quinta-feira, 8 de julho de 2010 By: Fred

{clube-do-e-livro} Quando a Lua Surgir (Midnight Moon) - Lori Handeland.txt

Quando A Lua Surgir
Midnight Moon
Lori Handeland
DESEJOS A MEIA-NOITE
Depois de passar pela pior dor que um ser humano pode passar, Cassandra decide viajar para o Haiti, onde, segundo rumores, vive um sinistro mestre do vodu que pode
ressuscitar os mortos. O ambicioso Devon Murphy aceita guiar Cassandra até lá em segurança, porém o apelo sensual de Devon promete um outro tipo de perigo... Enquanto
Cassandra e Devon seguem para o misterioso vilarejo no coração da selva, a atração entre eles explode num desejo inebriante, e Cassandra começa a questionar sua
resolução de nunca mais se apaixonar.
É impossível resistir ao charme de Devon, mas a descoberta do segredo do macabro ritual pode implicar num alto preço a pagar... Atormentada por sonhos assombrosos
que se tornam mais vívidos à medida que a lua cheia se a próxima, Cassandra terá de descobrir a chocante verdade sobre uma antiga maldição antes que esta a leve
a destruir a si mesma e a todos que ela ama...
Digitalização: Marina Campos
Revisão e Formatação: MoniCat
Copyright (c) 2006 by Lori Handeland
Originalmente publicado em 2006 pela St. Martins Press.
PUBLICADO SOB ACORDO COM ST. MARTIN'S PRESS
NY, NY - USA Todos os direitos reservados.
Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência.
TÍTULO ORIGINAL: Midnight Moon
EDITORA Leonice Pomponio
ASSISTENTE EDITORIAL Patrícia Chaves
EDIÇÃO/TEXTO
Tradução: Débora Guimarães
Revisão: Marina Nogueira
(c) 2008 Editora Nova Cultural Ltda.
Prólogo
Na noite passada, sonhei com uma praia no Haiti. A areia morna e as ondas brancas refletiam a luz da lua cheia. O sonho ainda me persegue, porque naquela
praia disse adeus a tudo que fui e en¬contrei a mulher que seria.
Já fui mãe e dona-de-casa na Califórnia. Dirigia uma van grande demais para transportar uma menina de cinco anos para as aulas de bale e era casada com um
homem que pensei ser minha alma gêmea.
Então, tudo desmoronou. Passei do paraíso ao inferno e me tornei uma sacerdotisa do vodu.
Sim, tive uma certa ajuda do programa de proteção à testemunha. Não foram eles, porém, que sugeriram que eu passasse anos estudando a antiga religião africana,
viajasse ao Haiti e fosse iniciada, depois adotasse o nome de Sacerdotisa Cassandra e abrisse um centro de vodu no Quarteirão Francês. Não. Todas essas idêias foram
minhas.
Escolhi o nome Cassandra porque significa "profeta". Sacerdotisas do vodu são sempre convocadas para prever o futuro, mas eu nunca fui sensitiva. Apesar do
nome, ainda não sou.
O vodu é uma religião fluida, adaptável e inclusiva. Os praticantes acreditam em magia, zumbis e encantamentos de amor. Gosto muito de tudo nela, exceto de
uma coisa: a teimosia com que a religião afirma que não existem acidentes.
Não consigo acreditar nisso, porque se não existissem acidentes, eu teria de aceitar que minha filha de cinco anos morreu por uma razão, e não consigo imaginar
qual seria. E eu procurei.
Não sou a primeira pessoa a ter problemas com alguns dogmas dessa religião. Mas isso não significa que não acredito nela. ' No Haiti, naquela praia, eu
me comprometi inteiramente com o vodu. E tive uma boa razão para isso.
Planejava levantar minha filha dos mortos.
Capítulo I
Desci do avião em Porto Príncipe pela segunda vez em minha vida. Era uma ensolarada tarde de outubro e nada parecia ter mudado naquele lugar escaldante.
- Princesa Cassandra?
Eu me assustei. O que havia parecido um bom nome em Nova Orleans, agora soava pretensioso aos pés da montanha onde o vodu ganhara adeptos e força.
- Só Cassandra, por favor.
Tentei adivinhar como aquele homem me reconhecera. Por eu ser a única mulher branca a desembarcar, talvez? Ou teriam sido meus olhos azuis e meus cabelos
escuros, também incomuns por ali? Não. O que me destacava em um grupo era a mecha branca na têmpora.
Ela havia surgido logo depois da morte de minha filha. Sei que devia ter coberto a mecha com tinta, porque era uma testemunha sob proteção, mas os cabelos
brancos serviam para lembrar minha filha e minha missão. Como se eu precisasse de ajuda para isso.
A mecha também era meu castigo. Eu não havia cumprido meu sa¬grado dever de mãe em sua forma mais pura e
direta; não havia pro¬tegido minha filha contra tudo
e todos. Até mesmo contra o pai dela.
O homem na minha frente inclinou a cabeça.
- Sou Mareei, Cassandra.
Apenas isso. Cassandra. Eu nem tinha mais um sobrenome. Depois de depor contra o maldito traficante que havia sido meu marido, eu me tornei a Sacerdotisa
Cassandra. Apenas um nome, como Cher ou Madonna.
O pessoal do programa de proteção à testemunha acrescentara um Smith ao meu nome, mas o sobrenome só servia mesmo para eles. Para mim não tinha nenhum significado.
- Monsieur Mandenauer reservou um quarto no Hotel Oloffson - Mareei avisou, pegando a valise que eu carregava.
Recentemente, passei a fazer parte de um grupo governamental conhecido como os Jáger-Suchers. Para quem tem um alemão tão nulo quanto o meu, o nome significa
Caçadores-Investigadores.
Os Jáger-Suchers caçam monstros, e não estou usando um eufe¬mismo para referir-me a seres humanos que deveriam estar em jaulas. Estou falando de monstros,
criaturas com peles que se recobrem de pêlos, com dentes que se transformam em presas... bestas que bebem sangue humano e estão sempre querendo mais.
Edward Mandenauer era meu novo chefe. Ele me enviara ao Haiti para descobrir o segredo de despertar um zumbi. Havia sido maravilhoso descobrir que interesses
profissional e pessoal convergiam. De repente podia quase acreditar naquela história sobre "não existir acidentes".
- Por aqui, por favor - Mareei convidou-me, indicando a saída do aeroporto.
Eu o segui, deixando para trás o espaço fresco e confortável para enfrentar a agitação quente e ensolarada de Porto Príncipe.
Pouco tempo depois, o carro parou na frente do Hotel Oloffson, uma imensa mansão vitoriana.
O gerente esperava por mim e logo fui levada ao espaçoso quarto com varanda. Era possível ver a cidade dali.
- Monsieur Mandenauer marcou um encontro entre você e um amigo - Mareei disse.depois de deixar minha valise no chão.
- Edward tem amigos aqui?
- Ele tem amigos em todos os lugares. Com essa ajuda especial, vai poder encontrar o que procura.
- E você sabe o que estou procurando?
- Sei sobre um probleminha qualquer com uma maldição. E isso? Eu não teria me referido à besta que assolava Nova Orleans como
um probleminha, mas tudo indicava que Mareei sabia somente o básico. Eu já havia visto coisas espantosas na Cidade Crescente, mas nada tão fantástico quanto
um homem que se transforma em lobo e volta a ser homem.
- Edward disse por que me mandou?
- Para anular uma maldição, é preciso contar com a rainha vodu que a criou, e ela está morta.
- Há cento e cinqüenta anos, mais ou menos.
- E sua missão é levantá-la do túmulo. Zumbi.
Não exatamente. Erguer da sepultura um pesadelo decadente e putrefato não era minha aspiração ali. Um zumbi típico de filme de terror podia ser suficiente
para satisfazer Edward, mas não era o bas¬tante para mim. Não podia sentenciar minha própria filha a ser essa criatura repugnante e assustadora.
Procurava por meios de dar vida aos mortos desde a última vez em que estivera ali. Tudo que havia encontrado fora mais morte. En¬tão, comecei a ouvir murmúrios
sobre um poder incrível naquelas montanhas, uma capacidade que ia além da mera reanimação de um cadáver. Porém, não dispunha de meios para voltar ao Haiti, nem de
fundos para vasculhar a ilha e pagar por esse segredo, porque sabia que devia custar caro.
Até agora.
Fui até a varanda e olhei para as montanhas distantes. Em algum lugar ali havia um sacerdote vodu que, de acordo com os últimos rumores, podia levantar os
mortos e trazê-los novamente à vida. Como se eles jamais houvessem morrido.
Era difícil acreditar nisso, mas eu queria crer. Queria minha filha de volta.
- Quando vou encontrar o amigo de Mandenauer?
- Ele virá procurá-la quando for a hora.
Sem dizer mais nada, Mareei abriu a porta e desapareceu.
Nem me dei ao trabalho de tirar minhas coisas da valise, porque sairia dali assim que tivesse as informações de que precisava.
Exausta, caí na cama e dormi ainda com as roupas de viagem, calça jeans, camiseta preta e ténis. Quando acordei, havia anoitecido.
Era lua nova. O céu escuro era tão desprovido de estrelas quanto meu porta-jóias havia estado vazio antes de eu descobrir os lobisomens.
Agora eu tinha anéis nos dedos e um crucifixo no pescoço. Minha proteção. Amuletos que eu mantinha visíveis.
Virei a cabeça sobre o travesseiro e fiquei gelada. A porta do quarto estava entreaberta, e havia alguém na varanda.
- Quem está aí?
- Ah, Sacerdotisa...
Eu me sentei na cama. O tom sibilante lembrava o de Lazaras, o sacerdote que eu deixara em Nova Orleans. Ele havia sido meu único amigo até a lua crescente
levar Diana Malone à minha vida.
Criptozoóloga, ela fora enviada a Nova Orleans para investigar relatos sobre a existência de um lobo, e acabara tendo a grande sur¬presa de sua vida ao se
deparar com algo muito maior do que isso, Diana fora ao meu centro vodu para investigar uma maldição e teve uma imediata empatia entre nós.
Acendi a luz do quarto e olhei para a mulher que passava pela porta da varanda. Ela era alta, voluptuosa, bela e muito velha. A pele era de um tom café com
leite, os olhos eram azuis como os meus. Ela vestia um robe longo e amplo, e havia em sua cabeça um turbante na mesma estampa floral. Essa era a aparência que devia
ter uma sacer¬dotisa vodu. Pena eu nunca ter conseguido me transformar tanto.
- Meu nome é Renee. Quer saber sobre a maldição da lua cres¬cente?
Não sei por que, mas esperava que o amigo de Mandenauer fosse um homem.
- Ah, sim... A lua crescente - respondi. - É verdade que uma maldição vodu só pode ser removida por aquele que a lançou?
- Sim, é verdade.
- E se essa pessoa estiver morta?
- Ah, entendo. Veio para saber sobre os zumbis.
- Exatamente.
Renee franziu a testa. Não havia uma só ruga em seu rosto. Então, por que eu havia deduzido que ela era velha? Devia ser alguma coisa em seus olhos. -- Erguer
os mortos é um objetivo sério e perigoso.
- Mas é possível?
- É claro que sim.
- Já fez isso?
- É contra as leis dos homens e de Deus.
Eu não me preocupava mais com nenhuma delas. A lei não podia fazer contra mim nada que fosse pior do que Deus já havia feito.
Depois de perder minha filha, passei a duvidar da existência de Deus, e essa descrença me acompanhara por algum tempo. Comecei a estudar o vodu por uma única
razão, Sarah, mas acabei me encan¬tando com o que descobri.
O vodu é uma religião complexa. Adaptável, tolerante, monoteísta. Muito do que eu aprendia fazia sentido. Por exemplo, não pode haver mal, a menos que haja
o bem.
E eu acredito no mal. Muito mais do que acredito em qualquer outra coisa.
- Já levantou os mortos? - eu insisti.
- Não.
Eu suspirei desapontada.
- Mas conheço alguém que já fez isso.
A esperança foi como uma onda inebriante inundando meu corpo.
- Onde posso encontrar essa pessoa?
- Erguer os mortos é um ato executado somente por um bokor. Sabe o que é isso?
- Um hougan que serve aos espíritos com as duas mãos. Um sacerdote do mal.
- Não existe nada tão absoluto. Qualquer hougan precisa conhe¬cer o mal para poder combatê-lo, como um bokor já deve ter se aliado ao bem em algum momento,
ou não poderia ter a esperança de sub¬vertê-lo.
- E se alguém levanta os mortos pelo bem?
- Nada de bom pode advir de tal gesto. Na morte há paz eterna. Os vivos a temem, mas os mortos a aceitam de bom grado. Eles não querem voltar.
- E você já falou com muitos mortos? Eles disseram isso?
- A morte chega para todos em seu devido tempo. Não há aci¬dentes.
- Não acredito nisso.
Ela me encarou intrigada. Eu precisava ser cautelosa, ou acabaria desmascarada. A mulher não era tola. Perceberia que eu estava no Haiti por mais motivos
do que a questão dos Jãger-Suchers, e então eu não conseguiria nada.
- Isso nâo importa - eu disse com mais calma. - Edward quer que eu encontre um meio de pôr fim à maldição da lua crescente. Pelo que pude descobrir, para
isso terei de trazer de volta a rainha vodu que lançou a maldição, porque só ela pode removê-la. Pode me ajudar a descobrir como isso é possível?
- Eu... Bem, há um homem em Porto Príncipe... esse homem não tem nada para ensinar. Nada que queira aprender.
- Sabe o nome dele? •
- Nomes têm poder. Não pronunciarei o dele.
- Preciso conhecer esse homem.
- Não, você não precisa. Para trazer de volta a rainha vodu, só precisa conhecer a cerimônia. Traga-a para fora da sepultura por um instante; ela fará tudo
que pedir; depois, ponha-a de volta no lugar a que ela pertence.
- E o homem nas montanhas? Ele faz algo... diferente?
- Já ouviu falar do Egbo?
- Não.
- Nos maus tempos, quando o povo da África era raptado e ven¬dido em grilhões, havia uma tribo conhecida como os Efik do Velho Calabar. Eles assumiram o controle
de todo o tráfego de escravos.
- Uma tribo que vendia a própria gente? Nunca ouvi falar nisso.
- Não vendiam o próprio povo. Na África há divisões, guerras, ódio... Um grupo lutava contra o outro, e o vencedor vendia seus prisioneiros para os Efik,
que vendiam esses prisioneiros para mer¬cadores brancos.
Eu balancei a cabeça. As pessoas, independentemente de sua cor, não eram mesmo muito boas umas com as outras.
-Os Efik tinham uma sociedade secreta conhecida como os Egbo. Eles começaram como um grupo de juízes, mas, em um determinado período, mantinham tantos escravos
que precisaram encontrar uma forma de mantê-los sob controle. Os Egbo se tornaram um clã temido que distribuía severas e cruéis punições pelos menores erros. Sussur¬rar
o nome deles era suficiente para acovardar os cativos e mantê-los submissos.
Compreendi como essa tática seria útil. Escravos revoltos causa¬vam medo, especialmente quando a população oprimida era duas ve¬zes maior do que a opressora.
E o Haiti havia sido berço da única revolta escrava bem-sucedida da história.
- Isso tudo é muito interessante, Renee, mas não sei o que eu tenho a ver...
- O homem nas montanhas... Dizem que ele é um Egbo.
- Por que ainda haveria um Egbo? Não há mais escravos.
- Tem certeza disso, Sacerdotisa?
- A escravidão é ilegal. Não é?
- Só quando os infratores são pegos.
- Não. Ela é ilegal. Sempre! Renee sorriu.
- Tão jovem e inocente, apesar da dor em seus olhos. Eu não queria discutir a dor nos meus olhos.
- Está tentando dizer que o bokor é um mercador de escravos?
- É claro que não. Isso é definitivamente ilegal.
- Então...?
- Não vou falar sobre o bokor. Não vou levá-la até ele. Deve ficar longe desse homem. Ele é perverso e, pelo que ouvi, é insano.
Exatamente o tipo de homem que eu precisava encontrar.
- Certo. Quando vou aprender a levantar a rainha vodu de sua sepultura?
- Mandarei um hougan ao seu encontro.
- Pensei que só um bokor pudesse levantar os mortos.
- Só um bokor concordaria com isso. Mas qualquer sacerdote ou sacerdotisa pode saber como fazer.
Pena eu nunca ter conhecido um deles.
- Levantar os mortos vale o risco de perder-se, Cassandra?
- Sim.
Renee assentiu. Eu abaixei a cabeça. Quando levantei o olhar, ela havia desaparecido.
Sozinha, decidi que tinha de encontrar o bokor. E precisava sair de Porto Príncipe antes de Renee descobrir o que eu pretendia, se é que ela já não sabia.
Ela contaria a Edward. Ele iria me buscar, ou enviaria alguém. Haveria uma discussão, acusações feitas aos berros, e ele me levaria de volta.
Não conhecia Edward muito bem, mas conhecia o suficiente para ter certeza de algumas coisas. Uma delas é que ele não gosta de ser desobedecido. E eu não havia
sido enviada ao Haiti para procurar um homem violento e louco. Não tinha treinamento para isso.
Se Edward mandasse um de seus subordinados ir me buscar, eu perderia a única esperança que tinha de trazer minha filha de volta. Ela explodiria numa flamejante
bola de fogo... o método normalmente utilizado pelo Jãger-Sucher para lidar com problemas.
Por outro lado, apenas os lobisomens explodiam quando eram atin¬gidos por objetos pontiagudos de prata. Eu não sabia o que acontecia com sacerdotisas do vodu
que se desviavam do caminho ordenado.
Não podia permitir que isso acontecesse antes de descobrir o que eu precisava saber, por isso tranquei minha porta e saí do hotel pela varanda.
Dizem que o dinheiro fala. E verdade. E graças a Edward, eu tinha muito dinheiro. Menos de duas horas e várias centenas de dólares mais tarde, entrei em um
bar num bairro miserável de Porto Príncipe.
Eu levava na cintura a faca com que conseguira entrar no país, cortesia da influência de Edward. Não era muito boa com armas, mas a faca era outra história.
Depois de meu mundo ter desmoronado, tornei-me compreensivel¬mente assustada. Fiz aulas de caratê e aprendi a manejar a faca. Podia até arremessá-la e acertar
um alvo com precisão impressionante.
Nas últimas horas, eu descobrira que não existia um único haitiano vivo que se atrevesse a chegar perto do bokor. Mas Devon Murphy iria. Pela quantia adequada,
ele venderia a própria alma. E eu preci¬sava desse homem para me guiar pelas montanhas.
O Chwal Lanme, ou Cavalo Marinho, a julgar pela placa, cheirava a cerveja e suor. A taverna lembrava um lugar frequentado por velhos marinheiros, com um balcão
de madeira escura e um leme de navio no lugar do lustre. Um homem branco estava sentado sozinho em uma mesa manchada, os olhos semicerrados e uma caneca de cerveja
entre as mãos.
- Murphy? - indaguei. Ele parecia velho com aquela barba cin¬zenta e desgrenhada e olhar perdido, vazio. - Posso? - Fui logo puxando uma cadeira.
Ele esvaziou a caneca em um gole, deixou-a sobre a mesa e apontou para ela num gesto significativo.
Chamei o garçom e pedi mais uma bebida para o sujeito. Depois de pagar por ela, fui direto ao assunto:
- Soube que você é o homem com quem devo falar, caso queira ir às montanhas.
Murphy grunhiu.
- Quanto tenho de pagar para me levar ao bokor"?
O homem bebeu sua cerveja em silêncio, a testa franzida e o olhar vagando pela sala. Ele abriu a boca, mas não disse nada. Seus olhos giraram nas órbitas
e ele caiu para frente com a cabeça sobre a mesa. Desacordado.
- Filho de uma...
- Isso é jeito de uma dama falar?
Eu me virei assustada. O homem parado atrás de mim era...
A melhor palavra para descrevê-lo era "exótico". Os cabelos eram longos, abaixo dos ombros, de um castanho claro com mechas dese¬nhadas pelo sol. As pontas
eram adornadas por contas e penas de origem desconhecida.
Sua pele era bronzeada. Braceletes de bronze adornavam os bíceps desenvolvidos, exibidos pela camisa branca cujas mangas haviam sido arrancadas. A calça caqui
fora cortada logo abaixo do joelho, deixando à mostra as panturrilhas definidas e os pés descalços.
Mas o que realmente me espantava era aquele rosto. Com maçãs salientes, queixo quadrado e olhos entre o azul e o cinza, ele era impressionante. Havia uma
argola em sua orelha esquerda. O con¬junto me fez pensar em piratas e Errol Flynn.
- Procurando por mim, mademoiselle?
As primeiras palavras haviam soado com um leve sotaque irlandês; agora ele falava com acento francês. Olhei para o bêbado caído sobre a mesa e voltei a encará-lo.
- Puxa, espero que sim!
- Somos dois, então. Venha comigo ao meu escritório. Atravessamos o bar em direção à porta dos fundos. A noite tropical
era morna, perfumada. Ele parou ao lado de uma cerca que separava o Chwal Lanme de outro negócio de origem desconhecida. Ali, sem nenhuma preocupação aparente,
ele levou aos lábios uma garrafa de cerveja que segurava na mão direita.
Ele me ofereceu a bebida enquanto limpava a boca com o dorso da mão esquerda. A ideia de pôr meus lábios onde os dele haviam estado era tão inquietante, que
recuei um passo.
- Quem... quem é você?
- Quem quer que eu seja? -- O quê?
- Pela quantia certa, serei quem ou o que você quiser.
Agora o sotaque era americano. E eu começava a me sentir tonta.
- Não entendo...
- Quem está procurando?
- Devon Murphy.
- Então veio ao lugar certo.
- E você?
- Sim, sou eu.
Eu não sabia o que dizer. Podia sentir no meu corpo o calor que o dele emanava, e estava muito, muito perturbada.
Por quê? O que havia em Devon Murphy que me inquietava tanto? Beleza? Mistério? Força? ,
Talvez fosse só minha privação. Não me relacionava com um ho¬mem desde que soubera a verdade sobre meu marido. Antes disso, havia existido apenas Karl. Pensava
ter morrido por dentro, mas agora percebia que me enganara.
- Eu... soube que conhece bem as montanhas.
- Sim, conheço.
- Pode me levar a um lugar nelas?
- Depende de que lugar é esse.
- Não sei onde fica. Só sei que é nas montanhas e que preciso chegar lá. Há um homem...
- Procura alguém nas montanhas? Por quê? O que faz aqui?
- Não interessa. Só precisa saber que posso pagar por seus ser¬viços.
- De que serviços está precisando, afinal?
- Quero que me leve ao bokor.
Ele apertou os olhos. Seus olhos brilharam mais do que antes.
- Mezareau?
Senti um arrepio intenso, apesar da noite quente, como se alguém olhasse intensamente para o centro de minhas costas. Olhei em volta e constatei que não havia
ninguém ali.
- Você o conhece?
- Não pessoalmente.
- Mas sabe onde encontrá-lo?
- Talvez.
- Quanto quer para me levar até lá?
- Cem mil. Eu ri.
- Dólares? Esqueça! Ele encolheu os ombros.
- Como quiser.
Achei que devia insistir no assunto.
- Soube que faz qualquer coisa por dinheiro. Murphy sorriu.
- O que há de tão terrível nas montanhas? Por que ninguém quer ir lá?
- As pessoas não evitam as montanhas. Elas evitam Mezareau. O homem... não é certo.
- E quem é?
- O que a fez tão amarga, minha cara...?
- Cassandra.
- Cassandra de quê?
- Só Cassandra.
- Segredos, mon cherl Francês com sotaque irlandês.
- Como faz isso? - eu indaguei.
- Isso... o quê?
- Muda de sotaque a cada instante. De onde é?
- De todos os lugares. De lugar nenhum. Daqui.
- Segredos? - eu o imitei.
- Conte-me os seus, e eu contarei os meus.
- Quando o inferno congelar.
- Não quer partilhar?
- Partilhar sempre me meteu em encrencas. Além do mais, sei que não vai contar nada, mesmo. Seria apenas um amontoado de mentiras.
Ele levou a mão ao rosto num gesto dramático. Havia uma aliança de prata em seu polegar.
- Não confia em mim, mas espera que eu a guie pela selva sombria e deserta...
- Não há mais selva alguma.
Boa parte do Haiti era marcada pela ausência de árvores. O desma-tamento causado pela total dependência da madeira como combustível e fonte de energia dizimara
as matas nativas antes do século vinte.
- Força de expressão - Murphy explicou. - Como sabe que não vou pegar seu dinheiro e fugir?
- Bem, eu sei porque você só vai receber quando voltarmos.
- E como eu sei que você tem o dinheiro?
- Eu tenho.
Ele balançou a cabeça.
- Tenho uma ideia melhor.
Os olhos dele passearam pelo meu corpo.
Eu forcei um suspiro aborrecido, como se o olhar não me afetasse.
- É melhor ter outra ideia, porque essa é péssima.
- Que pena... Ela parece estar enraizada nos meus pensamentos.
- Nos seus e nos da maioria dos homens. Há mais alguém que eu possa contratar?
Ele riu.
- O que você acha? t
Eu sabia que não. Já havia percorrido toda a cidade em vão, porque todos sentiam verdadeiro pavor do bokor. A única pessoa que parecia não sentir medo era
Murphy. E ele era o único que ousava pronunciar o nome do bokor e parecia saber onde encontrá-lo.
O que eram cem mil dólares comparados à vida de minha filha e ao fim da maldição da lua crescente? Edward concordaria comigo.
- Escute, você me diz por que quer conhecer Mezareau e eu a levo até ele por um valor razoável.
- Por quê?
Murphy encolheu os ombros e desviou o olhar.
- Você parece estar desesperada.
Ele não parecia ser o tipo de homem que se importa com isso.
- O que é uma quantia razoável?
- Dez mil mais as despesas.
Isso era razoável. Se não tivesse de incluir a alma na barganha...
- Tudo bem - concordei estendendo a mão.
Os dedos envolveram os meus, longos e suaves, e eu pensei num pianista. Os calos das palmas destruíram essa ideia. Notei que nume¬rosos cortes e cicatrizes
marcavam-lhe a pele.
Murphy continuava segurando minha mão, e quando percebi que ele prolongava o contato, eu arranquei meus dedos dos dele sem tentar esconder a inquietação,
esfregando a mão na calça jeans.
Ele não parecia insultado. Não que isso fosse importante. Agora o homem trabalhava para mim.
- Vai querer fazer isso aqui mesmo ou prefere entrar? Eu o encarei com os olhos arregalados.
- O quê? - disparei. Ele riu.
A jornada não seria fácil. Nem eu esperava que fosse.
- Prometeu me contar por que quer conhecer obokor...
- Ah, sim... Mas não disse quando - eu respondi irritada.
Passava da meia-noite quando voltei ao hotel. Assim que acendi a luz do quarto, soube que alguém havia estado lá dentro. Não era a camareira. Normalmente,
elas não desenham símbolos na parede so-bre a cama.
Vermelho brilhante. Podia ser sangue.
Aproximei-me do desenho e deslizei meu dedo pela parede.
Não pretendia ficar e esperar por uma análise. Também não pla¬nejava chamar as autoridades para falar sobre isso. Precisava encontrar Murphy, pois certamente
a polícia não me deixaria partir depois de ver aquela sujeira.
No Haiti, todos sabiam que desenhar os ícones de um esquife e uma cruz invocava o loa Barão Samedi, Senhor da Morte, guardião do portão para o outro mundo.
Loas são os espíritos imortais do vodu. Uma ponte entre Deus, conhecido como o Gran Met, e a humanidade, eles parecem santos, anjos e demônios do Catolicismo.
E numa coincidência que provavelmente não era, o Barão Samedi lambem preside o processo de transformar os mortos em zumbis e modificar a forma de animais.
Eu não sabia o que aquilo significava, mas tinha certeza de que queria sair dali antes de descobrir. Virei-me para sair de perto da parede e meu pé esmagou
alguma coisa.
Havia terra desenhando um rastro desde a porta até a cama. Eu pisava nela desde que entrara no quarto.
Sussurros de milhares de vozes me cercavam. Eu cambaleei, febril e tonta. Alguém havia enviado os mortos.
Alguém? Não. Só um bokor poderia realizar o mais temido de todos os encantamentos da magia negra.
O mago apanha um punhado de terra da sepultura de cada espírito invocado para entrar no corpo da vítima. A quantidade esparramada pelo chão de meu quarto
explicava por que eu ouvia tantas vozes, por que sentia inúmeras mãos me empurrando, puxando, beliscando, pres¬sionando minha cabeça enquanto tentavam invadir minha
mente.
Se conseguissem, eu enlouqueceria e morreria. A única maneira de pôr fim a esse encantamento era pela interferência de um poderoso praticante do vodu.
Esforçando-me para pensar além das vozes e da confusão, procurei por uma resposta e pensei em um plano.
Cada loa tem um lado de luz e um lado sombrio. Invocar o lado sombrio exige sangue, normalmente de um animal de grande porte, quase sempre um porco.
Meus olhos buscaram os desenhos na parede. Eu podia apostar que aquele sangue já havia estado no corpo de um suíno.
O Barão Samedi é um Gede, um espírito da morte. Para mandá-lo embora, eu precisava invocar um espírito da vida, e não havia nenhum mais forte que Aida-Wedo,
a deusa da fertilidade. Mais conveniente ainda, ela era esposa do meu espírito guardião, Danballah. Nunca tive problemas invocando nenhum deles, e algumas vezes
eles até se apre¬sentavam sem que eu õs chamasse.
Murmurando uma prece, enfiei a mão na minha valise e suspirei aliviada ao encontrar o pequeno pedaço de giz que mantinha ali.
Ofegando e lutando contra as imagens insanas de sangue, escuri¬dão e isolamento que passavam por minha mente, desenhei no chão um arco-íris, o símbolo de
Aida-Wedo, que governa os domínios da nova vida.
- Ajude-me - murmurei.
