terça-feira, 21 de janeiro de 2020 0 comentários By: Fred

{clube-do-e-livro} LANÇAMENTO DE TODOS 33 LIVROS DE CARLOS AQUINO


Do Grupo Bons Amigos


Olá, pessoal:

                 Nesta mensagem estamos relançando os 33 livros de Carlos Aquino.

                Carlos Aquino foi um escritor brasileiro que fez muito sucesso na década de 1970 a 1980 do século passado.



Escritor, jornalista e ator, Carlos Aquino nasceu em Sergipe, mas foi para o Rio de Janeiro ainda adolescente.Trabalhou em filmes e peças de teatro, mas finalmente descobriu que sua verdadeira vocação era escrever, passando a dedicar-se à literatura. Sua estréia foi com o romance: Verão no Rio em 1973. Com seu estilo vigoroso e moderno, colocando sempre uma dose de verdade em seus personagens, ele  foi no século passado na década de 70 a 80  um dos escritores de mais prestigio junto ao público.  Detalhes sobre sua morte leia em : https://www.terra.com.br/istoegente/79/tributo/index.htm 

    

Carlos Aquino por ele mesmo:

 

Meus romances são um pouco de mim mesmo. Falam

daquilo que eu vivo, porém de uma maneira

crítica. Porque é assim que eu vejo o que está à

minha volta. Porque procuro não fechar os olhos

para esta realidade. A vida nem sempre é aquele

sonho cor-de-rosa que todos nós, quando adolescentes,

imaginamos que ela seja. Infelizmente o

mundo está repleto de armadilhas e adversidades

que o tornam amargo, levando ao desespero as

criaturas manejadas como simples marionetes no

palco da vida. Meu desejo, entretanto, não é transmitir

pessimismo às pessoas que, como eu, são

arrastadas nessa corrente de dúvidas e incertezas,

mas, sim, mostrar que é preciso reagir e ser forte

para poder lutar e não se deixar fenecer diante da

sociedade. 




 Destacamos os seguintes livros de Carlos Aquino:

 

 

TÍTULO Nº05 : AS DESQUITADAS

SINOPSE: Clarice é uma mulher de trinta e seis anos que acaba de se separar do marido. Da união ela teve apenas um filho de dezesseis anos.

             Nos primeiros dias  após a separação ela fica deprimida. Fixa o olhar nas flores do jarro e relembra o passado.

             As amigas dela não são de boa formação e a motiva ela a ter encontros.

             Um dia ela tem encontro com um prostituto e fica muito deprimida.

            

 

TÍTULO Nº10 PASSARELA PARA O SEXO


ESTA HISTÓRIA INICIA-SE EM 1939 E TERMINA EM 1977

SINOPSE:

             Vânia é filha de uma prostituta. Nascida em pleno início da Segunda Guerra Mundial, 1939. Loura, bonita, paquerada, admirada. Aos doze anos, Vânia tem seu primeiro namorado, Aníbal. Era um namoro que tinha intimidades avançadas para época.

             Quando completa dezesseis anos, Vânia entrega-se a Décio, filho de um rico fazendeiro. O fato corre numa praia nas proximidades de sua casa.

             Algum tempo depois, Vânia conhece Laércio e ele se torna o segundo homem de sua vida e muitos anos depois seu marido.

             Jairo, filho de um fazendeiro também é quem incentiva Vânia a participar de um concurso de beleza. Ela sai vitoriosa e vai disputar o Miss Brasil

                                                            COTAÇÃO ÓTIMO

 

TÍTULO Nº07: A RAINHA DAS DISCOTECAS

FAMÍLIA: CRISTINA, PAI, MÃE E IRMÃO.

 

SINOPSE: Cristina é uma moça de dezenove anos. De família rica, mora em um apartamento na Av. Vieira Souto,Ipanema, na cidade do Rio de Janeiro.

                Moça liberada, Cristina vive intensamente sua época. Transa com o namorado, passeia na garupa da moto de seu namorado em alta velocidade.

COTAÇÃO :ÓTIMA

 

LINK DOS 33  LIVROS DE CARLOS AQUINO

 

https://mega.nz/#F!OI9w0aRb!ViYwlKV95kv4oa-jb7am-Q

 

 Baixe duma vez na opção baixar com zip

Lançamento  :

a)https://groups.google.com/forum/?hl=pt-BR#!forum/solivroscomsinopses

b)http://groups.google.com.br/group/bons_amigos?hl=pt-br

Este e-book representa uma contribuição do grupo Bons Amigos  para aqueles que necessitam de obras digitais como é o caso dos deficientes visuais e como forma de acesso e divulgação para todos. 

É vedado o uso deste arquivo para auferir direta ou indiretamente benefícios financeiros. 
 Lembre-se de valorizar e reconhecer o trabalho do autor adquirindo suas obras

 


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{clube-do-e-livro} LANÇAMENTO : O ESPIRITISMO E AS IGREJAS REFORMADAS - JAYME ANDRADE FORMATO PDF



---------- Forwarded message ---------
De: Reginaldo Mendes 




Este livro foi lançado em 13/JUL/2014 no Grupo Allan Kardec e outros grupos.
Neste Grupo Mente Aberta e Só Livros com sinopse estamos lançando  hoje.


O Grupo Allan Kardec lança  hoje mais um livro digital!
Desejamos a todos uma boa leitura !


O Espiritismo e as Igrejas Reformadas - Jayme Andrade


Livro doado e digitalizado por Fernando José dos Santos e revisado por André Luiz de Menezes

Sinopse:
Com o objetivo de esclarecer seus antigos companheiros de fé evangélica sobre os fundamentos científicos e filosóficos do Espiritismo, e a posição deste em face da ortodoxia seguida pelas igrejas cristãs e tradicionais. Este é um livro imprescindível ao espírita, seja iniciante ou dirigente de reuniões, pois no dizer do prefaciador, e dos escritores Celso Martins e Hermínio Correia Miranda: - o livro é muito bom.


Este livro representa uma contribuição do Grupo Espírita  Allan Kardec aos deficientes visuais.

https://groups.google.com/group/grupo-espirita-allan-kardec?hl=pt-br

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{clube-do-e-livro} LANÇAMENTO: ESCURIDÃO - ADELAIDE CARRARO - FORMATOS : PDF, EPUB,RTF E TXT

ESCURID��O



D A M E S M A A U T O R A :

A D E L A I D E C A R R A R O

L . O R E N

EDITORA E DISTRIBUIDORA DE LIVROS LTDA.

S��O PAULO



Capa de

MARIO DECIO CAPELOSSI

Direitos autorais adquiridos por:

L. OREN ��� Editora e Distribuidora de Livros Ltda.

Escrit��rio: Avenida Ipiranga, 1.100 - Sala 22

Fone: 34-5338 - S��o Paulo

Impresso no Brasil





1 9 7 4


�� N D I C E G E R A L

I Virgens Neur��ticas 11

II Filosofia? Cada Dia um Homem! 35

III 40 Anos. Seios Duros 47

IV Dinheiro ? Os Homens me dar��o 59

V Dr. Voc�� ter�� uma filha Prostituta 63

VI Gr��vida? P��lulas 79

VII Meus 15 Anos Fervem 85

VIII Largue-me... doi 93

IX Festa do Vale Tudo 103

X O Sem Vergonha 109

XI Oito Homens. Duas Meninas 129

XII Aquela?!? Dorme com o Diretor 155

XIII De uma Chupadinha 179

XIV Juventude.. . Pare 195

P R E F �� C I O

�� bem dif��cil classificar mais um livro de ADE-

LAIDE CARRARO. Quando ela lan��ou o livro "Eu E O

GOVERNADOR", pensei tratar-se apenas de "fofocas", para fins comerciais. Mas, na propor����o em que foram

saindo os seus livros, percebi a t��trica realidade. ADE-

LAIDE CARRARO conta em seus livros toda a verdade

n��a e crua. Verdades que j�� foram notici��rios de Im-

prensa Falada, Televisionada e Escrita. ADELAIDE

CARRARO, uma fr��gil mulher, quase que desamparada,

tem enfrentado sozinha graves problemas com os seus

livros, mas a corajosa escritora n��o deixa de rasgar o

v��u das apar��ncias para revelar-nos, ao vivo, quase todas

as chagas que trituram a nossa sociedade. Neste livro

"ESCURID��O", ADELAIDE CARRARO, na sua natu-

ridade, chega a causar-nos arrepios. Ficamos choca-

dos ao ler este livro, pois n��o acreditava-mos que fosse

poss��vel existir indiv��duos como o pai de Ivete, desti-

tu��do de qualquer freio psicol��gico. Porisso somos obri-

gados a acreditar que existe gente sem escr��pulo e as

vezes as encontramos no mais alto escal��o da socie-

dade.

Toda essa est��ria faz de "ESCURID��O", a nascente

da deprava����o, um fogo vivo em nossas m��os.

Quer um conselho? Deixe de lado a classifica����o li-

ter��ria e veja, depois de terminar de ler mais esta fan-

t��stica obra da querida e corajosa escritora, que resta-

r�� um ardor de fogo, uma brasa viva dentro de voc��.

JO��O DA SILVA PEREIRA



I

Virgens Neur��ticas

Estamos no m��s de Fevereiro. Em S��o Paulo, o ca-

lor �� infernal. Tem horas que chega aos trinta e oito

graus. Isto, para os paulistas, �� um calor de amargar.

Principalmente para n��s, as alunas do Col��gio Sinai,

um dos mais luxuosos dessa cidade, pois as freiras n��o

permitem que usemos trajes mais leves. �� por demais

horr��vel termos que nos abafar dentro destas saias

azuis de um pano um pouco mais grosso que tergal.

Ainda por cima, completando esse torturante uniforme,

temos meias tres-quartos, sapatos pretos pesados e cor-

pete tamb��m azul, sob as saias ��� por si s�� just��ssimas.

Sentimo-nos mais ou menos como v��timas daqueles tor-

niquetes medievais...

O col��gio �� um casar��o estilo colonial, com um mon-

te de janelas amea��adas de desaparecer (por causa das

trepadeiras que sobem pelas paredes, sempre muito bem

cuidadas) e com grupos de chamin��s apontando o c��u,

como se fossem de uma f��brica ou como se fossem imen-

sos falos. Todo o grande edif��cio �� de tijolos expostos e

��� 11 ���

telhas na mesma cor ��� um fosco e escuro alaranjado

��� e �� cercado por um gigantesco parque. Quando che-

guei aqui, logo que bati os olhas nele, fiquei deveras

impressionada. Achei o parque, e tudo o mais, uma be-

leza.

�� uma boa lembran��a e s s a . . .

Agora, eu estou sentada, n��a, ao lado da janela.

Lia um livro chamado "Asco", e j�� n��o me concen-

trava mais na leitura. Depositei o livro no colo e fixei

os olhos no quente ver��o que trazia para dentro do

meu quarto o embriagante perfume de rosas. Elas se

espalham, at�� hoje, por toda a volta do col��gio. Era um

perfume que embalsamava at�� o menor cantinho do ca-

sar��o. Depois do roseiral, se estendia a grama, de um

verde brilhante, que chegava a ofuscar os olhos da gen-

te, quando estavam, como agora, batidas pelos raios do

sol. No meio da grama, tamb��m numa constru����o ao

estilo antigo, d o r m e a grande piscina de ��guas azula-

das, onde era permitido ��s meninas um banho de al-

guns minutos. Isso uma vez por semana e, assim mesmo,

de cal����o e malha, o que nos tornava um bocado rid��-

culas, mesmo depois que nos acostumamos a rocambo-

lesca vis��o de uma a outra. Enfim, bem distante do pon-

to de vista da minha janela, l�� embaixo, as frondosas

��rvores, enfeitadas com mesinhas e bancos de pedra,

onde se permitia a presen��a de visitas, em dias determi-

nados. Agora aquilo tudo parecia long��nquo, apesar de

eu ainda estar ali.

Absorvi-me a contemplar o morrer do sol, quando

Ivete, a minha companheira de quarto, entrou e veio

at�� a janela, para o meu lado.

��� ��, Regina, as rosas coloridas fazem um belo con-

traste com o verde escuro das ��rvores... �� uma be-

leza.

Ivete ficou observando alguns segundos na mesma

dire����o que eu e depois continuou:

��� 12 ���

��� O Ver��o, em S��o Paulo, �� muito mais bonito do

que esperava, quando vim para c��. Agora, quando vol-

tar para Recife, vou poder falar da beleza de tudo isto.

Ivete fez um muxoxo, bastante brejeiro, franzindo

o nariz e apontando para nossa direita.

��� Mas? daqueles vasos cinzentos, com aquelas flo-

res amarelas eu n��o gosto. N��o s��o l�� uma grande ma-

nifesta����o de "prefer��ncia". O decorador falhou ali.

Nisso, sentindo a falta da minha participa����o, Ive-

te olhou para o meu colo e viu o livro "Asco". Escanda-

lizou-se, como eu j�� esperava.

��� Nossa, menina! Voc�� quer ter outro dem��rito por

estar lendo um livro n��o permitido?

S�� a�� eu acordei. Fui quase intempestiva.

��� Dem��rito n��o me importa! Posso ter d��zias deles

que vou continuar lendo este l i v r o ! . . .

Ivete n��o entendeu bem a minha pequena explo-

s��o. N��o tinha condi����es de entender. Apenas balbu-

ciou:

��� Mas por que?

Continuei no mesmo tom, pomo se n��o tivesse in-

terrompido a minha frase anterior:

��� Ele me lembra muit��ssimo o problema da minha

m��e! Como voc�� sabe, ela n��o sai das televis��es! Pica

l�� se arrastando aos p��s daqueles imundos, em busca

de um lugar em alguma novela! Essa autora foi mui-

to feliz fazendo este livro! �� um grande exemplo! Prin-

cipalmente para as mocinhas gananciosas e, ao mesmo

tempo, ing��nuas, que querem o estrelato f��cil e acabam

perdendo tudo sem conseguir nada!

Ivete estava um pouco em estado de confus��o quan-

do eu me interrompi.

��� 13 ���

��� Mas, se a Madre souber que voc�� est�� lendo "isso",

vai ter um frege neste col��gio!

V�� que Ivete n��o iria compreender com facilidade.

Procurei encurtar a conversa, ent��o.

��� Eu digo a ela que pensei que o livro estivesse na

lista de autores permitidos.

��� De qualquer maneira, voc�� tinha que pedir per-

miss��o ao Servi��o de Censura de Livros do col��gio.

Ivete n��o estava sendo inteligente, era f��cil de ver

��� Digo que presumi que isso n��o fosse necess��rio.

Voc�� sabe que eu n��o gosto de dar satisfa����es do que

fa��o, a essa gente. N��o dou satisfa����es do que fa��o, nem

aos meus pais.

Ivete enveredou por outro caminho. No fundo, es-

tava gostando da minha atitude.

��� A Mestra me disse, hoje, que voc�� �� uma menina

brilhante e que deve ajudar a endireitar a sua compa-

nheira de q u a r t o . . .

Agora fui eu quem se surpreendeu e ficou um pou-

co em confus��o. Ivete soltou uma gostosa gargalhada.

��� Imagine, uma menina de quinze anos como voc��,

endireitar uma louca como e u ! . . .

Ivete come��ou a circular pelo quarto, de bra��os aber-

tos, quase dan��ando, como uma lev��ssima gazela. N��o

se interrompeu, e agora, atingia as bordas da ironia,

de uma ironia contida, amarga, como se estivesse com

vontade de chorar.

��� Ivete Cerqueira Cesar, da mais rica fam��lia de

Pernambuco, que d�� milh��es e milh��es pra sustentar

este imenso santu��rio de meninas que est��o loucas pra

sair por a��, abrir as pernas e dar a virgindade a quem

de boas condi����es pra entender por que elas est��o dando!

��� 14 ���

Ivete, enfim, parou no meio do quarto, deixou cair

os bra��os, suspirou fundo e concluiu entredentes:

��� Eu sou a primeira a querer pular essas grades,

pois sinto coisas muito boas quando estou perto de ho-

mem! Eu n��o gosto de escola, nem no Ver��o, nem no

Inverno, nem em qualquer outra esta����o!...

Ent��o, como eu em certas ocasi��es, sem sair do tom

empregado, Ivete mudou completamente o caminho do

assunto.

��� S�� gosto das f��rias! E, por falar em f��rias, eu

aproveitei um bocado as ��ltimas! Espero que voc�� tam-

b��m tenha aproveitado as suas ��� quero dizer, com a

sua fam��lia, com a sua m��e, o seu pai.

Demorei alguns segundos para me levantar da li-

geira letargia em que Ivete havia me lan��ado. Mas con-

segui .

��� Ah, isso de ficar com papai e mam��e n��o faz

diferen��a nenhuma. Falei, deixando o livro sobre a

pequena mesinha pr��xima a janela e me enrolando nu-

ma toalha. ��� Eles sempre jogam a culpa um no ou-

tro por n��o poderem passar as f��rias comigo. Mas eu

n��o ligo. Tenho sempre uma amiga �� disposi����o, e fa��o

da fam��lia dessa amiga a minha fam��lia. Quando a mi-

nha m��e fica sabendo onde eu estou, vai me buscar e

diz que a culpa �� de meu pai. Ela diz que nas minhas

f��rias ele sempre arranja um monte de servi��os extras

e viaja pros confins do judas, l�� pro estrangeiro. Quan-

do ele volta, diz que a culpa �� da minha m��e que me

deixa no col��gio nos feriados e na casa de amigos nas

f��rias. Minha m��e grita que o contrato na tv n��o per-

mite que ela saia quando lhe d�� na bola e que meu pai

�� quem tem obriga����o de vir me buscar.

Aqui, n��o pude evitar ser tamb��m um pouco

amarga.

��� 15 ���

��� Nas minhas f��rias h�� sempre grandes "arranca-

-rabos" l�� em casa. Fazem dramalh��es anormais pela mi-

nha aus��ncia. E imagine voc�� que est��o separados...

Por a�� j�� d�� pra voc�� fazer uma id��ia do que passei

quando estavam juntos. Era um inferno, uma briga

atr��s da outra, e eu ��a sempre a favor da minha m��e.

Parecia que eu me recuperava daquela neurose. Es-

tava ficando melhor a lembran��a.

��� Como eu lhe disse uma vez, eu e ela nos compre-

endiamos muito bem. Pelo menos naquela ��poca, pois

hoje n��s apenas fingimos que nos damos bem.

N��o sei por que, voltei a mim, voltei a enxergar

Ivete. Talvez fosse o meu estado de consci��ncia, a cons-

tante depress��o... Ivete estava deitada na cama, ba-

lan��ando as pernas para o ar. Perguntei, de s��bito:

��� Existe alguma afinidade entre voc�� e seus pais?

Ivete, que parecia n��o se inteirar do meu proble-

ma ou do que eu dizia, parou de balan��ar as pernas no

ar, naquela inoportuna gin��stica, e ficou mais ou me-

nos avermelhada, enquanto gaguejava para responder:

��� Meu pai �� um velho �� antiga. N��o gosta que eu

frequente festas e saia com rapazes. Mas eu saio assim

mesmo e dou aos rapazes todas as liberdades poss��veis

e imagin��rias. As vezes chego em casa com o batom

todo deformado e �� a�� que as coisas esquentam. Eu acho

infernal o meu pai gritando: "Qualquer dia eu te mato!

Voc�� tem que se portar como uma Cerqueira Cesar, n��o

andar por a�� deixando-se bulinar por esses cabeludos

de cal��as apertadas! Eu te mato! Juro que te mato! Voc��

tem que se casar virgem, de v��u e grinalda, como man-

da a tradi����o da fam��lia! E se algum dia, eu n��o a sou-

ber virgem, juro que te mato!"

Ivete riu nervosamente, uma risadinha ir��nica, e,

ap��s a explos��o, debru��ou-se sobre a janela e ficou olhan-

��� 16 ���

do para o parque. Tinha um belo corpo a minha com-

panheira de quarto, um corpo jovem, quente e colan-

te. N��o sei por que, ela topou naquele assunto, e justa-

mente naquele m o m e n t o . . .

��� Voc�� sabe, Regina, que neste intrenato de vir-

gens neur��ticas, quase todas sentem um pequeno for-

migamento pelas outras e at�� mesmo pelas professo-

ras . . .

N��o entendi a princ��pio, mas, logo em seguida, Ive-

te tornou-se mais clara:

��� Voc�� sabe que desconfiam de n��s? Isso �� devi-

do ao fato de voc�� ter cortado contacto com o resto das

meninas e se concentrado mais em mim. Elas s��o umas

invejosas...

S�� n��o entendi aonde Ivete queria chegar.

��� E da��?

��� Da�� que elas pensam que voc�� me ama.

N��o me preocupei muito com aquilo.

��� Elas que v��o pro inferno!

��� De mim elas n��o podem dizer nada, pois eu j��

tive muitos homens e vida livre fora do col��gio.

��� E a meu respeito eu n��o me importo com o que

possam pensar.

Ivete, ent��o, desviou os olhos do parque l�� fora para

mim.

��� Eu acho, Regina, que voc�� devia viver melhor,

por que, queira ou n��o, voc�� poder�� ser escolhida a Rai-

nha da Primavera este ano. Eu sei que vai fazer voc��

muito feliz e voc�� deve ficar mesmo muito feliz por que

��, realmente, a mais bonita de todas n��s. Mas voc�� sabe

que a escolha �� atribu��da por m��ritos, que s��o uma es-

p��cie de atestado moral. Assim, �� necess��rio compreen-

der que se voc�� deseja ser aceita, n��s devemos, cortar

��� 17 ���

as nossas liga����es. Se n��o tomarmos cuidado, podemos

acabar numa situa����o dif��cil. Acho que para o nosso

bem devemos nos separar. Voc�� poder�� ficar no quar-

to da Arlete, eu j�� falei com ela.

��� Mas eu gosto �� de voc��, Ivete, eu amo �� a voc��.

Algu��m j�� disse que devemos amar-nos uns aos outros.

Se nos separarmos agora, vai ser uma esp��eie de con-

firma����o a esses falat��rios, penso eu.

Ivete voltou novamente os olhos para o parque l��

fora.

O que pensam, essas idiotas, que fazemos?

��� Elas pensam que fazemos amor.

��� Pois se eu nem mesmo sei como se faz isso entre

duas mulheres. Voc�� est�� transformando o pensamen-

to das alunas em algo repulsivo.

Ivete, que nessa altura j�� tinha se colocado mais

�� vontade, come��ou a procurar pincel e esmalte para

pintar as unhas. Logo os encontrou, enquanto continuou

no nosso assunto.

��� �� uma caceteac��o dos diabos pra mim o que

est�� acontecendo. Esse falat��rio me deixa com a cuca

fundida. Eu sempre digo a essas meninas que durante

a noite falamos de livros. Digo que voc�� me empresta um

livro e, depois que eu leio, falamos a respeito dele.

Ivete deixou os apetrechos de pintura sobre a sua

cama e come��ou a despir-se. Mais do que nunca, seu

corpo me parecia lindo. N��o se interrompeu a�� tamb��m,

e nem me deu chance de um aparte.

��� Digo que �� pelos livros que nos damos bem assim.

Eu gosto, voc�� gosta, e assim vamos indo. Digo tamb��m

que voc��, apesar de ter s�� quinze anos, �� dona de uma

��� 18 ���

esp��cie de tranquilidade muito original. Digo que �� cal-

ma, ponderada, consciente, de uma consci��ncia dif��cil

de encontrar em adolescentes, hoje em dia.

N��a, com os seios balan��ando gelatinosamente de

acordo com os movimentos do corpo, Ivete se interrom-

peu. Ficou bastante p��lida, olhando para mim, e teve

coragem, ou for��as, de continuar. Ela, sobretudo, n��o

era mentirosa nata. S�� conseguia mentir tranquilamen-

te para os pais. Procurei ser ao m��ximo objetiva, ent��o.

��� Olha, Ivete, vamos ficar aqui neste quarto, e

sem ligar a seja l�� o que for que possam dizer ou pen-

sar! Eu j�� estou cheia de tudo isso! E depois, voc�� tam-

b��m �� inteligente o bastante pra n��o se importar com

mexericos! Isso �� coisa pra crian��a!

Ivete se irritou mais ainda com a minha observa����o.

��� Crian��a n��o tem vida social e sexual fora da es-

cola! E eu tenho!

��� De uma forma ou de outra, voc�� n��o precisa ser

t��o agressiva. Eu estou apenas tentando ajudar. N��o

acho direito voc�� ficar sofrendo por causa desses fala-

t��rios .

Ivete n��o aproveitou a pausa que dei. Passou a pin-

tar as unhas dos p��s. E n��a. o aue, pelas vis��es que

proporcionava, me deixava pouco �� vontade. Mas con.

tinuei assim mesmo.

��� Voc�� diz que tem vida social e sexual l�� fora,

diz que tem quantos homens queira e n��o sei mais o

que, mas lembre-se de uma coisa: do que eu aprendi em

apenas um ano, lendo livros que a professora de Ingl��s

me empresta, voc�� n��o faz nenhuma id��ia.

Sem tirar os olhos das unhas dos p��s, Ivete retru-

cou:

��� 19 ���

��� Voc�� s�� sabe de teoria. Na pr��tica �� mais di-

vertido e, na pr��tica, eu sei tudo.

��� Eu tamb��m posso ser t��o "entendida" quanto

voc��, se me ajudar. Mas enquanto estamos aqui den-

tro, sinto que h�� qualquer coisa em que posso me apoiar

pra ser superior. Aqui dentro, �� poss��vel conversar com

as professoras que gostam da gente, com a Madre e

com as outras, sem precisar ficar me defendendo de

"coisas".

��� N��o adianta nada perder tempo. Ou a gente co-

nhece "coisas" agora ou nos arrependemos pro resto

da vida, n��o importa o que se conhe��a depois. O que

n��o temos �� sempre mais importante do que o que te-

mos. Se voc�� espera, depois vai �� conhecer os amigos

de mam��e. Aqueles que a mam��e indica. E s��o sempre

da nossa idade.

��� A�� �� que est�� a quest��o, Ivete. Voc�� diz que as

pessoas da nossa idade a aborrecem e fica se preocupan-

do com o que elas pensam a nosso respeito. Voc�� nun-

ca vai aprender a viver no seu tempo se for atr��s de

conversa f��til, seja de velhos ou de jovens. Realmente,

n��o a compreendo. Acho que aqui dentro do col��gio

voc�� tem uma ��tima oportunidade de aprender, se gos-

ta de gente velha ou mo��a. �� uma experi��ncia impor-

tante, que s�� a conviv��ncia com as meninas do col��-

gio pode dar a voc��.

Houve alguns segundos de sil��ncio e depois Ivete

atirou com toda for��a o vidro de esmalte contra a pa-

rede. O vidro se espatifou, sujando tudo de vermelho.

Havia se convencido de que eu tinha raz��o. Esperei pas-

sar a explos��o para depois continuar. Apontei a parede.

��� Olhe a parede. Com essa mancha voc�� vai ter

uns mil dem��ritos. Aposto que vai ser dif��cil at�� conse-

guir permiss��o para sair do quarto agora.

20 ���

Ivete encarou-me, os olhos fuzilando:

��� Ora! E quem vai ver? E que me importa a pa-

rede!

��� H�� o risco de uma inspe����o! Eu s�� quero �� sair

daqui! Estou louca pra fumar, pra beber, pra ter os ho-

mens! �� s�� o que eu quero!

Preferi me calar. N��o adiantava nada mesmo. Ive-

te jogou-se na sua cama e ficou de olhos pregados no

teto. Eu fui arrumar meus livros e a�� chegou Arlete.

Ela entrou no quarto, como sempre fazia, intempestiva-

mente, falando em altos brados. Era tamb��m uma be-

l��ssima jovem, alta, com um corpo escultural.

��� Oi, gente, olhem o que estou trazendo.

Arlete tinha um cigarro esquisito nas m��os, nada

constru��do profissionalmente, industrialmente. Parecia

mais um cigarro de palha, desses que os homens do cam-

po fazem com tanto carinho. E a rec��m-chegada foi di-

reto a Ivete, que, j�� sabendo do que se tratava, pulou

da cama.

��� Primeiro eu!

Arlete sentou-se �� beira da cama, junto com Ive-

te, as duas comentando aquele estranho cigarro. Arlete

parecia n��o reter o contentamento. Estava exfuziante.

��� Vamos encher a caveira hoje! Vamos voar!

Ivete j�� estava com o cigarro nas m��os, e Arlete

percebeu a sofreguid��o com que a primeira vivia o mo-

mento.

��� �� s�� uma tragadinha, heim! Pois o "pacau" cus-

tou caro �� bessa!

Ivete n��o ouviu a recomenda����o de Arlete. Sugou

violentamente o cigarro.

��� Isso deixa a gente pensar que est�� no meio de

um monte de h o m e n s . . .

��� 21 ���

Arlete insistiu na recomenda����o. As duas tinham

se esquecido de mim. Era como se eu n��o estivesse pre-

sente .

��� N��o aspire com tanta for��a. Esse �� dos melhores

que existem.

Ivete j�� tinha queimado o fumo a uma boa quan-

tidade. Ent��o come��ou a tossir, at�� ficar quase verme-

lha. Arlete n��o tinha outra coisa a fazer sen��o rir. Eu

ainda n��o havia me recuperado da surpresa inicial. Foi

tudo muito r��pido.

��� Porra, n��o �� que �� forte m e s m o . . . !

Arlete n��o deu tempo a que Ivete se recuperasse.

Tomou-lhe o cigarro das m��os e veio na minha dire����o.

��� Agora voc��, Regina!

Sem querer ser polida, recusei a oferta. Aquilo me

assustava.

��� N��o, eu n��o quero esse neg��cio. Fica pegando

na garganta da gente.

��� Mas aspirando bem devagarinho n��o vai acon-

tecer nada disso, n��o vai dar nem uma tossezinha. O

que aconteceu com a Ivete foi exatamente isso: ela n��o

teve paci��ncia.

Continuei na esquiva.

��� N��o, sinceramente n��o quero fumar esse ne-

g��cio.

Ivete, que se aproximara por tr��s de Arlete, tomou

novamente o cigarro das m��os dela.

��� Deixa pra mim. Eu fumo.

E Ivete tragou o cigarro parecendo gostar muito.

��� Olha, Arlete, vou fumar at�� a metade numa tra-

gada s��. Quero ver se o efeito fica melhor,.

��� 22 ���

Arlete se divertia com a situa����o. Era t��o invete-

rada quanto Ivete. Ou mais.

��� Fica sim. Eu j�� fiz assim uma vez.

Procurei ponderar. Se nos pegam ali, fumando da-

quela erva, certamente nos expulsariam do col��gio.

��� E melhor dar um jeito de dispersar a fuma��a.

Hoje vai haver inspe����o nos quartos e, se n��o me en-

gano, j�� estou ouvindo pessoas no corredor.

Assustadas com o meu alarme, as duas apanharam

as primeiras coisas que viram ��� as roupas de Ivete so-

bre a cama ���, e come��aram a espalhar a fuma��a pelo

ar, procurando fazer com que ela saisse pela janela. Ao

fim de poucos segundos, s�� ficou um cheirinho estra-

nho pelo quarto, isso ap��s Ivete se atirar na cama, por

baixo das cobertas, e abrir um livro de Latim. Arlete

sentou-se em uma cadeira e fingiu que lia Hist��ria. Eu,

continuei arrumando meus livros e, de vez em quan-

do, olhava para a porta, que, ap��s um suspense terr��-

vel, abriu-se, dando passagem a diretora do col��gio, que

entrou farejando o ar, como uma cadela ca��adora.

Permaneci como estava, mas deixando os livros de

lado, em aten����o �� presen��a da diretora. Arlete levan-

tou-se e Ivete tamb��m, mas procurando enrolar-se nu-

ma coberta, como se a diretora tivesse nos surpreendido.

Ao lado dela estavam duas funcion��rias, e o cigarro eu

n��o sabia onde tinha ido parar.

��� Boa tarde, mo��as.

Respondemos como nos permitia nosso estado de

esp��rito, que era suficiente para que a velha hiena n��o

percebesse nada de anormal no quarto. Em seguida, ela

deu uma volta pelo quarto, da mesma forma que as

duas funcion��rias, examinando minuciosamente todos

os cantos. Depois, fixando-nos alternadamente, ciciou:

��� Ouvi dizer que as senhoritas fumam.

��� 23 ���

Eu fiquei quieta. N��o teria tempo de responder,

mesmo que quisesse, pois Ivete e Arlete arregalaram os

olhos, exclamando quase que ao mesmo tempo:

��� N��s!?!

A diretora cruzou os bra��os, numa atitude de so-

berania .

��� Voc��s sim. Sei s�� pelo c h e i r o . . .

Ivete foi sarc��stica:

��� Eu presumo, senhora diretora, que o cheiro vem

l�� do charuto do jardineiro. Ele est�� trabalhando bem

debaixo de nossa janela.

��� Voc�� n��o deve presumir nada, senhorita Ivete.

�� bom que me apresente fatos da pr��xima vez. Se n��o

apresentar, da pr��xima vez que sentir cheiro de cigar-

ro aqui dentro, voc�� ganhar�� vinte dem��ritos. E com

vinte dem��ritos se perde a metade das f��rias, voc��s sa-

bem.

��� Sim, senhora diretora. ��� Murmurou Ivete, hu-

mildemente .

Depois, com al��vio, vimos a diretora sair. Eu dei-

xei-me cair sentada numa poltrona, e respirando fun-

do de satisfa����o por que a megera n��o descobrira nada,

Ivete e Arlete cairam na risada. Arlete falava, entre

uma risada e outra:

��� Se ela soubesse que cigarro ��, qual a marca que

n��s fumamos, acho que ganhar��amos o bilhete azul hoje

mesmo!

Resolvi interferir naquela manifesta����o de irres-

ponsabilidade .

��� Eu n��o disse! N��o devemos fazer nada de erra-

do, ou, pelo menos que a diretora julgue errado! A me-

lhor coisa que a gente tem a fazer �� estudar!

��� 24 ���

Arlete parou de rir. Ou melhor, continuou. Mas ja

sem a euforia de antes.

��� Eu n��o tenho nada para estudar. J�� fechei em

Franc��s, em Ingl��s, em Hist��ria, j�� fechei em tudo.

��� Eu, n��o, ��� exclamei. ��� Por isso tenho que es-

tudar .

��� Ora, por que voc�� n��o cola? ��� perguntou Ivete.

��� Pode ser uma boa solu����o. ��� confirmou Arlete.

N��o tive tempo para nada. Ivete abriu um outro

caminho na conversa, sombria:

��� Eu, nem colar posso. Da ��ltima vez que fiz isso

com uma colega, o resultado dela estava todo errado.

As duas tiramos zero e repetimos o ano. Foi muito cha-

to por que as duas provas estavam iguaizinhas.

Arlete, que j�� estava se cansando daquele assun-

to, n��o suportou mais.

��� �� melhor parar com isso. Na falta do que fazer

��� a ��nica coisa pra fazer nesse ermo ��� vamos falar

em homens. E, por falar em homens, voc�� j�� foi bei-

jada alguma vez, Regina?

��� N��o.

��� N �� o ? ? ? Voc�� est�� com quinze anos e nunca foi

beijada ? ? ?

��� E voc��, Arlete? ��� inquiriu Ivete.

��� Muitas vezes, por uma por����o de homens. E com

a l��ngua bem molhada.

��� �� bom, n��o? ��� perguntou Ivete, interessada.

Eu j�� estava meio tonta com tanta "sensualidade".

E Arlete respondeu a Ivete:

��� Experimente ser beijada por um desses tipos su-

per-machos e que esteja com a cabe��a cheia de "fu-

ma��a"

��� 25 ���

Ivete come��ava a tremer de prazer.

��� Hum, que t e z �� o . . .

Um vermelho vivo estava cobrindo o rosto de Ivete.

E e]a j�� n��o podia mais se controlar.

��� E depois vem aquela hist��ria de "voc�� tem um

lindo corpo que come��a a adquirir formas" e as m��os

bobas come��am a subir e a descer, pra baixo e pra cima,

na gente.

Houve um fr��mito da parte de Ivete. Ele estava

quase gozando na nossa frente.

��� Assim n��o h�� dignidade que resista... ?

Arlete parecia t��o interessada quanto Ivete.

��� E como voc�� reage depois que p��e a dignidade

de lado?

��� Eu n��o me mexo. Fico com o corpo mole e os

bra��os caidos.

��� U��! Por que?

��� D��i menos.

��� N��o entendi.

��� Se o cara come��a a te bulinar com os dedos, voc��

deve descontrair os m��sculos, deve relaxar.

��� Mas s�� com o dedo n��o �� ser seduzida. Quero

saber se voc�� j�� dormiu com algum homem. Se j�� teve

alguma experi��ncia de verdade.

��� Ainda sou virgem, se �� o que voc�� quer saber.

Realmente, nunca tive uma experi��ncia verdadeira, mas

j�� dormi nuazinha com muitos rapazes. Mas isso n��o

quer dizer nada. Pelo menos uma boa parte das garo-

tas que eu conhe��o gostam de dormir abra��adas a ra-

pazes .

��� 26 ���

Resolvi interceder. Aquele assunto estava me inte-

ressando. Mas me interessando tanto que cheguei a es-

tranhar. N��o estava me reconhecendo.

��� Eu nunca tive essa oportunidade ��� interferi ���

e nem saberia dizer quando poder�� acontecer.

Ivete procurou me incentivar:

��� Muito me admira voc�� falar em oportunidade,

Regina. Quando estivemos naquele col��gio misto l�� na

Guanabara, muitas noites eu dormi com rapazes. E olhe

que eu tinha apenas onze anos!

Aproximou-se mais de mim: ��� Quer ver uma outra

oportunidade? Nos fins de semana, no Guaruj��. En-

quanto os velhos jogam cartas, a mo��ada entra nos

apartamentos um do outro e surgem mil oportunidades.

Voc�� perde um punhado de coisas gostosas por passar

os fins de semana aqui no col��gio ou na casa de sua

m��e. Nem mesmo bebe, e j�� tem quinze anos. L�� nas

praias, as meninas que eu conhe��o, e os rapazes, come-

��am a encher a cara j�� nos doze.

