LUANNE RICE.
Quando Sarah Talbot é informada de que o seu tumor canceroso se encontra em remissão, decide voltar à casa da sua infância, na ilha do Alce, para passar o feriado
de Acção de Graças com o pai, viúvo, e o filho, Mike, com quem tem tido alguns problemas de relacionamento, Com ela, vai um amigo recente, o piloto-aviador Will
Burke, que, por sua vez, vem sentindo algumas dificuldades em educar uma filha adolescente problemática ...
Capítulo 1.
CHEGARA outro Outono a Fort Cromwell, e Sarah Talbot estava ali a apreciá-lo, sentada no alpendre da entrada da sua casinha branca, a beber chá de canela e maçã e
a pensar no que ia fazer a seguir. Os jovens da casa ao lado estavam a lavar o carro. Salpicos da mangueira borrifaram-lhe o rosto. Embrulhada numa manta de xadrez
vermelha, virou o rosto para o Sol e imaginou que era água salgada e que se encontrava em casa, na ilha do Alce.
Um carro azul desceu devagar a rua. Parecia uma viatura dos serviços municipais. Tinha escrito de lado "Serviço Voluntário de Fort Cromwell". Quando estacionou no
caminho da casa de Sarah, apeou-se uma mulher pequena e elegante de bata branca.
- O que é que veio cá fazer? - perguntou Sarah com um sorriso.
- Que bela maneira de me cumprimentar! - disse a enfermeira ao domicílio.
- Julgava que já tinha terminado o seu trabalho comigo.
- A minha filha matava-me. Além disso, acha que é assim que eu
trato as minhas amigas?
- Eu sou sua doente, Meg - disse Sarah, sorrindo.
- Era, Sarah. Era. Estamos aqui para levá-la a dar um passeio.
- Um passeio? Onde ... - começou Sarah, olhando de relance para o carro e avistando Mimi no banco de trás.
- Feliz aniversário! - disse Meg, inclinando-se para lhe dar um abraço.
Sarah estendeu os braços e retribuiu o abraço.
- Como é que soube? - perguntou quando se separaram. Fazia quarenta e um anos. Estava a passar um dia sereno, sem festa, sem @cartões de parabéns nem telefonemas
de casa. À janela do carro, Mim acenou-lhe com a mão.
- Vi na sua ficha - respondeu Meg, sorrindo. - Venha dai.
WILL BURKE estava no hangar, com a cabeça enfiada por baixo d capô do PiperAztec. O Outono era a estação em que fazia mais dinheiro. A região dos Lagos era uma zona
turística, com as suas destilaria de sidra e a folhagem das suas veredas. Will fazia passeios aéreos d quinze minutos, particularmente apreciados durante a Feira
de Fo Cromwell. E no fim do mês havia voos de fim-de-semana para os pai vindos de Nova Iorque visitarem os filhos que frequentavam as duas ; v universidades
daquela área. Precisava de fazer a revisão dos três aviões que possuía e tê-los prontos a voar.
Quando ouviu lá fora barulho de pneus sobre o saibro, limpou chave de velas num trapo azul e pousou-a na caixa vermelha das ferramentas. Olhou para o relógio para
confirmar as horas. Quatro horas Uma amiga da filha marcara um voo curto para festejar o aniversário subida e descida, uma volta paisagística de quinze minutos.
Enfiando a camisa de trabalho para dentro das calças de ganga, Will saiu para cumprimentar os clientes. Na verdade, não lhe apetecia interromper o trabalho, mas
a tarde estava soalheira e soube-lhe bem sentir o ar fresco. Deu consigo a sorrir quando o carro estacionou.
Meg e Mimi Ferguson saíram do carro. A filha dele ia algumas vezes tomar conta de Mimi, que, tanto quanto se lembrava, devia ter agora cerca de nove anos. A seguir,
alguém que ele não conhecia saiu do carro, uma mulher pequena e magra do tamanho de uma adolescente subalimentada. Tinha um tom de pele pálido e translúcido e a
cabeça coberta por uma penugem aveludada de um louro - acinzentado. Ela olhou para o céu com um deslumbramento total, como se nunca o tivesse visto tão azul.
- Prontas para voar? - perguntou Will.
- Em que avião, Sr. Burke? - perguntou Mimi, excitada.
- Naquele - disse ele, apontando para o Piper Cub de dois lugares.
- Não cabemos todas? - perguntou Mimi, desapontada.
- Desculpa, Mimi - respondeu Will -, o avião grande está a mudar o óleo. Se eu tivesse sabido ...
- Sabes que mais, Mimi? - disse a mulher, ansiosa. - Porque que não vais tu em vez de mim?
- É o seu voo de aniversário - disse Mimi. - A ideia foi minha, e nós queremos que vá a senhora.
- Feliz aniversário! - disse WilI, dirigindo-se à mulher.
- Obrigada - respondeu ela com a mesma expressão de êxtase, como se nunca tivesse sido tão feliz.
Encarou Will de frente, e ele teve,) choque que sentia quando encontrava uma pessoa que conhecia de um lado qualquer e sofrera uma mudança drástica de aspecto. Já
vira aquela mulher algures na povoação com um aspecto completamente diFerente.
- Pronta? - perguntou.
- Sim - disse ela.
- Vamos! - Dirigindo-se a Mim@, acrescentou: - Susan está no escritório. Havia de gostar de te ver.
O PAI DE SEGREDO tinha-a levado para o aeroporto. As alergias dela estavam incontroláveis, e a enfermeira da escola tentara telefonar à mãe, mas, evidentemente,
ela não estava em casa. Por isso, Segredo dissera-lhe para telefonar para a empresa Burke Aviation e chamar Will. Não tinha dúvidas de que o pai iria buscá-la. E
ele foi. Estava agora sentada à secretária dele, pintando as unhas com ar indolente. Do lado de fora da janela rasgada, Mimi, a mãe e a amiga delas estavam na pista
de aterragem a falar com ele.
De todas as crianças para quem Segredo trabalhava como baby-sitter, Mimi era a melhor.
- Olá, Susan - disse Mimi, irrompendo porta adentro.
- Susan? - disse Segredo. - Não há aqui nenhuma Susan.
- Tens razão, esqueci-me - respondeu Mimi com um grande sorriso. - Tu mudaste de nome. O que é que estás a fazer? - Outubro é o mês das bruxarias, e, como sabes,
eu sou uma bruxa. Estou a pintar as minhas unhas à moda delas - respondeu Segredo pacientemente. - Agitou os dedos na direcção de Mimi para enfeitiçá-la.
- Uau! - disse Mimi. Segredo usara tinta-da-china e um pincel de pena de corvo para pintar delicadas teias de aranha sobre o azul-pálido das unhas.
- Vejo que trouxeste cá aquela senhora para dar um passeio de avião - disse Segredo, olhando novamente pela janela. - Ela ficou surpreendida?
- Muito - disse Mimi. - Ainda :)em que deste esta ideia.
- Mnim - disse Segredo. Enquanto olhava para a mulher, Segredo reparou -nalgumas coisas:
era demasiado magra, o cabelo estava com um aspecto horrível, mas tinha o rosto mais lindo que Segredo via desde há muito tempo.
- Ela está realmente doente?
- Estava - corrigiu Mimi. - A minha mãe trata muitas pessoas e durante algum tempo ela disse que Sarah ia morrer, Mas agora diz q talvez não. Eu estou muito contente
com isso, mas não compreendo.
- És muito nova para compreender - disse Segredo com ar co descendente, embora Mimi já fosse mais velha do que Segredo era quando o irmão morrera.
Segredo começou a sentir a comichão na garganta. O tórax começou a pesar-lhe, e ela estendeu a mão para a gaveta superior da secreto ria do pai para agarrar o inalador
que guardavam sempre ali. Fez um aplicação.
- Estás bem? - Mimi ficava sempre preocupada quando Segredo tinha um ataque de asma,
- Estou óptima,
- Ainda bem que tens o inalador.
- Não o tinha hoje na escola, por isso tive de vir para casa mais cedo. - Mal tinha acabado de falar, Segredo sentiu-se incomodada p ter mentido não só a Mimi, mas
também à enfermeira da escola. Tinha o inalador consigo, mas sentíra-se aborrecida, sozinha, e, logo que sentiu falta de ar, aproveitou a oportunidade e pediu-lhe
que telefonas ao pai.
Só. Segredo sentia-se só desde a cabeça até aos dedos dos pés, toda a hora. Sentia a falta do irmão. Vivia com a mãe e sentia a falta d pai. Vivia debaixo do mesmo
tecto da mãe e sentia a falta dela. Senti quase sempre falta de pessoas que estavam sentadas mesmo a seu lado
Tal como agora. Estava sentada junto de Mimi, mas olhava fixamente para a pista de aterragem; viu a doente, que tinha um cabelo horrível e entrava no avião com um
brilho radiante nos olhos, e sentir, falta dela. Sentiu terrivelmente a falta dela, embora nunca a tivesse vi to antes.
VoARAm para norte. O piloto levou-a a sobrevoar o lago e as serras que ficavam a ocidente, onde as folhas resplandeciam numa tonalidad alaranjada. As rochas escarpadas
tinham um brilho vermelho, e o Ia era de um azul-escuro profundo.
- Já tinha voado numa avioneta? - perguntou o piloto.
- Já - disse Sarah.
- Não sei porquê, mas pensei que era a primeira vez. Talvez por Mími e a mãe estarem tão excitadas quando fizeram a marcação.
- Se calhar, foi por eu ter dito a Meg que adorava andar de avião
- disse Sarah. - Embora eu agora não voe tantas vezes como costumava. Durante muito tempo, aos fins-de-semana, viajei num avião pouco maior do que este, de Boston
até casa, no Maine.
- Eu também sou da Nova Inglaterra - disse ele, acenando com a cabeça. - Aquele lago é bonito, mas não é ...
- O Atlântico - concluiu ela, sorrindo.
O riso dele foi a reacção de um homem que tinha água salgada nas veias e que, por qualquer razão, tal como Sarah, se encontrava a viver a
norte de Nova Iorque.
- Chamo-me Will Burke - apresentou-se ele.
- Sarah Talbot.
- Muito prazer, Sarah.
- Quem é que eu vi à janela no aeroporto? - perguntou Sarah.
Aquela jovem que estava a olhar lá para fora?
E a minha filha, Susan - disse Will. É adolescente? Tem quinze anos - disse ele. - Vai a caminho dos trinta. Eu conheço a síndroma - disse Sarah, olhando na direcção
do oriente como se pudesse ver, através de cinco estados, uma pequena ilha ao largo da costa do Maine.
Continuaram a dirigir-se para norte, embora já tivessem percorrido metade do caminho. Lá em baixo havia um pinhal que parecia não ter fim, e o sol-poente lançava
reflexos dourados no topo das árvores.
Sarah sentiu os olhos encherem-se-lhe de lágrimas.
- Eu pensei que não estaria cá - disse ela - para festejar outro aniversário.
- Mas está - respondeu WilI, olhando-a de relance. Puxou o manche para trás, e o avião começou a subir. Afastaram~se do solo e elevaram-se nas alturas. Sarah sentiu
a satisfação da aventura.
O avião fez um voo picado. Fizeram uma acrobacia, depois outra. O avião estabilizou. Os quinze minutos de voo dela esgotaram-se, mas eles continuaram a voar em direcção
ao norte durante mais algum tempo antes de regressarem ao aeródromo.
- ELA GosTou do voo? Sentado à mesa da cozinha a ler o jornal, Will não ouviu bem a pergunta, Levantara-se à s 5 da manhã.
- Desculpa, Susan - disse ele, bocejando. - Perguntaste alguma Coisas
Susan? - repetiu a filha, franzindo o sobrolho.
- Quero dizer... - disse ele, tentando lembrar-se. - Setembro?
- Pai, há semanas que não me chamo Setembro. Não posso acreditar que nem sequer saiba o nome da sua própria filha. Experimente chamar-me "Segredo".
- É isso! - disse Will. Não compreendia aquela brincadeira troca de nomes nem gostava dela, mas a filha tinha ficado traumatiza com a perda de Fred e depois com
o divórcio, por isso ele tentava cedei em coisas que não lhe pareciam especialmente importantes. - EW bem, Segredo. Qual foi a pergunta?
- Ela gostou do voo? Aquela senhora, Sarah.
- Acho que sim - respondeu ele.
- Voaram muito tempo. Trinta e cinco minutos.
- O meu relógio deve ter parado - disse WilI, esforçando-se por não sorrir.
Sempre que a filha pressentia a mínima ponta de interesse da parte dele por urna mulher, tornava-se ultravigilante. Provavelmente, tinha medo de que ele fizesse
o que a mãe fizera com Julian: sair para um fim-de-semana de esqui e voltar casada.
- O seu relógio nunca pára, pai. O pai é o Homem das Horas, c, Senhor Zero Horas e Zero Zero Minutos. Até conseguiu treinar-me. ,, Olhou para o relógio de parede,
que marcava 18.30. - Agora, por exemplo, são dezoito horas e trinta. Dos nossos tempos na Marinha, não foi?
- Bem, acho que perdi a noção das horas.
- O pai nunca perde a noção das horas, eu sei isso. O que acho que ... - Fez uma pausa. Preparara uma grande salada para o jantar d< ambos e levou-a para a mesa
numa saladeira de madeira. Alface, tomate, pepino, pedaços de pão frito e uvas brancas. Apresentou-a com um, expressão de grande expectativa dissimulada nos grandes
olhos azuis.
- Ena! - saudou o pai - Está com um aspecto delicioso!
- Obrigada. A maioria das pessoas não se lembraria de juntar uva mas eu acho que dão um toque final. O que é que o pai acha?
- Sem dúvida alguma - respondeu ele, sabendo que teria de par no McDonald's para comer um cheeseburger duplo depois de a ir levar
a casa.
- Bem, só é preciso que não fique demasiado afeiçoado a ela.
- A quem? - perguntou ele, sabendo já a resposta.
- Àquela senhora, Sarah.
- Querida, eu apenas a levei a dar um passeio de avioneta no dia d< anos dela. Mais nada.
- Ela está doente, pai. As Fergusons quiseram proporcionar-lhe um último aniversário feliz.
- Não foi o último aniversário dela - disse Will.
- Se fosse o meu, eu quereria saber. Havia de querer divertir-me à grande. Por exemplo, voltar a Rhode Island.
- Isso não vai acontecer senão daqui a muito tempo - disse Will.
- Aconteceu a Fred. O último aniversário passou e ele não soube.
Quando chegou o último dia dele, ele nem sequer soube disso. Como é que isso pode acontecer, pai? Uma pessoa acorda uma manhã, feliz e
cheia de saúde, e por volta das catorze zero zero horas morre afogada.
- Não sei, minha querida - disse WilI, porque a franqueza era a
melhor coisa que lhe podia oferecer.
- A mãe já ultrapassou isso - disse ela amargamente.
- Ela nunca vai ultrapassar. Não se ultrapassa a perda de um filho, querida.
- Sempre que eu falo nele, a mãe manda-me calar, porque isso perturba Julian. Ele não passa de um patife rico que passa a vida a fazer corridas de carro e a assistir
a conferências. Vão assistir a alguma logo à noite?
- Não digas patife, Susan. Acho que a tua mãe disse que iam ao teatro.
- Cretino então, idiota. Estúpido. Anormal. Um tremendo hipócrita.
- Susan! Segredo! - disse WilI, cansado - Acaba corri isso, sim?
- Desculpe, pai - disse ela, deitando vinagre na salada. Só se servira de alface. Percebendo que ela deixara o melhor para ele, Will serviu-se de uma dose dupla
para ela ficar contente.
- Juntar uvas foi uma boa ideia - disse ele enquanto comia.
- Obrigada - disse a filha. - Ela pareceu-me bonita.
- Quem, querida?
- Aquela senhora, Sarah.
- E era - disse Will.
- Deus queira que esteja bem - disse ela -, porque a morte é
uma porcaria.
SARAH COMEÇARA a abrir a loja durante umas horas por dia, em geral desde as 10 da manhã até às 2 da tarde. Adorava ver os raios de sol da manhã a jorrarem pelas
montras altas, atirando luz e sombras sobre as paredes de um amarelo-pálido. Naquele dia, sentia-se um pouco cansada, apetecia-lhe enroscar-se para dormir uma sesta
no meio das coisas que vendia, colchas e almofadas, algumas acolchoadas com penas brancas de gansos da quinta do pai, no Maine, à beira-mar.
Soou a campainha por cima da porta da loja. Sarah ergueu os olhos
do inventário e sorriu às duas universitárias que entraram. Sabia que tinha um aspecto estranho com aquela penugem na cabeça.
- Olá! - disse ela - Se precisarem de ajuda, digam-me.
- Nós dizemos, obrigada - respondeu a rapariga mais alta, sorri do quando a amiga se estendeu ao comprido sobre a cama que estava em exposição, coberta com uma fofa
colcha de penas.
- Quero precisamente esta cama - disse a outra rapariga, suspirando.
- Quer? - perguntou Sarah.
- As roupas de cama da escola não são propriamente sumptuosa
- explicou a rapariga. - Estamos a fantasiar.
- Estejam à vontade - disse Sarah. - Toda a gente merece ter sonhos cor-de-rosa.
- Não tenho cartão de crédito - disse a outra rapariga. - Mas s eu telefonar aos meus pais e eles lhe derem o número da conta, posso comprar tudo o que está aqui
na sua loja e levar para o campus universitário?
- Isso arranja-se - disse Sarah. - Eu própria vou fazer a entrega@ num trenó prateado.
A rapariga riu-se e voltou a suspirar. Sarah lembrou-se dos seus tempos de universitária. Os lençóis puídos e os cobertores velhos e ásperos é que lhe tinham dado
a inspiração' para o seu próprio negócio e para abrir a Loja de Acolchoados Sétimo Céu. Deixara a faculdade a seguir ao primeiro ano e abrira a primeira loja em
Boston com os artigos acolchoados a penas feitos pelo pai, que vivia na quinta.
A quinta estivera à beira da falência. Sarah e o pai nunca haviam abordado o assunto, mas ela sabia que o salvara. Arranjara financiamento próprio, expandira o negócio
por meio de vendas por catálogo e até tinha encomendas de França e Itália. A loja original permanecera> em Boston, mas, depois da última de uma série de aventuras
amorosas ridículas, Sarah mudara-se ali para cima, para aquele vale cheio de estudantes universitários, no Norte do estado de Nova Iorque, onde vivia, há dez anos.
O telefone tocou.
- Sétimo Céu, bom dia - disse ela.
- Parabéns! - disse uma voz profunda.
- Obrigada - respondeu. - O coração dela contraiu-se. Não conseguia falar. Teve a sensação de que, se respirasse, a ligação seria interrompida.
- Estou um dia atrasado. Desculpe.
- Não faz mal, eu nem dei por isso - mentiu.
- O que é que fez? Foi jantar fora ou qualquer outra coisa?
- Fui dar um passeio de avioneta - disse ela - para ver as folhas. Todas vermelhas, cor de laranja e amarelas. Parecia uma tigela de Trix. Não pude deixar de sorrir
quando estava lá em cima a sobrevoar esta linda paisagem outonal e a pensar no Trix. Lembras-te de que era a
marca de cereais de que tu gostavas?
- Hum. Não me lembro bem.
- Como estás? - perguntou ela. Era como se o visse na enorme cozinha do rés-do-chão, com o fogo a arder na velha lareira de pedra. Fechando os olhos, regressou à
ilha do Alce, viu a baía escura, a casa tradicional pintada de branco, os campos cheios de gansos brancos.
- Bem.
- A sério? Continuas a gostar de viver aí? Porque ...
- E a mãe? - perguntou ele. - Como está?
- Estou óptima - disse ela, voltando as costas para que as estudantes não ouvissem. - Acabei a quimioterapia no mês passado, e
achamos que deu resultado. Não há qualquer sinal de tumor. Fiz uma
ressonância magnética e está tudo limpo.
- Está curada?
- Estou - disse Sarah, mordendo o lábio. Conhecia as estatísticas, taxas de sobrevivência a cinco anos, melhores e piores hipóteses.
Bom - disse ele depois de um longo silêncio - Ainda bem!
O teu avô está aí? - perguntou Sarah. Está no celeiro. Eu só vim a casa para almoçar - pigarreou.
E pensei telefonar-lhe para lhe dar os parabéns.
- Ainda bem, Mike. Tenho saudades tuas. Quem me dera que tu ...
- Quando é que vem ao Maine? O avô é que queria saber. Ele disse-me para lhe dar os parabéns. Já quase me esquecia.
- Foi dele a ideia de me telefonares? - perguntou Sarah.
- Não, foi minha. Então, quando é que vem cá?
- Não sei - respondeu ela. A ideia de ir à ilha deixava-a tão ansiosa que ela sabia que não lhe fazia bem. O médico tinha-lhe dito para evitar o stress. Só de pensar
em ver Mike com o seu velho pai azedo, Sarah ficava desnorteada.
- O Dia de Acção de Graças era uma boa ocasião - sugeriu Mike.
- Depois combinamos. Um silêncio incómodo cresceu entre ambos. No espírito de Sarah apareceram em turbilhão perguntas, acusações, declarações de amor.
Como é que o filho podia tê-la deixado para ir para lá? Depois da morte da mãe, Sarah saíra da ilha. Tinha desapontado o pai, e, mesmo através do seu silêncio amargurado,
ele recusava-se a deixá-la esquecer isso.
- Desculpe - interrompeu a rapariga que estivera deitada na cama. - Acho que afinal quero mesmo comprar algumas coisas; Podemos telefonar à minha mãe?
- Acho que é melhor despedir-me - disse Mike.
- Querido, fico muito contente por teres telefonado. Nem podes imaginar como me fizeste feliz. Foi dez vezes melhor do que qualquer dos presentes que jamais recebi.
- Adeus, mãe - disse Mike. Quando ela se virou para atender as raparigas, estava a sorrir. Tinha um rosto calmo quando disse que sim com a cabeça, a rapariga podia
telefonar à mãe. Estava em vias de vender uma colcha, a fazer progredir@ o negócio através das jovens do Marcelhis College, as estudantes que a@ ajudavam a ganhar
o pão de cada dia.
Contudo, o seu coração estava longe, com Mike Talbot, o seu filho,@ que abandonara a escola aos dezassete anos, a pessoa que Sarah Talbot. amava mais do que a própria
vida, o rapaz que, sozinho, planeava continuar a tradição familiar da confecção de colchas e venda de produtos &', quinta sob a direcção do pai dela, o irascível
George Talbot, da ilha do' Alce, no Maine.
Eram momentos como este que faziam Sarah, enquanto passava o, recibo de uma colcha de trezentos dólares, desejar ter simplesmente, deixado a velha quinta morrer.
S
EGREDO atravessou a povoação de bicicleta. O ar estava gelado, e , : ela tinha os dedos dormentes. Deitando a língua de fora, apanhou os` primeiros flocos de
neve do ano. O Dia das Bruxas passara, decorriam os primeiros dias de Novembro, e o lago já estava coberto de gelo. Em parte nenhuma do Mundo fazia tanto frio como
em Fort Cromwell. Comparativamente, o clima de Newport era tropical.
As lojas tinham todas um aspecto acolhedor. Pedalando mais devagar, Segredo ia espreitando para o interior de cada uma delas. Algumas ainda conservavam as lanternas
do Dia das Bruxas à janela. Outras tinham-se adiantado e já faziam os preparativos para o Natal. A loja dos acolchoados tinha um aspecto particularmente convidativo,
mesmo
sem decorações de Natal de qualquer espécie. Os candeeiros de bronze brilhavam, as colchas tinham um aspecto fofo e envolvente. Sentindo necessidade de se aquecer,
Segredo estacionou a bicicleta e entrou.
- Boa tarde - cumprimentou Sarah lá do fundo da loja.
- Boa tarde! - respondeu Segredo. Tentando dar a ideia de que andava mesmo a fazer compras, Segredo franziu a testa e começou a ler as etiquetas com os preços.
- Se precisar de alguma ajuda, diga.
- Digo, sim - respondeu Segredo com ar sério, remexendo num
caixote com pequenas almofadas de veludo de boa qualidade.
De algures nas traseiras da loja, vinha um cheiro a sidra a borbulhar numa chaleira.
- Quer tomar sidra quente? - perguntou a voz.
- Bem, eu não devia ... - respondeu Segredo com remorsos.
- Tem a certeza? Lá fora está muito frio.
- Nunca é de mais repeti-lo.
- Tem a certeza de que não quer? - repetiu Sarah. - Lá fora está muito frio.
Segredo deu uma risadinha. Ergueu o olhar e, pela primeira vez, viu quem era realmente a dona da loja. Era Sarah Talbot, a senhora doente, a amiga de Mimi Ferguson.
- Ah, olá - cumprimentou Segredo.
- Olá - disse Sarah. - Eu conheço-a. A menina estava no escritório do aeródromo no dia dos meus anos, quando fui dar um passeio de avioneta.
- Estava. O meu pai é o piloto.
- Um óptimo piloto - disse Sarah. - Tem a certeza de que não quer um pouco de sidra?
- Talvez um pouco. O meu pai teve várias ofertas da TWA, da Delta - disse Segredo enquanto esperava que Sarah enchesse duas ca
necas castanhas. - Ele podia arranjar trabalho onde quisesse, mas gosta de ser patrão de si próprio.
- Pareceu-me realmente muito competente - concordou Sarah, entregando-lhe uma caneca.
- Formou-se na Marinha - disse Segredo. - Mas já antes disso era piloto. A Marinha precisava muito dele porque ele sabia fazer tudo. Sabia pilotar um avião e sabia
nadar se havia um acidente. Sabia chefiar uma equipa. Não perdia a cabeça durante as manobras. Esteve na Guerra do Golfo, por exemplo.
- Vê-se que tem muito orgulho no seu pai - disse Sarah. - Aqui o Norte do estado de Nova Iorque parece demasiado terrestre para uma família de marinheiros.
- E verdade. - Segredo sentiu o seu problema de asma enquanto esperava pelas perguntas que viriam a seguir: Porque é que vocês
vem aqui? Tem irmãos ou irmãs? Mas as perguntas não foram feita Em vez disso, Sarah estendeu-lhe a mão o.
- Nós ainda não fomos oficialmente apresentadas. Sarah Talbot.
- Segredo Burke.
- Mas que belo nome! - comentou Sarah. Segredo deitou-lhe uma olhadela para ver se ela estava a ser fingida mas os olhos de Sarah pareciam cheios de admiração.
- Obrigada - agradeceu Segredo. - Para dizer a verdade, estou a preparar-me para o mudar, estou a pensar em Neve.
- Bem escolhido, agora que é Inverno - disse Sarah, fazendo UM, gesto de concordância com a cabeça.
- Sarah é o seu verdadeiro nome?
- E. Tenho-o arrastado durante toda a minha vida. No sétimo ano tentei substituí-lo por Sadie, mas não parecia eu.
- Pois não - concordou Segredo. - A senhora tem mesmo cara,' de Sarah. - Olhou para Sarah como quem está a avaliá-la.
- O que é que foi? - perguntou Sarah.
- Bem ... - disse Segredo - Só estava a reparar no seu cabelo.
- O meu pobre cabelo! - disse Sarah, corando. - Sim, caiu-me. Costumava ser castanho -escuro, mas agora, veja! Está a nascer com uma cor tão esquisita!
- Podia aclará-lo. - sugeriu Segredo; os conselhos de beleza eram um dos seus melhores talentos. - A maneira como está a crescer,@ dá-lhe um ar engraçado e rebelde.
Podia pô-lo todo clarinho e ficava giríssima.
Nessa altura, ouviu-se a campainha por cima da porta. Entrou um` grupo de raparigas. Sarah cumprimentou-as e elas responderam.
Segredo deixou-se ficar aninhada no seu lugar na beira da cama.;.., Sarah serviu sidra às estudantes, mas quando acabou, voltou a ir sentar-', -se junto de Segredo.
Lado a lado, beberricaram a sidra. As raparigas' eram clientes que lhe davam o dinheiro a ganhar, mas era com Segredo que Sarah estava sentada. Como se ela fosse
sua amiga. Só dela.
A FEIRA DE FoRT CROMWELL realizava-se sempre no sábado a meio entre o Dia das Bruxas e o de Acção de Graças. Toda a gente lá ia. Sarah foi com Meg e Mimi. Andaram
por ali às voltas, admirando os porcos premiados e os bezerros campeões. Mimi recebera uma máquina fotográfica de presente de anos e andava a tirar fotografias a
tudo.
- Quer ir andar na roda gigante? - perguntou Meg.
- Vão vocês as duas - disse Sarah. - Eu vou ver onde posso beber um cacau quente.
Combinaram encontrar-se na tenda das tatuagens uma hora depois. Dirigindo-se ao local onde se serviam bebidas, Sarah sentia-se animadíssima. As feiras tinham sempre
aquele efeito sobre ela: a multidão, os animais, os chocalhos a tilintarem por todo o lado! Cumprimentou algumas caras conhecidas.
Estava com um chapéu de coco preto, calças de ganga pretas e o velho blusão de cabedal da tropa que pertencera a Zeke. Quase nunca o vestia quando estava com Mike.
Sarah possuía muito poucas coisas do pai de Mike, e parecia que todas levavam Mike a fazer perguntas às quais Sarah não podia responder. _ Um cacau quente! - pediu
ao homem que estava do outro lado do balcão.
O copo de papel estava a escaldar. Olhando em redor à procura de guardanapos, viu um balcão com ketchup, mostarda, guardanapos e pálhinhas, mas estava um homem à
sua frente. Alto e de ombros largos, envergava um blusão de cabedal quase exactamente igual ao dela.
- Desculpe! - disse ela, inclinando-se ao lado dele para tirar um guardanapo.
- Olá, Sarah - cumprimentou ele, parecendo surpreendido e contente.
- Olá - respondeu Sarah. Era o piloto, Will Burke. Ela passara praticamente por baixo do braço dele para alcançar o guardanapo, e ele estava a segurar o cachorro
quente no ar para impedir que o molho escorresse para cima dela.
Desenredaram-se e afastaram-se um do outro, sorrindo.
- Prazer em vê-Ia - disse ele.
- Igualmente. Como tem passado?
- Bem - respondeu ele. - E você?
- Óptima - disse Sarah. - Mesmo óptima. O que é que o trouxe até à feira? Segredo veio consigo?
- Segredo? - perguntou ele, franzindo o sobrolho. - Ali, Susan. Você esteve com ela?
- Ela passou lá pela loja.
- Segredo! - disse ele, abanando a cabeça. - Esqueço-me sem
pre. Nós demos-lhe um nome muito bonito: Susan.
Sarah concordou com um aceno de cabeça. Ele parecia estar com
alguma preocupação, mas Sarah não o conhecia suficientemente bem para lhe perguntar. j
É boa rapariga, seja lá qual for o nome que use - disse Sarah. Então, você não se importava com isso? Pessoalmente, não. Não me importaria. Hum - disse ele, franzindo
novamente o sobrolho. - A mãe dela acha que é um sinal de perigo. Uma espécie de grito de socorro. Et não sei.
- Não quero, de maneira nenhuma, contrariar a opinião da sua mulo lher - disse Sarah -, mas a mim não me parece assim tão perigos. Ela tem quinze anos e anda a fazer
experiências, quer tomar conhecimento de si própria. Está a perceber?
Will fez que sim com a cabeça. Obviamente, sentia-se melhor por que começou a comer o cachorro quente. Tinha o rosto e as mãos enrugados do seu trabalho ao ar livre.
O cabelo era castanho encaracolados com muitos fios grisalhos nas têmporas; para quem estivera na Marinha, usava-o um pouco comprido demais. Os olhos eram extraordinariamente
azuis.