Os espíritos urravam no interior da minha cabeça. Meus ouvidos doíam. Por um momento, cheguei a pensar que os houvesse enfure¬cido ainda mais, mas então uma
luz caiu sobre meu rosto.
Um arco-íris invadiu o quarto, ofuscando minha visão com suas cores brilhantes, música suave tomou o lugar das vozes ávidas e an¬gustiadas. Eu estava cercada
de paz. O arco-íris de Aida-Wedo é a calmaria que segue toda tempestade.
A dor e os sussurros desapareceram. Quando as cores sumiram, os símbolos de sangue na parede também se foram.
Assim que parei de tremer e consegui respirar novamente, eu te¬lefonei para Edward.
- Já tem a resposta? - ele perguntou.
Quase perguntei qual era a questão, mas Edward era totalmente destituído de senso de humor.
Sem dúvida, lutar contra monstros na seis últimas décadas, fizera ele perder a vontade de rir.
- Senhor, cheguei há menos de um dia...
- O que conseguiu?
- Há um homem que sabe como levantar os mortos.
Eu não precisava revelar que o homem era a personificação do mal, que podia ser insano, inclusive, ou que eu subiria a montanha na companhia de um mercenário
oportunista para encontrá-lo. Também não precisava contar que havia sido ameaçada. O que ele poderia fazer?
- Aconteceu alguma coisa?
Ele sempre sabia de tudo. Às vezes eu me perguntava se Edward era humano.
- Não, eu... estou bem.
- A verdade, Cassandra.
Algo na voz dele me fez arrepiar. Antes de romper em lágrimas, lalei sobre o que havia encontrado no quarto e como havia me de¬fendido.
- Tem certeza de que não imaginou o símbolo? Teve uma viagem longa, sua vida anda difícil...
Eu gelei. Ninguém sabia sobre as dificuldades da minha vida.
- O que disse?
- Acha que eu aceitaria qualquer pessoa que quisesse trabalhar para mim? Investiguei seu passado.
- Eles prometeram...
• - Eles sempre prometem.
Somente dois ou três representantes do governo americano conhe¬ciam meu passado e minha antiga identidade, mas Edward tinha co¬nexões poderosas. Havia pouco
que ele não pudesse fazer ou saber. Então, por que eu estava tão surpresa?
- Nunca confie em ninguém, Cassandra. Assim viverá para sempre.
- Quer dizer que não devia ter confiado em você?
- A escolha é sua. Mas saiba que sou capaz de tudo para destruir os monstros.
De tudo mesmo.
Bem, pelo menos ele era honesto. E eu não poderia acusá-lo de nada, porque também seria capaz de qualquer coisa para ter minha filha de volta.
- Estava falando em levantar os mortos... O que isso significa?
- Significa que um poderoso bokor não está muito feliz com minha presença aqui.
- Foi o que pensei. Mas como esse homem sabe que você está aí? Foi quando eu me dei conta... Renee se recusara a dizer o nome
dele. Tinha a sensação de que a reticência não era só uma demons¬tração de antipatia ou temor.
Quando Murphy pronunciara em voz alta o nome do bokor, eu experimentara a estranha sensação de estar sendo observada.
- Cassandra, como ele sabe?
Revelei meus pensamentos rapidamente, tomando o cuidado de não pronunciar a palavra "Mezareau".
- Esse homem parece mais uma, lenda do que alguém real.
- Bem, lidar com lendas que se tornam reais é a descrição de cargo dos integrantes do Jàger-Suchet, não é? - apontei.
- Por isso está no Haiti.
Era isso. Lá fora, o céu começava a ficar mais claro no horizonte, como minha disposição diante de uma nova constatação.
- Invocar os mortos é vodu sério - murmurei.
Alguém que podia realizar tal mágica, e a uma distância tão grande, devia ser poderoso.
- Em outras palavras, se ele pode invocá-los, também pode le¬vantá-los - deduziu Edward.
- Eu diria que sim.
- Onde ele está?
- Nas montanhas, mas contratei um guia que sabe tudo sobre a região. Ele pode me levar até lá. Estarei de volta antes que sinta minha falta.
- Pronta, benzinho? - Murphy perguntou ao me ver no corredor do segundo andar da taverna, para onde o garçom me havia enca¬minhado.
- Pode apostar nisso. E não me chame de benzinho.
- Eu a chamaria de sra. Qualquer Coisa, se soubesse qual é seu nome.
- Como sabe que sou senhora?
- Você tem aquele olhar de quem já foi magoada por alguém. Aposto que é divorciada. Ele a traiu. E isso. Quer ir procurar o bokor para matá-lo?
Eu sorri. Se quisesse Karl morto já poderia tê-lo matado muitas vezes. Mas a morte seria uma saída fácil demais para ele.
- Você vai saber porque preciso ver o bokor quando me levar até ele.
- Bem, eu tentei...
O quê? Tentara seduzir-me, tentara descobrir meus segredos...? Não tinha importância. Ele não havia conseguido, e não conseguiria enquanto eu não quisesse.
E não ia querer. Podia até revelar alguns segredos, mas se deixar seduzir? Nunca! Já havia dormido com um mentiroso trapaceiro e oportunista, e não pretendia
repetir a dose.
Murphy entrou no quarto para pegar dois grandes fardos. Ele me entregou um deles e apoiou o outro nas costas. Tirei da valise as coisas de que precisava e
as guardei na minha nova mochila.
- Aluguei um jipe - Murphy contou. - Hoje vamos viajar de carro, mas amanhã... amanhã estaremos a pé. Já fez trilhas antes?
Eu encolhi os ombros, apesar do peso da mochila.
- Cassandra, já fez trilhas antes?
- Eu vou conseguir. Não se preocupe comigo.
- Nunca esteve nas montanhas, não é?
- Não.
- Uma floresta? Uma colina? Qualquer lugar menos plano que um shopping?
- Estive em lugares que você não pode nem imaginar. Havia conhecido o inferno na terra.
- As montanhas são perigosas. Precisa saber o que vai encontrar lá em cima.
- Se eu soubesse, não precisaria de você.
- Tudo bem. Então... apenas faça o que eu disser quando eu disser.
Quando passamos pelo garçom, ele se despediu de Murphy cha-mando-o de Koboy, e não consegui conter minha curiosidade.
- Do que ele o chamou? Koboy?
- É caubói, porém com sotaque creole.
- Caubói? Por quê?
- É como eles chamam todos os americanos. Ah! Então, Murphy era americano.
- Não eu - respondi.
Ele se virou para trás e me olhou da cabeça aos pés.
- Você não parece um caubói.
Eu o imitei, olhando-o da cabeça aos pés. Com os enfeites nos cabelos e o brinco na orelha, ele parecia mais um índio, mesmo sendo quase louro.
- Então, é americano? - pressionei. Ele sorriu.
- E o que você acha?
O sotaque retornara com força total. O homem era irritante!
De repente, ele segurou minha mão e me puxou para o jipe como se estivesse com pressa. Ele me soltou, saltou para dentro do veículo e ligou o motor, e eu
mal tive tempo de me jogar dentro do carro antes de ele sair em alta velocidade. .
Antes de fazer a primeira curva, Murphy olhou pelo retrovisor e resmungou:
- Droga...
O tom era tão casual que me limitei a ficar olhando para ele com ar atónito, sem entender toda a movimentação. Irritado, ele segurou minha cabeça e a puxou
sobre seu colo, e no mesmo instante eu ouvi os primeiros tiros.
Ele não parou. Não se encolheu. Apenas continuou dirigindo, e em poucos instantes deixamos os atiradores para trás.
A coxa de Murphy pressionava meu rosto. O zíper da calça ma¬chucava minha cabeça. Não tivemos tempo para tirar as mochilas das costas, e a minha estava retorcida
entre meu corpo e o assento. A dele o empurrava contra o volante.
Eu me sentei, removi a mochila e a joguei no banco de trás, depois o ajudei a fazer o mesmo.
- Seus amigos? - perguntei.
- Não pareciam muito amistosos.
- O que eles queriam?
- Minha morte, eu acho.
- Posso entender o sentimento, mas o que fez para merecê-lo? Ele riu.
- Também me quer morto, docinho? Dessa vez o sotaque era americano. Sulista.
- Talvez não morto - concedi. Afinal, ele era o único que se dispunha a me levar ao bokor.
- Se não morto, então... o quê?
- Sincero.
Ele realmente sabia onde encontrar o bokor? Ou me levava para as montanhas com propósitos escusos relacionados, se não à minha pessoa, ao meu dinheiro e à
minha vida?
Queria confiar nele, mas não conseguia.
- No instante em que for sincera comigo, docinho, serei absolu¬tamente sincero com você.
Ele tinha razão. Porém, não revelaria meus reais objetivos enquan¬to não estivéssemos bem longe de Porto Príncipe.
- Por que aqueles sujeitos atiraram em nós? Quem eram?
- Não sei. Não os conheço.
- Então... por que fugimos?
- Podiam estar atrás de você.
- Não há ninguém atrás de mim - menti. - Sou só a Sacerdotisa
Cassandra, uma simpática praticante de vodu vinda diretamente de Nova Orleans.
- Você o quê?
- Eu não havia mencionado? Ah, desculpe... É só o meu trabalho. Não se preocupe.
Murphy apertava as mandíbulas revelando grande tensão. Eu con¬seguira aborrecê-lo, e nem havia me empenhado muito.
- Veio ao Haiti e me pediu para levá-la às montanhas ao encontro ile um feiticeiro vodu, mas esqueceu de me contar que é uma sacer¬dotisa vodu. E devo achar
que isso é normal?
- Não está sendo pago para pensar sobre minhas atitudes.
- Esse é o problema com algumas pessoas, sabe? Elas não con¬seguem deixar de pensar. Mesmo que não sejam pagas para isso. E você não parece uma sacerdotisa
vodu.
- Ah, eu sempre ouço isso.
Deixamos Porto Príncipe para trás pela rota litorânea, depois vol¬tamos ao continente e tomamos a direção das montanhas.
Não houve mais tiros e ninguém tentou nos deter.
O dia chegava ao fim quando Murphy parou o veículo em uma estrada de terra batida. Estávamos na base de uma montanha coberta por árvores, e a folhagem era
uma paisagem tão incomum ali que não conseguia desviar meus olhos dela. O silêncio era ensurdecedor.- Vamos acampar aqui.
- Já? - Eu me surpreendi. Ainda tínhamos uma hora antes do anoitecer.
- E inútil continuar esta noite. Melhor descansarmos e retomar¬mos a viagem ao amanhecer. - Murphy virou-se para pegar sua mochila.
Eu desci do jipe e caí.
Ele correu e se ajoelhou do meu lado.
- Está sentindo alguma coisa?
- Não. Esse é o problema. Não sinto minhas pernas.
- Não paramos para comer ou esticar as pernas. Foi um erro grave.
Murphy ajudou-me a levantar, mas não me soltou.
- Quer morrer aos pouquinhos, meu docinho?
- Ah, não! Agora vai fazer rimas? Pare com isso!
- Está certo. Mas deixar de comer nesse calor, e nas condições de tensão em que estamos... Você vai acabar desmaiando.
- A tensão não importa mais. Despistamos aqueles sujeitos. Ninguém mais vai atirar em nós.
- Deus te ouça!
- O que quer dizer?
- Assim que chegarmos lá - ele apontou para as árvores -, será 9 aberta a temporada de caça. 1
- Temporada... do que está falando?
- Por que acha que ninguém mais quis levá-la aonde você quer ir?
- Porque não sabiam onde encontrar o bokor"]
- Porque ninguém quer vir aqui. Eles chamam o lugar de Montanha Sem Volta.
- Por quê?
- Porque as pessoas têm a péssima mania de desaparecer quando vêm procurar por Mezareau.
Eu não estava gostando nada disso, mas me recusava a me deixar intimidar por rumores e apelidos estúpidos. Mesmo assim, olhei de soslaio para as sombras à
nossa volta. A escuridão tornava o cenário ainda mais ameaçador e sombrio.
- Devíamos parar de usar o nome dele.
- Por quê?
- Porque ele é um bokor, um feiticeiro. Falar seu nome em voz alta permite que ele nos veja, talvez até que nos escute. Ele saberá que viemos antes mesmo
de chegarmos lá.
- Sei.
- De que outra maneira você explicaria o desaparecimento das pessoas?
- Ah, eu não sei... - Ele abriu os braços. - Guardas truculentos detendo todos os invasores?
- Talvez.
Mas eu não acreditava nisso. Sentia-me observada desde que Murphy pronunciara o nome do bokor. Podia ser paranóica, mas isso não queria dizer que não havia
alguém me espionando.
A sensação piorou no meio da noite, e eu tive certeza de ter ouvido i um grunhido e o farfalhar de folhas e galhos. Apavorada, me virei no saco de dormir
e vi um par de olhos na escuridão.
Murphy dormia. O rifle estava ao lado dele, e eu não hesitei em pegar a arma e atirar.
O estampido o acordou. Ele acendeu a lanterna, examinou toda a área... Nada.
- Tem certeza de que não era um lobo?
- No Haiti? - ele riu. - Você estava sonhando. Talvez...
Por outro lado, Nova Orleans também não abrigava lobos, e, no entanto...
Edward dizia que os lobisomens estavam evoluindo, usando todo tipo de magia para se reproduzirem e se tornarem mais fortes, mais letais. Talvez usassem vodu
no Haiti.
- Vá dormir - disse Murphy. - Não há ninguém aqui além de nós.
Olhei para as montanhas escuras.
Por alguma razão, ele não conseguia me convencer de que éramos apenas nós dois.
Capítulo II
Naquela noite eu não dormi. Como poderia? O sol ainda estava nascendo quando Murphy acordou e anun¬ciou que era hora de partir.
- Quanto mais cedo nos embrenharmos na floresta, mais fácil vai ser nos afastarmos de quem estiver nos seguindo.
- Pensei que os houvéssemos despistados.
- Talvez não. Melhor sair daqui antes de descobrirmos. Recolhemos nossas coisas e dividimos barras de granola e água.
- Vai deixar isso aí? - eu perguntei apontando para o jipe.
- Não consigo pensar num jeito de levá-lo.
Na minha opinião, abandonar o carro ali era como desenhar uma grande seta apontando para nós.
- Isso é uma encruzilhada - Murphy comentou com tom sério. - Deve saber o que isso significa.
Eu assenti.
Encruzilhadas e cemitérios eram as moradas da magia negra. Ne¬nhum haitiano com um mínimo de auto-respeito chegaria perto desses lugares, a menos que fosse
absolutamente necessário.
Murphy e eu viajamos num ritmo constante, vencendo a subida moderada que fazia minhas pernas reclamarem. O calor tropical me fazia suar muito, desde a cabeça
coberta por meu novo boné do New Orleans Saints até os pés dentro das botas de caminhada.
Na medida em que subíamos, a vegetação ia se tornando mais exuberante e densa. Ali não se via sinal do desmatamento que des¬truíra as reservas verdes do país.
Por volta do meio da tarde, eu percebi que havia perdido o senso de orientação.
QUANDO A LUA SURGIR... 29
- Como sabe aonde temos de ir?
- Acha que eu teria aceitado esse trabalho de guia se não conse-1'iiisse me mexer nessa área?
Por dinheiro ele aceitaria qualquer trabalho. E isso me intrigava, porque era evidente que Murphy havia sido bem-educado. Conhecia vários idiomas, era eloquente,
confiante... Sem as penas e as contas r com um bom corte de cabelo, ele poderia encontrar colocação nos Estados Unidos. O que fazia no Haiti?
Seguimos viagem em silêncio, oprimidos pelo calor e pela selva ameaçadora. Ao cair da noite, eu senti cheiro de água. Ou seria minha sede? Bebíamos sempre,
mas com parcimônia. Numa viagem como aquela, ninguém levava água em quantidade suficiente.
Murphy usou o machado para abrir caminho entre a vegetação que cercava um lago emoldurado por lindíssimas samambaias. O som da agua batendo gentilmente nas
margens, o cheiro de umidade, o frescor agradável do ar... Era como estar em um lugar fora do tempo.
Dei alguns passos na direção do lago, mas Murphy estendeu o In aço impedindo-me de prosseguir.
- Tire o braço da minha frente ou vai morrer - eu ameacei.
- Pode haver cobras.
- Meu animal de estimação é uma píton. Sou capaz de lidar com cobras.
- Você tem... uma píton?
Devia ser estranho para um não-iniciado.
- Sou uma sacerdotisa vodu. Preciso de uma serpente.
- Se você diz...
Na verdade, a cobra nunca havia sido uma necessidade; eu a de¬sejara, só isso.
Lazarus não era exatamente um animal carinhoso, mas depois da traição de meu marido e da morte de minha filha, ser tocada me dei¬xava nervosa. Por isso eu
havia gostado da ideia de ter uma serpente. I .azaras era leal e raramente fazia xixi no tapete.
- Tome cuidado - Murphy disse ao baixar o braço.
Bebi a água fresca e limpa com avidez, depois mergulhei a cabeça no lago, deixando os braços submersos até me refrescar.
Quando voltei a me sentir quase humana, olhei em volta certa de que Murphy fazia o mesmo que eu, ou montava acampamento, mas, cm vez disso, ele olhava para
mim.
Com os cabelos molhados e gotas de água escorrendo por seu rosto e pelo pescoço, ele parecia uma divindade da floresta.
Passei o dorso da mão pela boca, e os olhos dele, agora verdes como as árvores, seguiram o gesto.
- Você não sabe, não é?
- Não sei o quê? - estranhei. Ele se aproximou lentamente, tenso.
- Não tem ideia de quanto é sexy com a pele quente e a boca molhada, fresca...
- Eu não... Eu não...
Minha mente estava paralisada. Não tinha tempo para me sentir sexy, para namorar ou fazer qualquer outra coisa que não fosse me dedicar à missão de resgatar
Sarah, mas esse homem me fazia pensar em sexo o tempo todo.
- O que está procurando, Cassandra?
Ele tocava meu braço, e eu nem havia notado que se aproximara ainda mais. Estava tão confusa, tão perturbada...
Sem dizer nada, tentei me afastar, mas ele me tomou nos braços. E me beijou. Òu melhor, ele me devorou. Atordoada, agarrei-me em seus ombros e colei meu corpo
ao dele, sentindo as mãos explorando meu corpo com uma mistura de ousadia e desespero.
Ainda nos beijávamos, quando ouvi um estrondo. Era como um trovão distante, um som parecido com o que ouvira na noite anterior, quando Murphy insistira em
dizer que tudo não passara de um sonho.
Afastei minha boca da dele e olhei em volta, para as árvores.
Meu sonho nos seguira até ali, afinal.
- Para o chão! - gritei.
Murphy se jogou e eu o segui. A coisa saltou das árvores, passou por cima de nós e caiu no chão.
Não era um urso ou um felino, mas um homem. Isso não significava que não era uma besta... ou que não havia sido na noite anterior.
Por que eu considerava nosso atacante animalesco? Devia ser pelo grunhido que ainda emanava de seu peito. O trovão distante.
E ele se movia muito mais rápido do que a média dos haitianos. Murphy e eu nos levantamos rapidamente, mas a criatura já investia contra nós.
No rosto escuro brilhava um par de olhos claros, cinzentos, verdes ou azuis, eu não saberia dizer; estava hipnotizada por ver como ele rolava e se retorcia,
como se estivesse amarrado, talvez, ou ensandecido.
O homem saltou sobre Murphy, e os dois rolaram no chão. Nossas armas, machado, rifle, faca, tudo havia ficado à beira do lago, onde nos beijamos e esquecemos
a natureza de nossa missão. A luta era feroz. O atacante exibia os dentes como se pretendesse morder o rosto de Murphy.
- Que diabo está fazendo? - Murphy estranhou.
Eu sabia. Alguns zumbis da lenda tinham uma marcada avidez por carne humana.
Corri até o lago. Em vez de pegar uma das armas de fogo de Murphy, que certamente não estariam carregadas com prata, sal ou qualquer outra coisa útil naquelas
circunstâncias, abri uma das mo¬chilas para pegar o pó revelador de zumbi que eu mesma havia pre¬parado e escondido entre as provisões.
Não que houvesse funcionado antes, mas... não custava tentar.
- Cassandra! - Murphy gritou.
Rasguei a embalagem e derramei um pouco do pó na minha mão, correndo para os dois combatentes e me preparando para soprar a substância no rosto do atacante.
No momento em que soprei o pó, Murphy arremessou longe a criatura, recebendo como prêmio por seu alo heróico uma nuvem de poeira reveladora de zumbis.
- Opa!
Ele tossiu. Partículas caíam de seus cílios.
- Para o chão!
Eu me joguei. Um punho passou por cima de minha cabeça. Murphy agarrou o braço da criatura e a jogou no chão novamente.
- A arma! - ele gritou.
Dei um passo na direção do lago, mas parei ao perceber que a criatura conseguira se colocar sobre Murphy e mordia o ar na frente de seu rosto. Arranquei do
pescoço a corrente com o crucifixo e bati com uma das extremidades na nuca do estranho ser.
Ele grunhiu. Mas não era um lobisomem, porque não explodiu. Rápido, girou o braço para trás e me atingiu com o dorso da mão, no chão com um tranco doloroso.
- A arma! - Murphy repetiu.
Corri até a mochila e peguei a pistola. Por precaução, peguei também minha faca no chão, na margem do lago.
A criatura estava quase mordendo o nariz de Murphy.
Sem pensar, arremessei a faca e acertei a região central das costas da criatura, entre os ombros. Mais uma vez, não houve explosão, chamas ou faíscas. Aquilo
não era um lobisomem.
A coisa emitiu um som horrível e levou as mãos às costas, tentando arrancar a faca. Ele conseguiu o que queria, e eu percebi meu erro. Agora ele tinha a faca
e Murphy!
- Cassandra!
O estampido da pistola foi ensurdecedor na quietude da selva. O atacante estremeceu. A faca caiu; ele também caiu. Bem e cima de Murphy.
- Ufa... - Murphy conseguiu sair de baixo do corpo inerte ensangüentado.
O atacante não se movia; não respirava. As balas funcionava com os zumbis ou então ele não era um zumbi.
E se não estava morto antes...
Olhei para a primeira pessoa cuja vida eu tirava e não me senti nada bem. Havia sido necessário, mas nem por isso eu deixava de tremer e me sentir enjoada.
- O que ia fazer? - Murphy se aproximou e tirou a pistola da minha mão. - Ele ia me matar! E queria morder meu nariz... Que coisa absurda!
Eu caí, porque minhas pernas tremiam tanto que não sustentavam o peso de meu corpo. Não conseguia desviar os olhos do homem morto.
Murphy se ajoelhou ao meu lado.
- Você está bem?
- Não... quero dizer, como posso estar bem... depois disso? Ele correu até a mochila e pegou um saco de dormir, usando-o
como um cobertor para envolver meus ombros.
- Ei, foi necessário! Você não teve escolha!
Murphy me abraçou. Era tão bom em oferecer conforto quanto havia sido ao me beijar. Murmurando palavras doces, mas sem sen¬tido, ele massageava minhas costas
e me manteve em seus braços até os arrepios cessarem. E mesmo assim, não me soltou. Descobri que não queria que ele se afastasse de mim.
A noite caiu e eu continuei ali, me sentindo segura nos braços de Murphy. Quando ele tentou se afastar, eu o beijei. Suas mãos passeavam por meu corpo, apagando
todas as lembranças. Era essa a intenção.
O beijo foi ganhando ardor, sensualidade, intenção... As mãos buscavam lugares mais escondidos, íntimos. Ele começou a me despir, mas então lembrei...
- Pare! -gritei.
Murphy me encarou espantado.
- O que foi?
- Não posso... Quero dizer, não aqui, com ele... ali... - Apontei na direção do homem morto, sem forças para olhar para o cadáver.
Murphy olhou na direção que eu apontava e, devagar, encarou-me apreensivo.
- Se o problema é a presença do corpo, seus problemas acabaram - murmurou.
Intrigada, olhei para o local onde a criatura havia caído... e não vi nada. O corpo havia desaparecido.
Nós nos levantamos de um salto, quase como se fôssemos um só corpo. O momento de sensualidade estava esquecido.
- Mas o quê...? Se ele não estava morto, por que não tentou nos matar? - Murphy perguntou, olhando em volta com evidente ner¬vosismo.
- Acho que nosso amigo já estava morto. Por isso foi tão difícil matá-lo. De novo.
- Já estava... O que significa isso?
- A prata não causou uma explosão de fogo, por isso ele não era um lobisomem. E o crucifixo...
- Não pode estar falando sério.
- É claro que estou. Acha que o homem que nos atacou era só isso? Um homem?
Murphy não respondeu. Não sabia o que dizer.
- Não acredita em magia? - tentei novamente.
- Benzinho, essas coisas não existem. Acredito no que posso locar. Bebida, mulheres, dinheiro...
A resposta me incomodou, mas eu não sabia por quê. Eu acreditava cm magia. Sabia que o sobrenatural fazia parte do nosso dia-a-dia. Se Murphy não tinha esperança,
fé ou alma, em que isso poderia me afetar?
Bem, ele me beijara. E eu quase o deixara preencher aquele grande vazio dentro de mim. Saber que ele era ainda mais vazio que eu... Bem, por que isso não
me perturbaria?
- Acredita em monstros? - ele quis saber. - Bestas do mal que atacam na calada da noite?
- Sim.
- Isso explica por que estava preocupada com as árvores. Pelo menos agora eu sabia que o atacante não era um animal, mas
uma pessoa. Se é que um zumbi podia ser chamado assim.
Mas meu alívio durou pouco. O homem que nos atacara não havia falado, apenas grunhido, o que não combinava muito com um zumbi completamente humano. Por outro
lado, ele se movia bem demais para um morto, sem a lentidão e o desequilíbrio característicos, e parecera tão vivo quanto qualquer outro homem.
- Vamos voltar para Porto Príncipe assim que amanhecer - Murphy anunciou.
- Não!
- Cassandra, não há nenhum zumbi. Se eu soubesse que era isso que estava procurando, nem teria... não teria concordado com esse trabalho se soubesse que é...
- O quê? Maluca? Você disse que faria qualquer coisa por di¬nheiro.
- Não me deitaria com você por dinheiro.
- Eu não faço parte da negociação.
- Não foi a impressão que tive há alguns minutos.
- Não parecia estar muito preocupado com dilemas de consciên¬cia.
- Não, mas... Ah, não importa. Vamos preparar o acampamento - ele sugeriu com tom gentil.
Tive a sensação de que Murphy planejava alguma coisa. Como, por exemplo, encontrar um meio de me levar de volta a Porto Príncipe e entregar-me aos cuidados
de um psiquiatra.
Ajudei a montar acampamento e preparar o jantar, mas não parei de pensar nem por um segundo. Não podia mais confiar nele, se é que havia confiado em algum
momento.
Devíamos estar perto do povoado de Mezareau, ou não teríamos sido atacados por um zumbi. Seria melhor prosseguir sozinha, em vez de seguir cegamente o sujeito
que acabaria me internando em um hospício. Mas como eu poderia escapar sem que ele me visse?
Simples.
Pó de vodu para dormir.
O pó era, na verdade, um medicamento herbal que eu vinha utilizando desde a morte de Sarah. E se ele me fazia dormir, apesar de indo, Murphy não teria a menor
chance de resistir ao sono.
E quando ele apagasse, eu escaparia. Quando acordasse, ele não se daria ao trabalho de me seguir, pois teria a seu lado o dinheiro do pagamento pelo serviço.
Foi fácil misturar o pó para dormir em sua comida. Ele comeu o puré de maçã da embalagem descartável sem notar o que consumia, ou sem se incomodar com isso.
A noite havia caído por completo. Um crescente um pouco maior do que da noite anterior flutuava no céu sobre a selva à nossa volta. Murphy mantinha o rifle
sobre suas pernas.
- Vou ficar vigiando.
Ele jamais conseguiria se manter acordado para isso. Além do mais, a arma não teria nenhuma utilidade se a estranha criatura deci¬disse voltar.
Quinze minutos mais tarde, Murphy cochilou pela primeira vez. A cabeça caiu sobre o peito e ele acordou assustado, olhando em volta. Mais alguns minutos,
e ele adormeceu novamente com a cabeça caída sobre o peito. Esperei uns quinze ou vinte minutos, só para ter certeza, depois peguei minhas coisas.
Desenhei um círculo de sal em torno de Murphy para protegê-lo durante o sono. Nenhum zumbi podia passar pelo sal.
Antes de ir, joguei o dinheiro no chão na frente de Murphy. Ele não teria motivo algum para me seguir. Estávamos quites.
Enquanto caminhava para as árvores, eu me recusei a sentir tristeza por isso. Tinha muitas outras coisas pelas quais me entristecer. Como
0 inferno para o qual me dirigia. Como subíamos a montanha em direção ao norte, decidi manter esse curso. Senti um certo desconforto por pensar que esse
era o caminho mais fácil, quase como uma estrada <le tijolos amarelos ao contrário, um caminho que me levaria para 1onge do mago, em vez de me levar até ele. Mas...
eu não tinha escolha.
Era seguir em frente ou desistir. E eu nunca desistiria.
Viajei durante toda noite, certa de que a trilha me levaria a algum lugar. Ouvia apenas os insetos, e tudo permaneceu quieto e tranquilo a hora mais escura
da noite, pouco antes do amanhecer, quando a lua e as estrelas desaparecem e o céu fica negro como o poço do inferno. Odiava essa hora. Era quando os sonhos chegavam.
Sonhos com Sarah.
- Hoje não vai haver nenhum sonho - murmurei. - Porque não vou dormir.
Parei, porque não conseguia mais enxergar a trilha, e peguei meu cantil. Apoiada ao tronco de uma árvore, bebi devagar observando o céu, esperando pela luz
que anunciaria o fim da noite e assinalaria a chegada do sol. Mas nada acontecia.
- Talvez aqui o processo seja um pouco mais demorado - sussurrei.
Mas o som de minha voz não me acalmava.
