sábado, 10 de setembro de 2022 0 comentários By: Fred

{clube-do-e-livro} OBREIROS DA VIDA ETERNA - ANDRÉ LUIZ


         Neste livro André Luiz  sob a Orientação do instrutor Jerônimo é guiado numa missão na crosta terrestre, onde irá aprender e  ajudar nos trabalhos de desencarnação de colaboradores do bem

4)Obreiros da Vida Eterna

Livro Anexo

 



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{clube-do-e-livro} Lançamento: O Estranho Hábito de Viver -José Louzeiro - Formatos : epub,pdf,txt e mobi

O ESTRANHO
H�BITO DE VIVER



Do autor:

Depois da Luta, contos

Organiza��es Sim�es, 1958
Acusado de Homic�dio e
Ponte Sem A�o (um s� volume), novelas

Savio Antunes, 1960
Assim Marcha a Fam�lia, reportagens

em colabora��o com Sylvan Paezzo, Luciano

Alfredo Barcellos, Arthur Jos� Poerner,
Edson Braga e Agostinho Seixas

Civiliza��o Brasileira, 1965

Andr� Rebou�as, estudo biogr�fico
Edi��es Tempo Brasileiro, 1968
Judas Arrependido, contos
Jos� �lvaro, Editor, 1968
L�cio Fl�vio, o Passageiro da Agonia, romance
1.� edi��o � Civiliza��o Brasileira, 1975
2.� edi��o � Editora Record, 1977
Aracelli, Meu Amor, romance
Civiliza��o Brasileira, 1976
Inf�ncia dos Mortos, romance
Editora Record, 1977
Acusado de Homic�dio, novela
2.� edi��o � Edi��es Nosso Tempo, 1977
Os Amores da Pantera, romance

Edi��es Nosso Tempo, 1977
O Estrangulador da Lapa, novela
Cedibra, 1976
Inimigos Mortais, novela
Cedibra, 1976
Sociedade Secreta, novela
Cedibra, 1976
Moedas de Sangue, novela
Cedibra, 1976
O Internato da Morte, novela
Cedibra, 1976


JOS� LOUZEIRO


O ESTRANHO
H�BITO DE VIVER


ROMANCE



Copyright � 1978 by Jos� Louzeiro

FICHA CATALOGR�FICA

CIP-Brasil. Cataloga��o-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.



Direitos desta edi��o reservados pela
DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVI�OS DE IMPRENSA S.A.
Av. Erasmo Braga, 255 � 8.� andar � Rio de Janeiro, RJ


Impresso no Brasil


A Elia Ferreira Edel
que leu este livro antes de mim
Ruth Houaiss e Raquel Babenco
que ainda se decepcionam com nossa realidade
Laura Sandroni e Egl� Malheiros
que tanto fazem pelas crian�as
N�lida Pinon e Th�a Fonseca
conquistando terras para a intelig�ncia.

A Ana L�cia, K�tia, Maria Helena,
Virg�nia e Leonor
amigas e mulheres de irm�os meus:
Carlos Eduardo Novaes, Ild�sio Tavares,
Ely Azevedo, Jorge Dur�n, Leopoldo Serran.

J. L.

Cap�tulo I

UM

Toninho acompanha o clar�o do amanhecer, estirado nas areias
brancas da praia deserta. Ouve o ru�do das ondas quebrando-se, v�
as gaivotas soltas no ar, seguindo a trilha dos cardumes. E, n�o sabe
por que, pensa numa �poca recuada, quando o areal deveria ser bem
mais extenso e por ali tudo existiriam coqueiros e amendoeiras. As
�nicas pessoas seriam os �ndios. E o que foi feito deles? 0 que aconteceu?
Como sumiram daquele lugar t�o calmo? Toninho fixa-se
nos trechos onde a bruma se esgar�a, tem a n�tida impress�o de ver
jovens �ndias, esbeltas e nuas, caminhando na beira d�gua, p�s cobertos
de espumas, rostos morenos salpicados de ventos e de mar. 0 que
houve com essas �ndias? Quantas vezes ter�o passado por ali, exatamente
onde est� agora, pensando em tanta maluquice e ao mesmo
tempo n�o pensando em nada?

Buzinadas de carros nas pistas asfaltadas chegam-lhe aos ouvidos,
quase encobertas pelos ru�dos das ondas fortes, que batem nas
rochas, esparramam-se na areia, deixando uma esteira de bolhas a
refletir as cores do dia que vai nascendo. Toninho acha que as bolhas
s�o sementes do mar. Sementes como aquelas em que o pai vivia
falando: guando e jurubeba. Achava gra�a das id�ias do pai. Guando
e jurubeba. Quem saberia ao menos o que vinha a ser isso? 0
velho se dava ao trabalho de explicar. Baixava o r�dio de pilha, a
m�e ocupada com as panelas, o velho se alongando: depois de um
certo tempo se deixa este morro, compra um peda�o de terra, seja onde
for, come�a a planta��o. A� tu vai ver o que � guando de verdade.
Tem tanto valor quanto o feij�o e a ervilha. J� a jurubeba ainda �
mais valiosa. Seu Tom�, da farm�cia, compra toda a produ��o que
se tiver, a quilo. � tiro e queda pra quem sofre do peito. Tua m�e
j� teve ruizinha e quem levantou ela foi xarope de jurubeba.

Toninho tem vontade de rir: de estar ali, de ver �ndias que n�o
existiam, de recordar as ingenuidades do pai. Ser� que teria mesmo



coragem de se meter nos cafund�s pra dar uma de lavrador? Era capaz,
sim! O pai era um homem s�rio. S� discutia com a m�e quando
achava que ela andava gastando g�s e luz demais, com os tais bolos
de fub� e o mingau de milho. Fora disso, estendia-se na cama, tirava
sons de uma velha gaita. Ao ser convocado como tratorista para a
constru��o da rodovia, chegou uma noite todo animado. Trouxe o
garraf�o de vinho, meio quilo de queijo. A� foi a m�e quem reclamou
da extravag�ncia.

� Esquece, mulher! Vou ganhar cinco a mais por hora e ainda
posso dobrar tr�s dias na semana.
Passou a m�o na cabe�a de Toninho, fez a promessa que n�o
chegou a cumprir:

� Dessa vez compro a bicicleta. E n�o vai ser de segunda m�o.
Te levo numa loja bacana, escolhe a que quiser.
Se tivesse a bicicleta era prov�vel que n�o chegasse nunca �quela
praia. Teria pedalado horas e horas pelas ruas e estradas, at� encontrar
o pai.

Cruza as m�os por baixo da cabe�a, acompanha a gaivota que
despencou das alturas, num rapid�ssimo mergulho, penetrou fundo na
�gua. Depois, bate as asas, torna a erguer-se, majestosamente leve,
naquele amanhecer de brisas frescas.

Distante, o vulto de um homem. Seria o pai? Como soubera estar
por ali? Imposs�vel! Era algum pescador ou um velhote qualquer que
sonha prolongar a vida dando caminhadas ao alvorecer. N�o podia ser

o pai. Saiu pra chamar a ambul�ncia, vov� Jandira tava aflita, a
m�e arroxeando nos p�s e nas m�os sobre o colch�o ordin�rio, com
grandes buracos deixando o capim seco da forra��o aparecer. Por que
n�o foi com o pai? Bem que convidou, mas preferiu ficar cuidando
da m�e. E de que adiantou? Se vov� Jandira que sabia de uma por��o
de rem�dio n�o deu jeito, o que � que ele podia fazer? Um arrependimento
do qual n�o poderia livrar-se. Deveria ter ido com o velho.
Saberia direito o que fizeram com ele. N�o era verdade que
aproveitou a oportunidade para se mandar. Algumas pessoas no morro
faziam esse coment�rio, n�o acreditava. Inteiramente imposs�vel! O
velho n�o faria uma coisa dessa, logo naquela fase em que conseguira
o lugar de tratorista e estava ganhando cinco a mais por hora, fora os
extraordin�rios. Colher de Pau e Enfezado pensavam do mesmo jeito.
Duvido que seu Ven�ncio tenha feito isso. Era bacana �s pampa.
Te lembra do dia que deu dinheiro pra gente comprar linha e pipa?
Quem faz siso? Colher de Pau tinha raz�o. Alguma coisa de muito
grave aconteceu com o velho. Enfezado tava errado. S� pensava no
pior. Foi assim desde que o conheci. Qualquer dica que dava, l� vinha
coisa feia. Aquele neg�cio de dizer que os pintas da pol�cia botaram
a m�o no velho, n�o colava. Tinha documentos, carteira assinada
e tudo, dedos cheios de calos, n�o brincava em servi�o. Quem ia

confundir o pai com um vagabundo? S� mesmo se os pintas tivessem
a fim de uma grana. A�, pode ser que Enfezado tenha raz�o.

Toninho levanta da areia, sacode a roupa, amarra os cord�es dos
sapatos, examina os bolsos do blus�o de couro. Tinha orgulho dele.
Era, na verdade, a coisa mais importante que possu�a.

Quando vestia, as garotas o olhavam como se fosse gente, como
se n�o tivesse descido de um morro, onde era igual a Colher de Pau,
Enfezado, Banz� e tantos mais. Por isso ag�entava aquela amizade
com a bicha. Detestava ter de passar horas e horas com ela, mas era
uma forma de sobreviv�ncia. Como quem vende doce em porta de
cinema, entrega embrulho, varre rua e limpa latrina. A bicha aparecia
duas, tr�s vezes por semana, no resto do tempo tirava folga. Pegava
uns caraminguados, ia dando pro gasto. Se queria um sapato,
uma cal�a nova, uma camisa, n�o precisava nem pedir. Marlene era
a primeira a observar: detesto homem sujo. fedendo a suor. Pra te
juntar comigo tem de estar em ordem, nem que me acabe de trabalhar
na cozinha daquele restaurante infecto.

Cada encontro era precedido de um presente. Sempre umas porcarias,
que Toninho desconfiava serem adquiridas em tabuleiros de
camel�. Mas cavalo dado n�o se olha os dentes e Toninho sabia que
depois de duas, tr�s horas de chatea��o, ainda recebia a c�dula de
cem, ou at� mesmo de quinhentos. 0 que n�o estava mais ag�entando
era aquela ciumada de Marlene. Afinal, qual era a dela? Por
acaso pensava que fosse passar a vida toda naquela engrupi��o? Pois
estava enganada. O dia que bolasse um meio de arrancar dinheiro,
ia cair fora. Nunca mais desejaria v�-la. Como era repelente Marlene.
Sua maneira de falar enjoada, a frescura crescente, sempre que estava
com Toninho e deles se aproximavam alguns homens. Parece que a
bicha queria se exibir. Queria dizer: olhem a�, bandos de imbecis;
vejam s� o garot�o que fisguei. E quero ver s� quem vai tomar ele
de mim. Era isso que aquela sacaneta pensava e. pelo visto, tinha raz�o.
N�o conseguira livrar-se dela, para perd�-la teria de abrir m�o
tamb�m do dinheiro e dos presentes que recebia.

Certa madrugada, deitado ao lado de Marlene, um pensamento
estranho alarmou Toninho. Havia fumado alguns cigarros, cansara
de bolar a f�rmula de encontrar o pai, imaginara retornar ao morro,
mas nada disso falava com Marlene. N�o queria a bicha envolvida nos
seus problemas �ntimos. 0 relacionamento com ela era puramente
f�sico. Dava o que exigia e ponto final. 0 papo se limitava a coisas
vagas. A praia, o jantar na lanchonete, a ida ao cinema, ocasi�o em
que Marlene tentava exibir-se e Toninho se exasperava. Logo que
a sala de proje��o ficava escura, n�o tinha como livrar-se. A bicha
escorregava a m�o por entre suas pernas, segurava-o com prazer, �s
vezes abria-lhe os bot�es da cal�a, apertava-o carinhosamente, suspirava,
estremecia. Toninho esquivava-se, temendo que as pessoas do lado


estivessem vendo aquela sem-vergonhice. Se o filme tinha seq��ncias
er�ticas � e era desses que Marlene mais gostava � quando retornavam
ao apartamento as exig�ncias da bicha davam nojo. Chateava o
tempo todo para que Toninho repetisse cenas id�nticas. Se o garoto
se recusava, fazia cara de choro, mostrava-se nervosa, agressiva.

� Vou acabar com tua boa vida. Tenho muito macho pra botar
no teu lugar. Se pensa que n�o, t� enganado!
Toninho estendia-se na cama, Marlene ajeitava sobre ele, beijava-
o, mordia-o, gemia e grunhia, numa prolongada crise hist�rica. Toninho
n�o sentia nada. Tinha de manter-se rijo o tempo todo, a fim
de que Marlene n�o invocasse.

Quando cansava, o suor escorrendo-lhe pelo corpo magro e peludo,
estendia-se ao lado de Toninho.

� Por que n�o gosta um pouco de mim? Por mais que fa�a, ser�
que n�o mere�o?
Toninho esbo�ava gestos vagos com a cabe�a, mexia as m�os, dizia
coisas que n�o faziam sentido. Marlene compreendia: s� o dinheiro
os mantinha unidos. Toninho n�o era o garoto que imaginava. E
como saber se encontraria outro que fosse a seu gosto? As d�vidas
assaltavam Marlene. Acendia um cigarro atr�s do outro, ficava fumando,
enquanto olhava o teto escuro do m�sero apartamento. Quando
Toninho j� estava mais dormindo do que acordado, levantava-se, ia
ao banheiro, dava descarga, retornava, punha-se a brincar com o corpo
nu do amante. Toninho reclamava, Marlene sorria:

� Pode dormir. Se fico brincando, assim, acho at� que o sono
chega mais depressa. Ou minhas m�os t�o te arranhando?
Toninho j� sabia. Marlene ia chegando o rosto cada vez mais
perto, mais perto, sentia o h�lito quente na barriga e nas virilhas, a
bicha se contorcia. Toninho n�o tinha como dormir. Segurava-a pelos
cabelos, pelas orelhas, a luta prolongava-se por alguns minutos, depois
Marlene se afastava, o garoto sentia o corpo mole, o sono pesando-lbe
nas juntas. Acordava com o sol quente. Marlene j� fizera o caf�,
mandava que se apressasse. Sua colega de apartamento n�o gostava de
companhias estranhas.

� Como � ela?
Marlene fazia blague.
� Se se comportar direitinho a semana toda, vou arranjar um
jeito
de fazer a apresenta��o.
Toninho desconfiava.

� Vai ver, � tua parceira do restaurante.
A bicha fazia ar de deboche.
� Pois t� enganado. � gente fina. Do mundo art�stico. S� de
pensar, tenho inveja.
O tempo foi passando, passando, e nunca Marlene apresentou a
colega. Agora, metendo-se naquele blus�o, que sabia ter custado uma


nota, percebia estar em condi��es de exigir. Se atiraria na cama. esperaria
Marlene aparecer, proporia amor a tr�s. E por que n�o? Qual
seria o problema de Marlene em n�o topar? Remexeu nos bolsos, encontrou
alguns trocados, lembrou-se de comprar-lhe uma lembran�a.
Entregaria o presente citando palavras c�nicas: passo o tempo todo
pensando em voc�. Marlene aceitaria, mesmo sabendo que aquilo tudo
era deslavada mentira. Mas sorriria, mostrando os dentes amarelos, o
rosto magro, olhos cansados.

Quando conseguisse dinheiro suficiente, iria ao morro. Convocaria
Colher de Pau e Enfezado, procurariam mais uma vez pelo velho.
Cada um iria para um canto da cidade. Se depois de uma semana
n�o achassem, ent�o � porque n�o havia mesmo jeito. �s vezes sentia
vontade de falar disso com Marlene, indagar se tinha algum amigo
influente que pudesse ajudar. N�o queria que soubesse de suas
particularidades. Isso seria ainda mais repugnante. N�o gostaria que
Colher de Pau e Enfezado desconfiassem de como obtinha dinheiro.

DOIS

Senta no banco da lanchonete, o homem de blus�o azul e bon�
da mesma fazenda coloca o suco de laranja e o sandu�che de queijo �
sua frente. Pega o sandu�che com ambas as m�os, morde com vontade,
n�o engole logo porque est� quente demais. Vira um pouco de
suco por cima, engole quase sem mastigar. Termina o sandu�che,
pede outro. Desta vez vai comendo mais devagar. Olha os que se
movimentam no estreito espa�o da lanchonete, as pessoas que entram,
as que passam, as que chegam para comprar cigarros. Lembra estar
precisando de cigarros e tamb�m de um isqueiro. 0 homem de bon�
azul rabisca rapidamente a conta, d� um grito de indica��o para o
caixa:

� Doze e cinq�enta.
� Uma carteira de Continental com filtro e um isqueiro.
O homem p�ra de apertar as teclas da registradora, n�o parece
animado com o pedido do fregu�s. De qualquer forma exp�e uma por��o
de isqueiros sobre o ex�guo balc�o com tampo de vidro.

� Qual deles vai?
Toninho sabe que n�o h� tempo a perder.
� Esse aqui!
0 homem n�o diz nada. N�o faz qualquer coment�rio. Acrescenta
a import�ncia do isqueiro e do cigarro aos doze e cinq�enta, afirma
em voz alta:

� Trinta e quatro e oitenta!

Remexe nos bolsos, v� o quanto fora imprudente. Estava apenas
com cento e cinq�enta. Faz o pagamento, recolhe os trocados,
vai embora, o cigarro aceso, a satisfa��o de ter tomado um bom suco
de laranja, ter comido dois sandu�ches.

Ap�s alguns passos, completamente sem rumo, decide que o correto
seria tomar o caminho do Morro da Babil�nia. Por l� encontraria
vov� Jandira, tornaria a rever o barraco, tentaria localizar Colher
de Pau e Enfezado. Afinal, quanto tempo fazia? Quase imposs�vel
lembrar. Quando descesse, j� bem tarde, encontraria Marlene. Pediria
que se virasse para conseguir pelo menos quinhentos. Nada de pelenga
de cem. Estava cheio disso. Se precisasse, encheria a bicha de
porrada. Teria de ser quinhentos ou nada. Com o dinheiro daria um
al� mais firme aos camaradas. E as buscas seriam reiniciadas. Desta
vez pra valer. Talvez fosse at� bom ir � reda��o de um jornal, dizer
como era o pai.

Com todos esses pensamentos confusos Toninho p�e-se a subir a
rua tortuosa, ladeirenta, passa por um trecho onde a rocha fora rompida
a dinamite e agora a �gua esguichava dia e noite, entra na viela
de capim alto, de arbustos, avista os primeiros barracos, mulheres estendendo
roupas nas cercas, um tamborim que retine distante, n�o
sabe bem para que lado, crian�as correndo atr�s do cachorro com um
peda�o de pau, o sol quente lavando as encostas.

Chega ao barraco de vov� Jandira, duas ou tr�s roseiras por tr�s
da cerca, casquinhas de ovo enfiadas nas pontas das varas, um casal
de patos, o galo pesco�o pelado, as galinhas poedeiras, vov� Jandira se
esfor�ando para reconhec�-lo.

� N�o se lembra? � o Toninho!
� Deus do c�u � diz a velha. � Como ando com a vista ruim.
Toninho vai entrando, senta na cadeira de assento furado, vov�
Jandira oferece caf�.

� N�o se preocupe. S� tava querendo saber das novidades e
dar uma olhada no barraco dos velhos.
� Novidade n�o tem nenhuma, filho. Desde que seu Ven�ncio
sumiu e dona Mundi�a se foi, n�o soube de mais nada. �s vezes fico
a noite inteira acordada, pensando. Como pode uma fam�lia se acabar
assim, sem mais nem menos?
Os olhos de vov� Jandira se enchem de l�grimas, tornam-se vermelhos,
ela disfar�a, Toninho faz que n�o v�. A velha levanta, p�e
�gua no fogo, retorna for�ando um sorriso.

� E voc�, filho de Deus, o que tem feito?
Encolhe os ombros, como se n�o tivesse muito a dizer.
� Andado por a�!
� Conseguiu emprego?
� Coisa nenhuma. Ningu�m tem nada certo pra oferecer. E
sem documentos, sem nada, fica mais dif�cil.

Vov� Jandira traz a x�cara de caf�, Toninho toma. Pede a chave
do barraco, ela tira da parede, onde est� pendurada num prego.

� Uma vez por semana vou l�, varro, dou uma espanada nos
m�veis, tiro as teias de aranha. Mas n�o sei at� quando isso vai ser
poss�vel. Outro dia j� havia uns malandros querendo se instalar. Mais
cedo ou mais tarde vai ter de ficar morando l�, de vez.
Toninho sacode a cabe�a. A sugest�o o assusta. Continua a sacudir
a cabe�a, negativamente.

� Nada disso, vov�. N�o pretendo morar no barraco. Me lembra
uma por��o de coisa. A n�o ser que descubra o paradeiro do pai.
A� tudo pode ser como antes, mesmo sem a m�e.
Vov� Jandira acompanha o garoto at� o jardinzinho, onde crescem
roseiras esgani�adas e as cascas de ovo est�o na ponta das estacas.
Toninho desce pela viela, abre a porta do barraco, entra devagar,
como se temesse surpresas. Num instante est� de volta ao passado: a
mesa com uma perna destroncada, que o pai sempre prometia consertar
num final de semana, a gaiola vazia, as cascas de laranja penduradas
no fumeiro, para dar sorte, o vaso com a planta que terminou
secando. Abre o ba�, coberto de couro ressequido, respira cheiro de
mofo. Mexe nos pap�is, nos retratos, nos cadernos de anota��es que a
m�e vivia fazendo. Folheia um dos cadernos, l� estava anotado o dia
em que o pai come�ara como tratorista na rodovia, ganhando cinco a
mais por hora. Numa outra p�gina, os c�lculos do dinheiro que poderia
receber num m�s, acrescidos das horas extras. Tudo direitinho,
tudo em ordem. Como a m�e se preocupava com os menores detalhes,
e como nunca prestara aten��o a isso. Remexe nos pap�is, encontra a
fotografia do pai, j� bastante amarelecida. Da m�e n�o acha uma �nica
foto. Fecha o ba�, tem vontade de sair logo dali, ir embora para
longe, onde as recorda��es n�o o pudessem alcan�ar. Mas, no c�modo
seguinte est� a cama estreita. Foi nela que viu pela �ltima vez a
m�e, p�s e m�os arroxeando, vov� Jandira fazendo compressas, molhando
o pano na �gua quente e se agoniando nas aplica��es. Havia
momentos em que vov� Jandira chamava dona Mundiquinha, como
se j� temesse que n�o estivesse mais ouvindo. Como era boa vov� Jandira.
Como se sacrificava. E como teria sido doloroso, se nemcom
ela tivesse podido contar. O pai agoniado, enfiando a camisa e os
sapatos, indo embora �s pressas.

� Toma conta da m�e que volto j� com o m�dico!
O que aconteceu com o pai? Teria abandonado a m�e exatamente
naquele momento? N�o podia acreditar. N�o havia motivo. Levaria
aquela foto amarelada a uma reda��o de jornal. Convidaria Colher
de Pau para ir junto. Se n�o pudesse, trataria de localizar Enfezado.
Mete a foto no bolso do blus�o, torna a fechar a porta do barraco,
retorna ao casebre de vov� Jandira,


� Se aparecer algum malandro pra invadir o barraco, diga que
vai ajustar conta comigo.
Vov� Jandira ouve o menino falar daquele jeito, n�o d� resposta.
Sabe que se um malandro ou dois resolvessem ocupar o barraco
n�o teria o que fazer, a n�o ser aceitar as desculpas que dessem.

Toninho tira o casaco, p�e nas costas, vai seguindo pela viela de
sol, que se eleva, at� tornar-se ladeira �ngreme, onde ficavam os barracos
mais bem constru�dos da favela, alguns com as paredes principais
de alvenaria, pintados de azul, amarelo, branco. Depois desses
barracos, que pertenciam a um cabo de pol�cia, a dois bicheiros, a um
motorista de pra�a e � dona de um rendez-vous no Mangue � que
vinha a birosca de seu Greg�rio. Mais de perto Toninho verifica a
melhoria que o negociante fizera no estabelecimento. De um lado, no
sal�o ainda por concluir, tijolos das paredes aparecendo, as portas fora
do lugar, estavam instaladas duas mesas de sinuca. Se lembra de ter
ouvido seu Greg�rio falar muitas vezes nisso. Uma vez convidou o
pai para participar do empreendimento. O pai chegou em casa e comentou.
Mas disse que n�o levava jeito nos neg�cios. 0 melhor era
continuar como tratorista, fazer umas economias, depois se mandar
para o interior, onde compraria o peda�o de terra, trataria da planta��o
de guando e jurubeba. �s vezes a m�e achava gra�a nos projetos
que fazia, pois ele n�o admitia que no tal peda�o de terra fosse
plantado sequer um tomateiro. Depois de muita discuss�o, um dia
admitiu: v� l�; se se tiver tempo, eu bolo um canteiro bem grande e
tamb�m um jirau. A� se mete umas hortali�as e pode at� manter um
tanque pra agri�o. Mas a maior parte do tempo se vai estar ocupado
com o guando e a jurubeba.

Toninho entra na birosca, seu Greg�rio sorri quando o v�, o garoto
sente que o riso � sincero.

� Como andam as coisas, rapaz? Por que n�o procura mais a
gente? Filho de amigo meu � meu filho tamb�m. Tamos aqui pro que
der e vier. N�o entro naquela de acreditar que seu Ven�ncio se bandeou.
Existe alguma coisa acima da nossa compreens�o que merece
esclarecimento. Esse mundo � pior do que qualquer um de n�s pode
imaginar. N�o me passa pela cabe�a que seu Ven�ncio tenha deixado
comadre Mundiquinha daquele jeito e se pirado.
Toninho entende que seu Greg�rio ainda est� tocado com o fato,
� capaz de alongar-se. Por isso decide cortar a conversa, que j� n�o
faz sentido, que o machuca por dentro, enerva-o e, �s vezes, amea�a
deixar-lhe sem respira��o. N�o sabe por. que, sempre que pensa
nos acontecimentos que se sucederam de forma t�o r�pida, o cora��o
dispara e sente como se fosse ficar impedido de respirar. N�o era a
primeira vez que isso acontecia. J� ocorrera em outras ocasi�es,
especialmente uma noite em que discutia com Marlene, sobre suas
teimosias.


� Pois tamos a�. Na corda bamba. Sempre esperando o dia de
amanh�. N�o morri de fome at� hoje, acho que vou me criar � diz
Toninho sorrindo.
Seu Greg�rio parece ter perdido o fio da meada, n�o sabe o que

acrescentar �quelas palavras sem muito nexo.

� Enfezado tem baixado por aqui � acentua seu Greg�rio. �

Mas t� mudado, aleijado de um bra�o. J� cansei de falar com ele.

N�o gosta de ouvir os mais velhos. � de veneta. Do jeito que vai se

estrepa f�cil. Como aconteceu com o Colher de Pau.

Toninho p�e o casaco sobre o balc�o, seu Greg�rio abre a coca


cola gelada.

� E o que foi que aconteceu?
Seu Greg�rio se debru�a no balc�o. Os bra�os s�o possantes, a
camisa aberta no peito mostrando fios de cabelo grossos, o rosto s�rio,
com marcas de var�ola, olhos azulados.

� N�o soube? Se meteu com uma patota da pesada. Assaltavam
esses carros que entregam dinheiro nos bancos.
� Colher? Medroso daquele jeito?
Seu Greg�rio encara Toninho, olhos frios e duros.
� Tudo m� companhia! Quando o cara se manca, n�o d� pra
sair do atoleiro. Foi o que aconteceu com ele. Agora, uma coisa lhe
digo: n�o pecou por falta de conselho. Cansei de chamar, avisar: mais
cedo ou mais tarde a casa cai. E n�o deu outra coisa.
� Por onde anda?
Seu Greg�rio mexe com os ombros.
� E a m�e dele?
� T� cortando um dobrado � prossegue seu Greg�rio. � De
vez em quando os tira baixam no barraco dela, levam o que pode.
Outro dia chegou aqui, chorando. Disse que at� o ferro de engomar
os tira levaram. E a coisa n�o ficou a�: estipularam um pagamento
pra fazer todo m�s. No m�s que falhar Colher de Pau aparece com
uma caveira do "Esquadr�o", numa estrada qualquer por a�!
Seu Greg�rio p�e mais coca no copo de Toninho, o garoto bebe
em sil�ncio, a testa coberta de suor. Passa a costa da m�o na testa,
rep�e o copo no balc�o.

� Colher de Pau nunca foi de dar mancada.
� Mas dessa vez encorregou feio � explica seu Greg�rio. �
E � dif�cil levantar. Se n�o acabarem com ele, no m�nimo vai gingar
uns vinte anos na cadeia.

� E o que � que Enfezado diz disso tudo?
� Se amoitou � responde seu Greg�rio enquanto as moscas
multiplicam-se nos doces que est�o numa travessa de alum�nio, coberta
com um peda�o de pl�stico transparente e sebento.

A conversa � interrompida breves momentos, porque a crioulinha
de saia despencada de um lado entrou na birosca, pedindo que
seu Greg�rio mandasse cem gramas de toucinho para a m�e. 0 negociante
move-se com vagar, pega a faca de cabo de madeira, corta
pacientemente um fatia de toucinho. Embrulha em papel ordin�rio, a
crioulinha olha Toninho e sorri, sem nada dizer. Vai embora, seu
Greg�rio limpa as m�os num pano tremendamente sujo, assinala mais
uma parcela por baixo da conta que j� estava grande, pelo que p�de
Toninho observar. 0 homem torna a curvar-se no balc�o. Os mesmos
m�sculos saltados sob a camisa apertada.

� Por isso, canso de dizer: n�o se metam com m�s companhias.
0 mar n�o t� pra peixe!
� Pro nosso lado a barra nunca t� limpa! Depois dessa do pai
ter sumido, juro que n�o acredito mais em nada. E se � como o
senhor diz, que ele n�o se mandou, ent�o a coisa piora.
Seu Greg�rio como que n�o encontra resposta para Toninho, passa
a fazer considera��es a respeito de Enfezado.

� Todo mundo sabe por aqui que ele t� bastante marcado. J�
fez poucas e boas. At� com as irm�s do Banda Branca ele mexeu.
Dizem as m�s l�nguas que arrombou uma delas. A mais bonitinha.
� E da�?
� Da� que o Banda Branca jurou Enfezado. Quer comer ele na
bala ou na ponta de uma faca. Voc� sabe muito bem como s�o esses
alcag�etes. T�o sempre metido com o que existe de pior.
� Acontece que Enfezado tem amigos, ele t� sabendo � diz
Toninho. � N�o sou de cantar vantagem mas esse Banda Branca pra
mim sempre foi bunda mole. Se jogar os tira em cima de Enfezado
se estrepa de verde e amarelo.
� E o que resolve isso?
Toninho toma o �ltimo gole de coca-cola.
� N�o resolve nada � diz o garoto limpando a boca com a
costa da m�o. � 0 importante � g�entar a barra. Quem for podre
se quebra!
Seu Greg�rio oferece um peda�o de torta. A mesma que est� na
travessa coberta de moscas. Toninho aceita. 0 homem afasta o pl�stico
sebento, as moscas voam, tornam a pousar, t�o logo o homem acaba
de cortar o peda�o de torta.

� J� que lhe dei uma geral do que anda acontecendo por aqui,
agora quero saber o que tem feito. No que puder ajudar, conte
comigo.
Toninho mastiga a torta, olha a cara do homem, sabe que n�o
deve se abrir. Seu Greg�rio termina sempre falando demais. N�o que
se meta em futricas. Mas fala com um, com outro, de repente o mor


16


ro inteiro sabe. J� que estava h� tanto tempo afastado, o que adiantava
lhe contar?

� Tou dando duro num trabalho de madrugada.
� Isso � hora de t� dormindo, filho. Ainda mais na sua idade!
� Acontece que foi o �nico que consegui. Todos os outros s�
queriam me dar trabalho depois que tivesse servido o ex�rcito.
� E que trabalho que �?
� Fazer distribui��o de jornal. Ajudo a carregar o caminh�o,
ajudo a recolocar as porcarias em cada banca. E como tem banca.
Quando d� 7 horas tou de perna bamba de tanto subir e descer da
desgra�a do caminh�o.
� Vale a pena?
� Pagam uma mis�ria, mas � sempre um dinheirinho que entra
e ainda tenho o dia todo pra me virar em outras coisas.
A Kombi toda enfeitada com an�ncios de cigarros p�ra na porta
da tendinha. Toninho fica olhando o carro e os homens que descem.
Um deles tem um bloco de papel nas m�os, o l�pis atr�s da orelha.
0 outro veste-se de caqui. � o motorista. Quando se encosta no balc�o
seu Greg�rio destampa logo a garrafa de cana, serve uma dose
refor�ada. 0 do bloco � mais refinado: aceita conhaque.

Toninho aproveita, diz tchau a seu Greg�rio recoloca o casaco
de couro nas costas, vai em frente. Seu pensamento � um s�: localizar
Enfezado. N�o acredita que a hist�ria de seu Greg�rio a respeito
de Colher de Pau esteja certa. Deve haver alguma coisa que preferiu
silenciar ou que na verdade desconhece. Mas Enfezado saberia
de tudo. Estaria por dentro. Poderia dar a dica. Toninho passa pela
casa do cara gordo, que vivia a maior parte do tempo de shorts, mais
na frente s�o os porcos de dona Julinha fu�ando o rego de �gua suja,
as roupas penduradas, a vara recurvada sustentando, para o cord�o
n�o arrebentar. Toninho faz um "oi!" para dona Julinha, que fora
muito amiga de sua m�e, vai em frente, pensando na luta que aquela
mulher enfrentava, desde que o marido caiu do andaime da obra e
morreu. Lavava roupa o dia inteiro, carregava �gua na cabe�a desde
madrugada, das 3 da tarde em diante passava a ferro. Uma vez ou
duas por semana fazia grandes trouxas, descia as vielas, uma trouxa
na cabe�a, outra nos bra�os. Dona Julinha estava cada vez mais magra,
pernas bordadas de varizes, o rosto encolhendo. E a m�e cansara
de dizer que fora uma mulher bonita e alegre. Toninho n�o sabe por
que, aquele era um outro motivo que o fazia triste: estar movimentando-
se entre lembran�as e pessoas que j� pareciam ter morrido. Seu
plano era nunca mais dar as caras no Morro, sumir de vez. Ao mesmo
tempo, como poderia fazer tal coisa? E o barraco que o pai deixou,
e o ba� cheio de coisas que pertenceram � m�e? E a gaita do
pai, suas roupas, o sapato novo que comprou e usou s� uma vez? E

o vestido que a m�e mandou fazer com tanto gosto, para o dia em

que completasse 25 anos de casada? Como esquecer vov� Jandira,
que o deixava com vontade de chorar s� de v�-la? Como podia existir
pessoa como ela, que nunca reclamava, nunca pedia nada e que na
verdade n�o tinha nada, �s vezes nem o que comer? Mesmo assim n�o
se lembra de ter visto aquela velhinha triste, nem desanimada. Quando
a m�e falava nas doen�as, vov� Jandira era a primeira a dizer:
tire essas id�ias da cabe�a, dona Mundica. Deus d� o frio conforme
a roupa. Agora, subindo aquela ladeira, aproximando-se de um grande
socav�o na rocha, Toninho n�o tinha muita certeza na filosofia de
vov� Jandira. Mas n�o podia negar que continuava rija, alegre e confiante
em si e em todos os que com ela conviviam. Seria isso, afinal,

o segredo de uma vida longa; o total desapego dos bens que tanto
atra�am o comum das pessoas? N�o sabia. Ficava confuso s� de pensar.
TR�S

No barraco mais pobre, t�buas que haviam servido em constru��o,
como porta, todas encascoradas de massa de cimento, Toninho
p�s-se a bater. N�o aparecia ningu�m para atender. Deu a volta pela
parte lateral, onde havia umas ramadas de mel�o-de-s�o-caetano e outras
de bucha verde, em meio a pneus velhos, restos de m�veis, vergalh�es
dobrados e peda�os de madeira podre. No pequeno jirau de varas,
colado � janela dos fundos, tamb�m fechada, havia uma panela
encardida, de cabo quebrado, a colher de pau e um coador de caf�.
Isso bastava para entender que o casebre n�o estava abandonado. Tornou
a bater, desta vez com mais decis�o. Ouviu movimento no interior
do barraco, apressou-se a ir para o lado da frente. Uma das t�buas
encascoradas de massa de cimento foi vagarosamente afastada,
apareceu o rosto de mestre T�bor, um homem velho e doente. Nunca
enxergou bem e tornou-se pior, desde que foi aposentado como serralheiro.
Na primeira semana do acidente � Toninho era pequeno
mas se lembra � o velho ficou dias e dias com a cara inchada, sem
poder abrir os olhos. Vov� Jandira e dona Julinha iam ao barraco
dele, cuidavam de Enfezado, punham compressas no rosto do homem.
Quase todo mundo no morro se acostumou com a id�ia de que
ficaria cego. Depois, quando melhorou, os trabalhadores diziam revoltados,
enquanto tomavam pinga na tendinha do seu Greg�rio: imagine
o senhor! Obrigar o velho a dobrar dia e noite nesse servi�o maldito
que � a solda de oxig�nio e dar uma m�scara que n�o protegia
porra nenhuma. 0 que tomava cacha�a no gargalo acentuava: acho
at� que o vidro da m�scara dele tava quebrado. Vi um dia o capataz


reclamando com o chefe da se��o, mas o homem dizia que mestre
T�bor podia ir se arranjando como os outros. A� lembrou que havia
uns caras que n�o precisavam nem de m�scara pra trabalhar. Isso era
luxo. Inven��o dos funcion�rios do governo que n�o tinham o que
fazer. Por causa da teimosia daquele filho da puta, ta� mestre T�bor
inutilizado pro resto da vida.

Toninho se encolhia junto ao balc�o, os homens de grandes p�s
e grandes m�os movimentavam-se, ouvia aquelas conversas sem entender
direito. Enfezado, que era filho de mestre T�bor, n�o sabia explicar.
Quase nunca o pai falava com ele a respeito de seu trabalho. O
m�ximo que perguntava era o que andava fazendo, se tinha ido �
escola, se os livros e os cadernos estavam em ordem. Nos momentos
de mais calma, mestre T�bor pedia a Enfezado que procurasse pensar
no dia de amanh�. Se n�o for assim, filho, vai enfrentar a mesma
dureza que eu. Me lembro do pai insistindo que estudasse, que fosse
alguma coisa na vida, e eu quebrava caminho. Em vez de ir pra
escola ia jogar bola no campinho. At� que n�o me arrependia disso.
Mas, agora, com esse acidente, as coisas v�o ser diferente. O dinheiro
da aposentadoria n�o vai dar pra nada e a gente acaba tendo pela
frente um tempo de muita necessidade.

Uma dessas conversas do pai o pr�prio Enfezado contou a Toninho.
Estavam debaixo dos carrapateiros, esperando rolinhas com as
atiradeiras. Cada rolinha morta iam colocando de lado e depois levavam
para o barraco de mestre T�bor. Ele nunca estava em casa. Passou
meses e meses indo cedinho no rumo da cidade e retornando �
noite. Foi a �poca em que estava se tratando num ambulat�rio do
INPS e se queixava de, �s vezes, ter de entrar na fila �s 4 da madrugada,
a fim de conseguir ser atendido pelo m�dico �s 10, 11 da
manh�. Quando tinha o que comer o velho preparava a marmita,
descia as vielas segurando o saco pl�stico, como nos tempos em que
enxergava bem e ainda escuro ia para a oficina de serralheiro.

Os dois garotos punham a panela na trempe de pedras, mergulhavam
as rolinhas na �gua quente, depenavam com paci�ncia e em
silencio. Toninho gostava de fazer aquilo, embora as penas molhadas
emitissem um cheiro enjoativo. Mas nunca se queixou, nem ouviu
qualquer queixa de Enfezado. Terminada a depenagem Enfezado
abria as rolinhas com a faca de cabo de madeira, tirava as tripas, o
gato preto com a pinta branca na testa, por perto miando, inquieto.
Freq�entemente alguma rolinha estava cheia de pequeninos ovos,
Toninho sentia certa pena de ter acabado com aquela.

� Ia p�r uma d�zia de ovos!
Enfezado era mais objetivo, n�o demonstrava qualquer sentimentalismo.



� Se for pensar nisso n�o se mata nenhuma, cara. Como � que
se vai saber, quando t�o mariscando, qual � o que vai ter ovo ou n�o?
Toninho achava gra�a do senso pr�tico do amigo, ia buscar um
talo verde, raspava bem, Enfezado preparava o molho � base de vinagre,
cuminho, lim�o e sal, dava um banho nas rolinhas depenadas,
de cabe�as e p�s decepados, enfiava todas no talo, aproximava dos ti��es.
Quando a carne estava chiando, o barraco enchia-se do cheiro
morno e bom, que ati�ava ainda mais a dor de est�mago.

Recordando essas coisas ocorridas h� tanto tempo, pelo menos h�
uns seis anos, Toninho v� mestre T�bor tateando as t�buas, olhar
vago de quem v� sem reconhecer.

� Sou eu! 0 Toninho. Tou procurando Enfezado.
Mestre T�bor retirou as t�buas que fechavam a porta, o barraco
estava escuro e triste. Havia tamb�m um cheiro de mofo, pelo fato
de n�o haver nenhuma janela aberta. Teve vontade de perguntar por
que mestre T�bor andava assim, t�o no escuro quando, na verdade, a
claridade do dia para ele j� n�o fazia diferen�a.

� Pois � � disse Toninho � tou atr�s de Enfezado. Acho que
tenho um bom neg�cio pra ele.
Mestre T�bor sentou no banquinho min�sculo, ao lado da mesa
tosca, sem toalha sem nada, s� com uma por��o de latas e colheres
por cima. Voltou-se para Toninho com o mesmo olhar vago.

� H� muito tempo n�o aparece. Um dia saiu dizendo que ia
vender umas coisas pra ajudar na despesa, n�o voltou.
� Ningu�m deu not�cia?
� Pelo que saiba, n�o. Se seu Greg�rio na tendinha soube de
alguma coisa, at� hoje n�o me disse.
0 velho tateia com as m�os tr�mulas por cima da mesa, ap�s
perguntar a Toninho se n�o queria um pouco de caf�.

� Acho que Enfezado cansou de me aturar. Na verdade, virei
um traste ruim. Tenho sa�de e n�o tenho. Sem poder ver direito
preferia logo morrer. Pra que ficar assim, s� atrapalhando os outros?
Toninho sente-se no dever de dizer alguma coisa que encoraje
mestre T�bor.

� 0 senhor fica bom. Depois de um tempo se recupera.
Toninho levanta-se, ajuda a pegar a x�cara, o bule.
� Quando se perde a vista, filho, nunca mais ela volta. E �
a� que se v� que, sem ela, n�o h� prazer que nos anime. Tou procurando
me acostumar a ser um cego, mas � dif�cil. Enfezado n�o
compreendeu isso, talvez tenha se mandado. Vivo contrariado, resmungando.
N�o sei se vou ter paci�ncia de esperar a morte mandada
por Deus. � capaz que entregue os pontos antes. N�o sou t�o forte
quanto imaginava. Acho at� que bem poucos s�o fortes. Sem poder
ver � que se come�a a enxergar essas verdade.

Toninho leva a x�cara � boca. 0 caf� est� frio e ele sente profunda
tristeza de ali se encontrar diante daquele homem que conheceu
t�o disposto e t�o alegre. Mestre T�bor era pau para toda obra.
Quando ningu�m queria cuidar dos festejos de S�o Jo�o ele se oferecia.
Fazia as bandeirolas de papel de seda com vov� Jandira e dona
Julinha. Arranjava dinheiro, comprava uma por��o de foguet�es e
durante dois, tr�s dias, a crian�ada do morro vivia momentos de alegria.
Cada garoto podia soltar os foguetes que quisesse. Ele mesmo
ensinava. A m�e ficava com medo, mestre T�bor argumentava: deixe

o Toninho comigo. � por minha conta. Vai soltar at� roj�o e n�o
queima um dedo. Mestre T�bor nasceu e vai morrer sabendo lidar
com fogo.
Toninho p�e a x�cara na mesa, encara o homem que se mant�m
sem qualquer movimento.

� E se aconteceu alguma coisa com Enfezado?
� Deus cuida dele. No estado que tou n�o posso fazer nada.
Se des�o por essas viela, j� n�o acerto subir. Mas n�o perdi a esperan�a.
Tou certo que aparece. Mais cedo ou mais tarde.
Toninho j� n�o ag�enta permanecer naquele barraco. Procura
um l�pis, acha a caneta esferogr�fica quebrada, rabisca no papel para
testar se ainda tem tinta. Escreve algumas palavras, mete num prego,
na parede.

� Se Enfezado aparecer, diga que me procure. Botei o endere�o
no papel. � numa constru��o que t�o fazendo na Toneleros.
T� tudo escrito.
� Pode deixar. Vai gostar de te ver. Voc�s eram t�o amigos.
Eu devia ter gostado mais das pessoas. Principalmente das que n�o
conhecia.
Toninho sai por entre as t�buas encascoradas de cimento, desce
a viela, passa pela tendinha, esfor�ando-se para n�o ser visto por seu
Greg�rio, j� est� bastante escuro, alguns barracos t�m l�mpadas acesas,
dois ou tr�s caras ao redor das mesas de sinuca.

Quando chega de volta �s ruas de Copacabana, � como se tivesse
emergido de espessas �guas; de uma lagoa cheia de lodo, com liames
de plantas aqu�ticas envolvendo-o, querendo-o reter no fundo. O
ar parece mais leve, a figura de vov� Jandira move-se na dist�ncia de
s�culos, mas as palavras de mestre T�bor o acompanham.

� Eu devia ter gostado mais dos outros. Principalmente dos
que deixei de conhecer.
Instintivamente Toninho teme ficar cego, imagina at� comprar
col�rio para cuidar dos olhos. Atravessa a primeira rua de movimento
intenso, corre na frente dos carros de far�is acesos, esquece as palavras
de mestre T�bor, os gestos de vov� Jandira, o comportamento
estranho e especulativo de seu Greg�rio, a pertin�cia de dona Julinha.
N�o queria mais recordar aquele mundo, talvez nunca mais voltasse


ao barraco. Se os tais malandros aparecessem, que � que podia fazer?
Lamentaria apenas que m�o estranhas mexessem nos objetos que o
pai e a m�e adquiriram com tanto carinho. Senta na lanchonete, pede
hamb�rguer, p�e bastante mostarda, morde com vontade, como fazia
com as rolinhas assadas no espeto verde. A mostarda escorre-lhe pelos
cantos da boca ele se limpa com guardanapo e mais guardanapo de
papel, sorve grandes goles de coca-cola gelada, pede outro hamb�rguer,
a m�o vermelha do gar�om torna a aparecer junto ao seu rosto,
prossegue o ritual da mastiga��o. De tudo que aconteceu naquele
tumultuado dia, preocupava-o saber que Colher de Pau entrara numa
pior e Enfezado sumira. Se o amigo n�o aparecesse, terminaria encontrando
seu pr�prio caminho. O que n�o podia mais era continuar
dependendo de Marlene. Gigol� de bicha, como ela pr�pria dizia nos
momentos de f�ria. Te dou do bom e do melhor. Na hora de ir pra
cama, pagar o que deve, vem com fricotes. N�o tolero essas coisas.
Ou te entrega como quero, como � de direito, ou arranjo outro.

N�o ag�entava mais semelhantes exig�ncias, nem o h�lito quente
de Marlene no seu rosto, no pesco�o, na barriga, a l�ngua percorrendo-
lhe os caminhos da virilha. Ah, como tinha nojo daquela bicha
idiota, que um belo dia gostaria de liquidar, torcer o pesco�o, para
que nunca mais pronunciasse sequer o seu nome.

Sai da lanchonete vestindo o casaco porque come�ava a esfriar,
as ruas mais pr�ximas ao mar cobriam-se de n�voa fria. Ao endireitar
o casaco sente no bolso esquerdo o retrato do pai. Como estava
amarelado. Mesmo assim daria boa reprodu��o. Tinha certeza. E
era at� poss�vel conseguir coragem para ir � reda��o de um jornal,
caso Enfezado se demorasse. Mas estava quase certo de que viria.
Principalmente depois do bilhete. Mestre T�bor se encarregaria de
explicar o resto. Toninho teve aqui. T� um mo�o. Ficou um temp�o
esperando. Quer falar contigo!

Empurrou o port�o da obra, Man� Cabreiro apareceu, focando a
lanterna.

� Sou eu, bicho.
0 vigia apagou a lanterna.
� O pessoal t� dormindo.
Toninho subiu as escadas com degraus ainda nas f�rmas de madeira,
chegou ao sal�o onde pelo menos seis pe�es ocupavam os colch�es
estendidos no ch�o. Inclusive o seu. O que comprou. Teve
um momento de revolta mas entendeu que era assim mesmo. Quantas
vezes tamb�m ficou com colch�o de outro e n�o houve bronca? Melhor
engolir aquela, sem chiar. Na primeira oportunidade, t�o logo
levantasse a cabe�a, se mandaria. Iria para um quarto, com cama
macia e len�ol, talvez at� um pequeno apartamento. 0 que n�o podia
sequer imaginar era o convite de Marlene: morar definitivamente com
ela, num apartamento no Lido. Sabe que n�o ag�entaria, terminaria


enchendo a bicha de porrada. O m�ximo que tolerava era encontr�la
uma vez ou duas por semana. E at� gostava que dividisse o aluguel
com a garota do strip-tease, pois dessa forma encurtava sua perman�ncia
por l�. Com o dinheiro no bolso, passava dias e dias sem
aparecer. �s cinco da madrugada se mandava. Se resolvia comer na
lanchonete onde Marlene trabalhava, fazia tudo para desviar o assunto.
Cedia quando o dinheiro acabava. A bicha lhe dava bilhetinhos
que vinham juntos com os pratos. Se n�o aparecesse na noite que
marcava ou, no m�ximo, na noite seguinte, a bronca terminava sendo
firme. Beirando o histerismo.

Casaco no ombro, Toninho sob mais um lance de escada, no
sombrio pr�dio em constru��o, andaimes se entrecruzando, m�quinas
pesadas adormecidas no p�tio, t�buas e vigas se alongando, muita ponta
de ferro aparecendo para fora do cimento, f�rmas de madeira se
complicando em desenhos confusos, que s� os arquitetos entendiam.
Subiu o lance de escada, avan�ou pelo corredor ainda sem os ladrilhos,
sem nada, chegou ao pequeno quarto, onde havia sacos de cimento,
esquadrias, sacos de cal, algumas ferramentas. Abriu folhas de
jornais velhos, forrou por baixo com sacos vazios. Tirou a camisa, a
cal�a, ficou s� de shorts. Na cabeceira colocou dois tijolos, cobriu-os
com papel grosso, transformou-os em travesseiro. Estendeu-se nessa
cama improvisada, acendeu um cigarro, ficou pensando nos dias que
viriam e, mais precisamente, na apari��o de Enfezado. Conversariam,
como sempre tinham feito, tentariam encontrar um meio de ganhar
dinheiro. Era at� poss�vel que, no plano que formulassem, Marlene
fosse de alguma utilidade. E, l� do fundo da mem�ria, come�a a sentir
uma id�ia que se forma, ainda confusa e desaparece. N�o consegue
determinar direito o que seja. Tira algumas tragadas do cigarro
naquele quarto, onde os ventos frios da noite penetravam e novamente
o prop�sito de incluir Marlene no projeto se aclarando. Agora,
tinha mais ou menos certeza do que seria: um golpe na lanchonete.
Ser� que a bicha ia topar? Estaria disposta, mediante o oferecimento
que faria ou Marlene n�o se deixava seduzir por dinheiro? Era o que
teria de verificar. Mas, al�m disso tudo, desses pensamentos em torno
de Marlene, Toninho sente que uma coisa importante estava faltando
no plano: uma arma. Teria de ser um rev�lver, e dos bons. Como
aquele que vira, fazia tanto tempo, nas m�os de Banda Branca. Que
beleza de m�quina! Niquelada, boa de pegar, meio pesada, maneira.
Banda Branca advertia: era sua arma de estima��o. Com ela na m�o
malandro foge de mim pior do que Satan�s da cruz. E n�o tem grilo:
� s� apertar o dedo, o fregu�s pula pro outro mundo. Uma arma daquela
� que seria boa! Se Enfezado aparecesse, mandaria localizar Banda
Branca. N�o precisava subir o morro. Ele estava sempre pela Pra�a
Mau� ou Pra�a XV, procurando alcag�etar os pintas que transam
com entorpecentes.


O cigarro come�a a queimar, Toninho sopra a fuma�a que n�o
v�. o pensamento torna-se claro, provavelmente o melhor e mais pr�tico
que tivera at� ali. E se conseguisse dinheiro com Marlene para
comprar a arma? Ser� que a bicha toparia? Valeria a pena falar com
ela? Sabe muito bem o quanto deveria cercar-se de cuidados. A partir
do momento em que comprasse um rev�lver, poderia ser incriminado
de uma s�rie de coisas, inclusive pela pr�pria bicha. Na primeira
briga, primeira diverg�ncia, aquela puta velha podia invocar
inverdades, sair dizendo besteira, obrigando-o a liquid�-la. E se acontecesse
o contr�rio? Detestava Marlene mas sabia que era necess�ria.
Se estava vivo, cal�ado e vestido, devia a ela. No momento em que
se aporrinhava e punha tudo isso pra fora, n�o deixava de estar com
a raz�o. Quando percebia Toninho sem disposi��o na cama, argumentava:
de amanh� em diante vou dar mais dinheiro pra que coma num
bom restaurante. Quero meu benzinho tesudo pra enfrentar sua dondoca.
Nada de pau mole, pra me encher de raiva. Sempre como no
primeiro dia. Te lembra a doidice que foi? E te lembra tamb�m
como correspondi? N�o sou qualquer uma que foge da raia. Sem me
gabar, te afirmo que passo muita mulher pra tr�s. � s� querer.
Marlene tem sete f�legos e armas secretas. Toninho apenas sorria,
como sorri agora, lembrando de tanta maluquice que j� enfrentara,
tudo para manter-se vivo, pois se fosse encarar o trabalho na base
daqueles pe�es que ali estavam dormindo no casar�o, estaria perdido.
Os homens passavam o dia todo forcejando como bois de carga, �
noite mal tinham condi��o de engolir um pouco de feij�o com arroz
e j� estavam abrindo a boca de sono. Se lembra do dia de folga do
Man� Cabreiro. Foram ao cinema. Nos cinco primeiros minutos de
bangue-bangue o homem j� tava dormindo e, o que � pior, roncando,
incomodando os que sentaram por perto. Em outra noite em que Marlene
brigou com Toninho, resolveu aventurar-se com um desses pe�es.
0 cara atirou-se todo afoito em cima dela. A bicha resistiu, fez ele cansar.
A� quando Marlene estava tinindo, cheia de manhas, o pe�o
come�ou a dormir. Marlene ficou t�o puta da vida que se p�s a berrar
e expulsou o cara do apartamento, ap�s receber algumas porradas.
N�o ag�entava ver aquele traste todo mole, enquanto ela se
gastava no maior fogo do mundo. Por causa disso chorou suas m�goas
a Toninho, beijou-o da cabe�a aos p�s, jurou n�o tra�-lo outra
vez.

� Pode n�o ser o melhor de todos, mas sabe me aturar; tem
tutano. Conheci poucos da tua ra�a.
Toninho acreditava que Marlene toparia. Se fosse o caso. dormiria
a semana inteira com ela. Levantaria �s 5, antes que a tal
vedete chegasse, mas valeria a pena. No final, teria a m�quina tinindo,
igual � de Banda Branca. Se Enfezado tivesse id�ia melhor, a�
talvez nem precisasse se submeter a Marlene. Era isso. Aguardaria


que Enfezado aparecesse. No m�ximo iria pela lanchonete onde a bicha
trabalhava, daria um al�, para n�o pensar que havia sumido. Se
viesse com seus bilhetinhos, diria estar doente. Ganharia tempo, at�
Enfezado aparecer. Avisaria Man� Cabreiro, avisaria os outros pe�es.
Ele � um crioulo, assim, assim, mais ou menos 17 anos. Tem cara
feia mas � boa gente. Amigo legal t� ali. N�o foge da raia. nem com
sol, nem com chuva. N�o adianta fazer tempo ruim que Enfezado
n�o se assusta. O pr�prio pai n�o sabia por que o filho se tornara
assim. Dona Julinha uma vez comentou com vov� Jandira: deve ser
por falta da m�e. Amor de m�e n�o se substitui. Dizia dona Julinha
com aquele seu ar sofredor. Na verdade, por melhor que seja o pai

� e olha que mestre T�bor � um bom homem � o menino t� sendo
criado por a�, ao deus-dar�. Tenho medo do que possa acontecer. Outro
dia, a senhora nem queira saber. Eu disse assim: olha, aqui. Enfezado,
me faz um favor. Dona Julinha mostra cara de espanto, os
olhos tornam-se grandes e redondos no rosto p�lido e magro.
� Sabe o que respondeu?
Vov� Jandira mant�m-se na expectativa. Dona Julinha falou baixo,
como se contasse um segredo. Quando contou, os olhos de vov�
Jandira tamb�m se arregalaram.
Toninho puxa mais uma tragada, tem vontade de rir do que teria
dito Enfezado. No m�ximo tenta imaginar o que foi. Enfezado
era desbocado. E n�o respeitava cara de ningu�m. Gostava de Enfezado
por isso. Com ele n�o tinha folga. Depois que fez quinze anos

e mestre T�bor j� nem sabia direito por onde andava, o pr�prio Banda
Branca passou a respeit�-lo. Entregava quase todo mundo que fazia
ponto na tendinha, menos Enfezado. Isso por que um dia o garoto
chegou pra Banda Branca, tocou-lhe forte no ombro, deu o despacho:
olha aqui, rato de esgoto; se tua l�ngua tornar a embolar meu nome,
arranco ela pra fora, dou pra cachorro comer. V� bem o castigo que
tou te reservando. N�o bota os tiras em cima de mim que tu te
fode f�cil e o morro inteiro vai ficar rindo quando ver tua boca
cheia de formiga. Por isso, acho bom debandar; tua presen�a t� fedendo
mal. A� Enfezado come�ou a farejar o ar e perguntou a seu Greg�rio:
o senhor n�o t� sentindo um fedor de rato podre? � o Banda
Branca. J� morreu e n�o sabe.

Nesse tempo o alcag�ete manipulava a m�quina de muito valor
mas n�o se atreveu. Tamb�m, por perto de Enfezado estavam eu e

o Colher de Pau.
Toninho tira mais uma tragada do cigarro, naquela paz da noite,
conclui que foi por causa daquela discuss�o que Colher de Pau entrou
em desgra�a. Vai ver, Banda Branca jamais esqueceu. E na primeira
oportunidade se vingou. Pegou primeiro Colher de Pau. Entregou,
de m�os e p�s juntos. Deveria estar tratando do futuro de
Enfezado. Teria dado conta do recado ou estaria s� na trama? Ti



nha muito o que falar com Enfezado. Deveria, inclusive, adverti-lo
para semelhante perigo. Agora, arrepende-se de n�o ter deixado um
bilhete tamb�m na tendinha de seu Greg�rio. Mas estava certo de
que ia receber o que pendurara na parede do barraco. Mestre T�bor
n�o era de falhar. Gostava do filho, ficou satisfeito em v�-lo. Poxa,
Toninho, como voc� cresceu. Tou sabendo porque sua voz mudou.
T� falando grosso feito homem. Com que tamanho t�?

Toninho sentiu certa afli��o diante do serralheiro de rosto enrugado,
do seu drama de n�o poder ver.

� Da sua altura e com uns 65 quilos.
Mestre T�bor mostra os dentes brancos num riso inconseq�ente.
Toninho sentiu que uma das poucas alegrias que tivera, nos �ltimos
tempos, foi saber que havia crescido e pesava uns 65 quilos.

� Daqui pra frente � s� cuidar da vida, filho. N�o deixe que
lhe aconte�a o que aconteceu comigo. Trate de ser um homem. Estude,
n�o se torne um oper�rio. Oper�rio neste pa�s � sin�nimo de
cachorro.
� Mestre T�bor t� tendo quem v� buscar sua pens�o?
� Eu mesmo me arrasto at� l�. �s vezes a menina de dona
Julinha me ajuda. Outro dia seu Greg�rio explicou que podia fazer
uma procura��o. A� eu fiz e dei pro Banda Branca. Parece que recebeu
o dinheiro e se mandou. Deu luta pra tirar a procura��o da
m�o dele. Foi preciso Enfezado ter um pega com ele. Meu filho tem
dessas vantagem. Enquanto ele tiver vivo, ningu�m me faz de trouxa,
mais do que j� fez. Trabalhei tanto, fiz tanta esquadria, dobrei tanto
ferro, armei tanta f�rma pra concreto, tanto edif�cio subiu � minha
custa e de outros. Hoje, se t� encalhado por aqui. Os outros, do meu
tempo, n�o t�o diferente. De vez em quando, nos dias que ainda
enxergava, encontrava com eles na fila do INPS. Cada um mais lascado
que outro. Mas n�o ou�a essas queixas de um velho que n�o
se conforma com o mundo. Trate apenas de n�o ser oper�rio. Veja
se chega a doutor. De qualquer coisa. A� a vida ser� diferente. O
que n�o falta � pobre pra gingar dia e noite, enquanto os doutores
se divertem. N�o digo que v� ser um desses, mas quem sabe, pode
at� se lembrar da gente quando tiver l� em cima. Por algum tempo
pensei em fazer de Enfezado um doutor. Foi quando a m�e dele
morreu. Agora n�o tem futuro. Por isso, temo pelo pior!
� Que pior?
� O descaminho. De quando em vez tem umas turras com o
tal do Banda Branca e sei bem que aquele tipo � ordin�rio. T� armando
uma cama pra Enfezado. Na primeira oportunidade manda
botar a m�o nele.
� Acha que Colher de Pau sumiu por causa do Banda Branca?
� N�o se pode dizer. Nunca se sabe. Ainda mais eu que n�o
vejo e ainda n�o aprendi a ouvir direito. Na cegueira a gente vive

muitos momentos de afli��o. De come�o, at� o ouvido parece que
falha tamb�m. Depois, com o costume da escurid�o, as coisas v�o se
acalmando por dentro. Mas at� que chegue esse ponto a gente fica
ego�sta. Por isso, n�o entendi direito o que aconteceu com Colher de
Pau. Cansei de ouvir Enfezado falando do caso, mas confesso que
tava mais preocupado comigo mesmo. Foi uma falha. No momento
em que um garoto sumia do morro, de t�o perto da gente, eu ocupado
comigo, um traste que j� n�o presta nem pra morrer.

Naquela madrugada de pr�dio cheirando a cal e cimento, �rbitas
de janelas abertas na noite, tijolo e ferro, Toninho pensa na situa��o
de mestre T�bor, na sua franqueza, nas verdades que dizia. E juntava
as palavras do velho serralheiro a todos os sonhos daqueles pe�es
que estavam dispersos por aquele imenso edif�cio, dormindo o sono
de uma ilus�o: reunir algum dinheiro, � custa de tremendas priva��es,
comprar o barraco pr�prio, mandar buscar a fam�lia, come�ar tudo
que j� fizera mestre T�bor, o pr�prio pai, o pai de Colher de Pau,

o de Banz� e de tantos outros. Toninho reflete ainda um pouco sobre
as palavras de mestre T�bor, tem vontade de dizer-lhe que n�o chegaria
a doutor. Seria dar o passo maior do que a perna. Mas de uma
coisa o velho oper�rio poderia estar certo: ia ter dinheiro. E bastante.
Custasse o que custasse. S� vale neste mundo sem-vergonha quem tem
dinheiro. A cambada se divide em duas partes: os que podem e os
que n�o podem; os que gastam e os que abrem as m�os, esperando as
migalhas. Toninho n�o seria um mendigo, como estava certo n�o
aconteceria com Enfezado. N�o sabe por que, na tranq�ilidade daquele
casar�o, de noite avermelhada se estendendo, de algumas estrelas
silenciosas e distantes, come�ou a sentir-se odiento e a gostar de
tornar-se odiado. Nada de casinhos como aquele com a cretina da Marlene.
Nada de arruma��es mi�das, de chafurda��es do estilo Banda
Branca. Iria pegar a m�quina de alcance, arrancar o dinheiro onde
fosse mais f�cil. S� se o pai aparecesse, talvez desse o projeto por encerrado.
Afinal ele tinha um velho plano. Quantas vezes se imaginou
numa ampla faixa de terra, jogando sementes nas covas abertas com
as pontas dos p�s; quantas vezes sentiu-se debaixo dos arbustos, comendo
com o pai a carne refogada com arroz. Mesmo que a planta��o
n�o desse tanto resultado, quando nada estaria com o pai. E tudo
poderia ser como antes: quando ele aumentava a luz do candeeiro,
contra a vontade da m�e, e come�ava a riscar num papel os dados relativos
� colheita do guando e da jurubeba. No ano em que mandou
puxar a instala��o el�trica, a� os projetos se estendiam at� tarde. A
m�e, mesmo temerosa com a conta da luz, acompanhava o marido.
Toninho dormia na mesa, cansado dos sonhos que iam se transformar
em realidade!

Cap�tulo II

UM

Levanta quando ouve os primeiros movimentos no pr�dio e a
claridade no c�modo � consider�vel, a ponto de ver os sacos de cimento
empilhados, os carrinhos de m�o uns dentro dos outros, os engradados
de mosaicos, as pilhas de dobradi�as, os pacotes de pregos e
parafusos. Mete-se nas roupas, amarra os cord�es dos sapatos, desce
rapidamente as escadas com o casaco nas costas, passa por Man� Cabreiro,
entrega-lhe a nota de cinq�enta, o homem mostra os dentes
amarelos num riso sem significado, Toninho lembra que estava pagando
a noite atrasada e mais outra pela frente, Man� pede um cigarro,
o garoto sai pelo port�o j� escancarado, esperando os caminh�es
com os materiais, atravessa a rua pouco movimentada, caminha tranq�ilamente
pela cal�ada larga, coberta de folhas de amendoeira, as
brisas da manh� que se inicia tocando-lhe o rosto de leve. Tem vontade
de ir diretamente � lanchonete, falar com Marlene, sabe que �
cedo. Por isso senta no banquinho estreito, em frente ao balc�o redondo,
pede m�dia e p�o na manteiga, o homem grita para outro que
est� por tr�s de uma parede, manda sair um franc�s com manteiga,
enquanto movimenta r�pido as medidas niqueladas com leite e caf�.
Toninho se apressa em colocar a��car, o homem p�e mais leite do
que caf�, reclama, gostaria que fosse exatamente o contr�rio, o tipo
concorda, mas de m� vontade. Outros fregueses v�o tomando lugar, o
cara sempre gritando, sai um franc�s na manteiga. S� quando algu�m
pedia um misto quente ele parecia modificar-se, pois o ritual era
outro. A� mexia a ma�aneta de uma pequena m�quina, apertava um
bot�o, dizia com certa cerim�nia: a energia t� fraca mas sai j�. E o
cliente ficava tirando sujeira das unhas com palito, enquanto o misto
quente aparecia num prato enfeitado, dois guardanapos do lado. Tamb�m
a x�cara de caf� era diferente: mais fina, mais cara. Toninho
sentia essa diferen�a, n�o dava bola. N�o estava interessado em qualidade,
em requintes. Queria ter condi��o de pedir dois, tr�s fran



ceses na manteiga, a fim de s� voltar a comer no final da tarde, quando
ent�o j� teria conseguido falar com Marlene. Mas. nesta manh�
clara e aparentemente tranq�ila, de mulheres e velhotes passeando
cachorrinhos pelas cal�adas, eis que resolve pedir um copo com �gua
mineral, ao terminar de tomar o caf� e comer tr�s p�es. O tipo p�e

o copo, despeja a �gua com pressa, o balc�o fica molhado, uns respingos
atingem Toninho. Olha o tipo com raiva, n�o diz nada quando
lhe pede uma vaga desculpa. D� a c�dula de cinq�enta para as despesas,
o troco retorna em notas amassadas. � o momento de vingar-se.
Confere as notas, devagar, n�o deixa sequer um cruzeiro de gorjeta.
0 careta tamb�m n�o reclama. Ambos trocam olhares de �dio. Toninho
meio sorridente, considerando-o um escroto de marca maior, o
balconista chamando-o de filho da puta sem abrir a boca.
Tem vontade de ir para a praia, onde geralmente ficava estendido
na areia, esperando o tempo passar, mas n�o vai. 0 neg�cio era
caminhar at� a rua Santa Clara, bisbilhotar na casa de ferragens,
transar com o vendedor. Quem poderia vender um rev�lver? Se n�o
conseguisse nada, logo que tivesse um entendimento com Marlene tomaria
um �nibus, rumaria para a cidade. Na Buenos Aires, Alf�ndega
ou rua da Carioca encontraria. Se fosse de todo imposs�vel, levaria
um papo com Banda Branca. Afinal, por que n�o dar corda a
ele? Por que n�o deixar que o comparasse a Colher de Pau? Continua
a andar e a imaginar a recep��o do alcag�ete. N�o tinha a menor
id�ia de como fazer para adquirir a arma na loja. Dificilmente algum
vendedor iria atend�-lo. Faria perguntas, exigiria documentos. Que
documentos? N�o tinha porra nenhuma. Mas, para se entender com
Banda Branca era preciso ouvir o al� de Enfezado. N�o dava murro
em faca de ponta. Se procurasse o alcag�ete. queria estar com muita
coisa passada a limpo. 0 melhor seria dar umas voltas, falar com
Marlene, ficar na paquera de Enfezado. N�o sairia da constru��o, at�
aparecer. Sentaria no meio-fio, perto do camel�, com seu tabuleiro
de cintos, bolsas, abridores de latas, penduricalhos dourados. A hora
que Enfezado chegasse estaria bem chegado.

Atravessa mais uma rua: e se Enfezado n�o aparecesse nos pr�ximos
dias? Subiria outra vez o morro? Procuraria Banda Branca como
quem n�o quer nada, como quem n�o sabe de nada? Toninho
pensa bastante nessa possibilidade. Estava certo de que o alcag�ete
n�o o odiava. E j� fazia tanto tempo que n�o se viam, que era capaz
de n�o mais o reconhecer. Talvez fosse o caso de dar uma volta pelos
pontos de Banda Branca, chegar quando menos esperasse. Quem sabe
n�o falaria de Colher de Pau, Banz� e do pr�prio Enfezado? Quem
sabe n�o contaria uma hist�ria muito melhor do que estava imaginando?
Necess�rio ter um pouco mais de dinheiro. Convidaria o alcag�ete
para uma rodada de chope, tomariam o primeiro, o segundo,
no terceiro o malandro entenderia que estava por cima, n�o era um


p�-de-chinelo. Merecia respeito, tinha condi��o de estabelecer um
trato. A� � s� a� � falaria na tal arma. E ofereceria uma grana
firme para depois ir baixando, at� Banda Branca n�o ter mais o que
reduzir. Se perguntasse pra que desejava um rev�lver? Ora? Pra que
se quer uma arma, sen�o pra acertar no primeiro que se meter a
besta? Quanto a isso n�o tinha o que mentir. Ando pra cima e pra
baixo, tou nuns trabalhos de cobran�a, vez por outra uns p�s duros
se metem a engra�adinhos. Inventaria j� ter levado uma carreira.
Salvei o pagamento dos oper�rios na marra. 0 alcag�ete ia acreditar.
De mais a mais, a arma que lhe vendesse n�o tinha endere�o. Seria
dessas que a pol�cia toma dos ot�rios que andam pelos puteiros, dando
uma de mach�o. A pol�cia segura, o cara nunca mais v�. Banda
Branca sabia bem como se fazia essa coisa. Mas o �nico problema era

o pr�prio alcag�ete. Amanh� ou depois, numa manobra qualquer ele
destrava a l�ngua, estava encalacrado. Um detalhe que n�o podia esquecer.
Talvez, por isso mesmo, fosse melhor esperar Enfezado. Quem
sabe n�o encontrariam caminho mais seguro de obter a m�quina, sem
que um mau-car�ter como Banda Branca soubesse?
Cansou de estar sentado no meio-fio, cansou de ouvir a lengalenga
do camel�, foi at� o port�o, onde Man� Cabreiro ainda continuava
de servi�o. Quando sa�sse, Rox�o ficava no lugar. Pode deixar
que ele d� o recado. Rox�o, se um cara aparecer procurando Toninho,
manda esperar. Toninho recomendando que explicasse como era
Enfezado. Man� Cabreiro argumentando: j� sei de sobra! Rox�o bota
sentido.

Foi o tempo que Toninho achou ser boa hora de falar com Marlene.
Entrou na lanchonete, sentou-se no banco mais recuado, a
bicha apareceu toda dengosa, trouxe sandu�che e coca-cola, p�s-se a
comer. A bicha ia e voltava at� o balc�o, ele entendendo que disfar�ava,
a fim de n�o ser notada pelo portugu�s careca, atr�s da
caixa. Encostou-se, escorregou o bilhete na mesa: "te espero hoje �
noite". Sorriu quando Toninho tamb�m sorriu e amassou o bilhete.
Mordeu firme o sandu�che, tomou metade do copo de coca-cola, Marlene
soltou a nota que estava querendo: quinhentas pratas. Curvou-
se, no momento em que ajeitava a toalha, disse baixinho e r�pido:

� Te quero banhado e disposto!
Afastou-se para atender outros fregueses, parou diante do homem
suado e falador, pasta sobre a cadeira, Toninho dobrou rapidamente
a nota, meteu-a no bolso, terminou o sandu�che, caiu fora. Marlene
estava atarefada mas n�o deixou de olh�-lo. � noite se encontrariam.
Tinha certeza. Toninho n�o era de falhar. Por isso, bem ou mal,
vinham transando todo aquele tempo. Com os outros tipos havia sempre
problemas. N�o podia confiar. Com o garoto, pelo menos, ainda
n�o tinha do que suspeitar.


� Arranjei uma menininha que deu em cima dele o tempo todo.
S� vendo! Toninho? Nem te ligo.
Marlene s� fala essas coisas com Josaf�, o cozinheiro, que se p�e
a rir. 0 portugu�s da caixa acompanha a movimenta��o nervosa da
bicha. N�o gosta daquilo, mas � obrigado a tolerar. Ela atrai fregueses
novos, conserva os antigos. H� ocasi�es em que as outras mesas
est�o vazias, os gar�ons chamando, mas os fregueses preferem ser
atendidos por Marlene. Isso a mantinha no emprego, embora o portugu�s
calvo ache que n�o passa de uma sem-vergonha.

A partir do momento em que Toninho se mandou, Marlene foi
como que tomada de intensa crise de contentamento. Passou a sorrir,
a movimentar-se mais rapidamente, a fazer os pedidos dos pratos em
voz alta, a ajeitar as toalhas, colocar os guardanapos e at� a conseguir
uma rosa e oferecer � mulher loura, acompanhada do homem
barbudo, de grossas costeletas. A mulher quase n�o agradeceu a gentileza,
o homem sorriu. Na verdade Marlene queria encurtar aquele
dia, torn�-lo noite. Seu maior desejo: chegar a hora de livrar-se do
uniforme rid�culo, meter-se na sua roupa branca, caminhar at� o
apartamento, demorar-se sob o chuveiro, colocar perfumes e talcos,
ligar o ar-refrigerado, esperar Toninho. Estaria sobre a cama, apenas
um suave len�ol, a temperatura amena. N�o sabe se deixaria Toninho
tomar banho, se o exigiria como viesse: suado e fedorento nos sovacos.
Talvez fosse at� bom n�o banhar-se antes. Passado o instante da
empolga��o deveria perfumar-se. N�o tolerava homem porco. E para
que n�o tivesse nenhuma desculpa, revelaria o segredo por �ltimo: se
pode dormir at� �s 8 de amanh�. Sandra vai encontrar um cliente,
depois do show. Um velhote que lhe solta a grana. Uma vez por m�s
enfrenta esse drama. Pelo que me diz, vale o sacrif�cio.

Marlene imagina que Toninho acharia gra�a de Sandra com o
velhote, mas n�o sabe se gostaria que dispusessem de tanto tempo. Era
a oportunidade que teria para tirar a prova. Queria de fato saber se
Toninho a amava. Se a suportava pelo dinheiro, se sentia prazer em
estar com ela.

Marlene � solicitada pelos fregueses da mesa junto � parede, est�
nervosa s� de imaginar tanta coisa que tinha a dizer a Toninho e
outras que deveria apenas observar. Mesmo assim n�o esquece o sorriso
cort�s, n�o dispensa as boas maneiras. 0 mo�o coloca a m�o no
seu ombro, vai aos poucos fazendo o pedido. Os que est�o com ele
t�m d�vida quanto ao risoto de frango e a salada mista. Marlene anota
no pequeno bloco, depois encaminha-se � cozinha. Fala com Josaf�,
que era o �nico naquela lanchonete a quem podia fazer confid�ncias.
Conta-lhe da m�o do homem forte no seu ombro e o arrepio que sentiu.
Josaf� ri enquanto atende ao pedido escrito na pequena folha de
bloco. Marlene espera e exclama com impaci�ncia: nunca tive um
dia t�o longo na minha vida!


Toninho caminha pela cal�ada onde h� muita gente se movimentando,
o casaco de couro nas costas, corre na frente dos carros
quando o sinal j� est� aberto e ele insiste em passar, chega � constru��o,
tem de esperar o caminh�o que manobra para entrar de r�,
um homem todo sujo com a bandeira vermelha fazendo sinal, autom�veis
buzinando furiosamente. O motorista do caminh�o parece nem
perceber a buzinaria, avan�a para frente e volta de r�, torna a avan�ar,
gira rapidamente o volante, e finalmente o grande ve�culo entra
no canteiro da obra.

Toninho se aproxima de Rox�o, o homem diz alguma coisa, como
se n�o estivesse muito a par de como era o cara.

� Man� Cabreiro n�o disse?
O homem � forte, ar abestado. Procura lembrar.
� Teve sim. Crioulo magro, da tua altura, ar de atrevido. Esse
mesmo. Disse que tu ia rondar por a�, mas voltava em meia hora.
A informa��o deixava Toninho satisfeito. Foi para junto do camel�
com seu grande tabuleiro de bugingangas, de barraca de praia
aberta, sentou no meio-fio. Tirou bem devagar a c�dula de quinhentos
do bolso, olhou-a, como quem contempla um cart�o-postal, tornou
a guardar. Era poss�vel que aquilo fosse o princ�pio. Ia depender de
Enfezado. Cada pessoa que passava pelo port�o da obra Toninho estava
de olho. Em dado momento, Enfezado. Quis gritar, atravessar a
rua com o sinal aberto, viu o quanto Enfezado ficara diferente: magro,
alto, n�o t�o disposto como antes.

Assoviou forte, o sinal fechou, ele passou correndo. Bateram-se
mutuamente no ombro. Enfezado movimentando s� o bra�o esquerdo.

� Que houve, cara? Quanto tempo?
Tornaram a sentar no meio-fio. Toninho com o casaco de couro.
Enfezado com a cal�a desbotada, esfiapando, a camisinha descolorida
de tanta lavagem.

� Baixei ontem l� pelo morro, n�o te encontrei. Tive com seu
Greg�rio, com vov� Jandira. Onde te meteu?
� Ajudando um feirante na Gl�ria. N�o tiro quase nada. Mas,
pra quem ficou como fiquei, n�o � mal. H� semana de pegar at�
cem pratas.
� E o que houve?
Enfezado brinca com o cord�o de um dos sapatos.
� Seu Greg�rio n�o disse? Quando grampearam Colher de Pau
me levaram de quebra. Quase uma semana depois. N�o tava nem a�,
pois n�o devia coisa nenhuma. Mas o Banda Branca resolveu se vingar.
A� o Colher contou uma por��o de coisa. Um dos caras que ele
entregou Banda Branca meteu na cabe�a do delegado que era eu. Os
tiras baixaram l� no barraco. A sorte � que foi numa hora que o pai
ainda n�o tinha chegado. Me botaram num chiqueiro da Invernada,
iam acabar comigo. Vi a morte de perto, irm�ozinho. Depois de uns

meses, pra surpresa minha, tava melhorando. Mas esse bra�o nunca
mais. Fiquei aleijado. O pai n�o sabe.

Vov� Jandira n�o disse nada, nem seu Greg�rio. Ando meio
desconfiado com seu Greg�rio. No fundo ele transa com Banda Branca
e com alguns caras do Esquadr�o. Na frente da gente desfaz do alcag�ete,
mas tenho minhas d�vidas. N�o acredito mais em seu Greg�rio.
Umas coisas que contei pra ele do Banda, depois descobri que

o alcag�ete sabia de tudo certinho como tinha dito. Se meu bra�o
melhorasse, ia dar um jeito naquele comerciante cretino. Cada dia
que passa o sacana vai amoitando mais dinheiro que toma de tudo que
� favelado. Uma vez baixei firme na tendinha dele. Havia aumentado
uma porrada de parcelas nos fiados do velho. Disse que foi engano.
No m�s seguinte tornei a conferir o caderno, tava tudo errado novamente,
sempre a favor de seu Greg�rio.
� 0 que foi que os caras da Invernada fizeram?
� Puxa! N�o d� pra lembrar. De tanto cacete que levei, desmaiei
umas cinco vezes. Depois n�o vi mais Colher de Pau e os caras
continuaram me batendo. Um deles pegou meu bra�o e torceu.
Eu gritava e pedia que me soltassem. 0 bra�o quebrou na altura do
ombro. Rebolei no ch�o. Quando pude levantar, pensei comigo. V�o
me mandar pra enfermaria. Mas, nada. Me meteram numa solit�ria.
Fiquei mofando uns 15 dias. 0 bra�o inchou, passei um temp�o sem
vontade de comer, s� tomando �gua. Me arrastaram pra uma cela que
tinha 12 presos, sendo cinco tuberculosos. A boca-do-boi passava tr�s
quatro dias pra ser limpa e o fedor s� faltava matar a gente. Mesmo
assim o incha�o diminuiu, ficou desse jeito. Pra ficar bom tenho de
baixar num hospital, tornar a quebrar no mesmo lugar e engessar.
Mas cad� dinheiro?
� Tive com teu velho. Ele disse?
Toninho n�o espera que o companheiro responda. Tem muita
coisa a contar, a discutir.

� Fiquei impressionado com as coisas que ouvi de mestre T�bor.
Parece que n�o t� enxergando nada. Mesmo assim n�o perdeu a
preocupa��o com os outros. Quando disse que tava quase da altura
dele e pesava uns 65 quilos, ficou contente. Isso, n�o sei por que,
tamb�m me fez bem. Me senti outro, ouvindo o teu velho. Acho que
ele diz as coisas como s�o. N�o faz rebuscado, nem quer que a gente
fale, enquanto fica s� ouvindo. Quem gosta disso � seu Greg�rio.
Quando passei pela tendinha me contou as hist�rias do morro. Disse
que meu velho n�o se mandou, como afirmam. Acha que foi fechado
por a�. Em algum buraco que ainda n�o descobri.
� Vai querer levantar isso?
� Entre outras coisas, cara. Tenho uma grana mas ainda n�o
� suficiente. Quando tiver bastante vou procurar o pai. A gente tinha
um projeto. Se ele aparecer, tudo pode mudar. Talvez v� com ele pro

interior. Tu vem tamb�m. Se procura um peda�o de terra, curte juru beba
e guando. Te lembra?

� Teu velho n�o � diferente do meu. S�o de outro tempo. N�o
aprenderam nada do que t�o ensinando por a�. Ainda pensam em
consertar as coisas. Depois que sa� da Invernada s� tenho uma id�ia,
cara: acabar com os que me aleijaram. E vou conseguir. Um deles
j� t� no papo.
Dizendo isso Enfezado afasta a camisa, tira do bolso o canivete
de muitas l�minas. P�e-se a abrir.

� Olha s�: serve pra destampar garrafa, limpar unha, fazer
ponta de l�pis, cortar o pesco�o de um filho da puta.
� Quem � o cara?
� Sargento Beto. Um branco gordo e seboso. Fala manso, gosta
de passar como amigo dos presos. Por tr�s, manda baixar o cacete.
Sem d� nem pena!
� Se entrar em outra fria?
Enfezado faz um riso nervoso.
� Dessa vez n�o! J� sei tudo que acontece na casa dele. At�
o dia em que o cara do supermercado leva as compras. Sargento Beto
t� sempre na Invernada. Adora aquilo ali. Se diverte mais do que
vendo televis�o.
� Como pensa fazer?
� Por enquanto n�o quero nada com o sargento. Vou entrar
na casa, sangrar a mulherzinha dele com esta l�mina maior. Olha s�!
Enfezado aperta um bot�o no cabo do canivete, uma l�mina de
dez cent�metros salta para fora, com forte estalo.

� Puxa! N�o tinha visto um canivete assim!
� Custou dois meses de trabalho e uma por��o de coisas por
baixo do balc�o. N�o sei como n�o me estrepei com o dono da barraca.
Agora � meu e vai prestar servi�o. Quero s� ver quando o tal
sargento chegar e encontrar a mulherzinha de cara rasgada, bucho
rasgado, as tripas de fora.
� Quer ajuda?
� N�o complica tua vida. 0 pai disse que t� indo bem. Pode
virar gente. Eu, aleijado de um bra�o e sem um puto no bolso, tou
cagando pro que der e vier. Quero ver se junto uma grana pra pegar
os documentos, mas t� dif�cil. O sacana do barraqueiro n�o assina carteira.
0 fiscal baixa por l�, leva um calaboca, fica tudo por isso
mesmo.
Toninho continua a ouvir Enfezado. N�o � mais o mesmo que
conhecera. S� se parece quando insiste em n�o permitir que ningu�m

o humilhe.
� Posso te ajudar, cara. Vou na casa do tal sargento no dia
que marcar.
� T� fechado. Logo que encontre a brecha dou o al�.

� Daqui pra frente se vai t� sempre falando. Tou planejando
botar a m�o numa bolada, quero contar contigo.
� Com esse bra�o?
� Tu n�o encara o lance, fica na retranca!
� A� n�o tem gra�a. Se entra numa fria, como � que fica?
� Nada disso. Nenhum de n�s vai se ferrar. � um plano que
s� d� certo. N�o tem bronca.
� Qual � o plano?
� Abotoar uns caretas de t�xi, tomar a grana deles. Outro dia
tive reparando: tem motorista recolhendo mais de mil por dia. Se se
pega quinhentos que seja cada noite, j� d� pra refrescar.
� E quando os tiras derem em cima?
� Se entra de f�rias.
� Meu papel nisso tudo?
� Fica cuidando da grana. Tu abre uma conta no banco.
� Se teu velho aparecer?
� A�, � como j� disse: me mando com ele. Se tem como comprar
o peda�o de terra.
Durante instantes ambos permanecem calados. Sem olhar para
Toninho, Enfezado indaga:

� Acha que vai dar as cara?
Toninho nunca imaginara responder a semelhante indaga��o.
� Acho que n�o. Mas tou com um retrato dele pra publicar
no
jornal.
Enfezado encara o amigo, os olhos s�o frios, maus.

� N�o � melhor arroxar, Banda Branca pra ver o que sabe?
Depois que tive na Invernada, passei a entender: nada acontece no
morro que Banda Branca n�o teja metido no meio. Te lembra da
Beatriz, filha de dona Zizinha?
� A boazuda?
� Essa mesmo. Foi tirar documentos, nunca mais voltou. Dona
Zizinha ficou que nem maluca. Na Invernada eu soube o que aconteceu.
Banda Branca tinha tudo apalavrado. Dois tiras pegaram a
garota, levaram pra Barra. Meteram ela num hotel, ficaram um dia
inteiro comendo de grande. Quando cansaram, j� era puta e tinha
um amante arranjado pelos caras. Em troca Banda Branca liberou
um traficante de t�xicos condenado a 25 anos. Por fora ainda levou
uma grana do tal traficante. Todo mundo sabia disso por l�. N�o era
segredo nenhum. Havia at� um bunda-mole juntando dinheiro pra
comer Beatriz quando sa�sse da cadeia. Os tiras mostravam fotografias
dela sendo trepada de todo jeito, diziam que qualquer um podia
comer, desde que oferecesse vantagens em troca.
� Que � que sugere?
� Que se marque um encontro com Banda Branca. Acha que
sou ot�rio, n�o sei da armadilha que me preparou. Dou uma de ino

cente, arrasto ele pro local da tua escolha. A� se arroxa o sem-vergonha!


� � uma boa!
� Mas antes tem de conseguir um berro. 0 malandro n�o anda
desamparado e a m�quina que usa � de primeira.
� O diabo � que tou por fora.
� Se descola uns trezentos, amanh� te trago um berro. Pode
n�o ser do bem bom, mas funciona.
� E depois que se encerrar Banda Branca?
� A� se parte pra tua transa. Motorista dando sopa � que n�o
falta. Acho uma boa. Ficar ganhando a merda dos cem por semana
n�o cola. 0 careta da barraca sabe que s� tou l� passando chuva.
Muitas vezes nem apare�o em casa, com vergonha de encarar o velho.
Se acabando num barraco imundo e eu sem poder fazer nada por ele.
Toninho p�e o bra�o no ombro de Enfezado:

� Deixa comigo! A grana vai jorrar. Se vai ter condi��o pra
uma por��o
de coisa, at� pra dar jeito nesse bra�o.
Enfezado sorri, sabe que o amigo est� querendo ser bondoso.

� Mesmo aleijado vou fazer surpresa pro sargento. Com ele
t� tudo tra�ado.
� Quando vai ser?
� Se topa, mesmo, quinta de manh� a gente se encontra na
Pra�a S�enz Pena. A casinha fica perto. � velha, tem uns vasos de
plantas na janela. �s dez em ponto pinto por l�. Pra decis�o. Se fica
na paquera at� o cara do supermercado aparecer.
� Vai descarregar em cima dele?
� Sargento Beto � quem vai descobrir. Meu papel � entrar naquela
casa, mostrar � mulherzinha que sou uma das v�timas do seu
marido, assim como ela vai ser uma das minhas v�timas. Gomo no
nosso tempo, t� lembrado: olho por olho, dente por dente!
Toninho compreende a agonia de Enfezado.

� E se tiver outras pessoas, al�m da mulher?
� Claro que tem. Um velhote, uma irm� do sargento. Indo
comigo n�o vai haver problema. Esse pessoal fica trancado num quarto,
enquanto fa�o o servi�o.
Enfezado torna a ajeitar os cord�es dos sapatos.

� S� tenho pena que a filha do sargento, deste tamanho assim,
tenha ido pra casa da av�. Depois pego ela tamb�m.
� A garotinha.
� Isso mesmo. 0 servi�o tem de ser completo. Mesmo assim
ainda n�o paga o que o sargento Beto j� fez na Invernada. Precisava
dar um mergulho por l� pra ver como �. S� pra te refrescar, o
que fizeram com Colher de Pau n�o se faz com um porco.
� Como foi?

� Tavam querendo que se abrisse e entregasse uma por��o de
gente. Colher j� havia dito o que era poss�vel. N�o sabia mais nome
de ningu�m. A� o sargento Beto deu a id�ia. Na sala toda fechada
tava eu, Colher, Estilo e um outro careta que n�o recordo. 0 sargento
mandou abrir a boca de Colher de Pau, puxou a l�ngua dele pra
fora, um tira meteu a ponta do punhal em cima. 0 sargento sorriu,
deu um murro no cabo do punhal, Colher ficou com a l�ngua colada
na mesa. 0 sargento se afastou com os outros, dizendo: deixa ele
a�, pensando; quando se lembrar dos coleguinhas se vem ouvir ele
cantar. 0 chato � se at� l� a cantiga j� n�o nos interessar.
� E o Colher?
� Arrastaram da sala, debaixo de pau, n�o sei o que aconteceu.
Coisa boa te garanto que n�o foi.
� Sargento Beto parece ter cabelo na venta.
� Da pesada. Sabe o que faz � comenta Enfezado mostrando
os dentes num riso nervoso.
DOIS

Os dois levantam, p�em-se a caminhar. Toninho compra cigarros,
oferece a Enfezado. Pede um isqueiro, a fim de trocar a c�dula,

o homem entrega-lhe o troco, sem ao menos encar�-lo. Toninho confere
as notas, passa trezentos a Enfezado. Depois, mais cinq�enta.
� Segura, cara. Deixa de ser besta!
Continuam a caminhada.
� Hoje de noite pego o berro. Vai ver como � bom.
Seguem pela rua movimentada, at� o ponto de �nibus.
� Com a m�quina na m�o se peita o Banda Branca � diz
Enfezado.
� Se trouxer amanh�, vai facilitar a visita na casa do sargento.
Chega um �nibus, uma por��o de gente corre, n�o serve para
Enfezado.

� Quando se sair da casa do sargento, a� se vai na reda��o do
jornal, pedir pra publicar a fotografia do teu velho. Se ele aparecer,
acho que tamb�m me mando!
� Quem sabe se d� sorte s� com o guando e a jurubeba?
Enfezado torna a sorrir.
� J� imaginou a gente nos paus, ouvindo grilo cantar e jararaca
chocalhando pra engolir sapo?
Outro �nibus se aproxima, Enfezado mete-se no meio das pessoas
que se empurram, o �nibus arranca com f�ria, Toninho continua


pelo cal�ad�o, casaco no ombro. Calcula o dinheiro que sobrou, sabe
ser bem pouco mas daria at� � noite, quando se encontraria com
Marlene. Necess�rio que a fizesse recordar os bons tempos. Depois
explicaria a urg�ncia de ter mais uns cobres. Iniciara um neg�cio, os
quinhentos da manh� foram investidos. T�o logo o empreendimento
estivesse rendendo, receberia dividendos. Marlene n�o acreditaria,
teria de inventar uma longa hist�ria. Mas a �nica pessoa que podia
saber do plano era Enfezado. Nele confiava. Nele tinha seguran�a.
Nem que o pendurassem no pau-de-arara jamais entregaria um companheiro.
Marlene era amizade passageira. T�o logo conseguisse outra
maneira de obter dinheiro, trataria de evit�-la. Mandaria Man� Cabreiro
dizer que tinha se mandado, sem deixar endere�o. Se escafedeu,
afirmaria Rox�o. A bicha cansaria de procurar. Se pensou que ia
passar a vida inteira aturando sua histeria, tava muito enganada.

Toninho p�ra diante da loja, olha a vitrine de cal�as e camisas
elegantes, vai em frente, o movimento nas ruas aumentou, as l�mpadas
come�am a acender, os autom�veis trafegam com faroletes ligados.
Imagina sentar-se um pouco na pra�a, onde havia o barzinho
com a puxada de lona branca e vermelha, mesinhas de ferro, o tipo
que vendia bilhetes de loteria transando por perto. Sentaria por l�,
pediria um chope, depois mais outro, se tivessem cerveja era prefer�vel
por ser mais em conta e levar mais tempo para acabar.

Entra no barzinho, pendura o casaco na cadeira, senta na outra,

o gar�om de cal�a preta e camisa branca se aproxima, pede cerveja.
O homem vai para os fundos do bar, retorna com a cerveja e um
copo, na bandeja niquelada. P�e na mesa, sem dizer coisa alguma.
O barzinho estava vazio �quela hora. Al�m dele, os �nicos clientes
eram um casal de namorados e duas velhotas que bebericavam chope
e falavam em voz baixa.
Colocou a cerveja com cuidado no copo, a fim de evitar espuma,
p�s-se a pensar na companheira de Marlene. Ora, por que, at�
ali, nem ao menos procurou saber quem era? Por que n�o indagou
de Marlene, ao acaso, em que boate a amiguinha trabalhava? Quem
sabe n�o seria uma mulher de fazer inveja? Tomou os primeiros
goles de cerveja, a curiosidade aumentando. Toninho sabendo que
deveria tratar do caso com cuidado, Marlene toda cheia de problemas,
tinha ci�me de tudo, era capaz de ficar ouri�ada. O melhor
seria chegar ao apartamento um pouco mais cedo. Quem sabe, antes
da vedete sair para a boate? Entendeu mal a hora do encontro com
Marlene, antecipou-se. Se a mulher estivesse por l�, daria essa desculpa.
E se por acaso houvesse briga entre a vedete e Marlene? Prossegue
tomando a cerveja, tem vontade de rir. 0 que teria a ver com
a possibilidade de uma briga? Afinal, a bicha dividia o aluguel, n�o
era segredo que tinha um amiguinho. Esse amiguinho marcou um
encontro, confundiu a hora. N�o via nada de anormal. Pelo contr�



rio, talvez fosse uma solu��o. A bicha ia ficar cheia de ci�mes, sem
saber o que na verdade aconteceu at� que aparecesse, podia se aproveitar
disso, pedir mais dinheiro. Se n�o tivesse, que se virasse, pedisse
um adiantamento no trabalho. Mas estava certo de que Marlene
sempre guardava uma reserva. Ganhava bastante gorjeta, n�o gastava
quase, a n�o ser com as pinturas, talcos, an�is, as roupas ex�ticas.
Fora disso era aquele apartamento de merda, meio a meio com
a vedete. 0 �nico bem, um refrigerador de ar, metido na parede. A
bicha pagava presta��es e por causa dele se responsabilizava sozinha
pela conta da luz. Mas nem sempre o refrigerador funcionava. Fora
instalado para os momentos especiais, como a pr�pria Marlene costumava
dizer. E naquela noite quente, tinha certeza, o refrigerador
estaria funcionando.

No terceiro copo de cerveja Toninho est� tentado chegar pelo
menos uma hora antes no apartamento. Meteria a chave na porta,
entraria, como de costume. Se a mulher reclamasse? A desculpa estaria
na ponta da l�ngua. D� essa atitude como definitiva e oportuna,
acompanha o velhote de terno esfarrapado que tenta se aproximar das
mulheres, do casal de namorados. 0 gar�om empurra o velho com
for�a, mas fazendo crer n�o o estar molestando. As mulheres e o
casal de namorados olham, indiferentes. Todavia, do �ngulo de Toninho,
d� para ver as garras do homem de cal�a preta apertando ao
m�ximo o bra�o do mendigo. O velhote pede que n�o o machuque,

o gar�om faz um riso nervoso, dizendo n�o tou machucando vov�,
apenas quero que fique mais pra l�, pois aqui n�o se pode pedir
esmola, o patr�o n�o quer. Dizendo essas coisas, sempre com ar de
riso, o gar�om vai arrastando o velhote que est� quase chorando. Quando
o mendigo � solto na cal�ada fica como que aturdido, sem dire��o
a tomar. Toninho tem vontade de cham�-lo, oferecer-lhe um sandu�che.
Fica na d�vida, o velhote vai se afastando, em meio � cidade
tumultuada, de l�mpadas se acendendo, carros cruzando velozmente,
grupos de pessoas correndo por cima das faixas pintadas de branco no
asfalto negro. Torna a olhar o homem que nunca vira, considerando-
o perdido naquele torvelinho da noite que se instalava. Lembra-se
de Enfezado, da promessa de irem � reda��o do jornal. Botaria a
foto no notici�rio policial, ficaria esperando o resultado. Ser� que o
pai perdeu a mem�ria, ficou abestado pelas ruas como o velhote enxotado
por um merda de gar�om?
Com o retrato no jornal talvez tivesse uma resposta para aquela
d�vida. Nos momentos mais estranhos recordava-se da noite em
que o pai se vestira �s pressas, saiu dizendo toma conta da tua m�e,
vou chamar o m�dico no Posto, volto j�. A m�e gemia alto, contorcia-
se na cama estreita, vov� Jandira chegou, foi preparar ch� de
erva-cidreira. Trouxe o ch� numa tigela ele teve de erguer a cabe�a
da m�e. A� percebeu que estava fria, o suor escorria-lhe da testa. No


3 9


tou tamb�m a preocupa��o de vov� Jandira e, sem que nada lhe fosse
dito, sabia que o pai n�o encontraria a m�e com vida. Para que o ch�
n�o derramasse, subiu na cama, apoiou a cabe�a da m�e sobre as pernas.
Mas n�o conseguiu tomar o ch�. N�o tinha for�as. Vov� Jandira
murmurava palavras impercept�veis, os olhos de Toninho se encheram
de l�grimas, algumas delas escorrendo pelo rosto da m�e que
j� estava morta.

� Descansa em paz, filha de Deus!
Toninho saiu da cama, vov� Jandira fechou os olhos de dona
Mundiquinha, p�s-se a procurar uma vela no arm�rio, veio com ela
acesa para o quarto. A vela estava num pires branco, o pires colocado
aos p�s de Iemanj�. Toninho ficou um temp�o em sil�ncio, olhando
a m�e que parecia adormecida. Quando o pai chegasse com o
m�dico, falaria do esfor�o de vov� Jandira.

Agora, naquele barzinho pouco freq�entado, com um gar�om
ordin�rio que disfar�ava ao tentar quebrar o bra�o do mendigo, lembrava
bem das coisas. A m�e doente. Muito doente. At� quando ria
n�o conseguia dissimular a tristeza. E mais triste ficava nas horas
em que lhe dava conselhos.

� Se n�o estuda, filho, vai ter vida dura. Como teu pai.
Toninho falava no projeto do guando e da jurubeba, a m�e fazia
um risinho amarelo, como se jamais tivesse acreditado naquele
sonho.

� Mesmo que se v� pra planta��o, a recompensa � nenhuma.
Todo mundo que t� pelo campo quer vir pra cidade. Teu pai sabe disso.
A vida por l� � pior. Muito pior!
Como a m�e sabia daquelas coisas se n�o lia jornal, n�o ouvia
r�dio?

Isso se tornou ainda mais contradit�rio, depois que abriu o ba�,
encontrou os cadernos com a letrinha mi�da que tinha; letras tra�adas
sem pressa. Coisa de quem reflete bastante, antes de se lan�ar a
cada nova palavra. Leu tanta anota��o da m�e que teve vontade de
morrer. Ou nunca mais voltar ao barraco. De onde tirava tanta compreens�o
para perdoar o dono da tendinha que suspendera a conta dos
fiados, de onde conseguia coragem para ajudar os flagelados, que h�
tr�s dias n�o sabiam o que era cheiro de comida? E por que n�o se
alegrou na noite em que o pai jogou uma por��o de dinheiro na
mesa, disse que ia poder pagar o safado do seu Greg�rio?

N�o compreendia a m�e. N�o sabia nunca se estava alegre ou
triste. Estendida na cama, a vela junto a Iemanj�, vov� Jandira ajoelhada,
tirando ora��o, tudo que tinha vontade era de abra��-la. Queixar-
se das malcria��es que fizera, abra�ar-se ao pai que estava demorando.
Sem a m�e, quem ia cuidar das coisas? Como o pai podia ir
embora, cedinho, levando a marmita? Quem faria os remendos nas


roupas, quem ajudaria nos planos? Deixou-se vencer pelo choro e s�

parou quando estava cansado, terrivelmente cansado.

Pede outra cerveja, o homem abre a garrafa, displicentemente,

como se n�o tolerasse o fregu�s morrinha, de pequena e calculada

despesa. Que o gar�om de riso nervoso se lixasse! Que se aproveitasse

dos mendigos e dos imbecis. Dele n�o. O pai nunca mais voltou, ficou

uma semana esperando, os vizinhos carregando a m�e no caix�o pobre,

algumas flores tiradas dos quintais, o galego do t�xi reclamando da

ladeira, mestre T�bor mandando o homem calar que pagaria a via


gem dobrado, o portugu�s esfregando o len�o sujo na cara e na careca,

camisa colada no corpo. Mestre T�bor n�o queria Toninho no enter


ro, vov� Jandira aconselhou o contr�rio.

� Certo, vov�! O menino vai.
Vov� Jandira, com os olhos rasos d'�gua, n�o pareceu sequer ouvir
a explica��o do serralheiro.
Toninho vira o copo de cerveja com vontade, sente o l�quido
gelado descendo pela garganta, um gosto de l�grima.
Entrou no Pacard preto, quatro pessoas no banco de tr�s, duas ao
lado do motorista. Mestre T�bor na frente, ouvindo as reclama��es do
portugu�s. Cada vez que o Pacard entrava numa viela e estalava todo,
como se fosse largar as rodas, ele resmungava. Vagarosamente, alguns
metros adiante, o carro com o caix�o. No cemit�rio Toninho ficou
olhando para tr�s. De um momento para o outro o pai aparecia, �h,,
se ele surgisse! Tinha certeza de que ia chorar muito.

� Vamos l�, filho � disse mestre T�bor.
Foi andando, margaridas nas m�os, tr�s ou quatro rosas do pr�prio
quintal de vov� Jandira. Seguia o pequeno grupo, como se estivesse
sendo empurrado. Chegaram ao lugar baixo, de covas rasas. 0
capim crescia e por todo lado havia pedras e peda�os de tijolos, de
velhas sepulturas que o tempo desfizera. N�o viu o caix�o descendo
na cova mas sente ainda hoje a m�o pesada de mestre T�bor no seu
ombro.

� Joga as flores e faz um pedido. 0 �ltimo.
Os que estavam por perto, esperando que falasse. Se esfor�ou,
n�o conseguiu. Como � que ia falar daquele jeito e, pior ainda, o
que � que devia pedir?

� Vamos, filho!
Lan�ou as flores, os homens come�aram a empurrar a terra com
p�s e enxadas. Naquele bar, cercado de ru�dos, ouve o rumor cavo dos
torr�es batendo no caix�o de t�buas baratas, enfeites ordin�rios. Olha
para tr�s, de um momento pro outro o pai vai aparecer. A�. lhe contar�
tudo como aconteceu. E mais que isso: o que tem ocorrido desde
ent�o. Falaria de seu Greg�rio que agora parecia outro. Ser� que
seu Greg�rio achava de fato o pai um bom cara ou dizia aquelas coisas
pra agradar? 0 gar�om traz a nota, Toninho confere. O homem

41


tira a carteira do bolso, coloca o troco na mesa. Toninho recolhe tudo,
debochadamente, enfia no bolso, vai embora rompendo fios da noite,
pisando lembran�as.

TR�S

Pelo rel�gio da panificadora, no mesmo quarteir�o do edif�cio de
Marlene e da sua coleguinha, j� passava bastante das 7. Novamente
Toninho teve vontade de encontrar-se com a mulher que nunca vira,
que jamais lhe despertara curiosidade at� ali. Abriria a porta, como
se n�o soubesse de nada, ou tocaria a campainha? Imagina a solu��o
para esse m�nimo problema, caminha na cal�ada larga, atravancada
de autom�veis, de canteiros com plantas murchas, galhos quebrados,
folhas arrancadas, porteiros fardados conversando fiado, controlando
quem entrava e sa�a, pra depois dedarem na pol�cia. Gente cretina
aquela ra�a de porteiros. Quase todos alcag�etes. Se lembra bem das
queixas de Marlene e, tamb�m, dos avisos.

� Quando subir, tem cuidado com seu Manuel. Transa com os
tiras.
Toninho sabe que a bicha tinha raz�o. Cansara de ver o grandalh�o
fiscalizando-o com o rabo do olho. Por isso, no mais das vezes
subia o primeiro pavimento, ficava esperando o elevador. Quando se
esquecia dessa provid�ncia, o porteiro aproveitava.

� Por favor � diz seu Manuel � essa carta � pra voc�?
Toninho l� o sobrescrito. Um nome que n�o tinha nada a ver.
� N�o. N�o � pra mim!
� Qual �, mesmo, seu andar?
Toninho percebe a jogada. Ent�o era aquilo. 0 tipo ordin�rio
queria saber onde se metia, cada vez que ficava esperando o elevador.
Num segundo, muitas vontades: mentir, dizer que n�o morava ali,
conseguir logo o rev�lver e acabar com aquele alcag�ete sem-vergonha.

� Tenho um amigo no 9.� N�o se chama Everaldo.
Seu Manuel recebe a carta de volta, torna a guard�-la, entre
tantas que havia na mesa, faz ar de riso, como se dissesse: best�ide!
Mas naquela noite em que examinou o rel�gio da panificadora
n�o viu seu Manuel, o pr�dio estava em calma, o elevador parado no
t�rreo. Tanta coincid�ncia o levaria � vedete? Quem sabe chegaria
no momento em que estivesse se aprontando? Tomando banho ou simplesmente
dormindo?

Aperta o bot�o, o elevador come�a a subir. Em cada pavimento
um cheiro diferente. Sai do elevador, segue pelo corredor estreito e
longo, raras l�mpadas acesas. As outras haviam queimado, ningu�m


procurou mud�-las. N�o tem muita certeza mas, pelo que se recorda,
desde quando encontrou pela primeira vez com Marlene, j� aquelas
l�mpadas estavam assim. Naturalmente seu Manuel recebia dinheiro
do condom�nio para manter as l�mpadas em ordem mas desviava.
Ah, se morasse naquele pr�dio, se pagasse as taxas que todo propriet�rio
exige, aquele porteiro de merda ia comer um dobrado. N�o lhe
daria sossego. Rodou a chave na fechadura, examinou a porta por
baixo: tudo escuro. Imaginou n�o haver ningu�m. A porta abriu-se
suavemente, a escurid�o era completa. Acenderia a luz ou se aproximaria
da cama? E se a mulher se apavorasse, come�asse a berrar, a
fazer esc�ndalo, pensando tratar-se de assalto? Seu Manuel viria, faria
novamente aquele ar de riso debochado, discaria para a pol�cia. Desde
a tal carta com o nome trocado, aguardava uma oportunidade para
castig�-lo.

N�o pretende imiscuir-se como um intruso. Deseja que as coisas
aconte�am, normalmente. Acenderia a luz, a mulher se ergueria,
indagaria o que estava fazendo ali.

� Sou amigo de Marlene. Cad� ela?
A vedete daria uma resposta ou n�o diria nada, se voltaria, continuaria
a dormir. Apagaria a luz, ficaria na poltrona despencada,
depois iria para a cama. Sempre devagar, como quem n�o quer. A�,
era poss�vel que a garota o aceitasse.

Acende a luz, n�o acontece nada. A mulher continuava debaixo
do len�ol, o ar-refrigerado ligado. E logo ela que estava sempre reclamando
do gasto de energia. Espera um pouco, chega perto da cama,
pega na ponta do len�ol, v� a cabe�a de Marlene. Tem vontade de
apagar a luz, retirar-se, s� aparecer na hora marcada. Mas alguma
coisa de errada aconteceu com a bicha para estar t�o cedo em casa.
A decep��o � vaga, desfaz-se. Num outro dia, numa outra oportunidade,
teria mais sorte. Passaria a visitar mais freq�entemente Marlene,
at� topar com a vedete. Abre a geladeira, praticamente vazia,
toma coca-cola, bate a porta com for�a. A bicha mexe-se, ergue-se, faz
careta para a luz que � forte.

� Que houve, bonit�o? A saudade apertou?
Toninho sorri, a bicha estende os bra�os.
� Vem c�! Vem!
Senta na beira da cama.
� Que houve?
A bicha recosta-se nos travesseiros.
� Aquele gerente chato t� me torrando o saco. N�o ag�ento
mais as picuinhas daquela peste. Engrossou por causa de uma besteira,
eu disse tchau, vim embora. Amanh�, se achar que n�o procedi
direito, � s� dizer.
A bicha sorri, p�e os bra�os nos ombros de Toninho, alisa-lhe os
cabelos.


� Nossa! Como o pobrezinho t� suado! Quer o ar mais frio?
Toninho n�o diz nada. Procura apenas disfar�ar sua decep��o.
Se soubesse daquela, ainda estaria pelas ruas, entrando e saindo de
botecos, de casas de jogos eletr�nicos, ouvindo conversas de desocupados
em bancos de pra�a. Em todo caso, o que o anima � a possibilidade
de conseguir mais dinheiro.

Marlene abre-lhe a camisa. Toninho deixa. N�o adiantava recusar.
Depois da camisa � a cal�a. O pr�prio Toninho ajuda a tirar
a roupa. Marlene agarra-se a ele, p�e-se a mordisc�-lo devagar, como
fera domada. Toninho sorri das c�cegas que lhe provoca, principalmente
na barriga e nas virilhas. A cabe�a da bicha reaparece junto
� sua, olhos brilhantes, dentes brancos.

� Um dia te engulo inteirinho!
Toninho sorri.
� Pode morrer de indigest�o!
Marlene acha gra�a. Por uns momentos fica quieta, nenhum dos
dois diz coisa alguma. Apenas ouvem o zunido do aparelho de ar-
refrigerado. O suor de Toninho passou, come�a a sentir frio, cobre-se
tamb�m com o len�ol.

� Se deixar a imund�cie daquela lanchonete, sabe o que tou
querendo fazer?
Toninho n�o faz a menor id�ia.

� Tiro o dinheiro da poupan�a, vamos viajar. Se passa no
m�nimo um m�s andando por a�.
� A�, por onde?
� S�o Paulo, Curitiba, talvez Porto Alegre.
� Por que n�o Salvador ou Recife?
� Corta essa. Nada de lugar que faz calor. Detesto calor!
Novamente ficam sem ter o que dizer, novamente o ru�do do
ar-refrigerado avulta no sil�ncio do pequeno c�modo.

