sexta-feira, 27 de agosto de 2010 By: Fred

Lançamento PDL - [Romance] ROBERTS, Nora - Os O'Hurley - 02 - Maddy - PtBr - Digitalização

PDL Apresenta: Nora Roberts - Os O'Hurley - 02 - Maddy (PtBr) (PDL)

















Prólogo

D
urante o intervalo entre almoço e jantar, a casa noturna ficava vazia. O piso estava gasto, mas bastante limpo, e a pintura nas paredes perdera um pouco do brilho, por causa da luta contra a fumaça dos cigarros. Havia aquele cheiro típico deste tipo de lugar — uma mistura de bebida, urina e café nada fresco. Para certo tipo de pessoa isto era um lar tanto quanto uma casa com uma lareira aconchegante e almofadas macias. Os O'Hurley chamavam de lar qualquer lugar onde houvesse uma plateia.
Quando a plateia de depois do jantar entrava, as lu¬zes eram apagadas para que o lugar não parecesse tão sujo. Agora, a luz forte do sol atravessava duas janeli¬nhas e iluminava o pó e os entulhos sem misericórdia. O espelho atrás do bar cheio de garrafas enfileiradas es¬palhava um pouco da luz pelo ambiente, em sua maior parte sobre um pequeno palco no meio do salão.
—Esta é a minha garota. — Abby, sorria.
Frank O'Hurley ensaiava com suas trigêmeas de 5 anos um pequeno número de dança que ele queria acres¬centar à apresentação daquela noite, demonstrando os movimentos afetados com seu próprio corpo magrelo. Eles estavam se apresentando num hotel familiar, que ficava num belo resort, a um preço razoável, em Poconos. Frank percebeu que aquela plateia seria facilmente conquistada pelas três menininhas.
— Eu queria que você planejasse melhor estes seus surtos de criatividade, Frank. — A esposa dele, Molly, sentada numa mesa de canto, costurava apressadamen¬te laços nos vestidinhos brancos que suas filhas usariam dentro de poucas horas. — Eu não sou uma costureira, você sabe.
— Você é uma artista, minha querida Molly, e a me¬lhor coisa que aconteceu a Frank O'Hurley.
— Isto é a mais pura verdade — resmungou ela, rindo para si mesma.
— Tudo bem, meus amores, vamos tentar de novo. — Ele sorriu para os três anjinhos com os quais Deus o abençoou de uma só vez. Se o Senhor quis irritá-lo presenteando-o com três bebês pelo preço de um, Frank achava que Deus tinha o direito a um pouco de senso de humor.
Chantel já era linda, com seu rosto arredondado de querubim e olhos azuis-escuro. Ele piscou para a filha, sa¬bendo que ela estava mais interessada nos laços do vestido que usaria do que no número. Abby era toda amável. Ela dançaria porque seu pai queria e porque seria divertido estar no palco com as irmãs. Frank pediu-lhe que sorrisse mais uma vez e fizesse a reverência que ele queria.
Maddy, com o rosto de um elfo e os cabelos já se tornando avermelhados, repetia os movimentos do pai perfeitamente, os olhos fixos nos de Frank. Sentindo seu coração se encher de amor por todas as três meni¬nas, ele pôs a mão sobre o ombro do filho.
—Dê-nos uma introdução em dois compassos, Tra¬ce, meu garoto. Uma bem rápida.
Obedientemente, Trace correu os dedos pelas te¬clas. Frank achava uma pena não poder pagar para que o menino tivesse lições de piano. Tudo o que o menino sabia aprendera vendo e ouvindo. A música começou, alegre e brilhante.
—Que tal, papai?
—Você é fera. — Frank acariciou a cabeça de Trace. — Isso mesmo, meninas, vamos fazer do começo ao fim.
Ele trabalhou com suas filhas por mais quinze minu¬tos, pacientemente, fazendo-as rir de seus próprios erros. O número de cinco minutos estaria longe de ser perfeito, mas Frank era inteligente o bastante para perceber que havia certo encanto naquilo. Ele aumentaria o número pouco a pouco. O resort estava na baixa temporada agora, mas se eles conseguissem chamar a atenção garantiriam um retorno. A vida de Frank era feita de reprimendas e garantias de retorno. Ele não via nenhuma razão por que sua família não deveria pensar da mesma maneira.
Ao ver que Chantel se desinteressara ele interrom¬peu o ensaio, sabendo que as irmãs não demorariam a acompanhá-la.
— Maravilha. — Frank se ajoelhou na frente de cada uma delas, dando-lhes um beijo ruidoso, tão ge¬neroso no carinho quanto gostaria de poder ser com dinheiro. — Nós vamos arrasar.
__ Nosso nome estará no cartaz? — perguntou Chantel, e Frank riu, deliciado.
__ Já quer faturar, meu passarinho? Ouviu isso, Molly?
__Não me surpreende. — Ela parou a costura dos vestidos para descansar os dedos.
__ Vou lhe dizer uma coisa, Chantel. Você vai co¬meçar a ganhar o seu dinheiro quando conseguir isso. — Frank começou uma lenta e ilusoriamente simples coreografia de sapateado, estendendo a mão para a es¬posa. Sorrindo, Molly levantou-se para unir-se a ele. Uma dúzia de anos dançando juntos fizera com que eles se movessem em uníssono desde o primeiro passo.
Abby sentou-se na banqueta do piano ao lado de Trace e ficou assistindo. Ele começou a improvisar uma musiquinha que fez com que Abby sorrisse.
__ Chantel vai praticar até conseguir fazer isso — ele murmurou.
Abby simplesmente sorriu para o irmão.
__ Daí todos teremos nossos nomes no cartaz.
__ Eu posso apresentá-la — sussurrou Trace, ouvin¬do os pés de seus pais batendo no piso de madeira do palco.
__ Você apresentará nós três?
Como um ancião aos 10 anos, Trace ficava encan¬tado pelo modo como as trigêmeas eram unidas. Ele tivera a mesma resposta das três.
__ Eu poderia.
Feliz, ela se apoiou contra o ombro do irmão. Frank e Molly riam, divertindo-se com o cansaço e o ritmo. Para Abby, parecia que seus pais estavam sempre rindo. Mesmo quando sua mãe parecia mal-humorada, papai a fazia rir. Chantel os estava observando, os olhos es¬treitos, tentando um pouco, mas sem conseguir repetir direito os movimentos. Abby sabia que ela ficaria irri¬tada. Se bem que, quando ficava irritada, Chantel dava um jeito de conseguir o que queria.
— Eu quero fazer isso — disse Maddy, de um dos cantos do palco.
Frank riu. Com os braços ao redor da cintura de Molly, os dois deram a volta pelo palco, os pés sapa¬teando, deslizando, arrastando.
__ Quer, batatinha?
— Eu posso fazer isso — respondeu-lhe Maddy. E com uma expressão de orgulho nos olhos, ela come¬çou a bater os pés — calcanhar, dedos, dedos, calca¬nhar — até chegar ao centro do palco.
Pego de surpresa, Frank parou imediatamente, fa¬zendo com que Molly trombasse contra ele.
__ Olhe só para isso, Molly.
Tirando os cabelos dos olhos, ela observava sua fi¬lha caçula lutando para repetir os movimentos básicos da coreografia de sapateado. E Maddy estava conse¬guindo. Molly sentiu uma mistura de orgulho e pena, algo que só uma mãe compreenderia.
__ Parece que teremos de comprar mais um par de sapatilhas, Frank.
__ Com certeza. — Frank sentiu o dobro do orgu¬lho e nenhuma pena. Ele soltou a esposa para se con¬centrar na filha. — Não, tente agora isso. — Ele fez os movimentos bem devagar. Salta, arrasta, bate. Desliza, passo, desliza, passo, e passo para o lado.
Frank pegou Maddy pela mão e, cuidando para man¬ter seus passos pequenos para que ela o acompanhasse, repetiu a coreografia. Maddy se movia junto com o pai.
__ Agora isso. — Mais e mais entusiasmado, Frank olhava para o filho. — Dê-me o tempo da música, Tra¬ce. Ouça a contagem, Maddy. Um e dois e três e qua¬tro. Batida. Sem colocar o peso do corpo. Os dedos batem na frente e atrás. Agora uma repetição.
Frank mostrou novamente, e mais uma vez Maddy imitou-lhe os passos.
__ Vamos pôr tudo junto agora e encerrar com um passo deslizado, os braços deste jeito, está vendo? — Ele ergueu os braços para o lado com um movimento ágil e rápido e então piscou para a filha. — Você vai conseguir.
__ Conseguir — repetiu ela, franzindo a testa num sinal de concentração.
__ Trace, dê o ritmo. — Frank a pegou pela mão no¬vamente, sentindo o prazer de ter a filha se movendo no mesmo ritmo do que ele. — Temos aqui uma dan¬çarina, Molly! — Ele pegou a filha no colo e a jogou no ar. Maddy deu um gritinho, não porque temesse que seu pai não a pegasse, e sim porque sabia que ele faria justamente isso.
A sensação de ser jogada no ar era tão emocionante quanto fora a dança. Maddy queria mais.

Capítulo Um

C
inco, seis, sete, oito! Vinte e quatro pés batiam no piso de madeira ao mesmo tempo. O som era maravilhoso. Doze cor¬pos se viraram, mergulharam e caíram como um só. Os espelhos refletiam as imagens deles. Braços pareciam fluidos ao sinal, pernas eram erguidas, cabeças inclina¬das para trás, viradas para os lados e abaixadas. O suor escorria. E aquele era o aroma do teatro. O piano começou a ser tocado e a melodia invadiu o velho salão de ensaios. Naquele lugar, muitas músicas já haviam sido interpretadas; pés reagiram, corações dispararam e músculos doeram. E aquilo aconteceria de novo, vezes sem fim, ano após ano, enquanto o pré¬dio se mantivesse de pé.
Muitas estrelas da dança tinham ensaiado naque¬le salão. Lendas do mundo artístico aprimoraram suas coreografias sobre aquelas mesmas tábuas. Incontáveis dançarinos anônimos ou dos quais ninguém se lembra trabalharam ali até que seus músculos ficassem rígidos de tanto cansaço. Era uma Broadway que o público pagante raramente via.
O assistente do coreógrafo, com os óculos um pou¬co embaçados por causa do calor, marcava com palmas o ritmo, enquanto gritava a sequência de movimentos. Ao lado dele, o coreógrafo estava em pé, observando com os olhos escuros e alertas de um pássaro.
__ Pare!
A música do piano cessou. Os movimentos para¬ram. Os dançarinos caíram no chão, numa mistura de cansaço e alívio.
__ Vocês estão se arrastando.
Arrastando?
Os dançarinos, juntos, reviraram os olhos e ten¬taram ignorar os músculos doloridos. O coreógrafo olhou para eles atentamente e então lhes deu o sinal que indicava cinco minutos de intervalo. Doze corpos se apoiaram ao mesmo tempo contra a parede, ajeitando-se simultaneamente, de modo que cabeças se deitavam sobre ombros ou colos confortáveis. As panturrilhas eram massageadas. Os pés eram flexionados, relaxavam, e eram flexionados novamente. Conversa¬vam pouco. Precisavam poupar fôlego, uma matéria-prima importante, que devia ser economizada sempre que possível. Embaixo deles, o piso estava todo marca¬do e coberto por fita adesiva demarcando as posições de dezenas de outros espetáculos. Mas, naquele momento, apenas um espetáculo era importante: aquele.
__ Quer um pedaço?
Maddy O'Hurley endireitou-se para ver a barra de chocolate. Ela pensou, desejou e, por fim, fez que não com a cabeça. Uma mordidinha jamais seria o suficiente.
__ Não, obrigada. O açúcar me dá tontura quando estou dançando.
__ Eu preciso de um pouco de estímulo. — A mulher, negra e reluzente como o chocolate, deu uma mordida enorme na barra. — Prefiro comer agora. Tudo que aquele cara precisa é de um chicote e uma corrente.
Maddy levantou os olhos para o coreógrafo, que conversava com o pianista.
__ Ele é durão. Mas ficaremos felizes por estarmos trabalhando com ele antes que isso tudo acabe.
__ É, mas neste exato momento eu gostaria de...
__ Estrangulá-lo com uma das cordas do piano? — sugeriu Maddy, ganhando por isso uma risada rápida e contida.
__ Algo assim.
A energia estava voltando e Maddy podia senti-la fluindo. O salão cheirava a suor e ao desodorante que muitos dançarinos usavam para combatê-lo.
__ Eu a vi nos testes — comentou Maddy. — Você é muito boa.
__ Obrigada. — A mulher cuidadosamente guardou o restante do chocolate, colocando-o dentro da mo¬chila. — Wanda Starre, dois erres e um e.
Maddy O'Hurley.
__ É, eu sei. — O nome de Maddy já era bem co¬nhecido no circuito dos teatros. Os ciganos, dançarinos que pulavam de um espetáculo para outro, de trabalho em trabalho, conheciam-na como uma dançarina de sucesso neste ramo. De mulher para mulher, dançari¬na para dançarina, Wanda reconhecia em Maddy uma pessoa que não se esquecera de suas raízes. — Este é meu primeiro branco.
__ Sério?
Contratos brancos eram para trabalhar com os prota¬gonistas; os cor-de-rosa, para trabalhar com o coro. Nes¬ta hierarquia havia mais, muito mais do que apenas um sistema de cores. Surpresa, Maddy se endireitou para vê-la melhor. A mulher ao lado dela tinha um rosto exó¬tico, de traços exagerados, e o pescoço comprido e fino e os ombros fortes de uma bailarina. O corpo dela era maior do que o de Maddy. Esparramadas pelo chão, Maddy calculou uma diferença de uns 15 centímetros do ombro ao pé.
__ É sua primeira vez fora do coro?
__ Isso mesmo. — Wanda olhava para os demais dançarinos, que relaxavam e recuperavam a energia. __ Estou morrendo de medo.
Maddy passou uma toalha pelo rosto.
__ Eu também.
__ Ah, deixa disso. Você já se apresentou num espe¬táculo de sucesso.
__ Mas ainda não me apresentei neste. E nunca trabalhei com Macke. — Ela observava o coreógrafo, ainda em forma aos 60 anos, que se afastava do piano.
__ É hora do show — murmurou Maddy.
Os dançari¬nos se levantaram e ouviram as novas instruções.
Por mais de duas horas eles se movimentaram, en¬tenderam, empenharam-se e melhoraram a coreogra¬fia. Quando os outros dançarinos foram dispensados, Maddy pôde fazer um intervalo de dez minutos, para depois voltar e ensaiar seu número solo. Como protago¬nista, ela dançaria com o coro, faria o solo, e voltaria a dançar com o protagonista e com os demais personagens do musical. Ela se prepararia para o espetáculo do mes¬mo modo que um atleta se preparava para uma maratona. Prática, disciplina e mais prática. Numa apresentação que estava programada para durar duas horas e dez mi¬nutos, Maddy estaria no palco por mais da metade desse tempo. As coreografias estariam gravadas em sua mente, músculos e membros. Tudo teria de reagir em sincronia, assim que se ouvisse a primeira contagem.
__ Tente agora com seus braços estendidos na altura dos ombros — instruiu Macke. — O calcanhar muda antes do passo e mantém a energia no máximo.
O assistente do coreógrafo fez a contagem e Maddy mergulhou numa coreografia de dois minutos que te¬ria deixado um maratonista ofegante.
__ Melhorou. — Vindo de Macke, ela sabia que aquilo era um verdadeiro elogio. — Desta vez, mante¬nha os ombros relaxados. — Ele se aproximou e colo¬cou as mãos feias e gordas sobre os ombros úmidos de Maddy. — Depois de virar, incline-se para a esquerda do palco. Quero movimentos ágeis. Não os prolongue; encurte-os. Você é uma stripper, não uma bailarina.
Maddy sorriu para o coreógrafo, que, ao mesmo tem¬po em que a criticava, massageava os músculos exaustos dos seus ombros. Macke tinha a reputação de ser um dire¬tor duro demais, mas a alma dele era de um dançarino.
__ Vou tentar me lembrar disso.
Ela pegou o ritmo novamente e deixou que seu cor¬po pensasse por si. Ágil, vigoroso, rude. Era isso o que seu papel pedia, por isso era assim que Maddy agiria. Quando não podia usar a voz para interpretar, tinha de usar o corpo. Dobrou as pernas, alternadamente, para andar como se estivesse chutando algo no ar. Ma¬ddy estendeu os braços ao lado do corpo e os contraiu para abraçar o corpo, antes de dar um salto, enquanto seus pés se moviam, marcando o ritmo.
Seus cabelos curtos e louro-avermelhados bateram contra a faixa já ensopada que Maddy usava na cabeça. Ela teria de acrescentar o peso de uma peruca encaraco¬lada e longa até os ombros para esse número, mas se re¬cusava a pensar nisso. Seu rosto brilhou como porcelana molhada, mas não deixou transparecer nenhum esforço. Seus traços eram pequenos e delicados, mas Maddy sa¬bia como usar todo o rosto para transmitir sentimentos, emoções. No teatro, geralmente era necessário exage¬rar na expressão. O suor pendia de seus lábios, mas ela sorriu, deu uma risadinha, gargalhou e voltou a rir, de acordo com o humor que a coreografia exigia.
Sem maquiagem, seu rosto era atraente — ou boniti¬nho, como Maddy estava se acostumando a aceitar —, com seu formato triangular, traços de elfo e enormes olhos castanhos. Para o papel de Mary Howard, tam¬bém conhecida como Viúva Alegre, Maddy confiaria na experiência do maquiador para transformá-la numa mulher esquiva e provocante. Agora ela dependia do seu próprio talento para se expressar com gestos que transmitissem a personalidade de uma stripper já can¬sada, à procura de um modo de sair daquela vida.
De certo modo, pensava, ela estivera se preparando a vida toda para esse papel — as viagens de ônibus e de trem com a família, de cidade em cidade, de casa notur¬na em casa noturna, para diverti-los em troca de uma cama e comida. Aos 5 anos, Maddy já era capaz de ava¬liar uma plateia. Eram hostis, indiferentes, receptivos? Detectar o humor do público podia fazer a diferença entre o sucesso e o fracasso. Muito cedo, Maddy des¬cobriu como fazer mudanças sutis nos números para que os espectadores reagissem melhor. Sua vida, des¬de que aprendera a andar, fora vivida sobre um palco. E, em 26 anos, ela jamais se arrependeu disso.
Maddy tivera aulas sem fim. Embora os nomes e os rostos dos professores estivessem apagados em sua memória, cada movimento, posição e passo estavam gravados em sua mente. Quando não havia tempo ou dinheiro para uma aula tradicional, seu pai, Frank, agi¬ra como professor, montando uma barra improvisada num quarto de hotel de beira de estrada para que seus filhos pudessem praticar números e exercícios.
Ela nascera cigana, viera ao mundo com as duas irmãs quando seus pais estavam a caminho de uma apresenta¬ção. Fora inevitável que Maddy tivesse se transformado numa cigana da Broadway. Ela fizera testes, falhara e li¬dara com a tristeza da decepção. Ela fizera testes, fora escolhida e tivera de lidar com o medo da noite de estreia.
Por causa da sua natureza e história de vida, Maddy ja¬mais teve de lidar com a falta de confiança.
Durante seis anos ela viveu sozinha, sem a ajuda dos pais, do irmão ou das irmãs. Maddy dançara no coro e fizera cursos. Entre os ensaios, ela trabalhara como gar¬çonete para pagar as intermináveis aulas e as sapatilhas que se desgastavam rápido demais. Maddy chegou ao corpo de baile principal, mas continuou estudando. Ela conseguira um papel de coadjuvante, mas jamais desisti¬ra das aulas. Então, finalmente, parou de servir mesas.
Seu maior papel fora como protagonista na peça Suzanna's Park, um trabalho que a sugou até que Maddy sentisse que estava vazia. Abandonar aquele espetáculo fora um risco, mas ela era cigana demais para temer uma aventura.
Agora Maddy estava fazendo o papel de Mary, um papel mais difícil, complicado e exigente do que tudo o que ela já fizera. Maddy trabalharia tanto por Mary quanto faria Mary trabalhar por ela.
Quando a música cessou, Maddy ficou em pé no meio do salão, as mãos na cintura, a respiração sô¬frega ecoando nas paredes. Seu corpo implorava que lhe fosse permitido desabar, mas se Macke sinalizasse, Maddy teria dado meia-volta e recomeçado.
__ Nada mau, mocinha. — Ele lhe jogou uma toalha. Rindo, Maddy escondeu o rosto no pano macio. A toalha não estava mais seca, mas ainda absorvia o suor.
__ Nada mau? Você sabe muito bem que foi mara¬vilhoso.
__ Foi bom. — Macke torceu a boca. Maddy sabia que para ele aquele gesto equivalia a uma risada. — Não suporto dançarinas convencidas. — Mas ele ficou olhando enquanto ela se enxugava, feliz e agradecido por haver toda aquela energia no corpo pequenino de Maddy. Ela era seu instrumento, sua tela. O sucesso de Macke dependeria tanto da habilidade dela quanto o sucesso de Maddy dependeria da dele.
O pianista já estava guardando as partituras quando Maddy pendurou a toalha no pescoço e se aproximou.
__ Posso lhe perguntar uma coisa, Macke?
__ Diga. — Ele tirou um cigarro do maço. Era um hábito que Maddy encarava com certa pena.
__ Quantos musicais você fez até hoje? No total, digo, dançando e coreografando?
__ Perdi a conta. Digamos apenas que foram "mui¬tos".
__ Tudo bem. — Ela aceitou aquela resposta sem insistir, ainda que pudesse apostar suas melhores sapatilhas como Macke sabia o número exato. — Como você avalia suas chances com este?
__ Está nervosa?
__ Não. Paranoica.
Ele deu duas tragadas curtas.
__ Isso é bom para você.
__ Não durmo bem quando fico paranoica. Preciso descansar.
Ele fez um muxoxo.
__Você tem o melhor: eu. Nós temos um bom con¬junto, uma história interessante e músicas de impacto. O que mais você quer?
__ Apenas aplausos de pé. — Maddy aceitou o copo de água que o assistente do coreógrafo lhe ofereceu e o bebeu lentamente.
Macke lhe disse porque a respeitava. Não pelo que Maddy fizera em Suzanna's Park; mais do que isso, ele admirava o que ela e os outros faziam to¬dos os dias. Maddy tinha 26 anos e mais de 20 de carreira.
__ Você sabe quem é nosso patrocinador?
Com um aceno de cabeça, Maddy deu mais um gole, brincando com a água na boca.
__ A Valentine Records.
__E você tem ideia de por que uma gravadora ne¬gociaria para ser a patrocinadora exclusiva de um mu¬sical?
__ Direitos exclusivos para o álbum do musical.
__ Na mosca. — Macke esmagou o cigarro, dese¬jando fumar outro imediatamente. Ele só pensava no vício quando não havia música, nem no piano nem em sua cabeça. Para a alegria de seus pulmões, isso não era algo comum. — Reed Valentine é nosso anjo, a se¬gunda geração de herdeiros, e, pelo que me disseram, ainda mais durão do que o pai jamais pensou ser. Ele não está interessado em nós, querida. Ele está interes¬sado no lucro.
__ Isso é bastante justo — concluiu Maddy depois de algum tempo. — Gostaria de vê-lo lucrando. — Ela deu uma risadinha. — E lucrando muito.
__ Que bom que você pensa assim. Agora vá para o chuveiro.
Os canos eram barulhentos e a água jorrava em ex¬plosões musicadas. Mas aquilo era bom — e molha¬do. Maddy apoiou os braços na parede e deixou que a água caísse sobre sua cabeça. Na manhã seguinte, ela teria aula de balé. Depois iria diretamente para o salão de ensaios; primeiro, para repassar duas músicas com o compositor. Cantar não a preocupava — Maddy ti¬nha uma voz limpa, afinadíssima e de grande amplitu¬de. Mais do que tudo, sua voz era forte. O teatro não tolerava vozes fracas.
Ela passara seus anos de formação como uma das Trigêmeas O'Hurley. Quando se canta em bares e casas noturnas com péssima acústica e sofrível equipamento de áudio, aprende-se a ter pulmões generosos.
Maddy sabia muito bem suas falas. No dia seguinte, ela ensaiaria com os outros atores — depois das aulas de jazz e antes do ensaio de dança. Interpretar não a deixava muito ansiosa. Chantel era a atriz da família, assim como Abby era a que tinha a voz mais fluida. Maddy confiava na personalidade de Mary para mos¬trar todo o seu talento.
Seu coração estava na dança. Tinha de estar. Não havia nada mais árduo, exigente e cansativo. A dança a conquistara — mente, corpo e alma — desde quando seu pai lhe ensinara a primeira coreografia de sapatea¬do num salão empoeirado na Pensilvânia.
Olhe para mim, papai, pensou ela ao fechar o chu¬veiro. Estou na Broadway.
Maddy enxugou-se rapidamente para não sentir frio e se vestiu com as roupas que trouxera na mochila.
Havia sons vindos do salão. O compositor e o letrista estavam fazendo alterações em uma das músicas. Haveria mudanças no dia seguinte, mudanças que ela e os outros cantores teriam de aprender. Aquilo não era nada novo. Macke faria uma dúzia de alterações sutis na coreografia que haviam acabado de ensaiar. O que também não era nenhuma novidade.
Maddy ouviu o som das sapatilhas contra o piso. O ritmo se repetia incontáveis vezes. Alguém do coro treinava a voz. Os sons das vogais subiam e caíam me¬lodiosamente.
Ela pendurou a mochila nos ombros e desceu a es¬cada até a porta que dava para a rua com uma coisa em mente: comida. A energia e as calorias que Maddy gas¬tava em um dia cheio de exercícios tinham de ser re¬postas — mas repostas com sabedoria. Há muito tem¬po ela aprendera a olhar para um potinho de iogurte e uma banana split com o mesmo entusiasmo. Esta noite seria iogurte, acompanhado de frutas frescas e uma ti¬gela de sopa de cevada e salada de espinafre.
Na porta, se deteve por um momento, ouvindo no¬vamente. O cantor ainda estava exercitando as esca¬las. A música do piano mudou, parecendo baixinha à distância. Os pés batiam no piso, seguindo o ritmo. Aqueles sons faziam parte dela tanto quanto as batidas de seu coração.
Deus abençoe Reed Valentine, pensou, saindo para o agradável anoitecer.
Maddy dera apenas dois passos quando um golpe rápido em sua mochila a fez dar meia-volta. Ele não era mais do que um menino, na verdade — 16, 17 anos —, mas ela não ignorou o olhar duro e desespe¬rado. Ela mesma já estivera desesperada algumas vezes na vida.
__ Você deveria estar na escola — disse-lhe Maddy quando começaram a fazer um cabo-de-guerra pela mochila.
Ela lhe parecera uma presa fácil. Uns 50 quilos que ele empurraria, enquanto pegava a mochila, e fugiria. A força de Maddy o surpreendeu, mas só serviu para deixá-lo ainda mais determinado a roubar o dinheiro ou os cartões que ela tivesse. Na luz fraca ao lado das escadas do prédio velho, ninguém percebeu a batalha. Maddy pensou em gritar, mas então se lembrou de que o ladrão era um menino e preferiu agir racionalmente. Uma ou duas vezes já ouvira que nem todo mundo quer melhorar de vida. Mas isso jamais a impediu de tentar convencê-los do contrário.
__ Você sabe o que tem aqui? — perguntou-lhe, pu¬xando as alças da mochila. O menino estava ficando sem fôlego mais rápido do que ela. — Meias-calças suadas e uma toalha que já está mofando. E minhas sapatilhas de balé.
Ao se lembrar das sapatilhas, Maddy agarrou a mo¬chila com mais força. Ela sabia que um ladrão pro¬fissional teria desistido e procurado por uma vítima mais fácil. O menino estava começando a gritar um monte de palavrões, mas Maddy os ignorou, porque acreditava que era direito do ladrãozinho dizer aque¬las coisas.
__ Elas estão quase novas, mas não lhe servirão para nada — continuou, no mesmo tom de voz racional. — Preciso delas muito mais do que você. — Na luta, Maddy bateu com o tornozelo num cercado de ferro e praguejou. Ela podia se dar ao luxo de perder uns poucos dólares, mas não podia se machucar. Então o menino não queria mudar de vida, mas talvez pudesse aceitar um acordo.
__ Olha, se você parar com isso agora mesmo eu lhe dou metade do dinheiro que tenho. Não quero ter de me aborrecer em pedir cartões de créditos novos, o que farei ligando para o banco assim que você sair corren¬do. Não tenho tempo para comprar sapatilhas novas e preciso delas para amanhã. Todo o dinheiro — tentou, ao perceber que a costura da alça da mochila começava a ceder. — Acho que tenho uns trinta dólares.
Ele deu um puxão que quase derrubou Maddy. En¬tão, ouvindo um grito, soltou a mochila, que caiu como uma pedra no chão, espalhando as coisas pela calçada. O menino, sem perder tempo e xingando, saiu cor¬rendo como um foguete pela rua, virando na primeira esquina. Resmungando baixinho, Maddy se abaixou para recolher seus pertences.
__ Você está bem?
Esticando-se para alcançar uma tornozeleira de lã es¬farrapada, ela viu um par de sapatos italianos de couro polido. Como dançarina, Maddy dava especial atenção ao que as pessoas calçavam. Os sapatos, em geral, refle¬tiam a personalidade e a autoestima delas. Para Maddy, sapatos italianos polidos significavam riqueza e um gos¬to pelo que o dinheiro podia comprar. Sobre o couro de¬licado havia a calça cinza que caía com precisão sobre os sapatos, os vincos perfeitamente alinhados. Um homem organizado e sensível, pensou, reunindo as moedas que caíram do fundo da mochila.
Olhando mais para o alto, Maddy viu que a calça assentava bem sobre a cintura magra e que estava presa com um cinto fino com uma intrincada fivela de ouro. Cheio de estilo, mas não moderno.
O paletó estava aberto, revelando um peito em for¬ma e ombros largos, cobertos por uma camisa azul-claro e uma gravata mais escura. Tudo de seda. Maddy aprovou as roupa de seda sobre aquele corpo. Luxos só eram luxos quando podiam ser aproveitados.
Ela olhou a mão estendida para ajudá-la a se le¬vantar. Era bronzeada, com dedos longos e sedutores. No pulso havia um relógio de ouro que parecia caro e prático. Maddy lhe deu a mão e sentiu calor, força e, pensou, impaciência.
__ Obrigada. — Ela agradeceu antes de olhar para o rosto do homem.
Durante a demorada exploração que fizera do corpo dele, Maddy percebera que o ho¬mem era alto e magro. Forte, não como um bailarino, mas sim como um homem que sabia ser disciplinado sem chegar ao extremo do sacrifício. Com o mesmo interesse que o examinou dos pés à cabeça, Maddy es¬tudou-lhe o rosto.
Ele estava barbeado e todas as linhas e planos se mos¬travam claramente. A face era ligeiramente funda, o que dava ao seu olhar duro e inflexível um toque de poesia.
Maddy sempre tivera um fraco por poetas. A boca estava séria agora, num sinal de desaprovação ou irritação, en¬quanto o queixo exibia um traço muito sutil de uma covi¬nha. O nariz era reto e aristocrático, e, embora parecesse mostrar superioridade, Maddy não se sentiu ofendida. Os olhos eram cinza-escuro e insensíveis, e lhe transmitiam a clara mensagem de que aquele homem não gostava de perder tempo resgatando donzelas em perigo.
O fato de ele não gostar, mas mesmo assim resgatá-la, fez com que Maddy sentisse um enorme carinho por aquele homem.
Ele passou os dedos pelos cabelos louros e a enca¬rou, perguntando a si mesmo se ela estava em estado de choque.
__ Sente-se — disse-lhe, com uma voz rápida e en¬trecortada, de um homem acostumado a dar ordens e ser obedecido. — Imediatamente.
__ Estou bem — disse ela, sorrindo para o desco¬nhecido.
Ele percebeu pela primeira vez que o rosto dela não estava vermelho ou pálido e que os olhos dela não re¬fletiam medo. Aquela mulher não se encaixava na ima¬gem que ele fazia de uma mulher que estivera perto de ser assaltada.
__ Que bom que você apareceu. Aquele menino não estava ouvindo a razão.
Maddy se agachou para recolher suas coisas. O homem disse a si mesmo que deveria sair dali e deixá-la pegar seus pertences, mas, em vez de fazer isso, respirou fundo, deu uma olhada no relógio e se abaixou para ajudá-la.
__ Você sempre tenta conversar com assaltantes?
__ Eu diria que ele era um aprendiz de assaltante. —Ela achou o molho de chaves caído perto de um buraco na calçada. — E eu estava tentando chegar a um acordo.
Com cuidado, ele segurou a meia-calça de exercí¬cios antiga de Maddy pela parte de trás dos joelhos.
__ Você realmente acha que vale a pena negociar por uma coisa destas?
__Com certeza. — Maddy pegou a meia das mãos dele, enrolou-a e a pôs dentro da mochila.
__ Ele podia tê-la machucado.
— Ele podia ter roubado minhas sapatilhas. — Maddy pegou as sapatilhas, torcendo o material maleável. — Elas não serviriam de nada para ele. E eu as comprei há apenas três semanas. Pode me dar aquela faixa ali?
Ele pegou a faixa atoalhada e deu uma risadinha. Segurando-a com as pontas dos dedos, o homem lhe estendeu a faixa.
__ Você toma banho com isso?
Rindo, Maddy pegou a faixa e a jogou dentro da mochila, junto com as outras roupas.
__ Não. É apenas suor. Desculpe. — Mas não ha¬via desculpas nos olhos dela, que pareciam se divertir.
__ Vestido assim, você não parece mesmo ser capaz de reconhecer o suor.
__ Eu geralmente não o carrego por aí numa mo¬chila comigo. — O homem se perguntava por que não saía de perto dela e simplesmente continuava seu ca¬minho. Ele já estava cinco minutos atrasado, mas algo no modo como Maddy continuava a olhá-lo, com um bom humor sincero, continuava mantendo-o ali.
__ Você não age como uma mulher que quase perdeu algumas meias, um collant desbotado, uma toalha suja, dois pares de sapatos e uns três quilos de chaves.
__ A toalha não está tão suja assim. — Feliz por ter encontrado todas as coisas, Maddy fechou a mochila. —De qualquer modo, eu não as perdi.
__ A maioria das mulheres que conheço não nego¬ciaria com assaltantes.
Interessada, Maddy o examinava de novo. Ele pa¬recia um homem que conhecia dezenas de mulheres, todas elegantes e inteligentes.
__ O que elas fariam?
__ Gritariam, acho.
__ Se eu fizesse isso, ele não só teria levado minha mochila como eu estaria sem fôlego agora. — Maddy se livrou daquela ideia com um gracioso menear de ombros. — De qualquer modo, obrigada. — Ela lhe estendeu a mão delicada, fina e sem jóias. — Acho que cavaleiros em armaduras brancas são adoráveis.
Ela era pequena e completamente sozinha, e estava ficando cada vez mais escuro. O instinto natural o avi¬sou que não deveria se envolver. Aquela decisão estava se tornando uma forma de irritação.
__ Você não deveria estar andando por um lugar como este à noite.
Maddy riu mais uma vez, um som brilhante, exube¬rante e divertido.
__ Este é o meu bairro. Eu moro a uns quatro quar¬teirões daqui. Eu lhe disse que o menino era inexpe¬riente. Nenhum assaltante de respeito se importaria em atacar uma dançarina. Eles sabem que dançarinas geralmente estão duras. Mas você... — Ela deu um passo para trás, para olhá-lo novamente. Valia mesmo a pena olhar mais atentamente para aquele homem. — Você é diferente. Vestido assim, é melhor carregar seu relógio e carteira dentro da cueca.
__ Vou me lembrar disso.
Pensando que uma boa ação merecia ser recompen¬sada, Maddy concordou com um meneio de cabeça.
__ Posso lhe ajudar? Você não parece alguém que sabe andar por esta vizinhança.
Por que ele estava se sentindo responsável por ela? Mais um minuto e o menino teria dado um soco no rosto dela, mas Maddy não parecia levar isso em consideração.
__ Não, obrigado. Eu estava justamente entrando neste prédio.
__ Aqui? — Maddy olhou por sobre os ombros, para o prédio caindo aos pedaços que abrigava o salão de ensaios, e depois olhou curiosa para o homem à sua frente. — Você não é um dançarino. — Ela disse isso como um elogio. Não que ele não tivesse gestos gracio¬sos. Pelo pouco que Maddy vira, ele parecia em forma. Mas aquele homem não era um dançarino. — Nem ator — concluiu, depois de uma rápida avaliação. — E eu juraria... que não é um músico, embora você tenha mãos muito boas.
Sempre que ele tentava se afastar daquela mulher, ela o atraía.
__ Por que não?
__ É muito conservador — respondeu-lhe Maddy instantaneamente, mas sem desdém. — Certinho de¬mais. Quero dizer, você está vestido como um advo¬gado, banqueiro ou... — Foi então que Maddy soube quem ele era. Ela olhou alegremente para o homem. — Um anjo.
Ele franziu a testa.
__ Você está vendo alguma auréola?
__ Não, não acho que você gostaria de carregar esse tipo de peso por aí. Um anjo — repetiu Maddy. — Um patrocinador. Valentine Records?
Mais uma vez, Maddy lhe estendeu a mão. Ele a pegou e a segurou.
__ Isso mesmo. Reed Valentine.
__ Eu sou a Viúva Alegre.
Ele fez uma careta.
__ Como é?
__ A stripper — disse ela, vendo os olhos dele se estreitarem. Ela poderia ter deixado por isso mesmo, apenas para chocá-lo, se bem que aquele homem a aju¬dara. — Do espetáculo Levantar Voo, que você está patrocinando. — Encantada com aquele homem, Ma¬ddy cobriu-lhe a mão com a sua. — Maddy O'Hurley.
Esta era Maddy O'Hurley? Esta menininha mir¬rada com um cabelinho loiro-avermelhado todo des¬penteado e com o rosto arranhado era a mesma mu¬lher imponente que ele vira em Suzanna's Park? Ela usara uma peruca loura comprida para aquele espe¬táculo, um visual de Alice no país das maravilhas, e figurinos de 1890, mas mesmo assim... A voz dela era um turbilhão que preenchia todo o teatro. Ela dança¬va com uma energia frenética que surpreendera um homem que dificilmente ficava impressionado com alguma coisa.
Uma das razões por que Reed quisera patrocinar este espetáculo era Maddy O'Hurley. Agora ele estava frente a ela e inundado por dúvidas.
__Madeline O'Hurley?
__É o que consta no contrato.
__Eu assisti a uma apresentação sua, srta. O'Hurley. Não a reconheci.
__Luzes, figurinos, maquiagem. — Ela deu de om¬bros. Fora dos palcos, ela valorizava seu anonimato e reconhecia sua aparência nada notável. Maddy era a segunda das três irmãs: Chantel tinha a beleza de parar o trânsito, Abby era afetuosa e Maddy, simplesmente bonitinha. Ela entendia que Reed tinha lá seus moti¬vos, mas não conseguiu deixar de se divertir com o olhar de cautela dele. — Agora você está desapontado — concluiu, escondendo um sorriso.
__ Nunca disse...
__ Ah, claro, você não diria. Você é educado demais. Não se preocupe, sr. Dono da Gravadora. Eu me sairei bem. Qualquer um dos O'Hurley vale o investimento. —Maddy riu daquela piada que só fazia sentido para ela. As luzes da rua atrás dele se acenderam, num sinal de que a noite já caía sobre a cidade, gostassem disso ou não. — Acho que você tem de participar de algu¬mas reuniões.
__ Há dez minutos.
__ O tempo só é importante quando você está no comando. Você tem o talão de cheques, capitão, você é quem manda. — Antes de sair do caminho dele, Maddy lhe deu um tapinha amigável no braço. — Olhe, se você estiver por aqui nos próximos dias, venha assistir aos ensaios. — Ela deu uns poucos passos, virou-se e andou de costas, rindo para ele. — Você poderá me ver pulando e girando. Sou boa, Valentine. Muito boa. — Com uma pirueta, Maddy se virou, pousou na cal¬çada e andou apressadamente.
Apesar de certa inclinação à pontualidade, Reed continuou olhando para ela até que Maddy desapa¬recesse, ao virar numa esquina. Ele balançou a cabeça e começou a subir as escadas. Então, ele viu uma pe¬quena escova de cabelos. A tentação de ignorar aquilo era grande. Mas a curiosidade era mais forte. Quando Reed a pegou, percebeu que aquela escova carregava um leve perfume de xampu — algo cítrico e fresco. Reed resistiu à necessidade de continuar aspirando aquele perfume e guardou a escova no bolso do pa¬letó. Ele se perguntava se uma mulher como aquela ignoraria uma escova de cabelos. De qualquer modo, ele garantiria que Maddy a tivesse de volta.
Ele veria Maddy O'Hurley novamente, de um jeito ou de outro, disse a si mesmo. E não lhe custaria nada fazer mais uma boa ação.


Capítulo Dois

Q
uase uma semana se passou antes que Reed con¬seguisse agendar outra visita ao ensaio. Ele era capaz de justificar a viagem para si mesmo como ape¬nas um compromisso de negócios, mas não era. Reed jamais quisera se envolver diretamente com o espetá¬culo. Reuniões com os produtores e contadores bastavam para mantê-lo informado. Reed entendia os relatórios de gastos, os registros da contabilidade e os gráficos melhor do que entendia os barulhos e os cheiros vindos daquele velho prédio decadente. Mas não lhe faria mal algum olhar mais de perto seu inves¬timento — mesmo que o investimento envolvesse uma mulher estranha, com um sorriso exuberante.
Reed se sentiu deslocado. Ele estava a 20 minutos de táxi de seu escritório, mas ainda assim se sentia tão deslocado naquele prédio, com seu terno de três peças, quanto se sentiria em alguma ilha remota do Pacífico Sul entre nativos que usavam brincos feitos de ossos.
Ele jamais diria que vivia uma vida protegida. Em sua carreira, Reed visitara vários lugares desagradáveis e lidara com pessoas de diversos tipos. Mas ele mora¬va na parte rica da cidade, onde os restaurantes eram tranquilos e a vista do parque, de seu apartamento, era relaxante.
Ao subir as escadas, Reed disse a si mesmo que era a curiosidade o que o fizera voltar. Isto e a necessi¬dade de proteger seus interesses. A Valentine Records investira muito dinheiro naquele espetáculo — e ele era o responsável pela empresa. Foi quando pôs a mão no bolso e tocou na escova de cabelo de Maddy. Con¬trariando seu comportamento natural, ele andou em direção à música e ao som de conversas.
Numa sala rodeada por espelhos, Reed encontrou os bailarinos. Eles não se pareciam em nada com o corpo de baile brilhante e sincronizado que as pessoas pagavam para ver num palco da Broadway. Eram mais um grupo de homens e mulheres esfarrapados e exaus¬tos, usando meias gastas. Para Reed, eles eram uma confusão de roupas ensopadas de suor, sem nada que indicasse aquela precisão que se espera de dançarinos profissionais. Por um momento, ele se sentiu desconfortável vendo-os parados, a maioria com as mãos nas cinturas, olhando para o homem baixinho e magro que Reed sabia ser o coreógrafo.
__ Vamos suar mais um pouco, pessoal — ordenou Macke. — Aqui é uma casa noturna, não um salão de baile. Vocês têm de vender sexo, e fazer isso de um jeito natural. Wanda, quero certa hesitação no rebo¬lado, depois você expande os movimentos. Maddy, seja mais sedutora ao rebolar. Incline-se um pouco.
Ele demonstrou o que queria e Maddy ficou olhan¬do, pensando no movimento e dando uma risadinha para Macke.
__ Eu vi o desenho do figurino, Macke. Se eu me inclinar assim, os meninos da primeira fila terão uma aula de anatomia feminina.
Macke a olhou com desprezo.
__ No seu caso, uma aulinha.
Os dançarinos ao redor dela riram com escárnio. Maddy aceitou a provocação com bom humor e assu¬miu a posição para o recomeço da contagem. Eles se puseram em movimento, com prazer, no oito.
Reed observava com um maravilhamento crescen¬te. Sobre o piso que brilhava com o suor, os dança¬rinos ganharam vida. Pernas se levantavam, quadris rodopiavam. Homens e mulheres encontravam seus parceiros no que parecia ser uma multidão de corpos oleosos. Saltos, pulos, rodopios e a leve batida dos pés. De onde estava, Reed podia ver o esforço, o suor go¬tejando e a respiração controlada e profunda. Então, Maddy surgiu e ele se esqueceu de todo o resto.
O collant se grudava a cada curva e linha de seu corpo, com seu tom negro apenas ressaltando a forma geral. As pernas, mesmo cobertas por uma meia-calça gasta, pareciam bem longas. Lentamente, com as mãos na cintura, Maddy foi para a frente, para a direita e para a esquerda, sempre seguindo a rotação da cintura. Reed não ouvia a contagem, mas ela, sim.
Seus braços serpentavam pelo corpo e se estendiam. Não era preciso muita imaginação para entender que ela tirara alguma peça de roupa. Maddy deu um chute para o alto. Por um momento, seu pé ficou acima da cabeça. Lenta e eroticamente, Maddy passou os dedos pela coxa, abaixando a perna.
A velocidade e o ritmo aumentaram. Maddy se mo¬via como um leopardo, contorcendo-se e girando, de maneira sinuosa e elegante. Então, enquanto os dan¬çarinos atrás dela começavam uma orgia de movimen¬tos, ela se inclinava para a frente e usava os ombros para fascinar. Um homem saía do meio do grupo e lhe agarrava o braço. Com nada além do ângulo do corpo e da posição da cabeça, ela expressava que se encon¬trava tentadoramente no cio. Quando a música parou, Maddy tinha o corpo contra o do dançarino, as costas arqueadas para trás. E as mãos dele estavam segurando firmemente o bumbum dela.
__ Melhor — disse Macke.
Os dançarinos caíram no chão, sem querer gastar a energia ficando de pé. Maddy e seu parceiro pareciam prestes a desabar, um contra o outro.
__ Cuide dessa mão boba, Jack.
__ Vou cuidar. — Ele se apoiou um pouco no om¬bro dela. — Não vou tirar o olho dela.
Maddy conseguiu rir antes de empurrá-lo. Pela pri¬meira vez, ela viu Reed em pé na porta. Tudo nele re¬fletia o executivo bem-sucedido. Como queria vê-lo novamente! E sabendo que isso acabaria por aconte¬cer, Maddy lançou-lhe um sorriso amigável.
__ Intervalo para o almoço — anunciou Macke, acendendo um cigarro. — Eu quero Wanda, Maddy e Terry de volta em uma hora. Alguém diga ao Carter que eu o quero aqui também. O coro deve estar na sala B às 13h30 para exercícios de canto.
A sala estava ficando vazia. Maddy pegou a toalha e a passou pelo rosto antes de se aproximar de Reed. Vá¬rias dançarinas passaram por ele, lançando-lhe olhares sedutores nada sutis.
__ Você de novo. — Maddy pendurou a toalha no pescoço. Cuidadosamente, ela o tirou do caminho dos dançarinos esfomeados. — Você viu tudo?
__ Tudo?
__ A coreografia.
__ Sim. — Reed estava com dificuldades para se lembrar de qualquer coisa, exceto do modo como ela se movia, a sensualidade que brotava dela.
Rindo, Maddy agarrou a ponta da toalha e se apoiou na parede.
__ E o que achou?
__ É impressionante. — Agora ela parecia apenas uma mulher que tivera um dia duro no trabalho. Ain¬da atraente, mas não excitante daquele jeito primitivo. — Você tem, ah... muita energia, srta. O'Hurley.
__ Ah, sou um poço de energia. Você está aqui para mais reuniões?
__ Não. — Sentindo-se um pouco apalermado, Reed estendeu-lhe a escova de cabelo. — Acho que isto é seu.
__ Sim, é. — Feliz, Maddy pegou a escova da mão dele. — Achei que a tinha perdido. Muito gentil da sua parte. — Ela passou a toalha no rosto. — Espere um minutinho. — Maddy se afastou para colocar a escova e a toalha na mochila. Reed se permitiu o prazer de admirá-la naquele collant que se ajustava ainda mais ao corpo dela quando Maddy se abaixou. Ela voltou, com a mochila pendurada no ombro.
__ Que tal um almoço? — perguntou Maddy.
Era algo tão casual, e tão ridiculamente provocati¬vo, que Reed quase aceitou.
__ Tenho um compromisso.
__ Então, que tal um jantar?
Ele arqueou as sobrancelhas. Maddy olhava direta¬mente para ele, um meio sorriso nos lábios e gargalhadas nos olhos. As mulheres que Reed conhecia teriam deixa¬do para ele a tarefa de convidá-las para um jantar.
__ Você está me convidando para um encontro?
A pergunta foi feita com um cuidado especial, e Mad¬dy teve de rir.
__ Você é esperto, Valentine. Você é carnívoro?
__O que você disse?
__ Você come carne? — explicou. — Eu conheço um monte de gente que nem chega perto.
__ Ah... sim. — Ele se perguntava por que sentia que deveria pedir desculpas.
__ Ótimo. Eu lhe prepararei um bife. Tem uma ca¬neta?
Sem saber ao certo se estava encantado ou apenas atordoado, Reed tirou uma caneta do bolso interno do paletó.
__ Eu sabia que você aceitaria. — Maddy escreveu seu endereço. — Vejo você às 19h. — Ela chamou por alguém que passava no corredor e saiu antes que Reed pudesse concordar ou recusar o convite.
Reed saiu do prédio sem levar o endereço dela por escrito. Mas não o esqueceu.
Maddy sempre fazia coisas por impulso. Era assim que ela se justificava por ter convidado Reed para jantar sem nem conhecê-lo direito e sem ter nada mais in¬teressante em casa do que iogurte de banana. Ele era interessante, disse Maddy a si mesma. Por isso, no ca¬minho para casa, e depois de dez horas em pé, parou para fazer compras rápidas no mercado.
Ela não cozinhava com frequência. Não que Maddy não cozinhasse quando havia necessidade; era apenas mais simples e fácil comer algo enlatado ou de uma caixa. E Maddy sempre procurava o jeito fácil, quando o assunto não tinha a ver com o teatro.
Ao chegar a seu prédio, os Gianelli discutiam no apartamento do primeiro andar. Xingamentos em ita¬liano chegavam até a escadaria. Maddy se lembrou de pegar sua correspondência, desceu alguns lances de escada rapidamente e procurou no chaveiro pela cha¬ve minúscula que abria sua caixa de correio. Com um cartão-postal dos pais, uma oferta de seguro de vida e duas contas na mão, ela subiu as escadas.
No segundo andar a mulher recém-casada do 242 estava sentada lendo.
__ Como vai o curso de literatura? — perguntou-lhe Maddy.
__ Muito bem. Acho que vou conseguir meu diplo¬ma em agosto.
__ Que maravilha! — Mas ela parecia solitária, pen¬sou Maddy, parando para conversar com a vizinha por um momento. — Como vai Tony?
__ Ele está entre os finalistas para aquela peça do circuito alternativo. — Ao sorrir, seu rosto jovem e es¬perançoso brilhou. — Se ele conseguir um papel, nós podemos parar de servir mesas à noite. Ele diz que o sucesso está chegando.
__ Isso é ótimo, Angie. — Maddy não disse que para os ciganos o sucesso sempre estava muito perto. Mas as estradas continuavam longas. — Preciso ir. Te¬nho um convidado para o jantar.
No terceiro andar ela ouviu o eco de rock e bati¬das de pés. A rainha das discotecas estava ensaiando, pensou Maddy, subindo correndo mais um lance de escadas. Depois de uma busca rápida pela chave, ela entrou no apartamento. Maddy tinha uma hora para preparar tudo.
A caminho da cozinha, ela ligou o aparelho de som, deixando a mochila cair sobre uma bancada de fórmica. Maddy descascou duas batatas, colocou-as no forno, lembrou-se de ligá-lo e jogou os legumes frescos na pia.
De repente, ocorreu-lhe que podia limpar o aparta¬mento um pouco. Maddy não o varria desde... bem, ha¬via bagunça demais sobre a mesa para esconder a poeira. As pessoas podiam dizer que sua casa era uma bagunça, mas ninguém podia dizer que era um lugar chato.
A maior parte de sua mobília e os objetos de deco¬ração eram restos de peças da Broadway. Quando um espetáculo encerrava sua temporada — especialmen¬te quando era um fracasso —, o preço dos materiais e objetos usados em cena baixava consideravelmente. Aqueles objetos lhe traziam memórias, por isso Ma¬ddy não os substituiu nem quando começou a ganhar dinheiro. As cortinas eram vermelhas e exageradamen¬te decoradas — ela as roubou da peça A melhor casa suspeita do Texas. O sofá, com seu encosto recurvado e assentos duros demais, fora parte de um espetáculo fracassado do qual Maddy não se lembrava, mas tinha a fama de ter feito parte do cenário de My Fair Lady. Maddy achou melhor acreditar nisso.
As mesas não combinavam. Nem as cadeiras. Era uma miscelânea de épocas e cores, uma confusão de sucata e luxo que combinavam com ela.
Nas paredes havia cartazes pendurados. Cartazes das peças das quais Maddy fez parte e cartazes de es¬petáculos para os quais fora recusada de primeira. Ha¬via apenas uma planta ornamental, um filodendro, que alternava momentos de vida e morte em seu vaso ao lado da janela. Era a última planta, de toda uma fileira de soldados mortos.
Mas seu objeto mais valioso era um letreiro de neon cor-de-rosa com o seu nome. Trace lhe presen¬teara com aquilo quando Maddy conseguiu o primeiro trabalho como figurante na Broadway. Seu nome em luzes. Maddy ligou o letreiro como costumava fazer sempre e pensou que, embora seu irmão nunca estives¬se por perto, ele sempre se fazia presente.
Decidindo que o melhor era não perder muito tem¬po arrumando o apartamento, que estaria bagunçado de novo em alguns dias, Maddy limpou duas cadeiras, em¬pilhou as revistas e a correspondência e deixou por isso mesmo. Mais urgente era lavar suas roupas de dança.
Ela encheu a banheira com água quente e sabão, e mergulhou a meia e o collant que vestira na aula daquela manhã. Acrescentou as roupas que usara du¬rante o ensaio. Para aproveitar, Maddy colocou ainda na banheira suas faixas de cabelo e tornozeleiras. Com as mangas do blusão arregaçadas, começou o trabalho de esfregar, ensaboar e enxaguar. Usando um varal im¬provisado que instalara no banheiro, Maddy pendurou todas as roupas para secarem.
O banheiro não era maior do que um guarda-rou¬pa. Ao se levantar e se virar, Maddy se viu no espelho sobre a pia. Espelhos faziam parte de sua vida. Havia dias em que ela dançava na frente deles durante oito horas, observando, registrando e avaliando cada mús¬culo e movimento do corpo.
Agora Maddy olhava seu rosto — os ângulos pro¬porcionais e os traços satisfatórios. Era uma combina¬ção de queixo pontudo, olhos grandes e pele brilhosa que recebia horríveis elogios como "bonitinha" ou "simpática". Nada de horrível, pensou ela, mas podia melhorar a aparência um pouco.
Com um gesto extravagante, Maddy abriu a porta do gabinete espelhado e pegou várias maquiagens do fundo. Eram produtos que ela comprara, guardara e acumulara. Era quase uma obsessão. O fato de Maddy raramente usar maquiagem, a não ser quando estava se apresentando, não tornava esse passatempo uma coisa esquisita. Sempre que desejava brincar com seu rosto, Maddy tinha todas as ferramentas à disposição.
Durante dez minutos ela experimentou, passou, es¬palhou, tirou e passou vários produtos, até que o re¬sultado fosse apenas um pouquinho de cor exótica nos olhos e um leve toque de brilho no rosto. Maddy guar¬dou os potes, tubos e pincéis de volta no gabinete e fe¬chou rapidamente a porta, antes que tudo pudesse cair.
Será que ela deveria pôr o vinho para gelar? Ou tal¬vez devesse servi-lo em temperatura ambiente — que naquele momento beirava os 30 graus.