De repente um barulho. O som no meio da vegetação era tão aba¬fado que eu nem o teria ouvido, se estivesse caminhando. Devia ser um animal pequeno, talvez
peludo.
Minha mão direita buscou a faca, mas não chegou a sacá-la. Antes disso, uma figura surgiu do meio das árvores.
- Sarah...
Queria tocá-la, mas não ousava. Não podia ser real. Eu queria muito que fosse, mas sabia que não era possível. Se a tocasse, ela desapareceria numa nuvem
de fumaça.
Sarah vestia a roupa com que havia morrido, o uniforme azul ma¬rinho e branco da escola particular. Seu cabelo escuro, muito seme¬lhante ao meu, estava escovado,
e ela tinha as faces coradas e saudá¬veis, cheias de vida. Os olhos castanhos como os de Karl brilhavam intensamente. A única coisa estranha era que ela não usava
meias ou sapatos.
Eu devia estar sonhando, mas continuava ali em pé, com as costas apoiadas ao tronco da árvore.
Mudei de posição e minhas botas rasparam a terra, fazendo um ruído característico. Bati a mão contra o tronco da árvore. A dor ex¬plodiu em meu braço.
Mamãe...
O som era um murmúrio do vento.
Lágrimas inundaram meus olhos. Eu devia mesmo estar perdendo a razão.
Está tudo bem.
Não. Não realmente. Nada,havia estado bem desde que ela morrera.
Mamãe, ela repetiu, correndo na minha direção.
Eu me ajoelhei e estendi os braços, e ela passou por mim como primeiro sopro gelado de outono.
Fechei os olhos e pude sentir seu cheiro. Aquela fragrância particular que era só dela, doce e marcante, uma mistura de branco leitoso fluorescente, sol,
sombra e terra. Não sentia aquele cheiro há muito tempo.
- Tudo bem?
Abri os olhos. Estava sentada no chão, cem as costas apoiadas na árvore. O sol já havia nascido, criando um halo em torno da cabeça de Murphy.
Eu pisquei confusa.
- Que horas são?
- É só isso que tem para dizer? Você me dopou!
- Eu não!
Havia dormido e sonhado com Sarah. O desapontamento enchia meu peito, entorpecendo todas as outras sensações. Se não havia sido um sonho, minha filha era
um fantasma.
Perdera horas de viagem e me deixara alcançar por Murphy.
- O que está fazendo aqui? - perguntei.
- Vou levá-la ao bokor, lembra?
- Não, quer me levar para a casa dos doidos. Ele riu.
- Não ouço essa expressão desde que minha santa mãe morreu.
- Se ameaçar dar tapinhas na minha cabeça, juro que vou esmur-t iir seu nariz.
Murphy sorriu.
- Assim é melhor. Agora, diga-me com o que me drogou, e por quê.
- Pó para dormir. Ervas, somente. E não funcionou muito bem.
- Dormi até o amanhecer. Não era essa sua intenção?
Olhei para o céu novamente. Pela posição do sol, devia ser meio • la tarde. Incrível!
- Não pensei que se incomodaria. Deixei o pagamento, então...
- Acha que eu pegaria seu dinheiro e voltaria feliz para Porto I 'i íncipe, deixando-a sozinha na floresta encantada para ir ao encontro iln morte?
- Não acha que está dramatizando demais a situação?
- Não.
- E por que chamou a floresta de encantada?
- Só queria ser engraçado. Por que nunca ri?
- Eu rio.
-- Só se for em silêncio. Nunca ouvi o som da sua risada.
- Não vejo muitos motivos para rir nesse mundo.
Murphy tocou meu rosto.
- Sinto muito por isso.
- Não é sua culpa.
- Mesmo assim, queria poder chutar o traseiro daquele sujeito que a acertou.
Percebi que ele não falava mais da minha tristeza, mas do olho roxo.
- É impossível chutar o traseiro de um zumbi.
- Ah, não... De novo isso?
- Sempre isso.
- Como posso convencê-la de que zumbis não existem?
- Não pode, porque eles existem.
- Cassandra...
- Sabe que houve um etnobotânico em Harvard que provou que o fenómeno zumbi é real?
- Duvido.
- E sério. No início da década de oitenta houve dois casos do¬cumentados de pessoas que apareceram vivas no Haiti anos depois de terem sido declaradas mortas.
Wade Davis, o etnobotânico, des¬cobriu que um veneno extraído do baiacu levava a vítima a um estado de transe profundo no qual ela parecia morta.
- Ouvi alguma coisa sobre isso. A vítima "morria", depois era chamada de sua sepultura pelo bokor e vendida como escravo em algum lugar bem longe de casa.
- Isso mesmo. E quando retornava à vida, ela era chamada de zumbi.
- Mas ela nunca esteve realmente morta, o .que significa que não era um zumbi.
- Exatamente. Mas não estou interessada em veneno para zumbi.
- Então, por que estamos tendo essa conversa?
- Porque você disse que zumbis não existem. Mas eles existem.
- E suponho que os lobisomens e vampiros...
- Também existem. Há um mundo inteiro sobre o qual as pessoas pouco ou nada sabem.
-Talvez por isso ele não exista fora da sua cabeça. Sabe, Cassandra, você me preocupa. Mezareau não é um homem muito... bom.
Eu me encolhi ao ouvir o nome do bokor. Esperei pelo arrepio e pela sensação de estar sendo observada, mas não senti nada. O que não queria dizer que Mezareau
não estivesse nos espionando.
- Ele não terá paciência para os seus contos de fada. Não quero que desapareça como todos os outros desapareceram.
- O homem é um bokor - eu disse. - A palavra em si é a prova cie que meu pedido não vai espantá-lo.
- Ele já enviou um homem para nos matar. E quanto mais eu penso naqueles sujeitos em Porto Príncipe, mais acredito que podem ter sido enviados por ele, também.
- Ele não sabe o que eu quero - argumentei. - Por que estaria (ão agitado?
- De acordo com você mesma, pronunciar o nome dele já confere poder ao sujeito. Ele sabe quem somos, onde estamos e o que quere¬mos. Não foi isso que disse?
- Sim, foi isso.
- Muito bem, Porém, se tentar adotar o ponto de vista mais equi-li brado, o homem tem gente em todos os lugares e todos querem cair nas graças do bokor. Farão
qualquer coisa para agradá-lo.
Isso ainda não explicava por que alguém havia tentado me matar.
Olhei em volta, examinando a pequena clareira. Talvez tenham tentado me enlouquecer duas vezes.
Mezareau enviara Sarah? Como ele podia saber sobre ela? Seria capaz de ler mentes?
Se o bokor era tão poderoso, não havia como prever o que ele podia fazer. As perspectivas me assustavam e enchiam de entusiasmo.
- Ele não quer ser encontrado - eu disse.
- Ah, você acha? - Murphy resmungou sarcástico.
- Só preciso de um pouco de conhecimento. Seria pedir demais?
- Talvez ele não queira dividir o que sabe.
Eu não havia considerado essa possibilidade. A religião vodu era inclusiva, cheia de gentileza, amor e generosidade. Mas um feiticeiro vodu não devia seguir
as mesmas regras.
Eu me levantei. Murphy estendeu a mão e, sem pensar, eu a segurei.
- Quem é Sarah?
De repente eu perdi o ar. Pensava nela o tempo todo. Chamava por ela à noite. Mas ninguém jamais havia pronunciado o nome de Sarah em minha presença nos últimos
tempos. A palavra parecia ras¬car meu coração.
- Onde ouviu esse nome? ,
Minha voz era rouca. Murphy franziu o cenho.
- Você o balbuciava quando cheguei aqui. Quem é ela?
- Minha filha.
Os dedos dele apertavam os meus.
- Onde ela está?
- Califórnia.
Cemitério Bellehaven. Califórnia.
Ele virou minha mão è deslizou um dedo pela marca deixada por minha aliança.
- Marido?
- Não tenho mais.
- Bem, já é um alívio.
- Alívio?
- Prefiro não beijar mulheres casadas.
- Não tem jeito de quem se importa com isso.
- Você não me conhece.
Ele estava certo. Estava zangada comigo, não com Murphy. Não queria desejá-lo, mas era impossível controlar o que eu sentia.
Retirei minha mão da dele, virei-me para pegar a mochila e notei uma marca no solo, um sinal meio escondido pela vegetação. Incli-nei-me para afastar as folhas
do arbusto, e nesse momento ouvi um estrondo vindo dò céu.
- A tempestade se aproxima - Murphy comentou. E melhor fi¬carmos aqui e esperar que ela passe. Não vai demorar. Nunca demora.
O sol havia desaparecido. Havia sombras estranhas, móveis. Eu não conseguia desviar os olhos da pegada que em princípio parecera mais próxima, mas afastava-se
na medida em que eu continuava olhando para ela. Pequenina. Perfeita. Dedos roliços, calcanhar redondo...
Devagar, comecei a caminhar na direção das árvores. Havia outra pegada. E outra.
Murphy foi atrás de mim. Quando ele me alcançou, eu já havia contado dez pegadas, todas levando na mesma direção.
- Cassandra!
Eu não parei. Não podia. Nem mesmo quando o céu se abriu e a chuva caiu devastadora, ensopando-nos em poucos minutos.
Escorreguei na terra molhada, mas Murphy me pegou antes que eu caísse.
- O que está fazendo?
- Veja essas pegadas!
Murphy me seguiu de volta ao ponto de partida. Eu olhava para o chão, e depois de alguns passos me ajoelhei na lama.
Não havia pegadas. Não mais. Em algum momento houvera? Os que importava, se agora haviam desaparecido como a própria lua? Tomei consciência de outro som,
mais alto que o ruído da chuva
os estrondos distantes de trovões.
Inferno. Estávamos em uma montanha e a água descia em abun¬dância.
- Veja a enxurrada - gritei. Mas Murphy balançou a cabeça, lim vez de correr, o que teria sido minha escolha, ele segurou
minha mão e me levou na direção do som.
Tentei me libertar, odiando a idéia de morrer antes de ter tentado nulo para recuperar minha vida, mas Murphy era mais forte e, por alguma razão, estava determinado.
I ile me fez atravessar um pequeno bosque de palmeiras, e eu cheguei ao outro lado ofegante, pronta para ser varrida por uma onda gigantesca que descia a
encosta carregando tudo o que encontrava no
¦ aminho.
Em vez disso, meus olhos se arregalaram diante da maior cachoeira eu jamais vira.
- É isso - Murphy murmurou. - Aqui vive o bokor.
- Onde?
- Diz a lenda que há uma caverna atrás da cachoeira, e do outro Indo da caverna... o bokor.
- Obrigada por ter me trazido. Agora eu vou ficar bem.
- Já que vim até aqui. Vou com você até o fim.
- Por que arriscar sua vida?
- Por que arriscar a sua?
Eu o encarei, recusando-me a desviar o olhar.
- Ah... - Ele estreitou os olhos. - Não me contou que sua filha estava morta.
Eu devia saber que um homem como Murphy era adepto da leitura inicial. Duas ou três informações, uma expressão mais eloqüente, e deduzia toda a história.
Não teria sobrevivido por tantos anos se mio fosse assim.
I iu me virei. A chuva continuava caindo com força impressionante, i nino se quisesse competir com a cachoeira.
- Por que pensa assim? - perguntei.
- Seria melhor perguntar por que não pensei nisso antes.
Ele me segurou pelos ombros. Foi um grande esforço não me dei¬xar cair sobre seu peito, buscar o calor de seu corpo másculo. Mas Murphy ainda era um estranho,
e agora ele conhecia meu mais pro¬fundo e sombrio segredo.
- Não vai dar certo, Cassandra.
- Vai - respondi com firmeza, cerrando os punhos até sentir as unhas na palma da mão.
- A morte é o fim; não há caminho de volta. ,
- Está enganado. A morte é o começo.
- Talvez seja, mas é o começo de outra coisa. Alguma coisa de qual ela não vai querer voltar.
Ouvi o eco das palavras de Renee, mas ignorei-as como as havia ignorado antes.
- Ela vai voltar.
- Mesmo que fosse possível levantar os mortos, a quem você desejaria uma existência de zumbi?
Eu me virei para encará-lo.
- Escute - ele continuou -, imagino que perder uma filha seja terrível, mas o que você está fazendo não vai consertar as coisas.
- Está enganado. Ressuscitar Sarah vai consertar tudo.
- O bokor é um homem perigoso. Ele está tramando alguma coisa em seu esconderijo.
- Exatamente.
- Refiro-me a drogas. Armas. Talvez até escravidão, o que explicaria os visitantes desaparecidos. ,
- Escravidão? Estamos vivendo no mesmo século?
- Nunca ouviu falar em escravidão branca?
- É claro que sim, mas não creio que haja tantas pessoas branca por aqui.
- Nós, por exemplo. Eu mordi o lábio. Agora ele havia tocado num ponto crucial.
- Além do mais, escravidão branca não é uma menção à raça Trata-se de escravidão sexual... de todas as raças!
- Você perdeu o juízo!
- Não. Você perdeu. E perdi também a paciência.
- Se está tão preocupado com o que o bokor pode fazer comigo por que me trouxe até aqui, afinal?
Murphy desviou o olhar.
Estava escondendo alguma coisa, mas... O quê?
Senti um certo desconforto. Talvez ele estivesse associado a Mezareau no negócio de tráfico de escravas brancas, e nesse caso cu acabaria a semana trancada
em um bordel no estrangeiro.
Meus dedos buscaram o cabo da faca.
Podia estar enganada, mas não perderia nada deixando Murphy nervoso.
- Trabalho para o governo - anunciei. - Eles sabem que estou
.te ] 11
Não exatamente ali, mas no Haiti, e Murphy não precisava dos detalhes.
Eu não tinha dúvida de que Edward me encontraria, se eu desapa-i iresse, ou pelo menos enviaria alguém com esse propósito. Se deixasse uma de suas agentes
ser vendida como escrava branca, que impressão ele daria da organização?
Eu me agarrava a fios de esperança, mas, nesse momento, esses I ios eram tudo que eu tinha.
- O que faz para o governo?
- Sou uma Jãger-Sucher. Sociedade dos caçadores de monstros. Tudo muito sigiloso.
Murphy encarou-me em silêncio por alguns segundos. Depois riu.
- Quase conseguiu me enganar.
- É sério.
O riso morreu; seus olhos estavam cinzentos, agora que não havia mais tanta luminosidade.
- Não precisa inventar histórias. Não vou matar você e jogar seu ri H po do alto de um precipício, nem mantê-la viva para vendê-la pela melhor oferta.
Eu não convenceria Murphy da existência do Jãger-Sucher, a me¬nos que o convencesse da existência de monstros. Tinha a sensação que isso não seria tão difícil,
uma vez que chegássemos ao outro lado da cachoeira. Comecei a caminhar para o lago.
Aonde vai?
O que você acha? Osu vi um suspiro longo e aborrecido seguido pelo som de um corpo cilando na água. Murphy me seguia.
As mochilas são à prova d'água? - perguntei.
E um pouco tarde para perguntar, mas, felizmente, a resposta f sim.
Alguns metros depois, nós nos deparamos com a cachoeira. Preparei-me para mergulhar e atravessá-la.
- Espere - Murphy pediu. - Vamos fazer isso juntos. Senti-me tocada por seu gesto. Devia insistir que ele ficasse ali,
porque podíamos estar mergulhando para a morte, mas deixei que ele segurasse minha mão, e entramos juntos na cachoeira.
Era de se esperar que fôssemos empurrados para o fundo pela força da água, mas emergi do outro lado apenas com um pequeno lapso de respiração.
Ainda segurava a mão de Murphy, mas ele parecia estar paralisado. Nada acontecia. A cortina de água me impedia de vê-lo, e a pele molhada era difícil de segurar.
Se eu o perdesse, o que aconteceria? Não queria nem pensar nisso.
Não conseguia encostar os pés no fundo, por isso estava desequi¬librada. Murphy continuava do outro lado da queda d'água, ou ficara preso nela. Neste último
caso, eu não tinha muito tempo para salvá-lo do afogamento.
Estendi os braços e segurei as mãos dele com força.
- Por favor - murmurei, puxando-o com meu corpo e minha mente.
Murphy emergiu da cachoeira e caiu em cima de mim, empurrando-me para o fundo. Minha boca se encheu de água e eu me debati, chutando e esperneando até voltar
à superfície tossindo e enchendo os pulmões de ar.
- Tudo bem? - perguntou Murphy.
- Sim, mas não é graças a você. O que aconteceu?
Ele começou a tossir como se houvesse engolido metade do ocea¬no. Descarreguei minha frustração batendo em suas costas. Depois de alguns bons tapas, ele segurou
meu braço e me fez parar. Desmancha-prazeres.
- Você passou, mas eu fiquei preso. Minha boca se enchia de água, e eu tinha de engolir para não sufocar e...
- Por que não soltou minha mão?
- Por quê? Não podia deixar você seguir sozinha.
Murphy se arriscara a morrer afogado por mim? Ele era quase um herói.
- Então, ouvi você dizer "por favor", e de repente estava voando - ele continuou. - Não sabia que era tão forte.
- Nem eu. Foi como... magia.
- Foi adrenalina, docinho, só isso.
Que herói. Não sei por que confiei nele, afinal.
Murphy caminhou cambaleante para a margem do lago, puxando pela mão. Chegamos na caverna, conforme ele previra. Era um lugar muito escuro, porque a única
luz ali era a do sol além da cachoeira. O silêncio me incomodava mais do que a escuridão. Murphy tirou a mochila das costas, e depois de alguns ruídos abafados,
um feixe de luz inundou a caverna. A lanterna, é claro.
- Então, não existe magia, não é? - murmurei.
Murphy continuou girando a lanterna em todas as direções, ilumi¬nando as paredes, mas era impossível mudar a realidade. A cachoeira havia desaparecido.
- Deve haver uma explicação lógica - ele disse.
- Para a transmutação de água em pedra? Se conseguir explicar 11 processo, será um prazer ouvi-lo.
Minha voz era alegre. Eu não podia me conter. Se a entrada da i averna era mágica, devia haver mais magia lá dentro.
- No seu lugar, eu não estaria tão animado. Como vamos sair daqui?
- Deixe para pensar nisso quando chegar a hora de ir.
- Vamos pensar nisso agora.
Ele deu um passo na direção do lago, e eu agarrei seu braço. A lanterna mergulhou na água e a caverna foi invadida novamente pela escuridão.
- Não creio que aquilo seja à prova d'água.
- Não... - Murphy resmungou furioso.
- Não temos outra?
- Não.
- Você não é exatamente um especialista na arte do planejamento.
- Não podia imaginar que ia jogar a lanterna na água.
- Eu não joguei.
- Talvez eu jogue você.
A sensação era muito boa. " - Acha que eu não seria capaz? liu parei de rir.
- Ei, o que aconteceu com o Murphy que segue sempre em frente, i lesviando de balas e enfrentando inimigos?
- Ele se afogou. i.
- Já sei. Não gosta de lugares pequenos, escuros e fechados. Não \ e isso.'
- Conhece alguém que goste?
Eu estendi a mão e bati em seu peito. Murphy estava mais perto do que eu imaginava.
Deslizei minhas mãos por seus ombros, pelos braços e pelas mãos, até entrelaçar meus dedos nos dele.
- Siga-me.
- Não. Acho que devemos esperar aqui.
- Para o caso da cachoeira reaparecer magicamente?
- É possível.
- Deve ter sido assim que todas as outras pessoas desapareceram. Ficaram presas... em algum lugar.
- Ah, isso me faz sentir muito melhor.
- Venha, há um túnel - eu insisti, puxando-o pela mão.
- Túnel? - A voz dele, antes rouca, agora soava estridente.
- Relaxe. É grande o bastante para passarmos por ele de carro. Você vai ficar bem.
A escuridão nunca me incomodou; eu sempre era capaz de me orientar. A menos que fosse a escuridão teórica da alma, é claro; então eu me perdia.
Estendendo a mão livre para frente, fui caminhando até alcançar a parede, depois segui tocando nela até meus dedos caírem no vazio.
Continuamos andando, exaustos e inundados de adrenalina; a com¬binação fazia zumbir meus ouvidos. Um zumbido que eu ignorei, até que ele começou a me lembrar
alguma coisa.
Eu parei e Murphy se chocou contra minhas costas.
- O quê...?
- Shhh - eu sussurrei.
Meus ouvidos ainda zumbiam. Eu me sentia desorientada na es¬curidão; não conseguia determinar se o som emanava de dentro de mim ou não.
- Veja - Murphy murmurou. Eu os vi.
Somente olhos. Mais nada. Pareciam flutuar no ar a uns quinze metros de nós. Havia algo de estranho neles, mas eu não tinha tempo para tentar discernir o
que era.
Um grunhido inconfundível retumbou na caverna, um som mai! animal do que humano, embora o eco dificultasse a identificação.
- Sua faca - Murphy sussurrou.
Ele estava armado, mas não podia atirar dentro de uma caverna. r Jiló sem correr o risco de um ricocheteio fatal.
Por outro lado, a faca também não resolveria o problema. Eu preparava do pó revelador de zumbis, que, se funcionasse, mandaria de qualquer zumbi para onde
ele havia saído.
Coloquei a bolsa que eu levava escondida na calça. O jeans ensopado nu- fez rezar para que o conteúdo da bolsa não estivesse arruinado.
Derramei um pouco de pó na palma da minha mão, suspirando aliviada ao sentir as partículas secas.
Pegue um palito de fósforo. Não faça fogo até eu dizer que é Una.
Não queria que a criatura fugisse assustada antes de eu me aproximar o suficiente para usar o pó revelador.
('ura uma das mãos segurando o pó, a outra tocando o cabo da Uca, comecei a me mover. Murphy seguia a meu lado. Percorremos mis cinco metros, e de repente
os olhos piscaram... e desapareceram.
fiquei tão assustada que derrubei o pó. Praguejando, estendi a mão pura frente e toquei pêlos. Recuei imediatamente, temendo que meus peitos fossem arrancados.
Acenda o fósforo - eu disse. O ruído foi seguido pela luminosidade alaranjada da chama. Meus "lhos, desacostumados à luz, perderam o foco. Alguma coisa correu
e transpareceu além da curva mais próxima e, sem pensar, eu também corri. Cheguei à curva no exato momento em que o fósforo se apagou. Eu esperei por um momento.
Um movimento, um ataque... O que você viu? - Murphy riscou outro fósforo. A luminosidade dourada apenas revelou pedra, terra e nada mais. Meu olhar encontrou o dele.
Uma cauda preta - murmurei. - Só vi a ponta. Talvez não tenha sido nada. - Eu queria que não fosse nada. Nós dois ouvimos o grunhido. Você ouviu? Ouvi.
senti os pêlos.
Item, o sujeito podia estar usando uma pele para cobrir-se... ou usa parecida.
li ele também usava um rabo?
- Você disse que não tinha certeza sobre cauda e... Ah, quem sabe?
- Certo. Então, estamos falando aqui de um louco, zumbi, ou de uma enorme coisa peluda que grunhe e anda por aí em lugares onde não devia estar.
- Por que sinto dor de cabeça sempre que você fala?
- Causo esse efeito em muita gente.
- Ah... Viu alguma coisa estranha naqueles olhos? , - Sim, mas... Não sei bem o que era.
- Áreas brancas. Sim. Era isso.
Só seres humanos têm áreas brancas em torno da íris; nenhum outro animal possui essa característica. A menos que se trate de um lobisomem.
Inferno.
- Que significado tem isso para você?
- Isso... o quê ? - perguntei.
- Olhos humanos.
O homem era rápido. Mesmo sem ver meu rosto, ele sabia que eu escondia alguma coisa.
- Bem... na forma animal, os lobisomens mantêm seus olhos hu-' manos - respondi. - Vamos.
- Vamos? Quer ir atrás daquela coisa assustadora?
- Sim. Vamos segui-lo. Além do mais, temos de seguir em frente. Atrás de nós não há nada!
- A menos que a cachoeira tenha voltado.
- Quer perder horas tentando descobrir?
- Não. Prefiro lutar contra uma criatura desconhecida a ficar pa¬rado naquele lugar escuro e pequeno até o fim dos tempos.
Foi então que eu vi. Uma luz no fim do túnel. Literalmente.
E comecei a correr. Murphy corria comigo.
Emergimos em uma clareira iluminada por uma lua crescente. O | ar quente e o cheiro de flores e vegetação foram minha primeira impressão daquele lugar. O
brilho da lua emprestava a tudo uma luz etérea e as cores eram mais vivas e cintilantes.
Ali, do outro lado da caverna, havia uma selva de verdade, densa e úmida. Onde estávamos? Eu acreditava em magia. Sabia que po¬díamos ter atravessado a caverna
para... qualquer lugar.
Murphy olhava em volta com evidente surpresa.
QUANDO A LUA SURGIR... 49
Um farfalhar chamou minha atenção para a densa vegetação ras¬teira. Devagar, eu removi a faca da bainha em minha cintura. Murphy empunhou o rifle. Talvez
ainda funcionasse, mesmo depois do mergulho. O estampido nos daria algum tempo, e eu poderia usar a faca antes da coisa rasgar minha garganta ou a dele.
Um homem surgiu da selva. Murphy mantinha o rifle pronto para ser usado. Talvez estivesse aprendendo.
O homem era alto, magro, com pele escura e olhos claros. Ele vestia uma calça caqui. Mais nada.
- Kijan ou ye? - Murphy ofereceu o tradicional cumprimento haitiano. Como vai?
- M'pa pi mal - respondeu o homem.
A voz dele era forte e clara. Não era um zumbi. Não um zumbi típico, porque esses só resmungavam e bufavam. Melhor assim.
Ou não, porque então ele podia ser...
Eu me adiantei e, antes que o desconhecido pudesse perceber, encostei a ponta da faca em seu braço.
Ele não reagiu, o que era estranho. Uma pessoa normal ficaria perturbada com minha atitude.
- Desculpe-me - eu pedi recuando. - Viu algum animal por aqui?
Ele inclinou a cabeça, um gesto que me fez pensar em um cachorro.
- Animal?
Pelo menos falava inglês.
- Sim, um cachorro, coiote, lobo...
- Não há coiotes ou lobos aqui.
- Aqui... onde? ----No Haiti.
- Alguém tem um cachorro muito grande e peludo que...
- Não, Sacerdotisa.
Eu pisquei e olhei para Murphy. Ele encolheu os ombros.
- Como sabe quem eu sou?
O 'homem se virou sem responder.
- Aonde vai?
- Se quer conhecer o bokor, venha comigo.
- Estou indo.
Murphy segurou meu braço.
- Vai seguir um estranho na selva?
- Eu segui você.
Murphy soltou meu braço. Depois de olhar para o desconhecido com um misto de receio e desconfiança, ele decidiu:
- Tudo bem, eu também vou.
Nosso amigo nos levou a um pequeno e pitoresco povoado onde não se via evidência de doença ou pobreza. As estruturas eram sólidas, muitas delas novas, e havia
fogo para cozinhar na frente de quase todas elas.
Era tarde, mas os habitantes ainda se moviam pelo lugar. Mulheres faziam pão, homens consertavam ferramentas. A única concessão à hora era a ausência de crianças;
deviam estar na cama. Quando en-tramos no povoado, muitas pessoas interromperam o que estavam fazendo para virem ao nosso encontro.
- Pierre - murmuraram com harmonia sobrenatural. Nosso guia inclinou a cabeça.
- Leve a sacerdotisa para seus aposentos.
Duas mulheres muito altas e fortes se adiantaram. Eram parecidas, irmãs, talvez, e juntas elas seguraram minhas mãos, sem se importar com a faca em uma delas.
Na verdade, era estranho que ninguém se incomodasse com nossas armas.
Eu parei, exigindo que minhas acompanhantes fizessem o mesmo, e esperei por Murphy. Depois olhei para Pierre.
- Estamos procurando por um homem chamado Mezareau.
- Poderão vê-lo quando ele voltar. Murphy e eu trocamos um olhar intrigado. -- Ele vive aqui? - eu perguntei.
- Sim, esse é seu vilarejo.
Não sei por que pensei que encontraria o bokor sozinho. Depois de iniciado, um sacerdote vodu cria a própria comunidade, onde fun¬ciona como conselheiro,
curador, assistente social e líder religioso. Seus seguidores buscam seus conselhos em todas as situações.
Um hougan existia para guiar seu povo. A viagem de Mezareau pelo lado escuro e sombrio da prática não negava sua responsabilidade de guia e líder.
Olhei para os moradores do vilarejo e senti um arrepio gelado. Ele os guiava, sim, mas... para onde?
- Onde ele está? - perguntei.
- Não está aqui.
- E quando retomará?
- Quando voltar. Descanse, Sacerdotisa. As provas não foram fáceis.
- Que provas?
- Pensou que poderia simplesmente caminhar até o vilarejo?
- Foi o que fizemos.
- Não. Foi impedida de vir, mas prevaleceu. Só os dignos con¬seguem passar pela cachoeira.
- Dignos de quê?
- Saberá quando o mestre chegar. O mestre?
- Como sabe que ela é uma sacerdotisa? - Murphy perguntou.
- O mestre tudo sabe porque tudo vê. E agora, recolham-se e descansem.
Como eu não pretendia ir embora sem falar com Mezareau, por que não? Além do mais, estava cansada.
- Certo, vamos nos recolher - eu concordei. - Mas ficaremos juntos.
Pierre balançou a cabeça.
- Sacerdotisa, não pode ficar na mesma casa com um homem com quem não é casada.
- O quê? Em que século estamos?
- Vinte e um. Mesmo assim, temos nosso estilo de vida aqui. A pureza do corpo leva à pureza da mente e à realização de todos os desejos.
A idéia era promissora, mas eu ainda não estava certa de que queria me separar de Murphy. Porém, como casamento estava fora de cogi¬tação, decidi aceitar
o alojamento separado.
Fui levada para uma casa em uma das extremidades do povoado e Murphy foi acomodado no extremo oposto.
