justificava as piores acções contra aqueles pagãos que,
é claro, eram sempre antropófagos e assassinos dos seus próprios filhos.
Quando saíram da Peruvian Amazon Company, Roger acompanhou os seus colegas até à casinha onde os tinham hospedado. Em vez de regressar directamente para casa do
cônsul britânico, deu um passeio por Iquitos, sem rumo. Sempre tinha gostado de caminhar, sozinho ou na companhia de algum amigo, ao começar e ao acabar o dia. Podia
fazê-lo durante horas,

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mas nas ruas por asfaltar de Iquitos tropeçava frequentemente em buracos e charcos cheios de água, onde as rãs coaxavam. O bulício era enorme. Bares, restaurantes,
bordéis, salões de baile e casas de apostas estavam cheios de gente, a beber, a comer, a dançar ou a discutir. E em todas as portas, cachos de miúdos seminus a espiar.
Viu desaparecer no horizonte os últimos tons avermelhados do crepúsculo e fez o resto da caminhada às escuras, por ruas aos poucos iluminadas pelos candeeiros dos
bares. Apercebeu-se de que chegara àquele terreno quadrangular que tinha o nome pomposo de Plaza de Armas. Deu uma volta em torno dela e de repente sentiu que alguém,
sentado num banco, o cumprimentava em português: "Boa noite, senhor Casement." Era o padre Ricardo Urrutia, o superior dos Agostinhos de Iquitos que ele conhecera
no jantar que o prefeito lhes oferecera. Sentou-se a seu lado no banco de madeira.
- Quando não chove, é agradável sair para ver as estrelas e respirar um pouco de ar fresco - disse o agostinho, em português. - Desde que tapemos os ouvidos, para
não escutar aquele barulho infernal. Já lhe devem ter contado desta casa de ferro que um industrial da borracha meio louco comprou na Europa e que estão a armar
naquela esquina. Foi exibida em Paris, na Exposição Universal de 1889, parece. Dizem que vai ser um clube social. Imagina este forno, uma casa de metal no clima
de Iquitos? Por agora é uma gruta de morcegos. Dormem lá dezenas deles, pendurados por uma pata.
Roger Casement disse-lhe que falasse em espanhol, que ele entendia. Mas o padre Urrutia, que tinha passado mais de dez anos da sua vida entre os Agostinhos do Ceará,
no Brasil, preferiu continuar a falar em português. Estava há menos de um ano na Amazónia peruana.
- Já sei que o senhor nunca esteve nas zonas de exploração do senhor Arana. Mas, sem dúvida, sabe muito acerca do que lá acontece. Posso pedir-lhe a sua opinião?
Podem ser verdadeiras as acusações de Saldaña Roca, de Walter Hardenburg?
O sacerdote suspirou.

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- Podem ser, infelizmente, senhor Casement - murmurou. - Aqui estamos muito longe do Putumayo. Mil, mil e duzentos quilómetros, pelo menos. Se, apesar de estar numa
cidade com autoridades, prefeito, juízes, militares, polícias, acontecem as coisas que sabemos, o que não acontecerá lá onde só existem os empregados da companhia?
Voltou a suspirar, agora com angústia.
- Aqui, o grande problema é a compra e venda de meninas indígenas - disse ele com a voz comovida. - Por mais que nos esforcemos a tentar encontrar uma solução, não
damos com ela.
"O Congo, outra vez. O Congo, por todo o lado."
- O senhor ouviu falar das famosas "correrias" - acrescentou o agostinho. - Os assaltos às aldeias indígenas para capturar recolectores. Os assaltantes não só roubam
os homens. Também os meninos e as meninas. Para os venderem aqui. Às vezes levam-nos até Manaus, onde, segundo parece, obtêm melhor preço. Em Iquitos, uma família
compra uma criadita por vinte ou trinta sóis no máximo. Todas têm uma, duas, cinco criaditas. Escravas, na realidade. A trabalhar dia e noite, a dormir com os animais,
a receber tareias por qualquer motivo, além de, claro, servirem para a iniciação sexual dos filhos da família.
Voltou a suspirar e ficou arquejando.
- Não se pode fazer nada com as autoridades?
- Podia, em princípio - disse o padre Urrutia. - A escravidão está abolida no Peru há mais de meio século. Poder-se-ia recorrer à polícia e aos juízes. Mas todos
eles têm também as suas criaditas compradas. Além disso, o que é que as autoridades fariam com as meninas que resgatassem? Ficar com elas ou vendê-las, claro. E
nem sempre às famílias. Às vezes, aos prostíbulos, para o que o senhor poderá calcular.
- Não há forma de voltarem às suas tribos?
- As tribos por aqui já quase não existem. Os pais foram sequestrados e acorrentados até aos locais de extracção da borracha. Não há para onde levá-las. Para quê
resgatar essas

172
pobres criaturas? Nessas condições, talvez o mal menor seja continuarem nas famílias. Alguns tratam-nas bem, ganham carinho por elas. Acha monstruoso?
- Monstruoso - repetiu Roger Casement.
- A mim, a nós, também nos parece - disse o padre Urrutia. - Passamos horas na missão a puxar pelos miolos. Que solução dar a isto? Não a encontramos. Fizemos diligências,
em Roma, para ver se podem vir umas freiras e abrir aqui uma escolinha para essas meninas. Para receberem pelo menos alguma instrução. Mas as famílias aceitarão
mandá-las para a escola? De qualquer modo, muito poucas. Consideram-nas animaizinhos.
Voltou a suspirar. Tinha falado com tanta amargura que Roger, contagiado pelo pesar do religioso, sentiu vontade de regressar a casa do cônsul britânico. Pôs-se
de pé.
- O senhor sempre pode fazer alguma coisa, senhor Casement - disse-lhe o padre Urrutia, em jeito de despedida, apertando-lhe a mão. - É uma espécie de milagre o
que aconteceu. Quero dizer, as denúncias, o escândalo na Europa. A chegada desta Comissão a Loreto. Se alguém pode ajudar aquela pobre gente, são os senhores. Rezarei
para que voltem sãos e salvos do Putumayo.
Roger regressou caminhando muito devagar, sem olhar para o que acontecia nos bares e prostíbulos de onde saíam as vozes, os cantos, o rasgar das guitarras. Pensava
naquelas crianças arrancadas das suas tribos, separadas das suas famílias, enfiadas na cloaca de uma lancha, trazidas para Iquitos, vendidas por vinte ou trinta
sóis a uma família onde passariam a vida a varrer, a esfregar, a cozinhar, a limpar casas de banho, a lavar roupas sujas, insultadas, espancadas e, às vezes, violadas
pelo patrão ou pelos filhos do patrão. A história de sempre. A história que nunca mais acaba.


IX.


Quando a porta da cela se abriu e viu no umbral a grossa silhueta do xerife, Roger Casement pensou que tinha visitas -Gee ou Alice, talvez - mas o carcereiro, em
vez de lhe indicar que se levantasse e o seguisse ao parlatório, ficou a olhar para ele de uma maneira estranha, sem dizer nada. "Rejeitaram a petição", pensou.
Manteve-se deitado, com a certeza de que se se pusesse de pé a tremura nas pernas o faria cair no chão.
- Sempre quer tomar um duche? - perguntou a voz fria e lenta do xerife.
"A minha última vontade?", pensou. "Depois do banho, o verdugo."
- Isto vai contra o regulamento - murmurou o xerife, com uma certa emoção. - Mas, é hoje que se cumpre o primeiro aniversário da morte do meu filho na Bélgica. Quero
oferecer em sua memória um acto de compaixão.
- Agradeço-lhe - disse Roger, levantando-se. Que mosca é que havia mordido ao xerife? Desde quando é que ele tinha aquelas amabilidades para com ele?
Pareceu-lhe que o sangue das veias, parado ao ver aparecer o carcereiro à porta da cela, voltava a circular pelo seu corpo. Saiu para o longo e chamuscado corredor
e seguiu o obeso carcereiro até ao balneário, um recinto escuro, com retretes sem portas em fila junto a uma parede, uma enfiada de chuveiros na parede oposta e
uns recipientes de cimento por rebocar com

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uns canos oxidados que vertiam água. O xerife permaneceu de pé, na entrada do local, enquanto Roger se despia, pendurava a farda azul e o gorro de presidiário num
prego da parede e metia-se debaixo do chuveiro. O jorro de água provocou-lhe um arrepio dos pés à cabeça e, ao mesmo tempo, uma sensação de alegria e de gratidão.
Fechou os olhos e, antes de se ensaboar com o sabão que tirou de uma das caixas de borracha penduradas na parede, enquanto esfregava os braços e as pernas, sentiu
a água fria a deslizar-lhe pelo corpo. Estava contente e exaltado. Com aquele jorro de água não só desaparecia a sujidade acumulada no seu corpo em tantos dias,
mas também as preocupações, angústias e remorsos. Ensaboou-se dos pés à cabeça e enxaguou-se um bom bocado até que o xerife lhe indicou de longe com um gesto da
mão que se apressasse. Roger secou-se com a mesma roupa que vestiu. Não tinha pente e alisou os cabelos com as mãos.
- Não sabe como lhe estou agradecido por este banho, xerife - disse ele, quando regressavam à cela. - Devolveu-me a vida, a saúde.
O carcereiro respondeu-lhe com um murmúrio ininteligível.
Ao voltar a estender-se no catre, Roger tentou retomar a leitura da Imitação de Cristo, de Tomás de Kempis, mas não conseguia concentrar-se e devolveu o livro ao
chão.
Pensou no capitão Robert Monteith, seu assistente e amigo durante os últimos seis meses que passara na Alemanha. Homem magnífico! Leal, eficiente e heróico. Foi
seu companheiro de viagem e de dificuldades no submarino alemão U-19 que os trouxe, juntamente com o sargento Daniel Julian Bailey, com o nome de código Julian Beverly,
até à costa de Tralee, na Irlanda, onde os três estiveram prestes a morrer afogados por não saberem remar. Por não saberem remar! Assim era: pequenas tontices podiam
misturar-se com os grandes assuntos e estragá-los. Recordou o amanhecer acinzentado, chuvoso, de mar encrespado e espessa neblina da Sexta-Feira Santa, 21 de Abril
de 1916, e eles os três, no agitado bote com três remos em que

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o submarino alemão os tinha deixado antes de desaparecer no meio da bruma. "Boa sorte", gritou-lhes o capitão Raimund Weissbach em jeito de despedida. Teve de novo
a horrível sensação de impotência dos três, tentando segurar aquele bote encabritado pelas ondas e pelos baques, e a incapacidade dos improvisados remadores para
o endireitar em direcção à costa, que nenhum deles sabia onde ficava. A embarcação girava, subia, descia, saltava, traçava círculos de raio variável e, como nenhum
dos três conseguia cavalgar as ondas que batiam de lado no bote, abalavam-no de tal modo que a qualquer momento iriam voltá-lo. E voltaram mesmo. Durante uns minutos
estiveram os três prestes a afogar-se. Chapinhavam, engoliam água salgada, até que conseguiram endireitar o bote e, ajudando-se, saltar outra vez para dentro dele.
Roger recordou o corajoso Monteith, com a sua mão infectada pelo acidente que tivera na Alemanha, no porto de Heligoland, ao tentar aprender a conduzir uma lancha
a motor. Atracaram ali para mudar de submarino, porque o U-2 em que embarcaram em Wilhelmshaven tinha tido uma avaria. Aquela ferida atormentara-o toda a semana
de viagem entre Heligoland e a baía de Tralee. Roger, que fez a travessia com enjoos atrozes e vómitos, sem conseguir comer nada nem levantar-se do estreito beliche,
recordava a estóica paciência de Monteith com o inchaço da sua ferida. Os anti-infla-matórios que os marinheiros alemães do U-19 lhe puseram não serviram de nada.
A mão continuou a supurar e o capitão Weissbach, comandante do U-19, previu que se, ao desembarcar, não o curassem de imediato, aquela ferida gangrenaria.
A última vez que viu o capitão Robert Monteith foi nas ruínas do Forte McKenna, naquele mesmo amanhecer de 21 de Abril, quando os seus dois companheiros decidiram
que Roger ficaria ali escondido, enquanto eles iam andando para pedir ajuda aos Voluntários Irlandeses de Tralee. Decidiram assim porque era ele quem corria o maior
risco de ser reconhecido pelos soldados e guardas - a presa mais cobiçada para os cães de guarda do Império - e porque Roger já não resistia mais.

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Doente e debilitado, tinha caído ao chão duas vezes, exausto, e da segunda vez permanecera vários minutos sem sentidos. Os amigos deixaram-no entre as ruínas do
Forte McKenna com um revólver e um saquinho de roupa, depois de lhe apertarem as mãos. Roger recordou como, ao ver as calhandras a esvoaçar à sua volta e ao ouvir
o seu canto e descobrir que estava rodeado de violetas selvagens que brotavam entre os areais da baía de Tralee, pensou que tinha chegado finalmente à Irlanda. Os
olhos encheram-se-lhe de lágrimas. O capitão Monteith, ao partir, fez-lhe a saudação militar. Pequeno, fortalhaço, ágil, incansável, patriota irlandês até ao tutano
dos seus ossos, nos seis meses que tinham convivido na Alemanha, Roger não ouviu uma queixa nem notou o menor sintoma de desfalecimento ao seu adjunto, apesar dos
fracassos que tinha tido no campo de Limburg devido à resistência - quando não à aberta hostilidade -dos prisioneiros em inscrever-se na Brigada Irlandesa que Roger
quis formar para lutar juntamente com a Alemanha ("mas não às ordens desta") pela independência da Irlanda.
Estava encharcado dos pés à cabeça, com a mão inchada e sangrante, mal envolvida no pano que se soltara e com uma expressão de grande cansaço. Caminhando com passos
enérgicos, Monteith e o sargento Daniel Bailey, que coxeava, perderam-se na neblina em direcção a Tralee. Robert Monteith teria lá chegado sem ser capturado pelos
oficiais da Royal Irish Constabulary? Teria conseguido contactar em Tralee com a gente do Irish Republican Brotherhood ou com os Voluntários Irlandeses? Nunca soube
quando e onde fora capturado o sargento Daniel Bailey. O seu nome nunca foi mencionado nos longos interrogatórios a que Roger foi submetido, primeiro no Almirantado,
pelos chefes dos serviços de inteligência britânicos, e depois pela Scotland Yard. O súbito aparecimento de Daniel Bailey no julgamento por traição como testemunha
de acusação do promotor público deixou Roger consternado. Na sua declaração, cheia de mentiras, Monteith não foi nomeado uma única vez. Continuaria, então, livre,
ou tinham-no matado? Roger pediu

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a Deus que o capitão estivesse agora mesmo são e salvo, escondido nalgum canto da Irlanda. Ou teria participado na Revolta da Páscoa e ali perecido como tantos irlandeses
anónimos a lutar naquela aventura tão heróica como disparatada? Isto era o mais provável. Que tivesse estado na Estação Central dos Correios de Dublin, a disparar,
ao lado do seu admirado Tom Clarke, até que uma bala inimiga tivesse posto fim à sua vida exemplar.
Também tinha sido uma aventura disparatada a sua. Julgar que chegar à Irlanda vindo da Alemanha ia poder suspender, ele sozinho, com argumentos pragmáticos e racionais,
a Revolta da Páscoa planeada tão secretamente pelo Conselho Militar dos Voluntários Irlandeses - Tom Clarke, Sean McDermott, Patrick Pearse, Joseph Plunkett e mais
um ou outro - que nem mesmo o presidente dos Voluntários Irlandeses, o professor Eoin Mac-Neill, tinha sido informado da revolta, não era outra fantasia delirante?
"A razão não convence os místicos nem os mártires", pensou ele. Roger tinha sido participante e testemunha de longas e intensas discussões no seio dos Voluntários
Irlandeses sobre a sua tese de que a única maneira de uma acção armada dos nacionalistas irlandeses contra o Império Britânico ter êxito era fazê-la coincidir com
uma ofensiva militar alemã que tivesse imobilizado o grosso do seu poderio militar. Sobre isto, ele e o jovem Plunkett discutiram muitas horas em Berlim, sem chegarem
a acordo. Seria porque os responsáveis do Conselho Militar nunca partilharam aquela sua convicção que o Irish Republican Brotherhood e os Voluntários que prepararam
a insurreição lhe tinham ocultado os seus planos até ao último momento? Quando, por fim, lhe chegou informação a Berlim, Roger já sabia que o Almirantado alemão
tinha descartado uma ofensiva naval contra Inglaterra. Quando os Alemães acederam a enviar armas aos insurrectos, ele empenhou-se em ir pessoalmente à Irlanda a
acompanhar o armamento, com a intenção secreta de persuadir os dirigentes que, sem uma ofensiva militar alemã em simultâneo, a revolta seria um sacrifício inútil.
Nisso não se havia enganado. Segundo todas as notícias que tinha conseguido recolher

178
aqui e ali desde os dias do seu julgamento, a revolta foi um gesto heróico, mas saldou-se na matança dos mais arrojados dirigentes do Irish Republican Brotherhood
e dos Voluntários Irlandeses e da prisão de centenas de revolucionários. A repressão seria agora interminável. A independência da Irlanda havia retrocedido mais
uma vez. Triste, triste história!
Tinha um sabor amargo na boca. Outro erro grave: ter posto demasiadas ilusões na Alemanha. Recordou a discussão com Herbert Ward, em Paris, da última vez que o vira.
O seu melhor amigo em África desde que se conheceram, ambos jovens e ansiosos de aventuras, desconfiava de todos os nacionalismos. Era um dos poucos europeus cultos
e sensíveis em terra africana e Roger aprendeu muito com ele. Trocaram livros, faziam leituras comentadas, falavam e discutiam sobre música, pintura, poesia e política.
Herbert já sonhava ser um dia só um artista e todo o tempo que podia roubar ao trabalho dedicava-o a esculpir tipos humanos africanos em madeira e em terracota.
Ambos tinham sido críticos severos dos abusos e crimes do colonialismo e quando Roger se converteu numa figura pública e foi alvo de ataques pelo seu Relatório sobre
o Congo, Herbert e Sarita, a sua mulher, já instalados em Paris e aquele convertido num prestigiado escultor que agora fazia sobretudo moldes em bronze, sempre inspirados
em África, foram os seus mais entusiastas defensores. Também o foram quando o seu Relatório sobre a Amazónia, denunciando os crimes cometidos pelos exploradores
da borracha do Putumayo contra os indígenas, provocou outro escândalo em torno da figura de Casement. Herbert, inclusivamente, tinha mostrado a princípio simpatia
pela conversão nacionalista de Roger, embora muitas vezes nas suas cartas brincasse com ele sobre os perigos do "fanatismo patriótico" e lhe recordasse a frase do
doutor Johnson segundo a qual "o patriotismo é o último refúgio dos canalhas". As coincidências tiveram o seu limite no tema da Alemanha. Herbert rejeitou sempre
com energia a visão positiva, embelezada, que Roger tinha do chanceler Bismarck, o unificador

179
dos estados alemães, e do "espírito prussiano", que a ele lhe parecia rígido, autoritário, tosco, incompatível com a imaginação e a sensibilidade, mais próximo do
quartel e das hierarquias militares que da democracia e das artes. Quando, em plena guerra, soube, pelas denúncias dos diários ingleses, que Roger Casement tinha
ido a Berlim conspirar com o inimigo, fez-lhe chegar uma carta, através da sua irmã Nina, pondo fim à sua amizade de tantos anos. Nessa mesma carta, informava-o
que o filho mais velho dele e de Sarita, um jovem de dezanove anos, acabava de morrer na frente.
Quantos amigos mais havia perdido, pessoas que, como Herbert e Sarita Ward, o apreciavam e admiravam, e o consideravam agora um traidor? Até Alice Stopford Green,
sua mestra e amiga, tinha objectado a sua viagem a Berlim, embora, desde que ele fora capturado, que não voltara a referir essa discrepância. Quantas mais pessoas
teriam agora repugnância pelas supostas vilezas que a imprensa inglesa lhe atribuía? Uma cãibra no estômago obrigou-o a encolher-se no catre. Permaneceu assim um
bom bocado até que foi passando aquela sensação de ter no ventre uma pedra que lhe esmagava as entranhas.
Naqueles dezoito meses na Alemanha muitas vezes se interrogou se não se teria enganado. Não, pelo contrário, os factos tinham confirmado todas as suas teses, quando
o Governo alemão tornou pública aquela declaração - em grande parte redigida por si mesmo - manifestando a sua solidariedade com a ideia da soberania irlandesa e
a sua vontade de ajudar os Irlandeses a recuperar a independência arrebatada pelo Império Britânico. Mas, depois, nas longas esperas em Unter den Lin-den para ser
recebido pelas autoridades em Berlim, as promessas não cumpridas, as suas doenças, os fracassos com a Brigada Irlandesa, tinha começado a duvidar.
Sentiu que o seu coração batia com força, como de cada vez que recordava aqueles dias gelados, com tempestades e redemoinhos de neve, quando, por fim, depois de
tantas insistências, conseguiu dirigir-se aos dois mil e duzentos prisioneiros

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irlandeses no campo de Limburg. Explicou-lhes com cuidado, repetindo um discurso ensaiado na sua cabeça ao longo de meses, que não se tratava de "passar para o lado
do inimigo" nem nada que se parecesse. A Brigada Irlandesa não faria parte do Exército alemão. Seria um corpo militar autónomo, com os seus próprios oficiais, e
combateria pela independência da Irlanda contra o seu colonizador e opressor, "ao lado das, mas não dentro das" Forças Armadas alemãs. O que mais lhe doía, um ácido
que corroía sem descanso o seu espírito, não era que de dois mil e duzentos prisioneiros só cinquenta e poucos se tivessem inscrito na Brigada Irlandesa. Era a hostilidade
com que tinham recebido a sua proposta, os gritos e murmúrios onde nitidamente detectou a palavra "traidor", "amarelo", "vendido", "barata", com que muitos prisioneiros
lhe mostraram o seu desprezo, e, por fim, as escarradelas e tentativas de agressão de que foi vítima da terceira vez que tentou falar com eles. (Tentou, porque só
conseguiu pronunciar as primeiras frases antes de ser calado pelas assobiadelas e pelos insultos.) E a humilhação que sentiu ao ser resgatado de uma possível agressão,
porventura um linchamento, pelos soldados alemães da escolta, que o tiraram a correr daquele lugar.
Tinha sido um sonhador e um ingénuo ao pensar que os prisioneiros irlandeses se alistariam naquela Brigada equipada, vestida - embora a farda tivesse sido desenhada
pelo próprio Roger Casement -, alimentada e assessorada pelo Exército alemão contra o qual haviam acabado de lutar, que os gasearam nas trincheiras da Bélgica, que
tinha matado, mutilado e ferido tantos dos seus companheiros, e que os tinha a eles agora entre arame farpado. Era preciso entender as circunstâncias, ser flexível,
recordar o que haviam sofrido e perdido aqueles prisioneiros irlandeses e não lhes guardar rancor. Mas aquele choque brutal com uma realidade que ele não esperava
foi muito duro para Roger Casement. Repercurtiu-se no seu corpo ao mesmo tempo que no seu espírito pois, imediatamente, começaram as febres que o mantiveram tanto
tempo na cama, quase desenganado.

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Nesses meses, a lealdade e o afecto solícitos do capitão Robert Monteith foram um bálsamo sem o qual provavelmente não teria sobrevivido. Sem que as dificuldades
e frustrações que encontrava por todo o lado fizessem mossa - pelo menos visível - na sua convicção de que a Brigada Irlandesa concebida por Roger Casement acabaria
por ser uma realidade e recrutaria nas suas fileiras a maioria dos prisioneiros irlandeses, o capitão Monteith entregou-se com entusiasmo a dirigir o treino de meia
centena de voluntários aos quais o Governo alemão cedeu um pequeno campo, em Zossen, perto de Berlim. E conseguiu até recrutar mais alguns. Todos usavam a farda
da Brigada concebida por Roger, incluindo Monteith. Viviam em tendas de campanha, faziam marchas, manobras e exercícios de tiro com espingarda e pistola, mas só
com pólvora. A disciplina era estrita e, além dos exercícios, práticas militares e desportos, Monteith insistiu para que Roger Casement desse palestras continuamente
aos brigadistas sobre a história da Irlanda, a sua cultura, a sua idiossincrasia e as perspectivas que se abririam para o Eire uma vez alcançada a sua independência.
O que teria dito o capitão Robert Monteith se tivesse visto desfilar no julgamento, como testemunhas da acusação, aquele punhado de ex-prisioneiros irlandeses do
campo de Limburg - libertados graças a uma troca de prisioneiros - e, entre eles, nada mais nada menos que o próprio sargento Daniel Bailey? Todos, respondendo às
perguntas do promotor público, juraram que Roger Casement, rodeado de oficiais do Exército alemão, os tinha exortado a passar para as fileiras do inimigo, dando-lhes
como isco miragens de perspectiva de liberdade, um salário e futuros benefícios. E todos tinham corroborado naquela mentira flagrante: que os prisioneiros irlandeses
que cederam à sua pressão e se inscreveram na Brigada receberam imediatamente melhores ranchos, mais cobertores e um regime mais flexível de autorizações. O capitão
Robert Monteith não se teria indignado com eles. Teria dito, uma vez mais, que aqueles compatriotas estavam cegos, ou, melhor, tinham ficado cegos pela má educação,

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pela ignorância e confusão em que o Império Britânico mantinha o Eire, pondo-lhes um véu nos olhos sobre a sua verdadeira condição de povo ocupado e oprimido há
já três séculos. Não era preciso desesperar, tudo aquilo estava a mudar. E, se calhar, como fez tantas vezes em Limburg e em Berlim, contaria a Roger Casement, para
lhe levantar o ânimo, com que entusiasmo e generosidade se tinham inscrito os jovens irlandeses - camponeses, operários, pescadores, artesãos, estudantes - nas fileiras
dos Voluntários Irlandeses desde que esta organização foi fundada, numa grande demonstração na Rotunda de Dublin, a 25 de Novembro de 1913, como resposta à militarização
dos unionistas do Ulster, liderados por Sir Edward Carson, que ameaçavam abertamente não respeitar a lei se o Parlamento britânico aprovasse o Home Rule, a autonomia
para a Irlanda. O capitão Robert Monteith, antigo oficial do Exército britânico, pelo qual tinha lutado na Guerra dos Bóeres, na África do Sul, onde sofrera ferimentos
em dois combates, foi um dos primeiros a alistar-se nos Voluntários. Foi-lhe confiada a ele a preparação dos recrutas. Roger, que assistiu àquela emocionante manifestação
da Rotunda e foi um dos tesoureiros dos fundos para a compra de armas, eleito para este cargo de extrema confiança pelos líderes dos Voluntários Irlandeses, não
se lembrava de ter conhecido Monteith naquela altura. Mas este garantia ter-lhe apertado a mão e ter-lhe dito que estava orgulhoso por ter sido um irlandês a denunciar
perante o mundo os crimes que se cometiam contra os aborígenes no Congo e na Amazónia.
Recordou as longas caminhadas que dava com Monteith nos arredores do campo de Limburg ou pelas ruas de Berlim, às vezes nas madrugadas pálidas e frias, às vezes
no crepúsculo e com as primeiras sombras da noite, falando obsessivamente da Irlanda. Apesar da amizade que nasceu entre eles, nunca conseguiu que Monteith o tratasse
com a informalidade com que se trata um amigo. O capitão dirigia-se sempre a ele como ao seu superior político e militar, cedendo-lhe a direita nas ruas, abrindo-lhe
as portas, aproximando-lhe as cadeiras e fazendo-lhe

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a continência, antes ou depois de lhe apertar a mão, batendo os calcanhares e levando marcialmente a mão ao quépi.
O capitão Monteith ouviu falar pela primeira vez da Brigada Irlandesa que Roger Casement tentava formar na Alemanha a Tom Clarke, o sigiloso líder do Irish Republican
Brotherhood e dos Voluntários Irlandeses, e ofereceu-se imediatamente para ir trabalhar com ele. Monteith estava então confinado em Limerick pelo Exército britânico,
como castigo por se ter descoberto que dava instrução militar clandestina aos Voluntários. Tom Clarke consultou outros dirigentes e a sua proposta foi aceite. O
seu percurso, que Monteith contou a Roger com todos os pormenores assim que se viram na Alemanha, teve tantos percalços como um romance de aventuras. Acompanhado
da esposa a fim de dissimular o conteúdo político da sua viagem, Monteith partiu de Liverpool para Nova Iorque em Setembro de 1915. Ali, os dirigentes nacionalistas
irlandeses puseram-no nas mãos do norueguês Eivind Adler Christensen (ao recordar isso, Roger sentiu que o estômago se lhe retorcia), o qual, no porto de Hoboken,
o meteu às escondidas num barco que partiria em breve rumo a Cristiânia, a capital da Noruega. A esposa de Monteith ficou em Nova Iorque. Christensen fê-lo viajar
como clandestino, mudando frequentemente de camarote e passando longas horas escondido nas sentinas do navio onde o norueguês lhe levava água e comida. O barco foi
detido pela Royal Navy em plena travessia. Um pelotão de marinheiros ingleses invadiu-o e examinou a documentação de tripulantes e passageiros, à procura de espiões.
Durante os cinco dias que os marinheiros ingleses demoraram a revistar o navio, Monteith saltou de uns esconderijos para outros - às vezes tão incómodos como estar
de cócoras num armário debaixo de montes de roupa e, outras, metido num barril de breu - sem ser descoberto. Por fim, desembarcou clandestinamente em Cristiânia.
A travessia das fronteiras sueca e dinamarquesa para entrar na Alemanha não foi menos novelesca e obrigou-o a usar vários disfarces, um deles de mulher. Quando,
por fim, chegou a Berlim, descobriu que

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o chefe a quem ele vinha servir, Roger Casement, estava doente na Baviera. Nem pensou duas vezes, apanhou logo o comboio e quando chegou ao hotel bávaro onde aquele
convalescia, batendo os tacões e fazendo a continência, apresentou-se com esta frase: "Este é o momento mais feliz da minha vida, Sir Roger." A única vez que Casement
se lembrava de ter discordado do capitão Robert foi numa tarde, no campo militar de Zos-sen, depois de uma conversa de Casement com os membros da Brigada Irlandesa.
Estavam a tomar chá na cantina quando Roger, por alguma razão que ele não se lembrava, mencionou Eivind Adler Christensen. A cara do capitão decompôs-se numa careta
de desagrado.
- Já vejo que não tem uma boa recordação de Christensen - brincou com ele. - Guarda-lhe rancor por tê-lo obrigado a viajar como clandestino de Nova Iorque até à
Noruega?
Monteith não sorria. Tinha ficado muito sério.
- Não, senhor - murmurou entre dentes. - Não é por isso.
- Porquê, então?
Monteith vacilou, incomodado.
- Porque sempre pensei que o norueguês é um espião da inteligência britânica.
Roger recordou que aquela frase lhe provocara o efeito de um murro no estômago.
- O senhor tem alguma prova de semelhante coisa?
- Nenhuma, senhor. Mero palpite.
Casement repreendeu-o e ordenou-lhe que não voltasse a lançar semelhante conjectura sem ter provas. O capitão balbuciou uma desculpa. Agora, Roger teria dado qualquer
coisa para ver Monteith ainda que fosse só por uns instantes para lhe pedir perdão por tê-lo repreendido daquela vez: "Meu bom amigo, o senhor tinha toda a razão
do mundo. A sua intuição estava certa. Eivind é uma coisa pior que um espião: um verdadeiro demónio. E eu, um parvo e um ingénuo por acreditar nele."
Eivind, outro dos seus grandes equívocos nesta última etapa da sua vida. Qualquer outro que não fosse aquela "criança

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grande" que ele era, como lho disseram uma vez Alice Stopford Green e Herbert Ward, teria reparado em algo suspeito na maneira como aquela encarnação de Lúcifer
tinha entrado na sua vida. Roger, não. Ele acreditara no encontro casual, numa conjura do acaso.
Aconteceu em Julho de 1914, no mesmo dia em que chegou a Nova Iorque para promover os Voluntários Irlandeses entre as comunidades irlandesas dos Estados Unidos,
conseguir apoio e armas, e encontrar-se com os líderes nacionalistas da filial norte-americana do Irish Republican Brotherhood, chamada "Clan na Gael", os veteranos
lutadores John Devoy e Joseph McGarrity. Tinha saído para dar uma volta por Manhattan, fugindo do húmido e escaldante quartinho de hotel abrasado pelo Verão nova-iorquino,
quando foi abordado por um jovem louro e formoso como um deus viquingue, cuja simpatia, encanto e desembaraço o seduziram imediatamente. Eivind era alto, atlético,
de caminhar um pouco felino, um olhar azul profundo e um sorriso entre arcangélico e canalha. Não tinha um centavo e disse-lho com uma careta cómica, mostrando-lhe
os forros dos bolsos vazios. Roger convidou-o a tomar uma cerveja e a comer qualquer coisa. E acreditou em tudo o que o norueguês lhe contou: tinha vinte e quatro
anos e fugira de casa na Noruega aos doze. Viajando como clandestino conseguira chegar a Glasgow. Desde então, tinha trabalhado como fogueiro nos barcos escandinavos
e ingleses por todos os mares do mundo. Agora, varado em Nova Iorque, sobrevivia como podia.
E Roger acreditou! No seu estreito catre, encolheu-se, dorido, com outra daquelas cãibras no estômago que lhe cortavam a respiração. Advinham-lhe nos momentos de
grande tensão nervosa. Conteve a vontade de chorar. De cada vez que lhe acontecia ter pena e vergonha de si mesmo ao ponto de se lhe encherem os olhos de lágrimas,
sentia-se logo deprimido e enojado. Nunca tinha sido um sentimental propenso a exibir as suas emoções, sempre soubera disfarçar os tumultos que agitavam os seus
sentimentos por detrás de uma máscara de perfeita

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serenidade. Mas a sua disposição era outra desde que chegara a Berlim acompanhado por Eivind Adler Christensen, no último dia de Outubro de 1914. Teria contribuído
para a mudança o facto de estar já doente, alquebrado e com os nervos em franja? Nos últimos meses de Alemanha sobretudo, quando, apesar das injecções de entusiasmo
que o capitão Robert Monteith queria inocular-lhe, compreendeu que o seu projecto da Brigada Irlandesa tinha fracassado, começou a sentir que o Governo alemão desconfiava
dele (julgando-o talvez um espião britânico) e soube que a sua denúncia da suposta conjura do cônsul britânico Findlay na Noruega para o matar não tinha a repercussão
internacional que ele esperava. A dor maior foi descobrir que os seus companheiros do Irish Republican Brotherhood e os Voluntários Irlandeses na Irlanda lhe ocultaram
até ao último momento os seus planos para a Revolta da Páscoa. ("Tinham de tomar precauções, por razões de segurança", tranquilizava-o Robert Monteith.) Além disso,
empenharam-se em que permanecesse na Alemanha e proibiram-no de se juntar a eles. ("Pensam na sua saúde, senhor", desculpava-os Monteith.) Não, não pensavam na sua
saúde. Eles também o receavam porque sabiam que ele estava contra uma acção armada se não coincidisse com uma ofensiva bélica alemã. Ele e Monteith seguiram no submarino
alemão contrariando as ordens dos dirigentes nacionalistas.
Mas, de todos os seus fracassos, o maior tinha sido confiar tão cega e estupidamente em Eivind/Lúcifer. Este acompanhou-o a Filadélfia, numa visita a Joseph McGarrity.
E esteve a seu lado, em Nova Iorque, na concentração organizada por John Quinn em que Roger falou perante um auditório repleto de membros da Antiga Ordem dos Hibérnios,
e também no desfile de mais de mil Voluntários Irlandeses em Filadélfia, a 2 de Agosto, aos quais Roger se dirigiu no meio de estrondosos aplausos.
Desde o primeiro momento reparou na desconfiança que Christensen provocava nos dirigentes nacionalistas dos Estados Unidos. Mas ele foi tão enérgico, garantindo-lhes
que deviam confiar na discrição e na lealdade de Eivind como se fosse ele

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próprio, que os dirigentes do Irish Republican Brotherhood/Clan na Gael acabaram por aceitar a presença do norueguês em todas as actividades públicas de Roger (não
nas reuniões políticas privadas) nos Estados Unidos. E consentiram que viajasse com ele, como seu ajudante, para Berlim.
O que foi extraordinário foi Roger nunca ter tido suspeitas, nem sequer com o estranho episódio de Cristiânia. Acabavam de chegar à capital norueguesa, rumo à Alemanha,
quando, no próprio dia da chegada, Eivind, que tinha saído para dar um passeio sozinho, foi - segundo lhe contou - abordado por desconhecidos, sequestrado e levado
à força ao Consulado britânico no número 79 de Drammensveien. Ali foi interrogado pelo próprio cônsul, Mr. Mansfeldt de Cardonnel Findlay. Este ofereceu-lhe dinheiro
para que revelasse a identidade e as intenções com que o seu acompanhante vinha à Noruega. Eivind jurou a Roger que nada tinha revelado e que o haviam soltado depois
de ele prometer ao cônsul averiguar o que queriam saber sobre aquele senhor acerca do qual ele desconhecia tudo, a quem ele acompanhava como simples guia por uma
cidade -por um país - que aquele desconhecia.
E Roger tinha engolido aquela fantástica mentira sem pensar por um segundo que era vítima de uma emboscada! Tinha caído nela como um menino idiota!
Trabalharia já então Eivind Adler Christensen para os serviços britânicos? O capitão-de-mar-e-guerra Reginald Hall, chefe da Inteligência Naval Britânica, e Basil
Thomson, chefe do Departamento de Investigação Criminal da Scotland Yard, seus interrogadores desde que o trouxeram detido para Londres -teve com eles conversas
muito longas e cordiais - deram-lhe indicações contraditórias sobre o escandinavo. Mas Roger não alimentava ilusões sobre isso. Agora tinha a certeza de que era
absolutamente falso que Eivind tivesse sido sequestrado nas ruas de Cristiânia e levado à força até junto do cônsul de apelido pomposo: Mansfeldt de Cardonnel Findlay.
Os interrogadores mostraram-lhe, certamente para o desmoralizar - ele tinha

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comprovado como ambos eram astutos psicólogos -, o relatório do cônsul britânico na capital norueguesa para o seu chefe do Foreign Office, sobre a intempestiva chegada
ao Consulado britânico no número 79 de Drammensveien de Eivind Adler Christensen, exigindo falar com o cônsul em pessoa. E como lhe revelou, quando o diplomata acedeu
a recebê-lo, que estava a acompanhar um dirigente nacionalista irlandês que viajava rumo à Alemanha com passaporte falso e o nome também falso de James Landy. Pediu
dinheiro em troca desta informação e o cônsul entregou-lhe vinte e cinco coroas. Eivind ofereceu-se para continuar a dar material privado e secreto sobre a personagem
desde que se mantivesse sempre incógnito e o Governo inglês o recompensasse largamente.
Por outro lado, Reginald Hall e Basil Thomson informaram Roger que todos os seus movimentos na Alemanha - entrevistas com altos funcionários, militares e ministros
do Governo no Ministério das Relações Exteriores da Wilhelmstrasse bem como os seus encontros com prisioneiros irlandeses em Limburg -tinham sido registados com
grande precisão pela Inteligência Naval Britânica. De modo que Eivind, ao mesmo tempo que simulava fazer complô com Roger, preparando uma armadilha ao cônsul Mansfeldt
de Cardonnel Findlay, continuou a comunicar com o Governo inglês tudo o que ele dizia, fazia, escrevia e sobre as pessoas que recebia e a quem visitava durante a
sua permanência na Alemanha. "Fui um parvo e mereço a minha sorte", repetiu para si mesmo pela enésima vez.
Nisto, abriu-se a porta da cela. Traziam-lhe o almoço. Já era meio-dia? Imerso nas suas recordações, a manhã tinha passado sem ele sentir. Se todos os dias fossem
assim, que maravilha! Só provou uns bocados do caldo desenxabido e do guisado de couves com bocados de peixe. Quando o guarda veio buscar os pratos, Roger pediu-lhe
autorização para ir despejar o balde com excrementos e urina. Uma vez por dia permitiam-lhe sair até à latrina para o esvaziar e enxaguar. Quando voltou à cela,
deitou-se outra vez no catre. A cara risonha e bonita

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de menino travesso de Eivind/Lúcifer voltou-lhe à memória e, com ela, o desânimo e as guinadas de amargura. Ouviu-o sussurrar "Amo-te" no seu ouvido e pareceu-lhe
que se enredava nele e o apertava. Ouviu-se gemer.
Tinha viajado muito, vivido experiências intensas, conhecido todo o tipo de pessoas, investigado crimes atrozes contra povos primitivos e comunidades indígenas de
dois continentes. E era possível que uma personalidade de tanta duplicidade, falta de escrúpulos e maldade como a do Lúcifer escandinavo ainda o deixasse estupefacto?
Tinha-lhe mentido, enganara-o sistematicamente ao mesmo tempo que, mostrando-se risonho, serviçal e afectuoso, o acompanhava como um cão fiel, o servia, se interessava
pela sua saúde, lhe ia comprar medicamentos, chamava o médico, lhe punha o termómetro. Mas também lhe sacava todo o dinheiro que podia. E depois inventava aquelas
viagens à Noruega com o pretexto de ir visitar a mãe, a irmã, para ir a correr ao Consulado dar informações sobre as actividades conspiratórias, políticas e militares
do seu chefe e amante. E lá cobrava igualmente pelas delações. E ele que julgava manejar os fios da trama! Roger tinha instruído Eivind, uma vez que os Britânicos
queriam matá-lo - segundo o norueguês, o cônsul Mas-feldt de Cardonnel Findlay garantira-lhe isso de forma literal -, para que seguisse a corrente, até obter provas
das intenções criminosas dos funcionários britânicos contra ele. Eivind também tinha comunicado isso ao cônsul, por quantas coroas ou libras esterlinas? Por isso,
o que Roger julgou ser uma operação publicitária demolidora contra o Governo britânico - acusá-lo publicamente de preparar homicídios contra os seus adversários
violando a soberania de países terceiros - não teve a menor repercussão. A sua carta pública a Sir Edward Grey, da qual tinha enviado cópia a todos os governos representados
em Berlim, não mereceu sequer nota de recepção de uma única embaixada.
Mas o pior - Roger voltou a sentir aquele aperto no estômago - veio depois, no fim dos longos interrogatórios na Scotland Yard, quando julgava que Eivind/Lúcifer
não voltaria

190
a infiltrar-se naqueles diálogos. O golpe final! O nome de Roger Casement estava em todos os jornais da Europa e do Mundo -um diplomata britânico enobrecido e condecorado
pela Coroa ia ser julgado por traição à pátria - e a notícia do seu processo iminente era anunciada por todo o lado. Então, no Consulado britânico de Filadélfia,
apareceu Eivind Adler Christensen a propor, por intermédio do cônsul, viajar até Inglaterra para testemunhar contra Casement, desde que o Governo inglês lhe pagasse
todos os gastos de viagem e estada "e recebesse uma remuneração aceitável". Roger não duvidou um segundo de que aquele relatório do cônsul britânico de Filadélfia
que Reginald Hall e Basil Thomson lhe mostraram fosse autêntico. Felizmente, a rubicunda cara do demónio escandinavo não chegou a comparecer no banco das testemunhas
durante os quatro dias do processo em Old Bailey. Porque ao vê-lo talvez Roger não tivesse conseguido aguentar a raiva e a vontade de lhe apertar o pescoço.
Seria aquela a cara, a mente, a retorsão viperina do pecado original? Numa das suas conversas com Edmund D. Morel, quando ambos se interrogavam como era possível
que pessoas que tinham recebido uma educação cristã, cultas e civilizadas, perpetrassem e fossem cúmplices daqueles crimes espantosos que ambos tinham documentado
no Congo, Roger dissera: "Quando se esgotam as explicações históricas, sociológicas, psicológicas, culturais, resta ainda um vasto campo nas trevas para chegar à
base da maldade dos seres humanos, Buldogue. Se quiseres mesmo perceber, há um só caminho: deixar de raciocinar e socorreres-te da religião: isso é o pecado original."
"Essa explicação não explica nada, Tigre." Discutiram um bom bocado, sem chegar a qualquer conclusão. Morel afirmava: "Se a razão última da maldade é o pecado original,
então não há solução. Se nós, os homens, estamos feitos para o mal e trazemo-lo na alma, porquê, então, lutar para remediar o que é irremediável?"
Não era preciso cair no pessimismo, o Buldogue tinha razão. Nem todos os seres humanos eram Eivind Adler Christensen.

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Havia outros, nobres, idealistas, bons e generosos, como o capitão Robert Monteith e o próprio Morel. Roger ficou triste. O Buldogue não tinha assinado nenhuma das
petições a seu favor. Certamente, desaprovava que o seu amigo (ex-amigo, agora, como Herbert Ward?) tivesse tomado partido pela Alemanha. Embora estivesse contra
a guerra e fizesse campanha pacifista e tivesse sido julgado por isso, não havia dúvida que Morel não lhe perdoava a sua adesão ao Kaiser. Talvez também o considerasse
um traidor. Como Conrad.
Roger suspirou. Tinha perdido muitos amigos admiráveis e queridos, como aqueles dois. Quantos mais lhe teriam voltado as costas? Mas, apesar de tudo isso, ele não
havia mudado a maneira de pensar. Não, não se havia enganado. Continuava a acreditar que, neste conflito, se a Alemanha ganhasse, a Irlanda estaria mais perto da
independência. E mais longe se a vitória favorecesse a Inglaterra. Ele tinha feito o que fez, não pela Alemanha, mas sim pela Irlanda. Homens tão lúcidos e inteligentes
como Ward, Conrad e Morel não conseguiam entender isso?
O patriotismo cegava a lucidez. Alice tinha feito esta afirmação num renhido debate, numa daquelas noitadas na sua casa de Grosvenor Road que Roger recordava sempre
com tanta nostalgia. O que é que a historiadora tinha dito exactamente? "Não devemos deixar que o patriotismo nos arrebate a lucidez, a razão, a inteligência." Algo
assim. Mas, então, lembrou-se da alfinetada irónica que George Bernard Shaw tinha lançado a todos os nacionalistas irlandeses presentes: "São coisas irreconciliáveis,
Alice. Não se engane: o patriotismo é uma religião, está em combate com a lucidez. É puro obscurantismo, um acto de fé." Disse aquilo com aquela ironia trocista
que punha os seus interlocutores sempre incomodados, porque todos intuíam que, debaixo do que o dramaturgo dizia de maneira bonacheirona, havia sempre uma intenção
demolidora. "Acto de fé", na boca daquele céptico e incrédulo queria dizer "superstição, feitiçaria" ou coisas ainda piores. No entanto, aquele

192.
homem que não acreditava em nada e dizia mal de tudo era um grande escritor e tinha prestigiado mais as letras da Irlanda que nenhum outro da sua geração. Como é
que se podia construir uma grande obra sem se ser um patriota, sem sentir aquela profunda consaguinidade com a terra dos antepassados, sem amar e emocionar-se com
a antiga linhagem que cada um tinha às costas? Por isso, se tivesse de escolher entre dois grandes criadores, secretamente Roger preferia Yeats a Shaw. Aquele sim
era um patriota, tinha nutrido a sua poesia e o seu teatro com as velhas lendas irlandesas e celtas, refundando-as, renovando-as, mostrando que estavam vivas e podiam
fecundar a literatura do presente. Um instante depois arrependeu-se de ter pensado assim. Como podia ser ingrato com George Bernard Shaw? Entre as grandes figuras
intelectuais de Londres, apesar do seu cepticismo e das suas crónicas contra o nacionalismo, ninguém se tinha manifestado de forma tão explícita e corajosa em defesa
de Roger Casement como o dramaturgo. Ele aconselhou uma linha de defesa ao seu advogado que, infelizmente, o pobre Serjeant A. M. Sullivan, aquela nulidade gananciosa,
não aceitou, e depois da sentença George Bernard Shaw escreveu artigos e assinou manifestos a favor da comutação da pena. Não era indispensável ser-se patriota e
nacionalista para se ser benevolente e corajoso. Ter recordado apenas por um instante Serjeant A. M. Sullivan desmoralizou-o, fê-lo recordar o seu julgamento por
alta traição em Old Bailey, aqueles quatro dias sinistros de finais de Junho de 1916. Não tinha sido nada fácil encontrar um advogado litigante que aceitasse defendê-lo
no Supremo Tribunal. Todos os que maítre George Gavan Duffy, a sua família e amigos, contactaram em Dublin e em Londres recusaram-se com pretextos diversos. Ninguém
queria defender um traidor à pátria em tempos de guerra. Por fim, o irlandês Serjeant A. M. Sullivan, que nunca tinha defendido ninguém antes num tribunal londrino,
aceitou. Exigindo, isso sim, uma elevada soma de dinheiro, que a sua irmã Nina e Alice Stopford Green tiveram de reunir através de donativos de simpatizantes da
causa irlandesa.

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Contrariamente aos desejos de Roger, que queria assumir abertamente a sua responsabilidade de rebelde e de lutador independentista e utilizar o julgamento como uma
plataforma para proclamar o direito da Irlanda à soberania, o advogado Sullivan impôs uma defesa legalista e formal, evitando o lado político, e defendendo que o
estatuto de Eduardo III sob o qual se julgava Casement dizia respeito só a actividades de traição cometidas no território da Coroa e não no estrangeiro. As acções
que se imputavam ao acusado tinham tido lugar na Alemanha e, portanto, Casement não podia ser considerado um traidor ao Império Britânico. Roger nunca acreditou
que esta estratégia de defesa tivesse sucesso. Para cúmulo, no dia em que apresentou as suas alegações, Serjeant Sullivan ofereceu um espectáculo lastimoso. Pouco
depois de ter começado a sua exposição foi ficando agitado, convulsionado, até que, tomado por uma palidez cadavérica, exclamou: "Senhores juízes: não posso mais!"
e caiu na sala de audiências, desmaiado. Um dos seus ajudantes teve de concluir as alegações. Ainda bem que Roger, na sua exposição final, pôde assumir a sua própria
defesa, declarando-se um rebelde, defendendo a Revolta da Páscoa, pedindo a independência da sua pátria e dizendo que estava orgulhoso de a ter servido. Aquele texto
orgulhava-o e, pensava, justificá-lo-ia perante as gerações futuras.
Que horas seriam? Não tinha conseguido acostumar-se a não saber as horas que eram. Que muros tão espessos os da prisão de Pentonville, pois, por mais que esforçasse
os ouvidos, nunca conseguiu ouvir os ruídos da rua: sinos, motores, gritos, vozes, assobios. O bulício do mercado de Islington, ouvia-o mesmo ou inventara-o? Já
não sabia. Nada. Um silêncio estranho, sepulcral, o daquele momento, que parecia suspender o tempo, a vida. Os únicos ruídos que se infiltravam até à sua cela provinham
do interior da prisão: passos apagados no corredor contíguo, portas metálicas que se abriam e fechavam, a voz fanhosa do xerife dando ordens a algum carcereiro.
Agora, nem sequer do interior da prisão de Pentonville lhe chegava qualquer rumor.

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O silêncio angustiava-o, impedia-o de pensar. Tentou retomar a leitura da Imitação de Cristo, de Tomás de Kempis, mas não conseguiu concentrar-se e voltou a pôr
o livro no chão. Tentou rezar, mas a oração acabou por ser tão mecânica que a interrompeu. Esteve muito tempo quieto, tenso, desassossegado, com a mente em branco
e o olhar fixo num ponto do tecto que parecia húmido, como se tivesse infiltrações, até adormecer.
Teve um sonho tranquilo, que o levou às florestas amazónicas, numa manhã luminosa e soalheira. A brisa que corria sobre a ponte do barco atenuava os estragos do
calor. Não havia mosquitos e sentia-se calmo, sem o ardor nos olhos que tanto o atormentara nos últimos tempos, infecção que parecia invulnerável a todos os colírios
e enxaguamentos dos oftalmologistas, sem as dores musculares da artrite nem o fogo das hemorróides que às vezes parecia um ferro em brasa nas suas entranhas, nem
o inchaço dos pés. Não sofria de nenhuma daquelas moléstias, doenças e achaques, sequelas dos seus vinte anos africanos. Era novamente jovem e tinha vontade de fazer
ali, naquele larguíssimo rio Amazonas, cujas margens nem sequer avistava, uma daquelas loucuras que havia feito tantas vezes em África: despir-se e atirar-se da
amurada do barco para aquelas águas esverdeadas com gramalotes e manchas de espuma. Sentiria o impacte da água morna e espessa em todo o corpo, uma sensação benfazeja,
purificadora, enquanto avançava para a superfície, emergia e começava a dar braçadas, deslizando com a facilidade e a elegância de um golfinho cor-de-rosa, ao lado
do barco. Da coberta, o capitão e alguns passageiros far-lhe-iam gestos aparatosos para que voltasse a subir para o barco, não se expusesse a morrer afogado ou devorado
por alguma yacuma-ma, aquelas serpentes fluviais que tinham às vezes dez metros de comprimento e podiam deglutir um homem inteiro.
Estaria perto de Manaus? De Tabatinga? Do Putumayo? De Iquitos? Subia ou descia o rio? Tanto fazia. O importante era que se sentia melhor do que aquilo que recordava
em muito tempo, e, enquanto o barco deslizava devagar sobre aquela superfície

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esverdeada, com o ronronar do motor a embalar-lhe os pensamentos, Roger revia uma vez mais o que seria o seu futuro, agora que por fim tinha renunciado à diplomacia
e recuperado a liberdade total. Devolveria a sua casa londrina de Ebury Street e iria para a Irlanda. Dividiria o seu tempo entre Dublin e o Uls-ter. Não entregaria
toda a sua vida à política. Reservaria uma hora por dia, um dia por semana, uma semana por mês para o estudo. Retomaria a aprendizagem do irlandês e um dia surpreenderia
Alice a falar com ela em gaélico fluido. E as horas, dias, semanas, dedicadas à política concentrar-se-iam na grande política, a que tinha que ver com o desígnio
prioritário e central - a independência da Irlanda e a luta contra o colonialismo - e recusaria desperdiçar o tempo nas intrigas, rivalidades, bajulações dos politiqueiros
ávidos de ganhar pequenos espaços de poder, no partido, na célula, na brigada, nem que para isso tivesse de esquecer e até sabotar a tarefa primordial. Viajaria
muito pela Irlanda, longas excursões pelos glens de Antrim, Donegal, pelo Ulster, por Galway, por lugares afastados e isolados como a comarca de Connemara e Tory
Island onde os pescadores não sabiam inglês e só falavam em gaélico, e entender-se-ia bem com aqueles camponeses, artesãos, pescadores, que, com o seu estoicismo,
a sua laboriosidade, a sua paciência, tinham resistido à esmagadora presença do colonizador, conservando a sua língua, os seus costumes, as suas crenças. Escutá-los-ia,
aprenderia com eles, escreveria ensaios e poemas sobre a gesta silenciosa e heróica de tantos séculos daquelas gentes humildes graças às quais a Irlanda não tinha
desaparecido e era ainda uma nação.
Um ruído metálico tirou-o daquele sonho agradável. Abriu os olhos. O carcereiro tinha entrado e estendeu-lhe uma malga com a sopa de sêmola e o pedaço de pão que
era o seu jantar de todas as noites. Esteve quase a perguntar-lhe as horas, mas conteve-se porque sabia que ele não lhe responderia. Desfez o pão em bocadinhos,
deitou-os na sopa e comeu-a em colheradas espaçadas. Tinha passado outro dia e talvez o de amanhã fosse o decisivo.


X.


Na véspera de partir no Liberal rumo ao Putumayo, Roger Casement decidiu falar francamente com Mr. Stirs. Durante os dez dias em que permanecera em Iquitos tivera
muitas conversas com o cônsul inglês, mas não se tinha atrevido a tocar-lhe no tema. Sabia que a sua missão lhe havia granjeado muitos inimigos, não só em Iquitos,
mas em toda a região amazónica; era absurdo que, além disso, se indispusesse com um colega que poderia ser-lhe de grande utilidade nos dias e semanas seguintes se
se visse nalgum aperto sério com os exploradores da borracha. O melhor era não lhe mencionar aquele assunto escabroso. E, no entanto, naquela noite, enquanto ele
e o cônsul tomavam o habitual cálice de porto na salinha de Mr. Stirs, ouvindo tamborilar o aguaceiro no telhado de calamina e as trombas-d'água a bater nos vidros
e no parapeito da varanda, Roger abandonou a prudência.
- Que opinião é que o senhor tem do padre Ricardo Urrutia, Mr. Stirs?
- O superior dos Agostinhos? Lidei pouco com ele. Em geral, boa. O senhor viu-o muito por estes dias, não é verdade?
Estaria o cônsul a adivinhar que estavam a entrar em terrenos movediços? Nos seus olhinhos salientes havia um brilho inquieto. A sua careca reluzia sob os reflexos
do candeeiro de azeite que crepitava na mesinha do centro da divisão. O leque na mão direita tinha deixado de abanar.

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- Bom, o padre Urrutia está aqui só há um ano e não saiu de Iquitos - disse Casement. - De modo que, sobre o que acontece nas extracções da borracha do Putumayo,
não sabe grande coisa. Em contrapartida, falou-me muito de outro drama humano na cidade.
O cônsul saboreou um golo de porto. Voltou a abanar-se e Roger teve a sensação de que a sua cara redonda tinha corado um pouco. Lá fora, a tempestade rugia com uns
trovões longos, surdos e às vezes um raio acendia por um segundo a escuridão da floresta.
- O das meninas e meninos roubados às tribos - prosseguiu Roger. - Trazidos para aqui e vendidos por vinte ou trinta sóis às famílias.
Mr. Stirs permaneceu mudo, observando-o. Abanava-se agora com fúria.
- Segundo o padre Urrutia, quase todos os criados de Iquitos foram roubados e vendidos - acrescentou Casement. E, olhando para o cônsul fixamente nos olhos: - É
assim?
Mr. Stirs lançou um prolongado suspiro e mexeu-se na sua cadeira de baloiço, sem disfarçar uma expressão de desagrado. A sua cara parecia dizer: "Não sabe o quanto
me alegro que o senhor parta amanhã para o Putumayo. Oxalá não voltemos a ver-nos de frente, senhor Casement."
- Essas coisas não aconteciam no Congo? - respondeu, evasivo.
- Aconteciam, sim, embora não da maneira generalizada daqui. Permita-me uma impertinência. Os quatro criados que o senhor tem, contratou-os ou comprou-os?
- Herdei-os - disse, com secura, o cônsul britânico. - Faziam parte da casa, quando o meu antecessor, o cônsul Cazes, partiu para Inglaterra. Não se pode dizer que
os tenha contratado porque, aqui em Iquitos, isso não se usa. Os quatro são analfabetos e não saberiam ler nem assinar um contrato. Na minha casa dormem, comem,
eu visto-os e, além disso, dou-lhes gorjetas, algo que, garanto-lhe, não é frequente nestas terras.

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Os quatro são livres de partir quando lhes apetecer. Fale com eles e pergunte-lhes se gostariam de procurar trabalho noutro lado. Verá a reacção deles, senhor Casement.
Este concordou e bebeu um sorvo do seu cálice de porto.
- Não quis ofendê-lo - desculpou-se. - Estou a tentar entender em que país estou, os valores e os costumes de Iquitos. Não tenho a menor intenção de que o senhor
me veja como um inquisidor.
A expressão do cônsul era, agora, hostil. Abanava-se devagar e no seu olhar havia apreensão além de ódio.
- Como um inquisidor, não, mas como um justiceiro - corrigiu-o, fazendo outra cara de desagrado. - Ou, se preferir, um herói. Já lhe disse que não gosto de heróis.
Não leve a mal a minha franqueza. Além disso, não se iluda. O senhor não vai mudar o que acontece aqui, senhor Casement. E o padre Urrutia também não. Em certo sentido,
para estas crianças é uma sorte o que lhes acontece. Ser criados, quero dizer. Seria mil vezes pior se crescessem nas tribos, a comer os piolhos, a morrer de febres
e de qualquer peste antes de completarem os dez anos, ou a trabalhar como animais nas explorações da borracha. Aqui vivem melhor. Já sei que este meu pragmatismo
o chocará.
Roger Casement não disse nada. Já sabia o que queria saber. E também sabia que a partir daí provavelmente o cônsul britânico em Iquitos seria outro inimigo de que
deveria defender-se.
- Vim para aqui para servir o meu país numa tarefa consular - acrescentou Mr. Stirs, olhando para o tapete de fibras do chão. - Cumpro-a cabalmente, garanto-lhe.
Os cidadãos britânicos, que não são muitos, conheço-os, defendo-os e sirvo-os em tudo o que faz falta. Faço tudo quanto posso para animar o comércio entre a Amazónia
e o Império Britânico. Mantenho o meu Governo informado sobre o movimento comercial, os barcos que vão e vêm, os incidentes fronteiriços. Entre as minhas obrigações
não figura a de combater a escravidão ou os abusos que os mestiços e os brancos do Peru cometem com os índios do Amazonas.