Maddy devia ter lhe dado o endereço errado. Reed con¬fiava em sua memória. Muito cedo, ensinaram-lhe a importância de se lembrar de nomes, rostos, fatos e números. Quando seu professor é seu pai e quando você adora seu pai, aprende. Em razão de anos de prá¬tica, e não por algum talento natural, Reed podia me¬morizar três colunas de números da contabilidade e recitar eles. Edwin Valentine ensinara seu filho que um empresário inteligente contratava os melhores conta¬dores e se certificava de que entendia do assunto tanto quanto eles.
Reed não se esquecera do endereço nem confundira os números, mas estava começando a acreditar nisso.
A vizinhança era barra-pesada e suja — e estava pio¬rando à medida que ele dirigia. Na calçada, havia uma cadeira quebrada, com o enchimento pendendo para o lado. Várias pessoas disputavam a propriedade do objeto. Um velho com uma camiseta de dormir e cal¬ção sentou-se na poltrona, parecendo mal-humorado, e abriu uma lata de cerveja. Ele ficou olhando como uma coruja enquanto o carro de Reed passava.
Como Maddy podia viver naquele lugar? Ou, pen¬sando melhor, por que ela viveria ali? Maddy O'Hurley acabara de encerrar um contrato sólido de um ano em um espetáculo que lhe dera uma indicação ao prêmio Tony — o mais importante do teatro. Antes disso, ela tivera mais um ano como coadjuvante e substituta da estrela principal na remontagem de sucesso de Dá-me um beijo.
Reed sabia disso porque era parte do seu negócio. Seu negócio, disse para si mesmo, estacionando na cal¬çada em frente ao prédio cujo número correspondia ao que Maddy lhe dera. Uma mulher que estava prestes a entrar em seu terceiro grande espetáculo da Broadway podia se dar ao luxo de viver em um bairro onde as pessoas não abrissem buracos nas calçadas à noite.
Assim que Reed saiu do carro viu um jovem de ca¬puz apoiado em um poste de luz. Xingando baixinho, Reed se aproximou dele. O executivo estava vestido com simplicidade, mas, mesmo sem terno e gravata, parecia o sócio de um clube de ricos.
__ Quanto você quer para tomar conta do carro? — perguntou Reed, repentinamente. — Em vez de de¬pená-lo?
O menino se remexeu e sorriu com arrogância.
__ Belas rodas você tem, Lancelot. Não se vê mui¬tos BMWs por aqui. Estou pensando em pegar minha câmera.
__ Tire todas as fotos que quiser. Só não faça mais nada. — Reed tirou uma nota de 50 dólares da cartei¬ra. — Considere-se empregado. Você vai receber mais 20 dólares se o carro estiver intacto quando eu voltar. Você não vai ganhar muito mais do que isso se roubar as calotas. Por isso, tudo o que você vai precisar fazer é respirar um pouco do ar fresco da noite.
O menino olhou o carro e depois o motorista. Ele sabia avaliar um adversário e suas chances. Os olhos cruéis eram calmos e diretos. Se tivesse visto medo nos olhos de Reed, o menino o teria pressionado. Em vez disso, porém, ele aceitou os 50 dólares.
__ Você é quem manda. Tenho algumas horas de folga. — Ele deu uma risadinha, mostrando os dentes da frente cariados. Os 50 dólares desapareceram antes mesmo que Reed começasse a andar para a porta de entrada do edifício.
O nome de Maddy estava na caixa de correio do que podia ser chamado de saguão. Apartamento 405. E não havia elevador. Reed começou a subir as esca¬das, preenchidos por gritos de crianças, jazz no último volume e xingamentos dos Gianelli. Ao chegar ao ter¬ceiro andar, ele também estava xingando.
Ao ouvir a batida na porta, Maddy estava prepa¬rando a salada. Ela sabia que Reed seria pontual tanto quanto sabia que ela não seria.
__ Um minuto — gritou, olhando em volta, ator¬doada, à procura de um pano para secar as mãos. De¬sistindo de encontrá-lo, Maddy balançou as mãos no ar e foi até a porta. Ela deu um puxão na maçaneta e uma risadinha para Reed.
__ Oi. Espero que não esteja com fome. Ainda não terminei.
__ Não. Eu... — Ele deu uma olhada para trás, so¬bre os ombros. — O corredor... — começou, mas as palavras lhe escaparam.
Maddy pôs a cabeça para fora e respirou fundo.
__ Fede como pasto — disse ela. — O Guido deve estar cozinhando novamente. Entre.
Ele devia estar preparado para o apartamento de Maddy, mas não estava. Reed olhou em volta: as cor¬tinas vermelhas, o tapete azul, a cadeira que parecia saída diretamente de um castelo medieval. E tinha, de fato, feito parte do cenário de Camelot. As luzes de neon cor-de-rosa brilhavam com o nome dela, contra a parede branca.
__ Um lugar e tanto — murmurou ele.
__ Eu gosto, quando estou aqui. — Sobre a cabeça dela, ouviu-se três batidas simultâneas. — Tem uma es¬tudante de balé no quinto andar — disse Maddy, calma¬mente. — Tours jeté. Gostaria de um pouco de vinho?
__ Sim. — Desconfortável, Reed deu uma olhada para o teto novamente. — Acho que gostaria.
__ Ótimo. Eu também. — Ela voltou para a cozi¬nha, que ficava separada da sala de estar por um móvel e um pouco de imaginação. — Tem um saca-rolhas em uma dessas gavetas — disse-lhe. — Por que você não abre a garrafa enquanto eu termino a salada?
Depois de um momento de hesitação, Reed começou a procurar o saca-rolhas nas gavetas da cozinha do apar¬tamento de Maddy. Na primeira, ele encontrou uma bola de tênis, várias chaves perdidas e algumas fotogra¬fias, mas nenhum saca-rolhas. Remexendo em outra ga¬veta, Reed se perguntava o que estava fazendo ali. No quinto andar, a estudante de balé continuava saltando.
__ Como você gosta do seu bife?
__ Ele encontrou o saca-rolhas em meio a um emara¬nhado de grampos.
__ Ah... ao ponto para mal.
__ Certo. — Ao se inclinar para pegar uma assa¬deira de grelhar do armário, o rosto de Maddy quase resvalou no joelho dele. Reed tirou a rolha da garrafa e deitou o vinho de lado para a bebida respirar.
__ Por que você me convidou para jantar?
Ainda inclinada e remexendo nas coisas, Maddy vi¬rou o rosto para cima.
__ Nenhum motivo específico. Eu raramente faço as coisas por algum motivo, mas, se você quiser, digamos que seja por causa da escova de cabelo. — Maddy le¬vantou-se, segurando uma assadeira. — Além do mais, você é lindo de se olhar.
Ela viu a satisfação surgir e desaparecer dos olhos dele e ficou feliz.
__ Obrigado.
__ De nada. — Maddy afastou o cabelo que lhe caía sobre os olhos e pensou vagamente que já estava na hora de ela fazer as perguntas. — Por que você veio?
__ Não tenho a menor ideia.
__ Isso, com certeza, tornará as coisas ainda mais inte¬ressantes. Você nunca patrocinou um espetáculo antes, não é?
__ Não.
__ E eu nunca preparei um jantar para um patroci¬nador. Portanto, estamos quites. — Colocando a sala¬da de lado, Maddy começou a preparar a carne.
__ Onde estão as taças?
__ Taças? — repetiu ela, olhando para o vinho. — Ah, elas estão no armário de cima.
Conformado, Reed começou uma nova busca. Ele encontrou xícaras com as asas quebradas, um conjunto de porcelana chinesa e vários pratos de plástico. Por fim, encontrou um amontoado de oito taças de vinho, todas diferentes uma das outras.
__ Você não gosta das coisas iguais?
__ Na verdade, não. — Maddy pôs o bife sobre a grelha e bateu na porta do forno. — Precisa de um tranco para começar a funcionar — informou-lhe, aceitando a taça que Reed lhe oferecia. — Ao SIP.
__ O quê?
__ Somente ingresso em pé. — Maddy bateu de leve na taça dele e bebeu.
Reed olhava para ela sobre a borda de sua taça. Maddy ainda vestia um blusão de moletom grande de¬mais. Ela estava descalça. O perfume no ar era leve, fresco e singelo.
__Você não é nada do que eu imaginava.
__ Que bom. Mas o que você imaginava?
__ Uma pessoa mais arisca, acho. Um pouco cansa¬da e faminta.
__ Dançarinas estão sempre com fome — disse ela, dando um sorrisinho e se virando para espalhar queijo ralado sobre as batatas.
__ Cheguei à conclusão que você me convidou por dois motivos. Primeiro, para me falar da situação fi¬nanceira do espetáculo.
Maddy engasgou, colocando um pouco de queijo na língua.
__ Reed, eu tenho de me preocupar com oito coreo¬grafias, talvez dez, se Macke mudar de ideia, seis músi¬cas e falas que ainda não contei. Eu deixo os assuntos de dinheiro para você e para os produtores. Qual era a segunda razão?
__ Para me conquistar.
Ela franziu a testa, mais curiosa do que surpresa. Reed olhava para ela calmamente, os olhos negros e tranquilos, o sorriso frio e ligeiramente entretido. Um cínico, pensou Maddy, concluindo que aquilo era uma pena. Mas talvez ele tivesse razão para ser assim. E isso era mais pesaroso ainda.
As mulheres costumam dar em cima de você? Reed imaginava que Maddy ficaria envergonhada, irritada ou ao menos risse. Ao contrário, ela olhou para ele com certa curiosidade.
__ Vamos apenas ignorar isso, sim?
__ Eu acho que elas costumam tentar conquistá-lo. — Maddy começou sua caça por um garfo, a fim de virar o bife. — E eu acho que depois de um tempo você co¬meçou a se ofender com isso. Eu nunca tive de lidar com esse tipo de coisa. Afinal, os homens sempre correram atrás da minha irmã. — Maddy encontrou o garfo, abriu rapidamente a porta do forno e virou a carne.
__ Só tem uma — disse Reed.
__ Não, tenho duas irmãs.
__ Carne. Você só está assando um bife.
__ Sim, eu sei. O seu.
__ Você não vai comer?
__ Ah, claro. Mas eu nunca como muita carne ver¬melha. — Ela fechou com força a porta do forno. — Carne me deixa entupida. Eu achei que você me daria umas mordidas do seu. Aqui. — Ela lhe estendeu uma tigela de salada. — Leve isso para aquela mesinha ali, perto da janela. Está quase pronto.
A comida estava boa. Na verdade, estava excelente. Ao vê-la cozinhando toda atapalhada, Reed teve dúvi¬das. A salada era uma sinfonia de folhas misturadas, com molho vinagrete picante. Queijo e bacon acom¬panhavam as batatas assadas e o bife fora grelhado no ponto certo. O vinho era um pouco rascante.
Maddy ainda estava bebendo sua primeira taça. Ela comia uma fração do que soava normal para Reed, e parecia se deliciar com cada mordida.
__ Pegue um pouco mais do bife — ofereceu ele, mas Maddy fez que não com a cabeça. Mesmo assim, ela pegou um pouco mais da salada. — Eu achava que as pessoas que tinham um trabalho físico como o seu tinham de comer mais, para compensar o desgaste.
__ Dançarinas são melhores quando estão um pou¬co abaixo do peso. O mais importante é comer as coi¬sas certas. E eu realmente odeio isso. — Maddy deu uma risadinha, servindo-se de alface e broto de alfafa. — Não que eu odeie o tipo certo de comida. É que eu adoro comer, ponto. Às vezes, como milhares de ca¬lorias. Mas sempre digo que esses momentos são uma espécie de celebração.
__ De que tipo?
__ Bem, digamos que esteja chovendo por três dias e então o sol surge. Isso é motivo suficiente para se comer biscoitos de chocolate. — Maddy se serviu com mais meia taça de vinho e encheu a taça de Reed, até que notou a expressão dele. — Você não gosta de bis¬coito de chocolate?
__ Eu nunca pensei neles como uma coisa para se celebrar.
__ É porque você nunca viveu uma vida louca.
__ Você considera sua vida louca?
__ Não. Mas milhares de pessoas consideram. — Maddy pôs os cotovelos sobre a mesa e apoiou o quei¬xo nas mãos. A comida, algo em que ela pensava com frequência, podia ser facilmente ignorada quando a conversa era interessante. — Como é a sua vida?
A luz que entrava pela janela ao lado deles estava desaparecida rapidamente. O pouco que restava ilu¬minava os cabelos de Maddy. Os olhos, sempre tão arregalados, tão entregues, agora pareciam os olhos de um gato: amarelados, preguiçosos, alertas. O neon cor-de-rosa chiava ao exibir o nome dela.
__ Não sei como responder a sua pergunta.
__ Bem, talvez eu possa adivinhar um pouco. Você tem um apartamento, provavelmente com vista para o parque. — Maddy pegou um pouco mais de salada, ainda olhando para Reed. — Vasos da dinastia Ming, esculturas de Dresde: algo assim. Você passa mais tempo no escritório do que em casa. Preocupado com o trabalho, dedicado aos negócios. Como qualquer pessoa que fosse a segunda geração de uma família de magnatas. Você namora às vezes, porque não tem tempo ou disposição para um relacionamento mais duradouro. Você passaria mais tempo no museu, se pudesse; assiste a um filme estrangeiro de vez em quando e prefere restaurantes franceses silenciosos.
Reed viu que Maddy não estava rindo dele. Ela esta¬va mais entretida do que impressionada. Uma irritação surgiu em seus olhos, não por causa da descrição que ela fizera e sim porque Maddy era capaz de entendê-lo facilmente.
__ Isso é muito inteligente.
__ Desculpe — disse ela com tanta sinceridade que a irritação desapareceu dos olhos de Reed. — É um péssimo hábito que tenho, avaliar as pessoas, medi-las. Eu ficaria furiosa se alguém fizesse o mesmo comigo. — Então, ela ficou em silêncio, mordendo o lábio. — Cheguei muito perto?
Era difícil resistir ao bom humor dela.
__ O suficiente.
Rindo, Maddy jogou a cabeça para trás, para ar¬rumar seus cabelos. Depois, ela sentou com as pernas cruzadas sobre a cadeira.
__ Posso lhe perguntar por que você está patroci¬nando um espetáculo sobre uma dançarina de boate, uma stripper?
__ Posso lhe perguntar por que você está estrelan¬do um espetáculo sobre uma dançarina de boate, uma stripper?
Reed pensou que Maddy sorriu para ele como uma professora cujo aluno respondeu a pergunta de modo especialmente brilhante.
__ É uma peça maravilhosa. O segredo para ter cer¬teza disso é olhar para o texto sem as músicas e os nú¬meros de dança. A música demarca, enfatiza, emocio¬na, mas, mesmo sem isso, a história é boa. Eu gosto do modo como Mary muda de vida sem ter de mudar sua personalidade. Ela teve de aprender a sobreviver, e fez o melhor que podia. Agora ela quer mais, e vai em busca disso, porque merece mais. O único problema é que ela é realmente apaixonada pelo cara. Ele é tudo o que ela sempre quis, mas ela realmente perde a cabeça por causa dele. Depois disso, o dinheiro já não importa, nem a posição social, e Mary acaba tendo isso tudo de qual¬quer jeito. Eu gosto disso.
__ Feliz para sempre?
__ Você não acredita em finais felizes?
Sua expressão se fechou, de maneira rápida, curiosa.
__Em peças de teatro, sim.
__ Eu devia lhe contar a história da minha irmã.
__ Aquela que atrai todos os homens?
__ Não, minha outra irmã. Você gostaria de um doce? Eu comprei só um para você, mas se você não gostar, pode me dar uma mordida. Seria muito rude da minha parte recusar.
Droga, ela estava se tornando atraente a cada minu¬to. Não fazia o tipo dele, nem tinha o ritmo ou estilo de Reed. Mesmo assim, ele sorriu para Maddy.
__ Eu adoraria um docinho.
Maddy foi até a cozinha, vasculhou ruidosamente e voltou com um doce gordo, coberto de chocolate.
__ Minha irmã Abby — começou. — Ela se casou com Chuck Rockwell, o piloto de corrida. Você já ou¬viu falar dele?
__ Sim. — Reed nunca foi fã de corridas de auto¬móvel, mas o nome não lhe era estranho. — Ele mor¬reu há alguns anos.
__ Isso mesmo. O casamento deles não deu certo. Abby passou por maus momentos. Ela estava criando dois filhos sozinha em uma fazenda na Virgínia. Fi¬nanceiramente, ela estava arruinada, e emocionalmen¬te, esgotada. Há alguns meses ela permitiu que fosse publicada uma biografia sobre Rockwell. O autor foi até a fazenda, acho, para tirar tudo o que pudesse dela — contou Maddy, colocando o doce sobre a mesa. — Você vai me oferecer uma mordida?
Obediente, Reed cortou um pedacinho do doce com o garfo e lhe ofereceu. Maddy deixou a massa, o creme e a cobertura sobre sua língua por algum tempo.
__ E o que aconteceu com sua irmã?
__ Ela se casou com o escritor há umas seis sema¬nas. — Ao sorrir, seu rosto todo se iluminou, com uma força tão grande quanto a do letreiro de neon cor-de-rosa. — Felizes para sempre não acontece só em peças de teatro.
__ E o que a faz pensar que o segundo casamento da sua irmã vai dar certo?
__ Acredito nisso porque ele é o homem certo para ela. — Maddy se inclinou para a frente, os olhos fixos nos dele. — Minhas irmãs e eu somos trigêmeas e nos conhecemos muito bem. Quando Abby se casou com Chuck, fiquei com pena. Dentro de mim, sabe, eu sabia que aquilo não era certo e que jamais daria certo, por¬que conheço Abby tão bem quanto me conheço. Eu só podia rezar para que, de algum jeito, tudo se ajeitasse. Quando ela se casou com o Dylan, senti algo diferente. Foi como deixar escapar um longo suspiro e relaxar.
__ Dylan Crosby?
__ Sim, você o conhece?
__ Ele escreveu um livro sobre Richard Bailey. Ri¬chard foi um contratado da gravadora por 20 anos. Eu conheci Dylan muito bem quando ele estava fazendo a pesquisa para o livro.
__ Mundo pequeno.
__ É mesmo.
A noite caíra e o céu estava ficando arroxeado, mas Maddy não se incomodou em acender as luzes. A es¬tudante de balé parara de praticar há muito tempo. De algum lugar no corredor, podia-se ouvir um bebê chorando com toda a força.
__ Por que você mora aqui?
__ Aqui? — Ela lançou-lhe um olhar aturdida. — E por que não?
__ Porque Átila, o Huno, mora na sua esquina, os vizinhos gritam...
__ E? — perguntou ela, provocando-o.
__ Você poderia morar num bairro melhor.
__ Para quê? Eu conheço esta vizinhança. Eu moro aqui há sete anos. É perto da Broadway, perto das sa¬las de ensaio e das aulas. Provavelmente, metade dos inquilinos deste prédio é de ciganos.
__ Eu não me surpreenderia.
__ Não. Estou falando de ciganos dos teatros. — Maddy riu e começou a brincar com uma folha de sua planta ornamental. Era um gesto de nervosismo que ela não percebera em si mesma. — Dançarinos que se mudam de um espetáculo para outro, na esperança de ter uma oportunidade de ouro. Eu consegui. Mas isso não quer dizer que eu tenha deixado de ser uma ciga¬na. — Maddy olhou para Reed, perguntando-se por que ela queria tanto que ele a compreendesse. — Você não pode mudar o que é, Reed. Ou, pelo menos, não deveria mudar.
Ele também acreditava naquilo. Sempre acreditara. Reed era filho de Edwin Valentine, um dos pioneiros da indústria fonográfica. Ele era um produtor de su¬cesso, rico, e um sobrevivente. Ele era, como Maddy dissera, devotado ao trabalho, porque o trabalho sem¬pre fizera parte da sua vida. Reed era impaciente e ge¬ralmente grosseiro, um homem que olhava as últimas linhas de um contrato antes de mudá-lo para que aten¬desse a seus desejos. Reed não tinha interesse nenhum em ficar sentado em um apartamento escuro com uma mulher com olhos de gato e um sorriso encantador. Ele tinha menos interesse ainda em alimentar fantasias sobre como seria ficar até que a lua começasse a des¬pontar no céu.
__ Você está matando essa planta — murmurou Reed.
__ Eu sei. Sempre faço isso. — Maddy teve de en¬golir em seco, e isso a surpreendeu. Havia algo no modo como Reed a estava olhando naquele momen¬to. Algo no tom de voz dele, no jeito de se sentar. Maddy podia se enganar sobre um rosto, mas nunca sobre a postura de alguém. Reed estava tenso, assim como ela. — Eu continuo comprando e matando essas plantinhas.
__É sol demais. — Ele não quis, mas passou os de¬dos sobre as costas da mão dela. — E água demais. É tão fácil amar demais quanto amar de menos.
__ Não tinha pensado nisso. — Maddy estava pensan¬do no arrepio que subiu por seu braço e desceu por sua coluna. — As suas plantas, provavelmente, estão lindas, com o perfeito equilíbrio de atenção. — Ela percebeu que estava se perguntando se o mesmo acontecia com as mulheres dele. Então, Maddy se levantou, porque seu corpo não estava reagindo como ela imaginara. — Posso lhe oferecer chá, mas não café, porque não tenho.
__ Não. Eu tenho de ir. — Era mentira. Reed não tinha compromissos. Mas ele era um sobrevivente e sa¬bia quando devia se afastar. — Adorei o jantar, Maddy. E a companhia.
Ela deixou escapar um longo suspiro, como se ti¬vesse pousado depois de um salto altíssimo.
__ Fico feliz. Vamos repetir.
Era um impulso. Tudo era sempre impulsivo com Maddy. Ela não pensou no assunto duas vezes. Com um carinho amigável, pôs as mãos sobre os ombros de Reed e o beijou de leve nos lábios. O beijo durou me¬nos de um segundo. E vibrou como um furacão.
Reed sentiu os lábios dela, macios e ligeiramente cur¬vados num sorriso. Ele saboreou-lhe a doçura furtiva, com um toque de pimenta. O perfume estava lá, sus¬penso, leve e provocativo. Quando Maddy se afastou, Reed a ouviu respirar e viu a surpresa nos olhos dela.
O que era aquilo? Por Deus, o que foi aquilo? Maddy era uma mulher de beijinhos de amigos na boca, abraços e toques ocasionais. Mas nunca algo assim a atingira da¬quela maneira. Maddy sentiu mais coisas do que jamais imaginara nesse rápido contato. E ela queria mais. Mas como estava acostumada a se negar as coisas na vida, foi fácil controlar o desejo de ativar o fogo mais uma vez.
__ Que bom que você veio. — O tremor na voz a deixou intrigada.
__ Fico feliz. — Não era sempre que Reed precisava se controlar. Não era sempre que ele tinha de se negar alguma coisa que desejava. Mas, naquele caso, Reed sabia que tinha de se conter. — Boa noite, Maddy.
__ Boa noite. — Ela ficou onde estava enquanto Reed saía. Então, atendendo aos apelos de seu corpo, Maddy se sentou. É melhor pensar com cuidado sobre isso, advertiu-se. Melhor pensar por muito tempo. En¬tão, ela olhou para a planta que estava murchando e amarelando de encontro à janela. Estranho, mas Maddy não percebera que estava no escuro há tanto tempo.


Capítulo Três

C
om os músculos aquecidos e os olhos sonhadores, Maddy se alongava na barra com vários outros dançarinos. O professor ditava os movimentos — plié, tendu, attitude. Pernas, peitos e braços reagiam à repe¬tição infindável.
A aula da manhã era baseada em repetição, um lem¬brete constante para o corpo de que era capaz de fazer o que não era natural e fazer isso muito bem vezes sem fim. Sem isso, o corpo simplesmente se revoltaria e se recusaria a se esforçar, a girar a perna como se não houvesse articulações, a se contorcer para além da imaginação, a ultrapassar os limites do que era normal. Em essência, sem aquelas aulas o corpo se tornaria algo comum.
Não era preciso se concentrar totalmente. O corpo de Maddy tinha a disciplina e o instinto para se guiar sozinho pelo aquecimento. Sua mente vagava, longe o bastante para sonhar e perto o bastante para ouvir as instruções.
Grand plié. Seus joelhos se dobraram e o corpo desceu lentamente, até o quadril tocar em seus calca¬nhares. Os músculos tremiam e aceitavam o esforço. Maddy se perguntava se Reed já estava no escritório, embora ainda fossem 9h. Ela achava que Reed estaria lá. Maddy o imaginou chegando e cumprimentando a secretária e a assistente. Será que ele pensaria nela?
Attitude en avant. Maddy levantou as pernas, man¬tendo um ângulo de 90 graus. Ela continuou, enquan¬to a contagem avançava. Reed, provavelmente, não pensaria nela, concluiu. A mente dele estava tão cheia de reuniões e compromissos que ele não teria tempo nem mesmo para um pensamento rápido.
Battement fondu. Ela pôs o pé sob o joelho de apoio, que se dobrou em sincronia. Lentamente, Maddy se er¬gueu, sentindo a resistência, usando-a. Reed não tinha de pensar nela agora. Mais tarde, talvez, a caminho de casa, bebendo algo, concentrado nela. Era o que Maddy gostaria que ocorresse.
O collant gasto cinzento de Maddy estava ensopa¬do quando ela foi para o meio da sala para os exer¬cícios fora da barra. Os movimentos na barra seriam repetidos. Ao sinal, ela assumiu a quinta posição e começou.
Um, dois, três, quatro. Dois, dois, três, quatro.
Lá fora, chovia. Maddy podia ver a torrente de água que escorria pela janela enquanto se curvava, alongava, esticava-se e ficava imóvel, de acordo com as instru¬ções. Uma chuva quente, pensou. O ar estava úmido e pesado quando ela saiu correndo para a aula, naquela manhã. Maddy rezava para a chuva não cessar até que pudesse sair daquela sala.
Quando criança, Maddy não tinha muito tempo para andar na chuva. Não que se arrependesse de algu¬ma coisa. Mesmo assim, Maddy e sua família passavam mais tempo em ensaios e estações de trem do que em parques. Seus pais levavam a diversão com eles: jogos, charadas e histórias. Histórias ridículas e fantasiosas, histórias que continham mundos. Quando você tem a felicidade de ter pais irlandeses, com imaginação fértil, o céu é o limite.
Maddy aprendera tanto com seus pais. Mais do que noções de tempo e de projeção artística. Havia pouca instrução formal, mas geografia era ensinada na estra¬da. Ver o rio Mississipi era mais esclarecedor do que ler sobre ele. Inglês, gramática e literatura vieram dos livros que seus pais amavam e lhes davam. Matemática era aprendida na prática, por uma questão de sobrevi¬vência. A educação de Maddy fora tão fora do conven¬cional quanto seu lazer, mas ela se considerava mais instruída do que a maioria das pessoas.
Ela não sentia falta dos parques. Sua infância fora vivida num carrossel. Mas agora, como mulher, Maddy raramente perdia a oportunidade de andar sobre a chu¬va quente de verão.
Andar na chuva era algo que não atrairia Reed. Na verdade, Maddy duvidava até mesmo que ele algum dia tivesse pensado nisso. Eles viviam em mundos se¬parados — pelo berço, escolhas e interesses. Maddy deslizou o pé direito num chassé, para trás, para a frente e para o lado. Repetindo. Repetindo. Reed se¬ria racional, sensato e talvez um pouco impiedoso. Não era possível ter sucesso no mundo dos negócios agindo de outra maneira. Ninguém consideraria que forçar seu corpo a assumir uma posição que não é natural dia após dia é uma coisa que se faça racio¬nalmente. Ninguém pensaria que se jogar de corpo e alma no mundo do teatro e se sujeitar aos caprichos do público é uma coisa sensata. E se Maddy agia com impiedade, só o fazia com as exigências que determi¬nava a si mesma fisicamente.
Então, por que Maddy não conseguia parar de pen¬sar nele? Ela não conseguia parar de imaginar. Ela não conseguia parar de se lembrar do modo como a luz fraca do dia que terminava iluminava o cabelo dele, escurecendo-o ainda mais — ou do modo como Reed a olhara com olhos fixos, diretos, intrigados e céticos. Era estupidez para uma pessoa otimista se sentir atraí¬da por um cético? Claro que era. Mas Maddy já fizera muitas coisas estúpidas.
Eles se beijaram, se bem que um beijo rápido. Reed não a abraçara. Ele não a beijara com vontade e dese¬jo. Mesmo assim Maddy reviveu aquele breve contato vezes sem fim. De algum modo ela achava — de al¬gum modo tinha certeza — que Reed fora tocado. Por mais estúpido que fosse, Maddy se sentiu emocionada e reviveu aquele momento. Isso acrescentou uma fina camada de suor e calor à sua pele já quente. Sua pulsa¬ção, já acelerada por causa do esforço dos exercícios, aumentou ainda mais.
Incrível, pensou Maddy, como a lembrança de uma sensação podia ter tanta força. Começando uma série de pirouettes, ela reviveu aquele sentimento e girou com ele.


Com o cabelo ainda pingando do chuveiro, Maddy enrolou-se com uma toalha amarela, brilhante. Os ves¬tiários do salão de ensaios cheiravam a colônia e a tal¬co. Uma mulher alta, nua da cintura para cima, sentou-se em um canto e massageou a panturrilha, sentindo câimbras.
__ Realmente agradeço por você ter me contado so¬bre esta aula. — Wanda, resplandecente em uma calça jeans e uma blusa justa, prendia os cabelos num coque semiarrumado. — É mais dura do que a outra aula que eu fazia. E 5 dólares mais barata.
__ A professora tem um coração mole quando se trata de ciganos. — Maddy foi até um banco, inclinou-se e começou a direcionar o secador na parte de baixo de seus cabelos.
__ Nem todo mundo na sua posição gosta de com¬partilhar.
__ Que é isso, Wanda.
__ O mundo da dança não é nenhuma irmandade, querida. — Wanda prendeu o último grampo e ficou observando o reflexo de Maddy pelo espelho. Mes¬mo com os cabelos avermelhados escondendo-lhe o rosto, Wanda a viu fazer uma careta de desaprovação. — Como protagonista, você não pode me dizer que não sente os novatos nos seus calcanhares.
__Isso me faz trabalhar ainda mais. — Maddy re¬mexia na parte de trás dos cabelos, impaciente demais para secá-los. — Onde você comprou esses brincos?
Wanda terminava de prender enormes prismas aver¬melhados que lhe caíam quase sobre os ombros. Ao me¬xer a cabeça, os brincos começaram a rodar. Tanto Wan¬da quanto Maddy aprovaram silenciosamente o resultado daquele movimento.
__Numa loja do Village. Cinco, sete, um.
Maddy levantou-se e ficou em pé, com a cabeça pró¬xima à de Wanda. Ela estreitou os olhos, imaginando.
__ Será que eles têm brincos assim em um tom de azul?
__ Provavelmente. Você gosta de brincos espalha¬fatosos?
__ Adoro!
__ Eu troco este por aquela sua blusa com estampa de olhos.
__ Fechado — disse Maddy imediatamente. — Eu a levarei ao ensaio.
__ Você parece feliz.
Maddy sorriu e se pôs na ponta dos pés para colo¬car sua orelha perto da de Wanda.
__ Eu sou feliz.
__ Quero dizer, você parece feliz por causa de um homem.
Arqueando a sobrancelha, Maddy ficou olhando para o próprio reflexo no espelho. Sem maquiagem, sua pele brilhava, saudável. Sua boca era carnuda e bem delineada, sem a necessidade de batom. Era uma pena, pensava Maddy sempre, que seus cílios fossem claros, grossos e curtos. Chantel tinha cílios escuros e longos.
__ Por causa de um homem — repetiu Maddy, gos¬tando do som daquilo. — Eu realmente conheci um homem.
__ Dá para ver. Bonito?
__ Maravilhoso. Ele tem olhos incrivelmente acin¬zentados. Cinzas mesmo, sem nada de verde. E um tanto conquistadores. — Ela tocou seu próprio rosto.
__ Vamos falar do corpo dele.
Maddy deixou escapar uma risada e passou o braço em volta do pescoço de Wanda. As melhores amizades nascem rapidamente, do nada, pensou.
__ Ombros largos e retos. Boa postura. Acho que tem belos músculos.
__ Acha?
__ Eu não o vi nu.
__ Bem, querida, qual é o seu problema?
__ Nós apenas jantamos. — Maddy estava acostu¬mada a conversas sinceras e abertas sobre sexo. Mais acostumada a falar sobre isso do que a fazer. — Eu acho que ele estava interessado, mas sem compromisso.
__ E você quer que ele fique interessado e pense em compromisso. Ele não é um dançarino, é?
__ Não.
__ Ótimo. — Wanda rodopiou os brincos uma últi¬ma vez e começou a soltá-los. — Dançarinos são péssi¬mos maridos. Eu que o diga.
__ Bem, não estou pensando em me casar com ele... — disse Maddy, arregalando os olhos. — Você foi ca¬sada com um dançarino?
__ Há cinco anos. Fazíamos parte do coro da remontagem de Pippin. Acabamos nos casando na noite de estreia. — Ela estendeu os brincos para Maddy. — O problema foi que, antes do fim da tem¬porada, ele se esqueceu o significado da aliança que usávamos.
__ Que triste, Wanda.
__ Foi uma lição — disse ela, dando de ombros. —Não se jogue de cabeça em algo tão sério com um homem bonito e de fala macia. A não ser que ele seja rico — acrescentou. — O seu é?
__ O meu... ah. — Maddy fez um biquinho para o espelho. — Acho que sim.
__ Então, agarre-o. Se não der certo, você pode ga¬rantir um gordo acordo.
__ Não acho que você seja tão cínica quanto gosta de aparentar. — Maddy deu uma olhada para o leve menear de ombros de Wanda. — Doeu tanto assim?
__ Ainda dói. — Wanda achou estranho dizer aqui¬lo, porque jamais admitira tal coisa para ninguém. — Digamos que eu tenha aprendido que um casamento só dá certo se as duas pessoas jogarem de acordo com as regras. Quer tomar um café?
__ Não posso. — Ela olhou para baixo, para a plan¬ta semimorta sob o banco do vestiário. — Tenho de fazer uma entrega.
__ Isso? — Wanda deu uma risadinha. — Parece que essa planta precisa de um sepultamento decente.
__ Ela precisa é de atenção na medida certa — cor¬rigiu Maddy, prendendo os brincos recém-adquiridos.


Ele não parara de pensar nela. Reed não estava acos¬tumado a nada atrapalhando seus compromissos — especialmente uma mulher aérea e excêntrica, com seu nome escrito em neon na parede. Eles não ti¬nham nada em comum. Foi o que Reed disse a si mesmo repetidas vezes na noite anterior, sem conse¬guir dormir. Ela não tinha nada que o atraísse. A não ser aqueles olhos dourados. Ou a risada que surgia do nada e que podia ficar ecoando em sua mente durante horas.
Reed preferia mulheres com gosto pelo clássico e modos elegantes. As companhias que ele escolhia jamais dirigiriam pela vizinhança de Maddy sem um guarda¬costas e, muito menos, viveriam lá. Elas certamente não pediriam uma mordida da carne de seu prato. As mulheres com as quais Reed saía iam ao teatro, não se apresentavam nele. Elas, certamente, não deixariam que um homem as visse suar.
Então por que, depois de alguns encontros breves com Maddy O'Hurley, ele estava começando a achar que as mulheres com quem saía eram chatas? Claro que não eram. Reed voltou a examinar os relatórios de vendas. Ele jamais saíra com uma mulher apenas pela aparência. Reed sempre quisera e buscara conversas inteligentes, interesses mútuos, bom humor e estilo. Ele queria poder discutir a mais recente exposição de pintores impressionistas do Metropolitan durante o jantar ou as condições do tempo em St. Moritz beben¬do um conhaque.
O que Reed sempre evitara — e evitara cuidado¬samente — eram mulheres ligadas de algum jeito ao mundo artístico. Ele respeitava e admirava os artis¬tas, mas os mantinha a certa distância, convivendo apenas socialmente. Como presidente de uma gra¬vadora, Reed tinha de lidar com cantores, músicos, agentes e representantes. A Valentine Records não era apenas um negócio. Não como seu pai via a em¬presa. A gravadora era uma organização que fornecia ao consumidor o que havia de melhor na música, de Bach ao rock, e valorizava os talentos que contratava e desenvolvia.
Desde criança, Reed lidara com músicos. Ele acha¬va que entendia as necessidades, as ambições e os pontos fracos deles. Em seu tempo livre, Reed prefe¬ria a companhia de gente menos complicada. Menos sugestionável. Até porque suas próprias ambições eram bastante intensas. A gravadora era uma de suas maiores preocupações, e permaneceria assim. Reed queria desse modo. Não só por causa de seu pai, mas por si mesmo. Se, como acontecia com frequência, tivesse de trabalhar dez horas por dia para e com artistas, Reed precisava se isolar deles quando o dia terminasse.
Mas ele não era capaz de parar de pensar em Maddy.
O que a fazia tão atraente? Reed pôs de lado os re¬latórios de vendas e voltou a admirar a vista que tinha da cidade. A chuva transformara tudo num cenário fantasioso e cinzento. Maddy parece não ter aquele escudo de proteção que sua profissão exigia. Ela estava chegando ao topo, mas não parecia especialmente en¬tusiasmada com isso. Será que Maddy era mesmo tão simples e descomplicada quanto parecia?
E por que ele se importava?
Reed jantara com ela — um jantar rápido e sim¬ples. Eles tiveram uma conversa interessante e, de algum modo, íntima. Eles trocaram um beijo rápido, como amigos. E isso o fizera tremer de cima a baixo.
Então Reed se sentia atraído. Ele não era de despre¬zar um olhar cheio de vida e reluzente ou um corpo pequenino e em forma. Era natural sentir uma curio¬sidade a respeito daquela mulher, com suas filosofias antiquadas e pensamentos provocantes. Se Reed que¬ria tornar a vê-la, não havia nada de mau nisso. Era tudo muito simples. Ele apenas pegaria o telefone e ligaria para Maddy. Eles podiam jantar juntos nova¬mente... mas do jeito dele. Antes que a noite estivesse terminada, Reed descobriria o que Maddy tinha que o atraía tanto.
Quando a porta se abriu, seu olhar irritado se trans¬formou num sorriso afetuoso com o qual poucas pes¬soas eram tratadas.
__ Não está um pouco chuvoso demais para jogar golfe?
__ O clube fica vazio quando chove. — Edwin Valentine entrou na sala com seus passos largos e lentos de um homem do seu tamanho, depois se jogou pesa¬damente sobre uma poltrona. — Além do mais, estou começando a me sentir um velho se não apareço por aqui de vez em quando.
__ É, você parece mesmo fraco. — Reed se espre¬guiçou em sua poltrona e ficou estudando o rosto ro¬sado e de traços fortes de seu pai. — Qual sua melhor pontuação hoje em dia?
__ Quatro. — Edwin deu uma risadinha, feliz como uma criança. — Tudo no pulso. Ouvi dizer que você conseguiu tirar Libby Barlow da gravadora Galloway.
Com cuidado, sempre com muito cuidado, Reed apenas inclinou a cabeça.
__ Parece que sim.
Edwin concordou, com um gesto de cabeça. Aque¬le escritório fora seu durante quase 20 anos. Naquele tempo, era ele quem tomava as decisões. Mesmo as¬sim, Edwin não sentia nenhuma pontada de arrepen¬dimento ou inveja ao ver seu filho atrás daquela mesa. Foi para isso que ele trabalhara.
__ Belo trabalho com aquela moça. Gostaria de ver Dorsey como produtor do primeiro disco dela conosco.
Reed torceu ligeiramente a boca. O faro empresa¬rial de seu pai era, como sempre, infalível.
__ Ainda discutiremos isso. E eu ainda acho que você deveria ter uma sala aqui. — Ele levantou a mão antes que seu pai pudesse falar algo. — Não estou di¬zendo que você deveria trabalhar o dia inteiro, das 9h às 18h, de novo.
__ Nunca trabalhei das 9h às 18h na minha vida — disse Edwin.
__ Bem, então em horários alternativos. Mas eu realmente acho que a Valentine Records deveria ter Edwin Valentine.
__ Ela tem você. — Edwin cruzou os braços, lan¬çando um olhar direto e calmo para seu filho. Naquele olhar havia mais, muito mais do que palavras. — Não que eu não ache que você poderia ouvir alguns conse¬lhos de um velho de vez em quando. Mas você é quem está no comando agora. E o barco está a todo vapor.
__ Eu não o decepcionaria.
Percebendo a gravidade no tom de voz do filho, Edwin recolheu o amor que havia naquela afirmação.
__ Sei disso, Reed. Não preciso lhe dizer que, de todas as coisas que fiz na vida, a que me deixa mais orgulhoso é você.
Reed foi tomado por várias emoções. Gratidão. Amor.
__ Papai...
Antes que pudesse terminar, ou melhor, começar, sua secretária entrou trazendo uma bandeja com café e docinhos.
__ Meu deus, Hannah, você está em forma como sempre.
__ Assim como o senhor, sr. Valentine. Parece que o senhor perdeu um ou dois quilinhos. — Ela preparou o café do modo como Edwin gostava. A piscadela que Hannah lançou para Reed foi rápida demais para que ele entendesse seu significado. Ela trabalhava na empresa há 12 anos e era a única pessoa da equipe que ousaria lan¬çar-lhe um olhar daqueles.
__ Quem dera, Hannah. Eu engordei dois quilos. — Mesmo assim, Edwin pegou dois docinhos da ban¬deja.
__ Eles lhe caem bem, sr. Valentine. O senhor tem uma reunião às 11h30 com Mackenzie, do departa¬mento de vendas. — Ela pôs outra xícara sobre a mesa de Reed. — Gostaria que eu remarcasse?
__ Não precisa por minha causa — disse Edwin rapidamente.
Reed deu uma olhada no relógio e calculou os pró¬ximos 35 minutos.
__ Está confirmada a reunião com ele às 11h30, Hannah. Obrigado.
__ Que mulher! — disse Edwin de boca cheia quan¬do a porta se fechou. — Foi muito esperto da sua par¬te pegá-la como secretária depois que me aposentei.
__ Acho que a gravadora não funcionaria sem Han¬nah. — Reed olhou para a janela salpicada de chuva, pensando em outra mulher.
__ No que você está pensando, Reed?
__ Eu? — Voltando à conversa, Reed pegou seu café. — Os relatórios de vendas parecem bons. Acho que você vai ficar feliz com os resultados no fim do ano fiscal.
Edwin não tinha nenhuma dúvida quanto a isso. Reed era um produto do seu gênio administrativo e de seu coração. Só raramente ele ficava preocupado por ter moldado seu filho um pouco parecido demais consigo mesmo.
__ Não parecia que você estava pensando nos nú¬meros de vendas.
Reed fez que sim, concluindo que era melhor res¬ponder àquela dúvida em vez de contorná-la.
___ Eu ando pensando muito na peça que estamos patrocinando.
Edwin deu um sorrisinho.
__ Ainda nervoso com meus pressentimentos?
__ Não. — Agora Reed podia responder honesta¬mente àquela pergunta. — Tive várias reuniões com o produtor e com o diretor do espetáculo. Até mesmo assisti a alguns ensaios. Minha aposta é que a peça será um enorme sucesso. O repertório, nosso maior inte¬resse, é maravilhoso. Agora estamos trabalhando na promoção e publicidade para o álbum do musical.
__ Se você não se importar, eu gostaria de poder me intrometer nesse álbum um pouquinho.
__ Você sabe que não precisa pedir.
__ Preciso — corrigiu Edwin. — Você está no co¬mando, Reed. E não digo metaforicamente, e sim literalmente. Mas acontece que é um projeto pelo qual tenho certa predileção. Tenho algum interesse pessoal.
__ Você nunca me explicou por quê.
Edwin sorriu e deu uma mordida no segundo doci¬nho em seu prato.
__Já faz tempo. Muito tempo. Você já conheceu Maddy O'Hurley?
Reed franziu a testa. Será que seu pai era capaz de ler seus pensamentos tão bem assim?
__ Para falar a verdade... — Quando o interfone to¬cou em sua mesa, ele aceitou a interrupção com raiva. — Sim, Hannah.
__ Desculpe por incomodá-lo, sr. Valentine, mas tem uma jovem aqui. — Hannah podia ser durona, mas se percebeu rindo para a mulher à sua frente. — Ela diz que tem algo para lhe entregar.
__ Cuide disso, Hannah.
__ Ela prefere fazer a entrega pessoalmente. O nome dela é... Maddy.
Prestes a recusar a entrega, Reed se deteve.
__ Maddy? Mande-a entrar, Hannah.
Ensopada por causa da chuva e carregando a mo¬chila e a planta quase morta, Maddy entrou correndo no escritório.
__ Desculpe por incomodá-lo, Reed. É que eu esti¬ve pensando e achei melhor que você ficasse com isso antes que eu mate a planta. Sempre me sinto culpada quando mato uma planta e acho que você pode me ajudar dessa vez.
Edwin se levantou quando Maddy passou por sua poltrona. Ela interrompeu sua explicação titubeante.
__Olá. — Maddy lhe lançou um sorriso, tentando ignorar os docinhos na bandeja. — Estou interrom¬pendo, mas é um caso de vida ou morte. — Ela pôs a planta murcha e molhada sobre uma impecável mesi¬nha de carvalho. — Não me conte se ela morrer, está bem? Mas se ela sobreviver, avise. Obrigada. — Com um sorrisinho rápido, ela começou a sair.
__ Maddy. — Agora que ela lhe dera um momento para falar, Reed se levantou também. — Gostaria que você conhecesse meu pai, Edwin Valentine. Maddy O'Hurley.
__ Ah! — Maddy começou a lhe oferecer a mão, mas a deixou cair novamente. — Estou ensopada — explicou, sorrindo. — Prazer em conhecê-lo.
__ O prazer é todo meu — disse Edwin, dando uma risadinha. — Sente-se.
__ Ah, não posso. Não mesmo. Estou molhada.
__ Um pouco de água não faz mal nenhum ao couro de qualidade. — Antes que Maddy pudesse recusar, Edwin a pegou pelo braço e a levou a uma poltrona larga, marrom-claro, ao lado da mesa. — Eu admiro seu trabalho no palco.
__ Obrigada. — Não passou pela cabeça dela ficar impressionada, embora estivesse lado a lado com um dos mais ricos e influentes homens do país. Maddy achou aquele rosto rosado atraente. E, ainda que pro¬curasse, ela não conseguia achar qualquer semelhança entre o pai e o filho.
Reed atraiu o olhar de Maddy.
__ Gostaria de um café, Maddy? — ele perguntou.
Não, ele não se parecia nada com o pai. Reed era mais elegante e esguio. Faminto. Maddy percebeu que seu coração batia um pouco mais rapidamente.
__ Parei de beber café. Se você tiver um chá com mel, eu adoraria.
__ Coma um docinho — disse Edwin, ao ver que a dançarina os olhava com desejo.
__ Não vou ter tempo para almoçar — disse ela. __ Acho que posso usar um pouco desse açúcar na minha corrente sanguínea. — Ela sorriu para Edwin, escolhendo um docinho recheado de sorvete. Já que cometeria um pecado, era melhor cometer um pe¬cado que valesse a pena. — Nós todos nos pergun¬tamos se algum dia o senhor aparecerá nos ensaios, sr. Valentine.
__ Andei pensando nisso. Reed e eu estávamos justamente conversando sobre o musical. Na opinião dele, será um sucesso. O que você acha?
__ Acho que dá azar dizer o mesmo até que esteja¬mos em temporada na Filadélfia. — Maddy deu uma mordidinha no doce, podendo quase mesmo sentir seu nível de energia aumentando. — Mas posso dizer que os números de dança deixarão as pessoas tontas. Ela lançou um olhar agradecido para Hannah quan¬do a secretária lhe trouxe o chá. — Esta tarde vamos trabalhar em uma coreografia especial que vai deixar a plateia deslumbrada. Se isso não acontecer, voltarei a trabalhar como garçonete.
__ Confio na sua opinião. — Edwin se esticou para dar um tapinha na mão dela. — Para mim, se um O'Hurley não sabe quando uma coreografia vai agradar, ninguém sabe. — Diante do sorriso intrigado dela, Edwin se ajeitou na poltrona. — Conheci seus pais.
__ Conheceu? — Seu rosto se iluminou de prazer, esquecendo-se do docinho. — Não me lembro deles mencionando isso.
__ Faz muito tempo. — Edwin lançou um olhar para Reed, como se estivesse se explicando, e con¬tinuou: — Estava no começo, procurando por ta¬lento e dinheiro. Conheci seus pais aqui mesmo em Nova York. Eu estava na pior, naquela época, pre¬cisando desesperadamente de qualquer trocado e à procura de financiadores. Eles me deixaram dormir em um colchonete no quarto do hotel. Eu nunca me esqueci.
Maddy deu uma olhada no escritório a seu redor.
__ Bem, acho que o senhor conseguiu seus troca¬dos, sr. Valentine.
Ele riu, oferecendo mais doces a Maddy.
__ Sempre quis retribuir. Eu disse a seus pais que faria isso. Mas tudo aconteceu há 25 anos. Você e suas irmãs ainda eram bebês. Acredito que até mesmo aju¬dei sua mãe a trocar sua fralda.
Maddy deu uma risadinha.
__Era muito difícil saber quem era Chantel, Abby e eu, mesmo daquele ângulo.
__ Você tinha um irmão — lembrou ele. — Um pestinha.
__ Ele ainda é.
__ Cantava como um anjo. Eu disse a seu pai que assinaria um contrato com ele assim que conseguisse me ajeitar. Mas quando consegui fazer isso e entrar em contato com sua família, seu irmão havia caído na estrada.
__ Contra os lamentos de papai, Trace decidiu viver na estrada. Ou melhor, optou por uma estrada dife¬rente.
__ Você e suas irmãs tinham um grupo.
Maddy nunca sabia se ria ou chorava com aquela lembrança.
__ As Trigêmeas O'Hurley.
__ Eu ia oferecer-lhes um contrato — disse Edwin, vendo-a ficar com os olhos arregalados. — Com cer¬teza. Mais ou menos na época em que sua irmã se casou.
Um contrato com uma gravadora? E um contrato com a Valentine Records! Maddy ficou pensando na¬quele tempo e imaginou a emoção que acompanharia aquela notícia.
__ Papai sabia?
__ Nós conversamos.
__ Deus! — Maddy balançava a cabeça. — Ele deve ter quase morrido ao ver isso escapar das mãos. Mas ele nunca disse nada. Chantel e eu terminamos de cumprir a agenda de apresentações após casamento de Abby e depois ela foi para o Oeste e eu vim para o Leste. Pobre papai.
__ Eu diria que vocês fizeram o bastante para deixá-lo orgulhoso.
__ O senhor é um bom homem, sr. Valentine. O se¬nhor está patrocinando o musical para retribuir aquela noite no colchonete?
__ Uma retribuição que vai dar um bocado de di¬nheiro à minha empresa. Gostaria de ver seus pais no¬vamente, Maddy.
__ Verei o que posso fazer. — Ela, então, levan¬tou-se, sabendo que estaria jogando demais com a sorte se quisesse atravessar a cidade a tempo para os ensaios. — Não quis atrapalhar sua reunião com seu pai, Reed.
__ Não se desculpe. — Ele não saiu do lugar, ainda a observando, como estivera durante toda a visita sur¬presa de Maddy. — Foi uma visita esclarecedora.
Maddy o ficou examinando. Ele parecia no lu¬gar certo ali, atrás daquela mesa, em frente à janela, num escritório cheio de pinturas a óleo e poltronas de couro.
__ Acho que já falamos sobre como o mundo é pe¬queno.
O cabelo dela caía sobre as costas. Brincos ridículos de vidro vermelho triangular pendiam das orelhas de Maddy, brincos que de algum modo a faziam parecer corajosa. O sobretudo e a camiseta azul pareciam os únicos indícios de cor num dia cinzento.
__Sim, nós falamos sobre isso.
__ Você vai ficar com a planta, não?
Reed deu uma olhada no vaso. Era de dar dó.
__ Farei o possível, mas não posso prometer nada.
__ Promessas me deixam nervosa. Se você faz uma promessa, precisa cumpri-la. — Maddy respirou fun¬do, sabendo que deveria ir, mas incapaz de tomar a ini¬ciativa. — Seu escritório é exatamente como eu ima¬ginava. De uma elegância organizada. Combina com você. Obrigada pelo chá.
Reed queria tocá-la. Ele ficou intrigado por ter de conter a vontade de dar a volta na mesa e pôr suas mãos nela.
__ Disponha. Vamos tomar outro chá qualquer dia desses.
__ Que tal sexta-feira? — sugeriu ela.
__ Sexta?
__ Estou livre na sexta-feira. — Agora que tinha feito a sugestão, Maddy concluiu que o melhor era não se arrepender. — Estou livre na sexta-feira — repetiu. — Depois do ensaio. Posso me encontrar com você.
Ele quase recusou. Reed não tinha a menor ideia do que havia na sua agenda. Ele não tinha a menor ideia de como recusar o convite de uma mulher que parecia levar qualquer afirmação à toa a sério. E Reed não ti¬nha a menor ideia de por que estava feliz por isso.
__ Onde?
Ela lhe sorriu, e seu rosto todo se remexeu com aque¬le sorriso.
__ Rockefeller Center, às 19h em ponto. E eu vou me atrasar. — Maddy se virou para estender a mão para Edwin. — Foi um prazer conhecê-lo. — Tran¬quilamente, ela se inclinou e o beijou no rosto. — Adeus.
__ Adeus, Maddy. — Edwin esperou até que ela saísse e voltou a atenção para o filho. Não era sempre que ele via aquele olhar atordoado no rosto de Reed.
__ Quando um homem se depara com um furacão des¬ses, é melhor ele se proteger ou aproveitar a ventania — disse, rindo e pegando o último docinho. — Que Deus me castigue se eu dissesse que não aproveitaria a ventania.