A cabana era pequena e mobiliada com simplicidade. Havia apenas uma mesa, uma vela, uma esteira e um cobertor. Era o suficiente. Despi minhas roupas molhadas
e sujas e me enfiei sob o cobertor. O mundo escureceu assim que fechei os olhos.
Na profunda escuridão da noite, o grunhido furioso de um animal selvagem retumbava. Eu me mexi na esteira. Havia algo de estranho naquele som; alguma coisa
não fazia sentido. Mas, na manhã seguinte, eu nem conseguia lembrar o que havia escutado. Nem sabia se o som havia mesmo sido real.
Além do mais, tinha outras coisas com que me preocupar naquela manhã. Por exemplo... Onde estavam minhas roupas? E minha mo¬chila, minha faca...
- Ei!
Eu estava nua sob o cobertor, mas esperava que alguém me ouvisse do lado de fora. Caso contrário, teria de sair enrolada no cobertor, e a ideia não me agradava.
A cortina que servia de porta foi afastada, e as mulheres que me haviam acompanhado na noite anterior apareceram. Uma delas car¬regava uma blusa branca e
uma saia colorida, o traje mais comum no Haiti, e a outra trazia uma bacia com água e roupas secas. Elas dei¬xaram tudo sobre a mesa, sorriram, fizeram mesuras e
partiram sem dizer nada.
Rápida, lavei o rosto e me vesti.
A atividade no vilarejo era febril. Pessoas se moviam de um lado para o outro cuidando de suas tarefas, e eu tive a impressão de que o povo ali se preparava
para uma ocasião especial.
Por um instante, tive a impressão de ver o zumbi comedor de nariz espreitando por entre as árvores, mas quando pisquei, ele desapareceu, e como não acreditava
que alguém, especialmente um zumbi, pudesse se mover tão depressa, deduzi que me havia enganado. Mas não havia mal algum em perguntar.
As mulheres que me serviam esperavam por mim perto da fogueira diante da minha cabana. O desjejum, vegetais fritos e pão quente, havia sido deixado sobre
uma pedra que servia de mesa.
- Há alguém encarregado de guardar o vilarejo?
Uma delas, a irmã que usava um bracelete vermelho, ergueu os olhos do fogo onde era preparada a comida.
- Pierre é o guardião.
- Não. Refiro-me a um homem grande que gosta muito de narizes. Ele nos atacou do outro lado da cachoeira.
Ela balançou a cabeça.
- Qualquer um que esteja do outro lado pertence ao outro mundo, Sacerdotisa. E não estaria aqui.
Tive de me contentar com a resposta.
- Onde estão minhas coisas?
- Suas roupas estão sendo lavadas.
- E a mochila? A faca?
- Em local seguro.
- Mas...
- Tudo será devolvido.
Desisti de protestar. Não podia reclamar por terem confiscado mi¬nha arma. Eu teria feito o mesmo, e bem antes.
Comi o pão e os vegetais sem gosto, e quando pedi chá, uma das
mulheres torceu o nariz.
- Não é permitido, Sacerdotisa. Essas coisas são só para os loas. Desde quando? Sabia que café e tabaco eram exclusivos dos loas,
mas chá? E mesmo que oferecessem a bebida aos loas, isso não im¬pedia que os vivos também a consumissem. Não em outros lugares,
pelo menos.
Mas eu não podia reclamar; a comunidade não me pertencia e não havia uma autoridade suprema na religião vodu, alguém que deter¬minasse o que era certo ou
errado. Cada hougan criava e aplicava regras e rituais próprios.
Considerando todas as regras ali, Mezareau mantinha controle de ferro sobre sua gente, e esse era um problema dele, não meu. Precisava cumprir minha missão
ali, depois iria embora. Voltaria para a terra do café, do chá e dos preservativos.
Precisava parar de pensar nisso.
- Mezareau volta hoje?
A mulher mais perto de mim olhou-me assustada.
- Ele é o mestre.
Eu me negava a chamar o homem de mestre.
- Certo. Posso vê-lo?
- Ele mandará chamá-la quando estiver pronto.
Respirei fundo e decidi que perder a cabeça agora seria improdutivo.
Alimentada, atravessei o vilarejo na direção da cabana de Murphy. As mulheres correram atrás de mim. Eu não conseguia entender se elas eram ajudantes ou guardas.
De qualquer maneira, estavam me
irritando.
- Levante-se! - Eu disse ao afastar a cortina.
Mas o lugar estava vazio. E parecia ter estado assim nos últimos meses. Ou a cama não havia sido usada, ou alguém a arrumara bem cedo e cobrira com uma fina
camada de poeira.
- Onde ele está?
As mulheres trocaram um olhar confuso.
- Quem? ,
- Murphy. O homem que veio comigo.
- Mas, Sacerdotisa... - respondeu aquela que parecia ser a única a falar. - Chegou aqui sozinha!
Passei o dia todo procurando por Murphy, e à noite eu não conseguia mais disfarçar minha preocupação. Com ele, comigo e com minha sanidade mental. Helen,
a mais falante das duas irmãs, serviu-me um jantar sem gosto de nada que eu não consegui engolir, e pouco depois eu pretextei cansaço para me retirar antes mesmo
do pôr-do-sol.
Precisava pensar, planejar... Antes, enquanto Murphy estivera co¬migo, eu tivera certeza de que sairia dali e voltaria à vida. Mas agora... Agora temia desaparecer
como as outras pessoas que ousaram subir a montanha.
Mais uma noite se passou, e eu começava a me desesperar. Mesmo à noite, as pessoas trabalhavam incansáveis, quase obsessivas, e outra descoberta intrigante
mexia com meus nervos. As crianças que eu pen¬sara dormir na noite da minha chegada não existiam. E também não havia idosos. Comecei a imaginar um vilarejo habitado
por adultos jovens e criado por um propósito específico... mas eu não sabia qual.
Estava perdida. Teria de esperar Mezareau me receber e torcer pelo retorno de Murphy.
- Socorro... - murmurei desesperada. A súplica soou aflita, solitária e inútil.
Devo ter cochilado, porque despertei sabendo que não estava so¬zinha. Um som sibilante chamou minha atenção, e eu virei a cabeça e me vi cara a cara com uma
serpente.
Muitas mulheres teriam sofrido um colapso, mas as cobras nunca me incomodaram, antes mesmo da adoção da jibóia. Pelo contrário, elas me fascinavam.
A cobra era o símbolo do loa Danballah, meu met tet, um termo cujo significado era "mestre da cabeça". Como os anjos da guarda do Cristianismo, o met tet
cuidava de seu protegido por toda a vida.
Olhei para a cobra e lembrei que havia pedido ajuda.
Eu me sentei. O réptil rastejou até a porta e parou, como se espe¬rasse por mim. Eu me levantei para segui-lo.
O vilarejo estava quieto, mais vazio do que antes, embora não estivesse totalmente deserto. Onde estavam as mulheres que me se¬guiam por todos os cantos?
Ninguém parecia me ver seguindo a ser¬pente na direção das árvores.
Por um momento, pensei que ainda dormia, o que explicaria a falta de interesse em minha partida e a facilidade com que eu atravessava a selva antes impenetrável.
Então, pisei em uma pedra e a dor me fez ter certeza de que estava acordada.
Seguimos em frente na noite escura. Talvez essa fosse a punição por minha recente falta de cuidado com meu met tet. Estivera ocupada demais com lobisomens
para fazer as oferendas de comida, rum e coisas brilhantes. Esquecera de usar a cor de Danballah, o branco, em seu dia, a quinta-feira.
Mas não era uma punição. E a prova disso estava ali, bem na minha frente, além das árvores que pareciam se abrir como uma cortina. Uma cabana.
A cobra havia desaparecido.
Enquanto eu refletia sobre os meus pecados, minha guia se fora. E agora?
Aproximei-me da cabana que, percebi ao afastar suas cortinas, estava ocupada. O corpo perto da parede não se movia. Mesmo sa¬bendo que corria perigo, que
podia ser atacada e até morta, eu me aproximei da forma humana e imóvel.
- Murphy! - gritei, caindo de joelhos ao lado dele.
Mas o corpo estava frio, rígido e...
Morto?
Capítulo III
@@ Nãããooo! - eu gritei. Toquei o corpo inerte tentando virá-lo e aproximei meu rosto do dele para sentir sua respiração. Fraca. Muito fraca. Consegui encontrar
o pulso na base de seu pescoço, mas os batimentos cardíacos eram tão fracos que eu nem conseguia ouvi-los.
- Socorro... - murmurei.
Levantei uma de suas pálpebras, tentando ver se a pupila estava fixa, mas a escuridão me impedia de ver. Eu suspirei e deixei cair a cabeça até quase encostar
meu nariz no dele.
- Vamos, Murphy...
Ele abriu os olhos. A resposta foi tão imediata, que eu me assustei e recuei abafando um grito. Tentei me afastar, mas ele se sentou como se contasse com
a ajuda de uma mola, depois me agarrou pelos braços e me sentou em seu colo.
- O quê...?
Eu não consegui terminar a pergunta, porque Murphy me calou com um beijo.
Os lábios dele tinham um sabor doce e intoxicante, e com a língua ele explorou o interior de minha boca. Eu levei as mãos à nuca de Murphy, encorajando-o,
sentindo o calor das mãos fortes em minhas costas conforme ele me virava e amoldava o corpo ao meu, para que eu sentisse sua ereção.
- Cassandra - ele sussurrou contra meus lábios. - Pensei que você tivesse morrido...
Eu tinha pensado a mesma coisa dele, o que tornava nossa união naquele momento uma celebração à vida, além de um encontro de amor. Eu me sentira tão assustada,
tão sozinha... Precisava daquele contato, pois só assim conseguiria afastar os temores e a solidão.
Murphy aprofundou ainda mais o beijo, e minhas mãos se moviam como que por vontade própria, acariciando o peito largo, descendo para o ventre rijo, até alcançar
o cós da calça. Estremeci quando Murphy segurou meus seios e, em seguida, levantou minha blusa e tirou-a, expondo-me a seus olhos, sob a claridade do luar que se
infiltrava pela janela.
Murphy roçou a língua ao redor de um mamilo, enquanto nossos corpos se moviam em sintonia. Estávamos caminhando para algo es¬plendoroso e, naquele momento,
isso era tudo em que eu me concen¬trava. Com dedos trêmulos, tentei abrir o zíper da calça de Murphy, mas ele afastou minha mão e, em dois segundos, livrou-se da
calça. Não sei como, mas minha saia foi parar, enxovalhada, sobre meus pés, e quando dei por mim, minha calcinha estava nos joelhos. Ar¬queei o corpo para facilitar
a entrega, e gemi quando Murphy penetrou meu corpo, ao mesmo tempo que sugava um mamilo.
Agarrei com força os ombros dele e nossos corpos adquiriram um ritmo mais intenso, enquanto eu o sentia pulsar dentro de mim.
A sensação perdurou por longos minutos depois que alcançamos juntos o clímax, embora eu sentisse o ar esfriar rapidamente à nossa volta. Então, puxei um cobertor
sobre nós, criando um casulo que logo produziu um calor reconfortante, enquanto permanecíamos ali, abraçados, e nossa respiração pouco a pouco voltava ao normal,
mas não por muito tempo. Minha curiosidade não tinha fim.
- Você foi levado para aquela cabana do outro lado do vilarejo; na manhã seguinte, quando fui procurá-lo, disseram que...
- Que eu estava morto? Foi o que me disseram sobre você.
- Na verdade, eles me disseram que você não existia. Que eu havia chegado sozinha ao vilarejo.
- Isso não faz sentido.
- E alguma coisa aqui faz? Quero dizer, como veio parar em uma cabana no meio do nada, sozinho?
- Não sei. Acordei aqui na manhã seguinte à nossa chegada. Quero dizer, acho que foi na manhã seguinte. Eu estava tonto, tinha calafrios... Pierre estava
aqui. Ele explicou que eu teria de ficar isolado porque contraíra uma febre. A mesma febre que já havia matado você.
Ele me abraçou, e eu me senti emocionada com o gesto.
- Como me encontrou? -
Ignorei a pergunta. Havia coisas mais urgentes a serem discutidas.
- Vamos voltar ao vilarejo.
Murphy não discutiu, e sua reação me surpreendeu.
- Vamos - ele respondeu enquanto começava a se vestir. - Esteve com o bokorl
- Não. Eles dizem que eu serei avisada quando ele chegar.
- Que coisa mais irritante. Eu ri.
Murphy se levantou, mas cambaleou e tive de ampará-lo.
Saímos da cabana e examinamos a área. Nenhuma cobra; estáva¬mos por nossa conta. Eu comecei a andar na direção de onde viera.
Murphy me acompanhava. íamos devagar, porque ele estava pá¬lido demais. Se desmaiasse, eu não conseguiria carregá-lo.
- Acho melhor voltar e buscar ajuda - sugeriu.
- Ah, é claro! Eles têm sido tão prestativos! Mais uma vez, ele tinha razão.
- Tudo bem. Mas me avise se sentir que vai desmaiar.
- Se pude levar uma mulher ao orgasmo, acho que posso cami¬nhar até o vilarejo.
- Ah, inferno... - murmurei.
- Para mim foi o céu.
- Eu quis dizer que esquecemos do preservativo...
- Inferno! - ele exclamou assustado.
- Tarde demais.
Ele assentiu e respirou fundo algumas vezes antes de voltar a andar.
- Perdi a capacidade de raciocínio. Sinto muito...
Eu não sentia, mas não ia dizer isso a ele. Tentávamos ser adultos ali. Não podia simplesmente confessar que também havia perdido a razão quando ele tocara
meu corpo. Esse era o caminho mais curto para um coração partido, e o meu ainda estava longe de se recuperar.
- Tudo bem - murmurei.
- Conte-me sobre seu marido - ele pediu. - O que aconteceu com ele?
Apressei o passo, tentando fugir da conversa. Foi inútil.
- Eu mereço saber, Cassandra.
Merecia. Mas nem por isso eu tinha de ser doce e simpática en¬quanto falava.
-- Karl me traiu, provocou a morte de nossa filha e está preso. Espero que apodreça na prisão.
- O que foi que ele fez?
- Mentiu. Sobre quem era e o que fazia. Karl era empresário, mas, eu não sabia em que ramo de negócios ele atuava. Sabia que era bem-sucedido. Tínhamos dinheiro...
muito dinheiro. Ele pagava as contas; eu cuidava da casa e da nossa Sarah.
Murphy segurou minha mão.
- Ele não era empresário?
- Era o maior traficante de drogas de toda Costa Oeste. E não sei por que nunca percebi. Talvez por não querer ver...
- E Sarah?
-Karl entrou numa disputa com um fornecedor. Ele raptou Sarah e a matou.
Um silêncio prolongado me fez olhar para Murphy. Era impossível ler sua expressão.
- Como se envolveu com o vodu?
- Eu estava sempre sonhando com uma cobra. A serpente sim¬boliza Danballah, e sonhar com ela tantas vezes significa que o sujeito está destinado ao sacerdócio.
- No Haiti!
- Não. Em qualquer lugar onde se esteja estudando para isso. Danballah é um loa muito poderoso. Meu professor ficou impressionado.
No início eu só estudava e seguia os passos determinados, queren¬do alguma coisa de minha nova religião sem dar nada em troca.
Com a aparição persistente de Danballah em meus sonhos, passei a acreditar que estava fazendo a coisa certa, a única que eu podia fazer.
- Eu estava perdida - expliquei. - Confusa, incerta, sozinha. Estava procurando, e encontrei alguma coisa em que me agarrar. Ago¬ra sei que vou descobrir
um jeito de trazer Sarah de volta.
- Cassandra, isso é insano.
- É? Bem, vamos ver. - Eu respirei fundo. - Para terminar a história, eu precisava de uma nova identidade, e Sacerdotisa Cassandra foi uma ótima escolha.
- Está no programa de proteção à testemunha?
- Eu disse isso?
Mesmo que houvesse me entregado a esse homem e feito com ele coisas que jamais fizera com ninguém, não podia contar a ninguém sobre o programa de proteção
à testemunha.
As regras eram claras. A única maneira de desaparecer era deixar meu passado para trás. Porém, eu não conseguia. Não inteiramente. Porque Sarah ainda estava
lá, no meu passado.
Mas eu seguia todas as outras regras. Nunca revelava meu verda¬deiro nome, nunca dizia a ninguém que era uma testemunha protegida.
- Qual é seu verdadeiro nome?
- Não é tão bonito quanto Cassandra.
- Não gosto de dormir com uma mulher cujo nome não sei.
- Não dormimos.
- Não vem ao caso.
-- Para um homem que usa contas e penas no cabelo e uma argola na orelha, você é bem conservador. Meu nome é Cassandra, Murphy. Só isso.
- Devon.
- O quê?
- Meu nome é Devon. Depois do que fizemos na cabana, acho que você pode" me chamar pelo primeiro nome.
Eu havia desnudado minha alma, ou o que restava dela. Agora era a vez de Murphy.
- Depois do que fizemos na cabana, pode pelo menos me dizer de onde veio.
Murphy respirou profundamente.
- Nasci no Tennessee. Nas montanhas. Sou tão americano quanto o carvão que meu pai extraía das minas. Dez filhos. Não tínhamos nada. A mina foi fechada...
Minha mãe morreu...
- Quantos anos você tinha?
- Quinze. No dia seguinte ao enterro eu parti.
- Aos quinze anos?
- Por que não? Eu já vivia praticamente sozinho. Não ia me meter naquelas minas, mesmo que não estivessem fechadas. Fui para Nova York com a cabeça cheia
de sonhos, mas a cidade grande não era como eu pensava. Havia milhões de rostos bonitos. Acabei nas ruas, onde vivi por algum tempo e fiz coisas de que não me orgulho.
- Como veio parar no Haiti?
- Arrumei um emprego na área de construção civil, e depois daquele último furacão varrer o Caribe, fui convidado a me juntar ao grupo que participaria da
reconstrução do país. Depois que o trabalho terminou. Eu fiquei.
Para alguém que afirmava amar dinheiro, Murphy estava no lugar errado. De qualquer maneira, ele tornava meu espírito mais leve. Era honesto sobre quem era
e o que queria. Para uma mulher cuja vida havia sido arruinada por segredos e vivia escondida, um homem como ele era uma novidade irresistível.
Embora a cobra me houvesse levado à cabana, eu voltava sem nenhuma dificuldade, trilhando um caminho que só eu podia ver. Esperava chegar ao vilarejo em poucos
minutos, mas, quando afastei a cortina formada pelas árvores, encontrei uma clareira que jamais vira antes.
A luz da lua penetrava pelas folhas, tingindo de prata a relva que insistia em crescer entre as pedras do calçamento. Em menos de uma hora o sol nasceria.
Eu não conseguia acreditar que havia passado a noite toda vagando.
- O que é aquilo? - Murphy perguntou.
Havia uma cabana do outro lado da clareira. Murphy correu para lá, e eu o alcancei quando ele afastava as cortinas que serviam de porta.
- Olhe só para isso!
Havia uma cama, cadeiras, prateleiras com livros e um altar. Em uma das paredes havia a pele de um leopardo completa, com cabeça, dentes e olhos muito verdes
e cintilantes.
- Lembra quando senti pêlos na caverna e você disse...
- Eu disse que podia ser alguém usando uma pele. Nós dois olhamos para a pele de leopardo.
- Acho melhor sairmos daqui - eu disse.
- Em um minuto. - Murphy começou a vasculhar o lugar.
Eu me aproximei do altar. Ao lado dele havia um ason, um cho¬calho usado em rituais do vodu. Feito de casca de abóbora, um ason era recheado de vértebras
de cobra e decorado com colares de contas coloridas e brilhantes.
- O que é isso?
Murphy estendeu a mão para o chocalho.
- Não! Um ason só pode ser tocado pelo sacerdote a quem ele pertence. Ele é o símbolo sagrado do nosso serviço.
- Sacerdote?
O tom de voz de Murphy me fez chegar à mesma conclusão a que ele já chegara.
- Mezareau... - murmurei. ,
- Procurando por mim?
Mezareau era menor do que eu imaginava. Esbelto, vestido com
camisa de linho e calça, ele se mantinha muito ereto e usava os cabelos curtos e negros bem-penteados.
- Sacerdotisa Cassandra, ouil
A voz rica e profunda arrancou-me do torpor.
- Sim. Senhor.
Ele sorriu. Seus dentes eram brancos e alinhados.
- Você é Mezareau? - Murphy perguntou.
- Jacques Mezareau, oui, e você deve ser o homem que devia estar morto.
- E você estava tentando me matar.
- Ah, não, ele deve estar falando da febre - interferi.
- Não. Monsieur Murphy está certo; tentei mesmo matá-lo. Por que quer protegê-lo, Sacerdotisa? Ele a traiu.
Eu sabia que a acusação era tola, infundada e impossível. Eu mal conhecia o homem! Como ele poderia ter me traído?
- Cassandra...-Murphy começou.
- Cale-se! - Mezareau trovejou.
Ele se adiantou sem pressa e segurou Murphy pelo pescoço, tirando-o do chão sem nenhuma dificuldade.
- Pare com isso! - protestei.
Mezareau me ignorou, enfiando uma das mãos no bolso da calça de Murphy, de onde tirou alguma coisa. Satisfeito, ele soltou a presa com um movimento brusco.
Murphy cambaleou, e eu o amparei antes que caísse.
- Esse homem é um ladrão e um mentiroso, Sacerdotisa. Ele merece a morte. - Mezareau abriu a mão para exibir um enorme diamante. Uma pedra que ele havia
retirado do bolso de Murphy. - Ele veio por isto. Não foi por você, Sacerdotisa. Eleja havia tentado passar pela cachoeira antes - continuou. - Mas só os dignos
podem passar, e ele não é digno.
- Então, como ele conseguiu passar?
- Segurando sua mão quando estava sob a água.
Eu me sentia uma idiota. Derreti-me toda pensando que Murphy era doce, gentil e heróico, mas não era a primeira vez que me enganava a respeito de um homem.
- Suponho que tenha deixado esse homem se fartar em seu corpo. Eu me encolhi. Não só porque a suposição era verdadeira, mas
pela linguagem.
- Tola! Ele a está usando desde o início.
Mezareau estalou os dedos, e dois homens corpulentos apareceram na porta.
- Não! - eu gritei.
- Ainda o protege depois do que ele fez?
- Não quero que ele seja morto.
- Pensei que todas as mulheres traídas desejassem a morte do traidor.
- Não eu.
Mentira! Eu desejava a morte de Karl.
Mas havia traições e traições. Murphy não fizera nada além do que eu havia pedido. Mesmo que tivesse me usado, eu conseguira o que queria. Especialmente o
sexo.
Mezareau disse alguma coisa a seus seguidores e os homens agar¬raram Murphy.
O sorriso de Mezareau tornou-se ainda mais largo quando Murphy desapareceu além da cortina da cabana.
- Você mandou aquele homem ao nosso acampamento - eu deduzi.
- Oui.
- Ele era difícil de matar.
- Receio que ele não seja muito bom da cabeça.
- Eu percebi. Especialmente quando ele tentou mastigar o nariz de Murphy.
Mezareau jogou o diamante para cima e o aparou na palma da mão.
- Murphy é um ladrão, Sacerdotisa. Há muito tempo.
- Já ouviu falar em telhado de vidro?
- Está insinuando que eu roubei o diamante?
- Sim, estou. - Eu não tinha motivos para mentir. - Você é um bokorl
Ele assentiu.
Eu hão sabia como perguntar se ele era mesmo capaz de levantar os mortos. Mas tomei coragem para fazer outra pergunta:
- Sabe como trazer os mortos de volta à vida? i
- Mas... é claro que sim.
- Pode me ensinar?
- Se quiser... Porém, levantados mortos é um ato realizado por um bokor. Então, se aprender a realizar o ritual, você será como eu.
Eu sabia. Só havia evitado pensar nisso por medo de desistir. Mas agora, diante do fim da minha busca, da perspectiva de vida após a morte, eu compreendi
que nada tinha importância.
- Farei qualquer coisa.
- Eu esperava que dissesse isso.
- Pode me ensinar agora?
- O ritual só pode ser realizado na lua cheia. Uma semana!
- Até lá, você será minha hóspede.
Os capangas voltaram. Eles me seguraram e me levaram para mi¬nha cabana, a uns duzentos metros dali.
Os grandalhões me empurraram para dentro e ficaram na porta montando guarda. Eu não era hóspede. Era prisioneira.
O dia passou. A noite também. Mais dias e mais noites... Perguntei por Murphy, mas os guardas não respondiam. Se entendiam meu idio¬ma, fingiam não entender.
As duas irmãs desapareceram. Eu esperava que não houvessem sido punidas por me deixarem escapar. Punição ali era um assunto sério.
Finalmente, a lua se ergueu cheia e os guardas me deram um robe vermelho. A cor só era usada em rituais Petro, quando òs loas mais violentos eram invocados.
Isso nunca era feito em um templo, mas do lado de fora, em uma encruzilhada, em campo aberto ou na floresta.
Eles me levaram à clareira de calçamento de pedras. Mezareau esperava por mim vestido por um robe semelhante ao meu, segurando o ason em uma das mãos e uma
faca na outra. Aos pés dele, Murphy estava amarrado e amordaçado.
- Que diabo está acontecendo aqui? - perguntei.
- Quer aprender o ritual, não quer? - Ele se ajoelhou ao lado de Murphy, que arregalou os olhos ao ver a faca. - Vamos começar.
- Não vou permitir que o mate.
- Mas, minha cara, você disse que faria qualquer coisa.
Acha que levantar os mortos é uma proposta simples? Acredita que podemos realizar o feito apenas com a força de vontade, sem o sacrifício de sangue?
Não havia pensado nisso. Estendi uma das mãos para detê-lo, re¬cuei um passo e colidi com um dos guardas. Eles me empurraram para frente e eu tropecei, mas
me equilibrei a tempo de ver Mezareau levantando a faca.
- Não... - sussurrei.
Mas ele não me ouvia, ou não me dava importância.
Com um movimento rápido, ele baixou a lâmina. Pontos negros dançaram diante dos meus olhos. O que eu havia feito? Trocado uma vida por outra? A de Muiphy
pela de Sarah?
- Para sorte de vocês dois, esse ritual só exige sangue. Não pre¬cisamos da alma.
Os pontos negros se desfizeram no ar. Murphy não estava morto. Apenas sangrava. Mezareau recolheu o sangue que pingava de seu braço em um recipiente de madeira.
Murphy estava pálido; eu sentia náuseas. Mezareau sorria.
Um movimento de cabeça do mestre, e os guardas agarram Murphy e o levaram dali.
- Imite meus movimentos. Repita tudo que eu disser. Exatamente. - Mezareau pediu.
Ele deixou a vasilha com sangue no chão e pegou outra com água, depois sacudiu seu chocalho.
Eu abri os braços e ele apontou para uma casca de abóbora ao lado da vasilha. Eu nunca havia utilizado um ason que não fosse meu, mas segui as orientações
de Mezareau, brandindo o chocalho enquanto o seguia pela clareira.
Ele aspergia a água, nutrindo a terra. Na metade do círculo, entre-gou-me o recipiente. Fiz como ele havia feito, seguindo-o até fechar¬mos o círculo, estando
os dois do lado de dentro.
Ele começou a cantar, emanando emoções nas palavras.
- Volte para nós agora. Volte. A morte não é o fim. Viva nova¬mente como já viveu. Esqueça que morreu. Siga-me para o mundo. Volte para nós agora. Volte...
Eu repetia o cântico e ia caminhando atrás dele, descrevendo cír¬culos cada vez menores em direção ao centro da clareira.
Não entendia como ele podia levantar mortos que nem estavam ali. E não precisávamos de um nome? De que outra maneira o morto saberia quem estávamos chamando
de volta?
- Beba.
Mezareau segurava duas canecas, uma em cada mão, e oferecia-me uma delas. De onde haviam surgido?
Eu hesitei, mas ele sorveu todo o conteúdo de sua caneca, deixando-me sem alternativa. Reconheci o sabor: kleren, um tipo mais rús¬tico de rum branco produzido
no Haiti.
Mezareau jogou sua cabeça por cima do ombro. Eu fiz o mesmo. O mundo girou. A lua parecia maior, mais próxima, e ela falava comigo.
Logo. Em breve. Você vai fazer qualquer coisa.
Mezareau não parecia afetado. Ele se colocou na minha frente, e dessa vez segurava o recipiente com sangue.
O robe se abriu, revelando o diamante pendurado em seu pescoço. Eu também não teria deixado a pedra em qualquer lugar.
O ar tornou-se mais denso. O tempo passava mais devagar. O sangue caiu sobre a terra num fio vermelho. A lua fazia brilhar a jóia no centro de seu peito.
Eu sabia que não devia falar, mas não conseguia me conter.
- Onde está o corpo?
Minha língua estava mais grossa, pesada; a voz que ouvi não era a minha.
Mezareau não respondeu. Não foi necessário.
O sangue caiu sobre a terra, tornando-se negro sob a luz prateada da lua pouco antes da meia-noite.
Meu olhar foi atraído pelas pequenas plantas que eram como dedos brotando da terra sob os pedregulhos; e de repente compreendi que não pareciam dedos.
Eram dedos.
A terra tremeu e se abriu como na história do Mar Vermelho. Corpos brotavam do chão.
Eu caí ao lado de uma das mãos que buscavam o céu. Havia naquele braço uma pulseira vermelha.
O rosto de Helen surgiu na minha frente. A seu lado estava a irmã. Elas haviam sido punidas mais duramente do que eu imaginara. Le¬vantei-me com dificuldade
e olhei em volta procurando por Mezareau, mas ele havia desaparecido. Estava sozinha em um cemitério do qual brotavam mortos!
Corri para a cabana, temendo que eles agarrassem meus tornozelos ou me seguissem, mas nada se movia. Eles continuavam parados. Mortos.
Mezareau havia misturado alguma coisa ao rum. Eu via manchas coloridas, colunas de fumaça, e ouvia vozes sussurrando à minha volta. Mas não havia ninguém
na cabana. Só eu.