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- Sinto muito tê-lo ofendido, Mr. Stirs. Não falemos mais deste assunto.
Roger pôs-se de pé, deu as boas-noites ao dono da casa e retirou-se para o seu quarto. A tempestade tinha amainado, mas ainda chovia. A varanda contígua ao quarto
estava cheia de água. Havia um denso cheiro a plantas e terra húmida. A noite estava escura e o rumor dos insectos era intenso, como se não estivessem só na floresta,
mas também dentro do quarto. Com a tempestade tinha caído outra chuva: a daqueles escaravelhos escuros a que chamavam vinchucas. De manhã, os seus cadáveres fariam
tapete na varanda e, se os pisasse, estalariam como nozes e sujariam o chão com um sangue escuro. Despiu-se, vestiu o pijama e meteu-se na cama, debaixo do mosquiteiro.
Tinha sido imprudente, claro. Ofender o cônsul, um pobre homem, talvez um bom homem, que só esperava chegar à aposentação sem se meter em problemas, regressar a
Inglaterra e sepultar-se a cuidar do seu jardim no cottage em Surrey que terá ido pagando aos poucos com as suas poupanças. Isso era o que ele deveria ter feito,
e então teria menos doenças no corpo e menos angústias na alma.
Recordou a sua violenta discussão no Huayna, o barco em que viajou de Tabatinga, a fronteira entre o Peru e o Brasil, até Iquitos, com o explorador da borracha Víctor
Israel, judeu de Malta, estabelecido há muitos anos na Amazónia e com quem tinha tido diálogos longos e muito interessantes na coberta do barco. Víctor Israel vestia-se
de forma excêntrica, parecia sempre disfarçado, falava um inglês impecável e contava com graça a sua vida aventureira que parecia saída de um romance picaresco,
enquanto jogavam póquer, tomando cálices de conhaque, que o explorador de borracha adorava. Tinha o costume horrível de disparar às garças rosadas que sobrevoavam
o barco com um pistolão de outros tempos, mas, felizmente, era raro acertar. Até que, um dia, Roger não se lembrava porquê, Víctor Israel tinha feito a apologia
de Júlio C. Arana. O homem estava a tirar a Amazónia da selvajaria e a integrá-la no mundo

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moderno. Defendeu as "correrias", graças às quais, disse ele, ainda havia braços para recolher a borracha. Porque o grande problema da floresta era a falta de trabalhadores
que recolhessem essa preciosa substância com que o Criador tinha querido dotar aquela região e abençoar os Peruanos. Este "maná do céu" estava a desperdiçar-se pela
preguiça e pela estupidez dos selvagens que se recusavam a trabalhar como recolectores do látex e obrigavam os exploradores da borracha a ir às tribos para os trazer
à força. O que significava uma grande perda de tempo e de dinheiro para as empresas.
- Bom, isso é uma maneira de ver as coisas - interrompeu-o Roger Casement, com parcimónia. - Também há outra.
Víctor Israel era um homem alto, muito magro, com madeixas brancas na grande cabeleira lisa que lhe chegava aos ombros. Tinha uma barbita de vários dias na sua grande
cara ossuda e uns olhitos escuros triangulares, um pouco mefistofélicos, que se cravaram em Roger Casement, desconcertados. Vestia um colete colorido e, por cima,
suspensórios, bem como um xaile estreito de fantasia sobre os ombros.
- O que é que o senhor quer dizer?
- Refiro-me ao ponto de vista dos que o senhor chama selvagens - explicou Casement, em tom trivial, como se falasse do tempo ou dos mosquitos. - Ponha-se no lugar
deles, por um momento. Estão ali, nas suas aldeias, onde viveram anos ou séculos. Um bom dia, chegam uns senhores brancos ou mestiços com espingardas e revólveres
e exigem-lhes abandonar as suas famílias, as suas culturas, as suas casas, para ir recolher borracha a dezenas ou centenas de quilómetros, em benefício de uns estranhos,
cuja única razão é a força de que dispõem. Iria de boa vontade recolher o famoso látex, senhor Víctor?
- Eu não sou um selvagem que vive nu, adora a yacumama e afoga no rio os filhos se nascerem com lábios leporinos -respondeu o explorador de borracha, com uma gargalhada
sardónica que acentuava o seu descontentamento. - O senhor põe num mesmo plano os canibais da Amazónia e nós, os pioneiros,

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empresários e comerciantes que trabalhamos em condições heróicas e arriscamos a vida para transformar estas florestas numa terra civilizada.
- Talvez o senhor e eu tenhamos um conceito diferente do que é civilização, meu amigo - disse Roger Casement, sempre com aquele tonzinho de bonomia que parecia irritar
imenso Víctor Israel.
Na mesma mesa de póquer estavam o botânico Walter Folk e Henry Fielgald, enquanto os outros membros da Comissão se tinham deitado nas suas redes para descansar.
Era uma noite serena, morna e uma lua cheia iluminava as águas do Amazonas com um brilho prateado.
- Gostaria de saber qual é a sua ideia de civilização - disse Víctor Israel. Os seus olhos e a sua voz faiscavam. A irritação dele era tanta que Roger se interrogou
se o explorador de borracha não iria de repente sacar do arqueológico revólver que levava na cartucheira e disparar contra ele.
- Poder-se-ia sintetizar dizendo que é a de uma sociedade onde se respeita a propriedade privada e a liberdade individual - explicou, com muita calma, com todos
os sentidos alerta para o caso de Víctor Israel tentar agredi-lo. - Por exemplo, as leis britânicas proíbem também, com pena de prisão, utilizar a força contra os
nativos que se recusem a trabalhar nas minas ou nos campos. O senhor não pensa que a civilização seja isso. Ou estou enganado?
O peito magro de Víctor Israel subia e descia agitando a estranha blusa com mangas largas que ele trazia abotoada até ao pescoço e o colete colorido. Tinha os dois
polegares metidos nos suspensórios e os seus olhitos triangulares estavam injectados como se sangrassem. A sua boca aberta mostrava uma fieira de dentes desiguais
e sujos de nicotina.
- Segundo esse critério - afirmou trocista e mordaz -, nós, os Peruanos, teríamos que deixar que a Amazónia continuasse na Idade da Pedra durante séculos e séculos.
Para não ofender os pagãos nem ocupar as terras que eles nem sabem o que fazer

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com elas porque são preguiçosos e não querem trabalhar. Desperdiçar uma riqueza que poderia erguer o nível de vida dos Peruanos e fazer do Peru um país moderno.
É isso o que a Coroa britânica propõe para este país, senhor Casement?
- A Amazónia é um grande empório de riquezas, sem dúvida - concordou Casement, sem se alterar. - Nada mais justo que o Peru as aproveite. Mas sem abusar dos nativos,
sem caçá-los como animais e sem trabalho escravo. Melhor ainda, integrando-os na civilização através de escolas, hospitais, igrejas.
Víctor Israel desatou a rir, estremecendo como um boneco de molas.
- Em que mundo vive, senhor cônsul! - exclamou, erguendo as mãos de longos dedos esqueléticos de maneira teatral. -Nota-se que nunca viu na sua vida um canibal.
Sabe quantos cristãos os canibais daqui já comeram? Quantos brancos e cholos mataram com as suas lanças e dardos envenenados? A quantos cortaram as cabeças como
fazem os Shapras? Depois falaremos, quando o senhor tiver um pouco mais de experiência da barbárie.
- Vivi cerca de vinte anos em África e sei algo dessas coisas, senhor Israel - garantiu-lhe Casement. - Diga-se de passagem que conheci lá muitos brancos que pensavam
como o senhor.
Para evitar que a discussão ainda azedasse mais, Walter Folk e Henry Fielgald desviaram a conversa para temas menos espinhosos. Naquela noite, na sua insónia, depois
de dez dias em Iquitos a entrevistar pessoas de todas as condições, de anotar dezenas de opiniões recolhidas aqui e acolá de autoridades, juízes, militares, donos
de restaurantes, pescadores, proxenetas e empregados de mesa de bordéis e bares, Roger Casement disse a si mesmo que a imensa maioria dos brancos e mestiços de Iquitos,
peruanos e estrangeiros, pensavam como Víctor Israel. Para eles, os indígenas amazónicos não eram, propriamente falando, seres humanos, mas sim uma forma inferior
e desprezível da existência, mais perto dos animais que dos civilizados. Por isso era legítimo explorá-los, açoitá-los, sequestrá-los, levá-los

203
para os locais de extracção da borracha, ou, se resistissem, matá-los como um cão que contrai raiva. Era uma visão tão generalizada do indígena que, como dizia o
padre Ricardo Urrutia, ninguém se espantava que os criados de Iquitos fossem meninas e meninos roubados e vendidos às famílias loretanas pelo equivalente a uma ou
duas libras esterlinas. A angústia obrigou-o a abrir a boca e respirar fundo até que lhe chegasse o ar aos pulmões. Se sem sair desta cidade tinha visto e sabido
estas coisas, o que não veria no Putumayo?
Os membros da Comissão partiram de Iquitos a 14 de Setembro de 1910, a meio da manhã. Roger levava Frederick Bishop contratado como intérprete, um dos barbadianos
que entrevistara. Bishop falava espanhol e garantia que conseguia entender e fazer-se entender nas duas línguas indígenas mais faladas nos sítios das explorações:
o bora e o huitoto. O Liberal, o maior da frota de quinze barcos da Peruvian Amazon Company, estava bem conservado. Dispunha de pequenos camarotes onde os viajantes
se podiam instalar dois a dois. Tinha redes na proa e na parte traseira para os que preferiam dormir à intempérie. Bishop temia voltar ao Putumayo e pediu a Roger
Casement que deixasse escrito que a Comissão o protegeria durante a viagem e que, depois, seria repatriado para Barbados pelo Governo britânico.
A travessia de Iquitos até La Chorrera, capital do enorme território entre os rios Napo e Caquetá onde a Peruvian Amazon Company de Júlio C. Arana tinha as suas
operações, durou oito dias de calor, nuvens de mosquitos, aborrecimento e monotonia de paisagem e de ruídos. O barco desceu pelo Amazonas cuja largura a partir de
Iquitos crescia até as margens se tornarem invisíveis, atravessou a fronteira do Brasil em Tabatinga e continuou a descer pelo Javari, para depois reentrar no Peru
pelo Igaraparaná. Neste troço as margens aproximavam-se e às vezes as lianas e ramos das árvores altíssimas sobrevoavam a coberta do navio. Ouviam-se e viam-se bandos
de papagaios a ziguezaguear e a gritar entre as árvores, ou garças rosadas

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parcimoniosas, a apanhar sol numa ilhota e a fazer equilíbrio numa só pata, grandes carapaças de tartarugas cuja cor parda sobressaía de umas águas um tanto mais
pálidas, e, às vezes, o eriçado lombo de um crocodilo a dormitar no lodo da margem contra o qual disparavam, do barco, tiros de espingarda ou de revólver.
Roger Casement passou uma boa parte da travessia a ordenar as suas notas e cadernos de Iquitos e a traçar um plano de trabalho para os meses que passaria nos domínios
de Júlio C. Arana. De acordo com as instruções do Foreign Office devia entrevistar apenas os barbadianos que trabalhavam nas estações porque eram cidadãos britânicos,
e deixar em paz os empregados peruanos e de outras nacionalidades, para não ferir a susceptibilidade do Governo do Peru. Mas ele não pensava respeitar esses limites.
A sua investigação ficaria torta, manca e coxa se não recolhesse também informação dos chefes de estação, dos seus "rapazes" ou "racionais" - índios castelhanizados
encarregados da vigilância dos trabalhos e da aplicação dos castigos - e dos próprios indígenas. Só deste modo teria uma visão cabal da maneira como a companhia
de Júlio C. Arana violava as leis e a ética nas suas relações com os nativos.
Em Iquitos, Pablo Zumaeta avisou os membros da Comissão que, por instruções de Arana, a companhia tinha enviado à frente para o Putumayo um dos seus chefes principais,
o senhor Juan Tizón, para que os recebesse e lhes facilitasse os deslocamentos e o trabalho. Os comissários supuseram que a verdadeira razão da viagem de Tizón ao
Putumayo era ocultar os traços dos abusos e apresentar-lhes uma imagem maquilhada da realidade.
Chegaram a La Chorrera ao meio-dia de 22 de Setembro de 1910. O nome do lugar devia-se às torrentes e cataratas que provocavam um estreitamento brusco do caudal
do rio, espectáculo ruidoso e soberbo de espuma, barulho, rochas húmidas e redemoinhos que quebravam a monotonia com que corria o Iga-raparaná, o afluente em cujas
margens ficava o quartel-general

205
da Peruvian Amazon Company. Para chegar do embarcadouro aos escritórios e vivendas de La Chorrera era preciso trepar uma escarpada encosta de lama e mato. As botas
dos viajantes afundavam-se no lodo e estes, às vezes, para não cair tinham de se apoiar nos carregadores índios que levavam as bagagens. Enquanto cumprimentava aqueles
que tinham vindo recebê-los, Roger, com um pequeno estremecimento, verificou que um em cada três ou quatro indígenas seminus que carregavam os fardos ou olhavam
para eles da margem com curiosidade, batendo nos braços com as mãos abertas para afastar os mosquitos, tinham nas costas, nas nádegas e nas coxas cicatrizes que
só podiam ser de chicotadas. O Congo, sim, o Congo por todo o lado.
Juan Tizón era um homem alto, vestido de branco, de maneiras aristocráticas, muito cortês, que falava o inglês suficiente para se entender com ele. Devia rasar os
cinquenta anos e via-se a léguas, pela sua cara bem barbeada, pelo seu bigodinho recortado, pelas suas mãos finas e aspecto, que não estava ali, no meio da floresta,
no seu elemento, que era um homem de escritório, salões e cidade. Deu-lhes as boas-vindas em inglês e em espanhol e apresentou-lhes o seu acompanhante, cujo simples
nome causou repugnância em Roger: Víctor Macedo, chefe de La Chorrera. Este, pelo menos, não tinha fugido. Os artigos de Saldaña Roca e os de Hardenburg na revista
Truth de Londres apontavam-no como um dos mais sanguinários lugar-tenentes de Arana no Putumayo.
Enquanto escalavam a ladeira, observou-o. Era um homem de idade indefinida, fortalhaço, mais baixo que alto, um cholo branqueado, mas com os traços um pouco orientais
de um indígena, nariz achatado, boca de lábios muito grossos sempre abertos que mostravam dois ou três dentes de ouro, a expressão dura de alguém curtido pela intempérie.
Ao contrário dos recém-chegados, subia com facilidade a empinada encosta. Tinha um olhar um tanto ou quanto oblíquo, como se olhasse de lado para evitar o encandeamento
do Sol ou porque

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receava encarar as pessoas. Tizón andava desarmado, mas Víc-tor Macedo ostentava um revólver no cinto das calças.
Na clareira, muito ampla, havia construções de madeira sobre estacas - grossos troncos de árvores ou colunas de cimento - com varandas no andar superior, as maiores
com telhados de calamina ou, as mais pequenas, de folhas de palmeira entrançadas. Tizón ia-lhes explicando ao mesmo tempo que apontava - "Ali são os escritórios",
"Aqueles são os depósitos de borracha", "Nesta casa ficarão os senhores alojados" - mas Roger mal o ouvia. Observava os grupos de indígenas meio ou totalmente nus
que os olhavam com indiferença ou evitavam olhar para eles: homens, mulheres e crianças enfermiços, alguns com pintura na cara e no peito, de pernas tão magras como
canivetes, peles pálidas, amareladas e, por vezes, com incisões e penduricalhos nos lábios e orelhas que lhe faziam lembrar os nativos africanos. Mas aqui não havia
negros. Os poucos mulatos e morenos que vislumbrou usavam calças e botins e certamente que eram parte do contingente de Barbados. Contou quatro. Reconheceu logo
os "rapazes" ou "racionais", pois embora fossem índios e andassem descalços, tinham o cabelo cortado, penteavam-se como os "cristãos", vestiam calças e camisas,
e traziam paus e chicotes pendurados à cintura.
Enquanto os outros membros da Comissão tiveram de partilhar os quartos dois a dois, Roger Casement teve o privilégio de contar com um só para si. Era um quartinho
pequeno, com uma rede em vez de cama e um móvel que podia servir ao mesmo tempo de baú e de secretária. Em cima de uma mesinha havia um lavatório, um jarro de água
e um espelho. Explicaram-lhe que no andar de baixo, junto à entrada, havia um poço séptico e um chuveiro. Assim que se instalou e deixou as suas coisas, antes de
se sentar a almoçar, Roger disse a Juan Tizón que queria começar naquela mesma tarde a entrevistar todos os barbadianos que houvesse em La Chorrera.
Nessa altura já se lhe tinha metido no nariz aquele cheiro rançoso e penetrante, oleaginoso, parecido com o das plantas

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e folhas podres. Impregnava todos os recantos de La Chorrera e acompanhá-lo-ia de manhã, à tarde e à noite durante os três meses que durou a sua viagem ao Putumayo,
um cheiro a que nunca se habituou, que o fez vomitar e lhe dava arranques de náusea, uma pestilência que parecia vir do ar, da terra, dos objectos e dos seres humanos
e que, a partir de então, se converteria para Roger Casement no símbolo da maldade e do sofrimento que aquela seiva suada pelas árvores da Amazónia tinha exacerbado
a extremos vertiginosos. "É curioso", comentou ele a Juan Tizón, no dia da sua chegada. "No Congo estive muitas vezes em zonas de extracção de borracha e em depósitos
de borracha. Mas não me lembro que o látex congolês exalasse um cheiro tão forte e tão desagradável." "São variedades diferentes", explicou-lhe Tizón. "Este cheira
mais e também é mais resistente que o africano. Nas placas que vão para a Europa deita-se-lhe talco para baixar a pestilência."
Embora o número de barbadianos em toda a região do Putumayo fosse de cento e noventa e seis, só havia seis em La Chorrera. Dois deles recusaram-se à partida a conversar
com Roger, apesar deste, por intermédio de Bishop, lhes tivesse garantido que o seu testemunho seria confidencial, que em caso algum seriam processados pelo que
lhe dissessem, e que ele em pessoa se encarregaria de os transferir para Barbados se não quisessem continuar a trabalhar para a companhia de Arana. Os quatro que
aceitaram dar testemunho estavam há cerca de sete anos no Putumayo e tinham trabalhado para a Peru-vian Amazon Company em diversas estações como capatazes, um cargo
intermédio entre os chefes e os "rapazes" ou "racionais". O primeiro com quem ele conversou, Donal Francis, era um negro alto e forte que coxeava e tinha um olho
nublado, estava tão nervoso e mostrava-se tão desconfiado que Roger pressupôs logo que não obteria grande coisa dele. Respondia por monossílabos e negou todas as
acusações. Segundo ele, em La Chorrera, chefes, empregados e "até selvagens" davam-se muito bem. Nunca houve problemas e muito menos violência.

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Tinha sido instruído sobre o que deveria dizer e fazer perante a Comissão.
Roger suava copiosamente. Bebia água aos golinhos. Seriam as outras entrevistas aos barbadianos do Putumayo tão inúteis como esta? Não foram. Philip Bertie Lawrence,
Seaford Greenwich e Stanley Sealy, sobretudo este último, depois de vencer uma inibição inicial e de receber a promessa de Roger, em nome do Governo britânico, de
que seriam repatriados para Barbados, desataram a falar, a contar tudo e a culparem-se a si mesmos com veemência às vezes frenética, como que impacientes por descarregar
as suas consciências. Stanley Sealy ilustrou o seu testemunho com tais precisões e exemplos que, apesar da sua longa experiência com as atrocidades humanas, Casement
em certos momentos teve enjoos e uma angústia que mal lhe permitia respirar. Quando o barbadiano acabou de falar já se tinha feito noite. O zumbido dos insectos
nocturnos parecia atroador como se milhares deles voassem à sua volta. Os dois juntos tinham fumado um maço de cigarros. Na escuridão crescente, Roger já não conseguia
ver os traços daquele mulato pequeno que era Stanley Sealy, só o contorno da sua cabeça e os seus braços musculados. Estava há pouco tempo em La Chorrera. Tinha
trabalhado dois anos na estação de Abissínia, como braço direito dos chefes Abelardo Agúero e Augusto Jiménez e, antes, em Matanzas, com Armando Normand. Mantinham-se
calados. Roger sentia as picadas dos mosquitos na cara, no pescoço e nos braços, mas não tinha forças para os espantar.
De repente, apercebeu-se de que Sealy estava a chorar. Tinha levado as mãos à cara e soluçava devagar, com uns suspiros que lhe inchavam o peito. Roger via o brilho
das lágrimas nos seus olhos.
- Acreditas em Deus? - perguntou-lhe. - És uma pessoa religiosa?
- Fui, em criança, parece-me - gemeu o mulato, com a voz pungente. - A minha madrinha levava-me à igreja aos domingos, lá em St. Patrick, a terr aonde nasci. Agora,
não sei.

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- Pergunto-te isto porque se calhar ajudava-te falares com Deus. Não digo rezar, mas sim falar com ele. Tenta. Com a mesma franqueza com que falaste comigo. Conta-lhe
o que sentes, porque é que estás a chorar. Ele pode ajudar-te mais do que eu, em todo o caso. Eu não sei como fazer. Sinto-me tão mal como tu, Stanley.
Tal como Philip Bertie Lawrence e Seaford Greenwich, Stanely Sealy estava disposto a repetir o seu testemunho perante os membros da Comissão e, inclusivamente, diante
do senhor Juan Tizón. Desde que permanecesse junto de Casement e viajasse com este para Iquitos e depois para Barbados.
Roger entrou no seu quarto, acendeu as torcidas de azeite, tirou a camisa e lavou o peito, as axilas e a cara com água da bacia. Gostaria de tomar um duche, mas
seria preciso descer e tomá-lo ao ar livre e ele sabia que o seu corpo seria devorado pelos mosquitos que, à noite, se multiplicavam em número e em ferocidade.
Desceu para jantar no rés-do-chão, numa sala também iluminada com candeeiros de azeite. Juan Tizón e os seus companheiros de viagem estavam a beber um uísque morno
e aguado. Conversavam de pé, ao mesmo tempo que três ou quatro criados indígenas, seminus, iam trazendo peixe frito e no forno, mandiocas fervidas, batatas-doces
e farinha de milho para salpicar os alimentos tal como faziam os Brasileiros com a farofa. Outros espantavam as moscas com uns leques de palha.
- Como é que correu com os barbadianos? - perguntou-lhe Juan Tizón, estendendo-lhe um copo de uísque.
- Melhor do que eu esperava, senhor Tizón. Tinha receio que eles fossem renitentes a falar. Mas, pelo contrário. Três deles falaram comigo com uma franqueza total.
- Espero que partilhem comigo as queixas que receberem - disse Tizón, meio a brincar, meio a sério. - A companhia quer corrigir o que fizer falta e melhorar. Foi
sempre essa a política do senhor Arana. Bom, calculo que tenham fome. Para a mesa, senhores!

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Sentaram-se e começaram a servir-se das diferentes travessas. Os membros da Comissão tinham passado a tarde a percorrer as instalações de La Chorrera e, com ajuda
de Bishop, a conversar com os empregados da administração e dos depósitos. Pareciam todos cansados e com pouca vontade de falar. Teriam sido as suas experiências
neste primeiro dia tão deprimentes como as dele?
Juan Tizón ofereceu-lhes vinho, mas, como os avisou que com o transporte e o clima o vinho francês chegava ali já muito revolvido e às vezes azedado, todos preferiram
continuar com o uísque.
A meio da refeição, Roger comentou, deitando um olhar para os índios que o serviam:
- Vi que muitos índios e índias de La Chorrera têm cicatrizes nas costas, nas nádegas e nas coxas. Aquela rapariga, por exemplo. Quantas chicotadas é que recebem,
em geral, quando são açoitados?
Houve um silêncio geral, em que o crepitar dos candeeiros de azeite e o zumbido dos insectos cresceu. Todos olhavam para Juan Tizón, muito sérios.
- Essas cicatrizes, na maior parte das vezes, são eles que as fazem a eles mesmos - afirmou este, incomodado. - Nas suas tribos têm esses ritos de iniciação bastante
bárbaros, os senhores sabem, como abrir buracos na cara, nos lábios, nas orelhas, nos narizes, para meterem anéis, dentes e todo o tipo de penduricalhos. Não nego
que algumas possam ter sido feitas por capatazes que não respeitaram as normas da companhia. O nosso regulamento proíbe os castigos físicos de maneira categórica.
- A minha pergunta não ia por aí, senhor Tizón - desculpou-se Casement. - Mas sim que, embora se vejam tantas cicatrizes, não vi nenhum índio com a marca da companhia
no corpo.
- Não sei o que quer dizer - respondeu Tizón, baixando o
garfo.

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- Os barbadianos explicaram-me que muitos indígenas estão marcados com as iniciais da companhia: CA, isto é, Casa Arana. Como as vacas, os cavalos e os porcos. Para
que não fujam nem os colombianos da extracção da borracha os roubem. Eles próprios marcaram muitos. Com fogo às vezes e outras vezes à faca. Mas ainda não vi nenhum
com essas marcas. O que foi feito deles?
Juan Tizón, de repente, perdeu a sua compostura e as suas maneiras elegantes. Tinha ficado congestionado e tremia de indignação.
- Não lhe permito que fale comigo nesse tom! - exclamou ele, misturando o inglês com o espanhol. - Estou aqui para lhes facilitar o trabalho, não para receber as
vossas ironias.
Roger Casement anuiu, sem se alterar.
- Peço-lhe desculpa, não quis ofendê-lo - disse ele, calmo. - Acontece que, embora eu tenha sido testemunha no Congo de crueldades indizíveis, a de marcar seres
humanos com fogo ou à faca ainda não tinha visto. Tenho a certeza que o senhor não é responsável por esta atrocidade.
- Claro que não sou responsável por nenhuma atrocidade! - voltou a levantar a voz Tizón, gesticulando. Revolvia os olhos nas órbitas, fora de si. - Se se cometem,
a culpa não é da companhia. Não vê que lugar é este, senhor Casement? Aqui não há qualquer autoridade, nem polícia, nem juízes, nem ninguém. Os que trabalham aqui
como chefes, como capatazes, como ajudantes, não são pessoas educadas, mas sim, em muitos casos, analfabetos, aventureiros, homens rudes, endurecidos pela selva.
Às vezes cometem abusos que espantam uma pessoa civilizada. Sei isso muito bem. Fazemos o que podemos, acredite. O senhor Arana concorda convosco. Todos os que tiverem
cometido atropelos serão despedidos. Eu não sou cúmplice de nenhuma injustiça, senhor Casement. Eu tenho um nome respeitável, uma família que significa muito neste
país, eu sou um católico que cumpre a sua religião.

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Roger pensou que Juan Tizón acreditava provavelmente no que dizia. Um bom homem que, em Iquitos, Manaus, Lima ou Londres não sabia nem queria saber o que acontecia
aqui. Devia maldizer a hora em que Júlio C. Arana teve a ideia de o mandar para este recanto fora do mundo para cumprir esta ingrata tarefa e passar mil incomodidades
e maus bocados.
- Temos de trabalhar juntos, colaborar - repetia Tizón, um pouco mais calmo, gesticulando muito. - O que estiver mal, será corrigido. Os empregados que tiverem cometido
atrocidades serão sancionados! Dou a minha palavra de honra! A única coisa que vos peço é que vejam em mim um amigo, alguém que está do vosso lado.
Pouco depois, Juan Tizón disse que se sentia um pouco indisposto e preferia retirar-se. Deu as boas-noites e foi-se embora. Ficaram em volta da mesa só os membros
da Comissão.
- Marcados como animais? - murmurou o botânico Wal-ter Folk, com ar céptico. - Isso pode ser verdade?
- Três dos quatro barbadianos que interroguei hoje garantiram-mo - confirmou Casement. - Stanley Sealy diz tê-lo feito ele próprio, na estação de Abissínia, por
ordem do seu chefe, Abelardo Agúero. Mas as marcas nem sequer me parece que sejam o pior. Ouvi coisas ainda mais terríveis esta tarde.
Continuaram a conversar, já sem tocar na comida, até se acabarem as duas garrafas de uísque que havia na mesa. Os comissários estavam impressionados com as cicatrizes
nas costas dos indígenas e com o cepo ou potro de torturas que tinham descoberto num dos depósitos de La Chorrera onde se armazenava a borracha. Diante do senhor
Tizón, que tinha passado um muito mau bocado, Bishop explicou-lhes como é que funcionava aquela armação de madeira e cordas em que o indígena era introduzido e comprimido,
de cócoras. Não podia mexer os braços nem as pernas. Era atormentado apertando as barras de madeira ou pendurando-o no ar. Bishop esclareceu que o cepo estava sempre
no centro do descampado de todas as estações. Perguntaram a um dos "racionais" do depósito

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quando é que tinham trazido o aparelho para aquele sítio. O "rapaz" explicou-lhes que só na véspera da sua chegada.
Decidiram que a Comissão deveria ouvir Philip Bertie Lawrence, Seaford Greenwich e Stanley Sealy no dia seguinte. Seymour Bell sugeriu que Juan Tizón estivesse presente.
Houve opiniões divergentes, sobretudo a de Walter Folk, que receava que perante o alto chefe os barbadianos se retractassem do que tinham dito.
Naquela noite Roger Casement não pregou olho. Esteve a tomar notas sobre os seus diálogos com os barbadianos até que o candeeiro se apagou porque o azeite se tinha
acabado. Deitou-se na rede e manteve-se acordado, dormindo por momentos e acordando a toda a hora com os ossos e os músculos doridos e sem conseguir tirar de cima
o mal-estar que o embargava.
E a Peruvian Amazon Company era uma companhia britânica! No seu Directório figuravam personalidades tão respeitadas do mundo dos negócios e da City como Sir John
Lister-Kaye, o barão de Souza-Deiro, John Russell Gubbins e Henry M. Read. Que diriam aqueles sócios de Júlio C. Arana quando lessem, no relatório que apresentaria
ao Governo, que a empresa que tinham legitimado com o seu nome e dinheiro praticava a escravidão, conseguia recolectores de borracha e criados através de "correrias"
de rufiões armados que capturavam homens, mulheres e crianças indígenas e os levavam para os locais de recolha da borracha onde os exploravam de forma iníqua, pendurando-os
do cepo, marcando-os com fogo e à faca e açoitando-os até ficarem sem pinga de sangue se não trouxessem a quota mínima de trinta quilos de borracha cada três meses.
Roger tinha estado nos escritórios da Peruvian Amazon Company em Salisbury House, E. C, no centro financeiro de Londres. Um lugar espectacular, com uma paisagem
de Gainsborough nas paredes, secretárias de uniforme, escritórios alcatifados, sofás de couro para as visitas e um enxame de clerks com as suas calças listradas,
as suas sobrecasacas pretas e camisas de alvo colarinho duro e gravatinhas de crinolina, fazendo contas,

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enviando e recebendo telegramas, vendendo e cobrando as remessas de borracha com talco em todas as cidades industriais da Europa. E no outro extremo do mundo, no
Putumayo, hui-totos, ocaimas, muinanes, nonuias, andoques, rezígaros e boras a extinguirem-se pouco a pouco sem que ninguém mexesse um dedo para mudar aquele estado
de coisas.
"Porque é que estes indígenas não tentaram revoltar-se?", tinha perguntado o botânico Walter Folk durante o jantar. E acrescentou: "É verdade que não têm armas de
fogo. Mas são muitos, poderiam rebelar-se e, ainda que morressem alguns, dominar os seus verdugos pelo número." Roger respondeu-lhe que não era assim tão simples.
Não se rebelavam pelas mesmas razões que em África os Congoleses também não o fizeram. Só acontecia excepcionalmente, em casos localizados e esporádicos, actos de
suicídio de um indivíduo ou de um pequeno grupo. Porque, quando o sistema de exploração era tão extremo, destruía os espíritos ainda antes dos corpos. A violência
de que eram vítimas aniquilava a vontade de resistência, o instinto de sobreviver, convertia os indígenas em autómatos paralisados pela confusão e pelo terror. Muitos
não entendiam o que lhes estava a acontecer como uma consequência da maldade de homens concretos e específicos, mas sim como um cataclismo mítico, uma maldição dos
deuses, um castigo divino contra o qual não tinham escapatória.
Embora aqui, no Putumayo, Roger tivesse descoberto nos documentos sobre a Amazónia que havia consultado, que há poucos anos tinha havido uma tentativa de rebelião,
na estação de Abissínia, onde estavam os boras. Era um tema de que ninguém queria falar. Todos os barbadianos o tinham evitado. O jovem soba bora do lugar, chamado
Katenere, uma noite, apoiado por um grupinho da sua tribo, roubou as espingardas dos chefes e dos "racionais", assassinou Bartolomé Zumaeta (parente de Pablo Zumaeta),
que numa bebedeira tinha violado a mulher dele e perdeu-se na floresta. A companhia pôs a sua cabeça a prémio. Saíram várias expedições à sua procura. Durante

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cerca de dois anos não conseguiram deitar-lhe a mão. Por fim, um grupo de caçadores, guiado por um índio delator, rodeou a palhota onde Katenere estava escondido
com a mulher. O soba conseguiu fugir, mas a mulher foi capturada. O chefe Vásquez violou-a ali mesmo, em público, e pô-la no cepo sem água nem alimentos. Manteve-a
assim vários dias. De vez em quando, mandava-a açoitar. Por fim, uma noite, o soba apareceu. Tinha certamente espiado as torturas da sua mulher do meio da espessura
do mato. Atravessou o descampado, atirou a carabina que trazia e foi ajoelhar-se em atitude submissa junto ao cepo onde a sua esposa agonizava ou já estava morta.
Vásquez ordenou aos gritos aos "racionais" que não atirassem sobre ele. Ele próprio arrancou os olhos a Katenere com um arame. Depois mandou-o queimar vivo, juntamente
com a mulher, perante os indígenas dos arredores colocados em roda. Teriam acontecido assim as coisas? A história tinha um final romântico que, pensava Roger, provavelmente
havia sido alterado para o aproximar do apetite de truculência tão difundido nestas terras quentes. Mas, pelo menos, ali ficavam o símbolo e o exemplo: um nativo
tinha-se rebelado, castigara um torturador e morrera como um herói.
Assim que apareceu a luz do alvorecer, abandonou a casa onde se alojava e desceu a encosta até ao rio. Tomou banho nu, depois de encontrar uma pequena poça onde
se podia resistir à corrente. A água fria fez-lhe o efeito de uma massagem. Quando se vestiu sentia-se fresco e reconfortado. Ao regressar a La Chorrera desviou-se
para percorrer o sector onde estavam as palhotas dos huitotos. As cabanas, espalhadas entre sementeiras de mandioca, milho e bananeiras, eram redondas, com tabiques
de madeira de chonta presos com lianas e protegidas com telhados de folhas tecidas de jarina que chegavam ao chão. Viu mulheres esqueléticas a carregar filhos -
nenhuma respondeu às vénias de saudação que lhes fez - mas nenhum homem. Quando regressou à cabana, uma mulher indígena estava a pôr no seu quarto a roupa que lhe
deu a lavar no dia da

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sua chegada. Perguntou quanto lhe devia, mas a mulher - jovem, com umas riscas verdes e azuis na cara - olhou para ele sem compreender. Ordenou a Bishop que lhe
perguntasse quanto lhe devia. Este fê-lo, em huitoto, mas a mulher pareceu não entender.
- Não lhe deve nada - disse Bishop. - Aqui não circula o dinheiro. Além disso, é uma das mulheres do chefe de La Chorrera, Víctor Macedo.
- Quantas tem?
- Agora, cinco - explicou o barbadiano. - Quando eu trabalhei aqui, tinha sete pelo menos. Trocou-as. É assim que todos fazem.
Riu-se e disse uma piada a que Roger Casement não reagiu: "Com este clima, as mulheres gastam-se muito depressa. É preciso renová-las a toda a hora, como a roupa."
Roger Casement iria recordar as duas semanas seguintes que permaneceram em La Chorrera, até que os membros da Comissão se deslocaram para a estação de Ocidente,
como as mais atarefadas e intensas da viagem. Os seus entretenimentos consistiam em tomar banho no rio, nos vaus ou nas cataratas com menos torrente, longos passeios
pela floresta, tirar muitas fotografias e, já tarde na noite, uma partida de brídege com os seus companheiros. Na verdade, passava a maior parte do dia e da tarde
a investigar, a escrever, a interrogar as pessoas do lugar ou a trocar impressões com os seus companheiros.
Contrariamente ao que estes temiam, Philip Bertie Lawrence, Seaford Greenwich e Stanley Sealy não se intimidaram perante a Comissão e a presença de Juan Tizón. Confirmaram
tudo o que tinham contado a Roger Casement e ampliaram os seus testemunhos, revelando novos factos sangrentos e outros abusos. Às vezes, nos interrogatórios, Roger
via empalidecer um ou outro dos comissários como se fosse desmaiar.
Juan Tizón mantinha-se mudo, sentado atrás deles, sem abrir a boca. Tomava notas em pequenos cadernos. Nos primeiros dias, depois dos interrogatórios, tentou diminuir
e questionar

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os testemunhos referentes a torturas, assassínios e mutilações. Mas, a partir do terceiro ou quarto dia, operou-se nele uma transformação. Permanecia calado à hora
das refeições, mal comia e respondia com monossílabos e murmúrios quando lhe dirigiam a palavra. Ao quinto dia, enquanto bebiam um copo antes do jantar, rebentou.
Com os olhos injectados de sangue, dirigiu-se a todos os presentes: "Isto vai mais além de tudo o que eu alguma vez consegui imaginar. Juro-lhes pela alma da minha
santa mãe, da minha esposa e dos meus filhos, que é quem mais amo no mundo, que tudo isto é para mim uma surpresa absoluta. Sinto um horror tão grande como o vosso.
Estou doente com as coisas que ouvimos. É possível que haja exageros nas denúncias destes barbadianos, que queiram agradar-vos. Mas mesmo assim, não há dúvida, aqui
cometeram-se crimes intoleráveis, monstruosos, que devem ser denunciados e castigados. Eu juro-vos que..."
Ficou com a voz embargada e procurou uma cadeira onde sentar-se. Esteve muito tempo cabisbaixo, com o copo na mão. Balbuciou que Júlio C. Arana não podia suspeitar
o que acontecia ali, nem sequer os seus principais colaboradores em Iquitos, Manaus ou Londres. Ele seria o primeiro a exigir que se pusesse um fim a tudo aquilo.
Roger, impressionado com a primeira parte do que lhes disse, pensou que Tizón, agora, era menos espontâneo. E que, humano ao fim e ao cabo, pensava na sua situação,
na sua família e no seu futuro. Em todo o caso, a partir daquele dia, Juan Tizón pareceu deixar de ser um alto funcionário da Peruvian Amazon Company para se converter
em mais um membro da Comissão. Colaborava com eles com zelo e diligência, trazendo-lhes frequentemente dados novos. E exigia-lhes a toda a hora que tomassem precauções.
Tinha-se enchido de receio, espiava à sua volta, cheio de suspeitas. Sabendo tudo o que ali acontecia, a vida de todos corria perigo, sobretudo a do cônsul-geral.
Vivia em contínuo sobressalto. Temia que os barbadianos fossem revelar a Víctor Macedo o que tinham confessado. Se o fizessem, não se podia descartar

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a hipótese de este sujeito, antes de ser levado aos tribunais ou entregue à polícia, lhes montar uma emboscada e que dissesse depois que tinham perecido às mãos
dos selvagens.
A situação deu uma volta num amanhecer em que Roger Casement sentiu que alguém batia à sua porta com os nós dos dedos. Ainda estava escuro. Foi abrir e na abertura
distinguiu uma silhueta que não era a de Frederick Bishop. Tratava-se de Donal Francis, o barbadiano que tinha insistido em que ali reinava a normalidade. Falava
em voz muito baixa e assustada. Tinha reflectido e agora queria dizer-lhe a verdade. Roger mandou-o entrar. Conversaram sentados no chão pois Donal temia que, se
saíssem para a varanda, pudessem ouvi-los.
Garantiu-lhe que lhe mentira com medo de Víctor Macedo. Este tinha-o ameaçado: se denunciasse aos ingleses o que aqui acontecia, não voltaria a pôr os pés em Barbados
e, assim que aqueles partissem, depois de lhe cortar os testículos, atá-lo-ia nu a uma árvore para que as formigas curhuinses o comessem. Roger tranquilizou-o. Seria
repatriado para Bridgetown, tal como os outros barbadianos. Mas não quis ouvir este novo testemunho em privado. Francis devia falar à frente dos comissários e de
Tizón.
Testemunhou naquele mesmo dia, na sala de jantar, onde tinham as sessões de trabalho. Mostrava muito medo. Os olhos viravam-se para todos os lados, mordia os lábios
grossos e às vezes não encontrava as palavras. Falou cerca de três horas. O momento mais dramático da sua confissão ocorreu quando disse que, havia uns dois meses,
Víctor Macedo ordenou-lhes a ele e a um "rapaz" chamado Joaquín Piedra que atassem as mãos e os pés a dois huitotos que alegavam estar doentes para justificar a
quantidade ridícula de borracha que tinham reunido, os metessem no rio e os mantivessem presos debaixo de água até se afogarem. Depois mandou que os "racionais"
arrastassem os cadáveres para a floresta para que os animais os comessem. Donal ofereceu-se para os levar até ao sítio onde ainda se podiam encontrar alguns membros
e ossos dos huitotos.

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A 28 de Setembro, Casement e os membros da Comissão abandonaram La Chorrera na lancha Veloz da Peruvian Ama-zon Company, rumo a Ocidente. Subiram durante várias
horas o rio Igaraparaná, fizeram escalas nos entrepostos de aprovisionamento de borracha de Victoria e Naimenes para comer qualquer coisa, dormiram na própria lancha
e no dia seguinte, depois de outras três horas de navegação, atracaram no embarcadouro de Ocidente. Foram recebidos pelo chefe da estação, Fidel Velarde, com os
seus ajudantes Manuel Torrico, Rodríguez e Acosta. "Têm todos cara e atitude de assassinos e foragidos", pensou Roger Casement. Estavam armados com pistolas e carabinas
Winchester. Certamente seguindo instruções, mostraram-se submissos para com os recém-chegados. Juan Tizón, uma vez mais, pediu-lhes prudência. De modo nenhum deviam
revelar a Velarde e aos seus "rapazes" as coisas que tinham averiguado.
Ocidente era um acampamento mais pequeno que La Chorrera e estava cercado por uma paliçada de paus afiados como lanças. "Racionais" armados com carabinas vigiavam
as entradas.
- Porque é que a estação está tão protegida? - perguntou Roger a Juan Tizón. - Esperam um ataque dos índios?
- Dos índios, não. Embora nunca se saiba se vai aparecer outro Katenere por aqui. Mais dos colombianos, que cobiçam estes territórios.
Fidel Velarde tinha em Ocidente quinhentos e trinta indígenas, a maioria dos quais estava agora na floresta, a apanhar borracha. Traziam o que recolhiam de quinze
em quinze dias e depois voltavam a embrenhar-se na selva outras duas semanas. Aqui ficavam as mulheres e os filhos, num povoado que se estendia pelas margens do
rio, fora da paliçada. Velarde acrescentou que os índios ofereceriam nessa tarde uma festa aos "amigos visitantes".
Levou-os até à casa onde ficariam alojados, uma construção quadrangular montada em cima de estacas, de dois andares, com porta e janelas cobertas com redes para
os mosquitos.

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Em Ocidente o cheiro a borracha que saía dos depósitos e impregnava o ar era tão forte como o de La Chorrera. Roger alegrou-se ao descobrir que, aqui, dormiria numa
cama em vez de ser numa rede. Era mais um catre, com um colchão de sementes, onde ao menos se podia deitar numa postura direita. A rede tinha-lhe agravado as dores
musculares e a insónia.
A festa teve lugar ao início da tarde, numa clareira vizinha do povoado huitoto. Um enxame de indígenas tinha carregado mesas, cadeiras e panelas com comida e bebidas
para os forasteiros. Esperavam-nos, formados em círculo, muito sérios. O céu estava limpo e não se pressentia a mais pequena ameaça de chuva. Mas nem o bom tempo
nem o espectáculo do Igaraparaná a rasgar a planície de espessas florestas e a ziguezaguear à sua volta conseguiu alegrar Roger Casement. Sabia que aquilo a que
iam assistir seria triste e deprimente. Três ou quatro dezenas de índios e índias - aqueles muito velhos ou crianças e estas em geral bastante jovens -, alguns nus
e outros metidos na cushma ou túnica com que Roger tinha visto muitos indígenas em Iquitos, dançaram, formando uma roda, ao ritmo dos sons do manguaré, tambores
feitos de troncos de árvores escavadas, a que os huitotos, batendo-lhes com uns paus com ponta de borracha, arrancavam uns sons roucos e prolongados que, dizia-se,
levavam mensagens e lhes permitiam comunicar a grandes distâncias. As filas de dançarinos tinham guizos de sementes nos tornozelos e nos braços, que repenicavam
com os saltinhos arrítmicos que davam. Ao mesmo tempo cantarolavam umas melodias monótonas, com um toque de amargura que ligava com os seus semblantes sérios, rudes,
medrosos ou indiferentes.
Mais tarde, Casement perguntou aos seus companheiros se haviam reparado no grande número de índios que tinham as costas, as nádegas e as pernas com cicatrizes. Houve
um assomo de discussão entre eles sobre qual a percentagem de huitotos que dançaram e que apresentavam marcas de chicotadas. Roger dizia que era oitenta por cento,
Fielgald e Folk que não seria mais de sessenta por cento. Mas todos eram unânimes em

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dizer que aquilo que mais os tinha impressionado fora um rapazinho só pele e osso com queimaduras em todo o corpo e parte da cara. Pediram a Frederick Bishop que
averiguasse se aquelas marcas se deviam a um acidente ou a castigos e torturas.
Tinham-se proposto averiguar com todos os pormenores como é que operava o sistema de exploração naquela estação. Começaram na manhã seguinte, muito cedo, depois
do pequeno-almoço. Assim que iniciaram a visita aos depósitos de borracha, guiados pelo próprio Fidel Velarde, descobriram de forma casual que as balanças em que
a borracha era pesada estavam viciadas. Seymour Bell teve a lembrança de subir para uma delas, pois, como era hipocondríaco, julgava ter perdido peso. Apanhou um
susto. Como era possível aquilo?! Tinha perdido cerca de dez quilos! No entanto, não sentia isso no corpo, as calças já lhe cairiam e as camisas penderiam. Casement
pesou-se também e incitou os seus companheiros e Juan Tizón a que o fizessem. Estavam todos vários quilos abaixo do seu peso normal. Durante o almoço, Roger perguntou
a Tizón se as balanças da Peruvian Amazon Company estariam todas viciadas como as de Ocidente para levar os índios a crer que tinham recolhido menos borracha. Tizón,
que havia perdido toda a capacidade de dissimulação, limitou-se a encolher os ombros: "Não sei, senhores. A única coisa que sei é que aqui tudo é possível."
Ao contrário de La Chorrera, onde o tinham escondido num armazém, em Ocidente o cepo estava mesmo no centro do descampado em volta do qual se encontravam as casas
e os depósitos. Roger pediu aos ajudantes de Fidel Velarde que o metessem dentro daquele aparelho de tortura. Queria saber o que se sentia naquela jaula estreita.
Rodríguez e Acosta hesitaram, mas como Juan Tizón autorizou, indicaram a Casement que se encolhesse e, empurrando-o com as mãos, meteram-no dentro do cepo. Foi impossível
fechar as madeiras que seguravam as pernas e os braços, porque ele tinha as extremidades demasiado grossas, de maneira que se limitaram a juntá-las.

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Mas conseguiram fechar as pegadeiras do pescoço, que, sem o sufocar totalmente, quase o impediam de respirar. Sentia uma dor vivíssima no corpo e pareceu-lhe impossível
que um ser humano pudesse resistir horas naquela postura e com aquela pressão nas costas, estômago, peito, pernas, pescoço e braços. Quando saiu, antes de recuperar
o movimento, teve de se apoiar um bom bocado no ombro de Louis Barnes.
- Por que tipo de faltas é que metem os índios no cepo? -perguntou à noite ao chefe de Ocidente.
Fidel Velarde era um mestiço um pouco anafado, com um grande bigode de foca e uns olhos enormes e salientes. Usava um chapéu de abas largas, botas altas e um cinto
cheio de balas.
- Quando cometem faltas gravíssimas - explicou, preguiçando em cada frase. - Quando matam os filhos, desfiguram as próprias mulheres numa bebedeira ou cometem roubos
e não querem confessar onde é que esconderam o que roubaram. Não usamos o cepo com frequência. Só raramente. Os índios daqui portam-se bem, em geral.
Dizia aquilo com um ligeiro tom entre risonho e trocista, olhando um por um os comissários com um olhar fixo e desdenhoso que parecia estar a dizer-lhes: "Vejo-me
obrigado a afirmar estas coisas, mas, por favor, não acreditem em mim." A sua atitude mostrava tal altivez e desprezo em relação ao resto dos seres humanos que Roger
Casement tentava imaginar o medo paralisante que aquele homem com ar de jagunço devia causar nos indígenas, com a sua pistola à cintura, a sua carabina ao ombro
e o cinto cheio de balas. Pouco depois, um dos cinco barbadianos de Ocidente testemunhou perante a Comissão que ele tinha visto, numa noite de bebedeira, Fidel Velarde
e Alfredo Montt, então chefe da estação Último Retiro, apostar quem cortava mais depressa e de forma limpa a orelha de um huitoto castigado no cepo. Velarde conseguiu
desorelhar o indígena com um só golpe da sua catana, mas Montt, que estava perdido de bêbado e lhe tremiam as mãos, em vez de lhe tirar a outra orelha desferiu-lhe
a catanada em cheio no crânio.

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Quando esta sessão acabou, Seymour Bell teve uma crise. Confessou aos seus companheiros que não aguentava mais. Faltava-lhe a voz e tinha os olhos chorosos e raiados
de sangue. Já tinham visto e ouvido o suficiente para saber que ali reinava a barbárie mais atroz. Não fazia sentido continuar a investigar naquele mundo de desumanidade
e crueldades psicopatas. Propôs que finalizassem a viagem e regressassem imediatamente a Inglaterra.
Roger contestou que não se oporia a que os outros partissem. Mas ele continuaria no Putumayo, de acordo com o plano previsto, visitando mais algumas estações. Queria
que o seu relatório fosse prolixo e documentado, para que tivesse mais efeito. Recordou-lhes que todos aqueles crimes eram cometidos por uma companhia britânica,
em cuja direcção figuravam personalidades inglesas respeitabilíssimas, e que os accionistas da Peruvian Amazon Company estavam a encher os bolsos com o que acontecia
ali. Era preciso pôr fim àquele escândalo e sancionar os culpados. Para o conseguir, o seu relatório devia ser exaustivo e contundente. As suas razões convenceram
os outros, incluindo o desmoralizado Seymour Bell.
Para sacudirem a impressão que tinha deixado em todos aquela aposta de Fidel Velarde e Alfredo Montt, decidiram tirar um dia de descanso. Na manhã seguinte, em vez
de prosseguirem as entrevistas e averiguações, foram tomar banho no rio. Passaram muitas horas a caçar borboletas com uma rede enquanto o botânico Walter Folk explorava
a floresta à procura de orquídeas. As borboletas e as orquídeas abundavam tanto na zona como os mosquitos e os morcegos que vinham à noite, nos seus voos silenciosos,
morder os cães, galinhas e cavalos da estação, contagiando-os às vezes com a raiva, o que obrigava a matá-los e a queimá-los para evitar uma epidemia.
Casement e os seus companheiros ficaram maravilhados com a variedade, tamanho e beleza das borboletas que revoluteavam pelas proximidades do rio. Havia-as de todas
as formas e cores e o seu esvoaçar gracioso e as manchas de luz que

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emitiam quando pousavam numa folha ou planta pareciam avivar o ar com notas de delicadeza, uma compensação por aquela fealdade moral que descobriam a cada passo,
como se naquela terra desgraçada não houvesse limite para a maldade, a ganância e a dor.
Walter Folk ficou surpreendido com a quantidade de orquídeas penduradas nas grandes árvores, com as suas cores elegantes e requintadas, a iluminar o ambiente à sua
volta. Não as cortava nem permitiu que os seus companheiros o fizessem. Passava muito tempo a contemplá-las com uma lente de aumento, a tomar notas e a fotografá-las.
Em Ocidente, Roger Casement chegou a ter uma ideia bastante completa do sistema que fazia funcionar a Peruvian Amazon Company. Talvez no seu começo tivesse havido
algum tipo de acordo entre os exploradores da borracha e as tribos. Mas aquilo já era história pois agora os indígenas não queriam ir à selva apanhar borracha. Por
isso, tudo começava com as "correrias" perpetradas pelos chefes e pelos seus "rapazes". Não se pagava salário nem os indígenas viam um único centavo. Recebiam do
armazém os instrumentos da recolha - cutelos para as incisões nas árvores, tigelas para o látex, cestas para acumular as pencas ou bolas de borracha -, além de objectos
domésticos como sementes, roupa, candeeiros e alguns alimentos. Os preços eram determinados pela companhia, de maneira a que o indígena estivesse sempre em dívida
e trabalhasse o resto da vida para amortizar o que devia. Como os chefes não tinham salários, mas sim comissões pela borracha que juntavam em cada estação, as suas
exigências para obter o máximo de látex eram implacáveis. Cada recolector embrenhava-se na selva quinze dias, deixando a mulher e os filhos na qualidade de reféns.
Os chefes e "racionais" dispunham deles à vontade, para o serviço doméstico ou para os seus apetites sexuais. Todos tinham verdadeiros serralhos - muitas meninas
que não haviam chegado à puberdade - que intercambiavam segundo o seu capricho, embora às vezes, por ciúmes, tivessem ajustes

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de contas aos tiros e punhaladas. Cada quinze dias, os recolectores voltavam à estação para trazer a borracha. Esta era pesada nas balanças viciadas. Se ao fim de
três meses não completassem os trinta quilos recebiam castigos que iam desde chicotadas no cepo a corte de orelhas e narizes ou, nos casos extremos, a tortura e
ao assassínio da mulher e filhos e do próprio recolector. Os cadáveres não eram enterrados, mas sim arrastados para a floresta para que os animais os comessem. Cada
três meses, as lanchas e vapores da companhia vinham buscar a borracha que, entretanto, tinha sido defumada, lavada e polvilhada com talco. Os barcos levavam algumas
vezes a sua carga do Putumayo para Iquitos e outras directamente para Manaus a fim dali ser exportada para a Europa e para os Estados Unidos.
Roger Casement verificou que um grande número de "racionais" não fazia o mais pequeno trabalho produtivo. Eram meros carcereiros, torturadores e exploradores dos
indígenas. Estavam o dia todo deitados, a fumar, a beber, a divertir-se, a dar pontapés numa bola, a contar anedotas ou a emitir ordens. Recaía sobre os indígenas
todo o trabalho: construir casas, repor os telhados estragados pelas chuvas, reparar o caminho que descia até ao embarcadouro, lavar, limpar, carregar, cozinhar,
levar e trazer coisas e, no pouco tempo que lhes restava, trabalhar nas suas sementeiras sem as quais nada teriam para comer. Roger compreendia o estado de espírito
dos seus companheiros. Se até a ele, que depois de vinte anos em África julgava já ter visto de tudo, o que acontecia ali o tinha alterado, com os nervos em franja,
a viver momentos de total abatimento, como seria para aqueles que tinham passado a maior parte da sua vida num mundo civilizado, julgando que era assim o resto da
Terra, sociedades com leis, igrejas, polícias e costumes e uma moral que impedia que os seres humanos agissem como bestas.
Roger queria continuar no Putumayo para que o seu relatório fosse o mais completo possível, mas isso não era tudo. Outra razão era a curiosidade que sentia por conhecer
em pessoa aquela personagem que, segundo todos os testemunhos, era

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o paradigma da crueldade deste mundo: Armando Normand, o chefe de Matanzas.
Desde Iquitos que tinha vindo a ouvir histórias, comentários e alusões a este nome sempre associado a tais maldades e ignomínias que foi ficando obcecado com ele,
ao ponto de ter pesadelos dos quais acordava banhado em suor e com o coração acelerado. Tinha a certeza de que muitas das coisas que ouvira aos barbadianos sobre
Normand eram exageros atiçados pela imaginação acalorada tão frequente nas gentes destas terras. Mas, mesmo assim, o facto de este sujeito ter podido gerar semelhante
mitologia, indicava que se tratava de um ser que, embora parecesse impossível, superava ainda em selvajaria facínoras como Abelardo Agúero, Alfredo Montt, Fidel
Velarde, Elias Martinengui e outros da sua espécie.
Ninguém sabia com segurança a sua nacionalidade - dizia-se que era peruano, boliviano ou inglês - mas todos concordavam em que não tinha ainda chegado aos trinta
anos e que estudara em Inglaterra. Juan Tizón ouvira dizer que tinha um diploma de contabilista de um instituto em Londres.
Ao que constava era baixinho, magro e muito feio. Segundo o barbadiano Joshua Dyall, da sua pessoazinha insignificante irradiava uma "força maligna" que fazia tremer
quem se lhe aproximava e o olhar, penetrante e glacial, parecia de víbora. Dyall garantia que não só os índios, mas também os "rapazes" e até os próprios capatazes
se sentiam inseguros a seu lado. Porque em qualquer momento Armando Normand podia dar a ordem ou executar ele mesmo uma crueldade arrepiante sem que se alterasse
a indiferença desdenhosa por tudo o que o rodeava. Dyall confessou a Roger e à Comissão que, na estação de Matanzas, Normand lhe ordenou um dia assassinar cinco
andoques, castigados por não terem satisfeito as quotas de borracha. Dyall matou os dois primeiros a tiro, mas o chefe ordenou que, aos dois seguintes, lhes esmagasse
primeiro os testículos com uma pedra de moer mandioca e acabasse com eles à bordoada. Ao último, mandou que o estrangulasse com as

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mãos. Durante toda a operação ficou sentado num tronco de árvore, a fumar e a observar, sem que a expressão indolente da sua carinha rubicunda se alterasse.
Outro barbadiano, Seaford Greenwich, que tinha trabalhado uns meses com Armando Normand em Matanzas, contou que a conversa entre os "racionais" da estação constava
do costume do chefe em meter malagueta moída ou com casca no sexo das suas rapariguinhas concubinas para as ouvir gritar com o ardor. Segundo Greenwich só assim
é que ele se excitava e conseguia fornicá-las. Numa altura, sempre segundo o barbadiano, Normand, em vez de meter os castigados no cepo, pendurava-os numa corrente
amarrada a uma árvore alta e soltava-os para ver como ao baterem contra o solo partiam cabeça e ossos ou cortavam a língua com os dentes. Outro capataz que tinha
servido às ordens de Normand, garantiu à Comissão que os índios andoques tinham ainda mais medo do seu cão que dele, um mastim que ele amestrara para que enterrasse
as suas fauces e dilacerasse as carnes do índio contra o qual ele o acirrava.
Podiam ser verdade todas aquelas monstruosidades? Roger Casement dizia para si mesmo que, passando em revista na memória, entre a vasta colecção de malvados que
ele tinha conhecido no Congo, seres a quem o poder e a impunidade tinham tornado monstros, nenhum chegava aos extremos deste indivíduo. Tinha uma curiosidade um
pouco perversa em conhecê-lo, ouvi-lo falar, vê-lo actuar e averiguar de onde saía. E o que podia dizer das atrocidades que lhe imputavam.
De Ocidente, Roger Casement e os seus amigos passaram, sempre na lancha Veloz, para a estação Último Retiro. Era mais pequena que as anteriores e também tinha o
aspecto de uma fortaleza, com a sua paliçada e guardas armados em volta do pequeno núcleo de casas. Os índios pareceram-lhe mais primitivos e esquivos que os huitotos.
Andavam seminus, com tapa-rabos que só lhes cobriam o sexo. Roger avistou aqui pela primeira vez dois nativos com as marcas da companhia nas nádegas: CA. Pareciam
mais velhos que a maior parte dos outros.

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Tentou falar com eles, mas não entendiam espanhol nem português, nem o huitoto de Frederick Bishop. Mais tarde, percorrendo Ultimo Retiro, descobriram outros índios
marcados. Por um empregado da estação souberam que pelo menos um terço dos indígenas ali estabelecidos levavam a marca CA no corpo. A prática tinha sido suspensa
há algumas semanas, quando a Peruvian Amazon Company aceitou a ida da Comissão ao Putumayo.
Para chegar do rio até Último Retiro era preciso subir uma encosta enlameada pela chuva onde as pernas se afundavam até aos joelhos. Quando Roger conseguiu tirar
os sapatos e estender-se no seu catre doíam-lhe os ossos todos. Voltara a sua conjuntivite. O ardor e o lacrimejar de um olho eram tão fortes que, depois de pôr
o colírio, colocou uma venda. Esteve assim vários dias, como um pirata, com um olho vendado e protegido por um pano húmido. Como estas precauções não bastaram, para
pôr um fim à inflamação e ao lacrimejar, a partir de então e até ao final da viagem, todos os momentos do dia em que não estava a trabalhar - eram poucos - corria
a estender-se na sua rede ou catre e mantinha-se com os dois olhos vendados com panos de água morna. Era assim que se atenuavam as suas moléstias. Durante estes
períodos de descanso e à noite - dormia apenas quatro ou cinco horas - tentava organizar mentalmente o relatório que escreveria para o Foreign Office. Os alinhamentos
gerais eram claros. Primeiro, um quadro das condições do Putumayo quando os pioneiros vieram instalar-se, invadindo as terras das tribos, há uns vinte anos. E a
forma como, desesperados pela falta de braços, iniciaram as "correrias", sem medo de ser sancionados porque nestas paragens não havia juízes nem polícias. Eles eram
a única autoridade, apoiada nas suas armas de fogo, contra as quais fundas, lanças e zarabatanas se tornavam inúteis.
Tinha de descrever com clareza o sistema de extracção da borracha baseado no trabalho escravo e na exploração dos indígenas espevitado pela ganância dos chefes que,
como

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trabalhavam à percentagem conforme a borracha recolhida, se valiam dos castigos físicos, mutilações e assassínios para aumentar a recolha. A impunidade e o seu poder
absoluto tinham desenvolvido nestes indivíduos tendências sádicas que, aqui, podiam manifestar-se livremente contra os indígenas privados de todos os direitos.
O seu relatório serviria de alguma coisa? Pelo menos para que a Peruvian Amazon Company fosse sancionada, sem dúvida. O Governo britânico pediria ao Governo peruano
que levasse aos tribunais os responsáveis dos crimes. O presidente Augusto B. Leguía atrever-se-ia a fazê-lo? Juan Tizón dizia que sim, que em Lima, tal como em
Londres, rebentaria um escândalo quando se soubesse o que acontecia ali. A opinião pública exigiria castigo para os culpados. Mas Roger duvidava. O que podia fazer
o Governo peruano no Putumayo, onde não tinha um único representante e onde a companhia de Júlio C. Arana se vangloriava, e com razão, de ser ela, com os seus bandos
de assassinos, a manter a soberania do Peru sobre estas terras? Tudo se ficaria por alguns desplantes retóricos. O martírio das comunidades indígenas da Amazónia
prosseguiria, até à sua extinção. Esta perspectiva deprimia-o. Mas em vez de o paralisar, incitava-o a esforçar-se mais, investigando, entrevistando e escrevendo.
Tinha já uma rima de cadernos e fichas escritos com a sua letra nítida e esmerada.
De Ultimo Retiro passaram a Entre Rios, num deslocamento por rio e por terra que os levou a meterem-se pelo mato durante um dia inteiro. Roger Casement ficou encantado
com a ideia: naquele contacto corporal com a natureza bravia reviveria os seus anos de mocidade, as longas expedições da sua juventude pelo continente africano.
Mas, ainda que naquelas doze horas de percurso pela selva, afundando-se por vezes até à cintura na lama, escorregando em matagais que ocultavam ravinas, fazendo
certos troços em canoas que sob o impulso das varas dos indígenas deslizavam por uns "canos de água" finíssimos sobre os quais pairava uma folhagem que escurecia

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a luz do Sol, tenha sentido às vezes a excitação e a alegria de outrora, a experiência serviu-lhe sobretudo para comprovar a passagem do tempo, o desgaste do seu
corpo. Não era só a dor nos braços, nas costas e nas pernas, também era o cansaço insuportável contra o qual teve de lutar fazendo esforços denodados para que os
seus companheiros não notassem. Louis Barnes e Seymour Bell ficaram tão esgotados que, a partir do meio da viagem, tiveram de ser carregados em padiolas, cada um
por quatro indígenas da vintena que os escoltava. Roger observou, impressionado, como estes índios de pernas tão magras e estrutura esquelética, se deslocavam com
desenvoltura levando aos ombros as suas bagagens e provisões, sem comer nem beber durante horas. Num dos descansos, Juan Tizón aceitou o pedido de Casement e ordenou
que se repartissem várias latas de sardinhas entre os indígenas.
Durante o percurso viram bandos de papagaios e aqueles macaquitos brincalhões de olhos vivíssimos chamados "macacos-esquilos", muitos tipos de pássaros e iguanas
de olhos remelosos cujas peles rugosas se confundiam com os ramos e troncos a que estavam agarradas. E também uma vitória-régia, aquelas folhas circulares enormes
que flutuavam nas lagoas como balsas.
Chegaram a Entre Rios ao entardecer. A estação estava agitada porque um jaguar tinha comido uma indígena que se afastara do acampamento para ir parir, sozinha, como
costumavam fazer as nativas, à beira do rio. Um grupo de caçadores liderado pelo chefe tinha saído em busca do jaguar, mas voltaram, já ao anoitecer, sem ter dado
com a fera. O chefe de Entre Rios chamava-se Andrés O'Donnell. Era jovem, com boa aparência e dizia que o seu pai era irlandês, mas Roger, depois de o interrogar,
percebeu nele uma confusão tão grande relativamente aos seus antepassados e à Irlanda, que por certo fora o avô ou o bisavô de O'Donnell o primeiro irlandês da família
a pisar terra peruana; Teve pena que um descendente de irlandeses fosse um dos lugar-tenentes de Arana no Putumayo,
embora, segundo os testemunhos, parecesse menos sanguinário que outros chefes: tinham-no visto açoitar indígenas e roubar-lhes as mulheres e filhas para o seu harém
particular - tinha sete mulheres a viver com ele e uma ninhada de filhos -, mas no seu prontuário não figurava ter matado ninguém com as suas mãos nem ter ordenado
assassínios. Mas claro, num lugar visível de Entre Rios, erguia-se o cepo e todos os "rapazes" e barbadianos levavam chicotes à cintura (alguns usavam-nos como correias
para as calças). E em grande número de índios e índias viam-se cicatrizes nas costas, pernas e nádegas.
Apesar de a sua missão oficial só lhe exigisse interrogar cidadãos britânicos que trabalhavam para a companhia de Arana, isto é, os barbadianos, a partir de Ocidente
Roger começou a entrevistar também os "racionais" dispostos a responder às suas perguntas. Em Entre Rios esta prática alargou-se a toda a Comissão. Nos dias em que
ali estiveram deram testemunho perante eles, além dos três barbadianos que trabalhavam para Andrés O'Donnell como capatazes, o próprio chefe e um bom número dos
seus "rapazes".
Acontecia quase sempre o mesmo. A princípio, eram todos reticentes, evasivos e mentiam descaradamente. Mas bastava um deslize, uma imprudência involuntária que revelasse
o mundo de verdade que ocultavam para que de repente desatassem a falar e a contar mais do que se lhes pedia, implicando-se a si mesmos como prova da veracidade
daquilo que relatavam. Apesar das várias tentativas que fez, Roger não conseguiu recolher o testemunho directo de nenhum índio.
A 16 de Outubro de 1910, quando ele e os seus companheiros da Comissão, acompanhados por Juan Tizón, três barbadianos e uns vinte índios muinanes, dirigidos pelo
seu curaca, que levavam o carregamento, se dirigiam através da floresta, por um pequeno trilho, da estação de Último Retiro para a de Matanzas, Roger Casement anotou
no diário uma ideia que tinha vindo a tomar corpo na sua cabeça desde que desembarcara em Iquitos: "Cheguei à convicção absoluta de

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que a única maneira de os indígenas do Putumayo poderem sair da miserável condição a que foram reduzidos é revoltando-se com armas contra os seus patrões. É uma
ilusão desprovida de qualquer realidade acreditar, como Juan Tizón, que esta situação mudará quando o Estado peruano chegar aqui e houver autoridades, juízes, polícias
que façam respeitar as leis que proíbem a servidão e a escravatura no Peru desde 1854. Fá-las-ão respeitar como em Iquitos, onde as famílias compram por vinte ou
trinta sóis as meninas e os meninos roubados pelos traficantes? Farão respeitar as leis essas autoridades, juízes e polícias que recebem os seus salários da Casa
Arana porque o Estado não tem com que pagar-lhes ou porque escroques e burocratas roubam o dinheiro pelo caminho? Nesta sociedade, o Estado é parte inseparável da
máquina de exploração e de extermínio. Os indígenas não devem esperar nada de semelhantes instituições. Se quiserem ser livres terão de conquistar a sua liberdade
com os seus braços e a sua coragem. Como o soba bora Katenere. Mas sem se sacrificar por razões sentimentais, como ele. Lutando até ao fim." Quando, absorvido por
estas frases que tinha estampado no diário, caminhava a bom ritmo, abrindo passagem com uma catana entre as lianas, matagais, troncos e ramos que obstruíam o trilho,
uma tarde ocorreu-lhe pensar: "Nós, os Irlandeses, somos como os huitotos, os boras, os andoques e os muinanes do Putumayo. Colonizados, explorados e condenados
a sê-lo se continuarmos a confiar nas leis, nas instituições e nos governos de Inglaterra, para alcançar a liberdade. Nunca no-la darão. Porque é que o Império haveria
de fazer isso se não sente uma pressão irresistível que o obrigue a fazê-lo? Essa pressão só pode vir das armas." Esta ideia, que, nos dias, semanas, meses e anos
futuros iria polindo e reforçando - que a Irlanda, como os índios do Putumayo, se queria ser livre teria de lutar para o conseguir -, absorveu-o de tal modo durante
as oito horas que durou o trajecto, que se esqueceu até de pensar que dali' a muito pouco tempo conheceria em pessoa o chefe de Matanzas: Armando Normand.

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Situada nas margens do rio Cahuinari, um afluente do Caquetá, para chegar à estação de Matanzas era preciso escalar uma difícil escarpa que a chuva forte que desabara
antes da sua chegada transformara numa torrente de lama. Só os muinanes é que conseguiram trepar por ela sem cair. Os outros escorregavam, rebolavam, levantavam-se
cobertos de lama e nódoas negras. No descampado, também protegido por paliçada de paus, uns indígenas baldearam os viajantes para lhes tirar a lama.
O chefe não estava. Dirigia uma "correria" contra cinco indígenas fugitivos que, segundo parecia, tinham conseguido atravessar a fronteira colombiana, muito próxima.
Havia cinco barbadianos em Matanzas e os cinco trataram o "senhor cônsul" com muito respeito, de cuja vinda e missão estavam perfeitamente a par. Levaram-nos para
as casas onde se iriam alojar. Roger Casement, Louis Barnes e Juan Tizón foram instalados numa grande casa de tábuas, telhado de palmeira e janelas com grades que,
disseram-lhes, era a casa de Normand e das suas mulheres quando estavam em Matanzas. Mas a sua residência habitual encontrava-se em La China, um pequeno acampamento
cerca de dois quilómetros rio acima, onde era proibido os índios aproximarem-se. Ali vivia o chefe rodeado dos seus "racionais" armados, pois temia ser vítima de
uma tentativa de assassínio por parte dos colombianos que o acusavam de não respeitar a fronteira e atravessá-la nas suas "correrias" para sequestrar carregadores
ou capturar desertores. Os barbadianos explicaram-lhes que Armando Normand levava as mulherezinhas do seu harém sempre consigo porque era muito ciumento.
Em Matanzas havia boras, andoques e muinanes, mas huitotos não. Quase todos os indígenas tinham cicatrizes de chicote e pelo menos uma dúzia deles a marca da Casa
Arana nas nádegas. O cepo estava no centro do descampado, debaixo da árvore cheia de furúnculos e plantas parasitas chamada lupuna a que todas as tribos da região
professavam uma reverência impregnada de medo.

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No seu quarto, que, sem dúvida, era o do próprio Nor-mand, Roger viu fotografias amareladas onde aparecia a cara ameninada do mesmo, um diploma de The London School
of Book-Keepers do ano de 1903, e outro, anterior, de uma escola secundária. Era mesmo verdade: estudara em Inglaterra e tinha um diploma de contabilista.
Armando Normand entrou em Matanzas quando anoitecia. Pela janelinha com grades, Roger viu-o passar, no brilho das lanternas, baixito, miudinho e quase tão débil
como um indígena, seguido de "rapazes" de caras patibulares armados com carabinas Winchester e revólveres, e de umas oito ou dez mulheres metidas na cushma ou túnica
amazónica, e entrar para a habitação ao lado.
Durante a noite, Roger acordou várias vezes, angustiado, pensando na Irlanda. Sentia saudades do seu país. Tinha vivido nele tão pouco tempo e, no entanto, sentia-se
cada vez mais solidário com a sua sorte e sofrimentos. Desde que conseguira ver de perto o calvário de outros povos colonizados que a situação da Irlanda lhe doía
como nunca antes. Tinha urgência em acabar com tudo aquilo, terminar o relatório sobre o Putumayo, entregá-lo ao Foreign Office e voltar para a Irlanda a fim de
trabalhar, agora sem qualquer distracção, com os compatriotas idealistas e entregues à causa da sua emancipação. Recuperaria o tempo perdido, esforçar-se-ia no Eire,
estudaria, agiria, escreveria e por todos os meios ao seu alcance tentaria convencer os Irlandeses de que, se queriam a liberdade, teriam de conquistá-la com arrojo
e sacrifício.
Na manhã seguinte, quando desceu para tomar o pequeno-almoço, ali estava Armando Normand, sentado diante de uma mesa com frutas, bocados de mandioca que faziam as
vezes de pão e chávenas de café. Com efeito, era muito baixinho e magro, com uma cara de menino envelhecido e um olhar azul, fixo e duro, que aparecia e desaparecia
pelo seu pestanejar constante. Usava botas, fato-macaco azul, uma camisa branca e por

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cima um casaco de couro com um lápis e um caderninho a espreitar num dos bolsos. Trazia um revólver à cintura.
Falava um inglês perfeito, com um estranho sotaque, que Roger não conseguiu identificar de onde provinha. Cumprimentou-o com uma vénia quase imperceptível, sem dizer
nada. Foi muito parco, quase monossilábico, para responder sobre a sua vida em Londres, bem como precisar a sua nacionalidade - "digamos que sou peruano" - e respondeu
com uma certa sobranceria quando Roger lhe disse que ele e os membros da Comissão tinham ficado impressionados ao ver que nos domínios de uma companhia britânica
se maltratava os indígenas de forma desumana.
- Se vivessem aqui, pensariam de outra forma - comentou, secamente, sem qualquer receio. E depois de uma pequena pausa, acrescentou: - Não se pode tratar os animais
como os seres humanos. Uma yucumama, um jaguar, um puma, não raciocinam. Os selvagens também não. Enfim, já sei, forasteiros que estão por aqui só de passagem não
se consegue convencê-los.
- Vivi vinte anos em África e não me tornei um monstro -disse Casement. - Que é no que você se converteu, senhor Normand. A sua fama acompanhou-nos ao longo de toda
a viagem. Os horrores que se contam de si no Putumayo superam tudo o que é imaginável. Sabia?
Armando Normand não se comoveu. Olhando para ele sempre com aquele olhar branco e inexpressivo, limitou-se a encolher os ombros e cuspiu no chão.
- Posso perguntar-lhe quantos homens e mulheres é que o senhor matou? - atirou-lhe Roger de supetão.
- Todos os que prevaricaram - respondeu o chefe de Matanzas, sem mudar de tom e levantando-se. - Desculpem-me. Tenho que fazer.
A aversão que Roger sentia por aquele homenzinho era tão grande que decidiu não o entrevistar pessoalmente e deixar a tarefa para os membros da Comissão. Aquele
assassino só

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lhes diria uma caterva de mentiras. Ele dedicou-se a ouvir os barbadianos e "racionais" que aceitaram testemunhar. Fê-lo de manhã e de tarde, dedicando o resto do
dia a desenvolver com mais cuidado os apontamentos que tomava durante as entrevistas. Nas manhãs, descia para mergulhar no rio, tirava algumas fotografias e depois
não parava de trabalhar até ao anoitecer. Caía de rastos no catre. O seu sono entre entrecortado e febril. Notava como de dia para dia ia emagrecendo.
Estava cansado e farto. Como lhe ocorrera a dada altura no Congo, começou a temer que a sucessão enlouquecedora de crimes, violências e horrores de toda a índole
que ia descobrindo diariamente lhe afectasse o equilíbrio mental. A sanidade do seu espírito resistiria a todo aquele espanto quotidiano? Desmoralizava-o pensar
que na civilizada Inglaterra poucos acreditariam que os "brancos" e "mestiços" do Putumayo podiam chegar àqueles extremos de selvajaria. Uma vez mais seria acusado
de exagero e preconceito, de agigantar os abusos para dar maior dramatismo ao seu relatório. Não eram só os maus tratos iníquos contra os indígenas que o punham
naquele estado. Mas sim saber que, depois de ver, ouvir e ser testemunha do que acontecia ali, nunca mais teria a visão optimista da vida que tivera na sua juventude.
Quando soube que uma expedição de "carregadores" ia partir de Matanzas levando a borracha reunida nos últimos três meses para a estação de Entre Rios e dali para
Puerto Peruano para ser embarcada para o estrangeiro, anunciou aos seus companheiros que iria com ela. A Comissão podia permanecer ali até terminar a inspecção e
as entrevistas. Os seus amigos estavam tão exaustos e desanimados como ele. Contaram-lhe que as maneiras insolentes de Armando Normand haviam mudado de repente quando
o informaram que o "senhor cônsul" tinha recebido a missão de vir investigar as atrocidades do Putumayo do próprio Sir Edward Grey, chanceler do Império Britânico,
e que os assassinos e torturadores, como trabalhavam numa companhia inglesa, podiam ser levados aos tribunais de

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Inglaterra. Sobretudo se tinham a nacionalidade inglesa ou pretendiam adquiri-la, como podia ser o seu caso. Ou seriam entregues aos governos peruano ou colombiano
para aí serem julgados. Desde que ouviu isto, Normand mantinha uma atitude submissa e servil para com a Comissão. Negava os seus crimes e havia-lhes garantido que,
a partir dali, não se voltaria a cometer os erros do passado: os indígenas seriam bem alimentados, curados quando adoecessem, pagos pelo seu trabalho e tratados
como seres humanos. Tinha mandado pôr um cartaz no centro do descampado dizendo estas coisas. Era ridículo, pois os indígenas, todos analfabetos, não podiam lê-lo,
nem a maior parte dos "racionais". Era para serem exclusivamente os comissários a lê-lo.
A viagem a pé através da selva, de Matanzas até Entre Rios, acompanhando os oitenta indígenas - boras, andoques e muinanes - que transportavam aos ombros a borracha
recolhida pelo pessoal de Armando Normand, seria uma das recordações mais pavorosas da primeira viagem ao Peru de Roger Casement. Normand não ia ao comando da expedição,
mas sim Negretti, um dos seus lugar-tenentes, um mestiço achinesado, com dentes de ouro, que andava sempre a escarafunchar os dentes com um palito e cuja voz estentórea
fazia tremer, saltar, apressar-se, com caras desfiguradas pelo medo, o exército de esqueletos com chagas, marcados e com cicatrizes, entre eles muitas mulheres e
crianças, algumas de poucos anos, da expedição. Negretti levava uma espingarda ao ombro, um revólver na cartucheira e um chicote na cintura. No dia da partida, Roger
pediu-lhe autorização para o fotografar e Negretti aceitou, rindo-se. Mas eclipsou-se-lhe o sorriso quando Casement o avisou, apontando para o chicote:
- Se o vir a usar isso contra os indígenas, entregá-lo-ei pessoalmente à polícia de Iquitos.
A expressão de Negretti foi de total desconcerto. Ao fim de um momento, murmurou:
- O senhor tem alguma autoridade na companhia?