- Ela está cá? - perguntou Sarah, olhando à sua volta.
p
- Segredo? - perguntou ele, sorrindo. - Não, está em casa. E@ estou aqui em serviço. Ando a fazer voos com as pessoas, tal como consigo.
- O meu foi um belo voo. Lembro-me dele muitas vezes. Foi a primeira vez que percebi ... - bebeu mais um gole e acrescentou, sorrindo: - ... que já estou boa outra
vez.
- Ainda bem - disse Will. Então, Sarah teve uma ideia. Era uma ideia que devia ter vindo a formar-se a pouco e pouco, porque durante as últimas noites ficara deitada
acordada, perguntando a si própria se devia ir passar o Dia d@1 Acção de Graças a casa e, se fosse, como é que iria. Isto porque, quando fez a pergunta, parecia
que já tinha tudo planeado.
- Você faz voos de longo curso? Até ao Maine, por exemplo?
- Faço - disse ele. - Muitas vezes. Para que sítio do Maine?
- Ilha do Alce. É bastante a norte, acima da baía de Penobsc quase em Motint Desert. É uma ilha pequenina no meio do mar.
- Tem aeródromo?
- Não é bem um aeródromo. Apenas uma pista de erva.
- Os meus aviões gostam de pistas de erva. Quando é que quer ir?
- Esse é que é o problema - disse ela. - Por volta do Dia de Acção de Graças. Sei que provavelmente você já tem compromissos, portanto ... se calhar, nem trabalha
nesse fim-de-semana.
- Trabalho - disse ele.
- Bem ... quer decidir qual é o preço e depois diz-me?
- A ideia agrada-me - disse ele. - Teremos de estar atentos às condições climatéricas. O meu avião grande está bem equipado, mas é mais caro.
Sarah assentiu com a cabeça e engoliu em seco. Organizar o trans
porte deixava-a um passo mais perto da ida, do momento de ver Mike!
- Eu depois telefono-lhe - disse, despedindo-se de Will com um
aperto de mão.
- Está bem - disse ele, deitando um olhar ao relógio. - Acho que tenho de voltar ao trabalho. - Começou a afastar-se. - Ei, Sarah!
- Sim? - perguntou ela.
- Eu não tenho mulher - informou ele. - Ainda há bocado você disse "a sua mulher", mas eu sou divorciado. Segredo vive com a mãe e o padrasto, ou seja, Segredo é
minha filha, mas não vive comigo e passa o Dia de Acção de Graças com Alice. Portanto, não há qualquer problema em a levar a si ao Maine.
- Ah! - disse Sarah. Estava a tentar pensar no que havia de responder quando um bando de miúdos se aproximou numa correria.
Um deles roubou o chapéu de Sarah. Ela sentiu-o ser arrancado da cabeça, a aba arranhou-lhe a cicatriz e ela sentiu uma dor súbita. Os miúdos riram-se vitoriosamente.
- Cabeça de melão! - gritou um deles. Sarah ficou boquiaberta, e durante um momento terrível olhou para Will e viu a sua própria vergonha nos olhos dele. Baixando
a cabeça para ele não a ver chorar, Sarah sentiu os braços dele envolverem-na. Will encostou-a ao peito.
O seu cabelo é bonito - disse Will em voz baixa. É feio - disse ela, chorando. - O meu filho vai detestar vê-lo. Não, não vai - disse Will. Ele fugiu quando eu adoeci
- disse ela. - Nunca me viu assim, e o cabelo não vai crescer até ao Dia de Acção de Graças. _ Bem, então vai vê-Ia nessa altura - segredou-lhe Will com a
boca encostada ao ouvido dela. - Eu próprio a levo lá.
- Se eu chegar a ir.
- Vai, vai. Não vai desistir - afirmou Will.
- Como é que sabe? - perguntou ela, afastando-se para ver os
olhos dele.
- Porque você é a mulher mais valente da feira - disse ele.
SEGREDO ia sentada no banco de trás do Range Rover e estava a fer inalador. Colocou-o na boca, deu uma bombada e inspirou. Ouviu-se som sibilante do aerossol. A
mãe de Segredo olhou para trás e com olhos perguntou-lhe se estava bem. Segredo assentiu com a cabeça com os olhos marejados de lágrimas. Entreolharam -se, e cada
uma de,, Ias desejou algo que nunca poderia ter.
l't S
ARAH ESTAVA sentada à beira da marquesa sobre o papel protector, à, espera de que o Dr. Goodacre a examinasse. Cada visita mensal exigia longos testes à paciência.
Ele era neurocirurgião, e, na m i ri os seus doentes eram casos de vida ou de morte. Era ele que tratava a,%,, vítimas de choques frontais, os motociclistas projectados
sem cariacete@ , as pessoas que acordavam com tumores cerebrais.
Finalmente, o Dr. Goodacre entrou. Era alto e extremamente magro e usava um fato escuro, com a bata branca por cima. Tinha cabelo, curto ::!
curto, e escuro. Com ar sério, dirigiu-se para trás da porta e tirou de lá a@ CffíÍcha&,:!@@ de Sarah.
- Olá, Sarah! - Franzindo o sobrolho, começou a ler, mas Sarah: não teve medo da sua expressão severa. Ele salvara-lhe a vida, e ela adorava-o do fundo do coração.
- Tem dores?
- Só quando toco na cicatriz.
- Falta de sensibilidade? Formigueiro?
- Não.
- Não houve mais convulsões? - perguntou o médico enquanto lia.
- Desde Julho, não. Sarah odiava as convulsões. Tivera três, contando com aquela que a,@ alertara para o facto de algo de estranho se passar. Há nove meses atrás,
estava de perfeita saúde, corria mais de dez quilómetros por dia a treinar-se para a sua primeira maratona. Um dia, acordou no chão da banheira. A água quente inundara
tudo. Necessitou de todas as suas forças para se arrastar até ao telefone e marcar o 112.
Ao princípio, pensaram que tivesse sido uma trombose. Ela mal conseguia falar e tinha visão dupla. Os cardiologistas mandaram-na fazer electrocardiogramas, electroencefalogramas
e TACs. A TAC revelou anomalias neurológicas, e no dia seguinte a neurocirurgia revelou um tumor cerebral.
- Bom - disse ele, pousando a ficha. Inclinou-se para a olhar nos olhos. - Sente-se direita e feche os olhos. Mantenha os braços esticados à sua frente. Agora, afaste-os
para os lados.
"Como asas", pensou ela, "corno um avião a voar para o Maine."
- Toque no nariz com o indicador esquerdo. Agora, com o direito. Olhos fechados. Muito bem.
Sarah foi pela primeira vez ao Dr. Goodacre à procura de uma segunda opinião. O primeiro médico dissera-lhe que ela tinha um sarcoma osteogénico - o tumor mais mortal
possível - e que, mesmo com cirurgia, teria apenas dez semanas de vida. Sugerira que fosse até Paris, comesse os seus pratos preferidos e se despedisse das pessoas
que amava. Mandara-a para casa.
Em estado de choque, Sarah enroscara-se na cama. Era por aquilo que a mãe dela passara? Fraca e doente, necessitara de uma enfermeira ao domicílio para tratar dela.
Meg Ferguson fora vê-Ia. Seis dias após a
sentença de morte, Mike partira para o Maine. Dez dias depois, Sarah ouvira Meg dizer:
- Vá pedir uma segunda opinião. E Sarah fora consultar o Dr. Goodacre.
- Estou a pensar fazer uma pequena viagem - disse-lhe ela des
ta vez.
- Está? - perguntou ele, observando-lhe a nuca.
- Até ao Maine. Para ver o meu filho.
- Ah - disse ele, examinando a cicatriz minuciosamente.
O tumor fora localizado nas meninges entre o crânio e o cérebro. Agarrara-se aos seios do tecido nervoso, mas o Dr. Goodacre tinha 99% de possibilidades de o extrair.
Para penetrar, cortara uma grande área no
couro cabeludo. Em forma de U@ a cicatriz parecia um sorriso vermelho rasgado na nuca de Sarah.
- Lembra-se de eu lhe ter falado dele? - perguntou Sarah. - De Mike? Ele foi para o Maine precisamente na altura em que eu vim consultá-lo.
- Está a perguntar-me se devia ir? - perguntou ele.
- Sim, estou.
- Não vejo razão para não ir - disse o médico. Encostou-se a um armário baixo e, pela primeira vez desde que entrara no consultório, olhou para ela com atenção.
- Perguntou à Dra. Boswell?
- Não. Acha que devia? A Dra. BoswelI, a oncologista de Sarah, administrara-lhe dois tratamentos de quimioterapia e acompanhara o tratamento de rádio. Mas o Dr.
Goodacre era o Número Um. Fora ele que identificara o tumor,@,,.'@@ como um grande linfoma, significativamente menos mortal do que um @3 sarcoma osteogénico.
- Acho melhor mandar uma enfermeira ligar para ela - disse o Dr. Goodacre. - Se ela não levantar objecções, então eu também não levanto.
- A sério? - perguntou Sarah.
- Conhece o caminho que temos pela frente, Sarah. Você reagiu bem.
- Só não quero é ter uma recidiva - disse ela com um arrepio.
- Eu sei. E impossível de prever. - O semblante do médico disse tudo: ela tanto podia sobreviver como não. - Esteja atenta. Se tiver alguma falta de sensibilidade
ou um formigueiro, telefone-me imediatamente. Mas não vejo razão para não ir.
- Obrigada - disse Sarah, radiante como se tivesse acabado de.`, ganhar uma corrida.
- Dentro de um mês, quero vê-Ia aqui na minha consulta - disse ele, preparando-se para sair.
- Dr. Goodacre! - disse Sarah, chamando a si a sua pouca coragem. - Como está o seu pai?
Da última vez que ali estivera, ouvira a enfermeira dizer que o pai dele tinha tido um ataque de coração.
- Melhor - respondeu o Dr. Goodacre, deitando a Sarah um olhar curioso. - Mas ele vive na Florida. É o meu irmão mais velho quem toma conta dele.
- E o seu irmão desempenha bem a tarefa?
- É um anjo - disse o Dr. Goodacre com ênfase. Sorriu, fixou os olhos nos de Sarah e acrescentou: - Quem me dera que todas as pessoas tivessem alguém como ele! -
Deixou-se ficar por ali pouco mais tempo e depois saiu. A porta fechou-se suavemente atrás dele.
Sozinha na sala, Sarah sentiu o coração bater apressadamente Nunca na vida tivera um anjo, mas pensou em Will Burke a ampará-la na feira, a levá-la a casa de avião
..
Levá-la a ver Mike.
CONDUZINDo através de uma mata de bétulas, Will subiu a longa estrada de acesso a Windermere Hill. Caíra neve na noite anterior, e o acesso privado levou-o até um
relvado coberto de neve delimitado por sebes de buxo com o topo branco. Era um fim de tarde de sexta-feira, e ele encontrava-se ali para ir buscar a filha.
A sumptuosa mansão de pedra de Julian impunha-se no cenário invernoso. Dois Ferraris antigos e um Porsche 356 estavam à vista na garagem. Will estacionou o carro,
esforçando-se por não se sentir ressentido pelo facto de um homem poder ter aquilo tudo e também Alice e Susan.
Esperando encontrar Susan, ficou surpreendido por ver Alice sair pela porta da frente. Vê-Ia, fê-lo suster a respiração. Continuava a ser a
mulher mais bonita que conhecia, de pele macia, enormes olhos azuis amendoados, cabelo louro e sedoso.
- Ela pediu-me para te dizer que está um bocado atrasada - disse Alice apressadamente, de braços cruzados.
- Não há problema - disse WiII. Saiu do carro e encostou-se à porta. Estava de calças de ganga e
com uma velha camisola verde.
- A asma dela tem estado terrível ultimamente - disse Alice. - É totalmente psicossomática. Susan provoca os ataques apenas para pôr fim a coisas que estão a acontecer.
Não estou a deitar-lhe as culpas. Ela tem passado uns maus bocados, mas tem necessidade de ser o centro
das atenções.
- Eu próprio fiz isso quando tinha quinze anos - disse WilI, sorrindo.
- E parece que nunca deixaste de fazer. Ela estava a gozar? Will não podia ter a certeza. Alice olhava fixamente para as botas dele, um par antigo de Dunhams, com
solas novas postas recentemente. Perguntou a si próprio se ela se lembraria de lhas ter comprado no primeiro Inverno que passaram em Fort Cromwell, há cinco anos.
- Queria falar-te do Dia de Acção de Graças - começou Will.
- Ela fica comigo - disse Alice, levantando a cabeça bruscamente. - Nós temos planos ...
- Calma! - disse WilI, levantando uma mão. A mínima conversa provocava um estado de tensão.
- Ela fica comigo durante os feriados. Isso faz parte do nosso acordo.
- Sim, eu sei. Tem calma, Alice! Eu estava só a perguntar. Tenho um voo marcado para o Maine. Achei só que devias saber que eu não
vou cá estar.
Alice assentiu com um aceno de cabeça e expressão sombria.
- Ela vai ficar boa - continuou Will. - Segredo vai ficar óptima.
- Segredo? Acaba com isso, Will! - explodiu Alice. - Nós demos-lhe o nome de Susan. Não vás nessa conversa de "Segredo". Isso é
realmente inquietante. Julian acha que ela precisa de mais apoio de unt@ especialista.
- A opinião de Julian, para mim, é um bom sinal de que ela não precisa. Não lhe disseste que ela já teve apoio logo que chegámos a Fo Cromwell?
- Com certeza que disse. Ele conhece o Dr. Darrow. - Abrindo ai, mãos, frustrada, Alice exibiu as suas jóias: o maior anel de diamante., que Will jamais vira. Ele
conteve a sua admiração.
- Olá - gritou a filha, saindo impetuosamente pela porta da frente com a mochila e um embrulho pequeno. Postou-se ali como uma estrela, sorriso radiante, pose teatral
e braços abertos para cumprimentar seu público adorador. Os pais estavam demasiado perturbados até par sorrirem. - Olá, pai. Podemos passar pela cidade? Tenho de
entregaria uma coisa a uma amiga.
- Com certeza - respondeu ele.
- Eu preciso do número do telefone do sítio para onde vais na altura da Acção de Graças - disse Alice com brusquidão. - Só para '11, caso de ser
necessário.
- Vai a algum sítio no Dia de Acção de Graças? - perguntou,,, Segredo.
- Vou só trabalhar - disse ele.
- Vai trabalhar no Dia de Acção de Graças?
- Vou ao Maine levar Sarah Talbot, a amiga das Fergusons.
- É essa a pessoa que vai levar? - perguntou ela, olhando para o embrulho.
- Tens o teu inalador? - perguntou Alice, atraindo a si a filha para a abraçar.
Ver a ex-mulher a abraçar a filha, fez Will lembrar-se de muitas coisas e obrigou-o a desviar o olhar. Olhando na direcção da garagem, viu'@' Julian a sair de lá.
Estava na hora de se ir embora.
- Estás pronta, Segredo? - perguntou WilI, agarrando nas coisas' dela.
- Por favor! - exclamou Alice. - Detesto esse nome.
- Não tem de me chamar Segredo - disse ela. - Troquei de nome. Desde ontem à meia-noite, passei a ser Neve.
- Susan ... - disse Alice, irritada.
- Olá, como está? - cumprimentou Julian, aproximando-se. Era alto e magro e tinha o ar de pessoa que faz ginástica ou corre muito. Usava um blusão caro de tecido
aveludado, com o emblema do seu carro de corrida bordado no peito.
- Olá, Julian - disse Will, apertando-lhe a mão.
- Sabem porque é que eu sou Neve? - perguntou a garota em voz alta e tensa. - Por causa de Freddie. Ele adorava o Inverno, andar de trenó e fazer esqui. Lembram-se
de quando fomos todos a ML Tom?
- Susan, querida, pára ... - disse Alice.
- Em Newport, ele ensinou-me a brincar aos anjos. Deitávamo-nos de costas na neve a olhar para lá do porto e acenávamos e tornávamos a acenar para o céu. Lembram-se?
- Eu lembro-me - disse Will.
- Pára, querida - disse Alice, agarrando-a pelos pulsos e com as lágrimas a correrem-lhe pelas faces. - Mudar de nome não o traz de volta.
- Mas ele gostava tanto de cair do céu e de ficar deitado nas docas! Não se importava. Neve. Ele morreu em Setembro e por isso eu fui Setembro; guardava sempre os
meus segredos, por isso eu fui Segredo; e ele gostava muito, muito de neve, por isso eu sou Neve.
- Oh, meu Deus! - disse Alice, cobrindo o rosto com as mãos.
- E você não diz nada à sua filha? - perguntou Julian rispidamente, passando os braços à roda de Alice ao mesmo tempo que olhava para Wili.
Will não disse nada. Agarrou nas mãos da filha e segurou-as nas
suas. Olhando-a bem nos olhos, tentou atraí-Ia si, mas ela não o deixou. Encarou Julian com um olhar cheio de ódio e disse:
- Não fale com o meu pai dessa maneira!
- Escuta! - disse Julian. - Já tolerei demasiado e não tolero mais a tua falta de respeito pela tua mãe. Se o teu pai não fala, falo eu.
Estás a magoar a tua mãe, Susan. Acaba imediatamente com essa parvoíce dos nomes!
Will não teve consciência do que ia fazer. O soco saiu-lhe algures das entranhas, e quando lhe chegou ao punho, Julian ficou estendido ao comprido no relvado, com
o sangue que lhe escorria do nariz a manchar a neve de cor-de-rosa.
Os nós dos dedos de Will doíam-lhe.
- Desculpe - disse ele calmamente, dirigindo-se ao marido da ex-mulher. - Mas não posso permitir que fale com a minha filha dessa maneira.
- Doido varrido! - disse Julian, esforçando-se por se levantar. Will voltou-se para a filha e tentou confortá-la.
- Sarah acha que é um nome bonito - disse a garota com os olhos cheios de pânico.
- Sarah? Quem é Sarah? - perguntou Alice. Mas ninguém lhe respondeu.
- Anda, Neve - disse Will. - São horas de irmos. Subindo para o velho jipe azul que fora dos dois, eles partiram.
SARAH ACABARA de abrir a loja no sábado de manhã quando ouviu tilintar a campainha por cima da porta. Will Burke e a filha encontravam-se ali, segurando dois sacos
brancos da padaria.
- Viemos cá ontem à noite, mas a senhora já tinha fechado a porta
- disse a rapariga.
- Apanharam-me a fazer gazeta! - exclamou Sarah. - Apeteceu-me ir ao cinema, por isso fechei cedo. O que é que trazem aí?
- O pequeno-almoço - disse Will. Ele estava bem agasalhado com um blusão verde de esqui que lhe cobria o pescoço e as orelhas. Tinha os cantos dos olhos azuis meio
fechados por causa da luz do Sol.,,
- Devem ter lido o meu pensamento - disse ela. - Estou esfomeada.
- Está mesmo? - perguntou a rapariga.
- Estou, Neve - disse Sarah. A inspiração do ar foi alta e dramática.
- Como é que soube que eu tinha mudado de nome?
- Tu disseste-me que querias ser Neve por causa do Inverno, não foi? Olha lá para fora - disse Sarah, apontando para a rua coberta do neve.
Neve e o pai olharam um para o outro. Um sentimento forte ensombrava os olhos da rapariga. Ela suspirou. Tirando o cachecol de xadrez que trazia enrolado no pescoço,
atirou-o para cima da cama, coberta. com uma colcha de damasco.
Vamos sentar-nos aqui atrás - disse Sarah, arranjando lugar em cima da secretária para os donuts, o café e o sumo.
- Ouvi dizer que a senhora vai ao Maine - disse Neve, pondo u
pequeno embrulho branco em cima da secretária.
Sarah ia agarrar nele para o abrir, mas Neve fez-lhe sinal para el esperar. Curiosa, Sarah empurrou-o para o lado.
- Ao Maine? Sim, vou - disse ela.
- O boletim meteorológico para o fim-de-semana comprido prevê tempo frio mas limpo - disse Will.
- Porque é que vai tão longe, ao Maine? - perguntou Neve.
- Para ver o meu filho, Mike.
- Ele não vive consigo? Vive com o pai dele?
- Neve... - interrompeu Will.
- Não tem importância. Mais ou menos há um ano, ele abandonou os estudos para ir para a quinta do meu pai.
- A senhora cresceu numa quinta? - perguntou Neve.
- Cresci - respondeu Sarah, apontando para um monte de colchas amontoadas a um canto. - Vês aquelas colchas? São feitas na nossa
quinta. Há alguns anos, eu abri em Boston uma loja do género desta porque a quinta estava quase a falir. A minha mãe tinha morrido, e o meu pai estava ... muito
perturbado. Havia uma pessoa de Thomaston que queria comprar os gansos todos, e um homem de Caindern que queria comprar o terreno. Nenhuma das coisas me agradava
especialmente, por isso desisti do meu curso na universidade para abrir o meu próprio negócio.
- E salvaram a quinta? - perguntou Neve.
- Não posso dizer que na verdade a salvámos. - respondeu Sarah, pensando nas instalações em ruínas e na tia Bessie com a sua máquina de costura de pedal. - Mas até
agora o meu pai conseguiu conservá-la. Juntos, dá para pagarmos os impostos.
- O seu pai deve gostar muito de si! - disse Neve.
- Não tenho bem a certeza daquilo que ele sente por mim.
- Pergunte-lhe!
- Ele é um homem de opiniões fortes - disse Sarah, tentando sor
rir e a maioria delas colidem com as minhas.
É complicado - disse Will com ar de quem compreendia a situação.
- Isso não é razão para não se tentar - disse Neve. - Ele também
é uma pessoa. Se eu tivesse desistido de si, pai, odiaria pensar onde é que nós estaríamos. Eu sei bem o que é complicado ...
- Bem - disse Will, agarrando numa bola-de-berlim. - Que mal é que eu fiz para me ver nesta embrulhada?
- Acontece que estou a referir-me ao facto de o pai ter abandonado a Marinha e nos ter arrastado, a mim e à mãe, para esta ridícula cidade atrasada do interior -
disse Neve, fitando-o, zangada. Em seguida, receando estar a ofender Sarah, pôs a mão sobre a dela. - Desculpe. Isto é um sítio agradável para algumas pessoas, mas
nós precisamos do mar.
- Eu compreendo perfeitamente. O meu filho costumava dizer-me a mesma coisa e tinha razão. Fui eu que tomei a decisão de sair de Boston.
- Se eu tivesse uma quinta de família para onde pudesse fugir, ia logo para lá.
- Não fujas! - disse Will.
- O teu pai tem razão, Neve. Não é coisa que valha a pena - disse Sarah, sentindo frio de repente. Vestira um blusão leve de seda com enfeites bordados e aconchegou-se
bem nele.
- Não vejo porque não - disse Neve. - A senhora vai ter co eles para passarem o feriado de Acção de Graças, e por isso a sua família vai poder estar junta. Tal como
deve ser.
- Estás a pensar bem, mas a realidade vai ser um pouco diferente.
- disse Sarah. - O meu, pai não festeja um dia santo há anos, des que a minha mãe morreu.
- Então, porque é que a convidaram a ir?
- Foi o filho que a convidou - disse WilI, embora Sarah não Ih tivesse dito.
- Foi ele - disse Sarah. - Ele sabe que eu gosto destes feriados mais do que quaisquer outros.
- Porque é que gosta tanto da Acção de Graças? - perguntou Neve.
- Comecei a gostar no ano em que o meu filho nasceu - disse Sarah, encarando Will. - É que eu não sabia a felicidade que representava ...
Will terminou a frase por ela, baixando a cabeça em sinal de concordância:
ter filhos. Ter Mike fez de mim uma pessoa diferente. Fiquei perdida d<@,,` amores por ele - disse ela com os olhos a brilharem. - O mundo COmeçou a fazer sentido.
Costumava observar os tentilhões vermelhos nos prados e imaginava que Deus os criara para mim e para Mike. Sentia-., -me agradecida. Só me apetecia dar graças a
Deus, e quando chegou a, Dia de Acção de Graças, passou a ser o meu feriado favorito.
- E disse isso a Mike? - perguntou Will.
- Todos os anos. Constantemente.
- Nunca serão demais as vezes que lhe disser - aconselhou Wili.
- Tem de lhe dizer constantemente que o ama.
Sarah baixou a cabeça.
- E por isso que eu vou ao Maine.
- Esperou demasiado tempo! - disse Will. Sarah baixou a cabeça em sinal de concordância. Durante um instante, sentiu a mão de Will sobre a sua nuca e o braço de
Neve deslizando à volta da sua cintura. Recompondo-se, levantou os olhos.
- O meu receio é que a quinta seja uma má escolha para ele. É muito isolada. O pai de Mike também era ilhéu, mas já morreu, e o meu pai ... Bem, perder a minha mãe
tornou-o amargo, nunca recuperou. Eu tenho medo de que o pessimismo dele contagie Mike. A minha tia Bess era a pessoa mais sorridente do Mundo quando vivia em Providence.
Mas quando o marido morreu, mudou-se para a ilha, e vocês haviam de
vê-Ia agora. Viver sozinha com o meu pai durante vinte anos transformou-a numa ameixa seca. Eu tenho remorsos de me ter vindo embora, mas tinha de o fazer.
- Tratou da sua mãe? - perguntou Wili.
- Tratei - respondeu Sarah baixinho.
- E agora vai regressar - disse Wili. - Por amor de Mike.
- Exactamente - disse Sarah, passando a mão pelo sítio da cabeça onde estivera o tumor. - Quero dar-lhe uma orientação conveniente antes que seja demasiado tarde.
- Antes que ele se transforme numa ameixa seca - disse Neve.
- Antes que ele se esqueça porque é que você gosta do Dia de Acção de Graças - disse Will.
- Ateste o avião grande, pai! - disse Neve. - Eu vou com vocês.
- Não - disse Sarah. - A ilha está numa lástima. A casa não está suficientemente aquecida, os gansos cheiram horrivelmente. - Ficou preocupada, não desejava que
aquilo se transformasse numa grande excursão.
- Não podes ir, querida - disse Will - Eu vou em serviço, não vou de férias. A tua mãe precisa que estejas com ela no Dia de Acção de Graças.
- Ela tem Julian - disse Neve - Pai, eu ...
- Não, Neve, tu ficas! E não se fala mais nisso.
NA VÉSPERA do Dia de Acção de Graças, Sarah acordou com um
pouco de febre. Os músculos doíam-lhe e sentia a garganta ligeiramente arranhada.
- Por favor, hoje não - disse ela. Não podia ficar de cama com gripe precisamente naquela ocasião. Antes do anoitecer, estaria com
Mike. Devagarinho, levantou-se. Abrindo as cortinas, viu o céu, claro e
brilhante, de um azul intenso.
Depois de tomar um duche e beber um sumo de laranja, sentiu-se muito melhor. O ataque de gripe fora uma coisa passageira e não se instalara verdadeiramente. Fê-la
lembrar-se de que estivera muito doente e
do muito que tinha de agradecer. Sarah começara a acreditar nos pequenos milagres da vida e sabia que acabara de receber outro.
Às 10 horas, Meg Ferguson deu a curva para entrar no caminho de acesso. Sarah estava pronta: calças de ganga, camisola de pescador irlandesa e casacão comprido de
lã azul-escuro. Com a cabeça metida no porta-bagagem a arrumar as coisas de modo a arranjar lugar para as
malas de Sarah, Meg não a viu imediatamente. Quando levantou a cabeça, ficou de boca aberta.
- Oh, meu Deus! - exclamou.
- Está ridículo? - perguntou Sarah, cobrindo a cabeça com mãos. Mal conseguia encarar Meg. @ - Está uma beleza. Deixe-me ver. - Meg, que não era exactamente do tipo
de se preocupar com o arranjo do cabelo, recuou um pouco olhou de um modo apreciativo para a amiga, que aclarara o cabelo graças ao estranho embrulho que Neve deixara
em cima da secretária. Meg tinha cabelo castanho comprido e uma franja puxada para os lados,.,. Vestia o uniforme habitual, composto por uma saia e uma camisola
cO-@ bertas por uma bata branca de enfermeira. Mas observou Sarah com um ar de estilista mundialmente famosa. - Nem posso acreditar na diferença.
É demasiado? Pareço eu? Parece mesmo diferente - comentou Meg. - Quero dizer, de qualquer maneira você já tinha um porte de modelo, mas agora com esse cabelo louro-
e esbranquiçado ... uau! Está muito chique, Sarah. É melhor Will Burke manter o olhar no céu.
- Em que é que o meu cabelo o pode interessar? - perguntou," Sarah, abanando a cabeça com ar embaraçado. - É apenas um piloto simpático que me vai levar ao Maine.
- Pois sim - retorquiu Meg, sorrindo. - Mimi tirou-vos uma fotografia na feira, abraçados como dois apaixonados. O olhar dele ...
- Estava apenas a ser simpático - disse Sarah, com vontade de ver a fotografia. - Uns miúdos tinham-me roubado o chapéu.
- Bem, hoje não precisa de chapéu nenhum. Está pronta?
- Prontíssima - disse Sarah, entrando no carro.
- O Dr. Goodacre deu-lhe licença para ir?
- Deu - disse Sarah, perguntando a si própria se devia fazer referência à febre.
- De qualquer maneira, você sente-se bem e isso é o que importa.
- Se começasse tudo outra vez, eu não aguentava - disse Sarah.
- Oh, Sarah! - disse Meg. Já tinham abordado aquele assunto anteriormente: Sarah sabia que, quando tumores como o dela reapareciam e criavam metástases, as taxas
de sobrevivência caíam vertiginosamente. O novo tratamento seria tão traumatizante como o anterior, e o resultado, incerto. Aquele pensamento aterrorizava-a.
- Eu não faço mais, sabe? - disse Sarah.
- Não faz mais o quê?
- Mais radiações nem quimioterapia - disse Sarah, tremendo.
Esta é a minha oportunidade e vou aproveitá-la.
OS DOIS MOTORES ronronavam alto. O céu envolvia-os num azul sem fim. A luz do Sol prateava as asas, e embora Sarah estivesse de óculos escuros, não conseguia deixar
de franzir os olhos. Voavam em silêncio, observando o desenrolar da paisagem. O rádio estralejava e vozes falavam com eles. Sarah tinha a sensação de estar a ser
passada de torre em
torre, como se os controladores de tráfego aéreo fossem uma congregação benevolente que vigiava a sua viagem desde Nova Iorque até ao Maine.
- Neve disse-me que você esteve na Marinha - disse Sarah.
- É verdade.
- Mas não foi lá que aprendeu a pilotar?
- Não, eu sempre adorei voar. Cresci em Waterford, no Connecticut, junto de um pequeno aeródromo, e aprendi a pilotar aviões antes de saber conduzir um carro.
- Ela orgulha-se tanto de si! - comentou Sarah. Will ficou calado por um instante.
- Não sei porquê - acabou por dizer. Sarah distinguiu na voz dele ódio contra si mesmo. Por que razão
passava o feriado a transportá-la de avião até ao Maine em vez de ficar junto dos familiares que o amavam?
- Não interessa o porquê - disse ela. - A razão por que sentem orgulho de nós, a razão por que nos amam, o que interessa é o facto de isso acontecer.
- É o mesmo que acontece consigo e Mike? - perguntou Will.
- Eu faço o melhor que sei e posso e tento não me preocupar com o resto - disse Sarah - Olhe! - acrescentou, apontando para uma
orla prateada ao longe. - Sabe há quanto tempo não vejo o mar? Três anos, pelo menos.
Will fixou o olhar no Atlântico. Aparecera como uma linha de prata no horizonte e estendia-se como um lençol azul-prateado resplandecendo de luz cintilante.
- Eu sei exactamente quando foi a última vez que o vi - disse ele.
