quarta-feira, 4 de agosto de 2010 By: Fred

Lançamento PRT: Joanna Bourne - Agentes Secretos 01 - Desarmado Por Uma Dança

Joanna Bourne - Agentes Secretos 01 - Desarmado Por Uma Dança (Rev. PRT)

Nunca antes tinha conhecido a um homem que não pudesse enganar… Ela enfrentou o desafio dos campos de batalha. Tinha interceptado e roubado mensagens diante dos narizes dos chefes de estado. Tinha interpretado o papel da experimentada cortesã, da virgem inocente, da dama britânica de maneiras refinadas e inclusive se disfarçou de menino cigano. Mas Annique Villiers, a escorregadia espião conhecida como Jovem Raposa, finalmente se encontrou com o único homem que era mais inteligente do que ela…

Até agora…

O chefe dos espiões britânicos, Robert Grey, deve entrar na França para procurar a brilhante, formosa e perigosa espiã, Jovem Raposa. Seu dever é capturar a jovem e descobrir seus segredos para levá-los à Inglaterra. Quando estes dois inimigos naturais são presos juntos em um cárcere, se vêem obrigados a forjar uma complicada aliança para poder escapar. Entretanto, seu pacto é temporário e a traição, inevitável. Fogem, perseguidos a cada passo do caminho pelas implacáveis autoridades, apanhados numa rede de segredos e mentiras. Enquanto o destino de seus países pende por um fio, Grey e Annique lutam contra a paixão que surge entre eles, pois é um sentimento proibido, impossível e completamente irresistível…


Disponibilização: PRT
Revisão Inicial: DIDA
Revisão Final: Drikka
Visto Final: Joelma
Formatação: Dyllan
Projeto Revisoras Traduções






Prólogo

Annique esfregou os olhos.
—Farei o que Leblanc deseja. Não me resta outra alternativa.
—Será minha quando ele termine contigo— comentou Henri com desprezo.
Ela seguiu falando.
—Fará que unte meu corpo com azeite e me obrigará a dançar as danças ciganas que aprendi quando menina. Dançarei a luz do fogo para ele, sem outra veste além de uma pequena e fina camisola de seda. Seda vermelha. Ele... ele prefere a cor vermelha. Disse-me isso.
Grey agarrou com força a corrente, sobressaltado pela imagem de um corpo magro e nu que se movia seguindo o ritmo, emoldurado pelo dourado resplendor do fogo. Não era o único. Henri segurou as barras da porta e pressionou a cara entre elas para aproximar-se mais, estava com água na boca.
Annique, cujos olhos olhavam o chão, balançou-se como se seu corpo já seguisse o ritmo ondulante da dança sensual que acabava de descrever.
—Separarei a seda de cor carmesim de meu corpo e o acariciarei com ela. Notará a seda cálida e úmida pelo calor que gera a dança, por meu calor... —Sua mão esquerda acariciou a parte inferior de seu corpo, de um modo íntimo.
A Grey doía o corpo depois de receber uma dúzia de surras, a sede o atormentava a cada segundo e sabia exatamente o que ela estava fazendo. Mesmo assim sentiu uma excitação enorme. Senhor, ela era boa nisso. Henri tentava abrir o cadeado de forma torpe e ruidosa. Se o francês estava metade excitado do que Grey pela pequena farsa de Annique, seria um milagre que ao final conseguisse abrir a porta. Henri segurou com força o tecido branco de sua combinação.
—Não deveria... não deve... —Ela lutou, empurrando suas mãos de maneira fútil, com a escassa força de um passarinho apanhado. Grey não podia chegar até ela. — Não... —O braço que agitava no ar golpeou a lanterna, que caiu ao chão. A escuridão reinou imediatamente e de forma absoluta.
—Raposa estúpida — grunhiu Henri. — Você...
Escutou-se o leve som de um golpe dado com força. Henri gritou de dor. Ouviram-se mais golpes e algo grande e brando, um corpo, caiu. Grey escutou como Annique respirava com dificuldade.
Tinha-o planejado. Ela tinha planejado tudo...

Capítulo Um
É obvio, ela estava disposta a morrer, mas não tinha planejado fazê-lo tão logo ou de um modo tão incômodo, e que levasse tanto tempo, ou que o faria em mãos de um compatriota.
Desabou-se contra a parede, que era de pedra e muito sólida, como devem ser os muros dos cárceres.
—Não tenho os planos. Nunca os tive.
—Sou um homem de pouca paciência. Onde estão os planos?
—Eu não os tenho...
O bofetão chegou sem prévio aviso. Durante um instante, sentiu que estava a ponto de cair inconsciente, mas logo se recuperou, na escuridão, dolorida e com o Leblanc.
—Ganhaste-lhe isso— Ele tocou sua bochecha, no ponto onde a tinha golpeado e a obrigou a olhá-lo. O fez com delicadeza. Tinha muita prática em fazer mal às mulheres.—Continuem. Esta vez terá mais vontade de ajudar.
—Por favor, estou-o tentando.
—Diga-me onde escondeste os planos, Annique.
—Não são mais que um sonho de loucos, esses planos Albión. Uma quimera. Nunca os vi — inclusive enquanto o dizia, podia visualizar claramente os planos Albión em sua mente. Tinha tido em suas mãos as múltiplas páginas, as bordas manuseadas, os mapas cheios de manchas e rastros digitais, as listas escritas em letra pequena e cuidada. Não vou pensar nisto. Se pensar, o verá em meu rosto.
—Vauban te deu os planos em Brujas. O que te disse que fizesse com eles?
«Disse-me que os levasse a Inglaterra».
—Por que ia me dar os planos? Não sou uma mala em que se transportam papéis pelo campo.
O punho dele se fechou ao redor de seu pescoço. Ela notou como a dor explodia, uma dor que lhe cortou a respiração.
Afundou os dedos na parede e aguentou. Ao ter uma parede tão útil para agarrar-se, não cairia ao chão.
Leblanc a soltou.
—Vamos começar de novo, em Brujas. Esteve ali. Admite-o.
—Estive ali, sim. Informei ao Vauban. Não era mais que um par de olhos que espiava aos britânicos. Nada mais. Já disse uma e outra vez.
Os dedos que sujeitavam seu queixo aplicaram mais força. Uma nova dor.
—Vauban partiu de Brujas com as mãos vazias. Retornou a Paris sem os planos. Tinha que lhe dar isso, Vauban confiava em ti.
«Encomendou-me uma traição». Não podia pensar nisso. Não podia recordar.
Fazia um bom momento que tinha a voz rouca.
—Nunca recebemos os documentos. Nunca — Tentou engolir, mas tinha a garganta muito seca. — Minha vida está em suas mãos, senhor. Se tivesse os planos Albión, os ofereceria para me salvar.
Leblanc falou em voz baixa, amaldiçoando-a. Amaldiçoando Vauban, que estava longe e a salvo.
—O velho não os escondeu. Vigiavam-no muito de perto. O que fizeste com os planos?
—Pergunta a sua própria gente, possivelmente os ingleses os levaram. Nunca os vi, juro-o.
Leblanc empurrou ligeiramente com o cotovelo seu queixo para que elevasse o rosto.
—Jura-o? Pequena raposa, eu te vi mentir uma e outra vez com essa cara de anjo desde que foi uma menina. Não tente me enganar.
—Não me atreveria. Servi-te bem. Acredita que sou tão idiota que deixei de te ter medo? —Deixou que as lágrimas aparecessem a seus olhos. Era uma destreza das mais úteis, e que tinha praticado com assiduidade.
—Alguém quase poderia acreditar em você.
«Está brincando comigo». Apertou as pálpebras e deixou que as lágrimas deslizassem marcando uma fria trajetória por suas bochechas.
—Quase— Lentamente arranhou sua bochecha com a unha do polegar ao seguir a trajetória de uma lágrima. —Entretanto, infelizmente, não de todo. Acredito que será mais sincera antes que amanheça.
—Estou sendo sincera agora.
—Possivelmente. Falar-nos-emos atentamente quando partirem meus convidados. Acaso não sabia? Fouché assistirá a minha pequena noitada. É uma grande honra. Vem para ver-me depois de reunir-se com o Bonaparte. Vem diretamente a ver-me, para falar do que há dito o Primeiro Cônsul. Estou-me convertendo em um homem muito importante em Paris agora mesmo.
«O que diria eu se fosse inocente?».
—Me leve ante o Fouché. Ele me acreditará.
—Verá o Fouché quando eu esteja seguro de que sua preciosa boquinha está dizendo a verdade. Até então...
—Alargou a mão até o decote de seu vestido, para afrouxá-lo, desfazendo o primeiro laço.—Fará um esforço por ser mais amável. Entendido? Ouvi que pode resultar ser do mais entretida.
—Eu... Tentarei te agradar.
«Sobreviverei a isto. Posso superar o que me faça».
—Fará um grande esforço por tentá-lo antes que termine contigo.
—Por favor—Ele queria ver seu medo. Ela se arrastaria imediatamente, porque era o mais prudente. —Por favor, farei o que queira, mas não aqui. Não numa cela suja com homens olhando. Posso ouvir suas respirações. Não me obrigue a fazê-lo diante deles.
—Não são mais que os cães ingleses. Encerrei aqui a alguns espiões até que me desfaça deles — seus dedos engancharam o tecido áspero do corpete do vestido e o desceu, deixando seu corpo ao descoberto.—Possivelmente quero que olhem.
Ela absorveu o mesmo ar que ele tinha respirado, um ar quente e úmido, que cheirava a fruta do conde. Sua mão escorreu dentro do corpete do vestido para segurar seus peitos. Seus dedos eram suaves e secos, como lascas de madeira e lhe fez mal uma e outra vez.
Ela não ia vomitar em cima da roupa de etiqueta de Leblanc. Este não era o momento para que seu estômago decidisse justificar-se.
Ela pressionou seu corpo contra a parede que tinha a suas costas e tentou desaparecer. Era a escuridão, o vazio. Não existia absolutamente. É obvio, não funcionou, mas era um objetivo no qual centrar sua mente.
Finalmente, ele se deteve.
—Desfrutarei ao te usar.
Ela não tentou falar. Não serviria para nada.
Fez-lhe mal uma última vez, apertando sua boca entre o polegar e o índice até que rompeu a pele ressecada dos lábios e lhe deixou o sabor do sangue na boca.
—Ainda não me divertiste — a soltou de forma brusca. Ela escutou o chiado e o estalo que produziu ao levantar a lanterna da mesa.—Mas o fará.
A porta se fechou com estrondo detrás dele. O ruído de seus passos se afastou pelo corredor, dirigindo-se pelas escadas para o andar de cima.
—Porco— sussurrou à porta fechada, embora esse fosse um insulto aos porcos, que, em geral, eram animais amistosos.
Podia ouvir os outros prisioneiros, os espiões ingleses, que emitiam leves sons no outro extremo da cela, mas estava escuro e eles já não podiam vê-la. Esfregou-se a boca com o dorso da mão e tragou a bílis que tinha na garganta. Sentia-se incrivelmente suja por ter sido tocada pelo Leblanc. Era como ter lesmas se arrastando pelo corpo. Estava segura de que não poderia acostumar-se o mínimo a seu tato nos dias que ficassem de vida.
Colocou o vestido em seu lugar e se deixou cair no sujo chão, sentindo-se abatida. Assim, este era o final. A decisão que a tinha atormentado durante tanto tempo, o que devia fazer com os planos Albión que lhe tinham sido encomendados, já estava tomada. Toda sua lógica e seus raciocínios, toda a introspecção, não havia valido para nada. Leblanc tinha ganhado. Ela resistiria a seus métodos de persuasão unicamente durante um ou dois dias. Logo ele arrebataria os planos Albión de sua memória e só Deus sabia quais traições avaras poderiam ser cometidas com eles.
Seu velho mentor, Vauban, ia se sentir decepcionado ao sabê-lo. Ele esperava em sua pequena casa de pedra na Normandia que lhe enviasse uma mensagem. Tinha deixado que ela tomasse a decisão sobre o que fazer com os planos, mas nunca foi sua intenção que ela os desse à Leblanc. Tinha falhado. Tinha falhado com todo mundo.
Respirou fundo e expulsou o ar lentamente. Era estranho saber que as vezes que ia respirar estavam contadas, não mais de dez mil. Será que quarenta mil? Cinquenta mil? Possivelmente, essa noite, enquanto sofria uma dor insuportável, começaria a contar.
Tirou os sapatos, primeiro um e logo o outro. Já tinha estado num cárcere duas vezes antes em sua vida, as duas foram experiências muito angustiantes. Ao menos nesses casos não esteve clandestinamente e pôde ver. Sua mãe tinha estado com ela, na primeira vez. Mas, desta vez sua mãe tinha morrido em um acidente estúpido, no qual não deveria ter morrido nem um cão. «Mamãe, mamãe, como sinto a sua falta». Não tinha ninguém neste mundo que pudesse ajudá-la.
Na escuridão, alguém se sente muito sozinho. Ela nunca se acostumou a isso.
O espião inglês falou, com uma voz grave e lenta, que surgiu da escuridão.
—Por-me-ia em pé e a saudaria de forma educada — as algemas fizeram um ruído metálico,—mas, me vejo obrigado a ser grosseiro.
O fato de que a voz do inimigo inglês lhe parecesse um afetuoso apertão de mãos demonstrava o só que se sentia.
—Ultimamente há muito disso em minha vida. Muita má educação.
—Dá a impressão de que tem feito se zangar ao Leblanc— falava com o rico acento francês do sul do país, sem o menor rastro de um acento estrangeiro.
—Ao que parece você também.
—Não planeja deixar que nenhum de nós saia daqui com vida.
—É o mais provável — tirou as meias, guardou-as dobradas dentro da manga para não perdê-las e voltou a pôr os sapatos. A gente não pode ir descalço. Inclusive na sala de espera do inferno, se deve ser prático.
—Não deveríamos demonstrar que se equivoca?
Não soava como um homem resignado a morrer, o que, a sua maneira, era digno de admirar, embora fora pouco realista. Era um modo muito inglês de ver as coisas.
Ante a semelhante valentia, ela não podia ficar sentada no chão a lamentar-se. A honra francesa exigia que uma francesa enfrentasse à morte com a mesma coragem que um inglês. A honra francesa sempre parecia exigir coisas. A valentia de certo tipo era uma moeda que ela estava acostumada a falsificar. Além disso, o plano que estava urdindo podia funcionar. Possivelmente poderia vencer ao Leblanc, escapar do Château e decidir o que ia fazer com esses planos Albión que lhe tinham causado tantos problemas. Postos a supor, talvez aos porcos cresceriam asas e voariam ao redor das agulhas dos telhados de toda a cidade.
O inglês esperava uma resposta. Ela ficou em pé.
—Eu adoraria decepcionar ao Leblanc de qualquer maneira possível. Sabe onde estamos? Não pude me fixar quando me trouxeram, mas espero sinceramente que se trate do Château em Garches.
—Uma esperança curiosa, mas sim, estamos em Garches, o lar da polícia secreta.
—Estupendo, nesse caso, conheço este lugar.
—Isso resultará útil. Uma vez que tenhamos solucionado estas correntes — fez um ruído metálico — e a porta fechada. Podemos nos ajudar o um ao outro.
Estava dando é obvio muitas coisas.
—Sempre fica essa possibilidade.
—Podemos ser aliados - O espião escolheu as palavras cuidadosamente, com a esperança de poder convencê-la para poder usá-la como uma ferramenta. Dotou a sua voz de um tom aveludado. Entretanto, debaixo da fachada, ela pôde escutar uma dureza inflexível e uma ira considerável. Não havia nada que ela não soubesse deste tipo de homens duros e calculistas.
Leblanc tinha assumido uma carga excessiva para ele ao capturar os agentes britânicos deste modo. Era um velho costume tanto dos serviços secretos franceses como dos britânicos que os agentes de um bando não matavam aos do outro de maneira sanguinária. Era uma das muitas regras que Leblanc estava rompendo ultimamente.
Caminhou junto à parede, apalpando as pedras, recolhendo o cascalho que se soltou nas juntas e colocando-os dentro de sua meia para fazer uma pequena clava. Era uma arma fácil de usar quando a gente não podia ver. Uma de suas favoritas.
Escutou um sussurro que delatava movimento. Falou uma voz mais jovem e muito débil.
—Há alguém aqui?
—Só é uma garota que trouxe Leblanc. Nada do que preocupar-se – respondeu o outro espião.
—Mais perguntas?
—Ainda não. É de noite. Ficam horas antes que venham por nós. Horas.
—Bem. Estarei preparado... Para quando se apresente a oportunidade.
—Será logo, Adrian. Escaparemos. Tenha paciência.
O absurdo otimismo dos ingleses. Quem podia entendê-lo? Acaso sua mãe não lhe disse que estavam todos loucos?
O cárcere do Leblanc era pequeno e estava em bom estado. Logo havia alguma pedra solta. Levou-lhe um momento conseguir que a clava pesasse o suficiente. Atou o extremo da meia e a guardou no bolso oculto debaixo de sua saia. Logo seguiu explorando as paredes, sem encontrar nada interessante. Não há muito que se possa descobrir sobre os espaços que se utilizam como cárceres. Este tinha sido uma adega antes da Revolução. Ainda cheirava à madeira velha e bom vinho, além da outras coisas menos saudáveis. Na metade da cela, chegou ao lugar no qual os ingleses estavam acorrentados. Deteve-se para que suas mãos pudessem estudá-los.
O que estava caído ao chão era jovem, mais jovem que ela. Teria dezessete ou possivelmente dezoito anos? Possuía o corpo de um acrobata, era uma dessas pessoas miúdas, com um corpo compacto. Tinham-no ferido. Podia cheirar a pólvora em sua roupa e como a ferida estava infectando. Apostaria dinheiro que a bala ainda estava em seu corpo. Quando passou os dedos por sua cara, notou que tinha os lábios ressecados e gretados e que ardia de febre, tinha muita febre.
Tinham-no acorrentado à parede com uma corrente excelente, mas com um cadeado enorme e antigo. Teriam que forçá-lo se queriam escapar. Procurou em suas botas e nas costuras de sua roupa, no caso dos homens do Leblanc terem deixado passar algum objeto pequeno e útil. Naturalmente, não havia nada, mas sempre se deve verificá-lo.
—Muito agradável... —murmurou enquanto ela movia suas mãos por cima dele. — Logo, carinho. Estou muito cansado... —Então não era tão jovem. Tinha falado em inglês. Podia haver uma razão inocente pela qual um inglês estivesse na França, nesse momento no qual seus países não estavam exatamente em guerra, mas pelo que fosse, estava segura de que Leblanc havia dito a verdade. Era um espião. — Tão cansado — Logo disse claramente. —Diga ao Lazarus que não o farei mais. Nunca. Diga-lhe
—Já falaremos disso— disse ela em voz baixa,— logo. —O que ia ser uma promessa difícil de cumprir, porque não esperava ter muito tempo depois. Ainda que, talvez, lhe restasse mais tempo do que a esse menino.
Ele tentou sentar-se com muita dificuldade.
—O cavalheiro número três da rainha. Tenho que ir. Estão esperando que entregue ao cavalheiro vermelho — Estava falando de coisas que não devia dizer, estava quase segura disso e ele acabaria por se machucar se seguia agitando-se desse modo. Empurrou-o com suavidade para que voltasse a tombar-se.
Uns braços fortes intervieram.
—Tranquilo. Isso já passa — O outro homem segurou o moço, silenciando suas palavras.
Não tinha motivos para preocupar-se. Já não lhe interessava esse tipo de segredos. Em realidade, preferiria não sabê-los.
—Diga aos outros.
—Fá-lo-ei. Todos conseguiram escapar sem problemas. Agora descanse.
O menino tinha deixado cair à jarra de água ao lutar. As mãos dela encontraram-na, esta rodou de flanco e estava vazia. Estava completamente seca por dentro. Pensar em água fez que sentisse umas pontadas amargas na boca. Tinha tanta sede...
Não há nada pior que a sede, nem a fome, nem sequer a dor. Possivelmente não ter água para tentá-la fora o melhor. Era possível que se convertesse em um animal e a tivesse roubado desses homens, que sofriam mais que ela. Era melhor não saber o baixo que podia cair.
—Quando foi a última vez que trouxeram água?
—Faz dois dias.
—Nesse caso, não poderão esperar muito mais. Leblanc me deixará com vida durante um tempo, com a esperança de que seja útil e para que possa jogar comigo.
«Ao final, matar-me-á. Embora lhe entregue os planos Albión, cada palavra, cada mapa e cada lista, mesmo assim me matará. Sei o que fez em Brujas. Não pode me deixar com vida».
—Seus hábitos são conhecidos.
Era um homem grande, o espião inglês de voz grave e dureza de ferro. Sentiu uma presença enorme inclusive antes de tocá-lo. Suas mãos lhe deram mais detalhes. Este homem alto e corpulento tinha dobrado seu casaco para colocá-lo debaixo do menino, aceitando este novo desconforto para que seu amigo não estivesse caído sobre o frio chão. Era uma coragem muito britânica que esse pequeno gesto demonstrava. Sentiu que estava concentrado, de forma feroz e protetora, em tudo o que rodeava ao moço, como se sua mera vontade bastasse para mantê-lo com vida. Tinha que ser muito valente, se se atrevesse a morrer contrariando a sua vontade.
Elevou a mão com acanhamento e descobriu um tecido suave de linho e uns consideráveis músculos fibrosos no peito; logo, ali onde se abria o pescoço da camisa, à altura da garganta, tocou sua pele, surpreendentemente elástica. Teria afastado a mão, mas ele colocou a sua em cima, empurrando-a para o lugar onde estava seu coração. Sentiu sob a palma da mão seu batimento cardíaco, surpreendente e vivo. Sinal de um grande poder e força.
—Sei o que Leblanc faz às mulheres. Sinto que tenha caído em suas mãos. Acredite em mim.
—Eu também o sinto muito— Este parecia interessado em ser amável com ela. Ou não era assim? Soltou sua mão. Ela o liberaria, se pudesse, e logo veria quão encantador era.—Estas correntes— Sacudiu ruidosamente os grilhões dele, — são uma porcaria. Uma volta e poderia abri-los. Não terá por acaso um pouco de arame?
Pôde ouvir o sorriso em sua voz.
—O que crê?
—Não esperava que fosse tão simples. A vida não é, digo-o por experiência.
—A minha tampouco é. Leblanc lhe tem feito mal?
—Não muito.
Ele tocou seu pescoço no ponto que estava dolorido e machucado.
—Nenhuma mulher deveria cair nas mãos do Leblanc. Sairemos daqui. Há alguma via de escape, nós a encontraremos — Apertou seu ombro, com força, para tranquiliza-la.
Devia ficar em pé e revisar a cela. Mas, por alguma razão, simplesmente ficou sentada ao seu lado, descansando. Respirava muito devagar. Parte do medo que a tinha acompanhado durante semanas também tinha desaparecido. Quanto tempo passou da última vez que alguém lhe tinha devotado consolo? Era muito estranho encontrá-lo aí, nesse lugar aterrador, nas mãos do inimigo.
Depois do que pareceu muito tempo, ficou em pé.
—Há outro problema. Seu amigo não pode caminhar daqui, nem que consiga liberá-lo da cadeia.
—Consegui-lo-á. Homens melhores do que Leblanc tentaram matá-lo — nem todo mundo teria percebido a angústia que se escondia abaixo da superfície dessa voz, mas ela o fez. Os dois sabiam que Adrian estava morrendo. Em um prazo de doze horas, possivelmente um dia mais, a ferida, a sede e o frio úmido das pedras acabariam com ele.
O moço falou, misturando palavras em um francês gascão refinado.
—É um... Um pequeno buraco de bala. Não é nada— Estava muito débil, era muito valente.—É um... Aborrecimento infernal... O que não posso suportar.
—Se somente tivéssemos um baralho de naipes— disse o homem alto.
—Trarei um... A próxima vez.
Estes dois teriam sido uns bons franceses. Era uma pena que Leblanc a tiraria logo dessa cela. Alguém podia encontrar pior companhia para empreender essa comprida viagem para a escuridão. Ao menos estes dois estariam juntos ao morrer. Ela estaria completamente sozinha.
Mas era melhor não fazer conjecturas a respeito de como Leblanc ia dobrá-la para que fizesse sua vontade e como ia logo matá-la, posto que, isso só levaria à melancolia. Era hora de se separar do toque deste espião inglês e voltar a fazer coisas. Não podia permanecer sentada eternamente, esperando que a coragem se filtrasse da pele dele para a dela.
Ficou em pé e imediatamente sentiu frio. Separar-se desse homem tinha sido como se tivesse saído de um refúgio quente e familiar. Era muito estúpida. Não se tratava de nenhum refúgio e esse homem não caía muito bem apesar da voz suave que utilizava quando falava com ela. Eles mantinham uma vigilância carente de confiança que fazia que se pudesse cortar o ar que havia entre os dois.
Possivelmente sabia quem era ela, ou se tratava de um desses homens formais que se dedicam à espionagem com total seriedade. Ele morreria por seu país de um modo mais inglês, nesse lugar mofado, e a odiaria porque ela era francesa. Entender o mundo de uma maneira tão simples era sem dúvida uma característica própria dos ingleses.
Que assim fosse. Dava a casualidade de que ela não era amiga dos espiões ingleses de grande tamanho. Sem lugar a dúvidas, uma característica própria dos franceses.
Encolheu os ombros, gesto que ele não podia ver, e começou a medir o resto da cela, inspecionando o chão e cada centímetro da parede, tão alto como podia chegar.
—No tempo que levam aqui, veio à cela Henri Bréval?
—Um par de vezes com o Leblanc, uma vez ele sozinho, fazendo perguntas.
—Tem a chave? Ele sozinho? Isso é bom.
—Acredita nisso?
—Tenho certa esperança em Henri. —Não havia nem um prego oxidado, nem um fragmento de vidro. Não havia nada útil em nenhuma parte. Tinha que depositar suas esperanças na estupidez de Henri, que era quase ilimitada.—Se Fouché realmente estiver acima, bebendo vinho e jogando às cartas, Leblanc não se separará dele. A gente não deixa de lado o diretor da polícia secreta para divertir-se com uma mulher. Mas Henri... Quem se fixa nele? Pode querer aproveitar o momento. Deseja aproveitar-se de mim, sei disso, e até agora nunca teve ocasião.
—Entendo— Era a resposta mais evasiva possível.
Acaso pensava que ela acolheria de bom grau as intenções de Henri? Devia pensar que tinha um gosto horrível.
—Leblanc não deixa que muita gente saiba da existência deste quarto. O que faz aqui é muito secreto.
—De modo que Henri virá furtivamente ele sozinho. Você planeja atacá-lo — disse com voz calma, como se não fora nada fora do normal ela querer atacar a um homem como Henri Bréval. Estava quase segura de que ele sabia o que ela era.
—Não posso ajudá-la— Agitou a cadeia que o atava, — a menos que consiga que se aproxime.
—Henri não é tão idiota. Nem tanto. Mas tenho um pequeno plano.
—Nesse caso, o único que posso fazer é lhe desejar sorte. —Dava a impressão de ser um homem que entendia claramente o essencial do assunto. Poderia lhe ser útil uma vez que conseguisse lhe tirar as algemas. O que conseguiria quando um desses porcos, tal e como diz o ditado, voasse.
Ao explorar um pouco mais a cela, golpeou-se os dedos do pé com uma mesa, que tinha em cima somente uma colher. Também havia algumas cadeiras, que ofereciam mais oportunidades. Estava extraindo os encaixes de madeira que uniam as partes da cadeira quando escutou uns passos.
—Temos visita— disse o alto inglês.
—Ouvi-o— Um homem descia pelas escadas que davam à abóbada. Henri. Tinha que ser Henri. Colocou a cadeira corretamente, onde não atrapalhasse, segurou a clava com a mão e girou na direção em que vinha o som dos passos. Um calafrio percorreu sua coluna, mas era só o frio da cela. Não era medo. Não se podia permitir estar assustada.—É um homem. Vem sozinho.
—Acredita que é Leblanc ou Henri?
—Henri. Seus passos são mais pesados. Agora deve ficar calado e não me distrair—rezou para que fosse Henri e não Leblanc. Não tinha nenhuma possibilidade contra Leblanc.
O inglês ficou absolutamente quieto, mas sua ira brutal e controlada se percebia no ambiente. Era como se atrás dela tivesse um lobo encadeado à parede. Sua presença não fazia mais que chamar sua atenção quando era fundamental que se concentrasse no Henri.
Henri. Umedeceu os lábios e pensou com desalento no Henri, um tema desagradável, mas de grande urgência. Havia vinte degraus na pequena escada que girava de forma ascendente da adega até a cozinha. Contou os últimos, degrau por degrau. Logo ele chegou ao corredor que conduzia à cela.
Henri sempre tinha sido da opinião de que a reprostitutação dela era excessiva. Quando a trouxe todo o longo trajeto de Paris para entregar-lhe ao Leblanc, ela tinha se feito de parva débil diante dele, suplicando com humildade que lhe trouxesse comida e água, tropeçando, fazendo que ele se sentisse poderoso. Viu-se tão limitada na escuridão que ele pensava que era totalmente inofensiva. Tinha terminado por menosprezá-la.
Se tão só se aproximava um pouco mais, descobriria o quanto inofensiva era. Sem dúvida o descobriria.
Ela sabia que mel usar para atraí-lo. Interpretaria o papel de uma rameira jovem e tola. Era um de seus favoritos sempre. Tinha-o utilizado em centenas de ocasiões.
Umedeceu os lábios e fez uma careta para lhes dar mais volume, abrindo e fechando a boca. Que mais podia fazer? Soltou algumas mechas de cabelo pelas costas e ao redor do rosto. Seu vestido já estava rasgado à altura do decote. Encontrou o lugar e rasgou ainda mais o tecido. Bem. Só veria a carne nua. Podia ter na mão uma dúzia de clavas que ele nunca se daria conta.
Rápido, rápido. Estava se aproximando. Voltou a respirar fundo e deixou que o papel que ia interpretar a envolvesse, como se, se tratasse de um traje conhecido. Converteu-se na rameira. Complacente, fácil de amedrontar, perdida em meio desse jogo de intrigas e mentiras. Henri gostava das vítimas. Oferecer-lhe-ia a vítima mais perfeita com a esperança de que ele mordesse o anzol.
Esperou oculta sob as múltiplas capas que davam forma ao papel da rameira suave e ingênua. Seu punho, que sujeitava a clava, não titubeava. Não ia permitir se o luxo de ter medo. Tinha jogado esta carta tantas vezes que era como uma segunda pele.
Provavelmente, no centro de seu ser, debaixo de todas essas mentiras, a verdadeira Annique estava tremendo como um camundongo. Não ia jogar uma olhada a seu interior para averiguá-lo.
***
A janela gradeada da porta resplandeceu com uma luz pálida e fantasmagórica, logo se iluminou quando aproximaram um lampião. Grey podia ver de novo. Ante ele surgiram os detalhes da cela. Paredes de pedra bruta, uma mesa, duas cadeiras e a garota.
Ela estava olhando à porta, rígida, em silêncio e completamente concentrada no homem que estava fora no corredor. Não movia nem um músculo, nem um dedo. Seus olhos, emoldurados em profundas olheiras de esgotamento, estavam entrecerrados e desfocados. Não olhou para onde ele estava.
Observou como respirava fundo, sem apartar sua atenção dessa pequena janela gradeada da porta. Seus lábios formavam palavras em silêncio, devia estar rezando ou falando para si mesmo. Possivelmente estava blasfemando. Passou de novo os dedos pelo cabelo, penteando-o com movimentos tranquilos, decididos e elegantes que fizeram que seus cachos selvagens e emaranhados ficassem pendurando ao redor de sua cara.
Era completamente feminina em cada um de seus movimentos com um ar francês impreciso. Com sua fisionomia, o cabelo negro, a pele pálida, os olhos dessa cor azul anil escuro, tinha que ser descendente dos celtas. Devia provir do oeste da França; provavelmente da Bretanha. Annique era um nome bretão. Levava a magia dos celtas, usava-a para tecer esse manto de fascinação que estavam acostumados a criar as grandes cortesãs. Inclusive enquanto a observava, ela umedeceu os lábios outra vez e moveu seu corpo de forma sinuosa, deliberadamente, de maneira sensual. Nenhum homem seria capaz de apartar o olhar.
Tinha rasgado seu próprio vestido. A curva de seu peito criava um contraste entre o branco da pele e o tecido escuro, era uma prostituta que tirava sua mercadoria à venda. Era uma prostituta, uma mentirosa e uma assassina... E sua vida dependia dela.
—Boa sorte— sussurrou.
Ela não se girou. Sacudiu rapidamente a cabeça uma vez em um gesto desdenhoso.
—Fique quieto. Não é parte disto.
Esse foi o último golpe que retorceu a faca que lhe tinha parecido no orgulho. Estava indefeso. Mediu os cinquenta centímetros de correntes para imaginar até onde chegaria se dava um pontapé rápido. Mas Henri não ia se aventurar tanto. Ela teria que dominar Henri Bréval por sua conta, sem sequer um palito de dentes para lutar contra ele.
Podiam-se ver sinais vermelhos em sua pele ali onde Leblanc a tinha torturado, e as marcas das lágrimas em suas bochechas. Não podia ter parecido mais inofensiva. É obvio, essa era outra mentira.
Conhecia esta mulher. Tinha-a reconhecido no momento que Leblanc a empurrou dentro da cela e ela entrou tropeçando. Cada detalhe; tinha gravada sua cara na memória. Tinha-a visto no dia em que encontrou seus homens depois de que fossem surpreendidos numa emboscada, com os corpos retorcidos e cheios de sangue, mortos em um campo de trigo perto de Brujas. Se lhe tivessem ficado dúvidas, a menção dos planos Albión, as teriam eliminado. Tinham utilizado os planos Albión para atrai-los a Brujas.
Esteve procurando o rastro desta espiã por toda a Europa, durante os últimos seis meses. Miúda e maldita ironia encontrá-la aqui.
Vingar-se-ia. Leblanc era um artista na degradação do ser humano. A preciosa Annique não teria uma morte fácil ou limpa, não ficaria nada dessa beleza. Seus homens seriam vingados.
Se é que saía daí... Não, quando saísse daí, Annique iria com ele. Levá-la-ia a Inglaterra. Averiguaria cada pequeno detalhe que ela soubesse sobre o que ocorreu em Brujas. Obteria dela os planos Albión. Logo levaria a cabo sua própria vingança.
«Ela poderia ser muito útil ao serviço de inteligência britânico. Além disso, não deixaria com Leblanc nem uma hiena raivosa».
A pequena janela da porta se iluminou quando Henri elevou o lampião. Seu rosto pesado e corado se pegou à grade.
—Leblanc está furioso contigo.
—Por favor— A garota perdeu as forças de forma visível, inclinando-se para apoiar-se na mesa, com o que deixava ao descoberto a suculenta curva de sua feminilidade presa no vestido.—Por favor— O tom azul apagado de seu vestido e o corte rudimentar do objeto assinalava que essa garota era uma servente e, portanto acessível. De algum jeito seu cabelo despenteado, que caía para diante sobre sua cara, tinha adquirido um toque sensual.—Tudo isto é um engano. Um engano. Juro que...
Henri segurou os barrotes com os dedos.
—Ao final o contará, Annique. Suplicará poder falar. Sabe o que ele vai fazer-te.
Escutou-se um soluço.
—Leblanc... não acredita em mim. Far-me-á um dano terrível. Diga-lhe que não sei nada mais. Por favor, Henri, diga-lhe. Sua voz tinha trocado por completo. Soava mais jovem, menos refinada, de uma forma sutil e muito mais assustada. Era uma interpretação própria de um professor.
—Far-te-á mal independentemente do que eu lhe diga—Se animou Henri.
A garota afundou o rosto nas mãos. Seu cabelo se derramou como rios negros entre seus dedos.
—Não posso suportá-lo. Ele me utilizará... grunhindo como um animal. Não nasci para dar prazer a um camponês.
Esperta, muito esperta. Soube o que estava fazendo. O acento de Henri assinalava que era um parisiense, um homem das ruas da cidade. Leblanc, apesar de sua superfície cuidada, era o filho de um granjeiro que criava porcos, mas era Henri que trabalhava para o Leblanc.
O rancor de Henri penetrou dentro da cela.
—Sempre foi a mascote de Vauban. Vauban e sua equipe de elite. Vauban e suas missões importantes. Acreditava-te muito melhor que o resto de nós. Mas esta noite, a supostamente especial Annique a quem ninguém podia tocar, converte-se no brinquedo cego com o que jogará Leblanc. Se tivesse sido amável comigo antes, possivelmente estaria disposto a te ajudar a agora.
—Leblanc se converteu no favorito do Fouché. Com o apoio do diretor da polícia secreta, pode fazer o que quiser. Você não pode me ajudar. Não te atreveria a lhe desobedecer— esfregou os olhos com o dorso da mão. — Farei o que ele deseje. Não fica alternativa.
—Será minha quando ele termine contigo — comentou Henri com desprezo.
Ela seguiu falando.
—Fará que unte meu corpo com azeite e me obrigará a dançar as danças ciganas que aprendi quando menina. Dançarei a luz do fogo para ele, sem outro objeto que uma pequena e fina camisola de seda. Seda vermelha. Ele... Ele prefere a cor vermelha. Disse-me isso.
Grey agarrou com força a algema, sobressaltado pela imagem de um corpo magro e nu que se movia seguindo o ritmo, emoldurado pelo dourado resplendor do fogo. Não era o único. Henri segurou os barrotes da porta e pressionou a cara entre eles para aproximar-se mais, estava com água na boca.
Annique, cujos olhos olhavam o chão, balançou-se como se seu corpo já seguisse o ritmo ondulante da dança sensual que acabava de descrever.
—Separarei a seda de cor carmesim de meu corpo e o acariciarei com ela. Notará a seda cálida e úmida pelo calor que gera a dança, por meu calor... —Sua mão esquerda acariciou a parte inferior de seu corpo, de um modo íntimo.
A Grey doía o corpo depois de receber uma dúzia de surras, a sede o atormentava a cada segundo e sabia exatamente o que ela estava fazendo. Mesmo assim sentiu uma excitação enorme. Senhor, ela era boa nisso. Henri tentava abrir o cadeado de forma torpe e ruidosa. Se o francês estava excitado a metade que Grey pela pequena farsa de Annique, seria um milagre que ao final conseguisse abrir a porta. Henri segurou com força o tecido branco de sua combinação.
Ela continuou com voz rouca, como se estivesse sonhando.
—Tombará em minha cama e me chamará para que vá para ele. Ao princípio só quererá que o toque, logo que o beije, ali onde ele me indique. Como vê, não terei outra opção exceto fazer o que ele me ordene.
A porta se abriu com um golpe ruidoso contra a parede de pedra.
—Não deve entrar aqui, Henri— disse ela brandamente, sem mover-se, — nem me tocar de maneira nenhuma sem a permissão do Leblanc.
—A merda com Leblanc—Henri apagou o lampião e a encurralou contra a mesa. Seus punhos se aferraram a sua saia e a puxou para acima. Segurou com força o tecido branco de sua combinação que tinha debaixo.
—Não deveria... Não deve... —Ela lutou, empurrando suas mãos de maneira fútil, com a escassa força de um passarinho apanhado.
—Não —Grey se lançou para o Henri, mas ficou preso por causa de suas correntes. O círculo de dor no pulso o fez voltar à realidade. Não podia chegar até ela, não podia lutar com Henri por ela. Não havia uma só maldita coisa que pudesse fazer, exceto olhar.
—Não... —O braço que ela agitava no ar golpeou a lanterna, que caiu ao chão. A escuridão reinou imediatamente e de forma absoluta.
—Garota estúpida— grunhiu Henri.—Você...
Escutou-se o leve som de um golpe dado com força. Henri gritou de dor. Ouviram-se mais golpes, um, dois e três. A mesa se moveu com um chiado para um lado e algo grande e brando caiu.
Não se percebia nenhum movimento. Grey escutou como Annique respirava com dificuldade: esses sons suaves, com ofegos de contralto, eram definitivamente dela.
Tinha-o planejado. Ela tinha planejado tudo. Agachou-se, tenso como uma corda estirada e foi consciente do tanto que lhe enganou. Tinha-o planejado tudo, do início até o final. Tinha-os manipulado aos dois com essa maldita atuação.
Produziu-se um silêncio prolongado, quebrado de vez em quando pelo intrigante ruído de coisas que rangiam e os grunhidos de Annique. Seus passos, quando caminhou para ele, eram seguros e sem vacilações. Avançou em linha reta, cruzando a cela como se o lugar não estivesse tão escuro como uma tumba.
—O que fez com Henri? —Pensou que realmente não tinha tido dúvida alguma sobre o que aconteceu em nenhum momento.
—Golpeei sua cabeça com a meia repleta de pedras — Dava a impressão que o assunto lhe estava dando voltas enquanto se sentou no chão a seu lado. — Ao menos estou quase segura de que lhe dei na cabeça uma vez. Golpeei-o em muitos lugares. De qualquer modo, está calado.
—Morto?
—Respira. Mas nunca se pode estar seguro com as feridas na cabeça. Possivelmente tenha que explicar outra situação complicada a Deus quando estiver diante da soleira de sua porta, o que, tendo em conta tudo o que passou, pode acontecer em qualquer momento. Espero não havê-lo matado, de tudo, embora, sem dúvida, o merecia. Deixarei essa tarefa à outra pessoa e outro dia. Há muita gente que desfrutaria matando-o. Agora mesmo me ocorrem várias dúzias de pessoas.
Ela o desconcertava. Havia crueldade em seu tom, mas se tratava de uma dureza alegre, limpa como a brisa fresca. Não podia perceber nem um vislumbre dessa maldade que tinha assassinado àqueles homens à sangue frio, numa emboscada. Tinha que recordar a si mesmo todo o tempo o que esta mulher era realmente.
—Fez algo mais que lhe golpear a cabeça. O que fez depois disso?
—Deseja o relatório completo? —Parecia divertida. — Está claro que é um professor de espiões, tenho entendido que é inglês. Ninguém formula esse tipo de perguntas com tanta calma, como se fosse seu direito saber. Muito bem, apresentar-lhe-ei meu relatório completo. Atei o Henri e roubei seu dinheiro. Tinha um pacote de documentos interessantes em um bolso que ele possivelmente pensava que era secreto.
Pode ficar com eles se quiser. Eu já não estou no negócio de recolher documentos secretos.
Deu-lhe um suave tapinha.
—Também encontrei um alfinete de gravata muito útil e se levantar esse precioso grilhão de ferro para aqui... Sim, justo assim. Agora fique quieto. Não sou peixeira, assim não posso abrir este absurdo cadeado se segue movendo-se de um lado a outro. Fará que me arrependa de ser nobre e salvar sua vida se não se comportar de maneira sensata.
—Estou ao seu dispor. —Ofereceu o grilhão que tinha no pulso. Ao mesmo tempo alargou a mão e tocou seus cabelos, preparado para sujeitá-los se ela tentava escapar sem liberá-lo.
Ela tinha se posto ao alcance de suas mãos. Tratava-se de um homem que era o dobro de seu tamanho e força e, além disso, era um inimigo. Annique tinha que saber o efeito que causava em um homem todo esse movimento e esses sussurros. A vingança, a ira e a luxúria se agitavam em seu interior como ferro fundido. O surpreendente era que não atravessasse sua pele e prendesse fogo a esses cabelos tão suaves.
—Bem, avançamos— disse na escuridão, — este cadeado não é tão complicado como parece. Estamos chegando a um acordo.
Aproximou-se um pouco mais e moveu o grilhão para trocar o ângulo, roçando seu corpo contra a coxa dele. Com cada contato acidental, sentia como aumentava a pressão sanguínea e o desconforto entre suas pernas. O único em que podia pensar era em sua doce voz dizendo «untarei meu corpo com azeite e dançarei a luz do fogo». Ele não era Henri. Não ia tocá-la. Mas, agora era a vez de averiguar como ia tirar essa imagem de sua mente.
—Já abriu — O cadeado caiu aberto.
Fazia com que parecesse simples, mas não era. Ele esfregou os pulsos.
—Agradeço-lhe.
Ficou em pé e se estirou por completo, aceitando de bom grau a dor dos espasmos musculares ao mover-se. Livre. Alagou-o uma sensação de júbilo selvagem. Era livre. Fechou e abriu os punhos, desfrutando da quebra de onda de poder que sacudia seu corpo. Sentia como se pudesse destroçar essa parede de pedra somente com as mãos. A cela estava tão escura como a boca do inferno e se encontravam a mais de seis metros clandestinamente, debaixo da fortaleza da polícia secreta francesa. Mas a porta estava aberta. Ele podia tirá-los daí, ao Adrian e a esta mulher incrível e traiçoeira, ou podia morrer tentando-o. Se não conseguissem escapar, seria melhor, para os três, morrer no intento.
Enquanto a mulher se esforçava em abrir o cadeado do Adrian, ele mediu seu caminho ao cruzar a cela para chegar até onde estava Henri, que, como ela havia dito, ainda respirava. O francês estava amarrado, mãos e pés, com suas meias e ela o tinha amordaçado com sua própria gravata. Uma mulher minuciosa. Comprovar os nós era um exercício acadêmico. Com efeito, existia um bolso secreto na jaqueta, e retirou os documentos, logo baixou as calças de Henri até seus tornozelos, deixando-o meio nu.
—O que é que está fazendo? —Ela escutou como ele movia ao Henri.—Sinto-me curiosa esta noite.
—Dou ao Henri algo do que falar com o Leblanc a próxima vez que se vejam—Podia ganhar uns dez minutos enquanto Henri explicava seus planos com a garota. —É possível que acabe por me arrepender de deixá-lo com vida.
—Se tivermos muita sorte, terá a possibilidade de arrepender-se— Ouviu um som metálico final, pequeno e decisivo.—Isso foi o cadeado de seu amigo Adrian ao abrir-se. Não pode caminhar daqui, já sabe.
—Eu o carregarei. Tem algum plano para sair deste Château com um homem inconsciente, sem armas e com a metade da polícia secreta da França no piso de acima?
—É obvio. Mas não vamos falar sobre isso aqui. Traga o seu amigo e venha, por favor, se lhe interessa seguir com vida.
Passou um braço por debaixo do ombro são do Adrian e o puxou para cima. O menino não podia estar em pé sem ajuda, mas era capaz de caminhar se o sujeitavam. Estava conversando com pessoas invisíveis numa multidão de idiomas.
—Não morra agora, Caçador de Falcões— disse ele, — não te atreva a morrer.


Capítulo Dois

—Eu não deveria estar brincando de ser a enfermeira de um par de ingleses. —A mulher se moveu para pegar um pouco mais do peso do Adrian.—Aqui viramos à esquerda inglês, se, se empenhar em vir a este lugar.
—É a igreja mais próxima?
—Em efeito, é. Esta é a igreja do St. Cloud a meio caminho se desce a colina, que é uma igreja no sentido amplo da palavra— de dia se pode ver a torre;—mas a capela do orfanato está muito mais perto, se não lhe importar que esteja em ruínas, e, imagino, que isso é algo que lhe dá absolutamente igual. Queimou-se durante o Reinado do Terror . Todos partiram, as monjas e os órfãos, só Deus sabe para onde.
—Se for para a igreja mais próxima, haverá ali uma mensagem. —Se tivesse sorte, seu amigo Doyle o estaria esperando.
—Os espiões ingleses na Itália tinham um sistema parecido. Compreendo-o.
A noite se estendia em todas as direções, sem o mínimo vislumbre de luz, mas era uma escuridão decente e limpa depois de sair dessa cela. Ele inspirou fundo. As possibilidades pareciam infinitas abaixo desse céu, respirando o ar frio, puro e vazio. Tinham chegado até aí. Obteria que todos estivessem a salvo. Encontraria um modo.
—Não sei por que os estou ajudando. Este é um exemplo de bondade desinteressada. —Podia imaginar o gesto resignado que estava fazendo ao encolher-se de ombros. Já a conhecia suficientemente bem para saber isso.—Portanto, este é, sem dúvida, um ato pouco inteligente. Afastamo-nos um pouco do caminho. Devemos voltar. Sim, justo por aí. Tome cuidado.
Entre os dois sujeitavam ao Adrian enquanto Annique explorava o caminho diante deles com um pau que tinha recolhido no jardim do Château. Havia tornado a lhe salvar a vida essa noite. Fora Annique quem contara um por um os passos de uma rota complicada através do labirinto das adegas do Château. Conhecia o segredo de uma porta oculta na parte posterior de um armário da despensa. Na mais absoluta escuridão, com uma segurança que invejariam até os gatos, tinha achado um caminho seguro entre os perigos invisíveis do jardim. Tinha encontrado água oculta debaixo de folhas numa urna de pedra de grande profundidade. Recordaria essa água durante o resto de sua vida. Recordaria como ela tinha formado uma terrina com as mãos para recolher a água, e, como a tinha aproximado dos lábios do Adrian, antes sequer de que ela bebesse um pouco.
Ele, sozinho, nunca teria sido capaz de levantar Adrian para passar esse último muro. Tinha sido um suplício eterno e angustiante que tinham levado a cabo em meio a um silêncio estranho, quando apenas a uns quarenta e cinco metros os convidados iam e vinham pelos degraus da fachada do Château e a música, de uma pureza mais própria de outro mundo, acariciava o ar como lágrimas de cristal.
Agora ela os conduziu para diante, sussurrando palavras de ânimo e guia, junto com as queixa sarcásticas. «Os sulcos feitos pelas rodas são profundos porque os furgões deviam ir à porta traseira do Château». «A parede à direita está cheia de pedras afiadas. Evite-a». «Esse é um ramo baixo. Vê-lo-á em seguida». Ele podia ver como ela caminhava através do inferno dizendo: «À direita, note-se nesse demônio encadeado». O respeito e o receio que sentia por ela aumentavam a casa passo. Tinha que tomar todas as precauções possíveis para capturá-la.
—Não está longe, a porta que dá ao orfanato — disse ela.
Na outra margem do rio Sena, uma fileira de pequenas luzes indicava onde se encontrava a cidade de Paris. Apenas a umas poucas ruas de distância, uma janela solitária permanecia iluminada em meio a noite. Além disso, a escuridão era similar à de uma cova.
—Como demônio, pode sabê-lo?
Ela riu na escuridão. Também se alegrava de estar fora da cela.
—Fiz este caminho muitas vezes à luz do dia. Minha memória é excelente— havia um tom alegre em sua voz, era como se cantasse. Resultava estranho escutá-la, pois parecia muito jovem, como uma menina valente, em lugar da serpente de larga cauda enrolada que sabia que era.—Esta árvore abaixo da qual nos cobrimos— golpeou o pau contra a casca, — que logicamente não tinha visto antes, e que, de todos os modos, agora não pode ver, é uma preciosa cerejeira que já era velha quando vim aqui pela primeira vez. Subia nesta árvore e roubava suas cerejas muitas vezes quando menina. Toda a volta cheira às frutas que caíram faz umas poucas semanas. O caminho que procura, a entrada do orfanato das Irmãs dos Órfãos, está na outra direção. Aí.—Tocou ligeiramente seu ombro, lhe mostrando o que havia dito.
Sua visão noturna era extraordinária.
—Não vejo nada.
—Deixe de tentar ver, inglês. Em lugar disso, escute. A noite conta histórias a seu redor. A Rue Bérenger está diante... a uns... Possivelmente cinquenta passos. O padeiro da esquina está fazendo pão agora. Pode-se cheirar o pão. A Rue Bérenger se estende para o leste, em direção à ponte, a Paris, onde um homem de sua profissão certamente terá amigos. Também pode subir a colina ao oeste; ao cabo de certo tempo se encontrará frente à Inglaterra, onde sem dúvida terá mais amigos. Essa brisa que nota na cara, pode senti-la, vem do nordeste, du Bois de Boulogne.
Ele fechou os olhos e tentou sentir as correntes da noite como o fazia ela. Tinha razão. Era mais fácil escutar e sentir o vento em sua pele, que esforçar-se por ver.
—Você é boa nisto. Tem ampla experiência em mover-se furtivamente na escuridão.
—Mais do que eu gostaria, sem dúvida.
—Aprendeu tudo isto trabalhando para Vauban? Era uma de seus agentes, não é certo?
—Faz muitas perguntas. Não o havia dito? Agora, preste atenção e lhe ensinarei alguns truques. Quando a gente está de cara ao vento sempre sabe onde está. Esta é a direção do aroma do rio — Ele escutou como ela tragava saliva. — O aroma da água.
E com isso, ele encontrou a ceva perfeita com o que ia apanhá-la. Sua voz a tinha delatado. A urna de pedra do jardim logo que continha suficiente água como para que se molhassem os lábios. Ela tinha sede. Tanta que sofria.
Escolheu suas palavras cuidadosamente.
—Alegrar-me-ei quando chegarmos à capela. Espero encontrar água —Sentiu como sua atenção fraquejava. Bem.
—É muito provável.
Escolheu algumas palavras insidiosas que acrescentar às anteriores.
—Deveria haver um poço. Acredita que encontraremos um cubo ou algo para tirar água?
—Descobri-lo-á sem dúvida. Não está longe, como já lhe disse—Sua voz se voltou mais espessa e a escutou tragar saliva de novo.—Deixar-lhes-ei para que tenham esse suposto encontro secreto. Por minha parte, esperam-me meus próprios assuntos em outra parte. Não estou interessada em conhecer mais membros da comunidade de espiões ingleses de Paris— Mas sua voz delatava que estava pensando na água.
—O mais seguro é que não haja ninguém ali. Não posso me ocupar do Adrian eu sozinho. Além disso, pode me mostrar onde está esse poço.
—Não insista, monsieur— Ouviu como seu pau pulverizava as pedras do caminho.—Não é um sinal atrativo.
—Necessita sua ajuda. Quantos são? Acaso são cem passos?
Ela soprou— um som delicado, francês— para indicar seu aborrecimento.
—Não entendo como é possível que os ingleses tenham fama de serem estoicos, porque você não é nem por indício— Segurou Adrian mais perto de seu corpo.—Vamos. Encontraremos essa água que tanto o obceca. O que sim vamos fazer é deixar de perder o tempo no caminho, conversando, deixando que nos veja qualquer que passe por aqui. Esta é a entrada.
O pau de vassoura repicou zangado entre os trilhos de ferro enquanto avançavam.
—Chegarei até os degraus do edifício principal. Não passarei dali— disse ela,—nem um centímetro. Nem que tivesse que ocupar-se de uma dúzia de jovens espiões, todos feridos gravemente. É totalmente ilógico que me peça isso. —Seus pés faziam ruído sobre o caminho de cascalho que se estendia a frente deles numa descida.—Tive muito pouco que ver com os ingleses antes disto. Agora vejo que foi uma decisão inteligente, embora, sem dúvida, tem que haver muitos ingleses que sejam mais razoáveis do que você. Possivelmente deva guardar minha opinião.
Ele não podia detectar nem rastro de presença humana nas cercanias. Mas, certamente não devia fazê-lo, não se o que estava esperando ali era Will Doyle.
Uns poucos passos para diante e logo ela se deteve.
—Eu não gosto disto— E tinha razão, seu instinto era excelente. — Não. Não irei mais à frente. Sujeite ao menino...
Adrian, apesar de não estar de tudo consciente, devia ter estado escutando. Foi então quando interpretou seu papel. Começou a gemer e se apoiou mais em quando lhe fraquejaram as pernas.
Ela se cambaleou e o manteve em pé.
—Seu amigo se deprimiu de novo. Devemos...
A seu lado, suficientemente perto para tocá-la, Doyle disse:
—Já era hora para que aparecesses— Uma presença de aspecto fornido que se fundia com a noite.—Estava a ponto de invadir o lugar.
Doyle. Graças a Deus. Sentiu como se desvanecia o mundo de preocupação que carregava às costas.
—Adrian está ferido.
No instante que escutou a voz do Doyle, a garota se separou do Adrian e jogou marcha atrás para o bosque. Ficou quieta uma vez que esteve fora do alcance.
—Dê-me isso – Doyle era um homem grande. Segurou ao Adrian e o carregou com ele.—Tinha ouvido que lhe tinham disparado, estávamo-nos perguntando como estaria. Roubei uma carruagem para o caso de precisarmos. Está ali, baixando o caminho de acesso.
—Bem— Girou a cabeça a um lado e logo ao outro, escutando, localizando-se à garota. Estava ali. O sussurro de sua respiração a delatava. «Sinta-se segura na escuridão, Annique. Faz isso.»—Necessito água para meu guia — gritou quando Doyle se afastou.

Juraria que Doyle era capaz de lhe ler a mente.
—Há um par de garrafas na carruagem, água fresca e fria. Trá-las-ei para você. É água fresca e potável— Eram as palavras corretas, ditas como se carecessem de importância e com total tranquilidade.
Sentiu um tremor no silêncio de Annique enquanto esperava. «Segue pensando na água, Annique. Continue pensando no quanto sedenta está».
—Trarei a garrafa, mademoiselle, com minha gratidão. É o mínimo que posso fazer.
Ela titubeou, um murmúrio quase inaudível de indecisão. Devia estar desesperada por conseguir água.
Se fizesse o intento de sujeitá-la e errasse, não teria uma segunda oportunidade. Era muito rápida na escuridão, sentia-se muito cômoda deslizando-se por toda parte com esse pau. Tinha que tentá-la para que se aproximasse.
—Espere—disse brandamente, — trarei a água.
O aroma de pintura fresca o guiou até a carruagem e a uma fina rede de débeis raios luminosos que escapavam de um farolzinho escuro. Quando deslizou a coberta a um lado, um triângulo de luz brotou cruzando o pátio coberto por mais ervas.
Doyle depositou Adrian na carruagem.
—Onde lhe atingiram, menino? No ombro? Não, mas bem no peito. Só uma bala?
Adrian respondeu com voz rouca.
—Alguém é mais que suficiente... Não te parece? O colete se estragou.
A carruagem se balançou enquanto Doyle estendia uma manta para tampar ao moço.
—Não sei como vou poder olhar à cara de seu alfaiate sabendo isto. Tome, beba um pouco de água antes que desmaie.
—Deixa a água onde possa alcançá-la. Vamos daqui.
—Quem morreu e te deixou no comando, menino? Algum dia tem que me contar isso— Doyle girou para descer da carruagem.—Sobreviverá. Quantos lhe perseguem?
—Todo o ninho de vespas. Assim que salde minha dívida com nosso guia, poderemos ir. Onde está a água? —Balançou o lampião para os lados. Sim, sim. Agora a tinha. Ela se afastou, longe do alcance da luz do lampião, convertendo-se numa sombra entre todas as sombras; era inteligente, precavida. Mas certamente, já era muito tarde para tomar precauções.
Doyle o olhou diretamente aos olhos.
—É obvio. Agora mesmo a baixo, senhor— Doyle subiu pelos degraus até chegar ao teto da carruagem, mão sobre mão, com uma graça estranha, lenta e torpe de um grande urso pardo.—Também tenho comida. Uma grande cesta com pão, queijo, salsichas e um pouco de vinho.
Em meio da escuridão, Annique devia estar escutando. Teria fome. Leblanc se teria encarregado disso.
—Um pouco de pão, mas, primeiro, água. Dê-me algo que seja fácil de transportar. A garrafa de água, essa daí.
Doyle lhe entregou uma garrafa de água e meia barra de pão, que ainda cheirava a recém assado. Era todo o alimento que necessitava. Tinha-a. Agora só tinha que fechar lentamente a armadilha.
—Mademoiselle?
Ela retrocedeu ainda mais para a escuridão. Com cuidado, nervosa. Quando ele se aproximou, podia ver que ela tinha os olhos fechados para não cegar-se com a luz do lampião e assim conservar essa visão noturna tão surpreendente que possuía. Mas ele já sabia o tão esperta que era.
Ela se apoiou pesadamente sobre o velho pau de vassoura que tinha pegado. Sua roupa estava manchada de barro e teias de aranha, sua pele pálida como a de um fantasma devido ao cansaço. Sozinha, exausta e a pé. Até onde acreditava que poderia chegar antes que Leblanc a alcançasse? Na verdade estava lhe fazendo um favor, ao recolhê-la. Algo que ele pudesse lhe fazer, nunca seria tão terrível como o que Leblanc teria em mente para ela.
Com supremo cuidado depositou o lampião sobre o caminho de cascalho, deixando assim a mão livre.
A água soava ao mover-se dentro da garrafa. Com um pouco de sorte, isso seria suficiente para apanhá-la. Caminhou tranquilamente para ela, com a garrafa balançando-se entre seus dedos, a barra de pão colocada de forma despreocupada sob o braço. Os truques simples são os que dão melhores resultados. Era como apanhar a um potro em um campo. Tem que te mover devagar e de maneira uniforme, atuando como se estivesse pensando em outra coisa.
—Também quer queijo? Posso lhe pedir que desça um pouco — falou como se Doyle seguisse no alto da carruagem. Mas não estava ali. Sem olhar, podia seguir o rastro do curso que tinha tomado Doyle, que estava desenhando círculos em silêncio, bloqueando a via de fuga da mulher. Levavam dez anos trabalhando juntos. Sabia onde se colocaria Doyle. Estaria a uma dúzia de passos atrás do objetivo e à direita do caminho.—Com o pão e a água nem sequer começo a pagar tudo o que lhe devemos.
—Não saldo dívidas com espiões ingleses— Caminhou arrastando os pés, inquieta.—As dívidas atam às pessoas.
—A água não é uma dívida, não é mais que um pouco de água fresca— Lançou a palavra como um nó corrediço. Tinha que deixar que ela pensasse unicamente na sede e não no fato de que ele se estava aproximando. Virtualmente tinha chegado até ela.
Quase podia ouvir como seu instinto gritava que saísse fugindo. O modo resolvido e atento no qual tinha a cabeça o inclinada dizia tudo. Quanto tempo a teria tido Leblanc sem água? Devia estar desesperada para correr semelhante risco.
Um último passo e finalmente segurou com força seu braço. Era dela.
Ela tentou soltar-se de forma brusca.
—Eu não gosto que me toquem, monsieur.
—Esta é a melhor opção. Não tem nenhuma oportunidade contra Leblanc. Ao menos comigo...
A dor estalou em seu cotovelo. O pau da vassoura girou com um movimento fluido e golpeou com um estalo a rótula de seu joelho. Uma agonia branca, fria e incrível atravessou sua perna como uma faca. Caiu ao chão, golpeando o ombro ao fazê-lo. A garota se afastou rapidamente, liberando-se como um peixe que salta de uma rede mal colocada. Não havia nada na escuridão mais que cascalho aqui e lá.
—Maldita seja, merda! —Cegado pela dor, cambaleou-se ao ficar em pé e coxeou atrás dela. Idiota, era um idiota. Tinha visto o que tinha feito com o Henri. Sabia o que era.
Por pouco não foi o final de tudo. Ela era incrivelmente rápida na escuridão. Podia ouvir o pau golpeando as árvores, encontrando o caminho. Estava escapando.
Mas Doyle era o mais ardiloso dos veteranos. Colocou-se num lugar onde podia ver a silhueta da garota perfilada pelo brilho do lampião. Não a via absolutamente em meio dos arbustos sumidos na escuridão. Ela correu diretamente para os enormes braços do Doyle e ele a alcançou.
Quase a apanhou entre seus braços.
—Filha de má... —Quando chegou encontrou Doyle segurando a barriga, lançando blasfêmias originais em dialeto bretão. —..ferida mal curada —A garota se soltou e estava se levantando de novo com certa dificuldade. Era realmente boa, se tinha sido capaz de encaixar um golpe em Doyle.
Sim, ia ser um prazer capturar a mademoiselle Annique.
Esquivou esse pau letal que utilizava, adiantou-se e o arrebatou das mãos. Assim conseguiu desarmá-la. Logo teve que se ocupar da pequena e surpreendente briga que apresentou ela. Era forte para ser uma mulher, tinha um corpo magro, somente músculos e ossos duros, sem gordura nenhuma. A parte superior de sua cabeça nem sequer lhe chegava ao queixo. Não tinha nenhuma oportunidade.
Demorou menos de três minutos. Uma vez que tudo terminou segurou seus braços para trás, sem lhe fazer mais dano do que o necessário, mas, sem permitir que ela conseguisse machucá-lo. Ela respirava entrecortadamente, seu peito subia e descia, enquanto cada um de seus músculos tremia pela comoção. Tinha sido uma noite complicada para a senhorita Annique. Depois disso, foram passo a passo até chegar à carruagem. Ele a arrastava, deixando que brigasse o justo até que se esgotasse. Não podia ficar muita energia.
Experimentou um sentimento feroz e primitivo de posse. Era dele, ela era de sua propriedade.
Esfregando a barriga entre grunhidos, Doyle se aproximou devagar.
—Rápida como as galinhas. Verdade, garota? Coloque-a aqui, na luz— Doyle segurou uma mecha de cabelo e a obrigou a jogar a cabeça para trás. Ela ainda lutava, com os olhos fechados em um gesto de concentração cheio de fúria, enquanto tentava dar uma patada em alguém.—Pelos periquitos do Senhor. Annique Villiers— Doyle assobiou pelo baixo.—Recolhe as coisas mais estranhas, Grey. Que demônios você faz com a Jovem Raposa?


Capítulo Três
«Algumas vezes— pensou Annique,—se paga um alto preço por um pequeno engano». Não deveria haver-se deixado tentar pela água.
Tinha sido uma briga curta e vergonhosa. Não tinha tido nenhuma opção contra esse espião inglês ao que, num gesto estúpido, tinha liberado do Leblanc. Os dois foram às cegas na noite e ela tinha praticado uma e outra vez o modo de lutar quando a gente não pode ver. Mas isso não lhe tinha devotado nenhuma vantagem. Recorreu a todos os truques sujos que tinha aprendido em sua vida e os tinha utilizado, um após o outro. Esse homem tão alto os conhecia todos. Era muito melhor que ela nisso de brigar.
A luta terminou rapidamente. Ele a esmagou com força contra seu corpo, a envolveu com seus braços, carregando-a como se não fosse mais que um pequeno pacote, e, ela não pôde escapar. Seus músculos pareciam de ferro e madeira polida, era invulnerável e dava a impressão de ter uma força infinita. Podia perceber como um sentimento de satisfação selvagem percorria todo seu corpo. Ele estava incrivelmente feliz por havê-la apanhado desta maneira. Começou a lhe ter muito medo.
Fazia apenas uma hora colocou sua mão sobre seu coração e não tinha desejado outra coisa mais que ficar ao seu lado. Agora ia ter que fazer justamente isso. Ultimamente o universo a tratava com muito sarcasmo.
Arrastaram-na para diante. Que conduzia a carruagem, o espião inglês que pretendia ser o condutor, segurou-a pelo cabelo, olhou seu rosto e disse:
—Annique Villiers.
Não tinha esperado que a reconhecessem. Não tão ao norte, não os ingleses, logo com quem não tinha tido nada a ver.
—Recolhe as coisas mais estranhas, Grey— disse então. A surpresa a deixou sem fôlego.
Grey. O espião inglês era Grey? Sem lugar para dúvidas estava lutando com alguém muito superior a ela. Pelo amor de Deus, não era de espantar que a tivessem apanhado desse modo. Tinha tropeçado com a retaguarda desorganizada de uma operação britânica importante. Grey não se teria deslocado em pessoa para a França se não fosse por um assunto desse tipo.
Tinha tido uma má sorte incrível. O homem chamado Grey era o diretor de toda a seção britânica, sob as ordens diretas do legendário Galba. Grey não tinha motivos para perambular por Paris detendo mulheres espiãs. Era o chefe de muitos agentes repartidos por toda a Europa e dirigia incontáveis atividades importantes, todas elas, mais complexas e fundamentais, que provocá-la e atormentá-la deste modo. Grey deveria estar... Tentou decidir no meio do zango o que considerava apropriado, pois Grey deveria estar planejando como derrocar ao Napoleão em um escritório em Whitehall, ou, em algum outro lugar pelo estilo. Era muito perigoso e estúpido que estivesse rondando pela França, onde corria um grande risco, pois em qualquer momento podiam encerrá-lo numa adega.
Mas era óbvio que Grey estava na França. Imobilizada entre seus braços, sentiu o cansaço e a sede dessas largas semanas correndo sozinha na escuridão e nesse momento o chefe de espiões ingleses conseguiu derrotá-la. Seu coração fraquejou e perdeu qualquer eficácia que pudesse ter tido na luta.
—Por favor, não me faça isto.
—Com calma, acima— Grey a arrastou até a carruagem como se fosse um troféu que tivesse ganhado por sua grande inteligência, o que no fundo era certo.—Acabou isso de brigar. Eu se fosse você não o tentaria.
—Por favor. Não contarei nada sobre vocês. Nem um sussurro— Suas palavras foram silenciadas contra as almofadas sobre os que ele a imobilizou. Seu corpo estava formado por músculos fortes e resultava extremamente pesado.
—Não, duvido que o faça—disse ele.
Não lhe importava que se agitasse e soltasse pontapés debaixo dele até que acabasse esgotada e resultasse mais fácil de dirigir. Ela se deu conta em seguida do que ele pretendia, mas levou bastante tempo para conseguir se controlar, aceitar o inevitável, apoiar a frente nas almofadas e render-se, até que simplesmente ficou aí, abrindo a boca sem forças como um peixe fora da água.
Estava metida numa confusão terrível. Não a tinham apanhado desta maneira porque os ingleses estivessem interessados em recolher agentes menores e carentes de importância. Tinham sido as estúpidas palavras de Leblanc sobre os planos Albión que tinham despertado seu interesse. Todos os espiões na Europa estavam procurando esses planos. Leblanc podia haver ficado calado. Ultimamente não tinha sorte.
Pensou no que um homem como Grey podia chegar a fazer para descobrir o paradeiro dos planos Albión uma vez que tirasse de Paris a espiã francesa e a levasse a um lugar solitário onde unicamente estariam eles. Podia imaginar como extrairia a informação que desejava e logo silenciaria a espiã que conhecia muitos segredos incômodos. Rendeu-se entre as mãos que a sujeitavam com força de ferro, coberta pelo suor da briga, mas por dentro estava tão fria como o mês de janeiro.
—Terminou? —perguntou Grey.
Ela somente pôde assentir com a cabeça.
—Me alegro de que por fim tenham podido resolver este assunto— Adrian estava no assento em frente. Sua voz era fraca, mas cheia de alegria.—Não paravam de me dar golpes.
—Está resolvido—disse Grey,—só que me morderá se a solto.
Seu medo diminuiu por ouvir essas palavras, porque a atitude de Grey não era a de um homem a ponto de assassinar a alguém e o menino, Adrian, falava em um tom desenvolto e tão somente um monstro poderia falar assim se pretendia matá-la antes que saíssem de Paris.
—Deveria ter deixado que apodrecessem com Leblanc,—disse ela— Oxalá o tivesse feito.
—É um pouco tarde para desejar isso, mademoiselle— disse Grey.
—Lamento lhe contrariar. Nunca é tarde. O mais seguro é que o deseje o resto de minha vida. O que pretende fazer comigo?
—Não vou lhe machucar, Annique.
Sim, claro que o ia fazer. Acaso pensava que era estúpida?
—Salvei suas vidas. Não me parece que o que está fazendo seja um bom modo de devolver o favor.
—Tem razão, não é—Logo se produziu um silêncio no qual ele não quis acrescentar nada mais a sua resposta.
Há uma transição mental pela qual é necessário passar para admitir que fora vencida. Ela reconheceu a derrota da forma mais privada e sentiu como a debilidade e o desespero fluíam por seus músculos. Grey, que a mantinha quieta de uma maneira das mais eficazes, também podia senti-lo. Afrouxou um pouco os braços.
—Sócrates disse que nada mal pode acontecer às boas pessoas, já seja na vida ou depois da morte. Não estou tão segura disso como estava acostumada a está-lo. O que quer de mim? —murmurou ela.
—Sua companhia, durante um tempo— Se percebia uma grande satisfação em sua voz.
—Durante quanto tempo me reterá?
—Até que a solte.
—Vá, monsieur, você é engenhoso. Terá que me desculpar se não rio. Não estou de bom humor esta noite.—Repousou a bochecha sobre o assento, contra o couro frio, esgotada e vencida além do que as palavras podiam descrever. Seus amigos e seus inimigos no pequeno mundo da espionagem a chamavam a Jovem Raposa. Mas nenhuma astúcia própria de uma raposa a liberaria esta vez. Entretanto, tentou de novo parecer uma garota mais parva.—Perde o tempo comigo. Sou o agente de menor fila, o camundongo que espia entre as paredes, o mensageiro. Não guardo segredos que interessem aos ingleses.
E deste modo fingiu não saber nenhuma palavra sobre os planos Albión, nem sobre a invasão da Inglaterra, nem o que tinha ocorrido fazia meses em Brujas, nem sobre nada mais. Não esperava enganá-lo.
—Isso é certo? —Não parecia muito interessado.
—Certamente. Terá ouvido que Leblanc dizia o contrário, mas é um idiota — Ao ver que ele não dizia nada, ela se explicou. — Fala dos planos Albión, dos que eu não sei nada absolutamente. Tem que saber que Leblanc guarda um ressentimento antigo. Odiou a Vauban desde os dias da Revolução, quando os dois eram jovens e ambiciosos; e também odiava à minha mãe. Agora ela está morta, o que o frustra enormemente, de modo que inventa conjurações que nunca existiram. Quer destruir a filha porque não pôde ter a mãe. É um homem mesquinho.
—Você, é obvio, é inocente.
—Gosta de ser irônico. Não é que eu seja inocente. Só o sou neste tema concreto. Essa é a verdade, inglês.
—Sua verdade tem mais capa que uma cebola. Veremos o que passa quando arrancarmos algumas dessas capas.
Não gostou da forma em que soou isso.
O inglês não acreditava nela. Retê-la-ia entre suas garras, igual à morte, apesar do quão convincente pudessem ser as mentiras que lhe contasse. Dentro de pouco começaria o interrogatório.
Estava mais que cansada desses planos intransigentes e estúpidos pelos que não faziam mais que tentar matá-la e que não lhe permitiam descansar em nenhum lugar. Esses planos eram a espada de dois gumes mais afiada, mortais para a Inglaterra se permaneciam escondidos, perigosos para a França se os entregavam aos ingleses. Tinha sido uma manobra das mais estúpidas por parte de Napoleão ordenar esses planos, e lhe repugnava todo esse assunto.
O condutor enganchou os cavalos à carruagem, fazendo que arrastassem os cascos para trás, colocando-lhes arreios com rédeas brilhantes. Não era um trabalho fácil para um só homem, em meio à escuridão da noite. Mas Grey não podia descer e ajudá-lo. Ficou onde estava, segurando seu braço atrás das costas dela desse modo tão inteligente que não lhe produzia dor, mas, que não deixava que ela se movesse. Era como estar apanhada por uma estátua de pedra ou outro objeto com o qual não servia de nada ficar a discutir.
—Vamos terminar com isto. Não está cansada de estar de joelhos no chão, mademoiselle Villiers? —disse ele.
—Muito, monsieur Grey.
—Então, sugiro que cheguemos a um acordo. Prometerá sentar-se tranquilamente e deixar de me dar pontapés. Eu deixarei que se sente e lhe darei algo de comer e de beber. Está de acordo?
De modo que assim ia começar aquilo. Ela reconheceu as primeiras condições que ele ia obrigá-la a aceitar. Cada «sim» que ela pronunciasse faria que o seguinte fora mais fácil até que, tal como ele esperava, lhe parecesse o mais natural fazer exatamente tudo o que ele dizia.
—Leblanc utiliza este tipo de métodos —disse ela,—fará que aceite este sequestro em troca de umas gotas de água. É muito desalentador perceber como são parecidos os espiões em todas as partes.
—Muito filosófico. Chegamos a um acordo?
—Não chegarei a acordos com você. É-me indiferente estar sentada no assento ou caída, estou acostumada a estar amarrada, a menos que a carruagem esteja infestada de pulgas, o que, é obvio, é uma possibilidade. Acredito que a questão da água se resolverá por si mesma, outro dia.
Podia ouvir o condutor, caminhando em círculo ao redor da carruagem, dando pontapés às pedras que freavam as rodas. A carruagem balançou quando ele subiu até o assento do condutor. O veículo avançou dando tombos, colina acima, passando da sarjeta que marcava o lugar onde estava a velha entrada. As rodas deram saltos por culpa das raízes na Rue de Orphelines, soaram estrepitosamente ao percorrer os paralelepípedos da Rue Bérenger. Giraram à direita. Ao oeste, para a Inglaterra.
Foram para o Soulier, que estava destinado em Londres, servindo à polícia secreta e a França. Soulier, que lhe ofereceria refúgio a salvo do Leblanc. Com o amparo do Soulier possivelmente inclusive chegaria a viver o tempo suficiente para fazer algo com os planos Albión. Estes homens a levavam velozmente na direção que ela queria. Estava segura de que o anjo que se ocupava dela em seu céu particular tinha um senso de humor do mais malvado.
—Pergunto-me se não deveria pô-la em evidência— As mãos de Grey a estreitaram com mais força.—Deveríamos...
Adrian falou do outro extremo do interior da carruagem.
—Por amor de Deus, Grey, deixa à garota em paz.
—Não são seus dentes os que correm perigo por culpa de seus pontapés.
—Não tentava lhe dar nos dentes, monsieur— disse ela.
—Não, não o tentava, verdade?
—É do mais engraçado—A voz do Adrian soava como um grunhido satírico.—Por que não a torturamos depois... Quando tiver recuperado as forças? Será muito mais divertido.
—Demônios— Grey a levantou até sentá-la no assento. Agora podia virar e se afastar dele e se encolher num canto.
—Restaurou-se a paz—Adrian, o menino, colocou-se melhor no assento, fazendo que o couro rangesse e se escutasse o sussurro do tecido ao mover-se.
—Para ti é fácil dizê-lo. Não é a ti ao que ela planeja castrar—disse Grey com amargura.
—Esse é o entretenimento... a que me referia antes.
—Deveria economizar esses gestos de cavalheirismo. Não a conhece. Esta é uma pequena e preciosa serpente.
—Claro que a conheço, ao menos por sua reprostitutação. A Raposa e eu somos velhos rivais... desde a minha época na Itália. As serpentes têm... que permanecer unidas.
Então soube quem podia ser o tal Adrian, embora tivesse usado um nome diferente. Contavam-se histórias incríveis sobre ele. Sem dúvida essa noite tinha estado em mãos muito perigosas.
Grey não deixou que processasse essa nova informação em silêncio. Inclinou-se para um lado e afastou seu cabelo para trás, colocando as mechas detrás da orelha, para deixar seu rosto a descoberto, logo a obrigou a levantar o queixo. Os lampiões exteriores mostrariam sua cara por completo. Manteve os olhos fechados.
Adrian também devia ter estado olhando-a.
—Tem-te medo, se for isso o que queria. Vai e vem. Agora está assustada.
—Quero que o esteja. Quero que tenha tanto medo que não me cause nenhum problema. O quanto me teme, Annique?
—Muito, monsieur. Tanto como gostaria de — Sua voz se quebrou. Dieu. Acaso era possível que nos últimos minutos não tivesse deixado ao descoberto seu plano?—De fato, estou completamente aterrada.
—O que acha? —perguntou Grey ao Adrian.—É real ou só interpreta um papel?
—Parece bastante real. Vi muitas mulheres assustadas durante minha interessante juventude. É muito fácil te ter medo, acredite em mim, eu sei.
—Possivelmente comece a se comportar. Entretanto, por respeito a sua delicada sensibilidade, esperarei e me dedicarei a pegá-la e matar de fome mais adiante—Ele a soltou.
Isto resultava incrivelmente reconfortante. Tinha conhecido a muitos homens que torturavam as pessoas, mas nenhum deles tinha o mínimo senso de humor.
Virou para o canto e elevou as mãos como se estivesse esfregando os olhos por culpa de uma dor de cabeça. Tinha sido tão, tão estúpida por se deixar apanhar desse modo... Imaginava como Vauban ia se divertir quando se inteirasse. Tinha-a treinado para ser a melhor. Tinha sido tão estúpida... Certamente, era possível sentir-se mais envergonhada do que se sentia nesse momento, mas não lhe ocorria como podia ser isso. Suas mãos tremiam enquanto ela as sujeitava com força contra seus olhos.
—Não é tão fácil me manipular, mademoiselle— disse Grey,—descobrirá que careço por inteiro de compaixão e não deve sequer pensar em lutar comigo. Tome isto.
«Isto» era uma jarra meio cheia. A água não estava fresca e tinha um gosto metálico, mas, assim que bebeu, caiu-lhe tão bem como o melhor dos vinhos. Apesar de suas fanfarronadas, ele podia lhe haver exigido muitas coisas em troca da água que lhe tinha dado. Ele tinha que sabê-lo.
Deixou cair uma barra de pão sobre seu regaço. Era a mesma que tinha utilizado para apanhá-la, manchada de pó por ter caído ao chão.
Limpou com a mão a areia, cortou um pedaço do excelente pão e o comeu lentamente, alternando partes de pão com goles de água. Depois de um momento, já não sentia desejos de chorar. Era mágico. Esse pão e água lhe tinham dado forças de novo. Escapar voltava a ser uma possibilidade. Bom, possivelmente agora o era.
De maneira deliberada, se inclinou para trás sobre as almofadas, mantendo os olhos fechados, e deixando cair seu corpo inativo e esgotado. Os lampiões do exterior da carruagem iluminavam, gerando um espesso aroma de azeite. Sabia que eles aproveitavam esse brilho de luz para observá-la atentamente. O menor gesto de tensão em um músculo podia delatá-la.
Encheu sua voz de decepção, sentimento que lhe resultava familiar.
—Acredito que ganhou. Note-se, aceito sua comida e já não brigo com você— Elevou o pão como se pesasse muito e arrancou outra parte, mastigou-o e o tragou. Não esperariam que escapasse enquanto ainda estava mastigando. —Não é um grande triunfo me derrotar. Faz vários dias que não como. Não é tão preparado, monsieur Grey.
Adrian riu dissimuladamente no seu assento do outro lado da carruagem. Grey não disse nada absolutamente. A carruagem se balançava e dava tombos. Tinham começado a avançar com certa velocidade através do campo silencioso, dirigindo-se colina acima, longe de Paris. Ela sabia muito bem que esse caminho serpenteava por meio de uma região de vilas compactas de casas de pedra, com campos e grandes casas rodeadas de imensos jardins. Podia cheirar o perfume das últimas rosas que tinham florescido nos jardins e a erva do campo. Ocasionalmente lhe chegava o aroma das maçãs. Por toda parte, a fumaça das chaminés acesas enchia o ar, ardendo para afastar o frio da noite das casinhas de pedra.
Era o lugar perfeito para escapar, o momento ideal.
Fazia meses que tinha conseguido sentir-se cômoda na escuridão. Conhecia milhares de truques para mover-se sem ver, que estes homens nem sequer podiam imaginar. A noite era seu território e estava pronta para escondê-la. Nenhum deles poderia ganhá-la na escuridão.
Tragou a parte de pão e fingiu comer outro pouco. Este era o momento. Não é bom planejar em excesso este tipo de coisas. O oponente o percebe.
Retorceu-se para os lados no assento e o deu um pontapé em Grey com toda sua força. Esta vez, para variar, golpeou-o na barriga.