Meu corpo estava coberto por uma fina camada de suor. Minha respiração era ofegante, difícil. Eu só queria deitar e dormir até o pesadelo acabar.
E teria dormido, não fossem o retumbar dos tambores. Corri até a porta, mas a clareira estava vazia, exceto pelos corpos.
Corri para a selva tentando identificar a origem do som, mas era impossível.
Minha pele parecia pequena demais para meu corpo. As unhas coçavam. O nariz ardia. Acho que estava com febre.
- Mezareau! - gritei abrindo os braços. - Venha me buscar! Eu girava, batendo as mãos nos galhos e enviando folhas em todas
as direções. Comecei a rir, um riso ébrio, se não drogado, até tropeçar em alguma coisa e cair de joelhos.
O grunhido reverberou do solo e vibrou por meu corpo, atingindo até os dentes. Devagar, levantei a cabeça e me vi frente a frente com um leopardo. Ele exibia
os dentes, exatamente como a pele na cabana de Mezareau.
A coluna de fumaça girou diante de meus olhos; todas as cores se fundiram. Eu desmaiei e cai com o rosto sobre a terra.
Quando acordei, o leopardo havia desaparecido. Mas Sarah estava ali, no limite da floresta, chamando-me com os olhos. Eu me levantei e corri, mas ela também
correu. Sua risada enchia a noite; o perfume de sua pele pairava no ar; a dor de tê-la perdido me fazia seguir em frente.
Eu estava perto o bastante para tocá-la, quando ela se virou, olhou para mim e gritou. E correu ainda mais.
Olhei para baixo e descobri que eu era o leopardo. E meu pêlo estava coberto de sangue.
Acordei novamente em uma cabana banhada pelo luar. Nua, meu corpo se enroscava em outro. Eu conhecia aquele cheiro, aquela pele, o sabor da boca sobre a minha.
- Murphy...
Duvidava de que ele fosse mais real que Sarah, mas precisava de um sonho melhor. Agarrei-me a ele como se minha vida estivesse em fogo. Minha sanidade certamente
estava.
A cabana ficou escura quando a lua desceu no céu. Eu precisava <la escuridão; queria fazer com ele coisas que não eram feitas à luz do sol. Entreguei-me a
ele sem reservas, deixando-o inundar meu ( oipo com sua semente. Quanto mais tempo durasse aquele sonho, melhor...
Enquanto sonhava, eu esqueci a lua, o leopardo e os tambores, mas, estranhamente, ainda queria o sangue.
O sol aqueceu meu rosto e eu despertei. Sentia o corpo dolorido. A noite anterior havia sido terrível, cheia de sonhos estranhos. Abri os olhos... e me deparei
com os de Murphy!
- Aaaaahhhh! - gritei, puxando todo o cobertor sobre meu corpo.
- O que é isso? Depois de tudo que fizemos, não posso ver seu corpo nu?
- Aquilo foi um sonho.
- É mesmo? E de onde veio isso? - Ele levantou os cabelos para mostrar uma marca em seu pescoço.
Não havia sido um sonho.
Eu gemi e cobri o rosto com as mãos.
- Como cheguei aqui? - perguntei.
- Não sei. Depois da sangria, fiquei um pouco tonto. Ele exibiu o braço coberto por uma bandagem suja.
- Sinto muito.
- Eu sobrevivi. Por outro lado, com Mezareau por perto, não sei por quanto tempo vou poder me gabar disso. Eu desmaiei. Quando acordei, você estava nua em
meus braços.
- E, é claro, você não perdeu tempo...
- Pensei que fosse um sonho. Mas, quando acordei... Drogas, perda de sangue... De uma forma ou de outra, os dois
haviam perdido o controle e a consciência. O que eu não entendia era , por que, de repente, podíamos ficar na mesma cabana.
Notei minha mochila no canto do aposento e fui examinar seu conteúdo. Foi uma enorme alegria encontrar minhas roupas, o sonífero herbal e o pó revelador de
zumbis, mas a maior surpresa foi encontrar minha faca.
Eu me vesti, guardei o pó revelador no bolso da calça e prendi a faca na cintura. Já me sentia melhor, agora que estava vestida e armada.
- O que Mezareau disse sobre mim?
Murphy também se vestira, mas estava fraco e abatido. E desde quando ele se incomodava com o que diziam dele?
- Ele disse que você era um ladrão. Há muito tempo.
- Hum... É verdade.
- Pensei que trabalhasse na área de construção civil.
- Sim, eu trabalhei, mas fui um ladrão... na adolescência, quando saí de casa. Às vezes não tinha escolha...
Jovem, sozinho, faminto... Roubar era até compreensível. Naquele tempo.
- Devo deduzir que não rouba mais?
-Já viu os calos nas minhas mãos? Eu trabalho duro para sobreviver. Só ouvi rumores sobre o diamante quando cheguei aqui, no Haiti.
- Pensei que ninguém conseguisse sair desse lugar.
- Alguém deve ter saído, ou não haveria rumores.
- Tem razão. Então, em vez de ir embora quando o trabalho terminou, você ficou.
- Sim, porque pensei... - Ele encolheu os ombros. - Só mais uma vez. A última. Se conseguisse, nunca mais teria de me preocupar com dinheiro. Nunca mais
acordaria no meio da noite com medo de voltar para as ruas, de ser assassinado ou... coisa pior. Nunca mais sentiria fome. E que mal havia em roubar um feiticeiro
do mal?
- Roubo é roubo, Murphy. Você sabe disso. Ele abaixou a cabeça.
Eu me aproximei da janela e olhei para fora. A agitação parecia ainda maior entre os habitantes do vilarejo. Todos andavam de um lado para o outro e conversavam.
Ninguém prestava atenção em nós.
- Vamos - eu decidi.
Murphy e eu deixamos a cabana e ninguém protestou.
Caminhamos até a clareira. Eu pisei na terra revolvida recente¬mente. Os cascalhos do calçamento haviam desaparecido, talvez mis¬turados à terra pelos mortos.
Não havia nenhuma planta ali, nenhum dedo brotando do chão. Eu me ajoelhei no local de onde Helen brotara e, usando minha faca, comecei a cavar.
- Cassandra, o que está fazendo?
- Há corpos aqui.
Rápida, resumi tudo que vira na noite anterior, sem deixar de cavar. Abri um grande buraco na terra, mas não encontrei nenhum sinal de ossos.
- Não há nada aí, Cassandra.
- Eles foram levantados. Por isso a população do vilarejo cresceu.
- Coisas estranhas acontecem no Haiti - ele murmurou. - Mas levantar os mortos? Seria estranho demais. Mesmo para o Haiti.
- Como pode duvidar? Foi o seu sangue que os levantou!
- Um maluco me cortou e jogou meu sangue no chão. Isso não prova nada. Precisa superar essa obsessão, Cassandra. Vá para casa. Procure ajuda.
- Acha que sou maluca?
- Acho que sente falta de sua filha. É compreensível. Mas precisa deixar Sarah descansar em paz e seguir em frente com sua vida.
- Não posso. Sem ela não há vida.
- Construa uma nova vida.
- Não sabe o que está dizendo. Você nunca teve um filho. Aposto que nunca amou ninguém - disparei irritada.
- Tem razão. E ninguém nunca me amou.
Silêncio. Estávamos alterados. Ele e eu tínhamos os punhos cer¬rados. Aquela alteração não nos levaria a nada.
- Se existe uma chance de trazê-la de volta, mesmo que remota, eu vou descobrir. Aconteceu alguma coisa aqui ontem à noite.
- Você foi drogada. Imaginou tudo. Nenhum morto se levanta. É impossível!
Agora eu estava furiosa, talvez por temer que ele estivesse certo. Se estivesse... o que eu faria?
Voltei ao centro do vilarejo disposta a encontrar Mezareau e interro¬gá-lo, mas parei petrificada ao ver as duas irmãs que haviam cuidado de mim nos primeiros
dias. Elas pareciam muito vivas e felizes, ambas muito envolvidas com o que parecia ser uma típica conversa entre vizinhos.
- Vou mostrar o que é impossível - resmunguei, levando a mão ao bolso da calça para pegar o pó revelador de zumbis.
Derrubei tudo que tinha na palma da minha mão, criando um mon¬tinho. Era muito, mas eu estava com pressa.
Caminhei para o grupo, mas, antes de alcançá-lo, o vento soprou do nada e espalhou as partículas no ar. A nuvem se espalhou e atingiu o rosto de todos que
ali estavam.
Não sei o que eu esperava. Provavelmente, o mesmo nada que acontecera nas outras vezes, sempre que eu usara o pó. Afinal, se ele tinha mesmo algum valor ou
alguma utilidade, por que Mezareau me deixara conservá-lo?
O que eu não esperava ver era duas dúzias de pessoas gritando em agonia enquanto derretiam como a Bruxa Malvada do Oeste.
A carne se desprendia de seus ossos e os olhos perdiam todo e qualquer vestígio de vida. Unhas e cabelos se alongavam. As feridas que os mataram reapareciam.
Nunca eu havia visto nada parecido, e nem queria repetir a experiência.
Capítulo IV
O que você fez? A voz poderosa de Mezareau me fez desviar os olhos da pilha de came e ossos no chão.
Murphy colocou-se na minha frente. Mezareau o atingiu com um golpe tão violento que ele foi arrancado do chão e arremessado do outro lado do terreno onde
nos encontrávamos.
Eu me apavorei. Essa força não podia ser humana.
Mezareau me agarrou pelo pescoço. Sem pensar, toquei seu rosto deixando o restante do pó grudado em sua pele. Ele me apertou com mais força, e eu comecei
a ver estrelas.
Empunhei a faca, mas ele me sacudia como se eu fosse uma boneca de pano, e a arma caiu da minha mão. Pelo jeito, prata também não poria fim à vida dele.
De repente, ele me soltou. Eu caí com um estrondo.
- O que você fez?
Levantei-me com dificuldade. Murphy parecia estar inconsciente.
- Pó revelador de zumbi... - respondi com voz rouca.
- Eu testei o seu pó. Não era eficiente.
- Diga isso aos seus amigos.
- Qual é a fórmula?
- Um pouco disso, um pouco daquilo...
- Usou sal?
- Não.
- Então, não pode funcionar. Era o que eu pensava. Até hoje.
Mas, até hoje, eu nunca havia experimentado o pó em nenhum bumbi de verdade.
Mezareau olhou para mim como se Compreendesse tudo de repente.
- Não são os ingredientes que produzem o pó, mas a pessoa que os combina. Você é muito mais forte do que eu imaginava.
Eu massageei meu pescoço.
- Posso dizer o mesmo de você. Ele abriu os braços para mostrar o vilarejo.
- Esse lugar é especial. Por isso o escolhi. Quanto mais tempo passar aqui, mais forte vai se tornar.
- Isso tudo é besteira - Murphy interferiu.
Ele conseguira se sentar. Um olho já fora fechado pelo inchaço. Os dois trocaram um olhar carregado de fúria e ameaças. Se pas¬sasse ao confronto físico,
eu sabia quem venceria. E quem morreria.
- Qual é a ligação entre sal e zumbis? - perguntei, tentando encerrar o confronto.
- São mutuamente exclusivos - Mezareau respondeu carrancu¬do. - Um zumbi não existe depois de ser tocado pelo sal. - Ele olhou para Murphy. - A sacerdotisa
o encontrou antes de concluir sua purificação, por isso não foi possível realizar a transformação nessa lua cheia.
- Ia transformar Murphy em um zumbi?
- E claro.
- É claro - Murphy debochou. - Por que não?
- Você tem qualidades que admiro. Força, agilidade, dedicação ao objetivo, mesmo que seja só por dinheiro... Além do mais, depois de morto você não poderia
continuar tentando roubar meu diamante.
- Tem certeza? Eu não contaria com isso.
- Um zumbi só cumpre as ordens de quem o levantou do túmulo.
- O que está dizendo? - eu indaguei.
- Zumbis são escravos, Sacerdotisa. -Não! Eles são humanos novamente. Como se nunca houvessem
morrido.
- Os meus zumbis parecem humanos. Porém, eles não morrem como humanos normais.
- Só precisamos de uma pitada de sal - Murphy ironizou nova¬mente.
Nós o ignoramos.
Não morrer como qualquer ser humano era positivo, não era? Eu não queria que Sarah morresse novamente. Só teria de mantê-la longe do mar. Iríamos viver em
Topeka, por exemplo.
Mas as revelações me deixavam muito perturbada.
- Mas... os zumbis têm de ser escravos? Não pode libertá-los?
- Não sei. Nunca tentei.
- Como planeja me zumbificar? - Murphy indagou.
- A morte torna-se viva. - Mezareau abriu os braços. - O ritual.
- Mas eu não estou morto.
- Isso teria sido resolvido com enorme facilidade depois da sua purificação.
- Está matando pessoas para depois levantá-las do túmulo? - Minha voz soou estridente.
- De que outra maneira eu poderia criar meu exército com os dignos?
- Um exército de zumbis! - Murphy se levantou e cambaleou um pouco, mas logo parou ao meu lado. - Por quê?
- Meus ancestrais já estiveram no comando desse lugar no pas¬sado. Quero retomar o poder.
Murphy e eu nos olhamos.
- Está dizendo que vai...
- Tomar o país. Não será difícil.
- Não com um exército de imortais - Murphy concordou. Olhamos para.a pilha de carne e ossos. Nem tão imortais assim.
- Vai me matar também? - eu perguntei.
- Por quê? Você é a mais poderosa sacerdotisa vodu que jamais conheci. Eu esperava por você - Mezareau continuou. - Pedi ao Senhor da Morte que me enviasse
uma parceira poderosa. Não posso criar todo o exército sozinho. Especialmente agora, depois de você ler desintegrado um mês inteiro de trabalho.
Ele invocava o Senhor da Morte, o Barão Samedi, o guardião dos portões para o outro mundo e protetor dos zumbis. Eu devia saber. Mas havia algo na revelação
que me aborrecia, e eu não conseguia identificar o que era.
- Ela só vai matar mais de seus zumbis - Murphy avisou. Mezareau riu.
- Ela não vai conseguir produzir mais pó enquanto estiver aqui.
- Como sabe?
Ah, minha querida, eu sei. Se tentar qualquer coisa contra mim, inalarei seu amante e o embalsamarei com sal para que ele nunca ii ia is possa ser levantado.
- Ele não é meu amante - protestei. Não havia amor nessa his¬tória.
Murphy me olhou como se a declaração o magoasse. Qual era o
problema com ele?
- Mesmo assim, tenho certeza de que não vai querer o sangue de
Murphy em suas mãos.
Assim que ficamos sozinhos na cabana, eu olhei para Murphy e notei que ele parecia ter envelhecido décadas em poucas horas. Depois de passar fome, ser ameaçado
e ter o sangue roubado para uma ceri-monia de criação de zumbis, o que se podia esperar? A viagem até a montanha, aquele lugar, meus problemas... A culpa era minha.
- Lamento ter envolvido você nisso, Murphy.
- Eu sabia o que estava fazendo.
- Acho que não.
- Você já tem o que veio buscar; agora é hora de sairmos daqui.
- Por que a pressa?
Ele virou as costas para a porta, onde dois guardas impediam nossa passagem e pôs a mão no bolso da calça.
- Porque Mezareau vai me matar mesmo se descobrir que estou
com isto aqui.
Ele abriu a mão e eu vi o diamante.
Aflita, eu o peguei e joguei dentro da minha calça. Murphy tentou recuperá-lo, mas eu bati na mão dele.
- Como conseguiu isso?
- Sou perito em abrir caixas e outros recipientes seguros.
- Pensei que houvesse desistido de roubar.
- Não vim até aqui para ser drogado, raptado, dar o sangue, lite¬ralmente, e ter meu nome inscrito na lista dos dez mais de um bokor, para ir embora de mãos
vazias. Devolva a pedra.
-Não. E melhor que fiquei comigo. Ele precisa de mim para criar
o exército, lembra?
- Mezareau vai perceber que o diamante desapareceu.
- Não pretendo estar aqui quando isso acontecer.
- Ah... E tem alguma ideia de como vamos sair desse lugar ma¬luco?
- Não. Mesmo que possamos passar pelos guardas, ainda resta a
questão do desaparecimento da cachoeira.
- Não conheço nenhum encantamento que possa nos levar de volta a Porto Príncipe?
0 tempo passava devagar, e eu não conseguia pensar em um jeito de sair do povoado. Naquela noite, antes de dormir, peguei minha laca de prata e a coloquei
do meu lado. Não que fosse servir para muita coisa ali, mas...
- É bonita - Murphy comentou.
- É prática. Até pouco tempo atrás, a prata matava praticamente ludo.
- Usou isso para matar...?
- Não - admiti. - Não sou esse tipo de Jãger-Sucher.
- Ah..; E que tipo você é?
- Nem sei se sou realmente uma. Conheço vodu, e como o último problema com lobisomens envolvia uma maldição vodu, fui procu¬rada pelo grupo para ajudá-los.
A maioria dos Jãger-Suchers é com¬posta por lutadores. Matadores. Nada os impede de cumprir uma ta¬refa, porque eles sabem que, se fracassarem, pessoas morrerão.
- O que é isso, afinal?
Eu hesitei. Os Jãger-Suchers eram um grupo secreto. Mas como cu não tinha muita esperança de sair dali com vida... Ah, que diabo!
- O Jãger-Sucher é uma sociedade de caça aos monstros chefiada por Edward Mandenauer. Ele foi espião na Segunda Guerra. Sua mis¬são era descobrir as tramas
de Hitler.
- Uma missão grandiosa.
- Mais do que todo mundo ficou sabendo. Hitler era fascinado por lobos e lobisomens. Talvez porque seu nome Adolf significasse "Lobo Nobre". Quem sabe? Ele
escolheu o título fuhrer porque se refere ao líder de uma matilha de lobos caçadores. Hitler chegou a san-i ionar uma organização terrorista secreta denominada os
lobisomens.
- O que eles faziam?
- Perto do final da guerra, quando as coisas começaram a piorar para a Alemanha, os recrutas eram encontrados entre os membros "la Juventude de Hitler, da
SS, do exército e na população civil. ( orno lobisomens, eles pareciam ser gente comum à luz do dia, mas à noite levavam morte e destruição ao inimigo usando todos
tis meios disponíveis.
- E eram mesmo' lobisomens?
Eu nunca havia pensado nisso.
- Edward não disse. Talvez nem ele saiba.
- O que seu chefe descobriu sobre Hitler?
- Já ouviu falar em Josef Mengele? O médico que fazia expe¬riências com judeus, ciganos e... bem, com quem quisesse.
- Que maluco!
- Multiplique a loucura por dez. Hitler ordenou que Mengele criasse um exército de lobisomens, e foi o que ele fez.
- Como?
- Um pouco disso, muito daquilo... Ninguém sabe ao certo, já que Herr Doktor destruiu todos os registros.
- Mas ele não destruiu os lobisomens.
- Não. Esses ele libertou. Desde então eles têm se multiplicado, como muitas outras coisas que ele criou em sigilo no laboratório da Floresta Negra. Edward
devia eliminar os monstros, mas chegou lá tarde demais. Desde então, ele tem se dedicado a essa árdua missão.
- Se Mandenauer foi espião na Segunda Guerra, ele deve ser muito velho.
- Sim, ele é. Mas ainda atira muito bem. E tem praticado com regularidade. Ele administra todas as divisões dos Jãger-Suchers, em¬bora conte com a ajuda da
neta. Eles também têm um laboratório...
- Nesse laboratório também são criados monstros?
- Não. - Pelo menos eu acreditava que não. - Eles tentam encontrar curas para diversas mutações. Elise, a neta de Edward, é virologista. Atualmente, ela trabalha
pela cura do vírus da licantropia.
- Licantropia é como um resfriado? Ou como o resultado do uso de esteróides?
- De certa forma, sim. A maldição é transmitida pela saliva quan¬do a vítima é mordida, causando alterações no DNA.
- Os vírus não são difíceis de curar por estar sempre mudando e evoluindo?
O vírus da licantropia havia mudado. Principalmente porque os lobisomens haviam começado a combinar seu poder com magia num esforço para dominar o mundo.
Até agora, os Jãger-Suchers haviam conseguido frustrar todas as tentativas. Porém, mais cedo ou mais tarde...
- Os vírus são difíceis de controlar. E a licantropia é ainda mais difícil. Mas Elise é competente e dedicada.
- Como acabou se envolvendo com os Jãger-Suchersl
- Houve um lobisomem em Nova Orleans que foi criado por uma cainha vodu na época da Guerra Civil.
- E essa coisa continua andando pela cidade e produzindo outros lobisomens? Puxa, me lembre de nunca ir visitar Nova Orleans!
- Henri foi capturado; Elise o levou para o laboratório. Edward me mandou aqui para descobrir tudo o que for possível sobre a maldição.
- Pensei que estivesse aqui para aprender como levantar sua filha.
- Por conveniência, meu desejo e o deles são convergentes. Pelo que pude descobrir, temos que levantar a rainha vodu que lançou essa maldição e obrigá-la
a removê-la.
- Ah... Quanto tempo levou para se habituar a esse universo pa¬ralelo?
- Eu ainda não me acostumei.
- Que alívio... - ele murmurou. Depois me beijou.
Não sei o que havia nesse homem, mas cada vez que ele me tocava cu parava de pensar. Mas a presença dos zumbis do outro lado da porta era inesquecível.
- Não estamos sozinhos... - Murphy gemeu.
- Não, mas eu tenho uma ideia. O pó para dormir. Podemos dá-lo aos guardas!
- Ah... E como vamos convencê-los a engolir o pó?
- Ainda não cheguei nesse ponto do plano, mas estou disposta a Indo para sair daqui.
- Eu também. Mas e os outros? E Mezareau? Você nem .sabe se o pó funciona com os zumbis!
- Temos outra possibilidade? - Eu o segurei pelos ombros e esfreguei os seios em seu peito.
- Continue assim, e vou esquecer que não estamos sozinhos. Eu ignorei o comentário. Só queria distrair os guardas, dar a im¬pressão de que estávamos muito
ocupados.
- Há um jeito de multiplicar um efeito para todos os seres seme¬lhantes.
- Não entendi.
- Imagine que uma mulher quer uma poção de amor, mas ela quer que todos os homens a amem. Combinando esse encantamento IIIIII uma única poção de amor utilizada
em um só homem...
- Todos os homens a amariam. Ei, esse encantamento chegou em IHKI hora! O que precisa fazer?
- Só preciso repetir um encantamento verbal enquanto a poção, ou o pó ou outra coisa qualquer estiver sendo administrada.
- E... puf! Funciona com todo mundo?
- Teoricamente.
Aprendi o encantamento quando ainda era estudante, mas nunca tentara usá-lo. De acordo com meu professor, só um praticante de incrível poder seria capaz de
fazê-lo funcionar.
- Nesse caso, nós também dormiremos, Cassandra.
- Não somos zumbis.
- Ah, é... Mesmo assim, o bokor continuaria acordado.
Ele havia lembrado! Não pronunciara o nome. Murphy estava co¬meçando a compreender como as coisas funcionavam por ali.
- Ele não parece vir muito ao vilarejo, especialmente à noite. Prefere ficar na cabana confortável de senhor do feudo.
- Então... talvez ele nem perceba nossa ausência. Não até a manhã seguinte...
- Quando já estaremos bem longe.
O plano era simples; tinha de funcionar.
Ou seria um fracasso absoluto.
Enquanto Murphy distraía um dos guardas, eu guardei todas as coisas dentro da mochila, inclusive o diamante que tirei de dentro da calça, e a deixei perto
da porta, sempre contando. Quando cheguei ao noventa e oito, tinha a blusa ensopada de suor. No cem eu pedi:
- Ouça-me, Simbi, Mestre da Magia...
Simbi, o senhor da magia branca, era invocado nos encantamentos benignos. -
O guarda olhou para mim. Teria sido melhor se eu pudesse apenas pensar, mas o encantamento tinha de ser dito em voz alta.
- Dê-me o poder!
Senti um formigamento nas mãos. A sensação se espalhou rapi¬damente como uma corrente elétrica, uma onda de energia. Meu ca¬belo se moveu, apesar de não haver
nenhuma brisa, e a cabana ganhou uma luminosidade inexplicável.
Um trovão retumbou. A voz de Simbi. Ele me ouvia. E respondia.
O guarda começou a caminhar na minha direção, mas parou antes de alcançar-me. E recuou. Ele também sentia. Agora a noite me per¬tencia, e não havia nada que
ele pudesse fazer. Dei um passo na direção dele, e o grandalhão correu.
Lá fora, o trovão ainda retumbava; o ar cheirava a enxofre, mas o céu era claro como um lago azul. Nenhum sinal de chuva.
- Dê força à minha magia - eu continuei enquanto seguia o guarda. - Espalhe-a para todos de uma mesma espécie.
Ele caiu de cara no chão como uma árvore atingida por um raio. Passei por cima de seu corpo inerte.
Murphy também estava no chão, e por um instante temi que ele dormisse, como o guarda, mas ele levantou a cabeça e tentou pôr-se em pé. Corri para ajudá-lo.
A estranha energia desapareceu assim que concluí o encantamento.
Peguei minha bolsa ao lado da porta e Murphy e eu corremos para a floresta. Não havia ninguém no povoado. Mesmo assim, eu tinha a sensação de que alguém nos
seguia. E pelo jeito como Murphy olhava para trás a cada quinze segundos, ele sentia a mesma coisa.
- Quase... - ele murmurou.
Foi quando aconteceu o inesperado. Gritos cortaram o ar. Sombras surgiram na noite. Formas animais pairavam sobre nossas cabeças. Um gato, um cachorro, um
porco e alguns pássaros. A vegetação se abriu e dela surgiram um duende deformado e um troll retorcido, e eu entendi o que eram aquelas criaturas.
- Ele mandou os bakas
- Devo começar a gritar?
- Eles não são reais.
- Parecem bem verdadeiros para mim.
- Os bakas são espíritos maus que vagam pela noite; podem rou¬bar sua vida, se você deixar, ou levá-lo à loucura.
- Como nos livramos deles?
- Olhe nos olhos deles, e desaparecerão.
- É claro. Isso sempre funciona.
- Pare de fazer piadas e faça o que estou dizendo.
Era difícil fitar aqueles olhos, mas eu me concentrei no troll à minha direita. Pensei em Sarah e no que aconteceria, se eu não saísse dali. O medo evaporou.
O demônio também.
Os outros avançaram. Um dos pássaros se chocou contra minha cabeça. Olhei para ele furiosa, sem nenhum medo, e todos desapare¬ceram. Quando baixei os olhos,
Murphy e eu estávamos sozinhos novamente.
Ele me beijou nos lábios.
- Fantástico! - exclamou entusiasmado, como se tudo fosse um jogo.
- Venha, vamos sair daqui.
Quando eu já imaginava que nunca mais sairíamos da floresta, nós vimos a caverna. Infelizmente, o luar só penetrava na caverna em seus primeiros metros. Depois
tivemos de seguir tateando as paredes, ten¬tando nos orientar pelo som da água corrente. Por mais que eu aguçasse a audição, eu só ouvia um ruído de pedregulhos
atrás de nós.
Tentei não entrar em pânico. Podia ser qualquer coisa. Muitas coisas.
- Ouviu isso?
Água! Podia até sentir o cheiro de umidade no ar. Murphy riscou um fósforo e nós vimos... Um lago. Nada de cachoeira.
- Estamos perdidos - Murphy murmurou.
Olhei na direção que ele apontava e vi... olhos brilhantes se apro¬ximando. Olhos baixos, muito mais baixos do que estariam se fossem de um homem da altura
de Mezareau.
Ouvi um grunhido.
A faca estava em minha mão. O que era aquilo? Homem? Besta?
Eu não tinha ideia.
Um rugido ecoou na caverna. Eu me obriguei a encarar os olhos sem corpo.
A criatura saltou em minha direção. Eu arremessei a faca.
A arma atingiu o alvo com um baque surdo. Um grito sobre-humano ecoou na caverna, e Jacques Mezareau caiu com minha faca cravada em seu peito.
Assim que Mezareau caiu, o barulho de água corrente encheu a caverna. Fiquei olhando aturdida para a cachoeira que surgiu do nada na parede de pedra. Mezareau
devia ter usado algum tipo de encantamento de invisibilidade, mas a magia se desfez quando ele perdeu a consciência... ou pior.
-Belo arremesso-Murphy resmungou enquanto se aproximava do corpo.
Ajoelhado, ele verificou o pulso de Mezareau, arrancou a faca de seu peito, limpou-a na camisa da vítima e voltou para perto de mim, pegando minha mochila
ao passar.
- Vamos.
- Ele está...?
- Está. - Murphy guardou a faca na minha mochila e a pôs de volta em meus ombros.
Depois de me empurrar para dentro do lago e me puxar pela mão até bem perto da queda d' água, ele me pegou nos braços e atravessou a cachoeira.
Por um momento, pensei que me afogaria. Não enxergava nada e não conseguia respirar. Mas, tão depressa quanto entráramos na ca¬choeira, saímos dela do outro
lado.
A lua brilhava no céu quando saímos da água e deitamos na mar¬gem do lago.
- Acha que os zumbis virão atrás de nós?
- Não - eu respondi. - Acho que os zumbis continuam dor¬mindo.
- O que vai acontecer quando eles acordarem?
- Não sei. Agora que o mestre está morto, eles podem ficar con¬fusos.
- Você... Por que fez isso?
Decidi não mencionar o que vira na caverna. A altura dos olhos, a forma do corpo...
- Ele ia matar você.
Eu me sentei. Murphy também se sentou. Ele estendeu a mão aber-la e exibiu o diamante.
- É, tem razão.
- Como...?
Era óbvio. Murphy havia tirado a pedra da minha mochila ao guar¬dar a faca.
Ele era um ladrão. Um mentiroso. Mas meu estômago ainda dava saltos quando eu olhava para ele. Se não tomasse cuidado, acabaria se apaixonando por ele, e
eu não podia permitir que isso acontecesse, lira hora de deixar o Haiti... e Murphy.