- Foi quando deixámos Newport e viemos para o Norte, há cinco anos. Logo que saí da Marinha.
- Bem, agora está a vê-lo - disse ela baixinho, observando-o. Ao mencionar Newport, as linhas do rosto de Will tinham-se endurecido de sofrimento. Sentindo-se observado,
ele concentrou-se no voo. Sarah procurou-a mão dele e tirou os óculos escuros para ter a certeza de que ele conseguia ver-lhe os olhos e sorriu-lhe.
- Nunca mais quis voltar - disse ele. - Vejo o mar e penso nele ali dentro. O meu filho Fred ... morreu afogado no Atlântico.
- Sinto muito - disse Sarah. Will assentiu com a cabeça. As linhas do seu rosto suavizaram-5 Virou-se para Sarah e tornou a fazer que sim.
Estavam a aproximar-se. Sarah via as ondas a desfazerem-se contra as rochas. Nas enseadas, as vilas pareciam pequenos pontos. Will COntactou com uma nova torre e
anunciou que planeava aterrar e abastecer,-, -se em Portsmouth, no New Hampshire.
Sarah fechou os olhos. Qual era o custo da sobrevivência? Inspirando profundamente, disse uma oração por Will e por um rapaz que nunca conhecera.
NEVE NÃO CONSEGUIA aguentar nem mais um minuto. Trouxera uma carga extra grande para o inalador, só para o caso de um ataque de alergia inoportuno. Passara por momentos
de grande tensão. Bastava um espirro da sua parte e o pai voltava para trás imediatamente. O avião to"cou no solo. Instalada no seu esconderijo, atrás dos lugares
à retaguarda, coberta com um velho cobertor verde, ela flectiu os músculos. Levantando a cabeça, espreitou em volta.
Lá estava Sarah a entrar para o hangar e o pai a falar com o homem, da bomba de gasolina. Neve tinha mesmo de ir à casa de banho@ Imaginou que era para lá que Sarah
estava a dirigir-se, e, se fizesse bem as contas ao tempo, podia entrar despercebidamente.
Utilizando outros aviões para se esconder, correu para dentro do hangar e encontrou a casa de banho das senhoras. Sarah estava dentro de um dos compartimentos. Neve
entrou para um que ficava no outro extremo.
Quando ouviu Sarah puxar o autoclismo, percebeu que tinha muito pouco tempo para se esgueirar de regresso ao avião. Espreitando pela, nesga aberta da porta do compartimento,
Neve inspirou, assustada: "' Sarah estava ali a olhar para ela. O cabelo curto, pintado de branco, dava-lhe um ar primoroso.
- Olá, Neve! - disse Sarah.
- Como é que soube que era eu? - perguntou Neve, continuando a espreitar pela abertura.
- Reconheci a tua voz.
- Está zangada comigo?
- Isso é irrelevante neste momento.
- Vai dizer ao meu pai?
- Acho que devia. Quanto tempo é que estás a planear ficar escondida?
- Só até ser demasiado tarde para regressar.
Sarah fechou os olhos e baixou a cabeça.
Não vamos regressar - disse.
- Soube sempre que eu estava a bordo?
- Ocorreu-me que seria possível - disse Sarah com voz de poucos amigos. - Desculpe. - Devagar, Neve abriu a porta. O ar zangado de Sarah desconcertava-a, mas só
agora que a encarava directamente é que Neve viu bem Sarah. Tinha o cabelo branco e sedoso, tão bonito que apetecia tocar-lhe. - Eu fiquei de boca aberta pelo espanto
de a ver as
sim tão bonita! - disse Neve em voz baixa.
- Ah! - disse Sarah, olhando de relance para o espelho com ar duvidoso.
- Está mesmo. É como uma fotografia na Vogue.
- Obrigada - disse Sarah, surpreendendo Neve ao puxá-la contra si e abraçá-la com força.
Neve fechou os olhos e retribuiu o abraço. Quando chegou a altura de se separarem, Neve não queria largar Sarah, contente por ela não a
detestar. Sarah esperou com lágrimas nos olhos.
- Eu nunca arranjaria coragem, se não fosse por ti - disse Sarah.
- Vamos falar com o teu pai.
Encaminharam-se para o avião. Ao saírem para a luz brilhante do Sol, Neve viu o pai de costas junto do Piper Aztec.
- Só uma coisa - disse a garota a Sarah.
- O que é?
- Como é que suspeitou que eu estava a bordo? Viu a ponta do meu
sapato ou qualquer coisa do género? _ Não - respondeu Sarah, abanando a cabeça e começando a sor
rir pela primeira vez. - É que eu teria feito o mesmo.
- TEMOS UM PASSAGEIRO clandestino - anunciou Sarah calmamente.
Will voltou-se e ficou cara a cara com a filha. Tentou controlar o rosto para dar uma expressão de severidade.
- Susan!
- Pai, não me mande de volta.
- O que é que se passa aqui?
- Eu quero estar consigo, é só isso. Estava preocupada consigo.
- Eu fiz uma promessa à tua mãe, Susan. Ela quer-te com ela nos feriados, e ponto final.
- É apenas a Acção de Graças, pai. Sabe que a mãe só dá importância ao Natal. Por favor, deixe-me ir consigo.
Sarah olhou para o pai e para a filha.
- Se você levar esta jovem de volta a Fort Cromwell, perdemo meio-dia. Eu contratei-o por ser o melhor piloto das redondezas - disse Sarah, apontando para Neve.
- Foi ela própria que mo disse. Eu tenho uma missão a cumprir: quero ver o meu filho, e gostava que me levasse ao Maine. Agora. - Deu um passo atrás e cruzou os
braços.
- A mãe há-de perceber - insistiu Neve, aproximando-se do pai puxando-lhe a manga. - Há-de perceber.
- Então, é melhor ires telefonar-lhe. Conta-lhe o que se passou e depois deixa-me falar com ela.
- Desculpe ter-lhe quase estragado o voo.
- Que isto não torne a acontecer - disse Will severamente, mas com um brilho de verdadeiro encanto nos olhos.
MiKE TALBoT não parava de olhar para o céu. Varria o barracão onde, se depenavam os gansos, preparando-se para o encerrar pela primeira vez desde que viera para
a ilha. O avô era um obcecado. Provavelmente, fazia tenções de trabalhar no Dia de Acção de Graças.
- O que é que se passa aqui? - perguntou o avô, que descia o trilho coberto de neve atrás de dois gansos. Tinha o rosto curtido pelo sol e enrugado. Gelsey, a cadela-pastor
coxa, seguia ao lado dele.
- Estou a fechar - disse Mike.
- Quem é que te mandou?
- Ninguém. A ideia foi minha - respondeu Mike, sentindo-se corar.
Os olhos do velho fecharam-se.
- Nunca te considerei pouco esperto, mas que espécie de criador de gansos é que suspende o trabalho na véspera do Dia de Acção de Graças?
- Não são perus, avô. Além disso, a mãe está a chegar ...
- Criação é criação, Mike - resmungou o avô. - Há pessoas que gostam da carne da criação boa e gostosa, e não toda seca como aqueles estúpidos perus. Tudo carne
branca. Até me enjoa. - Franzindo o sobrolho, sentou-se no cepo onde se cortava a cabeça aos gansos para tomar fôlego.
- Sente-se bem, avô?
- Claro que me sinto bem - respondeu ele sombriamente, levantando-se novamente. Pegou na machadinha e olhou em volta à procura dos gansos.
A neve caíra durante toda a semana, por isso as grandes aves brancas confundiam-se com ela. Mike viu-os perto da baía a debicarem
grãos de cereal. Ao fim de algum tempo, não pôde deixar de desejar que os estúpidos gansos se bamboleassem até junto da água e nadassem para longe.
- Eu apanho-os, avô - disse. Com as sangrentas botas de borracha de cano alto, Mike quase escorregou no caminho coberto de gelo. Os gansos grasnavam ruidosamente.
Mike apareceu-lhes por trás. Desandem - sibilou em voz baixa para o avô não ouvir. - Voem daqui para fora, seus estúpidos! Fujam para longe.
É evidente que os gansos não voaram para longe. Nunca voavam. A chapinhar, chegaram confiantemente ao barracão.
- É melhor apressarmo-nos - disse o avô bruscamente. - Vem aí um tipo da Estalagem de Mayport com um barco para os levar.
Coxeava ligeiramente devido à artrite e quase perdeu o equilíbrio, por isso Mike amparou-o. George Talbot tivera outrora quase um metro e oitenta de altura, mas
a idade corcovara-o.
Mesmo assim, movimentava-se com rapidez. Agarrou um ganso e pôs-lhe o pescoço no cepo. Com um golpe certeiro, cortou-lhe a cabeça. O segundo ganso era sempre pior.
Mike achava que era porque o animal sabia o que ia acontecer. Mas o serviço foi feito rapidamente.
Transportaram os gansos mortos para o barracão. O avô tirou as botas altas e ambos calçaram luvas. Mike ligou o gerador e a máquina de depenar começou a trabalhar
ruidosamente. O avô trabalhava tão rapidamente que Mike tinha dificuldade em acompanhá-lo. Fazia o ganso rodar sobre a máquina enquanto ela trabalhava como uns dedos
mágicos, extraindo as pontas das penas enterradas na pele. Soltas pela máquina, as penas saíam facilmente à mão.
- A minha mãe deve estar a chegar - disse ele.
- O que me surpreende é ela dar-se ao trabalho de vir. Afinal, a que horas chega?
- Pouco antes de escurecer. Foi só o que ela disse.
- Ela foi sempre assim - disse o avô. - Nunca consegui fazê-la assentar. Se aparece qualquer coisa, ela já está a fazer a seguinte.
- Huh, não sei ... Se a mãe diz que vem, é porque vem. Isso é o que interessa.
- Há muitas coisas que interessam neste mundo, Mike - disse o avô. - Ela não podia ter-se ido embora mais depressa do que foi depois da morte da tua avó.
Mike nem quis olhar. Praticamente de todas as vezes que o avô falava da falecida mulher, ficava rouco.
- Sente-se bem, avô? - perguntou Mike.
O velho assoou-se.
- Bom - disse ele -, enquanto ela cá estiver, vamos alimentá-., ' bem. Damos-lhe guisado. Vamos pôr-lhe carne sobre os ossos e restituir-lhe alguma saúde.
- Ela está bem de saúde - disse Mike.
O avô deitou-lhe um olhar estranho.
- Foi isso que ela te disse? Era isso o que a mãe dela também estava sempre a repetir. As pessoas adoecem e pronto. O tempo que tens vi@ vido aqui não te ensinou
a seres realista?
- Eu sou realista - disse Mike.
- Ainda tens muito que aprender - riu-se o avô.
M
1KE MANTEVE-SE afastado, vendo o avião da mãe aterrar. Ele próprio lavrara a pista de erva. A frágil avioneta trepidou terrivelmente, chocalhando com todas as irregularidades
deixadas pelo arado de neve. Até o avião parar completamente, Mike mal conseguiu respirar.
Ligando o motor do enorme jipe, conduziu através da neve até ao fim da pista. Estacionou ao lado do avião e saltou para o chão. A mãe tinha a porta aberta e acenava-lhe
que nem uma doida, mas não conseguia tirar o cinto de segurança.
- Olá, Mike! - gritou-lhe.
- Olá, mãe - respondeu ele.
O piloto fez-lhe um ligeiro aceno e contornou o avião para soltar o cinto de segurança de Sarah. O tipo era bastante alto, com ombros largos e sombra da barba no
rosto, tal como um piloto do cinema. Mike reparou na atitude terna dele e imaginou que provavelmente estava apaixonado pela mãe. Mais um. Grande surpresa!
- Mike! - disse ela, precipitando-se até ele pela neve.
O filho cruzou os braços. Não foi intencional; a atitude apanhou-o até a ele de surpresa.
- Olá, mãe! - repetiu. Sarah estacou.
- Mike, cresceste meia dúzia de centímetros! - disse. Com os seus olhos azuis, Sarah analisou tudo minuciosamente. Olhou para os
olhos dele, para o cabelo, a pele, absorvendo tudo. - O teu cabelo está com muito bom aspecto. O avô obriga-te a usá-lo curto?
- Sou eu que quero - respondeu Mike, encolhendo os ombros. Deixou cair os braços. Agora já não se importava se a mãe lhe desse um abraço. Mas ela não deu, estava
com um ar muito sério. - O que é que foi? - perguntou ele.
- Estou a olhar para ti. Só isso. Levantara-se vento que chicoteava a neve pelo campo. O piloto estava a amarrar o avião com estacas e um malho. A luz do farol brilhava
através do céu. Mike indicou o piloto com um gesto de cabeça.
- Ele vai cá ficar?
- Vai - respondeu Sarah. - Não fazia sentido vir aqui trazer-me e depois voltar cá outra vez para me vir buscar.
Mike não disse nada. Limitou-se a ir observar o piloto a malhar nas estacas para as enterrar no chão gelado, passar cordas pelas asas e as rodas e atá-las com uma
precisão de marinheiro.
- Quer ajuda?
- Agradeço - respondeu o piloto, entregando-lhe uma corda, uma estaca e um malho. - Importas-te de prender isto à ré?
- Com certeza.
- Eu chamo-me Will Burke - apresentou-se o piloto.
- Mike Talbot. Deram um aperto de mão. O sorriso do tipo foi breve, o seu aperto de mão, firme. Mike sentiu o estômago descontrair-se um pouco. Avaliou a distância,
cravou a estaca metálica, passou a corda de nylon pelo orifício e deu um nó firme. Quando ergueu os olhos, a mãe estava com aquele olhar orgulhoso que lhe dava um
ar sonolento, como se estivesse prestes a chorar com o hino nacional ou coisa semelhante.
- Estou tão começou ela, engasgando-se - contente por te ver.
- Sim - disse ele. - Eu também.
- Então, abraça-me - pediu ela. Mike assim fez, e ali ficaram com o vento a embalá-los para trás e para diante. Ele achou a mãe pequena, com a constituição de um
passarinho, com cinco quilos a menos do que da última vez que a vira. Sarah chorava e ele sentiu-a a tremer. Mike sentiu os seus próprios olhos a arderem.
- Ei, mãe - disse ele. - Não chore, está bem?
- Está bem. Recuando meio passo, ela remexeu no bolso. Mike enfiou a mão no blusão e entregou-lhe um lenço.
- Obrigada - agradeceu ela, assoando-se com o barulho de u ganso. Devolveu-lhe o lenço, que estava muito bem engomado. - Ninguém trata da roupa como a tia Bessie.
Pois não - concordou ele. Voltando a colocar o lenço no boi de dentro, Mike estava a preparar-se para sugerir irem para casa quando lhe faltou a respiração. Ficou
totalmente sem ar, como se tivesse recebido uma bolada no estômago. - Quem é aquela? - perguntou, olhando por cima do ombro da mãe.
Estava uma rapariga linda a sair do avião. Trazia um enorme blusão, da Marinha, calças de ganga apertadas e uns Keds novinhos em folha,,,, Tinha as unhas pintadas
de castanho e cor de laranja. Ao avistar Mike, sorriu e aproximou-se.
- Aquela é Neve - disse Sarah, também a sorrir.
- Neve? - perguntou Mike.
- Deves ser o Mike - disse Neve.
- Sou. Olá! - cumprimentou Mike.
- Nós somos amigos da tua mãe - disse ela. - O meu pai e eu.
- Bons amigos - confirmou a mãe de Mike, passando o braço à roda dos ombros estreitos de Neve.
- A tua mãe estava ansiosa por cá chegar- disse o piloto.
- É verdade! - exclamou a mãe, estreitando Neve com mais força.
Mike viu a felicidade expressa nos olhos da mãe, deu um passo na direcção dela e comentou:
- Está com um ar diferente!
- Sarah, posso perguntar-lhe se ele Pondo-se em bicos de pés, Neve segredou qualquer coisa ao ouvido de Sarah.
- Perguntar - disse a mãe.
- Gostas do cabelo da tua mãe? - perguntou Neve.
- Hum ... - respondeu Mike, franzindo o sobrolho. O cabelo da mãe estava extremamente curto e extremamente louro. Ele sorriu.
Sim, está giro - respondeu.
- A ideia foi minha - disse Neve, radiante.
- Ali - disse o piloto, sorrindo como Mike -, realmente está mesmo bem.
- O pai é mesmo cegueta. Fez a viagem toda até ao Maine e só agora é que reparou?
Mike olhou para Neve. Reparou nos seus olhos grandes e no cabelo comprido castanho. Engolindo em seco, desviou o olhar.
- Está frio - acabou por dizer. - Vou levar toda a gente para casa.
APEARAM-SE todos à porta da velha casa da quinta. Sarah e Will à frente dos miúdos. Ela foi invadida por recordações de toda a sua infância. Vivera naquela casa
até ir para a universidade. A mãe morrera no andar de cima, no quarto da frente.
- Não posso acreditar que estou aqui - disse em voz baixa.
- Você parece assustada - retorquiu ele também em voz baixa.
Está na sua casa.
- É por isso mesmo. - E aquela resposta pareceu-lhe tão cómica que desatou a rir.
Will rodeou-a com o braço. Ficaram imóveis no carreiro de pedra para ela recuperar o fôlego. Sarah examinou a velha casa. Era uma casa de pedra e tijolo, uma das
casas mais antigas do Maine. A tinta branca estava a sair. Um dos degraus da frente estava rachado.
- Ainda não tive tempo para substituir isso - disse Mike.
- Tu? - perguntou Sarah, surpreendida. A reparação da casa fora sempre tarefa do pai. Há dez anos que não via o pai e, de repente, compreendeu que estava com medo
daquilo que ia encontrar.
- Preparada? - perguntou Will com a mão no braço de Sarah.
- Sim - disse ela, batendo três vezes com o enorme batente de latão, mas depois rodou a maçaneta e entrou.
George Talbot esperava ali mesmo no hall de entrada. Sarah olhou para o pai. "Envelheceu. O meu pai está um velho", pensou.
- Bem - disse ele, olhando para a filha - Bem, Sarah. Sarah sentiu o rosto afogueado.
- Olá, pai! - disse.
- O que é que fizeste? Trouxeste um batalhão? - perguntou ele, olhando para Will e Neve.
- Chamo-me Will Burke - disse Wili, apertando-lhe a mão. - E esta é a minha filha, Neve.
- muito prazer. Você é o novo namorado dela?
- É o piloto, avô - disse Mike ao entrar.
- A sua filha contratou-me para trazê-la de avião até cá acima
disse Will.
- Deve ter sido caro, um piloto particular desde Nova Iorque até aqui ...
- Isso só prova que ela tinha muita vontade de cá vir- disse Will.
- Ah! - disse George Talbot. Sarah reparou que o pai ficara embaraçado. Tinha muito pouco contacto com outras pessoas. Era terrivelmente tímido, mas a sua timidez
confundia-se com hostilidade.
A filha agarrou-lhe as mãos e apertou-as suavemente, olhando-o, nos olhos. O cabelo grisalho de que ela sempre se lembrava embranquecera totalmente.
- Olá, paizinho - repetiu Sarah. - Os meus amigos levam-me d volta no domingo, por isso achei que seria melhor para eles ficarem cá, Vou preparar-lhes as camas
- Fizeste este caminho todo até aqui e só vais ficar quatro dias?
- Sim. Acho que não devo deixar a loja durante mais tempo ...
O pai olhou para ela e depois para Neve.
- Gosta de guisado, minha jovem?
- Quem, eu? - perguntou Neve. - Bem, eu sou vegetariana. George ficou perplexo.
- Você não se preocupa em dar-lhe uma dieta equilibrada? - perguntou ele a Will.
- Ela tem ideias muito próprias - riu-se Will, abanando a cabeça.
- Eu conheço o género, Sr. Burke - disse George, olhando para Sarah. - Bem, é melhor irmos lá para baixo jantar. Bessie é surda que nem uma porta, se não tinha vindo
cá acima dar-vos as boas-vindas.; Não vamos pô-la de parte. - Arrastando os pés até às escadas, George começou a descer para
à cozinha.
A COZINHA, no andar de baixo, estendia-se a todo o comprimento da casa. Cinco janelas largas davam para a baía do Alce, com um banco corrido por baixo delas. O fogo
crepitava numa grande lareira de pedra.
A mesa era feita de um enorme carvalho caído. O guisado borbulhava numa grande caçarola de ferro. A tia Bessie estava ao lado do fogão, supervisionando Mike, que
enchia umas malgas simples de barro com... o guisado. A tia Bessie era tão gorducha quanto o irmão era chupado. Estava com o vestido das ocasiões especiais: azul-marinho
com pintas brancas.
É tão bom ter cá umas raparigas! - disse ela. Tinha saudades suas, tia Bess - disse Sarah. Eu também tinha saudades tuas, Sarah. - Olhando para Neve e Will, acrescentou:
- Sarah é como se fosse a filha que eu nunca tive.
- Sarah teve mãe! - disse George, franzindo o sobrolho a Bess. Sarah não conseguiu olhar para ele. A tia Bess ia responder, mas quando viu o olhar de Sarah, encolheu
os ombros. A atmosfera à mesa estava tão tensa quanto Sarah se lembrava.
- este guisado está delicioso! - disse Will.
- E uma especialidade do Maine - disse George. Dirigindo-se a Neve, acrescentou: - Nem sabe o que está a perder, minha jovem.
- O meu jantar está excelente - respondeu Neve, comendo as cenouras e as couves que Bess lhe cozera.
- Isto é a verdadeira comida da Nova Inglaterra - disse George. Neve parou e inclinou a cabeça.
- Nós nunca comemos deste guisado e somos da Nova Inglaterra.
- Ai, sim? Eu pensei que Sarah tinha dito Fort Cromwell - disse Bess.
- Neve nasceu em Newport, Rhode Island - disse Will -, quando eu estava na Marinha.
- Newport? Oh, meu Deus, o meu marido e eu vivíamos em Providence e adorávamos Newport. Oh, eu ...
- Então, esteve na Marinha? - perguntou George, interrompendo Bess.
- Estive.
- Esteve na guerra?
- Estive.
- No golfo Pérsico - informou Neve orgulhosamente.
- Sarah disse-me que o senhor tinha prestado serviço durante a
Segunda Guerra Mundial - disse WilI, dirigindo-se a George.
- É verdade. Na aviação, Oitava Companhia da Força Aérea, em serviço na Europa.
- O avô ia no avião de comando - disse Mike.
- No Dia D, ele ia num dos primeiros aviões que sobrevoaram a Normandia - acrescentou Sarah, sentindo-se tão orgulhosa como Neve.
- Estou surpreendido com o facto de te lembrares - comentou George.
- Ah, eu lembro-me - disse ela baixinho. Sarah tinha as medalhas do pai: a Air Medal, a Distinguished Flying Cross. Estavam em Fort Cromwell, guardadas numa pequena
caixa de jóias de cetim cor-de-rosa.
- Então, esteve no golfo Pérsico! Qual era o seu posto? - perguntou George.
- Comandante. Sarah viu o rosto do pai fechar-se. Detestava nunca ter atingido um
posto graduado. Perguntou a si própria se ele iria dar a informação de que, quando fora desmobilizado, era primeiro-tenente. Mas o pai não a
deu. Empurrando a cadeira para trás, foi ao frigorífico e tirou um jarro grande. Encheu um grande copo de leite para si e outro para Mike.
- Mais alguém quer? - perguntou.
- Eu, se faz favor - disse Will.
Enquanto lhe enchia o copo de leite, George olhou para ele de soslaio. Reparara no tom respeitoso de Will e estava a decidir se lhe perdoaria o facto de ser comandante.
- George era pouco mais velho do que Mike é agora quando partiu para a guerra - disse Bess, falando com Neve. - Era muito destemi-do, e nós ficámos todos a recear
por ele. O meu pai chorou como uma criança quando o levou de carro até à estação do comboio.
- Bess, chega! - disse George. Mas desta vez não conseguiu destruir a inclinação da tia Bess para a ternura nostálgica. Ela olhou-o ternamente, o irmão que tinha
ido para a guerra.
- A senhora não quis ofendê-lo - disse Neve.
- O quê? - perguntou George.
- Ela só estava a meter-se consigo como as irmãs fazem. Mas não fazem isso com intenção de magoar - respondeu a rapariga.
Irritado, George soltou um grande suspiro. Atónita, Sarah viu Neve entrar em acção.
- Têm muita sorte em ainda se terem um ao outro, na vossa idade
- disse ela.
- Sorte? - resmungou ele. - Não consigo livrar-me dela. Nem mesmo Bess se conteve.
- A sorte é ele ainda ir trabalhar todos os dias - retorquiu. Peço a Deus que me leve antes de ele se reformar.
Will trocou um olhar com Sarah, esforçando-se por não sorrir. Mike sorria abertamente.
- Isso são coisas que se dizem sem pensar - disse Neve a Bess em tom de confidência. - Vai ter saudades dele quando ele desaparecer.
Bess levantou os olhos à procura dos do irmão. Ele estava especado no mesmo sítio, de testa franzida, a olhar para aquela criança sem papas na língua. Na lareira,
caiu um toro, que enviou uma galáxia de centelhas pela chaminé acima.
- Ouviste o que ela disse? - perguntou George, olhando para Bess. - É melhor começares a ser mais simpática para mim.
- Segue o teu próprio conselho! Chega aqui a tua filha ao fim de dez anos, e tu pareces um urso-preto no matagal. Temos visitas e estamos aqui a discutir como duas
gralhas.
- Nós não somos gralhas nenhumas - disse George de um modo mais brando, próximo de um pedido de desculpa -, pois não, Mike?
- Nem por sombras - disse Mike. Ele e o avô trocaram entre si uns acenos de cabeça machistas, e Sarah sentiu algo de protector em relação à tia Bess naquele gesto.
O filho tornara-se parte integrante da
casa da ilha do Alce e queria certificar-se de que o facto era do conhecimento geral.
A MANHÃ Do Dia de Acção de Graças apresentou-se límpida como
cristal e muito fria. Ali, o Sol nascia repentinamente, e Sarah não quis deixar de acordar a tempo de ver o espectáculo. Tornou a sentir o acesso de febre percorrer-lhe
o corpo enquanto se vestia. Mas depois de ter vestido a roupa interior térmica, calças de ganga, camisola de gola alta e um camisolão pesado, sentiu-se outra vez
normal. Parou do lado de fora da porta do quarto de Mike e ouviu a sua respiração profunda e regular. Desceu até à baía.
Ainda se viam as estrelas. Sarah ficou à beira da água, na escuridão. Não estava sozinha. Ao ouvir os passos dela, um homem que se encontrava sentado numa rocha
levantou-se e dirigiu-se-lhe pelas pedras. Ela viu-o aproximar-se, com a silhueta desenhada pelo fogo frio da aurora.
Levantando os olhos para o seu rosto bondoso, Sarah sorriu.
- Bom dia - disse Will.
- Levantou-se cedo - retorquiu ela. - Importa-se que lhe faça companhia?
- Não. De maneira nenhuma.
O blusão de couro estalou quando ele descruzou os braços. As ondas rebentaram sobre umas rochas a cinquenta metros de distância e uns penedos mudaram de formato
e deslizaram para a água. Sarah agarrou a mão de Will e apontou.
- Focas - disse ela. - Uma colónia inteira.
- Aquelas rochas? - perguntou Will. Os animais, cinquenta ou
sessenta adultos e pelo menos uma dúzia de crias, pareciam realmente enormes rochas, luzidias e cinzentas, com a água a subir à volta deles.
- Macacos me mordam! - acrescentou. - Espere só até Susan ver
aquelas criaturas.
- Os miúdos adoram as focas - concordou Sarah. - Quando Mike era pequenino, eu não conseguia afastá-lo das rochas.
- Mike é um miúdo como deve ser - disse Will - Ontem trabalhou bem, a preparar a pista para nós aterrarmos. E ficou contente de vê-Ia.
- Hum disse Sarah, tentando ser forte. Mas as suas inseguranças levaram a melhor. - Porque é que diz isso? - perguntou.
- Não sei explicar. Talvez pela maneira como ele ontem falou do conserto daquele degrau. Ele quer que você sinta orgulho dele.
- Eu achei que ele queria que eu visse que não precisa de mim para nada. Ele adoptou o meu pai e Bess como a sua nova família.
- Porque é que ele decidiu vir para cá? - perguntou Will em v, baixa.
- Fugiu.
- De casa?
- De mim. - Sarah lembrou-se da última e pior discussão. - Ele tinha as malas feitas. - Sarah fechou os olhos a recordar a cena. Pronto para vir à boleia até ao
Maine e apanhar o ferry-boat para a ilha@' Discutimos, e depois eu apanhei-o na auto-estrada. Pedi-lhe para pensar no futuro dele e ficar comigo até acabar o liceu.
Nem sequer me ouviu. - Sarah respirou fundo e acrescentou: - Parecia que me odiava.
- Porque havia de odiá-la?
- Por muitas razões - disse Sarah. Will não falou logo. Parecia que estava a observar as focas.
- Ele não a odeia - afirmou. - Um filho que odeia a mãe não lhe pede para vir passar o Dia de Acção de Graças com ele.
Eu descobri que tinha um tumor, e ele fugiu o mais depressa que, pôde.
- Ficou assustado - disse Will. - Não queria perdê-la, Sarah. r, natural.
Observando o céu, cuja cor passara de cinzento-escuro a azul, subiram vagarosamente o caminho gelado que os levava até à casa, ainda envolta na escuridão.
ENQUANTO os adultos se atarefavam com a preparação da refeição. de Acção de Graças, Neve resolveu que precisava de ir dar uma volta pela ilha. Entrouxou-se com o
blusão com capuz e foi procurar em todos os compartimentos da pequena casa irregular. Acabou por encontrar Mike lá em baixo, perto da baía, a sair de um barracão.
Quando a viu, ele ficou com ar de culpado. Trazia um cesto de um alqueire e meio cheio de penas.
- O que é que há ali dentro, um tesouro secreto? - perguntou ela, dirigindo-se para o barracão.
Ali, não - disse ele. Mas, então, porque é que estás com tanto medo de que eu abra a porta?
- Acredita-me. Não ias gostar - disse ele. Neve ficou imóvel, examinando-o. Não fora em vão que passara vinte minutos em frente do espelho da casa de banho naquela
manhã.
Saíra da cama às zero oito zero zero horas para se aperaltar, ali naquele lugar desabitado, na região mais isolada e profunda do Maine.
- porque não? - perguntou ela. - O que é?
- E o barracão onde se depena. É um lugar pouco agradável onde nós tiramos as penas aos gansos.
- Verdade? - perguntou ela. - Não me digas que anda lá dentro um bando de gansinhos nus a correr à volta?
- Não. Eles estão mortos.
- Mortos? - perguntou ela, incrédula. - Vocês têm de os matar? Para lhes tirarem as penas?
- Bem ... temos.
- Oh, não! - disse Neve. Aquilo fazia Neve ver a loja de Sarah sob um outro prisma. Ela detestava que se matassem animais.
- Sentes-te bem? - perguntou Mike.
- Não, não sinto - disse ela. - Nem quero acreditar. Não quero mesmo. - Neve sentia-se doente. Em comparação com todos os outros adultos que conhecia, em comparação
com a própria mãe, Sarah era a
melhor pessoa do Mundo. Mas ali estava ela vendendo produtos que exigiam a chacina de aves lindas! Dois gansos passaram por ali a bambolear-se. - Vão embora daqui!
- gritou Neve, assustando os gansos. Afugentou-os correndo atrás deles pelo carreiro abaixo.
- Eles não voam - explicou Mike - As penas das asas foram-lhes cortadas.
- Isso demonstra ainda mais crueldade.
- Nós matamo-los para nos alimentarmos - explicou Mike. - O meu avô e a minha tia morreriam à fome se nós não tivéssemos os gansos para vender.