Capítulo Quatro

—Graças aos deuses— Adrian se deixou cair sobre a cama, completamente vestido. Seu casaco cheirava a vinho, para que assim pudesse explicar o motivo pelo que cambaleava a cada passo.
—Está sangrando de novo.
—Ninguém o viu.
—Demônios, então não acontece nada, se ninguém o viu— Grey elevou os pés do Adrian e começou a lhe tirar as botas.—Maldito idiota.
—Estão procurando a alguém com um buraco de bala. Não a um... Imbecil que leva uma garrafa.
—Que leva uma garrafa e desafina ao cantar, enquanto cruza todo o pátio da estalagem.
—Ninguém se fixa em ti se... não te esconde. É uma idéia genial.
Possivelmente fosse, mas tinha consumido as últimas forças que ficavam ao Adrian.
—A próxima vez, faz o que te diz— Quando Grey desabotoou o colete a raias, viu que a parte dianteira da camisa do Adrian estava empapada. Tinha perdido mais sangue e ainda tinham que lhe tirar a bala.
—…E não desafinei. Tenho uma voz especial de barítono.
—Igual a um burro. Não se sente— Roussel, o dono da estalagem, já tinha colocado a mala vermelha do Doyle no armário. As gazuas e uma coleção de armas sutis estavam colocadas em fileira dentro do estojo do barbeiro, como se, se tratasse de uma série de ferramentas complexas para o barbear de um homem. Havia vários tipos de tesouras.—Vou cortar esse abrigo para lhe tirar isso.
—Mais presentes sacrificados pelas exigências próprias do serviço— Adrian fez um gesto com os lábios.—Fique o fique, estamos fartos um do outro. Estou metido neste casaco ... Quanto tempo foi? Três dias?
—Quatro, desde que lhe dispararam.
—Vá, perdi um dia.
—Não perdeu nada, eu estive ali.
Falavam em francês. Inclusive a sós, nessa estalagem que pertencia de corpo e alma aos ingleses, nunca se atreveram a falar inglês. Era um dos milhares de hábitos que lhes permitia seguir com vida. As vozes trocam quando se troca de língua. A própria voz de Grey era refinada e suave quando falava francês alargando as palavras com acento de Toulouse. Em inglês, seu tom normal era um grunhido áspero e grave, carregado com o toque adicional de seu acento nativo da zona sudoeste da Inglaterra.
Arregaçou as mangas da camisa e escolheu um par de tesouras.
—Tem as pontas afiadas. Não te mova.
—Olha como fico quieto como uma estátua— Adrian deixou que sua cabeça repousasse sobre o travesseiro.—Não deveríamos tê-la trazido aqui. Podíamos deixá-la em qualquer desses povos.
—Necessito-a. Ao contrário, a ti sim, podíamos ter deixado em um povo na Normandia para não te ver mais. —Cortou a malha de lã, o pesado forro de seda do colete e o tecido da camisa.—Levanta o braço. Sim, desse modo.
—Trouxeste uma agente francesa a um refúgio do serviço secreto britânico. Este é o território do Roussel. Vai querer lhe cortar o pescoço.
—Roussel não consegue tudo o que quer— O curativo debaixo da roupa pesava muito, por todo o sangue fresco que tinha absorvido, tinha as extremidades duras e de cor marrom. Cortou seis, sete vezes e arrancou a atadura.
Adrian se encolheu para poder olhar seu peito.
—Daqui dá a impressão de ser um desastre. Que tal está?
—Não está mau. —debaixo de uma crosta de sangue de tato gomoso, a ferida supurava um fio de líquido de cor amarelada. Isso era normal? Evitou que o que pensava se refletisse em seu rosto.—Melhor do que esperava.
Por desgraça, o Caçador de Falcões podia ler os pensamentos de qualquer pessoa. Inclinou-se para trás, abriu e fechou a mão algumas vezes e logo afastou a vista. Pela janela aberta penetrava o leve murmúrio dos homens que falavam nas mesas que havia lá fora.
—Não é possível encontrar um médico?
—Roussel não confia no médico da zona. Arrumaremos isso por nossa conta.
—Que intrépidos somos.
A febre tinha baixado, depois de ter perdido momentaneamente a batalha contra a resistência de ferro do Caçador de Falcões. Mas isso não duraria muito mais tempo. Este menino escorregadio e brilhante ia morrer porque Grey não podia correr o risco de conseguir um médico francês que o atendesse, porque tinham sido muito lentos ao fugir naquele beco em Paris havia quatro dias e, em primeiro lugar, porque enviou o Caçador de Falcões para a França.
Ia matar o menino no dia seguinte, quando tentasse extrair essa bala. Maldição, maldição e maldição.
A filha do Roussel havia trazido água. Grey colocou um pouco na bacia. Estava quente, quase muito para colocar as mãos.
—Vamos nos limpar, comeremos um bom jantar e dormiremos sobre um colchão brando esta noite. Amanhã nos afastaremos mais de Paris e depois faremos uma parada para tirar essa bala — Se obrigou a olhar atentamente os lados dentados e enrugados de pele avermelhada da ferida.—Ficará com uma cicatriz preciosa.
—Que se somará a meus múltiplos encantos. Quem vai escavar dentro de mim? Você ou Doyle?
—Falamo-lo. Minhas mãos são melhores para as coisas pequenas.
—Lançastes uma moeda. Sei— Adrian esboçou um sorriso.—Podíamos esperar até chegar à Inglaterra. Conheço um homem em Chelsea que tem um método do mais artístico e delicado para tirar balas.
—Covarde.
—Em efeito. Então o faremos amanhã. Se estiver disposto a fazê-lo, sugiro-te que seja em um lugar privado. Vou resmungar de um modo nada masculino.
—Levá-lo-ei em conta.
Havia toalhas empilhadas junto à bacia. Grey tentou recordar o que era o que se fazia nos postos de atenção médica depois da batalha. Colocavam-se panos quentes sobre as feridas para que os empapassem. Isso também servia com os cavalos. Provaria com isso. Umedeceu o tecido na bacia de água quente e a escorreu com cuidado.
—Isto está quente.
—Ai!—O menino se incorporou de repente.—Quente, sim, tem razão— espirou, lenta e dolorosamente, pela boca com os dentes fechados.—Vá, está fervendo, mais do que quente. Escuta... Carruthers tem meu último relatório. Isso é seguro. Diga a Giles que pegue o que queira de meu quarto em Meeks Street. George herdará o relógio que está na gaveta de minha cômoda. Prometi que seria dele se não voltava de alguma missão.
—Vais sair desta— Grey levantou o pano e olhou a ferida.
—Ordens. Já sabe o que me passa com isso de obedecer às ordens. Vais seguir olhando o buraco de bala com a boca aberta? É grotesco, se quiser minha opinião— Adrian fixou a vista na greta que percorria todo o teto de gesso.—Grey, se a febre voltar, não deixe que eu fale.
O Caçador de Falcões guardava uma quantidade respeitável de segredos.
—Não te deixarei falar.
—Obrigado— Respirou fundo.—O dinheiro. Há um montão no banco Hoare numa conta em nome do Adrian Hawker e também há algumas escrituras—Fez uma careta de dor quando Grey levantou o pano.—Encontre Black John. Sou o padrinho de seu filho mais velho. Pode acreditar nisso? O dinheiro é para o menino— Voltou a respirar fundo.—Acredito que devo dinheiro ao alfaiate. Faça-me o favor de lhe pagar por mim.
—Falas como se fosse Sócrates depois de uma boa taça de cicuta— Colocou de novo o pano em água quente e o depositou sobre a ferida.
—Quem é...? Quem é Sócrates?
—Um grego morto. Annique o admira.
—É desperdiçar sua admiração se já estiver morto. Essa é uma mulher que nasceu para ser admirada por um homem que ainda esteja vivo e que tenha o sangue quente— O rosto magro e escuro do Adrian estava muito mais pálido do que deveria, mas conseguiu esboçar um sorriso lascivo pouco convincente.—Provavelmente por mim. Você não lhe cai muito bem, mon vieux.
—Não tenho que cair bem. Supõe-se que deve me ter medo e deve deixar de tentar escapar. Você pode gostar dela— Grey seguiu trabalhando um momento em silêncio, limpando o sangue do resto do peito do moço com o pano. —Vou te sentar. Não me ajude. Deixa que eu faça todo o trabalho.
—Bom.
Quando Grey o levantou, dava a impressão de que o menino pouco pesava e que se podia quebrar como um cristal. Empilhou várias almofadas atrás dele para que se apoiasse nelas.
—Descansa um minuto.
Atirou a água suja pela janela, que caiu sobre a hera que parecia na realidade uma sarça e subia pelos muros de pedra. Era uma noite cálida. No terraço que havia debaixo deles, os homens ficavam até tarde ao redor das mesas. A maioria eram granjeiros da zona, mas, também havia alguns viajantes com sotaque de Paris ou da Normandia. Alguns homens, que jogavam cartas, conversavam em voz baixa num dialeto da costa de Bretanha. As velas piscavam nas mesas, iluminando a boina de um camponês, um elegante chapéu da moda e um arbusto de cabelo claro. Uma das filhas do Roussel, de cabelo escuro e de abundantes carnes, movia-se furtivamente entre os homens, recolhendo os copos. Além da porta do pátio da estalagem, os campos envoltos em sombras estavam cheios do som dos grilos.
Estariam a salvo essa noite, nesse pequeno povoado, nessa estalagem recôndita, que era um refúgio de passagem dentro da rede de espiões britânicos na França. O dia seguinte seria um inferno.
***
A cama rangeu.
—Não sabe como tratá-la— disse Adrian,—está destroçando a si mesmo ao lutar contra ti. É algo repugnante.
—Me conte algo que eu não saiba. É como brigar com um gato morto de fome.
Mas mentia. Era como brigar com um relâmpago envolto em seda. Annique não podia admitir que a tivessem vencido. Não tinha cessado de lançar-se de forma desesperada e enlouquecida contra ele, tentando escapar da carruagem. Uma e outra vez, ele tinha pressionado seu corpo debaixo do dele, apesar de que ela lançava pontapés, retorcia-se e não parava de se mover. Cada vez que a sujeitava ela suspirava e chegava para trás, aceitando outra nova derrota. As bordas afiadas se derretiam. A energia vibrante sossegava-se em suas mãos. Era como o gesto suave e doce de abandono das mulheres uma vez que alcançaram o orgasmo. Era tão formosa como insidiosa. Aditiva como o ópio. Não era o mais recomendável que um agente de sua patente sentisse isso por uma raposa francesa traiçoeira.
—Pretendo não lhe machucar, mas não é fácil. É rápida como uma pequena cobra— Pôs o curativo em seu lugar e logo colocou a mão do Adrian em cima para cobri-lo. —Pressiona com força— Atou a última ponta da atadura.—Duvido que tenha vontades de iniciar as conversações que planejei. Sei o que tem feito.
Will Doyle empurrou a porta para entrar no quarto, com uma bandeja equilibrada entre suas mãos.
—O que tem feito?—Levava um fardo com roupa amarrada em um vulto sob o braço, um redemoinho de cores, vermelho escuro e branco, verde musgo e azul ardósia. Fechou lentamente a porta com o pé—Além de dar voltas ao nosso redor na Itália e na Áustria estes últimos dois anos?
—Supõe-se que a está vigiando.
—Deixei a um par dos meninos do Roussel vigiando a porta e a janela. Annique Villiers não vai sair correndo quando há trinta pessoas apinhadas no piso de abaixo. Não é idiota. Robert, algo está acontecendo.
—Não tenho por que escutar isto também de ti.
—Nem sequer virou e falou comigo. Nenhuma palavra— Doyle deslizou a bandeja sobre a mesa e deixou cair os objetos de roupa em um montão sobre a cômoda.—Eu a vi em ação em Viena. Tagarela como um louro. Algo passa se fica calada.
—Então será que lhe fiz mal? —«Todos esses pequenos ossos, unidos por filamentos. Era tão frágil».
—Ou possivelmente foi Leblanc. Ele esteve com ela mais tempo que nós.
Não queria pensar que ela estivesse ferida. Era muito fácil sentir compaixão. Muito fácil esquecer o que ela era.
—Olharei e a meterei na cama.
—Essa é uma idéia intrigante— disse Adrian,—que se estraga tendo em conta que é você, ou isso espero.
—Vá, vejo que se sente melhor— Doyle levantou o guardanapo que cobria uma terrina branca com flores azuis e aspirou encantado o aroma.—O guisado do Roussel. Cheira a alho poro e folhas de cerefólio —Colocou uma colher na terrina e a aproximou com brutalidade ao Adrian.—Come.
—Escuto e obedeço. Passe-me um pouco desse pão já que estamos nisso.
Doyle apoiou a barra de pão contra seu antebraço e cortou uma fatia de forma rápida e com prática.
—Estive embaixo, pedindo desculpas ao Roussel, que, por certo, quer sua cabeça, Robert, por trazê-la até aqui. Fingi que não sei o que é o que acontece. Vais explicar-lhe?
—A gente vive com essa esperança— disse Adrian em tom devoto.
—Você começa a discutir com o guisado em seu estômago. O diretor da seção não tem que dar explicações a gente como... —disse Doyle.
Um forte estrondo rompeu a paz. Vinha de fora e parecia bastante perto. Doyle ficou imóvel. Os olhos do Adrian se dirigiram rapidamente à janela.
«Minha pistola está na bolsa, na parte de acima, está carregada. Há outra na bolsa do Caçador de Falcões. Doyle leva a sua em cima. Podemos defender as escadas, eles...».
Uma risada masculina retumbou sossegando o som da risada cheia de arrependimento de uma mulher. As cadeiras arranharam o chão de pedra. Uma dúzia de conversações em voz baixa retomou seu curso. Não tinha sido mais que um acidente na cozinha. Não eram os homens do Leblanc. Ainda não.
Grey soltou a bolsa.
—Levo muito tempo fora de combate.
Adrian deslizou uma faca escura de folha fina de novo sob a manta.
—Todos estamos nervosos— disse Doyle,—e não ajuda ter a essa maldita e perigosa mulher encerrada no quarto ao lado. Vamos nos desfazer dela em algum momento num futuro próximo?
—Vai arrastá-la até a Meeks Street. Aposto o que queira. Há conhaque nessa bandeja?
—Para ti, vinho— Doyle abriu a jarra com os dentes.—Dei-lhe essa camisa indecente, Robert. Não estava muito contente.
—Não pretendo agradá-la.
Doyle serviu o vinho num copo e logo acrescentou água até que o líquido de cor vermelha escura empalideceu.
—Eu não gosto do que está planejando para essa garota.
—Escuto-te.
—Em primeiro lugar, eu não gosto nada de vestir Annique Villiers com objetos descartados de uma prostituta — Doyle inclinou a cabeça na direção dos vestidos de tons brilhantes que estavam empilhados sobre a mesa—era o que Roussel tinha no armazém, roupa que deixou alguma prostituta ao sair voando daqui sem pagar. São do tamanho de Annique, mas é roupa própria para um bordel.
—Levou menos tecido para servir a França. —Recolheu um dos vestidos. A cor azul complexa e enigmática era a mesma de seus olhos. O algodão fino e suave se grudava em seus dedos. Roupa de bordel.—Muito bonito. É um vestido de Paris.
—Não é um traje adequado para passar despercebida em um povoado da Normandia, não acha? Não chegará muito longe se escapar— Adrian agarrou o copo.—Há uma zona no inferno especialmente reservada para os homens que águam o bom vinho.
Doyle olhou a bandeja e escolheu um pedaço quadrado de um folheado.
—É possível ler um livro através do tecido de alguns desses vestidos. Vai distrair nossa atenção.
—Ela poderia ter posto um saco de batatas e mesmo assim distrairia nossa atenção—Quando obrigasse a Annique a ficar nesses vestidos, pareceria o que realmente era, uma cortesã cara, uma mulher que tinha nascido para seduzir os homens. Vendia esses pequenos e doces peitos como se fossem maçãs no mercado.—Vi como derrubava Henri Bréval com uma clava que deslizou debaixo da saia. Com isto posto não poderá esconder nem um palito de dentes.
—Está cometendo um engano, Robert. Ela é como nós, é uma das melhores. Participou deste jogo desde que era uma menina. Não pode vencer a um dos melhores jogadores e tratá-la como se fora uma cortesã. Se fizer com que coloque esta camisola ou um desses vestidos, com esse tecido tão transparente, vais começar a pensar que é uma prostituta.
—Não é. Para começar— Adrian perseguiu com o talher as verduras que estavam no fundo da terrina,—ela pode te matar com a primeira coisa que encontre pela casa.
—Certamente estará agora afiando a ponta de algo— Doyle arranhou a cicatriz da bochecha. Era falsa, mas estava tão bem feita, que quando a levava durante muito tempo começava a lhe picar.—Não é seguro deixá-la só muito tempo. Desejaria que essa garota trabalhasse para nós.
—Não, não o desejaria— Grey atravessou a estadia, agachou-se junto à chaminé e colocou uma tora pequena de madeira de faia no fogo. Precisavam de mais madeira. Adrian teria calafrios se a febre voltasse a subir. As chamas o provocavam lhe oferecendo imagens, piscando e retorcendo-se. Sobre as línguas de fogo, uma dúzia de Anniques dançava as danças ciganas, brilhando pelo suor e suave pelo azeite perfumado que tinha sobre a pele.—Ela esteve em Brujas.
Pôde sentir como trocava a atmosfera no quarto.
—Brujas— disse Doyle.
—Eu estava na praça do mercado, no café ao lado da torre, esperando uma reunião. Ao outro lado da praça vi um jovem cigano, que fazia malabarismos. Lançava quatro ou cinco facas ao ar, rindo. Divertindo-se todo o momento.
—Annique —disse Doyle.
—Ela, Annique.
—Ouvi que se faz passar por menino de um modo bastante convincente.
—Não sabia que era uma mulher até que a vi na cela de Leblanc.
Segurava uma xícara de café, ali na praça de Brujas, absorvendo parte da alegria e a luminosidade do dia, deixando que se filtrassem em meio da tensa espera. Mais adiante, recordaria que se alegrou de ver o menino.
—Fazia um jogo com as facas, lançava-os, dando com precisão a pequenos objetivos. Recolheu muitas moedas na boina antes de ir-se.
—É boa com as facas. Não tanto como o Caçador de Falcões, mas é boa.
—Ninguém está no meu nível— disse Adrian.
Havia abacaxis na caixa junto à chaminé. Grey colocou alguns no fogo e moveu a lenha com os dedos, obtendo que entrasse uma corrente de ar.
—Uma hora mais tarde, Fletch me disse que lhes tinham feito uma emboscada e que o ouro tinha desaparecido. McGill, Wainwright e o irmão do Tenn tinham morrido.
Adrian deixou a terrina na mesa.
—Servi com o Wainwright em Paris.
—O irmão do Tenn era um de meus— disse Doyle, — essa era sua segunda missão. Stephen Tennant. Custou-me aceitá-lo quando fiquei sabendo. —Segurou com o polegar a terrina do menino, inclinando-a para olhar em seu interior. — Vais terminar isso?
—Não.
—Então, bebe o vinho— Doyle empilhou o prato e a terrina com suas mãos enormes e fortes. — Supúnhamos que seria uma troca fácil. Os planos Albión pelo ouro.
Os planos Albión eram os detalhes táticos da invasão da Inglaterra por parte do Napoleão. Uma recontagem exaustiva de tropas, fornecimentos, embarcações, rotas, calendários de datas— como a data da invasão, — os pontos onde desembarcariam e as rotas em terra, junto com as datas alternativas se, se encontravam com mau tempo.
Com os planos, os ingleses podiam atrasar a invasão ou poderiam fazer uma emboscada à frota francesa em sua chegada e tirá-los da água. Os planos era uma mina de informação de inteligência francesa de valor incalculável, incluíam a força de cada navio, o número de soldados em cada companhia, a produção de cada fábrica. Podiam mudar o equilíbrio de poder.
Foram feitas trinta e seis cópias completas. Corria o rumor de que tinha desaparecido uma cópia. Quando chegou a oferta, deveria ter suspeitado que fosse um ato de traição. O preço que pediram era um punhado de ouro. Nada. Teriam pagado cem vezes mais.
Lançou-se precipitadamente para aproveitar a oportunidade de comprar os planos, levou seus homens a uma armadilha e os deixou morrer. Tinha sido seu engano, sua responsabilidade.
—Estava em Brujas. Levo seis meses procurando a esse menino cigano.
—Acredita que ela o fez? Acredita porque os mataram com facas? —perguntou Doyle.
—Morreram de um corte único e preciso no pescoço. Facas lançadas por um perito, contratados para a emboscada. Os franceses queriam nos matar, desde o começo.
Doyle já estava negando com a cabeça.
—Não é ela. À garota foi treinada por Vauban, pelo amor de Deus. O trabalho de Brujas foi incompetente e sangrento. Vauban não teria sujado as mãos com algo assim.
—Sangrento sim, mas não incompetente— disse Grey, — três feridas idênticas e limpas. Quantas pessoas podem lançar facas com essa precisão? Além disso, ela estava lá.
—Não é ela, verdade, Caçador de Falcões?
—Não é seu estilo— Adrian bebeu um sorvo do vinho aguado e logo fez uma careta . — Cada um ganha uma reputação neste jogo, você, eu, Doyle, todos nós. Annique Villiers gosta de jogar, é esperta e cautelosa. Entra e sai de maneira furtiva e nem sequer se percebe que esteve ali. Eu nunca ouvi que tenha matado a alguém, se é que o tem feito.
—Isso só quer dizer que é suficientemente boa como para que não a peguem— Grey atiçou as chamas uma última vez e ficou em pé. — Leblanc disse que Vauban tinha os planos Albión.
—Leblanc é um idiota— soprou Adrian.
—Uma verdade conhecida por todos— Doyle passeou seus dedos pela barba de poucos dias que crescia em seu queixo— Acredita que Vauban ia se envolver numa traição? O velho revolucionário impossível de corromper? Não acredito. É fácil acusá-lo agora que está morto, mas...
—Vauban morreu? —Adrian se moveu com escasso cuidado e, fazendo uma careta de dor, levou a mão à bandagem.
—Não sabia? A notícia está demorando a circular. Morreu dormindo... Suponho que faz seis semanas. Era o último da velha escola. Já não voltaremos a ver ninguém como ele— Doyle deixou o guardanapo na bandeja. — Mas posso te dizer uma coisa: Vauban preferiria cortar suas bolas antes que vender segredos franceses. Essa garota esteve com ele desde que era uma criança. Parece feita do mesmo aço que ele.
Annique estava metida nisto até suas preciosas sobrancelhas. Grey podia vê-lo, inclusive embora Doyle e Adrian não pudessem. Saberia com certeza uma vez que a encerrasse no Meeks Street. Averiguaria onde tinha escondido os planos Albión. Depois de umas poucas semanas, saberia de que cor eram as paredes de seu dormitório quando tinha sete anos.
—Necessita-me para algo mais, Adrian?
—Não, me arrumarei com isso. Mas temo que te equivocas a respeito dela.
—Averiguá-lo-ei, não é assim? Irei comer e me assear, logo comprovarei que está bem— Tinha controle sobre sua voz, mas o ferrolho soou estrepitosamente quando abriu a porta.
Não estava disposto a brigar com ela de novo. Embora possivelmente esta vez Annique atuasse com uma prostituta e se oferecesse para abrir essas doces pernas para seu desfrute. Se, se oferecia, possivelmente ele o aceitasse. Poderiam abraçar o um ao outro e lutar dessa maneira para variar. Utilizá-la-ia, logo se apartaria a um lado na cama e a esqueceria. Essa mulher perderia sua magia uma vez que seu corpo suado e escorregadio estivesse debaixo dele. Não seria mais que outro corpo disposto e quente.
Essa era a maneira menos profissional de pensar sobre um prisioneiro.
—E possivelmente simplesmente a acorrente à cama—Não olhou atrás.
—Robert— disse Doyle.
—Deixa que se vá. Agora é coisa deles— disse Adrian em voz baixa.


Capítulo Cinco
—Está escuro aqui dentro— A voz de Grey soava áspera, uma mescla entre lixa e veludo. Falou de maneira informal, como se estivesse falando com um de seus melhores amigos ou com um menino, um animal ou um criado. Também era o modo no qual falaria com uma prostituta.
—Pode acender as velas se quiser. Dá-me no mesmo— falava em um tom formal, tal e como se fala com um espião estrangeiro que te seqüestrou.
—Acreditava que Doyle lhe havia dito que ficasse com a camisola.
—Em efeito, assim o fez. Avisar-lhe-ei quando chegar o dia em que comece a aceitar ordens de monsieur Doyle. —Estava olhando à janela, retorcendo a camisola entre as mãos, e não girou para ele. A noite que lhes esperava ia ser muito difícil.
O vento lhe chegava dos campos, cheirando à vaca, a terra e maçãs. Sentia um desejo, cortante como a dor física, de ver os campos e as estrelas no céu sobre eles. Essa dor nunca a tinha abandonado durante todos esses meses.
A camisa que levava posta pendurava solta de seus ombros, para logo se ajustar de maneira possessiva sobre seus peitos e quadris e finalmente voltava a separar do corpo. Era a camisa de Grey. Ela sabia bastante sobre os homens. Havia alguns aos que isso lhes resultaria muito atrativo, apesar do aspecto incongruente de uma mulher vestida com uma camisa de homem, com os pés descalços sobre o chão e o cabelo selvagem e despenteado ocultando seu rosto. Se colocasse o trapo de seda transparente que sustentava entre seus dedos, pareceria uma prostituta. Vestida com a camisa de um homem, assemelhava-se a uma cortesã inteligente e sutil. Essa noite carecia de melhores opções.
Ouviu como fechava a porta com chave detrás dele.
—Vestiu-se com minha camisa. Bem, bem, bem — Nunca lhe falava sem esse tom de ódio incompreensível em sua voz. — Possivelmente deveria havê-lo esperado. A camisola é descarada. Ninguém pode acusá-la de ser descarada.
—Não me atormentou já o suficiente pelo pecado que cometi de ser francesa e espiã? Estamos no meio da França, monsieur Grey. E de acordo com as regras não sou sua presa. Deixe-me partir. É a única solução sensata para todos nós.
—Uma vez que me tenha dado os planos Albión. Pagaremos, sabe, se for isso o que lhe preocupa. Pagaremos uma cifra exagerada.
Leblanc tinha que lhe fazer pagar por isso, e de que modo. Era a gota que enchia o copo depois de milhares de gotas o que suas palavras tivessem feito que o inglês se lançasse contra ela, exigindo os planos Albión.
Adoraria poder dizer: «Deseja os planos Albión? É obvio, tenho-os escondidos na liga da meia. O vê? Leve-o, e evite que monsieur Napoleão realize esta estúpida invasão de sua ilha, que causaria a morte de muitos milhares de soldados franceses e incontáveis ingleses, e que não teria nenhum tipo de êxito».
Não era tão simples, nunca tinha sido tão simples.
Mentiu imediatamente e de forma convincente.
—Não tenho esses planos. Nunca, nenhuma vez só, eu pude vê-los.
—Mente bem, suponho que não sou o primeiro homem que o diz.
Ela golpeou a janela com o punho.
—Não e não! Estou farta desta tolice. Leblanc cospe veneno como uma víbora e você acredita nele por razões que não compreendo. Traz-me a força para a Normandia a troco de nada. Põe em perigo minha vida e a sua com esta insistência absurda por...
—Gire-se e me olhe à cara. Estou aborrecido de falar com suas costas.
—Não te acho nem atrativo nem interessante. De fato, realmente eu gostaria que partisse.
Umas mãos inflexíveis a seguraram e obrigaram a dar a volta, sem lhe fazer dano, mas com muita, muita firmeza. Ela seguiu baixando a cabeça, ocultando seu rosto na escuridão.
—Está pensando em lutar comigo. Não o faça. Acredite em mim, pequena Raposa, não gostaria do que eu lhe faria. Não me obrigue a lhe demonstrar até que ponto está aprisionada.
—É obvio, não tenho problemas em admiti-lo. Ultimamente é bastante fácil que caia numa armadilha. Inclusive um imbecil como Henri pode me apanhar.
—Não me pareceu especialmente fácil. Vou trocar as regras deste jogo que estamos jogando.
—Eu não jogo com Grey do serviço segredo britânico. Não me atreveria.
—Agora mesmo está jogando.
Os dedos dele exploraram o ponto no qual se cruzavam os diversos nervos na articulação do ombro, desenhando círculos ociosos, comovedores, que a paralisaram por completo. Logo deslizou seus dedos suaves e lentamente descendo por seu braço. Sentia-se indefesa ao saber que as mãos dele poderiam sujeitá-la pelo braço, como se fossem uns enormes grilhões. Quando chegou a seu cotovelo encontrou um ponto muito sensível.
Pontos de combate. Estava tocando os pontos do corpo que normalmente golpeava, permanecia em cada um desses pontos o tempo suficiente até que ela começava a estremecer-se. Nunca tinha pensado nesta verdade tão óbvia. Nos pontos débeis nos que alguém golpeia ao inimigo, os nervos se encontram mais expostos e são mais vulneráveis e receptivos. Rendiam-se ante qualquer toque. Ele sabia. Resultava desalentador encontrar uma destreza tão admirável num oponente.
Fechou com força os olhos e desejou uma vez poder ver sua expressão para poder adivinhar o que era que ia fazer com ela. Não ia ser nada tão simples como lhe machucar.
O rumor de sua voz vibrou por sua pele.
—Essa camisa é mais erótica do que teria podido imaginar. Ver minha camisa rodeando-a e saber que debaixo não leva nada... Mais que seu corpo —Atirou do tecido, estudando-a com os dedos. — Agiu como uma antiga amante ao escolher um de meus objetos para vestir-se. Isto deveria me deixar desarmado. Uma jogada muito inteligente, Annique.
—Não sou tão inteligente — murmurou com honestidade.
Sua mão viajou até deter-se tranquilamente sobre seu coração.
—Tem o número exato de botões sem abotoar. Felicito-a. Um menos e estaria fingindo ser uma virgem tímida. —Deslizou dois dedos dentro da camisa, atirou brevemente do tecido e desabotoou outro botão a seu passado. — O papel de virgem não é convincente em seu caso.
Ele podia dizer este tipo de coisas a uma mulher com a que ia se deitar. Não era possível raciocinar com ele quando ficava assim. Não podia fazer nada mais que ficar quieta, escutar e tremer de cima abaixo.
Acariciou o tecido um pouco mais abaixo e encontrou o seguinte botão.
—Muitos botões desabotoados já não suporiam uma provocação — Desabotoou o seguinte. — Os homens gostam das provocações.
O batimento do coração de seu coração sacudiu todo seu corpo. «Acaso ele sabia que ela começava a excitar-se por sua culpa, nesse lugar escondido entre suas pernas, onde gostaria de encontrar prazer? O mais provável era que sim».
Soltou outro botão. Não demoraria em despi-la. Seu plano de raciocinar com ele não parecia funcionar.
—Um homem deseja despi-la, retirar um véu atrás de outro, deixando seus segredos à luz, fazendo que se abra para que deste modo, revele seus mistérios.
Seu corpo não era precisamente misterioso nessa zona de que ele falava em tom tão poético, se mostrava tão somente quente e ansioso. Apertou as pernas com força, o que não ajudou, mas sim fez que tudo fora a pior. Não podia evitar fazê-lo de novo, uma e outra vez, de modo que cada vez era mais complicado para ela.
—Eu não oculto mistérios. Engana-se.
—Seria tão fácil conseguir seu mel... O único que tenho de fazer é... —Seus dedos roçaram seu peito, através da camisa. —.. e duas preciosas cerejas se mostrarão através do tecido, suplicando que alguém as prove. Deste modo, sim. Isto já é bastante mais sincero. Possivelmente seja o único sincero que tenha.
—Não deve se dar estes ares de suficiência. Não sabe nada de mim.
—Sei que gosta de seu trabalho. Nem todas as mulheres seriam da mesma opinião. Você nos dá exatamente o que queremos, não é assim, preciosa Annique? Leblanc, Henri, eu. A habilidade de converter-se na fantasia privada de cada homem. Naquilo no que sonha quando está só à meia noite. Está-o fazendo agora. Antes que eu me desse conta do que queria, já estava me oferecendo isso. Nunca conheci uma mulher que pudesse fazer isso. O homem que a toca põe em perigo sua alma.
—Pode ficar com sua alma, não a quero.
—Dá-me igual o que queira, Annique Villiers. Embora tenha que reconhecer que é boa. Esse som que emitiu, como o zumbido de uma colméia de abelhas satisfeitas, foi perfeito. Senti-o em todo o corpo quando o fez.
Seus músculos estavam tensos, tremiam. Isso era a raiva — que ela ainda não merecia— e o desejo que sentia por ela, que era óbvio até para um idiota. Não podia imaginar absolutamente de que modo ia domar essas duas bestas gêmeas para que servissem aos seus propósitos.
— Gosta de fazer as marionetes dançarem, verdade? Tira de um fio aqui, outro fio lá. Mostre-se doce, vulnerável e... Disposta. Não acredito que exista um homem sobre a face da Terra que possa resistir aos seus encantos.
Sem prévio aviso, retorceu a camisa em seu punho e a puxou com força. Empurrou-a e puxou para frente, obrigando-a a apoiar-se sobre as pontas dos pés. Ela deu um grito afogado de assombro e se apoiou nele.
—Não volte a tentar este jogo — A sacudiu uma vez, com energia. — Não comigo.
—Eu não...
—Acabaram-se os jogos. Tire-se essa maldita camisa cheia de tentações. Fique a camisola de seda que lhe enviei ou meta-se na cama nua. Dá-me igual o que prefira.
—Não vou pôr essa coisa indecente. Não sou... —deteve-se, tragou saliva e se obrigou a dizer. — Não sou uma mulher da rua a que pode comprar com um prato de comida quente. Não sou...
—Por amor de Deus, não seja tão dramática — Ela se apoiou em seus pés. Ele afrouxou lentamente a força com a que a sujeitava e a soltou. — E maldita seja sua modéstia inexistente. A partir de agora levará roupa em que não possa esconder armas. Isso é tudo. Meta-se na cama e durma.
—Dormirei como o camundongo que tem que dormir junto ao gato. Não me minta, inglês. Não tenho paciência para as mentiras.
—Agora mesmo eu tampouco tenho muita paciência. Assim a menos que me ofereça provar um pouco deste... — O enorme decote em forma de «V» da camisa desabotoada terminou de abrir-se. Sentiu de repente o ar frio, — corpo perito e arteiro, coloque a camisola e meta-se na cama.
—Monsieur, não me faça isto.
—Não lhe vai passar nenhuma só maldita coisa se comportar-se. Se obedecer às ordens a trataremos bem. Se brigar comigo uma vez mais, juro-lhe que a atarei à cama. Assuma-o.
«Assuma-o», disse ele. Mas lhe tinha mentido, como tinha mentido a si mesmo, se pensava que seria capaz de deitá-la nessa cama tão branda sem fazê-la sua.
Não era um monstro. Não ia forçá-la. Mas a desejava com loucura e pensava que ela era de uma moral frívola e com uma atitude disposta. Essa noite, durante as largas horas de descanso, ele colocaria suas mãos sobre ela e a desconcertaria até que lhe desse as respostas que ele queria, brandamente, na intimidade dos lençóis. Ao final possivelmente obteria que ela desejasse o que o fazia. Não era forte e sensata no que se referia a este homem.
Essa era outra das razões pelas quais ela devia escapar.
Quando não se conta com nenhuma outra arma, se deve depender do engenho, das mentiras e de uns planos terríveis. Isso o tinha ensinado Vauban, sua mãe, René, Françoise e o sábio e cínico do velho Soulier... Todos seus antigos amigos no jogo da espionagem. Sabia desde que era uma menina. Às vezes a gente tem que fazer coisas que não gosta precisamente.
Não podia cometer atos desprezíveis como Annique. Tinha que ser outra pessoa com um maior poder de resolução. Tinha certos papéis dentro de seu repertório que podia interpretar... respirou para acalmar-se e escolheu um. Seria a cortesã sofisticada. Acaso não tinha representado esse papel frequentemente em Viena?
Cruzou os braços diante de seu peito, inclinou a cabeça e deixou que o papel de cortesã se apoderasse de seu espírito. Envolvia-a como uma capa grosa e protetora. A cortesã sofisticada era alguns anos mais velha do que Annique, era ardilosa e cínica. Não lhe preocupava absolutamente o inimigo inglês. À cortesã não importaria vestir-se com esse retalho obsceno de tecido, ou fazer qualquer outra coisa que fora necessário fazer.
Elevou o queixo. A cortesã não se sentia consternada porque um homem a desejasse. Isso lhe dava poder.
Encolheu os ombros.
— Ganhou esta pequena e fútil batalha. — Ao ser a cortesã, podia passar ao lado de Grey lhe dando um empurrão, impaciente e depreciativa, para andar pelo quarto. Tinha que dar três passos amplos da janela até a mesa, tinha-os contado depois do jantar. Deu-lhe as costas e lançou a escorregadia camisola de seda ao outro lado da mesa, junto ao candelabro. Tocou-o uma última vez. Seus ossos e músculos recordariam onde estava quando tudo estivesse desordenado. O cenário estava preparado. Tudo estava preparado.
—Parta. Vestirei este objeto vulgar, mas não me despirei diante de você — o tom de sua voz era frio e patrício, carregado de aborrecimento. A voz da cortesã. Colocou dois dedos sobre a toalha para manter seu corpo orientado exatamente na direção que queria. — Independentemente do que pense, não sou uma mulher que tem casos rápidos com estranhos.
—Está muito escuro para ver muito. Faça-o agora, antes que eu a dispa e a lance à cama.
—Faz que soe tão interessante — A cortesã que tinha deixado que se apoderasse de sua mente haveria dito isso . — Deve ter muito êxito com as mulheres inglesas com semelhantes métodos. Equivoco-me? — Ao interpretar o papel da cortesã, era capaz de segurar o bordo da camisa, como se, se despisse todas as noites diante de um homem. — Se não vai partir, ao menos poderia dar a volta.
—Para proteger sua modéstia?
—Não é um favor excessivo o que peço. Estou menos acostumada à humilhação do que, parece, você acredita. — A carapaça do papel que interpretava rachou e um tremor de vergonha e medo apareceu através da rachadura. Não poderia havê-lo feito melhor nem que tivesse praticado durante uma semana.
—Isso, eu posso fazer.
Escutou o murmúrio do tecido que produzia seu movimento. Agora devia despir-se. Era difícil fazer-se passar por uma prostituta, a primeira parte de uma atuação muito complicada. Tirou-se a camisa, levantando-a por cima de sua cabeça e deixou ao descoberto sua nudez. Possivelmente o quarto estava o suficientemente escuro como para que ele não visse nada. Era possível que ele tivesse dado a volta como havia dito. Se não fosse assim, tinha que esperar que estivesse distraído, como costuma acontecer aos homens ao ver seu corpo, como para não dar-se conta do que estava fazendo exatamente.
Agora. Sem mais demora, agora.
Um, dois e três. Lançou a camisa sobre a mesa. Sob esse pretexto, segurou o pesado candelabro de latão. Deu-lhe a volta para usá-lo como um porrete. Virou-se para Grey. Arremeteu em direção ao som de sua respiração e tentou lhe dar com o candelabro.
Mas falhou.
Cambaleou, tinha perdido o equilíbrio. Onde estava? Tentou escutá-lo. Onde?
Um sussurro no ar. A dor estalou em seu pulso e soltou a arma. Tinha-lhe dado uma patada no pulso, golpeando o osso. O candelabro rodou ruidosamente pelo chão.
—Sapristi! —A dor era terrível. Isto era um desastre. Tinha cometido uma falha de cálculo de enormes proporções. Deu vários passos atrás rapidamente, desarmada e nua diante dele, agitando a mão para recuperar a sensibilidade. — Você é rápido, monsieur.
—Bastante rápido.
Outro passo atrás. Aqui estava a mesa. Graças ao bon Dieu. Apressou-se a chegar ao outro lado da mesa, tocando com força a madeira até que encontrou a seda. A camisola.
—Não afastou o olhar. Isso é armadilha.
—Falemos de armadilhas, não acha?
—Estou de acordo que esse é um problema que temos.
Com movimentos febris, lutou com a camisola, com uma mão e sem muita habilidade. Era fundamental que a pusesse. Colocá-la direito e a colocou sobre seu corpo, empurrou para passar um braço na manga e logo colocou o outro. Aqui estava o cinturão de tecido. Bem, muito bem. Atou-o com estupidez.
Ele rodeou a mesa, fazendo que ela se afastasse dele, com passos lentos e deliberados. Ela não era tão estúpida para pensar que podia escapar. Não lhe surpreendeu sentir como as mãos dele sujeitavam-na, com delicadeza e insistência, como se estivesse segurando uma bolsa rebelde cheia de ovos. Estava sendo cuidadoso com ela. O desejo que sentia por ela vibrava entre eles como uma peça de música dissonante. Tocava-a de um modo perfeitamente impessoal. Estava totalmente desconcertada por esta atitude.
—Decidi. Amarrá-la-ei. É mais simples desse modo — disse ele.
—Sem dúvida — Sua voz soou rouca em seus ouvidos, — mas preferiria que não o fizesse.
—Finalmente, há dito algo que acredito que é verdade. — Levou-a para a cama, passo a passo, sem violência, de maneira gradual. Quão único precisava era aplicar um pouco de pressão. — Foi prudente de sua parte por a camisola, inclusive embora já seja muito tarde. Planejava me matar com esse candelabro?
—Não o teria matado a propósito, mas ultimamente sou um pouco torpe e poderia ter calculado mal. Há algo que possa dizer para evitar que me faça isto? —Tremia muitíssimo.
—Nada que me ocorra agora mesmo.
—E se prometer não tentar escapar de novo, não voltar a fazê-lo até que cheguemos à Inglaterra?
—Não — Ele se mostrava do mais normal e calmo, de uma maneira arrepiante. — Tenho amarras de sobra que não necessito para o Adrian. Usá-las-ei para isto. São suaves e agradáveis —«Que previdente por sua parte. Possivelmente estava acostumado a fazer prisioneiros com freqüência. Como podia saber o que pensava o britânico?». — Não será muito incômodo. É possível até que durma um pouco.
—Em realidade sou inofensiva. Deveria reconsiderá-lo.
—Não tem motivos para assustar-se — disse ele, — não faço mal às mulheres. Nem sequer às mulheres como você.
Mais desses insultos incompreensíveis. Como se ele não tivesse uma dúzia de agentes femininos trabalhando a seu serviço. Resultava ilógico que a desprezasse.
O colchão ricocheteou contra sua coxa. Deu-lhe a volta à mão com a que a sujeitava pelo ombro com astúcia, que fez que ela perdesse o equilíbrio e caísse sobre a cama. A colcha se agitou e se prendeu em seu corpo à medida que ela se arrastava com dificuldade para afastar-se dele através da traiçoeira suavidade, chegando à parede. Não podia escapar mais à frente. Colou as costas à fria parede de gesso. A seda se escorregou sobre sua pele. Encolheu-se e colocou o rosto entre os joelhos. Finalmente, a Jovem Raposa tinha sido encurralada.
Todos os inteligentes personagens que representava tinham-na abandonado. Não ficava ninguém mais que Annique para fazer frente a esta situação e ela estava assustada, muito assustada.
Escutou como atravessava o quarto. A mala de couro rangeu. Uns leves sons lhe indicaram que estava procurando algo dentro da mala. Logo seus passos o trouxeram de volta até onde estava ela.
—Grey..., monsieur,... Prometo não atacá-lo de novo. Jurá-lo-ei pelo que você queira.
A cama se afundou quando ele se sentou a seu lado.
—Poderia me oferecer um par de segredos franceses. Possivelmente esses dos que falava com Leblanc.
—Os planos Albión — Se esforçou por dizê-lo com calma. — Ultimamente Leblanc está obcecado com isso.
—Eu também. Vamos falar durante bastante tempo sobre os planos Albión, você e eu.
Sentia frio em seu interior. Frio e vontades de vomitar.
—Mas isto é ridículo. Não sou mais que um participante menor neste jogo. Não sou encarregada das grandes intrigas políticas. Terá uma decepção se espera obter segredos importantes de mim.
—Não me decepcionará — Havia vários matizes em sua voz.
A cama se sacudiu enquanto ele fazia algo com as mãos. Deveria estar desenrolando as bandagens de tecido que tinha falado, e com os quais ia atá-la. Estava preparando-os. Muito em breve ficaria indefesa e qualquer oportunidade de escapar desapareceria.
—Não desejo que me ate — sussurrou.
—Duvido de que possa me convencer. Embora possa tentar. Ofereça-me somente um pequeno segredo e já veremos.
Não são segredos, é outra coisa. Ela tinha sabido, dentro de seu coração, que chegariam a isto.
Um último plano, há sempre um último plano que se espera não ter que usar. Recolheu a camisola de seda ao redor de seu corpo e engatinhou para ele, para seu flanco, até que esteve perto. Até que virtualmente pôde sentir o calor que emanava seu corpo. Obrigou-se a ajoelhar-se sobre a cama, com os joelhos separados. Tinha visto as prostitutas fazerem isso no bordel que sua mãe esteve durante um tempo em Paris. Sem dúvida, monsieur Grey teria freqüentado vários bordéis e reconheceria o que estava oferecendo.
Escutou como respirava fundo, de forma irregular. A cama se afundou enquanto ele mudava de postura. Seu dedo rodeou seu braço, mas só fez que elevasse o pulso.
—Fiz-lhe mal?
—Não — Brandamente, liberou sua mão e a afastou dele, — não é nada.
—É outra razão pela qual não quero brigar com você. Acabarei lhe machucando de novo. Não quero lhe ferir.
—Eu tampouco quero que me faça mal. Nem que me ate.
Ele emitiu um grunhido. Sentiu que girava e mesmo assim sua respiração vacilava.
A cortesã não temia a nenhum homem. Não tinha medo de tocar ou de ser tocada. A cortesã dispunha de um conhecimento atemporal.
Era hora de começar. Encontrou o comprido e suave cordão e desfez o nó. Era um cordão fino e retorcido de seda, muito forte. Sua camisola se abriu deslizando-se, como o vento que desdobra as asas. Ele podia sentir como a seda caía sobre sua pele. Inclusive na escuridão, podia ver seu corpo entre as luzes e as sombras. Ela se ruborizou.
—Tem sua própria atração, como compreenderá... Isso de que lhe atem. Mas te limita. Preferiria ser... Criativa —sussurrou. Possivelmente foi a cortesã quem se aproximou para acariciá-lo, cheia de experiência. Possivelmente foi Annique, picada pela curiosidade.
A pele de seu pescoço estava seca e morna, áspera em textura. Tocá-lo não era como acariciar a um animal ou como quando se acariciava sua própria pele. Sua bochecha era uma paisagem de barba, com os músculos da mandíbula muito tensos debaixo. Sua boca, de forma inesperada, parecia ter o tato da seda. Abriu-se sob a gema de seus dedos e sentiu o contato com sua língua. Não sabia o que fazer quando um homem saboreia seus dedos em sua boca. Fez com que suas pernas se fechassem enquanto sentia certo calor entre as coxas. Se o tivesse permitido, teria perdido o controle por culpa do medo.
—O que é o que quer? —disse ele.
—Não direi nenhum segredo, mas lhe proporcionarei prazer, se me der uma última oportunidade.
—Muito tentador. Por quê?
—Possivelmente me tenha aborrecido de brigar. Acaba por ser desalentador.
—Não é isso. Diga-me o motivo.
Tão duro. Tinha que confiar bastante nela para deixar que se aproximasse. No meio do silêncio, ela podia ouvir os grilos no campo e o murmúrio de vozes no pátio de abaixo.
—Desejo-lhe — A verdade. Dir-lhe-ia a verdade. Era tão irônico. — Desejei-lhe desde que o toquei pela primeira vez, no pequeno calabouço de Leblanc. Na carruagem, quando lutamos... —Extraiu palavras da parte mais privada de sua mente. — Leva a uma grande intimidade lutar com um homem do modo em que eu lutei com você.
— Tenho que reconhecê-lo. É algo íntimo.
— Lutamos, mas não me fez mal. Deixou-me totalmente louca e me segurou colocando-se em cima de mim com força. Imaginei…, como seria estar na cama com você. —Cada palavra era uma humilhação, supunha deixar sua mente tão nua como seu corpo. Mas isto fascinaria a um homem como Grey. Isto o distrairia. — Sinto... Uma necessidade, dentro de mim.
—Deve lhe resultar incômodo.
—Não desejo me sentir deste modo. Somos inimigos — Ele não podia nem começar a imaginar o quão incômodo isto era para ela. Inclusive agora, quando devia estar totalmente focada em levar a cabo um plano útil e em mentir, uma quente comichão percorria seu corpo. Se as coisas tivessem sido diferentes... Afastou esse pensamento de sua mente.
Seus dedos, ocultos debaixo das dobras da camisola, esforçaram-se para soltar o cordão de tecido. Deslizou-o, centímetro a centímetro, até tirar o das alças que o sujeitavam.
—Não temos que ser inimigos, na escuridão, onde ninguém nos vê. O que ocorra neste quarto... É como se não tivesse ocorrido absolutamente.
—Uma idéia intrigante.
—Pode me prender depois se o desejar. Não me prometeu nada — Era incrível esse tom provocador em sua voz. Deslizou-se cautelosamente, aproximando-se um pouco mais dele.
—Posso atá-la agora mesmo. Não confio em você para nada.
—É inteligente ao não confiar em mim, mas às vezes não sou uma espiã da França, há momentos nos que sou só Annique.
Ele voltou a trocar de postura. Ela escutou o ruído metálico que fazia seu anel quando tocou a mesinha ao lado da cama. Estava deixando algo aí. Estava-lhe dando as costas.
Enrolou o cordão de seda rapidamente, três vezes, ao redor de sua mão esquerda. Quando se inclinou para ele, tocou suas costas. Posou sua frente sobre a dura proeminência de sua omoplata.
—Aqui, na escuridão... eu posso ser algo que você deseja — O desejo palpitava entre suas pernas, era o desejo gerado por querer que ele estivesse exatamente nesse lugar.
Beijou-o através do tecido fino de sua camisa. Seus músculos se contraíram sob seus lábios. Grey tinha um autocontrole incrível, exatamente como um homem de sua posição deveria ter, mas não se mostrava indiferente. Tinha todo o corpo em tensão, cada tendão, desejando-a ferozmente, vulnerável como qualquer homem forte diante de suas próprias paixões. Ela tocou a pele nua de seu pescoço e a provou.
—Dá muitas coisas por feitas — grunhiu.
Ela riu, um som grave e rouco, a cópia exata da risada da mãe.
—Não vou fazer nada que você não deseja.
Envolveu o cordão de seda ao redor da palma de sua mão direita. Uma vez, duas vezes, de novo. Em seu regaço, meio metro de cordão estirado entre seus punhos. Pressionou seu corpo perto dele. Tinha que estar muito perto para fazer o que pretendia.
Mas era difícil para ela. Tocá-lo a desconcertava mais do que podia suportar. Seus peitos nus roçaram o cálido tecido, que tinha absorvido o calor dos músculos que ocultavam debaixo. A impressão que lhe causou a golpeou como se fossem dois relâmpagos gêmeos. Não era capaz de recordar que tinha que respirar. Ficou totalmente aturdida.
Ele emitiu um ronrono que saía do mais profundo de seu peito, como o som de uma montanha, rugindo antes de um terremoto.
De algum modo, a cortesã que levava dentro sabia qual era o seguinte passo que devia dar. Tinha que beijar sua nuca, uma e outra vez, subindo pouco a pouco pelos músculos com textura de couro. O repentino sabor e notar seu cabelo sobre seus lábios a fez estremecer; era tão surpreendente...
Ele poderia sentir esse calafrio que percorria seu corpo. Faria que ela parecesse mais inofensiva. Se somente sua mente não saltasse e se desconcentrasse tanto... Abriu e fechou as mãos, ali onde sujeitava o cordão enrolado.
Ajoelhou-se e levou sua orelha à boca para lambê-la e contorná-la com sua língua. Seu sabor lhe pareceu amargo e salgado e sua forma lhe pareceu estranha. Mordeu com suavidade. Desejava fazer isso num homem fazia algum tempo, para ver o que sentia.
Já era quase o momento... Quase... O cordão de seda se endureceu entre suas mãos. «Não te farei mal, — prometeu em silêncio . — Terei muitíssimo cuidado».
—Equivoquei-me. Sim pode ser descarada — A mão de Grey tocou sua coxa. Em um instante a afastaria de um empurrão ou a aproximaria com força para ele. Não estava segura de qual das opções, mas sabia que ele já não podia agüentar mais. — O que foi de sua delicadeza?
Agora, tinha que ser agora. «Não quero fazer isto. Não quero fazer isto absolutamente».
—Sou pura delicadeza — sussurrou.
Um muito ligeiro puxão do cordão de seda que tinha entre as mãos. Cruzou os braços, criou um laço, logo se inclinou para diante. Beijou-o brandamente, justo debaixo da orelha. Com o beijo, lançou o cordão por cima da cabeça e rodeou seu pescoço. Fechou a laçada e puxou com força, deixando-o sem ar.


Capítulo Seis
Seus pulmões convulsionaram. Sentia um peso diabólico que sujeitava suas costas, lhe fechando a garganta, afogando-o e atirando dele para baixo. Aferrou esse peso com as mãos intumescidas. Não podia...
Lançou seu corpo para trás e para diante, tentando soltar do inimigo que o deixava sujeito. Em seus olhos os brilhos negros se alternavam com outros de cor vermelha. Retorceu-se. Deu um murro com suas últimas forças. Não sentiu o impacto quando golpeou ao inimigo.
Muito tarde. A capacidade de pensar o deixou para um nada. Isto era o que se sentia ao morrer.
De repente, desapareceu a intolerável pressão em sua garganta. Aspirou ar. A sensação de agonia se estendia por seu peito. O mundo se tingiu de cor vermelha sangre enquanto dava patadas e empurrões para liberar-se. Rodou rapidamente para afastar-se, chocou-se com a parede e amoldou suas costas contra a mesma. Respirando com dificuldade, esperou o seguinte ataque.
Estava escuro quando abriu os olhos. Era de noite, por isso não tinha escutado as pistolas e os cavalos. A luta tinha terminado. Tinham-no deixado atrás, ferido, preparado para os abutres humanos que roubavam os pertences dos mortos nos campos de batalha. Onde estavam seus homens? Não o teriam deixado. Então perderam e seus homens tinham escapado de forma desordenada. Uma fuga em disparada.
A seu lado, alguém se afogava. Talvez estivesse morrendo.
Havia algo brando debaixo dele. Não era terra. Apertou um pouco com a mão. Era... tecido. Sentia-se tão desorientado que estava enjoado. Então soube. Estava na cama, não em um campo de batalha. Estava na França, na estalagem do Roussel.
Estava lutando contra Annique Villiers.
O estertor da morte que escutava a seu lado provinha de Annique. Agora o recordava. Ele a tinha golpeado. Tinha-lhe batido com esses punhos que podiam matar a um homem adulto. «O que eu fiz?».
Estava muito escuro para ver nada, mas podia escutá-la. Encontrou a curva de um quadril e deslizou suas mãos acima e abaixo por seu corpo. Estava nua e tremia como se fora a romper-se. « Merda, merda! ».
Necessitava luz. Cambaleando ficou em pé e caminhou dando tombos pelo quarto. Na chaminé, as brasas seguiam acesas debaixo da cinza. Chutou com pouca habilidade as achas, até que apareceram brasas de cor alaranjada. A vela estava sobre o suporte da chaminé. Sustentou-a junto às brasas, grunhindo com impaciência, pelo eterno segundo que teve que esperar até que a mecha acendeu.
Ela estava sobre o colchão, dobrada sobre si mesma, abraçada ao seu estômago.
Colocou rapidamente a vela no castiçal. Estava tão pálida como o lençol e se esforçava por recuperar o fôlego. Quando a segurou, notou que sua pele estava fria e úmida. Virou-lhe para que se apoiasse sobre as costas, enquanto seguia nessa postura de amparo. Tinha os olhos abertos, vazios e cegos como os de uma boneca, que ao olhá-lo não o reconheceram. Isso o assustou grandemente.
«Onde te golpeei?».
Não havia sangue em seu rosto, nenhuma marca na garganta. Deu graças ao Senhor por isso. Só tinha lhe atingido uma vez, estava quase seguro disso. Somente uma vez. Se tivesse golpeado a esses frágeis e pequenos ossos de seu rosto, teria feito pó como se fosse feita de cristal.
Estava enroscada ao redor de sua barriga, de modo que devia ser aí onde lhe tinha feito mal. À caixa torácica. Acaso tinha quebrado suas costelas? Tocou seus flancos, explorando com mãos rápidas cada uma das costelas. Seria capaz de notar uma costela quebrada, não é? Tinha ossos finos e delicados, sem carne neles. Notaria uma costela quebrada.
Colocou-a sobre seu regaço. Teve que empregar um pouco de força para afastar seus braços, um pouco mais para obter que deixasse de estar enroscada, ao menos o suficiente para ver qual era seu estado.
Peitos pequenos. Pele pálida. Logo debaixo do coração, rodeada de velhas contusões, tinha uma marca vermelha do tamanho de um punho. Tinha-a golpeado no centro do plexo solar. Não era estranho que não fosse capaz de respirar.
—Fique quieta. Perdeu o fôlego. Isso é tudo. «Senhor, espero que isso seja tudo». Seu diafragma estava duro como uma tábua. Estava lutando contra seus próprios pulmões . — Agora, devagar. Há ar de sobra.
—C... C... aA...
Não tinha nenhuma costela quebrada na caixa torácica. Nada que ele pudesse perceber.
—Tem o peito fechado aí onde a golpeei. Estará bem num minuto. —Fez pressão com a base da palma da mão, empurrando os músculos intumescidos, lhes dizendo que era melhor que ficassem a trabalhar de novo. — Já está melhor.
Ela conseguiu respirar. Logo tossiu e cada músculo de seu corpo sofreu espasmos.
—Tenho-a, agora devagar — Seguiu repetindo uma série de palavras sem sentido, massageando o diafragma, duro como uma rocha, enquanto ela se arqueava para trás, tentando respirar com toda a força do corpo. — Está tudo bem. Tranqüila, tranqüila, garota — Dava a impressão de que falava com uma das éguas nervosas de seu irmão. Mas estava funcionando. Deu um brusco estertor e inalou ar. E logo o soltou. — Isso está melhor. Está bem — A mão dela se fechou com força ao redor da dele. Podia sentir como ela dependia da segurança que transmitia sua voz.
Sua cabeça caiu para trás, sobre ele. Emitiu uns soluços prolongados e entrecortados. «Deixa que saiam». Respirava, soava como se seguisse respirando.
— Vai ficar bem — A menos que lhe tivesse quebrado uma costela. A menos que lhe tivesse provocado um dano interno que não se percebia a olho nu. Pressionou com força, com uma mão e logo com a outra, através de sua barriga e ela não deu amostras de dor em nenhum lugar em particular. Isso tinha que ser bom sinal.
Passou a mão desde seus peitos para baixo, uma e outra vez, passando por cima do diafragma machucado, até chegar à planície entre seus quadris. Seus músculos eram nós tensos, fáceis de distinguir e duros ao tato sob sua mão. Ela permanecia caída entre seus braços, com os olhos fechados, retorcendo-se com força a cada poucos segundos ao tentar respirar. Seus peitos se estremeciam quando o ar entrava e saía com muita dificuldade de seu peito. Os mamilos eram de uma cor rosa mais claro do que ele teria esperado. Deveria ser devido a brancura de sua pele.
Seguiu acariciando sua barriga, sentindo como relaxava e se soltavam os músculos, um a um. Tinha uma pele acetinada sem um grama de gordura por baixo. O cabelo entre suas pernas era negro como o ébano e encaracolado. Tinha o aspecto exuberante de uma pequena marta zibelina . Parecia bastante suave.
—Não! Solte-me — Deu um puxão brusco para afastar-se, lançando-se para o outro extremo da cama, lhe dando as costas e encolhendo-se como se fora um ouriço.
Era um bom sinal. Não se retorceria como uma rosquinha se tivesse uma costela quebrada.
— Recuperou o fôlego.
Ela estava virada para a parede, respirando fundo.
— Suponho que já não somos amigos na escuridão, onde ninguém nos vê — disse ele.
Ela não respondeu.
Tinha retalhos da camisola de cor vermelha ao redor do corpo, dando a impressão de que estava em meio a uma orquídea exótica feita em pedaços. Seu cabelo, da cor negra da tinta, criava um contraste absoluto com sua pele branca. A vida não a tinha tratado bem ultimamente. Podia contar todas as suas costelas. A sombra de velhos machucados marcava seu corpo, tinha toda uma coleção deles, em diferentes fases de cura. Debaixo de todo esse dano tinha um corpo realmente bonito. Não era exuberante, mas tinha a forma perfeita. Se fabricassem figurinhas nuas de porcelana em Dresden, seriam iguais a ela. Só os franceses podiam encontrar algo tão formoso e convertê-lo numa espiã.
O garrote vil que tinha utilizado deslizou como uma serpente para o lado da cama; era um cordão de um tom vermelho absurdo. Isso queria dizer que era parte da camisola e algo que ele tinha ordenado que trouxessem para o quarto. Tinha sido uma estupidez de sua parte.
Era seda retorcida, inquebrável. Uma arma elegante e letal. Se tivesse querido matá-lo, o teria conseguido.
«Ela é como nós, — havia dito Doyle. — Uma das melhores». Grey tinha conseguido que acabasse nua e machucada, tão fraca que nem sequer tirava o cabelo do rosto. Estava totalmente derrotada. O único que tinha necessitado era tê-la encontrado morta de fome e cansaço, fugindo de todos os agentes de polícia da França, além de golpeá-la até deixá-la semi-inconsciente, pesar uns quarenta e quatro quilogramas mais que ela, sem esquecer que ele era um assassino treinado. Em realidade tinha sido muito simples.
Tinha-o atacado com um metro de cordão da maldita camisola.
«Felicidades, Robert. Derrotaste a outra espiã francesa. Um trabalho esplêndido». Maldição, realmente odiava brigar com mulheres.
As colchas haviam caído no chão após sua breve briga. Recolheu uma e a rodeou com ela. Com esse gesto, ela finalmente se deu conta de sua presença. Abraçou a colcha contra seu corpo, tampando-se até o queixo e se fez um novelo dentro.
—Machuquei-te?
Independentemente do que esperava que ela dissesse, não era precisamente essa pergunta.
— O que?
— Com o cordão. Machuquei-te? Temia lhe haver matado. É muito perigoso atacar a alguém com um cordão. Mas não tinha outra opção, assim que me arrisquei.
Essa era uma lógica estranha. Sentou-se na cama e deslizou a mão sob a colcha, segurando seu ombro. Ela não reagiu. Possivelmente não se teria dado conta.
—Arriscou-se, não é assim?
—Quando o candelabro não funcionou, o cordão se converteu em meu último cartucho. Estava quase segura de que não o mataria, mas sempre se deixa muito ao azar.
Essa voz tranqüila que tinha em conta as circunstâncias era uma de suas mentiras. Não tinha que lhe ver a cara para sabê-lo. Em sua pele pôde sentir o fino tremor que delatava o medo, esgotamento e intumescimento da garota. Estava emocionada. Tinha visto homens que lhes passava o mesmo depois da batalha e também o tinha visto nos prisioneiros depois do interrogatório. Se pressionar a um homem o suficiente, este acaba por distanciar do mundo, quase como se lhe desse igual. Annique tinha chegado a esse estado de ânimo.
—Deixá-lo ao azar — Apontou brandamente.
—Não tenho experiência com o cordão, exceto uma tarde que o usei com o René, na cozinha do Françoise, quando ele me ensinou isso. Certamente, ele não me atacou de um modo tão horrível como você. Suponho que era porque havia boa porcelana por perto.
—A porcelana seria um problema.
— Françoise não se teria alegrado se tivéssemos quebrado seus pratos — Tirou uma mão de debaixo da colcha e se esfregou o rosto. — René pensou que acabaria sendo perigosa por ser tão pequena. Ensinou-me muitos truques letais, mas nunca resultaram tão úteis como ele esperava — Deixou escapar um comprido suspiro. — Não deveria ter tentado usar o cordão. Sei disso, mas não escutei meu próprio conselho quando me adverti disso. Além disso, não serviu para nada. Fui torpe e não tenho feito nada mais do que zangá-lo e lhe fazer mal.
Não tinha sido torpe com o cordão. Tinha perdido o controle porque não estava disposta a matá-lo.
—Não me tem feito mal.
—Certamente sim e está comportando-se como um homem tranqüilo e valente a respeito. Embora seja óbvio que não quebrei o pescoço, que era meu maior medo — A colcha se moveu enquanto ela se estirava. — Vou dizer que não o lamento absolutamente, inclusive se o feri com gravidade, porque não deveria ter-me seqüestrado deste modo. É totalmente desprezível fazer uma armadilha a uma mulher e seqüestrá-la para atravessar a França com ela e obrigá-la a vestir camisolas indecentes só porque não confia nela.
—Temos uma profissão desprezível.
— De tempos em tempos me recordam isso — encolheu os ombros e se afastou. — Não é necessário que me sujeite. Serei completamente submissa, o asseguro.
—Dócil como um cordeirinho — Manteve a mão sobre o complexo desenho de sua clavícula. A tensão radiava do lugar no qual tinha a palma apoiada. Intrigava-lhe, essa tensão. Seu corpo lhe contava segredos.
—Você é um cético. É obvio, essa é sua profissão. Mesmo assim, é triste que não possa confiar em algo simples como o que lhe ofereço.
Simples? O labirinto que albergava Annique Villiers não parecia ter fim. Conseguiria encontrar a saída, com o tempo. Por agora, já tinha desembaraçado uma de suas mentiras. Estava quase seguro...
Desenhou com um dedo a linha que cruzava seus ombros e sentiu o estremecimento que alertava que ela era consciente do gesto. O nervosismo dançava debaixo de sua pele. Era como acariciar um dos novos potros de seu irmão, um jovem que ainda não houvesse sentido o tato da mão do homem.
Não se mostrava enfastiada, nem dura, nem dava a impressão de ter prática, nem experiência. Como era possível que tivesse chegado a pensar que esta mulher estava acostumada a ser usada pelos homens? Adrian disse que ela não era uma prostituta e Adrian nunca se equivocava quando se tratava de mulheres.
«Quantos homens, Annique? Apostaria que não muitos. Acaso seus professores lhe mantiveram virgem para que pudesse interpretar o papel do menino de uma forma mais convincente?». Esse tinha sido seu erro. Tinham-na feito vulnerável, de um modo doloroso e ignorante. Utilizaria isso contra ela, cedo ou tarde.
—Que demônios farei com você, Annique?
—Deixe que vá.
—Não, isso não.
—Jamais pensaria que você iria aceitar, embora fosse o mais inteligente para os dois que eu me levantasse desta cama e partisse em silencio em meio da noite. Não é necessário que me retenha.
—O que ocorreu em Brujas? —Sentiu que sua pele lhe dava a resposta. Ela sabia. — Por isso a retenho. Possivelmente lhe interesse confiar em mim. Melhor eu que Leblanc.
—Tenho a esperança de poder escapar dos dois — Suspirou. — Inclusive agora, fica uma oportunidade.
—É possível. É você hábil — Em sua rede de espiões, podia contar nos dedos os jogadores cujas habilidades podem ser comparadas com as de Annique. Uma espiã como ela valia mais que uma divisão de cavalaria é uma razão a mais para não deixá-la partir.
—Conheci vários homens como você. Nenhum deles estava disposto a ser racional — Soava como se cada vez estivesse mais resignada. — Chegamos a um ponto morto, você e eu. O que vai fazer comigo?
—Nem eu mesmo sei. Levá-la-ei a Inglaterra e, provavelmente, decidi-lo-ei ali. Até lá já nos conheceremos melhor.
—Perguntava o que é o que vai fazer comigo esta noite. Estes dias, monsieur, contento-me solucionando os problemas mais imediatos de minha vida.
Havia homens que teriam aproveitado para continuar pressionando com o interrogatório nesse momento, acossando-a, mantendo-a aturdida e fazendo que falasse, para ver o que revelava. Estava tão esgotada que pouco podia pensar. Se seguia atormentando-a, ela começaria a cometer enganos. Se a assustava o suficiente e acrescentava um pouco de compaixão, ela poderia vir-se abaixo. Tinha sido testemunha de casos similares em centenas de ocasiões.
Exceto que esse tipo de táticas não funcionariam com Annique Villiers, inclusive se se convencesse em usá-las.
—Não vou fazer nada com você esta noite. Em todo caso, não vou te amarrar — Deslizou uma última e enérgica carícia por sua cabeleira negra encaracolada. Era o primeiro passo na sedução, deixar que se acostumasse a ser tocada. Além disso, desejava fazer. — Acredita que poderá esperar até depois do café da manhã antes de voltar a tentar me matar?
—Tenho que descansar antes de voltar a tentá-lo. É muito exaustivo brigar com você.
Colocou uma segunda colcha sobre aquela com a que ela se envolveu. Alegrou-se de que ela não ficasse de barriga para cima e o olhasse. Sua excitação era extremamente evidente. Possivelmente deixaria que amanhã Doyle a vigiasse, o imperturbável e felizmente casado William Doyle.
—Deveria dormir. A menos que Vauban e os outros tenham ensinado algum modo de me matar com um travesseiro de plumas.
—Fizeram-no — Enrolou-se com a sensação de calor, como se fosse um animal se aninhando, emitiu um risinho sufocado, grave e feminino. Isso lhe parecia divertido.
A última colcha se refugiou debaixo da cama. Tirou-a dali e a estendeu por cima da cadeira de vime. Quando colocou os pés no parapeito da janela, puxou as pontas da colcha para ele. Mais tarde faria frio.
O peito de Annique subia e baixava brandamente, com um ritmo lento e uniforme. Isso queria dizer que estava dormido ou que estava preparando-se para atacá-lo outra vez.
Esperaria para ver o que era.


Capítulo Sete
Annique despertou com certo esforço. Estava aquecida e a cama era macia. Era uma grande comodidade para todas as zonas doloridas de seu corpo. Cheirou o aroma do pão que estava sendo assado.
Deu-se conta de que estava nua.
Repentinamente ficou em alerta, recordando num instante onde estava. Não era a primeira vez que despertava rodeada de inimigos. Não fez o mínimo movimento, não permitiu que se alterasse sua respiração. A colcha escorregou de seu corpo em algum momento durante a noite. Agora estava sobre seu traseiro, sem ocultá-lo absolutamente. Grey podia ver qualquer parte de seu corpo. Saber isso fez com que se sentisse estranha.
Ele não estava na cama. Não era uma cama tão grande para que se pudesse perder uma pessoa nela. Quando prestou atenção, pôde escutar sua respiração, longe, à esquerda.
«Quanto levava Grey olhando-a enquanto dormia? Desejava-a?». Não queria fazer-se essa pergunta, mas certamente a questão estava aí.
Sempre tinha sido uma mulher que sentia um distanciamento calculado dos homens. Agora estava caída na cama, esperando que um professor de espiões do serviço britânico observasse sua nudez e se excitasse. Possivelmente se tratava de um tipo de loucura. De todos os modos, não era isso o que queria.
—Sei que está acordada — Sua voz soou mais perto do que esperava. — Será melhor que se levante e deixe de fingir.
—Esperava que você não fosse mais do que um sonho horrível que desapareceria se ficava dormindo tempo suficiente.
—Não pode tratar-se de um pesadelo. Já é de dia e ainda estou aqui.
Ela se sentou, atirando da colcha para tampar seus peitos. Apoiou a frente nos joelhos para ocultar o rosto. Sentia-se completamente miserável por toda esta situação. Sentia-se atormentada por uma paixão inadequada por este inglês. Não tinha roupa. Breve teria que enfrentar Grey, com os olhos abertos, à luz do dia. Tudo era muito desalentador.
—Estou acostumada aos pesadelos que não desaparecem pela manhã.
—Faz-se uma idéia de como ridícula parece uma mulher com seu talento que se esconde como se fosse uma menina de cinco anos?
—Não me escondo. Por que não parte para que assim possa me vestir? —Possivelmente Grey partiria a algum outro lugar durante um tempo ou, se tinha muita sorte, possivelmente desapareceria da face da Terra para sempre.
—Não vou deixá-la sozinha. Não tenho tempo para sair atrás de você esta manhã e tampouco quero brigar com você. —Dava a impressão de estar impaciente. —Olhe-me, estou farto de falar com suas costas e os lençóis. Você não vai desaparecer só porque me esteja ignorando.
Ela não se moveu enquanto ele atravessou o quarto dirigindo-se para ela.
—Eu não... Por amor de Deus. Quer me olhar quando lhe falo?
Nesse momento, quando ele se aproximou, ela levantou a cabeça enfrentando-se a ele diretamente, e abriu os olhos.
Escuridão, como de costume. Durante os últimos cinco meses só tinha sido escuridão. Já não esperava outra coisa quando abria os olhos, exceto quando despertava de forma repentina sem recordar onde estava.
Ele se deteve de um modo brusco. Era um homem que não fazia ruído enquanto pensava. Se não estava falando estava calado. Ela esperou. Depois de um momento, sentiu o vento sobre seu rosto. Tinham tentado isso em algumas ocasiões, agitar as mãos diante dela para ver se pestanejava.
—Está cega.
—Não estou cega — Essas pessoas que pensavam saber tudo sempre faziam que se zangasse. — Não posso ver, isso é tudo.
—Céu santo. —Segurou com força seu queixo e inclinou seu rosto de um lado para o outro, embora ela pudesse lhe dizer que não via nada. — Não posso acreditar. Como? Quando?
Por algum motivo lhe disse a verdade.
— Desde maio passado. Nem sequer foi numa batalha. Era só um povo e um... um jogo para uma patrulha que cavalgava de um lugar a outro. Destruíram esse pequeno lugar só porque estavam armados, aborreciam-se e podiam. Recebi um corte na cabeça com um sabre.
Não deveria ter falado disso. A lembrança voltou a lhe fazer danifico, eram as últimas imagens que veria com seus olhos. Uma toalha de cor brilhante pisoteada pelos cavalos. O cabelo comprido e escuro de uma mulher, que se soltava enquanto ela tentava correr. Um homem desabado no chão. Uma morte atrás de outra. Inclusive as mulheres e os meninos. Um povo de gente inocente sem possibilidade de defender-se, morrendo sem nenhum motivo.
Seus olhos se fecharam convulsivamente e se soltou dele para dar a volta, arrastando consigo a colcha. Levou também as imagens da morte e as escondeu em sua mente até que logo não ficou nada, como se estivesse colocando a roupa de inverno numa prensa e logo a fechasse com força. Quase nunca pensava nesse último dia, exceto em seus pesadelos.
—Não ficou marca — disse ele.
—Exatamente não se trata dos olhos. — Respirou fundo. Odiava falar disso. — O doutor da universidade na Marselha (um homem muito importante com um fôlego desagradável), disse que era a ferida da cabeça feita com o sabre. Algo pressiona o nervo óptico, um coágulo de sangue ou uma lasca de osso. É o que disse, com muitos termos em latim, como compreenderá, porque estava cobrando muito dinheiro a minha mãe por cada uma dessas palavras intermináveis.
Fez um gesto bastante amplo para distrair sua atenção enquanto limpava o rosto com a outra mão. Um truque de ilusionista.
—Esse doutor supostamente tão importante disse que se essa coisa ficar a dar voltas por meu crânio, voltarei a ver. Mas então certamente eu morra no ato ou possivelmente não, porque essa é outra opção. Não se arriscou. Em lugar disso, aconselhou-me que não deixasse que me golpeassem na cabeça de novo, que é um conselho que podia me ter dado sem necessidade de me cravar previamente durante uma hora. Em minha opinião, não é que soubesse muito — Já estava, tinha limpado as lágrimas. Possivelmente ele não se deu conta.
— Está assim nos últimos cinco meses — Não estava segura do que significava o tom de sua voz. Não era compaixão.
—Não estou nem de um modo nem de outro. Eu sou como sou e levo sendo-o muito mais tempo que cinco meses. Meus olhos não são tudo o que sou.
Ele soprou em sua cara e a segurou de novo para procurar entre seus cabelos a cicatriz fina e suave que tinha em cima da têmpora. Desenhou a linha com a gema de seus dedos.
—Foi aqui, não?
—Tal como disse — Estava furiosa porque ele a examinara desse modo sem que pudesse escapar. Estar nua diante dele não era nada comparado com o grau de exposição que sentia ao lhe desvendar seu segredo. Desejava, do mais fundo de seu coração, ter podido escapar antes de se ver obrigada a lhe revelar isto.
—Cicatrizou bem — disse ele.
—De uma forma muito agradável. Disseram-me que agora que o cabelo cresceu de novo ninguém pode ver a cicatriz.
—Estava com sua mãe quando ela morreu, verdade? Como conseguiu chegar de Marselha a Paris, estando cega?
—Não é assunto... —Suas mãos a seguraram com mais força. Decidiu que não ia pôr a prova seu mau gênio de novo essa manhã. — Caminhei.
— Não é possível que simplesmente caminhasse. Não estando cega e sozinha.
—Mamãe tinha... —A dor fechou sua garganta. Mamãe tinha morrido. — Mamãe tinha... muitos amigos. Era uma rede própria criada durante os anos prévios à Revolução. Eles me ajudaram — Tantas pessoas a tinham ajudado... A rede de mamãe, os amigos do Vauban, os amigos do velho Soulier, que tinha sido o amante de mamãe e era o agente de maior patente na polícia secreta. Amigos de seus colegas, René e Françoise. Homens que tinham conhecido seu pai e amigos que tinha feito ao longo dos anos. Tinha chegado tão longe graças à legião de pessoas normais nas quais tinha podido confiar para lhes pedir um favor que tinha salvado sua vida.
O britânico não sabia quão incrível era sua memória. Sua mente albergava muito mais que os planos Albión e seus múltiplos segredos. Cinco mil nomes e direções estavam armazenados em lugar seguro em sua cabeça, nomes de pessoas que lhe ofereceriam refúgio e ajuda em qualquer esquina da França. Recorreria a um desses nomes assim que se liberasse de monsieur Grey.
—Passei de umas mãos a outras durante todo o caminho, até que me traíram e Henri veio para me levar ante Leblanc.
Ele não disse nada, simplesmente explorou sua cicatriz, que não podia ser muito interessante porque não saía do comum em nenhum aspecto. Quando terminou de fazê-lo, afundou os dedos em seu cabelo com força e segurou sua cabeça para que ela não pudesse virar-se. Só Deus sabia o que esperava ver. Depois de tudo, não era a primeira vez que a observava.
Era mais do que inquietante que esse homem a tocasse. Não queria desejá-lo. Esse desejo era algo que tinha surgido do nada, como uma doença. Era tão pouco conveniente que ele fosse seu amante como se, em seu lugar, tivesse escolhido um pingüim ou a sombra de uma grande árvore para dita tarefa. Um desconhecido alto e sombrio que era um inimigo e cuja profissão era a de ser espião, era o tipo de homem que ela não admirava. Não podia ter escolhido de forma mais estúpida.
Seus dedos pentearam seus cabelos até chegar às pontas antes de deixá-lo solto. Era estranho sentir como o fazia, um gesto de intimidade que ele não tinha tentado até esse momento. Havia várias coisas que ela tinha feito com esse homem que não tinha feito com nenhum outro. Mais do que gostaria de ter feito. Não tinha nem a mais remota idéia do que acontecia em sua mente.
—Conseguiu dominar essa situação bem, o de ser cega. —Percebeu um tom em sua voz... Vauban lhe falava desse modo quando ela fazia algo que lhe impressionava. Por Vauban ela teria caminhado pelo fogo, desde que ele a falasse nesse tom. Possivelmente existiam homens que fariam o mesmo por Grey.
—Quase me acostumei, exceto é inconveniente e pode fazer que me matem logo.
—É boa na hora de ocultá-lo. Nunca o suspeitei, nenhuma só vez.
—Era de noite quando estive com você. O resto do tempo pretendia estar dormindo, como na carruagem.
Ele fez outra dessas pausas para pensar.
—Isto faz que seja mais fácil dirigi-la, não lhe parece?
—Henri compartilhava essa mesma opinião, monsieur — disse ela educadamente.
Por incrível que parecesse, ele se pôs a rir. Era sem dúvida o homem mais cruel que jamais tinha conhecido. Não ia receber a mínima amostra de compaixão deste homem.
—Não cometerei os enganos de Henri. Pretendo cuidar muito bem de você, Annique.
Para ser o diretor de seção também era grandemente estúpido.
—Não pode ver como isto muda tudo? Leblanc terá todos os soldados da França procurando uma mulher cega. Sou a carga mais perigosa que pode transportar por aqui.
—Então não deixaremos que ninguém saiba que está cega.
Ele seguia sem dar-se conta. Como podia ser tão tolo?
—Leblanc me busca. É minha boca a que Leblanc tem que silenciar custe o que custar. Sei certos segredos sobre ele... me deixe partir, monsieur, e ele me seguirá, não a vocês.
A estalagem não podia estar muito longe da pequena aldeia do Vauban. Se Grey somente a ajudasse a chegar até ali... Agora, Vauban estava velho e cansado, tinha a mente confusa e dispersa do último ataque. Não podia lhe dar ordens sobre o que tinha que fazer com os planos Albión. Essa era sua responsabilidade, mas poderia sentar-se ao lado da chaminé de Vauban uma última vez, segurar sua mão e falar com ele sobre os pequenos detalhes que ainda recordava. Na casa de Vauban encontraria amigos de confiança que a levariam até a costa. Daí, iria à Inglaterra, onde encontraria um lugar seguro com Soulier no qual poderia tomar uma decisão e, possivelmente, trair a França.
Se somente Grey fosse racional...
—Leblanc não perseguirá espiões ingleses que não lhe interessam unicamente pelo prazer de poder assassiná-los. Neste jogo, não nos assassinamos uns aos outros dessa maneira sanguinária, que acabaria por nos matar a todos. Sem mim, vocês estarão a salvo.
Grey atravessou o quarto. Não ia daqui para lá. Este homem sempre tinha em mente onde queria ir quando punha um pé diante do outro. Quando retornou levava algo. Ela podia adivinhar quando a gente levava algo, porque caminhavam de forma diferente. Treinou-se para precaver-se dessas coisas.
—O vestido deveria lhe valer. É azul e, pelo amor de Deus, deixe de me chamar monsieur. Começa a soar ridículo: primeiro tenta me matar e logo me chama monsieur Grey na seguinte frase — Deixou cair um fardo de roupa sobre seu regaço.
—Falarei com você como eu queira. Está-me dizendo «que não».
— Sobre deixá-la partir? Não seja ridícula. É obvio que não vou deixá-la partir. Que demônios fez com seus pés?
—Meus pés tampouco são assunto seu.
As mãos dele se aproximaram e seguraram seus pés para que ela não os escondesse.
A imagem tão realista e deliciosa em que o acertava um pontapé cruzou sua mente. Entretanto, não o fez, porque esse homem a intimidava por completo. Além disso, se o provocava e brigavam, possivelmente ele terminaria na cama, em cima dela. Se isso ocorresse, ela corria o risco de comportar-se de um modo extremamente imprudente.
—Vai sofrer uma septicemia se seguir assim — Sua voz soou estranha. — Seus sapatos não são de seu número.
—No sentido estrito da palavra, esses sapatos não são meus e o certo é que não, não me servem muito, mas ir descalça me faria parecer suspeita. Dá muita importância a umas poucas bolhas. Viajei durante muitas semanas com piores sapatos do que estes.
—Há três pares de sapatos nessa pilha. Um deles tem que ser melhor do que esses. Se não forem, procurarei por outros — Ele a sustentou, embora não da forma tão cuidadosa que estava acostumado a utilizar. Seus dedos se afundaram em sua pele . — Não tente escapar, caminhando com esses pés, Annique.
—Vá, esse é um conselho muito sensato. Deveria bater minhas asas e sair voando. — Sempre se surpreendia porque muitos poucos espiões tinham senso de humor. Grey não parecia especialmente divertido nesse momento.
Soltou-a de um modo tão repentino que ela ricocheteou contra o colchão.
—Se vista. Tem dez minutos.
Fechou a porta de repente atrás dele quando partiu. Dava a impressão de que Grey era um homem desses que definitivamente tinham que tomar o café da manhã antes que se pudesse raciocinar com eles. Mamãe havia dito que alguns homens eram assim. Recordá-lo-ia no futuro.


