Segurança
*Da tonelada ao papelote*
*Sofia Cerqueira*
À primeira vista, parece uma estrutura simples de ser desmantelada: uma só
rota de entrada, quatro grandes distribuidores e pontos de venda conhecidos
por qualquer carioca. Mas por que então a droga chega sem grandes percalços
às favelas da cidade? A resposta é bem mais complexa do que a corrupção de
um pedaço da polícia
Alessandro Costa/Ag. O Dia
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O posto de gasolina Amigo da Rodovia, localizado no quilômetro 185 da Via
Dutra, em Nova Iguaçu, é um ponto tradicional de pernoite de caminhoneiros
na Baixada Fluminense. Foi justamente por esse motivo que um caminhão
carregado de cebolas com placa da cidade de Missal, no extremo oeste do
Paraná, chamou pouca atenção quando entrou na área de estacionamento, às 7
horas da manhã do dia 2 de maio, um domingo. Aproximadamente uma hora
depois, o Mercedes-Benz branco estava cercado de policiais, que procuravam
em vão pelo motorista. Removida a lona que cobria as cebolas, revelou-se o
motivo de tamanho interesse no veículo: sob as sacas havia 1 tonelada de
maconha, dividida em pacotes cujo cheiro era disfarçado com essência de
menta. Embarcada em Itauguá, localidade próxima de Assunção, no Paraguai, a
droga percorreu 1 800 quilômetros e cruzou três estados antes de chegar às
portas do Rio. Caso seguisse viagem, o caminhão iria para o Complexo do
Alemão, um amontoado de dezessete favelas na Zona Norte. Com valor estimado
em 600 000 reais, a carga foi encomendada por dois dos maiores
distribuidores do Rio de Janeiro hoje, Luciano Martiniano da Silva, o Pezão,
e Fabiano Atanásio da Silva, o FB, ambos ligados ao Comando Vermelho e o
último, amigão do jogador de futebol Adriano. Apesar de importante, a
apreensão do mês passado não abalou a saúde financeira do tráfico e muito
menos o seu poderio. Sob o olhar complacente de um pedaço da polícia, aliado
a boa dose de incompetência, o caso foi uma exceção. A maioria dos
carregamentos chega sem grandes percalços às mãos dos bandidos. Dali, são
distribuídos por toda a cidade por meio de uma rede bem articulada.
Traduzir a dimensão do narcotráfico carioca em números é uma tarefa
delicada, dada a dificuldade de encontrar estatísticas confiáveis e
atualizadas sobre o assunto. Cálculos fundamentados basicamente em
apreensões como a descrita no parágrafo acima apontam que a cada ano são
consumidas na cidade pouco mais de 90 toneladas de maconha, 16 de cocaína e
8 de crack. De acordo com dados da Secretaria de Estado da Fazenda, a venda
desses produtos proporciona uma receita de aproximadamente 630 milhões de
reais às quadrilhas de traficantes e um lucro que pode chegar a 240 milhões
de reais ao ano. Hoje, esse grande negócio passa necessariamente pelo
controle de quatro chefes. Além de Pezão e FB, a polícia identificou Antonio
Francisco Bonfim, o Ném, da Rocinha, e Marcio José Sabino Pereira, o
Matemático, da favela da Coreia, na Zona Oeste, como os comandantes da
extensa operação de logística que faz com que trouxinhas, papelotes e pedras
de crack estejam disponíveis em 600 dos 1 020 morros do Rio. Altamente
capilarizado, o sistema de distribuição envolve algo como 16 000 pessoas,
entre informantes, olheiros, soldados e gerentes. Em resumo, a droga chega
pela Rodovia Presidente Dutra, é estocada por quatro grandes fornecedores
que todo mundo sabe quem são e, em seguida, repartida para pontos de venda,
também conhecidos por toda a cidade. Por que então não interromper esse
abastecimento se todo mundo sabe como funciona? Como esse pó todo passa
debaixo das barbas dos policiais e vai parar nas mãos daqueles meninos sem
camisa lá no alto do morro?