- Ninguém deve morrer à fome - disse Neve com nobreza.
Mas fazer colchas com penas?!
- Eu percebo o que sentes - disse Mike. - Se nós não precisássemos tanto de dinheiro, eu não matava nem mais um ganso.
Acaba com a chacina. Tens de respeitar os teus princípios. É isso que estou a fazer, estou a ajudar a quinta a sobreviver - replicou Mike.
De repente, ele fez Neve lembrar-se da mãe dele. Tinha uns olhos realmente bonitos, azuis e profundos. Neve era quase capaz de lhe espreitar para dentro da alma.
- Tu não tens de matar mais nenhum ganso - disse-lhe num tom meigo, aproximando-se. - Podes vir connosco. Nós voltamos no domingo, há lugar no avião. - Percebeu,
pela maneira como Mike olhava para outro lado, que ele estava muito nervoso.
- Olá! disse Neve. E não voltaram a falar até ouvirem a tia Bess tocar o sino a chamá-los para o almoço do Dia de Acção d Graças.
O prato principal foi ganso assado. O animal tinha um tom castanho-dourado, e a pele estalava. Sarah confeccionara o recheio de maçã, da mãe, e Will fizera o puré.
Tinham nabos e pastinacas trazidos da cave dos legumes, e Bess preparara ameixas secas ensopadas em brandy e recheadas com fígado de ganso.
- Isto não é um bocado pretensioso? - perguntou George, franzindo o sobrolho à vista do banquete. Pareceu especialmente perturbado com as velas muito altas e brancas
que Bess tinha ido buscar a unidos caixotes que trouxera de Providence.
- É um dia de festa, George! - disse Bess.
- Eu não gosto de velas. Gosto de ver o que estou a comer.
- Os nossos antepassados comiam à luz de velas. Eu acho romântico - disse Neve.
Sarah viu Mike começar a corar.
- Will, venha trinchar o ganso! - chamou Bess. Toda a gente vestira as suas melhores roupas. O pai de Sarah estava de calças de flanela cinzenta e camisa branca.
Sarah viu-o coxear à roda da cozinha e fazer barulho com os utensílios da lareira quando meteu outro toro no lume.
- Bolas! - disse ele quando queimou a mão ao tirar o atiçador das chamas.
- Venha cá! - disse Sarah, puxando-o para o lava-louça e abrindo a torneira.
A água gelada jorrou do poço, e Sarah manteve a mão do pai debaixo do fluxo.
- Não se vê nada com aquelas malditas velas - queixou-se ele.
- São só três horas, pai. Há a luz do dia. Se as velas fazem a tia Bess feliz, deixe-a lá.
- Isso é presunção - resmungou ele. - É só para os pacóvios saberem que ela costumava viver em grande estilo com o velho não sei quantos.
- Com o tio Arthur.
- O executivo. Apaga essas velas, está bem, Sarah?
- A mãe adorava a luz das velas - disse Sarah. A mão rude do pai tornou-se de repente inerte. Todo o seu corpo se descontraiu.
- É verdade, pois gostava - disse ele.
- Especialmente em dias de festa - continuou Sarah. - Nós sempre tivemos velas durante as festas de Acção de Graças, lembra-se? _ Tinham de ser brancas - disse
o pai. - Os barcos e as velas, dizia ela sempre, têm de ser brancos. Sinto a falta dela todos os dias.
- Eu sei que sente, paizinho. A ira dele voltou, ou qualquer coisa semelhante a isso. George Talbot perscrutou os olhos da filha como se quisesse apanhá-la a mentir.
- E como é que vai a tua doença? - perguntou.
- Vai bem.
- O que é que queres dizer com esse "vai bem"? Não pode ir bem. Ou acabou ou não acabou, mas não pode ir bem.
- Paizinho, a medicina avançou muito desde a morte da mãe
disse Sarah. Já desligara a água fria, mas continuava a segurar a mão do pai. Reparou que Mike atravessara a sala, observando-a atentamente, com intenção de ouvir
o que ela estava a dizer. - Eu estou bem - repetiu Sarah.
O pai acenou com a mão.
- Mas que tretas! Apaga as velas, Bess. Estou a falar a sério. Imediatamente.
Mas as velas continuaram acesas. As duas famílias sentaram-se à
enorme mesa nos lugares que tinham escolhido na noite anterior. Já parecia uma tradição estabelecida. Will sentira-se honrado por lhe pedirem que trinchasse a carne.
Ele pensara que Neve ia ter saudades da mãe, mas não devia ter-se preocupado, a garota estava perdida numa arrebatadora paixão de adolescente por Mike Talbot, incapaz
de desviar os olhos dele.
Will sentia o mesmo no que dizia respeito a Sarah. Ela trazia um vestido comprido e lindo de veludo que lhe moldava o corpo na perfeição. Ocupou o lugar ao lado
dele. Durante várias celebrações do Dia de Acção de Graças até àquele momento, Will não sentira nada que pudesse aproximar-se de uma sensação de bem-estar, mas agora
sentiu. Estava bem. Estar sentado ao lado de Sarah fazia-o feliz.
- Gostava de dizer a Oração de Graças - disse Sarah. George manteve os ombros caídos, com uma expressão sombria, mas todos os outros juntaram as mãos e baixaram
as cabeças.
- Abençoa-nos, Senhor! - disse Sarah. - Agradecemos-Te o alimento que vamos comer, agradecemos-Te a saúde que nos dás. Agradecemos-Te por nos teres juntado nesta
ilha, agradecemos-Te em nome de cada um de nós. Agradecemos-Te em nome de todos aqueles que amamos, especialmente daqueles que não podem estar connosco.
- Fred! - disse Neve em voz baixa.
- Fred! - repetiu Will.
- A mãe! - disse Sarah.
- Sim - disse George. - A minha Rose.
- Arthur - disse Bess.
- Posso dizer uma coisa? - perguntou Mike.
- Com certeza, querido - disse Sarah.
- Só isto - disse Mike, baixando a cabeça ainda mais. - Dou graças a Deus por a mãe estar boa e estar aqui. - Fez uma pausa e depois olhou para ela fixamente. -
Está bem?
- Está - respondeu Will, porque, de repente, Sarah não conseguiu falar.
- Ámen - disseram todos.
MAIS TARDE, quando a casa estava sossegada e todos se tinham ido deitar, Sarah desceu para se sentar à lareira. Sentia-se demasiado agitada para conseguir dormir.
Sentou-se no banco da janela a olhar para as brasas.
- Julguei que ia ser o primeiro a levantar-me e o último a ir para a cama, mas você ganhou-me das duas vezes - disse Will, surpreendendo-a ao entrar na sala.
- Não consegue dormir? - perguntou ela.
- Ainda não tentei. Quando se aproximou, Sarah viu que ele trazia o blusão vestido e as botas calçadas, ambos salpicados de neve.
- Vem aí um temporal. Eu estive lá fora.
- Aqueça-se! - disse Sarah, deslizando para lhe dar lugar no banco da janela.
Will descalçou as botas e colocou-as junto da porta. Pendurou o blusão no cabide.
- Estou sempre a interromper a sua solidão - disse ele.
- Que bom! Já me chega a que tenho em Fort Cromwell. A neve começara a cair lá fora. Batia nas janelas, desviada do mar pelo vento. Do outro lado da sala, o lume,
quase apagado, crepitou.
- Aqui está-se bem.
- Eu sei - sorriu Sarah. - Ainda bem que voltou para dentro.
- Não, eu referia-me a tudo. Ter festejado o Dia de Acção de Graças com a sua família. Obrigado por nos ter convidado.
- Não tem de quê. Tenho andado com remorsos por tê-lo arrastado para tão longe. Há algum outro sítio aonde tenha por costume ir?
- Bem - começou Will depois de uma pausa -, nós costumávamos ir passar este dia com os meus pais. Alice e eu vivíamos em Newport, e eles, no Connecticut, por isso
era fácil. Todos os anos íamos até lá.
- Devia ser maravilhoso - comentou Sarah, curiosa relativamente a Alice.
- Era. Tenho saudades. Os meus pais morreram com um intervalo de seis meses, há cerca de três anos.
- Foi há pouco tempo - disse Sarah, observando-o.
- Foi. Ainda me custa - assentiu Will. - A minha mãe foi primeiro. Teve um súbito ataque cardíaco numa manhã de Primavera. O meu pai limitou-se a desistir de viver
sem ela. Certa noite, em Setembro, morreu durante o sono.
- O meu pai não morreu depois da minha mãe, mas mudou. Ele não foi sempre assim tão - Tentando encontrar a palavra certa, Sarah acabou por dizer: - duro.
Will baixou a cabeça num gesto de concordância. Ficaram a ouvir o temporal por uns momentos.
- Alice passou a organizar o Dia de Acção de Graças depois de a
sua mãe morrer?
- Alice não vai muito em tradições. E foi na altura em que a minha mãe morreu que Fred também morreu. Foi como se estes festejos tivessem desaparecido. Depois disso,
o meu casamento com Alice não durou muito.
- Lamento.
- Eu acreditava no casamento - disse ele. - Pensava que um
casamento era para se levar até ao fim da vida. Pelos vistos, o nosso não foi.
- Sabe porquê? - perguntou Sarah.
- Eu não consegui salvar Fred. Sarah esperou. A neve batia de lado contra as janelas. Podia ser as
sim tão simples? Podia realmente o fim de um casamento resumir-se àquelas cinco palavras terríveis?
- Ela também lá estava. Viu que eu não salvei o filho dela.
- O que é que aconteceu? - perguntou Sarah.
- Estávamos a andar de barco, nós os quatro. A vela cambou, e
Fred não viu a retranca. Bateu-lhe com tanta força ... Teria derrubado qualquer pessoa, e ele caiu ao mar.
- Oh, Will! - fez Sarah.
- Era um miúdo encantador. Adorava desporto. Basebol, hóquei. Era óptimo velejador, amava o mar. Às vezes, fugia da escola para ir
pescar, e eu nem sequer ficava zangado. Sempre que eu andava pó fora, o que era frequente, ele tomava conta da mãe e da irmã.
- Que bom filho! - disse Sarah. Olhou para a lareira. Perguntou si própria qual seria o aspecto de Alice. Constatou que estava a sentir@,'1' ciúmes da ex-mulher
de um homem que mal conhecia e corou. - Eu de casamento não percebo muito. Hoje de manhã, perguntou-me porque é que eu acho que Mike me detesta. Uma das
razões é que eu não casei com o pai dele. Tive Mike ainda muito nova.
- Isso incomoda-o? Há muitos miúdos filhos de pais separados.
- Eu sei, mas nós praticamente nunca estivemos juntos. Casados, quero dizer. - Encolheu-se ao recordar como ficara magoada, o quanto tinha chorado. O pai atravessara
aquela mesma cozinha brandindo um atiçador e ameaçando matar Zeke; mesmo passados todos aqueles anos, a vergonha dela continuava a prejudicar Mike. Perguntando a
si própria o que Will pensaria dela, fitou-o.
- Lamento! - disse Will. Sarah encolheu os ombros, tentando sorrir.
- Pobre garoto! - disse ela - Ele detestava que eu não estivesse com ele. Eu trabalhava muito e ... era jovem. Tive namorados. Mas os amigos dele eram felizes, tinham
lares estáveis, e ele também queria isso.
Will estava a olhar para Sarah. Chegou-se mais para junto dela e, gentilmente, acariciou-lhe o rosto. Ouvindo o barulho de passos na escada, ambos ergueram o olhar.
Mike estava a entrar na cozinha.
- Olá! - disse Sarah, com o coração aos pulos quando o viu. Mike teve um sobressalto.
- Ai, assustou-me - disse ele.
- Olá, Mike! - disse Will. - Estou a fazer companhia à tua mãe.
- Hum - respondeu Mike num tom sombrio.
- O que é que te traz cá abaixo, querido? - perguntou Sarah.
- Vim só ver a lareira - disse ele. - Ouvi o vento a levantar-se, e há qualquer coisa que está a bater lá em baixo na doca.
- Eu vou ajudar-te - disse Will, levantando-se.
- Não é grave -- disse Mike terminantemente. - Eu trato disso sozinho.
- Eu sei que és capaz - disse WilI, calçando as botas. - Mas gostava de ir apanhar ar, se não te importas de ter companhia.
- Como queira - disse Mike, aparentando indiferença, mas olhando fixamente para Will.
O coração de Sarah contraiu-se.
- Na Marinha - disse Will -, mandávamos sempre dois ao convés ,especialmente à noite. Quando havia temporais como este, fazia mos sempre isso.
- Não há qualquer perigo lá fora. O que é que julga? Que pode voar algum bicho do barracão de depenação e atacar-nos?
A cena não era novidade para Sarah: homens que ela conhecia tentando ser simpáticos com Mike, ele a armar-se em duro e a ser malcriado, e ela colocada entre os dois.
- És sempre tão cretino para os amigos da tua mãe? - perguntou Will.
Mike olhou para ele e parecia chocado.
- Eu não estava a armar.
- Não te preocupes. Eu passei muito tempo na Marinha, já ouvi muita gente ser malcriada. Tu tens ar de quem vai deixar-se disso quando crescer.
Mike não replicou. Agarrando nas luvas e numa lanterna, saiu à frente de Will pela porta das traseiras.
A NEVE COBRIA a ilha do Alce desde os rochedos a norte até à baía. Todos os gatos do celeiro tinham entrado para dentro de casa à procura do calor da lareira e estavam
enroscados em todos os lugares secretos: no cimo das estantes, dentro do piano. Gelsey, a velha cadela, encontrava-se deitada aos pés da tia Bess, em cima do tapete
entrançado em que ela estava a trabalhar.
Todos aqueles animais e tantas penas, e Neve não tivera um único ataque alérgico! Ela sentia a paz e o amor da ilha do Alce invadirem o
seu corpo. Deitada no sofá, lendo perto da lareira, via a neve a cair. Estavam todos ali reunidos à espera de que o temporal passasse.
Mike estava estendido ao comprido no chão da sala com uma almofada sobre os olhos. Neve observava atentamente a maneira como ele flectia todos os músculos dos braços.
Sarah e o pai de Neve estavam sentados à mesa de jogo, perto da janela, com as cabeças inclinadas sobre um quebra-cabeças. Will disse qualquer coisa em voz baixa
que fez Sarah rir.
Alguma vez Neve vira os pais divertirem-se tanto? Puxou pela memória, tentando lembrar-se. Silêncio, raiva, acusações mudas e a seguir, acusações proferidas; disso,
ela lembrava-se. No entanto, há muito tempo, quando Fred ainda estava com eles, tinham-se amado. Neve suspirou, pensando na mãe. Alerta, Sarah olhou para ela.
- Estás bem? - perguntou.
- Hum - respondeu Neve, retribuindo o sorriso.
- Aborrecida? - perguntou Sarah.
- Nem por sombras - respondeu Neve. Saberia Sarah como era maravilhoso estar presa pela neve numa ilha com pessoas que a amavam? Aconchegada debaixo de uma modesta
manta de xadrez, rodeada por gatos de aspecto miserável, Neve perguntou a si própria se Sarah teria consciência de que era o centro de tudo, a pessoa que unira todos.
Era mãe de Mike, filha de George, sobrinha de Bess, amiga de Neve e do pai. Parecia-lhe uma existência tão generosa, independentemente da matança de gansos.
Pensar na mãe, absorvida por Julian e pela vida egoísta de ambos, fez que Neve se sentisse mal. Encolheu-se por dentro e, pela primeira vez desde que chegara à ilha,
começou a respirar com dificuldade *
- Porque é que não telefonas à tua mãe? - perguntou Sarah calmamente, como se lesse o pensamento de Neve.
- É uma boa ideia, querida - concordou o pai.
- O telefone está no hall de entrada - continuou Sarah.
- Eu mostro-te - disse Mike, levantando-se do chão. Com o cabelo castanho a cair-lhe para os olhos, Neve deitou-lhe um sorriso atraente e, esperava ela, misterioso.
- Mostras? - perguntou em voz baixa e milagrosamente livre de asma.
QUANDO o nevão parou, a ilha do Alce estava coberta de branco. Presos em casa há demasiado tempo, todos, à excepção de George e Bess, vestiram roupas quentes e foram
dar um passeio.
Na arrecadação, havia raquetas de neve e esquis, mas não chegavam para todos. Os homens calçaram as raquetas, enquanto Sarah e Neve puseram os esquis. Avançaram
todos na intenção de encontrarem o trilho que os levaria até ao Grande Promontório Meridional. Sarah estava radiante por sair de casa e mexer-se à vontade. Pensou
por momentos no Dr. Goodacre, prometendo a si própria que pararia se ficasse cansada.
Mike seguia à frente. Will e ele faziam aquilo parecer fácil, o que não é verdade. Will caminhava ao lado de Sarah, nunca permitindo que ela se adiantasse muito.
Avançando pela neve lisa, atravessaram um
grande terreno e subiram até um promontório com o pinhal à esquerda
e uma vedação periclitante à direita.
A velha vedação precisava de conserto e em certos sítios estava tombada. O promontório acabava num penhasco que se precipitava por trinta metros até ao mar. Sarah
escudou Neve, obrigando-a a aproximar-se da linha das árvores. Quase teve medo ao ver o seu destemido filho avançar colina acima. De repente, ele parou.
- Olhe, mãe! - disse Mike. Esperando até ela o alcançar, apontou para o céu. - Ali está ela.
- Quem? - perguntou Neve. Uma águia americana sobrevoava-os em círculo. Vivia na falésia, na
ponta mais distante da ilha, mas descera até à baía à procura de peixe.
Sarah permaneceu ao lado de Mike, sustendo a respiração.
- Oh, Mike. Lembras-te ... ? - perguntou. Tinha o corpo dorido do esforço, e o peito ardia-lhe a cada inspiração.
Mike percebeu o que ela queria dizer.
- De quando a vimos pela primeira vez? Lembro. - Naquela altura, ele ainda era criança. Tinham passado uma semana inteira divertida a caçar lagostas e a observar
as águias. - As águias vivem muito tempo - disse Mike. -Àquela faltaram-lhe sempre umas rémiges. Vê?
Referia-se às últimas penas, compridas como dedos, nas pontas das asas. Mike tinha razão. Sarah viu uma zona sem penas. Disse que sim, baixando a cabeça e respirando
com dificuldade.
- Eu não estou em forma... - desculpou-se ela.
- A mãe está óptima - contrariou Mike.
- Estou? - perguntou Sarah, contente com o elogio.
- Está - disse ele. - Dois quilómetros pela neve? E melhor que óptimo. A mãe alguma vez esquiou com o pai? Ou andaram com raquetas de neve?
- Não - respondeu Sarah, abanando a cabeça. - Ele andava sempre à pesca da lagosta.
Toda a gente aqui se lembra dele - disse Mike. É uma ilha pequena - assentiu Sarah cuidadosamente. Porque é que está sempre a menosprezá-lo? - perguntou Mike, irritado.
- Desculpa, Mike - disse Sarah rapidamente. De repente, Neve soltou um grito agudo. Apontando o bâton na direcção do mar, começou aos saltos para cima e para baixo.
Olhando ao
longe, Sarah viu a baía grande e escura. O único movimento era uma sensação de grandes círculos concêntricos na água gerados numa espécie de epicentro.
Sarah e Mike, oriundos do Maine, olharam um para o outro, sabendo exactamente o que estavam a ver. A baleia saltou novamente fora da água pela segunda vez. O seu
corpo gigantesco e lustroso atirou-se para o céu e caiu com um baque violento.
- Olá!! - gritou Neve - O que é aquilo?
- É uma baleia-de-bossas - disse Will com um grande sorriso . .......
- Como é que sabe? - perguntou Neve.
- Pelas barbatanas brancas - disse Mike. - As longas barbatanas brancas.
- Asas de anjo - disse Neve. - Foi o que me pareceram aquelas coisas brancas.
- Asas de anjo - disse Sarah, mantendo-se à retaguarda e observando os três com os olhos fixos no mar à procura de uma baleia que desaparecera.
- O meu pai punha ali os covos para apanhar lagostas - disse Mike, apontando para a baía. Mike nunca as vira, portanto alguém lhe devia ter contado. - Os lagosteiros
da ilha do Alce só se fazem ao mar no Inverno - disse ele.
- Devem ser destemidos - disse Will. Os olhos de Mike estreitaram-se.
- São os lagosteiros mais destemidos do Maine.
Do Topo do Grande Promontório Meridional voltaram para o interior. Will e Sarah deixaram-se ficar para trás, permitindo aos jovens tomarem a dianteira. Sarah tinha
um ar cansado.
- Quer descansar? - perguntou Will. Sarah abanou a cabeça. Tinha as maçãs do rosto rosadas e os olhos brilhantes. As calças elásticas pretas, a camisola grossa vermelha
enfeitada de flocos de neve e uma fita preta no cabelo branco e curto davam-lhe um ar extraordinário. Os olhos eram grandes e escuros.
- Eu estou bem.
- Eu também - disse Will, sorrindo.
- Você e o meu filho fizeram tréguas - disse ela. - Obrigada pelo que disse dos lagosteiros.
- Era a sério.
- Ontem à noite, ele foi muito desagradável.
- Estava a protegê-la, só isso. Os maus modos de um miúdo de dezassete anos não significavam nada para ele. Só conseguia pensar em Sarah. Estava feliz pelo facto
de os jovens terem partido à frente.
Prosseguiram. Ao princípio, ouviam as vozes dos miúdos, mas algum tempo depois a mata ficou silenciosa. Chegaram junto de uma árvore caída, e Will limpou a neve.
Sentaram-se. Sarah fechou os olhos e expirou uma grande nuvem.
Will olhou para ela.
- Você arranja sempre as coisas de maneira que as águias e as baleias apareçam?
- Só para si - disse Sarah. Will agarrou nos bâtons dos esquis de Sarah e colocou-os ao lado do tronco. Ela pareceu sorrir, como se soubesse o que ele ia fazer.
O que era estranho, porque nem o próprio Will sabia.
Passou os braços à roda dela e beijou-a. Sarah sentiu-se muito pequena, tão delicada como uma criança, mas o abraço foi tão apertado que ele sentiu o coração dela
por baixo da camisola de lã grossa.
Sorriram um ao outro, inclinando-se um pouco para trás, continuando bem juntos. Will beijou-a novamente, estendendo as mãos para lhe segurar a cabeça. Os dedos encontraram
uma cicatriz comprida e funda debaixo do cabelo. O coração dele deu um salto, mas Sarah não estremeceu. Estava a beijá-lo de todo o seu coração. Ele apertou-a de
encontro a si.
- Tem graça! - disse ela, passado algum tempo. Tinha as mãos no rosto dele e falou com-boa disposição, mas também com grande serenidade. - Eles, o meu pai e o meu
filho, perguntaram-me quem você era, o que estava a fazer aqui comigo, e eu disse-lhes com toda a honestidade que era o meu piloto e também meu amigo.
- Amigo a cem por cento - disse Will.
- Mas, oh! - disse Sarah. - Will.
- Mais do que amigos? - perguntou ele. Nesse momento, um grito despedaçou a paz. Era Neve, ao longe, a pedir socorro. Levantando-se, eles correram e esquiaram o
mais depressa que podiam.
OS MIúDOs estavam uns quatrocentos metros adiante. Will seguiu-lhes o rasto, com Sarah esquiando atrás dele. Emergiram da mata para um campo branco que se estendia
pela ilha fora. Neve estava sozinha à beira de um círculo redondo coberto de neve. Will percebeu que era um lago.
- Mike caiu pelo gelo! - gritou Neve. Will estugou o passo. Começou a desapertar as fivelas das raquetas de neve ainda antes de chegar junto da filha. Susan estava
histérica, olhando horrorizada para Sarah.
- Eu disse-lhe para não ir.
- Quando? Há quanto tempo? - perguntou Sarah, pegando-lhe na mão.
Will não ouviu a resposta. Desapertou as botas e descalçou-as rapidamente. Tirou a parka e deixou-a cair sobre a neve. Atirando para o lado a camisola pesada, apenas
de calças de ganga e T-shirt como protecção contra a água gélida, o comandante William Burke, nadador-salvador da Marinha dos Estados Unidos, mergulhou para dentro
do buraco no gelo.
DURANTE exactamente dez segundos, Mike achou graça. Tentando exibir-se, fora limpar o gelo para Neve poder deslizar nos seus esquis, acabando por cair para dentro
do lago. Pensara que o lago estava solidamente congelado. Afundou-se cada vez mais. A água estava inacreditavelmente fria. Teve a impressão de que o seu coração
parava. Quando tocou no fundo, tentou voltar à superfície, mas as raquetas de neve prenderam-no lá em baixo. Passados dez segundos, os pulmões dele estavam prestes
a rebentar.
SARAH CORRIA para trás e para diante pelo gelo.
- Há quanto tempo foi, Neve?
- Um minuto, Sarah. Acho que foi há cerca de um minuto. Sarah avançou pouco a pouco sobre o gelo, que se mantinha firme debaixo dos seus pés. Avançou mais um pouco,
o gelo estalou e ela recuou.
- Um ramo - gritou Neve. - Eles podem agarrar-se a um ramo. Sarah e Neve correram até ao primeiro monte de ramos caídos. Sarah agarrou a extremidade mais larga de
um comprido ramo de carvalho, e ambas usaram de quanta força tinham para o separar dos outros.
Sarah voltou para cima do gelo.
- Empurra-o - disse ela. Neve deu um empurrão ao ramo. Mais! Depressa! - ordenou Sarah, desvairada.
Neve empurrou o ramo com toda a força, e ele bateu na bota de@ Sarah. Quando Sarah saltou sobre ele, o gelo rachou-se e ela caiu por' ele dentro. Com a água pelos
joelhos, ouviu um gemido de agonia: ai sua própria voz.
- Desculpe, desculpe! - dizia Neve a chorar. Depois de se arrastar para terra com grande esforço, Sarah teve vontade de desatar aos berros. Neve abraçou-a. A rapariga
tremia violentamente, e Sarah deu consigo a tentar acalmá-la. - Pronto, pronto - disse Sarah a tremer. Agarraram-se uma à Outra a olhar para o buraco no gelo. -
Costumas rezar, Neve? Reza agora.
- Estou demasiado assustada! - disse Neve a chorar. - Não sei o que hei-de dizer.
- Sabes sim, só que pensas que não sabes. - Olhou para o buraco negro como se bastasse o olhar dela para puxar o filho e Will para fora do gelo. - Por favor, reza!
- repetiu em voz baixa.
- Oh, Freddie - disse Neve. Quanto tempo é que um homem pode sobreviver debaixo de água com temperaturas abaixo de zero? Quanto tempo podem sobreviver dois homens?
Abraçada à jovem, Sarah fechou os olhos e pensou no
seu tumor cerebral. Tinha pedido para viver, e Deus permitira. Já lhe fora concedido tanto durante a vida ... Porque não só mais uma outra coisa? Porque não Mike?
De pé, junto do lago, Sarah concluiu que não se importava de adoecer novamente se Will conseguisse salvar Mike.
Sarah trocaria a sua vida pela de Mike sem hesitar um momento. Sarah sabia que tinha de ser assim. Deus não podia levar-lhe o seu belo filho.
Neve soluçava ao lado dela, aninhada nos seus braços.
- Vai correr tudo bem, Neve - sussurrou Sarah.
- Não. Já passou muito tempo - contrariou Neve.
- Espera! - disse Sarah. A água negra agitou-se e a superfície abriu-se. Aspirando o ar em
grandes haustos, os homens pareciam mais barulhentos do que as baleias. Primeiro uma cabeça e depois a outra. Will trazia Mike preso pelo pescoço. Nadou de lado
até à beira do lago e quebrou o gelo com o punho.
- Pai - gritou Neve - Oh, pai! Molhados, a pingarem, com o cabelo a transformar-se em gelo, Will e Mike ficaram deitados no chão de neve. Mike vomitou água do lago,
quase asfixiado com falta de ar.
- Eu salvei-o - disse Will, olhando Sarah nos olhos. Sarah inclinou-se para beijar primeiro o filho e depois Will Burke.
- Salvei-o para ti - disse Will com lágrimas nos olhos.
- Eu sei - disse Sarah com os olhos radiantes, com uma infinita gratidão e algo semelhante a amor. - Nunca o esquecerei.
DE REGRESso a casa, a tia Bess fez cacau quente, e George arrastou pesados cobertores de crina para dentro da cozinha. Mike ficou deitado tão perto do lume quanto
os outros conseguiram colocá-lo, com Neve sentada aos pés dele.
- Temos de o levar para o hospital - disse Sarah.
- Que hospital? - perguntou George desabridamente. - A viagem noferry-boat ia fazê-lo gelar ainda mais.
Sarah sentou-se ao lado de Mike, esfregando-lhe as mãos geladas. Will permaneceu ao lado dela, embora ele próprio estivesse meio gelado. No caminho para casa, tinham
sido obrigados a praticamente carregar Mike. Ele já quase perdera a consciência na altura em que Will o apanhara. Esbracejando para tentar voltar à superfície, dera
um soco no olho de Will.
- Eu levo-o de avião - disse WilI, esforçando-se para não chocalhar os dentes.
George atirou-lhe um cobertor.
- Você não está em condições de fazer nada, a não ser secar-se e aquecer-se.
- Mas não com esses cobertores velhos e ásperos - disse a tia Bess em voz chorosa. - Arranja-lhes umas mantas de penas.
- Chiu, Bess - disse George, aconchegando Mike nos cobertores.
- O que precisamos é de lã grossa e pesada para manter o calor lá dentro e o forçar a entrar nos ossos. Calma, rapaz! Como vai isso?
- Bem, avô - tentou Mike responder.
- Querido - disse Sarah -, fiquei tão ...
- Mãe - disse Mike, abanando a cabeça. - Chega, está bem?
- Deixa o rapaz aquecer - disse George de um modo mais brando do que aquele com que costumava falar com Sarah. - Porque é que não cuidas de Will?
- Não, eu ... - Sarah não conseguiu concluir a frase. Sentiu nos ombros as mãos de Will. Puxando por ela suavemente, ele ajudou-a a levantar-se.
- Ele vai ficar bom - disse Will.
- Obrigada - disse Sarah. - Estou mesmo agradecida. Obrigada.
- Não tens de quê - disse Will.
- Os teus lábios estão azuis - disse ela. Will baixou a cabeça num gesto de concordância, com o corpo percorrido por um arrepio. Sarah estendeu a mão para agarrar
um cobertor. Pondo-se em bicos dos pés, colocou-o à volta dos ombros de Will. Ele sorriu, e ela foi buscar outro cobertor.
- Melhor? - perguntou.
- Muito - respondeu Will.
O pai de Sarah, Neve e Bess acotovelavam-se à volta de Mike. Sarah deitou-lhes um olhar, mas Will tirou as mãos de dentro do cobertor para agarrar as dela.
- Tens um olho negro - disse ela.
- Devias ver o inimigo ... - retorquiu Will. Sarah tentou rir, mas Will segurou-lhe as mãos com mais força. O rosto de Sarah inclinou-se para poder olhá-lo nos olhos.
Ouviu o pai a
contar uma anedota e Mike a rir.
Will não disse nada. Limitou-se a abraçá-la. Sarah sentiu os cobertores de lã arranharem-lhe o rosto. Eram cobertores de levar para fora de casa: para piqueniques,
viagens de barco, observação das estrelas. Quantas vezes se deitara em cima deles com o filho quando Mike era bebé?
As lembranças eram doces e intensas e fizeram-na chorar. Will amparou-a e deixou-a soluçar silenciosamente nos seus braços.
QUANDO MIKE ficou fora de perigo, levaram-no para o andar de cima. A tia Bess finalmente fez as coisas à sua vontade, meteu os homens na cama e cobriu-os até ao
nariz com colchas de penas. Will ficou deitado de costas, sentindo arrepios intensos pelo corpo.