��� Ora, voc�� sabe como a mam��e ��. Ela que vive

procurando uma oportunidade na tv, acha que a filha

tem que ser santa. Nada de fumar, nada de beber ou

namorar. ��s vezes bebo cuba-libre escondida.

��� Chiiii! Cuba??? Que tro��o mais enjoado! O ne-

g��cio �� na pinga mesmo. A gente tem que amar o Bra-

sil ou deix��-lo. E como eu o amo mais do que todo mun-

do, bebo pinga, que vem de seu solo.

Ivete rodopiou as m��os pelos ares e concluiu a sua

patri��tica manifesta����o.

��� �� uma esp��cie de homenagem ao nosso pa��s.

Voc�� deve fazer o mesmo.

��� Ora, Ivete, voc�� dizendo tudo isso perto da Ar-

lete vai fazer com que ela pense que eu sou uma ino-

cente, mas eu n��o sou t��o inocente assim, n��o. Afinal,

��� 27 ���

sei muito sobre sexo e o que temos dentro do corpo.

Sei, por exemplo, como s��o os homossexuais e posso, se

voc��s quiserem, explicar como eles se amam.

��� Isso �� velho. Eu at�� vi artistas em atitudes sus-

peitas. Ali��s, acho que voc�� n��o sabe essas coisas de ver-

dade. Fala por que leu nos livros de anatomia, n��o ��?

��� N��o senhora. Foi um rapaz que me contou. Um

rapaz do gin��sio.

��� Aposto que foi um desses repulsivos espinhudos,

que est��o sempre com as cal��as t��o justas que aparece

aquele horripilante amontoado de lado. Oh, Deus, como

os detesto. Gosto �� dos que j�� s��o homens, pois n��o vi-

vem a mostrar o que tem por entre as pernas para se-

rem valorizados. O homem de verdade procura at�� es-

conder. Nem quero conversa com meninos de gin��sio.

S��o t��o desajeitados. Meu gosto mesmo �� pra esses tipos

que sabem ser agrad��veis, que n��o abra��am muito aper-

tado, que n��o deixam cair a bebida da ta��a que seguram

na m��o.

��� Olha, Ivete, l�� vem voc�� novamente com homens

velhos. Com eles n��o h�� futuro. �� s�� dormir n��a, fumar

maconha, beber, beijar, deixar bulinar. A gente tem

mesmo que arranjar um jovem e casar, construir um

lar sadio, onde os nossos filhos aprendam o nosso exem-

plo. N��s estamos estudando no col��gio mais rico de S��o

Paulo e s�� ou��o falar em homens, bebida, sexo e tantas

outras b o b a g e n s . . . !

Arlete e Ivete cairam na gargalhada e foi Arlete

quem falou:

��� Olha a��, Santa Regina! Aposto que quer ser ca-

nonizada. N��o bebe, n��o fuma, n��o foi beijada e nunca

foi vista n��a por homem algum.

��� Voc��s est��o enganadas quanto a Santa. Mas

quanto ao resto, n��o fa��o porque me considero uma

menina. Quando fizer dezoito anos, arranjarei um noivo

��� 28 ���

que ser�� meu marido e me ensinar��, com a experi��ncia

que tiver, todas essas coisas. N��o quero aprender com

ginasianos, nem acho prazer ter qualquer homem nos

meus bra��os, encostar o meu corpo no dele s�� para

sentir o sangue ardendo nas veias. Acho tudo isso que

voc��s pensam uma grande cretinice. Quero ser pura,

levar uma vida pura e amar adoravelmente.

A campainha para o jantar tilintou. As meninas

vestiram-se rapidamente, pois no segundo toque, algu-

ma irm�� poderia surgir para verificar se todas esta-

vam bem arrumadas e com os cabelos amarrados para

tr��s. Todas deviam permanecer na porta do quarto at��

o terceiro toque, que indicava formar fila para o refei-

t��rio. Quem n��o estivesse pronta nesse momento rece-

beria um dem��rito. Eu ocuparia, como sempre aconte-

cia, uma mesa com Ivete, Alice e Renata.

Alice e Renata eram as meninas mais ordeiras do

col��gio. Eram como se esperassem que a inspe����o fos-

se de minuto a minuto. E tinham um posto importan-

t��ssimo dentro do col��gio. Organizavam todas as festas

e eram quem escolhia as jovens e a pe��a mensal que o

nosso teatro encenava. Para se chegar a isso era preci-

so ter as maiores notas em todas as mat��rias. Tamb��m

deviam ter tudo em ordem.

Alice e Renata eram um contraste comigo e com

Ivete, que faziamos do nosso quarto a maior bagun��a.

Durante os primeiros anos na escola, fiz o m��xi-

mo para ser uma aluna exemplar. Mas Ivete, como sem-

pre, com a sua influ��ncia, insistia para que eu me di-

vertisse, pois estava me tornando deprimida de tanto

estudar. Alice e Renata tamb��m faziam parte da comis-

s��o para a escolha da Rainha da Primavera. Elas acha-

vam que eu, apesar de ter uma forte personalidade, n��o

era l�� muito estimada pelo resto da comiss��o. Por isso

tinha, como Ivete me sugerira, de conviver um pouco

mais com as outras meninas, pois eu, sinceramente,

��� 29 ���

queria muito ser Rainha da Primavera. Ivete tinha ra-

z��o quando me aconselhava a estreitar mais amizade

com Alice e Renata. Por isso procurei, no refeit��rio, ser

gentil com ambas.

��� Voc�� quer, por gentileza, me passar o arroz, Re-

nata? ��� falei.

��� Oh, com prazer.

��� Deixe que eu passo, Renata ��� disse Alice, adian-

tando-se a Renata, j�� que estava mais pr��xima de mim,

��� N��o a temos visto no p��tio com as outras meninas,

ultimamente.

��� Ah, �� mesmo. Voc��s nem imaginam como tenho

estudado ��� menti.

��� Estudado?!? Mas dizem que voc�� �� s�� c��rebro,

que s�� l�� uma vez as li����es e logo aprende.

��� Nem tanto ��� respondi.

��� Que tal a sua entrada para o concurso de Rai-

nha da Primavera? ��� perguntou Alice. ��� J�� tem mui--

tos votos?

��� Olha, pra falar a verdade, nem sei se aceita,

riam a minha inscri����o. Voc��s, como s��o da comiss��o,

devem saber.

��� Claro que voc�� est�� inscrita.

��� N��o sabia, francamente. Isso me deixa muito

alegre. E u . . .

��� Se eu fosse t��o bonita quanto voc�� ��� cortou

Alice, excitada ��� ningu��m me tiraria a coroa.

��� Mas Renata j�� foi rainha, n��o foi, Renata?

��� Sim. J�� fui.

��� 30 ���



��� Diga-me uma coisa: como �� que a gente se sente

como majestade?

��� Parece que a gente est�� num outro mundo. Sen-

te-se que a gente �� a dona da festa. �� muito bom. Voc��

sabe que at�� recebi um convite da tv? Fiquei vidrada.

��� Que canal?

��� O quinze.

��� Por que voc�� n��o aceitou?

��� E voe�� acha que os meus pais deixariam? Eles

morrem de ��dio s�� em pensar que posso vir a ser atriz.

Somos de fam��lia quatrocentona; fam��lia tradicional,

como dizem os meus pais. Mas a sua m��e trabalha em

tv, n��o trabalha, Regina? Como ela diz que �� l��?

��� Aposto que �� maior bagun��a ��� emendou Ali-

ce. ��� Diretores fazendo amor com as atrizes e um mun-

do de invertidos oferecendo-se a troco de um minuto

de v��deo. Uns pisando nos outras para subirem de po-

si����o.

��� Sinceramente, eu n��o sei, pois mam��e ignora

essa infinidade de mexericos que voc��s parecem co-

nhecer t��o bem.

As duas ficaram vermelhinhas.

��� Ora, n��o precisa ficar zangada, Regina. N��s s��

quer��amos saber se tudo que sai nas revistas �� verdade.

��� Bem, em primeiro lugar mam��e nunca me fala

sobre isso. Em segundo lugar, mesmo que soubesse n��o

iria divulgar mexericos s��rdidos para duas meninas ino-

centes como voc��s.

As companheiras de mesa riram.

��� �� bom voc�� pensar sempre que estamos com o

p�� direito ��� disse Alice.

��� Bem, afinal, �� o que dizem aqui na escola a seu

respeito.

��� Puxa, como a turma se engana. Ter tantos m��-

ritos n��o quer dizer inoc��ncia.

��� ��. Mas voc��s tem sorte de estarem em todos os

primeiros lugares de moral alta aqui na escola. Tenho

tido v��rios aborrecimentos por que eu e a Ivete prefe-

rimos estudar no nosso quarto.

��� E dizem "coisas" a respeito de voc��s. Eu acho

que voc�� deveria aparecer de vez em quando l�� no nos-

so quarto para podermos estudar juntas. Sabem de uma

coisa? Leve a Ivete. Assim, estudaremos as quatro.

��� Ah, �� uma boa id��ia.

��� Sim. Talvez tamb��m Ivete, estudando bastante,

possa fazer parte da comiss��o.

��� Pois bem, falarei com ela.

Como odiava ser polida e gentil!... Quando a si-

neta deu por terminado o jantar, sa�� correndo para o

parque, e assim que me v�� entre as ��rvores e as flores,

senti como era maravilhoso ter quinze anos. Deixei-me

cair sobre a relva, debaixo de uma ��rvore, e fiquei sen-

tindo a frescura do capim nas minhas costas molhadas

de suor. Com o calor do dia, o cair da noite envolveu todo

o bosque com o perfume quente das flores. Era um al��-

vio estar ali, ao contato da relva ��mida, aspirando aque-

le inebriante perfume, ap��s sentir o odor do grande re-

feit��rio. Fiquei ali, deitada, esquecida de tudo, at�� que

as badaladas do sino que anunciava o recolhimento para

os quartos vibraram no a r . . . Nem liguei. O c��u terri-

velmente escuro e apinhado de estrelas me fez di-

vagar para outros mundos. S�� quando olhei para o ve-

lho casar��o com quase todas as luzes apagadas �� que

me lembrei que era, interna de uma escola. A�� atra-

��� 32 ���



vessei, correndo, o vasto gramado, abri a grande porta,

subi, correndo, a imensa escadaria e ao chegar ao quar-

to, atirei-me na cama.

��� Aonde diabos voc�� se meteu, Regina?

��� No mundo encantado do bosque.

��� Estava doida que voc�� chegasse para lhe per-

guntar se falou com a Renata e com a Alice, como su-

geri?

��� Claro, falei com elas.

��� E que tal? Elas foram legais?

��� Legal��ssimas. At�� nos convidavam para estudar

no quarto delas.

��� ��timo. Vamos dobr��-las. Assim, voc�� ser�� a Rai-

nha este ano.

��� N��o sonhe acordada, Ivete.

��� N��o sonho, querida. Sua coroa �� tremendamente

real.

��� Oh, sua maluquinha, voc�� �� uma boa pra��a! Por

isso eu vou dormir sonhando que estou com a coroa bem

fincada na cabe��a,

II

Filosofia? Cada Dia um Homem!

N��o fui coroada rainha, mas isso n��o me deprimiu

muito por que fui convidada pela fam��lia de Ivete a

passar as f��rias em Recife. Ficamos num lugar cha-

mado Jardim Cai��ara, convenientemente localizado, per-

to de um dos rios que cortam a cidade. Todos diziam que

aquele lugar era a Beverly Hill's do Recife. Maravilho-

sas vilas, escondidas em parques floridos e lindos ban-

gal��s que rodeavam uma encantadora pra��a particular,

pra��a que s�� podia ser usada pelos moradores das vilas

e dos bangal��s. No meio dessa pra��a existia uma enor-

me piscina, artisticamente projetada em arte moderna.

�� sua volta, centenas de mesas de m��rmore branco com

cadeiras de ferro esmaltadas de vermelho.

Ao fim do dia era hora dos que moravam nas vi-

zinhan��as vestirem roupas leves e esperarem o crep��s-

culo, tomando os mais variados refrescos, sentados ��s

mesas na beira da piscina. Era nessa hora, que alguns

diziam que crian��as deveriam estar se banhando para

dormir, que Ivete nos levava para l��. Digo levava por que

Arlete tamb��m estava com a gente. Ivete nos convidou

a entrar no bar, que era mesmo genial, pois era o ��nico

bar onde mocinhas podiam entrar desacompanhadas, sem

��� 35 ���

serem bul��nadas ou, abertamente, alvo de propostas. Sen-

tamo-nos em banquinhos altos ue rodeavam o balc��o e

o "barman" cumprimentou, gentilmente, a Ivete.

��� Como est��, srta.? J�� em f��rias? Espero v��-la

muitas vezes por aqui.

��� Gra��as a Deus estamos fora daquele infernal co-

l��gio e viemos aqui curtir a nossa. Jo��o, voc�� pode nos

servir tr��s martinis.

Polindo os copos com um alvo guardanapo, Jo��o

respondeu:

��� Sinto muito, mas a srta. deve lembrar que �� proi-

bido servir bebidas a menores de dezoito anos.

��� Ora, Jo��o, d�� escondido, como das outras vezes.

Olha, eu compro uma garrafa, escondo na saida do ba-

nho e a gente vai beber debaixo das ��rvores.

��� N��o. N��o, srta. Ivete. A lei �� severa. N��o deve-

mos servir bebidas alc��licas a menores. Por favor, n��o

insista.

Saimos do bar, deprimidas, quando Ivete levantou

um bra��o e come��ou a gesticular e a gritar:

��� A i ! A i ! Ai!

Ari era um homem j�� nos seus trinta anos, cons-

ciente do seu f��sico de pugilista. Fica ali a espera da

mais bonita garota, para conseguir obter um encontro

��ntimo no seu belo bangal�� super-decorado. Era um dos

rapazes mais ricos de Pernambuco Era um homem mui-

t��ssimo atraente para as meninas menores. Um belo

companheiro para beber, dan��ar, nadar, etc.

��� Como v��o, meninas? Solit��rias? E voc��, Ivete,

como est�� bonita! Que coxas, heim! Voc�� fica espeta-

cular dentro desse mini-biquini. S�� que tem um deta-

lhe: existem muitas marcas de gilete por a��, que ras-

pam muito bem.

��� Ora, tonto, o neg��cio aparecendo assim �� ge-

nial. Em Copacabana s�� se v�� jovens e at�� pessoas de

idade com isso aparecendo. �� excitante, n��o ��?

��� Muito escandaloso. N��o me apresenta as outras

bonecas?

��� 36 ���

��� Oh, claro. Regina, paulista, e Arlete, carioea.

As m��os se apertaram.

��� Ari ��� disse Ivete ��� chamei-o para lhe expli-

car que temos necessidade de uns golinhos. V�� l�� no

bar e compre uma garrafa de martini ou vodca, pinga,

qualquer coisa. N��s prometemos beber escondidas.

Tendo vindo a garrafa e os copos, os quatro, senta-

dos a beira da piscina, beberam abertamente. Os quatro

n��o. Tr��s, por que eu preferi um refrigerante.

��� Qual �� o assunto que abordamos, meninas? Fi-

losofia ?

��� N��o me venha com isso ��� disse Ivete. ��� A mi-

nha filosofia, agora nas f��rias, �� cada dia um novo ho-

mem. N��o me preocupo com a arte ou com os estudos,

com a guerra, com as bombas ou com os foguetes que

v��o ��. lua. Meu neg��cio �� me divertir, e muito, pois sin-

to que sou uma parte dessas coisas. Sou uma parte do

foguete, da televis��o, da guerra e da bomba. Assim, eu

preciso de um escape peri��dico.

��� Ent��o eu serei o primeiro homem dessas f��-

rias. Voc�� me aceita?

��� Estou dispon��vel ��� respondeu Ivete, apressa-

damente .

Ari sorriu um sorriso de dentes brancos e brilhan-

tes.

��� Isso me interessa profundamente. Convidarei

mais dois amigos e iremos jantar no meu bangal��.

��� Mas n��o v�� convidar nem um gigol�� ou nem um

ginasiano espinhado, est�� bem?

��� Voce, Ivete, sempre com esse problema... Tra-

rei homens ador��veis, �� claro.

��� Ent��o est�� legal.

��� Homens que amem o anseio da juventude ���

prosseguiu ele. ��� Assim como eu. A juventude de quin-

ze anos me atrai, voc�� sabe.

��� L��gico. Eu sempre soube disso.

��� Eu n��o irei, voc�� vai me desculpar, gim, Ivete?

��� 37 ���

��� Ora, n��o seja cacete e chata, Regina. Aqui, to-

dos s��o pra frente. Ningu��m vai reparar se voc�� jantou

com um ou mais homens. Que �� que vai chegar l�� no

bangal�� e espiar se voc�� est�� comendo ou f a z e n d o . . .

��� Chega, Ivete ��� cortou Ari. ��� A menina n��o co-

nhece os pernambucanos ainda. Talvez pense o diabo da

g e n t e . . .

��� N��o penso nada de anormal. S�� que n��o que-

ro ir.

��� Credo. Voc�� �� uma crian��a mimada. Quantos

anos tem?

N��o me dei ao luxo de responder.

��� Olha aqui, menina, a melhor forma que n��s,

pernambucanos, encontramos para tratar menina mi-

mada �� ignor��-la.

Ari segurou o seu copo e lentamente deu-me as cos-

tas. Eu fiquei analisando a perfei����o da cabe��a daque-

le homem, por tr��s. Sim, tinha uma bela cabe��a, talvez

mesmo pra ser ator l�� em Hollywood, um tipo assim de

Gregory Peck ou Tyrone Power.

Naquele momento em que ia me virando as costas,

Ari tinha uma express��o de arrog��ncia no rosto, uma

arrog��ncia que s�� �� permitida aos jovens milion��rios.

Nesse instante, veio se aproximando outro rapaz,

que tamb��m era bonito de morrer. Um p��o, como diriam

as meninas l�� do col��gio, quando achavam um rapaz de-

veras bonito. Quando chegou bem perto da gente, enco-

lheu os ombros num cumprimento a Ari.

��� Ol��, Ari, bebendo com tr��s bonecas e esquecendo

os amigos heim?

��� N��o sei do que voc�� est�� reclamando pois �� seu

costume que estou imitando.

��� Mas n��o vai continuar com isso, vai?

��� Est�� bem, Ney. Voc�� n��o beber�� com a gente

por que vai jantar conosco l�� em casa. Voc�� n��o devia

ser convidado, pois as garotas aqui s�� gostam de homem

de trinta. Dezoito para elas �� pirralho.

Ney sorriu.

��� 38 ���

��� Claro, meninas, se voc��s quiserem, posso lhes

mostrar o pirralho, que �� um verdadeiro homem.

��� Ora, cale a boca, Ney, pois temos entre n��s uma

santinha. ��� Virou-se para mim. ��� Olhe, �� essa a��.

Ney mediu-me dos p��s a cabe��a.

��� Olhe, garota, voc�� devia sentir-se orgulhosa de

sua beleza. �� uma das adolescentes mais esguias e bo-

nitas que conheci at�� hoje. Seus olhos s��o verdes, ou es-

t��o acentuados pela luz do sol?

��� S��o verdes respondi numa voz de criancinha,

s�� para chate��-lo. Mas ele n��o se deu por vencido e

disse:

��� Essa voz assim mimadinha faz pensar que voc��

est�� querendo flertar comigo . . .

��� Aposto que est�� mesmo ��� emendou Ari.

��� Ora, dane-se se quiser pensar assim. Jamais pre-

tendo conquistar homens me fazendo de crian��a. Quero

conquistar um homem, como j�� disse v��rias vezes, que

tenha uma esp��cie de tranquilidade especial na alma, e

nunca conheci ningu��m assim. E aposto que voc�� tam-

b��m, Ari, n��o o ��.

��� Puxa, como voc�� �� agressiva! Aposto mesmo que

nunca foi beijada.

��� Vamos mudar de assunto. Voc�� demonstra n��o

ter sensibilidade.

��� Sensibilidade ?! ? Quando se trata de coisas gos-

tosas, queridinha?!? Voc�� deve estar maluca.

��� Francamente, que conversa! Vamos parar, n��,

Regina! ��� disse Ivete. ��� Bem, vamos nos arrumar. Es-

cute Ari, onde diabo voc�� vai encontrar outro rapaz?

��� Ora, �� s�� dar um assobio que aparecem uns cem.

Voc�� quer v e r ? . . . Ah, n��o �� preciso assobio. A�� vem

Carlos.

Carlos, num short super-justo, com longos cabelos

brilhantes que lhe caiam nos ombros, era realmente mui-

to simp��tico. Morava na praia de Olinda e era grande

entusiasta de barcos a vela, por isso era o mais quei-

��� 39 ���

mado pela longa exposi����o ao sol marinho. Pouco fre-

quentava a piscina. Ele foi o meu par, ficando Ivete com

Ari e Arlete com Ney.



* * *

O bangal�� era bonitinho e finamente mobiliado. Lo-

go que entramos, Ari ligou a eletrola e serviu uisque pa-

ra todos n��s. Mas todo mundo preferiu gim-tonica, pois

em Pernambuco n��o se usa beber uisque no ver��o. Eu

hesitei, mas Carlos objetou:

��� Ora, Regina. Quinze anos e n��o beber gim ? . . .

Vamos, �� s�� um golinho.

A despeito do meu firme prop��sito de n��o come��ar

a beber t��o cedo, acompanhei Carlos no gim. Depois de

uns goles, animei-me e comecei a ficar encantada,

achando todos simp��ticos. Em pouco tempo j�� parecia

que n��s seis nos conhec��amos h�� anos. Bebi mais uns go-

les e algu��m apagou a luz. Assim dan��amos abstra��da-

mente, s�� com a luz da lua, luz que entrava esverdeada

pela janela, trazendo para o sal��o uma brisa fresca, pois,

apesar de estarmos todos s�� de biquini, o calor era in-

tenso. Da�� a pouco pude perceber Ivete sentada nos joe-

lhos de Ari e Arlete nos de Nev, cada casal em sof��s

diferentes. Carlos parou de dan��ar e me p��s nas m��os

outro copo de bebida. Como eu relutasse, pois come��ava

a me sentir esquisita, ele falou, rispidamente, que eu

n��o era soci��vel e que n��o sabia por que n��o escolhera

qualquer das outras duas garotas.

��� Uma festinha pode converter-se num aconteci-

mento cacetissimo quando se est�� em companhia de

uma garota que n��o quer nada. Nesses casos �� melhor a

gente sentar l�� fora e ficar estudando catecismo. O que

voc�� acha?

��� 40 ���



Apanhei o copo e comecei a ser "soci��vel", pois n��o

iria fazer uma cena. Simplesmente n��o podia estragar a

festa. Carlos segurou-me pela cintura e apertou-me bem

junto ao seu short. Decidi ignorar o que senti DO��S ti-

nha um desejo muito s��rio de me casar toda de branco.

Ningu��m iria manchar o meu vestido de noiva, pensava

enquanto aquilo acontecia.

��� Puxa, voc�� �� fria como gelo ��� disse Carlos, em-

purrando-me para longe dele.

Ari riu, Carlos n��o gostou.

��� �� . . . Voc�� fica a�� com uma garota legal e eu

aqui, morrendo de vontade. O neg��cio �� a gente trocar.

��� Essa aqui tamb��m �� virgem, bobo. Com o tem-

po, com um bom papo, a gente que �� inteligente, con-

segue alguma coisa.

Olhei para as meninas e vi que elas n��o diziam na-

da, pois estavam bastante tocadas. Olhei para Carlos e

n��o pude deixar de sorrir quando vi que seus olhos su-

biam e deciam pelo meu biquini super-justo.

��� Voc��, apesar de feia, �� uma garota muito atra-

ente.

Prendeu-me nos bra��os e beijou-me na testa. Morri

de prazer e ele beijou-me o pesco��o.

��� Voc�� nunca poder�� saber a falta que faz uns

carinhos para um rapaz assim ardente como e u . . . Que-

ria prestar aten����o no que ele dizia, mas ondas de ca-

lor que subiam, a tempos regulares, pelo meu corpo, fa-

ziam revirar o meu est��mago.

Olhei Ivete. Ela e Ari pareciam um s��, deitados no

tapete. Arlete e Ney, agarrados, beijavam-se longamen-

te, parecendo n��o haver mais ningu��m na sala, s�� eles

dois.

Mas aquela estranha sensa����o de enj��o n��o me lar-

gava. Queria correr para fora, mas n��o tinha coragem.

Seria "antisocial". Aguentei mais umas ondas, at�� que

corri feito uma doida para o jardim. Pensei que fosse vo-

mitar, mas, gra��as a Deus, o ar livre levou meu enj��o

como que por encanto. Quando voltei para perto de Car-

los, disse:

��� Estou passadissima... Desculpe-me...

Carlos riu.

��� Olhe, beba agua gelada que lhe far�� bem.

A�� ficamos na janela ouvindo os sussurros dos ou-

tros quatro. Eu sabia que tinha me portado infantilmen-

te e tamb��m sabia que Carlos passaria a ignorar-me.

O jantar foi uma por����o de batatas fritas e mais

bebidas.

* * *

Voltamos para casa as duas horas. Entramos sem

fazer ruido. Ivete e Arlete seguiram para o quarto e eu

fui, p�� ante p��, �� cozinha ver se conseguia um sonrisal,

pois estava com o est��mago dando voltas. Os pais de Ive-

te discutiam na sala. O pai de Ivete dizia:

��� Eu lhe disse que aquela menina precisava de uma

surra. Se eu a pegar, jogo-a pela janela. Duas horas e

ainda est�� com essa turma de malucos.

��� Querido, n��o comece a berrar, sen��o os criados

podem ouvir.

��� Ora, cala a boca. Voc�� n��o sabe ser m��e. Voc��

fica orgulhosa de ter uma putinha dentro de casa.

��� Eu n��o me orgulho de coisa nenhuma, pois eu

sempre disse a voc�� que n��o queria ser m��e de ningu��m.

Foi voc�� quem quis. Agora aguente.

��� Vou esper��-la entrar. Ela hoje vai conhecer um

Cerqueira Cesar.

��� Voc�� n��o vai dizer nada, pois tem consci��ncia do

muro que Ivete ergueu ao seu redor. Talvez seja brinca-

deira, pois essas meninas de hoje fazem todas as tenta-

tivas para se transformarem em adultas.

��� 42 ���



��� Mas voc�� pode reparar que ela faz tudo por s��

mesma, recusando o nosso aux��lio.

O pai de Ivete largou o copo de bebida em cima

da mesinha e, cruzando o sal��o, disse:

��� Ela j�� chegou. O carro est�� estacionado no p��-

tio. V�� cham��-la, sen��o entrarei no quarto sem respeitar

sequer as amigas que a acompanham.

Voltei correndo para o quarto e avisei Ivete. Ela le-

vantou-se na maior calma, vestiu um penhoir de rendas

azul, e sem esperar a m��e cham��-la, foi at�� a sala e en-

frentou o pai com sarcasmo e petul��ncia. O andar segu-

ro com passos largos do pai em sua dire����o n��o a assus-

tou. O velho disse, com voz firme:

��� J�� a proibi de chegar em casa depois da meia-

-noite.

Ivete, p��lida, fixava o pai, exibindo um sorriso sar-

c��stico .

��� Sim. ��� Sua voz estava cheia de ��dio. ��� Voc��

proibiu, mas esqueci. Tive vontade de me divertir. E da��?

��� E da��? E da�� voc�� tem dezesseis anos. E o peso da

lei cair�� sobre seus pais, se o juiz a apanhar nessas far-

ras com esses cabeludos.

��� Se formos pensar em leis, voc�� deveria estar no

fundo de um c��rcere.

Os olhos dos dois se fixaram, desafiadores. Nesse

instante percebi que devia haver um grande segredo en-

tre pai e filha. Tinha certeza de que era um t��trico se-

gredo. Os olhos de Ivete se desviaram dos do pai e pou-

saram nos meus. A�� senti que ela percebera que eu des-

cobrira algo. Ent��o fez tudo para encobrir e respondeu

natural.

��� Pode me dizer, heim, papai, se �� pecado passear,

dan��ar, viver. Voc�� j�� foi mo��o, n��o foi?

Percebi que o velho tamb��m tentava disfar��ar algu-

ma coisa.

��� Mas no meu tempo havia respeito. Meninas n��o

ficavam nas ruas at�� horas.

��� Respeito ? ? ? ��� Parecia que Ivete ia revelar algo,

mas se controlou novamente. ��� Mas hoje �� diferente,

papai.

��� Mas existe a lei.

��� N��o se segure na lei, papai. Ela pode cair na

sua cabe��a.

O pai de Ivete ficou branco. Ia dizer uma coisa mas

disse outra.

��� Ora, voc�� quer destruir-nos. . . N��o v�� que a sua

m��e foi at�� a um psiquiatra por sua c a u s a . . . ?

��� Por minha causa ? ? ? Faz me rir. Talvez algum

dos seus romances tenha dado pra tr��s.

Pensei que um bofet��o iria estalar no rosto de Ive-

te. Mas a m��o daquele homem alto e forte parou no ar,

por longos minutos. O desprezo nos olhos de Ivete cres-

ceu. Ela virou-se e deixou a sala. Quando entrou no

quarto disse:

��� Eles est��o fingindo que se preocupam comigo, s��

por que voc��s est��o aqui. Mam��e sempre foi uma b��bada

cercada de homens. Para esses homens dava tudo, esque-

cendo que eu era uma crian��a que precisava de cari-

nho. ��� Interrompeu-se por instantes e foi a copa, de on-

de voltou com um copo cheio de uisque, que bebia aos

golinhos. ��� Olha, quando mam��e queria estar sozinha,

sempre me empurrava para o bar. Aquele l�� da p^cina.

Ou ent��o viajava e me deixava com papai. ��� Ivete engo-

liu o resto do uisque e repetiu. ��� Com papai, com pa-

pai! Esse monstro! ��� Mas logo voltou a calma e disse:

Com voc��s eu me sinto muito bem.

��� Ora, n��o se aborre��a com isso, Ivete. ��� falei. ���

Mam��e e papai tamb��m, para se livrarem de mim, man-

daram-me para o internato. Diziam que l�� eu estaria em

seguran��a contra os pecados_ do mundo. Sempre que eu

pedia para ficar numa escola semi-interna, mam��e gri-

tava: "Ent��o voc�� quer me ensinar como devo cri��-la?

Voc�� quer modificar ou mesmo exigir que eu modifique

meu sistema de educa����o? Voc�� bem sabe como �� dif��cil

��� 44 ���



para uma jovem como eu andar falando por a�� que tem

uma filha de quinze anos. Isso �� detest��vel". Pelo que

voc�� v��, eu tamb��m sempre fui um problema para ma-

m��e.

��� Eu tamb��m sempre fui um problema para ma-

m��e ��� arrematou Arlete. Ela sempre tem ci��mes

quando algum homem diz: "Sua filha �� ador��vel". Ela

responde com desd��m: "Ah, ��. �� muito bonitinha sim".

Agora anda badalando pelo mundo. Sei de fonte limpa

que anda com amante a tira-colo na frente de papai.

��� Nossos pais ��� exclamou Ivete ��� sentiriam

um al��vio se n��o exist��ssemos.

��� Papai n��o �� l�� dos piores ��� disse eu. ��� Sempre

diz a mam��e para tirar-me do internato. Vamos ver este

ano. Talvez eu fique com mam��e na Guanabara.

��� E em que col��gio voc�� pretende estudar?

��� Talvez em nenhum.

��� N��o �� m�� id��ia ��� disse Ivete, brincando com o

copo.

��� Talvez n��o fosse uma m�� id��ia se a gente fosse

dormir. Estou morrendo de sono.

��� Bem, isso �� l�� com voc��s. Eu vou beber mais uns

goles. E com isso, amigas, deixo-as com a luz apagada.

Dormirei no outro quarto. N��o se assustem se ouvirem

meus pais brigarem, pois eles est��o apavorados com a

id��ia de terem uma filha mulher. Essa id��ia quase mata

mam��e, pois eu tenho dezesseis anos e ela nunca sai dos

vinte e nove.

��� Ah, as m��es de h o j e . . .

III





40 Anos. Seios Duros


No dia seguinte, mandamos Recife para o infer-

no, embora sentissemos um pouco a tristeza, pois iamos

passar uns dias em Olinda, mas Ivete estava doida para

deixar Recife e eu n��o queria mago��-la, pois con-

siderava justo que as pessoas que n��o gostam de certos

lugares se retirem. Al��m disso, os pais viviam bri-

gando por causa dela e eu j�� estava me aborrecendo. J��

no aeroporto quando os motores eram acelerados antes

da decolagem, foi que me lembrei que tinha prometido

a mam��e uns colares e outras bugigangas que agora

nem me lembro.

Quando descemos no gale��o, fiquei contente por ma-

m��e n��o estar nos esperando. Mas quando chegamos ao

nosso apartamento na Av. Atl��ntica, tinha um monte

de amigos de mam��e esperando-nos e todos brindaram

a nossa vinda com champanha. Havia, tamb��m, alguns

que j�� estavam b��bados, apesar de ser bem cedo, Ivete

logo ficou gamada por um dos rapazes. Mario de Castro.

Era esbelto nos seus vinte e seis anos, com uma arro-

g��ncia como se quisesse que a gente n��o notasse uma

papada debaixo do seu queixo. Convidei-o logo a beber

incont��veis martines.

��� 47

Mam��e n��o gostou muito da vinda de minhas duas

amigas.

Quando fomos para a praia no dia seguinte, mam��e

reclamou que n��o t��nhamos empregadas e que aquelas

duas vagabundinhas n��o se deram ao luxo de tirar das

mesinhas nem um dos copos vazios e nem um dos cin-

zeiros cheinhos de tocos de cigarros.

��� S��o umas relachadas ��� falava tirando a saida

de banho e mostrando seu corpo de quarenta anos bem

queimado e belas e rijas formas. ��� Passei pelo quarto e

dei uma espiadinha. Elas dormiam nuas. N��o sei como

posso convidar algu��m, algum homem para dormir no

apartamento Voc�� sabe, n��o ��, Regina, que Mario sem-

pre dorme no sof�� da sala. Voc�� j�� pensou o que ele

poder�� dizer, vendo aquelas duas l��, peladas?

��� Ora mam��e, daqui a pouco elas acordam, tomam

alguns goles de qualquer bebida e v��o para a praia.

��� Bebida??? Logo de manh��!

��� �� costume delas.

��� E voc��, querida, toma leite, n��o ��?

��� Claro. Caf�� com leite.

��� Muito bem. Voc�� ainda �� uma crian��a. Um Cuba,

uma vez ou outra n��o faz mal, mas, agora, outras bebi-

das fortes...

��� Ora m a m �� e . . . eu ia falar de quantos gim-t��ni-

cas havia bebido l�� em Pernambuco, mas s��bita e impe-

rativamente, tapando-nos a luz do sol, apareceu um

dos amigos de mam��e.

��� Paulo, gritou mam��e. Voc�� aqui na Guanabara?

Que surpresa! Quando chegou?

��� Vim da Europa ontem.

Paulo levou a m��o aos olhos e, apertando-os, falou:

��� Puxa, estou um verdadeiro pau-d'agua. J�� bebi

um rio de caipirinhas hoje.

��� 48 ���

Paulo olhou-me e, dirigindo-se a mam��e, falou:

��� N��o vai me dizer que tudo isso a�� �� aquela me-

ninazinha de tran��as que eu conheci?

��� Pois �� ela mesma, e eu vou come��ar a gritar aqui

se algu��m mais falar que a Regina est�� uma mo��a feita.

Isso faz com que eu me torne cada vez mais velha.

��� Ora, voc�� devia orgulhar-se da filha que tem.

��� Oh, Paulo, por favor, mude de assunto. Ou me-

lhor ��� vamos beber mais umas caipirinhas.

��� Posso tomar uma tamb��m, mam��e?

��� N��o, Regina. Caipirinha antes do almo��o n��o lhe

far�� bem.

��� Ora, Carmen, deixe a menina tomar uns goles.

��� S i m . . . Mas s�� uma ��� permitiu mam��e.

Paulo brindou com o copo cheio as minhas f��rias.

Levantou o copo bem alto e gritou:

��� �� Regina, que sempre receba permiss��o da ma-

m��e para muitos e muitos outros goles.

Fiquei olhando-o, meio hipnotizada por a q u i l o . . .

* * *

Mais tarde, Arlete e Ivete chegaram, em companhia

de Mario, um outro amigo de mam��e.

��� Ol��, pessoal, essa praia est�� infernal mesmo.

Foi servida mais uma rodada de bebida. Ivete prefe-

riu a dela pura. Passamos a manh�� bebendo. Quero dizer,

passaram os outros, pois eu parei na primeira.

As meninas estavam em super-biquinis. Paulo achou

que devia convidar mais uns homens, mais tr��s, para ve-

��� 49 ���

rem ��� disse ��� os belos corpos, pernas de carnes firmes

dessas lindas meninas esbeltas e alt��ticas. Apostou que

viriam uns cem, que seria s�� ele levantar um dedo e di-

zer dos seios rijos, morenos, que enchiam os biquinis at��

fazer transbordar as carnes para todos os lados, de ga-

rotas como n��s, com apenas quinze anos. Continuou di-

retamente a mam��e.

��� Olhe s��, Carmen, como essas meninas de hoje

t��m corpo de mulher, de carnes duras e sensuais. Isso

passa desapercebido ��s mulheres de quarenta anos,

n��o ��?

A felicidade e a seguran��a com que usava seu belo

corpo, cheio de vitalidade, at�� aquele momento, fizeram

mam��e encolher-se toda, parecendo uma velha.

��� Ora, Paulo ��� retruquei ���, mam��e tamb��m tem

um belo corpo, com m��sculos firmes, pois sempre prati-

cou muitos esportes.

��� Eu sei, Regina, mas corpo de quinze fala clara-

mente que est�� pronto para o amor. Os homens perce-

bem isso. Talvez essas meninas n��o sintam isso pois

acho que jamais foram beijadas ou nunca se entrega-

ram as v��rias car��cias do amor. Elas talvez nem perce-

bam que t��m l�� dentro muitas paix��es fortes, que s��o a

necessidade de amar inteiramente.