A resposta mais óbvia está ligada à corrupção. Evidentemente, essa é uma
situação real, reconhecida pelas autoridades estaduais de segurança e com
efeitos nefastos nessa guerra. Mas o tráfico tem demonstrado uma agilidade
que a polícia, mesmo quando quer, não consegue acompanhar. As dificuldades
começam na identificação dos carregamentos. Com um trânsito diário de 160
000 veículos na chegada ao Rio, a Rodovia Presidente Dutra é a grande porta
de entrada da droga. Paralisar esse fluxo, portanto, seria simples, uma
questão de montar barreiras nas proximidades da cidade. Pois não é. Além dos
transtornos para o trânsito, a questão é que os traficantes trabalham com um
sistema em que "batedores" vão à frente das cargas e dão o alerta em caso de
blitze policiais. Em geral, o serviço é feito por carros totalmente
regularizados, com pessoas sem antecedentes criminais. Frequentemente,
famílias normais, com bebês no banco traseiro. Outro estratagema é a
utilização de picapes e carros de passeio no transporte dessas substâncias.
"Em vez de trazerem 2 toneladas de maconha de uma vez, os traficantes
passaram a optar por cargas menores, com 50 quilos, 100 quilos por viagem.
Para eles, é mais eficiente e menos arriscado", explica o delegado Marcus
Vinícius Braga, titular da Delegacia de Combate às Drogas. A compra de 1
tonelada de cocaína, por exemplo, exige investimentos de até 20 milhões de
reais. Repartir isso em dez automóveis, que podem vir em dias e horários
diferentes, torna a operação mais segura e, na eventualidade de um revés,
diminui o prejuízo. Com isso, evitam-se perdas como a que aconteceu com o
caminhão apreendido em Nova Iguaçu. "Não tenho dúvidas de que todos os dias
chegam novos carregamentos ao Rio", afirma o secretário estadual de
Segurança, José Mariano Beltrame. "O problema é que é impossível pegar isso
só com fiscalização. Também precisamos de muita informação e inteligência."
*O traficante Fernandinho Beira-Mar (topo) foi apontado como o maior
fornecedor do Rio no fim dos anos 90. Preso em Mato Grosso do Sul, seu poder
foi repartido por criminosos como Antonio Francisco Bonfim, o Ném da
Rocinha, Márcio Sabino Pereira, o Matemático, Fabiano Atanásio da Silva, o
FB, e Luciano Martiniano da Silva, o Pezão (acima, da esq. para a dir.)*
FÁBIO MOTTA/AE (beira-mar), reprodução (Ném), Uanderson Fernandes/Ag. O Dia
(Matemático),
Guilherme Pinto (FB), Gustavo Azeredo (Pezão)
Nessa disputa, os bandidos estão um passo à frente. A topografia acidentada
que presenteou a cidade com uma beleza única proporciona aos traficantes uma
vantagem competitiva sobre a polícia — e eles sabem usá-la muito bem. Quase
todas as favelas ficam nas encostas de montanhas, têm altíssima densidade
populacional e, com a ocupação desordenada, tornaram-se um emaranhado de
becos e vielas impossíveis de ser percorridos por forasteiros. Mesmo as mais
acessíveis costumam ter dezenas de entradas e saídas, o que as transforma em
verdadeiras peneiras — o Complexo do Alemão, por exemplo, tem setenta
acessos e a Rocinha mais de vinte. Não por acaso, ambas estão justamente
entre as quatro localidades (ao lado de Acari, na Pavuna, e do Jacarezinho,
na Zona Norte) que funcionam como entrepostos da droga. Com o correr dos
anos, dadas as características desses morros, seus chefes passaram a
concentrar a distribuição na cidade e ganharam projeção e muito dinheiro em
razão disso. São eles que alimentam as favelas menores. O traficante Ném,
que controla o tráfico da Rocinha, é hoje o maior distribuidor da Zona Sul
carioca. Fabiano, o FB, do Complexo do Alemão, manda na Zona Norte e, além
de maconha e cocaína, é um importante fornecedor de armas. Sua quadrilha
trouxe o lançador de mísseis que derrubou um helicóptero da polícia no Morro
dos Macacos, no ano passado. Como as forças de segurança do estado apertaram
o cerco nessas áreas, os criminosos começaram a usar também pontos fora das
favelas, como postos de combustível, casas e galpões insuspeitos, para fazer
o descarregamento. Há dois anos, um desses esconderijos foi identificado, e
4,5 toneladas de maconha foram apreendidas em um depósito no Mercado São
Sebastião, na Penha. Mas, em geral, o estoque é feito nos próprios morros,
territórios em que os policiais têm dificuldade para penetrar.