� Acho que viveria melhor num pa�s frio. A Su�cia. Como
adoraria morar na Su�cia!
� Acontece que por l� n�o querem brasileiros.
� E quem � que disse que se pode ir pra l� � acentua a bicha.
� S� pra sair deste circo se tem de depositar uma nota. Entrega o
dinheiro de m�o beijada.
Toninho cruza as m�os por baixo da cabe�a. � a primeira vez
que permanece estirado ao lado de Marlene, sem qualquer sentimento
de repugn�ncia. � a primeira vez que sente o quanto na verdade
se entendiam. Ser� que uma mulher teria tanta paci�ncia com ele
ou o encheria diariamente de pedidos, de exig�ncias? Imagina como
seria a colega de Marlene, tem vontade de fazer indaga��es, teme a
ciumada, rcorda o prop�sito de Enfezado com a mulherzinha do sargento
Beto. Como seria ela? Se chegasse a topar mesmo a coisa, por
que n�o fechar o pessoal da casa num quarto, arrancar a roupa, ver


se ela conferia? Procura fixar-se nessa possibilidade, mas de longe
chega-lhe a lembran�a de Marta. A garota de ar alegre, que costumava
aparecer no barraco de dona Julinha. Meteu-se pelo quintal de
vov� Jandira, por baixo das folhas de cana, viu a menina no banho.
Ficou deitado no ch�o, sentindo o cheiro da terra e acompanhando os
movimentos da garota. Tinha o corpo bonito, completamente diferente
daquela porcaria de Marlene. N�o acreditava que gostasse da
bicha. No m�ximo estava se acostumando. Era muito magra, nervosa,
n�o tinha seios. De vez em quando prometia fazer um tratamento
� altura, mas na verdade Marlene era bicha pobre. Ele se incumbia
de tomar-lhe praticamente todo o dinheiro que conseguia. Cada dia,
cada semana, inventava uma hist�ria. E a bicha ia soltando. Que
mulher estaria disposta a semelhante situa��o? Nesse ponto tinha de
concordar: somente Marlene. Talvez nem outra bicha entrasse no
mesmo esquema. E Marlene era limpa. Dois banhos por dia. Um
quando sa�a, outro quando voltava. Escovava os dentes ap�s cada refei��o.
Tinha dentes perfeitos. Ao menor sinal de c�rie corria ao
dentista. N�o tinha mau h�lito. A boca n�o fedia. Na noite em que
Toninho pegou a loura na Barata Ribeiro e foi com ela para o apartamento,
teve saudade de Marlene. A mulher fedia azedo. Quando

o agarrou pelos cabelos e o beijou com f�ria, sentiu o h�lito insuport�vel.
N�o fugiu porque era dona de um corpo bonito, estava se entregando
sem exigir coisa nenhuma. Toninho chegou a imaginar que
se tratasse de algum golpe. Mas n�o era nada disso. A mulher tava
muito doida e tinha de ser um garoto, embora afirmasse transar com
os coroas e com os velhos.
� Mas pegar um deles d� trabalho. Principalmente coroa. N�o
tenho paci�ncia!
Sorriu, os dentes eram amarelos de cigarros, a boca fedia. Toninho
tamb�m sorriu, mas j� estava pedindo a hora em que ela cansasse
para cair fora. A mulher n�o compreendia, alongava-se numa fala��o
sem fim, acendendo um cigarro atr�s do outro.

� Detesto meu marido, exatamente porque � coroa; nem mo�o,
nem velho. A pior idade. Fiz um trato com ele. Uma semana em
cada m�s vai pra casa da m�e, uma velhota muito chata, me deixa em
paz. Eu transo com quem quero. De vez em quando pego um cara
bem velho. Tenho uma tes�o danada perto de velho. Talvez seja
quest�o de humanidade.
A mulher mostrou os dentes num riso um tanto ing�nuo, Toninho
tamb�m sorriu. Como sorri, agora, dos planos de viagem de Marlene.
Por onde andaria aquela maluca alourada, de olhos redondos
e grandes? Como era mesmo o nome dela? N�o consegue recordar. J�
fazia bastante tempo. Se a encontrasse novamente era capaz de n�o
reconhecer.

� Sinto tes�o perto de um velho. ..

Ser� que a coleguinha de Marlene tamb�m gostava de velhotes

ou ia com eles por ser mais f�cil arrancar dinheiro?

Marlene falava nos dias que passariam num bom hotel, nos luga


res elegantes que freq�entariam. Mas, na verdade, Toninho n�o via

muito sentido naquelas coisas. Nunca tivera desejos de viver no luxo.

� Bobagem, garoto! Vai dizer que n�o gostaria de passar um
m�s no apartamento mais caro do Hotel Intercontinental? Corta essa,
desesperan�ado!
Toninho torna a sorrir, Marlene alisa-lhe os cabelos do peito, passa
os dedos macios no seu queixo, no nariz, nas orelhas.

� Tuas orelhas s�o menores que as minhas � diz em dado momento
Marlene, quebrando completamente o ritmo do seu pr�prio mon�logo.
� Quem tem orelha grande vive mais. J� imaginou ficar vi�va,
nesse mundo de crocodilos? Se tu morrer primeiro, tamb�m me
mato!
� Nada disso, arranja logo outro.
� At� l�, tou caqu�tica. Ningu�m vai me querer. A n�o ser
essas imund�cies que trepam at� em buraco de fechadura. N�o sabe
como abomino esses tipos. Como fedem. Outro dia � �, c�us! � tive
a infelicidade de entrar num �nibus que vai pra Central. Saltei dois
pontos adiante, com crise de v�mito. Nunca vi tanta gente fedorenta.
� Quer dizer, nunca foi ao Maracan�?
Marlene ap�ia-se num dos cotovelos, a m�o na cabe�a, a outra
mexendo nos desenhos do corpo de Toninho. 0 indicador da unha
polida, transparente, acompanha o caminho das veias, dos nervos, dos
tend�es.

� Nem tenho vontade! Detesto aglomera��o!
� Se tivesse dinheiro, n�o perdia um jogo. Gosto de ficar no
meio daquela gente! Esculhambada, dentes soltando, sovacos fedendo.
� Pois lucrava mais freq�entando outros lugares. Se meter com
o povar�u n�o d� em nada. Quando sirvo um cara bem vestido, de
boa educa��o, n�o preciso nem esquentar: a gorjeta � gorda. Se vem
um bunda-suja, al�m da esculhamba��o que faz na mesa, do resto de
comida no ch�o, tudo que pode deixar s�o umas merdas de cedulazinhas
que �s vezes nem guardo. Junto na toalha, com a sujeira e
tudo, sacudo no lixo.
� E como � que o bunda-suja ia te dar uma c�dula de valor
se ele t� se virando pra n�o morrer de fome! O bacana, n�o. T� sempre
na moleza; tram�ia em cima de tram�ia. Tudo trampolinagem.
H� cara por a� que tem quatro cinco emprego e n�o faz porra alguma
em nenhum. Isso pra mim � trampolmagem!
� Chega. Vamos mudar dessa conversa � diz Marlene. �
N�o quero me aborrecer. Desde que n�o fique fedorento como um
bunda-suja, � o que interessa. Gosto de ti. Acho que a gente se
entende.


Toninho n�o parece ouvir as considera��es da bicha.

� Conhe�o gente importante, s�ria, que n�o tem nem o que
comer. L� no morro t� cheio. Se fosse te contar os casos, n�o ia
acreditar.
� E por acaso acha que tamb�m n�o conhe�o? Apenas sou contra
os que n�o procuram melhorar. Como � que um cara deixa os
dentes cair de podre, quando enche a pan�a de cacha�a todo o dia?
Toninho n�o sabe o que responder.

� Te juro que n�o me importo com os outros. Tou falando por
falar. Se entro num �nibus e o panorama n�o agrada, salto logo. N�o
discuto, n�o digo nada. N�o me troco com qualquer um. Se tem de
viver nossa vida; quem quiser que se lixe!
Marlene beija Toninho no pesco�o, mete-lhe a l�ngua nos ouvidos,
abra�a-o com for�a. Passa para cima do garoto, estende-se e encolhe-
se, Toninho gosta daqueles seus gestos, seu corpo � bem mais moreno
que o da bicha, fica olhando a diferen�a, Marlene numa �nsia
de espumar pelos cantos da boca, cheiro de rosas colorindo-lhe os
movimentos.

� Te lembra da primeira vez?
� Tava fedendo como gamb� � diz Marlene endireitando-se,
cessando os movimentos, mas sem sair de cima de Toninho.
� Por que foi gostar de mim?
� Sabia que ia ter jeito. E se ainda tem essa c�rie imunda �
porque mija nas cal�as quando falo em dentista. Mach�o, piroca
grande e medo de dentista. N�o entendo!
Toninho sorri.

� Tenho medo da tal broca. S� de ouvir aquilo funcionar sinto
um arrepio no corpo.
� Pra mim, a beleza t� acima de tudo. Fa�o qualquer sacrif�cio.
Toninho se cala, Marlene reinicia os movimentos, agarra-se ao
amante e geme, estremece, dobra-se para tr�s como se fosse contorcionista,
o garoto procura excit�-la ao m�ximo, pois tem algo importante
a dizer e quer ter a certeza de que realmente est� presa a ele. Quando
param, suados, mesmo com o ar frio que enche o quarto, Marlene
permanece largada, curtindo os bons momentos, Toninho arqueja,
tenta virar-se e n�o consegue.

Marlene tateia a mesinha de cabeceira, acende a luz, olha as
horas.

� Acho que se deve comer alguma coisa. Principalmente voc�.
N�o quero que entregue os pontos. Se pode curtir a noite inteira e
dormir at� �s 9 horas. Sandra vai enfrentar o velhote. N�o chega
antes das 11.
� Como � ela?
Marlene cola o rosto no de Toninho.
� Pra que quer saber?

� Besteira! Que mal h� nisso?
� Uma pequena como as outras. Bom cora��o, pouca felicidade.
� Perguntei como �!
� Corta essa. N�o entrego ouro a bandido!
Toninho sorri.
� Desse jeito me deixa curioso e vou acabar sabendo.
A bicha se levanta, num rompante, bate nos m�veis, abre uma
gaveta, tira a revista onde Sandra aparece s� de biqu�ni, como uma
das dez mais de um concurso sem qualquer import�ncia. Joga a revista
sobre Toninho. Ele olha, num movimento brusco Marlene arrebata-
lhe a revista.

� J� viu demais!
� N�o � nada diferente das outras.
� Que outras?
� As que andam de tanga na praia.
Marlene est� irada. Alisa os m�sculos de Toninho, fala num
tom grave.

� V� bem, cara. N�o te quero enrabichado com essas donas. Se
isso
acontecer eu te mato. Juro que mato!
Toninho abra�a a bicha, puxa-a para cima de si.


� Deixa de ser besta! Acho que sou de trocar amor velho por
novo?
� N�o sei, n�o. Te vi de olho grande na foto de Sandra.
� Coisa nenhuma!
Marlene se estira ao lado de Toninho, tranq�iliza-se.
� Antes do fim do ano a gente sai deste chiqueiro. Se conseguir
passar pro restaurante da Barra, teja certo que vou ganhar um
dinheir�o. Tenho uma colega por l� que fatura os tubos.
� E como vai ser pra gente se encontrar?
� Tolice. Se fica junto de dia.
� E Sandra?
� Deixa de ser bobo. Logo que assinem a carteira, tenho para
onde ir. Um apartamento bacana, de cobertura. � de um senhor que
passa metade do ano na Europa. S� aluga pra mim!
� N�o acha que � maluquice?
� N�o sei por qu�! Se acaba entrando numa de bacana!
Depois de um suspiro longo, Marlene prossegue:
� N�o quer saber quem � esse homem que confia tanto em
mim?
Toninho sacode afirmativamente a cabe�a, embora n�o estivesse
de forma alguma interessado.

� Foi meu primeiro amor. Depois decaiu, casou com uma piranha.
S� pra conseguir dinheiro. Mas n�o me esquece. Duvido que
aquela mulherzinha o satisfa�a!

Toninho esfor�a-se para demonstrar que. agora, quem estava
enciumado era ele.

� Tem coragem de dizer isso na minha frente?
Marlene faz movimentos l�nguidos, m�os leves e macias acariciam
o rosto do garoto.

� Desculpe, benzinho. Se fala, fala, acaba dizendo o que n�o
quer. Mas te juro que s�o �guas passadas. Amor que vai n�o volta
mais!
Toninho esquece; aquilo podia inclusive ser alucina��o de Marlene.
Sonho de grandeza.

� O que acho � diz ele � � que se deve bolar um plano pra
render dinheiro. A�, sim, acredito que se possa viver numa cobertura,
andar passeando por tudo que � de lugar, comprar um barco, botar
atracado no Praia Clube, como fazem os sabid�es!
Toninho demorou-se numa pausa, depois prossegue:

� Se compra tamb�m um cachorr�o, s� pra empregada sair pela
rua,
toda de branco, procurando lugar onde o bicho possa cagar!
Marlene ri alto.


� Vai ser maluco assim no inferno. Quando acaba, eu � que
tenho mania de grandeza!
Marlene firma-se nos cotovelos, as m�os bem-cuidadas segurando
a cabe�a de cabelos revoltos.

� E como se pode arranjar um plano t�o bom, se h� milh�es
de caras procurando dinheiro neste pa�s e n�o conseguem? Ou pensa
que se � mais inteligente que os outros?
� N�o se trata de cuca. Mete a m�o na grana quem tem peito
de dar o salto!
� Que salto?
Toninho quer falar francamente, abrir-se, encolhe as patas. A
indaga��o da bicha fica no ar. Toninho mostra os dentes num riso
inconseq�ente.

� Vamos, responde! Que salto � esse?
� Sei l�. Talvez se fosse pros paus, pegar diamante e revender
na cidade. Conhe�o um cara que t� podre de rico s� com isso!
� � neg�cio complicado. Como todos os outros � diz Marlene.
� Prefiro continuar no meu m�tier. Aturo aporrinha��o de uns e
outros, mas no final do m�s tou com a grana. �s vezes, mais folgada
que o patr�o.
Toninho irrita-se.

� Deixa de ser burra! Onde viu empregado mais folgado que
patr�o? No m�nimo o careta t� se fazendo de apertado pra ver se te
explora ainda mais. Sei bem como �. Patr�o pode t� apertado mas
viaja pra tudo que � de lugar, mora em palacete, toma u�sque do
bom e os cambau. Empregado se fode. Se � oper�rio, ent�o, nem
se fala.

� Foi empregado alguma vez?
� N�o. mas o pai foi. Mestre T�bor tamb�m. Hoje. t�o todos
na
merda. E os patr�es deles, t�o na merda? Vai atr�s!
Marlene concorda.

� Nisso, tem raz�o. 0 dono da lanchonete voltou m�s passado
de Nova Iorque. Levou mulher e filhos.
� Quanto deve ter custado a brincadeira?
Marlene n�o se mostra preocupada, nem descontente.
� T� na dele. Conseguiu dinheiro, foi entregar pros americanos.
� � pra ter dinheiro f�cil, assim, que se precisa de um plano.
Marlene mostra-se vencida diante da argumenta��o. Est� novamente
querendo estirar-se sobre Toninho, ele a repele.

� Que � isso? Tenho culpa de n�o ter nascido rica?
Toninho n�o repara no que diz a bicha. Est� distante, perdido
em racioc�nios.

� Fica t�o charmoso quando t� preocupado, que nem imagina!
0 garoto continua sem aceitar provoca��es.
� Com cinco mil de lastro, tenho condi��o de levantar uma
nota � diz em dado momento Toninho, como se estivesse voltando �
tona. � Nada mais que isso.
� N�o acredito. Conhe�o gente que investiu meio milh�o e se
ferrou.
� Mas n�o se chamava Toninho!
Marlene aperta-o num abra�o apaixonado.
� N�o sei por que, gosto de te ouvir falando assim. Dou os
cinco mil pra que descubra a mina de ouro!
Toninho embola-se com Marlene. Agora, quem passa para cima
� ele. Como Marlene mais gostava. A cama estremece, o len�ol se
amassa, a bicha morde o travesseiro, em estado de desespero, Toninho
segura-a firme pelos ombros, provoca-lhe pequenos ferimentos com as
unhas que nunca tem tempo de cuidar. Quando se afastam novamente,
est�o ambos exaustos. 0 quebra-luz continua aceso, Toninho
v� que s�o mais de 3 da madrugada. Marlene mexe-se devagar, totalmente
vencida, quebrada, saciada. Descansa uma perna e um bra�o
sobre o garoto que, imaginando o cheque de 5 mil, sente uma sensa��o
nova percorrer-lhe o corpo.


Cap�tulo III

UM

Toninho atravessa a rua correndo, o sol da manh� est� quente,
h� gente movimentando-se por todos os lados, no pr�dio do Centro
Comercial as escadas rolantes sobem e descem com muitas pessoas,
Toninho l� nas paredes e nas placas os an�ncios propondo vantagens,
toca no cheque que est� no bolso do casaco, empurra a porta da ag�ncia
banc�ria, o ar � t�o frio quanto do apartamento onde estivera tanto
tempo com Marlene, aproxima-se do balc�o de m�rmore com enfeites
de metal dourado, a mo�a de uniforme indica o caixa, ele entra
em pequena fila, logo o homem de �culos recebe o cheque, faz a confer�ncia,
carimba, d� um visto, p�e c�dulas de quinhentos no balc�o.
Toninho pede que dois mil sejam em notas de cem. Conta tudo novamente,
coloca o bolo de dinheiro no bolso. Era impressionante como
Marlene conseguia fazer economia. Nunca precisou dela que tivesse
negado fogo. �s vezes regateava, mostrava-se aporrinhada, porque
tamb�m nem sempre aparecia nos encontros que marcava, recusava-
se a ir com ela ao cinema, nunca sa�a para meter-se nos lugares elegantes.
No dia que alegou n�o ter roupa decente, recebeu a cal�a
importada, o casaco de couro.

Caminha apressadamente pela rua, n�o est� muito distante do
pr�dio em constru��o, onde por certo encontraria Man� Cabreiro ajudando
algum motorista a manobrar. Man� Cabreiro segurava uma
bandeirola vermelha, sacudia com f�ria, os carros continuavam a passar
em velocidade. A� o motorista do caminh�o dava de r�, com viol�ncia,
para bater mesmo nos autom�veis e �nibus que n�o respeitavam
Man� Cabreiro e sua bandeirola.

Se Enfezado ainda n�o tivesse chegado esperaria no meio-fio. perto
do tabuleiro do camel�. Estava ansioso para p�r a m�o no berro.
Pelo que dissera Enfezado era t�o bom quanto o de Banda Branca.
Talvez menos enfeitado, mas isso n�o significava nada. Lm rev�lver
se sabe que � bom, na hora de usar. � nesse momento, irm�ozinho,


que se v� se � m�quina de verdade ou se racha o cano na primeira
carimbada. E olha que j� tive um que atirava seis vezes seguidas e o
cano continuava frio, frio. Toninho ouvia aquilo de Enfezado, como
se estivesse escutando o amigo falar de um sonho; de alguma coisa
quase imposs�vel de imaginar. Tomara que a m�quina n�o seja t�o
grande. Iria us�-la no bolso do casaco. Puxaria o z�per, teria cuidado,
cada vez que o colocasse �s costas. O z�per era mais seguro que qualquer
bot�o. E os daquele casaco eram bons de fato. Marlene soube
escolher. Quando se dispunha a dar um presente, caprichava.

Chega perto da obra, o port�o est� aberto mas n�o h� nenhum
caminh�o � vista. Nem entrando, nem saindo. O tr�fego na Toneleros
� normal. Toninho procura por Man� Cabreiro. Um servente
todo sujo de massa de cimento e cal, diz que t� por perto. Fica esperando.
L� pelas tantas Man� Cabreiro aparece. Usa um rid�culo capacete
amarelo, que lhe torna a cara de nordestino ainda mais redonda.
S� de ver o homem com o capacete, naquele solz�o quente dos
diabos, Toninho sente-se agoniado.

� Como � que �, chapa. Enfezado apareceu?
� At� agora n�o.
� Marquei com ele �s 11.
Man� Cabreiro mete a m�o no bolso do c�s, puxa o rel�gio de
algibeira, desses que ningu�m mais usa. Examina, diz com seguran�a,
como se o rel�gio dele fosse infal�vel.

� Se foi 11, ainda t�o faltando cinco!
� No da panificadora s�o 11 horas.
� Deve t� adiantado. Esse aqui n�o falha. Se fosse ruim j�
tinha jogado fora.
Toninho fez a provoca��o, mais para ouvir Man� Cabreiro falar
do rel�gio. Era seu �nico bem, orgulhava-se dele. Quando ia dormir,
pendurava-o com cuidado, num prego. No dia em que acordou
e n�o viu o rel�gio, virou bicho. Se um servente n�o tivesse dito logo
que se tratava de brincadeira, tinha sa�do morte, porque Man� Cabreiro
ficou desesperado, amea�ando abrir a mala de canto de ferro
que trouxera da Para�ba, comer uns dois ou tr�s cabras safados na
ponta da faca. 0 servente entregou o rel�gio mas ag�entou uns pesco��es,
que Man� Cabreiro � forte, n�o tem medo de cara de ningu�m.
Desde ent�o, como ele pr�prio dizia, passou a dormir com o rel�gio
amarrado no cord�o do shorts. Quero s� ver qual � o engra�adinho
que tem coragem de meter a m�o por dentro do cal��o. Se arriscar,
antes de pegar o rel�gio vai topar com uma rola; a� se fode!

Toninho ria de ouvir aquelas amea�as de Man� Cabreiro, os
outros que estavam sentados pelo sal�o em fase de arremate tamb�m
achavam gra�a. Na verdade ningu�m ia muito com a cara do vigia
porque era acusado de funcionar como dedo-duro na obra. Indicava


pro apontador cada um que se metia no banheiro e passava por l�
mais tempo que o devido. Se algu�m dava uma escapada at� o barzinho,
ent�o era um deus nos acuda. Por isso Man� Cabreiro n�o era
bem-visto. Mas com Toninho nunca criou problema. Levava uma
nota na moleza, segurava a barra. N�o fosse por ele Toninho n�o se
arriscava a dormir noites e noites com aqueles tipos, que jamais vira.

Man� Cabreiro fala com os oper�rios que est�o se lavando na
torneira, perto do monte de areia, p�e-se a reclamar, um dos homens
responde zangado. Toninho atravessa a rua, senta no meio-fio. Nesse
mesmo momento Enfezado vai chegando. Assovia, o companheiro se
aproxima, senta do lado, Toninho repara no seu sapato desbei�ado, o
solado lascado, a cal�a pu�da.

� Puxa, cara, tu d� uma sorte braba! 0 malandro entregou a
m�quina por 250. De m�o beijada. Entesei nos 200, mas fiquei com
medo dele pular fora.
Dizendo isso Enfezado abre a pasta pl�stica, Toninho mete a
m�o, segura o rev�lver, envolto em papel oleado, j� se rasgando.

� Sente s� o peso. A�o puro!
Toninho vai fazendo as observa��es recomendadas pelo amigo,
� Aperta o gatilho!
Toninho faz isso.
� Viu s� como o tambor roda? Esse � rev�lver dos bons!
Toninho est� tenso. Seu desejo era sair logo dali, meter-se num
local ermo, onde pudesse fazer um exame mais detalhado.

� E as balas?
� Tudo a� dentro. Uma caixa quase cheia.
� Puxa, cara, tu me tirou de um aperto!
Enfezado mete a m�o no bolso para devolver a diferen�a, Toninho
n�o aceita.

� Nada disso. Vou � te arranjar mais uns caraminguados, pra
ag�entar a barra. Quando melhorar, a� tu entra num tutu firme.
Enfezado n�o diz nada. Olha para um ponto da rua, para Man�
Cabreiro sacudindo a bandeirola vermelha.

� Vai poder ajudar na casa do sargento?
� Claro! Tava te esperando pra combinar. Comigo n�o tem
papo furado.
� Tou imaginando ir por volta das 3. � quando a cunhada
do sargento sai pra levar a m�e ao m�dico. Fica s� a mulherzinha,
a garota de uns cinco anos e um velhote que anda em cadeira de roda.
� Puxa, t� por dentro!
� Tou nessa paquera h� um m�s. Desde que me soltaram.
� E se der alguma coisa errada?
� A� tu me passa o berro, acabo com eles todos: a mulherzinha,
a garota, o velhote.

Ao dizer isso os olhos de Enfezado est�o vermelhos e brilhantes.

� Aquele filho da puta paga o que me fez ou dou um tiro
nos cornos. N�o presto mais pra merda nenhuma.
� Calma, cara. Vai dar tudo certo. Se sapeia um pouco por a�,
olha
a mulherada mostrando o rabo na praia, depois vai em frente.
Enfezado faz um riso nervoso.

� Que adianta ver as mulheres, se n�o se pode tocar em
nenhuma?
� Tu que pensa. Com grana elas � que procuram a gente.
� Te lembra da Marta? � indaga Enfezado.
� Claro que lembro. Era bem boazuda. Uma vez fui pro quintal
de vov� Jandira, vi Marta tomando banho.
� Pois ela se embei�ou com um amiguinho do Banda Branca,
terminou arrombada. Agora t� na zona. Na casa de uma tal de Zita.
� No Mangue?
� Isso mesmo. Trepando que nem capininga.
Toninho mostra os dentes num riso c�nico.
� Vamos l�, quando sair da casa do sargento?
� � o que tava pensando. 0 �nico problema � que nunca me
topou. Com a merda desse bra�o, ent�o, � capaz de achar gra�a.
� Tolice, cara. No Mangue ela tem de dar pra quem chega
com a grana. Quer queira, ou n�o. Se fizer eu doce dou um al� pra
tal da Zita. Olha a�, dona Zita, n�o t� querendo trepar com meu amigo!
Enfezado acha gra�a.

� Ser� que � assim?
� N�o tem errada. Mulher do Mangue n�o � de ningu�m!
� Vai ser bom comer Marta. Sempre tive secura nela. No tempo
que tava botando peito, era toda metidona. A fam�lia n�o queria
que se misturasse com moleques. T� lembrado? Tou quase certo que
o puto do Banda Branca andou beliscando. De bobo n�o tem nada.
Nunca teve. Agora, Marta no Mangue. Sentada numa escadaria
daquelas, o rabo de fora, pernas arreganhadas. Quem te viu, quem
te v�!
Faz uma pausa, continua a olhar o ponto invis�vel na rua movimentada.


� Sabe de uma coisa, acho que n�o vou ter coragem de comer
Marta. Sou capaz de brochar na hora. Vou ficar me lembrando de
tanta coisa, que nem sei!
� Corta essa! Lembrando, porra nenhuma. Se vai comer a garota
e ponto final. N�o tem lembran�a, n�o tem nada!
� T� dizendo isso aqui. Quando chegar l� e ela come�ar a
falar das coisas, n�o se vai ter peito.
� Besteira. N�o se deve fugir da raia. Me lembro dela se esfregando
com sabonete. Toda cheia de espuma. Toquei uma bronha

violenta naquele dia. Continuei tocando nos outros, sempre que me
lembrava dela.

Toninho e Enfezado caminham pela praia, o sol quente, uma
por��o de mulheres de pernas de fora, garot�es brincando de frescobol,
menininhos correndo com baldes na m�o, bab�s negras empurrando
carrinhos com filhotes de bacanas, c�es de pura ra�a seguros
em correias de couros por velhotes bem aposentados, crioulos de canelas
finas gingando com cargas de sorvete e refresco, intrometendo-
se por entre as barracas dos que curtem o �cio.

Toninho olha as mulheres, as coxas, as bundas, sente um calor�o
por dentro, diz brincadeiras a Enfezado, mostra a morena e a loura,
as garotas percebem mas n�o est�o nem a�, Toninho e Enfezado
seguindo em frente, chupando picol�, at� o ponto do �nibus.

� Esse serve. Deixa na Barra. Quero experimentar o berrante!
Enfezado faz um riso nervoso, dentes cariados bem na frente,
sobem rapidamente no �nibus, Toninho paga as passagens, sentam no
mesmo banco, ficam olhando a paisagem, Enfezado admirado com
tanta beleza.

Toninho faz sinal, saltam.

� Por que n�o se foi mais longe?
� Aqui tem um descampado que � bem bom.
� N�o d� galho?
� Coisa nenhuma. � perto da praia. 0 barulho das ondas
encobre o disparo.
Saem da estrada, seguem por uma trilha, o mato espinhento, a
areia branca e quente. Chegam ao ponto onde a praia estendia-se luminosa
e deserta, ondas desembrulhando-se brancas.

� Aqui t� bom � diz Toninho. � Mete aquela t�bua na areia!
Toninho tirou as balas da caixa, enfiou-as no tambor. Enfezado
est� novamente sentado do lado do amigo.

� Vamos ver se ainda sei atirar!
O dedo aciona o gatilho. Ouve-se um estalido seco e r�pido, a
t�bua n�o cedeu. Toninho se levanta, o rev�lver na m�o, vai olhar.

� Puxa, cara! Atravessou.
Enfezado foi ver tamb�m.
L� estava o furo estreito.
� Pensei que fosse ficar encravada.
� A t�bua t� podre. Foi por isso.
Voltam ao lugar, Toninho faz um segundo disparo, a t�bua pende
um pouco para a direita.

� Vai ver, dessa vez n�o passou!
� Olha l�!
Enfezado d� uma carreira, tenta tirar a bala com as unhas, n�o
consegue.

� Entrou que nem prego.

Toninho passa a arma ao amigo.

� Agora, � tua vez.
Enfezado recebe a arma.
� Faz tempo que n�o atiro. Alem disso, nunca fui bom na
pontaria.
� N�o procurava treinar!. . .
� Pra acertar a mulherzinha do sargento n�o preciso de pontaria.
Colo o berro na cabe�a dela, aperto o gatilho!
Dizendo isso, dispara. 0 estalido seco perde-se na confus�o das
ondas trabalhando. Toninho vai ver, sacode negativamente a cabe�a.

� Passou longe!
Antes que o amigo torne a sentar Enfezado j� efetuou um segundo
disparo e um terceiro. Neste a t�bua cai. Enfezado salta de
contentamento.

� Acertei! Tenho certeza.
Ele pr�prio vai olhar. De um lado da t�bua, o buraco, igual ao
primeiro disparo feito por Toninho.

� Acho que n�o se t� t�o ruim assim. D� pro gasto � conclui
Toninho guardando a arma.
� De mais a mais � acentua Enfezado � n�o se vai participar
de concurso de tiro.
� Queria s� ver se me ajeitava com a m�quina. T� legal!
� Se n�o fosse boa n�o tinha trazido, cara.
Continuam andando, o ponto do �nibus � distante. Enfezado
como que reflete sobre os problemas que vir�o.

� Na casa do sargento s� vou precisar da m�quina em �ltimo
recurso. Faz uma zuadeira medonha. J� imaginou?
� � s� embrulhar num pano.
� Sei, n�o! 0 canivete vai funcionar melhor. Sem a menor
zuada.
� 0 perigo � tu ficar todo sujo de sangue.
� Tiro a camisa antes.
� A� se perde tempo.
� Perde nada. Se vai ter muito tempo.
O �nibus chega, os dois v�o embora.
DOIS

Enfezado pergunta as horas ao homem que est� no banco ao lado.
O homem, olhar muito s�rio, como se estivesse irritado, diz que s�o
20 para as duas.

� � bom a gente ir se picando pra l�!

Toninho sacode a cabe�a concordando.

� S� que se tem de tomar outro �nibus.
� No Centro se pega um t�xi. Num instante chega.
A informa��o tranq�iliza Enfezado. O �nibus passa por pontos
elegantes do litoral, onde havia uma quantidade de palacetes, escondidos
por tr�s de jardins bem-cuidados. Toninho olha aquilo tudo.
sem nenhum desejo, nenhuma vontade. Pensa em Marlene, nas suas
exig�ncias, no pai se vestindo �s pressas, no retrato amarelecido que
tem no bolso, nas reda��es de jornais por onde iria. E se os caretas
reclamassem que passara muito tempo? Ora, diria que tentou em outros
jornais, ningu�m deu aten��o. A� levou um temp�o doente e
outro pra conseguir a fotografia. Poderia at� esquecer tudo isso e dizer
que chegara de fora. Estava morando com a v�, no interior da
Bahia, quando soube do sumi�o do pai.

Terminado o litoral, o �nibus come�a a seguir com dificuldade
por ruas atravancadas de muitos ve�culos, o motorista enerva-se, faz
manobras precipitadas, a zuadeira dos carros nas ruas e avenidas �
grande, o calor torna-se intenso.

Descem do �nibus na Esplanada do Castelo, tomam o t�xi. �
um carro grande, o motorista pergunta pra onde v�o, Enfezado se atrapalha
no nome da rua.

� Nem sabem pra onde t�o indo!
Toninho n�o ag�entava esse tipo de coisa.
� Saber, se sabe. Ele � que n�o disse direito. Pode tocar em
frente que se chega l�.
O motorista encaixa uma marcha brusca, a fim de mostrar que
n�o est� gostando de fazer aquela corrida. Pelo canto do olho Toninho
mede o tipo ordin�rio, bra�os grossos, suados. No sinal, onde o
t�xi p�ra, o homem mete a chave no tax�metro, d� corda umas quatro
ou cinco vezes. Abre o porta-luvas para colocar a chave, Toninho
v� o quanto de dinheiro j� havia recolhido. 0 carro arranca, num
instante est�o chegando.

Toninho olha o tax�metro, o homem puxa uma tabela plastificada,
o garoto fica com o dinheiro na m�o, esperando.

� Dezoito e cinq�enta.
Toninho destaca duas notas de dez, entrega, sai do carro seguido
de Enfezado. Num instante o t�xi desaparece, os garotos p�em-se
a andar por uma cal�ada coberta pela ramagem dos f�cus e das cibipirunas.
As resid�ncias parecem sossegadas, o velho magricela, s� de
cal�a e chap�u de palha, molha um jardim, cujas heras cobriram completamente
os muros. Enfezado olha a casa de flores, tem uma id�ia.

� Vamos levar umas rosas!
Toninho atravessa a rua, pede meia d�zia de rosas. O homem
que atende, olha-os com desconfian�a. 0 garoto j� est� com uma nota
de cem para pagar. Isso evitaria qualquer problema.


Pacientemente o vendedor envolve os talos das rosas num papel
grosso, depois em outro, todo enfeitado.

� E se a mulher ficar desconfiada?
� Mesmo assim vai ter de abrir a porta.
� Vai ver, em vez de receber flores do sargento, t� acostumada
a levar � porrada!
� N�o interessa � acentua Enfezado. � Tenho certeza que
vai ficar curiosa. � o que se quer.
Alguns quarteir�es ap�s a casa de flores, os garotos sobem por
uma escadinha estreita. Toninho oculta-se de um lado, para n�o ser
visto, Enfezado aperta a campainha. A mulher branca e simp�tica
abre a portinhola. Enfezado diz ser da parte do sargento Beto, mostra
as rosas. A mulher sorri. Enfezado entra, seguido de Toninho.

A mulher v� o segundo garoto mas ainda est� impressionada com
as flores.

� Por que ser� isso?
Toninho passa a chave na porta, a mulher foi ao quarto arranjar
alguns n�queis para a gorjeta. Retorna, Toninho est� com o rev�lver
apontado. Enfezado, rosto transtornado, agarra a mulher pelos
cabelos.

� Se der um pio te sangro!
A mulher olha o canivete de grande l�mina na m�o do crioulinho,
Toninho some no corredor, examina os quartos. Depois vai para

o andar de cima. Um velhote est� dormindo. Volta � sala, onde Enfezado
ficou dominando a mulher.
� Cad� o resto do pessoal?
� Minha m�e saiu com Na�ze!
� Quem � Na�ze?
� Minha filha. Tem s� tr�s anos.
A essa altura a mulher est� chorando.
� N�o fa�am nada comigo. Dou todo o dinheiro que tenho
em casa!
� N�o se quer dinheiro. Se quer levar um papo contigo,
� Ali na frente tem um quarto.
� Isso mesmo. Vamos pra l�!
Enfezado mant�m um dos bra�os da mulher preso para tr�s.
� Vamos andando.
Chegam ao quarto, Toninho fecha a porta. A mulher � empurrada
para cima da cama. Toninho se aproxima dela, come�a a rasgar-
lhe as roupas. N�o faz o menor sinal de protesto. Sabe o que aqueles
garotos querem, sente que n�o deve contrari�-los.

Sem as roupas, Toninho admira-lhe o corpo.

� Deita!

Ela obedece. Toninho olha o amigo, manda que v� primeiro. Enfezado
abre a cal�a, sem soltar o canivete. Depois de algum tempo
est� embara�ado. Levanta.

� Assim n�o d�. Espera do lado de fora?
Toninho sai, fica no corredor. Uns dez minutos depois aparece.
� � tua vez.
Toninho entra, Enfezado fica segurando o rev�lver.
Novamente o corpo que o encanta. Nunca vira um assim, t�o ao
seu alcance, completamente diferente de Marlene. N�o havia os p�los
imundos de Marlene. Cola a boca na da mulher, ela tenta recusar,
ele aperta, ao mesmo tempo em que se aprofunda. Baixinho, nos seus
ouvidos, manda que remexa.

� N�o fica parada como est�tua, que acabo contigo!
Chora e faz alguns movimentos. Toninho torna a colar o rosto,
quer saber como se chama.

� Eunice!
Percebe que o garoto � menos odiento que o companheiro, resolve
perguntar por que estavam fazendo aquilo. Toninho sorri, promete
que se fizesse o melhor que podia, no final lhe diria. Os remexidos
de Eunice tornam-se corajosos, intensos, Toninho sente-se aprofundar
mais e mais, at� que goza e percebe que a mulher estar suando.

Ergue-se da cama, limpa-se na coberta, fecha as cal�as. Bate na
porta, aparece Enfezado. Toninho sorri, dirige-se ao amigo.

� T� querendo saber qual � a nossa!
Enfezado faz um riso nervoso. Aponta para o bra�o sem movimento.
Eunice aproveitou para sentar na beira da cama, envolve-se
numa ponta da coberta.

� Teu maridinho quem fez isso. N�o sabe que na Invernada ele

uma fera?
Eunice sacode a cabe�a.

� Em casa nunca fala de servi�o!
� Nem podia. Quem ganha pra aleijar e matar, n�o tem muito
o que dizer. O que ele n�o sabe � que os aleijados se mexem. Por
isso se baixou aqui.
A mulher sabe muito bem o significado daquelas palavras. Encostou-
se na parede, cobre-se ao m�ximo com a coberta.

� Quem � o velhote?
� Meu sogro. Tem press�o alta!
� �timo!
Tamb�m, sorrindo, Enfezado sobe na cama, ajoelha-se, aproxima-
se mais e mais de Eunice.

� N�o vai doer! Tu foi boazinha.
Quando percebe que Eunice vai gritar, Enfezado atira-se sobre
ela, tapa-lhe a boca.

� Toninho, vem aqui!

Toninho tamb�m sobe na cama.

� Amarra a boca dessa puta!
Toninho rasga peda�os da coberta, mete na boca de Eunice, d�
um n� forte, p�e os bra�os para tr�s.
A mulher est� novamente encostada na parede, tremendamente
nervosa. N�o fica parada no lugar.

� Te aquieta, sen�o vai ser pior!
Eunice n�o atende. Ele se ergue da cama, d� um pontap� no
rosto da mulher. Ela emborca de lado, ele crava a l�mina no pesco�o
branco. Mesmo com a boca amarrada, os bra�os amarrados, Eunice
solta um urro de animal ferido, esperneia, Enfezado prende-lhe o corpo
com as pernas, a cama estala, Toninho torna a espiar a sala
e o corredor. Quando olha para Enfezado ele est� se erguendo,
o canivete ensang�entado. Lima a l�mina na coberta, o sangue
escorre abundante.

� Vamos embora!
� Nada disso! Se espera at� ela se acabar de vez!
A mulher consegue fazer alguns movimentos, o sangue saindo
aos borbot�es. Depois de uns cinco minutos Enfezado torce a chave,
os dois v�o para o corredor.

� Em que quarto t� o velhote?
Toninho aponta a escada encaracolada. Sobem na ponta dos p�s.
Empurram a porta que se abre com leves estalidos. O velhote continua
adormecido, do mesmo jeito em que Toninho j� o vira. Enfezado
fixa-se na almofada que est� encostada na parede, perto do
ber�o. Toca em Toninho e aponta. 0 companheiro entende. Pega a
almofada, tapa com ela a cara do velhote, Enfezado j� est� escanchado
em cima do homem, impedindo que se levante. Toninho aperta,
aperta, com o bra�o bom Enfezado impede que as m�os do velhote se
agitem no ar. 0 rosto de Toninho vermelho da for�a que faz, os
olhos de Enfezado saltados. Ap�s alguns instantes, em que a cama
emitiu rangidos fortes, capazes de levantar suspeitas, Enfezado compreendeu
que podia levantar-se. Toninho jogou a almofada de lado,
0 velhote estava tranq�ilo, como se continuasse a dormir.

� Acho que nem sentiu.
� Foi s� um pesadelo.
Descem as escadas, Enfezado olha as flores sobre a mesa, trancam
a porta por fora, levam a chave. Toninho, sempre em estado de
alerta, examina as casas da vizinhan�a. Ningu�m nas portas ou nas
janelas. Chegam � cal�ada, atravessam a rua, andam rapidamente, dobram
a primeira esquina.

� Viu como foi f�cil?
� E que dona boa! S� fico com pena de n�o poder comer de
novo.
Enfezado sorri.


� Gostaria de ver a cara do tal sargento Beto. Pena que tenho
de me mandar.
� Pra onde vai?
� Barbacena, depois Canta Galo. Mais pra frente torno a dar
as cara!
� N�o devia ter amea�ado o tira � diz Toninho. � Essas coisas
se faz na moita!
� Acontece que queria mostrar que comigo n�o se brinca. E o
servi�o t� feito. Se todos dessem esse pano de amostra iam manerar
quando botassem as patas num favelado.
Toninho convida para entrar no caf�, Enfezado prefere coca-cola,
manda preparar um sandu�che. Sentam na pequena mesa, o gar�om
coloca a garrafa, dois copos, traz a x�cara.

� Quando voltar, como vou saber por onde anda?
� S� deixar recado com vov� Jandira. De vez em quando baixo
por l�.
� E Marta?
Toninho sorri.
� N�o te preocupa. Como ela por ti.
Enfezado sorri, morde o sandu�che com vontade, fala com a boca
cheia.

� Sabe, cara. Houve uma hora que ia fraquejando com a mulherzinha.
Ela fez um neg�cio t�o bom que tive vontade de entregar
os pontos.
Toninho acha gra�a.

� Te juro que fiz �s pressas. Aquilo era mulher pra se ficar na
cama uma tarde inteira!
� Faz isso com a Marta.
� N�o vai entrar numa fria indo pra Rodovi�ria?
Enfezado mostra os dentes cariados.
� Que que h�, amig�o! N�o sou de dar bandeira. Tenho um
cupincha que t� levantando ferro hoje de noite pra Minas. Vou no caminh�o
dele.
Toninho vira o resto de caf� na boca, o gar�om aparece, leva o
dinheiro, os garotos deixam uns trocados de gorjeta.

TR�S

Quando anoitece Toninho sai do cinema, casaco de couro nas
costas, rev�lver no bolso fechado com z�per, balas no outro. Agora,
era s� ter o lugar onde ficar tranq�ilamente, pensar bastante no plano.
E, cada vez que procura se fixar, vinha-lhe aos olhos a figura de


Eunice chorando, o corpo bonito completamente nu, esperando que
se deitasse por cima, se aproveitasse como bem entendesse. A boca
colada na de Eunice, ela deixando que se introduzisse, calmamente.
Pensa em Eunice, pensa na vedete que dividia o quarto com Marlene.
N�o podia mais continuar com aquela bicha peluda, que o repugnava,
cada vez que tentava beij�-lo. Com Eunice fora diferente. Sentiu
prazer. Seria capaz de beij�-la 20 vezes, n�o fosse Enfezado estar t�o
apressado.

Toninho pensa ir para o apartamento da bicha, esconder-se por
l� umas horas. Mas corria o perigo de Marlene aparecer, prend�-lo
at� de madrugada. E o neg�cio, dali para frente, era distanciar-se.
Mostrar que n�o dava certo, n�o estava disposto a ficar eternamente
como amante de um tro�o que detestava. Era bom na hora em que
precisava de dinheiro mas se tornava repugnante logo em seguida. Trataria
de fazer o dinheiro de Marlene render e nunca mais apareceria.
No m�ximo poderia dar as caras na lanchonete, para saber como ia
indo. Afinal, a separa��o n�o deveria ser assim, t�o repentina. A
bicha tinha ra�a, iria procur�-lo na cidade inteira, terminaria descobrindo
seu esconderijo no edif�cio em constru��o, era capaz de armar
um esc�ndalo dos diabos, os pe�es teriam muito de que rir, cada vez
que aparecesse.

Toninho se lembra da cara nervosa de Enfezado, dos olhos saltados,
o bra�o direito endurecido. N�o podia convid�-lo a ir � reda��o
de um jornal, depois do que aconteceu. Seria dar bandeira
demais. E se alguma velha olhou pelas frestas, quando iam saindo?
Quantas velhas ficam bisbilhotando, por tr�s das janelas? Enfezado
estava certo. Num m�nimo uns dois meses tinha de sumir de circula��o.
Ao reaparecer, deveria amoitar-se no morro, falar com vov� Jandira
e dona Julinha. A�, saberia facilmente dos seus passos. Mas
logo ap�s o caso, o mais acertado era mesmo dar no p�. E a essa hora
devia estar longe. A n�o ser que o caminh�o do amigo s� sa�sse tarde
da noite. Fica o dia todo pegando carga, parte depois das onze.
Gostaria de fazer uma viagem longa, assim. Um dia tamb�m se meteria
pela estrada. Rodaria muito tempo. Em lugares diferentes, passando
por regi�es que nunca vira.

Toninho toma o �nibus, segue para a rua do jornal. J� se informara,
sabia que passava perto. Andaria algumas quadras, estaria l�.
E foi o que fez, sem o menor constrangimento. Se Enfezado ficou
impossibilitado de ajudar, n�o iria esperar que se passassem mais dois
meses, at� aparecer. Talvez fosse tarde demais. Alguma coisa lhe
dizia que a publica��o da not�cia com a fotografia deveria ser feita
agora.

Falou com o homem gordo e calvo, na portaria, ele indicou a
reda��o. Subiu um lance de escadas gastas e sujas, saiu num corredor,
chegou ao sal�o com muitas mesas, homens escrevendo � maqui



na, grande quantidade de pap�is jogados no ch�o. Falou com o rapaz
de ar nervoso e cabelos em desalinho, esticou o bra�o indicando O
mulato sentado por tr�s da mesa maior com pilhas de laudas e telefones
� sua frente. O homem parecia n�o reparar na sua presen�a.
S� ap�s algum tempo ergueu os olhos.

� Que � que h�?
� Tenho uma not�cia pra lha dar!
� Que not�cia?
� Meu pai que desapareceu. . .
0 rosto do mulato n�o demonstrava a menor emo��o.
� Desapareceu ou se mandou?
Toninho reparou bem no tipo, fazia um arzinho de riso.
� Desapareceu!
O homem pegou uns pap�is, atendeu o telefone que tocava insistentemente,
disse palavras soltas, que Toninho n�o entendia, desligou.
A�, voltou a encar�-lo. Levantou-se, deu um berro chamando
outro homem que escrevia do lado oposto do sal�o, o tipo magricela
e descabelado voltou-se.

� Vai l�! Cabe�a quebrada e gente que se manda � com ele!
Toninho metido no casaco de couro, um calor dos diabos, a m�o
direita no bolso, um certo arrependimento de ali estar. Atravessou o
sal�o, muitas mesas alinhadas ou sem nenhum alinhamento, cinzeiros
e garrafas vazias de refrigerantes para tudo que era lado, o crioulo
magricela e meio calvo servindo cafezinho em copos pl�sticos.

O homem desgrenhado, de �culos, rosto suado, manda Toninho
sentar. Era evidentemente mais atencioso que o mulato. Puxa a
cadeira, fica incomodamente numa ponta de mesa, onde havia montoeiras
de originais rabiscados. 0 homem do cafezinho se aproxima.
O redator pega um copo, oferece.

� Como � a hist�ria?
Toninho toma o primeiro gole de caf�, completamente frio e
amargo. Antes de dizer qualquer coisa puxa o z�per do bolso, retira
a fotografia. O redator p�e-se a examin�-la.

� � meu velho. � gente morava no Morro da Babil�nia. Um
dia a m�e ficou doente e ele desceu pra chamar o m�dico, nunca
mais apareceu!
� Quando foi isso?
� Faz tempo. N�o procurei logo um jornal porque achava que
mais cedo ou mais tarde ia voltar, entende?
� Quer dizer que ele n�o se mandou?
� Aprontaram uma boa pro velho. S� isso! N�o ia se mandar.
Tava tudo indo bem. Ele conseguiu o emprego como tratorista, ganhava
cinco a mais por hora. Al�m disso a gente tinha um plano.
� Que plano?
Toninho faz um sorriso, ajeita os cabelos, sempre ca�dos de lado.

� Ora, queria comprar um peda�o de terra por a�. Ia experimentar
a lavoura.
� Nunca mais ningu�m topou com ele?
� Ningu�m. Tive umas duas vezes na obra onde trabalhava,
procurei me informar, n�o adiantou nada!
� Pode deixar. Amanh� sai uma nota.
Toninho se levanta, aperta a m�o do magricela, encara-o, n�o
v� naquele rosto suado, por tr�s dos �culos de aros grossos e escuros,
qualquer emo��o. Vai embora, desviando-se das mesas, ouvindo o
barulho das m�quinas de escrever, os palavr�es e as risadas, entra
pelo corredor. Agradece ao homem da portaria, sai para a rua. N�o
sabe por que, sente-se um tanto arrependido de ter procurado aquele
jornal. Na verdade, o melhor que teria feito era n�o reclamar coisa
alguma. Esperar pelo tempo. Ir, vez por outra, na tendinha de seu
Greg�rio, dar umas palas a Banda Branca, esperar pelos acontecimentos.
Com dinheiro, poderia at� colocar o alcag�ete na jogada.
Eis uma solu��o na qual ainda n�o havia pensado. Por que n�o oferecer
uma grana �quele vagabundo, mandar que se virasse � procura
do pai? Ser� que n�o toparia ou ficaria com o dinheiro e n�o se mexeria?
Toninho sente o calor da m�quina no bolso. Desde o instante
em que acionou o gatilho, acertou duas vezes seguidas na t�bua podre,
encheu-se de coragem. Se Banda Branca roesse a corda, depois de
um acerto, trataria de aboto�-lo. N�o ia deixar-se embrulhar, como
acontecia quando garoto. O alcag�ete empenharia a palavra, teria de
cumprir. Se n�o fizesse isso estaria no mato sem cachorro.

Atravessa a rua, passa pelo bar apinhado de bebedores, a id�ia
de falar com Banda Branca continua a parecer-lhe oportuna. Talvez
fizesse isso. Subiria novamente o morro, procuraria o alcag�ete. Daria
as coordenadas, marcaria data para uma resposta definitiva. Entregaria
uma parte do dinheiro, a outra seria dada quando soubesse de
alguma coisa. E se Banda Branca inventasse uma hist�ria, com pap�is
carimbados e tudo, apenas para ludibri�-lo? Isso n�o podia acontecer.
Depois que o alcag�ete desse as dicas, procuraria confirmar,
tiraria a d�vida. N�o era poss�vel que todos estivessem mentindo ou
que todos contassem a mesma mentira. Na menor contradi��o marcaria
Banda Branca, exigiria satisfa��o e o dinheiro de volta. Se o
moleque tentasse escamotear, saberia bem como surpreend�-lo. Ora
se saberia. Com esses pensamentos confusos, Toninho chega novamente
a Copacabana. As ruas iluminadas e intensamente movimentadas,
t�o diferentes daquela onde ficava o jornal, com l�mpadas morti�as
nos postes escuros e altos, somente algumas pessoas nas ruas,
as cal�adas atravancadas de autom�veis. Tem vontade de passar pela
lanchonete, alarma-se com a perspectiva de uma exig�ncia de Marlene.
Agora sabe o quanto � urgente ter um lugar onde ficar, sem o
perigo de ser abordado por policiais que pedem documentos, fazem


revista em tipos suspeitos. Se isso acontecesse perderia o rev�lver e

ainda terminaria numa Delegacia, sem ter o que explicar.

E se alugasse um quarto?

Aproxima-se do balc�o da sorveteria, onde h� muita gente, pede

sorvete de chocolate com baunilha, a mulher baixinha e carrancuda
� quem serve. Toninho fica tomando o sorvete e pensando naquela
do quarto. S� que n�o seria bobo de se meter numa casa qualquer.
Procuraria uma pens�o, se entocaria por l�. Para todos os efeitos,
trabalhava somente � noite, dormia de dia. Quando perguntassem o
que fazia � e como iriam perguntar � responderia uma coisa
qualquer. Era porteiro de um cinema, quando terminava o cinema
emendava numa boate.

0 sorvete est� uma del�cia, pede outro, ajeita os cabelos lisos,
ca�dos na testa, a mulher baixinha e carrancuda torna a movimentar-
se. Agora, est� certo de que esse era o caminho: alugar o quarto numa
pens�o. Nada de vagas, de intimidades com quem quer que fosse.
Ficaria isolado, n�o daria satisfa��o de sua vida. Calcula o dinheiro
que ainda tinha, sabe que n�o � muito, mas dava para pagar pelo menos

o primeiro m�s. Procuraria a pens�o no dia seguinte, saberia as condi��es,
examinaria diversos quartos. Mas, nisso tudo faltava um detalhe:
n�o podia chegar de m�os abanando. Tinha de aparentar estar
vindo de algum lugar. Compraria a maleta, encheria de jornais,
tomaria um t�xi, subiria as escadas. A� sim. Quem � que ia desconfiar?
E onde seria a pens�o? Copacabana, no Leme ou mais para o
Centro? Isso dependia das di�rias e da seguran�a que a casa oferecesse.
N�o iria meter-se em qualquer buraco, para terminar sendo
surpreendido como um rato. Agarraram Colher de Pau na moleza,
mas com ele a coisa era diferente. Toninho imagina detalhes: uma
carteira de identidade, por exemplo, uma profissional. E se lembra
da oportunidade que teria no pr�dio em constru��o. Pegaria documentos
de um oper�rio. Na pens�o usaria o nome que estivesse nas carteiras.
Ningu�m precisaria saber nunca como na verdade se chamava.
Ora, por que j� n�o pensara nisso h� mais tempo? A garganta
est� fria de tanto sorvete, o est�mago tamb�m. Arrota, passa um
guardanapo de papel nos dedos, a mulher mostra-lhe a pia. Lava as
m�os, torna a usar os guardanapos de papel, coloca o casaco no ombro.
Sai para a rua movimentada pensando nos documentos que obteria.
Entra pelo port�o da obra, Man� Cabreiro est� de plant�o. Faz um
"oi" para o homem meio adormecido, vai em frente, Man� Cabreiro
o chama, pede cigarro. Toninho mete a m�o nos bolsos, tira a carteira,
manda que se sirva. Man� Cabreiro pega dois, faz ar de riso,
Toninho p�e-se a subir as escadas ainda por terminar. Entra pelo
sal�o que j� conhecia, onde pelo menos dez pe�es se amontoavam, sobe
outro lance de escadas, vai para o quartinho atravancado de materiais.
Na passagem v� as roupas dos oper�rios penduradas, algumas

atiradas a um canto, no maior desleixo. 0 sal�o era escuro, s� se tornava
mais claro quando os an�ncios luminosos na rua piscavam. Mas
l� pelas 2 da madrugada os an�ncios eram desligados, o sal�o e todo

o pr�dio mergulhavam em completa escurid�o. Seria a hora de agir.
Estira-se na cama de jornal, por cima dos sacos de cimento, sente os
odores e os gemidos daquele pr�dio que ainda estava crescendo, ia
tornar-se dos mais altos de Copacabana. Imagina quando aquilo tudo
estivesse pronto, os pisos brilhando, as paredes pintadas, lustres pendurados
no grande sal�o. As pessoas que ocupariam os apartamentos
n�o precisariam, como ele, viver tramando nas sombras. Abririam as
janelas para os ventos do mar, as cortinas esvoa�ariam e tudo teria
muita paz. 0 que n�o entendia era de onde essas pessoas tiravam
tanto dinheiro, se os jornais estavam todos os dias reclamando do
custo de vida e das f�bricas que fechavam, despedindo uma quantidade
de oper�rios. 0 pr�prio pai, um dia, chegou no barraco todo
triste, a m�e puxou conversa, n�o respondeu. S� depois de algum
tempo come�ou a falar. A� Toninho foi sabendo que havia sido demitido.
N�o apenas ele, mas outros 1.499.
� 0 pessoal do sindicato disse que n�o vai ficar assim. Se tem
direitos!
A m�e fazia um sorriso amarelo, o garoto sentia a amargura
daquelas palavras. E desse dia em diante, at� dois meses mais tarde,
tudo ficou muito dif�cil. Foi quando seu Greg�rio suspendeu os fiados,
pensando que o pai tivesse de malandragem. Ao ler no jornal que

1.500 oper�rios tinham sido demitidos da f�brica, foi l� em casa. O
pai ficou emocionado, as coisas tornaram-se mais f�ceis.
� Pode comprar o que quiser, dona Mundi�a. Quando seu
Ven�ncio tiver recebendo a gente acerta!
As pessoas que iam habitar o pr�dio n�o teriam aquele tipo de
problema. O dinheiro entraria aos montes e com regularidade. Um
rico nunca � demitido de lugar algum. Quem j� ouviu dizer que um
milion�rio foi mandado embora do trabalho? Ora. se j� � rico, t�
trabalhando s� de brincadeira.

Toninho cansa desses racioc�nios malucos, desce o v�o de escada,
o sal�o est� mergulhado nas sombras. Puxa algumas roupas, examina
os bolsos. Na primeira cal�a n�o encontra coisa alguma, al�m
de dinheiro; na outra, os documentos que procurava. E est�o presos
por borrachinhas das que os bancos usam nos ma�os de notas. Vai
para o quarto, acende f�sforos, examina rapidamente as carteiras. A
profissional, j� bem arrebentada, a de identidade praticamente nova,
algumas cartas escritas � m�o, em letras irregulares, por pessoa que
n�o demonstrava muita leitura. Queima as cartas, mete as carteiras
no bolso do blus�o de couro. O importante, agora, seria esperar o que
ia acontecer. Quando o cara acordasse e n�o encontrasse os documentos,
era capaz de promover esc�ndalo. Mas, como n�o mexeu no


dinheiro que tinha nos bolsos, ficaria confuso, imaginaria ter perdido.
Ningu�m vai roubar teus documentos, cara, deixando a grana
como recorda��o, diria algum colega mais esclarecido. Ele pr�prio, se
fosse envolvido na confus�o, teria o que acrescentar. Ora. se tinha todo
esse dinheiro que t� dizendo, por que o careta ia carregar apenas os
documentos? Documento se tira por a�, e quase de gra�a! Man�
Cabreiro o apoiaria nessa afirma��o. N�o queria complicar-se. ser
chamado pelo administrador. Ao mesmo tempo Toninho imaginava
coisa mais simples: sairia cedo, quando come�asse o bate-boca estaria
longe. � noite, se o interrogassem a respeito, n�o saberia de nada.
Por que iria ficar com seus documentos se tenho os meus? O pe�o
n�o teria a quem acusar, Man� Cabreiro terminaria aconselhando-o
a procurar com mais cuidado por perto dos andaimes, nas montoeiras
de pedras. Devem ter ca�do por l�. T�o por tr�s de alguma ruma de
tijolo, e voc� botando a culpa em qualquer um. O pe�o ficaria desarmado,
os outros argumentando que ladr�o n�o tinha sido, porque nesse
caso a primeira coisa a desaparecer seria a grana.

� Acha mesmo que gatuno vai levar documento quando tem
tutu pra botar a m�o?
Foi uma noite em que Toninho praticamente n�o dormiu. Ocupava-
o, tamb�m, a id�ia de abrir o jornal no dia seguinte, ver a fotografia
do pai, o texto que o redator magricela prometera fazer, a compra
da maleta, os jornais velhos que arrumaria dentro, a entrada na
pens�o de segunda. E, agora, estava certo de que n�o poderia ser em
Copacabana. N�o teria bastante dinheiro para o adiantamento. Tamb�m
n�o desejava meter-se numa daquelas, da Lapa, ou da Avenida
Mem de S�, onde freq�entemente a pol�cia d� incertas, leva para a
Delegacia quem muito bem entende. Teria de ser uma pens�o barata,
mas ali pelas imedia��es do Catete, Marqu�s de Abrantes ou, no m�ximo,
Largo do Machado. E se em vez dos jornais velhos, adquirisse
umas camisas, cuecas e at� duas cal�as? Caso algu�m tivesse uma
chave falsa e entrasse no quarto, teria o que ver. Se encontrasse a
maleta vazia era o suficiente para desconfian�a. Calcula quanto tem
no bolso. T�o logo clareasse, a primeira provid�ncia seria conferir o
dinheiro. Com todas as roupas n�o podia gastar mais de mil. Depois
de espalhar as cinzas das cartas, recosta-se num saco de cimento, por
instantes adormece.

QUATRO

Acorda quando o sol ainda n�o apareceu e o pr�dio permanece
em sil�ncio; o pr�dio e todas as coisas por perto. At� mesmo os carros


s�o pouco numerosos na rua. H� como que um momento de paz sobre
os quarteir�es pr�ximos e na avenida que beirava a praia. Toninho
est� certo de que a essa altura s� os caras que faziam gin�stica deveriam
estar por l�. Apareciam velhotes correndo, metidos em roupas
de l�, a fim de suar o m�ximo poss�vel, depois vinham os que j� n�o
ag�entavam correr, limitavam-se a conduzir os cachorros, ficar olhando
eles fazerem sujeira nas cal�adas e na areia. Tinha certa raiva
daqueles tipos, de seus cachorros, pois uma vez patolou o p� num
monte de merda, foi preciso lavar o sapato no posto de gasolina.

Enfia-se na roupa com vagar, examina o rev�lver, as balas, torna
a olhar os documentos. Fixa-se na fotografia do pe�o, tem vontade de
rir. A primeira provid�ncia seria entrar num foto, pedir retratos para
carteira profissional e de identidade. Depois, com uma l�mina de barbear,
um pouco de cola e bastante paci�ncia, acertaria o resto. L� o
nome do trabalhador: Jo�o Leonardo de Abreu. Acha o nome bacana.
Acentaria bem para ele. 0 neg�cio era se acostumar a ser chamado
de Jo�o Leonardo. Procuraria n�o esquecer. Logo na primeira
semana estaria acostumado. Tinha certeza.

Desce a escada, passa pelo sal�o onde os pe�es continuam deitados,
vai embora. Nem Man� Cabreiro estava no port�o. Ou foi tomar
caf�, ou estava dando uma rondada na obra. Fazia isso diversas vezes
na noite, a fim de evitar os ladr�es de materiais. O canteiro de obras
era grande, um homem s� mal dava conta. Se lembra de Man� Cabreiro
reclamando disso. De primeiro havia eu e mais dois vigias. Com

o aumento do sal�rio mandaram os dois embora. Fiquei ag�entando a
corda. Nesse caso, pra mim n�o houve aumento nenhum. A companhia
ainda t� � lucrando. Tive 30% de aumento mas em compensa��o
fa�o meu servi�o e de mais dois.
Os pe�es debochavam de Man� Cabreiro.

� Pode deixar, Man�. Os home s�o teus amigo. V�o melhorar
a coisa pra tua banda. Quando menos pensar, te d�o um aumento
bem grande. Vai rodar por a� de autom�vel e tudo.
Outros pe�es, dispostos a gozar o vigia, acentuavam:

� Se n�o ganhar o aumento, recebe um p� no rabo, pra deixar
de andar com sacanagem! T� pensando que n�o se sabe das tuas piruetagens!
Man� Cabreiro se enfezava.

� N�o ando com sacanagem alguma, seus merdas! Cumpro
meu dever. Se voc�s se escondem do trabalho a culpa n�o � minha. A
companhia n�o paga ningu�m pra se meter no banheiro e ficar por
l�, duas tr�s horas. Ganho pra n�o deixar ningu�m na pouca vergonha.
Os pe�es achavam aquilo divertido. Continuavam a rir, Man�
Cabreiro fica ainda mais irritado.


� Acho uma gra�a! De primeiro, cada um de voc�s vai chegando,
tudo humilde, pedindo uma vaga qualquer. Depois come�am a
botar banca.
� Deixa de ser bobo, Man�. Com esses rica�os se tem de tratar
como quem t� na frente de cobra. No que o bicho esmorece, se
malha o pau em cima. N�o se deve ter pena. Essa canalha chupa o
sangue da gente e r�i o osso.
� N�o sei nada disso. S� sei que cumpro ordem!
Toninho distancia-se da constru��o, os risos e as palavras ing�nuas
de Man� Cabreiro nos ouvidos. N�o entende por que aqueles
homens discutiam tanto e por que estavam sempre irritados. Ser�
que o pai era assim tamb�m? Ser� que no trabalho da estrada havia
muitos caras como Man� Cabreiro, que na verdade ganhava para
dedurar os companheiros? Sabe muito bem como era irritante aquela
vida. Aqueles homens se desgastando, dias e dias subindo andaimes,
forcejando com latas de massa de cimento, lidando com m�quinas
pesadas, ag�entando solavancos das britadeiras, dobrando ferro
com torqu�s e alicate, furando dedos nos arames. Os que tinham
namoradas, protegiam-se com luvas. Mas logo as luvas furavam, n�o
podiam comprar outras. Al�m disso ainda serviam de goza��o para
os que pegavam os ferros com as m�os e argumentavam que m�o de
oper�rio � pior do que t�bua, meu chapa. N�o adianta ficar a� de
frescura, que tua m�ozinha nunca vai se parecer com a de um doutor.
A risada era geral, os martelos batendo nos ferros, os ajudantes
descarregando mais vergalh�es nas bancadas, caminh�es betoneira
entrando de r�, o concreto descendo pela calha, nordestinos forcejando
com os carrinhos de m�o, o apontador anotando os carrinhos que
subiam para o elevador.

� Quantos andares vai ter esse pr�dio, Man� Cabreiro?
� Pelo que ouvi dizer, uns 30. Cada um com seis apartamentos.
Tr�s nos fundos, tr�s de frente.
� Puxa! Os caras da imobili�ria v�o levar uma nota.
Man� Cabreiro como que falava em segredo.
� E t� tudo vendido.
Man� Cabreiro, cara redonda, capacete redondo, pisca o olho.
� Sabe quanto vai custar cada bicho desse?
Toninho n�o faz id�ia, nem est� interessado, mas aquilo parece
fascinar o vigia.

� Pelo menos 3 milh�o. Dinheiro que dava pra organizar uma
fazenda na minha terra. Poucos tem por l� uma fazenda de 3 milh�o!
Toninho estira-se na areia, as brisas s�o suaves, a praia est� completamente
deserta. Tem vontade de rir de Man� Cabreiro, dos pe�es
todos, de seu Greg�rio, do homem magricela do jornal. Afinal, quem
eram eles? O que pretendiam? Como era que seu Greg�rio ia prosperar,
se todo mundo ali pelo morro vivia na pior e mal podia pagar


as contas atrasadas? Ou ser� que seu Greg�rio gostava de fiar, por
que em cada conta acrescentava uma por��o de n�meros que os fregueses
ignoravam? Devia ser isso. Seu Greg�rio nunca lhe parecera
bobo. Desde a conversa que tiveram, percebeu sua manha. Soltave
verde pra colher maduro. Mas ele n�o era tolo. Se ag�entou, deixou

o barraqueiro falar. E como falou? Estaria certo? Teria dito as coisas
conforme aconteceram? Colher de Pau deu de fato bandeira,
meteu os p�s pelas m�os ou foi tudo bola��o de Banda Branca? Ia
procurar Banda Branca, caso a nota do jornal n�o resultasse em nada.
N�o voltaria a outra reda��o. Ofereceria uma grana ao alcag�ete,
ficaria acompanhando o lance a dist�ncia. Se fraquejasse, se tentasse
extorquir, a� se ferraria. N�o deixaria por menos. E seria f�cil, pois
Banda Branca n�o podia imaginar que estava com uma m�quina,
prontinha para ser usada. Faria o jogo da v�tima, acertaria encontro
no local ermo, meteria a m�o no bolso, queimaria o tipo ordin�rio.
Olha a gaivota que se distancia, lentamente, seguindo o cardume,
lembra do porta-luvas se abrindo, o homem dando corda no tax�metro,
o porta-luvas atulhado de notas de cem e cinq�enta. Superpondo-
se � cara do motorista grande e forte, que os tratou mal o tempo
todo, outro motorista fazendo-se vis�vel: o portugu�s careca, suado,
reclamando com mestre T�bor por ter subido o morro. Como reclamou

o diabo do portugu�s. Toninho estava vendo a hora que ia entrar no
carro, descer o arrampado, deixar todo mundo sem ir ao enterro. Foi
preciso seu Greg�rio ajudar. E para que o portugu�s careca se convencesse,
mestre T�bor prometeu pagar a corrida em dobro.
� N�o se tem culpa de morar onde mora. homem de Deus! �
argumentava pacientemente mestre T�bor, que no dia da morte de
dona Mundiquinha n�o foi � oficina.

Seu Greg�rio, querendo ser agrad�vel, at� ofereceu uns tragos
ao homem careca, enquanto dona Julinha e vov� Jandira providenciavam
mais flores para botar no caix�o. As flores de vov� Jandira
quase n�o chegavam a tempo. 0 cara ligou o motor e, sem qualquer
respeito por mestre T�bor e por seu Greg�rio, berrou:

� Vamos embora ou des�o sozinho!
Toninho cruza as m�os por baixo da cabe�a, v� mestre T�bor,
seu Greg�rio, tio Donga e dona Julinha se esfor�ando com o caix�o
0 que menos fazia for�a era o homem da Santa Casa, que estava com
a Kombi preta. 0 caix�o entrou no carro pela porta traseira, o de uniforme
caqui fechou as portas com f�ria. Meteu-se no banco dianteiro,
partiu com a Kombi, levantando poeira pelas vielas, o carro do portugu�s
mal conseguindo acompanhar.

� Esses cachorros andam de qualquer jeito porque o carro n�o
� deles!
Seu Greg�rio se preocupava com a dianteira tomada pela Kombi,
reclamava ao motorista do velho Pacard.


� Vamos l�, homem! Toca o p� no carro. Do contr�rio esse
maluco some com a defunta e ningu�m vai saber pra onde foi.
� N�o sabe qual � o cemit�rio?
� A essa altura, sei l�?
� Claro que ele sabe � dizia mestre T�bor com tranq�ilidade.
� Disse duas vezes que era no Caju.
� Pois pra mim ele falou em S�o Francisco Xavier � argumenta
dona Julinha.
Na parte em que o terreno era melhor o motorista portugu�s
acelerou. A� voltou-se a ver a Kombi, que continuava em disparada.
S� reduziu a marcha quando chegou no asfalto e havia uma por��o
de carros atravancando a pista.

Toninho imaginava a confus�o doida que fora aquele dia. Ele
suava, mestre T�bor suava, dona Julinha tinha os olhos vermelhos.
Seu Greg�rio bateu-lhe delicadamente na cabe�a.

� N�o te preocupa. 0 pai vai voltar. Alguma coisa aconteceu
com ele!
0 velhote que se exercita numa carreira medida passa pelo cal�ad�o,
logo atr�s vem outro, l� longe aparecem dois homens com
cachorros nas coleiras. Toninho calcula que j� devem ser umas sete
horas. �s oito se mandaria. Sacudiria a areia das roupas, passaria os
dedos nos cabelos. Est� certo de que Enfezado foi com o motorista, a
essa altura deve estar longe. Est� certo, tamb�m, de que abrir� o
jornal, ver� a fotografia do pai, algumas linhas traduzindo toda a
hist�ria que contou ao jornalista magro, de �culos escuros.

Comprar� a maleta antes, ou primeiro procura sondar o pre�o
da pens�o? N�o havia mal algum em especular. Diria que a bagagem
estava na casa de um amigo, logo que acertasse o pre�o iria pegar.
Isso mesmo!

Toninho imagina-se instalado, num quarto que desse para o
sagu�o, onde haveria uma �rvore. Nas tardes que n�o tivesse nada
para fazer, abriria a janela, olharia revistas, principalmente as que
trazem retratos de mulheres nuas. Iria ao Mangue, trataria de localizar
Marta. Queria s� ver como estava, se era melhor que a mulherzinha
do sargento. Tinha d�vidas a esse respeito, embora recordasse
perfeitamente do dia em que a vira tomando banho. Seios pequenos
e empinados, n�degas grandes, coxas grossas. Se Marta ainda estivesse
do mesmo jeito, podia at� propor um neg�cio: morar com ela.

Torna a olhar a gaivota que, agora, arranjou uma companheira.
N�o seria nada interessante ligar-se a Marta. Com o passar dos dias
surgiriam os problemas, ela se intrometeria na sua vida. 0 importante
seria encontr�-la, sempre que desse vontade. 0 plano que tinha
em mente n�o podia ser compartilhado com ningu�m, muito menos
com uma garota que j� n�o via h� tanto tempo. Quem sabe se enra



bichou por algum cara, estava numa transa complicada? Isso era
quase certo. Nenhuma mulher do Mangue vive sozinha. Tem sempre
um cafet�o por perto, que d� prote��o e toma a grana. Sem essa prote��o
se acabaria em dois tempos. Uma pena que Enfezado n�o pudesse
ir tamb�m. Deu a id�ia, conhecia a tal da Zita. Mas n�o tinha o
que errar. Talvez nem dissesse que era Toninho, filho de seu Ven�ncio
e de dona Mundiquinha. Dizer pra qu�? Se Marta fizesse alguma
indaga��o nesse sentido, trataria de desconversar. N�o queria que na
hora H viesse com as tais lembran�as bestas. Queria era peg�-la, como
pegou a mulherzinha do sargento. Mordeu-lhe os bei�os, a mulherzinha
estremeceu, entregou-se. Cansado, perguntou enquanto mordiscava-
lhe a orelha.

� Como � teu nome?
Igualmente cansada a mulherzinha respondeu, a voz denotando
medo.

� Eunice. Fa�a o que quiser mas n�o me mate!
� � t�o boa que vou te querer pra sempre. Meu amigo � que
n�o sei o que pensa!
� N�o � voc� quem d� ordens?
Toninho teve vontade de rir, a mulher fez uns movimentos lentos,
sentiu-se afundar, afundar, quis mentir, dizer que sim mas n�o
p�de, apertou-a com f�ria, os dedos marcando os peitos brancos e
duros.

Ergueu-se, Enfezado apareceu, ainda estava se limpando na
coberta da cama. Enfezado subiu na mulher, desta vez com roupa e
tudo, prendeu-a entre as pernas. Toninho ficou olhando as coxas grossas
que se agitavam, as n�degas que tremiam, os p�s de unhas pintadas.
S� um bra�o de Enfezado podia mover-se, o outro permanecia
duro, como se fosse de pau.

� Vem aqui, cara! Me ajuda com essa sacaneta.
N�o esqueceria jamais a cena das coxas grossas agitando-se, das
nesgas de bunda tremendo. Ver aquilo era quase t�o bom quanto
estar por cima da mulherzinha que tentara ganhar tempo e at� atir�lo
contra o amigo.

Prendeu-a pelas pernas, meteu a m�o entre as coxas mornas,
ficou segurando. Enfezado saiu de cima da cama, a coberta j� estava
ensopada de sangue.

Ser� que Marta tinha coxas t�o grossas e t�o quentes? Poderia
ficar com ela o tempo que quisesse ou se demorasse viria logo a tal
Zita bater na porta, dizendo que havia outro cliente? E se pagasse
uma nota e tamb�m desse gorjeta a Zita? Seria uma boa. Daria uma
grana a Zita, ficaria a tarde toda com Marta. Isso mesmo. S� que
n�o iria para o Mangue com o rev�lver, nem com o casaco. Al�m
disso, n�o se sentiria com coragem de baixar por l�, antes de ter as
fotografias coladas nos documentos de Jo�o Leonardo de Abreu. Se


pintasse algum tira, tinha o que mostrar. Se o careta entesasse, soltaria
uma grana.

Novos velhotes passam metidos em roup�es de gin�stica, correndo
lentamente, s� para exercitar os m�sculos. Toninho ergue-se da
areia, est� certo de que teria um dia cheio: primeiro o jornal, depois
as fotografias, mais tarde a busca, de pens�o em pens�o. Quando
descobrisse uma que interessasse, trataria de ir � loja de malas, depois
a outra que vendesse camisas baratas, cuecas e cal�as. Sacode bem a
areia, passa o dedos nos cabelos, atravessa a pista, os carros em velocidade,
as primeiras garotas mostrando as coxas nas sa�das de praia,
bab�s sacudindo pirralhos em carrinhos de luxo.

Entra no bar, senta junto do balc�o, o cara uniformizado serve
m�dia e p�o na manteiga, um copo com �gua mineral. Mastiga devagar,
est� certo de que ap�s conseguir o local para ocultar-se, pode iniciar
o plano. E n�o tem nenhuma d�vida de que vai ganhar muito
dinheiro. Ora se vai.

7 3


Cap�tulo IV

UM

Toninho pega o jornal, folheia, espera o homem devolver o troco.
Na coluna de pessoas desaparecidas, com pequeninas fotos, nenhuma
refer�ncia a Ven�ncio Borges. Torna a olhar o jornal, desde o
come�o. Naturalmente a nota estava encaixada perto de algum an�ncio,
por isso n�o conseguiu v�-la. Chega outra vez � �ltima p�gina e
nada. Os olhos de Toninho refletem o �dio que sente. Magricela de
redator filho da puta. Como aquele sacaneta ousava fazer um cara
como ele falar, contar detalhes da vida particular e depois n�o sair
coisa nenhuma? 0 que � que pensava? Procuraria o telefone do jornal.
Volta a olhar nas p�ginas, localiza o expediente. Rasga o peda�o
de papel, onde est� o endere�o e o telefone. � noite ligaria para a
reda��o. Saberia o que houve. No m�nimo daria uma espinafrada no
cara. Vai em frente. 0 dia, evidentemente, n�o come�ava bem. 0
que custava aquele magricela publicar a not�cia? Ou n�o saiu por
interven��o do tipo mulato, que demonstrou n�o ter o menor interesse
na coisa? Era evidente que o mulato mandara suspender a nota.
Pra que falar de um oper�rio que havia sumido h� tanto tempo? Era
isso que eles pensavam. Mas se dariam mal. Haveria de encontrar
outro meio de localizar o pai. Bem que gostaria de chegar no meio
daquela reda��o, ouvir as desculpas do redator magricela, postar-se
em frente ao mulato de cara atrevida, fazer a m�quina funcionar.
Sem d�vida alguma, um tipo ordin�rio. Igual ao motorista portugu�s,
que n�o queria esperar o enterro da m�e, igual a seu Greg�rio que
suspendeu o fiado, igual ao homem da Kombi que saiu com o caix�o
em disparada, pouco se incomodando se ele ia saltar pro ch�o
ou n�o. Uma corja s�. N�o tinha de ter considera��o. Largou o jornal
aberto na cal�ada, foi em frente, desviando-se sem muita preocupa��o
dos que passavam. Ap�s alguns quarteir�es, onde decidiu
tomar o �nibus, procurou acalmar-se. De que adiantaria indignar-se?
Iria alterar alguma coisa? O certo era deixar aquele jornalista de

74


lado, tratar de localizar Banda Branca. Conhecera muito bem o pai,
podia dar o recado. Mesmo assim telefonaria para o jornal. Mandaria

o magricela e o mulato tomarem no rabo. N�o podia ficar por isso
mesmo. E mais: ia pegar a fotografia. Se n�o devolvessem, faria um
esc�ndalo.
Entra no �nibus, salta na pra�a onde est�o sendo feitas obras,
passa por baixo de andaimes, mulheres com carrinhos de feira,
homens com cestos na cabe�a, motoristas buzinando no engarrafamento.
Toninho caminha, at� avistar a tabuleta que, em grandes
letras, anuncia a Pens�o Iola. Por baixo das letras gordas, em vermelho,
uma �nica palavra: "familiar". Entra, dirige-se � velhota por
tr�s do balc�o antigo, o ventilador todo empoeirado do lado, uma
folhinha que mostrava a jovem loura, escovando os dentes. A velhota
confere pap�is, n�o ergue sequer a vista. S� depois de encostado
ao balc�o decide falar-lhe.

� Queria saber pre�o de quartos. Sou estudante � diz Toninho.
A velhota olha-o, sem interesse. Fica uns instantes calada. Puxa
a tabela plastificada, p�e-se a ler, mecanicamente.

� Na parte da frente, caf� pela manh�, dois e quinhentos! Pro
lado dos fundos, caf�, mil e oitocentos. Sem caf�. s� com roupa de
cama, mil e quinhentos.
� Topo esse, s� com roupa de cama!
A mulher d� um berro, aparece o velho de canelas secas, cal�as
arrega�adas, chinelos despencados.

� Seu Jos�, mostre o 509!
O faxineiro segue pelo corredor de ladrilhos, Toninho atr�s. �
propor��o que penetram no pr�dio, fica sentindo, como aquilo era
sinistro. O elevador aparece. Esp�cie de gaiola de grades, cujo interior
pode ser visto por quem est� de fora. O velho abre as portas,
chegam ao 5.� pavimento, p�em-se a caminhar por longo e sombrio
corredor. Passam por duas ou tr�s janelas que davam para telhados
de pardieiros n�o muito diferentes da pens�o. O velho torce a chave
na fechadura, o bafo de mofo invade as narinas de Toninho. Escancara
a janela, n�o existe �rvore alguma.

� D� sol na parte da tarde?
O faxineiro garante que n�o. Sol, mesmo, s� um pouco de
manh�.

� Pra mim, � o melhor lado da pens�o. At� outro dia, neste
quarto, morou um mo�o que se formou. Agora � doutor!
Toninho examina a cama, estreita, mas de molas. Os m�veis s�o
velhos. A mesa pequena, duas cadeiras, o guarda-roupa de imbuia, na
porta empenada o espelho manchado.

� H� outra pens�o por perto?
� A Su��a. Bem mais em conta. S� que d� muita briga. Se
quiser arriscar, tou certo que dona Berta n�o faz quest�o.

� Quem � dona Berta?
� A que tava l� embaixo. � propriet�ria disso aqui tudo!
Toninho acha que seu Jos� n�o tem raz�o de estar mentindo. Sente,
por suas palavras, que n�o inventa. Tanto faz que ficasse ali,
como n�o, para ele dava no mesmo. Por isso acredita que a tal Pens�o
Su��a deveria ser mesmo uma barra. De que adiantava economizar
no aluguel e viver apavorado com a pol�cia? Exatamente o que
n�o queria. Podia haver batida numa hora em que n�o estivesse, os
tiras encontrariam coisas que iriam prejudic�-lo. No corredor de
ladrilhos, a paz do casar�o. Do que estava necessitando. J� n�o sabia

o que era dormir numa cama. Tinha certeza que ia estranhar.
� Com caf� da manh�, em quanto fica?
A mulher gorda, grande papada, olha-o com mais simpatia. Examina
de novo a tabela.

� Um e oitocentos. S� que nosso caf� � quase almo�o.
� Como � o pagamento?
� Sempre adiantado. Entrando hoje paga o m�s todo.
� Topo! Pego a bagagem, logo mais venho pra c�.
Dona Berta mostra-se novamente seca.
� Nesse caso tem de deixar um sinal. No m�nimo quinhentos!
A�, mando dar uma limpeza no quarto.
Toninho anima-se, principalmente porque a mulher n�o falou
em documentos. Puxa as c�dulas, confere quinhentos, dona Berta senta
na cadeira de madeira, muito pequena para seu volume, destaca

o recibo.
� Quando vier, quero o n�mero da identidade.
Leva um susto, tranq�iliza-se, sem nenhuma d�vida ter� de
usar a carteira do pe�o. O neg�cio era conseguir uma fotografia, o
mais rapidamente poss�vel. Dobra o recibo, mete no bolso do casaco,
a mulher faz arzinho de riso, seu Jos� vem chegando, diz algumas
palavras sem sentido, Toninho vai para a rua, onde o movimento se
tornara intenso. Um pouco mais adiante est� em frente � Pens�o Su��a.
Exatamente como o velho dissera. N�o precisava entrar para sentir
a barra. Vasos de plantas nas janelas, roupas estendidas no corredor
principal, tr�s ou quatro homens jogando damas. L� para os fundos,
outros quartos de portas abertas e mais roupas estendidas. N�o
se tratava de pens�o e sim de uma cabe�a-de-porco, numerosas fam�lias
agrupadas em completa promiscuidade.

Na avenida, com fileiras de oitizeiros, encontrou o Foto-Studio
que prometia trabalhos em cinco minutos. 0 homem ajustou a m�quina,
conseguiu-lhe uma gravata, um palet�, a fotografia estava tirada.
Voltaria em meia hora, apanharia, pagamento adiantado. Andou pela
pra�a, da pra�a � porta do cinema, olhou cartazes de artistas, em tremendas
proezas, subiu ao sal�o de bilhar, mais por curiosidade do
que outra coisa. N�o era maluco de se meter em partidas com aque



le bando de cobras. O crioulinho magro iniciara uma tacada. H� uns
cinco minutos, n�o deixava a peteca cair, caras e mais caras chegando
perto, a fim de acompanhar o desempenho do jogador. As bolas
mais dif�ceis ele tra�ava, o advers�rio limitando-se a olhar, meio triste,
pois estava certo de que pagaria o tempo, teria de cobrir a aposta.
Na jogada f�cil, imposs�vel de errar, terminou ferrado. O taco espirrou,
s� duas bolas tocaram-se de leve, a vermelha ficou isolada, junto
a tabela esquerda. O crioulinho tornou-se t�o nervoso que bateu com

o taco no ch�o, culpando a qualidade do giz. O parceiro tomara posi��o
para aumentar sua contagem, quando come�ou a briga na mesa
de sinuca. Toninho decidiu cair fora. N�o queria estar por ali, no
caso de os tiras aparecerem.
Volta ao Foto-Studio, pega os retratos num pequeno envelope.
N�o acha parecido. O neg�cio, agora, seria encontrar o local onde
pudesse trabalhar. Voltar � constru��o? Lembra-se do aviso de Man�
Cabreiro.

� Antes de dez da noite n�o bota o p� aqui! D� galho!
Num instante j� sabe como resolver o problema. Compraria a
l�mina de barbear, o tubo de cola, entraria no cinema, se fecharia
no banheiro. Isso mesmo. Na papelaria adquire o material, mete-se
no restaurante tumultuado, espera aparecer lugar. Depois do almo�o
senta no banco da pra�a, enfeitada de pombos e aposentados lendo
jornais. O rel�gio long�nquo assinala as horas. Por volta das duas
dirige-se ao cinema. � dos primeiros a comprar ingresso. Entra, n�o

h� ningu�m na sala de proje��o. Vai direto ao banheiro. Passa a
chave numa das portas, abaixa a tampa do vaso, pendura o casaco.
Pacientemente, abre o pl�stico, pacientemente retira a fotografia do
pe�o, p�e a sua no lugar. Esfor�a-se para que a substitui��o seja perfeita.
Se a cola n�o segurar como deseja, voltar� � papelaria, onde
vira a m�quina de plastificar. Terminado o trabalho, fica admirando
sua obra. Est� perfeita. A substitui��o na carteira profissional foi bem
mais f�cil. Tanto assim que, ao menor toque, a fotografia do pe�o
soltou. Toninho passou bastante goma na sua foto, colou-a. ficou
esperando. Abriu a porta, fez a sondagem. Ningu�m no banheiro.
Pegou os retratos do trabalhador, picou-os em pedacinhos, jogou no
vaso. Rapidamente a cola secou. Verificou, inclusive, ser desnecess�ria
a replastifica��o. Ningu�m iria desconfiar. 0 corte fora bem feito.
Guardou a l�mina, meteu o tubo de cola no bolso, levantou a tampa
do vaso, deu descarga. Manteve o dedo pressionando a v�lvula, as
fotografias picadas n�o queriam descer. Amassou papel higi�nico,
jogou por cima, papel e fotos rasgadas desapareceram.

Voltou � sala de proje��o, havia bastante gente, escolheu uma
poltrona no trecho mais escuro. Talvez n�o visse o filme todo, pois
teria de comprar as roupas, a maleta. Sentado, ouvindo m�sicas anti



gas, p�s-se a imaginar a rea��o de Man� Cabreiro. N�o precisava dizer
nada a ele. Vez por outra apareceria no pr�dio em constru��o.

O filme come�ou, Toninho acompanhava as cenas sem interesse,
at� que surgiram as mortes misteriosas numa localidade de Nova
Iorque. 0 bombeiro matava tipos solit�rios, provocava inc�ndios nas
casas e apartamentos. Horas depois ele pr�prio retornava ao local "a
fim de evitar uma trag�dia". Esse bombeiro s� faltou enlouquecer o
detetive, que perdeu at� a mulher, pois afundara de corpo e alma no
trabalho, n�o ligava mais para nada. Descobrir e prender o criminoso
tornou-se para ele id�ia fixa.

O filme terminou impressionando tanto o garoto, que foi at� o
final da sess�o. Saiu quando as luzes acenderam, o cinema praticamente
cheio. Andava e recordava a diabolice do tal bombeiro. Acabou
preso por ter dado uma �nica mancada. N�o fosse alugar o carro,
colocar seu nome num papel, jamais algu�m iria botar as m�os nele.
Relacionava aquele caso com o seu, sentia-se um tanto orgulhoso,
pois desde o in�cio o nome seria outro: Jo�o Leonardo de Abreu. N�o
tinha ficha em lugar algum, n�o iria morar na Pens�o Su��a, n�o
agiria todos os dias, como o porra-louca do bombeiro. Duvidava
muito que os tiras daqui tivessem aquela obstina��o do detetive americano.
Aquilo, s� no cinema. Ningu�m deixaria uma mulher boa
como o cara deixou, pra grampear um bombeiro maluco.

Retira a carteira de identidade do bolso, est� perfeita. Bem colada.
Melhor do que esperava. Agora, podia comprar a maleta e as
roupas. Um pouco antes das 6 desejava estar de volta � pens�o. Tornaria
a falar com dona Berta, completaria o pagamento. Com todas
essas despesas, ficaria completamente a zero. E n�o queria mais dinheiro
de Marlene. Ap�s estender-se sobre o corpo morno de Eunice,
depois de beij�-la com f�ria, morder-lhe os bei�os, sentir as virilhas
ardendo, n�o suportaria os p�los nojentos de Marlene. Nem aquele
h�lito de chicletes e pastilhas de hortel�. Eunice tinha seu pr�prio cheiro.
Marlene cheirava a desodorante. As vezes ficava com dor de cabe�a.
Mas tinha medo da bicha deixar os perfumes e come�ar a feder
debaixo dos bra�os.

Depois de instalado, procuraria Marta. Se a barra no Mangue
estivesse pesada, marcaria encontro por fora. Onde o gigol� n�o pudesse
chegar. Se Marta se fizesse de besta, procuraria sondar Marlene.
Faria uma proposta.

� De hoje em diante se tem um acerto.
N�o adiantava levar na brincadeira.
� Me amarro contigo se der um al� pra gatinha que tira a
roupa
na boate.
Sabia o quanto isso ia revoltar Marlene. Mas n�o abria m�o.

� A escolha � tua. Se n�o topar, me mando. N�o apare�o mais.

Tem quase certeza de que cederia. Quando visse que estava decidido,
n�o teria outra escolha. Era at� capaz de contribuir para a aproxima��o.
A garota seria mesmo aquela que vira na revista? Por que
Marlene nunca lhe falava a seu respeito? Ou n�o passava de outra
bicha, bem disfar�ada, seios � base de horm�nios e tudo? Mas, pelo
que notava no pequeno apartamento, pelos detalhes no banheiro, pe�as
de roupa, perfumes e pentes, tinha quase certeza de que era de
fato uma garota. Se fosse bicha Marlene teria deixado escapar alguma
coisa. Uma palavra que fosse. N�o poderia evitar. Cansava de dizer
que, mais cedo ou mais tarde, t�o logo alugasse o apartamento maior,
promoveria uns encontros coletivos.

� Tu vai pontificar. Subjugar cada uma de n�s! 0 ambiente
todo iluminado, adequadamente, ar-refrigerado melhor que esse, m�sica
suave para n�o interromper nossa imagina��o.
Nesse ponto Marlene sorria.

� Tua imagina��o! Vai ter de exercitar muito, filhinho! Enfrentar
tr�s doidonas como eu n�o � moleza. A� que quero ver se
canta mesmo de galo.
� Se cantar?
� A gente te cobre de beijos e presentes! Vai ter vida de pr�npe.
Pode ficar o dia todo dormindo ou passeando. Despesas por nossa
conta. Pra que vida melhor?
Toninho sorria. Tinha certo medo das maluquices de Marlene.
Nesses momentos ela ficava de olhos brilhantes, o rosto tornava-se nervoso,
as m�os o prendiam como garras.

� Mas v� bem, moleque! Se me deixar na berlinda, acabo contigo.
Topo a brincadeira em conjunto mas sou tua dona. Te descobri!
N�o trabalho de gra�a pra ningu�m!
Marlene fazia essas amea�as, Toninho encarava-a, sentia-lhe o
suor frio, os cantos da boca espumando.

� Imunda! Nojenta!
� Me bate! Me bate se � macho!
Toninho batia. A m�o aberta para n�o deixar marca. Marlene
encolhia-se, protegia-se com o travesseiro, recebia socos nas costas, na
bunda. Marlene fingia chorar e terminava chorando, Toninho mordia-
a na cintura, com for�a. A bicha esperneava, rebolava-se, gemia e

o segurava pelos cabelos, sempre pedindo "morde mais", "morde
mais", enquanto o garoto tratava de desvencilhar-se, enojado.
DOIS

Quando principia a anoitecer e as l�mpadas das ruas. avenidas e
pra�as est�o acesas, Toninho entra na Pens�o Iola. A mala est� meio
pesada porque al�m das roupas h� tamb�m um par de sapatos. Dona


Berta procura o papel onde anotou o adiantamento de 500, Toninho
abre a carteira, tira o dinheiro.

� N�o precisa caf�. �s vezes chego tarde, durmo a manh� toda.
Na hora que vou tomar caf�, t� todo mundo almo�ando.
Ele pr�prio ri da sua afirma��o. A velhota n�o acha gra�a. Parece
nem ter reparado em semelhante considera��o. Est� ocupada com
a reda��o do recibo. Em dado momento p�ra de escrever.

� Ent�o, s� deve mil!
Toninho ainda sorridente, sempre sorridente, cabelo caindo de um
lado da testa, remexe na carteira e nas c�dulas. A mulher, m�o gorda
e branca, recolhe as notas, entrega um peda�o de papel, que deveria
funcionar como recibo. Toninho mete o papel no bolso, a mulher volta
a falar.

� Identidade!
Torna a examinar a carteira. Exibe o documento. A respira��o
por instantes suspensa, um certo frio percorre-lhe a espinha. Tranq�ilamente,
dona Berta vai escrevendo no registro de h�spedes: Jo�o Leonardo
de Abreu.

� Proced�ncia?
� Tou vindo de Ilh�us!
� Endere�o, l�.
� Avenida Ant�nio Prudente, 152.
A mulher fecha o livro, coloca-o de lado. Tira a chave de um
quadro repleto de ganchos de metal, bate com ela no balc�o, chamando
o faxineiro Jos�. O faxineiro aparece. Pega a mala, vai a caminho
do elevador. O garoto encara a mulher, v� as l�mpadas fracas iluminando
aquele imenso sal�o de mosaicos brancos e pretos, sabe que
dona Berta n�o parece ser de muita conversa. Era prefer�vel assim.
Manteria tamb�m certa dist�ncia. Desta forma, n�o haveria como
tentar intrometer-se na sua vida. O neg�cio seria ag�entar os pagamentos
em dia, mostrar moral. O faxineiro chega na porta do quarto,
Toninho torce a chave na fechadura, o homem entra com a mala.
Coloca-a sobre a cama, Toninho tira uma c�dula de cinco, oferece, ele
tenta recusar, termina aceitando. Fecha a porta, os passos do faxineiro
ecoando no corredor, estende-se no colch�o. Olha os m�veis, a
janela aberta na noite, vagos rumores que vinham da rua, o cheiro
caracter�stico do casar�o. Em tudo, diferente do pr�dio em obras: nada
de sacos de cimento, escadas, peda�os de madeira, ainda recendendo a
resinas, sacos e cal a um canto. Ali era tudo muito antigo, parecia
guardar certa estabilidade. O enorme guarda-roupa deveria estar naquele
lugar h� vinte anos, o mesmo acontecendo com a c�moda, a
mesa de pernas trabalhadas. A cadeira, evidentemente, n�o pertencia
ao conjunto. Fora arranjada pra quebrar galho. H� quantos anos
aquela pens�o existiria? Quantas pessoas teriam passado por aquele
mesmo quarto? O �ltimo teria sido o mo�o que se formou, como dizia


o faxineiro, com certa vaidade? N�o sabe por que preocupar-se com
isso, quando tinha tantos problemas a resolver. De uma forma ou de
outra deveria saber do paradeiro de Enfezado, acompanharia a evolu��o
do caso da mulher do sargento pelos jornais, continuaria comprando
a folha, onde prometeram publicar a nota do desaparecimento
do pai. Fora disso, naquele quarto silencioso, teria de encontrar meio
de ocultar o rev�lver e as balas. N�o precisava andar armado o tempo
todo. Um buraco no colch�o? Um local por baixo do guarda-roupa?
Tolas essas preocupa��es. Se algum dia der tal bandeira que os tiras
entrem na minha, n�o � escondendo o rev�lver que vou resolver o
problema. Nesse caso tenho � de me mandar, e pra longe. Bem longe,
at� a onda passar. Por isso, o importante era agir com vagar. Nada
de precipita��es.
Cruza as m�os por baixo da cabe�a, pela primeira vez o plano
se esbo�a com clareza. Abre a mala, enfia as roupas nos cabides, coloca
a maleta num dos compartimentos do vasto guarda-roupa. Era isso.
Os motoristas de t�xi. N�o podia ser diferente. Quem ia conseguir
controlar? Como iriam descobrir? Inteiramente imposs�vel. E onde
agir? Em lugares ermos ou nos pontos mais imprevis�veis? Rodaria
por perto. Sempre por locais de movimento, sobre os quais n�o se
admitisse a menor suspeita. 0 resto seria uma quest�o de habilidade.

Olha pela janela, s� os telheiros sombrios dos pr�dios mais baixos,
sabe que n�o teria como errar. Talvez o primeiro caso fosse o mais
dif�cil. Assim mesmo, nem tanto, pois de h� muito estava decidido. A
ajuda que se prontificou dar a Enfezado, segurando a mulherzinha do
sargento, foi um bom exerc�cio. Provou que era capaz. N�o teve
medo. N�o tremeu, nem sentiu desejo de virar a cara. Enfezado ficou
aleijado, o marido daquela puta foi culpado. N�o tinha do que se
arrepender. 0 mesmo aconteceria com os motoristas. Recolhiam uma
boa nota todos os dias, isso � o que interessava. Sentaria do lado, puxaria
conversa, no auge do entusiasmo acionaria o gatilho. Como tinha
de ser. Sem d� nem pena. Por que pena, se precisava de dinheiro,
n�o podia continuar na depend�ncia de Marlene, necessitava localizar

o pai e, fatalmente, teria de convocar Banda Branca? E o alcag�ete,
pra se mexer, haja dinheiro. N�o fazia nada de gra�a. Sabia bem como
era. Todo mundo no morro o conhecia. Na �nica vez em que prometeu
um favorzinho de nada, quem se deu mal foi dona Zizinha.
Levou o carne da m�quina de costura. A mulher deixou quatro ou
cinco presta��es atrasar. Se desdobrou na lavagem de roupa, a fim de
saldar a d�vida. Subiu e desceu o morro semanas e mais semanas,
acompanhada pela filha Beatriz. Banda Branca estava de potoca deste
tamanho, assim, na menina, era capaz de qualquer sacrif�cio. Por
isso que dona Zizinha caiu naquele erro. P�s 850 nas m�os do malandro,
para que a conta fosse regularizada. Banda Branca passou dois
dias desaparecido. Voltou, entregou o carne, os canhotos carimbados.

O tempo correu, um dia a mulher recebeu um envelope grande, onde
eslava declarado que a m�quina ia ser retirada, por falta de pagamento.
Dona Zizinha procurou o alcag�ete para que desse uma explica��o,
n�o o encontrou. Beatriz foi � Delegacia, n�o estava. Quando
Banda Branca apareceu a m�quina tinha sido levada. Vieram dois homens
numa Kombi, mostraram pap�is atrasados a dona Zizinha, ela
exibiu os canhotos carimbados, um dos caras sacudia a cabe�a, pedia
que fosse ao escrit�rio central.

� Se a senhora mostra o canhoto como tendo pago e aqui diz
que n�o pagou, n�o se entende mais nada. S� indo l� saber que hist�ria
� essa.
No dia em que seu Greg�rio ia para a cidade, dona Zizinha mandou
especular. O negociante foi � loja de eletrodom�sticos, mostrou o
carn�, a mo�a do balc�o informou que o carimbo n�o era de l�. O
gerente queria saber quem havia carimbado, seu Greg�rio se ag�entou,
a fim de n�o entregar o alcag�ete. No morro esperou Banda Branca,
deu-lhe um esbregue. Sorridente, o malandro disse que morre
cavalo a bem de urubu. E cada vez que ria o negociante via a obtura��o
de ouro no dent�o da frente. Dona Zizinha nunca soube dessa
conversa, nem viu nunca mais Banda Branca.

Toninho recordava Banda Branca, sabia perfeitamente como era
ordin�rio. N�o tinha a menor considera��o com ningu�m. Deixa de
preocupar-se com o alcag�ete, fica uns instantes apreciando a paz daquele
casar�o, a noite de vagos ru�dos entrando pela janela. Torna a
pensar numa forma de manter o rev�lver escondido, acha que o meio
mais seguro � mesmo o colch�o. Compraria agulha e linha, faria um
corte na parte de baixo. E se um belo dia a arrumadeira der na veneta
de virar o colch�o? N�o dava certo, a trabalheira seria grande. Cada
vez que tirasse a arma, teria de desmanchar o costurado, fazer outro.
Compraria parafusos, uma chave de fendas, prenderia a bolsa de couro
por baixo do guarda-roupa. Na madeira de tr�s. Onde a arrumadeira
n�o conseguisse mexer. Cada vez que fosse usar a m�quina
era s� abrir a bolsa. Bem mais f�cil. Est� certo de que aquela �
uma boa id�ia. Os parafusos teriam de vir com arruelas, a fim de
prender bem. Era isso. Mais f�cil do que imaginava.

Ergue-se da cama, descal�o, os p�s sentindo a maciez das t�buas
enceradas, o pequeno tapete com ramagens. Tenta puxar o guarda-
roupa para a frente. � pesado. Faz for�a, o grande m�vel desloca-se
um pouco. Isso torna-o ainda mais satisfeito. De forma alguma a
arrumadeira iria mexer naquele trambolho. 0 pr�prio faxineiro n�o
se preocuparia em empurr�-lo. Compraria a capanga, faria o encaixe.
Encontrada a solu��o, p�e-se a pendurar nos cabides as poucas pe�as
de roupa. Em cada cruzeta uma camisa. A cal�a estende na parte de
baixo, a fim de n�o prejudicar o vinco. No outro lado, o sapato, as
meias novas. Mesmo assim, sobrou cruzeta vazia � be�a. Logo que


conseguisse mais dinheiro, trataria de adquirir outras roupas. Pelo
menos para fazer vista. Compraria tamb�m um r�dio que fosse toca-
fitas. Sempre imaginara ter um. Dona Berta sentiria n�o estar de
passagem, n�o era um pilantra, n�o se parecia com os tipos da Pens�o
Su��a. 0 rel�gio bastante sonoro p�s-se a badalar em algum dos
c�modos do casar�o. Toninho mete-se na camisa nova, amarra os cord�es
dos sapatos, p�e a chave no bolso, sai. N�o utilizou o elevador.
Desceu pelas escadas. 0 sal�o de entrada continuava vazio, somente
dois ou tr�s velhotes nas poltronas de vime, olhando televis�o. Dona
Berta havia sumido. No seu lugar estava o tipo baixinho, gordo, a
quem entregou a chave. 0 homem perguntou se era do 509, fez arzinho
de riso, no que foi correspondido. Um quarteir�o ap�s a Pens�o
Iola havia o ponto de �nibus. Ficou por ali alguns instantes, �nibus
e mais �nibus parando e indo embora, at� que chegou o que lhe servia.
Toninho ao lado do crioulo forte, m�o enorme segura no ferro
da cadeira dianteira. As ruas estavam atravancadas de carros, o motorista
do �nibus em velocidade, como se estivesse atrasado ou fosse
completamente irrespons�vel. Nos sinais, quando os carros ainda n�o
haviam arrancado, punha-se a acelerar, a tocar de leve na buzina. Os
sinais abriam, o homem puxava na primeira, o �nibus inteiro estremecendo.
Na passagem da primeira para a segunda, ouvia-se o estalar
das engrenagens na base do diferencial. Toninho imaginando que
grande sacana que era aquele motorista, querendo quebrar o carro,
para encost�-lo no meio-fio, comunicar � garagem que havia engui�ado.
Depois esqueceu a agonia do careta ao volante, passou a olhar
as lojas ainda abertas, os edif�cios iluminados, as pra�as escuras. N�o
desejava voltar para Marlene, mas era importante que lhe desse uma
satisfa��o. Sentaria na mesinha mais solit�ria da lanchonete, perto
do banheiro, se explicaria. O que diria? V�rias mentiras: a viagem
apressada � Bahia, um parente doente em S�o Paulo.

� Logo que volte te procuro!
Marlene entenderia. Seria o bastante para demorar-se algumas
semanas. Quem sabe, ao reaparecer, estivesse mais conformada? Atravessa
a rua, espreme-se por entre os carros nas cal�adas, entra na lanchonete,
completamente lotada. A mesinha dos fundos, perto do banheiro
est� ocupada. Faz um pouco de hora, avista Marlene. Sempre
afobada e alegre. Delicadeza em todos os gestos. Acende o cigarro,
aproxima-se da banca do jornaleiro, olha capas de revistas, l� t�tulos
de jornais. Um deles fala no assassinato da mulher do sargento. Pede

o jornal, abre na p�gina do notici�rio. Do lado da fotografia da mulher,
uma outra do sargento. Um tipo de cara abusada. Vai lendo a
hist�ria que n�o tem nada a ver com o que aconteceu, recorda as palavras
de Enfezado, olha-o movimentando-se no quarto bem arrumado,
o bra�o direito duro como se fosse de pau. Mesmo assim tinha
a mulherzinha presa entre as pernas e dessa n�o se livraria. No final

da mat�ria os detetives encarregados do caso dizendo ainda n�o terem
a pista do criminoso. Seria verdade ou truque? Como n�o tinham a
pista, se Enfezado exagerou na dose, disse ao sargento que ia lhe deixar
uma lembran�a, em troca do bra�o aleijado? E o velhote que estava
dormindo no quarto de cima da casa, por que n�o aparecia na tal
mat�ria? Pensou em jogar fora o jornal, decidiu dobr�-lo, a fim de
ler com mais calma na pens�o. N�o podia admitir que estivessem mal
informados. Naturalmente aquilo era um jogo, a fim de surpreender
Enfezado e ele pr�prio. Ser� que havia uma testemunha? Algu�m da
vizinhan�a ter� visto, quando estavam entrando ou saindo da casa? Seria
o homem das flores um dos que se ofereceria para identific�-los?
Como iam saber de onde vieram as flores, se n�o havia nota, n�o havia
nada? Tornou a dar uma olhada na mesa, entrou na lanchonete, num
instante Marlene pareceu irritada.

� Onde andou esse tempo todo? Me passando pra tr�s?
� Deixa de maluquice. Tou me virando.
� Virando por qu�? N�o dei a grana?
Toninho sabe que � imposs�vel aquele di�logo.
� Consegue uma pizza brotinho com coca-cola.
Marlene percebe que o homem da caixa observa sua crescente irrita��o.
Sorri, abranda-se, vai �s outras mesas e volta, pega o cafezinho
no balc�o para o fregu�s que terminou a refei��o. Torna a
encostar.

� V� bem como me trata, seu puto!
Toninho sorri, corta a pizza, diz que vai viajar.
� N�o, sem meu consentimento. . .
O garoto encara a bicha com �dio.
� Teu consentimento, porra nenhuma! Que t� pensando?
Marlene sorri, limpa a mesa para disfar�ar.
� Se discute isso logo mais.
� N�o vai ter logo mais. Daqui tou me mandando pra Rodovi�ria.
A bicha faz cara triste, retorna da cozinha carregada de pratos,
Toninho percebe que os olhos est�o vermelhos. Sente-se arrependido
de ter vindo. Podia continuar desaparecido, s� reencontrar Marlene
no apartamento. Ali n�o dava para falar.

Termina de comer a pizza, de tomar a coca-cola, tira as �ltimas
c�dulas que lhe restavam. Faz uma confer�ncia r�pida. Menos de
duzentos e cinq�enta na carteira. Mais dois dias e estaria sem nada.
E n�o adiantava contar com Marlene. Irritada como estava, n�o ia
querer conversa. Vai para o balc�o, pede cafezinho, v�rias vezes Marlene
passa por perto, como se pretendesse faz�-lo mudar de id�ia. Toninho
mant�m-se impass�vel. N�o ia admitir que uma bicha lhe desse
ordens. Em outra ocasi�o apareceria no apartamento, faria as pazes.
Afinal, aquela n�o era a primeira briga, n�o seria a �ltima.


TR�S

Marlene chega em casa depois da meia-noite. Liga o r�dio baixinho,
estira-se na cama. A luz que acendeu � fraca, mal d� para
iluminar o pequeno e atravancado apartamento. N�o sabe por que,
sente-se vazia, sem vontade de prosseguir. De repente, a impress�o de
ter sido iludida, explorada, abandonada. Toninho n�o voltar�. Alguma
coisa lhe diz que o perdeu. Nunca falou daquele jeito e muito
menos na lanchonete, com todo mundo ouvindo. Simplesmente tentou
brincar, ser afetuosa, ele n�o compreendeu.

Olha o teto sombrio, conclui que sua vida era um amontoado de
incompreens�es. Cada dia um desgaste, uma decep��o. Se Toninho
achava estar preocupada apenas com sexo, enganava-se. E n�o lhe
dava dinheiro simplesmente para que a satisfizesse. Queria que se
gostassem, que um sentisse falta do outro, cada manh� surgisse como
uma descoberta e uma esperan�a. A princ�pio, esteve certa de que
correspondia. Mesmo um tanto grosseiro, sem instru��o, chegou a
imaginar que se entenderiam. E como fez planos, baseada nessa
possibilidade.

Agora, neste princ�pio de madrugada, ouvindo m�sicas nost�lgicas
no r�dio de pilhas, tem certeza de que fora tudo em v�o. Tremenda
decep��o. Vinha sentindo isso h� meses, n�o queria acreditar. Tornava-
se cada vez mais claro que Toninho s� a procurava por causa do
dinheiro. Os raros momentos em que ficavam juntos, era uma esp�cie
de concess�o da parte dele. Na verdade, n�o passavam de dois estranhos,
estirados na mesma cama, falando l�nguas diferentes.

Os olhos se enchem de l�grimas, deixa que escorram pelo rosto.
Chora por Toninho e pelas tantas decep��es j� vividas: Artur, Inaldo,
Jo�o Carlos, Henrique, Santini. Onde andariam? Que mentiras
contavam a outras bichas ou �s mulheres? Marlene sente-se t�o amargurada,
que tem vontade de rir. Como Jo�o Carlos mentia mal. Como
Santini era pouco inteligente. Inaldo, o ego�smo em pessoa. Henrique,
sempre querendo mais coisas e se preocupando em que Marlene
conseguisse fun��es mais rendosas. Artur, provavelmente por ser o
mais feio, era tamb�m o mais sensato. Por que n�o foi mais paciente
com Artur? Vivia um tempo em que se sentia dominadora. Marlene
nos jornais por causa dos horm�nios nos seios, Marlene dos cabelos
louros no Teatro de Revista. Uma fase passageira e brilhante. Onde
andaria Artur? Teria mesmo casado com a dona gorducha, que tinha
bigodes e um bom emprego na Caixa Econ�mica? Dif�cil saber. Todos
se foram, nada deixaram. S� levaram.


Pega o espelho, acende a l�mpada de cabeceira, olha os p�s de
galinha se formando ao redor dos olhos, covas nas bochechas. Em breve
necessitaria de uma opera��o pl�stica. Isso custava dinheiro e pelo
menos uns dez dias numa boa cl�nica. Sabia como os m�dicos exploravam,
quando se tratava de homossexual. Para a mulher gr�-fina
era um pre�o, para qualquer um deles o dobro. Por que essa preven��o?
Qual a diferen�a?