O jipe estava exatamente onde o havíamos deixado. Murphy me levou diretamente ao aeroporto, e ele me acompanhava ao terminal quando três policiais uniformizados
nos abordaram. O trio estava in-kicssado em Murphy.
- Você está preso por invasão.
- Invasão? - Eles já levavam Murphy para a porta. Eu os segui. Onde?
- Muitos lugares.
- Eu estava com ele.
Murphy emitiu um suspiro irritado.
- Cassandra, cale a boca.
- Eu estava mesmo!
- Sua fiança foi paga, sacerdotisa. Sacerdotisa? Como eles sabiam disso?
- Quem pagou? - perguntei.
- Tem amigos em postos elevados.
Edward. Eu não sabia como ele havia tomado conhecimento da situação tão depressa, mas não me surpreendia que já estivesse agindo.
- Eu pago a fiança de Murphy.
- Há outros problemas.
- Sempre há - Murphy comentou. - Vá para casa, Cassandra. Eu encontro você lá.
Eu estava ansiosa para voltar à Califórnia, mas, se não fosse a Nova Orleans levantar a rainha vodu, Edward me seguiria até o oeste e me levaria de volta.
Além do mais, eu preferia testar a cerimonia antes de usá-la com Sarah.
-Vou resolver esse problema e depois irei encontrá-la-Murphy continuou. - Talvez esta noite.
Um dos policiais riu.
- Ou amanhã.
- Mas...
Ele se inclinou e me beijou.
- Acha que vou deixar você sair da minha vida agora? Era exatamente o que eu havia pensado.
Os policiais o levaram.
- Sra. Cassandra! - Mareei surgiu do nada, e eu nem achei que fosse estranho. - Vim para colocá-la no avião.
Eu ainda olhava para a porta pela qual Murphy havia desaparecido. Apesar das palavras dele e do beijo, eu não acreditava que voltaria a vê-lo.
- Não tenho passagem.
- Monsieur Mandenauer cuidou de tudo. Venha comigo, por favor. Eu o segui.
Quando desembarquei no Aeroporto Internacional Louis Armstrong, minha amiga Diana Malone Ruelle esperava por mim. Ela me conduziu pela alfândega em poucos
minutos, sem que ninguém sequer olhasse para nós. Trabalhar para Edward era ótimo.
- O que descobriu?
Diana não era de perder tempo com conversa amena. Eu sabia que cia estava feliz com minha volta, apesar do tom direto e frio, e gostaria muito de poder dizer
que estava feliz por ter voltado, mas não seria verdade. E preferia não examinar esse sentimento, porque, então, teria de pensar em Murphy, e isso era algo que eu
não queria. Habituara-me a tê-lo por perto depois de duas semanas de convivência.
Diana ligava o motor quando eu lembrei a razão de sua impaciên¬cia. Sua nova vida estaria arruinada, caso eu não conseguisse destruir a maldição da lua crescente.
Seu marido era um dos descendentes de uma longa linhagem de amaldiçoados. Adam ainda não era um demónio, mas seria, como Luc, seu encantador filho de oito anos,
en¬teado de Diana.
- Já sei como levantar a rainha vodu - eu disse. - Se ela vai pôr fim à maldição... - Eu abri as mãos.
Ninguém sabia.
Diana levou-me ao centro vodu em Royal Street. Meu apartamento ficava atrás da loja, e nós entramos juntas.
- Descobriu onde a mulher foi enterrada? - eu perguntei.
- Ah, foi fascinante!
Edward contratara Adam para ser um caçador, e há anos ele matava as coisas que seu grandpère criara, mas Diana era uma Jàger-Sucher mais no sentido da pesquisa,
como eu.
- Há um cemitério de escravos não muito longe da Mansão Ruelle - ela continuou. - Eu a encontrei lá.
- Não pode ter sido tão fácil.
- Foi mais fácil do que muitas outras coisas ultimamente.
- Que bom - respondi enquanto abria a porta do apartamento. Deixei a mochila perto da porta e fui ver Lazaras. Ele me recebeu
com um som ameaçador.
- Ei, só estive fora por duas semanas!
- Qual é o problema? - Diana perguntou da cozinha.
- Ele me ameaçou!
- Porque me viu, provavelmente, e ficou confuso.
Eu acendi a luz. Lazaras atacou, batendo a cabeça na tela de ga¬linheiro que revestia sua jaula. Eu recuei chocada. Ele continuava laçando com tanta violência,
que tive medo de que se machucasse.
- Qual é o problema com ele? - Diana perguntou.
- Não sei.
Peguei o telefone e liguei para o primeiro veterinário que encontrei no catálogo: Infelizmente, ele não conhecia as últimas psicoses ofídicas e não podia
me ajudar.
- Sugiro que procure um zoólogo especializado em cobras - ele disse.
Eu desliguei e olhei para Diana.
- O que é?
- Ele disse que eu devia procurar um zoólogo.
Ela se aproximou da jaula. Lazaras se enfiara na caixa no canto da gaiola e escondia a cabeça. Melhor que o comportamento agressivo de antes, mas ainda preocupante.
- O que você acha? - perguntei.
- Bem, não sei. Minha especialidade é outra. Os lobos... Não sei nada sobre répteis, exceto que não gosto deles. Mas Lazaras parece bem agora. Talvez tenha
apenas demonstrado seu descontentamento por você ter se afastado.
- Talvez... - Mas eu sabia que havia algo errado.
- Vamos beber alguma coisa enquanto você me conta tudo o que sabe.
Depois que Diana saiu, fechei a porta e voltei à cozinha, passando pela jaula de Lazaras que sibilou ao me ver. O som era estranhamente malévolo.
Peguei mais uma taça de vinho e minha mochila e fui para o fundo do corredor, onde eu mantinha um quarto, um banheiro e uma sala de estar. A cozinha e o escritório
eram as áreas comuns que separavam os espaços onde eu vivia e onde eu trabalhava.
Ali, na sala do meu modesto apartamento, eu liguei para Edward. A secretária eletrônica me pediu para deixar uma mensagem, e foi o que eu fiz:
- Estou em Nova Orleans, senhor. O bokor está morto, mas não sei se posso dizer o mesmo sobre os zumbis. Talvez alguém possa ir verificar e me dar notícias.
Podemos realizar a cerimónia com a rainha na noite de lua cheia. Até lá.
Pretendia tomar um banho, beber meu vinho e ir para a cama, mas cometi o erro de esvaziar a mochila antes.
Roupas amassadas e úmidas. Minha faca. Sacolas plásticas vazias.
Tudo cheirava mal, e eu decidi ser prática e jogar tudo fora. Menos a faca, é claro.
Examinei bem as sacolas e o fundo da mochila para ter certeza de que não me desfazia de nada importante, e meus dedos tocaram a pedra fria e lisa.
Pensei em Murphy sendo levado do aeroporto. Preso. Todos os seus pertences seriam confiscados, enquanto eu caminhava tranquila para o avião, onde embarcaria
sem problemas. E sairia do país.
Não acha que vou deixar você sair da minha vida agora, acha?
Não. De jeito nenhum.
Não enquanto eu tivesse o diamante.
Quando Murphy apareceria?
E por que estava tão magoada, tão ferida?
Havia nutrido alguma esperança de que ele aparecesse por mim? Murphy era um ladrão, um mentiroso! Não se incomodava com nin¬guém além de si mesmo. Mas ele
havia conseguido me convencer de que sentia alguma coisa por mim, então...
Não. Já havia derramado um oceano por Karl. Nunca mais choraria por outro homem. Não permitiria que ele arruinasse minha primeira noite em casa.
Levando o terceiro copo de vinho, meti-me na banheira tentando relaxar, mas era inútil. Quando sai dela, eu cambaleei. O calor, a longa viagem e três copos
de vinho no estômago vazio me haviam deixado (onta. Bem, eu não tinha nada melhor para fazer, mesmo... Joguei-me na cama nua e adormeci imediatamente.
Foi um sono agitado, inquieto. Nua, eu me debatia na cama com muita sede, mas água não saciaria essa urgência. Precisava de algo mais denso, mais forte, mais...
Vermelho. Mais vermelho até que o vinho.
Era atraída pelo som de água corrente. Estava na caverna, no lago... Sozinha.
Ou não? Ouvia um grunhido brotando da escuridão, mas não sentia medo. Pelo contrário, o som me excitava.
A água fria lambia meus seios, enrijecendo-os de desejo. Eu ca¬minhei para as pedras, para os olhos que.se materializaram na noite.
O grunhido ecoou nas paredes da caverna e eu continuava me aproximando, saindo do lago, caminhando com a água escorrendo por meu corpo. Minha peleja não estava
em fogo. Eu sentia arrepios. Os som da minha respiração era um eco das batidas de meu coração.
- Mostre-se - sussurrei.
A besta se colocou na luz.
Esperava um lobo, por isso não registrei de início aquilo que via.
Um pêlo brilhante, músculos evidentes, manchas negras sobre fun¬do âmbar, dentes e olhos de um leopardo.
A besta caminhou em minha direção, emitindo sons abafados que já não reverberavam. Eu não sentia medo. Afinal, era só um sonho.
O felino saltou, atingindo-me no peito e jogando-me ao chão, que agora era recoberto por uma relva macia e perfumada.
Não havia dor. Apenas curiosidade. Por que um leopardo, em vez de um lobo?
A resposta era simples. A sociedade do leopardo. A pele na parede da cabana de Mezareau. As lembranças haviam gerado o sonho.
A besta cheirou meu pescoço, beijou meus seios, e eu fechei os olhos desejando acordar.
Mas não acordei. A língua do felino passeava sobre meu seio. Abri os olhos, mas a caverna estava escura. Não conseguia ver nada. A língua prosseguia em sua
viagem por meu corpo, saboreando ventre, pernas, parte interna das coxas... Prazer e medo se misturavam, e eu mal podia respirar.
Só podia ser um sonho. Um leopardo jamais lamberia meu pesco¬ço. Antes, ele o rasgaria com os dentes.
Um leopardo também não lamberia a parte mais íntima da minha feminilidade, atormentando-me e despertando em mim aquela neces¬sidade febril. Não. O animal
beberia meu sangue. Mais nada.
O animal aproximou-se um pouco mais, e sua ereção roçou minha coxa.
Eu fiquei tensa e fechei as pernas. Mesmo que fosse um sonho, eu não ousaria ir tão longe.
Houve um segundo de trégua, e quando eu já pensava que tudo houvesse acabado, uma boca humana beijou a minha. Agora eu podia deixar o sonho seguir em frente.
Mais calma, abracei meu amante fantasioso e correspondi ao beijo, recebendo-o entre minhas pernas e vivendo a experiência mais erótica que uma mulher pode ter. Foi
um orgasmo intenso, violento, tornando ainda mais vibrante pelo fato de meu amante no sonho também explodir ao mesmo tempo, inun-dado-me com sua semente.
Abri os olhos. A escuridão se partia como uma névoa dissipada pelo sol. A meu lado havia um leopardo ofegante, exausto. Olhei para o meu corpo procurando
sinais de sangue, mas eu também era um leopardo.
Acordei gritando e me debatendo. Sentia na boca o gosto do pânico.
O dia nascia. Eu toquei meu corpo. Ainda era o de uma mulher.
Os efeitos típicos de um orgasmo ainda me deixavam trémula, com certas partes do corpo excessivamente sensível.
Eu me levantei e fui tomar banho. Não consegui suportar a água quente, por isso a deixei mais morna, quase fria. Quando terminei, já me sentia quase humana
outra vez. Como teria de esperar até a pró¬xima lua cheia para poder levantar a rainha vodu, decidi buscar um pouco de paz na confusa rotina da minha vida diária.
Escovei os dentes e os cabelos, e finalmente olhei para o espelho.
O que vi me deixou paralisada.
Quando meus olhos haviam ficado verdes?
Eu me aproximei, pisquei, virei a cabeça de um lado para o outro... o ri.
Não. Meus olhos eram azuis. Como sempre.
Estava só impressionada com o sonho. Devia ter um reflexo da luz do banheiro, mais nada.
Decidida a superar o desconforto causado pelo sonho, eu me vesti, preparei chá e fui examinar a papelada no escritório.
Duas horas mais tarde, eu estava pronta para abrir a loja. Quando intrei nela, Lazaras enlouqueceu, atirando-se contra a tela da gaiola muitas vezes seguidas.
Havia mesmo algo de errado com ele.
- Você vai para o veterinário, rapaz.
O som da minha voz o deixou ainda mais furioso. Lazaras atacava "'"m mais força e maior velocidade, até que, com o focinho sangrando, ele caiu inconsciente.
Aproveitei para transferi-lo para a gaiola portátil e, preocupada, i omecei a ligar para todos os veterinários do catálogo telefônico, até encontrar um especialista
em cobras.
Quando cheguei em Gretna, no subúrbio, Lazaras havia acordado, H julgar pelo sibilar ininterrupto e pelo som de seu corpo se chocando i outra a gaiola. Felizmente,
a jaula portátil era fechada, e nós não podíamos nos ver. Então, por que ele estava tão zangado?
Entrei na sala de espera, e os três cães que já estavam ali começa-i iiiii a uivar. O som era ensurdecedor e os donos não conseguiam acalmar os animais. Os
três cachorros olhavam para mim de soslaio entre um uivo e outro.
- É um gato? - perguntou um dos proprietários.
- Uma píton - expliquei. O homem franziu o cenho.
- Estranho... Ele nunca se incomodou com cobras.
A mulher ao lado dele tentou conter seu pastor alemão.
- King nunca viu uma cobra.
Aproximei-me da recepcionista. Não havia dado nem o terceiro passo, quando os três cães rastejaram para baixo das cadeiras de seus donos. Os uivos se tornaram
gemidos desesperados.
O barulho atraiu o veterinário, um senhor idoso com grandes cos¬teletas brancas, mas calvo no topo da cabeça.
- O que está acontecendo?
Os donos dos cães apontaram para mim.
- Ela tem uma píton - contou um dos homens. - Os cachorros entraram em pânico.
- Venha comigo - pediu o veterinário.
Eu o segui para uma sala nos fundos e deixei a gaiola sobre uma mesa de exame.
- É estranho - o homem comentou intrigado. - Nunca vi um cachorro se incomodar tanto com uma cobra. Qual é o problema com o animal? - ele perguntou, abrindo
a jaula e segurando a serpente pela parte de trás da cabeça.
- Ele...
Lazaras sibilou ao ouvir minha voz e começou a se debater. O veterinário o devolveu à gaiola e fechou-a. A caixa vibrou sobre a mesa, depois ficou imóvel.
- Ele é seu?
- Sim, é meu.
A gaiola voltou a vibrar.
- Você não parece ser o tipo de mulher que mantém uma píton em casa.
- As aparências enganam. Gosto de cobras. Sempre gostei.
- Há quanto tempo tem esse animal?
- Três anos.
- Sabe quantos anos ele tem? Meu coração acelerou.
- Disseram que ele tinha dois anos quando o comprei. Então... uns cinco, mais ou menos.
- Ainda é jovem. Pode ser apenas a puberdade ofídica.
- A... o quê?
O veterinário riu.
-Brincadeira! Mas uma senhorita píton poderia ajudar a melhorar o humor do nosso amigo aqui.
- Tem razão - Eu ri. Estendi a mão para a caixa, e Lazaras sibilou e investiu contra a parede interna com tanta força que quase a derrubou.
O veterinário franziu a testa.
- Acho que devia deixá-lo para alguns exames. Parasitas, vírus... Ele vai ter de ficar isolado em baixa temperatura por algumas semanas.
- Algumas semanas? - A ideia de passar tanto tempo sem Lazarus me perturbava, mas eu o perturbava ainda mais.
- Tudo bem - concordei. Eu me afastei. Lazarus ficou quieto.
- Qual é o nome dele?
- Lazarus.
- Um nome estranho para um réptil.
- Por favor, a vi se-me se descobrir alguma coisa, por favor.
- Será a primeira a saber.
Fui para casa, e meus dias voltaram ao normal, ou tão normal quanto são os dias de uma sacerdotisa vodu.
A loja estava sempre cheia. Eu nunca ficava sozinha. Diana ia me visitar sempre. Murphy não apareceu. Não telefonou. Não escreveu. Eu já começava a imaginar
que ele podia estar morto. Ou preso. Nada além disso o impediria de vir recuperar o diamante roubado de Mezareau.
E eu estava muito nervosa. Logo seria lua cheia, e eu teria de levantar uma rainha vodu morta, se é que a magia funcionaria con¬forme o esperado. Se tudo
desse certo, em dezembro eu teria Sarah de volta.
Devia estar mais feliz do que estava.
Lazarus continuava na clínica veterinária. O médico não havia encontrado nada de errado com ele, mas marcara a data para ele cruzar com uma fêmea. Ele queria
supervisionar a sessão, uma idéia que me pareceu um pouco pornográfica, mas concordei. A jaula onde Lazarus passava seus dias continuava vazia.
Duas noites antes da lua cheia, eu me sentei diante da janela de meu quarto com uma taça de vinho tinto. Ele era meu preferido desde que voltara do Haiti.
As semanas na selva deviam ter me deixado um pouco anêmica. Era a única explicação que eu encontrava para minha súbita depen¬dência de carne vermelha, considerando
que antes sempre havia pre¬ferido peixe e carne branca.
A noite era agitada no Quarteirão Francês. Eu ouvia risadas, vozes e buzinas, sirenes e gritos. Cansada, terminei meu vinho e fui para a cama vestindo apenas
a calcinha e uma camiseta muito fina. As sire¬nes invadiram meus sonhos.
Basin Street, perto do cemitério St. Louis Um, uma área imprópria para turistas, exceto durante o dia. Senti cheiro de perfume. Um cheiro forte. O ruído de
saltos finos contra o piso de ladrilhos era alto o bastante para incomodar.. Quanto mais eu me aproximava, mais de¬pressa ela andava, como se pressentisse minha
presença e sentisse medo.
A mulher virou à direita, para St. Louis Dois, uma região ainda mais imprópria. Tentei chamá-la, preveni-la, mas não conseguia falar. Então, andei mais depressa.
E ela também.
Uma sombra materializou-se na névoa, uma mulher, e ela respirava ofegante, em pânico. Senti o cheiro do terror misturado ao perfume. Ela olhava frequentemente
para trás, por cima do ombro, o que me permitiu chegar mais perto. Queria falar e acalmar seus temores, mas não conseguia.
Ela cedeu ao pânico e começou a correr; eu também corri, ou a perderia de vista. Em alguma lugar na noite eu sentia cheiro de co¬mida, e minha boca se encheu
de água. Meu estômago roncou alto. Os sonhos são estranhos...
Nunca havia sido muito veloz, mas naquela noite eu corria muito. A mulher tropeçou na calçada mal-conservada e caiu. Um grito es¬capou de seu peito. A névoa
tornou-se mais densa. Eu não conseguia ver mais do que uma sombra, mas ouvia a respiração arfante e suas tentativas de se pôr em pé.
Meus passos ecoavam na neblina, mas havia algo de estranho ne¬les. Eram abafados, como se eu estivesse descalça, e ecoavam como se eu tivesse mais de dois
pés. Olhei para trás, mas não havia ninguém atrás de mim.
Eu me virei, e a névoa se desfez. Os olhos da mulher ficaram maiores, e seu grito me assustou. Abri a boca para dizer que estava tudo bem, mas emiti apenas
um rugido baixo.
O choque do som deveria ter me acordado, se não os gritos da presa aterrorizada. Em vez disso, fui invadida por um estranho poder, uma mistura de força e
magia. Entreguei-me à besta, erguendo a cabeça e chamando a noite e suas criaturas.
Eu sentia fome. Era uma fome que pulsava em meu corpo, em minhas veias. Queria que a mulher corresse, e ela correu. Dei a ela alguns se¬gundos de vantagem;
depois flexionei os músculos e parti atrás dela.
Esperei que ela se sentisse segura o bastante para reduzir a velo¬cidade dos passos e respirar melhor. Então saltei... e a atingi no centro das costas, derrubando-a
sob o peso de meu corpo.
Rasguei sua garganta antes que ela pudesse gritar; o sabor de seu sangue era muito melhor que o do vinho.
Eu acordei. Havia lágrimas em minhas faces. Sentei-me, olhei para minhas mãos e esfreguei o sangue que sentia nelas, embora não pu¬desse ver.
Lá fora, no meio da noite e da escuridão, um pequeno animal morria gritando, e eu me levantei de um salto para ir olhar pela janela, mas caí deitada sobre
a cama antes de dar o primeiro passo.
Havia um homem na porta do quarto.
Capítulo V
Eu empunhava a faca antes mesmo que ele pudesse falar. - Assustada, docinho? Murphy. Eu devia saber.
- Você nem imagina - respondi, devolvendo a faca ao escon¬derijo sob o travesseiro.
Eu sabia por que ele havia ido me procurar. Entregaria o diamante, e ele sairia da minha vida para sempre. Então não teria mais de passar dias e noites esperando,
esperando... Seria melhor assim.
Tentei me levantar, mas ele se aproximou e apoiou a mão em meu peito.
- Aonde vai?
- Vou buscar o...
A boca desceu sobre a minha, e eu pensei... Por que não? Só mais uma vez para guardar de lembrança!
Eu acariciei seu peito. Ele fez o mesmo comigo.
Sentiria falta disso.
Se eu já não estivesse decidida e entregar o diamante, seu desem¬penho me teria convencido.
Ele me possuiu. E era bom nisso. Melhor do que o leopardo no sonho.
Fiquei subitamente tensa, mas ele murmurou indecências no meu ouvido, excitando-me ainda mais. Chegamos ao orgasmo juntos.
Ele levantou a cabeça e fitou-me nos olhos. Algo em sua expressão me deixou sem fôlego, como se houvesse ali uma conexão mais pro¬funda que a ligação entre
nossos corpos.
- Jolis yeux verts - ele murmurou antes de me beijar. Francês era o idioma apropriado para o momento. As palavras |
musicais, o sotaque sexy... Eu não queria que acabasse. Por isso o estreitava entre os braços, retendo-o dentro de meu corpo.
- Cassandra...
Eu me negava a abrir os olhos. Não sabia o que dizer. Não sabia o que fazer.
Murphy me abraçou, puxou o lençol sobre nós dois e murmurou:
- Durma...
Eu sabia que era um engano, mas relaxei e me deixei levar pelo sono.
Acordei sozinha. Não sei por que fiquei surpresa. Depois de um rápido banho frio, vesti short e blusa e fui para o escritório levando minha xícara de chá.
Tudo parecia intocado sobre a mesa.
Girei o mecanismo de segurança do cofre, puxei a porta e olhei para o espaço vazio onde deveria haver um diamante. Eu sabia que seria assim, mas meu estômago
estava oprimido.
Batidas na porta me fizeram pular e derramar chá na coxa nua. Resmungando, bati a porta e girei o mecanismo para acionar a trava do cofre, depois corri pela
loja escura. Quem poderia estar batendo àquela hora da manhã?
Por um momento, imaginei Murphy do outro lado, e meu coração se alegrou. Mas por que ele bateria, seja havia encontrado o caminho para o quarto na noite anterior?
Pensando bem, como ele conseguira entrar? Além das portas tran¬cadas, havia um muro alto cercando o terreno e arame farpado no alto do muro.
Diana entrou na loja brandindo um jornal.
- Já viu isto? - Ela se encaminhou para a cozinha. - Ainda não aprendeu a beber café?
- Não.
- Droga! Então, vou ter de me contentar com chá.
- Um dia vai me agradecer por isso. Qual é o problema? Dormiu descoberta?
- Adam ainda não voltou. Durmo mal quando ele está fora de casa. Você, por outro lado... E impressão minha ou seus olhos brilham mais do que o normal?
- É impressão sua. O que há de tão importante no jornal?
- Um ataque. Animal. Meu coração disparou.
- Lobo?
- Eles nunca revelam.
- Pensei que Adam houvesse posto fim aos feitos de Henri.
- Nem todos estavam em Nova Orleans. Por isso ele viaja tanto. Adam vagava pelo mundo exterminando os lobisomens que seu grandpère havia criado e libertado,
matando também todas as outras criaturas estranhas que encontrava pelo caminho.
- A mulher morreu na cidade - disse Diana. - Não que isso elimine a possibilidade de um dos lobos de Henri ter sido o autor do ataque, porque eles vão aonde
bem entendem, mas...
Fui buscar o chá para Diana. Minha mão tremia tanto, que acabei derramando algumas notas. Felizmente, ela não notou.
- Uma mulher? - perguntei num fio de voz.
- Sim, uma mulher. Foi perto de St. Louis Um. Nós duas sabemos que a área é solo fértil para bestas e outras criaturas temíveis.
Pontos negros dançavam diante de meus olhos. Eu pisquei e bebi um pouco de chá. A dor do líquido quente escaldando minha língua me fez voltar à realidade.
Eu não podia ter me transmutado e matado a mulher; havia estado em minha cama.
Além do mais, não havia sido mordida por um lobo. Não que a mordida fosse a última maneira de se adquirir licantropia, mas...
- Como sabem que foi um animal? - perguntei.
- Garganta rasgada. O de sempre. Preciso ligar para Edward.
- Vamos examinar o local antes - sugeri depressa. - Não há motivo para alarme enquanto não tivermos certeza.
- E não temos? Desde quando houve algum ataque com animais no Quarteirão Francês que não envolvesse lobisomens?
- Há sempre uma primeira vez para tudo - resmunguei cheia de esperança.
Fomos até Basin Street a pé. Antes mesmo de nos aproximarmos o suficiente para distinguirmos a fita amarela delimitando a cena do crime, eu vi a multidão
e tive de me esforçar para continuar andando. O grupo estava reunido exatamente no local com que eu sonhara na noite anterior.
Paramos do outro lado da rua.
- Não vamos descobrir nada com toda essa gente aqui - Diana reclamou. - Os policiais não vão nos deixar ultrapassar a fita.
Vi uma cabeça loura muito familiar.
- A menos que façamos Sullivan falar.
Já havíamos lidado com o detetive da homicídios antes. Ele não gostava de nós; estava sempre insinuando que tramávamos alguma coisa, embora não soubesse exatamente
o quê. Mesmo assim, não havia mal nenhum em tentar.
- Detetive!-eu gritei acenando.
Ele me olhou carrancudo. Certamente se lembrava de mim.
Havíamos tido alguns problemas durante a investigação do inci¬dente com o loup-garou e nós nos tratamos com certa hostilidade a partir do primeiro interrogatório.
Depois... Depois as coisas ficaram ainda piores.
O detetive atravessou a rua e caminhou em nossa direção.
- Sacerdotisa...
- Detetive.
- É curioso que tenham aparecido por aqui. Por que demoraram tanto?
- Estávamos apenas dando uma volta, detetive.
- Perto de St. Louis Um? E também andavam por aqui ontem, por volta das duas da manhã?
- Lamento, não.
- Tem um álibi?
- Preciso de um?
- Talvez.
- O que aconteceu, detetive? Ele encolheu os ombros.
- Os jornais já qualificaram o ataque como incomum. Presumo que esteja aqui por isso, não?
Nenhuma de nós respondeu.
- Os peritos contratados pelo departamento garantiram que só havia um lobo raivoso na área. E ele foi morto. Apesar de ninguém ter conseguido explicar como
um lobo apareceu por aqui, não há um lobo há décadas!
Sempre que havia algum caso de ataque animal inexplicável, Edward era notificado. Ele aparecia ou enviava alguém, dando as desculpas pa¬dronizadas da Jãger-Sucher
sobre animais raivosos e coisas do tipo.
Os lobisomens eram eliminados e a população recebia uma expli¬cação plausível. Aparentemente, Edward não se preocupara muito com os detalhes em sua última
viagem.
- Tem certeza de que foi um lobo? - perguntou Diana.
-- Não. Estamos esperando um zoólogo de... Ei, você é uma zoó-loga!
- Criptozoóloga.
- É especialista em lobos.
- E daí?
- Bem, temos aqui algumas evidências. Gostaria que desse uma olhada nelas.
Nós o seguimos para o outro lado da rua.
- Pegadas de lobo lembram enormes pegadas de cachorro - Diana comentou. - Mas não temos pegadas. Temos rastros.
- Rastros? - eu repeti.
- Em termos leigos, eles querem que eu examine fezes de ca¬chorro.
- E você conhece o assunto? - Sullivan perguntou.
- Mais do que gostaria.
- Ótimo! - Sullivan nos levou para perto do corpo coberto por um plástico negro. Tentei ignorá-lo, mas não consegui. Havia sangue na calçada e um sapato de
salto alto perto do meio-fio. O mesmo salto que eu vira no sonho.
Uma tontura intensa se apoderou de mim. Como eu poderia ter sonhado com tudo isso?
- Ali - Sullivan disse, apontando para uma pilha de fezes no canto da calçada.
Não fosse pela quantidade, eu pensaria que alguém havia saído para passear com o cachorro e esquecera de levar o saco de lixo. Mas eu nunca vi fezes caninas
daquele tamanho. Não que fosse uma es¬tudiosa no assunto, mas... Bem, Diana era.
- Isso não é excremento de lobo - ela anunciou, abaixando-se para olhar para a pilha. - Isso foi deixado por algum tipo de felino.
Sullivan coçou a cabeça.
- Deve ser um gato bem grande!
- Não me refiro a um felino doméstico, detetive. E algo maior.
- Nunca tivemos linces nessa região.
- Talvez tenham agora.
Sullivan praguejou e se afastou apressado, certamente para ir no¬tificar seus superiores. Se Edward não tivesse de voltar para a cerimónia da rainha vodu,
teria de voltar para matar a criatura que havia atacado aquela mulher. Eu só esperava que não fosse eu.
Diana já se afastava com o celular na orelha. Eu a segui a tempo de ouvir a pergunta sussurrada:
- A licantropia pode ser transmitida entre espécies diferentes? Ela devia estar falando com Edward, porque olhou para mim e
balançou a cabeça transmitindo a resposta. Não.
- Tudo bem. Certo. Vejo você lá, então.