- Parece que está possesso, pai. Estás a tremer como um louco
comentou Neve.
- É assim que o corpo aquece. Eu vou ficar bem. Porque é que não vais ter com Mike? - Will tinha remorsos de querer ver-se livre da filha, mas Sarah estava à porta,
mesmo atrás dela. Sorria de um modo como Will nunca a vira sorrir.
- Porque é que não vais, Neve? - disse ela, entrando. - Eu sei que ele gostava de te ver.
Neve olhou por cima do ombro com verdadeiro afecto nos olhos.
- Olá, Sarah! - disse - Desculpa-me?
- O quê?
- Ter atraído Mike até ao lago. Ter tido aquela estúpida ideia do ramo. E não sei por que mais.
Sarah abanou a cabeça.
- A queda de Mike não tem nada a ver contigo, e a ideia do ramo não foi estúpida. Vai ter com ele.
Dando um beijo ao pai, Neve dirigiu-se para a porta. Parou, beijou Sarah e seguiu o seu caminho.
- Uau! - comentou Sarah - Que bom. Tenho de ameaçar Mike para conseguir que ele me beije ou suborná-lo. Vistas bem as coisas, nenhum dos métodos resulta há muito
tempo. Lamento ter perdido o
controle lá em baixo.
- Não perdeste - disse Will.
- A chorar como uma parva- disse ela. - Tendo em conta como estava contente. Como estou contente. Sabes.
- Sei - assentiu ele, estendendo a mão para agarrar a dela.
- O que fizeste foi inacreditável - continuou Sarah. - És o meu' herói.
- Não sou nenhum herói - contrariou Will.
- Não é a ti que compete dizer se és ou não.
- Sou um velho marinheiro - disse Will. - Era impossível actuar de maneira diferente. - Mas estava a pensar: " Desta vez, resultou."
Ao puxar Mike para a superfície do lago, Will soubera que ele continuava vivo. O garoto tinha resistido com unhas e dentes, socando-o como fazem as pessoas que estão
a afogar-se. Ao arrastar Mike para terra firme, o coração de Will fora inundado de recordações de Fred. Agora, ali deitado numa cama confortável e quente, fechou
os olhos e pensou no filho.
MENos de cinco minutos depois de entrar no quarto de Mike, Neve viu o velho George levantar-se da cadeira e descer as escadas. Nem sequer se despediu.
- Porque é que o teu avô saiu daqui assim? - perguntou.
- Acho que tinha qualquer coisa para fazer - disse Mike.
- Estás à minha mercê - disse Neve, sentando-se na beira da cama. - Vou torturar-te.
- Como? - perguntou ele com ar intrigado. Na verdade, Neve não tinha resposta para aquilo. Estava contente só por estar ali sentada, a ver o sangue voltar-lhe às
faces e a sentir os pés dele mexerem-se debaixo das colchas.
- Tiveste medo? - perguntou.
- Não - respondeu Mike.
- Pensaste que ias safar-te?
- No último minuto, não. - Depois de uma pausa, acrescentou:
- O teu pai foi fantástico. Piloto, mergulhador no gelo ... que mais é que ele faz?
- Podia ter sido agente secreto se não tivesse saído da Marinha.
- Porque é que saiu?
- Oh! Foi por causa de Fred.
- Eu tenho andado a pensar quem seria Fred - disse Mike. - Tu mencionaste o nome dele no Dia de Acção de Graças.
- Era meu irmão e morreu afogado. Eu estava com ele quando isso aconteceu.
- Sinto muito - disse Mike. - Estava frio, como hoje?
- Oh, não. Não era Inverno - disse Neve, recordando o dia radioso de Setembro ao largo de Newport.
- Ele não sabia nadar?
- Era um grande nadador - disse Neve. - Nós andávamos à vela; os meus pais, Fred e eu. Quando estávamos a voltar para o porto, ficou mau tempo e o meu pai deixou
Fred tomar o leme. Veio uma refrega de vento, e a vela cambou. Todos nos baixámos para evitar a retranca, excepto Fred. Bateu-lhe em cheio na cabeça e atirou-o borda
fora.
- Que horror, Neve - disse Mike.
- O meu pai atirou-se à água e fartou-se de procurar, enquanto a
minha mãe e eu tentávamos ver onde Fred estava, mas não conseguimos. Passaram dois dias até o corpo ... dar à praia. O meu pai deixou-se quase morrer. É verdade
- continuou Neve em voz surda. Ainda ouvia o pai a chorar dentro do escritório quando lhe foram dizer. - O meu pai é nadador-salvador, por isso podes imaginar o
que ele sentiu.
- Sim - disse Mike, começando a imaginar a realidade.
- E provavelmente és capaz de imaginar como hoje foi incrível para ele salvar-te.
- Nada pode compensá-lo da perda do teu irmão.
- Não - concordou Neve.
- Fred Burke? - perguntou Mike, querendo saber o nome completo. Ele deixara a mão pousada com a palma para cima. Neve limpou as lágrimas dos olhos e baixou a cabeça
afirmativamente, pondo a mão sobre a de Mike.
- Fred Burke - assentiu ela.
ToMÁRAM TODOS o pequeno-almoço e foram saindo para os seus
afazeres. Will e George foram de jipe ao outro lado da ilha para verificar o avião e se certificar de que o temporal não tinha feito estragos. Mike saiu para um
dos barracões, e passado algum tempo Sarah foi ter com ele.
Sentou-se num caixote alto, olhando para ele enquanto desmontava o motor de um velho barco lagosteiro. Instalara uma salamandra e tinha o velho barracão muito aquecido.
Sarah endireitou-se, procurando uma
posição mais confortável. Acordara com uma dor ao fundo das costas.
O barco de tabuado trincado ocupava a maior parte do espaço. Com um fato-macaco azul-escuro, Mike estava coberto de lubrificante da cabeça aos pés. Quando franziu
a testa ao trabalhar, Sarah achou-o tão parecido com o pai que piscou os olhos para afastar a visão.
- Tens a certeza de que estás suficientemente agasalhado? - perguntou ela.
- Mãe! - censurou ele.
- Bem, desculpa. Não é todos os dias que o nosso filho cai por uni buraco no gelo. - A conversa esgotou-se, mas Mike pareceu não reparar. - Tu gostas dos velhos
barcos lagosteiros - continuou Sarah. - Tal como o teu pai.
Mike acenou que sim com a cabeça, mas não falou.
- Foi por causa dele que voltaste para cá? - perguntou ela, e Mike encolheu os ombros. - Eu preferia pensar que foi por essa razão, e não por outra em que tenho
andado a pensar.
- Qual é? - perguntou o rapaz.
- Que tu me odeias. Mike deu um suspiro de impaciência. Estendendo a mão para agarrar uma chave inglesa, atirou ao chão uma caixa inteira de porcas. De gatas, começou
a apanhá-las com a mão direita e a guardá-las na esquerda.
- Mike?
- Eu não a odeio, mãe.
- Então, porque é que fugiste?
- Eu não fugi.
- Fugiste, sim. Desististe da escola, saíste de casa com a mochila e vieste para aqui à boleia.
- Eu não estava a fugir, mãe - argumentou Mike. - Estava a vir para aqui.
- Por causa do teu pai?
- Ele já morreu - disse Mike. - Porque é que havia de ser por causa dele?
- Para descobrires as tuas origens.
- Não sei - disse Mike. - Eu já descobri muito, mas pode contar-me mais coisas.
Sarah fez um gesto afirmativo. Durante cem dias, Ezekial Loring fora para ela o Sol, a Lua e as estrelas. Ela contara os dias uma vez, desde a sua primeira saída
juntos, na Primavera do seu ano de caloira, até ao dia em que ele estampara a carrinha contra um carvalho na Birdsong Road.
- Zeke sabia consertar tudo - disse ela. - Era divertido, irreverente, esperto. Era um rapaz lindo. Eu sei que devia dizer atraente, mas isso não lhe faria justiça
.. ele era lindo, Mike. Como tu.
- Hum.
- Nós conhecíamo-nos de toda a vida, mas reencontrámo-nos numa noite de Abril. Eu tinha vindo a casa passar as férias e andava a passear ao longo da baía. A Lua
estava em quarto crescente, e eu a olhar para ela. Lembro-me de ter ouvido um motor. Era Zeke com a mota.
Parou, e eu montei. Só isto. Levou-me a dar a volta à ilha, a olhar para a Lua.
- Sim? - perguntou Mike.
- Sabes onde era a casinha dele? Lá em cima, perto da Depressão, um bocado a seguir à quinta dos pais dele. Eu mostrei-te quando eras miúdo.
- Eu lembro-me - assentiu Mike. - É uma barraquita de pescador que agora está abandonada, com ervas daninhas a crescerem lá dentro.
- Ai sim? - perguntou Sarah, surpreendida com o facto de sentir pena. - Eu adorava-a. Fomos nós que a arranjámos. Mike, nós amávamo-nos. Tínhamos brigas enormes,
mas queríamos estar juntos.
- Era lá que íamos viver depois de eu nascer?
- Eu queria que ele fosse para Boston comigo. Tinha a loja, como
sabes. Ele não conseguia ganhar a vida aqui, mas adorava isto. Acho que foi por isso que ele me rejeitou. Não tínhamos combinado muito bem as coisas - terminou Sarah
brandamente, como se quisesse neutralizar a vergonha daquele último dia em que fora deixada à espera na igreja.
- Ele queria ficar aqui em vez de ir viver para Boston?
- Em vez de se casar comigo, acho eu.
- Não percebo.
- Nós éramos ambos demasiado jovens para casar, Mike - disse
ela com delicadeza. - Mas tu vinhas a caminho.
- Ele sabia disso? - perguntou Mike com ar assustado. Teria medo de ouvir a resposta? De saber que Zeke soubera que ia ser pai e mesmo assim os ter abandonado? Que
morrera num acidente de automóvel na companhia de outra mulher?
- Que eu estava grávida sabia. Mas ele não soube que tu tinhas nascido, querido. Se ele te tivesse conhecido, teria sido diferente
disse Sarah, mentindo desta vez, incapaz de suportar a mágoa na voz de Mike. Duvidava de que, qualquer que fosse o bebé, pudesse ter induzido Zeke a ficar. Ele andava
desenfreado, e uma mulher e um filho não estavam nos seus planos.
- A vida teria sido melhor se ele tivesse estado connosco - disse Mike. - Podíamos ter sido felizes juntos.
- Mas não aconteceu assim - disse Sarah bruscamente. - O teu
pai tinha outros planos.
- Foi a mãe que quis ir-se embora da ilha!
- De qualquer maneira, ele não teria ficado connosco, Mike. Ele não estava preparado para casar.
Podíamos perguntar-lhe, mãe - disse Mike, voltando para junto do motor. - Mas ele morreu. Eu vi a campa dele.
Sarah ficou muito quieta. Os ombros do filho estavam tensos, a voz, dura.
- Lamento, querido - disse ela baixinho.
- No cemitério da igreja. Já alguma vez lá foi?
- Já - disse Sarah.
É onde a mãe vai ser enterrada, não é? É. - Sarah nunca vira Mike tão perturbado. Mãe! - perguntou Mike - Porque é que ficou doente? Sarah levantou-se e deu a volta
ao velho barco estragado. Mike chorava, tentando não o mostrar.
- Mike! - disse a mãe em voz baixa, abraçando-o.
- Está melhor? - perguntou ele - O avô diz que não está.
- Estou, sim. Olha para mim. Estou aqui, não estou?
- Isso não quer dizer nada.
- Olha para mim! - disse Sarah, segurando o rosto dele entre as mãos.
O rosto de Mike estava enfarruscado de lágrimas e óleo.
- Sim? - perguntou ele.
- Não vês diante de ti uma loura platinada? - disse ela.
- Está a querer brincar? - explodiu ele.
- Não, Mike. Estava apenas ...
- Não me conhece mesmo - disse ele - Nunca me conheceu. Pensa que trazer consigo um tipo qualquer me vai compensar por não ter um pai e pensa que brincar sobre o
seu cabelo me vai fazer esquecer que tem um cancro!
- Eu não... - disse Sarah, abanando a cabeça.
- Diga o que disser, é isso que pensa. É mesmo.
- Quero conversar contigo, mais do que tudo - disse Sarah num sufoco. - Quero que o nosso relacionamento seja melhor. Quero que voltes para casa e acabes os teus
estudos. Se fizesses ideia de quanto ...
- Eu vou ficar aqui, mãe - disse Mike.
- Estou apenas a pedir-te que penses nisto - insistiu ela.
- Vou ficar aqui - repetiu Mike.
WILL E O PAi de Sarah tinham estado a limpar a neve que cobria o avião. Quando entraram pela porta das traseiras, Sarah veio ter com eles. Perturbada por causa de
Mike, ela tentou mostrar-se animada.
-A tia Bess diz que ela e Neve planearam uma comemoração para esta noite - disse. - Mas Hillyer Crawford está demasiado ocupado
para cá trazer as lagostas, por isso queria pedir-lhe o jipe para as ir buscar.
- Os travões estão esponjosos - disse o pai, achando que não devia dar licença. - Mike ainda não teve oportunidade de substituir os calços.
- Eu tenho cuidado - sorriu Sarah.
- Eu vou contigo - ofereceu-se Will. - Vá você a guiar, Will - ordenou o pai.
- Está bem - disse Sarah. Ela e o pai tinham tantas discussões que não valia a pena mais uma.
Momentos depois, Will saiu do caminho de acesso em marcha atrás. Tinham saído vários gansos do celeiro que estavam mesmo no meio do caminho, a bambolear-se. Sarah
baixou o vidro da janela para os afugentar esbracejando. A dor nas costas disparou-lhe pela perna abaixo.
- Ai! - disse ela, vendo estrelas.
- O que é que foi? - perguntou Will. Endireitando-se, Sarah sentiu a dor desaparecer.
- Nada.
- Foi um grito demasiado alto para quem não teve nada.
- Devo ter um nervo comprimido - disse ela - Ou talvez seja da tensão. Tive uma discussão com Mike.
- Acerca de quê?
- De mim. - Sorriu para ele não perceber como estava magoada. Indicou a Will o caminho na direcção norte pela estrada de uma única faixa que dividia a ilha em duas
partes iguais. Sarah mostrou a Will a escola que frequentara até ao décimo segundo ano; os melhores locais para colher amoras; a estrada que descia até à ponta do
Milhafre, onde se encontravam todas as grandes casas de Verão e onde vivera a namorada de Verão de Zeke. Desceram a Estrada do Cais até ao pontão das Lagostas e
compraram a Hillyer uma grade de lagostas com amêijoas à mistura.
- Mostra-me outros sítios - disse Will. - Quero conhecer todos os lugares importantes.
- Vamos visitar a minha mãe - disse Sarah.
- Qual é o caminho? - perguntou WilI, e Sarah apontou para leste. Passaram os rochedos a norte, habitat das á guias americanas. Sarah disse-lhe para voltar à esquerda
para um carreiro estreito que serpenteava pelo meio de uma mata de carvalhos altos com os ramos entrelaçados por cima.
Desembocaram à beira do mar. Uma capela de pedra erguia-se isolada, rodeada por campos nevados. Ao lado dela, rodeado por uma vedação de ferro forjado, havia um
pequeno cemitério. Will estacionou o carro e caminharam pela neve.
A capela era de pedra escura, pequena e medieval. Uma torre maciça com campanário sustinha uma cruz de pedra presa ao telhado de lousa por ferros fortes para fazer
frente aos ventos atlânticos. Três degraus de granito levavam até uma porta em arco. Alguém pendurara uma coroa de abeto, enfeitada com bagas de loureiro prateadas
e uma fita roxa.
- O meu pai esteve aqui - disse Sarah de olhos brilhantes.
- Foi George quem pendurou a coroa?
- Ele vem cá pôr uma todos os anos no dia seguinte ao Dia de Acção de Graças. A minha mãe adorava o Natal. Ele faz isto por ela.
Will levantou o trinco, deixando o portão de ferro fechar-se atrás dele. O vento do mar fustigava-os, trazendo salpicos de sal e neve solta. Sarah ajoelhou-se junto
da campa da mãe. Absorvida nas suas recordações e preces, estava linda. O túmulo era minuciosamente esculpido, com um anjo a voar sobre o mar e o nome Rose Talbot
por cima da data do nascimento e da morte.
O vento estava forte, fazendo assomar lágrimas aos olhos de ambos e corando as faces de Sarah. Will abraçou-a e puxou-a para se levantar.
- Está frio - disse ele - Quero aquecer-te.
- Vamos entrar? Eu sei onde está a chave. Sarah abriu a pesada porta. Lá dentro, a velha igreja estava escura e cheirava a mofo. Seis filas de bancos de carvalho
trabalhados enchiam o espaço. Os vitrais eram azul-escuros e cor de vinho e representavam santos e barcos. Uma simples cruz de madeira erguia-se por detrás do altar.
Sarah olhou em volta. Dirigiu-se a um dos bancos reservados e passou os dedos pela madeira de carvalho. A expressão nos seus olhos era de fúria e confusão.
- O que é que se passa? - perguntou Will.
- Não sei. Com vinte anos de intervalo, Mike e eu fomos baptizados precisamente ali - disse ela, apontando para uma pia baptismal de mármore. Tinha a forma de uma
concha. - Quase me casei aqui também.
- Com o lagosteiro? - perguntou Will.
- Ele não apareceu - respondeu Sarah. - Não me quis.
- Foi parvo. Sarah encolheu os ombros.
- Está enterrado lá fora - disse ela em voz baixa. - Sei que foi por causa dele que Mike voltou para a ilha.
Mike é bom rapaz. Ele vai fazer o que deve - disse Will. É bom rapaz, mas ainda não acredita nisso. Veio de lá tão longe
para aprender a viver como um homem que já morreu. A vida na ilha é um disparate ... não tem futuro. Eu quero que ele volte para casa connosco.
- Deixa-o, Sarah - disse Will. - Não podes fazer nada.
- É isso que digo a mim mesma, mas como? - perguntou - Sou
mãe dele.
Will afagou-lhe o cabelo, pensando em Fred. Como é que deixamos um filho partir? Vivo ou morto, parecia impossível. Mas Will aprendera o segredo: na verdade, não
temos escolha. Os nossos filhos não nos pertencem. São-nos confiados durante um curto espaço de tempo. Nós fazemos o nosso melhor.
- Tu ama-lo, estejas onde estiveres - disse Will. - Já sabes isso.
- Sei? - olha para ti e para a tua mãe - disse Will.
- E verdade. Amo-a, esteja eu onde estiver - concordou Sarah, fungando.
- Já sabes o que deves fazer na tua qualidade de filha - disse ele, sorrindo e limpando-lhe as lágrimas. - Agora, só tens que o fazer na
qualidade de mãe.
Conduzindo-a até à saída por entre os bancos, Will parou à porta. Olhou-a nos olhos. A seguir, beijou a mulher que nunca chegara a casar-se. Empurrando a porta,
saíram para o vento frio.
NEVE TENTARA telefonar à mãe duas vezes desde que estava na ilha. De ambas as vezes ouvira o atendedor de chamadas com a voz de Julian: "Alice e eu estamos fora,
a esquiar ... ou muito possivelmente a
ver o carro ganhar a corrida de Monza, portanto faça o favor de deixar a
sua mensagem."
- Olá, mãe, sou eu - disse Neve - Ainda estamos na ilha do Alce e voltamos para casa amanhã. Não fique com a preocupação de me ir
buscar. Eu peço ao pai para me levar e portanto não é preciso ir. Beijinhos. Adeus.
Pousando o auscultador do telefone que estava no hall de entrada, Neve teve uma sensação tremenda de que algo estava errado. Porque é que a mãe não atendera? Neve
teve o pressentimento de que ela estava terrivelmente zangada e ferida.
Marcando novamente o número, pediu a Deus que a mãe atendesse.
- Olá! - disse a mãe. - Susan, és tu?
- Sim, olá, mãe. Tenho andado a telefonar-lhe todos os dias. Não consegui voltar a falar consigo desde o telefonema que lhe fiz de Portsmouth, lembra-se?
- Lembro - disse a mãe.
- Como é que a mãe tem passado? Como foi o Dia de Acção de Graças?
- Temos passado bem. Julian teve uma pequena gripe. E como foi o teu Dia de Acção de Graças?
- Foi bom - disse Neve, denotando pouco entusiasmo. Não queria dizer à mãe que tinha sido maravilhoso.
- Ainda bem - disse a mãe, e Neve pôde praticamente ver os lábios dela desaparecerem numa linha apertada.
- O que é que foi? - perguntou Neve.
- Foi só que ... só que ... este foi o primeiro feriado que passámos separadas - disse a mãe, desatando a chorar. - Desde quando eras bebé.
- Desculpe, mãe - disse Neve em voz baixa. De repente, ouviu a voz de Julian. Estava a falar com a mãe num tom de voz calculista.
- O que é que aconteceu? - perguntou Neve.
- Nada. A não ser que eu estou muito desapontada com a maneira como tu decidiste fazer isto. Se tivesses pedido licença de uma maneira correcta, as coisas podiam
ter sido combinadas como deve ser. Sendo assim, estou muito desapontada.
- Eu sei - disse Neve, avistando Mike na outra extremidade do hall de entrada. - Desculpe, mãe!
- Isto vai ter consequências - disse a mãe ameaçadoramente.
Agora, não desligues. Julian tem uma coisa para te dizer.
- Agora, tenho de desligar, mãe - disse Neve rapidamente.
Está aqui uma pessoa que precisa de usar o telefone. Beijinhos, adeus.
- Pousou o telefone no descanso como se ele estivesse a queimar-lhe a mão.
- Eu não estava à espera para usar o telefone - disse Mike.
- Ah, eu sei - respondeu Neve. - Foi uma mentira sem importância para eu não ter de falar com o meu padrasto.
- Tens padastro? - perguntou Mike. Neve fez um sinal afirmativo, infeliz.
- Odeio-o - revelou em voz baixa. - Não devia odiar ninguém, eu sei, mas odeio ...
- Às vezes, não podemos deixar de o fazer.
- Se eu tivesse uma ilha para onde fugir, fugia. Como tu.
- Estás cá - disse Mike. - Não estás? Tentando sorrir, Neve deixou Mike encaminhá-la pelo corredor. Subiram as escadas das traseiras. Em cada degrau escuro e poeirento,
havia um gato a dormir. Chegaram junto de uma porta fechada. Mike abriu-a e entraram no sótão. Estava cheio de camas velhas, malas e caixas. No lado mais afastado,
havia uma linha de pesca a todo o comprimento com cobertores pendurados.
Mike deixou Neve passar à frente.
- Que sítio tão acolhedor! - disse ela.
- Pois é - concordou Mike, satisfeito. Um aquecedor dava bastante calor. Mike cobrira um velho colchão com colchas de penas. Havia três prateleiras cheias de livros.
Uma pequena janela dava para a frente da casa e para os terrenos que desciam até à baía.
- É aqui que dormes? - perguntou Neve.
- Não, o meu quarto é lá em baixo, isto é para onde eu venho quando quero fugir.
- A tua ilha dentro da ilha? - perguntou ela. Mike acenou com a cabeça afirmativamente. Encostou a testa ao vidro da janela, esquadrinhando o pátio. O avô estava
do lado de fora do barracão onde depenavam os animais, aquecendo as mãos sobre um fogareiro a carvão.
- Porque é que fugiste? - perguntou Neve.
- Estou farto de dizer a toda a gente que não fugi - disse Mike.
Eu quis vir para aqui. A minha família é daqui, sabes? Ambos os meus
pais, embora eu não tenha conhecido o meu pai ...
Neve baixou a cabeça. Ali, no quarto secreto da ilha, a jovem pensou neles como dois garotos que já tinham sofrido bastante. Ele nunca conhecera o pai, a mãe criara-o
sozinho; os pais de Neve haviam passado por um divórcio difícil, a mãe dela casara com um cretino. E ainda havia a morte de Fred, a doença de Sarah. Confusa com
todos aqueles pensamentos, Neve atirou-se para cima do colchão.
- Como é a vida dos jovens normais? Eles não se aborrecem?
perguntou ela.
- O que é que queres dizer?
- Tu e eu podíamos dar trabalho a dois psicanalistas, com horas extraordinárias, durante os próximos dez anos ...
Mike riu-se.
- Eles alguma vez te mandaram a um psicanalista?
- Claro. Logo depois de Fred morrer afogado e a seguir, outra vez, durante o divórcio. Sarah mandou-te a algum?
- Tentou, mas eu quase não pus lá os pés.
- Tu perguntaste se eles me mandaram - corrigiu Neve. - Eu não disse que fui. Bem, durante algum tempo fui mesmo, mas muitas
vezes inventava uma crise - disse ela, fazendo a exemplificação de um ataque de tosse fingido. - O teu era psiquiatra?
- Era. O Dr. Darrow. Limitava-se a ficar sentado com aquela ...
- O Dr. Darrow? - perguntou Neve. - Tu foste ao Dr. Darrow? Um tipo alto? Que usa um alfinete de gravata? Não diz uma palavra?
- Tem os diplomas todos logo por detrás da secretária para tu não poderes deixar de ver que frequentou as Universidades de Princeton e de Cornell?
- Fotografias dele e da mulher em férias nas Baamas, com os encantadores filhos gémeos?
- Sim. Todos a sorrirem para não poderes deixar de reparar como os Darrows parecem felizes comparados com a tua família - disse Mike, rindo. - Não posso acreditar
que foste ao Dr. Darrow.
- Porque é que Sarah te mandou lá da primeira vez?
- Tive um problema na escola.
- Notas más? - perguntou Neve.
- Não - disse Mike. - As idas à escola.
- Faltavas - disse Neve com ar cúmplice. - Conta lá. Deixaram-se cair de costas, quase rebentando de riso, loucos de alegria por serem ambos doentes do psiquiatra
mais calado de Fort Cromwell.
GEORGE EsTAvA na cozinha à espera de que Sarah abrisse o covo das lagostas. Ela era tão bonita! Tal e qual a mãe. O rosto de Sarah podia parar o coração de um homem.
O cabelo dela era outra história. George lembrava-se de quando era comprido e escuro, brilhante, mas agora estava demasiado claro e espetado. Compreendendo que o
cabelo de Sarah tinha alguma coisa a ver com o tratamento do cancro, não dissera nada. Rose não vivera o suficiente para perder o cabelo, o cancro levara-a rapidamente.
Finalmente, Sarah acabou por abrir o covo. George tirou uma lagosta para fora, ao acaso.
- Maldito Hillyer! - resmungou. - Ele sabe que as fêmeas têm um sabor muito mais doce. É evidente que mandou machos.
- Com certeza não fez de propósito - disse Sarah.
- Aposto que fez. - Detestava ser enganado. O coração batia-lhe apressadamente, e ele levou a mão ao peito e sentou-se.
- O pai preocupa-se tanto! - disse Sarah, tomando-lhe o pulso com ar calmo.
George sentiu vontade de lhe afastar a mão, mas não conseguiu. Com a filha sentada mesmo ao seu lado, olhou bem para os olhos dela.
Eram muito profundos e azuis, mas estavam rodeados de pequenas rugas.
- Porque é que não voltas aqui para casa, que é onde pertences? perguntou.
- Eu tenho um negócio para gerir, pai.
- Negócio. O que é que vale um negócio em comparação com a família?
- Eu estou aqui, pai. Não estou?
- Fazias muito melhor figura se ficasses - ralhou George. - Tens de pensar em Mike. Ele parece feliz aqui, sabes. - Bateu nos bolsos à procura do cachimbo. Não fazia
a menor ideia da maneira como se fala com uma filha. Nunca o fizera. - Fica - pediu ele da maneira mais simples.
- Não posso. E quero que Mike volte para casa comigo. George olhou para a filha fixamente. Já esperava aquilo. O coração dele acelerou um bocado, mas não tanto como
momentos antes.
- Pareces a tua mãe - disse bruscamente.
- Pareço? - perguntou Sarah. George acenou com a cabeça afirmativamente. Estendeu a mão e fez-lhe uma festa na cara. Sentiu a pele macia da filha. Ela nascera naquela
mesma casa, ali mesmo no andar de cima. Fora ele próprio que fervera a água no fogão que estava agora por detrás de si. Pegara nela com uma mão, não tinha sequer
o tamanho de um ganso pequeno. Os olhos de ambos tinham-se cruzado, e ele começara a amar a filha.
Apanhado a sonhar com o passado, George corou. Que felizes tinham sido os três juntos! George, Rose e Sarah. Aquela era a ilha deles.
- Tens recordações felizes? - perguntou relutantemente.
- Oh, pai! - respondeu Sarah, sorrindo. - Imensas.
- Tens mesmo? A filha fez que sim com a cabeça. Abraçando-o, pousou a cabeça no
ombro dele. Fizera o mesmo muitas vezes quando era menina. No jipe, quando andavam pela ilha; no barco, quando saíam para pescar. George sentiu um nó na garganta
e não conseguiu engolir.
O SOL COMEçou a desaparecer no horizonte. Era sábado, o último dia inteiro que iam passar na ilha do Alce, e Sarah estava à janela da cozinha a ver as sombras cor
de violeta alongarem-se no terreno coberto de neve que descia até à baía. Viu o pai atravessar o pátio a coxear na
companhia de Gelsey, esbracejando para fazer os gansos entrarem no celeiro. Coxeando, à semelhança do dono, a cadela ladrava. Os gansos avançavam a bambolear-se
e a grasnar ruidosamente.
Vagarosamente, Sarah subiu as escadas da cozinha. A casa encontrava-se silenciosa. A tia Bess estava a fazer a sesta, e os miúdos, no sótão. Sarah ouvia a música
a tocar e os risos de Mike e de Neve. Com a sensação de ser uma passageira clandestina, bateu à porta de Will.
- Entre! - disse ele. Sarah esgueirou-se para dentro do quarto, deixando a porta fechar-se silenciosamente atrás de si. O quarto estava escuro, e a única luz provinha
das janelas que davam para o mar. Will encontrava-se deitado na cama. Provavelmente, estivera a ler e adormecera porque tinha um livro aberto ao lado.
- Tudo bem? - perguntou ele. Fazendo um gesto afirmativo com a cabeça, Sarah permaneceu ao lado da cama. Will tirou um braço para fora da colcha, e Sarah deitou-se
a seu lado. Ele aconchegou-a nos braços.
- Sabes uma coisa extraordinária? - perguntou ele, acariciando-lhe as costas.
- O quê? - disse ela em voz baixa.
- Estava com esperança de que viesses até cá acima.
- Estavas? Eu sinto-me esquisita, a entrar às escondidas no teu quarto.
- Eu sei - disse ele, apertando-a. - Estamos a portar-nos mais como miúdos do que os nossos miúdos. - Beijou-a na testa e nas faces. - Quanto tempo ainda temos antes
do jantar?
- Horas - respondeu ela. - Pelo menos duas. Will tirou-lhe a camisola por cima da cabeça, e Sarah desabotoou-lhe a camisa de flanela. Andaram à procura dos cintos
um do outro, palpando por baixo da colcha. A- cama estava quente. Aquecida com o calor do corpo de WilI, Sarah sentiu os dedos dele percorrerem-lhe as costas. Beijaram-se.
As mãos de Will subiram até aos ombros de Sarah e chegaram à cicatriz. Sarah sentiu-se gelar no momento em que ele tocou na cicatriz. Abriu os olhos, envergonhada.
- Faz de conta que não está aí.