Capítulo Oito
Grey sentou rapidamente Annique numa cadeira em frente a Adrian, indicando o caminho com uma mão invisível e rápida que ela dificilmente necessitava. Era uma perita em fingir não ser cega. Se os homens de Leblanc vinham perguntando por uma mulher cega, ninguém pensaria nessa garota morena que tinha tomado café da manhã sem se ocultar no terraço diante da estalagem, despreocupada sob os primeiros raios de sol da manhã.
Sentou-se, fixando timidamente a vista em suas mãos. Seus dedos passaram roçando o bordo a mesa até que encontraram o guardanapo. Agitou-o para estendê-lo sobre seu regaço.
Ele viu o momento exato no qual o Adrian olhou os olhos de Annique, formosos e carentes de vida. Viu como repentinamente se deu conta, a comoção e quando o compreendeu tudo em um segundo.
—Não pode ver.
—Faz que passe despercebido — ordenou Grey.
—Será um prazer. Vá, eu adoro as surpresas a primeira hora da manhã. —O menino sofria dor, mas se mantinha alerta. Fá-lo-ia ainda durante um momento.
—Está à vista de todos — disse algo que resultava óbvio, para que Annique soubesse, — vinte minutos e a tirarei daqui. Agüente até então. Isso valia para os dois.
Do outro lado do pátio da estalagem, Will Doyle estava brincando de ser o chofer, dando um passeio no cavalo que estava colocado no lado do condutor, que, neste caso, era uma égua grande, desenhando um amplo círculo ao redor do pátio da estalagem, enquanto observava seu passo. Teria sido um chofer de primeira categoria. Também era capaz de fazer-se passar sem problemas por um conde alemão, um banqueiro, um fanfarrão da zona sul de Londres ou um pároco da Igreja anglicana.
Doyle deu uma última volta e obrigou à égua a deter-se.
—Ainda não há ninguém farejando por aqui.
—Pensarão que nos escondemos em Paris. Dá-nos uma vantagem. —Mas homens a cavalo sempre poderiam alcançá-los. — Iremos sem pressa, nos moveremos devagar e com aspecto inocente e o conseguiremos.
Se tivessem sorte, muita, muitíssima sorte.
—Quero que tirem a bala de mim o antes possível. Busca um bom lugar para fazê-lo uma vez que passemos St. Richier. Tem tudo o que necessita?
—Todo o material de um cirurgião. Roubei de um cirurgião da marinha em Neuilly. Este daí também é seu cavalo — Deu uma palmada ao flanco da égua. — Oxalá tivesse me ocorrido a idéia de seqüestrar ao médico ruim.
—O mesmo digo. Imagino que nunca terá extraído uma bala nessa carreira tão larga e variada que tiveste — deu as costas à estalagem. Adrian podia ler os lábios. — Vou matá-lo. Não tenho a menor idéia de como extrair balas a um ferido. Está seguro de que não quer tentar a sorte?
—Irá melhor se for você que escave sua pele. Ele confia em ti. Isso ajuda — Doyle se ajoelhou e percorreu com suas mãos a pata do cavalo, acima e abaixo, interpretando seu papel de chofer. — Não vai morrer por uma bala, nem por duas. Nosso Caçador de Falcões nasceu para morrer na forca. Como foi com a garota?
—Não é o que esperava — Se deu conta de que girou para olhá-la. Não tinha notado que o estava fazendo.
O Caçador de Falcões e Annique faziam bom casal, sentados um em frente do outro numa mesinha acolhedora no amplo terraço, debaixo das árvores. Havia pequenas zonas, do tamanho de moedas, iluminadas pelos raios do sol que caíam através das árvores, dançando a seu redor. Eram da mesma idade e seus corpos tinham a mesma graça, com membros magros e compactos. O cabelo negro, brilhante sob os raios do sol, caía sobre seus rostos, que se pareciam de um modo surpreendente, embora não nas feições propriamente ditas, pois não existia semelhança real, mas compartilhavam a mesma expressão. Esse mesmo ar difuso de alegria com um toque de graça que desprendiam, como se fossem duas fantasias de diabo desfrutando de um indulto temporário de um dos níveis menores do inferno. Comiam, inclinados um para o outro, absortos na conversação que mantinham em voz baixa.
— Gosta dela — Doyle também estava observando-os. — Espero que não tente escapulir enquanto ele a vigia. Tal como está, ele teria que lhe fazer mal para detê-la.
—Estamos a salvo enquanto seja de dia. Will, ela está completamente cega.
A expressão do rosto do Doyle não se alterou; não teria pestanejado nem que tivesse anunciado que Annique era a imperatriz da China, mas, deixou escapar um sinal de surpresa. A égua arrastava as patas com nervosismo. Doyle assobiou de um modo estranho, soprando o ar entre os dentes, e o animal se acalmou.
— Caramba! Cega?
—Recebeu um corte no crânio com um sabre, faz cinco meses. Tem uma cicatriz escondida debaixo do cabelo, se a buscas com os dedos.
—A gata com botas de última moda — Doyle agarrou uma pequena pua de marfim do bolso de seu colete e começou a explorar a zona posterior dentada com atitude meditativa . — Por que não sabia isto? Tinha ouvido que estava em Marselha com sua mãe. Não escutei nenhuma só palavra sobre o fato de que a Jovem Raposa tinha ficado fora de jogo. Nenhuma de minhas fontes me informou sobre isso, nem sequer uma sílaba.
— É boa ocultando-o. Deve ter passado meses praticando — Quanto teria demorado a aprender a brigar na escuridão?
— Por esse motivo nos custou tão pouco apanhá-la. Cega e fugindo.
—… E faminta, ferida e exausta. Só necessitamos três homens para trazê-la até aqui — Ela recolheu a taça de café, o olhar desceu em um gesto tímido, enquanto sorria. Equivocou-se com o vestido azul. Não fazia que parecesse uma prostituta, fazia que parecesse jovem, elegante e despreocupada como uma mariposa na primavera . — Alguma vez pegaste a uma mulher?
Doyle o olhou atentamente.
— Não sei como, mas perdi isso. Diria que é divertido?
—Não muito. Faz que depois se sinta vil como o demônio.
—Suponho que foi um acidente.
—Fui um idiota. Isso não conta como um acidente. —Era o agente no comando. Ela era sua prisioneira e lhe tinha feito mal. Não existiam desculpas válidas. — Dei-lhe um murro no plexo solar com tanta força que deixou de respirar durante um momento. Não acredito lhe haver causado nenhum dano permanente, mas não a perca de vista.
—Nunca perco nada de vista — Doyle se agachou e levantou ligeiramente para trás o casco da égua, apoiando-o contra sua coxa, com uma atitude prática, como qualquer ferreiro. Depois de uma breve inspeção, Doyle procurou com uma mão no bolso de sua jaqueta e encontrou um instrumento sem fio para limpar o casco, do qual raspou todo o bordo, pouco a pouco, com tempo. William Doyle era um perfeccionista. Isso tinha lhe salvado a pele mais de uma vez . — Vai me contar isso?
—Deixei que atasse uma corda ao redor de meu pescoço — deslizou um dedo dentro do lenço atado a seu pescoço e o afastou para mostrar a linha avermelhada. Ainda doía ao engolir.
—Como demônios ela pôde...?
—Essa maldita camisola. O cordão com o que se atava.
—O cordão. Demônios, tinha que ter-me dado conta. Preparou um garrote. É esperta como uma raposa, essa garota.
— Poder-se-ia dizer que consegui meu objetivo. Deixou de lutar. Sabe todo o dano que terá que fazer a essa mulher antes que se renda?
Doyle soltou o casco do cavalo.
—Conheço-te faz tempo, Robert. Há quantos anos?
—Possivelmente dez anos.
—Todo esse tempo — Se aproximou do seguinte casco e o levantou. — Às vezes fica evidente o fato de que vem do exército em lugar de ter subido diretamente dentro do serviço secreto. Se tivesse passado ao menos um ano como agente de campo, saberia o quanto perigosa é nossa preciosa e pequena Annique. Esquecer-se-ia de que tem peitos e faria o que tem que fazer. Então poderia comer um bom café da manhã a manhã seguinte.
—Sim, eu tomei o café da manhã — Inclusive ele percebeu que seu tom soava irritado.
—Mas agora este tema está dando voltas em sua cabeça. Deixastes de ser um cavalheiro no dia em que se uniu ao serviço secreto britânico — grunhiu Doyle e deu um passo atrás.
—Bom, a próxima vez lhe darei um pontapé na barriga e darei conselhos — Do outro lado do pátio, Annique ria por algo que havia dito Adrian; era um som similar ao da água fervente, algo suave e fácil, que provinha de um jarro de porcelana. Era um som normal, íntimo e depravado.
Irritava-o sobremaneira.
—Os homens do Leblanc poderiam cavalgar até esta estalagem a qualquer momento, e ela fica aí sentada com essa risada tola.
Doyle seguiu a direção de seu olhar.
—Isso, meu amigo, é ter guelra, puras e autênticas guelras. Está fugindo para salvar a vida. Não há uma só pedra na Europa debaixo da qual possa esconder-se.
—Leblanc vai matá-la. Não tem nada a ver com os planos Albión. Está tentando silenciar algum segredo privado, um pouco especialmente condenatório. Ocorre-te algo?
Doyle negou com a cabeça.
—Tratando-se do Leblanc pode ser algo. É um bode repugnante.
—O que está fazendo Fouché?
—Nesse momento provavelmente esteja se perguntando o motivo pelo qual um de seus agentes ainda não apresentou seu relatório — Doyle imitou um homem com esporões. Ninguém sabia mais sobre o modo no qual funcionava a inteligência francesa. — Ela poderia ir com ele, com o Fouché. Ele não deixaria que Leblanc a matasse a menos que ela tenha brincado com a traição, com os planos Albión, coisa que me permito duvidar. Mas não lhe é útil, não, se for cega. O bordel que atende a polícia secreta fica no Faubourg Saint-Germain. Colocará Annique para trabalhar lá, com suas outras garotas.
Esse pensamento deixou a Grey um sabor desagradável na boca.
—Um lugar decadente. Acaso ela sabe?
—Tem que sabê-lo. Ele tentou usá-la como sua prostituta desde que a garota fez quinze anos. A mãe está morta. Seu velho professor, Vauban, também morreu. Soulier a ajudaria, é um agente com um posto suficientemente importante. Deus sabe que ela foi sua mascote desde a época em que não lhe chegava à altura dos joelhos, mas ele está sentado em nosso edifício em Londres. Todos os que podiam proteger à Jovem Raposa morreram ou abandonaram a França. Fouché vai prostituí-la.
—Isso é desumano, até para um francês.
—Não há maldade nisso. Fouché é um agente da velha escola. Não gosta muito de ter uma agente trabalhando em qualquer lugar que não seja na cama — Doyle se deteve para comprovar as fivelas das correias das cilhas. — Há homens que gostariam de fazê-lo com uma garota cega.
— Porra!
—Todos nós conhecemos os riscos que supõe entrar neste jogo — Doyle tirou o pó das mãos, não era possível ler nada em particular na expressão de seu rosto. — Mas é pior para as mulheres.
Podia ser muito pior para as mulheres. Ele odiava enviar suas agentes femininas às missões.
As portas do pátio da estalagem estavam abertas diante do caminho. Grandes amontoados de nuvens brancas no alto do céu e uma neblina cinza brilhavam no horizonte, para o oeste. Esse era o clima que teriam os próximos dois dias. Ia chover enquanto superavam os últimos obstáculos antes de chegar à costa. Os homens de Leblanc estariam esperando-os.
—Estava fugindo para a Inglaterra quando partiu da Marsella. Estou seguro disso. É o único lugar onde estará a salvo do Leblanc.
—Tem sentido. Leblanc por uma parte, Fouché pela outra. Não encontrará refúgio na França. Dirigia-se para ver Soulier, em Londres, para lhe pedir ajuda.
—Então, em lugar disso, encontra-se conosco. É nossa. —«Minha».
—Estamos feitos com nossa própria pequena espiã francesa — Doyle sorriu. — Aposto que está cheia de segredos. Fará um trato conosco, não fica outra opção.
—Já se dará conta disso, com o tempo — Ele a levaria ao seu quartel geral em Meeks Street. Ali estaria a salvo e ele teria todo o tempo do mundo para afundar nessa mente inteligente e complicada. Dir-lhe-ia tudo o que ele queria saber. Era bom em seu trabalho. — Já começa a acostumar-se à idéia. Está-se pondo cômoda.
— Acredita nisso? Nesse caso, não terei que estar alerta para que ela não me arrebente os pulmões, me afogando com qualquer pequena parte de corda que encontre, verdade?
—Se não lhe der as costas.
Doyle girou para franzir o cenho diante do cavalo.
—Tomarei cuidado. Cega. Por todos os Santos!
Na mesa de estilo rústico, entre a taça de café e uma cesta com pãezinhos, Adrian se apoiava nos cotovelos, com aspecto de ter tido uma má noite, como se tivesse bebido muito. Annique mantinha a vista fixa em suas mãos, com um ar ligeiramente distraído. Tinha o costume de estender os dedos antes de agarrar algo, um gesto lento e cheio de graça, que realizava sem duvidá-lo e sem rastro algum de estupidez. Adrian não dava a impressão de estar ferido. Annique não parecia cega.
—São geniais, não te parece? —Doyle não deu sinais de que estivesse olhando-os, mas, é obvio, isso era o que estava fazendo. Avançou segurando as rédeas, as deslizando para diante e para trás pelos anéis dos arreios, dando a volta para comprovar o desgaste. — Uns profissionais. É um verdadeiro prazer observá-los enquanto trabalham. Oxalá, nós pudéssemos recrutá-la. Cair-me-ia bem essa garota, inclusive agora que está cega como um morcego.
O vento soprou ligeiramente, movendo as sombras das árvores para diante e para trás no terraço. Annique sorriu com o olhar baixo, fixa em seu café, como se se tratasse de um truque que Adrian tivesse inventado sozinho para ela. Esse sorriso era como uma carícia em sua virilha. Pura loucura. Queria cruzar a grandes pernadas o pátio da estalagem e arrastar a essa garota ao piso superior, onde lhe explicaria o motivo pelo que não devia sorrir desse modo em público.
Obrigou-se a deixar de olhá-la.
— Me fale de Annique Villiers. Por alguma razão, não há nenhuma pasta sobre ela em Londres.
— Estranho. Bom, não a utilizam contra os britânicos. O que quer saber? Para começar, é a filha natural do Pierre Lalumière.
— Lalumière? Que escreveu As dez perguntas?

— E Justiça natural e o direito, Ensaios sobre a igualdade e todos outros — Doyle deu-lhe tempo para que assimilasse essa informação.
Pierre Lalumière. Tinha lido cada uma das palavras que esse homem tinha escrito ao longo de sua vida. Em Harrow, sentaram-se até tarde na sala dos estudantes, debatendo com paixão sobre esses livros. Tinha quase se tornado um revolucionário por ler Lalumière.
— A mãe utilizava um par de nomes, Lucille Villiers e Lucille Vão Chef. Ela e Lalumière apareceram de um nada faz uns vinte anos, trabalhando para os radicais. Muitos dos velhos radicais eram discretos com a informação sobre suas origens. A justiça do rei naqueles dias tendia a castigar a toda a família — Doyle começou a comprovar os arreios, percorrendo com seus dedos o interior de cada correia que entrava em contato com o cavalo. — Enforcaram Lalumière uma noite em Lyon, e, Lucille acabou por trabalhar para a polícia secreta francesa. Poder-se-ia dizer que era a mulher mais formosa da Europa. Poder-te-ia dar uma lista de nomes dos homens que se deitaram com ela.
—E Annique?
—Annique — Doyle aspirou ar através dos dentes. — Bom, toda sua vida tomou parte desse jogo. Realmente foi criada pela polícia secreta. Começou aos sete ou oito anos, levava recados para Soulier, quando este ainda era chefe de seção do sul da Europa. Uns anos depois a enviaram como observadora de campo. Foi então quando a disfarçaram de menino. Era membro do círculo interno de Vauban, uma das cinco ou seis agentes especiais. É boa assim — Limpou as mãos na jaqueta. — Cruzei com ela em algumas ocasiões em Viena. É obvio, é preciosa, mas é muito mais do que isso. Fixar-te-ia nela embora fosse feia como um carpete. Está mais viva que o resto. Pode te dar conta disso inclusive agora.
Adrian estava servindo leite quente no café dela, lhe passando um pãozinho, realizando discretamente as tarefas que resultavam mais complicadas para uma mulher cega que não queria ficar em evidência.
—É dura como as tecedoras — disse Doyle . — É bonita, não acha?
—O Caçador de Falcões é bom interrogando. —Evitou que o tom irritado se notasse em sua voz. — As mulheres gostam. Podemos aproveitar isso.
—Poderia servir. É jovem e está assustada, apesar de que é uma profissional. Vai precisar falar com alguém — Doyle lhe lançou um olhar rápido . — O Caçador de Falcões não vai pôr um dedo sobre uma mulher que é de sua propriedade. Só te está chateando.
Malditos fossem os dois.
—Vou sentar Annique acima no assento do chofer contigo. É suficientemente sensata como para não saltar daí. Se você passar um braço por suas costas... sentirá os músculos antes de atacar. Isso te servirá de aviso.
—Vale.
—Tenta falar com ela. Seja amável.
—Eu gosto de ser o amável do grupo — Doyle trocou a expressão de maldade de seu rosto marcado por uma cicatriz, por uma do mais inocente. — Pergunto-me o que estarão dizendo.
***
—…As duas em ponto em seu prato —dizia Adrian. — Arrearam o primeiro cavalo. Parece que já subiram as últimas bolsas à parte de acima da carruagem. Ficam uns cinco ou seis minutos.
—Nesse caso, comerei depressa — Mantinha o olhar baixo, dirigido para suas mãos. Esse tinha sido o primeiro truque que tinha aprendido. Dirigia seus olhos para as mãos, para evitar que o olhar parecesse desfocado e perdido, como se olhasse para o nada, informando assim a todo mundo de que era cega. Mantinha as mãos cuidadosamente junto ao prato. Já tinha se queimado essa manhã, ao tocar por engano a cafeteira. Não desejava fazer algo assim de novo.
Em efeito, o pãozinho estava às duas em ponto em seu prato. Dividiu-o em três pedaços exatos e os comeu lentamente, distanciando cada dentada. Tinha sido uma viagem dura desde Marselha e seu estômago ainda não estava acostumado a tanta comida.
—É sensata ao comer devagar — Adrian estava de acordo. — Já passou fome antes.
—Parece-me que você também.
—Quase todo o tempo morria de fome até que fiquei suficientemente grande para roubar para sobreviver. —Soltou um risinho. — Possivelmente seria uma enorme montanha ambulante como Grey se me tivessem alimentado todos os dias.
—Estou virtualmente segura. Deveria apoiar-se mais na cadeira, Adrian. Se for desmaiar, não derramarei a taça de café em meu regaço quando o fizer.
A mesa lhe avisou de que ele se estava movendo.
—Você é um exemplo de compaixão feminina. Acaso me quereria mais se tivesse os músculos de Grey e caminhasse por aí tirando a cabeça a todos estes franceses? Não seria tão bom como agente se tivesse sua estatura. Seria muito chamativo.
—Não sinto a mínima compaixão pelos problemas que podem ter um espião inglês na França. Em qualquer caso, não esbanjaria meu amor com ninguém como você. Deveria comer algo, sobre tudo se esse homem vai extrair lhe hoje as balas, tal como disse.
—Não acredito que a comida ajude. É desconcertante que o cirurgião tenha mais medo da operação do que o doente. Quando teve fome, Annique? Durante o Terror?
Ela mastigou e engoliu. Não era perigoso absolutamente falar disso.
— Naquele momento, sim, mas não em Paris. Eu vivia com os ciganos, os kalderash, naqueles anos. Essa vida é dura no inverno, se não correrem bons tempos.
—Seqüestraram-na os ciganos?
—Essa história é falsa, como você deveria saber, já que és um espião supostamente tão inteligente. Os ciganos nunca seqüestram meninos, pois têm muitas crianças próprias, já que sabem bem como qualquer outro como se fabricam. Não é uma questão muito difícil, em caso de que tenha dúvidas.
— Ouvi isso. Não tentaria esconder esse pãozinho se eu fosse você. Não há nenhum lugar onde possa escondê-lo debaixo desses objetos, embora sejam preciosas.
—Então, isso quer dizer que este vestido não é precisamente decente — disse com um tom escuro, — era o que suspeitava.
—É encantador. Deixe o pãozinho junto ao prato, por favor, e abstenha-se de roubar migalhas em minha presença. Roussel está aí entregando as cestas ao chofer. Há comida de sobra para alimentar um exército pequeno. Uma das vantagens de ser seqüestrada por Grey, Jovem Raposa, é que comerá bem durante o tempo que consigamos retê-la.
—Nesse caso, comerei bem durante algum tempo — Ainda ficava espaço no estômago para um último gole de café ou um pouco mais de pão. Não para as duas coisas. Escolheu o café, adorava café.


Capítulo Nove
Garches, perto de Paris
—Imbecil — Jacques Leblanc abriu o mapa até deixá-lo liso, marcando com o dedo as estradas que foram a Normandia. — Faz-me perder tempo com suas queixa.
— Ela está em Paris — disse Henri, com expressão carrancuda , — vão a pé, sem comida, sem dinheiro. O menino está ferido...
—O menino sem dúvida está morto. Abandonaram-no faz tempo em algum beco — Leblanc desenrolou o mapa ainda mais. — A estas alturas já têm cavalos, possivelmente até uma carruagem.
—O inglês desaparecerá do mapa. Se Annique consegue escapar dele, irá ver seus amigos em Paris. Por que ela ia a...
—Tem amigos em todas as partes. Cale-te — Leblanc marcou cinco centímetros de linha da costa da Normandia entre seu polegar e índice – Este é o baluarte dos contrabandistas. O caminho para a Inglaterra. Juntos ou separado, feridos ou sãos, tentarão chegar até aqui.
Quanto demoraria o espião inglês em dobrar a Annique? Dois dias? Três? O inglês era uma besta e um tipo duro. Inclusive Henri tinha-lhe medo.
Este era um problema de lógica básica. Se dava três dias ao inglês para que dobrasse à pequena raposa e lhe tirasse a localização dos planos Albión, então... Leblanc passou seus dedos pelo mapa, povo por povo. Onde tinham permanecido escondidos os mapas todos estes meses? Paris? Ruan? Perto do Canal? Podiam estar na própria Inglaterra. A garota poderia ter levado os planos para a Inglaterra para pô-los a boa cobrança quando partiu de Brujas. Tinha transcorrido tempo suficiente.
Não importava onde estavam. Ao final, e esta era a maior debilidade do inglês... a final, o inglês tinha que cruzar o Canal. Não tinha outra opção além de ir à costa e cair na armadilha preparada para apanhá-lo.
Henri não teve senso comum suficiente para permanecer calado.
—Não há provas de que ela esteja com ele. Nenhuma evidência sequer de que partiu de Paris. Deveríamos procurar em...
—Estamos falando da Jovem Raposa, idiota, não de uma de suas galinhas. Chegou caminhando aqui desde Marsella, estando cega. Acredita que está sentada chupando o polegar em alguma esquina do Quartier Latin, esperando que chegue? Se não estiver com o inglês, de todos os modos irá ao Canal. Irá ver Soulier. Ela pensa que estará a salvo com ele.
—Eu penso que... —disse Henri obstinado.
—Você não pensa. Merda, eu estou rodeado de idiotas.
Os acontecimentos escapavam a seu controle. Era possível que nesse mesmo momento, Annique estivesse se arrastando para o inglês, rota e suplicando, contando tudo o que ele quiser saber. Falando de Brujas.
O mapa rangeu. Fechou o punho sobre a Normandia. Este não era um desastre, não o era. Apanhá-los-ia como se fossem insetos. Deteriam o inglês. Inclusive se chegava a contar algo sobre Brujas. Quem ia acreditar no que dizia um espião inglês? Tudo o que dissesse seria invalidado, até o último sussurro. Era possível deter cada fôlego que pretendesse falar sobre isso.
E se tinha os planos Albión... 'Ventre bleu', não existiria limites para a quantidade de ouro que um homem esperto poderia obter com esses planos.
Não seria como em Brujas, quando arrebataram a base de enganos todo seu trabalho e seu planejamento. E para que? Umas quantas moedas ridículas. Uma quantidade insultante de moedas.
Pressionou seu polegar na cidade de Ruan e riscou a estrada que levava a costa.
—Colocará patrulhas aqui, aqui... e aqui. Que detenham tudo o que se mova e o registrem.
—Não podemos deter cada...
—Busca uma mulher cega, pelo amor de Deus. Isso é suficientemente fácil até para ti.
Os planos Albión tinham desaparecido de Brujas como uma nuvem de fumaça. Fizera pedaços da estalagem, buscando-os. Desta vez, não lhe escapariam, embora se visse obrigado a arrancar as tripas dessa prostituta com suas próprias mãos.
—Ordenarei que as patrulhas sejam instaladas — Henri assentiu de um modo tenso e insolente. Outra falta de cortesia da que se arrependeria algum dia.
Arrumaria a desastrosa obra de Henri. Recuperaria os planos Albión e fecharia a boca de Annique Villiers. Uma vez morta, ele estaria a salvo.
—Aqui... e aqui do outro lado... Coloca os controles fronteiriços. Faz que façam algo útil para variar. Envia a nossos homens a este ponto — Seus dedos, se colocaram em cima, como se se tratasse de uma aranha, sobre os nomes escritos na zona de cor azul que marcava a localização do Canal. Estas eram aldeias diminutas, que cheiravam a pescado, cada uma com umas cinqüenta cabanas e três dúzias de navios, jogo de dados a volta na areia. — Ela conhece esta costa da época da Vendée . Ela tem aliados entre os contrabandistas, homens com nomes sobre os que nunca me informou. Aí é aonde irá, se tiver conseguido escapar – recostou repentinamente e extraiu um lenço de seda de seu bolso, que passou pela face. Fazia muito calor na casa . — A menos que espere que a busque ali. Possivelmente...
Henri observou o quadro à óleo que estava pendurado na parede decorada em ouro e tom carmesim do salão, uma paisagem que uma vez pertenceu ao prefeito de Paris.
— Há muitas possibilidades.
Encarregar-se-ia de Henri. Disso não tinha dúvida. Faria algo para que pagasse sua falta de respeito.
—Vá, vá pessoalmente. Dá a ordem de que devem me entregar qualquer documento que leve, sem abri-lo. Somente devem me entregar isso. Entendeu?
—A ti e sem abrir. É obvio — Henri pensou astutamente com seus botões que se os planos Albión caíam em suas mãos, descobriria que ele era, em realidade, dispensável. — O que fazemos com Annique?
— Fique com as sobras que deixou o inglês, se quiser. Usa-a para recompensar aos homens que a encontrarem. Logo me traga o que desejo.
—E o inglês?
—Mata-o.


Capítulo Dez
Normandia
Junto a ele, no assento do condutor, Annique guardou um silêncio seco e altivo durante quase uma hora. O que fez que finalmente se rendesse foi que Doyle dissesse, em um tom muito ofendido, que não era necessário que a levassem arrastando, arranhando o seu traseiro até Calais. Não a estava esmagando. O tom ofendido de sua voz e a expressão vulgar que tinha empregado minaram sua determinação. Inclusive quando pressionou os lábios com força para mantê-los fechados, não foi capaz de evitar que escapasse um risinho.
—Assim está melhor — disse Doyle satisfeito , — perguntava-me se ia me falar em algum momento.
— Não me sinto muito faladora. É tudo isto de ser seqüestrada, como compreenderá.
—Incomodamo-la, não é isso?
—Assim é. Além disso, eu não gosto de estar em um lugar tão alto. —O assento do condutor não estava almofadado e certamente estava longe, muito longe do chão. Dava umas sacudidas aterradoras cada vez que passavam num obstáculo. Não podia ver as raízes e os buracos no caminho antes, de modo que tinha que se segurar com força e apoiar os pés continuamente arqueados para cima. Seus dedos tinham adotado a forma permanente do corrimão que tinha ao lado do assento. Acabaria totalmente dolorida e esgotada ao final do dia, que era certamente a razão pela qual estava aí em cima. Não se encontraria em condições para escapar essa noite. Grey, como o inglês havia dito, tinha-a deixado bem colocada.
A carruagem começou a sacudir-se em excesso. Ela apertou com mais força o corrimão.
—Esta carruagem é instável.
—Não vou deixar que você caia — Doyle tinha um acento maravilhoso. Ninguém mais que um autêntico francês se atreveria a falar o idioma de um modo tão infame . — Nós nos esforçamos muito para capturá-la, depois de tudo. Sabe bastante de cavalos, verdade, senhorita?
Tinha localizado a monsieur Doyle no amplo armazém que era sua memória. Ele tinha muitos nomes. Sua mãe o tinha mostrado para que ela o visse há muito tempo em Viena, e, lhe havia dito que o evitasse, pois era um homem duro e tenaz como um texugo e provavelmente o melhor agente de campo vivo.
—Não muito — disse ela.
—Então vamos pôr a trabalhar e assim poderei descansar um pouco. Só tem que... assim é. Sujeite isto.
Passou-lhe algo. Logo ela se deu conta de que estava segurando as rédeas e que os cavalos corriam sem que nada os controlasse além de suas mãos nessas finas correias de couro.
Tinha passado toda a vida enfrentando o inesperado. Segurou as rédeas como se fossem as piruetas de um navio e ela estivesse na água no meio do Atlântico.
—'Nom de Dieu'.
—Não é bom balançar com tanta força as rédeas. Faz que os cavalos fiquem nervosos. O melhor é segurar as tiras de couro com calma e um pouco soltas. Na realidade, deveria sujeitá-las com uma só mão, é obvio, mas comecemos com duas, ao menos no princípio. O que tem que fazer... —Colocou seu braço ao redor dela, agarrando suas duas mãos. — Não, solte os dedos aqui e agora deixe que lhe ensine. O que tem que fazer é... Isto se passa por aqui, olhe.
—Poderia segurá-las de novo, por favor?
Ele deu a volta às correias em suas mãos até que ficaram entrelaçadas com seus dedos.
—Esta daqui — retorceu a correia em sua mão, — vai à esquerda. Esse animal da esquerda é um demônio com mau gênio. Eu o chamo Nancy, posto que não está, como se diz, completo ali em suas partes. O velho Nan gosta de morder quando quer que prestem atenção nele. Bom, caso queira que vire à esquerda... Não digo que o faça agora, mas se quiser fazê-lo... Teria que atirar com firmeza e calma esta correia que tem aqui. A nota?
—Doyle — Seguiu segurando com firmeza por culpa da sensação de terror absoluto que crescia em seu interior ante a mera idéia de que os cavalos pusessem-se a correr. — Possivelmente não se deu conta, mas estou tão cega como as pedras.
—Sim, senhorita. Esta outra correia vai aqui, a que tem apoiada, cruzando a palma da mão como...
—Ser cega, monsieur Doyle, não é somente carecer da capacidade para apreciar o formoso céu azul e os campos pelos que passamos. Significa que não posso desempenhar algumas pequenas tarefas práticas, como conduzir carros de cavalos. Este fato do que lhe falo é do mais óbvio.
—Pelo amor de Deus, senhorita, não é necessário ver para segurar estas rédeas. E mais, na metade do tempo, conduzo com os olhos fechados, dormindo. Os cavalos fazem todo o trabalho. O truque está em recordar que rédea guia a cada cavalo, no caso de que alguém suba e o pergunta.
Ela segurou as tiras de couro até que lhe doeram os dedos. Esta não era a caravana pequena e ruidosa dos ciganos, com seu único e pacífico cavalo, que era o único tipo de veículo que tinha conduzido em sua vida.
— Não acredito nenhum pouco que essa seja uma boa idéia.
—É o melhor modo para que se desloque por aí, senhorita: conduzindo um veículo. Se não lhe incomodar que lhe aconselhe. Não há nada como uma carruagem puxada por um cavalo para um passeio pelo campo, e não encontro nenhum motivo pelo qual você não possa conduzir como qualquer das damas na Inglaterra. Vá, pelo que vi, uma boa parte das que vi conduzir devem estar tão cegas como você, e perdoe que o mencione, tudo isso.
— Você é o homem com o sangue mais frio que já vi, monsieur Doyle. Mon Dieu, mas certamente faz honra a sua reputação.
—Como pode saber de minha reputação uma jovem dama tão agradável como você? Quando chegar a Inglaterra, tem que comprar um pequeno carro puxado por um cavalo, e procure um que tenha um pouco de sentido comum, como este par de cavalos. Levá-la-á ao passeio no passo que queira sem que tenha que fazer outra coisa que segurar as rédeas com as mãos como está fazendo agora.
—Que compre um... Carro. Um carro. Claro que sim, sem dúvida farei isso se alguma vez for a Inglaterra.
— Venha, senhorita, não comece com isso. Já sabe que vamos levá-la para a Inglaterra conosco. Vamos para lá tão rápido como é possível. Aproximamo-nos mais com cada quilômetro percorrido — trocou as rédeas ligeiramente em suas mãos, dirigindo aos cavalos para que passassem algum objeto que estava no caminho. — Quanto antes deixe de brigar com Grey por isso, mais fácil será para todos. Faz que estejamos todos tensos, porque não sabemos se vai matar ou não a Grey esta noite.
—Sim ou não. O que seja — Seus braços a rodeavam de um modo amistoso, mas soltou as rédeas de novo, e, a deixou encarregada do controle de todo o veículo e desses cavalos que podiam decidir fazer o que quisessem em qualquer momento . — Pode voltar a agarrar as rédeas, Doyle? Porque eu, certamente, não as quero.
—Solte as rédeas um pouco, os cavalos seguirão o caminho e nos levarão sem problemas. Se as sujeita com muita força, só consegue distrai-los.
—Recline-se e deixe que as coisas aconteçam com calma. Essa é sua sugestão. Não há dúvida de que é o mesmo que terei de fazer com os planos que monsieur Grey tem preparados para mim. É um modo muito masculino de me dar conselhos.
—Exato, senhorita. Enquanto estes cavalos se dirigem a bom passo para a costa, o que tem de fazer, se me permitir que o diga, é aprender «inglish».
—Inglish? —Então captou o significado. — Inglês. Não certamente que não. Acontece que não decidi ir à Inglaterra imediatamente.
—Bom, senhorita, é precisamente para onde se dirige, se me permitir que a contradiga. Assim que lhe ensinaremos «inglish». Não é difícil. Minha filha pequena, que só tem três anos, fala-o bastante bem.
Era mais fácil permanecer no assento do chofer com o braço do Doyle ao redor do corpo. Era inclusive mais fácil quando ele tomou as rédeas e as segurou durante um momento, colocando-as ligeiramente por cima de suas mãos.
—Só para mostrar como se faz, senhorita — E para que ela deixasse de estar completamente aterrada. — Agora tome as rédeas — Devia ter feito algum gesto e um instante depois se deu conta de que ela não podia ver os cavalos, em «inglish» dizemos que os cavalos são caracóis.
—São-no... mas é uma coisa terrível chamar assim aos cavalos. A menos que os ingleses apreciem aos caracóis, o que é impossível.
—Não. Esses bichos se metem nas alfaces, arrastam-se por todas as folhas e as comem. Minha mulher, Maggie.... Ainda não lhe falei da minha Maggie? Ela é uma fera e está tremendamente orgulhosa de nosso pomar. Minha Maggie odeia os caracóis. Põe jarras de cerveja para atraí-los e logo os deixa morrer felizes. Entretanto, vai contra meus princípios afogar caracóis em jarras de boa cerveja.
Esperou que seus lábios deixassem de mover-se nervosamente. Sua mãe lhe havia dito que Doyle se licenciou em Cambridge, com honras.
—Eu estaria de acordo, embora nunca tenha matado caracóis. Ainda segue me parecendo um nome estranho para usar com os cavalos.
Estava aprendendo que a melhor classe de cavalos são os corcéis e que em «inglish» para dizer carruagem dizem «caleste da moda», quando ele tomou as rédeas, tirando-as de suas mãos e segurou as mesmas para deter os cavalos. A tensão de seu corpo devia demonstrar quão assustada estava.
—Não há porque preocupar-se, senhorita. Só procuro um lugar onde possamos descansar. Poderia ser aqui — disse Doyle imediatamente.
Sentiu a umidade de uma zona aberta e escutou o vento, o murmúrio de um riacho próximo e o zumbido das moscas. Os pássaros cantavam ao longe. Então estavam no meio de um campo, longe de qualquer povoado e havia um bosque perto. Operariam o pobre Adrian no campo, onde ninguém poderia ouvir seus gritos.
—É este um bom lugar? — A porta da carruagem se abriu de par em par. Escutou como Grey saltava ao chão e caminhava com o passar do caminho.
—Poderia ser — A voz do Doyle ia acompanhada por um ruído que a desconcertava, até que o identificou como o som que produz uma pessoa ao arranhar o queixo depois de não haver-se barbeado. — O que temos aqui... Há umas duas ou três rochas perto do caminho, empilhadas de maneira informal. Isso poderia ser obra dos ciganos. Estivemos seguindo uma de suas rotas há um momento, essas partes de tecido que atam nas árvores por cima da altura da parte superior das carruagens. De modo que esta rocha literalmente assinala um de seus acampamentos. Possivelmente esteja aí atrás, nesse pequeno bosque.
Os dois esperavam que ela falasse. Os espiões britânicos, cada um deles, sabiam mais sobre ela do que gostaria.
—Que aspecto têm, monsieur Doyle, estas pedras?
—Uma grande, bastante arredondada. Essa está no meio. Logo há três em linha, em direção... me deixe mostrar: colocou as rédeas em algum lugar e sustentou sua mão esquerda, estendeu-a sobre seu joelho e desenhou pontos sobre a palma, lhe mostrando o modo no qual estavam colocadas as rochas, uma junto à outra . — E então há uma plaina aqui, mais à frente do dedo mindinho, algo mais de trinta centímetros à direita. Não sei se essa pertence ao grupo ou é somente uma pedra perdida. Não há ramos, nem plumas, nem fibras trançadas de erva em nenhuma parte. Só as pedras.
— Interpretou estes sinais antes — tinham encontrado um acampamento cigano, não cabia a menor duvida.
— Os sinais patrin? Vi-as aqui e ali, senhorita. Não posso dizer que as saiba interpretar.
—Marcas de vagões cobertos — gritou Grey do campo situado à direita. — As marcas estão todas umas em cima de outras, todas em linha. Ciganos.
Se os ciganos estivessem acampados ali, iriam ajudá-la. Não iriam querer envolver-se numa briga entre payos, mas a nenhum deles gostariam de ver uma mulher que falava sua língua nas garras de homens como eles. Se tão somente ela mentia um pouco...
Doyle pigarreou.
—Não estão aqui. As tiras de tecido levam aí tempo. Meses. E as marcas de rodas são antigas. Temos todo o acampamento para nós.
Sabiam muito, estes dois. Teria preferido ter que ver-se com uns idiotas.
—Têm razão sobre as patrin, os sinais do caminho. Há um acampamento perto daqui. Um lugar seguro. Deve estar mais acima, seguindo esse riacho que passamos, mais alto que o caminho, para que a água flua limpa. Os ciganos são muito cuidadosos com isso.
Depois de uma breve conversação sobre o campo, ela dirigiu a carruagem, mas em lugar de indicar a zona mais próxima do bosque, que parecia lhes chamar, conduziu-os até um comprido atalho que levava para uns matagais e dava a impressão de ser menos prometedor. Ela soube no primeiro momento quando chegaram à clareira que esse era um refúgio seguro dos ciganos. O aroma de velhas fogueiras ainda impregnava o ar. A erva tinha ficado esmagada pelas rodas dos carroções quando os ciganos partiram de um de seus acampamentos favoritos. Alho silvestre, erva-doce e hortelã cresciam nesta zona.
—Encontrou-nos um bom lugar — Grey a desceu do elevado assento na carruagem. — Por isso a necessitamos. Tem sangue cigano, Annique?
—Não por parte da família de minha mãe, disso estou quase segura — Podia sentir o cheiro de sua camisa, o amido e água perfumada com capim limão, com que foi engomada, o que era uma tradição completamente francesa e não era um aroma britânico absolutamente. Tinham umas técnicas muito meticulosas, estes agentes . — Não sei muito sobre meu pai para assegurá-lo; morreu quando eu tinha quatro anos, mas acredito que era basco. Falava com minha mãe em algumas vezes num idioma que não tornei a escutar em nenhum outro lugar.
Ele não a tocou, mas algo em seu corpo se esforçou por chegar até ele e dar-lhe as boas vindas, como se fossem dois velhos amigos que não se viam há muito tempo. Não gostava que seu corpo se comunicasse com o corpo dele desse modo. Pigarreou.
—Eram revolucionários, como compreenderá. Naqueles dias, os radicais não falavam muito do lugar de que vinham ou de suas famílias. Não era seguro.
—Eu mesmo haveria dito que você celta, com esses olhos azuis. Possivelmente uma jovem da Bretanha. Fique aqui um minuto. — A grama rangeu sob suas botas enquanto ele caminhava para os arbustos.
Ela aguçou seus sentidos para perceber a clareira ao seu redor, como estava acostumada a fazer com os lugares novos. O sol esquentava sua pele. O riacho não estava tão perto para criar uma sensação de umidade e frescor, mas se podia ouvir seu murmúrio alto e claro, o que era reconfortante. A carruagem avançava devagar atrás dela, enquanto Doyle soltava o segundo cavalo. Levou os dois animais, os cascos fazendo um ruído seco sobre as folhas, em direção à água. O ar era denso por culpa do pólen das árvores e vinha carregado de velhos aromas de carvão, tabaco e a pomada que as mulheres colocavam nos cabelos. Tudo isto era familiar. Esse era um acampamento como os de sua infância. Esse lugar era um lar para os ciganos.
A vida tinha sido mais simples quando vivia com os kalderash. Se sua mãe nunca tivesse voltado possivelmente teria conseguido ter uma vida com eles. A estas alturas já teria um bebê de cabelo negro para mimar e um marido jovem e fanfarrão, em lugar de um seqüestrador que a levava a um interrogatório complexo e desagradável em Londres.
Grey se aproximou dela.
—Tome isto. —Pôs um pau na palma de sua mão, um bom pau. Poderia dizer que era como uma espécie de bastão, embora nunca tivesse tido em suas mãos um bastão, já que não se tratava de um objeto que estivesse muito em sua vida cotidiana. Mas seu pai lhe tinha contado as histórias sobre Robin Hood. Isto era exatamente o que Pequeno John estava acostumado a usar para golpear ao xerife do Nottingham na cabeça. Claro que este bastão era de seu tamanho.
—É estupendo, obrigado — Era possível que lhe desse um bom golpe a Grey com o bastão em algum momento. — Vai extrair a bala de Adrian?
Sua voz transmitia tensão.
—Para isso estamos aqui.
—Compreendo — Não pôde evitar dizer o seguinte. — Tem muita experiência, possivelmente, de sua época no exército?
—Nenhuma absolutamente. Vou tirar nossas coisas. Não aproveite este tempo para entrar no bosque.
Não gostava de ter que fazer cirurgia de campo. Estava extremamente preocupado. Podia percebê-lo em cada passo que tinha dado da carruagem até o centro da clareira, carregado com as coisas. Aí era onde ele ia trabalhar, onde Doyle estava preparando uma fogueira.
Ela ainda não se decidira. Caminhou durante um momento; dando golpezinhos com seu bastão, encontrou os círculos das antigas fogueiras, começou a entender como se alinharam os carroções naquele lugar. Transmitiam a sensação de que era um acampamento rico. Devia haver, nesses campos cheios de flores atrás do bosque, frutos silvestres e muitos coelhos, inclusive ouriços, se a gente tinha muita sorte. Seus pés fizeram ranger as velhas cascas de coquinhos ao pisá-las. A gente podia comer bem neste lugar sem ter que roubar galinhas.
O terreno se inclinava de forma gradual para o riacho. Em qualquer ponto no qual se detivesse, o pendente e o som da água lhe diriam onde estava. Era reconfortante poder contar com essa pequena certeza.
Tropeçou uma vez, porque estava muito concentrada e a raiz da árvore tinha sido mais esperta do que ela. Não se machucou muito. Cair a cada certo tempo era parte de ser cega. Deve-se assumi-lo com filosofia.
Na parte mais alta da clareira havia sarças com amoras, que atravessou, cravando-se com os espinhos. Comeu algumas amoras, tomou uma decisão e foi escutar Doyle e Grey enquanto preparavam ao Adrian.
—… Voltar a pintar os quartos no apartamento de cobertura a última semana de novembro.
—… Arquivos no armazém do porão...
—… Caiado duradouro. Há uma falta de imaginação que...
Falavam de coisas sem importância. Milhares de vezes, tinha escutado os homens antes das batalhas, falando justo desse modo. A voz de Grey não transmitia nada mais que uma confiança tranqüila. Certamente, ao escutá-lo, parecia que era um homem que já tinha extraído vários quilogramas de metal dos outros no último mês, tendo êxito sem exceção em todos os casos. Adrian mostrava uma coragem que era quase francesa, como lhe tinha parecido antes. Em suas frases sem transcendência, podia ouvir sua resolução de confiar em Grey, de pôr sua vida em suas mãos. Em algum momento e lugar, Grey tinha ganhado a confiança desse menino preparado e cínico.
Seria uma enorme lástima que ela tivesse tirado Adrian da adega de Leblanc e o houvesse trazido até aqui para que morresse.
Seguramente era o que aconteceria. Grey não tinha a menor idéia de como extrair balas. Se ela fosse completamente leal a França, deveria alegrar-se, posto que, escutara coisas sobre Adrian que davam a entender que era um professor na espionagem e um inimigo formidável para a República.
Escutou o estrondo do metal, Doyle estava colocando os instrumentos em um lugar, ali, no chão. Tinha decidido ser desleal a França neste caso.
—Grey, eu gostaria de falar com você — disse ela.
—Logo.
—Agora! —afastou-se.
Tiens. Esta era uma prova para ele, não podia ser de outro modo. Se não confiava que ela sabia o que era importante, não lhe confiaria à vida de Adrian.
Dez passos colina abaixo, se deteve. Os passos dele a seguiram.
—Não tenho tempo para isto, Annique.
—Eu posso extrair a bala.
Recebeu como resposta um dos prolongados silêncios de Grey.
—Não deveria me surpreender. Esteve com os exércitos, não é assim? Onde aprendeu a extrair balas? Em Melam? —disse depois.
—E no Milésimos, Bassano e no Roveredo e... Em todas as partes —Tantos campos de batalha. — O lugar mais seguro numa batalha, quando se está vestida como um menino jovem está nas lojas médicas. Ocupava-se limpando líquidos repulsivos, ninguém me passava uma pistola e esperava que eu começasse a matar gente.
—Entendo — Num tom de voz muito seco. Ela sabia isto de Grey, que ele tinha sido comandante da infantaria antes que o atribuíssem ao serviço secreto britânico. Tinha que conhecer bem as lojas médicas e os estragos das batalhas.
— A princípio fui limpar esses hospitais de campanha. Quando estive ali... Grey, não havia nenhum desses carregadores de maca que fora capaz de costurar nem a capa de um travesseiro, muito menos a barriga de um ferido. Sou hábil com as mãos. Em pouco tempo os cirurgiões me conheciam. Quando chegamos em Rivoli, nem sequer elevavam a vista quando eu entrava, só me indicavam onde queriam que começasse a trabalhar. Tirei muita metralha de homens, pequenas peças que os cirurgiões não podiam pescar por falta de tempo. Quando as coisas se tornaram desesperadas também extraí muitas balas.
—Muitas balas — Sentiu seu fôlego na cara.
—Não preciso ver, não para isto — Não sabia o motivo pelo que estava esforçando-se tanto para convencê-lo. Possivelmente não poderia salvar Adrian. Possivelmente era seu destino inexorável morrer quando extraísse a bala. Mas não devia ser Grey quem tivesse as mãos sobre o corpo de seu amigo, enquanto sentia como sua vida escapava. Ela podia lhe economizar esse momento. — Não é uma questão de olhar, como compreenderá. Ao extrair as balas, quando a gente tem que cortar a carne, há muito sangue. A gente não pode ver. Sempre é necessário encontrar a bala com o tato, tocar dentro da pele e usar um instrumento que nos permita sondar até encontrar a trajetória de entrada da bala.
—Faça-o.
—Tenho muita experiência em...
— Disse que o faça — Se afastou sem acrescentar uma palavra mais de debate e nenhuma pergunta. Nem sempre conseguia entender Grey.
No centro da clareira tinham estendido as mantas sobre o chão. Ali, Doyle tinha espalhado toda a sua seleção de instrumentos médicos. Enquanto escutava Grey explicando a mudança de planos, embora nenhuma só vez, nem durante um minuto, deixou que sua voz mostrasse a mínima sombra de dúvida sobre sua habilidade, ela se ajoelhou e repassou a incrível coleção de instrumentos metálicos. Eram dúzias de instrumentos. Ela lançou de volta à bolsa de couro a maioria deles. Ficou somente com as menores pinças, o fórceps, um par de tesouras e uma faca muita afiada. Com isso bastava para o que tinha que fazer.
Tudo cheirava a pescado, por alguma razão, assim como a sangue velho. Não queria nem posar suas mãos sobre essas ferramentas enquanto estivessem tão sujas. Enviou Doyle ao riacho de água corrente, com sabão para que as limpasse para ela. Sentia-se cigana nesses momentos. Não lavaria o instrumental numa bacia. Os ciganos não lavam as coisas em água estagnada.
Logo se virou para tocar em Adrian, para saber como se encontrava. Estava nu de cintura para acima. Sentou-se no chão enquanto Grey cortava a bandagem.
—Chère Annique, se tivesse sabido que ia me cortar, teria deixado que terminasse o café esta manhã — Segurou sua mão e a levou aos lábios para beijá-la. Era difícil acreditar que não era gascão. — Como conseguiu Grey convencê-la para que faça isto?
—Foi precisamente ao contrário. Grey lutou com unhas e dentes pelo privilégio de pinçar em seu interior em busca da bala. Mas eu insisti muito — Este menino riria até na forca. — Se não tiver tomado ópio, deveria fazê-lo. Temos que esperar um pouco, como compreenderá, depois de que tome. Não estou disposta a que debata comigo sobre o preço dos feijões verdes ou fale do tempo enquanto esteja trabalhando. Distraio-me com facilidade.
—Não quer tomá-lo — disse Grey.
O braço do Adrian se moveu. Pareceu-lhe que estava negando com a cabeça.
—Se tomo uma dose suficiente para que sirva de algo, estarei atordoado durante dias. Leblanc procura um homem ferido. Se me deixam atordoado acabarei morto.
—Odeio quando tem razão, não te passa o mesmo? — disse Doyle.
—Sempre tenho razão, Annique... Jovem Raposa... Não tomarei ópio. Se beber suficiente conhaque para ficar inconsciente, provavelmente me matará. Assim será melhor sem nada. Pode fazê-lo?
—Sim — disse ela imediatamente, — cacei balas muito freqüentemente. Sou rápida como o raio —«Mon Dieu». Acaso sabiam o que ia ser isso? Operar sem nada de ópio era um autêntico pesadelo. Realmente, Adrian se parecia com ela nisto. As fadas madrinhas não tinham ido junto a seu berço para lhe dar de presente suas bênçãos. — Sempre ficavam sem ópio antes de terminar com todos os homens com buracos de bala. É preciso se acertar com o que se tem.
—Não há nada como a prática. Aqui está o instrumental, tudo limpo — Doyle começou a depositar os instrumentos em sua mão, um por um, para que ela não se cortasse.
—Normalmente estive nos hospitais de campanha do lado perdedor, de modo que tínhamos muitos feridos — Secou as tesouras com uma parte de bandagem e cortou o tecido, para prová-las. Estavam afiadas.— Espiei diligentemente aos milaneses e aos austríacos que perdem batalhas com certa regularidade. Foram muito estranhos, estes últimos anos, nos quais tive que esquivar tantas balas francesas.
Dispunham de um bom fornecimento de curativos. Se precisasse mais do que tinham significaria que tinha matado Adrian.
—Se recostar-se, monsieur Adrian, poderei alcançá-lo, não sou uma giganta.
Moveu-se de um puxão para Adrian, até ficar numa posição em que podia trabalhar. Suas ferramentas se encontravam colocadas numa fila ordenada sobre a manta. Segurou-as e as depositou sobre esta até que foi capaz de encontrar cada coisa sem ter que pensar duas vezes. Logo as tampou com um tecido. Era melhor que Adrian não as ficasse olhando. O metal afiado e brilhante acabava desgastando a alma. Levantou um montão de ataduras e as colocou sobre seu regaço, onde estariam ao alcance da mão. Devia concentrar-se agora e pensar unicamente no que tinha que fazer.
A parte superior do peito do Adrian virtualmente não tinha pêlo; seus músculos, compactos, estavam rígidos por culpa da dor. Ele estremeceu quando ela colocou as mãos pela primeira vez sobre sua pele, logo respirou fundo e não voltou a reagir enquanto ela o examinava. A pele ao redor da zona por onde entrou a bala estava claramente quente. As bordas da ferida estavam úmidas e cheiravam a infecção, o tipo de infecção normal, não cheirava de modo pútrido e doce que supõe a morte.
Doyle se colocou à direita do menino, uma presença enorme e reconfortante. Grey se moveu para estar do outro lado. Ainda não o estavam segurando. Teriam que fazê-lo muito em breve. Ela já tinha operado sem ópio antes.
—Monsieur Doyle, vou lhe ensinar onde quero que ponha as mãos.
—Há uma coisa que temos que fazer antes — disse Grey, — vou falar com Adrian. Demorarei somente uns minutos. Fique cômoda.
Ela quase assobiou exasperada.
— Teve toda a manhã para falar — Cada momento de atraso piorava a situação. Acaso acreditavam que Adrian estava dotado de uma coragem imperturbável? Acaso pensava que ela o possuía?
—Vamos tentar uma coisa que vi em Viena. Possivelmente nos ajude — Se inclinou para aproximar-se, enquanto falava com o menino. — O que tem que fazer, Adrian, é simplesmente relaxar e me escutar. Assim é como começa, recorda. Escuta o que estou dizendo.
Parecia que tinha de esperar até que terminassem. Recordou quais eram os vasos sangüíneos no peito. Percorriam essa zona... e essa. Com um pouco de sorte, poderia evitá-los.
Este era seu grande dom, sua memória. Qualquer página que tivesse lido, qualquer rua que tivesse cruzado e qualquer rosto numa multidão... Era capaz de recordar tudo isso à perfeição e com precisão sempre que o desejava. O resto das pessoas esquecia coisas, ela não. Era por isso que Vauban lhe tinha dado os planos Albión nessa pequena estalagem em Brujas, quando Leblanc veio a extorqui-los e ameaçá-los. Ela tinha guardado os planos em sua memória e tinha queimado cada página, uma a uma, enquanto as lia. Sua memória era a razão pela qual sua mãe a tinha levado a todos os lugares, inclusive quando não era mais que uma menina. Sua cabeça estava cheia de segredos de muitas nações.
Por sorte, sua memória também continha gráficos anatômicos. A parte superior do peito não era o pior lugar para receber uma bala, se é que esta não entrou em excesso, como devia ser neste caso porque Adrian seguia vivo.
Grey ia a um ritmo muito lento com essa conversação supostamente tão importante. Ela não prestou atenção, posto que não tivesse nada que ver com ela e era bastante aborrecida.
— Vamos tentar durante um momento, ao menos as primeiras partes e vejamos como sai. É fácil uma vez que começa. Vais respirar devagar e escutar o que estou dizendo — Ia lhe contando.
—Parece uma estupidez — disse Adrian, — mas o tentarei. Só os deuses sabem que me sinto como um idiota.
—Não fará nada estúpido, Caçador de Falcões. Só aquilo que queira fazer. É o único que está no comando. Unicamente estou aqui para te ajudar com o que está fazendo por ti mesmo. Você fique aí e nota a respiração. Assim é como se faz. Dentro e fora, agora dentro, agora fora. Sente a respiração, isso é tudo o que sente.
Grey repetia o mesmo de um modo extremamente aborrecido, o que fez que ela tivesse uma opinião muito boa de seu poder de convencimento. Terminou de pensar nos vasos sangüíneos e ficou sentada em silêncio, com as mãos descansando sobre seu regaço, deixando vagar seus pensamentos.
—Seus olhos se cansarão com tanta luz do sol. Pode fechá-los — Agora que tinha encontrado outro tema agoniadamente monótono como o anterior, Grey seguiu falando sem descanso.
O seguinte do que foi consciente foi que alguém a sacudia. Era Grey.
—Sim, você, desperte, Annique. Isso. Bem acordada. Encontra-se bem, Annique e está completamente acordada.
Parecia que tinha dormido sentada.
—É obvio que estou acordada — Suas pernas se intumesceram ao estar sentada. — Descanso enquanto você segue falando sem cessar — Não eliminou o tom de sarcasmo de sua voz. — Não passei uma boa noite.
—Você é o que se chama um sujeito de prova excelente — disse ele, de uma forma incompreensível, — embora, por outra parte, Adrian não é. Vi fazer isto um par de vezes em Viena, mas nunca tinha tentado fazê-lo. Há um homem ali que o usava na cirurgia. Esperemos que funcione.
—Já terminou que falar com ele?
—Seguirei falando. Ignore o que vou dizer e faça o que tenha que fazer. É importante que me ignore. Não quero que volte a cabecear.
—Nesse caso, segure-o.
Ensinou-lhes como queria que o mantivessem quieto. Doyle segurou o ombro e o braço para que não o levantasse. Grey se encarregou do outro lado, apoiando todo seu peso sobre ele, enquanto seguia falando sem parar com Adrian, dizia-lhe algo sobre como a dor estava muita longe, do outro lado de um muro. Coisas muito estranhas. Ela as ignoraria.
—Não deixem que se mova — Então confiou que eles fizessem seu trabalho e não voltou a pensar nisso. Tinha que apartar muitos pensamentos de sua mente. Sobre tudo não devia pensar em Adrian. Debaixo de suas mãos tinha músculos, ossos e pele, não Adrian.
O paciente estava quieto, não insensível, não era como operar um homem sob os efeitos de um opiláceo, mas estava absoluta e completamente quieto. Isso estava bem.
Não havia nada mais que seu corpo pudesse lhe dizer. Sentou-se, apoiando-se nos calcanhares e tocou um instrumento atrás de outro uma última vez. Começaria a busca da ferida de entrada. Isso minimizaria o dano e, além disso, permitiria limpar a ferida. Segurou os finos e largos fórceps. Sem dizer nada, colocou de novo Grey para que segurasse o menino e se posicionou em um novo ângulo.
Sua mão direita pressionou a pele em cima da ferida, o pequeno vulto da bala. Através da palma da mão, percorreu o mapa de planícies e vales desenhado por suas costelas. Abriu os fórceps e os fechou, fê-lo duas vezes, soltando os dedos.
Tinha que fazê-lo agora, rápido, sem vacilar.
Respirou fundo e introduziu os fórceps, empurrou, abriu-os ligeiramente, empurrou. Seguiu o percurso da bala pelo músculo. Toda sua concentração fluía em direção à ponta dos fórceps, procurando a rota, apartando a seu passo osso e tendões membranosos. O cálido sangue corria por seus dedos.
Empurrou, um pouco mais à frente. Apertou o metal. Sua ferida estava aberta, agora era tudo suave, muito suave. Tentou apanhar pouco a pouco o elemento duro pequeno e escorregadio. Agarrou-o. Fechou os fórceps. Sim, tinha-o. Tirou-o, agora mais rápido. Agora podia ir depressa. O paciente conteve a respiração. Seus músculos, o pescoço, o peito e os braços, duros como o aço. A seu lado, uma voz dava ordens com firmeza sobre um muro de escuridão, sólido como os tijolos.
Deixou a bala cair na palma de sua mão e a pôs a rodar. O chumbo se aplanou pelo impacto contra a costela. Não tinha uma superfície lisa, pois faltava uma parte. Tinha que voltar a procurar. Executou um único movimento seguido, provando a bala, voltando dentro.
A parte que faltava devia ter se separado ao impactar com a costela. Tinha que pinçar profundamente para encontrá-la. Deslizou para dentro. Tinha que seguir a trajetória da bala, mais fundo. O paciente emitiu um grito afogado, sacudiu-se. Afrouxou a pressão nos fórceps, ficou quieta enquanto cessava de mover-se para não lhe machucar. Não era sua tarefa mantê-lo quieto. Tinha que pensar no metal.
Ficou quieto. Bem. Ao chegar à costela, delicada como quem pratica a esgrima, mediu. Tinha vasos sangüíneos que percorriam as costelas de cima abaixo e entre cada costela. Estava procurando um grão duro que não devia estar aí. Suave, toque suave, suave... suave.
No mais fundo da superfície lateral da primeira costela encontrou o pedaço quebrado de bala. O lugar onde estava, Mon Dieu, era o pior em que poderia estar. Notava os fórceps pulsando em sua mão. A artéria estava perto, mortalmente perto.
—Não respire — ordenou. Os músculos debaixo de sua mão estavam duros como pedras. Estremecendo-se. O fragmento estava situado junto ao outro lado da artéria. Pulsava, ele não devia mover-se. Não podia mover-se. Ela aliviou a pressão ao entrar, sem pressão. Tinha que agarrá-la com a menor pressão possível.
Fechou os fórceps e com cuidado segurou a parte; com muita, muita delicadeza extraiu o último pedaço da bala. Encaixou a parte da bala com o resto. Não faltava nada mais.
—Já está— Deixou o fórceps sobre a manta, agarrou algumas faixas de seu regaço e as pressionou sobre a ferida.
—Meu Deus — murmurou Doyle.
O paciente respirou entrecortadamente, rápida e levianamente, vaiando através dos dentes, o que produzia um som animal.
—Terminado. Bem — Grey ao falar dava a impressão de sentir-se tão afetado como ela . — Já aconteceu o pior, Caçador de Falcões. Agora vamos construir um muro que te separe da dor. Um muro grande e escuro. Uma escuridão espessa. A dor está a um lado do muro, você ao outro. Inspira, devagar, exala.
Ela mesma fazia um momento que continha a respiração, por motivos óbvios. Normalmente voltava a se mover debaixo dela, o que era um sinal inequívoco.
Adrian — porque já voltava a ser Adrian para ela— estava perdendo sangue. Empapava as capas de ataduras que sustentava. Mas perdia sangue lentamente, graças ao Bon Dieu. Não tinha prejudicado a artéria. Não o tinha matado. Não percebia um sangramento quente e abundante que teria suposto a morte.
Nunca antes tinha operado alguém a quem conhecesse. Era um horror inimaginável. No futuro evitaria voltar a fazê-lo.
—Eu me encarrego disso — Doyle afastou suas mãos e se encarregou da situação. Desprezou as ataduras empapadas de sangue e retorceu uma limpa para colocá-la sobre a ferida.
Adrian se queixou e tentou rodar. Grey, que pensava que todo mundo devia obedecer a suas ordens, disse-lhe que ficasse quieto. Disse-lhe como tinha que respirar. Uma e outra vez explicou como tinha que respirar. Era do mais estranho.
—Vamos fechar isto? — perguntou Doyle . — Tenho um ferro candente. Posso fazê-lo.
— Nada de fogo. Deixará de sangrar em breve — limpou as palmas pegajosas na saia. Era o sangue de Adrian. — Deixemos que drene, como explicou o grande Ambroise Paré . Deste modo... há menos infecção.
Nada de pontos, a menos que sangre e sangre. Nesse caso, um ou dois pontos pequenos para manter unidos as laterais da ferida amanhã.
—Apóie-se em Grey, faça-o, ele não está ocupado — disse Doyle.
—Estou bem — Começou a afastar com força o cabelo do rosto, recordou o que tinha nas mãos e se deteve. Respirou profundo umas duas vezes, o que lhe caiu bem. — Sabemos bastante destas coisas, nós os franceses. Paré explicou que este tipo de ferida, devem ser deixadas abertas... Para que se curem de dentro para fora.
Grey cessou sua conversação interminável e sem resposta com Adrian e ficou de pé de maneira brusca para caminhar pelos arredores. Quando retornou, colocou um pano frio sobre sua fronte.
—Não deveria deixar que me tocasse — Mas ela apoiou a bochecha em sua coxa, em um gesto de intimidade que nesse momento lhe parecia totalmente natural. A terra ainda se inclinava debaixo dela. — Estou asquerosa, manchada de sangue. Destrocei este vestido, embora certamente de todos os modos não era um vestido muito decente, mas tampouco tenho muitos. Devo ser previdente.
Ele usou o pano para limpar suas bochechas e logo o dobrou o colocou sobre sua nuca.
—Faz isto para que não desmaie. Nunca desmaio.
—Isso está bem. Lamento o do vestido — Estava pedindo desculpas por muitas coisas de uma vez. Ela estava segura agora de que os vestidos que lhe tinha dado eram indecorosos. — Obrigado por salvar a vida do Adrian.
—Não esteve tão mal. Numa ocasião tive que extrair cinqüenta e duas peças de metal de um homem e este sobreviveu. Um sargento austríaco. Escutei que tinha fundido a metralha para fazer um peso de papel.
—Parece-me uma boa idéia — Grey estava pensando numa série de coisas. Ela quase podia ouvir seus pensamentos murmurando e encaixando dentro de sua mente. — Annique... eu o teria matado.
—Quase com certeza. O segundo pedaço pequeno estava perto da artéria axilar. Senti como pulsava. Deixar-me-á livre dado que evitei que mate a seu amigo?
Ele não titubeou.
—Não.
Não estava sendo nada razoável, de maneira nenhuma.
—Então irei me limpar do sangue, em lugar de ficar aqui sentada a seus pés deste modo tão fraco — Apoiou o peso de todo o corpo sobre as pernas e ficou em pé, algo que provavelmente poderia ter feito sem a ajuda de Grey. Pôs entre as mãos o bastão que lhe permitiu ficar em pé sem a ajuda de nenhum inglês. Não sentia que ia desmaiar.
—Sua bolsa está do outro lado do fogo — disse Doyle , — está... Não. Mais à direita. Isso. Tem sabão e uma toalha sobre essa rocha. Sim, aí.
— Então tenho o que necessito. Levarei estas coisas e me lavarei com um pouco de privacidade. Monsieur Grey pode voltar a falar com o Adrian desse modo tão tedioso. Certamente, não tem nada interessante que me dizer.
—Não, senhorita — disse Doyle, com atitude pacífica. Estes espiões ingleses esbanjavam muito de seu tempo livre em rir dela.
— Pressione essas bandagens até que sangramento se detenha. Como já saberá.
—Sim, senhorita.
Deu-lhe uns golpes aos arbustos pequenos para afastá-los com seu bastão e encontrou o atalho que descia até o riacho.
—E jogue uma manta por cima dele.
Estava zangada consigo mesma. Era uma mulher estúpida, estúpida, porque desejava ficar com Grey e deixar que ele a mimasse. Esse homem estava destruindo-a, com sua amabilidade e esses braços fortes que a sujeitavam e davam a impressão de estar cheios de carinho, enquanto que de uma vez ele seguia sendo, por dentro, absolutamente implacável.
Ele era uma tentação para ela. Cada parte dele era uma armadilha. Seria tão perigosamente fácil abandonar-se em suas mãos... Mas não confiava nele para nada. Ainda não tinha perdido a cabeça, não de todo.
Quando chegou à água, o lugar era mais agradável e quente do que esperava, o que aliviou seu estado de ânimo de algum modo. Também ajudou o profundo silêncio ao seu redor. Enquanto seguiu caminhando riacho abaixo para encontrar o lugar no qual se banhavam as mulheres, deu-se conta de que estava rodeada de espessos bosques por toda parte. Poderia esconder-se neles sem problemas, durante a noite, enquanto escapava.
***
—Bom, isto não foi tão mal, depois de tudo — disse Doyle, quando ela partiu seguindo o atalho e já não podia ouvi-los, — não é que Adrian seja um maldito sargento austríaco com cinqüenta e cinco partes de chumbo nas tripas.
—Pelo amor de Deus, Will. Quanto demorou?
—Dois minutos, no máximo três. Posso entender a razão pelas quais esses cirurgiões militares puseram-na para trabalhar. Arrancou essa bala como se fosse uma ameixa em um pudim de natal.
—Em quantas batalhas terá estado para aprender isso? Que classe de mãe infernal envia uma menina ao acampamento do exército para que espie? Quantos anos tinha? Onze ou doze?
—Mais ou menos a mesma idade que tinha o Caçador de Falcões quando o pusemos a trabalhar.
—O Caçador não era um menino, nunca foi.
—Imagino que Annique tampouco. Pelo que ouvi, ela esteve presente quando enforcaram seu pai. Devia ter quatro anos — Doyle secou o peito de Adrian com as bandagens limpas . — Nem sequer perde muito sangue. Traz essa manta, por favor. Vais seguir com isso de falar e falar para fazer com que durma?
— A Cada hora durante um tempo. Que demônios vou fazer com essa mulher?
— Bom, isso é algo sobre o que não me interessa especular. Estende sua cama ali, para que não incomode ao Adrian quando o fizer.
—Muito gracioso. Explorarei a cúpula e não a perderei de vista para que não escape. Chame-me se o menino acordar. Vai tentar escapar esta noite, verdade?
—Com todo esse bosque e os campos onde se esconder... Sim. Acredito que antes te golpeará na cabeça com uma rocha — Doyle recolheu os pedacinhos de chumbo que ela tinha extraído do Adrian, olhou-os com seriedade e os guardou em lugar seguro em seu bolso. — O Caçador gostará de ter isto.
—Boa idéia — Grey olhou fixamente o atalho pelo qual ela partira . — Ela já está planejando. Posso sentir como o faz. Não acredito que possa detê-la. É muito competente.
—Será como tentar deter este — Doyle assinalou ao Adrian, — quando quer correr.
—Está dizendo que não é possível.
—Não é fácil. Não fora de Meeks Street.
Inclusive se a atava, ela encontraria um modo de soltar-se.
—Temos Leblanc em nossos calcanhares. Se ela escapar, ele a encontrará.
—Possivelmente seja Fouché quem a encontre primeiro e a meta em um bordel. Se tiver sorte — Doyle começou a limpar os instrumentos e os colocar de volta na bolsa.
Só ficava uma maldita coisa por fazer.
— Prepara algo de comer, ela terá fome, uma vez que se limpou e Will...
Doyle elevou a vista.
— Dê-lhe ópio no café.
Doyle atou vendagens novas no peito do Adrian.
—Tem algo a dizer?
—Funcionará. Gosta de café — Doyle agarrou a manta e a estendeu sobre Adrian, colocando o menino numa postura mais cômoda. —Chegamos a este ponto. Manterei a dose tão baixa como posso. Vá vigiá-la.