N��s rimos e corremos para o mar. Paulo, Mario e

mam��e ficaram de longe ouvindo nossas gargalhadas,

que soavam estranhamente quando come��amos a nos

empurrar umas ��s outras e quando as enormes e esver-

deadas ondas vinham se aproximando. Logo depois nos

deitamos na areia para tomar banho de sol e fomos cer-

cadas por rapazes intrusos, dos quais n��o gostamos.

Eram do tipo procedente do resplandescente e ofuscante

mundo ginasiano, aqueles que nos enchiam de t��dio.

Sorte que logo chegou um amigo da mam��e, e fez com

que os garotos deixassem as macias areias e fossem para

bem longe.

��� 50 ���

Era Andr��, bronzeado de sol e carregando sua mmi-

-espregui��adeira.

��� Al��, Regina, quem s��o as bonequinhas ?

��� Quais?

��� As duas, ora.

��� Amigas do col��gio. Ivete e Arlete, levantaram a

cabe��a.

��� Oi ��� disseram as duas.

��� Onde est�� sua m��e?

��� Ali, olhe, com Paulo e M��rio.

��� Chi, sua m��e sempre com aquele bastardo do

M �� r i o . . . Aposto que dormiu l�� no apartamento.

��� Sim, dormiu no sof�� da sala.

��� Que voc�� acha disso?

��� Eu gosto Tem qualquer coisa sublime um ho-

mem dentro de casa. A gente fica at�� pensando que tem

um lar completo, com pai e m��e. Isso atrai.

��� Cristo, garota! Nunca pensei que voc�� sentisse

falta de seu pai. Mas olhe aqui: cuidado com esse pai,

pois ele �� um invertido. Ele n��o vale nada.

��� Porque o cuidado com ��le?

��� Porque ele �� o tipo de camarada, metido a artis-

ta, a intelectual, e tem um certo encanto para as moci-

nhas . Por outro lado, essas mocinhas inocentes n��o sa-

bem o que �� um invertido, e a�� entra oi nteresse delas

por este canalinha.

A risada de Ivete se perdeu pela praia.

��� Imagine, n��s interessadas por um meio ho-

mem. .. Como �� mesmo o seu nome?

��� Andr��.

��� Viu, Andr��, nossa especialidade n��o �� esse tipo

de homem! ��� replicou, ir��nica.

��� 51 ���

Voc�� gabe, gomos apenas pobres crian��as.

Andr�� n��o entendeu a ironia e exclamou:

��� Por isso �� que falo, por voc��s serem crian��as com

corpo de mulher, e de mulher atraente. Eu estou avisan-

do ue a maioria dos amigos de Carmem s�� gostam de

tirar proveito disto. Olhem, vou lhes apresentar uns jo-

vens da mesma idade de voc��s. S��o bons rapazes, e es-

t��o passando o ver��o aqui. Querem conhec��-los ?

Esprememos os rostos na areia, quase nos sufocando

de tanto rir.

��� De que est��o rindo?

��� Voc�� seria a ultima pessoa do mundo a saber.

Olhe, Andr��, mam��e vem para c��. E por falar em ma-

m��e, ser�� que ela arranjou o papel que tanto desejava

na novela da televis��o?

��� Creio que o contrato dela foi anulado.

��� Mas ela ia trabalhar sem c o n t a t o . Era s�� um

bico.

��� Ora, os artistas sem contrato s��o chutados por

a�� aos ponta-p��s. Ela se humilha muito. Por isso nin-

gu��m quer contrat��-la.

Suspirei e pedi a Andr�� para falar mais baixo, pois

as meninas deveriam passar um m��s em minha casa, na

Guanabara.

��� Acho que voc�� n��o devia incentivar essas garo-

tas para ficarem no apartamento de sua m��e, pois ela

est�� quebrada.

��� Mas as coisas est��o assim t��o graves?

��� Regina, eu conhe��o sua m��e h�� anos. Ela n��o

est�� mais naquela forma do passado. Novelas de televi-

s��o s��o umas bombas. Ela �� doida se pensa que h�� al-

gu��m invis��vel que lhe fornecer�� um grande papel em

mil novelas, dando condi����es para ela ter h��spedes aos

montes. O que voc�� tem a fazer �� convenc��-la a acabar

��� 52 ���

com essa loucura de gastar o que n��o pode. Eu penso

que voc�� compreender�� essas coisas. Essas meninas a��,

devem gastar um dinheir��o s�� de comida, pois est�� se

vendo que est��o bem nutridas... Voc�� deve me descul-

par por eu estar lhe contando essas coisas. Voc�� ainda

est�� com o p�� na inf��ncia, e n��o deve arcar com a res-

ponsabilidade que uma mocinha nunca devia ter. Po-

nho-a a par desses fatos porque j�� �� tempo de voc�� descer

das alturas da fantasia, para o ch��o duro e negro da

terra que pisamos.

��� N��o, Andr��. Juro que n��o me incomodo de sair

da luz do sol infantil e cair no mundo real. Mas acho o

diabo, fico chatead��rrima de ter que falar ��s amigas que

viemos �� Guanabara enfrentar uma fal��ncia. Afinal, es-

sas meninas a�� vivem naquele mundo encantado da fan-

tasia e ilus��o. N��o casa de Ivete, ali��s, na mans��o de

Ivete, l�� em Pernambuco, a gente �� servida como rainha.

Ivete e os pais gostam muito de beber. H�� uma adega

cheinha, com estoques de u��sque, gim, bourbon, enfim,

as mais finas variedades de bebidas. Agora n��o sei o

que fa��o.

��� Bem, por enquanto convide as suas amigas, ali��s

pergunte, se gostariam de ir at�� o meu apartamento,

para beber alguma coisa.

��� Mas elas beberam at�� agora. Creio que estejam

mortas de fome.

��� Ora, Regina, l�� temos fartura. N��o estou na ban-

carrota .

As garotas ficaram encantadas com o convite. Eu

at�� esqueci mam��e, parada l�� na praia, cercada de ho-

mens. Mam��e, a grande atriz de televis��o, como se jul-

gava.

* * *

��� 53 ���

Entramos no apartamento de Andr��. Subitamente

lembrei que mam��e sempre me aconselhava a n��o en-

trar em apartamentos de homens. Mas, afinal, decidi sor-

rindo quando me ocorreu que n��o estava s��, e depois n��o

tinha muita import��ncia, pois n��o se tratava de um An-

dr�� qualquer, de forma que esqueci que era uma me-

nina com mais duas meninas. Ele me chamou para a

cozinha e abriu a geladeira. "Rosbife", azeitonas, to-

mates e ovos duros. Chamei Ivete e Arlete e preparamos

de melhor maneira poss��vel o almo��o, enquanto Andr��

telefonava.

Quando voltamos para a sala com o que t��nhamos

preparado nas bandejas, encontramos dois rapazes. Sen-

tamo-nos aos pares no sof��, e Andr�� cerrou as cortinas

para que tudo ficasse em penumbra.

A bebida foi servida e em minutos as bandejas fica-

ram vazias.

Quis beber uisque para aniquilar a perturba����o de

encarar a realidade que mam��e estava quebrada. Mas

logo fiquei tonta e me estirei no sof��.

��� Cristo, Regina, pensei que voc�� fosse mais forte!

��� �� a primeira vez que bebo bebida t��o forte. Olhe,

Andr��, nessa hora, com o teto rodando, �� que vejo que

essa vida artificial e sofisticada n��o vale nada. Juro que

tenho vontade de largar tudo.

��� Mas voc�� pode tentar, Regina. Ainda n��o est��

apodrecida pela malandragem de toda essa ilus��o que

nos cerca.

��� N��o, n��o ir�� adiantar nada. Fui criada no meio

do luxo, comendo do bom e do melhor, frequentando os

melhores col��gios. Fui criada assim e nunca ser�� dife-

rente. Talvez, se me tivessem criado num grupo escolar

qualquer e me feito trabalhar com dez anos, tudo seria

diferente. Agora j�� estou acostumada com roupas finas,

com muito dinheiro. Estou me acostumando com bebidas

��� 54 ���

caras, me levantando ao meio dia e almo��ando as

quinze.

��� Voc�� fala como se tivesse trinta anos.

��� Se algum dia tive uma inf��ncia, hoje ela est��

ha quil��metros de dist��ncia. Ali��s, agora sinto-me uma

verdadeira mulher. Mas uma mulher que n��o sabe lutar

para sobreviver. Sei que a luta pela exist��ncia, para

mim, seria perturba����o e confus��o.

��� Quero gelo e ��� gritou Ivete, j�� meio tocada. ���

Gelo �� o mesmo que me encostar em um homem, sentir

um calor agrad��vel e uma gostosa sensa����o. Voc��s n��o

entendem o que os meus dezesseis anos sentem nos bra-

��os de um homem? �� uma sensa����o viva e contagiante,

de fogo e de tes��o que cresce conforme a coisa deie

tamb��m cresce.

O jovem que estava com Ivete foi at�� a cozinha e

trouxe o gelo. Logo em seguida, seus corpos aproxima-

ram-se. O rapaz inclinou-se sobre ela e foi beijando-a no

rosto, no pesco��o, e foi descendo. Ivete abriu as pernas.

��� Voc�� �� uma jovem vibrante. Vou ensin��-la, mui-

tas coisas. Comprima-se contra o meu r o s t o . . . Assim,

v a m o s . . .

Levantei-me r��pida e gritei:

��� Calma, Ivete. Voc�� disse que era uma menina

descente. N��o vai se permitir dar-nos um espet��culo de-

primente, vai?

��� Ora, Regina, j�� perdi minha identidade na emo-

����o do sexo. Nunca tive uma emo����o assim. Minha men-

te est�� envenenada e meu todo latejante. Afinal, n��o

sou de pedra. Quero ser possuida, mas possuida pelo lado

certo.

Eu tamb��m j�� estava meio b��bada. Sen��o n��o teria

gritado.

��� 55 ���

��� Voc�� �� uma suja! Devia sentir nojo de si mes-

ma.

��� Nojo? E por que? Nada mais poder�� acontecer

al��m de eu me tornar mulher. E eu adoro ser mulher...

��� Mas pense nas consequ��ncias.

��� Que consequ��ncias?

��� Ora, voc�� poder�� ficar gr��vida.

Ivete riu. Apalpou o bolsinho que tinha no biquini e

sacudiu uma caixinha de pl��stico ao dizer:

��� E pra que servem as p��lulas?

��� Bem, Ivete, se voc�� continuar assim, acabou-se a

festa.

Ela deu uma risada.

��� Voc�� �� mesmo de amargar, Regina ��� sentou-se

no sof��. ��� Voc�� conseguiu cortar as asas da minha von-

tade. Agora vou ficar entendiada, s�� com comidas, be-

bidas e prosinha.

J�� v�� que aqui na Guanabara estou dando azar.

��� Voc�� est�� nos deixando chocadas, isso sim.

O companheiro de Ivete saiu do sof�� e sentou-se em

uma poltrona, empunhando um novo copo de u��sque.

��� Sinto muito, pessoal ��� Disse ele ��� pensei que

a garota fosse mulher. E, como mulher, acho que ela

deve sempre esperar tentativas desse tipo por parte do

sexo oposto.

��� Eu n��o o estou culpando pelas tentativas. Al��m

disso, n��o tenho nada com a vida de Ivete. Mas �� que as-

sim, em p��blico, o neg��cio fica rid��culo. Se voc�� quiser

avan��ar o sinal, isso �� l�� com voc��, mas n��o na minha

frente.

��� 56 ���

O rapaz deu de ombros e continuou bebendo e fu-

mando Alias, todos fumando.

Eu nunca tinha fumado e, por isso, Andr�� disse:

��� Sua m��e j�� sabe ? Para mim �� uma surpresa v��-la

fumar.

��� Sempre h�� a primeira vez, n��o ��, Andr��? E de-

pois, tudo que eu fa��o �� para me vingar de duas pessoas.

Algum dia voc�� saber�� quem s��o.

��� 57 ���



IV

Dinheiro? Os Homens me dar��o

O nosso apartamento, alugado, com mob��lia, ficava

bem na Avenida Atl��ntida. Era grande, com tr��s quar-

tos, e n��o estava decorado a meu gosto, pois tinha m��-

veis pesados e antigos e com grosso tapete de uma cor

indefinida. As janelas da frente davam para o mar e o

edif��cio ficava a poucos metros do Copacabana Palace

Hotel. Quando cheguei a Copacabana senti que teria uma

vida ador��vel naquele apartamento. Mas depois que An-

dr�� falou a respeito de mam��e estar quebrada, fiquei

apavorada, pensando a todo instante que tocavam a

campainha e que seria um oficial de justi��a trazendo a

ordem de despejo. Quando a noite caia sobre o meu

quarto �� que me tranquilizava um pouquinho. Por que

�� noite a lei n��o trabalhava. Assim me diziam. N��o dis-

se nada a mam��e do que Andr�� havia me contado. Tam-

b��m n��o podia mandar as minhas amigas embora pois

eu vivia muito solit��ria e sem elas morreria de isola-

mento. Por isso, resolvi, procurar papai, para pedir um

dinheiro a fim de passarmos aquele m��s. Mas onde achar

papai? Meus pais estavam desquitados h�� muitos anos,

a bem dizer uns dez. Eu passava quase todo o meu tem-

po pensando, em como seria formid��vel se meus pais es-

tivessem juntos e que olhassem por mim. Com que an-

��� 59 ���

siedade eu esperava ver papai. A coisa que eu mais que-

ria era ser dirigida pelos dois e n��o ter que decidir coisa

alguma. Ter um lar. Oh, Deus, que felicidade se os velhos

se reconciliassem!

Estava em certa manh�� perto da janela, pensando

em tudo isso, quando mam��e entrou na sala.

��� Ol��, querida. Dormiu bem? ��� Sem esperar res-

posta, continuou. ��� Quer um drinque?

��� N��o, mam��e.

��� Por que est�� t��o cismada?

��� Nada, m a m �� e . . .

��� Ora, minha filha, sei que voc�� �� silenciosa e pen-

sativa, mas hoje est�� al��m de tudo perturbada.

��� N��o �� nada. Estou s�� pensando.

��� Regina, gostaria que me dissesse o que est�� pen-

sando. Talvez eu possa ajud��-la. Parece, quero dizer. . .

isso significa, possivelmente, que voc�� est�� ficando mo��a

e se afastando de mim.

��� Talvez.

Mam��e ficou desanimada. Foi at�� o bar e se serviu

de uma bebida.

��� Quer que acorde as suas amigas? Isso talvez a

anime.

��� N��o. Estou bem.

��� Claro que n��o est��. Sentada a��, t��o deprimida...

Por que n��o convida alguns rapazes para sair? Por exem-

plo, poderiam ir at�� S��o Conrado, ou mesmo dar um pas-

seio na Ilha do Paquet��. Olhe, nossos vizinhos s��o uns

bons rapazes. Quer que eu telefone para l��?

��� N��o. Eu acho que as minhas amigas os odiariam,

pois s��o crian��as demais.

��� Crian��as???

��� Sim. N��s gostamos de nos divertir com homens.

��� Bem, voc�� n��o pode prosseguir nessa atitude.

Suas amigas v��o achar que voc�� �� cacete.

��� 60 ���

��� Sinto muito. Elas me conhecem h�� muitos anos

e nunca disseram que as caceteei!

��� Bem, ent��o deixe que elas acordem. Eu vou pe-

dir ao Paulo que as levem para beber e nadar no Copa-

cabana Palace. Eu mesma pago.

��� Isso ficar�� muito caro.

��� Nem tanto. ��� Mam��e olhou-me como se me vis-

se pela primeira vez.

��� J�� sei o que a est�� preocupando. �� dinheiro,

n��o ��?

��� ��.

��� Quem foi que lhe falou?

��� O qu��?

��� Que estamos quebradas?

��� Eu percebi.

��� N��o, Regina. Algu��m mencionou o ato. Voc�� es-

t�� mentindo.

��� Pelo amor de Deus, mam��e. Eu a vejo pedindo

dinheiro para todos os homens que aparecem.

��� Nada. Nada.

��� Olhe aqui, Regina. Logo n��o teremos mais esse

problema. Eu vou fazer uma novela.

��� Isso s��o babozeiras.

��� Como?

��� Eu disse que s��o babozeiras.

��� Voc�� n��o acredita em mim?

��� Perdoe-me.

��� Um diretor me prometeu o papel principal de

uma novela.

��� 61 ���

Dei de ombros. Que poderia eu dizer? Havia tanta

coisa, mas eu preferi umas poucas palavrinhas.

��� Eu quero o papai.

��� Seu pai? E por que?

��� Mam��e, por favor, me diz onde ele est��. Isso ��

muito importante para mim.

��� Ora, minha filha, ele est�� em S��o Paulo. Mas que

bicho a mordeu para voc�� querer o seu pai?

��� O bicho da saudade.

��� S�� isso? N��o acredito.

��� O bicho da necessidade tamb��m Eu preciso de

dinheiro.

��� 62 ���



V

Dr., voc�� ter�� uma filha prostituta!

Logo que chegou ao Aeroporto, papai me telefonou.

Eu o contemplei e o achei lindo de morrer, quando nos

vimos. Alto, moreno, com um sorriso franco e encanta-

dor. Agora, dentro do t��xi, n��o tirava os olhos dele e

estava felic��ssima por que atendera ao meu chamado.

Papai era m��dico cirurgi��o em S��o Paulo.

��� Voc�� est�� linda, minha filha. Onde podemos ir,

para conversar �� vontade?

��� Em qualquer restaurante.

Pela janela do t��xi, ele olhava para todos os restau-

rantes, at�� que se decidiu por um, �� beira-mar.

��� Espero que goste. Se n��o gostar, pode escolher o

que mais lhe agradar, pois o dia e os restaurantes s��o

todos seus.

O restaurante era chiqu��rrimo. Mas, ao sentarmos ��

mesa, caiu entre n��s um sil��ncio constrangedor. Eu ti-

nha tanta coisa a lhe falar, mas a mente n��o destilava

coisa alguma. Tudo parecia vetado. Papai parecia tam-

b��m n��o querer interferir na minha mente. Talvez fos-

se melhor n��o falar em dinheiro. Pareciamos dois desco-

nhecidos. Tamb��m, naqueles anos todos, haviamos pas-

��� 63 ���

sado apenas algumas horas juntos. Como era doloroso o

desquite, meu Deus! Eu tinha sido feita, eu era daque-

la carne que estava ali na minha frente e n��o tinhamos

nada em comum. Oh! meu Deus, por que n��o o

fazia ficar ali e chamava mam��e e n��s tr��s iriamos para

um lugar s�� nosso, cheio de paz? Por que aquele homem

que era meu pai, tinha que ficar ali, s��rio, esfor��ando a

imagina����o, a fim de encontrar assuntos para conversar

com a sua pr��pria filha?

��� O que voc�� gostaria de comer, Regina?

��� Quero beber.

��� Beber?

��� Onde, diabos, voc��, com quinze anos, aprendeu a

beber ?

��� Com todos.

��� Como todos??? Mas voc�� ainda �� uma menina!

��� Uma menina sem pais. Jogada. E vou aprender

muita coisa ainda.

��� Voc�� deve falar essas coisas para sua m��e.

Fiquei sem saber o que falar.

��� Eu preferia que voc�� n��o bebesse.

��� Mas eu quero uisque.

Papai pediu duas doses.

��� Gosto muito de estar perto de voc��, minha filha.

��� Sim, papai. Faz um ano que n��o o vejo. Acho

que o senhor gosta mesmo.

��� Voc�� cresceu muito, nesse ano.

��� Tinha que crescer, n��o ��, papai?

O gar��on trouxe as bebidas, azeitonas e legumes

cruz. Comecei a beber e me senti mais confortada.

��� Regina, a juventude n��o deve procurar conforto

na bebida.

��� Com pais separados, vai procurar conforto on-

de? E, depois, n��o existe mais juventude moralizada.

��� Ainda insiste? Voc�� n��o deve beber!

��� 64 ���

��� S�� faltam tr��s anos para eu beber legalmente. Se

vou beber daqu1 a tr��s anos, come��o agora. O senhor n��o

acha infernal?

Prefiro n��o dar resposta. ��� Disse friamente.

��� N��o h�� mesmo uma resposta para uma menina

que bebe ilegalmente, perto do pai, e ��le n��o tem autori-

dade para faz��-la parar.

��� Bem, n��o estou aqui para tratar dessas coisas.

S�� a acho muito crian��a para estar bebendo.

Virei o conte��do do copo e olhei desafiante para

papai. Queria mago��-lo, queria que ��le sentisse que uma

menina sem lar n��o tinha chance de coisa alguma.

��� Acenda o meu cigarro, papai.

��� Tamb��m fuma?

��� �� a ��poca, papai. Hoje em dia n��o se bebe furti-

vamente e nem se fuma na privada, como se fazia an-

tigamente .

��� Acho bom n��o falarmos desse assunto. Voc�� me

deixa ressentido, pois discute comigo como sua m��e sem-

pre fazia. Voc�� est�� se parecendo tanto com sua m��e, que

nessas discuss��es me deixa irritado.

��� Ora, papai, h�� tantos casais que n��o se desqui-

tam por causa dos filhos. Voc�� e a mam��e me privaram

dcs anos que as outras crian��as podem desfrutar alegre-

mente, tendo o pai como companheiro nas festinhas de

anivers��rio. Privaram-me, tamb��m, dos olhares proteto-

res e ciumentos que outras crian��as encontram nas fa-

ces de seus p a i s . . .

Papai mudou de assunto.

��� Bem Regina, penso que voc�� est�� se sentindo no

auge da alegria por ter sa��do do col��gio.

��� Quem n��o se sentiria contente por sair de um

internato? O senhor sabe o que �� passar todos os dias

vendo todo mundo com a mesma cor de roupa ? Aqui em

Copacabana, a gente fica at�� espantada com a variedade

de cores que cobre todo mundo andando de l�� pr�� c��.

��� 65 ���

Ficamos algum tempo em sil��ncio. Eu com o meu co-

ra����o saltando e a garganta seca, pois ia pedir uma coisa

muito importante a ele.

��� Papai ��� disse eu, subitamente ��� porque o se-

nhor n��o faz uma visitinha a mam��e? ��� Por favor, v��

sim. Isso me faria muito feliz.

��� N��o, Regina. Sua m��e me atribuiria muita res-

ponsabilidade. Ela �� um problema. Algo muito s��rio.

Sinto muito ter que falar a verdade a respeito de sua

m��e. Mas ela �� muito dif��cil, e eu n��o conseguia compre-

ender os seus caprichos. Pedia para ela largar suas an-

dan��as pela televis��o, para cuidar mais de voc��, que era

uma criancinha.

��� Mas voc�� tamb��m n��o interferia no modo errado

que mam��e me criava. Lembro que, uma vez, eu implo-

rei a voc�� para me levar ao zool��gico, mas, porque ma-

m��e estava dormindo e n��o devia acord��-la, voc�� disse

n��o. Aquilo me doeu tanto como se eu tivesse recebido

uma punhalada em pleno cora����o, pois pensava que era

s�� estender a minha m��ozinha e amparar-me em voc��

que tudo se fortificaria, pois voc�� era o homem, era o

pai, era o equilibrado, era o que raciocinava.

��� Ora, minha filha, eu n��o podia me intrometer

ou interferir na maneira de educar de sua m��e. N��o po-

dia assumir um outro modo de educ��-la. Sua m��e, era

a respons��vel pela sua disciplina.

��� L��gico que podia ��� pedi mais uisque p papai

mandou o gar����o servir. ��� Mas, todas as vezes que dis-

cutimos essa quest��o, o senhor tenta sempre jusificar-se.

��� N��o �� isso, Regina. �� que tudo aconteceu h�� tan-

tos anos. Voc�� ainda continua a fazer a mesma coisa,

continua a pensar no passado. Ora, n��o adianta voc��

querer que eu me defronte com sua m��e.

��� Ent��o voc�� quer que eu os jogue um contra o

outro? Ent��o farei isso, de agora em diante. ��� Papai fi-

cou vermelho e mudou o assunto.

��� 66 ���

��� Gostaria de saber se, pelo menos, podemos jan-

t a r . . .

��� N��o sei ��� respondi agressiva. ��� Preferia outro

uisque.

��� N��o ficarei mais um minuto nessa mesa se voc��

tomar outra bebida. Dois u��sques j�� s��o suficientes.

��� Que �� que voc�� pretende agora, papai? Se en-

volver nos meus gostos ? Quer por acaso come��ar a diri-

gir a minha vida ? Voc�� j�� se esqueceu que desistiu de

me educar h�� muitos anos? Quando eu mais precisava

de voc��, nem para me levar as festinhas voc�� serviu.

Agora que sou menina mo��a, e preciso de meus pais jun-

tos, para que eu tenha um pouco de felicidade, j�� que

fiquei quase toda a minha vida num internato, vem voc��

com lorotas, que mam��e �� isso e aquilo. Mas n��o faz

mal, papai. Eu juro que me vingarei. Me vingarei por vo-

c��s continuarem desquitados. Vou fazer as piores coisas

que uma menina de quinze anos poderia fazer. Vou me

atolar na lama e arrast��-los comigo. Todos saber��o que o

grande m��dico, o famoso cirurgi��o, n��o passa de um in-

diferente. Todos saber��o que, o homem escolhido para

as maiores confer��ncias em todo o mundo, abandonou

sua filha ainda beb�� e a deixa, j�� mocinha, a passar as

maiores necessidades. ��� Olhei bem nos olhos de papai

e conclui, petulante:

��� Voc��, doutor Alberto Albuquerque, vai ter uma

filha prostituta. E das piores, voc�� vai ver.

��� Est�� bem. Regina. Seja o que voc�� quiser. Se

afunde na lama, n��o me incomodo. N��o posso ser o res-

pons��vel, desde que voc�� se recusa a fazer qualquer coisa

que eu lhe pe��a.

��� Ent��o sou eu que recuso, n��o ��, papai? Realmen-

te, voc�� tem mais uma qualidade que eu desconhecia:

Covardia. N��o sei como foi que voc�� conseguiu chegar a

invej��vel situa����o que ocupa. Talvez passando sobre os

��� 67 ���

mais f r a c o s . . . Eu pe��o para voc�� me dar um lar e voc��

vem dizer que eu me recuso a fazer o que voc�� manda.

Francamente... A ��ltima vez que o vi faz exatamente

um ano, e eu me recusei a obedec��-lo. N��o �� da gente

morrer de rir ? Agora compreendo at�� as discuss��es pre-

c a t a i s de voc��s. Era isso - - - mam��e estava sempre

embriagada, quando eu estava ainda em sua barriga. L��

dentro, eu sentia o cheiro do ��lcool, e sabia que voc�� n��o

estava raivoso por ver um feto b��bado, mas sim que mor-

ria de raiva pelo fato de mam��e gastar todo seu dinheiro

em bebidas e a�� as suas discuss��es chegavam a um au-

ge que o fazia querer estrangul��-la.

��� Pelo amor de Deus, Regina, pare de falar de sua

m��e.

��� Sen��o voc�� sair�� da mesa, n��o ��, papai? �� s�� isso

que sabe falar. Pode me largar aqui. Eu n��o me inco-

modo. Mas voc�� e mam��e v��o se arrepender. Agora vou

dar por terminada a nossa conversa. Quem vai sair da

mesa serei eu, depois que voc�� me der o dinheiro de que

necessito.

��� Quanto?

��� Cinco milh��es.

Papai ficou branco e gritou:

��� Cinco milh��es??? Mas sua m��e falou que quem

pagou o col��gio este ano fui eu? E olhe que n��o foi ba-

rato. Gastei milh��es.

��� E da��? N��o fui eu que pedi para vir ao mundo.

E depois, voc�� sempre tem a mania de falar sobre dinhei-

ro gasto comigo. Para voc��, dinheiro n��o deveria signi-

ficar coisa algum?, pois voc�� tem muito.

��� Para mim, dinheiro significa muita coisa pois eu

fa��o um esfor��o enorme para ganh��-lo. Voc�� �� igualzi-

nha a sua m��e. S�� se preocupa com o que eu posso dar a

voc��s.

��� 68 ���

��� Vou tomar mais um gole, papai, pois sinto von-

tade enorme de chorar. Voc�� n��o me ama. Juro que at��

gostaria se eu morresse.

��� N��o seja petulante, Regina.

��� Voc�� ao menos devia ter esp��rito esportivo ou

mesmo senso de humor. Exclamei.

��� N��o vejo nada engra��ado nisso.

��� N��o v�� por que n��o quer.

��� Ora, escuta...

��� Est�� bem. Est�� bem. N��o quer me dar o dinhei-

ro? Me venderei a qualquer homem na rua.

��� Por favor, filha. Cinco milh��es �� muito.

Vendo-me irredut��vel, papai suspirou e disse:

��� Pensei que voc�� tivesse me chamado por que a

saudade lhe apertava o cora����o.

Sorri.

��� N��o, papai. Eu o chamei por que mam��e est��

quebrada e eu preciso de dinheiro. Mas o mais importan-

te : eu chamei para ver se conseguia colar os peda��os do

nosso mundo. Mas estou me afogando e ningu��m se re-

solve a me salvar.

��� Como voc�� pode dizer uma coisa dessa, menina?

Se a situa����o da sua m��e n��o �� est��vel voc�� fica comigo

em S��o Paulo at�� que ela melhore. Voc�� pode voltar pa-

ra o internato ou escolher um outro col��gio. Temos um

colosso de boas escolas como a que voc�� estava.

��� S�� se voc�� levar mam��e, tamb��m.

��� Olhe, Regina, estou lhe dizendo que voc�� viveria

melhor na minha companhia. Sei que a sua m��e a magoa

muito. Voc��, eu quero, mas a sua m��e n��o.

��� 69 ���

��� Bem, sendo assim, prefiro viver com mam��e.

Olhei para papai e v�� que ele embranquecia. Por is-

so, disse:

��� Mam��e, apesar de viver rodeada de falsas amigas

e de falsos amigos, anda muito solit��ria.

Papai demorou para responder.

��� Eu j�� sabia o que voc�� ia dizer enquanto a obser-

vava, minha filha. Voc�� j�� decidira e estava apenas fin-

gindo. Eu mesmo permiti que voc�� crescesse como uma

menina sem pai. Eu a deixei e agora reconhe��o que er-

rei deixando a cust��dia com sua m��e. Agora �� tarde pa-

ra modificar a minha posi����o.

��� N��o �� tarde n��o, papai. �� s�� voc��s se reconcilia-

rem. Eu terei um lugar sad'o para crescer com uma for-

ma����o moral elevada.

��� Sei tudo isso, minha filha. Sei que o seu bem-es-

tar est�� acima de toda essa confus��o que aconteceu em

nossas vidas. Mas eu j�� esclareci dizendo tudo a respeito

de sua m��e e eu juro que n��o poderei viver com ela. Es-

t�� acima das minhas for��as.

��� Mas eu o amo tanto, papai. Amo-o como amo a

mam��e. Por que vivemos separados?

��� S��o coisas da vida, minha filha. Agora me diga

para que quer o dinheiro. E pe��a o jantar.

Enquanto comia, expliquei:

��� Ser�� ��timo ter o dinheiro, porque Ivete e Arlete,

duas de minhas amigas do col��gio, est��o aqui na Guana-

bara. O senhor sabe, as fam��lias delas sempre me con-

vidam para f��rias e fins-de-semana.

��� Ivete n��o �� aquela garota que a superintendente

disse que �� m�� companhia para voc��?

��� Que superintendente?

��� 70 ���

��� L�� do col��gio.

��� Oh, aquela �� uma idiota. Nunca gostou de Ivete

por que Ivete �� uma garota pra frente, que detesta ser

mandada. Oh, papai, fico pensando e at�� estreme��o em

pensar que voc�� n��o poder�� me dar o dinheiro. Essas me-

ninas adoram a praia de Copacabana. Toda essa bagun-

��a de praia as deixa malucas. Dizem sempre que, quan-

do acordam pela manha, correm �� janela para ver se o

mar est�� ali ainda ou se foi para o mundo de sonhos de

onde parece ter surgido.

��� Mas eu acho que voc��s deveriam passar as f��rias

em um lugar mais tranquilo onde exista atmosfera de

paz. Isso aqui �� muito agitado.

��� N��o para garotas de quinze anos.

Papai sorriu.

Depois do jantar me deu um cheque de dois mil

cruzeiros.

��� Mas, papai... eu p e d i . . .

��� N��o v�� me recriminar por n��o ter o dinheiro que

voc�� pretende, Regina. Tenho dificuldades em arranjar

dinheiro. Contudo, penso que se voc��s passarem o m��s

economizando, dar�� perfeitamente.

Peguei o cheque logo, antes que papai se arrependes-

se. Despedi-me dele depois.

No dia seguinte, acordei cedo, corri para o banco e,

com o dinheiro na bolsa, meus primeiros pensamentos

foram comprar bebidas. Comprei-as e, da janela do apar-

tamento, eu, Ivete e Arlete brindamos a beleza de Copa-

cabana .

��� �� uma cidade ador��vel ��� disse Arlete, fitando

da janela os lindos desenhos que beiravam a praia. ���

Gosta daqui, n��o, Regina?

��� 71 ���



��� E quem n��o gostaria?

��� Se n��o tivesse tantos homens queimadinhos eu

n��o gostaria ��� disse Ivete, tomando, de uma vez, o con-

te��do do copo.

��� Cristo, Ivete. Voc�� s�� pensa em homens!

��� Ivete ficou pensativa e depois respondeu:

��� Penso tanto em homens para esquecer... Bem,

para esquecer um certo h o m e m . . .

��� O grande amor de sua vida? ��� perguntei.

Ivete ficou p��lida e apertou o rosto com as m��os. Por

um momento, pensei ver l��grimas em seus olhos, antes

que ela escondesse o rosto.

* * *

Nessa mesma tarde, Paulo chegou com um Impala

e nos levou a dar uma volta pela Guanabara. A vis��o

dos edif��cios de apar��ncias iguais por todas as ruas que

passamos, fez-me sentir a saudade da grandiosa e mal

feita S��o Paulo, com seus altos pr��dios, m��dios pr��dios,

pequenos pr��dios, tudo na maior bagun��a, atravessados

por pontes elevadas que mostravam mais de perto suas

fachadas de estuque pintadas de cores encardidas. Na-

quele momento, olhando a famosa Copacabana, senti

uma sensa����o de paz, esquecendo, por momentos, a dis-

cuss��o que tive com papai. Agora, sentia dificuldades em

lembrar do que hav��amos falado, embora n��o me esque-

cesse da promessa de me vingar se ele n��o voltasse pa-

ra mam��e.

Paulo passou pelo apartamento de M��rio e subimos

todos para cham��-lo.

A porta foi aberta pela empregada de uniforme azul

dando-nos a impress��o de estar com um dos nossos uni-



formes do col��gio. Entramos na sala muito bem decora-

da, com poltronas de ar e grandes almofadas de espuma,

de diversos formatos, jogadas por todos os lados.

Nos atiramos nas poltronas, soltando gritinhos his-

t��ricos de medo que elas estourassem. Depois, manda-

mos a empregada servir bebidas enquanto apanh��vamos

cigarros nas mesinhas. Foi o instante em que surgiu Ma-

rio, vindo de um dos quartos, vestindo um roup��o bran-

co que n��o lhe escondia muitas partes do corpo. Estava

totalmente queimado pelo sol. Tinha uma cor de choco-

late.

��� Ol��, pessoal. Que surpresa formid��vel v��-los no-

vamente .

Juntou-se a n��s e ficamos todos bebendo, fumando

e conversando. Uma certa hora, pedi a M��rio para ir

trocar de roupa, pois queria dar um mergulho na pisci-

na que existia no seu pr��dio.

��� Claro, meu bem. Venha para o meu quarto.

0 quarto estava em formid��vel desordem. Ele co-

me��ou a apanhar roupas daqui e dali, xingando a empre-

gada, como se a coitada tivesse culpa dele trocar de rou-

pa de cinco em cinco minutos e jog��-las por todos os

lados.

��� Essa empregada �� um suino. Fica sempre beben-

do e quando est�� meio tocada n��o arruma nada. N��o

repare, Regina. Fique a vontade e se acha que deve cha-

mar as suas amigas, grite que elas vir��o.

��� N��o, M��rio. Nessa hora, acho que est��o inteira-

mente embriagadas e n��o poder��o entrar na piscina.

��� Ent��o eu subo com voc��. A piscina fica no ��lti-

mo andar.

��� Eu sei. Vim com mam��e uma vez. Voc�� n��o se

lembra ?

Ele bateu na testa.

��� Oh! Mas voc�� era t��o pequena. Mas, Cristo, agora

voc�� est�� um bocado legal. ��� M��rio ia falando enquanto

me guiava para o elevador. Ao chegarmos �� piscina, s��

encontramos dois rapazinhos que, com suas risadas in-

fantis, enchiam o ar.

Nadamos e nos sentamos nas espregui��adeiras.

M��rio perguntou-me:

��� Voc�� est�� gostando daqui?

��� De onde?

��� Da Guanabara.

��� Muito! Tudo �� formid��vel. S�� que n��o conhe��o

muitos rapazes.

��� Ora! Isso n��o �� problema. Eu estou aqui. Vou

arrumar um colosso de festas. Voc�� bebe, n��o ��?

��� Bebo.

��� Fuma?

��� Sim.

��� S�� cigarros ?

��� S��.

��� Nunca experimentou outras coisas?

��� N��o.

��� E suas amigas?

��� N��o sei. Eu n��o ia falar que elas fumavam ma-

conha no col��gio.

��� Voc�� quer experimentar?

Lembrei-me da vingan��a. Agora ia come��ar. A filha

do grande cirurgi��o fumando maconha.

��� Quero.

M��rio tirou um cigarro da cigarreira e me deixou

dar umas tragadinhas.

��� 74 ���

Logo me senti enjoada e ia desistir, quando a ima-

gem de papai se fez bem n��tida.

��� Fumei o cigarro inteirinho e me senti meio tonta

mas. . . feliz!

��� Gostou?

��� N��o �� l�� grande coisa.

M��rio n��o se deu por achado.

��� Voc�� quer ir a uma festa de fechar o com��rcio?

As mo��as tem que ir com o vestido bem decotado, ofe-

recendo os seios para facilitar o neg��cio.