Capítulo Quatro

R
eed se perguntava se ela o estava enfeitiçando. Mas Maddy O'Hurley não se parecia nada com a ideia que a maioria das pessoas fazia de uma bruxa, mas esta era, com certeza, a explicação mais sensata para o fato de que ele, Reed Valentine, estava andan¬do de um lado para o outro do Rockefeller Center, às 19h de uma sexta-feira úmida. Ele deveria estar em casa agora, jantando tranquilamente antes de mergulhar na papelada que carregava na pasta.
O tráfego se espalhava pela Quinta Avenida, com pessoas mal-humoradas por causa do calor e do barulho. Quem tinha a sorte de ter um lugar para ir e tempo para gastar saía da cidade, esperando que a onda de calor es¬tivesse mais amena na segunda-feira. Os pedestres se apressavam, as gravatas afrouxadas, as camisas abertas, Parecendo nômades do deserto em busca de um oásis — uma sala com ar-condicionado e uma bebida gelada.
Reed observou, desinteressado, quando algumas crian¬ças, os olhos arregalados demais para denunciá-las como forasteiros, tentavam vender lanches por 1 dólar. Elas estavam empolgadas naquele trabalho, mas não se im¬portaram em abordar Reed. Ele não parecia nem nervoso nem ingênuo.
Embora ouvisse aqui e ali resquícios de conversas das pessoas, Reed não se importava em ficar pensan¬do nelas. Ele estava ocupado demais pensando em si mesmo.
Por que concordara se encontrar com Maddy? A res¬posta para isso era bastante óbvia: ele queria vê-la. Não havia motivo para voltar à questão. Maddy excitava sua... curiosidade, concluiu Reed, incapaz de encontrar um termo melhor. Uma mulher como ela era capaz de excitar a curiosidade de qualquer um. Maddy era bem-sucedida, ainda que ignorasse solenemente as armadi¬lhas do sucesso. Ela era atraente, embora raramente se valesse de sua aparência. Maddy tinha olhos honestos — isto se você era o tipo de homem que confiava nes¬sas coisas. Sim, Maddy O'Hurley era um enigma.
Mas por que Reed não fora capaz de pensar direito e sugerir um lugar mais... conveniente, ao menos?
Um grupo de meninas passou correndo por ele, dando risadinhas. Reed se desviou delas, resistindo à vontade de matá-las. Uma das meninas olhou para trás, para ele, atraída pela expressão de indiferença e pelo corpo em forma. Ela pôs a mão sobre a boca e sussur¬rou algo apressado para a amiga. Houve outra rodada de risadas e, então, elas se perderam na multidão.
Um vendedor ambulante oferecia sorvete e parecia ganhar dinheiro com os funcionários que não pude¬ram fugir da cidade naquele quente fim de semana. Um mendigo passava pela multidão, sem se dar muito bem. Reed ignorou um cambista que lhe queria vender o que dizia ser os últimos dois ingressos para o espe¬táculo da noite no Radio City, depois ficou observando-o abordar um casal de turistas mais velhos. A um quarteirão dali, uma sirene começou a soar. Ninguém se importou em olhar.
Reed sentiu o suor ensopando seu colarinho e des¬cendo por suas costas. O relógio mostrava 19h20.
Sua calma estava nas últimas quando Reed a viu. Por que Maddy parecia diferente, perguntou-se, das dezenas de pessoas que passavam por ele? O cabelo e as roupas dela eram brilhantes, mas havia outras pes¬soas vestidas com mais extravagância ainda. Maddy andava com um tipo de graça relaxada, mas não de¬vagar. Parecia que não fazia nada devagar. E, ainda assim, havia um quê de tranquilidade nela. Reed sabia que, se procurasse, poderia encontrar cinco mulheres nos próximos minutos que eram mais bonitas do que Maddy. Mas seus olhos estavam presos nela, assim como sua mente.
Abordada pelo mendigo, Maddy parou próxima ao meio-fio e buscou algo na bolsa. Ela tirou algumas moedas, trocou com o mendigo algumas palavras ami¬gáveis e se misturou à multidão. Maddy avistou Reed logo depois e apressou o passo.
__ Desculpe. Estou sempre pedindo desculpas por estar atrasada. Eu perdi o ônibus, mas achei melhor ir para casa e me trocar depois do ensaio porque você provavelmente estaria vestindo um terno. — Ela olha¬va para Reed com um sorriso reluzente e feliz. — E eu estava com a razão.
Ela trocara o sobretudo por um vestido comprido nas cores do arco-íris que a fazia parecer ainda mais a cigana que Maddy dizia ser. Todas as outras pessoas na calçada pareciam cinzentas perto dela.
__ Você devia ter tomado um táxi — murmurou ele, mantendo uma distância curta, mas essencial, entre eles.
__ Não me acostumei com isso. Vamos jantar e con¬versaremos sobre o assunto. — Maddy se apoiou no braço de Reed com um gesto tão simples e rápido de camaradagem que sua hesitação costumeira em rela¬ção a contatos físicos nem teve a chance de se revelar.
__ Aposto que você está morrendo de fome depois de ficar esse tempo todo em pé à minha espera. Eu estou morrendo de fome, e não fiquei esperando ninguém. -Ela desviou de uma mulher que passou apressada.
__ Tem uma ótima pizzaria aqui perto...
Reed a interrompeu, tirando-a do meio da multidão.
__ Eu pagarei. E nós podemos comer algo melhor do que pizza.
Maddy ficou impressionada quando Reed pegou um táxi na primeira tentativa e não discutiu quando ele deu ao motorista um endereço na Park Avenue.
__ Acho que podemos comer algo diferente de pizza — disse ela, sempre gostando de ser surpreendida. — Aliás, gostei do seu pai.
__ Posso lhe garantir que ele também gostou de você.
Maddy sequer piscou quando o táxi ficou preso num sinal fechado e o motorista começou a resmungar o que devia ser um monte de xingamentos em árabe.
__ Não é estranho que ele conheça meus pais? Meu pai adora dizer o nome de todas as pessoas importan¬tes que conhece, especialmente se ele nunca conheceu a pessoa de verdade. Mas ele nunca mencionou o nome do seu pai.
Reed se perguntava se o perfume dela continuaria pairando no táxi depois que eles saíssem. Ele achava que, de algum modo, sim.
__ Talvez ele tenha esquecido.
Maddy riu, discretamente.
__ Improvável. Certa vez papai conheceu a sobrinha da esposa de um homem cujo irmão tinha trabalhado como figurante em Cantando na Chuva. Ele jamais se esqueceu disso. E parece estranho que seu pai se lem¬bre, e até mesmo pense ou se importe com uma noite que passou num colchonete num quarto de hotel.
Aquilo também parecera estranho para Reed. Edwin conhecia centenas de pessoas. Por que se lembraria com tanta clareza de um casal de artistas viajantes que lhe ofereceram um teto para dormir?
__ Acho só que seus pais o deixaram impressionado — disse Reed, pensando em voz alta.
__ Eles são incríveis. E esse lugar também — acres¬centou Maddy quando o táxi estacionou em frente a um elegante restaurante francês. — Eu não costumo frequentar lugares desse tipo.
__ Por quê?
__ Tudo de que preciso se concentra basicamente em uma área. — Ela teria saído do táxi para a rua se Reed não a tivesse pegado pela mão para tirá-la do carro pelo lado da calçada. — Não tenho tempo para sair com homens, e, quando faço isso, geralmente é com homens que só sabem o francês para entender as posições do balé.
Maddy se interrompeu quando Reed abriu a porta para ela.
__ Esta é uma coisa deselegante de se dizer, não é?
Eles entraram. Dentro do restaurante estava mais fresco. O ambiente era levemente perfumado, decora¬do em tons pastel.
__ Sim. Mas de algum modo acho que você não se importa em ser elegante.
__ Vou tentar entender mais tarde se isso é um elogio ou um insulto — concluiu Maddy. — Insultos me dei¬xam de mau humor e eu não quero estragar o jantar.
__ Ah, monsieur Valentine.
__ Jean-Paul. — Reed cumprimentou o maître com um aceno de cabeça. — Não fiz reserva. Espero que você tenha uma mesa para nós.
__ Para o senhor, com certeza. — Ele lançou um olhar rápido e profissional para Maddy. Não era o tipo que o monsieur costumava trazer ao restaurante, pen¬sou Jean-Paul, mas mesmo assim era uma moça atraen¬te. — Por favor, siga-me.
Maddy o seguiu, perguntando-se que tipo de nú¬mero de malabarismo aquele maître poderia fazer para arranjar-lhes uma mesa. Ela não tinha nenhuma dúvida de que, considerando Reed, era um esforço que valeria a pena.
Era exatamente o tipo de restaurante que Maddy pensava que Reed frequentaria. Um pouco sério de¬mais, mas muito elegante, sem ser apenas um lugar da moda. Papéis de parede com temas florais e a luz in¬direta davam um ar de relaxamento. O cheiro de tem¬peros era sutil. Maddy assumiu seu assento na mesa de canto e olhou com curiosidade para os outros clien¬tes. Tanta gente com dinheiro num lugar tão pequeno, pensou. Mas isso era parte do charme de Nova York. Lixo ou luxo, você só tinha de dobrar a esquina.
__ Champanhe, sr. Valentine?
__ Maddy? — Reed inclinou a cabeça, segurando a carta de vinhos para deixar a decisão para ela.
Ela sorriu para o maître de um jeito que fez sua opi¬nião sobre aquela moça aumentar consideravelmente.
__ É sempre difícil recusar champanhe.
__ Obrigado, Jean-Paul — disse Reed, e devolveu a carta de vinhos depois de escolher.
__ Isso é bem legal. — Maddy abandonou sua obser¬vação dos demais clientes do restaurante para sorrir para Reed. — Eu realmente não esperava nada assim.
__ O que você esperava?
__ É por isso que gosto de vê-lo. Nunca sei o que esperar. Eu fiquei me perguntando se você iria aos en¬saios novamente.
Ele não queria admitir que quisera e que precisara se conter para ficar longe de algo que não era seu ter¬ritório.
__ Não é necessário. Não tenho nada criativo a acres¬centar ao espetáculo. Nossa preocupação é apenas com o repertório.
Ela o olhou, séria.
__ Entendo. — Lentamente, Maddy passou o dedo pela toalha de mesa de linho. — A Valentine Records precisa que a peça seja um sucesso para ter o retorno sobre o investimento. E um musical de sucesso vende mais discos.
__ Claro, mas nós sentimos que o espetáculo está em boas mãos.
__ Bem, isso deveria ser um consolo para mim. — Mas Maddy teve de conter o entusiasmo quando chegou o champanhe. Como sempre se divertia com rituais, ela ficou observando o gestual do maître: a abertura do invólucro e a retirada rápida e precisa da rolha, que produziu um estampido surdo, a degusta¬ção e a aprovação. O espumante foi servido em taças tipo flûte, e Maddy ficou olhando enquanto as bolhas subiam freneticamente para a superfície.
__ Acho que deveríamos fazer um brinde à Filadél¬fia. — Ela estava sorrindo novamente quando levan¬tou a taça para Reed.
__ Filadélfia?
__ Uma estreia lá geralmente diz tudo. — Ela brin¬dou e depois bebeu lentamente. Maddy limitava reli¬giosamente o consumo de vinho, do mesmo modo que limitava o consumo de tudo o mais. Mas ela aprovei¬tava cada gole. — Maravilhoso. A última vez que bebi champanhe foi numa festa que fizeram para mim quan¬do deixei aquela outra peça, Suzanna's Park. Mas não era um champanhe tão bom quanto este.
__ Por que você fez isso?
__ Fiz o quê?
__ Deixou o espetáculo.
Antes de responder, Maddy bebeu mais um pou¬co. O espumante ficava ainda melhor à luz de velas, pensou. Pena que as pessoas deixem de perceber essas coisas quando podem beber champanhe sempre que querem.
__ Eu dei ao papel tudo o que podia e recebi dele tudo o que podia absorver. — Ela deu de ombros. — Já era hora de mudar. Eu sou inquieta, Reed. E danço para ganhar a vida.
__ Você não se importa com a segurança financeira?
__ Com a família que tenho, segurança financei¬ra não está entre as minhas prioridades. De qualquer modo, você já percebeu isso.
Reed entendia a inquietude, entendia mulheres que se mudavam de um lugar para outro, sem jamais en¬contrar a felicidade.
__ Algumas pessoas podem achar que você se ente¬dia facilmente.
Algo no tom de voz de Reed a pôs em alerta, mas Maddy não tinha como responder àquilo de outro modo que não com honestidade.
__ Nunca fico entediada. Como poderia? Há tantas coisas para me divertir.
__ Então você acha que não foi por ter perdido o interesse?
Sem saber por quê, Maddy sentiu que Reed a esta¬va testando. Ou será que aquilo era um teste consigo mesmo?
__ Não consigo me lembrar de nada que me te¬nha feito perder o interesse. Não, não é verdade. Teve um travesseiro felpudo, enorme e caro. Eu fi¬quei louca por ele, comprei e, quando cheguei em casa, vi que era horrível. Mas não é disso que você está falando, é?
__ Não. — Reed a observava beber. — Não é.
__ É mais um caso de diferentes visões de mundo. — Ela deslizou um dedo pela borda da taça. — Um homem como você estrutura sua própria rotina e de¬pois tem de viver com essa mesma rotina todos os dias porque dezenas de pessoas dependem de você. Grande parte da minha vida é estruturada por mim, simplesmente para me manter com os pés no chão. O restante tem que mudar, flutuar, se não eu perco o sentido. Você deveria entender isso, já que trabalha com artistas.
Reed torceu os lábios ao erguer a taça.
__ Eu entendo, claro.
__ Você se diverte com os artistas?
__ Às vezes — admitiu ele, tranquilamente. — Mas outras vezes os artistas me frustram. Isso não significa que eu não os admire.
__ Ainda que saiba que eles são um pouco malucos. Demorou muito pouco para o humor se expandir da boca para os olhos dele.
__ Com certeza.
__ Gosto de você, Reed. — Ela pousou a mão sobre a dele, de amiga para amigo. — É uma pena que você não tenha mais sonhos.
Ele não perguntou o que Maddy queria dizer com aquilo. Reed não tinha certeza de que queria saber. A conversa foi interrompida com a chegada do garçom trazendo os cardápios e a lista das especialidades, re¬citada num sotaque francês tão forte que Maddy con¬cluiu que só podia ser verdadeiro.
__ Temos um problema — murmurou Maddy quan¬do ficaram sozinhos.
Reed levantou os olhos do cardápio.
__ Você não gosta de comida francesa?
__ Está brincando? — Ela deu uma risadinha. — Adoro. Adoro comida italiana, armênia, indiana. Esse é o problema.
__ Você sugeriu pizza — lembrou Reed. — Mal dá para acreditar que você está preocupada com as calorias.
__ Eu ia comer só uma fatia e sentir o cheiro do resto. — Maddy mordiscou o lábio, sabendo que era capaz de comer qualquer coisa no cardápio. — Tenho duas opções: posso pedir uma salada e me negar esse prazer, ou posso dizer que estamos celebrando algo e me deliciar com o que quiser.
__ Posso lhe recomendar o côtelettes de saumon.
Maddy levantou os olhos do cardápio para obser¬vá-lo cuidadosamente.
__ Pode?
__ Com certeza.
__ Reed, sou uma mulher crescida e independente por natureza. Quando se trata de comida, contudo, geralmente tenho o apetite de uma menina de 12 anos numa confeitaria. Vou me colocar nas suas mãos. — Ela fechou o menu e o pôs de lado. — Supondo, claro, que você entenda que só posso comer esse tipo de coi¬sa uma ou duas vezes por ano, a não ser que eu queira balançar no palco de um lado para o outro como um pedaço gordo de carne.
__ Entendido. — Reed decidiu, por motivos ainda não esclarecidos, dar-lhe a melhor refeição da vida dela.
Ele não se decepcionou. O modo como Maddy de¬savergonhadamente apreciava tudo o que era colocado à sua frente era uma novidade para Reed, e de algum modo era algo emocionante. Ela comia lentamente, com um prazer sensual que Reed esquecera que podia ser encontrado na comida. Maddy provava tudo e não terminava nada, e estava claro que havia certa discipli¬na naquilo.
Maddy se deliciava com sabores do jeito que ou¬tras mulheres talvez se deliciassem com homens. Ela fechava os olhos, dando uma mordida num pedaço de peixe, sentindo o prazer do sabor como outras pessoas sentem o prazer de amar.
Bolhas de champanhe explodiam nas taças, os ricos aromas emergindo.
__ Ah, isso é maravilhoso. Experimente. Querendo compartilhar daquele prazer, Maddy lhe estendeu o garfo. Reed se endireitou, o corpo tenso e surpreso. Ele ficara excitado ao vê-la comer, e naquele instante percebeu que o que queria mesmo era saboreá-la lentamente, do mesmo jeito que Maddy saboreava os ingredientes e a textura dos pratos.
Reed abriu a boca e se permitiu ser alimentado, en¬quanto Maddy se perguntava por que a sensação era tão fascinante.
__ Dançarinas pensam demais em comida. Acho que é porque ficamos olhando demais a comida passar por nós.
__ Você certa vez disse que as dançarinas estavam sempre famintas.
Reed não estava falando de comida. Dando um mo¬mento a si mesma, Maddy pegou a taça de champanhe e deu um gole.
Fazemos escolhas, geralmente quando crianças. Nós ignoramos os jogos de futebol, a televisão e as festas e vamos para a escola. E isso continua pela vida adulta.
__ Quanto você sacrificou?
__ O que foi preciso.
__ E vale a pena?
__ Sim. — Maddy sorriu, mais confortável agora que sentiu seu corpo livre da tensão. — Mesmo nos piores momentos, vale a pena.
Ele se jogou para trás apenas para se distanciar dela. Maddy percebeu isso e se perguntou se Reed sentia a mesma intensidade entre eles.
__ O que o sucesso significa para você?
__ Quando eu tinha 16 anos, significava estar na Broadway. — Ela olhou em volta para o restaurante silencioso e quase suspirou. — De algum modo, ainda é a mesma coisa.
__ Mas agora você está na Broadway.
Reed não entendia, e Maddy não esperava mesmo que ele entendesse.
__ Sinto-me bem-sucedida porque digo a mim mes¬ma que o espetáculo será um sucesso. Não me permito pensar que ele possa fracassar.
__ Você se cega, então.
__ Ah, não. Uso lentes cor-de-rosa, mas nunca me cego. Você é um realista. Acho que gosto disso em você porque é diferente demais do que sou. Eu gosto de fingir.
__ Não se pode ser um empresário vivendo de ilu¬sões.
__ E quanto a sua vida pessoal?
__ Também não.
Interessada, Maddy se aproximou.
__ Por que não?
__ Porque você só pode fazer as coisas do seu modo se souber o que é verdadeiro e o que é ilusão.
__ Gosto de pensar que podemos tornar as coisas reais.
__ Valentine!
A expressão pensativa se alongou à medida que Reed levantou os olhos para o homem alto e magricela vestindo um paletó cor de pêssego e uma gravata esverdeada.
__ Selby. Como vai?
__ Bem. Muito bem. — O homem olhou longamen¬te para Maddy. — Parece que estou interrompendo. E odeio usar uma fala gasta, mas será que nós nos conhe¬cemos?
__ Não. — Maddy lhe estendeu a mão com aque¬la boa vontade tranquila que demonstrava com todo mundo.
__ Maddy O'Hurley. Allen Selby.
__ Maddy O'Hurley? — Selby escutou a apresenta¬ção feita por Reed e a cumprimentou. — É um prazer. Eu a vi em Suzanna's Park duas vezes.
Ela não gostou da sensação de tocar aquela mão, mas Maddy sempre se odiava quando fazia julgamen¬tos precipitados.
__ Então o prazer é todo meu.
__ Ouvi dizer que a Valentine Records estava inves¬tindo na Broadway, Reed.
__ As notícias correm. — Reed serviu o que restava do champanhe na taça de Maddy. — Allen é o presi¬dente da Gravadora Galloway.
__ Adversários amigáveis. — Tranquilizou-a Selby, e Maddy teve a impressão de que ele seria capaz de cortar a garganta de Reed na primeira oportunidade. — Você já pensou em gravar um disco solo, Maddy?
Ela ficou brincando com a haste da taça.
__ É uma coisa difícil de se admitir para um produ¬tor musical, mas cantar não é o meu forte.
__ Se Reed não a convencer do contrário, me pro¬cure. — Ele pôs a mão no ombro de Reed enquanto falava. Não, ela realmente não gostou daquelas mãos, pensou Maddy. Mas não havia nada que se pudesse fazer. Maddy percebeu que os olhos de Reed se ar¬regalaram, mas ele simplesmente ergueu a taça. — Gostaria de tomar um café com vocês — disse Selby, ignorando o fato de não ter sido convidado. — Mas vou jantar com um cliente. Dê lembranças minhas ao seu velho, Reed. E agora pense naquele disco — dis¬se, piscando para Maddy e se afastando para sua pró¬pria mesa.
Maddy esperou um pouco e então terminou de be¬ber seu espumante.
__ Todos os produtores musicais se vestem como se fizessem parte de uma salada de frutas?
Reed ficou olhando para ela por um momento, ad¬mirando o sorriso curioso e calmo. A tensão desapare¬ceu com uma gargalhada.
__ Selby é uma figura.
Maddy pegou a mão dele, feliz por vê-lo rindo.
__ E você também.
__ Preciso de um tempo para concluir se isso é um elogio ou insulto.
__ É claro que é um elogio. — Ela desviou o olhar para Selby, que acenava para o garçom. — Você não gosta dele.
Reed não tentou fazer de conta que não entendia ao que Maddy estava se referindo.
__ Somos apenas adversários nos negócios.
__ Não — disse Maddy, balançando a cabeça. — Você não gosta dele. Como pessoa.
Aquilo o interessou, porque Reed tinha a reputação de esconder o que sentia pelos outros.
__ Por que você diz isso?
__ Porque você arregalou os olhos. — Involunta¬riamente, Maddy se arrepiou. — Eu odiaria que me olhassem daquele jeito. De qualquer modo, você não gosta de fofocas e está irritado com a presença dele. Então, por que não vamos embora?
Eles saíram do restaurante e sentiram que o calor do dia diminuíra. O tráfego estava menos intenso. Apoiando-se no braço dele, Maddy respirou fundo aquele ar pesado da noite de Nova York.
__ Podemos andar um pouco? O tempo está bom demais para pegarmos um táxi.
Eles caminharam pela calçada, passando por vitri¬nes escuras e lojas fechadas.
__ Selby falou uma coisa verdadeira, sabe. Com o repertório certo, você poderia gravar um belo disco.
Maddy deu de ombros. Aquilo nunca fizera parte de seus sonhos, mas achava que não deveria ignorar a ideia completamente.
__ Talvez algum dia, mas eu acho que a Barbra Streisand pode dormir tranquila. Nunca se vê muita estrelas em noites como essa — disse ela, olhando para o céu enquanto andavam. — Eu invejo Abby por viver numa fazenda no interior.
__ Aqui é difícil se sentar numa cadeira de balanço na varanda, admirando o anoitecer.
__ Exatamente. Se bem que eu vivo planejando tirar longas férias algum dia. Um cruzeiro pelos Mares do Sul, no qual a tripulação lhe traz chá gelado enquanto você observa a lua cheia pairando sobre as águas. Ou uma cabana nas florestas, no Oregon, talvez, onde pode ficar deitada na cama pela manhã, ouvindo os pássaros acor¬dando. O problema é como farei para ter aulas de dança. —Ela riu de si mesma e se aproximou de Reed. — O que você faz quando está de folga, Reed?
Há dois anos ele não tinha mais do que um fim de semana prolongado de folga. E, mesmo assim, era algo raro. Fazia dois anos desde que Reed assumira o con¬trole da Valentine Records.
__ Temos uma casa em St. Thomas. Você pode se sentar na sacada e esquecer que existe Manhattan.
__ Deve ser lindo! Um daqueles lugares amplos e cheios de preguiça, com ornamentos rosa e branco e jar¬dins floridos, como as pessoas veem nas fotografias. Mas você tem telefones. Um homem como você não conse¬gue se desligar completamente.
__ Todos pagam um preço.
Ela sabia disso todas as vezes que colocava a mão na barra de exercícios.
__ Ah, veja. — Maddy parou em frente a uma vi¬trine, olhando para o roupão azul-gelo que cobria o manequim até os pés, mas deixando seus ombros nus.
__ Esta é Chantel.
Reed olhava para o manequim sem rosto.
__ É?
__ O roupão. É a cara de Chantel. Elegante e sexy. Ela nasceu vestindo coisas deste tipo. E ela é a primeira a dizer uma coisa assim. — Maddy riu e deu um pas¬so para trás para anotar mentalmente o nome da loja.
__ Tenho de mandar isso para ela. Nosso aniversário é daqui a dois meses.
__ Chantel O'Hurley. — Reed balançava a cabeça. —Estranho, mas eu nunca parei para pensar nisso. Ela é sua irmã.
Elegante e sexy, pensou Reed. Era essa exatamen¬te a imagem de Chantel, um símbolo do glamour de Hollywood. A mulher ao seu lado jamais seria rotula¬da como elegante ou fria, e a sensualidade dela não era algo glamouroso, mas era algo ao alcance dele. Perigo¬samente.
__ Ser uma trigêmea deve ser algo diferente.
__ Para mim é difícil perceber isso, já que sempre fui uma. — Eles recomeçaram a caminhar. — Mas é es¬pecial. Nunca fico realmente sozinha, entende? Acho que, em parte, foi por isso que tive coragem de vir para Nova York e arriscar. Sempre tive Chantel e Abby ao meu lado, mesmo que elas estejam a centenas de quilômetros daqui.
__ Você sente falta delas.
__ Ah, sim. Às vezes morro de saudades delas, de mamãe, de papai e de Trace. Nós crescemos juntos, muito unidos, trabalhando uns com os outros. Gritan¬do um para o outro.
Ela engasgou quando Reed baixou os olhos.
__ Não é tão estranho, sabe. Todo mundo precisa gritar com alguém de vez em quando. Quando Trace foi embora, senti como se tivesse perdido um braço. Papai jamais superou isso. Depois foi a vez de Abby ir embora, Chantel e eu. Nunca parei para pensar em como isso deve ter sido duro para meus pais, porque eles sempre tiveram um ao outro. Você deve ser muito íntimo de seus pais.
Reed se fechou imediatamente. Maddy achou que era capaz de sentir o vento gélido em meio ao calor.
__ Só tenho meu pai.
__ Desculpe. — Maddy nunca abria feridas antigas de propósito, mas a curiosidade em geral a levava a fa¬zer isso. — Nunca perdi ninguém próximo, mas posso imaginar que deve ser algo difícil.
__ Minha mãe não morreu. — Reed não aceitava a compaixão. Ele a detestava.
A mente dela se encheu de perguntas, mas Maddy não fez nenhuma.
__ Seu pai é um homem maravilhoso. Eu percebi isso imediatamente. Ele tem uns olhos tão bondosos! Sempre gostei disso no meu pai também: o modo como os olhos dele dizem "Confie em mim", e você sabe que pode confiar. Minha mãe fugiu com ele. Isso sempre me pareceu muito romântico. Ela tinha 17 anos e tra¬balhava em casas noturnas há vários anos. Meu pai che¬gou na cidade e prometeu lhe dar a lua. Não acho que ela tenha acreditado nas promessas de papai, mas fugiu com ele mesmo assim. Quando éramos crianças, minhas irmãs e eu costumávamos conversar sobre o dia em que um homem surgiria, prometendo nos dar a lua.
__ É isso o que você quer?
__ A lua? — Maddy riu e o som se espalhou por toda a calçada. — Claro. E as estrelas. Talvez eu até queira ficar com o homem.
Reed parou sob a luz de um poste, apenas para olhar para Maddy.
__ Qualquer homem que lhe desse a lua?
__ Não. — Ela começou a ofegar, respirando mais devagar a princípio, e depois mais rápido, até sentir a pulsação na garganta. — Um homem que me ofereces¬se a lua.
__ Um sonhador. — Reed passou as mãos pelos ca¬belos dela, como queria, ainda que dissesse a si mesmo que não deveria. Sob seus dedos, os cabelos de Maddy pareciam feitos de seda. — Como você.
__ Se você parar de sonhar, para de viver.
Ele balançou a cabeça, aproximando-se ainda mais.
__ Eu parei de sonhar há muito tempo. — Reed a beijou de leve, rapidamente, um beijo parecido com o que tinham trocado antes. — E ainda estou vivo.
Maddy pôs a mão sobre o peito dele, mas não para afastá-lo, e sim para mantê-lo perto.
__ Por que você deixou de sonhar?
__ Prefiro a realidade.
Dessa vez, ao aproximar sua boca, Reed não hesi¬tou. Ele a beijou, possuindo o que queria há dias. Seus lábios eram carinhosos, de um sabor exótico, que a seduziam. Com a mão presa à nuca dele, Maddy acei¬tou o estágio seguinte do prazer, com o encontro e a carícia das línguas.
As luzes dos carros varriam a calçada ao lado de¬les, enquanto os prédios bloqueavam a maior parte do céu. Eles estavam sozinhos, embora houvesse um pouco de tráfego na rua. Reed deslizou os dedos pe¬las costas dela, apertando-a levemente, só para puxá-la para perto, contra seu corpo duro e firme. O perfume que Maddy usava fez com que o cheiro almiscarado da cidade desaparecesse. Não havia mais nada, só ela.
Presa nos braços dele, Maddy já flutuava, sentin¬do que a qualquer momento poderia tocar a superfície branca e fria da lua e descobrir seus segredos. Ela não esperava ficar sem fôlego, mas balançou contra o cor¬po dele, num abandono que nenhum dos dois podia compreender.
Reed tinha o sabor do poder e de certa crueldade. Maddy, com seu instinto de sobrevivência, deveria ter se afastado e até mesmo sentido repulsa por aquilo. Mesmo assim ficou onde estava, abraçada a ele, no ar quente da noite. A mão que lhe apertava a nuca massageou-a, para aliviar a tensão que Maddy, intuitiva¬mente, sentiu.
Ele sabia muito bem. Desde a primeira vez que a vira, sabia muito bem. Mas mesmo assim continuou a se aproximar dela, em vez de se afastar. Reed não era bom para ela e Maddy seria uma catástrofe para ele. Não haveria nenhum tipo de relacionamento ca¬sual entre duas pessoas opostas, e sim algo que o faria mergulhar mais e mais, até se afogar.
Reed podia sentir o sabor daquilo. A rendição que era o sinal da sedução. Ele podia escutar o suspiro de aceitação dela. Com o corpo de Maddy grudado ao seu, Reed sentia o desejo expandindo-se para além do que deveria e podia ser controlado. Reed não queria aquilo. No entanto, queria mais do que qualquer coisa que tivera na vida.
Ele se afastou. Então, antes que pudesse se deter, Reed segurou-a pelo rosto com as duas mãos e a beijou mais uma vez. Ele queria se saciar dela, possuí-la. E quanto mais Reed a tinha, mais queria.
Uma mulher assim era capaz de acabar com um ho¬mem. Desde a infância a vida dele se baseara na pre¬missa de que Reed jamais permitiria que uma mulher se tornasse importante o bastante a ponto de magoá-lo. Com Maddy não era diferente, disse a si mesmo, mas se sentindo cada vez mais atraído. Maddy não po¬dia ser diferente.
Então Reed se afastou. Maddy tinha as pernas bam¬bas. Ela não fez nenhum comentário, nem sorriu. Tudo o que Maddy fez foi olhar nos olhos dele. Mas ela não via paixão e sim desejo. E Maddy não sabia como reagir àquilo.
__ Eu a levarei para casa — disse-lhe Reed.
__ Só um minuto. — Ela precisava recuperar o fô¬lego, precisava de um chão sólido sob seus pés. Reed a soltou e Maddy foi até o poste, segurando-se com uma só mão no metal frio. A luz a iluminava, deixando-o na sombra. __ Estou sentindo que você está irritado pelo que aconteceu.
Reed não respondeu. E enquanto o olhava, Maddy viu que os olhos dele podiam ser olhos de pedra. Aqui¬lo a deixou triste, tanto por ele quanto por ela mesma.
__ Bem, como não estou nem um pouco irritada, me sinto uma idiota. — As lágrimas surgiram facilmen¬te, como se fosse uma risada, mas Maddy não deixa¬ria que elas rolassem naquele momento. Junto com a emotividade, ela herdara um bocado do orgulho de seus pais. — Só quero ir logo para casa. Obrigada.
__ Eu disse que a levarei.
A força interior voltara. Talvez tenha sido o tom de irritação na voz dele que a fizera recobrar essa força.
__ Sou uma mulher adulta, Reed. Sou responsável por mim mesma há muito tempo. Qualquer hora nos veremos.
Maddy foi até a esquina e levantou a mão. O des¬tino sentiu pena dela, e enviou um táxi que estacio¬nou cantando os pneus. Ela entrou no carro sem olhar para trás.
Reed ficou, parado, até ver que Maddy estava se¬gura dentro do táxi. Então, permaneceu ali um pouco mais. Ele fizera a ambos um favor, era o que Reed dizia a si mesmo. Ele continuou repetindo isso vezes sem fim, lembrando-se de como Maddy lhe parecera frágil sob a luz daquele poste.
Dando meia-volta, começou a caminhar. Já era de madrugada quando Reed pegou o caminho de casa.