Capítulo Onze
Doyle tinha preparado uma omelete com ovos frescos e manteiga da cesta da estalagem e cogumelos que tinha recolhido no bosque. Monsieur Doyle era bom cozinheiro. «Mas, claro, — pensou ela. — Fazia muitas coisas bem além de fingir ser um chofer». Grey se sentou perto dela sobre a manta, perto, mas, sem que se tocassem. Entretanto, ela podia sentir seus olhos, olhando-a continuamente. Pensou em planos de fuga para a noite.
—Você agradou ao dono da estalagem — disse Doyle, — temos todo um Pote de nata para o café de tanto que você gostou esta manhã.
—Sempre soube cativar aos donos das estalagens — Depositou seu prato sobre a manta a seu lado e voltou a agarrar o café . — Percebem que sou, como compreenderá, uma grande cozinheira, o que lhes resulta incrivelmente atrativo. Descobri que você também é bom, como cozinheiro. Esta é uma omelete excelente para ter sido preparada sobre uma fogueira, que é o mais complicado de fazer. Não me atreveria a tentá-lo.
Não mencionou o café, que não estava tão bom como a omelete, porque estava muito carregado e muito amargo. Era possível que os acontecimentos do dia o tivessem alterado e possivelmente prepararia melhor o café de noite. Também podia se dever ao fato de que não era francês e, portanto, era incapaz de compreender o café de forma adequada.
—Quer um pãozinho como o que comeu no café da manhã? —perguntou Doyle . — Não estará muito cansada para comer?
—Claro que não. Isto de extrair balas de espiões ingleses não é nada.
Duvidava de que o vestido que tinha posto nesse momento fora mais decente que o que tinha manchado. Grey lhe havia dito que era verde e que tampava tudo o que tinha que tampar. Doyle disse que era da cor das folhas novas de carvalho e tão respeitável que parecia uma matrona de quarenta anos. Ela ainda não era tão idiota para acreditar nas palavras de qualquer destes ingleses.
Assim que tinha comido tanta omelete e pão como foi capaz de assimilar, apoiou-se contra uma árvore e, deixando escapar um suspiro de profunda satisfação, bebeu um pouco mais de café. Isto de não sentir-se zangada nem assustada durante um momento era relaxante. Tinha aprendido há vários anos a desfrutar dos pequenos momentos de paz que se apresentavam na vida.
— Sabe uma coisa, Grey? Eu gosto deste lugar. Dá a impressão de ser muito antigo. Muitos, muitos dos meus estiveram aqui.
—Os ciganos?
—Sim, os ciganos. Não deveria chamá-los minha gente, posto que não sou uma deles. Não posso retornar, já não. Não há lugar entre os carroções para uma mulher como eu — Sofreu de um modo penetrante durante um minuto antes de sacudir a cabeça para afastar esse pensamento. — Acredito que este acampamento é muito antigo. Os ciganos devem levar muito tempo vindo aqui. Possivelmente há centenas de anos. Esse precioso riacho... os ciganos viriam de longe para acampar aqui.
—Desfrutou-o.
Estava de um humor um tanto peculiar. Mantinha-se perto, absorto nela. Era como se esperasse que algo ocorresse. Tinha terminado sua própria comida e estava bebendo um vinho tinto com um complexo aroma de madeira. Ainda não lhe tinha dado um pouco.
—Desfrutei-o em grande medida. Poder me lavar... é a primeira vez em um mês que me sinto completamente limpa. É um dos grandes prazeres da vida, estar limpo depois de ter estado tanto tempo sujo. Fui à piscina de água natural riacho abaixo. Não é amplo, mas profundo e o fundo é de areia limpa. Aí nadam, as mulheres e os meninos. Estou segura. Mais abaixo deve haver rochas para lavar a roupa.
—Embora imagine que a água estaria fria.
—Não me importa. Desejava não ter que voltar a sair, mas, ao final aceitei que não é possível passar a vida numa piscina de água natural em um bosque, apesar do agradável que é. O sabão que me deu Doyle era estupendo. Com o que parece? Lavanda?
—Não estou seguro. Roubei-o de algum lugar.
—É obvio, que tolice de minha parte — Bebeu café de novo. Era estranho estar sentada ao lado de Grey e falar de coisas cotidianas, como se fossem velhos amigos. Não o teria esperado.
—Gostava de viver com os ciganos?
—Sim. Possivelmente porque era jovem, não sei. A época em que fui uma deles, foi o único momento de minha vida no qual fui completamente feliz. Despertava em bosques como estes ou em campos cheios de grilos; aqui é possível ouvi-los, Grey, escuta. Além disso, tinha todo um dia a diante sem ter nada que fazer. Nada absolutamente. Cada um decidia fazer uma tarefa de uma forma muito natural: recolhia lenha para o fogo, levava os cavalos para que bebessem e sempre podia ir procurar comida nos bosques ou campos. Se nós estávamos numa cidade, dançávamos ou mendigávamos. Tenho que confessar que não era muito boa no baile, apesar de certas mentiras que disse. Mas Grey... não pode imaginar como era boa fazendo jogos malabares.
Produziu-se uma pausa.
—Imagino que era muito boa.
—Doyle lhe terá falado sobre meus malabarismos, posto que, estou segura de que conhece toda a história de minha vida. Devo dizer que não tinha rival. Era ainda melhor no lançamento de facas. Inclusive agora, sem poder ver, poderia lhe dar a esse pequeno pássaro que canta na árvore; não conheço o nome correto em francês desse pássaro, mas os ciganos o chamam 'bardroi chiriclo'.
—É um verdilhão , Annique.
—Agora sei. Bom, inclusive nestes momentos, com uma faca adequada, acredito que poderia acertar esse pássaro uma vez em cada dez tentativas, se quisesse comer verdilhões, coisa que não desejo. Alguém deve ter muita fome para comê-lo.
Doyle falou perto dela.
—Não gosta do café, senhorita? Acredito que possivelmente o deixei um pouco forte.
—Não, não. Está muito bom — bebeu o que restava, até o fundo e deixou que se levasse a xícara.
—Não estou seguro, mas possivelmente até eu acabe por beber café em lugar de chá, se sigo tendo que fazer tantas viagens a França — disse Doyle . — Vai aprender a beber chá na Inglaterra?
—Já bebo chá, algumas vezes, quando meu estômago não se encontra bem.
— Melhorou. Ao menos não se incomodou em dizer que não vai a Inglaterra — disse Grey.
—Se acredita que disse o que penso, monsieur, então você é um idiota e não me parece que seja assim —Se recostou contra a árvore.
Adrian começou a mover-se sem parar, de modo que Grey se aproximou dele e ela se viu obrigada a escutar outro discurso extremamente aborrecido sobre o tema de flutuar e dormir. Isso era estranho, quando falava e falava sem cessar e Adrian ficava suficientemente quieto como para que o pudesse operar. Tinha que pedir a Grey que o explicasse, mais adiante, quando não estivesse tão cansada. Era chato que ele seguisse falando enquanto ela somente queria relaxar e descansar. Mas depois de um momento, ou isso lhe pareceu, começava a prestar a mesma atenção que se dá ao zumbido das abelhas ou ao ruído dos grilos.
Fazia bastante calor essa tarde na clareira. Doyle ia e vinha. O som de suas botas enquanto recolhia os pratos e cuidava do fogo parecia tão correto nesse acampamento como o canto dos pássaros e o ruído que faziam os cavalos ao arrastar as patas, enquanto estavam atados nos limites da clareira. Todos os aromas, os sons, eram tais como deveriam ser.
Quando ela era jovem e se disfarçava de menino para seguir exércitos, freqüentemente Vauban ia vê-la. Sentavam-se em campos ou em bosques como esse e preparavam uma pequena fogueira. Ele trazia comida quando podia. Ela sempre tinha fome. Ela comeria e lhe informaria de qualquer minúsculo detalhe que tivesse visto, e Vauban elogiaria seu trabalho e lhe daria ordens. Sentia-se segura naquelas ocasiões, durante uma hora ou duas. Vauban a teria protegido com sua vida.
Às vezes vinha Soulier, elegante inclusive quando levava farrapos ou o uniforme de um soldado. Soulier lhe trazia bombons cheios de contrabando de Paris, com tanto cuidado que pareciam documentos secretos. Fazia-a rir. Sempre tinha um bom conselho que lhe dar. Não existia nenhum outro mais ardiloso que Soulier.
Soulier estava agora em Londres, desde que se tinha convertido em chefe de todos os espiões franceses na Inglaterra. Desempenhava o papel de agente descoberto, o espião que todos os homens sabiam que trabalhava para a polícia secreta, mas que ninguém tocava. Era um velho acordo, ninguém sabia quão velho era, que estabelecia que deveria haver um agente ao descoberto em cada capital. Depois de tudo, deve haver um homem a quem os britânicos pudessem recorrer, para pagar o resgate de marinheiros, agentes ou de algum soldado que tivessem caído em mãos francesas, ou para transmitir as mensagens mais discretas e privadas de um governo ao outro.
Soulier devia desfrutar com esse trabalho, pois gostava dos jogos políticos. Certamente também desfrutaria de poder fazer alarde de sua pessoa sob os narizes do serviço de inteligência militar quando sabia que não podiam lhe tocar.
—Descansa tranqüilo, recupera forças. A dor está muita longe daqui— A voz de Grey era tão só um murmúrio ao fundo. Algo que podia ignorar. — Está a salvo, onde nada pode te alcançar. O lugar está muito longe daqui, não pode te alcançar.
Sentia-se tão exausta pelo que tinha feito pelo Adrian, que se estava adormecendo sob a luz do sol, embalada pela boa comida que tinha no estômago e a voz de Grey. Ele falava com o acento do sul que lhe era tão familiar. Seu pai falava desse modo. Era a linguagem que ela falava quando era uma menina. A linguagem que usavam seus sonhos. Estirou-se, bocejou e trocou de postura. A casca da árvore que tinha às costas já não era tão áspera; de fato, parecia branda.
Ao fim de um momento, os pés de Grey se aproximaram dela e se detiveram. Ela voltou a bocejar.
—Você é um estranho chefe de seção.
—É bom em seu trabalho — disse Doyle.
Grey a rodeou com algo suave e quente. Era seu casaco e cheirava a ele. Então soube.
—Drogaram-me.
—Sim, Annique — disse Grey.
Era muito tarde para fazer nada a respeito.


Capítulo Doze
A costa do norte da França, perto de Cayeux
—Não me fale de famílias de holandeses com seus três filhos e a avó. — Com uma mão nas rédeas e a outra apertando uma lista enrolada, Leblanc estava sentado, com as costas rígidas, sobre a cadeira de montar , — nem colegiais, nem dois velhos que afinam pianos. Isto é inútil.
—Esta gente é a que passou hoje. Ninguém mais — O cabo da tropa se manteve em pé com atitude imperturbável.
— Direi de novo: estamos procurando uma mulher cega. É jovem, com cabelos escuros, muito bonita. É inconcebível que ninguém a tenha visto. Pode ser que vá com um homem, alto, de cabelo e olhos castanhos.
—Possivelmente haja um terceiro com eles. Um homem jovem, ferido — acrescentou Henri.
Leblanc franziu o cenho até que se calou.
—Esqueça ao resto. Temos que encontrar à garota cega. Virá por aqui, tem que fazê-lo.
A montaria de Henri avançou sigilosamente, planejando morder ao cabo. Henri lhe deu uma joelhada para que estivesse quieto.
—Possivelmente foram ao sul.
—Ela não o fará. Conhece cada centímetro desta costa e esta é a melhor rota para ir à Inglaterra — Leblanc rompeu em pedaços a lista que lhe tinham dado. As partes de papel voaram até tocar o chão, dançando no vento ao redor dos cascos dos cavalos. — Como consegue passar sem ser vista pelas patrulhas? Como? Malditos camponeses. Alguém está ajudando-a.
—Nenhuma mulher cega passou por meu posto de controle — disse o cabo, impassível.
Leblanc olhou de esguelha mais à frente da paisagem inóspita com pinheiros e areia, por volta da fina franja de mar de cor piçarra.
— Que aldeia é essa?
— Pointe Venteuse, senhor — disse o cabo.
—Tem uma estalagem?
—Oui, monsieur. Uma boa estalagem. Madame Dumare é...
—Leve seus homens para lá, cabo, e reviste cada casa dessa maldita aldeia. Verificarão cada sebe, cada privada construída nos quintais e cada estábulo de vacas em busca dessa mulher. Quando terminarem voltarão à procurá-la de novo. Fá-lo-ão até que eu diga que se detenham.
—Mas...
—Possivelmente assim da próxima vez não tenha que escutar tanta informação sobre famílias holandesas. Estarei na estalagem. Henri...
Resignado, Henri esporeou a seu cavalo para que avançasse.
—Vamos dar exemplo aqui. Escolhe a duas ou três mulheres e as traga para a estalagem para interrogá-las. Se, em efeito, a estalagem está bem, passarei a noite ali.
De modo que ia ser uma dessas noites. Henri encolheu os ombros e indicou quatro homens de sua tropa para que o seguissem. Os maridos e pais não estariam de acordo. Queixar-se-iam ainda mais amanhã, quando vissem o que tinham feito com as garotas.
—Cabelo escuro — gritou Leblanc detrás dele. — As quero com o cabelo escuro e jovens.


Capítulo Treze
As horas se arrastaram sobre ela e a seu redor. Flutuava em águas que não cessavam de formar redemoinho. Quando o peso escuro dessas águas se afastou, ela se deu conta de que estava sentada com o braço de um homem ao redor de seu corpo.
— Isto bebe — Era Grey que havia dito isso e o que ela tinha que beber era café. Um café muito doce.
— Não tomo tanto açúcar — Sacudiu a cabeça, mole e apenas acordada. — É muita, na realidade — Mas o bebeu porque ele aproximou o café de seus lábios e seguiu oferecendo-lhe até que terminou tudo. Logo a segurou perto de seu peito enquanto ela caía vertiginosamente na escuridão. Era como cair dentro dele.
A escuridão abria espaço nesses momentos entorpecidos, nos quais estava feliz de um modo absurdo e fazia coisas ordinárias, nada m ais importava. Caminhava ou estava em pé ou se sentava, e Grey estava perto, lhe dizendo o que tinha que fazer, guiando-a através dos momentos de desconcerto fora de controle. Nesses casos, ela tombava e dormia, numa cama ou no chão, em qualquer lugar que ele a depositasse.
Numa ocasião, ela estava sobre uma cama branda. O corpo de Grey convexo ao seu lado, dormindo. A cama estava quente por sua presença e um de seus braços estava em cima dela, pesado e depravado. O desejo despertou em seu interior. Sua pele se estirou ao máximo sobre milhares de plumas cantarinas. Girou para ele, deslizou-se contra seu corpo e sentiu como queimava. O desejo ardia e cantava entre suas pernas e pressionou uma e outra vez seu corpo contra o dele.
Ele despertou.
—Tranqüila, Annique. Está dormindo, não... —Afastou-a dele. — Não — era um sussurro em seu ouvido. — É formosa, Jovem Raposa. Durma agora, só durma — Mas abraçou com força a ele, envolvendo-o. De repente, sentiu um êxtase que a rompeu em mil fragmentos. Gritou e caiu, lentamente, cada um desses milhares de pedacinhos dela, caindo dentro do oceano quente e drogado que tinha preparado o ópio em sua honra.
Logo estava na carruagem, virada e apoiada junto ao flanco de Grey, com a cálida luz do sol sobre o rosto. O som metálico das rodas e as sacudidas e os golpes do caminho levavam um momento acompanhando-a. Grey a segurava e acariciava lentamente as costas. Seria agradável se fizesse isso mais freqüentemente. Deslizou para baixo para apoiar-se em seu regaço. Agora poderia acariciá-la por toda parte.
Ele passou os dedos com suavidade por sua frente e logo pelo cabelo. Não era suficiente. Deu a volta, convidando sua mão para que acariciasse sua barriga.
—Como uma gata — Escutou que murmurava.
A voz do Adrian soou tênue e próxima.
—Ela o deseja. O ópio tem este tipo de efeito em algumas mulheres. Vai fazer um homem incrivelmente feliz, algum dia.
—Não será você — disse Grey.
—Por desgraça não. Mas não é minha bandeira a que quer subir pelo mastro, não te parece?
Grey emitiu um profundo grunhido, que vibrou através de seu corpo e na pele dela. Annique esfregou a bochecha em seu corpo e aspirou seu aroma. Através do tecido resistente de suas calças, os músculos e ossos de suas coxas pareciam em sua mente rochas na areia. Tocá-lo era um sentimento maravilhoso.
«Não deveria estar fazendo isto». Era uma voz débil, que soava do fundo das águas escuras de sua mente.
—Está sofrendo — As palavras em voz baixa do Adrian foram à deriva até chegar a ela, palavras sem sentido. — Por que não a tocas uma ou duas vezes para que durma feliz? Ela não o recordará.
—Por que não te jogo para fora no próximo campo de trigo e te deixo para que caminhe até em casa?
—Posso olhar para outro lado.
—Te cale, Adrian.
— Gente como você sempre faz com que isto seja complicado. Ela volta a estar consciente.
—Maldito seja, tem razão! — O universo trocou. Ela estava se sentando, com as costas erguidas. Escutou o que Grey dizia—: Faz que seja meia dose, ou menos, menos que isso.
Havia um copo que tinha que beber, era muito amargo. Não queria bebê-lo, porque lhe estavam dando ópio, mas o fez antes que pudesse despertar-se suficiente para brigar. Então Grey deixou que voltasse a recostar-se em seu regaço.
—Volte a dormir — Colocou-a sobre o assento. Ela se enrolou ao redor de sua mão, tentando colocá-la entre suas pernas, para sentir seu tato. Mas não fazia mais que escorrer-se.
—Durma, isso é o que quer. Nada mais.
Ela se afundou na escuridão. As palavras caíram sobre ela, fundindo-se em sua pele como flocos de neve.
Seu rosto estava úmido, isso a desconcertou enormemente. Estava na carruagem e Grey a estava esbofeteando. Por que estava tão molhada?
—Preferiria que não fizesse isso — Tentou afastar suas mãos. — Não é necessário absolutamente e é muito descortês.
—Desperte — Voltou a esbofeteá-la. Não era exatamente doloroso, mas tampouco era um golpezinho suave na bochecha.
—Estou acordada — Ela segurou sua bochecha para que ele não pudesse voltar a lhe pegar. Dentro de seu cérebro tudo era uma enorme confusão, como se tivesse névoa dentro. Este era Grey; estava na carruagem com ela e queria despertá-la. Onde estavam? Não era capaz de recordar nada. — Não é necessário que siga me batendo. Estou acordada.
—Bem. Necessito que esteja acordada. Annique, os guardas vão deter a carruagem. Não, não se atreva a voltar a dormir. Vai manter se acordada e a falar com eles. Poderá fazê-lo?
Ela pressionou as têmporas com a base das mãos. Guardas. Essa voz sucinta, precisa e intelectual. Essa voz alemã. A seu lado na carruagem havia um homem com a forma de Grey, com seu aroma, seu calor e sua roupa... que não era Grey.
—Annique. Desperte e fale comigo, agora.
Ela colocou uma mão sobre sua boca e sentiu como seu fôlego se movia com as palavras. Sentia que Grey estava aí, a forma de seus lábios, a barba de três dias na bochecha, seu aroma. Mas não era sua voz.
—O que ocorre? —Suas palavras, mas não sua voz. Grey estava falando alemão.
Era horrível e desconcertante escutar como saía uma voz diferente da boca de Grey. Era algo incorreto de um modo inconcebível. Estava sozinha na escuridão e tinha perdido a sensação familiar de sua voz.
—Não. Agora estou acordada — Sacudiu a cabeça.
Não deveria ter sacudido a cabeça. Fez que se enjoasse e não podia pensar. «Sua voz trocou. Isso é tudo. Segue sendo Grey». Escutou o sinistro tinido que produziam os homens armados, o som do couro e os cavalos junto com as armas que penduravam de seus ombros. Os sonhos e o mundo irreal impregnavam tudo. Devia despertar. «Ainda é Grey. Não se deixe levar pelo pânico como uma colegial estúpida».
Grey sabia o que devia fazer. Era um farol de tranqüilidade no meio do caos. Ela faria o que ele dissesse e confiaria nele e depois pensaria.
—Falar alemão era a parte fácil. Fez que seu acento se parecesse com o dele. Era o acento de uma aldeia em que tinha vivido, um pouco para o leste, a meio caminho entre o Münich e Salzburgo. A forma rítmica de falar das colinas e os verdes vales.
—Unicamente alemão a partir de agora, Annique. Seu nome é Adelina Grau. Eu sou seu marido, Karl. Estamos casados há seis meses. Adrian é seu irmão, Fritz Adler. É seu irmão gêmeo. São do Grafing. Eu sou professor na universidade do Münich, a caminho de Londres para dar uma série de conferências na Royal Academy — Deslizou algo em seu dedo. Um anel. Era muito grande para ela, com uma gema extremamente polida e lisa. Adrian tinha usado o anel. Reconheceu-o ao tato. Girou-o para dentro para que o ouro do anel desse o aspecto de uma aliança simples.
—Adelina, Karl, meu irmão Fritz — Fazia isto centenas de vezes. Umas cem histórias, havia interpretado centenas de personagens diferentes. Já estava tentando pensar em alemão. Podia fazer tudo o que se esperava dela. — E o chofer?
—Maldita seja! Sim, é Josef Heilig. Leva dez anos trabalhando para mim.
—Josef — repetiu ela. Grey estava sustentando-a para que se sentasse erguida, como se tivesse medo de que desabasse. Não o faria, não em meio a um trabalho. Nunca em toda sua vida veio abaixo quando havia trabalho que fazer.
A carruagem se deteve produzindo um considerável tinido dos arneses enquanto Doyle falava em alemão aos cavalos. Grey começou a soprar, queixando. Provavelmente devia ter perguntado do que era professor, mas tampouco importava. Se alguém a interrogava ou a olhava de perto, estariam perdidos de todos os modos.
—São oficiosos por natureza, estes franceses — disse Grey nesse acento nítido, próprio de cidade. — Não era assim nos velhos tempos. Digo-lhe isso, Fritz, os franceses trocaram e não para melhor. Ninguém em Paris valoriza meu trabalho. Aqui temos outro grupo de imbecis uniformizados que deve impedir que avancemos — todo o tempo, seu braço a rodeava, lhe infundindo parte dessa força teimosa e indomável que ele tinha.
Quando se detiveram, Grey apertou por última vez seu ombro e abriu de repente a porta da carruagem.
—Cavalheiros, como posso ajudá-los? —Seu francês era agora parisiense, com um forte acento alemão e essa voz tampouco soava como Grey.
Adrian lhe tocou o braço, para que ela soubesse onde estava, de maneira que tivesse uma coisa menos com que preocupar-se.
—Só nos deteremos um minuto. Karl se ocupará disto, Adelina — Seu alemão era tão perfeito como o dela, o acento era suficientemente parecido. Falava em voz baixa, junto a seu ouvido. — Confia nele. Tirar-nos-á desta. Nunca falha.
Pensou que Adrian se encontrava melhor. Sua voz era forte. O braço que a mantinha estável não tinha a pele quente por culpa da febre. Este menino era um animal resistente e selvagem. Viveria, sempre que os guardas não os matassem a todos. Desejou que ter salvado a vida do Adrian não fosse um lucro tão efêmero.
Adrian seguiu sussurrando palavras, era um sussurro em alemão.
—Não suspeitam. Parece um controle de documentação rotineiro. Sete homens. São tropas locais, todos com as armas penduradas, ajeitados em cadeira de montar. Aborrecidos. Estamos a salvo a menos que percebam algo. Ninguém vai ofender a uns bávaros nestes momentos. Dá a impressão de que acabam de terminar de almoçar. Estarão de bom humor.
Quantas vezes tinha feito isso, estudar os soldados, enquanto mostrava documentos falsificados com um sorriso, cheia de segurança? Na época em que trabalhava para Vauban fazia parte de uma equipe como esta. Recordava como estava acostumada a sentir, eram cinco ou seis pessoas que formavam uma única organização, dependendo cada um da inteligência e da habilidade do outro. A velha sensação se apoderou dela nesses momentos. Podia perceber Doyle no assento do chofer, e Adrian ao seu lado. Toda sua atenção se centrava em Grey, enquanto ele caminhava para os soldados. Esperaram a que ele lhes indicasse o momento justo.
Estava bem ser parte deste tipo de coisas de novo. Percebia como todos seus sentidos se esforçavam por centrar-se em Grey.
Alguns dos guardas tinham desmontado para falar com ele. Escutou o ruído das botas na terra do caminho. No meio do ir e vir dos cavalos, Grey conseguiu falar como se fosse um professor empolado e condescendente, um homem pomposo, importante dentro de seu próprio pequeno mundo.
— É obvio que pode ver nossos documentos. Josef, passe me a mala vermelha, a Córdoba. Não vejo nenhum motivo pelo que devam deter uns viajantes em meio de...
Um dos guardas deu uma explicação cortês. Falou devagar, tal e como faz a gente que não tem a boa sorte de ser francês.
—Não parecemos contrabandistas absolutamente, senhor. Deixe que lhe diga que não temos nenhum contrabandista em toda Münich e se somente... Sim, Josef, essa — disse Grey.
—É muito bonita, Adelina. O tenente te viu. Vem nesta direção e parece te admirar em grande medida. Perigo — disse Adrian em voz baixa.
—Se Grey não quiser que os tenentes me olhem, não deveria me haver feito pôr este vestido. Deveria descer da carruagem para não estar à altura de seus olhos. Pode me ajudar?
—Natürlich — disse Adrian imediatamente. Ela não sabia se seria fácil ou não. Isso não tinha importância. O fundamental era que esse guarda não notasse que estava cega.
Adrian desempenhou sua parte de maneira hábil, como era de se esperar. Veriam que estava sendo atento enquanto a ajudava a descer da carruagem. Não perceberiam que estava evitando que a vissem ao cobri-la com seu corpo e, além disso, ele encontrou um lugar em que podiam ficar em pé, tocando na carruagem e onde ninguém podia surpreendê-la por trás. Também era útil o fato de que numa família, as mulheres jovens eram tratadas como se fossem idiotas, de modo que não pareceria estranho que ele estivesse tão junto dela. Ele se apoiou na carruagem a seu lado. Ela pensou que o fazia para não perder o equilíbrio. Tinha que se sentir fraco, pois havia passado pouco tempo desde que lhe extraíra a bala, três dias, quatro... Não sabia quanto tempo tinha passado.
—O subprefeito de Ruan assinou, ele mesmo, o passe — dizia Grey . — Um homem agradável. Estava muito interessado em meus cálculos sobre a refração da luz nos líquidos. Dei-lhe uma cópia de minha conferência. Conversamos sobre o tema no Würzburg. Selou meus documentos com sua própria mão. É impossível que não esteja tudo em ordem.
— Não é que seus papéis não estejam em ordem — disse o guarda, com muita paciência, — falta o selo de viagem do Marley-o-Grand.
— Selo de viagem? O que é um selo de viagem? Ninguém me falou de um selo de viagem.
Um par de botas, que sem dúvida eram as do tenente que admirava sua beleza, aproximou-se deles. Ela manteve o olhar para o caminho e colocou a palma da mão sobre o centro de sua barriga.
—Acredito que vou vomitar — falou em alemão em voz alta e com segurança , — encontrava-me melhor quando a carruagem se movia. Ao menos corria um pouco de vento.
—Vá — Adrian ficou à altura das circunstâncias. — Pobre Adelinachen. Acha que servirá de algo se bebes um pouco?
Ela negou com a cabeça de forma terminante e a mão sobre sua barriga se converteu no gesto inconfundível e tão antigo como a Terra, de uma mãe protegendo a seu filho por nascer. Nenhum dos homens aí reunidos deixaria de perceber o gesto. Os guardas franceses eram, por natureza, valentes como leões, mas tinha que tratar-se de um tenente muito valoroso para mostrar-se interessado por uma mulher que estava sofrendo nesses momentos as náuseas matutinas próprias da gravidez.
— Possivelmente se comer um pouco de pão? Que tal um biscoitinho? Estou seguro de que temos bolachas em alguma parte — Adrian estava desfrutando. Ela tinha conhecido homens como ele, uns espiões admiráveis e uma enorme moléstia para todos aqueles que tinham que trabalhar com eles.
—Não fale de comida. Está-o piorando. Quanto tempo nos deterão, Fritz?
França tinha estado em guerra com vários alemães falantes durante a última década. Havia muitas possibilidades de que alguém dessa tropa soubesse falar ao menos um pouco de alemão. Quem era mais provável que o fizesse era o tenente cujos passos, cada vez mais reticentes, seguiam aproximando-se.
— Não acredito que nos detenham muito tempo. Com o tempo se darão conta de que um homem não leva consigo a sua jovem e tola mulher quando vai dedicar se ao contrabando.
—Não sou tola. Espero que na Inglaterra as pessoas não franzam tanto o cenho, nem nos peça a documentação todo o tempo como aqui. —Sentiu como o enjôo se apoderava dela: era a droga que tentava controlar. Cambaleou e recuperou o equilíbrio ao apoiar-se no painel da carruagem. — Oxalá não fizesse tanto calor. Sinto-me muito enjoada.
—Não vomite em cima do tenente, Liebling — Adrian passou a falar em francês. — Tenente, se for nos deter aqui muito mais tempo, poderia me mostrar um lugar onde possa afastar minha irmã do sol. Em seu estado...
— Lamento muito os inconvenientes para madame. —Ela pensou que o tenente tinha uma voz juvenil. Uma voz jovem e definitivamente incômoda. — Não demoraremos mais do que um momento.
—Ninguém me disse que necessitasse um selo de viagem local. Não fui informado... Desculpe, tenente —Grey caminhou rapidamente para eles. Ela pensou que não deveria ter-se preocupado tanto. Ela podia dirigir essa situação.
—O que disse, Fritz? Não estou segura de que possa... —Manteve a vista fixa no chão e colocou com delicadeza a mão sobre sua boca, tentando dar a impressão de palidez.
Adrian falou alargando as palavras.
—Karl se zangará muito se voltar a vomitar, sobre tudo se o faz em cima das botas do tenente.
O tenente entendia alemão. Deu um passo atrás com rapidez. Depois disso, Grey se colocou diante dela, assim não podiam ver seu rosto e Adrian comentou algo, para distrair ainda mais a atenção do tenente. Era um grande prazer trabalhar deste modo com estes homens tão inteligentes. Era como um jogo de meninos, no qual a bola deve ser mantida sempre no ar. O tenente não tinha nenhuma possibilidade contra eles.
—Ninguém me informou da necessidade de ter o selo do passe regional em nossos passaportes — Grey falava com uma precisão nervosa, ocultando Annique atrás dele . — Minha embaixada em Paris me assegurou que tinham conseguido todas as permissões antes de nossa partida. De novo, em Ruan, ninguém me explicou...
—Sim, sim. O selo é uma mera formalidade — A voz do tenente dava a entender que preferia tratar com Grey que com a jovem consorte, grávida, que representava um perigo para seu uniforme e para sua dignidade, apesar de tão bonita que era para seus olhos . — Deve corrigir este descuido no escritório do comandante no Dorterre. Isso é tudo. Este é um momento difícil para que sua mulher viaje, non?
—Difícil? — Grey fez uma pausa suficientemente prolongada para dar a impressão de estar perplexo. — Não, não, equivoca-se. Adelina é jovem e forte. Seu estado é a coisa mais natural do mundo. As mulheres dramatizam sobre seu estado nestes casos — ficou a falar em alemão. — Agora te encontrará melhor, Adelina. Acabou-se isso de vomitar. Entendido?
Ela assentiu com seu melhor gesto hausfrau.
—Já, Karl — Sua pele estava fria e não parecia estar em condições. Realmente se sentia enjoada. Algumas vezes se surpreendia até a si mesma como podia representar tão bem um papel. — Se somente pudesse me sentar uns minutos. Não estou...
—Não, Adelina. Não é bom que te permita estes caprichos. O que precisa é exercício. Um tranqüilo passeio junto à carruagem durante um quilômetro e meio farão que se sinta muito melhor.
O tenente pigarreou.
—Há uma estalagem na aldeia seguinte. Conheço-a pessoalmente. É um lugar dos mais agradáveis e respeitáveis. Madame poderia descansar até que passem as horas de mais calor do dia.
Depois de ter-se metido sozinha nessa confusão, agora começava a sentir-se decididamente enjoada.
—Karl, sinto-me tão...
—Tolices. Estudei sobre este tema — Grey soava como um homem convencido de si mesmo de um modo impossível. Embora ao mesmo tempo, durante todo esse momento, o braço com o que a sujeitava a mantinha em pé, firme, com força e completamente reconfortante . — Este é um processo perfeitamente natural e não deveria causar a mínima moléstia. As éguas não vomitam. As gatas não vomitam. Não existe nenhuma razão pela qual as mulheres tenham que fazê-lo. Expliquei-lhe isso, Adelina. Meu amigo e professor Herr Liebermann escreveu uma monografia sobre este assunto que lerei para você .... O que faz, Adelina?
Ela se soltou e mediu o caminho segurando-se à roda da carruagem, logo, se dobrou de dor, com os punhos pressionando seu estômago e vomitou sem ter nada dentro. Parecia que não tinha comido nem bebido nada desde muito tempo. Isso não lhe impediu de vomitar de maneira abominável.
—Eu... não os deterei mais tempo —O tenente parecia um menino de quinze anos horrorizado. Retrocedeu com rapidez. De fato todos, homens, cavalos e também os mosquetes, pareciam encantados de poder largar-se dessa zona imediatamente.
Os cascos faziam estrépito no caminho. Grey, que seguia comportando-se como um bávaro, repreendeu -a.
—Adelina, se tão somente te concentrasse, não enjoaria. Deve pensar em outras coisas — A ocultou da vista. Com delicadeza, afastou o cabelo de seu rosto e a segurou para que se mantivesse erguida, que era mais do que ela podia fazer sozinha.
— Jovem Raposa, essa foi uma interpretação incrivelmente convincente — A voz do Adrian soava exausta. Seguia falando em alemão. Eram muito inteligentes. A cadência do idioma se escutava de longe, muito mais que as próprias palavras. Um dos guardas podia ter ficado para trás para escutar e teria percebido a mudança em suas vozes se tivessem começado a falar em francês.
—É esse veneno que lhe estamos dando. Adrian, me passe... Bem —Grey passou um pano úmido por seu rosto. — Terminou?
Ela simplesmente assentiu com a cabeça. Não era porque lhe resultasse difícil falar alemão, mas sim porque queria morrer nesses momentos.
—Bebe isto — Grey aproximou algo a seus lábios.
Não de novo. Afastou o copo de um golpe e escutou como se fazia pedacinhos no chão. Estava muito fraca e enjoada para correr. Só podia apoiar as costas contra a carruagem e tampar a boca com o braço. Não lhe serviria de nada. Não tinha forças para lutar.
—Maldição, Annique, não havia mais que água no copo.
Adrian se divertia com o que aconteceu desse modo preguiçoso dele, como sempre.
— Diz a verdade. Toda esta zona está infestada de franceses armados. Não podemos amontoar damas inconscientes na carruagem.
— Não tenta drogá-la — disse Doyle, da parte superior da carruagem.
— Essa tarefa é deixada para você, Herr Doyle. Você é um traidor, amante de ovelhas, um porco e um cão, isso é o que é — O alemão é um idioma estupendo para insultar a alguém.
—Bom, senhorita, uma rapariga educada não deveria sequer conhecer essas palavras. Ides seguir dando voltas por aqui durante a próxima hora, conversando? Avisem-me, para que possa soltar aos cavalos.
—Vamos — Grey voltou a falar em francês. — Adrian, entra na carruagem antes que acabe de joelhos.
—Como sempre, obedeço as suas ordens, eminente chefe. —A carruagem se inclinou enquanto Adrian subia. Grey se aproximou.
—Annique... —Colocou seus dedos ao redor de uma taça. Verteu líquido, a taça começou a pesar e a notou fria. — É água, nada mais do que água. Só Deus sabe que não tem por que confiar em mim, mas eu gostaria que bebesse a água.
A realidade de sua impotência a rodeava. Eram homens tão ardilosos, estes três... homens duros, com experiência e bastante cruéis. Grey era o mais perigoso de todos. Fazia que ela acreditasse que queria ser amável. Cada instante tinha que esforçar-se para recordar que era seu inimigo.
Possivelmente ele também o tivesse esquecido. Sem dúvida tinha que ser mais fácil para o ganhador ignorar a realidade.
—Devo beber, antes ou depois. Não tenho escolha — disse ela. A taça continha água potável sem nenhum sabor a mais do que o próprio da garrafa metálica. Bebeu o que lhe tinha servido.
A mão dele em sua bochecha era como o tato de uma flor que tivesse caído sobre ela.
— A primeira vez que a droguei, foi errado. Deveria ter-lhe dito. Deveria ter deixado que seguisse lutando comigo. Cometi um engano.
Esse toque delicado. Tinha-o feito antes. As lembranças começaram a surgir como borbulhas que emergiam na superfície de sua mente.
—Recordo-o. Estava caída ao seu lado numa manta. Queria tocá-lo, queria...
—É hora de partirmos.
Mas ela recordava. Tinha pressionado seu corpo contra ele, tinha aberto suas pernas e palpitado com um prazer sem sentido.
—O que fiz enquanto dormia? O que fiz com você?
— Sonhou. A droga tem esse efeito em algumas mulheres. Não significa nada.
Acaso eram sonhos, o calor, o desejo e esse descaramento? «A droga tem esse efeito em algumas mulheres». Em meio a tanta confusão, agora tinha que acrescentar uma coisa mais com o que se preocupar. Quando dormia drogada se tornava lasciva; inclusive seu corpo a traía por estes ingleses. Na realidade, não lhe parecia justo.
—Recordo-o, mais ou menos.
A mão deslizou para seu cabelo e a segurou.
—Não aconteceu nada. O diria se tivéssemos feito algo.
Não tinha feito nada? Recordava seu aroma no nariz, gritar sem parar e retorcer-se, movendo seu corpo sobre ele.
—Não acredito que foi um sonho. Levava posta uma de suas camisas. Queria tirar isso Queria...
O desejo escapou de sua memória e percorreu todo seu corpo. Em questão de um segundo, sua pele o desejava fervorosamente. Nunca tinha imaginado que a pele podia desejar desse modo o toque de outra pele. Virou para acariciar com o rosto seu pulso. Para provar seu sabor. Não se deu conta do que estava fazendo até que ele afastou bruscamente a mão.
Ele respirou com dificuldade.
—Vou ajudar você a subir na carruagem. Não quer fazer isto. Acredita que sim, mas está completamente drogada — Agora sua voz soava zangada. — Além disso, está dormindo em pé.
—Grey, temos que ir — Esse era Doyle.
Sem dúvida, tinha ouvido tudo, como Adrian, de dentro da carruagem. Podia ter estado completamente nua, tendo em conta a privacidade que desfrutava com estes homens.
—Não o desejo e não estou adormecida.
—Nesse caso não terei que carregar você para que suba à carruagem. Pode subir você mesma. Assim, já a tenho. Adrian, não tente ajudar. Vai abrir a ferida do ombro.
Mas Adrian a levou de todos os modos até seu assento. Não podia ser bom para ele. Brigaria com ele tão logo despertasse. Grey a rodeou com seu braço.
—Onde estamos?
—A menos de uma hora de distância de Dorterre.
—Eu estive ali faz dois anos — Ela tentou recordar o mapa dessa região costeira, mas a imagem tremia e se fundiu antes de desaparecer de sua mente. Não estava acostumada a que sua memória atuasse desse modo. — Estive nas aldeias dos contrabandistas, me escondendo.
Grey a colocou perto dele.
—É um bom lugar para fazer isso. Do que se escondia faz dois anos?
—Da insurreição da Vendée, da última. Foi... Terrível. Não podia acreditar que os soldados franceses fizessem essas coisas às mulheres e aos meninos da França. Além disso, me tinham dado umas ordens... —A confusão girava em sua mente. Fragmentos de dor. Lembranças. — Desobedeci às ordens. Não ia espiar essa pobre gente, assim escapei e me escondi. Todo mundo estava furioso comigo — esfregou o rosto com o braço. — Esta droga me faz falar. Tenho que recordá-lo.
— Esses não são segredos de Estado, Jovem Raposa. Todo mundo sabe o que Napoleão fez na Vendée.
—Não deveria dizer tantas coisas, de todos os modos, quando não tenho a mente limpa. Sabia que sua voz não soa do mesmo modo absolutamente quando fala alemão? Surpreendeu-me enormemente durante um momento. É como se de repente houvesse outra pessoa na carruagem. Não volte a fazê-lo.
—Tentá-lo-ei. Por que não dorme um pouco?
Começou a ficar adormecida de novo. Acaso lhe tinha dado mais droga ou era a quantidade dessa substância que ainda tinha no organismo que a atirava para a inconsciência?
—Recordo o que temos feito juntos. Estou quase segura de que não é algo decente — Mas deixou que penteasse seu cabelo para trás com seus dedos, que a envolvesse numa manta e que a colocasse no assento de modo que estivesse cômoda . — Decidirei o que fazer a respeito quando despertar. Possivelmente tente estrangulá-lo uma vez mais. Embora tenha o corpo mais formoso que se pode imaginar. É como um animal de grande tamanho.
—Devem ter umas noites das mais complexas e interessantes — murmurou Adrian.
—Cala-te — disse Grey.
Quando estava virtualmente adormecida, Grey a atraiu para seu peito, embalando-a de maneira possessiva. O corpo dela já estava acostumado. Encaixou ao apoiar-se contra seu corpo como se ali existisse um lugar especialmente feito para ela.


Capítulo Quatorze
—Annique — Grey a sacudiu para os lados. — Têm problemas. Desperte.
Ela abriu caminho através da escuridão ligeira como o peso de uma pluma e despertou. Imediatamente sentiu medo. Tinha ocorrido algo mau. Muito mau. Podia perceber em sua voz. A carruagem tinha começado a dar tombos por culpa das raízes e os terrenos baixos do caminho, e iam a toda velocidade.
—Segue-nos uma tropa de homens — disse Grey , — são seis ou oito, no mínimo. Mantêm a distância, mas é somente uma questão de tempo. Não podemos escapar deles.
No assento em frente, Adrian se movia daqui para lá, em silêncio e com rapidez.
—Já terminei — Fez um ruído metálico com algo. Supôs que seria o fechamento de uma bolsa.
—Vão vestidos de patrício. Não cavalgam como soldados de um exército. Não atuam como agentes fronteiriços. São os homens do Leblanc — disse Grey.
—Rastreou-nos? —Ela esfregou o rosto.
—Acredito que foi só má sorte. Leblanc estendeu uma rede por toda a costa e nos apanhou nela. Sabíamos que isto podia ocorrer — Grey estava ocupado, fazendo uns pequenos ruídos metálicos. Podia cheirar a pólvora.
Lutaria. Eram três homens contra tantos.
O som amortecido das árvores a ambos os lados apanhava e silenciava o eco dos cascos dos cavalos. Então deviam estar no profundo do bosque. Os homens a cavalo não poderiam atirar de forma organizada neles em um atalho estreito no meio do bosque. Um ou dois se aproximariam por trás. Doyle, que estava fora, morreria quase imediatamente, com os primeiros disparos. Grey e Adrian lutariam durante um tempo e logo morreriam. Os finos painéis da carruagem não serviriam como defesa contra as balas.
Ela se enrolaria como um cão no chão da carruagem. Ao final, se não a matava uma bala perdida, a encontrariam e a levariam até Leblanc.
Encolheu-se de medo, abraçada aos seus joelhos, com muito pouca dignidade. A raiva e o terror obstruindo sua garganta. Nunca antes tinha odiado tanto ser cega como nesse instante, quando se sentiu tão indefesa e inútil.
Grey pôs suas mãos sobre seus ombros, apertando-os, como se assim pusesse a prova sua força. Devia sentir como tremia. Saberia o pouco que significava.
—Consegui-lo-á.
Um toque breve e impessoal no braço. Esse era Adrian.
— Escute, Jovem Raposa. Somos uns estorvos, você e eu. Há um velho monastério a menos de um quilômetro daqui. Baixar-nos-emos aí.
—Nos encarregaremos dos homens e voltaremos para lhes buscar — A voz de Grey se tornou severa. — Annique, não cometa um engano. Não quer encontrar-se com quaisquer pessoas que sejam os que nos perseguem.
—Tem razão — Não tinha amigos na França que montassem a cavalos em grupo. Só seus inimigos eram tão fortes.
—Não há nada em nenhuma direção mais que quilômetros de bosque e paisagens inóspitas e areia. Não há casas, nem um lugar onde possa encontrar ajuda. Fique com o Adrian. Não tente ir por sua conta.
Estava protegendo-a, inclusive embora fosse um agente inimigo. Isso era o fundamental para Grey do serviço segredo britânico: proteger às pessoas.
—Irei com o Adrian e cuidarei dele o melhor que possa. Tem minha palavra — disse ela simplesmente.
Adrian e Grey ficaram calados para ouvir isso. Ela pensou que sorriam. Os homens podiam ser idiotas.
—Cuidem um do outro — disse Grey, — estamos chegando a seu monastério. Não nos deteremos. Adrian?
—Preparado.
Adrian se agachou, segurando a porta para mantê-la aberta. A mala que tinha na mão golpeou as pernas de Annique.
Grey tinha muita força. Sem esforço, assegurou as pernas, colocando-as entre os dois assentos para inclinar-se sobre ela.
—Quero que siga viva. Não cometa nenhuma estupidez.
—Não sou uma estúpida.
—Se escapar, te encontrarei, e ficarei muito zangado quando a encontrar — A segurou com mais força. — Não tivemos tempo. Seja o que seja o que tenha feito... Demônios! —Sua boca se fechou sobre a dela com brutalidade. — Falaremos sobre isto mais tarde.
Mas ela não tentou falar. Foi em sua busca com loucura. Encontrou seu cabelo, entrelaçou seus dedos em seu cabelo e o atraiu para ela. Devorou-o, boca a boca. Lutou contra os incômodos ângulos nos que se encontravam seus corpos, sacudidas da carruagem e foi até ele. Não conseguia estar suficientemente perto.
Teve um minuto. Logo ele segurou sua cabeça entre as mãos, com dureza, e depositou um último beijo em sua frente.
— Então, isso já ficou claro. Voltarei. Terminaremos isto. Não vou deixar que escape.
Ela se tinha perguntado como seria se Grey alguma vez se permitia o prazer de estar com ela. Agora sabia. Seria veemente, direto e muito seguro de si mesmo.
A carruagem reduziu a velocidade.
—Agora! —gritou Adrian e saltou. Ela escutou como caía no chão.
—Grey... —disse ela.
—Tenha cuidado – a lançou pela porta aberta. Ela caiu com um movimento que fez que se enjoasse antes de ter tempo para sentir medo.
Bateu ao cair no caminho. Conteve o grito de dor e girou, uma e outra vez. Deteve-se, enjoada e dolorida, sobre um terreno viscoso e frio. Tinha rochas e barro escorregadio debaixo do corpo. Antes que pudesse se mover, o punho do Adrian se enredou em sua roupa. Levou-a com rapidez para uns arbustos espinhosos e a empurrou até que ficou debaixo dele; logo caiu sobre ela.
A carruagem se afastou, aumentando a velocidade. O som das rodas ficava amortecido pelas árvores.
—Seu ombro? — sussurrou o mais baixo possível. A ferida do ombro abriu?
—Bem — As palavras chegaram a seu ouvido quase sem produzir som algum.
Ela pressionou ainda mais seu corpo contra o chão e colocou seu rosto na terra, de modo que o branco de sua pele não os delatasse. Adrian também tinha estado em batalhas. Podia ouvi-lo respirar atrás dela, com a cabeça encurvada, enquanto se escondia.
Silêncio. Logo o tinido dos arneses e o som dos cascos que chegavam de longe. Estavam se aproximando. Podia diferenciar o ruído produzido por seis cavalos, que corriam um atrás de outro, formando uma linha. Depois de um espaço, seguiam-lhes outros três. Conteve o fôlego, fingindo ser parte da terra, ser rocha e arbustos até que passassem.
Uma vez que partiram, pregou o ouvido ao chão e esperou até que inclusive o som mais longínquo de cascos tivesse desaparecido. Logo esperou um pouco mais. Retornou o zumbido dos insetos e os pássaros começaram a cantar entre os ramos da vegetação do bosque de pinheiros e ela continuou esperando. Desejou que Adrian tivesse escolhido um lugar que tivesse menos espinhos afiados e pequenos insetos.
Nove homens. Nem sequer Grey era capaz de vencer a tantos. Ia morrer nesses bosques frios.
Colocou a fronte sobre a terra gelada e fechou os olhos com força porque estava chorando. Tudo tinha terminado, este incidente em sua viagem e esse homem que lhe tinha arrancado o coração do corpo. Não voltaria a encontrar-se com ele, nem a lutar contra os sentimentos que provocava nela. Sabia o que Grey tinha querido dizer com esse beijo. O que tinha feito era despedir-se.
A neblina se condensou em forma de uma garoa fria. Não ia conseguir nada ficando onde estava. Tinha que cuidar de Adrian, que estava doente e débil e que era tão idiota como a maioria dos homens, apesar de ser um tipo perigoso. Se não ficasse com ele, provavelmente morreria.
—É hora de mover-se. Tenho frio — disse ela.
—Eu também.
—Pode caminhar? Não, me dê isso. Está sangrando?
—Não muito.
Ela tocou sua camisa. Havia dito a verdade.
—Em que direção? Pode caminhar?
—Posso caminhar tanto como seja necessário.
Tirou-lhe a mala. Pesava suficiente para estar cheia de meia dúzia de armas, e certamente assim era. Estes ingleses estavam acostumados a ir sempre armados até os dentes. Adrian passou um braço por seus ombros para guiá-la entre as múltiplas raízes e também para apoiar-se nela. O caminho foi mais fácil uma vez que se afastaram do atalho e entraram no velho pátio do monastério. Sua chegada assustou os pássaros, que se puseram a voar em um frenesi de asas. Devia ter sido incômodo para esses passarinhos com essa chuva.
—A capela ainda conserva o teto. Iremos para lá — disse Adrian — em linha reta.
O aroma do fogo seguia preso às paredes nesse lugar. Possivelmente os revolucionários tinham queimado os monges fazia uma década ou era possível que na insurreição da Vendée o monastério tivesse sido destruído por um bando ou o outro. Uma vez que os soldados se retiraram, não era fácil saber o que cada bando tinha queimado.
Mas ninguém se incomodou em queimar a capela. Empurrou a porta para abri-la e escutou o eco de um recinto completamente fechado, no qual não entrava chuva. Entretanto, as janelas deviam estar quebradas porque podia sentir uma corrente de ar frio no rosto. Quando avançou, seus pés golpearam escombros, partes de madeira seca que provavelmente pertenceram às cadeiras ou às estátuas esculpidas. Serviriam como mecha para acender um fogo.
—Ao fundo há uma zona resguardada — disse Adrian.
Havia um espaço entre o altar e o muro da igreja aonde não chegava o vento. Deixou-o ali, sentado nas pedras, envolto em seu casaco. Não tinha forças que desperdiçar, de modo que ela não discutiu quando ele disse que ia fazer uma coisa ou outra. Simplesmente o ignorou e realizou essas tarefas ela mesma.
Não era simples fazer as coisas necessárias para preparar um acampamento na escuridão, mas tampouco era impossível. Quando era mais jovem, tinha montado acampamentos em lugares muito mais incômodos. Entre os escombros do chão da capela encontrou pedras para fazer uma clava e o pau largo que necessitava. Lá fora havia uma selva enorme, molhada, enredada e cheia de espinhos, onde no passado os monges estavam acostumados a ter um jardim. Ela caminhou pelos atalhos que ainda estavam pavimentados entre as árvores queimadas e os muros ruídos. Havia samambaias nas esquinas, suficientemente secas para usá-las para dormir sobre elas, e bastante madeira carbonizada para preparar uma dúzia de fogueiras. Inclusive encontrou uma macieira, embora nenhuma sarça com amoras. Os pássaros deveriam ter comido todas.
Não se percebia o menor sinal de briga ao fundo. O que tivesse passado com Grey tinha ocorrido em silêncio ou muito longe de ali. Permitiu-se o luxo de chorar enquanto trabalhava sob a chuva nesse jardim vazio.
Ao final, secou o rosto com a manga e terminou as tarefas que devia fazer, levando para dentro a lenha para o fogo e as samambaias. Quando terminou, estava coberta de barro e muito molhada, mas ao menos, não chovia dentro da capela. Ajoelhou-se, apoiando-se no altar, que era de mármore pela sensação saponácea que produzia e deixou a pequena clava que tinha preparado ao lado de seu joelho. Ia acender um fogo. Inclusive antes de ficar cega, tinha aprendido a preparar uma fogueira na escuridão.
— Isto é melancólico. Não compartilho a predileção que têm os espiões ingleses por este tipo de lugares — As aparas de madeira pegaram fogo protegidas pela curva de sua mão. Acrescentou lascas, partes secas de madeira, do que possivelmente eram partes de um anjo esculpido, com centenas de anos de Antigüidade. Alguém o tinha pisoteado até convertê-lo em pequenas partes, nenhuma maior que um dedo, mas ela era capaz de distinguir a forma das asas.
Depositou o anjo, pedacinho a pedacinho, no fogo, percebendo na superfície a pintura velha, delicada, ligeira e seca e a cobertura dourada.
— Acredita que têm sequer alguma oportunidade?
Adrian estava sentado sobre a pilha de samambaias, dando as costas ao muro.
— São muito ardilosos, têm muita experiência. Não acredito que exista um homem capaz de encontrar esses dois com este clima nesta zona selvagem do país. Grey se transforma quase em cervo quando está em um bosque.
—Nesse caso a chuva nos favorece. —Balançou os magros fragmentos de madeira ao introduzi-los no fogo sem queimar-se. Tinha um truque para isso, que ela conhecia bem.
—Posso escutar o mar fora se presto muita atenção. Não deve estar a mais de um quilômetro e meio daqui. Pronto, nossa fogueira ficou muito boa.
—Eu poderia ter feito tudo isso.
—Certamente. Mas as minhas mãos gostam de manter-se ocupadas. Dentro de um momento colocarei umas armadilhas para coelhos. Pude cheirar sua presença no velho jardim.
—Deixe-o, a menos que morra de fome. Já se molhou até os ossos. Há uma capa na bolsa, uma das minhas que trouxe para você. Mantê-la-á quente esta noite.
—Manterá aos dois quentes. Com este fogo, secar-me-ei logo. Onde está sua mala? Se não lhe importar, eu gostaria de dar uma olhada dentro.
—Há uma pistola carregada em cima de tudo.
— Embora não pudesse cheirá-la, saberia que tinha que haver uma pistola carregada na parte superior de qualquer de suas bolsas.
As samambaias rangeram a seu lado.
—Não é o fato de ser espião que o faz que seja tão estúpido. —Contou-lhe ela. — É porque é um homem. Agora, eu levo jogando o que os ingleses chamam «o Jogo» há... Mais ou menos uns doze anos. Vá, vejo que o fechamento funciona deste modo, entendo. —Deixou a bolsa aberta. — Em todos esses anos, tive uma pistola carregada entre minhas mãos só três vezes. Para que sejam três tenho que contar esta. Deveria lhe dar esta estúpida pistola a você, para que a esconda debaixo do travesseiro.
—Pode deixá-la no chão com muito cuidado, justo aí.
—Não confia que tenha em minhas mãos só porque meus olhos não servem, apesar de que sou incrivelmente inteligente — Sacudiu a cabeça para os lados. — Infelizmente, há muita tolice no mundo, não lhe parece? De modo que esta é a capa de que falava. É muito agradável. Tampar-nos-emos com ela. Deveria pôr o casaco debaixo e assim nos machucará menos desta incrível vegetação.
— Você é uma mulher extraordinária, Jovem Raposa.
—Sou-o, mas ainda não sabe, porque ainda não provou uma de minhas omeletes. Mon Dieu, você leva muitas coisas úteis consigo, e facas. Esta é uma boa faca.
—Eu gosto.
Mediu com os dedos as últimas coisas que havia dentro da mala. Tinha uma bobina de corda de seda finamente tecida, muito fina, mas suficientemente forte para resistir o peso de um homem. Era ligeira e suave como a água que flui e tinha metros e metros de corda.
—Adrian, tenho que lhe dizer que... Somos muito parecidos, você e eu —Passou a corda com reverencia entre os dedos. — Embora você leve essa ruidosa pistola com pólvora que certamente já esteja molhada. Esta corda... Prepararei uma boa armadilha com isto. Deve me ajudar.
—Armadilha para coelhos, Annique?
Ela se pôs a rir.
—Claro que não, para doninhas.


Capítulo Quinze
O fogo tinha ficado reduzido a cinzas. O muro da capela protegia suas costas e ela sustentava Adrian perto para conservar o calor entre os dois. Uma capa, fazendo às vezes de manta, estava estendida sobre ambos.
—Há afrescos nas paredes — disse Adrian. — Estive deitado aqui os observando. Onde o gesso não caiu, restam afrescos que representam..., suponho que você dirá que é um prado. Está cheio de flores; há trinta ou quarenta tipos diferentes de flores. Nas colunas pintaram sarças com flores azuis que chegam até acima.
—Parece bonito.
—É. Logo acima de nós, no teto, há um pássaro branco, que tem o sol atrás. Está aí acima, cheio de fumaça por culpa do fogo.
—Acredito que somos uns sacrílegos. Não recordei que esta é a casa do Senhor até que me pus a assar maçãs.
—Os deuses partiram daqui faz já muito tempo — Adrian vacilou — Você não pode ver o que ocorreu aqui. Acredite em mim, assar maçãs não é nada comparado com o que se fez neste lugar.
—Então não me diga isso. Vi suficiente em outras partes para poder imaginá-lo.
— Os dois o vimos — Se moveu inquieto, fazendo que a cama de samambaias debaixo deles rangesse . — Eu gostaria que dormisse. A menos que tenha decidido tirar essa roupa úmida e fazer amor comigo de forma selvagem e apaixonada.
—Não, Adrian.
—Temia isso. Em tal caso, seja uma boa garota e tente dormir. Não é seu turno de guarda. Logo retornarão, muito logo.
—Quanto tempo esperaremos?
Havia muitas coisas que não precisavam dizer-se em voz alta o um ao outro.
—O que fica do dia de hoje, esta noite, até amanhã ao meio dia. Se Grey não tiver voltado então, partiremos.
As gotas de chuva caíam com persistência no outro extremo da capela, perto da porta. Aí havia uma goteira e debaixo um grande atoleiro de água.
—Não virá, verdade?
—Já esteve em situações piores. Os franceses não sabem nem a metade das coisas que tem feito.
O peso de tristeza que notava no coração se aliviou um pouco. Devia recordar que Grey não era um homem comum. Tinha estado em muitas situações perigosas e sempre tinha encontrado a maneira de desembaraçá-las e escapar. Possivelmente ele e Doyle já estavam nesse momento levando a cabo um plano terrivelmente ardiloso e voltariam a procurá-la como tinha prometido. Não sentiria saudades absolutamente.
—Virtualmente não sei nada sobre Grey. Não me interessei pelos britânicos, já que há muitas outras nações que espiar. É uma carência grave de minha formação. Sobre você, pequeno irmão, eu sei algo da época em que trabalhava em Melam.
—Quando me converti em seu irmão pequeno? Pensava que éramos gêmeos.
—Somos, mas como nasceu dezessete minutos depois, sempre o intimidei sem piedade. Como pode ver, estou acostumada a imaginar todos estes detalhes quando interpreto um papel. Estava acostumada a usar chantagem para ficar com todos os seus caramelos quando éramos meninos em Grafing, contava mentiras pelas que acabava metido em confusões. Inclusive agora conto as minhas amigas tudo sobre suas amantes de tal modo que escandalizou a todas as damas jovens. Sou uma pessoa terrível quando interpreto sua gêmea.
Ele soltou uma risadinha débil.
—É uma pessoa terrível inclusive quando não é. Sabia?
—Em meu interior tenho várias personalidades terríveis que posso adotar quando necessito — As raminhas a arranhavam de um modo irritante quando se esticava. — Que aspecto tem? Não o vi, como já sabe.
—Sua pele é como o couro para sapatos. Tem ombros largos, com um peito forte e grosso...
—Não pergunto por Doyle, sabe perfeitamente. Já vi muitas vezes a monsieur Doyle em Viena quando nós dois fazíamos muito esforço em não nos fixarmos um no outro. Que aspecto tem Grey?
—É o diretor da seção do serviço de inteligência britânico. Não é o homem para você, menina.
—Bien sûr. Como compreenderá, eu tampouco sou mulher para ele, mas mesmo assim eu gostaria de saber que aspecto tem.
—Alto e cheio de cicatrizes. Não é bonito — Isso era tudo o que tinha que dizer.
—Espero que seja mais eloqüente quando apresente as informações aos seus superiores, porque posso dizer com segurança que sei o mesmo que já sabia há três minutos — Fez uma careta para o teto que não podia ver. — O que era, sem dúvida, sua intenção. Embora tenha razão. Realmente não importa.
Não tinha uma imagem de Grey em sua mente. Ele era um par de braços fortes nos que refugiar-se e umas mãos largas, com as palmas calejadas que tinha tocado todo seu corpo. Era a dureza e uma grande segurança na hora de decidir o que era e o que se devia fazer, era tal a segurança que tinha que impregnava o ar que o rodeava. Era o professor de espiões mais ardiloso e um homem aterrador para seus inimigos. Cheirava a sabão limpo e a aspereza de seu queixo quando levava várias horas sem barbear-se. Essas coisas, e, uma voz que falava francês com sotaque de Toulouse, era tudo o que tinha. Era estranho saber tanto sobre ele e não saber qual era seu aspecto.
— Apaixonou-se por Grey? Isso não foi muito inteligente de sua parte — disse Adrian.
Às vezes, não era inteligente. Havia muitas pessoas que podiam haver-lhe dito.
—Não vai negá-lo, verdade? Não ao seu gêmeo — disse ele.
Escutou o crepitar do fogo durante um momento.
—Quando a gente diz «não vou me permitir sentir nada por esse homem», já é muito tarde.
— Por que, Annique?
—Não acredito que uma estupidez desse tipo tenha um motivo — Sem dúvida tinha sido estúpida. — Amar... é uma grande loucura para pessoas que se dedicam a nossa profissão.
—Tem razão nisso — Trocou de postura de novo, incômodo. — Foi uma mulher a que me disparou essa bala. Sabia?
— Normalmente não se pode averiguar isso só olhando uma ferida.
— Uma garota extraordinária. Parecida com você, em certo modo. Uma grande agente neste Jogo.
— Mesmo assim, não deveria deixar que lhe dispare. Você também é bom neste Jogo.
—Todos nós somos entristecedores como demônios. Grey conseguiu convencê-la ou ainda é virgem?
Não deveria ter-se surpreendido. Não havia nada que este homem não se atrevesse a dizer.
—Tem muitas suposições, muitas das quais são erradas.
—Não acredito. Conseguiu-o?
—Ninguém lhe disse que é incrivelmente intrometido?
—Não tem que responder.
—Mas fará conjeturas sobre o tema até não poder mais, tanto se o digo como se não, e o fará em voz alta. Não tem vergonha, Adrian.
—Nenhuma — Escutou o sorriso em sua voz.
Ela suspirou.
—Tiens. Seu monsieur Grey não fez nada, exceto me dar esse beijo que viu e possivelmente alguma outra bagatela em um descuido estes últimos dias, que não sou capaz de recordar muito bem. Não tem muita importância, de uma ou outra maneira, se alguém tiver levado a cabo esse ato concreto ou não... E pode deixar de rir como um bobo, o único que vai conseguir é fazer que doa o ombro.
—Se Grey não se apressar em te levar para a cama, juro que o farei eu. Tem que saber o que está perdendo.
—Imagino que muito pouca coisa. Todo este assunto entre os homens e as mulheres não é um clube com contra-senhas secretas. Eu sei tudo o que terá que saber sobre estas coisas E...
—Era justo o que pensava. Não tem feito nada. Grey é um idiota integral.
—Esta é uma conversa muito indiscreta e me parece que não vou seguir falando disto com você.
—Se tiver a oportunidade, faça amor com ele. Não é um professor nas artes amorosas, como eu, mas...
—Pode ficar vigiando, que é bem mais sério. Nada de agradar seus desejos, não é favorável — Atirou a capa para cima para se tampar de uma forma bem segura.
—Estou bastante quente.
—Nesse caso, deve permanecer assim. Alegro-me de não ter feito amor com Grey. Aniquila todo meu sentido comum, o que é preocupante, pois acima de tudo sou francesa e somos um povo lógico. Sou francesa antes de ser espiã. Contei-lhe que estou decidida a me retirar da espionagem?
—Sério? Os governos de toda a Europa respirarão aliviados. Fá-lo-á em um futuro próximo?
—No momento em que o deixe a salvo e leve a cabo uma última e pequena tarefa que me fixei, escapulirei para me converter numa pessoa que passe tão despercebida e seja tão inofensiva como uma ratazana. Provavelmente o faça na Inglaterra. É um país grande, segundo os mapas. Não acredito que seu serviço secreto me encontre.
—É difícil se esconder para uma mulher cega — Estava avisando-a. Como sempre, sobre todas as suas conversas pairava uma verdade incômoda, o fato de que eram inimigos.
—Arrumarei isso. Quando formos daqui, iremos ver meu amigo o contrabandista, seguindo a linha de costa, se é que não está outra vez no cárcere. Podemos confiar nele completamente. Encontramo-nos em seu território, o que é um autêntico golpe de sorte para nós. Não acredito que nós dois possamos chegar muito longe.
—Sabe onde estamos — A idéia parecia diverti-lo.
—Se este for o monastério do St. Honoré, sim sei. Conservo vários mapas excelentes dentro de minha cabeça, irmão pequeno. Quando era uma menina, visitávamos este contrabandista. É inglês, como você. Um dos amantes de minha mãe. Possivelmente não tenho uma imagem muito correta dos ingleses porque só conheci espiões e contrabandistas em mi...
Um som que não era o vento, nem a chuva que caía, nem o débil estrondo das ondas, deslizou-se no padrão da noite. Uns golpes longínquos. Ela deixou de falar no ato.
Cavalos. Vinham da costa. Numa turba única, Adrian ficou em pé, apagando o fogo, pisando nas brasas.
O som dos cascos aumentou e logo reduziu. Os cavaleiros se desviaram, aproximando-se do monastério.
—É melhor que nos separemos — sussurrou ela. «Faria que a matassem. Adrian deve me abandonar e escapar». — Sairá primeiro, por trás. Limpei uma zona que chega até o muro para que sirva de via de escape.
—É obvio, uma rota de fuga. Enquanto recolhia maçãs, limpou a zona para ter uma rota de fuga. Não esperava menos de você — Sua voz estremecia pela risada. Para Adrian o desastre sempre seria um jogo.
O pátio do monastério se encheu do estrépito dos cavalos e de homens que falavam entre eles. Tinham vindo registrar os edifícios. O chiado metálico ao seu lado avisou que Adrian tinha recolhido a pistola e estava verificando-a. Logo escutou uma mescla de pequenos sons enquanto ele rebuscava na mala. Muito em breve as facas ocupariam seus lugares habituais em seu corpo. Uma delas, ainda em sua bainha, acabou em seu colo.
—Agarre isso e guarde-a — disse ele. — Isto é o que vamos fazer...
—Correremos. Vá pelo jardim. Eu irei...
—Cale-se, Jovem Raposa, e escute. Sairei primeiro. Vou fazer com que estes franceses dêem um passeio pelo bosque. Não há modo de saber que tipo de acidentes poderia sofrer ali — Podia ter estado falando do espetáculo que assistiriam durante uma noite agradável, como se fossem a um café antes de ir ao teatro. — Você, ma petite, não levantará a cabeça e ficará quieta até que me sigam.
Se desaparecesse em silencio sob a chuva, estaria a salvo. Em lugar disso, queria afastar aos caçadores dela.
—Não...
—Dinheiro — Colocou com uma mão rápida um moedeiro suave e frio em seu corpete, entre seus peitos. — Compre algo bonito. Quando chegar a Inglaterra... — Estava calçando as botas, depressa . —.. Esqueça o de esconder-se. Vá ao serviço segredo britânico e se entregue. Oferecerão um trato em troca dos planos Albión e a protegerão do Leblanc.
—É obvio que não o farei.
—Escute atentamente. Em Londres, vá ao número sete em Meeks Street, não fica longe do Lincoln's Inn Fields. Meeks Street, à altura do Braddy. Recorde-o.
—Minha memória é excelente, mas não o farei.
—Vê-la-ei ali. Siga com vida. Grey me matará se não o fizer — Tirou seu casaco de entre as samambaias, enquanto o punha; o casaco resultou incômodo e fez ruído porque ele não podia usar um dos braços.
Provavelmente ia morrer, de modo que utilizou seu verdadeiro nome.
—Boa sorte, Caçador de Falcões.
—Por que todas as mulheres que valem à pena são espiãs francesas? Alguém se equivocou ao planejar isso. — Colocou a mão aberta, brevemente, sobre seu cabelo. — Dar-te-ia um beijo para me despedir, minha irmãzinha, mas duvido que esteja à altura de Grey. Quando tiver partido, conte até cinqüenta, saia pela janela que tem as suas costas e siga a rota de fuga que preparou através do jardim. Eu irei para o outro lado. Acredito que tem uma chance.
Os homens se aproximaram da capela. Podia ouvi-los. Segurou sua mão para retê-lo um minuto mais e sussurrou:
—A aldeia do St. Grui está a uns oito quilômetros ao norte, subindo pela costa. Os contrabandistas são dirigidos por um inglês chamado Josiah. A contra-senha é jasmim, como a flor. Diga- lhe que vai de minha parte.
—Ali me dirigirei. Boa sorte, querida Annique.
Ela escutou o ruído de pegadas ao longo da capela, logo o som de uma refrega enquanto ele subia através de uma das janelas sem cristal. Um momento depois, chegaram os disparos. Dois, três, quatro disparos. Tinha deixado que os homens no pátio lhe vissem. De algum modo, apesar de estar fraco, devia ter saltado ao outro lado do muro. Os homens gritaram e correram, dizendo que tinha escapado. Os cavalos golpearam as pedras com o metal de suas ferraduras, galopando para a entrada.
Ficou calada onde estava e escutou. Possivelmente todos se deixaram enganar...
Por desgraça, não tinha sido assim. Um cavalo seguia movendo-se de um lado a outro sobre as pedras do pátio. Um homem ficou para trás para terminar a busca.
De modo que tinha que ocupar-se dele. Levantou a clava e recolheu a fortificação do lugar onde estava, inclinado sobre a parte superior do altar. Tinha limpado a zona do chão que marcava o caminho que devia tomar. Tudo estava em completo silêncio pelo que podia deslizar-se pela capela e pressionar seu corpo, até que passasse despercebido, contra o muro atrás da porta. O rastreador não tinha pressa. Passaram vários minutos eternos antes que escutasse pisadas de botas nas pedras de fora. Levantou o ferrolho e a porta rangeu. Ele cruzou a soleira.
Pedras do lajeamento caíram ao chão quando a armadilha caiu. O homem gritou. Ela se lançou sobre ele imediatamente, utilizando a clava. Só teve que lhe dar dois golpes para deixá-lo completamente imóvel.
Ela e Adrian tinham falado durante um longo momento sobre o lugar no qual cairia um homem, apanhado pela rede que lhe cairia em cima e lutando contra ela. Era um prazer descobrir que tinham acertado. O homem estava inconsciente, curvado no chão sobre o degrau da porta. Seu prêmio ainda respirava, de modo que nem sequer tinha que carregar um assassinato em sua consciência.
Um resultado muito satisfatório em geral. Este era um homem menos à caça de Adrian. Havia valido a pena o tempo que levou para preparar a armadilha.
Reconheceu-o pelo aroma de sua roupa antes de tocar seu rosto. Henri estava sendo muito persistente. Cortou tiras de sua camisa com a faca de Adrian e o atou antes de tirá-lo dentre as cordas de sua armadilha. Logo o arrastou por toda a capela, até o pilar que tinha escolhido. Ele levava em cima uma faca útil, que lhe tirou. Também se apropriou de seu dinheiro, pois ao parecer tinha o bastante. Não há mal que por bem não venha.
Uma vez que tinha terminado, limpou as mãos em seu vestido — na verdade não gostava de tocar em Henri— e ficou a pensar em suas opções. Devia ir-se... Ou ficar? Adrian poderia retornar. Grey podia vir ou podia fazê-lo Doyle, se um dos dois seguia vivo. Pelo contrário, os companheiros de Henri podiam vir a buscá-lo. De fato, ia receber a visita de todo àquele que não estivesse atirado em um atoleiro de seu próprio sangue no bosque. Esta capela ia converter-se em um lugar muito concorrido se é que alguém sobrevivia.
O mais seguro era que partisse imediatamente. Tinha o cavalo de Henri. A uns poucos quilômetros dali tinha a uns cinqüenta amigos que a ajudariam a chegar à Inglaterra. Empurrava-a uma terrível responsabilidade. Tanto se entregava os planos Albión para a Inglaterra ou se mantinha-se fiel a França, não podia deixar que caíssem em mãos do Leblanc. Seria muito estúpido ficar nessa capela numa noite tão infeliz como essa.
Se Grey voltasse, possivelmente estivesse ferido. Poderia necessitar ajuda.
Desse modo tomou uma decisão. Havia vários assuntinhos dos que devia ocupar-se. Caminhou para fora da capela, para a fria e densa chuva, para conduzir o cavalo de Henri a um lugar que não chamasse a atenção em meio da selva de sarças atrás da capela. O animal tentou mordê-la em várias ocasiões e uma vez o conseguiu. Logo teve que preparar de novo a armadilha, com pedras e corda, sobre a porta. Depois de tudo foi Ovídio quem disse que se deve sempre lançar o anzol, porque encontraremos peixes na água no lugar que menos esperamos.

***
O Caçador de Falcões se agachou na areia, com atitude selvagem e silenciosa. Estavam se aproximando, não eram os homens do Leblanc a não ser um grupo de dragões da patrulha. Não tinha onde esconder-se, e estava muito fraco para correr.
Mas havia alguém mais nas dunas essa noite. Os contrabandistas. O som de disparos os tinha feito sair. Tinham tantas razões para temer os dragões como ele e tinham um navio.
Obrigou seu corpo a mover-se apesar da dor, equilibrando-se nas grandes ondas. A areia branda lhe obrigava a arrastar os pés. Não podia ver nada nessa névoa negra. Nada absolutamente.
Seguiu o som. Annique caminhava deste modo todo o tempo. Ele seria capaz de fazê-lo para percorrer uns noventa metros.
O navio já estava a vários metros de distância na água, os remos subindo e baixando com golpes regulares. Ele correu chapinhando atrás do navio.
—Attendez. Aidez-moi — A água do mar estava condenadamente fria.
Avançando com estupidez, gritando do topo das dunas, chegaram os dragões. Um disparo cruzou a água. Deveria ter aprendido a nadar. Não podia ser tão difícil, os cães sabiam fazê-lo.
As ondas o derrubaram. Sua roupa pesava como chumbo. O chão desapareceu sob seus pés e afundou como uma rocha. Apenas notou os braços que o seguravam para subi-lo a bordo.
—Não é um dos nossos, Josiah — disse uma voz em inglês. Cravou as quinas afiadas do navio quando lhe deram a volta. Uma bala soou ao impactar contra um lateral do navio.
—Tem pinta de ser francês.
—Lancem-no de volta à água — Vozes com acento do Sussex chegaram a um acordo. Levantaram-no de forma brusca e o enviaram com os peixes.
—Asquerosos, comedores de merda miseráveis — Recuperou a consciência. — A contra-senha é... Jasmim.
—Isso soou a inglês autêntico. Subam a bordo, meninos, não vou deixar que se afogue um compatriota londrino — A voz que dava ordens pertencia a um homem de mais idade com acento do Yorkshire. Alguém se inclinou para ele. — Tampem e vamos daqui.
Foi empurrado para o fundo do navio e ficou inconsciente e quieto como um peixe fora da água.
***
Os pássaros piavam daqui para lá, conversando sobre o dia que começava para se decidir se gostavam do dia ou não, o que ocorria sempre antes que amanhecesse de todo. Sentou-se ao lado de Henri, escutando como grunhia e se movia bruscamente. Estava tentando soltar-se dos nós com os que lhe tinha amarrado. Não poderia consegui-lo.
Quando um cavaleiro solitário entrou no pátio ela segurou a clava e ficou em posição.
O segundo peixe que caía em suas redes resistiu com mais força que o primeiro. Não foi amável ao usar a clava. Este homem, que voltava tão logo, só podia significar que a caça de Adrian já tinha terminado. Devia estar morto, em algum lugar entre essas árvores. Chorava enquanto atava as mãos desse homem a suas costas.
Então comprovou a cabeça para ver se lhe tinha quebrado o crânio, ao submeter ao inimigo. Estava inconsciente, mas respirava. Era Grey.
Não estava acostumada a ter freqüentemente a oportunidade para aproveitar a ampla coleção de juramentos e palavrões que sabia. Esse era o momento de fazê-lo. É que Grey não tinha o mínimo cuidado? Acaso não sabia quão perigosa era ela? Grey não podia ter feito nada mais estúpido que vir a este lugar, aproximar-se furtivamente, vestido com o casaco de outro homem de tal maneira que ela não pudesse reconhecê-lo. Assim o diria assim que despertasse.
Foi rapidamente molhar um pano no atoleiro mais próximo. Quando voltou para seu lado, ele já estava se queixando. Nesse caso, não o tinha ferido de morte, sem dúvida tinha uma cabeça de pedra sólida e estúpida. Lavou seu rosto com o pano para que recuperasse os sentidos por completo e em pagamento por seus cuidados com o pano úmido, ele a esbofeteou.
— Meu deus. Foi você quem montou a armadilha?
—É obvio. Meu amigo, devo lhe dizer algo. Faz mais de duas horas chegaram homens a cavalo ao monastério. Homens de Leblanc. Adrian os afastou, exceto ao Henri, que está aí — Assinalou na direção onde se encontrava Henri, que se movia de forma ruidosa tentando escapar do pilar em que o prendera . — Adrian não retornou. Ouvi disparos... Estava tão fraco e eram ao menos três homens.
—Consegui-lo-á. É o homem mais escorregadio do mundo. Os que nos perseguem são um grupo de imbecis torpes no meio do bosque. Homens de cidade. Desate-me.
—Doyle está...? —Não pôde terminar a pergunta.
—Está fazendo que andem em círculos. Não alcançarão Doyle. Faz isso desde antes de você nascer e matamos um par deles. Tire essas cordas das minhas mãos.
—Acredito que não — Passou o dedo pelas amarras que tinha feito, mas o fez para comprovar que estavam firmes. —Desejo o melhor para o Doyle. Para você também, Grey. Desejo-lhes boa sorte em suas viagens — falou com ele, esta última vez, com uma linguagem de tom íntimo, que se utiliza com os amigos e os amantes. — Agora me despeço de você, como foi minha intenção há algum tempo. Isto não deveria surpreendê-lo.
—Não faça isto, Annique. Solte-me.
Vá, Grey estava furioso. Este homem não gostava de sentir-se indefeso. Mas podia perceber outras coisas em sua voz... Sua preocupação por ela, seu carinho. Não podia se equivocar em tudo nisso. Não lhe doeria tanto se ele não sentisse afeto por ela.
— Não posso ficar muito tempo — disse ela. — Os homens de Leblanc podem aborrecer-se de perseguir o excelente senhor Doyle e voltar aqui. Além disso, virão guardas antes que passem muitas horas, que se perguntarão o motivo pelo que o bosque está completamente cheio de cadáveres por toda parte. Necessita dinheiro? Posso lhe deixar um pouco do dinheiro de Henri, se quiser.
—Deixe que a ajude a cruzar o Canal. Deixá-la-ei livre ao outro lado, prometo-o. Dar-lhe-ei vantagem. O que queira. Não se faça isto. Não tem nenhuma oportunidade.
Ela alisou o casaco na zona de seu ombro, onde tinha uns músculos admiráveis. Também podia dar-se o capricho de acariciar sua bochecha. Isso era ainda melhor, a sensação de pele sobre pele.
—Sabe que quando estou com você não tenho medo. É uma magia realmente curiosa que ocorre dentro do coração. Oxalá pudesse levá-la comigo quando partir.
Não deveria perder tempo, sentada aí, falando com ele. Os dois tinham muitas coisas por fazer antes do amanhecer. Mas, depois de tudo, nunca antes em toda sua vida tinha desperdiçado o tempo desse modo. Podia permitir uns poucos minutos mais.
— Assusta-me esta nova viagem. O ruído do mar faz que me custe mais escutar o que me rodeia. Devo percorrer uma boa distância em meio desta desolação, que é caótica e está cheia de homens que tentam me matar. Evitá-lo-ei, se puder. Não sou idiota.
—Pense, pare só um momento e pense. Se milagrosamente consegue chegar à Inglaterra, de todos os modos acabará caindo em minhas mãos. Só está atrasando o inevitável — Estava fazendo enormes esforços para se libertar, mas ela não era nenhuma aficionada na arte de atar às pessoas. — Não vou lhe machucar. Juro-o.
—É triste, meu querido Grey. Vemo-nos limitados pelas regras do jogo no qual os dois jogamos. Não existe nem uma fresta entre essas regras na qual possamos viver você e eu felizes, ou pela que possamos ser felizes se estamos separados, que é o que faz que tudo seja tão injusto — Se sentou numa postura mais cômoda, levantando os joelhos e apoiando os braços em cima deles. — Descobri um fato curioso sobre mim mesma. Faz uma hora estava segura de que estava morto e isso me fez sofrer muito. Agora sei que está vivo e que somente devo abandoná-lo, e é ainda mais doloroso. Não tem nenhuma lógica.
Durante todo o tempo que tinha conhecido a Grey — embora, tampouco era tanto tempo depois de tudo, — nunca tinha estudado seu rosto com as mãos para saber que aspecto tinha. Agora podia fazê-lo. Seu cabelo era curto, mas suave ao tato quando o tinha entre os dedos. Ele tinha uns ossos muito marcados no nariz, ela pensou que o tinha quebrado uma vez e, além disso, tinha a pele áspera como um bárbaro. O arco de suas sobrancelhas era muito pronunciado. «Você Não é bonito, monsieur Grey». Não tinha imaginado que o fosse.
—Deixar-lhe-ei a faca de Henri — disse ela , — embora não me viria mau. É uma desculpa pelos galos que causei com esta pequena e útil clava que preparei. Também dou de presente ao Henri, que, tenho que confessar, começa a me aborrecer em extremo por seus cuidados. Como verá, ainda não o matei. Sou pura benevolência.
— Vai conseguir que a matem aí fora.
—É muito possível — Tinha um último minuto para acariciar seu corpo, para aferrar-se a seu calor. Era forte e merecedor de respeito, além disso, era um homem considerado e seu inimigo. Que ela o tivesse elegido tinha sido algo inevitável como as marés no oceano. Alguém se afoga no mar.— Conhece O Simpósio, Grey? —Apoiou a mão sobre a barba de poucos dias de sua bochecha. Os homens não se pareciam em nada às mulheres, ao menos ao tato. — O Simpósio, também se chama O Banquete, do Platão.
—Encontrá-la-ei, em qualquer lugar que vá. Sabe, que nunca me renderei.
—Não me encontrará. Não terá a menor idéia de onde me buscar. Preste atenção. Platão diz que os amantes são como duas metades iguais de um ovo, que se encaixam a perfeição uma com a outra. Cada metade foi criada para encaixar com a outra, seu único casal. Todos os homens procuram essa outra metade que lhes corresponde. Recorda-o?
—Demônios, este não é o momento para ficar a falar do Platão.
Isso a fez sorrir.
—Acredito que você é minha outra metade. Acredito que houve uma enorme confusão no céu, foi um escândalo. Deviam ter destinado para você uma jovem e preciosa colegial inglesa na cidade de Bath e para mim um bonito pasteleiro italiano em Palermo. Mas de algum modo os berços foram trocados e tudo acabou deste modo... tão impossível.
—Annique...
Rapidamente e com suavidade, inclinou-se e tampou sua boca ao beijá-lo. A ele pareceu surpreendê-lo.
—Oxalá não tivéssemos nos conhecido nunca — sussurrou ela, — no resto de minha vida recordarei ter estado caída ao seu lado, meu corpo junto ao seu, desejando-o.
—Pelo amor de Deus...
Ficou em pé e colocou a faca numa greta entre duas pedras a uma certa distância dele, de onde lhe levaria um pouco de tempo tirá-lo.
— Adrian tinha razão. Deveria ter feito amor com você quando tive ocasião.
Caminhou para fora da capela, ignorando as palavras que ele dizia enquanto ela partia, pois, eram palavras extremamente iradas, e prestou atenção em não tropeçar nas partes soltas da armadilha que estavam pulverizados ao redor da entrada.
O cavalo de Henri se alegrou ao vê-la. Não gostava de estar rodeado desse modo por sarças. Não foi tão difícil como esperava montar sobre o cavalo e ninguém nesse monastério veria que lhe tinha subido o vestido além do que se considerava decente. Soltou as rédeas para encontrar um modo de sair do pátio para o caminho. Então o único que pôde fazer foi seguir a direção do som do mar, segurar as rédeas e as crinas com firmeza e dar um bom golpe com os pés no cavalo. Logo amanheceria. Havia suficiente luz como para que o animal pudesse ver. Uma vez que chegassem à borda do mar, poderia seguir a linha de costa para o norte.
Tinha avançado um quilômetro e meio mais ou menos quando o caminho se estreitou e se inclinou para baixo. O cavalo de Henri começou a galopar a mais velocidade.
Ela recebeu um golpe forte. A comoção, a dor e a queda. Teve um instante para dar-se conta de que tinha sido um ramo de árvore que pendurava sobre o caminho que a tinha golpeado. O cavalo o tinha feito de propósito.
Caiu e gritou assustada. Sua cabeça golpeou o chão e o mundo explodiu.
Logo não passou nada.
O cavalo, que tinha demonstrado essa crueldade inata pela que Henri o tinha podido comprar barato, soprou satisfeito e se afastou ao trote na direção de Saint-Pierre LeProche. Annique ficou caída numa sarjeta ao lado do caminho, de cara para cima sob a garoa.
***
Doía-lhe. Sentia como os tentáculos da dor se estendiam num nada e lhe davam forma e figura. Sem desejá-lo, encontrou-se num lugar no qual a dor era cortante como uma faca. Sobre tudo lhe doía a cabeça.
«É melhor permanecer inconsciente». Esse foi seu primeiro pensamento.
A dor enchia sua cabeça como se fosse fogo. Igual ao fogo, igual a...Esse foi seu segundo pensamento. Em questão de segundos soube.
A luz, a luz se pulverizava através de suas pálpebras fechadas. Com terror e assombro, abriu os olhos e viu o pálido amanhecer no céu. A luz alagava tudo. A luz, que atravessava um amontoado inteiro de nuvens que formavam redemoinhos.
De modo que tinha ocorrido. O doutor de Marselha, com seu desnecessário uso dos termos em latim, estava certo. Essa parte horrível do que quer que esteja em seu crânio se moveu para longe de seu nervo óptico e agora perambulava por sua cabeça, preparado para matá-la.
Ficou caída, preparada para morrer, como o médico disse que ocorreria.
Era o mais normal do mundo que pudesse ver os pinheiros atrofiados durante seus últimos minutos de vida. Era normal que estivesse estirada sobre o barro úmido e frio. Tentou serenar sua mente para alcançar um estado de nobreza adequado para um momento tão sério. Entretanto, no que pensou, então, era no quanto tinha sido estúpida em confiar no cavalo de Henri, no quanto incômoda se encontrava, na fome que sentia no estômago e em como pareciam resplandecentes as pequenas gotas que tremiam nas agulhas dos pinheiros... gotas de água que deslizavam pelas agulhas e caíam, uma atrás da outra sobre seu rosto.
Esperou. Passaram os minutos. Não ocorreu nada, exceto que cada vez estava mais molhada.
Ocorreu-lhe a idéia de que talvez não fosse morrer, ou ao menos, que não o ocorresse imediatamente. Sentou-se. Numa ocasião normal, a dor que sentia no crânio teria ocupado toda sua atenção, fazendo que se esquecesse de todo o resto.
—Mas isto é estranho — Se encontrou olhando-as mãos; quando não podia ver seus olhos sempre foram de forma automática ao lugar onde deixava repousar as mãos. Resultava incrível poder voltar a ver suas mãos. Ver o vestido que tinha posto, de um tom verde claro, manchado com o barro. Poder ver...
Podia ver, já não era essa lombriga ridícula e cega. Era ela mesma, era Annique, a Jovem Raposa, uma espiã extraordinária.
—Posso... ver —Se sentiu oca pela surpresa, como uma casca que unicamente continha felicidade. —Posso fazer o que quiser — ficou em pé com dificuldade. Queria dançar, voar.
A sarjeta estava cheia de abacaxis, que era o motivo pelo que se havia sentido tão incômoda ao estar aí caída. Encontrou cinco desses abacaxis, muito curva, pesadas e do tamanho da palma de sua mão.
Um, dois e três. Lançou os abacaxis no ar, desenhando o círculo simples que lhe tinha ensinado Shandor, quando tinha oito anos... Nessa primeira noite que tinha passado com os ciganos e se havia sentido tão sozinha.
Evitar que caíssem ao chão era tão fácil como respirar. Fazer jogos com dois e dois. A meia chuva, a fonte. Era precioso, estirou mais o pescoço para trás, balançando-se para não deixar cair nenhum dos abacaxis. Sua cabeça ardia de dor, mas não a preocupava o mínimo.
Bon Dieu, mas estava destreinada. Houve um tempo no qual era capaz de fazer malabarismos com cinco elementos. Hoje se contentava mantendo no ar um círculo de quatro, desenhando os padrões mais simples, um jogo de meninos.
Queria... Quanto desejava Grey nesse momento. Queria lhe mostrar isso, seu jogo de malabarismos, sua pequena habilidade artística. O truque que tinha dominado só pela alegria de poder fazê-lo.
Sentia os abacaxis brilhantes e felizes em suas mãos. Não tinha perdido nada depois de todos esses meses vazios. As mãos e os olhos trabalhavam juntos. Esses maravilhosos olhos que podiam ver por ela.
Grey nunca a veria fazer malabarismos, nunca.
De repente ficou tonta e perdeu de vista um abacaxi, de modo que deixou que os outros também caíssem. Aterrissaram, à direita e à esquerda, golpeando-se engenhosamente um com o outro, exatamente como ocorre neste tipo de jogo.
Apoiou o rosto contra o tronco da árvore. Era a mesma árvore que a tinha derrubado no chão. No silêncio espesso e confuso do bosque, conteve a respiração e as lágrimas começaram a deslizar por suas bochechas. Chorou, triste e incrivelmente feliz ao mesmo tempo.