Solta o espelho, apaga a l�mpada. A m�sica no r�dio � melanc�lica,
relembra um tempo long�nquo. Marlene recusa-se a admitir
mas, pouco a pouco, vai sentindo que a velhice chegou. E, em n�s, �
duplamente desastrosa. Arruina o corpo, esvazia a mente. Por isso
j� n�o tinha sonhos, n�o fazia projetos. Sem sentir, foi se degradando.
Deixou o teatro por causa de um contrato no cinema. Terminado

o primeiro filme n�o conseguiu outro, os contatos foram desaparecendo.
Um belo dia estava necessitando de trabalho. Passou dois anos
num sal�o de manicure, o dinheiro sem dar para coisa alguma. A�,
conheceu Artur. Quase n�o tinha nada a oferecer-lhe. Quando se deu
com Inaldo. estava como gar�om no restaurante de luxo. A princ�pio,
como se sentiu envergonhada! 0 que mais temia era, de repente, servir
numa mesa onde houvesse velhos conhecidos dos tempos art�sticos.
Se isso acontecesse, n�o saberia o que dizer: como levar a coisa na
brincadeira. No restaurante deu sorte. Passou a ter dinheiro, dispunha
do dia todo para dormir. Certa madrugada, quando a freguesia
havia sa�do, ficou apenas o mo�o emborcado na mesa. Os outros gar�ons
se recusaram ajudar. Mandaram que Marlene falasse com o
ma�tre. Pouco depois ela sairia conduzindo o mo�o. No estacionamento,
a primeira surpresa: havia um Mercedes branco, com motorista
particular. Jo�o Carlos parecia ter melhorado, insistia que fosse com
ele. 0 motorista, sem dizer coisa alguma, presenciava a cena, esperando
o momento de fechar a porta. Jo�o Carlos tanto insistiu, tanto puxou
Marlene pelo bra�o que ela terminou indo. Que noite estranha!
0 Mercedes subindo suavemente o arrampado da casa na Barra, Jo�o
Carlos e ela no elevador atapetado.
� Quem mora com voc�?
Jo�o Carlos ria, sacudia os bra�os. As palavras eram vagas, sem
sentido. Marlene n�o entendia. Sa�ram no corredor de piso reluzente,
chegaram ao sal�o de m�veis de couro e p�s niquelados, l�mpadas sofisticadas
e baixas, Jo�o Carlos tirou do arm�rio de vidro a garrafa de
u�sque escoc�s, pegou com dificuldade dois copos, Marlene querendo
recusar, ele insistindo. Vai ter de beber comigo por que n�o se tem
nada melhor a fazer. Depois, pode olhar a casa. Moro sozinho com
uma empregada maluca e esse motorista que n�o fala. � uma sombra
me acompanhando.

Para n�o irritar ainda mais Jo�o Carlos. Marlene aceita o u�sque,
p�e-se a beber, o mo�o est� inquieto, liga o ar-refrigerado, a noite �


de profundo sil�ncio. Ap�s alguns momentos Marlene se encoraja,
faz uma indaga��o corriqueira, mais para ter o que dizer.

� Ora, bebo como quem vai �s compras, como quem freq�enta
praia ou tem amantes. Quando cansar disso, vou fazer um est�gio
nas drogas.
� E a sa�de?
� Sa�de? Pro inferno com sa�de!
Acha gra�a, Jo�o Carlos tamb�m sorri. Atira-se no almofad�o,
sobre espesso tapete, puxa-a. Marlene entende as inten��es do mo�o,
aflige-se. S� agora come�ava a perceber e n�o teria como enfrent�-lo.
Se era aquilo que estava pretendendo, enganara-se. Jo�o Carlos p�e-se
a tirar as roupas, abra�a-se com Marlene.

� N�o fica com pena de mim. Faz como se tivesse com raiva.
As m�os leves de Marlene acariciam-lhe as costas e, para sorte sua,
Jo�o Carlos adormeceu. Sem saber o que poderia suceder quando
aquele cara acordasse, trata de desaparecer.

Desceu as escadarias, saiu num outro sal�o, onde tamb�m havia
uma piscina. Tentou localizar o motorista, nem mesmo o carro p�de
achar. Tornava-se cada vez mais amedrontada, at� que chegou ao port�o,
abriu, p�s-se a caminhar pela estrada deserta, completamente escura,
por onde n�o passava qualquer ve�culo. Ap�s muito andar avistou
o barzinho. Foi para l�, na esperan�a de pedir uma carona. Al�m
do gar�om havia apenas uns tr�s ou quatro casais de cara cheia. Ficou
pacientemente esperando mais de uma hora, apareceu um �nibus, o
�ltimo que vinha da Barra para a cidade.

Recordando essas coisas, tanto tempo depois, ainda sente um arrepio
percorrer-lhe o corpo. Jo�o Carlos se enganara ou ela era a enganada?
Como fora boba. Como se deixara assustar por aquele casar�o
com tudo que havia do bom e do melhor. Nos outros encontros entenderia
que o mo�o era o homossexual perfeito, completo. A�, quem passou
a criar problemas foi Marlene. Quando terminava a vez de Jo�o
Carlos e ele exigia sua participa��o, Marlene fraquejava. Por mais que
se esfor�asse, n�o conseguia. Por isso, quantas vezes fora espancada!
Onde andaria aquele maluco? Teria resolvido seu problema ou ainda
estava complicado? T�o rico, t�o bonito e terrivelmente desesperado.
Com Toninho os problemas iniciais foram poucos. A princ�pio, apenas
um garoto assustado, maltrapilho, com uma vontade louca de comer.
Parava na lanchonete, devorava dois hamb�rgueres, tomava dois sucos
de laranja dos grandes. De noite aparecia no apartamento. Marlene
dava as indica��es: fa�a primeiro assim, depois assado. Deixava-se
conduzir. Nos meses seguintes passou a exigir coisas e tinha raz�o. As
roupas estavam se acabando, o sapato era uma vergonha. Um dia saiu
com ele, fez compras. Toninho cortou os cabelos, tomou banho, trocou-
se no apartamento. Depois de vestido, parecia outro. As conhecidas

faziam provoca��o, acusavam Marlene de estar descaba�ando um anjo.


Ela sorria com certo orgulho. Tou criando ele a meu gosto. Quando
crescer, n�o pode reclamar das minhas exig�ncias. Isso foi h� quatro
anos. Passado esse per�odo as coisas come�aram a se complicar.
Toninho sempre exigindo mais dinheiro, dando menos amor. Num
determinado momento o relacionamento parecia mera troca comercial.
Vou contigo se me der quinhentos. Fico contigo se me der mil. Marlene
aceitava mas n�o gostava. 0 garoto se tornara exatamente o contr�rio
do que imaginava. Nos dias de folga convidava-o para ir ao
cinema, ao teatro, ele desconversava. Marlene sabia: n�o gostava de
ser visto ao seu lado. Tinha vergonha. Procurava convenc�-lo. Ali,
na Zona Sul, cada um vivia sua vida, ningu�m se incomodava com
ningu�m. Toninho n�o aceitava. E, geralmente, ap�s as contrariedades,
passava semanas sem aparecer. Vinha exatamente quando estava
necessitando de dinheiro. Nunca aparecia para lhe oferecer qualquer
coisa, sempre para pedir. Marlene com a sensa��o de que murchava
interiormente. Toda sua satisfa��o, seu amor, o sentimento de solidariedade
estavam acabando. E, por mais que se esfor�asse, passou a
sentir-se a pessoa mais pobre do mundo, a mais desamparada, mais infeliz.
Por que enganar-se tanto e tantos anos, numa busca desesperada
e in�til? Sentia-se exausta, sem a m�nima possibilidade de prosseguir.
Depois de Toninho n�o teria mais coragem de recome�ar.

Ouve passos no corredor. Sabe que n�o pode ser ele. S� usava
sapatos de borracha. A campainha toca, � no apartamento do lado.
Pega novamente o espelho, examina-se, faz uma an�lise fria do que
restava: olhos envelhecidos, sulcos no rosto se aprofundando, o nariz
tornando-se rombudo; no pesco�o, um princ�pio de pelancas. S� uma
demorada pl�stica poderia melhorar o conjunto por mais alguns anos.
Depois os mesmos sinais tornariam a ficar evidentes. Quem consegue
fugir � velhice, hem Marlene? E a velhice de uma bicha � tr�gica.
Iria sujeitar-se �quele supl�cio, ag�entaria ouvir piadinhas nas ruas e
no pr�prio local de trabalho ou teria coragem suficiente de parar, quando
bem desejasse? Fica um temp�o olhando o teto sombrio, a luz escassa
descobrindo contornos de objetos ordin�rios, a m�sica nost�lgica
no r�dio de uma �nica faixa. Na verdade, Marlene, at� mesmo o dinheiro
vai come�ar a ser dif�cil. N�o demora muito o gerente da lanchonete
conseguir� outra para o lugar. Dar� uma desculpa, mera
desculpa. Ali�s, nunca ningu�m diz claramente as coisas. Por isso
nem sempre se sente que est� descendo. S� agora, naquele apartamento
�ntimo, entre reles objetos, percebe que sua vida tinha sido intermin�vel
descida. Primeiro o teatro, os cartazes, as luzes, os homens
se confundindo � sua volta. Escolhia a dedo o que gostaria de levar
para a cama. Depois o restaurante de luxo, o outro restaurante n�o
muito gr�-fino, o sal�o de manicure, o ensaio como cabeleireiro e, finalmente,
a lanchonete. Qual seria o pr�ximo passo? N�o esquecia
nunca a bicha que conhecera na esquina da Figueiredo Magalh�es,


vendendo bugingangas no tabuleiro de camel�, nem da outra que carregava
latas d'�gua na Lapa, na �poca que era dif�cil o abastecimento
nas casas. Conversou com a bicha aguadeira, ficou horrorizada com a
hist�ria que ouviu. Comparando bem, n�o havia nada de estranho:
era a mesma coisa. Come�ou no alto, foi descendo. Os homens que
ajudou, terminaram bem de vida. H� pouco tempo encontrou com
Inaldo. Fez que n�o a reconheceu. Estava no volante do carro esporte,
ao lado da mulher branqueia e o c�o de ra�a. Marlene passou indignada.
Quanta roupa dera �quele sem-vergonha e quanto prato de comida.
Com Toninho era igual ou at� pior. N�o esperava mais nada
dele. Devia contar ou n�o com suas pr�prias for�as? Eis um momento
decisivo. Estava necessitando daquela an�lise h� muito tempo.
Poucas vezes parara para refletir sobre sua pr�pria condi��o e o fazia
no momento certo. As conclus�es � oh! as conclus�es � eram as
piores poss�veis. Mas, somando pr�s e contras, n�o tinha nada do que
se arrepender. Chegara aos 46, coisa que na verdade jamais pudera
supor. Muitas outras tombaram antes, numa luta desigual. E a maioria
em absoluta covardia. Abria os jornais, l� estava: homossexual
morto na cama; homossexual estrangulado no apartamento, no iate.
Felizmente estava ali, recapitulando o tempo que se fora, e n�o tinha
queixas quanto a viol�ncias. Sempre soubera evitar os s�dicos e masoquistas.
Quantos programas recusara, exatamente para n�o se arriscar.
E escapou pra qu�? Pra ficar mirando-se no espelho e vendo a velhice
chegar? Nada disso. Teria algo mais a fazer. Seria uma demonstra��o
total de ren�ncia e desprendimento. Quem quisesse encarar de
outra maneira que o fizesse. Para ela seria simplesmente aquilo: ren�ncia.
N�o se sentia magoada com as ingratid�es de Toninho. Que
tivesse sorte. N�o deixaria o mundo por odi�-lo. Pelo contr�rio: era
por amar a vida. Mas tudo tem um limite e a velhice nunca estivera
nos seus planos. Envelhecer � adoecer. N�o motivaria o riso de ningu�m.
N�o imploraria, a fim de continuar existindo. Teve seu tempo.
Bem poucos poderiam orgulhar-se disso. Abre a gaveta, tira o �lbum.
L� estavam as fotos das mil e uma noites. A passarela luminosa,

o p�blico cm desvario, fot�grafos brigando para conseguir os melhores
�ngulos, mesas de famosos bares repletas de amigos. Desde o entardecer,
os nomes cercados de luzes no grande painel cobrindo a fachada
do Teatro de Revista. E o seu era dos primeiros: "Marlene". Ali
estavam as lembran�as. As boas lembran�as. No dia em que assinou
contrato com o cinema, fez sua despedida do teatro. Grandes personalidades
do mundo art�stico lamentando sua retirada de cena. Sa�a
no momento exato. Sempre soubera sair, antes que as luzes apagassem.
N�o seria agora que iria acovardar-se. Deteve-se em fotografias
com amigos que j� havia esquecido, teve vontade de rir. Como era invejada,
como era querida. Nos restaurantes que freq�entava tinha
mesa cativa. Depois de umas tantas horas os gar�ons encostavam as

cadeiras, colocavam a plaquinha: "reservada". Quando chegava era
aquela festa. Os olhares concentrados nela. Marlene no auge. Vinte e
dois anos, as not�cias a seu respeito provocando esc�ndalos. Uma revista
publicou as fotos e as declara��es. No dia seguinte o arcebispo
rebateu-as, lembrando a moral da fam�lia crist�. O teatro lotou e havia
mais gente de p� do que sentada. Entrou no show com o p� direito.
Depois da noite de estr�ia, em todas as outras a aflu�ncia foi a mesma.
Afinal, por que a preven��o com o homossexual? Quem eram eles pra
se atrever? Quem era o senhor bispo? Ou precisava dizer que at� o
vice-prefeito a procurou uma vez no camarim, a fim de que fossem
para um hotel? Como o tempo passa. Os amigos mais �ntimos,
acusando-a de esbanjamento. Que sentido faria guardar o dinheiro, se
n�o se pode guardar a juventude? 0 vice-prefeito saiu acabrunhado com
a recusa. Pobrezinho. E como lutou para chegar ao camarim. Foi
preciso subornar uns dois ou tr�s funcion�rios. Marlene fecha o �lbum,
os olhos continuam rasos d'�gua. N�o era apenas de si, e, sim,
do tempo, das coisas, das pessoas que j� n�o existiam. Do Teatro de
Revista que desaparecera, das luzes que se apagaram para sempre.
Como apreciaria ter tido oportunidade de falar daquelas coisas com
Toninho! Imposs�vel. Estava voltado unicamente para o que via e
queria ter. Nada de conversas, muito menos de lembran�as.

� � rom�ntica. Vive com besteira na cabe�a.
N�o iria compreender jamais. Os tempos s�o outros, temos de
admitir; as pessoas est�o tocadas pelo germe do consumismo. N�o h�
pausa para reflex�o. S� o dinheiro interessa e quem mais tem mais
quer. Abre o envelope, na mesma caixa onde estava o �lbum, de
dentro dele saem algumas fotografias tiradas na rua. Numa delas aparece
com Toninho. 0 verdadeiro Toninho. Quando ainda estava todo
esfarelado, sapatos se rasgando, cal�a de brim ordin�rio, encolhida,
uma camisinha de tricoline fora da moda. Um dos primeiros encontros.
Rosto magro, cabelo liso ca�do na testa, um sorriso que n�o dizia
coisa nenhuma. Desde o princ�pio sabia bem com quem estava lidando,
mas nunca tivera a preocupa��o de modificar-lhe o car�ter.
Fecha a caixa, procura em outra gaveta o peda�o de papel, a caneta.
Tem vontade de rir, pois tinha uma amiga que costumava dizer: suicida
que n�o deixa bilhete n�o � suicida. Ela n�o deixaria. Escreveria
apenas uma nota � Sandra. N�o era justo que se fosse, sem ao
menos um adeus. Mas n�o come�aria pela lengalenga. Abordaria em
primeiro lugar a quest�o do aluguel, do dinheiro que ainda tinha no
banco, do cheque no nome de Sandra Duarte. Com ele poderia pagar

o m�s vencido e o seguinte, at� encontrar outra parceira. Na �ltima
linha, sim, a tentativa de explica��o, sem que parecesse queixume.
"Cada um de n�s tem o momento certo de parar. 0 meu chegou.
Se algu�m me procurar, diga que viajei. Parti com minha pr�pria
sombra. Um beijo. Marlene."


P�e o papel perto da luz, l� calmamente. N�o acredita tenha esquecido
de nada, pois nada tinha a enumerar. Talvez merecesse apenas
um PS. Pega novamente o papel, coloca-o sobre a revista, escreve.

"Toda minha roupa que, por sinal, n�o � muita, pode enfiar
num saco, dar ao primeiro pedinte."

Suspende um lado da colcha, enfia por baixo o bilhete e a revista.
Torna a cobrir. Olha o rel�gio, v� que ainda � tarde. Levantaria
a �ncora do seu veleiro quando estivesse para amanhecer. H� muito
tempo n�o via o amanhecer e aquele seria especial por ser o �ltimo.
Al�m disso teria uma outra import�ncia: seria um pouco antes de
Sandra aparecer. Talvez isso a livrasse de maiores problemas. Coitada!
Cansada de uma noite de sucessivas entregas e ainda ter de aturar
uma bicha suicida.


Cap�tulo V

UM

Ap�s deixar a lanchonete Toninho andou quarteir�es e mais quarteir�es,
completamente desnorteado. Brigava com Marlene, ficava daquele
jeito: nervoso, sem poder arrumar as id�ias. Estaria tendo algum
tipo de afei��o por ela? Imposs�vel! Jamais iria gostar de uma
bicha nojenta. Procurava-a por necessidade. Ela sabia muito bem.
P�ra junto ao meio-fio, fica esperando o t�xi. Passam alguns, do outro
lado da avenida, n�o atendem ao seu sinal. Finalmente, vem um.
do lado em que est�, s� os faroletes acesos. Abre a porta, entra. O
motorista � um portugu�s, os cabelos praticamente brancos.

� Pra onde vamos?
� Lagoa. Perto do Flamengo!
� Bom. Muito bom! � diz o velhote. � Tava mesmo querendo
ir pro lado de l�.
� No batente, desde cedo?
� Desde o come�o da tarde. Na minha idade, n�o � brincadeira!
Toninho olha a fl�mula do Vasco, pendurada no retrovisor, resolve
mudar o tom da conversa.

� E nosso tim�o? Viu s� o banho?
0 velhote torna-se ainda mais animado. Em cada sinal que p�ra,
volta-se para tr�s.

� Nem podia ser diferente. A m�quina t� quente. At� achei
que quatro a zero foi pouco!
Toninho sorri, o portugu�s tamb�m. As ruas est�o livres, algumas
assinaladas com luzes vermelhas por causa das obras que s� podem ser
feitas � noite.

� Tudo que � de cartola t� manobrando contra a gente, mas
dessa vez n�o adianta!
� Tamb�m acho. A mo�ada t� tinindo. 0 meio de campo, ent�o,
nem se fala!
� Acabou a mar� mansa. A turma entendeu, virou a mesa!
� Pena que ano que vem n�o tou aqui pra ver o bicampeonato!.

� Por que n�o?
� Volto m�s que vem pra Lamego. A terrinha onde nasci. Eu
e a mulher. Vamos deixar pra tr�s 35 anos de Rio de Janeiro. Uma
vida. De l� acompanho nosso clube. N�o posso me afastar dele.
� Tamb�m sou vasca�no doente!
0 t�xi margeia a Lagoa, mil reflexos coloridos dissolvendo-se nas
�guas tranq�ilas. 0 velhote portugu�s continua a falar, Toninho n�o
ouve direito o que diz. Abriu o z�per do bolso do casaco, ajeitou-se
melhor no banco.

� Fico logo depois do poste!
O carro parando, o ru�do do motor em ponto morto, o motorista
acende a lampadazinha, l� a quantia registrada no tax�metro.

� Treze e vinte. Como o amigo � do mesmo clube, fica por
treze.
Dizendo isso o portugu�s sorri.

� Treze � meu n�mero de sorte.
0 velhote argumenta n�o ter prefer�ncia por n�meros.
� Nunca dei pros tais c�lculos. Por isso n�o me arranjei no
com�rcio.
Toninho mete a m�o no bolso, saca a arma, encosta na cabe�a do
motorista, aciona o gatilho, antes que o homem possa dizer qualquer
coisa. 0 disparo � seco e breve. 0 velhote arriou com a cabe�a para

o lado direito. Espera um pouco, arma na m�o, a fim de observar se
o disparo chamou a aten��o de algu�m, apaga a lampadazinha por
cima do tax�metro, ajeita o portugu�s no assento. Filetes de sangue
escorrem da cabe�a do motorista, v�o pouco a pouco manchando-lhe
a camisa. Rapidamente Toninho p�s-se a revistar os bolsos do velhote,
o porta-luvas. O dinheiro que ia pegando enfiava por dentro da camisa.
Ap�s certificar-se de que n�o havia qualquer suspeita de o t�xi
estar ali, parado, ergue o vidro do lado do motorista, empurra a trava
da porta para a frente. Alteia o r�dio, sobe o vidro do seu lado. Nesse
momento ocorre-lhe outra id�ia: levantar o tapete de borracha, do lado
do banco dianteiro. Tem vontade de rir. Era onde estava o grosso do dinheiro
arrecadado pelo velhote. Fosse ficar na coleta dos bolsos e do
porta-luvas, entrava pelo cano. Que velhote sabido. Desligou o motor,
travou a porta, bateu-a com for�a, jogou as chaves na Lagoa.
Calmamente afastou-se do t�xi, v�rios carros passando em velocidade.
Atravessou a primeira pista, a segunda, entrou pela rua arborizada, saiu
no largo onde havia movimento, um bar cheio de b�bados e prostitutas.
Teve vontade de aproximar-se, pedir caf�, decidiu ir em frente.
Somente agora, quase meia hora depois, come�ava a sentir tremores
nas m�os e nas pernas. Isso o levava a admitir n�o estar t�o preparado
quanto imaginava. Mas aquilo, tamb�m, era em decorr�ncia da
simpatia que o velhote lhe despertara. No pr�ximo caso evitaria ser
t�o sentimental. Responderia apenas o que o motorista perguntasse.

No barzinho de uma porta s�, resolve entrar. Vai ao banheiro, urina
� be�a, pede um chope duplo, um peda�o de pizza. P�e bastante
mostarda, fica mastigando, encostado ao balc�o, enquanto os tipos por
perto discutem, abrem cervejas, empurram-se. No segundo chope os
tremores v�o cessando e, novamente, sente-se reanimado. Sai do barzinho,
vai para o ponto onde estavam diversas pessoas, o �nibus que
lhe serve n�o aparece, toma um t�xi. Tem pressa de chegar, est�
curioso de conferir o dinheiro, n�o pode ficar dando bandeira �quela
hora, com tanta viatura da pol�cia rondando. 0 motorista � um crioulo,
o carro com painel sofisticado, r�dio tocando baixinho. A �nica coisa
que perguntou foi o itiner�rio. Ap�s rodar uns dez minutos reclamou
contra um buraco e mais nada. Na porta da pens�o Toninho entregou-
lhe algumas c�dulas, sentiu-se aliviado. Pegou a chave, o tipo na portaria
estava sonolento. Caminhou para o elevador, apertou o n.� 5,

o elevador arrastou-se em meio a ru�dos, Toninho sentindo o ar mofado
do velho casar�o. Ao entrar no quarto o primeiro cuidado foi olhar
o guarda-roupa por dentro, examinar por baixo da cama. N�o estava
acostumado a dormir num lugar como aquele, a princ�pio ia estranhar.
Colocou o casaco na cadeira, ao tirar a cal�a e a camisa o dinheiro
caiu no assoalho. S� de cueca, sentou no tapete, p�s-se a conferir,
c�dula por c�dula. Chegou a mil e duzentos e ainda havia outras menores,
de dez e cinco, que n�o se interessou em contar. Lembrou-se
da carinha ing�nua do velhote, teve vontade de rir. Imaginou se ficasse
na vistoria dos bolsos e do porta-luvas? N�o teria recolhido nem
300. Era aquilo. Os caras iam pegando a grana, tratando de ocultar.
Por baixo do tapete ou at� mesmo sob os bancos. Por que n�o examinou
os bancos? Um cuidado que deveria ter da pr�xima vez. Com
o dinheiro arrumado, faz nova confer�ncia. Mete o bolo de c�dulas
no bolso do casaco, apaga a luz, estende-se no colch�o macio. Ah,
quanto tempo n�o sentia semelhante sensa��o! Nem quando dormia ao
lado do pai era t�o bom. Os acontecimentos recentes, estampados nos
olhos, os risos do velhote enchem o quarto. Depois que dormisse, que
descansasse, n�o ouviria mais nada daquilo. Pensa em outro golpe e
mais outro, antes que a pol�cia tivesse tempo de movimentar-se. Quando
desse em cima, teria bastante para descansar pelo menos um m�s.
Logo que as investiga��es esfriassem, voltaria � carga. Quem sabe Enfezado
j� n�o havia retornado? A� poderia lhe dar uma ajuda. Ao
mesmo tempo conclui que aquele era o tipo de neg�cio que deveria
permanecer no maior sigilo. Bolaria outra coisa com Enfezado, mais
para lhe dar uma ajuda. Ficaria fora do caso dos motoristas. Qualquer
palavra a mais ou a menos, podia redundar num desastre.
Praticamente cochilando ouve passos no corredor e, novamente, as
risadas do motorista portugu�s. Levanta, abre a porta devagar, v� o
grandalh�o que se afasta. Um h�spede? Algu�m que sa�a muito cedo?
Claro que sim. N�o era ningu�m espreitando. Como podia ser, se n�o


foi visto, se desceu do t�xi normalmente, caminhou pela ruazinha arborizada,
saiu na pra�a onde havia o boteco? Tolice estar esquentando!
No dia seguinte procuraria saber do faxineiro sobre aquele tipo que
acordava madrugada alta. Volta � cama, os ru�dos que invadem o quarto
s�o vagos, o casar�o inteiro, adormecido. Com ele adormece
Toninho.

DOIS

Chuva forte come�a a cair, bate nos janel�es envidra�ados da
Pens�o Iola, bate nas �rvores escuras da pra�a, estala nas cal�adas e
no asfalto das ruas. Os carros movimentam-se com vagar, far�is altos
focando longe, confundindo-se com as l�mpadas nos postes que, agora,
parecem menos intensas. A viatura policial avan�a em meio ao
temporal. Nela est�o o detetive Galv�o, seu auxiliar Itamar, o motorista
Nogueira. Todos t�m cara de sono. A princ�pio ningu�m fala.
Galv�o ao lado do motorista, Itamar no banco de tr�s. Passaram por
diversas ruas inundadas. Nogueira teve de reduzir para n�o ficar numa
grande po�a d'�gua.

� Ser� trabalho do Nezinho Metralha? � indaga de repente
Galv�o.
� N�o acredito! A transa dele � pela Zona Norte. A n�o ser
que tenha se juntado a outra patota.
� Tou com voc� � afirma Nogueira. � Nezinho Metralha n�o
vem pra essas bandas!
A viatura chega perto do t�xi, h� in�meras pessoas com guarda-
chuvas abertos, Galv�o est� metido numa capa preta, sem chap�u, molhando-
se bastante. Itamar vem logo atr�s, sua capa � clara e manchada.
De dentro do t�xi sai a m�sica long�nqua do r�dio ligado.
Come�a a clarear, com toda a chuva que cai. do lado direito o rosto
do motorista coberto por uma mancha escura. Galv�o meteu a m�o
no trinco, a porta n�o se abre.

� Que � que h�, fechou o homem e trancou as portas?
� A do lado de c� tamb�m t� fechada � acentua Itamar.
Galv�o impacienta-se com o pessoal querendo ver o motorista morto.
Nogueira vem se aproximando. Ajuda o detetive a afastar os
curiosos.

� Vamos embora � diz Nogueira � terminou o cinema.
Logo depois a concentra��o se forma outra vez. Galv�o vai para
a viatura, seguido dos auxiliares. Ele mesmo liga com a Central.

� Galv�o falando. 0 pessoal da T�cnica tem de trazer chaves
pra abrir o t�xi. T� todo trancado!

Torna a sair, acende o cigarro, a chuva diminuiu.

� 0 bom, agora, � que se pudesse tomar um caf�.
� Na rua de l� tem um.
� � uma boa id�ia � concorda Galv�o.
Os tr�s chegam ao bar, o portugu�s p�e as x�caras, traz o
a�ucareiro.

� Que aconteceu?
� Fecharam um patr�cio � diz Nogueira em tom de galhofa.
� Ningu�m respeita mais ningu�m � comenta o portugu�s.
� Que acha de um t�xi todo fechado, com o r�dio tocando? �
indaga Galv�o, dirigindo-se a Itamar.

� N�o pode ser coisa de bobo. � gente nova nas paradas, querendo
mostrar estilo!
� Filho da puta! � diz Galv�o. � Isso nos deixa de p�s e
m�os atados. Entregues �s sumidades da per�cia. Juro como n�o tolero
aqueles caras. Cada um mais metido a besta que o outro.
� Quero ver do que v�o reclamar! � comenta Itamar.
� Por esse lado � bom. N�o t�m desculpa.
Galv�o vira o resto do caf� na boca. pede uma carteira de cigarros,
Nogueira foi ao banheiro. Ap�s uns vinte minutos, decidem retornar
� viatura.

� Vamos l�! N�o quero que as sumidades cheguem e n�o nos
encontrem. Se isso acontecer, v�o fazer constar do laudo. N�o chegaram
� conclus�o alguma porque a gente apareceu depois.
Itamar e Nogueira acham engra�ado.

� S�o capazes de tudo. S� n�o de raciocinar mais que os criminosos
� diz Galv�o com amargura.
A chuva volta a cair, forte. Os carros que passam diminuem a
marcha e j� est�o provocando consider�vel engarrafamento. 0 grupo
de curiosos tornou-se maior. Galv�o e Itamar desistiram de faz�-los
circular. Acomodam-se no calor da viatura, esperando os peritos. Galv�o
olha o rel�gio, s�o quinze para as seis. Itamar fala dos plant�es
que n�o recebeu, Nogueira reclama de estar trabalhando quatro domingos
seguidos, sem um dia de folga.

� Que ser� que o Dr. Paranhos pensa? Quer massacrar a gente?
� Mostrar servi�o � diz Galv�o, dando uma cusparada l� longe.
� Sempre que entra um novo Secret�rio de Seguran�a � isso. Do
segundo m�s em diante, amolece.
� Mas desta vez a corda s� t� esticando pro lado da gente �
afirma Itamar. � 0 pessoal da ronda vive na maior moleza.

� Ora, e eu que ganhei uma gratifica��o por tempo de servi�o
e ele acha que s� devo receber no pr�ximo semestre? � afirma Galv�o,
acendendo o cigarro.
Perto da viatura estaciona o Opala preto, chapa branca. Saem
tr�s homens, o motorista permanece ao volante. 0 mais gordo fala


com Galv�o. � um tipo alegre, despreocupado. 0 escuro, magro e
alto, tem uma pasta 007. Aproxima-se do t�xi, os curiosos afastam-se.
A chuva continua a cair. Em pouco tempo os peritos est�o com as
roupas respingadas. O homem gordo experimenta a porta, v� que est�
mesmo fechada. O mulato abre a pasta, tira um grande molho de
chaves.

� Uma delas tem de abrir � diz o homem gordo.
O que est� de terno azul e n�o disse coisa alguma faz uma indaga��o
a Galv�o.

� Que hora acha que foi?
� N�o fa�o id�ia. Recebemos o comunicado �s cinco e dez.
O homem de terno azul d� uma olhada na cara do motorista, o
mulato continua a experimentar as chaves. Em dado instante a porta
se abre, a m�sica do r�dio torna-se alta, o corpo do motorista se
desequilibra. O tipo gordo manda que o crioulo segure o morto. A
porta do lado direito tamb�m � aberta. O de terno azul toma algumas
notas, o gordo vai apenas dizendo coisas.

� Que se trata de latroc�nio n�o h� a menor d�vida � diz ele.
A per�cia do t�xi prolonga-se por uns trinta minutos. A essa
altura o homem de terno azul est� completamente molhado, o que d�
um pouco de satisfa��o a Galv�o. Quando o gordo d� o levantamento
por conclu�do, passa o caso ao detetive que atira o cigarro fora,
manda Itamar revistar o motorista. Com a ajuda de Nogueira o corpo
� estendido no asfalto, enquanto esperam o rabec�o. Galv�o aproxima-
se do carro dos peritos, o gordo continua a falar.

� Pelo visto, foi abotoado umas quatro ou cinco horas antes;
mas s� depois dos exames se vai ter certeza.
Galv�o faz um gesto com os ombros, retorna ao local onde os
curiosos se concentram e o rosto do velhote est� coberto de pingos de
chuva. Por instantes o detetive fica olhando aquele homem, imaginando
quem teria tido coragem de abat�-lo. No momento em que o
rabec�o encosta, o r�dio da viatura faz uma convoca��o. Nogueira
vai ouvir, chama Galv�o. O detetive curva-se na porta do carro, fica
sabendo que na Hil�rio Gouveia uma mulher despencou na �rea interna
do pr�dio. O detetive lamenta que o miser�vel r�dio tenha
transmitido essa informa��o, exatamente quando as sumidades tinham
ido embora.

� Quando chove parece que os desgra�ados come�am a se matar
mais cedo � diz Galv�o.
� Os doutores da per�cia � que d�o sorte. Nunca t�o ao alcance
de uma convoca��o como essa.
� Como �? � indaga Nogueira. � Se vai ou diz que o r�dio
pifou?
Galv�o retorna para junto do t�xi, sem responder.


� Vamos l�, Itamar. Acaba logo com isso! Tem outro caso nos
esperando.
O corpo do motorista foi posto no rabec�o, o policial retira documentos,
pap�is e pequenos objetos do porta-luvas.

� Nogueira � grita Galv�o. � Chama o reboque, manda levar
o t�xi pro p�tio.
Depois que Itamar trava e fecha novamente as portas, os curiosos
v�o desaparecendo. A chuva prossegue, mas � fina. Entra no
carro, Nogueira d� a partida.

� Que acha?
� N�o encontrei nada que sirva de pista � responde Itamar. �
Na Delegacia se tem tempo de procurar impress�es digitais. � o �nico
caminho.

� Nunca acreditei nisso. Prefiro as evid�ncias!
� Acontece que at� agora nenhum matador de motorista teve
o cuidado de fechar as portas do carro e deixar o r�dio ligado!
� Que diabo tar� querendo dizer com isso?
� N�o fa�o id�ia. S� sei que n�o � um p� inchado!
� Vai ver, fechou por engano! � comenta Nogueira.
� Engano o cacete! 0 merda que fez isso tem cabelo na venta.
T� querendo nos gozar. Sabe das coisas. Nos deixa de fora, at� que
as sumidades apare�am, digam como se deve proceder. � isso! T�
mais por dentro do que pensa.
Mais calmo, Galv�o indaga de Itamar, referindo-se aos peritos.

� Fizeram o levantamento das impress�es?
� Na parte da frente. Painel e tampa do porta-luvas.
Isso deixa Galv�o repentinamente indignado.
� E nos trincos das portas? � isso a�. Cagam regra o tempo
todo, n�o examinam os trincos! P�em as lentes em locais pouco prov�veis.
Mas s�o g�nios! Deviam ter examinado a capota. Principalmente
por fora. E, al�m da capota, os pneus. Inclusive o estepe.
A viatura parou no sinal vermelho, h� um caminh�o manobrando,
cheio de sacos de cimento, pesado encerado protegendo a carga.

� Sinceramente � prossegue Galv�o ainda revoltado � qualquer
hora dessa tiro f�rias, mando essa fun��o pra puta que os pariu.
N�o tolero lidar com tantos imbecis de uma s� vez.
� Na Delegacia se v� isso � explica Itamar, como se desejando
tranq�ilizar o amigo.
� N�o se trata da gente ver. Eles � que tinham por obriga��o.
Afinal, se n�o der certo, v�o dizer que houve intromiss�o. Como no
caso do alfaiate. Te lembra?
� T�o sempre se valendo das desculpas � argumenta Nogueira.
� Outro dia, na 16.a, o delegado devolveu os laudos que passaram
seis meses bolando. E disse que vai ser assim. Se n�o tiver com

pleto, bem circunstanciado, volta. Dr. Paranhos devia fazer do mesmo
jeito.

� Acha que tem peito de enfrentar essa canalha? T� enganado.
Se duvidar, t� do lado das sumidades, contra a gente que se fode dia
e noite, quer chova ou fa�a sol.
Nogueira manobra numa esquina, Itamar olha o n�mero. A viatura
p�ra com duas rodas sobre a cal�ada. Galv�o salta, protegendo-
se das goteiras. Depois � a vez de Itamar. 0 motorista fica fazendo
anota��es do percurso e outras exig�ncias menores. Detesta aquela
burocracia, mas com o delegado Paranhos tinha de ser assim. Fora
advertido duas vezes, h� uma amea�a de suspens�o. N�o pode facilitar.
E tudo por deixar de marcar o tempo dos percursos.

Galv�o e Itamar entram no pr�dio, chegam juntos ao porteiro
que est� nervoso, falando com alguns moradores. Galv�o encosta-se
no balc�o de madeira, pingos de chuva dos cabelos escorrendo para
dentro da roupa.

� Que houve por aqui?
0 porteiro � um homenzarr�o gordo, ar abestado. Est� sempre
com uma farda cinzenta, o nome do edif�cio no bolso do peito.

� Quem s�o os senhores?
A indaga��o irrita o detetive.
� Turistas americanos. Tamos passeando na chuva. Soubemos
que
aqui t� havendo uma festa...
Itamar acha engra�ado.

� Ser� que ainda n�o manjou que � pol�cia, cara?
0 homenzarr�o mostra-se afobado, p�e-se a falar.
� Uma pessoa pulou do nono andar. Do 925!
� Nome! � quer saber Galv�o.
� A� que t� � diz o porteiro. � Pra uns era Romildo dos Santos,
pra outros, Marlene.
Dizendo isso o funcion�rio pede que os acompanhe.

� Marlene?
Itamar torna a rir.
� Agora, quem n�o t� entendendo sou eu.
O porteiro parece n�o ter ouvido a observa��o.
Saem no p�tio cimentado, muito sujo. Os dois policiais avistam
a mulher estendida no ch�o, o sangue misturando-se com �gua da chuva.
Chegam perto. Galv�o ajoelha-se do lado, pega nos cabelos, v�
que se tratava de uma peruca.

� Uma bicha!
� Chamo a per�cia?
� Pera a�. Vamos terminar primeiro nosso servi�o.
0 porteiro mostra a janela do 925.
� De l� que pulou!

Galv�o p�e as m�os na cintura, olha para cima, contra a chuva,
as janelas dos fundos do pr�dio est�o apinhadas de curiosos. H� mulheres
velhas, novas, uma com bobs nos cahelos, outras com roupa
de dormir, garotos s� de shorts, trepados nos peitoris para ver melhor,
homens que acordaram cedo e agora acham gra�a de que a suicida
seja uma bicha. Enquanto procura examinar a janela do nono andar,
Galv�o e Itamar ouvem as piadas, considera��es de pesar.

� Olha a calcinha dela.
� Pobre, coitada!
� Vou apostando que tem p� na transa��o!
� Cuidado, menino, acaba caindo tamb�m.
� Ser� que n�o tem nenhum parente?
� Esse pessoal se acaba todo assim. Mais dia menos dia!
� Detesto esse tipo de gente! Tudo neur�tico.
Galv�o sai do p�tio com Itamar e o porteiro, v�o at� o elevador.
� H� quanto tempo conhecia Marlene?
0 homenzarr�o faz uma cara de quem est� se esfor�ando para
recordar.

� Uns tr�s anos.
� Qual a transa dela?
� Nunca soube de nada. Aqui no pr�dio n�o incomodava
ningu�m.
� Como entrou nessa?
� N�o fa�o id�ia.
� Morava sozinha?
� Com Sandra. A vedete.
� Quem � que visitava o apartamento?
� Que saiba ningu�m. Sandra passa a noite fora; Marlene trabalhava
de dia.
Seguem pelo corredor comprido e estreito, portas de apartamentos
abertas, Galv�o calculando o tamanho de cada um daqueles cub�culos.
O porteiro gira a chave mestra na fechadura, o kitchenette �
igual a todos os outros. Um sal�o dividido ao meio por cortina, um
banheiro m�nimo, o janel�o por onde Marlene pulou. 0 detetive permanece
parado junto � cama, olha a desordem que era aquilo: garrafas
vazias a um canto, roupas sujas confundindo-se com jornais velhos,
a mesa onde havia pratos, colheres, copos, uma vela queimada
at� o meio, presa na lata de leite vazia, a cesta pl�stica com peda�os
de p�o e biscoitos. Itamar abre a porta do banheiro, as toalhas
amontoadas, escovas de dente por cima da pia.

� Puta merda! Que chiqueiro mais escroto!
� S�o quase todos assim � afirma o porteiro. � Dif�cil encontrar
um morador que tenha cuidado.
� E pior que toca de rato!

Itamar continua examinando os pap�is, remexendo nos jornais
velhos. Abriu gavetas, tirou o �lbum, passou algumas p�ginas.

� Olha s� a nossa Marlene!
Galv�o aproxima-se, o porteiro tamb�m fica curioso!
As p�ginas v�o passando e todos eles um tanto deliciados com 0
que v�em.

� Puxa! Uma mulher, sem tirar nem p�r. . .
� E boazuda � acrescenta Itamar.
� Ser� mesmo retrato dela ou inventou? Essas bichas s�o cheias
de truques � lembra Galv�o.
� Pelo que t� aqui � Marlene � responde Itamar, que continua
a passar as p�ginas do �lbum.
Galv�o cansa daquilo.

� Que horas a coleguinha dela costuma chegar?
� Geralmente �s oito e meia, nove!
� Se espera l� embaixo. Deve ter alguma hist�ria pra contar.
N�o tou entendendo como uma bicha se mata, assim, sem mais nem
menos.
� Nem bilhete deixou!
� Isso � grave. Suicida que n�o deixa bilhete t� escondendo a
alma do C�o.
O porteiro torna a girar a chave na fechadura, agora h� mais
curiosos no imenso corredor, uma mulher est� cercada de filhos, o
menorzinho berra e esperneia, um r�dio toca alto, a garota de bobs
tem a barriga de fora, lan�a olhares l�nguidos a Galv�o.

� Esse pr�dio � que � bom. Pra pegar piranha, o cara n�o
precisa
ir pra rua!
Itamar acha engra�ado, o porteiro tamb�m.

� Quando comecei a trabalhar, vinte anos atr�s, a coisa era
outra. Agora, virou pardieiro.
Na entrada do edif�cio encontram Nogueira, que tamb�m j� foi
ver a suicida. Galv�o diz que � uma bicha, o motorista n�o acredita.

� Juro por Deus como n�o desconfiei.
� Nem eu � diz Itamar. � Galv�o � que mexeu na peruca.
� E agora?
� Tamos aguardando a amiguinha dela. Uma tal de Sandra.
Pode dar o servi�o � explica o detetive. � Tou achando isso estranho.
A bicha era boazinha e tudo, como diz aqui nosso amigo, de
repente aparece de cara no cimento. Tem algum por�m nisso tudo.
� E pra saltar debaixo dessa chuva toda, tinha que t� muito
inspirada � acentua Itamar.
� Ou doidona � completa Nogueira.
� Ser� que tava com a cuca cheia de bolinha?

� N�o � problema nosso. Logo mais as sumidades v�o baixar
e revelar os grandes segredos da alma humana. S� que a essa altura
o papai t� longe!
� N�o � melhor chamar logo por eles?
� Deixa pra l� � afirma Galv�o. � Vamos primeiro levar
um papo com a vedete. Quem sabe n�o ser� at� um bom in�cio de
conversa?. . .
Ap�s esperar quase uma hora Galv�o torna a interrogar o porteiro.


� Como � mestre? Nove e trinta e nada! Ser� que adivinhou
a
morte da coleguinha?
O detetive decide n�o esperar mais. Manda Nogueira convocar

o pessoal da T�cnica.
� Pede pra vir dois soldados e ag�entar a barra at� o rabec�o
chegar!
� E eu? � indaga Itamar.
� Vamos em frente. Quando a mulherzinha der as caras os
soldados arrastam ela pra Delegacia. N�o adianta ficar amoitado
aqui, por causa de uma bicha escrota!
Metem-se na viatura, Nogueira fala ao microfone, liga o motor.
A chuva ainda cai forte, o carro desaparece na rua, s� o pisca-pisca
do teto funcionando na manh� cinzenta e triste.

TR�S

Horas depois da sa�da de Galv�o e dos seus auxiliares, Sandra
aparece. Est� numa capa transparente, botas brancas. Na entrada do
pr�dio estranha o movimento de moradores e a presen�a dos dois
soldados.

� Que t� havendo, seu Manuel?
� Uma coisa horr�vel, dona Sandra. Sua amiga Marlene fez
uma besteira.
� Que � que foi?
� Se atirou do apartamento. O corpo saiu agora mesmo pro
IML. Desde cedo vieram uns policiais, foram at� l�!
� Bagun�aram com tudo!
� At� que n�o. Tava com eles.
� Por que Marlene ter� feito uma loucura dessas?
� E o que t�o querendo saber.
O soldado que est� por perto entra na conversa.
� Tamos a� fora com o carro pra lhe levar.

� Acontece que n�o sei o que dizer. Tou chegando agora!
� � coisa de rotina � diz o segundo policial.
Sandra que est� se sentindo podre, suja, fedorenta, uma tremenda
vontade de meter-se na cama, dirige-se ao carro, revoltada.

� O problema � que sua colega n�o deixou nenhum bilhete
� diz o soldado. � Nesse caso h� sempre suspeita!
� Marlene n�o tinha inimigo.
� Nunca se sabe � pondera o policial. � A gente que lida
com esse tipo de problema todo dia v� cada uma que n�o tem como
explicar.
O segundo policial parece mais objetivo.

� Era verdade que tinha um amante? Um garoto?
� Que saiba, n�o.
0 policial insiste.
� Se isso se confirmar, vamos ter de saber por onde anda!
A viatura p�ra, a porta se abre, Sandra sobe pequena escada,
entra no pr�dio antigo, l�mpadas acesas, muito homem transando
pelos corredores do velho casar�o, pessoas humildes sentadas em bancos
de madeira, express�o de espanto. 0 policial mais educado manda
que espere na sala onde havia mesas atulhadas de pap�is, m�quinas
de escrever, pilhas de Di�rio Oficial, telefone, cinzeiros transbordando
pontas de cigarros, vasos de pedra sab�o lotados de l�pis e canetas
de todas as cores.

Sandra fica um temp�o esperando. Num determinado momento
levanta, aproxima-se da janela, olha a chuva no dia triste, pessoas saltando
de carros e entrando no casar�o. Pega um jornal, det�m-se na
coluna que falava da gente rica, que viajava para Nova Iorque e Paris,
toda semana, que freq�entava o Lynn's e o Netuno, das atrizes
que tinham sempre contratos com famosos produtores italianos e norte-
americanos. Cada vez que lia essas not�cias, deixava-se levar um
pouco pela fantasia. Ah, como adoraria um dia tamb�m estar sendo
citada daquele jeito. Seria a gl�ria! Mas, pelo visto, esfolando-se no
diabo daquela boate ordin�ria, jamais seria descoberta por um verdadeiro
ca�ador de talentos. Ou para ser atriz famosa era necess�rio
algo mais que o simples talento? �s vezes ficava em d�vida quanto a
isso. Conhecia tantas atrizes e nenhuma ficara famosa. As que surgiam
nas colunas sociais pareciam-lhe inacess�veis. S� podiam ser vistas
a dist�ncia: nos filmes, nas pe�as, de montagem cara, nas capas das
revistas, nos an�ncios de televis�o. Mas se lembra de que um dia foi
ver um filme badalad�ssimo, saiu decepcionada com a famosa atriz.
Ser� que trabalhava ruim ou n�o teve cultura para entender? Chegava
a desconfiar da sua capacidade.

Em meio a esses pensamentos, distanciados do "problema Marlene",
Sandra � surpreendida pelos homens que entram. S�o quatro ou
cinco, tendo � frente o tipo de cabelos bem penteados, barba bem fei


103


ta, ar de absoluta tranq�ilidade. Todos eles falam sem parar, o que
parece mais calmo ajeita o palet� no espelho da cadeira.

� Ningu�m pode ser convocado sem memorando. � absolutamente
ilegal!
Um dos homens insiste na explica��o.

� De jeito nenhum � diz o bem penteado. � N�o assumo essa
responsabilidade. Se o secret�rio quiser autorizar que autorize. Eu
n�o!
Dizendo isso, que era evidentemente um assunto iniciado em outra
gala, em outro lugar, o homem bem penteado senta, afasta a papelada
da mesa, a fim de n�o sujar os punhos da camisa. 0 tipo gorducho
e desleixado, que Sandra nunca vira, aproxima-se.

� Dr. Paranhos, essa � a mo�a que morava com a suicida.
� Pe�a pro escriv�o vir aqui!
Faz um sorriso, no que � correspondido por Sandra.
� Falar de suic�dio num dia como hoje n�o � das melhores coisas.
Mas vamos l�!
Sandra chega a cadeira para perto da mesa.

� Que acha que aconteceu � sua amiga?
� Dif�cil saber.
� Desde que foram morar juntas, tinha conhecimento que se
tratava de um travesti?
� Sabia, sim senhor! Isso nunca foi problema.
� Tinha algum namorado ou coisa assim?
� �s vezes ia um garoto l� no apartamento. Ela pr�pria me
disse. Mas n�o permitia que ficasse.
� A que atribui sua morte?
Nesse momento entra o escriv�o, empurrando a m�quina sobre a
mesinha de ferro. A mesinha faz tremenda barulheira. O homem
baixinho e magro coloca papel, p�e-se a escrever.

� A que atribui sua morte?
� Talvez uma crise de solid�o. Tava ficando velha. A velhice
pra ela era doen�a. Como quem pega c�ncer.
� Quantos anos tinha?
� Mais de quarenta. Bem mais.
� Estaria metida com algum gigol� da pesada?
� N�o creio. Selecionava suas amizades.
� Como conheceu Marlene?
� No tempo que sa� de casa, fiquei zanzando por a�. Trabalhava
numa lanchonete, onde ia sempre. Era humana, compreensiva.
Quando disse que tava procurando uma colega pra encarar o aluguel
do apartamento, se ofereceu.
� Que lanchonete era?
� A mesma, onde sempre trabalhou. Dias da Rocha com N. S.
de Copacabana.

O delegado Paranhos faz uma pausa, o escriv�o termina a �ltima
frase. Sandra o encara.

� Quantos anos voc� tem?
� Dezoito.
� Onde trabalha?
� No Bar-Boate-Bacar�.
� Aquilo � um antro � diz o Delegado
� Que � que posso fazer! Se evoluir, passo pra outro lugar
melhor.
� Vai continuar no mesmo apartamento?
� N�o tenho escolha. O contrato s� termina ano que vem.
� Bem, por enquanto, tamos entendidos. Se surgir alguma outra
novidade, mando lhe avisar!
0 escriv�o p�e a folha datilografada sobre a mesa, o delegado
passa rapidamente os olhos, manda que Sandra leia. Demora-se um
pouco com o papel nas m�os, sacode a cabe�a, confirmando estar tudo
em ordem.

� Assine deste lado aqui � diz o delegado apontando a pauta
e mostrando a unha coberta com esmalte transparente.
O escriv�o d� a caneta, ela assina, nervosamente � Sandra
Duarte.

� Ponha tamb�m o endere�o � lembra o delegado.
Sandra continua a escrever. Quando termina o delegado agradece
a colabora��o. Pega a bolsa, vai embora. Sai beirando as marquises,
entra na confeitaria, compra doces, toma o t�xi para chegar mais
depressa.

Na porta do edif�cio n�o h� mais curiosos. Nem mesmo seu Manuel
estava por l�. Fica esperando o elevador, aparece o vizinho, motorista
de pra�a, casado com a mulher enorme, m�e de tr�s filhos menores.
Darci est� sempre alegre, cumprimenta uns e outros, quase
todo mundo no pr�dio o conhece. No dia em que a fechadura do apartamento
de Sandra engui�ou ele foi ao carro, trouxe a chave de fendas
e o alicate, num instante consertou. Desde ent�o falava com Sandra
e ela at� gostava de sua conversa.

Agora, nesta tarde de chuva, quando Sandra est� mais cansada
do que nunca, eis Darci aparecendo. Vira a noite toda, tem os
olhos permanentemente vermelhos.

� Oi! Que tempo, hem?
� S� fui saber que tava chovendo quando sa� do show!
� Puxa! Caiu um aguaceiro de madrugada!
Darci sorri, mostra os dentes amarelados.
� Foi bom pra motorista de t�xi.
Sandra n�o acha gra�a, est� exausta.
� Que houve pra ficar assim t�o triste?
105

i


� � a segunda vez que tou chegando em casa. Quando apareci,
isto aqui tava apinhado de curiosos, pol�cia e os cambaus.
� Por qu�?
� Marlene se atirou do apartamento!
� Fez essa doideira?
Sandra sacode a cabe�a.
� Minha Nossa Senhora!
� E o pior: tou voltando da Delegacia. Fui prestar declara��es.
Disse uma por��o de besteira. Respondi a todas aquelas perguntas
idiotas, que n�o significam nada.
� Pra onde foi o corpo?
� IML.
� Como vai ser o enterro?
� Vou me virar, pra pobre n�o ser sepultada como indigente.
� Pode contar com minha ajuda.
O elevador chega ao nono andar, Darci segue para um lado do
corredor, Sandra para o outro. Quase ao mesmo tempo abrem as portas.
Sandra atira a bolsa na mesa atravancada de coisas e mais o �lbum
de Marlene aberto, bem em cima. Verifica, em r�pida olhada,
a desordem que os policiais fizeram. N�o tem coragem de mexer num
�nico papel. Fecha a janela, que estava apenas encostada, estende-se
na cama. Vencida pelo cansa�o e pelo des�nimo, os olhos v�o se enchendo
de l�grimas. Sente, no �ntimo, como � amarga sua vida e
como Marlene era infeliz. Lembra-se das suas conversas, dos projetos,
das suas recorda��es. N�o precisava rever aquele �lbum. Certa
vez ela o mostrou. Cada fotografia tinha uma hist�ria. Fixava um
tempo de luzes e de cores. Uma esp�cie de mundo encantado, do qual
Marlene jamais pudera esquecer. Depois disso, a decad�ncia. Os encontros
nas esquinas escuras, os empregos reles. Marlene n�o gostava
de ser gar�om, de trabalhar numa lanchonete. Mas sabia que era uma
de suas �ltimas chances. E ainda podia descer mais, como tantas outras
desceram. Mexe-se na cama, sente a revista por baixo da colcha.
Que fazia aquela revista ali? Abre, encontra o bilhete que os policiais
n�o conseguiram localizar, encontra o cheque em nome de Sandra
Duarte, a fotografia tirada no cal�ad�o da Avenida Atl�ntica. Marlene
sorridente, o garoto alourado, cabelos lisos ca�dos de um lado da testa,
Sandra l� o bilhete, que n�o tem nada demais, n�o explica coisa alguma,
fixa-se na foto e, em especial, no rosto daquele menino que poderia
ter, quando muito, dezesseis anos. Quem seria? Fora por causa
dele todo aquele amargor de Marlene? Quantas vezes aquele garoto ter�
freq�entado o apartamento, enquanto estava na boate? Seu Manuel
teria conhecimento disso? A princ�pio imagina informar-se, depois desiste.
N�o queria conversa com aquele porteiro. 0 melhor era deixar
que a pol�cia tomasse as provid�ncias. Tamb�m n�o voltaria � Delegacia
para mostrar o bilhete de Marlene. Nada mais tinha a dizer. Sua


preocupa��o era falar com o pessoal da boate, pedir um dinheiro
adiantado, ajudar no sepultamento. Se o cheque pudesse ser descontado
sem problemas, talvez desse de sobra. Vai ver Marlene pensou
em tudo, inclusive em pagar seu pr�prio enterro. Olha mais uma vez
a fotografia, o garoto continua a sorrir.

Sem conseguir dormir Sandra levanta, mete-se no banheiro, abre

o chuveiro quente. Lava-se demoradamente, toma tranq�ilizantes, um
copo de leite morno, enfia-se novamente na cama. Mesmo assim ainda
permanece acordada longo tempo. Ouve os ru�dos do pr�dio, das ruas
pr�ximas, do elevador que subia e descia a todo instante, rangendo,
estalando. Com o pensamento em Marlene e no menino que sorri,
termina adormecendo. No ch�o, perto da cama, a revista, o bilhete,
a foto assinalando o momento de alegria.

Cap�tulo VI

UM

Toninho acorda nos ru�dos da manh� ensolarada. Olha o teto
alto do quarto, a janela de r�tulas, por onde a luz entrava, a chave
na fechadura da porta. Com todo o barulho que vinha das ruas, aquele
quarto era sossegado. Nada parecia alterar a paz daquelas paredes
encardidas, dos m�veis pesados e tristes. Durante instantes fica procurando
ouvir os rumores do casar�o. Imposs�vel! Est�o misturados
aos das ruas, dos carros em movimento, da feira-livre na pracinha,
das pessoas na parada de �nibus. Recorda a mulherona debru�ada no
balc�o, m�o gorda remexendo nas fichas, olhos de peixe morto nos
desconhecidos que chegavam procurando acomoda��o. Torna a lembrar
da pasta de z�per, por baixo do guarda-roupa, o rev�lver bem escondido.
Para isso teria de adquirir parafusos, arruelas, uma chave
de fendas.

Abre o bolso do casaco, tira o bolo de dinheiro, p�e sobre a cama,
confere mais uma vez. E enquanto pega as c�dulas, ouve as palavras
bem-humoradas do motorista. Gostou que a corrida fosse para os lados
da Lagoa, p�s-se a falar sem parar nas tradi��es do Vasco da Gama.
A �nica coisa que pegava um pouco, era o projeto de ir para Lamego.
Impediu de se realizar. Esfor�a-se para esquecer esse detalhe. Afinal,
se fosse pensar em tudo, terminaria n�o conseguindo grana. Qual era

o motorista que n�o tinha um projeto? Todos t�o sempre bolando alguma
coisa. Do outro lado do bolso do casaco tira o rev�lver. Examina
o cano, como orientou Enfezado, sente o peso da arma, as balas encaixadas
no tambor. Compraria tamb�m uma almotolia, freq�entemente
daria limpeza na m�quina, estaria sempre azeitada. E onde ia guardar
tanto dinheiro? Ora, se dona Berta aceitou a identidade sem
qualquer desconfian�a, por que na ag�ncia banc�ria haveria problema?
Abriria a conta, faria dep�sitos semanais. Se desconfiassem? Escolheria
o banco de movimento, onde existem muitos funcion�rios, os
clientes s�o an�nimos. N�o seria problema. 0 problema, agora, era
sair, procurar o banheiro. Levaria a toalha no pesco�o, a chave do

quarto. N�o deixaria aquela porta aberta um minuto que fosse. Teria
cuidado especialmente com o faxineiro Jos� que parecia bom tipo, mas
capaz de envolver-se na vida alheia. Naturalmente, sabia de muita
coisa dos h�spedes que ali moravam: jamais saberia a seu respeito!
Futuramente compraria uns livros, cadernos, l�pis e canetas, seu Jos�
terminaria acreditando que era estudante. De vez em quando lhe daria
boa gorjeta, isso o tornaria facilmente seu amigo.

O banheiro � coletivo e amplo. Logo � entrada est�o as pias, o
dep�sito com papel de enxugar m�o, depois o corredorzinho na frente
das portas que n�o chegavam at� o ch�o. Assim, quem estava no vaso,
tinha os p�s facilmente vistos por baixo. Aquilo devia ser bola��o de
dona Berta. Com aquele tipo de portas, o fregu�s n�o ficaria sentado
por muito tempo, impedindo outros h�spedes que estava vexados. No
hor�rio em que Toninho costumava levantar, o banheiro era todo seu,
na paz das torneiras pingando monotonamente, das paredes recobertas
de azulejos encardidos, quebrando-se, soltando-se. Passa �gua na
boca e no rosto, molha a cabe�a. Logo que sa�sse compraria pasta e
escova. Dali em diante deveria acostumar-se a coisas que poucas vezes
fizera: escovar dentes, limpar unhas, tomar banho todos os dias. Quanto
melhor a apar�ncia, mais sucesso obteria no neg�cio.

Enxuga os cabelos, seu Jos� aparece. Recolhe o lixo do lat�o, diz
bom dia sem alegria, Toninho fala de coisas sem import�ncia, mais
para ser agrad�vel. 0 homem distancia-se com o cesto de pap�is sujos,

o garoto retorna ao quarto, passando pelo longo corredor. Enfia-se nas
roupas, desce as escadas, atravessa o amplo sagu�o, sai na cal�ada lavada
de sol, muita gente movimentando-se. caminha na dire��o do bar,
onde havia mesinhas cobertas com toalhas vermelhas e azuis. P�ra
na banca de jornais, pega o que se ocupa da morte do motorista na
manchete de primeira p�gina, tem grande fotografia do carro estacionado
na pista, junto �s �guas da Lagoa. Fica um pouco emocionado
de ver novamente o carro. P�e o casaco de couro na cadeira, o gar�om
espera o pedido: m�dia, p�o na manteiga, �gua mineral, dois
ovos quentes.
Enquanto o homem traz a x�cara, a�ucareiro e manteiga, Toninho
vai lendo a mat�ria. Na p�gina de dentro, os detalhes, inclusive
foto de um dos documentos do velhote. A reportagem fala nos anos
e anos de atividade de Diogo Palhares desde que viera para o Brasil,
em 1945, juntamente com a mulher Vit�ria Palhares. Tentou a vida
como negociante, teve pequeno bar no Catumbi, abandonou tudo,
transformou-se em motorista de pra�a. Fica sabendo que o portugu�s
era o terceiro profissional do volante morto em menos de uma semana.
Preocupava-o tal afirma��o. Havia outros caras com a mesma
id�ia ou aquilo visava a confundi-lo? � o que teria de ver e, para
isso, compraria todos os jornais, retornaria � pens�o, sentaria na cama,
leria com calma.


Mastiga o p�o, toma o caf�, chega ao trecho em que o rep�rter
descreve a atua��o do detetive Galv�o, incumbido do caso. A mat�ria
terminava com a afirma��o do policial de que estava sendo providenciado
um retrato falado do assassino. Toninho reflete um pouco, bebe
mais caf�, p�e sal nos ovos quentes, engole de vez, limpa a boca com
v�rios guardanapos. Se o detetive estava vinculando a morte do motorista
portugu�s aos outros crimes, n�o poderia nem de longe desconfiar
dele. E era at� bom que tivesse outro cara agindo; isso tornaria
a a��o da pol�cia ainda mais dif�cil. Como poderia chegar a
ele pelo simples fato de tamb�m usar uma arma calibre 22? Toninho
tem vontade de rir. Vira as p�ginas do jornal, olha os t�tulos, concentra-
se na nota que o inquieta. Dobra o jornal para poder ler melhor.
N�o acredita no que l�. Marlene matou-se, saltando na �rea interna
do pr�dio. A foto maior � do corpo estendido no ch�o, a menor,
do rosto de Marlene. Os dados est�o corretos: o pequeno apartamento,
o �lbum de fotografias e recortes, a coleguinha de Marlene, vedete
no show do Bar-Boate-Bacar�. Numa das �ltimas linhas fica registrado
que a pol�cia estava desenvolvendo investiga��es, a fim de localizar

o garoto que vez por outra era visto com Marlene, principalmente na
lanchonete onde ela trabalhava. Toninho sente um certo arrepio percorrer-
lhe o corpo e em meio � preocupa��o que vem perturbar-lhe
naquela manh� t�o alegre, recorda de um fato ainda mais comprometedor:
a foto que tirara ao lado de Marlene, num cal�ad�o em Copacabana.
Cansou de insistir para que lhe desse a fotografia mas ela procurou
sempre escond�-la. Uma vez viu-a metida no �lbum que guardava
como aut�ntica rel�quia. Agora, sabia o quanto era importante
dar sumi�o na foto. N�o podia se arriscar por causa de uma tolice.
N�o desejaria ir � Delegacia, ficar horas e horas sentado num banco,
esperando para ser interrogado. Naturalmente o delegado faria perguntas
visando a embara��-lo, era capaz de algum rep�rter estar por
l�, sua cara aparecer nos jornais. Quando sa�sse iria diretamente ao
apartamento onde Marlene morava.
P�e mais caf�, mais leite, pede mais p�o ao gar�om, a id�ia de ir
�quela hora ao apartamento parece precipitada. Nem de longe gostaria
de avistar-se com o porteiro, tipo grandalh�o que o olhava com
desconfian�a. Se o visse, puxaria conversa, contaria coisas, ficaria esperando
que falasse. Perigoso aquele cara. Tinha certeza de que transava
com os policiais. N�o iria cair nessa. Em determinado momento
chega a imaginar que a mat�ria estampada naquele jornal era mentira.
Uma jogada para surpreend�-lo. Por que n�o pensara nisso? Sente
necessidade de acabar logo o caf�, pagar, comprar os jornais, trancar-
se no quarto. N�o podia tomar medidas precipitadas. Dali pra frente,
cada atitude seria bem estudada. Iniciara um jogo, a primeira pedra
fora mudada de casa, teria o m�ximo de cuidado com as outras. Muito
cara se ferra exatamente por causa da afoba��o, por n�o saber di



reito como as coisas acontecem. Naquela mesinha de bar, onde entravam
pessoas estranhas e os ventos da manh� ensolarada, Toninho
aprendeu uma coisa: teria de ler diariamente os jornais, saber das
not�cias e, a partir da�, movimentar-se. Ficaria atento, principalmente,
ao trabalho do tal detetive Galv�o. Quanto mais soubesse a seu
respeito, mais seguran�a teria para continuar agindo. Tamb�m, pelos
jornais, saberia o momento de suspender as atividades por uns tempos,
ou quando seria melhor intensific�-las. Ora, por que n�o pensara
nisso antes? N�o havia nada que temer. O �nico problema: botar
as m�os naquela maldita fotografia que um porra louca insistiu em
bater e Marlene deixou por ser extremamente vaidosa. Chegou a fazer
pose. Arrepende-se de n�o t�-la rasgado quando a viu pela primeira
vez. Estava metida no �lbum, onde Marlene guardava as fotos do
seu tempo de show na Pra�a Tiradentes e os recortes de jornais falando
da sua atua��o no Teatro de Revista. Quantas vezes vira o �lbum
ao alcance das m�os, quantas vezes deixou de pegar a porcaria da
foto. Agora, teria de voltar ao apartamento, remexer nas coisas, procurar
o �lbum. E se os tiras recolheram tudo, levaram para a Delegacia,
alegando que a bicha n�o tinha parente? Ser� que a coleguinha
deixou? N�o acreditava. Naturalmente estava tudo por l�,
como sempre estivera.

Toninho torna a entrar na pens�o, os jornais debaixo do bra�o.
Fala com dona Berta na portaria, aperta o bot�o do elevador. Recoloca

o casaco na cadeira, tira os sapatos, senta na beira da cama. A morte
de Marlene est� em todos os jornais. Num deles o suic�dio � mencionado
na primeira p�gina, em grandes t�tulos, fala que o homossexual
vivia em companhia de um menor. Esse mesmo jornal termina
fazendo uma indaga��o: trata-se de suic�dio ou o menor estaria envolvido
no crime? Nas linhas seguintes afirma que a pol�cia procura
localizar o garoto. E foi exatamente na reda��o daquele jornal que
esteve com a fotografia do pai. Olha as demais p�ginas, com grande
destaque est� a morte do motorista Diogo Palhares, a vi�va Vit�ria
Palhares chorando. Passa rapidamente a p�gina. Abre o jornal seguinte,
que n�o era t�o dedicado �s mat�rias de crimes. Alas tamb�m nesse,
havia um registro do suic�dio de Marlene, o t�pico recordando sua
atua��o no Teatro de Revista. Toninho tem vontade de rir. Se Marlene
soubesse daquilo iria ficar vaidosa, pois a nota era bem elogiosa.
Naturalmente o cara que redigiu aquilo pertenceu � patota dela, nos
bons tempos. Esse jornal, menos sensacionalista que os outros dois que
j� lera, deixa Toninho assustado: al�m da mat�ria do motorista portugu�s,
havia um editorial, exigindo mais a��o das autoridades, contra
a onda de crimes que vinha tirando a tranq�ilidade dos profissionais
do volante, principalmente os que trabalhavam � noite. 0 artigo
discordava do detetive Galv�o. Dizia que o novo assassinato em nada
se assemelhava aos outros, embora a arma utilizada tivesse sido um

rev�lver calibre 22. E, para espanto de Toninho o articulista fazia
tr�s coloca��es que desafiavam a arg�cia do policial: 1) o criminoso
n�o deixara impress�es digitais no painel do carro, nem nos trincos
das portas; 2) o fato de fechar completamente o t�xi era a prova de
saber, com isso, estar retardando o trabalho de investiga��o; 3 ) o assassinato
numa das pistas de maior movimento da Lagoa provava n�o
estar a pol�cia diante de um criminoso comum e muito menos de um
tipo que se deixava dominar pela emo��o. 0 item 3 agradou a Toninho.
Agia com absoluta tranq�ilidade, capaz, portanto, de observar
os menores detalhes. Quando saiu do t�xi e fechou a porta do seu
lado, n�o dava para ningu�m desconfiar. Se o motorista demorava em
arrancar com o ve�culo, era porque estava conferindo o dinheiro.

Os jornais que acaba de examinar est�o sobre a cama, abertos,
misturados uns nos outros. Em todos eles, grande ou pequena, a fotografia
de Marlene. Ah, se pudesse ver, tornaria a morrer de vaidade!
Como costumava dizer: um dia vou aparecer novamente nas folhas. E
com destaque. Quem pensa que me consumi, como vela de sebo ordin�rio,
vai lembrar. E ali estava Marlene. Pela �ltima vez. Olhando
aquelas fotografias, lendo aqueles t�tulos, sente que n�o a detestava.
Pelo contr�rio. Sabia o quanto lhe fora �til. Nos tempos mais dif�ceis.
Quando a conquista da m�dia com p�o simples era uma aventura. Foi
ent�o que ela o chamou. T� pago! Toninho que tinha apenas alguns
n�queis, agradeceu-a. Nunca vai esquecer desse momento. Havia interesse
em Marlene? N�o acredita. Pagou e foi embora. S� depois,
muito depois, veio a saber que trabalhava na parte dos fundos do bar,
na lanchonete. Demorou-se comendo o p�o, tomando o caf�. Quando
entrou na obra, tarde, ouviu a piada sem gra�a de Man� Cabreiro mas,
na verdade, continuava a recordar o gesto da bicha que pagara a despesa.
Agora, Marlene estava reduzida �quelas fotografias que no dia
seguinte j� estariam esquecidas. Como meteu na cabe�a de tornar-se
conhecida, de estar sempre presente, numa cidade maluca, em que as
coisas que acontecem hoje n�o s�o lembradas amanh�? Cansara de discutir
com Marlene a esse respeito. Tinha resposta para tudo. Pois fique
sabendo que passei mais de dois anos no cartaz. 0 nome bem grande,
todas as noites, num imenso letreiro que piscava e apagava. O
talento � que mant�m a gente no notici�rio. Havia jornais e revistas
me badalando com freq��ncia, um ou outro despeitado me atacando.
T� pensando, at� isso � uma forma de promo��o, quando se t� no
auge. Quanto mais se ataca um artista famoso, mas ele cresce, mais
caro fica. Houve tempo que, por uma apresenta��o, recebia o que
ganho hoje em tr�s meses de trabalho. Marlene tornava-se triste, o
rosto anuviava-se, os olhos ficavam rasos d'�gua. Tou afundando
e tenho medo. Por mais que brinque, que procure me iludir, na verdade
sei bem o que t� acontecendo. N�o voltarei a ser a Marlene de
outros tempos. Ningu�m volta. Minha tolice foi trocar o teatro pelo


cinema? N�o fosse isso, teria feito outra bobagem qualquer. Ah, como
fui covarde! 0 importante era ter morrido naqueles anos. Fazia uma
pausa, recostava-se nos travesseiros. Sabe. sempre achei que a gente
deve ter um momento certo pra morrer. Eu errei o meu:

Toninho gostaria de saber o por qu� da �nsia de ser famosa. Marlene
ficava pensando, respondia n�o saber. Sinceramente, n�o sei! Na
verdade, � o tipo da coisa que n�o se justifica. Voc� tem raz�o. Por
que ser famosa, estar sempre no notici�rio? Ah, como brigava pra ser
capa de certas revistas. Quanto dinheiro e quanta influ�ncia jogados
nisso. Mas, pra que serve o dinheiro, sen�o pra satisfazer vaidades?
N�o me arrependo. Juro que n�o! Talvez a fama sirva apenas pra
que depois se tenha o que recordar. Me sentiria uma cadela leprenta,
se n�o tivesse nada pra contar; se n�o tivesse esse �lbum.

Toninho p�e as m�os por baixo da cabe�a, a manh� na janela,
tem vontade de ir ao IML, olhar Marlene pela �ltima vez. Ao mesmo
tempo sabe que n�o podia arriscar. Mais prudente acompanhar
pelos jornais, at� o dia do sepultamento. Iria ao cemit�rio. Ao mesmo
tempo, ainda n�o aparecera nenhum parente de Romildo dos Santos.
N�o teria ao menos um irm�o, uma tia? E se fosse ao apartamento,
com o prop�sito de ajudar no enterro? Uma id�ia simp�tica e
a melhor maneira de entrar em contato com a vedete. Mas s� poderia
fazer isso � noite, quando o porteiro grandalh�o n�o estivesse de servi�o.
At� l� Sandra havia sa�do para a boate. E se fosse � boate convid�-
la para sua mesa? Olha-se no espelho, tem d�vida se conseguiria
entrar. E por que aquele sentimentalismo com Marlene? Afinal,
de que adiantaria ir ao enterro? Marlene era assunto encerrado. No
dia seguinte n�o apareceria mais nos jornais. No m�ximo as folhas
sensacionalistas continuariam falando no assunto, porque a pol�cia contava
localizar o menor. Uma semana depois o caso Marlene n�o seria
nem lembran�a. A pol�cia n�o ia ficar ocupada com um fato que
n�o tinha o menor sentido. Toninho conclui que o melhor seria n�o
entrar em contato com a vedete. Podia estar sendo vigiada. Se o agarrassem,
terminaria no Juizado. De l� o levariam para um longo est�gio
na entidade de assist�ncia a menores, como Colher de Pau. Mesmo
que se livrasse, deixaria ficha no cart�rio. Na primeira que aprontasse,
estaria todo mundo sabendo.

Junta os jornais, dobra-os com cuidado, rasga os peda�os que falavam
das atividades do detetive Galv�o. Aquilo, sim, tinha de ser
feito. N�o podia ficar alheio �quele cara. Cada entrevista que desse,
teria de ler algumas vezes, a fim de saber o que era de fato informa��o
e o que era jogo para iludi-lo. Se o articulista de um dos jornais
desconfiava de que o criminoso do velhote portugu�s n�o era o
mesmo dos dois crimes anteriores, por que o policial admitia exatamente
o contr�rio? Evidente que estava jogando. Tinha de acompa



nhar os movimentos de Galv�o, conhecer seus planos. Quanto mais
soubesse a respeito dele, maior seguran�a teria.

DOIS

Toma o primeiro �nibus que aparece, segue pela aven�da de
movimento intenso, entra na casa que vende de tudo, desde panelas
de alum�nio at� pacotes de pregos, arcos de pua, facas, jogos de chave
de boca, pastas, malas e botas de borracha para oper�rios. Examina
daqui, examina dali, encontra algo bem melhor que uma pasta com
z�per. O homem baixinho e magro mostra-lhe o cofre met�lico, fechado
� chave.

� Pode ser facilmente ajustado na parede!
Est� certo de que aquilo � muito mais pr�tico. Manda o homem
embrulhar, paga, vai embora, p�ra na banca de muitos jornais abertos,
a revista falando no crime da mulher do sargento. L� um pouco
da mat�ria, sente que n�o h� novidade. A pol�cia desistiu de investigar
ou havia detetive trabalhando dia e noite, sem que ningu�m
soubesse? Isso que enchia Toninho de preocupa��o. Por que a morta
de um motorista dava manchete em tudo que era de jornal e o assassinato
da mulherzinha e do velhote quase n�o apareceu? Qual seria
a jogada? Se pudesse, daria um dinheiro para Banda Branca averiguar.
Mas n�o era bobo de meter-se com ele. Bastaria uma palavra
a respeito e logo desconfiaria. Ficaria um temp�o comendo seu dinheiro,
depois o entregaria. Com aquele sem-vergonha s� queria um
tipo de entendimento. E tinha de ser em local ermo. Deixaria que
contasse uma longa hist�ria, deixaria que falasse a respeito de Beatriz,
de Marta, do dinheiro da pens�o de mestre T�bor, das transas
com seu Greg�rio. No meio da fala��o acionaria o gatilho, sem tirar
a arma do bolso. 0 canalha morreria sem saber por qu�. N�o recordaria
Colher de Pau, nem a arruma��o que jogou para cima de Enfezado.
Banda Branca n�o perdia por esperar. Ia ter at� pena de
acabar com ele, assim, t�o depressa. Talvez o atingisse na barriga,
para que ficasse se torcendo, como se estivesse com c�licas. A� seria
obrigado a cantar, abrir o bico.

� Como fez com Colher de Pau, hem? Como entregou Enfezado?
Depois disso, dispararia na cabe�a. Encostaria o cano da arma
na testa, para n�o perder tempo na pontaria. Banda Branca ia levar
um susto. Mas, at� l�, quanta coisa para acontecer! E a primeira
delas era botar a m�o no retrato que a doida da Marlene guardava no


�lbum. Segue com o embrulho debaixo do bra�o, lembra de falar com
Man� Cabreiro, a fim de n�o pensar que estava se mandando.

Entra pelo port�o largo da obra, v� o nordestino de cara redonda,
metido na guarita. Senta na ruma de tijolos, diz estar se virando num
novo trabalho. O vigia enrola o cigarro de palha, faz uma indaga��o
com a qual Toninho n�o contava.

� O pessoal t� querendo um acerto contigo. N�o � que haja
desconfian�a. Eu mesmo j� disse. Botei a m�o no fogo por ti. Mas
� que o Brezol� acordou um dia de veneta, n�o achou os documentos,
sacou da faca, foi cortando todo mundo. At� Ti�ozinho e o Esperidi�o,
que tavam dormindo.
� Ficou maluco?
� Acho que ficou. Como n�o encontrou os documentos com os
caras, t� desconfiado contigo!
� Pra que ia querer os documentos daquele merda?
� Sei n�o! Brezol� � cismado!
Man� Cabreiro acende o cigarro, Toninho oferece o ma�o, o vigia
tira alguns, guarda no bolso do blus�o.

� 0 que sei � que vai gramar boa temporada no xadrez. Perdeu
o emprego, t� fichado. Tr�s tentativas de homic�dio.
� E o Ti�ozinho, o Esperidi�o?
� No Pronto-Socorro at� hoje. Josias veio ontem de l�, disse
que t�o fora de perigo.
� Poxa! Esse cara � l�l� da cuca! Como � que vai cortando os
outros de qualquer jeito, por causa da merda de uma carteira?
� Brezol� foi sempre esquentado. Nunca respeitou cara de ningu�m.
Tava sabendo que mais cedo ou mais tarde ia aprontar. At�
que demorou. N�o devia era ter arranjado a vaga pra ele.
� Pode dizer pro pessoal que dei as caras, n�o sei de documento
nenhum. O dia que quiser uma carteira profissional, vou no Minist�rio.
Se eles conseguem, quanto mais eu!
Man� Cabreiro vai para a rua, agitando a bandeirola vermelha,,
como sempre fazia, interrompe o tr�nsito para que o caminh�o consiga
sair, retorna � guarita.

� � bom uma noite dessas baixar por aqui, d� teu al�. Da
contr�rio vai ficar todo mundo pensando que tu gadanhou os documentos
do Brezol�.
� Por que me explicar com eles se tou dizendo que n�o sei de
nada?
� Sabe bem como � essa gente. Tudo de p� virada! Se t� te
mandando, tanto pior.
� N�o tou me mandando coisa nenhuma! � que agora vou encarar
trabalho pesado a noite inteira. Peguei na distribui��o de jornal
a� com um pessoal. De dia tou me malocando pra tirar um ronco.
Diz pra eles que n�o sei dos documentos.

Man� Cabreiro tira mais uma baforada do cigarro, torna a falar
dos maus bofes de Brezol�. Isso irrita Toninho.

� Olha, cara! N�o vou explicar porra nenhuma! Que pensem o
que bem entenderem. Quando o tal Brezol� sair das grades e quiser
me encarar, que se atreva. Tou pagando pra ver. E n�o vou sumir,
n�o. De vez em quando baixo por aqui. A� se acerta a diferen�a. Ele
� valente com esses p� duro, pra cima de mim n�o bota banca.
Man� Cabreiro interfere no acesso de machismo de Toninho.

� Quer dizer que vai dar conta dele?
Toninho faz uma pausa, como que procurando o alcance daquela
considera��o.

� Topar no bra�o, n�o topo. mas queimo de longe. Que se
meta a besta pra ver s�!
Pega o casaco, coloca-o nas costas, sente que a barra n�o est�
nada boa. Se continuasse com aquela lengalenga, era capaz do pr�prio
Man� Cabreiro se esquentar, exigir melhores explica��es. Diz
tchau ao vigia, sai pelo port�o largo, atravessa a avenida, entra na
rua arborizada, o pensamento em Brezol�, no esc�ndalo que aprontou.
Passaria bastante tempo sem aparecer na constru��o. E, sempre que
viesse, procuraria um hor�rio em que Man� Cabreiro estivesse de servi�o.
Nada de subir as escadas � noite, como se tornara h�bito. N�o
confiava naqueles caras. Depois da arrua�a de Brezol�, muito menos.
Al�m da preocupa��o com o servente de obra, preocupa-o a fotografia
no �lbum de Marlene. Isso, sim, precisava ser resolvido. Entraria no
pr�dio sem ser visto pelo tipo grandalh�o. Num momento em que
sa�sse da portaria, aproveitaria. Se n�o conseguisse, retornaria � pens�o,
aparafusaria o cofre de chapa por baixo do guarda-roupa, prenderia
a chave no chaveiro, esperaria pela noite como quem aguarda
condu��o. N�o podia era ficar zanzando de um lado para o outro, o
rev�lver no bolso do casaco, manchetes nas bancas gritando a morte
do motorista, policiais mobilizados para localizar o garoto que comia
a bicha. Muita complica��o num s� dia, sem contar a esculhamba��o
promovida na obra por Brezol�. Vai ver. o sacana disse na Delegacia
que os documentos n�o estavam com os companheiros, s� podia
ser arruma��o do garoto que vez por outra dorme na obra. Ser�
que teve coragem? Nesse caso n�o estava t�o inc�gnito! A pol�cia procuraria
por Jo�o Leonardo de Abreu, daria com ele. E se fosse algum
tira na Pens�o Iola? Se j� tivesse ido? L�gico que dona Berta mostraria
o registro. 0 policial se limitaria a ficar aguardando. Quando
aparecesse, seria facilmente grampeado. Por que foi dar semelhante
mancada? Por que n�o pensou em todos os detalhes? Como pensar,
se jamais imaginaria que Brezol� fosse t�o imbecil?

Atravessa ruas. torna a entrar na pens�o, mete-se no quarto. A
primeira provid�ncia � tirar a camisa, deitar-se por baixo do guarda-
roupa, meter os parafusos, prender o cofre. Terminada a instala��o


experimenta a chave, a tampa abre e fecha facilmente. Embrulha
rev�lver e balas num peda�o de jornal, mete no cofre, passa �gua no
rosto, esfrega a toalha de banho nas costas, estira-se na cama. Ent�o,

o correto, seria devolver os documentos de Brezol�. Se aparecessem,
obviamente os policiais o deixariam em paz. Se um cara perde os documentos
e eles s�o localizados, ponto final. 0 importante, tamb�m,
era saber para qual Delegacia Brezol� fora levado. S� Man� Cabreiro
saberia informar. Iria novamente � obra, colocaria os documentos
em algum ponto f�cil de achar? De outra parte, sem os documentos,
como fazer no caso de sair da Pens�o Iola? Ora, com o tempo conseguiria
outros. Talvez, de algum motorista. Se n�o fosse poss�vel,
surpreenderia um cara qualquer, apontaria a arma, mandaria que jogasse
dinheiro e documentos no ch�o. Faria isso num ponto da Zona
Norte, para n�o concentrar a aten��o dos tiras. Quem iria saber?
Ouve passos de um homem no corredor, imagina estar sendo vigiado.
Naturalmente havia um cara na pracinha, entrou na pens�o
quando o viu, agora estava se aproximando. Cola o ouvido na porta,
os passos v�o se distanciando, na dire��o do banheiro. Por que alarmar-
se � toa? N�o podia perder a cabe�a, quando as coisas estavam
apenas no come�o. N�o podia ficar atordoado, sem condi��o de raciocinar.
Se isso acontecesse, acabaria igual a Colher de Pau. Estaria
provado n�o ter condi��o de meter-se em semelhante manobra. Procura
acalmar-se. Nada de deixar o medo confundi-lo. Talvez o melhor,
mesmo, fosse n�o devolver documento algum. Numa hora que
pudesse, iria examinar o registro no livro de dona Berta. Vai ver n�o
copiou o nome todo. Mas essa era uma possibilidade rara. Sabia muito
bem com que desconfian�a a mulherona o admitiu. Pelos olhares
que fez, n�o tinha do que duvidar. Disse que era estudante, o pai
mandava mesada, n�o acreditou. Tinha certeza. Ser� que por causa
de uns simples documentos a pol�cia se daria ao trabalho de vistoriar
os livros de todas as pens�es existentes no Rio de Janeiro? N�o acreditava.
No m�ximo iria a umas quatro ou cinco, l� mesmo por Copacabana.
Como iriam os tiras adivinhar onde estava, se nem o pr�prio
Man� Cabreiro e nem ningu�m sabia? Tolice afobar-se! 0 importante
era tirar o retrato do �lbum de Marlene. Isso sim, poderia
lev�-lo � Delegacia, por l� teria de dar o nome falso do servente de
obra, terminaria se complicando. Torna a olhar os jornais, rel� a
mat�ria com o motorista, as opini�es do detetive Galv�o. Quem seria

aquele cara? Como costumava agir? Outra coisa que necessitava saber.
Muito mais importante que se preocupar com umas porcarias de carteiras.
Brezol� sairia da pris�o, n�o poderia retornar � obra. Iria por
l� algumas vezes, esper�-lo, n�o o encontraria. Trataria de tirar novos
documentos, conseguiria outro emprego, ficaria sem tempo para qualquer
coisa, quanto mais para vigi�-lo. Era isso.

117


Tenta cochilar, n�o consegue. Nunca pudera dormir de dia. O
pensamento est� dividido, entre o novo assalto e a passagem pelo
apartamento de Sandra. Baixaria por l� um pouco depois das oito.
N�o gostaria de topar com a mulher. Daria fim no retrato, tomaria

o t�xi, mandaria rodar pela rua Gast�o Baiana, queimaria o motorista
quando ele menos esperasse.
A penumbra da noite vai invadindo o quarto, as luzes se acendem,
a voz da mulher chorando na televis�o. Naturalmente, uma
daquelas novelas em que todas as pessoas, por um motivo ou outro,
est�o enredadas em terr�veis tramas de amor. N�o gostava daquelas
hist�rias. Mesmo assim, animou-se na noite em que o pai chegou
com a novidade. Logo depois que fizer a instala��o da luz el�trica,
compro a televis�o. Nem que seja usada. Passei outro dia pela rua
do Lavradio, vi numa casa de consertos, algumas bem boas. 0 cara
garantiu que funcionam como novas. Qualquer coisa que haja ele
conserta. A m�e ficou contente. Foi a �nica vez que a viu alegre.
Acontece que a luz custou a chegar, o pai mudou de emprego duas
vezes. Na fase em que estava se firmando, como tratorista nos trabalhos
da rodovia, desapareceu. E o desgra�ado do jornal n�o deu
sequer uma linha do desaparecimento. Uma noite qualquer iria � reda��o,
pegar a fotografia de volta. N�o tinha d�vida de que o mulato
brecou a nota. 0 redator magro, ar paciente, um temp�o escrevendo
tudo � toa. Um problema a ser resolvido. E seria!

Enfia-se nas roupas, aperta o n� dos sapatos. No quarteir�o
seguinte toma o t�xi. 0 motorista � mulato, magro, de �culos. Mas,
pelo estado do carro, v� logo que se trata de profissional de frota. Jamais
perderia tempo com aqueles tipos. Um bando de p� inchado,
gingando o dia inteiro para tirar o dinheiro do aluguel do carro, ficar
com as sobras. Conheceu um motorista desse, no morro. Ap�s um dia
todo de trabalho, ficava com oitenta, cem. Comprava meio quilo de
carne, uma d�zia de ovos, meio de feij�o, uma carteira de cigarro.
No dia seguinte tinha de pedir algum emprestado, a fim de conseguir

o t�xi novamente e, mais uma vez, tentar a sorte. Se chovia virava
como doido. Quando o passageiro queria ir para o sub�rbio e passava
das 4, estabelecia um trato. S� vou por tanto, chapa. No tax�metro
n�o d�! Se n�o pego engarrafamento pela Avenida Brasil na ida, na
volta � certo. Dizia isso para impressionar. Gra�as a essa jogada conseguia
alguns cobres a mais. Nos dias dif�ceis, em que os motoristas de
carros pr�prios procuram a garagem, os que dirigem TL de frota se
fazem.
Sai do t�xi, caminha um bom peda�o pela cal�ada. Passa vagarosamente
na frente do pr�dio, n�o v� seu Manuel. Retorna, aproveita
que a entrada do edif�cio est� deserta, sobe rapidamente dois lances
de escada, fica aguardando o elevador. Quando a porta se abre no
9.� andar, sente o cheiro que se torna familiar: um tanto mofo, um


tanto lixo queimado. Avan�a pelo corredor mal iluminado, mete a
chave de leve na porta, entra vagarosamente. Como das vezes em que
ali estivera, o pequeno apartamento est� completamente escuro. Sente
vontade de acender a luz, n�o o faz antes de um exame detalhado.
Necess�rio, antes de mais nada, acostumar a vista com a escurid�o.
Mant�m-se encostado na porta, esperando. Ap�s alguns instantes, come�a
a perceber o contorno dos m�veis, da cama. Faz o primeiro
movimento, o quebra-luz acende. Tenta ocultar-se. a mulher n�o parece
assustada.

� Pensei que n�o tivesse chave!
Aproxima-se, encara Sandra, uma ponta de len�ol passada sobre
a barriga, os seios e as coxas de fora. Senta na cadeira, n�o
sabe o que dizer. Tudo que imaginara, terminou dando exatamente
o contr�rio.

� Por sua causa os tiras vieram aqui, bagun�aram com a merda
do apartamento. At� hoje n�o tive coragem de arrumar.
Timidamente Toninho se prop�e a ajud�-la. Sandra faz um riso
nervoso.

� � exatamente como a foto que Marlene deixou. Que foi que
aconteceu pra se matar daquele jeito?
Sacode a cabe�a, os cabelos caem do lado da testa. A mulher
move-se na cama, o len�ol desapareceu do seu corpo.

� Ser� que � t�o bom assim com as bichas? E com as garotas?
N�o tem mais do que duvidar. Sandra esqueceu a companheira,
n�o sabe se � prudente record�-la naquele momento. Afinal, quantos
planos fizera para surpreend�-la e ali estava, ao alcance dos seus bra�os,
oferecendo-se, desafiando-o.

� Depende da garota!
Sandra sorri, mexe-se de maneira excitante. Toninho livra-se das
roupas, dos sapatos, estende-se sobre ela. De in�cio, tudo que sente �

o corpo morno da mulher. Depois, o h�lito quente, recendendo a pasta,
os cabelos macios. As m�os de Sandra afundam na cabeleira revolta
de Toninho e. numa sensa��o de estar se consumindo em gozo
permanente, ele se aprofunda na garota que faz gestos suaves, sorri,
morde os l�bios, crava-lhe os dedos finos de unhas ponteagudas nas
costas. Acomodam-se, Sandra suada, Toninho arquejante.
� Marlene mandou que cuidasse de voc�. Como v�, n�o o detestou
em nenhum momento.
Acaricia os seios de Sandra, corre os dedos at� o umbigo.

� Prometi que ia cuidar. A n�o ser que n�o queira!
Toninho v� bem como era bonita. N�o pode entender se aquilo
est� acontecendo de verdade ou � apenas um sonho.

� Por que eu, quando podia escolher qualquer outro?
� Ora, isso n�o significa que v� deixar os compromissos antigos.
� Um passatempo!

� Talvez, at� que aprenda a gostar de mim. Ser� que � capaz?
Toninho olha para um ponto na parede, n�o sabe o que dizer.
Nunca ningu�m lhe fizera semelhante indaga��o.

� Tenho certeza. Sempre quis gostar de uma garota. N�o � a
mesma coisa que Marlene.
� N�o gostava dela?
� Acho que n�o. Me acostumei.
Sandra beija-o, prolongadamente, estende-se sobre ele, remexe-se*
vagarosamente, o garoto dominado de sensa��es. Abaixa um pouca
a cabe�a, os longos cabelos ocultando os rostos. Nos instantes em
que Sandra est� de olhos fechados, tem melhores condi��es de avaliar-
lhe o corpo, os seios, os bra�os. E percebe, tamb�m, que n�o era
daquela noite que o estava esperando. Naturalmente estivera, assim,
em outras ocasi�es e ele perdendo, por causa dos maus pensamentos.
Dali em diante freq�entaria o apartamento com mais assiduidade ou
at� poderiam encontrar-se em outro local. Ela se levanta para ir ao
banheiro, Toninho admirando-a por tr�s. 0 chuveiro come�a a jorrar,
abre o �lbum de Marlene, sabe que n�o est� sonhando. Passa rapidamente
as p�ginas, encontra a fotografia que tanto o preocupara, torna
a estender-se na cama. Sente-se cansado, as virilhas ardendo, mas
ainda tinha condi��es de prosseguir.

TR�S

Enquanto Sandra p�e as roupas, maquia-se, escolhe os sapatos,
Toninho fica acompanhando seus movimentos. Tem vontade de fazer
uma por��o de perguntas e de n�o perguntar coisa alguma. Continua
meio atordoado com a recep��o. Contava encontrar uma mulher assustada
e o que terminou acontecendo se constitu�a em aut�ntica surpresa.
Por isso era melhor que a deixasse falar.

Sandra movimenta-se no pequeno apartamento, entra muitas vezes
no banheiro e retorna ao espelho, na porta do guarda-roupa.

� Quando puder, compro uma penteadeira. Me pintar numa
porcaria dessas � uma esculhamba��o. Chego sempre bezuntada no
show.

� Fica bem de qualquer jeito!
A frase, dita espontaneamente, faz Sandra voltar-se. Aproxima-
se de Toninho beija-o no nariz, deixa a marca do batom.

� T� aprovado! Quero ficar com voc� outras vezes. Tive medo
que nunca aparecesse.

� N�o vim antes por imaginar que n�o queria nem me ver.
Talvez pensasse que tinha alguma coisa com o caso da Marlene.
� N�o, depois que vi o bilhete. Quer ver?
� Prefiro ficar com a �ltima lembran�a dela, cheia de sonhos e
planos. Falava horas e horas numa demorada viagem.
� Tamb�m me falou. Sempre querendo viajar!
� Os tiras voltaram a encher o saco?
� At� agora, n�o! Mas outro dia fui convocada novamente pra
ir � Delegacia. Queriam saber seu endere�o.
� O que disse?
� Simplesmente, n�o fazia id�ia! Nem ao menos o conhecia!
Depois disso n�o tornaram a aporrinhar.
� Se nos encontrarem juntos?
� Que � que tem? N�o v�o saber que era o garoto de Marlene.
Toninho sorri.
� Vou gostar muito de voc�. Seu papo me d� confian�a. Preciso
ter em quem possa confiar.
Sandra encara-o com simpatia.

� Tamb�m preciso. �s vezes caio numa fossa desgra�ada!
Toninho est� sentado de frente para o espelho da cadeira, queixo
apoiado nas m�os. Sandra d� os �ltimos retoques na maquiagem.

� E o porteiro, como tem se comportado?
� Seu Manuel? N�o dou trela pra ele. Andou xeretando uns
dias, fazendo perguntas, depois desistiu.
� Sabia que � alcag�ete?
� Um amigo do 928 me disse.
� N�o vai com minha cara. Prefiro que a gente se encontre
em outro lugar.
� Hotel � caro e d� grilo. 0 melhor, depois, � se pensar em
mudar.
Toninho n�o est� disposto a encompridar aquele assunto.

� Que horas termina o show?
� Uma e meia, duas!
� Espera pra jantar?
Sandra olha-o. Est� linda na sua pintura discreta, os cabelos bem
penteados emoldurando-lhe o rosto.

� Tem dinheiro?
Toninho faz um riso acanhado.
� Claro! Pensa que vivia � custa de Marlene?
Desta vez quem acha gra�a � Sandra.
� N�o me meto na vida dos outros.
� Pois tenho o bastante pra se jantar, onde escolher!
Sandra assovia.
� Poxa! Tamb�m n�o vamos exagerar!
� Fico lhe esperando na boate. . .

Sandra fecha a porta, p�e a chave na bolsa, caminham para o
elevador.

� Se o porteiro tiver l� embaixo?
� A essa hora costuma ter ido embora. Mas se tiver, que se
dane!
Toninho sente-se encorajado mas n�o sabe at� que ponto aquilo
poder� complic�-lo. De uma coisa est� certo: n�o deixaria de acompanhar
Sandra ao Bacar�. Ela vai falando do novo vestido que dever�
estar pronto at� o final da semana, no aumento que vai ter quando

o show se inicia �s 22 horas, no plano de passar para a boate do Hotel
Imperial, onde h� sempre muito turista americano.
Faz sinal para o t�xi, Sandra mostra-se alegre, est� perfumada
como se fosse a um baile. Na porta da boate ele se atrapalha pagando

o motorista. Sandra vai em frente, mete-se no meio de uns homens,
desaparece. Quer se aproximar, entrar, termina recuando.
Por que ser� que n�o o esperou. Vai estar aguardando �s 2 ou
foi tudo um sonho? N�o tem do que duvidar. Iria ao cinema, ficaria
algum tempo pela praia, viria para a porta do Bacar�. Sandra
apareceria, iriam jantar, onde escolhesse. Caminha pela cal�ada, tira
a fotografia do bolso. Ora, veja! Tantos dias preocupado com uma
besteira. Olha a foto, Marlene fazendo gra�a. Rasga-a em pequenos
peda�os, joga no cesto de lixo, ouve a voz e os risos de Sandra. Por
que n�o veio h� mais tempo? Ser� que Marlene se matou por ter
descoberto isso? Sandra teria dito alguma coisa que a deixou frustrada?
Imposs�vel saber. N�o tocaria mais no assunto. Marlene se fora,
a pol�cia tomara depoimento de Sandra, estava tudo terminado. Sem
a foto em que aparecia com ela nada mais havia a declarar. 0 importante
era n�o ser visto pelo porteiro, acompanhar a transa do tal detetive
Galv�o, ficar de olho no que Man� Cabreiro lhe dissera. N�o iria
permitir que Brezol� bagun�asse o coreto.

Senta na lanchonete, o gar�om traz vitamina dupla e um misto
quente. Devora o sandu�che com vontade, toma a vitamina em grandes
goles. Num instante paga a conta, vai em frente, mete-se no
cinema, n�o porque estivesse querendo ver o filme, mas por desejar
ir ao banheiro. E nenhum banheiro melhor, por ali, que o daquele
cinema. Fecharia a porta, ficaria um temp�o sentado no vaso, imaginando
coisas. Como Sandra o cbamou para a cama, como se descobriu,
acendeu a luz, ficou falando enquanto se vestia. Depois, o t�xi
disparado por ruas e avenidas, ela na porta do Bacar�, caminhando
para o meio daqueles homens todos. Por que n�o esperou? Por que
n�o disse ao menos at� logo? Procuraria saber disso �s 2 da madrugada,
quando reaparecesse para jantar. Estava certo de que n�o ia
roer a corda. N�o havia necessidade. Se estivesse procurando esquivar-
se, n�o teria passado tanto tempo com ele. Disso estava mais do
que certo. Puxa calmamente longo peda�o de papel higi�nico, limpa




se, aperta o bot�o da descarga. Na pia com torneiras niqueladas, sofisticadas,
banha o rosto, ajeita os cabelos rebeldes, entra para a sala
de proje��o. 0 filme est� iniciado, n�o interessa qual seja, acompanha
as cenas a princ�pio aereamente, s� ap�s alguns minutos come�a a
perceber o enredo. O matador de mulheres � o velhote que tem um
tremendo �libi: desde que fora morar na cidadezinha de veraneio, isso
h� mais de dez anos, � tido como paral�tico. Um empregado o empurra
na cadeira de rodas. Nessa cadeira, em momentos diferentes, o velhote
� visto nos pontos principais da cidadezinha. A�, tamb�m, as
mulheres come�am a morrer. Por estrangulamento, com fios de nylon
ou len�os de seda. Quando sai do cinema as suspeitas come�am a convergir
para o empregado. Mas, pelo que pode supor, no final a pol�cia
descobrir� que � o velhote. Gostaria de ver o filme todo, mas sente
vontade de voltar a falar com Man� Cabreiro. A conversa com ele
n�o o agradou. Necess�rio saber bastante a respeito do tal Brezol�.
Tinha de precaver-se, n�o podia brincar com uma fera daquela.

Saindo do cinema, pisando no tapete macio, ocorre-lhe um truque.
Se esperasse Brezol� aparecer, dissesse saber do cara que estava
com os documentos? Se prometesse lev�-lo ao tal cara, desde que
mantivesse o m�ximo segredo? Por que n�o bolara isso antes? Brezol�
iria. Todo confiante na sua for�a e na habilidade que tinha com
uma faca na m�o. Perto dos arbustos, no caminho do morro, sacaria,
acionaria o gatilho. Largaria ele por l�, encerraria de vez o problema.
Era aquilo. Precisava saber quando Brezol� fora preso, quando
estaria solto. Outra vantagem de dar as caras: demonstrar aos pe�es,
inclusive a Ti�ozinho, Esperidi�o e Josias, que n�o havia sumido, n�o
tinha motivo.

Empurra a porta, quem aparece � Rox�o. Faz um "oi", oferece
cigarro.

� Cad� o pessoal?
Iudica com um movimento de cabe�a, Toninho sabe que continuava
tudo do mesmo jeito. Sobe os lances de escada, chega ao sal�o.
S� uns dois tipos embrulhados em cobertores, dormindo. Os outros
conversavam, jogavam cartas. Senta perto de Ti�ozinho, Man� Cabreiro
est� metido no jogo. 0 vigia olha-o, surpreso.

� Bom filho � casa torna!
Toninho faz ar de riso.
� Entro na pr�xima rodada.
� Dez mangos de cada vez � explica Josias.
� Tou topando.
A rodada � reiniciada, o dinheiro casado, as cartas divididas.
Cada um faz seus estudos, o primeiro a jogar � Ti�ozinho. Ainda est�
com o bra�o direito enfaixado. Toninho quer logo tocar no assunto
mas n�o se atreve. Deixa que um deles puxe a conversa. Lan�a as
primeiras cartas, Josias n�o tem pontos suficientes, p�e-se a comprar,


quase todos riem da agonia de nunca encontrar a carta de que mais
precisava. Acha, tem muitas cartas na m�o, dificilmente ganhar� a
partida. Toninho ajoelha-se, mostra-se alegre, s� est� com tr�s cartas,
enquanto os outros t�m, no m�nimo, quatro. A partida � encerrada.
Toninho raspando a grana.

� Topa outra?
� Como n�o!
Novamente � feita a divis�o das cartas, o dinheiro casado, Man�
Cabreiro acende um cigarro.

� Quero s� ver se nessa n�o dou sorte!
Toninho n�o est� muito interessado em ganhar. Quer mostrar-se
amistoso, for�ar um daqueles caras a falar nos documentos. E se

o pegassem de repente, examinassem seus bolsos? Por que n�o
deixou a porcaria das carteiras na pens�o? Se surgisse uma discuss�o,
tentaria lev�-los na l�bia. N�o havia outro jeito. E se ganhasse aquele
jogo, para depois devolver o dinheiro a cada um dos perdedores?
Talvez fosse o caminho. Demonstraria n�o ser um filho da puta
qualquer, que se prevalecia. Ora, se tava devolvendo dinheiro vivo,
que acabara de ganhar, por que iria ficar com as merdas de umas
carteiras que nada valiam. Exatamente isso o que faria, caso a sorte
continuasse do seu lado.
Toninho novamente com tr�s cartas e desta vez quem mais compra
� Esperidi�o. Vai se enchendo de cartas, ficando irritado com as
brincadeiras de Man� Cabreiro que puxa tragadas do cigarro, mas na
verdade t� nervoso, perdeu mais de cem, n�o v� possibilidade de ganhar
sequer uma rodada.

� Puxa, o garot�o t� com tudo � diz Josias. � Voltou com
o C�o no couro!
� N�o � C�o no couro, coisa nenhuma, cara. � ajuda de Iemanj�!
� diz Toninho sorridente.
� Tomara mesmo que Ela te ajude � diz Esperidi�o. � Quando
Brezol� sair do grampo vai precisar de muita sorte!
� Por qu�?
� Ora, acha que tu botou a m�o nos documentos!
� Pra que ia querer aquelas porcarias?
� N�o fa�o id�ia. S� sei que t� pensando assim. Ti�ozinho e
eu � que nos estrepamos. De qualquer forma se deu sorte, foi s� arranh�o;
Ferrolho levou uma chanfrada por baixo, ningu�m sabe o
que vai ser dele.
� N�o melhorou?
� Melhorou coisa nenhuma. Ontem, tava com febre alta, os
m�dicos iam operar de novo.
� Se ele morre Brezol� t� ferrado!
� Juro que n�o botei as m�os na papelada de Brezol�. Quando
quiser documento � s� ir no Minist�rio e pegar.

� Acontece que ele n�o pensa assim � insiste Esperidi�o.
� Se n�o pensa, quando botar as patas fora da gaiola se acerta,
� Vai te comer na faca! � argumenta Josias examinando as
cartas.
� Sou mais fraco mas n�o corro da raia!
O jogo chega ao lance final e mais uma vez as melhores cartas
est�o com Toninho. 0 garoto sorri.

� Vamos l�, minha gente. Eu fico!
Os pe�es entreolham-se. N�o est�o gostando daquela euforia do

menino. O pr�prio Man� Cabreiro mostra-se aporrinhado mas n�o

pode explodir. N�o seria justo. 0 baralho pertencia a Esperidi�o, o

garot�o estava jogando numa boa. N�o inventou nada, n�o escondeu

cartas. Um jogo limpo. Perderiam mais essa rodada, teriam esperan


�as nas pr�ximas. 0 importante era n�o deixar Toninho se mandar

dali, ganhando do jeito que estava.

O garoto examina aqueles tipos, d� pra sentir a amargura em que

se encontram. No final devolveria o dinheiro de todos eles. Seria a

oportunidade de conquistar-lhes a confian�a.

Ao lan�ar a �ltima carta no ch�o, sobre as demais, de Man�
Cabreiro, Esperidi�o, Josias e Ti�ozinho, o garoto raspa mais uma vez

o bol�o.
� Esse cara vai nos depenar � reclama Josias.
� Querem parar?
� Pra mim chega. Tou liso que nem quiabo!
� Pois eu ainda vou no lance. N�o perdi as esperan�as �
argumenta Ti�ozinho.

� Vamos l�!
Man� Cabreiro embaralha, d� as cartas, Toninho come�a. Ti�ozinho
faz uma jogada feliz, Toninho precisa de mais pontos. Na primeira
compra, l� est�o os pontos de que necessita.

� Vai ter sorte assim no inferno!
Ti�ozinho prende o jogo, quem compra agora � Man� Cabreiro.
Toninho acha gra�a. 0 vigia vai se estrepar direitinho. Ti�ozinho faz
outro lance e tamb�m precisa ter nova carta. Pega tr�s, at� achar
a que precisa. Novamente os pontos est�o com o garoto. Mas o ambiente
� tenso, n�o pretende que os pe�es se desesperem, antes de saber
da surpresa que lhes reserva. Sem �nimo de continuar Ti�ozinho abre o
jogo, novamente a bolada � de Toninho. Puxa o dinheiro para junto
das pernas, os pe�es olhando.

� Agora, pessoal � diz o garoto � como n�o vim aqui pra
jogar e como t� longe o dia do pagamento, se faz um acerto: devolvo
a grana de todo mundo. Isso n�o passou de um treino. Outro dia se
faz uma rodada. A�, pra valer!

Esperidi�o sente-se aliviado. Chega a fazer um sorriso. Ti�ozinho
-� orgulhoso. N�o quer aceitar. Argumenta que d�vida de jogo � sagrada.
Josias manda que deixe de ser besta.

� Se o cara t� devolvendo a grana, qual �?
A contragosto Ti�ozinho aceita. Mas topa o desafio de Toninho.
� Se ningu�m quiser jogar, se emenda os bigodes. S� p�ra
quando um de n�s n�o tiver mais grana.
� Ent�o, tem de ser num s�bado. A� podem entrar pelo domingo
� sugere Man� Cabreiro.
� Topo! � diz Toninho.
E olhando para os pe�es alegres, desamassando as c�dulas.
� T�o ouvindo! N�o quero queixa!
� Queixa, porra nenhuma! Cada um tem seu dia no jogo. Hoje
n�o � o meu.
� Que venha o fim da semana. Baixo aqui, se manda brasa!
Quando os pe�es j� recolheram as c�dulas e Esperidi�o guardou
o baralho, aprofunda-se o sil�ncio, enquanto Man� Cabreiro enrola
um novo cigarro. Josias, que parece o mais inteligente do grupo, faz
a pergunta.
� Por que se mandou, logo que os documentos de Brezol�
sumiram?
� Pura coincid�ncia. Tava engatilhado na distribui��o de um
jornal, acabou dando certo. Hoje � meu dia de folga.
� E a bichona? � indaga Esperidi�o debochadamente.
� Que bichona?
� N�o te faz de bobo, cara! Pensa que se dorme de touca?
Toninho desconversa. Desamarra e torna a amarrar os sapatos.
� Me ajudava a descolar um rango todo dia na lanchonete.
Que mal h� nisso?
� N�o se t� dizendo que � mal ou deixa de ser � afirma Josias.
� 0 que ele t� querendo dizer � acentua Ti�ozinho � � que tu
vive de trambique.
A afirma��o torna Toninho raivoso. N�o esperava semelhante coisa,
ap�s devolver o dinheiro daqueles putos. Agora se lembra da
advert�ncia de Man� Cabreiro. 0 melhor era n�o botar mais os p�s
na constru��o. Mas achou de vir, teria de encontrar um meio de sair.

� � que nenhum de voc�s enfrentou a barra que enfrentei.
Quando vieram pro Rio eram grandes, cada um sabia fazer uma coisa
ou outra. Eu, n�o! Sou daqui mesmo mas sempre comi da banda
podre. 0 pai sumiu do barraco, a m�e morreu, eu sa� por a�. Acham
que algu�m me chamou pra oferecer um cafezinho, saber se tinha
dinheiro pra pagar uma passagem de �nibus?
Olha aqueles tipos sombrios, amargurados, sente que conseguiu
toc�-los fundo. Vai em frente.


� O �nico que me deu a m�o foi Man� Cabreiro. Fosse outro
me mandava andar. Teve pena e n�o vai se arrepender. Quando melhorar
de vida ele sobe comigo. Iemanj� me ajuda. Mesmo assim
n�o avan�o no alheio, n�o procurei a bicha. Tava na lanchonete, tomando
uma x�cara de caf� ela mandou sair um sandu�che. Foi assim.
N�o dei uma de rufi�o.
Man� Cabreiro est� emocionado. Josias sem ter o que dizer.

� Quantos anos tinha quando o velho sumiu?
� Uns dez. N�o conhecia nem a porcaria da cidade direito,
Tive de me virar. Pedia esmola, fazia carreto, vendia balas e revistas
de sacanagem!
� Nenhum parente que ajudasse?
� Os irm�os do pai s�o do Norte. Sempre prometeu me levar
um dia pra l�, mas n�o deu.
No clima favor�vel Toninho ergue-se, mete-se no casaco de couro,
ajeita as cal�as.

� Com a gra�a de Iemanj� as coisas t�o melhorando. Vou ser
algu�m.
Josias bate no ombro de Toninho.

� Desculpa o que disse. Ainda se t� sem entender qual � a de
Brezol�! Se a barra apertar, baixa aqui. 0 casar�o � teu tamb�m. At�
ficar pronto e os donos nos expulsarem.
� A� se vai pra outra obra e come�a tudo de novo � argumenta
Esperidi�o.
� L� pelo fim do m�s ele t� a�. Promessa � promessa � diz
Man� Cabreiro.
Toninho, que at� ali se mostrara triste, faz um arzinho de riso;
Esperidi�o, que � alto e forte, passa-lhe a m�o nos cabelos, em sinal
de amizade.

� Vamos em frente, garot�o. Tomara que d� tudo certo,
contigo!
Toninho vai embora na alegria e camaradagem daqueles pe�es,
ap�s confirmar que voltaria. A partida seria prolongada, quem perdesse
n�o teria socorro. Passa diante da guarita, Rox�o est� cochilando,
vai embora, os olhos rasos d'�gua. Afinal, por uns momentos
aqueles homens o consideraram um malandro, um marginal. Enxuga
as l�grimas, fica um tanto confuso, pois na verdade n�o chora por si.
Sente-se triste com o papel que representava diante daqueles pe�es
rudes, honestos, humanos.

127


Cap�tulo VII

UM

Toninho permanece na beira da cal�ada, junto � esquina, onde
havia a loja de roupas, vitrines apagadas. O tr�fego na Avenida N. S.
de Copacabana diminuiu bastante porque era tarde e fazia um pouco
de frio, embora a noite estivesse estrelada. Toninho acompanha os
carros particulares que passam em disparada, os �nibus praticamente
vazios. Podia ter feito sinal para diversos t�xis mas n�o fez. N�o
estava ainda bem seguro. Alguma coisa o deixava em d�vida. Por
que tomar um t�xi, se podia caminhar at� a boate? Ao primeiro cara
que encontra no ponto de �nibus pergunta pelas horas. Tinha tempo
bastante. N�o precisava se afobar. Recorda os momentos em companhia
de Sandra, continua a admitir estar ficando lel� da cuca. N�o podia
ter sido verdade. Precisava encontr�-la de novo, toc�-la, falar-lhe, a
fim de certificar-se. Estaria ficando louco? Mas foi tudo t�o real.
Claro que aconteceu: as virilhas ainda ardiam, um certo cheiro de
Sandra sa�a do seu pr�prio corpo. Como ent�o ficar em d�vida? E
quando ela passou para cima! Ah, como gostaria que aquilo se repetisse.
Agora entendia por que Marlene n�o desejava que a conhecesse.
Uma garota e tanto! N�o tinha conversa, sabia bem o que queria. Depois,
enquanto falava, os dedos da m�o direita brincando com os seios
redondos e morenos, o umbigo profundo de Sandra. E as coxas lisas
e mornas? Ah, as coxas de Sandra! Um dia se encheria de coragem,
iria v�-la no show. Ficaria numa mesa no canto mais escuro, s� quando
terminasse falaria com ela. Uma surpresa!