Capítulo Cinco

M
addy entrou no palco pela esquerda ao ouvir a dei¬xa de Wanda. Não havia plateia, mas o teatro não estava vazio. As dançarinas restantes se posicionaram do outro lado do palco e Macke à frente delas, prepara¬do para analisar cada movimento. Além disso, estavam no teatro o diretor de palco, o iluminador, assistentes, o pianista — com o nervoso compositor ali perto —, além de vários técnicos e a pessoa que faria tudo isso funcio¬nar: o diretor-geral do espetáculo.
__ Veja bem, querida — começou a dizer Wanda, no papel de Maureen Core, uma stripper amiga. — Este cara é uma ilusão. Você está procurando problema.Ele é a resposta para a minha vida — respondeu Maddy, indo até um bar imaginário no palco vazio. Ela se serviu de uma bebida invisível, abaixou o copo e deu uma risadinha. — Foi por um homem assim que esperei por toda a minha vida.
__ Fique com os diamantes, querida. — Wanda caminhou na direção dela, passando os dedos pelos braços de Maddy, como se estivesse se deliciando com a sensação de um bracelete de brilhantes. — E os co¬loque num cofre belo e seguro, porque, quando ele descobrir o que você é, vai fugir antes mesmo que você possa mostrar sua...
__ Ele não vai descobrir — disse-lhe Maddy. — Ele jamais descobrirá. Você acha que um homem de classe como ele vai aparecer numa espelunca destas? — Ela lançou um olhar de desdém para o cenário inexistente. — Eu lhe garanto, Maureen, que estou tendo a minha chance. Pela primeira vez na minha vida tenho uma chance.
O pianista dedilhou a introdução da música e Maddy se esqueceu do que tinha de fazer.
__Maddy. — O diretor, conhecido mais por seu ta¬lento do que por sua paciência, olhou para ela com irritação.
Maddy praguejou, com algumas palavras duras que reservava para momentos como esse, no palco.
__ Desculpe, Don.
__ Você só está me dando 15 por cento, Maddy. Preciso de 110 por cento.
__ Você terá o que quer. — Ela massageou o pes¬coço, tentando se livrar da tensão. — Preciso de um minuto, por favor.
__ Cinco — disse ele rispidamente, o que fez com que os dançarinos se remexessem, desconfortáveis, an¬tes de se dispersarem.
Maddy saiu do palco pela esquerda, caindo sobre uma caixa nas coxias.
__ Problemas? — perguntou Wanda, sentando-se ao lado dela e olhando em volta, para manter todo mundo a certa distância.
__ Odeio estragar as coisas.
__ Tenho como regra jamais me meter no problema dos outros, mas...
__Tem sempre um "mas".
__Você tem estado nervosa assim há quase uma semana. Eu diria que você está prestes a entrar em colapso.
Maddy não podia negar, nem tentou. Em vez disso, ela apoiou o queixo com a mão.
__ Por que os homens são tão estúpidos? Wanda ficou um tempo pensando naquilo.
__ Pelo mesmo motivo porque o céu é azul, queri¬da. Eles são assim mesmo.
Em outra época, Maddy talvez tivesse rido. Mas agora ela apenas concordou, dando uma risadinha nervosa.
__ Acho que seria mais inteligente esquecê-los.
__ Muito mais inteligente — concordou Wanda. — Não é muito divertido, mas inteligente. Seu caso está lhe causando problemas?
__ Ele não é meu caso. — Maddy suspirou e franziu a testa, olhando para seu próprio pé. — Mas ele está me causando problemas, sim. O que você faz quando um homem a beija como se quisesse ficar ao seu lado pelos próximos 20 anos e depois a afasta como se você nem estivesse ali?
Wanda pousou a mão do lado de dentro do pé e depois puxou a perna para cima, para manter os mús¬culos aquecidos.
__ Bem, você pode esquecê-lo. Ou pode lhe dar uma nova chance de estar a seu lado, até que ele fique preso.
__ Eu não quero prender ninguém — murmurou Maddy.
__ Mas você está presa — argumentou Wanda, alon¬gando outra perna. — Presa e totalmente envolvida.
__ Eu sei. — A tristeza era algo estranho para ela. Maddy tentou se livrar daquele sentimento, que não se desprendia. — O problema é que eu acho que ele sabe, também, e não quer se envolver.
__ Talvez você deva pensar primeiro no que você quer.
__É, mas primeiro eu teria de saber o que quero.
__ Você o quer?
Maddy deu de ombros e odiou a si mesma por ser tão petulante.
__ Talvez.
__ Aprenda com Mary sobre isso — aconselhou Wanda, elevando-se num plié. — Vá em busca do que é melhor para você.
Aquilo parecia tão fácil! Maddy sabia melhor do que a maioria como era conseguir o que era bom para uma pessoa.
__ Sabe qual é o problema de se ser uma dançarina, Wanda?
Dois membros do coro, atualmente vivendo um caso, começaram a discutir baixinho, cheios de malí¬cia. Wanda ficou ouvindo, um pouco apreensiva.
__ Posso pensar em uns 200 problemas. Mas diga.
__ Você nunca tem tempo para aprender como agir simplesmente como uma pessoa. Enquanto as outras garotas estão por aí, indo ao cinema com os namora¬dos, nós estamos dormindo para acordarmos e irmos à aula na manhã seguinte. Eu não sei o que fazer quanto a ele.
__ Atravesse o caminho dele.
__ Atravessar o caminho dele?
__ Exatamente. Atravesse o caminho dele mais uma vez e as coisas se resolverão sozinhas.
Rindo, Maddy colocou a mão no queixo.
__ Isso lhe parece irresistível?
__ Você nunca saberá se não tentar.
Maddy passou os dedos pelo queixo da amiga e en¬tão deixou a mão cair.
__ Você está certa. — Ela permaneceu, parada, con¬cordando com a cabeça. — Você está coberta de razão. Vamos. Acho que estou pronta para dar ao Dom os 110 por certo que ele precisa.
Elas refizeram a cena, mas dessa vez Maddy usou seu próprio nervosismo para dar consistência ao per¬sonagem. Quando o pianista deu a deixa para a canção que ela deveria cantar, Maddy se entregou inteiramen¬te à música. Aquela parte do espetáculo exigia que ela fizesse dupla com Wanda. Ao fazer isso, os olhos dos outros dançarinos brilharam, numa mistura de admi¬ração e aprovação que fez a adrenalina de Maddy au¬mentar ainda mais.
Ela esteve em cena o tempo todo durante o coro, interagindo com os outros dançarinos, movendo-se com tanta rapidez que o controle intenso que usava para manter a respiração regular não pôde ser nota¬do. Maddy rodopiou até o centro do palco, esticou os braços — exibindo-se, como seu pai a ensinara há vários anos — e deixou que a última nota da música se alongasse.
Alguém lhe jogou uma toalha.
Eles repassaram a cena outras vezes, melhorando e alterando algumas coisas no processo. O ilumina¬dor e o diretor de palco começaram a discutir, para¬ram e retomaram a discussão. Satisfeitos — por ora —, eles avançaram para a cena seguinte. Maddy fez um intervalo, bebeu uma garrafa de suco de laranja e tomou um copinho de iogurte, e, então, voltou ao palco, para mais.
Anoitecia quando ela deixou o teatro. Um grupo de dançarinos estava indo a um restaurante ali perto para relaxar e recobrar as forças. Normalmente Maddy os teria acompanhado, contente por permanecer na com¬panhia dos colegas. Naquela noite, contudo, ela per¬cebeu que tinha duas opções: podia ir para casa e se jogar numa banheira ou se pôr no caminho de Reed.
Ir para casa era a coisa mais inteligente a fazer. O último ensaio acabara com sua energia. De qualquer modo, uma mulher que tentava conquistar um homem desinteressado — ou um homem que tentava conquis¬tar uma mulher que não estivesse a fim — era uma demonstração incrível de falta de bom senso.
Havia várias outras pessoas, gente que tinha os mesmos interesses e ambições que Maddy, o potencial de se transformar em companhias menos complicadas. Não que os homens olhassem para ela e saíssem cor¬rendo. A maioria das pessoas gostava muito de Maddy, que também era admirada por sua personalidade, e, se ela realmente quisesse, poderia encontrar facilmente uma companhia para jantar e para passar uma noite agradável.
Maddy passou por cinco cabines de telefone até en¬contrar uma que tivesse uma lista telefônica. "Só estou dando uma olhada", disse Maddy a si mesma, procu¬rando pelo nome de Reed. Não faria mal nenhum dar uma olhada.
Era óbvio que ele morava do outro lado da ci¬dade. Por isso Maddy teria de esquecer a ideia de fazer uma visita até que não estivesse tão cansada. Seu coração disparou quando encontrou o endere¬ço de Reed. Ele morava na parte de cima da ilha de Manhattan. Avenida Central Park West. Havia quase 50 quarteirões entre eles, uma distância mais do que física.
Ao fechar a lista telefônica, não passou pela cabeça de Maddy que ela também poderia morar na parte de cima da ilha. Se bem que a dançarina não poderia mo¬rar naquela avenida, simplesmente porque não enten¬dia aquela parte rica da cidade. Ela entendia o Village, o Soho, a rua 40 e arredores e o bairro dos teatros.
Maddy e Reed não tinham nada em comum e era ridículo pensar o contrário. Ela começou a andar, di¬zendo a si mesma que iria para casa, entraria na ba¬nheira, depois se deitaria na cama, com um bom livro. Maddy se lembrou de que nunca quisera ter um ho¬mem em sua vida. Afinal, homens tinham certas ex¬pectativas. Eles complicavam as coisas. Maddy tinha dezenas de coreografias gravadas na memória. Não havia espaço para que ficasse pensando em relacionamentos amorosos.
Ela entrou na estação do metrô, misturando-se à multidão. Depois de procurar um pouco, pegou uma passagem no fundo da mochila. Ainda discutindo con¬sigo mesma, ela passou pela catraca que a levaria à plataforma na qual entraria no trem para a avenida Central Park West.
Teria sido mais inteligente telefonar antes, pen¬sou Maddy, parada na calçada, em frente ao pré¬dio alto e intimidador onde Reed morava. Talvez ele não estivesse em casa. Maddy ficou andando na calçada de um lado para o outro. Pior, talvez ele estivesse, mas não sozinho. Uma mulher com calça de seda amassada passou por ela, acompanhada por dois cachorrinhos, sem nem mesmo dar uma olhada em Maddy.
Este bairro de ricos era assim mesmo, pensou ela. Calça de seda e poodles. Maddy era um vira-lata usan¬do calça de algodão. Ela olhou para baixo, para sua própria calça jeans e seus tênis gastos. Pelo menos ela devia ter tido o bom senso de ir em casa e se trocar.
"Mas o que é que você está dizendo? Você está aí, parada, reclamando de suas roupas. Isso é coisa de Chantel. Você nunca foi assim. Além do mais, estas roupas estão ótimas em você. E ficam ótimas nas pes¬soas que você conhece. Se não são boas o bastante para Reed Valentine, o que é que você está fazendo aqui? Não sei", pensou Maddy. "Sou uma idiota."
Sem dúvida.
Respirando fundo, ela deu um passo, em direção às enormes portas de vidro, para a recepção silenciosa, com piso de mármore.
Há anos Maddy trabalhava como atriz. Por isso, ela sorriu, jogou os cabelos para trás e então abordou o homem uniformizado atrás do balcão de carvalho.
__ Olá. Estou procurando Reed. Reed Valentine.
__ Desculpe, senhorita. Ele ainda não chegou.
__ Ah! — Maddy se esforçou para não mostrar que estava desapontada. — Bem, só estou de passagem.
__ Ficarei feliz em anotar seu recado, senhorita... — Ao olhar para Maddy, olhar de verdade, o recepcio¬nista arregalou os olhos. — Você é Maddy O'Hurley.
Ela ficou surpresa. Era raro ser reconhecida fora do teatro. Maddy sabia melhor do que ninguém como sua aparência mudava no palco.
__ Sim. — Ela lhe estendeu a mão automaticamen¬te. — Como vai?
__ Ah, é um enorme prazer conhecê-la. — O ho¬mem, não muito mais alto do que Maddy, mas muito mais gordo, pegou a mão dela com ambas as mãos. — Minha mulher quis um presente especial de aniversá¬rio e nossos filhos nos deram ingressos para Suzanna's Park. Bem na frente. Ah, que noite agradável tivemos.
__ Que bom! — Maddy deu uma olhada no crachá dele. — Você deve ter filhos maravilhosos, Johnny.
__ Eles são ótimos atletas. Todos os seis. — Ele sorriu para Maddy, deixando à mostra um dente de ouro. — Srta. O'Hurley, não tenho palavras para lhe dizer como gostamos de assistir ao seu espetáculo. Minha mulher disse que foi como assistir ao nascer do sol.
__ Obrigada. — Elogios como aquele faziam seus anos de aulas, dias e semanas de ensaios e as câimbras valerem a pena. — Muito obrigada mesmo.
__ Sabe aquela parte... Deus, minha mulher chorou um bocado. Aquela parte em que Peter pega o trem, você pensa que ele se foi e as luzes vão se apagando, até restar apenas um foco azul muito fraco sobre você. E então você canta, ah... — Ele pigarreou. — Como ele pode partir — o recepcionista começou a cantar, numa voz trêmula de barítono —, levando meu amor consigo?
__ Como ele pode partir — completou Maddy, com sua voz forte e vibrante de contralto, com meu co¬ração em suas mãos? Eu só sei que lhe dei uma chance. E que ele não me escolheu.
__ Exatamente. — Johnny balançou a cabeça e sus¬pirou. — Tenho que admitir que fiquei com os olhos cheios de lágrimas.
__ Estou num novo musical que deve estrear em seis semanas.
__ Mesmo? — Ele sorriu para Maddy como um pai orgulhoso. — Não perderemos o espetáculo, prometo.
Maddy pegou um lápis que estava sobre o balcão e escreveu o nome do teatro e do assistente do diretor de palco num bloquinho.
__ Ligue para este número, peça para falar com o Fred e dê a ele meu nome. Ele vai lhe dar dois ingres¬sos para a noite de estreia.
__ Noite de estreia! — O olhar de inegável prazer daquele homem bastou para deixar Maddy completa¬mente emocionada. — Minha esposa não vai acreditar. Não sei como agradecer, srta. O'Hurley.
Ela deu uma risadinha para ele.
__ Aplauda.
__Pode contar comigo. Nós vamos... Ah, boa noite, sr. Valentine.
Apoiada no balcão da recepção, Maddy se endirei¬tou rapidamente, sentindo-se culpada por algum moti¬vo. Ela se virou e conseguiu sorrir.
__ Olá, Reed.
__Maddy. — Ele surgira durante o breve dueto, mas nem Maddy nem Johnny perceberam.
Como Reed apenas a encarou, Maddy pigarreou e decidiu apressar as coisas.
__ Eu estava por aqui e decidi aparecer para lhe dar um oi. Oi.
Reed acabara de sair de uma reunião, durante a qual se distraiu pensando nela. Ele não estava feliz em vê-la. Mas queria tocá-la.
__ Você está indo para algum lugar?
Maddy podia tentar ser elegante e mentir sobre uma festa ali perto. Ou podia tentar fingir que tinha duas cabeças.
__ Não.
Pegando-a pelo braço, Reed cumprimentou Johnny e a levou para o elevador.
__ Você é sempre generosa assim com estranhos? — perguntou ele.
__ Ah! — Depois de pensar por um momento, Maddy deu de ombros. — Acho que sim. Você parece um pouco cansado. — E lindo, acrescentou ela, em silêncio. Lindo.
__ Tive um longo dia.
__ Eu também. Tivemos nosso primeiro ensaio ge¬ral hoje. Foi uma loucura. — Então Maddy gargalhou, enfiando as mãos nervosamente nos bolsos. — Acho que não deveria dizer isso para o homem que está pa¬trocinando o espetáculo.
Com um resmungo ininteligível, Reed a conduziu para o corredor. Maddy concluiu que o silêncio era a melhor tática. Então, ele abriu a porta e a levou para o interior do apartamento.
Maddy esperava encontrar algo grandioso, elegan¬te, de bom gosto. Era tudo isso, e mais. Quando as luzes se acenderam, teve a impressão de estar num lu¬gar espaçoso. As paredes eram claras, decoradas com quadros impressionistas vibrantes e havia três janelões altos, com vistas para o parque e a cidade. O carpete castanho produzia o contraste perfeito com um longo sofá perolado. Duas árvores ornamentais decoravam um canto. Em dois vãos na parede havia vasos da di¬nastia Ming, como Maddy imaginara. Uma escada cur¬va e larga levava ao mezanino.
Não havia nada fora do lugar, mas Maddy não espe¬rava mesmo que houvesse. Ainda assim, aquele aparta¬mento não era um lugar frio — e quanto a isso ela não tinha certeza.
__ É um lugar adorável, Reed. — Ela se aproximou de uma janela para olhar para baixo. Se havia algum problema, era justamente este: Reed se mantinha alheio, distante da cidade na qual morava, longe dos sons, dos cheiros, do lado humano de Nova York. — Você algu¬ma vez ficou olhando pela janela, imaginando o que está acontecendo?
__ O que está acontecendo onde?
__ Lá embaixo, claro. — Maddy se virou, convi-dando-o, sem falar nada, a se juntar a ela. Quando Reed se aproximou, Maddy olhou para baixo no¬vamente. — Quem está brigando, quem está rindo, quem está fazendo amor. Para onde está indo aquela viatura da polícia e se vai chegar a tempo. Quantos moradores de rua dormirão no parque esta noite. Quantas pessoas foram enganadas, quantas garrafas foram abertas, quantos bebês nasceram. É um lugar incrível, não acha?
Maddy estava usando o mesmo perfume leve, que parecia provocante apenas porque não tinha nenhuma malícia.
__Nem todo mundo vê a cidade como você.
__ Eu sempre quis morar em Nova York. — Maddy se afastou, admirando apenas as luzes, o brilho delas. — Desde que me entendo por gente. É estranho como nós três — digo, eu e minhas irmãs — sempre tivemos esta ideia sobre o lugar a que pertencemos. Por mais próximas que sejamos, escolhemos viver em lugares completamente diferentes. Abby, no interior da Virgí¬nia, Chantel, na terra da fantasia, e eu, aqui.
Reed teve de se conter para não lhe acariciar os cabelos. Havia sempre um quê de ansiedade quando Maddy falava sobre as irmãs. Ele não entendia o con¬ceito de uma família. Reed tinha apenas seu pai.
__ Gostaria de beber alguma coisa?
Estava tudo no tom de voz dele: a distância, a forma¬lidade. Maddy tentou não se deixar atingir por aquilo.
__ Não me importaria em beber um pouco de água Perrier.
Quando Reed foi até o minúsculo bar de ébano, Maddy se afastou da janela. Ela não podia ficar ali, pensando nas pessoas vivendo suas vidas, enquanto se sentia separada do homem que viera visitar.
Então Maddy viu a planta. Reed a colocara sobre uma mesinha, onde ela podia pegar um pouco da luz indireta do sol. A terra, quando Maddy a examinou com o dedo, estava úmida, mas não encharcada. Ela sorriu ao tocar uma folha. Reed era capaz de cuidar de um ser vivo, quando se permitia fazer isso.
__ Ela parece melhor — disse Maddy, pegando a taça que ele oferecia.
__ Está num estado lamentável — corrigiu Reed, remexendo o conhaque.
__ Não, ela está mesmo ótima. Ela não parece mais tão... pálida, acho. Obrigada.
__ Você a estava afogando. — Reed bebeu, dese¬jando que Maddy não tivesse olhos tão grandes e ingê¬nuos. — Por que você não se senta, Maddy? Daí pode me dizer o que a traz aqui.
__ Eu só queria vê-lo. — Pela primeira vez, ela de¬sejou ter um pouco do jeito de Chantel para lidar com os homens. — Olha, eu sou péssima com essas coisas. — Incapaz de se manter calma, ela começou a andar de um lado para o outro do apartamento. — Nunca tive tempo de desenvolver uma espécie de estilo. E só digo coisas engraçadas quando as falas são escritas para mim. Eu queria ver você. — Desafiadoramente, Maddy sentou-se na borda do sofá. — Por isso eu vim.
__ Sem estilo, é? — Reed achou incrível que pudes¬se se divertir, já que seu desejo por ela o estava dei¬xando louco. — Entendo. — Reed sentou-se, também, mantendo uma almofada entre eles. — Você veio aqui para me conquistar?
Os olhos dela brilharam com raiva, que Maddy ex¬pressou de um modo inesperado.
__ Agora eu vejo que não só dançarinos têm o ego inflado. Acho que as mulheres com as quais você está acostumado correm para sua cama num estalar de dedos.
Aquele sorriso o ameaçou novamente quando Reed levantou sua taça de conhaque.
__As mulheres com as quais estou acostumado a sair não cantam duetos na recepção com o segurança.
Num gesto brusco, Maddy abaixou o copo, quase derramando a água.
__ Provavelmente, porque elas têm ouvidos de lata.
__ É uma possibilidade. A questão, Maddy, é que não sei o que posso fazer por você.
__ Fazer por mim? — Ela se levantou, completa¬mente graciosa e surpresa. — Você não tem de fazer nada por mim. Não quero que você faça nada por mim. Não sou uma Eliza Doolittle.
__ Você pensa como se estivesse no teatro.
__ E daí? Você pensa como se tudo fosse uma ques¬tão de lucro e prejuízo. — Aborrecida, Maddy co¬meçou a andar de um lado para o outro novamente. — Não sei o que estou fazendo aqui. Que estupidez! Droga, fiquei triste a semana toda. E não estou acostu¬mada a ficar triste. — Ela deu meia-volta, apontando para Reed. — Esqueci até minha fala porque estava pensando em você.
__ Estava? — Ele se levantou, mesmo que tivesse prometido a si mesmo que não faria isso. Reed sabia que deveria garantir que Maddy ficasse bastante fu¬riosa para sair dali antes que ele fizesse algo de que se arrependeria mais tarde. Mas era justamente isso o que Reed estava fazendo agora, aproximando-se dela para acariciar-lhe o rosto com um dedo.
__ Sim. — O desejo aumentou e a raiva diminuiu. Maddy não sabia como conciliar as duas coisas. Ela o pegou pelo pulso antes que Reed pudesse tirar a mão. — Eu queria que você pensasse em mim.
__ Talvez eu estivesse pensando. — Reed queria puxá-la para perto, sentir o corpo dela e fingir só mais um pouco. — Talvez eu tenha ficado surpreso ao me ver na janela pensando em você.
Maddy ficou na ponta dos pés para beijá-lo. Ela podia sentir que havia uma tempestade se formando dentro dele. Maddy já sentira a mesma coisa, mas sa¬bia que para Reed aquilo teria motivos diferentes, com resultados também diferentes. Era mesmo necessário entendê-lo, já que estar com ele parecia algo tão certo? Aquilo bastava para Maddy. Mas ela sabia que aquilo jamais bastaria para Reed.
__ Reed...
__ Não. — As mãos dele estavam duras e tensas nas costas dela e depois nos cabelos, puxando-a para per¬to. — Não diga nada.
Reed precisava daquilo que só ela podia lhe dar, com a boca, os braços e com o movimento do seu corpo contra o dele. Sua casa jamais parecera vazia antes de Maddy surgir em sua vida. Agora que ela estava ali, Reed não queria mais pensar em ficar sozi¬nho outra vez.
Ela tinha uma boca de veludo, quente e macia, con¬fortável e ao mesmo tempo excitante. Quando Maddy o tocou, foi como se quisesse se entregar, dar em vez de tomar. E por um momento Reed foi até capaz de acreditar naquilo.
Como era fácil para ela seduzi-lo! Um beijo fora sempre uma coisa muito simples para Maddy. Uma de¬monstração de carinho para uma pessoa amada, algo que se dava distraidamente a um amigo e até mesmo algo que se interpretava no palco para um teatro cheio de espectadores. Mas a simplicidade de um beijo ces¬sava com Reed. Com ele era algo complexo, avassala¬dor, um contato que despertava todos os seus nervos. Paixão não era algo novo para Maddy. Ela vivia isto todos os dias, em seu trabalho. Mas Maddy sabia que essa paixão era diferente, pois envolvia um homem e uma mulher. O que ela não sabia é que esse tipo de paixão era capaz de fazer seus músculos derreterem e de enevoar seus pensamentos.
Reed passava as mãos nos cabelos dela. Maddy que¬ria que ele deslizasse aquelas mãos no corpo dela, so¬bre cada centímetro, que pulsava, tremia, ansiava por aquele homem. Reed a desejava. Maddy podia sentir o frenesi do desejo todas as vezes que suas bocas se toca¬vam. Mesmo assim ele não fez nada além de mantê-la perto de si.
Faça amor comigo, ela pedia em pensamento. Seus lábios estavam colados aos dele, por isso Maddy não podia pedir em voz alta. Ela podia imaginar um jan¬tar à luz de velas, música baixinha e uma cama alta e larga, com seus corpos entrelaçados. Aquela ima¬gem aqueceu sua pele e a fez beijá-lo com mais agres¬sividade.
__ Reed, você me deseja?
Mesmo beijando-o por todo o rosto, Maddy sentiu que Reed ficava tenso, rígido, nervoso. Só um pouqui¬nho, mas ela sentiu.
__ Sim.
Foi o modo como ele disse aquilo que gelou seu sangue. Havia certa relutância e até mesmo irritação na voz dele. Maddy se afastou lentamente.
__ Você tem um problema com isso?
Por que as coisas com ela não podiam ser tão simples quanto eram com outras mulheres? Um prazer mútuo, regras claras e sem magoar ninguém. Mas desde que a tocara pela primeira vez Reed sabia que as coisas não poderiam ser simples.
__ Sim. — Ele voltou para o conhaque, esperando que a bebida o acalmasse. — Eu tenho um problema com isso.
Maddy concluiu que estava indo rápido demais. Era um péssimo hábito dela, o de acelerar sem se importar com os buracos da estrada.
__ Quer conversar sobre isso comigo?
__ Eu quero você. — Aquela afirmação consumiu o que Maddy tinha esperança que fosse um sorriso despretensioso. — Eu quis levá-la para a cama desde que a vi juntando os trocados e as roupas suadas na calçada.
Maddy deu um passo para a frente. Será que Reed sabia que era isso o que ela queria ouvir, mesmo estan¬do um pouco assustada? Será que Reed tinha alguma ideia do quanto Maddy queria que ele sentisse o mes¬mo que ela?
__ Por que você me mandou embora naquela noite?
__ Não sou bom para você, Maddy.
Ela o encarou.
__ Espere aí. Quero ter certeza de que estou entenden¬do. Você me mandou embora para meu próprio bem?
Reed se serviu de mais conhaque. A bebida não es¬tava servindo para nada.
__Isso mesmo.
__ Reed, você vestiu uma criança com trapos du¬rante o inverno para o bem dela. Uma criança que já passou da idade, que sabe cuidar de si.
Ele se perguntava por que discutiria com uma ana¬logia daquelas.
__ Você não me parece uma mulher interessada em casos de uma noite apenas.
O sorriso dela desapareceu.
__ Não sou mesmo.
__ Então eu lhe fiz um favor. — Reed bebeu, por¬que estava começando a se odiar.
__ Acho que eu deveria agradecer. — Maddy pegou sua mochila e depois a deixou cair. Desistir facilmente não estava mesmo no sangue dos O'Hurley. — Quero saber por que você tem tanta certeza de que seria um caso de uma noite apenas.
__ Não estou interessado em compromissos.
Ela meneou a cabeça, dizendo a si mesma que aqui¬lo era sensato.
__ Há uma grande diferença entre um caso à toa e um compromisso. Tenho a impressão de que você acha que estou tentando enjaulá-lo.
O que Maddy não sabia é que Reed já se sentia semi-enjaulado, e que ele mesmo construíra aquela jaula.
__ Maddy, por que você é incapaz de aceitar que você e eu não temos nada em comum?
__ Pensei nisso. — Agora ela tinha algo sólido em que se apegar, por isso relaxou. — É verdade, até certo ponto. Mas, sabe, quando se pensa no assunto, o fato é que temos muito em comum. Nós dois moramos em Nova York.
Erguendo a sobrancelha, Reed se apoiou no bar.
__ Claro. Isso esclarece tudo.
__É um começo. — Ela percebeu o brilho, ainda que fraco, de contentamento. Era o que bastava. __ Nós dois, neste momento, temos um interesse especial por certo musical. — Maddy sorriu para ele, um sorriso que era um encanto ao mesmo tempo instintivo e irresistível. — Eu visto as meias antes de calçar os sapatos. E você?
__ Maddy...
__ Você toma banho em pé?
__ Não entendo...
__ Como assim? Deixe de ser evasivo. Diga a ver¬dade. Toma?
Aquilo era inútil. Reed teve de rir.
__ Sim.
__ Incrível. Eu também. Você já leu ...E o vento levou?
__ Sim.
__ Ah, temos o mesmo interesse em literatura. Eu provavelmente poderia continuar listando nossos pontos em comum por horas.
__ Tenho certeza disso. — Reed deixou o conhaque de lado e foi até ela. — O que você está querendo di¬zer, Maddy?
__ Estou querendo dizer que gosto de você, Reed. — Ela pôs as mãos nos braços dele, desejando aliviar a tensão e manter o sorriso nos olhos dele por mais tempo. — Acho que se você relaxar, só um pouquinho, podemos nos tornar amigos. Estou atraída por você. Acho que se pudermos ter paciência, podemos nos tor¬nar namorados também.
Aquilo, claro, era um erro. Reed sabia disso, mas Maddy parecia tão encantadora naquele momento, tão honesta e despreocupada.
__ Você é... — murmurou ele, brincando com uma mecha dos cabelos dela. — ...diferente.
__ Que bom. — Com um sorriso, Maddy se pôs na ponta dos pés e o beijou. Um beijo sem calor ou pai¬xão. — Estamos de acordo?
__ Você pode se arrepender disso.
__ Isso é problema meu, não acha? Amigos? — Ela lhe ofereceu a mão solenemente, mas seus olhos riam, desafiadores.
__ Amigos — concordou ele, esperando não se ar¬repender daquilo.
__ Ótimo. Ouça, estou morrendo de fome. Você tem uma lata de sopa ou coisa parecida?


Capítulo Seis

A
parentemente, tudo era tão simples quanto Maddy dissera que seria. Para muitas pessoas, seria mes¬mo simples, para além das aparências. Mas nem todo mundo sentia as coisas com tanta intensidade quanto Reed ou fingia sentir quanto Maddy.
Eles foram ao cinema. Sempre que os compromissos deles permitiam, e quando o tempo estava bom, almo¬çavam no parque. Eles passaram uma tranquila tarde de sábado passeando pelos corredores de um museu, mais interessados um no outro do que na exposição. Se Reed não se conhecesse bem, diria que estava pres¬tes a começar um romance. Mas ele não acreditava em romances.
Seu pai fora traído por amor, uma traição com a qual Reed tinha de conviver todos os dias. Edwin po¬dia ter superado aquilo. Reed, obviamente, não conse¬guiu. A fidelidade, para a maioria das pessoas com as quais ele trabalhava, era algo flexível. Pessoas tinham casos, não namoros, e viviam esses casos antes, durante e depois do casamento, por isso o casamento era algo irrelevante. Nada durava para sempre, especialmente quando se tratava de relacionamentos.
Mas ele só conseguia pensar em Maddy quando não estava com ela, e pensava em pouca coisa além dela quando estavam juntos.
Amigos. De algum modo, eles conseguiram se tor¬nar amigos, apesar do modo diferente como viam a vida e de suas origens. Mesmo que Maddy estivesse fe¬liz e Reed estivesse cheio de cautela em relação àquela amizade, eles encontraram várias coisas em comum, o suficiente para formar uma base. Mas o que acontece¬ria a seguir?
Namorados. Parecia inevitável que eles se tornas¬sem namorados. A paixão que vibrava sob a superfície sempre de estarem juntos não poderia ser contida por muito mais tempo. Eles sabiam disso e, de maneiras di¬ferentes, aceitavam. O que preocupava Reed era saber que quando a levasse para a cama, como queria tanto, perderia aquela companhia, da qual estava começando a se sentir dependente.
O sexo mudaria as coisas. Com certeza. A intimi¬dade física se chocaria contra a intimidade emocio¬nal que eles apenas começaram a desenvolver. Por mais que precisasse de Maddy em sua cama, Reed se perguntava se poderia se dar ao luxo de perder a Maddy que conhecia fora da cama. Era um cabo-de-guerra que ele sabia que jamais poderia ganhar.
Mesmo assim, Reed não acreditava na derrota. Ele achava que agindo racionalmente e planejando com cuidado seria capaz de encontrar um jeito de ter as duas coisas. Importava se Reed estava agindo calcula¬damente, até mesmo a sangue frio, se no final o resul¬tado fosse satisfatório para ele e para Maddy?
Reed jamais chegaria à solução daquele mistério. Em vez disso, ele se lembrou de Maddy, de como ela agira nas últimas semanas, rindo e jogando migalhas de pão para os pombos no parque.
Quando o interfone soou sobre sua mesa, Reed percebeu que perdera mais dez minutos sonhando acordado.
__ Sim, Hannah.
__ Seu pai na linha 1, sr. Valentine.
__ Obrigado. — Reed apertou um botão, receben¬do a ligação. — Papai?
__ Reed, ouvi dizer que o Selby está contratando um lote de artistas independentes. Você sabe alguma coisa sobre isso?
Ele recebera um relatório sobre o fluxo de empre¬sários de artistas independentes contratados pela gra¬vadora Galloway.
__ Anda com os ouvidos bem abertos durante o jogo de golfe?
__ Algo assim.
__ Ouvi dizer que ele está fazendo pressão para que as 40 maiores estações de rádio toquem mais algumas músicas. Nada de novo. Alguns pedidos para se tocar uma canção específica, mas nada grave.
__ Selby é uma víbora, um filho-da-mãe. Se você ouvir algo de concreto, não pense duas vezes antes de me informar.
__ Você será o primeiro a saber.
__ Jamais gostei da ideia de pagar para que uma rá¬dio execute uma música — resmungou Edwin. — Bem, é uma tática antiga, mas estou pensando em outras. Quero assistir a um ensaio do nosso espetáculo. Você gostaria de ir comigo?
Reed olhou para o calendário sobre sua mesa.
__ Quando?
__Dentro de uma hora. Eu sei que assim é o melhor jeito de informá-los. Eles gostam de serem avisados quan¬do o dinheiro está chegando, mas eu gosto de surpresas.
Ele percebeu que tinha dois compromissos naquela amanhã e quase recusou. Mas, cedendo ao impulso, Reed decidiu ir com o pai.
__ Eu o encontrarei no teatro às 11h.
__ Depois almoçamos juntos? Seu velho está pa¬gando.
Ele era um homem adorável, pensou Reed. Edwin Valentine tinha seu clube, seus amigos e dinheiro sufi¬ciente para dar a volta ao mundo, mas era um homem solitário.
Irei com apetite, então — disse-lhe Reed, desli¬gando para lidar com sua agenda.


Edwin entrou no teatro furtivamente, como um meni¬no sem ingresso.
__Vamos nos sentar numa poltrona e ver pelo que estamos pagando.
Reed seguiu o pai, mas seus olhos estavam no palco, onde Maddy atuava, nos braços de outro homem. Ele sentiu uma fisgada de ciúme, algo tão surpreendente¬mente forte que o fez parar no meio do corredor, com o olhar fixo.
Ela estava com a cabeça levantada, encarando o ou¬tro homem, os braços ao redor do pescoço dele, a ex¬pressão reluzente.
__ Eu me diverti muito, Jonathan. Poderia ficar danando para sempre.
__ Você fala como se tivéssemos terminado. Ainda temos muitas horas pela frente. — Reed viu o homem dar um beijo na testa dela. — Venha para casa comigo.
__ Ir para sua casa? — Mesmo a distância, Reed per¬cebeu a surpresa que Maddy expressou com seu corpo. __ Ah, Jonathan, eu adoraria, de verdade. — Ela se afastou, só um pouco, mas ele a pegou pelas mãos. - Não posso. Eu tenho que... Eu tenho de estar no trabalho cedo. Sim, é isso. E minha mãe. — Maddy virou-se, revirando os olhos para que só a plateia, e não o homem ao lado dela, pudesse ver a mentira. — Ela não está muito bem, sabe. E eu deveria estar lá para o caso de ela precisar de algo.
__ Você é uma pessoa tão boa, Mary.
__ Ah, não. — Havia culpa e angústia em sua voz. - Não, Jonathan. Não sou.
__ Não diga isso. — Ele a abraçou. — Porque acho que estou me apaixonando por você.
Maddy, ou melhor, a personagem foi surpreendida com outro beijo. Mesmo sabendo que era somente uma peça, Reed sentiu algo se revirar em seu estômago.
__ Tenho que ir — disse, rapidamente. — Realmen¬te tenho que ir. — Afastando-se, ela saiu correndo para o lado direito do palco.
__ Quando a verei novamente?
A personagem parou, parecendo travar uma guerra consigo mesma.
Amanhã. Venha à biblioteca às 18h. Eu me en¬contrarei com você.
Mary... — Ele começou a andar na direção dela, que levantou as duas mãos.
__ Amanhã — repetiu, saindo do palco.
__ Ótimo — gritou o diretor. — Temos 15 segun¬dos aqui para as mudanças de cenário. Wanda e Rose, assumam seus lugares. Acendam as luzes. A deixa, Maddy.
Ela entrou correndo no palco, até onde Wanda es¬tava sentada em uma cadeira, com a mulher chamada Rose olhando-se no espelho.
__ Você está atrasada — disse Wanda, com uma voz arrastada.
__ E quem você pensa que é para controlar meus horários? — A voz de Maddy tinha algo de áspero agora. Seus movimentos eram mais ríspidos.
__ Jack estava procurando por você.
Maddy, que vestia uma peruca ruiva, ficou parali¬sada.
__ O que você disse a ele?
__ Que ele não estava procurando nos lugares cer¬tos. Fica fria, Mary. Eu a acobertei.
__ É, ela a acobertou — concordou Rose, pegando um chumaço de cola, passando-a no figurino exagera¬do, cor-de-rosa e laranja.
__ Obrigada — disse Maddy, limpando a mão na saia. Tirando Rose da frente do espelho, ela começou a se maquiar.
__ Não me agradeça. Nós temos de cuidar umas das outras. — Ela observava distraidamente enquanto Rose exercitava uma coreografia. — Mas ainda acho que você está maluca — acrescentou a personagem de Wanda.
__ Eu sei o que estou fazendo. — Maddy se pôs atrás de um biombo, pendurando nele a blusa que ves¬tia. — Posso cuidar de tudo.
__ Acho melhor você ter certeza de que pode cuidar de Jack. Você tem ideia do que ele fará a você e ao seu lindinho quando descobrir o que está acontecendo?
__ Ele não vai descobrir. — Ela saiu de trás do biom¬bo num vestido longo de seda com lantejoulas verme¬lhas. — Veja, estou pronta.
__ A plateia está agitada esta noite.
__ Que bom — disse, dando uma risadinha para Wanda. — É assim que eu gosto — acrescentou, saindo pela direita do palco.
__ Luzes no lado esquerdo — pediu o diretor de palco. — A deixa, Terry.
Um dançarino que Reed reconheceu do único outro ensaio a que assistira entrou pela esquerda do palco.
Ele tinha o cabelo penteado para trás e usava um bigo¬de fininho. Terry vestia uma gravata branca brilhante sobre uma camisa preta. Quando Maddy saiu de trás dele, Terry a pegou pelo braço.
__ Onde você esteve?
__ Por aí. — Maddy jogou para trás a cabeleira rui¬va e depois colocou as mãos na cintura, num gesto de insolência. — O que houve?
Edwin se aproximou do filho, sussurrando-lhe:
__Não se parece nada com a mocinha que entrou no seu escritório com aquela planta morta.
__Não — murmurou Reed, enquanto no palco os dois personagens discutiam. — Não parece mesmo.
__ Ela será uma estrela, Reed. E das grandes.
Reed sentiu uma ponta de orgulho e medo, sem ser capaz de explicar nem uma coisa nem outra.
__ É, acho que vai.
__ Olhe, fofo — disse Maddy, dando um tapinha no rosto do parceiro. — Você quer que eu tire minha roupa ou que leia meu diário para você?
__ Tire a roupa — ordenou Jack.
__ Isso mesmo — disse ela, jogando a cabeça para trás. — Isso é o que eu faço de melhor.
__ Luzes — gritou o diretor de palco. — Música. Maddy pegou um boá vermelho e andou — ou melhor, rebolou — até o centro do palco, e ficou lá, parada, como em chamas. Quando começou a cantar, sua voz cresceu lentamente, num tom tão excitante e provocante quanto os movimentos que fazia. O boá foi jogado para a plateia. Aquela peça do figurino se¬ria substituída dezenas de vezes antes de a temporada terminar.
__ Eu nunca o levei a uma casa de striptease, não é, Reed?
Ele teve de sorrir, mesmo quando Maddy começou a tirar as luvas compridas, que iam até os cotovelos.
__ Não, nunca.
__ Uma falha na sua educação.
No palco, Maddy deixou que seu corpo controlasse a cena. Era apenas uma coreografia em meio a uma dúzia, mas ela sabia que tinha o potencial de se trans¬formar num marco se a peça tivesse sucesso. Era o que Maddy pretendia.
Quando tirou a parte de baixo do vestido, alguns dos técnicos começaram a assobiar. Maddy deu uma risadinha e continuou, numa série de saltinhos e rebo¬lados. Depois de dois minutos de dança, ela se sentou na beirada do palco e arqueou as costas para trás, ves¬tindo não muito mais do que algumas contas de vidro e lantejoulas. Para sua surpresa e felicidade, ouviu-se aplausos vindos da plateia. Exausta, Maddy se apoiou sobre os cotovelos e sorriu para o teatro escuro.
A notícia se espalhou rapidamente, de assistente a assistente, até o diretor de palco. O dinheiro estava na casa.
Don foi até a plateia, praguejando porque não lhe de¬ram a notícia antes.
__ Sr. Valentine. E sr. Valentine. — Ele os cumpri¬mentou com entusiasmo. — Não estávamos esperando os senhores.
__Nós achamos que poderíamos aparecer sem avi¬sar — disse Reed, com o olhar no palco, onde Maddy ainda estava sentada, passando uma toalha pelo pes¬coço. — Impressionante.
__ Nós podemos melhorar ainda mais um pouco, mas já estamos prontos para a Filadélfia.
__ Sem dúvida. — Edwin lhe deu um tapinha no ombro. — Não queremos atrapalhar as coisas.
__ Adoraria que ficassem um pouco mais, se pu¬derem. Estamos prestes a ensaiar a primeira cena do segundo ato. Por favor, sentem-se mais à frente.
__ Você é quem sabe, Reed.
Ele teria de trabalhar duas horas a mais com a pape¬lada sobre sua mesa para conseguir assistir ao ensaio. Mas Reed não perderia aquilo por nada.
__ Vamos.
A próxima cena fora encenada como uma comé¬dia. Reed não sabia ao certo como avaliar o tempo da comédia, a velocidade, os acessórios de palco que simplesmente tornavam as coisas engraçadas. Ele po¬dia entender, contudo, que Maddy sabia como inter¬pretar. Ela dominaria a plateia.
Maddy era uma pessoa cheia de vida, e havia algo de convincente e solidário mesmo quando ela inter¬pretava algo descarado como uma stripper. Reed a as¬sistia interpretando dois papéis, acrescentando a ino¬cência necessária para convencer o ansioso e honesto Jonathan que sua Mary era uma dedicada bibliotecária com uma mãe doente. Ele mesmo tinha acreditado em Maddy. E o talento dela como atriz era algo que estava começando a preocupá-lo.
__ Ela é uma atriz e tanto — comentou Edwin, as¬sim que o diretor-geral e o diretor de palco começa¬ram uma discussão.
__ É mesmo.
__ Não tenho nada a ver com isso, mas... O que está havendo entre vocês dois?
Reed se virou, sem expressar emoção alguma.
__O que o faz pensar que há algo entre nós?
Edwin coçou o nariz.
__ Eu jamais chegaria tão longe assim no mundo dos negócios se não fosse capaz de farejar certas coisas.
__ Nós somos... amigos — disse Reed, depois de pensar um pouco.
Com um suspiro, Edwin ajeitou seu corpanzil no assento.
__ Sabe, Reed, uma das coisas que eu sempre quis para você foi uma mulher como Maddy O'Hurley. Uma mulher bela e inteligente, capaz de fazê-lo feliz.
__ Eu sou feliz.
__ Você é um homem amargurado.
__ Não por sua causa — respondeu Reed imediata¬mente. — E nunca fui amargo com você.
__ Sua mãe...
__ Pare — pediu Reed, com um tom de voz ameno, mas gélido. — Isso não tem nada a ver com ela.
Tinha tudo a ver com ela, pensou Edwin, enquanto Maddy aparecia no palco novamente. Mas ele conhe¬cia o filho muito bem, e por isso ficou em silêncio.
Edwin não podia voltar no tempo e impedir a trai¬ção. Mesmo se isso fosse possível, não o faria. Se pu¬desse e fizesse tal coisa, Reed não estaria sentado a seu lado agora. Como ele podia ensinar ao filho que esse era um caso não de perdoar e sim de aceitar? Como ensiná-lo a confiar, já que Reed foi o fruto de uma mentira?
Ele observava Maddy, com seu rosto expressivo e reluzente, que iluminava todo o palco. Seria ela a pes¬soa a ensinar Reed?
Talvez Maddy fosse a mulher de que Reed sempre precisara, a resposta pela qual buscara sem saber que estava procurando. Talvez, com Maddy, Reed pudesse deixar para trás esse passado de dor.
Mesmo que aquilo fosse apenas um ensaio, Maddy mantinha a energia no máximo. Ela não achava certo fazer uma interpretação apressada, ou viver apressada¬mente. Maddy acredita em se jogar de cabeça e depois ver aonde isso a levaria.
Enquanto repassava as falas e praticava os movi¬mentos, parte da sua concentração estava focada em Reed. Ele a estava assistindo intensamente. Era como se Reed estivesse tentando ver, através do papel que ela interpretava, quem e o que Maddy realmente era. Será que Reed era incapaz de entender que ela estava imersa no personagem, a ponto de não existir mais Maddy, só Mary?
Ela pressentiu a desaprovação e até mesmo certa irrita¬ção — algo diferente do que Reed estava sentindo quando se sentou na plateia. Maddy queria descer do palco e de algum modo tranquilizá-lo, embora não tivesse a menor ideia de quê. Mas Reed não queria isso dela. Pelo menos não ainda. Por enquanto, ele queria tudo muito, muito simples. Sem amarras, promessas e futuro.
Maddy esqueceu uma fala e praguejou. Eles volta¬ram a cena e recomeçaram.
Ela não podia lhe dizer como se sentia. Para uma mulher honesta por natureza, até mesmo o silêncio era uma ilusão. Mas Maddy não podia lhe dizer nada. Reed não queria ouvi-la dizendo que o amava, que começara a amá-lo desde que o encontrara na calçada, naquele anoitecer. Reed ficaria furioso, porque não queria se sentir preso pelos sentimentos. Ele não entenderia que Maddy vivia graças a seus sentimentos.
Talvez Reed pensasse que Maddy se entregava fácil demais. Sim, era o que ela fazia, mas não para qual¬quer pessoa. O amor que Maddy nutria pela família era algo natural e sempre presente. O amor pelos ami¬gos era algo que crescia lenta ou rapidamente, mas sem angústia. Ela era capaz de amar uma criança no parque apenas por causa da inocência daquele ser. Ou, ainda, um velho que encontrasse na rua, apenas por compar¬tilhar do sofrimento dele.
Mas o amor que Maddy sentia por Reed era algo diferente. Era um amor complexo, e ela sempre pen¬sara que o amor era simples. Doía, e Maddy sempre achava que o amor lhe traria alegria. A paixão existia e estava sempre borbulhando sob a superfície. O que a deixava ansiosa, e Maddy sempre fora uma pessoa tranquila.
Ela o convidara para entrar em sua vida. Isso era algo que Maddy jamais esqueceria. Mais, ela brigara para que Reed entrasse em sua vida, mesmo depois que ele se afastou. Então Maddy o amava. Mas não podia dizer isso a ele.
__ Almoço, senhoras e senhores. Estejam de volta às 14h, preparados para ensaiar as duas últimas cenas.
__ Então aí está seu anjo — murmurou Wanda no ouvido de Maddy. — Aquele na primeira fila, que parece como um modelo na capa de uma revista de negócios.
__ O que tem ele? — Maddy se inclinou, permitin¬do que seus músculos relaxassem.
__ É ele, não?
__ Quem?
__ Ele. — Wanda lhe deu um tapinha no traseiro. — O anjo com o qual você estava sonhando acordada.
__ Eu não fico por aí sonhando acordada — respon¬deu Maddy. Pelo menos esperava que não o fizesse.
__ É ele — disse Wanda, com um sorriso de satisfa¬ção, antes de sair do palco.
Resmungando consigo mesma, Maddy desceu a es¬cadinha que ficava ao lado do palco. Ela sorriu.
__ Reed, que bom vê-lo aqui. — Maddy não o to¬cou nem lhe deu o beijo rápido e fraternal com o qual geralmente o cumprimentava. — Sr. Valentine. É um prazer vê-lo novamente.
__ Eu adorei cada minuto disso. — Edwin prendeu as mãos dela entre as suas. — É um prazer vê-la em cena. Mas será que eu ouvi alguém falar em almoço?
Maddy pôs a mão na barriga.
__ Ouviu, sim.
__ Então você vai almoçar conosco, não é?
__ Bem, eu... — Diante do silêncio de Reed, Maddy procurou por alguma desculpa.
__ Ora, você não me decepcionaria — disse Edwin, ignorando o silêncio do filho e se intrometendo. __ Esta é a sua vizinhança. Você deve conhecer um bom lugar.
__ Tem uma deli do outro lado da rua — começou ela.
__ Perfeito. Posso comer um belo sanduíche de pre¬sunto. — E não demoraria nada para cancelar a reser¬va que fizera no Four Seasons. — O que você me diz, Reed?
Parece que Maddy precisa de um minuto para se trocar. — Finalmente ele sorriu.
Maddy olhou para o figurino que vestia: um calçãozinho rosa e um top camuflado.
__Em cinco minutos estarei pronta — prometeu, afastando-se.


Maddy cumpriu a promessa. Em cinco minutos vestiu um blusão amarelo sobre o figurino e saiu para a deli, na companhia de Reed e Edwin.
O cheiro era maravilhoso. Havia ocasiões em que Maddy parava ali só para sentir aquele aroma. Carne picante, mostarda, café forte. Um ventilador de teto espalhava os aromas. Muitos dançarinos foram até a deli, como formigas famintas num piquenique. E como o proprietário era inteligente, havia uma juke-box num canto. Alguém já havia colocado algo para tocar.
Quando o grego gordo atrás do balcão avistou Maddy, deu uma risadinha para ela.
__ Ah, uma especialidade para a srta. O'Hurley?
__ Com certeza. — Inclinando-se no vidro, Maddy o viu preparar uma enorme salada de folhas. O atendente adicionou pedaços generosos de queijo e tempe¬rou tudo com uma porção generosa de iogurte.
__ Você come isso? — perguntou Edwin. Ela riu, aceitando a tigela.
__ Eu devoro.
__ Mas o corpo precisa de carne — disse Edwin, pedindo um sanduíche de presunto.
__ Vou arranjar uma mesa para nós — ofereceu-se Maddy, pegando uma xícara de chá para beber com a salada. Inteligentemente, ela escolheu uma mesa do lado oposto da sala com música.
__ Almoçando com os chefões, hem, Maddy? — Terry, com o cabelo ainda penteado para trás, como seu personagem, Jackie, usava, parou na frente dela. — Vai falar bem de mim?
__ O que você quer que eu fale? — Maddy se virou na cadeira, sorrindo para ele.
__ Que tal dizer que sou uma estrela?
__ Vou ver o que posso fazer.
Ele começou a dizer alguma coisa, lançando um olhar para sua própria mesa.
__ Droga, Leroy, esse picles é meu.
Maddy ainda ria quando Reed e seu pai se juntaram a ela.
__ Um lugar e tanto — comentou Edwin, prestes a devorar seu sanduíche e a salada de batatas que pedira como acompanhamento.
__ Eles estão se comportando bem porque vocês estão aqui.
Alguém começou a cantar num volume mais alto do que a música. Maddy então aumentou o tom de voz.
__ O senhor vai à noite de estreia na Filadélfia, sr. Valentine?
__ Vamos ver. Não viajo mais tanto quanto antes. Houve um tempo em que o dono de uma gravadora tinha de estar na estrada tanto quanto no escritório.
__ Deve ter sido emocionante. — Maddy mergu¬lhou na salada, sem fingir que não invejava Reed, com seu enorme sanduíche de peito de frango grelhado.
__ Quartos de hotéis, reuniões. — Ele deu de om¬bros. — Eu sentia falta do meu menino. — Edwin lan¬çou um olhar para Reed que era ao mesmo tempo tris¬te e carinhoso. — Perdi muitas partidas de beisebol.
__ Você foi a um monte delas. — Reed cortou um pedaço do sanduíche e o ofereceu a Maddy. Era um ges¬to simples e distraído, que atraiu o olhar de Edwin. E aumentou sua esperança.
Reed era o melhor lançador do time da escola.
Reed balançava a cabeça, sorrindo, quando Maddy se virou para ele.
__ Você jogava beisebol? Você nunca me contou. —Assim que disse aquilo, ela se lembrou de que Reed não tinha por que lhe contar aquilo. Havia de¬zenas de outros detalhes da vida dele que Reed não lhe contara. — Eu nunca entendi muito de beisebol, até me mudar para Nova York — acrescentou rapi¬damente. — Aí fui a alguns jogos dos Yankees para ver do que todo mundo falava. Qual era sua média de bases conquistadas?
Ele se surpreendeu.
__2,38.
Maddy ficou feliz porque Reed ainda se lembrava. Ela revirou os olhos para Edwin.
__ Coisa de profissional.
__ Foi o que eu disse a ele. Mas Reed queria traba¬lhar na empresa.
__ Isso também é coisa de profissional, não é? — Maddy mordiscou o pedaço de sanduíche que Reed lhe dera. — A maioria de nós olha apenas para o pro¬duto final, sabe, o CD que colocamos no aparelho de som. Mas acho que é uma longa jornada da partitura até a mixagem.
__ Quando você tiver uns dois ou três dias de folga — disse Edwin, rindo —, eu lhe mostrarei.
__ Eu adoraria. — Maddy bebeu o chá com mel, sabendo que aquela bebida chegaria à sua corrente sanguínea permitindo que ela pudesse enfrentar as próximas horas. — Quando nós gravamos o álbum do musical de Suzanna's Park, eu senti o gostinho desse processo. Mas acho que um estúdio é tão diferente do palco. Tão, bem... restrito. — Ela engoliu a alface. — Desculpe.
__ Não precisa se desculpar.
__ Um estúdio tem certas restrições — afirmou Reed. Ele deu um gole no café e sentiu que estava tão quente que poderia até derreter couro. — Porém, há algumas vantagens ocultas. Podemos pegar aquele ho¬mem atrás do balcão, colocá-lo num estúdio e trans¬formá-lo num Caruso, apertando os botões certos.
Ela ficou pensando por um tempo e depois balan¬çou a cabeça.
__ Isso é trapaça!
__ São negócios — corrigiu Reed. — E várias gra¬vadoras fazem isso.
__ A Valentine Records também?
Reed olhou para ela e aqueles olhos cinzas que Maddy admirava desde o princípio foram diretos.
__ Não. A Valentine é voltada para a qualidade, não quantidade.
Maddy lançou um olhar rápido para Edwin.
__ Mas vocês estavam prestes a oferecer um contra¬to para as Trigêmeas O'Hurley.
Edwin pôs mais um pouco de pimenta no seu san¬duíche.
__ Vocês não tinham qualidade?
__ Nós estávamos... um pouquinho acima da me¬diocridade.
__ Pelo que vi hoje naquele palco, vocês estavam bem acima disso.
__ Obrigada.
__Você tem tempo para eventos sociais, Maddy? Ela apoiou o queixo nas mãos.
__ Está me convidando para um encontro? Edwin pareceu se espantar, mas só por um instante.
Então deu uma gargalhada que chamou a atenção de todo mundo na deli.
__ Estaria, se pudesse voltar uns 20 anos no tempo. Você seria um troféu então. — Ele deu um tapinha na mão de Maddy, mas olhou para o filho.
__ Sim, é mesmo — disse Reed, calmamente.
__ Estou pensando em dar uma festa — disse Edwin, num impulso. — Mandar o espetáculo para a Filadél¬fia com estilo. O que você acha, Maddy?
__Acho que é uma ótima ideia. Estou convidada?
__ Só se prometer dançar comigo uma vez.
Para ela, era tão fácil amar o pai quanto era fácil amar o filho.
__ Podemos dançar quantas vezes você quiser.
__ Acho que não consigo dançar mais do que uma música com você.
Ela riu. Ao pegar o chá, Maddy viu que Reed a es¬tava observando de novo, com frieza. A impressão de que ele estava desaprovando seu comportamento aca¬bou com seu entusiasmo.
__ Eu, ah, vou ter de voltar. Tenho de fazer algumas coisas antes do ensaio da tarde.
__Leve a moça até o outro lado da rua, Reed. Suas pernas são mais jovens do que as minhas.
__ Ah, está tudo bem. — Maddy já estava em pé. — Não precisa...
__ Eu a acompanharei — disse Reed, pegando-a pelo cotovelo.
Maddy não faria nenhum escândalo. Mas em toda a sua vida ela jamais sentiu tanta vontade de fazer algo parecido. Contendo-se, Maddy se abaixou para beijar Edwin no rosto.
__ Obrigada pelo almoço.
Ela esperou até que estivessem do lado de fora da deli para falar.
__ Reed, sou perfeitamente capaz de atravessar a rua sozinha. Volte para o seu pai.
__ Você está com algum problema?
__ Se eu estou com algum problema? — Maddy afas¬tou seu braço e o encarou. — Ah, não suporto ouvi-lo dizendo isso para mim com esse tom de voz moderado e ligeiramente curioso. — Ela começou a atravessar a rua dando uma corridinha.
__ Você tem 20 minutos até o recomeço do ensaio — disse Reed, pegando-a pelo braço.
__ Eu disse que tenho coisas para fazer.
__ Você mentiu.
No meio da rua, com o sinal ficando amarelo, Maddy se virou para ele mais uma vez.
Então digamos que eu tenha coisas melhores para fazer. Melhor do que ficar lá, sentada, como se estivesse sendo examinada por seu microscópio inte¬lectual. O que está acontecendo? Você não gosta do fato de eu apreciar a companhia do seu pai? Você tem medo de que eu queira alguma coisa com ele?
__ Pare com isso. — Reed deu um empurrão em Maddy para que ela se movesse quando os carros co¬meçaram a buzinar.
__ Você não gosta muito das mulheres, não é? Você coloca todas numa caixa, com a etiqueta "Não se Deve Confiar". Eu queria entender por quê.
__ Maddy, você está muito perto da histeria.
__ Ah, posso chegar muito mais perto do que isso — prometeu ela, com uma sinceridade mortal. — Você ficou paralisado. Eu vi quando estava no palco e você me assistia com aquele olhar examinador e frio. Era como se estivesse olhando para mim, em vez de olhar para o papel que eu estava interpretando. É como se você não quisesse que nem eu nem minha personagem nos déssemos bem.
Ao perceber que aquilo era verdade, Reed tentou desconversar.
__ Você está sendo ridícula.
__ Não estou. — Parados em frente à entrada do palco, Maddy livrou-se dele. — Eu sei quando estou sendo ridícula. E neste momento não estou. Não sei o que aconteceu, Reed, mas, o que quer que tenha sido, sinto pena de você. Tentei não deixar que isso me in¬comodasse. Tentei não deixar que várias coisas me inco¬modassem. Mas isso é demais.
Reed a segurou pelos ombros e a prendeu contra a parede.
__ O que é demais?
__ Eu vi sua expressão quando seu pai estava falan¬do de dar uma festa. Bem, você não precisa se preo¬cupar, porque eu não vou a essa festa. Inventarei uma desculpa qualquer.
__ Do que é que você está falando? — perguntou Reed, dizendo cada palavra cuidadosamente.
__ Eu não percebi que você tinha vergonha de ser visto comigo.
__ Maddy...
__ Não dá para entender — adiantou-se. — Sou ape¬nas a simples Maddy O'Hurley, sem títulos no nome ou ancestrais nobres. Recebi meu diploma do colégio pelo correio e meus pais são descendentes de camponeses da Irlanda.
Reed tomou o rosto dela em sua mão.
__ Da próxima vez que você mudar de assunto, avi¬se para que eu possa acompanhar seu raciocínio. Não sei do que é que você está falando.
__ Estou falando de nós! — gritou. — Não sei por que estou falando sobre nós, já que não existe nós. Você não quer que exista. Você não quer nem mesmo que existamos você e eu, por isso eu não...
Ele a interrompeu, totalmente frustrado, beijando-a.
__ Cale a boca — ele advertiu assim que Maddy começou a reclamar. — Apenas cale a boca por um minuto.
Reed não aguentava mais aquilo. Deus, se Maddy soubesse como ele se sentia frustrado ao assisti-la se¬duzindo aquele teatro vazio, como ele se sentia vazio ao se sentar ao lado dela, incapaz de tocá-la. A raiva transbordava. Reed a magoara. E provavelmente a ma¬goaria novamente. Ele já não sabia como evitar isso.
__ Está mais calma agora? — perguntou ele, dei¬xando-a falar.
__ Não.
__ Tudo bem. Apenas fique quieta. Não sei direito no que eu estava pensando enquanto a observava no palco. Pensar em qualquer coisa está se tornando um problema quando fico olhando para você.
Maddy começou a retrucar, mas pensou melhor.
__ Por quê?
__Não sei. E quanto ao resto, você está sendo ri¬dícula. Eu não me importo se você fez um curso por correspondência ou numa escola de elite. Não quero nem saber se seu pai foi um cavalheiro ou condenado por roubo.
__ Distúrbio da ordem pública — murmurou Maddy. —Mas foi só uma vez. Duas, acho. Desculpe. Quan¬do as lágrimas começaram a rolar, ela se desculpou nova¬mente. — Desculpe mesmo. Odeio isso. Eu sempre fico agitada quanto estou com raiva. Não consigo evitar.
__ Não evite. — Reed limpou-lhe as lágrimas. — Não tenho sido muito justo com você. Nós precisamos esclarecer nossa situação.
__Tudo bem. Quando?
__ Quando você não tem aula assim que amanhece?
Bufando, Maddy procurou por um lenço em sua mochila.
__ Domingo.
__ No sábado, então. Você pode vir à minha casa? —Reed acariciou-lhe o rosto. Maddy estava sendo sensata, sensata demais, de um jeito que ele sabia que não poderia ser. — Por favor.
__ Sim, irei. Reed, não quis fazer um escândalo.
__ Nem eu. Maddy... — Ele hesitou, mas decidiu que era hora de começar a esclarecer algumas coisas. — A história com meu pai. Não tinha nada a ver com a festa que ele está planejando. Não tem nada a ver com sua presença ou companhia.
Ela queria acreditar, mas uma insegurança desco¬nhecida fez com que Maddy se mantivesse cautelosa.
__ Então, o que era?
__ Há muito tempo eu não o vejo tão... encantado por alguém. Meu pai queria uma casa cheia de crian¬ças, o que nunca teve. Se ele tivesse uma filha, imagino que gostaria que ela fosse como você.
__ Reed, desculpe. Eu não sei o que você quer que eu faça.
__ Só não o magoe. Não quero vê-lo sofrendo de novo. — Ele acariciou-lhe o rosto brevemente, para depois deixá-la na porta do palco.