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- Tenho a autoridade que o Governo inglês me confiou para investigar os abusos que se cometem no Putumayo. O senhor sabe que a Peruvian Amazon Company para a qual
trabalha é britânica, não é verdade?
O homem, desconcertado, acabou por se afastar. E Casement nunca o viu açoitar os carregadores, só gritar-lhes para que se apressassem ou a pressioná-los com caralhadas
e outros insultos quando deixavam cair os "chouriços" de borracha que levavam ao ombro e na cabeça porque as forças lhes faltavam ou tropeçavam.
Roger tinha trazido consigo três barbadianos: Bishop, Sealy e Lane. Os outros nove que os acompanhavam ficaram com a Comissão. Casement recomendou aos seus amigos
que nunca se afastassem daquelas testemunhas pois corriam o risco de ser intimidadas ou subornadas por Normand e seus compinchas para que se retractassem dos seus
testemunhos, ou até assassinadas.
As coisas mais duras da expedição não foram as varejeiras azuis, grandes e sonantes, que os massacravam com picadas dia e noite, nem as tempestades que às vezes
lhes caíam em cima, encharcando-os e convertendo o chão em pequenos riachos escorregadios de água, lama, folhas e árvores mortas, nem o desconforto dos acampamentos
que armavam de noite para dormir ao deus-dará depois de comer uma latinha de sardinhas ou de sopa e beber do termo uns golos de uísque ou de chá. O terrível, uma
tortura que lhe dava remorsos e má consciência, era ver os indígenas nus, vergados pelo peso dos "chouriços" de borracha, aos quais Negretti e os seus "rapazes"
obrigavam a avançar aos gritos, sempre a apressá-los, com descansos muito espaçados e sem lhes dar um pouco de comida. Quando perguntou a Negretti porque é que as
rações não eram também distribuídas pelos indígenas, o capataz olhou para ele como se não entendesse. Quando Bishop lhe explicou a pergunta, Negretti afirmou, com
total despudor:
- Eles não gostam do que nós, os cristãos, comemos. Têm os seus próprios alimentos.

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Mas não tinham nenhum, porque não podia chamar-se comida aos bocadinhos de farinha de mandioca que às vezes levavam à boca, ou os talos de plantas e folhas que enrolavam
com muito cuidado antes de os engolir. O que se tornava incompreensível para Roger era como uns meninos de dez ou doze anos conseguiam carregar durante horas e horas
aqueles "chouriços" que pesavam - ele tinha feito a experiência de os carregar - nunca menos de vinte quilos e às vezes trinta ou mais. No primeiro dia de caminhada
um rapaz bora caiu de repente de bruços, esmagado pela sua carga. Queixava-se debilmente quando Roger tentou reanimá-lo dando-lhe a beber uma latinha de sopa. Os
olhos do rapazinho emitiam um pânico animal. Tentou levantar-se duas ou três vezes, sem conseguir. Bishop explicou-lhe: "Tem assim tanto medo porque, se o senhor
não estivesse aqui, Negretti matá-lo-ia com um tiro como castigo exemplar para que nenhum outro pagão tivesse a ideia de desmaiar." O rapaz não estava em condições
de se pôr de pé, de modo que o abandonaram no monte. Roger deixou-lhe duas latinhas de comida e o seu guarda-chuva. Agora compreendia porque é que aqueles seres
de pele e osso conseguiam carregar tanto peso: devido ao medo de serem assassinados se ousassem desmaiar. O terror multiplicava-lhes as forças.
No segundo dia, uma mulher velha caiu morta de repente, quando tentava subir uma encosta com trinta quilos de borracha às costas. Negretti, depois de verificar que
estava sem vida, apressou-se a distribuir os dois "chouriços" da morta entre outros indígenas, com um esgar de aborrecimento e a pigarrear.
Em Entre Rios, assim que tomou um banho e descansou um pouco, Roger apressou-se a anotar nos seus cadernos as peripécias e reflexões da viagem. Havia uma ideia que
lhe ia e vinha à consciência, uma ideia que nos dias, semanas e meses seguintes voltaria obsessivamente e começaria a modular a sua conduta: "Não devemos permitir
que a colonização chegue a castrar o espírito dos Irlandeses como castrou o dos indígenas

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da Amazónia. É preciso actuar agora, de uma vez, antes que seja tarde e nos tornemos autómatos."
Enquanto esperava a chegada da Comissão, não perdeu tempo. Fez algumas entrevistas, mas reviu sobretudo as folhas de pagamentos, livros de contas do armazém e os
registos da administração. Queria saber quanto é que a companhia de Júlio C. Arana carregava nos preços dos alimentos, remédios, peças de roupa, armas e utensílios,
que adiantava aos indígenas e também aos capatazes e aos "rapazes". As percentagens variavam de produto para produto, mas a constante era que em todo o seu material
de vendas o armazém duplicava, triplicava e às vezes até quintuplicava os preços. Ele comprou duas camisas, umas calças, um chapéu, um par de botins de campo e poderia
ter adquirido tudo aquilo em Londres pela terça parte do preço. Não eram só os indígenas que eram espoliados, também aqueles pobres infelizes, gente desocupada e
jagunços que estavam no Putumayo para executar as ordens dos chefes. Não era estranho que uns e outros estivessem sempre em dívida com a Peruvian Amazon Company
e ficassem atados a ela até à morte ou até que a empresa os considerasse sem préstimo.
Foi mais difícil para Roger fazer uma ideia aproximada de quantos indígenas havia no Putumayo por volta de 1893, quando se instalaram na região as primeiras explorações
da borracha e começaram as "correrias", e quantos restavam naquele ano de 1910. Não havia estatísticas sérias, o que se tinha escrito a esse respeito era vago, os
números diferiam muito de umas para outras. Quem parecia ter feito o cálculo mais fiável era o infortunado explorador e etnólogo francês Eugène Robuchon (desaparecido
de maneira misteriosa na região do Putumayo em 1905, quando cartografava todo o domínio de Júlio C. Arana), segundo o qual as sete tribos da zona - huitotos, ocaimas,
muinanes, nonuias, andoques, rezígaros e boras - deviam somar uns cem mil antes da borracha ter atraído os "civilizados" para o Putumayo! Juan Tizón considerava
este número muito exagerado. Ele, por diferentes análises e cotejos, defendia

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que uns quarenta mil estava mais perto da verdade. Em todo o caso, agora não restavam mais de uns dez mil sobreviventes. Assim, o regime imposto pelos exploradores
da borracha havia liquidado já três quartos da população indígena. Muitos, sem dúvida, tinham sido vítimas da varíola, da malária, do beribéri e outras pragas. Mas
a imensa maioria desapareceu pela exploração, pela fome, pelas mutilações, pelo cepo e pelos assassínios. A este ritmo, aconteceria a todas as tribos como aos Iquarasi,
que tinham sido totalmente dizimados.
Dois dias mais tarde, chegaram a Entre Rios os seus companheiros da Comissão. Roger ficou surpreendido ao ver Armando Normand aparecer com eles, seguido do seu harém
de rapariguinhas. Folk e Barnes avisaram-no que, embora a razão que o chefe de Matanzas dera para vir era que tinha de vigiar pessoalmente o embarque da borracha
em Puerto Peruano, fazia-o por estar assustado em relação ao seu futuro. Assim que soube das acusações dos barbadianos contra ele, pôs em marcha uma campanha de
subornos e ameaças para que se desdissessem. E tinha conseguido que, alguns, como Levine, mandassem uma carta para a Comissão (redigida sem dúvida pelo próprio Normand)
a dizer que desmentiam todas as declarações que "com enganos" lhes tinham arrancado e que queriam deixar claro e por escrito que na Peruvian Amazon Company nunca
se tinha maltratado os indígenas e que empregados e carregadores trabalhavam em clima de amizade pelo engrandecimento do Peru. Folk e Barnes pensavam que Normand
tentaria subornar ou amedrontar Bishop, Sealy e Lane e talvez o próprio Casement.
Com efeito, na manhã seguinte, muito cedo, Armand Normand veio bater à porta de Roger para lhe propor "uma conversa franca e amistosa". O chefe de Matanzas tinha
perdido a segurança e arrogância com que se dirigira a Roger anteriormente. Via-se que estava nervoso. Esfregava as mãos e mordia o lábio inferior enquanto falava.
Foram até ao depósito da borracha, um descampado com matagais que a tempestade da noite

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tinha enchido de charcos e de sapos. Saía do depósito uma pestilência de látex e passou pela cabeça a Roger a ideia de que aquele cheiro não vinha dos "chouriços"
de borracha armazenados na grande cobertura, mas sim do homenzito rubicundo que, a seu lado, parecia um anãozinho.
Normand tinha o seu discurso bem preparado. Os sete anos em que vivera na selva exigiram privações terríveis para alguém que recebera uma educação em Londres. Não
queria que, por mal-entendidos e calúnias de invejosos, a sua vida ficasse arruinada com enredos judiciais e não conseguisse realizar o seu desejo de voltar a Inglaterra.
Jurou-lhe pela sua honra que não tinha sangue nas suas mãos nem na sua consciência. Ele era severo, mas justo, e estava disposto a aplicar todas as medidas que a
Comissão e o "senhor cônsul" sugerissem para melhorar o funcionamento da companhia.
- Que acabem as "correrias" e o sequestro de indígenas -enumerou Roger, devagar, contando com os dedos das mãos -, desapareçam o cepo e os chicotes, que os índios
não voltem a trabalhar de graça, que os chefes, capatazes e "rapazes" não tornem a violar nem a roubar as mulheres, nem as filhas dos indígenas, que desapareçam
os castigos físicos e se pague indemnizações às famílias dos assassinados, queimados vivos e àqueles a quem cortaram orelhas, narizes, mãos e pés. Que não se roube
mais os "carregadores" com balanças viciadas e preços multiplicados no armazém para os ter como eternos devedores da companhia. Tudo isso, só para começar. Porque
será necessário haver muitas mais reformas para que a Peruvian Amazon Company mereça ser uma companhia britânica.
Armando Normand estava lívido e olhava para ele sem
compreender.
- O senhor quer que a Peruvian Amazon Company desapareça, senhor Casement? - balbuciou por fim.
- Exactamente. E que todos os seus assassinos e torturadores, começando pelo senhor Júlio C. Arana e acabando em si, sejam julgados pelos seus crimes e acabem os
seus dias na prisão.

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Adiantou o passo e deixou o chefe de Matanzas com a cara alterada, parado, sem saber o que dizer mais. Arrependeu-se logo de ter cedido daquele modo ao desprezo
que a personagem lhe merecia. Tinha ganhado um inimigo mortal, que agora podia muito bem sentir a tentação de liquidá-lo. Prevenira-o e Normand, que não era parvo,
agiria em consequência disso. Havia cometido um erro gravíssimo.
Poucos dias depois, Juan Tizón informou-os que o chefe de Matanzas pedira à companhia que lhe liquidasse as contas, em dinheiro vivo mas não em sóis peruanos, em
libras esterlinas. Viajaria de regresso a Iquitos, no Liberal, juntamente com a Comissão. O que pretendia era óbvio: ajudado pelos seus amigos e cúmplices, atenuar
as denúncias e acusações contra ele e garantir uma fuga para o estrangeiro - para o Brasil, sem dúvida - onde devia ter boas poupanças à sua espera. As possibilidades
de ir para a prisão tinham-se reduzido. Juan Tizón informou-os de que Normand recebia há cinco anos vinte por cento da borracha recolhida em Matanzas e um "prémio"
de duzentas libras esterlinas por ano se o rendimento superasse o do ano anterior.
Os dias e semanas seguintes foram de uma rotina asfixiante. As entrevistas a barbadianos e "racionais" continuavam a revelar um impressionante catálogo de atrocidades.
Roger sentia que as forças o abandonavam. Como começou a ter febre à tarde receou que fosse novamente o paludismo e aumentou a dose de quinino, ao deitar-se. O medo
de que Armando Normand ou qualquer outro chefe pudesse destruir os cadernos com as transcrições das testemunhas fez com que em todas as estações - Entre Rios, Atenas,
Sur e La Chorrera - levasse consigo os papéis, sem deixar que alguém lhes tocasse. De noite metia-os debaixo do catre ou da rede em que dormia, sempre com o revólver
carregado ao alcance da mão.
Em La Chorrera, quando preparavam as malas para o regresso a Iquitos, Roger viu chegar um dia ao acampamento uma vintena de índios provenientes da aldeia de Naimenes.

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Acarretavam borracha. Os carregadores eram jovens ou homens, à excepção de um menino com cerca de nove ou dez anos, muito magrinho, que levava na cabeça um "chouriço"
de borracha maior que ele. Roger foi com eles até à balança onde Víctor Macedo recebia as entregas. A do menino pesava vinte e quatro quilos e ele, Omarino, só vinte
e cinco. Como é que ele tinha conseguido vir a andar pela selva todos aqueles quilómetros com semelhante peso na cabeça? Apesar das cicatrizes nas costas, tinha
uns olhos vivos e alegres e sorria com frequência. Roger fez com que ele comesse uma latinha de sopa e outra de sardinhas que comprou no armazém. A partir de então,
Omarino não se afastou dele. Acompanhava-o para todo o lado e estava sempre disposto a fazer qualquer recado. Um dia, Víctor Macedo disse-lhe, apontando para o pequenito:
- Vejo que lhe ganhou carinho, senhor Casement. Porque é que não o leva? É órfão. Ofereço-lho.
Depois, Roger pensaria que a frase "Ofereço-lho" com que Víctor Macedo quisera entrar nas suas boas graças, dizia mais que qualquer outro testemunho: aquele chefe
podia "oferecer" qualquer índio do seu domínio, pois carregadores e recolectores pertenciam-lhe tal como as árvores, as casas, as espingardas e os "chouriços" de
borracha. Perguntou a Juan Tizón se haveria algum inconveniente em que ele levasse Omarino consigo para Londres - a Sociedade Contra a Escravidão tomá-lo-ia sob
a sua protecção e encarregar-se-ia de lhe dar uma educação - e aquele não pôs qualquer objecção.
Arédomi, um adolescente que pertencia à tribo dos Ando-ques, juntar-se-ia a Omarino uns dias mais tarde. Tinha chegado a La Chorrera vindo da estação Sur, e no dia
seguinte, no rio, enquanto tomava banho, Roger viu o rapazinho nu, a chapinhar na água com outros indígenas. Era um belo rapaz, de corpo harmonioso e ágil, que se
movia com uma elegância natural. Roger pensou que Herbert Ward poderia fazer uma bela escultura deste adolescente, o símbolo do homem amazónico despojado da sua
terra, do seu corpo e da sua beleza

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pelos exploradores da borracha. Distribuiu latas de comida pelos andoques que tomavam banho. Arédomi beijou-lhe a mão em agradecimento. Sentiu repulsa e, ao mesmo
tempo, emoção. O rapazinho seguiu-o até casa, falando e gesticulando com veemência, mas ele não o compreendia. Chamou Frederick Bishop e este traduziu:
- Que o leve consigo, para onde for. Que o servirá bem.
- Diz-lhe que não posso, que já vou levar Omarino.
Mas Arédomi não deu o braço a torcer. Mantinha-se imobilizado junto à cabana onde Roger dormia ou a segui-lo para onde quer que ele fosse, a poucos passos, com uma
súplica muda nos olhos. Optou por consultar a Comissão e Juan Tizón. Achavam eles conveniente que, além de Omarino, levasse também Arédomi? Talvez os dois rapazitos
viessem a dar maior força persuasiva ao seu relatório: ambos tinham cicatrizes de chicotadas. Por outro lado, eram suficientemente novos para serem educados e integrados
numa forma de vida que não fosse a da escravidão.
Em vésperas da partida no Liberal chegou a La Chorrera Carlos Miranda, chefe da estação Sur. Vinha trazer uma centena de indígenas com a borracha apanhada naquela
região nos últimos três meses. Era um homem gordo, quarentão e muito branco. Pela sua maneira de falar e comportar-se, parecia ter recebido melhor educação que outros
chefes. Provinha sem dúvida de uma família da classe média. Mas o rol dos seus actos não era menos sangrento que o dos seus colegas. Roger Casement e os outros membros
da Comissão tinham recebido vários testemunhos sobre o episódio da velha bora. Uma mulher que, uns meses antes, em Sur, num ataque de desespero ou de loucura, começou
de repente a exortar os boras aos gritos para que lutassem e não se deixassem humilhar mais nem tratar como escravos. A sua gritaria paralisou de terror os indígenas
que a rodeavam. Enfurecido, Carlos Miranda atirou-se sobre ela com a catana que arrebatou a um dos seus "rapazes" e decapitou-a. Brandindo a cabeça da mulher, que
o ia banhando

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em sangue, explicou aos índios que lhes aconteceria aquilo a todos se não cumprissem fazendo o seu trabalho e imitassem a velha. O decapitador era um homem bonacheirão
e risonho, falador e desembaraçado, que tentou tornar-se simpático com Roger e os seus colegas contando-lhes anedotas e histórias das personagens extravagantes e
pitorescas que tinha conhecido no Putumayo.
Quando, na quarta-feira, 16 de Novembro de 1910, entrou para o Liberal no embarcadouro de La Chorrera para empreender o regresso a Iquitos, Roger Casement abriu
a boca e respirou fundo. Tinha uma extraordinária sensação de alívio. Pareceu-lhe que aquela partida lhe limpava o corpo e o espírito de uma angústia opressiva que
não sentira antes, nem sequer nos momentos mais difíceis da sua vida no Congo. Além de Omarino e de Arédomi, levava no Liberal dezoito barbadianos, quatro mulheres
indígenas esposas daqueles e os filhos de John Brown, Allan Davis, James Mapp, J. Dyall e Philip Bertie Lawrence.
Os barbadianos estavam no barco como resultado de uma difícil negociação cheia de intrigas, concessões e rectificações, com Juan Tizón, Víctor Macedo, com os outros
membros da Comissão e com os próprios barbadianos. Todos estes, antes de testemunhar, tinham pedido garantias, pois sabiam muito bem que se expunham a represálias
dos chefes aos quais o seu testemunho podia mandar para a prisão. Casement comprometeu-se ele mesmo, em pessoa, a tirá-los vivos do Putumayo.
Porém, nos dias anteriores à chegada do Liberal a La Chorrera, a companhia iniciou uma ofensiva cordial para reter os capatazes de Barbados, assegurando-lhes que
não seriam vítimas de represálias e prometendo-lhes aumento de salário e melhores condições para que permanecessem nos seus postos. Víctor Macedo anunciou que, qualquer
que fosse a sua decisão, a Peruvian Amazon Company havia decidido descontar-lhes vinte e cinco por cento da dívida que tinham para com o armazém pela compra de medicamentos,
roupas, utensílios domésticos e alimentos. Todos aceitaram a oferta. E em menos de

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vinte e quatro horas, os barbadianos anunciaram a Casement que não partiriam com ele. Ficariam a trabalhar nas estações. Roger sabia o que isso significava: pressões
e subornos levariam a que, assim que ele partisse, se retractassem das suas confissões e o acusassem de as ter inventado ou de as ter imposto com ameaças. Falou
com Juan Tizón. Este lembrou-lhe que, embora estivesse tão afectado como ele com as coisas que aconteciam e decidido a corrigi-las, continuava a ser um dos directores
da Peruvian Amazon Company e não podia nem devia influenciar os barbadianos para que partissem ou ficassem. Um dos comissários, Henry Fielgald, apoiou Tizón com
os mesmos argumentos: ele também trabalhava em Londres com o senhor Júlio C. Arana, e embora viesse a exigir reformas profundas nos métodos de trabalho na Amazónia,
não podia converter-se em liquidador da empresa que o empregava. Casement teve a sensação de que o mundo vinha abaixo.
Mas como numa daquelas rocambolescas mudanças de situação dos folhetins franceses, todo aquele panorama se transformou de maneira radical quando o Liberal chegou
a La Chorrera, ao entardecer de 12 de Novembro. Trazia correspondência e jornais de Iquitos e de Lima. O diário El Comercio, da capital peruana, num longo artigo
de dois meses antes, anunciava que o Governo do presidente Augusto B. Leguía, atendendo às solicitações da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos sobre supostas atrocidades
cometidas nas explorações da borracha do Putumayo, tinha enviado para a Amazónia, com poderes especiais, um dos juízes mais brilhantes da magistratura peruana, o
doutor Carlos A. Valcárcel. A sua missão era investigar e iniciar de imediato as acções judiciais correspondentes, levando, se ele considerasse necessário, forças
policiais e militares ao Putumayo, a fim de que os responsáveis de crimes não escapassem à justiça.
Esta informação teve o efeito de uma bomba entre os empregados da Casa Arana. Juan Tizón comunicou a Roger Casement que Víctor Macedo, muito alarmado, tinha convocado

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todos os chefes de estações, mesmo das mais afastadas, para uma reunião em La Chorrera. Tizón parecia um homem dilacerado por uma contradição insolúvel. Alegrava-se
pela honra do seu país, e por um sentido inato de justiça, que finalmente o Governo peruano tivesse decidido agir. Por outro lado, tinha noção de que aquele escândalo
podia significar a ruína da Peruvian Amazon Company, e portanto a sua própria. Uma noite, entre golos de uísque morno, Tizón confiou a Roger que todo o seu património,
exceptuando uma casa em Lima, estava colocado em acções da companhia.
Os rumores, as intrigas e os receios generalizados com as notícias de Lima fizeram com que uma vez mais os barbadianos mudassem de opinião. Agora queriam novamente
sair dali. Temiam que os chefes peruanos tentassem livrar-se de responsabilidades nas torturas e assassínios de indígenas atirando a culpa para eles, os "negros
estrangeiros", e queriam sair quanto antes do Peru e voltar a Barbados. Estavam mortos de insegurança e de medo.
Roger Casement, sem dizer a ninguém, pensou que, se os dezoito barbadianos chegassem com ele a Iquitos, qualquer coisa podia acontecer. Por exemplo, que a companhia
os responsabilizasse por todos os crimes e os mandasse para a prisão, ou tentasse suborná-los para que rectificassem as suas confissões e acusassem Casement de as
ter falsificado. A solução era fazer com que os barbadianos desembarcassem, antes de chegar a Iquitos, numa das escalas em território brasileiro e esperassem ali
que Roger os recolhesse, no barco Atahualpa, em que ele viajaria de Iquitos para a Europa, com escala em Barbados. Confiou o seu plano a Frederick Bishop. Este concordou
com o plano, mas disse a Casement que o melhor era não dizer nada aos barbadianos até ao último minuto.
Houve uma estranha atmosfera no embarcadouro de La Chorrera quando o Liberal partiu. Nenhum dos chefes se foi despedir. Dizia-se que vários deles tinham decidido
partir, rumo ao Brasil, ou para a Colômbia. Juan Tizón, que ficaria ainda

249
outro mês no Putumayo, abraçou Roger e desejou-lhe sorte. Os membros da Comissão, que também permaneceriam mais umas semanas no Putumayo, dedicados a fazer estudos
técnicos e administrativos, despediram-se dele junto à escada. Ficaram de ver-se em Londres, para ler o relatório de Roger antes de ele o apresentar ao Foreign Office.
Naquela primeira noite de viagem no rio, uma lua cheia de luz avermelhada iluminou o céu. Reverberava nas águas escuras com um fulgor de estrelinhas que pareciam
peixinhos luminosos. Tudo era quente, belo e sereno, excepto o cheiro a borracha que ali continuava, como se se tivesse metido nas suas narinas para sempre. Roger
esteve muito tempo apoiado na amurada da coberta da popa a contemplar o espectáculo e de repente apercebeu-se que tinha a cara encharcada de lágrimas. Que paz maravilhosa,
meu Deus!
Nos primeiros dias de navegação, o cansaço e a ansiedade impediram-no de trabalhar revendo as suas fichas e cadernos e fazendo esboços do seu relatório. Dormia pouco,
com pesadelos. Levantava-se muitas vezes de noite e saía até à ponte para observar o luar e as estrelas, se estivesse céu limpo. No barco viajava um administrador
de Alfândegas do Brasil. Perguntou-lhe se os barbadianos podiam desembarcar nalgum porto brasileiro donde pudessem viajar para Manaus à espera dele, para depois
seguirem juntos até Barbados. O funcionário garantiu-lhe que não havia a menor dificuldade. Mesmo assim, Roger continuou preocupado. Temia que acontecesse alguma
coisa que salvasse a Peruvian Amazon Company de toda e qualquer sanção. Depois de ter visto de maneira tão directa a sorte dos indígenas amazónicos, era obrigatório
que o mundo inteiro soubesse e fizesse alguma coisa para a remediar.
Outro motivo de angústia era a Irlanda. Desde que tinha chegado ao convencimento de que só uma acção decidida, uma rebelião, podia livrar a sua pátria de "perder
a alma" por causa da colonização, como tinha acontecido a huitotos, boras e outros infelizes do Putumayo, ardia de impaciência por se dedicar de

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corpo e alma a preparar a insurreição que acabasse com tantos séculos de servidão para o seu país.
No dia em que o Liberal atravessou a fronteira peruana -navegava já no Javari - e entrou no Brasil, desapareceu-lhe o sentimento de receio e perigo que o assediava.
Mas, depois, voltariam a entrar no Amazonas e a subi-lo em território peruano, onde, tinha a certeza, soçobraria ao receio de que alguma catástrofe imprevista viesse
frustrar a sua missão e tornasse inúteis os meses passados no Putumayo.
A 21 de Novembro de 1910, no porto brasileiro de Esperança, no rio Javari, Roger desembarcou catorze barbadianos, as mulheres de quatro deles e quatro crianças.
Na véspera tinha-os reunido para lhes explicar o risco que corriam se o acompanhassem até Iquitos. Desde a companhia, conivente com os juízes e a polícia, os deter
para os responsabilizar por todos os crimes, até serem objecto de pressões, ofensas e chantagens a fim de se retractarem das confissões que incriminavam a Casa Arana.
Os catorze barbadianos aceitaram o seu plano de desembarcar em Esperança e apanhar ali o primeiro barco para Manaus, onde, protegidos pelo Consulado britânico, esperariam
que Roger os recolhessem no Atahualpa da Booth Line que fazia o trajecto Iquitos-Manaus-Pará. Desta última cidade outro barco os levaria a casa. Roger despediu-se
deles com abundantes provisões que lhes tinha comprado, com um certificado de que a sua passagem para Manaus seria custeada pelo Governo britânico e uma carta de
apresentação para o cônsul britânico naquela cidade.
Seguiram viagem com ele até Iquitos, além de Arédomi e Omarino, Frederick Bishop, John Brown com a sua mulher e filho e Philip Bertie Lawrence, também com dois filhos
pequenos. Estes barbadianos tinham coisas para ir buscar e cheques da companhia para levantar na cidade.
Roger passou os quatro dias que faltavam para chegar a trabalhar nos seus papéis e a preparar um memorando para as autoridades peruanas.

251
A 25 de Novembro, desembarcaram em Iquitos. O cônsul britânico, Mr. Stirs, insistiu uma vez mais em que Roger se instalasse na sua casa. E acompanhou-o a uma pensão
vizinha onde encontraram alojamento para os barbadianos, para Arédomi e Omarino. Mr. Stirs estava inquieto. Havia grande nervosismo em toda a Iquitos com a notícia
de que em breve chegaria o juiz Carlos A. Valcárcel para investigar as acusações de Inglaterra e dos Estados Unidos contra a companhia de Júlio C. Arana. O receio
não era só dos empregados da Peruvian Amazon Company, mas também dos Iquitenhos em geral, pois todos sabiam que a vida da cidade dependia da companhia. Havia uma
grande hostilidade contra Roger Casement e o cônsul aconselhou-o a não sair sozinho pois não se podia descartar a hipótese de um atentado contra a sua vida.
Quando, depois do jantar e do habitual cálice de porto, Roger lhe resumiu o que tinha visto e ouvido no Putumayo, Mr. Stirs, que havia escutado tudo muito sério
e mudo, só conseguiu perguntar-lhe:
- Tão terrível como no Congo de Leopoldo II, então?
- Temo que sim e talvez pior - respondeu Roger. - Embora me pareça obsceno estabelecer hierarquias entre crimes desta grandeza.
Na sua ausência, tinha sido nomeado um novo prefeito em Iquitos, um senhor vindo de Lima chamado Esteban Zapata. Ao contrário do anterior, não era empregado de Júlio
C. Arana. Desde que chegou mantinha uma certa distância com Pablo Zumaeta e os outros dirigentes da companhia. Sabia que Roger estava prestes a chegar e esperava-o
com impaciência.
O encontro com o prefeito teve lugar na manhã seguinte e durou mais de duas horas. Esteban Zapata era um homem novo, muito moreno, de modos educados. Apesar do calor
-transpirava sem cessar e limpava a cara com um grande lenço roxo - não tirou a sobrecasaca de lã. Ouviu Roger muito atento, espantando-se de quando em vez, interrompendo-o
uma vez ou outra para pedir pormenores e com frequentes exclamações

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de indignação ("Que coisa terrível! Que espanto!"). De vez em quando oferecia-lhe copinhos de água fresca. Roger contou-lhe tudo, com grande pormenor, nomes, números,
lugares, concentrando-se nos factos e evitando os comentários, excepto no fim, em que concluiu a sua comunicação com estas palavras: - Em resumo, senhor prefeito,
as acusações do jornalista Saldaña Roca e do senhor Hardenburg não eram exageradas. Pelo contrário, tudo o que a revista Truth publicou em Londres, embora pareça
mentira, ainda fica aquém da verdade.
Zapata, com um mal-estar na voz que parecia sincero, disse que se sentia envergonhado pelo Peru. Isto acontecia porque o Estado não tinha chegado àquelas regiões
afastadas da lei e carentes de toda e qualquer instituição. O Governo estava decidido a actuar. Por isso é que ele estava ali. Por isso é que chegaria em breve um
juiz íntegro como o doutor Valcárcel. O próprio presidente Leguía queria lavar a honra do Peru, pondo fim àqueles abusos execráveis. Dissera-lhe assim, com aquelas
mesmas palavras. O Governo de Sua Majestade iria verificar que os culpados seriam sentenciados e os indígenas protegidos a partir de agora. Perguntou-lhe se o relatório
de Roger Casement para o seu Governo se tornaria público. Quando este contestou que, em princípio, o relatório era para uso interno do Governo britânico e que, sem
dúvida, seria enviada uma cópia ao Governo peruano para que este decidisse se o publicava ou não, o prefeito respirou aliviado:
- Menos mal! - exclamou. - Se tudo isto se desse a conhecer, causaria um dano enorme à imagem do nosso país no mundo.
Roger Casement esteve quase a dizer-lhe que o que faria mais dano ao Peru não seria o relatório, mas sim o facto de ocorrerem em terra peruana as coisas que o motivavam.
Por outro lado, o prefeito quis saber se os barbadianos que tinham vindo a Iquitos - Bishop, Brown e Lawrence - aceitariam confirmar-lhe os seus testemunhos sobre
o Putumayo. Roger garantiu-lhe que no dia seguinte os enviaria logo às primeiras horas à Prefeitura.

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Mr. Stirs, que tinha servido de intérprete neste diálogo, saiu cabisbaixo do encontro. Roger tinha notado que o cônsul acrescentava muitas frases - às vezes verdadeiros
comentários - ao que ele dizia em inglês e que essas interferências tendiam sempre a atenuar a dureza dos factos relativos à exploração e sofrimentos dos indígenas.
Tudo isso aumentou-lhe a desconfiança em relação ao cônsul, o qual, apesar de estar ali há vários anos e saber muito bem o que se passava, nunca informara o Foreign
Office sobre aquilo. A razão era simples: Juan Tizón tinha-lhe revelado que Mr. Stirs fazia negócios em Iquitos e como tal dependia também da companhia do senhor
Júlio C. Arana. Sem dúvida, a sua preocupação actual era que este escândalo o podia prejudicar. O senhor cônsul tinha uma alma pequena e a sua tabela de valores
estava subordinada à sua ganância.
Nos dias seguintes, Roger tentou ver o padre Urrutia, mas na missão disseram-lhe que o superior dos Agostinhos estava em Pebas, com índios iaguas - Roger tinha-os
visto numa escala que ali fez o Liberal e ficara impressionado com as túnicas de fibras tecidas com que aqueles indígenas cobriam os seus corpos -, pois ia ser ali
inaugurada uma escola.
Assim, nos dias que lhe faltavam para apanhar o Atabualpa, que descarregava no porto de Iquitos, Roger dedicou-os a trabalhar no relatório. Depois, à tarde, costumava
passear e, umas duas vezes, meteu-se no Cinema Alhambra, na Plaza de Armas de Iquitos. Existia há uns meses e nele se projectavam filmes mudos, com o acompanhamento
de uma orquestra de três músicos, muito desafinada. O verdadeiro espectáculo para Roger não eram as figuras a preto e branco do ecrã, mas sim o fascínio do público:
índios vindos das tribos e soldados serranos da guarnição local que observavam tudo aquilo maravilhados e desconcertados.
Outro dia deu um passeio a pé até Punchana, por um trilho de terra que ao regressar se tinha transformado num lodaçal devido à chuva. Mas a paisagem era muito bela.
Outro dia tentou chegar a pé a Quistococha - levava consigo Omarino

254e
Arédomi -, mas um aguaceiro interminável surpreendeu-os e tiveram de se refugiar no mato. Quando a tempestade parou, o trilho estava tão cheio de charcos e de lama
que tiveram de regressar depressa a Iquitos.
O Atahualpa zarpou rumo a Manaus e ao Pará, a 6 de Dezembro de 1910. Roger ia em primeira classe e Omarino, Arédomi e os barbadianos em segunda. Quando o barco,
na clara e cálida manhã se afastava de Iquitos e as pessoas e as casas das margens iam ficando mais pequenas, Roger sentiu outra vez no peito aquela sensação de
liberdade que dá o desaparecimento de um grande perigo. Não um perigo físico, mas sim moral. Tinha a sensação de que, se tivesse permanecido mais tempo naquele lugar
terrível onde tanta gente sofria de maneira tão injusta e cruel, ele também, pelo simples facto de ser um branco e um europeu, ficaria contaminado, aviltado. Disse
a si próprio que, felizmente, nunca mais voltaria a pisar aqueles lugares. Esse pensamento deu-lhe forças e tirou-o em parte do abatimento e torpor que o impedia
de trabalhar com a concentração e o ímpeto de outrora.
Quando, a 10 de Dezembro, o Atahualpa atracou no porto de Manaus ao entardecer, Roger já tinha deixado para trás o desalento e recuperado a sua energia e a sua capacidade
de trabalho. Os catorze barbadianos já estavam na cidade. A maioria tinha decidido não regressar a Barbados, mas sim aceitar contratos de trabalho no caminho-de-ferro
Madeira-Mamoré, que oferecia boas condições. Os restantes continuaram viagem com ele até ao Pará onde o barco atracou a 14 de Dezembro. Aqui, Roger procurou um navio
que fosse para Barbados e embarcou nele os barbadianos, Omarino e Arédomi. Deixou-os a cargo de Frederick Bishop, para que em Bridge-town os levasse ao reverendo
Frederick Smith, com instruções de os matricular no colégio dos Jesuítas onde, antes de continuar viagem para Londres, recebessem uma formação mínima que os preparasse
para' fazer frente à vida na capital do Império Britânico.

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Depois procurou e encontrou um barco que o levasse para a Europa. Encontrou o SS Ambrose da Booth Line. Como só zarparia a 17 de Dezembro, aproveitou aqueles dias
para visitar os lugares que frequentou quando fora cônsul britânico no Pará: bares, restaurantes, o Jardim Botânico, o imenso mercado de cores berrantes e variadas
do porto. Não tinha quaisquer saudades do Pará, pois a sua estada não fora feliz aqui, mas reconheceu a alegria que transpirava nas pessoas, o porte das mulheres
e dos rapazes ociosos que se passeavam exibindo-se nas avenidas que davam para o rio. Uma vez mais disse a si próprio que os Brasileiros tinham uma relação saudável
e feliz com o seu corpo, muito diferente da dos Peruanos, por exemplo, os quais, tal como os Ingleses, pareciam sentir-se sempre incomodados com o seu físico. Em
compensação, aqui mostravam-no com descaramento, sobretudo aqueles que se sentiam jovens e atraentes.
A 17 zarpou no SS Ambrose e na viagem decidiu que, como este barco chegaria ao porto francês de Cherburgo nos últimos dias de Dezembro, desembarcaria ali e apanharia
o comboio para Paris, a fim de passar o Ano Novo com Herbert Ward e Sarita, a sua mulher. Regressaria a Londres no primeiro dia útil do próximo ano. Seria uma experiência
purificadora passar dois dias com aquele casal amigo, culto, no seu bonito estúdio repleto de esculturas e recordações africanas, a falar de coisas belas e elevadas,
arte, livros, teatro, música, o melhor que tinha produzido esse contraditório ser humano que era também capaz de tanta maldade como a que reinava nas explorações
de borracha de Júlio C. Arana no Putumayo.


XI.


Quando o xerife gordo abriu a porta da sua cela, entrou e sem dizer nada se sentou na ponta do catre onde ele estava estendido, Roger Casement não se surpreendeu.
Desde que, violando o regulamento, o xerife lhe tinha permitido tomar um duche, ele sentia, sem que tivesse havido alguma palavra entre ambos, uma aproximação entre
ele e o carcereiro e que este, talvez sem se aperceber, talvez apesar de si mesmo, tinha deixado de o odiar e considerar responsável pela morte do seu filho nas
trincheiras da Bélgica.
Era a hora do crepúsculo e a pequena cela estava quase às escuras. Roger via do catre a sombra em silhueta do xerife, ampla e cilíndrica, muito quieta. Sentia-o
a arquejar profundamente, como que exausto.
- Tinha pés chatos e podia ter-se livrado de ir à tropa -ouviu-o salmodiar, trespassado de emoção. - No primeiro centro de recrutamento, em Hastings, quando lhe
examinaram os pés, rejeitaram-no. Mas ele não se resignou e voltou a apresentar-se noutro centro. Queria ir à guerra. Já se viu semelhante
loucura?
- Amava o seu país, era um patriota - disse Roger Casement, baixinho. - O senhor deveria estar orgulhoso do seu filho,
xerife.
- De que é que me serve ter sido um herói, se agora está morto? - retorquiu o carcereiro com voz lúgubre. - Era a única

257
coisa que eu tinha no mundo. Agora, é como se eu também tivesse deixado de existir. Tenho momentos em que penso que me tornei um fantasma.
Pareceu-lhe que, nas sombras da cela, o xerife gemia. Talvez fosse uma falsa impressão. Roger recordou os cinquenta e três voluntários da Brigada Irlandesa que ficaram
lá, na Alemanha, no pequeno campo militar de Zossen, onde o capitão Robert Monteith os tinha treinado no uso de espingardas, metralhadoras, tácticas e manobras militares,
procurando manter-lhes a moral em cima apesar das circunstâncias incertas. E as perguntas que tinha feito mil vezes voltaram a atormentá-lo uma vez mais. O que terão
pensado quando ele desapareceu sem se despedir tal como o capitão Monteith e o sargento Bailey? Que eram uns traidores? Que, depois de os fazer embarcar naquela
aventura temerária, eles é que iam lutar para a Irlanda e deixavam-nos rodeados de arame farpado nas mãos dos Alemães e odiados pelos prisioneiros irlandeses de
Limburg, que os consideravam uns desertores e desleais para com os seus companheiros mortos nas trincheiras da Flandres?
Uma vez mais disse a si mesmo que a sua vida tinha sido uma contradição permanente, uma sucessão de confusões e enredos truculentos, onde a verdade das suas intenções
e comportamentos ficava sempre, por obra do acaso ou da sua própria incompetência, obscurecida, distorcida, transformada em mentira. Aqueles cinquenta e três patriotas,
puros e idealistas, que tinham tido a coragem de enfrentar dois mil e tal companheiros do campo de Limburg e inscrever-se na Brigada Irlandesa para lutar "ao lado
das, mas não dentro das" Forças Armadas alemãs pela independência da Irlanda, nunca saberiam do combate titânico que Roger Casement tinha travado com o Alto Comando
Militar alemão para impedir que os despachassem para a Irlanda no Aud, juntamente com as vinte mil espingardas que enviavam para a Revolta da Páscoa.
- Eu tenho a responsabilidade desses cinquenta e três brigadistas - disse Roger ao capitão Rudolf Nadolny, encarregado

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dos assuntos irlandeses na chefia militar em Berlim. - Eu exortei-os a desertar do Exército britânico. Para a lei inglesa são traidores. Serão de imediato enforcados
se a Royal Navy os capturar. Algo que acontecerá, irremediavelmente, se a revolta tiver lugar sem o apoio de uma força militar alemã. Não posso evitar a morte e
a desonra desses compatriotas. Eles não irão para a Irlanda com as vinte mil espingardas.
Não tinha sido fácil. O capitão Nadolny e os oficiais do Alto Comando Militar alemão tentaram fazê-lo ceder com uma
chantagem.
- Muito bem, comunicaremos de imediato aos dirigentes dos Voluntários Irlandeses em Dublin e nos Estados Unidos que, tendo em vista a oposição do senhor Roger Casement
relativamente à revolta, o Governo alemão suspende o envio das vinte mil espingardas e dos cinco milhões de munições.
Foi preciso discutir, negociar, explicar, mantendo sempre a calma. Roger Casement não se opunha à revolta, só a que os Voluntários e o Exército do Povo se suicidassem,
desatando a lutar contra o Império Britânico sem que os submarinos, zepelins e comandos do Kaiser distraíssem as Forças Armadas britânicas e as impedissem de esmagar
brutalmente os rebeldes, atrasando deste modo, vá-se lá saber quantos anos, a independência da Irlanda. As vinte mil espingardas eram indispensáveis, claro. Ele
próprio iria com essas armas para a Irlanda e explicaria a Tom Clarke, Patrick Pearse, Joseph Plunkett e restantes líderes dos Voluntários Irlandeses as razões pelas
quais, segundo ele, a revolta devia ser adiada.
Por fim, conseguiu. O barco com o armamento, o Aud, partiu, e Roger, Monteith e Bailey zarparam também num submarino em direcção ao Eire. Mas os cinquenta e três
brigadistas ficaram em Zossen, sem perceber nada, a interrogar-se certamente porque é que aqueles mentirosos tinham ido lutar para a Irlanda e os haviam deixado
ali, depois de os terem treinado para uma acção de que agora os privavam sem qualquer explicação.

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- Quando o pequeno nasceu, a mãe desapareceu e abandonou-nos aos dois - disse de repente a voz do xerife e Roger deu um salto no catre. - Nunca mais soube dela.
De modo que tive de converter-me em mãe e pai para o menino. Chamava-se Hortênsia e era meio louca.
Tinha escurecido totalmente na cela. Roger já não via a silhueta do carcereiro. A sua voz ouvia-se de muito perto e parecia mais o lamento de um animal que uma expressão
humana.
- Nos primeiros anos o meu salário ia quase todo para pagar a uma mulher que o amamentasse e o criasse - prosseguiu o xerife. - Passava todo o meu tempo livre com
ele. Foi sempre um rapazinho dócil e afável. Nunca foi um desses rapazes que fazem diabruras como roubar e embebedar-se e que enlouquecem os pais. Era aprendiz numa
alfaiataria, bem considerado pelo seu chefe. Podia ter feito carreira ali, se não se lhe tivesse metido na cabeça alistar-se, apesar dos pés chatos.
Roger Casement não sabia o que dizer. Tinha pena do sofrimento do xerife e gostaria de o consolar, mas que palavras podiam aliviar a dor animal daquele pobre homem?
Gostaria de lhe ter perguntado o seu nome e o do seu filho morto, deste modo senti-los-ia mais perto, mas não se atreveu a interrompê-lo.
- Recebi duas cartas dele - prosseguiu o xerife. - A primeira, durante a recruta. Dizia-me que gostava da vida no acampamento e que, quando a guerra acabasse, talvez
ficasse no Exército. A segunda carta era muito diferente. Inúmeros parágrafos tinham sido tapados com tinta preta pelo censor. Não se queixava, mas havia uma certa
amargura, até um pouco de medo, no que escrevia. Nunca mais tive notícias dele. Até que chegou uma carta de luto do Exército, a anunciar-me a sua morte. Que tinha
tido um fim heróico, na batalha de Loos. Nunca ouvi falar daquele lugar. Fui ver num mapa onde ficava Loos. Deve ser uma terra insignificante.
Pela segunda vez, Roger sentiu aquele gemido, semelhante ao ulular de um pássaro, e teve a impressão de que a sombra do carcereiro estremecia.

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O que aconteceria agora àqueles cinquenta e três compatriotas? O Alto Comando Militar respeitaria os compromissos e permitiria que a pequena brigada se mantivesse
unida e isolada no campo de Zossen? Não era certo. Nas suas discussões com o capitão Rudolf Nadolny, em Berlim, Roger reparara no desprezo que os militares alemães
tinham por aquele ridículo contingente de apenas meia centena de homens. Que diferente era a atitude deles a princípio quando, deixando-se convencer pelo entusiasmo
de Casement, tinham apoiado a sua iniciativa de reunir todos os prisioneiros irlandeses no campo de Limburg, supondo que, assim que falasse com eles, se alistariam
às centenas na Brigada Irlandesa. Que fracasso e que decepção! A mais dolorosa da sua vida. Um fracasso que o deixava no ridículo e despedaçava os seus sonhos patrióticos.
Em que é que se enganara? O capitão Robert Monteith acreditava que o seu erro fora falar aos dois mil e duzentos prisioneiros juntos, em vez de o fazer por grupos
pequenos. Com vinte ou trinta teria sido possível um diálogo, responder a objecções, esclarecer o que era confuso para eles. Mas perante uma massa de homens entristecidos
pela derrota e pela humilhação de se sentirem prisioneiros o que é que podia esperar? Só entenderam que Roger lhes pedia para se aliarem aos seus inimigos de ontem
e de agora, por isso reagiram com tanta beligerância. Havia, sem dúvida, muitas maneiras de interpretar a sua hostilidade. Mas nenhuma podia apagar a amargura de
se ver insultado, chamado "traidor", "amarelo", "barata", vendido por aqueles compatriotas a quem ele tinha sacrificado o seu tempo, a sua honra e o seu futuro.
Recordou as brincadeiras de Herbert Ward quando, troçando do seu nacionalismo, o exortava a voltar à realidade e sair daquele "sonho do celta" em que se tinha acastelado.
Na véspera da sua partida da Alemanha, a 11 de Abril de 1916, Roger escreveu uma carta ao chanceler imperial Theobald von Bethmann-Hollweg, recordando-lhe os termos
do acordo assinado entre ele e o' Governo alemão sobre a Brigada Irlandesa. Segundo o acordado, os brigadistas só podiam ser

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enviados para combater pela Irlanda e em caso algum utilizados como mera força de apoio do Exército alemão noutros cenários da guerra. Estipulava-se de igual modo
que, se a contenda não terminasse com uma vitória da Alemanha, os soldados da Brigada Irlandesa deveriam ser enviados para os Estados Unidos ou para um país neutro
que os acolhesse e de modo nenhum para a Grã-Bretanha, onde seriam sumariamente executados. Os Alemães cumpririam estes compromissos? A incerteza voltava várias
vezes à sua mente desde que fora capturado. E se, depois de ele, Monteith e Bailey partirem para a Irlanda, o capitão Rudolf Nadolny dissolvesse a Brigada Irlandesa
e enviasse de novo os seus membros para o campo de Limburg? Viveriam entre insultos, discriminados pelos outros prisioneiros irlandeses e correndo o risco diário
de serem linchados?
- Eu bem queria que me devolvessem os seus restos mortais
- voltou a sobressaltá-lo a voz dorida do xerife. - Para lhe fazer um enterro religioso, em Hastings, onde ele nasceu, como eu, o meu pai e o meu avô. Responderam-me
que não. Que devido às circunstâncias da guerra a devolução dos seus restos mortais era impossível. O senhor entende essa coisa das "circunstâncias da guerra"?
Roger não respondeu porque compreendeu que o carcereiro não estava a falar com ele, mas sim consigo mesmo através dele.
- Eu sei muito bem o que quer dizer - prosseguiu o xerife.
- Que não há quaisquer restos mortais do meu pobre filho. Que uma granada ou um morteiro o pulverizou. Naquele maldito sítio, Loos. Ou que o atiraram para uma vala
comum, com outros soldados mortos. Nunca saberei onde está o seu túmulo para lhe ir pôr umas flores e rezar uma oração de vez em quando.
- O principal não é o túmulo, mas sim a memória, xerife
- disse Roger. - Isso é o que conta. Para o seu filho, onde ele estiver agora, o que lhe importa é saber que o senhor o recorda com tanto carinho e nada mais.

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A sombra do xerife tinha feito um movimento de surpresa ao ouvir Casement. Talvez se tivesse esquecido que estava na cela e a seu lado.
- Se soubesse onde está a mãe dele, teria ido vê-la, para lhe dar a notícia e o chorarmos juntos - disse o xerife. - Não guardo rancor nenhum a Hortênsia por me
ter abandonado. Nem sequer sei se continua viva. Nunca se dignou perguntar pelo filho que abandonou. Não era má, mas sim meio louca, já lhe disse.
Agora Roger interrogava-se uma vez mais, como fazia sem tréguas noite e dia desde o amanhecer da sua chegada à praia de Banna Strand, na baía de Tralee, quando tinha
ouvido o canto das calhandras e vira perto da praia as primeiras violetas selvagens, por que maldita razão não tinha havido nenhum barco nem piloto irlandês à espera
do cargueiro Aud que trazia as espingardas, as metralhadoras e as munições para os Voluntários Irlandeses e o submarino onde ele, Monteith e Bailey vinham. O que
teria acontecido? Ele leu com os seus próprios olhos a carta peremptória de John Devoy para o conde Johann Heinrich von Bernstorff, que este transmitiu à chancelaria
alemã, a avisar que a revolta seria entre a Sexta-Feira Santa e o domingo de Ressurreição. E que, portanto, as espingardas deveriam chegar, sem falta, a 20 de Abril
a Fenit Píer, na baía de Tralee. Ali estariam à espera um piloto especialista na zona e botes e barcos com Voluntários para descarregar as armas. As referidas instruções
foram reconfirmadas nos mesmos termos de urgência no dia 5 de Abril por Joseph Plunkett ao encarregado de Negócios alemão em Berna, que retransmitiu a mensagem para
a chancelaria e para a chefia militar em Berlim: as armas tinham de chegar à baía de Tralee ao anoitecer do dia 20, nem antes nem depois. Aquela foi a data exacta
em que tanto o Aud como o submarino U-19 chegaram ao local de encontro. Que raio tinha sucedido para que não houvesse ninguém à espera deles e tivesse acontecido
'a catástrofe que o tinha sepultado a ele na prisão e contribuíra para o fracasso da revolta? Porque,

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segundo as informações que os seus interrogadores Basil Thomson e Reginald Hall lhe deram, o Aud foi surpreendido pela Royal Navy em águas irlandesas bastante depois
da data acordada para o desembarque - arriscando a sua segurança, tinha continuado, pois, a esperar os Voluntários Irlandeses - o que obrigou o capitão do Aud a
afundar o barco e a mandar para o fundo do mar as vinte mil espingardas, as dez mil metralhadoras e os cinco milhões de munições que, porventura, teriam dado outra
saída àquela rebelião que os Ingleses esmagaram com a ferocidade que era de esperar.
Na verdade, Roger Casement podia muito bem imaginar o que tinha acontecido: nada de grandioso nem de transcendental, uma daquelas ninharias estúpidas, descuidos,
contra-ordens, diferenças de opinião entre os dirigentes do Conselho Supremo do Irish Republican Brotherhood, Tom Clarke, Sean McDermott, Patrick Pearse, Joseph
Plunkett e uns poucos mais. Alguns deles ou talvez todos terão mudado de opinião sobre a data mais conveniente para a chegada do Aud à baía de Tralee e enviado a
rectificação sem pensar que a contra-ordem para Berlim podia extraviar-se ou chegar quando o cargueiro e o submarino estivessem já no alto-mar e, devido às espantosas
condições atmosféricas daqueles dias, praticamente desligados da Alemanha. Devia ter sido alguma coisa assim. Uma pequena confusão, um erro de cálculo, uma parvoíce
e um armamento de primeira categoria estava agora no fundo do mar em vez de chegar às mãos dos Voluntários Irlandeses que tinham dado a vida na semana que duraram
os combates nas ruas de Dublin.
Não tinha errado pensando que era um equívoco erguerem-se em armas sem uma acção militar alemã em simultâneo, mas não se alegrava por isso. Preferia ter-se enganado.
Preferia ter estado lá, com aqueles insensatos, com a centena de Voluntários que na madrugada de 24 de Abril capturaram a Estação Central dos Correios de Sackville
Street, ou com os que tentaram tomar de assalto o Castelo de Dublin, ou com os que quiseram fazer rebentar com explosivos o Magazine Fort, no Phoenix

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Park. Mil vezes preferível morrer como eles, com as armas na mão - uma morte heróica, nobre, romântica - do que na indignidade do patíbulo, como os assassinos e
os violadores. Por mais impossível e irreal que tenha sido o desígnio dos Voluntários Irlandeses, da Irish Republican Brotherhood e do Exército do Povo, deve ter
sido belo e exaltante - certamente que todos os que lá estiveram choraram e sentiram o seu coração a vibrar - ouvir Patrick Pearse a ler o manifesto que proclamava
a República. Ainda que só por um brevíssimo parêntese de sete dias, o "sonho do celta" tornou-se realidade: a Irlanda, emancipada do ocupante britânico, foi uma
nação independente.
- Ele não gostava que eu exercesse este ofício - a voz atormentada do xerife voltou a sobressaltá-lo. - Envergonhava-se que as pessoas do bairro, da alfaiataria,
soubessem que o pai era um empregado das prisões. As pessoas acham que nós, os guardas, por nos darmos de dia e de noite com delinquentes ficamos contagiados e também
nos tornamos fora-da-lei. Já se viu coisa mais injusta? Como se alguém não tivesse de fazer este trabalho para bem da sociedade. Eu dava-lhe o exemplo de Mr. John
Ellis, o verdugo. Também é barbeiro na sua terra, Rochdale, e ali ninguém fala mal dele. Pelo contrário, todos os vizinhos o têm na maior consideração. Fazem fila
para que os atenda na sua barbearia. Tenho a certeza de que o meu filho não teria permitido que alguém falasse mal de mim diante dele. Não me tinha só respeito.
Eu sei que ele gostava de mim.
Roger ouviu novamente aquele gemido apagado e sentiu o catre a tremer com a agitação do carcereiro. Fazia bem ao xerife desabafar daquele modo ou aumentava mais
a sua dor? O seu monólogo era uma faca a escavar numa ferida. Não sabia que atitude tomar: falar com ele? Tentar consolá-lo? Ouvi-lo em
silêncio?
- Nunca deixou de me oferecer alguma coisa no dia do meu aniversário - acrescentou o xerife. - O primeiro salário que recebeu na alfaiataria entregou-mo na íntegra.
Tive de insistir

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para que ele ficasse com o dinheiro. Qual é o rapaz de hoje que mostra tanto respeito pelo pai?
O xerife voltou a mergulhar no silêncio e na imobilidade. Não eram muitas as coisas que Roger Casement chegara a saber da revolta: a tomada da Estação Central dos
Correios, os assaltos fracassados ao Castelo de Dublin e ao Magazine Fort, no Phoenix Park. E os fuzilamentos sumários dos principais dirigentes, entre eles o do
seu amigo Sean McDermott, um dos primeiros irlandeses contemporâneos a ter escrito prosa e poesia em gaélico. Quantos mais teriam fuzilado? Tê-los-iam executado
nas próprias masmorras da prisão de Kilmainham? Ou tê-los-iam levado para Richmond Barracks? Alice disse-lhe que tinham obrigado James Connolly, o grande organizador
dos grémios, tão ferido que não conseguia ter-se de pé, a enfrentar o pelotão de fuzilamento sentado numa cadeira. Bárbaros! Os dados fragmentados da revolta que
Roger tinha conhecido pelos seus interrogadores, o chefe da Scotland Yard, Basil Thomson e do capitão-de-mar-e-guerra Reginald Hall, da Inteligência Naval Britânica,
pelo seu advogado Gerge Gavan Duffy, pela sua irmã Nina e por Alice Stopford Green, não lhe davam uma ideia clara do que acontecera, só de uma grande desordem com
sangue, bombas, incêndios e disparos. Os seus interrogadores iam-se referindo às notícias que chegavam a Londres quando ainda se combatia nas ruas de Dublin e o
Exército britânico sufocava os últimos redutos rebeldes. Histórias fugazes, frases soltas, fiapos que tentava situar no seu contexto usando a fantasia e a intuição.
Pelas perguntas de Thomson e Hall durante aqueles interrogatórios descobriu que o Governo inglês suspeitava que ele tinha chegado da Alemanha para encabeçar a insurreição.
Assim se escrevia a História! Ele, que veio tentar parar a revolta, convertido em seu líder por obra do engano britânico. O Governo atribuía-lhe há tempos uma influência
entre os independentistas que estava longe da realidade. Talvez isso explicasse as campanhas de descrédito da imprensa inglesa, quando ele

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estava em Berlim, acusando-o de se vender ao Kaiser, de ser um mercenário além de um traidor, e, naqueles dias, as infâmias que lhe atribuíam os diários londrinos.
Uma campanha para mergulhar na ignomínia um líder supremo que nunca foi nem quis ser! Era isso a História, um ramo da efabulação que pretendia ser ciência.
- Uma vez vieram-lhe as febres e o médico da enfermaria disse que ele ia morrer - retomou o xerife o seu monólogo. -Mas Mrs. Cubert, a mulher que o amamentava, e
eu cuidámos dele, agasalhámo-lo e com carinho e paciência salvámos-lhe a vida. Passei muitas noites acordado a fazer-lhe fricções no corpo todo com álcool canforado.
Fazia-lhe bem. Partia-se-me a alma vê-lo tão pequenino, a tiritar de frio. Espero que não tenha sofrido. Quero dizer, lá, nas trincheiras, naquele sítio, Loos. Que
a sua morte tenha sido rápida, sem se aperceber. Que Deus não tenha sido tão cruel ao ponto de lhe infligir uma longa agonia, deixando que se esvaísse em sangue
aos poucos ou a sufocar com os gases de mostarda. Ele sempre assistiu ao ofício dominical e cumpriu as suas obrigações de cristão.
- Como é que se chamava o seu filho, xerife? - perguntou Roger Casement.
Pareceu-lhe que nas sombras o carcereiro tinha novamente uma espécie de sobressalto, como se acabasse de descobrir outra vez que ele estava ali.
- Chamava-se Alex Stacey - respondeu por fim. - Como o meu pai. E como eu.
- Alegra-me saber isso - disse Roger Casement. - Quando uma pessoa conhece os nomes imagina melhor as pessoas. Sente-as, ainda que não as conheça. Alex Stacey é
um nome que soa bem. Dá a ideia de uma boa pessoa.
- Educado e serviçal - murmurou o xerife. - Um pouco tímido, talvez. Sobretudo com as mulheres. Eu tinha-o observado, desde criança. Com os homens; sentia-se à vontade,
relacionava-se sem dificuldade. Mas com as mulheres intimidava-se. Não se

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atrevia a olhar para elas nos olhos. E se elas lhe dirigiam a palavra, começava a balbuciar. Por isso, tenho a certeza que Alex morreu virgem.
O xerife voltou a calar-se, a mergulhar nos seus pensamentos e na total imobilidade. Pobre rapaz! Se era verdade o que o pai dizia, Alex Stacey tinha morrido sem
ter conhecido o calor de uma mulher. Calor de mãe, calor de esposa, calor de amante. Roger, pelo menos, havia conhecido, ainda que por pouco tempo, a felicidade
de uma mãe bela, terna, delicada. Suspirou. Tinha passado algum tempo sem que pensasse nela, coisa que antes nunca lhe acontecera. Se existia um além, se as almas
dos mortos observavam da eternidade a vida passageira dos vivos, era certo que Anna Jephson deveria estar ligada a ele todo este tempo, seguindo-lhe os passos, sofrendo
e angustiando-se com os percalços que ele tivera na Alemanha, partilhando as suas decepções, contrariedades e aquela sensação atroz de se ter enganado, de - no seu
ingénuo idealismo, naquela propensão romântica com que brincava tanto Herbert Ward - ter idealizado demasiado o Kaiser e os Alemães, de ter acreditado que iam fazer
sua a causa irlandesa e converter-se nuns leais e entusiastas aliados dos seus sonhos independentistas.
Sim, era verdade que a sua mãe tinha partilhado com ele, naqueles cinco dias indescritíveis, as suas dores, vómitos, enjoos e cólicas no interior do submarino U-19
que os transportava a ele, a Monteith e a Bailey do porto alemão de Heligoland para as costas de Kerry, na Irlanda. Nunca em toda a sua vida se tinha sentido tão
mal, em corpo e espírito. O seu estômago não aguentava qualquer alimento, excepto golinhos de café quente e pequenos bocados de pão. O capitão do U-19, Raimund Weiss-bach,
mandou-o beber um golinho de aguardente que, em vez de lhe tirar o enjoo, o fez vomitar fel. Quando o submarino navegava à superfície, a umas doze milhas por hora,
era quando mais se agitava e quando os enjoos lhe causavam mais estragos. Quando submergia, agitava-se menos, mas a velocidade diminuía. Nem mantas nem casacos atenuavam
o frio que lhe

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corroía os ossos. Nem aquela permanente sensação de claustrofobia que tinha sido como que uma antecipação da que sentiria depois, no cárcere de Brixton, na Torre
de Londres ou na prisão de Pentonville.
Sem dúvida que pelos enjoos e pelo horrível mal-estar durante a viagem no 17-29 se esqueceu num dos seus bolsos do bilhete de comboio de Berlim para o porto alemão
de Wilhelm-shaven. Os polícias que o detiveram no Forte McKenna descobriram-no ao revistá-lo na esquadra de Tralee. O bilhete de comboio seria mostrado no seu julgamento
pelo promotor público como uma das provas de que tinha vindo da Alemanha, o país inimigo, para a Irlanda. Mas ainda pior foi quando os polícias da Royal Irish Constabulary
encontraram noutro dos seus bolsos o papel com o código secreto que o Almirantado alemão lhe dera para comunicar, em caso de emergência, com os comandos militares
do Kaiser. Como é que era possível ele não ter destruído um documento tão comprometedor antes de abandonar o U-19 e saltar para o bote que os levaria até à praia?
Era uma pergunta que supurava na sua consciência como uma ferida infectada. E, no entanto, Roger recordava com nitidez que, antes de se despedir do capitão e da
tripulação do submarino U-19, por insistência do capitão Robert Monteith, ele e o sargento Daniel Bailey tinham voltado a revistar os bolsos uma última vez a fim
de destruir qualquer objecto ou documento comprometedor sobre a sua identidade e proveniência. Como é que ele se pôde descuidar ao ponto de o bilhete de comboio
e o código secreto lhe terem passado? Recordou o sorriso de satisfação com que o promotor público exibiu aquele código secreto durante o julgamento. Que prejuízos
terá causado à Alemanha aquela informação nas mãos da Inteligência Naval Britânica?
O que explicava aquelas gravíssimas distracções era, sem dúvida, o seu estado físico e psicológico calamitoso, destroçado pelos enjoos, pela deterioração da sua
saúde nos últimos meses na Alemanha e sobretudo pelas preocupações e angústias relativamente aos acontecimentos políticos - desde o fracasso da

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Brigada Irlandesa até ficar a saber que os Voluntários e o Irish Republican Brotherhood tinham decidido a revolta militar para a Semana Santa mesmo que não houvesse
em simultâneo uma acção militar alemã - que afectaram a sua lucidez, o seu equilíbrio mental, fazendo-o perder reflexos, capacidade de concentração e serenidade.
Seriam os primeiros sintomas da loucura? Já lhe tinha acontecido antes, no Congo e na selva amazónica, perante a visão das mutilações e outras torturas e atrocidades
sem conta a que os indígenas eram submetidos pelos exploradores da borracha. Em três ou quatro ocasiões tinha sentido que as forças o abandonavam, que era dominado
por uma sensação de impotência face à desmesura do mal que sentia à sua volta, aquele cerco de crueldade e ignomínia tão alargado, tão avassalador que parecia quimérico
enfrentá-lo e tentar derrubá-lo. Quem sente uma desmoralização tão profunda pode cometer distracções tão graves como as que ele cometeu. Estas desculpas aliviavam-no
uns instantes; depois, rejeitava-as e o sentimento de culpa e o remorso eram piores.
- Pensei em acabar com a vida - a voz do xerife fê-lo sobressaltar de novo. - Alex era a minha única razão para continuar a viver. Não tenho mais parentes. Amigos,
também não. Conhecidos, apenas. A minha vida era o meu filho. Para quê continuar neste mundo sem ele?
- Conheço esse sentimento, xerife - murmurou Roger Casement. - No entanto, e apesar de tudo, a vida também tem coisas bonitas. Há-de encontrar outros aliciantes.
Ainda é um homem novo.
- Tenho quarenta e sete anos, embora pareça muito mais velho - respondeu o carcereiro. - Se não me matei, foi por causa da religião. Ela proíbe-o. Mas não está excluído
que o faça. Se não conseguir vencer esta tristeza, esta sensação de vazio, de que agora já nada interessa, fá-lo-ei. Um homem deve viver enquanto sentir que a vida
vale a pena. Se não, não.
Falava sem dramatismo, com uma tranquila segurança. Voltou a ficar quieto e calado. Roger Casement tentou ouvir.