Capítulo Dezesseis
A costa do norte da França, perto do St. Grui
O barracão estava exatamente enfrente à praia. Um navio de pesca tinha virado e rodeava o porto. Leblanc ignorou os soluços do interior que se escutavam através das venezianas de madeira, do mesmo modo que ignorou a jovem garota que era sujeitada por dois Dragões fortes, que grunhia e brigava. Concentrou toda sua atenção no homem ajoelhado a seus pés.
—Quando partiu? —exigiu saber.
— Foi com a frota de pesca, ao amanhecer — A voz do pescador não pronunciava bem as palavras porque tinha um corte no lábio que sangrava. —No navio dos contrabandistas ingleses.
—Aonde se dirigem? Qual é seu porto de destino?
—Quem sabe? Contam com vários portos seguros distribuídos por toda a costa. Eles...
O chicote de montaria de Leblanc riscou o rosto do homem, repentino como o ataque de uma serpente, e deixou uma linha de sangue em sua passagem.
—Onde?
—Irão para Dover. — disse de maneira entrecortada e logo o pescador inclinou a cabeça.
— Disse Dover? —Leblanc passeou seu olhar para o lugar onde sujeitavam com força à garota, que se retorcia entre os soldados. — Pensa-o bem.
— Esse é seu lugar, é o que sempre dizem. Não sei se me disseram a verdade. São ingleses.
—É você o que deve dizer a verdade — Leblanc o estudou um minuto mais. — Henri!
Henri apareceu na porta, metendo-a camisa por dentro das calças.
— Não há nada na casa, só alguns presentes que ela deixou. Isso é tudo.
—Algum documento?
—Nenhum.
As comissuras dos lábios do Leblanc ficaram brancas. De forma brusca deu a volta e partiu com passo irado para o lugar onde os cavalos esperavam. Tomou as rédeas do soldado de cavalaria que estava firme.
—Pode ver. Tirou o sarro a todos — Montou o cavalo. — Vamos.
—O que quer que façamos com estes?
Leblanc apoiou o pé nas mãos que o soldado oferecia e se balançou até sentar-se sobre a sela. Olhou primeiro ao pai, logo a sua jovem filha e à casa onde chorava uma mulher. Logo sorriu.
— Os recompensaremos, é obvio — Tirou várias moedas e as lançou. — Foram úteis. Encarregue-te de que os outros habitantes do povo se inteirem disto — Seu cavalo levantou areia no ar. Os dragões cavalgaram em cima das moedas, ao lhe seguir.
O pescador viu como se perdiam de vista.
— Disse — Sua filha caiu no chão, chorando, agora que os soldados partiram.
— Alguém diria, ao final, depois que fizessem mal a mais mulheres — Se inclinou como um ancião e começou a recolher as moedas, passando os dedos pela areia para encontrar as que tinham ficado muito fundas por culpa dos cascos dos cavalos. — Ajude-me com isto. Seus olhos vêem melhor que os meus.
— Traíste Annique.
— Acredita que ela esperava que lutássemos contra ele? — Não a olhou nos olhos, foi o que ela me disse que fizesse, se esse homem aparecesse por aqui. Fez-me prometer.
—Se a encontrarem...
—Não o farão — Limpou a terra das moedas, guardou-as em seu bolso e virou na direção da casa. — Fique aqui e procure o dinheiro. Devo ir ver sua mãe — Se deteve na porta. — Não encontrarão Annique. É a Jovem Raposa e me fez lhe prometer.


Capítulo Dezessete
Dover, Inglaterra
Às dez da manhã, Annique e uma boa quantidade de pessoas simples suspirando chegaram ao porto de Dover. Ela levava o segundo melhor vestido da filha de um pescador francês e um par de botas resistentes. Além disso, tinha um xale, tecido com a lã de uma bondosa ovelha negra das restingas, envolvendo seus ombros. A faca de Adrian estava presa em sua coxa, debaixo do vestido.
Comeu pão e queijo na metade do caminho ao cruzar o Canal, na escuridão, balançada pelas ondas, com os contrabandistas. Sempre era interessante falar com os homens sobre o que faziam para ganhar a vida e agora sabia mais do que antes sobre como esconder tonéis de conhaque. Quando partiu, todos lhe disseram adeus com a mão num gesto amistoso, inclusive Thadeus, o mais velho, que tinha tido dúvidas sobre ela quando subiu a bordo.
Ficou no banco entre montões empilhados de linguados e mexilhões, e desfrutou de um momento de felicidade absoluta. Inglaterra. Era muito formosa, Inglaterra. Tinha admirado os escarpados brancos enquanto se aproximavam no navio, com as velas a suas costas.
A buliçosa cidade de Dover se estendia diante dela com suas casas feitas de pedra, amontoadas uma junto à outra subindo a colina, com o castelo coroando a cidade. A seu redor, a água de cor verde cinzenta limpava os pilares, salpicando com pequenas explosões de luz, borbulhas chapeadas e da cor branca da neve. Nas cestas com pescado, as escamas brilhavam em ondas iridescentes.
Depois de meses de escuridão, a luminosidade a assaltava em cada esquina. A cor formava redemoinhos e dançava ao seu redor até que se sentia enjoada. Estava bêbada de tanta cor. A linha da sombra inóspita sobre a parede de pedra branca cortava como um grito. Um vestido de cor carmesim na porta de um botequim a deslumbrou. Às vezes, logo que podia pensar, sua cabeça estava repleta de cor e de formas. Perdia-se nesta sublevação de luz, ficava sem fala ante a beleza de uma gaivota que plainava por cima de brilho da água. Nunca mais em toda sua vida deixaria a luz ao óbvio.
Este ia ser seu novo país, Inglaterra.
Tinha três libras e seis pence em moeda inglesa, escondidas debaixo da combinação, o resto do dinheiro de Henri tinha gasto na negociação com os contrabandistas. Não tinha bagagem, nem teto sob o que se cobrir essa noite. Deu-se conta de que, em seus dezenove anos de vida, nunca tinha conseguido conservar uma só posse material, nem uma parte de papel, nem um pente, nenhuma bagatela dourada. Quando partiu do embarcadouro de madeira, podia ter passado por Afrodite, que volta a nascer nua do mar. Começaria sem nada. Tinham lhe tirado tudo.
Sempre fora uma espiã. Isso tinha terminado. Independentemente do que fizesse com os planos Albión, não voltaria a espiar pela França.
Esta era sua última partida no Jogo. Iria a Londres e encontraria um lugar seguro com Soulier, ali tomaria sua decisão. Numa ou duas semanas, teria decidido o que fazer com os planos Albión, algo que poria a prova à paciência até das pedras do caminho, e possivelmente ao final os entregaria aos britânicos. Logo fugiria das mãos de Soulier e desapareceria na Inglaterra como uma colherada de água no oceano. Os perigosos homens que a buscavam, tanto ingleses como franceses, nunca a encontrariam.
Procuraria um lugar escondido e se converteria simples e sinceramente na Anne, uma Anne perfeitamente normal, e conseguiria um trabalho que não decidisse o destino das nações. Talvez tivesse um gato. Essa seria uma vida tranqüila.
As rochas que revestiam o embarcadouro criavam uma paisagem complexa de terraços, escarpas, penhascos e vales. Tinham virtualmente o mesmo aspecto das rochas da França, o que provavelmente era uma verdade filosófica de certa profundidade. Enquanto caminhava seguindo o atalho ascendente das rochas, viu que numa das cabanas de madeira alguém tinha posto flores amarelas num vaso azul no batente da janela. Flores amarelas da cor da seda brilhante. Amarelas como o amanhecer. Eram as suas boas vindas à Inglaterra.
A cidade de Dover era um porto de mar como qualquer outro, um lugar de aromas penetrantes e um bom número de prostitutas. Não desejava permanecer ali muito tempo e, em todo caso, devia partir a Londres e intrometer-se em assuntos muito importantes.
Numa ocasião tinha conhecido um homem que fazia malabares com bolas de fogo. Contou-lhe que o segredo era mantê-las no ar e não as tocar realmente em nenhum momento. Desse modo, não se queimava os dedos.
Os planos Albión eram o mesmo para ela. Não podia tomar uma decisão e sustentá-la entre suas mãos sem queimar-se, pelo que tinha que manter as opções no ar.
Dar aos ingleses algumas datas, dados sobre os ataques e rotas seria inútil. Os franceses se inteirariam, a inteligência militar era uma peneira quase perfeita de segredos e então trocariam as datas e invadiriam de todo o modo. Outra opção era que os ingleses se comportassem com uma cautela pouco característica neles e preparassem uma emboscada para dar as boas vindas à invasão. Esse não era um resultado satisfatório. É obvio, podia entregar aos ingleses o grande compêndio dos planos. Os franceses não se atreveriam a invadir nesse caso... Mas, tanta informação poderia trocar o curso de muitas batalhas em anos vindouros. Evitaria a invasão, entretanto, à custa da vida de muitos franceses.
Claro, se não fizesse nada, esta cidade de pescadores e prostitutas, se converteria num montão de escombros antes da primavera. Não teria mais flores amarelas e valentes em nenhuma janela, nem cristais tampouco, nem nenhuma mão que colocasse o vaso azul sobre o batente.
Poderia ter nomeado um número infinito de homens de Estado e estudiosos que saberiam o que fazer exatamente nesta situação sem ter que pensar absolutamente. Era uma pena que os planos Albión não tivessem acabado em suas mãos.
Talvez as respostas aparecessem enquanto caminhava para Londres. Montaigne, que era tão sábio como francês, havia dito que viajar produz uma maravilhosa claridade de pensamento. Isto ainda não tinha ocorrido, mas ainda podia acontecer, pois ficavam muitos quilômetros antes que chegasse a Londres. Compraria uma barra de pão para levar consigo quando partisse de Dover. É uma economia inútil matar-se de fome quando vai se percorrer uma larga distância.
Encontrava-se no mercado das verduras perto dos portos, admirando as laranjas — que eram tão perfeitamente redondas, com essas covinhas superficiais e uma cor suficientemente forte para esquentar as mãos, embora nunca antes tivesse dedicado tanto tempo valorizando as laranjas, quando se deu conta da presença de um homem vesgo atrás de uma pirâmide de maçãs que a estava observando. Quando se afastou dando um passeio para ver as abobrinhas e as cebolas, ele a seguiu, com muito interesse.
Tinha sido descuidada, perambulando tranqüilamente por esta cidade. Se ainda fosse uma espiã, obedecendo a ordens, teria se dado conta antes que a estavam seguindo.
«Tiens». Isto não era bom. Já a tinham encontrado as autoridades inglesas ou o braço comprido de Fouché era capaz de cruzar o Canal? Talvez o vesgo não fosse mais do que um violador. Ou um ladrão comum. Em qualquer caso, não queria encontrar com ele.
Agachou-se debaixo do toldo de listas brancas e vermelhas de um posto e evitou às sérias matronas e as cestas cheias de repolhos. «Mon Dieu», mas sentia falta da roupa de menino. Um moço de seu tamanho podia correr como um cervo sem que ninguém se fixasse nele. Uma mulher chamava a atenção. Ia deixando um rastro a seu passo de cabeças que giravam em sua direção.
Então tinha que sair do mercado e afastar-se de todos esses olhos. Encontrou algumas ruelas. Ainda não tinha visto nenhum lugar de Dover que fosse formoso, mas esta parte da cidade era especialmente feia. Já corria rápido, virando à direita e à esquerda ao azar, nesse labirinto retorcido de ruas estreitas. O homem vesgo, que devia ser francês pela velocidade com que corria e por sua astúcia, seguia atrás dela. Ia ganhando terreno.
Não podia evitar o confronto. Era melhor escolher o território no qual o mesmo teria lugar, ao invés de tropeçar num beco sem saída.
Podia ser aí mesmo. Patinou ao parar e levantou o vestido para tirar a faca de Adrian do pano que a atava em sua coxa. Encaixou-a de um modo tranqüilizador em sua mão, uma folha arteira de cento e vinte e sete milímetros, bem equilibrada para ser jogada, com certeza, extremamente característica de monsieur Adrian. Tirou de um puxão o lenço do cabelo e o lançou para o lado, encolheu os ombros para que caísse o xale e baixou a faca, deixando-o à altura da saia.
Os muros da ruela se elevavam de ambos os lados com paredes de tijolo, irregulares e mal colocados. Pilhas de lixo em estado de putrefação se amontoavam em cima da pavimentação do chão. O beco se encontrava situado entre dois edifícios humildes de pedra, com pequenas janelas e com as venezianas e as portas fechadas. Ninguém viria a ajudá-la se gritasse. Ninguém veria o que se passaria ali.
O homem vesgo dobrou a esquina e se deteve, surpreso de encontrá-la ali, esperando. Olhou rapidamente ao seu redor e logo a ela, sem confiar nela, e, viu unicamente a uma mulher sozinha. Mexeu debaixo de sua jaqueta, tirou uma adaga fina e começou a avançar devagar.
Ela defendeu seu terreno. Ia deixar que ele se aproximasse dela.
— Por que me seguiu? Não desejo falar com você...
Atrás dela uma bota pisou com força a pavimentação. Era um som pequeno, agudo e malévolo e a aterrorizou. Deu a volta. Henri Bréval tampava a luz, bloqueava sua via de escape. Estava presa.
Tinha caído nessa armadilha como uma idiota. Tinha chegado sua hora.
«Não deste modo». Encostou-se à parede de tijolos, protegendo suas costas, mantendo deste modo os dois homens à vista. «Sou a Jovem Raposa. Não percorri milhões de quilômetros, atravessando o inferno, para morrer nas mãos destes canalhas». Assobiava ao respirar, depressa, aspirando o ar entre os dentes, para afastar o medo. Não era impossível, eram dois somente. Cravaria a faca no homem vesgo, o empurraria e correria para salvar a vida. Um plano simples, mas um bom plano. Henri não era nenhum cão de caça. Ela correria com a velocidade do raio.
Preparou a pequena faca.
Henri esboçou um sorriso de satisfação. Alguém que ainda não tinha visto se aproximou com passos tranqüilos e deliberados. Seu estômago congelou e enjoou. Não podia tratar-se de...
Atrás de Henri, saindo dentre as sombras, apareceu Leblanc.
O pânico se apoderou dela como uma onda do mar gelado. Leblanc, com sua habilidade para lançar facas e sua fria malícia. Leblanc, que não podia deixá-la com vida. «Eu sei o que ocorreu em Brujas, mas não posso dizer nenhuma só palavra. Se o digo matarão Vauban».
Do outro extremo da ruela, Leblanc viu seu medo e sorriu. Mas não tirou sua faca, se a lançasse a mataria. Indicou ao Henri que se adiantasse. Estava tão seguro de seu silêncio que podia deixar-lhe a seus seguidores, como quem deixa um osso para o cão. Não teria uma morte limpa.
Três homens, três facas. Ela não tinha opções, nenhuma.
—Vamos, poulette — Henri indicou que se aproximasse com pequenos movimentos rápidos feitos com a faca. — Vem, só queremos falar contigo. Só falar.
Aqui, na Inglaterra, não iam falar. Não teria uma cela clandestinamente, não haveria tortura, nem tempo para destruir por prazer sua mente e seu espírito. Nesta terra estrangeira, Leblanc era um intruso. Não tinha nenhuma influência. Aqui, Leblanc renunciaria aos planos Albión e se contentaria matando e assim ocultar todo testemunho do que ele tinha feito em Brujas.
—Deixei-te viver, Henri Bréval — Sua voz tremeu sozinha. Não era necessário fingir. — Recorda-o, deixei-te viver duas vezes, quando podia ter te matado.
—Obrigado — Fez uma saudação irônica. Podia adivinhar o curto futuro que lhe esperava em sua voz. Leblanc tinha prometido que poderia violá-la antes que cortassem sua garganta. Henri já a imaginava indefesa e lutando debaixo dele. Em sua mente, já estava arrancando sua roupa.
Era melhor deixar que enchesse sua cabeça com essas preciosas imagens. Faria com que fosse imprudente. Arriscou-se a olhar atrás dela. O vesgo sustentava uma navalha estendida como se estivesse lhe oferecendo uma xícara de chá. Por acaso ninguém lhe disse que ela sabia brigar? Era o mais fraco dos três. Arrastou os pés para afastar-se de Henri, em direção ao homem vesgo.
—Afasta-te de mim? — Henri sorriu. — Só conseguirá que me zangue — Tinha decidido que ia fazer com que isto fosse um jogo, alargando assim seu prazer.
—Suplico-lhe isso. Je vous en prie. Henri, eu farei o que seja. —Conseguiu dar um grande passo, logo dois.
—E este acanhamento, pequena Raposa? — Moveu a faca para os lados diante dela, jogando.
— Se somente me escutasse. Só deixa que te explique...
Na metade da palavra deu a volta e atacou ao homem vesgo. Balançou a faca para baixo, cortando com rapidez e precisão o tendão na base do dedo polegar. Ele chiou. Sua faca rodou ao cair ao chão, afastando-se, lançando brilhos vermelhos, caindo no meio fio. Ele caiu de joelhos, agarrando sua mão e gritando.
Tratava-se de uma pequena vitória pela qual ia pagar caro. Henri atacou imediatamente, balançando a faca, fazendo com que retrocedesse até o extremo do beco. Não havia maneira de escapar dele. Não tinha nenhuma possibilidade de fugir.
Henri já não ia jogar mais.
A luz do sol implacável iluminou a estreita ruela, fazendo que o aço que Henri sustentava cintilasse. Leblanc era uma presença monstruosa e escura. Entre a sujeira, atrás dela, o homem vesgo chorava como uma mulher. Retrocedeu, com a faca na mão perto da cintura e estendendo o outro braço para não perder o equilíbrio. Tinha uns segundos, antes que a vencessem. Empregá-los-ia em mutilar a Henri, se pudesse.
De modo que se lançou contra ele. Ele a evitou. Nesse momento, ele perdeu o equilíbrio, ela lançou a faca para sua mão esquerda e a cravou, tão rápido como pôde, onde ele menos o esperava. Sua mão era um alvo pequeno, mas ela conseguiu dar no alvo. Moveu a mão, desenhando uma linha carmesim entre seus nódulos. O sangue caiu por seus dedos.
«Terá uma cicatriz que fará que me recorde». Retrocedeu.
—Vadia! — Sacudiu a mão e gotas de sangue se pulverizaram intensas sobre a pavimentação do chão. Quando elevou a faca, sujeitava-a numa mão cheia de tinta vermelha. Sustentou-a na altura do coração dela. — Far-te-ei mal. Vou cortar a sua cara em tiras antes de te matar.
Moveu a faca diante de seus olhos.
Viu um borrão prateado. Jogou a cabeça para trás com um movimento brusco. Imediatamente ele voltou para balançar a faca. O aço passou roçando sua orelha. O terror frio percorreu todo seu corpo. Girou e correu rua abaixo.
Leblanc apareceu diante dela. Sua faca era uma linha fria, satisfeita, que cortava o ar enfrente a ela. Embora nunca chegasse a tocá-la, fazendo com que ela saltasse e dançasse, obrigando-a a retroceder, aproximando-se de Henri.
Não tinha escapatória. Nenhuma fuga possível. Seus pulmões bombeavam dor e mais dor. Tentou uma finta que não funcionou. Nada servia. Leblanc era um professor com a faca. «Não posso ganhar. Sou como uma menina diante dele». Obrigou Annique a continuar retrocedendo cada vez mais. De volta ao lugar onde estava Henri.
Retrocedeu. Suas costas tocaram a parede e Henri a encurralou. «Este é o final. Vai doer. Morrer vai doer muito». Preparou-se contra o frio tijolo, com a faca estendida a diante...
Uma dor negra se apoderou de sua barriga. O punho de Henri a deixou sem fôlego. Retorceu a mão que sujeitava a faca até que ela sofreu uma agonia incrível.
—Solta-a — Sua mão se abriu. A faca caiu ao chão. Tudo tinha terminado para ela.
Os olhos da cor do barro de Henri se regozijaram. A ponta da folha de sua navalha estava apoiada sobre o ponto no qual pulsava o pulso em sua garganta, por onde passava seu fôlego. Não pressionou para cravar-lhe.
«Violar-me-á antes de me matar», pensou ela.
***
Chegava a tempo, embora com muita dificuldade.
Grey escutou o ruído de uma refrega e a uma mulher que se queixava de dor e deu os últimos trinta passos correndo a toda velocidade. Dobrou a esquina para entrar no beco.
Um homem estava sentado na pavimentação com o corpo dobrado, balançando uma mão que sangrava. Era o que chorava. Leblanc rondava ao outro extremo do beco. Empurraram Annique contra a parede, com a faca de Henri apoiada na garganta.
«Ataca». Grey rugiu e avançou contra ele. Investiu contra Henri, golpeando-o no centro do corpo, afastando-o com força de Annique antes que pudesse lhe cortar o pescoço.
Caíram juntos e se chocaram com a parede, golpeando carne e osso. A faca de Henri saltou pelos ares, de um extremo a outro. Acabaram no chão, rodaram e lutaram corpo a corpo, golpeando-se contra os tijolos e as pedras do muro. Apesar de seu grande tamanho, Henri não era muito bom no corpo a corpo, nas brigas violentas sem regras.
Ficaram em pé. Aproximando-se, rodeado pelos braços simiescos de Henri, Grey lançou um, dois, três murros breves e duros em seu estômago. A cara de Henri ficou vermelha e logo trocou para um tom branco doentio quando Grey lhe deu uma joelhada na virilha.
Ele retrocedeu. Henri caiu de joelhos no chão, débil. A briga tinha terminado. Tinha durado menos de um minuto.
Afastou com um pontapé a faca de Henri, onde não pudesse alcançá-la. Assegurou-se de que o francês tinha ficado fora de combate durante um tempo. Levantou Henri para que deixasse de estar de joelhos e fez que ricocheteasse contra o muro ao outro lado, tentando que fosse atingido no ombro. Há muitos ossos pequenos e fáceis de quebrar no ombro.
Teria terminado o trabalho, mas Annique seguia mantendo com vida a esse bastardo por alguma razão. Acataria sua decisão.
Um grito de surpresa. Deu a volta.
Leblanc cambaleou, seu rosto formando uma careta de dor. Sua navalha repicou e dançou ao cair sobre a pavimentação, quando ele a deixou cair. O punho de uma faca lançada sobressaía de seu caro casaco e o sangue caía pela manga.
Annique tinha lançado a faca em Leblanc, cravando-a em seu braço, não na garganta, antes que ele pudesse lançar a sua. Não era possível adivinhar qual dos dois Leblanc pretendia matar.
Leblanc pôs-se a correr, saltando enquanto descia por um beco lateral, deixando um rastro de sangue, enquanto apertava o ombro, rápido como uma lebre. Levava uma vantagem de uns nove metros. Henri Bréval ficou em pé cambaleando, recolheu a faca com a mão esquerda e saiu correndo na outra direção. O tipo que se queixava na entrada do beco saiu com passos vacilantes, sem deixar de choramingar.
Não havia nada mais a fazer que ficar aí em pé, jurar e ver como se afastavam. Não podia lhes capturar quando não tinha homens que se encarregassem de controlá-los. Se desse as costas a Annique, ela desapareceria como fumaça.
Ela se apoiou contra a parede, respirando com dificuldade. Se ele tivesse chegado cinco minutos mais tarde ao beco... A só a idéia dela, sangrando-se em meio a essa porcaria, era tão dolorosa como um golpe forte.
Estúpida, era uma mulher estúpida. Em que demônios estavam pensando todos aqueles que se passavam o dia rezando seus louvores e dizendo que era uma agente excepcional? Tinha deixado que a encurralassem em um beco. Tinha conseguido ferir um, embora se tratasse de uma ferida de pouca importância, não tinha tentado terminar e matar esse homem, e logo basicamente não tinha sido capaz de matar ao Leblanc. Podia lançar facas melhor que isso. Era suficientemente boa, mas, lhe faltava dureza. Se tivesse sido uma de seus agentes, não teria deixado que saísse do portal sem uma babá.
— Levou a faca de Adrian — disse ela alto e claro. — Como vou cortar as verduras? — Olhou o beco abaixo, na direção em que tinha desaparecido Leblanc.
Essas foram as primeiras palavras que a ouviu dizer em inglês. Tinha uma voz preciosa, desenvolvida e forte, com o francês ressonando sob cada sílaba. Uma carícia de voz. A mulher não podia nem sequer respirar sem seduzi-lo.
— Mas não a teria usado para cortar verduras se tivesse tido o sangue do Leblanc.
Ela tampou a boca com o punho e riu bobamente.
Essa risadinha eram os nervos da batalha. Ia precisar ter um muro atrás dela para que a segurasse durante um momento.
Tinha perdido seu gorro de pescador durante a briga. Agachou-se, recolheu-o e o sacudiu nas calças, enquanto a observava. Ela por-se-ia a correr logo que recuperasse as forças.
—De todos os modos, o homem que me deu isso não teria gostado que eu cortasse verduras com essa faca. Não gosta de Leblanc... Quero dizer, a meu amigo... a esse amigo que tem tantas facas — Afastou mechas brilhantes de cabelo negro de sua frente e olhou para ele. Pela primeira vez, viu como Annique o olhava através de seus olhos.
Não o reconheceu.
Franca e encantadora, pálida como um pergaminho, ela sorriu.
— Muito obrigado. Muito, muito obrigado.
Brincou com o gorro de tricô negro entre os dedos e esperou a que ela o reconhecesse. Isso levaria ao final da alegria que ela parecia sentir. Arrastá-la-ia fora desse labirinto de ruas, apagar-lhe-ia essa felicidade da cara e a levaria a Londres. Esperava que tivesse lugar uma briga triste e desagradável em uns poucos minutos, que seria tão inevitável como o pôr-do-sol. Ele ganharia e ela perderia.
Os olhos dela percorreram seu rosto, seu cabelo, seus ombros, todo seu corpo, vestido com um pestilento pulôver e suas calças de pescador. Avaliando-o, aprovando o que via.
—É estranho, posso falar cinco idiomas e não sou capaz de pensar num modo de lhe expressar meu agradecimento por ter me salvado — disse ela.
«Por que não me reconhece, Annique?».
Ela tremeu em conseqüência da comoção posterior ao terror, riu, agradeceu-lhe educadamente uma e outra vez e não o reconhecia absolutamente.
«Meu Deus. Nunca me viu, verdade? Não sabe como é minha cara. Não sabe a cor dos meus cabelos ou a forma do meu nariz. Poderia ser qualquer pessoa».
Ela não sabia quem era ele. Se a deixasse livre e a seguia, talvez o levasse diretamente até os planos Albión.
Poderia fazê-lo? Quanto mais pensava, melhor lhe parecia. Ela sabia onde estavam os planos. Estava seguro disso. De algum modo, depois dessa derrota sangrenta em Brujas, Annique tinha partido levando-os consigo.
Não trouxe nada da França. Estava seguindo-a desde que desceu do navio de pescadores no píer, com as mãos vazias. Será que os planos Albión já estavam na Inglaterra?
«Onde estão os planos, Annique? Dirige-te para buscá-los agora? Aposto que os levará para Soulier».
Se o levasse até os planos... Seria o modo mais limpo de fazê-lo. Um instante de surpresa, e, tudo estaria terminado. Não seria necessário levar a cabo um interrogatório prolongado e realizado por um perito. Não teria que haver uma intimidade envenenada enquanto ele a despia de seus segredos, hora após hora. Nada de coações inteligentes e indolores que ao final obteriam que os dois se sentissem doentes.
Em Meeks Street, em seu cômodo cárcere, ele obteria que ela soltasse os planos, centímetro a centímetro. Era um perito. Os arrebataria. Embora deixasse rastros sujos de suas digitais por toda a alma dela ao fazê-lo.
Podia deixá-la livre. Era uma opção tentadora de todos os pontos de vista. Se a deixasse livre, poderia desfrutar dos dias com Annique nos quais ela já não seria sua inimiga. Talvez ela continuasse olhando-o como se ele fosse uma espécie de cavalheiro numa armadura brilhante. Possivelmente era isso o que ele desejava.
«Ela conhece minha voz, mas posso trocá-la».
Por ter crescido na zona mais profunda de Somerset, tanto ele como seus irmãos tinham sido domesticados no estábulo, copiando o jeito de falar dos moços de quadra e sendo castigados depois por falar desse modo nos salões de casa. Ainda era para ele simples adotar o acento aberto de Somerset quando ia em casa.
Graduou o tom de sua voz, de modo que soasse grave e falou com a cadência familiar da região do oeste.
—Está ferida? —Pareceu-lhe que não soava como sua própria voz.
—Absolutamente, obrigado. Foi muito valente ao atacar tantos homens, três, quando estavam armados.
Ele encolheu os ombros. Não devia falar muito. Não poderia reconhecer sua voz se não a ouvia.
—Além disso, é modesto. Mas é graças a você que não me estriparam como a um arenque, pelo que estarei eternamente grata. Foi um ato heróico de sua parte, lançar-se em meio a uma briga com tanto entusiasmo, quando sequer me conhece.
— Qualquer um haveria feito o mesmo — Seguia esperando que a palavra seguinte despertasse sua memória e lhe dissesse quem era ele em realidade.
— Possivelmente. Há tanto altruísmo no mundo — Se separou da parede e deu uns passos cambaleando enquanto recolhia o xale de entre a porcaria do chão . — Mas não chega sempre no momento certo e acompanhado por músculos tão úteis. Uma amiga me deu isto, sua mãe o teceu para ela — Sacudiu o xale. — O teriam encontrado junto a meu cadáver se você não tivesse vindo.
Fez um ruído evasivo. Poderia enganá-la durante um ou dois dias, se tomasse cuidado. Era possível que não necessitasse de mais tempo.
— Tive muita sorte esta manhã, não lhe parece? Não posso sequer pensar em como poderia agradecer-lhe.
Sorriu. Se continuasse dando tantas amostras de agradecimento a desconhecidos pela rua, alguém ia acabar por colocá-la num dormitório na estalagem mais próxima, fechando a porta para deixar que demonstrasse exatamente o quanto estava agradecida.
Quando caminhou com passo vacilante beco abaixo, tropeçando e apoiando a mão na parede de vez em quando, ele caminhou a seu lado, mantendo uma separação cômoda, a um braço de distância. Não tentou ajudá-la. Não lhe pôs nem um dedo em cima. Um simples toque, e, ela o reconheceria pelo tato de sua pele.
***
Seu sentido de orientação não tinha desaparecido. Retornou por onde tinha vindo, descendo por uma rua larga e logo virou à direita e chegaram até a pequena praça do mercado com os portos atrás. De um lado se estendia uma fila de bancos de pedra. Ela se sentou, fechou os olhos e sentiu como o mundo girava a seu redor. Quando abriu os olhos, o homem alto com um pulôver negro de pescador continuava ali.
A intensidade de poder ver a afligia constantemente. Podia ter contado cada um dos cabelos escuros de sua bochecha, e cada um era formoso.
Ele limpou as mãos no pulôver que cheirava tanto a pescado e disse:
— Não tem bom aspecto.
Seu sotaque era diferente do dos contrabandistas ingleses que conhecia. Sua voz soava como se raspasse sua garganta.
Provavelmente devia ser por levar tantos anos no mar ou pelo excesso de bebida em terra firme.
—Estou bem — Mas cada fibra de seu corpo tremia. Era bom poder sentar-se em um lugar limpo. — É só que estou aterrorizada, como compreenderá, pensando que iam me matar, o que assustaria a qualquer um e que é algo a que nunca me acostumarei.
O marinheiro era um homem grande e obviamente tão forte como um touro, o que, sem dúvida, era útil nos navios. Podia ter vinte e oito ou trinta anos. Levava o cabelo castanho muito curto e em camadas, a la garçom. Seus olhos eram de um tom escuro, uma mescla de sombras sem cor, como o próprio mar, com um matiz similar ao bronze cinzento de um canhão. A metade inferior de seu rosto estava obscurecida pela barba de uns dias. Nenhum destes traços o fazia ser um homem bonito e, entretanto, para ela, o era.
Em geral gostava dos marinheiros e tinha passado muito tempo conversando com eles em diversos portos da Europa, descobrindo o que sabiam sobre as defesas costeiras e os movimentos dos navios da marinha. A maioria dos marinheiros era mais falante do que este.
—Não o aborrecerei de novo com minha gratidão, mas é que foi tão hábil e valente que conseguiu que eu não morresse hoje. Se afastar o olhar um segundo, tirarei o dinheiro, que tenho escondido — Havia um botequim do outro lado da rua. Perto dos portos de uma cidade sempre havia um botequim. — Esse estabelecimento não parece respeitável — disse ela, sendo franca sobre as mulheres que estavam dentro do local , — mas sua cerveja cheira bem. Viajei muito tempo com um homem que teria chamado um copo grande de cerveja «uma boa pinta», embora não tivesse tido tempo de me explicar isso. Vou convidá-lo a uma boa pinta.
—Não vai me convidar para uma bebida. Não deveria entrar nesse lugar e sabe — Ele pensou nela de novo. — Trarei algo de beber. Fique aqui. Não se mova, nem um centímetro, até que retorne.
A esquina do mercado estava cheia de postos de venda de comida e esse era seu objetivo. Ela viu como ele avançava com grandes passadas através da multidão. Esperava que todos se separassem de seu caminho e assim o faziam. Sua roupa podia dar a entender que era um homem de mar capaz fisicamente, mas confiança em si mesmo refletia que era um homem acostumado ao mando. Pensou que devia ser o primeiro a bordo ou o capitão do navio.
Certamente, tampouco era exatamente um pescador. Caminhava com segurança por esse mercado de Dover. Tinha ouvido falar muito através de seus amigos contrabandistas sobre as patrulhas inglesas de recrutamento forçado. A armada da Inglaterra saía dos portos das cidades com homens desse tipo, homens altos e fortes, com as mãos marcadas pelo pinheiro de piche e de breu e os arrastava até os navios militares para que suas vidas fossem pobres e incômodas. A menos que contasse com um amparo poderoso. Os contrabandistas tinham muita influência por toda a costa sul da Inglaterra.
Estava virtualmente segura de que devia ser um contrabandista inglês como seu amigo Josiah. Os contrabandistas eram homens ardilosos e hábeis e não era de todo surpreendente que alguém lhe tivesse salvado a vida. A vida na Inglaterra estava começando a ficar interessante.
Era tão alto que era fácil seguir seu avanço entre os postos do mercado. Escolheu um posto e a mulher deixou de lado o cliente anterior como se fosse um peixe que estivesse três dias fora da água para atendê-lo rapidamente. Essa mulher era suficientemente adulta para não se comportar de um modo tão ridículo por culpa de uns ombros largos. Talvez não tivesse sido tão ridícula. Quando ele partiu lançou uma moeda de prata, sem pedir o troco.
Voltou com caracóis, dentro de um cone de papel de periódico. Tinham exatamente o mesmo aspecto dos que tinha comido numa cabana de pescadores no St. Grui, fazia dois dias, embora estes moluscos fossem ingleses. Também trazia duas taças de chá, enganchando as duas asas com um dedo de uma forma muito hábil. O chá continha abundante leite e um bom montão de açúcar. Ela não queria nenhuma dessas duas coisas em seu chá, mas ele tinha salvado sua vida pelo que comeria encantada até um ramalhete de erva do prado se ele a tivesse dado.
Ele se sentou, bebeu o chá e observou como ela tirava os caracóis marinhos de suas pequenas conchas com um palito de madeira. Duas empregadas domésticas passearam perto deles, com as cestas de compras, os aventais brancos e seus preciosos chapéus. Lançaram-lhe olhadas dissimuladas. As prostitutas se aproximaram das janelas do botequim e sussurravam entre elas, deixando que seus vestidos se deslizassem para baixo na zona dos ombros, e faziam bem em tentá-lo. Ele era um homem enorme e forte. Ia permitir se desfrutar desse sentimento de suficiência durante os poucos minutos que ele seguisse sentado ao seu lado.
—Meu nome é Annique. Ainda não o havia dito — Não, o chá não melhorava depois de beber um pouco . — Annique Villiers. Deu-me o presente de minha vida. Não interrompeu uma briga qualquer, monsieur, je vous assure —Mastigou. — Praga. A partir de agora só falarei inglês, estou decidida. —Tinha muita fome e os caracóis estavam frescos e incrivelmente limpos de areia. — Sem dúvida estaria morta se não tivesse aparecido por lá. Verá, Leblanc tem que me matar para manter minha boca fechada, pois conheço alguns feitos desonrosos sobre ele. Leblanc é o homem em que cravei minha faca. Henri, que também gostaria de me matar, é o outro a quem você tão amavelmente lançou contra o lixo.
—Deveria afastar-se dos becos.
—Bien sûr. Assim o farei sem dúvida no futuro — comeu o último caracol . — Mas estarei a salvo durante uns dias. Leblanc não voltará a me encontrar, uma vez que parta de Dover. Há muitos lugares na Inglaterra onde me esconder.
Todo este tempo ela tinha atirado as conchas dos caracóis marinhos na calçada, como todo mundo. Odiava a idéia de deixar o papel também no chão, de modo que o amassou e colocou dentro da xícara de chá vazia.
Estava feliz de um modo mais que satisfatório. O que queria fazer era enrolar-se como um gato e dormir. Mas os gatos não são perseguidos por agentes de vários governos.
—Obrigado pelos caracóis e pelo chá, que é muito inglês. Acredito que terei que beber muito para valorizá-lo como é devido. Dir-me-á seu nome? É difícil agradecer de forma sincera a alguém que desconhecemos o nome.
—Meu nome é Robert Fordham — tinha soado solene, como se estivesse lhe confessando um segredo. Possivelmente isso era o que fazia. Podia ser que a cidade estivesse cheia de santinhos da polícia da alfândega, que diziam que queriam capturá-lo. Ele não sabia que ela tinha guardado muitos segredos e podia confiar nela. — É um prazer conhecê-la, Annique.
Todo este tempo, sua expressão era um tanto séria. Estava quase segura de que tinha que ser um capitão, um homem acostumado a preocupar-se freqüentemente e em grande medida pela segurança de seu pequeno navio de contrabando. Ele era uma dessas pessoas para quem dar ordens a seus homens era tão natural como respirar ou lançar-se num beco para salvar a vida de uma desconhecida. No exército de Napoleão já teria subido a uma patente importante, embora, logicamente, não no exército inglês, que ainda estava escravizado pelo velho sistema de classes sociais.
Uma gaivota posou ao lado de seus pés e começou virar as conchas que ela tinha atirado, comprovando o seu interior. Havia muitas gaivotas dedicando-se à pilhagem no mercado. As mulheres que vendiam pescado lutavam com elas continuamente.
Sabia que era a hora, que devia levantar-se e continuar com sua viagem.
—Monsieur... Não. Acabarei com o costume de falar em francês em um ou dois dias. Senhor Fordham, estou agradecida além do que expressam as palavras e sou uma pessoa com um amplo vocabulário. Desejo-lhe toda a sorte possível, se servir de algo — Não possuía um mapa de Dover em sua cabeça. Realmente não tinha nenhum mapa exato das cidades inglesas. Protegeu os olhos com a mão e olhou ao sol. Londres estava ao norte, de modo que caminharia para o norte. Sempre se surpreendia com a quantidade de vezes que o mais óbvio dava resultado. — Espero, que se estiver em perigo alguma vez, alguém vá a sua ajuda.
—Eu também — O homem ficou em pé ao mesmo tempo em que ela e caminhou a seu lado. — Aonde se dirige?
Ela disse a verdade, posto que, salvara a vida.
—A Londres. Tenho que cumprir um encargo.
— A diligência para Londres sai da estalagem O Urso e os Sinos, no centro da cidade. O modo mais fácil de chegar é atravessar o mercado...
Ela se pôs a rir.
—Só tenho três libras, monsieur... Senhor Fordham.
—Robert.
—Robert — Gostava desse nome. Pronunciou-o a sua maneira, do modo francês, para que soasse correto aos seus ouvidos. — Tenho três libras e seis pences. Seria estúpido esbanjar esse dinheiro. Caminharei.
Ele franziu o cenho.
—Não pode caminhar desde Dover até Londres.
—Claro que sim. Caminhei até aqui do sul da França, exceto alguns lances em que fui de carruagem, e tenho que lhe confessar que a melhor parte foi quando caminhei. Não é nada ir caminhando até Londres.
Era tão alto que era capaz de dar passos lentos e deliberados e mesmo assim seguir o ritmo dela.
—Nesse caso, vá pelo caminho de Canterbury. Mostrá-lo-ei.
Logo nada disse enquanto lhe mostrava a cidade, explicando rua detrás rua, até que finalmente assinalou o caminho para diante. O caminho de Canterbury subia diretamente pela colina e não parecia fácil, o que fazia que fosse como todos os caminhos com os que se deparara em sua vida. Quando se virou para lhe agradecer, ele já partira. Não tinha esperado para despedir-se.
Viu como dava pernadas resolvidas em direção ao porto, seu gorro negro e seus ombros se sobressaindo dentre o resto da gente na rua. Era uma vista agradável, forte e moreno, musculoso depois de levar cargas ilegais por toda parte. Ser contrabandista era uma boa opção de vida, desde que não o enforcassem por isso.
—Isto é injusto — comentou em voz baixa, a ninguém em particular. Às pessoas a que queria evitar a cima de tudo, como Leblanc, por exemplo, encontravam-na em todas as partes. Mas alguém como Robert Fordham se afastava uma hora depois de salvar sua vida.
Sem dúvida estaria casado com uma das mulheres dessas casas de pedra e teriam três meninos pequenos com olhos da cor da piçarra. Agora mesmo se apressaria em voltar para casa com eles. Entreteve-se enquanto subia o caminho pela colina para sair de Dover, perguntando-se qual dessas casas seria sua e o que lhe teria preparado para o jantar a boa mulher que era sua esposa.
Os escarpados brancos ao seu redor tinham uma estranha cor clara, como se fossem feitos de neve velha. Os pássaros sobrevoavam todas as cúpulas. O oceano as suas costas tinha um tom azul esta tarde, como as cálidas águas do sul. Afastou-se de Dover, recordando os escarpados da Itália e França, pensando no historiador romano Tácito, que tinha escrito sobre a Inglaterra, e perguntando-se onde iria ver Soulier para completar seu trabalho em Londres.
É obvio tinha que encontrar um lugar seguro, mas também devia ganhar a vida, pois já não podia se manter roubando segredos. Talvez pudesse ser cozinheira.
Ainda podia ver o mar quando se deu conta de que a seguiam.


Capítulo Dezoito
Grey alcançou Fletch a uma boa distância fora de Dover, numa clareira aberta, no alto da colina por onde transcorria o caminho para Canterbury. O mar era uma linha plaina e azul no horizonte. Fletch tinha conseguido que o levasse num carro carregado com verduras, mantendo uma boa postura, jogado entre as folhas dos repolhos, com uma pequena luneta de bolso. Era um homem imaginativo, este Fletcher.
Estava montado no cavalo de Fletch. Não tinha sentido ser chefe de seção se não poder tomar emprestado um cavalo de vez em quando.
Fez um gesto com os dedos como se fossem umas tesouras quando passou ao lado do carro, indicando a Fletch que não tinha que seguir Annique. Por ser um homem pacífico, ignorou o gesto que lhe devolveu Fletch. Com o tempo recuperaria seu maldito cavalo. Estalou a língua ao cavalo castrado para que avançasse com passo enérgico.
Ele soube quando ela notou sua presença. A sensação se deslizou por todo o corpo dessa figura à distância, como a calma que se apropria do cervo quando cheira a presença do caçador que o espreita. Meio segundo depois ela relaxou, da mesma maneira sutil. Devia ter averiguado quem era. Fez tudo isso sem se virar para olhar. Annique Villiers era uma agente incrível.
Quando ele chegou até onde se encontrava, ela disse:
— Está me seguindo.
—Não, não o faço. Estou ao seu lado — Desmontou e passeou junto a ela, segurando as rédeas.
Nunca antes esteve tão impressionado por ela. Com esse xale insípido, e tecido à mão sobre a cabeça, fundia-se com a paisagem em tons marrons e pardos, como se fosse uma codorna. Converteu-se numa mulher de campo coberta de pó. Um homem podia cavalgar ao seu lado e não vislumbrar absolutamente sua beleza.
— Isso é um sofisma, Robert Fordham. Por que está me seguindo?
—Para protegê-la, até que chegue a Londres.
—O problema é que falo muito — Suspirou e seguiu caminhando, olhando para frente. — Se pudesse manter a boca fechada, não me meteria nestas situações. Monsieur, você é muito amável, mas não necessito do seu amparo.
Tinha-o chamado «monsieur» na França. Não queria despertar essas lembranças.
—Robert.
—Robert — Aceitou de boa vontade.
Cada minuto que passava, ele se convertia, em todos os seus sentidos, em Robert. Começava a ser alguém conhecido. Muito em breve seria impossível vê-lo como qualquer outro que não fosse «Robert». «Robert...», seu nome, em sua boca, era como uma carícia, alargando a pronúncia do «r» nos dois extremos.
—Durante toda a minha vida participei de jogos perigosos e ainda ninguém conseguiu me matar, nem sequer monsieur Leblanc, que é enérgico e está decidido a fazê-lo. Preferiria que me deixasse continuar sozinha.
«Não enquanto viva».
—Não.
—É tudo o que vai dizer? Et bien, se eu falasse tão pouco como você, me colocaria em menos problemas.
Deteve-se para recolher um caule da erva alta que crescia ao lado do caminho, selecionou-o cuidadosamente dentre outros. Voltou a andar, cortando o caule com uma unha.
—Vou explicar-lhe uma coisa, senhor Fordham: estou extremamente agradecida a você por ter salvado a minha a vida, mas não vou me deitar com você.
Ele já tinha provado um pouco de sua franqueza devastadora enquanto a tinha retido prisioneira na França.
— Não pedi que faça isso. Sempre é tão direta?
Ela encolheu os ombros.
—É o inglês, é impossível ser sutil e dizer coisas bonitas neste idioma, que não é uma língua delicada como o francês. Além disso, pouco falei inglês desde que era uma menina, só o tenho lido — Fez um gesto com o caule de erva. — Devo dizer uma coisa, inclusive com o risco de ser indiscreta. Não me deitarei com você, Robert. Perde tempo... A menos que desfrute fazendo mal e forçando às mulheres.
—Não faço mal as mulheres – isso era uma mentira. Tinha segurado Annique com força suficiente para deixá-la encolhida de dor, respirando com dificuldade. Embora tivesse uma verdade irônica que lhe dizer. — Não vou tocá-la.
—Então não entendo o motivo pelo qual está aqui.
—Há três homens que tentam matá-la.
—São muitos mais de três, Robert — Pensou nisso durante os seguintes noventa metros, mordiscando o caule de erva, lançando para ele olhares cheios de interesse de vez em quando. — Sabe uma coisa? Acredito que é sincero. Mas não é necessário. Tenho mais experiência que você nisto. —Tirou o caule de erva da boca e se dedicou a enrolá-lo ao redor de seus dedos. O extremo cheio de penugem saiu dando voltas pelo ar como um brinquedo infantil. — Você é... é muito alto, valente e bom de briga. Mas os homens que me perseguem são malvados e estão completamente entregues à tarefa que têm nas mãos. São meus atos que têm feito que me sigam, não é problema seu. Eu não gostaria que lhe fizessem mal.
Essa mulher estúpida estava mais preocupada com um bruto musculoso do que com sua própria pessoa.
—Não é fácil me machucar. Posso levá-la a cavalo? Aqui Harding... —Não tinha nem idéia de que nome tinha dado Fletch ao cavalo. Seu professor de latim em Harrow se chamava Harding. —.. Estará encantado de levá-la.
—Não escutou nenhuma palavra que disse. Tenho que dizer que a Inglaterra é um lugar ainda mais estranho do que tinham me contado. Não acredito que os ingleses deixem de lado todos seus problemas para caminhar até Londres com uma mulher que acabam de conhecer num beco. Não é lógico.
Era complicado mentir para Annique.
— Recorda-me a alguém que conheci uma vez, uma mulher — Esperava que a indecisão que se percebia em sua voz soasse como se estivesse tentando recuperar antigas lembranças, em lugar de inventar-lhes enquanto andava. — Não na Inglaterra. Ela era francesa. Tratei-a mal e não posso voltar no tempo e mudar isso — Se parecia bastante à verdade. O que já tinha feito a Annique o carcomia por dentro como o ácido. Talvez sua voz transmitisse seus remorsos.— É muito tarde.
—«Mas isso já faz tempo e em outro país» —citou em voz baixa, — «de todos os modos, a fulana morreu» —Lançou um olhar perspicaz a seu rosto. — Perguntava o motivo pelo qual me olhava desse modo tão estranho quando estávamos na cidade.
— Parece-se com ela.
—Não quero me parecer com ninguém. Já tenho suficientes problemas sem ter uma... sósia maligna que me cause mais.
Talvez não fosse convincente. Esperou, recordando que devia manter a respiração sob controle. Obrigou-se a olhar ao cavalo, ao chão. Os homens que mentiam preferiam olhar à cara da pessoa a quem mentiam.
— Cometi enganos — disse ela depois de um bom momento, que me perseguem de noite e que não posso apagar — Percorreu todo o comprido caule de erva com a unha, franzindo o cenho. — Salvou-me a vida. De todos os modos, não posso acreditar que...
— Ia partir de Dover amanhã — A forma racional e lógica de pensar de Annique. Uma razão prática e sensata a convenceria. — Vou visitar minha casa, em Somerset. De qualquer modo, tenho que atravessar Londres. Cairia bem ter companhia.
Deteve-se aí de propósito. Como o Caçador de Falcões sempre dizia, quando se trata de mentiras «não as adorne».
—Bom, partir um dia antes não é uma mudança importante. Talvez parecesse a você que era obra do destino quando me conheceu. Eu, pessoalmente, não estou acostumada a acreditar nessas coisas, mas sei que há quem o faça.
Ela dirigiu seu olhar para os campos, pensando nesses temas recônditos e ardilosos nos que pensava Annique.
«Confia em mim, Annique, só desta vez. Acredite em mim. Leve-me até os planos Albión. Faça com que isto seja fácil para os dois».
Então ela assentiu.
— Viajarei com você até Londres, se for o que tem que fazer para limpar essa mancha de seu passado. Devo-lhe isso. Mas Robert... seria mais inteligente de sua parte retornar a seu navio, com sua família e esquecer essa mulher que faz tempo já fez as pazes com o criador.
— Se consigo que chegue a salvo em Londres já será suficiente. Isso é o que tenho que fazer.
Ela devia ter percebido a determinação em sua voz ao pronunciar essas palavras, mas não a assustou. Bem. Estava farto de assustá-la.
— Bon. Nesse caso viajaremos juntos, até que cheguemos a Londres. Estou-lhe agradecida por sua companhia.
Virou o rosto, para o norte, para o caminho que tinha adiante, medindo a distância sob o céu. Finalmente, estava vendo à autêntica Annique Villiers. Assim tinha sido ela todos esses anos nos que percorreu os atalhos da Europa, junto aos soldados atrasados do exército, vestida como um menino, mordiscando algo que tinha arrancado no campo. Um par de cotovias levantou o vôo de repente do campo que tinham a seu lado e voaram desenhando um padrão complexo para uma fileira de árvores. Iluminou-lhe o rosto ver os pássaros, desfrutando do momento, armazenando outra lembrança em seu interior.
—Vou gostar da Inglaterra — Começou a caminhar de novo. — Estou aqui há quatro horas e já me encontrei com três homens que tentaram me matar e conheci um que me comprou caracóis. Para o bem ou para o mau, este não é um país que me ignore.


Capítulo Dezenove
A estalagem do Louro Verde, Dover, Inglaterra
—Vou fatiar o seu cangote — Henri tinha o rosto decorado com um horrível mapa de cicatrizes. Sua mão, colocada sobre a mesa, estava enfaixada com um pano branco.
— Acaso acredita que os ingleses não têm ouvidos? — Leblanc olhou ao seu redor. Os pescadores se abarrotavam de cebola e pescado frito. Na mesa da esquina, uma mulher bebia genebra. Ninguém estava escutando. — Muito em breve terá sua oportunidade.
—Primeiro, ocupar-me-ei dele. Vou estriá-lo como a um cavalo e deixá-lo no chão suspirando num atoleiro cheio com seu próprio sangue.
— Como fez antes?
—Ninguém nos informou que este espião inglês estava em Dover. Como ia eu esperar que...?
— Queixa-te como um cão — Leblanc se inclinou sobre seu copo de rum aguado. O braço doía de um modo insuportável. Estava na Inglaterra, derrubando-se na porcaria dos portos, em perigo. As estúpidas e torpes autoridades britânicas podiam detê-lo e interrogá-lo a qualquer momento. Annique tinha conseguido escapar. Tudo isto era culpa de Henri. — Ela se dirige para ver Soulier, em Londres, para lhe contar mentiras sobre mim. Esse foi seu objetivo o tempo todo, estou certo.
—Mas não leva consigo os documentos. Podíamos ter ficado na França, se for aos documentos o que procura — Henri pensou, sem duvidar, que tinha falado com inteligência.
—Esquece os documentos. O que importa é que ela morra. Não deve chegar a Soulier.
—Estamos em seu território. Quando se inteirar do que fizemos...
—Ela é minha agente, atribuíram-me isso. Posso fazer o que quiser com uma fugitiva que cruzou o Canal sem minha permissão — Leblanc terminou sua bebida de um gole. Que não daria por uma hora a sós com essa raposa. Uma hora. — Informei a Fouché o que ela tem feito. Quando o diretor da polícia secreta me apoiar, dar-me-á igual o que pense Soulier. Merda. Quem pode beber isto?
—Há conhaque — Henri procurou à garçonete.
—É água de lavar porcos. O rum, a genebra, a cerveja e o conhaque têm sabor de urina de cavalo neste país pestilento. Vá para leste, com seis homens, seguindo a linha de costa. Envia o resto para oeste. Estará agachada junto ao fogo na cabana de algum pescador, pensando que é mais esperta do que eu.
—Por que ia ela se esconder em alguma aldeia onde todo mundo olhe, espie e fale? Irá a Londres, procurar Soulier. Quando ele souber que estamos na Inglaterra...
—Já basta — Leblanc deixou cair com força o copo vazio sobre a mesa.
Um pescador, ao que seguiu outro e logo outro, olhou em sua direção. A prostituta da mesa na esquina deixou rapidamente uma moeda junto a sua jarra e partiu. Inclusive o dono da estalagem jogou uma olhada com receio.
Leblanc agüentou sua ira enquanto lhe chiavam os dentes. Não podia dar ordens para que jogassem essa escória à rua e lhes dessem uma surra. Ele, Jacques Leblanc, amigo de Fouché, não tinha nenhum poder aqui. Tudo... tudo... se estragou. Tinha perdido qualquer oportunidade de conseguir os planos Albión. Essa maldita raposa, Annique, iria correndo ver Soulier para queixar-se. Deveria havê-la matado, a ela e também a Vauban na estalagem em Brujas.
Henri não queria parar.
—Só digo que deveríamos vigiar o caminho a Londres...
—Não sou idiota, Bréval. Eu mesmo vigiarei a estalagem de onde parte a diligência para ver se ela vai a Londres daí. Você vigiará a costa e se esquecerá dos documentos.
Tinham perdido os planos Albión. O pagamento por esses planos, que deveria ter sido para ele, perdeu-se. Sua vida corria perigo. Annique tinha muitos pecados pelos quais pagar.
Em qualquer momento, ela saberia da morte do Vauban. Não devia chegar até Soulier para lhe murmurar ao ouvido.
—Terá que matá-la assim que a veja, não há necessidade de ser amável ao fazê-lo... Deixe que cada segundo que tarde em morrer equivalha a uma vida inteira de dor.
—Soulier gosta dela. Ficará furioso.
—Quando ela for um cadáver, já não importará de quem Soulier goste.


Capítulo Vinte
Sob a tênue luz da lua nova, Robert cuidou do cavalo Harding. Escovou com atenção e meticulosamente das crinas até as ancas do animal, depois na garupa e na cauda. Como se costuma dizer, de cabo a rabo. Ela pensou que o cavalo, chamado Harding, tinha gostado dessa atenção. Parecia muito seguro de si mesmo.
—Mima muito esse cavalo — Observou sua silhueta desenhada contra o céu cinza. — Não trabalhou absolutamente, somente deu um pequeno passeio.
— Eu gosto de cuidar dos animais.
Ela imaginou que uma vida rodeada de peixes e caixas de conhaque de contrabando não lhe permitiria ter tempo para cuidar do gado.
— Vem de sua casa, o cavalo Harding? É talvez um dos cavalos que cria seu irmão, esse que ama tanto aos cavalos?
— Não, Harding não é um de seus cavalos. Peguei Harding em Dover. Embora Spence gostasse dele. Se o levasse para casa, meu irmão tentaria ganhá-lo numa de suas partidas de cartas, faria uma cilada, certamente, já que seria algo meu que ficaria em casa.
—Deve ser interessante ter irmãos e irmãs. Freqüentemente o pensei.
Durante quatro longos dias Robert expôs toda sua história para ela, como um presente. Era como se tivesse esperado toda a vida para ter a oportunidade de contar sua história para uma imunda espiã francesa, enquanto caminhavam pelos poeirentos caminhos de Kent. Ela agora sabia que existia a casa em Somerset, onde ele se criou, onde sua mãe, seu pai, seu irmão mais velho Spence e sua irmã mais nova ainda viviam.
Podia imaginar essa casa de Campo, grande e velha, com cavalos no estábulo e as galinhas das quais sua mãe estava orgulhosa, cada uma tinha nome e era de uma variedade especial inclusive uma de Constantinopla, que não se parecia absolutamente com as outras galinhas. Agora sabia que Robert tinha sua própria casa, um lugar chamado Tydings, onde uma tia cuidava dele, e, que, além disso, tinha outro irmão no exército e outras três irmãs, mais jovens que ele, mas que já estavam casadas e não viviam em casa.
Era ao mesmo tempo uma alegria e uma carga saber tudo isso. Recordar-se- ia quando se despedissem e faria com que se sentisse imensamente triste.
Tinham acampado a uma boa distância do caminho, no profundo dos campos que acabavam de ser colhidos. Moveu as brasas com um pau bicudo. Tinha preparado esse tipo de fogueiras limpas e invisíveis milhares de vezes. Logo que produziam fumaça. Não saltavam faíscas na noite, avisando do lugar no qual se encontravam.
Robert terminou de escovar Harding e se sentou junto ao fogo com ela.
—Essa é uma melodia bonita. Qual é?
—Não me tinha dado conta que estava cantarolando. É uma canção para meninos — Ela se sentou, apoiando-se sobre os calcanhares. — Deixe que pense... Em inglês seria algo assim como: «Deixem que os meios fios se encham do sangue dos aristocratas. Lavemos nossas mãos em suas vísceras. Deixem que todos os que se opõem à voz do povo morram como ratos». E há muito mais.
—Céu santo.
—Exato. Embora a melodia seja preciosa. É uma pena que minha voz soe como uma gralha, coisa que muita gente me disse. Estávamos acostumados a cantar essa melodia, saltando à curva. «Os gordos aristocratas morrerão, um e dois. Os traidores morrerão, três e quatro». Quando eu tinha seis anos todos, sem exceção, nós éramos dos mais sanguinários. Foi o ano em que se tomou a Prisão da Bastilha. É estranho saber que todos esses meninos com quem brincava estão agora no exército ou morreram.
—Uma época interessante.
—Estar em Paris naqueles dias era estar no eixo central da história. Os sonhos eram tão reais como as pedras da rua. Havia milhares de possibilidades. Isso é o que os ingleses não compreendem. Nós, franceses, não nos deteremos até que todo o mundo seja conquistado pela Revolução. Napoleão arreou esses sonhos e os conduz para cumprir seus próprios propósitos. Não sabem o que enfrentam.
—Acredita que a paz não durará?
Ela sabia que a paz não ia durar. Os planos Albión fixavam uma data para a invasão. Sabia até qual era o caminho por onde as tropas da Grande Armée partiriam. Algumas dessas tropas, um terço do exército, assassinaria e saquearia a seu passo por este mesmo caminho.
—A paixão de Napoleão é conquistar, não governar. Não haverá paz — O fogo emitia vaias e chiados reconfortantes enquanto ela dava a volta às brasas. Tinha visto casas e aldeias queimadas até que não ficava muito mais que isso, brasas. — Prepara-se de novo para a guerra, inclusive enquanto estamos aqui sentados.
—Possivelmente escolha outro país para invadir, um que tenha menos água ao seu redor e menos navios na armada.
—E um melhor clima — tinha chovido esse dia durante um tempo e o mesmo ocorrera no dia anterior. Não gostava de estar sempre molhada.
—Um desses escritores romanos disse algo sobre a chuva na Inglaterra. Deformado pela chuva... Ou algo assim. — surpreendeu-se a princípio de que Robert Fordham, um contrabandista, filho de um pequeno granjeiro do Somerset, tivesse recebido esse tipo de educação. Possivelmente lia muito quando estava no mar.
—Esse foi Tácito. Disse que o céu neste país estava deformado por nuvens e chuvas constantes, mas o frio nunca é extremamente rigoroso. Suponho que as coisas não mudaram muito nos últimos mil anos. Certamente continua chovendo.
Ele tinha tirado o pulôver negro para cuidar do cavalo Harding, desabotoou a camisa, deixando boa parte do peito descoberto e tinha subido as mangas por cima dos antebraços. Tinha a pele morena, esse tom que adquirem os homens que trabalham no mar, com uma pele áspera, resultado do vento e da água salgada. A tênue luz amarelada do fogo era como uma sombra escura e enorme, com a força das rochas e os troncos das árvores, inflexível e muito formoso.
Houve um tempo no qual ela teria admirado seu corpo ou a força de seu cavalo e teria sido o mesmo. Então ainda possuía certo tipo de inocência. Os dias que tinha passado com Grey fizeram-na mais sábia e imensamente mais imprudente. Agora, quando olhava Robert Fordham, ficava melancólica e desejava aquele homem como uma colegial, sentindo um calor dos mais vergonhosos em seu interior.
Não se obrigou a dar a volta e a desviar o olhar para outra coisa que lhe fosse menos inquietante. Tornou-se fraca.
O fogo ia ganhando força, dentro de pouco poderiam usá-lo para cozinhar.
—Não estaria bem que nós, franceses, invadíssemos este país — Olhou para Robert. — Sorri, mas isso não seria óbvio se você fosse francês. Certamente, os ingleses estariam melhores sem esses principezinhos alemães idiotas que gastam tanto dinheiro público. Deveriam ter uma república e que todos votassem.
—Isso é o que Napoleão nos trará? —disse Robert em voz baixa.
—Assim é como começará — Sua vida seria mais simples se não pensasse tanto . — Napoleão melhorará alguns costumes aqui. Mas será necessário pagar um elevado preço por isso. Quando vier a esta ilha verde, queimará todas essas preciosas granjas que vimos hoje.
—Não pode detê-lo, Annique.
Sim podia. Dependia de sua decisão se as granjas seriam queimadas e se as rechonchudas granjeiras e seus filhos descalços arderiam com as casas. Converteu-se em sua decisão no momento em que Vauban pôs os planos Albión em suas mãos na sala da estalagem em Brujas, fazia seis meses.
Se entregasse os planos Albión para Inglaterra, seria uma traidora. Morreria por isso. Tirariam Vauban da cama para que sofresse a vergonha e morresse na guilhotina. Além disso, a França correria um grande perigo por culpa da informação detalhada que teria dado aos britânicos. Mas os meninos nessa granja branca viveriam.
Ou possivelmente não. Não podia sabê-lo. Talvez fossem outros meninos, igualmente inocentes, os que morreriam em seu lugar. Isto de intrometer-se no destino das nações era um assunto sombrio.
Até fazia um ano, ela teria ido a Londres, ver Soulier, teria deixado tudo em suas mãos acatando suas ordens. Mas já não era uma menina e sua resposta não podia ser tão simples.
Deu a volta a uma pequena parte quadrada de carvão de um tom alaranjado brilhante para colocá-lo com cuidado de lado, dando-lhe a maior atenção e sem conseguir com isso absolutamente nada relevante. Depois de tudo não tinha que decidir hoje.
Robert procurou dentro da cesta que tinha comprado fazia uma hora nessa mesma granja que estava baixando o caminho. Debaixo do pano vermelho com estampado de flores que tinham colocado em cima, a cesta continha os melhores manjares: salsichas, pão e pequenos ovos marrons. Esta era outra dessas coisas que não sabia como assumir.
Viu como ele investigava o conteúdo da cesta.
—Eu não atreveria a pedir estes mantimentos. Suponho que sabe que foi você muito valente.
—Por desafiar ao terrível granjeiro de Kent em sua guarida? —Estendeu o pano no espaço que havia entre os dois. — Não são tão perigosos.
—Podia ter soltado a seus cães para que o atacassem. Eu, pessoalmente, não gosto dos cães.
—Recordá-lo-ei.
O cabelo em seu peito adquiria um tom dourado quando a luz do fogo o iluminava. Imaginou o que aconteceria se alargasse sua mão até a sua camisa e desabotoava os últimos botões, tirando-a. Quase podia se ver fazendo isso.
Ao tato, lhe pareceria peludo, com esse pêlo em peito, mas sua pele teria a aspereza do couro. Grey levava um casaco de couro. Tinha-a envolto nesse casaco, mantendo-a quente enquanto ela entrava e saía do estado de inconsciência produzido pela droga. Apoiava-se sua bochecha em Robert, seria como sentir esse couro, com uma suavidade que não ia além da ação de deslizar-se levianamente por sua pele. Teria fortes músculos debaixo da pele, igual a Grey. Suas mãos também seriam como as de Grey, ásperas pelo trabalho que realizava, mas ele teria muito cuidado de torná-las suaves quando as colocava sobre ela. Se ele colocava essas mãos sobre seus peitos...
Fechou os olhos. Apertou seu corpo de um modo indecoroso e sentiu como se umedecia. Não sabia se desejava a Grey ou ao Robert. Certamente se estava voltando louca.
—Pão, salsichas — Robert tirou o pão da cesta enquanto o nomeava e o depositou sobre o pano vermelho, já estou farto de amoras de sebe e maçãs ácidas. Essa não é vida para um homem.
—Bien sûr. Mas pagou a esse granjeiro. Não tenho dinheiro para comprar esta comida, logo que tenho três libras...
—E seis pences. Sim, já me há isso dito. Eu tenho um pouco mais.
—Devo felicitá-lo por isso, mas não posso aceitar esta comida sem pagar minha parte e não posso fazê-lo.
—Enfrentas um dilema moral.
—Há-os por toda parte se a gente quer encontrar um. Embora, talvez, tão só esteja atuando bobamente.
—Isso me parece. Também temos ovos. — Os ovos estavam no fundo da cesta, colocados em um ninho de palha que a mulher do granjeiro tinha preparado para eles. — Havia um homem, em Delfos, que era capaz de diferenciar os ovos.
Tentava distrai-la. Descobriria mais adiante que isso não funcionava.
—A história é do Montaigne, diz o seguinte: «Nunca confundiu um com outro e embora tivesse muitas galinhas, sabia que galinha tinha posto cada ovo». Não estou segura se acredito. Mas claro, não conheço tanto nenhuma galinha. Montaigne não me serve para saber o que fazer com esta comida, embora, é obvio, era um homem muito sábio. Já deixei que me trouxesse caracóis. Não estou acostumada que homens desconhecidos me alimentem.
—Acredita que trato de seduzi-la com uns ovos fervidos? —Agarrou um ovo e o ofereceu, segurando-o com três dedos.
—Não seja idiota — De repente se sentiu muito zangada. Agarrou o ovo que lhe oferecia e seus dedos não tocaram os seus, nem sequer um mínimo roce. Ela podia ter sido uma nuvem de vapor e teria dado no mesmo. — Você não está tentando me seduzir absolutamente.
—Não — Sorriu ele. Era completamente cordial e não a desejava minimamente. Era uma chateação tremenda. — Querida Annique, se estivesse aqui acampando com seus amigos, os ciganos... — tinha contado essa parte de sua vida, pois lhe falara como havia sido criada naquela granja em Somerset, teria escapulido esta noite até o galinheiro desse granjeiro tão simpático para roubar alguns de seus ovos?
—Ovos não. Os ciganos não comem essas coisas. Sabe que é possível distinguir um ovo cozido de um cru quando se fazem uns malabarismos com ovos? —Lançou o ovo ao ar e o apanhou algumas vezes. Demonstrou ao Robert sua habilidade com os malabares enquanto caminhavam. Ela pensava que o tinha impressionado. — As galinhas ficariam nervosas.
—Nesse caso, pode fingir que me rouba a comida. Isso acabará com seus escrúpulos.
—Utiliza-se dos argumentos mais falsos, mas não deixam de ser complexos — Quebrou o ovo, ao lhe dar um golpezinho contra a lateral da cesta e atirou as cascas ao fogo.
—Tome, roube também um pouco de meu pão. É uma excelente fogueira. Aprendeu isto dos ciganos?
—Não me lembro de ter preparado nenhuma fogueira quando vivia com os ciganos, nem tampouco ter estado perto de uma. As mulheres não gostam que as crianças aticem o fogo, enchem a comida de cinzas. Este truque... —Rodeou com o pau o buraco que tinha escavado na terra para preparar a fogueira e mantê-la oculta aos olhos, e, invisível na noite. — Aprendi de um velho soldado no Tirol. Pelo que sei, ainda seguirá no exército, sobrevivendo. Era quase impossível matá-lo, mas não acredito que era muito bom brigando. Evitava as brigas de um modo surpreendente para ser um homem com uniforme. Disse-me que não gostava de matar às pessoas.
—Você matou alguém quando foi um soldado? —Ele elevou a vista das salsichas que assava no fogo e, como estava acostumado a ocorrer, a expressão de seu rosto era impenetrável.
— Sabe o que? Acredito que nunca matei ninguém, exceto a aqueles que morreram enquanto operava — Atiçou o fogo. — Talvez, com o tempo, alguns homens com os que me zanguei morreram, devido às feridas que lhes provoquei com minhas facas, mas isso é algo que não se pode evitar. Em minha opinião já há muita morte neste mundo.
—Tenho que reconhecer que estou de acordo com isso.
—Essa foi a última coisa importante que me disse meu pai antes que o enforcassem. Que assassinar é a resposta estúpida, não a inteligente. Descobri que é verdade.
—Alguma vez matou alguém? —Seus olhos cravaram-se com dureza nela, procurando, medindo.
—Não que eu saiba — O olhou, do outro lado do fogo. — Mas lhe direi uma coisa que não é tão bonita sobre mim, Robert. Esse homem, o primeiro que me atacou... Cortei o tendão de seu polegar. Esse tipo de ferida não se cura. Nunca mais voltará a usar a mão direita para segurar uma faca nem para nenhuma outra coisa. Nunca mais em toda sua vida. Eu não sou uma boa pessoa.
— Quem sabe sua próxima vítima não esteja de acordo com você. Já conseguiu me expor um de seus enigmas morais. Pegue uma salsicha enquanto penso sobre isso — A segurou para ela, presa no extremo de um pau para que pudesse rodeá-la com o pão e tirá-la do pau. Era o máximo que ia se aproximar dela.
Não ia tocá-la. Não tinha mencionado uma esposa, mas o mais provável era que tivesse uma e o fora fiel. Essa esposa era uma mulher com sorte.
Tinha aprendido tudo sobre o Robert Fordham durante esses dias nos que tinham caminhado juntos. Conhecia o atalho de cada uma das rugas de sua face. Tinha uma tênue cicatriz em curva na mão esquerda, provavelmente um anzol que tinha dirigido sem cuidado. Ela sabia, de cor, como se movia. Freqüentemente não podia respirar quando ele girava para olhar o caminho detrás deles e seus músculos dançavam ritmicamente como uma poesia.
Este era o presente que supunha sua memória. Agora já tinha Robert gravado em seu interior, inclusive as linhas da palma de sua mão. Não o esqueceria.
—Chegaremos a Londres amanhã.
—Antes do meio-dia, se mantivermos este ritmo. Planeja passar a noite sob uma ponte?
—Aí ou em um beco. Não dormirei muito. O pequeno assunto que tenho que tratar não me tomará mais que uns dias. Logo partirei rapidamente. As cidades não são amáveis com uma mulher que está sozinha e não tem dinheiro.
—Mostrar-lhe-ei um lugar que conheço perto de Covent Garden. É um lugar seguro.
Desejava enormemente ficar com ele nesse lugar seguro perto de Covent Garden. Deu uma dentada à salsicha e mastigou.
—Esta salsicha tem pimenta inglesa. Em ocasiões me parece que a cozinha inglesa é interessante. Robert... —alegrou-se de que estivesse escuro. Há certas palavras que se podem pronunciar no escuro, mas que são impossíveis de dizer de dia. — Não pode vir comigo a Londres. Amanhã à primeira hora, quando entrarmos em Londres, despedir-me-ei de você, para que continue sua viagem para Somerset.
—Não, não o farei.
—Você sabe certamente, que o desejo — Suspirou.
—Sim.
—Estava segura de que sabia, porque não o ocultei de uma forma muito inteligente. Ao princípio, não fui capaz de reconhecer de tudo o que me ocorria e logo tudo era muito confuso. Compreenderá que não é algo importante.
—Sei.
—Acredito que isto aconteceu porque me salvou a vida e por culpa do homem que estava comigo na França. Não lhe falei dele.
—Não, não o fez.
Ela comeu lentamente, tentando encontrar as palavras corretas.
—Ele era um tipo de loucura que me sobreveio porque estava sozinha, não tinha amigos e corria um grave perigo. Ele me mudou. Deixou-me... suponho que poderia dizer-se que me deixou pronta para você. Como você me salvou a vida desse modo tão valente e é tão atraente e forte, deixei-me levar por este sentimento absurdo — Pensou durante uns instantes. — Cheguei a amá-lo de um modo complicado. Ainda o faço, mas descobri que isso não evita que deseje outros homens, o que é incômodo e humilhante. Minha mente se encontra num estado de grande confusão. Não deve prestar muita atenção ao que faz meu estúpido corpo.
—Não o farei.
Ela esperou um pouco antes de seguir falando.
—Nunca antes tinha desejado a um homem, nem sequer a um. É uma terrível debilidade moral desejar a dois homens. Não sabia que era este tipo de pessoa.
—Não é — Suas palavras foram curtas, secas e carentes de sentimento. — Não tem feito nada, de modo que não é esse tipo de pessoa. Esqueça-o.
Um contrabandista veria as coisas de uma forma assim simples.
—Essa é uma filosofia interessante e provavelmente correta a sua maneira. Deve afastar-se de mim, Robert. Completará a missão que sua consciência determinou no momento em que cruzarmos a Ponte de Londres. Não acredito que possa suportar muito mais que isto.
—Não vou tocá-la e sou suficientemente grande para poder deter seus avanços se perder o controle.
Ela não riu, porque isso só a animaria.
—Se vivo muitos anos para chegar a ser muito velha, possivelmente dentro de cem anos, mais ou menos, talvez possa entender o que acontece entre homens e mulheres. O que sei é que tocar ou não tocar não importa entre nós. Fomos além disso. Amanhã o terminaremos. Acredito que tampouco é bom para você estar assim.
—«Os homens morrem a cada certo tempo e os vermes os comem...».
—«Mas não morrem por amor». Já não estou tão segura disso como há uma ou duas semanas, quando minha vida era incrivelmente mais simples. Não acredito que alguém morra; entretanto, pode acabar louco.
—Arriscar-me-ei — Tirou sua salsicha do pau e a colocou dentro do pão com cuidado. Ele não estava precisamente rindo dela, mas uma faísca de diversão brilhava em seus olhos. — Assegurar-me-ei de que encontre um lugar seguro em Londres. Chegamos até aqui juntos. Que importância tem um dia mais?
Fez que parecesse sensato. Acaso tinha a menor idéia de quão fácil era para ele convencê-la de algo?
—É nessas ocasiões que sinto falta da minha mãe — Também era fácil lhe dizer as verdades simples. Era um sinal a mais de quão perigoso era este homem para ela. — Faz seis... não, cinco semanas desde que morreu. Sigo pensando, «deveria lhe dizer isto» ou «deveria lhe perguntar isto» e logo lembro que não voltarei a vê-la nunca. Mamãe sabia tudo o que deveria saber sobre os homens. Era muito inteligente. Dir-me-ia que não ficasse com você absolutamente, nem sequer uma hora.
—Não vou lhe machucar, Annique.
Não pôde evitar tornar a rir, embora ainda tivesse partes de salsicha dentro da boca.
—Isso é o que ele me disse. São quase as mesmas palavras. O homem na França que foi tão desagradável comigo e ao que amei em certo modo... ele disse isso. Você se parece um pouco a ele. Sabia?
As chamas fizeram que seus olhos brilhassem.
—Pareço-me com ele?
—É porque seus corpos são similares. Bom, um pouco. Eu diria que ele é ainda mais alto que você e incrivelmente forte. Embora, é obvio, você também seja forte. Mas seu espírito é diferente. Ele não era indulgente, não realmente, em nenhum sentido, é como tem que ser uma pessoa que ocupa um cargo como o dele. Além disso, ele é maior que você.
—Maior? —Robert a olhou fixamente, fascinado.
—Tem um cargo muito importante em seu trabalho. Deve ter oito ou dez anos mais do que você. Assim creio eu. Além disso, é um homem muito decidido, embora você também seja, um pouco; a diferença é que ele não se comporta de um modo tão amável. Também está o fato de que ele não cheira a pescado. Imagino que seja por seu pulôver, que é um objeto precioso e muito bem tecido, mas que necessita uma lavagem...
A bala passou vaiando. Acariciou seu cabelo como um inseto. Logo, a explosão do som esbofeteou sua pele.