Encarei-o com dureza. Ele fez de conta que n��o

percebeu.

��� Realmente, para ser uma garota pra frente, vo-

c�� tem que frequentar festas desse tipo, ou piores. Se-

n��o fica parecendo uma caipira.

Eu tinha que continuar a vingan��a. Aceitei.

��� E quando �� essa festa?

��� Hoje mesmo. �� s�� convocar a. turma.

��� Oh! Seria maravilhoso! Adoro festas, mas acon-

tece que n��o tenho nem um vestido decotado.

��� Isso se arranja.

��� Ent��o eu topo.

Assim, naquele momento, comecei a vingan��a que

prometera a papai se ele n��o voltasse para junto de

mam��e. Nesse momento comecei a adotar o padr��o de

vida da juventude transviada. Telefonei a mam��e di-

zendo que iamos passar a noite na casa de uma amiga

de Arlete que, inadvertidamente, encontramos quando

tomavamos um coquetel. Mam��e ficou muito contente,

��� 75 ���

talvez por que fosse economizar o jantar. Voltamos pa-

ra o sal��o e M��rio comunicou �� turma a tal festa.

��� Mas precisamos arrumar um companheiro para

Arlete.

��� Ora, �� s�� telefonar para Andr��.

No apartamento de M��rio tinha um mont��o de

vestidos super-decotados, que fomos usar sem sutian.

Mas, para mim, que tinha saido h�� t��o pouco tempo

de um internato, n��o usar sutian era meio indecente.

Mas, depois de uns goles, a coisa ficou natural. Toma-

mos mais uns goles e fomos para a festa, que estava

sendo realizada no apartamento de um jovem da mi-

nha idade, que os pais estavam viajando.

Quando chegamos, o apartamento estava apinhado

de gente. Fiquei meio encabulada. Quase todos os ra-

pazes estavam com tudo a mostra. As meninas era

aquele Deus nos acuda. Uma mais decotada que a ou-

tra. Os seios a mostra e os vestidos abertos na frente,

mostrando as coxas e o resto. Eu n��o estava acostu-

mada com tanta gente, e com tanta fuma��a de cigar-

ros . Um conjunto de rapazes com os cabelos enormes

come��ara a tocar. Os pares dan��avam e alguns pre-

feriam ir para os quartos para ficarem mais a von-

tade. Mario segurou-me pela cintura e, apertando-me

contra ele, come��ou a dan��ar, me levando.

��� Sabe que voc�� �� uma jovem muito atraente e

que tem seios lind��ssimos? J�� foram tocados por al-

gu��m?

Decidi ignorar a pergunta. Mas M��rio n��o tirava

os olhos do meu corpo. Seus olhos subiam e desciam.

Eu sabia que meus seios eram morenos, erectos e du-

rinhos, e fiquei toda arrepiada quando Mario abaixou

a cabe��a at�� eles e sugou-lhes os bicos, fazendo-me

quase desmaiar.

��� 76 ���



��� Tenho certeza de que voc�� gostou muito. Gos-

taria de lev��-la para um lugar mais tranquilo. Aqui

est�� muito quente e cheio.

��� Onde poder��amos ir?

��� Para o meu apartamento.

��� Seria formid��vel. Mas, e as minhas amigas?

��� Nesse momento, elas a ignoram.

��� N��o. Fica para outro dia. Hoje eu j�� estou

meio tonta.

A festa terminou as seis horas da manh�� e fomos

todos para o apartamento de M��rio Deitamos ali mes-

mo, nas almofadas da sala, pois n��o aguent��vamos

mais de cansadas. Tinhamos bebido muito, muito

mesmo.

Daquele dia em diante fomos a muitas festas e

conheci uma infinidade de rapazes. Eram meninos ain-

da, que andavam �� solta, pois os pais viajavam para as

Bermudas, para Nova York, It��lia, ��frica, enfim, para

mil lugares diferentes, e os filhos se esborrachavam de

beber, fumar e frequentar as mais ousadas festas. E vi-

viam se lastimando por terem sido atirados ao mundo

livre antes do tempo. Eu observei que quase todos aque-

les meninos que n��o saiam das festas n��o tinham con-

seguido concluir seus cursos de gin��sio pois estavam

constantemente suspensos e, quase sempre, por bebe-

deira ou por fumar maconha.

Eu apreciava essas festas e a intimidade do nosso

grupo, que se sentia ligado por uma esp��cie de revolta

contra os pais. Todos tinham uma queixinha contra o

pai ou contra a m��e. Tamb��m comecei a gostar da

abund��ncia de bebidas e da falta de pudor dessas fes-

tas. Nela encontrei o carinho que jamais tive em casa.

N��o sei bem isso. Talvez fosse o carinho dos amigos

que me deixava t��o f e l i z . . . As afei����es casuais, as

frequentes propostas que recebia, preenchiam a falta

de carinho dos meus pais e, com o correr do tempo,

reduziam a solid��o, que ficava coberta de cinzas den-

tro do meu cora����o. Mas, era s�� vir um ventinho, que

as cinzas iam para longe. Quando, a noite deitava,

sentia uma falta terr��vel do amor que nunca encon-

trara em meus pais. Ent��o pensava na garrafa que

estava em cima do criado mudo e, de gole em gole,

ia me atolando na lama.

��� 78 ���



VI

Gr��vida? P��lulas

Naquela noite que dormimos no apartamento de

M��rio eu fui a primeira a acordar. Olhei no rel��gio

pendurado na parede. Era exatamente, treze horas.

Levantei-me do almofad��o com a cabe��a rodando.

A empregada de M��rio entrou nesse instante e per-

guntou :

��� Quer tomar o caf�� aqui ou na cozinha?

��� Na cozinha.

Enquanto tomava o caf�� com leite, entrou Ivete.

Olhando para dentro da x��cara, gritou:

��� N��o, n��o �� poss��vel! Caf�� com leite! Voc�� deve

estar biruta, garota!

��� Ora, n��o vejo porque.

��� Ent��o vai ver! ��� Olhou para a empregada e

gritou:

��� Hei.me d�� uma dose dupla de u��sque!

��� Assim voc�� acabar�� uma alcoolatrazinha.

��� �� s�� isso que meus pais merecem! ��� Replicou

��� 79 ���



Ivete ��� ter por filha uma alco��latra pois os dois j��

o s��o!

A�� foi que a lembran��a da vingan��a que tinha pro-

metido veio �� tona.

Empurrei a x��cara de caf�� e pedi o mesmo que

Ivete.

��� Bem. Tamb��m beber sem comer �� chato. Hei,

empregada. Bota a�� salame, queijo, azeitonas e biscoi-

tinhos.

��� Olhe Regina, conte-me o que andou fazendo na

festa. N��o a vi uma ��nica vez.

��� N��o viu porque n��o quis. Estive o tempo todo

dan��ando com M��rio. E, por sinal, ele me convidou

para vir aqui no apartamento para ficarmos mais a

vontade.

��� Fant��stico! E voc�� aceitou?

��� N��o.

��� Boba!

��� Boba?

��� Claro!

Olhei bem para Ivete.

��� V o c �� . . .

��� Uma surpresa n��, Regina? M as, finalmente, a

coisa aconteceu.

��� N��o acredito.

��� Juro.

��� Quanto tempo?

��� Essa noite.

��� N��o? N��o �� poss��vel.

��� Claro. Eu estava numa tremenda bebedeira e

ele, o espertinho, aproveitou.

��� Paulo! Virgens! Se mam��e souber...

��� O que tem ? N��o se preocupe. Eu sei tomar as

p��lulas.

��� E que tal?

��� Olhe: o neg��cio arde pr�� burro. Mas �� legal.

��� E agora? Se os seus pais souberem?

Ivate ficou me olhando fixamente, como se n��o me

visse. Mas eu vi aquela coisa no seu olhar. Era como

os seus belos olhos se transformassem em olhos de

v��bora. Dissimulou e respondeu indiferentemente:

��� Isso eu vou deixar pr�� pensar depois. Agora que-

ro fazer amor muitas vezes, para passar a fome dos

meus dezesseis anos. Puxa, se visse que p��nis grande

e lindo que ele t e m ! . . . �� da gente morrer debaixo

dele!

��� Mas voc�� gosta do sujeito?

��� Que sujeito?

��� Ora, Ivete, do Paulo.

��� Ah, voc�� sabe que nem me ocorreu perguntar

ao meu cora����o?

��� E a coisa vai continuar? Quero dizer as re-

la����es?

��� Nem h�� d��vida. Pois foi o que acabei de dizer:

morrer debaixo dele!

��� Eu tamb��m gostaria de ter Mario agora s�� para

mim. Mas h�� tanta gente aqui no apartamento.

��� Por isso n��o. Vou acordar Arlete, Andr�� e Peulo.

Iremos para o apartamento de sua m��e. Voc�� nos en-

contrar�� l�� daqui a algumas horas. Mas tem um pro-

bleminha; e se sua m��e perguntar por voc��?

��� Ora, mam��e est�� doidinha para que eu perca

a virgindade. Ela vai dar hurras de alegria.

��� Nem tanto, Regina. Acho sua m��e meio qua-

drada.

��� 81 ���

��� �� que ela �� uma grande atriz.

E assim foi feito. Ficamos, naquele enorme apar-

tamento, eu e M��rio. Os empregados n��o contavam.

* * *

Acabei de tomar o u��sque e fiquei na sala espe-

rando M��rio acordar. Fiquei imaginando como seria

bom estar deitada ao lado dele, beijando-o longamente.

De s��bito, algu��m me agarrou por tr��s e me tapou os

olhos. M��os macias, quentes e perfumadas. Meu cora-

����o parecia querer saltar do peito. As m��os eram de

M �� r i o . . . Levantei as minhas m��os e fiquei tentando

tirar as deles de meus olhos. Venci e M��rio, rindo, foi

preparar duas doses de bebidas.

��� Espero n��o t��-la assustado.

��� De forma alguma.

Ele foi para o quarto.

��� Regina! ��� gritou l�� de dentro ��� gostaria de

tomar a sua bebida aqui? Estou meio cansado. Ainda

n��o estou bem desperto.

Fui e sentei-me na cama, ao seu lado. O quarto

estava imerso na penumbra.

��� Gostou da festa?

��� N��o, M��rio. Na verdade, quando se sai de um

internato, espera-se ver coisas perfeitas. A festa de on-

tem liquidou as minhas ilus��es. S�� por isso n��o gostei.

��� Mas gostou de dan��ar comigo?

��� Gostei. Mas estou com o corpo todo dolorido.

��� Quer que eu lhe fa��a uma massagem?

��� N��o sei, M��rio. N��o sei se ficaria bem.

��� Olhe, �� s�� voc�� pensar que eu sou realmente

um massagista.

��� 82 ���

��� Mas eu nunca fui a um massagista. A gente

tem que ficar n��a?

��� Claro.

Ocorreu-me, subitamente, que talvez n��o devesse

mostrar as minhas partes ��ntimas a um homem por

que meu corpo e meus seios ele j�� estava cansado de

ver em vestido de festa e quando tom��vamos banhos

de sol sem a parte de cima do m a i �� . Mas, a outra

parte, essa n��o. Juro que morria de vergonha. A�� a

coisa estourou dentro do meu c��rebro.

��� Voc�� eu quero, Regina, mas a sua m��e n��o. ���

A voz de papai martelou nos meus ouvidos.

Deixei M��rio tirar minha roupa e me deitei de bru-

��os na cama, a seu pedido.

��� Voc�� tem um corpo de carnes firmes, bem quei-

madinho de sol. S�� em pensar que tenho esse belo corpo

em minhas m��os, esque��o que seu massagista...

Eu adorava a sensa����o de fogo que queimava as

minhas veias quando aquelas m��os corriam pelo meu

corpo. Sentia que todo ele estava vestido de uma sen-

sa����o viva que crescia cada vez mais. Virei-me e en-

costei o meu corpo no corpo de M��rio e me comprimi a

ele. Deliciosamente, ele beijou-me a boca e foi descendo.

Depois, separou as minhas pernas e ficou olhando fixa-

mente no meio delas, dizendo:

��� Estou conhecendo hoje, pela primeira vez, a

virgindade.

Eu quis fechar as pernas, mas ele segurou-me fir-

memente os joelhos, escancarando-as.

��� Calma, Regina. Voc�� vai gostar. Eu juro que

ainda n��o conhecia a membrana t��o falada. �� uma pe-

linha esbranqui��ada, muito insignificante, mas que con-

forme o caso leva at�� ao crime. �� bela a virgindade ..

A cabe��a de M��rio foi se aproximando e senti sua

l��ngua ardente querendo arrebentar a insigniicante pe-

linha. Tomei-me de intensa vibra����o. Nunca meu san-

gue correra trazendo uma vibra����o como aquela. Mas

��� 83 ���

a sua l��ngua era fr��gil, e ele sabia disso. Deitou-se por

cima de mim e meu corpo come��ou a viver uma in-

tensidade que me fazia perder a consci��ncia. Foi quando

um grito animalesco escapou da minha garganta, sem

que eu pudesse ret��-lo. Suas carnes j�� estavam dentro

de mim. Eu era mulher. Papai havia de ficar bran-

quinho quando soubesse, pois era dos tais moralistas

hip��critas.

��� N��o, M��rio. A culpa foi minha. Fui eu que o

provoquei. Eu quero me vingar de algu��m e a melhor

maneira �� fazer coisas erradas. As piores. Agora eu

gostaria que voc�� me levasse para casa.

��� Ok. Vou trocar-me e buscar o carro.

��� Enquanto isso vou tomar mais um gole. ��� Dis-

se-lhe virando o conte��do do copo de uma vez.

��� 84 ���



VII





Meus 15 anos Fervem


Entrei no quarto das meninas e fiquei admirando

a desordem. Fechei a porta depressa, para mam��e n��o

ver. N��o encontrei nem um lugar para sentar. As ca-

mas estavam lotadas de roupas. O ch��o, coberto de dis-

cos. Enfim parecia ter havida l�� um terremoto. Ivete,

sentada no ch��o em cima das pernas, esmaltava as

unhas, e Arlete, deitada em cima de um monte de

an��guas e vestidos, acompanhava o ritmo da m��sica,

balan��ando as pernas. Corri e desliguei a eletrola. Ivete

levantou a cabe��a e Arlete, repousando a cabe��a num

travesseiro, fitaram-me.

��� Como foi, hem, Regina?

��� Foi legal o neg��cio?

��� Bem, e u . . . M �� r i o . . . Quer dizer... n��s manti-

vemos rela����es, se �� isso que voc��s querem saber.

��� Mas essa �� grande, querida. Grande de morrer.

��� disse Ivete. ��� Ent��o agora voc�� n��o �� mais uma

menina ? Agora �� uma mulher. Legal. Legal pr�� burro.

E como foi? Doeu muito?

��� Como se eu tivesse levado uma punhalada. Mas

isso n��o faz diferen��a agora. Para todos os efeitos eu

��� 85 ���

ainda sou uma menina de quinze anos, virgem. Mas

por dentro j�� sou uma mulher experimentada.

Arlete sorriu, sacudindo a cabe��a.

��� Mas que hist��rias s��o essas, gente?

��� Simplesmente que Regina n��o �� mais virgem.

Arlete cruzou as m��os debaixo da cabe��a.

��� Juro, nunca poderia imaginar que isso pudesse

acontecer a voc��, Regina.

��� Voc�� quer dizer: n��s d u a s . . . n��o �� Arlete ? ���

Exclamou Ivete.

��� Voc�� tamb��m! Poxa, �� mesmo engra��ado que

voc��s, umas inocentes escolares, j�� tenham essa expe-

ri��ncia t��o grande. Gozado, as voltas que a vida d��.

Agora vou precisar arranjar um homem tamb��m para

mim. Sinto necessidade de restabelecer uma superio-

ridade moral para n��o ficar feito boba ��� disse Ar-

lete.

Melhor �� arranjar logo dois para ficar diferente de

voc��s duas.

��� Mas eu sempre tive mais que dois ��� argu-

mentou Ivete, com orgulho.

��� Olhe gente: n��o devemos acanalhar a coisa. Por

outro lado, fiz para me vingar de meus pais. Mas estou

contente por ter revelado o meu segredo a voc��s.

��� Essa �� a sua justificativa, hem Regina? ���

disse Arlete. ��� Porque voc�� quer se vingar de seus

pais?

��� Pelo desquite.

��� Ent��o, eu tamb��m vou me vingar, pelo aban-

dono. Maus pais est��o na Europa e o que eu sei deles

�� s�� pelo cheiro do cheque que me enviam todos os

meses.

��� 86 ���

��� Pois ent��o seja nossa c��mplice.

��� Bem, o neg��cio �� que eu preciso escolher um

homem legal, e n��o esses est��pidos colegiais.

��� N��s n��o fizemos com colegiais est��pidos mas

com rapazes j�� vividos ��� disse Ivete. ��� Olhe, Arlete:

Andr�� �� um belo tipo!

��� �� . . . Vou escolher. Talvez apare��a coisa melhor.

Caimos na risada.

��� Voc��s viram mam��e?

��� Disse que ia �� televis��o.

��� A h ! Bem, voc��s tomam alguma coisa?

��� Claro, estamos com a garganta seca.

��� Escolha nessa desordem toda um bom disco pa-

ra nos acompanhar na bebida.

��� Que tal Roberto Carlos?

��� Grande.

Voltei com a garrafa de conhaque, acendemos ci-

garros e, bebendo, ficamos ouvindo m��sica. Era t��o gos-

toso ficar ali deitada na cama em sil��ncio. Era bom es-

tar de f��rias. Era bom ter perdido a virgindade com um

rapaz, como M��rio. Tamb��m era bom estar com duas

amigas que conhecia t��o bem e com as quais n��o tinha

necessidade de esconder nada. Constitu��amos um mun-

do feliz estando assim juntas, um mundo sem segredos

e sem censuras. Naquele momento, ouvindo Roberto

Carlos, fiquei pensando que seria formid��vel se nossas

vidas n��o seguissem rotas diferentes. Como gostaria que

estiv��ssemos sempre juntas, sem qualquer tens��o ou

incompreeins��o. Nossa amizade refor��ava-se pelos segre-

dos que deix��vamos transparecer em nossas almas. E

foi Ivete quem quebrou o sil��ncio.

��� 87 -

��� Olhe a��, Regina, a�� perto de voc��. A carta que

enviei aos meus pais devolvida pelo correio. Vai ver que

o velho vem aqui bisbilhotar a minha vida. Aposto que

ele mandou mam��e para uma esta����o de ��guas.

��� Mas a sua m��e fica na esta����o de ��guas sem o

seu pai?

��� Voc�� bem sabe que os dois bebem pra burro. Mas

mam��e n��o liga para as minhas aus��ncias. Diz, uma

vez ou outra, que essas minhas estadas com amigos s��o

muito prolongadas. E �� s��.

��� E se o seu pai vier aqui, o que far��?

��� �� muito dif��cil dizer. Pode ser que me esconda

e mande dizer que j�� voltei para casa. Voc�� sabe, eu

n��o suporto ficar na companhia de meus pais. Est��o

sempre b��bados. Mam��e, quando bebe, �� legal, mas pa-

pai �� duro de aguentar. Por isso passo em casa o menos

tempo poss��vel. Acho mesmo que quando ainda dormia

no ber��o j�� sentia vontade de estar longe de meus pais.

Principalmente de papai.

Ivete calou-se de repente. E bebeu de uma vez tudo

tudo o que restava do copo.

��� Mas por que eles bebem tanto?

��� Acho que come��aram como n��s, aos quinze anos.

Um sil��ncio f��nebre caiu sobre o quarto.

��� Fale de seu pai, Ivete ��� pedi.

Ivete arregalou os olhos. Seus l��bios se abriram mas

n��o saiu nem um som. Depois, sorriu meio sem-gra��a

e come��ou.

��� Papai �� violento. Quebra tudo quando �� contra-

riado em alguma coisa. Eu n��o o respeito por que ele

faz tudo para me atormentar. Se eu vou a festas e fico

at�� muito tarde, durmo na casa de amigas. E papai

��� 88 ���

sempre diz: "Aposto que est�� dormindo com algum va-

gabundo". Fica louco de raiva. Voc�� sabe, somos da alta

sociedade. H�� nessa vida muito luxo, bailes de todas as

esp��cies, jantares e banquetes. A gente n��o pode ficar

a toda hora agarrada a saia da m��e, voc�� n��o acha?

��� Mas ele j�� lhe bateu alguma vez?

Pensei que Ivete n��o fosse responder. E sua voz saiu

cheia de ��dio.

��� Uma vez ele me deu uns tabefes, mas eu lhe

dei um pontap�� naquele lugar que foi s�� pena que voou.

Eu n��o tenho medo dele. Se algum dia ele tentar me

agredir, juro que lhe dou um tiro, ou dois, conforme

for preciso, para mat��-lo.

��� ��, Ivete. Eu sei a vida desagrad��vel que voc��

vive com seus pais, mas tanto ��dio a s s i m . . . ?

Arlete sentou-se na cama e disse:

��� Eu tamb��m sei a vida horr��vel que Ivete vive

com os pais, mas n��o quero saber mais nada a respeito.

Tenho horror de homens do tipo do pai de Ivete. ��

melhor a gente mudar de assunto. Olhem, eu acho que

a gente devia mudar de rapazes, conhecer nova turma.

��� Oh! gente, seria maravilhoso. Adoro fazer novas

amizades.

��� Eu acho formid��vel estar na Guanabara, mas o

problema �� que n��o conhe��o outros rapazes, sem ser es-

ses que vivem nos rodeando na praia.

��� Bem, Regina, agora que a gente j�� n��o �� mais

virgem, posso arrumar um colosso de festas. Antes n��o

seria poss��vel porque voc�� se sentiria deslocada.

��� Mas, Ivete, se eu, que sou do sul, n��o conhe��o

muitos rapazes morando aqui, imagina v o c �� . . .

��� 89 ���

��� Ora, querida, n��o se esque��a que um monte de

cariocas frequentam minha mans��o l�� em Pernam-

buco . . .

E por falar nisso, temos uma tremenda festa para

amanh��. Provavelmente voc�� far�� novas e ricas amiza-

des. Depois que a turma souber que voc�� tem quinze

anos e j�� est�� furada, n��o haver�� problema de esp��cie

alguma.

��� Ei ��� exclamou Arlete ��� Voc��s est��o esquecen-

do de mim.

��� Nessa voc�� n��o poder�� entrar, criancinha. S��

depois.

��� Mas se a minha oportunidade de arranjar um

belo e bom amante for hoje, hem? O que voc��s me di-

zem?

��� V�� l��. Talvez voc�� esteja certa. Com algum de

meus amigos voc�� se encontrar�� a si mesma.

��� E encontrar�� a oportunidade de se revelar mu-

lher.

��� Oh! ��� exclamou Arlete ��� isso ser�� maravilho-

so. Adoro o contacto com homens e voc��s imaginam

ent��o sentir um homem inteirinho? Vai ser de enlo-

quecer!

Arlete levantou-se e, rodando de bra��os abertos pe-

lo quarto, repetiu: ��� Vai ser de enloquecer!

��� Olhe, pessoal: o melhor �� a gente ir se arru-

mando para a festa. Vamos at�� a av. Nossa Senhora

de Copacabana comprar vestidos e coisas novas. ��� Foi

dizendo Arlete.

N��s tr��s saimos em micro-vestidos que mam��e cer-

tamente odiaria, e com sand��lias tran��adas at�� as

coxas.

Na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, quan-

do olh��vamos vitrines escolhendo coisas, Ivete gritou:

��� 90 ���

��� J�� consegui arrumar o destruidor da sua vir-

gindade, Arlete. Olhe aquele ali. �� rico pra xux��. Es-

tuda na Inglaterra. Dizem que no mesmo col��gio que

o Pr��ncipe Charles.

Arlete olhou para todos os lados e, com os c��lios

posti��os piscando tremendamente, falou:

��� Cad��? N��o vejo nenhum tipo londrino aqui.

��� Voc�� n��o vai querer que um p��o daqueles este-

ja a p��, n��o ��, querida? Olhe ali, naquele mustang

met��lico. Espere. Ele j�� nos viu. Chi, est�� descendo do

carro, fazendo parar o tr��nsito. Olhem, todo mundo

est�� xingando. Veja s�� os nomes.

��� Hei, Ivete, traga as amigas. Vamos at�� S��o Con-

rado.

Jos�� era, de fato, um homem simp��tico. Alto, mo-

reno, bem queimado. Em S��o Conrado sentamo-nos em

bancos toscos e ficamos tomando agua de coco.

Jos�� logo gostou de Arlete, pois ela estava atraen-

te com seus oculos escuros e seu ar de menina sofisti-

cada.

��� Quanto tempo voc�� leva para conquistar Arlete,

heim Jos��? Est�� querendo ir naquela festa hoje a

noite.

��� Bem, depende de ela estar com vontade...

��� Morrendo ��� disse Arlete. ��� Meus quinze anos

fervem de ansiedade.

��� Mas voc�� �� menor?

��� Quinze anos.

��� Mas depois n��o vai haver bronca.

��� Que nada. Meus pais est��o na Europa. Eu sou

filha ��nica e fa��o o que bem entendo.

��� 91 ���

��� Sabe, Jos��, ��� Ivete falou rindo, ��� Arlete, quan-

do �� beijada sente o cora����o arrepiar.

��� O cora����o?

Caimos na risada.

��� Bem Arlete, eu tenho apartamento em Bota-

fogo. Espero-a l�� ��s quatro da tarde, amanh��. N��o po-

der�� ser hoje, o que sinto muit��ssimo, porque acabo de

comprar um carro esporte e ia busc��-lo quando as en-

contrei. A festa ser�� transferida para amanh��. Deixa

pra mim.

��� 92 ���



VIII

Largue-me... dois

��s quatro horas do dia seguinte, vimos o lindo car-

ro esporte, de linhas baixas e convers��vel, estaciona-

do no meio fio.

��� Puxa que carro! O homem tem gosto.

��� Precisa saber se �� dele, Regina.

��� Claro. Ivete. Olhe ali no espelhinho. Leia o que

est�� escrito. Jos�� Siqueira.

��� Voc�� est�� nervosa, Arlete?

��� Nem um pouquinho.

��� Quer que subamos com voc��?

��� N��o. Se fosse um col��quio com a professora

do col��gio, a�� sim, eu precisaria de ajuda.

��� Olhe, eu acho que essa cal��a Lee, just��ssima, e

t��o apertada, vai atrapalhar um pouco.

��� E voc�� acha que vou ficar de cal��a?

O povo que passava, virava-se para ver quem ria

t��o escandalosamente. Arlete entrou no pr��dio abanan-

do a m��o e andando:

��� 93 ���

��� At�� a pr��xima, queridas. Depois lhes conto tim-

tim por tim-tim.

* * *

Depois, Arlete contou:

��� Entrei no pr��dio e apertei a vista na penumbra,

para ver onde era o elevador.

��� O que deseja, srta.?

O zelador de cabelos brancos fitava-me, com um

rosto carrancudo.

��� Eu e s t o u . . . Bem eu desejo falar com o senhor

Jos�� Siqueira.

��� Ele a convidou?

��� Sim.

��� Um momento. Ligou para o apartamento dele...

��� Pode subir mocinha, apartamento 208.

��� Ok. Obrigada. Fiquei meio embara��ada, pois

nem sabia onde era o elevador.

O zelador me acompanhou, e com um riso c��nico

abriu a porta dizendo: A porta do apartamento tam-

b��m est�� aberta. �� s�� entrar.

Jos�� estava recostado em um sof��, lotado de al-

mofadas. Achei-o petulante pois n��o se dera nem ao

luxo de ir me buscar no sagu��o.

Levantou-se quando entrei por uma porta j�� aberta.

��� Meu Deus!! Voc��s tinham que ver como ele esta-

va vestido. Usava um camisol��o branco de seda que lhe

cobria os p��s. Tinha nas m��os, ali��s em cada dedo, um

enorme anel. Quando entrei, fez uma rever��ncia.

_ 94 ���

��� Entre, querida ��� disse sorrindo ��� Como voc��

�� maravilhosa vindo para mim. Espere, eu a ajudo a

tirar o casaco. Sou um cavalheiro, sabe? N��o fui es-

per��-la l�� embaixo porque trocar de roupa se torna

enfadonho. Vou servi-la de alguma bebida, ou voc�� s��

bebe coca?

��� U��sque com gelo.

Entrou logo depois com uma bandeija de prata,

com dois copos da bebida e sentou-se ao meu lado, di-

zendo: ��� Estou com uma ressaca infernal, mas tam-

b��m estou com a l��ngua para fora de vontade de beber

Bebia aos goles, enquanto falava:

��� Arlete, voc�� est�� celestial. Dev��amos ficar aqui

a tarde toda. N��o sei porque voc�� quer ir naquela fes-

ta. ��� Deslizou sua m��o pelas minhas pernas.

��� Dizem que �� uma festa fant��stica. Montes e

montes de gente nua. dan��ando e quando est��o cansa-

das deitam-se no ch��o e . . .

��� Realmente, �� a juventude, ��� falou com um

sorriso leve ��� juventude que acha que o sexo deve ser

livre e feito ��s claras. E voc��, o que acha a�� nos seus

quinze anos?

��� Acho que o amor deve ser livre, por isso aqui

estou. N��o ser virgem n��o �� mais problema hoje.

��� Mas para casar ��.

��� S�� as quadradas pensam a s s i m . . .

��� Voc�� parece uma menina muito bem cuidada.

��� ��, tenho muito dinheiro, e me cuido. Ali��s, cui-

do do corpo.

��� E do esp��rito?

��� Apesar de meus vinte anos, ainda penso como

os amigos. A alma tem que ser cuidada. Mas foi ma-

��� 95 ���

ravilhoso voc�� ter vindo. Tenho certeza de que vai cor-

rer tudo bem.

Ele olhava-me fixamente. Tirou o copo de minha

m��o e as apertou ternamente.

Sorri e lhe perguntei:

��� Voc�� est�� escandalizado com o meu jeito?

��� N��o, n��o. Absolutamente. S�� que fico a imagi-

nar como ser�� realmente a juventude daqui a alguns

anos.

��� Eu acho muito infantil ficar me preocupando

com o que possa acontecer daqui a alguns anos. Prefiro

viver o presente, se voc�� achar melhor. Se n��o, vamos

ficar aqui filosofando, como sacerdotes budistas. Voc��,

vestido assim, est�� parecendo um deles.

��� Aqui no Rio �� a moda, voc�� tem visto homens

vestidos assim? N��o?

Muito me admiro. Isso �� o "weston", t��o famoso.

��� Tive pouca conviv��ncia com o sexo oposto. Che-

gamos a alguns dias de Recife.

��� A h !

��� Como ele n��o resolvia falar em cama, eu logo

pensei que fosse homossexual. A�� fiquei estudando-o,

enquanto ele se recostava, langorosamente, contra as

almofadas do sof��. Tinha uma face atrante, e parecia

extraordinariamente aquele s��mbolo do homem em de-

cad��ncia sexual. Ser��, pensei, que todo mundo acha que

ele �� vigoroso e ningu��m sabe de seu segredo? Ele olha-

va-me sorrindo. Ent��o lhe falei:

��� Olha aqui, Jos��, voc�� pensa que ter intimidade

comigo �� pervers��o?

��� 96 ���

��� Oh! ��� Disse ele sorrindo. ��� Voc�� est�� com mui-

ta pressa. Calma, menina. Isso n��o se faz assim, sem

mais nem menos.

��� �� que minhas amigas est��o me esperando l��

perto de seu carro.

��� Minha querida crian��a, voc�� devia estar ame-

drontada, e n��o permitir que homem algum a possuisse.

Podia, agora, recuar e sair correndo daqui levando o que

os homens brasileiros pensam valer mais que tudo, mes-

mo m a i s que o car��ter, que a honra, que a bondade, que

a dignidade, que a nobreza de esp��rito: a virgindade.

Mas sei que a sua juventude est�� enraizada na atual

idade. Para voc�� e as jovens de hoje, a juventude ��

um jogo de satisfa����es do qual se tem que participar. Vo-

c�� sabe que tem muito a perder nesse decadente mun-

do belo e perigoso. Contudo, minha linda crian��a, est��

determinada a manter a sua posi����o. Sente que ser��

desprezada, se continuar virgem, no seu mundo de jo-

vens que t��m um mundo �� parte, e esse mundo tam-

b��m �� seu. Voc�� quer agarr��-lo com unhas e dentes e,

para isso, tem que seguir jogando, sem se surpreender

com coisa alguma.

Voltou a pegar minhas m��os.

��� Sinto uma imensa atra����o por voc��. Voc�� �� de-

safiante. Venha c��.

Levou-me para o quarto.

��� Puxa, at�� que enfim, ��� disse Ivete ��� mas con-

tinue. Fez ou n��o fez?

��� Calma, chego l��. Eu disse que ia contar tim-

tim por tim-tim. O leito era grande e redondo, forrado

��� 9 7 ���

de seda negra, com um monte de almofadas coloridas

�� volta. Em dado momento, ele disse:

��� Bem, acho melhor voc�� tirar a roupa.

Depois, ele veio at�� mim e beijou-me na boca, de-

liciosamente, dizendo:

��� A decis��o �� sua. Fico ou n��o fico presente?

Dei de ombros. N��o deixei por menos: Ora, quem

vai funcionar �� voc��, Jos��. N��o sei como devo fazer. ��

a primeira vez.

��� Oh, ent��o tudo deve ser maravilhoso e rom��n-

tico. Vou colocar um disco na vitrola enquanto voc��

se deita. Quer Wagner, Bach, Chopin, F r a n z . . . ?

��� Chopin.

��� Tirei a roupa e fiquei olhando onde deitar. Afas-

tei algumas almofadas e recostando-me na cama, fiquei

ouvindo Chopin, enquanto ele foi at�� o banheiro. Ouvi

o chuveiro. O disco, o chuveiro, e eu l��, n��a, feito uma

tonta. Tive uma vontade enorme de correr �� janela e

chamar o primeiro homem que passasse. Mas nisso ele

surgiu, n��, friccionando as costas com uma toalha.

��� Voc�� tem um lindo corpo, seios retos, grandes

coxas e cintura fina. Assim deitada, parece uma deusa

grega.

��� Chi ��� fiquei pensando. ��� banho, disco, deu-

sa. Quanta chatea����o para entrar no rol das mulheres

desvirginadas. Puxa, como o homem era dif��cil. Era um

homem desencorajador. N��o aguentei mais. Quando ele

foi �� frente do espelho pentear os cabelos, sentei-me na

cama e gritei:

��� 98 ���

��� Olhe aqui, Jos��. Ou voc�� �� um incapaz ou est��

brincando comigo?

��� Ele sentou-se ao meu lado na cama e me empur-

rou delicadamente contra as almofadas.

��� Sabe que seu corpo assim moreno fica maravi-

lhoso entre essas almofadas brancas?

��� Sei ��� disse eu, zangada. ��� mas acho que para

voc�� nada disso interessa. Voc�� n��o pode amar, n��o ��?

��� Um fluxo de sangue abrazou-lhe o rosto. Ouvia-

-se-lhe o cora����o bater, t��o forte que fiquei im��vel.

��� Vou lhe mostrar ��� disse. ��� Voc�� jamais es-

quecer�� esta tarde. ��� Subiu na cama como um le��o.

Depois, ficamos abra��ados numa doce lassid��o, acon-

chegados um ao outro.

��� S�� isso? ��� perguntou Ivete.

��� Ora, eu tamb��m n��o vou dizer como foi que

abri as pernas e o neg��cio entrou, que ele gemeu e que

eu gemi. Isso todo mundo faz igual. Voc�� gemeu e gri-

tou, Regina. Pois eu tamb��m gemi e gritei.

��� E depois, o que ele disse?

��� N��o sei por que, mas Jos�� �� t��o esquisito. Quan-

do levantou-se da cama, olhou-me longamente e disse:

��� Pronto, agora v�� para o seu lar em peda��os,

para os rapazes ricos da turminha da Ivete, que riem

pelas costas da facilidade com que possuem a garota

que escolherem. V�� para o seu mundo onde s�� existe

sexo e n��o existe o amor. Se voc�� tivesse um pouco de

vergonha sabe o que faria agora? Deitaria de bru��os e

choraria.

��� Ora, mas que homem besta. Por que voc�� n��o

mandou para a merda ou para a puta-que-o-pariu?

��� 99 ���

��� Nem liguei para o que ele disse. Que tal, vamos

�� festa?

Voltamos para o apartamento e mam��e n��o havia

chegado. Ficamos tomando u��sque, numa garrafa mes-

mo, e fumando.

��� Puxa, se a gente tivesse aqui um daqueles ci-

garros de maconha, seria vibrante, heim, gente?

��� Eu n��o gostei muito ��� exclamei, depositando

a garrafa em cima de mesinha. Arlete e Ivete me olha-

ram admiradas.

��� N��o v�� nos dizer que voc�� j�� fumou o fuma��a?

��� Que fuma��a?

��� �� como chamamos os cigarros de maconha l��

no col��gio?

��� Claor que fumei. ��� falei com orgulho. ��� M��-

rio deixou-me fumar um inteirinho.

��� E o que voc�� sentiu?

��� Uma tonteirinha, e me pareceu que me reani-

mou um pouco o esp��rito. Fiquei meio vidrada.

Ivete riu.

��� V��, querida. Acho que ele lhe deu foi um ci-

garro de fumo de corda, porque maconha fumada a

primeira vez faz a gente se sentir mal pra burro.

��� E o que se sente?

��� Bem, todo mundo sente uma estranha sensa-

����o de sono. Depois das primeiras tragadas sobem l��

do est��mago ondas de mal-estar de minuto a minuto.

Um suor frio banha o rosto da gente e o enjoo do es-

t��mago faz a cabe��a ficar girando. Eu quase vomitei

as tripas. Nunca me senti t��o mal durante todos os

meus dezesseis anos.

��� 100 ���

��� E por que voc�� continua fumando?

��� A gente se acostuma. Agora a sensa����o �� dife-

rente quando fumo um fuma��a. Parece que estou vi-

vendo em c��mara lenta. �� gostoso e gozado.

��� Ent��o voc��s querem dizer que n��o fumei ma-

conha ?