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Pareceu-lhe que de alguma parte do exterior chegavam reminiscências de uma canção, talvez de um coro. Mas o rumor era tão apagado e tão remoto que não conseguiu
decifrar as palavras nem a toada.
Porque é que os líderes da revolta tinham querido evitar que ele viesse para a Irlanda e pediram às autoridades alemãs que ele permanecesse em Berlim com o ridículo
título de "embaixador" das organizações nacionalistas irlandesas? Ele tinha visto as cartas, lido e relido as frases que lhe diziam respeito. Segundo o capitão Monteith,
porque os dirigentes dos Voluntários e do Irish Republican Brotherhood sabiam que Roger se opunha a uma rebelião sem uma ofensiva alemã de envergadura que paralisasse
o Exército britânico e a Royal Navy. Porque é que não lho tinham dito a ele, directamente? Porquê fazer-lhe chegar aquela decisão através das autoridades alemãs?
Desconfiavam, talvez. Julgariam que ele não era de fiar? Se calhar tinham dado crédito àquelas historietas estúpidas e descabeladas que o Governo inglês fez circular
acusando-o de ser um espião britânico. Ele não se tinha preocupado nada com aquelas calúnias, sempre supôs que os seus amigos e companheiros compreenderiam que se
tratava de operações de intoxicação dos serviços secretos britânicos para semear as suspeitas e a divisão entre os nacionalistas. Talvez algum ou alguns dos seus
companheiros se tivessem deixado enganar por aquelas tretas do colonizador. Bom, agora já se deviam ter convencido de que Roger Casement continuava a ser um lutador
fiel à causa da independência da Irlanda. Aqueles que duvidaram da sua lealdade seriam alguns dos fuzilados na prisão de Kilmainhaim? O que lhe importava agora a
compreensão dos mortos?
Sentiu que o carcereiro se punha de pé e se afastava até à porta da cela. Ouviu os seus passos abafados e vagarosos, como se arrastasse os pés. Ao chegar à porta,
ouviu-o dizer:
- Isto que eu fiz está mal. Uma violação do regulamento. Ninguém pode dirigir-lhe a palavra e eu, o xerife, menos que ninguém. Vim porque não podia mais. Se não
falasse com alguém, ia-me rebentar a cabeça ou o coração.

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- Fico contente por ter vindo, xerife - sussurrou Casement. - Na minha situação, falar com alguém é um grande alívio. A única coisa de que tenho pena é não ter podido
consolá-lo pela morte do seu filho.
O carcereiro grunhiu qualquer coisa que podia ser uma despedida. Abriu a porta da cela e saiu. Do lado de fora voltou a fechá-la à chave. A escuridão era de novo
total. Roger deitou-se de lado, fechou os olhos e tentou dormir, mas sabia que o sono também não viria esta noite e que as horas que faltavam para o amanhecer seriam
lentíssimas, uma espera interminável.
Recordou a frase do carcereiro: "Tenho a certeza que Alex morreu virgem." Pobre rapaz. Chegar aos dezanove ou vinte anos sem ter conhecido o prazer, aquele desmaio
febril, aquela suspensão do circundante, aquela sensação de eternidade instantânea que durava apenas o tempo de ejacular e, no entanto, tão intensa, tão profunda
que arrebatava todas as fibras do seu corpo e levava a participar e a animar até o último resquício da alma. Ele teria podido morrer virgem também se, em vez de
partir para África ao fazer vinte anos, tivesse ficado em Liverpool a trabalhar para a Elder Dempster Line. A sua timidez com as mulheres tinha sido a mesma - talvez
pior - que a do jovem de pés chatos Alex Stacey. Recordou as brincadeiras das suas primas, e sobretudo de Gertrudes, a querida Gee, quando queriam fazê-lo corar.
Bastava que lhe falassem de raparigas, que lhe dissessem por exemplo: "Já viste como a Dorothy olha para ti?" "Já reparaste que a Malina arranja sempre maneira de
se sentar ao teu lado nos piqueniques?" "Ela gosta de ti, primo." "Também gostas dela?" O desconforto que lhe causavam aquelas graçolas! Perdia a desenvoltura e
começava a balbuciar, a gaguejar, a dizer parvoíces, até que Gee e as suas amigas, mortas de riso, o tranquilizavam. "Era uma brincadeira, não fiques assim."
No entanto, desde muito novo tinha tido um apurado sentido estético, sabido apreciar a beleza dos corpos e das caras, contemplando com deleite e alegria uma silhueta
harmoniosa, uns olhos vivos e pícaros, uma cintura delicada, uns músculos

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que denotassem a força inconsciente que os animais predadores exibiam em liberdade. Quando terá tomado consciência de que a beleza que o exaltava mais, acrescentando
um tempero de inquietação e alarme, a impressão de cometer uma transgressão, não era a das raparigas, mas sim a dos rapazes? Em África. Antes de pisar o continente
africano, a sua educação puritana, os costumes rigidamente tradicionais e conservadores dos seus familiares paternos e maternos tinham reprimido em embrião qualquer
intenção de excitação dessa índole, fiel a um meio em que a mera suspeita de atracção sexual entre pessoas do mesmo sexo era considerada uma aberração abominável,
justamente condenada pela lei e pela religião como um delito e um pecado sem justificação nem atenuantes. Em Magherintemple, no Antrim, na casa do tio John, em Liverpool,
na casa dos seus tios e primas, a fotografia tinha sido o pretexto que lhe permitira tirar prazer - só com os olhos e a mente - daqueles corpos masculinos esbeltos
e belos pelos quais se sentia atraído, enganando-se a si mesmo com a desculpa de que aquela atracção era só estética.
A África, aquele continente atroz mas lindíssimo, de enormes sofrimentos, era também terra de liberdade, onde os seres humanos podiam ser maltratados de maneira
iníqua, mas também manifestar as suas paixões, fantasias, desejos, instintos e sonhos, sem as bridas e preconceitos que na Grã-Bretanha sufocavam o prazer. Lembrou-se
daquela tarde de calor sufocante e o Sol no zénite, em Boma, quando esta nem sequer era uma aldeia, mas apenas um assentamento minúsculo. Asfixiado e sentindo que
o seu corpo deitava chamas tinha ido tomar banho naquele riacho dos arredores que, pouco antes de se precipitar nas águas do rio Congo, formava pequenas lagoas entre
as rochas, com cascatas murmurantes, num local de mangueiras altíssimas, coqueiros, baobás e fetos gigantes. Havia dois bacongos jovens a tomar banho, nus como ele.
Embora não falassem inglês, responderam ao seu cumprimento com sorrisos. Pareciam brincar os dois, mas, dali a pouco tempo, Roger

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reparou que estavam a pescar só com as mãos. A sua excitação e gargalhadas deviam-se à dificuldade que tinham para segurar os peixinhos escorregadios que se lhes
escapavam dos dedos. Um dos rapazes era muito belo. Tinha um corpo longo e azulado, harmonioso, olhos profundos e de luz vivíssima e movia-se na água como um peixe.
Com os seus movimentos transpareciam, brilhando com as gotinhas de água agarradas à pele, os músculos dos seus braços, das costas, das coxas. Na sua cara escura,
com tatuagens geométricas, de olhares faiscantes, assomavam os dentes, muito brancos. Quando finalmente apanharam um peixe, com grande bulício, o outro saiu do riacho
para a margem onde, pareceu a Roger, começava a cortá-lo, a amanhá-lo e a preparar uma fogueira. O que tinha ficado na água olhou para ele nos olhos e sorriu-lhe.
Roger, sentindo uma espécie de febre, nadou até ele, sorrindo também. Quando chegou ao pé dele não soube o que fazer. Sentia vergonha, incomodidade e, ao mesmo tempo,
uma felicidade sem limites.
- É pena que não me entendas - disse para si mesmo, a meia voz. - Gostava tanto de te tirar umas fotografias. De conversarmos. De ficarmos amigos.
Sentiu então que o rapaz, impulsionando-se com os pés e os braços, encurtava a distância que os separava. Agora estava tão perto dele que quase se tocavam. Nisto,
Roger sentiu as mãos alheias a procurar-lhe o ventre, a tocar-lhe e a acariciar-lhe o sexo que há pouco tinha em riste. Na escuridão da sua cela, suspirou, com desejo
e angústia. Fechando os olhos, tentou ressuscitar aquela cena de há tantos anos: a surpresa, a excitação indescritível que, no entanto, não lhe atenuava o receio
e o temor, e o seu corpo, abraçando o do rapaz cuja verga tesa sentiu também a esfregar-se contra as suas pernas e o seu ventre.
Fora a primeira vez que fizera amor, se é que se podia chamar "fazer amor" a excitar-se e ejacular na água encostado ao corpo do rapaz que o masturbava e que sem
dúvida também ejaculou sobre ele, embora isso Roger não tenha notado. Quando saiu da água e se vestiu, os dois bacongos convidaram-no

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para um bocado do peixe que tinham assado numa pequena fogueira nas margens da poça que o riacho formava.
A vergonha que sentiu depois! Andou aturdido todo o resto do dia, metido nuns remorsos que se misturavam com centelhas de felicidade, a consciência de ter franqueado
os limites de uma prisão e alcançado uma liberdade que sempre desejara em segredo, sem nunca se ter atrevido a ir procurá-la. Teve remorsos, intenções de se emendar?
Sim, sim. Tivera tudo isso. Prometeu a si mesmo, pela sua honra, pela memória da sua mãe, pela sua religião, que aquilo não se repetiria, sabendo muito bem que mentia
a si mesmo, que agora que tinha provado do fruto proibido, sentido como todo o seu ser se convertia numa vertigem e num archote, já não poderia evitar que aquilo
se repetisse. Essa foi a única ou, em todo o caso, uma das muito escassas vezes em que ter prazer não lhe tinha custado dinheiro. Tinha sido o facto de pagar aos
seus fugazes amantes de uns minutos ou de algumas horas o que o havia libertado tão depressa daquele peso de consciência que a princípio o acossara depois daquelas
aventuras? Talvez. Como se, convertidos numa transacção comercial - "Dás-me a tua boca e o teu pénis e eu dou-te a minha língua, o meu cu e umas libras." -aqueles
encontros rápidos em parques, esquinas escuras, banhos públicos, estações, hotéis imundos ou em plena rua - "como os cães", pensou - com homens com os quais muitas
vezes só conseguia entender-se com gestos e trejeitos porque não falavam a sua língua, despojara aqueles actos de todo o significado moral e os tornara um mero intercâmbio,
tão neutro como comprar um gelado ou um maço de cigarros. Era o prazer, não o amor. Tinha aprendido a gozar, mas não a amar nem a ser correspondido no amor. Uma
vez ou outra em África, no Brasil, em Iquitos, em Londres, em Belfast ou em Dublin, depois de um encontro particularmente intenso, juntara-se à aventura algum sentimento
e ele tinha dito para si próprio: "Estou apaixonado." Falso: nunca esteve. Aquilo não durou. Nem mesmo com Eivind Adler Christensen, por quem tinha chegado a ter
afecto,

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mas não de amante, talvez de irmão mais velho ou de pai. Mas que infeliz! Também neste campo a sua vida tinha sido um fracasso completo. Muitos amantes de ocasião
- dezenas, talvez centenas - e nem uma só relação de amor. Sexo puro, apressado e animal.
Por isso, quando fazia um balanço da sua vida sexual e sentimental, Roger dizia para si que tinha sido tardia e austera, feita de aventuras esporádicas e sempre
rápidas, tão passageiras, tão sem consequências, como aquela do riacho com cascatas e poças nos arredores do que ainda era um acampamento meio perdido num lugar
do Baixo Congo chamado Boma.
Sentiu-se embargado por aquela profunda tristeza que se tinha seguido quase sempre aos seus furtivos encontros amorosos, geralmente à intempérie, como o primeiro,
com homens e rapazes muitas vezes estrangeiros cujos nomes desconhecia ou esquecia mal os sabia. Eram efémeros momentos de prazer, nada que pudesse comparar-se com
aquela relação estável, prolongada ao longo de meses e anos, em que à paixão se iam acrescentando a compreensão, a cumplicidade, a amizade, o diálogo, a solidariedade,
aquela relação que ele sempre tinha invejado entre Herbert e Sarita Ward. Era outro dos grandes vazios, das grandes nostalgias da sua vida.
Reparou que ali, onde devia estar o gonzo da porta da sua cela, espreitava um raiozinho de luz.


XII.


"Deixarei os meus ossos naquela maldita viagem", pensou Roger quando o chanceler Sir Edward Grey lhe disse que, tendo em vista as notícias contraditórias que chegavam
do Peru, a única maneira de o Governo britânico saber com o que podia contar sobre o que ali acontecia, era que o próprio Casement regressasse a Iquitos e visse
no terreno se o Governo peruano tinha feito alguma coisa para pôr fim às iniquidades no Putumayo ou se se valia de tácticas retardadoras pois não queria ou não conseguia
enfrentar Júlio C. Arana.
A saúde de Roger andava de mal a pior. Desde o seu regresso de Iquitos até durante os poucos dias de fim de ano que passara em Paris com os Ward, a conjuntivite
voltou a atormentá-lo e ressurgiram as febres palúdicas. As hemorróidas também o afligiam outra vez, embora sem as hemorragias de outrora. Assim que regressou a
Londres, nos primeiros dias de Janeiro de 1911, foi visitar os médicos. Os dois especialistas que ele consultou diagnosticaram que o seu estado era consequência
do imenso cansaço e da tensão nervosa da sua experiência amazónica. Precisava de repouso, de umas férias muito tranquilas.
Mas não pôde tirá-las. A redacção do relatório que o Governo britânico requeria com urgência e as múltiplas reuniões do ministério em que tinha de informar sobre
o que vira e ouvira na Amazónia, bem como as visitas à Sociedade Contra a Escravidão, tiraram-lhe muito tempo. Teve também de se reunir

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com os directores ingleses e peruanos da Peruvian Amazon Company, os quais, na primeira entrevista, depois de ouvirem durante quase duas horas as suas impressões
do Putumayo, ficaram petrificados. As caras compridas, as bocas entreabertas, olhavam para ele incrédulos e espantados como se o chão tivesse começado a abrir-se
sob os seus pés e o telhado a derrubar-se sobre as suas cabeças. Não sabiam o que dizer. Despediram-se sem lhe formularem uma única pergunta.
Júlio C. Arana assistiu à segunda reunião do Directório da Peruvian Amazon Company. Foi a primeira e última vez que Roger Casement o viu em pessoa. Tinha ouvido
falar tanto dele, escutado pessoas tão diversas a endeusá-lo como se faz aos santos ou aos líderes políticos (nunca com empresários) ou atribuir-lhe crueldades e
delitos horrendos - cinismo, sadismo, ganância, avareza, deslealdade, calotes e canalhices monumentais - que ficou a observá-lo um bom bocado, como um entomologista
observa um insecto misterioso ainda por catalogar.
Dizia-se que ele entendia inglês, mas nunca o falava, por timidez ou vaidade. Tinha a seu lado um intérprete que lhe ia traduzindo tudo ao ouvido, em voz muito sumida.
Era um homem mais baixo que alto, moreno, de traços mestiços, com uma insinuação asiática nos seus olhos um pouco vesgos e uma testa muito alta, de cabelos ralos
e cuidadosamente assentes, com o risco ao meio. Usava um bigodinho, uma barbinha recém-aparada e cheirava a perfume. A lenda sobre a sua mania com a higiene e a
aparência devia ser verdade. Vestia-se de maneira impecável, com um fato de lã fina talvez cortado numa alfaiataria de Savile Row. Não abriu a boca enquanto os outros
directores, desta vez sim, interrogavam Roger Casement com mil perguntas que sem dúvida tinham sido preparadas pelos advogados de Arana. Tentavam fazê-lo cair em
contradições e insinuavam equívocos, exageros, susceptibilidades e escrúpulos de um europeu urbano e civilizado que se desconcerta perante o mundo primitivo.

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Enquanto lhes respondia e acrescentava testemunhos e precisões que agravavam o que lhes tinha dito na primeira reunião, Roger Casement não deixava de lançar olhares
a Júlio C. Arana. Quieto como um ídolo, não se movia do seu assento e nem sequer pestanejava. A sua expressão era impenetrável. No seu olhar duro e frio havia qualquer
coisa inflexível. A Roger fazia-lhe lembrar aqueles olhares vazios de humanismo dos chefes das estações de extracção de borracha do Putumayo, olhares de homens que
perderam (se alguma vez tiveram) a faculdade de discriminar entre o bem e o mal, a bondade e a maldade, o humano e o desumano.
Aquele homenzinho bem vestido, ligeiramente rechonchudo, era então o patrão daquele império do tamanho de um país europeu, dono de vidas e bens de dezenas de milhares
de pessoas, odiado e adulado, que naquele mundo de miseráveis que era a Amazónia havia acumulado uma fortuna comparável à dos grandes potentados da Europa. Tinha
começado como menino pobre, numa aldeiazinha perdida que devia ser Rioja, na alta selva peruana, a vender de casa em casa os chapéus de palha que a sua família tecia.
Pouco a pouco, compensando a sua falta de estudos - só uns poucos anos de instrução primária - com uma capacidade de trabalho sobre-humana, uma intuição genial para
os negócios e uma absoluta falta de escrúpulos, foi escalando a pirâmide social. De vendedor ambulante de chapéus pela vasta Amazónia, passou a ser fornecedor daqueles
exploradores de borracha misérrimos que se aventuravam por sua conta e risco na selva, aos quais fornecia catanas, espingardas, redes de pesca, facas, tigelas para
o jebe, conservas, farinha de mandioca e utensílios domésticos, em troca de parte da borracha que recolhiam e que ele se encarregava de vender em Iquitos e Manaus
às companhias exportadoras. Até que, com o dinheiro ganho, pôde passar de fornecedor e comissionista a produtor e exportador. Primeiro associou-se a exploradores
da borracha colombianos que, menos inteligentes ou diligentes ou falhos de moral que ele, acabaram todos a vender-lhe ao desbarato

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as suas terras, depósitos, trabalhadores braçais indígenas e às vezes a laborar ao seu serviço. Desconfiado, instalou os seus irmãos e cunhados nos postos-chave
da empresa que, apesar da sua grande dimensão e de estar registada desde 1908 na Bolsa de Londres, continuava a funcionar na prática como uma empresa familiar. A
quanto ascendia a sua fortuna? A lenda certamente exagerava a realidade. Mas em Londres a Peruvian Amazon Company tinha aquele valioso edifício no coração da City
e a mansão de Arana em Kensington Road não ficava atrás dos palácios dos príncipes e dos banqueiros que a rodeavam. A sua casa em Genebra e o seu palacete de Verão
em Biarritz eram mobilados por decoradores da moda e ostentavam quadros e objectos de luxo. Mas dele dizia-se que levava uma vida austera, que não bebia nem jogava,
nem tinha amantes e que dedicava todo o tempo livre à sua mulher. Apaixonara-se por ela desde criança - ela também era de Rioja -, mas Eleonora Zumaeta só lhe deu
o sim depois de muitos anos, quando ele já era um homem bem instalado e poderoso e ela uma professora primária da aldeiazinha onde nascera.
Quando a segunda reunião do Directório da Peruvian Amazon Company acabou, Júlio C. Arana garantiu, através do intérprete, que a sua companhia faria tudo o que fosse
necessário para que qualquer deficiência ou mau funcionamento nas explorações de borracha do Putumayo fosse imediatamente corrigida. Pois era política da sua empresa
actuar sempre dentro da legalidade e da moral altruísta do Império Britânico. Arana despediu-se do cônsul com uma vénia, sem lhe estender a mão.
Redigir o Relatório sobre o Putumayo levou-lhe mês e meio. Começou a escrevê-lo num gabinete do Foreign Office, ajudado por um dactilógrafo, mas depois preferiu
trabalhar no seu apartamento de Philbeach Gardens, em Earl's Court, junto da bela Igreja de St. Cuthbert e St. Matthias onde às vezes Roger se punha a ouvir um magnífico
organista. Como mesmo ali vinham interrompê-lo os políticos e membros de organizações humanitárias e antiesclavagistas, além de pessoal da imprensa,

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pois os rumores de que o seu Relatório sobre o Putumayo seria tão devastador como o que escrevera sobre o Congo corriam por toda a Londres e davam azo a conjecturas
e mexericos nas colunas de sociedade e locais de intriga londrinos, pediu autorização ao Foreign Office para viajar até à Irlanda. Ali, no quarto do Hotel Buswells,
de Molesworth Street, em Dublin, acabou o seu trabalho no princípio de Março de 1911. Choveram de imediato sobre ele as felicitações dos seus chefes e colegas. O
próprio Sir Edward Grey chamou-o ao seu gabinete para elogiar o seu Relatório, ao mesmo tempo que lhe sugeria algumas correcções menores. O texto foi enviado de
imediato ao Governo dos Estados Unidos, a fim de que Londres e Washington fizessem pressão sobre o Governo peruano do presidente Augusto B. Leguía, exigindo-lhe,
em nome da comunidade civilizada, que pusesse fim à escravidão, às torturas, raptos, violações e aniquilamento das comunidades indígenas e que levasse aos tribunais
as pessoas incriminadas.
Roger não pôde ainda tirar o descanso prescrito pelos médicos e que tanta falta lhe fazia. Teve de reunir-se várias vezes com comités do Governo, do Parlamento e
da Sociedade Contra a Escravidão que estudavam a forma mais prática de as instituições públicas e privadas actuarem para aliviar a situação dos nativos da Amazónia.
Por sugestão sua, uma das primeiras iniciativas foi sufragar a instalação de uma missão religiosa no Putumayo, coisa que a companhia de Arana sempre tinha impedido.
Agora comprometeu-se a facilitá-la.
Por fim, em Junho de 1911 conseguiu partir de férias para a Irlanda. Estava lá quando recebeu uma carta pessoal de Sir Edward Grey. O chanceler informava-o de que,
devido a uma sua recomendação, Sua Majestade, o rei Jorge V, tinha decidido torná-lo nobre pelo mérito dos seus serviços prestados ao Reino Unido no Congo e na Amazónia.
Enquanto familiares e amigos o enchiam de felicitações, Roger, que nas primeiras Vezes em que ouviu chamarem-lhe Sir Roger esteve quase a dar uma gargalhada, encheu-se
de dúvidas.

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Como aceitar aquele título outorgado por um regime de que, no fundo do seu coração, se sentia adversário, o mesmo regime que colonizava o seu país? Por outro lado,
ele próprio não servia como diplomata aquele rei e aquele Governo? Nunca como naqueles dias sentiu tanto a recôndita duplicidade em que vivia há anos, a trabalhar
por um lado com disciplina e eficácia ao serviço do Império Britânico e, por outro, entregue à causa da emancipação da Irlanda e vinculando-se cada vez mais, não
àqueles sectores moderados que aspiravam, sob a liderança de John Redmond, conseguir a autonomia (Home Rule) para o Eire, mas sim aos mais radicais como o Irish
Republican Bro-therhood, dirigido em segredo por Tom Clarke, cuja meta era a independência através da acção armada. Corroído por estas vacilações, optou por agradecer
a Sir Edward Grey numa carta amável a honra que lhe conferiam. A notícia difundiu-se na imprensa e contribuiu para aumentar o seu prestígio.
As diligências que os governos britânico e norte-americano empreenderam perante o Governo peruano pedindo-lhe que os principais criminosos indicados no Relatório
- Fidel Velarde, Alfredo Montt, Augusto Jiménez, Armando Normand, José Inocente Fonseca, Abelardo Agúero, Elias Martinengui e Aurélio Rodríguez - fossem capturados
e julgados, pareceram de início dar frutos. O encarregado de Negócios do Reino Unido em Lima, Mr. Lucien Gerome, cabografou para o Foreign Office dizendo que os
onze principais empregados da Peruvian Amazon Company tinham sido despedidos. O juiz Carlos A. Valcárcel, enviado de Lima, assim que chegou a Iquitos preparou uma
expedição para ir investigar as explorações da borracha do Putumayo. Mas não pôde ir com ela, pois caiu doente e teve de viajar de urgência para os Estados Unidos
a fim de ser operado. Colocou à frente da expedição uma pessoa enérgica e respeitável: Rómulo Paredes, director do diário El Oriente, que viajou até ao Putumayo
com um médico, dois intérpretes e uma escolta de nove soldados. A delegação visitou todas as estações de exploração da borracha da Peruvian Amazon Company

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e acabava de regressar a Iquitos, onde também estava de volta o juiz Carlos A. Valcárcel, já recuperado. O Governo peruano tinha prometido a Mr. Gerome que, assim
que recebesse o relatório de Paredes e Valcárcel, actuaria.
No entanto, pouco depois, o próprio Gerome voltou a informar que o Governo de Leguía, aflito, o tinha informado que a maior parte dos criminosos com ordem de prisão
havia fugido para o Brasil. Os outros, provavelmente, mantinham-se escondidos na selva ou haviam regressado clandestinamente a território colombiano. Os Estados
Unidos e a Grã-Bretanha tentaram que o Governo brasileiro extraditasse os fugitivos para o Peru a fim de entregá-los à justiça. Mas o chanceler do Brasil, o barão
de Rio Branco, respondeu aos dois governos que não havia tratado de extradição entre o Peru e o Brasil e que, portanto, aquelas pessoas não podiam ser devolvidas
sem suscitar um delicado problema jurídico internacional.
Dias mais tarde, o encarregado de Negócios britânico informou que, numa entrevista privada com o ministro dos Negócios Estrangeiros do Peru, este lhe tinha confessado,
de forma não oficial, que o presidente Leguía estava numa situação difícil. Devido à sua presença no Putumayo e às forças de segurança que tinha para proteger as
suas instalações, a companhia de Júlio C. Arana era o único travão que impedia que os Colombianos, que tinham estado a reforçar as suas guarnições de fronteira,
invadissem aquela região. Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha pediam uma coisa absurda: fechar ou perseguir a Peruvian Amazon Company significava pura e simplesmente
entregar à Colômbia o imenso território que esta cobiçava. Nem Leguía nem governante peruano algum podia fazer semelhante coisa sem se suicidar. E o Peru não tinha
recursos para instalar na remota e isolada região do Putumayo uma guarnição militar suficientemente forte para proteger a soberania nacional. Lucien Gerome acrescentava
que, por tudo isto, não era de esperar que o Governo peruano fizesse alguma coisa eficaz e de imediato, excepto declarações e gestos destituídos de substância.

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Foi esta a razão pela qual o Foreign Office decidiu, antes de o Governo de Sua Majestade tornar público o seu Relatório sobre o Putumayo e pedir sanções da comunidade
internacional contra o Peru, que Roger Casement voltasse ao terreno e verificasse lá na Amazónia, com os seus próprios olhos, se se tinham feito algumas reformas,
se havia um processo judicial em marcha e se a acção legal iniciada pelo doutor Carlos. A. Valcárcel era verdadeira. A insistência de Sir Edward Grey fez com que
Roger se visse obrigado a aceitar, dizendo para dentro de si algo que nos meses seguintes teria muitas oportunidades de repetir: "Deixarei os meus ossos nessa maldita
viagem."
Estava ele a preparar a sua partida quando Omarino e Arédomi chegaram a Londres. Nos cinco meses que passaram sob a sua custódia em Barbados, o padre Smith tinha-lhes
dado aulas de inglês, noções de leitura e de escrita e acostumara-os a vestir-se à maneira ocidental. Mas Roger encontrou dois rapazinhos aos quais a civilização,
apesar de lhes dar de comer, não lhes bater nem flagelar, entristecera e apagara. Pareciam sempre receosos de que as pessoas que os rodeavam, submetendo-os a um
escrutínio inesgotável, olhando para eles de cima a baixo, tocando-lhes, passando-lhes a mão pela pele como se os julgassem sujos, interrogando-os com perguntas
que eles não entendiam e a que não sabiam como responder, fossem fazer-lhes mal. Roger levou-os ao Jardim Zoológico, a comer gelados no Hyde Park, a visitar a sua
irmã Nina, a sua prima Gertrudis e a um serão com intelectuais e artistas em casa de Alice Stop-ford Green. Todos os tratavam com carinho, mas a curiosidade com
que eram examinados, sobretudo quando tinham que tirar as camisas e mostrar as cicatrizes nas costas e nas nádegas, perturbava-os. Às vezes, Roger descobria os olhos
dos rapazinhos cheios de lágrimas. Ele tinha planeado enviar os meninos para serem educados na Irlanda, nos arredores de Dublin, na escola bilingue de St. Enda's
dirigida por Patrick Pearse, que ele conhecia bem. Escreveu-lhe com esse propósito, contando-lhe de onde provinham os dois rapazinhos. Roger tinha dado uma

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palestra em St. Enda's sobre África e apoiava com donativos económicos os esforços de Patrick Pearse tanto na Liga Gaélica e nas suas publicações como nesta escola,
por promover a difusão da antiga língua irlandesa. Pearse, poeta, escritor, católico militante, pedagogo e nacionalista radical, aceitou ficar com os dois, oferecendo-se
até para fazer um desconto na matrícula e no internato em St. Enda's. Mas quando recebeu a resposta de Pearse, Roger já tinha decidido autorizar aquilo que Omarino
e Arédomi lhe pediam diariamente: regressar à Amazónia. Ambos eram profundamente infelizes naquela Inglaterra onde se sentiam transformados em anomalias humanas,
objectos de exibição que surpreendiam, divertiam, comoviam e às vezes assustavam umas pessoas que nunca os tratariam como iguais, sempre como forasteiros exóticos.
Roger Casement iria pensar muito durante a viagem de regresso a Iquitos naquela lição que a realidade lhe dera sobre o paradoxal e incompreensível que era a alma
humana. Os dois rapazinhos tinham querido fugir do inferno amazónico onde eram maltratados e os obrigavam a trabalhar como animais sem quase lhes darem de comer.
Ele fez esforços e gastou uma boa quantia do seu escasso património para lhes pagar as passagens para a Europa e mantê-los há seis meses, pensando que deste modo
os salvava, dando-lhes acesso a uma vida decente. No entanto, aqui, embora por razões diferentes, estavam tão longe da felicidade, ou pelo menos de uma existência
tolerável, como no Putumayo. Ainda que não lhes batessem, acarinhavam-nos até, sentiam-se estranhos, sozinhos e conscientes de que nunca fariam parte desse mundo.
Pouco antes de Roger partir rumo ao Amazonas, seguindo os seus conselhos, o Foreign Office nomeara um novo cônsul em Iquitos: George Michell. Era uma escolha magnífica.
Roger conhecera-o no Congo. Michell era empenhado e trabalhara com entusiasmo na campanha de denúncia dos crimes sob o regime de Leopoldo II. Tinha perante a colonização
a mesma posição de Casement. Quando chegasse a altura, não vacilaria se

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tivesse de enfrentar a Casa Arana. Tiveram duas longas conversas e planearam uma estreita colaboração.
A 16 de Agosto de 1911, Roger, Omarino e Arédomi partiram de Southampton, no Magdalena, rumo a Barbados. Chegaram à ilha doze dias depois. Desde que o barco começara
a sulcar as águas de cor azul-prata do mar das Caraíbas, Roger sentiu no sangue que o seu sexo, adormecido nos últimos meses por doenças, preocupações e grande trabalho
físico e mental, voltava a despertar e a encher-lhe a cabeça de fantasias e desejos. No seu diário resumiu o seu estado de ânimo com três palavras: "Ardo de novo."
Assim que desembarcou foi agradecer ao padre Smith o que tinha feito pelos dois rapazinhos. Emocionou-o ver como Omarino e Arédomi, em Londres tão parcos a manifestar
os seus sentimentos, abraçavam e davam palmadas ao religioso com grande familiaridade. O padre Smith levou-os a visitar o Convento das Ursulinas. Naquele claustro
tranquilo com pequenas árvores de alfarroba e flores roxas da buganvília, onde não chegava o barulho da rua e o tempo parecia suspenso, Roger afastou-se dos outros
e sentou-se num banco. Estava a observar uma carreira de formigas que levavam uma folha em peso, como os carregadores o andor de Nossa Senhora nas procissões do
Brasil, quando se lembrou: hoje era o dia do seu aniversário. Quarenta e sete anos! Não se podia dizer que fosse um idoso. Muitos homens e mulheres da sua idade
estavam em plena forma física e psicológica, com energia, anseios e projectos. Mas ele sentia-se velho e com a desagradável sensação de ter chegado à etapa final
da sua existência. Uma vez, com Herbert Ward, em África, tinham fantasiado como seriam os seus últimos anos. O escultor imaginava uma velhice mediterrânica, na Provença
ou na Toscana, numa casa rural. Teria um vasto ateliê e muitos gatos, cães, patos e galinhas e ele próprio cozinharia aos domingos pratos fortes e condimentados
como a bouillabaisse para uma grande parentela. Roger, em compensação, sobressaltado, afirmou: "Eu não vou chegar à velhice, tenho a certeza."

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Tinha sido um palpite. Recordava vividamente aquela premonição e voltou a senti-la como certa: não chegaria a velho.
O padre Smith aceitou alojar Omarino e Arédomi durante os oito dias que permaneceram em Bridgetown. No dia a seguir à sua chegada, Roger foi a uns banhos públicos
que tinha frequentado na sua passagem anterior pela ilha. Como esperava, viu homens jovens, atléticos e esculturais, pois ali, tal como no Brasil, ninguém tinha
vergonha do seu corpo. Mulheres e homens cultivavam-no e mostravam-no com desenvoltura. Um rapaz muito jovem, adolescente de quinze ou dezasseis anos, perturbou-o.
Tinha aquela palidez frequente nos mulatos, uma pele lisa e brilhante, uns olhos verdes, grandes e ousados, e dos seus calções de banho justos emergiam umas coxas
sem pêlos e elásticas que provocaram em Roger um começo de vertigem. A experiência tinha aguçado nele aquela intuição que lhe permitia conhecer muito rapidamente,
por indícios imperceptíveis para qualquer outro - um esboço de sorriso, um brilho nos olhos, um movimento convidativo da mão ou do corpo -, se um rapaz entendia
o que ele queria e estava disposto a conceder-lho ou, pelo menos, a negociá-lo. Com uma dor de alma, sentiu que aquele jovem tão belo era completamente indiferente
às mensagens furtivas que lhe enviava com os olhos. No entanto, abordou-o. Conversou uns momentos com ele. Era filho de um clérigo barbadiano e aspirava vir a ser
contabilista. Estudava numa escola comercial e dentro de pouco tempo, aproveitando uma vaga, acompanharia o pai à Jamaica. Roger convidou-o a comer um gelado, mas
o jovem não aceitou.
De regresso ao hotel, preso da excitação, escreveu no seu diário, na linguagem vulgar e telegráfica que utilizava para os episódios mais íntimos: "Banhos públicos.
Filho de clérigo. Belíssimo. Falo longo, delicado, que se entesou nas minhas mãos. Recebi-o na minha boca. Felicidade de dois minutos." Masturbou-se e voltou a banhar-se,
ensaboando-se minuciosamente, ao mesmo tempo que tentava afastar a tristeza e a sensação de solidão que lhe ocorriam habitualmente nestes casos.
No dia seguinte, ao meio-dia, quando almoçava na esplanada de um restaurante no porto de Bridgetown, viu passar Andrés O'Donnell a seu lado. Chamou-o. O antigo capataz
de Arana, chefe da estação de Entre Rios, reconheceu-o logo. Durante uns segundos olhou para ele com desconfiança e um pouco assustado. Mas, por fim, apertou-lhe
a mão e aceitou sentar-se com ele. Bebeu um café e um golo de brande enquanto conversavam. Confessou-lhe que a passagem de Roger pelo Putumayo tinha sido como a
maldição de um feiticeiro huitoto para os exploradores de borracha. Assim que ele se foi embora, correu o boato de que em breve chegariam polícias e juízes com ordens
de detenção e que todos os chefes, capatazes e mordomos das explorações de borracha teriam problemas com a justiça. E como a companhia de Arana era inglesa, seriam
enviados para Inglaterra e julgados lá. Por isso, muitos, como O'Donnell, tinham preferido afastar-se da zona com destino ao Brasil, Colômbia ou Equador. Ele tinha
vindo até ali com a promessa de um trabalho numa plantação de cana, mas não conseguira. Agora tentava partir para os Estados Unidos, onde, segundo parecia, havia
oportunidades nos caminhos-de-ferro. Sentado naquela esplanada, sem botas nem pistola, nem chicote, metido num fato-macaco velho e numa camisa puída, pouco mais
era que um pobre diabo angustiado com o seu futuro.
- O senhor não sabe, mas deve-me a vida a mim, senhor Casement - disse-lhe, quando já se despedia, com um sorriso amargo. - Mas tenho a certeza que não vai acreditar
em mim.
- Conte lá, de qualquer modo - animou-o Roger.
- Armando Normand estava convencido de que, se o senhor saísse dali vivo, todos nós, os chefes das explorações de borracha, iríamos parar à prisão. Que o melhor
seria afogá-lo no rio ou dá-lo a comer a um puma ou a um jacaré. O senhor entende-me. Como aconteceu àquele explorador francês, Eugène Robuchon, que começou a pôr
as pessoas nervosas com tantas perguntas que fazia e foi por isso que o mataram.

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- Porque é que não me mataram? Era muito fácil, com a prática que vocês tinham.
- Eu fiz-lhes ver as possíveis consequências - afirmou Andrés O'Donnell, com alguma jactância. - Víctor Macedo apoiou-me. Pois sendo o senhor inglês, e a companhia
de Don Júlio também, julgar-nos-iam em Inglaterra segundo as leis inglesas. E enforcar-nos-iam.
- Não sou inglês, mas sim irlandês - corrigiu Roger Casement. - Provavelmente as coisas não aconteceriam como julga. De qualquer modo, muito obrigado. No entanto,
será melhor você viajar quanto antes e não me diga para onde. Sou obrigado a informar que o vi e o Governo inglês dará logo ordens para que o prendam.
Naquela tarde, voltou aos banhos públicos. Teve mais sorte que no dia anterior. Um moreno robusto e risonho, que vira a levantar halteres, sorriu-lhe. Pegando-lhe
no braço, levou-o para uma salinha onde vendiam bebidas. Enquanto bebiam um sumo de ananás com banana e lhe dizia o seu nome, Stanley Weeks, aproximava-se muito
dele, até roçar com uma perna na dele. Depois, com um sorriso cheio de intenções, levou-o sempre pelo braço para um pequeno camarim, fechando a porta com o trinco
assim que entraram. Beijaram-se, mordiscaram mutuamente a língua e o pescoço, ao mesmo tempo que tiravam as calças. Roger contemplou, sufocando de desejo, o falo
negro retinto de Stanley e a glande avermelhada e húmida, a inchar diante dos seus olhos. "Duas libras e chupá-lo", ouviu o que ele lhe dizia. "Depois enrabo-te."
Concordou, ajoelhando-se. Mais tarde, no seu quarto do hotel, escreveu no seu diário: "Banhos públicos. Stanley Weeks: atleta, jovem, vinte e sete anos. Enorme,
duríssimo, nove polegadas pelo menos. Beijos, mordidelas, penetração com gritos. Dois pounds."
Roger, Omarino e Arédomi partiram de Barbados rumo ao Pará no dia 5 de Setembro, no Boniface, um barco incómodo, pequeno e lotado, que cheirava mal e onde a comida
era péssima. Mas Roger desfrutou da travessia até ao Pará graças ao

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doutor Herbert Spencer Dickey, um médico norte-americano. Este tinha trabalhado para a companhia de Arana em El Encanto e, além de corroborar os horrores que Casement
já conhecia, contou-lhe muitos episódios, alguns bárbaros e outros cómicos, sobre as suas experiências no Putumayo. Era um homem de espírito aventureiro que tinha
viajado por meio mundo, sensível e de boas leituras. Era agradável ver cair a noite a seu lado na coberta, a fumar, a beber uísque da garrafa e ouvindo coisas inteligentes.
O doutor Dickey aprovava os trabalhos a que se entregavam a Grã-Bretanha e os Estados Unidos para corrigirem as atrocidades da Amazónia. Mas era fatalista e céptico:
as coisas ali não mudariam nem hoje, nem no futuro.
- Trazemos a maldade na alma, meu amigo - dizia, meio a sério meio a brincar. - Não nos libertaremos dela assim tão facilmente. Nos países europeus e no meu país
está mais camuflada, só vem à luz do dia quando há uma guerra, uma revolução, um motim. Precisa de pretextos para se tornar pública e colectiva. Na Amazónia, pelo
contrário, pode mostrar-se de cara destapada e perpetrar as piores monstruosidades sem as justificações do patriotismo ou da religião. Só a ganância pura e dura.
A maldade que nos empeçonha está em toda a parte onde há seres humanos, com raízes bem profundas nos nossos corações.
Porém, imediatamente a seguir a fazer estas lúgubres afirmações, soltava uma anedota ou contava uma história que pareciam desmenti-las. Roger gostava de conversar
com o doutor Dickey, embora, ao mesmo tempo, o deprimisse um pouco. O Boniface chegou ao Pará no dia 10 de Setembro ao meio-dia. Durante o tempo que ali estivera
como cônsul tinha-se sentido frustrado e asfixiado. No entanto, vários dias antes de chegar a este porto sentiu ondas de desejo ao recordar a Praça do Palácio. Costumava
ir até lá à noite escolher algum daqueles rapazes que passeavam à procura de clientes ou aventuras entre as árvores com calçõezinhos muito apertados, exibindo o
rabo e os testículos.
Alojou-se no Hotel do Comércio, sentindo que lhe renascia no corpo a antiga febre que se apoderava dele quando fazia

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as suas incursões naquela praça. Recordava - ou estaria a inventar? - alguns nomes daqueles encontros que regra geral terminavam num hotelzito miserável dos arredores
ou, às vezes, nalgum canto escuro na relva do parque. Antecipava aquelas confusões velozes e sobressaltadas sentindo que o coração se descontrolava. Mas aquela noite
também lhe correu mal, pois nem Marco, nem Olympio, nem Bebé (chamava-se assim?) apareceram, antes pelo contrário, ia sendo assaltado por dois meliantes esfarrapados,
quase umas crianças. Um deles tentou enfiar-lhe a mão no bolso à procura de uma carteira que ele não trazia, enquanto o outro lhe perguntava por uma direcção. Livrou-se
deles dando um empurrão que fez rebolar um deles pelo chão. Ao verem a sua atitude decidida, os dois desataram a correr. Regressou ao hotel enfurecido. Acalmou-se
escrevendo no diário: "Praça do Palácio: um gordo e duríssimo. Sem respiração. Gotas de sangue nas cuecas. Dor agradável."
Na manhã seguinte, visitou o cônsul inglês e alguns europeus e brasileiros conhecidos de sua estada anterior no Pará. As suas investigações foram úteis. Pelo menos
localizou dois fugitivos do Putumayo. O cônsul e o chefe da polícia local garantiram-lhe que José Inocente Fonseca e Alfredo Montt, depois de passarem algum tempo
numa plantação nas margens do rio Javari, estavam agora instalados em Manaus, onde a Casa Arana lhes tinha conseguido trabalho no porto como controladores aduaneiros.
Roger telegrafou imediatamente para o Foreign Office para que este pedisse às autoridades brasileiras uma ordem de prisão desse par de criminosos. Três dias mais
tarde a chancelaria britânica respondeu-lhe que Petrópolis via de bom grado esse pedido. De imediato ordenaria à polícia de Manaus que prendesse Montt e Fonseca.
No entanto, não seriam extraditados mas sim julgados no Brasil.
A sua segunda e terceira noites no Pará foram mais frutíferas do que a primeira. Ao anoitecer do segundo dia, um rapaz descalço que vendia flores ofereceu-se praticamente
a ele quando Roger o sondava perguntando-lhe o preço do ramo de rosas que

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ele tinha na mão. Foram para um pequeno descampado onde, na sombra, Roger ouviu gemidos de casais. Esses encontros na rua, em condições precárias sempre cheias de
riscos, infundiam-lhe sentimentos contraditórios: excitação e asco. O vendedor de flores cheirava mal das axilas, mas o seu hálito espesso, o calor do corpo e a
força do abraço excitaram-no e levaram-no depressa ao clímax. Ao entrar no Hotel do Comércio, reparou que tinha as calças cheias de terra e nódoas e que o recepcionista
olhava para ele desconcertado. "Assaltaram-me", explicou-lhe. Na noite seguinte, teve um novo encontro na Praça do Palácio, desta vez com um jovem que lhe pediu
esmola. Convidou-o para ir passear e beberam um cálice de rum num quiosque. João levou-o para uma cabana de latas e esteiras num bairro miserável. Enquanto se despiam
e faziam amor às escuras em cima de um saco de cordas estendido no chão de terra e ouvindo uns cães a ladrar, Roger tinha a certeza de que em qualquer momento sentiria
na cabeça a lâmina de uma faca ou a pancada de um varapau. Estava preparado: nestes casos nunca saía com muito dinheiro nem com o relógio ou a esferográfica de prata,
apenas umas quantas notas e moedas para se deixar roubar e assim acalmar os ladrões. Mas nada disso aconteceu. João acompanhou-o de volta até às proximidades do
hotel e despedíu-se dele mordendo-lhe a boca com uma grande risada. No dia seguinte, Roger descobriu que João ou o vendedor de flores lhe tinha pegado chatos. Teve
de ir a uma farmácia e comprar calomelano, tarefa sempre desagradável: o boticário -pior se se tratava de uma boticária - costumava cravar o olhar nele de uma forma
que o envergonhava e, às vezes, lançava-lhe um sorrisinho cúmplice que, além de o confundir, enfurecia-o. A melhor, mas também a pior experiência nos doze dias que
esteve no Pará, foi a visita dos esposos Da Matta. Eram os melhores amigos que ele tinha granjeado durante a sua permanência na cidade: Júnio, engenheiro civil,
e a esposa, Irene, aguarelista. Jovens, bonitos, alegres, bonacheirões, exalavam amor pela vida. Tinham uma menina lindíssima, Maria, de grandes

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olhos risonhos. Roger conheceu-os numa reunião social ou num acto oficial, porque Júnio trabalhava para o Departamento de Obras Públicas do Governo local. Viam-se
com frequência, davam passeios pelo rio, iam ao cinema e ao teatro. Receberam o seu antigo amigo com os braços abertos. Levaram-no a jantar a um restaurante de comida
baiana, muito picante, e a pequena Maria, que já tinha cinco anos, dançou e cantou para ele fazendo caretas.
Nessa noite, na longa insónia na sua cama do Hotel do Comércio, Roger caiu numa dessas depressões que o tinham acompanhado durante quase toda a vida, sobretudo a
seguir a um dia ou a uma série de encontros sexuais de rua. Pagava caro aqueles minutos de prazer mercenário. Morreria sem ter saboreado uma intimidade viva, uma
esposa com quem comentar os acontecimentos do dia e planear o futuro - viagens, férias, sonhos -, sem filhos que prolongassem o seu nome e a sua recordação quando
partisse deste mundo. A sua velhice, se chegasse a tê-la, seria como a dos animais sem dono. E igualmente miserável, pois embora ganhasse um salário decente desde
que era diplomata, nunca tinha podido poupar devido à quantidade de doações e ajudas que fazia às entidades humanitárias que lutavam contra a escravatura, pelo direito
à sobrevivência dos povos e das culturas primitivas, e agora a organizações que defendiam o gaélico e as tradições da Irlanda.
Porém mais ainda do que isso tudo, amargurava-o pensar que morreria sem ter conhecido o verdadeiro amor, um amor partilhado, como o de Júnio e Irene, aquela cumplicidade
e inteligência que se adivinhava haver entre eles, a ternura com que davam as mãos ou trocavam sorrisos ao verem os gestos da pequena Maria. Como sempre nestas crises,
ficou acordado muitas horas, e quando por fim já cabeceava, pressentiu, perfilando-se nas sombras do quarto, a débil figura de sua mãe.
No dia 22 de Setembro, Roger, Omarino e Arédomi, partiram do Pará rumo a Manaus no vapor Hilda da Booth Line, um barco feio e miserável. Os seis dias que navegaram
nele até

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Manaus foram um suplício para Roger, pela exiguidade do seu camarote, pela sujidade que reinava por todo o lado, pela execrável comida e pelas nuvens de mosquitos
que atacavam os viajantes desde o entardecer até ao romper da aurora.
Mal desembarcaram em Manaus, Roger voltou à caça dos fugitivos do Putumayo. Acompanhado pelo cônsul inglês, foi ver o governador, o senhor Dos Reis, que lhe confirmou
que de facto tinha chegado uma ordem do Governo Central de Petrópolis para que se prendesse Montt e Fonseca. E porque é que a polícia ainda não os tinha prendido?
O governador deu-lhe uma razão que lhe pareceu estúpida ou um simples pretexto: estavam à espera que ele chegasse à cidade. Podiam fazê-lo imediatamente, antes que
os dois pássaros voassem? Fá-lo-iam hoje mesmo.
O cônsul e Casement, com a ordem de prisão vinda de Petrópolis, tiveram de fazer duas viagens de ida e volta entre o Palácio do Governo e a polícia. Por fim, o chefe
da polícia enviou dois agentes para prender Montt e Fonseca na Alfândega do porto. Na manhã seguinte, o cônsul inglês veio com cara de caso dizer a Roger que a tentativa
de detenção tivera um desenlace grotesco, até parecia um sainete. O chefe da polícia tinha acabado de o informar, pedindo-lhe todo o tipo de desculpas e prometendo
que não voltaria a acontecer. Os dois polícias enviados para capturar Montt e Fonseca conheciam-nos e foram tomar umas cervejas com eles antes de os levarem para
a esquadra. Apanharam uma grande bebedeira, durante a qual aqueles delinquentes tinham fugido. Como não se podia pôr de lado a hipótese de terem recebido dinheiro
para os deixar fugir, os polícias em questão estavam presos. Se se comprovasse a corrupção, seriam severamente castigados. "Lamento, Sir Roger", disse-lhe o cônsul,
"mas, embora não lhe tenha dito, eu já estava à espera disto. O senhor, que já foi diplomata no Brasil, sabe muito bem. Aqui é normal acontecerem coisas destas."
Roger sentiu-se tão mal que o desgosto aumentou o seu mal-estar físico. Permaneceu na cama a maior parte do tempo, com febre e dores musculares, enquanto esperava
a partida do

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barco para Iquitos. Uma tarde, na qual lutava contra a sensação de impotência que o dominava, fantasiou assim no seu diário: "Três amantes numa noite, entre eles
dois marinheiros. Fizeram-mo seis vezes! Cheguei ao hotel a caminhar com as pernas abertas como uma parturiente." No meio do seu mau humor, a enormidade que escrevera
provocou-lhe um ataque de riso. Ele, tão educado e polido no seu vocabulário diante das pessoas, sentia sempre, na intimidade do seu diário, uma invencível necessidade
de escrever obscenidades. Por razões que ele não compreendia, a coprolalia fazia-lhe bem.
O Hilda prosseguiu viagem no dia 3 de Outubro e, depois de uma travessia acidentada, com chuvas diluvianas e o choque com uma pequena paliçada, chegou a Iquitos
ao amanhecer do dia 6 de Outubro de 1911. Lá estava no porto, à sua espera, de chapéu na mão, Mr. Stirs. O seu substituto, George Michell e esposa, chegariam em
breve. O cônsul andava à procura de casa. Desta vez Roger não ficou alojado na residência dele mas sim no Hotel Amazonas, perto da Plaza de Armas, enquanto Mr. Stirs
levava com ele, temporariamente, Omarino e Arédomi. Os dois jovens tinham decidido ficar na cidade a trabalhar como criados, em vez de regressar ao Putumayo. Mr.
Stirs prometeu encontrar-lhes uma família que quisesse empregá-los e os tratasse bem.
Tal como Roger temia, dados os antecedentes do Brasil, aqui as notícias também não eram animadoras. Mr. Stirs não sabia quantos detidos havia entre os dirigentes
da Casa Arana, da longa lista de duzentos e trinta e sete presumíveis culpados que o juiz doutor Carlos A. Valcárcel havia mandado prender depois de receber o relatório
de Rómulo Paredes sobre a sua expedição ao Putumayo. Não tinha podido averiguar, porque reinava um estranho silêncio sobre aquele assunto em Iquitos, bem como sobre
o paradeiro do juiz Valcárcel. Este, há várias semanas que estava incontactável. O director-geral da Peruvian Amazon Company, Pablo Zumaeta, que figurava naquela
lista, estava aparentemente escondido, mas Mr. Stirs garantiu a Roger que

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o esconderijo dele era uma farsa, porque o cunhado de Arana e sua esposa Petronila mostravam-se nos restaurantes e festas locais sem que ninguém os molestasse.
Mais tarde, Roger recordaria aquelas oito semanas que passou em Iquitos como um lento naufrágio, um ir-se afundando insensivelmente num pântano de intrigas, falsos
rumores, mentiras flagrantes ou impossíveis, contradições, um mundo onde ninguém dizia a verdade, porque esta trazia inimizades e problemas ou, mais frequentemente,
porque as pessoas viviam dentro de um sistema em que já era praticamente impossível distinguir o falso do verdadeiro, a realidade do engano. Ele tinha conhecido,
desde os seus anos no Congo, essa sensação desesperante de ter caído em areias movediças, num solo lamacento que tudo engolia e onde os esforços só serviam para
afundá-lo ainda mais nessa matéria viscosa que acabaria por engoli-lo. Tinha de sair dali quanto antes!
No dia a seguir a ter chegado, foi visitar o prefeito de Iquitos. Era outro, mais uma vez. O senhor Adolfo Gamarra - bigode farto, barriguinha considerável, charuto
fumegante, mãos nervosas e húmidas - recebeu-o no seu gabinete com os braços abertos e felicitações.
- Graças a si - disse ele, abrindo os braços de forma teatral e dando-lhe umas palmadas - foi descoberta uma monstruosa injustiça social no coração da Amazónia.
O Governo e o povo peruano estão-lhe reconhecidos, senhor Casement.
Imediatamente depois acrescentou que o relatório que o juiz Carlos A. Valcárcel fizera a pedido do Governo peruano para satisfazer as solicitações do Governo inglês
era "formidável" e "devastador". Continha cerca de três mil páginas e confirmava todas as acusações que a Inglaterra tinha transmitido ao presidente Augusto B. Leguía.
Porém, quando Roger lhe perguntou se podia ter uma cópia do relatório, o prefeito retorquiu dizendo que se tratava de um documento de Estado e que estava fora da
sua jurisdição autorizar que um estrangeiro o lesse. O senhor cônsul devia

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apresentar um requerimento em Lima ao Governo Supremo, através da chancelaria, e sem dúvida que obteria a licença. Quando Roger lhe perguntou o que é que poderia
fazer para se encontrar com o juiz Carlos A. Valcárcel, o prefeito ficou muito sério e recitou tudo seguido:
- Não tenho a menor ideia do paradeiro do doutor Valcárcel. A sua missão terminou e parece que abandonou o país.
Roger saiu da Prefeitura completamente aturdido. O que é que estava mesmo a acontecer? Aquele sujeito só lhe tinha dito mentiras. Naquela mesma tarde foi à sede
do diário El Oriente falar com o seu director, o doutor Rómulo Paredes. Apareceu-lhe um cinquentão muito moreno, em mangas de camisa, coberto de suor, vacilante
e cheio de pânico. Já tinha alguns cabelos brancos. Assim que Roger começou a falar, mandou-o calar com um gesto peremptório que parecia dizer: "Cuidado, as paredes
têm ouvidos." Agarrou-o pelo braço e levou-o a um barzinho da esquina chamado La Chipirona. Disse-lhe para se sentar numa mesinha afastada.
- Peço-lhe que me desculpe, senhor cônsul - disse-lhe ele, olhando o tempo todo à sua volta com receio. - Não posso nem devo dizer-lhe grande coisa. Estou numa situação
muito comprometedora. As pessoas verem-me com o senhor representa para mim um grande risco.
Estava pálido, tremia-lhe a voz e tinha começado a morder uma unha. Pediu um cálice de aguardente e bebeu-o de uma vez só. Ouviu em silêncio o relato que Roger lhe
fez da sua entrevista com o prefeito Gamarra.
- É um farsante de primeira - disse-lhe por fim, encorajado pela bebida. - Gamarra tem um relatório meu, corroborando todas as acusações do juiz Valcárcel. Entreguei-lho
em Junho. Passaram-se mais de três meses e ainda não o enviou para Lima. Porque é que o senhor acha que o reteve tanto tempo? Porque toda a gente sabe que o. prefeito
Adolfo Gamarra também é, como meia Iquitos, um empregado de Arana.

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Quanto ao juiz Valcárcel, disse-lhe que tinha saído do país. Não sabia o seu paradeiro, mas que se tivesse ficado em Iquitos, provavelmente já seria cadáver. Pôs-se
de pé, bruscamente.
- Que é o que me acontecerá a mim também a qualquer momento, senhor cônsul - limpava o suor enquanto falava e Roger pensou que ele ia romper num pranto. - Porque
eu, infelizmente, não posso ir-me embora. Tenho mulher e filhos e o meu único negócio é o jornal.
Foi-se embora sem sequer se despedir. Roger regressou a casa do prefeito, enfurecido. O senhor Adolfo Gamarra confessou-lhe que, efectivamente, o relatório elaborado
pelo doutor Paredes não tinha podido ser enviado para Lima "por problemas de logística, felizmente já resolvidos". De qualquer modo, partiria naquela mesma semana
"e em mão própria para maior segurança, pois o próprio presidente Leguía reclama-o com urgência".
Era tudo assim. Roger sentia-se embalado num redemoinho adormecedor, dando voltas e mais voltas no mesmo sítio, manipulado por forças tortuosas e invisíveis. Todas
as diligências, promessas, informações, se desmanchavam e dissolviam sem que os factos alguma vez correspondessem às palavras. O que se fazia e o que se dizia eram
mundos à parte. As palavras negavam os factos e os factos desmentiam as palavras e tudo funcionava num conto-do-vigário generalizado, num divórcio crónico entre
o dizer e o fazer que toda a gente praticava.
Ao longo da semana andou a fazer múltiplas averiguações sobre o juiz Carlos A. Valcárcel. Tal como Saldaña Roca, a personagem inspirava-lhe respeito, afecto, piedade,
admiração. Todos prometiam ajudá-lo, informar-se, levar-lhe o recado, localizá-lo, mas mandavam-no de um sítio para o outro sem que ninguém lhe desse a menor explicação
séria sobre a sua situação. Por fim, sete dias depois de chegar a Iquitos, conseguiu sair daquela teia de aranha enlouquecedoura graças a um inglês residente na
cidade. Mr. F. J. Harding, gerente da John Lilly &c Company, era um homem alto e firme, solteirão e quase

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careca, um dos poucos comerciantes de Iquitos que não parecia dançar ao ritmo da Peruvian Amazon Company.
- Ninguém lhe diz nem lhe dirá o que aconteceu ao juiz Valcárcel porque temem ver-se metidos num sarilho, Sir Roger. - Conversavam na casinha de Mr. Harding, próxima
da avenida junto ao rio. Nas paredes havia gravuras de castelos escoceses. Estavam a tomar um refresco de coco. - As influências de Arana em Lima conseguiram que
o juiz Valcárcel fosse destituído, acusado de prevaricação e não sei de quantas falsidades mais. O pobre homem, se está vivo, deve lamentar amargamente ter cometido
o pior erro da sua vida ao aceitar esta missão. Veio meter-se na boca do lobo e pagou isso caro. Era muito respeitado em Lima, parece. Agora afundaram-no na lama
e se calhar assassinaram-no. Ninguém sabe onde está. Oxalá se tenha ido embora. Falar dele em Iquitos tornou-se um tabu.
Com efeito, a história desse probo e temerário doutor Carlos A. Valcárcel que foi a Iquitos investigar os "horrores do Putumayo" não podia ser mais triste. Roger
foi-a reconstruindo no decorrer daquelas semanas como um quebra-cabeças. Quando teve a audácia de dar ordem de prisão contra duzentas e trinta e sete pessoas por
presumíveis crimes, quase todas elas ligadas à Peruvian Amazon Company, correu um arrepio pela Amazónia. Não só a peruana, também a colombiana e a brasileira. A
maquinaria do império de Júlio C. Arana acusou o golpe e começou a sua contra-ofensiva. A polícia só conseguiu localizar nove das duzentas e trinta e sete pessoas
incriminadas. Dos nove, o único realmente importante era Aurélio Rodriguez, um dos chefes de secção no Putumayo, responsável por uma avultada lista de raptos, violações,
mutilações, sequestros e assassínios. Mas os nove detidos, incluindo Rodriguez, apresentaram um habeas corpus ao Supremo Tribunal de Iquitos e este pô-los em liberdade
provisória enquanto estudava o seu caso.
- Infelizmente - explicou o prefeito a Roger, sem pestanejar e dando um ar aflito à expressão -, aproveitando a liberdade provisória aqueles maus cidadãos fugiram.
Como o senhor

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não deve desconhecer, será difícil encontrá-los na imensidão da Amazónia se o Supremo Tribunal validar a ordem de prisão.
O tribunal não tinha qualquer pressa em fazê-lo, pois quando foi perguntar aos juízes quando é que estudariam o caso, explicaram-lhe que aquilo se fazia "por rigorosa
ordem de chegada". Havia um volumoso número de dossiês na fila "antes daquele que interessa ao senhor". Um dos estagiários do tribunal permitiu-se acrescentar em
tom de troça:
- Aqui a justiça é segura, mas lenta, e estes trâmites podem durar muitos anos, senhor cônsul.
Pablo Zumaeta, do seu suposto esconderijo, orquestrou a ofensiva judicial contra o juiz Carlos A. Valcárcel, apresentando, através de testas-de-ferro, múltiplas
denúncias por prevaricação, desfalque, falso testemunho e vários outros delitos. Certa manhã, apareceram na esquadra de Iquitos uma índia bora e a sua filha de poucos
anos, acompanhadas de um intérprete, para acusar o juiz Carlos A. Valcárcel de "atentado contra a honra de uma menor". O juiz teve de empregar grande parte do seu
tempo a defender-se destas maquinações caluniosas, declarando, perseguindo e escrevendo ofícios em vez de se ocupar da investigação que o trouxera à selva. O mundo
inteiro foi-lhe caindo em cima. O hotelzito onde ele estava alojado, o Yurimaguas, pô-lo fora. Não encontrou albergue nem pensão na cidade que se atrevesse a abrigá-lo.
Teve de alugar um pequeno quarto em Nanay, um bairro cheio de lixeiras e tanques de águas pútridas, onde, de noite, sentia debaixo da sua rede as corridinhas das
ratazanas e das baratas.
Roger Casement foi sabendo tudo isto aos poucos, com pormenores sussurrados aqui e ali, ao mesmo tempo que aumentava a sua admiração por aquele magistrado - gostaria
de lhe ter apertado a mão e de felicitá-lo pela sua decência e coragem. O que tinha sido feito dele? A única coisa que pôde saber com certeza, embora a palavra "certeza"
não parecesse ter garantia segura no solo de Iquitos, era que, quando chegou a ordem de Lima a destituí-lo, Carlos A. Valcárcel já tinha desaparecido.

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A partir de então ninguém na cidade podia dar fé do seu paradeiro. Tinham-no matado? Repetia-se a história do jornalista Benjamín Saldaña Roca. A hostilidade contra
ele tinha sido tão grande que não teve outro remédio senão fugir. Num segundo encontro, em casa de Mr. Stirs, o director de El Oriente, Rómulo Paredes, disse-lhe:
- Eu próprio aconselhei o juiz Valcárcel a mudar-se daqui antes que o matassem, Sir Roger. Já lhe tinham chegado muitos avisos.
Que tipo de avisos? Provocações nos restaurantes e bares onde o juiz Valcárcel entrava para comer qualquer coisa ou beber uma cerveja. Subitamente, um bêbado insultava-o
e desafiava-o a lutar mostrando-lhe uma navalha. Se o juiz ia apresentar uma denúncia à polícia ou à Prefeitura, obrigavam-no a preencher formulários intermináveis,
pormenorizando os factos, e garantindo-lhe que "investigariam a sua queixa".
Roger Casement compreendeu muito rapidamente como se devia ter sentido o juiz Valcárcel antes de fugir de Iquitos ou de ser liquidado por algum dos assassinos a
soldo de Arana: enganado por todo o lado, convertido no palhaço de uma comunidade de marionetas cujos cordéis eram movidos pela Peruvian Amazon Company, à qual toda
a Iquitos obedecia com subserviência vil.
Tinha-se proposto voltar ao Putumayo, embora fosse evidente que, se ali na cidade a companhia de Arana havia conseguido eximir-se das sanções e evitar as reformas
anunciadas, era óbvio que lá nas explorações de borracha tudo continuaria igual ou pior que antes, no que dizia respeito aos indígenas. Rómulo Paredes, Mr. Stirs
e o prefeito Adolfo Gamarra suplicaram-lhe que renunciasse àquela viagem.
- O senhor não vai sair vivo de lá e a sua morte não servirá para nada - garantiu-lhe o director de El Oriente. - Senhor Casement, sinto dizer-lhe isto, mas o senhor
é o homem mais odiado no Putumayo. Nem Saldaña Roca, nem o gringo Har-denburg, nem o juiz Valcárcel são tão detestados como o senhor.