Capítulo Vinte e Um
Seus reflexos a lançaram sobre o chão. Afastou-se engatinhando. Não havia árvores, ou arbustos, o campo era plano, sem nenhum lugar onde refugiar-se, onde esconder-se. Nada mais que escuridão que a protegesse. Escutou como Robert se afastava rodando a luz da fogueira.
Um homem surgiu dos campos negros e silenciosos, sua silhueta se desenhava sobre o manto de estrelas. A primeira pistola tinha errado o tiro. Pendurou-a do cinturão e tirou uma segunda pistola com a mão direita e logo a elevou.
Ela retrocedeu a toda pressa. As espigas de trigo rasparam sua pele. Tinha a faca debaixo da saia. Não podia alcançá-la.
O canhão da pistola a seguiu. O homem apontou com cuidado e de forma deliberada.
Não podia correr, virou-se para um lado e rodou. Lutou com o tecido da saia; ia muito devagar, muito devagar. A todos chega um último momento, no qual se movem com muita lentidão. Finalmente segurou a faca, virou-se para trás, escolheu o objetivo e o lançou.
A explosão da pistola estalou no meio da noite. Produziu-se um brilho de luz. Ela conteve o fôlego. Não podia sentir o lugar onde tinha sido atingida pela bala. Talvez fosse como diziam e morrer não doía.
Não. Era uma idiota integral. O homem tinha errado o tiro pela segunda vez. A menos que fosse um arsenal ambulante, ficou sem pistolas por um tempo. Suas mãos eram mais espertas do que ela. Já estavam rebuscando no chão para agarrar uma pedra. Encontrou uma. Levantou-se num impulso, segurando a pedra, pronta para lançá-la, esforçando-se por ver.
A figura escura caiu, dobrando-se. Caiu com a estupidez de uma coisa cujo espírito já se partiu. Estava bastante segura, quando se aproximou para olhá-lo, que o encontraria morto.
Robert passou correndo a seu lado, com uma pistola na mão. Não sabia, até esse momento, que ele tinha uma pistola. Corria como a água que flui, absolutamente silencioso, em direção ao homem que jazia no chão. Agachou-se e segurou a cabeça do homem, agarrando seu cabelo, e, logo a deixou cair sem força.
Incorporou-se e a olhou.
—Não está ferida?
—A bala não me roçou. Está morto?
—Muito — Limpou a mão esfregando-a contra o chão, logo foi pegar um dos paus da fogueira. Quando a moveu de um lado a outro, a lenha voltou a arder de forma brilhante. Retornou caminhando para colocar a acha acesa em cima dessa coisa que se assemelhava uma boneca de trapo caída na erva curta do chão. Quando se agachou, deixou a lenha no chão para que lhe proporcionasse luz.
—Não tem que ver isto — disse ele.
Mas ela seguiu avançando.
—Os homens que Leblanc enviou para me matar… a alguns deles os conheço desde que era uma menina. Assim devo vê-lo — O homem morto era pequeno e de pele escura, tinha uns trinta anos aproximadamente e lhe tinham disparado atravessando o centro de seu rosto. Ela não pensou que ele simplesmente tinha tido sorte com a pontaria ao disparar.
—Conhece-o? —perguntou em voz baixa.
—É um completo desconhecido — Afastou o olhar.
Esse homem tinha abandonado os círculos deste mundo. Já não faria nada mais nesta vida, nem bom, nem mau. Um final absoluto e doentio para tudo o que ele podia ter sido. Não deveria preocupá-la. Depois das batalhas tinha visto muitos homens mortos, que jaziam no chão do mesmo modo; todos eles valiam mais que este assassino de mulheres. Mas, nunca se acostumara à morte. Nunca.
Robert se ajoelhou e inspecionou sua faca, ali onde se sobressaía do cadáver.
—Falhou por uns doze ou quinze centímetros. Não é surpreendente, tendo em conta... —Fez uma pausa. Logo sua respiração chiou ao passar o ar através dos dentes. — Não falhou. Aqui é exatamente onde alcançou ao Leblanc.
—Na inserção deltóidea. Inutiliza o braço, como pode ver.
—Annique — disse com uma voz estranha e tensa, — quando alguém te aponta com uma arma, aponta à garganta, não ao braço, não aos nódulos, nem às malditas unhas do pé. À garganta. Compreende-o?
—É obvio — Não era o momento de discutir com ele. Em lugar disso, enfrentou a noite e não olhou enquanto ele recuperava sua faca e a limpava com a camisa do homem sem vida. Não lhe ofereceu sua faca, o que era um sinal delicioso de respeito de sua parte.
Ele murmurava entre os dentes enquanto esvaziava os bolsos do morto.
—Nada, nada, um cilindro de corda, uma cigarreira com tabaco, a chave de uma casa — Seria possível pensar que ele matava homens todos os dias – mostrava uma serenidade total enquanto revistava o cadáver. Sem dúvida, os contrabandistas eram homens desesperados e violentos. — Outra chave. Dinheiro inglês, dinheiro francês, pistolas Gribeauval. Estas são de primeira qualidade. A jaqueta é francesa, a camisa também. É alguém que a seguiu da França.
—Mas, é obvio, certamente ofendi aos ingleses, mas ainda não tanto como para que tentem me matar.
—Não vai nos dizer nada mais. Recolha suas coisas. Leblanc pode ter outros dez homens rondando na escuridão — Já estava em pé e afastando-se, desatando a rédea de Harding.
Demorou dois minutos, nenhum mais, para estar pronta, porque tinha tido que partir depressa de lugares em muitas ocasiões. Também, desde sua cegueira, tinha o costume de ser organizada e recordar sempre onde tinha colocado cada pequeno objeto. Estava pronta quando Robert montou e cavalgou para diante, estendendo o braço para baixo para ela subir na sela diante dele.
Era uma sorte que fosse uma mulher miúda. Harding podia lhes levar durante um momento, embora não fosse muito cômodo para o cavalo.
—Não sabia que tinha uma pistola. Onde estava?
—No bolso de meu casaco. Uma pistola que se engancha na manga, do manto. Não a tinha mostrado por que não queria assustá-la — Harding escolheu o caminho enquanto atravessavam os rugosos campos arados. Logo voltaram para o caminho e o animal pôde acelerar o ritmo.
O céu noturno estava espaçoso, com a curva da lua a leste. Dava suficiente luz para que as árvores desenhassem largas sombras no caminho. Sobre eles brilhavam dez milhões de estrelas.
—Nos enforcariam se nos apanham? —Na Inglaterra penduravam às pessoas por roubar pão. Certamente os pendurariam por matar a uma pessoa.
—Não.
—Parece estar muito seguro.
—Estou seguro. Não tem que preocupar-se por isso, Annique.
Estava sentado muito reto e rígido na sela. Talvez, como ela, sentia-se doente e sobressaltado pela presença da morte. Era possível que seus ouvidos estivessem sintonizados para registrar o som de cascos atrás deles, o que significaria que os estavam seguindo.
—Os granjeiros se aproximarão para olhar por culpa dos disparos ou terão medo?
—Não terão medo. Pensarão que se trata de um caçador furtivo de cervos.
Ele tinha razão. Isto era a Inglaterra. A segura e pacífica Inglaterra, onde ninguém pensaria que o som de uns disparos supusesse a morte de alguém na escuridão.
Ele trocou as rédeas de mão.
—Não lhe encontrarão até amanhã. Então já teremos nos afastado o bastante.
Foram a trote, batendo de uma maneira dolorosa. Finalmente, reduziram a marcha até que o animal foi a passo e ela deixou de aferrar as crinas de Harding, o que foi um alívio para ambos, disso estava segura. Inclinou-se apoiando sobre o peito de Robert. Seus braços a rodearam com força, como se temesse que, de repente, ela fosse desaparecer das suas mãos.
—Obrigado por me proteger — disse ela, — sinto que tinha que matá-lo, embora esteja acostumado a matar. É algo drástico matar um homem.
—Não me importa. Não cuidei muito bem de você, não lhe parece? Se esse homem tivesse tido umas pistolas mais precisas, você estaria morta. Sinto muito.
—Ao contrário, mon ami. Já me salvou a vida duas vezes. Essa mulher pela que se sente tão culpado, a que conheceu na França faz muito tempo. Em seu nome, dir-lhe-ei que já resolveu essa dívida. Pode dormir bem pelas noites.
—Ainda não.
Que homem tão teimoso. Este sempre carregaria consigo sua responsabilidade e a de outra dúzia de homens. Era uma sorte para seu grupo de contrabandistas o terem como chefe.
— Como queira. Não sou o suficientemente inteligente para ser sua consciência, de modo que não vou tentar — Ela bocejou. Agora que tinha deixado de tremer de medo, tinha sono. — Parece-me um homem bastante bom na maioria das circunstâncias.
Ele trocou de postura na sela, movendo-a para que estivesse cômoda apoiada nele. Ela pensou que ele começava a acostumar-se a tê-la em seus braços. Ele cheirava à pistola que tinha disparado e, é obvio a pescado. Se ela se casasse com um pescador, viveria em sua aldeia, em lugar de converter-se em espião, talvez a vida tivesse sido assim, cavalgando de volta a casa depois de fazer uma viagem os dois juntos. Exceto que ela teria lavado com mais cuidado esse pulôver para que ele não cheirasse tanto à sua profissão.
—Minha mãe tinha razão.
—Tinha-a?
Sentiu a imensa força que representava Robert atrás e de ambos os lados dela. Estava completamente segura, tal como diriam os ingleses. Bocejou. Não tinha pressa por falar. Depois de tudo, o que tinha que dizer não era uma pérola de sabedoria que pudesse mudar o mundo.
—Disse que os corpos dos homens eram iguais na escuridão. Não acreditei de todo, mas me dei conta de que tinha razão. A sensação deste momento é incrivelmente similar a que ocorreu quando o homem na França me tinha entre seus braços. Por que se chama Kent somente?
Seus braços a estreitaram com mais força.
—O que é o que se chama somente Kent?
—Os outros condados são Yorkshire, ou Cheshire, ou Wiltshire, ou o que seja terminado em «shire». Por que não se chama Kentshire?
—Não todos podem ser «shires ».
—Bom, isso o explica tudo.
Podia ouvir o movimento de sua respiração e o batimento de seu coração. Ele tirou seu casaco para protegê-la mais com esse objeto de modo que não passasse frio. Tinha salvado sua vida e estava muito cansada. Permitiu-se o prazer de imaginar, só durante esse breve instante, e mantendo o segredo em sua mente, que estava casada com Robert e que voltavam juntos para casa.


Capítulo Vinte e Dois
Ela dormiu, sustentada por uns braços fortes, enquanto Robert e o cavalo Harding percorreram os últimos quilômetros até chegar em Londres. Ele havia dito que a levaria a um lugar onde estaria segura e não lhe importava deixar que o fizesse.
Despertou à alvorada, com o ruído dos carros sobre a pavimentação e das mulheres com lenços brancos que vendiam conchas de sopa de leite das enormes leiteiras que tinham na parte traseira dos carros. O céu ainda estava tingido de rosa quando atravessaram Covent Garden, que não era nenhum jardim, mas um mercado de um tamanho incrível, cheio de flores, verduras, frangos em jaulas e vozes que se queixavam. Ali, ele comprou uns pães doces de um mascate, entregou um a ela, que ainda seguia montada sobre Harding, e que falava num inglês que não foi capaz de entender. Era doce e tinha passas e canela.
Mais à frente do mercado, as ruas eram mais silenciosas. Robert guiou Harding até uma rua estreita, larga e bem cuidada que agora se estendia entre casas; era maior que uma calçada, que ao se desviar dava num beco, um corredor atrás das casas, onde ficavam as carruagens e os cavalos. Voltaram a atravessar ruelas. Não era capaz de identificar nenhuma dessas ruas com o mapa que tinha na cabeça, que não incluía informação alguma sobre ruas tão pequenas. Foram ao oeste e para o norte, afastando-se do sol nascente. Todas as casas ao redor da praça verde que cruzaram tinham ainda as janelas fechadas e as cortinas puxadas. As únicas pessoas no lugar eram duas criadas que levavam cestas cheias de pão e que os olharam com curiosidade quando passaram a seu lado.
—Seus amigos são burgueses — Avaliou as fachadas cuidadas de estuque . — Acredito que não quererão ter convidados como nós, nem sequer na cozinha.
—Aceitar-nos-ão.
Então ia abusar da amabilidade de seus familiares, possivelmente um tio ou um primo. Alguém só poderia estar tão seguro de que ia ser recebido pela família. Mamãe virtualmente não lhe havia dito nada sobre seu passado nem sobre o de seu pai, nem sequer de que cidade procedia. Agora nunca saberia.
Outra ruela os levou na metade de uma rua com ares de suficiência, com tílias cercadas por cercas. Aborrecido e respeitável eram palavras gravadas em cada porta. Pouco tempo passado tinha em lugares como esse. Não esperava sentir-se cômoda nesse lugar. Apesar do que ele parecia pensar, seus familiares respeitáveis não iriam abrir as portas de sua casa a uma mulher de reputação questionável e aspecto não muito limpo.
—Já chegamos — Robert desmontou do cavalo pela garupa. Ela pensou que tinha muita experiência cavalgando para ser um homem do mar. Devia estar tão rígido e cansado como ela, mas os braços que a seguraram enquanto a descia do cavalo se mantiveram firmes e fortes como troncos de árvores. Sustentou-a inclusive depois de que seus pés tocassem o chão.
Era uma casa enorme, de cor branca e de aspecto muito sólido... Uma casa rica, nessa rua tranqüila. Ele atou as rédeas a um poste e foram para a porta principal, como convidados, subindo os sete degraus de pedra. Grades de ferro duro e aspecto severo protegiam as janelas. De modo que o proprietário era uma pessoa cuidadosa e desconfiada. Ela mesma era cautelosa, por regra geral, mas não acreditava que gostaria desta gente que se entrincheirava em casa de uma forma tão decidida contra os perigos do mundo. A aldrava da porta tinha a forma de uma rosa em espiral; era de latão, com uma grande riqueza de detalhes e estava extremamente polida.
Robert chamou de forma ruidosa. Depois de esperar um minuto, um menino abriu a porta. Vestia roupa cara, mas estava em mangas de camisa. Então, isso queria dizer que não era um servente, talvez fosse um membro da família. Era mais alto que ela, mas provavelmente fosse uns três anos mais novo. Embora fosse cedo, não parecia estar com sono. Começou a sorrir de um modo que dava a entender que monsieur Robert em efeito era bem-vindo nessa casa.
Voltou a pensar nas grades das janelas. Nenhuma das outras casas da rua tinha grades em suas janelas. Isso era estranho. Inclusive apesar de ser tão cedo, deveria haver um criado abrindo a porta, não um menino jovem com uma camisa fina de linho que examinava a rua com atenção e dava um passo para trás imediatamente para deixá-los passar.
Robert a empurrou rapidamente para que cruzasse a soleira e entrasse na casa, dentro de uma sala aborrecida e decorada sem gosto, fria pela falta de uso. A porta que se fechou detrás dela tinha fortes fechaduras. Eram uns ferrolhos caros. De um modo muito tênue, oculto pelos aromas da cozinha e da cera de abelhas, na casa se percebia o aroma da pólvora. Uma casa não deveria cheirar dessa maneira.
—Robert... —Tentou dar a volta e as mãos dele prenderam-na, para impedir que o fizesse. — Decidi que não quero ficar aqui. Não... Pára, Robert — Mas ele era muito forte.
O menino fechou a porta atrás deles.
—Os outros retornaram sãos e salvos, todos eles. Não te esperávamos tão cedo — foi abrir outra porta fechada com chave, que se encontrava no extremo mais afastado da sala.
O que outros? Estavam esperando Robert. Mas não havia dito que ia a Londres. Robert não era um homem que dissesse mentiras fáceis e simples.
—Não o entendo. Eu não gosto disto... —Dava igual o que ela dissesse, Robert a empurrou para que passasse diante dele pela segunda porta, entrando na casa.
O menino os seguiu e fechou com chave a porta uma vez que a cruzaram.
—Galba quer te ver.
Sua mente se fez em lascas, quebradiça como o gelo picado. Galba? Não. Estava completamente desconcertada pelo que estava ocorrendo e a mudança em Robert. Ele a obrigou a mover-se para diante rápido e com firmeza, descendo um amplo corredor com chão de madeira sem decoração, cheio do forte aroma de pão recém feito, ovos e presunto que provinha de trás de uma das portas fechadas. Ele não disse absolutamente nada.
No final do corredor havia uma porta entreaberta. Dentro, um homem estava sentado atrás de uma escrivaninha grande e abarrotada de coisas. De cada lado tinha papéis, pastas e arquivos empilhados em estantes. Uma estante muito alta continha o estojo de um violino. A janela gradeada deixava ver o jardim na parte de trás da casa. O homem deixou de escrever e elevou a vista assim que Robert a obrigou a entrar no quarto diante dele.
Ela já sabia. Não podia entendê-lo nem acreditar, mas sabia onde estava. O número junto à porta era o sete, este edifício era o número sete de Meeks Street. Esta era a fortaleza mais secreta do serviço britânico.
O homem depositou a pluma com cuidado no tinteiro. Talvez tivesse sessenta anos, era um homem de aspecto sólido e convencional, com a pele pálida e tinha o cabelo completamente branco pela idade. Tinha uns olhos brilhantes, sem misericórdia e inteligentes como os de um corvo, mas de uma cor azul intensa, a única cor em todo esse rosto. Seu olhar se fixou nela como se fosse um objeto que despertasse nele o maior interesse, e cuja chegada tivesse esperado por muito tempo.
Este era Galba, sem dúvida, era Galba, o chefe de todos os espiões ingleses.
—Alguém ficou ferido ao retornar para casa? —Robert a segurava, pressionando-a contra seu peito, rodeando-a com a força bruta de seus músculos enquanto ela tremia de forma descontrolada. Agora, finalmente, quando era muito tarde, ela o tinha reconhecido. Saber quem devia ser ele percorria seu corpo junto com a desesperança e o medo.
—Adrian sofreu uma lesão de pouca importância por sua ferida — disse Galba , — ao subir e descer de navios. Doyle apareceu ontem. Esteve um tempo em um cárcere francês. Não sofreu danos.
— Tivemos sorte — Robert a empurrou para diante, rígido e pouco disposto. — Senhor, eu gostaria de lhe apresentar a mademoiselle Annique Villiers. Annique, este, como sem dúvida já adivinhastes, é Galba.
—Mademoiselle, estou encantado de poder conhecê-la finalmente.
—É melhor que se sente — Robert a empurrou para que se sentasse na cadeira com uma almofada que havia em frente à escrivaninha e ficou em pé atrás dela. Manteve suas enormes, cálidas e implacáveis mãos segurando seu ombro. — Está assustada.
Como tinha passado isto? O mundo virou do avesso tão de repente... Como é que ela tinha chegado até ali, indefesa, para ficar apanhada nessa casa silenciosa e secreta?
Era Grey quem a segurava e também era Robert. Grey só tinha crueldade em seu interior, ali onde outros homens tinham o coração. Nenhuma das coisas que sabia sobre o Robert era certa ou real. Sujeitavam-na as mãos de Grey, mãos que tinham lutado com ela e a tinham consolado, mãos que conheciam tudo o que se podia saber sobre cada parte de seu corpo. Eram as mãos do Robert, cuja imagem estava gravada em sua memória como se a tivessem cinzelado. O mesmo homem. Não pensou que fosse possível guardar essa informação em sua alma sem que isso a destruísse.
Alguém entrou silenciosamente no escritório, atrás de Grey, e se colocou em seu posto do outro lado do quarto, inclinando-se de forma negligente contra a parede. Era um homem magro e jovem, com o cabelo negro, levava a vestimenta própria de um dândi de Londres. Não o reconheceu até que viu seus olhos. Então soube. Passariam anos antes que o resto de sua pessoa alcançasse a idade que transmitiam seus olhos. Ele sorriu ao vê-la, um sorriso cheio de arrependimento e um pouco de compaixão. Adrian.
Doyle também devia estar em algum lugar da casa. Tinha os inimigos mais temíveis alinhados contra si. Não existia nenhum papel que pudesse interpretar, nenhuma mentira que contar, que pudesse enganar a esses homens pacientes e duros. Era o camundongo apanhado numa casa cheia de gatos. Não tinha nenhuma possibilidade.
Galba golpeou brandamente a mesa para chamar sua atenção.
—Mademoiselle, quero que saiba que não desejamos lhe machucar. Não vou te ferir, sob nenhuma circunstância. É lógico que esteja assustada. Dar-lhe-emos tempo para que se acostume à situação.
Agora começaria o interrogatório. Seriam corteses durante um tempo.
—Esta situação não é tão nova para mim — A voz não se quebrou, pelo que deu graças ao Senhor. — Estive antes nas mãos de homens que queriam algo de mim, monsieur Galba. Não me engano, em algum momento doerá.
Atrás dela, escutou como Grey murmurava:
—Pelo amor de Deus.
Galba abriu um livro que tinha numa das laterais da mesa, passou algumas páginas e logo o fechou com um golpe seco.
—Não posso acreditar que sua mãe a deixasse crescer pensando que o serviço secreto britânico tortura às pessoas nesta casa. Resulta-me inconcebível.
—Não acredito que minha mãe dissesse nada absolutamente sobre o serviço britânico. Nunca trabalhou diretamente contra vocês, eu tampouco.
—Alguém alguma vez, formulou uma acusação dessa índole contra meu serviço secreto? — Percebia-se a ira na voz da Galba.
Os métodos de interrogação do serviço secreto britânico acabavam de converter-se num assunto de certa urgência nesse momento. Tentou uma e outra vez obrigar a seu cérebro a funcionar um pouco. A inteligência militar dos britânicos tinha uma má reputação. E a gente de Galba...? Neste campo de trabalho, ocorriam mortes e havia violência; depois de tudo, não se tratava de um jogo de meninos, mas não havia nada armazenado em sua gigantesca memória que falasse de tortura.
—Não ouvi nada — admitiu.
—Nesse caso, não me diga tolices. Embora esteja aterrorizada, sendo filha de sua mãe, deveria ter mais sentido comum — Então, imediatamente, sacudiu a cabeça para os lados e fez um gesto sobre a mesa, como se limpasse algo. — Isso. Retira. Está exausta e horrorizada e esteve tratando com bárbaros como Leblanc. Isso mina o julgamento. Além disso, tem razão numa coisa. Minha intenção é que ao final você coopere comigo.
Tinha a pele fria em todas as partes menos no lugar onde Grey a estava tocando. Perguntou-se se não desmaiaria.
—Deste-lhe algo para comer hoje? — Galba estava olhando Grey. Continuou falando sem esperar uma resposta. — Sou um idiota por perguntar. É obvio que sim, sabendo o que lhe esperava — Fez o mesmo gesto de impaciência. — Mas não deixaste que se lavasse ou lhe proporcionaste roupa decente. Leve-a e deixa que se arrume. Não pode pensar nesse estado e eu não me posso concentrar vendo-a assim— debaixo de umas sobrancelhas brancas e povoadas, os olhos azuis de olhar penetrante a estudavam. — Mademoiselle Villiers, não falaremos a sério até que tenha recuperado sua equidade.
Não até esta noite ou possivelmente amanhã. Necessitará tempo para refletir em profundidade.
Ela ficou sentada, insensível e sem se mover até que Grey a segurou por debaixo do braço e a levantou com força da cadeira.
—Uma coisa mais... —Galba estava sério. Moveu o tinteiro pela escrivaninha ligeiramente para a esquerda, e, ficou olhando-o, os lábios apertados e as comissuras torcidas, como se o tinteiro tivesse estragado várias esperanças. — Recebemos a notícia da morte de sua mãe, mas não sabemos como ocorreu. Dir-me-á isso?
A dor ressoou em seu interior como um sino, frio e agudo. Depois de semanas, a dor não era menos intensa quando pensava na morte de sua mãe.
—Sua carruagem caiu por um penhasco, no mar, e a perdi — Mamãe, que tinha arriscado tanto e escapado de tantas situações terríveis, tinha morrido porque uma pedra tinha rodado da cúpula da colina. Uma morte sem sentido. Era uma ironia dos deuses. — Perto de Marselha.
—Está segura de que morreu? Não tem dúvidas?
Ela assentiu.
—Sinto-o muito — disse Galba em voz baixa — pode ir agora. Falaremos mais tarde.
Grey a conduziu para fora do quarto. O olhar irônico de Adrian os seguiu enquanto saíam, mas Galba ficou sentado olhando o livro que tinha em suas mãos, seu rosto inflexível e extremamente quieto.
Foi Robert quem caminhou a seu lado pelo corredor e abriu a porta que dava à escada que levava ao porão. Foi Robert, com seu aspecto de sempre, que esboçou um sorriso para tranquiliza-la, como se tudo estivesse bem e fosse estupendo no mundo. Mas a mão de Grey era a que a sujeitava todo o momento.


Capítulo Vinte e Três
Annique pensou que se alguém deseja fazer coisas desagradáveis e em segredo às pessoas, os porões são o lugar mais lógico para tal tarefa. Por isso não era de todo surpreendente que Grey a levasse para um. Não era um lugar úmido e sinistro ao tratar-se de um desses porões que se encontram meio por debaixo, meio acima do nível do chão. O corredor estava atapetado e as paredes forradas com um delicado desenho de flores azuis. Tudo era enganosamente normal. Mas as janelas, no alto das paredes, estavam protegidas com grades de ferro que se afundavam até o interior da parede de tijolos.
«Não há escapatória. São muito conscienciosos». Ela e a informação que levava estavam completamente à disposição do serviço secreto britânico. As portas, fechadas e ameaçadoras, esperavam de ambos os lados do corredor. Ele a obrigaria a cruzar uma dessas portas.
—Não são salas de tortura — Grey estava zangado . — À esquerda estão as oficinas. Os armazéns do outro lado. Esse está cheio de documentos. Não há nenhuma oubliette nesta casa. Não sou Leblanc.
—É mais sutil do que ele. Imensamente mais sutil e de um modo mais cruel — Cruzou os braços sobre o peito para controlar os tremores. Ele abriu a última porta a direita e entrou antes dela. Não sabia o que ia passar a seguir, mas não podia imaginar Grey lhe machucando, nem tampouco Robert, fosse qual fosse dos dois.
—Você não é real — ficou em pé no corredor vazio. Depois de tudo, não tinha para onde fugir. — Estive abrindo meu coração a um espantalho enganador, uma marionete. Sou a garota do conto que se apaixona por uma das figurinhas do relógio da torre. Algumas vezes pensei que era muito esperta, mas sou mais idiota do que as galinhas.
Grey caminhou de volta à porta. Tinha a cara do Robert, mas não era Robert.
—Não sou um relógio de corda.
—Você não existe absolutamente. Não é nada, monsieur Grey. É uma sombra e um trapo que voa no vento.
—Meu nome é Robert Greyson Montclaire Fordham. Tudo o que lhe contei é verdade, sobre meus pais, meus irmãos, a casa em Somerset, o lago de trutas, o pônei ao qual ensinei a fazer truques. Fui Robert Fordham durante vinte e seis anos antes que Grey existisse.
—Mentiu-me. Não é nada mais que um montão de mentiras que escapam de sua boca.
Seu sorriso mostrou os dentes dessa boca precisa.
—Nesse caso fazemos bom casal. Ainda tem medo?
—É obvio que tenho medo. Seria idiota se não o tivesse.
—Já o superou. Não vou tocar nem um fio de cabelo e sabe. Venha — Tomou sua mão e a levou consigo para dentro do quarto que era na realidade um banheiro. Um banheiro que brilhava a novo, muito luxuoso, o que a surpreendeu ainda mais do que se tivesse se tratado de uma masmorra.
—É um banheiro — disse ela como uma boba.
—Com efeito. Espero que isto seja muito tranqüilizador para você.
—Não quero me sentir mais tranqüila, eu quero escapar.
Ele se pôs a rir. Tinha-a traído e atraído com um chamariz para essa casa, onde a tinha capturado e agora ria dela. Definitivamente era tão frio como o mecanismo de um relógio.
Encontrava-se dentro de um quarto pequeno e cujas paredes estavam cobertas por painéis. As duas janelas abobadadas tinham uma grade de ferro que as protegia. Não podia ver através do cristal de cor branca leitosa, mas pelo ângulo da luz do sol, sabia que o quarto estava orientado para o sul. Um tapete vermelho da Turquia estava apoiado sobre os azulejos de cor branca e negra. Acabavam de acender o fogo na chaminé de tijolo da parede. Junto à chaminé, havia um espelho giratório de corpo inteiro em que tudo se refletia.
O banheiro consistia numa banheira enorme, de bordas elevadas e de forma ovalada, de mogno polido. Estranhos canos emergiam da parede, com torneiras sobre elas.
— Isto parece um caro bordel — disse ela, que sabia algo sobre o tema — exceto por isso — fez um gesto para assinalar os canos — parece tirado de uma fábrica de cerveja que vi em Múnich numa ocasião. O que fazem com isto?
— É uma banheira. O que acredita que faça? Acredita que cozinho os prisioneiros em azeite fervendo? — Avançou dando fortes pisadas e abriu as torneiras. A água brotou delas, o que era lógico, embora não soubesse como poderia estar quente. — Meu agente encarregado da tortura tem as quartas-feiras livres para praticar com animais pequenos. Terá que contentar-se comigo. Se estiver se perguntando pela água, do outro lado da parede está a estufa da cozinha e um tanque de água quente. Tenho um sistema engenhoso de canos em lugar de serventes correndo por toda parte com cubos.
«Serventes que poderiam ser subornados. Pensaram em tudo».
—Entendo-o.
— Sei. Encherei a banheira num minuto. Tire a roupa — Tamborilou os dedos com uma tensão ansiosa. Dentro dela, uma tensão similar cresceu em resposta à dele.
— Acredita que é tão simples entre nós? Acredita que basta que me peça isso para que tire a roupa?
—Acredito que as coisas entre nós são muito complicadas. Sempre o foram — Fechou as torneiras e comprovou a água. — Nenhuma só maldita coisa foi simples até agora. Por que isto ia ser? — Então se aproximou dela, segurou-a com cuidado, como se fosse quebrá-la. Virou-a para que ela olhasse o espelho. — Iremos passo a passo — Colocou suas mãos sobre o xale no qual ela estava envolta, o tirou e deixou que caísse ao chão. Este é o primeiro passo.
— Por que faz isto? Por quê?
— Por que tiro sua roupa? Desespero, loucura, se me olhar com atenção dar-te-á conta de que não posso mais — Sua voz soava tensa e feroz, grave como um grunhido, vacilante ao terminar as palavras — Agora vou te tirar o vestido. Esse é o seguinte passo. Muitos nós que desatar, não acha? Detenha-me se realmente tem alguma objeção.
— Nem sequer sei o que quer de mim.
— Já o averiguará, sendo uma garota tão esperta.
— Não me refiro a agora mesmo, aqui. Quero dizer... — Cometeu o engano de olhar no espelho. — Quero dizer... — O espelho mostrava uma perfeita maltrapilha com os lábios entreabertos e os olhos como pratos olhando fixamente. Robert estava no espelho com ela. O tato de seus dedos era suave como a seda enquanto soltava seu vestido.
— Como pode ser os dois de uma vez? — Sua voz soou jovem e desconcertada. — Robert, como pode ser Grey? Olho para você, uma e outra vez, e você é os dois de uma vez e tenho a impressão de que isto me matará.
— Duvido-o muito.
— Não posso fazer isto contigo quando nem sequer sei quem é — Mas ela mentiu. Não importava qual era o homem que fazia que se sentisse desse modo.
— Vejamos se pode fazê-lo — arrancou os nós.
Ela não queria isso. Desejava-o com toda sua alma. Foi capaz de sentir as duas coisas de uma vez, com intensidade, com a mente completamente em branco todo o tempo.
Ele desatou o último nó. No espelho, ele abriu seu vestido e dobrou as bordas para trás como se fossem pétalas e atirou do vestido para baixo. Não tinha nenhuma pressa. Seu vestido deslizou, separando-se dela, como uma larga e escura coluna que se derrubava.
— Não pode imaginar o quanto odeio este vestido. Quis arrancá-lo em cada minuto de cada dia, desde a manhã até a noite. Sonhei fazendo isto — disse ele.
— Robert não queria fazer isso — Sua voz se tornou rouca. Sua mente cheia de imagens tão capitalistas que pareciam línguas de fogo lambendo suas coxas e em seu interior. Derretia-se como cera em suas mãos.
Robert o desejava tanto que lhe doíam os dentes — Levantou os suspensórios da pálida combinação de seus ombros e deixou que se deslizassem para baixo, deixando ao descoberto seus peitos, centímetro a centímetro. — Sou Robert, sei.
Suas mãos se fecharam de forma convulsiva quando o linho roçou sua pele enquanto caía ao chão. Mas deixou que se deslizasse, deixou que isto lhe acontecesse.
Estava completamente nua. Os bordéis têm espelhos como esse. Não tinha entendido o motivo pelo que os têm. Agora o compreendia. Ver-se nua junto a ele tinha um forte efeito em sua mente. Fazia que tão só fora uma mulher sem roupa com a figura escura de um homem detrás dela. Uma simplicidade elementar. Era óbvio o que essa garota nua do espelho ia fazer muito em breve.
Baixou o olhar de maneira que não tivesse que ver como se rendia deste modo tão idiota. O tapete tinha filas de flores de cores brilhantes como jóias. Ao redor de seus pés se estendia o lago de cor escura de seu vestido e sua combinação branca. Grey se ajoelhou sobre o tapete, sobre todas essas flores e desatou os trapos que seguravam sua faca, que já não estava com ela e que, de todos os modos, nunca tinha pensado utilizar. Logo caíram suas meias e tirou os sapatos. Seu tato era como o do veludo em suas pernas. Não era capaz de pensar nada absolutamente.
—Deus, é preciosa — Seu fôlego acariciou brandamente sua pele ao estar em pé. — Vamos te colocar na banheira enquanto a água ainda esteja quente — A empurrou com delicadeza nessa direção, os dedos sobre suas costas nua. — Assim, aí vamos.
«Mamãe me diria que faça o que ele me peça. Esse é o caminho que adotaria uma espiã inteligente... usar seu corpo para seduzi-lo e controlá-lo». Mas era ela quem se sentia atraída. Não tinha ficado nua diante de Grey para levar a cabo um arrevesado plano.
Meteu-se na banheira. A água jogava vapor a seu redor. As pequenas ondas da água a acariciaram enquanto entrava. Deslizou bastante dentro da água, deixando que lhe chegasse até o queixo, e não perdeu Grey de vista.
Grey se sentou no banco esculpido que havia num extremo do quarto e desatou a gravata. O banco tinha torneiras esculpidas nos braços e colocou a gravata em cima de uma, ficando pendurada em sua ponta. Deixou a jaqueta a seu lado no banco.
—Vamos lavar seu cabelo.
—Se sair, lavarei tudo o que queira que lave — Todos seus anos como agente não a tinham preparado para isto. Tampouco uma década dando saltos com leões e demônios no inferno a teriam preparado para isto.
Ele esboçou o sorriso do Robert, lento e afável.
—Sabia que te converteu numa completa vagabunda no instante que seus pés tocaram o caminho, cheia de sujeira e despenteada, mastigando caules de erva? Vi como que a cada dez passos estava mais suja e seu aspecto era cada vez menos respeitável. Tem uma capacidade camaleônica incrível.
Ela tragou saliva.
— Quando se é uma vagabunda, é necessário que tenha o aspecto e atue como uma, inclusive que cheire igual. Aprendi isso antes que pudesse falar.
—Agora não é uma vagabunda. Tem que lavar o cabelo — Tirou os colchetes das abotoaduras e os deixou de lado sobre a jaqueta. Logo começou a desabotoar a camisa, começou pelo pescoço e foi baixando.
Ia fazer amor com ela nesse quarto. Levá-la-ia até o tapete junto à chaminé e a teria em frente desse espelho? Vê-la-ia em dobro, na realidade e no espelho. Acaso seria como se dois homens lhe estivessem fazendo amor, Robert e Grey? Encontrava-se completamente amedrontada por toda essa situação. Decidiu que ia passar um bom momento dentro da banheira, pensando sobre o tema.
Ele puxou a camisa para soltá-la da cintura das calças e logo a tirou pela cabeça. Pela primeira vez, viu-o nu.
Tinha o corpo de um soldado. A linha fina e magra em suas costelas era um corte feito com um sabre. Marcas similares ao picado de varíola foram feitas por metralhas, quatro ou cinco tiros. Tinha outras cicatrizes. Os homens tinham tentado matá-lo uma e outra vez. Todos tinham falhado porque Grey era um homem duro, até a última fibra de seu ser, e, além disso, era mais preparado que eles.
Tirou bruscamente uma bota, que saiu disparada até o outro lado do quarto, onde golpeou com força os tijolos da chaminé. Logo fez o mesmo com a outra bota, ficou em pé e se esticou. Centenas de músculos se deslizaram debaixo de sua pele. Era muito formoso. Queria roçar todo seu corpo com sua boca e a pele sensível de seu rosto. Não era justo que ele estivesse fazendo isto com ela.
Ele caminhou para ela. Sem exagerar nem um pouco, ela teria jurado que seus olhos brilhavam como carvões acesos.
Ela se encolheu ainda mais dentro da água, que tampouco era precisamente uma substância muito útil na hora de esconder-se. Quando ele se inclinou para a banheira, seu peito nu estava tão perto que ela podia ter-se endireitado e o tocado com os lábios, sem ter que fazer o menor esforço. Cavou as mãos para agarrar um pouco de água. As gotas caíam, derramando-se entre seus dedos, chapeadas e cintilantes.
—Meu conselho é que feche os olhos — disse ele.
Não tinha terminado de entender o que queria dizer com isso quando ele deixou cair a água sobre ela.
—Não é muito boa aceitando conselhos, verdade? —disse ele.
—Já me haviam dito isso — Cuspiu água e limpou os olhos com a base da palma da mão.
Quando ele afundou de novo as mãos para agarrar mais água, ela já estava pronta. Uma cortina de água caiu em cima de seu rosto, uma e outra vez, até que estava completamente molhada. Esperou gotejando enquanto ele enchia suas mãos de um sabão que cheirava a folhas de louro. Esse era o aroma de Robert, não o de Grey. Cheiraria como Robert quando lhe fizesse amor.
Quando fizessem amor...
—Não é necessário que faça isto. Levo anos lavando meus cabelos sozinha.
—Então, isto será uma mudança. Fecha os olhos quando jogar o sabão. Perdi o costume de fazer isto.
Ela não resistiu, ficou sentada como uma idiota enquanto ele limpava seu cabelo de modo eficaz. Era inútil raciocinar com ele. Ele era, como ela sabia, um homem de uma crueldade infinita.
—Segura a respiração — ordenou ele.
Desta vez, ela foi esperta. Aspirou bastante ar para encher os pulmões antes que ele a empurrasse para baixo, colocando sua cabeça sob a água.
—Espécie de chien. Afoga-me — Sacudiu a cabeça com ferocidade, salpicando tudo de água, inclusive a ele. — Só tinha que pedir e eu haveria...
Seus dedos se entremearam entre seus cabelos para segurá-la e impedir que se movesse. O primeiro beijo, ardente como o fogo, foi para silenciá-la. Logo seguiram vários pequenos beijos, um após o outro, percorrendo seus lábios... Exigindo mais e mais até que ela o beijou. Este era o único modo seguro de tratar com um homem de crueldade infinita.
—Desejo-te tanto — sussurrou em sua boca. — O desejo não cessou, nem por um minuto, desde que te vi no porão do Leblanc. Durante dias não pensei em outra coisa mais que em te despir. Estou virtualmente louco por culpa do desejo.
Tinha sabor de canela. Era irônico que um homem como Grey tivesse sabor de algo tão comum e doméstico. De algum modo, isso fez com que ele pudesse superar suas defesas.
Quando a soltou, ela flutuou na água, enjoada pelo desejo que sentia por ele.
Algo se meteu junto a ela na banheira, encaixando-se de um lado e logo ao outro. Ele se colocou em cima dela, nu, preparado como um garanhão para sua égua. Meteu-se dentro da banheira, inclinando-se para baixo. Sua pele era sólida, cálida e era surpreendente quando ele se deslizava contra ela. Era algo completamente desconhecido. Isto a teria assustado se tivesse sido capaz de sentir alguma emoção, mas estava completamente afligida pelo giro inesperado dos acontecimentos.
Ela se segurou com força na borda da banheira.
—Não pode fazer isto.
—Observa como o faço.
—O que quero dizer é que não pode fazê-lo de nenhum modo, mas é que, além disso, é fisicamente impossível. Não há espaço.
—Já o encontraremos. Segure-se a mim em lugar da banheira — Colocou as mãos dela sobre seus ombros. Fez que parecesse lógico e natural. A água chapinhava de maneira selvagem enquanto ele rodeava suas costelas com seu braço e a levantava. Depois ele se colocou debaixo dela, elevando-a brandamente para que ficasse justo em cima dele.
Ele sorriu.
—Encaixamos perfeitamente. Vê? Relaxe um pouco e eu... sim, assim está bem — Centrou o corpo dela sobre o seu e ela separou as pernas. Ele guiou seus quadris para baixo, para ele como se já o tivessem feito juntos milhares de vezes. — Maldição, isto está bem.
Era… extraordinário. Sentou-se escarranchada sobre ele, cavalgando na água, as pernas encaixadas contra os lados da banheira. Estava aberta. Sua virilidade sabia exatamente qual era seu lugar, roçou-a, desejando entrar. Completamente pronta para fazê-lo.
O tempo se deteve. Nada, nenhuma idéia preconcebida, nenhum conselho, tinha-a preparado para isto.
Os olhos dele estavam ao mesmo nível dos dela, a escassos centímetros de distância, enchendo o universo.
—Ainda tem machucados — Logo que tocou suas costelas. — Aqui e aqui. Tomarei cuidado contigo.
Era um homem que lutava e tinha punhos duros como à pedra, mas podia ser suave com ela. Não podia haver nada mais devastador para seus sentidos que essa combinação.
—Não é justo que me faça isto enquanto eu sou sua prisioneira.
—É isso o que pensa? Acredita que faz isto porque é nossa prisioneira? —Agarrou o sabão do prato na mesinha e deu a volta uma e outra vez entre as palmas de suas mãos. — Nesse caso, sai desta banheira e começa a gritar. Galba descerá em dois minutos para te resgatar. O Caçador de Falcões me tirará o fígado e Doyle o pisoteará no chão. Outra opção que tem é me deixar fora de combate com um desses atiçadores que estão junto da chaminé. Essa opção deveria te agradar — Estendeu o sabão por seu ombro, tomando-se seu tempo. Percebiam-se seus planos para seduzi-la em cada pequeno movimento. Era um homem que tinha tido grande êxito em seus planos. — Desejas isso.
—Não... —Sentiu como ele desenhava a linha de sua clavícula com a ponta de um dedo cheio de sabão. — Não quero isto. Não o farei — Quando voltou a acariciar seu ombro, desenhou círculos sobre a pele, jogando com seus nervos, apenas a estava tocando. Perguntou-se se existiria outra coisa no mundo além de seus olhos. — Não deveria.
—Segue pensando nisso e me avise quando chegar a uma conclusão – Ele sorriu. — Tiveste o cabelo comprido alguma vez, Annique?
—Quando vivia com os ciganos. Cresceu muito, chegava-me até as costas.
—Eu gostaria de te ver com o cabelo comprido — Riscou umas linhas curvas em seu peito, com a espuma do sabão. O formigamento e a sensação de sua mão deslizando-se por sua pele esvaziaram sua mente de qualquer pensamento. — Cairá para baixo deste modo — Mostrou o lugar onde cairia seu cabelo se o tivesse comprido. Por debaixo de seu ombro e por cima do peito. Seus dedos hábeis e escorregadios seguiram o mesmo percurso pelo qual fluiria seu cabelo em seu corpo. — Seu cabelo é como a meia-noite, cheio de seda e estrelas escondidas. Apanha-me de tal modo que é impossível me resgatar.
Haviam-lhe dito muitas vezes que era formosa, geralmente os homens que a conheciam logo perguntavam o preço. Isto era diferente. Era Grey quem dizia que era formosa. Nunca antes tinha lhe importado.
—Isto não é inteligente, para nenhum dos dois.
—Sei. Estamos a ponto de ser muito, mas que muito estúpidos.
—Deveríamos parar.
— Pare você, eu não vou fazê-lo — Trocou de postura na água. Algo quente, duro e masculino deslizou contra essas partes de seu corpo que eram secretas, sensíveis e que não estavam acostumadas a este tipo de ações irracionais. O desejo floresceu e queimou em seu interior, estendendo-se por toda parte.
—Não posso pensar quando faz isso.
—De maneira nenhuma tem que pensar. Já o tinha decifrado. Recorda Platão? Sou a outra metade de seu ovo. Vamos voltar a nos unir.
—Possivelmente. Não sei. Era mais fácil falar do Platão quando tinha as mãos amarradas — Ele explorou seus peitos, deixando no seu toque um rastro de fogo com pequenas explosões de surpresa na ponta. Ela tragou saliva. — É formoso, o que faz que sinta. Quando te olho, é tão formoso que dói. Como a curva que forma uma onda ou uma folha ao cair. Havia-lhe dito isso?
—Não com tantas palavras — Aproximou um de seus mamilos para poder beijá-lo. — Eu gosto de como esta parte de ti se sobressai completamente rosa. Demonstra que você gosta do que faço. Sabe muito bem — Outro beijo. —Tens sabor de sabão, mas é delicioso. Acredito que vou fazer isto durante um momento. Diga-me que pare quando deixar de te gostar.
Não lhe disse que parasse. Deixou que sua boca a levasse de uma surpresa a outra até chegar a um estado selvagem descontrolado. O calor ardia em seu pulso. Gemeu e jogou os ombros para trás e se inclinou para ele, sim, com todo seu corpo. Rendia-se por inteiro.
Agora era parte da loucura. Comprometeu-se.
Ele soube o momento exato no qual ela se rendeu. Excitou-se grandemente no ponto no qual seus corpos se tocavam entre as pernas dela.
—Sinto que o está desfrutando. Excita-te quando faço isto, no mais profundo de seu interior até o ponto no qual estamos em contato. Também você gostará do resto do que vou fazer.
—Estou... Decidindo-o —A água quente beijava sua pele e formava redemoinhos entre os dois com cada movimento. Um tremor cheio de calor se apoderava de seu corpo, atirando dela. — Não me apresse. Ainda estou decidindo se sim... ou não. Possivelmente não.
—Segue pensando nisso. Mas é muito tarde para ti. Não foste capaz de te controlar há momento.
Tinha razão. Não seria capaz de separar-se dele nem que disso dependesse a sua vida.
Ele acariciou a zona debaixo de seu abdômen onde ela desejava tanto sua presença. Enredou seus dedos nos pequenos cachos que encontrou ali. Não tocou seu interior. Podia fazê-lo, em qualquer momento. Era uma tortura, saber que ele ia tomar seu tempo antes de tocá-la aí. Fios cheios de desejo giraram através de seu corpo, atirando nela, cada vez mais. Moveu-se sobre ele.
—Isto é... eu não deveria...
—Quando estiver pronta — A superfície plaina e lisa de seu abdômen estava dura e tremia por culpa da tensão quando ela apoiou as mãos sobre ele. Sua voz se tornou mais grave, rouca. Seus olhos tinham a cor da fumaça, com a chama ardendo debaixo. Quente, voraz. — Esperaremos até que cada parte de seu corpo queira fazer isto.
—Não — Não podia olhar fixamente esses olhos ou estaria perdida. Inclinou a cabeça. Seu cabelo caía em mechas onduladas que se balançaram para os lados quando ela sacudiu a cabeça. — Eu... não.
Ele respirou fundo e conteve o fôlego. Estava preparado debaixo dela, preparado como o ferro.
—O que ocorre, Jovem Raposa? —Com cuidado, pois suas mãos tremiam um pouco, levantou seu queixo para poder estudar seu rosto. — Juro, não te teria deste modo se não pensasse que deseja. Qual é o problema?
—Eu não... eu não faço isto com espiões ingleses... —As palavras saíram de sua boca em baforadas breves e desesperadas. — Um a quem não importo nada e que... me confunde.
—Você não faz isto com ninguém, segundo as provas disponíveis. Chegados a este ponto, um homem sabe dessas coisas — Elevou algumas mechas de seu cabelo molhado e os jogou para trás para afastar-los de seu rosto, colocando-os à direita e à esquerda. Assim ela tinha que olhá-lo. Dele emanavam as vontades de rir, um desejo nu e a ternura... e o fato de que a entendia de um modo perspicaz, coisa que a aterrorizava. —Reconhece uma coisa, Jovem Raposa, você deseja isto. Se não fosse assim, estou totalmente seguro de que não estaria te deflorando numa banheira.
—Eu...
—Do primeiro momento, soube-o. Você, unicamente você. Era inevitável — As pontas de seus dedos roçaram sua bochecha, logo baixaram aos seus lábios. Ela estremeceu. Os dois eram conscientes do efeito sobre ela do que ele fazia. — Faremos que isto funcione. Confia em mim. Quer que falemos um momento?
—Não posso, distrai-me.
Mas a ele essa idéia pareceu muito graciosa. Fez que a água se agitasse com sua risada.
—Acredito que vou distrair-te um pouco mais — Beijou um peito e logo o outro.
Ela sofria. Inclusive nesse momento, já se balançava entre suas mãos, incapaz de deter seu próprio corpo. Mas ele também queria ouvir as palavras que assinalavam que se rendia. Estava impondo esta tortura para os dois por culpa de seus estúpidos escrúpulos. Não era tão inocente para dobrar-se a um homem enquanto este ria dela.
Já não lhe importava se isto era inteligente, desastroso ou simplesmente inevitável. «Necessito-o. Tê-lo-ei». Ia ver de que modo ia pender.
Agarrou-se na borda da banheira e se levantou. Ele estava preparado. Lançou-se para baixo, com força.
Soltou um grito profundo. Sentiu como algo se rasgava dentro dela. A pontada de prazer doeu. Era doce como o mel.
—Deus... Santo — Grey subiu para aproximar-se mais a ela. — Espera — Aferrou com as mãos os ossos de seus quadris e a manteve segura com firmeza, ofegando, com o rosto crispado. — Espera, espera um maldito minuto.
—Sim — Ela ficou completamente quieta, atordoada.
—Isso foi... Isso... —Aspirou durante um bom momento com fôlego tremente. — Annique, os homens gostam de estar preparados para este tipo de coisas — Se manteve quieto, rígido, selvagem pelo desejo, estremecendo-se ao rir. — Vais matar-me, mulher. Dói-te?
—Não — Ela negou com a cabeça. —Sim, não exatamente. Sinto-me diferente.
—Imagino que assim é — Suas mãos a seguraram com mais força, apertando, logo as soltou. Acariciou todo seu corpo e voltou a segurá-la firmemente. —Não te mova ou isto vai ser extraordinariamente... Breve —Voltou a respirar profundamente e de forma irregular. — Tinha planejado algo lento e elaborado.
Elaborado. Não tinha que ter-se incomodado. Dentro dela, as coisas se tornaram extremamente complicadas. Emitiu um som.
—Levo tempo esperando isto — disse ele.
Ela desejava lhe dizer que ela, também, tinha esperado isto. Mas não podia falar.
—Agora fica quieta, tentarei ir devagar — Seus dedos deslizaram para as partes suaves e sensíveis de seu corpo. De forma gradual foi introduzindo-se mais e mais nela. Dor por dor, agradar por prazer. Era tão suave como a água que formava redemoinho a seu redor, irresistível como a força das marés.
Todo pensamento ficou sufocado. Ela respirou entrecortadamente e começou a mover-se em cima dele.
—Brandamente, carinho. Espera.
—Eu... Não posso.
—Sim pode. Seja amável contigo mesma — Pressionou seus quadris para que descendessem sobre ele, segurando-a para que não se movesse. Sua outra mão a acariciava de modo persuasivo, criando uma ansiedade intranqüila em seu interior. —Não temos pressa. Olhe, não dói quando fica quieta. Se fizer isto, não haverá dor absolutamente.
Ela não tentou responder. Tinha perdido momentaneamente a capacidade de traduzir o francês para o inglês. Um ritmo entristecedor se apoderou dela. Sentia umas vontades desesperadas de cavalgar sobre ele. Era impossível ficar quieta. Voltá-la-ia louca. Fechou os punhos e o deu uns fortes golpes no peito, como faziam ao badalar os sinos, enquanto se balançava. Para cima, para baixo. Ele abriu as mãos que a seguravam e deixou que se movesse sobre ele, afundando-se profundamente. Ele ofegava com cada movimento.
Uma e outra vez. Um muro, sólido e pesado de tijolos, mas feito de luz ardente, começou a crescer a seu redor. Logo esse muro se derrubou, sobre ela, por toda parte.
Ele devia ter percebido o que acontecia em seu interior. Empurrou para introduzir-se mais profundo, para cima. Sim e sim, ela deixou cair sua cabeça para trás e gritou, completamente perdida. Só sabia que tinha que sujeitá-la com força, manter-se preso a ela.
Não doeu. Nada podia doer enquanto estivesse nesse estado.
O prazer se precipitou, encheu seu corpo. Sentiu como aconteciam as sacudidas de prazer, distanciadas unicamente pelos gemidos que emitia. Era um prazer ilimitado, esférico e abrasador, que brilhava e queimava dentro de seu corpo. Sentiu como se fechava sobre ele uma e outra vez.
O tempo voltou a fluir de novo. O final dessa glória se deslizou por seu corpo e a abandonou. Derrubou-se, centímetro a centímetro, tremendo e palpitando, caindo sobre ele.
Os braços dele rodeavam seu corpo. Apoiou a cabeça sobre seu coração. Pulsava como o de um cavalo ao correr, forte e constante.
—Me alegro de ter feito isto — sussurrou em francês, — aconteça o que acontecer depois.
Sentia-se completamente leve como uma pluma, mas quando tentou mover-se, deu-se conta de que em realidade seu corpo parecia pesar como o chumbo. Foi uma sorte que houvesse outra pessoa debaixo dela ou provavelmente teria se afogado.


Capítulo Vinte e Quatro
Fechou a porta brandamente atrás dele. Annique dormia sobre o sofá no escritório, envolta num penhoar branco. Sua querida, úmida, vulnerável e mortal agente francesa, estava exausta depois de fazer amor com ele.
De uma forma milagrosa e finalmente, ela era dele. Podia resolver todo o resto, agora que tinha conseguido isto. Queria sorrir como um idiota e correr pelos corredores. Uma pena que o chefe da seção não pudesse fazer essas coisas.
—Há dezenove camas nesta casa — Doyle estava esperando-o, apoiado contra a parede, o braço cruzado sobre o peito, seu feio rosto enrugado numa careta divertida — se contas as camas de armar na parte detrás da cozinha. Mas nenhuma é o suficientemente boa para ti. Teve que fazê-lo numa banheira. Por todos os Santos.
Esse era o problema de viver com espiões. Averiguavam cada maldita coisa. Não havia privacidade.
—Temos que conseguir roupa para ela. Não posso fazer que esteja sempre em penhoar.
—Maggie trará alguns objetos soltos. Parecem-se bastante em tamanho.
—Só que Annique é o que eu chamaria uma mulher com uma figura como uma ameixa, pequena e arredondada, extremamente deliciosa e subestimada — Adrian apareceu rapidamente. Ia embelezado com os objetos próprios de um cavalheiro, jaqueta de cor cinza escura, colete cinza claro e um alfinete de gravata de rubi. Não parecia um homem que há apenas dez dias lhe tivessem extraído uma bala. —Maggie, por outra parte, é mais...
—Menino, pode te deter aí mesmo — disse Doyle.
Grey tinha que dar uma olhada em Tácito e Montaigne. Uma última confirmação. Esses livros tinham que estar nas estantes da biblioteca. Começou a subir as escadas.
—Onde está Giles?
—Enviei-o a limpar — Doyle fez uma pausa breve e inocente. — Ao que parece, de algum modo, há mais de dois centímetros de água alagando o chão do banheiro.
— Envie-o ao despachante quando terminar. Disparei num homem em Kent. Temos que notificar um magistrado.
—Esta série de atos criminosos nos que te viu envolto... —Adrian o seguiu escada acima, sacudindo a cabeça para os lados. —Fletch te envia suas saudações e sugere que lhe devolva seu cavalo. Imagino que será essa besta que ataste aí fora.
—Bem. Mais trabalho para Giles, e recorda ao Ferguson que sirva café no jantar, não chá. Annique não gosta do chá. Alegro-me de que os dois tenham conseguido sair da França.
—Me alegro de que ela não te rompesse o crânio no trajeto de Dover — disse Doyle com o mesmo tom, — para começar; assim poderá pôr ordem neste desastre que começou a aumentar enquanto te dedicava a reduzir a população do campo. O primeiro, o serviço de inteligência militar sabe que temos a Annique. Querem-na.
—Podem ir ao inferno.
—E a toda velocidade. Entretanto, o coronel Reams auto convidou-se para jantar. Disse que precisa conferenciar.
—Nesse caso, dir-lhe-ei em pessoa que vá ao inferno.
Doyle e Adrian seguiram Grey pelo corredor, até que entrou no enorme salão. O sol entrava em torrentes pelas cortinas, fazendo cintilar a coleção de espadas que os agentes do serviço secreto tinham pendurando nas prateleiras ao longo dos anos. Havia grandes selas de couro viradas para a chaminé. O jornal The Time estava aberto sobre uma mesa, sobre outra havia um baralho de naipes e uma moringa larga de cerâmica. Centenas de livros lotavam amontoados as estantes da biblioteca que recobriam duas paredes inteiras.
—Necessito Montaigne e Tácito — disse Grey.
—Quem são...? —perguntou Adrian.
—Um francês e um romano, respectivamente — Doyle percorreu as estantes junto à chaminé. — Estão mortos há bastante tempo, o que me leva a perguntar por que os necessita agora. Agora bem, Montaigne... a última vez que o vi, estava em algum lugar por aqui —Esticou uma mão com forma de espátula em frente dos livros. — Procura ali a Tácito. Está encadernado em vermelho, se bem me recordo. Fletch nos contou sobre os olhos de Annique. Há um médico cheio de títulos que quer dar uma olhada. Seu relatório está sobre sua mesa. A boa notícia é que provavelmente seja permanente, e, a outra notícia, que não é tão boa, é que Leblanc está na Inglaterra.
—Vimo-nos. Tentou apunhalar Annique num beco em Dover.
—Então, a notícia já é velha. Cruzou o canal com uns vinte homens, mais ou menos. O exército está desde segunda-feira tentando lhes agarrar na costa sul, por isso nos inteiramos da chegada de Annique.
—Soulier está que joga fogo pela boca, esse pobre francês traiçoeiro — Adrian se apoiou no braço de uma cadeira, tirou uma faca, de uns vinte centímetros, das que usava para lançar e começou a cortar as unhas. — Leblanc chegou às nossas formosas costas sem ordens e sem informar a Soulier. Há muito movimento no pombal do serviço de inteligência francês.
—Não estaria bem se Soulier matasse Leblanc por nós — Doyle passeou seus olhos pela estante, baixando às prateleiras inferiores. — Não se suportam.
—Faz que corra a voz. Leblanc está ferido, na parte superior do braço direito. Henri Bréval tem um corte nos nódulos. Possivelmente lhe rompi a clavícula. O resto é obra de Annique.
—É uma garota letal — disse Adrian — e a trouxeste aqui para que cause estragos entre o pessoal do serviço. Que emocionante.
Doyle grunhiu, com aspecto de estar divertindo-se.
—Falando de nossa garota letal — Adrian inspecionou suas unhas. — Pergunto-me.... por que a banheira? É obvio, é ágil como uma pequena enguia, mas a gente não quer que a primeira vez com uma virgem tenha lugar embaixo de uns quantos metros cúbicos de água. Isso as põe nervosas. Com uma virgem o que tem que fazer é escolher uma superfície plana, seca, para começar e se puder que seja branda. Logo, tem que...
—Posso viver sem seus peritos conselhos sobre como deflorar virgens — Grey notou como começava a lhe arder a cara. —Este não é um tema que vamos debater.
Doyle deu uma olhada aos outros dois.
—Menino, você já foi repreendido.
—E... —A voz do Adrian adquiriu certo tom de crispação. — depois não deixa à garota dormindo sozinha. Fica junto dela para quando ela desperte.
—Por todas as galinhas do senhor — murmurou Doyle.
O Caçador de Falcões não gostava de como estava tratando a Annique. Não passava nada, tampouco gostava muito.
—Precisa roer um momento as grades para convencer-se de que a apanhei. Daqui a um tempo se acostumará à idéia. Não ia querer que eu estivesse lá enquanto passa por tudo isso.
—E assim evita que lhe proporcione uma patada nas tripas se irrita-se — disse Adrian irônico.
—Isso também — O motivo principal era que assim não sentiria a tentação de fazer amor com ela de novo enquanto ainda estava dolorida.
Tácito estava na prateleira de abaixo, encadernado de vermelho, em três volumes. Era o volume um. Quando passou algumas páginas, a passagem lhe saltou à vista.
—«... Deformado por nuvens e chuvas constantes, mas o frio nunca é extremamente rigoroso» —O havia dito corretamente, palavra por palavra. Esta era a prova definitiva, se é que necessitava alguma. Porque já sabia o que era que trazia a rastros à casa do Meeks Street essa manhã. Deslizou o livro de volta na estante. —Temos que fechar a casa, duas voltas de chave em todas as fechaduras, não esqueçam nenhuma chave.
—Já o temos feito — disse Doyle — no instante que ela entrou no edifício.
Possivelmente este fosse o lugar mais seguro na Inglaterra. Mas, mesmo assim, não era suficiente, não se tinham em conta o que Annique estava transportando.
—Leblanc tem homens e dinheiro. E a quer morta. Como poderia chegar até ela?
A faca do Caçador de Falcões se deteve.
—Com um ataque à antiga... Com franco-atiradores.
Doyle se moveu entre as prateleiras, comprovando os nomes dos livros.
— Colocamos mais guardas, vigiamos a vizinhança e ela se mantém longe das janelas.
—Nesse caso podem colocar fogo na casa. Minas terrestres no jardim, um ataque com projéteis.
Projéteis. Massageou o cavalete do nariz.
— O quão difícil é conseguir projéteis em Londres?
—Não é fácil — disse Doyle — mas é possível.
—Artilharia atravessando a porta principal. Podem enviar ácido prússico no seguinte envio de grãos de café — A faca desapareceu dentro da manga do Caçador de Falcões. Ficou em pé de um salto e começou a caminhar para frente e para trás sobre o tapete Bokhara. — Uma bomba com a carga escondida numa mochila lançada por cima do muro. Introduzir cobras pelo canhão da chaminé. Dardos envenenados. Construir um túnel até o porão. Valentões armados pela porta de atrás. O envio do tradicional pacote suspeito.
Ninguém com mais imaginação que o Caçador de Falcões.
—Não se podem conseguir cobras na Inglaterra, pelo amor de Deus. Mas fale com Ferguson sobre a comida. Essa é uma possibilidade.
—Eu sei onde se podem conseguir cobras — disse Adrian.
—Não o duvido — Doyle tirou um livro. — E aqui temos a nosso velho amigo Montaigne. Por que nos interessa Montaigne?
—Quero consultar uma coisa. O homem no Delfos que podia diferenciar os ovos. Onde está?
—Demônios, ao menos escolheste uma que sei, é o ensaio «Sobre a Experiência». Está na metade do livro. Numa ocasião tive que copiá-lo, em Eton. Esqueci o que fiz para merecer esse castigo em concreto.
—Está procurando uma das entrevistas inteligentes de Annique? —Adrian tinha se movido para a janela. Estava estudando Meeks Street, provavelmente estava tentando averiguar modos nos que alguém poderia matar outro.
—Uma das minhas.
—Aqui está — Doyle leu. — «... Entretanto existem homens, sobre tudo um em Delfos, que era capaz de distinguir marca para diferenciar cada ovo com tanta precisão que alguma vez confundiu um com outro e embora tivesse muitas galinhas, sabia que galinha tinha posto cada ovo». Era isto o que procurava? Por que nos interessa a filosofia francesa?
—Ela conhece essa entrevista.
—É uma mulher que recebeu uma educação. Suponho que ela...
—Dei-lhe três palavras e ela me recitou o resto. Escolhi o início de uma entrevista de Tácito sobre o clima, extremamente pouco conhecida. Também sabia. Aposto que posso abrir qualquer página destes livros, em qualquer parte do livro e ela me recitaria a página. Aprendeu-as de cor. Quando pôde fazê-lo?
Doyle passou as páginas com o polegar, fechou o livro e o deixou na mesa.
—Isso não deveria ser assim. Tem razão.
— Esteve que aqui para lá pela Europa, seguindo os exércitos. Quando foi à escola, sentou-se e aprendeu estes livros palavra por palavra?
—Não o fez. Deveria haver imaginado — Doyle deu a impressão de estar aborrecido consigo mesmo. — Tem uma dessas memórias peculiares. Ouvi falar delas, embora nunca tivesse conhecido ninguém que tivesse uma de verdade.
Adrian golpeou a parede com a palma da mão.
—Mapas. Disse-me que tinha mapas na cabeça. Não estava prestando atenção.
—É por isso que enviavam uma menina de dez anos aos acampamentos do exército — Doyle entrecerrou os olhos num gesto severo. Sua filha mais velha tinha dez anos. — Não podiam deixar de aproveitar a oportunidade de usar essa memória mágica. Vestiram-na como menino e a puseram a trabalhar nesse inferno, assim que foi capaz de sobreviver por sua conta.
Ela tinha sobrevivido. Perguntou-se como devia ser viver desse modo, recordando cada noite gelada, cada marcha forçada, cada morte. Sem esquecer nunca nada. Não era estranho que tivesse enchido sua mente com as palavras dos filósofos.
—Leva tudo em si — Suas mãos desenharam um círculo, como se a estivesse segurando, essa frente suave, seu cabelo escuro e sedoso — dentro de sua cabeça.
Ficaram de pé, olhando-os uns aos outros, assimilando as conseqüências.
—Acaso os franceses sabem o que é ela? —Doyle respondeu sua própria pergunta. — Fouché, não. Teria trancado-a numa jaula ou matado. Provavelmente a tivesse matado. Quem sabia disso?
—A mãe tinha que sabê-lo — Adrian estava caminhando de novo para frente e para trás, cruzando o espaço entre as grandes janelas e a chaminé. — E Vauban. Os dois estão agora mortos. É provável que Soulier saiba. Ele a escolheu e a pôs a trabalhar quando ainda não tinha terminado de crescer. O que apostam que Soulier e Vauban usavam-na como mensageiro, de um lado a outro da França, enquanto ela guardava as mensagens na memória? —Golpeou o polegar com os outros dedos, um após o outro, enquanto caminhava. — Leblanc não. Ele não sabe.
A mãe, Vauban e Soulier. Os três a utilizavam para transportar segredos. Era o lugar perfeito para escondê-los. Alguém, provavelmente Vauban, em Brujas, por alguma maldita razão, tinha decidido usá-la para armazenar o segredo mais importante.
—Ela tem os planos Albión.
—Vais esquecer, já te disse? —Adrian virou e enfrentou a ele. — Dá igual o que Leblanc tenha dito. Dá-me igual se estivesse em Brujas. Não matou a nossos homens a sangue frio.
—Estou de acord...
—Vauban não teria enviado essa garota para matar sob nenhuma circunstância. Nem por acaso, nem no caso mais remoto. Não apunhalaria a ninguém na garganta por um montão de ouro. Como pudestes passar duas semanas com ela e não te dar conta disto? Eu o soube em seis minutos.
—Estou de acordo. Não é capaz de fazer isso.
—Ela.... Está de acordo?
Era agradável agarrar despreparado ao Caçador de Falcões por uma vez.
— Fui testemunha de como não matava a quatro homens na viagem de Paris até Londres enquanto eles faziam o impossível por matá-la. Muito convincente. Essa mulher não tem instinto assassino.
— Bom, nesse caso — Adrian pegou sua jaqueta para colocá-la como era devido. — O bom sentido comum prevalece.
—Mas transporta os planos Albión — Manteve a mão no alto. — Não, me escute. Vi-os dentro dela. Delatou-se umas cinqüenta vezes, enquanto caminhávamos da costa. Conhece a rota pela que nos invadirão, palmo a palmo — Ela não tinha pensado em ocultar o que sabia de um marinheiro no qual confiava, que tinha salvado sua vida, que não tinha nada que ver com espiões e segredos. — Ao menos uma parte das tropas ocupará o caminho de Dover. Vi como ela calculava exatamente o lugar no qual morrerão pessoas quando Napoleão leve a cabo a invasão, em que ruas e em que ladeiras. Vi através de seus olhos como as aldeias ardiam. Ela tem os planos.
Adrian estava disposto a protestar, mas permaneceu em silêncio.
— Uma carga muito pesada para alguém como ela — disse Doyle.
— Carcome-a por dentro. É como esse menino espartano que tinha uma raposa escondida sob a camisa, que lhe mordia.
—Não temos nenhuma opção, é obvio — Doyle agarrou os naipes da mesa e começou a baralhá-los, passando os de uma de suas enormes mãos à outra. — Tiraremos os planos. Tem sorte de que somos nós que fazemos e não o serviço de inteligência militar. Reams não tem problemas na hora de usar a tortura — Estendeu os naipes em forma de leque e logo voltou a juntá-los todos.
— Isso acaso é um problema? —Adrian arrojou o baralho por cima do ombro e começou a caminhar de um lado a outro de novo. — Não perdemos os parafusos, não é? A mim, pessoalmente, eu gosto de usar uma faca quente nessa pele fina que há entre os dedos dos pés. É um ponto sensível para as mulheres. Sempre digo que não há nada que um homem inteligente não possa fazer com uma faca.
—Está enchendo o saco de Robert.
—Tomo a devida nota.
Annique tinha recrutado a dois protetores poderosos. Bem.
Não se ouvia nenhum som do estudo do piso de baixo. Já devia estar acordada, explorando os borde da caixa em que ele a tinha encerrado, caminhando silenciosamente pelo quarto com o penhoar preso sobre esse maravilhoso corpo de pele branca, enquanto sua mente trabalhava a toda velocidade e de forma ardilosa. Estaria assustada. Não podia fazer isto e não assustá-la. Inclusive se simplesmente estava aí em pé, parte dela estaria golpeando-se contra os barrotes, desesperada para escapar. Era seu trabalho fazer que esses barrotes seguissem em seu lugar.
—Sem força. Sem dor — Mas eles já sabiam disso. — Sem ameaças, nem coação. Nem sequer temos que brigar. Ela vai se convencer de que tem que fazer o que queremos que faça. Por que acreditam que está na Inglaterra? Está a ponto de nos dar o que queremos. Voluntariamente.
Doyle deu a volta à idéia.
—Não veio unicamente esconder-se. Não veio procurando um lugar seguro. Veio para evitar a saída da frota francesa.
—Sendo como é, não pode fazer outra coisa. Vai sopesar o dano que esses planos podem ocasionar para a França frente ao inferno que suporá a invasão. Dar-nos-á os planos. Se a escolha for entre permitir que Napoleão provoque outro banho de sangue ou ajudar a Inglaterra, ela vai ajudar a Inglaterra. Quem quer que seja que lhe deu os planos devia saber disso.
Havia outra coisa que ia averiguar. O que tinha ocorrido em Brujas, para que Annique acabasse com os planos Albión?
—Quase desejaria usar a coação. Assim ela poderia me odiar em lugar de odiar-se a si mesma.
—Vá, isso é profundo, sim senhor — murmurou o Caçador de Falcões.
— Guarde o fôlego, advirto-lhe isso. Sempre o tem feito — disse Doyle.


Capítulo Vinte e Cinco
Cockle Lane, Soho
Os dois homens abriram espaço empurrando bruscamente alguns ociosos que estavam na porta do botequim. Henri coxeava, tentando seguir o ritmo de Leblanc.
—…Vigiando Meeks Street. Informaram que entrou na casa com o próprio Grey. Grey, do serviço secreto britânico. É um desastre.
—Deveria tê-la matado em Dover. Por que estou rodeado por idiotas?
—Não o vê? O homem que retivemos em Paris... era o mesmo Grey. Sans duite. A descrição é inconfundível. O homem que me atacou em Dover, esse é Grey. Esteve com ela desde Paris. Desde que os meteu na mesma cela — Henri fechou o punho e estremeceu. — Bougre de Dieu. Esse homem me aleijou.
—É algo pior que um aleijado, é um imbecil. Não há nenhuma prova de que esse homem seja Grey — Leblanc deu um pontapé num cão negro que rodeava no meio fio.
—Tivemos o chefe da seção britânica em nosso château e não informamos Fouché. Deixamos que escapasse. Se isto vazar, não quero ter que enfrentar Fouché.
—Não terá que te enfrentar ao Fouché — O olhar do Leblanc se centrou em Henri. Deslizou a mão debaixo da jaqueta, para a faca que tinha aí. —Trouxeste os homens que tínhamos no sul? O dinheiro? Tudo está preparado?
—Feito. Tudo preparado. Sempre é um engano utilizar mulheres. Todos confiaram nessa raposa e agora abre as pernas para esse Grey e canta nossos segredos. Terá que impedi-lo.
—Não o fará você. É um inútil com um ombro quebrado. Necessito homens que saibam disparar uma pistola — Leblanc olhou acima e abaixo a rua deserta. Um beco se abria numa das laterais, oculta pelas sombras, sinuosa e privada. — Vamos. Tomaremos o caminho mais curto.