Capítulo Sete

Q
uando Maddy entrou no prédio onde morava, estava pensando em Reed. Aquilo não a surpreen-dera. Pensamentos daquele tipo tomavam boa parte do seu dia, a ponto de Maddy ter de se esforçar para se concentrar no papel de Mary Howard. A estreia na Fi¬ladélfia seria dali a três semanas. Ela não podia se dar ao luxo de se distrair com especulações e hipóteses que só tinha a ver com Reed Valentine.
Mas o que aconteceria no sábado? O que ela diria? Como se comportaria?
Maddy enfiou a chave na fechadura, achando que es¬tava sendo ridícula. Mesmo assim, continuou pensando.
As luzes estavam acesas. Assim que entrou no apar¬tamento, Maddy ficou parada, no meio da sala, fazen¬do uma careta. Sim, ela era mesmo distraída demais ou geralmente estava com pressa para se lembrar de deta¬lhes, mas Maddy não deixaria as luzes acesas. Ela tinha o hábito de economizar energia — e a conta da eletri¬cidade — desde os tempos em que era pobre. Além do mais, Maddy não achava que tivesse acendido a luz pela manhã, antes de sair para a aula.
O mais estranho é que ela podia jurar que sentia o cheiro de café. Café fresco.
Maddy estava deixando ali mesmo sua mochila e se virando para a cozinha quando ouviu um barulho no quarto. Com o coração disparado, tirou uma sapatilha de sapateado da bolsa, segurando-a como se fosse uma arma. Maddy não se considerava uma pessoa agressi¬va, mas não passou por sua cabeça a ideia de correr e pedir ajuda. Aquela era sua casa, e Maddy sempre defendia o que era seu.
Lentamente e com todo o cuidado do mundo para não fazer nenhum barulho, atravessou a sala.
Maddy ouviu uma confusão de cabides sendo remexidos em seu closet e segurou a sapatilha com mais força. Se o ladrão achava que encontraria algo de valor ali, era muito estúpido. Ela devia ser capaz de afugentar o ladrão ameaçando-o lhe dar uma pan¬cada na cabeça com a chapa de ferro da sapatilha. Mesmo assim, quanto mais perto chegava, mais tinha de engolir o pânico que podia sentir subindo por sua garganta.
Prendendo a respiração, Maddy pôs a mão na ma¬çaneta e a empurrou. Ouviram-se gritos simultâneos de susto.
Bem. — Chantel pôs a mão sobre o coração. — É um prazer vê-la também.
Chantel! — Com um grito de felicidade, Maddy jogou a sapatilha para o lado, abraçando a irmã. — Eu quase abri um buraco na sua cabeça.
__ Daí eu teria um buraco para combinar com o seu.
__ O que você está fazendo aqui?
__ Pendurando algumas coisas. — Chantel beijou Maddy no rosto, jogando para trás os cabelos louro-prateados. — Espero que você não se incomode. Seda amassada é algo horrível.
__ Claro que não me importo. Quero dizer, o que você está fazendo em Nova York? Você devia ter me avisado que estava vindo.
__ Querida, eu lhe escrevi na semana passada.
__ Não, você... — Então Maddy se lembrou da pi¬lha de cartas que não abrira ainda. — Ainda tenho de abrir algumas correspondências que recebi.
__ Típico.
__ É, eu sei. — Ela afastou a irmã apenas para vê-la melhor. Era um rosto que Maddy conhecia tão bem quanto o seu, mas era também um rosto que ela não se cansava de admirar. O perfume francês sutil que inun¬dava o quarto combinava perfeitamente com Chantel, tanto quanto seus olhos azuis e o lábio superior, com um perfeito arco de Cupido. — Ah, Chantel, você pa¬rece ótima. Estou tão feliz em vê-la.
__ Você também parece ótima. — Chantel exami¬nou a cor reluzente da irmã. — Ou aquelas vitaminas de que você tanto fala funcionam mesmo ou você está apaixonada.
__ Acho que as duas coisas.
Chantel arqueou apenas uma sobrancelha fina.
__ Então é isso? Por que não saímos do closet e conversamos?
__ Vamos sentar e beber alguma coisa. — Maddy prendeu seu braço no da irmã. — Ah, eu queria que Abby estivesse aqui também. Seria perfeito. Quanto tempo você ficará na cidade?
__ Uns dois dias. — Chantel se justificou enquanto voltavam para a sala de estar. — Vou apresentar uma premiação na sexta-feira à noite. Meu empresário acha que será algo elegante.
Maddy começou a procurar uma garrafa de vinho no armário.
__ Mas você não acha.
Chantel lançou um olhar para a janela.
__ Você sabe que Nova York não é a minha cidade, querida. É...
__ Real demais? — sugeriu Maddy.
__ Digamos que seja barulhenta. — Lá fora, duas sirenes competiam para ver qual soava mais alto. Espero que você tenha um pouco de vinho, Maddy. Acabou o café, sabia?
__ Eu parei de tomar café — disse ela, com a cabeça enfiada num armário.
__ Parou? Você?
__ Eu estava bebendo muito café. Absorvendo aque¬la cafeína toda no meu organismo. Hoje em dia bebo chá. — Maddy aspirou, sentindo o aroma exuberante do café. — Onde você arranjou?
__ Ah, pedi emprestada umas colheres do vizinho. Com a garrafa de vinho na mão, Maddy tirou a ca¬beça de dentro do armário.
__ Não o Guido.
__ Sim, Guido. Aquele com os bíceps e dentes gran¬des.
Maddy pegou duas taças.
__Chantel, eu sou vizinha dele há anos, mas jamais diria bom-dia sem um guarda-costas.
__Ele é encantador. — Apoiada numa bancada, Chantel tirava o cabelo que lhe caía sobre o rosto. Se bem que tive de recusar quando ele se ofereceu para preparar o café para mim.
Maddy olhou para a irmã, para o rosto de traços clássicos, o corpo espetacular e aqueles olhos azuis que hipnotizavam os homens.
__ Aposto que sim. — Ela serviu as duas taças, brin¬dando com a irmã. — Aos O'Hurley.
Que Deus os abençoe — murmurou Chantel, be¬bendo. Depois de dar uma risadinha, engoliu o vinho. — Maddy, você ainda compra seu vinho no mercado de pulgas?
__ Não é tão ruim assim. Vamos sentar. Você sabe de Abby?
__ Eu liguei para ela antes de sair de Los Angeles para que soubesse que estaríamos do mesmo lado do País. Mas ela estava lidando com uma briga entre os meninos. Se bem que parecia felicíssima.
__ E o Dylan?
Chantel deixou-se cair no sofá, feliz por estar num lugar confortável depois de um voo longo e tedioso.
__ Abby disse que ele está quase terminando de es¬crever aquele livro.
__ E como ela está se sentindo em relação a isso?
__ Feliz. Abby confia nele totalmente. — Chantel deu mais um gole. Havia um quê de cinismo na voz dela, algo que ela não conseguia disfarçar. Chantel também já confiara nas pessoas. — Abby parece ter superado toda vida que teve ao lado de Rockwell. Ela me disse que Dylan vai adotar os meninos.
__ Isso é ótimo. — Maddy sentiu seus olhos se en¬cherem de lágrimas e bebeu mais um pouco de vinho. — Isso é mesmo maravilhoso. Era disso que ela precisava. Dylan é exatamente o que Abby precisava.
__ Ah, ela também disse que ga¬nhou uma toalha de mesa de Trace como presente de casamento.
__ Acho que todos nós tínhamos esperança de que ele viesse para o casamento. Onde ele está?
__ Inglaterra. Acho. Ele pediu desculpas, como sem¬pre.
__ Você alguma vez se pergunta o que ele faz?
__ Eu concluí que é melhor parar de perguntar, para o caso de o Trace fazer algo ilegal. Papai e mamãe irão à estreia?
__ Espero que sim. Eles terão três semanas para con¬seguir organizar a viagem até a Filadélfia. E acho que você não vai conseguir voltar para este lado do país.
__ Desculpe. — Chantel tomou a mão da irmã entre as duas mãos. — A filmagem de Estranhos foi adiada. Alguns problemas com os locais de filmagem. Eu devia começar em duas semanas. Você sabe que eu viria, se pudesse.
__ Eu sei. Você deve estar tão entusiasmada! É um papel maravilhoso.
__ É mesmo. — Ela franziu a testa seguidas vezes.
__ O que há de errado?
Chantel hesitou, prestes a contar a Maddy sobre as cartas anônimas que estava recebendo.
__ Não sei. Acho que estou nervosa. Nunca fiz uma minissérie antes. Não é televisão nem é um filme.
__ Que é isso, Chantel? Sou Maddy.
__ Não é nada. — Ela se convencera a não discu¬tir aquilo que provavelmente não passaria de uma coisa à toa. Quando voltasse para a Califórnia, tudo estaria terminado. — Apenas alguns nós que eu te¬nho de desatar. Mas quero falar sobre esse homem no qual você está pensando. — Ela sorriu quando Maddy fechou os olhos antes de prestar atenção no que ela dizia. — Vamos lá, conte tudo para sua irmã mais velha.
__ Não sei direito o que tenho para lhe contar. — Maddy puxou as pernas para cima, cruzando-as. __ Você se lembra de papai dizendo que conheceu Edwin Valentine?
Edwin Valentine? — Estreitando os olhos, Chantel tentou se lembrar. Um dos motivos para sua ascen¬são rápida em Hollywood foi o fato de ela jamais se esquecer de nada, nem de falas, nomes ou rostos. — Não, não me lembro desse nome. De jeito nenhum.
__ Ele é dono da Valentine Records. — Chantel ape¬nas franziu a testa novamente e esperou que Maddy continuasse. — É um dos maiores selos da indústria fonográfica. Talvez o maior. De qualquer modo, ele conheceu nosso pai e nossa mãe quando éramos bebês. Ele estava apenas começando, mas nossos pais o deixa¬ram dormir num colchonete no hotel.
__ Parece mesmo uma coisa deles — disse Chantel. Ela tirou os sapatos e deitou-se, algo que jamais faria com outra pessoa que não fosse da família. — E daí?
__ A Valentine Records é patrocinadora da peça.
__ Interessante. — Ela começou a beber, mas então segurou forte a mão da irmã. — Maddy, você não se envolveu com ele, não é? Ele deve ter a idade de papai. Não estou dizendo que a idade deveria ser um fator importante num relacionamento, mas quando se trata da minha irmãzinha...
__ Calma aí. — Maddy riu com a taça de vinho na boca. — Ouvi dizer que você estava saindo com o conde DeVargo, das joalherias DeVargo. Ele deve ter quase 60 anos.
__ É diferente — murmurou Chantel. — Os ho¬mens europeus não têm idade.
__ Muito bom — concluiu Maddy depois de um tempo. — Isso é mesmo ótimo.
__ Obrigada. De qualquer modo, não somos mais do que meros amigos. Mas você está sonhando acordada por um homem que é velho o suficiente para ser seu pai...
__ Não estou sonhando acordada — disse Maddy. —E é o filho dele.
__ Filho de quem? Ah! — Mais calma, Chantel se recostou no sofá. — Então esse Edwin Valentine tem um filho. Um dançarino?
__ Não. — Ela teve de rir. — Ele está assumindo a gravadora. Acho que é um magnata.
__ Bem — Chantel ficou pensando naquela palavra. — Está subindo na vida, não?
__ Não sei o que estou fazendo. — Maddy descruzou as pernas e se levantou. — Na maior parte do tempo eu penso que devo estar ficando louca. Ele é maravilhoso, bem-sucedido e conservador.
__ Ele gosta de restaurantes franceses.
__ Isso é monstruoso.
Maddy deu uma gargalhada.
__ Ah, Chantel, me ajude.
__ Você já dormiu com ele?
Era típico de Chantel ir direto ao assunto. Maddy suspirou e se sentou novamente.
__ Não.
__ Mas você pensou nisso.
__ Parece que não consigo pensar em outra coisa que não nele.
Chantel pegou a garrafa para se servir de mais vi¬nho. Depois do primeiro gole, o vinho até que era palatável.
__ E como ele se sente a seu respeito?
__ Aí é que está o problema. Chantel, ele é gentil e atencioso, e tem a capacidade de fazer tanta... bem gentileza, acho. Mas ele tem uma rede de segurança quando se trata de mulheres. Num minuto ele está me abraçando, e eu sinto que era por isso que estava espe¬rando toda a minha vida; no outro minuto ele está me deixando de lado, como se mal nos conhecêssemos.
__ Ele sabe o que você sente?
__ Tenho um pouco de medo de que ele saiba. Mas eu não ousaria lhe dizer. Desde o princípio ele deixou claro que não estava interessado no que chama de "o grande salto".
Chantel sentiu uma fisgada de preocupação.
__ E você está pensando no grande salto?
__ Eu poderia passar o resto da minha vida ao lado dele. — Com os olhos repentinamente sérios e vulne¬ráveis, Maddy encarou a irmã. — Chantel, eu poderia fazê-lo feliz.
__ Maddy, essas coisas são uma via de mão dupla. — Deus, como ela sabia bem daquilo. — E ele é capaz de fazê-la feliz?
__ Se ele me deixar entrar na sua vida. Se me deixar entrar só um pouquinho para que eu possa entender do que ele tem tanto medo. Chantel, alguma coisa acon¬teceu, algo arrasador, eu sei, para deixá-lo tão descon¬fiado assim. Se eu soubesse o que aconteceu, poderia fazer algo sobre isso. __ Mas estou às cegas.
Chantel deixou a taça de lado e pegou as mãos de Maddy.
__ Você o ama de verdade?
__ Amo.
__ Ele é um homem de sorte.
__ Você está sendo tendenciosa.
__ Estou mesmo. E não importa o quão indiferente ele seja, não acho que perderá a oportunidade. Quero dizer, olhe só para seu rosto. — Ela pegou o rosto de Maddy com as mãos. — É o rosto de alguém confiável, leal e devotada.
__ Parece até que sou um cocker spaniel.
__ Maddy... — Era tão fácil aconselhar, pensou Chantel, fácil demais dar aquilo que ela jamais acei¬taria para si mesma. — Tudo é muito simples. Se você ama esse cara, o melhor modo de fazer com que ele corresponda a esse amor é ser o que você é.
Preocupada, Maddy pegou a taça de vinho. Mas, esquecendo-se de sua cautela, decidiu beber mais meia garrafa.
__Percebo que você está me dando algumas dicas sobre a arte da sedução.
__ Sim, foi o que acabei de fazer. Para você — acres¬centou Chantel. — Querida, se eu lhe contar alguns dos meus segredos, você ficaria de cabelos arrepiados. Além do mais, você está querendo se casar, certo?
__ Acho que sim.
__ Nesse caso, e embora eu não recomende honestidade para a maioria dos relacionamentos, é diferente. Se você quer esse homem na sua vida, por bem ou por mal, então tem de ser pró-ativa. ¬¬__ Quando você o verá novamente?
__ Só no sábado.
Chantel franziu a testa por um momento. Ela queria dar uma olhada nesse tal de Valentine, mas estaria em um avião, a caminho do Oeste, no sábado à tarde.
Bem, não lhe faria nenhum mal comprar uma roupa nova. — Ela deu uma olhada nas roupas de Maddy. — Algo provocante, claro, mas algo que com¬bine com você.
__ Existe algo desse tipo?
__ Deixe que eu cuido disso. — Chantel deu mais uma olhada e chegou à conclusão que ela e Maddy usavam o mesmo número. — A única coisa que eu gos¬to de fazer em Nova York são compras. Por falar nisso, você sabia que só tem três cenouras e uma jarra de suco na sua geladeira?
__ Eu estava indo comprar alguma coisa na loja de comidas naturais da esquina.
__ Poupe-me disso. Não gosto de comer broto de feijão.
__ A um quarteirão daqui tem um restaurante que serve um espaguete delicioso.
__ Ótimo. Temos de nos vestir?
Maddy olhou para o belo terninho de seda da irmã enquanto passava os dedos pela própria roupa.
__ Você, sim. Você trouxe alguma roupa que não chame tanto a atenção?
__ Não posso trazer o que não tenho. Manter uma imagem que pareça glamourosa e ao mesmo tempo um pouco despojada não é uma tarefa fácil.
Bufando, Maddy se levantou.
__ Tenho algo que você pode vestir por cima, algo e não vai fazer tão mal assim à sua imagem. Além do mais, ninguém a reconhecerá no Franco's. Chantel sorriu enquanto se levantava.
__ Quer apostar?
Maddy abriu os braços para agarrar a irmã.
__ Chantel, você é uma em um milhão.
Ela pôs o rosto ao lado do da irmã. As coisas deve¬riam ser mais simples, pensou. As coisas deveriam ser tão simples quanto eram naquele momento.
_ Não. Somos três em um milhão. E sou muito feliz por tê-la.


No sábado, quando Maddy chegou em casa do ensaio, o apartamento estava vazio. Ela tivera quase três dias com Chantel. Durante sua breve visita, Chantel deixa¬ra Guido encantado, entusiasmara a equipe de produ¬ção da peça durante uma visita aos ensaios e comprara metade da Quinta Avenida.
Maddy já sentia saudades dela.
Se Chantel pudesse ficar só mais um dia...
Suspirando, Maddy foi para o banho. Era besteira pensar que precisava de apoio moral apenas para conversar com Reed. Ela não precisava de conselhos ou de um voto de confiança. Maddy estava indo apenas conversar com o homem sobre o significado e o rumo do relacionamento deles.
Maddy ligou o chuveiro e ficou parada, olhando para o jato enquanto a água se lançava sobre ela. Maddy se banharia, se trocaria e pegaria o metrô para o norte da ilha. Não era a primeira vez que iria ao apartamento de Reed à noite. Além do mais, eles precisavam conversar. Não havia motivo para ficar nervosa por algo que já fora feito antes.
O espetáculo estava indo bem. Ela podia lhe dizer isso. Maddy podia puxar assunto dizendo como esta¬va começando a se sentir mais à vontade. E tudo estava dando certo. Na próxima semana, quando viajassem para os últimos intensos ensaios na Filadélfia, as coisas só melhorariam. Será que Reed sentiria falta dela? Será que ele lhe diria isso?
Dando uma lição de moral em si mesma, Maddy saiu do chuveiro e imediatamente procurou pelo seca¬dor de cabelo na bagunça do seu armário. Em minu¬tos secou o cabelo, dando especial atenção às partes de cima e dos lados para obter um pouco de volume. Maddy pegou um monte de maquiagem e começou a experimentar, como uma especialista.
Mais de uma vez ela cuidara do próprio cabelo e da maquiagem para o palco. Cedo, Maddy aprendera que se não quisesse depender do tempo e caprichos de outra pessoa, tinha de saber fazer essas coisas. Ela podia, se necessário, escolher as pinturas e os cremes certos para transformá-la em Mary, Suzanna ou qualquer outro pa¬pel que interpretara. Esta noite ela seria apenas Maddy.
Satisfeita com o resultado, foi até o quarto. Lá, jo¬gado sobre a cama, estava o que Chantel deixara para trás. Maddy pegou, primeiro, o bilhete, e leu o que es¬tava escrito com uma caligrafia forte e arredondada.

Maddy,
Depois de uma busca exaustiva e de pensar muito, concluí que isto era o ideal para você. Feliz aniversário, no mês que vem. Vista isto hoje à noite, em seu encontro com Reed. Melhor, vista para si mesma. Ignore a primeira impressão de que a cor não combina com seu jeito. Confie em mim. Vou pensar em você. Você sabe que eu a amo, menina. Merda pra você.
Chantel

Mordendo o lábio, Maddy olhou para o presente da irmã. A calça larga de seda era de um cor-de-rosa forte e flamejante. Exatamente o tipo de cor que Maddy te¬ria evitado por causa de seu cabelo. Ela deu uma olha¬da cheia de dúvida, mas se aproximou para tocar a roupa. A blusa, justinha, era da cor de jade. Juntas elas formavam exatamente aquele tipo de combinação exagerada que Maddy teria escolhido para si mesma. Ela sorriu ao pegar a blusa pelas alças. Mas foi pelo casaco que Maddy, que escolhia roupas sem se importar com a cor e o conforto, se apaixonou.
Era também de seda, um pouco grande demais e provocante. Milhares de contas tinham sido costura¬das nele, o que criava um caleidoscópio de cores. O casaco parecia mudar de cor toda vez que Maddy o gi¬rava. À primeira vista, ela diria que era algo sofisticado demais para seu gosto, elegante demais para seu estilo, mas aquelas cores em constante mutação atraíram sua imaginação e admiração.
__ Tudo bem — disse, em voz alta. — Vamos vestir isso.

Por que ele estava tão nervoso? Reed andava de um lado para o outro em seu apartamento quieto demais pela décima vez. Era ridículo ficar nervoso só porque se divertiria com uma mulher naquela noite. Mesmo que a mulher fosse Maddy. Especialmente porque a mulher era Maddy, corrigiu-se.
Eles já haviam passado algumas noites juntos antes. Mas esta noite era diferente. Reed ligou o aparelho de som, na esperança de que um pouco de música o distraísse.
Ele evitou o contato com ela a semana toda para provar a si mesmo que podia viver sem Maddy. Mas lá pela quinta-feira Reed perdeu a conta das vezes que pegou o telefone, digitando os primeiros números dela, apenas para desligar em seguida.
Eles apenas conversariam, lembrou-se. Era necessá¬rio agora que eles esclarecessem o que desejavam um do outro e estabelecessem limites. Reed queria fazer amor com ela. Precisava fazer amor com ela, corrigiu-se, sentindo uma pontada de desejo só de imaginar.
Eles podiam ser namorados e ainda continuar fazen¬do companhia um ao outro. Era isso que eles tinham de deixar claro, antes de mais nada. Quando Maddy chegasse, eles se sentariam e conversariam sobre suas necessidades e restrições, como dois adultos sensatos. Eles chegariam a um entendimento racional e conti¬nuariam daí em diante. Ninguém se magoaria.
Reed a magoaria. Ele passou a mão pela nuca, perguntando-se por que estava tão certo disso. Reed ain¬da podia se lembrar do modo como os olhos dela se encheram de lágrimas da última vez que ele a vira. Como Maddy, de algum modo, parecera magoada e destemida.
Quantas vezes Reed dissera a si mesmo que usaria aquela noite para acabar com tudo, para romper antes que as coisas se complicassem ainda mais? E quantas vezes admitira que isso não seria possível?
Maddy o estava conquistando, mas ele não podia permitir isso. O melhor e único modo que ele conhe¬cia para impedir isso era estabelecer regras.
Reed se pôs a andar novamente, até as janelas, e de volta, antes de olhar o relógio. Maddy estava atrasada. Ela o estava deixando louco.
Ele não entendia o que havia de especial nela. Maddy não era particularmente bonita. Ela não era serena, edu¬cada ou atraentemente tranquila. Em suma, Maddy não era o tipo de mulher que o atraía. Ela era o tipo de mulher que o pegaria pelo pescoço. Reed tinha de se soltar, recuperar o controle e continuar, no seu próprio ritmo.
Onde estava ela?
Quando soaram as batidas, Reed a estava xingan¬do. Ele deu a si mesmo um tempo para se acalmar. Não seria nada bom abrir a porta tão irritado. Se co¬meçasse andando em terreno firme, ficaria no terreno firme. Então Reed abriu a porta, e toda a lógica o abandonou.
Ele não acabara de dizer que Maddy não era boni¬ta? Como era possível que Reed estivesse tão engana¬do? Ele dissera que Maddy não era atraente, mas ali estava ela, brilhante e reluzente, exalando sua própria energia. E Reed jamais se sentira tão cativado.
__ Oi. Como você está?
Reed não podia lhe dizer que seu coração bateu mais apressado quando Maddy o beijou no rosto.
__ Estou bem. — Era aquele perfume que ele car¬regara consigo por dois dias. Era absurdo para um ho¬mem se fixar em algo que podia ser comprado no bal¬cão de uma loja de departamentos.
Maddy hesitou um pouco.
__ Você disse mesmo que queria me ver no sábado à noite, não?
__ Sim.
__ Bem, vai me deixar entrar?
A graça nos olhos dela o fez se sentir um tolo.
__ Claro. Desculpe. — Reed fechou a porta e se per¬guntou se acabara de cometer o maior erro da sua vida. E da vida dela. — Você parece ótima. Diferente.
__ Você acha? — Sorrindo, ela deu uma pirouette. — Minha irmã estava de passagem pela cidade e comprou isto para mim. — Maddy se virou, querendo compartilhar sua alegria. — Lindo, não é?
__ Sim. E você está linda.
Foi fácil ignorar isso com uma risada.
__ Bem, o vestido certamente é lindo. Você não foi aos ensaios.
__ Não. — Porque ele precisara ficar um tempo sem vê-la. — Você gostaria de beber algo?
__ Um pouco de vinho branco, talvez. — Ela atra¬vessou a sala, como sempre fazia, para apreciar a vista da cidade. — Tudo está dando certo, Reed. As coisas estão começando a fazer sentido.
__ O departamento financeiro ficará feliz em ouvir isso.
Foi o tom de voz seco que a fez rir.
__ Como você poderia ter prejuízo? Se nós formos um sucesso, você ganhará muito dinheiro. Se fracas¬sarmos, você registrará isso como algo dedutível do imposto de renda. Mas está ganhando vida, Reed. — Maddy pegou a taça que ele lhe oferecia, precisando senti-lo por perto. — Todas as vezes que entro em cena como a Mary, sinto que o espetáculo está ganhando vida. Eu preciso desse tipo de coisa vibrante para focar minha vida.
Um foco na vida dela! Reed sempre evitara cuida¬dosamente ter uma coisa assim em sua vida.
__ E uma peça faz isso para você?
Maddy abaixou os olhos para a taça de vinho e de¬pois olhou para a cidade novamente.
__ Se eu estivesse sozinha, com mais nada e sem a oportunidade de ter mais nada, eu poderia ser feliz. Quando estou no palco... Quando estou no palco — recomeçou — e olho para o teatro cheio de gente, esperando por mim... Reed, não sei como explicar.
__ Tente. — Ele ficou ali, parado, admirando o bri¬lho das luzes da cidade atrás dela. — Quero saber.
Maddy passou a mão pelo cabelo que arrumara com tanto cuidado. O cabelo se ajeitou, só um pouco despenteado.
__ Eu sinto uma aceitação imediata. Acho que me sinto amada. E posso retribuir o amor, com a dança e com as músicas. Seria algo sentimental demais dizer que foi para isso que nasci. Mas foi. __ Foi mesmo. E lhe basta ficar no palco, sendo amada por cen¬tenas de estranhos?
Maddy lançou-lhe um olhar longo e pensativo, saben¬do que ele não entenderia. Ninguém que não se apresen¬tasse podia entender.
__ Basta, tem de bastar, quando isso é tudo o que eu tenho.
__ Então você não precisa de uma única pessoa ou coisa ao seu lado.
__ Eu não disse isso. — Maddy manteve o olhar fixo nele, enquanto balançava a cabeça lentamente. — Quis dizer que sempre fui capaz de fazer ajustes. Tive de aprender. Os aplausos preenchem várias lacunas, Reed. Todas, se você trabalhar duro. Imagino que seu trabalho faça o mesmo para você.
__ Faz. Já lhe disse que não tenho tempo ou dispo¬sição para um relacionamento de longo prazo.
__ Sim, disse.
__ Eu estava falando sério, Maddy. — Reed bebeu, porque não estava à vontade dizendo aquilo. Mas, se ele estava tentando ser honesto, por que sentia que estava mentindo? — Nós tentamos fazer do seu jeito. A amizade.
Os dedos dela estavam gelados. Maddy deixou a taça sobre uma mesa e entrelaçou-os, para aquecê-los.
Acho que deu certo.
__ Quero mais. — Reed passou a mão pelos cabelos dela e a puxou para perto. — E se eu tiver mais, vou magoá-la.
Aquilo era verdade. Maddy entendeu, aceitou e de¬pois disse a si mesma para esquecer.
__ Sou responsável por mim mesma, Reed. E isso inclui meus sentimentos. Eu também quero mais. O que quer que aconteça, a escolha é minha.
__ Que escolha? — perguntou ele. — Que escolha, Maddy? Já não é tempo de admitirmos que nenhum de nós fez qualquer escolha esse tempo todo? Eu quis afas¬tá-la. Mas a continuei atraindo, mais e mais. — Suas mãos estavam sobre os ombros dela agora. Lentamen¬te, Reed tirou o casaco que os cobria. A peça de roupa caiu no chão como uma cascata de cores. — Você não me conhece — murmurou ele, sentindo um tremor se espalhar pelo seu corpo. — Você não sabe o que se passa dentro de mim. Há muita coisa de que você não gostaria, mais do que jamais poderia entender. Se você fosse esperta, sairia por aquela porta agora mesmo.
__ Acho que não sou muito esperta.
__ Isso já não tem importância. — Seus dedos a apertavam com mais força. — Porque já passei do pon¬to em que podia deixar que você fosse embora. — A pele dela estava quente e macia sob suas mãos. — Você vai me odiar antes que tudo estiver terminado. — E Reed já se arrependia daquilo.
__ Eu não odeio facilmente. Reed... — Querendo acariciá-lo, Maddy levantou a mão para tocar o rosto dele. — Confie um pouco em mim.
__ Confiança não tem nada a ver com isso. — Algo brilhou nos olhos dele, algo rápido e vibrante, que logo desapareceu. — Nadinha. Eu quero você, e esse desejo está me torturando há semanas. E é tudo o que tenho para você.
Maddy sentiu a dor, como esperado, mas a deixou de lado.
__ Se isso for verdade, acho que não estaria lutando tanto.
__ Eu deixei de lutar contra isso. — Reed aproximou sua boca da dela. — Você ficará comigo esta noite?
__ Sim, ficarei. — Maddy pôs as duas mãos no ros¬to dele, querendo aliviar a tensão. — Porque é isso que eu quero.
Reed a pegou pelo pulso e então lentamente puxou as mãos dela para si, até que pudesse beijá-las. Aquilo era um gesto de promessa, a única que ele era capaz de fazer.
Venha comigo.
Seguindo seu coração, Maddy foi.

Capítulo Oito

H
avia uma lâmpada no corredor que lançava uma faixa de luz para dentro do quarto. Fora isso, só havia sombras e segredos. Reed mantivera o aparelho de som ligado, mas a música não era mais do que um eco agora que eles pararam de se tocar.
Maddy quisera ver os olhos dele daquele modo, in¬tensamente focados nela e no que queria dela. Aquele olhar a fez sorrir enquanto oferecia seus lábios.
__ Você está cometendo um erro — disse Reed.
__Shhh. — Maddy o beijou. — Vamos deixar a lógica para mais tarde. Quero saber como será isso com você desde que o conheci. — Observando-o, Maddy começou a desabotoar-lhe a camisa. — Eu quis saber como seria sua aparência. Como seria senti-lo. — Ela tirou a camisa dele e depois passou a mão por seu peito. Era duro, liso e, por um mo¬mento, tenso. — Eu fiquei acordada à noite imaginando como seria quando ficássemos juntos assim. — Ansiosa e curiosa, suas mãos acariciavam-lhe os ombros e depois desceram lentamente pelos braços dele. — Reed, não tenho medo nem de você nem do que estou sentindo.
__ Você deveria ter.
Ela jogou a cabeça para trás. Seus olhos eram um desafio.
__ Então me mostre por quê.
Praguejando, Reed lhe deu o que Maddy pedia, para ela, para si mesmo e para tudo. Puxando-a para perto, ele a beijou profundamente. Reed deslizava as mãos por toda aquela seda fina que a cobria, até que seu corpo começasse a se arrepiar. Seria aquilo medo ou ansiedade? Reed não sabia. Mas Maddy cravou os de¬dos em sua carne, mantendo-o preso, e sua boca estava aberta e insaciável.
Certa vez Reed se perguntou se Maddy era uma fei¬ticeira. Aquele pensamento retornou, e o que surgiu entre eles era fogo e tentação. Não havia mais nada de sereno nela, nada leve e simples. A paixão que o envolvia parecia algo complexo e perigoso, como Eva e a serpente que a desafiara.
O desejo o feria, com força e inclemência. Reed queria possuí-la imediatamente, ali mesmo onde esta¬vam, aproveitando o momento, sem amarras ou pro¬messas. Seria melhor tanto para ela quanto para ele se Reed fizesse isso.
Então, Maddy murmurou o nome dele com um som leve e doce como a brisa da noite.
Suas mãos ficaram mais leves. Reed não podia resis¬tir. Sua boca se tornou mais carinhosa. Ele não podia evitar. Em outra ocasião, Reed a magoaria. Mas aquela noite era especial. Ele não pensava em outra coisa, só em Maddy. Não pensou no passado ou no futuro. Na¬quela noite, ele seria o mais generoso possível, e a pos¬suiria totalmente. E talvez ele pudesse ceder também.
Carinhosamente, Reed afastou as alças da blusa que Maddy vestia. O tecido brilhante caiu um pouco, prendendo sedutoramente nos seios dela. Como se ti¬vesse percebido a mudança no humor dele, Maddy se manteve ereta. Será que ela queria tanto assim aguen¬tar as mudanças no humor dele? Reed esperava, para o bem dela, que Maddy tivesse ainda algumas defesas de reserva.
Com uma ternura que o surpreendeu mais do que a ela, Reed acariciou-lhe os ombros nus com os lábios, sen¬tindo a textura daquela pele tão macia quanto a seda, e o perfume provocante. De repente, Maddy lhe pareceu tão pequena, frágil e jovem! Depois de um momento de hesitação, Reed levantou a boca, para beijá-la.
Ela sentiu a mudança. Aquele cabo-de-guerra que existia dentro dele parecera mais apaziguado. Embo¬ra Maddy já não respirasse tranquilamente, permitiu que seus lábios apenas o tocassem e se insinuassem, dando-lhe tempo para aceitar o que estava aconte¬cendo. Reed podia lutar contra aquilo. Maddy tinha quase certeza de que ele negaria, mas seus sentimen¬tos o guiavam. Desejosos e dóceis, eles foram para a cama.
Maddy conhecia seu corpo muito bem para se sen¬tir incomodada. Seus quadris eram estreitos, suas per¬nas, longas, seu peito um pouco magro demais. Maddy tinha o corpo de uma dançarina, e não havia nenhu¬ma dúvida disso, assim como não tinha dúvida alguma quanto à cautela e exploração cuidadosa que Reed es¬tava fazendo.
A blusa caiu e foi jogada para longe. Quando as mãos dele tocaram-lhe a pele, Maddy apenas suspirou e deixou que a emoção a guiasse. Com os olhos semi-fechados, podia ver que seus cabelos castanhos caíam sobre seu rosto. Ela podia sentir seu coração batendo apressado e forte. Então Reed, com a língua, acariciou-lhe o bico dos seios, e seu corpo se contraiu, numa onda atordoante de prazer.
Maddy se moveu como ele, como se a coreogra¬fia que dançavam tivesse sido escrita há muito tempo. Ação e reação, movimentos e contramovimentos. Para Maddy aquilo era tão natural quanto respirar.
Aonde quer que o desejo a levasse, ela estaria es¬perando, ansiosa. Reed jamais vivera nada parecido com ninguém. O corpo dela fervia. Ele era capaz de sentir a pulsação latejante sempre que a tocava, sem¬pre que a saboreava. Reed nunca conheceu ninguém tão entregue ao amor, tão livre e desinibida. Quando Maddy abriu a calça e a abaixou, o toque da sua pele na dele era honesto e generoso, como se eles se co¬nhecessem, se tocassem e se possuíssem desde o início dos tempos.
A pulsação dele também estava acelerada. Maddy descobriu isso tocando-o no braço e o beijando naque¬le ponto. Quando Reed ficou nu, ela o olhou com uma admiração sincera. Com um sorriso sensual, Maddy o puxou para perto, abraçando-o com paixão e afeto. Um arrepio percorreu o corpo dele, deixando-o ator¬doado, confuso e ansioso para possuí-la.
__ Beije-me mais uma vez — murmurou Maddy. Ao olhar para ela, Reed viu seus olhos semifechados, com aquela expressão tentadora e felina que os nublava inesperadamente. — Adoro o que me acontece quando o estou beijando.
Maddy puxou o rosto dele para perto, permitindo que Reed a beijasse.
__ Quero que você me toque — disse ela contra os lábios dele. — Às vezes fico imaginado como seria ter suas mãos em mim. Aqui. — Quase ronronando, Maddy guiou a mão dele. — E aqui. Em todos os luga¬res. — Ela se arqueou contra ele. — Acho que jamais vou me cansar disso.
Algo estava escapando a Reed — sua capacidade de controlar com mãos de ferro suas emoções. Ele não podia se dar ao luxo de lhe dar seu coração, não po¬dia lhe dar esse poder. Em vez disso, o que Reed podia lhe dar era a paixão que ela tanto buscava e aceitava tão graciosamente.
Reed tirou-lhe a calça, observando-a deslizar ero¬ticamente sobre a pele dela. A calcinha que Maddy vestia também desceu pelas pernas. De repente, tão repentinamente que Reed não era capaz de notar a mudança, ele estava além da sensibilidade e da razão. O desejo que sentia por Maddy, por tudo o que ela era, tudo o que era capaz de lhe dar, se espalhava pelo corpo dele. Talvez Reed não estivesse preparado para esse tipo de paixão, forte e verdadeira demais para ser ignorada. Com honestidade e amor pela vida, Maddy começara sua jornada. E Reed não seria apenas um passageiro; nesse ponto eles se encontrariam. E ele, finalmente, se livraria dos desejos que ela despertara desde o início.
Reed esqueceu o carinho. Por isso, quando sua boca a tocou, foi com desesperada ansiedade. Suas mãos, sempre tão cuidadosas, percorriam o corpo dela até que Maddy estivesse estremecendo e murmurando coi¬sas inteligíveis. A cada movimento e gemido, o cora¬ção dele batia mais forte, latejando em sua mente com uma batida que, de algum modo, soava como o nome dela. Sem hesitar, Maddy o abraçou, e Reed a possuiu. Ele ouviu um gemido baixinho em seu pescoço antes de prender a respiração.
Ela era tão quente, tão inacreditavelmente macia e acolhedora! Reed teve de se esforçar para retomar o controle quando o corpo dela começou a se mover graciosamente como numa valsa, eroticamente como um ritual primitivo. Sobre ela, Reed também se movia, querendo ver o que Maddy faria ao senti-lo. O prazer cobria todo o rosto dela, mas seus olhos estavam aber¬tos e fixos nos dele.
Maddy tremeu toda, agarrando os lençóis. Tanto poder, tanta força! Nada que ela vivera podia ser com¬parado àquilo. Se Maddy tinha abandonado o mundo onde sempre vivera, agora não sentia necessidade de retornar. Aqui, ela podia ficar aqui, por séculos.
Seus corpos estavam entrelaçados quando a tempes¬tade os atingiu. Maddy ficou tensa e trêmula ao limite antes que o prazer tomasse conta dela, em ondas.
Ela ficaria com a lua e as estrelas que Reed estava lhe oferecendo. Maddy o envolveu em seus braços, saben¬do que esperaria até que ele se entregasse também.


Quando Reed acordou, Maddy havia ido embora. Ele sentiu a perda se remexer e doer dentro dele ao se virar para o lado onde Maddy dormia e descobrir a cama vazia. Da sala de estar, o aparelho de som que jamais fora desligado dava as notícias do domingo pela manhã, enquanto Reed continuava, deitado, exploran¬do aquela sensação de vazio.
Mas por que ele se sentia vazio? Reed passara uma excitante noite, com uma mulher também excitante. E agora Maddy seguira seu caminho. Era o que ele queria. Era assim que o jogo era jogado. Por toda a noite eles deram um ao outro conforto, afeto e pai¬xão. Agora o sol saíra e Maddy se fora. Reed deveria se sentir grato por Maddy encarar as coisas com essa simplicidade toda, que ela fosse capaz de sair sem nem mesmo dizer adeus.
Mas por que Reed se sentia tão vazio? Ele não po¬dia evitar de se arrepender porque Maddy não estava ali a seu lado para lhe dar um sorriso sonolento e um corpo aconchegado ao seu. Ele sabia muito bem como as relações transitórias e superficiais eram. Reed deve¬ria admirá-la por ser honesta o suficiente para reco¬nhecer que o que se passara com eles durante a noite não fora nada além de um prazer físico mútuo. Não se pediu que fossem feitas promessas. Foram apenas umas poucas horas de prazer irracional, sem desculpas ou justificativas.
Mas por que ele se sentia tão vazio?
Porque Maddy se fora e ele queria abraçá-la.
Praguejando, Reed se levantou da cama. Passando a mão pelos cabelos, ele avistou um pedaço de seda rosa no chão ao lado da cama.
Mas Maddy se fora. Reed afastou o lençol e saiu da cama para pegar a calça que ele tirara lentamente pelas pernas de Maddy na noite anterior. Nem mesmo ela podia ir muito longe sem a calça. Ele ainda a segurava quando ouviu a porta se abrir. Reed jogou a calça no encosto de uma cadeira ao lado da cama e pegou o roupão.
Reed a encontrou na cozinha, colocando um pacote marrom de supermercado na bancada.
__ Maddy?
Ela deu um gritinho abafado e pulou para trás.
__ Reed! — Com a mão sobre o coração, ela fechou os olhos por um momento. — Você quase me mata de susto. Achei que estivesse dormindo.
E ele achou que ela havia ido embora. Com cuida¬do, Reed se manteve a distância.
__ O que você está fazendo?
__ Saí para comprar o café da manhã. Ele já não se sentia vazio. Mas a cautela surgiu junto com o prazer.
__ Achei que você tinha ido embora.
__ Não seja bobo. Eu não iria embora assim. — Maddy passou os dedos pelos cabelos que ainda não haviam sido penteados naquela manhã. — Por que você não volta para a cama? Vou preparar tudo em um minuto.
__ Maddy... — Ele deu um passo para a frente. Então a olhou de cima a baixo. — O que você está vestindo?
__ Gosta? — Rindo, Maddy pegou a gola da camisa dele nos dedos e o revirou. — Você tem um gosto ex¬celente, Reed. Eu estou na moda.
A camisa dele caía solta sobre os ombros dela, chegando até as pernas e a tornando absurdamente atraente.
__ Isso é uma das minhas gravatas?
Ela mordeu os lábios para conter uma risada en¬quanto brincava com a seda fina preta que usava para prender a camisa na cintura.
__ Foi o que consegui encontrar. Não se preocupe. Vou passá-la.
Ela tinha pernas longas, lisas e nuas. Reed olhou para elas novamente, balançando a cabeça.
__ Você saiu vestida assim?
__ Ninguém olhou duas vezes — garantiu ela, com tanta tranquilidade que Reed pensou que Maddy pro¬vavelmente acreditava no que dizia. — Olha, estou morrendo de fome. — Maddy o abraçou e o beijou com um carinho simples que fez com que seu coração disparasse. — Volte para a cama. Eu levarei o café da manhã para você em um minuto.
Como precisava de um tempo para pensar, ele obe¬deceu. Maddy não se fora, pensou Reed ao se sentar contra os travesseiros. Ela estava ali, na sua cozinha, preparando o café da manhã como se fosse a coisa mais normal do mundo. Aquilo o deixou feliz. Aquilo o preocupou. Reed se perguntou o que faria a respeito dela.
__ Peguei um pouco mais de creme, se precisar¬mos — disse Maddy, entrando no quarto com uma bandeja.
Reed olhou para o café da manhã que ela prepara¬ra enquanto Maddy se sentava na cama, colocando a bandeja entre eles.
__ O que é isso?
__Sorvete — disse ela, afundando o dedo num monte de creme. Ao colocá-lo na boca, Maddy deixou escapar um lascivo gemido de prazer. — Sorvete de morango.
__ Sorvete de morango? — perguntou ele. — No café da manhã? Você é a mesma Maddy O'Hurley que se preocupa o tempo todo com nutrição e calorias?
__ Sorvete é um laticínio — disse ela, oferecendo-lhe uma colher. — E as frutas estão frescas. Do que mais você precisa?
__ Bacon e ovos?
__ Gordura e colesterol demais, especialmente quan¬do o sabor é horrível. De qualquer modo, estou cele¬brando. — Maddy mergulhou em sua tigela.
__ Celebrando o quê?
Seus olhos se encontraram rapidamente, fixos uns nos outros. Como Reed podia não saber? E, já que ele não sabia, como Maddy poderia lhe explicar?
__ Você parece ótimo. Eu me sinto ótima. É do¬mingo e o sol está brilhando lá fora. Isso deveria ser o suficiente. — Maddy pegou um morango da sua tigela e o ofereceu a Reed. — Vá em frente. Viva peri¬gosamente.
Ele pegou o morango com os lábios, tocando a pon¬ta dos dedos dela com a boca brevemente.
__ Eu achava que você sobrevivia à base de alfafa e germe de trigo.
__ E eu sobrevivo à base disso na maior parte do tempo. Por isso comer estas frutas é tão bom. — Maddy deixou que o sorvete derretesse em sua língua e fe¬chou os olhos. — Geralmente eu corro nas manhãs de domingo.
Reed provou um pouco do sorvete.
__ Corre?
__Só uns 5 ou 6 quilômetros — disse ela, dando de ombros.
__ Só?
Ela lambeu a parte de trás da colher.
__Mas hoje eu serei preguiçosa.
Reed acariciou-lhe o joelho.
__ Vai?
__ Com certeza. Amanhã eu pagarei por isso, então tem de ser bom.
__ Você pretende ficar aqui sem fazer nada?
__ A não ser que você prefira que eu vá embora. Ele entrelaçou seus dedos aos dela num gesto descomplicado que o teria surpreendido se Reed tivesse percebido o que acabara de fazer.
__ Não, não quero que você vá embora.
O sorriso iluminou o rosto dela.
__ Eu posso ser muito preguiçosa.
__ Estou contando com isso.
Maddy mergulhou o dedo no sorvete e então lenta¬mente o lambeu.
__ Você pode ficar surpreso. — Quando ela repetiu aquele gesto, Reed a pegou pelo pulso, puxando o sor¬vete e o dedo e o levando à boca.
__ Você acha? — Reed sentiu a pulsação dela acele¬rando ao chupar levemente as pontas dos dedos dela. — Por que não esperamos para ver? — Pegando a ban¬deja, ele a colocou ao lado da cama. Maddy arregalou os olhos, o corpo latejante, quando Reed olhou para ela. — Eu me perguntava como seria sua aparência pela manhã.
Inclinando a cabeça, Maddy franziu a testa.
__ E como é minha aparência?
__ Renovada. — Com o mais leve dos toques, Reed acariciou-lhe o rosto. — Só um pouco despenteada. Gostosa.
Ela mordeu a língua.
__ Eu acho que gosto um pouco de ser gostosa.
__ Sabe, Maddy, você nunca perguntou se podia pe¬gar emprestado minha camisa.
Havia graça nos olhos dela, mas Maddy respondeu àquela provocação com muita seriedade.
__ Não mesmo. Que falta de educação, a minha.
__Quero minha camisa de volta. — Reed agarrou o colarinho e a puxou para perto. — Agora.
__ Agora? — Uma ansiedade imediata e calorosa tomou conta do corpo dela. — Suponho que você também queira a gravata.
__Com certeza.
__ Acho que é direito seu — murmurou Maddy. Ajoelhando, ela desfez o nó, tirou a gravata e entre¬gou-a. Ela tocou nos botões da camisa, hesitou e então começou a abri-los. Seu olhar estava fixo nos olhos dele quando a camisa se abriu, revelando-lhe a pele. Então Maddy sorriu ao deixar que o tecido caísse pelos om¬bros. Sem qualquer timidez, pegou a camisa pela gola e a segurou, ajoelhada no meio da cama, com a luz do sol banhando sua pele.
__ Acho que isto lhe pertence.
Reed jogou a camisa fora, ajoelhando-se também para segurá-la pelos ombros.
__ Acho que prefiro o que estava dentro dela. — Ele mordiscou-lhe o queixo, enquanto suas mãos desliza¬vam sobre o corpo dela. — Você tem o corpo mais inacreditável do mundo. Duro, macio, compacto, fle¬xível. — Instigado, Reed se afastou apenas para admi¬rá-la melhor. — Fico imaginando se... Maddy, o que você está vestindo?
__O quê? — Um pouco atordoada, ela seguiu o olhar dele para baixo. — Ah, isso é um fio-dental, cla¬ro. Você nunca viu um?
Reed voltou seus olhos para ela, entretido e intri¬gado.
__ Para falar a verdade, já. Mas uma pessoa se per¬guntaria se você não está levando esse seu papel de Viúva Alegre um pouco a sério demais.
__ Você não disse isso quando eu estava me despin¬do para você — argumentou ela, abraçando-o. — Eu descobri o fio-dental quando estava pesquisando para o papel.
__ Pesquisando? — Reed começou a beijá-la, mas se afastou novamente. — O que você quer dizer com isso exatamente?
__ Pesquisando. Eu não poderia interpretar um pa¬pel como esse sem fazer alguma pesquisa.
__ Você foi a clubes de striptease? — Surpreso, fu¬rioso e frustrado, Reed agarrou o queixo dela firme¬mente. — Você está maluca? Você sabe o que acontece nesse tipo de lugar?
__ Você tem muita experiência?
__ Sim... Não. Droga, Maddy, não mude de assunto.
__ Não achei que estivesse mudando. — Ela sorriu para ele outra vez. — Reed, eu tive de entrar na perso¬nagem um pouco. Achei que o melhor modo de fazer isso era conversar com algumas strippers. Conheci al¬gumas pessoas fascinantes. Havia uma chamada Lotta Oomph.
__ Lotta...
__ Oomph — completou Maddy. — Ela tinha um truque com cachorrinhos. Veja, ela tinha cinco poodles e...
__Acho que não quero ouvir isso. — Embora qui¬sesse rir, Reed a segurou com firmeza. — Maddy, não há motivo para você entrar nesse tipo de lugar.
__ Não seja bobo. Eu trabalhei em lugares que não eram muito diferentes desses quando tinha apenas 12 anos. É tudo uma fantasia, Reed. Na maioria das vezes, são apenas pessoas tentando ganhar a vida. E conver¬sar com algumas das mulheres realmente me ajudou a entender melhor a Mary.
__ Mary é uma fantasia — corrigiu ele. — O que acontece nesses lugares, o que pode acontecer nesses lugares, é a dura realidade.
__Eu entendo a realidade muito bem, Reed. — Maddy ergueu a mão para o rosto dele, emocionada pela preo¬cupação. — Não estou dizendo que trabalhar nesse tipo de lugar é uma profissão admirável ou que toda stripper é uma Gipsy Rose Lee, mas a maioria das pessoas com quem conversei tinha orgulho do que fazia.
__ Não pretendo discutir a moral e o significado social da dança exótica, Maddy. Só não gosto da ideia de você entrando nesses lugares.
__ Bem, não pretendo transformar isso num hábito. — Ela fechou os olhos, acariciando o peito dele com um dedo. — Eu não me importaria em ver os cachor¬rinhos novamente.
__ Maddy.
Quando abriu os olhos, ela riu.
__ Eles eram engraçados.
__ Assim como você. — Reed deslizou a mão até os quadris dela, encontrando uma alcinha fina. —E por que você está usando isto?
__ Conforto — disse ela, mordiscando carinhosa¬mente a orelha dele. — Todas as mulheres do país de¬veriam usar fio-dental.
__ Você sempre usa? — Reed abriu a mão sobre o corpo dela, sentindo a pele macia e os músculos firmes.
__ Mmm. Sob as roupas normais.
__ Quando fomos àquela exposição sobre arquite¬tura vitoriana. Você estava usando aquela calça cáqui que parecia vestimentas do Exército.
__ Era vestimenta do Exército.
__ Você estava usando um fio-dental?
__ Ahã.
__ Você sabe o que poderia ter acontecido se eu soubesse?
Feliz, Maddy acariciou o rosto dele com o seu.
__ O quê?
__Lá mesmo, em frente à maquete da casa de verão da rainha Vitória?
Ela riu quando Reed a pegou no colo.
__ O quê?
__ Com aquela família de Nova Jersey atrás da gente?
__ Ah, Deus! — Maddy o abraçou. — Talvez pudés¬semos voltar à exposição hoje à tarde.
__ Sem chance. — Ele escondeu o rosto no pescoço dela.
Reed não deveria estar rindo ao ter uma mulher nua sob ele. Fazer amor era uma coisa séria, algo a ser respeitado e tratado com carinho e cautela. Reed não deveria estar se sentindo como um adolescente fazen¬do uma travessura no banco de trás de um carro em uma estrada escura. Ele era um homem adulto, expe¬riente e bem informado.
Mas quando rolou pela cama com Maddy, estavam rindo. E riam também quando Reed pressionou seu corpo contra o dela, quando Maddy se aconchegou, quando ele a tocou e ela se entregou. Sua alegria era tão grande, imensa, que rir parecia a única reação pos¬sível. Maddy aceitava isso graciosamente, reagindo também com risadas. Mesmo mais tarde, quando as risadas se transformaram em gemidos, a alegria não diminuíra.
Havia tanto amor nela! Maddy se perguntava se aquele amor todo não explodiria, iluminando todo o quarto. O tempo todo que estava ao lado de Reed ele ficava ainda mais encantador. E todas as vezes que ele olhava para Maddy, seus olhos pareciam fer¬vilhar.
Reed era gentil, carinhoso, atencioso. Desespera¬do com seu desejo por ela. Se ainda não tivesse lhe dado seu coração, Maddy o faria agora, com a mesma liberdade.
Como ela poderia ter adivinhado que havia tanto a ser descoberto? Tanto prazer, tantas sensações! Maddy jamais demonstrara aquela entrega com outra pessoa. Com Reed, no entanto, era fácil.
Maddy conhecia seu corpo intimamente, seus pon¬tos fortes e suas fraquezas. Como era estranho desco¬brir que sabia muito pouco sobre seus desejos. Quando Reed a beijou nos seios, sentiu emoções incríveis se retorcendo dentro dela: prazer, dor, ansiedade. Quan¬do Reed resvalou seus lábios no pescoço dela, Maddy gemeu. O corpo que ela tratava com disciplina reli¬giosa se tornou uma confusão de desejos, ansiedade e perplexidade quando Reed pressionou seu corpo con-tra o dela.
Ao tocá-lo, Maddy se sentia mais fraca. Ele era ape¬nas carne, sangue, ossos, mas acariciá-lo com as mãos fazia com que o espírito dela se elevasse. Reed era dela. Maddy disse a si mesma que não importava que fosse apenas por um momento. Não importava que fosse ape¬nas fingimento. Ele era seu enquanto fossem carne na carne, boca na boca.
Reed a desejava. Maddy podia sentir a onda de ex¬citação se movendo dentro dele. Se, nem que fosse por um instante, ele se abrisse para seus sentimentos, poderia até mesmo amá-la. Maddy tinha certeza dis¬so. Havia mais do que apenas paixão quando Reed a abraçava, mais do que calor e luxúria. Havia carinho e companheirismo. Quando ele passava seus lábios so¬bre os dela, quando Reed deixava que o beijo se inten¬sificasse lentamente até que ambos estivessem mergu¬lhados nele, Maddy sabia que Reed estava no limite de lhe dar o que ela queria tanto dar a ele.
Amor. Que curava, confortava, protegia. Maddy que¬ria lhe dizer como era maravilhoso se sentir tão ligada a outra pessoa. Ela queria lhe dar uma pista do que era saber que havia alguém para ele, alguém que sempre es¬taria ali.
A pele dele estava quente e úmida. Suas mãos per¬diam a gentileza pouco a pouco, à medida que Maddy ficava cada vez mais excitada. Ela era selvagem, ávida, faminta. A energia dela parecia não ter fim, e o levava às fronteiras do seu controle.
O aparelho de som tocava. Lá fora, o calor aumen¬tava, em ondas. Nada importava. Nada importava, apenas eles e o que podiam dar um ao outro.
Maddy rolou sobre ele, braços e pernas serpentean¬do para mantê-lo preso. Ágil e ansiosa, Maddy se ar¬queou para colocá-lo dentro dela. Quando perderam e recuperaram a sanidade, estavam ainda unidos.
Cansados, esgotados, incandescentes. Maddy se abai¬xou. Ela tinha a pele úmida, que parecia se fundir na¬turalmente à pele dele. Maddy podia ouvir o coração de Reed batendo, em meio ao zumbido débil em sua mente. Quando ele levantou as mãos para acariciar-lhe as costas, Maddy fechou os olhos, rendendo-se com¬pletamente.
__ Ah, Reed, eu o amo.
A princípio ela estava tão compenetrada em seu próprio sonho para sentir a tensão no corpo sob o seu. Ma¬ddy estava atordoada demais para sentir os dedos dele apertando-lhe as costas. Mas aos poucos ela despertou, Maddy manteve os olhos fechados por um momento, sabendo que, pelo modo como aquelas palavras foram ditas, elas não poderiam ser retiradas.
__ Desculpe. — Ela respirou fundo, olhando para cima. A expressão dele era de espanto. Embora ainda estivessem entrelaçados, Reed se distanciou. — Des¬culpe por ter dito isso. Ou por sentir isso. Desculpe por você não querer.
Reed disse a si mesmo que o que estava sentindo era arrependimento, não esperança.
__ Maddy, eu não acredito em frases de efeito ou na necessidade delas.
__ Frases de efeito. — Ela balançou a cabeça, como se pretendesse esclarecer as coisas. — Você considera "Eu o amo" uma frase de efeito?
__ E o que mais? — Pegando-a pelos ombros, Reed ajeitou seus corpos até que estivessem sentados. — Maddy, temos algo de bom entre nós. Não vamos es¬conder isso sob mentiras.
O que Maddy engoliu em seco não era amargura, era mágoa.
__ Eu não minto, Reed.
Algo se revirou dentro dele, algo quente. Sem per¬ceber que aquilo era outra onda de esperança, Reed ig¬norou.
__ Fantasia, então.
O tom de voz dela era tranquilo, não exatamente seguro, quando disse:
__ Você não acredita que eu seja capaz de amá-lo?
__O amor é apenas uma palavra. — Reed saiu da cama, pegando seu roupão. — Ele existe, com certeza. De pai para filho, mãe para filha, irmão para irmã. Mas quando se trata de um homem e uma mulher, existem coisas como atração, paixão passageira e até mesmo obsessão. São coisas que vêm e vão, Maddy.
Ela não conseguiu fazer outra coisa que não ficar onde estava, observando-o.
__ Você não acredita mesmo no que está dizendo.
__ Eu sei do que estou falando. — Reed a cortou com tanta aspereza que Maddy recuou. Ele se arre¬pendeu da grosseria, mas engoliu o arrependimento. — As pessoas ficam juntas porque querem algo uma da outra. Elas ficam juntas até quererem algo de outra pessoa. Enquanto estão juntas, as pessoas prometem coisas que não pretendem cumprir e dizem coisas que não querem dizer. Porque é isso que se espera delas. Mas eu não tenho esse tipo de expectativa.
Sentindo um frio repentino, Maddy cobriu-se com o lençol. Para Reed, ela parecia absurdamente jovem, pequena e vulnerável.
__Eu nunca disse a um homem que o amava. Eu nunca achei que isso importasse.
Reed não podia ignorar. Não havia como explicar.
__ Não quero palavras, Maddy. — Ele foi até a ja¬nela, dando-lhe as costas. Reed se perguntava por que aquilo a magoava. Ele estava apenas falando a verda¬de. — Eu não posso dizê-las a você.
__ Fico me perguntando por quê. — Determinada a não chorar, Maddy apertou os olhos com as mãos fechadas por um momento. — O que aconteceu para que você ocultasse seus sentimentos? O que o tornou tão decidido a não se emocionar? Eu disse que o amo.
Ela falava mais alto, engolindo a fúria para dominar a dor. — Não tenho vergonha disso. Eu não disse para pressioná-lo de algum jeito. É apenas a verdade. Você está procurando por mentiras, mas elas não existem.
"Não perca a calma", disse a si mesma, inspirando e expirando lentamente. Mas Maddy não terminara de dizer o que queria. Aquela conversa não terminara.
__ Você vai tentar me dizer que não sentiu nada agora? Você realmente acredita que o que tivemos foi apenas sexo, nada mais?
Quando Reed se virou, a luta que ele travava era con¬sigo mesmo, sem mostrar nada em seu rosto.
__ Não tenho nada mais para lhe dar. É pegar ou largar, Maddy.
Ela apertou os lençóis com força, mas concordou.
__ Entendo.
__ Preciso de café. — Reed deu meia-volta, deixan¬do-a sozinha. Suas mãos tremiam. Por que ele se sentia como se tudo o que dissera pertencesse aos pensamen¬tos de outra pessoa, como se fossem palavras de outra pessoa?
O que havia de errado com ele? Reed bateu a cha¬leira no fogão e depois apoiou-se com as duas mãos abertas sobre a bancada. Quando Maddy dissera que o amava, uma parte dele queria e precisava disso. Uma parte dele acreditara.
Reed estava agindo como um tolo. Aquilo tinha de parar. Reed tivera um belo exemplo do que acontece com um homem que confia numa mulher, que devota toda sua vida a ela. Ele prometera que não se permiti¬ria ficar tão vulnerável. Maddy não mudaria isso. Reed não poderia permitir.
Ela até podia acreditar que o amava. Mas não de¬moraria até que Maddy percebesse o contrário. Até lá, eles simplesmente tinham de continuar com cuidado e jogar de acordo com as regras.
Reed ouviu a porta da frente se abrindo e se fe¬chando. Por muito tempo, ele apenas continuou ali, parado. Mesmo quando a água começou a ferver, não se moveu. Ele sabia que Maddy tinha ido embora. E se sentiu horrivelmente vazio.