��� Claro, querida. Mas na festa de hoje haver��

maconha, e muita. Voc�� vai ver como �� diferente. Vai

ser divertido como o diabo. Quero ver Regina fumar

um fuma��a.

Suspirei e bebi mais um gole da garrafa e a passei

para Arlete.

��� Eu devia ter sabido disso. ��� falei. ��� Algu��m

j�� me havia falado dos sintomas. Quer dizer que aquele

cretino do M��rio me enganou e, enganando-me, cortou

a minha vingan��a. Mas n��o faz mal. Hoje afundarei

mais um p�� na lama fumando maconha de verdade.

��� Sua m��e est�� demorando, Regina. Acho melhor

a gente ir se vestindo. J�� s��o nove horas e os rapazes

aparecer��o para nos buscar l�� pelas dez.

��� Telefone para ela.

Liguei o telefone para o canal de televis��o e foi

um custo para mam��e atender.

��� Mam��e, olha, n��s vamos numa festa. N��o sa-

bemos a hora que voltaremos. N��o se preocupe, t��?

��� Otimo, querida. Fiquei encantada com seu te-

lefonema. Estou ensaiando a novela. Obtive um papel

formid��vel. Depois do ensaio irei com a turma aqui da

tv para uma boate, por isso fique na festa sossegada.

��� Mas, mam��e, a senhora disse a papai que se ele

custeasse as despesas do apartamento que ia largar m��o

de novelas e de cinema.

��� 101 ���

��� Ora, querida, falei por falar. N��o se incomode

que seu pai paga tudo. Divirta-se, meu bem.

Quando desliguei, sentei-me desanimada no sof��.

��� O que houve? Sua m��e foi contratada?

��� Sim. ��� disse eu, tristemente. ��� Os malditos

pap��is na tv levam para longe, mais longe, o lar que

eu sempre almejo, com os meus pais reunidos. Ela acei-

ta uns papeizinhos que, para ela, psicologicamente, ��

de uma grande atriz. Mas no fundo o que ganha n��o

d�� nem pra comprar um sabonete.

Sentei-me e acendi um cigarro.

��� O engra��ado �� que ela �� um fracasso como atriz,

mas �� a ��nica coisa que a faz gostar da pr��pria exis-

t��ncia. Pequenos pap��is fazem com que ela se considere

um ��xito. Um insignificante papel numa novela vale

mais do que um marido, uma filha e um lar.

��� 102 ���





IX





Festa do Vale Tudo


Na festa, ficamos conhecendo in��meros e diferen-

tes rapazes. Chamavam-na a "Festa do Vale-Tudo". No

enorme sal��o, a orquestra ensurdecia a gente. A tur-

ma pulava, agarrados como se fosse, cada par, um s��,

Todos os que queriam defenda a sua m�� reputa����o e a

baixa moralidade estavam presentes. Digo, reputa����o e

moralidade baixa de jovens da alta sociedade, desses

tipos que um quer aparecer mais que o outro. Eu achei

que eles, com os peitos n��s, com os pesco��os enfeita-

dos com in��meros colares, correntes, medalhas, esta-

vam fantasticamente unidos por uma rebeli��o comum

contra a falta de um lar sadio. Tamb��m, eu, vendo

aquele bando de jovens ricos e livres nos seus verdes

anos, podia fazer o que bem me aprouvesse. Senti que

mais crescera dentro de mim o abandono em que me

via e comecei a gostar da abund��ncia de bebidas e da

falta de cerim��nia e dos gestos escandalosos do pessoal

dessa festa. Na turma, encontrei uma receptividade

que me emocionou. A afei����o dos homens, quase me-

ninos, que me faziam as mais diversas propostas, a

camaradagem na bebida, os di��logos, os carinhos pre-

encheram nessa noite o vazio que sentia dentro do meu

cora����o. Nessa festa, a bebedeira que tomei me levou

a um quase esquecimento do desquite dos meus pais.

Aceitamos o convite de alguns rapazes e fomos para o

apartamento de um deles. Quando chegamos, senti que

havia batido o meu recorde de capacidade de resist��n-

cia. Estava completamente b��bada, mas assim mesmo

aceitei o desafio de meus companheiros e bebi at�� cair.

Acordei na manh�� seguinte, com as sacudidelas de

Arlete.

��� Acorde, Regina. S��o seis horas.

Abri os olhos, olhei para os lados e vi que estava

em uma sala deitada no ch��o. Perto de mim havia um

rapaz dormindo. Levantei-me e tentei acordar o jovem.

��� N��o adianta ��� observou Ivete, lugubremente

��� ele est�� desacordado de tanto beber.

��� Me d�� um cigarro.

��� N��o temos mais. Mas ainda h�� bebida.

��� N��o. Ainda estou tonta.

��� Tonta ou b��bada?

��� Estou s��bria, mas morrendo de fome.

��� N��o existe cozinha neste apartamento?

��� Vamos procurar.

��� Tem cozinha, tem geladeira e nada para co-

mer.

��� Vamos descer e procurar um bar, eu sei l�� o

que. A fome que estou sentindo �� tremenda.

O bar estava quase vazio. Sentamo-nos em banqui-

nhos girat��rios e pedimos uma m��dia com p��o e man-

teiga .

O caf�� com leite tinha um bom gosto naquela hora

que o est��mago roncava de fome. Ivete comprou cigar-

��� 104 ���

ros e ficamos no bar fumando. Perto de n��s estavam

sentados dois homens, que nos olhavam sorrindo. Um

deles fixou-se em Ivete e disse:

��� A farra dessa noite esteve legal, heim, garota.

N��o querem lazer amor com a gente agora? N��S so-

mos dois, mas garanto que nem dez homens nos tiram

a prosa. Somos resistentes pra burro.

��� Ambos devem olharem-se para depois dirigirem

a palavra a jovens como n��s.

O homem deu uma risadinha e baixinho conspirou

com o outro. Depois, exclamou:

��� Voc��s s��o umas putas. E como querem ser olha-

das, ent��o?

��� Acho bom a gente sair daqui, ��� sussurrei a

Ivete e Arlete ��� se a gente for ligar para esses tipos,

haver�� esc��ndalo.

��� Mas, voc�� n��o disse que queria se vingar de

seus pais. Olhe, acho que n��o haver�� melhor oportu-

nidade .

��� Ah, fant��stico. Ent��o vamos entrar para o es-

c��ndalo. Mas, como come��ar?

��� Assim ��� falou Ivete, lan��ando o caf�� no rosto

de um dos homens, que veio como um le��o por cima

da gente. Jogamos sobre ele copos e garrafas, tudo que

estava ao nosso alcance. Um policial entrou. E, en-

quanto os primeiros raios de sol banhavam a praia' n��s

entramos no carro preto da pol��cia.

Papai, a chamado de mam��e, veio de S��o Paulo

para nos tirar da delegacia. Levou uma esfrega do

delegado por me deixar assim solta. Sorri, quando ele

me perguntou onde havia passado a noite.

��� Uma farra, papai, e com homens.

��� N��o acredito! Voc�� gosta de escandalizar as

pessoas ?

��� 105 ���

��� Escandalizar n��o, papai. Hoje voc�� atolou esses

brilhantes pezinhos, envoltos em sapatos car��ssimos, na

lama. como prometi. Toda a pol��cia, agora, sabe que eu

sou uma putinha.

Papai n��o respondeu. Nos entregou ao homem do

elevador, pedindo para nos deixar no apartamento, pois

mam��e nos esperava. Ivete me deu uma cotovelada,

quando chegamos �� porta do apartamento.

��� E se sua m��e nos mandar embora?

��� Ela que experimente. Pois se foi ela mesma

quem me mandou ficar na festa at�� quando eu bem

entendesse.

Batemos na porta e mam��e abriu.

��� Regina, a essa hora? ��� exclamou mam��e,

fechando a porta depois de entrarmos.

��� Mas, mam��e, voc�� deixou.. .

��� Voc�� vive a mentir ��� disse mam��e, zangada

��� Deixei voc�� ir a uma festa e n��o a uma bacanal. Seu

pai, assim, pode cortar a nossa mesada.

��� Que corte! Assim talvez voc�� resolva voltar pa-

ra junto dele e se comportar como m��e e esposa.

��� Olhe aqui! N��o �� poss��vel voc�� querer organi-

zar a minha vida. Se n��o me caso outra vez �� porque

seu pai tem muito dinheiro para nos levar a uma vi-

dinha de ricas.

��� T�� bem, mam��e. N��s queremos dormir.

��� A empregada est�� limpando os quartos. Esta-

vam parecendo chiqueiros. As suas a m i g a s . . .

��� Por favor, mam��e. O apartamento tamb��m ��

meu. Papai disse que eu mando aqui tanto quanto voc��.

��� Seu pai? Diga a ele que cuide da pr��pria vida

e deixe de explorar os sentimentos de uma menina

��� 106 ���

��� Olhe, mam��e, ��� expliquei pacientemente ���

papai n��o manda nos meus sentimentos. Ele �� um ho-

mem forte de verdade, e eu gosto muito dele. Nunca

tenta me influenciar em coisa alguma. Agora deixe a

gente em paz.

Olhei para as minhas amigas e disse: ��� Voc��s que-

rem bebida antes da gente ir dormir, n��o querem?

Mam��e ficou de bra��os cruzados, batendo a ponta

do p��, envolto em chinelo de pel��cia cor de rosa, no

tapete de cor indefinida enquanto fomos para a co-

zinha .

��� Para mim, gim com soda, Regina.

��� Com gelo?

��� Claro.

��� E voc��, Arlete?

��� U��sque.

��� Tamb��m com gelo?

��� Pode ser.

Nisso, a voz da empregada fez-se ouvir:

��� Dona Regina, telefone.

��� Atendo aqui. Pode colocar no gancho.

Era Jos��.

��� Oh Jos��! ��� exclamei ��� �� formid��vel ouvi-lo.

Sim, gostaria muito. As amigas est��o perto. Arlete?

Est�� sim. Olhe, arranje uma companhia para Ivete.

Silvio, um rapaz que esteve na festa de ontem? Ok,

Desliguei e disse ��s meninas: ��� Olhe, tem uma turma

velejando por a��. Cada barco leva seis pessoas. Jos��

nos convidou a ir com ele.

��� Mas n��s n��o iamos dormir? ��� disse Ivete, se

espregui��ando. ��� Estou morrendo de sono.

��� Que sono que nada. Voc�� tem apenas quinze

anos. Vamos apanhar os biquinis.

��� 107 ���



Ao atravessarmos a sala olhei para mam��e. Ela

bebia um c��lice de conhaque e parou para perguntar:

��� Por que toda essa correria?

��� Vamos sair com alguns amigos. Olhe, mam��e,

n��o sabemos a hora da volta.

��� Olhe aqui, Regina, n��o suporto mais essas suas

maluquices. N��o quero ver minha filha vivendo dessa

forma.

��� �� s�� voc�� dizer uma palavra que meu sistema

de vida mudar��.

��� Que palavra?

��� Que volta para papai.

��� Nem vou discutir a quest��o. N��o h�� alterna-

tiva. Eu n��o posso adaptar-me �� vida de seu pai e

est�� acabado.

��� Ent��o voc�� tem que arcar com as consequ��n-

cias das minhas maluquices. Tchau, mam��e. Vou cair

em outra farra.



X

Oito homens, duas meninas.

O mar estava, realmente, muito calmo e cheio de

barcos �� vela, nessa manh��. Jos��, Silvio e um outro

rapaz que ficou sendo par de Ivete, manobravam o

barco assobiando. N��s tr��s, deitadas no fundo do bar-

co, sentindo no corpo nu aquele calor abrasador que

vinha do sol que era uma bola fulgurante, com seus

raios cortando o claro c��u azul, davam uma impres-

s��o t��o irreal a tudo que nos rodeava, depois de ter-

mos passado uma noite dan��ando e fazendo outras coi-

sas na penumbra.

Fiquei silenciosa e pensativa debaixo daquele sol,

pensando como era gozada a vida. Quando era nene-

zinho, a pagem me levava �� praia e me deixava deita-

dinha no meio da ��gua azulada, tendo o cuidado de

n��o deixar o sol me queimar muito. Quando estava

mais crescida, era o sol o meu querido, onde passava

horas a fio me tratando. H�� um ano atr��s, saida do in-

ternato, corava quando, deitada ao sol, e biquini, al-

gum rapaz soltava qualquer piadinha a respeito do meu

corpo. Agora, deitada, nua, com esse mesmo sol a me

queimar, tinha em minha frente tr��s homens que me

devoravam com olhares s��dicos e ao alcance da m��o

uma garrafa de uisque. Era engra��ado pensar que eu

��� 109 ���

n��o queria nada daquilo, que o que eu queria era, sim-

plesmente, estar sentada em uma salinha, com a jane-

la aberta, onde o sol pudesse entrar e beijar os bot��es

de rosa que estariam num vaso azul, em cima de uma

mesa com uma toalha bem branquinha. Sentado em

uma poltrona estaria o papai lendo o jornal e mam��e

a lhe perguntar se queria um cafezinho que teria aca-

bado de coar. Papai deixaria o jornal, sorriria e acei-

taria. Eu olharia os dois e me sentiria feliz. Saberia

que eles se amavam e eu partilharia desse amor. Mas

a salinha foi desmanchada pelo grito de Ivete.

��� Cuidado! O barco vai virar!

De fato, um vento forte que veio cortando ondas

enormes que se formavam requebrando num estrondo

ensurdecedor para se perderem na praia, quase virava

o barco, se n��s todos n��o tiv��ssemos, imediatamente,

for��ado o lado mais alto at�� que o mesmo se equili-

brasse. E a��, Jos�� achou melhor irmos para uma ilha

particular onde a turma prometera se reunir.

Fomos recebidos �� porta por um rapaz de "short",

que nos proibiu de entrar assim de Ad��o e Eva.

��� Que nova �� essa? ��� exclamou Jos��. ��� Voc��

n��o est�� querendo dizer que teremos de nos vestir.

��� Infelizmente, sim. Bote a�� qualquer tro��o. At��

uma folha de parreira serve. Mas o sexo tem que estar

tapado.

Caimos na risada.

��� Esperem aqui. Ou melhor, venham comigo. Te-

nho um amigo que tem casa nessa ilha. Acho que ��

aquela, aquela mesmo. L�� encontraremos roupas de ba-

nho, ou pelo menos algo semelhante.

A casa estava vazia e trancada. Jos�� for��ou uma

janela e entramos. Num guarda-roupa encontramos bi-

quinis e os rapazes encontraram "shorts". Voltamos e

��� 110 ���

entramos num grande sal��o repleto de jovens que con-

versavam aos picadinhos e j�� estavam alegr��ssimos. Ive-

te, Arlete e os tr��s rapazes ficaram entretidos com a

mo��ada. Eu abri caminho e fui procurar qualquer coi-

sa para beber. Entrei na cozinha e fui preparar um

martini, quando entrou uma jovem segurando um co-

po com u��sque.

��� Ol��! ��� disse ela. ��� N��o nos conhecemos?

��� Creio que n��o.

��� Ent��o vamos nos apresentar.

��� Regina.

��� Clara.

��� Com quem voc�� veio?

��� Com Jos�� Siqueira e uma turminha.

��� Ah, o J o s �� . . .

��� Voc�� o conhece?

��� Quem n��o o conhece? ��� sorriu ela. ��� �� um

dos homens mais desfrut��veis da sociedade. Antiga-

mente, era um sem-vergonha. Hoje deflora meninas.

Mas �� um moralista.

��� Como pode ser moralista s e . . .

��� As meninas se oferecem. Uma vez, aqui mesmo,

neste sal��o, uma pequena se ofereceu a ele e eles fi-

zeram amor na frente de todo mundo. Tem pequenas

que o acham abomin��vel, mas o suportam por que ele

nada em ouro. Eu, principalmente, o acho muito es-

quisito. E voc��?

��� Ah, eu o conhe��o muito pouco. Ele �� namorado

de uma amiga.

��� Namorado??? ��� debochou Clara.

��� 1 1 1 ���

��� Amante.

��� Ela se ofereceu?

��� Sim.

��� Ah, como corre a juventude. Olhe, Regina, vem

para c�� um rapaz amigo meu. Quero dizer, era amigo.

Como n��o fa��o quest��o de v��-lo, deixo-a s��. Tchau.

O jovem entrou na cozinha. Era o ��nico que pare-

cia s��brio naquele meio. Analisei-o rapidamente. Ti-

nha um ar abstra��do. Era queimado e com apar��ncia

petulante. Devia ter uns vinte e seis anos. Bem velho,

em rela����o aos frequentadores habituais das festas a

que eu costumava ir. Os seus cabelos castanhos dou-

rados faziam um lindo contraste com os seus olhos de

um negro brilhante, fazendo sobressair, na pele bem

morena, os dentes brancos e luminosos. Quando me

olhou, v�� que seu olhar era cr��tico e reservado. Fixou-

me diretamente, eu fiquei descontrolada. Preparou uma

bebida e me ofereceu.

��� Martini?

��� J�� tenho.

��� Estudante?

��� Sim.

��� Senai?

��� ��.

��� Puxa, parece que n��o existe outro col��gio em

S��o Paulo. Senai. S�� Senai. Pelo que vejo �� um mem-

bro dessa turma a�� fora.

��� Come��o a fazer parte. E voc��?

Sorriu e falou r��pido, sem parar.

��� A turma. . . quero dizer, essa turma bebe e fu-

ma at�� perder os sentidos. Isso �� repugnante. Mas eu

n��o entendo muito desse neg��cio, essa vontade de se

��� 112 ���

auto-destruir. Eu n��o quero ser moralista, mas me pa-

rece que, se voc�� come��ar a fazer parte da turma, vai

acabar se dando mal. �� melhor n��o come��ar. Olhe, d��

uma olhada l�� no sal��o. Todos b��bados, ou cheios de

entorpecentes. Caidos pelo ch��o, agarrados, dan��ando

como se estivessem em c��mera lenta. Beber algo, acho

certo. Mas beber para se destruir...!

��� Mas se voc�� n��o os aprecia por que est�� aqui?

��� Voltei para dar uma espiada.

��� Voltou?

��� Sim. Quando frequentava a turma n��o conse-

guia boas notas, via meus melhores amigos morrerem

de tanto t��xico, olhei para dentro de mim e fiz um ba-

lan��o da vida que estava levando. Ent��o perguntei a

mim mesmo: ,Para que viver, se eu mesmo estou me

matando?" Ent��o deixei a turma e dediquei-me ao tra-

balho de me reformar. De um b��bado e toxic��mano, nas-

ceu um escritor.

��� Voc�� escreve?

��� Sim. Lan��arei no pr��ximo m��s o meu terceiro

livro.

��� Qual �� o meu nome?

��� Raul de Castro.

��� Ah.

��� Ah o que?

��� Voc�� �� escritor de sexo, n��o ��?

��� Voc�� n��o pode ter lido nenhuma das minhas

obras pois me parece t��o crian��a.

��� N��o, sinceramente n��o o conhecia. Mas n��o ��

por isso, por voc�� escrever sobre sexo, que falo, pois

eu e as minhas amigas lemos tudo no g��nero. Adelaide

Carraro, por exemplo, n��s a a c h a m o s legal pra burro.

��� 1 1 3 ���

��� Eu tamb��m a conhe��o. Ali��s, a conhe��o pessoal-

mente. Ela escreve os livros proibidos, mas no fundo,

bem no fundo, �� uma moralista.

��� J�� desconfiava.

��� Por que?

��� Por que eu tamb��m detesto ter que frequentar

tudo isso, detesto fazer o que fa��o, mas �� preciso.

��� N��o a entendo. Mas h�� alguma coisa na con-

vic����o de que voc�� n��o quer ficar assim perdida.

��� Claro que eu n��o quero, mas os meus pais sim.

��� Seus pais?

��� �� uma outra hist��ria, que n��o vai lhe interessar.

��� Algo assim como auto-piedade ? Manifestando

��dio ao mundo, assim como aquela turma?

��� Quase que voc�� acerta. Talvez seja isso que sin-

to. �� pena de mim mesmo por n��o ter um lar. E, de

certa forma, me sinto igual a eles. Na ��nsia de me des-

truir porque estou oca por dentro.

��� N��o vou lhe falar como um intelectual, mas co-

mo um homem batido pela vida. Voc��s, os jovens, es-

t��o perdendo tempo manifestando tanta revolta. A

gente fica indignado de ver aquilo ali: meninas e me-

ninos, homens e mulheres de amanh��, que poderiam

formar um Brasil melhor, mais sadio, mais cheio de

amor, a�� jogados como trapos humanos.

��� A gente formaria um Brasil melhor se tivesse

uma fam��lia melhor.

��� Mas a juventude n��o tem que esperar vir da

fam��lia os bons exemplos. Os jovens devem pensar que

eles �� que t��m de formar uma fam��lia. �� engra��ado o

que pensa uma menina como voc��. Como �� o seu nome?

��� Regina.

��� 114 ���

��� Pois ��, Regina, o que voc�� quer fazer ��� ou

melhor, acho que j�� fez ��� tomar entorpecentes, be-

ber, fazer amor com todo mundo, para se vingar dos

seus pais, �� covardia.

��� Covardia??? Por que n��o est�� acontecendo com

voc��? Ningu��m, hoje em dia, respeita uma mocinha que

tem pais desquitados. Eu critico os meus pais e culpo-

os por me fazerem andar por a��.

��� Voc�� os critica, os culpa, mas aposto que vive

��s custas deles.

��� Ora, e ��s custas de quem poderia viver uma

menina de quinze anos?

��� A sua pr��pria. Em vez de andar por a��, poderia

trabalhar e deixar de viver se lamentando, na bebida,

por seus pais estarem separados. Devia procurar algum

lugar para dar aulas, ou coisa parecida.

��� Bem, mas a coisa n��o �� t��o simples assim.

��� Olhe, Regina ��� Raul me olhou com renovado

interesse ��� voc�� n��o �� o que eu havia julgado a prin-

cipio, uma pern��stica e f��cil garota. Sei que n��o deixa

se levar pelos demais. Voc�� disse que se despreza por

estar aqui, que detesta tudo isso. Por que ent��o n��o

sai disso tudo, agora, e de cabe��a erguida?

��� Por que ainda n��o chegou a hora.

��� Ent��o quer continuar a vingan��a?

��� Quero.

��� Bem, n��o sei por que pensei tudo aquilo logo

que a v��. A�� �� que est�� o mal em certos homens: eles

d��o valor a uma garota e, quando v��o ver, sentem que

a dosagem alco��lica de seu sangue �� de cem por cento.

Depositei o c��lice de martini em cima da pia e

falei.

��� 115 ���

��� Nunca vi ningu��m medir as qualidades de al-

gu��m em rela����o ao ��lcool. Por isso, n��o sei se ter no

sangue cem por cento de ��lcool �� bom ou ruim.

��� Isso quer dizer que a garota est�� desclassifi-

cada moralmente. Moral zero: j�� nem serve pra dormir

com um homem.

Olhei-o com desprezo.

��� N��o lhe daria esse prazer nem se voc�� fosse o

��ltimo homem sobre a terra.

Dei de ombros e deixei a cozinha. Mas n��o antes

de apanhar um outro copo de bebida. Na sala, em meio

�� turma j�� podre de tanto beber, de repente algu��m

falou:

��� Meu Deus, Regina, voc�� aqui nesse meio? Est��

mesmo se atirando na lama?

��� Ol��, M��rio, como vai?

��� Continuo dizendo que �� um verdadeiro sacril��-

gio sua m��e deixar um broto lindo assim se desperdi-

��ar desse jeito. Puxa, n��o a vejo desde aquele dia. Onde

tem andado?

Brinquei com ele.

��� Nos bra��os de um principe.

Ele tamb��m brincou.

��� De verdade? Parab��ns, garota. Assim voc�� po-

der�� dar mais conforto a sua m��e.

��� E por mais um sof�� para voc�� dormir na sala?

Ele deu uma risada.

��� Falando s��rio, tenho sentido a sua falta.

��� Por que voc�� n��o vai l�� em casa fazer compa-

nhia a mam��e?

��� 116 ���

��� Depois do que aconteceu, sinceramente, n��o te-

nho coragem.

��� U��, fazer amor n��o �� crime.

��� Deflorar menor ��.

��� Eu o provoquei.

��� Mas a sua m��e n��o querer�� saber disso.

��� Mam��e n��o se importa comigo.

��� Seu pai?

��� Ora, M��rio, voc�� bem sabe que n��o tenho quem

se importe comigo ��� as coisas que eu pensava, quan-

do achava que n��o tinha pais, voltaram a me atormen-

tar. E o desejo de vingan��a veio mais forte.

��� Olhe, M��rio, vamos na cozinha beber. Quero fi-

car embriagada.

A�� comecei a beber copo depois de copo e logo co-

me��ou a se formar junto de n��s uma turminha. Um

dos rapazes disse:

��� Ora, menina, n��o fique a�� nesse embalo, beben-

do sem um homem para lhe dizer que a ama. Pois eu

a amo, sabe, querida?

Apesar de estar quase b��bada, v�� que o rapaz esta-

va bambo das pernas e quase perdendo os sentidos.

Mas assim mesmo teve for��as para me abra��ar. Agar-

rando-me fortemente, quis me atirar no ch��o. N��o sei

quem me libertou, para dizer:

��� Eu tamb��m a amo, meu bem, seja mais boazi-

nha comigo. Deixe ver esse corpo. Fa��a uma demons-

tra����o tirando a roupa ao som dessa m��sica.

V�� que o homem dan��ava e batia palmas e volta-

va a me abra��ar. Tamb��m n��o sei quem, enla��ando-me

nos bra��os, resgatou-me do amplexo do homem e disse:

��� 117 ���

��� N��o fa��a amor com eles, boneca. Fa��a comigo.

Beijou-me na boca e escorregou a m��o pelo meu corpo.

��� Ei, largue a garota! Agora �� minha vez!

E eu, numa r��pida sucess��o, passava de bra��os a

bra��os, sendo beijada por todo mundo. Das duas uma:

ou eu n��o era t��o vulgar assim ou n��o estava gostando

da coisa, porque tentei me libertar da rodinha de

homens mas n��o consegui, pois mal me aguentava nas

pernas e sentia a cabe��a girar. Sabia que tinha de aca-

bar na cama com algum daqueles homens. Senti-me

erguida em bra��os fortes, e passos r��pidos me leva-

vam para algum lugar. Senti o colch��o macio e m��os

��geis que tiravam o meu biquini. Sentia que estava

n��a, mas n��o tinha coragem de abrir os olhos, para

ver a cara do homem que ��a me possuir.

Passei muito tempo com os olhos fechados e como

ele n��o se aproximava resolvi ver o que estava aconte-

cendo. Fui abrindo os olhos bem de vagarzinho. Cabelos

castanhos dourados, olhos brilhantes, negros, e dentes

luminosos, Raul de Castro, o escritor. Ele sorriu, e disse:

��� Voc�� est�� querendo, n��o est��?

Virei o rosto para o lado, me lembrando que al-

gum tempo atr��s tinha-lhe dito que n��o dormiria com

ele nem se fosse o ��ltimo homem sobre a terra. E ele

continuou:

��� Olhe, Regina, fiz uma inspe����o na turma e n��o

encontrei uma garota t��o inteligente ou linda como vo-

c��, e assim decidi procur��-la e a encontro no meio de

um monte de homens. Que diabo, voc�� faz quest��o que

todos saibam que �� uma garota f��cil? T��o f��cil que

est�� a��, nua, na minha frente. Eu s�� tive um trabalho,

o de lhe tirar a roupa. E olhe que voc�� gosta muito

desse neg��cio, pois seus pais n��o est��o aqui para se-

rem magoados. Mas eu n��o a quero. Garotas assim me

repugnam. Agora vista-se, que a levarei para casa.

��� 118 ���

Fiz um tremendo esfor��o e consegui sentar na ca-

ma. Olhando-o friamente, falei, com a lingua meio en-

rolada:

��� Ora, puritano metido a intelectual. Eu ia me

levantar mesmo, assim que vi que era voc��. Pois j�� dis-

se que n��o terei nada com voc��, nem que seja o ��lti-

mo homem sobre a terra.

��� Se voc�� n��o estivesse embriagada eu ia lhe mos-

trar a facilidade com que qualquer homem poderia

possu��-la. Agora vista-se. Vamos embora.

��� Ir embora? Voc�� est�� maluco. Ainda h�� tanta

bebida.

��� Bem, eu estou pronto para ir.

��� Ent��o v��. Eu vou descer daqui e vou beber ���

respondi, descendo da cama. Mas as pernas n��o me

aguentaram e ca�� no ch��o.

Raul, sol��cito, veio em meu socorro. Ajudou-me a

me vestir e, apoiada nele, desci para o sal��o. A turma

estava quase baqueada. Alguns casais ainda se encon-

travam de p�� e faziam um esfor��o sobre-humano para

n��o cair. Desprendi-me dos bra��os de Raul e, tran��an-

do as pernas, disse:

��� Vou beber. Quero beber.

Raul apanhou-me e, pondo-me dentro de seu car-

ro, levou-me para um restaurante. Chamou o gar��om

e mandou servir o jantar, n��o antes de me cobrir com

seu palet��.

��� Temos pouca coisa, meu senhor, pois j�� est��

quase na hora de fechar.

��� Cristo! Cinco horas! Como as horas passam!

Bem, sirva-nos o que tiver.

��� Frango alho e ��leo e arroz.

��� 119 ���

��� Est�� bem.

Quando o gar��om afastou-se, Raul olhou para as

mesas vazias, cobertas com toalhas de xadrez e per-

guntou-me :

��� Voc�� j�� veio aqui?

��� N��o. Costumo frequentar restaurantes mais ca-

ros. Mas gostei de conhecer esse, pois �� um local que

tem um ar muito calmo e puritano.

��� ��, de fato! ��� exclamou Raul ��� Aqui n��o ��

um lugar adequado para a juventude barulhenta que

toma aquelas tremendas bebedeiras e se agarram fa-

zendo "tudo" em qualquer lugar.

��� Esse "tudo" �� amor?

��� Claro. Voc�� n��o viu como aquela turma faz

amor? Voc�� n��o viu que estavam deitados em todos os

lugares da festa, at�� mesmo no jardim? Francamen-

te, n��o sei como elas se arranjam com a gravidez.

��� Tomam p��lulas anticoncepcionais.

��� Voc�� toma?

��� Tomo.

��� Sem receita m��dica?

��� A gente sempre d�� um jeito com o farmac��u-

tico.

��� Mas voc�� n��o pode tomar as p��lulas.

��� Por que?

��� Por que s�� tem quinze anos

��� Mas existe idade estipulada?

��� Aqui no Brasil n��o sei, mas em outros pa��ses,

principalmente na ��ustria, a idade m��nima �� de dezes-

seis anos.

��� 120 ���

��� Por que essa discrimina����o?

��� Segundo um grande genicologista austr��aco, o

ov��rio e o ��tero precisam de muitos anos para atingir

o seu total desenvolvimento. A p��lula corta esse pro-

cesso natural e provoca a atrofia desses ��rg��os. Al��m

disso, �� prejudicial ao crescimento do esqueleto.

��� Fant��stico! Ent��o estou na hora de tomar mui-

tas p��lulas, pois todos dizem que sou muito alta para

quinze anos. E como �� que a p��lula age sobre o esque-

leto para impedi-lo de crescer?

��� Sob a influ��ncia dos horm��nios adicionalmen-

te ministrados. Acelera-se a calcifica����o das juntas ��s-

seas e interrompe-se, prematuramente, o crescimento da

mocinha.

��� Puxa. Quem lhe disse tudo isso?

��� L�� num livro sobre ginecologia moderna.

��� �� . . . L e g a l . . . Mas creio que a turma prefere

atrofia do que soltar filhos por a��, ou praticar aborto.

��� O melhor mesmo seria voc�� aconselhar as me-

ninas da turma a voltar para casa. Aqueles rapazes da

turma n��o s��o companhia que preste para qualquer mo-

cinha. Voc�� viu o que fizeram com voc�� hoje? N��o im-

porta para eles quem seja a menina, filha de milion��-

rios onde pobres...

��� Ms, na turma, n��o existe filho de pobre. L�� h��

mais pobres do que eu. E depois os rapazes da turma

n��o t��m culpa pois a mo��a que vai l��, vai por que quer

ir.

��� Ora, acabe com essa hist��ria de defend��-los ���

disse Raul, chateado. ��� Tamb��m acho que quem vai

l��, vai por que quer, mas voc�� sabe perfeitamente ao

que estou me referindo.

��� 121 ���

��� Que todos queriam fazer amor comigo? Mas voc��

estava fazendo p a r t e . . .

��� �� uma pena que voc�� esteja meio tonta ainda.

Faz tudo para n��o me compreender.

��� Para falar mesmo a verdade, quem est�� desorien-

tado �� voc��, pois demonstrou que tem a mesma repu-

ta����o da turma.

��� Preferia que voc�� deixasse de me incluir nessa

turma. Fazia mais de anos que eu n��o via o pessoal. J��

disse que voltei para dar uma espiada.

O gar��om aproximou-se e serviu o jantar. Raul pe-

diu dois martinis.

��� �� pra voc�� n��o misturar as bebidas.

��� Muito gentil.

A�� fiquei reparando que Raul era bem diferente dos

homens que at�� agora conhecera. Impunha respeito e

autoridade. Por isso sabia que devia ficar profundamen-

te entediado com a conversinha do pessoal que estava

naquela festa.

��� Sabe, Regina, eu desejo pedir desculpas por t��-la

aborrecido nessa festa. Sinceramente, estava deslocado,

provavelmente por que sinto pena de ver tantos jovens

se perderem assim. E n��o me acostumo mais com esse

tipo de gente.

Isso me deixou calma e feliz. Ent��o ele se lembrava

de que tinha me magoado. Era legal ter algu��m que

se preocupava com o bem-estar da gente.

��� Ora, n��o ligue para isso. Creio que agi como uma

crian��a. Mas o que voc�� fez, j�� n��o tem import��ncia

pois voc�� se desculpou. Agora, a ��nica coisa que est��

me preocupando s��o as minhas amigas. Fico pensando

onde elas est��o.

��� 122 ���

Ele suspirou.

��� Devem ter voltado para o seu apartamento, ou

dormiram no apartamento de algum rapaz.

��� ��, acho que ficaram com Jos��. Puxa, n��o devia

ter saido sem falar com elas.

��� E encontr��-las onde, naquela bagun��a?

��� De fato, voc�� tem raz��o. Bem, eu quero ir para

casa.

��� Sabe, gostaria de encontrar-me com voc�� ou-

tras vezes. Qual �� o n��mero do seu telefone?

Olhei para ele com os olhos arregalados.

��� Apenas jantar e conversar, se voc�� quiser.

Sorri e dei-lhe o n��mero.

* * *

Quando cheguei em casa, dei uma olhada no quarto

das meninas. Vi dois biquinis jogados no ch��o e as ca-

mas vazias. Voltei para a sala-de-estar onde encontrei

os olhos de mam��e pousados em mim.

��� De biquini a essa hora da manh��? N��o �� poss��-

vel, Regina! Voc�� est�� determinada a perturbar com-

pletamente a minha vida. Voc�� passou um dia e uma

noite fora de casa. Quero saber onde esteve.

��� Estive em uma festa, mam��e, com Ivete e Ar-

lete.

��� Oh, Regina, desde quando voc�� aprendeu a men-

��� 123 ���

tir? Ivete e Arlete estiveram aqui ha minutos, vestiram-

se e foram encontrar os namorados. Disseram que n��o

a viram desde que entraram no sal��o.

��� Pois ��, mam��e. A�� est��. Eu fiquei longe delas.

Foi s��.

��� N��o quero que voc�� viva assim. Como uma per-

dida.

��� J�� disse que serei uma santa se v o c �� . . .

��� N��o continue. Voc�� tem que parar de ir a essas

festas intermin��veis. Voc�� deve se portar como uma me-

nina de fam��lia.

Sorri e disse, ir��nica:

��� Para se portar como menina de fam��lia �� pre-

ciso ter a fam��lia.

��� Mas eu sou a sua fam��lia. E j�� estou ficando

doente com tudo o que voc�� tem feito desde que saiu

do col��gio.

��� A senhora n��o sabe nem a metade do que ando

fazendo. Prometi a papai atol��-lo na lama. Seu nome

ser�� escrito a lodo se ele n��o me dar o lar que tanto

desejo.

��� Voc�� j�� tem um lar. Esse aqui. N��o venha com

justificativas para as suas sem-vergonhices.

��� Que lar, mam��e ? Voc�� vive de l�� para c�� nas te-

levis��es e papai naquela cl��nica em S��o Paulo. Que dia-

bo de lar �� esse? Lar que eu conhe��o �� pai e m��e juntos

para amar os filhos. Para voc�� e papai eu n��o signi-

fico mais nada. Sou s�� carne e osso que precisa comer e

��� 124 ���

vestir. E o carinho, o amor, a ternura, a compreens��o,

o respeito, a alegria, o sorriso, a felicidade, que emanam

de um lar, onde est��o? Lares como esse andam a�� aos

ponta-p��s.

Mam��e sorriu amarga e disse:

��� Infelizmente, �� isso aqui que voc�� tem que reco-

nhecer como lar e �� aqui que voc�� tem que se formar

dignamente para poder formar o seu lar, que espero ser

sadio e feliz.

��� Sem voc�� e papai reunidos, nunca poderei pensar

em formar o meu lar.

Mam��e esmagou o cigarro ainda inteirinho e, vol-

tando-se, foi para o seu quarto dizendo:

��� Jamais voltarei para junto de seu pai.

Olhei desanimada para as costas da mam��e e pen-

sei:

��� O lar que eu esperava deu mais um passo para

tr��s.

Fui para o quarto das meninas e logo peguei no

sono, acordando, horas mais tarde, com Arlete gritando;

��� Regina! Ei, Regina! acorde! Temos uma ��tima

bebida!

��� Que horas s��o?

��� Dezesseis.

��� Puxa, estou dormindo desde as oito horas.

��� N��s n��o dormimos at�� agora. Divertimo-nos a

valer no apartamento de um jovem que conhecemos on-

tem. Olhe, voc�� nem faz id��ia de como �� o apartamento.

Tem piscina dando de frente para o mar.