- O que ele disse? - perguntei ao vê-la desligar.
- Como licantropia refere-se por definição a um lobisomem, ele nunca ouviu falar em transmissão entre espécies. Porém, pode ser apenas porque os lobisomens
gostam de morder as pessoas.
- E ele vem para cá?
- Ele disse que daria alguns telefonemas, conversaria com Elise, depois viria.
- De onde?
- Montana.
O que significava que chegaria no dia seguinte. Até lá, eu tinha de descobrir o que estava acontecendo.
- Tem algo para me dizer, Cassandra?
- O que poderia ter? - Eu estava me tornando uma ótima atriz. Mas Diana era esperta. Ela me segurou pelo braço.
- Foi ao Haiti para encontrar um feiticeiro do mal. Um homem que tinha o poder de trazer os mortos de volta à vida, que podia fazer uma cachoeira aparecer
e desaparecer, um homem que vive em uma selva em um país onde não há mais selvas há muitas décadas, e esse homem é membro de um grupo muito antigo e secreto chamado...
sociedade do leopardo.
- E daí?
- Chegou a vê-lo mudando de forma?
- Não. - O que não queria dizer que ele não se transformasse. Mesmo assim... - Mezareau está morto.
- Tem certeza disso?
- Razoavelmente. - Murphy havia verificado o corpo. - Eu o acertei no coração com uma faca de prata. Normalmente, isso leva à morte.
- Ele explodiu?
- Não. O que significa que não mudava de forma.
- E mesmo que ele esteja morto - Diana continuou - há algo mais a considerar. A Egbo é uma sociedade secreta. Definição: mais de um elemento.
- Está dizendo que pode haver um bando de leopardos vagando por Nova Orleans? - eu perguntei apavorada.
- Não seriam leopardomens?
- Nunca ouvi falar nisso, mas... Não. Não posso acreditar que estamos discutindo leopardomens!
- Mas lobisomens não são tão absurdos?
- Acreditei neles antes de você. E Edward já disse que nunca ouviu falar em outras espécies se transformando.
- Não. Ele disse que não tinha informações sobre licantropia sendo transmitida entre espécies diferentes. Há mais coisas no mundo do que conhecemos. Sabemos
que o lobo cria o lobisomem. Outros animais criam outros monstros.
- Certo. Tudo bem, pode haver leopardomens, então, mas... Por que aqui?
- Boa pergunta. Nova Orleans pode ter alguma coisa que eles querem?
- Gente?
- Há gente em todas as cidades do mundo, e muito mais no Haiti do que em Louisiana. Além do mais, era de se supor que eles gosta¬riam de permanecer onde há
outros leopardos, porque assim não cha-mariam muita atenção.
- Não há leopardos no Haiti. Nunca houve. Como nunca houve lobos em Louisiana, e nem por isso o loup-garou foi para outro lugar. Ele veio para cá.
- Aquilo era uma maldição. Mas, se os leopardos também apa¬recem por causa de uma maldição, isso deve estar relacionado à so¬ciedade dos leopardos. Que se
originou na Africa, onde há leopardos.
- Certo.
- E isso explicaria por que os leopardos apareceram no Haiti, ou aqui.
- Explicaria? Por quê?
- Porquê os Egbo estão aqui. Ou um deles está aqui.
- Por quê? - eu repeti.
- Não podem estar atrás de você?
- Parece que estavam atrás dela - respondi, apontando para o cadáver.
- Aquilo era só comida. Ou companhia, se ela se levantar.
- Agora que mencionou essa possibilidade, acho que devemos fazer alguma coisa.
- O que sugere, sacerdotisa?
- Não sei!
- Exatamente. Vamos deixar Edward cuidar disso, e vamos voltar ao problema em questão.
- Que é...?
- Que motivos os Egbo podem ter tido para segui-la? O que você tem que eles querem?
Eu não conseguia pensar em nada que houvesse tirado do Haiti além de conhecimento.
E um diamante. Mas eu não o tinha mais. Murphy o tinha.
Eu não acreditava nesse ridículo mistério do leopardo, mas alguma coisa estranha acontecia ali, e eu estava bem no meio dela.
De volta à loja, preparei mais chá e contei à Diana o que ainda não havia contado.
- Murphy roubou o diamante - ela concluiu por mim.
- Duas vezes.
- Hum... A pedra pode ter poderes mágicos de que os Egbo ne¬cessitam.
- Ou pode valer uma fortuna.
- Ou isso. E você sonhou com o ataque como se fosse a atacante. Mas não pode ter sido você.
- Teoricamente, não. No horário do ataque eu estava na cama com um ladrão de diamantes.
- Acha que foi só um sonho?
- Como não acordei coberta de sangue, acredito que sim.
- Há outra explicação, e você não vai gostar dela.
- Não gosto de nada do que está acontecendo.
- Sabe que uma pessoa mordida por um lobisomem se transforma cm vinte " quatro horas. Dia, noite... Não importa. O que você não sabe é que, durante esse período,
eles experimentam uma espécie de consciência coletiva, imaginando a mudança iminente, lembrando coisas que aconteceram aos outros. Sentem a dor, o poder, o terror
e ;i Icntação.
- Então... acha que o sonho foi a lembrança de alguém e eu a compartilhei?
- É melhor do que pensar que é uma recordação sua, não é? Eu não tinha tanta certeza. Mesmo que não houvesse atacado aque¬la mulher, logo estaria matando
alguém.
Diana telefonou na manhã seguinte e me acordou de um sono profundo.
- Cassandra? Tudo bem?
Eu devia soar atordoada, porque era assim que me sentia.
- Sim. Que horas são?
- Dez e meia. Ainda está na cama? Eu me sentei. E levantei.
- Não.
Droga! A loja já devia estar aberta! Fui ao banheiro, e um rápido olhar para o espelho me fez franzir o cenho. Eu estava horrível.
- O que aconteceu? - perguntei.
- Edward chegou. Ele quer marcar uma reunião para hoje à noite.
- Hoje?
- Lua cheia. Levantar os mortos. Acabar com a maldição. Isso tudo soa familiar?
Levantei a cabeça e olhei para o espelho tomada pelo pavor. Meus olhos estavam verdes.
Derrubei o telefone. O estrondo do aparelho se chocando contra o chão me fez voltar à realidade. Abaixei para pegá-lo e, quando levantei, meus olhos estavam
azuis novamente. Que diabo era isso?
- Cassandra?
- Desculpe. Derrubei o fone.
- Devia tomar café.
- Não bebo café.
- Devia começar, então.
Olhei novamente para o espelho. Meus olhos continuavam azuis, embora menos que antes.
- Diana, encontro vocês na mansão ao anoitecer. Depois do pôr-do-sol. Vamos tentar o ritual.
- Certo. Até lá, então.
Voltei ao quarto, sentei-me na cama e massageei a testa. Estava cansada.
Segui o conselho de Diana e fui até o Café du Monde. O líquido quente e aromático despertaria até os mortos! Talvez eu devesse der¬rubar café sobre o túmulo
da rainha vodu e esquecer aquela história sobre sangue.
Consegui abrir a loja por volta do meio-dia. Ninguém parecia notar ou se incomodar com meu atraso. Meio de semana, novembro... O movimento de turistas na
cidade era muito pequeno.
Usei o tempo livre para telefonar para os hotéis na cidade e perguntar por um certo Devon Murphy." Ele não estava registrado em nenhum lugar.
Não que eu esperasse encontrá-lo. Murphy devia estar em Oahu com os bolsos cheios de dinheiro, resultado da venda do diamante. Passaria o resto da vida na
praia, sem pensar em mim.
Eu precisava esquecê-lo.
Uma hora antes do pôr-do-sol, fechei a loja sem ter atendido um só cliente o dia todo, e preparei uma bolsa com todos os itens que poderiam ser necessários.
Uma faca, duas tigelas, meu ason, uma xícara, rum, uma garrafa com água e bandagens. Providenciaria o sangue no local.
Pouco tempo depois, chegávamos a um pequeno terreno cercado e afastado da estrada. Diana parou o carro numa trilha secundária e nós seguimos a pé para o interior
do cemitério. O sol já desaparecera, mas ainda havia uma faixa vermelha sobre o horizonte. Logo a lua estaria surgindo no céu. Cheia e brilhante.
A luz nebulosa do anoitecer, o velho cemitério escravo era uma foto envelhecida de um tempo há muito encerrado, mas nunca esquecido.
Nos reunimos em torno da pedra que marcava a sepultura. Se algum dia houvera um nome, chuva, vento e o tempo o apagaram. Mas Diana tinha certeza de que estávamos
no lugar certo, porque só alguém de grande importância teria uma pedra marcando o local de sua sepultura.
- Tem certeza de que essa é a rainha vodu que procuramos? Não há outra?
- Por que não pergunta a ela? - Diana disparou irritada.
- Sabe o nome dela?
- Não realmente. Ela era chamada de mulher de grande magia.
- Isso pode ser um problema. O ritual exige que o nome do morto seja repetido três vezes para que ele seja levantado do túmulo.
- Era o que Mezareau fazia?
Eu franzi a testa tentando lembrar.
- Acho que não.
- Acha que não? - Edward repetiu. - Não sabe?
- Conheço o ritual -t eu disse, evitando revelar detalhes que poderiam me prejudicar. - Vamos tentar sem o nome. Se ela não atender, talvez alguém aqui atenda...
Saia do caminho - Edward ordenou furioso. Ele tirou do bolso um pedaço de papel que abriu sobre a pedra da sepultura. Com um lápis, ele começou a riscar o
papel, enquanto Diana e eu olhávamos para aquilo sem entender o que ele fazia.
- O que está fazendo? - perguntei.
- Extraindo as informações do túmulo. Eu costumava fazer isso quando era adolescente e não tinha nada para fazer numa noite de sábado.
A informação não me surpreendia.
- O nome dela era... - Edward franziu a testa, levantou-se e estendeu o papel na nossa direção.
A palavra Mawu havia surgido no meio dos rabiscos de lápis. Assustador.
- O que isso significa? - Diana indagou.
- Mawu era uma deusa da lua. Notamos que a lua cheia surgia no céu.
- Acho que isso explica por que Henri ficou tão apavorado com meu nome - Diana murmurou. - Ele foi amaldiçoado por uma deusa da lua; e eu apareço com o mesmo
nome, mas em outro idioma.
- Engraçado ele nunca ter mencionado a similaridade.
- Henri nunca falou muito. Comentava apenas que queria me matar, ou me possuir, talvez as duas coisas ao mesmo tempo. Queria beber meu sangue, se banhar nele,
e toda essa baboseira.
- Ele não parecia ser o tipo que se incomodava com os nomes de seus escravos ou seu significado - eu disse. - Pelo que sabemos dele, ele deve ter mudado o
nome da mulher para Susie e encerrado a história.
- Provavelmente - Diana concordou. - Agora que conhecemos o nome dela, vamos continuar.
- Como pretende mandá-la de volta? - quis saber Edward.
- Como assim?
- Não posso permitir que a rainha vodu saia do cemitério.
- Não. Alguém poderia notar uma morta andando pelas ruas - Diana debochou. - Mesmo em Nova Orleans.
-- Há algo que eu não contei sobre os zumbis do bokor. Eles não são exatamente zumbis. Eles voltam à vida como se nunca houvessem morrido. Parecem completamente
humanos.
Os dois me olharam como se eu houvesse perdido a razão. Depois riram.
- Estou falando sério!
- Tudo bem - Diana conseguiu conter o riso. - Mostre-me! Olhei para o céu escuro onde a lua cheia reinava soberana. Então,
usando minha faca, cortei meu braço.
- O que está fazendo? - Diana inquietou-se.
- O ritual. - Deixei o sangue pingar na vasilha antes de fazer um curativo e estancar o sangramento. - Afastem-se.
Fiz como Mezareau me havia ensinado, enchendo uma segunda tigela com a água da garrafa e espargindo-a num círculo em volta da sepultura. Fiquei dentro do
círculo. Diana e Edward ficaram fora dele. Sacudi meu ason e recitei o encantamento.
- Volte para nós agora. Volte. A morte não é o fim. Viva como já viveu. Esqueça que morreu. Siga-me para o mundo. Volte para nós agora. Volte.
Bebi o rum, joguei a caneca por cima do ombro e ergui a vasilha com o sangue. Esperei pela tontura que me havia acometido na última vez, mas ela não veio.
Tudo bem. Como precisava concluir o ritual sozinha, era melhor que estivesse consciente e firme.
Inclinei o recipiente e vi o sangue cair sobre o solo da sepultura.
Nada aconteceu.
- O nome - Edward murmurou. Ah, sim.
- Mawu. Mawu. Mawu.
O encantamento se completou.
O solo tremeu. A terra escura se misturou ao que parecia ser areia branca. Eu olhei para os outros dois.
Diana olhava horrorizada e fascinada para a cena. Edward estudava o chão com calma impressionante. Segui a direção de seu olhar e fiquei boquiaberta.
O que eu pensava ser areia era osso! Nada disso acontecera no Haiti, mas lá os mortos eram recentes, não poeira, como nesse caso.
Os ossos se moviam sozinhos numa marcha desajeitada para a reunião; e quando se encontravam uniam-se como se tivessem ímãs. Um esqueleto emergiu da sepultura.
Sons estranhos ecoavam pelo local, e a carne se materializou do nada. Devagar, a figura tomou a forma de uma mulher que se levantou.
Mas havia algo de errado nela*
Os cabelos haviam crescido em alguns pontos, deixando grandes áreas calvas em sua cabeça. A carne retornara, mas não completamente, e havia buracos aqui e
ali por onde se viam os ossos. Os dentes estavam podres. Os olhos permaneciam fechados. Teriam voltado?
- Ah, sim, parece mesmo um ser humano - Diana resmungou.
- Quieta - exigi nervosa. Onde eu havia errado?
Os olhos do zumbi se abriram e fitaram os meus. Eram escuros, poços profundos de dor. O que eu havia feito?
- Senhora - ela disse. - Como posso servi-la?
- Senhora? - Edward sussurrou. - Não estou gostando disso.
- Nem eu.
- Você é Mawu, a rainha vodu?
- Sim, senhora.
- Por que me chama de senhora?
- Ergueu-me dos mortos para ser sua escrava.
- Não.
Ela inclinou a cabeça. Parte de seu nariz caiu. Diana conteve a ânsia de vômitos. Eu também estava enjoada.
- Essa é a única razão para se erguer um zumbi. Por isso tememos tanto a condição.
- Não entendo.
- Meu povo era escravo. Só a morte podia nos libertar. Perma¬necer escravizado depois da morte era o que mais temíamos.
- Pergunte a ela - Diana interrompeu. - Não sabemos de quan¬to tempo dispomos.
- Mawu, você amaldiçoou um homem. Henri Ruelle.
- Invoquei a lua para torná-lo uma besta.
- Como desfazemos essa maldição?
- Ele era mal antes mesmo da maldição. Por que querem liber¬tá-lo?
Henri havia sido um senhor de escravos e um estuprador de cativas. Mas não era isso que estava em questão ali.
- Sabemos o que ele fez com você. E concordamos com a neces¬sidade de uma punição. Mas... é verdade que com a morte de Henri o próximo homem na linha de descendência
torna-se um loup-garoul
- Sim. É assim que acontece.
- Já se foram cento e cinquenta anos. Conhecemos um homem que não merece isso. E ele tem um filho.
- Henri ainda sofre?
Elise tentara curá-lo, mas como ele havia sido amaldiçoado, não
mordido, a cura não funcionara muito bem. Agora ele passava muito tempo urrando como um louco atrás das grades de sua jaula.
- Ele sofre muito - respondi.
Mawu sorriu. Não foi uma visão muito bonita.
- Bom.
- Soubemos que só você pode encerrar a maldição.
- Não.
- Obrigue-a - disse Diana. - Ela é sua escrava.
- Mas...
- Cassandra, pense em Luc! Em Adam! Em mim! Ordene que ela liberte Henri. Foi por isso que a levantamos do túmulo.
- Eu não queria forçar a pobre mulher a nada, mas Diana estava certa. Eu fiz o que tinha de ser feito.
- Ordeno que remova a maldição da lua crescente lançada contra a família Ruelle.
- Eu não disse que não o faria, senhora; disse que não podia fazer o que espera de mim.
- Fui informada de que a rainha vodu que lançou a maldição poderia removê-la.
- Não é verdade. Uma maldição só pode ser removida pela rea¬lização do maior sacrifício. Só então Henri e seus descendentes serão libertos.
- E que sacrifício é esse?
- Só Henri pode decidir.
- Inferno!-Diana resmungou.
- Deseja mais alguma coisa, senhora?
- Sabe por que se levantou dessa maneira?
- Porque minha senhora me trouxe de volta.
- O bokor que me ensinou o ritual levantava os mortos e os trazia de volta à vida completamente. Por inteiro.
- Para modificar a forma do morto, o bokor que o levanta deve poder modificar sua natureza. E necessário um lougaro.
- Um o quê?
- Alguém que muda a própria forma.
- Um lobisomem?
- Um lougaro pode ser qualquer coisa. Edward aproximou-se de mim.
- O que ela disse?
Nada que eu quisesse contar a ele.
- Ela disse que me enganei. Os mortos não podem voltar a ser como antes, quando eram vivos.
Edward olhou para mim com ar piedoso, e eu fiquei pensando se ele não sabia mais do que eu imaginava.
- Não deve mais levantar os mortos - disse Mawu.
- E quanto aos que não deveriam estar mortos?
- A morte é só o começo - disse Mawu. -- Começo de quê?
- Da próxima aventura no nosso caminho.
O urro inesperado de algo grande e peludo nos fez virar a cabeça.
- Um lince - murmurei, esperando estar certa. Mawu estava apavorada.
- Por favor, devolva-me à morte, senhora. Depressa.
- Sabe como devolvê-la ao túmulo? - Edward perguntou. Levantei a mão e joguei sal em seu rosto. Uma luz cintilante quase
nos cegou. O corpo explodiu em milhões de partículas prateadas. Quando abri os olhos novamente, a rainha vodu havia desaparecido. Guardei meus utensílios
na bolsa.
- De acordo com Renee, só um bokor pode levantar os mortos - Edward comentou.
- E daí?
Ele entrou no círculo e pressionou um crucifixo de prata contra minha testa.
Eu recuei apavorada.
- Tire isso daí!
- Você acabou de levantar uma morta. E uma feiticeira do mal.
- Fiz o que você mandou!
- Isso não faz de você alguém menos perigosa. Ou má.
-Não sou má. Não mais do que qualquer de vocês. E pode desistir de me atacar com uma estaca de prata.
Exibi meus dedos, que mantinha adornados com prata desde que havia conhecido Henri. Depois ergui a faca e apontei para a ferida que abrira com ela.
Edward encolheu os ombros.
- Ninguém aqui disse que a prata funciona contra magia negra.
Capítulo VI
A perda do sonho me deprimia.tPor isso, quando entrei em casa naquela noite, eu me senti ainda mais sozinha. Estava tão per¬turbada, que não notei a presença
do homem em meu quarto até ser agarrada por ele.
Pensei em gritar, em chutá-lo ou tentar me defender com os pu¬nhos, já que a faca continuava dentro da bolsa, mas me virei e reco¬nheci os cabelos longos
de Murphy.
- Seu idiota! Podia ter morrido com uma faca no peito! - gritei. O choque levou-me às lágrimas.
- Ei - ele murmurou, tomando-me em seus braços. - O que aconteceu?
- Eu... eu... levantei a rainha vodu!
- Bem, devia estar feliz, então. Não era isso que queria?
- Sim, mas...
Eu resumi todos os pontos que seguiriam o "mas".
- Está dizendo que Mezareau só conseguiu levantar todos aqueles zumbis com aparência humana porque ele era um lobisomem?
- O animal em questão não era um lobo, mas um leopardo. Eu acho...
- Ah... E que nome seda a isso?
- Leopardomem. Não acredita em mim?
- Escute o que está dizendo, Cassandra.
- Você viu os zumbis, a cachoeira, os bakas... Mas não acredita no leopardomem?
- Em algum lugar deve haver um limite para toda essa loucura.
- Eu o matei. E arruinei toda e qualquer chance de rever Sarah.
- Talvez isso não seja tão ruim.
- Nunca amou ninguém como eu a amei!
- Obsessivamente?
- Não sou obsessiva; sou... mãe! E o que faz aqui, afinal? E onde esteve?
- Por aí.
- E por que veio?
- Por que será?
- Pelo diamante. x
- Já tenho o diamante.
- Onde?
- Em um lugar seguro?
- Diana acredita que há alguém da Egbo na cidade procurando pela pedra. Precisamos devolvê-la.
- Achado não é roubado.
- Você roubou a pedra.
- Onde quer chegar com essa conversa?
Ignorei a questão, porque não tinha uma resposta para ela.
- Se há um membro da Egbo, a sociedade do leopardo, criando pêlos e atacando as pessoas em Nova Orleans, então... Temos um ser que muda de forma!
- O Jâger-Sucher não mata essas criaturas?
- Sim, mas talvez eu acabe sendo a próxima vítima. A próxima morte.
Ele me tomou nos braços. E me beijou. Eu não resisti, porque precisava sentir seu calor mais uma vez antes de destruir minha vida. Murphy parecia tão desesperado
quanto eu, o que era incompreensí¬vel. E eu não faria perguntas, porque temia levá-lo a deduzir que a ideia de estar comigo não era das melhores, afinal.
- Cassandra...
- Quieto - eu murmurei, segurando seu rosto entre as mãos e beijando-o na boca.
Estava apavorada. Murphy e eu éramos amantes em amor, parcei¬ros sem confiança. Éramos como dois navios que colidiam à noite. Se eu não tomasse cuidado, acabaria
naufragando quando ele seguisse viagem para portos distantes. Um homem como ele jamais poderia viver com uma sacerdotisa vodu. Especialmente quando eu me trans¬formasse
em um ser mutante e erguesse do túmulo uma filha zumbi.
Eu bani esse pensamento da mente. Acabaria arruinando o clima.
Desesperada, entreguei-me ao sexo e às sensações febris que preenchiam o horrível vazio em minha alma. Precisava me sentir viva, mesmo que tudo em mim estivesse
morto. Sonhos, esperança, filha... Tudo morto.
Restava apenas a febre que eu sentia quando estava com Murphy, a paixão, o desejo.
Quando tudo acabou, quando Murphy saiu de meu corpo, eu me senti vazia. Por quê? Nunca antes havia desejado que ele ficasse!
Olhei para ele e ele para mim.
- Obrigada - murmurei. Murphy sorriu.
- Mis yeux verts.
- O que significa isso?
- Belos olhos verdes.
Eu me levantei e corri para frente do espelho. Eu tinha os olhos verdes e brilhantes de um felino selvagem.
A dor explodiu em minha cabeça e eu caí de joelhos, dominada pela agonia. Tentei chamar por Murphy, mas só conseguia ganir como um animal ferido. O relógio
da sala marcava meia-noite com suas ruidosas badaladas.
Eu não conseguia respirar; meu corpo estava em chamas. Uma segunda onda de dor me atingiu e, felizmente, eu desmaiei.
Acordei em um beco. As vozes na rua ecoavam em minha cabeça; cheiros distintos invadiam meu olfato. Olhei para a lua cheia no céu. Ouvi sua canção pulsando
em minhas veias. Em meu sangue.
Falando em sangue...
Respirei profundamente. Havia muito sangue em algum lugar pró¬ximo dali.
Eu me levantei e vi o homem morto. Sua garganta estava aberta. Rasgada. Meu estômago roncou, emitindo o som característico da fome. Por que eu sentia cheiro
de carne?
Estava tonta, estranha, mas me sentia forte e alerta. Os membros não obedeciam ao comando do cérebro. Eu só conseguia engatinhar.
Tentei lembrar como havia chegado ali, e a dor voltou. Baixei a cabeça e fechei os olhos, e permaneci assim até a dor ceder.
Quando abri os olhos, notei as marcas de sangue deixadas no chão por patas enormes. Ergui a cabeça esperando ver um leopardo, mas eu estava sozinha no beco.
As marcas... eram minhas.
Tentei rir, porque sabia que estava sonhando outra vez, mas o som que saiu de minha boca foi o rugido furioso de um felino selvagem.
Eu me afastei do homem morto. Queria cheirá-lo, prová-lo, mas não podia. Pelo que sabia, uma experiência, por menor que fosse, e o sonho passaria a ser real.
E não era isso que eu queria?
Aproximei-me do corpo. A ideia do que estava prestes a fazer me repugnava e excitava.
Baixei a cabeça. Minha língua tocou o corpo. E o estampido de uma arma rompeu o silêncio.
Olhei para cima; havia um homem na entrada do beco. Eu o co¬nhecia.
Edward não esperou por minhas explicações. Apenas atirou contra mim.
A bala acertou-me no ombro, porque eu me movi no instante em que o reconheci. A dor me fez cambalear, mas continuei correndo sem explodir.
Acordei com o sol em meu rosto. Pássaros cantavam lá fora. Eu , tinha pés, não patas. A vida era boa.
Movimentei o ombro. Tudo bem. Toquei-o tentando encontrar um ferimento de bala. Nada. O braço que eu havia cortado com a faca de prata estava intacto, sem
cicatrizes.
Cocei a testa e senti algo estranho sobre a pele. Quando olhei para meus dedos, vi sangue seco.
Corri para o banheiro, chutando alguma coisa pequena e dura sob a cama, mas não tinha tempo para examinar o que era. Aliviada, tomei um banho, escovei os
dentes e olhei para o espelho sabendo o que veria. Meus olhos estavam verdes. Definitivamente verdes.O telefone tocou. O som quase me fez gritar. Corri de volta
ao quarto para atendê-lo antes do segundo toque. A campainha estridente fazia minha cabeça doer.
- Já sei o que aconteceu com seu píton. Eu havia esquecido Lazaras.
O veterinário prosseguiu:
- Ontem um técnico esqueceu de guardar um dos pacientes. O animal se aproximou da gaiola de Lazaras, e a píton enlouqueceu. Era um felino. Algumas cobras
odeiam felinos.
A notícia explicava tudo.
Lazaras entendera tudo antes mesmo de eu desconfiar do que acon¬tecia.
Depois de me despedir do veterinário, fiquei sentada na beirada da cama pensando no que seria de minha vida. Eu esperava que tudo houvesse sido um pesadelo,
mas como justificar o sangue, a cicatriza-ção do braço e do ferimento à bala... Havia existido algum ferimento?
Eu me abaixei para pegar o objeto em que havia tropeçado pouco antes. A bala de prata. Meu corpo a expelira no momento em que eu havia recuperado a forma
humana.
Eu não teria de adquirir a capacidade de mudar de forma. Já a desenvolvera. Mas como, se não fora mordida?
Ainda havia buracos na minha lógica. Se os seres que podiam mudar de forma eram capazes de levantar zumbis, o que dera errado no cemitério?
A campainha soou. Sem parar. Ou o botão havia travado, ou era uma emergência. Eu me vesti e corri para a loja.
Quando abri a porta, Edward estava parado do outro lado. Desar¬mado.
- Renee acabou de telefonar - ele disse, entrando sem esperar por um convite. - Ainda há relatos de pessoas desaparecendo no Haiti. Não disse que o bokor
estava morto?
- Estava. Está.
- Você verificou?
- Não pessoalmente. Estava um pouco perturbada por ter matado um homem. Foi Murphy.
- Homens como o bokor não morrem facilmente. Especialmente quando não estão na forma humana.
- Mas... ele não era um lobisomem.
- Cassandra, ontem à noite atirei contra um leopardo que também não explodiu. O animal havia acabado de matar um homem.
O animal era eu. Eu havia matado um homem. E não lembrava. Não lembrava muitas coisas recentemente.
Edward interpretou minha expressão de pânico de maneira errada.
- Se vai trabalhar para mim, não pode ser tão sensível. Limitei-me a mover a cabeça em sentido afirmativo.
- Não temos certeza de que a vítima não vai levantar. Atirei no animal com prata, mas é pouco provável que dê certo. Estou pensando que os leopardomens podem
precisar de outro material.
Eu estava pensando a mesma coisa.
- Vou telefonar para Renee. E vou mandar Diana pesquisar. -
Ele abriu a porta para sair, e o sol inundou a loja. - Seus olhos... Eram azuis.
- Ah, são... lentes de contato - improvisei.
Edward assentiu e partiu. Mas ele voltaria. E com tudo que julgasse necessário para matar um leopardomem.
Sozinha, eu me desesperei e sentei com a cabeça entre os joelhos. Sim, havia desejado poder mudar de forma, porque assim traria de volta minha filha ao mundo
dos vivos. O que eu não havia pensado era que enviaria dezenas de pessoas ao mundo dos mortos antes de levantar Sarah de sua sepultura.
A porta da loja se abriu, e eu me preparei para o pior. Edward devia ter tirado as próprias conclusões, e agora voltava para elimi-nar-me, pondo um fim no
perigo que eu representava para a cidade. Levantei a cabeça com um suspiro resignado, mas quase desfaleci ao reconhecer o visitante.
Ali, diante da minha frente, em meu centro vodu, estava ninguém menos que Jacques Mezareau.
- Sacerdotisa - ele sorriu, entrando e fechando a porta. - Vejo que hoje se depara com um mundo inteiramente novo.
- Como...?
- Logo suas perguntas terão respostas. Mas, antes, tenho uma questão específica. Onde está o diamante?
- Não está comigo.
Ele me atingiu com um golpe tão violento, que caí contra uma estante de garrafas. As prateleiras desabaram sobre mim.
- Eu sei que você o tem.
- Não... - Não revelaria que a pedra estava com Murphy, mesmo sabendo que em breve ele perceberia a verdade. Precisava ganhar tempo. - Pode procurar, se quiser.
Mezareau vasculhou a loja, e eu não fiz nada para detê-lo. Mesmo que quisesse, não poderia.
- Tentei levantar um zumbi - contei.
- Ah... e seu zumbi não apareceu como você imaginava.
- Não.
- Sabe por quê?