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Eu regressei vivo do Putumayo por milagre. Mas esse milagre não se vai repetir se o senhor lá for para que o crucifiquem. Além disso, sabe uma coisa? O mais absurdo
será que o mandarão matar com os dardos envenenados das zarabatanas desses boras e huitotos que o senhor defende. Não vá, não seja insensato. Não se suicide.
O prefeito Adolfo Gamarra, assim que soube dos seus preparativos de viagem para o Putumayo, veio buscá-lo ao Hotel Amazonas. Estava muito alarmado. Levou-o a tomar
uma cerveja a um bar onde tocavam música brasileira. Foi a única vez que Roger achou que o funcionário falava com ele com sinceridade. - Suplico-lhe que renuncie
a essa loucura, senhor Casement - disse-lhe, olhando-o nos olhos. - Eu não tenho como garantir a sua protecção. Lamento dizer-lhe isto, mas é a verdade. Não quero
carregar com o seu cadáver na minha folha de serviços. Seria o fim da minha carreira. Digo-lhe isto com o coração nas mãos. O senhor não chegará ao Putumayo. Consegui,
com muito esforço, que aqui ninguém lhe toque. Não foi nada fácil, juro-lhe. Tive de pedir e ameaçar aos que mandam. Mas a minha autoridade desaparece fora dos limites
da cidade. Não vá ao Putumayo. Por si e por mim. Não arruine o meu futuro, por aqueles que mais ama. Falo consigo como um amigo, a sério.
Mas o que finalmente o fez desistir da viagem foi uma inesperada e brusca visita, a meio da noite. Já estava deitado e a pegar no sono quando o empregado da recepção
do Hotel Amazonas lhe veio bater à porta. Estava um senhor à procura dele, dizia que era muito urgente. Vestiu-se, desceu e deu de caras com Juan Tizón. Não tinha
voltado a saber dele desde a viagem ao Putumayo, em que este alto funcionário da Peruvian Amazon Company tinha colaborado com a Comissão de forma tão leal. Não era
nem a sombra do homem seguro de si mesmo que Roger recordava. Via-se que estava envelhecido, exausto e sobretudo desmoralizado.
Foram à procura de um sítio tranquilo, mas era impossível porque a noite de Iquitos estava cheia de barulho, bebedeira,

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jogo e sexo. Resignaram-se a sentar-se no Pim Pam, um bar-boa-te onde tiveram de tirar de cima de si duas mulatas brasileiras que os assediavam para que fossem dançar
com elas. Pediram
duas cervejas.
Sempre com o ar cavalheiresco e as maneiras elegantes que Roger recordava, Juan Tizón falou-lhe de uma forma que lhe pareceu absolutamente sincera.
- Não se fez nada do que a companhia prometeu, apesar de, aquando do pedido do presidente Leguía, termos combinado isso em reunião do Directório. Quando lhes apresentei
o meu relatório, todos, incluindo Pablo Zumaeta e os irmãos e cunhados de Arana, concordaram comigo que era preciso fazer melhorias radicais nas estações. Para evitar
problemas com a justiça e por razões morais e cristãs. Só palavreado. Não se fez nem fará nada.
Contou-lhe que, excepto dar instruções aos empregados no Putumayo para que tomassem precauções e apagassem as marcas de abusos passados - fazer desaparecer os cadáveres,
por exemplo -, a companhia tinha facilitado a fuga dos principais incriminados no relatório que Londres fez chegar ao Governo peruano. O sistema de recolha da borracha
com a mão-de-obra indígena forçada continuava como antes.
- Bastou-me pisar Iquitos para me aperceber de que nada tinha mudado - confirmou Roger. - E o senhor?
- Regresso a Lima na próxima semana e não penso voltar aqui. A minha situação na Peruvian Amazon Company tornou-se insustentável. Preferi demitir-me antes que me
despeçam. Vão comprar-me de novo as minhas acções, mas a um preço execrável. Em Lima, terei de me ocupar de outras coisas. Não lamento, apesar de ter perdido dez
anos da minha vida a trabalhar para Arana. Mesmo que tenha de começar do zero, sinto-me melhor. Depois do que vimos no Putumayo sentia-me sujo e culpado na companhia.
Consultei a minha mulher e ela apoia-me.
Conversaram perto de uma hora. Juan Tizón insistiu também que Roger não devia voltar ao Putumayo sob qualquer
pretexto: não conseguiria nada a não ser que o matassem e, porventura, se eles se enfurecessem, com um daqueles excessos de crueldade que ele já tinha visto ao percorrer
as explorações da borracha.
Roger ocupou-se a preparar um novo relatório para o Foreign Office. Explicava que não tinha sido feita qualquer reforma nem aplicada a mais pequena sanção aos criminosos
da Peruvian Amazon Company. Não havia esperança de que se fizesse alguma coisa no futuro. A culpa recaía tanto na firma de Júlio C. Arana como na administração pública,
e até no país inteiro. Em Iquitos, o Governo peruano não era mais que um agente de Júlio C. Arana. O poder da sua companhia era tal que todas as instituições políticas,
policiais e judiciais trabalhavam activamente para permitir que continuasse a explorar os indígenas sem qualquer risco, porque todos os funcionários recebiam dinheiro
dela ou temiam as suas represálias.
Como que a querer dar-lhe razão, num daqueles dias, de súbito, o Supremo Tribunal de Iquitos pronunciou a sentença relativamente ao habeas corpus que os nove detidos
tinham pedido. A sentença era uma obra-prima de cinismo: todas as acções judiciais ficavam suspensas enquanto as duzentas e trinta e sete pessoas da lista estabelecida
pelo juiz Valcárcel não fossem detidas. Com apenas um pequeno grupo de capturados qualquer investigação seria incompleta e ilegal, decretaram os juízes. De modo
que os nove ficavam definitivamente livres e o caso suspenso até que as forças policiais entregassem os duzentos e trinta e sete suspeitos à justiça, coisa que,
é claro, nunca sucederia.
Poucos dias depois aconteceu em Iquitos outro facto ainda mais grotesco, pondo à prova a capacidade de espanto de Roger Casement. Quando ia do hotel para casa de
Mr. Stirs, viu gente apinhada em dois locais que pareciam gabinetes do Estado, pois mostravam nas suas fachadas o escudo e a bandeira do Peru. O que é que estava
a acontecer?
- Há eleições municipais - explicou-lhe Mr. Stirs com aquela sua vozinha tão apática que parecia impermeável

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à emoção. - Umas eleições muito particulares porque, segundo a lei eleitoral peruana, para ter direito a voto é preciso ser-se proprietário e saber ler e escrever.
Isto reduz o número de eleitores a poucas centenas de pessoas. Na realidade, as eleições decidem-se nos escritórios da Casa Arana. Os nomes dos vencedores e as percentagens
que obtêm na votação.
Devia ser mesmo assim porque naquela noite festejou-se, num pequeno encontro na Plaza de Armas, com bandas de música e distribuição de aguardente, que Roger observou
de longe, a eleição como novo presidente da Câmara de Iquitos, o senhor Pablo Zumaeta! O cunhado de Júlio C. Arana emergia do seu "esconderijo" ressarcido pela população
de Iquitos - foi assim que disse no seu discurso de agradecimento - das calúnias da conspiração inglesa-colombiana, decidido a continuar a lutar, de forma inabalável,
contra os inimigos do Peru e pelo progresso da Amazónia. Depois da distribuição de bebidas alcoólicas, houve um baile popular com fogo-de-artifício, guitarras e
bombos que durou até de madrugada. Roger optou por se retirar para o seu hotel para não ser linchado.
George Michell e a sua esposa chegaram por fim a Iquitos, num barco proveniente de Manaus, a 30 de Novembro de 1911. Roger já estava a fazer as malas para a sua
partida. A chegada do novo cônsul britânico foi antecedida por frenéticas diligências de Mr. Stirs e do próprio Casement para encontrar uma casa para o casal. "A
Grã-Bretanha caiu em desgraça aqui por sua culpa, Sir Roger", disse-lhe o cônsul de saída. "Ninguém quer alugar uma casa para os Michell, mesmo que eu ofereça pagar
mais caro. Todos têm medo de ofender Arana, todos se recusam." Roger pediu ajuda a Rómulo Paredes e o director de El Oriente resolveu-lhes o problema. Alugou ele
próprio a casa e subalugou-a ao Consulado britânico. Tratava-se de uma casa velha e suja e foi preciso renová-la à pressa e mobilá-la de qualquer maneira para receber
os seus novos hóspedes. A senhora Michell era uma mulherzinha risonha e voluntariosa que Roger conheceu apenas junto à passarela do barco, no porto, no dia da sua
chegada.
Não ficou desanimada com o estado do novo domicílio nem com o lugar que pisava pela primeira vez. Parecia inacessível ao desalento. Imediatamente, antes até de desfazer
as malas, pôs-se a limpar tudo com energia e bom humor.
Roger teve uma longa conversa com o seu velho amigo e colega George Michell, na salinha de Mr. Stirs. Informou-o com todos os pormenores da situação e não lhe escondeu
uma só das dificuldades que iria enfrentar no seu novo cargo. Michell, gordinho, quarentão e vivaço, que manifestava a mesma energia que a sua mulher em todos os
seus gestos e movimentos, ia tomando apontamentos num caderninho, com pequenas pausas para pedir esclarecimento. Depois, em vez de se mostrar desmoralizado ou de
se queixar com a perspectiva do que o esperava em Iquitos, limitou-se a dizer com um grande sorriso: "Agora já sei do que se trata e estou pronto para a luta."
Nas duas últimas semanas em Iquitos, apoderou-se novamente de Roger, de forma irresistível, o demónio do sexo. Durante a sua permanência anterior tinha sido muito
prudente, mas agora, apesar de saber da hostilidade que tanta gente ligada ao negócio da borracha lhe tinha e que podiam armar-lhe uma emboscada, não vacilou em
ir, à noite, passear pela avenida junto à margem do rio, onde havia sempre mulheres e homens à procura de clientes. Conheceu assim Alcibíades Ruiz, se é que era
este o seu nome. Levou-o para o Hotel Amazonas. O porteiro da noite não pôs qualquer objecção depois de Roger lhe dar uma gorjeta. Alcibíades aceitou posar para
ele fazendo as posturas de estátuas clássicas que ele lhe indicava. Depois de regatear um pouco, aceitou despir-se. Alcibíades era um mestiço de branco e índio,
um cholo, e Roger anotou no seu diário que aquela mistura racial dava um tipo de homem de grande beleza física, superior até à dos caboclos do Brasil, homens de
traços ligeiramente exóticos nos quais se misturavam a suavidade e a doçura dos indígenas com a rudeza viril dos descendentes espanhóis. Alcibíades e ele beijaram-se
e tocaram-se, mas não fizeram amor, nem nesse dia nem no seguinte, quando aquele

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voltou ao Hotel Amazonas. Era de manhã e Roger pôde fotografá-lo nu em várias poses. Quando partiu, escreveu no seu diário: "Alcibíades Ruiz. Cholo. Movimentos de
bailarino. Pequeno e comprido que ao endurecer se curvava como um arco. Entrou em mim como luva na mão."
Por aqueles dias, o director de El Oriente, Rómulo Paredes, foi agredido na rua. Ao sair da tipografia do seu jornal, foi assaltado por três indivíduos mal-encarados
que tresandavam a álcool. Segundo disse a Roger, com quem foi ter ao hotel imediatamente a seguir ao episódio, tê-lo-iam matado à pancada se ele não estivesse armado
e assustado os seus três agressores disparando para o ar. Trazia consigo uma mala. O senhor Rómulo estava tão revoltado com o que acontecera que não aceitou sair
à rua para beber qualquer coisa como Roger lhe propôs. O seu ressentimento e indignação contra a Peruvian Amazon Company não tinha limites:
- Sempre fui um colaborador leal da Casa Arana e que os satisfiz em tudo o que quiseram - queixou-se. Tinham-se sentado em duas esquinas da cama e falavam meio às
escuras, porque a chamazinha da torcida só iluminava um canto do quarto. - Quando fui juiz e quando fundei El Oriente. Nunca me opus aos seus pedidos, embora muitas
vezes repugnassem à minha consciência. Mas sou um homem realista, senhor cônsul, sei quais as batalhas que não se podem ganhar. Esta incumbência de ir ao Putumayo
a pedido do juiz Valcárcel foi coisa que nunca quis assumir. Eu soube desde o primeiro momento que me ia meter em sarilhos. Eles obrigaram-me. Pablo Zumaeta em pessoa
exigiu-mo. Fiz aquela viagem só a cumprir as suas ordens. O meu relatório, antes de o entregar ao prefeito, dei-o a ler ao senhor Zumaeta. Devolveu-mo sem comentários.
Não significava isso que o aceitava? Só então é que o entreguei ao prefeito. E agora acabam por me declarar guerra e querem matar-me. Este ataque é um aviso para
que eu saia de Iquitos. Para onde? Tenho mulher, cinco filhos e duas criadas, senhor Casement. O senhor já viu tanta ingratidão como a desta gente?

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Recomendo-lhe que parta quanto antes, também. A sua vida está em perigo, Sir Roger. Até agora não lhe aconteceu nada, porque pensam que, se matarem um inglês, e
ainda por cima diplomata, haverá um problema internacional. Mas não se fie. Esses escrúpulos podem desaparecer com qualquer bebedeira. Siga o meu conselho e vá-se
embora, amigo.
- Não sou inglês, mas sim irlandês - corrigiu-o Roger, suavemente.
Rómulo Paredes entregou-lhe a mala que trazia consigo.
- Aqui tem todos os documentos que eu recolhi no Putumayo e nos quais baseei o meu trabalho. Fiz bem em não entregá-los ao prefeito Adolfo Gamarra. Teriam tido a
mesma sorte que o meu relatório: ganhar traças na Prefeitura de Iquitos. Leve-os, sei que o senhor fará bom uso deles. Sinto muito carregá-lo com mais uma encomenda,
isso sim.
Roger partiu quatro dias depois, a seguir a despedir-se de Omarino e Arédomi. Mr. Stirs tinha-os colocado numa carpintaria de Nanay onde, além de trabalharem como
criados do dono, um boliviano, seriam aprendizes na sua oficina. No porto, onde Stirs e Michell se foram despedir dele, Roger apercebeu-se de que o volume da borracha
exportada nos últimos dois meses tinha superado a marca do ano anterior. Que melhor prova de que nada havia mudado e de que huitotos, boras, andoques e restantes
indígenas do Putumayo continuavam a ser espremidos sem misericórdia?
Nos cinco dias de viagem até Manaus quase não saiu do camarote. Sentia-se desmoralizado, doente e com repugnância de si mesmo. Mal comia e só aparecia pela coberta
quando o calor no apertado camarote se tornava insuportável. A medida que desciam o Amazonas e o caudal do rio se alargava e as margens se perdiam de vista, pensava
que nunca mais voltaria àquela selva. E no paradoxo - tinha pensado o mesmo em África, navegando pelo rio Congo - de que aquela paisagem majestosa, com aqueles bandos
de garças rosadas e de pequenos papagaios gritantes que por vezes sobrevoavam o barco, e a esteira

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de pequenos peixes que seguiam o navio dando saltos e fazendo malabarismos como que para chamar a atenção dos viajantes, aninhasse o vertiginoso sofrimento no interior
daquelas selvas provocado pela ganância dos seres ávidos e sanguinários que conhecera no Putumayo. Recordava a cara quieta de Júlio C. Arana naquela reunião do Directório,
em Londres, da Peruvian Amazon Company. Voltou a jurar a si mesmo que lutaria até à última gota de energia que lhe restasse no corpo para que aquele homenzinho todo
bem vestido, que tinha posto em marcha e era o principal beneficiário daquela maquinaria que triturava inúmeros seres humanos para satisfazer a sua fome de riquezas,
recebesse algum castigo. Quem ousaria dizer agora que Júlio C. Arana não sabia o que acontecia no Putumayo? Tinha montado um espectáculo para enganar toda a gente
- os governos peruano e britânico acima de tudo -, a fim de continuar a extrair a borracha daquelas selvas tão maltratadas como os indígenas que
as povoavam.
Em Manaus, onde chegou em meados de Dezembro, sentiu-se melhor. Enquanto esperava um barco que saísse rumo ao Pará e a Barbados pôde trabalhar fechado no seu quarto
de hotel, acrescentando comentários e precisões ao seu relatório. Esteve uma tarde com o cônsul inglês, que lhe confirmou que, apesar das suas reclamações, as autoridades
brasileiras não tinham feito nada para capturar Montt e Agúero nem os outros fugitivos. Corria por todo o lado o rumor de que vários dos antigos chefes de Júlio
C. Arana no Putumayo estavam agora a trabalhar no caminho-de-ferro em construção Madeira-Mamoré. Na semana que permaneceu em Manaus, Roger fez uma vida espartana,
sem sair à noite à procura de aventuras. Dava passeios pelas margens do rio e pelas ruas da cidade e, quando não trabalhava, passava muitas horas a ler os livros
sobre História Antiga da Irlanda que Alice Stopford Green lhe tinha recomendado. Apaixonar-se pelos assuntos do seu país ajudá-lo-ia a tirar da cabeça as imagens
do Putumayo e as intrigas, mentiras
e abusos daquela corrupção generalizada que tinha visto em Iquitos. Mas não era fácil concentrar-se nos assuntos irlandeses pois a cada movimento recordava que tinha
a tarefa por concluir e que, em Londres, havia que a levar até ao fim.
A 17 de Dezembro zarpou, rumo ao Pará, onde por fim encontrou uma comunicação do Foreign Office. A chancelaria havia recebido os seus telegramas enviados de Iquitos
e estava a par de que, apesar das promessas do Governo peruano, nada se tinha realmente feito contra os abusos do Putumayo, excepto permitir a fuga dos acusados.
Na véspera de Natal embarcou para Barbados no Denis, um barco confortável que levava apenas uma dúzia de passageiros. Fez uma travessia tranquila até Bridgetown.
Ali, o Foreign Office tinha-lhe reservado uma passagem no SS. Terence rumo a Nova Iorque. As autoridades inglesas haviam decidido actuar com energia contra a companhia
britânica responsável pelo que acontecia no Putumayo e queriam que os Estados Unidos se unissem ao seu empenho e protestassem juntos perante o Governo do Peru pela
sua má vontade em responder às exigências da comunidade internacional.
Na capital de Barbados, enquanto esperava a saída do barco, Roger fez uma vida tão casta como em Manaus: nem uma visita aos banhos públicos, nem uma escapadela nocturna.
Tinha novamente entrado num daqueles períodos de abstinência sexual que, às vezes, se prolongavam por muitos meses. Eram épocas em que, geralmente, a sua cabeça
se enchia de preocupações religiosas. Em Bridgetown visitou diariamente o padre Smith. Teve longas conversas com ele sobre o Novo Testamento, que costumava levar
consigo nas suas viagens. Relia-o de vez em quando, alternando esta leitura com a de poetas irlandeses, sobretudo William Butler Yeats, de quem tinha aprendido alguns
poemas de cor. Assistiu a uma missa no Convento das Ursulinas e, como lhe acontecera antes, sentiu vontade de comungar. Disse isso ao padre Smith e este, sorrindo,
recordou-lhe que não era católico, mas sim membro da Igreja

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Anglicana. Se queria converter-se ele oferecia-se para o ajudar a dar os primeiros passos. Roger esteve tentado a fazê-lo, mas arrependeu-se pensando nas fraquezas
e pecados que teria de confessar àquele bom amigo que era o padre Smith.
A 31 de Dezembro partiu no SS Terence rumo a Nova Iorque e ali, sem tempo sequer para admirar os arranha-céus, apanhou o comboio para Washington D.C. O embaixador
britânico, James Bryce, surpreendeu-o anunciando-lhe que o presidente dos Estados Unidos, William Howard Taft, lhe tinha concedido uma audiência. Ele e os seus assessores
queriam saber, da boca de Sir Roger, que conhecia pessoalmente o que acontecia no Putumayo e era homem de confiança do Governo britânico, a situação nas explorações
de borracha e se a campanha levada a cabo nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha por diferentes Igrejas, organizações humanitárias, jornalistas e publicações liberais
eram verdadeiras ou pura demagogia e exagero como garantiam as empresas de extracção da borracha e
o Governo peruano.
Hospedado na residência do embaixador Bryce, tratado como um rei e a ser chamado por Sir Roger em todo o lado, Casement foi a um barbeiro para cortar o cabelo, as
barbas e arranjar as unhas. E renovou o seu vestuário nas lojas elegantes de Washington D.C. Muitas vezes durante aqueles dias pensou nas contradições da sua vida.
Há menos de duas semanas era um pobre diabo ameaçado de morte num hotelzeco de Iquitos e agora ele, um irlandês que sonhava com a independência da Irlanda, encarnava
um funcionário enviado pela Coroa britânica para persuadir o presidente dos Estados Unidos que ajudasse o Império a exigir ao Governo peruano que pusesse fim à ignomínia
da Amazónia. Não seria a vida uma coisa absurda, uma representação dramática que de repente se tornava numa farsa?
Os três dias que passou em Washinton D.C. foram de vertigem: sessões diárias de trabalho com funcionários do Departamento de Estado e uma longa entrevista pessoal
com o ministro dos Negócios Estrangeiros. No terceiro dia foi recebido na Casa

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Branca pelo presidente Taft acompanhado por vários assessores e pelo secretário de Estado. Um instante antes de começar a sua exposição sobre o Putumayo, Roger teve
uma alucinação: não estava ali como representante diplomático da Coroa britânica, mas sim como enviado especial da recém-constituída República da Irlanda. Tinha
sido enviado pelo seu Governo Provisório para defender as razões que haviam levado a imensa maioria dos irlandeses, em acto plebiscitário, a romper os seus vínculos
com a Grã-Bretanha e a proclamar a sua independência. A nova Irlanda queria manter umas relações de amizade e cooperação com os Estados Unidos, com os quais partilhava
a adesão à democracia e onde vivia uma vasta comunidade de origem irlandesa.
Roger Casement cumpriu as suas obrigações de maneira impecável. A audiência devia durar meia hora, mas durou três vezes mais, pois o próprio presidente Taft, que
ouviu com grande atenção o seu relatório sobre a situação dos indígenas no Putumayo, submeteu-o a um cuidadoso interrogatório e pediu-lhe o seu parecer sobre a melhor
maneira de obrigar o Governo peruano a pôr fim aos crimes nas explorações da borracha. A sugestão de Roger de que os Estados Unidos abrissem um consulado em Iquitos
que trabalhasse, juntamente com o britânico, denunciando os abusos, foi bem recebida pelo mandatário. Com efeito, umas semanas depois, os Estados Unidos enviariam
um diplomata de carreira, Stuart J. Fuller, como cônsul para Iquitos.
Mais do que as palavras que ouviu, foram a surpresa e a indignação com que o presidente Taft e os seus colaboradores escutaram o seu relato, o que convenceu Roger
de que os Estados Unidos a partir dali colaborariam de maneira decidida com a Inglaterra na denúncia da situação dos indígenas amazónicos.
Em Londres, apesar de o seu estado físico se mostrar sempre ressentido pela fadiga e pelos velhos achaques, dedicou-se de corpo e alma a completar o seu novo relatório
para o Foreign Office, mostrando que as autoridades peruanas não tinham feito as reformas prometidas e que a Peruvian Amazon

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Company havia boicotado todas as iniciativas, fazendo a vida impossível ao juiz Carlos A. Valcárcel e retendo na Prefeitura o relatório do senhor Rómulo Paredes,
a quem tinham tentado matar por descrever com imparcialidade o que presenciou nos quatro meses (de 15 de Março a 15 de Julho) que passou nas explorações da borracha
de Arana. Roger começou a traduzir para inglês uma selecção dos testemunhos, entrevistas e documentos diversos que o director de El Oriente lhe entregou em Iquitos.
Aquele material enriquecia de maneira considerável o seu próprio relatório.
Fazia isto à noite, porque os seus dias estavam tomados com reuniões no Foreign Office onde, desde o chanceler até comissões múltiplas, lhe pediam relatórios, conselhos
e sugestões sobre as ideias que o Governo britânico tinha para actuar. As atrocidades que uma companhia britânica cometia na Amazónia eram objecto de uma campanha
enérgica que, iniciada pela Sociedade Contra a Escravidão e pela revista Truth, era agora apoiada pela imprensa liberal e por muitas organizações religiosas e humanitárias.
Roger insistia que se publicasse de imediato o Relatório sobre o Putumayo. Tinha perdido toda a esperança de que a diplomacia silenciosa que o Governo britânico
tentara com o presidente Leguía servisse para alguma coisa. Apesar das resistências de alguns sectores da administração, por fim Sir Edward Grey aceitou este critério
e o gabinete aprovou a edição. A publicação chamar-se-ia Livro Azul. Roger passou muitas noites acordado, fumando sem descanso e a tomar incontáveis chávenas de
café, revendo palavra a palavra a última redacção.
No dia em que o texto definitivo foi finalmente para a tipografia, sentia-se tão mal que, temendo que lhe acontecesse alguma coisa estando sozinho, foi refugiar-se
em casa da sua amiga Alice Stopford Green. "Pareces um esqueleto", disse-lhe a historiadora, agarrando-o pelo braço e levando-o para a sala. Roger arrastava os pés
e, aturdido, sentia que a qualquer momento perderia os sentidos. Doía-lhe tanto as costas que Alice
teve de lhe pôr vários almofadões para que pudesse estender-se no sofá. Quase nesse instante adormeceu ou desmaiou. Quando abriu os olhos, viu sentadas a seu lado,
juntas e a sorrir-lhe, a sua irmã Nina e Alice.
- Julgávamos que nunca mais ias acordar - ouviu uma delas dizer.
Tinha dormido cerca de vinte e quatro horas. Alice chamou o médico de família e este diagnosticou que Roger estava exausto. Que o deixassem dormir. Não se lembrava
de ter sonhado. Quando tentou pôr-se de pé, as pernas dobraram-se-lhe e deixou-se cair novamente no sofá. "O Congo não me matou, mas vai-me matar o Amazonas", pensou.
Depois de tomar um ligeiro refrigério, conseguiu levantar-se e um carro levou-o ao seu apartamento de Philbeach Gardens. Tomou um longo banho que o aliviou um pouco.
Mas sentia-se tão fraco que teve de se deitar outra vez.
O Foreign Office obrigou-o a tirar dez dias de férias. Resistia a afastar-se de Londres antes do aparecimento do Livro Azul, mas por fim consentiu em partir. Acompanhado
de Nina, que pediu uma autorização na escola onde ensinava, esteve uma semana na Cornualha. O seu cansaço era tão grande que mal conseguia concentrar-se na leitura.
A mente dispersava-se em imagens dissolutas. Graças à vida calma e à dieta saudável, foi recuperando as forças. Conseguiu dar longos passeios pelo campo, desfrutando
de uns dias suaves. Não podia haver nada mais diferente da amável e civilizada paisagem da Cornualha que a da Amazónia e, no entanto, apesar do bem-estar e da serenidade
que sentia ali, vendo a rotina dos agricultores, o pastar das beatíficas vacas e o relinchar dos cavalos nos estábulos, sem ameaças de feras, serpentes nem mosquitos,
deu consigo a pensar que aquela natureza, que denunciava séculos de trabalho agrícola ao serviço do homem, povoada e civilizada, tinha já perdido a sua condição
de mundo natural - a sua alma, diriam os panteístas - comparada com aquele território selvagem, efervescente, indómito, por amansar, da Amazónia, onde tudo

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parecia estar a nascer e a morrer, mundo instável, arriscado, movediço, onde um homem se sentia arrancado do presente e atirado para o passado mais remoto, em comunicação
com os antepassados, de regresso à aurora do acontecer humano. Surpreendido descobriu que recordava aquilo com nostalgia, apesar dos horrores que escondia.
O Livro Azul sobre o Putumayo foi publicado em Julho de 1912. Desde o primeiro dia causou uma emoção que, tendo Londres como centro, avançou em ondas concêntricas
por toda a Europa, pelos Estados Unidos e por muitas outras partes do Mundo, sobretudo Colômbia, Brasil e Peru. The Times dedicou-lhe várias páginas e um editorial
em que, ao mesmo tempo que punha Roger Casement nas nuvens, dizendo que uma vez mais tinha mostrado dotes excepcionais de "grande humanitário", exigia acções imediatas
contra aquela companhia britânica e seus accionistas que lucravam economicamente com uma indústria que praticava a escravidão e a tortura e estava a exterminar os
povos indígenas.
Mas o elogio que mais comoveu Roger foi o artigo escrito pelo seu amigo e aliado de campanha contra o rei dos Belgas Leopoldo II, Edmund C. Morel, no Daily News.
Comentando o Livro Azul dizia de Roger Casement que "nunca tinha visto tanto magnetismo num ser humano como nele". Sempre alérgico à exibição pública, Roger não
apreciava absolutamente nada esta nova onda de popularidade. Pelo contrário, sentia-se incomodado e procurava evitá-la. Mas era difícil, porque o escândalo que o
Livro Azul causara fez com que dezenas de publicações inglesas, europeias e norte-americanas quisessem entrevistá-lo. Recebia convites para dar conferências em instituições
académicas, clubes políticos, centros religiosos e de beneficência. Houve um serviço especial na Abadia de Westminster sobre o tema e o cónego Herbert Henson pronunciou
um sermão atacando com dureza os accionistas da Peruvian Amazon Company por lucrarem praticando a escravidão, o assassínio e as mutilações.

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O encarregado de Negócios da Grã-Bretanha no Peru, Des Graz, informou sobre a agitação que tinham causado em Lima as acusações do Livro Azul. O Governo peruano,
temendo um boicote económico contra si dos países ocidentais, anunciou a prática imediata das reformas e o envio de forças militares e policiais ao Putumayo. Mas
Des Graz acrescentava que provavelmente desta vez o anúncio também não seria sincero, pois havia sectores governamentais que apresentavam os factos registados no
Livro Azul como uma conspiração do Império Britânico para favorecer as pretensões colombianas sobre o Putumayo.
O ambiente de simpatia e solidariedade para com os indígenas da Amazónia que o Livro Azul despertou na opinião pública fez com que o projecto de abrir uma missão
católica no Putumayo recebesse muitos apoios económicos. A Igreja Anglicana colocou alguns reparos, mas acabou por se deixar convencer pelos argumentos de Roger
depois de inúmeros encontros, entrevistas, cartas, diálogos: que, tratando-se de um país onde a Igreja Católica estava tão enraizada, uma missão protestante despertaria
suspeitas e a Peruvian Amazon Company encarregar-se-ia de a desprestigiar apresentando-a como ponta-de-lança das apetências colonizadoras da Coroa.
Roger teve reuniões na Irlanda e em Inglaterra com os Jesuítas e os Franciscanos, duas ordens pelas quais sempre sentiu simpatia. Tinha lido, desde que estivera
no Congo, os esforços que no passado a Companhia de Jesus fizera no Paraguai e no Brasil para organizar os indígenas, catequizá-los e reuni-los em comunidades onde,
ao mesmo tempo que mantinham as suas tradições de trabalho comunitário, praticavam um cristianismo elementar, o que tinha elevado os seus níveis de vida e os livrara
da exploração e do extermínio. Por isso, Portugal destruiu as missões jesuítas e teceu intrigas até convencer Espanha e o Vaticano que a Companhia de Jesus se tinha
convertido num Estado dentro do Estado e era um perigo para a autoridade papal e para a soberania imperial espanhola. No entanto, os Jesuítas não receberam o projecto
de uma missão amazónica com muito fervor.

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Em compensação, os Franciscanos adoptaram-no com
entusiasmo.
Foi assim que Roger Casement conheceu o trabalho que os padres operários franciscanos faziam nos bairros mais pobres de Dublin. Trabalhavam nas fábricas e oficinas
e viviam as mesmas dificuldades e privações dos trabalhadores. Conversando com eles, vendo a devoção com que desempenhavam o seu ministério ao mesmo tempo que partilhavam
a sorte dos deserdados, Roger pensou que ninguém estava mais bem preparado que estes religiosos para o desafio que era instalar uma missão em La Chorrera e em El
Encanto.
Alice Stopford Green, com quem Roger foi festejar em estado de euforia a partida para a Amazónia peruana dos primeiros quatro franciscanos irlandeses, prognosticou:
- Tens a certeza de que ainda és membro da Igreja Anglicana, Roger? Apesar de talvez ainda não te teres apercebido, estás no caminho sem retorno de uma conversão
papista.
Entre os habituais participantes das tertúlias de Alice, na vasta biblioteca da sua casa de Grosvenor Road, havia nacionalistas irlandeses que eram anglicanos, presbiterianos
e católicos. Roger nunca tinha notado que entre eles houvesse atritos nem disputas. Depois daquela observação de Alice, muitas vezes se interrogou naqueles dias
se a sua aproximação ao catolicismo era uma estrita disposição espiritual e religiosa ou, pelo contrário, política, uma maneira de se comprometer ainda mais com
a opção nacionalista dado que a imensa maioria dos independentistas da Irlanda era católica.
Para de algum modo fugir ao assédio de que era objecto como autor do Livro Azul, pediu mais uns dias de licença no ministério e foi passá-los na Alemanha. Berlim
causou-lhe uma impressão extraordinária. A sociedade alemã, sob o Kaiser, pareceu-lhe um modelo de modernidade, desenvolvimento económico, ordem e eficiência.
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Embora curta, esta visita serviu para que uma vaga ideia que lhe andava às voltas na sua cabeça há algum tempo se concretizasse e se convertesse a partir de então
num dos vértices da sua acção política. Para conquistar a sua liberdade, a Irlanda não podia contar com a compreensão e menos ainda a benevolência do Império Britânico.
Verificava isso nestes dias. A mera possibilidade de que o Parlamento inglês fosse discutir de novo o projecto de lei para conceder a autonomia (Home Rule) à Irlanda,
que Roger e os seus amigos radicais consideravam uma concessão formal insuficiente, tinha provocado em Inglaterra uma rejeição chauvinista e furibunda não só dos
conservadores, mas também de amplos sectores liberais e progressistas, inclusivamente de sindicatos operários e grémios de artesãos. Na Irlanda, a perspectiva de
que a ilha tivesse autonomia administrativa e um Parlamento próprio mobilizou os unionistas do Ulster de forma arrebatada. Havia encontros, estava a formar-se o
exército de Voluntários Irlandeses, faziam-se colectas públicas para comprar armas e dezenas de milhares de pessoas subscreveram um pacto no qual os Irlandeses do
Norte proclamavam que não acatariam o Home Rule se fosse aprovado e que defenderiam a permanência da Irlanda no Império com as suas armas e as suas vidas. Nestas
circunstâncias, pensou Roger, os independentistas deviam procurar a solidariedade da Alemanha. Os inimigos dos nossos inimigos nossos amigos são e a Alemanha era
o rival mais significativo de Inglaterra. Em caso de guerra, uma derrota militar da Grã-Bretanha abriria uma possibilidade única para a Irlanda se emancipar. Durante
aqueles dias, Roger repetiu para si muitas vezes o velho ditado nacionalista: "As desgraças da Inglaterra são as alegrias da Irlanda."
Mas enquanto chegava a estas conclusões políticas que só partilhava com os seus amigos nacionalistas nas suas viagens à Irlanda ou, em Londres, na casa de Alice
Stopford Green, era a Inglaterra que lhe demonstrava carinho e admiração pelo que ele tinha feito. Recordar isso provocava-lhe mal-estar.
Em todo aquele tempo, apesar dos esforços desesperados da Peruvian Amazon Company para o evitar, dia a dia era mais evidente que a sorte da empresa de julio C. Arana
estava ameaçada.

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O seu desprestígio acentuou-se por um escândalo que se deu quando Horace Thorogood, um jornalista de The Morning Lea-der, que foi aos escritórios centrais na City,
tentar entrevistar os directores, recebeu de um deles, o senhor Abel Larco, cunhado de Júlio C. Arana, um sobrescrito com dinheiro. O jornalista perguntou que significava
aquele gesto. Larco respondeu-lhe que a companhia se mostrava sempre generosa com os seus amigos. O repórter, indignado, devolveu o dinheiro com que pretendiam suborná-lo,
denunciou o acontecimento no seu jornal e a Peruvian Amazon Company teve de pedir desculpas públicas, dizendo que se tratava de um mal-entendido e que os responsáveis
da tentativa de suborno seriam despedidos.
As acções da empresa de Júlio C. Arana começaram a cair na Bolsa de Londres. E embora isso se devesse em parte à concorrência que faziam agora à borracha amazónica
as florescentes exportações de borracha provenientes das colónias britânicas da Ásia - Singapura, Malásia, Java, Samatra e Ceilão -, plantada lá com rebentos tirados
da Amazónia num audaciosa operação de contrabando pelo cientista e aventureiro inglês Henry Alexander Wickham, o factor nevrálgico da queda da Peruvian Amazon Company
foi a má imagem que adquiriu perante a opinião pública e os meios financeiros devido à publicação do Livro Azul. O Lloyd's cortou-lhe o crédito. Em toda a Europa
e Estados Unidos muitos bancos seguiram este exemplo. O boicote ao jebe da Peruvian Amazon Company promovido pela Sociedade Contra a Escravidão e outras organizações
privou a companhia de muitos clientes e associados.
A estocada contra o império de Júlio C. Arana foi dada pela instalação, na Câmara dos Comuns, a 14 de Março de 1912, de uma comissão especial para investigar a responsabilidade
da Peruvian Amazon Company nas atrocidades do Putumayo. Formado por quinze membros, presidido por um prestigiado membro parlamentar, Charles Roberts, funcionou quinze
meses em sessão. Em trinta e seis sessões, foram interrogadas vinte e sete testemunhas em audiências públicas cheias de jornalistas,

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políticos, membros de sociedades laicas e religiosas, entre elas a Sociedade Contra a Escravidão e o seu presidente, o missionário John Harris. Os jornais e as revistas
informaram com prodigalidade acerca das reuniões e houve abundantes artigos, caricaturas, piadas e anedotas a comentá-las.
A testemunha mais esperada e cuja presença atraiu mais público foi a de Sir Roger Casement. Esteve perante a comissão a 13 de Novembro e a 11 de Dezembro de 1912.
Descreveu com precisão e sobriedade o que tinha visto com os seus próprios olhos nas explorações da borracha: os cepos, o grande instrumento de tortura em todos
os acampamentos, as costas com as cicatrizes das flagelações, os chicotes e espingardas Winchester com que andavam os capatazes das estações e os "rapazes" ou "racionais"
encarregados de manter a ordem e de assaltar as tribos nas "correrias" e o regime de escravidão, superexploração e fome a que eram submetidos os indígenas. Sintetizou,
depois, os testemunhos dos barbadianos, cuja veracidade, salientou, era garantida pelo facto de quase todos terem reconhecido ser autores de torturas e assassínios.
A pedido dos membros da comissão, explicou também o sistema maquiavélico imperante: que os chefes de secção não recebiam salários, mas sim comissões pela borracha
recolhida, o que os induzia a exigir mais e mais dos recolectores para aumentar os seus ganhos.
Na sua segunda comparência, Roger ofereceu um espectáculo. Perante os olhares surpreendidos dos membros parlamentares, foi tirando de um grande saco que dois porteiros
seguravam, objectos que tinha adquirido nos armazéns da Peruvian Amazon Company, no Putumayo. Demonstrou como os trabalhadores braçais índios eram extorquidos, pois
para os terem sempre como devedores a companhia vendia-lhes a crédito, a preços várias vezes mais altos que em Londres, objectos para o trabalho, para a vida doméstica
ou bugigangas de adorno. Exibiu uma velha escopeta de um só cano cujo preço em La Chorrera era de quarenta e cinco xelins. Para pagar esta soma um huitoto ou um
bora teriam de trabalhar dois anos,

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no caso de lhes pagarem o que ganhava um varredor de rua em Iquitos. Ia mostrando camisas de pano cru, calças de cotim, continhas de vidro coloridas, caixinhas com
pólvora, correias de pita, piões, candeeiros de azeite, chapéus de palha, unguentos para picadas, anunciando os preços com que estes utensílios se podiam adquirir
em Inglaterra. Os olhos dos parlamentares abriam-se, com indignação e espanto. Foi ainda pior quando Sir Roger fez desfilar perante Charles Roberts e restantes membros
da comissão dezenas de fotografias tiradas por si mesmo em El Encanto, La Chorrera e outras estações do Putumayo: ali estavam as costas e nádegas com a "marca de
Arana" em forma de cicatrizes e chagas, os cadáveres mordidos e picados a apodrecer no meio do mato, a incrível fraqueza de homens, mulheres e crianças que apesar
da sua magreza esquelética levavam à cabeça grandes "chouriços" de borracha solidificada, os ventres inchados de recém-nascidos devido aos parasitas e quase a morrer.
As fotografias eram um testemunho inapelável da condição de uns seres que viviam quase sem se alimentar e maltratados por pessoas ávidas cujo único objectivo na
vida era extrair mais borracha nem que para isso aldeias inteiras tivessem de morrer
de consumpção.
Um aspecto patético das sessões foi o interrogatório dos directores britânicos da Peruvian Amazon Company, onde brilhou pela sua combatividade e subtileza o irlandês
Swift McNeill, o veterano parlamentar representante do Donegal do Sul. Este provou, sem sombra de dúvida, que destacados homens de negócios, como Henry M. Read e
John Russell Gubbins, estrelas da sociedade londrina e aristocratas ou accionistas, como Sir John Lister-Kaye e o barão de Souza-Deiro, estavam totalmente desinformados
sobre o que acontecia na companhia de Júlio C. Arana, a cujas reuniões do Directório assistiam e cujas actas assinavam, cobrando grossas somas de dinheiro. Nem mesmo
quando o semanário Trutb começou a publicar as denúncias de Benjamín Saldaña Roca e de Walter Hardenburg se preocuparam em averiguar o que é que havia de verdade
naquelas acusações.
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Contentaram-se com as justificações que Abel Larco ou o próprio Júlio C. Arana lhes davam e que consistiam em incriminar os acusadores de chantagistas
ressentidos pois não tinham recebido da companhia o dinheiro que pretendiam sacar-lhe através de ameaças. Nenhum deles se preocupou em averiguar no terreno se a
empresa a que davam o prestígio do seu nome cometia aqueles crimes. Pior ainda, nem um único se tinha dado ao trabalho de examinar os papéis, contas, relatórios
e correspondência de uma companhia em que aqueles actos tinham deixado vestígios nos arquivos. Pois, por mais incrível que parecesse, Júlio C. Arana, Abel Larco
e outros dirigentes sentiam-se tão seguros até ao rebentamento do escândalo que não disfarçaram nos seus livros as marcas dos atropelos: por exemplo, não pagar salários
aos trabalhadores braçais indígenas e gastar enormes quantias de dinheiro a comprar chicotes, revólveres e espingardas.
Houve um momento de maior dramatismo quando Júlio C. Arana apareceu para fazer declarações perante a comissão. O seu primeiro aparecimento teve de ser adiado, porque
a sua esposa Eleonora, que estava em Genebra, sofrera um trauma nervoso por causa da tensão em que vivia uma família que, depois de ter subido até às mais altas
posições, via agora a sua situação desmoronar-se a grande velocidade. Arana entrou na Câmara dos Comuns vestido com a sua habitual elegância e tão pálido como as
vítimas de febres palúdicas da Amazónia. Apareceu rodeado de ajudantes e de conselheiros, mas na sala de audiências só foi autorizado a estar com o seu advogado.
A princípio mostrou-se sereno e arrogante. À medida que as perguntas de Charles Roberts e do velho Swift McNeill o iam encurralando, começou a incorrer em contradições
e equívocos, que o seu tradutor fazia o impossível por atenuar. Provocou a hilaridade do público quando, a uma pergunta do presidente da comissão - porque é que
havia tantas espingardas Winchester nas estações do Putumayo? Para as "correrias" ou assaltos às tribos a fim de levarem as pessoas para as explorações da borracha?

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- respondeu: "Não, senhor, para se defenderem dos tigres que abundam pela região." Tentava negar tudo, mas de repente reconhecia que sim, certamente, já ouvira dizer
que uma mulher indígena fora queimada viva. Só que já tinha sido há muito tempo. Os abusos, se se tivessem cometido, eram sempre coisa
do passado.
O desconcerto máximo do industrial da borracha aconteceu quando tentava desvalorizar o testemunho de Walter Har-denburg, acusando o norte-americano de ter falsificado
uma letra de câmbio em Manaus. Swift McNeill interrompeu-o para lhe perguntar se ele se atreveria a chamar "falsificador" a Hardenburg em pessoa, que se julgava
viver no Canadá. "Sim", respondeu Arana. "Faça-o, então", ordenou McNeill. "Aqui o tem." A chegada de Hardenburg provocou uma agitação na sala de audiências. Aconselhado
pelo seu advogado, Arana desdisse-se e esclareceu que não acusava Hardenburg, mas sim "alguém" de ter cambiado uma letra num banco de Manaus que se verificou ser
falsa. Hardenburg demonstrou que tudo aquilo foi uma cilada para o desprestigiar armada pela companhia de Arana, valendo-se de um sujeito de maus antecedentes chamado
Júlio Muriedas, que actualmente estava preso no Pará como caloteiro.
A partir daquele episódio, Arana esmoreceu. Limitou-se a dar respostas vacilantes e confusas a todas as perguntas, denunciando o seu mal-estar e sobretudo a falta
de veracidade como sendo o traço mais evidente do seu testemunho.
Em plenos trabalhos da comissão abateu-se sobre o empresário uma nova catástrofe. O juiz Swinfen Eady, do Supremo Tribunal de Justiça, a pedido de um grupo de accionistas
decretou o encerramento imediato dos negócios da Peruvian Amazon Company. O juiz declarava que a companhia obtinha lucros "ao recolher borracha da maneira mais atroz
que é possível imaginar" e que "se o senhor Arana não sabia o que acontecia, a sua responsabilidade era ainda mais grave, pois ele, mais que ninguém, tinha a obrigação
absoluta de saber o que acontecia nos seus domínios".
O relatório final da comissão não foi menos lapidar. Concluiu que: "O senhor Júlio C. Arana, tal como os seus sócios, teve conhecimento e é, portanto, o principal
responsável das atrocidades perpetradas pelos seus agentes e empregados no Putumayo."
Quando a comissão tornou público o seu relatório, que selou o desprestígio final de Júlio C. Arana e precipitou a ruína do império que fizera deste humilde habitante
de Rioja um homem rico e poderoso, Roger Casement tinha começado já a esquecer-se da Amazónia e do Putumayo. As questões da Irlanda tinham voltado a ser a sua principal
preocupação. Depois de ele tirar umas férias curtas, o Foreign Office propôs-lhe que regressasse ao Brasil como cônsul-geral no Rio de Janeiro e ele a princípio
aceitou. Mas foi adiando a partida e, ainda que para isso desse ao ministério e a si mesmo diversos pretextos, a verdade era que no fundo do seu coração já tinha
decidido que não voltaria a servir como diplomata nem em nenhum outro cargo a Coroa britânica. Queria recuperar o tempo perdido, dedicar a sua inteligência e energia
à luta pelo que seria a partir dali o desígnio exclusivo da sua vida: a emancipação da Irlanda.
Por isso, seguiu de longe, sem se interessar muito, as vicissitudes finais da Peruvian Amazon Company e do seu proprietário. Nas sessões da comissão, tinha ficado
claro, por confissão do próprio director-geral, Henry Lex Gielgud, que a empresa de Júlio C. Arana não possuía qualquer título de propriedade sobre as terras do
Putumayo e que só as explorava "por direito de ocupação", e isso fez com que a desconfiança dos bancos e restantes credores aumentasse. Pressionaram de imediato
o seu proprietário exigindo que cumprisse com os pagamentos e compromissos pendentes (só com as instituições da City as suas dívidas ascendiam a mais de duzentas
e cinquenta mil libras esterlinas). Choveram sobre ele ameaças de embargo e confiscação judicial dos seus bens. Fazendo declarações públicas de que, para salvar
a sua honra, pagaria até ao último centavo, Arana pôs à venda o seu palacete londrino de Kensington Road, a sua

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mansão de Biarritz e a sua casa de Genebra. Mas, como o obtido por essas vendas não foi suficiente para aplacar os seus credores, estes conseguiram ordens judiciais
para congelar as suas poupanças e contas bancárias em Inglaterra. Ao mesmo tempo que a sua fortuna pessoal se desintegrava, o declínio dos seus negócios continuava
imparável. A queda do preço da borracha amazónica pela concorrência da asiática foi paralela à decisão de muitos importadores europeus e norte-americanos de não
voltar a comprar borracha peruana até que ficasse provado, por uma comissão internacional independente, que tinham acabado o trabalho escravo, as torturas e assaltos
às tribos e que nas estações de extracção da borracha se pagava salários aos índios recolectores de látex e se respeitavam as leis laborais vigentes em Inglaterra
e nos Estados Unidos.
Não houve forma de estas quiméricas exigências poderem ser sequer tentadas. A fuga dos principais capatazes e chefes das estações do Putumayo, atemorizados com a
ideia de ser encarcerados, pôs toda a região num estado de anarquia absoluta. Muitos indígenas - comunidades inteiras - aproveitaram também para fugir, ficando assim
a extracção da borracha reduzida à sua mínima expressão e rapidamente cessou por completo. Os fugitivos tinham partido saqueando armazéns e escritórios e levando
tudo o que restava de valor, armas e víveres principalmente. Depois soube-se que a empresa, assustada com a possibilidade de estes assassinos em fuga se converterem,
em possíveis julgamentos futuros, em testemunhas de acusação contra ela, entregou-lhes elevadas somas para lhes facilitar a fuga e comprar o seu silêncio.
Roger Casement seguiu o desmoronamento de Iquitos pelas cartas do seu amigo George Michell, o cônsul britânico. Este contou-lhe como se iam fechando hotéis, restaurantes
e as lojas onde antes se vendiam artigos importados de Paris e de Nova Iorque, como o champanhe que antes se abria com tanta generosidade desaparecia como que por
artes de magia tal como o uís-que, o conhaque, o porto e o vinho. Nas tabernas e prostíbulos

325
circulavam agora apenas a aguardente que arranhava a garganta e bebidas de proveniência suspeita, supostos afrodisíacos que, frequentemente, em vez de atiçar os
desejos sexuais, tinham o efeito de dinamite no estômago dos incautos.
Tal como em Manaus, a queda da Casa Arana e da borracha causou em Iquitos uma crise generalizada tão veloz como a prosperidade que durante três lustros a cidade
tinha vivido. Os primeiros a emigrar foram os estrangeiros - comerciantes, exploradores, traficantes, donos de tabernas, profissionais, técnicos, prostitutas, chulos
e alcoviteiros - que regressaram aos seus países ou partiram em busca de terras mais propícias que esta que se afundava na ruína e no isolamento.
A prostituição não desapareceu, mas mudou de agentes. Eclipsaram-se as prostitutas brasileiras e as que diziam ser "francesas" e que na verdade costumavam ser polacas,
flamengas, turcas ou italianas e substituíram-nas por cholas e índias, muitas delas meninas e adolescentes que tinham trabalhado como criadas e perdido o emprego,
porque os senhores partiram também à procura de melhores ventos ou porque com a crise económica já não podiam vesti-las nem dar-lhes de comer. O cônsul britânico,
numa das suas cartas, fazia uma patética descrição dessas indiazinhas de quinze anos, esqueléticas, a passear pela avenida de Iquitos, pintalgadas como palhaços
à procura de clientes. Esfumaram-se jornais e revistas e até o boletim semanal que anunciava a saída e a chegada dos barcos, porque o transporte fluvial, antes tão
intenso, foi diminuindo até quase acabar. O factor que selou o isolamento de Iquitos, a sua ruptura com aquele mundo amplo com o qual ao longo de uns quinze anos
teve um comércio tão intenso, foi a decisão da Booth Line de ir reduzindo progressivamente o tráfego das suas linhas de mercadorias e passageiros. Quando o movimento
dos barcos acabou totalmente, o cordão umbilical que unia Iquitos ao mundo cortou-se. A capital de Loreto fez uma viagem para trás no tempo. Em poucos anos voltou
a ser uma povoação perdida e esquecida no coração da imensidão amazónica.

326 - 327
Um dia, em Dublin, Roger Casement, que tinha ido consultar um médico por causa das dores da artrite, ao atravessar a relva húmida de St. Stephen's Green avistou
um franciscano que lhe dizia adeus. Era um dos quatro missionários - os padres operários - que tinham partido para o Putumayo a fim de estabelecer lá uma missão.
Sentaram-se a conversar num banco, junto ao lago dos patos e cisnes. A experiência dos quatro religiosos tinha sido muito dura. A hostilidade que eles encontraram
em Iquitos da parte das autoridades, que obedeciam a ordens da companhia de Arana, não os intimidou - tiveram a ajuda dos padres agostinhos -, nem mesmo os ataques
de malária ou as picadas dos insectos que, nos primeiros meses no Putumayo, puseram à prova o seu espírito de sacrifício. Apesar dos obstáculos e dos percalços,
conseguiram instalar-se nos arredores de El Encanto, numa cabana semelhante às que os Hui-totos construíam nos seus acampamentos. As suas relações com os indígenas,
depois de um começo em que estes se mostraram rudes e receosos, tinham sido boas e até cordiais. Os quatro franciscanos puseram-se a aprender huitoto e bora e ergueram
uma igreja rústica ao ar livre, com um telhado de folhas de palmeira sobre o altar. Mas de repente surgiu aquela fuga generalizada de pessoas de todas as condições.
Chefes e empregados, artesãos e guardas, criados e trabalhadores braçais foram-se indo embora como que expulsos por uma força maligna ou uma peste de pânico. Ao
ficarem sós, a vida dos quatro franciscanos tornou-se cada dia mais difícil. Um deles, o padre McKey, contraiu beribéri. Então, depois de longas discussões, optaram
também por partir daquele lugar que parecia vítima
de uma maldição divina.
O regresso dos quatro franciscanos foi uma viagem homérica e um calvário. Com o corte radical das exportações de borracha, a desordem e o despovoamento das estações,
o único meio de transporte para sair do Putumayo, que eram os barcos da Peruvian Amazon Company, sobretudo o Liberal, foi interrompido da noite para o dia, sem aviso
prévio. De modo que
os quatro missionários ficaram separados do mundo, varados num lugar abandonado e com um doente grave. Quando o padre McKey faleceu, os seus companheiros enterraram-no
num montículo e puseram no seu túmulo uma inscrição em quatro línguas: gaélico, inglês, huitoto e espanhol. Depois, partiram só com a confiança em Deus. Uns indígenas
ajudaram-nos a descer pelo Putumayo em pirágua até ao seu encontro com o Javari. Na longa travessia a balsa soçobrou duas vezes e tiveram de alcançar as margens
a nado. Assim, perderam os poucos pertences que tinham. No Javari, depois de longa espera, um barco aceitou levá-los até Manaus com a condição de não ocuparem camarotes.
Dormiram na coberta e, com as chuvas, o mais velho dos três missionários, o padre O'Nety, adoeceu com pneumonia. Em Manaus, por fim, duas semanas mais tarde, encontraram
um convento franciscano que os acolheu. Ali faleceu, apesar dos cuidados dos seus companheiros, o padre O'Nety. Foi enterrado no cemitério do convento. Os dois sobreviventes,
depois de se recomporem da desastrosa peripécia, foram repatriados para a Irlanda. Agora, tinham retomado as suas funções entre os trabalhadores industriais de Dublin.
Roger manteve-se um bom bocado sentado sob as frondosas árvores de St. Stephen's Green. Tentou imaginar como teria ficado toda aquela imensa região do Putumayo com
o desaparecimento das estações, a fuga dos indígenas e dos empregados, guardas e assassinos da companhia de Júlio C. Arana. Fechando os olhos, fantasiou. A fecunda
natureza iria cobrir com arbustos, lianas, matagais, mato, todos os descampados e clareiras e, quando a floresta renascesse, voltariam os animais para fazer ali
os seus esconderijos. O lugar encher-se-ia de cantos de pássaros, assobios, grunhidos e gritos de papagaios, macacos, serpentes, capivaras, mutuns e jaguares. Com
as chuvas e deslocamentos de terras em poucos anos não restaria vestígio daqueles acampamentos onde a ganância e a crueldade humanas tinha causado tantos sofrimentos,
mutilações e mortes. A madeira das construções iria apodrecendo com as chuvas e as casas abatendo-se

328
com as suas madeiras devoradas pelas térmites. Todo o tipo de bichos fariam as suas tocas e refúgios entre os escombros. Num futuro não muito longínquo toda aquela
marca humana teria sido apagada pela selva.


A IRLANDA


XIII.


Acordou, entre assustado e surpreendido. Porque, na confusão que eram as suas noites, nesta tinha estado sobressaltado e tenso durante o sono com a recordação do
seu amigo - ex-amigo agora - Herbert Ward. Mas não lá em África, onde se tinham conhecido quando ambos trabalhavam na expedição de Sir Henry Morton Stanley, nem
depois, em Paris, onde Roger tinha ido visitar Herbert e Sarita várias vezes, mas sim nas ruas de Dublin e nada mais nada menos que no meio dos estrondos, das barricadas,
dos tiroteios, dos tiros de canhão e do grande sacrifício colectivo da Páscoa. Herbert Ward no meio dos irlandeses sublevados, dos Voluntários Irlandeses e do Exército
do Povo, a lutar pela independência do Eire. Como é que podia a mente humana entregue ao sonho armar fantasias tão absurdas?
Recordou que há poucos dias o gabinete britânico se tinha reunido sem tomar qualquer decisão sobre o pedido de clemência. Dera-lho a saber o seu advogado, George
Gavan Duffy. O que é que acontecia? Porquê este novo adiamento? Gavan Duffy via nisso um bom sinal: havia dissensões entre os ministros, não conseguiam a unanimidade
indispensável. Havia, pois, esperanças. Mas esperar era continuar a morrer muitas vezes a cada dia, a cada hora, a cada minuto.
Recordar Herbert Ward deixou-o triste. Já nunca mais seriam amigos. A morte do filho Charles, tão novo, tão bem-parecido, tão saudável, na frente de Neuve Chapelle,
em Janeiro

332.
de 1916, abrira entre ambos um abismo que já nada fecharia. Herbert era o único amigo a sério que tinha feito em África. Desde o primeiro momento viu naquele homem
algo maior que ele, com uma personalidade que se destacava, que tinha percorrido meio mundo - Nova Zelândia, Austrália, São Francisco, Bornéu -, de cultura muito
superior à de todos os europeus que os rodeavam, incluindo Stanley, alguém ao lado do qual aprendia muitas coisas e com quem partilhava inquietações e desejos. Ao
contrário dos outros europeus recrutados por Stanley para aquela expedição ao serviço de Leopoldo II, que só aspiravam obter de África dinheiro e poder, Herbert
amava a aventura pela aventura. Era um homem de acção, mas tinha paixão pela arte e aproximava-se dos Africanos com uma curiosidade respeitosa. Indagava sobre as
suas crenças, os seus costumes e os seus objectos religiosos, os seus vestuários e adornos, que a ele lhe interessavam do ponto de vista estético e artístico, mas
também intelectual e espiritual. Já nessa altura, nos seus momentos livres, Herbert desenhava e fazia pequenas esculturas com motivos africanos. Nas suas longas
conversas ao anoitecer, quando armavam as tendas, preparavam o rancho e se dispunham a descansar das marchas e trabalhos da jornada, confiava a Roger que um dia
deixaria todas estas ocupações para se dedicar a ser apenas um escultor e ter vida de artista, em Paris, "a capital mundial da arte". Esse amor a África nunca o
abandonou. Pelo contrário, a distância e os anos tinham-no aumentado. Recordou a casa londrina dos Ward, no número 53 de Chester Square, cheia de objectos africanos.
E sobretudo o seu estúdio de Paris com as paredes cobertas de lanças, dardos, flechas, escudos, máscaras, remos e facas de todas as formas e tamanhos. Entre as cabeças
de feras dissecadas pelo chão e as peles de animais que cobriam os cadeirões de couro, tinham passado noites inteiras a recordar as suas viagens por África. Francis,
a filha dos Ward, a quem eles tratavam por Grilo, ainda uma menina, vestia-se às vezes com túnicas, colares e adornos nativos

333
e bailava uma dança bacongo que os pais acompanhavam com palmas e uma melopeia monótona.
Herbert foi uma das escassas pessoas a quem Roger confiou a sua decepção com Stanley, com Leopoldo II, com a ideia que o trouxera a África: que o Império e a colonização
abririam aos Africanos o caminho da modernização e do progresso. Herbert concordou totalmente com ele, ao verificar que a verdadeira razão da presença dos Europeus
em África não era ajudar o Africano a sair do paganismo e da barbárie, mas sim explorá-lo com uma ganância que não conhecia limites para o abuso e para a crueldade.
Mas Herbert Ward nunca levou muito a sério a progressiva conversão de Roger à ideologia nacionalista. Costumava brincar com ele, da maneira carinhosa que lhe era
peculiar, alertando-o contra o patriotismo de pacotilha - bandeiras, hinos, uniformes - que, dizia-lhe ele, representava sempre, mais cedo ou mais tarde, um retrocesso
ao provincianismo, ao espírito de campanário e à distorção dos valores universais. No entanto, esse cidadão do mundo, como Herbert gostava de se chamar, perante
a violência desmedida da guerra mundial tinha reagido refugiando-se também no patriotismo, como tantos milhões de europeus. A carta em que rompia a sua amizade com
ele estava cheia desse sentimento patriótico com que antes brincava, desse amor à bandeira e à terrinha que antes lhe parecia primário e desprezível. Imaginar Herbert
Ward, aquele inglês parisiense, enredado com os homens do Sinn Fein de Arthur Griffith, do Exército do Povo de James Connolly e dos Voluntários Irlandeses de Patrick
Pearse, a lutar nas ruas de Dublin pela independência da Irlanda, mas que disparate! No entanto, enquanto esperava o amanhecer deitado no estreito catre da sua cela,
Roger disse a si mesmo que, apesar de tudo, havia algo de razão no fundo daquela desrazão, pois, no sonho, a sua mente tinha tentado reconciliar duas coisas de que
gostava e de que sentia saudades: o seu amigo e o seu país.

334 - 335
De manhã cedo, o xerife veio anunciar-lhe uma visita. Roger sentiu que o coração se lhe acelerava ao entrar no parlatório e ver, sentada no único banquinho da estreita
divisão, Alice Stopford Green. Ao vê-lo, a historiadora pôs-se de pé e aproximou-se sorrindo para o abraçar.
- Alice, Alice querida - disse-lhe Roger. - Que alegria ver-te de novo! Julguei que não nos veríamos outra vez. Pelo menos neste mundo.
- Não foi fácil conseguir esta segunda autorização - disse Alice. - Mas, estás a ver, a minha teimosia acabou por convencê-los. Não sabes a quantas portas bati.
A sua velha amiga, que costumava vestir-se com estudada elegância, usava agora, contrariamente à visita anterior, um vestido velho, um lenço atado de qualquer maneira
na cabeça de onde saíam umas madeixas grisalhas. Calçava uns sapatos cheios de lama. Não era só a roupa que tinha empobrecido. A sua expressão denotava cansaço e
desânimo. O que é que acontecera naqueles dias para semelhante mudança? A Scotland Yard tinha voltado a incomodá-la? Ela negou, encolhendo os ombros, como se aquele
velho episódio não tivesse importância. Alice não lhe tocou no tema do pedido de clemência e no seu adiamento até ao próximo Conselho de Ministros. Roger, supondo
que ainda não se sabia nada a esse respeito, também não se referiu a ele. Em vez disso, contou-lhe o sonho absurdo que tivera, imaginando Herbert Ward misturado
com os rebeldes irlandeses no meio das refregas e combates da Semana Santa,
no centro de Dublin.
- Pouco a pouco vão-se filtrando mais notícias da forma como aconteceram as coisas - disse Alice e Roger notou que a voz da sua amiga entristecia e enfurecia-se
ao mesmo tempo. Reparou também que, ao ouvir que se falava da insurreição irlandesa, o xerife e o guarda que permaneciam junto deles de costas ficavam rígidos e,
sem dúvida, aguçavam o ouvido. Receou que o xerife lhes chamasse a atenção que era proibido falar deste tema, mas não o fez.

- Então soubeste mais alguma coisa, Alice? - perguntou, baixando a sua voz até convertê-la num murmúrio.
Viu que a historiadora empalidecia um pouco ao mesmo tempo que confirmava. Manteve um longo silêncio antes de responder, como que a perguntar-se se devia perturbar
o seu amigo abordando um tema tão doloroso para ele ou então como se tivesse tantas coisas para dizer sobre isso e que não soubesse por onde começar. Por fim, optou
por lhe responder que, embora tivesse ouvido e continuasse a ouvir muitas versões sobre o que se viveu em Dublin e nalgumas outras cidades da Irlanda na semana da
revolta - coisas contraditórias, factos misturados com fantasias, mitos, realidades e exageros e invenções, como acontecia quando algum acontecimento sublevava todo
um povo -, ela dava muito crédito sobretudo ao testemunho de Austin, um sobrinho seu, frade capuchinho, recém-chegado a Londres. Era uma fonte em primeira mão, pois
ele estivera lá, em Dublin, em plena refrega, como enfermeiro e assistente espiritual, indo da Estação Central dos Correios, o quartel-general a partir do qual Patrick
Pearse e James Connolly dirigiam a revolta, às trincheiras de St. Stephen's Green, onde a condessa Constance Markie-vicz comandava as acções, com um pistolão de
corsário e o seu impecável uniforme de Voluntário, às barricadas erguidas na Fábrica de Biscoitos Jacob e aos bares do Moinho de Boland ocupados pelos rebeldes sob
o comando de Eamon de Valera, antes de as tropas inglesas os cercarem. O testemunho de frei Austin, parecia a Alice, era o que provavelmente se aproximava mais daquela
verdade inatingível que só os historiadores futuros revelariam totalmente.
Houve outro longo silêncio que Roger não ousou interromper. Não via Alice apenas há uns dias, mas parecia ter envelhecido dez anos. Tinha rugas na testa, no pescoço
e as suas mãos haviam-se enchido de sardas. Os seus olhos tão claros já não brilhavam. Achou-a muito triste, mas tinha a certeza de que Alice não choraria diante
dele. Seria que lhe haviam negado a clemência e não se atrevia a dizer-lho?

336 - 337
- O que o meu sobrinho mais recorda - acrescentou Alice - não são os tiroteios, as bombas, os feridos, o sangue, as chamas dos incêndios, o fumo que não os deixava
respirar, mas sim, sabes o quê, Roger?, a confusão. A imensa, a enorme confusão que reinou toda a semana nos redutos dos revolucionários.
- A confusão? - repetiu Roger, muito baixinho. Fechando os olhos, tentou vê-la, ouvi-la e senti-la.
- A imensa, a enorme confusão - repetiu uma vez mais Alice, com ênfase. - Estavam dispostos a deixar-se matar e, ao mesmo tempo, viveram momentos de euforia. Momentos
incríveis. De orgulho. De liberdade. Ainda que nenhum deles, nem os chefes, nem os militantes, soubessem nunca exactamente o que estavam a fazer nem o que queriam
fazer. É o que diz Austin.
- Sabiam ao menos porque é que não tinham chegado as armas que esperavam? - murmurou Roger, ao reparar que Alice se encerrava mais uma vez num longo silêncio.
- Não sabiam nada de nada. Entre eles diziam-se as coisas mais fantásticas. Ninguém podia desmenti-las, porque ninguém sabia qual era a verdadeira situação. Circulavam
rumores extraordinários a que todos davam crédito, porque precisavam de acreditar que havia uma saída para a situação desesperada em que se encontravam. Que um exército
alemão estava a aproximar-se de Dublin, por exemplo. Que tinham desembarcado companhias, batalhões, em diferentes pontos da ilha, e avançavam para a capital. Que
no interior, em Cork, em Galway, em Wexford, em Meath, em Tralee, em todo o lado, incluindo o Ulster, os Voluntários e o Exército do Povo tinham-se sublevado aos
milhares, ocupado quartéis e postos policiais e avançavam de todas as direcções para Dublin, com reforços para os sitiados. Lutavam meio mortos de sede e de fome,
já quase sem munições e tinham todas as suas esperanças postas na irrealidade.
- Eu sabia que ia acontecer isso - disse Roger. - Não cheguei a tempo para impedir essa loucura. Agora, a liberdade da Irlanda está mais longe que nunca, outra vez.
- Eoin MacNeill tentou impedi-los, quando se apercebeu - disse Alice. - O comando militar do Irish Republican Brotherhood manteve-os às escuras sobre os planos da
revolta, porque era contra uma acção armada caso não houvesse apoio alemão. Quando soube que o comando militar dos Voluntários, o Irish Republican Brotherhood e
o Exército do Povo tinham convocado as pessoas para manobras militares no domingo de Ramos, deu uma contra-ordem a proibir aquela marcha e que as companhias de Voluntários
saíssem para a rua se não recebessem outras instruções assinadas por ele. Isto causou uma grande confusão. Centenas, milhares de Voluntários ficaram nas suas casas.
Muitos tentaram contactar Pearse, Connolly, Clarke, mas não conseguiram. Depois, os que obedeceram à contra-ordem de MacNeill, tiveram de cruzar os braços enquanto
os que desobedeceram se deixavam matar. Por isso, agora, muitos apoiantes do Sinn Fein e Voluntários odeiam MacNeill e consideram-no um traidor.
Calou-se novamente e Roger distraiu-se. Ian MacNeill um traidor! Mas que estupidez! Imaginou o fundador da Liga Gaélica, o editor do Gaelic Journal, um dos fundadores
dos Voluntários Irlandeses, que tinha dedicado a sua vida a lutar pela sobrevivência da língua e da cultura irlandesas, acusado de atraiçoar os seus irmãos por querer
impedir aquele levantamento romântico condenado ao fracasso. Na prisão onde o tinham encerrado seria objecto de vexames, porventura até desse gelo desdenhoso com
que os patriotas irlandeses castigavam os frouxos e os cobardes. Como se devia sentir mal aquele professor universitário calmo e culto, cheio de amor pela língua,
pelos costumes e pelas tradições do seu país! Torturar-se-ia a si próprio, interrogando-se: "Fiz mal dando aquela contra-ordem?" "Eu, que só queria salvar vidas,
terei contribuído para o fracasso da rebelião semeando a desordem e a divisão entre os revolucionários?" Sentiu-se identificado com Eoin MacNeill. Ambos se pareciam
nas posições contraditórias em que a História e as circunstâncias os tinham colocado. O que teria acontecido se,

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em vez de ser detido em Tralee, tivesse chegado a falar com Pearse, com Clarke e com os outros dirigentes do comando militar? Tê-los-ia convencido? Provavelmente,
não. E talvez agora dissessem também que ele era um traidor.
- Estou a fazer uma coisa que não devia, querido - disse Alice, forçando um sorriso. - Dando-te só as más notícias, a visão pessimista.
- Pode haver outra depois do que aconteceu?
- Sim, há - afirmou a historiadora, com voz animada e corando. - Eu também fui contra esta revolta, nestas condições. E, no entanto...
- No entanto, o quê, Alice?
- Por umas horas, por uns dias, toda uma semana, a Irlanda foi um país livre, querido - disse ela, e a Roger pareceu-lhe que Alice tremia, comovida. - Uma República
independente e soberana, com um presidente e um Governo Provisório. Aus-tin ainda não tinha ali chegado quando Patrick Pearse saiu da Estação Central dos Correios
e, das grades da esplanada, leu a Declaração de Independência e a criação do Governo Constitucional da República da Irlanda, assinada pelos sete. Não havia muita
gente ali, ao que parece. Os que estiveram e o ouviram, devem ter sentido algo muito especial, não é, meu querido? Eu era contra, já te disse. Mas quando li o texto
desatei a chorar aos gritos, como nunca chorei. "Em nome de Deus e das gerações mortas, das quais recebe a velha tradição de nacionalidade, a Irlanda, através de
nós, convoca agora os seus filhos sob a sua bandeira e proclama a sua liberdade..." Como vês, aprendi-o de cor, sim. E lamentei com todas as minhas forças não ter
estado lá, com eles. Entendes, não?
Roger fechou os olhos. Via a cena, nítida, vibrante. No cimo das grades da Estação Central dos Correios, sob um céu enfarruscado que ameaçava esvaziar-se em chuva,
perante cem (duzentas?) pessoas armadas de espingardas, revólveres, facas, lanças, garrotes, a maioria homens, mas também um bom número de mulheres com lenços na
cabeça, erguia-se a figura

339
magra, esbelta, doentia, de Patrick Pearse, com os seus trinta e seis anos e o seu olhar penetrante, impregnado daquela "vontade de poder" nietzschiana que lhe tinha
permitido sempre, sobretudo desde que aos dezassete anos ingressara na Liga Gaélica da qual rapidamente seria líder indiscutível, ultrapassar todas as vicissitudes,
a doença, as repressões, as lutas internas, e materializar o sonho místico de toda a sua vida - a revolta armada dos Irlandeses contra o opressor, o martírio dos
santos que redimiria todo um povo - lendo, com aquela voz messiânica que a emoção do instante engrandecia, as palavras cuidadosamente escolhidas que encerravam séculos
de ocupação e servidão e instauravam uma nova era na História da Irlanda. Ouviu o silêncio religioso, sagrado, que as palavras de Pearse deviam ter instalado naquele
canto do centro de Dublin, ainda intacto, porque ainda não tinham começado os tiros, e viu as caras dos Voluntários que, das janelas da Estação Central dos Correios
e dos edifícios vizinhos de Sackville Street tomados pelos rebeldes, espreitavam para contemplar a cerimónia simples, solene. Ouviu a vozearia, os aplausos, vivas,
hurras, com que, terminada a leitura dos sete nomes que assinavam a Declaração de Independência, foram premiadas as palavras de Patrick Pearse pelas pessoas da rua,
das janelas e dos telhados, e o breve e intenso momento quando o próprio Pearse e os outros dirigentes o deram por encerrado explicando que não havia mais tempo
a perder. Tinham de voltar aos seus postos, cumprir as suas obrigações, preparar-se para lutar. Sentiu que os seus olhos humedeciam. Ele também tinha começado a
tremer. Para não chorar, disse com precipitação:
- Deve ter sido emocionante, claro.
- É um símbolo e a História é feita de símbolos - confirmou Alice Stopford Green. - Não importa que tenham fuzilado Pearse, Connolly, Clarke, Plunkett e os outros
assinantes da Declaração de Independência. Pelo contrário. Aqueles fuzilamentos baptizaram com sangue esse símbolo, dando-lhe uma auréola de heroísmo e de martírio.