Capítulo Vinte e Seis
—Mas esta roupa é preciosa — Sustentou um vestido de passeio de seda estampada. — E diz que é inglesa? Parece-me que a vida é muito estranha.
Ainda estava vestida no penhoar branco que quase lhe chegava até os pés e que era suficientemente grande para lhe dar a volta duas vezes. Era de Grey. Ele tinha desfrutado envolvendo-a em um de seus objetos.
Seu dormitório era um lugar acolhedor, com cortinas de brocado azul e uma cama muito grande. Estava desordenado com suas coisas, mas de um modo agradável. Os preciosos vestidos estavam estendidos sobre a colcha.
—Se vista para descer para o jantar — Escolheu o vestido de cor verde clara com flores bordadas sobre o corpete. — Acredito que este.
Os vestidos tinham um corte precioso, o traje de uma mulher com gosto, e refinada. As caixas que tinha a seus pés continham combinações e roupas íntimas, completamente novas e tão delicadamente indecentes como qualquer dos objetos que tinha visto em Paris. Não era habitual que uma prisioneira pudesse vestir essa roupa no jantar. Tinha estado prisioneira em várias ocasiões e sabia.
—Trouxe-me isso de uma amiga tua? Que amável! — Não gostava da idéia de que ele conhecesse uma mulher a quem pudesse pedir este tipo de favores. — Quando a gente pensa em todas as mulheres respeitáveis que há no mundo, resulta extraordinário o que em muito poucas ocasiões me tenham dado roupa interior decente.
— Como assim? — Sua expressão estava cheia de desejo e compreensão. Ela estava totalmente segura de que ele desejava vê-la vestida com esses objetos mínimos de seda e ligas. Ele estava imaginando como as tiraria e a depositaria sobre a cama. Sem dúvida, era o chefe de seção do serviço inglês, mas também era um homem.
Deu-se conta de que não gostava o mínimo de se deitar e fazer amor nessa enorme cama com uma colcha azul. Queria golpeá-lo com algo, não para matá-lo, mas sim lhe pegar forte.
Agarrou uma combinação e se deu a volta antes de tirar o penhoar, que caiu ao chão enquanto ela vestia a combinação, tudo em um único movimento, tão rápido que ele poderia vislumbrar pouco de seu corpo nu. Essa era sua resposta ao olhar em seus olhos. Ele o entenderia. Era um homem acostumado às sutilezas.
—Este é um quarto agradável— enfiou o vestido verde pela cabeça e o alisou ao redor dos quadris. Ficava bem. Sua amiga era quase do mesmo tamanho que ela, exceto que essa mulher tinha mais peito. Um decote precioso e feminino. —Dei-me conta de que contém muitas coisas que podem ser usadas para matar. Não me deixaria aqui se fosse você. Eu me meteria numa masmorra, embora insista em que não as têm.
—Não temos masmorras. Tenho um quarto cômodo e aborrecido em que coloco às pessoas perigosas. Não vou lhe mostrar isso porque não quero que perca a calma por culpa do medo. Prometi a Galba que te levaria de um modo sensato.
—Ao menos não te atacarei com nenhum destes tentadores objetos que deixaste espalhados por aqui. Não por agora. —Tentou alcançar os botões que estavam nas costas, mas ele afastou com delicadeza sua mão e os abotoou para ela. — Obrigada. É difícil vestir-se com roupa tão elegante sem ajuda. Seria de se esperar que a vida fosse melhor administrada.
Observou-a como se tentasse desarmar seu coração, como se fosse um quebra-cabeça. Pois, era seu interrogador, seria sua tarefa, durante um tempo, desmontá-la peça a peça. Resultava indescritivelmente aterrador ser o quebra cabeças nesses casos.
Fechou o último botão.
— Maggie trouxe um pente. Está na penteadeira.
— A Maggie do Doyle? Quer dizer que esta é sua roupa? Estou muito surpreendida — Pensou no Doyle, que esteve em Cambridge e tinha comprado estes vestidos para sua mulher e esses objetos de roupa interior. —Parece-me que ela não deve ser tal como eu a tinha imaginado.
Grey não esperou a que ela procurasse o pente, mas sim o agarrou ele e começou a usá-lo em seu cabelo. Logo o penteou e alisou com a mão. Era uma ação normal, um gesto simples e cheio de força, como um pôr-do-sol ou estar em pé ante o mar. Um homem fazia este tipo de coisas por uma mulher que lhe pertencia.
No espelho, sua boca estava cheia e pronta, como a fruta amadurecida, e seu olhar era suave e imprudente. Realmente parecia uma mulher que acabava de perder sua virgindade com alguém. Já não resultava óbvio o fato de que o tivesse feito numa banheira, já que agora não estava vestida com o comprido penhoar branco. Grey tinha se convertido em um cavalheiro, aqui no centro de seu poder. Levava uma jaqueta de marca, da cor negra azulada da meia-noite, com um colete com linhas finas de cor branca e vermelha. Um pesado selo lançava brilhos dourados enquanto seus dedos se deslizavam entre seus cabelos ao penteá-la. Não era bonito. Os homens como Grey lanchavam aos dândis bonitos duas vezes por semana. Se ela tivesse sido uma jovenzinha atordoada, ele a teria deslumbrado.
—Quando escapar desta prisão,—disse ela—encontrarei um menino cigano, mais jovem, escuro e bonito que você. Farei amor com ele em celeiros e palheiros até que deixe de sentir o que sinto por ti—O disse para feri-lo e liberar-se dele. Não gostava do que via em seu olhar no espelho.
—Espero que o desfrute. Não trocará o que há entre nós, Annique, nem sequer com cinqüenta jovens ciganos.
Oxalá ele não dissesse semelhantes verdades. Separou-se dele e começou a arrumar a desordem em cima da penteadeira, colocando tudo em ordem.
— Alguém não se apaixona por seu carcereiro. É uma falácia em que acreditam os carcereiros: pensam que seus prisioneiros os querem, mas nunca é verdade. Se não tivesse me prendido, já teria partido. Numa semana te teria esquecido por completo—«Ou em um mês, um ano ou nunca». — Não existe nada entre nós, exceto o desejo carnal.
—Isso também.
—Não quero sentir nada por ti. Compreende-o? Pode imaginar o que é não ter nenhuma combinação que colocar? Depender de tal modo de um homem que tenho que lhe pedir roupa. Não é uma boa base para uma amizade.
—Sei. Torna mais complicado. Dormirá comigo esta noite?
Ele tinha que perguntar; não o exigia, só perguntava. Ela não sabia como podia lutar contra semelhante astúcia.
—Posso me negar?
—É obvio que pode. Há uns cinco ou seis dormitórios vazios, um logo em frente ao outro lado do corredor. Posso te pôr aí — Cortou o espaço que os separava até que estavam a ponto de tocar-se. — Não fecharei minha porta com chave. Virá para mim?
—Sou muito estúpida.
—Imagino que isso é um sim—Estava sorrindo.
Concedeu-lhe essa vitória.
—Virei a ti em algum momento da noite, caminhando nas pontas dos pés pelo corredor, abrirei a porta e me colocarei engatinhando a seu lado. Já posso escutar o que seu corpo quer dizer ao meu. Se me levasse até essa cama, inclusive sem tomar um segundo para me persuadir, arderia de desejo.
—O corredor fica gelado. Dorme comigo esta noite, nessa cama.
Embalou sua bochecha na dura quentura da palma de sua mão. Estava tão ligado a ela... Inclusive percebia o menor movimento de sua cabeça.
—Tem que dizê-lo.
—Sim — Não tinha vergonha.
—Farei com que cumpra sua promessa — A atraiu para ele, corpo contra corpo e aproximou sua boca de seu cabelo, respirando seu aroma, emitindo um grunhido grave da garganta. Que ele desejasse até seu aroma lhe chegou ao coração.
Suas mãos também tinham vontades de tocá-la. Pegaram o suave tecido do vestido em seu traseiro, acariciando-o, desfrutando da forma de seu corpo. Fechou os olhos para estar na escuridão com a força que ele representava, com seu desejo e seu enorme coração que não cessava de pulsar. Não existia nada mais que as sensações. O calor se acendia entre suas pernas e se estendia docemente, resplandecendo do interior de sua pele, em ondas. Estava embriagada de sensações. Era...
Ela era Annique Villiers e esse homem era seu inimigo. Empurrou-o para afastá-lo, respirando com dificuldade. Tinha estado gemendo em voz baixa e não se deu conta. Realmente era uma idiota.
—Cometo... —Tinha que começar de novo.—Cometo enganos contigo. Confunde-me.
—Não está acostumada a te sentir confusa.
—Deixa de me tratar com condescendência, monsieur. Só perdi um pouco a cabeça com você. Poderia ocorrer com qualquer um—Cruzou o quarto, pisando forte, descalça, para sentar-se na ponta da cadeira. A Maggie de Doyle tinha mandado meias de seda com um desenho estampado em branco. Eram deliciosas. Ia ficar com umas meias delicadas, com as quais poderia voltar-se louca.—Possivelmente devia recuperar o sentido comum e dormir sozinha esta noite. Quem sabe? Não pode me aturdir e me enredar para sempre.
—Estamos nos enredando juntos.
—Mas um dos dois é o carcereiro. Quer que o esqueça. Por isso é que é tão amável. Por minha parte, preferiria que fosse sincero e me acossasse com perguntas. Então recordaria que sou prisioneira. Se ainda ficasse um pouco de orgulho não me arrastaria até sua cama e brincaria de ser prostituta.
O silêncio golpeou, capitalista como um raio. A tensão crepitava no ar que os separava. Podia sentir sua ira como faíscas ardentes que caíam sobre sua pele.
—É isso o que está fazendo? Está interpretando o papel de prostituta?
Ela não podia olhá-lo.
—Ensinaram-me a fazer isso se me capturarem.
O homem que a olhou era unicamente Grey. Não ficava nem um ápice do Robert.
—Prisioneira e carcereiro? Se isso for tudo o que somos, então vamos começar a te acossar com algumas pergunta. Fale-me dos planos Albión. Quem lhe deu isso? Vá, é quase perfeito. Parece surpreendida e de uma vez ofendida. Muito bem.
De repente sentiu como o frio se apoderava dela, porque ele estava zangado com ela e porque era um homem capaz de descobrir suas mentiras. Realmente já não tinha nada que fora seu mais que suas mentiras. Atou as ligas e colocou as médias em seu lugar.
—Nunca vi esses planos que todo mundo acredita tão fervorosamente que eu transporto como se fosse uma gata levando seus gatinhos. Não sei o motivo pelo que...
—Leva-os em sua cabeça.
O frio a cobriu por inteiro, gelando o seu coração. Não podia mover-se. «Não pode sabê-lo. Não pode. Ninguém sabe».
—Não entendo o que quer dizer.
—Cada página, cada lista, cada mapa. Tudo está guardado em sua memória, fazendo um oco com o Racine, Voltaire e Tácito. Por isso Leblanc nunca vai encontrá-los. Não sabe onde tem que procurar.
Lentamente, colocou os sapatos que ele havia trazido de algum lugar para ela. Devia seguir movendo-se. Seu cérebro não queria funcionar, nem sequer um pouco. «Sabe. Sabe. Como pode sabê-lo?».
Ele a estudou e esperou.
—Não pretendia te deixar sem fala.
«Estiveste diante de fogo de canhão. Roubaste envios de documentos diante de muitos narizes do alto comando prussiano. É a Jovem Raposa. Não fique sentada como uma idiota de quem o gato comeu a língua ». Teve que usar uma grande força de vontade para encolher os ombros.
—Essa é sua teoria. É uma teoria pouco rigorosa e bastante absurda.
—O que vai fazer com os planos, Annique? Vais ficar na costa e saudar com a mão quando atracar a frota francesa? É obvio, você sabe onde vão desembarcar.
Tinha a boca seca como papel de lixa.
—Não vou dizer que não sei nada, porque sou uma mulher com uma inteligência sem comparação, mas certamente não sei nada sobre invasões. Não diz mais que desatinos.
—Odeia Bonaparte. Provavelmente o odeia desde a época da Vendée. Veio a Inglaterra para deter a invasão. Caminhaste desde Marselha, cega e sozinha, porque sabe o que vai passar.
—Vou dizer isso de novo. Não sei nada sobre esses planos. Sou uma francesa leal ao meu país.
Deixou que essas palavras flutuassem entre eles durante um tempo antes de dizer, com voz muito amável.
—Ao final, quando não ficar outra opção, dar-me-á os planos Albión. Não pode fazer outra coisa.
Algo dentro dela rachou e se desmoronou. Talvez fosse sua coragem. Grey soube. Tinha unido tantas pequenas peças, o rancor de Leblanc e suas imprudentes palavras e conseguiu discernir tudo. Apenas tinha bastado afinar o olfato para saber tudo o que havia na cozinha. O segredo de sua memória, a escolha com a qual enfrentava e que a torturava, a decisão que devia tomar. Ele inclusive sabia o que ia escolher. Era um dos melhores espiões, estava ao mesmo tempo com Soulier e Vauban.
Ele viu quando se quebrou sua coragem. Não existia nada que não pudesse ver em seu interior.
—Maldita seja—Cruzou o espaço para chegar até onde ela se encontrava sentada, levantou-a e segurou entre suas mãos.—Assustei-te. Prometi-me que não ia fazer isso— A bochecha dela se pegou às linhas de seu colete com brocado. Atraiu-a para ele e seus braços que pareciam ser feitos de ferro. — Falaremos, só falaremos. Não vou fazer que faça nada que não queira. Mas o plano de Bonaparte é uma loucura. Nós dois sabemos. Vai fazer tanto mal tanto à França quanto à Inglaterra.
Sabia tanto sobre ela... Roeria os alicerces de sua alma como um camundongo que come o revestimento das paredes. Não tinha modo de defender-se dele.
—Não desejo falar sobre política francesa. É um tema complexo e deprimente.
—De acordo. Não falaremos—Colocou o queixo sobre a parte superior de sua cabeça.—Só te apóie em mim durante um momento.
Com os olhos fechados, na escuridão, era como estar de volta na França, cega, conhecendo Grey só pelo tato e o aroma. Ao fim de um certo tempo, um relógio deu a hora em um dos quartos que havia no corredor. Sete badaladas. Ela notou como debaixo de suas mãos se esticavam os músculos das costas dele e soube que já tinha finalizado a pequena trégua entre eles. As tréguas eram assim, terminavam, antes ou depois.
Ele deixou que partisse.
—Não deveria ter feito amor contigo esta tarde. Fiz com que duvidasse de seu próprio critério. Confiaria mais em mim se seu corpo não me desejasse — Baixou o olhar e riscou com a gema do dedo o contorno de sua orelha. — O vê? Quando é capaz até de sentir isto, retrocede, porque pensa que trato de te manipular.
—Acaso não é assim?
Ele abriu a mão, como se soltasse algo.
—Não sei como posso te convencer. Desejo-te tanto que me custa pensar com claridade.
—O que fará comigo quando eu decidir não ser uma traidora por ti? — Deixou que seus braços caíssem, longe dele.
—Não vai acontecer desse modo.
—Sem dúvida, acreditar nisso deve fazer que se sinta cômodo.
—Quer que te prometa coisas? Tenho várias promessas para fazer. Aconteça o que acontecer, proteger-te-ei do Leblanc e Fouché. Não vou te machucar, mesmo que continue te dando uns sustos de morte.
—Estou tremendamente desolada por te decepcionar, mas é um aficionado nisto de me assustar. Conheci a peritos.
—E não fará mais que piorar a partir de agora. É tão complicada. Não te amaria se fosse estúpida, mas seria muito mais fácil para os dois — Respirou fundo. —Desce para jantar. Outros já começaram.


Capítulo Vinte e Sete
A decoração da casa em Meeks Street era completamente masculina. Nas paredes dos corredores estavam pendurados mapas antigos e desenhos arquitetônicos no Marco de cores escuras. Sobre as mesas junto às que passou viu pastas, xícaras de café vazias e luvas de homens que tinham deixado de forma descuidada numa terrina grande. Não se viam arranjos de flores, nem uma composição de flores secas, nem adornos de nenhum tipo.
A sala de jantar estava ao lado de uma sala na qual Grey tinha deixado que dormisse essa tarde. Estava aprendendo onde estava tudo nessa casa que era sua prisão. Com o tempo, conhecê-la-ia extremamente bem.
Deteve-se frente ao espelho do salão principal para inspecionar seu aspecto uma última vez.
—O vestido fica bem, é doce e inocente — Grey franziu o cenho. Não por ela, simplesmente, ela estava na linha de fogo enquanto ele pensava. — Está tão indefesa como um tigre de Rojão de luzes, graças a Deus. O que sabe do coronel Joseph Reams do serviço de inteligência do exército britânico?
Seu rosto não delatou nada, mas lhe encolheu o estômago. Françoise, que tinha sido uma das agentes do Vauban, sua amiga e uma espiã muito hábil, tinha sido interrogada numa ocasião pelo Reams, foi capturada e interrogada só por uma suspeita pouco sólida. Tinha demorado meses para recuperar-se.
— Ouvi falar dele. Uma ou duas pequenas coisas.
— Então já tens sabor do que enfrentamos. Terá que conhecê-lo.
Era bem sabido que Reams, do serviço de inteligência militar, torturava mulheres como ela, espiões, e que além o desfrutava. Tinha deixado que Grey lhe inspirasse um falso sentimento de tranqüilidade. Agora estava de novo aterrada e com motivos.
—Veio porque estou aqui. O serviço de inteligência militar está interessado em mim. Deveria ter imaginado.
—Confia em mim?
—Não. Quer dizer... Talvez. Em certo modo — Acaso não podia ver que estava atordoada pelo medo, acaso não podia deixá-la nessa paz é uma pergunta estranha.
—Confia em mim nisto. Reams não pode te tocar. Não tem poder debaixo deste teto. Não vou deixar que ninguém te faça mal.
—Isso é o que disse Galba. Acreditar-me-ia isso mais se não me dissessem isso tão freqüentemente.
—Tem minha palavra — Para ele, isso deixava tudo dito. Tinha sido um oficial inglês antes de comandar tantos espiões. Possivelmente ela sim confiava nele.
Abriu a porta de uma sala preciosa, perfeitamente proporcional, com as paredes cheias de cenas chinesas de pagodes e montanhas longínquas. As cortinas de seda Jacquard brancas estavam fechadas de forma que ninguém visse os barrotes. Tinham disposto um jantar simples sobre a mesa. Emprestou toda sua atenção aos homens e à única mulher, que estavam sentados na mesa.
—…Evitar a confrontação —Estava dizendo Adrian quando ela entrou no quarto. — É possível que Lazarus inclusive espere...
Deixou de falar e ficou em pé de um salto. Os outros homens também ficaram em pé: Galba, na cabeceira da mesa; monsieur Doyle, que reconheceu facilmente depois de tê-lo visto anos atrás em Viena; o menino Giles, que tinha aberto a porta dessa casa para que ela entrasse; um homem magro e de cabelo castanho que não conhecia. No último minuto e a contra gosto, o último dos homens ficou em pé, era um homem baixo e com cara rosada. Pensou que devia ser o coronel Reams.
—Mademoiselle, espero que tenha descansado — Galba a aproximou da mesa e fez um grande espetáculo quando a apresentou ao Doyle, que se fazia chamar visconde Markham e a sua mulher, lady Markham, que não tinha o aspecto de uma mulher que se chamasse Maggie. Surpreendentemente, ela era francesa, com o acento de uma aristocrata, o que não é algo que se espere de uma mulher chamada Maggie. O homem magro com aspecto de bibliotecário, que sem dúvida era um espião do mais letal, era o honorável Thomas Paxton. Junto a ele, Galba lhe apresentou ao coronel Reams, que não a olhou, mas fez um gesto de desprezo de forma mal educada. Então, Galba apresentou ao Adrian e ao Giles.
Grey a sentou na cadeira que se encontrava entre a de Galba e a de Adrian e logo se sentou à esquerda do coronel, que é o lado mais fraco de um oponente e o mais vantajoso para atacar.
—Coronel — disse ao sentar-se.
—Comandante — Reams o saudou de uma maneira tensa e pouco amistosa.
Odiavam-se, Grey e o coronel Reams. Aos outros tampouco agradava o coronel. Ela, que tinha sido adestrada para perceber essas coisas, viu que Doyle, Adrian e o estudioso do Paxton estavam como esses homens que se encontram em um botequim que não conhecem, sentados nas cadeiras com o corpo pouco rígido, com os braços sobre a mesa, com os pés separados, preparados para saltar. Cada um dos homens da sala de jantar estava observando ao coronel Reams com atenção, embora não davam à impressão de estar fazendo-o. Era um jantar cheio de estratagemas bem praticados.
Adrian murmurou que ela não tinha que preocupar-se posto que Grey tinha tudo controlado. Serve frango, batatas e feijões verdes em seu prato, fingindo estar falando com ela quando, em realidade, não emprestava a mais mínima atenção quando lhe disse que não queria nada.
Galba retomou a conversação onde se ficou.
—Saber-se-á sua culpabilidade, Adrian. Lazarus não é idiota. Pensaste nas conseqüências?
—Se não intervir, Whitechapel acabará alagado de cadáveres ao terminar a semana. O que quero fazer é...
—Não coloquem os narizes neste assunto, essa é minha opinião — Interrompeu o coronel Reams. — Deixe que arranquem o pescoço um ao outro e se engasguem. Dado que não nos deixam participar de todas essas tolices...
—Vocês, os do exército, são pessoas simples e diretas — Adrian interrompeu com frieza.
—Desejo saber o motivo pelo que esta rameira francesa anda por aqui como se fora...
—Mas este não é um desses jantares masculinos, nos que se dão tapinhas quando contam piadas em seus barracões.
Grey moveu a mão sem chamar a atenção e Adrian o deixou estar.
—Coronel, você é um convidado nesta casa e há damas presentes. Adrian, serve a mademoiselle Villiers um pouco de vinho.
Grey estava deixando claro alguns costumes, de modo que ela deixou que Adrian enchesse sua taça.
O coronel grunhiu e girou para olhar frente a frente à Galba.
—Diga-me você o porquê dessa maldita raposa espiã francesa estar sentada à mesa.
Galba deixou que o silêncio eloqüente interrompesse a conversação e logo, disse com suficiente suavidade.
—Não vamos tratar disso agora, coronel, nem com esses termos — Se virou para Adrian.—Preocupa-me intervir na própria casa do Lazarus. É uma provocação de nossa parte.
—Não de nossa parte, da minha. Atuo por conta própria. Annique, não vai crescer e te pôr forte se não comer as verduras.
Ela reordenou o que Adrian tinha servido em seu prato com o garfo e escutou como tratava eloqüentemente de lhes convencer de um de seus planos, que sem dúvida era complexo e perigoso. Não comeu. De todos os modos, não teria sido capaz de comer enquanto o coronel Reams seguisse assim furioso com ela. O vinho cheirava como se fosse de uma excelente safra.
—Qual é sua decisão? —Galba olhou a Grey.
—Terá que tentá-lo. Ocupar-nos-emos do Lazarus depois. Will virá conosco para levantar a carga pesada.
Adrian expulsou o ar de seus pulmões com impaciência.
—É a janela de um segundo piso. Ela... —Seus olhos se deslizaram até onde estava Reams.—O pacote que vou recolher pesa vinte e cinco quilogramas e meio. Poderia tirá-lo sob um braço.
—Só tem um,—disse Grey—seu ombro ainda não se curou. Fá-lo se tiver que fazê-lo, mas Will irá contigo.
—Deste modo Grey tomava as decisões sobre temas importantes, enviando a estes homens letais a roubar, tomando cuidado de que estivessem a salvo.
Seria fácil apaixonar-se por um homem como este. Ele se deu conta de que ela o olhava e sorriu, brevemente, como faria um homem com sua noiva e também como um mulherengo que ficou muito satisfeito com sua gatinha. Foi um elogio, mas uma situação embaraçosa, embora, é óbvio, ninguém na mesa sabia o que ele tinha feito com ela.
Logo começou a falar com Doyle, unicamente de temas de trabalho.
—… ponha dois guardas mais. O de Galba está no quarto de convidados, mas Pax parte antes do amanhecer.
O silencioso Paxton estirou um braço do outro lado da mesa para agarrar a garrafa de vinho.
—Pegarei a rota habitual. Se tiverem mensagens, dêem-me esta noite.
—Já tem a minha.—Galba agarrou sua taça de vinho—Boa viagem.
Discretamente, Grey, Doyle e Adrian também elevaram suas taças e beberam ao mesmo tempo.
Como lhe trazia lembranças este jantar. Quando era uma menina em Lyon, tinha levado pão e vinho a mesas como esta e se sentou como um camundongo silencioso enquanto homens e mulheres realizavam este tipo de preparativos e partiam, um após o outro, para caminharem sozinhos para o perigo. Mais adiante, ela tinha sido uma das agentes do Vauban, formando parte do círculo interno. Esse brinde silencioso... Seus amigos tinham feito isso por ela. Sentia-se sozinha ao ver isto de fora como uma intrusa.
—A esse respeito... —A cadeira de Galba rangeu.—Mademoiselle Villiers, devemos esclarecer esta situação para todos os que estão envoltos. Lamento lhe dar tão pouco tempo para que se recupere.
Ela depositou o garfo na mesa e deixou de mexer as verduras pelo prato.
—Sou toda ouvidos.
—Deseja acompanhar ao coronel Reams e ficar sob o amparo do serviço de inteligência militar? Parece-me que não. Não, coronel, pode falar depois. É sua decisão, mademoiselle.
Ela negou com a cabeça.
—Então não o fará. Ficará conosco. Entretanto, preferiria que não se entretivesse pensando em alternativas impossíveis. Entendi que planeja escapar.
—Alguém estuda muitas possibilidades—Não tentou parecer jovem e inocente, dado que não valeria de nada aí. Em seu lugar, serenou seu rosto como se estivesse na ópera, atenta, mas, sem compreender nada.
Grey o agradeceu. O brilho em seu olhar tinha uma expressão divertida.
A expressão da Galba não era tão fácil de decifrar.
—Vamos deixar clara sua situação. Não carece de inteligência, mas subestima sua valia neste jogo. Não é algo estranho na gente de sua idade. Robert, pode acompanhar a mademoiselle Annique até a porta principal e abri-la para que saia.
O coronel Reams ficou em pé de um salto, com o rosto avermelhado e zangado como um galo briguento.
—É uma cidadã francesa. Não tem nenhum direito. A garota é minha, maldita seja—Teria resultado ridículo com sua barriga sacudindo-se e aferrando o guardanapo na mão. Mas não era ridículo para alguém que podia acabar logo em seus porões para ser interrogada.
Depois Grey a segurou pelo cotovelo, tirando a do quarto, seu corpo entre ela e essa abundância de ira a fervuras, avançou com passo firme diretamente para o coronel. Foi Reams o que teve que retroceder. Girou-se para grunhir na cara afável de Galba, cuja periculosidade era de um tipo que o coronel não era capaz de reconhecer.
O clamor de seu ultraje os seguiu pelo corredor até um salão pouco iluminado e frio onde Grey abriu a porta principal. O vento frio da noite os envolveu.
Detiveram-se justo na soleira da porta e Grey olhou com atenção às casas na calçada de em frente. Ela pensou que ele estava considerando a possibilidade de franco-atiradores.
—O coronel tem medo de que me deixe escapar daqui. É um estúpido, não crie? —disse ela.
—É um filho da puta egoísta.
—Também isso. —Olhou a rua tranqüila no entardecer.—Abriu esta porta, tal como Galba te disse que fizesse. Deseja me mostrar algo. Tenho uma idéia do que pode ser.
—É obvio que imagina—Fez um gesto para a enorme carruagem negra que esperava diante dessa casa é a carruagem do Reams. Os homens jovens e sãos que estão dentro e demonstrando tanto interesse em ti pertencem ao seu destacamento particular da marinha. Trouxe três.
—Suponho que isso é uma honra em certo modo.
—Tem uma reputação entre os espiões. Entretanto, podemos ignorá-los, porque Reams não pode te tocar. Recorda isso. Agora, olhe à direita, mais longe na rua — O braço de Grey ao redor de sua cintura não estava aí para impedir que fugisse. Era para lhe dar ânimos.—No portal número dezesseis, com a janela na fachada, em que se vê um abajur. Essa é a agente do Soulier que nos vigia de forma amistosa. Essa mulher cultiva ervas no jardim que tem na parte de atrás da casa, e, dá de presente bolsinhas cheias de lavanda todos os anos no Natal. Esta noite tem visita. Franceses importantes. Agora estão junto à janela, nos observando.
Deixou que ela assimilasse a informação durante um tempo e logo disse:
—Quando Soulier receber as ordens do Fouché, não ficará outra opção.
O céu estava opalescente pelo entardecer. As tílias plantadas numa pequena linha de jardim no meio da rua sussurravam ligeiramente a causa do vento. Os dois sabiam que era possíveis que a ordem de matar do Fouché já tivesse chegado a Londres.
—É um momento difícil para o Soulier.
—Em efeito. Ainda não sabemos nada do Leblanc. Provavelmente esteja já em Londres. Terminemos com isto. Olhe à esquerda—Um carro e um cavalo esperavam na rua. Picos, pás e montões de tijolos desordenavam a calçada. Dois homens, que trabalhavam além de qualquer horário razoável, reparavam um muro de tijolo em frente de uma das casas.
—Nossos agentes locais do czar.
—Estou aprendendo russo. É um país que a França ainda não invadiu, mas quero estar preparada.
—Suponho que essa tua memória é de grande ajuda para aprender idiomas. Que mais temos? Os monárquicos franceses estão no Braddy Street, há dois ou três grupos, a maioria simplesmente se vigia uns aos outros. É difícil diferenciar aos monárquicos. Às vezes nem sequer eu estou seguro.
—Esses são todos? —sentiu-se profundamente cansada. Era inconcebível que tantos homens se interessassem nela. Era pura perversidade. Não era possível que soubessem o que ela levava em sua memória.
—Um mais. Na esquina. Vê o varredor do cruzamento? Ele trabalha para Lazarus.
—Lazarus? Sim... O Lazarus do Adrian. Ao que vai roubar lhe esta noite. Não conheço esse nome.
—Não forma parte da esfera política. Lazarus governa aos criminosos desta cidade. Trafica com objetos preciosos. Venderia o conhecimento que alberga em sua cabeça e a ti incluída ao melhor pagador—Apertou seu braço com mais força.—Daria essa informação em pouco tempo. É... Hábil.
—Este é um bairro interessante—Não tentou ocultar o medo em sua voz. Grey havia a trazido aqui para assustá-la e merecia saber o êxito que tinha tido.—Todos estarão especulando sobre o motivo pelo que estou em seu quartel, com este precioso vestido e sem ser retida contra minha vontade. É isto o que quer, verdade? Mostrar-lhes que não me fez mal.
—Soulier se sentirá aliviado.
—Não o menospreze. Soulier estava acostumado a comprar merengues na Alameda St. Michel quando era tão pequena que podia me levar nos ombros. Levou-me a ópera quando tinha oito anos. Eu levava um vestido branco com uma bandagem azul. Ensinou-me a forçar fechaduras. Não gostaria absolutamente de ter que me matar.
Em uma hora Soulier saberia que ela estava ali. Perguntar-se-ia se ela se converteu numa traidora. Grey o tinha feito de propósito. Uma jogada muito inteligente de sua parte.
—Voltemos para dentro. Tenho frio.
Reams seguia gritando e esmurrando a mesa quando retornaram, usava palavras em inglês que ela ainda não tinha aprendido. Sem olhá-lo, ocupou seu lugar na mesa junto à Galba e recolheu o guardanapo para ficar no seu regaço.
—Bem. Retornou. Sua comida estava esfriando-se—Adrian passava o momento em sua cadeira sem fazer nada, com uma expressão benevolente,—e o coronel se está repetindo.
Reams girou sua cabeça como um touro enfurecido, olhando com ferocidade a ambos os lados da mesa.
—Ela vem comigo, agora.
Estava segura de que Reams não podia dar ordens a Galba. Quase segura. Perguntava-se uma e outra vez o motivo pelo que nunca tinha aprendido mais sobre os britânicos.
Galba não elevou a voz.
—A competência é discutível. Venha, coronel, sente-se. Não vamos zangar-nos por uma agente francesa, cuja utilidade é ainda questionável.
Concentrou-se em parecer alguém cuja utilidade era questionável.
—O serviço de inteligência militar tem prioridade. Maldita seja, é minha até que termine com ela—O olhar do Reams avançou lentamente até chegar a ela. Seus dedos se curvaram com ânsia. Este era um homem que tinha empregado muita imaginação para planejar exatamente como ia interrogar-la.
Galba agarrou a taça de vinho com as duas mãos.
—Sua organização terá acesso a todos os documentos que obtenhamos, mas ela fica conosco.
—Eu digo...
—Isto é a Inglaterra, coronel—Grey se manteve firme como a rocha e o aço. Deu um passo para o Reams.— Desta vez, não tem uma tropa de homens armados a suas costas—Deu outro passo.
Reams retrocedeu. Só um passo, mas todos tinham visto como se estremecia, como um cão diante do lobo. Todos sabiam que temia a Grey.
—Maldito seja—disse de maneira entrecortada e com o rosto avermelhado, girou-se e golpeou a mesa com o punho em frente da Galba. A baixela de prata fez ruído. Os copos dançaram.—Será melhor que busque outra prostituta bonita para jogar. Vais-te inteirar que tenho sim a autoridade necessária para levá-la. Saiu irado, sem olhar atrás e o jovem Giles saltou para correr agilmente e assim abrir as portas fechadas com chave que ia encontrar em seu caminho.
—Isso realmente o pôs nervoso, não lhes parece? —Doyle comentou em tom afável.—Espero que não estivesse escutando nada disso, Maggie, porque não disse nada educado.
—Besta anã e venenosa—Lady Markham, que era Maggie, bebeu um pouco de vinho.
Annique soltou o ar lentamente. Sentia-se como se fosse feita de papiro antigo, pronta para desfazer-se em pedacinhos ao primeiro toque e sair voando com o vento.
Adrian lhe falou ao ouvido.
—Reams tem muito poucas oportunidades de acossar espiãs formosas. Está muito decepcionado—Agarrou uma de suas mãos e começou a esquentá-la esfregando-a entre as suas.—Para nós é rotina. Abusamos de mulheres a maioria dos dias da semana. Agora bem. Por que sou eu o que sujeita sua mão quando o que deseja é que seja Grey? Que... Sim, em algum momento aparecerá.
Então Grey apareceu a seu lado e ela se girou para ele e afundou sua cara em seu colete.
—Não pode te tocar. É tudo uma fanfarronada—Grey acariciou seu cabelo.—Acaso não me escutou quando disse que estava a salvo?
—Robert, leve a daqui—disse Galba.
—Estará bem. Dê-lhe um minuto.
—Podemos lhe conceder poucas comodidades, mas a privacidade não é algo que vamos negar lhe—Galba afastou o olhar.—Marguerite, minhas desculpas por te expor a isto. É consciente das exigências que me obrigam a tolerar ao coronel Reams.
Doyle riu entre dentes.
—Que demônios, Maggie não compreende a metade das palavras que disse o coronel. Verdade, céu?
—Certamente que sim, aprendi muitas palavras vulgares de ti.
Todos tinham muito cuidado de não olhá-la. Não podia derrubar-se por culpa do medo e compaixão ante o olhar de tantos agentes ingleses e de uma aristocrata. Deixou de aferrar-se a Grey.
—Não se preocupem, estou perfeitamente bem.
Entretanto, ele não a soltou, detalhe pelo qual esteve indescritivelmente agradecida.
—Sinto ter te feito passar por isso. Tínhamos que mostrar a ele que estava sob nosso amparo. Sob o amparo de Galba.
—Consinto sem problemas a que me mostrem como a um macaco de feira—Olhou muito fixamente para seu prato.—Embora eu não goste dos homens zangados que gritam para decidir quem me vai levar a seu porão para me torturar.
—Não pode chegar até você—disse Doyle em voz baixa,—não pode passar por cima de nós.
—Mademoiselle,—disse Galba—lamento que a tenhamos angustiado. Postergaremos o resto desta conversação até outro momento.
Era muito educado. O ruidoso coronel com suas múltiplas ameaças era o menos perigoso de todos os homens do quarto. Agora tinha que enfrentar o resto.
—Não tem sentido esperar.
—Possivelmente não. Deseja retirar-se a outro lugar para comer em paz?
—Não é necessário.
—Tentará beber o resto do vinho?
Ela negou com a cabeça.
—Não tento aturdi-la. Um copo de Bordeux não está acostumada beber, não? E nada do resto da comida a tentará, verdade? Então, agarre o vinho e vamos à habitação contígua.
Adrian empurrou as portas corrediças de trás que separavam a sala de jantar do escritório. Este era o quarto onde tinha dormido antes no sofá. Obviamente, agora tinha que sentar-se nesse mesmo sofá. Grey havia trazido sua taça de vinho. Não bebeu nem um pouco, mas ocupou suas mãos. Atrás deles, na sala de jantar, Giles limpou a mesa, empilhando os pratos em um elevador para pratos na parede.
Ninguém lhe disse nada. Sentaram-se em cadeiras cômodas com o relaxamento que dá uma prolongada familiaridade com os demais. Paxton abriu o canto de uma cortina e olhou além das grades, para o lugar aonde a luz ia perdendo intensidade. Seus olhos estavam fixos no céu, avaliando, como alguém que vai embarcar breve. Adrian começou a falar em voz baixa com Doyle, sobre temas técnicos relacionados com cordas e tetos. Galba se sentou na ampla poltrona vermelha a poucos centímetros dela e observou o fogo. Ao cabo de escassos minutos, Giles trouxe uma bandeja com taças e um bule de prata, só que estava cheia de café, apesar de que isto era a Inglaterra e ela tinha esperado que a atacassem com a idéia do chá inglês. Perguntou-se se esse era um costume habitual entre estes homens ou se formava parte de uma noite especialmente planejada para ela. Grey se manteve em pé atrás dela, tão perto que sua jaqueta roçava suas costas.
—Falamos todos juntos, mademoiselle, ou necessita mais tempo? —perguntou Galba.
—Felicito-lhe por economizar as ameaças. Parece-me que não me dirigiu nem vinte palavras em toda a noite e já tremo de terror por sua culpa.
O ancião emitiu um ruído que denotava irritação.
—É inútil tentar raciocinar com você. Robert, leve-a acima. Voltaremos a tentá-lo quando estiver mais tranqüila. Amanhã...
Ela se atreveu a interrompê-lo.
—Monsieur, não estarei mais tranqüila se tiver que manter esta conversação.
—Nesse caso, em nome da prudência, beba um pouco de café. Giles, lhe sirva uma taça. Ou, fique em pé e grite, pegue a Grey dê lhe um murro no estômago ou faça o que tenha que fazer para acalmar-se. Horroriza-me a idéia de tratar com uma mulher de sua categoria aterrorizada.
Ela soube, quase com total segurança, o caminho que devia seguir durante a seguinte hora.
—Não beberei café. Nada de nada. Em lugar disso, falemos—Deixou com firmeza a taça de vinho na mesa, longe dela.
A mão de Grey se moveu ligeiramente para sua nuca, debaixo do cabelo, quente ao entrar em contato com sua pele. Fez isso para lhe dar força e acalmá-la. Ocorreu-lhe que não se necessitava muito para convencer a uma mulher de que está apaixonada se o homem mostra um pouco de amabilidade com ela quando está sozinha e assustada.
—Eu gostaria de chamá-la Annique, se me permite—disse Galba.
Queria usar um tom informal quando a ameaçasse.
—Tranqüiliza-te e responde a Galba — disse Grey em voz baixa.
—É obvio que me pode chamar Annique.
Galba franziu o cenho.
—Não vou supor a respeito, Annique. Estudaste com cuidado suas opções? Deixa que te resuma seu dilema. Na porta de entrada se encontram os chacais de várias nações. Em algum lugar, não longe daqui, Jacques Leblanc está planejando te matar. É isso ao que enfrentará se escapar. Também lhe esperam os chefes do serviço francês. Robert me há dito que já não quer servir ao Fouché. É isso mesmo?
—Preferiria não fazê-lo — Sua voz era como o rangido seco do som, tão baixa como o crepitar do fogo.
—Por motivos ideológicos? Ou é porque Fouché carece de imaginação de tal maneira que te obrigaria a trabalhar como uma cortesã?
Ela não respondeu. Uma prisioneira não tem que explicar seus motivos a seus captores.
Galba trocou de postura na poltrona como se estivesse incômodo. O menino lhe trouxe café numa tácita tão pequena que desapareceu em sua mão. Esperaram enquanto Galba bebia. Tomou seu tempo, como se assim pudesse atrasar o ter que procurar as palavras.
—Não critico a eleição de sua mãe. Era uma grande patriota, mas esse caminho não foi feito para todo mundo. Não foi feito para ti.
—Não.
—Além dos chefes franceses e os que a esperam além da porta principal desta casa, tem alternativa. O serviço britânico.
—Não somos tão letais como todos outros — Adrian se deslizou no sofá a seu lado.—Jovem Raposa, salvou-me a vida umas quatro ou cinco vezes. Eu pago esse tipo de dívidas. Não deixarei que Galba lhe faça nada horrível.
—Acredito que só o salvei duas vezes e sim, deixar-lhe-á fazer coisas tremendamente horríveis, mon frère — Que Adrian a defendesse a animava, tal e como eles se imaginariam. Tal como ele sabia que passaria.—Tem feito muitas coisas que não queria fazer. Machucar-me será especialmente duro para Grey, que ainda conserva um pouco de consciência, o que não é seu caso, mas os dois o farão.
Olhou de frente a Galba. A mão de Grey a segurou com mais força, possivelmente pelo que havia dito, ou talvez por sentir a mudança que se produziu nela. Porque agora estava zangada, em lugar de completamente tímida por culpa do medo.
—Fala de opções. Por que joga comigo com o que eu faria se fosse livre? Existe uma canção infantil que se utiliza em um dos jogos dos meninos neste país, o de «botão, botão. Quem tem o botão?». Os ingleses têm o botão. O que vão fazer com esse botão?
Pareceu-lhe que Galba estava contente. Preferia que ela não estivesse assustada.
Terminou seu café e deixou a taça.
—Proponho um intercâmbio. O que preciso é o conhecimento que armazena em sua memória. O que ofereço é um modo de sair da armadilha em que te encontra.
Ela não disse nada, esperando.
—Dá os planos Albión a Inglaterra. Estenderei meu manto de amparo para te separar do Fouché. Esmagarei ao Leblanc. Tenho poder para fazer isso. Proporcionar-te-ei um novo nome e um lar, um lugar anônimo e seguro, onde ninguém te possa perseguir—Um penetrante olhar azul se cravou em seu rosto.—Dê-me os planos e te liberará do peso das milhares de mortes que ocasionaria a invasão. Aconteça o que acontecer, já não será sua responsabilidade.
Era como se Galba estivesse abrindo uma porta a sua alma. Era constrangedor saber que podia tentá-la com umas poucas palavras bem escolhidas. Desejava tanto liberar-se da pesada carga da escolha... Quase desejava fechar os olhos e ignorar o dano que a Inglaterra podia causar ao seu país com esses planos, para entregá-los e livrar-se deles. Galba viu essa covardia em seu interior e ela se sentiu envergonhada.
—Este é um trato justo, Annique. Aceitá-lo-á?
Doyle e o resto afastaram o olhar, fingindo estar interessados no café ou em algum ponto da parede. O fogo crepitava na chaminé. Tinha cuidado dessa chaminé antes. O canhão da chaminé estava protegido a meio caminho por uma grade de barrotes de ferro fixado aos tijolos.
Cada ratoeira nessa casa estava fechada. Não havia nenhuma via de escape.
Eles iriam libertá-la de ter que tomar essa terrível decisão. Eram tão inteligentes e engenhosos... Sabiam exatamente o que era que tinham que oferecer.
Cruzou as mãos sobre o regaço e o olhou, diretamente.
—Monsieur Galba, não quero ser interrogada por nenhum dos homens que rondam sua porta. Não desejo retornar com o Fouché, que não é um chefe amável, mas irei a Paris e serei uma prostituta por ele, tal e como fez minha mãe, antes de me converter numa traidora por culpa de um velho espião inglês, gordo, pálido e ardiloso como você.
Adrian estalou em gargalhadas e ficou em pé, logo caminhou a pernadas até a janela. Ao outro lado do quarto, a mulher chamada Maggie conteve uma risadinha. Grey trocou o lugar pelo que a sujeitava: agora o fazia pelo ombro, com firmeza.
As flores bordadas no tapete eram de um tipo que ela não soube reconhecer ou que possivelmente não existiam. Estudou atentamente essas flores, posto que, não existisse nada, nem ninguém nesse quarto que gostasse de observar esse momento.
—Uma patriota francesa — disse Galba. —A essência mesma do irracional. Ao menos temos claro a que nos ater—Quando se atreveu a elevar o olhar, pareceu-lhe extraordinariamente difícil decifrar seu rosto. Era possível inclusive que estivesse se divertindo. Certamente os gatos se entretinham quando o camundongo chiava e lutava—A conversação se torna previsível a partir deste momento. Giles...
—O menino estava amontoando as taças na bandeja de prata. Ele também se riu e tinha sido tão descarado para não tentar sequer ocultá-lo.—Giles, acompanha a mademoiselle... Não. Vamos acabar com toda esta tolice afrancesada e vamos dar aos seus pensamentos uma melhor direção. Acompanha à senhorita Annique e a apresente ao Tiny como uma convidada. Logo a acompanha até o dormitório de Grey e a deixa ali.
Grey segurou-a para que ficasse em pé, ajudando-a, cuidando dela.
Galba ficou em pé.
—Boa noite. Voltaremos a falar. Temos muito que tratar.
Sabiam que tinha os planos Albión. Pretendiam tirar-lhe sob toda essa cordialidade, isso era o que haviam dito.
Era melhor estabelecer essa realidade entre eles.
—Boa noite, monsieur Galba—Fez uma reverência como faria uma jovem de boa família ante um homem mais velho.—Postergaremos todos os temas que você queira tratar. Mas não comerei nem beberei nada enquanto permanecer nesta casa. Tem pouco tempo para começar a me subverter.


Capítulo Vinte e Oito
—Uma mulher impressionante—disse Paxton assim que se fechou a porta atrás dela,—felicito-lhes por tirá-la da França.
—Possivelmente Fouché a infiltrou para tornar Grey louco—Adrian seguia rindo entre os dentes.
—Poderia ser,—disse Doyle—é tão boa que nunca saberemos.
—Eu saberia—Maldita seja, estava orgulhoso dela.
—Se a conhece tão bem, me diga como é possível que a tenhamos levado até esta estupidez—Adrian fechou as cortinas de um puxão, colocando uma em cima de outra de modo que não saísse nenhuma réstia de luz para o jardim lateral. Voltou a ficar completamente sério quando se virou para olhá-los; também estava zangado.—Ela é a pessoa que eu deveria tirar esta noite pelas janelas do segundo piso. Verão, ela se equivoca—Lançou um olhar a Galba.—Não vou deixar que lhe faça «coisas tremendamente horríveis».
—Ninguém vai machucar a garota, a menos que Tiny a remoa pelas escadas—Doyle levantou uma sobrancelha para Galba.—Esperava que funcionasse com uma idealista política tão jovem que poderia ser uma menina?
—Esperava estabelecer um diálogo claro e evitar exatamente este tipo de ações de valentia que acabamos de presenciar. Por desgraça, já tinha planejado esta farsa antes que falasse com ela.
—Acredita que é um estratagema? —perguntou Doyle.—Eu não.
Galba olhou a Grey.
—Robert?
—Não é um estratagema.
—Adrian?
—Não é um estratagema. De fato, ela está nos pondo em evidência—Adrian levantou um polegar—Grey.
Galba assentiu.
—Essa é minha opinião. Chamei-o ação de valentia, mas de fato, é admiravelmente racional. Não comerá. É a única arma concebível que fica. Suponho que nem sequer beberá água.
—Nem água, nem nada—Fechou os olhos, repassando a conversação, tentando recordar em que momento tinha notado que ela endurecia sua postura.—Estava planejando isto quando rechaçou o café. Tomou a decisão quando escutou sua oferta. Durante um minuto, desejou dizer que sim. Não vai se render tão facilmente.
—De modo que nos deu menos de dois dias para persuadi-la com argumentos raciocinados ou para demonstrar que somos uns vilãos,—disse Galba—cativa e sem armas, conseguiu nos tirar das mãos o controle da situação. Admirável.
Doyle se jogou de forma pouco elegante na enorme poltrona que estava junto ao fogo com os pés apoiados sobre os suportes da chaminé. Maggie estava sentada num sofá turco baixo, apoiando a cabeça contra seu joelho, próxima a ele num gesto carinhoso. Moveu-se e se sentou com as costas erguidas.
—Quer dizer que essa garota pretende matar-se de fome se não a deixamos partir?
—Não permitirei que chegue a isso—Recolheu a taça de vinho de Annique e a girou lentamente. O vinho desenhou um círculo, um redemoinho de luzes vermelhas que giravam com uma depressão no centro.
—Leva toda a vida preparando-se para esta eventualidade—disse Galba em voz baixa,—somos seus inimigos, Marguerite, a encurralamos. Está desesperada, é uma mulher apaixonada e sobre tudo, é muito jovem.
«... E fodidamente descuidada com sua própria vida». Depositou a taça na mesa com impaciência.
—De todos os modos, maldito seja Sócrates.
Adrian começou a falar, mas logo foi ajudar Giles a recolher as taças.
Galba golpeou brandamente o painel esculpido inserido nos braços da cadeira.
—Os planos Albión são uma responsabilidade séria para alguém tão jovem. Com o tempo, nós a libertaremos dessa responsabilidade. Enquanto isso, devemos lhe oferecer métodos alternativos para que nos enfrente.
—Irei para casa antes que acabem matando-a em seu estúpido jogo com seus estúpidos segredos—Maggie franziu o cenho.—Imagino que ficarão satisfeitos se ela se suicidar para escapar de vocês.
—Não vamos deixar que faça isso, Maggie. Não é tão fácil apanhar garotas francesas bonitas deste lado do Canal—Doyle atraiu sua esposa de novo para ele e a envolveu com seus enormes braços como um urso,—e o Robert não gostaria.
—Nesse caso, Robert não deveria levá-la até o desespero—disse ela ácida.
—Todos temos culpa—Adrian recolheu a taça vazia de Paxton.—Grey a leva para cama. Outros nos movemos sigilosamente a seu redor, sendo amáveis e insidiosos. Estamos sendo tão ardilosos que me põe doente.
—Ardilosos—Doyle esteve de acordo,—esses somos nós.
Adrian expressou sua opinião recolhendo a taça de café de Doyle, que ainda estava meio cheia e partindo com ela.
—Caçador de Falcões—Grey recebeu um olhar zangado, cheio de raiva contida, por parte do Adrian.—Não a subestime. Não é somente a amável e preciosa Annique. Recorda-o. É a Jovem Raposa e este é o Jogo.
—E no momento estamos empatados—disse Doyle.—De modo que não me sinto tão brilhante como estou acostumado a me sentir habitualmente. Além disso, eu não gosto de ter Reams nos controlando. Tem a jurisdição de sua parte, neste caso.
Reams não ia tocar Annique.
—Há outras opções para evitar isso—Grey apertou e soltou os punhos. Por desgraça não poderia os usar com o Reams.
—Suponho que o coronel poderia cair do cavalo—Adrian deixou de empilhar pratos para pensar,—ou poderia comer algo que não lhe caísse bem, ou poderia encontrar uma cobra na cama.
—Tudo isso acontece com freqüência—Doyle esteve de acordo.
—Ou poderia cortar o pescoço ao barbear-se.
—Não vamos necessitar de suas destrezas especiais, Adrian—Galba ficou em pé pesadamente e atravessou o quarto para o enorme escritório de madeira de nogueira. Procurou no bolso do colete e tirou uma chave.—Nem tampouco é esse o melhor modo de protegê-la do coronel. —Franziu o cenho—Pax, tenho informação que divulgar, mas não quero que a carregue, para onde deve ir.
Paxton esboçou seu habitual sorriso, lento e enganosamente amável.
—Tenho que preparar a bagagem e dormir, se for possível—Recolheu a garrafa de Bordeux do aparador enquanto se afastava.—Boa noite a todos. Quanto a ti, jovenzinho ...
—Sei, sei. Ferguson necessita de mim na cozinha—Giles o aceitou de forma cordial. Fez bastante ruído enquanto recolhia os últimos pratos e os carregava no elevador para pratos, cujo guichê fechava depois, e também partia.
—Suponho que eu também deveria encontrar algo que fazer—Maggie sacudiu sua saia e se preparou para ficar em pé.
—Eu gostaria que ficasse, se você quiser—Galba encaixou a chave na gaveta lateral do escritório.—Valoro sua percepção Marguerite. Também economizarei o trabalho ao Will de ter que te contar isto mais tarde.
—Não penso reconhecer nada—Mas sorriu enquanto se aproximava do escritório sobre o que Galba depositava pastas de arquivos.—Então o que é isto?
Grey ficou em pé. Esses deviam ser arquivos sobre Annique, os que nunca tinham passado por seu escritório. Perguntou-se o motivo pelo que não existiam arquivos sobre uma agente tão hábil e importante em nenhuma parte. Podia sentir como lhe arrepiava o cabelo na nuca.
Duas das três grosas pastas de arquivos que Galba depositou sobre o secante do escritório eram antigas. O couro original se obscureceu até ficar de uma cor marrom apagada. No bordo de abertura das três pastas havia uma linha larga de cor carmesim. Isso significava que só podiam ser abertas em presença do chefe de seção.
Com expressão séria, Galba escolheu a que estava acima de tudo.
—O que contêm estas pastas foi o segredo mais bem guardado do serviço secreto britânico nos últimos vinte anos. O tempo para manter o segredo já finalizou, terminou faz seis semanas — Empurrou a pasta ao outro extremo do escritório. — Podem usar qualquer destes dados, in extremis. Superará ao serviço da inteligência militar.
Era a pasta de Annique. A que Grey nunca tinha visto. O nome, Annique Villiers, era o terceiro de doze, aliás, escritos com tinta em negrito no canto superior direito. A pasta tinha mais de sete centímetros de grossura, cheia de relatórios escritos com letra pequena por muitas mãos. A maioria dos documentos, inclusive os que tinham a cor esvaída, estava limpa e sem rugas. Não tinha passado por muitas mãos, nem muitas pessoas os tinham lido.
Titubeou, logo abriu a pasta. Sempre havia um resumo dentro da capa esquerda da mesma. A primeira linha explicou tudo. Adrian estava lendo ao reverso. Aspirou ar bruscamente.
—Deus santo—Doyle, inclinando-se sobre seu ombro, assimilou-o tudo de uma olhada e blasfemou.
Seguiu lendo. Não era de admirar que isso fosse um segredo. Não estranhava nada.
Doyle deu um passo torpe para Galba.
—Deveria ter-me dito isso.
—Ninguém sabia.
—Operavam em Viena. Meu feudo, maldita seja, deveria ter sabido.
—Conhece os privilégios de ser um agente por conta própria. Will, você mesmo fez essas normas.
—Mas não as utilize contra mim. Estive a ponto de... Deus bendito. Por que não me disse isso? Uma palavra teria bastado, uma palavra.
—Suas ações e sua inimizade era parte de seu amparo. O arquivo de Annique. Grey passou página atrás de página, sentindo a ira retorcendo-se em seu peito. «Isto vai romper lhe o coração».
—Ela não sabe. Por que, demônios, não sabe?
—Não vou negar minha culpabilidade—Com expressão sombria, Galba voltou a fechar com chave a gaveta e guardou a chave no bolso.— Não estava de acordo, mas, o autorizei. O fato é que sua mãe decidiu não dizer-lhe.
«Incrível».
—Compreendo-o quando ela era uma menina, mas quando cresceu... Como pôde não dizer-.
—Não há desculpas. Nunca o disse a Annique. Agora temos que fazê-lo nós.
—O contaremos tudo, cada maldita coisa—Fechou de repente a pasta.—Dar-lhe-emos isto. Tudo, cada palavra.
—Tem o direito—Galba se afundou pesadamente na poltrona brincalhona junto à chaminé.—Sabia que isto ia ocorrer. Compadeço-me enormemente, mas não posso evitar este mau gole.
—Amanhã—«Não esta noite. Deixe-me dar lhe uma noite, antes de ter que lhe fazer isto».
Adrian seguia passando zangado as páginas da segunda pasta, uma página atrás de outra.
—Vinte anos de mentiras. Não deixamos nem um trapo por pendurar, não é assim, ma pauvre?
—Foi um engano—Doyle esfregou a parte posterior do pescoço.— Dá no mesmo o quão valiosa era para nós. Isto estava errado e mesmo assim o fizemos.
Maggie não estava familiarizada com os arquivos do serviço. Levou mais tempo para ler as notas e decifrar a história.
—Não posso acreditá-lo. Como pôde uma mulher fazer isso a sua filha? Estavam muito unidas Annique e sua mãe?
—Muito unidas—disse Doyle.
—Irá lhe fazer um dano insuportável, agora que sua mãe acaba de morrer...
—Sei, Maggie, carinho. Já é bastante mau o que estamos fazendo a essa garota, para que agora lhe demos uma patada no estômago com isto.
—Não vamos deixar essa história cair em seu colo e gritar: «Surpresa!». Iremos pouco a pouco... —Adrian, por uma vez, não parecia seguro.—Nós.... O que vamos fazer? Como se diz uma coisa como esta?
—Ela não lhes acreditará—disse Maggie.—Mesmo antes que lhe façam tanto dano, devem convencê-la.
—A prova disto é sua própria mente,—disse Doyle—sua mãe deve ter cometido uma falha ou duas em todos esses anos.
Uma vez que soubesse, Annique as recordaria. Ficaria acordada de noite e recordaria cada mentira que lhe tinham contado.
E ele tinha que decidir como o ia dizer.
—Maggie tem razão. Temos que convencê-la de que é verdade—Tirou a pasta que Adrian estava lendo e extraiu uma única folha. Alisou-a para que todos a vissem.—Aqui. Começaremos pelo início. Amanhã a levaremos a St. Odran e mostraremos o original desta cópia no registro da paróquia. Podemos fazer isso com Leblanc solto?
Doyle titubeou, logo assentiu.
—É um pequeno risco, mas temos homens suficientes para mantê-la a salvo durante esse tempo.
—Bem. Mostraremos a ela o registro da paróquia, logo a traremos de volta e lhe daremos as pastas. Explicaremos tudo—Levantou a vista e se encontrou com o olhar perspicaz dos olhos fundos de Galba.—Você o explicará. Certamente, eu não posso.
—Levo dez anos pensando nas palavras adequadas. Possivelmente as encontre amanhã.


Capítulo Vinte e Nove
Annique estava esperando-o em seu dormitório, em sua cama, de barriga para baixo. Estava em cima da colcha, lendo um livro. Estava nua.
Olhou-o através das pestanas.
—Me alegro de que não te tenha devorado esse animal que tampa a porta. O que é essa coisa?
Em toda a Inglaterra, toda a França, no mundo inteiro, não existia outra mulher para ele. Unicamente Annique. Tinha-a nua em sua cama. Este era um dos momentos perfeitos da vida.
—Acreditam que é em parte galgo irlandês. Doyle o encontrou nos portos, provavelmente vinha de algum dos navios.
—Eu diria que é, mas, bem um lobo e provavelmente também tenha parte de elefante. Não lhe agrado.
—Bem, desse modo não te porá a perambular pelos corredores de noite. Maggie trouxe camisolas.
—Vi-as. É obvio, são muito bonitas, mas pensei que preferiria ver que estou completamente indefesa quando te aproximar para mim. Pelo que tenho entendido, é necessário que um homem não esteja nervoso nestas circunstâncias —Se endireitou apoiando-se nos cotovelos, seus peitos roçaram a colcha carmesim de couro. Esboçou um sorriso de cumplicidade mas seu olhar era tímido. Os homens matariam por possuir a essa mulher.
Aproximou-se dela, desenredou a gravata, deslizando-a do pescoço da camisa, lançando-a na cadeira ao passar. Sentiu-se imensamente poderoso. Ela fazia que se sentisse assim.
—Me alegro de que esteja tão disposta. Suponho que está se preparando para uma última e formosa noite em que faremos amor...
Ela abriu os olhos ligeiramente.
—Possivelmente.
—… antes que comece a morrer de sede.
Arqueou as sobrancelhas incomodada.
—Não pretendia tocar no assunto. Essas coisas não ajudam num comportamento romântico.
—Essa tua nobreza nefasta o estraga, não te parece?
—Não mudei minha decisão. Simplesmente retirei a aparência de cortesia. Não tenho que justificar meu comportamento ante um...
—Então não o faça. As melhores mentes no serviço secreto britânico vão te convencer amanhã de que abandone esse plano. Passamos a última hora tramando, temos planos.
Ela dava a impressão de estar obstinada e inquieta, embora também aliviada. A maior parte dela esperava que a convencessem de que não seguisse adiante com essa idiotice.
—Eu também tenho planos — disse ele. Ela somente tinha que olhá-lo para ver o que tinha em mente.
Atirou para abrir o último botão, tirou a camisa pela cabeça e a deixou cair ao chão, logo tirou as calças. Ela começou a sentar-se, mas ele colocou suas mãos sobre seus ombros para mantê-la onde estava. Gostava de vê-la desse modo... Nua, caída de barriga para baixo. Era preciosa de um modo delicioso e não podia atacá-la.
—Mencionei já que é a mulher mais formosa do mundo?
—Entre um tema e outro nos esquecemos de nos dizer esse tipo de coisas um ao outro.
Esses elegantes músculos felinos que tinha lhe avisavam do quanto ela estava nervosa. Estava disposta, mas nervosa. Podia tirar partido desses nervos. Podia fazer que explodissem em seu interior como a espuma em um barril pequeno de cerveja. Deixaria Annique louca essa noite, além de todo o pensamento racional, além de todas as restrições.
—Eu gosto desta curva aqui... —Percorreu com sua mão os compridos e firmes músculos que corriam em paralelo com sua coluna vertebral. — É como o campo em minha terra natal. Amplo e ondulado.
—Sou como o campo?
—O campo em Somerset — Acariciou seu traseiro. — Com pequenas colinas.
—Na verdade, os homens pensam de um modo estranho.
Ele a acariciou novamente.
—Sua mãe te disse isso?
—Dei-me conta de que minha mãe não me disse nada a respeito. Verá, ela não desejava que eu fosse uma cortesã, e, portanto, não me instruiu nessas artes — O olhou pela extremidade do olho. — Exceto algumas ninharias. Acredito que não as conhecem as garotas inglesas respeitáveis, que não receberam uma educação muito completa. Se quiser, posso lhe mostrar isso. O tocou.
Uma pontada de pura luxúria lhe percorreu o corpo. Sua dama não era completamente inocente em todos os sentidos. Podia prever muitas noites muito interessantes enquanto decidiam exatamente qual dos dois ia mandar na cama.
—Possivelmente mais tarde.
—Há uma em particular que me parece interessante. Tenho curiosidade por ver como funciona.
O tornaria louco, e ia fazê-lo de propósito.
—Reservaremos para as largas noites de inverno que nos esperam. Disse que te quero, Annique? Comecei a te querer mais ou menos na quarta vez em que tentou me aleijar, mas nunca encontrei tempo para te dizer as palavras.
—Agora é o momento adequado. Temos tempo para nós e não estou armada — Estava triste apesar da paquera. Ia fazer com que isso não fosse assim tão breve. — É-me extremamente gratificante ser amada, especialmente por um homem como você. Parece que vou me tornar uma presunçosa, vaidosa por sua culpa.
—Adiante, faz! — a doce pele de suas costas tinha deixado de estar nervosa e agora estava macia ao toque. Seus tremores tinham só começado. —Agora é quando me diz que você também me quer.
—Vá... O amor —Ela beliscou uma ruga na capa do travesseiro de linho debaixo dela. — Deve estar decepcionado, mon enemi. Desejo-te. Isto não é amor.
—Só desejo.
—Para mim é o primeiro homem. Deve haver um primeiro homem para cada mulher, quando ela é inocente e se engana a si mesma acreditando que está apaixonada. Isto é certo inclusive quando está destinada a deitar-se com setenta mil homens durante toda sua vida.
Ela estava aí, caída, desejando-o. Assustada por isso. Perguntando-se se isto a convertia numa prostituta ou simplesmente numa idiota. Perguntando-se, em parte, se não estaria se vendendo a um espião inimigo em troca de segurança. Não confiava em ser capaz de diferenciar entre o desejo e estar apaixonada. Se sua mãe não tivesse morrido, ele a teria estrangulado com suas próprias mãos.
E tudo isto já era muita preocupação para a Jovem Raposa por essa noite. Em dez minutos faria que esquecesse toda essa tolice. Se lhe davam quinze minutos podia obter que ela esquecesse até seu próprio nome. Deslizou o livro que ela tinha debaixo para tirá-lo e logo o lançou longe. Seus peitos se encolheram brandamente na palma de sua mão.
Quando a tocou, sentiu como se estremecia, sentiu o pulsar de seu coração na carne.
«É minha, Annique... Cada centímetro delicioso e perigoso de seu corpo».
—Ainda não o calculei, mas setenta mil homens lhe manterão bastante ocupada.
Elevou-a um pouco, beijando seu pescoço para confundi-la, para silenciar essa mente atarefada que ela tinha. Ela inclinou a cabeça para olhá-lo enquanto a tocava, para ver como seus mamilos se endureciam como pequenos botões entre seus dedos. Já tinha começado a respirar mais depressa. Era incrivelmente sensível ao tato. Bem. Com uma mulher como Annique, necessitava toda a vantagem que pudesse obter.
Beijou a parte superior de sua cabeça.
—Setenta mil são muitos. Possivelmente possa te convencer para que te contente com alguns menos. O que me diz de cem? E uma dúzia? —Atraiu seu queixo, levantando-a, enquanto desenhava a linha da mandíbula. — Ou um?
Quando elevou os olhos, tinham uma cor azul profunda e um aspecto vulnerável como as flores na primavera.
—Um?
—Eu.
—Vá — Respirou em seu ombro. — Bem — podia sentir cada fôlego por separado. Nenhum dos dois se moveu. Lentamente, ela deixou cair mais e mais à frente até que esteve apoiada sobre ele. A língua dela, ao tato suave e quente, provou sua pele.
Então ele soube com certeza. Esta revelação a golpeou com a mesma força que a ele. Os dois estavam perdidos. Já não havia volta.
Sua mão tremeu por culpa do esforço por manter o controle. Lento, tinha que ir lento. Não se atrevia a tocar seu corpo mais à frente do cabelo. O pescoço, a curva da orelha. «Não vai lhe virar e te mergulhar como um marinheiro de licença no porto, Robert. É nova em tudo isto, e, mais ignorante do que quer te fazer acreditar».
Segurou seu rosto entre seus dedos ligeiros e estendidos. Os dedos que tocavam sua carne, unidos por uma corrente que existia entre os dois, levantou-a pouco a pouco até que ela ficou de joelhos sobre a cama. Ele também estava de joelhos. O desejo e a magia flutuavam no ar. Posou seus lábios sobre os dela. Nunca voltaria a ter uma oportunidade de desfrutá-la lentamente, de saboreá-la com nada mais que fazer que viver uma noite inteira fazendo amor. Mas agora sim podia.
Sua boca era suave e estava quente, ansiosa. Era a porta que conduzia a um universo de desejo. Ela estremeceu enquanto ele lambia, mordia e exigia.
Ele se separou e sussurrou:
—Em quem está pensando, Annique? Nesses setenta mil homens? Ou possivelmente num menino cigano?
Céu santo, ela já estava preparada para recebê-lo. Soube pela capa de suor sobre sua pele, pelo tremor desses músculos firmes e formosos, inclusive por seu aroma. Todo seu corpo era dele se ele o queria. Não guardava nada, não havia nada proibido.
—Não estou pensando em nenhum menino cigano, meu querido Grey — Sua voz soava rouca. — Não penso em ninguém mais que em ti.
Rodeou-o com seus braços e o atraiu para ela, a seu lado sobre a colcha. Ela sussurrou, em voz baixa, em seu ouvido, com picardia.
—E no Robert, é obvio.


Capítulo Trinta
A gente se sente estupidamente jovem na manhã seguinte depois de fazer amor, cansada, mas com mais vigor, como se tivesse passado toda a noite dançando e tivesse sido capaz de roubar com êxito um envio ou dois de documentos prussianos.
Estudou-se no espelho do dormitório de Grey. Pensou que parecia uma presunçosa.
—Mamãe não me disse que não deixasse que os homens me comprassem vestido, como aconselham outras mães a suas filhas. Disse-me que não deixasse que fora o homem o que os escolhesse.
—Uma mulher sábia — Grey havia dito que ficasse com o vestido de passeio de cor lavanda para as atividades da manhã. A cor faria que parecesse frágil. A excelente simplicidade do desenho era, posto nela, absolutamente jeune fille.
O que era ainda mais surpreendente era a faca que lhe entregou. Ela a lançou de uma mão a outra algumas vezes, logo a deslizou para o seu lugar, na capa que ele mesmo amarrou em seu pulso. Ele atuava como se fosse completamente normal fazer amor com uma espiã cativa ao amanhecer e logo dotá-la de armas deste modo tão letal. Não podia imaginar o motivo pelo que o fazia.
—Esta é de Adrian — disse ela, porque a faca era plana, marrom com um acabamento mate, e bem equilibrada, exatamente igual à outra faca de Adrian.
—Disse que cuide melhor desta — Ele remexeu no armário. — Acredito que deve pôr isto — Era um chapéu de palha com laços de cor lavanda, o que significava que iam sair da casa. Realmente, esta era uma estranha primeira manhã de um cativeiro.
Sopesou essa informação enquanto saíam do quarto e se dirigiam à parte superior das escadas. Ouviam-se vozes que provinham de baixo. Em questão de segundos pôde dar uma olhada por cima do corrimão e viu Galba no corredor da planta baixa, sendo amável com um ancião magro, vestido muito na moda.
—…Meu sobrinho, Giles — disse Galba. O que era um dado que desconhecia sobre o Giles. — Nos ajuda até que Devlin se recupere. Giles, este é Lorde Cummings.
—Um novo porteiro, não? Isso é manter o negócio na família — O visitante falou com essa voz aguda própria de um aristocrata inglês. — Estou seguro de que desempenhará um grande trabalho, impedindo o acesso aos vilãos, jovem Giles. Um bom trabalho. Imagino que numa semana ou duas estará de volta em Eton, contando tudo sobre suas aventuras em Londres.
—Harrow, senhor — disse Giles.
—Mmm, sim. Os melhores anos de sua vida. O cricket e... Todo isso —Colocou a bengala sob o braço. — Vamos, Anson, temos que falar.
Galba caminhou ao redor dele e continuou para o salão.
—Vieste aqui num domingo, Cummings. Deve ser um tema urgente.
O aristocrata correu atrás dele.
—O que são essas tolices que me disse Reams? Negaste-te a entregar uma agente francesa?
Ela sentiu como se sumisse num instante enlouquecida de medo. Iriam entregá-la ao Reams. Por isso tinha se vestido para sair à rua. Os aristocratas ainda governavam a Inglaterra e tinham um poder imenso.
Logo Grey lhe tocou as costas para indicar que devia seguir caminhando e, por algum motivo, isso dissolveu por completo todo o absurdo pânico que sentia. Grey não ia entregá-la. Nem que o pedissem mil aristocratas ingleses.
—Em essência, isso é correto — disse Galba.
—Tolices. Vá, é obvio, já sei o que aconteceu — O aristocrata soltou uma risadinha picante, muito de classe alta. — Reams irrompeu e se comportou de forma ridícula, muito desagradável para todos os que estavam presentes. O coronel não é precisamente um cavalheiro, mas é útil, muito útil. Temos que tolerar homens como ele em tempo de guerra.
—Tolerarei Reams. O que não vou tolerar é sua interferência nos assuntos do serviço secreto — disse Galba.
O ruidoso traje desse periquito velho sussurrava com cada passo que dava.
— Muito certo, muito certo. Aqui seus homens estavam provando um pouco desse pão-doce francês. Chega Reams dando tombos, alterando as pessoas, exigindo provar um pouco. É um homem molesto. Agora você e eu temos que apaziguar toda esta briga. Dir-te-ei o que vamos fazer. Levarei a sua francesinha a um lugar onde ninguém possa brigar por ela. Trouxe comigo um par de oficiais da marinha, se por acaso não sabia. Deixarei a nossa garota no caminho e isso será tudo.
Grey seguiu descendo as escadas e caminhando pelo corredor, empurrando-a diante dele com o maior sangue-frio.
No salão, Galba estava em pé diante do espelho que havia em cima do pesado e horrível aparador e calçou as luvas.
—A senhorita Villiers fica conosco.
—Assim te leve o demônio! Este não é um de seus jogos políticos, este é um tema do exército.
—E eu digo que não. Vais pôr em duvida o meu direito a favor do coronel Reams?
—Assegura que tem jurisdição sobre o cú francês de que se encarrapichou seu chefe de seção? —O aristocrata cravou sua bengala no tapete. A cada minuto que passava, ia perdendo o aspecto inicial de bobo mal-humorado. Estes dois homens estavam em meio a um jogo de poder. — Quando isto vazar, seu serviço vai parecer...
—Isto vai vazar? Esperávamos que tivessem solucionado o problema da infiltração de informação em seu escritório.
Grey escolheu esse momento para empurrá-la para diante.
—Olá, Robert. Bem a tempo — Galba estendeu a mão. Ela não tinha outra opção mais que deixar que a levasse para diante e a colocasse diante do nariz desse aristocrata e em meio de seu jogo. — Annique, me permita que a apresente ao lorde Cummings.
—Sua sobrinha? Uma garota encantadora, encantadora. Anson, deveríamos seguir esta conversação em seu escritório — Lorde Cummings não estava interessado nela, exceto na medida necessária para demonstrar suas boas maneiras durante um instante pelo mero feito de que era bonita.
—Não — Ela elevou o olhar através das pestanas e fez uma reverência como se fosse uma menina pequena. — Sou Anne Villiers, milord.
—Villiers. Villiers? Esta é...? —O rosto do aristocrata se endureceu. O que era excelente. Tinha ficado em ridículo por culpa do coronel Reams. — Reams disse que ela era... Reams disse que era... Maior.
—Reams se equivocou — disse Galba, muito seco.— Espero que tenha dormido bem, mademoiselle.
Grey respondeu por ela.
— Dormiu bem.
Desse modo, ficou óbvio para o lorde inglês que ela se convertera na amante de Grey. Expôs-se rapidamente várias alternativas e decidiu comportar-se como uma moça e tímida. Esse era um papel com muitas possibilidades. Ao pensar em algumas das coisas que tinha feito a noite anterior na cama com Grey, conseguiu ruborizar-se, um engano que exigia uma grande destreza. Estava orgulhosa de haver conseguido, especialmente diante de Grey, que valorizaria o gênio que tinha empregado.
Ainda sustentava entre as mãos o chapéu, de modo que deixou que se balançasse, segurando-o pelas tiras, como fazem as meninas. Não faria mal a ninguém se jogasse deste modo com o aristocrata.
Lorde Cummings pigarreou. Seus olhos piscaram passando dela a Grey, que franzia o cenho, e daí à janela dianteira onde esperavam as carruagens.
—Podia ser uma custódia temporária. Unicamente temporário. Será bem tratada.
—Não — disse Grey.
—Dou-te minha garantia pessoal —Trocou a bengala da mão direita à esquerda. — Vejamos, comandante, você é da infantaria. Entende a importância...
—Não.
—Deixarei claro a Reams que não pode... Quer dizer, posso ver que é jovem. Dir-lhe-ei que a trate com todo o respeito.
Sem dúvida que o faria. Ele tinha que saber que isso não significaria nada. Iria entregá-la a Reams para que a violasse e torturasse e se sentiria mal por isso durante essa noite. No dia seguinte o lamentaria durante uns cinco minutos. Logo a esqueceria por completo. Os britânicos chamavam isto de «lamentar o necessário».
—É um corno — disse Grey.
—É uma agente francesa, está a par de informação militar. Nós...
—Dá-me igual se tiver o espartilho cheio de códigos da marinha. Esse bastardo não vai pôr suas mãos em cima dela.
—Já basta, Robert. Deixaste claro seu ponto de vista — Galba apoiou uma mão na parte superior do respaldo do sofá carmesim, criando uma barreira, atuando como se Grey fosse um perigo iminente que devia conter. — A inteligência militar não tem um interesse legítimo na senhorita Villiers. Seu trabalho sempre foi um tipo político e nunca contra Inglaterra.
Era hora de interpretar seu próprio papel. Deu um passo vacilante para o aristocrata, esforçando-se por chorar.
—Por favor. O coronel me dá muito medo. Por favor, não me envie para ele.
Cummings não a olhou diretamente. Mas ela conhecia os homens de seu tipo. Ele dava suas ordens de um agradável escritório em Londres. Nunca se envolvia pessoalmente com a tortura de uma mulher nos porões, nem dirigia os ataques com artilharia sobre cidades em que os meninos ficavam sepultados sob os escombros.
—Era uma das agentes de Vauban, ele tratava diretamente com o traidor no serviço de inteligência militar. Todo meu departamento sangra segredos e possivelmente ela saiba o nome do culpado. Me entregue-a — o aristocrata tinha deixado de fingir que era um idiota frívolo. Suas palavras eram duras como os pregos das ferraduras de cavalos.
—Sua maldita incompetência não dá à inteligência militar o direito a piratear minha operação — Grey devolveu cada grunhido com um similar.
—Este é um assunto militar. Isto está dentro de nossa jurisdição. Quanto antes Reams arranque o nome a essa garota...
Ela pensou veloz como um relâmpago.
—Mas o traidor está no próprio escritório de Reams. É seu...
Todos giraram. Ela elevou a mão para levá-la à boca, como se houvesse dito mais do que devia. Dieu. Devia morder o lábio e gaguejar como uma colegial. Este aristocrata não esperava menos dela.
Sua senhoria ficou completamente rígido.
—O que quer dizer com está no escritório do Reams?
—Silêncio, Annique —disse Grey rapidamente, — não deveria falar disso —Poder-se-ia jurar que já o tinham ensaiado previamente, dado que lhe seguia o jogo tão bem.
—Mas não deve me entregar ao coronel Reams — Escolheu um diminuto fragmento do medo que sentia e deixou que se percebesse em sua voz. Criar um personagem das emoções que já sentia em seu interior era em si uma arte importante. — Se me enviar ali, não viverei para falar. Não me faça isso.
—Reams não te tocará — Grey estava sombrio como as pedras. Ela não pensava que ele estivesse atuando. — Isto é uma perda de tempo. Está assustando Annique — Disse a Galba, — e vamos chegar tarde.
—Exijo saber o que queria dizer com isso — O aristocrata quase dançou por culpa da frustração.
—Nossa investigação apenas começou — Galba recolheu seu chapéu do horrível aparador. — Já disse muito; deixe isso conosco, Cummings. Não interessa a ninguém deixá-la nas mãos do coronel Reams.
Lorde Cummings não disse nada. Estava levando a cabo muitos cálculos internos atrás de seu olhar. Ela tinha acertado ao pensar que não era nenhum bobo.
Galba recolheu um par de pequenos livros negros da parte superior de mármore do escritório.
—Agora devo te pedir que nos desculpe. Tal como Robert disse, chegaremos tarde.
—Não podem levá-la, quero dizer. Onde a estão levando?
Galba elevou as sobrancelhas.
—É possível que tenha esquecido que dia é hoje?
—Dia? —Lorde Cummings estava desconcertado.
—É domingo, como comentei antes. Vamos à missa. Que passe uma boa manhã.