- Se faz parte de ti, é linda. Sarah abanou a cabeça. Ninguém, a não ser os médicos e as enfermeiras, tinha visto as suas cicatrizes. Durante os tratamentos de rádio,
ela tivera uma infecção no couro cabeludo que se espalhara pelo crânio e se transformara numa osteomielite. O Dr. Goodacre tivera de desbastar e remover uma parte
do osso, e embora lhe tivesse feito uma cirurgia plástica, as cicatrizes não desapareciam.
-Mostra-me! - disse ele. - Não te preocupes, Sarah.
Sarah estendeu-se por cima dele, puxando o cordão que acendia o candeeiro da mesa-de-cabeceira. Segurando-a com um braço, Will inclinou-se para trás para observar.
Sarah percebeu que ele ficou de boca aberta.
- Olá, Sarah! - disse ele. Nem sequer conseguiu fingir. As costas laceradas eram impressionantes. Baixando o rosto, ele beijou-lhe a pele, os ombros, o lado do pescoço.
O rosto de Will estava húmido de lágrimas, cujo gosto ela sentiu ao beijar-lhe os lábios.
- É horrível, não é? - perguntou Sarah.
- Salvou-te a vida, não salvou? Então, é linda. É só o que te digo. Will acariciou-lhe o corpo, revelando-lhe que a amava. Ela sentiu-o tocar nas cicatrizes com
as mãos. As mesmas mãos acariciaram Sarah como se ela fosse uma coisa preciosa, como se fosse da responsabilidade de Will fazer que Sarah não fosse novamente magoada.
Sarah deixou-se possuir pouco a pouco. Fora tão traída por Zeke que desde então nunca mais confiara inteiramente em ninguém.
- Fica comigo, Sarah - sussurrou-lhe Will com os lábios junto do ouvido dela.
Era tudo o que ela precisava de ouvir. Ela e Will estavam juntos, amavam-se um ao outro de todo o coração, almas e corpos: constituíam um só. Sarah mal dava conta
das palavras que saíam da sua boca e da de Wili.
- Amo-te! Amo-te!
NA ILHA Do ALCE, só havia uma maneira de cozinhar lagostas: suadas com algas das rochas. A maré estava baixa, e por isso Mike e Neve ofereceram-se para descer até
à baía e apanhar algas e mexilhões. Todos brincaram com Mike, dizendo-lhe para não se esquecer de vestir o colete de salvação. Sarah ficou feliz e surpreendida por
vê-lo aceitar tão bem as brincadeiras.
- É um desporto novo - disse ele. - Vou entrar nas próximas Olimpíadas.
- Caminhar sobre o lago - disse Neve. - Mike Talbot ganha a medalha de ouro a caminhar sobre o lago!
- Talvez a medalha de ouro devesse ir para o teu pai - disse Mike. Surpreendida, Sarah não disse nada.
- E uma boa sugestão - concordou George -, mas a maré está a subir, e se vocês não se despacham, não vão conseguir trazer as algas.
- Venha connosco, George - disse Neve, puxando-lhe a mão.
Mostre-nos o melhor sítio para apanhar mexilhões. Vamos passear até lá abaixo.
MIKE ENTROu a chapinhar na piscina natural criada pela maré e encheu um cesto. Ali estavam eles, quase tão a norte quanto se pode estar na costa atlântica, e o mar
ainda se mantinha quente. Os velhos lagosteiros tinham-lhe dito que a corrente do Golfo passava por ali.
Me não estava interessado no negócio das lagostas, mas já pensara algumas vezes em estudar oceanografia. Adorava o mar. Gostava de estudar as marés e as correntes,
as lagostas e as baleias. Tinha imensos sonhos. O avô assinava a National Geographic, e Mike passava horas a estudar as revistas antigas. Antropologia cultural também
lhe agradava muito. Ou talvez se limitasse a dirigir a quinta.
O avô chamou Neve.
- Olha, aqui! Neve atravessou o charco a patinhar.
Mexilhões! - exclamou ela. É a maior reserva da ilha. Não digas a ninguém. Mike sorriu. O avô era espantoso. Governava a ilha como um rei, sabia onde estavam todas
as coisas. Os mexilhões eram pretos e azuis, a cor do céu ao anoitecer. Todos apanharam alguns, atirando-os para um cesto diferente do que tinha as algas. Mike sabia
que aquela podia ser a vida dele, aquela vida de apanhador de mexilhões à beira do Atlântico.
- Olhem só! - gritou o avô. Interromperam o que estavam a fazer e olharam para o céu. Estava resplandecente com o fogo frio. Ali, a norte, precisamente por cima
da casa, avistava-se a aurora boreal.
- O que é aquilo? - perguntou Neve com um certo respeito.
- Nunca viste? - perguntou George. Neve fez que não com a cabeça e manteve-se calada. Mike aproximou-se. Havia uma luz difusa dourada e verde. "Se eu fosse oceanógrafo",
pensou Mike, "podia estudar isto. Qualquer actividade marítima seria objecto de estudo."
- O que é? - perguntou Neve.
- As luzes setentrionais - explicou Mike. - A aurora boreal.
- Não pode ser! - disse Neve, olhando para o relógio. - A aurora boreal! - Estava demasiado escuro para ela conseguir ver, mas continuou a tentar.
Mike aproximou-se mais. A mãe dera-lhe um Timex Indiglo quando fizera quinze anos. Só foi preciso carregar num botão e as horas apareceram, inundadas por uma luz
azul.
- Dezoito zero zero horas! - disse Neve. - Eu vi as luzes do Norte às dezoito zero zero horas do dia 31 de Novembro. - Continuou
a agarrar o pulso de Mike mesmo depois de ter acabado de ver as horas.
- Vamos chamar a tua mãe! - disse o avô, pondo-se a caminho de casa.
Mike deixou-se ficar para trás. Neve ficou com ele, vendo o avô a afastar-se.
- Neve! - disse Mike.
- Sim? - perguntou ela ansiosamente.
- Nada - disse Mike, curvando-se para a beijar. Não era a primeira vez que beijava uma rapariga, mas foi a primeira vez que beijou Neve. Mike esqueceu a aurora boreal.
Estava a ver estrelas.
Momentos depois, toda a família saiu lá para fora para ver as luzes setentrionais, mas, graças a Deus: ninguém conseguiu ler o pensamento de Neve. Ela pensava:
"O
meu primeiro beijo, o meu primeiro beijo, Milce Talbot." Ficou entre Sarah e WilI, apenas a alguns passos de Mike, sem conseguir parar de sorrir.
- Oh, meu Deus! - dizia a tia Bess repetidamente, entrelaçando os seus dedos artríticos.
- Até parece que não vemos isto muitas vezes - comentou George@.
- E sempre como se fosse a primeira vez - retorquiu Bess.
- Tu não és nenhuma jovem, Bess - resmungou George. - A primeira vez, uma ova. Não vemos isto muitas vezes, Mike?
- É extraordinário - disse Mike. Neve sorriu ao perceber a diplomacia dele. Era tão adulto! Avançando um passo, procurou a mão dele e tocou-lhe nos dedos.
Mike meteu os dedos por entre os dela.
- Aqui no Norte vamos ver a aurora até Abril, não vamos, Mike?
- perguntou George, olhando para as mãos de Mike e Neve como se tivesse olhos de raios X e quisesse reduzir a pó a ligação.
- Não sei, avô. Nós vimo-la em Maio do ano passado - respondeu Mike, não fazendo quaisquer promessas de ficar na ilha.
- E vamos vê-Ia outra vez - exclamou George. - Na próxima Primavera, vamos estar aqui fora a olhar para o céu enquanto as pessoas todas em Nova Iorque estiverem
a olhar para a poluição. Não é verdade, Mike?
- Aurora é um bom nome - disse Neve, em parte para libertar Mike do anzol. Ainda não decidira o nome que ia adoptar a seguir e
gostava de "Aurora", mas esse nome não tinha qualquer ligação com Fred.
- Não é verdade, Mike? - insistiu George com voz firme. A tia Bess bateu as palmas.
- Muito bem, minha gente - disse ela -, temos lagostas para cozinhar. Vamos para dentro.
AS AMÊIJOAS e os mexilhões foram preparados antes, empilhados numa panela de vapor e servidos com manteiga derretida. As lagostas vieram a seguir. Havia batatas
no forno para todos.
- Lagostas do Maine e batatas do Maine. Já estiveram no Aroostock County? - perguntou George.
- Eu não - disse Neve.
- Há muitas quintas produtoras de batata a norte, a caminho de Aroostock - disse George, inclinando-se para Mike. - Vou levar-te lá na próxima Primavera. Vamos juntar
os gatos que temos a mais e largá-los lá. Há muitos ratos em Aroostock.
- Quais são os gatos que estão a mais? - perguntou Neve delicadamente, olhando em redor da cozinha.
Ao cheiro da lagosta, tinha-se juntado uma grande quantidade de gatos de todos os tamanhos e cores, que se ocultavam nas sombras.
Sarah sorriu.
- Estes gatos são todos descendentes de Desdémona, a gatinha que a minha mãe tinha quando era nova - disse Sarah, separando um pedaço de lagosta e dando-o a comer
a um gato preto e magricela.
- Olha que eu vi - disse o pai ameaçadoramente.
- Desculpe.
- Dar de comer aos animais foi sempre a tua especialidade
acrescentou o pai.
- Quais são os gatos que estão a mais? - perguntou Sarah com ar perturbado.
- Estão todos a mais - respondeu George. - Se caíssem todos ao poço, calhava-me mesmo bem.
Sarah apercebeu-se de que a má disposição do pai estava a aproximar-se rapidamente. Aquele era o último jantar em conjunto, e o pai estava a acusar o toque. O velho
provou num bocado de carne das patas da lagosta e fez uma careta.
- Bah! Lixo! Anda cá, gatinho - disse, pondo o prato no chão.
- George! - exclamou Bess, consternada.
- Achei que era proibido dar de comer aos gatos, avô - comentou Mike na brincadeira.
- O que é que tens com isso? - perguntou. - Não venhas ditar regras da casa, a não ser que estejas a planear ficar por cá.
- Avô... - começou Mike, muito corado.
- Pai! - disse Sarah suavemente - O que é que lhe deu?
- O que é que lhe deu a ele? - perguntou o avô - Isso é que tu devias perguntar.
- Nada, avô - disse Mike. - Vá lá, vamos acabar de jantar.
- Porquê? Por ser o teu último jantar? Mike não respondeu. Sarah sentiu o coração a bater. Ele decidira-se. Sarah percebeu pela maneira como ele olhava para o avô,
cheio de amor e de remorsos.
- Avô! - censurou ele.
- Aqui, o amor leva as pessoas a meterem-se em sarilhos - disse George, olhando de Mike para Neve. Virou-se para Sarah e acrescentou: - Não leva?
- Pai, pare com isso. Mike tem de acabar os estudos. O pai quer isso por amor dele, não quer? Sabe como isso é importante!
- É o que tu queres, Mike? - perguntou George com um olhar inflexível. - Queres ir continuar os estudos?
Mike encolheu os ombros e respondeu:
- Talvez.
- Queres, querido? - perguntou Sarah com o coração inundado de surpresa.
- Sim - disse ele. - Tenho andado a pensar que sou capaz de querer.
Sarah não conseguia despregar os olhos do filho.
- Isso é maravilhoso - disse a tia Bess. - Acabar o liceu é uma coisa óptima, e a formação universitária não tem preço.
- Eu pensei que eras feliz na quinta - disse George.
- Sou. Tudo o que eu queria era voltar para o Maine. Ver de onde eram os meus pais. Estava farto da escola e farto de ...
- De quê? - perguntou George.
- Da vida - disse Mike, olhando para Sarah como quem pede desculpa.
- Quem é que não fica quando está longe do mar? - perguntou George.
- Quando vim para cá, voltei a ter interesses - disse Mike. - E
tudo o que sei. Não passamos de uma ilhota no meio de nada, mas é incrível. Quase é preciso ser um cientista para apanharmos lagostas como
deve ser. E as luzes setentrionais? Toda a gente pensa que elas acontecem quando o ar está frio, mas em Maio do ano passado estavam vinte e
oito graus.
- Elas acontecem em altas latitudes - disse George sombriamente. - A aurora não tem nada ver com a temperatura do ar.
- É precisamente isso que eu quero dizer. O avô fala-me destas
coisas todas, e eu quero aprender mais. Quero ir para a universidade e depois quero gerir a quinta. São esses os meus planos. Eu depois volto para cá.
capítulo 6
UM POR UM, foram tomando o pequeno-almoço. Havia um grande tacho com papas de aveia em lume brando, um jarro de sumo de laranja e a velha cafeteira de café amolgada.
Will comeu sozinho numa ponta da mesa da cozinha, olhando para o mar através da neve. Mais ou menos dentro de uma hora, levantavam voo. Não era a primeira vez que
ia afastar-se do Atlântico, mas agora era diferente.
Observando o mar, Will sentia o filho mesmo a seu lado. Na viagem ao Maine, ele apaixonara-se por Sarah Talbot. Passara algum tempo com Neve, os primeiros quatro
dias completos desde o divórcio. Mas, de certa maneira, aquela viagem tivera tanto a ver com Fred como com qualquer das outras pessoas. Will encontrara um caminho
de volta para o seu filho.
Empurrando a cadeira para trás, lavou a tigela e a caneca de café e deixou-as a secar ao lado do lava-louça de porcelana. Andavam todos atarefados à sua maneira
para, partindo ou ficando, se despedirem. Ouvia passos no andar de cima e a voz de Neve no hall de entrada. A tia Bess colocara perto da porta um monte de colchas
acabadas. Will vestiu o blusão de cabedal e levou-as para o jipe. Desta vez, com Mike e as colchas, o avião iria mais carregado.
SARah ENTROU no quarto onde Will dormira. Ele estava lá em baixo a carregar o jipe. Dirigindo-se à cómoda de mogno da mãe, agarrou na fotografia de casamento dela.
- Mãe! - disse em voz alta. Sabia que era uma patetice, mas havia algo no ar. Sarah sentia que não estava sozinha.
Sentada na beira da cama, olhou em volta. Era o lugar onde a mãe se deitara; as coisas que Sarah estava a ver eram as mesmas que ela vira. O mesmo papel, as cortinas
brancas na janela.
Mike ia voltar com ela para casa, pensou Sarah, e ela quase nem conseguia aguentar a felicidade. E se ele mudasse de ideias? E se o pai
dela estivesse, precisamente naquele momento, a convencê-lo a ficar?
Levantando-se, foi até à janela. Encostou-se ao parapeito estreito, vendo o sol da manhã a atirar uma luz alaranjada sobre a neve. O fim-de-semana de Acção de Graças
chegara ao fim. Dentro de pouco tempo, chegava o Natal, o dia preferido da mãe.
Durante o seu último Natal, a mãe estava demasiado doente para sair da cama durante muito tempo. Sarah falara com o pai para fazerem uma árvore. Amargurado e cheio
de medo, ele dissera que seria impróprio; de qualquer maneira, a mãe não poderia descer para a ir ver, mas Sarah queria que ela tivesse uma árvore. Na noite de Natal,
fora àquele quarto. Depois de colocar uma cadeira perto da janela, ajudara a mãe, cheia de dores, a sentar-se à janela.
Sarah lembrava-se da surpresa dela. Ficara ali de pé, com os dedos
comprimidos contra os lábios. Sarah colocara velas na neve e nos ramos de um abeto branco. Desde a porta, o caminho brilhava e a árvore de Natal estava iluminada
com cinquenta luzes tremeluzentes.
- O nosso Natal, mãe - murmurou Sara h junto da janela, recordando-se. Beijou a fotografia e respirou fundo. Depois, desceu as escadas à procura do filho para o
levar para casa.
A TIA BEss resolveu ficar em casa, portanto despediram-se todos dela no hall de entrada. Conservou a sua dignidade, abraçando Mike apenas um pouco mais fortemente
que aos outros e disse-lhe que não se
esquecesse de escrever.
George estava silencioso, e foi ele quem empilhou a bagagem na retaguarda do jipe. Gelsey precisou de uma pequena ajuda para entrar, e
George deu-lhe um empurrão no traseiro e sentou-se ao volante, calado, como um motorista contrariado. Will arranjou lugar atrás com Mike e Neve. Sarah sentou-se
à frente, e Gelsey saltou para o colo dela.
Atravessaram a ilha. Sarah mirava a paisagem numa confusão de sentimentos. Seria egoísmo esperar que o pai a visse partir e se sentisse feliz?
- Pai - disse ela em voz baixa.
- Hum - resmungou ele.
- Ele vai voltar. George não fez qualquer comentário. Limitou-se a agarrar no volante com mais força e carregou no acelerador.
- Chegámos! - exclamou Neve quando deram a última curva e
avistaram o avião.
George estacionou o jipe, e Will e Mike descarregaram-no. A febre de Sarah parecia estar a aumentar um pouco. Doíam-lhe as costas.
"O
remédio é canja de galinha e cama", pensou ela enquanto via toda a gente atarefada à volta do avião.
MIKE ARRUMOU tudo cuidadosamente no porão. Queria assegurar-se de que fazia tudo como devia ser. Mike adorava voar. Em aviões pequenos tem-se realmente a sensação
de voo. As pessoas sentem-se pássaros elevando-se nas nuvens. Pensando em pássaros, Mike ergueu o olhar e viu a águia.
- Mãe! - chamou, sorrindo. Sarah ainda estava no jipe. Retribuiu o sorriso e acenou-lhe. Ele apontou para o céu.
A mãe olhou para cima. Tinha no rosto aquela expressão, aquele ar muito seu de perguntar
"O que é que eu fiz para merecer uma coisa tão maravilhosa?", e Mike sentiu
um nó na garganta e deixou de sorrir. Ela parecia tão feliz! Ela só queria ter a certeza de que ele não ia tomar-se um derrotado. Mike compreendia.
- Ei, onde é que está a tua? - perguntou WilI, contando as malas.
- Está aqui o mesmo número de malas que trouxemos.
- Eu sei - disse Mike. A mãe de Mike apeou-se. Neve deu um salto para diante, pôs um braço à roda dela e praticamente levou-a a dançar até ao avião.
- É melhor irem andando - disse o avô. Estava um dia perfeito. O céu, de um azul-vivo, o Sol, brilhante. Mike sabia que ia ser um belo voo até Fort Cromwell. Olhando
para o avô, manteve uma expressão séria. O avô não conseguia sobreviver sozinho, Mike sabia disso. Naquela manhã, quando o encontrara caído sobre o gelo, compreendera
as dificuldades.
- O que é que se passa? - perguntou WilI, baixando a voz.
- Eu não vou - respondeu Mike.
- Ouve! - disse Will rispidamente - Não faças isso à tua mãe. Ela pensa que tu vais voltar para casa connosco.
- Eu não posso - disse Mike. Para ele, não havia discussão. Não poderia viver com a sua consciência se entrasse naquele avião e deixasse o avô e a tia Bess ali sozinhos.
Will parecia que o queria matar, de olhos faiscantes, maxilar cerrado.
- Então, diz-lhe! Não lhe dês mais esperanças. Diz-lhe imediatamente - ordenou ele.
Mike fez que sim com a cabeça. Voltando-se, a primeira pessoa que viu foi Neve. Lembrou-se de a ter beijado na noite anterior. Corou e Neve sorriu mais abertamente.
Will colocou-se entre Mike e a mãe. Passou o braço à roda dela. Mike viu a expressão dele sombria e atenta e ficou contente por a mãe não estar só.
- Eu não vou - disse. A mãe não respondeu. Inclinou a cabeça ligeiramente, como se não tivesse ouvido bem. Mas Neve percebeu logo, e o sorriso dela desapareceu instantaneamente.
- Tens de ir! - disse ela.
- Mike? - perguntou a mãe.
- Desculpe, mãe - pediu ele.
- E a escola? - perguntou ela com a voz a tremer. - Tu disseste que querias acabar. E o teu futuro, querido?
- Hei-de acabar um dia, mãe.
- Quando? - perguntou Sarah com uma agitação crescente.
- Em breve - disse Mike.
- Estás a desperdiçar a tua vida - insistiu a mãe. - Não percebes isso, Mike? A vida é tão curta! Tu achas que tens tempo, mas vai passar um ano e tu nunca mais
vais voltar.
- Sarah - disse Will, apertando-a contra si - Ele vai ficar bem.
- Não vai - negou Sarah, afastando Will. Foi direita ao filho e pegou-lhe nas mãos. Mike sofreu ao ver as lágrimas rolarem-lhe pelas faces. - Vem para casa. Por
favor! - suplicou a mãe
- Devias ouvir a tua mãe - disse o avô, meio encorajador. - Vai acabar os teus estudos.
- Vem connosco. Vai ser divertido - pediu Neve.
- Não posso. Eu fico na ilha. A mãe não estava a ser nada forte. Largara as mãos de Mike, baixara a cabeça e começara a chorar com as mãos na cara. Will abraçou-a
de novo. Neve estava silenciosa a olhar para os pés.
Mike estendeu a mão para o porão do avião à procura de uma bolsa que colocara junto da mala de Neve.
- Toma - disse ele.
- O que é? - perguntou Neve, triste
- Um dos gatos que estão a mais - disse ele. Incapaz de se conter, Neve enfiou a mão na bolsa e tirou para fora um gatinho preto. Era o mais pequeno que Mike conseguira
encontrar, com o pescoço branco e uns olhos azuis brilhantes.
- Uau! - disse ela, beijando o focinho do gato. - Como se chama?
-Não sei, tu é que és boa a arranjar nomes. É macho.
- Dr. Darrow - disse Neve, voltando a sorrir abertamente.
Sim - concordou Mike, sorrindo. - D, Darro, Olhou para a mãe e o sorriso morreu-lhe. Sarah estava com pálido.
ar
- Sarah, sentes-te bem? - perguntou Wili.
- As minhas costas doem-me um bocadinho - respondeu.
- Mãe, eu vou acabar os meus estudos. Prometo. Nem que seja só o liceu - declarou Mike.
As lágrimas brotaram dos olhos de Sarah mais uma vez. Olhava para o rosto de Mike como se quisesse gravar na memória todos os pormenores.
- Espero que estejas a fazer o que está certo - disse ela. Mike assentiu com a cabeça.
- Adeus, mãe - disse ele, beijando-a. Sarah prendeu-o nos braços. Abraçou-o com uma tal força que Mike mal conseguia acreditar que ela tivesse tanta. Depois, disse-'lhe
qualquer coisa que Mike não conseguiu ouvir bem.
- O quê? - perguntou.
- Tenho que dizer-te uma coisa: eu nunca - disse ela vagarosamente - amei ninguém tanto como te amo a ti.
- Mãe... - disse Mike.
- Ninguém, Mike. Desde o momento em que te vi. Amor verdadeiro e para sempre. Tu mudaste o meu mundo.
- Eu sei - disse Mike com a garganta ferida porque tinha uma coisa para dizer, mas não sabia o que era.
- Eu sei que me amas - continuou ela. - Não penses que não sei. IAM TODOS silenciosos. Neve seguia no fundo do avião a brincar com o Dr. Darrow, desejando que Dike
estivesse a seu lado. Durante toda a noite anterior, mal conseguira dormir a pensar em como ia ser bom sobrevoarem a Nova Inglaterra, muito juntinhos no banco de
trás, com o zumbido dos motores do avião à volta deles.
Sarah ia para ali sentada, ansiosa.
O Dr. Darrow animara Neve. Era amoroso, pouco maior do que uma caneca de café com pernas. Neve pegou-lhe, encostou-o ao pescoço e deixou-o repousar sobre a sua clavícula.
Estava uma temperatura agradável dentro do avião, e, fechando os olhos, Neve sentiu o gatinho a ronronar de encontro ao seu pescoço. Quando voltou a abrir os olhos,
estavam a passar sobre a linha da costa. Teve de se virar para ver o Atlântico esbater-se numa linha fina e dourada.
Voando para o interior, Neve começou a sentir-se sufocar. O peito apertou-se-lhe.
ATERRARAM em Lebanon para reabastecer. Entraram todos no hangar para irem às casas de banho e tomarem café e cacau quente. Sarah sentia-se no meio de uma neblina.
Pesava-lhe a cabeça por causa do que chorara. De cada vez que pensava em Mike, os olhos enchiam-se-lhe de lágrimas. Will trouxe-lhe café. Sarah sorriu, e os dedos
de ambos tocaram-se. Detestava a maneira como estava a reagir.
- Desculpa - disse ela.
- O quê? - perguntou Wili.
- Ter ficado tão transtornada - disse ela, abanando a cabeça.
- Acho que não tens culpa. Ele não é meu filho, e eu sinto o mesmo. Apetecia-me amarrá-lo ao banco lá de trás e trazê-lo para casa, quer ele quisesse, quer não.
Sarah sorriu. Não conseguia beber o café. Para não magoar Will, levantou a chávena. Sentia-se lívida e sabia que tinha a testa perlada de suor. As costas doíam-lhe
mais.
- O que é? - perguntou Will, tirando-lhe a chávena de plástico da mão e colocando-a no peitoril da janela.
O ar estava gelado mesmo dentro do hangar. Sarah tremia descontroladamente.
- Nada - disse ela, forçando um sorriso. Will rodeou-a com o braço.
- Vamos embora. Quanto mais cedo levantarmos voo, mais cedo estás em casa. A propósito, eu vou levar-te mesmo a casa.
- Não és obrigado a fazer isso - disse Sarah. - Passaste os últimos quatro dias comigo. Não estás já farto?
- Nem um bocadinho - respondeu WilI, continuando a abraçá-la. AO DESCOLAREM, UM pouco antes do meio-dia, encontraram ventos contrários.
- Segurem-se! - disse ele. - O avião vai dar uns solavancos.
- Ai! - exclamou Sarah.
- O que é? - perguntou WilI, olhando. O rosto de Sarah estava lívido, e ela agarrava-se ao assento. - Sarah! - chamou ele.
- Doem-me as costas - respondeu ela em voz baixa. - É só isso.
- Deste algum mau jeito? Ao levantar as malas ou a fazer qualquer outra coisa?
- Não sei - disse ela. - Acho que não. A dor era intensa. Sentia a anca dormente e um formigueiro na perna. Pensou no Dr. Goodacre. Na última vez que lá fora sátira-se
tão reconfortada. O que é que ele tinha dito da falta de sensibilidade?
Vieram-lhe novamente as lágrimas aos olhos. Chorara toda a manhã
por Mike, mas agora estava a chorar por outra coisa. Lutara tanto, sentira-se tão esperançada! O seu aniversário fora um sonho. Sobrevoando as montanhas com WilI,
tão grata por estar viva, por se sentir novamente com saúde, Sarah imaginara que ia ser assim para sempre ...
WILL OLHOU lá para baixo e avistou Fort Cromwell. Agarrando no microfone, chamou a torre de Brielmann Field.
- Daqui 2132 Tango. Aproximamo-nos às três horas e pedimos autorização para aterrar.
- Mensagem recebida, 2132 Tango. Hoje, pode usar a pista um. Will accionou o trem de aterragem. Esperava ver duas luzes verdes, mas só viu uma. Viu apenas a luz
principal, indicando que o trem de aterragem principal tinha baixado e estava firme, mas não via a luz correspondente à roda do nariz. Não disse nada. O aeroporto
já estava à vista, e a pista brilhando negra à luz do Sol. Passando a mão sob o painel de controle, encontrou um fio eléctrico e sacudiu-o ligeiramente. A luz não
se acendeu. Sobressaltado, olhou de relance para Sarah.
- Sarah, estamos quase em casa.
- Depressa - disse ela, sentindo dores horríveis. "Bem, tem calma! ", disse Will a si próprio. O trem de aterragem do nariz não estava a funcionar, mas havia um
cartucho de gás carbónico que ele podia activar para forçá-lo a descer. Procurou o manípulo. Sabia que aquele método funcionava melhor a baixa velocidade e puxou
o manche para trás. Puxou mais, diminuindo a velocidade.
- Pai, acho que é melhor aterrar já - disse Neve com voz assustada. - Sarah está doente.
- Eu sei - respondeu Will bruscamente. Sarah estava calada, mas a sua fisionomia era pungente. Will tentou concentrar-se. Tinha abrandado a velocidade ao máximo,
mas puxou o manípulo demasiado cedo. O cartucho disparou. Nada aconteceu.
- c'os diabos! - disse ele.
- Passa-se alguma coisa? - perguntou Neve. - O que é? Will ignorou-a. Circulando por cima do aeroporto, tentou pensar no problema. Tinha as palmas das mãos a transpirar.
- Brielmann Field, daqui 2132 Tango. Estamos com um problema no trem de aterragem dianteiro. A luz verde não acendeu.
- Sobrevoa a torre, Will. Nós damos uma espreitadela. Fazendo uma viragem para estibordo, Will tornou a aproximar-se do aeroporto. Avistou o seu próprio hangar,
Burke Aviation. Viu o carro parado no estacionamento. E lá estava a torre comandada pelos seus amigos, Ralph e Dave. Viu Dave à janela, observando o avião.
- O teu trem de aterragem principal está descido, Will - disse ele através do rádio. - O dianteiro está suspenso, mas não está fixo. Parece que não está totalmente
descido.
- O que é que isso quer dizer? - perguntou Neve. Will não respondeu.
O depósito de combustível marcava menos de um quarto, e o indicador baixava rapidamente. Will precisava de esgotar o combustível quase todo, mas não na totalidade.
Sem o trem de aterragem dianteiro, iam experimentar dificuldades. Haveria muitas faíscas e a possibilidade de incêndio. Ele queria desesperadamente aterrar por causa
de Sarah, mas para salvar a vida dela naquele momento, tinha de continuar a voar.
CADA Poço de ar provocava dores pela coluna de Sarah abaixo. Perdera toda a sensibilidade nas pernas, mas a dor nas costas deixava-a em estado de choque. Will dera
uma grande volta para norte e agora estavam a aproximar-se.
- Preparem-se! - disse Will.
- Oh, pai! - gritou Neve. Fazendo-se à pista, Will olhou em frente. Sarah viu luzes brilhantes por toda a parte. Carros da Polícia, carros de bombeiros, ambulâncias.
A neve estendia-se sobre o campo e uma espuma branca cobria a pista.
- Bem - disse Will -, quero que ponham as cabeças sobre os joelhos.
Neve chorava.
- Pai, o Dr. Darrow fugiu-me das mãos.
- Deixa-o - retorquiu Will bruscamente. Sarah teve a impressão de que Neve, no banco da retaguarda, se esticava para apanhar o gato. Will deu uma palmada no banco
para lhe chamar a atenção.
- Susan, deixa lá o gato. Põe a cabeça para baixo! Os braços em cima da cabeça, estás a ouvir?
- Tenho medo... - disse Neve a chorar.
- É só mais um minuto - disse Will. - Vai correr tudo bem.
- Pai... - disse ela, mas não conseguiu acabar a frase.
- Estão a ouvir? Logo que pararmos, desapertem os cintos de segurança. E saiam depressa. Corram depressa lá para fora, está bem? Vocês duas, ouvem-me?
- Depressa, pai - disse Neve. - Eu estou a ouvir. Sarah deve ter respondido, mas não se apercebeu disso. Estava numa agonia. Ao baixar a cabeça, distendera o que
quer que lhe magoava a coluna. A dor aprofundou-se e aumentou.
- Sarah ... Neve, eu amo-vos.
- Pai, eu amo-o - respondeu Neve. "Amo-te", pensou Sarah. O avião bateu no chão. Aterrou com estrondo, roçou pela pista e patinou para a esquerda e para a direita.
Will manteve-se firme, com os braços rígidos como ferro. Sarah ouviu-o praguejar e rezar, ouviu o metal dilacerar-se. Os vidros estilhaçaram -se. Saltaram faíscas.