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- Exactamente o que Pearse e Plunkett queriam - disse Roger. - Tens razão, Alice. Também gostaria de ter estado lá,
com eles.
Aquele acto na escadaria exterior da Estação Central dos Correios comovia tanto Alice como muitas mulheres da organização feminina dos rebeldes, Cumann na mBan,
terem participado na rebelião. Isso sim, vira-o com os seus próprios olhos, o frade capuchinho. Em todos os redutos rebeldes, as mulheres foram encarregadas pelos
dirigentes de cozinhar para os combatentes, mas depois, à medida que as refregas se intensificavam, o próprio peso da acção foi ampliando o leque de responsabilidades
daquelas militantes da Cumann na mBan, que foram arrancadas das cozinhas improvisadas pelos tiros, bombas e incêndios e converteram-se em enfermeiras. Faziam ligaduras
aos feridos e ajudavam os cirurgiões a extrair balas, suturar feridas e amputar os membros ameaçados de gangrena. Mas talvez o papel mais importante dessas mulheres
- adolescentes, adultas, à beira da velhice - tenha sido a de correios, quando, pelo crescente isolamento das barricadas e postos rebeldes, foi indispensável recorrer
às cozinheiras e enfermeiras e enviá-las, a pedalar nas suas bicicletas e, quando estas escassearam, à velocidade dos seus pés, a levar e trazer mensagens, informações
orais ou escritas (com instruções de destruir, queimar ou comer aqueles papéis se fossem feridas ou capturadas). Frei Austin garantiu a Alice que durante os seis
dias de rebelião, no meio dos bombardeamentos e dos tiroteios, das explosões que derrubavam telhados, muros, varandas e iam convertendo o centro de Dublin num arquipélago
de incêndios e montes de escombros chamuscados e sangrentos, nunca deixou de ver, de um lado para o outro agarradas ao guiador como umas amazonas às suas cavalgaduras
e a pedalar furiosamente, aqueles anjos com saias, serenas, heróicas, inabaláveis, desafiando as balas, com as mensagens e as informações que rompiam a separação
que a estratégia do Exército britânico queria impor aos rebeldes isolando-os antes de os esmagar.

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- Quando já não puderam servir de correios, porque as tropas ocupavam as ruas e a circulação era impossível, muitas agarraram nos revólveres e nas espingardas dos
maridos, pais e irmãos e lutaram também - disse Alice. - Não foi só Constance Markievicz que mostrou que nem todas as mulheres pertencem ao sexo fraco. Muitas lutaram
como ela e morreram ou foram feridas com as armas na mão.
- Sabe-se quantas?
Alice negou com a cabeça.
- Não há números oficiais. Os que são referidos são mera fantasia. Mas uma coisa, sim, é certa. Lutaram. Os militares britânicos que as detiveram e as arrastaram
para o quartel de Richmond e para a prisão de Kilmainham sabem isso. Queriam submetê-las a tribunais marciais e fuzilá-las também. Sei isto de fonte muito segura:
um ministro. O gabinete britânico aterrorizou-se pensando, com razão, que se começassem a fuzilar mulheres a Irlanda inteira se levantaria em armas desta vez. O
próprio primeiro-ministro Asquith telegrafou ao chefe militar em Dublin, Sir John Maxwell, proibindo-o terminantemente de fuzilar uma única mulher que fosse. Por
isso é que a condessa Constance Markievicz salvou a sua vida. Um tribunal marcial condenou-a à morte, mas comutaram-lhe a pena em prisão perpétua devido à pressão
do Governo.
No entanto, nem tudo tinha sido entusiasmo, solidariedade e heroísmo entre a população civil de Dublin durante a semana de combates. O frade capuchinho foi testemunha
de pilhagens nas lojas e armazéns de Sackville Street e outras ruas do centro, cometidas por vagabundos, oportunistas ou simplesmente miseráveis vindos dos bairros
marginais vizinhos, o que colocou os dirigentes do Irish Republican Brotherhood, os Voluntários Irlandeses e o Exército do Povo numa situação difícil, pois não tinham
previsto esta deriva criminosa da rebelião. Nalguns casos, os rebeldes tentaram impedir os assaltos aos hotéis, até com disparos para o ar a fim de afugentar os
saqueadores que devastavam o Gresham Hotel, mas noutros, deixando-os pilhar,

342.
confundidos pela maneira como aquelas pessoas humildes, famintas, por cujos interesses julgavam estar a lutar, os enfrentavam com fúria para que os deixassem assaltar
as lojas elegantes
da cidade.
Não foram só os ladrões que enfrentaram os rebeldes nas ruas de Dublin. Também muitas mães, esposas, irmãs e filhas dos polícias e soldados que os sublevados armados
tinham atacado, ferido ou matado durante a revolta, grupos às vezes numerosos de mulheres intrépidas, exaltadas pela dor, pelo desespero e pela raiva. Nalguns casos
essas mulheres chegaram a atirar-se contra os redutos rebeldes, insultando, apedrejando e cuspindo nos combatentes, maldizendo-os e chamando-lhes "assassinos". Esta
tinha sido a prova mais difícil para aqueles que julgavam ter do seu lado a justiça, o bem e a verdade: descobrir que aqueles que os enfrentavam não eram os cães
de fila do Império, os soldados do Exército de ocupação, mas sim humildes irlandesas, cegas pelo sofrimento, que não viam neles os libertadores da pátria, mas sim
os assassinos dos seres queridos, daqueles irlandeses como eles cujo único delito era ser humildes e ter o ofício de soldado ou polícia com que sempre ganhavam a
vida os
pobres deste mundo.
- Nada é preto e branco, meu querido - comentou Alice. - Nem mesmo numa causa tão justa. Aqui também aparecem esses cinzentos turvos que tudo enevoam.
Roger concordou. O que a sua amiga acabava de dizer aplicava-se a ele. Por mais que uma pessoa fosse precavida e planeasse as suas acções com a maior lucidez, a
vida, mais complexa que todos os cálculos, fazia quebrar os esquemas e substituía-os por situações incertas e contraditórias. Não era ele um exemplo vivo dessas
ambiguidades? Os seus interrogadores Reginald Hall e Basil Thomson julgavam que ele tinha vindo da Alemanha para se pôr à frente da revolta cujos dirigentes tinham
ocultado até ao último momento o que se passava porque sabiam que se opunha a uma rebelião que não contasse com as Forças Armadas alemãs. Podia pedir-se mais incongruência?

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Alastraria agora a desmoralização entre os nacionalistas? Os seus melhores quadros estavam mortos, fuzilados ou na prisão. Reconstruir o movimento independentista
demoraria anos. Os Alemães, em quem tantos irlandeses, como ele próprio, confiavam, tinham-lhes virado as costas. Anos de sacrifício e em-penhos dedicados à Irlanda,
perdidos sem remédio. E ele ali, numa prisão inglesa, à espera do resultado de um pedido de clemência que provavelmente seria recusado. Não teria sido melhor morrer
lá, com aqueles poetas e místicos, dando e recebendo tiros? A sua morte teria tido um sentido pleno, em vez do equívoco que seria morrer na forca, como um delinquente
comum. "Poetas e místicos." Isso eram e assim tinham agido, escolhendo, como foco da rebelião, não um quartel ou o Castelo de Dublin, a cidadela do poder colonial,
mas sim um edifício civil, a Estação Central dos Correios, recém-remodelado. Uma escolha de cidadãos civilizados, não de políticos nem de militares. Queriam conquistar
a população antes de derrotar os soldados ingleses. Não lho dissera Joseph Plunkett tão claramente nas suas discussões de Berlim? Uma rebelião de poetas e místicos
ansiosos de martírio para sacudir aquelas massas adormecidas que acreditavam, como John Redmond, na via pacífica e na boa vontade do Império para conseguir a liberdade
da Irlanda. Eram ingénuos ou videntes?
Suspirou e Alice deu-lhe carinhosamente palmadinhas no braço:
- É triste e exaltante falar disto, não é, meu querido Roger?
- Sim, Alice. Triste e exaltante. Às vezes sinto uma cólera muito grande pelo que fizeram. Outras vezes, invejo-os com toda a minha alma e a minha admiração por
eles não tem limites.
- Na verdade, não faço outra coisa senão pensar nisto. E na falta que me fazes, Roger - disse Alice, pegando-lhe no braço. - As tuas ideias, a tua lucidez, ajudar-me-iam
muito a ver a luz no meio de tanta sombra. Sabes uma coisa? Agora não, mas a médio prazo ainda vai sair alguma coisa boa de tudo o que aconteceu. Já há indícios.

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Roger concordou, sem perceber muito bem o que a historiadora queria dizer.
- Para já, os partidários de John Redmond perdem cada dia mais força em toda a Irlanda - acrescentou Alice. - Nós, que estávamos em minoria, passámos a ter a maioria
do povo irlandês do nosso lado. Pode parecer-te mentira, mas juro-te que é assim. Os fuzilamentos, os tribunais marciais, as deportações, estão a prestar-nos um
grande serviço.
Roger reparou que o xerife, sempre de costas, se mexia, como se fosse virar-se para eles a fim de mandar que se calassem. Mas agora também não o fez. Alice parecia
neste momento optimista. Segundo ela, talvez Pearse e Plunkett não estivessem tão enganados. Porque a cada dia que passava se multiplicavam na Irlanda as manifestações
espontâneas das pessoas, na rua, nas igrejas, nas associações comunitárias, nos grémios, de simpatia pelos mártires, fuzilados e sentenciados a longas penas de prisão,
e de hostilidade para com polícias e soldados do Exército britânico. Estes eram objecto de insultos e vexames dos transeuntes ao ponto de o comando militar ter dado
instruções para que polícias e soldados fizessem as suas patrulhas sempre em grupos e que, quando não estivessem de serviço, vestissem à civil. Porque a hostilidade
popular causava desmoralizações entre as forças da ordem.
Segundo Alice, a mudança mais notável tinha-se dado na Igreja Católica. A hierarquia e o grosso do clero mostraram-se sempre mais perto das teses pacifistas, graduais
e a favor do Home Rule para a Irlanda, de John Redmond e dos seus seguidores do Irish Parliamentary Party, que do radicalismo separatista do Sinn Fein, da Liga Gaélica,
do Irish Republican Brotherhood e dos Voluntários Irlandeses. Mas, depois da revolta, mudou. Talvez tenha tido influência a conduta tão religiosa que os rebeldes
mostraram durante a semana de combates. Os testemunhos dos sacerdotes, entre eles o de frei Austin, que estiveram nas barricadas, edifícios e locais convertidos
em focos rebeldes eram determinantes: haviam-se celebrado missas,

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confissões, comunhões, muitos combatentes tinham pedido aos religiosos a bênção antes de começarem a disparar. Em todos os redutos os sublevados respeitaram a proibição
terminante dos líderes de que não se consumisse uma gota de álcool. Nos períodos de calma, os rebeldes rezavam o terço em voz alta, ajoelhados. Nem um único dos
fuzilados, inclusivamente James Connolly, que se proclamava socialista e tinha fama de ateu, deixara de pedir o auxílio de um sacerdote antes de enfrentar o pelotão
de fuzilamento. Numa cadeira de inválido, com as feridas ainda a sangrar dos tiros que levara nos combates, Connolly foi fuzilado depois de beijar um crucifixo que
o capelão da prisão de Kilmainham lhe estendeu. Desde Maio, em toda a Irlanda proliferavam as missas de acção de graças e homenagens aos mártires da Semana Santa.
Não havia domingo em que, nos sermões da missa, os párocos não exortassem os fiéis a rezar pela alma dos patriotas executados e enterrados clandestinamente pelo
Exército britânico. O chefe militar, Sir John Maxwell, tinha feito um protesto formal à hierarquia católica e, em vez de lhe dar explicações, o bispo O'Dwyer justificou
os seus párocos e acusou o general de ser um "ditador militar" e de actuar de forma anticristã nas execuções e na sua recusa em devolver os cadáveres dos fuzilados
às famílias. Sobretudo esta última acção, o facto de o comando militar, apoiado na supressão de garantias da lei marcial, ter enterrado os patriotas às escondidas
para evitar que as suas campas se convertessem em centros de peregrinação republicana, causou uma indignação que abrangia sectores que até agora não tinham encarado
os radicais com simpatia.
- Em resumo, os papistas ganham cada vez mais terreno e nós, os nacionalistas anglicanos, encolhemo-nos como A Pele de Chagrém, esse romance de Balzac. Só falta
que tu e eu também nos convertamos ao catolicismo, Roger - brincou Alice.
- Eu praticamente já o fiz - contestou Roger. - E não foi por razões políticas.

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- Eu nunca o faria, não te esqueças que o meu pai era um clérigo da Igreja Irlandesa - disse a historiadora. - De ti não me surpreende, já há tempos que via isso
a aproximar-se. Lembras-te das partidas que te fazíamos, nas tertúlias em minha
casa?
- Essas tertúlias inesquecíveis - suspirou Roger. - Vou contar-te uma coisa. Agora, com tanto tempo livre para pensar, muitos dias fiz esse balanço: onde e quando
fui mais feliz? Nas tertúlias das terças-feiras, na tua casa de Grosvenor Road, minha querida Alice. Nunca to disse, mas eu saía dessas reuniões em estado de graça.
Exaltado e feliz. Reconciliado com a vida. Pensando: "Que pena não ter estudado, não ter passado pela universidade." Ao ouvir-vos a ti e aos teus amigos sentia-me
tão longe da cultura como os nativos de África ou da Amazónia.
- A mim e a eles acontecia-nos uma coisa parecida contigo, Roger. Invejávamos as tuas viagens, as tuas aventuras, o teres vivido tantas vidas diferentes naqueles
lugares. Ouvi uma vez Yeats dizer isso: "Roger Casement é o irlandês mais universal que conheci. Um verdadeiro cidadão do mundo." Acho que nunca te contei isso.
Recordaram uma discussão sobre os símbolos, há anos, em Paris, com Herbert Ward. Este tinha-lhes mostrado os moldes recentes de uma das suas esculturas de que se
sentia muito contente: um feiticeiro africano. Com efeito, era uma peça linda, que, apesar do seu carácter realista, mostrava tudo o que havia de secreto e misterioso
naquele homem com a cara cheia de incisões, armado com uma vassoura e uma caveira, consciente dos poderes que lhe eram conferidos pelas divindades da floresta, dos
ribeiros e das feras e em quem homens e mulheres da tribo confiavam cegamente para que os salvasse dos conjuros, das doenças, dos medos, e os fizesse comunicar com
o além. - Todos temos dentro de nós um desses antepassados - disse Herbert, apontando para o feiticeiro de bronze que, com os olhos semicerrados, parecia extasiado
num daqueles sonhos em que os conhecimentos das ervas o mergulhavam. - A prova?

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Os símbolos a que prestamos culto com respeito reverencial. Os escudos, as bandeiras, as cruzes.
Roger e Alice discutiram, alegando que os símbolos não deviam ser vistos como anacronismos da era irracional da humanidade. Pelo contrário, uma bandeira, por exemplo,
era o símbolo de uma comunidade que se sentia solidária e partilhava crenças, convicções, costumes, respeitando as diferenças e discrepâncias individuais que não
destruíam, mas fortaleciam o denominador comum. Ambos confessaram que ver flamejar uma bandeira republicana da Irlanda os comovia sempre. Herbert e Sarita tinham
troçado tanto deles por causa desta frase! Alice quando soube que, enquanto Pearse lia a Declaração de Independência, muitas bandeiras republicanas irlandesas se
tinham içado nos telhados da Estação Central dos Correios, no Liberty Hall e depois viu as fotografias dos edifícios ocupados pelos rebeldes de Dublin como o Hotel
Metrópole e o Hotel Imperial com bandeiras que o vento fazia ondular nas janelas e parapeitos, sentira que a garganta se lhe colava. Aquilo tinha de ter provocado
uma felicidade ilimitada naqueles que a viveram. Depois apercebeu-se também de que, nas semanas anteriores à insurreição, as mulheres da Cumann na mBan, o corpo
auxiliar feminino dos Voluntários Irlandeses, enquanto estes preparavam bombas caseiras, cartuchos de dinamite, granadas, lanças e baionetas, elas juntavam remédios,
ligaduras, desinfectantes e cosiam aquelas bandeiras tricolores que irromperiam na manhã de segunda-feira, 24 de Abril, nos telhados do centro de Dublin. A casa
dos Plunkett, em Kimmage, tinha sido a fábrica de armas e de insígnias mais activa da revolta.
- Foi um facto histórico - afirmou Alice. - Nós abusamos das palavras. Os políticos, sobretudo, aplicam a palavra "histórico", "histórica", a qualquer tontice. Mas
aquelas bandeiras republicanas no céu da velha Dublin foram-no. Vai sempre ser recordado com fervor. Um facto histórico. Deu a volta ao mundo, querido. Nos Estados
Unidos muitos jornais publicaram-no na primeira página. Não gostarias de ter visto?

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Sim, ele também gostaria de ter visto aquilo. Segundo Alice, cada vez mais gente da ilha desafiava a proibição e colocava bandeiras republicanas nas fachadas das
suas casas, até em Bel-fast e em Derry, cidadelas pró-britânicas.
Por outro lado, apesar da guerra no continente da qual chegavam todos os dias notícias inquietantes - as acções causavam números vertiginosos de vítimas e os resultados
continuavam a ser incertos -, na própria Inglaterra muita gente se mostrava disposta a ajudar os deportados da Irlanda pelas autoridades militares. Centenas de homens
e mulheres considerados subversivos tinham sido expulsos e estavam agora espalhados por toda a Inglaterra, com residência fixa em localidades afastadas e, a grande
maioria, sem recursos para sobreviver. Alice, que pertencia a associações humanitárias que lhes enviavam dinheiros, víveres e roupas, disse a Roger que não tinham
dificuldade em recolher fundos e ajuda do público em geral. Também nisto a participação da Igreja Católica tinha sido importante. Entre os deportados, havia dezenas
de mulheres. Muitas delas - com algumas, Alice tinha conversado pessoalmente - conservavam, misturada com a sua solidariedade, um certo rancor para com os comandantes
da rebelião que puseram dificuldades às mulheres para poderem colaborar com os sublevados. No entanto, quase todos, de boa ou má vontade, tinham acabado por admiti-las
nos redutos e aproveitá-las. O único comandante que se recusou directamente a admitir mulheres no Moinho de Boland e em todo o território vizinho controlado pelas
suas companhias foi Eamon de Valera. Os seus argumentos irritaram as militantes da Cumann na mBan por serem conservadores. Que o lugar da mulher era o lar e não
a barricada, os seus instrumentos naturais a roca, a cozinha, as flores, a agulha e o fio, não a pistola nem a espingarda. E que a sua presença podia distrair os
combatentes, os quais, para as proteger, descuidariam as suas obrigações. O alto e magro professor de Matemática, dirigente dos Voluntários Irlandeses, com quem
Roger Casement tinha conversado muitas vezes e mantido uma abundante

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correspondência, fora condenado à morte por um daqueles tribunais marciais secretos e diligentes que julgaram os dirigentes da revolta. Mas salvou-se no último minuto.
Quando, já confessado e comungado, esperava com toda a tranquilidade com o terço entre os dedos ser levado para o paredão traseiro da prisão de Kilmanhaim onde se
davam os fuzilamentos, o tribunal decidiu comutar-lhe a pena de morte em prisão perpétua. Segundo rumores, as companhias às ordens de Eamon de Valera, apesar de
este ter uma formação militar nula, comportaram-se com grande eficácia e disciplina, infligindo muitas baixas ao inimigo. Foram as últimas a render-se. Mas os rumores
diziam também que a tensão e os sacrifícios daqueles dias tinham sido tão duros que, a dado momento, os seus subordinados no local onde funcionava o seu posto de
comando acreditaram que ele ia perder o juízo, pela sua conduta errática. Não foi caso único. Sob a chuva de chumbo e fogo, sem dormir, sem comer e sem beber, alguns
haviam enlouquecido ou sofrido crises nervosas nas barricadas. Roger tinha-se distraído, recordando a alongada silhueta de Eamon de Valera, o seu modo de falar tão
solene e cerimonioso. Reparou que Alice se referia agora a um cavalo. Fazia-o com sentimento e lágrimas nos olhos. A historiadora tinha grande amor pelos animais,
mas porque é que este a afectava de modo tão especial? Pouco a pouco foi entendendo que o seu sobrinho lhe tinha contado o episódio. Tratava-se do cavalo de um dos
lanceiros britânicos que carregaram contra a Estação Central dos Correios no primeiro dia da insurreição e que foram rechaçados, perdendo três homens. O cavalo recebeu
vários impactes de bala e caiu diante de uma barricada, ferido de morte. Relinchava com espanto, trespassado de dor. Às vezes conseguia levantar-se, mas, enfraquecido
pela perda de sangue, voltava a cair ao chão depois de tentar alguns passos. Atrás da barricada houve uma discussão entre os que queriam matá-lo para que não sofresse
mais e os que se opunham julgando que conseguiria recuperar-se. Por fim, dispararam contra ele. Foram necessários dois tiros de espingarda para pôr fim à sua agonia.

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- Não foi o único animal que morreu nas ruas - disse Alice, amargurada. - Morreram muitos, cavalos, cães, gatos. Vítimas inocentes da brutalidade humana. Muitas
noites tenho pesadelos com eles. Pobrezinhos. Nós, os seres humanos, somos piores que os animais, não é verdade, Roger?
- Nem sempre, querida. Garanto-te que alguns são tão ferozes como nós. Penso nas serpentes, por exemplo, cujo veneno vai matando aos pouquinhos, no meio de estertores
horríveis. E nos candirus do Amazonas que se introduzem no corpo pelo ânus e causam hemorragias. Enfim...
- Falemos de outra coisa - disse Alice. - Já chega de guerra, de combates, de feridos e de mortos.
Porém, um momento depois, contava ela a Roger que entre as centenas de irlandeses deportados e trazidos para as prisões inglesas era impressionante como cresciam
as adesões ao Sinn Fein e ao Irish Republican Brotherhood. Até pessoas moderadas e independentes, bem como conhecidos pacifistas se filiavam nessas organizações
radicais. E o grande número de petições que apareciam em toda a Irlanda pedindo amnistia para os condenados. Também nos Estados Unidos, em todas as cidades onde
havia comunidades irlandesas, continuavam as manifestações de protesto contra os excessos da repressão depois da revolta. John Devoy tinha feito um trabalho fantástico
e conseguido que os pedidos de amnistia fossem assinados pelo melhor da sociedade norte-americana, desde artistas e empresários até políticos, professores e jornalistas.
A Câmara dos Representantes aprovou uma moção, redigida em termos muito severos, condenando as penas de morte sumárias contra adversários que tinham entregado as
armas. Apesar da derrota, as coisas não haviam piorado com a revolta. Quanto ao apoio internacional, a situação nunca tinha estado melhor para os nacionalistas.
- O tempo da visita já foi ultrapassado - interrompeu-a o xerife. - Têm mesmo de se despedir.
- Vou conseguir outra autorização, virei ver-te antes de... - disse Alice e calou-se, pondo-se de pé. Tinha ficado muito pálida.

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- Claro que sim, Alice querida - assentiu Roger, abraçando-a. - Espero que consigas. Não sabes o quanto me faz bem ver-te. Como me serena e me enche de paz.
Mas daquela vez não foi assim. Regressou à sua cela com um tumulto de imagens na cabeça, todas relacionadas com a Revolta da Páscoa, como se as recordações e os
testemunhos da sua amiga o tivessem tirado da prisão de Pentonville e atirado para o meio da guerra urbana, no fragor dos combates. Sentiu imensas saudades de Dublin,
dos seus edifícios e casas de tijolos vermelhos, dos jardinzinhos minúsculos protegidos por cercas de madeira, dos eléctricos ruidosos, dos bairros desordenados
de casas precárias com pessoas miseráveis e descalças a rodear as ilhotas de abundância e modernidade. Como é que tudo aquilo teria ficado depois das descargas de
artilharia, das bombas incendiárias, dos desmoronamentos? Pensou no Abbey Theatre, em The Gate, no Olympia, nos bares fedorentos e quentes com cheiro a cerveja e
a crepitar de conversas. Dublin voltaria a ser o que já tinha sido?
O xerife não se ofereceu para o levar ao balneário e ele não lho pediu. Via o carcereiro tão deprimido, com uma tal expressão de desapego e ausência, que não quis
incomodá-lo. Tinha pena de o ver sofrer daquela maneira e entristecia-o não atinar com o que fazer para lhe dar ânimo. O xerife tinha vindo já duas vezes, violando
o regulamento, conversar à noite na sua cela e em cada uma delas Roger ficara angustiado por não ter sido capaz de dar a Mr. Stacey o sossego que ele procurava.
Na segunda vez, tal como na primeira, não fizera outra coisa senão falar do filho Alex e da sua morte nos combates contra os Alemães em Loos, aquele lugar desconhecido
da Bélgica a que se referia como um sítio maldito. Em dado momento, depois de um longo silêncio, o carcereiro confessou a Roger que se sentia amargurado pela recordação
daquela vez em que açoitou Alex, ainda pequenito, por ele ter roubado um bolinho na padaria da esquina. "Era um erro e tinha de ser castigado", disse Mr. Stacey,
"mas não de maneira tão severa. Açoitar assim

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um menino de poucos anos foi uma crueldade imperdoável." Roger tentou tranquilizá-lo lembrando-lhe que, a ele e aos seus irmãos, incluindo as duas raparigas, o capitão
Casement, seu pai, lhes tinha batido às vezes e que eles nunca haviam deixado de gostar dele. Mas Mr. Stacey ouvia-o? Permanecia em silêncio, a ruminar a sua dor,
com uma respiração profunda e agitada. Quando o carcereiro fechou a porta da cela, Roger foi deitar-se no catre. Suspirava, febril. A conversa com Alice não lhe
tinha feito bem. Agora sentia tristeza por não ter estado lá, vestido com o seu uniforme de Voluntário e a sua Mauser na mão, a participar na revolta, sem se importar
se aquela acção armada terminaria numa matança. Talvez Patrick Pearse, Joseph Plunkett e os outros tivessem razão. Não se tratava de ganhar, mas sim de resistir
o mais possível. De se imolar, como os mártires cristãos dos tempos heróicos. O seu sangue foi a semente que germinou, acabou com os ídolos pagãos e substituiu-os
pelo Cristo Redentor. O sangue derramado pelos Voluntários frutificaria também, abriria os olhos aos cegos e ganharia a liberdade para a Irlanda. Quantos companheiros
e amigos do Sinn Fein, dos Voluntários Irlandeses, do Exército do Povo, do Irish Republican Brotherhood tinham estado nas barricadas, conscientes de que era um empenhamento
suicida? Centenas, milhares, sem dúvida. Patrick Pearse, em primeiro lugar. Sempre acreditara que o martírio era a arma principal de uma luta justa. Isso não fazia
parte do carácter irlandês, da herança celta? A aptidão dos católicos para encaixar o sofrimento estava já em Cuchulain, nos heróis míticos do Eire e nas suas grandes
gestas e, de igual modo, no sereno heroísmo dos seus santos que a sua amiga Alice tinha estudado com tanto amor e sabedoria: uma infinita capacidade para os grandes
actos. Um espírito nada prático, o do Irlandês, possivelmente, mas compensado pela generosidade desmedida para abraçar os mais audazes sonhos de justiça, igualdade
e felicidade. Mesmo quando a derrota fosse inevitável. Com toda a confusão que o plano de Pearse, de Tom Clarke, de Plunkett e dos outros tinha, naqueles

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seis dias de luta desigual, viera à flor da pele, para que o mundo o admirasse, o espírito do povo irlandês, indomável apesar de tantos séculos de servidão, idealista,
temerário, disposto a tudo por uma causa justa. Que atitude tão diferente a daqueles compatriotas prisioneiros no campo de Limburg, cegos e surdos às suas exortações.
A deles era a outra face da Irlanda: a dos submetidos, os que, por causa dos séculos de colonização, haviam perdido aquele fulgor indómito que levou tantas mulheres
e tantos homens às barricadas de Dublin. Tinha-se enganado mais uma vez na vida? O que teria acontecido se as armas alemãs trazidas pelo Aud tivessem chegado às
mãos dos Voluntários na noite de 20 de Abril na baía de Tralee? Imaginou centenas de patriotas em bicicletas, automóveis, carroças, mulas e burros a deslocar-se
sob as estrelas e distribuindo por toda a geografia da Irlanda aquelas armas e munições. As coisas teriam mudado com aquelas vinte mil espingardas, dez metralhadoras
e cinco milhões de cartuchos nas mãos dos sublevados? Pelo menos, os combates teriam durado mais, os rebeldes ter-se-iam defendido melhor e teriam infligido mais
perdas ao inimigo. Com felicidade, notou que bocejava. O sono iria apagando aquelas imagens e acalmando o seu desassossego. Pareceu-lhe que se afundava.
Teve um sonho agradável. A mãe aparecia e desaparecia, a sorrir, bela e graciosa com o seu grande chapéu de palha do qual pendia uma fita a flutuar ao vento. Uma
sombrinha florida e coquete protegia do sol a brancura das suas faces. Os olhos de Anne Jephson estavam cravados nele e os de Roger nela, e nada nem ninguém parecia
capaz de interromper a sua silenciosa e terna comunicação. Mas, de repente, apareceu no meio da floresta o capitão de lanceiros Roger Casement, com a sua resplandecente
farda dos Dragões Ligeiros. Olhava para Anne Jephson com uns olhos em que havia uma cobiça obscena. Tanta vulgaridade ofendeu e assustou Roger. Não sabia o que fazer.
Não tinha forças para impedir o que aconteceria nem para desatar a correr e libertar-se daquele horrível pressentimento. Com

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lágrimas nos olhos, a tremer de pavor e indignação, viu o capitão levantar a sua mãe no ar. Ouviu-a dar um grito de surpresa e depois rir-se com um risinho forçado
e condescendente. Tremendo de repugnância e de ciúmes, viu-a bater com os pés no ar, mostrando os seus tornozelos magros, enquanto o pai a levava a correr por entre
as árvores. Foram-se perdendo na floresta e os seus risinhos tornando-se mais finos até se eclipsarem. Agora, ouvia gemer o vento e o trinar dos pássaros. Não chorava.
O mundo era cruel e injusto e antes de sofrer desse modo seria preferível morrer.
O sonho continuou um grande bocado, mas quando acordou, ainda na escuridão, alguns minutos ou horas depois, Roger já não se lembrava do seu desenlace. Não saber
as horas angustiou-o novamente. Às vezes esquecia-se disso, mas a menor inquietação, dúvida, abatimento, fazia com que a ansiedade pungente de não saber em que momento
do dia ou da noite se encontrava lhe pusesse gelo no coração, a sensação de ter sido expulso do tempo, de viver num limbo onde não existiam o antes, o agora ou o
depois.
Tinham passado pouco mais de três meses desde a sua captura e sentia que estava há anos entre grades, num isolamento em que dia a dia, hora a hora, ia perdendo a
sua humanidade. Não o disse a Alice, mas se alguma vez acalentou a esperança de que o Governo britânico aceitasse o pedido de clemência e lhe comutasse a condenação
à morte por prisão, agora tinha-a perdido. Perante o clima de cólera e desejo de vingança em que a Revolta da Páscoa tinha posto a Coroa, em especial os seus militares,
a Inglaterra precisava de um castigo exemplar contra os traidores que viam na Alemanha, o inimigo contra o qual o Império combatia nos campos da Flandres, o aliado
da Irlanda nas suas lutas pela emancipação. O estranho era que o gabinete tivesse adiado tanto a decisão. De que é que estavam à espera? Queriam prolongar-lhe a
agonia fazendo-o pagar pela sua ingratidão para com o país que o condecorou e enobreceu, e a que ele tinha correspondido conspirando com o seu adversário?

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Não, em política os sentimentos não importavam, só os interesses e a conveniência. O Governo deveria estar a avaliar com frieza as vantagens e os prejuízos que a
sua execução traria. Serviria como exemplo? Pioraria as relações do Governo com o povo irlandês? A campanha de desprestígio contra ele pretendia que ninguém chorasse
aquela ignomínia humana, aquele degenerado de que a sociedade se livraria através da forca. Foi estúpido deixar aqueles diários ao alcance da mão de qualquer pessoa
quando partiu para os Estados Unidos. Uma negligência que seria muito bem aproveitada pelo Império e que durante muito tempo ofuscaria a verdade da sua vida, da
sua conduta política e até da sua morte.
Voltou a adormecer. Desta vez, em lugar de um sonho teve um pesadelo que na manhã seguinte mal recordava. Nele aparecia um passarinho, um canário de voz límpida,
martirizado pelas grades da gaiola onde estava encerrado. Isso notava-se pelo desespero com que batia as suas asinhas douradas, sem parar, como se com este movimento
aquelas grades fossem alargar-se para o deixar partir. Os seus olhitos rodavam sem tréguas nas órbitas pedindo comiseração. Roger, um menino de calções, dizia à
sua mãe que não deviam existir as gaiolas, nem os jardins zoológicos, que os animais deviam viver sempre em liberdade. Ao mesmo tempo, algo secreto acontecia, um
perigo que o ia cercando, algo invisível que a sua sensibilidade detectava, algo insidioso, traiçoeiro, que já ali estava e se dispunha a atacar. Ele transpirava,
tremendo como uma folhita de papel.
Acordou tão agitado que mal conseguia respirar. Sufocava. O coração batia-lhe no peito com tanta força que talvez fosse o começo do enfarte. Devia chamar o guarda
de turno? Desistiu logo. Que havia melhor que morrer ali, no seu catre, de uma morte natural que o livraria do patíbulo? Momentos depois, o seu coração apaziguou-se
e conseguiu respirar de novo com normalidade.
O padre Carey viria hoje? Tinha vontade de o ver e manter com ele uma longa conversa sobre temas e preocupações

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que tiveram muito que ver com a alma, a religião e Deus, e muito pouco com a política. E, naquele momento, quando começava a serenar e a esquecer o seu pesadelo
recente, veio-lhe à memória a última reunião com o capelão da prisão e aquele momento de súbita tensão que o encheu de desassossego. Falavam da sua conversão ao
catolicismo. O padre Carey dizia-lhe uma vez mais que não devia falar de "conversão" pois, tendo sido baptizado em criança, nunca se tinha afastado da Igreja. O
acto seria uma reactualização da sua condição de católico, coisa que não precisava de qualquer trâmite formal. De todas as maneiras - e naqueles instantes Roger
reparou que o padre Carey vacilava, à procura das palavras com cuidado para evitar ofendê-lo - Sua Eminência o cardeal Bourne tinha pensado que, se Roger achasse
oportuno, poderia assinar um documento, um texto privado entre ele e a Igreja, manifestando a sua vontade de regresso, uma reafirmação da sua condição de católico
ao mesmo tempo que um testemunho de renúncia e arrependimento de velhos erros e tropeções.
O padre Carey não conseguia disfarçar o incómodo que
se sentia.
Houve um silêncio. Depois, Roger disse com suavidade:
- Não assinarei nenhum documento, padre Carey. A minha reintegração na Igreja Católica tem de ser uma coisa íntima, com o senhor como única testemunha.
- Assim será - disse o capelão. Seguiu-se outro silêncio, sempre tenso.
- O cardeal Bourne referia-se ao que eu calculo? - perguntou Roger. - Quero dizer, à campanha contra mim, às acusações sobre a minha vida privada. É disso que me
devo arrepender num documento para ser readmitido na Igreja Católica?
A respiração do padre Carey tinha-se tornado mais rápida. Mais uma vez, procurava as palavras antes de responder.
- O cardeal Bourne é um homem bom e generoso, de espírito bondoso - afirmou, por fim. - Mas não se esqueça, Roger, tem sobre os seus ombros a responsabilidade de
velar pelo bom

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nome da Igreja num país em que os católicos são a minoria e onde ainda há quem anime grandes fobias contra nós.
- Diga-me com franqueza, padre Carey: o cardeal Bourne pôs como condição eu assinar esse documento a arrepender-me dessas coisas vis e libertinas de que a imprensa
me acusa para que eu seja readmitido na Igreja Católica?
- Não é uma condição, mas apenas uma sugestão - disse o religioso. - Pode aceitá-la ou não e isso não mudará nada. Foi baptizado. É católico e continuará a sê-lo.
Não falemos mais deste assunto.
Efectivamente, não falaram mais disso. Mas a recordação daquele diálogo voltava à memória de Roger de vez em quando e isso levava-o a perguntar-se se o desejo de
regressar à Igreja da sua mãe seria puro ou estaria manchado pelas circunstâncias da sua situação. Não seria um acto decidido por razões políticas? Para mostrar
a sua solidariedade com os irlandeses católicos que estavam a favor da independência e a sua hostilidade à minoria que queria continuar a fazer parte do Império
e que na sua grande maioria era protestante? Que validade teria aos olhos de Deus uma conversão que, no fundo, não obedecia a nada de espiritual, mas sim ao anseio
de se sentir acolhido por uma comunidade, de fazer parte de uma grande tribo? Deus veria numa conversão assim o esbracejar de um náufrago.
- O que importa, agora, Roger, não é o cardeal Bourne, nem eu, nem os católicos de Inglaterra, nem os da Irlanda - disse o padre Carey. - O que importa agora é você.
O seu reencontro com Deus. Aí está a força, a verdade, aquela paz que merece depois de uma vida tão intensa e de tantas provas que teve de enfrentar.
- Sim, sim, padre Carey - concordou Roger, ansioso. - Já sei. Precisamente isso. Faço o esforço, juro-lhe. Tento fazer-me ouvir, chegar a Ele. Algumas vezes, muito
poucas, parece-me que consigo. Então, sinto por fim um pouco de paz, aquele sossego incrível. Como algumas noites, lá em África, com a lua cheia, o céu repleto de
estrelas, nem uma pitada de vento

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a mover as árvores, o murmúrio dos insectos. Tudo era tão belo e tão tranquilo que o pensamento que me vinha à cabeça era sempre: "Deus existe. Como é que, vendo
o que vejo, eu poderia sequer imaginar que não exista?" Mas, outras vezes, padre Carey, a maior parte das vezes, não o vejo, não me responde, não me ouve. E sinto-me
muito sozinho. Na minha vida, na maior parte do tempo, senti-me muito sozinho. Agora, nestes dias, acontece-me muito frequentemente. Mas a solidão de Deus é muito
pior. Então, digo para mim: "Deus não me ouve nem me ouvirá. Vou morrer tão sozinho como vivi." É uma coisa que me atormenta de dia e de noite, padre.
- Ele está aí, Roger. Ouve-o. Sabe o que sente. Que precisa dele. Não lhe faltará. Se há algo que lhe posso garantir, do que tenho certeza absoluta é que Deus não
lhe faltará.
Na escuridão, deitado no catre, Roger pensou que o padre Carey tinha imposto a si mesmo uma tarefa tanto ou mais heróica que os rebeldes das barricadas: levar consolo
e paz aos seres desesperados, destroçados, que iam passar muitos anos numa cela ou se preparavam para subir ao patíbulo. Tarefa terrível, desumana, que em muitos
dias deve ter levado o padre Carey, sobretudo no início do seu ministério, ao desespero. Mas sabia disfarçar. Mantinha sempre a calma e transmitia a todo o momento
aquele sentimento de compreensão, de solidariedade, que a ele lhe fazia tanto bem. Uma vez falaram da revolta.
- O que é que o senhor, padre Carey, teria feito se tivesse estado em Dublin naqueles dias?
- Ir lá prestar ajuda espiritual a quem precisasse dela, como fizeram tantos sacerdotes.
Acrescentou que não era preciso concordar com a ideia dos rebeldes de que a liberdade da Irlanda só se conseguiria com as armas para lhes prestar apoio espiritual.
Claro que não era com isso que ele concordava, tinha sempre alimentado uma rejeição visceral à violência. Mas teria ido confessar, dar a comunhão, rezar por quem
lhe pedisse, ajudar os doentes e os médicos. Assim tinha feito um bom número de

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religiosos e de religiosas e a hierarquia apoiara-os. Os pastores tinham de estar onde estava o rebanho, não é verdade?
Tudo aquilo era verdade, mas também o era que a ideia de Deus não cabia no recinto limitado da razão humana. Era preciso metê-la lá com uma calçadeira, porque nunca
encaixava totalmente. Ele e Herbert Ward tinham falado muitas vezes desse assunto. "No que se refere a Deus é preciso acreditar, não é raciocinar", dizia Herbert.
"Se raciocinarmos, Deus esfuma-se como uma nuvem de fumo."
Roger tinha passado a vida a acreditar e a duvidar. Nem mesmo agora, às portas da morte, era capaz de acreditar em Deus com a fé decidida com que acreditavam a sua
mãe, o seu pai ou os seus irmãos. Que sorte tinham aqueles para quem a existência do Ser Supremo nunca tinha sido um problema, mas sim uma certeza graças à qual
o mundo se ordenava e tudo encontrava a sua explicação e razão de ser. Aqueles que acreditavam desse modo alcançariam sem dúvida uma resignação perante a morte que
nunca conheceriam os que, como ele, tinham vivido a jogar às escondidas com Deus. Roger recordou que uma vez havia escrito um poema com esse título: "Às escondidas
com Deus." Mas Herbert Ward garantiu-lhe que era muito mau e deitou-o para o lixo. Que pena. Gostaria de o reler e corrigi-lo agora.
Começava a amanhecer. Entre os barrotes da alta janela assomava um raiozinho de luz. Em breve levaria o balde da urina e dos excrementos e iriam trazer-lhe o pequeno-almoço.
Pareceu-lhe que o primeiro conforto do dia demorava mais a chegar que outras vezes. O Sol já estava alto no céu e uma luz dourada e fria iluminava-lhe a cela. Estava
há um bom bocado a ler e a reler as máximas de Tomás de Kempis sobre a desconfiança para com o saber que torna os seres humanos arrogantes e a perda de tempo que
é "o muito matutar sobre coisas obscuras e misteriosas" cuja ignorância nem sequer nos censurariam no Juízo Final, quando sentiu que a grande chave rodava na fechadura
e se abria a porta da cela.

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- Bom dia - disse o guarda, deixando no chão o pãozinho de farinha escura e a chávena de café. Ou hoje seria de chá? Pois, obedecendo a razões inexplicáveis, o pequeno-almoço
mudava frequentemente de chá para café ou deste para chá.
- Bom dia - disse Roger, pondo-se de pé e indo buscar o balde. - Hoje o senhor veio mais tarde que nos outros dias, ou estou enganado?
Fiel à ordem do silêncio, o guarda não lhe respondeu e a ele pareceu-lhe que evitava olhá-lo nos olhos. Afastou-se da porta para o deixar passar e Roger saiu para
o longo corredor cheio de fuligem carregando o balde. O guarda caminhava dois passos atrás dele. Sentiu que o seu estado de espírito melhorava com os reflexos de
sol de Verão nas grossas paredes e nas pedras do chão, produzindo uns brilhos que pareciam faíscas. Pensou nos parques de Londres, na Serpentine e nos altos plátanos,
álamos e castanheiros do Hyde Park e em como seria belo passear por lá naquele instante, anónimo entre os desportistas que montavam a cavalo ou de bicicleta e as
famílias com crianças que, aproveitando o bom tempo, tinham saído para passar o dia ao ar livre.
Na casa de banho deserta - devia haver instruções para que lhe fixassem horas diferentes das dos outros presos para a higiene - esvaziou e enxaguou o balde. Depois
sentou-se na sa-nita sem qualquer êxito - a obstipação tinha sido um problema em toda a sua vida -, e, por fim, tirando o blusão azul de presidiário, lavou-se e
esfregou o corpo e a cara vigorosamente. Secou-se com a toalha meio húmida que estava pendurada numa armela. Regressou à cela com o balde limpo, devagar, saboreando
o sol que caía sobre o corredor das janelas com grades do cimo do muro e os barulhos - vozes ininteligíveis, buzinas, passos, motores, estridências -, que lhe davam
a impressão de ter entrado no tempo outra vez e que desapareceram assim que o guarda fechou a porta da cela à chave.
A bebida podia ser chá ou café. Não se importou que estivesse desenxabida, pois o líquido, ao descer pelo seu peito até

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ao estômago fez-lhe bem e tirou-lhe a acidez que sempre o afligia de manhã. Guardou o pãozinho para o caso de lhe dar fome mais tarde.
Deitado no catre, retomou a leitura da Imitação de Cristo. Às vezes parecia-lhe uma ingenuidade infantil, mas outras, ao voltar uma página, deparava-se-lhe um pensamento
que o inquietava e o levava a fechar o livro. Punha-se a meditar. O monge dizia que era útil o homem sofrer de vez em quando penas e adversidades, porque isso recordava-lhe
a sua condição: estava "desterrado nesta terra" e não devia ter qualquer esperança nas coisas deste mundo, só nas do além. Era verdade. O fradinho alemão, lá no
seu convento de Agnetenberg, há quinhentos anos, tinha acertado no alvo, expressado uma verdade que Roger vivera na própria carne. Ou melhor dizendo, desde que em
criança a morte da sua mãe o mergulhara numa orfandade de que nunca mais se conseguiu libertar. Era essa a palavra que melhor descrevia o que ele sempre se sentira,
na Escócia, em Inglaterra, em África, no Brasil, em Iquitos, no Putumayo: "desterrado". Uma boa parte da sua vida tinha-se vangloriado da condição de cidadão do
mundo que, segundo Alice, Yeats admirava nele: alguém que não é de lado nenhum porque o é de todos. Durante muito tempo dissera a si mesmo que aquele privilégio
lhe oferecia uma liberdade que aqueles que viviam ancorados num único lugar desconheciam. Mas Tomás de Kempis tinha razão. Nunca se sentira de lado nenhum porque
aquela era a condição humana: o desterro neste vale de lágrimas, destino transitório até que, com a morte e o além, homens e mulheres voltassem ao redil, à sua fonte
de alimentação, onde viveriam para toda a eternidade.
Em compensação, a receita de Tomás de Kempis para resistir às tentações era cândida. Alguma vez teria tido tentações, lá no seu convento solitário, aquele homem
pio? Se as teve, não deve ter sido assim tão fácil para ele resistir-lhes e derrotar o "Diabo que nunca dorme e anda sempre a rondar e a procurar a quem devorar".
Tomás de Kempis dizia que ninguém era tão

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perfeito que não tivesse tentações e que era impossível que um cristão pudesse ver-se exonerado da "concupiscência", a fonte de todas elas.
Ele fora fraco e sucumbido à concupiscência muitas vezes. Não tantas como as que tinha escrito nas suas agendas e cadernos de notas, ainda que, sem dúvida, escrever
o que não se viveu, o que só se tinha querido viver, fosse também uma maneira - cobarde e tímida - de o viver e, portanto, de se render à tentação. Pagar-se-ia por
isso, apesar de não se ter desfrutado de verdade, mas sim daquela maneira incerta e inapreensível como se viviam as fantasias? Teria de pagar por tudo aquilo que
não fez, que só desejou e escreveu? Deus saberia discriminar e certamente sancionaria aqueles erros retóricos de maneira mais leve que os pecados cometidos de verdade.
De qualquer modo, escrever o que não se vivia para se ter uma ideia de o viver, trazia já implícito um castigo: a sensação de fracasso e frustração com que acabam
sempre os jogos mentirosos do seus diários. (E também os factos vividos, aliás.) Mas, agora, aqueles jogos irresponsáveis tinham posto nas mãos do inimigo uma arma
incrível para tornar desprezível o seu nome e a sua memória.
Por outro lado, não era muito fácil saber a que tentações Tomás de Kempis se referia. Podiam surgir tão disfarçadas, tão encobertas, que se confundiam com coisas
benignas, com entusiasmos estéticos. Roger recordou, naqueles remotos anos da sua adolescência, que as suas primeiras emoções com os corpos bem torneados, com os
músculos viris, a harmoniosa beleza dos adolescentes, não pareciam um sentimento malicioso e concupiscente, mas sim uma manifestação de sensibilidade, de entusiasmo
estético. Assim acreditou durante muito tempo. E que era aquela mesma vocação artística que o tinha incitado a aprender a técnica da fotografia para capturar nas
cartolinas aqueles corpos belos. A dada altura reparou, já a viver em África, que aquela admiração não era saudável, ou, melhor dizendo, não era só saudável, mas
sim saudável e doentia ao mesmo

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tempo, pois aqueles corpos harmoniosos, transpirados, musculosos, sem pingo de gordura, nos quais se adivinhava a sensualidade material dos felinos, além de arrebatamento
e admiração causavam-lhe também cobiça, desejos, uma vontade louca de os acariciar. Tinha sido assim que as tentações passaram a ser parte da sua vida, a revolucioná-la,
a enchê-la de segredos, angústia, receio, mas também de sobressaltados momentos de prazer. E de remorsos e amarguras, claro. Deus faria no momento supremo o deve
e o haver? Perdoar-lhe-ia? Castigá-lo-ia? Sentia-se curioso, atemorizado não. Como se não se tratasse dele, mas sim de um exercício intelectual ou de um enigma.
Nisto, ouviu surpreendido a grossa chave a forcejar de novo na fechadura. Quando a porta da cela se abriu, entrou um chamaréu de luz, aquele sol forte que de repente
parecia incendiar as manhãs do Agosto londrino. Ofuscado, reparou que tinham entrado três pessoas na cela. Não conseguia distinguir-lhes as caras. Pôs-se de pé.
Quando a porta se fechou viu que quem estava mais perto dele, quase a tocar-lhe, era o director da prisão de Pentonville, que ele só tinha visto umas duas vezes.
Era um homem já de idade, adoentado e enrugado. Estava vestido de escuro e tinha uma expressão grave. Atrás dele estava o xerife, branco como a cal. E um guarda
que olhava para o chão. A Roger pareceu-lhe que o silêncio durava séculos.
Por fim, olhando-o nos olhos, o director falou, com uma voz vacilante a princípio e que se foi tornando firme à medida que avançava na sua exposição:
- Cumpro o dever de lhe comunicar que esta manhã, dois de Agosto de mil novecentos e dezasseis, o Conselho de Ministros do Governo de Sua Majestade o rei se reuniu,
estudou o pedido de clemência apresentado pelos seus advogados e rejeitou-o por unanimidade de votos dos ministros presentes. Em consequência, a sentença do tribunal
que o julgou e condenou por alta traição, será executada no dia de amanhã, três de Agosto de mil novecentos e dezasseis, no pátio da prisão de Pentonville, às nove
da manhã. De acordo com o costume estabelecido,

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para a execução o réu não tem de vestir a farda de presidiário e poderá fazer uso das roupas civis de que foi despojado ao entrar para a prisão e que lhe serão devolvidas.
Assim sendo, tenho o dever de lhe comunicar que os capelães, o sacerdote católico, father Carey e father MacCarroll, da mesma confissão, estarão disponíveis para
lhe prestar ajuda espiritual, se assim o desejar. Eles serão as únicas pessoas com quem poderá encontrar-se. Se desejar deixar algumas cartas aos seus familiares
com as suas últimas vontades, o estabelecimento facilitar-lhe-á material de escrita. Se tiver algum outro pedido a formular, pode fazê-lo agora.
- A que horas poderei ver os capelães? - perguntou Roger, e pareceu-lhe que a sua voz era rouca e glacial.
O director virou-se para o xerife, trocaram algumas frases em sussurro e foi o xerife quem respondeu:
- Virão ao início da tarde.
- Obrigado.
Após um instante de hesitação, as três pessoas abandonaram a cela e Roger ouviu a forma como o guarda fechou a porta à chave.


XIV.


Roger Casement iniciou a etapa da sua vida em que estaria mais imerso nos problemas da Irlanda viajando para as ilhas Canárias, em Janeiro de 1913. À medida que
o navio avançava Atlântico fora, ia-lhe saindo um grande peso de cima, ia-se desprendendo daquelas imagens de Iquitos, do Putumayo, das plantações de borracha, de
Manaus, dos barbadianos, de Julio C. Arana, das intrigas do Foreign Office e recuperava uma disponibilidade que agora podia dedicar aos assuntos do seu país. Já
tinha feito o que podia pelos indígenas da Amazónia. Arana, um dos seus piores verdugos, não voltaria a levantar a cabeça: era um homem desprestigiado e arruinado
e não era impossível que acabasse os seus dias na prisão. Agora tinha de se ocupar de outros indígenas, os da Irlanda. Também eles precisavam de se libertar dos
"aranas" que os exploravam, embora com armas mais refinadas e hipócritas que as dos comerciantes da borracha peruanos, colombianos e brasileiros.
Porém, apesar da libertação que sentia afastando-se de Londres, tanto durante a viagem como durante o mês em que permaneceu em Las Palmas, andou aborrecido com a
deterioração da sua saúde. As dores na anca e nas costas devido à artrite atacavam-no a qualquer hora do dia e da noite. Os analgésicos não lhe faziam o efeito de
antes. Tinha de permanecer horas deitado na cama do hotel ou num cadeirão da varanda com suores frios. Andava com dificuldade, sempre com bengala, e já

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não conseguiu fazer as longas caminhadas pelo campo ou pelos sopés dos cerros como nas viagens anteriores com medo de que em pleno passeio a dor o paralisasse. As
suas melhores recordações daquelas semanas de inícios de 1913 seriam as horas em que passou mergulhado no passado da Irlanda graças à leitura de um livro de Alice
Stopford Green, The Old Irish World, em que a história, a mitologia, a lenda e as tradições se misturavam para retratar uma sociedade de aventura e fantasia, de
conflitos e criatividade, na qual um povo lutador e generoso crescia perante uma natureza difícil e fazia gala da coragem e da inventiva com as suas canções, as
suas danças, os seus jogos arriscados, os seus ritos e costumes: todo um património que a ocupação inglesa veio truncar e tentar aniquilar, sem conseguir totalmente.
Ao terceiro dia de estar na cidade de Las Palmas saiu, depois de jantar, a dar um passeio pelos arredores do porto, um bairro cheio de tabernas, bares e pequenos
hotéis prostibulares. No Parque de Santa Catalina, próximo da praia Las Canteras, depois de explorar o ambiente, aproximou-se de dois jovens com ar de marinheiros
a pedir-lhes lume. Conversou com eles por momentos. O seu espanhol imperfeito, que misturava com português, provocava a hilaridade dos rapazes. Propôs-lhes ir tomar
um copo, mas um deles tinha um encontro de modo que ficou com Miguel, o mais novo, um moreno de cabelos encaracolados recém-saído da adolescência. Foram a um bar
estreito e cheio de fumo chamado Almirante Colón, onde cantava uma mulher já entrada nos anos, acompanhada por um guitarrista. Depois do segundo golo, Roger, amparado
pela semi-obscuridade do recinto, estendeu a mão e poisou-a na perna de Miguel. Este sorriu, concordando. Cheio de coragem, Roger subiu um pouco mais a mão até à
braguilha. Sentiu o sexo do rapaz e uma onda de desejo percorreu-o dos pés à cabeça. Fazia muitos meses - "Quantos?", pensou, "três, seis?" - que era um homem sem
sexo, sem desejos nem fantasias. Pareceu-lhe que com a excitação a juventude e o amor à vida regressavam

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às suas veias. "Podemos ir a um hotel?", perguntou-lhe. Miguel sorriu, sem confirmar nem negar, mas não fez a menor tentativa de se levantar. Pelo contrário, pediu
outro copo do vinho forte e picante que lhes tinham servido. Quando a mulher acabou de cantar, Roger pediu a conta. Pagou e saíram. "Podemos ir a um hotel?", voltou
a perguntar-lhe na rua, ansioso. O rapaz parecia indeciso, ou, talvez, demorasse a responder para se fazer rogado e aumentar a recompensa que obteria pelos seus
serviços. Nisto, Roger sentiu uma facada na anca que o obrigou a encolher-se e a apoiar-se no parapeito de uma janela. Desta vez a dor não lhe veio aos poucos, como
das outras vezes, mas sim de repente e mais forte que de costume. Como uma facada, sim. Teve de sentar-se no chão, dobrado em dois. Assustado, Miguel afastou-se
a passo decidido, sem lhe perguntar o que é que ele tinha nem lhe dizer adeus. Roger permaneceu muito tempo assim, encolhido, com os olhos fechados, esperando que
amainasse aquele ferro ao rubro vivo que se encarniçava contra as suas costas. Quando conseguiu pôr-se de pé, teve de caminhar vários quarteirões, muito devagar,
arrastando os pés, até encontrar um carro que o levasse ao hotel. Só ao amanhecer é que as dores cederam e conseguiu dormir. No sono, agitado e com pesadelos, sofria
e tinha prazer à beira de um precipício do qual esteve o tempo todo prestes a rolar.
Na manhã seguinte, enquanto tomava o pequeno-almoço, abriu o seu diário e, escrevendo devagar e com letra apertada, fez amor com Miguel, várias vezes, primeiro na
escuridão do Parque Santa Catalina a ouvir o murmúrio do mar, e depois no quarto pestilento de um pequeno hotel de onde se ouvia o ulular das sirenes dos barcos.
O rapaz moreno cavalgava em cima dele, troçando - "És um velho, isso é o que tu és, um velho velhíssimo." - e dando-lhe umas palmadas nas nádegas que o faziam gemer,
talvez de dor, talvez de prazer.
Nem no resto do mês que passou nas Canárias, nem durante a viagem à África do Sul, nem nas semanas que esteve na cidade do Cabo e em Durban com o seu irmão Tom e
a sua

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cunhada Katje, voltou a tentar outra aventura sexual, paralisado pelo medo de tornar a viver, por causa da artrite, uma situação tão ridícula como a que, no Parque
Santa Catalina de Las Palmas, frustrara o seu encontro com o marinheiro canário. De vez em quando, como fizera tantas vezes em África e no Brasil, fazia amor a sós,
garatujando nas páginas do seu diário com letra nervosa e apressada, frases sintéticas, às vezes tão vulgares como costumavam ser aqueles amantes de uns minutos
ou umas horas aos quais tinha de gratificar depois. Aqueles simulacros mergulhavam-no num torpor deprimente, de modo que procurava espaçá-los, pois nada o tornava
tão consciente da sua solidão e da sua condição de clandestino que, estava bem ciente disso, o acompanharia até à sua morte.
O entusiasmo que o livro de Alice Stopford Green sobre a velha Irlanda lhe causara levou-o a que pedisse à sua amiga mais material de leitura sobre o tema. O embrulho
com livros e folhetos que Alice lhe enviou chegou quando ele estava para embarcar no Grantilly Castle rumo à África do Sul, a 6 de Fevereiro de 1913. Leu dia e noite
durante a viagem e continuou a fazê-lo na África do Sul, de modo que, apesar da distância, durante aquelas semanas voltou a sentir-se muito perto da Irlanda, a de
agora, a de ontem e a remota, um passado de que parecia ir-se apropriando com os textos que Alice seleccionara para ele. No decurso da viagem, as dores das costas
e da anca diminuíram.
O encontro com o seu irmão Tom, depois de tantos anos, foi penoso. Contrariamente ao que Roger tinha pensado quando decidiu ir vê-lo, que a viagem o aproximaria
do seu irmão mais velho e criaria entre ambos um vínculo afectivo que na verdade nunca tinha existido, serviu mais para verificar que eram dois estranhos. Tirando
o parentesco consanguíneo, não existia entre ambos nada em comum. Tinham-se escrito durante todos aqueles anos, geralmente quando Tom e a sua primeira mulher, Blanche
Baharry, uma australiana, tinham problemas económicos e queriam que Roger os ajudasse. Nunca havia deixado

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de o fazer, excepto quando os empréstimos que o irmão e a cunhada lhe pediam eram excessivos para o seu orçamento. Tom tinha casado pela segunda vez com uma sul-africana,
Katje Ackerman, e ambos haviam iniciado um negócio turístico em Durban que não corria bem. O irmão parecia mais velho do que era e convertera-se no protótipo do
sul-africano, rústico, queimado do sol e da vida ao ar livre, de maneiras informais e um tanto rudes, que até na sua forma de falar inglês parecia muito mais um
sul-africano do que um irlandês. Não lhe interessava o que acontecia na Irlanda, na Grã-Bretanha ou na Europa. O seu tema obsessivo era os problemas económicos que
enfrentava com o lodge que tinha aberto, com Katje, em Durban. Eles pensavam que a beleza do lugar atrairia turistas e caçadores, mas não apareciam assim tantos
e os gastos de manutenção eram mais altos do que eles haviam calculado. Tinham criado muitas ilusões com aquele projecto e temiam, tal como corriam as coisas, ter
de vender o lodge a um preço baixo. Embora a sua cunhada fosse mais divertida e interessante que o irmão - tinha gostos artísticos e sentido de humor -, Roger acabou
por se arrepender de ter feito aquela longa viagem só para visitar o casal.
Em meados de Abril empreendeu o regresso a Londres. Nessa altura sentia-se mais animado e, graças ao clima sul-africano, as dores da artrite tinham-se atenuado.
Agora a sua atenção estava concentrada no Foreign Office. Não podia continuar a adiar a decisão nem pedir novas licenças sem vencimento. Ou voltava para retomar
o Consulado no Rio de Janeiro, como os seus chefes lhe pediam, ou renunciava à diplomacia. Voltar ao Rio, cidade de que nunca gostou apesar da beleza física da sua
paisagem, e que sempre sentira que lhe era hostil, parecia-lhe intolerável. Mas não era só isso. Sobretudo, não queria voltar a viver na duplicidade, exercer como
diplomata ao serviço de um Império que ele condenava com os seus sentimentos e princípios. Durante toda a viagem de regresso a Inglaterra fez cálculos: as suas poupanças
eram poucas mas, levando uma vida

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frugal - para ele era fácil - e com a pensão que receberia pelos anos que tinha acumulado como funcionário, arranjar-se-ia. Ao chegar a Londres, a decisão estava
tomada. A primeira coisa que fez foi ir ao ministério para pedir a sua demissão do cargo explicando que se retirava do serviço por razões de saúde.
Permaneceu pouquíssimos dias em Londres, redigindo a sua demissão ao cargo do Foreign Office e preparando a viagem à Irlanda. Fazia-o com alegria, mas também com
um pouco de nostalgia antecipada, como se fosse afastar-se para sempre de Inglaterra. Viu Alice umas duas vezes e também a irmã Nina, a quem, para não a preocupar,
ocultou as crises económicas de Tom na África do Sul. Tentou ver Edmund D. Morel, o qual, curiosamente, não lhe tinha respondido a nenhuma das cartas que lhe escrevera
nos últimos três meses. Mas o seu velho amigo, o Buldogue, não pôde vê-lo, alegando viagens e obrigações que, via-se logo, eram pretextos. O que é que se passava
com aquele companheiro de lutas a quem ele tanto admirava e de quem tanto gostava? Porquê aquele arrefecimento? Que mexerico ou intriga é que lhe contaram para o
indispor assim com ele? Pouco depois, Herbert Ward informou-o, em Paris, que Morel, sabedor da dureza com que Roger criticava Inglaterra e o Império no que dizia
respeito à Irlanda, evitava vê-lo para não lhe dar a saber a sua oposição face a semelhantes atitudes políticas.
- Embora não te apercebas, acontece que te tornaste um extremista - disse-lhe Herbert, meio a brincar, meio a sério.
Em Dublin, Roger alugou uma casinha diminuta e antiga no número 55 de Lower Baggot Street. Tinha um minúsculo jardim com gerânios e hortênsias que ele podava e regava
de manhã cedo. Era um bairro tranquilo de lojistas, artesãos e lojas baratas onde aos domingos as famílias iam à missa, as senhoras todas arranjadas como se fossem
para uma festa e os homens com os seus fatos escuros, os bonés postos e os sapatos engraxados. No pub com teias de aranha da esquina, que tinha ao balcão uma anã,
Roger bebia cerveja preta com o homem

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das hortaliças, o alfaiate e o sapateiro da vizinhança, discutia sobre a actualidade e cantava velhas canções. A fama que ele alcançou em Inglaterra pelas suas campanhas
contra os crimes no Congo e na Amazónia tinha-se estendido à Irlanda e, apesar dos seus desejos de levar uma vida simples e anónima, desde a sua chegada a Dublin
que se viu bastante solicitado por pessoas muito diversas - políticos, intelectuais, jornalistas, clubes e centros culturais - para dar conferências, escrever artigos
e participar em reuniões sociais. Até teve de posar para uma conhecida pintora, Sarah Purser. No retrato que fez dele, Roger aparecia rejuvenescido e com um ar seguro
e de triunfo em que ele não se reconheceu.
Uma vez mais retomou os seus estudos do velho irlandês. A professora, Mrs. Temple, de bengala, óculos e um chapelinho com véu, ia três vezes por semana dar-lhe aulas
de gaélico e deixava-lhe umas tarefas que depois corrigia com um lápis vermelho e qualificava com notas geralmente baixas. Porque é que ele tinha tanta dificuldade
em aprender a língua dos Celtas com quem tanto queria identificar-se? Ele tinha facilidade para as línguas, aprendera francês, português, pelo menos três línguas
africanas, e era capaz de se fazer entender em espanhol e italiano. Porque é que a língua vernácula de que se sentia solidário lhe escapava daquela maneira? Cada
vez que, com grande esforço, aprendia alguma coisa, dali a poucos dias, às vezes poucas horas, esquecia tudo. Desde então, sem dizer a ninguém, e muito menos nas
discussões políticas onde por uma questão de princípio defendia o contrário, começou a perguntar-se se seria realista, ou não acabaria por ser uma quimera, o sonho
de pessoas como o professor Eoin MacNeill e o poeta e pedagogo Patrick Pearse em acreditar que se podia ressuscitar a língua que o colonizador perseguira e tornara
clandestina, minoritária e quase extinguira e convertê-la de novo na língua materna dos Irlandeses. Seria possível que na Irlanda futura o inglês retrocedesse e,
graças às escolas, aos jornais, aos sermões dos párocos e discursos dos políticos, fosse substituído pela língua dos