Capítulo Nove

M
esmo que tenha de fazer uma cirurgia car¬díaca hoje à noite, você vai àquela festa! Maddy calçava um tênis de cano alto.
__ Wanda, qual é o problema?
__ Nenhum. — Wanda vestiu a camiseta larga com estampa de olhos e depois examinou o resultado. — Você vai para casa e vestirá um belo vestido para a festa.
__ Eu só disse que estava um pouco cansada e sem vontade de festejar.
__ E eu digo que você está zangada.
__ Zangada? — Com os olhos contraídos, Maddy calçou o outro pé do tênis. Ela já estava preparada para uma briga. — Eu não me zango.
Wanda se deixou cair ao lado dela no banco.
__ Você é uma especialista em se zangar.
__ Não exagere, Wanda. Eu estou de extremo mau humor.
Wanda duvidava que Maddy pudesse ser má.
__ Olhe, se você não quer falar sobre aquele seu caso, tudo bem.
__ Ele não é "meu caso".
__ Quem não é seu caso?
Ela demonstrou toda a frustração com um suspiro longo.
__ Ele. Ele não é meu. Eu não tenho um caso nem quero um. Além do mais, quem quer que seja esse caso, ele não pode ser meu.
__ Ahã. — Wanda olhava para suas próprias unhas, pensando que aquele tom específico de vermelho era adequado para ela. — Mas ele é um babaca.
__ Eu não disse... — Com seu bom humor carac¬terístico, Maddy deu uma risadinha. — É, ele é um babaca.
__ Querida, todos são. A questão é que o velho sr. Valentine está dando essa festa e a estrela do espetácu¬lo não pode ir para casa e ficar deprimida dentro da banheira.
__ Eu não ia fazer isso — disse Maddy, fazendo um laço. — Eu ia ficar deprimida na cama.
Wanda ficou olhando enquanto Maddy amarrava o outro tênis.
__ Se você não for à festa, vou contar para todo mundo no elenco que acho que você se considera im¬portante demais para festejar com a gente.
Maddy bufou.
__ E quem é que vai acreditar em você?
__ Todo mundo. Porque você não vai estar lá.
Maddy saiu do banco e começou a pentear o cabelo com uma escova.
__ Olha, por que você não desiste?
__ Porque gosto de você.
Wanda apenas deu uma risadinha quando Maddy fez uma cara feia.
__ Só estou cansada demais para ir à festa. É isso.
__ Besteira. Já estou ensaiando com você há sema¬nas. Você não se cansa.
Maddy deixou a escova cair na pia. Por reflexo, seus olhos se fixaram nos de Wanda.
__ Esta noite estou cansada.
__ Você está é zangada esta noite.
__ Não estou... — Sim, ela estava, admitiu Maddy em silêncio. — Ele estará lá — desabafou. — Eu não... Eu só acho que não vou conseguir suportar.
O olhar insolente foi substituído pela preocupação. Wanda se levantou para colocar um braço sobre o om¬bro de Maddy.
__ O golpe foi duro?
__ Sim. — Maddy apertou os olhos com os dedos. — Muito duro.
__ Já chorou por isso?
__ Não. — Ela balançou a cabeça, lutando para manter a compostura. — Eu não queria ser ainda mais ridícula do que já sou.
__ Você só será ridícula se não chorar. — Wanda a levou de volta para o banco. — Sente-se aqui e coloque sua cabeça no ombro da Wanda.
__ Eu não achei que ficaria tão magoada — Maddy conseguiu dizer, enquanto as lágrimas começavam a rolar.
__ Ninguém acha. — Mantendo a voz baixa, Wan¬da lhe deu tapinhas no braço. — Se soubéssemos como seria ruim, não chegaríamos perto de homem algum. Mas nós sempre voltamos, porque, às vezes, é o me¬lhor que temos.
__ Isso é péssimo.
__ Horrível.
__Ele não merece minhas lágrimas. — Maddy lim¬pou o rosto com as costas da mão.
__ Nenhum homem merece. Exceto, talvez, pelo homem certo.
__ Eu o amo, Wanda.
Lentamente, Wanda se afastou para estudar o rosto de Maddy.
__ Amor de verdade?
__ Sim. — Ela não se incomodou em secar as lágri¬mas novamente. — Só que ele não me ama. Ele nem mesmo quer que eu o ame. De algum modo, sempre achei que, quando me declarasse, a outra pessoa tam¬bém se declararia, e nós viveríamos felizes para sem¬pre. Mas Reed nem mesmo acha que o amor existe.
__ O problema é dele.
__ Não, é meu também, porque há dias estou ten¬tando esquecê-lo, mas não consigo. — Ela respirou fundo novamente. Não haveria mais lágrimas. — Ago¬ra você entende por que não posso ir à festa de hoje a noite.
__Droga, não. Agora entendo por que você tem que ir.
__ Wanda...
__ Olha, querida, se você for para casa e colocar sua cabeça num buraco, vai se sentir do mesmo jeito ama¬nhã. — Quando voltou a falar, havia certa aspereza na voz dela, algo que arrepiou Maddy. — O que você faz quando as plateias ficam paralisadas, todo mundo sentado lá como se fossem múmias?
__ Eu quero sair correndo para meu camarim.
__ Mas o que você faz?
Maddy suspirou, esfregando as mãos no rosto mo-hado.
__Eu permaneço no palco e me esforço ao máximo.
__E é exatamente o que você vai fazer hoje à noite. E se eu entendo um mínimo de homens, ele também estará lá, dando o máximo de si. Eu vi como ele olhava para você quando veio assistir ao ensaio com o pai dele. Venha, vamos começar. Temos de nos vestir.


Maddy estava ansiosa para rever Reed do mesmo modo que ficava ansiosa para enfrentar plateias. Ela disse a si mesma que sabia o que falar, como se movimentar que, se cometesse algum erro, conseguiria dissimular antes que qualquer pessoa percebesse. Ela escolheu um vestido tomara que caia justo na cintura, que se ajustava sensualmente sobre o corpo, com uma abertura lateral que deixava a coxa à mostra. Já que iria se de¬cepcionar, era melhor estar linda.
Mesmo assim, parada em frente à majestosa por¬ta do apartamento de Edwin Valentine, ela teve de se convencer a não dar meia-volta e sair correndo.
Séria, Maddy bateu na porta. Ela estava prepara¬da para enfrentá-lo. Estava preparada para agir nor¬malmente, tranquila. A única coisa para a qual ela não estava preparada era para a possibilidade de que Reed abrisse a porta. Maddy o encarou, impressio¬nada pelas emoções que ele despertara dentro dela.
Reed se perguntou por que seus dedos não esma¬garam a maçaneta quando a agarrou, enquanto olhava para Maddy.
__Olá, Maddy.
__ Reed. — Ela não sorriria. Aquilo ainda não era possível. Mas Maddy também não desmaiaria aos pés dele. — Espero que não tenha chegado cedo demais.
__ Não. Para falar a verdade, meu pai estava espe¬rando você.
__ Então vou cumprimentá-lo agora mesmo. — O som de um trompete irrompeu do corredor. — Dá para ver que a festa é daquele lado. — Maddy passou por ele, ignorando o aperto em seu estômago.
__ Maddy.
Preparando-se para falar com ele, ela olhou distraida¬mente sobre os ombros.
__ Sim?
__ Você está... Como vai você?
__ Ocupada. — A campainha soou atrás dele e Maddy arqueou a sobrancelha. — Parece que você também está atarefado. Vejo você mais tarde. — Ela continuou andando pelo corredor, piscando furiosa¬mente para conseguir ver as coisas com mais clareza.
A festa estava a todo vapor. Maddy entrou no rit¬mo e se permitiu ser surpreendida por sensações boas, pelo entusiasmo e pela camaradagem. Ela trocou al¬guns abraços rápidos, defendendo-se de um contato mais íntimo de um membro da orquestra.
__ Estava começando a achar que você havia desis¬tido. — Wanda, que estava conversando com um dos músicos, surgiu ao lado dela, afastando o trompetista com um menear de cabeça.
__ Não. Ninguém chama um O'Hurley de covarde.
__ Talvez você goste de saber que o jovem Valentine ficou olhando para a porta pela última meia hora.
__ Ficou? — Maddy começou a se virar para vê-lo, mas se deteve. — Não, isso não tem importância. Va¬mos beber alguma coisa? Champanhe?
__ Sim. O sr. Valentine é mesmo engraçado. Sabe, ele é um homem legal. — Wanda pegou uma taça de champanhe e a bebeu de um gole só. — Não é nada entediante. Ele nos trata como pessoas de verdade.
__ Nós somos pessoas de verdade.
__ Não espalhe. — Um brilho surgiu nos olhos de Wanda quando ela olhou sobre os ombros de Maddy. — Aí está Phil. Eu achei melhor deixá-lo me conven¬cer de que suas intenções são sérias. Mas não neces¬sariamente respeitáveis — acrescentou, sorrindo ainda mais. — Sério mesmo.
__ Phil? — Intrigada, Maddy olhou para o dança¬rino que fazia par com Wanda. — Bem, e as intenções dele são sérias?
__Talvez sim, talvez não. — Wanda pegou outra taça de champanhe. — A diversão está só começando.
Querendo concordar, Maddy foi à mesa do bufê, onde um grupo de dançarinos famintos se reunia. Co¬mer, beber e ser feliz, disse Maddy a si mesma. Por que amanhã nós iremos para a Filadélfia.
__ Maddy.
Antes que pudesse escolher entre o patê e a quiche, Edwin surgiu atrás dela.
__ Ah, sr. Valentine. Que festa ótima!
__ Edwin — corrigiu ele, pegando a mão dela e a beijando num gesto cortês que a fez sorrir. — Tem que ser apenas Edwin se você vai me dar a honra daquela dança que me prometeu.
__ Então é Edwin, e será um prazer dançar com você. — Com a mão no ombro dele, Maddy o acom¬panhou. — Eu entrei em contato com meus pais — disse ela. — Eles estão em Nova Orleans, mas conse¬guirão ir à noite de estreia da Filadélfia. Espero que você esteja lá.
__ Não perderia uma coisa dessas. Sabe, Maddy, esse espetáculo é a melhor coisa que fiz para mim mes¬mo há anos. Acho que já é hora de me permitir enve¬lhecer, sabe?
__ Esta é a coisa mais ridícula que já ouvi. — Você é tão jovem! — Ele pôs a mão nas costas dela, na altura da cintura, conduzindo-a. — Quando você tiver 60 anos, olhe ao redor e diga para si mes¬ma: "Tudo bem, é hora de diminuir o ritmo." Você merece. Você deveria relaxar e aproveitar os anos de declínio.
__ Anos de declínio. — Maddy jogou o cabelo para trás, dando uma risadinha. — Que besteira.
__ Bem, é o que é. — Edwin riu e Maddy se pergun¬tou por que Reed não herdara aqueles olhos gentis e negros. — Depois que me aposentei, percebi que dese¬java mais do que jogar golfe todas as quartas-feiras. Eu preciso da juventude ao meu redor, da vitalidade dos jovens. Reed sempre me manteve jovem, sabe? Tanto como meu melhor amigo quanto meu filho. Um ho¬mem não poderia querer outra coisa.
__Ele o ama muito.
Algo no tom de voz dela o fez olhar para baixo.
__ Sim, ele me ama. Eu quis dar a ele uma oportu¬nidade de cuidar da empresa sem minha presença, de resolver as coisas. Ele se saiu bem. Mais do que bem — disse Edwin, com um suspiro. — Reed dedicou a vida toda aos negócios. Talvez tenha sido um erro.
__ Ele não acha.
__ Não? Eu imagino. Bem, de qualquer modo, até que essa peça surgisse, eu não sabia o que faria da mi¬nha vida. Agora acho que descobri.
__A febre do teatro o pegou?
__ Exatamente! — De algum modo, Edwin sa¬bia que ela o entenderia. Ele só podia esperar que Maddy também entendesse seu filho. — Quando a peça estiver em temporada, vou procurar outro es¬petáculo para patrocinar. Percebi que tenho um es¬pecialista cuja opinião posso pedir e em quem posso confiar.
Ela viu que havia uma pergunta nos olhos dele e con¬cordou lentamente.
__ Se você quiser bancar o anjo, Edwin, ficarei feliz em ser o advogado do diabo.
__ Eu sabia que poderia contar com você. Tenho lidado com artistas por toda a minha vida, Maddy. Foi graças a eles que ganhei a vida. Esse tipo de coisa não pode ser substituída por uma bola de golfe. — Edwin lhe deu um tapinha rápido, fraternal. — Vamos pegar algo para você comer.
Ao olhar para a mesa, Maddy suspirou.
__ Meu herói.
A música mudou de lenta para rápida, enquanto três membros do elenco se juntaram para cantar uma sé¬rie de sucessos da Broadway. Não demorou muito para que Phil puxasse Wanda para o meio do palco, para um impressionante pas de deux. O coro de palmas se trans¬formou rapidamente num desafio de campeões quando outros casais se puseram a dançar.
__ Venha, Maddy — disse Terry, pegando-a pela mão. — Não podemos deixar que essas pessoas nos superem.
__ Claro que podemos — disse-lhe Maddy, voltan¬do sua atenção para o patê.
__ Não. Temos que zelar pela nossa reputação. Lem¬bra do número de Within Reach?
__ Foi o pior espetáculo em que dancei.
__A peça era uma droga — disse ele, calmamente. — Mas as coreografias que fazíamos juntos eram ma¬ravilhosas. Só nós tivemos críticas boas. Venha, Maddy, em nome dos bons tempos.
Ele agarrou o braço de Maddy e deu uma risadinha. Incapaz de resistir, ela rodopiou até que estivessem junto dos outros dançarinos. Os poucos que reconhe¬ceram aqueles movimentos aplaudiram.
Era uma coreografia lenta e sedutora, com movi¬mentos longos e abraços que exigiam um ritmo per¬feito e controle dos músculos. Maddy lembrou-se dos passos como se os tivesse ensaiado naquela mesma tar¬de, e não há quatro anos. O arquivo simplesmente se abriu e seu corpo se lembrou.
Ela sentiu que Terry se preparava para um salto e se abaixou num plié para ajudá-lo. Com a confiança de dançarino para dançarino, Maddy se inclinou para trás até que seu cabelo quase encostasse no tapete.
Logo ela estava rindo e balançando no colo de Ter¬ry, divertindo-se.
__ Talvez a peça não fosse tão ruim assim — disse Maddy, sem fôlego.
__ Meu amor, era horrível. — Então Terry lhe deu um tapinha no traseiro quando a música mudou e os outros dançarinos resolveram participar.
Reed a observava. Quando seu olhar foi atraído pelo dele, Maddy sentiu a temperatura aumentar em sua pele, juntamente com desejos e arrependimentos. Pensando apenas em fugir, ela se virou, indo na dire¬ção das portas que davam para o terraço.
Lá fora fazia um tempo quente e abafado, como se o ar descesse até o chão e subisse trazendo o calor consigo. Maddy se inclinou no parapeito, como se estivesse se rendendo ao calor. Ela absorvia os baru¬lhos, a movimentação e a vida da cidade lá embai¬xo. Maddy podia precisar e desejar, mas não se arre¬penderia. Endireitando-se, respirou fundo, sentindo aquela força interna com a qual nascera. Maddy não se arrependeria.
Antes mesmo que ele dissesse qualquer coisa, Maddy sabia que Reed entrara no terraço atrás dela. Ela se enganara achando que podia fugir e se esconder em seu apartamento. Reed ainda era o que Maddy queria, gostasse ou não.
__ Se você preferir, posso ir embora.
Deixar que ela escolhesse era algo tão típico dele, pensou Maddy. Virando-se, ela se permitiu olhá-lo.
__ Não, claro que não.
Reed pôs as mãos nos bolsos.
__ Você é generosa com todo mundo, Maddy, ou só comigo?
__ Não sei. Nunca pensei nisso.
Ele se aproximou do parapeito, desejando estar só um pouquinho mais perto dela.
__ Eu senti sua falta.
__ Esperava que você sentisse. — O céu estava es¬trelado e a lua, cheia. Pelo menos Maddy tinha isso no que se apegar. — Meu plano era vir aqui esta noite e ser fria e tranquila. Mas parece que não sou capaz de levar isso adiante.
__ Observei você dançando com meu pai. E sabe no que pensei? — Quando Maddy fez que não, Reed se aproximou, sentindo-se tentado a tocá-la, nem que fosse apenas uma mecha do cabelo dela. — Você nunca dançou comigo.
Maddy virou-se só um pouco, o suficiente para vê-lo de perfil.
__ Você nunca me pediu.
__ Estou pedindo agora. — Reed estendeu-lhe a mão, novamente deixando que ela fizesse a escolha. Maddy lhe deu a mão sem pensar duas vezes. Eles dan¬çaram juntos, formando uma única sombra no piso do terraço. — Quando você foi embora, na semana passa¬da, achei que tinha sido a coisa certa.
__ Eu também.
Reed sentiu seu rosto resvalar nos cabelos dela.
__ Não se passou um dia sem que eu tenha pensa¬do em você. Não se passou um dia sem que eu tenha desejado você. — Lentamente, sentindo que Maddy não resistia, ele a beijou. Os lábios dela eram ca¬lorosos e convidativos, como sempre. Maddy tinha um corpo que se ajustava ao dele como se o destino tivesse moldado seus corpos. A ansiedade que aque¬le beijo despertou trouxe de volta um pânico que Reed conteve à força. — Maddy, gostaria que você voltasse.
__ Eu quero isso também. — Ela ergueu as mãos para o rosto dele. — Mas não posso.
Sentindo o pânico crescer, Reed agarrou-a pelos pulsos.
__Por quê?
__ Porque não posso seguir suas regras. Não posso me impedir de amá-lo. Mas você não se permitirá me amar.
__ Droga, Maddy. Você está me pedindo mais do que posso lhe dar.
__ Não. — Ela deu um passo para a frente, os olhos brilhantes e diretos. — Não, nunca lhe pedi mais do que você é capaz de dar. Eu o amo, Reed. Se eu voltar, não conseguirei deixar de lhe dizer isso. E você não conseguirá se afastar de mim.
__ Quero você na minha vida. — O desespero o fez segurá-la com mais força. — Isso não basta?
__ Queria que bastasse. Quero fazer parte da sua vida. E quero que você faça parte da minha.
__ Casamento? É isso o que você quer? — Reed virou-se subitamente para se segurar no parapeito. — O que é um casamento, Maddy?
__ Um compromisso emocional entre duas pessoas que prometem fazer seu melhor.
__ Para o bem e para o mal. — Reed virou-se, mas seu rosto estava coberto por uma sombra e Maddy só podia ouvir a voz dele. — Quantos casamentos dão certo?
__ Só aqueles nos quais as pessoas se esforçam, acho. Só para quem se preocupa o bastante.
__ Muitos não dão certo. A instituição não signifi¬ca nada. É um contrato quebrado por outro contrato. Mas o primeiro, em geral, é rompido, moralmente, de¬zenas de vezes antes do segundo.
Maddy sentia seu coração se partir ao ouvir o que Reed lhe dizia.
__ Reed, você não pode generalizar assim.
__ Quantos casamentos felizes você conhece? Quan¬tos duradouros? — corrigiu-se. — Esqueça a felicidade.
__ Reed, isso é ridículo. Eu...
__ Não consegue se lembrar nem de um? — per¬guntou ele.
Maddy perdeu a calma.
__ Claro que posso. Os... O casamento dos Gianelli, que moram no primeiro andar do meu prédio.
__ Aqueles que gritam constantemente um com o outro?
__ Eles gostam de gritar. Isso os deixa felizes. — Como também estava gritando, Maddy deu meia-volta, tentando se acalmar. — Droga, se você não estives¬se me perguntando, eu não teria tanta dificuldade para lembrar. Ozzie e Harriet.
__ Dá um tempo, Maddy.
__ Não. — Colocando as mãos na cintura, ela o encarou. — Jimmy Stewart foi casado por 150 anos. -Hummm... A rainha Elizabeth e o príncipe Philip estão se saindo bem. Meus pais, meu Deus do Céu! — disse, animando-se. — Eles estão junto há uma eternidade, Minha tia-avó Jo foi casada por 55 anos.
__ Mas você teve de se esforçar para lembrar, não? — Reed saiu das sombras e o que Maddy viu nos olhos dele foi cinismo. — Seria mais fácil se lembrar de casa¬mentos que não deram certo.
__ Tem razão, seria. Isso não significa que você deva desistir da ideia só porque algumas pessoas cometeram erros. Além do mais, eu não o pedi em casamento. Pedi apenas para que você sentisse.
Reed a segurou antes que Maddy pudesse fugir cor¬rendo para a festa novamente.
__ Você vai me dizer que não quer casamento?
Ela ficou cara a cara com Reed.
__ Não, não vou lhe dizer isso.
__ Não posso lhe prometer um casamento. Eu ad¬miro você, como mulher e como artista. Estou atraído por você... Preciso de você.
__ Todas essas coisas são importantes, Reed, mas elas só bastam por algum tempo. Se eu não estivesse apaixonada por você, nós dois poderíamos ser felizes com isso. Mas não acho que posso aguentar muito mais. — Maddy se virou, agarrando-se ao parapeito como se estivesse perdendo as forças. — Por favor, vá embora.
Não era fácil brigar com ela, já que Reed estava bri¬gando consigo mesmo. Os movimentos não eram cla¬ros e o próximo passo não era tão exato como deveria ser. Sem alternativa, Reed se afastou.
__ Ainda não acabou. Por mais que nós dois prefe¬ríssemos que sim.
__ Talvez não. — Maddy respirou fundo. — Mas eu agi como uma tola na sua frente da última vez. Agora me deixe sozinha.
Assim que Reed saiu, ela fechou seus olhos. Maddy não choraria. Assim que conseguiu se recompor, vol¬tou para a festa, a fim de dar alguma desculpa e ir para casa. Maddy não estava fugindo, apenas encarando a realidade.
__ Maddy.
Ao se virar, ela viu Edwin. Ao vê-lo, Maddy enten¬deu que não precisava fingir um sorriso alegre.
__ Desculpe. Ouvi boa parte da discussão e você tem o direito de ficar com raiva de mim. Mas Reed é meu filho e eu o amo.
__ Não estou com raiva. — Na verdade, Maddy descobriu que não sabia ao certo o que sentia. — Só preciso ir embora.
__ Vou levá-la para casa.
__ Não, você tem convidados. — Ela apontou para dentro. — Eu pegarei um táxi.
__ Eles não sentirão minha falta. — Edwin se apro¬ximou para lhe oferecer o braço. — Quero levá-la para casa, Maddy. Acho que você deveria ouvir uma história.


Eles conversaram muito pouco no caminho para a casa de Maddy. Edwin parecia perdido em seus pró¬prios pensamentos. Maddy, por sua vez, perdera a ca¬pacidade para conversas espirituosas e divertidas. O único comentário que Edwin fez quando começaram a subir as escadas foi sobre a falta de segurança do prédio.
__ Cada vez que sobe no palco você fica mais famo¬sa, Maddy. E há um preço a pagar por isso.
Olhando ao redor no corredor mal-iluminado, Maddy procurou as chaves. Ela jamais sentira medo ali, mas de algum jeito sabia que sua vida livre de cigana estava qua¬se terminada.
__ Eu prepararei chá. — Ela deixou Edwin andan¬do pela sala de estar bagunçada.
__Isso combina com você, Maddy — disse ele pouco depois. — É aconchegante, vívido, honesto. —O brilho do neon fez com que Edwin risse ao se sentar numa cadeira. — Vou deixá-la constrangida se lhe disser que admiro muito o que você fez da sua vida.
__ Você não me constrange. Fico feliz.
__ O talento nem sempre basta. Eu sei. Já vi mui¬tas pessoas talentosas caírem no esquecimento porque não tinham a força ou segurança para chegarem ao topo. Você já está no topo, mas sequer se deu conta disso ainda.
__ Não tenho certeza de que já cheguei ao topo.- Maddy saiu da cozinha carregando uma bandeja.- Mas estou feliz onde estou.
__ Essa é a beleza da coisa, Maddy. Você gosta de onde está. Você gosta de si mesma. — Edwin aceitou a xícara de chá, mas pousou a mão brevemente sobre a dela. — Reed precisa de você.
__ Talvez, de algum modo. — Maddy recuou um pouco, porque aquilo doía demais. — Mas descobri que eu preciso de mais do que isso.
__ Ele também, Maddy. Ele também, mas Reed é mui¬to teimoso. E também um pouco medroso, admito.
__ Não entendo por quê. Não entendo como ele pode ser tão... — Maddy se interrompeu, praguejan¬do. — Desculpe.
__ Não peça desculpas. Acho que entendo. Maddy, Reed já lhe contou sobre a mãe dele?
__ Não. Esse assunto é um tabu entre nós.
__ Acho que você tem o direito de saber. — Edwin suspirou e bebeu o chá, sabendo que estava prestes a evocar lembranças indesejadas e dolorosas. — Se eu não estivesse tão certo de que você gosta dele e de que é a mulher certa para ele, eu jamais lhe contaria isso.
__ Edwin, não quero que você me conte algo que ofenderá Reed.
__ Vou lhe contar justamente porque você se preo¬cupa com ele. — Edwin pousou sua xícara de chá e se aproximou. De algum modo, Maddy soube que não haveria mais volta. — A mãe de Reed era uma mulher deslumbrante. E ainda é, tenho certeza, embora não há veja há muitos anos.
__ Reed a vê?
__ Não, ele se recusa.
__ Ele se recusa a ver a própria mãe? Como é pos¬sível?
__ Quando eu explicar, talvez você entenda. — Ha¬via um peso na voz dele que fez com que Maddy sen¬tisse a dor. — Eu me casei com Elaine quando ainda éramos muito jovens. Eu tinha um pouco de dinheiro e ela era uma cantora esforçada, cantando em casas noturnas... Você entende.
__ Sim, claro.
__ Ela tinha talento, nada arrebatador, mas com uma carreira bem administrada ele poderia ter ganhado um bom dinheiro. Eu decidi gerenciar a carreira dela. Depois, decidi me casar com ela. Foi uma coisa quase calculada, admito, porque eu estava acostumado a ter o que desejava. Durante um ou dois anos, deu certo. Elaine se sentia grata pelo que eu fizera pela carreira dela. E eu estava feliz por ter uma bela esposa. Eu a amava e trabalhava duro pelo sucesso dela porque isto era o que eu mais queria. Mas de algum modo as coisas começaram a mudar. Elaine era impaciente demais.
Edwin se recostou na cadeira, bebendo o chá e olhan¬do para as coisas a seu redor no apartamento de Maddy. Ele dera à esposa tudo o que podia, mas ela nunca esta¬va satisfeita.
__ Ela era jovem — disse Edwin, sabendo que isso não era uma justificativa real. — Ela queria shows me¬lhores e começou a se ressentir por eu lhe dar con¬selhos sobre roupas e cabelos. Ela começou a pensar que eu a estava atrapalhando, que a estava usando para alavancar minha própria carreira.
__ Ela não o entendia muito bem.
Ao ouvir isso, Edwin sorriu. Nem todo mundo esta¬va disposto a lhe dar apoio incondicional.
__ Talvez. Se bem que eu também não a entendesse direito. Nosso casamento estava ameaçado. Eu estava quase aceitando o fato de que tudo havia terminado quando ela me disse que ia ter um filho. Você é uma mulher moderna, Maddy. E afetuosa. Você é capaz de entender que, embora eu quisesse muito um filho, Elaine não queria.
Maddy olhou para seu chá, solidarizando-se com Edwin.
__ Eu só posso sentir pena de uma mulher que não quer o filho que carrega.
Era a resposta certa. Edwin se apegou àquilo.
__ Elaine estava obcecada pelo sucesso. Ela teve Reed, acho, porque tinha medo de fazer qualquer ou¬tra coisa. Eu consegui para ela um contrato com uma pequena gravadora. A decisão que ela tomou de ficar comigo e ter Reed foi mais uma estratégia de carreira do que outra coisa.
__ Você ainda a amava.
__ Eu ainda sentia algo por ela. E havia Reed. Quan¬do ele nasceu, eu me senti como se fosse o mais aben¬çoado dos homens. Um filho. Alguém que me amaria e aceitaria o amor que eu lhe desse. Ele era lindo, um bebê maravilhoso, que se transformou numa crian¬ça encantadora. Assim que Reed nasceu, minha vida mudou completamente. Eu queria dar a ele tudo. Eu tinha um foco diferente. Podia perder um contrato ou um cliente, mas meu filho estaria sempre lá.
__ As famílias mantêm nossos pés no chão.
__ Sim, isso mesmo. Antes de continuar, quero que você saiba que Reed nunca me deu problemas, só sa¬tisfação. Eu nunca pensei nele como uma obrigação ou um fardo.
__ Você não precisa me dizer isso. Eu posso ver.
Edwin massageou as têmporas e continuou.
__ Quando ele tinha 5 anos, sofri um acidente. Eles fizeram vários exames no hospital. — Sua voz se al¬terou. Sem saber por quê, Maddy ficou tensa. — Um desses exames foi um relatório dizendo que eu era estéril.
Sentindo que a xícara lhe escapava das mãos, Maddy a abaixou.
__ Não entendo.
__ Eu não podia ter filhos. — Os olhos dele eram diretos e intensos. — Eu nunca pude ter filhos.
Maddy sentiu um calafrio.
__ Reed. — Com apenas uma palavra ela fez todas as perguntas e lhe deu só amor.
__ Eu não sou o pai dele. Foi um choque que não posso descrever.
__ Ah, Edwin. — Maddy levantou-se para se ajoe¬lhar na frente dele.
__ Eu confrontei Elaine e ela nem ao menos ten¬tou mentir. Acho que, naquela época, ela estava can¬sada de mentiras. O casamento estava acabado e ela sa¬bia que jamais seria uma grande artista. Ela teve um amante, que foi embora assim que descobriu que ela estava grávida. — Ele respirou fundo e dolorosamen¬te. — Deve ter sido algo horrível para ela. Elaine sa¬bia que eu não perguntaria, apenas aceitaria a criança como meu filho. Além do mais, ela sabia, no íntimo, que jamais sairia daqueles teatrinhos imundos se não fosse por mim. Por isso, não teve alternativa.
__ Ela deve ser uma mulher muito infeliz.
__ Nem todo mundo se contenta facilmente. Elai¬ne era impaciente demais para fazer outra coisa que não buscar a felicidade. Quando não estava satisfei¬ta, simplesmente partia para outra. Quando eu saí do hospital, ela se fora. Reed estava com uma vizinha. — Edwin respirou fundo porque, mesmo depois de tantos anos, ele ainda sofria. — Maddy, Elaine contou para ele.
__ Ah, meu Deus! — Maddy abaixou a cabeça e chorou sobre os joelhos. — Pobrezinho.
__ E eu não o ajudei em nada. — Edwin pousou a mão nos cabelos dela. Ele não percebera como era liber¬tador dizer aquilo em voz alta depois de todos aqueles anos. — Eu precisava fugir, por isso paguei a vizinha e o deixei lá. Fiquei fora por quase um mês, juntando di¬nheiro para montar a Valentine Records. Até conhecer sua família, eu não tinha certeza de que pretendia voltar. É difícil me perdoar por isso.
__ Você estava magoado. Você..
__ Reed ficou arrasado — disse ele. — Eu não pen¬sei no efeito que isso teria sobre ele. Eu me joguei numa briga e tentei ignorar o que deixei para trás. Foi quando conheci seus pais. Naquela única noite, vi o que significava ter uma família.
Passando a mão sobre o rosto úmido, Maddy levan¬tou os olhos.
__ E você dormiu num colchonete do quarto deles.
__ Dormi num colchonete e vi o amor de seus pais um pelo outro e pelos filhos. Foi como se alguém ti¬vesse aberto uma cortina para que eu espiasse e visse o significado verdadeiro da vida, o que realmente im¬porta. Eu fiquei perdido. Seu pai me levou para um bar e eu lhe contei tudo. Deus sabe por quê.
__ É fácil conversar com papai.
__ Ele ouviu tudo e me apoiou em algumas coisas, mas não em tudo o que eu achava que merecia. — De¬pois de todos esses anos, Edwin se lembrava e até mes¬mo era capaz de rir. — Ele tinha uma dose de uísque na mão. Ele pousou o copo no balcão, me deu um tapa no ombro e me disse que eu tinha de pensar no meu filho e que deveria ir para casa para ficar com ele. Seu pai via claramente. Ele estava com a razão. Eu nunca me esque¬ci do bem que ele me fez só ao dizer a verdade.
Maddy pegou as mãos de Edwin e as segurou com força.
__ E Reed?
__ Ele era meu filho, sempre fora, sempre seria meu filho. Eu fui um tolo de me esquecer disso.
__ Você não se esqueceu — murmurou Maddy. — Não acho que você tenha se esquecido.
__ Não. — Ele sentiu a maciez e a força daquelas mãos. — No meu coração, não esqueci. Eu voltei. Reed estava sozinho no quintal, brincando. Ele era um me¬nino. Não tinha nem 6 anos. Mas me olhou com olhos de adulto. — Edwin se arrepiou completamente. — Eu nunca consegui me esquecer daquele instante, quando percebi o que a mãe dele e eu havíamos feito a ele.
__ Você não tem motivos para se culpar. Não — dis¬se, antes que Edwin falasse. — Eu vi vocês dois juntos. Você não tem motivos para se culpar.
__ Eu fiz tudo o que pude para que ele me perdoasse e para que vivesse uma vida normal. Na verdade, não demorou muito para que eu esquecesse o que Elaine me fizera. Mas Reed jamais se esqueceu. Ele ainda car¬rega aquela amargura, Maddy, que eu vi nos olhos dele quando estava com apenas 5 anos.
__ O que você me disse me ajuda a entender. — Res¬pirando fundo, Maddy se recostou na cadeira. — Mas, Edwin, não sei o que posso fazer.
__ Você o ama, não?
__ Sim, eu o amo.
__ Você lhe deu algo. Ele está começando a confiar. Não tire isso dele agora.
__ Ele não quer o que eu posso lhe dar.
__ Ele quer, e vai voltar. Só não desista dele.
Maddy se levantou, com os braços em volta do pró¬prio corpo, e se virou para o outro lado.
__ Você tem certeza de que sou o que ele precisa?
__ Ele é meu filho. — Quando Maddy se virou, bem devagar, Edwin se levantou. — Sim, tenho certeza.

Reed não estava dormindo. Ele não conseguia dor¬mir. Reed quase cedera à tentação de se entregar a uma garrafa de uísque, mas concluiu que a tristeza era uma companhia melhor.
Ele a perdera. Porque não foram capazes de se aceitarem pelo que eram, Reed a perdera. Ah, Maddy estaria melhor sem ele. Disso ele tinha certeza. Se bem que Maddy fora a melhor coisa que já lhe acon¬tecera.
Ele a magoara, exatamente como sabia que faria mas não era estranho que Reed também se sentia ma¬goado?
Amanhã ela partiria, disse Reed a si mesmo. O me¬lhor a fazer era esquecer e colocar o espetáculo e o álbum do musical nas mãos de seu pai. Reed se afasta¬ria daquilo e se esqueceria do que vivera com Maddy O'Hurley.
Ele foi até a janela, mas se lembrou de como Maddy se sentira atraída por aquele lugar. Praguejando, Reed se afastou.
A batida na porta o surpreendeu. Ele não costu¬mava receber visitas à 1h era madrugada. Reed não queria visitas, pensou, ignorando as batidas, que não cessavam. Irritado, abriu a porta com um movimento brusco, com a intenção de xingar quem quer que fosse o infeliz no corredor.
__ Oi. — Maddy estava ali, parada, com uma mo¬chila pendurada nos ombros e as mãos enfiadas nos bolsos de uma saia larga de algodão.
__ Maddy...
__ Eu estava aqui por perto — disse, passando por ele e entrando no apartamento. — Achei melhor dar uma passada. Eu não o acordei, não é?
__ Não, eu...
__ Bom. Sempre fico de mau humor quando alguém me acorda. Então... — Ela jogou a mochila no chão. — Que tal uma bebida?
__ O que você está fazendo aqui?
__ Eu lhe disse que estava por perto.
Aproximando-se, Reed a segurou pelos ombros para mantê-la imóvel.
__ O que você está fazendo aqui?
Maddy inclinou a cabeça.
__ Não consegui ficar longe de você.
Antes que conseguisse se conter, a mão de Reed aca¬riciou-lhe o rosto e caiu novamente.
__ Maddy, algumas horas atrás...
__ Eu disse um monte de coisas — completou ela. — Era tudo verdade. Eu o amo, Reed. E quero me casar com você. Quero passar minha vida ao seu lado. E acho que poderíamos nos dar muito bem. Mas até que você concorde comigo, temos apenas de ficar juntos.
__ Você está cometendo um erro.
Ela revirou os olhos.
__ Reed, você está me vestindo com aquela camisa-de-força novamente. Se estivéssemos casados, talvez — só talvez — você pudesse sugerir o que é melhor para mim. Do jeito como as coisas estão, eu tomo mi¬nhas próprias decisões. Realmente gostaria de beber alguma coisa. Você tem refrigerante dietético?
__ Não.
__ Tudo bem. Então eu quero um uísque. Reed, é muito grosseiro se negar a servir uma bebida a uma convidada.
Ele continuou a segurá-la por algum tempo, depois cedeu e abaixou a cabeça, apoiando a testa na dela.
__ Eu preciso mesmo de você, Maddy.
__ Eu sei. — Ela ergueu as mãos para o rosto dele. — Eu sei que você precisa. E fico feliz por você saber também.
__ Se eu pudesse lhe dar o que você quer...
__ Já conversamos o suficiente sobre isso. Estou de partida para a Filadélfia amanhã. —Vai dançar para ganhar a vida — murmurou ele.
__ Isso mesmo. E vou trabalhar duro, por isso não quero conversar. Não quero discutir. Não esta noite.
__ Tudo bem. Vou pegar uma bebida para nós dois.
Ele foi até o bar e escolheu um decanter.
__Sabe, Reed, ainda me sinto pouco à vontade ti¬rando minhas roupas no palco.
Ele teve de rir. De algum modo, Maddy sempre o fazia rir.
__ Imagino.
__ Quero dizer, visto um biquíni e lantejoulas que não mostram mais do que eu mostraria numa praia pública, mas a interpretação é estranha. Eu tenho de tirar a roupa na frente de centenas de pessoas du¬rante alguns dias. Isso significa que tenho bastante prática.
Quando Reed se virou, ela estava sorrindo para ele, tirando a blusa bem devagar.
__ Achei que você pudesse me dar sua opinião sobre a minha... presença de palco. Fazer striptease é uma arte, sabia? — Ela correu a mão pelo corpo enquanto a blusa se abria. — Excitante... — Maddy se virou de costas e olhou para Reed por sobre o ombro. — Extra¬vagante. — Ela deixou que a blusa caísse suavemente. — O que você acha?
__ Acho que você está se saindo muito bem. Até agora.
__ Só quero ter certeza de que estou interpretando Mary de um jeito realista. — Ela abriu o cinto da saia e deixou que ela caísse ao se virar. A cinta-liga que Maddy vestia fez com que Reed tirasse os óculos, antes de deixá-los cair.
__ Nunca a vi vestindo nada parecido.
__ Isto? — Maddy passou a mão pelo corpo mais uma vez. — Não faz mesmo meu estilo. Não é mui¬to confortável. Mas pela Mary... — Ela se inclinou e soltou o fecho da meia-calça preta. — É uma espécie de marca registrada. — Maddy se endireitou e passou as mãos pelos cabelos, jogando-os para cima. — Você acha que é atraente?
__ Acho que se você vestir isso no palco eu a estran¬gularei.
Com uma risada, Maddy abriu o segundo fecho e len¬tamente desenrolou a meia-calça pela perna.
__ Você tem de se lembrar que quando as cortinas se abrem sou Mary. Eu vou ajudar sua peça a ser um sucesso. — Ela jogou a meia-calça para Reed e come¬çou a fazer o mesmo com a outra perna. — É uma pena que eu não tenha um corpo mais voluptuoso.
__ Seu corpo é adequado.
__ Acha mesmo? — Ainda sorrindo, Maddy come¬çou a soltar o sutiã de renda que cobria seus seios. — Reed, odeio ser chata, mas você ainda não me deu minha bebida.
__ Desculpe. — Ele pegou o copo dela e o levou até Maddy.
Ela o pegou, e por um instante a graça nos olhos dela se transformou em algo mais profundo.
__ Este é para o meu pai — disse, brindando.
__ O quê?
__Você não precisa entender. — Maddy sorriu mais uma vez, bebendo de um só gole a dose de uísque. O líquido desceu como lava. — O que você está achando do espetáculo até agora? Vale o preço do ingresso?
Reed queria ser gentil. Ele queria ser carinhoso para lhe mostrar como o fato de Maddy ter voltado para ele era importante. Mas as mãos que Reed estendeu para tocar-lhe os cabelos estavam tensas e ansiosas.
__ Nunca a desejei tanto.
Maddy jogou a cabeça para trás, deixando o copo vazio cair descuidadamente no carpete.
__ Mostre-me.
Reed a puxou para perto, desesperado. O cheiro do uísque se prendera aos lábios dele, intoxicante. Maddy o envolveu com os braços, aceitando a onda de desejo. Era a primeira vez, a única vez, que Maddy sentiu que Reed se aproximava dela sem se controlar. Ansiosa e sentindo a aproximação da paixão desvairada, o cora¬ção dela bateu mais forte. Quando Reed a levou para o chão, Maddy cedeu de bom grado.
As mãos dele estavam em todos os lugares, tocando, acariciando, apertando. Reed a conduziu a um ponto tão alto que tudo o que Maddy podia fazer era dizer o nome dele e pedir mais.
E havia mais. Muito mais.
Impaciente, Reed soltou os fechos que restavam, deixando-a totalmente livre. Maddy ouviu seu nome sendo sussurrado, com uma voz rouca. Ele a estava sentindo.
Nunca fora tão rápido antes, tão furioso e tão des¬controlado. Sem cuidado algum, Maddy se jogou em um redemoinho de prazer. Seu corpo tremia, assim como o corpo dele. O amor e a paixão se misturavam com tanta intimidade que Maddy não era capaz de separar uma coisa da outra — nem tentou.
Ela estava lá para ele. Enquanto Reed aceitasse seu abraço, ele estaria lá para Maddy.