Aproxima-se da boate, al�m da porta almofadada e do tipo grandalh�o
na entrada n�o h� nada de especial. 0 nome � simples, desenhado
em fios de neon lil�s. Chega cada vez mais perto, puxa um
cigarro, percebe que o le�o-de-ch�cara est� de olho, pergunta por
Sandra.

� A que faz strip-tease. Morena, cabelos compridos. . .
O le�o-de-ch�cara passa a mostrar extraordin�ria intimidade, pede
um cigarro, Toninho oferece o ma�o.


� Se mandou. Saiu com uns caras. Como sempre faz depois do
show!

Toninho ouvindo o le�o-de-ch�cara. o pensamento em Sandra,
n�o entende semelhante irresponsabilidade. Como � que marcava e
ia embora, sem mais nem menos? O que � que pensava? Querendo
sacanear, ou mostrar que era boa demais?

� Ser� que n�o t� no bar da esquina?
� Acho que n�o. Vi entrando num carro.
O le�o-de-ch�cara diz isso e sorri. Parece gozar com o espanto
de Toninho.

� Tem alguma coisa contigo?
Encara o homem, n�o consegue responder. O le�o-de-ch�cara
faz uma outra pergunta, n�o escuta. Vai seguindo na dire��o do bar,
est� certo de que encontraria Sandra; ela estaria esperando. H� muita
gente bebendo, alguns caras completamente embriagados, mulheres
falando alto, gar�ons movimentando-se nervosamente com bandejas
de chope, os ventiladores ligados porque o ambiente est� completamente
abafado, o ar viciado. Olha para um lado e outro, vai at�

o meio do sal�o atravancado, o gar�om pedindo licen�a, olhos em
pessoas que nunca vira, em mulheres extremamente pintadas, maquiadas,
como verdadeiras bonecas, tipos de cabelos engordurados,
bem vestidos, outros barbudos, desleixados. Em nenhuma das mesas
consegue localizar Sandra. Torna a pensar no le�o-de-ch�cara, admite
estar com a raz�o. Saiu com os caras, a essa altura estava num quarto
de hotel, entregando-se como uma sem-vergonha. Isso que aquela
sacana era. Uma puta escrota. Trepou com ele na maior facilidade,
como treparia com qualquer outro. Por que acreditou que se encontraria
com ele? Por que aquele convite maluco de jantar? Devia ler
ouvido o que Marlene contava. Fora os encontros espor�dicos, havia
o caso com o velhote, que vinha de longas datas, desde que come�ou
no show. Marlene sabia muito a respeito de Sandra. Ele � que n�o
acreditava. Agora, eis a prova. Mas, nem de longe, desejava ser o
homem de Sandra. Revoltava-se com a falia de palavra. Me espera na
porta da boate. No m�ximo entre uma e meia e duas horas! Desceram
<lo t�xi, tornou a confirmar. Ouviu Sandra dizendo sim e se afastando.
Foi tamb�m o tempo em que ficou atrapalhado com o diabo
do motorista. N�o tinha troco pra cem, passou um temp�o remexendo
ria carteira e nos bolsos. Sandra desapareceu no meio dos pilantras,
da� n�o soube mais dela. O le�o-de-ch�cara garantia, sem qualquer
emo��o:
� Saiu de carro com uns caras. Como sempre faz!
Acende outro cigarro, p�ra junto ao poste, reflete olhando a
noite que se confundiu com o mar. Afinal, qual era a sua? Por que,
de repente, perdia-se de amores por uma garota que n�o estava nos
seus planos? Puxa algumas tragadas, o t�xi aponta longe, deixa que


chegue mais perto, faz sinal, logo que abre a porta ouve o r�dio
tocando alto.

� Pra onde, gente boa?
� Duque Estrada. Sabe onde �?
� Em frente � PUC, na Marqu�s de S�o Vivente. Tive uma
amiguinha que morou l�. Manjo aquelas quebradas.
A princ�pio ainda est� irritado, mas deixa-se levar pela conversa
do motorista, um crioulo forte e bem-disposto.

� Como �? E o jogo de amanh�?
� Tamos a�. Sou Meng�o e n�o abro. Fiz at� uma aposta na
garagem.
� � meu time. Tamb�m tou casando a� com um pessoal. Quinhentas
pratas; 3 a 2 ou 2 a 1. N�o passa disso!
� Mesmo assim n�o menospreso o advers�rio. Botafogo t� com
a linha na medida!
� Na hora cai. N�o aguenta o tranco!
� Tou de acordo. Fogo de palha, nada mais. 0 Meng�o t� tinindo.
H� muito tempo que n�o disparava na cabe�a.
� Falta de organiza��o e um bom t�cnico!
0 carro de luxo, a grande velocidade, corta o t�xi. O motorista
segura no freio.

� T� vendo como �? 0 bacana n�o t� nem a�. Se bate, a gente
� culpado.
� Quem tem grana t� com tudo. Faz o que quer.
� Verdade! Outro dia mesmo um careta desses freou de repente
em cima de um colega, o TL se esbodegou. O guarda anotou
a placa e mandou andar. Vai acontecer alguma coisa pro bacana?
Porra nenhuma, amig�o!
� E o que acho. Eles deitam e rolam.
� Se � comigo, queimo ele. Sou de boa paz mas ando prevenido
.
� � como tem de ser, podes crer!
Enquanto o crioulo continua a falar, a contar outros casos de
desrespeitos praticados no tr�nsito pelos ''particulares", Toninho faz
seus c�lculos. Pelo que dissera tinha uma arma, estava pronto para

o que desse e viesse. 0 garoto volta a acompanhar a conversa, o cara
falando na dureza que enfrentava, nos dois filhos na escola, na comida
e no aluguel.
� Viro uma semana de dia, outra de noite. Nas folgas conserto
r�dio e m�quina de lavar roupa. Re�no uma grana, vai tudo embora.
A mulher t� sempre pedindo mais, n�o tenho o que reclamar.
Cada dia os pre�os t�o de um jeito. Al�m disso, ainda ter de pagar
conserto de carro? Pra cima de mim n�o!

O t�xi entra na Marqu�s de S�o Vicente, avan�a um sinal fechado,
dobra para a direita, Toninho manda parar na curva. Bem debaixo
do poste, onde era intensa a claridade.

� Como � o acerto, amizade?
O chofer olha o tax�metro, o r�dio toca a m�sica antiga, de Ismael
Silva, Toninho abre o z�per, segura firme o rev�lver. 0 homem
examina a tabela plastificada, a arma dispara. 0 motorista tenta
voltar-se, m�os tr�mulas segurando a tabela, Toninho sabe que n�o
conseguir�. Por instantes o rosto do crioulo permanece voltado na
sua dire��o, olhos arregalados, a boca aberta para as palavras que n�o
sa�ram. 0 garoto examina pelo vidro traseiro, a rua continua tranq�ila.
Espera um pouco, n�o aparece ningu�m, nenhuma janela se abre.
O criolo emborcou de lado, Toninho levanta o vidro, trava a
porta, examina os bolsos do homem, retira dinheiro e documentos,
abre o porta-luvas, onde encontra mais dinheiro e uma pistola. Ergue

o tapete, n�o acha mais nada; examina por baixo dos bancos, retira
o jornal dobrado. Empurra o motorista para cima da porta esquerda,
tira a chave da igni��o, suspende o vidro da direita, vai embora.
Antes de chegar � Marqu�s de S�o Vivente torna a olhar. O t�xi
permanece com as lanternas traseiras acesas. Est� certo de que sentir�
os mesmos tremores da vez anterior, por isso acende um cigarro.
Fuma nervosamente. Anda alguns quarteir�es, os tremores aparecem,
por�m com menor intensidade. Procura concentrar-se em Sandra, na
sacanagem que lhe fizera, n�o consegue esquecer as �ltimas palavras
do motorista: os pre�os t�o elevados, cada vez maior a dificuldade de
manter o garoto na escola e a casinha alugada. Esfor�a-se para esquecer
o crioulo, torna a insistir em Sandra; na maneira f�cil como
a encontrou, na surpresa que teve de ser convidado por ela. Por que
aquela intimidade? Quem pensava que fosse? Um garotinho? Desejo
de tomar um caf� mas na porcaria daquela rua n�o h� nada aberto.
P�ra onde estavam a mulher e o guarda-noturno, a rua continua
vazia. Ap�s muito esperar, aparece um �nibus. Senta perto do motorista,
o carro desloca-se pregui�osamente. De qualquer forma estava
cada vez mais distante do t�xi, o pensamento em Sandra, nas suas
coxas grossas, nos seus peitos morenos e redondos. Nos bolsos do
casaco, a pistola, o rev�lver, nos da cal�a os documentos, o dinheiro.
Uma boa lembran�a. Por que n�o ficara com os documentos do portugu�s?
0 detetive Galv�o teria mais dificuldade. N�o custava nada
fazer como agora: pegar os documentos. Quanto ao dinheiro, pelo
pouco volume, sentia-se um tanto frustrado. Desde que o crioulo falou
na garagem, na empresa, viu logo que era um bunda suja. Mas n�o
podia perder tempo. Na pr�xima talvez desse sorte. Necess�rio encontrar
um meio de selecionar os carros. Abandonar os que fossem
de frota. Como distinguir de longe? Pensa em v�rias maneiras, sabe
que n�o seria f�cil. 0 cara parava, antes de entrar, se fosse carro de

frota, perguntava se ia topar a corrida bem pra longe. L� por S�o
Crist�v�o ou Madureira. Acha isso bom. E se o careta aceitasse? Uma
nova proposta lhe ocorre: diria simplesmente:

� Amig�o, troca quinhentos pra me deixar no Largo do Machado?
N�o ia topar. Corrida pequena, uma nota grande demais para
troco de madrugada. O t�xi arrancaria, chamaria outro. Isso sim.
Talvez fosse o correto. Mesmo assim, o importante seria bolar outras
solu��es. Deixa de raciocinar em novos truques para surpreender motoristas,
v� Sandra na cama, completamente nua, os dentes brancos
num riso de convite. Ele se aproximando, sentindo seu cheiro, o calor
dos l�bios, a leveza dos cabelos. Como, depois disso tudo, foi embora
com os caretas, sem ao menos esperar que aparecesse? Em todo caso,
foi melhor assim. N�o ia ag�entar falar com ela e saber que estava
indo para um hotel com os pilantras. Se a barra n�o pesasse, no dia
seguinte tornaria a aparecer no apartamento. Ela explicaria o desencontro.
N�o adiantava sorrir, se oferecer.

Ventos da noite nas janelas do �nibus, Toninho imagina-se rid�culo.
Se j� pegara a fotografia que poderia compromet�-lo, por que
n�o sumir de vez? Do jeito que desceu com Sandra no elevador, deve
ter sido visto facilmente pelo alcag�ete. Amanh� seria visto por outros
tipos, em pouco tempo estaria enrascado. Na primeira oportunidade
o arrastariam a uma Delegacia, o interrogat�rio come�ando pela
morte da bicha.

� Como foi que se atirou?
� Qual a �ltima vez em que estiveram juntos?
� Quanto dava pra ti sustentar?
Finalmente, o mesmo que sucedera a Colher de Pau. 0 crioulo
gordo mandando meter os dedos na tinta.

� Vamos tocar piano, bicho safado!
0 crioulo gordo, sorridente, apertando cada um dos dedos nas
fichas de papel grosso. Diria o nome verdadeiro, seriam tiradas v�rias
fotos; na primeira que fizesse, terminaria facilmente no grampo. O
delegado mandaria enfi�-lo no pau-de-arara, contaria at� o que n�o
fez. Certo como dois e dois s�o quatro: os encontros com Sandra iam
complic�-lo, principalmente agora que havia muita coisa acontecendo
ao mesmo tempo: a morte da mulherzinha do sargento Beto, do velhote
na cadeira de rodas, o suic�dio de Marlene, dois motoristas
abotoados. N�o podia arriscar. No m�ximo, l� pelo meio da semana,
baixaria no apartamento, de surpresa. Encostaria a cadela contra a
parede, daria as ordens. N�o tinha de afrouxar. E se toda aquela facilidade
de dar fosse um jogo? Isso mesmo: um jogo? Por que n�o
pensou nisso antes? Como � que a mulher que t� assim de macho,
tem coragem de trepar com um cara que s� conhecia de fotografia?
Aquilo de dizer palavras bonitas n�o convencia. Havia alguma coisa


que Sandra tava escondendo. Ia descobrir. N�o desceria mais de
elevador como se fosse ot�rio, arriscando ser visto pelo alcag�ete filho
da puta, que dedurava todo mundo no edif�cio. Cansara de ouvir
Marlene reclamando. Depois, observando o comportamento do grandalh�o,
concluiu que a bicha n�o se enganara. Seu Manuel ia pra
panificadora, na esquina, passava informa��es aos caretas dos carros
de chapa fria. E, sabendo disso tudo, deixou-se levar pela gra�a de
Sandra, saiu com ela como se fosse a coisa mais natural do mundo.
N�o ca�a em outra. Por sorte seu Manuel n�o tava no posto. Ou
ser� que viu, do outro lado da rua? Bem capaz. Aquele tipo tinha
artimanha. Sabia jogar pedras e esconder as garras. Ganhava mais
dedurando do que como porteiro. A bicha assinalava nos dedos os
caras que tinham sido levados � pol�cia, principalmente sob suspeita
de uso e tr�fico de drogas, atividades subversivas e contrabando de
mercadorias.

Entra na pens�o com o casaco nas costas. O porteiro de cara
redonda est� dormindo. Pega a chave no quadro, vai para o elevador.
S� a� o homem acorda, d� boa noite, diz algumas palavras de desculpa
.

� Numa determinada hora se entrega os pontos!. . .
� Que � que tem dormir um pouco?
Aperta o bot�o do 5.� pavimento, o elevador sobe rangendo, estalando.
Caminha pelo corredor escuro, tremendamente longo, torce a
chave na fechadura. 0 cheiro mofado do quarto come�a a ser familiar.
Fecha a porta com cuidado, acende a luz. Os jornais continuam
no mesmo lugar, as meias tamb�m, a toalha de banho estendida no
espelho da cadeira. Isso provava que ningu�m ali esteve, para qualquer
arruma��o. Era at� bom. Vai ver, a arrumadeira s� aparecia uma vez
por semana. Quanto menos aparecesse, melhor. Tira a camisa, os sapatos,
abaixa-se, olha o cofre preso no fundo do guarda-roupa. Esvazia
os bolsos, vai jogando tudo sobre a cama: pistola, rev�lver, documentos
do crioulo, o pequeno bolo de notas. Quando as notas caem. tem um
momento de satisfa��o. A primeira delas, a que cobre todas as outras,
� de quinhentos. Ajoelha-se. A segunda tamb�m � de quinhentos e as
outras de cem e cinq�enta. Confere com alegria. Mil e seiscentos. Imposs�vel
acreditar. N�o havia l�gica. N�o podia prender-se apenas aos
t�xis de motoristas aut�nomos. Isso simplificava o problema. Torna a
contar o dinheiro, olha o retrato do crioulo num dos documentos. N�o
parecia em nada com o que dirigia o carro, com o que falava no Flamengo,
dizia estar sempre preparado pro que desse e viesse. Tem vontade
de rir. De dizer que nunca se sabe de onde vem a surpresa. Como
Sandra n�o soubera, n�o saberia. Abriu a porta, movimentou-se no pequeno
apartamento, de repente l� estava ela. Mas, na verdade, quem
foi que acendeu a luz? Sandra. Por que n�o gritou, n�o fez esc�ndalo?
Esperava que aparessesse? Sabia que mais cedo ou mais tarde, viria?


Quem lhe dera essa certeza? E se na pr�xima estivesse mancomunada
com o grandalh�o da portaria? Como fora idiota! Como se arriscara!
A continuar daquele jeito, seria surpreendido mais rapidamente que
Colher de Pau. Enfezado � que estava certo. Quanto mais cuidado
melhor. Viu bem com que cautela agiu na casa da Tijuca. O detalhe
das flores, a insist�ncia de ficar olhando a mulherzinha com a goela
rasgada. Quase n�o teve coragem de ver, mas Enfezado ficou esperando.
S� sa�ram depois que ela arregalou os olhos.

Era isso. N�o podia disparar contra um motorista e se mandar. J�
pensou? Como podia saber, a esta altura da madrugada, se aquele
crioul�o morreu de fato, ou se apenas se amoitou? Pensa na cara que

o motorista fez, nos olhos redondos, nas m�os tr�mulas, segurando a
tabela plastificada. N�o h� d�vida de que tinha apagado. Ao mesmo
tempo podia ter se enganado. Se o cara estava apenas atordoado, podia
ter perdido os sentidos, acordar mais tarde, quando os tiras teriam
tempo para lev�-lo a um hospital. Se falasse, se conseguisse dizer alguma
coisa, estava perdido. No mato sem cachorro. Necess�rio que pensasse
nos m�nimos detalhes. Da� a raz�o de n�o poder perder tempo
com a porra louca da Sandra. Quando tivesse reunido uma boa grana,
mulher n�o ia faltar. Baixaria de vez em quando nas boates, comeria
a que bem desejasse. A essa altura era at� poss�vel que Sandra corresse
para esper�-lo e ele n�o tivesse tempo de encontr�-la. O dinheiro � que
importava. Sem ele n�o se vale coisa nenhuma. E para valer tinha de
ter a cuca no lugar. N�o podia come�ar enrabichado numa f�mea que,
ao mesmo tempo, pertencia a uma cambada de tipos escrotos. Torna a
deitar-se no assoalho, abre o cofre, retira as notas. Junta as antigas �s
novas, faz uma contagem por alto. Junto com o dinheiro guarda a
pistola, o rev�lver, a caixa de balas. Aproxima a mesinha de cabeceira
da cama, pega a l�mina de barbear, p�e-se a cortar os documentos.
Re�ne os peda�os, p�e numa folha de jornal, embrulha. No dia seguinte,
bem distante da pens�o, jogaria aquilo num cesto de lixo.
Ningu�m jamais descobriria coisa alguma. Pensando em Sandra, nas
suas coxas mornas, no seu beijo com gosto de pasta de dentes, nas
palavras tranq�ilas do motorista, Toninho pega no sono. As �ltimas
lembran�as do dia confundem-se com os vagos rumores da noite.
DOIS

No bar de mesas cobertas com toalhas vermelhas e azuis, todas
muito limpas, Toninho toma m�dia com p�o na manteiga, um copo
com �gua mineral, dois ovos quentes. Os ventos da manh� luminosa
penetram no bar, as pessoas falam baixo, como se ainda estivessem


adormecidas. Toninho olha o jornal. N�o havia a menor informa��o
sobre o motorista na Duque Estrada. A aus�ncia do notici�rio o aflige.
Mastiga o p�o com vontade, toma metade dos ovos quentes, abre na
p�gina em que a mat�ria o surpreende. N�o era do motorista e, sim,
da mulherzinha do sargento Beto. Como, depois de tanto tempo, o
caso retornava com aquela for�a? L� cada linha, bem devagar. E vai
sabendo que o detetive Silveirinha descobriu ind�cios que poder�o
levar ao criminoso. Na mesma mat�ria um perito � Rui Lobo �
diz ter revela��es importantes a fazer. Chega ao final da reportagem
com o cora��o batendo, aceleradamente. 0 gar�om faz uma pergunta,
n�o ouve direito, o homem tem de repetir. Dobra o jornal, p�e na
cadeira, sabe que n�o adianta esquentar. Entre as afirma��es do detetive
e a conclus�o a que pudesse chegar, havia longo caminho a
percorrer. Duvidava muito que soubesse de todos os lances da hist�ria.
Jamais descobriria inclusive como as flores foram parar na
casa da mulherzinha. O que seria f�cil comprovar � que foi comida
antes de ser sangrada. No mais, n�o acreditava nas amea�as do
perito. De qualquer forma, compraria outros jornais, a fim de saber

o que diziam. Pena n�o poder se comunicar com Enfezado, em caso
de emerg�ncia. Mas, se isso fosse necess�rio, subiria o morro novamente,
procuraria mestre T�bor. Devia saber por onde o filho andava.
O gar�om traz o troco Toninho deixa boa gorjeta, vai embora,
com duas preocupa��es dominando-o em plena manh�: o sil�ncio em
torno da morte do motorista, o ressurgimento do caso da mulher e
do velhote entrevado. 0 perito falava no levantamento das impress�es
digitais. N�o tinha nada a temer, mas assustava-se com rela��o a
Enfezado. Sabia muito bem que fora fichado, devia ter um mont�o
de fotografias na pol�cia. Al�m disso entrou de bobeira em cima do
sargento, disse que mais cedo ou mais tarde ia lhe dar o troco. Claro
que a essa altura o cara devia estar na pegada dele. Seria isso que o
perito estava querendo dizer? Nesse caso n�o tinha muito o que investigar.
Era s� botar meia d�zia de tiras no rastro de Enfezado,
chegar at� ele. Teriam ido ao morro, aporrinhar mestre T�bor? Importante
saber disso. Antes, compraria outros jornais. Esperaria pelos
que saem no final da manh�. Em algum deveria estar o caso do motorista.
Caso contr�rio, todo seu projeto iria de �gua abaixo. Ser�
que deu semelhante mancada? Ser� que o crioulo era mais manhoso
do que aparentava? Vai ver o sacana ficou s� atordoado, fez aquele
carnaval todo pra impressionar. Devia ter feito como Enfezado: esperar
o sangue descer. Ao mesmo tempo seria arriscar demais. S�
meter o t�xi naquela ruazinha j� significava muito peito. N�o podia
abusar da sorte.

Senta no banco da pra�a, fica olhando o jornal que come�ou a
ler no bar, a fotografia da mulherzinha do sargento fazendo cara de
medo e se remexendo. Ah, como foi bom! Melhor do que com Sandra.


Com aquela, sim, gostaria de ter ficado um temp�o. Ou ser� que
Sandra sabia fazer melhor e n�o fez por que n�o quis?

A velhota empurra o carrinho com a crian�a, o menino d� voltas
de bicicleta ao redor do busto de cobre, cagado de pombo, Toninho
termina de examinar o jornal. O detetive Silveirinha parecia t�o astuto
quanto Galv�o. Dizia at� coisas semelhantes. Vai ver, conversavam
� be�a sobre os casos que estavam pesquisando. 0 perito Rui
Lobo tinha uma conversa diferente. Falava de detalhes que n�o entendia.
Onde queria chegar, quando afirmava estar levantando dados
que fatalmente levaria ao criminoso? Teria encontrado alguma prova?
Teria Enfezado deixado cair algum papel, algum documento? Vai
ver, foi na hora em que subiram para apertar o travesseiro na cara
do velhote. Enfezado saltou em cima da cama, prendeu-o com os
joelhos. Nesse momento teria ca�do alguma coisa dos seus bolsos?
N�o acreditava. N�o tinha documento nem nada. Ou foi atrav�s das
flores? Descobriram que as rosas foram compradas por dois garotos?
Como seria poss�vel, se a loja ficava longe de onde morava o sargento
Beto? N�o acreditava. Vai ver, aquilo tudo era conversa fiada de
policial que n�o tem o que dizer, quer aparecer dando entrevista. A
nota do pai, com a foto, n�o sa�a. 0 puto do crioulo mandou botar
na lata de lixo. Tinha vontade de voltar ao jornal, saber o que aconteceu.
Se o careta tivesse rasgado? Exigiria que devolvesse. Se procurasse
engrossar, ficaria esperando o mulato sair. Ia atr�s, acabaria
f�cil com ele. 0 que custava? Bem que merecia. Sente o corpo estremecer.
N�o entendia como as pessoas eram ruins. Como prometiam
fazer as coisas e n�o faziam. Afinal, o que custava, se sa�a tanta
porcaria naquela merda de jornal? Um assunto que resolveria mais
tarde. Quando tivesse em condi��o. Talvez n�o fosse pessoalmente
falar com o mulato. Seria muita afronta, contrataria Enfezado. S�
aparecer, botava no caso. N�o queria a foto de volta, queria o mulato
com uma bala na testa.

O garoto na bicicleta passa perto, Toninho acompanhando sua
habilidade. Entendia daquele geringon�a. Ora ficava de p� com o guidom
solto, ora subia no selim, a bicicleta sempre em disparada. Pequeno
danado! Deve ter levado boas quedas at� aprender aquilo tudo.
A velhota de vez em quando parava de empurrar o carrinho reclamava
com o menino.

Toninho atravessa a rua, entra no bar, pede um cafezinho, uma
carteira de cigarros, vai at� a banca. Compra os vespertinos. Retorna
� pra�a. Agora, satisfeito. Logo na primeira p�gina, em grandes letras,
a morte do motorista. A mat�ria dizia que o corpo fora encontrado
de manh�, por volta das seis. No carro n�o acharam qualquer
documento que pudesse identificar a v�tima. Olha a fotografia do
crioulo, v� que n�o estava emborcado para o lado esquerdo, como
deixara. Havia escorregado, nauralmente, ou tentou erguer-se, sair


do t�xi? No segundo t�pico entravam o detetive Galv�o e seus auxiliares.
L� atentamente. Como da vez anterior, dizia tratar-se do mesmo
criminoso. E o apontava como respons�vel pela morte de pelo menos
cinco profissionais. Isso deixava Toninho irritado. Por que mentia?
O detetive afirmava que, em todos os casos, os carros foram encontrados
com as portas fechadas, o r�dio tocando. Ora, como podia ter
acontecido coisa semelhante com os tr�s outros t�xis? Aquele detetive
era maluco ou tava querendo confundir? Vai ver, os crimes
anteriores foram diferentes; queria igual�-los, pra criar uma situa��o.
Qual seria a jogada? Quem seria ele? Como faria pra conhec�-
lo? Achava uma falha dos rep�rteres nunca fotografar o policial.
Tinha quase certeza de que estava preparando uma armadilha. Nas
p�ginas internas, com igual destaque, o retrato-falado do que seria o
suspeito. Aquilo tranq�ilizava bastante o garoto. O desenho era de
um homem de certa idade, �culos de aro de metal. Um tipo magro,
olhar severo. Pouco cabelo, traje esporte. A mat�ria se referia aos
especialistas que tinham elaborado o retrato-falado. Toninho leu e
releu essa parte v�rias vezes. Seria aquilo mesmo ou tamb�m n�o
passava de uma jogada? Em que se basearam pra chegar � conclus�o
de que o matador era um tipo como aquele? �culos, ar um tanto apalermado?
Desconfiava. 0 detetive bem que podia seguir numa pista
e o retrato-falado n�o passar de disfarce, boi de piranha, como diria
Banda Branca. Aprendera a desconfiar dos tiras. Viveu muito tempo
perto do alcag�ete para acreditar em qualquer um deles. Dona Julinha
entregou todo seu dinheiro para Banda Branca pagar a conta
da m�quina de costura, o sacana sumiu; mestre T�bor pediu que
recebesse a pens�o, nunca mais viu um tost�o. 0 alcag�ete comendo
Beatriz, se aproveitando de Marta. Tipo ordin�rio. At� seu Greg�rio
desconfiava dele. E olha que seu Greg�rio bem que se dava com o
puto. Banda Branca subia e descia as vielas, quase ningu�m falava
com ele. Sempre que aparecia pelo morro, logo depois surgiam
os soldados, os investigadores. Traziam c�es, metralhadoras, pistolas

45. Invadiam os barracos, arrancavam portas a pontap�s, batiam em
mulheres e meninos, tiravam trabalhadores da cama, s� de cueca,
metiam de m�os amarradas no cambur�o. Tudo arruma��o de Banda
Branca. Entrava ano, sa�a ano, Banda Branca fazendo das suas. E
n�o havia um s� careta por ali, com peito de dar fim nele. 0 desaparecimento
do velho teria ocorrido longe do morro ou Banda Branca
tava metido, sabia como se deu? Portanto, como ter certeza se o
detetive Galv�o acreditava mesmo naquele retrato-falado?
Quando se d� por satisfeito de ler e reler a mat�ria relativa ao
motorista assassinado, Toninho vira as p�ginas. J� n�o h� qualquer
not�cia sobre o suic�dio de Marlene. Em compensa��o, novamente os
policiais voltaram a falar na morte da mulher, no pai do sargento
Beto. Desta vez a fala��o do perito Rui Lobo tornara-se alentada. To



mava quase a coluna inteira. E, � propor��o que lia, Toninho alarmava-
se. N�o podia ser! O perito afirmava que os matadores da mulher
e do velhote seriam dois. Os mesmos que trouxeram as flores. Encontrou
diferentes tipos de espermatoz�ides e as impress�es no papel
laminado, que embrulhava as rosas, eram claras. Por que permitiu
que o velhote maluco embrulhasse os talos com aquilo? Como ia
imaginar semelhante detalhe? Agora, o perito se alongava sobre isso
e com uma seguran�a absoluta: h� tr�s tipos de impress�es no papel:
dois deles devem pertencer aos autores do crime. No trecho seguinte

o pr�prio vendedor de flores mencionava os pivetes. De uns 16 para
18 anos. Um moreno claro, outro crioulo. Um tava de sapato preto,
o outro de sapatos de pano, casaco de couro. Tem vontade de largar
o jornal, correr at� a pens�o, pegar mais dinheiro, comprar sapatos
de couro, outro casaco. Ao mesmo tempo a mat�ria prossegue, n�o
sabe como interromper a leitura. Na afirma��o do perito de que o
caso estaria desvendado nas pr�ximas horas, o garoto sente um frio
na espinha e a necessidade dram�tica de subir logo o morro, procurar
vov� Jandira e mestre T�bor. saber a respeito de Enfezado. Se por
acaso o maluco tivesse retornado? Quem poderia saber? Importante
que fosse l�, aproveitasse enquanto os tiras estavam na base das suposi��es.
Mesmo assim trataria de aproximar-se com cuidado. Se desse
de cara com Banda Branca a� seria tarde. No m�ximo falaria com
seu Greg�rio, procuraria not�cias do pai. N�o se arriscaria, indo ao
barraco de mestre T�bor.
Entra no quarto, mete-se por baixo do guarda-roupa, tira o dinheiro
que julga necess�rio para a compra de um par de sapatos e
um novo casaco. Completamente diferente do que vinha usando, embora
com bolsos fechados a z�per, a fim de ocultar melhor o rev�lver.
N�o se aventuraria a ter qualquer casaco, pois dificilmente se acostumaria
a usar a arma na cintura. E mesmo que se acostumasse, seria
perigoso.

Enfia as c�dulas no bolso, guarda a chave do cofre, vai para a
rua. Toma um t�xi, segue na dire��o do morro. Mas n�o fala ao
motorista sobre seu destino. Manda que o deixe perto da panificadora
Royai. Dali continuaria a p�. Na volta, entraria nas lojas, escolheria

o casaco e os sapatos. � noite, quando sa�sse, estaria completamente
diferente. Ningu�m poderia identific�-lo. Aquele perito se afobou ao
tentar surpreend�-lo. Termina a rua de asfalto, chega ao trecho onde
havia uns restos de cal�amento, depois a estrada de terra, os arbustos
seus conhecidos, a estrada se estreitando numa viela �ngreme, por
onde passara tantas vezes, com sol e com chuva. Come�a a subida,
encontra v�rias mulheres que est�o descendo, nenhuma o conhece,
dois caras passam, um deles gingando com a pesada maleta de ferramentas.
138


De longe avista a cerca do casebre de vov� Jandira. A mesma
de sempre, casquinhas de ovo na ponta das estacas. Vov� Jandira
acreditava que aquilo dava sorte. Bate na porta, amea�ando soltar
das dobradi�as, a velhinha de ar alegre e olhos mi�dos aparece. Sorri
quando o v�, manda que entre. Toninho diz estar de passagem, pergunta
se tem visto Enfezado.

� Nunca mais apareceu. Talvez teja trabalhando por a�.
Pergunta pelo barraco dos pais, vov� Jandira fala da fam�lia
querendo alugar.

� Disse pro mo�o esperar, at� voc� aparecer!
� Ainda t� querendo?
� Acho que sim. Ontem mesmo veio saber. . .
� Pode alugar, vov�. O dinheiro a senhora vai guardando.
� Por quanto, filho?
� Quanto ele puder dar.
A velhinha sorri.
� Gosto de voc� por isso. Sempre pensando nos outros!
Vov� Jandira mete-se nos fundos do barraco, Toninho escuta
ru�dos de panelas, de x�cara. N�o tem d�vida de que est� preparando

o caf�. N�o adianta recusar. De uma forma ou de outra ela trar�.
� Tem ouvido falar do Banda Branca?
A velhinha responde sem se voltar.
� Fui anteontem na tendinha de seu Greg�rio, vi ele por l�. O
mesmo de sempre. Outro dia chamou a pol�cia pra prender o filho
de seu Joca. Se lembra dele? Joca de dona Mariazinha?
� Tou lembrado. 0 que foi que ele fez?
� N�o se sabe. � bom menino. Nunca se meteu em encrenca.
Seu Joca t� em tempo de ficar doido.
� Esse Banda Branca precisa levar uma li��o. Vai ver, o garoto
n�o quis entrar na dele, tratou de se vingar.
� como faz sempre!
Vov� Jandira aparece com a x�cara de caf�.

� E voc�, filho, o que tem feito?
� Por a�! Ora fazendo uma coisa, ora outra. H� umas semanas
fui na reda��o de um jornal pedir uma not�cia sobre o desaparecimento
do pai. A senhora pensa que saiu alguma coisa? Saiu nada.
N�o t�o ligando pra favelado.
� �! Mas pode deixar que Deus castiga, filho.
� N�o sei, n�o, vov�. Entra ano, sai ano, Banda Branca t� cada
vez melhor de vida. Acabou com Colher de Pau, aleijou Enfezado,
sumiu com o filho de seu Joca, desconfio que t� dentro do sumi�o
do pai.
� N�o diga tolices menino! N�o desfa�a da vontade de Deus!
Toninho sorri, a velhinha leva a x�cara, reaparece falando no
aluguel do barraco.


� Quer dizer que se o mo�o aparecer, posso dizer pra mudar!
� Isso mesmo. A senhora fica recolhendo o dinheiro.
Despede-se de vov� Jandira que vai com ele at� o port�o de
t�buas apodrecidas, preso com peda�os de arame. Continua a subir a
viela, tomara n�o encontrar com Banda Branca, nem seu Greg�rio

o veja passar. N�o sabe por que, n�o gostaria de falar com o negociante
daquela vez. Como bem lembrava Enfezado, era um tipo que
dava pra suspeitar. Aproxima-se da birosca, h� um carro de entregas
na porta, algumas pessoas junto ao balc�o. Passa sem ser visto, o
birosqueiro ocupado com as mercadorias. Nesses momentos n�o dava
aten��o a ningu�m, temendo ser ludibriado pelos entregadores.
Continua subindo, sai na viela do rego e dos porcos fu�ando na
lama, passa pela casa de dona Julinha, uma por��o de roupas estendidas
em cordas e nas cercas, chega ao barraco mais pobre. As janelas
de madeira sem pintura, enegrecendo de sol e de chuva, t�buas encascoradas
de massa de cimento servindo de porta. Bate a primeira vez,
a segunda, ouve ru�dos. Uma das t�buas � afastada, aparece o rosto
envelhecido de mestre Tibor.

� Quem �?
Toninho tem pena de encontrar mestre Tibor naquele estado.
A menos de um metro de dist�ncia e n�o conseguia v�-lo.

� Sou eu, Toninho!
0 velho faz um sorriso, por um momento o rosto negro se
ilumina.

� Entra filho. Chegou em boa hora.
0 homem move-se pelo barraco com desenvoltura, mas sempre
apoiando-se nas paredes, nos m�veis, nos v�os das portas. Procura
pegar um banco, Toninho n�o deixa.

� Eu pego. N�o se incomode!
� Como t� o mundo l� por baixo?
� Cada vez pior. S� gavi�o e �guia de pedreira.
� Passou pela tendinha de seu Greg�rio?
� Passei mas ele n�o me viu.
O velho oper�rio tem os olhos fixos num ponto qualquer.
� 0 senhor t� melhor?
Coisa nenhuma! Antigamente ainda via um vultozinho. Agora,
nem isso. Mas me conformo com a vontade de Deus.

� E Enfezado?
� Teve outro dia aqui. Disse que tinha feito um acerto contigo.
A�, nunca mais!
� Veio algu�m procurar por ele?
� S� o Banda Branca. Contou umas lorota, foi embora.
� Que foi que disse?
� Nada. Era s� com Enfezado. N�o sei o que t� arranjando
dessa vez!

Toninho sabe que o alcagiiete j� deve estar sintonizado no caso.
N�o h� que duvidar. Dali em diante toda cautela seria pouca. Mestre
T�bor fala mais coisas a respeito de Enfezado, Toninho n�o est� prestando
aten��o. Quando se despede, o serralheiro continua sentado
im�vel, como uma pe�a do pobre mobili�rio daquele barraco.

Desce as vielas, olha os garotos que empinam papagaios, mulheres
velhas lavando roupas. E se falasse com seu Greg�rio? Que teria pra
dizer? Ser� que Banda Branca se abriu com ele e o negociante passaria
a pedra adiante? Tinha d�vida mas n�o via por que n�o arriscar.
N�o tocaria no nome de Enfezado. Deixaria o homem falar. Contaria
apenas que tinha ido ao jornal, colocar a not�cia do desaparecimento
do pai. Perdeu um temp�o e n�o saiu nada. Ia voltar l�, pegar a
fotografia, fazer nova tentativa.


Cap�tulo VIII

UM

O delegado Paranhos termina de atender a mais um telefonema.
N�o est� nos melhores dias. J� gritou com o escriv�o, espinafrou o
chefe da equipe que trabalha h� duas semanas no seq�estro do filho
do industrial.

� N�o adianta, seu Nestor. De relat�rio bem feito, ando cheio.
Quero a��o! Quero, na minha frente, o autor do seq�estro. Lhe dei
mais tempo do que devia e at� agora n�o se sabe de coisa nenhuma.
N�o se tem uma pista sequer. Qualquer rep�rter por a� sabe mais do
seq�estrador do que a gente. Hoje mesmo os jornais t�o afirmando
que um tipo suspeito, parecido com o seq�estrador, foi visto num
bar em Santo Cristo e o senhor n�o sabia. N�o l� nem os jornais. Onde
j� se viu uma coisa dessa?
A velhota pintada, cabelos tingidos de cinza-azulado, aproxima-
se da mesa de Paranhos. Traz diversos n�meros do Di�rio da Justi�a.
Ele manda colocar sobre a cadeira, pois na mesa n�o cabe mais nada.
0 cont�nuo traz a bandeja de caf�, p�e a x�cara na frente do delegado,
fica esperando que ele pingue sacarina. N�o toma caf� com a��car,
tem horror de engordar. Aperta a tecla do interfone, manda que o
detetive Galv�o entre. Aparece na sala um homem alto, rosto marcado,
angustiado, cara de quem est� sem dormir h� dias. 0 detetive
beira 55 anos, veste um terno surrado, o n� da gravata nunca ajustado
ao colarinho. Paranhos tomou o primeiro gole de caf� quando
Galv�o se senta. Ambos t�m absoluta intimidade, mas aquele � um
dia em que o delegado acordou com o C�o no couro. Paranhos termina
o cafezinho, o cont�nuo recolhe a x�cara, o telefone toca, leva

o fone ao ouvido, desliga.
� � algu�m nos gozando. Talvez um coleguinha. T� perguntando
se � aqui o clube dos amigos da pol�cia. Que acha disso?
Galv�o acende um cigarro, encolhe os ombros, vai direto ao
assunto, pois sabe que � a isso que Paranhos est� se referindo.


� Com o material que se tem, acho que se t� fazendo milagre.
De madrugada pude cochilar um pouco, depois das 3. A essa hora,
vou apostando, a pol�cia inteira tava dormindo.
� Isso n�o justifica porra nenhuma! Trabalho bra�al n�o � o
nosso forte. Se tem de botar a merda da cuca pra funcionar. Que
adianta sair zuretando por a�, se at� hoje n�o se tra�ou um plano?
� Se acha que a coisa t� nesse p�, o melhor � convocar outro
cara. Quem sabe, um detetive com pr�tica de desenho? Assim os
planos ficar�o mais bonitos!
A resposta de Galv�o deixa Paranhos indignado. Levanta-se, vai
� janela, volta-se.

� N�o t� sendo inteligente, Galv�o. Desde o come�o que lhe
avisei. 0 Itamar � boa gente mas s� serve pra ser mandado. Vai l�,
pega o cara e traz. Isso � com ele. Quando n�o tem ningu�m pra
pegar, Itamar se perde. � o que t� acontecendo. Voc� � que n�o quer
admitir.
� Quem � que se tem melhor do que ele? Os que v�o pra rua
procurar criminoso e terminam recolhendo grana em ponto de bicho?
� isso que deseja? Pois fique sabendo que n�o trabalho com esse
tipos. Posso n�o descobrir porra nenhuma, mas n�o meto a m�o na
merda.
� N�o me venha com essa onda! Se conseguiu escapar do suborno
dos bicheiros, envolveu-se at� o pesco�o com o "Esquadr�o", ou
pensa que o pessoal de cima esqueceu? E � exatamente isso que t�o
me cobrando. 0 secret�rio t� me apertando. H� duas semanas venho
bolando desculpas. Agora n�o d� mais. � preciso que entenda!
Paranhos faz uma pausa, um investigador entra na sala, manda
que o procure depois. Aproxima-se novamente de Galv�o. Fala em
tom baixo e calmo, como se o estivesse aconselhando.

� Os motoristas t�o se reunindo. Pediram assembl�ia extraordin�ria
do Sindicato pra tratar do assunto. Sabe quantos deles morreram
desde o come�o do m�s pra c�? Oito. Galv�o. T� pior do que
na guerra!
� N�o foi na nossa jurisdi��o!
� N�o interessa! 0 secret�rio n�o v� o problema em partes, v�
no todo. Se tem de evitar o clamor p�blico e que esses malucos resolvam
parar os t�xis durante uma semana, numa greve de protesto
por causa da nossa incompet�ncia. J� imaginou a pol�cia dar margem
a uma greve? Sabe h� quanto tempo n�o h� greve neste pa�s?
Galv�o esmaga a ponta do cigarro no cinzeiro, tira o len�o amassado
do bolso, esfrega no rosto. Paranhos n�o parou de falar.

� Pra que tenha uma id�ia, as coisas t�o neste p�: ou se
prende o matador louco, ou vai haver uma s�rie de mudan�as nesta
Delegacia. No meio das mudan�as o secret�rio promete tocar pra
frente tudo que � de processo pendente contra policiais daqui e de

outros setores. Vai entregar todo mundo pra Justi�a. E sabe quem
encabe�a a lista? Voc�!

� Isso � chantagem desse sacana!
� Pode considerar como quiser. � o que vai acontecer. Mas, pra
que n�o pense que tou armando um esquema de degola, pedi mais
uma semana de prazo. N�o se quer nem que prenda o matador
louco. Se quer uma pista. Ao menos uma pista. Chega de retrato-falado,
de conversa fiada. Quero coisa concreta. A� volto no homem, ponho
as cartas na mesa. 0 caso t� levantado, preciso de mais gente pra
agir. Se n�o aparecer essa pista, n�o temos sa�da.
O interfone chama. Paranhos aperta uma tecla. Galv�o acendeu
outro cigarro. Est� com o rosto ainda mais sombrio, mant�m-se de
pernas cruzadas, como de h�bito.

� Pode falar, excel�ncia!
Paranhos escuta, faz uns sorrisos que Galv�o considera indecentes.
Nunca imaginara que o amigo fosse se transformar num filho
da puta. Nos tempos em que sa�am juntos para dilig�ncias, era um
cara independente, com personalidade. Todavia ali estava, dobrando-
se em risinhos desnecess�rios, pelo simples fato de falar com um
dos grand�es de algum gabinete refrigerado, com secret�ria de pernas
bonitas, a florzinha no jarro de cristal, o ch�o atapetado, cortinas,
poltronas confort�veis.
Paranhos termina de falar, debru�a-se na mesa, cruza os bra�os,
torna a encarar Galv�o que, a essa altura, sente-se enojado. Suado e
cansado como est�, n�o d� mais para ag�entar aquele jeito do delegado,
unhas polidas, cabelos bem penteados, a camisa impecavelmente
branca. Parece um diplomata na paz do Itamarati.

� � o chef�o. Me convocando pra reuni�o depois de amanh�.
O pessoal do sindicato o procurou. A greve vai ser feita, se at� semana
quem vem n�o se descobrir quem � o matador louco.
� Pois j� que t� reclamando tanto, tenho umas coisinhas pra
lhe dizer. N�o ia tocar nisso, pra n�o entrar no terreno da burocracia.
Acontece que se t� afundado nela e n�o vai sair nunca.
� Acha que nesta Delegacia estimulo a burocracia?
� N�o tou falando de sua atua��o. Me refiro ao contexto. Ao
pessoal da per�cia, por exemplo. Esse bandido que t� abotoando motorista,
tem um estilo pr�prio. J� lhe disse qual � e torno a repetir:
fecha os carros, leva as chaves. Sabe o que isso significa? Que se
chega primeiro ao local, fica fazendo hora, at� que as sumidades da
T�cnica apare�am. E quando surgem � aquele ritual. Cada um com
mais teoria que o outro. Depois que remexem na merda do carro, como
bem entendem, a� d�o pra gente o que sobra. Nessa base, que porra �
que deseja que se fa�a? Ou pensa que sou algum idiota?
Paranhos n�o se assusta diante da exalta��o do detetive.


� Por que n�o chamou o setor competente e denunciou?
Galv�o puxa uma tragada do cigarro, levanta-se, vai at� a janela.
� N�o � meu papel. Compete a voc� tomar as provid�ncias. N�o
tenho saco pra esse tipo de coisa. V�o pensar que tou de marca��o
com eles.
� Pois ent�o me comunico agora mesmo com o chefe da Divis�o.
Dou um esporro nele!
Galv�o p�e uma das pernas na ponta da mesa, contrai um pouco
os olhos cansados, por causa da fuma�a do cigarro.

� Mesmo assim n�o adianta.
� E o que � que adianta?
� Quero uma semana, sem hor�rio de vir aqui. nem merda
nenhuma! Garanto que chego ao fio da meada. Eu, Itamar e Nogueira.
N�o desejo outro pessoal. Sabe muito bem que n�o trabalho
com qualquer um. Nesses dois pelo menos confio. Sei com quem tou
lidando.
Paranhos torna a sentar, pega o bloco timbrado, escreve uma
ordem de servi�o. Entrega o papel com umas poucas palavras a
Galv�o.

� A� est�! Viatura e gasolina, durante uma semana. Pode
abastecer a qualquer hora do dia e da noite.
Galv�o l� com calma, v� o quanto Paranhos est� apavorado. Tem
at� vontade de rir. Dobra o papel, p�e no bolso.

� Se chegar de fato ao fio da meada, vai acontecer mais outra
coisa a seu favor: uma semana de f�rias. Pra voc� e os auxiliares.
� Caso contr�rio. . .
Paranhos faz um riso nervoso.
� Sei que n�o � f�cil, Galv�o. Quantas vezes se saiu por a�,
quebrando a cabe�a. Acontece que o secret�rio fica entre o Diabo e
a caldeirinha. Se cai do galho, por causa dessa situa��o, todos n�s
vamos nos estrepar. Duvido que venha outro melhor!
Galv�o sai do gabinete, o investigador gordo pede licen�a, torna
a entrar. No barzinho, sal�o escuro e malcheiroso, paredes descascando,
uma �nica l�mpada no teto alto, o detetive encontra Itamar
e Nogueira. Itamar convida para uma coca-cola. Galv�o est� irritado.

� Preciso de algo mais forte. Vamos l� fora.
Entram no bar do portugu�s, na esquina da rua movimentada,
engradados de cerveja se alteando do lado de fora da cal�ada, tremenda
sujeira no ch�o, o balc�o entupido de copos vazios e garrafas,

o homem amarelo passando o pano sujo no balc�o.
� Sai um conhaque e tira-gosto!
Nogueira pede batida de lim�o. Itamar uma velha do morro.
0 portugu�s serve as doses, Galv�o torna a esfregar o len�o no rosto,
pois a manh� est� quente e ele continua irritado.

� Deu uma semana e carta branca pra se botar pra quebrar.

Toma o primeiro gole do conhaque, limpa os bei�os com as costas
da m�o.

� Sabe o que vou aprontar?
Os companheiros est�o atentos.
� No primeiro caso que houver, se abre o carro, depois � que
se chama as sumidades. Puta que pariu pra eles! N�o vou mais ficar
levando esporro por causa daqueles merdas.
� Se der processo?
� Foda-se! Mais encalacrado que j� ando n�o � poss�vel ficar.
Paranhos quer o fio da meada, de qualquer jeito. T� pior que cachorro
doido.
� Numa semana se consegue? � indaga Nogueira.
Galv�o parece ter d�vida, Itamar tamb�m.
� 0 sacana do criminoso n�o deixa nem impress�o. E, pelo
visto, n�o h� qualquer ficha a respeito dele.
� Ainda pensa que seja Nezinho Metralha?
� Porra nenhuma. Aquilo � um merda. P� inchado. Abotoou
num motorista na cagada. O artista que tamos enfrentando � diferente.
Sabe jogar.

� Qual o primeiro passo?
� Pedir socorro pra turma do bicho, passar a cantada no pessoal
das bancas de jornais, nos porteiros de pr�dios. Cavar de todo
lado. Al�m disso, tenho uma outra id�ia: nessa semana que se tem
carta branca, vou convocar uns vinte t�xis pra ficar rodando com
gente nossa. Pode ser que num desses carros o bandid�o entre. Ai t�
ferrado.
Nogueira acha a id�ia brilhante, toma o resto da batida, manda

o portugu�s repetir a dose.
� � uma boa!
� N�o tinha pensado nisso � diz Itamar.
Galv�o sente-se vaidoso outra vez.
� Foi a primeira coisa que imaginei. Me manquei, pro Paranhos
n�o ficar armando escada nas minhas costas. Chega de servir
de tapete dessa ra�a. Era nosso amigo, enquanto sa�a pras dilig�ncias;
depois da promo��o mudou de cara e de estilo. De uns tempos pra
c� t� sempre entonado, unhas polidas, falando como se a gente fosse
cachorro. Descubro a porra desse caso, mas vou querer oitenta por
cento da gl�ria pra minha equipe. O doutor secret�rio vai saber que
se botou pra jambrar.

DOIS

Madrugada alta a viatura chega na ruazinha da vila, p�ra na?
frente da casa porta-e-janela, o jardinzinho de nada, na beira da
cal�ada esburacada. 0 sil�ncio � completo, as l�mpadas amortecidas
nos postes, odores da polui��o no ar.

Galv�o salta, abre o port�o de ferro, Nogueira manobra o carro.
Quando entra na sala t�o familiar, repleta de objetos que o acompanhavam
atrav�s dos anos, ainda escuta o ru�do do motor se distanciando.
Depois, os chiados caracter�sticos da refinaria. Embora extremamente
cansado, n�o est� com sono. Se cair na cama, vai ficar rebolando,
pensando numa por��o de coisas: no esporro de Paranhos,
na afli��o do secret�rio, na burocracia dos peritos, na sacanagem do.
criminoso que abotoava motoristas e fechava os t�xis.

Liga a televis�o, s� uma esta��o ainda no ar. Fica vendo um
resto de filme, abre o barzinho, tira a garrafa de u�sque. Vai at� a
geladeira, p�e alguns cubos de gelo no copo. Talvez, assim, conseguisse
relaxar. As palavras de Paranhos continuam nos seus ouvidos.
N�o entendia como aquele sacana podia falar mal de Itamar. Imagine
s�! Depois de tudo que Itamar fez por ele. Quando virava as costas,
devia dizer o mesmo. Ora se dizia. Sente o quanto se enganara com

o amigo de tantas investiga��es. � o diabo do cargo. Quem quiser
conhecer um cara, d�-lhe um pouco de poder. Mas haveria de encontrar
um meio de tapar-lhe a boca. E n�o ia aceitar camaradagem. Nem
elogios. Diria alto e em bom som ao secret�rio: n�o aceito elogios.
Cumpri com meu dever. Sou um policial que ainda cumpre com seu
dever. Que entendesse como quisesse. Estava cansado de aturar aquela
gente e suas manias, seus m�todos de pequenas e constantes humilha��es.
Se quisessem mandar os processos que tinha para a Justi�a, que
mandassem. N�o se arrependia do que fez. Queimou os quatro vagabundos
por que eram bandidos. E bandidos da pior esp�cie. Se n�o
fizesse isso eles seriam soltos. Se passa um temp�o atr�s de um marginal,
mete o safado na chave, a Justi�a manda embora. N�o entendo,
isso. Nem quero. Cansei.
Estira-se na poltrona, toma um gole refor�ado do u�sque, sente
um instante de al�vio. Ah, como seria bom o dia em que pudesse ficar
naquela poltrona, horas e horas, sem obriga��es a enfrentar. E com
mais cinco anos de atividade chegaria l�. A aposentadoria mais merecida
que um crist�o j� teve. Nunca mais botaria os p�s numa
Delegacia. N�o visitaria ningu�m. Na pol�cia n�o se tem amigos.
Cada um por si, Deus por todos. S� se � importante quando se t�
por cima, arriscando a vida por causa da cambada que deita �s dez,
acorda �s 8 da manh�, reclamando da vida. Pelo fato de n�o descobrir
o arrombador do escrit�rio do burgu�s que exportava caf�, levou


uma chamada e cinco dias de suspens�o. Ora, na verdade o assaltante
era menos criminoso que o exportador, que dava trambique no Estado
de todo jeito. Queriam a verdade, pois ali estava. Quem n�o
gostasse que se danasse. Onde andaria o tal exportador? Ser� que
houve de fato um arrombamento ou aquilo foi tudo forjado? At�
hoje n�o sabe direito e por causa disso terminou se ferrando. A puni��o
no boletim e os cambaus.

P�e mais u�sque, toma tranq�ilamente. Procura esquecer os
problemas do dia-a-dia. N�o queria mais lembrar Paranhos, nem o
superintendente, nem o chef�o supremo. Esse tinha o rei na barriga.
Entrava governo, sa�a governo, estava sempre agarrado no cargo. Um
picareta da pior esp�cie. Malandragem em cima de malandragem.

Galv�o olha as paredes da sala. o lustre mostrando teias de aranha,
m�veis que n�o mudavam de posi��o h� bastante tempo. Quando
Julieta estava viva, aquilo era mantido em constante altera��o. Ora

o sof� do lado da janela, ora no meio da sala, junto � mesinha de
centro, coberta de bibel�s. As cortinas tamb�m mudavam. Havia dia
que chegava em casa, n�o reconhecia a sala. Aquilo o animava. Uma
sensa��o nova. S� Julieta sabia daqueles detalhes que o agradavam.
Por que, com tanta gente ordin�ria no mundo, Deus foi levar exatamente
Julieta, que n�o fazia mal a ningu�m? Pobre Julieta! Quanto
trabalho perdido naquela salinha de nada que, agora, apresentava o
aspecto mais desleixado do mundo! O sof�, meses e meses encostado
na parede, rasgava-se. arrebentava o reboco. �s vezes, olhando o estrago,
tinha vontade de evitar, faltava coragem. Pra que se preocupar
com aquela casa, onde lhe aconteceram tantas coisas, onde ainda entrava
por que n�o havia outro jeito?
Nos retratos emoldurados, os momentos distantes. Julieta e ele
na pra�a Mahatma Gandhi, atravessando a pontezinha por cima do
lago, Sandra com oito para dez anos. Uma menina bonita. Os amigos
compareciam �s festinhas de anivers�rio, n�o se cansavam de dizer:
parece mais com a m�e. Outros tinham d�vida: tem os olhos e o
nariz do pai. Galv�o ainda ouve aquelas coisas, como ouve os chiados
da refinaria. Dia e noite aqueles chiados e o cheiro dos res�duos de
petr�leo. Como � que deixaram acontecer aquilo com S�o Crist�v�o,
um dos bairros mais bonitos da cidade? N�o podia compreender. Logo
que mudaram para a casinha da vila, S�o Crist�v�o parecia um jardim.
Os gramados desdobravam-se em verde e os p�ssaros voavam em
bandos. Na rua Bela surgiram as primeiras oficinas. As imobili�rias
fizeram as primeiras derrubadas de casar�es que relembravam tantas
coisas. Cada prefeito dizendo que as medidas de prote��o ao bairro
estavam tomadas, as empreiteiras roendo por baixo, na moita. Agora,
era aquilo ali. Uma oficina em cada quarteir�o, uma garagem de
�nibus, serralherias e as grandes usinas e refinarias. N�o havia mais

o que fazer. 0 melhor seria esperar a oportunidade, passar a casinha

nos cobres, comprar um apartamento pelo Centro. Lamentava, apenas,
que ali ficassem as melhores recorda��es. E, na verdade, n�o saberia
como viver sem elas. Numa noite como aquela, em que o sono n�o o
acompanharia, nem bebendo toda a garrafa de u�sque, ficava vendo
Julieta mexer-se no assoalho polido. Tirava os panos bordados da
c�moda, chamava Sandra para ajudar. Depois, trazia o jarro com
as flores.

� S�o do jardim. N�o disse que iam ficar bonitas!
Olhava as rosas. N�o sabia como Julieta conseguia cultiv�-las.

A�. partia para as promessas descabidas. Um dia, quando melhorar

de vida, depois que chegar a delegado, vamos ter uma casa com ter


reno maior. Quero s� ver se ainda vai ter a mesma disposi��o pra flo


ricultura. Julieta sorria. Veio a �poca da promo��o, quem � que foi

promovido? Paranhos. Freq�entemente jantava com o secret�rio, man


dava-lhe cart�es de Natal, a cada filho que aniversariava enviava

telegrama. Galv�o n�o tinha jeito para esse tipo de coisa. Nessa base

n�o seria promovido nunca. Apelou para o concurso, estudou um ano

inteiro, veio a lei que sepultava esperan�as: Delegado, daquele ano

em diante, s� tendo cursado Faculdade de Direito. E foi o tempo em

que Julieta morreu. Passou uma temporada perdido. N�o sabe nem

como conseguia trabalhar. Uma vizinha se encarregou de Sandra,

mais tarde a empregada. Idiota de mulher que vivia resmungando e

batendo na crian�a.

Tenta parar o curso daquelas lembran�as, refor�a a dose de u�sque,
fixa-se na televis�o. Nesse momento o filme � interrompido,
aparece o comercial do rapaz forte e tranq�ilo, ao lado da mo�a de
cabelos louros e longos. Ambos desfilando numa lancha maravilhosa.
E s� ent�o nessa paz e nessa lancha porque fumam um determinado
tipo de cigarro. 0 an�ncio irrita Galv�o que tem vontade de desligar
a porcaria da televis�o mas n�o desliga. 0 filme recome�a, a mulher
que saiu para surpreender o marido em flagrante, num quarto de
hotel, conclui estar enganada. Tudo n�o passava de fuxicada da vizinha
e colega de trabalho. 0 marido est� no escrit�rio, desdobrando-
se em cima dos c�lculos, a fim de ganhar extraordin�rio. A mulher
se sente emocionada com isso. abra�a-se ao marido, mas na verdade
a amante est� no estacionamento, dentro do carro, esperando que o
cara apare�a. Galv�o tem vontade de rir. E a pobrezinha acreditando
naquela jogada.

Abre os bra�os no sof�, recorda o plano de convocar alguns motoristas,
diversos t�xis, coloc�-los nas ruas, a partir das 22 horas.
Rodariam especialmente na Zona Sul, onde o bandid�o parecia ter
concentrado sua a��o. Enquanto isso. fariam levantamento completo
nos pontos de bicho, bancas de jornais, junto a porteiros de edif�cios.
Alguma coisa teria de descobrir. Se n�o fosse poss�vel, prenderia o
primeiro cara que encontrasse, mandaria pau nele, faria confessar na


marra. Quando viesse o desmentido, seria outro dia, teria ganho
tempo. Mas quem podia servir de cobaia? Beberica u�sque, det�m-se
nessa possibilidade. Uma transa que n�o contaria nem a Itamar. Chamaria
o motorista de confian�a, mandaria fazer a mise en sc�ne. Pega

o passageiro, sai com ele. No primeiro movimento em falso, toca pra
Delegacia, d� o berro! 0 resto � por minha conta. Por que n�o pensara
nisso, antes? Ganharia mais algumas semanas, at� o imbecil desmentir
na Justi�a que confessou na base da porrada. E que motorista
seria esse, capaz de manter a boca fechada? Iria � garagem de
Lampreia, encontraria o cara certo. Gente de seguran�a.
� N�o posso pisar em falso. V� l� quem vai escolher!
Galv�o est� um tanto sonolento, mais por causa do u�sque que
j� tomou, quando percebe, com certa dificuldade, a interrup��o do
filme enfadonho, entrecortado de publicidades. Aparece o locutor, tamb�m
sonolento, para repetir uma not�cia dada anteriormente.

� Senhores telespectadores, como noticiamos em edi��o extraordin�ria,
s�o dois os motoristas abatidos pelo matador louco, esta madrugada,
na Zona Sul. O primeiro caso ocorreu na rua Gast�o Baiana,
em frente a um pr�dio em constru��o; o segundo em S�o Conrado.
Um dos profissionais � Jo�o Fortunato Ribeiro, o outro ainda n�o foi
identificado.
Galv�o sente um princ�pio de p�nico. Que estaria acontecendo
com aquela televis�o? Seria verdade o que dissera o locutor, ou havia
bebido demais? Pega o telefone, liga para a emissora. 0 tipo que
atende n�o demonstra a menor boa vontade. Nem Galv�o dizendo
que � da pol�cia. Espera um temp�o, at� que um outro sujeito atenda.
O entendimento torna-se mais f�cil. O funcion�rio confirma o notici�rio.
Galv�o apavora-se. Como adivinhar semelhante aud�cia? E onde
encontrar Itamar e Nogueira �quela hora? Telefonar para a Delegacia?
N�o! Isso, n�o! Seria o mesmo que dizer estar por fora, n�o
saber do caso que era de sua inteira responsabilidade. Imagina o banho
frio, o caf� quente, o t�xi para casa de Itamar. De l� apanhariam
Nogueira, a viatura, iriam em frente. N�o podia deixar que Paranhos
se movimentasse primeiro. Levaria outra esculhamba��o e, dessa vez,
com raz�o.

Tira a roupa, aumenta o volume da televis�o, mete-se no banheiro.
A lengalenga da mulher e do marido se alonga. Nunca vira
filme mais chato. 0 tipo da hist�ria sem p� nem cabe�a! 0 diretor
queria criar uma situa��o dram�tica, n�o conseguia. Diretor de merda,
imagina Galv�o abrindo o chuveiro. Qualquer filme nacional era
melhor que aquela besteira. N�o sabe por que a televis�o s� passa
filme estrangeiro e da pior esp�cie. O chuveiro � forte, aos poucos
vai se sentindo disposto, como no tempo em que acordava �s 8, Julieta
preparava o caf�, esquentava o p�o com manteiga. Sai do banheiro
embrulhado na toalha, tira o leite da geladeira, batem na porta.


Baixa a televis�o, pega o 38. abre a portinhola. A primeira cara que
v� � de Itamar. depois de Nogueira.

� Puxa! Ca�ram do c�u!
� Soube da cagada?
� Por acaso tava olhando televis�o, quando deu no notici�rio.
� �! 0 bicho tem ra�a. Expulsar dois planeta, numa noite s�,
n�o � moleza.
� Por isso que digo: n�o se t� lidando com um cara qualquer.
� um bandid�o, sabe o que faz.
� Chama o pessoal da T�cnica?
� S� pro caso de S�o Conrado. 0 motorista sem documento.
� Como sabe?
� Foi o que o locutor disse.
� Como soube, se os carros t�o fechados?
Galv�o p�e caf� nas x�caras, toma o copo de leite, olha Itamar
com certo espanto.

� Isso mesmo! Com os carros fechados, quem pode provar que
o motorista t� sem documento?
� A n�o ser que as sumidades tenham baixado por l� � acentua
Nogueira.
� Ser�?
� Vai ver Paranhos convocou na base da afoba��o.
� Ou t�o querendo passar por cima da gente!
� � melhor correr pros dois.
Galv�o toma o caf�, p�e a gravata.
� Mas n�o se vai chegar l�, assim de estalo. Aparece um, depois
o outro. Pra mostrar que se tava em dilig�ncia. Nada de entregar
ouro a bandido. T�o querendo ver nossa caveira.
O detetive desliga a televis�o, olha o rel�gio antes de colocar no
pulso. S�o duas e vinte da madrugada. Galv�o entra na viatura, resmungando.


� Isso l� � hora de algu�m pegar no trabalho. 0 doutor secret�rio
devia ver. E pra ganhar micharia!
� Esse ano, se n�o conseguir aumento, n�o sei como vai ser.
Tenho de arranjar um bico � diz Itamar.
� Se a gente bota a m�o no bandid�o. vou exigir uma porrada
de coisa: primeiro, aumento pra todos n�s; segundo, melhor condi��o
de trabalho.
A chuva fina emba�a o p�ra-brisa, Nogueira liga os limpadores,

o do lado esquerdo n�o funciona direito. As ruas est�o completamente
desertas. Por isso Nogueira pode aumentar a velocidade, Galv�o
adverte para o perigo de uma derrapagem.
� Vamos com calma que se chega l�. Se essa merda capota se
termina no Pronto-Socorro e Paranhos vai pensar que o acidente foi
planejado. De sacanagem!

� Primeiro S�o Conrado ou Gast�o Baiana?
� S�o Conrado. Esse neg�cio do carro fechado e o locutor dizer
que o motorista n�o tem documento t� me grilando.
TR�S

Galv�o, Itamar e Nogueira se aproximando do t�xi, lanternas
acesas, algumas pessoas por perto, o guarda-noturno que localizou o
corpo. O guarda-noturno p�e-se a falar, a repetir as mesmas coisas.
Itamar ouve, Galv�o n�o tem paci�ncia. Examina os vidros do lado
esquerdo, aperta o trinco, a porta est� travada por dentro. Vai para
o outro lado, mexe na tranca, a porta abre. Faz um exame r�pido,
n�o encontra os documentos do motorista.

� Olha aqui, chefe � diz Galv�o dirigindo-se ao guarda-noturno
� quem mais teve olhando o carro?
0 homenzinho magricela tenta enveredar por uma explica��o
longa, tortuosa, Galv�o corta seco.

� Responda o que tou perguntando. Quem meteu a m�o no
carro?
� Um pessoal de reportagem.
� Que jornal?
� Gente de televis�o. N�o me lembro qual delas. Deixaram a
Veraneio na pista, dois deles abriram o t�xi.
� Sabe como eram?
� Um baixinho, forte; o outro, mulato e alto.
� Demoraram?
� Uns dez minutos. A maior dificuldade foi baixar o vidro!
� Filhos da puta! Sou capaz de saber o nome deles s� pra
bronquear.
� 0 que adianta? � argumenta Itamar. � T�o na deles. Viram
o motorista morto, partiram em cima. Se fosse rep�rter fazia a
mesma coisa.
Galv�o morde os bei�os, lira um cigarro do ma�o, bate na
capota do t�xi, acende.

� As sumidades n�o v�o aceitar essa coisa de rep�rter. V�o
querer engrossar!
� Se aguarda a per�cia ou vai em frente?
� Em frente � responde Galv�o, enquanto torna a travar a
porta, levanta o vidro, fecha com for�a.
Quando j� v�o saindo manda Itamar pegar o nome do guarda-
noturno. 0 cara tenta esquivar-se, Galv�o interfere.


� N�o � nada demais! Se tiver de explicar que os rep�rteres
meteram a m�o no t�xi antes da gente, a� te convoco. Coisa de rotina!
O guarda-noturno sorri, d� o nome a Itamar, a viatura parte,
numa arrancada de cantar pneus. O dia come�a a amanhecer, a chuva
passou.

� Veja s�! At� rep�rter botando na bunda da gente!
� Foi cagada, cara! Vinham de algum lugar, deram com o
motorista morto!
� Claro. N�o podiam adivinhar � diz Nogueira.
Galv�o liga o r�dio, faz um comunicado � Central. Mais para
que soubessem estar em a��o.

� V�o pensar que n�o se t� mais nem dormindo!
� E n�o t�, mesmo. N�o tive nem tempo de chegar em casa.
Entrei no boteco do Zebrinha, tomei uma velha do morro, o r�dio
berrando a trag�dia. Tomei um t�xi, fui atr�s de Nogueira. N�o foi
isso?
Nogueira confirma e acentua.

� Eu ainda tive tempo de tomar um banho e jantar. Mas a�
Itamar apareceu.
� Se l� virando 24 horas por dia. Como os sacanas gostam. S�
que n�o se ganha pra isso. No fim do m�s � aquela micharia, com
tudo que � de desconto!
Na Gast�o Baiana o grupo de curiosos ao redor do t�xi � consider�vel.
Antes que a viatura estacione o detetive pede a Nogueira
que fique tentando o r�dio.

� Manda correr pra S�o Conrado. Quando derem as caras por
aqui, j� se fez o que tem de fazer!
Galv�o e Itamar afastando o pessoal. Entre os curiosos alguns
velhotes de pijama, mulheres com meias desbei�adas. gente com cara
de que n�o dormiu direito. O detetive chega perto do t�xi, encontra
os homens de terno, fazendo a vistoria, estendendo a fita m�trica.
Entre os peritos o tipo gordo, alegre. V� o detetive, acha gra�a.

� Pelo visto esse criminoso n�o vai com sua cara.
Itamar sorri, Galv�o continua s�rio. Est� decepcionado com o
que v�. N�o consegue entender, n�o deseja fazer indaga��es. Uma
resposta daquele tipo de ar debochado poderia ser bem pior. Se estava
ali, com seus parceiros, � que algu�m havia convocado. Uma
indagag�o nesse sentido seria o mesmo que dizer o quanto andava
ac�falo seu setor. Num instante Galv�o recorda a figura bem
penteada do delegado Paranhos, suas amea�as, as unhas polidas. Teria
sido o filho da puta quem estava lhe passando a perna daquele
jeito? N�o podia ser. Imposs�vel acreditar. Ele pr�prio seria prejudicado.
Se a esculhamba��o na Delegacia parecia total, qual era o principal
culpado, sen�o o delegado titular? N�o podia ser Paranhos.
Seria o pr�prio secret�rio? Ou foi o atrevido do superintendente?


N�o
tinha como saber. A n�o ser que fizesse a pergunta que tanto

poderia machuc�-lo.

Decide pela segunda hip�tese. Mas n�o ia fazer cara de v�tima.

Demonstraria estar tudo bem. Tudo em ordem. Debru�a-se na capota

do TL, indaga tirando um cigarro do ma�o.

� Tiveram em S�o Conrado?
� A ordem foi vir pra c�. Ningu�m � de ferro. Meu pessoal
n�o tem o tutano do detetive Galv�o.
0 homem gordo diz isso, limpa as m�os num peda�o de flanela,
torna a rir. Galv�o tem vontade de dar-lhe um sopapo, cont�m-se.
Itamar acompanha seu nervosismo.

� Pois a coisa do lado de l� t� confusa.
� Como assim?
� 0 r�dio e a televis�o t�o dizendo que o criminoso levou os
documentos, mas o t�xi t� todo fechado. Ou os rep�rteres adivinham
ou n�o entendo mais nada!
� Rep�rter quer � not�cia. Certa ou errada. Com a gente o
buraco � mais embaixo. Um erro e o cacete desce firme. Por isso que
se anda lentamente, mas na matem�tica.
0 gordo torna a sorrir, Galv�o tamb�m acha gra�a.

� Devagar se vai longe!
� E minha teoria! J� me estrepei demais por causa de apressar
servi�o! Agora, n�o. Primeiro se passa o tempo que for preciso recolhendo
material. Manda pro laborat�rio, com as notas de entrega em
tr�s, quatro vias. A� se espera cinco, seis dias. Os resultados voltam,
se vai estudar. Se n�o se fizer assim, como � que voc�s podem,
trabalhar?
� Isso mesmo � acentua Galv�o com amargura. � D�o tudo
mastigado.
� s� engolir.
0 gordo parece n�o perceber a ironia do detetive.

� Se faz o poss�vel. E lhe digo mais: s� a Medicina Legal vai
resolver este caso. N�o se trata de um p� inchado qualquer, que sai
deixando impress�es em tudo que toca. Esse, ou usa luvas, ou tem
as pontas dos dedos lixadas.
� E quando acha que terminam?
� Dentro de mais uns vinte minutos. Fica tudo como se encontrou.
N�o t� havendo qualquer tipo de altera��o no local.
� Sei bem como � � afirma Galv�o. � Se n�o agarrar o bandid�o
� pura incompet�ncia.
0 gordo abre a pasta 007, coloca nela os fragmentos que o homem
de palet� tirou do tapete do t�xi. O outro cara, meio alourado,
que Galv�o nunca vira, tamb�m encontra material que deve ser guardado.
O gordo esfrega o len�o na testa, os curiosos abrem a roda, os
tr�s homens afastam-se. Galv�o continua debru�ado na capota do TL,



como mero assistente. Quando o gordo p�de sair do meio dos curiosos,
Galv�o grita, simulando alegria.

� Tchau! Se encontrarem o criminoso por a�, digam pra vir
falar comigo!
O perito-chefe olha para tr�s, ri a valer. Itamar tamb�m acha
gra�a. Galv�o fecha a cara, d� um murro na capota do t�xi.

� Manda todo mundo circular. N�o quero ningu�m por perto!
Os curiosos s�o afastados. Nogueira vem chegando, dizer que
entrou em contato com a Central, Galv�o ouve sem interesse. Sabe
que fora o �ltimo a ter conhecimento do duplo homic�dio. E isso
acontecia exatamente algumas horas depois da lengalenga de Paranhos.
Da esculhamba��o que levou. Ah, como gostaria de botar as
garras nacruele capeta, que se ocultava nos t�xis, surpreendia os motoristas!
Faria com que entrasse na viatura, mandaria Nogueira tocar
pro lugar ermo. L� pelo final do Recreio dos Bandeirantes. A� se
vingaria das humilha��es; amassaria o tipo na porrada, ainda que
Paranhos considerasse arbitrariedade. Que se fodesse com suas palavras
bonitas. Quem estava no fogo era ele. O detetive Galv�o. Vinte
e cinco anos de janela e aquela brincadeira de gato e rato. At� os
bacanas da per�cia sendo convocados � revelia. Simplesmente n�o
sabia de onde tinham vindo. Encerraria aquele caso, da melhor maneira
que pudesse, pediria licen�a. N�o apenas uma semana, como
planejava Paranhos. Solicitaria um m�s, depois dois, tudo com atestado
m�dico e o cacete. Nada mais de contempla��o com quem n�o
reconhece o trabalho alheio. Paranhos fora longe demais. Se na sua
frente falava daquele jeito, imagine no gabinete do secret�rio, do
superintendente, que diziam frases pausadas, de efeito, e olhavam por
cima do sujeito, como se estivessem diante de uma montoeira de
merda. Pra eles n�o se vale vint�m furado. � apenas um nome, um
n�mero no papel. Quando um de n�s apaga, como o Torres apagou,
p�em outro no lugar. Ningu�m se afoba. Ningu�m vai l� na casa do
fudido chorar por ele. Aparece uma pedra nova no tabuleiro de xadrez
e ponto final. Cansara daquela vida. N�o tinha mais �nimo de
prosseguir. Era seu �ltimo caso. Depois, as longas e intermin�veis
f�rias.

Itamar abre a porta do carro, chama Galv�o.

� Cabe�a estourada do mesmo lado!
Galv�o curva-se para olhar, senta no banco traseiro. Continua
a ouvir o invent�rio de Itamar, n�o faz qualquer coment�rio. Quando
decide falar � para dizer coisas vagas, que n�o preocupam o companheiro.


� Sempre a mesma coisa. O tiro do lado direito, o r�dio ligado.
� N�o t� mais tocando porque deve ter dado defeito.
� Ou a bateria terminou?

� Bateria, n�o! As lanternas t�o acesas. Esse carro puxa pouca
bateria!
� Que acha?
� Pneus limpos! S� rodou no asfalto. Isso afasta qualquer suspeita
sobre Nezinho Metralha.
� E se � coisa do bra�o direito dele?
� N�o tem cuca pra isso. Mal d� conta do recado na Zona
Norte. Em um m�s s� abotoou dois caras. Nosso artista t� matando
dois numa madrugada. Se continuar assim vai acabar com o pessoal
da pra�a!
Itamar acha gra�a, Nogueira tamb�m.
Galv�o d� a volta no carro, torna a entrar.


� Que hora � que deve ler sido isso?
Itamar toca nos bra�os do motorista, no rosto.
� Umas cinco ou seis horas. . .
� Por aqui devia t� escuro que nem breu.
Itamar n�o entende aonde o detetive pretende chegar, acende
outro cigarro.

� Vamos pra televis�o. Aquela not�cia n�o me entra. Quero
ler
no papel.
No carro Itamar discorda da cisma de Galv�o.

� Cuidado pra n�o mancar com esse pessoal. Se a imprensa
vira contra a gente a� que se t� ferrado.
� N�o � nada disso. Vai ficar surpreso. Tenho quase certeza
que n�o foi jornalista que baixou no t�xi de S�o Conrado. Se fosse
rep�rter n�o ia dizer pro guarda-noturno.
� Mas ele viu a Veraneio da TV!
� Ser� que viu, mesmo? Outra hora se vai levar novo papo
com o guarda-noturno. N�o tou entendendo bem a hist�ria dele. T�
tudo muito certo, muito em cima. P�o, p�o; queijo, queijo!
� Continuo sem saber onde quer chegar!
� No m�nimo se descobre quem t� querendo nos passar pra
tr�s.
E quem sabe isso n�o tem vincula��o com os crimes?
Itamar percebe o alcance da coloca��o, sorri.

� Puxa! � capaz de ser o caminho! � acentua Nogueira, atento
ao volante, mas de ouvido na conversa.
� Se disso tudo sa�sse ao menos uma pista, seria o maior presente
que ia ganhar neste ano miser�vel!
� Se � pista, n�o sei. Mas que tem alguma coisa de esquisito,
l� isso tem � garante Galv�o.
A viatura estaciona sobre a cal�ada. Galv�o e Itamar entram no
sal�o amplo, informam-se na recep��o sobre o Departamento de Telejornalismo.
Mostram a identidade, um funcion�rio os acompanha at�

o elevador. Saem no corredor iluminado, entram na porta com a
placa "Departamento de Telejornalismo". Uns caras escrevem, os

teletipos martelam nos telegramas internacionais, o aparelho de televis�o
est� ligado, o homem de mais idade por tr�s da mesa atochada
de pap�is. Galv�o chega junto � mesa, mostra a identidade, apresenta
Itamar. Depois de explicar sua atua��o no assass�nio dos motoristas
na Zona Sul, o detetive pede um favor.

� Gostaria de ver o texto lido de madrugada!
� No primeiro ou segundo notici�rio?
� Creio que no segundo. Se puder conseguir os dois, acho que
ainda
ajuda mais.
0 homem traz a pilha de pap�is, corta o barbante.


� Algum problema?
� Por enquanto nenhum.
O homem encontra as pequenas folhas onde est�o as not�cias.
� S�o praticamente id�nticas. S� que na primeira n�o se sabia;
do
nome de nenhuma das v�timas.
Galv�o olha as folhas batidas � m�quina.


� E como souberam?
O homem n�o consegue explicar.
� A�, s� com o pessoal da madrugada.
Galv�o senta, enquanto prossegue lendo.
0 homem de meia-idade chama um dos redatores pelo nome,
pergunta se sabe alguma coisa a respeito das notas.

� Quem passou pra c�?
� Pelo que disse Humberto, foi o setorista da pol�cia.
� Tem certeza?
� Ouvi ele dizendo!
O homem de meia-idade explica que o redator falou com Humberto,
porque era o primeiro a chegar.

� Desde cinco t� no batente. Em compensa��o, vai embora
�s dez.
� N�o foram rep�rteres da emissora que trouxeram a not�cia?

insiste Galv�o.
0 mesmo redator se volta.
� A essa hora n�o tem mais rep�rter na rua. 0 cara foi abotoado
depois das duas. S� mesmo num lance de sorte Humberto conseguiu.
� Onde posso falar com nosso amigo Humberto? � quer saber
Galv�o.
� A� a coisa complica � diz o homem de certa idade. � S�
com o Departamento de Pessoal.
� E como se chega l�? � quer saber Itamar.
� Vamos ver se consigo falar com o chefe.
O homem tenta os telefones internos.
157


� Dr. Barreto, est�o aqui no Departamento de Telejornalismo
dois detetives querendo saber o endere�o do Humberto de Almeida.
� a respeito do notici�rio dos motoristas!
O homem de meia-idade faz uma pausa, passa o fone a Galv�o.

� Dr. Barreto, sou o detetive Galv�o. Esta madrugada saiu
uma not�cia na televis�o; gostaria de saber como chegou ao seu redator.
S� isso!
Galv�o entrega o fone ao homem de certa idade, que j� se mostra
um tanto impaciente.

� Aguardem um pouco; vai mandar um cont�nuo.
Itamar senta, abre o jornal, l� as manchetes, Galv�o acende
mais um cigarro, na sala aparece o garoto uniformizado. Traz num
peda�o de papel o endere�o que tanto interessava. O policial agradece,
fala com o redator que n�o respondeu, sai para o corredor amplo
seguido de Itamar.

� Se foi algum coleguinha, n�o h� d�vida que querem nos
passar a perna!
� Al�m de correr atr�s do matador maluco, ainda se tem de
ficar de olho nos coleguinhas. Bela profiss�o! � diz Galv�o. �
Cochilou, montam em cima!
� � longe a casa dele?
� Graja�. Em meia hora se t� l�!
QUATRO

� � essa casa � diz Galv�o empurrando o port�ozinho de
ferro.
Ap�s subir um lance de escadas, toca a campainha. N�o aparece
ningu�m para atender. Insiste.

� T� todo mundo dormindo!
� N�o � mais hora de dormir � comenta o detetive, sorrindo.
Na portinhola aparece a carranca de uma velhota, cabelos totalmente
brancos.

� Pois n�o?
Itamar � quem fala.
� Bom dia, minha senhora. . .
� N�o se quer comprar nada � diz a velhota fechando a portinhola.
Galv�o fica indignado com a m� educa��o. Bate com for�a.
A velhinha torna a aparecer. Antes que possa dizer qualquer coisa
Galv�o exibe a identidade.

� Pol�cia! Se quer falar com Humberto!
A porta abre.
� Por que t�o procurando ele?

� Por nada. Coisa sem import�ncia.
A velhota manda que sentem, atravessa a ampla e pobre sala
dizendo que Humberto chegava de madrugada, Itamar acha gra�a da
viol�ncia de Galv�o.

� Tem de ser assim. Essa cambada vive cagando nas cal�as
Nunca vi tanto medo na vida!
Com a pr�pria roupa de dormir, aparece o cara de uns 26 anos,
alto e magro. Mostra-se um tanto a�reo, quando v� o detetive e seu
auxiliar. Galv�o faz um sorriso, a fim de tornar a situa��o menos
inc�moda.

� Desculpe lhe acordar, mas � importante pra tarefa que se
tem pela frente. De madrugada a televis�o deu a morte dos dois
motoristas. Foi voc� quem redigiu. Tudo bem. A gente ouviu e at�
gostou. S� t� faltando uma coisinha de nada: como conseguiu a
informa��o?
Humberto acomodou-se numa ponta do sof�, a velhota reaparece.

� N�o � nada, vov�! S�o amigos meus!
A velhota sai, prometendo voltar com caf�.
� Na verdade, foi uma surpresa. 0 telefone tocou, um cara
disse que era setorista. Tava na pol�cia e por dentro do caso. Perguntei
o nome dele, disse apenas: cabo Os�as. Liguei pra um colega, na
Tamoio. Tinha a mesma coisa.
� Antes de botar no ar, mandou conferir no local?
� N�o podia. A essa hora n�o se tem mais carro. 0 pessoal da
r�dio � que teve l�. Deu a confirma��o!
� E que pessoal � esse?
� N�o fa�o id�ia. 0 plantonista com quem transo � Bira. Bom
sujeito!
A velhinha reaparece com a bandeja niquelada, x�caras de porcelana,
desenhos chineses. Galv�o agradece a gentileza, a velhota
sorri, agora completamente amistosa. Itamar pega a x�cara, sopra,
antes de tomar o primeiro gole de caf� Galv�o tem outra pergunta
a fazer:

� Sabe que tipo de carro � que a R�dio usa na reportagem?
� No tempo que trabalhei l� era tudo fusquinha.
� Quando foi isso?
� Uns quatro meses atr�s.
� Acha que agora t�o usando Veraneio?
� Veraneio? N�o acredito. Aquilo gasta mais gasolina que
caminh�o!
Galv�o e Itamar acham gra�a.

� Se quiserem saber qualquer coisa sobre os carros, ou at�
mesmo sobre o notici�rio, � s� procurar o Bira! � um grande chapa!
Galv�o e Itamar depositam as x�caras na bandeja, agradecem a
boa vontade da vov� de Humberto, v�o embora.


Quando a viatura atravessa ruas de movimento intenso, Itamar
tem vontade de dizer que aquela busca os estava afastando completamente
do caso.

� Em compensa��o � argumenta Galv�o � se fica sabendo
de uma vez por todas com quem t� lidando. E se essa sacanagem
parte do pr�prio Paranhos. J� pensou?
Nogueira acha que o detetive est� certo.

� Se tem de cuidar do caso sem esquecer nossa pele!
� Tenho medo de se perder tempo e o bandid�o aprontar outra
ainda pior.
� Como manda o regulamento � lembra Galv�o � se tem de
esperar o resultado do laborat�rio. Enquanto as sumidades n�o derem
o sinal verde, tamos de p�s e m�os amarrados. J� que � assim, pra
que esquentar?
� Sei l� � prossegue Itamar � talvez fosse o caso de se procurar
encurtar caminho. Os peritos t�o com a vida ganha. Se o criminoso
aparece ou n�o, pra eles tanto faz.
Na avenida de tr�fego intenso a viatura p�ra com duas rodas
na cal�ada. O guarda de tr�nsito aparece, Nogueira diz que era por
alguns momentos, estavam em dilig�ncia, Galv�o mandar Itamar
subir.

� Se o careta estiver, desce com ele. Se fala aqui no bar.
Itamar vai embora, o calor�o no carro � grande, Nogueira convida
para uma �gua. Entram no bar, encostam-se no balc�o, o detetive
aproveita para comprar cigarros, o homem de blus�o verde e
casquete da mesma cor p�e a garrafa e os copos, manda Nogueira
experimentar. 0 cara de verde destampa a garrafa com um gesto
r�pido, que bem demonstrava a habilidade que havia adquirido em
abrir garrafas, Nogueira p�e primeiro no copo de Galv�o, depois
no seu.

Tomam a �gua em sil�ncio, calmamente. Galv�o olha a rua, o
guarda de tr�nsito, camisa suada, apita que nem um desgra�ado.

� N�o sei, n�o; � capaz de surgir uma pista disso tudo. Se esse
tal de Bira apresentar outra contradi��o, sou capaz de apostar que
tem cachorrinho sabendo das transas do assassino.
� Ser�?
� Na pol�cia tudo � poss�vel.
Galv�o toma mais �gua, depois pede cafezinho.
� Talvez seja o caso de procurar aquele guarda-noturno. . .
� � o que se vai fazer. Como � que viu a Veraneio com o logotipo
de Televis�o, se Humberto garante que l� n�o h� desse carro?
� Algu�m t� inventando. A coisa pode ser por a�. . .
Galv�o toma calmamente o cafezinho, Itamar reaparece. Est�
com o palet� nas costas, a camisa molhada.

� Um pouco d'�gua?

� Aceito.
Nogueira torna a chamar o homem de verde.
� Mais uma �gua. Bem gelada!
� E o cara?
� Volta entre onze e meia-noite.
� Onde es esconde?
� Rua Riachuelo, 225.
� � perto. Se chega l� em quinze minutos.
Itamar toma a �gua com vontade. Bota mais no copo. Galv�o
oferece cafezinho, n�o aceita.
0 carro sai de cima da cal�ada, entra na corrente de tr�fego,
dobra a primeira esquina, Galv�o manda ligar a sirene.

� Vai com ela aberta at� l�. Perto da casa do pinta desliga.
� Acho que � gente boa. Parece que tou lembrado dele.
� Bira! Bira! N�o sei de ningu�m com esse nome � diz o
detetive.
� E o guarda-noturno, como se vai fazer? � insiste Nogueira.
� Esse s� de noite. N�o tem outro jeito.
Enquanto a viatura dobra esquinas, avan�a com dificuldade no
tr�nsito confuso, Galv�o recorda tanta coisa: as palavras �speras de
Paranhos, o retrato-falado que n�o estava servindo pra nada, os risinhos
de alguns, certos de que n�o ia descobrir o bandid�o. E em meio
�s lembran�as, os carros e as pessoas que via nas ruas, come�a a sentir
extraordin�rio cansa�o que se mescla a uma profunda amargura, total
desilus�o. De que adiantou tanto tempo de dedica��o �quele trabalho
infernal? O que recebia de pr�mio era amea�a.

� Se falhar, vai haver mudan�a nesta Delegacia e em v�rias
outras. A� o secret�rio aproveita pra tocar na Justi�a tudo que � de
processo pendente contra policiais.
E era o que faria. Quem iria ter considera��o com um imbecil
como o detetive Galv�o, que passou metade da vida se arriscando
pela seguran�a alheia? Ora, como fora idiota. Se nascesse de novo,
jamais entraria naquela. Procura lembrar como tudo come�ou, n�o
� capaz. Julieta dava-lhe conselhos, sugeria que procurasse outra
ocupa��o. Alguma coisa menos penosa, menos arriscada. At� nisso
tinha raz�o. N�o ouviu os conselhos de Julieta, como jamais ouvira
conselhos de quem quer que fosse. Agora, ali estava o arrependimento.
Um merda como Paranhos empinando-se na sua frente, gritando
ordens. E quantas vezes deu a melhor dica pro filho da puta! Muitos
dos casos que solucionou foi � base de seus racioc�nios. Esqueceu
tudo. Subiu � custa de bajula��o, pisava nos companheiros que lhe
fizeram a escada. N�o ia tolerar que essa situa��o continuasse. Resolvido
aquele abacaxi, aceitaria a semana de licen�a, como o delegado
prometera. E aproveitaria para n�o retornar. Procuraria um amigo


m�dico, inventaria a doen�a. Passaria o dia todo em casa, sairia apenas
para comprar jornais. Ficaria de longe acompanhando a genialidade
de Paranhos, as teorias das sumidades da T�cnica. Ah, como ia
rir daquela canalha.

� � aqui!
Nogueira entra com a viatura na porta da ag�ncia de autom�veis,
Galv�o e Itamar saltam, avan�am pelo corredor do pr�dio de terceira
classe, portaria sem porteiro, um vaso de palmas quebrado, elevadores
riscados, palavr�es escritos de alto a baixo.

� Qual � o apartamento?
Itamar olha o peda�o de papel.
� Mil, cento e quatro!
� Puxa! Isso � um quartel.
O elevador p�ra no 11.�, os policiais saem no imenso corredor,
portas fechadas, o cheiro de lixo queimado invadindo o pr�dio.

� Que cabe�a-de-porco mais nojenta!
� 0 importante � pegar o cara. Tomara que n�o teja dormindo
com alguma puta por a�.
Galv�o aperta a campainha. A primeira vez, a segunda. N�o
ouvem o menor ru�do. A mulher desgrenhada, do apartamento do
lado, aparece.

� Sabe se tem algu�m em casa? � indaga Itamar.
� Seu Bira deve t�. Dorme o dia todo.
Itamar agradece, a mulher ainda fica um pouco na porta, encarando
especialmente Galv�o, depois pede licen�a, desaparece.

� Que figura!
Galv�o volta a tocar a campainha. Uma vez, duas, tr�s, cinco.
� Vem gente a�!
A porta se abre. Aparece um rapaz de aproximadamente 28
anos, moreno escuro, quase mulato. Est� de shorts. acabou de acordar,
tem um dos olhos remelentos.

� Voc� � o Bira?
0 mo�o sacode a cabe�a, sem vontade de falar. Galv�o tamb�m
n�o tem muito tempo para explica��es. Puxa a identidade, exibe.

� Podem entrar!
Bira acende a luz, pede licen�a para ir rapidamente ao banheiro.
Enquanto ficam esperando, sentados em poltronas de curvim vermelho,
os policiais ouvem o barulho da torneira da pia e, depois, da
descarga.

� Que � que mandam?
� Se t� numa situa��o meio dif�cil, Humberto mandou lhe
procurar.
� � a prop�sito da not�cia daqueles motoristas.
� Como foi que levantou o caso?
162


Bira explica mais ou menos a mesma coisa que Humberto dissera.
Torna a citar o cabo Os�as.

� De onde � esse cabo?
� Parece que t� servindo na Pol�cia T�cnica.
� E como ser� que soube que um motorista tava sem documento
e o outro se chamava Jo�o Fortunato Ribeiro?
� Acho que teve no local.
� At� a�, tudo bem. Acontece que o bandid�o tem um estilo.
Fecha os motoristas e os carros. Ningu�m pode meter a m�o antes dos
peritos. Se o cabo teve l�, foi apenas pra isolar a �rea, ou ser�
que n�o?
Bira sorri. Mostra os dentes brancos.

� A�, n�o sei! 0 que posso dizer � que achei a not�cia t�o boa,
que resolvi checar. Peguei o carro de reportagem e mandei pra l�.
Primeiro em S�o Conrado, depois na Gast�o Baiana.
� Encontrou os t�xis fechados ou n�o?
� Fechados!
� Conhece o cabo Os�as?
� S� por telefone. J� falei com ele umas quatro ou cinco vezes.
� Quer dizer que n�o foi pro local numa Veraneio da televis�o!
� Veraneio? Os carros da TV onde Humberto trabalha s�o
todos pequenos. A maioria fusquinha!
Galv�o faz uma pausa, Bira se levanta, vai at� a geladeira que
ficava na sala, pergunta se querem coca-cola ou guaran�. Itamar
aceita guaran�, Galv�o prefere �gua. 0 mo�o volta com os copos,
Galv�o acendeu um cigarro, cruza as pernas, o apartamento � pequeno
e quente, n�o h� ventila��o.

� Quais s�o os suspeitos que j� t�m do caso?
Galv�o n�o esperava aquela pergunta. Sabe que n�o pode contar
a verdade, nem fazer fic��o que redundasse em not�cia perigosa.

� Se t� remando como manda a mar�. Uns nomes t�o levantados.
Mas h� muito trabalho pela frente.
� Acham que o cabo Os�as sabe de alguma coisa?
� Minha primeira d�vida � diz Galv�o passeando de um lado
para o outro da pequena sala � � se na Pol�cia T�cnica existe algum
cabo Os�as.
� Mas � com quem sempre falo.
� N�o tou dizendo que n�o. Apenas quero juntar as pedras do
jogo. Esse matador de motoristas sabe se mexer. E se mexe t�o bem
que �s vezes fico pensando se n�o t� cercado de c�mplices.
Itamar termina de tomar o guaran�, Bira oferece mais, agradece,
Galv�o continua a dar passadas pela saleta.

� Podia fazer um favor pra gente!
Galv�o diz isso, puxa uma tragada do cigarro, sopra a fuma�a
com vagar.


� Hoje de noite, logo que chegar na R�dio, tenta contato com
o cabo Os�as. Se ouve na extens�o. A� procura saber em que setor t�
lotado. Faz isso?
� Se der galho?
� Galho nenhum, cara � argumenta Itamar.
� � s� telefonar, fazer uma pergunta como quem n�o quer
nada � acentua Galv�o.
Bira torna a mostrar os dentes muito brancos. Galv�o aperta-lhe
a m�o, Itamar faz a mesma coisa.


Cap�tulo IX

UM

A garagem � uma esp�cie de terreno baldio, com um muro enegrecido
na frente, outro de um lado, o galp�o nos fundos, onde havia
oficina de consertos, bomba de gasolina, elevador para lavagem e
lubrifica��o. Junto aos muros, ao galp�o e at� pelo meio do terreno,
onde os t�xis estacionavam, havia p�s de vassourinha e capim-de-burro.
O pesado port�o, com carretilhas, n�o corria mais de t�o enferrujado.


0 dia amanhecera nublado, a noite toda caiu uma chuva forte
e era poss�vel que come�asse a chover de novo a qualquer momento.
Itamar gostava daqueles dias sombrios por que o calor diminu�a, mas
Galv�o sentia-se recalcado, neur�tico. Parece que as recorda��es voltavam
com mais facilidade. Especialmente da filha Sandra, que a m�e
recomendara tanto, e que terminou dando tudo errado. Para ser sincero,
n�o sabia por onde andava. Desde que saiu de casa, ap�s a discuss�o
mais besta do mundo, em que se exaltou mais do que devia,
jamais apareceu. E quem diria que isso fosse acontecer. Na verdade,
ap�s um dia inteiro de trabalho, ap�s tantos problemas insol�veis,
tinha raz�o de estourar. Mas a filha n�o estava disposta a suport�-lo.
Havia pequenas discuss�es, quase sempre por causa da empregada,
das notas baixas na escola. Mas naquela noite foi demais. Encontrou-a
com o namorado no port�o, n�o esperou nem ao menos que lhe apresentasse
o rapaz. Por que n�o levou na brincadeira? Teria sido melhor.
Quando viu a filha com o cara, mais de dez da noite, a vontade que
teve foi de esbofete�-la. Recorda-se de Sandra naquela sala de tantas
lembran�as, procurando explicar e ele irredut�vel. Orgulho besta!
N�o gostava dos dias sombrios. Se tivesse de morar numa cidade em
que chovesse sempre, terminaria enlouquecendo. N�o queria pensar
no que passou. 0 passado n�o me pertence. S� com a garrafa de
u�sque, estendido no sof�, deixava-se dominar por ele. E quanto mais
pensava em bons e maus momentos, mais bebia. �s vezes, ao acordar,

165


continuava no sof�. N�o tivera condi��o de erguer-se, ir para a cama.
Aquilo, evidentemente, n�o era divers�o e, sim, penit�ncia. J� Itamar
adorava os dias sombrios. N�o suava, n�o linha de estar tomando �gua
a todo momento.

� Quanto mais se bebe �gua, mais se engorda!
Itamar se preocupava com a beleza f�sica. N�o sabe de onde esses
caras aprenderam essa mania. Ningu�m quer ficar gordo, todo mundo
com programas de gin�stica, velhos correndo na praia, como se assim
conseguissem enganar dona morte. Galv�o tem vontade de rir. E um
cara daquele o delegado Paranhos queria ferrar. Paranhos n�o entendia
porra nenhuma de gente e tinha pretens�es a ser um grande
delegado. Ia quebrar a cara, n�o demorava. Por mim, que se foda.
Terminado este caso, me mando. Chega de aturar tanta merda, de
servir de escada a tanto imbecil. Pego a semana de folga, emendo
com outra por motivo de doen�a, tiro uma licen�a sem tempo no INPS.
Hora de parar. Num dia de muito sol, quem sabe, talvez tivesse coragem
de sair procurando Sandra. N�o reclamaria de nada do que aconteceu,
n�o perguntaria sobre o tempo que passou. Apenas queria ficar
diante da filha, ouvir o que tinha a dizer. Talvez ela entendesse. Se
conseguisse isso, pediria que voltasse. A casinha t� l�, mais abandonada
que toca de pescador. E t� triste tamb�m. O jardinzinho onde
tua m�e colhia rosas, t� se acabando. 0 port�o enferrujou. Nunca
mais ningu�m se preocupou de dar uma m�o de tinta nele. Do jeito
que as coisas t�o indo, qualquer hora dessa come�am as goteiras no
teto e aquilo termina virando uma tapera. Se voc� volta � como se
Julieta tivesse voltado. Foi a pessoa que mais gostei. E tanto � assim,
que nunca botei outra no lugar. Morri pro mundo!

Se Sandra voltasse, a vida poderia ser refeita. Mesmo assim n�o
retornaria � pol�cia. Procuraria outro trabalho. Teria um dinheiro
extra para chamar um pedreiro, um pintor, mandar fazer a reforma
da casa. Mesmo com a polui��o de S�o Crist�v�o, era melhor ficar
mais uns tempos por l�. Se aparecesse uma boa oferta, a� sim, trataria
de adquirir o apartamento em outro lugar. Sandra escolheria o
bairro. Deixaria a filha tomar decis�es. Jamais repetiria a grosseria
da noite em que a encontrou com o namoradinho. Por que foi fazer
aquilo?

0 carro esporte entra no terreno murado, p�ra perto do elevador
de lubrifica��o. Salta um tipo atl�tico, roupas coloridas, sand�lias
brancas, cintur�o branco, grosso colar no pesco�o, pulseiras de prata
nos pulsos. � um homenzarr�o que se mostra bastante alegre ao rever
Galv�o e Itamar no escrit�rio.

� Meus amigos. Que honra!
Uns motoristas aparecem, pedindo chaves de determinados t�xis,
Lampreia argumenta, diz que o carro novo estava precisando de regu



Iagem, um dos caras reclama, acha que se trata de preven��o, Lampreia
ri, joga as chaves.

� Se engui�ar, foda-se. Tou avisando!
Os motoristas v�o embora, entra o crioulo da lubrifica��o, diz
que o lat�o de graxa t� terminando, Lampreia anota, promete providenciar
outro, antes do fim do dia. Galv�o e Itamar sentaram no sof�
esburacado, paredes cobertas com fotos de mulheres nuas, nos pregos
h� notas fiscais, o alvar� metido numa capa pl�stica, completamente
suja. Lampreia arrega�a as mangas.

� Como t�o as coisas? Que visita � essa?
Galv�o bate um cigarro no bra�o do sof�, faz a cara mais s�ria
do mundo.

� Vamos precisar da tua ajuda.
Antes que o homenzarr�o possa dizer qualquer coisa, o detetive
prossegue.

� T� sabendo dos motoristas?
� Puxa! Tem cara desistindo de rodar � noite!
� Pois �. E o pior de tudo: tamos na estaca zero!
� Na estaca zero?
� Essa a verdade. Pra outro n�o se diz isso. Pra amigo velho
n�o se tem o que esconder.
� Ontem de madrugada surgiu uma amea�a de pista, mas creio
que vai dar em nada � explica Itamar.
Nogueira aparece. Traz uns doces, oferece a Lampreia, aos colegas.
Todos aceitam.

� A coisa t� complicada, que n�o sei por onde come�ar. Nunca
me vi num caso como esse.
� 0 careta sabe se mexer � comenta Nogueira.
� Ou � um matador profissional, com boas liga��es, ou � um
iniciante que se lan�ou pra valer.
� N�o t� pintando como iniciante � diz Nogueira.
� Por enquanto n�o sei se � iniciante, se n�o � iniciante. O
certo � que t� botando pra quebrar; qualquer hora os t�xis v�o parar.
A coisa t� sendo articulada pelo Sindicato. E nisso Paranhos tem
raz�o. De certa forma n�s � que vamos inspirar o movimento grevista.
J� imaginou?
� No que posso ajudar?
� � assim que se fala � diz Nogueira.
� Quantos t�xis t�o ficando parados de noite?
� A maioria. Pelo menos uns 18.
Galv�o modifica o rosto amargo num riso sem express�o.
� � isso a�! Preciso desses t�xis, mas a pol�cia n�o tem dinheiro
pra gasolina, nem �leo.

� Fica por nossa conta, se o plano for bom.
� O plano � de primeira � argumenta Galv�o, a essa altura
com os olhos brilhantes, como se tivesse descoberto a coisa mais importante
do mundo. � Tendo os t�xis, arranjo uns caras da pesada pra
dirigir. V�o rodar das 20 �s 3 da madrugada. O dinheiro que entrar
� da garagem, descontada uma gratifica��o pro pessoal. Se o matador
p�e o p� num desses t�xis, t� ferrad�o!
� Quando quer come�ar?
� Depois de amanh�. Hoje, articulo com o pessoal!
� Como vou saber quem s�o os caras?
� No primeiro dia trago todo mundo pra te apresentar. Tudo
gente boa!
Lampreia sorri, Galv�o ajusta o n� da gravata, mas n�o tanto,
joga a guimba do cigarro fora. Saem do escrit�rio, Lampreia acompanhando,
entram na viatura, o homenzarr�o ainda sorrindo, a viatura
se afastando, passando pelo port�o de carretilhas, completamente
enferrujado.

� Sabia que ia topar. � um bom cara.
� � em defesa dele pr�prio. Se tudo que � de motorista come�ar
a n�o querer trabalhar � noite, os garagistas v�o se estrepar.
� E agora, chefe, pra onde manda? � indaga Nogueira, no
maior bom humor do mundo.
� Pros pontos de bicho, na Zona Sul. Primeiro no da Santa
Clara, depois na Saint Romain. Temos de cercar dos sete lados.
� Enquanto isso, falo com o pessoal das bancas e porteiros de
pr�dio. Conhe�o uma porrada deles!
Na sa�da da garagem de Lampreia a chuva volta a cair. Galv�o
fumava, Nogueira pedindo a Itamar para n�o fechar os vidros at� em
cima, porque emba�ava o p�ra-brisa.

� Vai molhar tudo aqui atr�s.
� Deixa molhar! O carro � teu?
DOIS

No trecho em que as m�quinas da telef�nica abriam mais um
buraco no meio da rua a viatura p�ra. H� carros sobre os passeios,

o porteiro molha a cal�ada com mangueira de jardim, um outro
empurra a lama com vassoura velha.
� Vai pras bancas que me entendo com os bicheiros. Nogueira,
procura levar um papo com os caras dos pr�dios. Pega os nomes deles!

Os tr�s tomam rumos diferentes. Nogueira vai na dire��o do
que molha a cal�ada. Aproxima-se como quem n�o quer. Encosta no
carro, fica olhando.

� O poeiral por aqui � fogo, n�o companheiro?
� Um inferno! � responde o homem. � Se tem de lavar esta
porcaria duas, tr�s vezes por dia.
� Como t� a barra?
� Na de sempre. A garotada queimando fumo, as madames
rodando bolsinha
quando os maridos n�o t�o em casa.
O cara que varre a lama se esbalda de rir.

� Coitado dos maridos!
Nogueira acha engra�ado. N�o tem d�vida de que aquele porteiro
sabia das coisas.

� Sabe o que � que se t� querendo?
O porteiro manda o companheiro fechar a torneira.
� Chega! Logo mais se molha de novo.
O porteiro est� perto de Nogueira, enxugando a m�o num peda�o
de flanela.

� T� sabendo que tem um bandid�o por a� abotoando motorista
a torto e a direito. N�o t�?
� Claro. 0 jornal de hoje s� fala nisso!
� Pois �. T� dif�cil grampear o artista. Ele � de ra�a. Ent�o a
gente t� recorrendo a tudo que � de amigo, pra dar uma m�o. Por
acaso tem id�ia de um pinta que possa ser o matador?
O porteiro encosta no carro, ao lado de Nogueira, sente-se de
certa forma importante.

� Pinta esquisito � o que mais se v�. Nesse pr�dio, mesmo,
t� cheio.
� Desconfia de algu�m?
O porteiro fica uns instantes calado, como recordando nomes.
� N�o!... Os que conhe�o � tudo ligado a entorpecente.
� Pois � isso, amigo. Como � mesmo seu nome?
� Antero.
� Pois �, Antero. Fica de olho. De quando em vez se vai baixar
por aqui e te procura. Capricha que pode levar um bicho e ainda
ganha a amizade da gente!
Nogueira se afasta sorrindo, o porteiro grita para o companheiro
enrolar a mangueira. No pr�dio seguinte, ap�s o barzinho e a casa de
ferragens, o porteiro � um tipo velhusco, carapinha ficando branca.

� Bom dia, meu tio. Sou da pol�cia, tava precisando de um al�
consigo!
O velho se levanta.

� Que � que manda?

� Tem ouvido falar no matador louco, que t� derrubando motorista?
Pois �, tamos na pegada dele. Sabe de alguma novidade?
O velhote parece n�o saber de coisa alguma. Nogueira fica acompanhando
seus gestos, o movimento dos olhos.

� Por aqui passa tudo que � de coisa ruim. Como vou saber
se entre eles t� o matador?
� Talvez titio tivesse visto algum cara mais esquisito, mais
afoito. Sabe como �. H� bicho por a� que bota pra quebrar na moleza.
� Acha que o matador louco � desse tipo?
Nogueira n�o contava com aquela pergunta. Estava certo de que
o matador n�o podia ser um porra louca qualquer. Se fosse assim era
f�cil chegar at� ele.
� Tem raz�o. O bicho � de ra�a!
Para n�o alongar a conversa, Nogueira recomenda ao velhote
que fique de olho. Fala no bicho e na amizade com os tiras, vai embora
um tanto decepcionado. N�o sabe se aquela peregrina��o daria
resultado. Aproxima-se de outro pr�dio. Ofereceria uma grana ao
porteiro. Dez mil por uma dica. Entra no edif�cio, desce a escada at�

o subsolo, localiza o homem mexendo na bomba d'�gua. O tipo magro,
de uniforme cinzento, fala no pessoal que transa com entorpecente,
num que � acusado de roubo e estava sumido, desde o Carnaval; no
que espancara a m�e e se embrenhou em S�o Paulo. Nogueira n�o
acha que possa ser nenhum desses. Termina fazendo o oferecimento
dos dez mil, promete voltar, vai em frente, cada vez mais convencido
da inutilidade daquele tipo de averigua��o. Mas, n�o queria contrariar
Galv�o. Ele sabia bem o que fazia. 0 neg�cio seria prosseguir.
Galv�o n�o desistia f�cil, se aparecesse dizendo que s� ouvira uns tr�s
ou quatro elementos, levaria um esporro. Por isso continua entrando
e saindo de pr�dios, conversando com porteiros e faxineiros. At� 2 da
tarde a viatura permanece junto ao tapume de obras, quem primeiro
reaparece � Itamar. Depois Nogueira e finalmente Galv�o.
� Alguma novidade? � indaga o detetive.
� Do meu lado, nada. S� conversa fiada!
� Os jornaleiros tamb�m n�o t�m o que dizer. V�o ficar na
campana.
Nogueira abre o carro.

� Vamos pra delegacia. Talvez tenha surgido alguma novidade
por l�!
A viatura arranca, perto do velho casar�o Nogueira manda abastecer.


� Ser� que n�o se consegue nada sobre esse bandido?
� Cabe�a fria. Se acaba descobrindo.
� Acontece que o tempo t� passando. . .
� Quem sabe o guarda-noturno n�o tem uma hist�ria!

� �. A Veraneio que n�o existe pode ser um bom ind�cio.
Al�m disso, temos o cabo Os�as.
Galv�o entra na Delegacia, Itamar e Nogueira v�o diretamente
ao bar. O investigador gordo fala nos telefonemas para o detetive, diz
que o delegado s� voltaria no final da tarde. Galv�o tira o palet�, p�e
no espelho da cadeira, senta ao lado da mesa do escriv�o, acende o
cigarro, cruza as pernas, fica olhando a movimenta��o dos que entram
e saem, dos policiais que chegavam com presos, das mulheres reclamando
dos vizinhos, da velhota no banco de madeira com a mocinha
de treze anos, estuprada pelo carpinteiro de 40, pai de cinco filhos
menores. Ouve a hist�ria, contada ao escriv�o, abre o livro de ocorr�ncias,
passa as p�ginas com certa repugn�ncia. Em cada uma delas,
as coisas mais vulgares e nojentas. O pai que deflorou a filha de dez
anos; o amante que deixou a mulher amarrada no barraco durante
seis meses; o agiota que se matou por n�o ter recebido os 100 mil
do a�ougueiro; o paral�tico de uma perna que n�o era paral�tico porra
nenhuma, dava trambique nas escadarias da Igreja; a bicha que se
atirara na �rea interna do pr�dio. Lembra-se bem como foi. Fica satisfeito
de que a coleguinha da suicida tenha aparecido para depor. Na
confus�o com Paranhos esquecera do caso. Mas aquilo n�o tinha pinta
de homic�dio. Era dor de corno, mesmo. A bicha gamou num cara
qualquer, foi abandonada, saltou pela janela. Coisa que acontece a
tr�s por dois. Os olhos do detetive acompanham o depoimento, sem
interesse. Vira a p�gina, alarma-se. O que era aquilo? Sandra Duarte?
Sua filha ou apenas um nome igual? Chama o escriv�o.

� Beija-flor, que hist�ria � essa? Lembra da mulher que explicou
o suic�dio da bicha?
� Claro! Como pensa que botei isso tudo no papel? Doutor
delegado
perguntando, eu largando brasa.
Beija-flor. magrinho, saliente, faz um riso c�nico.