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Celtas? Em público, Roger dizia que sim, não só era possível, mas também necessário, para que a Irlanda recuperasse a sua autêntica personalidade. Seria um processo
longo, de várias gerações, mas inevitável, pois a Irlanda só seria livre quando o gaélico fosse de novo a língua nacional. No entanto, na solidão da sua secretária
de Lower Baggot Street, quando se confrontava com os exercícios de composição em gaélico que Mrs. Temple lhe deixava, dizia para si que aquele empenho era inútil.
A realidade tinha avançado demasiado numa direcção para dar a volta. O inglês passara a ser a maneira de comunicar, de falar, de ser e de sentir de uma imensa maioria
de irlandeses, e querer renunciar a isso era um capricho político de que só podia resultar uma confusão babélica e converter culturalmente a sua amada Irlanda numa
curiosidade arqueológica, incomunicável com o resto do mundo. Valia a pena?
Em Maio e Junho de 1913, a sua vida tranquila e de estudo viu-se bruscamente interrompida quando, seguindo um impulso devido a uma conversa com um jornalista de
The Irish Independent que lhe falou da pobreza e primitivismo dos pescadores de Connemara, decidiu viajar até essa região a oeste de Galway onde, segundo tinha ouvido,
se conservava ainda intacta a Irlanda mais tradicional e cuja população mantinha vivo o velho irlandês. Em vez de uma relíquia histórica, em Connemara, Roger deparou-se
com um contraste espectacular entre a beleza das montanhas esculpidas, encostas varridas pelas nuvens e pântanos virgens em cujas margens pastoreavam os cavalos
anões oriundos da região, e pessoas que viviam numa miséria pavorosa, sem escolas, sem médicos, totalmente desvalidas. Para cúmulo, acabavam de aparecer alguns casos
de tifo. A epidemia podia alargar-se e causar estragos. O homem de acção que havia em Roger Casement, às vezes apagado mas nunca morto, pôs imediatamente mãos à
obra. Escreveu um artigo em The Irish Independent, "O Putumayo irlandês", e criou um fundo de ajuda do qual foi o primeiro contribuinte e subscritor. Ao mesmo tempo,
empenhou-se em acções públicas com

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as igrejas Anglicana, Presbiteriana e Católica e diversas associações de beneficência, e animou médicos e enfermeiras a ir às aldeias de Connemara como voluntários
para apoiar a escassa acção sanitária oficial. A campanha teve êxito. Chegaram muitos donativos da Irlanda e de Inglaterra. Roger fez três viagens à região levando
remédios, roupa e alimentos para as famílias afectadas. Além disso, criou uma comissão para prover Connemara de dispensários de saúde e construir escolas primárias.
Por motivo desta campanha, naqueles dois meses teve reuniões esgotantes com clérigos, políticos, autoridades, intelectuais e jornalistas. Ele próprio surpreendia-se
com a consideração com que era tratado, inclusivamente por aqueles que discordavam das suas posições nacionalistas.
Em Julho voltou a Londres para consultar os médicos que deviam informar o Foreign Office se eram exactas as razões de saúde que ele alegava para renunciar à diplomacia.
Embora não se sentisse mal, apesar da intensa actividade exercida por causa da epidemia de Connemara, pensou que o exame seria um mero pró-forma. Mas o relatório
dos médicos foi mais sério do que ele pensava: a artrite na coluna vertebral, no ilíaco e nos joelhos, tinha-se agravado. Podia ser aliviada com um tratamento rigoroso
e uma vida muito calma, mas não era curável. E não se podia descartar a hipótese de, se avançasse, o deixar tolhido. O ministério aceitou a sua demissão do cargo
e, tendo em vista o seu estado, concedeu-lhe uma pensão digna.
Antes de regressar à Irlanda, decidiu ir a Paris, acedendo a um convite de Herbert e Sarita Ward. Gostou de voltar a vê-los e partilhar o caloroso ambiente daquele
enclave africano que era a casa parisiense. Toda ela parecia uma emanação do grande ateliê onde Herbert lhe mostrou uma nova colecção das suas esculturas de homens
e mulheres de África e também algumas da sua fauna. Eram peças vigorosas, em bronze e madeira, dos últimos três anos, e que iria expor no Outono em Paris. Enquanto
Herbert lhas apresentava, contando-lhe histórias, mostrando-lhe esboços e modelos em pequeno formato de

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cada uma delas, voltavam à memória de Roger abundantes imagens da época em que ele e Herbert trabalharam nas expedições de Henry Morton Stanley e de Henry Shelton
Sanford. Tinha aprendido muito ouvindo Herbert a contar as suas aventuras por meio mundo, as gentes pitorescas que conhecera nas suas andanças australianas, as suas
vastas leituras. A sua inteligência continuava igualmente perspicaz bem como o seu estado de espírito jovial e optimista. A sua esposa, Sarita, norte-americana,
herdeira rica, era a sua alma gémea, aventureira também e um pouco boémia. Entendiam-se às mil maravilhas. Faziam excursões a pé por França e Itália. Tinham criado
os filhos com o mesmo espírito cosmopolita, inquieto e curioso. Agora os dois rapazes eram alunos internos, em Inglaterra, mas passavam todas as suas férias em Paris.
A filha, Francis, vivia com eles.
Os Ward levaram-no a jantar a um restaurante na Torre Eiffel, de onde se contemplavam as pontes do Sena e os bairros de Paris, e à Comédia Francesa, ver O Doente
Imaginário, de Molière.
Mas nem tudo foi amizade, compreensão e carinho nos dias que passou com o casal. Ele e Herbert tinham discordado sobre muitas coisas, sem que isso nunca tivesse
arrefecido a sua amizade; pelo contrário, as discrepâncias vivificavam-na. Desta vez foi diferente. Uma noite discutiram de maneira tão viva que Sarita teve de intervir,
obrigando-os a mudar de tema.
Herbert tinha tido sempre uma atitude tolerante e um pouco risonha para com o nacionalismo de Roger. Mas naquela noite acusou o seu amigo de abraçar a ideia nacionalista
de uma maneira demasiado exaltada, pouco racional, quase fanática.
- Se a maioria dos irlandeses quer separar-se da Grã-Bretanha, muito bem - disse-lhe ele. - Eu não acredito que a Irlanda ganhe muito tendo uma bandeira, um escudo
e um presidente da República. Nem que os seus problemas económicos e sociais se resolvam graças a isso. O que eu penso é que seria melhor que se adoptasse a autonomia
defendida por John Redmond

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e os seus partidários. Eles também são irlandeses, não é verdade? É uma grande maioria face aos que, como tu, querem a secessão. Enfim, nada disso me preocupa muito,
na verdade. Mas sim ver a pessoa intolerante em que te tornaste. Antes davas razões, Roger. Agora só vociferas com ódio contra um país que também é o teu, o dos
teus pais e irmãos. Um país que tu serviste com tanto mérito todos estes anos. E que te reconheceu isso, não é verdade? Fez-te nobre, concedeu-te as condecorações
mais importantes do Reino. Isso não significa nada para ti?
- Eu deveria tornar-me um colonialista em agradecimento? - interrompeu Casement. - Deveria aceitar para a Irlanda o que tu e eu rejeitámos para o Congo?
- Entre o Congo e a Irlanda há uma distância sideral, parece-me. Ou nas penínsulas de Connemara os Ingleses estão a cortar as mãos e a dar cabo das costas dos nativos
à chicotada?
- Os métodos da colonização na Europa são mais refinados, Herbert, mas não menos cruéis.
Durante os seus últimos dias em Paris, Roger evitou voltar a tocar no tema da Irlanda. Não queria que a sua amizade com Herbert se estragasse. Entristecido, disse
a si mesmo que no futuro, certamente, quando se visse cada vez mais comprometido na luta política, as distâncias com Herbert iriam crescendo até talvez destruir
a sua amizade, uma das mais estreitas que tinha tido na vida. "Estou a tornar-me um fanático?", interrogar-se-ia desde então, às vezes alarmado.
Ao voltar a Dublin, nos finais do Verão, já não pôde reatar os seus estudos de gaélico. A situação política tinha-se tornado efervescente e desde o primeiro momento
viu-se arrastado a participar nela. O projecto do Home Rule, que teria dado à Irlanda um Parlamento e ampla liberdade administrativa e económica, apoiado pelo Irish
Parliamentary Party de John Redmond, foi aprovado na Câmara dos Comuns, em Novembro de 1912. Mas a Câmara dos Lordes rejeitou-o dois meses depois. Em Janeiro de
1913, no Ulster, cidadela unionista dominada pela maioria local anglófila e protestante, os inimigos da

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autonomia encabeçados por Edward Henry Carson levaram a cabo uma campanha virulenta. Constituíram os Voluntários do Ulster com mais de quarenta mil inscritos. Era
uma organização política e uma força militar, disposta, se fosse aprovada, a combater o Home Rule pelas armas. O Irish Parliamentary Party de John Redmond continuava
a lutar pela autonomia. A segunda leitura da lei foi aprovada na Câmara dos Comuns e de novo derrotada na dos Lordes. A 23 de Setembro, o Conselho Unionista aprovou
constituir-se como Governo Provisório do Ulster, isto é, cindir-se do resto da Irlanda se a autonomia fosse aprovada.
Roger Casement começou a escrever na imprensa nacionalista, agora, sim, com o seu nome e apelido, criticando os unionistas do Ulster. Denunciou os atropelos que
a maioria protestante cometia naquelas províncias contra a minoria católica, que os operários desta confissão fossem despedidos das fábricas e que os municípios
dos bairros católicos se vissem discriminados em orçamentos e dotações. "Ao ver o que acontece no Ulster", afirmou num artigo, "já não me sinto protestante." Em
todos deplorava que a atitude dos ultras dividisse os Irlandeses em facções inimigas, algo de consequências trágicas para o futuro. Noutro artigo fustigava os clérigos
anglicanos por ampararem com o seu silêncio os abusos contra a comunidade católica.
Apesar de, nas conversas políticas, se mostrar céptico com a ideia de que o Home Rule servisse para libertar a Irlanda da sua dependência, nos seus artigos, porém,
deixava assomar uma esperança: se a lei fosse aprovada sem emendas que a desvirtualizassem e a Irlanda tivesse um Parlamento, pudesse escolher as suas autoridades
e administrar as suas rendas, estaria no umbral da soberania. Se isso trouxesse a paz, o que importava que a sua defesa e a sua diplomacia continuassem nas mãos
da Coroa britânica?
Durante esses dias, a sua amizade estreitou-se mais com dois irlandeses que tinham dedicado a sua vida à defesa, ao estudo

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e à difusão da língua dos Celtas: o professor Eoin MacNeill e Patrick Pearse. Roger chegou a sentir grande simpatia por este cruzado radical e intransigente do gaélico
e da independência que era Pearse. Tinha ingressado na Liga Gaélica na sua adolescência e dedicava-se à literatura, ao jornalismo e ao ensino. Havia fundado e dirigia
duas escolas bilingues, St. Enda's, de homens, e outra de mulheres, St. Ita's, as primeiras dedicadas a reivindicar o gaélico como a língua nacional. Além de escrever
poemas e teatro, em folhetos e artigos defendia a sua tese de que, se não se recuperasse a língua celta, a independência seria inútil, pois a Irlanda continuaria
a ser culturalmente uma possessão colonial. A sua intolerância neste domínio era absoluta; tinha chegado na sua juventude a chamar "traidor" a William Butler Yeats
- de quem mais tarde seria admirador sem reservas - por escrever em inglês. Era tímido, solteirão, de um físico robusto e imponente, trabalhador incansável, com
um pequeno defeito no olho e exaltado e carismático orador. Quando não se tratava do gaélico nem da emancipação e estava entre gente de confiança, Patrick Pearse
tornava-se um homem a rebentar de humor e simpatia, falador e divertido, que surpreendia às vezes os seus amigos disfarçando-se de uma velha mendiga que pedia esmola
no centro de Dublin ou de uma donzela espevitada que passeava com descaramento pelas portas das tabernas. Mas a sua vida era de uma sobriedade monacal. Vivia com
a mãe e os irmãos, não bebia, não fumava, não se lhe conheciam amores. O seu melhor amigo era o seu inseparável irmão Willie, escultor e professor de Arte em St.
Enda's. No frontão da entrada desta escola, rodeada pelas colinas arborizadas de Rathfarnham, Pearse tinha gravado uma frase que as sagas irlandesas atribuíam ao
herói mítico Cuchulain: "Não me importa viver um só dia e uma noite, se as minhas façanhas forem recordadas para sempre." Dizia-se que era casto. Praticava a sua
fé católica com disciplina militar, ao extremo de jejuar com frequência e usar cilício. Naquela época, em que andou tão envolvido nas andanças, intrigas e acaloradas
disputas da vida política,

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Roger Casement disse a si mesmo muitas vezes que talvez o afecto insuperável que Patrick Pearse lhe merecia se devia ao facto de este ser um dos políticos muito
raros que conhecia a quem a política não tinha privado do humor e que tinha uma acção cívica regida por princípios e desinteressada: interessavam-lhe as ideias e
desprezava o poder. Mas inquietava-o a obsessão de Pearse de conceber os patriotas irlandeses como a versão contemporânea dos mártires primitivos: "Assim como o
sangue dos mártires foi a semente do cristianismo, a dos patriotas será a semente da nossa liberdade", escreveu num ensaio. Uma bela frase, pensava Roger. Mas nela
não haveria algo de abominável?
A ele, a política despertava-lhe sentimentos contrários. Por um lado, fazia-o viver com uma intensidade desconhecida -finalmente tinha-se dedicado de corpo e alma
à Irlanda! -, mas irritava-o a sensação de perda de tempo que lhe davam as discussões intermináveis que precediam e às vezes impediam os acordos e a acção, as intrigas,
vaidades e mesquinhezas que se misturavam com os ideais e as ideias nas tarefas quotidianas. Tinha ouvido e lido que a política, como tudo o que se refere ao poder,
traz à superfície o melhor do ser humano - o idealismo, o heroísmo, o sacrifício, a generosidade -, mas também o pior, a crueldade, a inveja, o ressentimento, a
soberba. Verificou que era verdade. Ele não tinha ambições políticas, o poder não o tentava. Talvez por isso, além do prestígio que arrastava como grande lutador
internacional contra os abusos dos indígenas de África e da América do Sul, não tivesse inimigos no movimento nacionalista. Era o que ele julgava, pelo menos, pois
uns e outros manifestavam-lhe respeito. No Outono de 1913, subiu a uma tribuna para fazer a sua grande estreia como orador político.
Em finais de Agosto tinha-se mudado para o Ulster da sua infância e juventude, para tentar juntar os irlandeses protestantes opostos ao extremismo pró-britânico
de Edward Carson e dos seus seguidores que, na sua campanha contra o Home

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Rule, treinavam a sua força militar à frente dos olhos das autoridades. O Comité Ballymoney que Roger ajudou a formar convocou uma manifestação para o Town Hall,
de Belfast. Concordou-se ser ele um dos oradores juntamente com Alice Stopford Green, o capitão Jack White, Alex Wilson e um jovem activista chamado Dinsmore. Pronunciou
o primeiro discurso público da sua vida num entardecer chuvoso de 24 de Outubro de 1913, numa sala da Câmara Municipal de Belfast, perante quinhentas pessoas. Muito
nervoso, na véspera escreveu o discurso e memorizou-o. Tinha a sensação de que ao subir para aquela tribuna daria um passo irreversível que, a partir dali, não haveria
marcha atrás no caminho que empreendia. No futuro a sua vida estaria consagrada a uma tarefa que, dadas as circunstâncias, talvez o fizesse correr tantos riscos
como os que ele enfrentou nas selvas africanas e sul-americanas. O seu discurso, que consistiu todo ele em negar que a divisão dos Irlandeses fosse ao mesmo tempo
religiosa e política (católicos autonomistas e protestantes unionistas) e num apelo à "união na diversidade de credos e ideais de todos os Irlandeses", foi muito
aplaudido. Depois do acto, Alice Stopford Green, quando o abraçava, sussurrou-lhe ao ouvido: "Deixa-me fazer de profetisa. Auguro-te um grande futuro político."
Nos oito meses seguintes, Roger teve a sensação de que não fazia outra coisa senão subir e descer dos estrados a pronunciar exortações. Só a princípio é que as leu,
depois improvisava a partir de uma pequena cábula. Percorreu a Irlanda em todas as direcções, participou em reuniões, encontros, discussões, mesas-redondas, às vezes
públicas, às vezes secretas, discutindo, alegando, propondo, refutando, ao longo de horas e horas, renunciando para isso muitas vezes às refeições e ao sono. Esta
entrega total à acção política às vezes entusiasmava-o e, outras vezes, causava-lhe um abatimento profundo. Nos momentos de desânimo as dores na anca e nas costas
voltavam a incomodá-lo.
Naqueles meses de finais de 1913 e começos de 1914 a tensão política continuou a crescer na Irlanda. A divisão entre

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unionistas do Ulster e os autonomistas e independentistas exacerbou-se de tal maneira que parecia o prelúdio de uma guerra civil. Em Novembro de 1913, em resposta
à formação dos Voluntários do Ulster de Edward Carson, foi constituído o Exército do Povo, cujo inspirador principal, James Connolly, era dirigente sindical e líder
operário. Tratava-se de uma formação militar e a sua razão de ser pública era defender os trabalhadores contra as agressões dos patrões e das autoridades. O seu
primeiro comandante, o capitão Jack White, tinha servido com mérito no Exército britânico antes de se converter ao nacionalismo irlandês. No acto de fundação leu-se
um texto de adesão de Roger, a quem os seus amigos políticos tinham enviado naquela altura a Londres para recolher ajuda económica para o movimento nacionalista.
Quase ao mesmo tempo que o Exército do Povo, surgiram, por iniciativa do professor Eoin MacNeill, apoiado por Roger, os Voluntários Irlandeses. A organização contou
desde o primeiro momento com o apoio da clandestina Irish Republican Brotherhood, milícia que pedia a independência para a Irlanda e que Tom Clarke, personagem lendária
nos cenáculos nacionalistas, dirigia a partir do insuspeito posto de venda de tabaco que lhe servia de disfarce. Tinha passado quinze anos nas prisões britânicas
acusado de acções terroristas com dinamite. Depois partiu para o exílio, para os Estados Unidos. Dali foi enviado pelos dirigentes do chamado "Clan na Gael" (ramo
norte-americano da Irish Republican Brotherhood) para Dublin a fim de, pondo em acção o seu génio organizador, montasse uma rede clandestina. Fizera-o: com cinquenta
e dois anos, mantinha-se são, incansável e rigoroso. A sua verdadeira identidade não tinha sido detectada pela espionagem britânica. As duas organizações trabalhariam
em estreita, ainda que nem sempre fácil, colaboração e muitos aderentes sê-lo-iam das duas organizações ao mesmo tempo. Também aderiram aos Voluntários Irlandeses
membros da Liga Gaélica, militantes do Sinn Fein, que dava

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os seus primeiros passos sob a direcção de Arthur Griffith, filiados da Antiga Ordem dos Hibérnios e milhares de independentes.
Roger Casement trabalhou com o professor MacNeill e Patrick Pearse na redacção do manifesto fundador dos Voluntários Irlandeses e vibrou entre a massa de participantes
a 25 de Novembro de 1913, na Rotunda de Dublin, no primeiro acto público da organização. Desde o princípio, tal como MacNeill e Roger propuseram, que os Voluntários
foram um movimento militar, dedicado a recrutar, treinar e armar os seus membros, divididos em esquadrões, companhias e regimentos por toda a Irlanda, para o caso
de se desencadearem acções armadas, algo que, dada a intemperança da situação política, parecia iminente.
Roger entregou-se de corpo e alma a trabalhar pelos Voluntários. Deste modo, chegou a relacionar-se e a entabular estreita amizade com os seus principais dirigentes,
entre os quais abundavam os poetas e escritores, como Thomas MacDonagh, que escrevia teatro e ensinava na universidade, e o jovem Joseph Plunkett, doente dos pulmões
e aleijado que, apesar das suas limitações físicas, exibia uma energia extraordinária: era tão católico como Pearse, leitor dos místicos, e tinha sido um dos fundadores
do Abbey Theatre. As actividades de Roger em favor dos Voluntários Irlandeses ocuparam-lhe os dias e as noites entre Novembro de 1913 e Julho de 1914. Falou diariamente
nos seus comícios, nas grandes cidades, como Dublin, Belfast Cork, Londonderry, Galway e Limerick, ou em localidadezinhas minúsculas e aldeias, perante centenas
ou apenas um punhado de pessoas. Os seus discursos começavam serenos - "Sou um protestante do Ulster que defende a soberania e a libertação da Irlanda do jugo colonial
inglês." - mas, à medida que avançava, ia-se exaltando e costumava acabar em arrebatamentos épicos. Arrancava quase sempre aplausos estrondosos do público.
Ao mesmo tempo colaborava nos planos estratégicos dos Voluntários. Era um dos dirigentes mais empenhados em dotar o movimento de um armamento capaz de apoiar de
forma eficaz a luta pela soberania que, estava convencido, passaria fatalmente

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do plano político à acção bélica. Para se armarem era preciso dinheiro e era indispensável persuadir os irlandeses que queriam ser livres que fossem generosos com
os Voluntários.
Assim nasceu a ideia de enviar Roger Casement aos Estados Unidos. Ali as comunidades irlandesas tinham recursos económicos e podiam aumentar a sua ajuda através
de uma campanha entre a opinião pública. Quem melhor para a promover que o irlandês mais conhecido no mundo? Os Voluntários decidiram consultar acerca deste projecto
John Devoy, o líder nos Estados Unidos do poderoso Clan na Gael, que aglutinava a numerosa comunidade irlandesa nacionalista na América do Norte. Devoy, nascido
em Kill, Co. Kildare, tinha sido activista clandestino desde novo e fora condenado, sob acusação de terrorismo, a quinze anos de prisão. Mas só cumpriu cinco. Esteve
na Legião Estrangeira, na Argélia. Nos Estados Unidos fundou um jornal, The Gaelic American, em 1903, e estabeleceu laços estreitos com norte-americanos do establishment,
graças ao qual o Clan na Gael contava com influência política.
Enquanto John Devoy estudava a proposta, Roger continuava dedicado a promover os Voluntários Irlandeses e a sua militarização. Tornou-se bom amigo do coronel Maurice
Moore, inspector-geral dos Voluntários, a quem acompanhou nas suas digressões pela ilha para ver como é que se efectuavam os treinos e se os esconderijos de armas
eram seguros. Por sugestão do coronel Moore, foi incorporado no Estado-Maior da organização.
Foi várias vezes enviado a Londres. Funcionava lá um comité clandestino, presidido por Alice Stopford Green, que, além de recolher dinheiro, geria em Inglaterra
e vários países europeus a compra secreta de espingardas, revólveres, granadas, metralhadoras e munições que introduzia clandestinamente na Irlanda. Nestas reuniões
londrinas com Alice e os seus amigos, Roger apercebeu-se de que uma guerra na Europa tinha deixado de ser uma mera possibilidade para se converter numa realidade
em marcha: todos os políticos e intelectuais que frequentavam as tertúlias da historiadora na sua casa de Grosvenor Road

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acreditavam que a Alemanha já o tinha decidido e não perguntavam se haveria guerra, mas sim quando é que ela rebentaria.
Roger tinha-se mudado para Malahide, na costa norte de Dubün, ainda que, devido às suas viagens políticas, passasse poucas noites no seu domicílio. Pouco tempo depois
de se instalar lá, os Voluntários avisaram-no que a Royal Irish Constabulary lhe tinha aberto um processo e era seguido pela polícia secreta. Mais uma razão para
partir para os Estados Unidos: lá seria mais útil ao movimento nacionalista do que ficando na Irlanda e depois porem-no atrás das grades. John Devoy informou que
os dirigentes do Clan na Gael aplaudiam a sua vinda. Todos acreditavam que a sua presença aceleraria a recolha de donativos.
Aceitou, mas atrasou a partida por causa de um projecto que o entusiasmava: uma grande celebração, a 23 de Abril de 1914, dos novecentos anos da batalha de Clontarc
em que os Irlandeses, sob o comando de Brian Boru, derrotaram os Ingleses. MacNeill e Pearse apoiavam-no, mas os outros dirigentes viam naquela iniciativa uma perda
de tempo: para quê esbanjar energias numa operação de arqueologia histórica quando o importante era a actualidade? Não havia tempo para distracções. O projecto não
chegou a concretizar-se e outra iniciativa de Roger também não: uma campanha de assinaturas a pedir que a Irlanda participasse nos Jogos Olímpicos com uma equipa
própria de atletas.
Enquanto preparava a viagem, continuou a falar nos comícios, quase sempre ao lado de MacNeill, Pearse e, às vezes, de Thomas MacDonagh. Fê-lo em Cork, Galway, Kilkenny.
No dia de São Patrício subiu à tribuna em Limerick, a maior manifestação que lhe coube ver na vida. A situação piorava dia a dia. Os unionistas do Ulster, armados
até aos dentes, faziam desfiles e manobras militares sem disfarçar, ao ponto de o Governo britânico ter de fazer alguma coisa, enviando mais soldados e marinheiros
para o Norte da Irlanda. Aconteceu então o Motim de Curragh, um episódio que teria grande efeito nas ideias políticas de Roger. Em plena mobilização dos soldados
e marinheiros

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britânicos para refrear uma possível acção armada dos ultras do Ulster, o general Sir Arthur Paget, comandante-em-chefe da Irlanda, informou o Governo inglês de
que um bom número de oficiais britânicos das forças militares de Curragh o tinham informado que se tivessem ordem de atacar os Voluntários do Ulster de Edward Carson
meteriam baixa. O Governo inglês cedeu à chantagem e nenhum daqueles oficiais foi castigado.
Este acontecimento fortaleceu a certeza de Roger: o Home Rule nunca seria uma realidade porque, apesar de todas as suas promessas, o Governo inglês, independentemente
de serem conservadores ou liberais, nunca o aceitaria. John Redmond e os irlandeses que acreditavam na autonomia ver-se-iam frustrados mais uma vez. Esta não era
a solução para a Irlanda. Mas sim a independência, pura e simplesmente, e ela nunca seria concedida a bem. Tinha de ser arrancada através de uma acção política e
militar, à custa de grandes sacrifícios e heroísmos, como Pearse e Plunkett queriam. Assim tinham conseguido a sua emancipação todos os povos livres da Terra.
Em Abril de 1914 chegou à Irlanda o jornalista alemão Os-kar Schweriner. Queria escrever umas crónicas sobre os pobres de Connemara. Como Roger tinha estado tão
activo a ajudar as populações quando aconteceu a epidemia de tifo, procurou-o. Viajaram juntos até lá, percorreram as aldeias de pescadores, as escolas e dispensários
que começavam a funcionar. Roger traduziu depois os artigos de Schweriner para The Irish Independent. Nas conversas com o jornalista alemão, favorável às teses nacionalistas,
Roger reafirmou a ideia que tivera na sua viagem a Berlim de ligar a luta pela emancipação da Irlanda à Alemanha se um conflito bélico rebentasse entre este país
e a Grã-Bretanha. Com este poderoso aliado, haveria mais possibilidades de obter de Inglaterra o que a Irlanda com os seus escassos meios - um pigmeu contra um gigante
- nunca alcançaria. A ideia foi bem recebida entre os Voluntários. Não era inédita, mas a eminência de uma guerra dava-lhe novo vigor.

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Nestas circunstâncias soube-se que os Voluntários do Uls-ter de Edward Carson tinham conseguido introduzir às escondidas no Ulster, pelo porto de Larne, duzentas
e dezasseis toneladas de armas. Adicionadas às que tinham, esta remessa dava às milícias unionistas uma força muito superior à dos Voluntários nacionalistas. Roger
teve de apressar a sua partida para os Estados Unidos.
Fê-lo, mas antes teve de acompanhar Eoin MacNeill a Londres para ele ter uma entrevista com John Redmond, o líder do Irish Parliamentary Party. Apesar de todos os
reveses, continuava convencido de que a autonomia acabaria por ser aprovada. Diante deles defendeu a boa-fé do Governo liberal britânico. Era um homem gordo e dinâmico,
que falava muito depressa, a metralhar as palavras. A absoluta segurança em si mesmo que ele mostrava contribuiu para aumentar a antipatia que já inspirava a Roger
Casement. Porque é que ele era tão popular na Irlanda? A sua tese de que a autonomia se devia obter na colaboração e na amizade com a Inglaterra gozava de apoio
maioritário entre os Irlandeses. Mas Roger tinha a certeza de que esta confiança popular no líder do Irish Parliamentary Party se iria eclipsando à medida que a
opinião pública visse que o Home Rule era uma miragem de que o Governo imperial se valia para manter os Irlandeses enganados, desmobilizando-os e dividindo-os.
O que mais irritou Roger na entrevista foi a afirmação de Redmond segundo a qual, se rebentasse a guerra com a Alemanha, os Irlandeses deviam combater ao lado da
Inglaterra, por uma questão de princípio e de estratégia: deste modo ganhariam a confiança do Governo inglês e da opinião pública, o que garantiria a futura autonomia.
Redmond exigiu que no Comité Executivo dos Voluntários houvesse vinte e cinco representantes do seu partido, algo que os Voluntários se resignaram a aceitar a fim
de preservar a unidade. Mas nem mesmo esta concessão fez Redmond mudar de opinião sobre Roger Casement, a quem acusava de vez em quando de ser "um revolucionário
radical".

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Apesar disso, nas suas últimas semanas na Irlanda, Roger escreveu a Redmond duas cartas amáveis, exortando-o a operar de modo a que os Irlandeses se mantivessem
unidos apesar das suas eventuais divergências. Garantia-lhe que se o Home Rule chegasse a ser uma realidade, seria o primeiro a apoiá-lo. Mas se o Governo inglês,
pela sua fraqueza face aos extremistas do Ulster, não conseguisse impor a autonomia, os nacionalistas tinham de ter uma estratégia alternativa.
Roger estava a falar num comício dos Voluntários em Cushendun, a 28 de Junho de 1914, quando chegou a notícia de que, em Sarajevo, um terrorista sérvio tinha assassinado
o arquiduque Francisco Fernando, da Áustria. Naquele momento ninguém ali deu muita importância a este episódio que, poucas semanas mais tarde, ia ser o pretexto
que desencadearia a Primeira Guerra Mundial. Roger pronunciou o último discurso na Irlanda a 30 de Junho. Estava já rouco de tanto falar.
Sete dias mais tarde saiu clandestinamente do porto de Glasgow, no barco Cassandra - o nome era um símbolo do que o futuro lhe guardava - , rumo a Montreal. Viajou
em segunda classe, com nome falso. Além disso, alterou a sua forma de vestir, geralmente muito aprumada e agora modestíssima, e a cara, mudando de penteado e cortando
a barba. Passou uns dias tranquilos a navegar, depois de muito tempo. Durante a viagem disse a si mesmo, surpreendido, que a agitação daqueles últimos meses tinha
tido a virtude de apaziguar as suas dores artríticas. Quase não tinha voltado a sofrer delas e quando regressavam eram mais suportáveis que as de outrora. No comboio
de Montreal a Nova Iorque, preparou o relatório que faria para John Devoy e restantes dirigentes do Clan na Gael sobre o estado de coisas na Irlanda e a necessidade
de ajuda económica que os Voluntários tinham para comprar armas, pois, tal como evoluía a situação política, a violência rebentaria a qualquer momento. Por outro
lado, a guerra abriria uma oportunidade excepcional para os independentistas irlandeses.

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Ao chegar a Nova Iorque, a 18 de Julho, alojou-se no Belmont Hotel, modesto e frequentado por irlandeses. Nesse mesmo dia, passeando por uma rua de Manhattan, no
calor ardente do Verão nova-iorquino, deu-se o seu encontro com o norueguês Eivind Adler Christensen. Um encontro casual? Assim acreditou então. Não lhe passou pela
cabeça nem um só instante a suspeita de que poderia ter sido planeado por aqueles serviços de espionagem britânicos que, há já meses, vinham a seguir-lhe os passos.
Tinha a certeza de que as suas precauções para sair clandestinamente de Glasgow haviam sido suficientes. Também naqueles dias não suspeitou do cataclismo que causaria
na sua vida aquele jovem de vinte e quatro anos cujo físico não tinha nada o aspecto do vagabundo meio morto de fome que lhe disse ser. Apesar das suas roupas velhas,
Roger achou-o o homem mais belo e atraente que vira na sua vida. Enquanto o observava a comer a sandes e a dar uns golinhos na bebida que lhe ofereceu sentiu-se
confuso, envergonhado, porque o seu coração tinha desatado a bater com muita força e sentia uma efervescência no sangue que não vivenciava há muito tempo. Ele, sempre
tão cuidadoso nos seus gestos, tão rígido cumpridor das boas maneiras, naquela tarde e naquela noite esteve quase a transgredir várias vezes as formalidades, a dar
seguimento às incitações que o assaltavam de acariciar aqueles braços musculosos de uma pelugem dourada ou de agarrar na estreita cintura de Eivind.
Ao saber que o jovem não tinha onde dormir, convidou-o para o seu hotel. Alugou um quartinho para ele, no mesmo andar do seu. Apesar do cansaço acumulado pela longa
viagem, naquela noite Roger não pregou olho. Gozava e sofria imaginando o corpo atlético do seu perturbante amigo imobilizado pelo sono, com os cabelos louros revoltos
e aquela cara delicada, de olhos azul-claros, apoiada no seu braço, talvez dormindo com os lábios entreabertos, mostrando os seus dentes tão brancos e perfeitos.
Ter conhecido Eivind Adler Christensen foi uma experiência tão forte que, no dia seguinte, no seu primeiro encontro

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com John Devoy, com quem tinha assuntos importantes a tratar, aquele semblante e aquela figura voltavam-lhe à memória, afastando-o por momentos do pequeno gabinete
onde conversavam, sufocados pelo calor.
A Roger causou-lhe uma forte impressão o velho e experimentado revolucionário cuja vida parecia um romance de aventuras. Carregava os seus setenta e dois anos com
vigor e transmitia uma energia contagiosa nos seus gestos, movimentos e maneira de falar. Tomando notas num caderninho com um lápis cuja ponta molhava na boca de
vez em quando, ouviu o relatório de Roger sobre os Voluntários Irlandeses sem interrompê-lo. Quando se calou, fez-lhe inúmeras perguntas, pedindo-lhe esclarecimentos
precisos. Roger ficou maravilhado por John Devoy estar tão minuciosamente informado do que acontecia na Irlanda, até de assuntos que se supunha estarem guardados
no maior segredo.
Não era um homem cordial. Estava endurecido pelos seus anos de prisão, clandestinidade e lutas, mas inspirava confiança, a sensação de ser franco, honesto e de convicções
graníticas. Naquela conversa e nas que teriam durante todo o tempo em que permaneceu nos Estados Unidos, Roger reparou que ele e Devoy concordavam milimetricamente
nas suas opiniões sobre a Irlanda. John acreditava também que já era tarde para a autonomia, que agora o objectivo dos patriotas irlandeses só podia ser a emancipação.
E as acções armadas seriam um complemento indispensável das negociações. O Governo inglês só aceitaria negociar quando as operações militares lhe criassem uma situação
tão difícil que conceder a independência fosse para Londres o mal menor. Naquela guerra eminente, a aproximação à Alemanha era vital para os nacionalistas: o seu
apoio logístico e político daria aos independentistas uma maior eficácia. John Devoy informou-o que na comunidade irlandesa dos Estados Unidos não havia unanimidade
a esse respeito. As teses de John Redmond tinham partidários também ali, embora os dirigentes do Clan na Gael concordassem com Devoy e Casement.

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Nos dias seguintes, John Devoy apresentou-o à maior parte dos dirigentes da organização de Nova Iorque bem como a John Quinn e William Boerke Cokrane, dois advogados
norte-americanos influentes que prestavam ajuda à causa irlandesa. Ambos tinham relações com altos círculos do Governo e do Senado dos Estados Unidos.
Roger notou o bom efeito que teve entre as comunidades irlandesas a partir do momento em que, por insistência de John Devoy, começou a falar nos comícios e reuniões
para recolher fundos. Era conhecido pelas suas campanhas a favor dos indígenas de África e da Amazónia, e a sua oratória racional e emotiva chegava a todos os públicos.
No fim dos comícios em que falou, em Nova Iorque, Filadélfia e noutras cidades da costa leste, as colectas aumentaram. Os dirigentes do Clan na Gael brincavam dizendo
que por aquele caminho tornar-se-iam capitalistas. A Antiga Ordem dos Hibérnios convidou-o a ser o orador principal no comício mais numeroso em que Roger participou
nos Estados Unidos.
Em Filadélfia conheceu outro dos grandes dirigentes nacionalistas no exílio, Joseph McGarrity, colaborador estreito de John Devoy no Clan na Gael. Estava precisamente
na casa dele quando lhes chegou a notícia do êxito do desembarque clandestino de mil e quinhentas espingardas e dez mil munições para os Voluntários Irlandeses na
localidade de Howth. A notícia provocou uma explosão de alegria e foi celebrada com um brinde. Pouco depois soube que, a seguir ao desembarque, houve um sério incidente
em Bachelor Walk entre irlandeses e soldados britânicos do regimento The King's Own Scottish Borderers, em que morreram três pessoas e resultaram mais de quarenta
feridos. Começava, pois, a guerra?
Em quase todas as suas andanças pelos Estados Unidos, reuniões do Clan na Gael e actos públicos, Roger aparecia acompanhado de Eivind Adler Christensen. Apresentava-o
como seu ajudante e pessoa de confiança. Tinha-lhe comprado roupa mais apresentável e pusera-o a par da problemática irlandesa

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acerca da qual o jovem norueguês dizia ignorar tudo. Era inculto, mas não tonto, aprendia rapidamente e mostrava-se muito discreto nas reuniões entre Roger, John
Devoy e outros membros da organização. Se a estes a presença do jovem norueguês lhes despertou receios, guardaram-nos para si, pois em momento nenhum fizeram perguntas
impertinentes a Roger sobre o seu acompanhante.
Quando, em Agosto de 1914, rebentou a Primeira Guerra Mundial - no dia 4 a Grã-Bretanha declarou guerra à Alemanha - Casement, Devoy, Joseph McGarrity e John Keating,
o círculo mais estreito de dirigentes do Clan na Gael, tinham já decidido que Roger partiria para a Alemanha. Iria como representante dos independentistas partidários
em estabelecer uma aliança estratégica, na qual o Governo do Kaiser prestaria ajuda política e militar aos Voluntários e estes fariam campanha contra o alistamento
de irlandeses no Exército britânico, o que era defendido tanto pelos unionistas do Ulster como pelos seguidores de John Redmond. Este projecto foi levado ao escrutínio
de um pequeno número de dirigentes dos Voluntários Irlandeses, como Patrick Pearse e Eoin MacNeill, que o aprovaram sem reservas. A Embaixada alemã em Washington,
com a qual o Clan na Gael tinha vínculos, colaborou com os planos. O agregado militar alemão, capitão Franz von Papen, foi a Nova Iorque e encontrou-se duas vezes
com Roger. Mostrou-se entusiasmado com a aproximação entre o Clan na Gael, o Irish Republican Brotherhood irlandês e o Governo alemão. Depois de consultar Berlim,
informou-os que Roger Casement seria bem-vindo na Alemanha.
Roger esperava a guerra, como quase toda a gente, e assim que a ameaça se tornou realidade, entregou-se à acção com a enorme energia de que era capaz. A sua posição
favorável ao Reich carregou-se de uma virulência antibritânica que surpreendia os seus próprios companheiros do Clan na Gael, apesar de muitos deles apostarem também
numa vitória alemã. Teve uma violenta discussão com John Quinn, que o tinha convidado a passar uns dias na sua luxuosa residência, por afirmar

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que esta guerra era uma conjura do ressentimento e da inveja de um país em decadência como a Inglaterra frente a uma potência pujante, em pleno desenvolvimento industrial
e económico, com uma demografia crescente. A Alemanha representava o futuro por não ter lastros coloniais, enquanto a Inglaterra, a própria encarnação de um passado
imperial, estava condenada a extinguir-se.
Em Agosto, Setembro e Outubro de 1914, Roger, como nas suas melhores épocas, trabalhou dia e noite, escrevendo artigos e cartas, dando palestras e fazendo discursos
nos quais, com insistência maníaca, acusava a Inglaterra de ser a causadora desta catástrofe europeia e instigava os Irlandeses a não ceder aos cantos de sereia
de John Redmond que fazia campanha para se alistarem. O Governo liberal inglês aprovou a autonomia no Parlamento, mas suspendeu a sua vigência até ao fim da guerra.
A divisão dos Voluntários Irlandeses foi inevitável. A organização tinha crescido de maneira extraordinária e Redmond e o Irish Parliamentary Party eram largamente
maioritários. Mais de cinquenta mil voluntários seguiram-no, enquanto apenas onze mil continuaram com Eoin MacNeill e Patrick Pearse. Nada disto amainou o fervor
pró-germânico de Roger Casement que, em todos os comícios nos Estados Unidos, continuava a apresentar a Alemanha do Kaiser como a vítima nesta guerra e a melhor
defensora da civilização ocidental. "Não é o amor à Alemanha que fala pela tua boca, mas sim o ódio à Inglaterra", disse-lhe John Quinn naquela discussão.
Em Setembro de 1914 saiu, em Filadélfia, um pequeno livro de Roger Casement, Ireland, Germany and freedom of the Seas: a possible outcome of the War of 1914, que
reunia os seus ensaios e artigos favoráveis à Alemanha. O livro seria depois reeditado em Berlim com o título: The Crime against Europe.
As suas declarações a favor da Alemanha impressionaram os diplomatas do Reich acreditados nos Estados Unidos. O embaixador alemão em Washington, o conde Johann von
Berns-torff, viajou até Nova Iorque para se reunir em privado com

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o trio dirigente do Clan na Gael - John Devoy, Joseph McGarrity e John Keating - e Roger Casement. Esteve também presente o capitão Fritz von Papen. Foi Roger, segundo
o acordado com os seus companheiros, quem expôs perante o diplomata alemão o pedido dos nacionalistas: cinquenta mil espingardas e munições. Podiam desembarcar em
diferentes portos da Irlanda de maneira clandestina graças aos Voluntários. Serviriam para um levantamento militar anticolonialista que mobilizaria importantes forças
militares inglesas, o que deveria ser aproveitado pelas forças navais e militares do Kaiser para desencadear uma ofensiva contra as guarnições militares do litoral
inglês. Para ampliar as simpatias da opinião pública irlandesa em relação à Alemanha, era indispensável que o Governo alemão fizesse uma declaração garantindo que,
em caso de vitória, apoiaria os desejos irlandeses de libertação do jugo colonial. Por outro lado, o Governo alemão deveria comprometer-se a dar um tratamento especial
aos soldados irlandeses que caíssem prisioneiros, separando-os dos ingleses e dando-lhes a oportunidade de se integrarem numa Brigada Irlandesa que combateria "ao
lado das, mas não dentro das" Forças Armadas alemãs contra o inimigo comum. Roger Casement seria o organizador da Brigada Irlandesa.
O conde Johann von Bernstorff, de aparência robusta, monóculo e peito pejado de condecorações, ouviu-o com atenção. O capitão Fritz von Papen tomava nota de tudo.
O embaixador tinha de consultar Berlim, claro, mas adiantou-lhes que a proposta lhe parecia razoável. Com efeito, poucos dias depois, numa segunda reunião, comunicou-lhes
que o Governo alemão estava disposto a entabular conversações sobre o assunto, em Berlim, com Casement como representante dos nacionalistas irlandeses. Entregou-lhes
uma carta a pedir às autoridades que dessem todas as facilidades a Sir Roger durante a sua estada alemã.
Começou imediatamente a preparar a viagem. Reparou que Devoy, McGarrity e Keating se surpreendiam quando lhes disse que viajaria para a Alemanha com o seu ajudante
Eivind Adler Christensen. Como se tinha planeado, por razões de segurança,

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que ele viajasse de barco de Nova Iorque para Cristiânia, a ajuda do norueguês como tradutor no seu próprio país seria útil, e também em Berlim, pois Eivind falava
igualmente alemão. Não pediu um suplemento de dinheiro para o seu assistente. A soma que o Clan na Gael lhe dera para a viagem e estada - três mil dólares - chegaria
para os dois.
Se os seus companheiros nova-iorquinos viram alguma coisa estranha na sua insistência em levar com ele para Berlim aquele jovem viquingue que permanecia mudo diante
deles, nada disseram. Concordaram, sem comentários. Roger não conseguiria fazer a viagem sem Eivind. Com este entrara na sua vida uma lufada de juventude, de entusiasmo
e - a palavra fazia-o corar - amor. Nunca lhe tinha acontecido antes. Tivera aquelas aventuras de rua esporádicas com pessoas cujos nomes, se é que o eram e não
simples alcunhas, esquecia logo a seguir, ou com aqueles fantasmas que a sua imaginação, os seus desejos e a sua solidão inventavam nas páginas dos seus diários.
Mas com aquele "belo viquingue", como ele lhe chamava na intimidade, teve naquelas semanas e meses a sensação de que, para além do prazer, estabelecera finalmente
uma relação que podia durar, tirá-lo da solidão a que fora condenado pela sua vocação sexual. Não falava destas coisas com Eivind. Não era ingénuo e disse para si
muitas vezes que o mais provável, se não mesmo certo, era o norueguês estar com ele por interesse, porque ao lado de Roger comia duas vezes por dia, vivia sob um
tecto, dormia numa cama decente, tinha roupa e uma segurança que, segundo confissão própria, já não tinha há muito tempo. Mas Roger acabou por descartar todas as
suas precauções na relação diária com o rapaz. Este era atento e afectuoso com ele, parecia viver para cuidar dele, trazer-lhe as peças de roupa, prestar-se a todos
os recados. Dirigia-se a ele a toda a hora, mesmo nos momentos mais íntimos, mantendo as distâncias, sem se permitir um abuso de confiança ou uma vulgaridade.
Compraram bilhete de segunda classe no barco Oskar II, de Nova Iorque para Cristiânia, que partiria em meados de

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Outubro. Roger, que tinha documentos com o nome de James Landy, mudou o seu aspecto, cortando o cabelo muito curto e branqueando a sua tez bronzeada com cremes.
O barco foi interceptado pela Marinha britânica no alto-mar e escoltado até Stornoway, nas Hébridas, onde os ingleses o revistaram com todo o rigor. Mas a verdadeira
identidade de Casement não foi detectada. Os dois chegaram sãos e salvos a Cristiânia ao anoitecer de 28 de Outubro. Roger nunca se tinha sentido melhor. Se lhe
tivessem perguntado, teria respondido que, apesar de todos os problemas, era um homem feliz.
No entanto, naquelas mesmas horas, minutos, em que julgava ter agarrado aquele fogo-fátuo - a felicidade -, começava a etapa mais amarga da sua vida, esse fracasso
que, pensaria ele depois, ofuscaria tudo o que de bom e nobre havia no seu passado. No dia a seguir a ter chegado à capital da Noruega, Eivind anunciou-lhe que fora
sequestrado durante umas horas por uns desconhecidos e que fora levado ao Consulado britânico, onde o interrogaram sobre o seu misterioso acompanhante. Ele, ingénuo,
acreditou. E pensou que este episódio lhe proporcionava uma oportunidade providencial para pôr em evidência as manhas (as intenções assassinas) da chancelaria britânica.
Na realidade, como verificaria depois, Eivind tinha-se apresentado no Consulado oferecendo-se para o vender. Este assunto só serviria para obcecar Roger e fazê-lo
perder semanas e meses em diligências e preparativos inúteis que, ao fim e ao cabo, não trouxeram qualquer benefício à causa da Irlanda e foram sem dúvida motivo
de troça no Foreign Office e na Inteligência Naval Britânica, onde o veriam como um patético aprendiz de conspirador.
Quando começou a sua decepção em relação àquela Alemanha que, porventura como simples rejeição da Inglaterra, ele se pusera a admirar e a chamar um exemplo de eficiência,
disciplina, cultura e modernidade? Não foi nas suas primeiras semanas em Berlim. Na viagem, algo rocambolesca, entre Cristiânia e a capital alemã, na companhia de
Richard Meyer, que seria a sua ligação com o Ministério dos Negócios Estrangeiros do

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Kaiser, ainda estava cheio de ilusões, convicto de que a Alemanha ganharia a guerra e a sua vitória seria decisiva para a emancipação da Irlanda. As primeiras impressões
daquela cidade fria, com chuva e nevoeiro, que era a Berlim daquele Outono, foram boas. Tanto o subsecretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, Arthur Zimmermann,
como o conde Georg von Wedel, chefe da secção inglesa da chancelaria, o receberam com amabilidade e mostraram-se entusiasmados com os seus planos de uma Brigada
formada pelos prisioneiros irlandeses. Ambos eram partidários de que o Governo alemão fizesse uma declaração a favor da independência da Irlanda. Com efeito, no
dia 20 de Novembro de 1914, o Reich fez essa declaração, talvez não nos termos tão explícitos, como Roger esperava, mas suficientemente claros para justificar a
posição de quem, como ele, defendia uma aliança dos nacionalistas irlandeses com a Alemanha. No entanto, por aquela altura, apesar do entusiasmo que lhe incutiu
aquela declaração - um êxito seu, sem dúvida - e de finalmente o subsecretário de Estado dos Negócios Estrangeiros lhe dizer que os altos comandos militares já tinham
ordenado que juntassem os prisioneiros de guerra irlandeses num só campo onde podia ir visitá-los, Roger começava a pressentir que a realidade não ia dobrar-se aos
seus planos, antes pelo contrário, empenhar-se-ia em fazê-los fracassar.
O primeiro indício de que as coisas tomavam rumos inesperados foi saber, pela única carta de Alice Stopford Green que receberia em dezoito meses - uma carta que
para chegar até ele fez uma parábola transatlântica, fazendo escala em Nova Iorque, onde mudou de sobrescrito, nome e destinatário -, que a imprensa britânica tinha
informado acerca da sua presença em Berlim. Isto havia provocado uma intensa polémica entre os nacionalistas que aprovavam e os que desaprovavam a sua decisão de
tomar partido pela Alemanha na guerra. Alice desaprovava: dizia-lho rotundamente. Acrescentava que muitos partidários decididos da independência concordavam com
ela. Além do mais, dizia Alice, podia-se aceitar uma postura neutra

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dos Irlandeses perante a guerra europeia. Mas fazer causa comum com a Alemanha, não. Dezenas de milhares de irlandeses estavam a lutar pela Grã-Bretanha: como se
sentiriam esses compatriotas sabendo que figuras notórias do nacionalismo irlandês se identificavam com o inimigo que disparava canhões contra eles e os gaseava
nas trincheiras da Bélgica?
A carta de Alice teve um efeito de um raio sobre ele. Que a pessoa que mais admirava e com quem julgava concordar politicamente mais do que com nenhuma outra condenasse
o que ele estava a fazer e lho dissesse nesses termos, deixou-o aturdido. De Londres as coisas deviam ver-se de maneira diferente, sem a perspectiva que a distância
dava. Mas mesmo que desse a si mesmo todas as justificações, alguma coisa lhe ficou na consciência a perturbá-lo: a sua mentora política, a sua amiga e professora,
pela primeira vez desaprovava-o e julgava que, em vez de ajudar, prejudicava a causa da Irlanda. A partir de então, uma pergunta ecoaria na sua mente com um som
de mau agoiro: "E se Alice tem razão e eu é que estou equivocado?"
Naquele mesmo mês de Novembro, as autoridades alemães levaram-no a viajar até à frente de batalha, em Charleville, para conversar com os chefes militares sobre a
Brigada Irlandesa. Roger dizia para si mesmo que, se tivesse êxito e fosse constituída uma força militar que lutasse junto das forças alemãs pela independência da
Irlanda, talvez os escrúpulos de muitos companheiros, como Alice, desaparecessem. Aceitariam que, em política, o sentimentalismo era um estorvo, que o inimigo da
Irlanda era a Inglaterra e que os inimigos dos seus inimigos eram amigos da Irlanda. A viagem, ainda que curta, causou-lhe uma boa impressão. Os altos oficiais alemães
que combatiam na Bélgica tinham a certeza da vitória. Todos aplaudiram a ideia da Brigada Irlandesa. Da guerra em si não viu grande coisa: tropas nos caminhos, hospitais
nas aldeias, filas de prisioneiros guardados por soldados armados, tiros de canhão ao longe. Quando voltou a Berlim, esperava-o uma boa notícia. Acedendo ao seu
pedido, o Vaticano tinha decidido enviar dois sacerdotes para

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o campo onde se estava a reunir os prisioneiros irlandeses: um agostinho, frei O'Gorman, e um dominicano, frei Thomas Crotty. O'Gorman permaneceria dois meses e
Crotty o tempo todo que fizesse falta.
O que teria acontecido se Roger Casement não tivesse conhecido o padre Thomas Crotty? Provavelmente não teria sobrevivido àquele Inverno terrível de 1915, em que
toda a Alemanha, sobretudo Berlim, se viu açoitada por tempestades de neve que tornavam intransitáveis os caminhos e as ruas, vendavais que arrancavam árvores e
partiam marquises e janelas, e temperaturas de quinze e vinte graus abaixo de zero que, devido à guerra, era preciso muitas vezes suportar sem lume nem aquecimento.
Os males físicos voltaram a abater-se sobre ele com fúria: as dores na anca, no osso ilíaco, faziam-no encolher-se no assento sem conseguir ter-se de pé. Houve muitos
dias em que pensou que ali, na Alemanha, ficaria tolhido para sempre. As hemorróides voltaram a incomodá-lo. Ir à casa de banho tornou a ser um suplício. Sentia
o corpo debilitado e cansado como se lhe tivessem caído em cima de repente mais vinte anos.
Em todo aquele período a sua tábua de salvação foi o padre Thomas Crotty. "Os santos existem, não são mitos", dizia para si mesmo. O que era o padre Crotty senão
isso? Nunca se queixava, adaptava-se às piores circunstâncias com um sorriso na boca, sintoma do seu bom humor e do seu optimismo vital, do seu convencimento íntimo
de que havia na vida bastantes coisas boas pelas quais a vida merecia ser vivida.
Era um homem mais baixo que alto, com cabelos ralos e grisalhos e uma cara redonda e corada, onde os seus olhos claros pareciam cintilar. Provinha de uma família
camponesa muito pobre, de Galway, e às vezes, quando estava mais contente que de costume, cantava em gaélico canções de embalar que tinha ouvido à sua mãe quando
era criança. Ao saber que Roger tinha passado vinte anos em África e perto de um ano na Amazónia, contou- lhe que desde o seminário que sonhava ir a uma terra de
missão num país distante, mas a Ordem Dominicana

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decidira outro destino para ele. No campo, tornou-se amigo de todos os prisioneiros porque a todos tratou com a mesma consideração, sem se importar com as suas ideias
e credos. Como reparou desde o primeiro momento que só uma minoria ínfima se deixaria convencer pelas ideias de Roger, manteve-se rigorosamente imparcial, sem se
pronunciar nunca a favor ou contra a Brigada Irlandesa. "Todos os que estão aqui estão a sofrer e são filhos de Deus, portanto, nossos irmãos, não é verdade?", disse
ele a Roger. Nas suas longas conversas com o padre Crotty raramente despontou a política. Falavam muito da Irlanda, sim, do seu passado, dos seus heróis, dos seus
santos, dos seus mártires, mas na boca do padre Crotty os irlandeses que mais apareciam eram aqueles sofridos e anónimos lavradores que trabalhavam de sol a sol
para ganhar migalhas e os que tinham tido que emigrar para a América, África do Sul e Austrália a fim de não morrerem de fome.
Foi Roger quem levou o padre Crotty a falar de religião. O dominicano era também nisto muito discreto, pensando sem dúvida que aquele, como anglicano, preferia evitar
um assunto conflituoso. Mas quando Roger lhe expôs o seu desconcerto espiritual e lhe confessou que de há um tempo a esta parte se sentia cada vez mais atraído pelo
catolicismo, a religião da sua mãe, o padre Crotty aceitou de boa vontade que tocassem nesse tema. Com paciência absolvia as suas curiosidades, dúvidas e perguntas.
Uma vez Roger atreveu-se a perguntar-lhe de repente: "O senhor acha que estou a fazer bem isto que eu faço ou estou enganado, padre Crotty?" O sacerdote ficou muito
sério: "Não sei Roger. Não gostaria de lhe mentir. Simplesmente, não sei."
Roger, agora, também não sabia, depois daqueles primeiros dias de Dezembro de 1914, quando, a seguir a passear pelo campo de Limburg com os generais alemães De Graaf
e Exner, falou por fim às centenas de prisioneiros irlandeses. Não, a realidade não cumpria as suas previsões. "Que ingénuo e tonto que eu fui!", diria a si mesmo,
recordando, com a boca de repente

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a saber a cinzas, as caras de desconcerto, de desconfiança, de hostilidade, dos prisioneiros quando lhes explicava, com todo o fogo do seu amor pela Irlanda, a razão
de ser da Brigada Irlandesa, a missão que cumpriria, e como a pátria ficaria agradecida por aquele sacrifício. Recordava os vivas esporádicos a John Redmond que
o interromperam, os rumores reprovadores e até ameaçadores, o silêncio que se seguiu às suas palavras. O mais humilhante foi, terminada a alocução, os guardas alemães
rodearem-no e acompanharem-no até à saída do campo, porque, embora não tivessem entendido as palavras, as atitudes da maioria dos prisioneiros deixavam entrever
que aquilo podia culminar numa agressão contra o orador.
E isso foi exactamente o que aconteceu da segunda vez que Roger voltou a Limburg para falar com eles, no dia 5 de Janeiro de 1915. Desta vez, os prisioneiros não
se contentaram em fazer-lhe má cara e mostrar algum desprezo com gestos e sinais. Assobiaram-no e insultaram-no. "Quanto é que a Alemanha te pagou?", era o grito
mais frequente. Teve de se calar porque a gritaria era ensurdecedora. Tinha começado a receber uma chuva de pedrinhas, cuspidelas e diversos projécteis. Os soldados
alemães tiraram-no em passo rápido daquele local.
Nunca recuperou daquela experiência. A recordação, como um cancro, iria comendo-o por dentro, sem tréguas.
- Devo renunciar a isto, tento em vista esta rejeição generalizada, padre Crotty?
- Deve fazer o que achar que é o melhor para a Irlanda, Roger. Os seus ideais são puros. A impopularidade não é sempre um bom indício para decidir a justiça de uma
causa.
A partir de então viveria numa duplicidade dilacerante, aparentando perante as autoridades alemãs que a Brigada Irlandesa estava em marcha. Era verdade que ainda
havia poucas adesões, mas aquilo seria diferente quando os prisioneiros ultrapassassem a desconfiança inicial e entendessem que a conveniência da Irlanda, e deles,
portanto, era a amizade e a colaboração com a Alemanha. No seu foro íntimo, sabia muito bem

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que o que ele dizia não era verdade, que nunca haveria uma adesão maciça à Brigada Irlandesa, que esta nunca deixaria de ser um grupinho simbólico.
Se assim era, para quê continuar? Porque não fazer marcha atrás? Porque isso teria equivalido a um suicídio e Roger Casement não queria suicidar-se. Ainda não. Pelo
menos daquela maneira não. E por isso, com o gelo no coração, nos primeiros meses de 1915, ao mesmo tempo que continuava a perder tempo com o "assunto Findlay",
negociava com as autoridades do Reich o acordo sobre a Brigada Irlandesa. Exigia certas condições e os seus interlocutores, Arthur Zimmermann, o conde Georg von
Wedel e o conde Rudolf Nadolny, ouviram-no muito sérios, tomando notas nos seus cadernos. Na reunião seguinte comunicaram-lhe que o Governo alemão aceitava as suas
exigências: a Brigada teria uniformes próprios, oficiais irlandeses, escolheria os campos de batalha onde entrar em acção, os gastos seriam enviados ao Governo alemão
pelo Governo republicano da Irlanda assim que este fosse constituído. Ele sabia tão bem como eles que tudo aquilo era uma pantomima, porque a Brigada Irlandesa em
meados de 1915 nem sequer tinha voluntários para formar uma companhia: recrutara apenas uns quarenta e era improvável que perseverassem todos no seu compromisso.
Perguntou a si próprio muitas vezes: "Até quando durará a farsa?" Nas suas cartas a Eoin MacNeill e a John Devoy sentia-se obrigado a garantir-lhes que, embora devagar,
a Brigada Irlandesa tornar-se-ia realidade. Pouco a pouco, iam aumentando os voluntários. Era imprescindível que lhe enviassem oficiais irlandeses que treinassem
a Brigada e ficassem à frente das futuras secções e companhias. Prometeram-lhe que sim, mas eles também falharam: o único que chegou foi o capitão Robert Monteith.
Embora, na verdade, o indestrutível Monteith valesse sozinho por um batalhão.
Roger teve os primeiros indícios do que estava para vir quando, terminado o Inverno, começavam a aparecer os primeiros rebentos verdes nas árvores de Unter den Linden.

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O subsecretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, numa das suas reuniões periódicas, um dia, de maneira abrupta, informou-o que o Alto Comando Militar alemão
não tinha confiança no seu ajudante Eivind Adler Christensen. Havia indícios de que podia estar a informar a Inteligência Naval Britânica. Devia afastá-lo de imediato.
A advertência apanhou-o de surpresa e, de princípio, descartou-a. Pediu provas. Responderam-lhe que os Serviços de Inteligência Alemães não teriam feito uma afirmação
semelhante se não tivessem tido razões poderosas para o fazer. Como naqueles dias Eivind queria ir por uns dias à Noruega, ver familiares, Roger animou-o a partir.
Deu-lhe dinheiro e foi despedir-se dele à estação. Nunca mais voltou a vê-lo. A partir de então, juntou outro motivo de angústia aos anteriores: podia ser possível
que o deus viquingue fosse um espião? Rebuscou na memória tentando encontrar nos últimos meses em que tinham convivido os dois algum facto, atitude, contradição,
palavra perdida que o denunciasse. Não encontrou nada. Tentava acalmar-se a si mesmo dizendo que aquela coisa infundada era uma manobra dos aristocratas teutónicos
preconceituosos e puritanos que, suspeitando que as suas relações com o norueguês não eram inocentes, queriam afastá-lo dele valendo-se de qualquer pretexto, mesmo
a calúnia. Mas a dúvida voltava e mantinha-o acordado. Quando soube que Eivind Adler Christensen havia decidido voltar aos Estados Unidos partindo da Noruega, sem
regressar à Alemanha, ficou contente.
A 20 de Abril de 1915, chegou a Berlim o jovem Joseph Plunkett, como delegado dos Voluntários Irlandeses e do Irish Republican Brotherhood, depois de ter feito um
périplo rocambolesco por meia Europa para escapar às redes da Inteligência Naval Britânica. Como é que pôde fazer semelhante esforço nas suas condições físicas?
Não teria mais de vinte e sete anos, mas era esquelético, meio tolhido pela poliomielite, com uma tuberculose que o ia devorando e que por momentos lhe dava à cara
um ar de caveira. Filho de um próspero aristocrata, o conde

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George Noble Plunkett, director do Museu Nacional de Dublin, Joseph, que falava inglês com pronúncia de aristocrata, vestia-se de qualquer maneira, com umas calças
largalhonas, uma sobrecasaca que lhe ficava muito grande e um chapéu enfiado até às sobrancelhas. Mas bastava ouvi-lo falar e conversar um pouco com ele para descobrir
que por detrás daquela aparência de palhaço, daquele físico em ruínas e da sua indumentária carnavalesca, havia uma inteligência superior, penetrante como poucas,
uma cultura literária enorme e um espírito ardente, com uma vocação de luta e sacrifício pela causa da Irlanda que impressionou muito Roger Casement nas vezes em
que conversou com ele em Dublin, nas reuniões dos Voluntários. Escrevia poesia mística, era como Patrick Pearse um crente devoto e conhecia os místicos espanhóis
como a palma da sua mão, sobretudo Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz, de quem recitava de cor versos em espanhol. Tal como Patrick Pearse, tinha alinhado
sempre, dentro dos Voluntários Irlandeses com os radicais e isso aproximou-o de Roger. Ao ouvi-los, este disse a si próprio muitas vezes que Pearse e Plunkett pareciam
procurar o martírio, convencidos de que só esbanjando o heroísmo e o desprezo pela morte que tiveram os heróis titânicos que marcavam a História irlandesa, desde
Cuchulain e Fionn e Owen Roe até Wolfe Tone e Robert Emmet, e imolando-se eles mesmos como mártires cristãos dos tempos primitivos, contagiariam a maioria com a
ideia de que a única maneira de conquistar a liberdade seria pegando nas armas e fazendo a guerra. Da imolação dos filhos do Eire nasceria esse país livre, sem colonizadores
nem exploradores, onde reinariam a lei, o cristianismo e a justiça. O romantismo um tanto enlouquecido de Joseph Plunkett e de Patrick Pearse assustara Roger às
vezes, na Irlanda. Mas naquelas semanas em Berlim, a ouvir o jovem poeta e revolucionário, naqueles dias agradáveis que a Primavera enchia de flores os jardins e
as árvores dos parques recuperavam a sua verdura, Roger sentiu-se emocionado e ansioso pòr acreditar em tudo o que o recém-chegado lhe dizia.