Capítulo Dez

S
eria melhor se caminhássemos.
Maddy diminuiu a velocidade, passando por outro poça d'água antes de dar uma risadinha para Wanda.
Onde está seu senso de aventura?
__ Eu o perdi a 1 quilômetro, naquela vala que ti¬vemos de atravessar.
__ Não era uma vala — corrigiu Maddy, abrindo caminho para o centro, em meio ao tráfego pesado da Filadélfia. — Por que você não olha pela janela e me diz quando passarmos por algum lugar histórico?
__ Não posso olhar pela janela. — Wanda dobrou as pernas para uma posição mais confortável. Não era fácil, já que Maddy escolhera alugar um carrinho com¬pacto com bancos estreitos que não eram nada con¬fortáveis. — Fico enjoada de ver os edifícios subindo e descendo.
__ Não são os edifícios. É o carro.
__ Também. — Wanda se segurou na alça da porta para se apoiar. — Por que você alugou esta carroça?
__ Porque eu nunca dirijo em Nova York. Aquilo ali é o Salão da Independência? — Quando Maddy virou o pescoço, Wanda lhe deu um empurrão pouco gentil no ombro.
__ Querida, olhe para a estrada se você pretende voltar para Nova York.
Maddy parou num sinal fechado.
__ Eu gosto de dirigir — disse, à toa.
__ Algumas pessoas gostam de saltar de aviões — resmungou Wanda.
__ Eu teria um carro em Nova York, se achasse que teria uma oportunidade de usá-lo. Quanto tempo ain¬da temos?
__ Quinze minutos de diversão. — Wanda se se¬gurou quando Maddy acelerou. — Eu sei que deveria ter perguntado antes, mas quando foi a última vez que você dirigiu?
__ Ah, não sei. Um ano. Talvez dois. Acho que de¬vemos ir a uma dessas lojinhas da South Street depois do ensaio.
__ Se estivermos vivas até lá — disse Wanda, pi¬sando num freio invisível quando Maddy ultrapassou um carro. — Sabe, Maddy, o homem na rua prova¬velmente pensaria que você é o ser humano mais feliz do planeta. Alguém que a conhece melhor diria que seu sorriso vai transbordar se você não se segurar um pouco.
Maddy reduziu a marcha quando o carro caiu em outro buraco.
__ É tão óbvio assim?
__ Bastante óbvio. O que está acontecendo entre você e o sr. Maravilha?
Ela soltou um suspiro longo e cheio de significado.
__ Um dia de cada vez.
__ Como se você fosse aquele tipo de pessoa que precisa de segurança para a semana seguinte.
Era verdade, mas Maddy negou com a cabeça.
__ Ele tem um bom motivo para sentir o que sente.
__ Mas isso não muda o que você sente.
__ Acho que não. Sabe, Wanda, eu nunca consegui acreditar quando as pessoas me diziam que a vida era complicada. Interrompa-me se estiver sendo indis¬creta demais — disse, e Wanda simplesmente deu de ombros. — Quando você se casou, achava que seria para sempre?
Wanda fez um biquinho.
__ Acho que posso dizer que sim, mas ele não.
__ Bem, você... Digo, se você conhecesse alguém de quem realmente gostasse, você se casaria?
__ Outra vez? — Instintivamente, Wanda começou a rir, mas depois pensou melhor. — Se houvesse al¬guém que me despertasse algo, talvez. Mas pensaria um pouco mais. Não, droga, não pensaria. Eu me jo¬garia de cabeça.
__ Por quê?
__ Porque nunca há garantias. Se eu achasse que tinha uma chance, aceitaria. Como uma loteria. Você não deveria ter virado aqui?
__ Virar? Ah, droga. — Xingando-se, Maddy deu a volta no quarteirão. — Agora chegaremos atrasadas.
__ De qualquer modo, é melhor você se livrar do que quer que esteja pensando.
__ Eu só estava esperando que ele estivesse lá. — Maddy virou novamente e voltou ao caminho. — Eu sei que ele não pode passar toda a semana aqui, en¬quanto estamos ensaiando. Mas nós, de algum jeito, planejamos que ele viria hoje.
__ Ele não avisou?
__ Aconteceu alguma coisa. Ele foi muito vago a respeito, algo a ver com um problema de repertório, publicitários ou algo do gênero.
__ Todos nós temos nossos trabalhos, menina.
__ É. — Com uma manobra que Wanda teve de ad¬mirar, Maddy estacionou numa vaga minúscula bem em frente ao teatro. — Acho que é melhor eu pensar em mim mesma. Mais dois ensaios gerais e estaremos prontas.
__ Nem me lembre. — Wanda pôs a mão na barri¬ga. — Todas as vezes que penso nisso sinto um frio no estômago.
__ Você vai se sair bem. — Maddy saiu do carro e ba¬teu a porta. Na esquina, alguém estava vendendo flores. Ela fez uma anotação mental para comprar flores para si mesma depois do ensaio. — Nós nos sairemos bem.
__ Vou confiar em você. A última peça que fiz saiu de cartaz depois de duas apresentações. Eu pensei se¬riamente em enfiar minha cabeça no forno. Mas era um forno elétrico.
__ Vou lhe dizer uma coisa. — Maddy parou na entrada dos fundos e deu uma risadinha. — Se nós fra¬cassarmos, você pode usar meu forno. É a gás.
__ Muito obrigada.
__ É para isso que servem os amigos. — Maddy abriu a porta, deu um passo para dentro e deu um gritinho. Curiosa, Wanda a observou sair correndo pelo corredor e se jogar sobre algumas pessoas.

__ Vocês estão aqui. Vocês todos estão aqui.
__ E onde mais estaríamos? — Frank O'Hurley pe¬gou sua menininha no colo e a rodou no ar.
__ Mas todos vocês! — Assim que seus pés tocaram o chão novamente, Maddy abraçou a mãe, apertando-lhe as costelas até que elas pareceram prestes a se que¬brar. — Você está linda, absolutamente linda.
__ Você também. — Molly retribuiu o abraço. — E atrasada para o ensaio, como sempre.
__ Eu me perdi. Ah, Abby. — Ela foi até a irmã e a abraçou por um tempo. — Estou tão feliz que você te¬nha conseguido vir. Estava com medo de que não fosse capaz de se afastar da fazenda.
__ Ela ainda estará lá quando eu voltar. Quantas vezes minha irmã tem uma noite de estreia? — Mas havia preocupação nos olhos de Abby. Ela conhecia a irmã tão bem quanto a si mesma e não achava que o nervosismo que sentia em Maddy tinha alguma coisa a ver com a ansiedade profissional.
Ainda abraçada a Abby, Maddy segurou a mão do cunhado.
__ Dylan, obrigado por trazê-la.
__ Acho que foi ela quem me trouxe. — Rindo, ele beijou Maddy no rosto. — Mas você não precisa agradecer.
__ É uma pena — disse ela, piscando para Abby, — que não pôde trazer os meninos.
__ Eles estão bem aqui.
Maddy olhou para o outro lado.
__ Eu ouvi alguma coisa?
__ Nós também viemos.
__ Nós vamos para Nova York.
__ Eu podia jurar que... — Maddy deixou as pala¬vras escaparem enquanto prestava atenção aos sobri¬nhos. Ela cuidadosamente manteve a expressão séria por um instante, depois arregalou os olhos. — Vocês não podem ser Ben e Chris... podem? Eles eram ape¬nas menininhos. Vocês estão grandes demais para se¬rem Ben e Chris.
__ Somos nós mesmos — disse Chris. — Nós cres¬cemos.
Com calma, Maddy examinou os dois.
__ Não está me enganando?
__ Pare com isso, Maddy. — Embora tentasse não parecer tão feliz, Ben deu uma risadinha, arrastando os pés. — Você sabe que somos nós.
__ Você vai ter de provar para mim. Dê-me um abraço.
Ela se abaixou para abraçá-los bem forte.
__ Nós viajamos de avião — contou Chris. — Eu me sentei na janela.
__ Srta. O'Hurley, eles a estão chamando no ca¬marim.
__ Droga! — Maddy soltou os sobrinhos e se en¬direitou. — Onde vocês estão hospedados? Há vários hotéis para a produção. Eu posso...
__ Estamos no seu hotel — disse-lhe Molly. — Ago¬ra vá. Nós temos muito tempo.
__ Tudo bem. Vocês ficarão para o ensaio?
__ Acha que pode nos impedir? — perguntou Frank.
Ao ouvir seu nome sendo chamado de novo, Maddy saiu pelo corredor, andando de costas para contemplar a família um pouco mais.
Assim que o ensaio terminar, vamos comemorar. Por minha conta.
Frank deu uma risada, passando o braço pelos om¬bros da esposa.
__ Ela acha que vamos recusar uma coisa dessas? Vamos pegar um lugar na primeira fila.


__ O sr. Selby está aqui para vê-lo. — Hannah man¬tinha seu sorriso elegante e profissional no rosto ao acompanhar Selby para o escritório de Reed.
__ Obrigado, Hannah. Atenda minhas ligações. — Não haveria bandeja com café e docinhos. Reed perce¬beu o olhar de desaprovação de Hannah antes que ela fechasse a porta. — Sente-se, Selby.
__ Acho que seu velho está orgulhoso de você. — Selby deu uma olhada no escritório antes de se sen¬tar confortavelmente. — Você manteve a gravadora no topo. Ouvi dizer que contratou aquela banda de Washington. Um risco.
Reed apenas arqueou a sobrancelha, mantendo seu olhar sério. Ele sabia que a Gravadora Galloway ofe¬recera um contrato para a mesma banda. A Valentine apenas fizera uma oferta melhor.
__ Nós não nos preocupamos com um pouco de risco.
__ É sempre complicado fazer com que as rádios toquem músicas de novos talentos. O disco de um desconhecido desaparece sem uma boa publicidade. — Selby tirou do bolso um charuto pequeno e fino e ficou brincando com o isqueiro. — É por isso que es¬tou aqui. Achei que seria bom conversarmos antes da reunião com o pessoal da associação, esta tarde.
Reed continuou sentado, esperando que Selby acen¬desse o charuto. Assim que Selby marcou aquele en¬contro, Reed percebeu que o homem estava apavora¬do. A Associação Americana da Indústria Fonográfica não fazia reuniões a portas fechadas todos os dias. Os envolvidos sabiam que os presidentes das gravadoras decidiriam se a associação deveria investigar promoto¬res independentes. Algumas grandes gravadoras, entre elas a Galloway, ainda usavam os independentes, ain¬da que pairasse sobre eles uma sombra de escândalos, propinas e jabás.
__ Veja, Valentine — começou Selby, diante do silêncio de Reed. — Nós não entramos nesse negó¬cio ontem. Sabemos do que se trata. Exposição. Se não for tocado nas rádios mais importantes, um disco morre.
Ele estava suando, observou Reed, calmamente. Sob o terno fino e a pele bronzeada artificialmente, os nervos estavam à flor da pele. Reed se perguntava o que aquela investigação significava exatamente para a Galloway.
__ Quando você paga para uma rádio tocar uma mú¬sica, Selby, está montando um cavalo selvagem. Cedo ou tarde ele vai derrubá-lo.
Soltando uma baforada rápida, Selby se inclinou para a frente.
__ Nós dois sabemos como o sistema funciona. Se isso significa dar umas centenas de dólares ao diretor de programação, que mal há nisso?
__ E se isso significa ameaçar esse mesmo diretor de programação se ele não cooperar?
__ Isso é besteira! — Mas havia uma camada fina de suor na testa dele.
__ Se for, a investigação esclarecerá tudo. Até lá, a Valentine Records vai conseguir que seus discos sejam tocados nas rádios sem promotores independentes.
__ Desprezando o que é essencial — atacou Selby, levantando-se. — As 40 maiores estações de rádio re¬passam as músicas tocadas para as cadeias de lojas. Se um lançamento não chega às lojas, ele praticamente não existe. É assim que o sistema funciona.
__ Talvez o sistema precise ser revisto.
__Você é um homem tacanho e honesto como seu pai.
O esboço de um sorriso surgiu nos lábios de Reed.
__ Obrigado.
__ Para você é fácil, não é? — Ofendido, Selby vol¬tou-se contra Reed. — Você fica aí, sentado no seu escritório confortável, sem jamais sujar as mãos. Seu pai faz isso para você.
Reed manteve a calma.
__ Se você der uma boa olhada, verá que as mãos do meu pai estão limpas — disse ele baixinho. — A Valentine nunca fez negócio usando jabás, propinas ou ameaças físicas.
__ Você não é tão puro assim, Valentine.
__ Digamos apenas que dentro de uma hora a Va¬lentine Records votará pela investigação.
__ Isso jamais será aceito. — Selby exibia um sorriso malicioso ao esmagar o charuto, mas as mãos dele não estavam calmas. Ele procurara Reed porque Valentine tinha o poder e a reputação para controlar a votação. Agora ele estava sem ar. Selby afrouxou o nó bem-feito da gravata. — Várias gravadoras sabem onde está a su¬jeira. Mesmo se algo ficar provado, eu não cairei. Ah, claro que algumas cabeças serão cortadas no processo, mas não a minha. Há dez anos a Galloway era uma gravadora de fundo de quintal. Hoje é um dos maio¬res nomes da indústria. Eu consegui isso porque arris¬quei e observei todos os ângulos do negócio. Quando a poeira baixar, Valentine, ainda estarei no topo.
__ Tenho certeza de que estará — resmungou Reed, enquanto Selby saía apressado do escritório. Homens como ele jamais eram responsabilizados por suas ações. Eles tinham vários bodes expiatórios para usar. Se Reed quisesse uma vingança pessoal, pode¬ria iniciar uma investigação por conta própria. Ele já tinha informações sobre um disk-jockey que fora espancado, supostamente por se recusar a tocar alguns lançamentos. Havia um diretor de programação em Nova Jersey cuja mulher sofrera ameaças. Outro fa¬zia viagens constantes para Las Vegas, sempre na pri¬meira classe e jogando pesado. Apostando mais do que o salário de todo um ano lhe permitiria. Parte do sistema. Não do sistema no qual Reed gostava de atuar.
Mas era mesmo improvável que Selby pagasse por seus atos. Alguém pagava?
Levantando-se, Reed olhou para os papéis em sua pasta. Era verdade que ele entrara num negócio já con¬solidado. Reed não teve de abrir caminho para a gra¬vadora. Se tivesse, será que ele procuraria um atalho? Reed não tinha certeza. Ele decidiu que o melhor era deixar a decisão sobre a investigação para a associação. Ele deixaria a poeira abaixar. Seria uma reunião longa e provavelmente tumultuada, pensou Reed ao sair do escritório.
__Não voltarei mais hoje, Hannah.
__ Boa sorte, sr. Valentine. Chegaram algumas liga¬ções enquanto estava conversando com aquele homem.
Sua boca se torceu um pouco diante do tom de voz da secretária.
__ Algo importante?
__ Não, nada que não possa esperar. Você recebeu uma ligação da srta. O'Hurley. — Hannah lançou-lhe um sorriso inocente demais, esperando pela reação de Reed. O fato de ele ter hesitado revelou à secretária tudo o que ela precisava saber.
__ Se ela ligar de novo, diga...
__ Sim, sr. Valentine?
__ Diga que eu ligarei para ela.
Por um momento, Hannah se sentiu decepcionada.
__ Ah, sr. Valentine?
__ Sim?
Ela percebeu a impaciência, mas pressionou-o um pouco mais.
__ Eu estava me perguntando se o senhor vai à Fi¬ladélfia para a noite de estreia, ou se talvez o senhor quisesse que eu mandasse flores.
Reed pensou na reunião que tinha pela frente, no trabalho que não podia ser desprezado. Ele se lembrou do rosto de Maddy e da confusão que o acompanha¬va há dias. Os sentimentos dela, os dele, os desejos dele e os dela. Eles tinham as mesmas necessidades e os mesmos desejos ou eram tão diferentes que jamais conseguiriam ficar juntos?
__ Meu pai vai à estreia. Se eu não for, estarei re¬presentado.
__ Entendo — disse Hannah educadamente, ajei¬tando os papéis sobre a mesa
__ Eu mesmo cuidarei das flores.
__ Tomara que sim — resmungou ela, assim que Reed saiu pela porta de vidro.
Tudo deu certo. Maddy deitou atravessada na cama, lembrando-se do ensaio. Ela não atrairia o azar di¬zendo que tudo estava perfeito, mas ela podia pensar que sim. Mas tinha de pensar isso bem baixinho.
Amanhã à noite. Amanhã à noite, a esta hora, pen¬sou, sentindo o coração acelerar, ela estaria no cama¬rim. Vinte e quatro horas! Maddy se virou de costas e ficou olhando para o teto. Como conseguiria sobrevi¬ver às próximas 24 horas?
Reed não telefonara. Maddy moveu a cabeça para que pudesse olhar para o telefone novamente. Eles só se falaram meia dúzia de vezes desde que ela fora para a Filadélfia, e todas as vezes Maddy teve a impressão de que Reed estava tentando se afastar dela. Talvez ele conseguisse.
Uma dançarina conhece muito bem a dor. Você a sente, aceita e continua e a contorna. As dores do coração talvez sejam um pouco mais difíceis do que um estiramento muscular, mas Maddy continuaria. Ela sempre se orgulhava de ser uma sobrevivente.
Sua família estava ali. Levantando-se da cama, Ma¬ddy foi até o armário. Ela se trocaria, exibiria seu sor¬riso mais feliz e levaria a família para o centro da ci¬dade. Nem todo mundo tinha a mesma sorte que ela, lembrou-se Maddy ao tirar a roupa. A família dela a amava, a apoiava e a admirava pelo que ela era.
Maddy tinha uma carreira em ascensão. Mesmo se perdesse o ritmo, ninguém poderia tirar a dança dela. Se tivesse de voltar a se apresentar em teatrinhos do interior, ainda assim Maddy ficaria feliz.
Maddy O'Hurley não precisava de um homem para completar sua vida, porque sua vida era completa. Ela não queria um cavaleiro numa armadura para pegá-la no colo e tirá-la deste mundo. Maddy gostava de onde estava, do que era.
Se Reed se afastasse, ela poderia... Maddy se apoiou de costas na porta do armário e suspirou. Ela podia se tornar a pessoa mais triste do mundo. Não, Maddy não precisava dele para salvá-la e protegê-la. Ela preci¬sa dele para amá-la. E, ainda que não achasse que Reed pudesse entender, Maddy precisava que ele a deixasse amá-lo.
Ao ouvir a batida na porta, Maddy despertou de algo muito próximo da depressão.
__ Quem é?
__ É Abby.
Com o roupão aberto, Maddy abriu a porta. Abby ficou, parada, parecendo mais nova e adorável num belo vestido branco.
__ Ah, todos vocês estão prontos. Eu ainda nem co¬mecei a me vestir.
__ Eu me vesti mais cedo para poder descer e con¬versar com você.
__ Antes que diga qualquer coisa, tenho de lhe dizer que você está linda. Talvez seja o Dylan, talvez o ar do interior, mas você nunca esteve melhor.
__ Talvez seja a gravidez.
__ O quê?
__ Nós descobrimos pouco antes de sairmos de casa. — Ela segurou Maddy pelos ombros, parecen¬do que tinha o mundo dentro de si. — Vou ter outro bebê.
__ Ah, Deus! Ah, Abby, isso é maravilhoso. Vou cho¬rar.
__ Tudo bem. Vamos sentar enquanto você chora.
Maddy procurou inutilmente por um lenço no bol¬so do roupão.
__ E como o Dylan está se sentindo?
__ Felicíssimo! —Abby riu quando se sentaram jun¬tas na cama. Seus olhos transmitiam calma. A maquia¬gem rosa em sua pele salientava o contorno do rosto. Ela jogou os cabelos louros para trás antes de pegar nas mãos de Maddy. — Vamos contar para todo mun¬do no jantar de hoje à noite.
__ E você vai começar a cuidar melhor de si mes¬ma. Nada de limpar os estábulos. Estou falando sério, Abby — acrescentou, antes que a irmã pudesse falar. —Se eu tiver de dar uma lição de moral no Dylan, eu darei.
__ Você não precisa fazer isso. Ele próprio gostaria de me deixar na cama pelos próximos sete meses. Mas nós não nascemos para isso, Maddy, você sabe.
__ Talvez não. Mas você pode diminuir o ritmo. — Ela abraçou a irmã e a apertou. — Estou tão feliz por você.
__ Eu sei. Agora quero que você converse comigo. — Séria, Abby se endireitou. — Chantel me ligou e disse que você estava ficando louca por causa de um homem.
__ Típico dela — resmungou Maddy. — Não estou ficando louca por nada. Não faz meu estilo.
Abby tirou os sapatos.
__ Quem é ele?
__ O nome dele é Reed Valentine.
__ Da Valentine Records?
__ Isso mesmo. Como você sabe?
__ Eu ainda me mantenho por dentro da indústria. E Dylan trabalhou com ele em um livro há algum tempo.
__ Sim, Reed mencionou.
__ E?
__ E nada. Eu o conheci, me apaixonei por ele e agi como uma boba. — Maddy tentou manter seu tom de voz despreocupado e leve, e quase conseguiu. — Ago¬ra estou aqui, sentada, olhando para o telefone e es¬perando que ele me ligue. Como uma adolescente.
__ Você nunca teve chance de agir como adolescen¬te quando tinha 16 anos.
__ Não me faz falta. Ele é um bom homem, Abby. Gentil e bondoso, ainda que nunca veja essas qualida¬des nele mesmo. Posso lhe falar mais sobre ele?
__ Você sabe que pode.
Maddy contou tudo, desde o começo, sem deixar escapar nada. Nunca lhe passou pela cabeça que po¬deria estar invadindo a privacidade de Reed. E na ver¬dade não estava mesmo. O que quer que contasse a Abby ou Chantel, era como se estivesse contando a si mesma.
Abby ouviu com serenidade e tranquilidade, enquan¬to Maddy lhe contava tudo: o amor, as concessões, o trauma que arruinara a infância de Reed e afetara sua vida. Como estava em perfeita sintonia com a irmã, Abby sentia a dor de Maddy.
__ Então agora você entende: não importa quanto eu o amo, não posso mudar o que aconteceu a ele ou como ele se sente.
__ É uma pena. — Elas se remexem ao mesmo tem¬po, com o braço de Abby sobre o ombro de Maddy. — Eu sei como isso dói. Só posso lhe dizer que tenho certeza de que, quando você ama muito, pode operar milagres. Dylan não queria me amar. E a verdade é que eu também não queria amá-lo. — Era fácil olhar para trás e se lembrar. — Nós dois tínhamos decidido ja¬mais nos envolvermos desse jeito novamente. Era uma decisão bastante racional, feita por duas pessoas inteli¬gentes. — Ela deu um sorrisinho, inclinando a cabeça na direção da cabeça de Maddy. — O amor tem um jeito de acabar com tudo, exceto com o que realmente importa.
__ Eu tentei me convencer disso. Mas, Abby, ele não foi desonesto comigo. Desde o início Reed deixou cla¬ro que não queria se envolver. Eu era para ser apenas mais um caso, que, obviamente, não é um namoro. Eu avancei os limites, por isso sou quem tem de fazer os ajustes.
__ Isto tudo é muito sensato. Mas o que aconteceu com seu otimismo, Maddy?
__ Eu acho que o deixei em casa, dentro de uma ga¬veta.
__ Então está na hora de recuperá-lo. Você não é de ficar choramingando e olhando para o lado ruim das coisas. Você é a pessoa que toma uma decisão e se recusa a recuar até que as coisas dêem certo.
__ Isso é diferente.
__ Não é, não. Você tem ideia de quantas vezes eu tentei ser tão segura quanto você? Eu sempre invejei esta qualidade sua, Maddy, quando vivia um dia de¬pois do outro, com medo de falhar.
__ Ah, Abby.
__ É verdade. E você não pode me desapontar ago¬ra. Se o ama, se o ama de verdade, então tem de insistir até que ele possa admitir que a ama também.
__ Antes de mais nada, ele tem de sentir, Abby.
__ Eu acho que ele sente. — Ela chacoalhou de leve a irmã. — Pense em tudo o que acabou de me contar, mas dessa vez ouça. O homem é louco por você, Ma¬ddy, ele só não é capaz de admitir isso para você e para ele mesmo.
A esperança, nunca muito distante, começou a des¬pertar novamente.
__ Eu tentei acreditar nisso.
__ Não tente, acredite. Eu tive o pior relacionamen¬to do mundo, Maddy. Agora estou sentindo o sabor do melhor. — Instintivamente, Abby colocou a mão na barriga, onde havia uma nova vida. — Não desista. Mas eu me amaldiçoaria se ficasse aqui, vendo-a espe¬rar que ele lhe jogue umas poucas migalhas. Vista-se — ordenou Abby. — Vamos celebrar.
__ Mandona. — Maddy deu uma risadinha, indo para o armário. — Você sempre foi mandona.

Reed deixou que o telefone tocasse umas dez vezes an¬tes de desligar. Era quase meia-noite. Onde ela estava? Por que Maddy não estava dormindo, descansando para o dia seguinte? A única coisa que ele sabia sobre ela, a única coisa de que tinha certeza, era que Maddy se preparava para um papel com o rigor de uma atleta. E a preparação incluía dietas, exercícios, bom comportamento e descanso. Mas onde é que ela estava?
Na Filadélfia, pensou Reed, com raiva, indo até as janelas e voltando. Maddy estava a quilômetros de dis¬tância, no seu próprio universo, com seus amigos. Ela podia estar fazendo qualquer coisa, com qualquer um. E Reed não tinha direito de questioná-la.
Que se dane os direitos, disse Reed a si mesmo, pe¬gando o telefone novamente. Foi ela quem falou em amor, em comprometimento e confiança. E era Maddy quem não estava atendendo ao telefone.
Reed ainda se lembrava de como Maddy parece¬ra decepcionada quando ele lhe disse que não sabia ao certo se poderia estar na Filadélfia para a noite de estreia. Ele tinha essa maldita reunião da associação e ainda não sabia como avaliar o efeito dela. Um escân¬dalo estava prestes a explodir, agora que a investiga¬ção fora aprovada. Um escândalo que afetaria a todos, todos os selos, todos os executivos das gravadoras, até mesmo os que agiram honestamente.
Na manhã seguinte ele teria dezenas de ligações, de repórteres, estações de rádio, escritórios de advoca¬cia e de seus empregados. Reed não podia largar tudo para ir assistir à estreia de um espetáculo.
Mas não era um espetáculo qualquer, pensou Reed, enquanto o telefone insistia em tocar. Era a peça de Maddy. Não, a peça era dele, pensou Reed, desligando o telefone com um baque. A Valentine Records estava patrocinando a peça e por isso era seu dever proteger os interesses da empresa. Seu pai estaria lá, e isso bas¬taria. Mas ele era o presidente da gravadora, lembrou-se Reed.
Ele estava inventando uma desculpa para ir ou para permanecer afastado?
Não importava. Não importava, de jeito nenhum. O que importava era por que Maddy não estava aten¬dendo ao telefone à meia-noite.
Ela tinha o direito de viver sua vida.
Tinha uma ova!
Reed passou a mão pelos cabelos. Ele estava agindo como um tolo. Tentando se acalmar, serviu-se de uma bebida, quando viu a planta. Havia brotos verdes e ga¬lhos novos e saudáveis. As folhas velhas e amareladas tinham caído e sido varridas. Intrigado, Reed se apro¬ximou para passar a mão em uma das folhas lisas, em forma de coração.
Um pequeno milagre? Talvez, mas era apenas uma planta. Uma planta resistente, concluiu. Uma planta que se recusara a morrer e reagira ao cuidado e à aten¬ção apropriados.
Então Reed tinha sorte com plantas. Intencional¬mente, ele se virou, olhando para o apartamento va¬zio. Não era inteligente de sua parte pensar muito na¬quele apartamento sem Maddy. Assim como não era inteligente pensar muito no fato de que ela não esta¬va no quarto do hotel. Reed tinha outras coisas em que pensar, outras coisas a fazer. Mas deixou a bebida intocada.


O quarto estava completamente escuro quando uma batida na porta a acordou. Maddy rolou na cama, apertou o travesseiro e se preparou para ignorar o ba¬rulho. Mas como as batidas continuavam, ela desper¬tou totalmente, acreditando que aquilo deveria ser um sinal.
Era madrugada, lembrou-se Maddy, com um enor¬me bocejo. Antes de subir ao palco, ela ainda tinha várias horas. Mas a batida era em sua porta e estava ficando mais insistente a cada minuto.
__ Já vai! — gritou ela, irritada, esfregando os olhos. Se fosse alguma dançarina ansiosa, ela a mandaria em¬bora. Maddy não podia se dar ao luxo de ser o porto seguro dos outros às 3h.
__ Espere um minuto, por favor. — Resmungando, ela encontrou o interruptor de luz e então procurou o roupão. Maddy destrancou a porta e a abriu até que a correntinha travasse. — Ora, veja só... Reed! — Acor¬dando imediatamente, Maddy fechou a porta, para ti¬rar a correntinha da tranca. Quando a abriu outra vez, jogou-se nos braços dele. — Você está aqui! Eu não achei que você estaria aqui! Já estava até me acostu¬mando com a ideia de que você não viria. Não, não estava — corrigiu-se logo, beijando-o. Maddy sentiu o desejo e a tensão. — Reed, o que você está fazendo aqui às 3h?
__ Você se importa se eu entrar?
__ Claro que não. — Ela deu um passo para trás e esperou até que Reed jogasse uma mala pequena sobre uma cadeira. — Aconteceu alguma coisa? — ela per¬guntou, agarrando-o pela camisa. — Ah, meu Deus, aconteceu alguma coisa com seu pai? Reed...
__ Não, meu pai está bem. Ele deve estar aqui ama¬nhã.
Seus dedos relaxaram um pouco, mas Maddy con¬tinuava segurando-o pela camisa.
__ Você parece irritado.
__ Estou bem. — Reed se livrou dela e deu uma volta pelo quarto de hotel. Ele percebeu que Maddy já havia dado ao lugar o seu jeito, com meias-calças, meias e sapatos espalhados. A penteadeira era uma confusão de potes, garrafas e pedaços de papel. Ela derrubara um pouco de pó-de-arroz, mas não se im¬portara em limpar. Reed passou o dedo pela poeira e o cheiro dela o atingiu. — Eu não conseguia falar com você.
__ Ahn? Eu saí para jantar com...
__ Você não me deve uma explicação. — Furioso, ainda que somente consigo mesmo, Reed deu meia-volta.
Maddy tirou o cabelo do rosto, desejando ser capaz de entendê-lo. Eram 3h, lembrou-se. Ele, com certeza, estava nervoso. Ela estava cansada. O melhor seria fa¬zer as coisas com calma.
__ Tudo bem. Reed, você não vai me dizer que di¬rigiu até a Filadélfia porque não atendi ao telefone.- Assim que olhou para Maddy, Reed viu que a curio¬sidade se transformou em graça, e a graça se transfor¬mou em prazer. — Foi isso? — Indo até ele, Maddy o abraçou, apertando seu rosto contra o peito dele. - Isso deve ser a coisa mais gentil que alguém já fez por mim. Não sei o que dizer. Eu...
Mas ao levantar os olhos ela viu aquilo nos olhos de Reed. Todo o prazer desapareceu quando Maddy se afastou.
__ Você achou que eu estava com outro homem. -Sua voz era tranquila e as palavras, muito claras. - Você achou que eu estava dormindo com outro ho¬mem, por isso veio ver com seus próprios olhos. — Maddy sentiu um gosto amargo na garganta. Era um gosto que ela raramente sentia. Maddy apontou para a cama vazia. — Desculpe por decepcioná-lo.
__ Não. — Reed agarrou-a pelo pulso antes que Maddy pudesse se virar, porque já estava vendo as lágri¬mas surgirem em seus olhos. — Não foi isso. Ou... Dro¬ga, talvez tenha sido um pouco por isso, um pouco por causa do que eu imaginava. Você tem todo o direito.
__ Obrigada. — Maddy se libertou e se sentou na beirada da cama, sem conseguir conter o choro. — Agora que você está satisfeito, por que não vai embo¬ra? Preciso dormir.
__ Eu sei. — Reed passou as mãos pelo cabelo an¬tes de se sentar ao lado dela. — Eu sei disso. E como estava tarde e eu não conseguia falar com você, fiquei imaginando. — Quando ela ergueu os olhos para ele, Reed se amaldiçoou. — Tudo bem, eu realmente me perguntei se você estava com outro homem. Não te¬nho nenhum controle sobre você, Maddy.
__ Você é um idiota.
__ Eu sei disso também. Dê-me só um minuto. — Antecipando-se a ela, Reed pegou as mãos de Maddy antes que ela pudesse recusar. — Por favor. Eu real¬mente imaginei. E odiei a ideia de você com outra pes¬soa. Então fiquei preocupado. Durante toda a viagem para cá fiquei preocupado que alguma coisa tivesse acontecido a você.
__ Não seja ridículo. O que poderia acontecer?
__ Nada. Qualquer coisa. — Ele a apertou, frustra¬do. — Eu apenas tinha de estar aqui. Para vê-la.
A raiva estava passando, mas Maddy ainda não sa¬bia com o que substituí-la.
__ Bem, você já me viu. E agora?
__ Agora é com você.
__ Não. — Maddy se libertou e levantou. — Quero que você me diga. Quero que você olhe para mim ago¬ra mesmo e me diga o que você quer.
__ Quero você. — Reed levantou-se lentamente. — Quero que você me deixe ficar. Não para fazer amor com você, Maddy. Apenas que me deixar ficar aqui.
Ela podia facilmente deixar que a mágoa se apos¬sasse dela. Mas também podia deixar a mágoa de lado e juntar-se a ele. Rindo, Maddy se aproximou.
__ Você não quer fazer amor comigo?
__ Quero fazer amor com você até que nós dois desmaiemos. — Trêmulo, porque aquilo era verdade, Reed se aproximou para tocar-lhe no rosto. — Mas você precisa dormir.
__ Preocupado com seu investimento? — Ela passou os dedos pela camisa dele, desabotoando-a pelo cami¬nho.
__ Sim. — Reed tomou-lhe o rosto nas mãos. — Sim, estou.
__ Não precisa. — Observando-o, ela tirou-lhe a camisa. — Confie em mim. Nem que seja só por esta noite, confie em mim.


Capítulo Onze

E
ra o que Reed queria. Em algum momento duran¬te aquela longa e frustrante noite ele percebera que se confiasse nela, no que ela era, dizia e sentia, sua vida mudaria completamente. Reed só não tinha certeza se obteria as respostas que desejava fazendo isso.
Mas o carinho dela era tão bom e seus olhos tão afetuosos! Naquela noite, apenas naquela noite, nada mais importava realmente.
Reed puxou as mãos dela para seus lábios, como se quisesse lhe mostrar que não se sentia seguro dizendo ou até mesmo pensando. Maddy sorriu para ele, sem¬pre emocionada com a ternura que Reed era capaz de expressar.
Firme e forte, a luz ao lado da cama continuava acesa quando eles se deitaram nos lençóis já amarfanhados.
Os olhos dela permaneciam abertos, escurecendo lentamente, quando Reed beijou-lhe todo o rosto. Ele passou os dedos suavemente pelo ombro dela, sobre o qual estava pendurado o roupão, depois pelo pescoço, até delinear o contorno dos seus lábios. Com a ponta da língua, Maddy umedeceu-lhe a pele, convidativa e provocante, excitante. Então, ela o mordeu, segurando a ponta do dedo dele com seus dentes e o prendendo, enquanto o desafiava com o olhar.
Olhando para ela, Reed deslizou a mão até a perna dela, pousando na panturrilha musculosa e dura, e em seguida subindo suavemente até a pele macia da coxa. Ele sentiu que Maddy perdia o fôlego e continuou subindo, fazendo-a tremer uma, duas vezes, antes de abrir-lhe o roupão e deixá-la nua.
__ Eu me imaginei tocando-a assim — murmurou Reed, acariciando seu seio pequeno e firme. — Desde a primeira vez que a vi nua.
__ Eu sempre desejei que você me tocasse assim. — Maddy deixou que suas mãos também o exploras¬sem. Lentamente, e querendo ver o fogo se acender nos olhos dele, ela tirou-lhe a calça. — Todas as noites, quando fechava os olhos, fingia que você estaria aqui pela manhã. Agora você estará.
Maddy beijou-lhe o ombro, mas suas mãos não fi¬cavam imóveis. Nem as dele.
Eles se moviam devagar, mas não preguiçosamente, porque a paixão estava prestes a irromper. Eles se sa¬boreavam, num acordo silencioso de que tinham todo o tempo de que precisavam. Sem pressa, afobação ou união desesperada que deixava o corpo e a mente atordoados. Esta noite era a noite em que as almas foram colocadas em primeiro lugar.
Deseje-me... mas com calma. Queira-me... mas cal¬mamente. Anseie por mim... mas pacientemente.
Sob o corpo dela, os lençóis estavam desarruma¬dos pela noite insone que mal começara, quentes ago¬ra pela paixão cálida que Maddy esperava que ja¬mais terminasse. Seus dedos se entrelaçaram, palma contra palma, energia contra energia, quando seus lábios se uniram para mais um beijo longo e cheio de luxúria.
De todas as comidas que Maddy mal experimen¬tara naquela noite, nenhuma se comparava ao sabor dos beijos dele. O champanhe tinha poucas bolhas e os temperos eram fracos se comparados ao gosto dos lábios dele contra os seus. Reed podia mesmo sentir a alma dela. De algum modo, Maddy queria alimentar a alma dele. Ela o abraçou, ansiosa por lhe retribuir com uma parte do que tinha de sobra.
Parecia não haver limites para a generosidade de Maddy. Reed podia sentir aquilo fluindo todas as vezes que a tocava. Agora, mesmo que o corpo dela se mo¬vimentasse lânguida e apaixonadamente, Reed sentia a generosidade jorrando, saciando sua alma sedenta como uma bebida gelada no calor do meio-dia.
O corpo de Maddy reagia a cada movimento, cada exigência que Reed fazia. Ela estava ali com ele, uma parceira desejosa e ansiosa, como todo homem queria. Mas Reed também sabia que Maddy estava ali para ele, como algo generoso e macio no qual um homem podia mergulhar e se acalmar. Ele não sabia ao certo como retribuir o que ela lhe oferecia com abnegação. Reed só sabia amá-la com um carinho infinito.
Se fosse possível, Maddy teria lhe dito que isso bas¬tava, ao menos naquele momento. Mas não havia pala¬vras onde ela estava com seu corpo e mente flutuando livremente. Quando Reed a tocou, Maddy se sentiu em chamas. Ele murmurou o nome dela e o coração de Maddy se encheu de alegria. Quando eles se uniram com o fogo e a intensidade de amantes, o amor que Maddy sentia por ele a consumiu.


Maddy acordou no meio da manhã, agitada e cheia de uma energia nervosa. Em poucas horas chegaria o momento decisivo, de ganhar ou perder, do tudo ou nada. Era impossível ficar longe do teatro.
__ Eu achava que você só precisava estar no teatro no fim da tarde — comentou Reed, enquanto Maddy lhe indicava um atalho que descobrira no caminho do hotel até o teatro.
__ Não temos ensaio, mas tudo está acontecendo hoje.
__ Eu tinha a impressão de que tudo aconteceria hoje à noite.
__ Nada acontece à noite sem o dia. As luzes, os cenários, os acessórios. Vire à direita e depois à direita novamente.
Ainda que o tráfego estivesse intenso, Reed dimi¬nuiu a velocidade e seguiu o caminho que Maddy lhe indicava.
__ Eu não sabia que os artistas se preocupavam tan¬to com os aspectos técnicos do espetáculo.
__ Um musical perde boa parte do seu impacto se não estiver perfeitamente organizado. Tente imaginar The King and I sem a sala do trono ou La Cage sem a boate. Tem uma vaga ali. — Olhando pela janela, Maddy mostrou a Reed onde estacionar. — Você con¬segue colocar o carro ali?
Ele simplesmente a olhou e com poucas manobras estacionou seu BMW entre os dois outros carros esta¬cionados rentes ao meio-fio.
__ Assim está bom?
__ Ótimo. — Maddy se inclinou e o beijou. — Você é ótimo. Estou feliz que você esteja aqui, Reed. Já lhe disse isso?
__ Algumas vezes. — Reed passou a mão pelo pes¬coço dela para mantê-la perto. Aquilo estava se trans¬formando em uma de suas prioridades. — Eu deve¬ria ter me esforçado mais para convencê-la a ficar na cama. Para você descansar — acrescentou, ao ver que Maddy franzia a testa. — Você já está pronta para as¬sumir outro corpo?
__ Isso é uma coisa normal em noites de estreia. Se eu estivesse relaxada, você podia se preocupar. Além do mais, acho que você deveria ver aquilo pelo que está pagando. Você não faz o tipo de homem que se interessa apenas pelo produto final. Venha. — Maddy saiu do carro e ficou esperando na calçada. — Você deveria dar uma olhada nos bastidores.
Eles entraram juntos pela porta dos fundos. Maddy acenou para o guarda e seguiu em direção ao barulho. O som de uma serra elétrica surgiu e desapareceu. Em quase todos os lugares ouvia-se três tons de voz: altas, baixas e de reclamação. Homens e mulheres, vestidos para o trabalho, iam de um lado para o outro. Alguns davam ordens, outros, obedeciam, e Reed achou que aquilo parecia muito confuso.
Se ele tivesse de apostar que tudo estaria pronto quando a cortina se abrisse, dali a algumas horas, diria que era uma aposta arriscada. Não havia maquiagem ou purpurina ali. Havia apenas poeira, fuligem e um bocado de suor.
No fosso da orquestra estava, imóvel e com os bra¬ços sobre a cabeça, um homem com fones de ouvido. Ele falava no microfone enquanto fazia um gesto com as mãos. No fundo do palco, um quadro de luz era ajustado aos seus comandos.
__ Você viu o diretor de iluminação?
__ Brevemente — disse Reed, vendo o homem dar alguns passos para dentro do palco direito.
__ Todas as luzes devem estar concentradas, uma de cada vez. Ele está cuidando da iluminação de baixo, en¬quanto o assistente cuidará da iluminação de cima.
__ Quantas luzes são usadas?
__ Dezenas.
__ O espetáculo começa às 20h. Isto já não deveria estar pronto?
__ Nós fizemos algumas alterações no ensaio de on¬tem. Não se preocupe. — Maddy lhe deu o braço. — Pronto ou não, o espetáculo começará às 20h.
Reed deu outra olhada ao redor. Havia enormes caixotes sobre rodas, alguns abertos e outros fechados. Rolos de fios se acumulavam pelo chão e havia escadas aqui e ali. Numa grua, um homem lidava com as luzes enquanto outro ficava mais atrás, fazendo sinais com as mãos. Uma sombra surgiu lentamente e depois de¬sapareceu diante do sinal dele.
__ Eles têm de acertar as subidas e descidas dos pal¬cos — disse Maddy. — Tudo foi pesado, e a equipe tem de saber até que ponto eles têm de abaixá-los ou subi-los. Venha, vou lhe mostrar a parte suspensa, onde acontece boa parte da magia do espetáculo.
Maddy andava pelos bastidores, entre caixotes, cui¬dadosamente se desviando das escadas em vez de pas¬sar por baixo delas. Havia mais cordas suspensas, mais cabos enrolados. Reed viu uma galinha de borracha presa por um laço perto de onde dois homens amarra¬vam o que parecia ser uma caixa elétrica a um painel de madeira.
__ Srta. O'Hurley. — Um dos homens se virou e deu uma risadinha para ela. — Tudo parece ótimo. - Só estamos nos certificando de que você arrase esta noite.
Havia enormes baús enfileirados na parede dos fun¬dos, a maioria marcada com adesivos de outros espetá¬culos. Maddy se espremeu entre panos e baús.
__ Nós temos de passar sob o palco neste teatro — explicou. — Não há espaço suficiente aqui atrás. Mas isto é melhor do que ter de sair do teatro e dar a volta para entrar na cena seguinte.
__ Ficaria mais organizado se...
__ O teatro é assim. — Maddy o pegou pela mão e o levou a uma porta estreita. — Isto é o mais organi¬zado possível. Venha cá. — Ela subiu uma escadinha estreita.
Para Reed, aquilo parecia o convés de um navio — um navio que estava enfrentando uma tempestade. Havia cordas por todos os lados, algumas da grossura do pulso de Maddy e outras finas e desgastadas. Elas estavam penduradas e balançavam até o chão sem, ao que parecia, nenhum motivo. Várias cordas esta¬vam presas juntas, subindo e descendo ao redor de um enorme poste de metal.
Num canto, havia uma mesinha cheia de papéis e com um cinzeiro transbordando. Alguns homens amar¬ravam as cordas com a habilidade natural de um mari¬nheiro experiente. O lugar cheirava a cordas, cigarros e suor; os cheiros comuns nos teatros.
__ Este é o mezanino — disse Maddy. — Não há muitos iguais a este no país. Infelizmente. Aqui você tem mais flexibilidade com as cordas e os sacos de areia usados como contrapesos. É aqui que se cuida de todas as peças móveis. A cortina. — Ela pôs a mão sobre um amontoado de cordas etiquetadas. — Isto pesa mais de 200 quilos. Quando chega a hora de abaixá-la, no terceiro ato, o diretor de palco avisa o operador, pelo intercomunicador. O iluminador ajuda com um aviso luminoso.
__ Parece bastante simples.
__ E é. A não ser que você tenha dois ou três avisos ao mesmo tempo ou um cenário que é tão pesado que são necessários três homens para cuidar das cordas. É um grande espetáculo. Os caras aqui de cima não terão muito tempo de folga.
__ Não entendo como você sabe tanto.
__ Eu vivi no teatro minha vida toda. — Um ho¬mem surgiu na porta, abriu caminho entre os dois e começou a falar com os homens que estavam amarran¬do as cordas. — Vamos para a passarela. É uma vista e tanto.
Maddy passou por várias cordas, por debaixo de uma bancada de metal e pisou numa estreita platafor¬ma de ferro. Lá embaixo, auxiliares de palco estavam por todos os cantos. Embora tudo parecesse mais or¬ganizado de cima, Reed começou a sentir o trabalho de equipe do pessoal.
__ Se alguma coisa tem de ser pintada a esta altura, é aqui que eles fazem isso. — Maddy deu uma olhada para baixo e balançou a cabeça. — Não é trabalho para mim.
Um letreiro surgiu lá embaixo. Um pano desceu silenciosamente. Então, um holofote foi ligado, a luz aumentando e diminuindo, depois se fixando. Maddy corria as mãos de cima a baixo no corrimão.
__ Aquele é meu lugar na primeira cena do terceiro ato.
__ Se eu não a conhecesse, diria que você está ner¬vosa.
__ Não, não estou nervosa. Estou apavorada.
__ Por quê? — Reed colocou a mão sobre as dela. — Você sabe do que é capaz.
__ Eu sei o que já fiz — corrigiu Maddy. — Mas ainda não fiz isso. Esta noite, quando as cortinas se abrirem, será a primeira vez. Lá está seu pai. — Olhan¬do para baixo, Maddy deixou escapar um suspiro. — Parece que ele está conversando com o administrador do teatro. Você deveria descer lá.
__ Não, eu deveria ficar aqui com você. — Reed estava só começando a perceber como isso era verda¬de. Ele não viajara para a Filadélfia no meio da noi¬te porque não confiava em Maddy. Reed não fora ao teatro com ela naquela manhã porque não tinha nada melhor para fazer. Ele fizera ambas as coisas porque, onde quem quer Maddy estivesse, era o lugar certo. Ela ganhava a vida dançando. E, talvez, Reed também. Isso o deixou apavorado.
Dez metros acima do palco, numa plataforma de ferro estreita, ele sentiu o medo de cair — mas não o medo de cair fisicamente lá no chão.
__ Vamos descer. — Reed queria ver pessoas, estra¬nhos, barulhos, qualquer coisa para distraí-lo do que estava crescendo em seu peito.
__ Tudo bem. Ah, lá está minha família. Veja. — O nervosismo se fora e o prazer foi tão intenso que Maddy passou o braço em volta da cintura de Reed sem se dar conta de que ele ficara tenso. — Lá está meu pai. Está vendo aquele homem magricela se intrometendo no trabalho de um carpinteiro? Ele poderia cuidar de todas as partes do espetáculo — luzes, cenários, adereços. Ele poderia dirigi-lo ou coreografá-lo, mas nunca quis fazer isso. — Maddy olhava para baixo, cheia de admiração e amor. — Holofotes, é disso que meu pai gosta.
__ E quanto a você?
__ Disseram que eu herdei boa parte dele. Minha mãe está lá. Está vendo aquela mulher bonita com o menininho? Aquele é meu sobrinho mais novo, Chris. Ontem ele decidiu que seria um iluminador, só porque subiu numa grua. E minha irmã, Abby. Ela não é ado¬rável?
Reed olhou para baixo, prestando atenção na mu¬lher elegante de cabelos louros. Havia um ar de felici¬dade nela, ainda que Abby estivesse parada no meio do caos. Ela pôs a mão sobre o ombro do outro menino e apontou para a plateia.
__ Ela está mostrando ao Ben onde eles se sentarão hoje à noite, acho. Ele está mais entusiasmado com a viagem a Nova York, amanhã. Dylan vai se encontrar com seu relações públicas.
Reed observou Dylan, que se abaixava para colocar Chris sobre os ombros. O menino gritou de alegria.
__ Eles são meninos ótimos. — Ao perceber cer¬ta ansiedade em sua própria voz, Maddy tratou de se esquecer daquilo. Ela tinha o bastante, lembrou-se. — Vamos cumprimentá-los.
No palco, Maddy desviou de uma fileira de holofo¬tes coloridos espalhados pelo chão. Mais tarde, naquela noite, aqueles mesmos holofotes a iluminariam. Ao ou¬vir o sinal, Maddy pegou Reed pela mão e o empurrou para o lado, enquanto a cortina de brocados descia.
__ É lindo, não?
Reed olhava para as milhares de lantejoulas.
__ É mesmo impressionante.
__ Usamos esta cortina durante a cena do sonho, quando imagino que sou uma bailarina em vez de uma dançarina de boate. E, claro, faço piruetas até cair nos braços de Jonathan. O bom do teatro — e dos sonhos — é que você pode realizar tudo o que quiser. Enquanto davam a volta num cenário, Maddy ou¬viu, ao longe, a voz do seu pai.
__ Valentine! — Frank O'Hurley, pequeno e magrelo, agarrou o homem corpulento, dando-lhe um abraço apertado. — Minha menina me disse que você mostrou suas garras para patrocinar esta peça. — Feliz, Frank se afastou e deu uma risadinha para Edwin. — Há quanto tempo...
__ Tempo demais. — Edwin apertava a mão de Frank com entusiasmo. — Demais mesmo. Você não parece ter envelhecido.
__ Seus olhos é que ficaram velhos.
__ E Molly? — Edwin se abaixou para beijá-la no rosto. — Linda como sempre.
__ Não há nada de errado com seus olhos, Edwin — garantiu ela, beijando-o. — É sempre bom reencon¬trar um amigo.
__ Eu nunca me esqueci de você. E nunca deixei de invejá-lo por causa da sua esposa, Frank.
__ Neste caso, não posso deixá-lo beijá-la de novo. Talvez você se lembre da minha Abby.
__ Uma das trigêmeas. — Edwin pegou a mão de Abby entre as suas. — Incrível. Qual...
__ A do meio — respondeu ela, calmamente.
__ Talvez tenha sido sua fralda que eu troquei.
Com uma risada, Abby se virou para Dylan.
__ Meu marido, Dylan Crosby. O sr. Valentine, cla¬ro, é um velho amigo íntimo da família.
__ Crosby. Li alguns dos seus livros. Você não traba¬lhou com o meu filho em um deles?
__ Sim, trabalhei. — Dylan sentiu a mão de Ben se insinuar para dentro da sua e entrelaçou seus dedos aos dele. — Você estava fora da cidade na ocasião, por isso nunca nos encontramos.
__ E netos. — Edwin lançou outro olhar para Frank e Molly antes de se abaixar e ficar na altura dos meni¬nos. — Um belo par. Como vai você? — Ele estendeu a mão para cada um dos meninos.
__ Isso é uma coisa que eu quero para mim, Frank.
__ Você sempre teve um coração fraco para capetinhas — admitiu Frank, piscando para os meninos. — Abby vai nos dar outro neto no próximo inverno.
__ Parabéns. — Edwin a invejava; ele não podia evitar. Mas também se sentia feliz. — Se vocês não ti¬verem nada planejado, gostaria que jantassem comigo antes do espetáculo.
__ Somos os O'Hurley — lembrou-se Frank. — Nunca temos planos que não possam ser alterados. Como está seu menino, Edwin?
__ Está bem. Para falar a verdade, ele... Bem, ele está aqui agora. Com sua filha.
Quando Frank se virou, uma luz se acendeu sobre a cabeça dele. Ele viu Maddy de mãos dadas com um homem esguio e alto, de traços bem delineados. E viu o olhar dela, cheio de afeto, brilhante e um pouco inseguro. Sua bebê estava apaixonada. A fisgada que sentiu no peito era, em parte, felicidade, em parte, dor. As duas emoções abrandaram quando Molly lhe deu a mão.
Foram feitas apresentações mais uma vez e Frank manteve os olhos fixos em Reed. Se aquele era o ho¬mem que sua caçula escolhera, cabia a ele garantir que Maddy fizera uma boa escolha.
__ Então você está cuidando da Valentine Records — disse Frank. Ele não acreditava em abordagens su¬tis. — Está se saindo bem?
__ Gosto de achar que sim. - O homem diante de Reed era como um galo de briga: pequeno, mas agressivo. Os cabelos de Frank estavam ficando mais ralos e seus olhos eram de um azul profundo. Reed se perguntava por que, quando olhava para Frank O'Hurley, via Maddy. Havia pouca ou nenhuma semelhança na superfície. Se havia algu¬ma semelhança — e de algum modo havia, estava no interior. Talvez tenha sido por isso que Reed se sentiu tão atraído pelo homem. E também foi por isso que Reed se esforçou para manter-se distante.
__ Uma gravadora significa muitas responsabili¬dades — continuou Frank. — É preciso uma pessoa esperta no comando. Um homem seguro. Você não é casado, é?
Com raiva de si mesmo, Reed sentiu um sorriso sur¬gindo.
__ Não, não sou.
__ Nunca foi?
__ Papai, já lhe mostrei que mudamos o ritmo da cena final? — Pegando-o pela mão, Maddy o levou até as coxias do palco esquerdo. — O que você pensa que está fazendo?
__ Sobre o quê? — Frank deu uma risadinha e a bei¬jou no rosto. — Deus, que rosto lindo você tem. Ainda é o meu nabinho.
__ Continue fazendo elogios assim que um dia você vai apanhar. — Maddy o levou para trás da mesa do diretor de palco, enquanto um grupo de auxiliares car¬regava um baú. — Pare de pressionar o Reed assim, papai. Isso é tão... tão óbvio.
__ O que é óbvio é que você é minha bebezinha e eu tenho o direto de cuidar de você... Quando estou por perto.
De braços cruzados, Maddy balançou a cabeça.
__ Papai, você fez um bom trabalho me educando?
__ Fiz o melhor.
__ Você diria que sou uma mulher sensata e respon¬sável?
__ Com certeza — disse Frank, estufando o peito. — Eu dou um soco no primeiro homem que disser o contrário.
__ Que bom. — Maddy lhe deu um beijo forte. - Então pare com isso, O'Hurley. — Ela lhe deu dois tapinhas carinhosos no rosto e saiu do palco mais uma vez. — Sei que todo mundo tem coisas para fazer esta tarde — disse, respondendo à piscadela de sua mãe. - Eu vou para a sala de ensaios para melhorar alguns dos meus passos.