E finalmente parou. Will saiu do avião antes de Sarah conseguir levantar a cabeça. Neve rolou para cima da pista alcatroada, agarrando o gatinho. Will afastou-a
vigorosamente, incitando-a a correr. Deu a volta rapidamente até ao lado de Sarah e abriu a porta. Sarah viu a espuma rodopiando no ar. Ouviu os bombeiros chamarem,
gritando para que se afastassem do avião.
- Vamos, Sarah - disse WilI, desapertando-lhe o cinto de segurança.
- Sai do caminho, Will - ordenou um dos bombeiros. - Desaparece! O teu avião vai explodir.
Will não obedeceu. Como se tivesse todo o tempo do Mundo, estendeu a mão e inclinou-se para baixo para encostar o rosto ao de Sarah.
- Eu não consigo mexer as pernas - disse ela, olhando para os olhos azuis de Will.
- Não há problema - disse ele. Esticando-se para dentro do avião, movendo-se tão cuidadosamente quanto possível, passou os braços de Sarah à volta do seu pescoço.
Levantou-a, e ela encostou a cara ao peito dele.
APARECERAm no noticiário da noite. Neve, sentada na biblioteca, tapada com um cobertor e com o Dr. Darrow no colo, estava a ver como tudo se passara. O Canal 3 tinha-os
filmado desde o momento em que o avião começara a sobrevoar o aeroporto. Pela voz da jornalista, Neve apercebeu-se da excitação que o acidente causara.
- Eles deviam estar bem convencidos de que íamos morrer - comentou, com a atenção pregada no ecrã.
- Não digas isso - disse a mãe. - Foi horrível. Julian e eu estávamos aqui à espera de que tu chegasses a casa, e telefonaram-nos da torre para nos avisarem. Eu
nem queria acreditar.
- Ligámos imediatamente o Canal 3 - disse Julian.
- Nós fizemos uma boa aterragem - disse Neve calmamente, fazendo festas ao Dr. Darrow.
- Graças a Deus - disse a mãe.
- Achámos que ia ser um grande "Eu bem te disse" - acrescentou Julian.
- O quê? - perguntou Neve.
- Sabes como é. Fugir de casa só traz problemas: "Eu bem te disse" - elucidou ele, sorrindo.
Neve quis ignorá-lo e olhou para a televisão. A mãe estava a ser simpática, não a tendo ainda castigado, nem dizendo nada desagradável acerca do gatinho, mas Julian
desejava iniciar uma discussão. Neve sentiu o início de um ataque de tosse.
- Eu não fugi. Estava com o meu pai.
- Lá está Will - disse a mãe com um tom de voz estranhamente excitado, como se tivesse acabado de localizar uma estrela de cinema. Devido ao zoom, via-se o pai aos
comandos. Tão atraente e compenetrado! A câmara parou no rosto dele. Neve nem podia acreditar que ele parecesse tão calmo.
- A coisa não foi como parece - disse Neve, admirada. - Foi assustadora, horrível. Mas olhem!
A câmara focou Sarah. O rosto dela estava terrivelmente contorcido. Neve não chegara a compreender que ela estava em tal agonia.
- Não está calma - disse Julian, dando uma risadinha. - Está a entrar em pânico.
- Ela teve tanta calma como o meu pai - contrariou Neve.
- É a namorada dele? - perguntou Alice.
- Não sei - respondeu Neve, não querendo responder à pergunta.
- Alguma coisa se deve passar. Ele não sai de junto dela. Neve limitou-se a baixar a cabeça. A mãe e Julian tinham ido buscá-Ia ao hospital, porque Sarah tinha um
nervo comprimido ou qualquer coisa do género.
- Tão calmo e controlado - comentou a mãe quando a câmara voltou a focar Will. - Sempre foi. Nas piores emergências.
Neve pensou que era estranho ouvir a mãe a falar assim em frente de Julian.
- O que é que quer dizer? - perguntou.
- Olha só para ele! - disse Alice. - Sabendo que podia estar prestes a despenhar-se com a filha a bordo ... e no entanto tão calmo.
- Foi como no dia em que Fred morreu - comentou Neve.
- Hoje, ninguém morreu - disse Julian. A mãe respondeu a Neve baixando afirmativamente a cabeça e ignorando Julian.
- Como nesse dia - assentiu. - Eu achei que ele devia ter ficado mais perturbado, mas olha ...
- A minha pobrezinha tão emotiva - disse Julian, puxando a mão dela.
Alice franziu a testa. Estendendo a mão por cima do sofá, agarrou a mão de Neve.
- Não lhe dei o devido valor - disse ela. - Não dei mesmo.
- O meu pai não é frio - disse Neve suavemente.
- Ele teve o treino da Marinha - disse Alice. - Nós não, nem tu nem eu, e perdemos o controle. Não foi, querida?
- Foi, foi - respondeu Neve, surpreendida. Sempre quisera falar acerca do Dia de Fred, e a mãe sempre se recusara. _ Ele é um descontrolado - disse Julian de um
modo desagradável. - A prova é o meu nariz torto. Como é que te sentiste lá em cima no avião?
- Assustada? - perguntou a mãe.
- Sim - disse Neve.
- Tenho a certeza absoluta de que o teu pai também estava assustado - disse Alice. - Embora ele nunca o mostre.
- Algumas pessoas vão-se abaixo depois de as coisas acontecerem
- disse Julian. - Quero dizer, quando não conseguem ajudar a mulher e a filha.
- Ele estava lá - disse Neve. - Ele apoiou-nos, não foi, mãe?
O peito de Neve doía-lhe. A garganta queimava-a.
A mãe baixou a cabeça. Quando voltou a levantá-la para olhar para o ecrã de televisão, abanou a cabeça. Os olhos tinham uma expressão triste, mas também um laivo
de raiva.
- Não, não, não apoiou. Neve começou a respirar com dificuldade. As patinhas do Dr. Darrow gatinhavam sobre a camisola e ficavam presas nos fios de lã.
- Meu Deus, Susan! - exclamou a mãe, pegando no gato. - Tu és alérgica a esse animal.
- Dê-mo cá - tentou Neve dizer.
- Que ridículo, deixá-la trazer um gato para casa - comentou Julian. - Não havia adultos naquela ilha? Tu tens uma doença respiratória grave.
- Dê-mo ... cá! - implorou Neve. A mãe entregou-lhe o inalador. Neve carregou na bomba e meteu-a na boca, estendendo a outra mão para agarrar o gato. A televisão
tornou a mostrar o despenhamento. O avião embateu violentamente no solo, espalhando a espuma por toda a parte. As chamas voltejaram numa dança louca. Hipnotizada,
a mãe entregou o gatinho a Neve. Julian suspirou.
- AINDA TE DóI Muito? - perguntou Wili.
- Estou melhor - respondeu Sarah, imóvel na cama. Estava a dizer-lhe a verdade? Olhando para ela, Will tentou adivinhar. Ela ainda não andara a pé. Estava com uma
bata azul do hospital, mas tão bonita que Will sentiu vontade de lhe pegar ao colo e a levar imediatamente para casa. Estar no hospital fazia-lhe nervos.
- Elas telefonaram-lhe? - perguntou Will. As enfermeiras precisavam da autorização do Dr. Goodacre, médico-chefe da equipa de Sarah, para lhe darem alta. Tinham-lhe
administrado Demerol para aliviar a dor. O radiologista dissera que ela tinha
um nervo comprimido. Sarah tinha febre por causa da inflamação.
- Chamaram-no.
- Quanto tempo é que ele costuma demorar? - perguntou WilI, sentando-se na beira da cama de Sarah e pegando-lhe nas mãos.
- Às vezes - disse Sarah, abraçando-o -, leva muito tempo. Ele é um homem muito ocupado.
- Também eu. Quero levar-te para casa - disse Wili, olhando-a direito nos olhos, que estavam demasiado brilhantes.
A porta abriu-se, e o Dr. Goodacre entrou com um ar atarefado. De fato escuro e gravata amarela, parecia um banqueiro.
- Dr. Goodacre! - saudou-o Sarah num tom de voz alegre.
- Sarah - cumprimentou ele.
- Apresento-lhe Will Burke - disse. - O herói! Tenho a certeza de que ouviu falar do despenhamento. Bem, Will foi quem ...
O Dr. Goodacre levantou as sobrancelhas. Não lhe estendeu a mão para o cumprimentar.
- Vou lá para fora - disse Will.
O Dr. Goodacre concordou com um aceno de cabeça, mas Sarah levantou a mão.
- Não, não vais - disse ela num tom de voz quase divertido.
Por favor, fica.
- Com certeza - disse WilI, chegando-se mais para junto dela.
- Sarah, vi as suas radiografias - começou o Dr. Goodacre.
- Desculpe forçá-lo a vir aqui por causa de um nervo comprimido
- disse Sarah. - O senhor tem mais que fazer, mas queria dizer-lhe que estava preocupada com o meu filho e acho que fiquei tão tensa ...
O Dr. Goodacre permaneceu ali, de braços cruzados, ouvindo-a ex
plicar-se. Will observou-o. Na relutância do médico em falar, Will percebeu um vislumbre de compaixão.
- A cintigrafia mostrou aquilo que temíamos - disse ele, pigarreando. - O tumor voltou.
O sorriso de Sarah não se alterou.
- Não - disse ela.
- Sinto muito, Sarah - disse o médico. - Tem de facto um nervo comprimido. É verdade. O tumor está localizado na região inferior da coluna.
- Metastizou-se - disse Sarah com olhos amedrontados.
O Dr. Goodacre acenou com a cabeça afirmativamente.
- Sinto muito - repetiu. Will levantou-se e encarou o médico olhos nos olhos, depois perguntou:
- O que é que fazemos?
O Dr. Goodacre olhou para Sarah.
- Nós já discutimos o caso.
- É como ... dissemos? - perguntou ela.
- Está disseminado. As radiografias mostram que invadiu o fígado e o sistema linfático. Gostava de fazer uma ressonância magnética para verificar se reapareceu no
cérebro.
- Mas o que é que fazemos? - perguntou Will novamente.
- Operação? - perguntou Sarah.
- Não, Sarah - disse o Dr. Goodacre, abanando a cabeça. - O tumor está demasiado espalhado. Está a crescer depressa, como uma videira, à volta da coluna.
- Está a dizer que não? - perguntou Will. - Ela quer que o senhor a opere, e o senhor está a recusar?
Sem responder, o Dr. Goodacre manteve-se imóvel. Will não queria acreditar. Apetecia-lhe atirar o médico contra a parede. A fechar a porta na cara de Sarah depois
de lhe dar uma notícia daquelas! Sentiu o coração a bater apressadamente. "Mantém a calma!", disse a si próprio.
Sarah tinha lágrimas nos olhos ao perguntar:
- Quanto tempo? Will ouviu-a, e a pergunta deixou-o sem respiração.
- Duas semanas - disse o Dr. Goodacre.
A NOITE FOI LONGA, parecia nunca mais ter fim. As enfermeiras iam e vinham e surpreendiam-se por encontrar Sarah acordada enquanto elas andavam a trabalhar. Deitada
na cama, Sarah cumprimentava- as. Elas baixavam a cabeça e sorriam.
Sarah pediu um copo de água. A enfermeira que lho trouxe pareceu-lhe conhecida.
- Não consegue dormir? - perguntou ela.
- Não, na realidade não - disse Sarah.
- Eu posso dar-lhe qualquer coisa para dormir - disse a enfermeira, consultando a papeleta. - O Dr. Goodacre apontou aqui.
Sarah queria manter-se o mais consciente possível.
- Não, obrigada - disse ela. - Posso perguntar-lhe o seu nome?
- Ali, é Louise. Hoje não encontrei a etiqueta com o meu nome.
Sarah sabia que chamar alguém pelo nome era das coisas mais importantes que as pessoas podem fazer. Faz que as pessoas se sintam ligadas. Lembrou-se de como pusera
o nome à sua primeira loja, em
Boston, uma única sala, de parede de tijolo e chão de tacos de madeira. Sarah entrara porta dentro e enchera a casa de sonhos. Visionando uma oportunidade de salvar
a quinta, uma maneira de fazer o pai feliz na terra e a mãe no céu, Sarah chamara à loja Sétimo Céu. Lembrava-se de desenhar o logótipo: um sete dourado desenhado
numa nuvem branca sobre um fundo oval e de cor azul, com pequenas penas brancas caindo à deriva como flocos de neve.
- Li a sua ficha - continuou Louise. Sarah engoliu em seco e baixou a cabeça. - É difícil Já falou com o seu oncologista, discutiu as
opções? Hoje em dia, faz-se muita coisa com a quimioterapia. Os resultados são cada vez melhores.
Sarah abanou a cabeça. Os remédios não podiam salvá-la do seu
próprio corpo. Sarah não queria ficar amarrada às máquinas, não queria participar em quaisquer experiências.
- Eu sempre achei que iria saber quando chegasse a altura.
- Saber o quê? - perguntou Louise gentilmente.
- Saber ... partir.
- Sim? Sarah baixou a cabeça afirmativamente. As lágrimas escorreram-lhe para dentro dos cantos da boca.
- Como é que eu parto? - perguntou. Estava a tremer, sentada junto daquela simpática desconhecida no quarto de um hospital onde toda a gente dormia. Louise segurou-lhe
a mão. Mordendo o lábio, Sarah sentiu o gosto a sal e a queimadura da dor quando ela surgiu. Pensou em Mike e em Will.
WILL NÃO DORMIRA. Só conseguia pensar em Sarah, sozinha no hospital. Will quisera ficar com ela, e ficara sentado na beira da cama até ao fim da hora da visita.
A enfermeira hesitara, sem saber se devia mandá-lo embora. Will teve vontade de perguntar: "Não viu a papeleta de Sarah? Não nos resta tempo suficiente para eu poder
ir-me embora." Mas as regras tinham que ser cumpridas.
Will levantou-se com a alvorada. Dorido por causa do acidente, ficou debaixo do chuveiro até as maleitas escorrerem do seu corpo. Uma queda de avião? Esquecera tudo
isso. Só conseguia pensar em chegar ao hospital e convencer Sarah a mudar de ideias. Duas semanas não eram suficientes, precisava de muito mais tempo com ela. Podiam
passar os quarentas, os cinquentas, os sessentas e os setentas juntos se ela tivesse saúde.
Enquanto se limpava, olhou para o relógio: eram quase 6.30. Fez café e bebeu-o na mesa da cozinha. A cozinha era pequena, impessoal. Quando se mudara para aquele
apartamento, não se interessara muito
com o arranjo. Sarah havia de encarregar-se disso.
Verificando novamente as horas, viu que as 7 se aproximavam vagarosamente. Faltavam três horas para poder visitar Sarah. A notícia do acidente de avião teria chegado
à ilha do Alce? Precisando de algo que o ligasse a Sarah, estendeu a mão para o telefone e ligou para a família dela.
Ao SAIR PARA a escola naquela manhã, Neve não se apercebera de que só tinha aulas de manhã. Os professores tinham reuniões para discutir os índices de leitura em
todos os estados do país, por isso a escola fechou antes da hora do almoço. Atravessando a povoação na sua bicicleta, Neve perguntou a si própria a razão por que
se teriam dado ao trabalho de abrir sequer a escola.
Todas as lojas tinham decorações de Natal. Havia coroas e grinaldas por todo o lado e luzes brancas a piscarem. Estacionando em frente da Loja de Acolchoados Sétimo
Céu, Neve espreitou para a janela escura. Nem luzes nem grinaldas. Neve ficou surpreendida; pensava que Sarah iria começar imediatamente com as decorações de Natal.
Ainda estaria no hospital? Alguém colara um papel no lado de dentro da janela:
A Loja de Acolchoados Sétimo Céu vai fechar até à segunda-feira seguinte ao Dia de Acção de Graças. Até lá, durmam quentinhos e tenham sonhos cor-de-rosa!
Neve franziu o sobrolho. Sarah escrevera aquele aviso antes de irem para a ilha do Alce, o que significava que ainda estava no hospital. As costas dela estariam
assim tão mal? Neve ficara com algumas equimoses, mas nada de sério. De repente, teve um pressentimento horrível: e
se a doença de Sarah tivesse reaparecido? Saltando para cima da bicicleta, pedalou até casa o mais rapidamente que pôde.
Subindo a colina de Windermere, Neve pediu a Deus que tudo estivesse bem. Todas as suas inseguranças se acumularam, enchendo-a de tanto medo que quando chegou lá
acima se deixou cair encostada à porta da rua. Procurou o inalador e utilizou-o.
- Vieste cedo - comentou a mãe.
Olá ... mãe - disse Neve, sufocada. - Reuniões de professores. A mãe ficou ali, de braços cruzados sobre o peito. Neve tentava respirar normalmente, queria contar
à mãe a razão por que estava tão assustada. Pressentindo que ela não gostava de Sarah, não quis ser precipitada.
- Mãe, sabe quem é Sarah Talbot? Estou um bocado preocupada com ela. Não está na loja. Acha que está no hospital?
- Paraste na loja dela a caminho de casa? - perguntou a mãe, franzindo o sobrolho. - Pediste-me licença? Susan, quando é que vais aprender que tens de me dar conhecimento
dos sítios aonde vais? Deus do céu! Se tivesses um acidente ou se alguém te atacasse ... Vais ficar de castigo sem sair, Susan. Eu ia esperar por Julian, mas parece
que esta é a altura própria.
- Eu, castigada?
- Fazes ideia de quanto me preocupaste quando não regressaste a
casa na quarta-feira passada? - perguntou a mãe com o rosto a corar.
- E depois receber um telefonema do New Hampshire a dizer que ias a
caminho de uma ilha com uma família que eu nem sequer conheço? _ Conhece o pai - disse Neve.
A mãe abanou a cabeça.
- Não te armes em esperta, vai para o teu quarto e pensa nisto. Não te estou a castigar por gosto. Amo-te mais do que a tudo, Susan. E Julian ...
- Nem diga isso - disse Neve, voltando as costas e afastando-se.
- Digo sim. Julian é teu padastro, é meu marido. Tu podes não gostar dele, mas ele interessa-se por ti.
- Aaaa! - disse Neve em tom de queixume, pondo as mãos nos ouvidos.
- Interessa-se! Sabes como tem sido difícil para nós? Ele é teu padastro, querida, pode não ser perfeito, mas esforça-se por lidar bem contigo. Sabes o que é que
ele disse do gato? "Deixa-a ficar com ele", foi o que ele disse. Deu-me uma fúria por ele não tomar o meu partido.
- O Dr. Darrow? - perguntou Neve com os nervos à flor da pele.
- Onde está ele?
- Levei-o para o depósito dos gatos - disse a mãe. - Tu és alérgica a ele. Não podes ter um gato, sabes que não podes ...
- No depósito dos gatos?
As palavras dilaceraram o peito de Neve. Não quis ouvir o resto. Subindo as escadas a voar, correu para dentro do quarto.
SARAH ESTAVA à espera. Em tão pouco tempo, já se habituara a contar com Will. Quando ele entrou, ela estava deitada e suspirou.
- Olá - saudou ele, sentando-se na cama.
- Olá, Will - respondeu Sarah.
- Como estás? Continuas com muitas dores?
- Não. - Estava a ser medicada para elas.
- Falaste com o médico?
- Falei. Ele esteve aqui hoje de manhã, eu fiz a ressonância magnética e acho que ele volta cá mais logo. Tive saudades tuas.
- Oh, meu Deus, eu tive tantas saudades tuas! - disse WilI, dando-lhe um abraço apertado.
Sarah fechou os olhos. Não queria que ele a largasse.
- Telefonaste a Mike? - perguntou Will.
- Cchh ... - disse Sarah, abraçando-o com mais força.
- É que eu telefonei. Sarah abriu os olhos subitamente.
- Não... lhe disseste?
- Disse.
- Will! - disse Sarah, esforçando-se por se sentar na cama.
Diz-me que estás a brincar.
- Porque é que havia de estar a brincar, Sarah? Eu ...
- Não foste dizer a Mike uma coisa destas! Eu não quero afugentá-lo precisamente quando ele começou a aproximar-se.
- Ele queria vir - disse Will. - Para te ver.
- Queria? Vir a Fort Cromwell? - perguntou Sarah com os olhos a encherem-se de lágrimas. - Mike? - Era o que ela mais queria.
- Sim, e o teu pai também.
- Oh, Will - disse Sarah. Mal conseguia imaginar tal situação. Mike de regresso a casa e alguma coisa a fazer o pai sair da ilha.
- Se tu quiseres que eles cá venham, Sarah, eu vou lá buscá-los. Mas eu estava a pensar noutra coisa.
- Em quê?
- Sei que estás com dores, sei que seria muito pedir-te para ficares lá à espera o tempo que fosse necessário, mas se tu quisesses, Sarah, eu gostava de levar-te
para casa.
UMA HORA DEPOIS, a Dra. BoswelI, a oncologista, deu a sua concordância e aumentou a dose de medicação, mudando para morfina porque
as dores podiam agravar-se na viagem. Will era um homem com uma missão. Recebeu instruções da médica, telefonou a Meg Ferguson e ela apareceu, dando-lhe vários conselhos
enquanto as enfermeiras do hospital preparavam Sarah para o voo.
- Não se preocupe se tiver de lhe dar demasiados remédios - disse Meg a chorar. - Se ela pedir, dê-lhos. Quando chegar à ilha, têm lá uma enfermeira?
- A tia de Sarah está a tratar disso. Ela telefonou para uma casa de saúde no Maine, e eles estão a preparar tudo.
- Muito bem. Você sabe o que vai acontecer, WilI, não sabe?
- É claro que sei, Meg. - respondeu Will pacientemente. A voz de Meg tinha um tom autoritário e duro, mas ela estava a limpar os olhos.
- Bolas, Wili! Eu pensei que ela ia ficar boa.
- Também ela pensou.
- Trago isto comigo há um mês - disse Meg, metendo a mão na carteira e tirando de lá uma fotografia. - Tenho andado com intenção de a dar a Sarah. - Entregou-a a
Will. Era a fotografia de Sarah e Will juntos, na feira, perto do quiosque dos cachorros quentes. Estavam a
abraçar-se como duas pessoas que se amavam e não se viam há muito tempo, e a expressão do seu próprio olhar espantou Will. Já naquela altura parecia tremendamente
enamorado. - Foi Mimi quem a tirou
disse Meg.
Will olhou para a fotografia.
- Posso ficar com ela? - perguntou.
- Com certeza - disse Meg.
- Que mais é que preciso de saber? - perguntou Will. Estavam no
corredor do hospital, e ele tinha os olhos na porta de Sarah, à espera de que a enfermeira saísse e dissesse que ela estava pronta.
- Que não vai ser fácil - respondeu Meg.
- Vou perder Sarah - disse Will com uma dureza na voz que de repente se assemelhava à da enfermeira. - Também não quero que seja fácil, Meg.
A CAMINHo do aeroporto, Sarah olhou para Will.
- Queria despedir-me de Neve. Estavam parados no sinal vermelho, e Will pegou-lhe nas mãos. As
drogas estavam a actuar. Sarah tinha de se esforçar para conseguir ver bem.
- Ela havia de querer ir connosco - disse ele.
- Eu sei, mas tenho de dizer-lhe adeus.
- Sarah! - disse Will. - A viagem já vai ser bastante difícil. Vê-Ia vai perturbar-te. E vai perturbá-la a ela.
- Por favor, Will - pediu Sarah com falta de forças para argumentar. - Lembra-te de que ela não pôde despedir-se de Fred. Pensa como
ela ia sentir-se ...
- PAi! - gritou Neve, entrando precipitadamente na biblioteca
Eles levaram o Dr. Darrow para o depósito dos gatos!
- Querida! - disse o pai, interrompendo-a. Pôs as mãos nos ombros de Neve e olhou-a bem nos olhos.
- O que é, pai? - Só então Neve viu Sarah sentada no sofá de veludo cor de vinho, por baixo do retrato do avô de Julian. Neve atravessou a sala. - Olá, Sarah!
- Olá, Neve.
- Estamos outra vez juntas - disse Neve, radiante. Julian e a mãe estavam ali com ar pesaroso. O pai estava muito sério.
- Estamos - disse Sarah, sorrindo.
- Ouviu o que eu disse do Dr. Darrow? - perguntou Neve, baixando a voz. - A minha mãe acha que eu sou alérgica a ele, mas não
SOU.
- Susan, tu tens alergias terríveis - disse Julian com o tom de voz de quem é dono da casa. - Todos nós sabemos isso.
- O teste dela não deu positivo relativamente a gatos - disse o pai. - Eu não a teria deixado trazer um gato para casa se ela fosse alérgica.
- Eu vou lá buscá-lo - disse Neve a Sarah, como se quisesse garantir-lhe que o gatinho da ilha do Alce ia ser devidamente amado, apesar do acidentado trajecto até
casa.
De repente, ocorreu a Neve que era extraordinário que todos os
adultos da sua vida estivessem juntos naquela sala. Sorrindo, olhou Sarah nos olhos e começou a rir.
- Isto não é estranho? - perguntou.
- Não acho - disse Sarah. - Estamos aqui por tua causa.
Neve compreendeu que alguma coisa se passava.
- Não é por causa do Dr. Darrow, pois não? - perguntou, sentando-se ao lado de Sarah.
Sarah abanou a cabeça. Pela primeira vez, Neve reparou como ela estava pálida.
- Então, o que é que se passa?
- Vim despedir-me de ti - disse Sarah.
- Onde é que vai?
- Vou voltar para a ilha e ...
O pai de Neve deu um passo em frente e acrescentou:
- Comigo.
- O quê? - perguntou Neve, olhando à volta da sala. - Posso ir?
Tenho de ir. Se vocês vão, eu também vou. Mãe, diga ao pai que me
deixa ir ...
Sarah colocou a mão sobre o pulso de Neve.
- Não, Neve, não podes.
- Porquê? Porque é que vai para lá?
- Susan ... - disse a mãe de Neve com voz fina. Julian pôs-lhe o
braço por cima dos ombros.
- Estou outra vez doente - disse Sarah.
- Não! - disse Neve, levando as mãos à boca.
- Eu quero estar com Mike, e o teu pai vai levar-me.
- Isso não é justo! - disse Neve. Sarah foi a única que percebeu o que a garota queria dizer. Neve não estava a referir-se à ida para a ilha. Ela queria dizer que
não era justo que Sarah estivesse doente. Mais uma vez, Sarah estendeu-lhe a mão.
O cabelo dela, louro-esbranquiçado-iridescente, tinha um aspecto óptimo.
- O seu cabelo está lindo - disse Neve, entrelaçando os dedos nos
de Sarah.
- Obrigada. Neve baixou a cabeça.
- Vou voltar a vê-Ia? - perguntou ela em voz tão baixa que só Sarah ouviu.
- Acho que não - disse Sarah. Neve baixou a cabeça, mostrando ter compreendido. Com os olhos
fechados, saboreou a presença de Sarah. "Está mesmo aqui!", pensou. "Vai partir daqui a pouco, mas por agora está mesmo aqui." Neve nunca tivera aquela oportunidade
com Fred.
- Eu tenho umas coisas do meu irmão - disse, apertando com
mais força a mão de Sarah. - Umas meias dele, por exemplo.
Sarah acenou com a cabeça.
- Os nomes têm sido importantes - continuou Neve em voz firme. - Para me lembrar dele. Ele gostava de neve.
_ Eu sei.
- Tenho andado a pensar que nome hei-de arranjar a seguir. Tem que começar pela letra S porque me dá serenidade. Tenho andado a
pensar em "Sarah" - disse Neve, apertando com força as mãos de Sarah. - Sei que nunca conheceu Fred, mas é como se tivesse conhecido. Quando vimos aquela baleia,
quando eu disse que tinha asas de anjo, a Sarah percebeu que eu estava a falar de Fred. _ Percebi - confirmou Sarah, apertando-lhe as mãos com igual firmeza.
- A Sarah teria gostado de Fred - disse Neve.
- Com certeza que teria.
- Não fique doente, Sarah. - Mal as palavras lhe saíram, fizeram-na começar a chorar.
- Eu adorei aquela baleia - sussurrou Sarah, acariciando a cabeça de Neve, que chorou muito durante alguns minutos.
- Quero chamar-me "Sarah". É o seu nome, mas também se relaciona com Fred.
- Sinto-me honrada - disse Sarah. - Mas que tal se, em vez desse nome, arranjasses outro?
- Por exemplo?
- Por exemplo, "Susan" - sugeriu Sarah.
- Susan? - perguntou Neve de olhos esbugalhados.
- É um lindo nome - disse Sarah.
- Mas não chega, não me faz recordar ninguém.
- Fred conhecia-te como "Susan" - argumentou Sarah baixinho.
- Mas eu tenho saudades dele - disse Neve com uma cara de sofrimento. - E, Sarah, vou ter saudades suas.
- Oh, eu sei - disse Sarah, sorrindo. - Foi por isso que quis ver
-te, porque também vou ter saudades tuas.
Baixando a cabeça, Neve mordeu o lábio. Os olhos de Sarah brilhavam, e Neve desejou que aquilo durasse para sempre. Mas quando levantou a cabeça, as nuvens tinham
voltado. Apenas algumas, à distância, lá no fundo dos seus olhos azuis e brilhantes.
- Temos de ir - disse o pai, estendendo-lhe a mão. A mãe de Neve deu um passo em frente e estendeu-lhe também a mão, dizendo:
- Querida? - Não tinha qualquer ciúme nos olhos pelo facto de Sarah estar ali. Não estava zangada com Will por ter criado aquela situação. Nem sequer qualquer insegurança
relativamente a Julian. Tinha apenas amor, puro e simples, pela sua única filha.
Um sensação de paz apoderou-se de Neve. Olhando para os olhos de Sarah, ela viu a ilha do Alce: a baía escura, as luzes setentrionais, Mike.
O grande relógio do hall de entrada bateu as horas: catorze zero zero horas.
- Querida? - repetiu a mãe.
- O meu nome é Susan - disse Susan baixinho, dando um último abraço a Sarah, provavelmente o melhor abraço da sua vida, antes de largar as mãos dela e permitir
aos pais que a ajudassem a levantar-se.
c
ASA. A palavra deu alento a Sarah, deu-lhe um objectivo, preencheu-lhe o espírito durante toda a viagem desde Fort Cromwell até à ilha do Alce. As drogas atordoavam-na.
As enfermeiras do hospital tinham-lhe colocado no braço um pequeno dispositivo para administração intravenosa escondido debaixo da manga. Meg injectara-a com morfina,
e quando as dores voltavam, Will fazia o mesmo. "Casa", pensava Sarah, "a minha casa."
- Estamos quase a chegar? - perguntou ela, ouvindo a sua própria voz. Tinha uma mão sobre o joelho e a outra sobre a janela fria. Sentia o frio nas pontas dos dedos,
mas não tinha dores nas costas nem em qualquer outra parte. _ Sim, Sarah - respondeu Will. A voz ressonante dele misturava-se com o barulho do motor de uma forma
que lhe lembrava sonhos e
filmes estranhos da década de 60. Sarah estava drogada, era por isso. Andava alta que nem um papagaio de papel.
- Isto tem de parar - disse ela.
- O quê? - perguntou Will. Pela maneira rápida como ele voltara a cabeça, Sarah percebeu que o alarmara. Nem sentia a cabeça, estava envolta em nevoeiro. Sentia
a língua espessa e as pálpebras pesadas. O mar já estava à vista, mas ela encontrava-se demasiado insensível para se importar com isso.
- As drogas - declarou.
- Sarah, vais ter muitas dores - disse Wili.
- Quero estar consciente - respondeu ela. Will não concordou nem discordou. Limitou-se a continuar a pilotar
o avião.
TINHAM PREPARADO uma comitiva de recepção a Sarah. Will aterrou tão suavemente quanto conseguiu, sabendo que a medicação devia estar
a perder efeito rapidamente. Estavam lá George e Bess, de expressões sombrias. Mike também, muito quieto, sem chapéu e tentando sorrir. Ao lado dele encontrava-se
uma enfermeira impassível, de casaco azul-escuro por cima da bata branca, com as mãos nas pegas da cadeira de rodas.