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Trazia notícias exaltantes da Irlanda. A divisão dos Voluntários devido à guerra europeia tinha servido para esclarecer as coisas, segundo ele. É certo que uma grande
maioria seguia ainda as teses de John Redmond de colaborar com o Império e alistar-se no Exército britânico, mas a minoria leal aos Voluntários contava com muitos
milhares de pessoas decididas a lutar, um verdadeiro exército unido, compacto, lúcido acerca dos seus objectos e determinados a morrer pela Irlanda. Agora sim, havia
uma estreita colaboração entre os Voluntários Irlandeses e o Irish Republican Brotherhood bem como o Exército do Povo, formado por marxistas e sindicalistas como
Jim Larkin e James Connolly e o Sinn Fein de Arthur Griffith. Até Sean O'Casey, que tinha atacado os Voluntários com ferocidade chamando-lhes "burgueses e meninos
do papá", se mostrava favorável à colaboração. O Comité Provisório, dirigido por Tom Clarke, Patrick Pearse e Thomas MacDonagh entre outros, preparava a insurreição
noite e dia. As circunstâncias eram propícias. A guerra europeia criava uma oportunidade única. Era indispensável que a Alemanha os ajudasse com o envio de umas
cinquenta mil espingardas e uma acção simultânea do seu Exército no território britânico atacando os portos irlandeses militarizados pela Royal Navy. A acção conjunta
talvez decidisse a vitória alemã. A Irlanda seria independente e livre, finalmente.
Roger estava de acordo: esta tinha sido a sua tese há tempos e era a razão pela qual estava em Berlim. Insistiu muito em que o Comité Provisório estabelecesse que
a acção ofensiva da Marinha e do Exército alemães eram condição sine qua non para a revolta. Sem aquela invasão a rebelião fracassaria, pois a força logística era
demasiado desigual.
- Mas, o senhor, Sir Roger - interrompeu-o Plunkett -, esquece-se de um factor que prevalece sobre o armamento militar e o número de soldados: a mística. Nós, temo-la.
Os Ingleses, não.
Falavam numa taberna meio vazia. Roger bebia uma cerveja e Joseph um refresco. Fumavam. Plunkett contou-lhe que Larkfeld Manor, a sua casa no bairro de Kimmage,
em Dublin,

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se tinha convertido numa forja e num arsenal onde se fabricavam granadas, bombas, baionetas, lanças e se cosiam bandeiras. Dizia tudo aquilo com gestos exaltados,
em estado de transe. Contou-lhe também que o Comité Provisório tinha decidido ocultar a Eoin MacNeill o acordo sobre a revolta. Roger ficou surpreendido. Como é
que se podia manter secreta semelhante decisão perante alguém que tinha sido o fundador dos Voluntários Irlandeses e continuava a ser o seu presidente?
- Todos o respeitamos e ninguém põe em dúvida o patriotismo e a honestidade do professor MacNeill - explicou Plunkett. - Mas é um frouxo. Acredita na persuasão e
nos métodos pacíficos. Será informado quando já for tarde para impedir a revolta. Então, ninguém tem dúvidas, unir-se-á a nós nas barricadas.
Roger trabalhou dia e noite com Joseph preparando um plano de trinta e duas páginas com pormenores da revolta. Apresentaram-no ambos à Chancelaria e ao Almirantado.
O plano defendia que as forças militares britânicas na Irlanda estavam dispersas em reduzidas guarnições e podiam ser facilmente submetidas. Os diplomatas, funcionários
e militares alemães ouviram impressionados este jovem disforme e vestido como um palhaço que, ao falar, se transformava e explicava com precisão matemática e grande
coerência intelectual as vantagens de uma invasão alemã coincidir com a revolta nacionalista. Os que sabiam inglês, sobretudo, ouviam-no intrigados com a sua desenvoltura,
agressividade e retórica exaltada com que se exprimia. Mesmo os que não entendiam inglês e tinham de esperar que o intérprete traduzisse as suas palavras olhavam
com espanto para a veemência e gesticulação frenética deste emissário deformado dos nacionalistas irlandeses.
Ouviam-no, tomavam notas do que Joseph e Roger lhes pediam, mas as suas respostas não os comprometiam em nada. Nem quanto à invasão nem quanto ao envio das cinquenta
mil espingardas com as respectivas munições. Tudo aquilo se estudaria dentro da estratégia global da guerra. O Reich aprovava

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as aspirações do povo irlandês e tinha a intenção de apoiar os seus legítimos anseios: não iam mais além.
Joseph Plunkett passou quase dois meses na Alemanha, vivendo com uma frugalidade comparável à do próprio Casement, até ao dia 20 de Junho, quando partiu para a fronteira
suíça, de regresso à Irlanda via Itália e Espanha. Ao jovem poeta não lhe chamou a atenção o escasso número de aderentes que a Brigada Irlandesa tinha. Aliás, não
mostrou a menor simpatia por ela. A razão?
- Para servir na Brigada, os prisioneiros têm de quebrar o seu juramento de lealdade ao Exército britânico - disse ele a Roger. - Eu fui sempre contra os nossos
alistarem-se nas fileiras do ocupante. Mas, uma vez que o fizeram, um juramento feito perante Deus não se pode quebrar sem pecar e perder a honra.
O padre Crotty ouviu esta conversa e manteve o silêncio. Esteve assim, como uma esfinge, durante toda a tarde em que os três passaram juntos, ouvindo o poeta, que
dominava a conversa. Depois, o dominicano comentou com Casement:
- Este rapaz é alguém fora do comum, sem dúvida. Pela sua inteligência e pela entrega a uma causa. O seu cristianismo é dos cristãos que morriam nos circos romanos
devorados pelas feras. Mas, também, o dos cruzados que reconquistaram Jerusalém matando todos os ímpios judeus e muçulmanos que encontraram, incluindo mulheres e
crianças. O mesmo zelo ardente, a mesma glorificação do sangue e da guerra. Confesso-lhe, Roger, que de pessoas assim, mesmo que sejam elas que fazem a História,
tenho mais medo do que admiração.
Um tema recorrente nas conversas de Roger e Joseph durante aqueles dias foi a possibilidade de rebentar a insurreição sem que o Exército alemão invadisse ao mesmo
tempo a Inglaterra, ou pelo menos disparasse com canhões para os portos protegidos pela Royal Navy em território irlandês. Plunkett era partidário, até neste caso,
de continuar com os planos de insurreição: a guerra europeia tinha criado uma oportunidade que não devia ser desperdiçada. Roger pensava que seria um

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suicídio. Por mais heróicos e arrojados que fossem, os revolucionários seriam esmagados pela maquinaria do Império. Este aproveitaria para fazer uma purga implacável.
A libertação da Irlanda demoraria mais cinquenta anos.
- Devo entender que se rebentar a revolta sem a intervenção da Alemanha o senhor não estará connosco, Sir Roger?
- Estarei convosco, claro. Mas sabendo que será um sacrifício inútil.
O jovem Plunkett olhou-o longamente nos olhos e Roger pareceu detectar naquele olhar um sentimento de pena.
- Permita-me que lhe fale com franqueza, Sir Roger - murmurou, por fim, com a seriedade de quem se sabe possuidor de uma verdade irrefutável. - Há uma coisa que
o senhor ainda não entendeu, parece-me. Não se trata de ganhar. Claro que vamos perder essa batalha. Trata-se de durar. De resistir. Dias, semanas. E de morrer de
tal maneira que a nossa morte e o nosso sangue multipliquem o patriotismo dos Irlandeses até o tornar uma força irresistível. Trata-se de que, por cada um dos que
morrermos, nasçam cem revolucionários. Não aconteceu assim com o cristianismo?
Não soube o que responder-lhe. As semanas que se seguiram à partida de Plunkett foram muito intensas para Roger. Continuou a pedir que a Alemanha pusesse em liberdade
os prisioneiros irlandeses que, por razões de saúde, idade, pela sua categoria intelectual e profissional o mereciam. Esse gesto causaria boa impressão na Irlanda.
As autoridades alemãs tinham sido contra, mas agora começavam a ceder. Fizeram-se listas, discutiram-se nomes. Finalmente, o Alto Comando Militar acedeu a libertar
uma centena de profissionais, professores, estudantes e homens de negócios de credenciais respeitáveis. Foram muitas horas e dias de discussões, um estica e encolhe
que deixava Roger extenuado. Por outro lado, angustiado com a ideia de que os Voluntários Irlandeses, seguindo as teses de Pearse e de Plunkett, desencadeassem uma
insurreição antes de a Alemanha se decidir a atacar a Inglaterra, pressionava a Chancelaria

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e o Almirantado para que lhe dessem uma resposta sobre as cinquenta mil espingardas. Davam-lhe respostas vagas. Até que um dia, numa reunião do Ministério dos Negócios
Estrangeiros, o conde Blicher lhe disse uma coisa que o desalentou:
- Sir Roger, o senhor não tem uma ideia justa das proporções. Examine um mapa com objectividade e verá o quão pouco representa a Irlanda em termos geopolíticos.
Por mais simpatia que o Reich tenha pela sua causa, outros países e regiões são mais importantes para os interesses alemães.
- Significa isso que não receberemos as armas, senhor conde? A Alemanha descarta totalmente a invasão?
- As duas coisas ainda estão em estudo. Se fosse eu a decidir, descartaria a invasão, desde logo, num futuro imediato. Mas os especialistas decidirão. Receberá uma
resposta definitiva em qualquer momento.
Roger escreveu uma longa carta a John Devoy e a Joseph McGarrity, dando-lhes as suas razões para se opor a um levantamento que não contasse com uma acção militar
alemã em simultâneo. Exortava-os a que usassem a sua influência sobre os Voluntários Irlandeses e o Irish Republican Brotherhood para os dissuadir de se precipitarem
numa acção despropositada. Ao mesmo tempo, garantia-lhes que continuava a fazer todo o tipo de esforços para conseguir as armas. Mas a conclusão era dramática: "Fracassei.
Aqui sou um inútil. Permitam-me regressar aos Estados Unidos."
Durante aqueles dias, as suas doenças recrudesceram. Nada lhe fazia efeito contra as dores da artrite. Gripes contínuas com febres altas obrigaram-no a ficar acamado
com frequência. Tinha emagrecido e sofria de insónias. Para mal dos males, neste estado soube que The New York World tinha publicado uma notícia, seguramente passada
pela contra-espionagem britânica, segundo a qual Sir Roger Casement se encontrava em Berlim a receber grandes somas de dinheiro do Reich para dinamizar uma rebelião
na Irlanda. Enviou uma carta de protesto - "Trabalho para a Irlanda, não para a Alemanha." - que não foi publicada.

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Os seus amigos de Nova Iorque fizeram-lhe tirar da ideia um julgamento: perdê-lo-ia e o Cia na Gael não estava disposto a esbanjar o dinheiro num litígio judicial.
Desde Maio de 1915 que as autoridades alemãs tinham acedido a um pedido insistente de Roger: que os voluntários da Brigada Irlandesa fossem separados dos prisioneiros
de Limburg. No dia 20, a meia centena de brigadistas, que eram completamente hostilizados pelos seus companheiros, foram transferidos para o pequeno campo de Zossen,
nas proximidades de Berlim. Festejaram a ocasião com uma missão celebrada pelo padre Crotty e houve brindes e canções irlandesas numa atmosfera de camaradagem que
levantou o ânimo de Roger. Anunciou aos brigadistas que receberiam dentro de uns dias as fardas que ele próprio tinha desenhado e que em breve chegaria um punhado
de oficiais irlandeses para dirigir os treinos. Eles, que constituíam a primeira companhia da Brigada Irlandesa, passariam à História como os pioneiros de uma façanha.
Imediatamente depois desta reunião, escreveu uma nova carta a Joseph McGarrity, contando-lhe da abertura do campo de Zossen e desculpando-se pelo catastrofismo da
sua missiva anterior. Escrevera-a num momento de desânimo, mas agora sentia-se menos pessimista. A chegada de Joseph Plunkett e o campo de Zossen era um estímulo.
Continuaria a trabalhar pela Brigada Irlandesa. Ainda que pequena, tinha um simbolismo importante no quadro da guerra europeia.
Ao começar o Verão de 1915, partiu para Munique. Hospedou-se no Basler Hof, um hotelzinho modesto, mas agradável. A capital bávara deprimia-o menos que Berlim, embora
aqui levasse uma vida ainda mais solitária que na capital. A sua saúde continuava a deteriorar-se e as dores e as gripes obrigavam-no a permanecer no seu quarto.
A sua vida recolhida era de intenso trabalho intelectual. Bebia muitas chávenas de café e fumava sem tréguas uns cigarros de tabaco negro que lhe enchiam o quarto
de fumo. Escrevia cartas contínuas para os seus contactos na Chancelaria e no Almirantado e mantinha com

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o padre Crotty uma correspondência diária, espiritual e religiosa. Relia as cartas do sacerdote e guardava-as como um tesouro. Um dia tentou rezar. Há muito que
não o fazia, pelo menos deste modo, concentrando-se, tentando abrir a Deus o seu coração, as suas dúvidas, as suas angústias, o seu medo de se ter enganado, pedindo-lhe
misericórdia e orientação sobre a sua conduta futura. Ao mesmo tempo, escrevia breves ensaios sobre os erros que a Irlanda independente devia evitar, aproveitando
a experiência de outras nações, para não cair na corrupção, na exploração, nas distâncias siderais que em todo o lado separavam pobres e ricos, poderosos e fracos.
Mas, aos bocados, desanimava: o que ia fazer com aqueles textos? Não tinha sentido distrair os seus amigos da Irlanda com ensaios sobre o futuro quando se encontravam
mergulhados numa actualidade tão avassaladora.
Quando acabou o Verão, sentindo-se um pouco melhor, viajou para o campo de Zossen. Os homens da Brigada Irlandesa tinham recebido os uniformes desenhados por ele
e todos pareciam bem com a insígnia irlandesa nas viseiras. O campo tinha um aspecto ordenado e a funcionar. Mas a inactividade e a clausura estavam a minar a moral
da meia centena de brigadistas, apesar dos esforços do padre Crotty para lhes levantar o ânimo. Organizava competições desportivas, concursos, lições e debates sobre
diversos assuntos. A Roger pareceu-lhe um bom momento para fazer brilhar diante deles o acicate da acção.
Reuniu-os em círculo e expôs-lhes uma estratégia possível que os tirasse de Zossen e lhes devolvesse a liberdade. Se naquele momento era impossível combaterem na
Irlanda, porque não fazê-lo sob outros céus onde se estava a travar a mesma batalha pela qual se criou a Brigada? A guerra tinha-se estendido ao Médio Oriente. Alemanha
e Turquia lutavam para expulsar os Britânicos da sua colónia egípcia. Porque não participariam eles nessa luta contra a colonização, pela independência do Egipto?
Como a Brigada ainda era pequena, teriam de se integrar

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noutro corpo do Exército, mas fá-lo-iam conservando a sua identidade irlandesa.
A proposta tinha sido discutida por Roger com as autoridades alemãs e aceite. John Devoy e McGarrity estavam de acordo. A Turquia admitira a Brigada Irlandesa no
seu Exército, nas condições descritas por Roger. Houve uma longa discussão. No fim, trinta e sete brigadistas declararam-se dispostos a lutar no Egipto. O resto
precisava de pensar no assunto. Mas o que preocupava todos os brigadistas agora era algo mais urgente: os prisioneiros de Limburg tinham ameaçado denunciá-los às
autoridades inglesas para que as suas famílias na Irlanda deixassem de receber as pensões de combatentes do Exército britânico. Se isto acontecesse, os seus pais,
esposas e filhos morreriam de fome. O que é que Roger ia fazer quanto a isso?
Era óbvio que o Governo britânico tomaria este tipo de represálias e a ele nem sequer lhe tinha ocorrido. Vendo as caras ansiosas dos brigadistas, só se lembrou
de lhes garantir que as suas famílias nunca ficariam desprotegidas. Se deixassem de receber as pensões, as organizações patrióticas ajudá-los-iam. Naquele mesmo
dia escreveu ao Clan na Gael a pedir que fosse criado um fundo para compensar os parentes dos brigadistas se fossem vítimas dessa represália. Mas Roger não tinha
ilusões: tal como iam as coisas, o dinheiro que entrava nas arcas dos Voluntários Irlandeses, do Irish Republican Brotherhood e do Clan na Gael era para comprar
armas, a primeira prioridade. Angustiado, dizia a si próprio que por sua culpa cinquenta famílias humildes irlandesas passariam fome e seriam talvez dizimadas pela
tuberculose no próximo Inverno. O padre Crotty tentava acalmá-lo, mas desta vez as suas razões não o tranquilizaram. Um novo tema de preocupação tinha-se juntado
aos que o atormentavam e a sua saúde sofreu outra recaída. Não só o físico, também a sua mente, como nos períodos mais difíceis no Congo e na Amazónia. Sentiu que
perdia o equilíbrio mental. Às vezes tinha a cabeça que parecia um vulcão em plena erupção. Iria perder a razão?

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Regressou a Munique e dali continuou a enviar mensagens para os Estados Unidos e a Irlanda sobre o apoio económico às famílias dos brigadistas. Como as suas cartas,
para despistar a Inteligência Naval Britânica, passavam por vários países onde lhes mudavam sobrescritos e direcções, as respostas demoravam um ou dois meses a chegar.
O seu abatimento estava no apogeu quando finalmente chegou Robert Monteith para tomar conta militarmente da Brigada. O oficial não só trazia o seu optimismo impetuoso,
a sua decência e o seu espírito aventureiro. Também a promessa formal de que as famílias dos brigadistas, se fossem objecto de represália, receberiam ajuda imediata
dos revolucionários irlandeses.
O capitão Monteith, que assim que chegou à Alemanha viajou de imediato para Munique a fim de ver Roger, ficou desconcertado ao vê-lo tão doente. Tinha admiração
por ele e tratava-o com enorme respeito. Disse-lhe que ninguém no movimento irlandês suspeitava que o seu estado fosse tão precário. Casement proibiu-o de informar
sobre a sua saúde e viajou com ele de regresso a Berlim. Apresentou Monteith à Chancelaria e ao Almirantado. O jovem oficial ardia de impaciência para começar a
trabalhar e manifestava um optimismo férreo sobre o futuro da Brigada que Roger, no seu foro íntimo, tinha perdido. Durante os seis meses que permaneceu na Alemanha,
Robert Monteith foi, tal como o padre Crotty, uma bênção para Roger. Ambos o impediram de se afundar num desânimo que talvez o tivesse empurrado para a loucura.
O religioso e o militar eram muito diferentes, e, no entanto, Roger disse a si próprio muitas vezes que ambos encarnavam dois protótipos de irlandeses: o santo e
o guerreiro. Em alternância com eles, recordou algumas conversas com Patrick Pearse, quando este misturava o altar com as armas e afirmava que da fusão dessas duas
tradições, mártires e místicos e heróis e guerreiros, resultaria a força espiritual e física que romperia as correntes que prendiam o Eire.
Eram diferentes, mas havia nos dois uma pureza natural, uma generosidade e uma entrega ao ideal que, muitas vezes,

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ao ver que o padre Crotty e o capitão Monteith não perdiam tempo com mudanças de humor e desmoralizações, como ele, Roger se envergonhava das suas dúvidas e vaivéns.
Ambos tinham traçado um caminho e seguiam-no sem se afastar do rumo, sem se intimidarem perante os obstáculos, convencidos de que, no fim, o triunfo os esperava:
de Deus sobre o mal e da Irlanda sobre os seus opressores. "Aprende com eles, Roger, sê como eles", repetia para si mesmo, como uma jaculatória.
Robert Monteith era um homem muito próximo de Tom Clarke, a quem professava também um culto religioso. Falava do posto de venda tabaco deste - o seu quartel-general
clandestino - na esquina da Great Britain Street com a Sackville Street como de um "lugar sagrado". Segundo o capitão, a velha raposa sobrevivente de muitas prisões
inglesas eram quem dirigia da sombra toda a estratégia revolucionária. Não era digno de admiração? Do seu pequeno posto de venda de tabaco, numa rua pobrezita do
centro de Dublin, aquele veterano de físico miudinho, magro, frugal, gasto pelos sofrimentos e pelos anos, que havia dedicado a sua vida a lutar pela Irlanda, passando
por isso quinze anos na prisão, tinha conseguido montar uma organização militar e política clandestina, o Irish Republican Brotherhood, que chegava a todos os confins
do país, sem ter sido capturado pela polícia britânica. Roger perguntou-lhe se a organização era verdadeiramente tão conseguida como ele dizia. O entusiasmo do capitão
transbordou:
- Temos companhias, secções, pelotões, com os seus oficiais, os seus depósitos de armas, os seus mensageiros, os seus códigos, as suas palavras de ordem - afirmou,
gesticulando, eufórico. - Duvido que haja na Europa um exército mais eficiente e motivado que o nosso, Sir Roger. Não exagero um milímetro.
Segundo Monteith, os preparativos tinham chegado ao seu ponto máximo. A única coisa que faltava eram as armas alemãs para que a insurreição rebentasse.
O capitão Monteith pôs-se imediatamente a trabalhar, instruindo e organizando meia centena de recrutas de Zossen.

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Ia com frequência ao campo de Limburg, para tentar vencer a resistência dos outros prisioneiros contra a Brigada. Conseguia um ou outro, mas a imensa maioria continuava
a mostrar-lhe total hostilidade. Nada era capaz de o desmoralizar. As suas cartas a Roger, que tinha voltado para Munique, iam cheias de entusiasmo e davam-lhe notícias
animadoras sobre a minúscula Brigada.
Da vez seguinte que se viram em Berlim, umas semanas depois, jantaram sozinhos num pequeno restaurante de Charlottenburg cheio de refugiados romenos. O capitão Monteith,
armando-se de coragem e tendo muito cuidado com as palavras para não o ofender, disse-lhe de repente:
- Sir Roger, não me considere um intrometido e um insolente. Mas não pode continuar nesse estado. O senhor é demasiado importante para a Irlanda, para a nossa luta.
Em nome dos ideais pelos quais tanto fez, suplico-lhe. Consulte um médico. Está mal dos nervos. Não é novidade nenhuma. A responsabilidade e as preocupações fizeram
mossa. Era inevitável que acontecesse. Precisa de ajuda.
Roger balbuciou umas palavras evasivas e mudou de assunto. Mas a recomendação do capitão assustou-o. Era assim tão evidente o seu desequilíbrio que este oficial,
sempre tão respeitoso e discreto, se atrevia a dizer-lhe uma coisa destas? Roger esteve de acordo. Depois de algumas averiguações, animou-se a consultar o doutor
Oppenheim, que vivia fora da cidade, entre as árvores e os riachos de Grünewald. Era um homem já idoso e inspirou-lhe confiança, pois parecia experimentado e seguro.
Tiveram duas longas sessões em que Roger lhe expôs o seu estado, os seus problemas, as suas insónias e temores. Teve de submeter-se a testes mnemotécnicos e a interrogatórios
minuciosos. Por fim, o doutor Oppenheim garantiu-lhe que ele precisava de ficar internado num sanatório e submeter-se a um tratamento. Se não o fizesse, o seu estado
mental seguiria aquele processo de transtorno que já se tinha iniciado. Ele próprio telefonou para Munique e conseguiu-lhe uma consulta com um colega e discípulo,
o doutor Rudolf von Hoesslin.

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Roger não ficou internado na clínica do doutor Von Hoess-lin, mas visitou-o umas duas vezes por semana ao longo de vários meses. O tratamento fez-lhe bem.
- Não acho nada estranho que sofra destes problemas, com as coisas que o senhor viu no Congo e no Amazonas e com o que faz agora - disse-lhe o psiquiatra. - O mais
espantoso é que não seja um louco furioso ou que não se tenha suicidado.
Era um homem ainda novo, apaixonado pela música, vegetariano e pacifista. Era contra esta guerra e contra todas as guerras e sonhava que um dia se viesse a estabelecer
a fraternidade universal - "a paz kantiana", dizia ele - em todo o mundo, se eclipsassem as fronteiras e os homens se reconhecessem como irmãos. Das sessões com
o doutor Rudolf von Hoesslin, Roger saía calmo e em bom estado de espírito. Mas não tinha a certeza de que estivesse a melhorar. Aquela sensação de bem-estar sempre
a tivera quando encontrava no seu caminho uma pessoa sã, boa e idealista.
Fez várias viagens a Zossen onde, como era de esperar, Robert Monteith tinha conquistado todos os recrutas da Brigada Irlandesa. Graças aos seus esforços continuados,
esta tinha aumentado em dez voluntários. As marchas e treinos iam às mil maravilhas. Mas os brigadistas continuavam a ser tratados como prisioneiros pelos soldados
e oficiais alemães e, às vezes, vexados. O capitão Monteith fez diligências no Almirantado para que os brigadistas, como tinham prometido a Roger, tivessem uma margem
de liberdade, pudessem sair até à povoação e beber uma cerveja numa taberna de vez em quando. Não eram aliados? Porque é que continuavam a ser tratados como inimigos.
Até agora aquelas tentativas não tinham dado o menor resultado.
Roger apresentou um protesto. Teve uma cena violenta com o general Schneider, comandante da guarnição de Zossen, que lhe disse que não se podia dar mais liberdade
aos que mostravam indisciplina, eram propensos a brigar e até cometiam furtos no campo. Segundo Monteith estas acusações eram falsas.

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Os únicos incidentes deviam-se a insultos que os brigadistas recebiam das sentinelas alemãs.
Os últimos meses de Roger Casement na Alemanha foram de constantes discussões e momentos de grande tensão com as autoridades. A sensação de que havia sido enganado
intensificou-se até à sua partida de Berlim. O Reich não tinha interesse na libertação da Irlanda, nunca levou a sério a ideia de uma acção conjunta com os revolucionários
irlandeses, a Chancelaria e o Almirantado tinham-se servido da sua ingenuidade e da sua boa-fé fazendo-o acreditar em coisas que não pensavam fazer. O projecto de
que a Brigada Irlandesa lutasse com o Exército turco contra os Ingleses no Egipto, estudado com todo o pormenor, frustrou-se quando parecia prestes a concretizar-se,
sem que lhe dessem qualquer explicação. Zimmermann, o conde Georg von Wedel, o capitão Nadolny e todos os oficiais que participaram nos planos tornaram-se de repente
escorregadios e evasivos. Recusavam-se a recebê-lo com pretextos fúteis. Quando conseguia falar com eles estavam sempre ocupadíssimos, só conseguiam conceder-lhe
uns minutos, a questão do Egipto não era da sua incumbência. Roger resignou-se: o seu anseio de que a Brigada se convertesse numa pequena força simbólica da luta
dos Irlandeses contra o colonialismo tinha-se esfumado.
Então, com a mesma veemência com que tinha admirado a Alemanha, começou a sentir por este país uma aversão que se foi transformando num ódio semelhante, ou talvez
maior, àquele que a Inglaterra lhe inspirava. Assim o disse numa carta ao advogado John Quinn, de Nova Iorque, depois de lhe contar como era maltratado pelas autoridades:
"Assim é, meu amigo: cheguei a odiar tanto os Alemães que prefiro a forca britânica a morrer aqui."
O seu estado de irritação e mal-estar físico obrigaram-no a regressar a Munique. O doutor Rudolf von Hoesslin exigiu-lhe que desse entrada num hospital de repouso
da Baviera, com um argumento contundente: "O senhor está à beira de uma crise de que nunca irá recuperar, a menos que descanse e esqueça tudo

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o resto. A alternativa é perder a razão ou sofrer uma falha psíquica que o converta num inútil para o resto dos seus dias."
Roger esteve de acordo. Durante uns dias a sua vida entrou num período de tanta paz que se sentia um ser desencarnado. Os tranquilizantes faziam-no dormir dez e
doze horas. Depois, dava longos passeios por um bosque vizinho de bordos e freixos, numas manhãs ainda frias de um Inverno que se recusava a partir. Tinham-lhe tirado
o tabaco e o álcool e comia dietas vegetarianas frugais. Não tinha vontade para ler nem escrever. Permanecia horas com a mente em branco, sentindo-se um fantasma.
Robert Monteith arrancou-o violentamente desta letargia numa manhã soalheira de princípios de Março de 1916. Pela importância do assunto, o capitão tinha conseguido
uma autorização do Governo alemão para vir vê-lo. Estava ainda sob o efeito da emoção e falava aos atropelos:
- Veio uma escolta buscar-me ao campo de Zossen e levou-me a Berlim, ao Almirantado. Estava à minha espera um grande grupo de oficiais, dois generais entre eles.
Informaram-me do seguinte: "O Comité Provisório irlandês decidiu que o levantamento terá lugar a vinte e três de Abril." Ou seja, dentro de mês e meio.
Roger saltou da cama. Pareceu-lhe que o cansaço desaparecia de repente e que o seu coração se convertia num tambor onde martelavam com fúria. Não conseguiu falar.
- Pedem espingardas, fuzileiros, artilheiros, metralhadoras, munições - prosseguiu Monteith, aturdido pela emoção. - Que o barco seja escoltado por um submarino.
As armas devem chegar a Fenit, à baía de Tralee, em County Kerry, no domingo de Páscoa por volta da meia-noite.
- Então, não vão esperar a acção armada alemã - conseguiu dizer finalmente Roger. Pensava numa hecatombe, em rios de sangue a tingir as águas do Liffey.
- A mensagem também traz instruções para si, Sir Roger - acrescentou Monteith. - Tem de permanecer na Alemanha, como embaixador da nova República da Irlanda.

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Roger deixou-se cair outra vez na cama, abatido. Os seus companheiros não o tinham informado a ele dos seus planos antes de o fazerem ao Governo alemão. Além disso,
ordenavam-lhe que ficasse ali enquanto eles se deixavam matar numa daquelas situações de que Patrick Pearse e Joseph Plunkett gostavam. Desconfiavam dele? Não havia
outra explicação. Como estavam conscientes da sua oposição a uma revolta que não coincidisse com uma invasão alemã, pensavam que lá, na Irlanda, ele seria um estorvo
e preferiam que ficasse ali, de braços cruzados, com o cargo extravagante de embaixador de uma República que aquela rebelião e aquele banho de sangue tornariam mais
remota e improvável.
Monteith esperava, mudo.
- Vamos imediatamente para Berlim, capitão - disse Roger, levantando-se de novo. - Visto-me, preparo a minha mala e partimos no primeiro comboio.
Assim fizeram. Roger ainda conseguiu escrever umas linhas apressadas de agradecimento ao doutor Rudolf von Hoesslin. Na longa viagem, a cabeça crepitou-lhe sem descanso,
com pequenos intervalos para trocar ideias com Monteith. Quando chegou a Berlim tinha a sua linha de conduta já definida. Os seus problemas pessoais passavam a segundo
plano. A prioridade, agora, era dedicar a sua energia e inteligência em conseguir o que os seus companheiros tinham pedido: espingardas, munições e oficiais alemães
que conseguissem organizar as acções militares de maneira eficaz. Em segundo lugar, partir ele mesmo para a Irlanda com o carregamento de armas. Uma vez lá, tentaria
convencer os seus amigos a esperar; com um pouco mais de tempo a guerra europeia podia criar situações mais propícias à insurreição. Em terceiro lugar, tinha de
impedir que os cinquenta e sete inscritos na Brigada Irlandesa partissem para a Irlanda. Como "traidores", o Governo britânico executá-los-ia sem contemplações se
fossem capturados pela Royal Navy. Monteith decidiria o que queria fazer, com total liberdade.

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Conhecendo-o, era seguro que iria morrer com os seus companheiros pela causa a que tinha consagrado toda a sua vida.
Em Berlim, ficaram alojados no Eden Hotel, como de costume. Na manhã seguinte começaram as negociações com as autoridades. As reuniões tinham lugar no arruinado
e feio edifício do Almirantado. O capitão Nadolny recebia-os à porta e levava-os para uma sala onde havia sempre pessoas da Chancelaria e militares. Caras novas
misturavam-se com as dos velhos conhecidos. Desde o primeiro momento, e de forma categórica, foram informados de que o Governo alemão se recusava a enviar oficiais
que assessorassem os revolucionários.
Em contrapartida, consentiram nas armas e nas munições. Durante horas e dias fizeram cálculos e estudos sobre a maneira mais segura de chegarem na data assinalada
ao lugar estabelecido. Finalmente, decidiu-se que o carregamento iria no Aud, um barco inglês, embargado, reequipado e pintado que levaria a bandeira da Noruega.
Nem Roger, nem Monteith, nem brigadista algum viajariam no Aud. Este assunto motivou discussões, mas o Governo alemão não cedeu: a presença de irlandeses a bordo
comprometia o subterfúgio de fazer passar o barco por norueguês e, se o engano fosse descoberto, o Reich ficaria numa situação delicada perante a opinião pública
internacional. Então, Roger e Monteith exigiram que lhes facilitassem a maneira de viajar para a Irlanda ao mesmo tempo que as armas, separadamente. Foram horas
de propostas e contrapropostas em que Roger tentava convencê-los de que, indo ele lá, podia convencer os seus amigos a esperar que a guerra se fosse inclinando mais
para o lado alemão, porque nessas circunstâncias a revolta poderia combinar-se com uma acção paralela da Marinha e da Infantaria alemãs. Por fim, o Almirantado aceitou
que Casement e Monteith viajassem para a Irlanda. Fá-lo-iam num submarino e levariam um brigadista como representante dos seus companheiros.
A decisão de Roger de se recusar a que a Brigada Irlandesa viajasse para se juntar à insurreição, acarretou-lhe fortes choques com os Alemães. Mas ele não queria
que os brigadistas fossem

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sumariamente executados, sem terem tido sequer a oportunidade de morrer a lutar. Não era uma responsabilidade que ele atiraria para cima dos seus ombros.
A 7 de Abril, o Alto Comando Militar informou Roger que o submarino em que viajariam estava pronto. O capitão Monteith escolheu o sargento Daniel Julian Bailey para
representar a Brigada Irlandesa. Proporcionaram-lhe papéis falsos com o nome de Julian Beverly. O Alto Comando Militar confirmou a Casement que, tal como os revolucionários
tinham pedido, vinte mil espingardas, dez metralhadoras e cinco milhões de munições estariam a norte da ilha de Innistooskert, na baía de Tralee, no dia indicado,
a partir das dez da noite: o navio deveria ser aguardado por um piloto com um bote ou uma lancha que se identificaria com duas luzes verdes.
Entre o dia 7 e o dia da partida, Roger não pregou olho. Escreveu um breve testamento pedindo que se morresse toda a sua correspondência e papéis fossem entregues
a Edmond D. Morel, "um ser excepcionalmente justo e nobre", para que com aqueles documentos organizasse uma "memória que salve a minha reputação depois da minha
passagem".
Monteith, ainda que intuísse como Roger que a revolta seria esmagada pelo Exército britânico, ardia de impaciência por partir. Tiveram uma conversa a sós, de umas
duas horas, no dia em que o capitão Boehm lhes entregou o veneno que lhe tinham pedido para o caso de serem capturados. O oficial explicou-lhes que se tratava de
curare amazônico. O efeito seria instantâneo. "O curare é um antigo conhecido meu", explicou-lhe Roger, sorrindo. "No Putumayo vi, efectivamente, índios que paralisavam
os pássaros no ar com os seus dardos cheios deste veneno." Roger e o capitão foram beber uma cerveja numa ktieipe vizinha.
- Calculo que lhe doa tanto como a mim partir sem nos despedirmos nem dar explicações aos brigadistas - disse Roger.
- Levarei isso sempre na minha consciência - confirmou Monteith. - Mas é uma decisão acertada. O levantamento é demasiado importante para nos arriscarmos a uma denúncia.

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- Acha que terei alguma possibilidade de o deter?
O oficial negou com a cabeça.
- Não acho, Sir Roger. Mas o senhor é muito respeitado lá e talvez as suas razões se imponham. De qualquer modo, tem de compreender o que acontece na Irlanda. São
muitos anos a prepararmo-nos para isto. Anos não, séculos! Até quando vamos continuar a ser uma nação cativa? E em pleno século vinte. Além disso, não há dúvida,
graças à guerra, de que este é o momento em que a Inglaterra é mais fraca na Irlanda.
- Não tem medo da morte?
Monteith encolheu os ombros.
- Vi-a de perto muitas vezes. Na África do Sul, durante a Guerra dos Bóeres, muito perto. Todos temos medo da morte, calculo eu. Mas há morte e mortes, Sir Roger.
Morrer a lutar pela pátria é uma morte tão digna como morrer pela família ou pela fé. Não acha?
- Sim, é - concordou Roger. - Espero que, se isso acontecer, morramos assim e não a engolir esta poção amazônica, que deve ser indigesta.
Na véspera da partida, Roger foi durante umas horas a Zossen para se despedir do padre Crotty. Não entrou no acampamento. Mandou chamar o dominicano e deram um passeio
por uma floresta de abetos e bétulas que começavam a reverdejar. O padre Crotty ouviu as confidências de Roger de rosto alterado, sem o interromper uma única vez.
Quando ele acabou de falar, o sacerdote benzeu-se. Permaneceu um longo bocado em silêncio.
- Ir à Irlanda, pensando que a revolta está condenada ao fracasso, é uma forma de suicídio - disse ele, como que pensando em voz alta.
- Vou com a intenção de a deter, padre. Falarei com Tom Clarke, com Joseph Plunkett, com Patrick Pearse, com todos os dirigentes. Fá-los-ei ver as razões pelas quais
este sacrifício me parece inútil. Em vez de acelerar a independência, atrasá-la-á. E...

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Sentiu que a garganta se lhe colava e calou-se.
- O que é que foi, Roger? Somos amigos e eu estou aqui para ajudá-lo. Pode confiar em mim.
- Tenho uma visão que não consigo tirar da cabeça, padre Crotty. Aqueles idealistas e patriotas que se vão deixar esmagar, deixando famílias destroçadas, na miséria,
submetidas a terríveis represálias, pelo menos têm consciência do que fazem. Mas sabe em quem é que eu penso o tempo todo?
Contou-lhe que, em 1910, tinha ido dar uma conferência ao Hermitage, no lugar de Rathfarnham, nos arredores de Dublin, onde funcionava St. Enda's, a escola bilingue
de Patrick Pearse. Depois de falar com os alunos, doara-lhes um objecto que guardava da sua viagem pela Amazónia - uma zarabatana huitota - como prémio para a melhor
composição em gaélico dos estudantes do último ano. Tinha-o impressionado imenso a forma como estavam exaltados aquelas dezenas de jovens com a ideia da Irlanda,
o amor militante com que recordavam a sua história, os seus heróis, os seus santos, a sua cultura, o estado de êxtase religioso em que cantavam as antigas canções
celtas. E também o espírito profundamente católico que reinava na escola ao mesmo tempo que aquele patriotismo fervoroso: Pearse tinha conseguido que as duas coisas
se fundissem e fossem uma só naqueles jovens, como o eram nele e nos seus irmãos Willie e Margaret, também professores em St. Enda's.
- Todos aqueles jovens se vão deixar matar, vão ser carne para canhão, padre Crotty. Com espingardas e revólveres que nem sequer devem saber como disparar. Centenas,
milhares de inocentes como eles a enfrentarem canhões, metralhadoras, oficiais e soldados do Exército mais poderoso do mundo. Para não conseguir nada. Não é terrível?
- Claro que é terrível, Roger - concordou o religioso. -Mas talvez não seja exacto que não conseguirão nada.
Fez outra longa pausa e depois pôs-se a falar devagar, condoído e comovido.

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- A Irlanda é um país profundamente cristão, como o senhor sabe. Talvez pela sua situação particular, de país ocupado, tenha sido mais receptivo que outros à mensagem
de Cristo. Ou porque tivemos missionários e apóstolos como São Patrício, muitíssimo persuasivos, a fé fixou-se mais profundamente ali que noutros lados. A nossa
religião é sobretudo para os que sofrem. Os humilhados, os famintos, os vencidos. Essa fé impediu que nos desintegrássemos como país apesar da força que nos esmaga.
Na nossa religião o martírio é primordial. Sacrificar-se, imolar-se. Cristo não o fez? Encarnou e submeteu-se às mais atrozes crueldades. Traições, torturas, a morte
na cruz. Não valeu de nada, Roger?
Roger recordou Pearse, Plunkett, aqueles jovens convencidos de que a luta pela liberdade era ao mesmo tempo mística e cívica.
- Entendo o que o senhor quer dizer, padre Crotty. Eu sei que pessoas como Pearse, Plunkett, até Tom Clarke, que tem fama de realista e prático, sabem que a revolta
é um sacrifício. E têm a certeza que deixando-se matar criarão um símbolo que fará mover todas as energias dos Irlandeses. Eu entendo a sua vontade de imolação.
Mas terão o direito de arrastar as pessoas que não têm a experiência, a lucidez deles? Jovens que não sabem que vão para o matadouro só para dar um exemplo?
- Eu não tenho admiração pelo que fazem, Roger, já lhe disse - murmurou o padre Crotty. - O martírio é algo a que um cristão se resigna, não um fim que procura.
Mas a História não terá feito progredir a humanidade dessa maneira, com gestos e sacrifícios? Em todo o caso, quem me preocupa agora é você. Se for capturado, não
terá oportunidade de lutar. Será julgado por alta traição.
- Eu meti-me nisto, padre Crotty, e a minha obrigação é ser consequente e ir até ao fim. Nunca poderei agradecer-lhe tudo o que lhe devo. Posso pedir-lhe a bênção?
Ajoelhou-se, o padre Crotty abençoou-o e despediram-se com um abraço.


XV.


Quando os padres Carey e MacCarroll entraram na sua cela, Roger havia recebido já o papel, a caneta e a tinta que pedira e, com pulso firme, sem hesitações, tinha
escrito de uma tirada duas breves missivas. Uma para a sua prima Gertrude e outra, colectiva, para os seus amigos. Ambas eram muito parecidas. A Gee, além de uma
frases sentidas dizendo-lhe o quanto a tinha amado e as boas recordações dela que guardava na sua memória, asseverava-lhe: "Amanhã, dia de Santo Estêvão, terei a
morte que procurei. Espero que Deus perdoe os meus erros e aceite os meus pedidos." A carta para os seus amigos tinha o mesmo cariz trágico: "A minha última mensagem
para todos é um sursum corda. Desejo o melhor àqueles que me vão arrebatar a vida e aos que tentaram salvá-la. Todos são agora meus irmãos."
Mr. John Ellis, o verdugo, vestido sempre de escuro e acompanhado do seu assistente, um jovem que se apresentou como Robert Baxter e que se mostrava nervoso e assustado,
veio tirar-lhe as medidas - altura, peso e tamanho do pescoço -para, explicou-lhe com naturalidade, determinar a altura da forca e a consistência da corda. Enquanto
o media com uma vara e anotava num caderninho, contou-lhe que, além deste ofício, continuava a exercer a sua profissão de barbeiro em Rochdale e que os seus clientes
tentavam sacar-lhe segredos do seu trabalho, mas que ele, no que dizia respeito a este assunto, era uma esfinge. Roger alegrou-se por eles se irem embora.

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Pouco depois, uma sentinela trouxe-lhe a última remessa de cartas e telegramas já examinados pela censura. Era de gente que não conhecia: desejavam-lhe sorte ou
insultavam-no e chamavam-lhe "traidor". Mal as folheava, mas um longo telegrama reteve a sua atenção. Era do explorador de borracha Julio C. Arana. Estava datado
de Manaus e escrito num espanhol que até Roger conseguia notar que tinha incorrecções em abundância. Exortava-o "a ser justo confessando as suas culpas perante um
tribunal humano, só conhecidas pela Justiça Divina, no que respeita à sua actuação no Putumayo". Acusava-o de ter "inventado factos e influenciado os barbadianos
para que confirmassem actos inconscientes que nunca aconteceram" com o único fim de "obter títulos e fortuna". Acabava assim: "Perdoo-lhe, mas é necessário que o
senhor seja justo e declare agora de forma total e verdadeira os factos reais, porque ninguém os conhece melhor que o senhor". Roger pensou: "Este telegrama não
foi redigido pelos seus advogados, mas sim por ele próprio."
Sentia-se calmo. O medo que em dias e semanas anteriores lhe causava de repente arrepios e lhe gelava as costas, havia-se dissipado por completo. Tinha a certeza
de que iria para a morte com a serenidade com que, sem dúvida, o foram Patrick Pear-se, Tom Clarke, Joseph Plunkett, James Connolly e todos os valentes que se imolaram
em Dublin naquela semana de Abril para que a Irlanda fosse livre. Sentia-se liberto de problemas e angústias e preparado para ajustar os seus assuntos com Deus.
Father Carey e father MacCarroll vinham muito sérios e apertaram-lhe as mãos com afecto. Ao padre MacCarroll tinha-o visto três ou quatro vezes, mas havia falado
pouco com ele. Era escocês e tinha um pequeno tique no nariz que lhe dava à expressão um traço cómico. Em compensação, com o padre Carey sentia-se mais confiante.
Devolveu-lhes o exemplar da Imitação de Cristo de Tomás de Kempis.
- Não sei o que fazer com ele, ofereçam-no a alguém. É o único livro que me permitiram ler na prisão de Pentonville. Não o lamento. Foi uma boa companhia. Se alguma
vez comunicar

425
com o padre Crotty, diga-lhe que ele tinha razão. Tomás de Kempis era, como ele me dizia, um homem santo, simples e cheio de sabedoria.
O padre MacCarroll disse-lhe que o xerife se estava a ocupar das suas roupas civis e que em breve lhas traria. No depósito da prisão tinham-se amarrotado e sujado
e o próprio Mr. Stacey cuidava que as limpassem e passassem a ferro.
- É um bom homem - disse Roger. - Perdeu o seu único filho na guerra e ficou meio morto de dor, também ele.
Depois de uma pausa, pediu-lhes que agora se concentrassem na sua conversão ao catolicismo.
- Reincorporação, conversão não - recordou-lhe uma vez mais o padre Carey. - Foi sempre católico, Roger, por decisão dessa mãe que tanto amou e que em breve vai
voltar a ver.
A cela estreita parecia ter-se encolhido ainda mais com as três pessoas. Mal tiveram espaço para se ajoelhar. Durante vinte ou trinta minutos estiveram a rezar,
a princípio em silêncio e depois em voz alta, pai-nossos e ave-marias, os religiosos o começo da oração e Roger o fim.
Depois, o padre MacCarroll retirou-se para que o padre Carey ouvisse a confissão de Roger Casement. O sacerdote sentou-se à beira da cama e Roger manteve-se de joelhos
ao princípio da sua longa, longuíssima enumeração dos seus reais ou presumíveis pecados. Quando rebentou o primeiro choro, apesar dos esforços que fazia por se conter,
o padre Carey fê-lo sentar-se a seu lado. Assim prosseguiu aquela cerimónia final em que, enquanto falava, explicava, recordava, perguntava, Roger sentia que, com
efeito, se ia aproximando mais e mais da sua mãe. Por instantes, teve a fugaz impressão de que a esbelta silhueta de Anne Jephson se corporizava e desaparecia na
parede de tijolos avermelhados do calabouço.
Chorou muitas vezes, como não se lembrava de ter chorado nunca, já sem tentar reter as lágrimas, porque com elas desafogava tensões e amarguras e parecia-lhe que
não só a sua alma como também o seu corpo se tornava mais leve. O padre

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Carey deixava-o falar, silencioso e imóvel. Às vezes, fazia-lhe uma pergunta, uma observação, um breve comentário tranquilizador. Depois de lhe indicar a penitência
e de lhe dar a absolvição, abraçou-o:
- Bem-vindo de novo à que foi sempre a sua casa, Roger.
Pouco depois abriu-se outra vez a porta da cela e voltou a
entrar o padre MacCarroll seguido do xerife. Mr. Stacey tinha nos braços o seu fato escuro, a sua camisa branca de colarinho, a sua gravata e o seu colete e o padre
MacCarroll os botins e as meias. Era a roupa que Roger tinha usado no dia em que o tribunal de Old Bailey o condenara a morrer enforcado. As peças de roupa estavam
imaculadamente limpas e passadas a ferro e os sapatos tinham acabado de ser engraxados e polidos.
- Agradeço-lhe muito a sua amabilidade, xerife.
Mr. Stacey assentiu. Tinha a cara bochechuda e triste do costume. Mas agora evitava olhá-lo nos olhos.
- Poderei tomar um banho antes de vestir esta roupa, xerife? Seria uma pena sujá-la com este corpo asqueroso que tenho.
Mr. Stacey acedeu, desta vez com meio sorriso cúmplice. Depois saiu da cela.
Apertando-se, os três lá se arranjaram para se sentar no catre. Assim estiveram, às vezes calados, outras vezes a rezar, e também a conversar. Roger falou-lhes da
sua infância, dos seus primeiros anos em Dublin, em Jersey, das férias que passava com os seus irmãos em casa dos tios maternos, na Escócia. O padre MacCarroll alegrou-se
de o ouvir dizer que as férias escocesas tinham sido para Roger quando criança a experiência do Paraíso, isto é, da pureza e da felicidade. A meia voz, cantarolou-lhes
algumas das canções infantis que lhe ensinaram a mãe e os tios e também recordou como o faziam sonhar as proezas dos Dragões Ligeiros na índia que o capitão Roger
Casement lhes relatava a ele e aos irmãos quando estava de bom humor.
Depois, cedeu-lhes a palavra, pedindo-lhes que lhe contassem como foi que se tornaram sacerdotes. Tinham entrado para o seminário levados por uma vocação ou empurrados

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pelas circunstâncias, a fome, a pobreza, a vontade de receber uma educação, como acontecia com tantos religiosos irlandeses? O padre MacCarroll tinha ficado órfão
antes de ter uso da razão. Foi acolhido por uns familiares já de idade que o matricularam numa escolinha paroquial onde o pároco, que tinha carinho por ele, o convenceu
de que a sua vocação era a Igreja.
- Que podia eu fazer senão acreditar nele? - reflectiu o padre MacCarroll. - Na verdade, entrei para o seminário sem muita convicção. O chamamento de Deus veio depois,
durante os meus anos de estudos superiores. Interessou-me muito a Teologia. Gostaria de me ter dedicado ao estudo e ao ensino. Mas, como nós sabemos, o homem põe
e Deus dispõe.
O caso do padre Carey tinha sido muito diferente. A sua família, comerciantes bem instalados de Limerick, era católica, mais de palavras que de obras, de modo que
ele não cresceu num ambiente religioso. Apesar disso tinha sentido o chamamento muito novo e até podia indicar um facto que talvez tenha sido decisivo. Um Congresso
Eucarístico, quando ele tinha treze ou catorze anos, em que ouviu um padre missionário, o padre Aloyssus, falar do trabalho realizado nas florestas do México e da
Guatemala pelos religiosos e religiosas com quem tinha passado vinte anos da sua vida.
- Era tão bom orador que me deslumbrou - disse o padre Carey. - Por causa dele é que ainda estou nisto. Nunca mais o vi nem voltei a saber dele. Mas lembro-me sempre
da sua voz, do seu fervor, da sua retórica, das suas barbas longuíssimas. E do seu nome: father Aloyssus.
Quando abriram a porta da cela, trazendo-lhe o jantar frugal do costume - sopa, salada e pão -, Roger apercebeu-se de que estavam a conversar há várias horas. Morria
o entardecer e começava a noite, embora ainda brilhasse um pouco de sol nos barrotes da pequena janela. Rejeitou o jantar e ficou só com a garrafinha de água.
E então recordou que, numa das suas primeiras expedições por África, no primeiro ano da sua estada no Continente Negro,

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tinha pernoitado uns dias numa pequena aldeia de uma tribo cujo nome havia esquecido (os Bangui, talvez?). Com ajuda de um intérprete conversou com vários membros
locais. Descobriu assim que os velhos da comunidade, quando sentiam que iam morrer, atavam os seus poucos pertences e, discretamente, sem se despedirem de ninguém,
tentando passar despercebidos, embrenhavam-se na floresta. Procuravam um lugar calmo, uma praiazinha nas margens de um lago ou de um rio, a sombra de uma grande
árvore, ou um outeiro com rochas. Deitavam-se ali à espera da morte sem incomodar ninguém. Uma maneira sábia e elegante de partir.
Os padres Carey e MacCarroll quiseram passar a noite com ele, mas Roger não consentiu. Garantiu-lhes que se encontrava bem, mais tranquilo que nos últimos três meses.
Preferia ficar sozinho e descansar. Era verdade. Os religiosos, ao ver a serenidade que ele mostrava, concordaram em partir.
Quando saíram, Roger esteve um grande bocado a contemplar as peças de roupa que o xerife lhe havia deixado. Por uma estranha razão, tinha a certeza de que ele iria
trazer as roupas com que fora capturado naquela desolada madrugada de 21 de Abril no reduto circular dos Celtas chamado Forte McKen-na, de pedras carcomidas, cobertas
pela folhagem, pelos fetos, pela humidade e rodeadas de árvores onde cantavam os pássaros. Três meses apenas e pareciam-lhe séculos. O que seria feito daquelas roupas?!
Tê-las-iam arquivado também, juntamente com o seu expediente? O fato que Mr. Stacey lhe passou a ferro e com o qual morreria dentro de umas horas tinha-lho comprado
o advogado Gavan Duffy para que aparecesse apresentável perante o tribunal que o julgou. Para não o enrugar, esticou-o debaixo do pequeno colchão do catre. E deitou-se,
pensando que o esperava uma longa noite de insónia.
Espantosamente, dali a pouco tempo adormeceu. E deve ter dormido muitas horas porque, quando abriu os olhos com um pequeno sobressalto, embora a cela estivesse nas
sombras, reparou pelo quadradinho com grades da janela que começava

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a amanhecer. Lembrava-se de ter sonhado com a sua mãe. Ela tinha uma cara aflita e ele, criança, consolava-a dizendo-lhe: "Não estejas triste, em breve voltaremos
a ver-nos." Sentia-se calmo, sem medo, desejoso de que aquilo acabasse de vez.
Não muito depois, ou talvez sim, mas ele não se tinha apercebido de quanto tempo havia passado, a porta abriu-se e, do vão, o xerife - com a cara cansada e os olhos
avermelhados como se não tivesse dormido - disse-lhe:
- Se quiser tomar banho, tem de ser agora.
Roger concordou. Quando avançavam para o balneário pelo longo corredor de tijolos enegrecidos, Mr. Stacey perguntou-lhe se tinha conseguido descansar alguma coisa.
Quando Roger lhe disse que havia dormido umas horas, aquele murmurou: "Fico contente por si." Depois, quando Roger antecipava a grata sensação que seria receber
no seu corpo o jorro de água fresca, Mr. Stacey contou-lhe que, à porta da prisão, muitas pessoas, alguns sacerdotes e pastores entre elas, tinham passado toda a
noite a rezar, com crucifixos e cartazes contra a pena de morte. Roger sentia-se estranho, como se já não fosse ele, como se outro estivesse a substituí-lo. Esteve
um bom bocado debaixo da água fria. Ensaboou-se cuidadosamente e enxaguou-se, esfregando o corpo com as duas mãos. Quando regressou à cela, ali estavam já, de novo,
o padre Carey e o padre MacCarroll. Disseram-lhe que o número de pessoas amontoadas às portas da prisão de Pentonville, rezando e agitando cartazes, tinha crescido
muito desde a noite anterior. Um bom número era de paroquianos trazidos pelo padre Edward Murnaue da Igreja da Santíssima Trindade, aonde iam as famílias irlandesas
do bairro. Mas também havia um grupo que dava vivas à execução do "traidor". Estas notícias deixavam Roger indiferente. Os religiosos esperaram fora da cela que
ele se vestisse. Ficou impressionado com o que tinha emagrecido. As roupas e os sapatos dançavam-lhe no corpo.
Escoltado pelos dois padres e seguido pelo xerife e uma sentinela armada, foi à capela da prisão de Pentonville. Não

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a conhecia. Era pequena e escura, mas tinha algo de acolhedor e aprazível no recinto de tecto ovalado. O padre Carey celebrou a missa e o padre MacCarroll fez de
sacristão. Roger seguiu a cerimónia comovido, embora não soubesse se era pelas circunstâncias ou pelo facto de ir comungar pela primeira e última vez. "Será a minha
primeira comunhão e o meu viático", pensou. Depois de comungar, tentou dizer qualquer coisa aos padres Carey e MacCarroll, mas não encontrou as palavras e permaneceu
silencioso, tentando orar.
Ao voltar à cela viu que tinham deixado o pequeno-almoço ao lado da cama, mas não quis comer nada. Perguntou as horas e, desta vez, disseram-lhas: oito e quarenta
da manhã. "Restam-me vinte minutos", pensou. Quase nesse instante, chegaram o director da prisão, juntamente com o xerife e três homens vestidos à civil, um deles
sem dúvida o médico que verificaria a sua morte, um funcionário da Coroa, e o verdugo com o seu jovem ajudante. Mr. Ellis, homem mais para o baixo e fortalhão, vestia
também de escuro, como os outros, mas levava as mangas do casaco arregaçadas para trabalhar com mais comodidade. Trazia uma corda enrolada no braço. Na sua voz educada
e rouca pediu-lhe que pusesse as mãos atrás das costas porque tinha de atá-las. Roger assim fez. Enquanto lhas amarrava, Mr. Ellis fez-lhe uma pergunta que lhe pareceu
absurda: "Estou a magoá-lo?" Negou com a cabeça.
Father Carey e father MacCarroll tinham-se posto a rezar ladainhas em voz alta. Continuaram a rezá-las ao mesmo tempo que o acompanhavam, cada um de seu lado, no
longo percurso por sectores da prisão que ele desconhecia: escadas, corredores, um pequeno pátio, tudo deserto. Roger quase não dava pelos lugares que ia deixando
para trás. Rezava, respondia às ladainhas e sentia-se contente de os seus passos serem firmes e de não lhe escapar nem um soluço nem uma lágrima. De vez em quando
fechava os olhos e pedia clemência a Deus, mas quem lhe aparecia na mente era o rosto de Anne Jephson.

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Por fim saíram para um descampado inundado de sol. Esperava-os um pelotão de guardas armados. Estavam em roda de uma armação quadrada de madeira com umas escadinhas
pequenas de oito ou dez degraus. O director leu qualquer coisa, certamente a sentença, a que Roger não prestou atenção. Depois perguntou-lhe se queria dizer alguma
coisa. Ele negou com a cabeça, mas, entre dentes, murmurou: "Irlanda." Voltou-se para os sacerdotes e os dois abraçaram-no. O padre Carey deu-lhe a bênção.
Então, Mr. Ellis aproximou-se e pediu-lhe que se agachasse para poder vendar-lhe os olhos, pois Roger era demasiado alto para ele. Inclinou-se e quando o verdugo
lhe pôs a venda que o mergulhou na escuridão pareceu-lhe que os dedos de Mr. Ellis eram agora menos firmes, menos donos de si mesmos, do que quando lhe ataram as
mãos. Pegando-lhe no braço, o verdugo levou-o a subir os degraus até à plataforma para que ele não tropeçasse.
Ouviu uns movimentos, rezas dos sacerdotes e, por fim, outra vez, um sussurro de Mr. Ellis pedindo-lhe que baixasse a cabeça e se inclinasse um pouco: "Please, Sir."
Fê-lo e, então, sentiu que ele lhe tinha posto a corda em volta do pescoço. Ainda chegou a ouvir pela última vez um sussurro de Mr. Ellis: "Se contiver a respiração,
será mais rápido." Obedeceu-lhe.


Epílogo


"I say that Roger Casement Did what he had to do. He died upon the gallows, But that is nothing new."

W. B. Yeats


A história de Roger Casement projecta-se, apaga-se e renasce a seguir à sua morte como os fogos-de-artifício que, depois de subirem e rebentarem na noite numa chuva
de estrelas e estrondos, se apagam, calam e, momentos passados, ressuscitam numa atroada que enche o céu de fogo.
Segundo o médico que assistiu à execução, o doutor Percy Mander, esta foi levada a cabo "sem qualquer obstáculo" e a morte do réu foi instantânea. Antes de autorizar
o seu enterro, o doutor, cumprindo ordens das autoridades britânicas que queriam alguma segurança científica relativamente às "tendências perversas" do executado,
procedeu, enfiando para tal umas luvas de plástico, à exploração do ânus e do começo do intestino. Comprovou que, "à primeira vista", o ânus mostrava uma clara dilatação,
tal como "a parte inferior do intestino, até onde chegavam os dedos da minha mão". O médico concluiu que esta exploração confirmava "as práticas a que supostamente
o executado era dado".
Depois de serem submetidos a esta manipulação, os restos de Roger Casement foram enterrados sem lápide, nem cruz, nem iniciais, junto ao túmulo também anónimo do
doutor Crippen, um célebre assassino executado há já algum tempo. O monte de terra informe que foi a sua sepultura era contíguo ao roman way, o carreiro pelo qual
no começo do primeiro milénio da nossa era entraram as legiões romanas para civilizar

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aquele lugar perdido da Europa que seria mais tarde a Inglaterra.
Depois, a história de Roger Casement pareceu eclipsar-se. As diligências perante as autoridades britânicas empreendidas pelo advogado George Gavan Duffy em nome
dos irmãos de Roger para que os seus restos mortais fossem entregues aos seus familiares a fim de lhes dar sepultura cristã na Irlanda, foram indeferidas, naquele
momento e em todos os outros ao longo de meio século, cada vez que os seus parentes fizeram tentativas semelhantes. Durante muito tempo, excepto um número restrito
de pessoas - entre eles o verdugo, Mr. John Ellis, o qual, no livro de memórias que escreveu pouco antes de se suicidar, deixou dito que "de todas as pessoas que
tive de executar, a que morreu com mais coragem foi Roger Casement" -, este desapareceu da actualidade jornalística e da atenção pública, em Inglaterra e na Irlanda.
Demorou muito tempo a ser admitido no panteão dos heróis da independência da Irlanda. A sinuosa campanha lançada pela Inteligência Naval Britânica para o desprestigiar,
utilizando fragmentos dos seus diários secretos, teve êxito. Nem mesmo agora se dissipa totalmente: uma auréola sombria de homossexualidade e pedofilia acompanhou
a sua imagem ao longo de todo o século XX. A sua figura incomodava no seu país porque a Irlanda manteve oficialmente, até há poucos anos, uma moral severíssima segundo
a qual a simples suspeita de "pervertido sexual" afundava uma pessoa na ignomínia e expulsava-a da consideração pública. Em boa parte do século XX o nome, as façanhas
e as penúrias de Roger Casement ficaram confinados em ensaios políticos, artigos jornalísticos e biografias de historiadores, muitos deles ingleses.
Com a revolução dos costumes, principalmente no domínio sexual, pouco a pouco, embora sempre com reticências e escrúpulos, o nome de Casement foi abrindo caminho
na Irlanda até ser aceite como quem foi: um dos grandes lutadores anti-colonialistas e defensores dos direitos humanos e das culturas

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indígenas do seu tempo e um sacrificado combatente pela emancipação da Irlanda. Lentamente, os seus compatriotas foram-se resignando a aceitar que um herói e um
mártir não é um protótipo abstracto nem um modelo de perfeições, mas sim um ser humano, feito de contradições e de contrastes, fraquezas e grandezas, dado que um
homem, como escreveu José Enrique Rodó, "é muitos homens", o que quer dizer que anjos e demónios se misturam na sua personalidade de maneira intricada.
Nunca cessou nem provavelmente cessará a controvérsia sobre os chamados Black Diaries. Existiram mesmo e Roger Casement escreveu-os pelo seu punho e com a sua letra,
com todas as suas obscenidades pestilentas, ou foram falsificados pelos serviços secretos britânicos para executar também moral e politicamente o seu antigo diplomata,
a fim de dar um castigo exemplar e dissuadir os potenciais traidores? Durante dezenas de anos o Governo inglês recusou-se a autorizar que historiadores e grafólogos
independentes examinassem os diários, declarando-os segredo de Estado, com o que deu pretexto a suspeitas e argumentos a favor da falsificação. Quando, há relativamente
poucos anos, se levantou o segredo e os investigadores puderam examiná-los e submeter os textos a provas científicas, a controvérsia não cessou. Provavelmente prolongar-se-á
por muito tempo. O que não é mau. Não é mau que exista sempre um clima de incerteza em torno de Roger Casement, como prova de que é impossível chegar a conhecer
de forma definitiva um ser humano, totalidade que escorrega sempre de todas as redes teóricas e racionais que tentam capturá-la. A minha própria impressão - a de
um romancista, claro está - é que Roger Casement escreveu os famosos diários, mas não os viveu, pelo menos não integralmente, que há neles muito de exagero e ficção,
que escreveu certas coisas porque gostaria, mas não pôde vivê-las.
Em 1965, o Governo inglês de Harold Wilson permitiu por fim que os ossos de Casement fossem repatriados. Chegaram à Irlanda num avião militar e receberam homenagens
públicas a 23 de Fevereiro desse ano. Estiveram expostos quatro

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dias numa capela ardente da Igreja do Sagrado Coração como os de um herói. Uma afluência enorme calculada em várias centenas de milhares de pessoas desfilou por
ela para lhe apresentar a sua última homenagem. Houve um cortejo militar para a Igreja de Santa Maria conhecida como Pró-Catedral e prestaram-lhe honras militares
em frente do histórico edifício da Estação Central dos Correios, quartel-general da revolta de 1916, antes de levarem o seu caixão para o Cemitério de Glasnevin,
onde foi enterrado numa manhã chuvosa e cinzenta. Para pronunciar o discurso de homenagem, Eamon de Valera, o primeiro presidente da Irlanda, combatente destacado
da insurreição de 1916 e amigo de Roger Casement, levantou-se do seu leito de agonizante e disse as palavras emocionadas com que é costume despedirmo-nos dos grandes
homens.
Nem no Congo nem na Amazónia ficou rasto de quem tanto fez por denunciar os grandes crimes que se cometeram naquelas terras nos tempos da extracção da borracha.
Na Irlanda, espalhados pela ilha, restam algumas recordações dele. No cume do glett de Glenshesk, no Antrim, que desce até à pequena baía de Murlough, não muito
longe da Magherintemple House, o Sinn Fein fez-lhe um monumento que os radicais unionistas da Irlanda do Norte destruíram. Ali ficaram espalhados pelo chão os fragmentos.
Em Ballyheigue, Co. Derry, numa pequena praçazinha em frente ao mar, ergue-se a escultura de Roger Casement esculpida pelo irlandês Oisin Kelly. No Kerry County
Museum de Tralee está a câmara fotográfica que Roger levou no ano de 1911 na sua viagem à Amazónia e, se o visitante pedir, pode ver também o casaco tosco de feltro
com que se agasalhou no submarino alemão U-19 que o trouxe para a Irlanda. Um coleccionador privado, Mr. Sean Quinlan, tem na sua casinha de Ballyduff, não muito
longe da foz do Shannon no Atlântico, um bote que (garante ele enfaticamente) é o mesmo em que desembarcaram em Banna Strand Roger, o capitão Monteith e o sargento
Bailey. No colégio de língua gaélica Roger Casement, de Tralee, o gabinete do director exibe o prato

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de cerâmica onde Roger Casement comeu, no pub Seven Stars, nos dias em que foi ao Tribunal de Apelação de Londres que decidiu sobre o seu caso. No Forte McKenna
há um pequeno monumento em gaélico, inglês e alemão - uma coluna de pedra preta - onde se recorda que ali foi capturado pelo Royal Irish Constabulary, a 21 de Abril
de 1916. E em Banna Strand, a praia aonde chegou, ergue-se um pequeno obelisco em que aparece a cara de Roger Casement ao lado da do capitão Robert Monteith. Na
manhã em que fui vê-lo estava coberto com a caca branca das gaivotas barulhentas que esvoaçavam em volta e viam-se por todo o lado as violetas selvagens que tanto
o emocionaram naquele amanhecer em que voltou à Irlanda para ser capturado, julgado e enforcado.


Madrid, 19 de Abril de 2010.


Agradecimentos

Não teria podido escrever este romance sem a colaboração, consciente ou inconsciente, de muitas pessoas que me ajudaram nas minhas viagens pelo Congo e pela Amazónia,
e na Irlanda, Estados Unidos, Bélgica, Peru, Alemanha e Espanha, me enviaram livros, artigos, me facilitaram o acesso a arquivos e bibliotecas, me deram testemunhos
e conselhos e, sobretudo, o seu alento e a sua amizade quando me sentia desfalecer perante as dificuldades do projecto que tinha entre mãos. Entre elas, quero destacar
Verónica Ramirez Muro pela sua ajuda inestimável no meu percurso pela Irlanda e na preparação do manuscrito. Só eu sou responsável pelas deficiências deste livro,
mas sem estas pessoas teriam sido impossíveis os seus eventuais acertos. Muito obrigado a:
No Congo: coronel Gaspar Barrabino, Ibrahima Coly, embaixador Félix Costales Artieda, embaixador Miguel Fernández Palacios, Raffaella Gentilini, Asuka Imai, Chance
Kayijuka, Placide-Clement Mananga, Pablo Marco, padre Burumi Mina-vi, Javier Sancho Más, Karl Steinecker, Dr. Tharcisse Synga Ngundu de Minova, Juan Carlos Tomasi,
Xisco Villalonga, Emile Zola e os Poetas da Renovação de Lwemba. Na Bélgica: David Van Reybrouck. Na Amazónia: Alberto Chirif, padre Joaquin Garcia Sánchez e Roger
Rumrill.

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Na Irlanda: Christopher Brooke, Anne e Patrick Casement, Hugh Casement, Tom Desmond, Jeff Dudgeon, Sean Joseph, Ciara Kerrigan, Jit Ming, Angus Mitchell, Griffin
Murray, Helen O'Carroll, Séamas O'Siochain, Donal J. O'Sullivan, Sean Quinlan, Orla Sweeney e pessoal da Biblioteca Nacional da Irlanda e do Arquivo Nacional de
Fotografia.
No Peru: Rosario de Bedoya, Nancy Herrera, Gabriel Meseth, Lucía Muhoz-Nájar, Hugo Neira, Juan Ossio, Fernando Carvallo e pessoal da Biblioteca Nacional.
Em Nova Iorque: Bob Dumont e pessoal da Biblioteca Pública de Nova Iorque.
Em Londres: John Hemming, Hugh Thomas e pessoal da Biblioteca Britânica.
Em Espanha: Fiorella Battistini, Javier Reverte, Nadine Tchamlesso, Pepe Verdes, Antón Yeregui e Muskilda Zancada.
Héctor Abad Facionlince, Ovidio Lagos e Edmundo Murray.


Quando Mário Vargas Llosa nasceu, em Março de 1936 -em Arequipa, no Peru -, os seus pais estavam separados. Fez os estudos de primeiras letras na Bolívia e regressa
ao
Peru em 1945, altura em que, finalmente, conhece o seu pai. Aos 17 anos decide estudar Letras e Direito e, no ano seguinte, casa com a sua tia Julia Urquidi - assegurando
a subsistência com trabalhos muito diversos, desde conferir e rever os nomes das lápides dos cemitérios até escrever para rádio ou catalogar livros. Em 1959 abandona
o Peru e, graças a uma bolsa, ingressa na Universidade Complutense de Madrid, onde conclui um doutoramento que lhe permite cumprir o sonho de, um ano depois, se
fixar em Paris, onde, sempre próximo da penúria, foi locutor de rádio, jornalista e professor de espanhol - tinha apenas publicado um primeiro livro de contos. Regressa
ao Peru em 1964, divorcia-se de Julia Urquidi e casa no ano seguinte com a sua prima Patrícia Llosa, com quem parte para a Europa em 1967 (depois de ter publicado
A Casa Verde, em 1966), tendo vivido até 1974 na Grécia, em Paris, Londres e Barcelona - após o que regressa ao Peru. O seu afastamento em relação ao regime de Havana
(que visitara pela primeira vez em 1965) irá marcar toda a sua biografia política e literária a partir de 1971, dois anos depois da publicação de Conversa na Catedral.
Em Lima pode, finalmente, dedicar-se em exclusivo à literatura e ao jornalismo, nunca abandonando uma intervenção política que o levou a aceitar a candidatura à
presidência da República em 1990. Vive em Londres desde essa época, escrevendo romances, ensaios literários, reportagens e percorrendo o mundo como professor visitante
em várias universidades. Entre os muitos prémios que recebeu contam-se o Rómulo Gallegos (1967), o Príncipe das Astúrias (1986) ou o Cervantes (1994). Foi distinguido
com o Prémio Nobel da Literatura em 2010.


Data da Digitalização


Janeiro de 2011







Senhor, dai-me força para mudar o que pode ser mudado...

Resignação para aceitar o que não pode ser mudado...

E sabedoria para distinguir uma coisa da outra.

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