� S� que de vez em quando parava, dava uma olhada nas pernocas
dela. At� o delegado tava grilad�o.
� E o nome, � esse mesmo?
� Claro! Qual � o problema? Mostrou carteira de identidade
e tudo!
Beija-flor continua falando, rindo, recordando as qualidades da
mo�a, Galv�o j� n�o o escuta. Rabisca o endere�o num peda�o de
papel, p�e no bolso. Era a oportunidade que tinha de rever a filha.
Quem sabe estaria precisando de alguma coisa ou at� arrependida?
Por que esqueceu completamente do suic�dio da bicha? Culpa daquele
criminoso alucinado, que se movia como sombra. Na verdade,
estava com os nervos arrebentados. Preocupava-se unicamente em
descobrir o matador louco. Se n�o conseguisse isso, quem terminaria
enlouquecendo seria ele. Mesmo assim procuraria uma folga, daria


um salto no apartamento da filha. Se n�o estivesse, deixaria um
bilhete por baixo da porta. P�e papel na m�quina do escriv�o, aciona
as teclas, com vagar. Primeiramente, algumas frases secas, para que
n�o pensasse estar arrependido. N�o daria o bra�o a torcer. S� depois
que percebesse a disposi��o dela, a� sim, se abriria. N�o seria motivo
de riso, nem mesmo da filha. 0 bilhete n�o passa de dez linhas. Fica na
d�vida se termina com beijos ou abra�os. N�o p�e nada disso. Finaliza
apenas com o nome; simplesmente o nome: Galv�o!

Meteu-se no palet�, fala com Itamar.

� Se Paranhos me procurar, diz que se t� agindo. N�o quero
aporrinha��o!
Toma o t�xi, manda tocar para o pr�dio de onde a bicha saltara.
O motorista reclama do tr�nsito, do transtorno que as feiras-livres
causavam. Galv�o vai ouvindo aquilo tudo, o homenzinho s� v� o
seu lado. Os feirantes que se danassem. Diz uma palavra ou outra,

o motorista continua exaltado.
� Se fosse prefeito, acabava com isso.
Galv�o salta, n�o espera o troco, entra no pr�dio, encontra o
porteiro grandalh�o.

� Como �, t� lembrado de mim?
O homenzarr�o sorri, descontrai a m�scara sempre enfezada.
� Como tamos de novidade por aqui?
� Depois daquele caso, tudo em ordem. O pr�dio � sossegado.
N�o tanto como h� dez anos, mas igual aos outros. Onde � que n�o
h� bagun�a hoje em dia?
Debru�a-se no balc�o, por tr�s do qual se esconde seu Manuel.

� Sabe, tamos precisando de voc� a� numa jogada.
� Qual �?
� Ouviu falar no cara que acerta tudo que � de motorista?
� Poxa! Todo dia.
� Pois �. Se t� na pegada dele. Quem sabe, conversando com
uns e outros n�o consegue alguma coisa?
� Deixe comigo. Vou sondar. Aqui mesmo no pr�dio tem um
motorista, de vez em quando fala no assunto.
� Como � o nome dele?
� Um tal de Darci. Porra louca mas bom cara.
� D� um al� pra ele.
0 policial faz uma pausa, o porteiro procura o jornal, n�o
encontra.

� 0 diabo do faxineiro deve ter levado.
� Olha, aqui, seu Manuel. E a vedete do 925. T� em casa essa
hora?
� Acho que sim. Deve t� dormindo. Quer que v� l� consigo?
� N�o! Me arranjo sozinho.

O porteiro faz um sorriso de cumplicidade, Galv�o se encaminha
para o elevador. Aperta o n.� 9, sobe. Em poucos instantes sai no
corredor mal iluminado, uma s� l�mpada acesa. N�o fica em frente
ao olho m�gico, ap�s algum tempo a porta se abre, aparece a filha.
Est� com um vestido leve, Galv�o entra sem ser convidado. No
pequeno apartamento, escuro, percebe o rapaz que enfia as cal�as,
apressadamente.

� N�o fica contente de me ver?
� Pra que veio?
� Pensei que se pudesse conversar. Faz tanto tempo, n�o guardo
mais qualquer ressentimento.
Enquanto Sandra p�e-se a falar Toninho decide terminar de
vestir-se no banheiro. Leva para l� os sapatos, o blus�o de couro.

� Quem � o mo�o?
� Meu namorado.
� Namorado ou amante?
� Qual a diferen�a?
� H� muita. Muita diferen�a!
� Nos entendemos, � o que importa.
� N�o tem medo disto aqui, depois que a bicha se matou?
� Quando falar dela na minha frente, exijo respeito.
Galv�o acha gra�a.
� N�o pretendo lhe irritar. Pensei que se pudesse recompor.
Talvez gostasse de rever nossa casinha. � como se a m�e tivesse viva,
mexendo nos m�veis, arrumando as coisas.
� N�o venha com chantagem sentimental, detetive Galv�o.
Tive muito tempo pra pensar no que fez.
� Foi num momento de indigna��o.
� Acontece que s� tem momentos de indigna��o.
� E uma pena que n�o tenha esquecido. De minha parte tou
disposto a recome�ar.
� 0 senhor n�o sabe lidar com gente, detetive Galv�o. At�
outro dia ainda tinha as marcas das suas pancadas.
Dizendo isso Sandra senta ao redor da mesa bagun�ada de objetos
e folhas de jornais, os olhos enchem-se de l�grimas. Galv�o mant�m-
se calado. A vontade � de chorar, procura controlar-se.

� Que tem sido de sua vida, filha?
� Por a�. Me entregando a um e outro pra n�o morrer de fome.
� Volte comigo e tudo isso acaba.
� N�o posso. J� n�o gosto do senhor.
� N�o tem import�ncia.
Sandra deita a cabe�a nos bra�os, o choro aumenta.
� V� embora. Me deixe s�. N�o torne a me procurar.
Galv�o ergue-se, olhos rasos d'�gua, afasta-se lentamente, o corpo
da filha sacudido por solu�os.


TR�S

Toninho vem para junto de Sandra. Fecha a porta, alisa-lhe os
cabelos.

� Tenha calma. J� se mandou!
Sandra abra�a-o, chora alto.
� Quem � esse cara?
� Meu pai.
� Seu pai?
Sandra apenas sacode com a cabe�a.
� Voc� falou que � policial?
Torna a sacudir a cabe�a, enquanto prossegue solu�ando.
� Se foi feliz enquanto a m�e era viva. Depois ele ficou doido.
S� pensava na Delegacia, nos tipos que tinha de prender. Quando
chegava em casa, por qualquer coisa que se dizia, armava uma briga.
� Batia em voc�?
� Uma vez, quando me encontrou com um namorado. Quis at�
esmurrar o Neco. Como isso ia ficar chato, porque Neco era nosso
vizinho, me puxou pra dentro, me encheu de porrada. Al�m de me
espancar, berrou o tempo todo, me chamando de puta e cadela!, . .
� N�o sabia que tinha um pai tira.
� E n�o tenho. N�o � mais meu pai.
Toninho senta ao lado de Sandra.
� Desculpa, benzinho. Ele estragou nosso dia!
� N�o h� de ser nada. Amanh� a gente torna a se encontrar.
� Vai querer ir embora ou desce mais tarde?
� Era bom ir em frente, mas n�o pretendo topar com aquele
porteiro ordin�rio.
� Des�o antes, distraio ele.
Toninho sorri. Sandra era muito melhor do que imaginava. De
qualquer forma, dali em diante todo cuidado seria pouco. Como fora
se amarrar numa garota que tinha um tira como pai?

Sandra vai para o banheiro, lava o rosto, passa escova nos cabelos.
Reaparece metida na cal�a branca, na blusa bege. Sorri, est� linda.
T�o bonita quanto da primeira vez em que a viu. Abra�am-se,
beijam-se.

� Tou gamada em voc�! N�o se preocupe com meu pai.
Toninho promete n�o se preocupar, entram no elevador. Ela
aperta o n.� 1, ele o n.� 2. Saltaria antes do t�rreo, Sandra se incumbiria
de perguntar um tro�o qualquer ao porteiro, Toninho passaria.
Um truque que vinham usando com sucesso.

Antes de sair da escada Toninho examina bem o terreno. N�o
fosse o maluco do detetive aparecer, aquele seria um dia e tanto.
Sandra estava quente, n�o o deixava em paz.


A garota mant�m-se debru�ada no balc�o, o porteiro se abaixa
para procurar alguma coisa. Toninho passa na ponta dos p�s, toca
em Sandra por tr�s, chega � rua.

� Pode deixar, seu Manuel. Vai ver o faxineiro pegou.
� Esse faxineiro � o cara mais folgado que j� vi � diz o porteiro.
� At� os jornais que compro ele d� fim.
� Quando aparecer, pergunte se recebeu. � uma revista de
moda. Pra ele n�o interessa.
Sandra diz isso e sorri, mostra os dentes bonitos. 0 porteiro ainda
puxa conversa, pois na verdade sentia-se feliz de poder falar com
a vedete. Raramente Sandra estava dispon�vel, dificilmente aparecia
ali pela portaria. J� as demais inquilinas, principalmente as velhotas
chatas, subiam e desciam a todo instante, ora reclamando contra o
barulho da bomba d'�gua, ora do elevador ou das l�mpadas nos corredores
que haviam apagado. Quando a garota se vira, o grandalh�o
fica apreciando-lhe as formas, o corpo bem feito, na cal�a justa.

Toninho entrou no �nibus, est� a caminho do quarto. Por mais
que tenha sentido a sinceridade de Sandra, n�o deixa de admitir o
risco da transa��o com a filha de um tira. E exatamente naquele
momento em que os jornais estavam todos em cima do caso, as revistas
faziam retrospectivas, e at� a televis�o exibia filmes dos assassinatos.


Entra na pens�o, dona Berta chama-o dizendo haver uma carta,
assusta-se. Por que uma carta, se ningu�m sabia do seu endere�o?
Que hist�ria seria aquela? Era na verdade uma carta, ou aquela velhota
de bra�os gorduchos lan�ava verde pra colher maduro?

Aproxima-se do balc�o, sorridente, pega o envelope.

� N�o, senhora. N�o � pra mim. Sou Jo�o Leonardo de Abreu.
A carta
� pra Jos� Eduardo Abreu.
A mulher rel� o sobrescrito, sorri, a papada treme.

� Minha Nossa Senhora! Tou ficando ruim da vista!
Guarda o envelope, Toninho toma o elevador, sai no corredor
sombrio, ouve os solu�os de Sandra, as palavras amig�veis do pai, a
conversa que n�o entendia direito. Tira a roupa, fica s� de cueca,
estende-se na cama. P�e as m�os por baixo da cabe�a, olha a revista
que comprou na v�spera. L� estava o mesmo detetive. Torna a olhar
a revista, come�a a perceber uma certa vantagem de estar presente no
reencontro do policial com a filha. Ora, se atrav�s de Sandra pudesse
saber constantemente not�cias dele, se pudesse saber o que andava
fazendo, era muito mais f�cil livrar-se de uma armadilha. Tem vontade
de sorrir, vontade de encontrar-se o mais rapidamente poss�vel
com Sandra, estimul�-la a uns certos contatos com o pai. Afinal, pai
� pai. Por pior que seja. Quando me lembro do meu, sinto vontade
de chorar.


� Por que n�o procura por ele, pelo menos uma vez por m�s?
N�o custa nada!
N�o sabe como Sandra iria proceder. De qualquer forma o im


portante era manter-se o mais perto poss�vel daquele tira, saber dos

seus planos, conhecer detalhes da sua atividade. Esse o lado positivo.

Viu bem como a garota tratou o coroa, n�o podia ser encena��o.

Era coisa s�ria, raiva de muito tempo. Nunca vira Sandra t�o revol


tada. Mesmo depois que o detetive se foi, ainda continuava diferente,

como se tivesse visto assombra��o.

S� de olhar esse tipo fico com a semana inteira estragada!

Toninho querendo dizer alguma coisa, querendo ser agrad�vel;
n�o conseguindo pronunciar uma �nica palavra. Nunca vira nenhuma
pessoa que detestasse tanto o pai. Sem tentar convencer Sandra de
coisa alguma, recorda como seu caso era exatamente o contr�rio. Ou
ser� que n�o? E se soubesse que o pai se mandara, de fato, como o
desgra�ado do Banda Branca andou espalhando? Ia ficar com raiva
dele? Desejaria que tivesse morrido? Estava certo de que n�o fizera
semelhante molecagem. Gostava da m�e. Quase n�o brigavam. A
n�o ser quando as despesas na birosquinha de seu Greg�rio aumentavam,
ele sem saber como saldar a d�vida. O pai se preocupava com
as d�vidas. N�o gostava de passar na frente da bodega, ouvir seu
Greg�rio berrando seu nome, como fazia com muitos outros. N�o tinha
jeito de aproximar-se, sorridente, dizer uma desculpa. N�o, ele
n�o fugiu. N�o se mandou. Estava em algum lugar, provavelmente
preso, talvez acidentado. Sandra n�o se parecia em nada com ele.
Odiava simplesmente o pai. Os olhos ficavam vermelhos, o corpo
tremia, como se estivesse tendo um acesso de convuls�o.

� Ele n�o presta!
Toninho continua estirado na cama, o r�dio tocando longe. O
locutor fala, fala, n�o entende direito o que diz. Na primeira oportunidade
compraria um r�dio. Ficaria ouvindo especialmente os programas
noticiosos. Estava certo de que o importante seria acompanhar
os passos daquele coroa desastrado, que at� com a filha brigava.
N�o ia ser ele que o agarraria. Trataria de mover-se com cuidado,
Sandra se encarregaria de dizer-lhe coisas importantes. Sempre como
quem n�o quer, faria indaga��es, deixaria a garota falar. Talvez at�
ficasse satisfeita de saber que o matador de motoristas continuava
agindo e seu pai n�o conseguia descobrir coisa nenhuma, estava pior
que barata tonta, �s voltas com um retrato-falado que n�o significava
coisa alguma.

Olha o teto alto do quarto, a janela aberta, vaga d�vida a respeito
de Sandra se robustece. E se tudo aquilo fosse encena��o? Quem
poderia provar que a garota n�o era boa atriz? Ser� que o tira j�
desconfiava, por isso foi ao apartamento? Ser� que teve alguma liga��o
com Marlene? Nesse caso, por que n�o o prendeu logo? Por que


n�o procurou ao menos falar-lhe? Ou aquilo fazia parte do plano?

Quem sabe queria apenas v�-lo, saber direito como era?

Procura tranq�ilizar-se. N�o h� motivo para deixar-se arrastar

pelo desespero. N�o podia duvidar de Sandra. Se fosse o caso, nunca

mais apareceria no apartamento, n�o procuraria mais por ela na boate,

Isso bastaria para terminar com o problema. N�o sabia onde morava,

n�o fazia id�ia de sua vida. Se tivesse raz�es concretas para desconfiar

de Sandra, primeiro terminaria com ela, em seguida passaria uma

temporada longe do Rio. Quando retornasse, ningu�m estaria lem


brado do caso. S�o tantos os crimes que os jornais n�o t�m espa�o

para divulg�-los. Era isso. De qualquer forma, n�o custava nada

sondar a garota. No que menos esperasse, faria uma pergunta sobre

o pai. S� pra ver como ia se sair.
Acende a luz, abre os jornais, examina p�gina por p�gina, com
muita aten��o. As ocorr�ncias s�o quase todas as mesmas. Coisas que
lera dois dias antes. Apenas os depoimentos diferiam. No caso do
seq�estro do filho do industrial, aparecera uma nova testemunha.
Imagina o peito que tinha um seq�estrador. Neg�cio arriscado. Jamais
se meteria em semelhante coisa. Tenta fixar-se na not�cia, mas o pensamento
continua preso a Sandra. Se o idiota do coroa n�o se intrometesse,
o encontro teria se prolongado. A garota contando coisas
agrad�veis, falando de projetos que pretendia realizar. Um deles,
fazer o teste para cantora, gravar.

� 0 dia que isso acontecer, te juro que se muda de vida.
� E eu?
� Ora, pode fiscalizar meu empres�rio. S�o todos safados. �
preciso algu�m de olho. . .
Toninho achava gra�a. Ser� que Sandra tinha boa voz? Nunca
a ouvira cantando. Mas garantiu que no pr�ximo show ia dan�ar e
cantar.

� Numa boate ordin�ria como a Bacar� se tem de fazer de tudo,
cara. E muito bem feito pra n�o levar vaia e perder o emprego!
Gostaria de ver Sandra bem badalada, disco na pra�a, tocando
em tudo que era de r�dio e at� aparecendo em programa de televis�o.
Bem que merecia. H� anos, lutando com aquele objetivo. Engra�ado
como Sandra tinha um objetivo. Ele n�o se destinava a nada. Por
mais que se esfor�asse, n�o conseguia entender como ficara assim.
Fora o plano com o pai, nada mais parecia interess�-lo. Mesmo que
conseguisse muito dinheiro, n�o sabia como empreg�-lo. Compraria
roupas, um carro, faria longos passeios. 0 dinheiro terminaria rapidamente,
n�o tinha id�ia clara de como obter outra bolada. Imposs�vel
continuar agindo sempre na pra�a. Ia chegar o dia em que n�o dava
mais. Ou a pol�cia o grampeava, ou os t�xis deixariam de rodar �
noite.


Ajeita os travesseiros por baixo da cabe�a, sente-se em paz na
solid�o daquela casa imensa, uns poucos h�spedes. Talvez Sandra estivesse
com a raz�o. Se pudesse, ia ajud�-la. Quem mal havia em tornar-
se uma cantora importante? Se por causa da fama o esquecesse,
n�o iria reclamar. As pessoas s�o assim mesmo. Tamb�m esqueceu
uma por��o de gente a come�ar por vov� Jandira, tio Donga, Banz�,
a pr�pria Marlene. Sinceramente como ela n�o fazia falta. No primeiro
dia, ao saber do suic�dio, impressionou-se com a fotografia na
p�gina do jornal. Marlene que tanto se cuidava, cara metida na montueira
de pedras e de ferros. N�o conseguia entender aquela maluquice,
como n�o entendia a paci�ncia de tio Donga, recordando os
tempos de barbeiro, nem a alegria de vov� Jandira. Como, morando
num morro fedorento daquele, podiam ser assim?

Vira a p�gina do jornal. L� est� a hist�ria do marido que matou
a mulher, os tr�s filhos. L� apenas as primeiras linhas, passa ao caso
seguinte, do militar que liderava a quadrilha de ladr�es de autom�veis,
do marinheiro envolvido com o tr�fico de entorpecentes, de parceria
com o advogado, o bicheiro e a aeromo�a. Tem vontade de rir.
Estranho como o pessoal dos t�xicos tinha condi��o de reunir num
mesmo grupo as pessoas mais diferentes; das mais diversas profiss�es.
Um dia, quem sabe, quando a barra pesasse, se meteria nesse neg�cio.
Era o mais rendoso, badalado, o que ocupava grandes espa�os nos
jornais. E os chef�es estavam sempre por longe. Procurados mas
nunca alcan�ados. E, pelo que calculava, quando pudesse meter-se
em semelhante manobra, j� teria uma reserva, para n�o come�ar por
baixo. Seguraria um bom ponto, eliminaria o primeiro que se atravessasse
na frente. Nessa transa��o ningu�m pode dar bandeira, nem
entrar engatilhando. D� as ordens quem berra mais alto. Aquelas not�cias
todas que sa�am sobre persegui��es a traficantes de entorpecentes
interessavam de perto a Toninho. Muitas vezes chegava a
recortar as que considerava principais. N�o sabia muito bem o que
pretendia, mas alguma coisa lhe dizia que aquilo teria futuro. Abria
a gavetinha da mesa de cabeceira, onde havia velho abajur, guardava
as notas. Agora, ao ver uma nova not�cia, ainda sobre a aeromo�a que
trazia coca�na do exterior, torna a rasgar o peda�o de jornal, p�e na
gavetinha. Chega finalmente � p�gina dedicada ao assalto de t�xis.
Alguns motoristas apareciam na foto, falavam do movimento grevista.
O presidente do sindicato achava que a pol�cia n�o sabia de coisa
alguma do criminoso e os profissionais continuavam a arriscar-se, sem
qualquer garantia. Depois vinha um pequeno trecho em que o rep�rter
anunciava como se fosse coisa em primeira m�o. L�, alarma-se.

Como podia aquele coroa ter bolado semelhante coisa? Puxa, se n�o
visse aquela nota, era capaz de si ferrar. Como conseguiria botar t�xis
na rua, rodando com policiais disfar�ados de motoristas? No final da
nota, vai sabendo que o projeto ainda n�o est� em execu��o, mas o


detetive garante que os carros est�o contratados. Ora, se aquilo era
uma iniciativa sigilosa, por que estava sendo anunciada daquele jeito?
Ou ser� que o rep�rter fazia apenas uma jogada? E, pensando bem,
de que adiantava o motorista ser tira? Valia a pena saber que estavam
transando no meio dos profissionais de pra�a e isso o obrigava a redobrar
os cuidados. Quanto a puxar a m�quina e fazer com que
funcionasse, nenhum alcag�ete podia adivinhar. Se entrasse num
t�xi e percebesse a manobra, simplesmente se comportaria como o
garoto mais quieto do mundo; na descida ainda daria gorjeta. Como
poderiam desconfiar? N�o havia d�vida de que a pra�a sempre fora
um bom prato. O importante era saber conduzir-se. Nada de afoba��o,
nada de envolver-se com outras pessoas, nem com o pr�prio Enfezado.
Para ele conseguiria um outro neg�cio. Talvez uma pequena transa
com os traficantes de entorpecentes. Enquanto isso aproveitaria para
saber macetes, conhecer figuras importantes, preparando o momento
certo de entrar tamb�m. Daria as dicas a Enfezado, n�o tinha de que
se apavorar. E o melhor de tudo � que s� apareceria � noite. Quando
a barra estivesse limpa. Pelo que vinha observando, muita gente se
ferrava por causa da imprud�ncia, da mania de exibi��o. Lembra-se
da atriz que se meteu no restaurante gr�-fino, come�ou a cheirar na
frente de todo mundo. Uma tremenda bandeira. Coisa de maluca. O
alcag�ete n�o teve nem trabalho. Foi s� discar, a dona arrastando
consigo uma por��o de gente. 0 melhor que podiam fazer com uma
vagabunda daquela seria chumbar no p� do ouvido, jogar na beira da
estrada, na po�a de lama. 0 que � que pensava? Como � que algu�m
podia transar com uma idiota daquele tipo? Com ele n�o teria semelhante
moleza. Ia selecionar os caras. Enfezado ajudaria nessa sele��o.

� No time s� joga quem tiver molejo � isso Enfezado estaria
sempre dizendo. � Quem chutar pra escanteio cai no gramado cortado
por um raio.
Parece que estava ouvindo a voz e o riso de deboche. Enfezado
sabia muito bem como ag�entar-se numa transa daquela responsabilidade.


Rel� a nota sobre o plano do detetive, tem vontade de procurar
a garota. Mas, pra qu�? 0 que tinha a ver com aquilo? Se falasse,
ia ficar grilada. O melhor seria manter-se como vinha fazendo: ouvir
muito, n�o dizer nada. Que Sandra se abrisse, contasse detalhes da
sua vida em fam�lia; que falasse da m�e, que falasse do pai, dos amigos
do pai, de como costumava trabalhar. Isso importava. Em meio a tanta
lengalenga talvez pudesse descobrir o endere�o do tira. A�, dependendo
da necessidade, daria um passeio por l�, faria um levantamento completo
do local. Quem sabe at� fosse uma zona calma, onde pudesse trabalhar
sem que ningu�m percebesse? Essas as coisas importantes. E n�o teria
dificuldade em ouvir isso de Sandra. Necess�rio apenas saber toc�-la.
Na sua vez de falar inventaria mentiras, disfar�aria com a viagem do


pai, a morte da m�e. Nada de detalhes, intimidades. Nem por brincadeira.
N�o perderia tempo escavando tristezas. Faria Sandra entender
que o que passou, passou. Vale o dia que se vive.

A prolongada aus�ncia de Enfezado � que come�ava a preocup�lo.
E por que ser� que os jornais e revistas quase n�o falavam nas
investiga��es sobre o assassinato da mulher do sargento Beto? Que
arruma��o estariam os tiras fazendo? E quem eram eles, al�m do
detetive Silveirinha? Ah, como gostaria de aproximar-se de Banda
Branca, entregar-lhe uma nota firme, mandar fazer averigua��o. Mas
n�o era idiota. 0 alcag�ete pegaria o dinheiro e ainda terminaria por
complic�-lo. Pelo que dissera mestre T�bor, estava na pegada de Enfezado.
E o sargento tinha certeza de que a mulher fora morta pelo
garoto. 0 pr�prio Enfezado dissera ter jurado o torturador. Bastava
botar o p� fora na cadeia, ia � forra. Mas n�o era apenas isso. Sabiam
que Enfezado agira em companhia de um outro e esse o detalhe que
n�o aparecia. N�o se preocupava com isso porque estivesse com medo,
querendo se mandar. Apenas gostaria de encontrar a melhor maneira
de agir, e no momento preciso. Se Enfezado pintasse, como esperava,
tinha inclusive algo melhor a propor. Voltariam na casa do tal sargento,
acabariam com ele. Os tiras iam ficar loucos; a acusa��o que
pesava sobre Enfezado cairia por terra. Ora, quem acusava era o
sargento. Se o sargento desaparece, ent�o quem pode dizer foi este ou
foi aquele? Pela primeira vez sente estar se deixando perturbar pelos
acontecimentos. E isso � o que n�o pode e n�o deve acontecer. Enquanto
mantiver a cuca fresca saber� como livrar-se do detetive Galv�o
e dos seus auxiliares. Nem era maluco de deixar que Sandra desconfiasse.
N�o poderia estar preocupado em nenhum momento. N�o havia
raz�o para nervosismo.

Chega ao final do jornal, volta � p�gina em que havia a fotografia
do motorista, a mulher fazendo acusa��es, lamentando-se, o
presidente do sindicato afirmando que as provid�ncias estavam sendo
tomadas e em poucos dias o matador seria liquidado. Toninho solta

o jornal, n�o acha gra�a. Espera apenas que esteja enganado. Se agia
com cautela, a partir do momento em que soube da trama do detetive,
os cuidados iam ser redobrados. Talvez at� ficasse alguns dias sem
atividade ou fizesse um novo ataque de surpresa. Isso aumentaria a
desorienta��o do detetive.
Durante longos momentos, bra�os abertos no colch�o macio, a
luz entrando pela janela, Toninho reflete sobre tanta coisa: os �ltimos
motoristas que conseguiu surpreender, o homem da lanchonete
perguntando debochadamente por Marlene, Man� Cabreiro dizendo
que Brezol� n�o demorava na cadeia.

� T� se arranjando com um advogado. Se conseguir cinco mil
pra botar na m�o do doutor, fica livre logo. S� que n�o pode viajar,
nem nada!

Sabe que dificilmente Brezol� conseguiria os cinco mil. A n�o
ser que os colegas de obra fizessem uma vaquinha. Mas ningu�m vai
com a cara dele. N�o iam arriscar. De qualquer forma, necessita estar
a par. N�o pode ser pego de surpresa. E, enquanto se ocupa com
Brezol�, com suas bravatas, seus documentos, pensa tamb�m no motorista
crioulo, carapinha branca, �culos claros, dente de ouro brilhando
em cada sorriso. Ser� que em nenhum momento desconfiou,
ou aquela aparente camaradagem era apenas disfarce, at� encontrar
a viatura da pol�cia? Por que n�o parou no ponto onde determinou?
Ficou assustado, por bem pouco n�o se descontrola. Sacou a arma,
encostou o cano no ouvido do velhote, disparou. 0 carro rodou desgovernado
um peda��o, at� bater na �rvore. A sorte � que n�o havia
ningu�m, a pracinha se tornara deserta, dep�sitos de lixo se amontoando.
Desligou o pisca-pisca, apagou os far�is. Ficaram acesas apenas
as lanternas. Se o careta tentara fazer uma ursada, arrependeu-se.
Fez a coleta, havia mais dinheiro do que esperava. Lembrou-se de
procurar nos sapatos. Num deles, a c�dula de 500. N�o pode deixar
de rir. Como eram espertos aqueles caretas. S� n�o tinham id�ia de
prever a �ltima corrida. Mas que sabiam esconder o dinheiro, isso
sabiam. Recorda com certo amargor o que sa�ra num dos jornais.

"Al�m da f�ria roubada que o assaltante levou, o chofer guardava
outra parte do dinheiro no fundo falso do retrovisor interno."

Examina o retrovisor. N�o tinha fundo falso. T�xi antigo, todo
desconchavado, n�o adiantava mais investir nele. O outro n�o; Corcel
novo, cheio de enfeites, equipado com toca-fitas e circulador de ar.
Como aquele cara sabia tratar do carro! Bastava empurrar a alavanca
niquelada, o toca-fitas entrava em funcionamento. E as m�sicas. . . que
m�sicas! Cara de bom gosto. O Corcel parecia zero e rodara 42.000
quil�metros. Desde que entrou, o pr�prio motorista esfor�ando-se para
fechar a porta. N�o permitia que passageiro nenhum batesse com
for�a. Outro detalhe que o irritou: acendeu o cigarro, pediu com
educa��o.

� Se n�o fumasse, lhe agradeceria; sou al�rgico a fumo.
Vontade de mandar aquele careta � merda. Onde se viu motorista
de pra�a com tanta frescura? S� porque a porcaria do carro era
novo? Ficou sem saber. Tentou puxar conversa, o tipo respondia com
palavras curtas, n�o havia jeito de entrosar-se. Falou nos times de
futebol, argumentou n�o torcer por nenhum deles. Poxa!

� N�o gosta de uma biritinha?
Ficou mais surpreso. O homem era testemunha-de-jeov�, nas
folgas metia-se na igreja, preparava as atividades do fim de semana.

� � bom ter em que acreditar. . .
Foi o �nico momento em que pareceu animar-se.
� Bom ou necess�rio?

Toninho com vontade de mand�-lo � merda. Por que necess�rio?
N�o quis alongar-se, n�o estava disposto a uma discuss�o. Viu logo
que era um chato. Certinho, cheio de manias. O carro retratava seu
temperamento. Enfeitinhos por todo lado, a frase b�blica no painel.

O t�xi deslizava macio, o homem calado. Toninho n�o queria
mais falar naquela coisa de f�, de ter de acreditar ou n�o, na salva��o
da alma. Quando mandou parar, o careta disse que naquele ponto
n�o podia. Isso terminou de encher o saco. Meteu a m�o no bolso,
com raiva, o homem examinando a tabela pl�stica, acionou o gatilho,
0 disparo o atingiu no rosto. N�o pretendia que acontecesse assim,
mas o pobre-diabo deu azar. Caiu por cima do volante, um carro veio
de longe, cruzou em velocidade. Fez a revista em todos os locais poss�veis
e imagin�veis, uma decep��o. Como podia uma coisa daquela?'
Nunca recolhera t�o pouco! E aquele era exatamente um carro novo,
que todo mundo dava prefer�ncia. Examinou nas roupas, por tr�s do
retrovisor, por baixo dos bancos, arrancou os sapatos do motorista.
N�o havia nada, al�m das meias furadas nos calcanhares. Merda de
motorista fuleiro! Passou a flanela na tampa do porta-luvas, no espelho
retrovisor, fechou as portas, deixou o r�dio tocando alto, limpou
os trincos, foi embora com as chaves. Andou um peda��o, at� jog�-las
na grelha, junto ao meio-fio. Inacredit�vel! Quando viu o carro, todo.
com faroletes e antena arqueada, imaginou ser uma boa oportunidade.
Como se enganara! Mil vezes um TL de frota. E esperou tanto.
De qualquer forma, at� ali o tal detetive Galv�o n�o conseguira descobrir
nada.

Sai da cama, estira-se por baixo do guarda-roupa, abre o cofre,
tira o dinheiro. Faz a confer�ncia. Pouco. Muito pouco! Teria de
conseguir tr�s vezes mais. S� a� pararia por uns tempos. Se Enfezado
j� tivesse aparecido, bolariam outra jogada. At� os policiais se acalmarem.
Depois recome�aria. Torna a guardar o dinheiro, calcula a
hora, sabe que n�o � tarde. Sairia quando houvesse sil�ncio na pens�o.
Por enquanto os r�dios e as televis�es funcionavam a todo vapor. Novela
em cima de novela, uma choradeira dos infernos. Ah, como detestava
aquelas hist�rias morrinhentas, mulheres desmanchando-se
como se fossem de a��car.

Olha pela janela as l�mpadas que se acenderam, escuta o barulho
das britadeiras que n�o paravam mais, planeja um golpe surpreendente,
quando pegaria tr�s ou quatro motoristas. Que mal haveria
nisso? Qual o problema? Saltaria de um carro numa rua, tomaria
outro na seguinte, mandaria tocar para a avenida de movimento.
Tinha certeza de que resistiria. Afinal, tudo que sentiu da vez passada
foi uma forte dor de cabe�a. A tremedeira das pernas terminou desaparecendo.
Agora, s� a dor de cabe�a e uma certa n�usea. N�o podia
ficar olhando a cara do motorista, os olhos saltados, fios de sangue
alastrando-se no rosto.

182


Se conseguisse realizar os tr�s assaltos, tinha um meio de evitar
a dor de cabe�a: compraria um litro de conhaque, traria para a
pens�o, beberia metade. A melhor forma de relaxar, dormir direto
at� o dia seguinte. Se n�o tivesse dor de cabe�a, entraria no restaurante,
mandaria sair um bife a cavalo, tomaria dois chopes. Talvez
fosse melhor. Se desse na telha, seria capaz de surpreender Sandra.
Soltaria uma grana para o le�o-de-ch�cara, assistiria ao final do show.
O chato � se ela n�o o visse, fosse embora com um pilantra qualquer.

� Como � que vou fazer, se os caras colam com a gente? N�o
� s� comigo. T� pensando que n�o chateia? Pois chateia. Quando se
d� o fora, sabe o que acontece? V�o no patr�o reclamar. Se a coisa se
repete, manda a gente embora. N�o pode � perder o fregu�s.
N�o gostava daquilo, n�o tinha como fazer Sandra parar. De
mais a mais ela n�o queria parar. Dali, como sempre dizia, era o
trampolim para apresentar-se sozinha, cantando, sem tirar a roupa.
Depois viriam os discos, Sandra um nome conhecido na cidade, em
todo o pa�s. Apareceria nas capas das revistas, na televis�o. N�o podia
estragar aquele sonho. Que Sandra fizesse sua vida. Seus encontros
com ela obedeceriam outros hor�rios. Se o pai teve coragem de procur�-
la no apartamento, por que n�o estaria vigiando na boate? Vai
ver, o tira armou tudo direitinho.

� Ele t� doido pela garota, mais cedo ou mais tarde aparece.
Se pega o moleque, baixa o cacete!
Conhecia o estilo desses pais. Com ele o detetive se enganara.
N�o iria atr�s de Sandra. Se encontrariam em outro local, longe
inclusive do apartamento. Cada vez que entrava naquele pr�dio, mesmo
sem ser visto pelo porteiro, tinha a sensa��o de estar passando
pelas grades de uma penitenci�ria. E n�o precisava esconder-se de
um reles alcag�ete, igual a Banda Branca e a tantos outros. O melhor,
mesmo seria procurar um hotelzinho. Desses que s�o discretos, n�o
comprometem. Duas ou tr�s pessoas passam pelo corredor, falando
baixo, pela voz reconhece que uma delas � dona Berta. Naturalmente
ia mostrar quarto para algum novo h�spede.

� Quem seria?

Cap�tulo X

UM

Galv�o est� num dia de completa amargura. Sabe que o prazo
m�ximo que Paranhos lhe dera se escoa, por mais que se vire nas
bocas nada consegue. Nogueira j� falou com uma quantidade de porteiros
de pr�dios, Itamar se informou com outros tantos jornaleiros e
elementos do bicho. Marcou com os policiais na garagem de Lampreia,
fez as apresenta��es. Nessa mesma noite poderiam come�ar. Mesmo
assim, sabia que alguma coisa n�o estava certa. Tira o retrato-falado
da gaveta, abre-o sobre a mesa de trabalho, acende o cigarro, fica
olhando. Que tipo seria aquele, capaz de tanta ast�cia? N�o podia
compreender. Jamais se deparara com semelhante caso. N�o conseguia
sequer dar a partida. De onde aparecera aquele Satan�s para persegui-
lo, logo agora que tinha tantos problemas? Recorda as palavras
de seu Manuel, o porteiro grandalh�o. Conhecia um motorista que residia
no pr�prio edif�cio de Sandra.

� Porra louca, mas bom sujeito.
Falaria com ele ou era melhor entender-se com Caveirinha, Piramb�ia
e Chico Biela? Considera o problema. Estava bastante encrencado
para procurar mais sarna para si co�ar. Aqueles policiais
mostravam-se amigos, at� algu�m acenar-lhes com vantagem. Se isso
acontecesse, abririam o bico. E todo mundo ficaria sabendo da jogada.
Paranhos tiraria o corpo, o secret�rio mandaria carregar no
processo. Queriam um bode expiat�rio, n�o podia entrar naquela. Provavelmente
o tipo que seu Manuel conhecia pudesse desincumbir-se
da tarefa. N�o precisaria nem de muita conversa. Bastava p�r minhoca
na cabe�a do cara.

� Se fosse da pra�a, vou lhe contar: andava mais prevenido
que soldado em campo de batalha!
Ouviria o motorista contra-argumentar, acrescentaria detalhes, a
fim de entender que nunca se sabe com quem est� agindo.


� Como � que vai fazer, se o careta entra no t�xi parecendo
um santo? Por isso que digo: no primeiro movimento em falso do
passageiro, seja ele qual for, o neg�cio � tocar pra Delegacia.
Estenderia a conversa, estava certo de que o motorista ficaria em
ponto de bala. Ao ouvido do profissional, algumas promessas.

� Se descobrir esse assassino filho da puta leva um pr�mio,
ganha nossa amizade.
Darci manda sair mais dois conhaques, Galv�o pega a garrafa,
convida para a mesinha nos fundos, perto do grande ventilador todo
empoeirado, girando barulhos.

� 0 que interessa � pelo menos um suspeito. E olha que a cidade
t� cheia de tipo ordin�rio. Qualquer um que se pegue, tem sempre
o rabo preso na gaveta. Por mim j� teria feito um arrast�o, mandado
descer o cacete em todo mundo. Mas, sabe como �; querem a
pol�cia com boas maneiras; praticamente uma entidade educativa. Por
isso n�o se consegue nada. Um bandid�o como esse acerta uma
porrada de motorista e vai ficando tudo por isso mesmo. Exigem da
gente. Querem que se aponte o culpado. Como se algu�m fosse m�gico!
Darci vira a ta�a de conhaque, p�e mais um pouco.

� E olha que j� abotoou uma por��o de colega. Todo mundo
dando um duro do cacete pra ag�entar pelo menos a comida e o
aluguel e esse gavi�o baixando. T� certo! Se topar com um suspeito,
dou o berro.
� Olha, que n�o se t� brincando em servi�o. Se tem virado pra
cima e pra baixo e nem rastro do cachorr�o. A princ�pio acho que
o pessoal da T�cnica tava levando na maciota. Agora, a corda endureceu
l� tamb�m e nada. 0 que ser� que fiz a Deus pra me acontecer
uma dessa?
Darci sacode a cabe�a. Via pela primeira vez aquele detetive
de rosto cansado, gravata de la�o frouxo no colarinho, achava-o simp�tico,
sensato.

� Outro dia mesmo desconfiei de um cara. Bateu a porta como
se a porcaria do t�xi fosse dele, mandou tocar pra frente. Andei uns
tr�s quil�metros sem saber a dire��o certa. A� me g�entei. 0 cara
tirou o palet�, eu s� de olho no retrovisor. Sabe que tenho uma m�quina,
pois n�o? Sem que percebesse, deixei bem no alcance da m�o.
Foi o tempo que mandou parar, me deu uma nota de cem pela corrida
que n�o chegou a quarenta. At� hoje n�o entendi.
� � dif�cil. Nem sempre a gente pode se deixar levar pela apar�ncia.
Tipo s�rio com cara de bandido � o que mais tem por a�. Vai
ver, o gavi�o tem cara de anjo. Sou capaz de apostar.
Darci continua a tomar o conhaque, o detetive n�o tem pressa.


� O pessoal do sindicato � que n�o t� entendendo o esfor�o da
gente. Pensa que se leva a coisa na flauta. Fico puto com esse tipo de
profissional. S� v� o seu lado.
� Acontece que a turma entrou em desespero. Conhe�o uma
por��o que n�o dirige mais � noite. Eu, n�o. Confio no meu berrante.
� Que marca �?
� Um Taurus, todo enferrujado, mas bom como a peste.
� Se precisar de uma 45 te empresto. 0 importante � ficar de
olho vivo, descobrir logo o suspeito.
� Acha que esse tal de retrato-falado t� com alguma coisa?
� N�o acredito. Sou da pr�tica. Fic��o n�o � comigo. Ningu�m
viu o matador, ningu�m sabe como � e se tem um retrato-falado.
Coisa de cabe�a das sumidades!
� Acontece que tudo que � de colega t� com ele colado no
p�ra-brisa.
� Por isso que tou te dando esse al�, cara. Se tem de escavar
em outra dire��o. Bordejar por longe.
� E se a greve estourar antes?
� A�, vira esculhamba��o! 0 caso cai na �rea federal, eu me
ferro, t�o cedo os motoristas n�o v�o ter tranq�ilidade. N�o adianta
sacudir a roseira que o bandid�o n�o � besta. Quando sentir que o
mar t� brabo, vai pro fundo. Entra na loca.
� Os homem t�o entendendo isso?
� Na pol�cia s� se entende o que se quer. Os grand�o fazem
planos, riscam pap�is e ningu�m pode dizer nada. Quem argumenta
� porque t� querendo fazer corpo mole.
� E o diabo � que essa �guia de pedreira n�o erra um tiro.
Cada vez que puxa o berrante � um colega que pula fora do planeta!
Darci diz isso, encara Galv�o com certa mal�cia, toma mais um
gole do conhaque.

� Por isso �s vezes fico pensando: esse cara t� acostumado com
arma: n�o � amador.
� Onde quer chegar?
� Sei l�; o mundo d� voltas. �s vezes penso que pode ser da
pr�pria pol�cia.
Galv�o toma o resto do conhaque, limpa a boca com as costas
da m�o.

� Se pensou nisso. N�o faz sentido!
� Sei n�o; pro bandid�o agir com tanto cuidado, s� tendo tarimba.
� Sou de opini�o que tamos na frente de um estreante genial;
um careta que nunca fez nada; nunca pintou numa Delegacia.
� E a pontaria que tem?
� Que pontaria? Cola o 22 na cabe�a da v�tima, aciona o
gatilho. N�o tem o que errar!

Darci pensa nas palavras de Galv�o. � isso mesmo. N�o precisava
de pontaria.

� Sou mais a favor de ser um maconheiro; um porra louca
desses que enchem a cuca de fumo, saem por a�. Conheci um no
M�ier que derrubava cerca de arame farpado no peito. 0 bicho ficava
insens�vel como m�mia. J� imaginou um dem�nio desse com um 22
funcionando?
� Tamb�m pode ser.
� Por isso que acho: suspeitou do passageiro. Delegacia com
ele.
0 conhaque na garrafa baixou, Darci olha o rel�gio, Galv�o
ainda tem uma pergunta a fazer.

� E aquela vedete? Onde tira a roupa?
Darci mostra os dentes num sorriso c�nico.
� Boazuda. . . Sou seco nela! Faz strip-tease no Bacar�. Toda
noite!
Galv�o chama o gar�om, o motorista quer pagar, o detetive n�o
deixa.

� Preciso de ti � olhando o bandid�o; isso aqui � por minha
conta.
Galv�o retorna � Delegacia, encontra Itamar que est� nervoso.
V�o para a sala onde as mesas empoeiradas, cobertas de tudo que �
de porcaria, inclusive jornais velhos e garrafas de refrigerantes.

� Tou sabendo a� de uma pior. Mandei fazer um levantamento
na T�cnica, n�o tem nenhum cabo Os�as.
� Ser� que aqueles jornalistas t�o nos fazendo de besta?
� N�o acredito. Talvez o cara telefone pras reda��es dizendo
que � o cabo Os�as. E quem sabe esse cara que telefona n�o � o pr�prio
matador?
� Que sugere?
� Sei l�. Talvez fosse bom colocar algu�m na escuta.
� De que adianta?
Itamar faz um riso triste.
� �, n�o adianta.
� Claro. 0 sacaneta liga de um orelh�o qualquer, d� a dica.
Como � que se vai fazer pra localizar.
� Tem raz�o. 0 telefone quase nem funciona, quanto mais?
� Isso n�o � Estados Unidos, cara. Aqui se tem de gingar como
boi de carga e pegar merda com a m�o.
� E se a gente levasse novo papo com Humberto e Bira? Quem
sabe n�o podiam funcionar nessa jogada?
� � uma id�ia!
� Quando o cabo Os�as telefonar, procuram se alongar o m�ximo
poss�vel, nos d�o o al�.
� Se a gente tiver girando por a�?
187


� Vamos deixar algu�m no plant�o. N�o querem o imposs�vel?
Pois v�o ter de ag�entar. . .
� Boa id�ia. Se bota o Fatia. Quando sair da carceragem emenda
no telefone.
Itamar vai chamar Fatia, o detetive tira o palet�, liga o ventilador,
senta na cadeira empoeirada. N�o estava mais se preocupando
com nada. Depois daquela do cabo Os�as n�o existir, sinceramente
n�o sabe o que dizer. E, o mais dram�tico: sentia n�o ter for�as
de continuar; n�o ter cuca para raciocinar sobre o caso. Depois da
discuss�o com a filha, ent�o, o mundo parecia ainda mais fedorento.
Por que me estrepar todo na ca�ada de um merda, se amanh� ningu�m
vai reconhecer o esfor�o que se fez? Ora, que se danem!

Itamar entra, chateado.

� Parece que t� tudo contra a gente. 0 merda do Fatia agora
s� trabalha de noite!
� Melhor. Larga o xadrez pra l�, fica grudado no telefone!
� Se espera ele chegar.
� Damos uma volta por a�, depois aparecemos. N�o quero encontrar
Paranhos. Vai pensar que n�o tamos com nada!
No p�tio Itamar toca a buzina da viatura. 0 calor�o est� firme,
Galv�o de palet� nas costas.

� � bom se dar uma outra conversada com o pessoal do bicho
e das bancas de jornais. Alguma coisa me diz que se vai terminar
conseguindo.
� Por que acha isso?
� Sei l�, talvez os vinte e tantos anos de janela.
Itamar esfrega o len�o no rosto suado, Nogueira aparece chupando
um picol�. Oferece, Galv�o est� chateado com aquela falta
de vergonha mas n�o ousa reclamar. Afinal, era o jeito dele. Sempre
� vontade, como se estivesse em casa. Nogueira morde um peda�o de
picol�, limt>a a boca.

� Um cara da Santa Clara veio deixar um bilhete.
Galv�o assusta-se e sente-se indignado ao mesmo tempo.
� E por que n�o mostrou, porra!
� Agora que soube. Quando fui comprar o picol�. Encontrei
com Sete e Meio. Ele quem recebeu.
� Que cara que �?
�-0 preto velho que achei mocorongo!
� � isso a�. De onde n�o se espera. . .
Nogueira procura nos bolsos, retira o peda�o de papel, passa
ao detetive. Em poucas palavras, profundamente mal escritas, o aviso
de que havia pintado um estranho no pr�dio.

� Porra! Um cara estranho! Ser� que isso faz sentido?
� N�o custa conferir � diz Itamar.

Entram na viatura, Nogueira arranca, fazendo os pneus cantarem.
Enquanto os ventos quentes da tarde invadem o carro, Galv�o
estuda a hip�tese de transformar esse suspeito no grande criminoso.
Mas sabe que, para isso, deveria haver o m�nimo de condi��es. Do
contr�rio ningu�m acreditaria. Nem o pr�prio Paranhos. Por isso,
preferia aguardar por Darci. Ele sim, podia vir em disparada no
t�xi, frear na porta da Delegacia, saltar empurrando o matador, chamar
a aten��o de todo mundo. Submeteria o suspeito a interrogat�rio,
faria contar a hist�ria completa. Desde o primeiro caso.

� E se este porteiro tiver querendo fazer m�dia?
� A� se vai pr�s pontos de bicho, pras bancas de jornal.
� Na volta n�o � bom levar um papo com o Humberto e o Bira?
� Correto. Se diz que tem um escuta na Delegacia.
Nogueira est� satisfeito.
� Acho que dessa vez se t� chegando perto!
� Prefiro primeiro falar com esse porteiro.
� N�o falo do porteiro � diz Nogueira. � Acho que o Sete e
Meio, sem querer, deu uma dica.
� N�o acredito naquele alcag�ete sem-vergonha!
� Disse que � um garoto quem abotoou a mulherzinha e o pai
do sargento Beto. Silveirinha deu o servi�o.
� E o que tem uma coisa com outra?
� Sei l�. Pode ser o mesmo garoto. Se tem peito pra enfrentar
o sargento Beto, quanto mais!
� De onde Sete e Meio tirou essa id�ia?
� Pelo que disse, quem deu o al� pra Silveirinha foi um amigo
que ele tem l� pelo morro da Babil�nia. Um tal de Banda Branca.
� Acho que sei quem �. Um p�-de-chinelo. Vive inventando
hist�ria pra fazer m�dia na pol�cia.
� Sei n�o! A essa altura, o melhor � conferir. Por que n�o se
fala com Silveirinha? � indaga Itamar.
Galv�o n�o gostaria que o caso fosse encaminhado daquele jeito.
Detestava trabalhar em cima das dicas alheias. Sempre desvendara os
maiores mist�rios � base de suas pr�prias conclus�es. Por que fugir
� regra? Para evitar aborrecimentos e uma discuss�o in�til com Itamar,
decide que na hora oportuna procurariam Silveirinha.

� Depois que se meteu nesse caso t� mais vaidoso que Paranhos.
Parece andar com o rei na barriga.
� Acontece que, por enquanto, n�o descobriu nada � diz Nogueira.
� Sabe que o criminoso � um menor porque o sargento Beto
disse.
� E como o sargento soube?
� Ora, mandou brasa num pivete l� na Invernada, o garoto
jurou que ia se vingar. Quando saiu cumpriu a promessa.
� Menino de ra�a!

� O sargento abusa da fun��o � diz Itamar.
� � como tem de ser. Se n�o se manda pau nessa canalha, a
imprensa esculhamba a gente do mesmo jeito � afirma Galv�o,
amargurado.
� 0 que sei � que o sargento Beto ficou no preju�zo. Perdeu
a mulherzinha que era uma uva � diz Nogueira rindo cinicamente.
� Pelo que ouvi dizer, o pivete n�o tava sozinho.
� Isso tamb�m Silveirinha j� sabe. A per�cia encontrou espermatoz�ide
de dois tipos na pobrezinha. Mandaram lenha nela, antes
de despachar.
Aquelas considera��es de Nogueira v�o fazendo Galv�o imaginar
que talvez estivessem certos. Por que n�o conversar com o detetive,
saber de mais detalhes? E se fosse o mesmo pivete? Afinal, o crime
que praticou era coisa de gente grande. Durante mais de uma semana
os peritos andaram com as m�os na cabe�a, sem saber o que dizer.
Conversaria com Silveirinha, procuraria com o sargento Beto melhores
informa��es a respeito do pivete, pediria fotografias.

� � uma boa � diz Itamar. � Por enquanto, tudo que cair
na rede � peixe. N�o se pode dispensar coisa alguma.
A viatura p�ra na frente do pr�dio, duas rodas na cal�ada, Nogueira
olha o nome no papel, diz ser na esquina seguinte. Saltam,
Nogueira deixa os vidros baixos, o calor�o estava infernal. Entram
no edif�cio, o crioulo de carapinha branca na portaria. N�o se mostra
surpreso. Nogueira apresenta os companheiros, Galv�o tira o papel
do bolso, p�e na mesa. 0 homem levanta, n�o olha o bilhete, n�o se
incomoda com o nervosismo do detetive.

� Acho que tenho uma novidade pra voc�s. O jornaleiro da
esquina t� desconfiando a� de um pivete. Garot�o desse tamanho
assim, desaforado. Outro dia, por causa de uma revista, quase vira a
banca do homem.
� E da�? Que tem isso a ver com o caso dos motoristas?
� Na discuss�o o pivete disse que queimava qualquer um; era
s� querer.
� Como � o nome do jornaleiro?
� Todo mundo conhece ele como Manolo!
Galv�o n�o tem mais o que dizer. Nogueira promete ao porteiro
que se daquilo sa�sse uma pista, a recompensa viria. 0 detetive continua
calado. Estava cheio de ouvir conversa fiada.

� Vai ver o jornaleiro quer sacanear o pivete!
� 0 que tem se ouvir o papo dele? Se bancar o sabido, dou uma
prensa, mando pra Delegacia. Pega um ch� de banco por l�, nunca
mais se mete a engra�adinho.
� 0 porteiro ficou de olho vivo como mandei � lembra Nogueira.
� Se o tal Manolo � mais pilantra que o pivete, n�o tem culpa.

Chegam � banca. Quem toma a iniciativa � Itamar. O homem
est� arrumando revistas, escondendo as que s�o proibidas por baixa
das prateleiras.

� Como �, gente boa! Cad� o valent�o?
� O espanhol olha-o surpreso, Itamar exibe o distintivo de
policial.
� Como souberam?
Itamar faz um riso de superioridade.
� Se t� sintonizado, amizade. Pouca coisa escapa!
� Pois �, fiquei furioso com o pivete. Rasgou uma revista,
jogou na minha cara. Quando parti pra cima dele, sacou a arma. A�,
j� viu, n�o sou le�o. Bagun�ou com a banca o que p�de, al�m de
dizer estar acostumado a queimar motorista; podia me fechar na
moleza.
� Pra onde foi?
� Saiu a� pela Nossa Senhora de Copacabana. Fui atr�s com
mais uns dois caras. Na hora n�o apareceu um s� policial.
� Que � que h�? Acha que tem tanto pol�cia assim na cidade,
pra
ficar vigiando cada banca de jornal?
O espanhol compreende a mancada.

� N�o quero dizer isso; apenas fiquei machucado com o que o
pivete fez.
� Como era a pinta dele?
� Crioulo, quase um metro e setenta, magro, bei�ola virada.
� Tem alguma das revistas que rasgou?
O espanhol procura, encontra fragmentos de uma delas.
� As outras joguei no lixo.
Diz isso entregando a revista rasgada a Itamar. Galv�o se aproxima.
Itamar mete-a no envelope que o jornaleiro lhe oferece.

� Vamos ver o que as sumidades podem dizer!
O jornaleiro mostra-se atencioso, sorridente, Galv�o n�o acha
gra�a em nada do que diz. Est� � muito chateado de aquele passeio*
n�o levar a coisa alguma. Deviam ter ido para a TV, atr�s de Humberto,
ou conversar com os caras nos pontos de bicho. De volta �
viatura Galv�o conclui que o pivete estava blefando.

� Se de fato matava motorista, n�o ia dizer. Abriu o bico por
que � vagabundo do segundo time.
� Mas sacou pra decis�o � acentua Nogueira.
� Decis�o coisa nenhuma, cara. Se fosse assim esse espanhol
ainda tava a� contando lorota?
O carro avan�a por ruas de movimento intenso, passa pela pra�a
cercada de amendoeiras, o sol est� quente, mulheres quase nuas, a
caminho da praia.

� Isso � que � vida e a gente aqui, como barata tonta!

� Sei n�o. Se se botar a m�o nesse moleque � diz Itamar �
� poss�vel que repita o que disse pro tal Manolo.

� Acha que um pivete desse tope d� furo n'�gua? Blefou com
o espanhol porque tava dando um show. Entre quatro paredes a cantiga
� diferente.
A viatura aproxima-se da cabine de caminh�o corro�da de ferrugem,
os homens v�o tratando de afastar-se. No ch�o h� muito peda�o
de papel, com jogos feitos e perdidos. Galv�o salta, procura por Jereba.
O baixote, camisa rasgada no peito chama, desconfiado.

� Jereba�!
� Como t� o jogo?
� N�o � mais como antigamente; agora, poucos jogam, muitos
ganham. . .
� Pra cima de mim? Qual �?
0 baixote remexe nas pules, faz uma anota��o ligeira, mais para
disfar�ar.

� Juro que � isso. Anteontem mesmo uma dona estourou o
ponto.
� Quanto levou?
� Mais de 50 mil.. .
� O que significa isso, pra quem arrecada uma nota firme
todo dia?
� A�, s� com Jereba. Pelo que sei, n�o t� dando tanto assim.
Jereba se aproxima. Palito na boca, chapeuzinho de feltro, abas
curtas, um toco de l�pis atr�s da orelha, rosto marcado de espinhas,
olhos vermelhos.

� Oh, l�, gente boa. Como � que �?
Sorri, mostra a falta de dois dentes na frente, os outros amarelos
de cigarro.

� Poxa! Quanto tempo!
Afastam-se para junto da cabine de caminh�o, completamente
enferrujada. Os bicheiros que est�o por ali tratam de cair fora. Fica,
mesmo, s� o baixote que n�o teve tempo de escapar. Galv�o p�e o
bra�o no ombro de Jereba, fala pausadamente.

� Tamos a� numa enrascada, preciso da tua ajuda.
� No que puder, pode contar.
� Acho que pode.
Galv�o faz uma pausa, esfrega o len�o encardido no rosto suado.
� O neg�cio � que se t� querendo botar a m�o no moleque que
fecha motorista e n�o h� jeito. T� nos tirando o sono, seu Jereba!
� Puxa! Que diabo � esse?
� � o que pergunto. J� mexi, virei, n�o consigo nem come�ar.
Agora mesmo nos deram um al�, corremos aqui perto, rebate falso.
Tudo conversa fiada.
� Pode deixar. Vou botar os cachorrinhos na jogada.

� V� bem, Jereba. Nunca te aporrinhei, nunca te pedi nada.
� J� disse. No que depender da turma aqui, pode dormir tranq�ilo.
Galv�o acende um cigarro, olha distante, o p� apoiado num ferro
da cabine enferrujada.

� Dormir . . . N�o me fa�a rir. N�o sei o que � isso h� semanas.
S� penso nesse assassino filho da puta!
Joga o cigarro fora, olha novamente o baixinho com as m�os e
os bolsos cheios de pules, faz um riso c�nico.

DOIS

� Acha mesmo que vai colaborar? � indaga Itamar.
� Como dois e dois s�o quatro. Sabe que n�o sou de dar em
cima, de tomar grana de bicheiro. Baixei porque se t� numa pior. Se
n�o movimentar os cachorrinhos, meto todo mundo em cana. A come�ar
por aquele baixote cara de rato.
� E como se vai saber que t� agindo?
� Um de voc�s fica na campana. Mas tou quase certo de que
nem precisa. Jereba n�o � de negar fogo.
� Vamos pra TV?
� � melhor telefonar antes � diz Galv�o. � N�o se deve demonstrar
muito interesse. Esse pessoal de imprensa t� sempre de p�
atr�s com a gente.
� Tamb�m acho. L� pelas oito dou uma ligada. A� se transa.
Nogueira toca na dire��o da Delegacia, sem muita pressa.
� Aquele espanhol � engra�ado � diz ele. � Ser� que houve
mesmo a bronca do pivete?
� Dif�cil dizer. Essa cambada de jornaleiro t� metida em tudo
que n�o presta. Vai ver, passou o pivete pra tr�s, ele foi l� descontar!
� A hist�ria n�o tem p�, nem cabe�a � afirma Itamar. � Um
garoto olha a revista, depois resolve rasgar, jogar no cara. J� imaginou?
� Pra cima de mim n�o.
� Essa n�o cola. Se tivesse tempo ia saber fundo sobre aquele
safado. Tou apostando que naquele mato tem coelho.
� No momento n�o se pode pensar em outra coisa que n�o
seja no tal matador louco.
Perto da pracinha o detetive manda Nogueira tomar o rumo da
Invernada.

� Vamos pra l�. Talvez um papo com o sargento Beto ajude!
� Pode ser uma boa.

� De acordo com o que disser, se sobe o morro.
� Onde h� fuma�a h� fogo � afirma Nogueira. � O Sete e
Meio pode ser um merda mas n�o ia nos jogar areia no olho.
� Ele que experimente! � diz Galv�o.
� Engra�ado . . . n�o me lembro desse tal de Beto!
� Puxa, o cara mais manjado da Invernada � afirma Nogueira.
� Barra pesada � considera Galv�o.
� Quem t� acostumado a bater n�o sabe trabalhar de outro jeito.
Pega o moleque, manda cacete, ele conta uma hist�ria, o escriv�o
mete o jameg�o, joga pra cima da Justi�a.
� A�, a turma da Justi�a tira o corpo, pede novo depoimento. . .
� A essa altura j� � outro dia � diz Nogueira sorridente. �
� o que o sargento Beto sempre gostou de fazer. Houve um tempo
que resolvia qualquer caso em menos de 24 horas. Ficou famoso.
Quando a coisa chegava no Tribunal, voltava mais depressa do que
tinha ido.
Todos acham gra�a.

� De qualquer forma n�o me lembro da cara dele.
� E um parrudo, ar de quem acabou de dormir!
� Empurra uma cacha�a que n�o � mole . . .
� Gosta tamb�m de grana. T� sempre bem de vida. Da �ltima
vez que encontrei com ele ia num Dodge Dart zerinho. Sem que perguntasse
coisa nenhuma, foi logo dizendo que tava estreando o carro
do irm�o, que � dentista.
� Isso � verdade?
� Duvido muito � afirma Nogueira. � Acho que n�o tem
irm�o
nenhum.
Nova risada.

� O certo � que dessa vez levou ferro.
� Sei l�. Sem-vergonha como �, vai ver t� at� gostando. Procura
outra mulherzinha, come�a tudo de novo.
� E o pai dele?
� Bem, a� a coisa muda um pouco de figura. Assim mesmo,
n�o sei se gostava do velho. Ali�s, pelo que dizem do sargento Beto,
n�o sei do que ele gosta.
� De espancar. � sua divers�o. Em seis anos de Invernada,
nunca
faltou um dia. E sempre comanda o espet�culo . . .
Mais risos, uma considera��o de Itamar.

� A fun��o do policial n�o � essa. A n�o ser em caso extremo!
� Tou contigo � diz Nogueira. � 0 certo � trabalhar como
se trabalha.
� S� boto a m�o num vagabundo em �ltimo caso. Como agora
� acentua Galv�o. � Se pego esse matador, acabo com ele.

� Esse caso em que se t� metido � exce��o � afirma Nogueira.
� Eu baixava o cacete em qualquer um. mesmo em suspeito. Do contr�rio,
onde � que se vai parar?
Galv�o acha gra�a, Itamar n�o consegue manter-se s�rio.

� No fundo � diz o detetive � sargento Beto t� certo. � a
lei do menor esfor�o. O malandro leva uma pauleira, em poucos instantes
d� o servi�o. Se tem peito de abrir o bico na Justi�a, a coisa
emperra. E � por isso que se chegou a essa situa��o. Em vez de dar
ganho de causa pra gente, os merit�ssimos ficam do lado do bandido.
Coisa de intelectual. N�o d� pra entender!
� � dif�cil � afirma Itamar. � Por isso. tou decidido: terminado
esse caso, se n�o vier um bom aumento, procuro outro bico.
� Eu j� defini a situa��o. Com ou sem aumento vou tirar f�rias.
Depois, licen�a sem tempo. Que se dane o resto. Quero saber das
perip�cias pelo jornal.
� Aposto que n�o ag�enta o peso do pijama uma semana �
diz Nogueira.

� Espera s� pra ver .. . A melhor vida � ficar estirado na cama
at� tarde, tomar caf� a hora que bem entender. Depois, uma voltinha
na esquina, papear com os amigos, biritar um pouco, estender-
se na poltrona, passar a vista nos jornais. Se me der na veneta, arranjo
at� um despachante pra cuidar da aposentadoria. Assim, n�o ponho
mais os p�s em reparti��o da pol�cia.
� Sei n�o. Depois de um m�s vai t� querendo voltar. Essa profiss�o
� v�cio.
� J� foi. Hoje n�o � mais. Servi de boneco na m�o de muito
sabido, agora chegou. At� o Paranhos querendo montar nas minhas
costas. Que � que h�, sou algum vira-bosta?
A viatura entra na rua larga, cal�amento irregular, po�as de
�gua suja, fundos de quintais com muros baixos, p�s de mamoeiros
entanguidos, frutos mirrados no tronco, folhas amarelecendo naquele
solz�o da tarde de ver�o das mais quentes que Galv�o j� vira. Diversas
vezes passou o len�o no rosto, sente o suor escorrer no peito
e nas costas, est� com as virilhas encharcadas. Sua vontade era meter-
se no banheiro, abrir a ducha fria, ficar sentado no banquinho
de ferro, que Julieta encontrou no antiqu�rio. Depois, calmamente,
se enxugaria, andaria nu pela casa, tomando u�sque com gelo e vendo
futebol na televis�o. Em vez disso, ali estava, num lufa-lufa infernal,
Nogueira garantindo que n�o suportaria o peso do pijama, ele pr�prio
sem saber se o companheiro tinha raz�o ou n�o. Na verdade,
aquela profiss�o estava no seu sangue. Se lembra desde o primeiro
dia. Como foi emocionante. E como se chateou pouco, quando soube
do ordenado, no primeiro m�s de pagamento. Quase todos os outros
colegas discutiram, alguns amea�aram n�o voltar no dia seguinte. Ele,
n�o. Achava que, com o tempo, as coisas podiam melhorar. 0 impor



tante seria fazer aquilo que gostava. E do que � que gostava? De sair
pelas ruas, entrando nas casas, prendendo pessoas inocentes, como
uma vez o cara na porta do bar lhe dissera? Nada disso. Aquele moleque
estava b�bado, n�o passava de um debochado. Pegou dois dias
de cana e saiu de cara amarrada. Foi o primeiro inimigo que fez.
Mas, dali em diante, o que mais o atra�a, era o mist�rio. O desejo de
descobrir situa��es dif�ceis, quase imposs�veis para os outros. Uma esp�cie
de jogo. De roleta. Se aposta num n�mero, a roda p�e-se a girar,
ningu�m sabe quem vai ter sorte. Policial seria aquilo? Estava
certo que sim. Do contr�rio n�o teria resistido a tanto. Mais de 25
anos de profiss�o, poucas faltas, duas ou tr�s repreens�es, alguns elogios,
nenhuma licen�a especial, mais de 300 casos resolvidos, entre
grandes e pequenos. Houve um tempo em que se dava ao trabalho de
fazer essas anota��es. Julieta, mesmo contra a vontade, escrevia isso
tudo num caderno de muitas p�ginas. �s vezes, nas folgas, olhava as

anota��es. Uma esp�cie de di�rio de bordo. Mas, na verdade, n�o sabia
em que �guas seu barco estava navegando. Nem a pobre Julieta. Hoje,
n�o gostaria de abrir aquele caderno. Sabe que deve estar metido em
alguma das muitas gavetas dos m�veis, n�o queria v�-lo. Coisa do
passado. Do tempo em que procurava dar tudo de si. E de que adiantou?
Al�m da partida de Julieta, o desastre com a filha. Isso, o que
mais o magoava. N�o teve compet�ncia de entender-se com a filha.
Que merda de policial era ele? Se n�o conseguia resolver seus pr�prios
problemas, como sentir-se autorizado a solucionar problemas
alheios, da sociedade? N�o era de agora que agia como um farsante.
E o sargento Beto n�o devia ser diferente. N�o fosse assim, talvez o
movesse uma esp�cie de vingan�a. O que sempre procurara evitar. Na
verdade, cada um tem suas raz�es. O pr�prio Itamar. quando tivesse
mais tempo de profiss�o, terminaria com o resto de boas maneiras.

� A fun��o do policial n�o � essa . . .
N�o sabia direito o que estava dizendo, n�o topara com situa��es
realmente dif�ceis. Aquela, podia ser a primeira. E ele ia ficar curtido.
Se n�o se pega o assassino, num instante se passa de perseguidor
a perseguido. Essa � a lei.

Entram no sagu�o cimentado, arbustos floridos junto ao muro
enegrecido, Nogueira na frente, sobem o lance de escada, continuam
a caminhar pelo corredor de t�buas gastas, chegam � sala onde h�
dois homens escrevendo � m�quina, um deles reconhece Galv�o. Levanta,
vem conversar.

� Se t� querendo um papo com o sargento Beto.
O homem consulta o colega, o sargento deveria estar no pavilh�o
4.

� Como se chega l�?
� Vou com voc�s.
196


O homem passa para o lado do corredor, continua a falar com
Galv�o, reclama do tempo consider�vel em que estavam sem se ver.

� Na luta em que se vive n�o se consegue nem falar com os
amigos.
V�o caminhando, tornam a descer pequena escada, atravessam

o p�tio cimentado, muros alt�ssimos, traves de futebol de sal�o, entram
por uma esp�cie de galp�o parcialmente destelhado, passam pelos
carros abandonados, viaturas ainda novas se estragando por falta
de uma pe�a ou de outra, descem a escadaria estreita e fria.
� � aqui que se esconde.
Galv�o faz um riso amarelo, o homem empurra uma porta, vai
ao encontro do tipo parrudo, cara redonda, olhar severo. Todas as
l�mpadas do sal�o est�o acesas, os ventiladores giram furiosamente.

� Sou o detetive Galv�o. Tamos a� numa pauleira; no tal caso
dos motoristas.
0 sargento fixa-o, sorri, a obtura��o de ouro de um lado.
No que posso ajudar?

� Talvez sua ajuda venha a ser indireta.
0 sargento sente que a conversa vai se alongar, convida o detetive
e seus amigos para uma sala. Ali a temperatura � amena, pois
existem dois aparelhos de ar-refrigerado funcionando. Na cadeira que
� do sargento h� uma toalha, a qual ele esfrega no rosto e nos bra�os.

� Isso aqui, num dia como hoje, � um forno!
Galv�o, Nogueira e Itamar acomodam-se em poltronas confort�veis.
0 sargento toca uma campainha, aparece o cont�nuo.

� Arranja caf� e �gua gelada!
Senta, afasta pequenos objetos e pap�is que est�o sobre a mesa.
� Em que posso ser �til?
Galv�o acende um cigarro, oferece ao sargento e aos amigos.
� Como disse, tamos numa guerra braba e praticamente sem
resultado. Foi ent�o que ouvi um sem-vergonha dum alcag�ete falando
naquele maldito pivete que invadiu sua casa.
� Acha que � o mesmo?
� N�o fa�o id�ia, mas tudo � poss�vel!
� Realmente o cara � frio. Nunca pensei que fosse cumprir a
amea�a.
Galv�o cruza as pernas, o cont�nuo volta com a bandeja repleta
de x�caras, colherinhas, a�ucareiro e um frasco de �gua gelada.

� Que diabo de pivete � esse?
� Sinceramente, n�o sei. Baixou um dia aqui, fazia perguntas,
n�o respondia.
� Tinha antecedentes? � quer saber Itamar.
� Pelo que me informaram, uma entrada na 13.a Coisa sem
import�ncia.
� Quanto tempo ficou?

� Uns quatro meses. 0 pessoal do Juizado entrou em cena, foi
transferido.
� Tem alguma fotografia dele?
0 sargento ergue-se, puxa uma gaveta do arquivo, tira a pasta,
abre. H� diversas fotos 9 x 12, pap�is, recortes de jornais. Galv�o
examina bem a cara do pivete.

� �, o bicho parece raivoso!
0 sargento como que acompanha a observa��o.
� Atualmente, posso dizer que sei tudo sobre esse garoto. Quem
s�o os pais, o barraco onde mora, os amigos que tem. Tou esperando
a hora de agir. Silveirinha acha que vou estragar minha carreira, mas
seja o que Deus quiser.
� E se outros fizerem isso?
� N�o � a mesma coisa . . . Avisei inclusive a chefia. Para surpresa
minha, ganhei carta branca.
� Como t�o as investiga��es?
� Por enquanto na base da especula��o. Mandei convocar outro
dia o alcag�ete que mora l� mesmo no morro.
� Que morro?
� Babil�nia!
� Qual foi o al� do alcag�ete?
� 0 pivete se mandou. Tanto ele quanto uns amiguinhos que
tinha. Mas n�o custa aparecer. A� se arrasta pra c�.
� Trabalha com algum parceiro?
� Pelo que atestou o perito Rui Lobo teve l� em casa com um
coleguinha.
Itamar encara Galv�o.

� Ser� que esse bicho nos interessa?
� Espero que n�o � argumenta o sargento Beto. � Se isso
acontecer, juro que vou me sentir frustrado e sou capaz de perder
a cabe�a.
� Talvez n�o seja exatamente ele que se quer . . .
� Quem s�o os cupinchas dele?
0 sargento mexe nos pap�is, puxa uma lauda.
� Pelo que informa o alcag�ete, v�rios: um tal de Colher de
Pau, um outro, Banz�, um terceiro que t� sumido faz tempo, chamado
Toninho, dois com fichas em tr�s Delegacias: Zebrado e Cavalo
do C�o.
� � uma quadrilha!
� 0 alcag�ete tem sua filosofia a respeito dessa garotada �
prossegue o sargento, calmamente. � Ou todos eles s�o muito vivos,
ou andaram se dividindo. O tal do Toninho n�o � visto pelo morro
h� mais de cinco anos, o Colher de Pau passou uns tempos por aqui,
mandei em frente, ando querendo botar a m�o no Banz�. Me disseram
que � mais imundo que pau de galinheiro.


� Especialidade?
� Assaltar motel. Faz mis�ria com os casais, quase ningu�m
aparece pra dar queixa.
� Puxa! Descobriu um bom ramo � diz Nogueira querendo
fazer blague, mas o sargento n�o acha gra�a.
� Se a gente botar a m�o nesse tal de Banz�, ser� que d� o
servi�o?
_ Pode n�o saber a hist�ria toda, mas deve ter muito o que
contar. Ningu�m me tira da cabe�a que n�o tejam agindo em conjunto.


� E por onde andar� o Banz�?
� O alcag�ete garante que umas duas vezes foi visto na zona
do Mangue, uma terceira na Lapa.
� Quem � o alcag�ete?
� Um tal de Banda Branca. Sujeitinho chato e metido. Se d�
o p�, quer a m�o!
� Posso ficar com uma foto dessas? � indaga Galv�o.
� Escolha a que achar melhor � diz o sargento, que come�a
a procurar um envelope.
� S� lhe pe�o um favor: caso descubra o pivete antes da gente,
n�o deixe de me dar um al�; � uma quest�o de
honra.
0 detetive levanta, os companheiros fazem o mesmo.

� Pode deixar. Trato � trato!
TR�S

Na Delegacia o movimento � pequeno. Fora o bilhete de Paranhos,
cobrando solu��o para o caso, nada h� que contrarie Galv�o.
Olha o bilhete em letrinhas mi�das, tem vontade de ligar pro delegado,
mand�-lo � merda. 0 que pensava aquele cretino? Que estavam
passeando, divertindo-se? Acomoda-se na cadeira, apoia os p�s
na mesa, Itamar sai para telefonar. Galv�o sacode-se na cadeira, volta
a olhar a fotografia do pivete. Seria aquilo uma solu��o? Aquele

o dem�nio que o perseguia h� tanto tempo? E se subisse o morro,
localizasse o tal Banda Branca, levasse um papo aberto com ele?
Itamar entra, diz que Humberto ainda n�o chegou, Bira pega
depois das 9.

� Fica de olho! Da televis�o se vai direto procurar o guarda-
noturno.
A fotografia do pivete est� sobre a mesa. Itamar tamb�m olha.

� Pode ser uma pista?

� Sei l�! De qualquer forma vamos ter de procurar o alcag�ete.
N�o creio tenha contado a hist�ria toda pro sargento Beto.
� Parece que n�o � de muita trela.
� Fechad�o! Sem mal�cia pra lidar com esse tipo de gente!
� Se descobrir o pivete, entrega?
� Aqui!. . . Ele que fique esperando!
Itamar acha gra�a.
� E o aperto de m�o, selando o compromisso?
� Coisa do passado. N�o tem mais neg�cio de �tica nem porra
nenhuma! 0 bandid�o � de quem chegar primeiro. Se o sargento t�
com dor de corno que se vire. N�o tou nem a�!
Ouve-se barulho no corredor, vozes, um homem berrando, outros
mandando que se ag�entasse, um tipo extremamente nervoso, empurr�es,
ru�do de cadeiras arrastadas. Galv�o e Itamar saem da sala
�s pressas.

� Que � isso?
Um dos policiais segura o tipo de �culos, magro e apavorado,
um lado do rosto com bruto hematoma, por tr�s do segundo policial
aparece o motorista de cal�a caqui arrega�ada, suado, olhos vermelhos.
Aproxima-se de Galv�o.

� Tentou me assaltar. Vi toda a manha dele. N�o me abotoou
porque
fui mais vivo.
Galv�o despacha os policiais, entrega o cara a Itamar. vai at�

o bar com o motorista, pede uma garrafa d'�gua, enche dois copos.
� Como foi?
Darci toma o primeiro gole, est� de fato alarmado.
� Juro que o filho da m�e quis me acertar!
� Alguma arma na m�o dele?
� N�o me lembro. Mas reparei bem quando tentou me segurar
por tr�s.
� Segurar? Em que altura foi?
� Final do Posto Seis; perto do ponto de �nibus.
� E n�o era cedo pro bandid�o t� agindo?
� Acha que um tipo desse tem hora pra alguma coisa?
Galv�o manda que Darci se acalme.
� G�enta a m�o. Daqui a pouco d� um al� pro escriv�o, bota
tudo preto no branco. A� vou ver se o pilantra � mesmo quente.
O motorista desdobra as pernas da cal�a, vem para a sala onde
h� diversos funcion�rios da pr�pria Delegacia, o homem com o hematoma
no rosto, palavras que n�o fazem sentido. Itamar mandou
que repetisse a hist�ria, o suspeito parece assustado.

� N�o sei do que t� falando! Sou de responsabilidade. Pode
ver meus documentos.

Os documentos est�o sobre a mesa, Galv�o p�e-se a examinar.
Pelo visto, est� tudo em ordem, mas n�o era bobo de perder aquela
chance.

� A carteira profissional?
� N�o preciso andar com ela. Sou Veterin�rio, leciono na Universidade.
� s� ligar pra l�.
Galv�o faz um arzinho de riso. N�o ia cair nessa.

� Todo vagabundo tem uma conversa diferente. Por que ent�o
quis segurar o motorista?
� Esse cara � maluco. Quando entrei no carro, tava quase dormindo.
Duas vezes ia batendo. Me apavorei com a irresponsabilidade
dele, mandei que parasse. Como n�o queria, ameacei descer de qualquer
jeito!
Darci ouve a acusa��o, revolta-se.

� Dormindo coisa nenhuma. Se fosse assim n�o tava aqui pra
contar hist�ria!
0 detetive manda que o motorista cale, Itamar leva-o para um
canto com o escriv�o, Darci p�e-se a narrar sua vers�o, ao mesmo
tempo em que Galv�o interroga o suspeito: alto, magro, cabelos
ficando grisalhos, hematoma quase em cima do olho esquerdo.

� 0 que pretendia fazer? Onde botou a arma?
� Que arma? Nunca andei armado. N�o sou do tipo que t�
imaginando.
0 suspeito irrita-se, tenta erguer-se, os policiais n�o deixam.

� Quero meu advogado!
� Calma � diz Galv�o. � Aqui, n�o adianta berrar. Tinha
de pensar na complica��o antes de tentar abotoar o motorista. Ou
acha que o profissional � maluco?
� Se � maluco, n�o sei. Que n�o tem condi��o de t� dirigindo
um
t�xi, isso n�o tem. � um neur�tico!
Essa acusa��o Darci n�o parece ouvir. Galv�o impressiona-se com

o palavreado do cidad�o que, na verdade, n�o � pr�prio de um delinq�ente.
Ou ser� que aquele era um esp�cime novo na pra�a? Imposs�vel
saber. 0 melhor seria alongar aquele interrogat�rio e sem o
ajuntamento de curiosos. N�o podia perder a chance, nem permitir
que a coisa se transformasse num show. Quem quisesse saber do caso
que lesse nos jornais. Galv�o aciona uma tecla do interfone, a Delegacia
est� movimentada, manda que o carcereiro suba.
� Vai ficar guardado umas horas, at� recordar de tudo. Enquanto
n�o contar o que de fato fez, n�o tira o p� daqui. N�o tem
advogado, n�o tem nada.
0 carcereiro aparece.

� Leva pra l�. Bota no isolamento!

Com a sa�da do tipo de �culos, a sala come�a a esvaziar. Falando
alto, gesticulando muito, Darei continua a depor. O detetive
aproxima-se.

� O homem t� dizendo que te viu dormindo na dire��o . . .
� Eu dormindo? Duvido. Viro 18 horas e quando chego em
casa ainda vou ver televis�o.
� Quem sabe na hora que pegou o cara o sono chegou?
� Comigo n�o tem moleza. Quando saio de casa � pra trabalhar.
Nunca durmo.
Galv�o est� certo de que as alega��es de Darci s�o infundadas.
Sabe, mas n�o tem outro jeito. Seu desejo � que o motorista v� logo
embora, deixe o fato registrado, que todo mundo saiba, inclusive,
que chegou a fazer pondera��es em defesa do acusado.

� Se o homem for um figur�o?
� Que tem isso? Tentou me matar, � o bastante. Ou assassino
s� pode ser quem � pobre?
Galv�o acha gra�a. At� parece que o motorista lia seus pensamentos.
Exatamente a resposta que gostaria de ouvir. O escriv�o vai
acrescentando linhas e mais linhas, a m�quina trabalhando sem parar.

� Tenho mulher e tr�s filhos, n�o posso dar bandeira. No dia
que um vagabundo desse me fechar, quem vai tomar conta das crian�as?
Por isso ando prevenido. E n�o durmo coisa nenhuma.
0 escriv�o chega ao final da segunda lauda, tira o papel da m�quina,
Itamar oferece uma caneta ao motorista. Assina, exibe os documentos,
faz um sorriso de satisfa��o, retira-se. 0 escriv�o recolhe
os pap�is, d� uma leitura r�pida, entrega a Galv�o.

� Parece que o motorista t� motivado. Pra fazer uma acusa��o
desse tipo, tem de saber o que diz.
� Mas que � igual a um soneca, isso � � acentua Itamar.
� Se a gente for atr�s disso n�o prende ningu�m!
� Que pretende?
� Ouvir o homem; fazer ele falar. Essa de jogar palavreado
bonito em cima de mim n�o cola.
� Acha que t� mesmo implicado?
� E por que n�o? Pensa que o motorista perdeu mais de tr�s
horas de trabalho por brincadeira?
� Onde pode ser?
� Aqui n�o � o melhor lugar. Talvez na 17.a, por volta das 11.
� 0 que se diz pro pessoal daqui?
� Vai tirar uma d�vida. Ningu�m tem de saber detalhes. Quem
l� interessado em nos ajudar? Ent�o, por que explica��es na hora
que se pode ter uma pista?
Itamar convencido de que era aquilo.

� E a televis�o?

� Fica pra amanh�. O guarda-nortuno, tamb�m. Primeiro o
papo com o cara.
� Quem pode refor�ar o esquema?
� Papo de Anjo e Baiacu. Sabem trabalhar.
Itamar sai da sala, o escriv�o fura os pap�is assinados por Darci,
coloca-os na pasta. Galv�o sente-se um tanto tranq�ilizado. Pela primeira
vez, em diversas semanas, tem certeza de ser encarado com
respeito.

� Parece que agora a coisa vai, seu Beija-Flor. Se esse filho
da m�e desengasga, livra o nosso lado.
� 0 motorista garante topar a acarea��o.
� Conversei com ele. � seguro!
� E se na hora H resolve tirar o time?
� A� se d� um pau nele; n�o � poss�vel que esse merda venha
aqui contar um caso, assinar embaixo, depois roer a corda. Comigo
n�o!
0 escriv�o sai com a pasta, Galv�o fica sozinho na sala atravancada
de mesas, cadeiras, arm�rios e arquivos de metal, um ventilador
funcionando no teto. Olha pela janela o pr�dio iluminado, l� longe,
n�o sabe por que, recorda de Sandra. �quela hora ainda estaria na
porcaria do conjugado ou a caminho da boate? Como poderia saber?
Lamentava a separa��o. Quando isso se consumou, passou a sentir-se
sozinho no mundo. Se aquele vagabundo l� pelas tantas decidisse afirmar
que matava motoristas; que havia fechado mais de oito em quatro
semanas, n�o tinha com quem repartir a satisfa��o de ser o policial
que solucionou o caso. Se era assim, de que valia acabar-se;
gastar-se, irritar-se? No m�ximo alguns amigos se reuniriam no boteco
mais pr�ximo, encheriam a cara. E que amigos seriam esses?
Os mesmos que desejavam ver sua caveira, a caveira de Itamar. O
pr�prio Paranhos com preven��o contra o rapaz. Se descobrisse o fio
da meada, n�o aceitaria drinque de ningu�m. Que fossem brindar no
inferno. Ouviria o suspeito bem longe, por l� ficaria guardado uns
tempos. Quando Paranhos perguntasse, diria que o assunto estava sendo
encaminhado. Logo que as coisas se aclarassem, apresentaria o
homem.

� Tou me cingindo de todo cuidado; n�o posso dar murro em
faca de ponta!
Isso tranq�ilizaria o delegado. E, o que � melhor, n�o lhe daria
margem para fazer publicidade � sua custa. Os jornalistas chegariam
perguntando pelo suspeito, Paranhos n�o teria o que dizer; p�s
e m�os amarrados.

� E o motorista?
Sobre o profissional Paranhos poderia falar. Era at� bom. Engrossaria
o caldo. Quanto mais Darci se alongasse nas entrevistas,
mais se envolveria, maior sua responsabilidade.


� N�o fiz sen�o cumprir meu dever. Contactei v�rios motoristas,
inclusive o que encontrou o suspeito. Esteve na Delegacia, documentou
o que afirmava. N�o tenho culpa se deu tudo em nada.
Um �libi perfeito. 0 magistrado no beco sem sa�da. Se exigisse
maior perspic�cia, daria um jeito de mostrar, com palavras amenas,
que nunca fora m�gico.

� Tenho de me louvar nos fatos; e a den�ncia feita em cart�rio
� um fato!
Vontade de rir. 0 que n�o conseguia entender era se Darci estava
apenas representando ou se aquele branqueia de uma figa tentou,
mesmo, assalt�-lo. Recorda a cara do suspeito, hematoma por
baixo do olho esquerdo, tem quase certeza de que n�o passava de um
gaiato. Itamar retorna informando haver convocado Papo de Anjo
e Baiacu.

� V�o querer um cach�, hoje t�o de folga!
� D� quinhentos pra cada, p�e na conta do doutor Paranhos!
Tamos a servi�o do Estado.
� E pro Humberto e Bira, o que digo?
� Marca pra amanh�. Surgiu um imprevisto.
Itamar faz anota��es na caderneta, Galv�o continua a falar,
como se monologasse.

� Amanh�, tamb�m, se descobre tempo de subir o morro. Alguma
coisa me diz que o pivete t� na jogada. � bom se conhecer o
tal Banda Branca. Tenho certeza que vai se abrir. N�o contou a
hist�ria toda por causa da arrog�ncia do sargento Beto. N�o fui
muito com a cara dele. Demonstrou o tempo todo que sabe o que
faz. Silveirinha � apenas um imbecil que desenvolve suas teorias.
Imagine, s�!
� E se o acusado abrir o livro?
� A� se compra vela da melhor cera, acende pra Nossa Senhora
de F�tima. Volto aqui falando alto com doutor Paranhos, mando
ele pra puta que pariu!
Itamar ri.

� Uma coisa lhe digo � acentua Galv�o � come�a a chover
na nossa horta.
� E Nogueira? Vai com a gente ou n�o?
� Que d�vida � essa? Claro que vai!
� Sei l�! Pensei que n�o quisesse espalhar a coisa.
� Nogueira n�o � de abrir o bico!
Itamar disca um n�mero, repete a chamada.
� Humberto ainda n�o chegou.
Galv�o est� novamente com as pernas estendidas na ponta da
mesa, n�o se incomoda com a observa��o do amigo.

� Pede pra Beija-Flor arranjar xerox da declara��o do motorista.
Vamos levar!

� Se Humberto n�o aparecer at� a gente sair?
� Que tem isso? Liga mais tarde.
Galv�o puxa tragadas do cigarro, algumas janelas do pr�dio em
frente � Delegacia est�o no escuro. Olha o rel�gio, faltam poucos
minutos para as dez. Torna a chamar o carcereiro, dessa vez quem
aparece � Fatia.

� Como t� nosso h�spede?
� Meio esquisito.
� Esquisito, como?
� Vomitou a cela toda, t� berrando pelo tal advogado!
� Dentro de uma hora vamos levar ele pro advogado. Pode
dizer!
Fatia vai embora. Galv�o sopra a fuma�a do cigarro nas brisas
que penetram o sal�o tranq�ilo da Delegacia.

QUATRO

A viatura entra por uma rua deserta, Nogueira passa lentamente
no grande buraco aberto no asfalto, Galv�o quase n�o falou todo o
percurso. Itamar disse algumas palavras que foram respondidas por
Nogueira. 0 detetive s� se ligava nas queixas do suspeito. Algemado,
no banco de tr�s com Itamar, de quando em vez o homem se lamentava.


� Tou certo de que v�o confirmar: n�o tenho nada com nada!
Agora, quando a viatura se aproximava do extenso muro, port�o
coberto de ferrugem, o suspeito quase n�o falava. Uma hora em
que tentou alongar-se o detetive determinou que permanecesse calado.
Itamar deu-lhe um safan�o. 0 carro entra, avan�a pelo p�tio
de terra solta, pequenas �rvores, algumas l�mpadas iluminando o
vazio.

� Ser� que Papo de Anjo e Baiacu t�o a�?
� Prometeram chegar na hora.
As portas da viatura se abrem. Desce Nogueira, desce Galv�o,
Itamar empurrando o suspeito. Encaminham-se para a porta, onde
havia a l�mpada pendurada.

� Que v�o fazer?
Nenhum dos policiais diz coisa alguma. Itamar empurra o
homem.

� Vamos l�! J� conversou demais!
Entram pelo corredor, descem a escada larga, degraus irregulares,
praticamente �s escuras. Pesada porta abre-se para o amplo


sal�o, onde h� l�mpadas fortes, poltronas velhas, mesas, arquivos.
Dois homens musculosos, que jogavam baralho, erguem-se de uma
das mesas. 0 crioulo � Papo de Anjo; o mulato, gordo, Baiacu. Nogueira
fecha a porta, Galv�o se apressa em tirar o palet�, a camisa.
Itamar faz a mesma coisa. Papo de Anjo e Baiacu est�o de camisetas,
mangas cavadas. Galv�o, sem a camisa � branqueio, peito e
costas com muito p�lo; demonstra, pela palidez, que h� anos n�o
enfrenta uma praia. 0 suspeito � empurrado para uma das poltronas.

� Papo de Anjo, tira a roupa dele. Quero todo mundo � vontade,
pra que se possa conversar direito.
0 crioulo obedece, Baiacu apressa-se em ajudar. Em poucos
instantes o suspeito est� s� de cueca. Com as m�os presas nas algemas
� conduzido ao banco, perto do refletor. Galv�o puxa uma cadeira,
debru�a-se no espaldar.

� Olha aqui, seu Carlos de Assis, garanto que agora o papo �
s�rio. Ouvi de sobra o que vinha dizendo no carro. Pelo que entendi,
se � um bando de louco ou de ot�rio. Chegou a vez de provar.
� N�o sei de nada!
Enquanto o acusado volta a defender-se, Baiacu ocupa-se em
amarrar-lhe os p�s, as m�os, prend�-lo no banco que � fixo no ch�o.
Papo de Anjo virou o refletor na dire��o do homem, Itamar traz o
copo com �gua, p�e-se a tomar, Galv�o pede um pouco, Nogueira vai
buscar o vidro na geladeira.

� Seu Carlos de Assis � prossegue o detetive � a gente tem
muito tempo pela frente. Nenhum de n�s t� com pressa. Ali�s, j� se
perdeu tanto tempo aturando suas manobras que mais um dia, mais
uma noite, n�o faz diferen�a.
Papo de Anjo, Baiacu e Itamar acham gra�a.

� Fala cara, pula fora dessa!
� Ele � um cavalheiro inteligente. Sabe onde tem o nariz �
diz ironicamente Galv�o.

� S� falo na presen�a do meu advogado!
Papo de Anjo aplica-lhe tremenda bofetada, a cabe�a sacode de
um lado como se fosse arrancar. No mesmo instante o filete de sangue
come�a a escorrer pelo nariz.

� 0 bicho � delicado � diz Itamar. � No primeiro toque t�
sangrando. Se fosse boxear tava perdido.
� Seu Carlos de Assis � diz Galv�o � pelo visto come�amos
mal. Aqui n�o vai ter advogado, n�o vai ter nada. Somos os �nicos
convidados para este encontro. Pode t� certo disso e ir tratando de
contar a hist�ria completa.
Carlos de Assis insiste em n�o falar.

� Pois � isso que vamos ver.

Papo de Anjo est� de um lado, Baiacu do outro. Galv�o liga o
refletor. A luz � fort�ssima, o calor intenso. Itamar passa as c�pias
xerox a Galv�o. O detetive olha-as com tranq�ilidade.

� Pelo que t� dito aqui, tentou agarrar o motorista Darci Severino,
por tr�s; ele teve de defender-se, pensando tratar-se de assalto.
Conseguiu domin�-lo e o conduziu � Delegacia, onde ficou
constatada sua semelhan�a com o retrato-falado que a T�cnica
produziu.
Ap�s ler esse trecho Galv�o ergue-se. o rosto transfigurado.

� Depois disso tudo ainda tenta dizer que � inocente? Vamos
l�!
Come�a a ladainha.
Carlos de Assis permanece calado.

� O homem t� falando � diz Papo de Anjo.
� Ele � surdo � afirma Baiacu.
Nogueira, sentado em frente, sorri. Papo de Anjo agarra-o pelos
cahelos. aplica-lhe novas bofetadas, quando p�ra o rosto tornou-se
vermelho, como se fosse sangrar por todos os poros.

� Vamos ver se isso foi bastante � afirma Galv�o. � Quando
se decidiu pela ca�a aos motoristas?
� Nunca assaltei motorista. Sou veterin�rio. O senhor t� ficando
doido!
Galv�o agacha-se um pouco, a cara no mesmo n�vel do rosto
do acusado.

� Eu, doido! Voc� mata, eu que sou doido?!
Baiacu crava os polegares nas clav�culas do suspeito. 0 homem
geme, mija-se, Baiacu continua pressionando, Carlos de Assis n�o
suporta, p�e-se a berrar, a chorar. A um sinal do detetive. Baiacu
volta � sua posi��o.

� E agora, deu pra lembrar?
Carlos de Assis est� completamente suado; n�o fala mas sacode
negativamente a cabe�a.

� Pelo visto, o bicho topa a briga � diz Itamar.
� Assim � que � bom. Gosto de tinhoso � argumenta Nogueira,
o que faz com que Papo de Anjo sorria, mostrando os dentes
podres.
Galv�o torna a aproximar o rosto, cada vez mais nervoso, suado.

� Veja bem. At� aqui tamos levando a coisa com calma. N�o
se quer lhe causar preju�zo. Mas, pelo que vejo, � cabe�a dura. Vou
tentar outra vez. Procure entender. Como lhe veio a id�ia de apagar
motorista?
0 detetive torna a sentar, apoia os bra�os no espaldar de cadeira.
Aguarda alguns minutos pela resposta, Carlos de Assis n�o
parece ter ouvido.

� � completamente surdo � diz Nogueira.

Nesse instante Papo de Anjo aplica fort�ssimo telefone, o homem
arregala os olhos, solta um berro de animal ferido, Baiacu
puxa-o pelos cabelos, fazendo a cabe�a virar para tr�s. Sem que possa
ver, Papo de Anjo soca-o no est�mago. Baiacu n�o libera a cabe�a,
Papo de Anjo continua a bater, a bater, o suspeito p�e-se a
vomitar.

� Eta, bicho porco! Vai vomitar na m�e, corno de merda!
A cabe�a de Carlos de Assis retorna � posi��o normal, o rosto
todo vomitado, o fedor do v�mito empestiando a sala. Nogueira vai �
pia, volta com uma lata d'�gua, atira no homem. Papo de Anjo
manda pegar mais �gua.

Galv�o torna a erguer-se.

� Olha aqui, seu moleque. Se pensa que vai me engrupir, se
engana. Ou fala, ou se estrepa!
� Pode deixar, chefe. Na pr�xima rodada vai querer dizer que
matou
Jesus Cristo.
Galv�o chega perto, as c�pias xerox nas m�os.

� 0 motorista Darci Severino diz, de maneira clara, que tentou
segur�-lo por tr�s. Como foi isso?
� Fala filho da puta, sen�o tu vai morrer aqui!
Baiacu abre a gaveta, tira o punhal. Galv�o l� um outro trecho
do depoimento de Darci.

� Pelo que declarou a v�tima, a agress�o ocorreu no Posto
Seis. Era cedo, havia bastante gente no ponto de �nibus. N�o sabia
que uma mancada naquele lugar ia dar em merda?
� N�o tentei assaltar. Ele � que me agrediu. De repente come�ou
a berrar, como se tivesse ficando maluco.
� N�o � poss�vel. 0 cara n�o � louco coisa nenhuma.
Papo de Anjo pega o punhal, torna a segurar Carlos de Assis
pelos cabelos, aproxima a l�mina.

� Olha bem Jo�o Teimoso, vou te sangrar num lugar que nenhum
jornalista pode ver.
Baiacu e Nogueira sorriem.

� Vou te espetar na goela. L� dentro! E sabe como se faz isso:
meto a m�o fechada na tua boca, trabalho com a outra.
Enquanto Papo de Anjo descreve a tortura, Baiacu aperta os
maxilares de Carlos de Assis, a fim de que abra a boca. Papo de
Anjo fecha a m�o.

� Vamos pro pico!
Isso apavora de tal forma o acusado que ele tem uma crise de
estreme��es, sacode furiosamente a cabe�a, Galv�o entende que deseja
abrir-se.

� Parece que se decidiu.
� Como � que �?

O homem geme e chora, as l�grimas escorrem abundantes pelo
rosto ensang�entado.

� Ent�o! Desde quando apaga motorista?
� Faz tempo. J� matei quatro.
� Pelas nossas contas s�o oito.
� Por que matava?
� Pra ter dinheiro.
� Ia abotoar Darci Severino ou n�o?
Sacode apenas a cabe�a. Papo de Anjo lembra que deve falar.
� Ia arrancar a cabe�a dele?
� Por que estrangular, quando seu estilo � o 22?
� Pra confundir a a��o da pol�cia.
� Qual o primeiro motorista que matou?
� Um crioulo de 45 anos.
� Onde foi isso?
� Ipanema.
� Ipanema?
� H� dois anos. Quase n�o deu problema.
� E depois?
� Fiquei uns tempos sem agir.
� E a segunda fase, como iniciou?
� Com o tipo branquinho, que dirigia o fusca vermelho.
� E o velhote portugu�s? Por que n�o fala dele?
� Nunca matei nenhum velhote.
Matou sim. Na Lagoa.
� Ah, sim. 0 velhote! Tava esquecendo. . .
� Puxa. abotoou tantos que nem se lembra. T� vendo s�! E o
malandreco n�o queria falar.

� Depois do portugu�s?
� Passei uma temporada esperandoPetr�polis.
� Onde ficou?
� No s�tio de um amigo.
� Que amigo?
� Um colega de Universidade.
� Nome dele!
� Jorge Grimber. � agr�nomo!
a situa��o esfriar. Fui pra

� Qual a participa��o desse seu amigo?
� Nenhuma.
� Por que ele n�o procurou a pol�cia para dizer que tinha um
coleguinha bandido?
� N�o sei.
� Onde se pode falar com seu coleguinha?
� Na Universidade.
Galv�o manda Nogueira procurar Fatia.

� V� tamb�m se Beija-Flor ainda t� por a�. Manda vir com m�quina
e tudo!
Nogueira sai pela porta pesada e escura, Carlos de Assis est� arrasado.
Galv�o enxuga o rosto no len�o, desliga o refletor.

� Puxa. depois disso, s� um banho! � afirma Itamar.
� E um bom u�sque � acentua Galv�o.
Papo de Anjo foi para junto da pia, lava-se, Baiacu livra Carlos
de Assis das cordas. Deixa-o preso apenas nas algemas.

� � uma vida danada de dura � diz Galv�o sentando numa
das poltronas e pedindo a Itamar para ligar o ventilador. � Imagine
s�: o viado de um veterin�rio, dando toda essa trabalheira pra gente,
em vez de l� cuidando dos bichos dele. Era s� o que faltava!
� E � porco como os bichos que trata. Se � que esse porcaria
� veterin�rio � diz Baiacu com desprezo.
Papo de Anjo volta da pia enxugando-se na toalha de feltro
Galv�o abre a carteira, tira o dinheiro. Nogueira retorna dizendo que
Fatia tinha ido ao bar, mas Beija-Flor estava a caminho. Ouvem-se
pancadas na porta. � Beija-Flor que entra, carregando sua m�quina.

� Vamos l� seu Beija-Flor, o doutor de bicho decidiu abrir o
bico. Haja papel e disposi��o pra escrever. Quero tudo, preto no branco.
Enquanto o escriv�o ajeita a m�quina na mesa empoeirada, procura
uma cadeira, Carlos de Assis est� escornado, cabelos alvoro�ados,
rosto vermelho, filetes de sangue escorrendo do nariz e dos cantos da
boca. o hematoma por baixo do olho mais volumoso. Beija-Flor pega a
toalha na qual Papo de Anjo e Baiacu se enxugaram, passa numa
ponta da mesa. P�e os pap�is, senta. Galv�o passeia de um lado para
o outro, embora n�o esteja nervoso.

� Vamos l�, seu doutor! Comece a hist�ria toda de novo.
Acende um cigarro, estira-se na poltrona.
� Voc�s dois, g�entem a m�o. Vamos ver se o cavalheiro confere
o que disse ou se precisa de ajuda � diz Galv�o dirigindo-se a Papo
de Anjo e Baiacu.

Cap�tulo XI

UM

0 barzinho � ordin�rio. Al�m do balc�o, onde os homens tomam
chope e cacha�a, das pilhas de engradados de cerveja e barris, da
serragem que se avoluma no ch�o, o outro lado � ocupado por meia
d�zia de mesas. � a� que, freq�entemente, os integrantes do show do
Bacar� jantam. Mas hoje o barzinho permanece praticamente vazio.
Perto da parede recoberta de azulejos encardidos est�o duas mulheres
extremamente pintadas, um coroa bicha, logo depois o velhote de chap�u
antiquado, que toma chope e se abana com o jornal. 0 gar�om
terminou de trocar uma toalha. Sandra, Solange e Toninho conversam.
Os pedidos foram feitos, o gar�om retirou o menu, atirou-o na
mesa vazia. Sandra e Solange pedem chope, Toninho prefere caipirinha.


� Com esse calor�o, n�o h� coisa melhor!
Nenhuma das duas acha gra�a. 0 garoto n�o se incomoda. Na verdade,
relutou muito antes daquele encontro com Sandra. Acabou topando
por causa das coisas importantes que deseja dizer-lhe. A�, imbecilmente,
ela convida Solange para vir de contrapeso. Qual era a daquela
pequena? Acreditava nele ou tamb�m o estava estudando? Gostava
de pessoas inteligentes. Mas n�o gostava de Solange. Encontrara
uma vez com ela, na porta da boate, fez que n�o o reconheceu. Ora,
que fosse pro inferno com sua presun��o. N�o tinha tempo de aturar
aquele tipo de gente.

O gar�om traz os chopes, a caipirinha. Toninho toma o primeiro
gole, com vontade. Sandra e Solange apenas bebericam, como se estivessem
acanhadas.

� Sabe � diz Solange dirigindo-se exclusivamente a Sandra �
acho que dessa vez pintou um tro�o importante pra mim.
Sandra sorri, toma outro gole de chope.

� Te lembra do mineiro maluco que tava fazendo aquele esporro
ontem � noite? � prossegue Solange � terminou ficando comigo.
211


A princ�pio me apavorei. Se foi pro hotel e no caminho ele melhorou.
Come�ou a conversar, disse que trabalhava na TV Itaeolomi.

� Diretor! � exclama Sandra sorridente.
� N�o! Coordena��o art�stica.
� Acreditou?
� Claro que n�o. Mas ele puxou uma carteira do bolso me deu
um cart�o.
Dizendo isso Solange abre a bolsa, procura o cart�o, mostra-o
a Sandra. Deselegantemente Toninho pega-o, olha, p�e na mesa. Solange
n�o entende a intromiss�o, Sandra faz que n�o repara.

� �! T� aqui o nome dele!
� Acontece que � escrito � m�quina � diz Toninho, o copo de
caipirinha pelo meio. � Posso muito bem pegar um cart�o desta bodega,
escrever meu nome por baixo, dizer que sou o dono.
� N�o me pareceu que seja um mentiroso � afirma Solange
um tanto revoltada.
� Ora, como � que pode saber se um cara t� mentindo ou n�o?
� Se percebe. Ou pensa que sou ot�ria?
� Mais do que ot�ria!
� 0 que prop�s o cara? � quer saber Sandra, procurando desviar
a conversa.
� Disse que posso fazer um teste como atriz. Gostou do meu
jeito. T�o bolando uma novela pro hor�rio das oito, o papel principal
pode ser meu. Acha que sou capaz?
� Tem tudo pra isso.
Toninho sorri, toma outro gole da caipirinha.
� Quando a novela vai pro ar?
Solange n�o responde � ironia.
� Assim sendo � diz ela � tou com vontade de dar um pulo
at� l�. Saio do show no domingo, vou direto pra Rodovi�ria. Fa�o o
teste na segunda, ter�a estarei de volta.
� � uma boa � afirma Sandra.
Toninho torna a rir. Desta vez alto, debochadamente.
� Qual � a gra�a? Acha que n�o tenho capacidade?
O garoto torna-se s�rio, olhar sombrio como Sandra nunca vira.
� N�o � bem isso, filhota; tou rindo porque de malandragem tu
n�o
manja merda nenhuma.
Solange torna-se p�lida, n�o quer revidar o insulto.

� Sandra, d� licen�a. N�o posso continuar aqui. A gente se fala
amanh�.
0 gar�om reaparecer, Toninho explica:

� Lm prato a menos, amig�o. A garota puxou o carro!
� Por que fez isso? Pra me irritar?
� N�o gosto de idiotas. 0 cara comeu a imbecil a noite inteira,
deu s� 200, ainda t� querendo ir pra Belo Horizonte atr�s dele.

� Como sabe que foi 200?
� N�o � o pre�o que voc�s cobram?
Sandra quer continuar argumentando mas, n�o sabe por que,
sente profunda tristeza, os olhos rasos d'�gua.

� Vou embora, obrigada pelo jantar!
Toninho percebe o problema que criara, torna-se delicado, atencioso.


� N�o quis ofender!
O gar�om traz omeletes numa travessa de a�o inoxid�vel, Toninho
tira um peda�o, p�e-se a comer. Sandra permanece um pouco na cadeira,
enxuga os olhos. De repente, levanta, sai.

� Sandra! Sandra!
Come mais umas garfadas, �s pressas, deixa duas c�dulas de
cinq�enta na mesa, vai atr�s da garota. Na esquina Sandra est� tentando
tomar um t�xi.

� Pra onde vai?
� N�o tenho satisfa��es a dar.
� Fica comigo, vamos passear!
Sandra o encara.
� Por que s� sabe dar ordens?
Toninho pega-a pelas m�os.
� N�o sei falar de outro jeito. N�o tenho educa��o!
� O que fez com Solange n�o se faz.
� Tava enchendo!
� Por que, se n�o conhece ela direito?
� Queria ficar s� com voc�. N�o tinha que vir atr�s!
Sandra acaricia-lhe o rosto.
� Sente-se bem comigo?
Toninho sacode afirmativamente a cabe�a.
� Vamos andar por a�!
� N�o � muito tarde?
� Que diferen�a faz?
De m�os dadas Toninho e Sandra caminham pelo cal�ad�o da
praia. Passam pelos bancos de cimento, quase todos vazios, s� um ou
outro carrinho de cachorro-quente e refrigerante. Quando est�o cansados,
Toninho convida para deitar na areia.

� � o que sempre fa�o. Dormi muitas noites por aqui. Melhor
do que hotel.
Avan�am pela areia, sempre de m�os dadas, o vestido claro de
Sandra refletindo a noite de lua p�lida.

� Logo mais a lua fica bonita. � s� uma nuvem que t� passando.
Sandra olha o c�u, lembra-se de que h� muito tempo n�o fazia
aquele gesto. Toninho estende o casaco, manda que deite em cima.
Acomoda-se ao lado, ficam algum tempo sem dizer nada. Tanto um


quanto o outro acompanhando o esgar�ar das nuvens no caminho
tranq�ilo da lua.

� Por que dormia aqui?
� N�o tinha pra onde ir.
� Foi a� que conheceu Marlene?
� Antes. Bem antes.
� Que achava de Marlene?
� Uma boa pessoa!
� Sabe; no dia que saltou no terra�o, tive vontade de te matar.
Fiquei pensando: arranjo um rev�lver, espero que apare�a.
� Por que n�o matou?
� Foi o tempo que encontrei a fotografia. Te achei alegre e
muito garoto.
� Acontece que a foto era velha. De l� pra c� sou outro.
Sandra ap�ia-se nos cotovelos, sorri.
� N�o acho que tenha mudado.
Toninho beija-a com vagar e paix�o. Demora-se beijando-a, Sandra
o abra�a.
� Fui grosseiro com Solange?
� Um cavalo!
� Mas n�o � melhor que bancar a idiota em Belo Horizonte?
� Solange � teimosa. Quando diz que faz uma coisa, faz mesmo.
� Pois anote: vai quebrar a cara!
Toninho continua falando, citando espertalh�es que conhecera,
Sandra n�o est� ligada no que diz. Olha a lua que se livrou das nuvens,
desliza em vasta plan�cie azulada, os reflexos perdendo-se no c�u e
nas �guas da praia deserta.

� Quem � Solange? Por que se tornou amiga dela?
� Quem �? N�o sei. Como � que ia saber? Ficamos amigas
porque t� sempre do lado da gente. Todo mundo na boate gosta dela.
Menos o patr�o, � claro!
� Patr�o n�o gosta de ningu�m!
� J� teve algum?
� N�o, mas o pai tinha, mestre T�bor, Marlene. T�o sempre
procurando tirar o couro dos outros.
� Se n�o tem patr�o, como � que vive?
� Aut�nomo! Sabe o que � isso?
� Claro. Pensa que sou boba?
� Pois �! Trabalho por conta pr�pria.
� Que tipo de neg�cio?
� Cobran�a e vendas. . . Lido com materiais de constru��o.
� D� dinheiro?
� N�o muito, mas tou sempre com algum no bolso.

� Eu tenho de arranjar outra vida. Vou tentar a sorte como
cantora. Essa de ficar nua, toda noite, na frente de um bando de
imbecis, n�o d� mais.
� Por que n�o come�a logo?
� Sei l�. Como vou saber se minha voz � boa? Antigamente
linha vontade
de ser atriz.
Toninho volta-se para ela.

� Como que a voz n�o � boa!. . .
Aproxima bem o rosto.
� Voc� � toda boa!
Sandra faz um risinho de descren�a.
� T� dizendo isso porque ainda n�o se encheu de mim!
� N�o vou me encher.
Faz-se uma pausa, Sandra acompanhando as andan�as da lua.
� Por que n�o canta um pouco? A�, posso dizer se a voz � legal
ou n�o.
� Cantar, assim, sem mais nem menos?
� Que tem isso? � como vai ter de fazer no est�dio.
Sandra senta no casaco, Toninho deita a cabe�a nas suas pernas,
ela come�a bem baixinho uma can��o de Dolores Duran; a voz � forte
e quente. Quando termina Toninho bate palmas, Sandra sorri.

� Poxa! T� aprovada. N�o entendo de m�sica mas sei ouvir
e o que interessa. Pode ir em frente.
Sandra brinca com os cabelos revoltos daquele garoto, o pensamento
distante: na m�e, no pai aparecendo no arco da porta estreita,
na praia onde uma vez fizeram o piquenique. E tudo parecia t�o
remoto, t�o irremediavelmente arruinado. Embora procure disfar�ar,
sabe que as palavras de Toninho lhe faziam bem. Soavam como incentivo.


� Conheci um cara que n�o valia nada. A� os amigos na constru��o
come�aram a dizer: vai l�, deixa de ser bobo, o pr�mio � bom.
Numa hora pode ganhar mais dinheiro que no ano inteiro, empurrando
carrinho de cimento. Sabe o que aconteceu? O careta se mandou
pra televis�o. Pegou inscri��o no programa do Chacrinha. Duas semanas
depois foi chamado. Chegou no palco, aquele mont�o de gente,
n�o acanhou. Deu o recado. 0 pessoal da obra foi olhar na televis�o
do bar. 0 crioul�o soltou a l�ngua e o gingado. Quando terminou foi
aquele mundo de palma. Seu Chacrinha teve de entregar o cheque.
Uma nota gorda. O safado s� apareceu na obra pra pegar as coisas.
Tinha um contrato pra gravar em S�o Paulo.
� Que foi feito dele?
� N�o sei. Se quiser, posso saber.
� Seria uma boa.
� N�o precisa ter medo. No dia que for fazer o teste, vou com
voc�.

Sandra continua acariciando-lhe os cabelos, beija-o de leve na
testa.