Maddy se aqueceu lentamente, com cuidado, alongan¬do os músculos um a um para evitar qualquer contu¬são. Só ela estava na sala. Ela e uma parede cheia de espelhos. Maddy podia ouvir a máquina de lavar no camarim do outro lado do corredor. Na pequena copa no fim do mesmo corredor, alguém abriu e fechou a porta da geladeira. Duas pessoas da manutenção esta¬vam conversando sobre fazer um intervalo. A conversa diminuiu quando Maddy se abaixou para encostar o queixo no joelho. Só havia ela e a parede espelhada.
Fora ideia de Macke criar a cena do sonho, com sua influência do balé clássico. Quando Maddy lhe disse que não fazia um en pointe em seis meses, o coreógra¬fo apenas sugeriu que Maddy pegasse suas sapatilhas de ponta e praticasse. Foi o que ela fez. As aulas adicio¬nais de pointe todas as semanas acrescentaram horas de trabalho à sua agenda. Maddy tinha esperança de que aquilo valesse a pena.
Ela trabalhara, ensaiara, e os passos e a música esta¬vam gravados em sua mente. Ainda assim, se havia um número que lhe dava calafrios, era o do sonho.
Maddy ficaria sozinha no palco durante os qua¬tro primeiros minutos. Sozinha, com uma iluminação azul-claro, o pano atrás dela brilhando e reluzindo. A música cresceria... Maddy apertou o botão do grava¬dor e se posicionou em frente aos espelhos. Os bra¬ços cruzados sobre o peito e as mãos sobre os ombros. Lentamente, bem devagar, Maddy ficaria na ponta dos pés. E começaria.
A confusão do lado de fora desaparecera. Uma sé¬rie de fabulosas pirouettes. Maddy não era Mary ain¬da, e sim o sonho mais íntimo de Mary. Jeté, braços estendidos. Tinha de parecer sem esforço, como se ela flutuasse. Os músculos contraídos e a dor não deve¬riam ser visíveis. Maddy era uma ilusão, uma bailarina de caixinha de música usando um tutu e uma tiara. Fluida. Ela imagina que seus membros eram feitos de água, mesmo sentindo o esforço ao realizar uma série de fouets. Ela levava os braços para cima da cabeça ao fazer um arabesque. Maddy ficaria assim, imóvel, por uns poucos segundos apenas, até que Jonathan surgisse no palco para transformar o sonho num pas de deux.
Maddy deixou seus braços caírem e os balançou para relaxar os músculos. Era o máximo que podia fazer sem um parceiro. Indo até o gravador, Maddy apertou o botão de retorno. Ela repetiria os movi¬mentos.
__ Nunca a vi dançando assim.
Maddy perdeu totalmente a concentração ao olhar para o longe e ver Reed na porta.
__ Não é meu estilo. — Maddy parou a fita. — Eu não sabia que você ainda estava por perto.
__ Você é uma surpresa constante — murmurou Reed, entrando na sala. — Se eu não a conhecesse, teria olhado e pensado que acabara de passar por uma bailarina.
Embora tivesse ficado feliz, Maddy foi modesta.
__ Uns poucos passos de balé clássico não fazem um Lago dos Cisnes.
__ Mas você poderia fazer, se quisesse, não? — Reed pegou a toalha que Maddy segurava, dando pancadi¬nhas em seu próprio rosto.
__ Não sei. Provavelmente, eu estaria no meio de uma coreografia de A Bela Adormecida e sentiria uma vontade louca de dar uns passos de sapateado.
__ Uma perda para o balé e um ganho para a Broadway.
__ Continue — disse Maddy, rindo. — Preciso ou¬vir isso.
__ Maddy, você está aqui há quase duas horas. Vai se cansar antes que a cortina se abra.
__ Hoje eu tenho energia suficiente para fazer três apresentações.
__ E quanto à comida?
__ Dizem que os operários de palco vão preparar um sopão. Se eu comer um pouco lá pelas 16h ou 17h, vou conseguir me manter pelo primeiro ato.
__ Quero levá-la para almoçar.
__ Ah, Reed, não posso. Não antes da noite de es¬treia. Depois. — Maddy lhe estendeu as mãos. — Po¬demos jantar.
__ Tudo bem. — Reed sentiu como as mãos dela estavam frias, mesmo depois de Maddy ter dançado tanto. Frias demais, tensas demais. Ele não sabia como começar a acalmá-la. — Maddy, você sempre fica as¬sim antes de uma estreia?
__ Sempre.
__ Mesmo estando segura de que a peça será um su¬cesso?
__ Só porque estou segura não significa que não precise me esforçar para fazer dela um sucesso. E isso me deixa nervosa. Nada que valha a pena acontece fa¬cilmente.
__ Não. — Seus olhos ficaram mais intensos con¬templando os dela. — Não mesmo.
Mas eles não estavam falando de noites de estreia ou sobre o teatro. Os dedos de Reed ficaram tensos quando ele falou novamente.
__ Você realmente acredita que se trabalhar duro e acreditar em alguma coisa ela não pode dar errado?
__ Sim, acredito.
__Em nós?
Maddy engoliu em seco.
__Sim, em nós.
__ Mesmo com todas as improbabilidades?
__ Não é uma questão de probabilidade, Reed. So¬mos seres humanos.
Reed soltou as mãos dela e se afastou. Ele sentira aquele mesmo medo de cair que sentira na passarela.
__ Eu quero ser tão otimista quanto você. Eu queria poder acreditar em milagres.
Maddy sentiu que toda a esperança que tinha den¬tro dela se esvaía.
__ Eu também.
__ O casamento é importante para você. — Reed podia vê-la pelo espelho, pequenina e muito reta.
__ Sim. O compromisso. Fui educada para respeitar esse compromisso, para entender que o casamento não é um fim, é o começo. Sim, é importante.
__ É apenas um contrato — corrigiu ele, quase fa¬lando sozinho. — Uma coisa jurídica e não necessa¬riamente vinculada. Nós dois conhecemos muito bem contratos, Maddy. Nós podemos assinar um.
Ela abriu a boca, mas a fechou lentamente, antes de tentar dizer qualquer coisa.
__ Como é que é?
__ Eu disse que nós assinaremos um contrato. É im¬portante para você, mais importante do que eu achava. E isso realmente não importa para mim. Podemos fa¬zer exames de sangue, certidões e está feito.
__ Exames de sangue. — Maddy deixou escapar um suspiro trêmulo, agarrando-se na mesinha atrás dela. — Certidões. Bem, isso certamente acaba com toda aquela bobagem romântica, não é?
__ É só uma formalidade. — Algo estava se revi¬rando no estômago dele quando Reed se virou para Maddy. O que ele estava fazendo era muito claro. Esta¬va fechando a porta da sua própria jaula. Por que Reed estava fazendo isso era outra questão. — Não conheço exatamente a lei, mas podemos viajar para Nova York na segunda e cuidar disso. Você poderá estar de volta para o espetáculo da terça-feira.
__ Nós não iríamos querer que isso interferisse na nossa agenda, não é mesmo? — perguntou ela, calma¬mente. Maddy sabia que Reed a magoaria, mas não sa¬bia que ele simplesmente partiria seu coração. — Agra¬deço a oferta, Reed, mas vou recusá-la. — Ela apertou o botão do gravador novamente e deixou que a música tocasse.
__ O que você quer dizer com isso? — Reed a pe¬gou pelo braço antes que ela pudesse se posicionar.
__ Você entendeu muito bem. Agora me dê licença que eu preciso ensaiar.
Maddy jamais lhe falara com aquele tom de voz frio antes.
__ Você queria se casar e eu concordei com isso. O que mais você quer, Maddy?
Ela se afastou bruscamente para encará-lo.
__ Mais, muito mais do que você pretende me dar. Meu Deus, acho que muito mais do que você é capaz de dar. Não quero um pedaço de papel, droga. Não que¬ro que você me faça nenhum favor. Tudo bem, Maddy quer se casar, e já que eu não me importo, assinarei uma linha pontilhada para fazê-la feliz. Bem, você pode ir para o inferno.
__ Não foi isso que eu quis dizer. — Reed a teria segurado pelos ombros, mas Maddy se afastou.
__ Eu sei o que você quis dizer. Sei muito bem. O casamento é apenas um contrato, e contratos podem ser quebrados. Talvez você queira adicionar uma cláu¬sula muito clara e direta, dizendo que você pode rom¬per o contrato quando se cansar dele. Não, obrigada.
Será que tudo soara assim tão frio... tão mesqui¬nho? Reed estava fora de si.
__ Maddy, eu não vim aqui sabendo que você en¬tenderia as coisas desse jeito. Apenas aconteceu.
__ Muito espontâneo da sua parte. — Havia sarcas¬mo na voz dela, outra novidade. — Por que você não vai pentear macacos?
__ O que você quer? Um jantar à luz de velas e que eu me ajoelhe? Não estamos acima disso?
__ Estou cansada de lhe dizer o que quero. — O fogo sumira dos olhos dela. Eles estavam frios nova¬mente, e, pela primeira vez, cheios de desprezo. — Te¬nho de estar no palco daqui a poucas horas. E você já tornou isso bastante difícil para mim. — Maddy pegou o gravador para fazer voltar a fita ao início. — Deixe-me sozinha, Reed.
Ela fez a contagem e começou. Maddy continuou a dançar quando ficou sozinha e as lágrimas começaram a cair.

Capítulo Doze

Q
uando Reed saiu pelo corredor, encontrou seu pai.
__ Maddy ainda está lá em cima? — Edwin segurou seu filho pelos ombros. — Acabei de conver¬sar com o administrador-geral do teatro. Parece que os ingressos para a apresentação desta noite estão esgota¬dos. Na verdade, estão esgotados para toda a semana. Quero contar isso a ela.
__ Ela precisa de um tempo. — Reed enfiou as mãos fechadas nos bolsos, lutando contra a sensação de frus¬tração. — Ela está trabalhando na coreografia.
__ Entendo. — Edwin achava que entendia. — Ve¬nha cá um minuto. — Ele apontou para o escritório do diretor de palco. Uma vez lá dentro, Edwin trancou a porta. — Você costumava me contar quando estava com problemas.
__ As pessoas chegam a um ponto em que acham que sabem como resolver seus problemas sozinhos.
__ Você sempre foi bom nisso, Reed. Isso não signi¬fica que não possa contar comigo. — Edwin pegou um charuto, acendeu-o e esperou.
__ Eu a pedi em casamento. Não — acrescentou rapidamente, antes que Edwin pudesse ficar feliz. — Não foi bem assim. Eu expus os acordos necessá¬rios para um casamento. Mas ela os jogou na minha cara.
__ Acordos?
__ Sim, acordos. — Reed estava armado, e sua voz era ríspida e impaciente. — Precisamos de exames de sangue e certidões. E isso tem de ser feito de acordo com nossos compromissos.
__ Isso? — repetiu Edwin, inclinando ligeiramente a cabeça. — Você transformou tudo numa coisa muito seca, Reed. Sem floreios?
__ Ela pode ter uma carreta cheia de flores se qui¬ser. — O escritório era pequeno demais para que ele saísse correndo. Em vez de fazer isso, Reed ficou onde estava, irritado com a imobilidade forçada.
__ Se ela quiser. — Entendendo muito bem o que acontecera, Edwin meneou a cabeça e se sentou em uma cadeira. — Reed, se você pôs o casamento neste nível com uma mulher como Maddy, merece que ela jogue esses termos na sua cara.
__ Talvez eu mereça. Talvez seja o melhor. Não sei por que entrei nessa confusão toda.
__ Pode ser porque a ama.
__ O amor é uma palavra para vender cartões no Dia dos Namorados.
__ Se você acredita mesmo nisso, pode me conside¬rar uma falha total.
__ Não. — Ofendido, Reed se virou para o pai. — Você nunca falhou em nada.
__ Isso não é verdade. Eu falhei no meu casamento.
__ Não foi você. — A amargura subiu pela gargan¬ta, grande demais para ser ignorada.
__ Sim, falhei. Agora me ouça. Nunca conversamos direito sobre esse assunto. Você nunca quis e eu deixei passar porque sentia que você estava chateado demais. Eu não devia ter deixado passar. — Edwin olhou para o charuto e então lentamente o apagou, esmagando-o. — Eu me casei com sua mãe sabendo que ela não me amava. Eu achava que podia mantê-la presa a mim porque eu podia mexer alguns pauzinhos para lhe dar o que ela queria. Quanto mais pauzinhos eu mexia, mais ela se sentia presa. Quando finalmente ela se libertou, isso foi tanto uma falha minha quanto dela.
__ Não.
__ Sim — discordou Edwin. — Um casamento é feito por duas pessoas, Reed. Não é um negócio ou um acordo. Não é uma pessoa tentando manter a outra por obrigação.
__ Não sei do que você está falando — disse Reed. — E não vejo por que devemos tocar nesse assunto agora.
__ Você sabe que há um motivo. Ela está lá em cima agora.
Reed se deteve assim que segurou na maçaneta da porta. Lentamente ele se acalmou e se virou.
__ Você está certo.
Edwin se ajeitou na cadeira.
__ Sua mãe não me amava e não amava você. Des¬culpe por isso, mas você deveria saber que o amor não é algo que surge no parto ou da obrigação. É algo que vem do coração.
__ Ela o traiu.
__ Sim. Mas também me deu um presente: você. Eu não posso odiá-la, Reed. E já está na hora de você parar de permitir que o que ela fez controle sua vida.
__ Eu podia ser como ela.
__ É isso o que você pensa? — Edwin se levantou, segurando Reed pelo colarinho, no primeiro gesto de violência que mostrou. — Há quanto tempo você está pensando nisso?
__ Eu podia ser como ela — repetiu Reed. — Ou podia ser como o homem com o qual ela dormiu e que eu nem sei quem é.
Edwin o soltou e se afastou.
__ Você quer saber quem é ele?
Reed passou as mãos pelos cabelos.
__ Não, eles não significam nada para mim. Mas como posso saber como sou por dentro? Como posso saber que não herdei o que eles eram?
__ Não pode. Mas pode se olhar no espelho e pen¬sar em quem você é e tem sido, em vez do que talvez seja. E você pode acreditar, como eu acredito, que os últimos 35 anos que passamos juntos foram mais im¬portantes.
__ Sei que foram, mas...
__ Chega de "mas".
__ Estou apaixonado por Maddy. — Com estas pa¬lavras caíram lentamente todas as defesas que Reed construíra ainda na infância. — Como vou saber que isso não vai mudar no mês que vem ou no próximo ano? Como vou saber se sou capaz de lhe dar o que ela precisa para o resto de nossas vidas?
__ Você nunca saberá essas coisas. — Por que as respostas não eram mais simples? Edwin achava que as respostas que Reed buscava nunca foram simples. — Você precisa arriscar. O casamento é algo que você tem de querer e algo pelo que você precisa se esforçar. Se você a ama, vai fazer isso.
__ Meu maior medo é magoá-la. Ela é a melhor coisa que já me aconteceu.
__ Duvido que você tenha mencionado isso para ela enquanto falava sobre os acordos.
__ Não. — Ele esfregou as mãos no rosto. — Eu estraguei tudo.
__ Estou mais preocupado se você foi gentil.
__ Não se preocupe com isso. Eu a afastei porque estava com medo de me aproximar dela.
Sorrindo, Edwin deu meia-volta.
__ Vou lhe dizer uma coisa: nenhum filho de Edwin Valentine deixa uma mulher como Maddy O'Hurley escapar porque acha que pode não ser perfeito.
Depois de passar a mão no rosto, Reed quase riu.
__ Isso parece um desafio.
__ E é mesmo. — Edwin pôs as mãos sobre os om¬bros de Reed. — E estou apostando em você. Lembra daquele jogo no último ano do colégio? Na nona en¬trada, dois eliminados, o placar estava empatado. Você deixou que o batedor fizesse um ponto.
__ É, eu lembro. — Dessa vez Reed riu mesmo. — Eu joguei uma bola com efeito e ele rebateu para fora do campo.
__ Isso mesmo. — Edwin deu uma risadinha. — Mas foi um belo lançamento. Por que você não paga uma bebida para o seu velho?


Com o cabelo preso por uma faixa e o roupão mais surrado que ela tinha amarrado na cintura, Maddy se sentou em frente ao espelho de maquiagem e cuidado¬samente colocou cílios postiços. A maquiagem estava quase pronta e mesmo com um olho com cílios e outro sem, Maddy já capturara a aparência exótica de Mary. Agora só um pouco mais de cor nas bochechas. Um pouco mais de sombra nos olhos e um batom vermelho vivo nos lábios. Enquanto prendia os cílios postiços, es¬perava que o nó em seu estômago se desfizesse.
Nervosismo da estreia, apenas nervosismo da es¬treia, disse a si mesma enquanto cuidadosamente pas¬sava o delineador no olho esquerdo. Mas havia mais do que o nervosismo da estreia se remexendo dentro dela. E Maddy não podia se livrar daquilo.
Casamento. Reed falara em casamento — mas de acordo com seus termos. Uma parte sua, sempre aber¬ta à esperança, esperara pelo momento em que Reed aceitara o fato de que deveriam ficar juntos. Uma parte sua, sempre disposta a ver o melhor das coisas, tinha certeza de que esse momento chegaria. Mas agora que isso acontecera Maddy não aceitara. O que Reed lhe oferecera não foram anos felizes, e sim um pedaço de papel que os manteria juntos legalmente, sem deixar nada para os sentimentos.
Maddy tinha sentimentos demais, ela disse para si mesma. Emoções demais e pouca razão. Uma mulher ra¬cional teria aceitado os termos de Reed e feito o melhor com isso. Mas Maddy preferiu terminar tudo. Ela enca¬rou seu reflexo no espelho iluminado. Aquela noite era uma noite de inícios — e uma noite de encerramentos.
Ela se levantou e se afastou do espelho. Maddy vira o bastante de si mesma.
Lá fora, no corredor, as pessoas passavam correndo. Maddy podia ouvir o barulho, o nervosismo e a ener¬gia que dominavam uma noite de estreia. Seu camarim estava cheio de flores, dezenas de arranjos que dobra¬vam no espelho e que perfumavam todo o ambiente.
Havia rosas de Chantel. Rosas brancas. Seus pais lhe enviaram um buquê de margaridas que pareciam ser sil¬vestres. Havia um vaso com gardênias que foram envia¬das por Trace — Maddy soube disso antes mesmo de ler o cartão, no qual se lia simplesmente "Quebre a Perna." Por um tempo, Maddy se perguntou como seu irmão sabia onde ela estava e quando deveria lhes enviar flores. Então Maddy parou de imaginar coisas para admirá-las.
Outros arranjos estavam aqui e ali, mas não havia ne¬nhum de Reed. Ela se odiou por desprezar a beleza que tinha em seu camarim e se deter no que não estava ali.
__ Trinta minutos, srta. O'Hurley.
Maddy apertou a barriga com a mão ao ouvir o cha¬mado. Trinta minutos! Por que ela tinha de deixar Reed invadir sua cabeça agora? Maddy não queria que aquilo continuasse. Ela não queria cantar e dançar esta noite, neste teatro, para fazer centenas de pessoas rirem. Maddy queria ir para casa e se esconder sob as cobertas.
Ouviu-se uma batida rápida na porta, mas antes que ela pudesse responder seus pais surgiram.
__ Será que você pode receber uns poucos rostos amigos? — perguntou Molly.
__ Ah, sim. — Maddy estendeu as mãos para sua mãe. — Preciso de todos os rostos amigos possíveis.
__ O teatro está lotado. — Frank deu uma risadinha ao olhar para o camarim. Havia uma estrela na porta. Ele não poderia ter pedido mais para sua filha. — Você tem um camarim só seu, filha.
__ Tem certeza?
__ Sim, tenho. — Frank lhe deu um tapinha na mão. — Conversei com o administrador-geral. Ele estava engraxando seus sapatos de dança.
__ Ele deveria esperar até que as cortinas o chamem para o número de dança dele. — Maddy pôs a mão na barriga novamente, imaginando se no camarim havia algum antiácido.
__ Você não vai precisar de nada depois que as corti¬nas se abrirem — comentou Molly, lendo os pensamen¬tos da filha. — Você está nervosa por causa da estreia ou é por outro motivo que quer nos contar, Maddy?
Ela hesitou, mas nunca houvera segredos entre Maddy e sua família.
__ É que estou apaixonada por um completo idiota.
__ Ah, bom. — Molly arqueou uma sobrancelha na direção de Frank. — Eu sei bem como é isso.
__ Só mais um minuto — disse ele, mas foi empur¬rado para fora do camarim pela esposa.
__ Fora, Frank. Maddy tem de se trocar.
__ Eu passei talco no bumbum dela — resmungou ele, deixando que Molly o empurrasse para fora. — Arrase — disse Frank à filha. Dando uma piscada, ele se foi.
___ Ele é ótimo, não? — Maddy sorriu ao ouvi-lo gritar para uma das dançarinas.
__ Ele tem seus momentos. — Molly deu uma olha¬da no traje de lantejoulas e penas pendurado atrás da porta. — Este é para o número de abertura?
__ Sim.
__ Vou lhe ajudar. — Molly tirou o traje do cabide, enquanto Maddy tirava o roupão. — O idiota não se¬ria Reed Valentine, seria?
__ Ele mesmo. — Maddy se remexeu toda para en¬trar num minúsculo biquíni.
__ Nós jantamos com ele e com o pai dele na noite passada. — Molly ajudou Maddy a fechar o sutiã que ela usaria por baixo do figurino. — Ele parece um ho¬mem muito bom.
__ Ele é. Mas eu não o quero ver nunca mais.
__ Sei.
__ Quinze minutos, srta. O'Hurley.
__ Acho que vou vomitar — sussurrou Maddy.
__ Não vai, não. — Com mãos habilidosas, Molly grudou as partes de velcro nos quadris de Maddy. — Eu achei que Reed estava um pouco distraído durante o jantar.
__ Ele tem muitas preocupações. — Maddy deu uma voltinha para garantir que o traje estava bem pre¬so. — Contratos, principalmente — acrescentou ela, resmungando. — De qualquer modo, não estou inte¬ressada.
__ Sim, dá para ver. Eles não tornam nossas vidas mais fáceis, sabe?
__ O quê?
__ Os homens. — Molly rodopiou a filha. — Eles não foram postos neste planeta para facilitar nossas vidas. Eles apenas foram postos aqui.
Pela primeira vez em muitas horas Maddy sentiu que riria.
__ Você alguma vez pensou que as amazonas é que estavam certas?
__ Aquelas que matavam os homens depois de faze¬rem amor com eles? — Molly pareceu refletir seriamen¬te sobre a pergunta antes de negar. — Não, não acho. Não é nenhum consolo ter um só homem por toda a vida. Você se acostuma. Onde estão seus sapatos?
__ Bem ali. — Examinando a mãe, Maddy os cal¬çou. — Você ainda ama papai, não? Quero dizer, ama de verdade, do mesmo modo que sempre amou?
__ Não. — Quando Maddy ficou de boca aber¬ta, Molly apenas riu. — Nada é a mesma coisa. Meu amor por Frank agora é diferente do amor de 30 anos atrás. Nós tivemos quatro filhos e uma vida inteira de brigas, gargalhadas e lágrimas. Eu não podia amá-lo tanto assim quando tinha 20 anos. E duvido que o ame agora do mesmo jeito que o amarei quando tiver 80 anos.
__ Eu queria... — Maddy deixou as palavras fugi¬rem, balançando a cabeça.
__ Diga-me o que você queria. — O tom de voz de Molly era carinhoso, o que era raro. — Uma filha pode dizer qualquer coisa para sua mãe, especialmente seus desejos.
__ Eu queria que Reed pudesse entender isso. Eu queria que ele pudesse ver que, às vezes, um casamen¬to pode dar certo. Mamãe, eu o amo tanto!
__ Então vou lhe dar um conselho. — Ela tirou a peruca de Maddy da cabeça do manequim. — Não de¬sista dele.
__ Eu acho que ele está desistindo de mim.
__ Bem, isso será a primeira vez que uma coisa des¬tas acontece com uma O'Hurley. Sente-se, menina. Talvez esta peruca a ajude a pensar melhor.
__ Obrigada.
Soou o aviso de cinco minutos. Molly foi até a porta e então virou-se para dar uma última olhada na filha.
__ Não esqueça suas falas.
__ Mamãe. — Maddy se levantou, mantendo os ombros retos. — Eu vou arrasar.
__ Aposto que sim.
Maddy saiu do camarim quando faltavam quatro minutos. Um membro do coro desceu as escadas com um traje exagerado de penas sobre a cabeça. A intro¬dução já estava tocando. Ela caminhou em direção à música, perdendo um pouco de Maddy O'Hurley a cada passo. Wanda já estava nas coxias, respirando fundo.
__ É isso aí.
Maddy sorriu para ela antes de olhar por sobre os ombros do diretor de palco, para o monitor sobre a mesa dele. Era dali que ele assistia ao espetáculo, ven¬do-o como a plateia via.
__ Qual o seu recorde de chamadas ao palco para aplausos, Wanda?
__ Certa vez, em Rochester, fomos aplaudidos 17 vezes.
Maddy pôs a mão na cintura.
__ Vamos bater este recorde esta noite. — Ela en¬trou no palco, encarou a cortina fechada e assumiu sua marcação. Enquanto os outros dançarinos entra¬vam no palco, ela sentiu o entusiasmo misturado ao medo. O cenário da boate atrás dela estava apagado. Escondido pelas coxias do lado direito, estava Macke. Maddy lhe deu uma olhada, acenando com a cabeça. Ela estava pronta.
__ Luzes da plateia diminuindo... agora!
Maddy respirou fundo.
__ Primeiro sinal... agora!
Sobre sua cabeça, os holofotes se acenderam, banhando-a num arco-íris.
__ Luzes da plateia desligadas... agora!
A plateia ficou em silêncio.
__ Cortina.
A cortina se abriu e a música começou.
Quando Maddy saiu pelo lado direito do palco para a primeira troca de traje, a energia estava a toda. Imedia¬tamente os figurinistas começaram a tirar uma roupa e ao mesmo tempo a vestiam com oura. Maddy suspirou quando lhe tiraram a peruca e seus cabelos caíram.
__ Mantenha esta energia até a última cena e nós lhe compraremos o melhor bife da Filadélfia.
Maddy respirou fundo mais uma vez ao olhar para Macke. Seu vestido foi fechado, os sapatos trocados e a maquiagem retocada, tudo em apenas dois minutos.
__ É sua vez.
Então Maddy saiu correndo por baixo do palco, en¬trando na cena pelo outro lado.
Ela passou sob o palco, atravessando-o por detrás da orquestra, onde os músicos agora estavam em silêncio. O ator que interpretava Jonathan e um outro, que fa¬zia o melhor amigo dele, estavam repassando as falas. Maddy ouviu quando a plateia gargalhou, enquanto passava por um salão provisório onde alguns membros da equipe se juntavam em cadeiras e num sofá velho. Perto da escada que a levaria à parte de trás do palco esquerdo, um grupo de auxiliares se reunia em torno de uma pequena televisão portátil. O volume estava baixo, por isso podia-se ouvir claramente o que acontecia no palco. Maddy parou, sabendo que tinha algum tempo antes de entrar em cena. Eles, claro, também sabiam.
__ Quem está ganhando? — perguntou, dando uma olhada no jogo de beisebol.
__ Está empatado.. Pirates contra o Mets. Eles estão na terceira entrada.
__ Aposto no Mets.
Um dos homens deu uma gargalhada.
__ Espero que você não se importe em perder di¬nheiro.
__ Cinco dólares — disse ela, ouvindo que Jonathan terminava sua canção.
__ É sua vez — disse o homem.
__ Claro que é. — Maddy subiu as escadas e entrou no palco para o primeiro encontro com Jonathan C. Wiggings III.
A química estava certa. Mary e Jonathan se encon¬tram na escada da biblioteca. Havia uma ligação. O interesse da plateia estava no romance entre a stripper e o ricaço com um inocente brilho nos olhos.
A última cena antes do intervalo era a do striptease de Maddy. Ela entrava afobada, como fizera duran¬te o ensaio, lutava para tirar o vestido comportado, e trocando-o por um figurino exagerado e peruca. Seu diálogo com Wanda era ríspido, sua conversa com Terry, dura. Então as luzes se acenderam, em tons de ver¬melho e rosa. Ela começou com a energia ao máximo, sem diminuí-la nem um pouco.
Maddy tirou o casaco de peles e deixou-o voar. A plateia gritou quando o casaco caiu no colo do pai de Maddy.
Para você, papai, pensou ela, dando-lhe uma pisca¬da. Porque você me ensinou tudo.
Maddy cumpriu a promessa e arrasou.
O intervalo não era hora de relaxar. Havia troca de trajes, retoques na maquiagem e era preciso recupe¬rar as forças. Maddy ficou sabendo que o Mets estava perdendo na sexta entrada, por 2 a 0. Ela aceitou aqui¬lo filosoficamente. Afinal, Maddy perdera coisas mais importantes naquele dia.
Do seu lugar nas coxias ela bebeu um copo de água e espiou a plateia. As luzes estavam acesas e ela podia ver as pessoas andando pelo teatro. O barulho de en¬tusiasmo estava ali. E Maddy ajudara a criá-lo.
Então, ela viu Reed com as luzes dos lustres iluminando-lhe os cabelos. Seu pai estava ao lado dele, um pouco menor, bem mais velho, mas com a mes¬ma vitalidade. Enquanto Maddy observava, Frank ria e pousava o braço sobre os ombros de Reed. Aquilo a deixou emocionada. Maddy disse a si mesmo que não se importava, que jamais tornaria a se importar, mas ficou emocionada ao ver seu pai rindo ao lado do ho¬mem que amava.
Maddy deu um passo para trás até que não pudesse mais ver a plateia.
__ Com esta cara você vai afugentá-los antes da cena final.
Virando-se, Maddy olhou para Wanda. Elas estavam usando camisolas para a cena que se passava no aparta¬mento que dividiam. O pano de brocados desceria em pouco tempo e Maddy viveria sua cena do sonho.
__ Isso não pode acontecer. Ainda tenho que bater aquele recorde de 17 chamadas ao palco.
__ Ele está na plateia? — Wanda não se preocupou em olhar, apenas indicou com a cabeça.
__ Sim, está.
As luzes da plateia piscaram duas vezes. Wanda co¬meçou a respirar fundo.
__ Acho que você tem de provar alguma coisa. Que eu posso sobreviver, pensou Maddy. Que pos¬so viver minha vida sozinha, se for preciso.
__ Para mim mesma — murmurou ela antes que fos¬sem até suas marcas. — Não para ele, mas para mim mesma.
No teatro, o dramaturgo pode distorcer eventos, alterá-los e manipulá-los para criar um final feliz. Ao fim do espetáculo, Mary e Jonathan ficariam juntos. Eles superaram as diferenças e as mentiras, suas ori¬gens, desconfianças e desilusões. Para eles, o felizes para sempre estava à disposição.
Então os aplausos começaram. Eles cresceram, avas¬saladores, ecoando sobre o coro, que fazia mesuras. Os aplausos continuaram, mais fortes, para os atores prin¬cipais. Com as mãos presas, Maddy esperou. Ela seria a última a receber os aplausos.
Com a cabeça levantada e um sorriso no rosto, Maddy surgiu no palco. Os aplausos fluíram. Os gritinhos começaram no mezanino e se prolongaram pela plateia, ganhando força. Maddy fez a primeira mesura com os gritinhos soando sobre sua cabeça.
Então, eles começaram a se levantar. Primeiro um, dois, depois uma dúzia. Centenas de pessoas se levan¬taram, aplaudindo-a. Atordoada, Maddy só conseguiu permanecer parada, olhando.
__ Faça outra mesura — disse Wanda, baixinho. — Você merece.
Maddy saiu do seu transe e se inclinou novamente antes de dar as mãos para Wanda e seu parceiro. Todo o elenco fez uma mesura novamente e a cortina se fe¬chou. Os aplausos continuaram, onda após onda, até que Maddy abraçou Wanda, apertando-a.
A união estava ali, uma fileira de dançarinos, um gru¬po de atores, todos os que trabalharam, estudaram e ensaiaram incansavelmente durante horas para que aquele momento se tornasse realidade. Maddy se agar¬rou àquilo enquanto a cortina, por um momento, se¬parou-os da plateia.
__ Aqui vamos nós de novo — disse Maddy, man¬tendo suas mãos juntas.
A cortina abriu e fechou 26 vezes.
Maddy precisou de algum tempo para voltar ao seu camarim. Era preciso abraçar algumas pessoas e limpar algumas lágrimas. Macke a pegou no colo e a beijou na boca.
__ Acho bom que você esteja boa assim amanhã — disse ele.
Os bastidores eram uma confusão, com dançarinos pulando de um lado para o outro, planejando uma gran¬de festa de comemoração. Eles eram um sucesso. Por mais ajustes, melhorias que tivessem de fazer antes de estrearem na Broadway, eram um sucesso que não podia ser ignorado. Ninguém podia tirar isso deles. As horas e horas de trabalho, suor e repetições valeram a pena.
Os pés batiam nas escadas enquanto os membros do coro subiam para seus camarins. Alguém com um trom¬pete tocava o toque de alvorada. Maddy abriu caminho pela multidão até o corredor e foi para seu camarim. Lá ela se deixou cair numa cadeira, olhando para o pró¬prio reflexo no espelho.
Havia potes e tubos bagunçados sobre a mesa. Pó-de-arroz e maquiagens de todas as cores. Sobre tudo isso, Maddy olhava para seu próprio rosto, antes de dar uma risadinha.
Ela conseguira.
A porta do camarim se abriu e parte da confusão o invadiu. Maddy viu, primeiro, seu pai, com o casa¬co pendurado nos ombros como um troféu. Sentindo suas energias se renovarem, ela pulou da cadeira e se jogou nos braços do pai.
__ Papai. Foi maravilhoso. Diga que foi maravi¬lhoso.
__ Maravilhoso? Vinte e seis chamadas é mais do que maravilhoso.
__ Você contou.
__ Claro que contei. — Frank a abraçou forte até tirá-la do chão. — Era minha menina lá em cima. Mi¬nha bebê arrasando. Estou tão orgulhoso de você, Maddy.
__ Ah, papai, não chore. — Fungando, Maddy pro¬curou por um lenço no bolso dele. — Você teria orgu¬lho de mim se a peça fosse um fracasso. — Ela enxu¬gou os olhos. — É isso que eu amo em você.
__ Que tal um abraço na sua mãe? — perguntou Molly, estendendo-lhe os braços e a puxando para perto. — Eu só conseguia pensar na primeira vez que você calçou sapatilhas. Eu mal pude acreditar que era você, tão forte e cheia de vida. Forte. — Molly a afas¬tou pelos ombros. — É assim que você é, Madeline O'Hurley.
__ Meu coração ainda está batendo acelerado. — Rindo, Abby abraçou a irmã. — Todas as vezes que você entrava em cena eu segurava a mão de Dylan. Nem sei quantos dedos dele eu quebrei. Ben não para¬va de dizer para a mulher ao lado dele que você era tia dele. Eu só queria...
__ Eu sei, eu também queria que Chantel estivesse aqui. — Maddy se abaixou para abraçar Ben e então levantou os olhos para Chris, que estava aninhado, so¬nolento, nos braços de Dylan.
__ Eu não dormi — disse-lhe o menino, dando um enorme bocejo. — Eu assisti tudo. Estava lindo.
__ Obrigada. Bem, Dylan, você acha que estamos preparados para a Broadway?
__ Acho que vocês vão arrasar na Broadway. Para¬béns, Maddy. — Então ele deu uma risadinha e dei¬xou que seu olhar se voltasse para o lado de Maddy. — Também gostei dos seus trajes.
__ Cintilantes, mas curtos — disse ela, dando uma risadinha abafada, ao olhar para a cinta-liga vermelha que usara.
__ Temos de levar os meninos de volta ao hotel — disse Abby, olhando para Ben, que já estava de mãos dadas com Dylan. — Nós nos encontraremos amanhã, antes de irmos para Nova York. Ligue. — Abby tocou no braço de Maddy, num gesto que dizia tudo. — Vou pensar em você.
__ Nós também já vamos — disse Frank, olhan¬do disfarçadamente para a esposa. — Você vai sair correndo daqui para comemorar com o restante do elenco.
__ Vocês sabem que são bem-vindos... — começou Maddy.
__ Não, não, precisamos descansar. Temos uma apresentação em Buffalo dentro de alguns dias. Venha, vamos deixar a menina se trocar. — Frank empurrou sua família para fora, parando na porta. — Você foi a melhor, nabinho.
__ Não. — Foi então que Maddy se lembrou de tudo: da paciência e alegria que seu pai lhe dera, da magia que ele lhe transmitira ao ensinar-lhe a dançar. — Você é quem foi, papai.
Suspirando, Maddy sentou-se. Ela tirou uma rosa do vaso e a levou ao rosto. A melhor, pensou, fechando os olhos. Por que isso não bastava?
Quando a porta se abriu mais uma vez, Maddy se endireitou na cadeira, prestes a sorrir. Reed estava na porta, com todo o barulho e confusão atrás dele. Com muito cuidado, Maddy colocou a rosa de volta no lu¬gar. O sorriso exagerado não era mais necessário.
__ Você se importa se eu entrar?
__ Não. — Mas Maddy não olhou para Reed. In¬tencionalmente, ela se virou para o espelho e tirou os cílios postiços.
__ Não preciso lhe dizer como você estava maravi¬lhosa.
Ela fechou a porta, deixando o barulho para fora.
__ Ah, nunca me canso de ouvir isso. — Maddy mergulhou a mão num pote de creme de beleza, que espalhou pelo rosto. — Então você ficou para assistir ao espetáculo.
__ Claro que fiquei. — Maddy o estava fazendo se sentir um idiota. Reed jamais teve de conquistar uma mulher antes, não daquele jeito. E ele sabia que come¬teria outro erro se a deixasse escapar. Ao se aproximar de Maddy, Reed viu que as mãos dela hesitaram e tre¬meram antes que ela continuasse a passar o creme no rosto. Ele fez uma massagem em sua nuca. Reed ainda não a perdera.
__ Acho que agora você já sabe que seu investimen¬to valeu a pena. — Maddy pegou um lenço e começou a limpar o creme e as várias camadas de maquiagem.
__ Sim, eu sei. — Ele pôs uma enorme caixinha azul sobre a mesa ao lado de Maddy. Ela se esforçou para ignorar a caixa. — Mas é meu pai que está assumindo a divisão de espetáculos da gravadora. Ele queria que eu lhe dissesse como gostou desta noite e como você estava incrível.
__ Eu achei que ele viria me ver.
__ Ele sabia que eu precisava vê-la sozinho.
Maddy jogou os lenços no lixo. Mary se fora e ago¬ra só havia Maddy naquele camarim. Levantando-se, ela pegou um roupão.
__ Preciso tirar a roupa. Você se importa?
__ Não. — Reed continuou encarando-a. — Não me importo.
Já que decidira não facilitar as coisas, Maddy sim¬plesmente assentira, indo para trás de um biombo chinês.
__ Então, você deve voltar para Nova York amanhã.
__ Não.
As alças se soltaram em seus dedos. Mostrando os dentes, Maddy decidira atacar.
__ Se seu pai está assumindo essa parte do negócio, acho que você tem o direito de voltar.
Maddy jogou a roupa sobre o biombo.
__ Não quero fazê-lo rastejar. Isso é ridículo.
__ Por quê? Eu fui um completo idiota. Já posso ad¬mitir. Mas se você não estiver preparada para aceitar, posso esperar.
Ela amarrou o roupão antes de sair de trás do biombo.
__ Você não é justo. Nunca foi.
__ Não, nunca fui. E paguei o preço por isso. — Reed deu um passo na direção dela, mas pelo olhar de Maddy percebeu que não podia se aproximar. — Se, por causa disso, eu tiver de recomeçar minha vida des¬te ponto, recomeçarei. Quero você, Maddy, mais do que jamais quis qualquer coisa ou pessoa.
__ Por que você está fazendo isso? — Maddy passou a mão pelo cabelo, pensando num modo de sair daque¬la situação. Mas não havia saída. — Toda vez que me convenço que está tudo acabado e superado, toda vez que digo tudo bem, Maddy, desista, você puxa o tapete sob meus pés. Estou cansada de ser atacada pelas costas, Reed. Quero só encontrar meu equilíbrio de novo.
Dessa vez Reed se aproximou, porque nada podia detê-lo. Ele tinha os olhos muito escuros, mas Maddy não viu pânico deles.
__ Eu sei que você é capaz de viver sem mim. Sei que você é capaz de chegar ao topo sem mim. E talvez, só talvez, eu possa me afastar de você e sobreviver. Mas não quero arriscar. Farei tudo o que posso para não ter de arriscar.
__ Você não entende que se as fundações não fo¬rem sólidas, se nós não nos entendermos, não con¬fiarmos um no outro, isso nunca dará certo? Eu o amo, Reed, mas...
__ Não diga mais nada. — Maddy estava rígida, mas Reed a puxou para perto. — Deixe-me ficar ape¬nas com isso mais um pouco. Eu pensei muito e mudei muito desde que a conheci. As coisas eram muito claras antes de você surgir em minha vida. Você acrescentou cor ao que era preto e branco, e eu não quero perder isso. Não, não diga nada — repetiu Reed. — Antes, abra a caixa.
__ Reed...
__ Por favor, apenas abra a caixa primeiro. — Se a conhecia tão bem quanto achava que conhecia, aquilo seria mais importante para Maddy do que qualquer coisa que Reed dissesse.
Forte. Sua mãe lhe dissera que ela era forte. Maddy tinha de acreditar naquilo agora. Ela se virou e abriu a tampa da caixa. Por um momento, tudo o que ela conseguiu fazer foi olhar.
__ Eu não lhe mandei flores — disse Reed. — Achei que você receberia um monte delas. Pensei, e espera¬va, que isto fosse mais importante. Hannah teve muito trabalho para colocar isso dentro da caixa.
Sem saber o que falar, Maddy tirou a planta da cai¬xa. Quando ela deu aquela planta para Reed, ela es¬tava fraca e amarelada, já apodrecendo. Agora estava verde e cheia de vida, com brotos saudáveis. Como suas mãos estavam trêmulas, Maddy pôs a planta so¬bre a mesa.
__ Um pequeno milagre — murmurou Reed. — Ela não morreu, quando seria normal. Ela apenas conti¬nuou lutando, continuou se desenvolvendo. Você pode operar milagres quando deseja mesmo alguma coisa. Você me disse isso uma vez, e eu não acreditei. Agora acredito. — Reed tocou-lhe os cabelos e esperou até que Maddy olhasse para ele. — Eu a amo. Tudo o que lhe peço é que me dê a vida toda para que eu lhe prove isso.
Maddy se jogou nos braços dele.
__ Comece agora.
Rindo e se sentindo aliviado, Reed a beijou, sentin¬do-se à vontade naquele beijo. Maddy o puxou para perto com um suspiro, abraçando-o com todo o seu amor e com toda a força que podia lhe prometer.
__ Eu nunca tive uma chance — murmurou Reed. _ Desde o primeiro minuto que a vi. Nada, graças a Deus, foi o mesmo para mim desde aquele momento. - Mas ele a afastou, porque precisava transpor mais um obstáculo. — Tudo o que eu disse hoje à tarde...
Colocando um dedo sobre os lábios dele, Maddy balançou a cabeça.
__ Você não vai tentar me pedir em casamento ago¬ra.
__ Não. — Reed a abraçou novamente, depois a soltou. — Não, não posso lhe propor isso até que você saiba tudo sobre mim. — Aquilo era mais difícil do que Reed imaginava que seria. Ele a soltou. — Maddy, meu pai...
__ É um homem extraordinário — completou ela, segurando-o pela mão. — Reed, ele me contou tudo há algumas semanas.
__ Ele contou?
__ Sim. — Maddy se aproximou para aliviar a ten¬são antes que ela pudesse crescer. — Você realmente achou que isso faria alguma diferença?
__ Eu não tinha certeza.
Maddy fez que não. Na ponta dos pés, ela o beijou mais uma vez, deixando que o amor transbordasse.
__ Tenha certeza. Não há nenhum candelabro aqui — argumentou. — E não quero que você se ajoelhe. Mas ainda quero que me peça em casamento.
Reed tomou as mãos dela e as levou à boca, os olhos fixos nos dela.
__ Eu a amo, Maddy. Quero passar minha vida ao seu lado, ter filhos com você e arriscar. Quero me sen¬tar na primeira fila e vê-la explodir no palco, sabendo que, quando o espetáculo estiver terminado, você vol¬tará para casa comigo. Quer se casar comigo?
O sorriso surgiu lentamente, até iluminar todo o ros¬to dela. Maddy abriu a boca e deixou escapar um gemi¬do ao ouvir uma batida brusca na porta do camarim.
__ Livre-se deles — pediu Reed.
Maddy apertou-lhe a mão.
__ Não saia daí. Nem respire.
Ela abriu a porta, prestes a fechá-la sem deixar a pessoa que se intrometia entrar.
__ Seus 5 dólares, srta. O'Hurley. — Um dos auxi¬liares de palco deu uma risadinha para ela, estendendo-lhe uma nota. — O Mets virou e fez 4 a 3. Parece que esta é sua noite de sorte.
__ Você tem razão.





Quando decidiu seguir a carreira de atriz de cinema, Chantel O'Hurley sabia que lidar com os fãs era o preço da fama... Mas esse preço às vezes pode ser alto demais. Um fã obsessivo a persegue com ameaças ao telefone, tornando-se um perigo constante em sua vida. Não resta alternativa a não ser contratar um guarda-costas que assegure sua integridade.
Quinn Doran tem pouca paciência para lidar com ce¬lebridades mimadas. Por isso, cobra caro. Com apenas um olhar, ele é capaz de mandar para o inferno qualquer in¬cauto... e fazer suspirar as mulheres ao seu redor. Chantel, no entanto, está muito pouco interessada em seu jeito arro¬gante e muito mais preocupada em se manter viva. Contu¬do, até que ponto ela seria imune ao charme de Quinn? E por quanto tempo ele resistiria aos encantos de Chantel?

02 - Maddy
CAPA SINOPSE
Quatro irmãos fascinantes criados nos palcos. Quatro histórias de amor e perseverança.

O que pode acontecer quando duas pessoas tão diferentes quanto o Sol e a Lua se apaixonam? Maddy O´Hurley ousou sonhar… e seu sonho a levou à Broadway, ao fantástico mundo dos musicais. Reed Valentine, principal executivo da Valentine Records, pensava apenas em negócios. Com isso, havia se esquecido de que a vida também é feita de emoção e ternura. Entre os compassos da coreografia ensaiada por Maddy e os planos de Reed para o lançamento da trilha sonora do musical, ambos começam a vivenciar um sentimento que, quanto mais é evitado, mais forte se torna. Porém, mesmo disposta a correr todos os riscos, Seria Maddy capaz de despir Reed da pesada armadura que o impedia de se entregar ao amor?
DADOS DO E-BOOK OPÇÕES DE DOWNLOAD
  • Gênero: Romance
  • Tamanho do Arquivo: 4,56MB
  • Créditos: PDL
  • Formato: ImagemImagemImagem
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