��� Ora, Arlete, existem milhares de apartamentos

assim, aqui na Guanabara, com piscina e tudo.

��� 125 ���

��� Mas isso n��o importa. Eu quero lhe contar dos

homens que fizeram aquilo com a gente.

��� Homens???

��� Homens. Claro! No plural.

Sentei-me r��pida na cama.

��� Fale baixo. Mam��e pode escutar.

��� Escutar o que? ��� perguntou Ivete, entrando no

quarto e j�� tirando o vestido de baile e jogando-o sobre

a cama.

��� Que tivemos v��rios homens hoje?

��� Regina n��o acredita ? ��� Ivete afastou com a m��o

as cortinas da janela, na tentativa de fazer passar um

pouco de ar, pois o calor da tarde estava insuport��vel.

��� N��o acredito mesmo.

��� Pois �� verdade. Arlete com quatro e eu com qua-

tro.

��� E todos fizeram?

��� Mas a troco do que voc��s fizeram isso?

��� �� bacana. A gente se divertiu �� bessa ��� disse

Ivete, sentando-se na cama. ��� Homem foi feito para

satisfazer o sexo oposto, e a�� est�� a moral da quest��o.

��� Voc��s s��o infernais, uma juventude que sabe pe-

car, heim, meninas?

��� Ora, Regina, os jovens tamb��m pecam, ou voc��

acha que s��o s�� os maiores de dezoito anos que frequen-

tam bacanais?

Espreguicei-me e, deitando-me com as m��os cruza-

das sobre a cabe��a, fiquei ouvindo-as contarem o que

��� 126 ���

haviam feito com os oito homens. �� simplesmente ine-

narr��vel. Arlete foi buscar copos e, servindo-se de co-

nhaque, falou:

��� Olhe, vamos dormir um pouco, pois temos en-

contros com tr��s deles para jantarmos no Canec��o.

��� T�� bem, ent��o vamos dormir, sen��o vou perder

o meu auto-controle ou me desintegrar ��� disse Ive-

te, deitando-se nua como sempre fazia.

Em seguida, as duas dormiram como anjinhos.

��� 127 ���



XI

O sem-vergonha.

As vinte horas, olhamos da janela os homens chega-

rem. As meninas tinham acordado naquela hora e ainda

n��o estavam prontas, por isso eu, que j�� estava num ves-

tido de baile, fui escolhida para descer e avis��-los, mas

n��o antes de pedir para as meninas que n��o fizessem

muito barulho, pois mam��e estava mesmo danada. Na

hora que ia saindo, a empregada avisou-me que mam��e

sair�� para jantar fora. Parei de andar e olhei para a

empregada, com raiva.

��� Ent��o mam��e saiu. Hoje pela manh�� ela me deu

a impress��o de se importar com a vida que eu vinha le-

vando. E agora sai assim, sem dizer nada, sem aos menos

me avisar.

��� Bem, dona Regina. N��o adianta a senhora ficar

com essa raiva. Eu n��o tenho culpa.

��� Olhe aqui, Maria. Des��a e avise aqueles homens

l�� do Impala vermelho que podem subir. Mam��e vai me

pagar.

Quando fiquei s��, senti uma vontade louca de chorar,

pois o incidente da manh�� fora para mam��e uma quest��o

sem import��ncia. Acho mesmo, que era tudo fingimento.

��� 1 2 9 ���

��� Al��, menina! ��� os homens me cumprimenta-

ram com anima����o. ��� Como v��o as coisas? A empre-

gada disse que v��o mal.

��� O que quer dizer com isso, heim, Maria?

A empregada baixou a cabe��a e n��o respondeu.

Os homens tomaram posse da sala, estabeleceram-se

nas poltronas e, colocando os p��s sobre a mesinha, pedi-

ram algo para beber. Estendi-me sobre o sof�� e mandei

a empregada servir uisque. Embora n��o estivesse com

vontade de beber, acompanhei os homens na primeira

rodada, pensando que, de qualquer forma, mam��e have-

ria de saber que os homens estiveram no nosso aparta-

mento.

Eles eram, realmente, uns tipos que n��o agradariam

aos meus pais ou aos pais de minhas amigas. Eram do

tipo cafageste, mal encarados e mal vestidos, com sapa-

tos empoeirados e sem meias. Um deles perguntou:

��� E as outras duas, onde est��o?

��� No quarto, se vestindo.

��� Posso ir at�� l��?

��� Bem ��� respondi atrapalhada ��� acho que

elas n��o iriam gostar.

��� Como n��o iriam gostar? Estivemos com elas a

manh�� toda. Eu e mais uns amigos.

��� Elas me contaram.

��� Ent��o posso ir?

Ele se levantou e dirigiu-se para a porta do quarto.

Quando a porta se abriu, Ivete e Arlete apareceram nos

vestidos longos.

��� Puxa, voc��s demoraram, meninas! Eu j�� ia en-

trar para ajud��-las, pois estava realmente imposs��vel a

espera.

��� 130 ���

��� Que diabo est�� dizendo esse homem? A gente n��o

demorou nem cinco minutos.

Chamei Ivete e Arlete para a cozinha.

��� Olhe, gente, Deus sabe que n��o sou ningu��m

para andar pregando moral, mas n��s agir��amos como

idiotas se f��ssemos sair com esses sujeitos abertamente.

Voc��s terem dormido com eles, j�� foi um grande erro. O

que voc��s fizeram �� uma coisa bem diferente do que

manter rela����es com um algu��m. Voc��s sabem que pro-

meti fazer tudo para magoar meus pais.

Prosseguirei, jogando-os cada vez mais na lama, mas

n��o com tipos como esses.

��� E onde est�� a diferen��a desses homens e os ho-

mens com quem dormimos sempre? ��� quis saber Ivete.

��� Olhe, eu acho que voc�� estava b��bada quando

fez o que fez com quatro desses sujeitos. E agora est��

mais b��bada ainda, para fazer essa pergunta.

��� Ent��o por que voc�� os convidou a subir?

��� Por que n��o tinha visto a cara deles.

��� Olhe, Regina, eles s��o homens iguais aos outros.

N��o adianta voc�� vir com serm��o.

��� N��o, Arlete. Nunca em minha vida pensei em

passar serm��o em algu��m. Mas tenho direito de defen-

der a mim e �� minha casa.

��� Penso que voc�� est�� assustada a toa, querida

eles s��o boas pessoas.

��� Isso significa que voc��s v��o sair com eles?

��� Claro.

��� Eu n��o irei. N��o sou obrigada a moldar minha

vida na vida de voc��s.

��� 131 ���

��� Nessa altura as horas passam e a gente n��o vai

se divertir nem um pouquinho ��� choramingou Arlete.

��� At�� arranjar novas companhias,..

��� �� s�� telefonar ��� respondi.

��� Bem, ent��o telefone para algu��m diferente. N��o

para os que j�� conhecemos.

��� Vou telefonar para Jos��. Ele poderia nos levar

para jantar.

��� Jos��! Jos��! ��� disse Arlete. ��� J�� estou enjoada

de ver sempre as mesmas caras. Voc�� n��o vai querer

ficar saindo com essa turma durante anos. Sinceramen-

te, s�� por que esses homens s��o um pouquinho menos

alinhados que os nossos outros amantes voc�� faz um tre-

mendo carnaval.

Nisso um dos homens entrou na cozinha e disse,

meio embriagado, com uma express��o no rosto que n��o se

sabia ser de raiva ou n��o.

��� Voc��s est��o nos fazendo de palha��os? V��m ou

n��o v��m nos fazer companhia?

��� J�� vamos ��� respondi friamente.

��� Vai ser divertido como o diabo a gente passar a

noite aqui neste apartamento. Voc��s sabem, fiz planos a

tarde toda sobre a garota que seria a minha parceira

hoje. Mas nunca pensei que seria uma coisa assim.

Ele ia falando e andando para o meu lado, com as

m��os estendidas, querendo agarrar-me.

��� Olhe, o melhor �� o senhor ficar onde est��.

��� N��o, minha boneca, eu a desejo tremendamente

e quero que voc�� se porte como as suas amiguinhas se

portaram hoje de manh��. Elas deram sem a gente in-

sistir.

��� Sua m��e n��o deve demorar muito, n��o ��, Regi-

na ? ��� disse a empregada, vendo a express��o infernal no

rosto do sujeito.

��� 1 3 2 ���

O homem virou-se para Maria e disse, abrindo-se

num sorriso c��nico:

��� Meu anjo, a m��e dela deve ser uma igual a essas

duas a��. Sen��o, n��o deixaria uma beleza dessas em casa,

sozinha. Ela, pela amostra, n��o deve ser l�� muito de-

cente. Por isso, se ela aparecer, a gente d�� um jeito nela

tamb��m.

Felizmente, outro homem entrou sorridente e, pe-

dindo um u��sque duplo, sem gelo, disse:

��� �� melhor a gente ir para o Canec��o, sen��o fica

muito tarde e n��o acharemos mais lugares.

��� Eu n��o vou sair daqui ��� disse o primeiro ho-

mem. ��� Vou d o r m i r com a minha companheira. ��� e

olhando para mim, com olhos meios mortos, continuou:

��� Olhe aqui meu bem, que tal fazermos amor a noite

toda?

O segundo homem riu.

��� Pare de fazer proposta �� garota. N��o v�� que

elas est��o assustadas?

��� V�� para o diabo que o carregue! Se meta com a

sua garota, aquela putinha ali! Essa aqui �� minha! Foi

o que combinamos, n��o foi?

Enquanto os homens discutiam, pedi �� empregada

para ligar a mam��e pedindo que ela viesse para casa ur-

gente. A empregada desapareceu no quarto de mam��e.

Quando a discuss��o estava no auge, entrou o terceiro

homem e, conciliador, perguntou aos companheiros se

queriam mais um gole.

A�� tomaram conta da cozinha tamb��m. Abriram a

geladeira e retiraram tudo o que havia para comer. O

que n��o apreciavam, atiravam para cima a pia, ou da

mesa. Bebiam todas as bebidas que encontravam, mis-

turando tudo.

��� 1 3 3 ���

A empregada voltou dizendo que mam��e n��o po-

dia atender o telefone, porque, assim que terminou o

jantar, entrara para os est��dios de grava����o.

��� Ent��o ligue para S��o Paulo, para o Hospital das

Cl��nicas. Chame o meu pai e diga para ele tomar um

avi��o e vir urgente.

��� Mas, dona Regina, daqui a pouco eles v��o em-

bora ou levam as senhoritas pra boate.

Permaneci em sil��ncio, olhando os copos em que o

homem bebia. Depois, ele veio at�� onde eu estava e ofere-

ceu-me um copo cheio de uisque. Apanhei o copo en-

quanto ele se voltava para encher o seu e a�� fiquei pen-

sando que n��o devia ter permitido ��queles homens en-

trarem no apartamento, sem os conhecer. Estava mui-

to amedrontada, mas n��o podia permitir que os homens

ou as meninas o percebessem. Agora, com aqueles tr��s

b��bados trancados com a gente, comecei a sentir que a

minha vingan��a era muito perigosa. Sentia que devia

manter uma determinada posi����o. Devia desprezar-me

por sentir medo. Se papai soubesse como me sentia crian-

��a naquela hora, ele n��o poderia resistir e me daria o

lar que eu vinha sonhando h�� muito tempo.

Um dos homens varou os quartos a procura do ba-

nheiro onde trancou-se e come��ou a vomitar em estron-

dos. Eu mesma resolvi telefonar para papai. Para isso,

corri ao quarto, mas assim que entrei, o primeiro homem

entrou comigo e trancou a porta. Olhei para ele e pa-

ra a porta, fazendo um esfor��o enorme para me manter

tranquila, pensando que tudo aquilo que estava aconte-

cendo fazia parte do mundo que eu escolhera. O meu

mundo era aquele. O mundo que eu desejava a fim de

encontrar tudo que eu sonhava: um lar. O homem vi-

nha devagar, se aproximando, enquanto eu me afastava

com os olhos fixos nele, naqueles olhos morteiros, em-

bassados pela bebida. Ouvi-o dizer:

��� 134 ���

��� Amo voc��, boneca. Voc��, com esse corpo, me dei-

xa louco. Voc�� �� um desafio a qualquer homem, seja ele

de que classe ou ra��a for. Eu a quero, eu a desejo.

Pousou sua m��o sobre meu ombro e senti seu h��lito

fedorento e quente bem perto do meu rosto. Puxou-me

com brutalidade e, abra��ando-me, tentava me beijar. Fiz

um esfor��o enorme, me retorci toda para sair daqueles

bra��os gigantescos, fazendo com que os enfeites do ves-

tido de baile ca��ssem pelo ch��o. Os cabelos se soltaram

da fivela e me cairam no rosto, dificultando a minha de-





fesa.


��� Jesus... ��� pensei. ��� O medo est�� crescendo l��

dentro. Estou deveras amedrontada. Que emo����o estra-

nha �� o medo... Nunca antes o havia sentido...

Desesperadamente, tentei reassumir o auto-contro-

le, empurrando o enorme t��rax do homem.

��� Vamos, meu bem ��� continuou ele, com aquele

bafo quente na minha cara. ��� Eu a esperei o dia todo..

N��o adianta fazer for��a, pois voc�� est�� �� minha merc��,

Ceda ou se arrepender��.

��� Quem vai se arrepender �� o senhor se n��o me sol-

tar j�� e j��!

��� S�� depois de t��-la inteirinha. Vamos, n��o me

aborre��a com esse fricote. Eu sei que voc�� n��o presta,

que �� uma vagabunda igual as suas amigas.

Ele come��ou a passar a m��o pelo meu corpo, com ar

de propriet��rio.

��� Eu a estou excitando o suficiente para que voc��

caia correndo na cama e me chame depressinha.

Cuspiu no ch��o do quarto e afroxou um pouco os

bra��os. Foi a�� que eu aproveitei para desvencilhar-me e,

abrindo a porta, rapidamente, corri atravessando a sala

de estar, abr�� a porta que dava para o hall e desci cor-

��� 135 ���

rendo as escadarias, de dois em dois degraus. Falei com

o zelador.

��� Olha, dona Regina, eu n��o posso largar a por-

taria sozinha. �� melhor a senhora chamar a pol��cia.

Primeiro telefonei para papai e expliquei a situa����o.

Ele suspirou fundo.

��� Est�� bem, Regina. N��o chame a pol��cia. Daqui

h�� uma hora estarei a��.

��� Uma hora??? At�� l�� eles j�� nos assassinaram. ��

melhor eu chamar a pol��cia.

��� N��o chame. N��o quero passar pelo que passei a

outra vez. Chame algum dos amigos de sua m��e.

E desligou. Mas eu estava determinada a continuar

com a minha vingan��a. Por isso chamei a pol��cia, que

levou os tr��s homens e, em um outro carro, n��s que fo-

mos encaminhadas ao juizado de menores onde minu-

tos depois papai apareceu.

O juiz lhe passou um daqueles serm��es, sem ao me-

nos respeitar o famoso cirurgi��o que parecia fulo de rai-

va quando se aproximou de mim, falando bem alto.

��� Ca�� em outra, heim Regina? Da pr��xima vez

juro por tudo que h�� de mais sagrado que n��o gastarei

um n��quel para v��-la solta. De outra vez pe��o ao juiz

de menores para a deixar internada. Ele tomar�� conta

de voc�� muito melhor do que a sua m��e.

��� Voc�� falou com os homens para ver a cara de-

les, papai- Talvez assim sinta o que foi que passei, aper-

tada nos bra��os de um deles.

��� Estou entusiasmad��ssimo por ouv��-la falar em

homens.

Nisso entrou um monte de rep��rteres e os fot��gra-

fos estouraram as suas l��mpadas na nossa dire����o.

Um dos rep��rteres quis entrevistar papai, mas ele, dan-

��� 136 ���

do-lhes as costas, foi para o seu carro, me chamando aos

gritos. De qualquer forma, papai nos deixou na porta

de casa, dizendo que ia dormir na Guanabara e que no

dia seguinte me ligaria.

Logo pela manh��, fui acordada por mam��e, pois pa-

pai me chamava ao telefone. Ele estava col��rico, pois

Ivete, Arlete e eu enfeit��vamos as p��ginas dos jornais

matutinos com manchetes deselegantes, dizendo de

quem era a filha.

��� N��o me fa��a mais uma dessas, pois sen��o cor-

to-lhe a mesada. Juro!

O ruido do telefone desligando e a voz de mam��e:

��� Quem era?

��� Papai.

��� O que queria, ligando t��o cedo?

��� Ele est�� na Guanabara.

��� ��timo. Preciso urgente de um vestido, de um par

de sapatos e bolsa. Terei que me apresentar bem chic.

N��o �� maravilhoso, Regina, ter seu pai t��o perto quando

se precisa de dinheiro?

��� Ele vai cortar a minha mesada.

Mam��e levantou-se e, com os olhos desmesurada-

mente abertos, falou gaguejando:

��� Mas, por que?

Fui at�� a porta do apartamento apanhar o jornal e,

logo na primeira p��gina, vi nossas caras. Entreguei-o a

mam��e que o leu e ficou balan��ando a cabe��a estupifi-

cada.

��� Aqui, dentro da sua casa??? N��o �� poss��vel, Re-

gina!

��� 137 ���

��� Mas, mam��e, eu n��o s a b i a . . .

��� N��o venha com desculpas. Voc�� n��o tem o di-

reito de me fazer perder o pouco que seu pai nos d��.

Voc�� �� infernal... Oh, meu Deus, imagine se ele nos

cortar a mesada. ��� Apertou a cabe��a entre as m��os. ���

Oh, como sofrem os pais. Voc�� quer destruir-nos. Todos

voc��s; essa juventude moderna, quer acabar com a

gente. Sei que nunca admitir��o que est��o erradas. Ago-

ra, deixe-me s��. V�� para o seu quarto.

Sa��, fechando a porta, e fui para o quarto das me-

ninas. Acordei-as. Abriram os olhos se espregui��ando.

��� Que horas s��o?

��� Dez.

��� Puxa, e voc�� vem acordar a gente a essa hora!

Fomos dormir de madrugada.

��� Voc��s devem dar gra��as ao papai por estarem

aqui, deitadinhas como dois anjinhos. Se fosse pelo se-

nhor juiz de menores voc��s estariam ainda em cana at��

agora. Agora escutem o que eu vou ler para voc��s. Pri-

meiro olhem essa fotografia, bem na primeira p��gina.

Arlete arrancou-me o jornal das m��os e gritou:

��� Olhe, Ivete, como saimos legais. At�� parecemos

artistas de Hollywood, mas daquelas artistas mais ba-

canas que moram em Beverly Hills.

Ivete debru��ou-se bocejando e batendo a m��o na bo-

ca, olhou o jornal.

��� �� muito bacana mesmo, mas o diabo �� se papai

ver. Ele vai ficar fulo de raiva.

Apanhei o jornal das m��os de Arlete e l�� alto.

��� Regina Albuquerque, Arlete Sampaio de Souza e

Ivete Cerqueira, jovens da alta sociedade, residentes na

Avenida Atl��ntica, 241, apartamento 93, ontem �� noite

��� 138 ���

foram submetidas aos maiores vexames por tr��s h o -

mens desclassificados que a jovem Regina Albuquerque

introduziu no apartamento. Foi imposs��vel entrevistar

seu pai, o famoso cirurgi��o Alberto de Albuquerque, que

veio de S��o Paulo prestar depoimento ao juiz de menores,

que classificou o caso de "juventude perdida".

Ivete e Arlete riram at�� as l��grimas.

��� Olhe, gente, n��o riam assim t��o alto que mam��e,

depois que leu a not��cia, ficou uma fera. Agora est�� mui-

to perturbada e n��o quer que a incomodem! Por isso ��

bom a gente levantar e ir para a praia.

��� Primeiro vamos beber alguma coisa ��� sugeriu





Arlete.


��� Ora, �� muito cedo. O melhor �� a gente comer





ovos fritos e beber leite.


��� Bahhhhh... L�� vem voc�� com leite. Ali��s, teve

uma boa id��ia. Traga leite com conhaque ��� retrucou

Arlete, acendendo um cigarro.

��� Para mim, martini doce, querida. Traga a gar-

rafa, sim?

��� T�� bem, deixe eu preparar a bebida, pois fa��o

um martini excelente e voc��s sabem disso. Para mim

ser�� u��sque.

Bebemos, fumamos e depois fomos �� praia do Ar-

poador. Mas, logo depois do primeiro banho, Ivete disse:

��� �� verdade, Regina, a gente n��o tem escolhido





muito bem as companhias.


��� Claro. Voc�� viu em que atrapalhada nos mete-

mos ontem �� noite?

��� Foi bom para a sua vingan��a.

��� Ah, l�� isso oi. Papai ficou possesso e mam��e,

ent��o, nem se fala. Mas, no fundo, eu fiquei com pena

��� 139 ���

dos dois, pois aqueles homens n��o s��o companhias para

jovens como n��s.

Sentamos na areia e Ivete ficou matutando com

quem poder��amos sair �� tarde. De repente, ela deu um





pulo.


��� Ah, j�� me lembrei. Cada uma deve telefonar pa-

ra o rapaz que mais lhe agradar todos esses dias.

��� Ent��o vamos para casa almo��ar e a�� faremos o

programa para a tarde ou a noite.

Seguimos para o apartamento, debaixo de in��meros





convites e estridentes assobios.


Tocamos a campainha. Uma chave girou a fecha-

dura e Maria abriu a porta.

��� Cad�� a mam��e?

��� Ela saiu, dona Regina. Foi gravar.

��� T�� bom. Olhe, sirva o almo��o. O que se tem para

comer?

��� Ainda n��o comecei o almo��o.

��� Diabo, a gente tem que sair e voc�� vem com essa

molengada toda. Fa��a a�� uns bifes e batatas.

O telefone tocou e eu fui atender.

��� B voc��, Regina?

��� Sim.

��� Falando Raul.

��� Ah, n��o! Que surpresa! Estava pensando em vo-

c�� agorinha mesmo.

��� Mentirosa.

��� Juro!

��� 140 ���

��� Voc�� tem compromisso para a noite?

��� N��o.

��� Ent��o jantaremos l�� no Recreio dos Bandeiran-





tes.


��� Maravilhoso! Olhe, passe para me apanhar l��





pelas vinte horas.


��� Est�� bem. E, obrigado por ter aceito o meu con-





vite.


��� Puxa, que comodidade, heim, Regina? Nem pre-

cisou procurar o seu homem por telefone.

��� Voc�� j�� pensou com quem ir�� jantar?

��� J��. Espere, vou telefonar.

Depois que Carlos aceitou o convite de Ivete foi a

vez de Arlete, que ligou para o Ivan.

��� Pronto, todas temos compromisso para a noite.

E a tarde, vamos ficar chupando o dedo?

��� Foi o que pensei. Bom, o negocio �� a gente ir

at�� o apartamento do Jos��. L�� est�� sempre cheio de





gente alegre.


Como fic��ssemos indiferentes, disse, ir��nica:

��� Voc�� se lembra dele, n��o ��, Arlete?

��� Creio que n��o.

��� Esquisito. Foi ele o primeiro homem em sua





vida.


��� Sinceramente, depois de passar por tantos, j�� me





havia esquecido.


��� Bem crian��as ��� gritou a empregada. ��� o al-

mo��o est�� servido.

��� Traga bebidas.

��� 1 4 1 ���

��� Uisque! ��� gritou Arlete.

��� Dois! ��� disse Ivete.

��� Tr��s! ��� falei.

E, rindo, nos afundamos nas poltronas e ficamos





bebendo e fumando.


��� Mas, e o almo��o? ��� choramingou a empregada.

��� Deixe pra l��. Vamos almo��ar na casa de um





amigo.


Apanhei o carro de mam��e e, alegres, nos dirigimos

para o apartamento de Jos��. Assim que rodei alguns

metros, ouvi um apito.

��� �� a pol��cia, Regina! ��� exclamou nervosa Ar-





lete.


��� P�� na taboa! ��� gritou Ivete.

��� N��o, Regina. Pare! Voc�� �� menor. Vai dar um





galho dos diabos.


��� Deixe dar.

Ivete me incentivava a correr. Mas, num farol ver-

melho, tive que parar.

Na pol��cia, fomos obrigadas a esperar horas at�� que

mam��e conseguisse ser avisada e ela entrou na delega-

cia com as m��os na cabe��a, gritando:

��� Voc�� est�� determinada a me deixar louca? N��o

sabe que �� menor e n��o pode dirigir? Sabe ou n��o

sabe ?

��� Sei.

��� Ent��o por que pegou o carro?

��� Ora mam��e pra que haveria de pegar o carro?

��� 142 ���

��� Vou avisar seu pai. Voc�� qualquer hora atro-

pela algu��m.

��� Voc�� perde a mesada, mam��e.

��� Posso perder, mas juro que n��o vou me respon-

sabilizar por voc�� perante a lei.

��� Ent��o �� preciso chamar o papai. �� melhor voc��

resolver logo, pois estamos cansadas. J�� faz quatro ho-

ras que estamos esperando aqui, sentadas e temos com-

promisso para jantar fora.

��� N��o chamarei o seu pai. E voc�� n��o sair�� mais

de casa.

��� Oh, mam��e, n��o diga bobagem perto das mi-

nhas amigas. Afinal, o que h�� de mais em guiar um car-

ro? Por que essa pol��cia quadrada fez todo esse esc��n-

dalo?

��� Nem vou discutir a quest��o. O delegado que a

mande para o abrigo de menores. Juro que eu mesma

assinarei a peti����o para voc�� ficar no abrigo.

��� E voc�� perde o apartamento, o mobili��rio, o car-

ro, as roupas finas, as j��ias, etc.

Mam��e ficou andando de l�� para c��, falando alto.

��� N��o quero v��-la mais em delegacia. N��o faz nem

um m��s que voc�� saiu do col��gio e essa �� a terceira vez

que �� detida. Sei que posso pedir a minha filha um pou-

co de considera����o pois sei que ela �� capaz disso. Ainda

h�� alternativa. Voc�� promete que pedir�� ��s suas amigas

para irem embora e eu assinarei a responsabilidade.

��� N��o, nunca! S�� se voc�� prometer voltar para

p a p a i . . .

��� Nem vou discutir a quest��o.

��� Ent��o, em que ficamos? ��� perguntou o dele-

gado.

��� 143 ���

Mam��e manteve-se silenciosa. Eu, ent��o, sugeri ao

delegado que chamasse papai.

��� N��o! ��� disse mam��e, derrepente. ��� Eu assino.

Assinou o termo de responsabilidade e, aliviada, dei

o bra��o ��s amigas e saimos da delegacia.

Bem, ��� disse mam��e quando entramos no carro.

��� gra��as a Deus, dessa vez, tudo terminou bem. Mas na

pr��xima deixarei o juiz de menores resolver.

��� T�� bem, mam��e. Agora, por favor, deixe-nos na

porta daquele edif��cio ali. Iremos passar a tarde com

umas amigas.

Quando mam��e desapareceu ao longe, Arlete gri-

tou:

��� Puxa, em que fria ��amos nos metendo! Agora que

deixamos aquela chata pol��cia, vamos celebrar bebendo

qualquer coisa.

��� Beber? Onde?

��� Num b a r . . .

Sentamos nas cadeiras girat��rias de um barzinho

bem legal na Avenida Nossa Senhora de Copacabana.

��� Tr��s u��sques ��� pediu Arlete.

��� N��o vendemos bebidas alco��licas para menores.

��� Chi, outro quadrado! ��� falou Ivete.

��� Quadrado ou n��o, obedecemos a lei.

��� Ok, meninas, vamos tentar em outro bar.

Passamos uma meia hora visitando bares, mas to-

dos se negaram a nos servir.

��� O neg��cio �� a gente ir festejar no apartamento

de Jos��.

��� 1 4 4 ���

Subimos e encontramos o apartamento com alguns

rapazes.

Jos�� nos recebeu sorrindo.

��� Ei, menininhas, est��vamos mesmo precisando de

voc��s.

Os rapazes usavam cal��as "blue-jeans" acinturadas,

bem abaixo dos quadris, e camisas furadinhas.

��� Olhe, meninas, s��o os jovens do conjunto "Os Pra

Frente". Cantam no Canec��o.

Tomamos uns goles e depois almo��amos. Os meni-

nos do conjunto vieram com aquela xaropada toda de

escolher quem dormiria com uma de n��s. Mas, gra��as

ao Jos��, eles nos deixaram em paz e ficaram discutindo

a possibilidade de mam��e apresent��-los a algu��m in-

fluente da TV. Paulista.

��� Voc�� sabe, aqui na Guanabara n��o existe mais

caminho para n��s. Levamos um tombo e, quando al-

gu��m cai nesta cidade, a ��nica coisa a fazei �� sair e

fortificar-se em outra cidade. S��o Paulo �� a terra de er-

guer os caidos.

��� N��o sei se mam��e poder�� ajud��-lo.

��� Mas Jos�� me disse que nas tvs de S��o Paulo sua

m��e �� muito conhecida.

��� Eu falo com ela. Mas n��o sei se voc��s consegui-

r��o sair daqui.

��� Ora, por que n��o?

��� Bem, eu acho uma coisa gozada essa Guanaba-

ra. A gente passa algum tempo aqui e depois �� duro se

acostumar em outro lugar. Quanto mais a gente fica,

mais dif��cil de sair �� preciso um motivo muito forte

para partir.

��� E n��s temos. Estamos quebrados. Depois de

terminado o nosso contrato no Canec��o arrumamos so-

��� 145 ���

mente um programinha vagabundo para cantarmos no

r��dio. N��s preeisamos nos apresentar em S��o Paulo.

��� �� . . . ��� Respondi. ��� Tentarei ajud��-los. Falo

com mam��e ainda hoje, se poss��vel, pois ela est�� uma

fera.

Por que?

O guarda de tr��nsito nos pegou. E o earro era

de mam��e. Ela teve que assinar um termo de respon-

sabilidade e agora haver�� inqu��rito e mil e uma coisi-

nhas mais.

Um dos rapazes, olhou paia mim, Ivete e Arlete e

falou:

��� Sua m��e ou os pais dessas meninas t��m raz��o

de ficarem feras, pois essa liberdade excessiva que a ju-

ventude exige p��e em p��nico qualquer fam��lia.

��� Mas n��s temos que viver como a nossa ��poca re-

quer. N��o podemos viver o passado. Somos o futuro.

��� Futuro insatisfeito no corpo e na alma.

��� Insatisfeito por que? ��� reclamou Ivete, petu-

lante.

��� Por que voc��s, jovens, procuram nos entorpecen-

tes, na bebida, no sexo, o calor para viver.

��� Bem, l�� isso �� verdade ��� respondi. ��� N��o te-

mos o calor de um lar e �� por isso que procuramos, em

tudo o que voc�� disse, um modo de escapar da ang��stia

que nos oprime o cora����o, por sermos adolescentes sem

amor, adolescentes perdidas nessa grande cidade de ci-

mento armado, cheias de melancolia e afli����o, gritando,

em gritos mudos, afeto e carinho dos pais.

��� Mas voc��s podem se recuperar. Podem procurar

um outro meio de vida. O que voc��s andam fazendo n��o

�� o certo. Essa hist��ria de conflitos entre pais e filhos ��

��� 146 ���

universal e nem todos os filhos desse conflito se ati-

ram assim para o abismo. Existe a recupera����o.

��� A Guanabara n��o �� cidade para ningu��m tentar

urna recupera����o ��� disse Jos��.

��� N��o vejo por qu��. Ent��o S��o Paulo �� pior ainda

��� retrucou outro jovem.

��� Vamos mudar de assunto ��� a voz de Arlete

encheu a sala. ��� Ningu��m quer sair da bebida, do se-

xo e das bolinhas Olhe, Jos��, por favor, mande esse Mes-

sias a�� parar com esse serm��o. J�� falou o bastante esta

tarde. A gente fica at�� doente com tanta moraliza����o.

Parece at�� que somos deca��das.

��� Deca��das ou n��o, voc��s n��o devem estar se estra-

gando assim. Gosto muito da nossa juventude e detesto

ver como rolam envoltos em lama para o pecado.

��� Pecado??? O que �� isso? ��� Disse Ivete, caindo

na risada.

O rapaz ficou vermelhinho e disse ir��nico:

��� Voc�� j�� ouviu falar em Cristo?

��� Ah, aquele filho de Deus feito homem?

O rapaz continuou na mesma ironia.

��� Jesus Cristo teve que morrer crucificado, san-

grando por todos os lados para que seu Pai perdoasse os

pecados dos homens. Voc��s n��o devem viver em peca-

do e . . .

��� Mo��o, por favor, pare de falar. Deixe a gente

viver em pecado. O problema �� nosso. E por falar em

problemas temos que sair correndo pois precisamos nos

arrumar.

��� �� verdade. O nosso jantar.

��� Mas, antes vamos beber mais uns goles ��� disse

Arlete, com olhar de desafio cravado no rosto do mo��o

do serm��o. ��� L�� em casa, a m��e da Regina escondeu

todas as bebidas.

��� 147 ���

��� Arlete, querida, voc�� �� uma idiotazinha. Se ma-

m��e escondeu as bebidas, existem milhares de bares, ar-

maz��ns, super-mercados, para se comprar outras.

Caimos na risada, bebemos uisque, pegamos cigar-

ros que estavam em cima da mesinha, dentro de um sa-

patinho de prata, e fomos pela avenida, fumando, at��

chegarmos ao apartamento. Raul chegou junto com Car-

los e, logo em seguida, Ivan. Carlos sugeriu irmos todos

para um restaurante que ficava num daqueles pr��dios

perto da Lagoa Rodrigo de Freitas e eu fiquei contente

com a id��ia de Carlos pois estava determinada a impe-

dir que meu cora����o batesse mais r��pido, ficando a s��s

com Raul. N��o queria me apaixonar e n��o queria dar

nenhuma oportunidade a Raul de passar-me um daque-

les serm��es. Com mais companhia, Raul ficaria calado,

como de costume.

��� Oh, Carlos, fico satisfeito com a sugest��o ���

disse, enquanto entr��vamos todos no Impala de Ivan,

pois Carlos estava com um carro esporte e Raul com um

Karman-Ghia.

Sentamo-nos em mesas perto ao conjunto que toca-

va, estridentemente, m��sicas da juventude. Raul estava

morto de raiva.

��� Olhe aqui ��� disse-me enquanto dan����vamos.

��� Sinceramente, n��o estava com um pingo de vontade

de vir jantar em companhia dessas crian��as e nem de

ficar ouvindo essa m��sica de doidos. N��o suporto essas

coisas. O melhor �� a gente ir para um lugar mais so-

cegado.

��� Ora, Raul, �� o meu ambiente. Eu tamb��m sou

crian��a.

��� Para falar a verdade, voc�� �� mais do que crian-

��a. Ent��o n��o sentiu que eu a convidei por que tinha

algo muito importante para lhe falar?

��� 148 ���

��� E o que ��?

��� Aqui n��o poderei falar.

��� Por que? ��� sorri. ��� S��o as crian��as, ou coisa as-

sim, que o atrapalham?

��� Ningu��m me atrapalha. Gosto de crian��as dor-

mindo a essa hora. Gostei de estudantes no tempo que

era estudante. Gosto de adultos agora que sou adulto.

Uma progress��o just��ssima, voc�� n��o acha?

��� Eu adoro essa m��sica e essa dan��a maluca.

��� Sei muito bem que voc�� n��o gosta disso ��� dis-

se ele, sorrindo.

��� Bem, na verdade n��o gosto mesmo. Mas voc��,

com essa obsess��o de n��o gostar da minha turma, me

deixa chateada,

��� Ope express��o horr��vel, Regina. E u , . .

��� Voc��, pelo que me pareee. n��o tem fraqueza al-

guma. �� auto-suficiente em todos os pontos de vista.

Raul acendeu um cigarro e retrucou.

��� Sempre as pessoas amigas dizem o mesmo. Mas

eu, como qualquer mortal, tenho os meus defeitos. Mas

prefiro n��o demonstr��-los.

A m��sica cessou e voltamos para a mesa. Ivan pe-

diu bebidas e n��s, as meninas, esvaziamos as nossas ta-

��as em segundos. Raul levantou a cabe��a olhando-me fi-

xamente e, vendo que eu pegava o u��sque duplo de Ivan

e secava o copo logo em seguida, abaixou a cabe��a e fi-

cou batendo a cinza do cigarro. Quando um grupo ba-

rulhento de rapazes e mo��as invadiu o resturante, olhei

para Raul e vi que ele n��o conseguia acender um novo

cigarro. Um dos rapazes era meu conhecido e logo que

me viu se pos a gritar:

��� 149 ���

��� Ol��, Regina! Como vai, queridinha?

Chegou-se a nossa mesa quase caindo, pois as pernas

n��o conseguiam sustent��-lo, e, beijando-me no rosto,

disse:

��� Olhe aqui, querida, encontrei o M��rio e ele disse

que a est�� procurando por toda parte para lhe fazer ou-

tra massagem, daquelas de se ficar nua e d e p o i s . . . A��

ele cochichou o resto em meu ouvido e caiu na risada,

Raul ergueu as sobrancelhas e disse r��spido:

��� Pare de falar bobagens �� minha companheira.

��� V�� para o inferno! N��o estou falando com voc��

E depois Regina �� de todos. Todos podemos dormir com

ela. Ela n��o �� ego��sta, pois todos sabem que ela �� a

maior, na cama.

Raul, vermelho de raiva, levantou-se e atirando a

cadeira para tr��s, ia agarrar o jovem, quando Carlos e

Ivan vieram concili��-los.

��� N��o ligue para o que ele diz. Est�� b��bado n��o

est�� vendo?

��� B��bado ou n��o, ele que cale a boca, sen��o parto-

-lhe a cara.

��� Ora, que h��, puritano? ��� sorriu o meu conhe-

cido, friamente. ��� Est�� mesmo ficando ciumento. Bas-

tardo. N��o esque��a de que n��o �� o ��nico camarada a

fazer amor com ela. O meu col��gio inteirinho j�� a tre-

pou. E olhe que o col��gio tem dezenas de quartos e em

cada quarto dormem quatro alunos, todos jovens e fo-

gosos.

��� Pelo amor de Deus, Ivan! ��� implorou Raul. ���

Largue os meus bra��os, pois mato esse camarada, esse

b��bado.