OSCAR CABRAL
*Favela da Rocinha: centro de distribuição para toda a Zona Sul*
Em qualquer confronto, a interrupção do abastecimento de armas e alimentos
do inimigo exerce papel fundamental no destino do conflito. Na II Guerra
Mundial, dias antes da segunda batalha de El Alamein, a marinha naval
inglesa afundou dois petroleiros alemães que transportavam combustível e
suprimentos para o Exército comandado pelo brilhante general Erwin Rommel.
Resultado: a mobilidade dos tanques Panzer ficou comprometida, e os
britânicos levaram a melhor. A vitória em El Alamein foi tão importante que
fez com que o primeiro-ministro britânico Winston Churchill declarasse:
"Este não é o fim. Não é nem o começo do fim, mas é, talvez, o fim do
começo". Pois as linhas dos traficantes cariocas não param nunca. Uma vez
descarregada nos entrepostos, apenas uma parte da carga é redistribuída
através de meios prosaicos como carros de passeio, motos e táxis
(evidentemente, uma atuação mais firme nas entradas de favelas menores
poderia coibir esse comércio e ajudar a combater o crime). Mas, se a
fiscalização aumenta nesse lado, os bandidos costumam se valer de recursos
pouco convencionais para fazer com que os carregamentos cheguem ao
consumidor final. Circundado pela Floresta da Tijuca, banhado pela Baía de
Guanabara, o Rio de Janeiro oferece diversas rotas alternativas. Da favela
da Maré, por exemplo, o transporte das drogas pode ser feito de barco para
toda a Ilha do Governador, Baixada Fluminense e São Gonçalo. Por trilhas
abertas na mata, os traficantes se embrenham, por exemplo, entre a Rocinha e
o Vidigal, na Zona Sul. Comunicações semelhantes são realizadas entre o
Complexo da Penha e o do Alemão, na Zona Norte, assim como em todos os
morros da Tijuca. Localizar esses comboios, muitas vezes realizados de
madrugada, é algo que as forças de segurança do estado não têm condições nem
competência para fazer. "Embora estejamos sempre efetuando operações contra
o tráfico, não se ouve falar em falta de pó na cidade", observa Allan
Turnowski, chefe da Polícia Civil.
Fabio Gonçalves/Ag. O Dia
*Operação em morro do Rio: bandidos driblam as blitze usando trilhas pela
mata*
Diante desse cenário, a expansão de um programa como o das Unidades de
Polícia Pacificadora (UPPs) parece, de fato, ser o melhor caminho para
varrer de uma vez o poder dos traficantes. Além de livrar toda uma população
carente de um domínio perverso, tira-se do crime organizado essa comunicação
paralela entre os morros. Na semana passada, a UPP alcançou a sua nona
favela. Trata-se da melhor ação praticada em trinta anos na área de
segurança, mas, diante do poder dos bandidos, ainda é pouco. Atualmente, o
tráfico fluminense domina 600 morros, divididos por integrantes de três
facções. A dominante é o Comando Vermelho, que controla cerca de 300
localidades, entre elas o impenetrável Complexo do Alemão. Em seguida, vem a
facção Amigos dos Amigos, que domina 250. Por último, há o Terceiro Comando,
responsável pelo negócio ilícito em cerca de cinquenta áreas. É bem verdade
que nenhum dos líderes atuais, por mais poderoso que seja, conseguiu
reproduzir a estrutura que teve no passado Luiz Fernando da Costa, o
Fernandinho Beira-Mar, o maior fornecedor de drogas do Rio no fim da década
passada, hoje cumprindo pena no Presídio Federal de Mato Grosso do Sul. Mas
isso não chega a ser uma notícia alentadora, pois seria mais fácil
estrangular um único sistema do que uma operação mais descentralizada. "O
lado bom é que esses bandidos não têm tanta articulação com os traficantes
internacionais. Estamos trabalhando para sufocá-los", diz João Luiz Caetano
de Araújo, titular da Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Polícia
Federal no Rio. Seria bom que fosse logo. Pois, como disse o secretário
Beltrame, novos carregamentos chegam todos os dias e, com eles, cresce o
poder de fogo e financeiro dos bandidos.
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Fica mais fácil dominar a massa analfabeta do que correr o risco de educá-la
e nela despertar a consciência de cidadania.
Encastelados os oportunistas, aí permanecerão até que surja igual força em
sentido contrário.
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M. Loureiro
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Henry Miller
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