� Gosto de voc�. Mesmo quando faz grosseria. Desculpa, n�o
devia ter convidado Solange. Acontece que tamos no mesmo barco.
Ela tamb�m quer deixar o show. � bem mais velha que eu. Sozinha
n�o se ag�entaria uma semana!
� N�o desgosto dela. Mas aquele momento era s� da gente!
� Se conseguir alguma coisa l� pela Itacolomi tou quase certa
de que vai fazer como seu amigo: s� volta pra recolher as roupas e
pegar o dinheiro.
� Acho que t� sendo engrupida; o cart�o que mostrou n�o significa
nada.
� Se tivesse dinheiro ia fazer um curso de educa��o da voz.
� Por que n�o faz?
� N�o sei se � caro.
� Procure se informar. Pago o curso!
� E voc�, por que n�o tenta ser alguma coisa?
Toninho sacode negativamente a cabe�a.
� N�o tenho voca��o pra nada; s� ganhar dinheiro!
� E se o curso for caro?
� Pelo menos uns tr�s meses garanto.
Sandra est� feliz, os cabelos compridos caem no rosto de Toninho.
� Nunca tive ningu�m que se interessasse por mim. Por que
faz isso?
� N�o sei. Talvez goste mais de voc� do que imagino.
� Se depois se decepcionar?
� A� � outro dia.
Sandra inicia uma nova can��o, a voz � suave e lenta, confunde-se
com o barulho das ondas.

� Se n�o der certo, volto pro show, pago o preju�zo!
� N�o tou pedindo isso. Quero que v� em frente.
� Sabe o que farei se algum dia ganhar bastante dinheiro?
Toninho brinca com os longos cabelos de Sandra.
� Abro uma casa pra cuidar de velhos. Quando encontro um
velhote na rua, sem ter pra onde ir, olhar assustado,
sinto-me culpada!
Toninho ergue-se, apoiado nos cotovelos.

� T� brincando ou falando s�rio?
Sandra sente-se um tanto inquieta com aquele s�bito interesse.
� Falo s�rio. � o que mais me comove.
Toninho abra�a-a, beija-a no pesco�o, Sandra sente suas l�grimas
quente e silenciosas.

� Por que ficou assim?
� N�o sei. Muda de assunto!
Sandra canta A noite do meu bem, as ondas quebram-se mais
perto, sempre mais perto, um largo caminho de lua dentro do mar.


� Era desse tamanho, assim, quando ouvia essa m�sica no r�dio
do pai.
� Gosta?
� � bacana. O pai tamb�m gostava.
� Cad� seu pai?
� Foi viajar. Qualquer dia desse t� de volta!
� O meu. . . tomara que nunca mais apare�a!
Toninho p�e-se de joelhos na areia.
� Feche os olhos. S� abra quando disser.
Sandra promete mas olha logo, Toninho corre na areia. N�o faz
id�ia do que aconteceu. Estende-se no casaco, fica aguardando. Em
menos de cinco minutos reaparece. Nas m�os os cachorros-quentes, as
coca-colas.

� Pega. N�o jantou!
Sandra aceita, comem em sil�ncio. Toninho olha a lua cada vez
mais distanciada.

� Daqui a pouco come�a a amanhecer. Vai ver como � bonito!
� S� mesmo contigo ficaria na praia a essa hora!
Toninho ergue-se, ainda mastigando o cachorro-quente, a cocacola
na m�o.

� Sabe o que ia adorar, se fosse artista?
� 0 qu�?
� Dan�ar.
Dizendo isso p�e-se a dan�ar. Primeiro no ritmo de um samba
bem quente, depois numa imita��o dos dan�arinos de frevo.

� Dan�a pra mim tem de ser isso. Muito movimento.
� Gostei de ver.
� Tamb�m sei dan�ar tango.
P�e-se a representar, bra�os erguidos como se segurasse a mulher,
Sandra comendo e rindo da pantomima.

� N�o sabia que era engra�ado!
Toninho torna a sentar.
� S� quando tou com voc�. N�o sei por qu�!
Limpa as m�os sujas nas cal�as, reclama de n�o ter mais comida.
� Pedi dois cachorros-quentes pra cada um, o careta n�o tinha.
Ainda
quer as garrafas de volta.
Sandra torna a sorrir.

� Se fizesse um curso de dan�a podia emplacar, f�cil!
� Todo mundo no morro sabe dan�ar. Tinha um colega que era
da bateria da escola.
� Cad� ele?
Toninho imita com a m�o o rev�lver que dispara.
� T�! T�!. . . fuzilaram. . .
� Agora n�o quero que fale de coisas tristes.
� Ent�o, vamos falar s� da gente. . .

Ambos acham gra�a. Toninho tornou a deitar-se com a cabe�a
nas pernas de Sandra.

� Nunca tive madrugada t�o feliz e tumultuada.
� Se pode ter muitas outras. S� querer.
� Acho que tem raz�o. Talvez me deixe prender mais tempo
do que devia na porcaria daquela boate.
� Tudo acontece no tempo certo. Minha m�e costumava dizer
isso.
� J� peguei a experi�ncia que tinha de pegar.
� Em compensa��o conhece uma por��o de gente.
� S� tipo ordin�rio.
� Nenhum merece confian�a?
Sandra ajeita os cabelos, olha distante por cima do mar, onde
o caminho da lua vai aos poucos desaparecendo.
� Voc�. . . Xex�u. . .
� Quem � Xex�u?
� 0 baterista. Amigo de um cara da Odeon. Foi ele quem me
estimulou a partir pro disco. Vive dizendo que o pessoal da noite
n�o tem vez. Acha que devo sumir. Se facilitar, viro cantora da pr�pria
boate.
� Tem raz�o. Santo de casa n�o faz milagre!
� Xex�u � bom cara. A princ�pio pensei estar interessado em
mim. Depois entendi que desejava me ajudar. � dif�cil encontrar
algu�m assim.
Toninho pega o rosto de Sandra entre as m�os.

� Vai ser cantora. 0 primeiro passo � escolher umas duas m�sicas,
treinar bem, fazer a inscri��o num programa de TV.
� � o que vou tentar.
� Se n�o quiser entrar logo pro curso, compro um toca-disco.
ouve nas horas de folga. No come�o tem de dar tudo!
� Me d� o toca-disco?
Toninho sacode afirmativamente a cabe�a.
� Amanh� ou depois!
L� muito longe, por tr�s do mar, come�am a surgir os clar�es
da madrugada.

� Olha s�! Daqui a pouco o sol aparece.
� Nunca pensei que fosse t�o bom ficar por aqui!
� Se n�o tivesse morrendo de fome ainda seria melhor.
Dizendo isso Toninho pega as garrafas, sai correndo para entreg�las
na carrocinha.
Retorna, continua a dan�ar, espalhando areia com os p�s.

� Se pudesse, ia organizar uma escola de samba. Muita gente
fantasiada, todo mundo se preparando o ano inteiro pro grande desfile.
� Como seria o nome?

� Sei l�. Mas voc� ia ser porta-estandarte!
� Acha que tenho jeito?
� � bonita. Porta-estandarte tem de ser bonita!
� E saber dan�ar.
� Isso se aprende.
Toninho cansa de sapatear, senta.
� Saindo daqui se pode tomar um caf� refor�ado.
� 0 careta do carrinho disse que na rua de l� tem uma feira.
Se compra fruta. Melhor do que entrar num boteco fedorento.
Toninho sacode o casaco, examina o rev�lver no bolso, Sandra
tira areia do vestido, passa a escova nos cabelos, oferece ao namorado.

� Acostumei a me pentear com os dedos; escova atrapalha.
Em poucos instantes est�o atravessando as pistas, �quela hora completamente
desertas. Entram na rua estreita, l�mpadas nos postes acesas,
a madrugada clara, a n�voa envolvendo os edif�cios. Na rua mais larga
e extensa, a confus�o das barracas, os primeiros fregueses, alguns deles
segurando c�es pelas coleiras, mulheres gordas e com cara de sono
puxando carrinhos de arame, sobre rodas de veloc�pede.

� Acho que o bom � se comprar tangerina!
Passam por diversas barracas, Sandra prefere as maiores, de casca
grossa. Quando os primeiros raios de sol chegam � praia e � feira, os
dois est�o sentados no meio-fio, comendo tangerinas. Mastigam os
gomos, prendem os caro�os na boca, imaginam coisas que almejam
ver realizadas, sopram com for�a.

� Os meus chegaram bem em cima da linha � grita Sandra.
� Os meus, tamb�m � diz alegremente Toninho.
DOIS

No apartamento escuro e �mido Sandra ainda est� com os olhos
cheios das imagens da madrugada. N�o se lembra de ter vivido momentos
t�o simples e puros. Quem seria afinal aquele garoto? 0 que
desejava? Fora grosseiro com Solange ou havia algo que, de repente,

o irritava? Enxuga-se na toalha felpuda, p�e um pouco d'�gua no
fogo, abre a lata de caf�. N�o fosse o dem�nio daquele porteiro teria
convidado para vir tamb�m. Mas era melhor evitar. Seu Manuel chegava
cedo. A essa hora n�o teria o que dizer, como engan�-lo. E, talvez
Toninho tivesse raz�o. Todo cuidado seria pouco. Movimenta-se nua
pelo apartamento, p�ra diante do espelho, na porta do guarda-roupa,
faz uns gestos de quem dan�a e canta, escuta a voz de Toninho encorajando-
a.

� Claro que vai emplacar. Tem boa voz, � bonita!
Vai para junto do fog�o, p�e caf� na x�cara, senta na sua cadeira
preferida, toma pequenos goles, analisa o comportamento do namorado.
Nunca conhecera ningu�m daquele jeito; t�o agressivo e meigo ao
mesmo tempo. Na primeira folga, no primeiro fim-de-semana o convidaria
para ficarem um dia inteiro na praia. N�o na de Copacabana,
mas em outra, distante, onde pudessem estar � vontade. Agora, come�ava
a entender que gostava mesmo de Toninho e por que Marlene o
mantinha praticamente escondido.

� Como vai seu amiguinho. Marlene?
� N�o tenho visto; faz tempo que n�o d� as caras!
Marlene estava mentindo. Procurava proteger-se, evitar concorr�ncia.
Tem vontade de rir e ri. Dali em diante n�o tinha com que
se preocupar. Poderia sair com os clientes, enfrentar o velhote uma
vez por m�s, todavia Toninho ia ser um caso � parte. Com a ajuda
dele chegaria ao programa de televis�o, sem medo de concorrer. E por
que devia ter medo? Qual a diferen�a de ficar nua num show da
boate e cantar na frente de uma por��o de desconhecidos? Provavelmente,
nos primeiros dias, nos momentos de ensaio, ficasse um
pouco acanhada. Mas Toninho estaria por perto. Um aliado seguro,
no qual podia confiar. Se passasse no teste, como esperava, ia em frente.
Treinaria bastante, trocaria muitas vezes o mesmo disco, procuraria
impor sua pr�pria interpreta��o. Nada de copiar cantores famosos, pois
isso n�o botava ningu�m pra frente. Teria seu pr�prio estilo. 0 neg�cio
era n�o sair do ritmo, mostrar empolga��o. Nisso estava certa de
que n�o ia fracassar. Toninho ficaria alegre de v�-la se apresentando.
No dia em que fizesse a primeira grava��o, ainda que fosse um simples
compacto, convidaria os amigos mais �ntimos para um jantar:
Toninho, Solange, Xex�u, Bigode e Agenor. A cada um deles daria o
disco. Tempos depois teria condi��o de pensar no long-play. M�sicas
inteiramente novas. Algumas do pr�prio Xex�u, outras de Agenor.
Conhecia suas composi��es, eram t�o boas quanto as de autores famosos,
caitituados em tudo que era emissora de r�dio e de televis�o.
Toninho estava certo. 0 neg�cio era se lan�ar. Todo o resto se arranjaria
depois. Ser� que ia esquecer a promessa do toca-disco? H�. se
conseguisse um, compraria imediatamente as m�sicas de Ma�sa, outras
de Bet�nia, suas cantoras preferidas. Concorrer com essas duas n�o ia
ser f�cil. Mas tentaria. O importante seria o ritmo. Disse Xex�u, cansava
de falar.

� 0 ritmo acima de tudo!
Cantaria junto ao espelho, faria movimentos de corpo, como no
show. Estira as pernas nuas na mesa, p�e a x�cara no ch�o, fica um
temp�o pensando nos dias que viriam, no futuro que ia ter como cantora.
Muita gente surpresa. 0 primeiro seria o pai. Se pensava estar
liquidada, se enganara. Ali�s, se enganara em tudo. Por ser um �ra



cassado, tentava lan�ar sua amargura contra os outros. Quem mandou
meter-se com aquela maldita profiss�o? Na escola, durante o recreio,
os garotos maiores cochichavam. Sandra sabia o que estavam dizendo.
Em casa queixava-se � m�e, imaginava ela pr�pria falar com o pai.
faltava-lhe coragem. Estava sempre nervoso, sempre discutindo, muitas
vezes embriagado. A m�e � que tinha paci�ncia de santa. Tirava-lhe
os sapatos, as roupas, ele ficava dormindo no sof�. Acordava de noite
para tomar �gua, via o pai escornado, bra�os abertos, o cheiro de cacha�a
exalando. Destetava-o por causa daquilo, pelas discuss�es com a
m�e. Muitas vezes, sem qualquer motivo; s� para discutir, para irrit�-la.
Por que ficou daquele jeito? A m�e contava hist�rias agrad�veis dos
tempos em que eram namorados e, depois, quando estavam noivos.
O pai alegre, ia formar-se em Direito, instalar-se em Campos. Tinha
uns conhecidos por l�, dizia que advogado do interior tem mais futuro.
A m�e achava gra�a, n�o se importava de mudar. Um dia, foram a
Campos. A m�e voltou satisfeita com a cidade; ruas cheias de �rvores,
casar�es antigos, pracinhas que pareciam de brinquedo.

� � a terra do a��car. Quem n�o sabe o que isso significa t�
muito enganado � advertia o pai, falando aos amigos.
Ap�s o casamento os planos foram alterados. 0 pai interrompeu
os estudos na Faculdade, meteu-se no concurso maluco. Seria detetive
por uns tempos, at� melhorar a situa��o. A m�e preocupava-se. queria
v�-lo distante daquela coisa que n�o tinha descanso, que o obrigava
a envolver-se com marginais, com gente do pior n�vel. Os anos foram
passando, o detetive Galv�o ganhando fama na imprensa, nunca mais
a Faculdade, nunca mais os livros. Se a m�e reclamava, respondia
irritado.

� Qual o problema? 0 dinheiro n�o t� entrando?
N�o podia entender. Nunca pudera. A m�e n�o discutia mas
irritava-se. Numa determinada �poca aparecia em casa uma vez por
semana. E a viatura ficava na porta, esperando. Era o tempo de tomar
um banho, trocar de roupa. Falava rapidamente com a m�e, beijava
a filha. Nessas ocasi�es trazia presentes. Sandra olhava as bonecas,
sem interesse, afligia-se com a m�e, cada vez mais triste, mais desolada.
No dia em que ia completar dez anos. convidou os coleguinhas
da escola e da vizinhan�a. 0 pai prometeu n�o faltar.

� Desde agora j� vou avisar o delegado: olha aqui, meu caro,
dia 25 de outubro tou de folga; � o anivers�rio da minha filha Sandra.
Faz dez anos!
A m�e alegrou-se. Pelo menos aquilo era um sinal positivo de que
n�o havia esquecido a fam�lia. Na v�spera da festa a m�e contratou
uma empregada, a fim de ajud�-la nos preparativos. A pr�pria Sandra,
de volta do col�gio, tamb�m ajudava. A m�e cuidou do bolo com
enorme capricho. Um grande bolo, com as bordas enfeitadas de cord�es
de a��car. Dez velinhas, cada uma de uma cor. 0 pai conti



nuava ausente, mas a m�e sabia que viria. Telefonara duas vezes,
mandando que ficasse tranq�ila.

� Diga � Sandrinha que vou levando pra ela a maior boneca
que j� fizeram!
Na v�spera Sandra repetiu o convite aos coleguinhas da escola,
aos vizinhos. Voltou cedo, p�s-se a arrumar a grande mesa com a ajuda
da m�e, da empregada. O rapaz que fazia entregas, entrou e saiu
diversas vezes, trazendo engradados de refrigerantes. A geladeira estava
cheia de n�o caber mais nada. A� ele sugeriu encher o tanque
de gelo, meter o resto das garrafas. Traria serragem para colocar por
cima. Trouxe o saco de serragem, Sandra ficou olhando. Nunca vira
aquilo. As garrafas que estavam sobrando couberam todas no tanque.
No princ�pio da tarde a m�e abriu a porta da casa, a janela. Sandra
foi olhar da rua. Estava uma beleza. Bandeirinhas de papel enfeitando
os quatro cantos da sala, bal�es pendurados no fio da l�mpada. Sandra
num vestido branco, novo, com enfeites vermelhos. Apareceram
os dois primeiros amiguinhos, depois um terceiro, em companhia da
m�e. A vizinha era gordona, disse n�o poder demorar, pois teria de
levar o filho � casa da tia. Dona Julieta n�o se incomodou. Outras
crian�as viriam, poderiam ficar � vontade. Enquanto permaneceu na
cadeira de palhinha, na maior cerim�nia do mundo, a vizinha declarava-
se alarmada com a profiss�o do pai de Sandra. Dona Julieta n�o
sabia o que dizer, principalmente naquele momento de festa, em que
esperava o marido. Mas a mulher n�o parecia entender o quanto
aquele assunto era inoportuno, alongava-se, agora falando nos malandros
que vira na quitanda de seu Maneco, procurando o endere�o
do detetive Galv�o.

� Fiquei apavorada, dona Julieta. Felizmente seu Maneco �
vivo. Disse n�o saber.
Dona Julieta oferece uvas e refrigerantes ao garotinho, a mulher
prossegue, ap�s aceitar uma ta�a de guaran�.

� Quando vi os tipos, senti logo que n�o tavam com boas inten��es.
Depois da resposta de seu Maneco um deles come�ou a rir
e a dizer que o detetive tinha amiguinhos que o protegiam.
� Quando foi isso?
� Semana passada. Era pra ter vindo aqui, depois achei melhor
n�o lhe assustar.
No come�o da noite n�o tinham aparecido tantos coleguinhas
quanto Sandra esperava. Na verdade, havia uns quatro ou cinco e,
mesmo assim, a irm� mais velha de Lucinha j� viera cham�-la duas
vezes. As l�mpadas se acenderam, Sandra sentia certa tristeza, pois
nenhuma amiga da escola apareceu.

� Por que ser� que n�o v�m, m�e?
Dona Julieta ainda ouvia a mulher gorda falando, come�ava a
ficar nervosa, a desejar que fosse logo embora, antes que tivesse uma


crise. Nesse momento de ang�stia Galv�o chegou. Entregou grande
embrulho colorido a Sandra, beijou-a, abra�ou-a. Falou com a vizinha,
foi para o interior da casa com Julieta. Outros homens entraram,
Galv�o reapareceu tirando a camisa, mandou que sentassem, tomassem
cerveja. Os tipos eram grandalh�es, suados. Sentaram, acanhadamente,
como se n�o pertencessem �quele mundo. A vizinha gorda olhava-
os, n�o entendia. Levantou-se, disse qualquer coisa em voz alta a
dona Julieta, pediu licen�a, foi embora puxando o filho. Sandra ainda
insistiu que ficasse um pouco mais, a mulher n�o quis saber de conversa.
Em pouco tempo, tamb�m, a irm� de Lucinha apareceu, mandou
que beijasse Sandra.

� Ela tem de tomar rem�dio!
Como se tornara noite, Sandra sabia que dificilmente os coleguinhas
da escola viriam. E pelo menos cinco deles prometeram n�o
faltar. Encostou-se na porta, olhou os carros estacionados. Dentro de
alguns deles ainda havia outros homens, iguais aos que estavam nas
cadeiras de palhinha, ao redor da mesa. com o grande bolo. 0 pai
retornou � sala, metido em outra camisa, outra cal�a, apresentou a
filha e Julieta aos amigos.

� Carlos Augusto, Z� do Egito, Doming�o! Amigos do peito.
Na alegria ou na tristeza. A m�e de Sandra cortou:
� Hoje � dia s� de alegria!
Os grandalh�es sorriram. A empregada entra com a bandeja, os
copos, garrafas de cerveja e de u�sque. Sandra aproximou-se da m�e,
queixa-se que Lucinha tinha ido embora, os amiguinhos da escola n�o
iam aparecer.

� Deixa pra l�, filhota! N�o quiseram vir, paci�ncia!
Colocou a boneca que o pai lhe dera sobre a cadeira, ficou olhando
sem interesse. Na verdade, n�o tinha sequer a quem mostrar. E,
n�o sabe por que, p�e-se a chorar. Correu para o quarto, atirou-se
na cama.

� N�o chore, filha! Vai ver, houve algum problema.
Sandra chorava e se lembra, agora, de como chorava. Nunca se
sentira t�o ofendida. E nunca mais p�de esquecer aquele sentimento.
Os vizinhos a olhavam com desconfian�a. Como os que passavam pela
porta, o pai chamava, diziam estar logo de volta, n�o apareciam. Pelo
que p�de recordar, nesta manh� de sol e apartamento sombrio, o anivers�rio
terminou transformado numa esp�cie de vel�rio. Os homens
de bra�os volumosos bebendo cerveja e u�sque, o pai j� meio b�bado,
a m�e rindo sem querer, a empregada trazendo mais bebida, o grande
bolo no meio da mesa, as velas que Sandra se recusara a soprar. Nunca
p�de esquecer a festa do d�cimo anivers�rio. E olha que a m�e se
esfor�ou tanto, para que tudo sa�sse certo.


TR�S

Toninho n�o se prende a recorda��es distantes. Ocupa-se com a
imagem de Sandra que parece estar naquele quarto, sentada ao meio-
fio. cuspindo caro�os de tangerina. Ah. como seria bom que aqueles
momentos pudessem repetir-se. Depois do banho iria � loja. escolher

o toca-discos. S� ent�o abre o z�per do casaco, tira o rev�lver, o bolo
de c�dulas. Confere. Nos olhos a figura do motorista alucinado. Como
um cara daquele podia pegar um t�xi, sair dirigindo? N�o entendia.
Desde que entrou, o homem p�s-se a falar, a esculhambar, a desejar
que uma tromba-d'�gua desabasse sobre a cidade, matasse metade da
canalha.
� T� brigado com a vida, amizade?
� Vida? Que vida?
� Olha, tem gente comendo um dobrado por a�! Pior do que
n�s.
� E como acha que tou? Rodando feito um desgra�ado; quase
16 horas por dia!
� Quem quer ganhar muito, � isso. . .
� Ganhar muito, uma ova. Tenho de reunir quatro mil at� depois
de amanh�, pra n�o cair na tal da den�ncia vazia. J� ouviu falar
nisso? Sabe o que �?
Toninho mostra-se embara�ado. Na verdade n�o sabia.

� Pois vou te refrescar � diz o motorista. � Den�ncia vazia �
o direito que o propriet�rio tem de exigir quanto quer pelo aluguel;
se tu n�o paga ele vai pra Justi�a, os danos da lei te botam na rua.
S� isso!
O motorista p�e-se a rir, a rir alto, a bater com as m�os abertas
no volante, enquanto o t�xi avan�a velozmente.

� N�o � um barato? E agora, de onde tirar os quatro mil todo
m�s? No primeiro ainda v� l�. E nos outros? Como � que fa�o, se
tenho mulher e quatro filhos?
� 0 neg�cio � morar mais longe.
� E onde pensa que tou morando? Ipanema. Arpoador? Corta
essa, cara! Me escondo em Piedade. 0 apartamento � de dois quartos,
uma salinha, vaga pro possante na garagem. Sabe quanto pagava?
Dois mil pelo apartamento, trezentos pela vaga.
� Puxa, devia deixar o carro na rua.
� T� pensando que n�o tentei? Na primeira noite roubaram
dois pneus, na semana seguinte iam levando o carro. J� pensou se
perco a ferramenta? A� s� dando um tiro na cabe�a.
Toninho tem vontade de rir. 0 motorista continua a falar, a
queixar-se.

� A patroa n�o ajuda?

� S� em casa. N�o d� sopa por a�. Sei bem como � a barra.
Toninho torna a rir. O t�xi chegou ao final da avenida, dobra
pela rua do canal.

� Fico logo depois da primeira travessa.
O motorista fala agora do pre�o do material escolar, dos sapatos,
dos uniformes. Acende a l�mpada por cima do tax�metro. Toninho
v� que est� marcando vinte e dois e quarenta. Abre o z�per, pega a
arma. Com incr�vel rapidez o motorista esbo�a um movimento. Tem
certeza de que percebeu algo de errado, vai tentar livrar-se. Segura-o
pelo pesco�o, antes que consiga escapar, puxa-o de encontro ao banco,

o homem quer berrar, solta-se, tenta agarrar Toninho, movimentando
os bra�os por cima da cabe�a. 0 garoto aciona o gatilho, a primeira
vez, a segunda, o motorista acalma-se. os bra�os caem ao longo do
corpo. Olha nas imedia��es, n�o v� ningu�m, est� certo de que os
disparos n�o foram ouvidos. Empurra o homem para cima do volante,
remexe nos bolsos, no porta-luvas, por baixo do tapeie e dos bancos.
Ali estava o dinheiro. Bastante dinheiro. Trava a porta da esquerda,
da direita, eleva o volume do r�dio. J� distante, lembra-se do cuidado
que n�o teve: passar a flanela nos lugares onde tocou. Como p�de ter
esquecido disso? Teria sido a afoba��o de encontrar com Sandra?
N�o. Ainda teve de fazer hora. at� que aparecesse com a coleguinha
imbecil. N�o podia culp�-la. Foi esquecimento, mesmo, pura idiotice.
E se o detetive mandasse examinar os trincos e desse com suas impress�es?
N�o tinha do que temer. N�o havia ficha na pol�cia que pudesse
compromet�-lo. N�o dera a mancada de Colher de Pau e muito
menos fizera como Enfezado. Nele, se n�o abrisse o olho. os tiras podiam
botar a m�o. Amea�ou o sargento Beto. disse que ia dar um
pano de amostra e deu.
Mete-se no banheiro, �quela hora completamente vazio, retorna
ao quarto com a sensa��o de que nada poderia acontecer de errado.
S� esbarrou no porta-luvas, nos trincos das portas havia outras impress�es,
al�m da sua. N�o adiantava esquentar. 0 importante seria
acompanhar o caso, ver como o detetive ia trat�-lo. Talvez fosse a
oportunidade de falar com Sandra, arranjar um encontro dela com

o pai, mais para saber das novidades, das coisas que vinha fazendo,
do caso que estava incumbido de desvendar. Ser� que faria isso ou
tinha raiva do velho, de verdade? Entregaria o toca-discos, pediria
esse favor. 0 dif�cil seria entrar no assunto, sem falar em motorista.
E se envolvesse seu amiguinho do pr�dio, o tal de Darci? Mas, como
envolv�-lo? N�o se sente seguro, teme dar um fora, alertar Sandra.
O neg�cio era descansar, depois pegar a refei��o no barzinho do
portugu�s, comprar os jornais da tarde. Se estivesse tudo em ordem,
iria ao cinema, daria uma chegada no Mangue. Como prometera a
Enfezado. Localizaria a casa da tal Zita, descobriria Marta.


Estira-se por baixo do guarda-roupa, abre o cofre, tira a ma�aroca
de dinheiro. Tem vontade de conferir quanto j� estava reunido,
sente certo des�nimo. Sabe, pelo volume, que � bastante; dava pra
fazer alguma coisa; quem sabe at� comprar o peda�o de terra? S�
faltava o pai aparecer. O pai ou Enfezado. A� teria outros planos,
ganharia mais dinheiro. Se o pai custasse a surgir, ia terminar ficando
rico. Compraria tudo que prometera a Sandra e, sem que soubesse,
encontraria jeito de alugar um apartamento. A� poderiam se encontrar
� vontade, de dia ou de noite.

Torna a colocar dinheiro e armas no cofre, fica olhando a chave,
ouvindo o desespero do motorista. Que cara estranha e at� engra�ada
que o idiota terminou fazendo. Na verdade, n�o passava de um cag�o.
Se percebeu a arma, seu primeiro impulso foi fugir. E que mostrou
rapidez, isso mostrou. Recrimina-se por semelhante bobeada. Se o careta
fosse mesmo carne de pesco�o, como � que ia fazer? Eis o tipo
de coisa que n�o deveria repetir-se. Se aquele motorista estava desconfiado,
por que n�o estaria ocorrendo o mesmo com os outros?
Teria de mudar o hor�rio dos ataques. Ao mesmo tempo, n�o era
t�o tarde assim. Quando tomou o t�xi passava um pouco das onze, as
ruas estavam com movimento intenso.

Toninho permanece deitado, olha o teto alto, a tinta nas t�buas
do forro descascando. E se passasse a agir de dia, em locais distantes?
0 risco seria muito grande. Poderia ser bem-sucedido no primeiro
caso, no segundo. Nos demais fatalmente daria grilo. N�o. Terminaria
encalacrado. 0 neg�cio era prosseguir, todavia com cautela. E
n�o esperaria chegar �s dez e muito menos �s onze. Passaria a tomar
t�xis na faixa das oito, nove horas. Mas, para cada caso, um truque.
Isso evitaria toda e qualquer desconfian�a. Que truque? Sacode a
chave do cofre, nos ouvidos o riso de Sandra, as palavras amargas
do motorista.

Compraria uma torta, mandaria embrulhar como sendo para
presente. Sairia com o embrulho. 0 motorista n�o teria d�vida em
peg�-lo.

� Onde � o anivers�rio, amizade?
� Logo ali. No in�cio da Saint Roman.
Ia dar certo. 0 careta n�o desconfiaria. Falaria o tempo todo no
anivers�rio.

� Uma sobrinha. Outro dia era garotinha, agora t� completando
15 anos.
Se o motorista tivesse filhos, fatalmente encompridaria a conversa,
se fosse reservado, procuraria abordar futebol, corrida de cavalos.
Numa dessas terminaria caindo. Depois que acionasse a arma, o que
faria da torta? Tem vontade de rir. Necess�rio examinar o papel, ver
se n�o havia o nome e endere�o da panificadora. Um cuidado que
n�o podia ser desprezado. Tem quase certeza de que era um caminho.

226


O outro viria com o tempo. Podia pegar o t�xi, mandar seguir para

o sub�rbio, bem longe, de l� retornar. Contrataria a corrida fora do
tax�metro. Faria isso por volta das cinco/seis horas. Quando retornasse
a Copacabana estaria de noite.
� E agora, amizade, j� se passeou � be�a!
� Isso mesmo.
� Resolveu seus problemas?
� Quase todos. N�o encontrei o careta em Campo Grande, mas
havia deixado a grana que me devia.
0 motorista estaria �ntimo, puxando uma conversa atr�s da outra.
N�o esqueceria a �gua que pagou, quando passavam pela Estrada do
Cabu�u, nem da coca-cola na Avenida Suburbana. Por isso, por que
desconfiar de seguir pela Estrada da G�vea? Exatamente ali. Um �nico
problema o inquietava. Se at� �s 5 o careta ainda n�o tivesse feito
nada? Tinha de considerar esse detalhe. Seria uma solene mancada?
Rodaria horas e horas de t�xi, perderia tempo e o resultado seria
desastroso. Um projeto que dificilmente podia dar certo. Teria de bolar
outro. Mais simples, com maiores possibilidades de ganho. Iria
para o Gale�o, tomaria um t�xi especial, mandaria seguir para a
Gast�o Baiana. Esses motoristas de aeroporto est�o sempre com a
nota. Se perguntasse sobre a viagem, diria estar retornando de S�o
Paulo. Casa de parentes. Nada al�m disso. Onde j� se viu tanta trela
com motorista?

Mete-se na roupa, examina se o cofre est� bem fechado, vai para
a rua. Passa na banca de jornais. V� logo no primeiro deles que a
morte do motorista era manchete. Junto � fotografia do morto, a do
tipo agitado, l�der sindical. No jornal seguinte, o mesmo homem, em
foto maior. Alarma-se com aquilo. Ser� que os caras iam partir pra
greve? Se isso acontecesse deveria parar por algumas semanas. Mas,

o melhor seria ler as mat�rias com vagar. Olharia rapidamente enquanto
estivesse no bar, faria uma leitura cuidadosa, estirado na
cama. Talvez nem abrisse o jornal no barzinho. N�o queria demonstrar
interesse por umas tantas coisas. Quem sabe aquele gar�om n�o
transava com os tiras? Teria de ser cauteloso. Ao m�ximo. Colocaria
os jornais na cadeira do lado, comeria a feijoada tomando guaran�
num copo de chope, com cubos de gelo. retornaria ao quarto.
0 gar�om movimenta-se r�pido, pois ainda h� bastante gente para
almo�ar. Toninho senta perto da porta, fica olhando a velhota que
vende pentes, envelopes de cartas, pimenta-do-reino. Nunca vira uma
vendedora com mercadorias t�o desencontradas. Onde ser� que conseguia
aquilo? Olha a mulher, parecida com dona Juliana. A mesma
cara magra, mesmos olhos grandes, cansados, ar de espanto.

0 gar�om traz a feijoada na panela de barro, adverte que est�
quente.

� Nesse tempo a feijoada s� vai bem com chope.

� Ent�o suspende o guaran�.
0 homem sorri, traz um chope duplo. Toninho sabe que aquilo
acontece porque se tornara fregu�s, quase todos os dias est� ali, pura

o caf� ou o almo�o. Dessa forma ningu�m ousa perguntar se � menor
ou n�o. Vira o chope, v� que o homem tem raz�o. Mastiga a feijoada
com carne de porco, o calor�o � grande, ventiladores soprando das
paredes e do teto, o suor escorrendo-lhe no peito e nas costas. Olha os
jornais, n�o abre nenhum deles. Mas est� curioso para ver o que dizem
os rep�rteres, o que diz o detetive Galv�o.
Abre a porta do quarto, tira a camisa e as cal�as, fica s� de cueca,
estende-se na cama. Pela janela entram ventos frescos, agrad�veis
naquela tarde de sol intensamente quente. Vira as p�ginas do primeiro
jornal, l� est�. Com todo destaque. O t�xi parado, lanternas acesas.
Na foto seguinte o motorista na cal�ada. E o texto informando que

o profissional s� foi identificado com a chegada de um representante
do Sindicato. Dentro de um quadro havia o pronunciamento do secret�rio
de Seguran�a, num outro, pequena entrevista com o delegado
Paranhos. 0 secret�rio dizia que as investiga��es iam ser intensificadas,
o delegado afirmava estarem sendo tomadas medidas excepcionais.
No mesmo jornal, na p�gina seguinte, havia uma nota que Toninho
achou estranha. Falava na pris�o de um suspeito, conduzido
� Delegacia pelo motorista Darci Severino. O tipo. cuja identifica��o
a pol�cia n�o fornecera, insistia em declarar-se inocente, mas ap�s
algumas horas de "h�bil interrogat�rio"', conforme o detetive Galv�o,
terminou confessando numerosos crimes contra motoristas.
Acontece � diz o rep�rter � que agora o detetive n�o pode mais
apresentar o suspeito como o grande matador, porque exatamente na
noite do interrogat�rio um outro profissional foi assassinado, "de
maneira fria e covarde". Finalizando o rep�rter afirmava estar o detetive
Galv�o e sua equipe ocupada em levantar a vida do acusado,
pois acreditavam ser ele o matador louco. No seu depoimento o delegado
Paranhos dizia aos jornalistas n�o saber nada sobre o suspeito,
a n�o ser que estava detido, incomunic�vel. 0 secret�rio de Seguran�a,
por sua vez, recusava-se a falar no assunto.

O jornal seguinte, mais conservador, menos sensacionalista,
tratava da pris�o do suspeito com certa ironia. E deixava claro que,
n�o tendo o verdadeiro criminoso nas m�os. os policiais procuravam
forjar um. Para isso teriam se utilizado de um chofer de pra�a, que
roda mais de 16 horas, dorme ao volante e ficou apavorado ao imaginar
que o passageiro parecia com o retrato-falado que tinha no p�rabrisa,
apenas porque o cidad�o, cuja identidade a pol�cia oculta, usava
�culos de aros de metal. Da� em diante o artigo desancava o delegado
Paranhos e terminava qualificando o detetive Galv�o e sua equipe
como um "bando de irrespons�veis que n�o estavam preocupados em
proteger a sociedade e sim praticar atos de arbitrariedade". Lembrava


o artigo os crimes praticados por Galv�o durante o per�odo de "instala��o"
do Esquadr�o da Morte, "quando ele decidiu punir, com as
pr�prias m�os, nada menos que quatro delinq�entes, todos acusados
por crimes que n�o chegaram a ser apurados". Pedia finalmente o
jornal que o secret�rio de Seguran�a tomasse medidas severas, a fim
de que policiais mais respons�veis fossem colocados � frente de assunto
t�o grave, quanto era o assassinato de motoristas de pra�a no Rio de
Janeiro.
Toninho tem vontade de rir da confus�o em que se metera o
detetive. Todo aquele seu tamanho, toda sua arrog�ncia e n�o adiantava
nada. Cada vez que apertava o parafuso, mais tumultuava. Agora,
com aquela mancada, os jornais iam martelar em cima dele. Ser�
que continuaria nas investiga��es? Esse fato deixa-o preocupado. Se
fosse feita alguma mudan�a, teria de saber quem ia ficar no lugar
de Galv�o. Mas era poss�vel que no dia seguinte a confus�o estivesse
menor. A n�o ser que os l�deres sindicais convocassem de fato a
assembl�ia, a fim de tratar da greve.

Toninho continua com vontade de rir. De uma forma ou de outra
aquilo n�o o atinge. Nem a dispensa de Galv�o, nem a deflagra��o
da greve. Ficaria uns tempos fora de circula��o, at� a coisa esfriar.
A essa altura, n�o tinha d�vida, devia haver uma quantidade de t�xis
rodando com policiais fantasiados de motorista. Galv�o a todo vapor,
a fim de agarrar o tal matador louco, como a imprensa batizara. E
era bom que os desesperassem.

Dobra os jornais, atira-os por baixo da mesa, onde j� havia
v�rios outros. P�e a roupa, ajeita os cabelos, fecha a porta. � noite,
quando encontrasse Sandra, teria o que dizer sobre o toca-discos.

� Amanh� ou depois vai ser entregue.
Est� certo de que ia ficar contente, anima-se com isso. Como na
hora em que saiu do restaurante, comprou todos os envelopes e todos
os pentes que a mulher de rosto magro vendia.

� Quebro pente com a maior facilidade. Por isso � melhor comprar
de d�zia.
� E pra que tanto envelope?
� Vou come�ar a escrever cartas. Pra todo mundo que conhe�o
e
at� pra quem nunca vi!
A mulher ficou rindo, feliz, como Sandra tamb�m ficaria.


Cap�tulo XII

UM

� propor��o que a velhota se movimenta, mexendo nos livros,
nas fichas, abrindo e fechando gavetas de arquivo Itamar sente-se
mais apreensivo. Embora a sala esteja envolta num agrad�vel ar-refrigerado,
n�o consegue ficar � vontade, a ponto de ter recusado o
cafezinho que o cont�nuo lhe oferecera, exatamente quando gostaria
de tomar alguma coisa, s� como motivo de acender um cigarro. Lutava
para deixar aquele v�cio mas parecia imposs�vel. E como evitar

o fumo, com armadilhas como aquela?
A mulher trabalhava lenta e seguramente, n�o parecia incomodar-
se com o tempo. Pela calma com que examinava os pap�is, pela
firmeza das anota��es Itamar ia entendendo ser pessoa respons�vel,
meticulosa, enquanto ele, Galv�o, Nogueira e todos os outros da Delegacia
de Paranhos n�o passavam de uns celerados. Como podia o
detetive, com tantos anos de janela, cair em semelhante asneira?

Desde que se apresentou, mostrou a identifica��o, a funcion�ria
n�o fez qualquer coment�rio. Pediu apenas que deixasse anotar o
n�mero da identidade, o que constitu�a praxe naquele setor da Universidade.
O cont�nuo reapareceu. Itamar decidiu apelar.

� Amizade! Vou aceitar!
0 cont�nuo p�e o caf� na x�cara, Itamar toma em pequenos goles,
a velhota continua absorvida nas anota��es, letrinhas mi�das e bem
tra�adas preenchendo as linhas da ficha branca, diferente das outras
que estavam na gaveta estreita do arquivo, quase todas amarelas e
azul clara. Ao depositar a x�cara de um lado da mesa a funcion�ria
chama-o. Aproxima-se, sente o cheiro de talco e da maquiagem.

� � o que se pode informar.
Itamar pega a ficha, a velhota faz um coment�rio de ordem
pessoal.

� Professor Carlos de Assis � excelente pessoa. Goza de muito
conceito entre os colegas de magist�rio.

Itamar prossegue olhando a ficha, o sangue esfriando nas veias.
Ah, como se sentiria feliz se n�o estivesse envolvido com aquele caso.
Por que Galv�o foi aceitar o suspeito, trazido pelo porra louca do
motorista? Esfor�a-se mas n�o consegue ler a ficha direito. Os olhos
inundam-se com as express�es favor�veis ao professor e terrivelmente
desastrosas ao policial e � sua equipe. Dez anos de magist�rio, ex-assessor
t�cnico do Minist�rio da Agricultura, tese de mestrado traduzida
para o alem�o, cinco vezes paraninfo de formandos no Rio e cm
S�o Paulo. Itamar n�o tem coragem de continuar olhando a ficha.

� Minha Nossa Senhora!
� Como disse?
� Nada. Apenas a ficha do professor me impressionou. Um
homem culto. . .
� E muito honesto � afirma a funcion�ria enquanto rep�e as
fichas no arquivo.
Itamar sai pelo corredor largo, chega diante dos elevadores, n�o
sabe o que dizer na Delegacia. Quando l� aparecesse era quase certo
que o esperavam o delegado Paranhos, um ou dois emiss�rios do secret�rio
de Seguran�a, representantes do Sindicato dos Motoristas
Profissionais, o pr�prio Galv�o. Ia ser um massacre. Por que n�o
dizer ter sido imposs�vel encontrar um funcion�rio que lhe desse as
informa��es sobre Carlos de Assis? Entra no elevador, acha que isso
poderia tornar o problema ainda mais complexo. E se um dos emiss�rios
do secret�rio pegasse o telefone e se comunicasse com a pr�pria
funcion�ria que terminara de o atender com tanto empenho? N�o.
Nada de novas complica��es. 0 neg�cio era chegar, enfrentar as feras.
Se pudesse, mandaria chamar Galv�o para o bar da esquina. Mostraria
a ficha, n�o consentiria fosse pego de surpresa. Isso sim. Descobriria
Nogueira, mandaria localizar o detetive.

Na rua, andando entre tantas pessoas apressadas, olha novamente
a ficha. Tese de doutorado sobre problemas colaterais de brucelose,
traduzida em 1956 para o alem�o. Como fora poss�vel tal desastre?
Uma cidade cheia de vagabundos, de canalhas e maconheiros, e o
diabo do motorista foi buscar exatamente no homem errado. Inacredit�vel!
N�o tinha mais d�vida de que Galv�o era p�-frio. Bem que
os amigos diziam e n�o queria ouvir. Foi no dia que mancou na campana
do supermecado que os assaltantes voltaram e levaram o dinheiro
que haviam esquecido no cofre: foi na semana que ia entrar
de f�rias que os desgra�ados come�aram a matar motoristas na Zona
Sul; foi no dia em que decidiu dar umas voltas nas bocas que o caminh�o-
tanque deu aquela fechada e Nogueira n�o teve outro recurso
sen�o arrebentar a viatura novinha de encontro � �rvore. Dali em
diante teria de ter mais cuidado no seu relacionamento com Galv�o.
N�o podia deixar-se arrastar. Se o caso do professor resultasse num
esc�ndalo o detetive estaria fatalmente perdido. Provavelmente, seria


expulso do servi�o p�blico. Acusa��o de quatro execu��es nas costas
e mais aquela mancada que parecia pesadelo. N�o havia a menor
d�vida de que Paranhos ia tirar o corpo fora, como sempre fizera.
Desde o come�o percebeu logo sua malandragem. Alegrou-se com a
not�cia de que havia um suspeito engaiolado, mas n�o quis nem saber
quem era. Confiava no detetive, sabia estar cuidando muito bem
do caso. Na verdade o que queria dizer � que n�o se imiscu�a; a responsabilidade
total estava nas costas de uns poucos imbecis. Por que
n�o percebeu logo a jogada? Galv�o n�o era nada inteligente. Tinha
conversa, agia com garra, mas na verdade n�o passava de um ing�nuo
que Paranhos conseguia controlar.

Rodando no t�xi Itamar continua a ver e a ouvir a funcion�ria,
a sentir-lhe o cheiro do talco e da maquiagem.

� Professor Carlos de Assis � excelente pessoa. Goza de muito
conceito entre os colegas de magist�rio.
Imaginem s�! Papo de Anjo e Baiacu se esbaldando. Bolachadas
de um lado e do outro, a cutelada no plexo.

� Quem era teu coleguinha?
Carlos de Assis n�o querendo dizer. Mais pancadaria, Galv�o
passeando nu da cintura para cima, a sala cheia de fuma�a de cigarros,
o ventilador girando furiosamente a um canto. Sangrando pelo
nariz e ouvidos, ap�s receber o telefone mais bem dado que Papo de
Anjo j� conseguira, eis que o suspeito decide abrir o bico. Nogueira
atirou-lhe o balde d'�gua.

� Agia de parceria com Jorge Grimber.
E Jorge Grimber n�o era outro sen�o o reitor. Como podia semelhante
coisa? Que diabo de professor era aquele, que n�o tivera
a menor considera��o? Por que n�o dizer estar tudo errado, o motorista
n�o passava de um tresnoitado. que j� n�o sabia o que fazia e
muito menos o que dizia?

0 t�xi entra quente na curva, Itamar faz ligeira an�lise da situa��o,
conclui que na verdade Carlos de Assis tentara convencer
Galv�o de que o chofer estava inventando, era um neur�tico. Isso
mesmo. Cansou de dizer. Por a� n�o podiam disfar�ar. Nem de longe.
A sorte � que n�o havia testemunha para confirmar o que Carlos
de Assis dissera. Iam prevalecer as desculpas que o detetive pudesse
inventar. Mas, al�m disso tudo, afligia Itamar um outro detalhe de
suma import�ncia. Quando saiu em busca das informa��es Galv�o
mandou que Nogueira jogasse mais �gua no suspeito. Teria direito a
meia hora de descanso, quando voltaria a ser interrogado sobre o
parceiro Jorge Grimber e o motorista portugu�s, assassinado na Lagoa
Rodrigo de Freitas. Temia que o "h�bil interrogat�rio" prosseguisse
e quando chegasse o professor j� estivesse t�o ruim que seria imposs�vel
apresent�-lo a quem quer que fosse, muito menos � imprensa


e aos emiss�rios do secret�rio de Seguran�a. Itamar esfor�a-se para
n�o pensar em mais nada daquilo. Era tempo de aprender a n�o
sentir-se culpado com os desmandos alheios. Galv�o devia ter pesado
bem as conseq��ncias daquele arrocho, que corria sob sua inteira
responsabilidade. Pelos anos de janela que tem, seria natural suspeitar
da sutil manobra de Paranhos. Nunca fora muito com aquele
tipo. Brincalh�o, metido a preocupar-se com os problemas alheios,
mas ali estava: viu o detetive cavando a pr�pria sepultura, deixou.
N�o disse uma �nica palavra. Queria o resultado; o assaltante afirmando
ter assassinado tantos motoristas. Apenas isso. N�o estava
preocupado com quem quer que fosse. Dominava-o certa satisfa��o
de jamais se ter enganado quanto ao comportamento de Paranhos.
A princ�pio Galv�o chegava a considerar m� vontade, depois pensou
em inveja. Mas, nos primeiros meses de nomea��o, Paranhos foi mostrando
quem era. Efetuou transfer�ncias de antigos servidores, colocou
tr�s parentes em postos de chefia e todo o resto foi enquadrado.
Muito trabalho, muita dedica��o, poucos ganhos. Onde estava a gratifica��o
de Galv�o? E seu aumento? Um tipo safado. Sem nenhuma
d�vida. Na verdade manobrava com sutileza, porque aquilo era um
jogo. S� os imbecis como ele, Galv�o e Nogueira n�o percebiam. Os
outros compreenderam de longe a atua��o do delegado, trataram de
alinhar-se. Estavam com Paranhos, tornaram-se seus amigos.

0 t�xi p�ra junto ao bar, Itamar faz uma liga��o, fica com o
fone no ouvido, enquanto o portugu�s serve a dose de conhaque. Do
outro lado da linha algu�m promete chamar Nogueira. Itamar beberica
enquanto aguarda.

� Te manda pra c�. Se Galv�o tiver por a�, manda vir tamb�m.
Tou no barzinho!
0 portugu�s repete a dose. Nogueira aparece.

� Procurei Galv�o pia cacete, n�o achei!
� E Paranhos?
� T� pra chegar. Vai haver reuni�o e os cambaus. 0 careta
terminou dizendo at� o que n�o fez!
Itamar beberica. N�o sabe por onde come�ar. Nogueira pediu a
caipirinha, o portugu�s traz o copo, cheiro de lim�o esmagado no ar.

� Tamos por cima, hem!
� Claro. 0 careta se abriu todo!
� Sabe de onde tou vindo?
Nogueira toma o primeiro gole, n�o gosta daquele ar misterioso
de Itamar.

� Do Departamento de Informa��es da Reitoria.
Puxa a ficha do bolso.
� Sabe o que � isto?

Nogueira mant�m o copo de caipirinha na m�o. n�o diz uma
�nica palavra.

� Pequena biografia do professor Carlos de Assis.
� Professor?
� Catedr�tico da Universidade Rural, com tese em alem�o e
o cacete!
� T� brincando.
Itamar pede outro conhaque.
� Quem me dera que tivesse!
� E pra que se abriu daquele jeito?
� Qualquer um faria o mesmo, com tanta porrada!
� E agora?
� Vai l� de novo, trata de encontrar Galv�o. Com essa tamos
todos ferrados.
Nogueira vira o copo, manda o portugu�s preparar outra, enquanto
retorna. Itamar v� o amigo sair, sumir na rua atravancada de
carros. Sua vontade era sentar-se naquele barzinho infecto, tomar duas
d�zias de conhaque, ficar bem b�bado, meter-se no hotel de segunda, ligar
o ventilador, dormir dois dias sem parar. Que ningu�m soubesse onde
estava, que ningu�m o fosse procurar, perguntar coisas, pedir aux�lio,
dar ordens para descobrir assassinatos complicados. Talvez nem esperasse
pelo tal aumento. Se escapasse daquela enrascada, simplesmente
chegaria ao gabinete de Paranhos, entregaria a carta de demiss�o.
� o que deveria ter feito h� mais tempo. Procuraria outro
meio de vida, nem que fosse vendendo fruta em feira-livre.

Nogueira retorna, o copo de caipirinha est� cheio, na ponta do
balc�o.

� T� vindo a�!
� Disse alguma coisa?
� N�o. Tinha uma por��o de careta por perto.
Nogueira vira o copo de batida, com vontade. Estala a l�ngua
e os bei�os, esfrega as m�os.

� Nem pensava beber hoje mas j� vi que n�o vai ter jeito.
� Acho tamb�m que n�o. Se puder, encho a cara!
Os dois v�o para a mesinha dos fundos, perto do ventilador na
parede, oscilando de um lado para outro, como p�ndulo. Galv�o
aparece, palet� nas costas, la�o da gravata frouxo.

� Motinha � grita o detetive para o portugu�s � manda uma
barriguda bem gelada.
P�e o palet� na cadeira, sorri, o homem do bar aparece, suado,
um pano imundo na cintura. Galv�o enche o copo, toma metade,
como se estivesse morrendo de sede.

� Finalmente, vamos poder dar um banho nesses putos!
Olha os companheiros que n�o dizem nada, n�o fazem ao menos
sinal de riso.


� Que � que t� havendo? Por que essa cara de enterro em dia
de
festa?
Itamar livra-se do palet�, esfrega o len�o no rosto.

� Tive na Reitoria.
� Algu�m sabe do vagabundo por l�?
Itamar mostra a ficha.
� Que brincadeira � essa?
Itamar continua em sil�ncio, Galv�o lendo o que a velhota escrevera.


� T�o fazendo confus�o. N�o pode ser o mesmo cara.
� � o mesmo � diz Itamar. � Vi a fotografia.
Galv�o permanece quieto um momento, olhando um ponto distante.


� Quem sabe � o parceiro que apontou?
� 0 "parceiro"' � simplesmente o reitor � diz Itamar.
� Filho da puta. Choramingando como um desgra�ado e botando
na gente sem vaselina, sem nada.
� E agora?
� Essa � de rachar o cano. S� parando pra pensar.
Galv�o tira o len�o do bolso, esfrega com for�a na testa e no
rosto.

� Motinha, leva a barriguda. Traz uma velha do morro � torna
a gritar Galv�o.
� N�o creio que seja hora disso � considera Itamar.
O portugu�s n�o ouviu o pedido do detetive, est� ocupado com
outros clientes.

� Com essa tamos no olho da rua e, o que � pior, a caminho da
Ilha Grande � acentua Galv�o.
� Talvez haja um meio de conciliar.
� Conciliar, como? 0 cara t� mais arrebentado que puta em
briga de marinheiro.
� Pra onde foi?
� T� l� mesmo, Baiacu na paquera.
� N�o era o caso de chamar um m�dico?
� E se ele tomar ten�ncia, depois servir de testemunha contra
a
gente?
Galv�o vira o copo de cerveja, esfrega o len�o na boca.

� Onde tava com a cabe�a pra acreditar no puto daquele motorista?
� A jogada come�ou bem � acentua Nogueira. � 0 Darci �
que foi p�-frio. Com tanto mocorongo dando sopa, gadanhou logo um
gra�d�o!
� Como ia imaginar que um merda como aquele, todo mal
vestido, fosse alguma coisa?
� Bem que o careta exibiu a documenta��o.

� Exibiu? Juro que nem reparei!
� Tenho lembran�a de que ainda insistiu na tal hist�ria do
veterin�rio.
� Ah, Deus do c�u! Com tanto cachorro doido mijando em
poste e o maldito do motorista vai pegar um assessor de ministro.
� Agora, n�o adianta lamenta��o. 0 que interessa � encontrar
uma sa�da.
� Logo mais os colarinho branco v�o chegar. Doutor Paranhos
vai t� mais enfeitado que pav�o no terreiro.
� E o pior � que v�o querer ver o acusado � comenta Galv�o
amargurado.
� Se a gente disser que o pinta deu no p�?
Os olhos de Galv�o ilumina-se. Por instantes, um resto de felicidade
modifica-lhe o rosto cansado, nervoso.

� Pode ser uma boa!
� E como fica o cara que permitir a fuga? � quer saber Itamar.
� S�o outros quinhentos!
� Se pode at� dizer que pegou um preso de bom comportamento
pra ajudar na marola. Se deixou o preso de olho aberto na toca,
ele pegou no sono, o malandro se mandou.
� E o que se faz com o professor?
� Esconde numa cl�nica, manda rem�dio em cima.
� 0 que se diz na cl�nica?
� Atropelamento. Ia passando na rua, a viatura pegou.
� Acho que isso n�o cola, amizade. Vai terminar estourando
tudo
em cima de mim � lembra Nogueira.
Galv�o toma mais cerveja, insiste na dose de velha do morro.

� Acho que tudo isso � besteira � diz Galv�o num acesso de
bom senso. � Mais cedo ou mais tarde o traidor daquele professor
bola a boca no mundo.
0 portugu�s Motinha abre a segunda garrafa de aguardente.

� 0 jeito � se adiar a reuni�o.
� Como? Paranhos enlouquece!
� T� doido pela promo��o.
� A gente argumenta que surgiu a pista do segundo implicado
no caso.
� Jorge Grimber?
� Corta essa. N�o me fala mais em assombra��o! � diz o detetive
revoltado.
� E pra que serve o adiamento da festa que Paranhos programou?
� Sei l�. � tempo que se ganha.
� 0 bom � se o sacaneta do professor aceitasse nossas desculpas.
Se ia pra l�, agora mesmo, levando uma torta de chocolate pra

ele. leite integral e at� pasta e escova de dentes. Tu explicava o en.
gano � diz Galv�o referindo-se a Itamar.

� Acha que � poss�vel?
� Sei, n�o � considera o detetive. � Depois das porradas que
ganhou, deve t� querendo me ver numa forca. Esses caras n�o t�m
a menor compreens�o dos problemas pr�ticos. S�o todos uns recalcados!
� Se fosse ele n�o aceitava acordo � afirma Itamar.
Galv�o olha-o com enfado.
� Afinal, t� de que lado?
� N�o adianta simplificar as coisas � acentua Itamar s�rio. �
Desta vez se foi longe demais.

� Longe, porra nenhuma. Apenas se errou no pulo. Fosse um
p� duro e n�o ia ter problema algum.
� Na minha opini�o a gente t� se afobando � toa. 0 neg�cio �
boiar a cuca pra funcionar. Um caminho tem de aparecer � lembra
Nogueira.
Galv�o toma grandes goles da cacha�a, faz cara feia.

� Acho que pintou uma solu��o.
Itamar e Nogueira animam-se, Molinha traz outro copo de caipirinha.


� Qual �?
� Dar baixa no sabid�o.
� Expulsar do planeta?
Galv�o continua a tomar a cacha�a, sacode afirmativamente a
cabe�a.

� E se o problema piorar?
� Como piorar? � s� estudar cada �ngulo da opera��o.
� N�o sei se topo.
� Que � que h�, cara! T� me desconhecendo?
Nogueira tamb�m anima o companheiro.
� Papo-firme, amizade. Caminho melhor n�o tem!
� Se o maluco do motorista for chamado a depor?
� Que tem isso? Se queima ele tamb�m.
Motinha renova a dose de conhaque para Itamar.
� N�o creio que possa fazer mais nada, hoje. Tou arrasado!
� Te p�e no meu lugar � diz Galv�o. � Ou se toma a medida
acertada, sem d� nem pena, ou vamos parar no inferno. N�o tem
Paranhos que segura essa.
� E por acaso segurou alguma?
� Certo, mas sempre manerou. Se a gente deixa o petulante do
veterin�rio abrir o bico, a desgra�a � geral. 0 pr�prio Paranhos vai
de �gua abaixo.
� Quanto a isso at� que seria bom � comenta Nogueira.
� Acontece que o lado podre da corda t� na nossa m�o.
� Como seria?

� Muito f�cil. Se espera anoitecer, convoca Baiacu. Ele fecha
o engra�adinho, enfia num saco, se leva por a�, bota numa fogueira,
at� virar cinza.
� Depois espalha a cinza no vento � diz Nogueira, fazendo
gra�a.
Galv�o mostra os dentes num riso frio, o rosto modifica-se numa
careta de alegria.

� Parece que � o �nico jeito.
� N�o tem outra sa�da!
� E a reuni�o?
� Nogueira vai l�, d� o al� a Paranhos. Amanh� se tira Garanh�o
da vadiagem, faz uma barganha com ele. Banca o crime, at�
a poeira assentar. � o tempo que se p�e a m�o no matador louco, libera
Garanh�o, deixa ele agindo uns dias.
DOIS

� Que foi tarefa dura, foi. Mas o que vale a gente s�o os profissionais
que trabalham por amor � arte.
� Com essa o Galv�o merece promo��o e umas boas f�rias.
� � o que vou dizer a ele. Por mais que se deseje evitar, o
momento tem alguma coisa de solene.
No gabinete refrigerado do delegado Paranhos est�o dois funcion�rios
da Secretaria de Seguran�a. 0 moreno gordo representa o
secret�rio. Com ele Paranhos fala mais. 0 outro apenas ouve. 0 coordenador
de Opera��es Especiais conversa em voz baixa com integrantes
do Sindicato dos Motoristas.

� Com a deten��o do suspeito, vamos ter outros nomes? �
indaga o moreno gordo.

� Sem d�vida. 0 dif�cil era descobrir o fio da meada!
� Acha bom contar detalhes � imprensa ou � mais prudente
esperar?
� Sim e n�o � diz Paranhos sorridente. � Em princ�pio sou
contra a divulga��o de um caso, antes de estar conclu�do. Mas, como
se trata de assunto t�o discutido, que amea�a levar uma categoria
inteira � greve, creio que se deva divulgar. Com discri��o, � claro.
� V�o ver que n�o tamos de bra�os cruzados, como alguns baderneiros
imaginam.
� Isso mesmo � diz Paranhos � voltando-se para o acompanhante
do moreno gordo.

Em dado momento a poria do gabinete abre, entra Galv�o. 0 n�
da gravata ajustado, o len�o vermelho no bolso do palet�, sapatos
reluzentes.

� Eis nosso homem! � exclama Paranhos que � todo anima��o.
0 detetive sorri, apertando a m�o do moreno gordo que se levanta.


� Receba os cumprimentos de Sua Excel�ncia. N�o p�de vir,
mas vai marcar uma audi�ncia semana que vem. Deseja cumpriment�-
lo de perto.
Galv�o fala com os outros, senta ao lado de Paranhos.

� Como andam as investiga��es'.''
� Melhor do que esperava. Agora n�o se vai mais ter embara�o.
� Quem � o matador?
� Um velho conhecido da pol�cia. Depois de suspeitar de uns
quatro ou cinco, terminamos nos fixando nele e n�o deu outra.
� Velho conhecido? � indaga Paranhos.
� Isso mesmo. T� lembrado do Garanh�o, aquele que num m�s
praticou 18 estupros?
0 delegado sorri, a fim de mostrar que tem boa mem�ria, n�o se
recorda de coisa alguma mas confirma que sim, perfeitamente.

� Pois � ele. Falta apontar os coleguinhas!
� Logo vi. Desde o princ�pio imaginei que n�o era coisa de um
s� bandido � afirma um dos representantes sindicais.
� Seria preciso muito est�mago pra fuzilar um trabalhador, sem
d� nem pena. S� um delinq�ente calejado!
� Onde se pode ver esse homem? � quer saber o moreno gordo.
� Mandei botar no xadrez daqui de cima. 0 carcereiro vem
avisar.
0 cont�nuo entra com a bandeja e as x�caras, o caf� � servido.
Paranhos toma o seu com certo acanhamento, Galv�o mostra-se muito
� vontade.

� No final desse caso � afirma o moreno gordo � vamos lhe
fazer uma surpresa.
� Posso saber?
� Se � surpresa, creio que n�o � diz o gordo, rindo muito.
Com n�tido desejo de fazer m�dia o delegado Paranhos dirige-se
aos l�deres sindicais.

� Creio que daqui em diante os senhores ter�o de colaborar com
a gente. 0 neg�cio � tirar da cabe�a essa hist�ria de greve. J� imaginaram
o precedente que pode abrir?
� Agora, estejam tranq�ilos. Os assassinatos v�o terminar. Ou
isso
acontece ou n�o me chamo Galv�o!
O cont�nuo recolhe as x�caras, o interfone toca. � o aviso de que

o preso encontra-se na cela 21, � disposi��o do delegado. Paranhos ergue-
se da cadeira girat�ria, pede aos visitantes que o acompanhem.

O corredor est� repleto de rep�rteres e fot�grafos, o coordenador de

Opera��es Especiais pedindo que n�o o fotografassem, o moreno gordo

fazendo a mesma coisa, Paranhos n�o dizendo nada, mostrando-se

ocupado com os representantes sindicais, enquanto os flashs espou


cavam, as perguntas cruzavam o ar e Galv�o at� sentia certa emo��o,

como se na verdade fosse mesmo apresentar o culpado.

Sobem pequeno lance de escada, saem no corredor estreito e

quente, a romaria de jornalistas atr�s. Chegam afinal diante da cela,

paredes com retratos de mulheres nuas. Paranhos n�o p�ra de falar,

o detetive n�o se atreve a indaga��es. Teme que desse a louca em
Garanh�o, ele decidisse partir para o s�rio. Enquanto o assessor do
secret�rio quer saber coisas, os fot�grafos trabalham, o delegado
consente que os jornalistas se aproximem do preso. 0 carcereiro abre
a grade, Galv�o se oferece para colocar as algemas.
� V� l�, cara. Ag�enta firme!
Garanh�o n�o tem o que dizer. Sai da cela para o meio dos jornalistas,
olha o delegado, os outros tipos que jamais vira. � vim
crioulo forte, um metro e oitenta, 26 entradas na pol�cia pelos mais
variados tipos de delito, desde simples furtos em feira, at� lenoc�nio,
suspeita de tr�fico de entorpecentes e os tais estupros. Mas, na verdade,
nunca puderam provar nada contra ele. Das 18 mulheres estupradas,
apenas duas compareceram � Delegacia e depois ficou constatado
que ambas eram suas amantes. Fizeram a queixa para vingar-se.
Descobriram Garanh�o bandeado por uma terceira dona, que mudou
para o morro do Rato Molhado e botava banca de gr�-fina.

Enquanto recorda essas passagens comuns na vida de um desocupado,
Galv�o interroga-se a respeito daquele cara. Afinal, o pepino
que ia segurar n�o era moleza. E se l� pelas tantas desse pra tr�s?
J� imaginou? Tinha de ficar por perto, tornar a entrevista o mais
breve poss�vel. Por isso, nem bem os rep�rteres fizeram as primeiras
perguntas, o detetive entrou em cena pedindo que se retirassem. O
delegado Paranhos ficou um tanto chateado com a petul�ncia do auxiliar,
mas p�s-se a rir, � propor��o em que Galv�o explicava que muitos
detalhes do caso ainda eram segredo, por uma palavra a mais ou a
menos a coisa poderia se perder. Os jornalista afastaram-se contrafeitos,
os visitantes retornaram ao gabinete refrigerado de Paranhos, enquanto
Galv�o ficou com o preso, a fim de retirar-lhe as algemas.

� Essa barra � demais pra mim, chefe. O senhor t� me empurrando
pro 121 qualificado.
� Deixa de ser bobo. Banca firme e se esquece o assalto no
supermercado.
� Nunca estourei um supermercado!
� N�o � o que diz a ficha. Entrou botando pra quebrar e tudo.
Tem
testemunha que abre o bico e faz o reconhecimento.
Garanh�o sorri. N�o adianta protestar.


� Que vantagem levo?
� Quando passar a onda, te manda. Troca de nome e nunca
mais baixa por aqui!
Garanh�o encara o detetive, sente que o policial est� envergonhado,
apreensivo. Novamente no gabinete de Paranhos j� encontra
os visitantes de p�. Cada um que sai abra�a Galv�o, um dos l�deres
sindicais convida-o a participar da assembl�ia, marcada para quinta-
feira. Quando todos se foram, Paranhos sacode-se orgulhosamente na
cadeira.

� Por que n�o deixou o filho da puta se abrir de vez?
Galv�o acende calmamente o cigarro.
� N�o era hora.
� E que hist�ria � essa de Garanh�o ser crioulo, quando me
falaram num cara branco, boa-pinta?
� 0 informante se apressou. Ali�s, aqui dentro t� cheio de
apressadinhos.
Paranhos acha gra�a.

� Gostei da jogada. Mostrou um careta, enquanto o verdadeiro
tava de molho. No nosso trabalho o que vale � a seguran�a.
� E a cautela!
� Isso mesmo: seguran�a e cautela. Quem n�o souber dosar essas
duas coisas afunda f�cil.
Paranhos apoia os bra�os grossos na mesa.

� De onde aquele crioulo tirou tanta imagina��o?
� Que que h�? Acha que todo crioulo � burro? Garanh�o tem
estilo e cabelo na venta.
� Quando come�a a apontar os c�mplices?
� J� come�ou mas tou me g�entando. Nada de papo com jornalista.
N�o bota ningu�m pra frente.
Paranhos sorri. Abre a gaveta, tira a garrafa de u�sque.

� 0 momento exige celebra��o.
O detetive acomoda-se na poltrona, o delegado p�e duas doses
generosas, passa um dos copos a Galv�o.

� Com essa o secret�rio vai quebrar a cara.
� Quando chegar minha vez de falar com ele vou cantar alto!
Sorridente, sempre sorridente, Paranhos faz o companheiro entender
que a demonstra��o de machismo n�o ia adiantar.

� N�o se luta com essa ra�a, mostrando as armas. Deixa comigo.
Sei defender meu pessoal. T� querendo aumento e f�rias. � o que vai
ter. Se puder, fa�o o mesmo pelo Itamar e Nogueira. Reconhe�o, t�o
girando por a�, feito doido, e praticamente sem condi��es ou pensa
que n�o vejo as coisas?
Paranhos oferece nova dose, Galv�o agradece.

� Vamos engaiolar o resto da canalha. Depois se festeja.

Ajusta o n� da gravata, esmaga a ponta do cigarro no cinzeiro.
No corredor � abra�ado por tipos que sempre o detestaram. DesvenciIhe-
se desses amigos dos bons dias, entra na cantina atulhada de engradados
de refrigerante, l� est� Nogueira.

� Chama Itamar pro barzinho. Precisamos conversar.
Nogueira se manda, apressadamente, Galv�o demora-se tomando
caf� enquanto ouve de outro detetive uma hist�ria complicada, na qual
n�o estava de forma alguma interessado. A�, enquanto o homem falava,
tem uma id�ia que considera brilhante mas que n�o gostaria que ningu�m
soubesse. 0 colega fala, Galv�o ri. N�o acha gra�a no que o
companheiro diz; alegra-se com a id�ia que teve, capaz de tir�-lo de
todas as aperturas. N�o estava t�o encalacrado quanto Itamar pensara.
Pelo contr�rio. Aquilo podia ser, de fato, o in�cio da solu��o do
caso. Garanh�o concentraria as aten��es, todos os suspeitos que porventura
fossem capturados, seriam seus c�mplices. Quem poderia dizer
o contr�rio?

� Al�m disso, cara � diz Galv�o a Itamar � ainda tem uma
coisinha de nada que n�o percebeu. Nem tu � afirma olhando para
Nogueira.
� Que �?
Motinha abre as garrafas de cerveja, enche os copos.
� 0 criminoso n�o se parece nem de longe com o tal retrato-
falado
que as sumidades bolaram.
Galv�o leva o copo � boca, limpa os bei�os nas costas da m�o.

� E sabem por que isso interessa?
P�e mais cerveja no copo, olha os colegas ironicamente.
� O tal retrato-falado � que nos desnorteou. Foi preciso abandonar
o desenho imbecil pra achar o bandid�o.
0 detetive bate as m�os, ri, Itamar tamb�m acha gra�a, Nogueira
j� est� na maior alegria.

� � a hora de tascar no inimigo. N�o vou deixar por menos!
� E o professor?
� Assunto encerrado: papel queimado!
Dizendo isso Galv�o sopra cinzas invis�veis no ar do barzinho
empestado de tanta fuma�a de cigarro.

� Vai sumir.
� Como fica minha ida na Reitoria?
� Muito f�cil. Desde ontem se sabia que tinha sumido. Tamos
procurando ele.
� E onde � que entra no caso dos motoristas?
� Num dos t�xis se encontrou documento dele.
Finalmente Itamar sorri, tranq�ilizado.
� Isso merece uma caipir�ssima.
Nogueira bate na mesa, com anima��o.

� � por aqui, Motinha. Caipir�ssima na jarra de vidro, com
cubos de gelo e muito lim�o.
Tamos comemorando.
Galv�o acende um cigarro, recosta-se na cadeira.

� Tu ainda n�o t� escolado, bicho � diz o detetive a Itamar.
� Tem de saber usar a cuca!
� Confesso que sa� da Reitoria apavorado.
� Veja s�! Foi gra�as � pilantragem do veterin�rio que se terminou
desvendando o caso. . . Por isso, sou da opini�o do av�: tudo
que acontece � bom!
� A�, s� tou vendo um por�m � diz Nogueira.
� Qual �?
� 0 motorista. Aquele porra-louca!
� Que pode fazer?
� Sei l�. D� com a l�ngua nos dentes, diz que trouxe o tal veterin�rio
pra Delegacia.
� Ele n�o � doido!
� E o trolol� que Beija-Flor bateu?
� Se raspa.
� Fatia tamb�m sabe que o homem teve l�!
� Claro que sabe; mas ele � dos nossos.
� �! Parece que encaixa.
Motinha p�e a jarra de batida na mesa, o cheiro de lim�o, os
cubos de gelo.

� Ou se bota a cuca pra funcionar ou morre com a boca cheia
de formiga � diz Galv�o. � E voc�s t�o vendo. Na hora da on�a beber
�gua n�o aparece ningu�m pra nos apertar a m�o. Todo mundo �
amigo quando a mar� t� mansa. At� Nels�o queria pagar caf� pra
mim na cantina. J� imaginou?
Galv�o livra-se da gravata, o suor escorre da testa e do pesco�o
de Itamar.

� Quando se volta no Baiacu?
� Deixa escurecer. Pensei procurar o Humberto, o Bira, mas
fica pra amanh�. Depois do Baiacu se vai apenas ter um papo com o
guarda-noturno e descansar. Pela primeira vez em dois meses vou poder
dormir como um justo.
Itamar acha gra�a. Na verdade Galv�o era muito mais �gil do
que podia imaginar. Sabia-o inteligente, mas nunca pudera supor tanta
presen�a de esp�rito. Ali estava um tipo tranq�ilo, certo do que
fazia e como fazia. Ele tinha d�vida se, de fato, poderia ser um policial.
Apavorava-se diante das dificuldades, na Reitoria chegou a sentir-
se no mato sem cachorro. Quando falou com Nogueira foi a mesma
coisa. Prepararam-se para enfrentar Galv�o, dizer-lhe o quanto estavam
perigando e o detetive n�o se mostrou em momento algum apavorado.
Alarmou-se a princ�pio, fez pondera��es, partiu para uma sa�da
que jamais lhe ocorreria. Agora, ao redor daquela mesa e da jarra


de vidro com tanta batida e cubos de gelo, n�o tinha do que duvidar.
O plano de Galv�o ia dar certo, a equipe sairia vitoriosa, apareceria
nos jornais, o secret�rio daria entrevistas, o delegado gozaria de maior
prest�gio. Era isso que Itamar n�o entendia.

TR�S

Por volta das 11 horas da noite Galv�o est� adormecido, a televis�o
ligada, roupas sobre a poltrona, sapatos e meias no meio da sala,
na mesinha de centro a garrafa de u�sque, o copo, o balde de gelo.
Longe, muito longe, o telefone tocando. Move-se com pregui�a. A princ�pio
n�o reconhece a voz, depois entende que � Nogueira.

� Dentro de meia hora se passa por a�!
Desliga, continua estirado, mas n�o consegue dormir de novo.
Teria de erguer-se, meter-se no banheiro, fazer a barba, tomar um
banho quente. Vai s� de cueca na dire��o do banheiro, a vista turva
de tanta batida e tanto u�sque, pega a revistmha de sacanagem, acende
a luz, senta no vaso, olha as mulheres e os caras numa guerra sexual
sem tr�guas, tudo posado, a fim de grilar os velhotes e os garotos.
Joga a revista de lado, p�e a cueca no dep�sito de roupa suja,
abre o chuveiro. S� a� vai recordando coisas do princ�pio da tarde,
das tramas armadas, do compromisso com Garanh�o. N�o h� d�vida
de que o risco com aquele cara teria de ser calculado. E n�o se abriria
nem mesmo com Itamar ou Nogueira. Transaria unicamente com
Fatia. A partir da�, sim, ficaria mais tranq�ilo. Quem pode impedir
um preso de si matar? Uma sa�da. A sa�da inteligente. E ningu�m
desconfiaria, pois o maior prejudicado seria ele mesmo. Paranhos talvez
reclamasse. Ia achar gra�a. N�o tinha o que fazer.

� 0 jeito � escavar em outra dire��o.
0 secret�rio provavelmente o chamasse para saber detalhes.
� Algu�m interessado em calar o acusado, dentro da pr�pria
pol�cia?
Uma oportunidade de ouro. Poderia fazer carga em cima de
quem muito bem entendesse. Mas talvez n�o o fizesso. Se estava se divertindo
e o caso caminhava a seu modo, por que exagerar? Faria a
defesa dos companheiros. Mesmo dos que detestava. Boa pol�tica. O
secret�rio de �gua na boca. Esperava que fosse entregar os colegas,
enganaru-se. Sairia do gabinete com a sensa��o de vit�ria. Me chamou
pra dedurar e eu disse n�o. Se ficou chateado, tanto faz. N�o baixo de
n�vel. N�o me troco com qualquer um. Novamente seria o Galv�o
Duarte respeitado. E sua atua��o daria muito o que falar. Os jornalistas
insistiriam com as entrevistas, mandaria dizer estar ocupado. Por


que, de repente, estar se abrindo? Se quisessem uma palavra do detetive
Galv�o teriam de esperar o momento prop�cio. S� faria pronunciamento
em coletivas e, assim mesmo, exigindo o m�ximo de fidelidade
ao que dissesse. Uma falha e n�o tornaria a declarar coisa alguma.
Isso tinha de ficar muito claro, pois n�o estava interessado em
aturar aqueles chatos, sempre com perguntas sutis que atrapalhavam,
podiam peg�-lo de surpresa. Mas acontece que Galv�o se cobria. Ainda
mais agora, quando a guerra se estendia e quase ningu�m podia ver.
A essa altura Garanh�o j� dera com a l�ngua nos dentes, v�rios outros
elementos da curriola estariam por dentro. Mesmo assim n�o recuaria.
Fatia entraria em cena, Baiacu e Papo de Anjo tamb�m. Garanh�o
leria de ajustar-se aos padr�es, ou assinaria a ficha com os 80 assaltos
j� praticados, fora os casos de sedu��o e outros.

� N�o assaltei isso tudo; no m�ximo entrei naquele supermercado
e em duas lojas!
� Tira o cavalo da chuva, neg�o. Aqui a cantiga � outra. A ficha
t� pronta, n�o se pode estragar material do governo. Mete o jameg�o
por baixo e ponto final.
� Se n�o assinar?
N�o era doido! Assinaria, como todos os outros assinam. Se quisesse
dar uma de sabid�o. Baiacu e Papo de Anjo entrariam na jogada.
Uma sess�o de porrada aclararia a mem�ria, ajudaria o crioulo a
raciocinar. Ia at� pedir a caneta pra assinar qualquer coisa, porque
Papo de Anjo pega firme e quando t� batendo n�o gosta de ser interrompido.
N�o tem a imparcialidade de Baiacu, que parece agir mecanicamente.
Ora, se o neg�o figurasse como o centro das aten��es,
teria muito tempo para descobrir os c�mplices. Seria uma quest�o de
t�tica e de recursos que conseguiria com o pr�prio secret�rio.

� A coisa t� dura; com mais gente no caso se chega a todos
os criminosos. Pelo visto, uns tr�s ou quatro agiam com Garanh�o.
Por isso p�de nos atordoar tanto tempo. Se procurava um cara e eram
v�rios. Quem pode com uma coisa dessa?
Batem na porta, Galv�o ainda est� se vestindo.

� Puxa! Um escoc�s dando sopa!
� Podem se servir.
� N�o quero mais beber hoje. Quase passo da medida.
� Depois do trabalho sou capaz de tomar umas batidas.
� Se for tudo bem, acho que topo.
� Claro que vai bem. Ou acha que o Baiacu � de dar furo
n'�gua?
Galv�o mete-se num blus�o de mangas compridas, Nogueira
olha-o, faz brincadeira.

� Epa, chefe! Sem a gravata parece artista de cinema!
Galv�o fecha a porta, Nogueira j� ligou o carro, partem na noite
silenciosa, de c�es uivando naquele bairro que se transformou numa


grande e sombria f�brica, l�mpadas morti�as nos postes, casar�es adormecidos,
o tr�fego nas ruas e avenidas bem mais reduzido.

� Ser� que Baiacu t� l�?
� Claro que t� � diz Galv�o com seguran�a.
� N�o consegui falar com ele.
� Mas eu falei. Mandei ficar esperando.
� Que disse do cara?
� Que cara?
� O professor?
� Tava todo esfolado. Mais morto que vivo. Quando falei no
plano, ficou alegre. 0 careta n�o ia mesmo ag�entar hospital.
� Poxa! Papo de Anjo bate firme.
� Precisava ver quando lutava boxe. Massa-bruta dos infernos.
� Isso � at� bom pro veterin�rio. Vai sofrer menos � diz Nogueira,
com certo sorriso.
� Se � mesmo veterin�rio, t� acostumado com bicho. Papo de
Anjo n�o � gente!
Todos acham gra�a.

� Que � veterin�rio n�o tenho a menor d�vida. Ali�s, quando
soube disso, levei o maior susto.
Novas risadas.

� Se assustou � toa. J� manquei alguma vez?
� Sei l�! No que a velhota come�ou a falar do cara, fiquei
achando que se tava num beco sem sa�da.
� Beco sem sa�da � se n�o tivesse pintado Garanh�o � diz
Nogueira.
� Se n�o fosse ele seria outro. N�o existem becos sem sa�da:
quando nada comigo . . .
A viatura entra no p�tio �quela hora deserto, um soldado chega
perto, afasta-se. Do lado do pr�dio de dois pavimentos o carro estaciona.
Galv�o manda encostar em frente � porta, Nogueira tem dificuldade
de engrenar a r�.

� N�o gosto de dirigir esta porcaria com a alavanca do c�mbio
nesta altura.
� S� bobo, cara. A alavanca na barra da dire��o diminui o esfor�o
do motorista. J� viu que todo carro de bacana � assim?
� Sei l�! Prefiro o fusquinha.
Galv�o manda Itamar e Nogueira aguardar. Sobe as escadas, entra
pelo corredor mal iluminado. As salas est�o quase todas fechadas.
S� uma tem a luz acesa mas o detetive n�o v� ningu�m. Vai at� o
final do corredor, abre uma porta, desce outra escada. Chega ao sal�o
de pesada porta, onde eram feitos certos interrogat�rios. Baiacu est�
escornado na poltrona velha, no maior sono do mundo. Amarrado na
cadeira o veterin�rio, cabe�a pendida, gemidos incessantes, rosto deformado.
Galv�o toca em Baiacu que acorda, assustado.


� Dormindo e a merda da porta aberta!
� N�o tava dormindo. Cochilei agora!
� Vamos l�. 0 Opala t� a� fora.
� Como se leva o homem? J� pronto ou apronta l�?
� Melhor levar pronto.
Dizendo isso Galv�o afasta-se para junto da pia, Baiacu pega o
peda�o de corda de nylon, aproxima-se de Carlos de Assis. O acusado
n�o percebe, os olhos est�o fechados. Baiacu passa a corda no pesco�o
branco e ferido, aperta o la�o. De onde est� Galv�o ouve uns gemidos,
uns grunhidos, o homem se batendo na cadeira. A opera��o demora
uns cinco minutos. Baiacu retira a corda, a cabe�a do acusado parece
estar solta.

� Como � que foi?
� Tudo bem. Estrebuchou e assim mesmo de leve.
� Bota num saco, vamos embora.
Baiacu procura um saco, n�o encontra, acha um peda�o de pl�stico.


� Boto no pl�stico, amarro as pontas.
� Tanto faz. Quero � sair logo daqui!
� Pode ir andando que vou j�.
� Nada disso. Prefiro sair na frente.
Baiacu movimenta-se com o pl�stico, os peda�os de corda de
nylon, sorri da esperteza de Galv�o.

� Quem menos dorme mais aprende . . .
0 detetive sorri. Olha a cara de Carlos de Assis absolutamente
tranq�ila.

� O engra�adinho queria nos ferrar; j� imaginou?
� Hoje em dia ningu�m quer respeitar um pol�cia. Por isso
terminam se estrepando.
� Ora, se n�o tinha nada com o peixe, por que baixou na Delegacia,
dando aquela bronca toda?
� Dando bronca? � repete Baiacu e sorri, enquanto faz os amarrados.
Com muito esfor�o p�e o grande volume no ombro, pingos de
sangue no ch�o, Galv�o apressa-se em desmanchar com os p�s. Passa
na frente de Baiacu e da sala que continua vazia, o policial de plant�o
foi ao caf� ou est� puxando um ronco. Rapidamente descem a
escada que sai na porta do pr�dio, Nogueira j� abriu a mala. Do
jeito que vem, Baiacu joga a carga, portas se abrem e fecham, o carro
arranca lentamente, chega � pista asfaltada. No banco da frente est�o
Nogueira e Galv�o, no de tr�s Itamar e Baiacu.

� Cad� Papo de Anjo?
� Metendo umas e outras.
� Por que n�o esperou?
� Disse que sozinho podia resolver.

� O resto � moleza. Se faz a fogueira, fica esperando o presunto
torrar.
� E onde se vai festejar S�o Jo�o? � quer saber Nogueira.
� Fica a teu crit�rio. S� exijo que seja um lugar seguro. Chega
de problemas por hoje!
� Que hoje? J� tamos no outro dia .. . � lembra ltamar.
� Isso mesmo � diz Baiacu. � Vamos enfrentar a aurora na
base do churrasqueto.
0 carro sai da estrada principal, entra por uma viela esburacada.
Galv�o intrigado com aquilo.

� Que diabo � isso? Por onde t� indo?
� Pode deixar. Por aqui, entendo da geografia. Vamos sair no
deserto de Saara.
� N�o tem casa perto?
� Que casa, que nada! Em minutos tamos num matagal fechado,
perto do mar. Se pode deixar o frango assando e tomar um
banho.
� Boa id�ia � diz Baiacu com um sorriso de demente.
� N�o me arrisco nessas praia de noite; li uma vez que � a
hora em que o tintureiro mais ataca.
� Que porra de tintureiro � esse?
� Deixa de ser besta! Tintureiro � um tubar�o barra pesada.
� Pois j� n�o me meto mais dentro d'�gua.
� Eu topo o banho � diz Baiacu. � Comigo n�o tem tintureiro
n�o tem nada.
Todos acham gra�a.

� Algu�m apareceu por l�, enquanto tava esperando? � quer
saber Galv�o.
Baiacu pensa um pouco.

� N�o sei, n�o. 0 telefone tocou umas duas vezes mas n�o era
ningu�m.
� Se tocou, como n�o era ningu�m?
� N�o queriam falar com a gente; essas coisas de liga��o errada.
Papo de Anjo at� ficou grilado porque a mulherzinha tava perguntando
se era da panificadora e ele teve vontade de dizer que era
do a�ougue.
Novas risadas.

� Aquele puto devia ter esperado a gente � reclama Galv�o.
Nogueira p�ra o carro, descem todos, ltamar focando a lanterna.
� Pro lado de l� t� assim de galharia seca. Tive outro dia por
aqui.
Caminham na dire��o em que Nogueira indica. ltamar sempre
focando a lanterna, os ventos s�o fortes, os cabelos de Galv�o esvoa�am,
as roupas tremulam no corpo.


� Puxa, com esse vento vai ser dif�cil manter a fogueira!
� Coisa nenhuma! Quanto mais vento, mais o fogo pega.
� Vai � necessitar de muita madeira.
� Isso n�o � problema � diz Nogueira. � Galharia por aqui
� que n�o falta.
Baiacu aventura-se pelo matagal, encontra a primeira galharia,
vem puxando.

� 0 ideal � que se tivesse um fac�o.
� Tem machadinha na mala.
� �timo! � diz Baiacu. � � melhor que fac�o!
Nogueira abre a mala, ajuda Baiacu a tirar o corpo envolto no
pl�stico, encontram a machadinha. Baiacu torna a meter-se no matagal,
ouvem-se as cuteladas.

� Como ser� que esse Diabo t� enxergando?
� Nogueira, liga os far�is na dire��o dele!
� S� que n�o pode ser por muito tempo. Do contr�rio a bateria
vai embora.
� Depois de uns cinco minutos, desliga, liga o motor, a bateria
torna a carregar.
� Isso � que � servi�o de imbecil � comenta Itamar. � Por
que n�o deixar o carro funcionando, com as luzes acesas? Qual � a
bronca?
� Olha s�! 0 ovo de Colombo � diz Galv�o. � E o cara acha
que � vivo.
Nogueira sentou numa pedra, Itamar ajuda Baiacu. Galv�o inspeciona
o local.

� � um deserto. N�o me lembro de ter vindo por esses lados!
Baiacu reaparece puxando muita galharia. Leva para o local onde
dever� ser feita a fogueira.

� � melhor botar logo o presunto na galharia � diz Nogueira.
� Nada disso � comenta Baiacu. � Preciso encontrar uns
troncos que ag�entem o fogo. Essa madeirinha de merda as chamas
v�o devorar num minuto e nosso frango ainda n�o vai t� nem sabrecado!
� Tem raz�o. Esse desgra�ado s� nos d� sossego quando virar
torresmo.
� E assim mesmo depois que o vento espalhar a cinza.
� De bobo n�o tinha nada; se lastimando, se mijando todo e
enfiando na gente. Por isso que essa canalha t� todo dia em cana.
N�o se pode confiar num professor.
� Em intelectual. Cada um mais encucado que o outro. Quando
n�o
� comunista, puxa fumo, fu�a na coca�na � diz Galv�o.
Nogueira ligou o motor do Opala, acendeu os far�is.

� Se algu�m vier chafurdar?

� Corta essa, cara. Aqui n�o passa nem alma. Se o professor
tinha uma, j� se mandou! � diz Nogueira debochadamente.
Itamar ajuda Baiacu com as galharias, Nogueira vai ajudar, tamb�m.
Galv�o permanece sentado na pedra. Por uns instantes n�o sabe
se aquela seria a medida mais acertada. Afinal, n�o estava sozinho naquilo.
Havia Fatia, Papo de Anjo, Baiacu, Itamar e Nogueira. Ser�
que. com tanto pinta, n�o ia terminar em confus�o? Procura encontrar

o plano que fosse mais bem elaborado, n�o consegue. A n�o ser que
tivesse de agir sozinho e isso se tornava imposs�vel. N�o temia uma
trai��o dos colegas de equipe; temia um desprop�sito de Fatia ou
Baiacu. Se enchessem a cara e algu�m tocasse no assunto, seriam
capazes de destravar a l�ngua. Por isso, tinha de estar coberto. Quando
cismasse que isso ia acontecer, azar deles. Agiria sem d� nem pena.
Mas n�o adiantava estar investigando fantasmas. A coisa caminhava
melhor do que esperava. Recorda as palavras de Itamar, sabe
o quanto saiu apavorado da Reitoria. N�o dispunha de tempo. A a��o
devia ser r�pida e rasteira. Como foi. Livres do rolo que o professor
fatalmente causaria, estavam. Faltava aguardar os acontecimentos. Dali
em diante tocaria a investiga��o a todo vapor, arrocharia os alcag�etes,
principalmente o pilantra do morro que conhecia o pivete, assassino
da mulher do sargento Beto. Se as sumidades afirmavam que
n�o havia agido sozinho e se o moleque parecia ter cabelo na venta,
por que n�o estaria numa pior, atacando motorista? Ouviria Humberto
e Bira, mandaria o guarda-noturno contar a hist�ria direito.
Aquele patife sabia muito mais do que disse. Como � que viu uma
Veraneio da Televis�o, se a TV n�o tinha merda nenhuma? Podia
ser um caminho. Al�m do guarda-noturno, havia o cabo Os�as. Que
porcaria de cara seria aquele? Como � que telefonava pros jornalistas,
informando uma coisa que n�o sabia? Se os carros ficam fechados,
quem lhe disse que um chofer era fulano e o outro estava sem
documentos?
As reflex�es de Galv�o s�o interrompidas pelo clar�o da fogueira,
o crepitar de ramos finos, de folhas secas. Aproxima-se, o corpo
do veterin�rio envolto no pl�stico, l� no fundo, coberto de garranchos
e toretes de madeira, alguns ainda verdes outros semi-apodrecidos.
Nogueira esfrega as m�os, reclama por n�o terem trazido uma garrafa
de velha do morro. 0 detetive n�o diz nada, Baiacu continua a
colocar galhos secos na fogueira.

� Vamos sair daqui. Vai come�ar um fedor dos infernos �
diz Itamar.

� Fedor, que nada! J� viu carne assada feder? � argumenta Nogueira.
Galv�o acende o cigarro, afasta-se na dire��o da praia. A fogueira
cresce, as labaredas alteiam-se, o detetive n�o gosta muito daquilo:
jamais pensara que uma fogueira pudesse assust�-lo. Cada vez que


Baiacu p�e mais lenha o braseiro se espalha nos ventos da noite e do
cora��o daquele fogar�u ergue-se rumor cavo, soturno como um gemido.
Galv�o procura n�o ouvir, mas � imposs�vel. Tenta concentrar-
se no barulho das ondas, quebrando-se mansamente na praia, o motor
do fogo funciona mais alto. Teme algum erro grave, procura recapitular.
Confirma que todos os pontos est�o bem amarrados. A pr�pria
ida de Itamar � Reitoria era o sinal evidente de que j� estavam a par
do sumi�o do professor.

� E como souberam?
� Atrav�s de um motorista. A princ�pio cheguei a pensar que
fosse suspeito. Depois vi logo que era homem de bem.
Quem podia desconfiar de semelhante coloca��o? Quanto a isso
n�o tinha a menor d�vida. 0 que n�o suportava por mais tempo, era
aquele rumor cavo, patas de cavalos invis�veis galopando seu desespero.
Lamenta n�o estar na sua sala, sentado na poltrona, olhando
revistas de mulheres nuas, tomando u�sque, vendo a retrospectiva dos
jogos mais importantes da Copa. Em vez disso, desse conforto, ali
estava, naquele deserto, sentindo o calor da fogueira que parecia ter
um cora��o pulsando. Quando Itamar veio para perto, alertou-o sobre
a necessidade de localizar o tal Banda Branca.

� Tou quase certo de que aquele moleque sabe das coisas. Por
que at� hoje n�o nos procurou � que n�o entendo!

Cap�tulo XIII

UM

Banda Branca est� encostado no balc�o da tendinha de seu Greg�rio.
Parece sambista da velha guarda: crioulo, cabelos espichados,
palet� branco, quase nos joelhos, cal�a da mesma cor, bem vincada a
ferro, sapatos bico fino. A gravata � espalhafatosa, grande anel no
dedo com a pedra vermelha, corrent�o no pesco�o, pulseira de metal
no bra�o direito, o rel�gio na canhota. Quando ri os olhos se fecham
um pouco, o dente da frente avulta, por causa da obtura��o a ouro.

Naquela manh� de sol quente e muito calor Banda Branca mostra-
se animado. H� tempos n�o aparecia, seu Greg�rio lembra-lhe isso.
Com vagar o negociante pega o caderno, passa as folhas imundas, corre
com o indicador as colunas de fiados, l� est� o d�bito do alcag�ete.
Ele sorri.

� Como que � isso, seu Greg�rio! Juro que n�o tou lembrado.
0 birosqueiro tamb�m sorri, porque sabe que aquele era um tipo
perigoso, tinha de agir com jeito.

� Mas t� aqui. E posso dizer o que foi.
� De que adianta. Se diz que tou no espeto, tou mesmo. Como
n�o � muita coisa, vou aumentar a conta.
Banda Branca faz gesto de quem d� cacha�a para o Santo, vira o
copo na boca.

� A n�o ser que meu cr�dito teja cortado.
� Todo mundo neste morro � gente boa. N�o tenho do que me
queixar
� diz o birosqueiro.
0 alcag�ete debru�a-se no balc�o.

� Infelizmente, n�o posso dizer a mesma coisa. 0 dever me obriga
a desconfiar.
Seu Greg�rio aproveita a deixa, empurra a garrafa de aguardente
para perto de Banda Branca.

� Qual � o caso?

Banda Branca p�e mais cacha�a no copo, tira o palet�, coloca-o
com cuidado sobre o balc�o.

� 0 menino de mestre T�bor. Entrou numa feia!
� Como assim?
� Queimou a mulher e o pai de um sargento.
� T� brincando . . .
� Antes tivesse � diz Banda Branca. � Olha que sempre respeitei
mestre T�bor, mas vou ter de ir em cima dele.
� 0 que tem mestre T�bor com isso?
� Muita coisa. Deve saber do diabo do garoto.
� Acha que os pais ainda sabem dos filhos?
� Sei l�! Mas que tenho de ir no barraco dele, tenho. � ordem
de cima. 0 detetive Silveirinha t� fuzilando contra Enfezado. Al�m
dele h� um tal de Galv�o na jogada. Quem pegar primeiro entrega
pro sargento. A�, j� viu. 0 pau vai quebrar!
� Por que matou a mulher e o velho?
� N�o fa�o id�ia. S� sei que tava com um coleguinha.
Banda Branca vira mais um copo de aguardente na boca.
� Quando soube que tinha um parceiro, sabe em quem pensei?
Naquele coisa ruim, filho de seu Ven�ncio e de dona Mundiquinha.
Banda Branca encara seu Greg�rio, sorri, mostra o dente com
a obtura��o de ouro.

� M�s passado soube que teve por aqui, varejando atr�s de
Enfezado. L�dio Gordo viu. Outras pessoas tamb�m viram mas n�o
se abrem!
� Eu confesso que n�o soube disso. Faz tempo que n�o vejo
Toninho � diz o negociante.
Banda Branca sabe que � mentira mas n�o ousa contest�-lo.
Prefere rir, tomar outros goles da cacha�a ordin�ria.

� Depois a gente � que passa por mal. Esses capetas t�o tirando
o sossego dos outros e se n�o fincar o p� com eles a vaca vai
pro brejo.
� Acha que Enfezado � mesmo o culpado?
� Quanto a isso n�o tem mist�rio. Ele pr�prio cantou a pedra.
No dia que sair desse chiqueiro, vou lhe dar um pano de amostra,
ele disse.
� Onde tava preso?
� Na Invernada. Comeu o p�o que o Diabo amassou!
� Teria se escondido aqui pelo morro!
� N�o acredito. Aquilo � matreiro como cobra. N�o sei pra
quem puxou. Mestre T�bor � um bom homem!
� Por isso que digo � afirma seu Greg�rio. � Pra que infernizar
a vida do velho, que j� nem consegue enxergar?

� � meu dever. Disso n�o posso abrir m�o. Vou levar ele com
jeito. N�o sou de endurecer com ningu�m. Ainda mais com mestre
T�bor, de quem recebi muito conselho. N�o fosse isso, era bem capaz
de t� hoje numa boca-de-fumo, como a maioria.
Banda Branca pega o palet� com todo cuidado, faz novo sorriso,
manda seu Greg�rio anotar a bebida.

� Pode t� certo: antes do fim do m�s baixo por aqui; a� se
acerta tudo; o passado e o presente!
Sobe a viela cortada pelo rego de �gua suja, porcos fu�ando,
afrouxa o la�o da gravata, n�o sabe por que foi botar aquela roupa,
quando tinha de enfrentar tanta ladeira. Passa pelo barraco de L�dio
Gordo, bate na janela, na porta, o homenzarr�o aparece, s� de shorts,
a imensa barriga de fora, o nariz achatado e vermelho, gengiva superior
sem um dente. Mesmo sem ser convidado Banda Branca vai
entrando, pois sabe que L�dio Gordo n�o podia reclamar. Cansou de
v�-lo com bebida e cigarros contrabandeados, no morro e na Pra�a
XV, nunca disse nada. � verdade que levava seu quinh�o, mas mantinha-
se de bico fechado.

A sala do barraco de L�dio Gordo � �nfima, em torno da mesa
quebrada alguns tamboretes. 0 alcag�ete abre o len�o num dos tamboretes,
senta.

� Puxa, como t� quente!
� Aceita uma �gua?
� N�o. Acabei de tomar uma esfriadeira na tendinha, o gosto
ainda t� na boca.
� Passeando t�o cedo?
Banda Branca faz uma careta.
� Passeio, coisa nenhuma. Tou � me esfolando como sovaco
de aleijado.
� Qual a bronca?
� Enfezado e o coleguinha dele. 0 filho de seu Ven�ncio. T�
lembrado?
� Aquele garoto alourado?
0 alcag�ete sacode afirmativamente a cabe�a.
� Semana passada teve por aqui.
� Semana passada? Tem certeza?
� Claro! T� um garot�o!
� Essa dica vale um trago. 0 que oferece?
L�dio Gordo faz cara de desagrado. Ao mesmo tempo compreende
que n�o podia esconder o u�sque de Banda Branca.

� Vem escolher.
0 alcag�ete mete-se no compartimento ex�guo, paredes cobertas
com imagens de santos. L�dio Gordo agacha-se, tira garrafas e mais
garrafas de u�sque, que diz terem sido trazidas diretamente da
Esc�cia.


� Prefiro esse aqui.
Banda Branca quer ler a marca, n�o consegue. L�dio Gordo
aproveita para mostrar o quanto estava instru�do.

� "Pinuaini", cara! Esse u�sque vem com calcinha de veludo
e tudo!
Dizendo isso L�dio Gordo puxa a garrafa de dentro da caixa,
Banda Branca fica apreciando a prote��o do saquinho feito com
veludo roxo, letras douradas. Tira a tampa da garrafa, p�e uma dose
refor�ada no copo ordin�rio, aproveitado de um vidro de gel�ia de
mocot�. Toma como se estivesse bebendo o mais saboroso dos licores.

� Se fosse rico � diz o alcag�ete � esse era meu divertimento:
encher a caveira de bom u�sque.
P�e mais um pouco no copo, L�dio Gordo n�o tira os olhos da
garrafa. Jamais imaginara ter de abrir uma delas e ali estava. E,
se era assim, por que n�o aproveitar, j� que Banda Branca seria
capaz de esvazi�-la sozinho? Ap�s um novo trago o alcag�ete volta
ao tamborete, protegido pelo len�o.

� Como lhe disse: Enfezado t� numa enrascada. Dessa vez atolou
na merda at� os cabelos. Quando grampearam ele, de duas uma:
ou morre logo ou apodrece na pris�o. Queimar a mulher e o pai do
sargento Beto n�o � coisa pra malandro que tem a cuca no lugar.
� Pra mim, endoidou de tanto fumo � considera L�dio Gordo.
� Seja como for, tem gente por a� que puxa direitinho e n�o
faz dessas. Quando muito se amoita pra bolar a desfeita. Ele n�o:
matou a cobra e mostrou o pau.
� Disse pro sargento?
� Ora se disse. 0 bicho tem ra�a!
� E o pai?
� � o que vou saber. Seu Greg�rio veio cheio de manha, mas
n�o colou.
Se o filho n�o presta o pai n�o � flor que se cheire.
L�dio Gordo sorri, torna a mostrar a gengiva sem dentes.

� Aquele moleque foi sempre muito atirado; me arrependo
de n�o ter estourado com ele enquanto era tempo.
� N�o te preocupa que � o que vai acontecer. Quando sargento
Beto botar a m�o nele n�o quero nem t� por perto!
Banda Branca toma mais um gole, a garrafa est� bem baixa.
Mesmo assim n�o se anima a prosseguir.

� Que � isso, vai embora quando se t� no melhor?
� Coisa nenhuma. Primeiro o dever!
Com o palet� nas costas continua a subida. Passa pelo quintal
de dona Julinha, ela est� lavando roupa. Impressionante como aquela
velhota trabalhava. Olha o barraco, porta e janela abertas. Em
outros tempos, Marta botando peitos, aquilo ali estava sempre movimentado.
Hoje em dia Marta mudou de vida. N�o � mais segredo.
Ningu�m se interessa por ela. Banda Branca sacode a cabe�a, como


se lamentasse. De primeiro Marta era aquele tes�o. Vinha garoto de
longe para falar com ela. Ele pr�prio teve de inventar muita coisa,
a fim de se aproximar. No dia em que conseguiu, o morro inteiro
ficou com inveja. E como foi bom. Primeiro foram tirar fotografias.
Marta adorava fotos. Depois convidou-a a visitar uma tia, na
rua Alice. N�o sabia o que era a rua Alice ou bancava a sonsa?
N�o p�de saber. Pela ingenuidade com que subiu as escadas do casar�o,
ingenuidade com que entrou no sal�o, brincando com o c�ozinho
felpudo, era de imaginar que ignorava aquele mundo. E como

o casar�o da Br�gida estava desolado. As atra��es mudavam de eixo,
como o pr�prio tempo muda. Agora, s� se falava em Zona Sul,
Barra da Tijuca. Br�gida cansara de lembrar que o Pal�cio de
Cristal estava no fim. N�o tornaria a ser como antes. Banda Branca
chegou a discordar. Lembra-se bem disso. N�o podia admitir que
aquela mulher t�o caqu�tica fosse capaz de fazer previs�es. Mas
acertara. Adeus Pal�cio de Cristal.
Marta sentada no sof�, o cachorrinho do lado. Ele sumiu no
quarto mais confort�vel. 0 importante seria a surpresa. Passado o
primeiro instante ela se acostumaria. Por isso mandou que a cafetina
se cercasse de todos os cuidados. N�o podia perder aquela garota,
que todos no morro cobi�avam. Br�gida reapareceu, sorridente, pegou
Marta pela m�o.

� Vamos ver a tia. Vive aqui dentro. Quase n�o sai!
Br�gida empurrou a porta, o quarto no escuro, mandou que
Marta sentasse na cama.

� Ela t� velhinha, j� n�o ag�enta luz forte nos olhos!
Marta sentou na beirada da cama e logo percebeu a mulher indo
embora, a porta se fechando. Ia levantar, m�os fortes a seguraram,
uma l�mpada azulada acendeu. Ah, como gostaria que aquela cena se
repetisse mil vezes! Marta batendo-se, mordendo-o. N�o queria entregar-
se, lutou o que p�de. E quanto mais lutava, tanto melhor.
� propor��o que ia ficando sem as roupas e chorando, os seios duros
apareciam. Marta com raiva, ou at� gostando que aquilo acontecesse?
De uma coisa se orgulhava: abriu o caminho. Ningu�m tinha
d�vida disso naquele morro. Marta olhava-o pelo rabo do olho.
Falou com o namorado para encontr�-lo na subida do morro. Teve
de puxar a m�quina, o malandro saltou fora. N�o acionou porque
n�o quis. 0 alcag�ete gabava-se de ter acertado quanto a Marta. Na
verdade n�o queria casar com ningu�m. Boa demais para um homem
s�. Tentou nova abordagem, n�o deu p�. Marta o odiava. No
dia em que sumiu do morro com o caixeiro-viajante, sabia que aquilo
era fogo de palha. Tratou de ficar na paquera. Mais cedo ou mais
tarde apareceria. Se isso n�o acontecesse, procuraria saber seu endere�o
com dona Julinha. E foi o que aconteceu. Encontrou Marta
fazendo ponto na Barata Ribeiro, depois pegando homem na Pra�a


da Cruz Vermelha. Tornou a dar era cima e nada. Nunca vira tanto
�dio numa s� mulher.

� Se for contigo de novo, acabo com tua ra�a!
Achava gra�a. � o que toda puta dizia e tavam sempre abrindo
as pernas, sempre precisando dos alcaguetes. Quantas vezes livrou
a cara de Marta. A desgra�ada nem sabia disso ou, se sabia, procurava
fazer-se de desentendida. Uma vez pegou-a pelos bra�os na esquina,
disse-lhe umas verdades, mordeu-o na m�o. Tornou a procur�-
la, havia mudado. Falou com as amiguinhas, n�o acreditou.

� Preferiu ir logo pra f�brica; aqui � na sorte, l� � por atacado.
Banda Branca ainda tem vontade de rir daquela express�o �
''f�brica" � que � como as mulheres que ainda estavam de fora
chamavam o Mangue.

� Quem t� gigolando ela?
A garota de mau h�lito e olho vesgo n�o sabia. Deu as indica��es.


� Um tipo alt�o, que diz ser salva-vidas. Eu mesma n�o
acredito!
� Em que casa t� por l�?
� Na de uma tal Zita.
Banda Branca tirou uma tarde, num dia de semana, foi procurar.
S� para conferir. L� estava Marta. Como entrar, surpreend�la
no quarto? Chamou um pivete, mandou recado pra Zita. A caftina
apareceu. Foram para o boteco, tomaram umas e outras. A�
ficou acertado: Zita levaria Marta para o quarto.

� � um fregu�s bacana, garota: n�o pode ser visto por a�. Vai
chegar, entrar direto, tu j� deve t� l�.
� E se n�o topar com ele?
� Que � isso! Ia te apresentar um merda qualquer?
Marta estirou-se na cama, ficou lendo fotonovela. Pouco depois
ouviu passos no corredor, a porta que se abriu e fechou. Banda
Branca acha gra�a. Ri sozinho, passando por aquelas vielas de tantas
lembran�as. A mulher quis levantar, escapar, ganhou uma rasteira.
Nesse tempo tinha movimentos r�pidos, n�o ia ser uma galinha daquela
que conseguia engan�-lo. Marta estatelou-se no ch�o, p�s-se a
chorar. Puxou-a para cima da cama. deu-lhe umas bofetadas de
quebra.

� � assim que gosta?
Estirou-se por cima de Marta, mandou que se movimentasse.
� N�o tou trepando com est�tua, ou quer apanhar de novo?
Gemidos e solu�os de Marta enchendo o quarto, o alcag�ete se
aprofundando, ela fazendo pequenas amea�as, falando no gigol� que

o apanharia de jeito.

� Se ele fizer isso e levar a pior, tu te estrepa. Mando te arrastar
pra Delegacia, entra no pau, termina comida at� pelos presos.
Marta suportando os movimentos de Banda Branca, a cara asquerosa,
o dent�o com a obtura��o de ouro. Beijou-a � vontade, como
n�o pudera fazer no Pal�cio de Cristal.

� Se quisesse a gente podia viver junto.
Marta sacudindo a cabe�a, Banda Branca descansando para
come�ar tudo de novo. Ligou o ventilador, p�s o rev�lver ao alcance
da m�o.

DOIS

Banda Branca chega perto do barraco de mestre T�bor, a janela
est� fechada, t�buas servindo de porta. Bate, torna a bater, espera.
O sol � quente, as galinhas ciscam no mato rasteiro. Uma das t�buas
� retirada da porta, depois outra. O alcag�ete ao lado do velho
serralheiro mas este n�o pode saber quem �. Tem vontade de manter-
se inc�gnito, dizer que � outra pessoa, desiste da id�ia.

� Quem �? Quem �?
Banda Branca sorri, o velho vai apalpando as paredes, procura
seu lugar perto da mesa.

� Puxa, mestre, como consegue ficar fechado com esse calor?
Ou ser� que tem mais gente aqui do que penso?
O barraco � pequeno, o alcag�ete j� sondou tudo, sabe que Enfezado
n�o pode ter escapado com sua chegada. Esteve atento o tempo
todo, n�o ouviu o menor ru�do, a n�o ser das pr�prias t�buas sendo
retiradas.

� Que o traz aqui?
� Ia passando, vim saber como anda de sa�de.
� Como Deus manda. N�o tenho do que me queixar!
� � assim que gosto de ver um homem: dobra mas n�o quebra
� diz o alcag�ete. olhando as paredes, at� distinguir num prego
o carne com o qual o velho oper�rio podia receber sua pens�o.
� E o garot�o, mestre T�bor, por onde tem andado?
� N�o fa�o id�ia. H� meses se mandou. Ficou chateado de me
ver doente!
� De lhe ver doente ou por que deu no p�?
� N�o tinha do que fugir.
� O senhor que pensa. Fez poucas e boas. teve de se arrancar.
� O que � que ele fez?
� Se quer saber, al�m de avan�ar na minha irm�zinha, a mais
nova, t� lembrado dela? Acabou com a mulher do sargento Beto.
� Sargento Beto?

� Isso mesmo. O chefe do setor onde tava preso na Invernada.
� Ent�o, alguma coisa fizeram com ele.
A essa altura Banda Branca levantou, abriu a janela, colocou o
palet� no espelho da �nica cadeira, retirou o carne do INPS da
parede, meteu-o no bolso.

� E dessa vez a encrenca � grossa � repete Banda Branca. �
Talvez o senhor n�o tenha entendido direito o que ele fez.

� Dito por voc� n�o acredito em nada!
O alcag�ete p�ra. esfrega o len�o na testa suada, olha o velhote
com raiva.

� Mesmo n�o acreditando, � meu dever dizer. Abotoou a mulher
e o pai do sargento.
Aproxima a cara do serralheiro.

� E sabe como? No canivete. T� lembrado daquele canivete
americano que tinha? Pois foi com aquele.
� Enfezado n�o ia fazer uma coisa dessa; n�o � um menino
mau!
� 0 senhor que pensa. N�o sabe do quanto aquilo � capaz.
� Que pretende que fa�a?
� Dizer onde o garoto se meteu. Como pai deve saber. E � bom
que se abra, antes que o pessoal suba at� aqui.
� Acha que, se soubesse, ia dizer? Denunciar meu filho? Isso
pode
ser normal na sua profiss�o, na minha n�o.
Banda Branca sorri, nervosamente.

� Mas vov� j� n�o tem profiss�o. Aposentado n�o conta!
Mestre T�bor tateia a mesa � procura de algum objeto que
possa segurar, s� encontra umas latas vazias. 0 alcag�ete manda que
se acalme.

� N�o adianta esquentar; subi o diabo dessa ladeira pra si ter
uma conversa de gente. Se o senhor se zangar, estraga tudo; o papo
vai ter que ser l� embaixo, mesmo! Como manda a lei.
� N�o tenho muito o que dizer � afirma o velho. � Enfezado
foi embora deste barraco, fez ele muito bem.
� Acontece que vai ser dif�cil acreditar nisso. Se ponha no
lugar do sargento Beto e veja se tenho raz�o ou n�o!
� N�o sei quem � o sargento Beto, n�o quero saber. Voc�s s�o
capazes de tudo quando querem implicar os outros.
� 0 senhor t� exagerando. No caso da minha irm� tive oportunidade
de mandar botar a m�o nele e n�o botei; tudo em sua
homenagem.
� Pelo que me disse, eram namorados; voc� � que n�o queria.
� Namorado, nada. Quase avan�ou o sinal. Imaginou eu com
uma irm� puta?
Banda Branca anda de um lado para outro do barraco, sempre
esfregando o len�o na cara.