��� 150 ���

��� Mata nada, Eu bebo mas n��o paro de funcionar

Pergunte a�� pra Regina.

��� Solte-me, Ivan. Tire essas m��os de mim, por fa-

vor, pois ningu��m vai dizer coisas assim �� Regina. Nin-

gu��m!

O gerente do restaurante se aproximou de n��s. Dis-

se ao meu conhecido:

��� Quer dar o fora daqui, antes que eu mande jog��-

4 o na rua.

0 meu conhecido respondeu.

��� Ora, meu velho, voc�� nem sabe do que est�� fa-

lando e j�� vem com essa f��ria toda.

��� Sei sim. Um vizinho de mesa, aqui desses casais,

disse que o senhor est�� faltando com o respeito a uma

das meninas,

��� Menina ? ? ? Ora, seu gar��om, pergunte a ela quan-

tos abortos j�� andou fazendo por a��. Eu a encontro sem-

pre em todas as espeluncas do raio do mundo que fre-

quento e sempre ela est�� ��� quero dizer, elas est��o ��� com

homens diferentes, bebendo e fumando com caras de

deca��das, �� isso mesmo, seu gar��om. Meninas deca��das,

perdidas, envoltas em lama.

��� Vamos! Vamos! Fora! Fora daqui! Fora! Fora.

��� Ora, que me interessa ser posto para fora desse

restaurante depois que Copacabana inteirinha, me jo-

gou para fora de seus bares. Eu tamb��m posso ser cha-

mado de menino. Sabe quantos anos eu tenho, senhor

gar��on? Dezessete anos. Dezessete anos cheios de ��l-

cool, de entorpecentes e de nada. Eu tamb��m sou um

menino deca��do, perdido, envolto em lama.

��� �� mais uma raz��o para voc�� sair daqui. Meno-

��� 151 ���

res s�� devem entrar aqui acompanhados de adultos. Va-

mos. Eu o acompanho.

O chefe dos gar��ons, muito satisfeito, segurava o

bra��o do meu conhecido e o conduzia para fora.

Ivan largou Raul, que levantou a cadeira e sentou-

se. Os outros fizeram o mesmo e por uns minutos o si-

l��ncio cobriu o grupo. Foi Ar��ete quem o interrompeu,

falando-me.

��� N��o fique perturbada, Regina. �� apenas mais

um incidente de b��bados e isso a n��s n��o abala.

N��o respondi, pois estava danada com aquele jo-

vem b��bado, pois nunca tivera nada com ele. Simples-

mente, certa vez, n��s nos encontramos numa festa. Era

a segunda vez que o via.

Senti Raul pegar o meu bra��o e passando-o por so-

bre o dele afagou carinhosamente a minha m��o, sorrindo

par�� os meus olhos, e disse:

��� Mas, afinal, para que tanto sil��ncio? Vamos pe-

dir mais bebidas. O que quer tomar?

��� Nada. Estou terrivelmente enojada de tudo.

��� Eu sei, querida. Por isso �� que acho que um gole

viria a calhar bem.

��� N��o! ��� decidi rapidamente. ��� Creio que n��o

estou com vontade de beber nada mesmo. Sabe o que

realmente quero? Ir para minha casa. Sei que voc��s

v��o achar esquisito, pois ainda s��o apenas nove horas.

M a s . . . ��� parei de falar, pois estava com vontade de

chorar.

Raul apertou meu bra��o e, fazendo-me levantar,

despediu-se do grupo. Passando os bra��os pelos meus

Ombros, falou;

��� 152 ���

��� N��o acreditei no que aquele jovem falou. Por

isso levo-a para casa, mas com uma condi����o.

��� Qual ��? Quer beber comigo l�� em casa?

��� Nada disso. Compreendo muito bem como se

sente. Proponho irmos almo��ar e, �� tarde, pegarmos um

cinema.

��� Est�� certo ��� respondi, sentindo as l��grimas

correrem pelo meu rosto.

��� Regina. . . juro que n��o acreditei.

��� Eu sei. Raul. Mas choro por que n��o queria pas-

sar por aquilo.

��� Eu sei.

��� Mas, se papai e mam��e quisessem, eu jamais vol-

taria a me encontrar com essa turma de jovens fardos.

��� Mas �� voc�� que tem de querer, Regina.

��� N��o, Raul. O que passei essa noite �� culpa dos

meus pais. Agora chego em casa e sabe quem encontro

l��, para me consolar.

��� Quem?

��� Sombras. Sombras de dois jovens que se casa-

ram por amor, que tiveram uma filha do amor, e hoje

vivem separados. Sim. Raul, abra��arei e chorarei nos

bra��os de sombras negras...

��� Quer que eu fique com voc�� at�� sua m��e voltar

da tv?

��� N��o, pois voc�� ficaria esperando um talvez. Pois

ela sempre diz antes de sair de casa que talvez volte, se-

n��o dormir no est��dio mesmo.

Paul abriu a porta do apartamento para eu entrar

o se afastou desaparecendo na noite. Eu fechei a porta

e me recostando na mesma, gritei:

��� Mam��e, papai, j�� cheguei!

As sombras negras se revolveram e o sil��ncio t��trico

levou a minha voz para bem longe, ficando somente o

eco vibrando no enorme apartamento.

��� 153 ���





XII

Aquele??? Dorme com o diretor.

O dia seguinte amanheceu com uma fria chuva, que

caia na praia, enchendo-a de sombras de solid��o. Eu le-

vantei-me cedo e fui ao quarto das meninas, mas elas

tinham passado a noite fora. Liguei a eletrola, preparei

uma dose de u��sque e acendi um cigarro. Fiquei tentan-

do adivinhar onde estariam dormindo Arlete e Ivete.

Em algum apartamento com Carlos e Ivan, de certo. A��

fiquei pensando em mam��e. Tamb��m ela havia dormido

fora. Talvez se eu mudasse o modo de tratar mam��e

teria uma chance dela voltar com papai. Por isso man-

dei a empregada fazer um variado almo��o e mandei, do

bar, vir a champanha mais cara. Alguns minutos depois

a porta do elevador bateu e os passos de mam��e ressoa-

ram pela sala. Mas, olhando mam��e, senti que alguma

coisa andava mal. Mam��e provavelmente havia chorado

pois tinha os olhos vermelhos.

��� Quer tomar alguma coisa, mam��e?

��� N��o se incomode. Eu mesma preparo.

��� Aconteceu alguma coisa?

��� Sim. N��o farei mais a novela. O papel foi da-

do para a Cristina.

��� Aquela que dorme com o diretor, n��o �� essa?

��� Por favor, minha filha. N��o diga coisas assim

Cristina �� uma grande atriz. Ela garante boa audi��ncia.

O diretor n��o poderia fazer nada, pois foi advertido ener-

gicamente. Bom Ibope ou rua. Olhe, Regina, a Guana-

bara �� dura mesmo para se vencer. Todos me disseram,

quando tentei tv, no in��cio da minha carreira aqui. To-

dos tinham raz��o. O que �� duro �� a luta pela sobrevi-

v��ncia e cada qual deve se defender. Aqui na Guanaba-

ra n��o existe pena, d�� ou piedade. Cristina s�� tem a

novela e eu ainda tenho o seu pai.

Meu cora����o quase parou. Mam��e, com o fracasso

da novela, talvez permitisse que papai voltasse para ca-

sa. Eu tinha certeza de que, apesar de todo o fel que

papai cobria, mam��e ainda o amava apaixonadamente.

��� Quer dizer que voc�� est�� sentindo falta de papai?

��� Ah n��o. Seu pai tornaria as coisas mais dif��ceis

do que est��o. N��o sinto a m��nima falta dele. A vida de

uma artista �� assim mesmo Cheia de altos e baixos. Eu

devo me levantar sozinha. Seu pai s�� atrapalharia,

A�� senti que devia deixar mam��e sozinha. Fui a co-

zinha e disse �� empregada para servir qualquer coisa pa-

ra o almo��o e que escondesse a champanha.

Sem as meninas, o apartamento estava triste. Pen-

sei aonde poderia ir para me distrair um pouco, pois es-

tava infernalmente deprimida com os problemas de ma-

m��e. Ent��o descobri aonde queria ir. Queria ver Raul.

Liguei para ele.

��� Al��?

Al��, Raul, �� Regina. Gostaria de falar com voc��.

��� Quando?

��� Agora.

��� 156 ���

��� Est�� bem. Espero-a l�� na praia em frente ao Co-

pacabana Palace.

��� N��o. Eu prefiro ir a�� ao seu apartamento.

��� Claro. Pode vir.

Quando cheguei, ele perguntou-me:

��� O que vai mal, menina?

��� Nada. Queria apenas bater um papo com voc��.

Espero n��o o estar aborrecendo ou coisa que o valha.

��� N��o me aborrece em nada. Olhe, teme um ca-

fezinho enquanto batemos o papo.

Acabei de tomar a x��cara de caf�� e disse:

��� Raul, mam��e anda dando murros para partici-

par de bons pap��is na tv e s�� conseguiu fazer papel de

idiota. Eu gostaria de que algu��m falasse com o diretor

da tv para n��o contrat��-la mais. Assim ela talvez volte

para papai. O que devo fazer?

��� Olhe, Regina, eu acho que voc�� est�� terrivelmen-

te cansada de compartilhar da infelicidade de seus pais.

Pense em encontrar o rapaz certo e a�� voc�� se casaria e

n��o ficaria mais solit��ria. Fa��a um lar sadio, onde de-

ver�� imperar o amor e a compreens��o.

��� N��o adianta tentar iludir-me, Raul. Voc�� deve

saber que homem algum se casar�� comigo quando sou-

ber o que aconteceu e que vivo ao l��u, pois sou filha de

pais desquitados.

��� Mas voc�� tem m��e Regina. Sua m��e olha por

voc��.

��� Minha m��e n��o quer ser m��e. Ela nunca me re-

preende em nada. Deixa que eu fa��a o que bem enten-

da. Tenho uma excessiva liberdade. Fa��o da minha vi-

da o que bem entendo. Saio com quem quero e fa��o o

��� 157 ���

que quero. Minha m��e poucas vezes me aconselhou a

fazer isso ou aquilo, mas eu n��o me abro com ela, n��o

conto meus segredos a ela, n��o sei porque n��o a sinto

m��e. O que quer dizer isso, heim, Raul?

��� �� por que voc�� a quer junto de seu pai. Os dois

juntos ser��o para voc�� a for��a que a guiar�� pelos ��spe-

ros caminhos da vida. Se eles estivessem juntos, voc��

contaria �� sua m��e as coisas que a perturbam, como es-

t�� contando para mim, mas j�� que isso �� imposs��vel, vo-

c�� deve fazer um esfor��o e deixar sua m��e ser m��e.

��� N��o sei, Raul. S�� confiarei nela o dia que me

der o lar que sempre almejei. Lar com pai e m��e.

��� Voc�� j�� falou umas duzentas vezes sobre esse lar

e eu n��o canso de repetir que o lar voc�� poder�� formar

com um bom rapaz que a ame e que a respeite.

��� N��o, eu quero o meu lar sonhado, com os meus

pais juntos.

��� Est�� bem, Regina. Agora vamos sair para voc��

se distrair um pouquinho. Est�� muito nervosa.

��� N��o, obrigada. Eu quero ir para casa.

��� Ok. Eu a levo. Deixe ir buscar o carro.

Enquanto Raul guiava, senti dentro de mim que a

observa����o que fazia do seu belo semblante me dava um

desejo louco de beij��-lo. Sim, gostaria que aquela boca

arrogante se enfiasse inteirinha dentro da minha. Raul

era um homem no duro. O corpo esbelto, as m��os for-

tes e grossas pelo trabalho. Agora que estava ali olhan-

do para ele, a seu lado, sentia que ele poderia ser o ra-

paz que o futuro me daria para formar o lar sadio de que

fal��vamos h�� pouco. N��o, Raul n��o seria o homem

para se casar com uma jovem pecadora. Mas a atra����o

que eu come��ara a sentir por ele parecia se fortificar

mais e mais.

��� 1 5 8 ���

Depois de me despedir de Raul, entrei no aparta-

mento e encontrei mam��e falando com um senhor c

Quando v�� o rosto do homem, meu cora����o gelou.

Era o pai de Ivete.

Fiquei parada na porta um longo tempo, vendo-o be-

ber um enorme copo de uisque e falando de um modo

como s�� os alco��latras sabem se expressar. Depois que

Ivete me contou tanta coisa a respeito dele foi que v��

que a express��o de seu rosto era, realmente, estranha e

me pareceu, de fato, perigosa. N��o voltou a cabe��a quan-

do o cumprimentei, mas sua voz rouca ressoou pela

sala.

��� Ivete est�� a�� com voc��, como sua m��e disse?

Relutei em responder, olhando para mam��e, que fa-

lou por mim.

��� Ivete saiu com Arlete, senhor Cerqueira. Daqui

a pouco estar��o de volta.

��� Mas, senhora, eu gostaria que minha filha n��o

ficasse por a��. Talvez a senhora possa dar uns conse-

ihos a ela para que volte comigo para Pernambuco. Ela

disse que s�� viria passar as f��rias de ver��o, e as f��rias

j�� terminaram. As aulas j�� come��aram e n��o sei de mi-

nha filha.

Pedi licen��a ao senhor Cerqueira e fui esperar Ive-

te na porta do pr��dio. N��o demorou muito e elas des-

ceram de um luxuoso carro. Corri para elas e gritei:

��� Ivete, sabe quem est�� l�� em cima?

��� Papai.

��� Como adivinhou?

��� E quem mais poderia deix��-la t��o nervosa as-

sim?

��� 159 ���

��� Ele veio busc��-la.

��� N��o irei.

��� J�� come��aram as aulas.

��� Que se danem.

��� Que pretende fazer?

��� N��o sei bem. Acho que vou procurar por a�� um

"fuma��a". Fumo e esque��o que tenho de me rebelar con-

tra o velho.

��� E onde voc�� vai encontrar maconha a essa ho-

ra?

��� Ora, h�� tantas bocas de fumo aqui na Guanaba-

ra. Digamos, l�� no Castelinho.

��� Mas se voc�� �� apanhada com um cigarro de ma-

conha pode ser castigada com pena de um a cinco anos

de cadeia.

��� Ora, Regina, voc�� est�� sabendo demais.

��� Eu n��o" �� a lei. Conhe��a o artigo 281 do nos-

so C��digo Penal. O C��digo pune a todos, indistintamen-

te: viciados, traficantes, consumidores eventuais, etc.

��� Chi, Regina, hoje voc�� est�� quadrada. O neg��cio

�� eu n��o tomar droga nenhuma e enfrentar o velho com

a cara bem limpa. Vamos l��.

Quando entramos na sala, o pai de Ivete a cumpri-

mentou muito agitado, como se estivesse ansioso por

desviar das pessoas presentes a aten����o do seu jeito de

alco��latra...

��� Ivete, querida, que alegria em v��-la. Vim busc��-

-la. Voc�� sabe, as aulas j�� iniciaram.

��� N��o volto praquele col��gio, papai. Nem Regina e

nem Arlete v��o voltar.

��� 160 ���



Mas voc�� parecia t��o satisfeita l�� no Senai.

��� Era fingimento. O senhor sabe perfeitamente

que a diretora de l�� disse que eu me sentirla mais feliz

em outro estabelecimento.

��� Mas, em Pernambuco h�� bons col��gios.

��� Eu nem ligo.

��� Escute, Ivete, eu gostaria que voc�� tivesse um

pouco de considera����o pelo menos por sua m��e.

��� Como considera����o, papai, se voc��s se impreg-

nam de ��lcool.

��� Ivete!

��� Que h��, papai? O senhor sabe que a emprega-

da encontrar�� sempre um frasco de uisque sobre o seu

criado-mudo todas as manh��s.

O pai de Ivete olhou para mam��e sem largar o co-

po de bebida e falou.

��� Gostaria, dona Carmen, que Ivete n��o se sentis-

se suficientemente �� vontade nessa casa para responder

assim. As vezes nem sabemos por que �� t��o revoltada

contra n��s, que procuramos dar-lhe tudo do melhor.

Nunca nos importamos que ela chegue em casa com

v��rios convidados, onde passam meses em festas sem

que Ivete nos pe��a permiss��o ou mesmo sem nos dar avi-

so algum. S�� a reprovamos quando soubemos que se

envolveu com uma turma que fumava maconha e eram

viciados em outras drogas.

Ivete encarou o pai, enfrentado-o com petul��ncia,

��� Fumava n��o: fumo! Fumo em busca de sensa-

����es que possam me fazer fugir de pais b��bados e indi-

ferentes .

��� Ingrata ��� disse o pai de Ivete bebendo outro

gole de uisque. ��� Gera����o de ingratos. In��teis. Que-

��� 161 ���

rem fugir de alguma coisa. De que coisa? Se voc��s, ju-

ventude perdida, trabalhassem como eu trabalhei...

Com quinze anos era mensageiro da firma, hoje sou do-

na Sou dono por que nunca quis fugir dos fantasmas

que a mocidade de hoje v�� em toda parte. Sou dono, por

que trabalhei duro e abri caminho para cima. Nunca

precisei erva e nem me interessei por estupefacientes,

para integrar-me na sociedade.

Ivete deu uma gargalhada.

��� Ora, papai, as drogas s��o um s��mbolo da nova

gera����o. Toda a juventude mundial �� orientada pelas

drogas. �� o mesmo: quem tem qualquer dor toma,

quase que automaticamente, um comprimido. Quem

tem indisposi����o estomacal toma Alka-Seltzer, quem

est�� nervoso toma qualquer calmante, e n��s, a juventu-

de, n��o estamos satisfeitos com os nossos pais, com o

nosso governo, fumamos maconha, ora essa.

Na sala caiu um grande sil��ncio, s�� se ouvindo a

respira����o forte do pai de Ivete, que encarou-a, nervoso,

e gritou:

��� Cale a boca! N��o vou permitir que minha filha

fale abertamente que �� uma viciada em drogas. J�� n��o

chega o que todos est��o murmurando l�� em Pernambu-

c o : que minha filha n��o passa de uma prostituta aqui

na Guanabara.

��� Papai, voc�� �� um quadrado mesmo. Hoje em dia

o amor �� livre. Durmo com rapazes para satisfazer as

necessidades do meu f��sico. Se eu fosse homem seria

muito mais simples, me masturbava e pronto.

O pai de Ivete, roxo de ��dio, saltou da cadeira e,

num movimento r��pido, apanhou Ivete pelos cabelos e

arremessou-a contra a parede, gritando:

��� Ent��o �� verdade! Tudo pelo que trabalhei duran-

te a minha vida foi para cobri-la de ouro, para voc�� andar

��� 162 ���

por a�� com essa turma de delinquentes juvenis, sua

miser��vel!

Ivete olhou-nos embara��ada, alisando a vasta ca-

beleira e depois, encarando o pai, disse calmamente:

��� Gra��as a Deus, voc�� est�� mostrando ��s minhas

amigas que esp��cie de pai ��. Agora elas saber��o que ��

um alco��latra mesmo, desses alco��latras que toda filha

tem vergonha de apresentar como pai. Um pai que pen-

sa que, por que d�� dinheiro ao filho, esse mesmo filho

�� feliz. Agora todos saber��o por que busco a paz nos

entorpecentes. Por que o meu pai b��bado pensa que

me deu o que, o que? Ouro, dinheiro? Diabos que car-

reguem o seu dinheiro. Dinheiro a gente pode obter de

mil maneiras, mas um pai de verdade e um lar, �� muito

dif��cil. Isso voc�� n��o poder�� me dar nunca, por que a

bebida fez as suas id��ias se afundarem nesse maldito

dinheiro que voc�� ganhou at�� arrebentar os dedos, co-

mo diz. A bebida age como a maconha, meu querido

pai, faz o est��mago urrar, a boca secar e o sistema ner-

voso central, respons��vel pela percep����o, pelo racioc��nio,

perder a capacidade de controle, e a pessoa fica assim

como voc��. Um louco furioso, agredindo a pr��pria filha

a quem ele nunca poder�� oferecer paz, carinho, compre-

ens��o e amor.

O pai de Ivete a encarou, subitamente silencioso e

pensativo. Depois, pegando o copo de bebida e esvazian-

do-o de uma s�� vez, disse:

��� N��s, sua m��e e eu, j�� quisemos lhe oferecer um

lar decente onde s�� reinaria o amor, mas voc�� formou

dentro do col��gio uma turma que fez de n��s alvo de zom-

barias. Sua m��e voc�� a fez passar como exemplo de m��e

indiferente e b��bada e e u . . .

��� E voc�� como b��bado que �� ��� interpelou Ivete,

branca de raiva. ��� com tudo o que acaba de dizer, res-

ponda: onde est�� esse lar? Se eu fiz o que voc�� est�� fa-

��� 163 ���

lande, o que �� pura mentira, pois se os colegas riram de

mam��e �� por que ela estava b��bada mesmo ��� ent��o por-

que abandonou a id��ia do lar sadio e puro? Ora, por que

n��o lutou por ele. Por que, j�� que queria que mam��e e

voc�� me dessem esse lar t��o falado, n��o deixaram de lado

a tolice dos estudantes. S�� por que eles riram, voc��s se

afundaram mais na bebida e o meu larzinho se desfez

como fuma��a? Ora, papai, v�� contar essa hist��ria de lar

para o diabo. Voc�� vem com cada justificativa besta.

Mam��e bebendo pra l��. Voc�� bebendo pra c��. E a lou-

cura juvenil da filha e que �� condenada pela sociedade.

Agora voc�� pede por a culpa nos meus dezessete anos,

mas n��o h�� muito tempo para justificativas, pois os

meus dezoito anos, a maior idade, est��o a��, papai.

O pai de Ivete permaneceu em sil��ncio, olhando pa-

ra o copo vazio em sua frente. Mam��e suspirou nervo-

sa, apanhou o copo do senhor Cerqueira e preparou uma

dose com gelo, que a empregada tinha acabado de tra-

zer.

��� Ponha duas doses, senhora. Ou melhor, encha o

copo. Sei que beber n��o me faz bem nenhum, mas co-

mo parar de beber quando se vive nessa ��poca em que

os filhos mandam na pr��pria vida e tratam os pais co-

mo se esses tivessem quinze anos?

Mam��e encheu o copo e falou:

��� Olhe, senhor Cerqueira, eu n��o disse nada at��

agora por que julguei que n��o tinha o direito de inter-

vir, mas algum dia as nossas meninas v��o sentir o que

�� ser pai ou ser m��e. Temos que deix��-las dar cabe��adas

durante muito tempo, as mesmas cabe��adas que n��s de-

mos em nossa juventude. O que hoje explicamos a elas

em minutos elas levar��o anos para aprender por si mes-

mas. Algum dia elas compreender��o que n��o queremos

ver nesses filhes tristes e amargurados. Que n��s nos

amarguramos por eles e que, ao tomarmos a decis��o por

eles �� simplesmente para n��o v��-los sofrer mais tarde.

��� 164 ���

Como ��, senhor Cerqueira, que as nossas filhas pedem

ver na mocidade que grande luta �� viver? Como pode-

r��o ver que a vida �� feita de caminhos entrela��ados de

espinhos e que para abri-los existir��o mil obst��culos e

imensas barreiras que a toda hora se agigantam em nos-

sa frente. Nossa juventude �� composta de meras crian-

��as que insistem em fazer tudo por si mesmas, recusan-

do o conselho dos pais. Algum dia eles vir��o at�� n��s e

procurar��o conversar e pedir aux��lio para as suas almas

amarguradas.

��� Penso que o que a senhora falou n��o leva a coisa

alguma. Antigamente n��o havia a discuss��o entre pais e

filhos, mas havia o respeito. Hoje, por que bebemos, eles

bebem, por que fumamos eles fumam. Enfim, tudo o

que um adulto faz eles querem fazer. Pecam imensa-

mente, mas dizem sempre que a lei est�� do lado deles.

��� Somos menores. Nossos pais s��o cs respons��veis.

Que v��o para o diabo os filhos.

��� Besteira em cima de besteira ��� disse Ivete, sain-

do da saia, enquanto o pai a observava, sacudindo a

cabe��a.

Antes de Ivete cruzar a porta, ele gritou:

��� Dona Carmen vai aconselh��-la a partir comigo.

Ivete nem ligou, desaparecendo em seguida pela por-

ta que se fechou ��s suas costas.

Um sil��ncio pesado desceu sobre o apartamento,

quebrado de repente pelo volume da vitrola, que Ivete

elevou ao m��ximo. Olhei para Arlete, que disse:

��� ��, Ivete sabe preencher o v��cuo do sil��ncio. Va-

mos l�� impedir que ela derrube a casa.

Entramos no quarto e Arlete gritou:

��� Ei, Ivete �� um desperdicio essa m��sica assim

t��o alta, N��o h�� raz��o alguma para isso,

��� 165 ���

Ivete jogou os cabelos para tr��s e nos olhou cheia

de raiva.

��� Como n��o h�� raz��o? Meu pai quer mostrar-se

conservador. Vem aqui fingindo uma s��rie de id��ias so-

bre o meu futuro e depois solta as cachorros e me agri-

de. J�� que n��o posso agrad��-lo, elevo essa m��sica como

um sinal de protesto.

��� Mas protestar o que, Ivete? ��� a voz de mam��e

encheu o quarto. ��� O seu pai tem raz��o. Voc�� n��o po-

de ficar aqui para sempre. Tem que voltar a sua or��pria

casa, seu col��gio.

��� �� . . . ��� disse Ivete. ��� �� uma situa����o infernal.

N��o sei que diabo esse homem veio se intrometer na

minha vida. ��� Apanhou um cigarro e o acendeu nervo-

samente. ��� Quer que eu v�� embora, n��o ��, dona Car-

mem?

��� Infelizmente, voc�� tem que ir, e Arlete tamb��m.

Pois preciso organizar a vida de Regina.

A�� eu perguntei.

��� Organizar como, mam��e?

��� Ora, voc�� n��o pode continuar nessa vida.

Olhei-a petulante.

��� Que vida mam��e!

Mam��e jogou a m��o para todos os lados e titubeou.

��� E s s a . . . essa vida, sem uma defini����o. N��o es-

tuda n �� o . . .

Virei os olhos, ir��nica, e continuei.

��� .. .N��o tem um lar, n��, mam��e?

��� Ora, Regina, vamos parar com essa conversa.

N��o queira se esconder atr��s de toda essa... essa...

��� 166 ���

Mam��e saiu do quarto gritando:

��� Vou esperar uma hora para essas meninas arru-

marem tudo. Ficarei esperando-a na sala em compa-

nhia do pai de Ivete.

Assim que mam��e saiu, Ivete franziu a testa, jogou

o cigarro no ch��o e esmagou-o com o p��, falando:

��� Voc�� concorda, Regina?

��� Com o que?

��� Com as id��ias de sua m��e. Voc�� quer que a gente

v�� embora.

Sinceramente, n��o sabia o que falar. Fiquei olhando

para as duas amigas, feito boba. At�� que Arlete falou:

��� Tenho uma id��ia, para ficarmos livres de nossos

pais.

��� E qual �� ? ��� Ivete e eu perguntamos numa s�� voz.

��� Vamos nos casar.

A gente arranja um homem e casa.

Ivete caiu na cama as gargalhadas.

��� Como �� divertido, disse engasgando-se no riso.

N��o �� coisa que se pode chamar de vulgar.

Casar... Casar e quem querer�� casar com tr��s me-

ninas furadas por todos os lados?

��� Voc�� se julga bem difamada, hem Ivete? ��� dis-

se-lhe Arlete. Todos os lados n��o. Eu s�� perdi a virgin-

dade.

Ivete continuou rindo.

��� Ent��o perdeu tudo. Voc�� n��o sabe, bobalhona,

que aqui no Brasil a virgindade �� considerada condi����o

essencial para o casamento? Os brasileiros n��o V��o se

preocupar se voc�� est�� furadinha em outras partes ou

��� 167 ���

se usou a boquinha para certas chupadinhas. O que eles

fazem quest��o �� do homem integral, querem que o seu

p��nis retinho seja o primeiro a abrir o conduto vaginal

da esposa. Se descobrir que o homem j�� se foi, apelam

para o C��digo Penal Brasileiro, que anula o casamento.

Ivete sentou-se na cama e ficou pensativa por um

momento e depois falou com o dedo em riste:

��� S�� se a gente for �� pol��cia e denunciar um cara

qualquer com quem a gente j�� andou. A��, se o infeliz

n��o casar, ter�� a pena de reclus��o, pois o nosso C��digo

tamb��m reza. ��� O rapaz que seduzir mulher virgem

com menos de dezoito anos, ter�� que cumprir de dois a

quatro anos de reclus��o e n��s tr��s fomos seduzidas com

menos de dezoito anos.

��� Mas ningu��m nos seduziu, ��� articulei s��ria ��� e

se voc��s querem saber a verdade, eu encontrei o homem

que ser�� meu marido.

As duas me olharam arregalando os olhos e Ivete

perguntou:

��� E o que ele acha de voc�� n��o ser mais virgem?

��� Bem. ��� falei sentando-me em uma cadeira e

cruzando as m��os no colo ��� ele acha que uma simples

membrana n��o ser�� impecilho para a estabilidade de

um casamento. Um homem arrebentado n��o poder�� in-

terferir num casal que possui equil��brio emocional, afi-

nidades sociais, culturais e religiosas...

Pela primeira vez em minha vida vi Ivete s��ria,

quando perguntou: ���

��� E quem �� esse cara t��o inteligente? N��o �� bra-

sileiro, n��?

��� Claro que �� brasileiro! Hoje em dia, nem todos

os homens brasileiros pensam que a integridade himenal

possa atestar a honestidade de uma esposa.

��� 168 ���

Ivete riu e brincou, mas eu sentia que tudo era

for��ado.

��� Eh! Eh! Bicho, voc�� �� legal! Onde aprendeu

todas essas coisas?

Rimos, pois ador��vamos g��ria que pouco us��vamos,

j�� que a juventude que frequent��vamos n��o era dada a

esse tipo carregado da guia.

��� Aprendi com Raul.

As duas se levantaram.

��� �� infernal! Ent��o �� o Raul? �� o que mais disse

esse fen��meno de brasileiro, a respeito de t��o importante

assunto? ��� Olhe, Regina, bote o Raul para pregar em

pra��a p��blica, assim esses ignorantes brasileiros v��o en-

tender que o buraco da frente pode estar tapado por

uma pl��stica e l�� no esp��rito a escolhida pode ser uma

vigarista. Dessas que casam virgens mas, depois de al-

gum tempo, descobrem que o padeiro ou o leiteiro tem

um neg��cio maior do que o marido, a�� o esposo adorado

vai trabalhar e o que tem a "coisa" grande deita no

calor de seu c o r p o . . .

��� Olhe, Ivete. Vamos falar de n��s. Eu acho que

Raul pensa muito bem. Ele esteve me explicando que,

hoje em dia, uma certa classe de homens brasileiros,

principalmente os que nunca tiveram um dist��rbio ps��-

quico, acham que o conceito de honra n��o se situa em

determinada parte de nosso organismo. Raul diz la-

mentar muito que o amor, que poder�� levar um casal a

amplos caminhos, fique condicionado a um pedacinho

de pele intacta.

Nesse instante mam��e entrou e olhando para Ivete

falou:

��� Seu pai a espera.

Ivete sentou-se na cama e, cruzando as pernas, sen-

tou-se s o b r e as mesmas, respondendo:

��� 169 ���

��� Diga ao "coroa" que estamos discutindo a virgin-

dade, esse velho tabu ultrapassado. Por isso, n��o posso

atend��-lo.

Mam��e ficou branca.

��� Vamos, seu pai est�� cansado.

O rosto de Ivete se cobriu de uma certa agonia

quando se levantou e disse baixinho:

��� Est�� bem, diga ao velho para esperar mais um

instantinho, que vou arrumar as malas.

Quando mam��e saiu, Ivete, abriu a sua gaveta, jo-

gou algumas roupas dentro de uma sacola. Parou e res-

pirou profundamente, depois falou:

��� Olhe Regina, eu n��o vou, nem se me cortarem

a cabe��a, para junto de meus pais. Me d�� algum di-

nheiro, eu vou para S��o Paulo.

Sa��mos pela porta da cozinha e descemos as escadas

correndo. Ta passando um rapaz de motocicleta e Ivete

pediu uma carona. Na garupa da moto, abra��ando o

corpo do jovem, com o rosto enterrado em suas costas,

foi a minha ��ltima vis��o de Ivete.

O pai de Ivete, tr��pego e vermelho, saiu do aparta-

mento para ir pedir provid��ncias �� pol��cia.

No dia seguinte acompanhei Arlete at�� ao aeroporto

do Gale��o. Ia para a casa de uma tia, no Rio Grande do

Sul.

* * *

��� 170 ���





Estou s��. Abro a porta do apartamento, mas um si-

l��ncio g��lido sobe pelas escadarias e me percorre inteiri-

nha. Fecho a porta novamente. Ando pela sala, entro

no quarto, saio, entro na cozinha, volto para a sala,

abro novamente a porta. O frio, o sil��ncio. Fecho a por-

ta. Vou at�� o telefone e quando o tiro do gancho e come��o

a discar o n��mero de Raul, ou��o algo estalar no meu

c��rebro.

��� N��o, Regina ��� voc�� prometeu que se vingaria.

Seus pais continuam desquitados. Coloque o fone no

gancho.

Virei para um lado, para outro lado e comecei a

girar como doida, no meio da sala, gritando:

��� Papai, mam��e, Raul, Ivete, A r l e t e . . .

S�� o sil��ncio o g��lido sil��ncio. Sil��ncio. Sil��ncio.

Estava s��.

��� 171 ���

Nos dias que se seguiram n��o atendi os telefone-

mas de Raul e tamb��m n��o sai do quarto, por mais que

mam��e insistisse, quando vinha dormir em casa.

Alguns dias depois, recebi uma carta de Ivete, que

dizia:

Regina, querida, cheguei ao inferno. S��o Paulo est��

uma verdadeira merda. Estou morando num pequeno

apartamento de quarto, pia e banheiro, na Regional da

S��. Regional da S�� quer dizer que moro no c��rculo cen-

tral, que inclui os seguintes bairros: S��, Santa Efigenia,

Bela Vista, Liberdade, Bom Retiro, Santa Cec��lia, Acli-

ma����o, Consola����o, Barra Funda, Br��s, Cambuci,

Mo��ca, Pari, Cerqueira Cesar. O meu apartamento fica

na Barra Funda. N��o sei se sobreviverei nesta monta-

nha de pedras. Aqui, vive-se sem o verde, sem alegria,

respirando quilos de polui����o. S��o Paulo �� a cidade

mais densamente povoada do pa��s. (Tudo o que estou

lhe contando foi-me explicado por uma pessoa que tra-

balha na prefeitura. Eu o conheci quando, desesperada,

procurava algum dinheiro para dar o fora. Por isso

aguento o p��o que o diabo amassou. Olhe s�� se n��o te-

nho raz��o de odiar esta Capital, escura e cinzenta.

Voc�� f�� pensou ter que lutar todo os dias com 200 mil

carros particulares que circulam pelo centro, do lado

de 7 mil ��nibus e uns 20 mil t��xis? Agora, fique no meio

de todos esses carros e olhe para o alto, pr��dios e mais

pr��dios. Sufoca. Agora, respire. Polui����o. Ou��a: o ba-

rulho quase arrebenta os t��mpanos. Onde se esconde o

sossego?

Juro que estou neur��tica. Mil e oitocentas tonela-

das de lixo s��o recolhidas por dia, por 201 servidores

que ocupam 63 caminh��es para atender a todo o cen-

tro de S��o Paulo. Voc�� viu em quanto lixo estou envol-

vida? E esses vinte e cinco km2 que s��o a Regional, s��o

divididos por mais de um milh��o de pessoas que, todos

os dias, circulam pelas vinte mil oficinas e ind��strias,

pela quarenta mil lojas e pelos incont��veis escrit��rios

��� 172 ���



que se localizam neste inferno de asfalto de paralele-

p��pedos, de escapamentos e de chamin��s donde sae essa

f��tida fuma��a cimenta que me afoga de minuto a mi-

nuto. Imagine, Regina, que aqui neste centro de S��o

Paulo, o homem vive verticalmente, pois, de tantos me-

tros, s�� sobram para cada pessoa quinze m2. Voc�� j��

pensou viver uma vida em quinze m2? Ent��o, querida

Regina, estou aqui cercada por todos os lados de fu-

ma��a, concreto, carros e pr��dios. Ah! ia me esquecendo.

Tamb��m tenho cento e quinze quil��metros de galerias

para passear. Nessa f��ria de tr��nsito e de tudo procuro

algo com que possa distrair os meus dezessete anos.

Aqui, a juventude pobre, n��o tem nada para passar o

tempo. A�� ela descamba para o negativo. Para encurtar

o tempo em que poderei, novamente, estar na querida

Guanabara, comprei um gravador e passo a gravar tudo

o que acontece. La vai uma novidade: vou trabalhar, con-

segui um emprego na Petrobr��s. Os escrit��rios de meu

futuro emprego ficam bem pertinho de onde moro, posso

ir a p��, num edif��cio de vinte e oito andares e fica na

Av. S��o Jo��o. O nome dele �� Andraus, mas todos os

chamam de Pr��dio da Pirani, pois as lojas da Pirani

ocupam tres andares desse pr��dio. Vou gravar o meu

primeiro dia de trabalho e lhe mandarei a fita. Saiba

que estou mima fossa infernal. Vejo tudo negro. Ah!

Regina, venha em meu socorro, n��o quero ficar aqui,

juro, juro que vejo tudo preto. Adeus.

IVETE

S��o Paulo 21/02/72

Quando acabei de ler a carta, fiquei olhando no in-

finito, e s�� via, l�� bem longe, a palavra Adeus

Adeus, mas Ivete disse que voltaria. Fiquei mor-

��� 173 ���

rendo de pena da minha amiga. Quando mam��e che-

gou, mostrei-lhe a carta.

��� Voc�� a mandou embora, n��, mam��e? Voc�� a jo-

gou nesse inferno que ela diz na carta.

��� Ora, Regina! Ivete est�� exagerando. Seu pai

adora S��o Paulo. Ele mora no Morumbi e nunca quis

trocar S��o Paulo pela Guanabara.