Ao ajudar Sarah a sair do avião, Will sentiu os braços dela à volta do pescoço e a sua respiração sobre o rosto. Quando a baixou para a colocar na cadeira de rodas,
beijou-lhe o cabelo.
- Sarah - disse George com um tom de voz muito solene e um rosto que parecia ter mais de cem anos.
- Pai! - respondeu ela. - Tia Bess, olá!
- Sarah, minha querida - disse a tia Bess, baixando-se para a abraçar.
Quando a tia se endireitou, Sarah sorriu a Mike.
- Que bom estares aí - disse.
- Olá, mãe! - respondeu ele. Não avançou, franzindo o sobrolho com ar tímido. Will sentiu vontade de lhe dar um empurrão. Sarah abriu os braços. Relutantemente,
Me curvou-se, mas pouco depois o abraço dele tornou-se genuíno, e Will viu que ele não queria largar a mãe.
- Que remédios é que ela está a tomar? - perguntou a enfermeira a Will. Tinha cerca de cinquenta anos, era baixa, robusta e de cabelo grisalho.
- Não quer tomar nenhuns - disse ele. A enfermeira inclinou-se para Sarah.
- Chamo-me Martha. Se precisar de alguma coisa, gostava que me dissesse.
- Ah, a enfermeira ao domicílio - disse Sarah com olhos confiantes.
- Quer tomar algum remédio? - perguntou Martha.
- Não quero mais remédios - respondeu Sarah claramente, olhando a direito para Martha, julgando que a enfermeira ia tentar demovê-la.
-Há muitas pessoas que resolvem não tomar - assentiu Martha.
- Tens a certeza, minha querida? - perguntou Bess.
- Tenho a certeza - respondeu Sarah, e Will viu-a olhar para o filho.
A CASA ESTAVA como a tinham deixado uns dias antes. Sarah deitou um olhar à cozinha. O fogo crepitava. Os gatos dispersaram quando a porta bateu e entraram todos.
- Gostava de me deitar - disse Sarah.
Mike agarrou nas malas da mãe. Will levantou Sarah nos braços. Os remédios já tinham deixado de produzir efeito, e o corpo dela estava vibrante de dores. Em contrapartida,
mantinha-se completamente alerta. Sentia o cheiro da sua infância por todo o lado. A tia Bess lavara as janelas, que brilhavam. Gelsey saltava para cima de Martha.
Mike estava assustado. Isso percebia-se no seu olhar cabisbaixo. Foi ele que seguia à frente da procissão que subiu as escadas para levar Sarah ao quarto.
- Este quarto não. Aquele - pediu Sarah, apontando para o quarto que Will ocupara durante os feriados de Acção de Graças, o quarto onde a mãe morrera.
- Eu posso ficar no teu antigo quarto - disse Will.
- Fica comigo - disse Sarah. - Fazes-me esse favor, Will? Will apertou-a gentilmente, sem a magoar. Mike puxou para trás as roupas da enorme cama. Will deitou Sarah
carinhosamente, acomodando-lhe as pernas debaixo do lençol e da colcha. Deu um passo atrás, e Sarah viu o rosto do filho.
Os olhos dele estavam apavorados.
- Vem cá! - disse a mãe, dando pancadinhas na cama ao lado dela.
Cuidadosamente, Mike baixou-se para se sentar na beira da cama. Era grande, um homem feito. Sarah não se habituava à ideia! Deu-lhe vontade de rir.
- O que é que foi? - perguntou Mike, ofendido.
- Estou feliz.
- Como é que pode? - perguntou ele com voz rouca e expressão magoada.
- Estou contigo.
- Isto aconteceu... - começou ele, quase incapaz de falar - porque eu não voltei para casa consigo? Foi por isso que ficou outra vez doente.
Sarah abanou a cabeça. Sempre quisera ver o filho bem encaminhado, mas não sabia qual seria o caminho. Agora, sabia. Sentia-se orgulhosa dele.
- Não, Mike. Tu é que tinhas razão: a nossa casa é aqui. - E depois sentiu-se tão cansada que adormeceu.
DURANTE A NOITE, Martha foi verificar o estado dela. Era Martha ou a sua mãe? A dor fazia coisas misteriosas. Fazendo um esgar enquanto dormia, Sarah sentiu a mão
fria na sua testa quente. Uns dedos esguios acariciaram-lhe a cabeça.
- Dói! - gritou Sarah.
- Eu sei, querida - disse a mulher. Lá fora estava lua cheia. Brilhava sobre a neve acabada de cair, tornando prateado o trilho que levava até à baía escura. Rastos
de fogo verde-dourado brilhavam no mar. O pinheiro que Sarah decorara para a mãe crescera. Mas brilhava, com luzes de velas desde o topo até abaixo, decorado de
novo. As dores eram insuportáveis. Estendiam os seus tentáculos, estrangulando-lhe os ossos e os orgãos num aperto de morte.
- Por favor, pare com isto - pediu Sarah, chorando e agarrando a mão suave da enfermeira.
- Está bem, querida. Vou fazê-las parar - prometeu a enfermeira.
QUANDO WILL subiu as escadas depois do jantar, encontrou Sarah junto da janela. Estava de camisa de noite branca a olhar na direcção do mar. Vendo-a de pé, ele ficou
espantado e parou à porta.
- Sarah? - perguntou. Sarah voltou-se, tão bonita como da primeira vez que a vira. A pele dela brilhava. Durante um instante, vendo-a à luz da Lua, pensou que estava
a ver um fantasma. Mas Sarah dirigiu-se a ele, comprimiu o corpo quente contra o seu e beijou-o com paixão humana.
- As dores desapareceram. Não sei porquê, mas desapareceram. Levando-o até à cama, ela empurrou-o gentilmente para baixo. Despiram-se, primeiro devagar e depois,
quando Will se sentiu mais confiante de que não ia magoá-la, com maior premência. A pele de Sarah estava quente. Puxou-o mais para si, e Will entregou-se a Sarah,
tudo o que sentia, desde o mais fundo do seu coração.
Quando um deles começava a cair no sono, o outro sussurrava o seu nome.
- Will - disse Sarah.
- Olá - disse WilI, completamente desperto de novo. No andar de baixo, o relógio bateu as 4. Tinham-se conservado acordados um ao outro toda a noite.
- Não consigo dormir - disse ela. - Não quero dormir.
- Eu também não - respondeu Will. Não queria perder um minuto.
- WilI, tive um sonho estranho em que entrava a minha mãe. Parecia tão real ... Martha veio cá acima?
- Uma vez ou duas - disse WilI, acariciando-lhe o cabelo. Sarah parecia contente e livre de preocupações, como se já não estivesse doente. _ Talvez fosse Martha
- disse ela -, mas acho que não. Penso que era a minha mãe.
- Talvez fosse - disse Wili. Sarah sentia-se tão bonita nos braços dele, tão quente e sonolenta! Juntando-se mais a ele, beijou-o no ombro.
Will recordou-se de quando a vira pela primeira vez. O voo de aniversário sobre as colinas, no Outono. Teria percebido na altura que já a
amava? Quase parecia possível ter sido amor à primeira vista. Empurrando as roupas da cama para trás, ele tomou-a nos braços.
- Consegues levantar-te?
- Consigo, porquê? - perguntou ela. Saltando da cama, Will puxou a colcha. Manteve Sarah perto dele, embrulhando os dois com a colcha. O coração dele batia rapidamente
quando a levou até à janela. Juntos e silenciosos, ficaram ali, sentindo o
ar fresco à sua volta.
- É tão bonito! - sussurrou ela, olhando para o caminho prateado da Lua sobre a baía azul-negra.
- Tu é que és linda - disse ele. - Sarah Sarah olhou para ele com os olhos muito abertos e cintilantes. - Casas comigo? - perguntou ele.
- Oh, Will ...
- Na capela da ilha. Hoje. Casas?
- QUEM ME DERA estar lá! - sussurrou Susan, demasiado desgostosa para falar em voz normal.
- Eu sei que gostavas - assentiu a mãe.
- Nós estamos contentes por estares aqui - disse Julian. Estava a esforçar-se tanto por ser amável que ela nem sequer se pôde dar ao luxo de lhe atirar um olhar
de ódio. Estavam todos sentados à mesa do pequeno-almoço, olhando para as tigelas de papa de aveia sem comerem. A ursinha bebé, a mãe ursa e o desajeitado padrasto
urso! Susan olhou para o relógio.
- Tenho de ir para as aulas - disse.
- Bem, não, não tens - disse Julian.
- Hoje não queremos que vás às aulas - disse a mãe baixinho.
- Porquê? - perguntou Susan com um nó no estômago.
Tiveram notícias de Sarah?
- Não - assegurou Julian. - Ter-te-íamos dito se tivéssemos.
- Marcámos uma consulta para ti - disse a mãe. - No Dr. Darrow.
- Por favor, não! - disse Susan, horrorizada, a imaginar aqueles gémeos assustadores e as fotografias da família Darrow penduradas na parede.
- Tenho andado um pouco cega - disse a mãe.
- A tua vinda para aqui - disse Julian. - Arranjares um padastro. Sabemos que nem tudo tem sido fácil.
- Tudo? Experimente dizer nada - resmungou Susan. - Não sabe nem metade. - Dentro de dez segundos, ia voltar a chamar-se Neve. Ou talvez Granizo.
- Então, conta-me - disse.
- MDF, divórcio, um gatinho que foi para o depósito dos gatos.
- O que é que quer dizer MI)F? - perguntou Julian, extremamente sério.
- Morte de Fred - respondeu Susan.
- Quem me dera tê-lo conhecido - disse Julian.
- Muitas pessoas sentem o mesmo - comentou Susan a olhar para as meias. Eram as meias que Fred costumava usar com os jeans pretos.
- Aquele gatinho era muito engraçado - disse Julian.
- O Dr. Darrow - disse Susan amargamente. - Eles mostraram confiar em mim quando mo ofereceram. A tetravó dele chamava-se Desdémona.
- Boa linhagem - disse Julian, mexendo a papa de aveia.
- Talvez tenhamos sido precipitados - disse a mãe. - O teu pai tem razão. Os teus testes de alergia não foram positivos relativamente a gatos.
- Quer dizer que posso reavê-lo? - perguntou Susan, levantando a cabeça precipitadamente.
- Sim - respondeu a mãe, baixando a cabeça.
- Oh, mãe, obrigada - disse Susan.
- Não tens de quê, querida.
- Podemos ir já? - perguntou Susan, levantando-se de um salto.
- A caminho do verdadeiro Dr. Darrow - disse a mãe, sorrindo.
- Oh, não! Vai obrigar-me a ir? A mãe fez um gesto de cabeça afirmativo.
- Se a tua mãe diz, tens de ir - disse Julian, colocando o braço cautelosamente à roda dos ombros dela. - Mais vale vestires o casaco.
SARAH ACORDOU. Estava a meio de um pequeno milagre e tinha consciência disso. Era o dia do seu casamento. Will acordara há uma hora, se é que chegara a adormecer
completamente. Beijara-a e descera as escadas para preparar tudo. Espreguiçando-se, Sarah testou o corpo. As dores não tinham voltado. Dirigiu-se para a janela,
e a cada passo teve consciência: "Vou morrer hoje."
O esplendor da véspera tinha desaparecido, e o céu parecia suficientemente baixo para ser tocado. Era um céu de neve, as nuvens pareciam uma renda. Quando ouviu
bater à porta, Sarah voltou-se. A tia Bess abriu a porta ligeiramente. Quando viu que Sarah estava levantada, entrou no quarto com uma grande caixa.
- Sarah - disse ela com o rosto corado. - Quando Will nos deu a notícia, eu nem queria acreditar. Mas estamos tão felizes! Todos nós.
Pousou a caixa na cama.
- Obrigada, tia Bess - disse Sarah, deixando a tia abraçá-la.
- Will é um amor - disse a tia Bess. - Eu adoro-o.
- Eu também - disse Sarah.
- Esperei muito tempo por este dia - disse a tia Bess, dirigindo-se à cama e abrindo a caixa. - A tua mãe estava tão bonita - acrescentou, tirando da caixa um vestido
de cetim branco.
Sarah ficou boquiaberta. Tocou no tecido do vestido de casamento da mãe. Sentiu na pele a suavidade do cetim branco.
- Espero que me sirva - disse ela baixinho, encostando o vestido
ao corpo magro.
- Vai servir - disse a tia Bess.
- Tia Bess, as minhas dores desapareceram - disse Sarah subitamente.
- Eu sei, querida.
- O que é que acha que isso significa? - perguntou Sarah.
- Significa que tens uma coisa importante para fazer.
OS GANSOS grasnavam e bamboleavam-se pelo pátio. George e
Mike estavam junto do jipe, com as roupas de ir à missa, esperando por Sarah, Bess e a enfermeira. Will chegou também. Parecia um jovem cadete com o seu blusão de
aviador.
- Pensou bem nisto? - perguntou George.
- Muito - disse Will.
- Não o tempo suficiente para pensar em trazer um fato - disse George, engelhando os olhos.
- Tinha outras coisas que pensar quando partimos de Fort Cromwell.
- Ela é a minha filha única - explodiu George.
- Avô! - argumentou Mike. - Ela quer casar com ele.
- Sim, está bem - disse George bruscamente. - Mas o gosto dela em homens nem sempre foi grande coisa. Agora, você aterra nas
nossas vidas e fica tudo de pantanas.
- O que é que está de pantanas? - perguntou Will.
- Bem, você quase a matou naquele desastre.
- Foi uma falha mecânica. O trem de aterragem não funcionou.
- Não faz a revisão aos seus aviões? - perguntou George.
- Faço a revisão aos meus aviões, George. Desculpe, está bem?
- Não, não está bem. Você acha que uma simples desculpa vai compensar tudo?
- O desastre de avião e que mais?
- Ela ficou doente outra vez - gritou George. - É isso! Will ficou silencioso. George conseguira chocá-lo.
- Ela enervou-se muito - disse George, sucumbindo. - Foi o que aconteceu. O sistema dela não aguentou. - Voltou as costas para os outros não o verem a chorar. Perdera
Rose da mesma maneira. Tentara mantê-la sossegada, livre de emoções, mas não, ela quisera continuar envolvida em todas as coisas.
- George, ouça uma coisa - disse WilI, de pé, atrás do ombro esquerdo de George.
- O que é? - respondeu George com brusquidão.
- Há uma coisa que eu me esqueci de pedir. George recompôs-se, voltou-se e baixou a cabeça numa espécie de assentimento. _ George, queria pedir-lhe a mão da sua
filha em casamento.
Ali, com os pés enterrados na neve, George olhou para o céu a piscar os olhos. A maldita neve estava a começar a cair.
- Por favor, George! - pediu Will em tom suave. Vagarosamente, George baixou a cabeça.
- Sim - assentiu. - Dou-lhe a minha bênção para casar com Sarah.
- Eu amo a sua filha. George olhou de soslaio para Will Burke.
- Eu sei que ama, meu filho - ouviu-se George a dizer. Puxou o futuro genro, e estava precisamente a dar-lhe um abraço com palmadinhas nas costas quando a porta
se abriu e Sarah saiu. Will estava a chorar, e George não o deixou virar-se.
Afinal de contas, dá azar ver a noiva antes do casamento.
Ao ATRAVESSAREm a ilha, a neve tombava violentamente. A igreja de pedra escura ficava à beira-mar, e a coroa verde ainda estava na porta. George levou Will para
dentro da igreja. Bess tinha feito tudo para assegurar que ele fosse sentado à frente no jipe e Sarah no banco de trás, onde ela estava agora, ao lado do filho,
à espera que os outros entrassem.
- A mãe sente-se bem? - perguntou Mike. - Está bem agasalhada?
- Estou - respondeu ela, embora estivesse a tremer.
- Ainda há bocado vim aqui ligar os aquecedores.
- És muito previdente - disse Sarah, voltando-se e sorrindo. Mike encolheu os ombros. - Neve queria vir. Sei que ela gostava de ter notícias tuas.
- Sou capaz de lhe telefonar. Sarah assentiu com um aceno de cabeça.
- Ela gosta de ti - disse, pensando que o que lhe doía era isso: o facto de não poder saber o que viria a acontecer. Não ia poder ver Mike fazer os dezoito anos;
não ia ficar a saber se ele voltaria a frequentar a
escola. Se ele se apaixonasse por Susan, não ia estar por perto para assistir. - Mike! - disse ela, olhando para ele.
- Sim, mãe?
- Querido, eu quero ...
- Eu sei, mãe.
- Não. Quero que tu ... sejas feliz - conseguiu ela articular. Mike ficou com ar preocupado. O rosto de Sarah revelava tudo, sempre revelara. Vestira-se para o
casamento, maquilhara-se um pouco, mas o rosto não disfarçava o que estava a acontecer.
Mike deu a volta até ao outro lado do jipe e ajudou-a a sair. Subiram o caminho de pedra. Parando nos degraus da igreja, Sarah abraçou o filho. Ele recebeu-a nos
seus braços fortes, segurando-a com firmeza.
- Mike, vais falar... - Algo nos olhos dele a incitou a terminar a pergunta. - Vais falar de mim aos teus filhos?
- Oh, mãe - respondeu ele, esforçando-se por sorrir -, olhe onde eu estou! Estou na ilha do Alce. É onde quero estar e é por sua
causa, mãe. Aqui é a nossa casa. - Apertou-a de encontro a si e depois agarrou-a pela mão. - Venha! - disse em voz rouca, mas com delicadeza. - Vamos entrar.
Abriram a porta. Ao entrar, Sarah susteve a respiração. Ali estava ele, WilI, junto do altar. Tinha uns ombros tão largos que mal cabiam dentro do blusão. Estava
ligeiramente inclinado para a
frente com ar ansioso.
O reverendo Dunston também lá estava, paramentado de preto e
roxo, e sorriu. A tia Bess e Martha encontravam-se sentadas na fila da frente, radiantes. O pai de Sarah saiu das sombras e ofereceu-lhe o braço esquerdo.
- O vestido de Rose - disse ele baixinho, inclinando a testa para tocar na dela. - Estás pronta, minha querida?
- Sim, paizinho.
- Bem, mãe - disse Mike. - Cá vamos nós. A música era de Bach. Antiga e esplendorosa, as notas altas e agudas provinham de um velho gravador. As velas enchiam a
igreja, e o seu cheiro misturava-se com o do incenso. Só por milagre Sarah chegara ali. Estava tão perto do fim que não podia ir muito mais além.
Os olhos dela não largavam os de Will. Muito devagarinho, Sarah começou a avançar por entre os bancos.
O pai e o filho iam a seu lado, e os braços dela solidamente sustentados por ambos.
Amor. Sarah Talbot sentia-o com todo o seu coração. As velas cintilavam em seu redor. Uma luz esbatida de neve entrava através dos vitrais azuis, e os santos observavam
a cena. Sarah tinha dois homens fortes a seu lado. Só lhe faltava subir alguns degraus, olhando sempre em frente, orientada pelo rosto de Will. Os olhos dele, de
um azul profundo, reflectiam amor e desgosto. 1
"Alegra-te!", apeteceu-lhe gritar. "E o dia do nosso casamento." A vida era tão curta. Cada momento era precioso ...
Chegando ao altar, Mike e o avô pararam. Sarah olhou intensamente para o pai, beijou-o e ouviu-o dizer baixinho:
- A minha linda filha! Sarah virou-se para Mike para receber o beijo dele e disse:
- O meu lindo filho! Will agarrou na mão dela. Olharam-se bem nos olhos, e Sarah sentiu o amor dele até às profundezas da alma. O corpo tremia-lhe descontroladamente.
Tomando-a nos braços, Will sustentou-a de pé.
- Sarah! - disse o sacerdote. - William! Will baixou a cabeça.
- Amem-se um ao outro, mas não deixem que o amor vos prenda. Em vez disso, permitam que ele seja um mar em movimento entre as praias das vossas almas ...
O tempo voava. "Tanto amor, tanta alegria radiante e alarmante!", pensou Sarah. A família estava reunida à sua volta. Ela sentia o corpo cansado e pesado. Vacilando,
apoiou-se mais em Will. Os olhos dele estavam profundamente tristes.
O reverendo Dunston olhou de Sarah para Will.
- William, aceita Sarah, cuja mão segura, por sua esposa e promete ser-lhe fiel, amá-la e respeitá-la na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, em todos os
dias da vossa vida?
- Sim - disse Will.
- Sarah, aceita William, cuja mão segura, por seu marido e promete ser-lhe fiel, amá-lo e respeitá-lo na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, em todos os
dias da vossa vida?
- Sim - respondeu Sarah em voz baixa, com as lágrimas correndo-lhe pelo rosto e fixando Will.
- Não partas. Não me deixes! - disse ele baixinho, não conseguindo controlar-se.
Era de esperar que o corajoso fosse Will. O homem forte, o noivo que fingia estar feliz por amor de Sarah. Sarah estava a morrer, a abandoná-lo, e esperava-se que
ele fosse estóico e corajoso.
- Oh! - chorava Sarah. "Por todos os dias da vossa vida ... " Sarah sentia a morte a chegar. Serena e, ao mesmo tempo, terrível.
- Que símbolos trazem do vosso amor e estima um pelo outro? perguntou o sacerdote.
O pai de Sarah entregou a Mike a aliança de casamento da mãe dela, que, por sua vez, a entregou a Will. Will colocou o anel no dedo de Sarah. Repetindo o que lhe
dizia o reverendo Dunston, ele disse:
- Aceita esta aliança como sinal do meu amor e da minha fidelidade ...
A tia Bess deu um passo em frente. Meteu qualquer coisa bem dentro da mão de Sarah e disse em voz baixa:
- Querida, era do teu tio Arthur.
- Que Deus a abençoe, tia Bess. - Fazendo deslizar a aliança no dedo de WilI, Sarah repetiu: - Aceita esta aliança como sinal do meu
amor e da minha fidelidade ...
Entrelaçaram os dedos, e Sarah sentiu o coração a pairar no ar.
Sorriam e tornaram a sorrir. Ela não parava de sorrir.
- Sarah e William! - disse o sacerdote. - Com o poder que me
foi concedido pela Igreja e pelo estado do Maine, eu vos declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva.
Inclinando a cabeça para trás, Sarah sentiu Will beijar-lhe os lábios.
O beijo foi terno. Os lábios dela encontraram-se com os dele. Os braços dele rodearam-lhe o corpo e sentiram-se marido e mulher.
- Will - disse ela, sorrindo.
- Marido e mulher - disse WilI, sorrindo. Fê-la recordar-se da primeira vez que se tinham encontrado e voado juntos no dia do aniversário dela. O voo durara muito
tempo, mais tempo do que o previsto, mas o tempo que tinham agora estava quase a acabar. O tempo era uma dádiva de Deus, e ela e Will tinham-se amado a
cada minuto.
O filho estava ali, por detrás deles. "Susan!", pensou Sarah. "Neve!
Onde quer que estejas, olá, minha filha." O coração de Sarah batia as asas. Asas de anjo flutuavam no ar. A mãe estava ao lado dela, e Fred, também. Sarah mal conseguia
respirar. As lágrimas perturbavam-lhe a visão. Vida ... olá, vida.
- Por todos os dias da nossa vida! - disse Sarah num murmúrio.
- Para todo o sempre - disse Will.
- Para todo o sempre - repetiu Sarah. Olhou para o marido para conservar o rosto dele na memória. Para todo o sempre.
ERA o DIA Do TRABALHADOR, e por toda a ilha a erva tomava uma cor dourada. Roçavam nas pernas de Susan conforme ela avançava pelo carreiro. Partira de casa há cerca
de uma hora, passando por lugares que vira pela primeira vez no passado mês de Novembro, quando a ilha estava coberta de neve.
A igreja erguia-se ali mesmo em frente. Sentiu-se nervosa com o que ia fazer, embora andasse a planear aquilo há muito tempo. Sentiu a mochila pesada e a bater-lhe
nas costas a cada momento. O desconforto não a incomodava. Há anos que usava meias muito coçadas, portanto percebia os sacrifícios que muitas vezes as pessoas fazem
por amor. A capela era linda, com o campanário erguendo-se em direcção ao céu azul. Um ramo de flores silvestres estava atado à porta, e Susan perguntou a si própria
quem o teria lá posto. Dando a volta, transpôs o portão e entrou no pequeno cemitério. Sentiu-se acanhada, como se fosse encontrar-se pela primeira vez com alguém
importante. Tinha as palmas das mãos húmidas e limpou-as às calças de ganga.
Os olhos vaguearam pelo pequeno grupo de campas. A pedra de uma era muito mais recente do que as outras, não havia possibilidade de engano. Susan dirigiu~se para
lá. Limpando o granito macio com os dedos, baixou-se e ajoelhou-se.
- Olá, Sarah! - disse. A pedra tumular era pequena e humilde, mas profundamente gravada. Ver o nome na pedra tornou tudo muito real: "Sarah Talbot Burke, muito amada
na ilha." - Não só na ilha
disse Susan, franzindo a testa.
Pensavam que a ilha do Alce era o único lugar onde Sarah fora amada? Ficou ressentida e sentiu um grande nó no estômago. Mas de repente quase que ouviu a gargalhada
delicada de Sarah.
- Tenho sentido a sua falta - disse a jovem, olhando fixamente para o nome de Sarah. - Instalou-se e tirou a mochila. Um ramo de flores idêntico ao que estava na
porta da igreja fora colocado na parte mais baixa da sepultura. A aparecer por baixo de um ramo de malmequeres, varas-de-ouro e cenoura-brava, estava um bilhete
com a letra do pai.
- O meu pai também cá veio - disse Susan. - Sei que saiu muito cedo hoje de manhã, eu ouvi-o sair. Ele também sente a sua falta, Sarah.
O coração de Susan apertou-se um pouco, e ela chorou.
- Muito - disse a rapariga quando conseguiu falar novamente.
Fechou-se completamente durante algum tempo. Nem eu conseguia chegar a ele. Mas, Sarah ... - Respirando com dificuldade, Susan voltou a tocar na pedra, seguindo
com os dedos as letras gravadas com o
nome de Sarah. - Ele tinha de passar por isso. Explicou-me tudo no
caminho para aqui ... foi o mesmo que me aconteceu com Fred. O amor
é a maior bênção que há, e quando se ama alguém tanto como ele a amou, é difícil ultrapassar as situações. É mesmo difícil.
Tinham vindo à ilha para levar Mike. A Sarah já saberia? Estaria sentada algures, radiante e sorrindo, porque Mike decidira acabar o último ano e viver com Will
até ao próximo Verão?
- O seu pai teve um ataque ao princípio - contou Susan, a sorrir.
- Ele e o meu pai travaram várias batalhas à distância, ao telefone ... Pobre tia Bess! Telefonava a seguir a pedir desculpa quando George não estava em casa. -
Susan riu-se e baixou a cabeça. - O que teve graça é que ele acabou por aceitar. É um bom velhote!
Com as mãos a tremerem ligeiramente, Susan desatou o cordão da mochila. Tirando cuidadosamente a placa que lá estava, suspirou.
- Toda a gente a ama - começou. - Toda a gente. O seu pai e a
tia Bess, Mike, o meu pai. Sarah, o meu pai ama-a tanto! A Sarah foi uma verdadeira dádiva para ele. Nem faz ideia de quanto o ensinou a amar ... mais ainda, a ter
esperança. O meu pai tem tanta esperança agora. Levanta-se todos os dias e vive por amor a si. - Susan susteve a respiração. - Lembra-se, Sarah? Quando nos encontrámos
pela primeira vez? Quero dizer, eu já a tinha visto no dia do seu passeio de aniversário, mas não nos tínhamos conhecido verdadeiramente antes daquele dia na sua
loja. Quando eu entrei, naquele dia de frio enregelante ...
Passou uma sombra por cima da campa. Susan desejou que fosse a
águia, mas era apenas uma nuvem tapando o sol brilhante.
- Eu queria que a Sarah fosse toda minha. Quando aquelas estudantes entraram, senti ciúmes, mas a Sarah é minha. - Arranjando um espaço ao lado das flores do pai,
Susan colocou, encostada à pedra da sepultura, a placa que fizera. Era um emblema de madeira, pequeno, azul e de forma oval, sobre o qual havia uma nuvem mágica
com um 7 dourado e penas a caírem como neve: uma réplica, em ponto pequeno, do logótipo da loja de Sarah. - O meu pai ajudou-me a fazer isto
disse ela. - Fizemo-lo na oficina dele, no aeroporto, durante o Inverno passado, a seguir à sua morte.
Momentaneamente, Susan recordou-se do hangar frio, do silêncio em que tinham trabalhado a madeira na bancada de trabalho comprida, ambos sentindo a perda de Sarah.
Mas na altura em que a placa ficou pronta a ser pintada, a Primavera enchera de flores as macieiras e as pereiras dos pomares à volta do aeroporto.
- Quando eu estava a fazer a placa - continuou Susan, com as lágrimas a arderem-lhe na garganta -, achava que ali era o nosso lugar especial, a sua loja, Sétimo
Céu. Mas, Sarah ... a Sarah está sempre comigo. Isso é que é espantoso. A Sétimo Céu é apenas o local de partida, mas eu tenho-a sempre comigo.
Olhou em volta. As ondas lá em baixo rebentavam contra as rochas, e as gaivotas piavam, exultantes. Tornou a ler a pedra tumular de Sarah:
- "Sarah Talbot Burke, muito amada na ilha" - repetiu em voz alta.
Olhando para cima, viu a águia a sobrevoá-la num círculo apertado. Depois, desviou-se sobre a charneca em direcção à baía, mergulhando até se perder de vista. Não
importava, Susan sabia que a águia ia voltar. Ela e o pai iam levar Mike para casa, e no Verão seguinte voltariam todos à ilha. A águia iria ali estar, e Sarah,
também.
Levantando-se, Susan limpou bocados de relva agarrada às palmas das mãos. Certificou-se de que a placa estava solidamente segura na campa de Sarah para lhe fazer
companhia enquanto ela, o pai e Mike estivessem longe. Estava bem fixa.
- Muito amada - disse Susan em voz baixa, tocando uma vez mais nas letras - na ilha.
Desta vez, as palavras não lhe pareceram tão difíceis de pronunciar.
MAIORIA dos romances de Luanne Rice visam as relações entre pais e filhos ou entre irmãos. Segundo esta autora americana:
A_ Os maiores dramas e paixões ocorrem no contexto da família.
Luanne Rice é oriunda de uma família muito unida e atribui o seu gosto pela escrita à mãe, professora de Inglês, que costumava fazer sessões de trabalho com as filhas
na casa do Connecticut.
- Ela dava-nos exercícios: utilizem vinte palavras para descrever uma nuvem.; façam uma quadra sobre a estrela-do-mar. O sol brilhava e a praia chamava-nos, mas
eu nunca me importei de passar assim aquelas manhã s. Estávamos juntas, unidas pelo nosso
amor às palavras.
A mãe de Luanne Rice morreu há uns anos, mas continua a ser uma grande influência para a
autora e serviu de inspiração para Sétimo Céu.
- Certa noite, na altura do Natal do ano passado, comecei a matutar sobre o amor, as coisas por acabar, sobre como seria enfrentar a morte e como é que estas
três coisas se conjugariam. Sétimo Céu veio -me à ideia naquela noite. Sentada à velha mesa onde a minha mãe tinha as sessões de escrita connosco, há tantos anos,
eu escrevi sem parar; a história saiu-me directamente do coração. Chorei ao escrevê-la e tive a sensação de que de alguma forma a minha mãe estava comigo, que ela
sabia.
Bjos!
Edilma
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