� Se t� conversando muito � diz o alcag�ete � afastando do
assunto
principal.
P�ra junto do velho, repete a indaga��o.

� Onde se meteu Enfezado? Agiu ou n�o de parceria com o
tal Toninho?
O oper�rio sente o sangue fugir nas veias. Quer erguer-se, enfrentar
o tipo ordin�rio, aflige-se, sabe que seria facilmente vencido.
Naquele instante, mais que em todos os outros, constata o quanto
era in�til. Bastava um porcaria de alcag�ete como Banda Branca
para invadir seu barraco, passear de um lado para o outro, fazer-lhe
as perguntas mais imbecis. E n�o podia fazer nada. sen�o responder,
escudando-se nas palavras.

� Nunca mais Toninho apareceu.
� T� com a mem�ria fraca, mestre T�bor. L�dio Gordo viu ele
entrando no seu barraco semana passada.
0 velho esmurra a mesa, o banco em que estava sentado cai, ele
se levanta atordoado, batendo-se nos m�veis e nas paredes, tenta
avan�ar na dire��o do alcag�ete, que apenas se esquiva, o homem
procurando-o no vazio.

� J� vi que n�o adianta bancar o camarada, mestre T�bor. Em
todo
caso ainda tou disposto a lhe dar uma chance.
0 serralheiro tem os olhos rasos d'�gua.

� N�o adianta se martirizar. 0 garoto t� por a� fazendo poucas
e boas. Por que n�o dizer onde se esconde?
0 oper�rio n�o est� mais disposto a falar coisa alguma, Banda
Branca sente isso. Dali em diante n�o iria arrancar-lhe uma �nica
palavra, o trabalho estava prejudicado.

� Mestre T�bor, juro que n�o tou disposto a aumentar suas
dificuldades. Mas se for preciso, fa�o isso.
0 homem continua recostado na parede, impass�vel, o corpo
inteiro tomado por profundo des�nimo, os pensamentos dispersos, as
for�as sem rumo. A vontade � de chorar, chorar, o que n�o faria na
presen�a daquele traste imundo. Banda Branca mete a m�o no bolso
do palet�, tira o carne de recebimento do INPS. Bate com ele na
mesa.

� Ou�a bem, mestre T�bor. O pobre pode sempre ficar mais
pobre. � uma coisa engra�ada mas � verdade; ficar rico � que d�
trabalho. Sem o carn� do INPS o senhor n�o vai receber a pens�o
t�o cedo.
Banda Branca faz uma pausa, sorri, o dent�o obturado a ouro
ressalta, os olhos se fecham.

� E tou com ele na m�o. Basta um pouco de esfor�o, vira
peda�os. J� imaginou?
Novamente o serralheiro se apavora. Move-se de onde est�, procurando
segurar o alcag�ete.


� T� vendo s� como as dificuldades podem aumentar? Ent�o,
vamos l�? Onde se meteu Enfezado?
Mestre T�bor caminha pelo pequeno c�modo procurando o
banco. Banda Branca n�o sabe qual � sua inten��o, trata de acautelar-
se. O velho senta. In�til o ato de rebeldia. Tinha de acostumar-se
com aquilo, preparar-se para o pior.

� Tou falando, mestre T�bor. Quero saber do garoto. Se n�o
disser, desta vez o carn� fica sem o primeiro peda�o.
O oper�rio mant�m uma das m�os apoiada na mesa, ouve o
papel sendo rasgado e atirado no ch�o.

� Onde t� Enfezado?
Novamente o ru�do que, aos ouvidos do serralheiro, parece desmedidamente
intenso. Ap�s insistir mais algumas vezes, o ch�o em
torno de Banda Branca est� todo estrelado com os fragmentos do
carn�. Calmamente, o alcag�ete pega o palet�, passa mais uma vez

o len�o no rosto, sai para a viela. 0 serralheiro percebe quando se
retira. Seus movimentos s�o sutis, mas n�o o bastante para que n�o
pudesse ouvi-los. At� quando d� os primeiros passos, distanciando-se
do barraco, ainda escuta; e quando o cachorro de dona Alice ladra,
sabe que � por causa de Banda Branca; e quando as galinhas que
mariscavam se espantam, continua sabendo que aquilo acontecia
por causa da aproxima��o do mau-elemento.
Encosta a cabe�a na ponta da mesa, chora. Forte desejo de
morrer o domina. Afinal, de que adiantava continuar? E se de fato
aquele moleque retornasse com seus parceiros e o levassem para a
chiqueiro de uma Delegacia? Ser� que ia ag�entar semelhante vexame?
Durante longos momentos perde-se em reflex�es. Chegara a
hora de partir e n�o tinha capacidade de entender o sinal? Seria a
aproxima��o daquele dem�nio uma indica��o de Deus? Como Deus
podia se valer de um miser�vel para transmitir Sua vontade? Arrepende-
se de blasfemar. Na verdade est� t�o assustado que n�o sabe
como proceder. Agacha-se, tateia com as m�os, at� encontrar os fragmentos
do carne. Pega alguns deles, pela espessura do papel entende
que Banda Branca n�o blefara. Rasgou mesmo. Como disse que ia
rasgar. Agora, Deus do c�u, como fazer? Como tirar outro carn�?
Como ir � Ag�ncia Central, encaminhar o pedido, justificar que o
original se extraviara?

Senta no ch�o, pernas estendidas, bra�os estendidos. N�o tem
coragem sequer de mover-se. Nos olhos sem luz a imagem do Banda
Branca que conhecera. Sempre mau, perseguidor. N�o havia um dia
em que n�o estivesse armando uma para algu�m. E nunca ningu�m
mexia com ele. Bem que Enfezado cansara de dizer: do jeito que vai,
termina dominando todo mundo aqui por cima.


� Voc�s s�o um bando de carneiro � afirmava o garoto. - Esse
� que � o bandido e t� solto, dando trambique a torto c a
direito.
Agora, entendia o quanto eram corretas as palavras do filho.

E naquele tempo n�o custava nada ter pego aquele moleque, enforcado
contra o peda�o de muro. arrebentando a cabe�a dele com
algumas pancadas. Tinha certeza de que bastaria um murro bem
dado, no meio da testa. Mas era um tempo em que confiava no Direito.
Nas coisas certas, nos devidos lugares, no mal que se paga
com o bem. Oh, Deus, como se arrepende, se na verdade s� os injustos
e os trambiqueiros t�m sa�de e prosperam! Banda Branca era
bem o exemplo disso. N�o se recorda de ter sabido de algum dia em
que aquele canalha adoecera. Chovesse ou ventasse, estava sempre
transando. Ouvindo de uns para levar adiante. Contra os desmandos
que praticava n�o havia puni��o. Dona Julinha foi ao Posto queixar-
se quando Marta sumiu. Os soldados acharam gra�a. Vai embora,
velha. Vai encher em outro lugar. Aqui s� se trata de coisa s�ria.
Se a mo�a t� querendo d� pra Banda Branca, o que tem com isso?
Dona Julinha teve de retirar-se envergonhada, como envergonhados
estavam os moradores daquele morro. Enfezado viu primeiro que
todo mundo. Um dia vai fazer voc�s de carneiros. A� ningu�m pode
reclamar. Banda Branca trabalhando, tecendo fios invis�veis, mantendo
seu rebanho na base da amea�a.

� Se a gente bole com ele os homem aparecem, v�o dizer que
se � um bando de vagabundo. Quero dist�ncia desse cara!
Seria esse o pensamento de seu Greg�rio ou dizia aquilo por
conveni�ncia? Recorda as palavras de Toninho.

� Aquele cara t� cada dia mais esquisito; quando me chama,
fico s� ouvindo. N�o me abro!
Depois da visita de Banda Branca n�o tinha do que duvidar
dos garotos. E onde, na verdade, andariam? Ser� que Enfezado matou
mesmo a mulher e o velhote? Que teria feito o sargento Beto para
que o menino se tornasse t�o odiento? Gostaria de saber. Quando
falasse com Enfezado, seria a primeira coisa a perguntar. S� depois
de ouvi-lo, acreditaria. Um qualquer � e muito menos aquele alcag�ete
imundo � n�o podia convenc�-lo. Estava certo de que o filho
n�o era um bicho.

TR�S

O detetive Silveirinha � alto. magro e meio calvo, agitado, bra�os
extremamente peludos. Usa rel�gio com pulseira de ouro e uma
grossa alian�a de casado. No painel do carro tem a fotografia da

262


mulher e da filha, a frase por baixo: "N�o corra, papai; n�s esperamos
por voc�!" Na mesa de trabalho h� outras frases: "querer �
poder", "hei de vencer" e "quem d� aos pobres empresta a Deus".
Houve uns tempos em que Silveirinha, influenciado pelo sargento
Beto, freq�entou a igreja Batista. Mas, ajudado pelos plant�es nos
fins-de-semana, terminou dando por encerrada a incurs�o religiosa.
Na verdade, n�o acreditava que os homens, ordin�rios como eram,
pudessem ser os intermedi�rios de Deus. Nunca gostou de discuss�es

� e muito menos religiosas � mas sempre imaginou isso. Como
um cara como o sargento Beto podia abrir a B�blia, o livro dos
Salmos e cantar, cantar, tal qual uma das muitas ovelhas do Grande
Pastor? Nessa Silveirinha n�o acreditava. Tinha opini�o firmada.
E cada vez que via um infeliz ser arrastado para o chiqueirinho e
diziam ser o sargento Beto que ia presidir o interrogat�rio, mais se
convencia de estar certo. Silveirinha tinha l�gica pr�pria e isso dizia
respeito em especial � sua atividade. Se nos reservaram o trabalho
do Satan�s, n�o creio que algum dia Deus v� se apiedar da nossa
miser�vel alma; se � que algum tira tem alma!
� Ora. deixa de ser bobo! Uma coisa � a f�; outra o cumprimento
do dever.
� At� a�, tudo bem, sargento Beto. Me falta entender o que
venha a ser o tal cumprimento do dever.
No dia em que disse isso o sargento sentiu-se intrigado. E, nessas
ocasi�es, assumia certa postura pastoral.

� Ora. cumprimento do dever � fazer bem aquilo que se aprendeu.
Dessa forma somos �teis � sociedade.
� E a sociedade para que serve?
0 sargento olhou o colega, n�o soube ou n�o quis prolongar-se.
� Acho � disse ele � que os pensamentos simples s�o os mais
s�bios. N�o me meto em an�lise de profundidade. Pra mim a sociedade
� �til.
Silveirinha entendia o porqu� de o sargento Beto n�o querer
avan�ar.

� Na minha opini�o a nossa sociedade � �til a uma pequena
parcela e se imp�e com o sistema, atrav�s de leis que ela mesma
produz e com apoio dos seus guardi�es. N�s somos uma parte desses
guardi�es. Se de repente os bandidos passassem a manobrar, logicamente
estabeleceriam outros princ�pios de verdade e a gente desceria
pra faixa de marginal.
� Sabe o que vem a ser isso, meu caro Silveirinha? Sofisma.
E sofismando n�o se chega a lugar algum. Antigamente, quando todo
mundo dispunha de muito tempo, os fil�sofos perdiam-se em sofismas.
N�o � coisa pra nossa �poca.
Mas, na verdade, a partir da�, o sargento Beto passou a desconfiar
do policial que freq�entemente era visto com um livro no bolso.


N�o chegou a pedir sua remo��o, porque se tratava de um tipo honesto,
cumpridor das obriga��es. Todavia, nada impede o sargento
Beto de imaginar que, de certa forma, o detetive Silveirinha deixou-
se tocar pelos livros que l� e, para todos os efeitos, � uma esp�cie de
comunista iniciante. Onde se viu, ao menos de brincadeira, um cara
imaginar que a sociedade pudesse cair nas m�os da bandidagem, a
fim de que o certo virasse errado? S� mesmo na cabe�a de um maluco
ou mal-intencionado.

Silveirinha refletia sobre aquelas coisas, na tarde de sol quente,
nuvens negras formando-se no c�u, quando o telefone tocou.

� Ele mesmo. Que � que manda.
Silveirinha ouvia, dizia tudo bem. � bom ver, talvez seja um
caminho. N�o adiantou nada, n�o sugeriu coisa alguma. Com aqueles
alcag�etes mantinha-se de p� atr�s. N�o confiava em nenhum
deles, muito menos no que estava telefonando. Ao desligar, o detetive
abre uma porta, fala com o sargento Beto, por tr�s da mesa atulhada
de inqu�ritos, jornais velhos, antigos volumes de processos.
Coisas que n�o foram para frente ou por descaso nas investiga��es
ou por determina��o dos escal�es superiores. Ah, como detestava
entrar naquela sala e ter de ver aquilo. Inqu�ritos que deram tanto
trabalho, nomes dos culpados levantados e a ordem de esfriar. Amanh�
os jornais n�o estar�o falando mais nisso. Vamos esquecer.
Chama o pessoal da imprensa, mete outro caso quente na ordem do
dia. Como, depois de uma daquela o sargento Beto ia � Igreja, abria

o Livro de Salmos, cantava em louvor do Senhor? N�o entendia.
Mas. quando abre a porta, n�o est� interessado na situa��o do sargento
perante Deus e muito menos perante a reparti��o. Simplesmente
comunica que Banda Branca telefonou.
� Teve com o pai do pivete. Acha que o velho sabe onde t�!
0 sargento olha-o como se tivesse recebido uma ferroada nos
rins.

� Se o velho sabe, n�o tem mist�rio. Se arranca ele de l�,
mete no pau-de-arara, at� entregar os pontos.
� Se n�o ag�entar?
� Ag�enta. Esse pessoal de idade � mais forte do que pensa.
Silveirinha continua na porta, sargento Beto examina o rel�gio.
� L� pelas onze se manda o cambur�o. Quero ver esse coroa
de perto. Banda Branca tamb�m tem de vir.
Fecha a porta, n�o est� de forma alguma interessado naquilo.
N�o compreende o empenho do sargento Beto, aquele seu implac�vel
desejo de vingan�a. Mesmo assim procura o telefone, liga para o
Posto, torna a falar com Banda Branca.

� Voc� tem de vir.
Banda Branca deseja alongar-se, sente de certa forma envaidecido
quando fala com um detetive que passou pela Academia, Sil



veirinha n�o lhe d� trela. E, cada vez que tem de lidar com um
tipo como aquele, entende n�o ter voca��o para ser tira, mais cedo
ou mais tarde far� outro concurso, tratar� de cair fora.

� A lei � pra canalha, pro p�-de-chinelo; o bacana sempre
escapa e tudo bem, desde que chova na nossa horta � esse o princ�pio
de um dos colegas de Silveirinha. Com racioc�nios desse tipo,
embora ganhasse igual aos outros, o tal coleguinha adquirira casa
pr�pria, luxuosa, barco a motor, carro importado, abriu uma boutique
na Zona Sul para a mulher, as filhas iam todos os anos passear
na Europa, a amante instalara-se muito bem em Cabo Frio. De onde
sa�a tanto dinheiro?
Sempre que olhava os jornais Silveirinha se preocupava com os
concursos. Ah, se pudesse enfrentar um de fiscal do Imposto de
Renda, seria o ideal. Mas coisa desse tipo n�o era nem anunciada.
Quando sabia do concurso, havia sido realizado. S� o pessoal empistolado
conseguia as bocas. Mas podia fazer um outro qualquer. Para
a Caixa, Banco do Brasil ou at� mesmo para a Superintend�ncia de
Pol�cia. N�o queria era continuar no batente, tirando bandido da
maloca, ag�entando papo como aquele de Banda Branca, um sem-
vergonha de marca maior.

A porta se abre, aparece o sargento Beto. Est� nervoso, caminha
de um lado para o outro, bra�os para tr�s, um antigo h�bito da
caserna.

� Acho bom avisar o detetive Galv�o. Vai ter interesse em
conhecer o pai do pivete.
Silveirinha sorri, disca o n�mero, o telefone come�a a chamar.,
passa o fone ao sargento Beto. Galv�o n�o est�.

� Logo que chegue mande me procurar. Sargento Beto. Isso
mesmo!
� Se o velhote n�o abrir o bico? � quer saber Silveirinha.
� Fica de molho at� se decidir ou algu�m por a� botar a m�o
no filhinho dele.
� 0 delegado sabe disso?
� Claro que sabe � diz o sargento um tanto irritado. � Ou
t� pensando que fa�o alguma coisa escondida? Tou autorizado e por
gente que t� acima do delegado. Vou botar a m�o naquele marginalzinho
de uma figa e mostrar a ele de quantos paus se faz uma
cangalha.
� Se o Banda Branca tiver inventando?
� Duvido. Pode ser malandro pras negras dele. Pra cima de
mim, n�o!
� Tenho ouvido dizer que saca firme!
� Conversa. 0 delegado tem trabalhado com ele esse tempo
todo; j� prestou bons servi�os. Merecia at� ganhar mais do que ga

nha. Enfrentar o que enfrenta naquele morro n�o � moleza. Mesmo
assim t� do nosso lado. Do lado justo!
O telefone toca, Silveirinha atende.

� Galv�o! � diz passando o fone.
QUATRO

O cambur�o subiu pelas vielas o que p�de. Ficou estacionado
nas proximidades do barraco de dona Zizinha, onde havia o campinho
de futebol.

� Se vai l�, pega o homem. Traz amorda�ado, pra ningu�m
ouvir.
Descem do cambur�o Banda Branca e mais dois caras, um deles
de chapeuzinho de feltro, abas curtas, sapato de pano. Um dos homens
leva a corda de nylon, o outro um cassetete de borracha.

O de chapeuzinho aproxima o rosto das t�buas, bate, escuta,
fala imitando garoto.

� Abre a�, velho! � Enfezado!
Banda Branca acha gra�a, ri procurando evitar ru�do.
� Enfezado! Abre!
As t�buas come�am a ser retiradas, o que segura a corda de
nylon puxa mestre T�bor para fora do barraco.

� Esperando o garot�o, hem?
� Vamos em frente.
Banda Branca oferece o len�o para que o velho seja amorda�ado,
os dois homens n�o acham conveniente.

� Pode deixar, vov� n�o vai fazer confus�o.
Dizendo isso um deles cola o cano do rev�lver nas costas do
serralheiro.

� No primeiro movimento em falso, sofre um acidente.
Mestre T�bor caminha aos trancos entre os tipos, ora escorrega,
ora trope�a, � necess�rio que o segurem, pois o alcag�ete j� se encarregou
de informar que n�o enxerga. Em poucos instantes est�o
no cambur�o, cujas portas se abrem, o velho � empurrado para dentro.
Banda Branca examina os barracos, est� certo de que n�o foram
vistos.

0 carro desce com o motor desligado, somente as lanternas
acesas. S� muito l� embaixo come�a a funcionar. � o tempo tamb�m
que chegam ao asfalto, p�em-se a rodar, a caminho da Invernada.

A noite est� escura e quente. Amea�ou chover mas n�o choveu.
0 c�u continua encoberto, n�o se consegue ver uma �nica estrela.

266


Banda Branca sente-se satisfeito de ser, de certa forma, o centro dos
acontecimentos. Se capturassem Enfezado, tinham de reconhecer seu
m�rito. E era prov�vel que, gra�as �quela atua��o, fosse admitido
no quadro de funcion�rios. Estava ficando cheio da atividade paralela,
ganhando pouco e se arriscando muito. Falaria com o sargento
Beto, procuraria um entendimento com o pr�prio delegado-geral.
N�o ia esperar que se lembrassem dele, pois quem aguarda o reconhecimento
dos outros est� perdido. 0 neg�cio � for�a��o de barra,
t� sempre dizendo tou aqui, olha o meu, tou levando a pior nessa
hist�ria e o servi�o aparece igualzinho aos outros que n�o se mexem
ou se mexem pouco, risco calculado, a nota firme no bolso. Daquela
vez Banda Branca tinha certeza de que ia conseguir.

0 homem do chapeuzinho de feltro fala alguma coisa ao companheiro.
0 motorista, um crioul�o gordo apelidado de Azeitona,
sorri.

� Esse velhote n�o ag�enta o tranco.
� Pior pra ele. Que o sargento quer que fale, isso quer.
� Puxa, o cara n�o pensa em outra coisa. Pra ouvir o interrogat�rio
n�o vai nem ao culto!
� Credo! Se vai faltar � igreja a coisa � s�ria.
� 0 velhote at� que n�o � m� pessoa � diz Banda Branca.
� 0 diabo � a mania de querer proteger o filho, um assassino do
cacete.
� Se � boa pessoa, chapa, como � que t� empurrando ele no
precip�cio?
A pergunta do homem que segurava a corda de nylon � s�ria,
0 alcag�ete sente-se irritado.

� � bom e n�o �; se n�o quer dizer onde o sacaneta do filho
se meteu, pode pegar uma co-autoria.
� Co-autoria uma ova � diz o tipo de chapeuzinho. � T�
defendendo o sangue dele ou tu n�o manja isso?
Banda Branca sente-se encurralado. N�o esperava que aqueles
tiras o considerassem um verme.

� N�o sei, procurei cumprir ordens! � afirma o alcag�ete.
� Por essas e por outras � que tamos na merda em que tamos

diz o policial de chapeuzinho de feltro a Azeitona.
0 motorista torna a rir. � um riso neutro, de quem n�o d�
total raz�o ao policial e muito menos a Banda Branca.
� Precisavam t� l� em cima ag�entando o que ag�ento! �
queixa-se o alcag�ete.

� Poxa! Que foi que te fiz? N�o sou dedo-duro, cara! Quando
saio da Delegacia pra botar a m�o num filho da puta tou com endere�o
certo. N�o chafurdo no rastro de ningu�m.
� Acha que sou de chafurdar?
267


Todos riem: o homem do chapeuzinho de feltro, o da corda de
nylon, Azeitona.

0 carro entra no p�tio de terra solta, deserto, carca�as de ve�culos
apodrecendo, debaixo das l�mpadas morti�as. Azeitona ergue-
se com dificuldade, abre as portas traseiras. Perto dele v�o chegando

o homem de chapeuzinho de feltro, o outro que segurava a corda de
nylon, Banda Branca.
� Vamos l�, vov�. Terminou o conforto!
Dizendo isso o homem de chapeuzinho pega o velho pelo bra�o,
ajuda-o a descer. Entre os policiais e o alcag�ete mestre T�bor �
levado, ora trope�ando, ora tentando diminuir o passo, a fim de
examinar o terreno, o que n�o lhe permitem.

� Cuidado, velho!
Sobem a escada estreita, entram pelo corredor, tornam a descer
outra escada, chegam � sala de interrogat�rios. Ali j� est�o o detetive
Silveirinha, dois tipos de musculatura desenvolvida, o sargento
Beto. Os policiais empurram o serralheiro para o meio da sala, tratam
de acomodar-se nas poltronas de molas aparecendo.

� � esse o homem, chefe!
� Vai dizer que n�o sabe de nada � acentua Banda Branca
um tanto animado de estar ali, reunido com policiais pertencentes
aos quadros do Servi�o P�blico.
� Aqui, todo mundo tem de saber alguma coisa � diz o sargento.
� N�o acredito em burrice.
Um dos caras de musculatura empurra o velho para cima da
cadeira que � fixa no ch�o.

� Vamos sentando, vov�; assim pode pensar melhor!
0 detetive Silveirinha arrega�a as mangas, acende um cigarro.
Aproxima-se do velho, oferece. Mestre T�bor sacode a cabe�a, negando-
se aceitar.

� Muito bem, vov� � come�a o detetive. � � uma pena n�o
enxergar. Aqui, perto da gente, t�o v�rios cavalheiros que ficaram
revoltados com o que seu filhinho fez. Por isso achamos que vai
ajudar. Afinal, s� queremos saber por onde anda. N�o precisa nem
dizer o lugar exato. Basta uma dica. Uma aproxima��o.
O detetive silencia, sargento Beto anda de um lado para o outro
da sala, os policiais que vieram da rua est�o em sil�ncio, cs dois
homenzarr�es tamb�m.

� Onde se meteu Enfezado?
� N�o sei; desde que fiquei cego n�o sei das coisas. Nunca
mais Enfezado apareceu.
Pacientemente, soprando a fuma�a do cigarro Silveirinha se
aproxima.

� Olha vov� n�o abuse da minha paci�ncia. Perto de n�s t�o
dois caras da pesada que fazem qualquer um falar, sem perguntar

coisa nenhuma. Pense bem. Tou sendo camarada. N�o custa nada
colaborar.

� Juro que n�o sei.
0 detetive insiste:
� Quando foi a �ltima vez que apareceu l� pelo morro?
� J� faz tempo. Mais de seis meses!
Banda Branca ergue-se, mete as m�os nos bolsos, na maior pose
do mundo.

� O velho t� mentindo; tenho um olheiro que viu o garot�o
no barraco dele, m�s passado.
� Como � isso, vov�? Lhe pergunto uma coisa e responde
outra?
� � mentira do alcag�ete � diz o oper�rio. � H� muito
tempo n�o vejo o garoto. Desde que foi preso.
� Como foi preso?
� Pergunte pro tipo ordin�rio que t� me acusando.
Banda Branca tenta revidar o insulto, sargento Beto manda que
se cale.

� Vamos mudar de t�tica � diz o sargento Beto. � Agora,
quem pergunta � Germano.
Ouvindo isso o homenzarr�o ergue-se da cadeira. Tira a camisa,
os m�sculos est�o saltados. Silveirinha senta, continua a fumar. Germano
aproxima-se do velho, por tr�s. Aplica-lhe o telefone o serralheiro
torce-se de dor.

� Acho que tava com cera no ouvido � diz Germano sorrindo
nervosamente, bei�os gretados se alargando, a cicatriz por cima do
olho esquerdo encolhendo.
� Diz onde t� Enfezado, velho filho da puta. N�o torno a
perguntar.
Mestre T�bor mant�m-se indiferente, as l�grimas escorrendo pelo
rosto de barba crescida. Em dado momento as m�os fortes de Germano
cravam-se nos tend�es dos ombros, os dedos pressionam, o velho
quer livrar-se, os bra�os est�o amarrados, a dor � grande, n�o suporta,
p�e-se a berrar, a grunhir.

Esculacho se aproxima.

� T� gastando for�a � toa, cara. Pra teimoso s� tem um caminho.
Germano solta o velho, vai para a pia, Esculacho p�e-se a rode�-
lo. Os policiais acompanham seus movimentos. Sabem muito bem
do que aquele tipo � capaz, o detetive Silveirinha sente-se inquieto,

o sargento Beto procura manter-se impass�vel, Banda Branca quer
achar gra�a mas ningu�m o acompanha.
Esculacho passa a m�o na cabe�a do velho, diz coisas vagas que
pareciam n�o ter qualquer liga��o com o que pretendia fazer. Em
dado instante, com incr�vel rapidez, catuca violentamente com o


polegar da m�o direita o olho de mestre T�bor. O homem solta um
berro incr�vel, Germano curvado na pia volta-se para ver o que houve,
a cabe�a do oper�rio pende para tr�s, Esculacho puxa-a para a posi��o
normal, o rosto est� coberto de uma gosma que se confunde com o
sangue que desce.

� Isso � um absurdo � diz o detetive Silveirinha levantando-
se. � Voc� � um d�bil mental, cara!
Esculacho n�o se incomoda com o protesto do detetive. Sargento
Beto manda que n�o se intrometa, Silveirinha sai da sala.

� Vamos l�, vov�. Ainda tem um olho sobrando. Falou ou n�o
falou do caso?
� N�o disse nada.
� Com quem tava andando nessa ocasi�o? Quem era o coleguinha
dele?
� Nunca gostou de se enturmar.
� Mentira � diz Banda Branca. � Vivia junto com o tal de
Toninho. Pra cima e pra baixo.
� T� ouvindo, vov�! O homem � teu vizinho e afirma que o
garotinho gostava de companhia. Vou contar de novo at� tr�s.
Dizendo isso Esculacho tira o canivete do bolso do blus�o, segura
uma das orelhas de mestre T�bor, faz um movimento r�pido com a
m�o direita, o velho se encolhe, grunhe, sacode-se todo. O peda�o de
orelha cai no ch�o, junto dos p�s de Germano que voltou da pia,
enxuga-se.

� Vamos l�. vov�! Que teimosia � essa? Quer sair daqui como
boi de
matadouro?
Esculacho repete a pergunta.

� Enfezado andava ou n�o andava com o tal Toninho?
0 velho sacode a cabe�a, afirmativamente, o sangue pingando-
lhe no ombro, no peito, escorrendo pela barriga, entrando nas cal�as.

� E onde t� esse Toninho?
� Trabalhando pela rua.
� Isso n�o � endere�o, velho. Como � que se vai topar com ele.
sem saber o lugar certo?
� Vamos l�, puxa pela mem�ria � berra Germano.
� N�o sei, nunca me disse.
� Vov�, vov�! T� abusando da minha paci�ncia � diz Esculacho.
� Acho que ajuda na distribui��o de um jornal.
� Que jornal?
O velho n�o consegue lembrar. Esculacho pega a orelha ferida,
belisca-a com for�a, os olhos tornam-se saltados, o rosto ainda mais
branco, riso s�dico arrega�ando-lhe os bei�os, mostrando os dentes irregulares.


� Que jornal?

O canivete torna a trabalhar. Mestre T�bor estremece mais uma
vez, sacode furiosamente a cabe�a, Germano aplica-lhe tremendo
murro na testa.

� Vamos parar de assanhamento. Se quer conversar como gente
grande. Nada de palha�ada.
� Que jornal? � repete Esculacho.
� Juro que n�o sei. Pelo amor de Deus!
� N�o adianta impreca��o. Devia ter feito isso quando criou
aquele monstro! � argumentou Esculacho.
� Onde se esconde o tal Toninho? � insiste Germano.
O sargento Beto sai de perto, vai sentar na sala refrigerada,
onde est� o detetive Silveirinha. De vez em quando ouvem os gemidos
do velho. Mas � algo distante, long�nquo, que mal d� para distinguir.

� Mandou parar a brincadeira?
� N�o. Vou insistir um pouco mais.
� Acho isso judia��o. Esse pobre-diabo n�o sabe de nada.
Quando fiz as primeiras indaga��es percebi logo.
� Nunca se sabe.
� Como nunca se sabe? T� pensando que sou calouro nessa
hist�ria ?
� N�o penso nada. Desde que mataram minha mulher e meu
pai n�o penso em nada. N�o tente me cobrar coisas l�gicas.
� Ent�o voc� n�o t� em condi��o de trabalhar.
� A� que se engana. Nunca tive t�o bom de trabalho. Especialmente
pra descobrir o filho da puta que me desfeiteou.
� Isso � vingan�a. T� confundindo as coisas!
� Vingan�a ou n�o, tenho de botar as m�os naquele crioulinho
de merda!
� Com esses m�todos que t� aplicando no pobre velho n�o
chegar� nunca ao criminoso.
� Como quer que fa�a?
� Como tou fazendo. Ou pensa que tirei f�rias, n�o prendi o
pivete por que n�o quero?
� Nunca disse isso. Acontece que quero participar das buscas.
Tenho autoriza��o!
O detetive est� indignado. P�e as m�os na mesa do sargento,
fala olhando-o nos olhos.

� E acha que pode fazer o que t� fazendo?
� Possa ou n�o, vou continuar nesse estilo. � como essa canalha
entende.
� Pois n�o � meu jeito. Vou encaminhar um relat�rio ao delegado,
pedindo substituto. N�o pretendo entrar numa fria. De repente
os jornais botam a boca no mundo, o detetive Silveirinha �
quem se fode.

� Desde o come�o n�o lhe senti com muita disposi��o,
� Disposi��o eu sempre tive, sargento Beto. O que nos diferencia
� que trabalho com a cabe�a.
� Pois desse jeito nunca vai dobrar ningu�m. S� na porrada
esses patifes abrem o bico!
Sargento Beto retira o vidro de �gua da geladeira, Germano aparece,
nu da cintura para cima, toalha de rosto no ombro.

� 0 homem apagou. Exatamente quando parecia disposto e
contar alguma coisa.
� Apagou?
Silveirinha dirige olhar acusador ao sargento, Germano continua
esperando.

� Chama Azeitona. Manda jogar por a�. Bem longe da jurisdi��o.
Germano desaparece, sargento Beto emborca o copo na bandeja.
onde h� x�caras, uma garrafa de caf�.

� De que adiantou tanta f�ria? S� complica��o em cima de
complica��o.
� N�o � o primeiro que morre e � atirado por a�.
� Acontece que um dia a casa cai. E nesse dia o pau vai comer.
0 sargento senta, abre a gaveta, Silveirinha baixa as mangas da
camisa, o telefone toca.

� Pode dizer. T� ocupado. N�o pode atender agora. Dou o recado.
Vou avisar.
� Sabe quem t� ligando? A pobre da mulher do Esculacho. A
filha teve um acesso de convuls�o, foi pro hospital. Avise pra ele.
N�o quero ver esse tipo t�o cedo.
Sargento Beto n�o diz nada. 0 detetive pega a pasta, retira-se,
certo de que no dia seguinte conversaria com o delegado. N�o podia
mais continuar no caso, ao lado de um louco e uma cambada de s�dicos.



Cap�tulo XIV

UM

Pela janela entreaberta Sandra v� que continua a chover. Mesmo
assim o calor � grande. Por isso ligou o ar-refrigerado que herdou
de Marlene. Como ainda falta uma hora para sair, ouve no tocadiscos
sua m�sica preferida. Uma can��o que fala no casal de amantes.
Ah, como era rom�ntica! Lentamente, procurando n�o for�ar a
voz, acompanha o cantor. Canta e olha o bilhete de Toninho; o encontro
que desejava ap�s o show. Como teria de lutar, a fim de evitar
os clientes chatos, aqueles que desejavam lev�-la para a cama todas
as noites! Em parte era respons�vel por isso, precisava de dinheiro,
s� o que recebia na boate n�o dava. Mas, agora, ap�s encontrar Toninho,
come�a a sentir o quanto deixar-se abra�ar por outro homem
tornava-se doloroso. E como se sentia complexada. N�o queria trair

o namorado que fazia tudo para agrad�-la. Sabia muito bem a apertura
em que n�o ficou para lhe dar aquele toca-discos. E como era
bonito, o livrete de garantia, as explica��es t�cnicas. Encontraria um
meio de driblar os chatos, sentaria no barzinho de paredes cobertas
de azulejos, tomaria a canja com p�o quentinho, um copo de vinho,
ficaria ouvindo as maluquices do namorado. Sempre tinha algo de
engra�ado a contar. Sentia-se outra ao seu lado. Estava certa de que
conseguiria educar a voz, se tornaria uma cantora, j� que ser atriz
lhe parecia bem mais dif�cil. O que tem de mocinha por a� querendo
trabalhar em novela n�o � normal; j� enfrentar um est�dio de grava��o
� diferente. Bem poucas se aventuram.
Exatamente isso que ia fazer. Nada do caminho mais f�cil. Como
Toninho costumava dizer: a estrada que leva ao c�u, de primeiro
� toda feia, mais parece uma viela de morro; depois que se andou
muito por ela, torna-se larga e florida. As flores s�o pequeninas estrelas
que ainda n�o aprenderam a brilhar. Sandra sorria. Quem lhe
ensinou essa hist�ria? Ouvia a m�e contar. E depois dela, muitas outras
pessoas. Acha mesmo que a gente vai pro c�u quando morre? Era
a vez de Toninho sorrir. Sei l�. Mas pelo que dizem os antigos, nem


sempre o que � f�cil � bom. Eu, por exemplo, se vejo laranja madura
na beira da estrada, caio fora. Algo de errado t� havendo. J� imaginou
se algu�m vai nos dar colher de ch�?

Entra no elevador mal-iluminado, ainda ouve os risos de Toninho,
continua com vontade de cantarolar a can��o dos amantes,
deixou o disco no aparelho, quando voltasse continuaria a ouvi-lo, a
hora que fosse. Teria de aprender bem aquilo para, depois, procurar
colocar no seu estilo. Cantaria num ritmo bem diferente, mandaria que
ouvisse. Com o tempo e dinheiro que entrasse, compraria o gravador.
A�, sim. Cantaria, faria a grava��o na fita, ouviria. Assim que os melhores
cantores come�aram. Solange entendia dessas coisas. Vivia envolvida
com artistas, lia tudo que as revistas escreviam sobre eles, sabia
de fuxicos incr�veis. Uma pena que n�o visse nela o menor talento.
O elevador chega ao t�rreo, Sandra pensando se Solange n�o imaginava
a mesma coisa a seu respeito. As pessoas v�o se conhecendo,
tornando-se �ntimas, na maioria dos casos uma deixa de acreditar na
outra porque se conhecem demais. S� com Toninho era diferente. N�o
gostava de Solange, achava que n�o passava de uma chata, mas reconhecia
seu talento. Foi quando cantarolou uma coisinha de nada,
mais pra debochar dele, que chamou aten��o. At� se espantou. Que
� que h�, esse cara t� querendo me gozar? A� ele provou que n�o.
Mandou que cantasse um sambinha, por mais idiota que fosse. Sandra
procurou lembrar-se. N�o era boa nessa hist�ria de gravar letra de
m�sica. Mas com dificuldade descobriu uma que, de tanto tocar no
r�dio, terminou aprendendo. Cantou, Toninho mostrou-se superanimado.
Se n�o gostasse diria logo. Sabia bem do seu jeito. N�o costumava
enganar. Com Solange �s vezes chegava a ser grosseiro. Sandra
toma o t�xi, recorda a promessa do patr�o de aumentar as horas do
show, quando tamb�m teria aumento de sal�rio. A� compraria o
gravador. N�o precisaria ocupar Toninho. O gasto que fizera com o
toca-discos fora grande. N�o queria explor�-lo. Jamais iria tornar-se
um peso morto nas suas costas. N�o fazia isso com os estranhos, quanto
mais.

No camarim, enquanto se maquiava e ouvia as hist�rias de Solange
e do tal cara da TV Itacolomi, Sandra deliciava-se com as possibilidades
que tamb�m teria. S� que n�o ia dizer nada. N�o gostava
de falar em coisas que ainda constitu�am planos. Falaria no dia em
que fosse gravar o primeiro disco ou participar do primeiro programa
de TV. N�o deixa de ver, Solange! Se tiver televis�o a cores, melhor.
Quero que me diga tudo que achou; tim-tim por tim-tim. Presta muita
aten��o pra mise en scene. Num audit�rio de TV isso conta ponto.
Quem sabe se mexer, � alegre, desinibida leva vantagem. Nisso a�
tenho certeza que dou de dez a zero em qualquer um. Solange concordaria
e se arriscaria a dizer, como j� fizera tantas vezes que, na
verdade, tamb�m eram artistas. Ora, se essa por��o de careta vem aqui,


pra ver a geme, n�o � s� pelo corpo, pelo sexo. � tamb�m por que
se consegue ser divertida. Como, � que n�o sei, mas que consegue,
consegue.

Sandra costumava rir daquela franqueza da amiga. Na verdade,
quando sa�am do palco e se recolhiam naquelas caixas que, de camarim
s� tinham o nome, � que viam o quanto eram pouco importantes,
Ningu�m vinha procur�-las para dar parab�ns, ningu�m mandava
flores. Se pintavam um f�, era pilantra. E esses estavam sempre dando
em cima. Freq�entemente Sandra se enfurecia. Outras vezes levava
na brincadeira, temendo que o cara fosse procurar o patr�o, inventasse
uma hist�ria qualquer, com o objetivo de prejudic�-la. No est�dio
de grava��o a coisa seria diferente. Mais profissional. Gente que estaria
unicamente ocupada com seu trabalho. Se algum cara desse em
cima, saberia como conduzir a aproxima��o. Diria que em primeiro
lugar estava Toninho, n�o era santa mas exigia respeito. E tudo correria
de forma correta. Seria dona do seu nariz, nas folgas ficaria no
apartamento, o r�dio ligado, ouvindo suas pr�prias m�sicas. J� imaginou.
Solange, eu em casa me ouvindo no r�dio? Solange era firme
no seu prop�sito. Vou terminar a televis�o. Nem que seja como varredora.
Se o pilantra que me deu o cart�o n�o aparecer, tanto faz.
Procuro outro. N�o � o �nico que lida com televis�o. Vai ver, aparece
um que � de fato muito mais importante. Minha m�e costumava
dizer: quanto mais tarde, melhor mar�. Dizia isso, recordava a
idade. E j� se sentia at� disposta a n�o insistir nos pap�is principais.
Ficaria contente com uma posi��o secund�ria, mas que fosse marcante.
Afinal, nem sempre a atriz que mais aparece � a que atua melhor.
Tinha certeza de que a oportunidade que lhe dessem saberia aproveitar.
Nunca tive chance, minha filha. Ano passado foi aquele marginal,
dizendo que era da TV Excelsior; esse ano, um da Itacolomi.
Se aparecer o terceiro, t� mais do que provado que � meu destino.
Ainda n�o lhe disse porque n�o desejo que pense estar ficando maluca;
mas h� ocasi�o no show em que vejo c�maras de TV na minha
frente c n�o aqueles imbecis. Uma c�mara bem perto, outras duas
mais afastadas, colhendo todos os �ngulos. Sandra sorria das maluquices
de Solange. No fundo, tanto ela quanto a amiga e Toninho n�o
diferen�avam muito. Pena que os dois n�o se dessem.

Sandra bezunta os olhos com o creme dourado, passa o l�pis nas
sobrancelhas, retoca o batom. Solange aparece j� pronta, diz que as
mesas est�o todas ocupadas.

� Como sabe?
� Fui espiar.
� Em plena quarta-feira?
� Sei l�! Parece que essa cambada pare dinheiro!
� Mas o que tem de cheque sem fundo no caixa n�o � moleza.
� Os que passam cheque sem fundo n�o s�o malucos de voltar.
� tudo gente nova. Tem at� gringo.

� N�o diga! Ser� que vieram por causa da gente?
� Acho que h� navio americano no porto.
� Puxa, se pode descolar uns d�lares!
� Uma boa id�ia. N�o tinha pensado nisso!
� Topa pegar um americano, levar pro motel.
� Se um deles se interessar, claro que topo.
� N�o tem de esperar que se interesse. Dou em cima, se divide.
� Acontece que n�o posso chegar muito tarde em casa.
Sandra sorri.
� Muito tarde ou muito cedo. Eu s� consigo chegar oito/nove
horas.
� Tava planejando sair do show, me mandar.
� Mesmo havendo alguns d�lares na jogada?
� A� a coisa muda de figura.
Sandra d� mais uns retoques na pintura, tinge os bicos dos
seios.

� E se o tal Toninho n�o gostar dos americanos?
� Se vai pro motel, depois encontro ele no barzinho.
� Eu n�o espero. N�o vou com a cara daquele tipo.
� Pois n�o � m� pessoa. E n�o tem raiva de ti.
� Imagine se tivesse. Me matava.
� Toninho � meio bagun�ado mas bom rapaz.
� Vamos l�. T� na nossa hora � diz Solange cortando a conversa.
0 show se inicia. A orquestra ataca firme de um lado, do outro
entra Solange, as pernas grossas, depois Sandra; roupa mais atraente,
saiote ainda mais curto. Quando aparece, o ritmo da m�sica aumenta,
algumas pessoas que est�o nas mesas batem palmas, focos coloridos
cruzam sobre ela, acompanham-lhe os movimentos. Sandra imagina
que seria um bom momento de cantar, mas n�o podia sair do
programa. Tem � de dan�ar, pular, abaixar-se e elevar-se num salto,
como se estivesse representando desastrado bal�. Solange trata de
segui-la. Quando a m�sica torna-se mais lenta, mais suave, as duas
se aproximam. Sandra pega no ar as m�os de Solange. Agora, mexem-
se e sacodem os bra�os, como se fosse uma dan�a de roda. Depois, v�o
se estreitando num abra�o, Sandra tomando iniciativas. Em seguida
� a vez de Solange fazer o mesmo. E com mais realismo. 0 cl�max do
show � quando Solange beija Sandra, e as duas demoram, a orquestra
barulhenta, palmas estalando. Ap�s o beijo, novamente uma esp�cie
de valsa, Solange � quem tira as primeiras pe�as da roupa de Sandra.
Agarram-se mais uma vez, Sandra desabotoando as roupas de Solange.
0 p�blico ri, assovia, novas palmas.

A masturba��o no palco se estender� no m�nimo uns 20 minutos,
pois o dono do Bacar� sabe que aquilo agrada. Vem gente de longe
s� para curtir as duas se agarrando. Numa mesa nos fundos, onde a


ilumina��o n�o chega, est� Galv�o. Pretendia rever a filha, tomar
uns u�sques, esquecer a profiss�o miser�vel que tem; esquecer Paranhos,
o secret�rio, o maldito motorista, o professor infeliz e, em especial,
Garanh�o. Sabe muito bem que aquele criolo n�o � gente, aceitou
o trato porque est� tramando alguma. Com ele n�o podia dormir,
n�o podia retardar a a��o. Mais dia menos dia explodia, estaria perdido.
E de que adiantou meter-se no diabo da boate? Ali estava a filha
na maior sem-vergonhice do mundo. � propor��o em que os caretas
batiam palmas Galv�o afundava no banco estofado, pouco se incomodando
com a mulher da cadeira ao lado, que desejava fisg�-lo. Quando
Sandra e Solange est�o completamente nuas, agarrando-se e beijando-
se, o detetive n�o ag�enta. Os olhos enchem-se de l�grimas,
vira o copo de uma vez na boca, sai dando encontr�o nas mesas, passa
pelo le�o-de-ch�cara que diz alguma coisa, vai embora naquela
noite quente e desesperada, arrependido de ter vindo. Toma o t�xi,
manda seguir para S�o Crist�v�o. 0 motorista puxa conversa, d� logo
a entender que n�o est� de bom humor, o homem faz uma indaga��o,
responde que � pol�cia.

0 carro avan�a por ruas escuras, atravessava t�neis, Galv�o
calado, olhando num ponto long�nquo, que jamais poderia atingir.
Por que a vida se tornara t�o amarga? Por que Sandra desceu tanto?
Ah, pobre Julieta! N�o queira saber quem � a nossa Sandrinha. Faz
pena, faz pena.

� Como o senhor disse? � indaga o motorista que ouve os resmungos.
� N�o disse nada � afirma Galv�o raivosamente.
0 motorista n�o faz coment�rio. Na verdade est� um tanto assustado
com aquele tipo que n�o gosta de conversa mas fala sozinho. E
para livrar-se logo dele acelera. 0 carro desliza rapidamente nos trechos
melhores, entra finalmente pela rua Bela, dobra a primeira �
esquerda, prossegue pela rua de cal�amento, sai outra vez no asfalto,
toma a avenida, contorna a pracinha.

� N�o precisa ir at� l�. Quero andar um pouco.
Galv�o puxa a carteira, o motorista olha o tax�metro, faz c�lculos
com a tabela de pl�stico nas m�os.

� Trinta e oito e quarenta.
Galv�o entrega uma nota de cinq�enta, vai embora sem esperar
o troco. 0 chofer continua a olhar aquele tipo soturno, afastando-se
na cal�ada deserta. Manobra o carro, desaparece, o detetive entra pela
ruazinha estreita, avista a casa de luzes apagadas, como todas as outras
da vizinhan�a. Por tr�s das casas, o clar�o da refinaria, das oficinas,
das f�bricas em funcionamento; o chiar de v�lvulas, o mexer de ferros,
estalar de pe�as, resfolegar de motores que giram noite e dia.
Galv�o torna a pensar na mis�ria em que estava transformado aquele
bairro, na mis�ria da pr�pria filha.

� Como p�de ficar assim, meu Deus?
Se algu�m lhe dissesse n�o acreditaria. Foi l� para ficar em paz
consigo e com ela, teve de sair em p�nico, a canalha uivando, Sandra
e a colega abra�adas como duas cadelas. E, ao mesmo tempo, ali estava,
caminhando pela rua onde Sandra brincou, por onde tantas vezes
passou com ela, por onde chegava mais cedo s� para v�-la, Julieta
contando-lhe as proezas que tinha feito. Andou sozinha, foi at� o jardim.
Abaixava-se, l� vinha a filha, o rosto bonito, bracinhos estendidos
para alcan��-lo.

� Como pode uma coisa dessa?
Entra na casa, liga a televis�o, as vozes dos atores antes da imagem,
cenas do filme iniciado n�o sabe quando. Livra-se dos sapatos,
das roupas, fica s� de cueca, liga o ventilador, estende-se no sof�, os
olhos ainda molhados, a vontade de afundar num tremendo porre
mas, ao mesmo tempo, a necessidade de estar de p� muito cedo, quando
teria uma nova conversa com Garanh�o, somente Fatia presente.
Ainda assim abre nova garrafa, p�e bastante gelo no copo, refor�a a
dose. A primeira toma de vez, p�e uma outra, volta a olhar a televis�o,
a mulher e o cara passeando lentamente pelo parque, carros
nas ruas, em velocidade. Aquilo tudo fazia-o imaginar que se tratasse
de um filme de suspense. N�o entendia coisa nenhuma. Apenas
as imagens mexendo-se, o pensamento em Sandra e Solange, as
duas enla�adas, os freq�entadores do Bacar�, batendo palmas, alguns
gritando "vamos l�, meninas", "joga ela no ch�o", "vai por cima",
ele sem ag�entar semelhante cachorrada, a vontade de subir naquele
palco, desmont�-lo a pontap�s, sacar a m�quina e fuzilar o negociante
imundo que mantinha aquele antro funcionando.

Antes de terminar a terceira dose de u�sque Galv�o cochila, a
a��o do filme na televis�o prossegue, como prossegue a m�sica animada
da orquestra no Bar-Boate-Bacar�, onde apenas Sandra permanece
no palco, Solange desapareceu por entre as mesas, os clientes
gritam para Sandra tamb�m descer, especialmente os marinheiros que.
n�o sabendo falar a l�ngua, engrolam palavras inintelig�veis, que se
tornam ainda mais engra�adas e barulhentas. Num salto, como se
fosse a favorita e n�o gostasse de fazer-se de rogada, Sandra se aproxima,
s� um transparente vestido sobre o corpo, rebola-se entre as mesas,
o jato de luz acompanhando, a orquestra ora suave, ora fren�tica.
Sobe na mesa dos marinheiros, o corpo bem feito oscila, os seios
tremem, os marujos aplaudem e empurram as cadeiras, Sandra requebra-
se, um dos americanos tenta peg�-la, outro afasta-lhe as m�os,
ela salta para a mesa seguinte, os marujos ficam indignados, uns
acham gra�a, outros pedem que volte, Sandra parece n�o ouvir, sabe
que n�o poderia meter-se com aqueles tipos, j� bastante embriagados,
espera que Solange tenha entendido a mesma coisa.


Na mesa seguinte est� o moreno forte, a mulher do lado, emburrada.
Sandra aproveita-se disso. Aproxima-se mais e mais do homem,
at� beij�-lo, at� deixar que a segure pelos bicos dos seios, enquanto
acaricia-o com a ponta da l�ngua nos olhos e nos ouvidos, alvoro�a-
lhe os cabelos, cola-se ao cara e vai se abaixando, a mulher indiferente,
tomando goles e mais goles de u�sque, a cabe�a de Sandra sumindo
por baixo da mesa, o homem recostando-se na cadeira, camisa
semi-aberta, a mulher batendo o copo com for�a, perguntando aos
berros se o cara n�o tinha vergonha. � o bastante para Sandra reaparecer
em outra mesa, junto a outros tipos, enquanto os jatos coloridos
procuram-na em v�o e a orquestra ataca com anima��o porque
os m�sicos sabiam muito bem que aquele era o instante de Sandra
cativar a clientela. Ao subir de novo no palco as luzes tornam-se intensas,
a orquestra retorna ao seu ritmo vibrante e os pr�prios clientes
perdem-se em palmas e mais palmas, o que significava o �xito do
show, a sobreviv�ncia das vedetes, a sobreviv�ncia do Bar-Boate-Bacar�.

DOIS

Quando todos j� se foram, Sandra teve de valer-se de Xex�u e
de Bigode, a fim de livrar-se dos americanos. N�o queria ir com eles,

o mais alto e forte insistia, Bigode tirou-a das garras do gringo.
� N�o t� querendo ir, cara; te arranca!
O americano n�o entendeu nada, os companheiros tamb�m n�o,
foram andando aos tombos pelo cal�ad�o da avenida. 0 mais embriagado
era mesmo o que queria levar Sandra � for�a.

Saiu da boate com Xex�u e Bigode, entraram no barzinho de
paredes de azulejos encardidos. Tomaram caf�, ela convidou para a
mesa, n�o quiseram. Bigode tinha uma grava��o logo cedo. S� de
ouvir isso Sandra sentia-se orgulhosa. Ia chegar o dia em que Bigode
diria:

� N�o posso, amanh� gravo com Sandra!
0 gar�om de todas as noites se aproxima, pede chope, diz estar
esperando outra pessoa. 0 homem vai para os fundos do barzinho, retorna,
oferece tira-gosto, Sandra prefere queijo com molho ingl�s,
fica mastigando, muitas pessoas entrando e saindo, ela ansiosa que
Toninho n�o demorasse, poderia aparecer algum conhecido, estabelecer-
se outro caso, igual ou pior ao que ia acontecendo com os americanos.
N�o sabe por que, come�a a sentir-se estranha, um tanto
assustada na presen�a de tipos que nunca vira, especialmente os grandalh�es,
que lembravam colegas do pai sentados na festa de anivers�



rio, corpos maiores que as cadeiras. E, ali, junto ao balc�o, estava
um deles, tomando caf� e olhando, como se fiscalizasse todo mundo.
Toninho finalmente aparece, embrulho nas m�os, p�e sobre a

mesa.

� Imagina s� o que �?
Antes de responder Sandra pensa em sapatos, num vestido, na
caixa de bombons de chocolate. Toninho n�o � muito de guardar segredo.
Tira o amarrado, abre o papel com enfeites, aparece o gravador
que Sandra imaginara comprar. Ela fica olhando, como se estivesse
admirando a coisa mais bonita do mundo.

� Como soube que ia precisar?
� Me disseram. Quem t� aprendendo a cantar tem de ter gravador.
� Como funciona?
� Depois ensino.
� Tem um lugar onde possa aprender, agora?
Toninho sorri, pega o copo de chope que o gar�om traz.
� Lugar � que n�o falta.
Sandra pede os pratos de canja e mais um chope. Estica-se por
cima da mesa, a ponto de derrubar os copos, beija Toninho.

� Tou gamada, cara! Que foi que me fez?
Toninho olha-a, quer brincar, sorri, como sempre fazia, de repente
sabe que o momento n�o � de brincadeira.

� Tamb�m tou gamado!
S� ent�o os dois riem, seguram as m�os, Sandra aperta com for�a,
Toninho correspondendo, como se fosse um jogo.

� Se pode ir pro hotelzinho de outro dia. L� tem t�xi, f�cil.
� E j� se conhece o pilantra da portaria!
0 gar�om p�e os pratos de canja, traz a cesta com p�es quentinhos,
Toninho pede manteiga.

� Como foi o show?
� Um pouco mais animado porque tava assim de gringo.
� Que tipo de gringo?
� Americano. Tem um navio de guerra no porto. N�o viu como
a cidade t� cheia de marinheiro?
� Pra ser sincero hoje ainda n�o vi nada. Passei o tempo todo
dormindo.
� Puxa, quase n�o dormi! Fiquei namorando o toca-discos, lembrando
do cara que me deu. Sabe quem �?
� Acho que sei; um cara que pode fazer muita coisa ou n�o
fazer nada.
� Nossa, que pessimismo!
� At� que n�o. Apenas gosto de me ver como sou. Jamais daria
para artista.

� Por qu�?
� N�o me amarro em ilus�es. Artista vive de ilus�es.
� Pois acho que a ilus�o � que nos ajuda a sobreviver.
� N�o leve a s�rio o que digo; n�o tou pra muita conversa!
� Nem comigo?
� S� com voc�.
� Esse trabalho que t� lhe arrebentando os nervos. Por que n�o
consegue uma coloca��o fixa?
� Em que. se n�o sei fazer nada?
Toninho toma colheradas de canja, mete grandes peda�os de p�o
na boca, mastiga com voracidade.

� Gostaria de ver onde trabalha. Se for o caso, posso lhe conseguir
uma
coloca��o na boate.
Toninho sacode negativamente a cabe�a.

� A barra que enfrento n�o � moleza, em compensa��o a nota
pinga. Tem cara preso o dia inteiro num escrit�rio e no fim do m�s
e aquela merda de sal�rio.
� Mesmo assim gostaria de ir ver seu trabalho; um conhecido
me falou que esse neg�cio de distribui��o de jornal � uma loucura.
� Bota loucura nisso.
� E por que n�o larga?
� Tou tentando. Mas preciso esperar um colega que t� viajando.
Logo que volte se inicia um neg�cio pr�prio.
� Uma sociedade?
� Mais ou menos.
� Nunca deu certo. � preciso muito capital. Vejo a apertura
em que vivem os donos da boate. Al�m disso, as brigas di�rias por
causa de dinheiro. Um t� sempre achando que o outro rouba.
� Esse amigo � diferente: a gente � como irm�o!
� E no trabalho atual, como � que faz?
� Coisa sem import�ncia. Uma hora dessa lhe mostro.
� Por que n�o hoje, que se t� com tempo? Amanh�, saindo do
show,
vou direto pra casa. Tenho de come�ar a treinar.
Toninho encara-a com frieza.

� N�o quer que veja como trabalha? Tudo bem!
� Nada disso. Acho que vai at� ajudar.
Sandra sorri. Gostava de ouvir o namorado falar a seu respeito.
� N�o fique preocupado. Quando me tornar cantora e tiver alguns
contratos importantes, se muda de vida.
� A�, vou ser uma esp�cie de gigol� . . .
� Por qu�? E quem vai cuidar dos meus interesses? Acha que
empres�rio � gigol� de alguma cantora?

Toninho mostra os dentes, a boca cheia.

� E um neg�cio que topo; sou capaz de ter jeito para isso!
� Aposto que tem.
Sandra pede mais chope, o gar�om reaparece com os copos cheios,
recolhe os outros, Toninho termina de tomar a canja, passa o guardanapo
na boca.

� Mas at� l� se precisa ter grana. Muita grana.
� 0 hor�rio do show vai aumentar, a partir do m�s que vem;
devo ganhar praticamente o dobro. D� pra fazer umas economias.
� Voc� que pensa. Sobe o ordenado, sobe o aluguel, a luz, o
transporte, comida, fica tudo na mesma ou pior.
� Puxa, t� pessimista, mesmo!
� Nem por isso deixo de acreditar que tem boa voz, pode fazer
sucesso. � s� querer!
Sandra torna a segurar-lhe as m�os, sente que est�o frias como
se estivesse doente.

� N�o acha melhor esquecer o trabalho, hoje?
� Por qu�?
� Sei l�! Tou lhe achando meio estranho.
� Nada. Sou assim mesmo. Ora esquento como se tivesse febre,
ora esfrio. A m�e dizia que tenho sangue de peixe.
� Quer mesmo que v� ao seu trabalho?
� Pode ser! Por que n�o?
� Soube que teve ontem no show. Chocolate me disse. Por que
n�o esperou?
� N�o foi s� o show que fui ver.
� Solange?
Toninho faz uma careta de irrita��o.
� Corta essa. Tava em outra. Semana passada Chocolate me
alertou
que teu velho tava baixando por l�. Fui conferir.
Sandra mostra-se surpresa.

� N�o me falou!
� Acho que n�o quer tocar no problema contigo.
� E o que � que aquele idiota deseja?
� N�o fa�o id�ia. Fiquei numa mesa do canto, vi quando
chegou. Saiu no meio do show.
� Deve ter ficado escandalizado. Puritano de uma figa!
� Acredita que tava apenas interessado no espet�culo?
� N�o tenho a m�nima; se n�o for isso, t� atr�s dos traficantes
de entorpecentes.
Toninho olha-a, sorri descontra�do.

� Foi o que pensei. A n�o ser que teja querendo um papo
contigo.
� Comigo n�o fala mais. 0 que disse no apartamento � definitivo.

� Se tiver a fim de ajudar?
� Detetive Galv�o n�o ajuda ningu�m; mal pode se ag�entar
nas pernas.
� Pelo que vi, saiu de cara cheia!
� Quero que se dane; que v� curtir seus remorsos no inferno!
� Por que remorsos?
� J� se envolveu em poucas e boas! Mam�e morreu amargurada.
0 gar�om traz a conta. Toninho paga, levantam-se, Sandra segurando
o gravador pela al�a.

� � leve. N�o pesa um quilo!
� S� tem de ter cuidado pra n�o levar pancada: quebra f�cil.
� N�o vou andar com ele fora da capa. Nunca!
� T� mesmo disposta a ver o que fa�o?
Sandra sorri, beija-o de leve no rosto.
� N�o deve haver segredos entre n�s.
Seguem pela avenida pouco movimentada, os �ltimos bares fechando,
muitas vitrines apagadas. Um t�xi surge distante, Toninho
faz sinal.

� Farme de Amoedo!
� Pensei que fosse mais longe � diz Sandra acomodando-se
no banco.
� � l� que param alguns caminh�es. Os outros v�o pro Posto
Seis,
Lido e uma p� de lugares.
Sandra fala a respeito da can��o que come�ou a treinar.

� Quando se voltar, quero que ou�a!
Toninho n�o responde. Olha as ruas sem movimento, o interior
do carro cheio de enfeites. O tipo que est� no volante � branco e
forte, cabelo cortado rente. N�o parece motorista de t�xi. Ao mesmo
tempo compreende o quanto andava cismado. Aquela de utilizar Sandra
constitu�a recurso extremo. Sentia que o cerco estava fechando,
que o detetive Galv�o e seus auxiliares agiam, outros setores da pol�cia
mobilizavam-se, a coisa se confundia com a ca�ada ao matador
da mulher e do pai do sargento Beto, tornava-se angustiante com a
persegui��o ao seq�estrador do filho do industrial. Todos os dias os
jornais, r�dios e emissoras de televis�o estavam cobrando uma solu��o
para tantos crimes. N�o sabia se devia acreditar naquelas vers�es
da imprensa ou se aquilo tudo n�o passava de bal�o de ensaio, a
fim de assust�-lo. Ao mesmo tempo, o que n�o entendia, era o detetive
Galv�o ter apresentado o crioulo como sendo o matador louco.
Fotografias de Garanh�o em todos os jornais, o careta afirmando ter
fechado este e aquele. Vai ver o crioul�o pertencia � pr�pria pol�cia
e, com tal falat�rio, desejava confundi-lo. Mas se o detetive calculara
surpreend�-lo, se enganara. Depois do golpe ao lado de Sandra


estava disposto a parar uns tempos, at� Enfezado aparecer. Se o companheiro
demorasse, daria um salto a Barbacena, procuraria localiz�-
lo. Necess�rio que soubesse o quanto o caso da mulher e do pai
do sargento ouri�ava a imprensa. S� agora percebia terem agido com
precipita��o. N�o fora inteligente em concordar com Enfezado. Se
tivessem adiado o golpe, seria um problema a menos. E o pior � que
ainda havia o Diabo daquele seq�estrador azucrinando a par�quia,
obrigando os jornais a dizerem quase todos os dias que a pol�cia era
impotente diante dos inimigos da sociedade.

Sandra mant�m o bra�o nos ombros de Toninho, a mesma m�o
acaricia-lhe os cabelos revoltos. Logo que o carro se aproxima das
amendoeiras e da pra�a, manda parar.

� Por aqui t� bom, amizade!
A lampadazinha no tax�metro � acesa, o homem examina a tabela
pl�stica, Toninho abre o z�per do casaco, o ru�do � curto e seco.
segura a arma, antes que Sandra possa perceber o que se passa, aciona
o gatilho, o estalo perde-se alto na noite, � logo encoberto pelo
barulho dos carros que passam na pista principal, das britadeira;
abrindo mais um buraco em alguma rua pr�xima.

0 chofer tenta erguer-se, o sangue descendo da lesta, Toninho
segura-o pelo blus�o, a outra m�o procura o dinheiro nos bolsos, no
porta-luvas e por baixo do tapete. Vai pegando as c�dulas, enfiando-
as nos bolsos do casaco, sem que perceba Sandra p�s-se a chorar,
abriu a porta do carro, saiu correndo, at� encontrar o poste, onde se
encostou, cabe�a tonta, olhos n�o querendo acreditar no que viam, o
est�mago se contraindo e, finalmente, a crise de v�mito. Toninho
segura-a pela m�o.

� P�ra! Ficou maluca?
Sandra promete aquietar-se mas continua a chorar, Toninho
est� com o gravador, a garota largou-o no t�xi quando saiu na carreira.


� Vamos pra praia. Se fica um pouco por l�.
Sandra quer livrar a m�o, Toninho segura, aperta-a.
� Queria ver como arranjo grana, n�o queria?
0 choro de Sandra aumenta, atravessam as pistas inteiramente
desertas, Toninho olha para tr�s, o t�xi longe, lanternas acesas. Quando
os dois somem, o mendigo que se abrigara junto ao tapume da
obra interditada afasta as folhas de jornal, aproxima-se do carro. V�
que o motorista est� morto, ouve o r�dio tocando. Pensa chamar um
policial, decide ir embora. 0 melhor seria distanciar-se. Com as folhas
de jornal dobradas de qualquer jeito debaixo do bra�o procura
outro abrigo, mas est� certo de que no dia seguinte iria � Delegacia,
a fim de dizer que os matadores sa�ram correndo na dire��o da


praia; o rapaz magro e alto, a mo�a de uns 18 anos. 0 mendigo
anima-se. Pela informa��o poderia ganhar alguma coisa.

Sandra escapa de Toninho, p�e-se a correr, o garoto acompanhando-
a. Chegam � praia, puxa-a pelo bra�o, atiram-se na areia.
A� o choro de Sandra aumenta. Encosta a cabe�a no ombro do namorado,
maldiz-se da sorte.

� Por qu�? Por qu�?
Toninho n�o sabe como responder, limita-se a mandar que cale,
trate de raciocinar.

� N�o quero pensar em nada, n�o quero mais lhe ver. Vou
devolver seu toca-discos, n�o quero esse gravador.
� Deixa de ser besta � diz Toninho irritado. � Acha que
os que t�o fazendo fortuna por a� agem diferente? Pois fique sabendo
que n�o. Apenas usam outros m�todos que n�o posso usar.
Sandra continua a sacudir a cabe�a, como que n�o aceitando
aquelas desculpas, Toninho beija-a, acaricia-lhe o rosto. Ap�s algum
tempo parece melhor.

� A primeira vez � sempre assim; depois se torna h�bito. Um
trabalho como outro qualquer!
� N�o quero falar nisso; vou tomar uma condu��o, desaparecer.
� N�o seja boba. T� pra amanhecer. Se pode passear pela praia,
esquecer
o que houve.
Sandra encara Toninho.

� Por isso que o detetive Galv�o t� indo na boate. Quer te
agarrar!
Diz isso como se tivesse tomado s�bita consci�ncia de um grave
problema e, agora, muito mais grave porque, de uma forma ou de
outra estava envolvida, participara de um assassinato a motorista de
t�xi.

� N�o tem bronca. Ningu�m vai te arrochar. 0 caso � todo
comigo!
Sandra controla-se o m�ximo que pode, ajeita os cabelos.

� Quantos motoristas j� matou?
O garoto brinca com as teclas do gravador.
� N�o sei; procuro n�o lembrar!
� E consegue?
� Claro. Tenho mem�ria fraca. Nunca sei o que comi ontem,
quanto mais. . .
� Pois n�o vou esquecer. Lamento que tenha estragado nosso
plano, la ser t�o bonito!

TR�S

Toninho mete-se no chuveiro, no barulho da �gua que cai o
choro de Sandra, palavras em voz tr�mula, indaga��es que o inquietavam.


� Por qu�? Por qu�?
Imposs�vel dizer-lhe. De uma coisa estava certo: n�o poderia
dar com a l�ngua nos dentes, ainda que quisesse. A manobra, sugerida
pela pr�pria Sandra, terminava com toda e qualquer d�vida a
seu respeito. Dificilmente teria coragem de procurar o pai. contar-lhe

o que fizera, com um cara que a pol�cia inteira procurava. A partir
dali, sim, teria certeza da briga de Sandra com o detetive ou a confirma��o
de que tudo n�o passava de conversa fiada.
Caminha pelo largo corredor, envolto na toalha, as portas fechadas,
ningu�m iria v�-lo, se dona Berta soubesse era capaz de
criar problema. Termina de enxugar-se no quarto, olha-se no espelho,
abre os bolsos do blus�o, confere o dinheiro. Pega os documentos do
motorista, v� logo que se tratava de um policial. N�o se enganara.
Desde o primeiro instante sentiu que. de motorista, n�o tinha nada.
O detetive Galv�o ia espumar de raiva. Tem vontade de rir. � noite
daria um jeito de entrar na boate, esconder-se num canto, ficar vigiando.
Se aparecesse, conversasse com Sandra, ent�o n�o havia d�vida:
os dois transavam, ele n�o passava de um idiota que ainda
teria uma chance � sumir de circula��o, at� poder reaparecer, ajustar
contas com a garota.

Sobre a cama, al�m dos documentos do chofer, das c�dulas
amassadas, de alguns d�lares e um cord�o de ouro. o gravador que
Sandra recusou levar. E logo no momento em que estava t�o interessada.
Isso afeta Toninho. N�o entendia aquela repulsa. Por que
confundir as coisas? Conversaria com ela. Se n�o conseguisse falar-
lhe na boate, esperaria no barzinho ou subiria para seu apartamento,
t�o logo o porteiro grandalh�o se descuidasse. 0 que n�o fazia sentido
era ficar com aquele gravador. Estava certo de que iria entender.
A retirada dos documentos ajudava a confundir a a��o dos policiais:
e como ajudava! Caso Sandra desse com a l�ngua nos dentes teria
tempo de escapar. N�o acreditava fosse louca de fazer isso mas, o
melhor seria tomar as precau��es. Nada de ingenuidade, confiar
numa garota que chorava � toa, se descontrolava, entrava numa
crise de pessimismo, como se o motorista fosse seu parente.

� � meu �ltimo caso!
Sandra olhava-o, sabe que n�o acreditou. No estado em que
estava, toda tr�mula, n�o podia acreditar. Quando a levou para o
t�xi que os deixaria em casa, teve dificuldade em cont�-la. A todo
instante queria chorar, Toninho falando, falando, a fim de distra�-la.


Ainda pensando em Sandra, nos seus olhos lacrimejantes, nos
cabelos esvoa�ando na madrugada quente, abre o cofre por baixo do
guarda-roupa. 0 bolo de dinheiro cai. Junta as c�dulas, examina se
a porta est� bem fechada, p�e-se a conferir. Aquilo o agradava. Havia
bastante. Se o pai aparecesse, poderiam se mandar. Daria para
comprar o peda�o de terra. Nunca mais retornaria � cidade ou s�
apareceria anos depois, quando estivesse bem situado. Sandra n�o
iria reconhec�-lo, o detetive Galv�o estaria velho ou teria morrido
de desgosto. Al�m do dinheiro havia pequenos objetos: o rel�gio com
pulseira de ouro, o anel de pedra, cujo valor desconhecia, o cord�o
de ouro com crucifixo, tudo bem pesado, naturalmente valendo uma
boa nota. Eis o resultado de um trabalho intenso e mil planejamentos.
Chegara a um ponto em que n�o podia mais tomar t�xi sozinho.
Duas noites seguidas fizera sinal, os carros se aproximavam, de repente
o motorista engrenava uma segunda, ia embora. A� come�ou
a se preocupar. Haveria alguma dica a seu respeito, ao seu tipo f�sico?
Imposs�vel! Os motoristas estavam desconfiando de todo mundo
depois das 10. Por isso fora oportuna a exig�ncia de Sandra. Lamentava
apenas que fosse fraca, n�o topasse participar. Poderiam, juntos,
dar uns quatro ou cinco golpes, at� que conseguisse descobrir uma
outra maneira de abordar os pilantras. Estava certo de que a �poca
ainda era boa, principalmente quando os profissionais sabiam haver
tiras rodando, a fim de surpreender o matador louco. Ora, com tanta
vigil�ncia, que chofer recusaria um casal de namorados? Custou
a bolar isso e Sandra estragava tudo, com sua choradeira, as crises
de v�mito, a impossibilidade de entender que necessitavam de dinheiro
e aquele era o meio de obt�-lo. Guarda as c�dulas, j�ias e
armas no cofre. Estira-se na cama, recorda a cara de dona Berta
quando o viu entrar. L� pelas 10 sairia para comprar os livros, os
cadernos. Aquela mulher teria de entender que, at� tarde da noite,
dedicava-se aos estudos. Um dia. como que por esquecimento, deixaria
um dos cadernos na portaria, a fim de que pudesse ver. Na
capa o nome de um col�gio qualquer.

Ouve passos no corredor, sabe que � o faxineiro. Ainda est�
cuidando da limpeza da cozinha, da lixeira. Aquele homem trabalhava
como burro de carga, ganhava micharia. Exatamente aquilo
que procurava evitar, Sandra sem poder entender. Quem pensava
que era? Uma infeliz que ficava nua na frente de uma quantidade
de imbecis, a fim de sobreviver. E quem tinha pena? Quem procurava
evitar que continuasse naquilo? Ningu�m. Se n�o se virasse, se
n�o tentasse o est�dio de grava��o, estaria perdida. Mais cinco anos
e j� n�o interessava. Apareceria outra mais novinha, mais bonitinha,

o corpo bem feito, Sandra jogada aos pap�is de segunda ordem. Ser�
que n�o compreendia? Procuraria falar com ela. Iria ao apartamento,

n�o aceitaria que devolvesse o toca-discos, levaria o gravador. Precisava
dele.

Al�m dos livros, dos cadernos, da ida ao apartamento de Sandra,
sabe que � o momento de um bordejo pela constru��o. Necess�rio
falar com Man� Cabreiro, saber se Enfezado apareceu. Caso contr�rio
teria de subir o morro, encontrar-se com mestre T�bor, tentar alguma
informa��o. Se de todo fosse imposs�vel, iria a Barbacena. O que
tinha a dizer-lhe era simples: n�o botar os p�s no Rio, t�o cedo, n�o
dar bandeira onde quer que estivesse, pois a pol�cia inteira estava
de sobreaviso, ordem de peg�-lo de qualquer jeito, vivo ou morto.
Havia at� detetive particular oferecendo-se para entrar no caso, a
fim de ganhar promo��o na imprensa.

Toninho tem d�vida se Enfezado n�o estaria sabendo daquilo
tudo. De qualquer forma, conversaria com mestre T�bor. Subiria �
noite, antes de procurar Man� Cabreiro, evitaria ser visto por seu
Greg�rio. Cansa desses projetos, fixa-se no rosto ensang�entado, no
tipo branco e forte, m�o de dedos grossos querendo abrir a tampa
do porta-luvas. Quando Toninho abriu, antes do dinheiro, o que encontrou
foi um 38 carregado.

Estendido na cama, m�os cruzadas por baixo da cabe�a, ocupava-
se com o detetive. Depois daquela, perderia o posto. N�o adiantava
estar mostrando Garanh�o como o matador louco, quando os crimes
continuavam acontecendo e o tal do bandid�o estava atr�s das grades.
No m�ximo podia inventar que seriam os comparsas do crioulo, mas
isso terminaria soando falso. Ah, que vontade de ler os jornais da
tarde, acompanhar o notici�rio da televis�o. Iria para o bar, numa
hora em que o portugu�s estivesse vendo o "Jornal Nacional." Naturalmente
o detetive apareceria, os rep�rteres perguntariam como
explicava um criminoso preso, se a onda de crimes n�o havia diminu�do?
Galv�o n�o teria muito o que inventar. E se Enfezado continuasse
bem escondido, aquela situa��o poderia prolongar-se, at� que
tivesse meios de encolher as garras. A�, sim, o detetive ia poder sobrecarregar
o crioulo. Talvez, por essa �poca, o melhor fosse tentar
localizar o pai, iniciar um outro neg�cio com Enfezado. N�o faria
mais grandes despesas; apenas continuaria soltando gorjetas a Chocolate,
a fim de poder freq�entar o Bar-Boate--Bacar�. Se preciso fosse,
faria isso uma semana inteira, at� o detetive aparecer. Saberia se
Sandra odiava de fato o pai.

Olha as paredes empoeiradas do quarto de teto alto, forro pintado
de branco, sabe o quanto estava seguro ali. A Pens�o Su��a
bem mais em conta, se transformara num tumulto, ningu�m se entendia,
ningu�m sabia quem era dedo-duro, quem n�o era. Uma boa
op��o. Tivesse ido para l�, agora estaria em sobressalto. E precisava
de calma para raciocinar, acompanhar as perip�cias do detetive. No
dia em que apresentou Garanh�o aos jornalistas, terminou aclamado


como her�i. Na manh� seguinte estava perturbado: outro motorista
apareceu morto. Houve um jornal que p�s em d�vida o trabalho do
policial e admitiu que Garanh�o n�o passava de um delinq�ente,
destinado a bancar os crimes. Ao mesmo tempo os l�deres sindicais
voltavam a reunir-se. a fim de articular a greve, pois a pris�o de
Garanh�o n�o estava significando coisa alguma, enquanto o delegado
Paranhos afirmava que, agora, os matadores seriam os c�mplices do
marginal detido. N�o fosse o desacerto com Sandra, teria muito do
que rir. Todavia, se agira correto por um lado. envolvendo-a nas
suas atividades, por outro abrira uma grande d�vida: Sandra ficar�
calada ou acaba comentando o que viu? Essa suspeita, n�o havia
como negar, ia crescer, assust�-lo, tirar-lhe o sono. Ao mesmo tempo,
poderia ser a forma correta de ter algu�m que poderia saber dos
passos do detetive Galv�o, era s� querer. Por que n�o cham�-lo para
um jantar no barzinho, tomar canja quente com vinho? Estava certo
de que se abriria. Louco como andava pela reconcilia��o com a filha,
falaria. E contaria como vinha fazendo naquele caso, dos mais complicados
que j� enfrentara. Quando fosse embora Sandra daria o recado.
A n�o ser que estivesse fingindo c, nesse caso, teria mais um
acerto a fazer, n�o podia era deixar que lhe entregasse de bandeja.
N�o. Sandra n�o ia tra�-lo. Alguma coisa lhe dava essa certeza. Naturalmente,
ficou atordoada quando ouviu o disparo e mais ainda
quando o homem tentou espichar o bra�o, o sangue saindo da fronte.
Devia ter mandado que saltasse primeiro. Assim n�o teria sofrido
tanto impacto. N�o saberia direito o que havia ocorrido. Mas, agora,
n�o adiantava queixar-se. Caldo derramado n�o se pode juntar. Subiria
o morro, procuraria mestre T�bor. talvez soubesse da posi��o
de Enfezado. � noite falaria com Man� Cabreiro, acertaria o jogo de
cartas para s�bado, demoraria na boate, a fim de acompanhar melhor
os movimentos de Sandra. Quem sabe n�o poderia convid�-la para
a mesa? Se n�o fosse poss�vel, por causa de algum cliente chato, tra


taria de encontr�-la no barzinho.

Enfia-se nas roupas, p�e a chave do cofre no bolso, sai do elevador
no sagu�o amplo e de mosaicos limpos, dona Berta olha-o. faz
arzinho de riso. Procura corresponder mas n�o sabe bem as inten��es
da mulher, quando retornasse traria os livros, cadernos, se encostaria
no balc�o, puxaria conversa. S� para que visse o material;
para que soubesse estar ocupado � noite com os estudos, por isso
acordava tarde, mas tinha sempre in�meras tarefas a cumprir. N�o
podia de forma alguma confundi-lo com um malandro, como todos
aqueles que passavam as tardes na entrada da Pens�o Su��a, matando
piolhos e co�ando perebas. Era diferente. Tinha muito o que
fazer, n�o perdia tempo. Nas folgas dobrava-se sobre os livros. Bastava
que o faxineiro Jos� o visse lendo, um dia que fosse, e toda a
pens�o ficaria sabendo.


QUATRO

Toninho enfrenta a manh� de sol e ventos sacudindo as copas
verdes das �rvores, com grandes preocupa��es. N�o conseguia afastar
a hip�tese de Sandra ter realmente se assombrado com o que fizera.
Chega � banca de jornais, l� estavam as fotografias do motorista. Na
volta, depois que tivesse adquirido os livros e os cadernos, compraria
os jornais, as revistas que falavam dos diversos casos, inclusive do
seq�estro do filho do industrial. P�ra no bar do portugu�s, toalhas
azuis e vermelhas nas mesas, pede omelete e arroz.

� T� sem apetite?
� Acho que � o calor. Nesse tempo, quanto menos se comer,
melhor.
Na verdade Toninho n�o se sente bem; a preocupa��o com Sandra
� constante, n�o sabe se � noite leva o gravador ou n�o, termina
concluindo que, primeiro, trataria de convenc�-la do seu objetivo,
para em seguida falar no gravador. N�o podia parecer estar querendo
compr�-la com aquela porcaria.

0 gar�om traz os pratos, o chope que n�o pediu, p�e-se a beber,
pessoas apressadas entrando e saindo, a registradora retinindo, cada
vez que era acionada, Toninho calculando o dinheir�o que o galego
fazia com o bar, a vida agitada por�m segura, sem trope�os, sem
sustos. Acordava de madrugada, abria o neg�cio, fechava depois da
meia-noite. Nunca tivera oportunidade de jantar por ali, mas o gar�om
o convidara diversas vezes. Olhava os an�ncios, os pre�os, os
pratos mais variados.

Quando sai do bar continua pela rua arborizada, n�o tem vontade
de tomar �nibus nem t�xi. H� muitos meses n�o passava por ali,
tinha bastante tempo para esticar as pernas. Chega � pra�a atravancada
de carros, de homens apressados com pastas nas m�os, de
mulheres descabeladas, suadas, velhotes caqu�ticos pedindo esmola,
escornados no ch�o, canelas com grandes feridas, moscas sobrevoando,
filas de �nibus se alongando nas cal�adas.

Na papelaria escolhe os livros. Vai pegando, colocando sobre

o balc�o. Um de Geografia, outro de Hist�ria Geral, um de Matem�tica.
Junto aos livros os cadernos volumosos, uma caneta, alguns
l�pis, um apontador. 0 rapaz de unhas polidas faz o embrulho, Toninho
se impressiona com a lentid�o do mo�o, os gestos l�nguidos a recordar
Marlene. Sai da papelaria com vontade de seguir para o morro.
Alguma coisa lhe dizendo que aquela seria a melhor hora. Passa na
casa que vende artigos de couro, procura a bolsa que sempre desejara
ter. Uma com al�a forte, que pudesse usar a tiracolo. Escolhe a pri

meira. a segunda, fixa-se na de cor bege. fivela discreta. 0 negociante
abre, mostra as divis�es, Toninho mede os livros, v� que d� para
guard�-los perfeitamente, n�o precisava ficar para cima e para baixo
com aquele pacote. Decide-se pela bege, diz ao homem que n�o precisa
embrulho, pois ia come�ar a us�-la imediatamente, p�e dentro
os livros, os cadernos, entrega a c�dula de 500, espera o troco. Gostaria
que Sandra o visse, assim, � noite, quando fosse � boate, iria
com a bolsa. Queria sua opini�o.

Vai para a fila do �nibus, mete-se no meio das pessoas, passa
pela roleta, senta do lado da janela. Por mais que se esforce para n�o
pensar no que aconteceu de madrugada, nos gritos de Sandra, nos
v�mitos, no choro surdo, n�o consegue. Procura distrair-se com a
paisagem, as ruas de muito movimento, em cada canto o que v� � o
rosto manchado de Sandra, a cabe�a ensang�entada do homem branco
e forte, um policial disfar�ado de motorista. Quando saltasse do
�nibus compraria os jornais ou deixaria para a volta do morro? Melhor
na hora que descesse. Em Copacabana as bancas ficavam abertas
at� tarde. O que n�o podia perder era o notici�rio na televis�o, �s 8.
Queria s� ver o que iam dizer, o que tinha o detetive Galv�o a declarar.
Ou ser� que amoitaria o caso? N�o havia pensado nisso. Apenas
alguns jornais divulgariam, o fato n�o seria levado � televis�o.
Uma coisa a confirmar. Mais um motivo para n�o perder o notici�rio
das 8. Ficaria nas cadeiras onde os velhotes costumavam acomodar-
se, horas e horas, at� que se levantavam para jantar. Uns retornavam,
outros iam direto dormir.

Quando o �nibus chega na Avenida Princesa Isabel Toninho
manda parar. Sabe que a subida do morro � distante, mas tem tempo
de sobra. Caminha olhando as lojas de autom�veis e motocicletas.
Ah, como gostaria de ter uma daquelas motos. Se conseguisse dinheiro
e tranq�ilidade, mais para frente � o que faria: andar montado
numa m�quina possante, poder chegar rapidamente aos lugares.
Mas, para que tanta pressa? N�o. N�o cairia naquela de exibicionista.
O neg�cio era fazer o dinheiro aumentar e n�o reduzir, comprando
bobagem. Com esses pensamentos e os olhos cheios das imagens
daquele dia de sol quente, muita gente indo e voltando da
praia, alcan�a o princ�pio da ladeira; a mesma ladeira de tantos e
tantos anos, as pedras esbranqui�adas, algumas siglas pintadas de
preio, dos tempos em que havia elei��o, os arbustos, o capim de folha
larga e logo na frente a cerca do barraco abandonado.

Do barraco em diante o caminho estreita, torna-se viela, que
mal dava para um carro passar. E assim mesmo s� passava num dia
como aquele. Na primeira chuva a ladeira ficava escorregando, n�o
tinha autom�vel que subisse. O portugu�s que foi com o Pacard, para
o enterro da m�e, deu sorte. O sol estava bonito. E ainda assim o
desgra�ado do cara reclamando o tempo todo, azucrinando a paci�ncia


de mestre T�bor, exigindo mais dinheiro pela corrida, seu Greg�rio
dizendo que isso n�o era problema. E cada vez que sobe aquela viela
mais se lembra das coisas, de tantas coisas, das flores que vov�
Jandira trouxe do quintal, das margaridas de dona Julinha, das casquinhas
de ovo na ponta das estacas, do pai vestindo-se �s pressas,
os documentos que deixou na ponta da mesa, da m�e gemendo alto
e ela sem saber o que fazer, do projeto do guando e da jurubeba, o
terreno com algumas �rvores ou sem nenhuma, porque o pai dissera
que podiam plantar bananeiras em volta e conseguir bastante sombra.
Necess�rio que o terreno fosse bem arborizado. Seria uma decep��o se
chegasse e visse apenas mato rasteiro, capim-manteiga, carrapateiros,
vassourinha. A planta��o do pai ia ser diferente. Al�m do guando e
da jurubeba, haveria �rvores com frutas, onde no final das tardes se
juntaria a passarada. N�o precisaria nem ter gaiola, eles estariam
permanentemente por ali, comendo as mangas, os cajus, sapotis e
rom�s. Nunca vira uma rom�zeira mas o pai muito lhe falara desse
arbusto e tamb�m dizia que o ch� da casca de rom� servia para
uma por��o de doen�as, principalmente dos rins e do f�gado. Vai
ver, se j� estivessem por l�. a casa cercada de rom�zeiras, a m�e n�o
teria morrido.

Perto da tendinha de seu Greg�rio esgueira-se para n�o ser visto.
Quando o homem vai para a puxada onde havia a mesa de sinuca,
atravessa. Apressa o passo, n�o v� o tipo gordo dormindo na esteira,
chega ao barraco mais velho, t�buas enegrecidas, surpreende-se. As
t�buas da porta est�o afastadas. Mesmo assim, bate, est� certo de
que mestre T�bor anda por perto. Como n�o aparece, d� a volta pelos
fundos, l� estavam as panelas e a colher bastante suja, galinhas mariscando
e sobre toda a favela aquela calma que o morma�o de uma
tarde quente imp�e. Para onde mestre T�bor ter� ido? Seria o dia
de receber a pens�o? Naturalmente era isso. Mas, por que deixara a
porta aberta? Se chovesse o barraco ficaria alagado. Entra, o que v�
onde estivera in�meras vezes, assusta-o. A mesa virada, a lata com
farinha, derramada no ch�o. a cadeira quebrada. Entendia perfeitamente
o significado daquilo. Algu�m veio ver o velho, levou-o �
for�a. E esse algu�m s� podia ser Banda Branca. Alarma-se de n�o
estar com o rev�lver. Se o alcag�ete surgisse de repente, n�o teria
chance de defender-se. seria arrastado como um cordeirinho. N�o
podia mais andar desarmado. Quando menos esperava, acontecia uma
daquela. Ser� que seu Greg�rio falaria a respeito? Ser� que Banda
Branca estaria por perto, esperando Enfezado aparecer ou aquilo j�
ocorrera h� dias? N�o gostaria de entrar na tendinha mas era o jeito.
N�o acreditava que vov� Jandira soubesse daquelas coisas e muito
menos dona Julinha e dona Zizinha. Quem sabia dos boatos por ali
era o birosqueiro e com ele ia falar. N�o perguntaria nada. Deixaria
que se alongasse, como geralmente ocorria. E se seu Greg�rio n�o


passasse, de fato, de um aliado do alcag�ete? Um risco que teria de
correr. Se percebesse algo de errado, iria apanhar o rev�lver, se entenderia
com Banda Branca. Queria encontrar Enfezado? Pois diria
saber onde estava. Com uma condi��o: tem de ir sozinho comigo.
N�o confio nos teus coleguinhas. De duas, uma: ou Banda Branca
corria o risco, ou se mancaria. Pensa bem na proposta, desiste. Se n�o
pudesse segurar Enfezado, terminaria prendendo-o, seria arrastado
para o pau-de-arara, confessaria o que os tiras bem entendessem.
N�o. N�o podia se precipitar. Teria de surpreender Banda Branca.
Faria como Enfezado. Perderia alguns dias no seu rastro. Onde vai
quando desce o morro, o que faz durante o dia, onde se diverte, em
que bar toma pingas? Isso, sim. 0 caminho correto. E disso n�o falaria
a ningu�m, muito menos a seu Greg�rio.

� Vim ver o pessoal que t� querendo comprar o barraco. Tomara
que d� certo!
Seu Greg�rio despacha o garoto com a lata de �leo, fala baixo
como se estivesse contando um segredo.

� J� lhe disseram?
Toninho sacode a cabe�a, finge preocupa��o.
� Uns caras baixaram no barraco de mestre T�bor, levaram o
homem!
� Ningu�m viu?
� Foi de noite. Tarde da noite. A viatura ficou perto da casa
de dona Zizinha.
� Quem eram os caras?
Seu Greg�rio sorri.
� Quem podia ser, sen�o os coleguinhas do Banda Branca!
� Ser� que deu essa mancada?
� Mancada, coisa nenhuma. Cada dia o diabo do alcag�ete t�
mais forte, arrochando a gente. Tem um fiado aqui comigo, quando
falo em cobrar acha at� gra�a.
� Enfezado vai arrancar o couro dele!
Seu Greg�rio volta � posi��o em que falava, como se contasse
segredo.

� Acontece que vieram aqui, exatamente � procura do garoto.
N�o acharam, arrastaram o velho.
� E o que foi que aconteceu com ele?
� Quem sabe. Tou esperando Banda Branca pintar.
� Ser� que diz?
� Pra mim n�o nega logo. Do contr�rio, ferro ele nas costas.
Toninho pede o refrigerante, seu Greg�rio abre a garrafa.
� Quem viu os caras arrastando o velho?
� N�o sei se L�dio Gordo apenas viu ou se ajudou. Te lembra
dele? T� cada vez mais amigo de Banda Branca.

Toninho sorri. Dessa novidade n�o sabia. Por que n�o ter uma
conversa com L�dio Gordo, mostrar de quantos paus se faz uma canoa?
Sabia facilmente como localiz�-lo na cidade. E se continuava
amigo do alcag�ete, por que n�o admitir que se encontravam com
freq��ncia? Afinal L�dio Gordo era um veterano contrabandista,
pouca gente o topava no morro. Para manter seu neg�cio, sem problemas,
ajudava Banda Branca na deduragem. Agora, est� satisfeito
de ter entrado na birosca. Sentiu, pela primeira vez. que seu Greg�rio
n�o estava com segundas inten��es. Ou houve algum problema
entre ele e Banda Branca? Ia saber dessa hist�ria direito. Passaria
pelo barraco de vov� Jandira, visitaria dona Zizinha. Quem sabe
ainda havia detalhes que o birosqueiro n�o queria relatar?

� Tive no barraco dele, t� um ninho de rato.
� Acabaram com tudo. Dizem at� que tentaram tocar fogo.
Banda Branca n�o deixou.
� Ou era ele que queria acender o f�sforo?
Seu Greg�rio ri.
� N�o sei como aquele tipo ficou t�o ordin�rio, assim!
� Pois eu sei. Foi sempre filho da puta. � que n�o tinha como
mostrar as garras. Agora t� se largando. Pouco a pouco vai sumindo
com as pessoas que n�o gosta, fica por isso mesmo.
� �! Acho que t� mexendo com pedra demais. Uma delas
termina caindo na cabe�a dele!
� E tomara que achate. Aquele bicho merece ser arrastado
debaixo de um trem.
� Quando entra aqui, fico o tempo todo me g�entando.
Toninho tem vontade de falar na surpresa que reserva para
Banda Branca, n�o � tolo de si abrir, como fez Enfezado. Quando se
quer agir na moita, n�o adianta cantar de galo. � melhor executar

o servi�o, depois lan�ar o boato. Se lhe perguntassem, diria sorrindo:
� T�o inventando. N�o tenho nada com isso.
N�o se abriria com o birosqueiro, embora sentisse estar sendo
sensato. Indignara-se com a sacanagem a mestre T�bor.

� Acha que vai t� logo de volta?
� N�o tenho a menor d�vida. Aquele homem nunca fez nada
contra ningu�m; nem ao menos enxerga!
Seu Greg�rio fala no pre�o do barraco, Toninho toma o resto
do refrigerante.

� N�o sei quanto o pessoal t� querendo dar. Conforme for,
lhe digo. Se tiver interessado, talvez se possa conversar. Claro, pro
senhor o pre�o � menor.
� �s vezes � melhor vender por menos, � vista, do que cair no
tal pagamento parcelado e receber apenas a primeira parte.

O birosqueiro coloca a garrafa no caixote, onde havia muitas
outras.

� E L�dio Gordo, que anda fazendo?
Seu Greg�rio torna a debru�ar-se no balc�o.
� O mesmo de sempre. Contrabando de u�sque e cigarro americano.
� Esse careta � outro. Deve fazer o jogo do alcag�ete h� muito
tempo!
� N�o sei, n�o! Tolera Banda Branca com medo de uma den�ncia.
E pode t� certo de que o miser�vel se aproveita disso.
� Cara sabido esse Banda Branca. Todo mundo � bobo, s� ele
� sabid�o. Interessante isso. 0 senhor n�o acha?
Seu Greg�rio n�o entende o alcance da considera��o de Toninho,
sorri.

� N�o gosta de ti. Do p� pra m�o, reclama. Te chama "o filho
de seu Ven�ncio."
� Ainda bem que sabe: tive um pai!
0 birosqueiro acha gra�a.
� Tou me mandando seu Greg�rio. Qualquer hora dessa apare�o.
D� uma for�a no caso do velho.
Perto do campinho sai da viela, o sol continua quente, ningu�m
por ali. Bate na porta, a mulher muito velha abre, permanece alguns
instantes � sua frente, o vestido ordin�rio, p�s no ch�o, cabelos
descuidados.

� N�o t� me reconhecendo, dona Zizinha?
A mulher faz um sorriso sem dentes, Toninho tamb�m ri.
� Ia passando, vim ver como vai. H� tempos n�o apare�o
por
aqui!
Dona Zizinha manda que entre e sente, oferece caf�.

� Com esse calor, prefiro �gua.
� N�o se tem geladeira.
� N�o faz mal. �gua do pote, bem fresquinha. A melhor que
tem!
A mulher traz o copo cheio d'�gua.

� Tou vindo da birosca de seu Greg�rio. Me disse o que fizeram
com mestre T�bor.
� Uma coisa horr�vel, meu filho! Tarde da noite, Miroel n�o
tinha chegado, ouvi o carro se aproximando. Veio vindo, cada vez
mais perto, eu pensando que tivesse com pesadelo. O que vinha fazer
um carro por aqui, �quela hora? Olhei pela fresta, tava tudo escuro.
A� fiquei imaginando: por que ser� que deixaram um carro desses
aqui?
� Que carro que era?
� Daqueles grandes, que a pol�cia bota preso.

� Cambur�o!
� Isso mesmo: cambur�o.
� Fiquei com vontade de tornar a deitar mas n�o adiantava:
n�o ia ter sono. Continuei a espiar pelas frestas, foi quando vi uns
dois ou tr�s homens, empurrando um outro. N�o deu para reconhecer
mestre T�bor.
� E at� hoje n�o apareceu!
� Ningu�m mais teve not�cias dele.
� Acha que Banda Branca tava com os caras?
� � o que t�o dizendo. Todo mundo aqui em cima vive morrendo
de medo dele.
� Depois que levaram o velho a senhora viu Enfezado?
� Nunca mais. �s vezes fico preocupada com ele. 0 que andar�
fazendo por esse mund�o de Deus?
� Tamb�m n�o vi mais.
Dona Zizinha oferece doce de manga, Toninho agradece.
� N�o chegou a ver o tal L�dio Gordo?
A mulher faz cara de quem recorda.
� N�o. Se tava com aqueles estranhos n�o deu pra ver.
Toninho enfia novamente o casaco, mete a bolsa a tiracolo, est�
decidido quanto a Banda Branca. N�o ia querer acordo, nem mesmo
para localizar o pai. 0 importante seria surpreend�-lo, lev�-lo para o
ponto ermo, onde sua lamenta��o n�o pudesse ser ouvida. L� teriam
uma boa conversa.

Sai do barraco, passa pelo jardinzinho de vov� Jandira, casquinhas
de ovo na ponta das estacas, tem vontade de entrar mas vai em
frente. Necessitava encontrar L�dio Gordo, saber se Banda Branca
andava por perto. N�o podia mais deixar aquele tipo agir como vinha
fazendo, sumindo com quem bem entendia. 0 que fizera com o
velho serralheiro correspondia � sua senten�a de morte.


Cap�tulo XV

UM

Toninho olha os jornais. Num deles a not�cia de que o cerco
estava se apertando em torno dos matadores da mulher e do pai do
sargento Beto, no outro a libera��o de alguns suspeitos de seq�estro
do filho do industrial, em todos eles as fotos do motorista branco e
forte, estendido no banco do carro. Nenhum dos rep�rteres dizia que

o "profissional" era simplesmente um tira ou alcag�ete. Toninho
percebe, mais do que nunca, que as coisas come�avam a sumir do
jornal. Nenhuma declara��o do detetive, nem do delegado.
Os jornais amontoam-se no ch�o, Toninho olha a tarde nos seus
�ltimos momentos. Que dias ensolarados que tinham feito e ele sem
condi��o de ir � praia. Mas aquilo n�o tinha import�ncia. Na primeira
oportunidade, iria. Agora, preocupava-o a frieza do notici�rio.
N�o falavam sequer na greve. Os l�deres sindicais n�o apareciam.
Ningu�m dizia nada. E o motorista morto passava como sendo
um tipo ainda n�o-identificado. Sabia o quanto estavam mentindo, o
quanto movimentavam-se nas sombras. Tinha os documentos do careta,
l� estava, muito claramente, o que fazia. Como se sentiria o
detetive Galv�o depois daquela? Retornaria � boate, tentaria subornar
Chocolate, levaria um papo com Sandra? Talvez fosse o momento
pelo qual tanto esperava. Se procurasse a filha, estava claro que
aquela zanga toda n�o passava de encena��o de Sandra. Chocolate
seria homem bastante para dar aquela dica ou teria de procurar outro
jeito de sondar a aproxima��o do detetive? N�o havia por que desconfiar
de Chocolate. Passaria uma boa nota a ele, mandaria ficar de
olho. Qual a minha? Tou dando em cima da garota, o pai n�o quer.
J� imaginou? Isso mesmo. Boa desculpa. N�o havia outra melhor.
Chocolate aceitaria.

Na hora do jantar, na Pens�o Iola, Toninho mete-se nas roupas,
ajeita os cabelos com os dedos, vai para junto do receptor de TV
ouve os lamentos da atriz em mais uma novela. Entra no bar, toma


chope sem pressa, os que bebem aguardente falam e acreditam nas
possibilidades do Flamengo. Mesmo assim, n�o consegue tirar o pensamento
da manobra que sabe estar sendo articulada. Retorna � pens�o,
senta na cadeira de vime, olha a revista, l� est� outra reportagem
sobre o caso dos motoristas, das amea�as dos l�deres sindicais,

o delegado Paranhos formulando planos. Os velhotes foram quase
todos jantar, apenas uns tr�s ou quatro continuam firmes, esperando
o notici�rio. 0 programa come�a, o locutor convocando a popula��o
a fazer poupan�a, Toninho com vontade de rir daquilo, pois os desgra�ados
n�o tinham o que comer, quanto mais! A primeira not�cia
� de um acontecimento ocorrido na It�lia, a segunda de um outro
passado na Fran�a. O locutor empostado refere-se ao temporal na
parte sul do pa�s, aos preju�zos da lavoura, na destrui��o de pontes.
Toninho alarma-se de, at� ali, o homem n�o ter dito coisa alguma
sobre a morte do falso motorista. Provavelmente, por se tratar de
fato policial, seria dado por �ltimo. Como os principais jornais costumavam
fazer: mat�ria de crime s� na �ltima p�gina e, assim mesmo,
de forma passageira. Os que se dedicavam inteiramente ao assunto,
faziam o contr�rio. Havia mat�ria de pol�cia por tudo que
era de lugar, at� mesmo entre o notici�rio internacional.
Novos an�ncios s�o feitos. 0 locutor fala nas condi��es atmosf�ricas,
na nova subida do d�lar, na queda do cruzeiro, nas a��es da
Bolsa e por a� a coisa termina. Volta ao quarto um tanto decepcionado.
0 que estariam aqueles putos arquitetando? Estira-se na cama.
Sabe que boa coisa n�o era. 0 importante seria procurar L�dio Gordo

o mais depressa poss�vel e, atrav�s dele, localizar Banda Branca. Ao
mesmo tempo, por que n�o ficar esperando o alcag�ete subir o
morro? Afinal, conhecia bem o terreno, n�o necessitaria se comprometer.
L�dio Gordo n�o tinha de tomar conhecimento de coisa alguma.
Meteria a m�quina na bolsa, iria para a viela. Permaneceria
oculto por entre os arbustos, a hora em que aparecesse estava bom.
N�o tinha pressa. Se conseguisse tempo para depois ir ao barzinho,
aguardar Sandra, muito bem. Caso contr�rio, procuraria por ela na
noite seguinte ou no pr�prio apartamento. Tinha de faz�-la entender
que cada um age como sabe e neste mundo sem-vergonha s� se tem
import�ncia quando se tem dinheiro. Ser� que n�o compreendia?
Com Banda Branca eliminado o detetive Galv�o ia ter de dar a
volta por cima ou jogar a toalha. Se trabalhavam por baixo, cavando
fundo, n�o tinha d�vida de que o alcag�ete participava da jogada.
Aquilo era o tipo mais ordin�rio que j� conhecera. Ningu�m se
comparava a ele. Colher de Pau � que acertara. Tivessem acabado
com Banda Branca, como queria Banz�, agora estava livre de problema.
Por causa da recusa terminou inclusive brigando com Zebrado
e Cavalo do C�o. Se lembra bem. 0 alcag�ete aprontou uma,
depois do ensaio da escola, Cavalo pegou cana firme, passou tr�s

meses desaparecido. Mas n�o acreditou. Dif�cil acreditar no que diziam
aqueles dois. Na verdade estavam certos. Principalmente Zebrado
que n�o era de muito falar. Banda Branca n�o prestava, n�o
podia continuar perseguindo uns e outros.

Debru�a-se na janela, a noite � clara. N�o sabe se aquela seria
a melhor noite, ou se esperaria uma outra, onde apenas o vulto pudesse
ser percebido. Com aquele cachorro, todo cuidado era pouco.
Ao mesmo tempo, a claridade da lua n�o seria problema. Muito ao
contr�rio. Poderia perfeitamente avist�-lo, deixar que se aproximasse,
disparar. At� mesmo pelas costas, se fosse o caso.

Retorna � cama, olha os jornais no ch�o, sabe tamb�m o quanto
era importante falar com Sandra; tirar-lhe da cabe�a qualquer d�vida.
E se a maluca, por uma infantilidade, contasse a Solange? N�o
gostava daquela garota. Falava demais. Se soubesse de uma coisa
daquela, fatalmente o entregaria. N�o o tolerava, tinha motivos para
isso. Importante procurar Sandra. Talvez invertesse os pap�is. Se
entenderia com Sandra, entregaria o gravador, ficaria liberado duas
noites, exclusivamente para localizar Banda Branca.

� T� pensando que fa�o isso por que gosto? Se engana. Tenho
de viver, n�o vou acabar como o pai, nem como tio Donga, que depois
de 40 anos trabalhando em p�, como barbeiro, se aposentou,
ganhando menos de dois mil por m�s. J� imaginou o que s�o dois
mil? N�o d� nem pra pagar o barraco e comer todo dia.
� S� pe�o que n�o me envolva.
� Sei bem como �. N�o precisa se envolver. Passo a lhe encontrar
nas noites que marcar e quando for bem tarde.
� Acha que vai conseguir andar tanto tempo por a�?
� Claro. Se n�o cantar a pedra, tou apostando que ningu�m
sabe de nada!
� T� certo disso?
� Mais que certo. Por isso, n�o tou nem preocupado. O que
me deixou de cuca quente � que terminou ficando sem o gravador.
Pura bobeira!
Sandra est� um tanto triste, olheiras aparecendo por baixo da
maquiagem. Mesmo assim faz arzinho de riso. p�e a m�o no bra�o
de Toninho.

� Por que tinha de ser voc�?
O garoto n�o entende aquela coloca��o, logo ela disfar�a.
� Voc� me preocupa. Desde aquela noite, n�o tenho dormido
direito.
� Preocupa��o sem prop�sito. Cada um de n�s se arrisca a
seu modo. Pensa que n�o � arriscado ir pra motel com um careta
que nunca viu?
Sandra torna a sorrir.


� Sei me cuidar. N�o vou com quem n�o conhe�o. E, de uns
tempos pra c�, nunca mais fui com ningu�m.
Desta vez � Toninho quem lhe aperta o bra�o, num sinal de
agradecimento e amor.

� Logo que comece a cantar a gente se manda daqui.
� J� pensei nisso.
� Se fica uns tempos trabalhando na moita, at� aparecer.
Sandra olha distante, pela porta onde h� tanto movimento, tanta
barulheira de carros.

� Se promete partir pra outra, ainda se pode continuar. Tenho
certeza de que vou conseguir. Mas dependo do seu incentivo. Quando
me diz uma coisa, durmo acreditando nela.
� Vou parar. Me viro em outro neg�cio!
� Tenha cuidado. N�o queria cair nas garras do detetive
Galv�o.
Toninho n�o diz nada. Apenas sorri. 0 gar�om p�e os copos de
chope na mesa.

� Falou pra Solange sobre o caso?
� Por que ia falar?
� Foi o que pensei. Isso fica s� entre n�s. � nosso segredo.
� Pena que n�o seja um segredo agrad�vel.
� Nunca tive escolha; fiz o que tinha de fazer!
� N�o acredito. H� muito cara por a�, pior que voc�, batalhando!
� Mas nenhum transa com uma grande artista.
Sandra sente-se envaidecida.
� Acha que vou ter futuro?
� Com certeza. A�, j� se esqueceu o que passou.
Toninho toma um pouco de chope.
� Tenho grande facilidade de esquecer.
� Eu n�o. As coisas me marcam demais.
Toninho n�o quer prosseguir naquela lengalenga. O problema
com Sandra est� contornado.

� Sabe qual � a outra surpresa que tenho pra voc�?
A garota sorri.
� Vou lhe levar num est�dio pra gravar um disco.
� Gravar?
� Isso mesmo. Se paga, faz o disco que quiser. Vi no jornal.
� Puxa! Mas a� j� devo t� bem afinada!
� � uma experi�ncia importante.
Sandra beija-o, Toninho segura-a pelos longos cabelos, os rostos
se aproximam. V�o pela cal�ada, coberta de folhas de amendoeiras,
atravessam as pistas sem movimento, caminham ao longo do mar.

� Sabe o que se pode fazer pra conseguir dinheiro?
� 0 que �?

� Logo que teja bem treinada, vou falar com Xex�u. T� com
uma turma que pretende excursionar pelo Nordeste.
� � uma boa!
� Voc� vai com a gente.
Toninho abra�a-a, satisfeito, beijam-se, sentam no primeiro banco
que encontram.

� Nunca mais vou lhe deixar.
� Nem eu. Fiquei assustada naquela noite, exatamente por isso!
� N�o fale mais do que passou.
Sandra sacode a cabe�a sorrindo.
� Pense no que tem a fazer.
� Amanh� mesmo come�o a usar o gravador. Vou encher uma
fita inteira com a nossa can��o. Quando for l� em casa boto pra ouvir.
DOIS

Acordou depois do meio-dia. A claridade entrava pela janela,

o calor era intenso. Ficou algum tempo na cama, relembrando os bons
momentos com Sandra. A certeza de que n�o tocaria no caso do motorista
tranq�ilizava-o, dava-lhe margem a pensar em outras coisas.
Em Banda Branca, por exemplo. Tomaria banho, desceria para o
lanche ou provavelmente o almo�o, caminharia um pouco pela cidade,
talvez comprasse o r�dio, traria os jornais para ler com calma. Olha
os livros sobre a velha c�moda, os cadernos. Sairia com eles. S� para
dona Berta ver. A�, teria certeza da sua atividade. N�o precisaria
fiscaliz�-lo com aqueles olhos de peixe morto.
Debaixo do chuveiro, recorda Sandra. Da pr�xima vez iriam para
o quarto do hotel, ficariam por l� a madrugada inteira. Mandaria o
porteiro n�o deixar ningu�m incomod�-los. Talvez fosse melhor um
motel na Barra. Nada de confiar em porteiros. Isso mesmo. Iriam
para a Barra. 0 �nico problema: voltar a tomar um t�xi com Sandra.
Talvez se recusasse. Ent�o, o melhor seria deixar passar mais tempo.
At� a ferida cicatrizar. Um hotelzinho no Centro serviria. N�o demorariam.
0 porteiro n�o tinha do que desconfiar. Se por acaso Sandra
garantisse que seu Manuel n�o estava na portaria, dormiriam no apartamento.
L� sim, ficaria o tempo que necessitasse. Talvez essa fosse
a id�ia. Falaria com Sandra. Tinha certeza de que � o que desejava.

Enxuga-se, vagarosamente, como sempre fazia. N�o adiantava
pressa. 0 que tinha de fazer, dependia de cautela. Cada passo, bem
medido; cada pedra empurrada no tabuleiro, um lance definitivo.
No final, estava certo, Banda Branca ia ser engolido. Onde quer que
estivesse, mestre T�bor se sentiria vingado. Se o momento permitisse,


procuraria saber do alcag�ete o destino que tivera o pai. Nada de
errado acontecia com o povo do morro, sem que Banda Branca n�o
estivesse envolvido. Quando soubesse que a sombra maldita se apagara,
muita gente ia sentir-se aliviada. O pr�prio L�dio Gordo respiraria
ao ver-se livre de semelhante carga. N�o h� d�vida de que o
alcag�ete vinha extorquindo o que podia do homem, tudo em troca
da seguran�a que na verdade n�o tinha.

Faz a parada costumeira no restaurante com mesas cobertas de
vermelho e azul, pede omelete e arroz, chope duplo, fala no pr�ximo
jogo entre Flamengo e Vasco, o portugu�s do caixa est� sempre enfezado
mas n�o lhe parece mau sujeito, mesmo de cara feia costumava
fazer brincadeiras, contar piadas e at� dirigir provoca��es ao
gar�om, que se movimentava com extraordin�ria habilidade por entre
as mesas.

Sai do restaurante, palitando os dentes, segue pela rua de muitas
�rvores, at� a pra�a onde havia a fonte jorrando, flores se abrindo
em canteiros de verde bem-cuidado, dois ou tr�s jardineiros aparando
a grama, o cheiro de capim cortado no ar, Toninho passando por
tudo aquilo e por todo aqueles cheiros, aquelas cores, avan�ando sempre
e sempre, at� a Pra�a XV, onde encontraria L�dio Gordo. Se n�o
estivesse no Bar Garoto, estaria por perto. Aguardaria, tomaria sorvete,
olharia as barcas que chegavam e sa�am, sempre apinhadas de
passageiros, ouviria o apitar dos navios, das lanchas, sentiria o bafo
salgado do mar.

Depois de atravessar a avenida larga, com muitos carros estacionados
sobre as cal�adas, entra pela galeria mal iluminada, uma quantidade
de pequenas lojas, ventiladores girando furiosamente, porias
de esquadrias de alum�nio golfejando ar frio, letras douradas, sofisticadas,
sobre vidros de relevo, garotas maquiadas, de p�, gentis, sorridentes,
cada vez que uma dessas portas se abria para algum cliente.
Aproxima-se de uma vitrine, olha os an�ncios de homens de bra�os
peludos com os tais rel�gios infal�veis, jovens de biqu�ni esquiando
atr�s da lancha veloz, com os mesmos rel�gios, pois nem na �gua
apresentavam defeito. Negociantes filhos da puta. Tudo para obrigar

o careta a empurrar uma das portas, topar com a garota de saia justa,
cara pintada, enrtegar a nota por uma porqueira daquelas. Vai em
frente, n�o compraria jamais um rel�gio. Compraria um r�dio. Um
que pegasse esta��es locais, dos estados, do exterior. Ficaria deitado
na cama, o r�dio baixinho.
Sai da porta da loja sofisticada, vai para a rua, o sol quente, as
pessoas passam, nervosas, como se estivessem atrasadas para algum
encontro importante.