��� Mas ela mora no centro. Voc�� n��o v�� que ela

diz que est�� vivendo sufocada por tantos pr��dios?

Mam��e preparou duas bebidas. Deu-me uma e con-

tinuou: ��� N��o pense mais em Ivete. Ela, agora, vai tra-

balhar e ent��o dar�� valor ao dinheiro.

��� Mas ela est�� s��, s�� como eu, mam��e. E estan-

do s��, passam-se mil e uma coisas ruins em nossos c��re-

bros. Estou intrigada pelo que Ivete escreveu. Ela nunca

ficava na fossa, n��o estava sujeita ��s flutua����es de es-

tado de esp��rito e, contudo, essa carta demonstra pro-

funda depress��o. Geralmente, a m��goa de Ivete era mal-

dizer as bebedeiras dos pais. Tinha verdadeiro ��dio do

pai. Quando ela tinha onze anos o pai a chamou para

a sala de visitas. Estavam sozinhos em casa. Ivete sor-

rindo (naquele tempo adorava o pai) sentou-se ao seu

joelho e ele ent��o..

N��o tinha coragem de continuar. Mam��e, pas-

sou-me a m��o pelos cabelos. Continuem Regina, quem

sabe se, ouvindo tudo, poderemos fazer alguma coisa por

ela. Talvez possamos convid��-la para morar conosco.

��� Oh, mam��e, ser�� infernal, maravilhosamente in-

fernal. A�� criei coragem e continuei, pensando j�� na vin-

da de Ivete.

��� Bem, mam��e, a m��e de Ivete bebia e jogava mui-

to, deixando-a sempre com o pai, que come��ou a lhe en-

sinar coisas sobre o sexo. Ela, nas noites em que a m��e

��� 174 ���

jogava, ia para a cama dos pais, pois tinha medo de dor-

mir sozinha. Foi a�� que ele come��ou a fazer-lhe ver que

j�� estava ficando mocinha. E lhe dizia:

��� Olhe, minha filhinha, esses carocinhos a�� v��o

crescer e formar dois grandes seios. Voc�� quer os seios

bem grandes, como a Gina Lolobrigida, n��o quer?

��� Quero.

��� Ent��o para isso �� preciso que o papai os chupe

muito.

A boca de seu pai, sugando os carocinhos duros,

traziam lagrimas doloridas mas o pai n��o se importa-

va e tentava ainda for��ar o p��nis em seu sexo.

Uma noite quando o pai a chamou, ela j�� apren-

dera coisas do sexo com as amiguinhas de col��gio, cho-

rando gritou:

��� Papai eu quero ficar virgem at�� casar.

Meu pai olhou-a, admirado:

��� Quem est�� lhe ensinando coisas depravadas? J��

sei, �� nesse maldito col��gio, juro que voc�� n��o ir�� mais

frequent��-lo. Agora, venha c��!

��� N��o vou!

Ele a encarou com a boca meio aberta e com os

olhos desmesuradamente abertos, desprovidos de emo����o

veio em sua dire����o.

Recuou morrendo de medo. O pai confiava todo o

seu corpo, encolhida em seus bra��os, quando trovoava,

ou quando sentia medo do escuro. Sentia na parede ��s

suas costas. Ele agarrou-a jogou-a de bru��os no sof��.

Sentiu suas m��os, as m��os que ela beijava dizendo sor-

rindo. ��� A ben����o, papai. Agora, elas lhe arrancavam

a calcinha e sentia todo peso de seus corpo e alguma

coisa dura sendo enfiada em meu ��nus. At�� hoje n��o

esque��o, como tudo era dolorido estranho e forte, aque-

le pesado corpo sobre meu pr��prio corpo a domina-lo.

Senti o p��nis do papai amolecer e sair de dentro de mim.

Quando ele se levantou, rapidamente ficou de p�� no sof��

e suas m��os voaram para a garganta do pai e algo mui-

��� 175 ���

to profundo gritou dentro de si, que ela devia destrui-lo.

Papai se afastou, mas eu continuei pendurada, e

n��o largava a sua garganta. Mordia-o e o arranhava,

at�� que despenquei e cai no ch��o chorando gritei: ���

��� Eu queria ser virgem!

Ele cinicamente respondeu: ��� Eu te deixei virgem

me abandonou e foi e m b o r a . . .

O pai viajou por dois anos. Ivete come��ou a odia-lo

e como a m��e bebia muito, n��o teve a quem se queixar.

Aquilo queimava como brasa dentro dela e ent��o resol-

veu contar a algu��m.

Mam��e mudou de posi����o na poltrona e disse sem

grande emo����o:

��� Bem, o pai de Ivete ergueu um muro ao redor

dela, mas voc�� n��o tem nada com isso. ��� Ivete n��o ��

problema seu.

��� Mas, mam��e, ela precisa de algu��m, voc�� n��o

pode ficar indiferente, Ivete est�� profundamente abala-

da. Devemos traz��-la de volta.

��� N��o, Regina. Gra��as a Deus, ela se foram. Sua

vida agora, ser�� infinitamente mais f��cil. Vamos, Re-

gina, de-me o seu copo para eu encher. Vamos brindar

o emprego de Ivete e nossa independ��ncia dom��stica.

Eu estou determinada a lhe dar uma nova vida.

Olhei para mam��e com o cora����o cheio de espe-

ran��a .

Voltar�� para papai?

Mam��e voltou-se r��pida.

��� N��o tenho a menor vontade de voltar para seu

pai. Nossa uni��o n��o leva a coisa alguma. Nossa vi-

da ser�� sempre uma eterna discuss��o. A nova vida

de que lhe falo �� sobre um contrato que terei com uma

TV. Isto n��o �� ilus��o, ou sonho apenas, como aquelas

est��rias inventadas por produtores sem escr��pulos.

Com esse diretor j�� trabalhei. Ele sabe do que sou

capaz, profissionalmente. Juro que chegou a oportuni-

��� 176 ���

dade que estava esperando. Irei ganhar muito dinheiro.

Voc�� ir�� estudar. Eu trabalharei para voc�� n��o preci-

sar lutar a murros para abrir um caminho neste mundo

cheio de obst��culos.

��� Oh, mam��e, �� tudo maravilhoso! Mas n��o sei

por que, sinto que existe na minha frente um imenso

muro cinzento. Parece-me o fim de tudo o que eu so-

nhava. Parece o fim de meus dezessete anos.

��� Ora, querida, isso �� depress��o pelas f��teis ten-

tativas de voc��s quererem transformar-se em adultos.

As menininhas de hoje s��o umas bobinhas em que-

rer governar suas vidas sem o aux��lio dos p a i s . . .

��� Pais???

��� J�� sei, Regina. Vamos, vamos, telefone para um

de seus amiguinhos e v�� se distvair um pouco.

��� N��o, mam��e, n��o tenho a m��nima vontade.

��� N��o vai continuar nesse confinamento de quar-

to, vai?

��� N��o sei. Por favor, deixe-me s��.

��� 177 ���



XIII

D�� uma chupadinha!

O tempo mudou muito nos dias que se seguiram.

Chovia ��� e fazia muito frio. A praia estava sempre

encoberta por uma n��voa branca e infernal. Eu ficava

bebendo e fumando, trancada em meu quarto. S�� saia

para as refei����es. N��o sei quantos dias se passaram at��

ouvir a voz da empregada.

��� Dona Regina, uma encomenda de S��o Paulo.

Pulei da cama e corri para a porta, abrindo-a de

sopet��o. Junto da empregada estava um homem. 0lhei-o,

interrogativamente.

��� Sou da pol��cia. Gostaria de falar com sua m��e.

Senti meus olhos alargarem-se e perguntei com voz

tr��mula:

��� A c o n t e c e u . . . aconteceu alguma coisa a Ivete?

Meus olhos arregalados devem t��-lo assustado.

��� N��o, menina. Por favor, onde posso encontrar

seu pai ou sua m��e?

��� 179 ���



��� Mam��e est�� na TV.

A��, dei-lhe o endere��o.

O homem entregou-me um pacote e a carta que es-

tava enfiada no barbante, ele a guardou no bolso, di-

zendo :

��� A carta �� para sua m��e.

N��o quis nem saber, corri para o quarto e arran-

quei o barbante. Era uma fita T.D.K. ��� Cassete C-60,

que Ivete prometera mandar-me.

Corri, abri o guarda-roupa e peguei o meu gravador.

A fita adaptava-se perfeitamente.

Avisei a empregada que em hip��tese nenhuma me

perturbasse.

��� Mas, se sua m��e chegar?

��� J�� disse que ningu��m deve incomodar-me. Nin-

gu��m, ouviu? Bati a porta e dei duas voltas na fecha-

dura, deitei-me, acionei o bot��o do gravador e a voz de

Ivete encheu o quarto:

��� Oi, Regina. Como lhe prometi, aqui estou. Vou

contar pra voc��, tim-tim-por-tim-tim, como ser�� o meu

dia de hoje. Espere, deixe ver na folhinha que dia ��. Dia

vinte e quatro de fevereiro, quinta-feira, meu primeiro

dia de trabalho. Bem, eu estou sentada na cama metida

em um roup��o vermelho. J�� tomei o meu caf�� e agora

acendo um cigarro e vou at�� a janela e abro a cortina

para ver como est�� o dia que ser�� o meu primeiro dia

de trabalho.

O c��u azul e um c��lido sol, cobrindo todo esse monte

de cimento e pedras que odeio. Sei que voc�� conhece

tudo isso e me parece que gosta desse tremendo S��o

Paulo que, com seus afiados dentes de pr��dios desiguais,

vai triturando a gente. Hoje estou mais enojada de to-

da essa esfuma��ante cidade e dos homens que ela abriga

nos seus bra��os horrorosos, de elevados enervantes.

Sabe porque digo isso? L�� vai! Todos os homens

que conheci, intimamente, querem ser chupados. Logo

que voc�� aceita uma carona, o filho da puta tira o "ne-

g��cio" para fora e quando chega num lugar mais ou

menos deserto, puxa a cabe��a da gente para baixo e im-

plora .

Quem est�� com essa mania �� o homem que paga o

aluguel desta espelunca onde moro. Essa noite foi hor-

r��vel. Ele me obrigou a ficar com o seu p��nis, horas, na

boca. Voc�� sabe que eu n��o sou do tipo dom��stico mas

tamb��m n��o topo certas coisas. O que se passou essa

noite me deixou super deprimida. Juro que farei qual-

quer coisa para n��o voltar mais para este apartamento.

Ainda n��o sei o que ser��, mas algo ter�� que acontecer.

Ainda estou confusa e um solu��o aperta a minha gar-

ganta. H�� ru��dos que um gravador n��o grava, sen��o ou-

viria quantos gemidos tristes saem de meu cora����o.

S��o sete horas, tenho que entrar no servi��o ��s oito, por

isso, visto o meu micho vestido vermelho, cal��o sapatos

bem altos, tipo Carmem Miranda, tamb��m vermelhos,

apanho minha bolsa tiracolo e saio para o meu primeiro

trabalho.

J�� estou na rua. Homens mal vestidos, p��lidos e

desnutridos, cruzam a todo instante, o meu caminho.

S��o os oper��rios paulistas. Quase todos levam na m��o

um embrulhinho, que se percebe logo que �� a marmita,

onde est�� o magro almo��o.

Voc�� est�� vendo como j�� entendo de pobreza. Bem,

na Av. S��o Jo��o, avisto o grande bloco de cimento ar-

mado: �� o Edif��cio Andraus, mas que vou chamar de

pr��dio da Pirani como todo mundo, pois nos seus tr��s

primeiros andares, est��o as lojas Pirani. Entro no pr��-

dio pela Av. S��o Jo��o e me encontro no meio de mil e

um objetos que, logicamente, s��o da Pirani.

��� 181 ���

Os rapazes e as mo��as, alegres e risonhos, conversam

animados, pois ainda n��o �� hora de pegar no "batente".

Entro no elevador e digo:

��� Petrobr��s.

Entro nos grandes escrit��rios, vejo um monte de

gente jovem, alegre e os olhos dos jovens homens se vol-

tam para minhas pernas e um assovio coletivo corta os

ares, trazendo um sorriso espont��neo nos l��bios bem

pintados da jovem que me dirige a palavra.

��� As suas ordens.

��� Por favor, gostaria de falar com o Sr. Gedeon

Coutinho.

A mo��a olhou para o gravador.

��� Voc�� �� rep��rter?

��� N��o.

��� Ent��o, para que est�� gravando?

��� Por ser o meu primeiro dia de trabalho.

��� Mas isso n��o �� novidade para ningu��m. Todo

mundo trabalha.

��� N��o, os milion��rios.

Ela sorriu e me olhou com ar divertido.

��� Ah! Ent��o voc�� �� milion��ria?

��� Est�� vendo. At�� voc�� est�� admirada.

Tamb��m para mim �� um dia todo especial. Tra-

balho!

��� Voc�� acha que haver�� algum inconveniente em

eu estar gravando?

��� Bem, aqui nunca aconteceu. Mas acho que nin-

gu��m vai bronquear. A Petrobr��s entende a juventude!

Um momentinho vou ligar para o Sr. Coutinho.

��� 1 8 2 ���

O Sr. Gedeon �� muito legal. Jovem, bonito e sim-

p��tico .

Sua voz �� suave, voc�� n��o acha, hem Regina?

��� Quantos anos voc�� tem?

��� Dezessete.

��� �� datilografa?

��� N��o.

��� Fala ingl��s?

��� N��o.

��� Franc��s?

��� N��o.

��� Arquivista?

��� N��o.

Ele co��a o queixo.

��� O que voc�� sabe fazer. E o que pode mostrar ao

seu favor.

��� Estudei no melhor, no mais caro col��gio daqui.

��� Isso n��o diz nada, Ivete.

��� Sou milion��ria.

��� Milion��ria???

��� Meus pais.

��� Porque n��o volta para eles?

��� Odeio-os.

��� Jogatina, ��lcool, viagens e . . . bem.

��� 183 ���



��� Bem?

��� Havia muita falta de carinho e compreens��o.

��� Mas voc�� �� rica. Trabalhando aqui tira o em-

prego de outra que tenha maior necessidade.

��� Por favor, d��-me o emprego. N��o quero mais

ficar nesta sociedade onde corre o dinheiro. Dentro dela

a gente �� um cat��logo para festas e reuni��es. Eu quero

trabalhar. Por favor Sr. Coutinho.

��� Est�� bem. Voc�� ser�� minha secret��ria. Pegue

aquela m��quina e fique treinando. Olhe ��� disse sorrin-

do de dedo em riste ��� mas para trabalhar �� preciso des-

ligar o gravador.

Bem, Regina, mais tarde conversaremos. S��o exa-

tamente nove horas, vou come��ar a "catar milho".

Al��, Regina. Pratiquei, �� m��quina, a manh�� inteiri-

nha e j�� estou escrevendo muito bem. Mas sinceramen-

te, ficar trancada o dia todo no d��cimo segundo andar

de um edif��cio, n��o est�� pr�� mim. �� muito mon��tono,

ou melhor, �� horr��vel, sabendo-se que existe uma Copa-

cabana. J�� s��o tr��s e meia e s�� ou��o o barulho do tic-

tac da m��quina. N��o sei o que est�� se passando comigo:

olho. olho o rel��gio como se algo muito grave possa

acontecer. Ora, devem ser os nervos, eles devem estar

agitados, porque est�� chegando a hora de sair e eu n��o

sei para onde ir. Jurei de p��s juntos que para o apar-

tamento n��o voltarei mais. Agora est��o faltando cinco

minutos para as quatro.

��� Fogo, pessoal. Corram! O edif��cio est�� pegando

fogo!

Voc�� ouviu Regina, um jovem pois a cabe��a na

porta e disse que esse bloco de cimento armado com

��� 184 ���

vinte e oito andares, que fica no cora����o de S��o Paulo

est�� pegando fogo. N��o �� para rir. Se f o s s e . . .

Mas, minha Nossa Senhora da Aparecida, �� fogo

mesmo. Ou��o medonhos gritos de angustia. Seguro o

gravador, penduro a minha bolsa no pesco��o e estou cor-

rendo para algum lugar. Chego no corredor e estou en-

volta numa imensa fuma��a negra que me tapa a vis��o.

O calor est�� horr��vel. Sinto o vestido pregar no corpo,

pois todo ele �� um rio de suor. Estou sendo empurrada

de um lado para o outro. Desculpa e a tosse. Regina.

Regina, �� medonho! De todos os lados v��m gritos de so-

corro e de medo. Agora posso ver um homem com o pa-

vor estampado no rosto, onde sobressaem olhos esbuga-

lhados, com as roupas encarcadas, segurando uma man-

gueira contra inc��ndio e faz com que jatos de ��gua nos

alcancem para nos refrescar e aliviar a fuma��a que est��

nos sufocando. Algu��m est�� gritando para ele:

��� N��o adianta essa mangueira contra o inferno

Sr. Gilberto Epting, o pr��dio todo est�� em chamas. J��

morreu muita gente, vamos subir, corra! Venha tamb��m

mocinha.

��� Meu nome �� Ivete.

��� Ent��o corra Ivete!

��� Correr como? Essa gente em desespero �� capaz

de nos esmagar.

��� Esmagada, queimada ou sufocada, vamos subir

para a ��rea, l�� no ��ltimo andar.

Estou subindo as escadas sem mesmo pisar no ch��o,

arrastada por um monte de gente que grita chamando

os nomes dos mais variados Santos. Piso em coisas

moles que sei que �� gente que desmaiou e ficou massa-

crada no caminho. Estamos diante de uma porta preta

fechada.

Centenas de olhos esbugalhados olham para tr��s,

o fogo. Estamos encurralados pelas terr��veis chamas.

��� 185 ���



De repente, um mundo de m��os aparecem e num es-

for��o tremendo conseguem arrombar a porta. Como um

estouro de gado, a ��rea que �� um heliporto, �� invadida

por umas quinhentas pessoas. O heliporto �� todo cer-

cado por um murinho baixo da altura de meus joelhos.

Olho para baixo a Av. S��o Jo��o, milhares de pessoas,

homens, mulheres e crian��as, ajoelhadas em redor do

grande edif��cio, est��o rezando e pedindo a Deus a nos-

sa salva����o, pois todo o pr��dio, olhando aqui de cima,

desgra��adamente, se transformou numa verdadeira e

medonha tocha de cimento armado.

Um homem que est�� junto de mim, que vim a sa-

ber e engenheiro da Siemens do Brasil, est�� dizendo

que estamos sem sorte. O vento est�� soprando em di-

re����o sul-norte, �� o grande e impiedoso propulsio-

nador do fogo que teve in��cio (soubemos por um dos

jovens que �� funcion��rio da "Pirani"), na sec����o de apa-

relhos eletr��nicos. Disse ele, que, em pouco menos de

dez minutos, o fogo tomou os cinco primeiros andares

e, dali para cima, tudo ardeu em fra����es de segundos.

Olho l�� para baixo e vejo enormes labaredas que o

vento faz sair pelas janelas, como horrendas serpentes

amarelas que penetram nos andares de cima devoran-

do tudo. Se enroscando no pr��dio, a serpente est�� su-

bindo. Mais alguns andares e ela estar�� dando voltas

no heliporto onde estamos encurralados. A porta onde

entramos na ��rea est�� trancada e ouvimos batidas de

dezenas de m��os e gritos de vozes sufocadas pedindo

socorro. Mas a porta n��o pode ser aberta, pois dois sar-

gentos da Pol��cia Militar n��o permitem, pois o acu-

mulo de pessoas poder�� impedir a descida dos helic��p-

teros. Esses militares acabam de se atirar de uns tr��s

metros de altura, de um dos muitos helic��pteros que

sobrevoam o heliporto. Vieram ajudar, porque tal �� o

p��nico dos que est��o aqui, que, se o aparelho pousar, cor-

re o risco de ser invadido, virado e at�� pode explodir.

N��s estamos rodeando o sargento que diz chamar-se

Serafim, e pertencer �� Companhia de Opera����es Espe-

ciais. Mesmo preparado para qualquer surpresa, trei-

nado em contraguerrilhas, sobreviv��ncia na selva, pi-

loto e paraquedista, o sargento Serafim parece trau-

matizado com este ch��o escaldante que torra homens,

mulheres e crian��as que se rasgam e ficam n��s para

amenizar um pouco o calor que �� infernal. Todos, como

animais ferozes, pedem ao sargento para salv��-los. Da-

qui a pouco essas pessoas apavoradas s��o capazes de

enlouquecer. Agora mesmo, um homem sobe na amu-

rada, pega um fio e, apesar do esfor��o de todos n��s, ele

largou o corpo e est�� dependurado uns quatro metros

abaixo da ��rea. Oh! Deus! ��� grita. O fio �� curto. Ele ago-

ra, com os olhos esbugalhados, tenta subir pelo fio. ��� Me

ajude pessoal, puxem o fio! Dezenas de m��os est��o

tentando al����-lo, mas suas m��os est��o se desprenden-

do e o corpo se faz no espa��o. Todos, tanto aqui do

heliporto como l�� em baixo, soltam horr��veis gritos de

desespero. Eu senti o seu corpo que se esborrachou no

terra��o do pr��dio vizinho que �� bem mais baixo do que

o que est�� em chamas. Agora as labaredas est��o apa-

recendo, est��o no andar de baixo da ��rea e saem t��o

altas que cobrem quase todo o lado direito do heli-

porto. N��s corremos todos para o lado esquerdo. De

repente o vento joga-as para onde estamos e, em p��-

nico e aos gritos, corremos para o outro lado. Um ra-

paz grita: ��� "N��o aguento mais!" Sobe na amurada e

m��os se erguem para segur��-lo, mas ele se perde no

espa��o, caindo no mesmo lugar que o seu companhei-

ro de infort��nio. N��s tamb��m estamos tr��mulas e de-

sesperadas, pois n��o sabemos se vamos sair daqui com

vida. Nuvens de fuma��a negra cobrem, sufocando-nos.

Gritos dos que est��o fechados l�� dentro, o calor do fogo

ferindo e fazendo desmaiar muitos dos que me ro-

deiam . Mais um jovem salta para a morte e vai reunir-

se aos dois primeiros, no edif��cio da Rua Pedro Am��-

rico. Perto de mim est�� uma jovem gritando de dor,

pois uma gigantesca labareda que acaba de passar le-

��� 1 8 7 ���

vada pelo vento, deixou um bafo t��o quente que arran-

cou toda a pele da perna e do bra��o dela, que est��o em

carne viva, ficando logo assustadoramente inchados.

J�� s��o dezoito horas e os helic��pteros continuam

tentando descer, mas parece que eles est��o temendo o

desabamento do pr��dio. Se o pr��dio desabar morrer��o

mais de mil pessoas, pois entre n��s que estamos aqui

no heliporto e os que est��o l�� dentro, calcula-se esse

n��mero. Estamos ouvindo pelo r��dio que o Governa-

dor de S��o Paulo, Sr. Laudo Natel, est�� autorizando a

mobiliza����o de todas as ambul��ncias estaduais, para

que possam socorrer as v��timas do inc��ndio. Tam-

b��m ouvimos o diretor do Pronto-Socorro do Hospital

das Cl��nicas, Sr. Valdomiro de Paula, que mais de trin-

ta m��dicos, anestesistas e enfermeiros est��o de pronti-

d��o para atender os atingidos pelas chamas. Est��o pre-

paradas camas, macas, nos p��tios do hospital e filas

de doadores de sangue se fazem presentes. Agora, Regina

um helic��ptero tenta pousar no meio da mais negra

fuma��a, mas uma dezena de pessoas corre pisando nos

que est��o desmaiados para serem as primeiras a salvar-

se. Mas o helic��ptero sobe novamente. O sargento Se-

rafim, pede calma dizendo que o salvamento s�� ser��

poss��vel se todos tiverem calma e sangue-frio. O sar-

gento quer dominar o p��nico e grita:

��� Pessoal! Senta! Senta! Senta!

Todos, como d��ceis crian��as, sentam no ch��o, que

est�� em brasa.

��� Levanta! Levanta! Levanta!

Todos se levantam.

Assim o sargento Serafim prepara a sinaliza����o

para o primeiro pouso.

Sinto-me como num manic��mio.

O sargento gritando:

��� 188 ���

��� Senta! Levanta!:

Estouros de vidros quebrados, pessoas esmurran-

do a porta para entrar, os helic��pteros sobrevoan-

do sem poder pousar, pessoas rasgando as roupas,

outras queimadas soltando urros de dor, outras des-

maiadas e outras se atirando no espa��o. Agora o sar-

gento Cassariga pede a alguns rapazes para colabo-

rarem.

��� Voc��s que est��o bonzinhos, ajudem aqui, a gente!

Fazem um cord��o de isolamento, para a descida

do primeiro helic��ptero que surge, envolto em uma nu-

vem de fuma��a, e tenta o pouso. Mas o povo invade a

pista e ele al��a v��o, novamente. Apesar disso, quatro

pessoas conseguem pular a bordo, tendo uma se agar-

rado no esqui no aparelho e com grande esfor��o �� pu-

xada para seu interior.

��� O resgate come��a muito mal, grita o Capit��o

Caldas, (outro militar que pulou de um helic��ptero

para manter a ordem). ��� Tudo fracassar�� se houver

novas invas��es. Vou pedir refor��os, outro tumulto e

estaremos perdidos.

��� Perdidos porque, Capit��o? ��� falou uma jovem,

chorando:

��� Ent��o o pr��dio pode desabar?

��� Vai desabar! Vai desabar! gritava a multid��o

hist��rica.

��� Calma! calma! ��� O pr��dio n��o desabar��. Eu e

os dois sargentos estamos aqui, n��o �� verdade?

E n t �� o . . . ��� Olhe, vamos mantendo a ordem, est�� che-

gando outro helic��ptero.

O aparelho pousou e as pessoas invadiram-no em

grande tumulto, mas tiveram que descer �� for��a, pois

a ordem era de que, em primeiro lugar, fossem embar-

cadas as pessoas desmaiadas.

��� 189 ���

Foi, requisitado socorro m��dico urgente, pois o n��-

mero de queimados pelo morma��o era cada vez maior.

Agora est�� chegando um outro helic��ptero, de onde

descem oito m��dicos, trazendo apenas o equipamento es-

sencial e muito leite, que me obrigam a tomar dizen-

do que �� bom para combater a intoxica����o da fuma��a.

Mas o engra��ado �� que ningu��m quer beber o leite.

Apanham o saquinho e despejam no rosto, bra��o, per-

nas, enfim, banham-se com ele.

O salvamento est�� sendo feito normalmente. J�� s��o

poucas as pessoas para serem levadas, por isso o sar-

gento Serafim manda que se abra a porta do terra��o.

Estou bem em frente a porta aberta. O espet��culo ��

horr��vel. H�� gente caida por toda a escadaria. Muitos

gemidos e pedidos de ��gua.

Agora, Regina, ou��a a voz desse bravo sargento Cas-

sariga.

��� Gente, voc��s est��o salvos, mas precisam colabo-

rar. Vamos subir devagar, com muito cuidado. N��o

podemos carregar todos de uma vez. �� preciso or-

dem. Calma.

Os sargentos descem a escada devagarinho para n��o

pisar nas pessoas amontoadas e desmaiadas. Algumas

pessoas, horrivelmente queimadas, rastejam escada aci-

ma. Uma mo��a, trazida nos bra��os pelo sargento Cassa-

riga, o agarra e, beijando-o, grita:

��� Voc�� me salvou! Voc�� me salvou!

O sargento chora.

Por toda a escadaria dos ��ltimos andares, as cenas

s��o as mesmas.

Agora, o sargento Serafim faz a respira����o boca-a-

boca, num homem desmaiado, enquanto o sargento

Cassariga massageia-lhe o peito.

��� 190 ���

O homem volta a s�� e �� levado para cima. A essa al-

tura j�� �� noite fechada. O sargento escreve um D (des-

cida) no ch��o, para orientar o pouso. Pede lanterna e

o pr��ximo helic��ptero traz umas quarenta.

Muitas pessoas simulam ferimentos para serem co-

locados na turma de prioridade. O maior medo de todos

�� que o pr��dio desabe.

O horrendo crepitar do fogo continua, agora subin-

do e entrando pela porta aberta do terra��o.

Uma chama enorme passa por perto queimando-me

as pernas que est��o em carne-viva, ardendo infernal-

mente. Levanto o bra��o, para me defender de outra la-

bareda e a mesma fica sem pele. Olhe, Regina, n��o sei

se esse gravador chegar�� at�� voc��. Escute, estou dando

o seu endere��o. Se algu��m achar esse gravador, pe��o en-

tregar a Regina de Albuquerque, A v . . . n . �� . . . arjt.��...

Guanabara.

Por um momento pensei que ia desmaiar, a fuma-

��a e o calor est��o aumentando. Penso estar com qua-

renta graus de febre. H�� muitos feridos na minha fren-

te para entrar no helic��ptero.

Uma menina, perto de mim, grita, chamando o pai.

Come��o a ter uma sensa����o de frio e forte sonol��n-

cia. A menina continua gritando pelo pai. Quero me

afastar dela e ando para a porta do terra��o que pare-

ce uma enorme boca escancarada, vomitando fogo. Olho

para tr��s e a menina chora, a menina est�� num imenso

espa��o vazio. A menina est�� falando e dela sai a mi-

nha voz gritando:

��� N��o papai! N��o papai!

Estou ca��da e sinto o peso de meu pai, o p��nis de

meu pai entrando em mim. Meu corpo treme. Aperto a

cabe��a.

A porta est�� a um passo envolta em fogo.

��� 1 9 1 ���

Ou��o, ainda, a menina chamar pelo pai, os feridos

gemendo, o povo gritando, os helic��pteros sumindo a fu-

ma��a me sufocando e o fogo cresce na minha frente, me

mostrando essa enorme cidade feita s�� de ferro, cimen-

to e pedras. O f o g o . . .

Onde estou? Meu corpo, �� uma chaga. Como doi!

Dou mais um passo em dire����o ao fogo.

Eu n��o quero voltar para o apartamento. O ho-

mem fez com que eu chupasse a noite toda. Minha boca

doi. O fogo est�� a um passo. Minha fam��lia, onde est��?

Meu pai em cima de mim!

Mais um passo.

O fogo. O fogo. O f o g o . . .

��� 192 ���





Fiquei olhando para o gravador, estupificada, n��o

sei quanto tempo. Subitamente, sa�� correndo, batendo

todas as portas e me vi frente a mam��e que saia do ele-

vador e, me vendo transfigurada, abra��a-me.

A��, chorei, histericamente gritando:

��� Mam��e, quero ir para S��o Paulo, Ivete deve estar

ferida, queimada.

��� Ivete, morreu, Regina!

Olhei para mam��e, com os olhos esbugalhados, e

balbuciei.

��� Mor-re-e-e-e-u?

��� Queimada. No grande inc��ndio do pr��dio da Pi-

rani. Na televis��o, um policial me procurou e me en-

tregou uma carta revelando o encontro do cad��ver de

Ivete, totalmente carbonizado.

Ivete se suicidou.



XIV

Juventude... P a r e . . .

As ondas n��o cessam de ir e vir, ainda sujas pela tor-

rencial chuva que caira durante a noite. O c��u parece

lavado do grande calor que abrasou a Guanabara. Estou

deitada na praia sentindo a umidade penetrar no meu

corpo. A praia est�� deserta. Contemplando-a, vejo que

ela me faz lembrar muito de Ivete e consegue, realmen-

te, me fazer acreditar que aquele belo e jovem corpo ��

um peda��o de qualquer coisa calcinada. A��, debru��o-me

na areia e choro hist��ricamente. Ivete. Ivete agora �� um

peda��o de carv��o, jogada n��o sei onde. Tudo estava em

peda��os. Mam��e passa as noites com homens da novela

e pouco aparece em casa. Papai iniciou uma viagem

pelo mundo onde participar�� de v��rias confer��ncias so-

bre o transplante de cora����o.

R a u l . . . Raul. Onde est�� Raul? N��o consigo v��-lo.

Levantei-me sacudi a areia dos cabelos e enchuguei os

olhos com as costas da m��o. Olhei para o mar. O mar

que tanto Ivete e eu adorava-mos estava melanc��lico e

parecia-me cada minuto mais l��gubre e as ondes que

tantas vezes pulava-mos as gargalhadas formavam fi-

guras fant��sticas ornadas de sinistras aur��olas que me

chamavam para seus bra��os deformados. Comecei a an-

dar para elas cambaleante como se estivesse b��bada.

��� 195 ���

De repente flutuando em cima de uma grande onda

Ivete com os bra��os estendidos sorrindo para mim.

Chamei-a aos gritos, mas e la virou-se e subindo e

descendo conforme o movimento das ondas fugiu de

mim se perdendo na bruma, seca que come��ava a cobrir

o mar. Pensei que estivesse ficando louca, sentia mes-

mo que tinha avan��ado um pouco al��m do limite que

separa a raz��o da dem��ncia.

J��. me via num hosp��cio naquela vida de pavorosa

monotonia. Comecei a tremer e sentir a garganta quei-

mar como fogo. A ��gua chegava aos meus joelhos. Mi-

nhas pernas estavam bambas e era com enorme sacri-

f��cio que conseguia empurrar a ��gua para mais um

passo.

Aonde estava indo?

A h ! J�� me lembrava. Procurava chegar at�� onde

Ivete estava. Ela tinha desaparecido ali, ali adiante.

Agora a ��gua se enroscava a minha cintura como

uma serpente que se retorcia e estendia a l��ngua ver-

melha, mostrando os dentes num macabro sorriso. Sen-

ti que meu cora����o acelerava e eu tremia de medo. Ive-

te, gritei chorando. Ivete:

A ��gua j�� alcan��ava os meus ombros. Minha cabe-

��a doia horrivelmente.

Eu sabia que a morte tinha o comprimento de um

palmo, e poderia cobrir num segundo a minha cabe��a.

Mas n��o retrocedi um passo. Meus olhos vagaram por

todos os lados. Estava s��, castigada pelo vento que co-

me��ara furioso levantando meus cabelos pelo ar e sen-

tia que as minhas palavras eram som, palavras que s��

Ivete podia ouvir.

��� Porque corremos tanto? Porque n��o aceitamos

a juventude nos dar, o que oferece a todos os jovens de

mente sadia? E. Corremos. Corremos muito. E o fim do

��� 196 ���



caminho �� um imenso espa��o angustiante e negro onde

estou entrando.

Acabou de ler?

Que far�� agora?

Est�� deprimido?

Eu s a b i a . . .

Fa��a como eu.

Diga para a juventude:

Jovem, n��o corra tanto. N��o entre no mundo do

adulto sem chegar a sua vez. Pise nos seus anos, pas-

so a passo, sem sair um pouquinho do caminho limpo

da lei. Juro, que, assim, voc�� n��o encontrar�� aquele bu-

raco negro, fundo e vazio que nos mostra ADELAIDE

CARRARO.

��� 197 ���

tos criticar��o esse livro.

Mas, intimamente, acei-

tar��o, gostar��o e ir��o de-

vorar at�� a ��ltima pala-

vra com sofreguid��o; por

tratar-se de verdades, que

desejamos, e necessita-





mos conhecer.


Era preciso que surgis-


se ADELAIDE CARRA-

RO, esta mulher extraor-

din��ria, que profunda-

mente sens��vel aos pro-

blemas alheios, atira-se

contra tudo, e contra

todos na defesa dos me-

nos protegidos da sorte,

com a ��nica arma que se

faz mister, e sabe usar:

"A Pena" a arranc��ndo-

nos dos olhos, a venda,





que nos impossibilita de


ver nos bastidores da so-


ciedade toda sua imund��-

cie!

Mas, n��o" se escandali-





zem.


�� o s��culo XX, em toda

plenitude. �� a b��blia, com

suas predi����es c r i s t �� s ,

desfolhando-se em sua

��poca exata.







---------- Forwarded message ---------
De: Bons Amigos lançamento





O Grupo Bons Amigos  tem a satisfação de lançar hoje mais um livro digital para atender aos deficientes visuais 

Escuridão - Adelaide Carraro

 Livro doado por Leandro e digitalizado por Fernando Santos

Sinopse:
Conta a história de três meninas  que percorrem o caminho da.....
Sobre a autora:  
BIOGRAFIA: 
 Adelaide Carraro (30 de julho de 1936 - São Paulo, 8 de janeiro de 1992) foi uma escritora  brasileira de sucesso no século passado.

Ficou órfã aos quatro anos e foi viver em um orfanato na cidade

de Vinhedo em São Paulo.

Seu primeiro texto que chegou ao conhecimento público foi a crônica Mãe, que lhe rendeu um prêmio aos treze anos de idade.Nunca se casou, mas adotou 2 crianças.


Sua obra:

Adelaide Carraro deixou uma obra bastante extensa, com mais de quarenta edições, tendo mais de dois milhões de exemplares vendidos, entre eles O estudanteO estudante IIO Estudante IIIMeu professor, meu herói e Eu e o governador. Este último é o seu texto mais polêmico, referente à descrição de um suposto romance com Jânio Quadros em seu período como governador de São Paulo. Outro livro polêmico da autora é "O Passado Ainda Dói", cujo tema é sua breve passagem como repórter da TV S, de São Paulo, emissora do SBT. Adelaide Carraro faleceu aos 55 anos de idade, vítima de câncer, e deixou como legado, 46 livros publicados.

Seus livros foram lançados pelas editoras Livraria Exposição do Livro, L'Oren, Global, Gama e Farma Livros. Sua grande rival, no mundo literário, era a escritora Cassandra Rios, cujos livros eram publicados pela Editora Record.

Fonte

https://pt.wikipedia.org/wiki/Adelaide_Carraro


Lançamento  :

a)https://groups.google.com/forum/?hl=pt-BR#!forum/solivroscomsinopses

b)http://groups.google.com.br/group/bons_amigos?hl=pt-br

Este e-book representa uma contribuição do grupo Bons Amigos  para aqueles que necessitam de obras digitais como é o caso dos deficientes visuais e como forma de acesso e divulgação para todos. 

É vedado o uso deste arquivo para auferir direta ou indiretamente benefícios financeiros. 
 Lembre-se de valorizar e reconhecer o trabalho do autor adquirindo suas obras







 

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