- Imagino.
- Só sob a lua cheia e à meia-noite, durante uma cerimónia rea¬lizada por um leopardomem, um morto pode ser trazido de volta à vida. Até a lua da meia-noite,
quando ocorreu sua primeira transformação completa, você não era uma de nós. Não tinha o poder para levantar os mortos e trazê-los de volta à vida.
- Então, lua da meia noite, cerimónia realizada por um leopardomem... Mais alguma coisa?
- O maldito diamante! Senti um arrepio.
- Precisamos do diamante?
- Onde está a pedra?
- Não sei.
Dessa vez eu estava preparada, e consegui segurar a mão dele antes do golpe. E o empurrei para longe com uma força que nem imaginava ter.
- Por que fez isso comigo? - gritei.
- Por que está tão zangada? Você me procurou pedindo para conhecer meu segredo.
Ele tinha razão. Por outro lado, ele podia ter me prevenido sobre a transformação.
- O que você fez, exatamente?
- Só uma pequena maldição. Nada com que tenha de se zangar.
- Não me lembro de nenhuma maldição.
Lógico. Depois de beber o kleren, eu me lembrava de muito pouco.
- Foi mais uma poção, para ser honesto.
Ah... Isso explicava por que eu havia ficado aturdida depois de beber seu rum, mas não sentira nada depois de beber o meu.
- O que era aquilo?
- Um segredo transmitido por meus ancestrais. E ele não ia me dar a receita.
- Existem mais leopardomens andando por aí?
- Ainda não. Mas... - Ele se aproximou e farejou meu rosto. - Talvez possamos criar alguns.
Eu o empurrei com força. Ele se manteve afastado.
- Vai mudar de ideia - Mezareau disse sorrindo e lambendo os lábios, deixando os olhos passearem por meu corpo. - Logo será como eu. A excitação da caçada,
o prazer de matar... E melhor do que sexo.
Eu estremeci e lembrei sonhos que não haviam nem sido meus.
- Eu... me lembro de coisas que não aconteceram.
- Posso entrar nos seus sonhos, sacerdotisa. Se quiser, pode entrar nos meus.
- Não me sinto má.
- Mas vai se sentir...
- Eu matei um homem.
- Ontem à noite? Não. Fui eu. Mas, da próxima vez, talvez você i tenha esse prazer.
- E se eu não quiser?
- Temos de partilhar do sangue humano na noite de lua cheia, ou enlouquecemos.
- Mas eu não... não...
- Sim, você teve sangue. Só não consegue lembrar. Lembrei do sangue que havia encontrado em meu rosto ao desper¬tar. Ele estava certo.
- Então, somos como lobisomens? - indaguei.
- Nada sei sobre eles. Nem me interessa saber.
- A prata não pode nos matar.
- Nada pode. Eu duvidava disso, mas voltaria ao assunto mais tarde.
- Por que uma poção, em vez de uma mordida?
- Porque não somos infectados.
- Apenas amaldiçoados.
- Prefiro dizer que somos abençoados.
- No seu caso, talvez... Se a transformação não era resultado de um vírus, Elise não poderia
me curar. Como não pudera curar Henri. E desde quando eu começara a pensar em cura?
Desde que vi o sangue em minhas mãos. Depois de trazer Sarah de volta, não poderia continuar me transformando a cada lua cheia. O que os vizinhos diriam?
- Não me transformei com a lua cheia - lembrei.
- Da mesma forma que o sol chega ao pico ao meio-dia, a lua chega ao ponto mais alto à meia-noite. A primeira transformação exige esse poder. Desse ponto
em diante, o poder fica em você. E agora... o diamante!
- Se somos seres tão poderosos, por que precisamos de uma pedra?
- O diamante dá foco à lua e à magia. Foi encontrado na terra mãe.
- Na Alemanha?
- Tem conversado muito com Mandenauer. O diamante foi reti¬rado do solo da Africa. Há poder de muitas eras naquelas facetas. Quando a Egbo se formou, o diamante
era o centro de tudo. Os membros aprenderam o segredo de mudar de forma olhando para seu centro cintilante.
- Está dizendo que a Egbo era uma sociedade de leopardos... com leopardos de verdade?
- Como acha que eles mantinham os escravos na linha?
- Tortura?
- Não. Teria sido divertido, mas ver um homem se transformar em leopardo, arrancar corações e beber sangue sempre funcionou melhor. E também havia a ameaça
real de eles serem transformados em zumbis.
- A Egbo transformava pessoas em zumbis?
- Minha querida, onde acha que tudo isso começou?
A porta da loja se abriu. Devon Murphy entrou carregando duas canecas de café e um saco de beignets. Desde quando ele usava a porta da frente?
Ele não nos viu no canto mais escuro da loja. Não percebeu que o lugar havia sido revirado. Estava ocupado demais equilibrando o café e os confeitos, tentando
fechar a porta com um pé.
O sorriso de Mezareau ganhou um toque predador. Seus dentes pareciam mais pontudos.
- Talvez não saiba onde está o diamante, sacerdotisa, mas ele sabe.
Murphy se virou ao ouvir a voz de Mezareau. Talvez tivesse con¬seguido equilibrar nosso café da manhã, não fosse o golpe violento com que o bokor o atacou.
Eu me coloquei entre os dois.
- Não - disse com firmeza. - Ele não sabe de nada. Murphy não ia desistir da pedra. O bokor acabaria por matá-lo. Mezareau riu.
- Ele entregou a pedra a você, sacerdotisa, ou a escondeu em sua bagagem, porque mandei detê-lo no Haiti, antes do embarque, e ele não tinha nada na mochila.
Depois ele a seduziu para recuperar a pedra. Pensei que fosse mais esperta, mas ainda é só uma mulher.
-- Não vejo o diamante desde o Haiti - menti.
- Talvez isso refresque sua memória.
O bokor sacou uma faca feita de pedra afiada e cabo de madeira. Ele encostou a lâmina em nieu pescoço, e minha pele começou a queimar. Eu gritei.
- Pare com isso! - Murphy me puxou para trás.
Mezareau olhou para nós com um sorriso debochado.
- Posso cravar isto em seu peito, sacerdotisa. Seria o suficiente para fazê-la explodir numa bola de fogo.
- Pensei que nada pudesse nos matar! Foi o que você disse!
- Eu menti.
- O que está acontecendo? - Murphy perguntou.
- Ele me transformou em leopardomem. Murphy respirou fundo.
- Quer seu diamante?
- Agora você entendeu. Devolva o que me pertence, e não trans¬formo a moça em sobremesa flambada.
- Eu entrego a pedra.
Mezareau parecia surpreso com a capitulação rápida e simples de Murphy.
- Vou com você - ele disse.
- Acha que deixei uma jóia daquele tempo em um quarto de hotel ou em um cofre alugado? O diamante está em local seguro, protegido. Em um lugar onde alguém
em quem confio a mudará no instante em que alguém aparecer por lá. E essa pessoa levará a pedra mesmo que alguém apareça comigo.
- Já fez isso antes. Tudo bem, traga-me a pedra em uma hora.
- Não é tão perto. - disse Murphy.
- Quando?
- Hoje à noite.
- Estarei esperando aqui.
- Preciso dela para...
- Esqueça! Acha que vou deixar a sacerdotisa sair de perto de mim? Acha que me incomodo com suas necessidades? Não sou es¬túpido! Traga-me o diamante, ou
ela morre.
Eu balancei a cabeça. A única esperança que tínhamos de deter Mezareau era mantendo o diamante longe dele.
- Não faça isso - eu protestei. - Antes ele me matar do que criar um exército do mal.
- Não posso deixar que ele a mate - Murphy sussurrou. Depois saiu sem dizer mais nada.
- Ora, ora, é mais importante do que um diamante, sacerdotisa! Devia estar feliz com isso.
- Você não vai me matar.
- Não?
- Escolheu-me para amaldiçoar. Teve uma razão para isso, ou teria escolhido outra pessoa.
- Sim, você foi escolhida.
- Por quem?
- Por mim.
- Mas eu fui procurá-lo.
- Porque eu queria que fosse. Você tem o poder necessário para trazer os mortos de volta à vida.
-Pensei que esse poder estivesse na transformação e no diamante.
- E em você. Não poderia ter transformado outra pessoa em leo-pardomem. Você é a favorita dos loas.
- Nunca fiz nada mais poderoso do que outros sacerdotes.
- Mandei os mortos, e você os expulsou. Só uma mambo de incrível poder pode fazer tal coisa.
Ele tinha razão.
- E conjurou sua filha em minha floresta. De repente eu senti frio.
- Aquilo foi um sonho.
- Seus sonhos sempre deixam pegadas?
- Onde ela está?
- Morta, ainda, mas, por um instante, ela esteve com você. E pode estar novamente, para sempre, se me ajudar na próxima lua da meia-noite. Juntos levantaremos
um exército.
- E depois?
- Depois eu lhe darei o diamante.
A noite caiu. A lua se ergueu no céu.
Eu já começava a pensar que Murphy não voltaria, quando ouvi a voz dele.
- Abram a porta! Mezareau foi recebê-lo.
Meu coração disparou. Murphy arriscava a vida, o futuro... Nin¬guém jamais fizera tanto por mim. O que podia significar esse sacrifício?
- Onde está o diamante?
- Seguro.
Eu cheguei a crer que poderia evitar novas surpresas, mas Mezareau era muito mais veloz do que eu. A faca estava outra vez em minha garganta, queimando a
carne.
- Agora chega!
- Tudo bem! - Murphy retirou a pedra do bolso. - Deixe a faca no chão, e farei o mesmo com o diamante. Cassandra, quero que saia daqui assim que ele baixar
a faca.
- Acha que está no comando? Posso matá-lo sem nenhuma difi¬culdade, Murphy! -¦ Mezareau vociferou.
- Não seria tão fácil.
- Não? Vamos ver! - Mezareau me soltou, e eu caí no chão do quintal atrás da loja, perto da porta.
Quando olhei para cima, Mezareau tinha o rosto e as mãos voltados para a lua. O brilho prateado contornava sua silhueta, criando uma impressão quase irreal.
Era como se a luz penetrasse em seu corpo, tornando-o brilhante. Tive de piscar. Quando abri os olhos, havia um leopardo onde antes estivera o bokor.
Ele rugiu.
Murphy não parecia sentir medo. Estava ocupado demais olhando boquiaberto para o animal. Agora ele acreditava em leopardomens.
- Entre! - eu gritei enquanto me levantava.
Ele não me ouviu. Devagar, ia caminhando em volta do leopardo, que também o contornava.
Vi a faca no chão, mas nem tentei pegá-la. Eu com uma faca, Mezareau com dentes e garras... Não seria muito bonito.
Olhei para a lua e soube o que tinha de fazer. Depressa, ergui o rosto é as mãos, torcendo para que a magia fosse suficiente.
A luz que penetrava meu corpo era quente. Borbulhando sob a superfície, ela me induzia à transformação.
Esperei pela dor, mas só havia centelhas de luz. Milhares delas. Eu cambaleei. Fechei os olhos, e quando os abri novamente, estava mais baixa.
Devia ter alguma relação com as patas.
Mezareau preparou o bote, e eu me atirei sobre ele. Ele se esquivou. Eu passei por cima dele e bati com a cabeça em uma fonte. Ainda não estava habituada
a esse corpo. Mas Mezareau estava.
Não podia ficar ali enquanto Mezareau matava Murphy. Não sa¬beria viver sem ele.
Eu corri, mas um segundo antes de o leopardo atingir o pescoço de Murphy com suas presas, Murphy estendeu um braço. Sua mão encontrou o peito do animal, que
explodiu numa bola de fogo.
A faca caiu no chão, enquanto Murphy protegia o rosto com os braços.
Como ele conseguira pegar a arma? Devia ter tirado proveito do momento de distração que proporcionei com minha transformação.
- Cassandra, por favor, pode reverter a mudança agora? Está me assustando.
Reverter... Oh, sim, eu esperava poder voltar. Olhando para o céu, imaginei-me humana. Nada aconteceu. E agora? A única pessoa que conhecia as regras de ir
e voltar virava churrasco no meu quintal!
- Invocar a lua pode funcionar - Murphy sugeriu. - Uivar, talvez. Ouvi muitos uivos recentemente.
Não custava nada tentar. Levantei o focinho e rugi... Em algum lugar, um lobo respondeu ao chamado. Maldição!
Eu não tive tempo para me preocupar. Vi as fagulhas de luz, senti o calor... e segundos depois estava abaixada no meio do quintal, nua.
- Gostei desse truque - Murphy riu, entregando-me as roupas. Enquanto eu me vestia, Murphy se debruçou sobre a fonte e lavou
o rosto.
- E agora? O que faremos? Quero dizer, o que vamos fazer com você? ¦
- Comigo?
- Temos de parar com essa coisa do leopardo! Olhei para as cinzas de Mezareau.
- Talvez você já tenha acabado com a maldição. E, nesse caso, Sarah continuaria morta.
Eu precisava saber.
Olhei para a lua, ergui os braços... e os abaixei depressa ao sentir o calor e ver os pontos luminosos.
- Não - disse. - A maldição persiste. Como a da lua crescente.
- Não parece muito aborrecida.
- Não estou, porque agora sei que posso trazer Sarah.
- Quando vai desistir disso? Não pode trazer sua filha de volta!
- Eu posso, se me emprestar o diamante.
- Não quis dizer que não era capaz disso. Disse que não pode porque não é certo. Não quero que faça isso.
- Não posso deixá-la lá.
- E por que não pode começar uma vida nova? ' - Como leopardomem?
-Tenho certeza de que alguém com seu poder e com suas ligações com o Jãger-Sucher pode se livrar disso.
- É melhor que eles nem saibam disso. Criaturas que se transfor¬mam costumam provocar reações intensas e radicais nessa gente.
- Por que será?
- Eu devolvo o diamante assim que terminar o que tenho de fazer. Ou... Você pode voltar para a Califórnia comigo.
Foi um choque descobrir que o queria comigo. Queria muito. Não tinha coragem para sugerir que Murphy fosse viver comigo e minha filha zumbi, mas também não
podia deixá-lo partir. Ainda não.
- Acha que estou preocupado com o diamante? Fique com ele, Cassandra.
- Não. Quero dizer, vou ficar com ele por enquanto. Mas você...
- Pensei que precisasse dele, mas estava enganado. Eu só preciso... Alguém tossiu, e por um instante pensei que Mezareau houvesse
renascido das cinzas. Mas não era o bokor que estava parado no meu quintal empunhando sua faca de pedra. Era Edward. E eu não sabia o que era pior.
Edward olhou para a faca no chão. E olhou para nós.
- Qual dos dois é o leopardomem?
- Eu - Murphy respondeu. Edward arremessou a faca sem pedir explicações.
Eu não queria viver sem ele. Não faria sentido. Por isso o empurrei, jogando-o no chão.
A faca se enterrou em meu ombro.
Edward olhava para mim boquiaberto. Murphy também olhava para mim, mas furioso.
- Droga, Cassandra! - Murphy se levantou. - Você podia ter explodido!
Mas não explodi. O que estava acontecendo? Edward arrancou a faca de meu ombro. Quase desmaiei de dor, mas consegui segurar seu pulso antes que ele a cravasse
em Murphy.
- O que está fazendo?
- Diana descobriu que só uma faca feita de diamante negro pode pôr fim à vida de um leopardomem.
Eu enfrentava Edward com toda a força de meu corpo, mas me sentia enfraquecer rapidamente. Logo não poderia mais evitar o golpe. Murphy arrancou a faca da
mão de Edward.
- Disse que é diamante negro? Deve ser raro...
- São muito raros na África... e você não é um leopardomem.
- Não? - Murphy jogou a faca na fonte.
- Tocou a lâmina e não se queimou. E não explodiu. Edward olhou para a pilha de cinzas no chão.
- Mezareau? - perguntou.
- Sim.
Ele me encarou.
- Você...? Apontei para Murphy.
- Foi ele.
- Humph - Edward grunhiu irritado.
Algo macio tocou minhas costas. Murphy havia despido a camisa e a pressionava contra meu ferimento. Infelizmente, a ferida não se fechava sozinha. Eu precisaria
de alguns pontos.
- O que aconteceu, afinal?
- Ela precisa de um médico, Edward.
Edward sacou sua arma e a apontou para nós dois. Eu contei tudo. Com riqueza de detalhes.
- É preocupante - Edward comentou ao final do relato. - Cassandra sempre teve mais poder do que percebe. Combinado ao conhecimento que ela obteve com Mezareau
e à força inerente às criaturas que se transformam, como lobisomens e leopardomens... Lamento, mas não posso deixá-la solta no mundo.
- Não cabe a você decidir!
- Está enganado, rapaz. - Edward estalou os dedos e o quintal se encheu de gente. Pelo número de armas, todos ali eram Jãger-Suchers.
- Esperem - pedi, lutando contra a dor, a náusea e a tontura. - A faca não me fez explodir. O ferimento não está cicatrizando como antes. Deixem-me ver se
consigo me transformar.
- Para quê? Para rasgar a garganta de todos aqui?
- Edward, você não permitiria. - Eu sorri com esforço, suando frio.
- E como a deteríamos? A prata não funciona com leopardomens. O Diamante negro não funcionou com você.
- Que sorte a minha. Devo ser uma supermutante!
Elise surgiu no quintal. Ela não estava armada, nem precisava. Elise era um lobisomem.
Era de se estranhar que o mais temido caçador de monstros tivesse
uma neta que criava pêlos. Mas a história de Edward e Elise era longa e não muito agradável.
Eu já havia encontrado Elise antes, uma vez, durante o incidente com Henri. Nós nos cumprimentamos com um aceno de cabeça, mas eu não estava com disposição
para trocar gentilezas. A perda de san¬gue estava me enfraquecendo.
- Ela não parece ter mudado. Ainda é como antes, quando a vi pela primeira vez.
- O que está dizendo, Elise? Vai julgar pela aparência? Acha que o mal mostraria sua cara?
- Não, mas eu sentiria seu cheiro.
Elise tocou minha testa e fechou os olhos. Como já a vira fazendo o mesmo com Henri, não tentei me esquivar.
Segundos mais tarde, ela baixou a mão e olhou para Edward.
- Nada. Ela está limpa.
- Assim? Simples? E toda a confusão, as perguntas, a desorien¬tação... Geralmente é assim quando você conclui uma cura.
- Não precisei curá-la. Ela não é um leopardomem. Não mais, pelo menos.
- Tem certeza?
- Se não acredita em mim, Sacerdotisa, tente transformar-se. Eu tentei. Nada. Nem calor, nem luzes piscando... A lua era só a
lua. E eu era só uma mulher. Olhei para Murphy.
- Agora chega! -Murphy anunciou com firmeza. - Vou levá-la para o hospital.
- Um momento! - pediu Edward. - Elise, desde quando seus poderes vão além dos lobisomens?
- Só posso curar lobisomens, e às vezes nem eles, mas ainda sinto a energia da transformação em outras criaturas. Especialmente... - Ela levou os dedos à
testa. - Uma terrível dor de cabeça.
- E tem testado seus poderes com eles, agora?
- Eles quem? Por favor, sabe que há muito mais coisas por aí do que lobisomens.
- Infelizmente, sim.
- Eu tinha tempo... Decidi fazer uma pesquisa. A propósito, já conversamos sobre matar primeiro e fazer perguntas depois, vovô. Podia ter matado esse homem.
- Teria sido horrível, reconheço, mas não posso correr riscos.
Elise balançou a cabeça e olhou para Murphy.
- Edward tentou matá-lo. Ouvi a conversa de onde eu estava. Só não entendo por que Cassandra está sangrando.
- Ela se colocou na frente da faca.
- Ah! O maior sacrifício! Eu levantei a cabeça
- O que disse?
- Li o relatório de Diana. Só um sacrifício grandioso pode pôr fim a uma maldição vodu.
- E daí?
- Você foi amaldiçoada.
Por que não pensei nisso antes? Mas agora...
-Minha vida nada significa para mim. Não foi um grande sacrifício.
- Mas a vida de sua filha é importante.
Eu parei. Agora as palavras de Elise faziam sentido. Lágrimas queimavam meus olhos, e eu escondi o rosto no peito de Murphy.
- Cassandra, o que é isso? - A voz dele tremia. Ele soava as¬sustado.
Eu balancei a cabeça, incapaz de falar.
- Ela não pode mais trazer a filha de volta do mundo dos mortos - Elise explicou. - Mezareau está morto e a fórmula da maldição morreu com ele. Ela salvou
sua vida, mas... O preço foi a vida de Sarah.
Eu desmaiei. Não saberia dizer se,foi a perda de sangue ou a dor. Para uma mulher que nunca havia desmaiado na vida, eu estava me especializando nisso.
Acordei no hospital com Diana ao meu lado.
- Desde quando um corte exige cama e internação? - perguntei.
- Não foi o corte. Foi o desmaio.
- Se continuar assim, vou perder minha credencial de Jàger-Sucher.
- Duvido.
- Diana, eu... Espero que me desculpe por não ter contado tudo.
- O que foi que não me contou?
- Sobre Sarah.
- Se eu perdesse um filho, também não ia querer falar sobre o assunto. ,
- É muito compreensiva.
- Não. Estou preocupada com você. Só isso.
- Comigo? Por quê?
- E que... Murphy partiu. E levou o diamante.
Eu chorei. Chorei como não chorava desde a morte de Sarah.
- Eu sabia - solucei. - Sabia que ele não ia ficar.
- Elise queria muito estudar aquele diamante, mas... Bem, ela se contentou com a faca de diamante negro.
Edward entrou no quarto, e eu enxuguei as lágrimas.
- Melhor?
- Sim, senhor.
- Ótimo. Renee foi ao vilarejo.
- Ela conseguiu encontrá-lo?
- De acordo com o relatório, a cachoeira era só uma cachoeira, a caverna era só uma caverna, e além dela havia só mais montanha e nenhuma selva.
Fazia sentido. A cachoeira reaparecera quando derrubáramos Mezareau, mesmo tendo sido apenas uma temporária inconsciên¬cia. A morte do feiticeiro devia ter
revertido todo o cenário ao seu estado original.
- E os zumbis? - eu indaguei.
- O vilarejo estava deserto. Havia apenas ossos.
- A magia morreu com Mezareau - deduzi.
O que significava que os zumbis não eram realmente vivos, afinal.
- Isso sempre acontece - Edward lembrou. - A magia desa¬parece quando o feiticeiro perece.
- Mas não as maldições - Diana lamentou.
- Não as maldições - ele concordou. - Mandei meus homens atrás de Murphy.
- Não se incomode por mim - murmurei, lutando contra uma horrível dor de cabeça.
Se ele não me queria, eu também não o queria.
- Você o ama? - Edward me perguntou.
- Não.
- Melhor assim. Odeio quando meus agentes se apaixonam. É tão... complicado!
- Não é complicado. Agora tem dois agentes em vez de um. E prático - Diana protestou.
- Não importa. Eu não estou procurando Murphy por causa de Cassandra, mas pelo diamante.
- Boa sorte - eu disse. Edward jamais o encontraria.
- Minha segunda preocupação é com você.
- Estou bem, obrigada.
- Não me refiro a sua saúde, mas a sua magia.
- Como assim?
- Foi transformada em leopardo homem por causa do seu poder. Mesmo que tenha voltado ao normal, ainda é uma sacerdotisa vodu. E levantou uma mulher morta,
o que faz de você uma feiticeira supostamente do mal. Sei que estava cumprindo minhas ordens, porém, não quero ser chamado aqui novamente para cuidar de você, caso
decida... entrar em parafuso.
- Entrar... em parafuso?
- Tem alguma vontade de dominar o mundo?
- Ah! Não consigo administrar minha própria vida!
- Não me obrigue a meter uma bala na sua cabeça, Cassandra.
- Farei o melhor que puder, senhor. Edward saiu sem se despedir.
- Vai ficar em Nova Orleans? - Diana perguntou quando fica¬mos sozinhas novamente.
- Para onde mais eu iria?
- Para qualquer lugar.
- Mas você está aqui.
Ela sorriu; eu sorri. Tudo havia sido perdoado.
Saí do hospital no mesmo dia, voltei à loja e, uma semana mais tarde, reabri o centro.
Peguei Lazarus e soube que ele seria pai, de acordo com o veteri¬nário, e a serpente se comportou como se não me visse há anos, enroscando-se em meu pulso
e oferecendo todo o amor de que um réptil era capaz.
Retomamos nossa rotina. Tudo voltou ao normal. Eu estava sozi¬nha outra vez. Sempre estivera, mas agora era diferente. Não havia mais a promessa de Sarah
em meu futuro. Eu não sabia o que esperar. Por que continuar vivendo.
E então, uma noite, eu encontrei a resposta.
Estava dormindo, mas despertei com a brisa que entrava pela ja¬nela. E eu nem havia deixado a janela aberta!
- Por que foi embora? - perguntei.
Murphy materializou-se das sombras. Estava mais magro, tornar abatido e novas penas nos cabelos, agora ainda mais longos.
- Você me odeia por eu tê-la tirado de você.
- Ela me foi tirada há muito tempo, Devon. E não foi você. Senti que ele ficou tenso ao se aproximar um pouco mais de mim.
Queria tocá-lo, mas temia estender a mão e fazê-lo fugir.
- Como pode dizer que sua vida não tem significado?
- Não tem.
- Você me salvou, Cassandra. Eu não ia a lugar nenhum, não tinha planos nem sonhos... Até que a conheci.
- Eu também.
- Eu amo você.
Eu sorri ao compreender a verdade.
- Eu também.
Ele se sentou na cama, a meu lado.
- Vai passar o resto da vida tentando encontrar outro jeito de trazê-la de volta?
- Não.
Eu não havia admitido. Não até aquele instante. Sarah estava morta e não havia nada que eu pudesse fazer para modificar essa realidade. Porque levantar minha
filha da sepultura era um ato tresloucado, um objetivo insano, e eu queria ser normal. Com ele.
- Promete? - Murphy sussurrou.
- Sim, eu prometo.
As palavras, a promessa, eram mais do que pareceram naquele momento. Eram votos que consagramos mais tarde. Passamos as ho¬ras seguintes consumando nossa
união. Éramos bons nisso.
Estávamos quase dormindo, quando uma pergunta final me des¬pertou.
- Onde está o diamante?
- Que diamante?
Olhei para ele e vi um sorriso.
- Edward vai adorar isso - eu disse.
Murphy adormeceu sorrindo a meu lado. Eu não conseguia dormir. A lua me chamava.
Saí da cama e fui até o quintal, onde fiquei olhando para o disco perfeito e prateado no céu. O relógio na sala marcava meia-noite com suas ruidosas badaladas.
Era o momento mais poderoso da lua mais poderosa. Deixei a luz prateada se derramar sobre mim enquanto me despedia.
Jamais esqueceria Sarah, mas não precisava levantá-la dos mortos para tê-la sempre comigo, em meu coração, em minha alma e em minhas lembranças. Ela era minha
filha, minha menininha, e ninguém jamais poderiam tirar isso de mim.
Mamãe?
Ela já não usava mais o odiado uniforme, mas uma longa camisola branca.
Agora você está bem?
- Acho que sim.
Que bom. Eu não podia seguir para aquele lugar melhor enquanto você não me deixasse ir.
- Desculpe. Tudo vai ficar bem.
Ela me havia dito a mesma coisa na selva, mas eu não estava ouvindo.
O homem com aquelas contas lindas no cabelo... Gosto dele.
- Eu também.
Ele vai ser um bom pai.
- O quê? Adeus.
Sarah começou a desaparecer. Não tentei retê-la. Era hora de dei¬xá-la ir.
Eu me virei e vi Murphy atrás de mim. Algo em seus olhos me fez perguntar:
- Você a viu?
- Sim. - Ele olhou para o céu e seu brinco brilhou à luz da lua. - O que ela estava dizendo sobre eu ser um bom pai?
Considerei o que havíamos acabado de fazer no quarto. Na cama. E como havíamos feito. Sem proteção.
- Acho que tivemos um pequeno acidente.
Ele se aproximou de mim e me abraçou. Murphy beijou meus cabelos onde eram grisalhos, depois sussurrou:
- Não existem acidentes.
Eu sorri, porque sabia que ele estava certo.

Bjos!



Edilma
http://blogdosamigosdaedilma.blogspot.com/

 

--
Seja bem vindo ao Clube do e-livro
 
Não esqueça de mandar seus links para lista .
Boas Leituras e obrigado por participar do nosso grupo.
==========================================================
Conheça nosso grupo Cotidiano:
http://groups.google.com.br/group/cotidiano
 
Muitos arquivos e filmes.
==========================================================
 
 
Você recebeu esta mensagem porque está inscrito no Grupo "clube do e-livro" em Grupos do Google.
Para postar neste grupo, envie um e-mail para clube-do-e-livro@googlegroups.com
Para cancelar a sua inscrição neste grupo, envie um e-mail para clube-do-e-livro-unsubscribe@googlegroups.com
Para ver mais opções, visite este grupo em http://groups.google.com.br/group/clube-do-e-

0 comentários:

Postar um comentário

Vida de bombeiro Recipes Informatica Humor Jokes Mensagens Curiosity Saude Video Games Car Blog Animals Diario das Mensagens Eletronica Rei Jesus News Noticias da TV Artesanato Esportes Noticias Atuais Games Pets Career Religion Recreation Business Education Autos Academics Style Television Programming Motosport Humor News The Games Home Downs World News Internet Car Design Entertaimment Celebrities 1001 Games Doctor Pets Net Downs World Enter Jesus Variedade Mensagensr Android Rub Letras Dialogue cosmetics Genexus Car net Só Humor Curiosity Gifs Medical Female American Health Madeira Designer PPS Divertidas Estate Travel Estate Writing Computer Matilde Ocultos Matilde futebolcomnoticias girassol lettheworldturn topdigitalnet Bem amado enjohnny produceideas foodasticos cronicasdoimaginario downloadsdegraca compactandoletras newcuriosidades blogdoarmario arrozinhoii