Chega finalmente � Pra�a XV, o velho pr�dio dos Correios, janelas
com vidra�as antigas, que diziam ser do tempo do Imp�rio, os oitizeiros,
pontos de �nibus, o viaduto por onde quase ningu�m passava..


folhas amareladas no ch�o, ventos frescos do mar, cobradores e motoristas
sentados em caixotes de ma��s argentinas, cuspindo de banda
e contando pilh�rias, o cheiro podre do Entreposto de Pesca, cegos e
aleijados, m�os estiradas, bocas murmurando coisas imposs�veis de
ouvir, n�o se sabe se de agradecimento ou de insulto, no balc�o do
Bar Garoto os tipos abrutalhados, uns s� de shorts e botas de borracha,
outros de blus�o fora das cal�as, chapeuzinho de feltro, mesmo
com o calor que fazia, o portugu�s distribuindo aguardente em pequenos
copos, os homens tomando de uma s� vez e esfregando os bei�os
nas costas das m�os, cambistas oferecendo bilhetes de loteria, ventiladores
no teto do bar girando como h�lices de avi�o, algumas mulheres
nas mesas, os gar�ons rodopiando.

Tem vontade de pedir melancia com presunto, como fizera o
crioul�o de muitos corrent�es no pesco�o, an�is nos dedos, pulseiras
em ambos os pulsos, cabe�a completamente pelada. Olha bem aquela
figura, camisa azul com bolinhas vermelhas, n�o tem d�vida de que
� esquisito. Ou, quem sabe, poderia ser o sujeito mais correto do mundo?
De qualquer forma, pela cara de bicho pelado que tem, o mais
seguro seria movimentar-se com prud�ncia � sua frente. Est� certo
de que n�o se assemelhava em nada aos que tagarelavam, punham
os bra�os nas cadeiras, por tr�s da mulheres, riam das pr�prias besteiras
que diziam.

Entra por uma porta, fica do lado em que havia o grande an�ncio
de cigarros, d� uma olhada r�pida, depois resolve ir ao banheiro,
a fim de poder examinar melhor o sal�o, inclusive a parte dos fundos,
onde havia a divis�o de tabique.

Caminha com vagar, l� est� L�dio Gordo, exatamente como imaginara.
Velho safado; n�o alterara suas transas. Conversava com mais
dois homens fortes, um deles mulato, cabelos estirado, ar de quem
terminara de tomar banho. Entra no banheiro, sabe que n�o perder�
L�dio Gordo de vista. Aguardar� o tempo que for necess�rio. Ali �
seu ponto, desde o tempo em que andava enturmado com Colher de
Pau, Banz� e Enfezado. Ora conversava com um, ora com outro, quando
n�o aparecia ningu�m ficava debaixo de um oitizeiro, aproveitando
a fresca da tarde e fazendo f� no jogo de bicho. L�dio Gordo n�o
mudara. Apenas os cabelos estavam praticamente brancos. Mas o ar
de safado era id�ntico ao que sempre tivera. N�o estava nunca triste.
Mantinha um sorriso constante no rosto balofo.

Abre a braguilha, ao lado de outros tipos morrinhando suor, o
cheiro do banheiro � forte, a urina corre pela calha de metal que
nunca ningu�m limpou, o ch�o pegajoso causa-lhe nojo, procura sair
logo dali, enquanto se vira j� h� dois ou tr�s caras esperando a vez,
torna a passar pelo sal�o, L�dio Gordo continua a falar, a gesticular,
a rir.


A banca de jornais, em frente ao bar, est� enfeitada de revistas,
os jornais ainda badalando a morte dos motoristas, outros preocupados
com o seq�estro do filho do industrial, a m�e do garoto querendo
contratar detetives fora do pa�s, o secret�rio afirmando que isso n�o
seria poss�vel, n�o iam permitir.

Toninho coloca-se de um lado da banca, p�e-se a perceber a malandragem
do velho jornaleiro. Certos tipos que chegavam, recebiam
dele um jornal e alguma coisa por dentro. N�o conseguiu saber o que
era mas os tipos vinham com freq��ncia. E, mais tarde, quando j�
estava sentado no batente da porta que n�o abria, come�ou a entender
que os tipos que haviam "comprado jornal" tornavam a aparecer,
compravam de novo, iam embora. Tem vontade de rir, sabe que � a
transa dos traficantes de entorpecentes. Eis ali o neg�cio que sempre
imaginara. Falaria com Enfezado. Na moleza, o velhote devia
estar fazendo um nego��o, enquanto a canalha se arrebentava no sol
quente, ele pr�prio arriscando-se a tomar t�xis, altas horas da noite.
Velhote sabido. 0 que menos interessava eram aquelas revistas e aqueles
jornais pendurados: s� para ingl�s ver.

Quando os caras deixaram de aparecer, o velhote sentou-se, abriu
uma revista. Foi a� que parou o autom�vel de luxo, saltou a mulher
loura, levou a revista. Tem absoluta certeza de que a mulher nem ao
menos abriu a boca. Aquele era o neg�cio. Procuraria Enfezado, t�o
logo a onda passasse, tratariam de entrosar-se. N�o podia ser dif�cil.
Se aquele velhote estava na jogada, quanto mais! O carro todo de
niquelados desloca-se, lentamente, Toninho fica se sentindo um imbecil.
Tanto suor, tanto sacrif�cio, a maluquice de Sandra na carreira,
a cara dos motoristas assustados, querendo dizer alguma coisa,
olhos saltados, noites de inquieta��o na cama, o sono sem chegar, e
aquela dona saindo calmamente, numa transa alta, onde devia correr
muito dinheiro e n�o aquela mis�ria de 500 e mil, c�dulas amassadas,
c�dulas suadas, grana de um bando de fodidos que dava at�
azar.

Depois que a mesma barca foi e voltou a Niter�i, duas vezes, o
mulato, cabelos espichados, apareceu na porta. Atr�s dele, L�dio Gordo
e outros caras atarracados. O mulato bem penteado tinha um palito
na boca, L�dio Gordo continuava a falar. Era, do grupo, o que
mais falava. Parecia ter um intermin�vel assunto. Toninho permaneceu
sentado no batente, L�dio Gordo n�o podia reconhec�-lo.

Os homens andaram por baixo dos oitizeiros, ainda conversaram
certo tempo, at� que parou o Gal�xie, com motorista e tudo, foram
embora. L�dio sentou na caixa de ma��s argentinas, como faziam os
motoristas e cobradores de �nibus, ficou olhando a rua. Imaginou aproximar-
se, depois decidiu aguardar o que fosse poss�vel, pois era bem
capaz de Banda Branca aparecer. Esperou quase uma hora. L�dio
Gordo j� estava de p�. Aproximou-se do carrinho de refrigerantes,


tomou uma coca-cola, voltou a sentar no caixote de ma��s. A�, entendeu
que o melhor seria falar-lhe. Colocou a bolsa a tiracolo, atravessou
a rua, passou pelo primeiro p� de oitizeiro, os p�ssaros cantando,
ru�dos da cidade por todos os cantos, pessoas apressadas, filas
de �nibus encompridando-se, rumor das barca�as chegando e partindo.

� Como �, seu L�dio?
O homem surpreende-se. Faz cara de espanto, ao mesmo tempo
em que deseja rir.

� De onde me conhece?
� L� do morro. O senhor tava sempre descansando na esteira.
� N�o me lembro de voc�.
Toninho pega um dos muitos caixotes de ma��s, senta em frente
a L�dio Gordo. O homem n�o se incomoda com isso mas continua
surpreso, n�o entende o porqu� daquele garoto ali, no meio da tarde
e;lara e de tanta movimenta��o.

� Sou filho de seu Ven�ncio!
L�dio faz cara s�ria. � um dos �nicos momentos em que n�o acha
gra�a e, por isso, Toninho percebe algo de estranho com aquele tipo
que passou horas sorrindo com os comparsas. Ficar s�rio, perder a
gesticula��o, esquecer as palavras, era coisa que s� acontecia a L�dio
Gordo em momento de apertura. Seria aquele um momento de apertura?


� Seu pai apareceu?
Toninho sacode negativamente a cabe�a. N�o podia mentir �quele
tipo que devia saber mais do que aparentava.

� Por onde anda?
� Trabalhando numa firma de contabilidade. Moro em Santa
Rosa.
� Conhe�o Santa Rosa. Bom lugar.
� Pois �. Tou por l� com um tio.
� N�o procuraram mais seu Ven�ncio?
� Se procurou mas n�o adiantou. O tio at� disse que ia lhe falar.
Quem sabe n�o daria uma ajuda?
L�dio encara Toninho com desconfian�a, olhos apertados nas p�lpebras
gordas, rosto suado.

� Que � que posso fazer? Mal sei da minha vida.
� Eu disse pro tio que o senhor � amigo do Banda Branca.
Quem sabe?
L�dio Gordo sorri, recomp�e-se, volta a falar, a gesticular.

� Banda Branca t� sempre muito ocupado. Pra se dedicar a
um caso como esse, tem de haver dinheiro na jogada.
� 0 tio consegue.
� Olha l�, � uma boa nota!
� Quanto imagina?
� Uns 20 mil pra frente. N�o sabe o trabalho que d�!

� Posso falar com o tio.
� Se tiverem dispostos, passo a cantada em Banda Branca. Gostava
de seu Ven�ncio. Homem trabalhador tava ali!
� Caso o tio tope, onde lhe encontro?
� Por aqui mesmo ou no Bar Garoto. � meu ponto,
� Se o tio quiser falar com Banda Branca?
� N�o tem problema. Arranjo um encontro. Aqui mesmo ou
no posto policial.
� Acha que ele topa?
� N�o sei. Vou tentar.
Toninho ergue-se, sorri, L�dio tamb�m acha gra�a, mostra os dentes
brancos, a barba por fazer, pesco�o grosso no colarinho do blus�o
j� bastante sujo, pernas grossas, p�s gordos nos sapatos de pano, apertados.


� Tenho quase certeza que o tio vai topar. Ele tem recurso.
� � como lhe disse. 0 que for poss�vel fazer, pode contar comigo.
Toninho segue na dire��o das bilheterias, de longe torna a olhar,
L�dio Gordo continuava sentado no caixote de ma��s. N�o deseja perd�-
lo de vista, aquela poderia ser uma oportunidade �nica. Esgueira-
se pelo pered�o do armaz�m, contorna a pra�a, fica do lado do pr�dio
dos Correios, de onde poderia acompanhar os movimentos de L�dio.
No longo per�odo que se seguiu, v�rias pessoas falaram com ele. Mas
n�o dava para reconhecer. � propor��o que a pra�a ia se tornando
sombria e as filas nos pontos de �nibus aumentavam, era dif�cil observ�-
lo. Por volta de 5 e meia L�dio Gordo atravessou a rua, manteve-
se por momentos na banca do jornaleiro. Da�, caminhou pela
cal�ada de lajotas, j� bastante esburacada, meteu-se na rua estreita,
ladeada de pr�dios antigos, com sacadas de ferro e janelas despencando.
N�o podia perd�-lo de vista. As luzes ascenderam. L�dio Gordo chegou
ao beco, Toninho tratou de adiantar-se. E se aquele pilantra estivesse
manjando sua jogada? Tinha de cobrir-se. Passou para a cal�ada
oposta, deu uma carreira, no beco o homem desapareceu. Foi at�

o �ltimo pr�dio, na conflu�ncia com a avenida, retornou. Por ali n�o
havia mais que dois pardieiros, os edif�cios do lado e em frente eram
altos, estavam fechados. L�dio Gordo entrara num dos pardieiros. Em
qual? Aproxima-se da primeira porta, onde havia a escada de madeira
alongando-se num plano inclinado. Subiria por aquela escada ou
tentaria o pr�dio seguinte? Entraria no primeiro pr�dio, entraria no
segundo, se isso fosse necess�rio. Sobe os degraus de dois em dois, antes
da grande varanda cola-se na parede, fica ouvindo o pulsar do
casar�o, ro�do de ratos, comido de baratas. Num canto, saindo da lata
de �leo vegetal, as palmas tristes do taj�, o corredor deserto. N�o havia
luz, n�o havia ru�do. Ser� que os caras estavam reunidos mais
para os fundos? Ou aquilo era jogada de L�dio Gordo, a fim de atra�

lo? Vontade de avan�ar pelo corredor. Tirou o rev�lver do bolso,
mant�m o z�per aberto. Olha as portas perto da escada, experimenta
a primeira. 0 quarto � amplo e escuro, o teto alto, uma escrivaninha
de escrit�rio e nada mais. Abre a janela, sabe que podia saltar. E o
outro quarto? Para alcan��-lo, teria de atravessar a varanda. L�dio
Gordo e seus comparsas podiam estar esperando. A escurid�o � completa,
uma janela bate na for�a do vento, vozes se aproximando. Est�
pronto a esconder-se, logo percebe pessoas na cal�ada. D� alguns passos,
a sensa��o de estar no lugar errado. Mexe vagarosamente na ma�aneta,
o compartimento semelhante � varanda. Como podia um pr�dio
daquele, completamente abandonado, a porta aberta? Abre outro
quarto, nesse tamb�m h� uma l�mpada acesa. Perto da cama os sapatos
de pano, as roupas jogadas de qualquer jeito. Examina as cal�as,
os documentos. L�dio Gordo! Estaria esperando algum convidado? Continua
pelo corredor, agora com mais seguran�a. No sal�o, a l�mpada
no alto do teto, escuta barulho de �gua do chuveiro. Olha pelas frestas,
l� estava o pilantra se esfregando. Empurra a porta, o suficiente
para passar, at� a� L�dio n�o notou qualquer movimento estranho. A
�gua do chuveiro continua a cair, ele somente se alarma quando ouve

o estalido do gatilho, j� bem perto.
� Que t� fazendo aqui?
� Vamos ter uma conversinha!
� N�o entendo . . .
0 gatilho emite outro estalido.
� Vamos l� pro quarto; vai entender.
L�dio Gordo sai nu do chuveiro.
� Que � que h�, rapaz, n�o tenho nada com o sumi�o do teu
velho.
� Senta na cama.
L�dio Gordo n�o espera repeti��o da ordem.
� Tem dois segundos pra explicar como seu Ven�ncio sumiu.
Me disseram que t� por dentro.
� N�o cantei a pedra antes pra evitar problema.
� Como foi a hist�ria?
� Banda Branca tentou arrochar o velho numa grana.
� Quando foi isso?
� Umas semanas antes de dona Mundi�a adoecer. Coincidiu de
encontrar seu Ven�ncio naquela noite de afoba��o.
� Ele n�o encarava o pai sozinho.
� Acontece que tava enturmado. Botaram o velho no cambur�o
e arrastaram. Seu Ven�ncio era teimoso. Dizia apenas que a mulher
tava precisando de m�dico, n�o tinha dinheiro. Tu j� viu que
esse papo n�o cola.
� E da�?

� Banda Branca n�o queria, mas n�o deu para ag�entar. O pessoal
que tava com ele se julgou prejudicado.
� O que fizeram do corpo?
� N�o sei. Banda Branca nunca tocou nisso. Tou sabendo que
fecharam ele.
Toninho olha a cara de L�dio Gordo parcialmente iluminada pela
claridade do corredor.

� E mestre T�bor?
� Transa de Banda Branca. Sei apenas que sumiu!
� Por que t� aqui nesse casar�o?
� Uma jogada alta. N�o deve se meter.
� Banda Branca t� na transa?
L�dio Gordo sacode afirmativamente a cabe�a.
� Vem pra c�?
� Hoje n�o pinta mais ningu�m. 0 papo que se tinha de levar
j� levou no Bar Garoto.
� Quando o alcag�ete d� as caras?
� No pr�ximo encontro. L� pela semana que vem.
Toninho aciona o gatilho a primeira vez, L�dio Gordo amea�a
erguer-se, caminhar, o segundo disparo atinge-o no peito, um terceiro
no rosto. 0 homenzarr�o dobra-se nas pernas curtas, grossas e peludas,
cai, o corpo distende-se, a porta se fecha.

TR�S

Sentado na mesa de fundos do restaurante, onde nunca estivera
anteriormente, Toninho examina os tipos que entram, os que falam,
os gar�ons que n�o se mostram afobados porque a casa est� vazia, n�o
h� mais de dez pessoas. Passa manteiga nas torradas, toma calmamente
o chope, recorda as palavras de L�dio Gordo. Filho da puta.
Sabendo de tudo e nunca abrira o bico. Estava mais ligado ao alcag�ete
do que podia imaginar. E o pior � que Banda Branca t�o cedo
n�o entraria naquele pr�dio. Teria de surpreend�-lo na subida do morro.
Mesmo assim, voltaria � Pra�a XV. Quem sabe, era mais teimoso
do que imaginava? Cercado pelos comparsas tinha rompantes de valent�o.
Fora sempre assim. Por que haveria de estar modificado?

0 gar�om traz o prato, queijo ralado, outro chope. P�e-se a co


mer vagarosamente. S� lamentava que o pai n�o soubesse o que esta


va fazendo. Acabou com L�dio Gordo, ia fazer o mesmo com o puto

daquele alcag�ete. Antes de aboto�-lo, exigiria os nomes dos amigui


nhos que participaram da brincadeira. Teria de dizer. Na frente de

uma arma engatilhada n�o ia poder mentir. Contaria at� tr�s. Ora


se diria. Mandaria que anotasse. Nomes e endere�os. Essa canalha tem
de ser sangrada na goela como porco. Enfezado estava certo. Agora
compreendia por que, acima de tudo, para ele, o importante era acabar
com a mulherzinha do sargento Beto e com seu paizinho entrevado.
Olho por olho, dente por dente. Cada um que participou da morte
do pai, ganharia seu quinh�o. Se fosse dif�cil encontrar os caras,
seguiria o exemplo de Enfezado. A coisa poderia ser at� bem mais simples.
Banda Branca cantaria a pedra, como L�dio Gordo cantou.

Pede mel�o, olha o rel�gio da parede, sabe que � cedo para en


contrar Sandra. Talvez fosse a um cinema, talvez retornasse ao quar


to, �quela hora dona Berta n�o estaria na portaria, os velhotes quase

todos dormindo.

Imagina as grava��es que Sandra j� fizera, mostraria desejo de
ouvi-las, quando sa�sse da boate. O jeito seria ficar no apartamento
at� o dia seguinte, esperando a oportunidade de n�o ser visto por seu
Manuel. Sandra se encarregaria disso. E j� fazia tempo que n�o dormiam
juntos. Ouviria a garota falar nas perip�cias do pai, no motorista
que morava perto, no porteiro alcag�ete.

Se gostasse da voz de Sandra na grava��o, iria ao est�dio, acertaria
o pre�o do compacto. Bastariam duas m�sicas gravadas. Quantas
can��es cabiam num compacto? Teria de ir l�, transar isso. Faria
tudo sem nada dizer a Sandra. Quando tocasse de novo no assunto,
seria em car�ter de surpresa. Hoje a gente vai � gravadora. Ia tomar
um susto.

Mastiga o mel�o, olha a velhota sorridente na outra mesa, sabe
que gosta de Sandra: dos seus olhos, do riso, dos cabelos longos e
macios. N�o entendia como p�de entrosar-se t�o bem com uma garota
daquela. Na verdade, pareciam conhecer-se h� muito tempo. E isso
se confirmou depois do caso com o motorista. Fosse outra, n�o queria
mais conversa e, al�m disso, teria dado com a l�ngua nos dentes.
Acreditou em Sandra, ela estava do seu lado, apenas exigindo que mudasse
de atividade, como de fato ia mudar. O neg�cio era alcan�ar a
tranq�ilidade de L�dio Gordo, do jornaleiro da Pra�a XV, da mulher
loura que chegou � banca dirigindo o carro �ltimo tipo, recebeu a
revista, foi embora, como se estivesse passeando, naquela tarde de tanta
gente atarefada, de p�s-de-chinelo nas filas dos �nibus, cegos, e aleijados
implorando, motoristas e cobradores de roupas suadas, conversando
fiado. Seria uma boa. Enfezado reapareceria, colocariam mais
uns dois ou tr�s elementos de confian�a, a roda come�aria a girar para
seu lado. Quem sabe Banda Branca, na hora da apertura, n�o abrisse
o bico a esse respeito? Afinal, n�o queria apenas justi��-lo. O importante
seria tirar proveito do seu desaparecimento. Conseguir dele

o que n�o pudera tomar do pai. Uma forma de compensa��o. Pena
que n�o pudesse saber o quanto fora idiota, lan�ando-se de corpo e
alma naquela de dedurar todo mundo no Babil�nia.

Entra no �nibus, esquece o cinema, o melhor seria descansar um
pouco, provavelmente at� uma hora, quando ent�o seguiria para o barzinho.
L� pelas 2 em diante a turma da boate baixaria. No dia seguinte,
como sem falta, compraria o radio. Podia ouvir os notici�rios
que quisesse, saber de detalhes que nem sempre os jornais d�o.

Ent�o no velho pr�dio da Iola. o porteiro atento ao filme na TV,
juntamente com uns dois ou tr�s velhotes mais resistentes, abre a
porta do quarto, acende a luz, tira a roupa, escancara a janela para
as brisas, estira-se na cama, as palavras de L�dio Gordo ressoando,
saindo para a noite, em meio ao magote de ventos que chegam, farejam
m�veis antigos, mexem nos jornais desfolhados, v�o embora.

Ganhou o que merecia. Teve muito tempo pra dizer que Banda
Branca era o respons�vel. Podia ter dado a dica a seu Greg�rio ou ao
pr�prio mestre T�bor, de quem se dizia amigo. N�o fez nada disso.
Demonstrou ser aliado do alcag�ete, defender o que fazia. Por isso,
simplesmente trataria de esquec�-lo, como j� fizera com tantos outros.
N�o iria ser a lengalenga do contrabandista nojento que lhe tiraria

o sono. Muito ao contr�rio. Agora, mais do que nunca, estava certo
de que deveria surpreender Banda Branca. E de forma especial. Nada
de disparo na viela escura do morro. Deveria saber que o filho de seu
Ven�ncio estava numa boa e ele havia encerrado a carreira, ia cair
fora do planeta, tirar o time de campo. Antes disso, no entanto, teria
muito o que contar. Recorda o crioulo de cabe�a pelada que vira no
Bar Garoto, comendo melancia com presunto, corrent�es no pesco�o,
pulseiras nos bra�os, a camisa azul de bolinhas vermelhas. Um tipo
que parecia ter sa�do de uma hist�ria em quadrinhos. Quem seria?
Por que n�o perguntara a L�dio Gordo? Estava certo de que pertencia
� curriola. Afobou-se no despachar do contrabandista. Deveria ter-
se alongado um pouco mais. Ao mesmo tempo corria o risco de aparecer
algu�m, o homem passar de acusado a acusador. E n�o podia
cair nas m�os daqueles tipos. Sabia muito bem o que sucederia. N�o
adiantava esquentar. Em outra oportunidade pela Pra�a XV, procuraria
se malocar num canto do bar, s� para ver o jeit�o do crioulo pelado.
Quem sabe n�o seria da turma de Banda Branca? Com aquele ai
de senhor todo-poderoso, s� podia. Ah, como tinha sede de surpreender
o alcag�ete, principalmente depois de tudo o que dissera L�dio
Gordo! E se voltasse ao Mangue, levasse um papo com a tal Zita?
Ser� que o alcag�ete n�o continuava explorando a pobre da Marta,
como j� fizera com Beatriz? Nisso ainda n�o havia pensado. Se a coisa
se confirmasse, seria mais f�cil segui-lo, saber os buracos por onde
se metia, quando n�o estava dedurando uns e outros. Uma boa coisa
a fazer. Por que n�o ir logo ao Mangue, enquanto esperava a hora de
encontrar Sandra? Talvez conseguisse resolver dois problemas ao mesmo
tempo. Se Zita dissesse que o conhecia, sabia por onde andava, o
caminho se tornaria mais simples. E como abordar a mulher, a fim

de que n�o desconfiasse? Se agarraria com Marta. Iria com ela pro
quarto, mandaria se informar com a caftina. Marta n�o perceberia
coisa alguma. Contaria uma hist�ria, falaria da grana que devia a
Banda Branca, queria pagar. Subira o morro duas vezes, n�o adiantou.
Marta ajudaria.

Animado com essa possibilidade Toninho enfia-se nas roupas, coloca
a bolsa a tiracolo, vai para a rua, para a pra�a, onde passavam
os �nibus, toma o primeiro que aparece, a noite est� entrecortada de
luzes e ru�dos, os tipos que entram e saem do �nibus s�o enfezados,

o motorista d� trancos no carro, numa evidente demonstra��o de m�
vontade, em cada parada freia bruscamente, depois o pesado ve�culo
arrancando com dificuldade, toda a estrutura estremecendo, como se
as engrenagens estivessem para partir, o chofer pouco se importando
com isso, carregando o p� no acelerador, empurrando a alavanca do
c�mbio de qualquer jeito, praticamente um pulo da primeira para a
segunda, de repente a tremenda lata velha balan�a por ruas estreitas
em velocidade, cortando carros particulares, avan�ando sinais. Muito
mais rapidamente do que imaginara est� na Presidente Vargas, no
trecho em que h� o hospital-escola e muitos out-doors. Por tr�s dos
grandes pain�is, anunciando as del�cias da vida, a melhor �rea onde
comprar terrenos, o biqu�ni que fazia o corpo real�ar, o carro mais
potente, estendiam-se os pardieiros das mulheres. Um deles funcionava
sob a responsabilidade de Zita. J� estivera uma vez a�, mais cedo,
apavorou-se com o que vira. A esta hora o movimento de homens era
intenso. A rua, embora larga, estava apinhada. Aqui e ali, viaturas
da pol�cia, luzes apagadas. Um ou outro carrinho de vender refrigerantes
e cachorro-quente. Nas portas e janelas dos pardieiros iluminados,
as mulheres, algumas completamente nuas, outras s� de calcinhas,
atracando-se com os pilantras.
Toninho procura avan�ar por entre os caras, aproxima-se da casa
de Zita, as mulheres o provocam, uma j� bem velha segura-o pelos
bra�os, beija-o, enquanto trata de evit�-la com cautela, aparece logo
a crioula que tamb�m o agarra, quer abrir-lhe a camisa, diz um vamos
comigo, ela � muito chata, trepou demais hoje, t� caindo aos peda�os,
eu n�o, cheguei ainda agora, tou recendendo a sabonete, quer
ver, cheira s�! Cheira os seios, a mulher apertando-lhe a cabe�a, rindo
alto.

� Quero falar com Marta.
A mulher n�o sabe quem � Marta, a velhota s� de calcinha conhece,
diz estar na casa do lado, numa transa. A crioula volta a insistir.


� Pode ir comigo, quando ela aparecer vai com ela!
Toninho acha gra�a.
� Ser� que � broche!

Torna a rir, a mulher tamb�m, pelancas da velhota sacudindo.
Outros homens se aproximam, um deles p�e o bra�o no ombro da
mulher mais velha, ela o abra�a, o aperta, um deles propondo que
todos v�o para o mesmo quarto, a crioula se recusando, a velhota
achando a coisa mais divertida do mundo.

� Comigo n�o folgam desse jeito. Querem se aproveitar da
pobre coitada!
A crioula torna-se s�ria de repente, o careta fala com ela de
longe, Marta aparece, saltos altos, calcinha branca, extremamente
pintada.

� O garot�o t� querendo ir contigo!
� Toninho, o que anda fazendo?
A garota diz isso, abra�ando-se a ele.
� Vim lhe procurar.
� N�o diga.
� N�o acha engra�ado?
� �. Pode ser.
� Pensei que n�o fosse me reconhecer. Estive outro dia por
aqui mas n�o tive coragem.
� Por qu�? Me achou feia?
� N�o. Muito pinta na jogada.
Marta ri com certo orgulho.
� Sempre que h� uma novata, d�o em cima.
� Onde � seu quarto?
� No segundo andar.
Marta segura-o pela m�o, sobem o pequeno lance de escada,
onde h� outras mulheres sentadas, mal se afastam para que possam
passar. Avan�am pelo corredor, atravessam a sala onde h� uma l�mpada
baixa, homens e mulheres jogando carteado, Marta fala qualquer
coisa indicando a mulherona alta e loura como sendo Ta�s, dona da
casa do lado e de mais umas quatro ou cinco em outros pontos da
cidade, Toninho n�o est� interessado naquilo mas finge. Marta
mostra tamb�m quem � Zita, nessa o garoto repara melhor, a mulher
est� com as m�os cheias de cartas, � magra, cabelos escorridos, sobrancelhas
feitas a l�pis, colares, vestido brilhante como fantasia de
carnaval.

� E voc�, como anda por aqui?
� Eu? Numa pior!
� Algum amigo especial?
� V�rios.
� Posso ser um deles?
� S� depois que souber se vai gostar de mim.
Dizendo isso, abre a porta, do quarto exala cheiro de coisa mofada,
sujeira, colch�o mijado, colchas manchadas, onde os mais c�nicos
se limpavam e Zita n�o punha para lavar.


� Lavagem de roupa aqui � uma vez por m�s. Quando t� muito
suja de um lado Zita manda virar do outro. T� vendo. Tudo virado.
Semana que vem o homem da lavanderia aparece.
Num instante Marta tirou a calcinha. Est� completamente nua.
Toninho olha-a. ainda se encanta com seu corpo. Marta volta a
abra��-lo, puxa-o para a cama fedorenta, ajuda-o a tirar a roupa.

� Algum amiguinho l� do morro?
Marta sorri, os dentes na frente est�o come�ando a ficar cariados.
Mas o riso continua bonito.

� Pelo que me lembre, dois.
� Quem s�o?
� T� com ci�me?
Ambos sorriem. Marta acaricia os cabelos de Toninho.
� De vez em quando aparece o tal Greg�rio da tendinha. Lembra
dele? Outro que t� sempre dando em cima de mim � o alcag�ete.
� Banda Branca?
� Esse mesmo. S� que o papo dele � diferente. Acha que pode
me proteger. J� imaginou?
� E o que diz?
� N�o preciso de protetores. S� Deus sabe da minha vida!
� N�o apareceu mais?
� E aquilo tem vergonha? Ontem mesmo teve um temp�o
por aqui, aporrinhando Zita e as garotas.
� � amigo de Zita?
� Transa com ela no neg�cio de bebidas.
� H� muito tempo que n�o vejo Banda Branca.
� Acho bom n�o se meter com ele.
� N�o tenho o que dizer. Uma vez, faz tempo, me fez um
favor.
� Pois tem sorte. Banda Branca n�o ajuda ningu�m.
� Quando ser� que torna a aparecer?
� Sei l�. �s vezes fica fazendo ponto no bar do Careca.
� Onde � o bar?
� 0 da esquina de l�. � o melhor caf� que tem por aqui!
Toninho estende-se sobre o corpo nu e pegajoso de Marta, ela
procura beij�-lo. sente o quanto era diferente de Sandra.

QUATRO

Toninho recosta-se na cadeira, o gar�om de todas as noites aparece,
muito limpo e sol�cito, arruma a mesa, anota o pedido. 0 garoto
continua a sentir o cheiro mofado do quarto, das cobertas imun



das, a ver os peitos ca�dos e suados de Marta, o rosto magro de Zita,
sobrancelhas avivadas a l�pis, vestido longo e de seda brilhante, as
cartas na m�o, fuma�a de cigarro na l�mpada baixa.

� Quando Banda Branca n�o vem aqui, t� pelo bar do Careca.
O melhor caf� que se tem!
O neg�cio seria surpreender o alcag�ete. Mas estava certo de-
que aquele n�o podia ser o melhor lugar. Havia bastante gente por
perto, o pilantra estaria acompanhado de outros tipos que n�o conhecia,
nunca vira, poderia ser facilmente seguido. Para topar a
parada com Banda Branca devia estar bem estribado. 0 bicho �
duro na queda. Isso todo mundo se acostumara a dizer no Babil�nia.
0 pr�prio mestre T�bor advertia, a mesma coisa seu Greg�rio vivia
lembrando.

� De quando em vez o birosqueiro baixa por aqui. N�o quero
nada com ele!
Eis um detalhe que jamais poderia supor. Seu Greg�rio, pai de
tr�s ou quatro filhos, a mulher se acabando de lavar e passar para
fora, ele dando em cima de Marta. Ou freq�entava a casa de Zita
porque se encontrava com o alcag�ete, sem que ningu�m soubesse?
Eis um dado novo. Podia muito bem investigar. E � o que faria
mais para o final da semana. Provavelmente no s�bado, quando
sa�sse do pr�dio em constru��o, onde iria jogar com os pe�es. N�o
podia faltar. Seria a maneira correta de demonstrar que n�o fugira,
n�o tinha o que temer. Ao mesmo tempo saberia das novidades a
respeito de Brezol�, daria uma grana a Man� Cabreiro, um ma�o de
cigarros a Rox�o. Estava certo de que a coisa seria bem encaminhada.
E daquela vez, tamb�m, se os pe�es bobeassem, perderiam at� as
cal�as. N�o ia ter contempla��o. A jogada � no duro. Nada de papai,
mam�e!

� O diabo do garoto voltou, minha gente. Quero ver quem �
bom! � diria Man� Cabreiro.
Parecia estar ouvindo o vigia, rosto redondo, o capacete tornando-
o uma das figuras mais rid�culas que jamais vira. Por que Man�
Cabreiro era t�o feio daquele jeito? E se Brezol� tivesse aparecido?
Deveria estar preparado. N�o tinha condi��es de enfrent�-lo no tapa,
teria de puxar a m�quina, fazer a bicha rodar. N�o seria o melhor
caminho. Falaria primeiro com o vigia, antes de subir. Sondaria.
Mas tinha quase certeza de que Brezol� continuava no grampo. N�o
ia sair, f�cil, mesmo que tivesse dado os cinco mil ao advogado.

0 gar�om traz o peda�o de pizza, chope, guardanapos. Toninho
olha o rel�gio. Mais um pouco o pessoal da boate apareceria. De
certa forma est� ansioso por encontrar-se com Sandra. Tinha certeza
de que ia compreend�-lo. Talvez tocasse por alto no projeto do
compacto. N�o entraria em detalhes. Deixaria a coisa no ar. Sandra
completamente diferente de Marta. Ah, como se enganara! A lem



branca de Marta nua, o corpo coberto de espuma de sab�o, por entre as
bananeiras, ele olhando-a e sentindo o cheiro de terra do quintal
de vov� Jandira. N�o retornaria mais �quele quarto fedorento, n�o
desejava mais ver a cara magra e estranha de Zita, o longo vestido
de seda brilhante, n�o queria mais que Marta o beijasse, dentes ficando
cariados. Marta afundando, como ela pr�pria dizia.

� Tenho uma por��o de conhecidos. Todos chegam aqui com
uma conversa, prometem coisas, v�o embora, tornam a aparecer,
tornam a prometer, o tempo vai passando, n�o saio disso!
Toma o primeiro gole de chope, sente pena de Marta, sabe o
quanto fora dif�cil enfrent�-la. Novamente tinha de dar raz�o a
Enfezado.

� Se na hora a gente n�o tiver coragem?
Quase que n�o tinha. Viu a hora de brochar. Teve de esfor�ar-
se, quando ela tirou a calcinha, cheiro de suor e de mofo se confundindo.
Imposs�vel que Marta tivesse chegado �quele ponto e o
miser�vel do birosqueiro baixasse para ajudar a afundar mais ainda.
Aquele tipo era pior do que imaginava. N�o ia ali, apenas para se
encontrar com Marta. Provavelmente, demorava-se no tal Bar do Careca,
onde Banda Branca fazia ponto, tomava cacha�a, contava prosa.

� �s vezes ele fica por l�, a noite inteira, paga rodadas e mais
rodadas de cerveja pros amigos. Mesmo assim nunca tem dinheiro
pra dar pra gente. Cansou de ficar comigo uma hora, duas, depois
disse j� ter acertado com Zita. Tipo ordin�rio. Tomara que morra
debaixo de um �nibus!
Branda Branca sempre fazendo das suas. 0 terno branco, a gravata
ajustada no colarinho. Um verdadeiro lorde, perto dos p�s-dechinelo
que trabalhavam o dia inteiro, retornavam exaustos aos barracos
e ainda eram achacados.

Toma outro chope, come um peda�o da pizza. Certeza de que o
reinado do alcag�ete estava no final. Terminaria de forma simples,
como acabou L�dio Gordo. E na verdade nem tinha raiva do contrabandista.
Mas, depois de tudo que houve, n�o podia ficar transando,
dando com a l�ngua nos dentes. J� com Banda Branca a coisa
seria mais a capricho. N�o ia queim�-lo de qualquer jeito, sem que
coubesse as raz�es de estar caindo fora do planeta. Por isso, caso
fosse ao Bar do Careca, era s� para marcar suas pegadas. Devia haver
um bom local onde costumava parar. A� se ferraria. Teria muito
o que contar. A come�ar pela hist�ria de Colher de Pau, depois
Cavalo do C�o, o pai, Enfezado, mestre T�bor. Estava certo de que

o contrabandista n�o mentira, mas queria o safado do alcag�ete repetindo
tudo outra vez. Por isso, o local deveria ser tranq�ilo, onde
n�o precisasse se incomodar com a hora.
O garoto aparece gritando o jornal.

� J� saiu. Chofer de pra�a faz greve!

Olha o pequeno, um monte de jornais debaixo do bra�o, um
exemplar na m�o, a manchete em grandes letras: GREVE GERAL
DOS T�XIS. POL�CIA N�O SABE DO MATADOR LOUCO. Pega
um jornal, passa o dinheiro ao menino sem ao menos olh�-lo, t�o
preocupado est� em 1er logo aquilo, antes que Sandra apare�a.

Nas primeiras linhas da mat�ria fica sabendo que a iniciativa
era de todos os l�deres sindicais e o movimento se iniciaria no dia
seguinte, �s 6 da manh�. Primeiramente, uma greve de 24 horas.
Se isso n�o resolvesse, haveria uma outra, de tr�s dias. Acha gra�a
da manobra. Procura o nome dos policiais encarregados do caso, n�o
encontra. Apenas o delegado Paranhos falava alguma coisa. Num.
quadro, um dos l�deres sindicais afirmava que o suspeito detido, conhecido
por Garanh�o, quando muito seria um dos criminosos que
atacava motoristas, mas n�o o principal, como fazia crer a pol�cia.
Chega ao final da mat�ria, entram alguns caras no barzinho, entre
eles Xex�u; diz que Sandra est� vindo. Mete o jornal por baixo da
mesa. Enquanto os motoristas se mantivessem com aquela disposi��o
e ele n�o agisse, tudo bem. A greve era a prova de que at� ali o
detetive Galv�o n�o conseguira nenhuma pista. Tem vontade de rir
da cara do policial. Tanta manobra, tantas declara��es � imprensa e
ali estava concretizado o pior: uma greve. N�o falaria disso a Sandra.
Se tocasse no assunto, no m�ximo diria uma palavra ou duas. Nada
de abrir-se.

Entre diversos outros tipos que chegam ao barzinho, l� est�
Sandra.

� Puxa! Hoje tou estourada. Esse show t� enchendo o saco!
� Que houve?
� 0 sacana do ma�tre resolveu aporrinhar. Mando ele � merda
na primeira oportunidade.
� Qual � a dele?
� Sei l�. Um cara me chamou pra mesa, o gar�om n�o apareceu
com o u�sque, ele n�o disse nada. J� imaginou se canto isso
no ouvido do Jo�o Alberto? Se fode f�cil!
� Quem era o cara do u�sque?
� Sei l�. Um chato!
Toninho chama o gar�om, diversas outras mesas ficaram ocupadas
de repente, o homem de palet� impecavelmente branco se aproxima.


� Que v�o querer?
Sandra olha o card�pio.
� Omelete e um chope!
� Tenho uma novidade.
Sandra anima-se, sorri.
� Depois do ensaio com o gravador se pode partir pro disco �
diz Toninho que n�o consegue guardar segredo.

� Verdade?
Sacode a cabe�a, enquanto prossegue mastigando a pizza. Sandra
espeta um peda�o no palito.

� J� gravei umas quatro ou cinco m�sicas. S� as que gosto!
� Posso ouvir?
� No fim-de-semana. Fica l� em casa.
� Que t� achando?
� N�o sei. Sou suspeita.
� O disco tando gravado se pode mostrar pra uma por��o de
pinta por a�.
� Poxa! Dou um pra Xex�u tocar pros amigos dele. Se gostarem
� meio caminho andado.
� V�o gostar. Tou apostando em voc�!
Sandra p�e o bra�o nos ombros de Toninho, beija-o de leve no
rosto.

� Tava doida pra terminar o show. Sabia que ia lhe encontrar!
� Desde quando vem adivinhando?
� Desde que a gente decidiu resolver as coisas em conjunto.
Tou certa de que n�o vai se arrepender.
� N�o tenho d�vida!
� Sabe o que mais t� enchendo no diabo da boate?
0 gar�om aparece com o omelete, o chope. Toninho pede um
outro, novo peda�o de pizza.

� 0 que �?
� N�o consigo mais topar o papo dos caretas. Quando um me
chama pra mesa, vou de m� vontade. Jo�o Alberto t� de olho. Por
isso que o tal ma�tre t� se metendo a besta.
� G�enta um pouco, at� se poder mandar esse Jo�o Alberto,
ma�tre
e todo mundo � puta que os pariu. Se vai partir pra outra.
Sandra sorri, p�e-se a comer.

� Acontece que persegui��o comigo n�o cola.
� Procure manerar. Se for pra outro show a coisa n�o � diferente.
Sandra olha-o, surpresa. N�o esperava tanto bom senso.

� Parece que Solange vai conseguir um lugar na TV Itacolomi.
Voltou ontem de l�, o cara do cart�o � mesmo diretor-art�stico.
� T� me gozando por causa disso?
� Nem falou no seu nome. T� � morrendo de alegre.
� Desejo que seja feliz.
� Eu tamb�m. Que fa�a boa figura por l� e em breve se mande
pra c�!
� Acho que antes do fim do ano pode pensar no seu primeiro
disco, como profissional.
� Tenho muito que trabalhar. Amanh� vou me inscrever no
programa de calouros da TV Rio.

� Se quiser vou com voc�.
O garoto dos jornais torna a aparecer.
� Extra! Extra! Greve geral de motorista. Pol�cia n�o prende
o matador louco!
Sandra faz que n�o ouve, o jornaleiro passa perto da mesa,
continua a bradar a manchete espalhafatosa, que ocupa todo o alto
da primeira p�gina.

� Quais s�o as m�sicas que gravou? � indaga Toninho mais
para quebrar o gelo que se formou.
� Uma que considero nossa m�sica e outras de Maria Creuza
e Bet�nia.
� Qual �?
� A can��o dos namorados. Por coincid�ncia, agora mesmo tava
tocando na boate. Me lembrei de voc�.
� Gostaria de ouvir.
� Tenho certeza que vai gostar. Parece muito com nossa hist�ria.
Toninho pede mais um chope, na mesa ao lado a conversa e
as risadas s�o altas, um dos caras mant�m o jornal aberto, Sandra
torna a ler o que o jornaleiro j� gritara.

� Parece que a coisa t� piorando!
� Coisa nenhuma. Greve � prova de que n�o t�o com nada!
� Acho bom se cuidar.
� Fique tranq�ila. N�o sou de dar bandeira.

Cap�tulo XV I

UM

0 barraco do tio Donga � t�o velho quanto os outros daquela
viela e daquele morro. Ele mora na parte coberta com algumas telhas,
folhas de zinco, t�buas de caixote, peda�os de compensados. Na
puxada do lado, esp�cie de meia-�gua, onde h� uma ramada de maracuj�
florida, � a barbearia. 0 sal�o � pequeno, mal cabe a cadeira
de barbeiro, que comprou h� pelo menos 15 anos e da qual nunca
se separou. Agora, pelo tanto tempo de uso, os niquelados da cadeira
desapareceram e a manivela que permitia os movimentos com o
cliente em cima se quebrou. Dessa forma, para que a cadeira se
incline, principalmente na hora em que o fregu�s faz a barba � a
maior dificuldade. Tio Donga est� sempre com a esperan�a de mandar
um mec�nico recolocar a manivela mas nunca tem condi��o. Se chegasse
a fazer esse reparo, naturalmente chamaria tamb�m o niquelador,
mandaria restaurar as partes que se tornaram enferrujadas. A
base da cadeira � de metal caramelo, como se fosse lou�a ou porcelana,
h� uns enfeites r�seos. 0 assento e o encosto s�o de couro vermelho
e ainda permanecem em bom estado. At� recentemente tio
Donga mantinha a cadeira com capas, que dona Zizinha lavava e
engomava.

Naquela manh� de sol e meninos empinando papagaios a cadeira
est� com o couro sem a prote��o, naturalmente dona Zizinha
n�o tivera tempo de engomar. De outra parte tio Donga, nos seus
67 anos, n�o se sente muito satisfeito. Olha os meninos pela janela,
olha os frascos de perfume, as latas de talco, os pinc�is e a tigela de
esmalte onde produzia espuma para amolecer as barbas. No pequeno
sal�o coberto de zinco, com fotografias de escola de samba desfilando
na avenida, outras dos festejos de Iemanj�, o ar est� sempre
perfumado. � um cheiro que parece entranhado no corpo magro de
tio Donga, nas suas m�os leves e macias.

Tio Donga n�o sabe precisar h� quantos anos fica de p�, cortando
cabelos e fazendo barbas. Desde o Sal�o Brasil, na Galeria Cru


319


zeiro, j� fazia isso. Mas n�o foi l� que comecei. Aprendi com o
franc�s, que tinha barbearia perto dos Arcos, nos tempos em que a
Lapa era a Lapa. Tinha mais ou menos 16 anos. N�o sei por que me
deu na veneta entrar nessa profiss�o. Do sal�o do franc�s, que tinha

o imponente nome de Champs Elis�es, fui convidado pro Sal�o Brasil.
Foi assim. Quem me convidou foi um colega apelidado de Morceg�o.
Era barbeiro de dia, m�sico do Cassino Novo M�xico, � noite.
Um tempo elegante aquele. E n�o sei como Morceg�o ag�entava. 0
Sal�o Brasil era o mais luxuoso que havia na cidade. Grande, com
pelo menos 10 cadeiras muito melhores que esta. Eu pegava na
parte da tarde. Das 12 �s 21 horas. A freguesia era distinta. Muito
deputado, muito senador da Rep�blica, artistas famosos. Durante
anos e anos cortei os cabelos e fiz a barba de Francisco Alves, que
todo mundo chamava Chico Viola. O ministro Oswaldo Aranha tamb�m
foi meu cliente. Sa�a da sede do J�quei Clube, na esquina de
Almirante Barroso com Rio Branco, ia para o Sal�o Brasil. Pelo
menos duas vezes por semana aparecia por l�. Seu Alves Teixeira,
dono do sal�o, ficava orgulhoso de que soubesse lidar com t�o ilustres
personalidades. Uma vez, Chico Viola apareceu, deu seu �ltimo
disco pra mim e pra todos os outros colegas. O meu ainda guardo
at� hoje. Tem a dedicat�ria. Que pena aquele homem se acabar
como acabou. No dia do enterro foi a coisa mais triste do mundo. A
cidade parou. O Sal�o Brasil, em sinal de luto, n�o abriu as portas.
Ordem de seu Alves Teixeira. Um homem amigo dos amigos. Depois,
mandou botar o retrato de Chico Viola num quadro, pendurou na
parede.
O morro inteiro conhecia tio Donga. Era o barbeiro de quase
todas as crian�as. Umas, as m�es levavam a pulso, para que cortassem
os cabelos pela primeira vez, outras iam espontaneamente. J�
os homens, n�o. Cortavam os cabelos pela cidade, s� uns poucos se
lembravam do velho. Embora o respeitassem, julgavam-no fora de
moda. Agora o corte n�o � mais como antigamente, tio Donga. � s�
aparar daqui e dali, botar um pouco de talco e mandar em frente.
Isso o velho n�o admitia. Para ele um barbeiro que fazia aquilo n�o
passava de vigarista. Cabelo cortado por tio Donga tinha de levar
m�quina zero no p�, isto �, no pesco�o, costeletas curtas, arcos bem
feitos volteando as orelhas. Quando dava o trabalho por conclu�do,
apertava a bomba de borracha do borrifador de �gua-de-col�nia, voltava
a caprichar com a tesoura e o pente bem fino, os retoques com
a navalha. E como cortava a navalha de tio Donga. O fregu�s nem
sentia. Se era barba, cobria o rosto de espuma cheirosa, passava alguns
minutos procurando o fio da navalha no afiador de corti�a. Somente
depois dessa opera��o, come�ava o trabalho. Ap�s escanhoar
cuidadosamente, borrifava �gua-de-col�nia, colocava p�, tirava os
excessos na escova de p�lo macio, que agitava com extraordin�ria


habilidade. Um barbeiro dos tempos que se foram; que terminaram
com a Lapa e a Galeria Cruzeiro. Hoje, tio Donga quase n�o
recordava essas coisas. Cansara de falar, percebera estar sendo motivo
de goza��o dos jovens, dos que n�o sabiam o que fora a Galeria
e muito menos a Lapa.

Naquela manh� de meninos empinando papagaios e flores na
ramada de maracuj�, o velho mostra-se irritado. Por mais que procure
controlar-se n�o consegue. Na cadeira que o acompanha h� tantos
anos, calmamente estirado, encontra-se um tipo que n�o tolera: Banda
Branca. Quer fazer cabelo e barba. De quando em vez procura
tio Donga, quando deixa o sal�o, manda espetar a conta.

� N�o se assuste vov�; demoro mais pago!
Tio Donga envolveu-o numa toalha alv�ssima, a fim de aparar
os cabelos, colocou talco onde a m�quina zero vai trabalhar, Banda
Branca fala de coisas vagas, que de modo algum interessam ao barbeiro.
Como o velho n�o responde, decide falar do passado. Das festas
do Bola Preta, do Carnaval nos Tenentes do Diabo que come�ava
sexta � noite e s� terminava na quarta de manh�, chovesse ou fizesse
sol. A tesoura e o pente nas m�os de tio Donga parecem adquirir
vida. Estalam como asas de pombo levantando v�o, o fregu�s
vai sentindo uma coceirinha agrad�vel no pesco�o e na cabe�a, �
propor��o que o cabel�o � derrubado. E era exatamente isso que o
alcag�ete sentia, al�m do cheiro das m�os e do corpo de tio Donga,
sempre com seu guarda-p� impec�vel, sapatos de pano, �culos de aro
de tartaruga, lentes grossas.

� Soube que nesse tempo o senhor tinha uma por��o de amigos!
� Tinha e tenho. Amizade pra mim sempre foi a coisa mais
preciosa.
� Como era com o Chico Viola?
� Um bom homem. Sabia recompensar quando o trabalho lhe
agradava.
Banda Branca tem vontade de rir. Na verdade aquele papo n�o
interessava, n�o queria saber de Chico Viola nem de coisa alguma,
apenas gostaria que aquele trabalho terminasse logo, para que pudesse
ir em frente, cuidar da vida, saber na Invernada se iria ou
n�o a Minas, a fim de localizar o tal Enfezado. Segundo levantamento
do sargento Beto o garot�o estava metido pelo interior mineiro e,
agora, n�o ia ser dif�cil localiz�-lo. Quando isso acontecesse ganharia
promo��o, entraria afinal para o quadro de servidores da Secretaria,
gostasse ou n�o o detetive Silveirinha e aqueles best�ides do
Germano, Azeitona e Esculacho. Ia ser investigador no m�nimo, enquanto
os tr�s permaneceriam como simples bate-pau. N�o tinham
categoria, n�o tinham manha, n�o podiam progredir. O sargento Beto;
mandava no setor, estava vendo seu servi�o. Isso o que interessava.


� E naquele tempo, vov�, quem eram os bambas das noitadas?
0 barbeiro faz um arzinho de riso.
� Havia muitos. Aqui mesmo do morro ainda me recordo de
uns tr�s: Milit�o, Jorge do Saxe, mestre T�bor.
� Mestre T�bor? N�o era protestante?
� Entrou pra religi�o depois. Quando come�ou a ficar doente.
Nos tempos de mo�o era bom dan�arino e sabia se vestir. Quando
baixava no Cassino Novo M�xico, tinha presen�a. A mulherada dava
em cima. Um mulato de fazer vista.
� E como foi que terminou na merda?
� Ora, ser alegre n�o significa que n�o seja pobre. Acho,
mesmo, que s� quem � pobre pode ser um bo�mio. Gasta numa noite
o que n�o ganha em uma semana.
� Mestre T�bor era desses?
� Ele e todos n�s. Tivesse guardado metade do dinheiro que
ganhei em 35 anos de profiss�o, s� no Sal�o Brasil, hoje tava rico.
Mas n�o me queixo. Gosto do meu barraco e dos meus vizinhos .
Enfim, tenho amigos, como tinha antigamente.
� E aquela hist�ria com Dr. Get�lio, vov�? Como foi?
� Ora, veio um pedido do Pal�cio do Catete pra que um barbeiro
fosse l�, fazer a barba e o cabelo do Presidente. Seu Alves Teixeira
achou que eu era o mais indicado.
� Vov� foi?
� Fui, o Presidente gostou. Sempre o barbeiro do pal�cio faltava,
recebia novo chamado.
� Quer dizer que vov� teve com a cabe�a do GG nas m�os,
v�rias vezes!
� N�o apenas isso. Tive tamb�m a oportunidade de dizer-lhe
algumas coisas. �s vezes ele se punha a falar, a contar hist�rias, tinha
de responder. Numa dessas reclamei do abuso que vinha sendo praticado
pela Pol�cia Especial. T� lembrado dela? Pois �. Aquele bando
de homenzarr�o de dois metro, espancando quem bem entendia. O
Presidente ficou s�rio. At� pensei que fosse entrar pelo cano com
aquele atrevimento. No final do trabalho me gratificou, acendeu um
charuto, disse que ia tomar provid�ncias.
� E tomou?
� N�o sei. Que os abusos diminu�ram l� pras bandas onde morava,
isso diminu�ram!
� Onde vov� morava?
� Na rua Riachuelo. Nesse tempo era uma boa rua. Calma,
casar�es com jardins e quintais. Como tudo mudou!
� S� n�o mudou a safadeza dos cabras.
� N�o sei. As pessoas s�o sempre o que s�o; tudo depende do
relacionamento.

� Acho que n�o, vov�. Existem uns tipos por a�, carne de
pesco�o. Querem mostrar que t�o mesmo na banda podre. Esse mestre
T�bor, por exemplo: teve seu tempo de bo�mio, botou banca no
tal Cassino Novo M�xico. Tudo certo. Mas o senhor sabe qual era a
dele, ultimamente?
Por instantes as m�os de tio Donga paralisam.

� Tava criando um filho ladr�o. Assaltante! Uma boa forma
de levar a vida. No barraco, o dia todo. aproveitando a fresca da
tarde, o filhinho roubando e matando. Acha por acaso que n�o tirava
vantagem disso? N�o sou t�o ing�nuo assim.
No mesmo instante em que termina de fazer esse pequeno discurso
Banda Branca d� tremendo berro, joga-se da cadeira embaixo,
cai por cima de uns bancos onde havia jornais antigos e revistas sem
capa, leva as m�os ao pesco�o e o sangue est� jorrando por entre os
dedos, os olhos do alcag�ete arregalados, junto � cadeira permanece
tio Donga, navalha na m�o, o guarda-p� branco com respingos vermelhos,
Banda Branca tenta levantar e n�o consegue, torna a cair,
ap�ia-se com uma das m�os nas paredes, l� ficam as marcas vermelhas,
pega a tesoura que tio Donga quase n�o usava, aproxima-se do
barbeiro que n�o sai do lugar, faz um gesto violento, atinge-o no
est�mago, torna a perder o equil�brio, grunhe e se arrasta para fora
do barraco, tio Donga mant�m-se algum tempo seguro � cadeira,
depois vai caindo, m�os leves se soltando, os ru�dos de Banda Branca
para fora da meia-�gua, pessoas da vizinhan�a aparecendo nas janelas
e nas portas, o alcag�ete berrando e chorando, ambas as m�os no
pesco�o, mesmo assim o sangue jorrando, a camisa toda vermelha,
mulheres e crian�as assustadas, o homem querendo correr, querendo
manter-se de p� e n�o conseguindo, seus olhos vendo o mundo distanciar-
se, os barracos mais tortos do que eram, vielas intermin�veis,
n�o poderia nunca chegar � tendinha de seu Greg�rio, onde estava
certo, obteria medicamento, quando nada at� que uma ambul�ncia fosse
chamada. Mant�m-se outra vez de p�, os garotos afastando-se, passos
indecisos, os p�s n�o querendo caminhar, a mulher desdentada fazendo
o sinal-da-cruz, dona Zizinha e dona Julinha chorando, outras
pessoas entrando na barbearia, chamando para socorrer tio Donga,
de repente a confus�o formada, meninos esquecendo papagaios empinados,
vov� Jandira afobada, gritos de Banda Branca perdendo-se
nos descampados, c�es ladrando, galos cantando naquela manh� de

luz e t�o vazia, os olhos de Banda Branca como se recusando a ver,
as m�os n�o tendo mais for�a de segurar o pesco�o, a cabe�a rodando
no carrossel, o pai equilibrando-o no cavalo alaz�o, mandando segurar
firme nas crinas. Na valeta cavada por antigas chuvas, e por onde
o alcag�ete tentara passar, cessam os movimentos. Cai de costas, o
sangue sai livremente, olhos arregalados de dor e espanto. Uns poucos
garotos acocoram-se nas bordas da valeta, as mulheres v�o che



gando, uns homens v�m correndo da tendinha, depois o pr�prio
Greg�rio.

� 0 que foi, Deus do c�u?
� N�o sei direito. Banda Branca saiu gritando da barbearia!
� E tio Donga?
� Ca�do l� dentro.
� Minha Nossa Senhora! Ser� que baixou a urucubaca neste
morro?
� Ele bem que procurou � adverte dona Zizinha. � Pena
que tio Donga tenha ido embora antes do tempo.
No tumulto de gente entrando e saindo da barbearia, mulheres
e mocinhas chorando, aparece vov� Jandira com as velas. Acende
uma de cada lado do tio Donga. Com a mesma calma aproxima-se
da valeta, acende outras duas. As pessoas do morro parecem ter
adivinhado o ocorrido. Sai gente de todos os lados, de todas as vielas.
Em pouco tempo, na frente da barbearia, h� uma multid�o de curiosos,
seu Greg�rio mandando afastar, at� que os policiais aparecessem.
E n�o demora muito para que surjam. V�o empurrando os favelados,
estendem uma corda ao redor da valeta, outra ao redor da
barbearia. 0 cabo, um tipo moreno e de rosto magro, quer saber o
que houve. Dirige-se a seu Greg�rio.

� N�o sei. Ouvi os gritos. Quando corri encontrei as coisas
nesse p�!
Uma mulher quer falar, o cabo n�o escuta. A velhota gorda que
conversa com dona Zizinha � interrogada.

� E a senhora, o que sabe disso?
� Quase nada. Apenas vi o Banda Branca sair gritando l� de
dentro, com as m�os no pesco�o. Andou at� cair na valeta. Chamei
por tio Donga, tava ca�do tamb�m!
� Quer dizer que o barbeiro matou Banda Branca!
� N�o sei como foi.
Um outro policial, de cara agressiva, resolve ajudar o cabo.
� Acho bom algu�m abrir o bico. Sen�o vai todo mundo pra,
Delegacia.
L� n�o tem mist�rio!
Seu Greg�rio irrita-se com a amea�a.

� Como � que se vai contar uma coisa que n�o se viu?
0 terceiro policial o empurra.
� V� l� como fala, chapa. N�o t� em casa. n�o!
O tipo de ar insolente pega seu Greg�rio pela abertura.
� Olha aqui, filho da puta. Quero saber quem matou o alcag�ete.
Entendeu?
0 cabo, mais calmo, interfere.

� Pode deixar; ou ele ou outro vai ter de servir como testemunha.

O cabo torna a fixar-se na mulher gorda, que mora ao lado da
barbearia.

� Se o birosqueiro n�o quiser ir, vai a velhota. N�o � poss�vel
que n�o saiba o que aconteceu.
DOIS

Delegado Paranhos desliga o telefone, aperta o bot�o do interfone,
chama Galv�o. Em pouco tempo o homem aparece. Est� com
ar cansado, palet� amassado, o la�o da gravata frouxo. A tarde �
das mais quentes do ano, o aparelho de ar-refrigerado engui�ou, as
janelas do gabinete do delegado est�o abertas. Uma delas d� para o
sagu�o, onde h� frondoso abacateiro.

� Sabe o que aconteceu?
Galv�o n�o se surpreende. Entende perfeitamente aquilo. Tira
um cigarro, oferece por mera cortesia ao delegado. Sabe que, com
ele, n�o acontece nada de bom. H� muito tempo � assim, desde que
Julieta morreu.

� Silveirinha t� me ligando pra dizer que abotoaram o alcag�ete
do Babil�nia. O que ia farejar l� em Minas.
� Como foi?
� N�o t� apurado direito. Por enquanto, quem aparece como
matador � um velhote. N�o acredito nessa!
� E t� certo que o tal garoto de Minas tem alguma coisa a
ver com o matador de motorista?
� Quase certo. A n�o ser que Garanh�o conte outra hist�ria.
Galv�o sopra a fuma�a do cigarro. Parece o tipo mais calmo
do mundo.

� A hist�ria j� tenho praticamente comigo. E Garanh�o ajudou
muito. N�o pense que botei a m�o nele pra fazer m�dia.
0 delegado recosta-se na cadeira girat�ria, passa o len�o no
rosto.

� N�o vamos come�ar tudo de novo. Aceito que Garanh�o teja
metido na coisa. 0 que n�o se pode mais tolerar � que os crimes
continuem a ocorrer.
Galv�o p�e um dos bra�os na ponta da mesa, aproxima o rosto.

� Olha aqui, Paranhos. N�o nasci ontem, nem aprendi a ser
pol�cia com voc�. Sei muito bem onde meto o nariz. E pode t� certo
de que tou na pista do criminoso. Ou pensa o qu�? Com a merda de
uma viatura e dois auxiliares posso dar uma de Sherlock Holmes?
Lhe afirmo que esse moleque l� de Minas n�o tem nada a ver com

a coisa. O Diabo que resolveu nos perseguir t� por aqui mesmo, nas
nossas barbas. Nesse desespero em que se vive � que n�o tenho calma
de raciocinar, quanto mais!

� J� lhe dei todos os prazos poss�veis para solucionar o caso.
O que foi que aconteceu? Nada. Absolutamente nada!
� N�o diga isso. Se quer me ofender procure outro m�todo.
Mas n�o negue nosso trabalho. Eu e esses dois pobres-diabos que me
acompanham, noite e dia, tamos sofrendo mais que sovaco de aleijado.
0 que � que deseja, um milagre? Pois v� pra rua, leve o senhor
secret�rio, prenda o criminoso, resolva todos os crimes insol�veis,
d� uma de tira do ano!
Paranhos mant�m-se recostado na cadeira, enquanto Galv�o esbraveja.
Depois o detetive ergue-se, vai at� a janela.

� Sou capaz de lhe propor um neg�cio.
0 delegado continua a encar�-lo.
� Quero mais dez dias. Se n�o botar a m�o no criminoso, abandono
o cargo, rasgo a carteira de pol�cia, nunca mais entro numa
delegacia, dou declara��o nos jornais de que esses anos todos n�o
passei de um filho da puta, enganando os superiores e a pr�pria popula��o.
Digo isso e assino embaixo.
� N�o quero sua desgra�a, Galv�o. Quero que atue profissionalmente!
� E o que � que se tem feito? Garanh�o t� na jogada. Apenas
n�o � o cabe�a. Ou pensa que entre bandidos todos sabem de tudo?
Eles se cobrem, e como se cobrem. J� enfrentei caso em que bandid�o
nunca tinha sido visto pelos parceiros. Sabe muito bem disso. T�
lembrado da quadrilha do Meloca? Pois era assim que se mantinha.
Na moita. Completamente na moita!
Paranhos recupera a calma, faz um sorriso, balan�a-se na cadeira.


� N�o aceito sua execra��o p�blica, mas vou lhe dar os dez
dias. Se n�o acontecer nada, quem se manda deste maldito lugar
sou eu. Desde que assumi esta porcaria de fun��o, n�o tenho sossego.
N�o consigo nem dormir. E o pior: sofro eu e minha mulher, que
n�o tem nada a ver com a hist�ria.
Galv�o mant�m-se calado. Deixa o amigo se abrir.

� Sei como �. Tamb�m tive uma mulher. Acreditava no que
eu fazia.
Me acompanhava, sofria, embora fosse contra a profiss�o.
Olha pela janela, rosto amargurado, bei�os ressequidos.

� Por que meu Deus, um belo dia me deu na cabe�a de fazer
aquele maldito concurso? Por qu�?
� E o pior � que ningu�m tem considera��o � diz Paranhos.
� Aqueles merdas do Sindicato partiram pra greve, t�o amea�ando
outra, n�o querem conversa.

� Isso � excesso de liberalidade � diz Galv�o. � A corda t�
voltando a afrouxar. Se tivesse num posto de chefia, mandava meter
todos eles na cadeia. N�o passam de um bando de comunistas.
� Acontece que a rea��o deles ganhou o apoio da popula��o
e a coisa t� repercutindo.
� Por que o secret�rio n�o bota os l�deres sindicais na rua,
pra
pegar o criminoso?
Paranhos n�o tem outra sa�da, sen�o achar gra�a.

� Vamos em frente. Mais dez dias e prometo segurar a barra.
Explico pro homem que tamos chegando perto.
� Pode acreditar. N�o botei a m�o nesse crioulo pra aparecer
nos jornais. Ele t� metido na trama. S� que n�o � dos principais.
H� outros agindo e um cabe�a que ningu�m conhece. Nesse a� temos
de chegar.
Galv�o retira-se. Ap�s tanta discuss�o est� at� um pouco mais
bem-humorado. N�o tem d�vida de que Paranhos aceita Garanh�o
como um dos implicados. E, o que � mais curioso: n�o voltou a falar
no processo sobre o desaparecimento do professor. Se conseguisse botar
a m�o no bandido, nos dez dias de prazo, estava certo de que tudo
aquilo ficaria esquecido. 0 mesmo ocorreria com Silveirinha. Afinal,,
pra se chegar a um bandid�o tem de haver muita ladainha. Se vai
galgando os degraus no escuro e muita gente termina machucada,

alguns caretas sumidos de vez. 0 que tavam esperando? Cavalheirismo?
Detetive agindo como em certos romances policiais, onde tudo
d� certo, mais cedo ou mais tarde criminoso e agente da lei terminam
se encontrando? Que esperassem.

Nogueira aparece apressado, puxa-o pela manga do palet�.

� Itamar ligou do bar do Motinha. Pintou uma bomba do
caralho!
� 0 que pode ser?
� N�o fa�o id�ia.
Nogueira � o primeiro a entrar no bar. 0 calor � intenso, na
mesa est�o Itamar e Chico Biela. Galv�o vem atr�s, palet� nas costas,
cigarro entre os dedos. Quando o v� Chico Biela ergue-se.

� Puxa, velho, n�o deu mais as caras no Lampreia?
� Tenho falado com ele pelo telefone.
� Aquele neg�cio de t�xi at� que foi legal. N�o se pegou o bandid�o
mas se terminou segurando uma nota. Esses motoristas reclamam
de barriga cheia. Houve noite de recolher 600 praias.
� Vou botar um t�xi na pra�a! � diz Nogueira.
� E qual � a bomba? � atalha Galv�o.
� Tava ontem na Pra�a N. S. da Paz, esperando a mina, quando
avistei Kid Farofa. Lembra dele? O mendigo que transava com
Nels�o ?

O detetive n�o recorda logo quem era, Itamar e Nogueira est�o
sabendo.

� Puxa! Aquilo chora uma mis�ria, mas t� sempre com a nota.
� Tamb�m, o que j� pegou de vadiagem n�o t� escrito.
� Sim, e da�? � interroga Galv�o.
� Da� que ele vinha puxando aquele carrinho cheio de bagulho
e me reconheceu. Quando chegou perto foi empestando tudo.
Aquele desgra�ado n�o toma banho h� um ano.
� S� um ano? Acho que nunca tomou! � diz Nogueira.
� Pois bem. Ele tirou aquela porcaria de touca de meia da
cabe�a, ficou me olhando, meio sem-vergonha. Pensei comigo: ser�
que essa nojeira de velho endoidou de vez? Que � que h� Kid Farofa?
eu disse. T� acordado a essa hora ou o que tou vendo � visagem?
Ele riu e a� foi que o fedor aumentou. Ficou brincando com a
porcaria da touca e disse que tinha um al� pro Nels�o. A� eu disse
que n�o via o Nels�o h� muito tempo, achava que tinha entrado de
f�rias. Ele continuou me olhando, como macaco pra banana e eu
disse: o que t� havendo Kid Farofa? Comeu manga com febre? Ele
sentou na ponta do banco, meteu a m�o no bolso da cal�a esburacada,
procurou, procurou, tirou um envelope com sobrescrito. Me
passou o envelope, fiquei at� aporrinhado de botar a m�o naquela
meleira. Li o sobrescrito com dificuldade, porque a luz da pra�a era
fraca e ele rindo. Sinceramente que aquilo me aporrinhou e eu disse:
qual � a tua Kid Farofa, por que n�o vai encher o saco de outro?
Tou esperando a mina. Daqui a pouco ela aparece, j� imaginou? Ele
se levantou e foi a� que decidiu se abrir.
� Vi o casal que matou o motorista, perto daqui. Um garot�o
e uma mocinha!
� Que � que h�, Kid Farofa? Querendo brincar comigo?
� N�o � brincadeira, n�o. Vi os dois. Primeiro quem correu
foi a mocinha. Depois o garoto, atr�s dela. A mocinha se agarrou
no poste e vomitou paca.
� 0 que tem o envelope a ver com tudo isso?
� Foi da mocinha que caiu. Na hora que correu e o garot�o
foi atr�s.
� Cad� o envelope? � quer saber o detetive.
Chico Biela abre a capanga tira, j� todo manchado, passa-o a
Galv�o. Nogueira estica-se o que pode, o detetive sente um arrepio
no corpo, nas m�os um princ�pio de tremor, os olhos n�o querendo
fixar-se. Imposs�vel! N�o podia ser verdade.

� Poxa! E a garotinha deu at� bei�o na loja. Isso � cobran�a
do SPC! � diz Nogueira.
Galv�o continua calado, torna a ler o sobrescrito: "Sandra Duarte,
rua Hil�rio de Gouveia,. . . apto. 925". Sua vontade era sumir,
meter-se em casa, abrir a garrafa de u�sque, tomar no gargalo. Aqui



lo era demais. N�o podia ser. 0 sacana do Kid Farofa estava inventando.
Seria uma transa do Nels�o, pra enxovalh�-lo de vez? N�o podia
ser. Nels�o n�o chegaria a esse ponto. Ent�o era aquilo. A garota
e seu amante. 0 mesmo que surpreendera no apartamento, vestindo-
se �s pressas.

� Seu namorado ou amante?
� Qual a diferen�a?
� H� muita diferen�a, filha; muita diferen�a!
N�o tinha mais do que duvidar.
� N�o t� satisfeito com a dica, chefe? � quer saber Chico
Biela.
Galv�o vira a cerveja no copo.

� Claro que tou. Acho at� que se deva recompensar Kid Farofa.
� Ora, a recompensa dele � ficar solto � argumenta Chico
Biela.
� A gente seguindo num rumo e os matadores no outro. Vai
ver, um casal de namorados! � acentua Itamar.
� � isso a�. Quanto mais tempo de janela se tem, menos se
sabe
� diz Galv�o dando a conversa por encerrada.
Mete o envelope no bolso do palet�.

� Logo mais se vai em cima da garota. Depois que contar a
hist�ria, o matador louco n�o ter� mais condi��o de existir.
� E se n�o tiver mais nada com o pilantra?
� Esse pessoal n�o se afasta assim, com facilidade. Um t� sempre
sabendo do outro.
� Espero que tenha sido �til � considera Chico Biela, que
continua achando estranha a rea��o do detetive.
� Imagina! 0 sacaneta do Kid Farofa ia entregar ouro a bandido
� argumenta Nogueira.
� N�o quero nem pensar. Com uma dica dessa Nels�o mijava
na
gente � afirma Itamar.
Galv�o bate no ombro de Chico Biela.

� Obrigado, velho. Fico devendo esse caso a voc�.
Motinha aparece, calcula a despesa rabiscando pequeno bloco,
Galv�o � quem paga. Chico Biela se oferece para qualquer ajuda, depois
atravessa a rua, o detetive, Itamar e Nogueira seguem na dire��o
oposta.

� Como �, vamos arrochar a garota? � sugere Nogueira.
Itamar n�o est� gostando do sil�ncio de Galv�o.
� Que t� havendo?
0 velho policial passa o len�o no rosto cansado, suado.
� Vai ser duro o final desse caso.
� Com a dica que se tem?
� Exatamente por isso.
� N�o d� pra entender.

� Deixa que explico. N�o quis falar na frente do Chico Biela
porque � um l�ngua de trapo.
Itamar e Nogueira encostam-se na viatura, parada sobre a cal�ada.


� T�o lembrado daquele apartamento onde se foi porque a bicha
saltou no p�tio interno? L�, tamb�m, morava uma garota chamada
Sandra Duarte. Sabem quem �? Minha filha. 0 envelope que Kid
Farofa achou � endere�ado a ela. Uma vez tive l�, vi o garot�o. Pelo
que diz Kid Farofa � o mesmo. N�o tem o que errar.
Por instantes nenhum dos tr�s diz uma s� palavra. Nogueira
que sempre encontra jeito de fazer gra�a, nada comenta. Os olhos
de Galv�o tornam-se vermelhos, enxuga-se no len�o.

� Pode convocar Papo de Anjo e Baiacu. De outra maneira
ela n�o fala. Conhe�o como �.
� Papo de Anjo? � indaga Nogueira surpreso.
� Tem de ser. E n�o quero que saibam ser minha filha. Voc�s
dois v�o estar por perto. Fico esperando embaixo.
� Se n�o ag�entar?
� Paci�ncia. De uma forma ou de outra temos que chegar no
puto daquele assassino.
Nogueira entra na Delegacia, a fim de dar os telefonemas, Itamar
permanece ao lado do companheiro. Quer falar e n�o consegue;
quer negar os fatos e n�o se atreve.

� Kid Farofa! � diz Galv�o como se estivesse monologando.
� Quem diria!
� Acontece que n�o sabe de nada.
� Exatamente isso que me surpreende. E ainda existe os que
n�o acreditam em destino.
Acende um cigarro, sopra a fuma�a nos ventos da tarde, a rua
estreita e atravancada de carros.

� Voc� acredita em destino?
� �s vezes sim, �s vezes n�o. Depois de uma dessa, d� o que
pensar!
� Pois eu acredito. Desde que Julieta morreu. E tou certo de
uma coisa: ainda vou padecer muito. 0 Padre Eterno t� me arrumando
um monte de castigo. N�o sei por qu�. Sempre procurei ser
fiel aos amigos, cumprir meus deveres. Ou ser� que o of�cio de pol�cia
� uma atividade maldita?
� Toda profiss�o � igual. Cada uma tem seus macetes, altos e
baixos. N�o creio que deva se impressionar com o que t� acontecendo
� arrisca Itamar.
N�o tou impressionado. Acho apenas que � um castigo; alguma
coisa que tava escrita, tinha de acontecer. Por isso � que nunca se
encontrou uma pista segura que levasse a lugar algum. Eu era a pr�pria
pista; minha filha era a pista. Entendeu, agora?


� � justo que se sinta assim. Talvez precisasse descansar. N�o
creio que seja prudente convocar Papo de Anjo e Baiacu. Eu e Nogueira
pod�amos ter uma conversa inicial com a garota.
Galv�o massageia a ponta do queixo com a canhota, olha o companheiro
de maneira ir�nica.

� N�o adianta. Seria perda de tempo. N�o diria uma palavra
a nenhum dos dois. A mim pr�prio n�o falaria. E o meu medo � que
nem mesmo diante de Papo de Anjo e Baiacu decida se abrir.
� Nesse caso, j� imaginou? � considera Itamar.
� � o risco que tenho de correr.
Itamar continua a falar, a objetar contra a convoca��o dos espancadores,
o detetive est� com um dos p�s apoiados na roda do carro.
Sopra a fuma�a do cigarro, diz pausadamente.

� Olha, seu Itamar, minha filha me odeia. Quer me ver morto.
Qualquer ladr�ozinho ordin�rio tem mais valor pra ela do que eu.
Esse � o tipo de mo�a que se t� enfrentando.
� Sei l� � prossegue Itamar � se fosse minha filha ia ficar
com ela, que se danasse o resto.
� � f�cil dizer isso. A responsabilidade maior t� no meu ombro.
Se o pobre-diabo do Kid Farofa viu os dois saindo do t�xi, por
que que outra pessoa n�o ter� visto? E se amanh� aparecer um filho
da puta dizendo que me amoitei, porque a assassina era minha filha?
De jeito nenhum, seu Itamar. Na verdade sou um policial, doa a
quem doer. Julieta reclamava, n�o tinha raz�o. N�o compreendia o
que � ser um policial, como tou certo voc� ainda n�o se decidiu. T�
em cima do muro.
� Em cima do muro. coisa nenhuma. Fa�o o que � poss�vel..
Enquadrar parente meu, isso nunca. Ainda mais sabendo que tem
Papo de Anjo e Baiacu na transa.
� Se fosse um tira de cora��o � o que menos interessava. O
importante � saber a verdade, botar a m�o naquele que desafia a lei.
� Acontece que o mundo t� todo torto, n�o sou eu quem vai
consertar.
Galv�o tira nova tragada do cigarro.

� Pois ent�o, tanto eu quanto voc� chegamos numa encruzilhada.
Temos de nos decidir. Eu talvez seja policial demais, voc� de
menos. Ou se modifica ou procura outro emprego.
� Acho que � o que vai acontecer. Tenho pensado nisso. Desde
o caso com o veterin�rio. Fiquei dias e dias recebendo os parentes dele
na Delegacia, inventando mentiras. N�o gosto disso. Me revolta.
� Voc� se preocupa muito com os outros e pouco com o que
faz!
� T� sendo injusto. N�o sou de mijar nas cal�as. O que n�o �
direito � se fabricar um suspeito como o veterin�rio.

� Se n�o fosse aquela saca��o, o que acha que tinha acontecido
com a gente?
� Sei l�. Acontecesse o que acontecesse, era problema nosso. O
homem n�o tinha nada com a hist�ria. Se sabia disso desde o come�o.
� Ocorre que n�o inventei nada. O desgra�ado do motorista
foi a causa de tudo. Surgiu com o diabo do cara, todo mundo ficou
afobado.
A conversa est� por a�, quando Nogueira aparece.

� N�o achei nenhum dos dois.
O detetive volta a massagear o queixo com a canhota.
� Onde ser� que esses capetas se meteram?
� Dentro de uma hora, no m�ximo, t�o de volta.
� � mais uma chance que t� tendo � diz Itamar. � Se acredita
em destino, creio ser hora de si mancar. Pra que n�o se arrependa
no futuro.
� Que papo � esse? � quer saber Nogueira.
� Itamar ficou maluco � afirma Galv�o. � Acha que devo
fazer vista grossa com minha filha. E a responsabilidade, hem?
� Responsabilidade porra nenhuma, detetive Galv�o. O que t�
em jogo � a vaidade. Sua vaidade. Se o caso morre em Garanh�o,
cad� a publicidade, as fotos nos jornais, nos filmes de televis�o? Isso
� que �, detetive Galv�o � acentua Itamar indignado.
� Que � isso, cara. T� brigando? � argumenta Nogueira.
� Umas verdades que ele precisa ouvir � prossegue Itamar.
� Se vem trabalhando junto uma por��o de tempo, tenho obedecido
em tudo; agora � demais. J� se fez muita coisa que nenhum crist�o
faz.
Galv�o anda de um lado para o outro da cal�ada.

� Cada um tem sua hora de entregar os pontos. Chegou a vez
do nosso Itamar � diz o detetive referindo-se a Nogueira.
� Que � isso, cara?
� Quando se ferrou aquele professorzinho � afirma Itamar
� todos n�s sab�amos que n�o tinha nada com o peixe. Entrou de
gaiato. E quantas vezes isso j� aconteceu, detetive Galv�o?
Novamente Galv�o apoia o p� na roda do carro. Aproxima o rosto
de Itamar. Est� vermelho de �dio.

� Olha aqui, seu mo�o. N�o tenho satisfa��es a lhe dar do que
fa�o ou deixo de fazer. Sabe muito bem que nossa tarefa � dif�cil, se
tem de descobrir o que fazem os bandidos, de um jeito ou de outro.
Cada um com seu m�todo. 0 meu � o que conhece. E n�o difere dos
outros. E assim que se age. Ser pol�cia � ser macho. Quem n�o tiver
convic��o disso que salte do trem andando.

� Eu sou macho, posso lhe provar. E por isso � que pra mim
chegou. Se quiser matar sua filha pode ir, mas n�o conte com minha
ajuda. Vou me apresentar ao delegado Paranhos, pedir substituto.
� P�ra com isso, cara. Vamos conversar! � diz Nogueira. �
Ser� que a bruxa anda solta, meu Deus?

� � bom que fa�a isso mesmo. Vai l�, joga a toalha � afirma
Galv�o. � E, se quiser, pode at� me entregar. Abre o verbo.
Itamar est� afastado da viatura, encara Galv�o com raiva, faz
um riso nervoso.

� Vou s� tratar do meu lado. N�o preciso lhe entregar. N�o
sou um policial!
Dizendo isso Itamar vai embora. Nogueira recosta-se na viatura,
Galv�o anda de um lado para o outro.

� 0 que foi isso? N�o entendi nada!
� H� muito tempo Itamar vem mancando. N�o tem pulso pra
nos acompanhar.
� 0 que vai fazer?
� Sei l�. Provavelmente se mandar. O servi�o n�o perde nada.
� Poxa! Tava tudo t�o bem e, de repente. . .
� Um tira n�o pensa duas vezes. T� sempre determinado. Come�ou
encrespando porque convoquei Papo de Anjo e Baiacu. � incapaz
de compreender. Me considera um pai desumano. Igualzinho
pensa a garota. N�o posso trabalhar com um cara desse tipo, que raciocina
como crian�a.
� Quem vai botar no lugar dele?
� Sei l�. � bom esperar. Talvez amanh� d� as cara, pe�a desculpa.
Se tem trabalhado demais.
� Tamb�m acho. Na primeira oportunidade vou pegar uma
semana pra ficar em casa, dormindo.
� Eu pretendo tirar f�rias, logo depois me aposento. Tenho tempo
suficiente. Tou nessa jogada de gaiato. Nisso Itamar tem raz�o.
TR�S

Por volta das 6 Nogueira aparece na cantina, diz a Galv�o que
Papo de Anjo e Baiacu estavam contactados.

� T�o indo pra l�.
� Explicou tudo direitinho?
� Como disse. Nada de ru�dos, de gritaria!
Galv�o termina de tomar o caf�, mete o palet�.
� Vamos l�.

Descem para o p�tio, entram na viatura. Nesse mesmo instante
dois tipos estranhos est�o chegando � portaria do pr�dio da Hil�rio
Gouveia. 0 mais baixo, embora igualmente forte, � Baiacu. Aproximam-
se do porteiro, Papo de Anjo apoia os bra�os volumosos no balc�o.
Baiacu est� sempre com um chapeuzinho de feltro, abas curtas,
uma pena inclinada, vive mascando chiclete. Papo de Anjo tem a cara
comprida, o queixo forte, nariz achatado de ex-lutador de boxe. �
primeira indaga��o do porteiro Baiacu puxa uma carteirinha do bolso,
exibe.

� Se t� numa sigilosa, morou? Daqui a pouco chega o resto do
pessoal. Vamos pro 925 e bico fechado. OK?
A princ�pio o porteiro mostra-se um tanto indeciso, concorda
quando Papo de Anjo tamb�m fala.

� Se tem um acerto com a mulherzinha que mora l�. S� com
ela.
V� bem!
0 porteiro faz um sorriso, encaminha-se ao elevador dos fundos.

� A essa hora o de c� � melhor.
Papo de Anjo e Baiacu entram no elevador, a viatura chega em
frente ao pr�dio. Nogueira e Galv�o saltam, apressados. Seu Manuel
j� os conhece. Fala dos homens que terminaram de subir.

� Vai com eles � diz Galv�o a Nogueira. � Espero aqui em.
baixo.
� Qual o problema? � quer saber o porteiro.
� Uns acertos sem import�ncia. Coisa ligada ao suic�dio da bicha,
t� lembrado?
0 porteiro se recorda, sorri, Galv�o tamb�m faz um riso amargo,
mais uma careta. Nogueira sobe pelo elevador social. Quando sai no
corredor Baiacu est� tocando a campainha. Chega perto, cumprimenta
os dois com um acenos de m�o. A campainha toca, a porta se abre,
entram os tr�s.

� Quem s�o voc�s? � indaga Sandra assustada.
Papo de Anjo encosta-se na mesa, como se n�o tivesse ouvindo,
Baiacu pede a Nogueira que fa�a as apresenta��es. Nogueira sorri,
puxa a cadeira, joga tudo que est� em cima, no ch�o, senta com o
espaldar voltado para frente.

� Bem. J� que gosta de protocolo, vamos l�. Aquele ali � Papo
de Anjo; 39 anos, natural do Paran�, 102 quilos, ex-lutador de boxe.
O outro � Baiacu; 43 anos, 98 quilos.
� Entraram na porta errada; isso aqui n�o � ringue!
� N�o � mas vai ser � diz Nogueira sorridente.
� N�o entendo.
Sandra est� numa camisola curta, coxas grossas aparecendo, seios
praticamente de fora.


� Pois vai j� entender. Quem � o amiguinho que te ajuda a
assaltar motorista de t�xi?
� Assaltar motorista de t�xi?
� Isso mesmo. N�o te faz de santinha. Temos dica segura. Saiu
de um t�xi. o motorista abotoado, vomitou num poste, se mandou na
carreira com o tal amiguinho. J� viu que tamos por dentro.
Sandra senta na beira da cama, por um momento n�o percebe
direito o que aquele homenzinho magro e sorridente dizia.

� V� bem. N�o tamos interessados em te machucar. Mas se
n�o abrir o bico, vai servir de saco de areia pro treino que Papo de
Anjo e Baiacu querem fazer.
� N�o sei de nada. N�o sei do que t� falando!
Nogueira ergue-se, faz um aceno de cabe�a para Baiacu. O homem
baixote e parrudo, pernas arqueadas, aproxima-se de Sandra.
Tenta evit�-lo, j� chorando, Baiacu segura-a firme, Papo de Anjo
aproxima-se com um cachecol de seda amarelo, tapa-lhe a boca e at�

o nariz. D� diversas voltas, aperta o n�. Quando termina essa opera��o
Baiacu continua a segurar firmemente a pequena, Papo de Anjo
bate-lhe no rosto com a m�o direita aberta. As pancadas s�o de tal
forma violentas que em poucos instantes o cachecol come�a a ficar
manchado de vermelho.
� Tira o pano � diz Nogueira. � V� se j� recordou!
Papo de Anjo desfaz o n�, Sandra ainda consegue dar um grito
que � logo abafado pela m�o pesada de Baiacu a essa altura colado
na garota, por tr�s, aproveitando-se, dizendo indec�ncias, fazendo brincadeiras.


� Vamos l�, Florzinha. Canta a pedra ou a gente tira teu couro.
A m�o com que Baiacu tapa a boca de Sandra fica logo suja de
sangue. Ela tosse, se engasga, repete em prantos que n�o sabe de nada,
n�o tem o que dizer. Papo de Anjo torna a colocar o cachecol.
Nogueira sabe que agora a coisa vai ser feia. Tem vontade de pedir
aos caras que manerem, mas n�o recebeu orienta��o nesse sentido. E
depois do que j� vira acontecer com Itamar, o importante seria evitar
problemas. A garota devia falar, n�o interessava se era sua filha
ou n�o.

Com a maior facilidade Papo de Anjo prendeu os bra�os de Sandra
para tr�s, segurou-a pelos p�s, p�s-se a pression�-la com o joelho
sobre a espinha. Da primeira vez a garota ficou vermelha como um
tomate e a espinha arqueou apenas um pouco. Da segunda a press�o
foi maior, os gritos que dava eram ouvidos, mesmo com a boca tampada
como estava.

Papo de Anjo solta Sandra ela se encolhe no ch�o. torce-se, bate-
se, Baiacu puxa o colch�o da cama para perto da mesa, coloca-a
em cima.

� N�o se pode fazer barulho! � lembra Nogueira.

Baiacu tira o cachecol.

� E agora? Conseguiu lembrar?
Nogueira acocora-se ao lado da garota.
� Vamos l�, menina. N�o t� sendo legal. Desse jeito vai ficar
aleijada e n�o adianta nada.
Sandra est� sangrando pelo nariz, boca e ouvido, sacode a cabe�a,
negativamente, demonstrando n�o saber o que pretendiam. Papo
de Anjo torna-se furioso com aquilo. Coloca a grande m�o nos maxilares
de Sandra, p�e-se a apertar, a apertar, os dedos afundando na
pele branca, os olhos da pequena saltados, os gorgolejos que n�o conseguiam
sair da garganta, a cara de Papo de Anjo se aproximando,
Sandra com express�o de quem est� sendo esmagada.

� Fala ou vou te moer os ossos!
Nogueira interv�m, a enorme m�o afrouxa. Sandra cai de costas
no colch�o.

� Quem � o cara? Responde logo que a coisa t� engrossando.
Sandra n�o diz, n�o responde, apenas chora, o sangue aumentando
no nariz e na boca.

� Se prefere assim, nada posso fazer � diz Nogueira.
Papo de Anjo pisa no peito de Sandra.
� Agora ela fala.
A garota procura livrar-se do extraordin�rio peso, Papo de Anjo
n�o se incomoda que lhe arranhe a perna. Pressiona cada vez mais,
Baiacu mant�m as m�os na cabe�a e na boca, a fim de que os gritos
da mulher n�o sejam ouvidos. Nogueira esfrega nervosamente o rosto,
nunca vira Papo de Anjo fazer aquilo com ningu�m. 0 t�rax de Sandra
afunda, como se todas as costelas fossem quebrar de vez. Baiacu
d� finalmente um toque no companheiro, o enorme p� deixa de pressionar,
Sandra desmaia. Nogueira pega �gua no banheiro, joga-lhe no
rosto. Mesmo assim ela n�o se reanima. Baiacu aplica-lhe tapas, Nogueira
ajuda, friccionando os pulsos. Quando Sandra se recupera, chora
alto, quer gritar, erguer-se. As m�os firmes de Baiacu seguram-
na, Papo de Anjo est� remexendo na geladeira, abrindo a �nica cerveja
em lata. Bebe a cerveja de alguns goles, fica olhando a garota
escornada no ch�o.

� Quem � teu coleguinha? Basta dizer o nome dele e tudo bem.
Sandra vai falar, tenta dizer as primeiras palavras, n�o consegue.
� Vamos com calma. N�o precisa se afobar.
� N�o sei onde mora. S� sei que se chama Toninho. � meu
namorado. N�o sabia que tava nessa transa. Fiquei sabendo depois.
� Por que n�o procurou a pol�cia?
� N�o sou de dedurar ningu�m!
� Muito bem. E onde ele pode ser encontrado?
� �s vezes vai na boate.
� Que boate?

� Bacar�. Trabalho l� h� tr�s anos. Nunca me envolvi com
nada.
� Como � esse Toninho?
Ainda a� Sandra tenta negar informa��o.
� Vamos l� � insiste Nogueira. � Deixa de tolice. Chega de
sofrer.
� Alto, magro, alourado, uns 17 anos, t� sempre com casaco
de couro.
Sandra permanece jogada no ch�o, Nogueira manda que Papo
de Anjo e Baiacu esperem. Sai apressadamente pelo corredor, procura
sondar a vizinhan�a, desce pelo elevador de servi�o, encontra Galv�o
que conversa com o porteiro. Chama-o de lado.

� Como foi?
� Mais f�cil do que esperava.
� Ela t� bem?
� Um pouco machucada. N�o conv�m ir l�.
� Sei como �.
� E daqui pra frente? � quer saber Nogueira.
� Quem � o cara?
� O namorado dela. Um tal de Toninho. Alto. alourado, 17
anos, sempre metido num casaco de couro.
� N�o me enganei. � esse mesmo.
� Despacho o pessoal?
� S� Baiacu. Papo de Anjo vai ficar. Se n�o se tomar essa provid�ncia,
termina encontrando um jeito de avisar o namorado.
� N�o tinha pensado nisso � afirma Nogueira.
� Dispensa Baiacu, Papo de Anjo fica de plant�o. Amanh� ou
depois, quando tiver melhor, ela vai pra boate. Como se tudo estivesse
normal. N�o se deixa que entre em contato com ningu�m. Pe�o mais
uns cinco ou seis homens pra Paranhos. Aviso que se t� na reta final.
Como prometi.
� Aceita Itamar, caso volte?
� Dif�cil. N�o tem nada a ver com a gente. Nesse ponto o diabo
do Paranhos acertou.
� N�o acha melhor eu ficar no lugar de Papo de Anjo? N�o
confio
nesse cara!
Galv�o percebe o alcance da observa��o.

� � melhor. Manda ele tamb�m em frente.
337


Cap�tulo XVII

UM

A noite estava chuvosa. Toninho examinou bastante os jornais
antes de sair da Pens�o Iola, reconferiu o dinheiro, viu o quanto havia
gasto em pouco menos de tr�s semanas. Na verdade deveria encontrar
outro meio de se virar. O gar�om trouxe o chope, as pessoas
da noite entravam e sa�am, algumas alegres, outras soturnas, falando
baixo, discutindo coisas sem import�ncia, olhando longe. Por tr�s
do balc�o, dois pilantras, pele cor de cera, ambos calvos. Bebia o chope,
acompanhava as andan�as do gar�om, de mesa em mesa, onde
havia crioulos magros e mulheres de volumosos bra�os, vestidos apertados.
Qual daqueles seria o Careca? Recorda as palavras de Marta,

o �dio que parecia ter de Banda Branca. Inacredit�vel como todo
mundo detestava aquele miser�vel alcag�ete. Pede outro chope, o gar�om
vai at� o balc�o, um dos homens cor de cera movimenta-se, o
copo est� diante de Toninho. Ainda n�o era hora de perguntar. Quando
estivesse pelo terceiro ou quarto, indagaria. At� l� podia ser que
aparecesse algum tipo mais �ntimo dos negociantes, bradasse seu nome.
Como sempre acontece em botecos ordin�rios.
Pela cal�ada do bar est�o passando constantemente as mulheres
e os homens. Uma que parou diante da porta, mostrava as coxas, profundas
olheiras, ar terrivelmente cansado. 0 excesso de pintura de
nada adiantava. Toma o chope, olha os crioulos magros e as mulheres
gordas, procura cobrir-se, caso o alcag�ete entrasse de repente. Afinal,
pelo que dissera Marta, estava sempre rondando o Bar do Careca.
N�o disse em que hora isso acontecia. Quase certo que aquele capeta
nem dormia. Estava o tempo todo acordado, perseguindo uns e outros.
Se aparecesse, suspenderia a gola do casaco, por causa da chuva fina,
pagaria os chopes, ficaria na primeira esquina. Se isso acontecesse seria
at� bom. Naquela noite mesmo podia resolver o problema. N�o
ia mais perder tempo. Talvez nem procurasse saber de tantos detalhes.

'Banda Branca!?


Ele olharia. Sabe quem sou eu? Toninho, filho de seu Ven�ncio.
0 cara que ajudou a sumir. T� lembrado, escroto de uma figa? Em
cima disso os disparos. Tr�s no mesmo lugar, pra n�o botar defeito.
S� ent�o se aproximaria. Se ainda estivesse mexendo, terminaria de
mat�-lo a pontap�s. Disso n�o ia abrir m�o. Ficaria de focinho mo�do,
pra servir de exemplo. Quando Enfezado soubesse, acharia gra�a.
Ia apenas reclamar de n�o ter participado da festa. Ah, que �dio que
Enfezado tinha. Bastava olh�-lo e se sentia isso. Cansou de ver gente
boa se virar pra ele, irritada. Que � que t� olhando, garoto? Que foi
que te fiz? Um olhar apenas e Enfezado dava o recado. 0 �dio no
sangue, na pele, saindo no suor, no riso que era um deboche. Um
permanente deboche. N�o acreditava que pudessem botar a m�o em
Enfezado. Tinha �dio demais pra se deixar agarrar. No m�ximo, se
conseguissem descobrir por onde andava, quando chegassem perto j�
estaria morto. Ele pr�prio saltaria do planeta. N�o precisava de ningu�m
pra empurrar. Cansou de dizer. E estava certo de que � o que
faria. Enfezado entretanto na constru��o, atravessando a rua, uma
cara de fazer medo. Ser� que conseguiria chegar na idade do pai, com
tanta raiva? Imposs�vel. Mais dia menos dia estourava. Ningu�m
podia ag�entar uma coisa daquela. Enfezado quase n�o ria. Nem mesmo
quando estava com a corda toda e ele, Toninho, resolvia imitar
meia d�zia de pilantras, inclusive o alcag�ete. No m�ximo fazia um
riso nervoso. Logo a carranca se fechava. Riu bastante s� quando trepou
na mulherzinha do sargento, ficou escanchado, abriu o canivete,
deu o primeiro talho no pesco�o. Virou a cara porque aquilo lhe parecia
demais. As pernas de Eunice se agitavam e ele segurando, como
Enfezado mandara. Olhou para o garoto, continuava a rir. A �nica
vez que o viu alegre. Ao subirem a escada, j� havia se fechado novamente.
E assim ficou at� o momento em que se despediu, foi embora,
a fim de pegar a tal carona. Quem seria esse motorista? Enfezado
teve o cuidado de escolher o cara direito ou n�o havia motorista algum
na jogada? Se fosse assim teria de tirar o chap�u. Toma outro
gole de chope, ventos frios entram no bar imundo, Toninho surpreende-
se de jamais ter imaginado esse detalhe. Se o motorista n�o exis


tisse? Fosse tudo mutreta de Enfezado? Quem tem vontade de rir �
ele. Diabo de garoto sabido! Mais uma raz�o pra confiar, saber com
que estava lidando. E o certo � que, com toda a movimenta��o dos
tiras, com toda a fala��o dos peritos e do detetive Silveirinha, at� ali
n�o sabiam de Enfezado. Lan�aram dicas falsas, anunciaram um suspeito
n�o sei onde, mas tudo onda. Verde pra colher maduro. Enfezado.
Enfezado continuou sumido, as dilig�ncias prosseguiram, como
prosseguem at� hoje. Apostava se a essa altura Banda Branca n�o estava
a servi�o do tal Silveirinha e do sargento Beto. Mais um motivo
para ser castigado. Podia lembrar isso tamb�m. Guarda esse, foi Enfezado
quem mandou! 0 alcag�ete faria uma cara engra�ada. Aquele

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era um pilantra de marca maior. Nunca aparentava aborrecimento.

Encostava-se no balc�o da tendinha, seu Greg�rio servindo as doses de

conhaque, Banda Branca falando das suas bravatas, dos "favores" que

dizia fazer para uma por��o de gente do morro e, em troca, s� recebia

coices. 0 negociante colocando mais conhaque e sabendo o quanto

mentia o alcag�ete, pois sabia muito bem o que fizera a dona Zizinha,

a mestre T�bor, sem falar em coisas menores com o pr�prio L�dio

Gordo e com vov� Jandira.

Cad� as telhas pra cobrir o barraco, vov�? Ela punha as m�os
nas cadeiras, fazia um arzinho de riso que era ao mesmo tempo de
desapontamento. Aquele Banda Branca ainda vai ser castigado. T�
abusando dos pobres, n�o respeita os devotos de Iemanj�. Um dia a
casa cai. N�o vou cobrar mais o dinheiro das telhas. Que fique pra
ele. S� espero que n�o venha a sofrer. Me sentiria muito infeliz se
isso acontecesse. E a� tornava a fazer o arzinho de riso e todos que
estavam na birosquinha tamb�m achavam gra�a. Os mais velhos tiravam
o chap�u quando vov� Jandira sa�a. Tinham considera��o pela
mulher. Uma das mais antigas moradoras do morro da Babil�nia.
Quando chegou ali e plantou seu barraco, n�o havia quase ningu�m.
Mesmo assim os que j� estavam foram embora. Houve um tempo em
que s� havia o seu casebre e todo mundo dizendo que a Prefeitura
ia mandar arrancar, pois ali o senhor prefeito n�o ia consentir que
se fizesse uma nova favela. Ingenuamente vov� Jandira argumentava
que n�o conhecia o senhor prefeito, n�o sabia se aquele morro tinha
dono e por isso l� estava com a gra�a de Iemanj�. 0 tempo foi passando,
o barraco de vov� Jandira de p�, outros favelados aparecendo
e, em pouco, havia uma comunidade. Foi assim. N�o adiantou Banda
Branca se mancomunar com os grileiros que, vendo a Prefeitura incapaz
de controlar a situa��o, tentaram apoderar-se dos terrenos. Nessa jogada
Banda Branca tamb�m entrou e terminou ganhando bastante
dinheiro. Arranjava fam�lias pobres que compravam os terrenos dos
grileiros e vov� Jandira achava gra�a da esperteza dos malandros, pois
na verdade aquele morro n�o pertencia a ningu�m, muito menos a
eles. Provavelmente, foi da� em diante que o alcag�ete ficou com raiva
da velha. Enganou-a finalmente no neg�cio das telhas mas de nada
adiantou. Vov� Jandira tem sa�de de ferro e, sendo devota de Ieman


j�, nada lhe acontece.
Se n�o encontrasse Banda Branca no bar, iria novamente ao morro.
N�o como das outras vezes. Subiria depois das dez, tocaria no barraco
de vov� Jandira. Conforme as coisas, faria uma visita de surpresa
ao alcag�ete. Quem iria se incomodar com alguns tiros abafados,
sa�dos do barraco de Banda Branca? Embrulharia a m�quina num
pano, acionaria o gatilho. Estaria ainda morando com as irm�s ou
elas se mandaram, como viviam amea�ando? Vov� Jandira saberia. Toma
o terceiro chope, o rosto se ilumina. Nesse momento entrou no


boteco um tipo alto e magro, blus�o fora das cal�as, listras vermelhas
e azuis, bate as m�os fortes no balc�o, grita como � seu Careca c a
canja de galinha? Cad� a canja de galinha? Um dos homens continua
s�rio mas o outro, o que tinha calva menor � quem acha engra�ado,
enquanto o sujeito continua a provoc�-lo, a dizer Careca tu n�o

� de nada, j� foi o tempo, agora esta merda por aqui t� toda mudada,
n�o se encontra cara com disposi��o de pegar na navalha, meter na
ponta do sapato, sair desenhando na fachada da clientela. Depois desse
acesso de lembran�as o tipo encosta no balc�o, uma das pernas dobradas,
descansa os cotovelos no m�rmore, Careca destampa a garrafa
de cacha�a. Toninho ouve o l�quido caindo dentro do copo. O homenzarr�o
joga um pouco da cana para o Santo, sacode de uma vez o resto
no bucho. Continua com o bra�o estendido, Careca larga a segunda
dose, ainda mais alentada, o homem repete o gesto, esfrega a costa da
m�o nos bei�os gretados, de quem est� acostumado a beber, fala baixo,
o gar�om diz alguma coisa, mesmo sem se voltar o tipo rebate,
numa prova de que era de fato popular por ali, sabia quem lhe falava
at� mesmo sem que se preocupasse em olhar. L� pelas tantas Careca
torna a rir alto, o homenzarr�o come�a um discurso que interessa
a Toninho.

� J� disse pra Zita. Manera que a turma baixa mesmo. Aquele
careta que t� na frente da opera��o n�o � moleza. Metido a nesta
que nem ele s�. Vive dando esbregue em tudo que � de subalterno.
Comigo � que se fode. S� respeito aquela porcaria quando tou debaixo
da farda. Fora dela, se me olhar atravessado vai levar um risco
nas costelas.
� E depois, como � que fica?
Pela primeira vez o homem se volta completamente para o sal�o,
diz alguma coisa ao gar�om, responde � considera��o do Careca.

� Depois se pega uma cana e sai pra outra. Cadeia n�o foi feita
pra cachorro!
� Acho bom Zita chegar no que o homem quer. Se fosse voc�
dizia isso.
� E j� n�o disse? Ela � que t� sendo teimosa.
Toninho aguarda que a qualquer momento o homenzarr�o mencione
Banda Branca mas isso n�o acontece. E, pelo sim, pelo n�o,
chama o gar�om, paga os chopes, vai embora. Se aquele tipo era tira,
devia haver outros por perto. N�o podia arriscar-se numa hora daquela,
num local que n�o conhecia. Sai para a rua larga, pilantras bolinando
mulheres, homossexuais e mendigos numa promiscuidade de
fazer d�, uma das bichas chamando Toninho, querendo agarr�-lo. Na
esquina de menos movimento fica parado, atento ao bar. Espera bastante,
o homenzarr�o que falava alto com Careca saiu, entrou na casa
de Zita. Toninho imagina que seria o mesmo assunto ainda sendo
tratado. N�o fazia id�ia do que fosse, mas a coisa devia girar em lor



no de alguma propina que o tal chefe do comando queria, a caftina
estava recusando. Nesse caso o tipo de blus�o listrado era uma esp�cie
de intermedi�rio, Careca funcionava como conselheiro, provavelmente
levando algum da mulher e dos tiras. Eta cambada de negociante!
Tudo igual a seu Greg�rio. Um santinho, sempre falando da mulher,
das filhas e comendo Marta cada vez que descia do morro pra abastecer
a birosca. Filho da puta! Arrochando a garota que n�o queria nada
com ele. Foi muito bom saber disso. Enfezado tinha raz�o. N�o devia
confiar naquele tipo. Alegrava-se de nunca ter procurado conversa
com ele. Nas vezes que entrou na tendinha foi mais para ouvir. Quando
dizia alguma coisa, pesava bem as palavras.

Ap�s muito esperar sem qualquer resultado, decide ir embora.
Provavelmente o alcag�ete estivera por ali, mais cedo. Sendo fim-desemana,
devia ter v�rios locais para achacar. N�o podia demorar-se
em nenhum. Voltaria outro dia, iria ao morro, falaria com vov� Jandira.
Esse o caminho mais curto. A n�o ser que tivesse mudado, mantivesse
o barraco apenas como desculpa.

Entra no primeiro �nibus, resolve ir � constru��o, em poucos
instantes est� passando por ruas tranq�ilas, casas fechadas, l�mpadas
acesas, o tr�fego torna-se intenso depois do t�nel, o ar parece
mais leve, salta na cal�ada onde h� panificadoras abertas, as pessoas
passam despreocupadas, puxando cachorros, tudo muito diferente daquele
mundo onde habitavam Marta, Zita, Careca e aquele estranho
tipo do blus�o de listras vermelhas e azuis. Como coisas e pessoas mudavam
de repente, bastava tomar um �nibus! Isso Toninho n�o entendia.
Quer esquecer a figura da mulher, tremendamente pintada e
de olheiras, coxas de fora, n�o consegue. De onde saiu aquela criatura?
Que fazia na cal�ada, quando a chuva ca�a, insistente? Esperava,
com aquela cara, ainda conseguir companhia? Oh, como estava enganada.
Nenhuma caftina lhe daria mais chance nos bord�is. Se quiser
uns trocados, encontrando-se com os homens, tem de trepar junto
aos postes, nos cant�es, encostada nas paredes dos pardieiros. Aquela
coitada s� podia satisfazer mendigos e os mais porcos dos homossexuais.
Tipos que n�o gostam de relacionamento. Utilizam a prostituta
como quem utiliza papel higi�nico. Recorda a figura alegre de
Sandra, v� a dist�ncia que a separa da mulher da cal�ada e da pr�pria
Marta, embora estivesse indo no mesmo caminho. Com o passar
dos anos, se n�o abrisse o olho. estaria debaixo da chuva, diante do
bar, esperando ser convidada. Acontece que ningu�m a convidaria
mais para coisa alguma. Os poucos que a olhassem, simplesmente achariam
gra�a ou voltariam o rosto, a fim de n�o continuar vendo aquilo.

Toninho segue pela rua, entra na constru��o. Como sempre,

algumas l�mpadas penduradas aqui e ali, Man� Cabreiro no posto.

� Poxa! Onde se meteu?

Sorri, ajusta o casaco, tira o ma�o de cigarros, oferece ao vigia
que fica com dois.

� Uma novidade do cacete!
� Que foi?
� Brezol� � p� frio, mesmo! Ferrolho n�o ag�entou o tranco,
morreu semana passada. Ti�ozinho e Josias foram ao enterro.
� E agora?
� Ainda pergunta? 0 pr�prio advogado disse que vai gramar
cadeia no m�nimo cinco anos. Mesmo com a desculpa de que foi
acidente.
� E como vai provar?
� O pessoal t� disposto. At� eu, se for preciso, livro a barra
dele.
� E a turma que tava querendo me esfolar no baralho?
� Tudo l� em cima � diz o vigia ap�s gritar duas ou tr�s
vezes por Rox�o.
DOIS

As duas da madrugada, quando Toninho sai da constru��o,
perdeu mais de dois mil cruzeiros. Acende um cigarro, d� outros a
Man� Cabreiro.

� Hoje n�o � teu dia, cara!
� Tudo bem. N�o se pode ganhar sempre.
� Me alegra que pense assim. N�o tava com sorte no jogo mas
tem guia forte.
� Que t� querendo dizer?
� Ti�ozinho se preparou pra te arrochar.
� Que foi que fiz pra ele?
� Diz que te viu mexendo na roupa do Brezol�.
� Me viu?
0 vigia sacode a cabe�a, passa a m�o no nariz.
� N�o acredito nisso. T� sabendo. Mas os outros. . . sabe
como �!
� Por que n�o tocou no assunto?
� Josias ganhou, vai dividir.
Toninho acha por bem n�o encompridar aquela conversa. Bate
no ombro de Man� Cabreiro, sorri, vai embora. N�o pode esquecer
aquela do Ti�ozinho que sempre se mostrara sonso, falando pouco.
Vai ver, no dia em que pegou as roupas, o filho da puta tava apenas
fingindo dormir. Viu tudo e se amoitou, esperando a hora de atacar.


Tipo ordin�rio. N�o retornaria � constru��o. N�o tinha mais o que
fazer ali, principalmente depois da morte de Ferrolho e da cana firme
que pegaria Brezol�. At� sair n�o teria mais nem condi��o de
reconhec�-lo. Estaria em outra, provavelmente mudaria de cidade
com Sandra, quem sabe at� fossem para o estrangeiro. L� ela teria
mais condi��o, cantaria samba para argentinos e uruguaios, poderiam
dar um giro pela Europa. 0 sonho de Toninho era ir � Europa.
Mestre T�bor lhe falava de Roma e Paris. Uns tempos em que trabalhou
como soldador na Marinha. Foi num navio de guerra, por l�
ficou mais de um m�s. 0 navio deu defeito, tiveram de esperar. Falava
da neve que pegava com a m�o, da neve nas ruas e sobre as
casas. Sonhava fazer o mesmo. Conhecer Paris, junto com Sandra.
Ela adoraria trabalhar por l�. Ia ser uma outra vida. N�o precisava
procurar mais Man� Cabreiro, ficar ouvindo suas piadinhas sem
gra�a. At� que ponto aquilo que o vigia dizia era verdade e at� que
ponto era inven��o, a fim de mant�-lo permanentemente assustado?
Come�ava a desconfiar daquele nordestino cara de bolacha, que ria
com a maior facilidade e estava sempre falando de coisas que os
companheiros teriam comentado.

Na esquina o �nibus continua parado. D� uma carreira, entra
com as �ltimas pessoas. Agora, mais do que nunca, estava decidido.
Seria o �ltimo golpe. Teria de repor o dinheiro no cofre. Do contr�rio
n�o poderia nem ag�entar-se, quanto mais alimentar o plano
de tornar Sandra uma cantora, ir com ela por lugares long�nquos,
onde n�o pudesse sequer recordar Man� Cabreiro, Ti�ozinho, Brezol�,
Banda Branca e a mulher da porta do bar, olhos fundos, coxas
sujas de lama e chuva.

Senta ao lado de um sujeito que morrinha, o �nibus dispara, na
parada seguinte entra a velhota com a maleta, quer saber se o carro
vai para a Rodovi�ria, o cobrador dizendo um "vai" de m� vontade,
a velhota fazendo novas considera��es, o homem calado, como se n�o
estivesse disposto a dizer mais nada. 0 crioulo no primeiro banco foi
quem se p�s a falar, a dizer as ruas do itiner�rio, a velhota ainda n�o
conformada, a conversa se alongando, tornando-se chata, desagrad�vel,
Toninho querendo que o �nibus chegasse logo ou vagasse um lugar
mais para a frente, a fim de sair de perto do tipo fedorento, da megera
idiota.

Quando a mocinha sai do banco, perto do motorista, trata de tomar
o lugar. Agora sim, o ar parecia leve, as brisas sacudiam-lhe os
cabelos. N�o tinha que respirar o fedor do careta, n�o tinha de ouvir
os murm�rios da velhota, n�o se enervava com o nervosismo do trocador,
mulato balofo, fei��es grosseiras, cal�a arrega�ada. Enquanto

o �nibus passava por ruas que n�o sabia o nome, nem estava interessado,
imaginava detalhes