Capítulo Trinta e Um
A carruagem os esperava no meio-fio da calçada. Ela seguiu Galba de maneira decorosa enquanto desciam os degraus e não permitiu sequer uma ligeira contração da pálpebra apesar da enorme emoção que sentia saltando em seu interior. Grey manteve a porta aberta e Galba a ajudou a subir com ternura.
— Os homens estão em suas posições? —Grey deslizou junto a ela. Apenas a carruagem iniciou sua marcha, abriu um painel no almofadado, tirou uma pistola e logo fez o mesmo no outro lado. Esta era uma carruagem alugada muito bem provida de armas. Ele também tinha uma pistola em seu casaco. Podia sentir como chocava contra sua coxa.
— Will está acordado desde as cinco. Assegura que já estamos cobertos de maneira adequada — Galba ocupou o assento em frente deles com seu grande corpo quadriculado. Ela diria que estava gordo. Simplesmente era um desses homens que ocupava muito espaço, como uma árvore velha, forte em sua fibra. Tinha sua própria pistola, uma pequena que sustentava agora que acabava de tirá-la do bolso da jaqueta.
—Bom, isso foi divertido — Grey estudava as ruas à direita enquanto a carruagem avançava. Galba vigiava o outro lado. — Annique não era o que ele esperava.
—Reams é um imbecil.
—Aconteça o que acontecer, Cummings vai esfolar Reams vivo por tê-lo feito ficar como um idiota diante de ti. Annique, por que disse que o traidor está no escritório do Reams?
Ele a olhou, direto e sereno. Ela se viu obrigada a recordar que Grey não era tão só um amante em sua cama, era o chefe de seção do serviço secreto inglês e o chefe de muitos espiões. Nesse momento, devia decidir o que ia dar aos britânicos.
Os cavalos tinham percorrido uns noventa metros de rua. Existiam níveis de traição? Acaso existiam pequenas traições corriqueiras e grandes traições? Vadeava água suja e cada vez se afundava mais.
Mas só restava uma opção, a menos que quisesse visitar os interessantes porões do coronel Reams.
—Sua senhoria se equivoca numa coisa. Não era Vauban que tratava com o traidor em seu serviço de inteligência militar. Era Leblanc.
Grey e Galba permaneceram calados. O silêncio é uma arma poderosa numa interrogação. Depois de ter percorrido outros noventa metros, ela disse:
—Nosso espião no escritório de Reams. Está na lista de nomes da França há três anos, aceitou sozinho por dinheiro. Depositamos centenas e centenas de libras numa conta no Hoare's Bank. Seu nome é Frederick Tillman.
Grey golpeou a almofada que tinha a seu lado, com um golpe de boxeador tão rápido que à vista parecia impreciso.
—Temo-lo! Temos ao bastardo! Tillman. O cunhado do Reams, pelo amor de Deus. É seu segundo em comando — Esboçou um sorriso zombador, hermético e feroz. — Isto vai ser o fim do Reams.
Galba sorriu.
Estavam muito satisfeitos. Ela tinha vendido um pequeno segredo em troca de um pouco de segurança. Não se sentia muito contente.
Este era o modo no qual tudo começava. Não com uma decisão drástica sobre se deveria revelar os segredos dos planos Albión. Tinha começado com o nome de uma doninha avara e de menor importância. Os britânicos a corromperiam para que revelasse um segredo cada vez, com uma desculpa ou outra, até que já fosse sua por inteiro. Já sabia como se faziam essas coisas. Não podia competir com esses homens em determinação, nem em inteligência.
Grey só necessitou um olhar para saber o que ocorria dentro dela.
—Isto não é a parte fina da cunha, Annique. Sabe exatamente o que está fazendo.
Isso era certo, assim que se sentiu melhor. Nos arquivos de Fouché em Paris, Tillman estava marcado como um homem no qual não se podia confiar e do que se podia prescindir. Tinha deixado de ser útil. Qualquer agente francês podia ter revelado seu nome, se o tivesse necessitado.
—Se monsieur Tillman é um traidor de pouca importância, que só trabalha por dinheiro. Vende-nos segredos britânicos, logo vende segredos franceses aos Romanov e vende os segredos de todo o mundo aos Habsburgo. Trai a muitos chefes — Seus dedos estavam enrugando o vestido, o que era um mau hábito, assim se deteve. — Não posso lhes dar nenhuma prova. Só posso lhes dar o nome que tenho na cabeça.
—Conseguirei a prova. Agora que tenho o nome, posso conseguir a prova — O braço de Grey a rodeou. Não era o tato do amante a não ser o gesto cômodo de um colega antes da batalha. Todo este tempo seus olhos tinham seguido vigiando através da janela, procurando em cada esquina, como se de fato esta fosse uma viagem para o campo de batalha.
Galba também estudava a rua.
—Ainda ninguém nos segue. Robert, sua avaliação. Acredita que Cummings se atreverá a me desafiar diretamente? Trouxe consigo doze homens uniformizados. É um homem político e prudente, mas também adora aproveitar o momento. Crê que a levará a força? Estamos preparados para todo tipo de eventualidade menos para essa.
Passaram outra rua. Grey aproveitou todo esse tempo para pensar sobre o tema.
—Pretendia fazer isso. Por isso trouxe essa manada de agentes da marinha. Trocou de idéia quando Annique deixou cair sua pequena granada. Não pode correr o risco de estar apoiando ao jogador equivocado. Além disso, tem medo de que lhe dispare.
—Fá-lo-ia.
Grey não tinha que responder. Seu silêncio era como a parte plaina de uma faca gentil.
Pouco depois, chegaram a uma igreja, pequena e velha, apinhada entre casas, que tinha o nome St. Odran nas portas de entrada. Pedra cheia de fuligem que subia até culminar em várias pontas afiadas, algumas com protuberâncias na parte superior, além disso a igreja tinha janelas pequenas e brilhantes.
—Realmente vamos à missa? —Era o que haviam dito, mas não imaginava que haviam dito a sério.
—Entrar em contato com a religião estabelecida não te deixará cicatrizes externas — Galba recolheu seu chapéu do assento a seu lado.
Ela atravessou a porta da igreja entre os dois homens, armados até os dentes e viu, quase imediatamente, Adrian na fila de atrás, que parecia um cão numa missa, de tão desconjuntado que parecia aí.
—Vão me matar de susto — sussurrou a Grey.
—Dá a impressão de ser devota —aconselhou e deixou que se sentasse junto à Galba. Ele se colocou em algum ponto atrás dela. Depois disso, sentiu como ele a olhava quase todo o tempo.
Galba ficou sentado, imperturbável, através do comprido e incompreensível serviço religioso. Logo que tinha entrado, transformou-se na autêntica imagem de um próspero comerciante da cidade, em parte engenhoso e ardiloso como uma raposa, mas encaixava perfeitamente com o resto da reunião de pequenos burgueses. Rodeava-o uma aura de auto complacência consciente, como se fosse um avô orgulhoso que acompanha a missa a sua preciosa e jovem neta.
De modo que brincou de ser a neta preciosa e jovem, do mesmo modo que tinha interpretado tantos papéis, e segurou o missal inglês que lhe entregou. Depois de revisar sua memória, concluiu que este era de fato o primeiro serviço religioso que tinha assistido em toda sua vida. Ficou em pé, sentou-se e se ajoelhou quando o resto o fazia e tentou relacionar estas atividades com o que estava ocorrendo na parte dianteira da igreja, mas não teve êxito ao fazê-lo.
Enquanto se sentava e o homem vestido de negro falava durante bastante tempo, passou lentamente as páginas do missal da liturgia da Igreja anglicana e o guardou na memória, porque a gente nunca sabe o que pode chegar a ser útil. Sentiu-se completamente desconcertada durante toda a missa, sem uma pausa, até que finalmente ficaram em pé e recitaram algo em tom monótono, depois do que todos, menos eles, começaram a ir. Grey se uniu a eles. Ao cabo de uns poucos minutos, eram os únicos que estavam na pequena igreja.
O clérigo terminou de estreitar mãos na porta da igreja e entrou ativamente para vê-los. Saudou o «senhor Galba» e ao «senhor Grey» e logo sustentou sua mão.
—Esta é a senhorita Jones — disse Galba. Nomes pequenos que escolhia o serviço britânico! Em algumas ocasiões lhe parecia que os homens deste serviço secreto tinham um sentido de humor peculiar.
O clérigo sorriu com benevolência.
— Eu casei sua mãe. Entendi que quer ver os registros. Deixei-os na sacristia. Por favor, me siga.
Ela já estava no outro extremo da igreja, caminhando aturdida e perplexa quando se deu conta de que o que o ancião vestido de negro tinha querido dizer não era que ele se casou com sua mãe, mas sim tinha sido o clérigo no dia de suas bodas.
Mamãe tinha se casado com alguém? Não estava completamente surpreendida por isso, só que lhe chamava a atenção que tivesse sido na Inglaterra. Mas sua mãe tinha feito muitas coisas interessantes em sua vida, de modo que uma mais não era impossível, inclusive embora fosse na Inglaterra.
A sacristia resultou ser um pequeno quarto. Chegava-se até ela atravessando uma porta estreita entre colunas de pedra e, uma vez dentro, era um lugar cheio de pó e armários. Sobre a mesa havia um livro grande que tinham deixado aberto. Ocupava toda a mesa.
—O senhor Galba me disse que sua mãe faleceu recentemente. Acompanho-a no sentimento. A lembrança bem, embora não fosse uma das fiéis que mais vinham. Uma moça formosa. Por certo, você parece bastante com ela. Este é o registro.
Assinalou uma linha. Com a ajuda da tênue luz que provinha dos painéis de vidro com forma de diamante, viu como no dia 3 de setembro de 1781, Lucille Alicia Griffith se casou com o Peter Daffyd Jones.
Não havia tantas mulheres chamadas Lucille Alicia no mundo. Parecia que, em efeito, sua mãe se casara com alguém.
—O batismo — O clérigo levantou uma enorme página, passou-a e rastreou com o dedo indicador as entradas do registro. — Aqui. Esta é — letras pequenas, limpas e magras como patas de aranha, ligeiramente esvaídas que punham «Anne Catherinne Jones».
Tinham-na batizado. Era estranho. Galba se afastou com o clérigo e ficou a falar com ele.
—Aceita que isto é autêntico? —perguntou Grey.
—O que? — Não o tinha pensado. Passou os dedos pela página. A suavidade cheia de montinhos de pó, que percebeu debaixo das pontas dos dedos confirmou que essa tinta não tinha sido alterada. Não havia marcas de descontinuidade. Nenhuma zona mais dura reveladora. As cores tinham perdido intensidade de forma adequada e encaixavam. A encadernação não havia sido alterada. Cheirava a velho. — É real. É tão só que não o compreendo.
—Não é uma falsificação, nenhuma substituição. Aceita que é autêntico.
Ela assentiu.
—Estive na Inglaterra quando era uma menina. Recordo-o, embora só tenha lembranças imprecisas. Mas não sabia que tinha nascido aqui, em Londres. Por que nasci na Inglaterra?
—Todos temos que nascer em algum lugar. Saiamos daqui.
Fora, Adrian esperava, com as costas apoiada contra a parede, observando tudo com a atenção imparcial e carnívora de um falcão. Ele disse umas quantas palavras a Grey.
—Uma refrega no pátio da igreja — disse Grey a Galba logo que subiram à carruagem.
Galba manteve sua pistola sobre seu regaço na viagem de volta. Grey deixou a sua ao seu lado, sobre o assento. A carruagem deu a volta ao Booth Square para utilizar outra rota para voltar para casa. Ela podia sentir a presença de homens nas ruas, que seguiam e vigiavam a carruagem de ambos os lados do meio-fio, protegendo-a. Tinha a sensação de estar introduzindo-se num oceano de eventos, sacudida por correntes que não compreendia.
Meeks Street tinha ficado vazia de todos os grupos de espiões. Escoltaram-na escada acima homens de rostos duros e expressão séria, e Doyle, com aspecto amável e completamente depravado. Estava tão preocupada que quase não se deu conta de que estava caminhando de volta a sua prisão.
No salão, enquanto esperava que Giles abrisse a porta que conduzia à parte interna da casa, disse o que levava dando voltas em sua mente desde que abandonou a igreja.
—Peter Daffyd Jones — Grey e Galba se giraram. — Alguém lhe informou que minha mãe morreu?
—Ele também está morto, Annique. Peter Jones era seu pai — disse Grey.
Era impossível que não soubessem, esse dado sobre ela era do domínio público.
—Meu pai era Jean-Pierre Jauneau, também conhecido como Pierre Lalumière. Foi um herói da Revolução. Enforcaram-no em Lyon com os outros líderes da Rebelião dos Dois Sous quando eu tinha quatro anos.
—Pierre Lalumière era Peter Jones. Era galês. Fique quieta um minuto. Acredito que vou desarmar-te durante um momento.
Subiu a manga e estendeu o braço para que Grey lhe tirasse a correia que sujeitava a bainha da faca.
—Isto não tem sentido. Meu pai era basco ou possivelmente gascão. Quer dizer que meu pai era galês? Por que teria que ser galês? Ninguém é galês. Nunca em toda minha vida conheci a alguém que fosse galês. É a coisa mais estúpida que alguém pode ser.
—Eu sou galês —disse Galba. — Vem para o andar de acima.
—Isso não me surpreende de todo, porque devia supor que haveria muitos na Inglaterra, que está perto, mas não há nenhum na França que eu saiba. Por que ia um galês viver na França? Por que ia fingir que era francês?
Estava já na metade das escadas quando caiu na conta da primeira de muitas coisas que ia descobrir.
—Sapristi. Se isto for verdade, sou uma filha legítima —Apoiou a mão contra a parede, nem tanto para não perder o equilíbrio mas para assegurar-se de que ainda ficava algo no mundo que era sólido e confiável.
Grey esperava a seu lado, assim lhe informou:
—Não sou uma bastarda.
Uma sombra divertida cruzou seus olhos.
—Isso importa muito?
—Não acredito —Inspecionou mentalmente seu interior e não notou nada diferente. — É só que não tinha pensado em mim mesma desse modo — Subiu outros dois degraus e então lhe ocorreu uma coisa. — Então tenho um nome, um que é legitimamente meu —Seguida por outra idéia. — Jones? Isso é um nome? Mas ninguém na Terra se chama Jones de verdade. É ridículo.
Grey obviamente esperava que seguisse subindo e logo caminhasse o corredor até a parte dianteira da casa. Chegaram a uma estadia ampla e luminosa, com cinco janelas altas e com vistas à rua, através das cortinas brancas. Nunca antes tinha estado aí. Tinha amplas poltronas de couro, uma chaminé, prateleiras com espadas na parede e prateleiras de livros. Uma mesa ovalada de madeira de carvalho estava vazia exceto por umas poucas pastas numa pilha. Podia cheirar o café, o tabaco e o couro das poltronas e o fogo. Eram aromas caseiros. A Meeks Street era uma casa cheia de muitos espaços cômodos.
—Jones é um nome galês perfeitamente normal —disse Galba.
Giles tinha subido atrás deles com uma bandeja, levando café e pão. Deu uma taça de café a Galba, que a agarrou e a ofereceu a Grey, que a rechaçou e deixou a taça na mesa, junto a ela, sem perguntar. Eram insidiosos estes ingleses.
Estes ingleses. Caiu na conta de outra coisa.
—Sou meio galesa —Não pôde evitar sentir-se deprimida por isso.
—É completamente galesa —disse Galba. — Sua mãe nasceu em Aberdare.
O mapa apareceu de improviso em sua mente. Aberdare estava em Gales.
—Em realidade mamãe não se chamava Griffith, não é assim?
—Sim se chamava assim.
—Mas esse é um nome horrível. Não é possível pronunciá-lo. Não é de sentir saudades que se fizesse chamar Villiers, que é eufônico. Ao menos Griffith não é um nome ridículo, como Jones.
Levava um dia sem comer e não tinha bebido café, e agora estava enjoada e aturdida. Muitas verdades desagradáveis se enfrentavam nela e não estava preparada. Ninguém no planeta teria estado preparado para isso.
—Está me dizendo que o sobrenome de minha mãe era Griffith e que era galesa. Eu não sou francesa, não tenho nenhuma pequena gota de sangue francês — Ninguém a contradisse.
Ao cabo de um momento, disse:
— Falávamos inglês quando eu era muito pequena. Mamãe estava acostumada me chamar Annie Kate, antes que me chamasse Annique. Tinha-o esquecido.
Seus rostos estavam muito sérios. Tudo isto era verdade, não se tratava de outra mentira muito elaborada. Recordou o idioma no qual seus pais se sussurravam um ao outro de noite quando estavam a sós. Tinha a certeza de que ao se esforçar o suficiente em recordar e o perguntava, descobriria que era galesa.
—Sou galesa. É como dizer que sou uma girafa, um bule ou um índio algonquino. Converti-me em algo impossível e ridículo.
Galba ficou em pé esperando, tão quieto como uma árvore que tivessem plantado aí.
—Tem que saber o resto —Grey caminhou para a mesa e deslizou as pastas, numa pilha, para ela. Tinham largas bandas vermelhas que as cruzavam de um extremo a outro, o que sem dúvida devia significar algo. — Eu vi isto pela primeira vez ontem. Não sabia antes.
A pasta que em cima do resto estava etiquetada com muitos nomes e reconheceu alguns deles. Entre outros estavam os nomes do Pierre Lalumière e Jean-Pierre Jauneau, mas o primeiro nome que estava escrito era o do Peter Jones.

Peter Jones... Filho de Catherine e Owen Janes...
Cambridge University… Recrutado para trabalhar no serviço...
Atribuído à vigilância de Bretanha... Categoria 7...
Distinção e promoção... Atribuído ao Nimes...
Chefe de estação, Lyon... Agente por conta própria...
Distinção... Categoria 11... Distinção...
Distinção e promoção (póstuma)...

Esta era a pasta de um agente do serviço secreto britânico que tinha nascido como Peter Jones e logo tinha adotado o nome do Pierre Lalumière. Tinha trabalhado por conta própria e quando morreu tinha uma categoria 17. Sua pensão tinha sido atribuída a sua viúva, Lucille Jones.
A pasta continha centenas de páginas, velhos documentos que pareciam e cheiravam como se fossem completamente autênticos. Havia um relatório político que ele tinha redigido sobre os abusos do Antigo Regime e sobre a agitação intelectual que logo se converteu na Revolução. As sociedades secretas, os clubes políticos. Passou as folhas. Pierre Lalumière, que era tão galardoado na França que todos os colegiais conheciam seu nome, tinha sido em realidade um cidadão britânico e um espião.
A pasta debaixo era a de sua mãe. Agarrou-a e se deu conta de que era grosa.

Lucille Alicia Griffith... Filha da Anne e Anson Griffith.
Nascida em Aberdare, Gales... Recrutada para trabalhar no serviço...

Páginas e páginas. Os relatórios políticos de mamãe de Paris. Segredos dos austríacos e dos russos de Viena. Detalhe que eram os segredos mais escondidos da polícia secreta do Fouché.
A parte mais antiga, ao fundo da pasta, estava escrita com a caligrafia ajustada e austera de sua mãe, era a história larga e horrível da época do Reinado do Terror. Algumas nota estavam colocadas em cima da recontagem, escritas por outra pessoa, que diziam que mamãe tinha tirado mais de trezentas pessoas da maquinaria do conselho revolucionário. Tinha salvado muitas vidas. Inocentes e gente não tão inocente, mas nenhum deles merecia a extinção. Annique não sabia que sua mãe tinha feito isso.
A morte do Lucille Alicia Jones estava registrada na lateral esquerda da pasta em tinta fresca que não tinha começado a desbotar-se. Ela era uma agente de categoria 20 quando morreu, trabalhando por conta própria. Sua pensão atribuía a sua filha, Anne Catherine Jones.
Não queria olhar a última pasta. A sua. De fato era bastante grossa. Todas as cartas que tinha escrito a sua mãe, todos seus informes, toda sua vida como espiã, estava aí.
Tinha depositado muitos segredos no regaço de sua mãe e nunca tinha perguntado o que fazia com eles. Agora sabia. Os franceses só tinham os sedimentos, o melhor já o tinham ficado os britânicos. Sempre tinham sido os britânicos, durante todos esses anos.
—Está convencida de que isto não é falso —disse Grey, quando ela terminou, fechou a pasta e ficou sentada imóvel depois de tudo isso.
—É autêntico. —Olhou fixamente um livro que estava na estante. Se alguém lhe tivesse perguntado o que era isso, ela não teria sido capaz de encontrar a palavra correspondente. — Mamãe era extraordinária. Não existe um agente francês tão bem infiltrado dentro do serviço britânico. Minha mãe tinha acesso a tudo.
—Era única —disse Galba.
—Inclusive Vauban. Todos esses anos que estive com ele, disse-lhe tudo o que fazíamos. Agora o vejo escrito nesta pasta. Eu me acreditava tão inteligente e estava tão satisfeita comigo mesma e o entregava tudo a ela. René, Pascal, Françoise... E Soulier. Soulier, que confiou em mim com essas mensagens... Traí a todos. Vauban me cuspiria na cara por ser tão estúpida.
Então já não foi capaz de seguir falando. Era difícil ver porque seus olhos estavam rasos de lágrimas. Se começava a chorar, as lágrimas rasgaríam-na como se fossem pedaços de gelo.
Grey lhe tirou as pastas das mãos, fez que ficasse em pé e a atraiu para ele ocultando seu rosto contra seu peito. Nesse momento começou a chorar. Doía tanto como imaginou que o faria.
No passado tinha tido muitas ocasiões nas quais tivesse resultado perfeitamente simples que a matassem. Se ela tivesse tido um ápice de sentido comum teria morrido então e não teria vindo nunca à Inglaterra, a esse quarto, para presenciar como tudo aquilo que era importante para ela se fazia pedacinhos.
Tinha muitas lágrimas por chorar, mas ao final se separou de um empurrão de Grey e secou seu rosto com seu antebraço, de forma torpe e rápida, como uma menina. Era o momento no qual devia pensar e não só sofrer. Embora também seguisse sofrendo, provavelmente para sempre.
—Tenho curiosidade —Sua voz soou como o grasnido de um corvo. — Tenho curiosidade por ver o que ides fazer comigo agora que me reduzistes a nada deste modo. Numa hora, ter-me-ão destruído. Fui uma traidora toda minha vida. Toda minha vida, tudo o que tenho feito... Foi para nada. Nada.
Grey deslizou um prato para ao outro extremo da mesa, para ela.
—Annique, come algo.
Ela não se moveu.
—Se tudo isso não importa —disse ele, — dá igual que coma.
Era café e uns pãezinhos. É obvio, ele tinha razão. Nada disso importava. Apoiou os cotovelos na mesa para estabilizar-se, bebeu café e logo comeu a maior parte de um pãozinho de tal modo que sua capitulação foi completa. Quando terminou, colocou a cabeça entre as mãos.
O chão rangeu quando Galba se moveu.
—Annique... —Ele teve que repetir seu nome antes que ela elevasse a vista. — Annique, em parte sou o culpado desta injustiça. Não intervim. Sinto-o profundamente.
Essa frase em inglês era muito complicada para ela.
—Sou a filha de uma sereia e de um bacalhau marinho e estavam casados. Não tinha idéia. Por que minha mãe mentiu para mim?
—A princípio era muito jovem para carregar o segredo. Logo... — Galba estendeu as mãos. — Não há desculpa possível. Depois, ela escolheu ocultar isso. A última vez que a vi, tinha doze anos. Discutimos sobre isto, ferozmente. Disse-me que era uma menina com um único coração e que não o rasgaria em dois. Acredito que não esperava que nenhuma das duas sobrevivesse a esta guerra. Grey, nem sequer me está escutando.
—Deixa-a aqui comigo. Necessita tempo.
—Não falem de mim como se eu não estivesse aqui —Mas se converteu em algo não substancial como a fumaça. Se ela não era francesa, não podia imaginar o que podia ser. Possivelmente nada.
—Me desculpe — Galba suspirou. — Annique, não é a filha de um melro e uma criatura marinha mitológica. Seus pais eram duas das melhores pessoas que conheci. Sua mãe sentia um grande respeito por ti. Sabia que algum dia poderíamos nos sentar nesta casa e enfrentar a este momento.
Esperou que acontecesse algo.
—Ela não sabe —Grey segurou seu rosto entre suas mãos, de maneira que tivesse que olhá-lo, e então falou lentamente. — Temos que dizer-lhe. O nome de Galba é Anson Griffith. Se estivesse mais familiarizada com o serviço secreto, saberia —Esperou. — Era o pai do Lucille Griffith. O pai de sua mãe.
Sua mente era um espaço plano e estéril como uma praia depois da maré. Nenhuma de suas palavras tinha nenhum sentido. Possivelmente já não recordava como falar inglês.
Galba grunhiu.
—Quando puder pensar de novo, traga-a para baixo. Não deveria estar sozinha.
Grey lhe acariciou o cabelo, deslizando-o entre os dedos.
—Estará bem em uns poucos minutos.
—Nunca voltarei a estar bem.
—Sim, fá-lo-á, meu pequeno melro. É incrivelmente forte. Não sabia?

Capítulo Trinta e Dois
Não foi capaz de calcular quanto tempo tinha passado. Não escutou quando Galba saiu. Quando voltou a elevar a vista, estava a sós com Grey.
Ele estava em pé junto à janela, levantando a cortina com a parte posterior dos dedos para olhar fixamente a rua. Ela fez um ruído ou trocou o ritmo de sua respiração e ele se virou em sua direção. Então viu o que havia em seus olhos. Ele teria enrolado a Inglaterra pelas esquinas como um tapete e a teria transladado a Groenlândia se isso tivesse ajudado. Ele o teria feito por ela.
Converteu-se numa pessoa digna de lástima. Nunca tinha sido a ardilosa Jovem Raposa. Tinha sido o cão que trazia segredos a mamãe. Todos esses anos se acreditou tão importante por sua inteligência, mas sempre tinha sido uma idiota. Toda sua vida, foi uma idiota.
O sangue pulsava como tambores dentro de seus ouvidos. O mundo pulsava em vermelho nos extremos.
—Mentiras —A cadeira chiou atrás dela, veio abaixo e caiu com um estrondo quando ela a empurrou para um lado. Golpeou a mesa com os punhos. — Mentiras, mentiras e mentiras!
A pasta de sua mãe estava em cima da mesa. Pegou-a com as duas mãos e a lançou do outro lado do quarto. A pasta cuspiu papéis a meio caminho pelo ar que ondearam e se pulverizaram.
—Nada mais que mentiras! —Varreu da mesa a pasta de seu pai com o dorso da mão. Estendeu-se em cima do tapete, desenhando uma linha longa... Páginas e páginas escritas com sua caligrafia reta e precisa.
Isso deixou sua pasta. Rasgou a tampa pela metade. Tudo se esvaziou estendendo-se pela mesa. Informe-os que deveriam ter ido a Paris, suas cartas. As cartas que tinha escrito a mamãe. Dieu. As palavras tolas, cheias de amor e confiança que tinha escrito... Todos seus pequenos segredos. Todo mundo nessa casa as tinham lido.
Dúzias e dúzias de cartas, escritas em breves minutos, junto a campos de batalha, estavam enrugadas porque as tinha deixado junto à pele. O papel estava sujo porque o resgatou do lixo; era papel que tinha roubado das lojas dos oficiais, papel comprado quando não tinha dinheiro para comida. Todas essas cartas escritas com a letra cuidadosa e arredondada de uma menina obediente.
Agarrou-as e as rasgou, uma e outra vez, até que caíram de suas mãos, entre seus dedos, em forma de pequenas partes, que ondearam no ar como folhas. Caíram pedacinhos com linhas de escritura em todas as direções. Além disso, ela recordava cada palavra. Isso era o que doía. Recordava-as todas. Com cada parte que caía, em um instante, era capaz de recordar onde tinha estado quando escreveu essa carta.

….Trocado a convocação das armas Liège. Doze canhões de dezoito e trinta da classe inferior, canhões de seis e quatro. Escasseia a munição para as armas de maior calibre. Contei...
...Sinto-me sozinha aqui. Chère Mamam, espero que me visite, se você...Soltaram os caçadores para o Santo Espírito, partindo ocultos pelas rajadas de neve, com...
…para que possa ter sapatos de novo. Tive uma breve topada com os cães que comem os mortos no campo de batalha, mas...
…para os cento e cinqüenta e sete cavalos da cavalaria pesada e a artilharia ligeira a cavalo. A força oficial são em teoria cinqüenta e nove mulas de carga, mas destas, ao menos um terço se irão à rivalidade se as obrigarem a retroceder, tal e como parece...
…Estou alimentando a um dos gatos das ruínas do pátio da estalagem. Tem manchas brancas...
O papel se enrugou em seus punhos. Suas mãos tremeram.
Grey não disse nada e não tentou detê-la. Podia ter destruído cada pasta nesse quarto e Grey não a teria impedido. Nada disso, nada de tudo isso, trocava as coisas.
Esses idiotas tinham deixado a xícara, o prato e o pires da xícara em cima da mesa. Explorou, um após o outro, quando os lançou contra o chão. Estes ingleses não eram tão preparados.
—Espero que fossem pratos caros —Olhou aos pedaços, os miolos e as manchas de café que se estendiam por todo o tapete, junto à colher que estava caída de lado no chão. Doía-lhe muito a cabeça.
—Muito caros. Crown Derby.
—Sentir-me-ia melhor se tivesse matado a alguém. Estou quase segura disso. É idiota por deixar facas por todo este quarto —Toda sua vida tinha evitado matar, mas nunca era muito tarde para começar. — Quando terminar de te apunhalar, poderia queimar esta casa. Não seria tão difícil. Poderia queimar as milhares de pastas que tanto amam.
—Começa com estas —Assinalou os montões inertes e desolados de papel no chão. — Ajudarei-te.
Não ia chorar de novo. Provavelmente não voltaria a chorar em toda sua vida. Queria abraçar a Grey e vir-se abaixo em seus braços como uma mulher débil, mas, sem dúvida, também queria matá-lo.
O tapete da chaminé tinha uns cem buracos ali onde tinham caído faíscas durante muitos anos.
—Meu pai era um grande homem.
—Um homem excelente —disse Grey. — Falávamos sobre seu pai em Harrow, na sala de estudantes de noite. Falávamos sobre o que ele tinha escrito, o que ele e outros fizeram no Lyon. Converti-me quase em um revolucionário por ler seus livros.
A seu lado tinha uma dessas poltronas fortes e pesadas que abundavam nesse quarto. Era antiga e estava desgastada por todos os espiões que se sentaram nela. Para Grey e outros, este era seu refúgio, o lugar no qual falavam, liam e se esqueciam do trabalho. O coração da casa. Estes homens sábios e terríveis haviam a trazido aqui para que pudesse estar dentro de seu território, em seu lugar mais protegido, enquanto a destruíam.
Ela tragou saliva.
—É difícil acreditar que meu pai era inglês.
—Galês.
—Não conserte tudo o que digo. É uma diferença que só perceberia um inglês, igual a uma truta que se emociona com a diferença que existe entre uma truta e um lúcio.
Acabava de acender o fogo na chaminé. Tinha preparado esse fogo para animá-la porque não tinham outro modo de ajudá-la. Sabiam que teria frio. Quando se arranca por completo o coração do corpo, fica-se bastante frio.
Cruzou os braços sobre o peito, mas não era o mesmo que ser abraçada por Grey.
—Numa ocasião, seqüestraram-me os russos, quando tinha quatorze anos. — Falar era tão lacerante como ter uma faca na garganta, mas doía menos que permanecer em silêncio. — Tinham me traído, como está acostumado a passar. Sabiam meu nome. Um deles, quando me ouviu, soube de quem era filha. Todos eles, todos os oficiais, tinham lido os livros de papai e sabiam como tinha morrido. Por isso me deixaram partir. Os interrogadores tinham acabado de começar comigo. Nem sequer me deixaram cicatrizes.
Grey estava rígido pela ira que sentia por esses russos de fazia tanto tempo.
—Sem cicatrizes, que bem —Podia ser sarcástico às vezes.
—Perdoaram-me a vida, numa terra longínqua a França, porque esses homens conheciam o nome de meu pai.
Ele tinha decidido que já era seguro aproximar-se dela de novo. Avançou para ela por detrás e colocou suas mãos em seus ombros. Sentia seu calor quando lhe sustentavam.
—Seu pai foi um homem valente.
—Eu estive aí, sabe? O dia da marcha. Não levavam armas, nenhuma navalha. Os trabalhadores dos teares, que estavam morrendo de fome, caminharam até a prefeitura para enfrentar-se a homens com pistolas, sabendo que alguns deles podiam morrer. Só pediam um salário justo. Unicamente isso. Cada colegial francês conhece os nomes dos que foram enforcados —O nó gelado que era seu estômago começou a derreter-se. — Sempre estive orgulhosa de ser sua filha —Isso não tinha trocado. As verdades mais importantes não tinham trocado. — Ele não levou a cabo essa marcha porque fora um espião para a Inglaterra. Fê-lo por esses homens. Amava a França e morreu pelo país.
—Era um homem capaz de amar a mais de uma nação.
—Meu pai não me teria mentido. Se tivesse vivido até que eu tivesse tido uma idade em que tivesse podido falar comigo, ele não me teria mentido.
—Seu pai te teria enviado a Inglaterra quando as coisas ficaram feias na França. Antes da Revolução. Teria estado a salvo em um colégio para meninas no Bath —Deixou que assimilasse essa informação. Poderia ter sido uma colegial em alguma cidade de províncias. Essa teria sido sua vida. Era um pensamento que lhe gelava o sangue.
Grey a conhecia. Tinha-a metido em sua cama e a segurou entre seus braços naqueles momentos nos que vomitou desse modo infame e caminhou com ela todo esse comprido caminho da costa. Sabia exatamente o que tinha que lhe dizer.
—Não teria gostado de estar numa escola no Bath. Está jogando a ser sutil comigo e desejo que deixe de fazê-lo. Desgosta-me sua inteligência. Afogo-me nela.
O vento jogou com as cortinas e se deslizou debaixo dos documentos que estavam no chão, fazendo que se elevassem e caíssem como pássaros preparados para dormir. Uma página se deu a volta por completo. Uma de suas muitas cartas. Ela, sempre, tinha escrito uma carta para cada mensageiro que passava, quando estava fora, espiando. Porque sua mãe se preocupava. Ela tinha acreditado, em corpo e alma, que sua mãe se preocupava com ela.
Ele viu o que ela olhava.
—Perguntaste-te o motivo pelo que te mentiu sua mãe?
—Para me converter em sua boneca. Para me utilizar. Nunca me viu no campo, monsieur chefe de espiões. Sou útil de um modo incomensurável.
—Não é uma menina, Annique. Deixa de atuar como tal. Ela poderia te haver contado a verdade e ter seguido te utilizando. Faria tudo que ela te pedisse.
—Não quero escutar isto.
Ele seguiu sem descanso.
—Não tinha motivos para te mentir. Podia te haver dito a verdade quando fez oito anos. Ter-lhe-ia resultado inclusive mais útil. Pensa nisso. Por que te mentiu?
—Odeio-te. —Isso, ao menos, não requeria pensar. Isso o podia ter feito ela em sonhos.
—Mentiu-te para que você não tivesse que mentir. Deu ao René Didier e a casa do Quartier Latin. Deu-te a oportunidade de aprender a cozinhar na cozinha do Françoise Gaudier. Permitiu-te ser uma das agentes do Vauban. Deu-te todos esses anos.
Fechou os olhos. Grey não exigia nada, nem sequer que ela falasse. Era possível estar em pé aí e assimilar esses pensamentos e ter em conta o que teria sido sua vida se sua mãe lhe houvesse dito a verdade.
Tinha visto as inteligentes figuras de cerâmica de Dresden, pintadas e vidradas para que parecessem maçãs, alfaces e couve-flor. Saudáveis e comestíveis à vista, frias como esqueletos ao tato. Ela teria sido assim se tivesse crescido desempenhando um papel duplo.
—Mamãe era inteligente —sussurrou ao final — e estava muito sozinha. Não tinha me dado conta do quão sozinha estava — Olhou ao redor do quarto. — Deveria recolher os documentos.
—Deixa que Adrian o limpe. Quer matar dragões por ti. Vem para o andar de baixo.
—Não. Me leve a sua cama. Necessito-te.


Capítulo Trinta e Três
Já muito tarde da noite, ela sonhou:
O pátio do cárcere estava escuro, cheio de lampiões que se moviam e vozes e gritos. Não podia chegar até papai. Estava no furgão com os outros homens. Tinham segurado papai e empurrando-o dentro.
—É a menina pequena —disse alguém.
—Dieu. Tirem-na daqui.
Algo não ia bem. Papai não deveria ter esse aspecto. Sacudindo-se como um peixe na linha. Dando pontapés e girando. Seu rosto era... Feio. Não como papai. Negro e feio com a boca aberta.
Tentaram sujeitá-la. A escuridão a seu redor e as paredes de pedra. Ela correu e correu, de volta por onde tinha vindo, para o cárcere.
—Mamam. Mamam. Où es-tu?
Nos largos corredores das celas, escutou gritos. Gritos finos e agudos, como os de um porco quando o matam. Os soldados estavam por toda parte com suas botas altas de couro e suas pistolas. Arranhou com as mãos para abrir caminho. Em meio de tudo, mamãe estava no chão. Estava nua. Havia sangue vermelho em sua boca.
O homem baixou as calças. Coisas brancas e peludas apareciam debaixo de sua jaqueta. Estava lhe machucando. Fazendo com que chorasse.
Ela ia fazer que parasse.
—Arrêtez. Arrêtez. Mamam. Mamam.
Alguém a carregou em seus braços. Não podia ver nada mais que uma jaqueta azul com botões de latão enquanto a levavam longe.
—Mamam...
***
Despertou na cama, suando e com frio.
Grey a sustentou entre seus braços.
—É um sonho, só um sonho. Volta a dormir —falou em francês e subiu a manta para que os tampasse.
Ela estremeceu.
—Ela os encontrou depois. Os homens que fizeram mal a papai — Só estava meio acordada. Rodeou com seus braços a Grey, deslizando-se de novo no sonho. — Me disse isso numa ocasião. Os juízes e os soldados de Lyon. Os homens que mataram a papai. Durante o Reinado do Terror os encontrou e morreram por isso. Cada um deles.


Capítulo Trinta e Quatro
Galba contou onze badaladas do relógio no salão principal. Passou outra hora e ainda não sabia nada do Robert e dos outros.
Não tinha relógio no escritório. Era um dos lugares onde ocasionalmente mantinham os prisioneiros e não continha vidro, nem objetos com pontas afiadas, nem cabos, nem cordas, nada que pudesse converter-se numa arma. Inclusive seu exército cheio de plumas e estandartes de xadrez, um jogo veneziano e muito antigo, era de cartão pedra.
Sua neta colocou o dedo indicador sobre uma mitra escarlate.
—Em minha opinião, eu não moveria o bispo.
Ela moverá a rainha, pensou ele. Tinha-a enviado a correr pelo tabuleiro em lugar de utilizar aos peões, cavalheiros e as torres. Por seu caráter, Annique era uma agente independente, até o mais profundo de seu ser. Quando se unisse a seu serviço, nunca seria chefe de estação ou chefe de seção. Ela não era outra Carruthers e era realmente uma temível adversária no xadrez.
—Não sou boa nisto —Deslizou a rainha para diante. — Prefiro jogar cartas.
—Porque você ganha nas cartas.
—Quando te conheci pela primeira vez pensei que não tinha nenhum tipo de senso de humor... — Conseguiu acrescentar a seguinte palavra, embora era um tema claramente espinhoso, como um espinho na boca. — Grandpère. Agora acredito que tem um senso de humor diabólico. Não desfruto em ser tua família. É como ser a neta de um desses grandes monumentos no Egito, desses nos quais ninguém pode decifrar as inscrições. Se não me equivoco está a ponto de me dizer «xeque», por culpa desse molesto teu peão.
Tinha passado dez dias com ela. Adorava-a e lhe enchia de uns remorsos infinitos por não havê-la conhecido antes quando era uma menina. Quando inclinava a cabeça desse modo, podia ver sua Anna nela, sua esposa, que levava anos morta. Seu rosto era a cara de Peter Jones. O guerreiro apaixonado, o sonhador. Ela tinha o encanto de Lucille, todo seu encanto, e o fazia sua de uma forma muito pessoal. Entretanto, seu cérebro, esse cérebro sereno, divertido e calculista, tinha-o herdado dele. Ela e Robert iriam ter uns filhos impressionantes.
—Xeque, Annique.
Começava a compreender a filha de Lucille moderadamente bem. A princípio, desconcertava-lhe que fosse uma agente tão eficaz e, entretanto, tão desprotegida, tão aberta e direta. Ao cabo de dez dias, sua neta espontânea, natural e sincera nunca errou, nem sequer uma vez, em todo seu falatório.
—Assim —Não pretendia deixá-la aí sentada, pensando sem parar em Robert, — estávamos falando da natureza dos segredos, verdade?
—Sim —Deslizou seu cavalheiro dentro da armadilha.
Ele não caiu imediatamente sobre o cavalheiro. Seria mais instrutivo se ela tivesse tempo para compreender seu engano antes que ele movesse a peça.
—Chegamos à conclusão de que os segredos são intangíveis, mas, também são matéria prima, não é assim? Podemos vendê-los ou roubá-los, podemos possuí-los.
—Certamente a gente pode possuí-los —Aí estava. Esse movimento rápido de pestanas. Deu-se conta de que seu cavalheiro estava condenado. Provavelmente estava começando a suspeitar que seu bispo seria o seguinte a cair. Ia ensiná-la a jogar xadrez.
—Chegamos a uma conclusão conjunta. Oxalá minhas conversações contigo não se apoiassem em que esteja de acordo com as coisas que há dito e logo em chegar a conclusões nas quais não quero acreditar absolutamente.
Era uma pessoa tão disciplinada debaixo de toda essa frivolidade... Nenhuma só vez olhou a parte dianteira da casa. Não mostrava sinal algum, nem sequer um que ele pudesse detectar, de que todo seu espírito esperava com aprumo e serenidade que retornasse a carruagem.
Robert e os outros estavam demorando o bastante. As negociações com Lazarus deviam ter sido mais difíceis do que o esperado.
—Se um segredo se pode possuir, pode trocar de dono —disse ele.
—Sem dúvida. Os segredos são muito promíscuos. Eu mesma escapei com vários durante minha vida — encolheu os ombros num gesto totalmente francês, aceitou a perda de seu cavalheiro e enviou sua rainha a abordar astutamente a seu bispo.
—Podem também permanecer fiéis? Acaso meus gêmeos não seguem sendo meus, embora estejam na gaveta do armário do Robert? —Moveu um cavalheiro. — A gaveta não é a dona dos segredos.
—Quer dizer, em efeito, que os segredos dentro de minha cabeça não me pertencem. Não estou de acordo —Ela recolheu o bispo, murmurando. — Isto não me faz nenhum bem. Acredito que só joga comigo.
—E isso faço —Moveu um peão. — Xeque.
—Mas. Onde? Não há... Vá —Se mordeu o lábio. — Acredito que isso foi uma armadilha. Deixaste quieta a torre durante tanto tempo que a tinha esquecido por completo —Apoiou o dedo sobre a rainha. — Posso ver claramente como escapar desta armadilha assim provavelmente é mais sutil do que alguém acreditaria. Grandpère, minha cabeça não é a gaveta de um armário. Dá-me igual quem colocou ali os segredos ou quem os necessita. Agora são meus. Eu decidirei —Moveu à rainha.
Ele colocou em posição ao último peão.
—Exato. Já não são segredos franceses. Agora são teus. Deve fazer com eles o que te dite sua própria consciência. Isto é xeque mate em três movimentos.
Ela lançou um olhar de ódio para o tabuleiro. Levou um minuto conseguir entender os movimentos e o dobro desse tempo admitir que a tinham vencido por culpa de sua invencível teimosia. Escapou-lhe uma exclamação de desgosto e ficou em pé.
—Não sei o motivo pelo que sigo jogando xadrez contigo, já que nunca ganho.
—Joga porque eu lhe peço isso, Annique.
Colocou ao rei e à rainha brancos, um junto ao outro, em seus ninhos revestidos de veludo dentro da caixa, logo pôs o rei e à rainha vermelhos. Sempre era um prazer tocar estas velhas figuras de xadrez. Annique agarrou uma torre, um bispo e um peão da mesa e começou a fazer malabares. As peças circulavam por cima dela como colibris enquanto suas mãos voavam desenhando círculos ao redor delas.
Ele se deteve, fascinado. A garota era um compêndio tão estranho de talentos... Só utilizava as pontas dos dedos, suave como o vento.
—Estou ensinando Adrian a fazer malabares — Sua atenção se centrava por inteiro nas peças de xadrez, concentrada, natural e rápida como um felino. — O ajudará a lançar melhor as facas e também o divertirá. Doyle não quer aprender. Diz que não vai com sua imagem, embora não usou essas mesmas palavras. Grey não tem tempo, posto que faz com que trabalhe sem compaixão a todas as horas do dia e da noite.
—É difícil fazer isso, fazer malabarismos com as diferentes formas?
Ela as agarrou. Uma, duas e três. Logo lançou ao bispo só para que desse voltas no ar.
—Mas estas peças são todas iguais. Há um peso dentro, possivelmente pequenas pedras, é a impressão que dão, e são iguais em todas as figuras. A gente faz os malabares com o centro do equilíbrio — Depositou as três peças, as colocando em fila no canto do tabuleiro para que ele pudesse as guardar.
Ele devia ter trazido esta menina de volta a Inglaterra fazia dez anos. O que Lucille lhe tinha feito, o que ele tinha permitido, era absolutamente criminal. Era um remorso a mais dos muitos com que vivia.
—Encontra o centro do equilíbrio e tudo cairá em sua mão.
—Esse é um modo de vê-lo. Mas devo te dizer que não é tão fácil me manipular como a estas peças de xadrez que tão bem utiliza —Esboçou para ele seu sorriso de garotinho da rua. — Sabe a tolice que mais sentia falta quando estive cega?
Ele colocou o bispo vermelho, a torre vermelha e o peão vermelho em seu lugar na caixa e fechou a tampa.
—Fazer malabares?
—Também senti falta de fazer malabares —Ela olhava além de onde ele estava, para a janela. — Senti falta das pombas. Admiro-as que são grandes e mesmo assim não intimidam continuamente aos pardais. Também se remoem a língua e não discutem sobre política durante todo o dia e toda a noite. Não brinque de ser o historiador natural e não me diga que as pombas não têm dentes.
—Ia dizer que as pombas não têm política. —Agora devia escolher outra coisa para distraí-la até que Robert e os outros retornassem. Tinham ido fazer uma pequena missão, esse tema dos criminosos das bandas do leste de Londres. Mas tinha perdido agentes em missões pequenas e Marguerite estava com eles. — Ao piano, Annique. É a hora em que deve praticar. —Puxou o cordão para que Giles viesse e abrisse as portas.
—Ninguém sabe, nenhum deles, as coisas espantosas que faz aos prisioneiros nesta casa —Seus olhos dançavam quando dizia isso. Sentia-se cômoda com ele, como se estivesse em casa inclusive apesar de levar tão poucos dias ali. Sua neta era uma mulher de lealdades fortes e sem complicações. Estava vinculando-se a ele, a sua organização e a Inglaterra em cada hora que passava. Dentro de uma semana, ou possivelmente em uns poucos dias, já estaria tudo feito.
Giles era outro estímulo. Os dois caminhavam diante dele pelo corredor, para o salão principal, juntando as cabeças, enquanto murmuravam. Estava encantada de ter um parente de sua idade, um primo. Ela escutava sem cessar as intrigas mais aborrecidas da família, maravilhando-se por todas essas pessoas que deveriam estar relacionadas com ela.
Já tinha forjado um vínculo inquebrável com Robert. Sua filha e sua avó também tinham eleito a homens extraordinários para apaixonar-se por eles. A linha sucessória Griffith estava a salvo.
Mas não sua música. Sua educação musical tinha perdido importância com o passar do tempo. Seguiu-a até o salão, onde a encontrou em pé; a luz do sol, que entrava pelas janelas dianteiras, desenhava seu perfil enquanto ela franzia o cenho rebelde diante do piano.
É obvio, era formosa como o amanhecer. Uma dessas mulheres fastidiosas que nascem para deixar loucos aos homens. Esse velho demônio do Fouché tinha razão numa coisa: já era hora de que essa agente deixasse de lado a roupa de menino e o campo de batalha para dedicar-se aos salões e a política. Era muito valiosa para desperdiçá-la com o exército.
—Desejará algum dia parecer uma jovem dama de boa família. Deveria ter aprendido a tocar mal o piano faz anos. Não sei no que estava pensando sua mãe.
—Eu não sou muito musical.
—Tampouco o são as jovens de boa família. Adoram-nas no templo do Euterpe mas não a escutam.
—O que é o mesmo que dizer que "não sabem tocar". Faz com que me doa a cabeça com suas alusões clássicas, as lições de piano e seus incessantes raciocínios. —Colocou as folhas da partitura no suporte de livro. — Está muito seguro de que ficarei aqui, que trabalharei para ti e que entregarei todos meus segredos a Inglaterra.
—Estou seguro. Passaste dez anos caminhando através do açougue que Napoleão levou a cabo na Europa. Não é nenhuma idiota, nenhuma selvagem. Antes de ver como violam e destroem a população de Kent, dar-me-á o que guarda em sua cabeça.
—E assim dar a vantagem à Inglaterra, para que possa ver como os soldados britânicos queimam as pequenas granjas da Normandia.
—Ou possivelmente assim poderá salvar a Vendée de ser queimada de novo por Napoleão. Ninguém pode saber as conseqüências finais de suas ações.
—Ninguém pode saber... É uma tolice o que diz.
Era muito jovem. Às vezes esquecia quando falava com ela.
—Durante trinta anos ideei e urdi planos para dominar os acontecimentos. O que aprendi é que o futuro não é o cão a quem se ensina a fazer truques. Nada ocorre como se planejou. A oportunidade é a guia mais enganosa.
—Mas, entretanto, alguém deve escolher —Passou uma página da partitura e logo outra. — Eu devo escolher.
—Nesse caso, deixa de tentar adivinhar o futuro e decide. Faz o que é correto, aqui, neste preciso minuto. Mas como», neta, é algo que é perfeitamente capaz de entender.
O conhecimento que ela transportava, o insuportável peso dessa carga, via-se em seus olhos. Apenas um brilho. Logo ela o ocultou, deixou-se cair com força sobre o banco do piano e levantou o painel de madeira para mostrar as teclas.
—Inclusive se pudesse te entender, coisa que não faço, não te escutaria. Dirá o que seja, tanto você como Grey, para conseguir o que quer.
—Não é uma mulher a que alguém possa mentir com impunidade. Digamos o que digamos, decidirá por sua conta. Acredito que o fará de forma sábia.
Ela escolheria bem ao final. Não poderia ser nunca do culto que idolatrava a Napoleão. Não a filha do Peter. Seria um dever terrível trair a França. Seu trabalho, e o do Robert, era fazer que ela se reconciliasse com a culpabilidade que sentiria por isso.
—Falo-te com educação porque me ensinaram a respeitar a idade e os cães —Deixou que escapassem algumas notas fortes e dissonantes para deixar clara sua opinião. — Confia em mim. É um engano por sua parte. Sou uma mulher com uma astúcia infinita. Dar-te-ei precisamente tanta informação como eu queira, nada mais. E o farei por meus próprios motivos, quando eu queira.
Uma mulher impressionante, tal como Paxton havia dito. Graças ao céu que Robert sabia dirigi-la.
Começou a esmurrar o «Prelúdio em dó major» de Bach. É obvio, suas mãos nunca poderiam ser torpes, mas certamente não tinha ouvido musical. Escolheu o sofá vermelho, um móvel deliberadamente incômodo, fechou os olhos e aceitou seu castigo.
As notas cessaram de forma abrupta.
—Ils arrivent.
Estavam chegando. Ela ficou em pé e segurou o respaldo da cadeira, mantendo-se muito afastada da janela e da possibilidade de franco-atiradores. Vauban a tinha treinado extremamente bem. O desejo da jovem pela volta de seu amante ficava completamente submisso pela agente com experiência que nunca cometia enganos.
Agora, inclusive ele podia ouvir os cavalos. Na parte da frente da casa, Ferguson subiu com sonoras pernadas as escadas do porão para saudá-los quando a carruagem se deteve. Tinham retornado, a salvo. Pela extremidade do olho viu que Annique realmente relaxava pela primeira vez em horas.
***
«Ele voltou». Pressionou uma mão sobre o estômago e sentiu como os nós se desatavam, um após o outro. Acaso não era uma idiota por preocupar-se com Grey, que tinha sobrevivido a batalhas, agora que não tinha ido mais que a uma missão sem importância? Apaixonar-se a convertia numa estúpida.
Galba fingiu não dar-se conta de sua debilidade. A desarmou, completamente, receber um gesto tão delicado de amabilidade.
Marguerite foi à primeira a entrar, seguida por Grey e Adrian. Parecia extremamente satisfeita de si mesma, o que fazia que fosse ainda mais evidente que tudo tinha ido bem.
—Feito —Adrian lançou sua bengala sobre uma mesa e girou seu chapéu ao colocá-lo em cima da bengala. — Foi como a seda. Disse-te que assim seria.
Os dedos do Marguerite desataram os laços de seu chapéu.
—Eu mesma vi a menina, a bordo, ainda dormia. Ela está se recuperando. Todos acordaram para deixar que parta com seu pai, embora o homem seja uma uva sem semente.
—Entra, rouba a alguém, sai —Os olhos do Adrian lançavam brilhos. — Amo este trabalho.
Doyle foi o último em entrar. Parecia um tipo inglês de baixa índole, vestido com um casaco de couro e um lenço ao pescoço com lunares de cores brilhantes.
—Lazarus está zangado. Sobre tudo com esse jovem imbecil.
—Fiz que se zangue antes.
—Como conseguiste te manter vivo tanto tempo como... —Mas sua esposa Marguerite lhe trouxe uma taça de vinho do aparador e o beijou na boca, aí mesmo no salão. Era um beijo sério de casados que dava a impressão de que tinha sido praticado bastante tempo.
—Você gosta quando viu como um trapaceiro, Maggie? —Adrian esquivou o pequeno punho que Marguerite elevou em sua direção. — Deve ser como ter uma aventura com o moço do estábulo. Deveria provar isso alguma vez quando ele esteja vagando pela França.
—Você, Caçador de Falcões, menino, um dia vais levar seu castigo —disse Doyle. — Maggie não necessita conselhos sobre com quem pode ter aventuras. É uma mulher que sabe o que quer.
Marguerite soltou um risinho.
—Prefiro que meus amantes sejam mais soigné, mas uma mulher de minha idade não pode escolher muito. Acredito que este ficará bem, uma vez que o limpe quando o levar a casa.
Adrian foi ajudar a Giles a servir o vinho.
—Lazarus não me cortou o pescoço, os contrabandistas nos devem um grande favor e o serviço saiu daí sem problemas. Céus, às vezes até me assombro de mim mesmo.
E Grey se aproximou dela, como se não houvesse ninguém mais no quarto. Depositou uma taça em sua mão e fechou seus dedos ao redor do vidro. Como podia pensar em geral quando ele a olhava desse modo, como se queria arrastá-la até sua guarida no piso de acima e despi-la?
Adrian elevou sua taça.
—Pela espionagem. A espada sem fio...
—Sem punho —Galba terminou a frase. — Felicidades. Têm-no feito bem, todos vós.
Ela brindou com o resto. Era tão fácil unir-se ao sentimento de camaradagem da casa, fingir que era um deles...
Era hora e já fazia tempo que o era, que escapasse dessa casa. Ultimamente estava desconcertada por muitos de seus pensamentos. Dia detrás dia, podia sentir como suas certezas se evaporavam. Cada noite dormia encolhida entre os braços de Grey, sob o casaco quente de seu fôlego que retumbava. Sentia como lentamente se ia convertendo em galesa, como uma larva que se tomba, perplexa em sua larva, sonhando e trocando. Muito em breve, já não quereria partir. Possivelmente, logo, confiaria nos britânicos e lhes daria seus segredos. Sentia que eles, Grey e os outros, esperavam isso.
Marguerite deu uma volta pelo quarto, desenhando com seus dedos pelo ar. A luz do sol enchia de bolinhas de cores seu vestido azul enquanto passava pelas janelas. As finas cortinas ondeavam com o vento, amoldando-se aos barrotes, voando soltas. Fora se aproximava uma carruagem, que reduziu a marcha.
Um raio de inquietação a atravessou. Mau, algo ia mal. De perfil, ao passar junto às janelas, Marguerite podia ser qualquer mulher. Qualquer objetivo.
—Marguerite!
—Maggie —disse Doyle com seriedade. — Está fazendo sombra. Afaste-se da janela.
A carruagem fora. Estava reduzindo a marcha. Mau, mau.
Adrian já tinha uma mão sobre a Maggie. A bala fez pedacinhos a janela e Maggie caiu como uma pedra.
Esse disparo foi o sinal. O mundo veio abaixo. As janelas estalaram para dentro, uma atrás de outra, em rajadas estrondosas. Fragmentos de vidro voaram como milhões de pontas de lança no ar. Ela caiu ao chão e ocultou o rosto. O vidro quebrado caía em cascata sobre ela. Seus braços picavam e começou a sangrar. As cortinas se retorciam como fantasmas loucos. Mais disparos. O caos.
—Maggie!
A voz de Adrian atalhou o grito do Doyle.
—Não lhe atingiram. Não está ferida.
O que era uma mentira. Podia ver sangue na cabeça do Marguerite. Mas sabia o que Adrian queria dizer: que não tinham matado Maggie.
Fora, os cavalos relinchavam aterrados. Os cascos ressonavam sobre a pavimentação.
Uma comoção muito rápida martelava uma e outra vez, rasgando o quarto até fazê-la pedaços. O teto sofreu o impacto de um tiro direto. O estuque caiu a seu redor com um ruído seco. Serpenteou e avançou para diante pega ao chão. A roupa de mulher não era útil nestes casos. Não protegia do vidro. Cortou-se. O chumbo caiu no tapete a uma polegada de seu rosto. Arrastou-se para diante, justo aí, através da trajetória dessa bala. Os disparos deram nos barrotes, os tijolos, o batente de mármore e ricochetearam, golpeando objetivos ao azar. Pequenas partes de metal nos que cavalgava a morte. Por toda parte.
Uma pausa. Logo três tiros entraram em rápida sucessão. Outra pausa. Estavam recarregando. Arrastou-se com rapidez até a parede dianteira.
Tinham recebido nove rajadas diferentes na primeira descarga. Três na segunda. Tinham escopetas e rifles, não mosquetes. Provavelmente só eram três ou quatro homens.
Chegou até a parede, até Maggie, que parecia não estar ferida, exceto por um corte que percorria seu couro cabeludo. Seu rosto estava manchado de sangue. Mas agora todos estavam manchados de sangue, pela chuva de cristais. Maggie, sensata, tinha rodado para a parede, debaixo da janela, que nesses momentos, era o lugar mais seguro de todos. Adrian tinha se escondido sobre ela, protegendo-a com seu corpo, e tinha elevado sua faca como uma chama fria e negra.
Tinha uma faca extra que lhe lançar, gracie Dieu. Apertou-se junto a ele, colocando também seu corpo entre o de Maggie e as balas. Agora tinha com o que se assustar. Tempo para pensar nas portas desse quarto. Logo, homens poderiam abrir-se passo. Desejou ter duas facas.
Doyle se aproximou deles a toda pressa, com a pistola fora.
—Está ferida, Maggie?
—Não. Unicamente esmagada.
Outra descarga estrepitosa. O chumbo golpeou o papel pintado da parede e escavou buracos de uns quinze centímetros de profundidade. O piano recebeu um tiro direto e morreu de forma ruidosa.
—Essa é minha garota —Doyle se esticou para jogar uma olhada através da janela rota. Gritou a Grey. — Uma carruagem. Os homens estavam dentro, um em cima. Ninguém estava na rua.
Doyle se manteve fora de sua linha de lançamento. Adrian fez o mesmo, uma cortesia de grande valor neste momento tenso. Esta era a vantagem de trabalhar com homens que têm certa experiência. Ela também se sentia enormemente aliviada porque ninguém estava sangrando muito ou derrubando-se com uma ferida. O que não sabia era durante quanto tempo seguiriam assim.
Dois disparos em sucessão rápida. Logo houve mais disparos. O sofá de veludo vermelho soou como a água a pressão e aspirou ar. As plumas se uniram ao pó de estuque que flutuava no ar. Galba se tinha dobrado sobre si mesmo, encolhendo-se numa esquina, mantendo-se afastado para não estorvar seus operativos, os lábios finos, o olhar frio e distante.
—Quatro atiradores. Um condutor —anunciou Grey. Tinha calculado o intervalo entre os disparos, igual a ela. Ele estava convexo, os cotovelos apoiados no chão, cobrindo a entrada principal. Era uma posição clássica, o modo no qual Grey sujeitava a pistola era totalmente militar. O modo no qual ignorava as balas que golpeavam totalmente o chão a seu redor também era próprio do exército e demonstrava que tinha estado muitas vezes em combate.
—Fora daqui. Todo mundo, ao corredor. Giles —espetou.
Giles tinha tirado as chaves. Ficou mais ou menos em pé para abrir a porta. Era suficientemente jovem, esse menino, para pensar que era imortal.
—Abaixo idiota! —Grey o agarrou e empurrou ao idiota detrás do que ficava de sofá. — E fique abaixado —Esperou, contando. Uma rajada dobro fez tremer o quarto.
Tranqüilo como se pudesse deslizar-se entre as balas, Grey se lançou contra o muro, no suporte que tinha sujeito os restos dentados de um abajur. Agarrou o candelabro de latão de parede e o girou desenhando um grande círculo. Dentro do muro, sem complicações, abriu-se o ferrolho e a porta se abriu.
—Giles, Anson, fora —ordenou Grey, — para o refúgio. Doyle, fica na parte da frente. Annique , é possível mover Maggie?
—Não está ferida —Elevou a voz por cima da descarga de disparos. — Exceto um corte —Uma mesa alta e de patas finas escolheu esse momento para balançar-se e cair estrepitosamente ao chão, levando-se consigo o último abajur que ainda permanecia intacto.
—Tire-a daqui. Adrian, vêem comigo.
Maggie, uma vez que ninguém permanecia ajoelhado sobre ela, mostrou uma grande habilidade para arrastar-se com uma velocidade elogiável. A metade do caminho, pelo corredor, Galba abriu uma porta e empurrou ao Giles diante dele. O refúgio era uma estadia sem janelas, pequena e escura, mas que proporcionaria certa segurança contra as balas. Ela empurrou Maggie através da porta, fechou-a detrás de si e ficou em pé com as costas apoiada contra ela.
Grey encontrou seu olhar enquanto passava. Assentiu em um gesto rápido de aprovação e se dirigiu à parte traseira da casa, deixando-a como o último protetor daqueles que estavam no refúgio. Em momentos como esse, seu Grey mantinha a integridade e a calma por completo, comportava-se de um modo absolutamente letal.
Assim, esse era seu posto. Ajoelhou-se, agachando-se tanto como resultava prático. A janela dianteira cuspia balas até o corredor e estilhaçava o estuque, que parecia estar picado de varíola. Não gostava da idéia de que uma dessas balas lhe desse. Sua faca... Bem. Era algo com o que estava completamente familiarizada. Todas as facas do Adrian se equilibravam igual e não pesavam mais que uma ervilha.
Tinha uma boa vista da porta principal. Doyle, no salão, levaria a diante ao primeiro homem que entrasse. Ela se encarregaria do segundo e possivelmente lhe daria tempo de recarregar.
Voltaram a atingir o piano, embora mais embaixo nesta ocasião. Então começaram os disparos de pistola fora da casa, um som como o dos lenhos de pinheiro que saltam numa chaminé. Grey tinha dado a volta a casa e estava disparando à carruagem. Doyle tomou isto como um sinal para ficar em pé e disparar da janela. Atirou-se ao chão para recarregar. Ela escutou a carruagem que se afastava e em questão de um minuto, os disparos cessaram por completo.
Silêncio. Seus ouvidos estavam surdos e tapados. O pó de estuque, as plumas e a pólvora flutuavam no ar. As paredes do salão gotejavam estuque e tiras de papel pintado. Esperou, sem mover-se. Doyle também ficou em seu posto, com as costas apoiada na parede, a pistola pega ao peito. No refúgio, detrás dela, não se ouvia nenhum som. Tinham muita experiência, todos eles.
—Sou eu —gritou Grey de fora. — Alto o fogo! —E quando a porta principal se abriu, em efeito era Grey, não uma pessoa a que pudesse lhe lançar a faca, assim que ficou em pé e expulsou o ar, lentamente e durante um bom momento. Não tinha pensado que os atacantes ficassem rondando uma vez que começassem a lhe devolver os disparos.
A porta do refúgio se abriu atrás dela. Galba apareceu no corredor, rígido e zangado.
—Alguém ficou ferido?
Grey caminhou para eles, com a pistola preparada e apontando ao tapete.
—Stillwater torceu um tornozelo. Ferguson tem um corte no braço. Nada grave —Tocou seu rosto, girou-o para ver por onde estava sangrando. — Está bem —O disse como se ela fosse um de seus homens. Para ela foi reconfortante saber que ele pensava nela desse modo, que não a tratava como a um civil, como a Maggie e a Giles. Ele deixou sua pistola na mesa do corredor e tirou um lenço para deter o sangue de seu rosto. Doyle se aproximou para levar Maggie daí, retirando fragmentos de vidro de seu cabelo; seus enormes braços, como os de um urso, rodearam-na com força. Fora, ela podia ouvir os homens que blasfemavam de um modo imaginativo.
Leblanc tinha chegado até Londres para matá-la, desafiando a cólera de Soulier, sabendo que o serviço britânico estaria muito interessado nos acontecimentos ocorridos em Brujas. Agora, mais que nunca, estaria desesperado. Tinha cometido essa atrocidade numa rua onde jogavam os meninos, onde mulheres podiam sair de suas casas em qualquer momento. Esse homem era um cão.
—Alguém —disse Galba, — ofendeu-me. Leblanc?
—Leblanc —Os olhos de Grey tinham a cor do granito.
—Esse era Leblanc —Se sentia doente ao saber o que havia trazido para essa casa foi seu primeiro intento.


Capítulo Trinta e Cinco
Grey a empurrou sobre a cama e pressionou sua boca sobre o corte em sua frente. Percorreu a ferida com sua língua.
—Procura vidro? —disse ela. — Não é necessário. Os cortes estão limpos. Lavei bem e Maggie e eu nos penteamos o cabelo uma à outra para retirar todos os fragmentos. Agora que comecei a falar com ela me dei conta de que é uma mulher interessante, inclusive seja uma aristocrata. Sabia que sua filha mais velha fala quatro idiomas e tão só tem onze anos? Doyle levou a Maggie abaixo a essa banheira indecente para lavá-la.
—Isso fez.
—Posso ouvir o que quer dizer com esse tom, mas estou segura de que quão único vão fazer na banheira é lavar-se.
—Eu não estaria tão seguro —Agora era seu cotovelo o que lhe fascinava. Colocou seus dedos nesse lugar, mordendo sem força. Foi uma grande surpresa atrás de outra quando ele fez isso. Às vezes, levava-a ao ponto da loucura antes de penetrá-la e liberar o desejo que tinha criado nela.
—Teria pensado que uma aristocrata seria mais respeitável —Ela não ia falar de nada sério, essa noite. Tão só ia rir. «Durante uma breve hora não vou pensar no que devo pensar». — Está seguro de que não é francês? Isto me parece muito francês, de algum modo.
—Sou inglês desde que tenho memória. O que pode saber sobre como fazem amor os franceses? —Percorreu com o bordo afiado dos dentes seu ombro.
—Eu ouvi coisas, embora nunca ouvi falar das coisas que faz. Não acredito que nem sequer existam nomes para essas coisas.
Suas mãos se deslizaram debaixo dela e a levantou para que seus peitos alcançassem seu ponto mais alto debaixo da boca. Deu pequenas mordidinhas enquanto ela se agarrava aos lençóis, agüentando, retorcendo-se inclusive antes que ele a tocasse.
—Você começa a falar em francês quando estamos na cama. Sabia? —Sua voz se voltava grave quando estava excitado. Soava como as teclas da esquerda do piano.
—Não me tinha dado conta— Sim, disse-o em francês.
Era um tambor estendido, produzia um som vibrante, enquanto ele beijava todo o caminho ao redor das costelas, explorando cada uma delas com sua língua. Escutou como ela cantarolava brandamente. Possivelmente era em francês. Quem podia dizê-lo?
Agora que havia a trazido tão longe, acomodou-se a seu lado para que pudessem falar. Gostava de falar na cama. Ela, por sua parte, não se encontrava de humor para falar nesses momentos.
As velas se apagaram. Ele tinha aberto as pesadas cortinas azuis da janela. A luz da lua se deslizava sobre ele, perfilando cada osso, cada músculo. Através de seu deltóide um velho corte de faca se curou deixando uma linha branca reta, tão plaina que não era capaz de senti-la sob seus dedos. Sentiria falta dessa cicatriz quando o deixasse. Se Soulier não a matasse, sentiria falta dela durante os largos anos de sua vida.
—Está-te preocupando —Passeou seu polegar por seu lábio inferior. — Quero que deixe de fazê-lo. Quero que esteja suave e flexível como o macarrão, não preocupada e com vontade de brigar comigo.
—Se tivesse vontade de brigar contigo, mon ami, já te teria dado conta.
—Possivelmente está brigando contigo mesma. — Seu polegar seguiu seu caminho descendo por sua garganta, passando o ponto de união da clavícula, entre os peitos, baixando todo o trajeto até seu umbigo. Sua expressão era indecifrável. — Fugiria de mim se pudesse. Inclusive neste instante.
Via muito, sempre. Como não ia amá-lo?
—Grey, eu...
—Está em seus olhos cada vez que olhas a uma janela. Pensa em como sair. O que é que tem que fazer aí fora?
—Isto e o outro. Não quero falar sobre isso —Só tinha uma hora ou possivelmente duas mais com ele. Não as ia danificar.
—E voltamos a ser agentes inimigos —Deslizou o braço sob seu ombro para que os dois olhassem ao teto. — Desejaria com toda minha alma que nos tivéssemos conhecido de outro modo. Poderia ter vindo ao Littledean, esse é meu povo, em primeiro de maio. Passearia por aí dessa maneira em que caminha, mastigando algum galhinho e eu te veria...
—Estaria vestida como um menino? É do mais depravado por sua parte, notar em um menino desse modo.
—Levaria esse vestido verde que te pôs no jantar no outro dia.
Ela se moveu para aproximar-se, esquentando sua pele contra a dele.
—Seria uma idiota se caminhasse pelo campo com essa roupa.
—É meu sonho. Tenho direito a dizer o que tem posto. Assim... Vai caminhando pela forja. Organizamos uma grande festa no prado em primeiro de maio com carreiras, baile e uma fogueira, e todo mundo se embebeda. Detém-te para ver o que ocorre. Eu aparto um par de vândalos e te peço um baile.
—Eu digo: «Sim, obrigado».
—Isso faz. Então te dou voltas pelo prado até que está tão enjoada que não pode te ter em pé... Por culpa do baile e da cidra. Depois de um momento, consigo com artimanhas te levar ao bosque e te despir.
—Eu não vou ao bosque a sós com homens. Aprendi isso antes sequer de ter peitos, embora tampouco é que nunca tenha tido muito.
—Está pedindo que te diga um elogio? Tem uns peitos esplêndidos —Rapidamente, rodou para apoiar-se em seu flanco e inclinar-se sobre ela, seguindo o ar em cima de seus peitos, sem tocar. — A perfeição. Bom, duas perfeições, em realidade.
A sensação dele não tocando-a... Fazer amor estava em sua mente, não assim o mero acoplamento de anatomias. Não havia nada que Grey não soubesse sobre como dirigir sua mente para onde ele queria ir.
—Caminharemos entre as árvores, passando o velho moinho, descendo pelo bosquezinho —disse ele, — há zonas verdes nos bosques cheias de flores. Estenderei meu casaco debaixo de nós, na erva.
—Tombar-nos-emos juntos —sussurrou ela.
—Até o amanhecer e me apaixonarei perdidamente por ti. Ficaria comigo, Annique? Ou te levantaria, sacudiria sua roupa e te afastaria?
O chefe da seção da Inglaterra acabava de despir sua alma ante ela. Era fácil amar a este homem.
—Não quero escutar o final dessa história. Preferiria voltar para prado a dançar.
—Ou a fazer amor no chão do bosque. Essa é uma boa parte, não te parece? —inclinou-se sobre seus peitos, respirando em cima deles. Se esperava que lhe falasse, não deveria fazer essas coisas. As mãos dela seguraram seus antebraços, ali onde os tendões e músculos eram fortes como o couro. Era um homem duro em todos os aspectos. Exceto, às vezes, com ela.
Seu fôlego se movia por seu rosto, cruzando suas pálpebras fechadas.
—Se estivéssemos no Littledean, despertaria com partes de flores no cabelo. Não quereria fugir a nenhum lugar absolutamente. Possivelmente inclusive te apaixonasse.
—Apaixonei-me um pouco do Robert, quando o conheci, antes que se convertesse em ti e me encarceraste.
—Não posso te deixar livre. Leblanc a mataria.
—Possivelmente —Não era possível encolher-se de ombros, estando deitada.
—O que sabe dele? Qual é esse segredo pelo que quer te matar?
De repente, tinha o chefe de seção do serviço britânico na cama com ela. Odiava quando se produzia essa mudança.
—É insistente —Ela deixou cair as mãos com que o sujeitava. — Em lugar disso, falemos sobre a convocação das armas no Tolón. Posso ser extremamente ardilosa sobre as convocações de armas no Tolón.
Um instante depois o chefe de espiões tinha desaparecido e era Robert o que sorria por cima dela com desejo.
—Mais tarde —Ele acariciou com a boca seu peito, chupando e criando uma pontada que ela sentiu entre as pernas. Queria gemer e encolher-se ao redor do forte desejo que a golpeava ali. —Falaremos de convocações de armas depois. Tenho toda uma lista de segredos que te tirar mediante a sedução.
—Você. Não vais seduzir me para me tirar nada. Não falo sobre política absolutamente, nem sequer quando me encontro absolutamente incapaz de pensar, esses momentos que poderia me convencer de que aceite uma teocracia governada por ratos.
Ele riu ao ouvir isso, seu Grey sempre tão sério, ao que ela podia fazer rir.
—A Galba gosta da teoria política. Eu sou um homem prático e você tem um umbigo realmente precioso. Havia-lhe isso dito já? É como a casca da noz. Justo do tamanho adequado.
—O tamanho adequado para que? Vá, para fazer isso com o umbigo. Mas isso não é erótico, isso só me faz cócegas —Ela começou a respirar depressa. — Sigo esperando que me corrompa com argumentos e não o faz.
Ele beijou um caminho imaginário acima e por debaixo de seu ventre.
—Já me ocuparei de te corromper.
—Do que estava falando?
—Política. Não. Espere um momento. Não temos pressa. Verei se posso trocar sua opinião sobre os umbigos. O que, de todos os modos, é mais importante que a política.
—É uma falha você ser tão cínico. É... Você... decidi que, depois de tudo, sim é erótico o que está fazendo.
—Mmmm…?
Ela tremeu porque Grey beijava a pele suave na curva interna de sua coxa.
—Dir-te-ei... Sou muito sensível, da forma mais indigna, nesse lugar em particular... Que está a ponto de fazer.
—É-o?
—Não pensei que o seria, quando me descreveram isso. Dava a impressão de ser... Bastante tolo... Naquele momento.
—Tolo. Bom, nesse caso —Começou a beijar entre suas pernas.
Ela não podia falar. Ele a tinha transformado numa criatura de fogo líquido, puro desejo. Seus quadris empurravam seguindo um movimento rítmico e vibrante. Ela se converteu unicamente em um desejo, na necessidade de estar unida a este homem.
Ela se escutou sussurrar.
—Tão formoso. Para mim, você é tão formoso. Unicamente você... —Quando fazia que ela estivesse assim, sua boca não estava de tudo conectada com o cérebro. Dizia mais coisas do que pretendia dizer.
Ele esperou até que sua respiração soluçava com cada fôlego, até que ela se agarrou a ele e se aferrou aos lençóis. Então se ergueu sobre ela, olhando para baixo.
—Podemos falar de política, se quiser.
—Eu não... Não. Não o façamos —ofegou ela.
—Está segura disso?
Ela o necessitava, tanto que tremia por culpa do desejo. A pele do peito dele estava escorregadia e sabia salgada quando a beijou. Era impossível não provar um pouco, não passar a língua por esses cabelos ásperos e frisados, sobre a pele suarenta, sobre o mamilo plano, escuro e estranho. Ele se estremeceu quando ela fez isso. Ela o sentiu. Tinham tanto poder, o um sobre o outro.
—Você, monsieur Grey, é o demônio.
Ele sorriu, lentamente e seguro de si mesmo. Tinha esquecido com quem tratava.
Ela empregou um dos truques de luta livre que René lhe tinha ensinado fazia tantos anos. Grey não o esperava. Deu a volta de repente, de forma satisfatória e acabou convexo sobre suas costas, com ela subindo e sentando-se escarranchada sobre ele.
—As mulheres de minha família —Ela se inclinou para lhe sussurrar ao ouvido, — sabem exatamente como tratar com espiões estrangeiros e ardilosos como você.
Ele não pareceu desconcertado. Possivelmente, depois de tudo, já conhecia esse truque. Suas mãos se fecharam em torno de seus quadris, a ambos os lados, fortes e profundas contra sua carne e empurrou para cima. Fechou os dentes com força e respirou.
—Sim, justo assim. Isso. Sim.
Era um homem que controlava severamente a paixão que vivia em seu coração. Na cama a deixava livre. Não era sua destreza praticada, nem seu enorme e duro corpo o que a voltavam louca. Era a ferocidade que tinha dentro.
Podia-a sentir nesse momento, crescendo cada vez mais, como a força de uma tormenta. Ele não era lento nem cuidadoso, a não ser uma fúria como uma besta. Não ficava lugar para mais pensamentos, nem perguntas, nem respostas. Abraçou-o com suas pernas e cavalgou na tormenta. Cavalgou sobre o trovão. O poder masculino sacudia seu corpo. Era um poder infinito. Proporcionava-lhe um prazer indescritível, arqueou as costas e gritou em meio da noite.
Muito mais tarde, quando já estiveram tranqüilos, um junto ao outro, encolhidos para evitar o frio que provinha da janela, ela apoiou a cabeça sobre seu braço. Suas últimas horas com ele estavam escapando. Logo, ele ficaria dormindo. Então ela partiria.
—Poderia te proteger do Leblanc se me contar o que é o que ocorre —disse ele.
Ela nem sequer se incomodou em responder, só negou com a cabeça. Fora, a neblina se elevava sobre a cidade, resplandecendo nas luzes longínquas. A pavimentação do local estaria úmido e escorregadio quando ela tivesse que correr.
Estirou-se de modo que seus lábios estivessem perto de sua orelha. Era, depois de tudo, a última vez.
—Vou te contar uma verdade, Grey. O que sinto por ti é amor, até o mais fundo de meu coração. Só o amor pode doer tanto. Queria que soubesse.
—Está-me dizendo adeus de novo. Eu gostaria que deixasse de fazer isso. Não vou deixar que Leblanc chegue até ti.
—Só lhe queria dizer isso.
—Durma, Annique.
—Leblanc matará a alguém nesta casa se não o detiverem. Sabe onde estou e é muito perigoso. Seria muito melhor que me deixasse partir, para que o enfrente sozinha.
—Nunca. Agora durma.


Capítulo Trinta e Seis
Ela desceu as escadas como uma sombra, nua, levando só os sapatos, com a roupa enrolada como um vulto sob o braço. Ainda tinha dez ou quinze minutos antes que Grey despertasse, e a buscasse e se desse conta de que ela tinha partido da cama. Tinha esse tempo.
Ao final do corredor, uma única chama amarela ardia numa chaminé de vidro. Mas tinha contado os passos. Podia ter percorrido esse caminho cega. Pequenas surpresas de vidro rangiam sob seus pés no tapete. Ferguson não tinha podido varrer todas. Nesta ocasião, o cão monstruoso não estava espreitando os corredores, escravizado e faminto, em busca de carne humana.
A porta do salão principal estava fechada com chave, com sua cara fechadura Bramah. Mas Grey tinha aberto essa porta do outro lado usando uma alavanca oculta. Nesta casa enganosa, sem dúvida, devia existir outra alavanca para abrir a porta ao outro lado.
Existe uma verdade sobre fechaduras e lugares ocultos. Se a mesma mente idear os dois, estes serão similares. No salão, a via de escape era um candelabro na parede. Aqui...? O espelho ao final do corredor piscava com a sombra de seu corpo pálido e nu, enquanto ela levava a cabo sua busca silenciosa. Uma mesa estreita de marchetaria estava pega à parede, tanto que não podia escorrer os dedos detrás da mesa.
Era a perna posterior esquerda que se podia levantar para um lado. Um parafuso oculto permitia o movimento de tesoura. A porta do salão fez um ruído. O ar frio tocou seu rosto, soprando pelas janelas sem cristais.
A vassoura de Ferguson estava apoiada contra a parede.
A levou consigo. Tinham passado dois minutos desde que se levantou da cama.
Não se deteve para felicitar-se. Lentamente, abriu-se caminho pelo salão. Tinham varrido o chão grosseiramente. Não fez nenhum ruído ao cruzar o quarto. Os móveis quebrados tinham sido empurrados contra as paredes. O horrendo aparador tinha saído ileso. Era típico das batalhas que as coisas mais feias saíssem ilesas. O piano era uma ruína de cabos retorcidos e madeira estilhaçada. Não se voltariam a praticar escalas nesse piano nunca mais. Um pensamento alentador em meio de tanta destruição.
Por quantas habitações destruídas tinha caminhado quando vivia com os exércitos? Tinha visto casas tão opulentas como aquela, bombardeadas e saqueadas, que tinham ficado abertas para que a climatologia entrasse. Este salão cheirava à ruína da batalha, pólvora, pó de estuque e um aroma débil nas esquinas, o do sangue.
Uma imagem encheu sua mente, extraída da confusão e o medo que tinha vivido essa tarde. Uma imagem da janela.
Os barrotes eram linhas de uma cor negra sólido contra a névoa cinza, iluminadas pelas luzes da rua. Deslizou os dedos com o passar do batente. Sim, tinha visto os impactos das escopetas darem nesse ponto uma e outra vez. Na profunda greta, o barrote do meio, movia-se em seu ponto de apoio.
Podia inclinar esse barrote. Essa jaula para pássaros se abriria e o pássaro sairia voando livre.
Ainda tinha a vassoura do Ferguson na mão. Encaixou-a com força contra o metal e levantou fazendo alavanca. Voltou fazê-lo, ofegando por culpa do esforço. O chumbo que assegurava o ferro dentro do mármore fez ruído e se esmiuçou. Estava-se movendo.
Outro intento. Apoiou o pé contra a parede e sacudiu, empregando cada músculo, com desespero, usando toda sua força de vontade. Com uma lentidão agonizante, a barra se inclinou.
De novo, respirando com dificuldade, trocou o ponto do que agarrava o barrote. Este não era o primeiro obstáculo com que se encontrou. Como muitos outros, convenceu-a, embora a contra gosto, para que se tirasse no meio.
De novo. Esta vez, quando se escorregaram suas mãos, deu um passo atrás. Ofegando, mediu o oco com as mãos estendidas. Era o bastante, suficiente. Os homens que colocam barrotes nas janelas nunca se imaginam o pouco espaço que se necessita para escorrer-se entre eles se for pequena e sabe como fazê-lo exatamente.
Dez minutos. Já tinham se passado dez minutos. Rapidamente, lançou o fardo de roupa na noite, para o espaço pavimentado em frente da casa. Enviou seus sapatos detrás.
Giles e Ferguson tinham tirado o resto do vidro, preparando as janelas para a visita dos vidraceiros ao dia seguinte, mas rondavam lascas maliciosas por toda parte. Cortou-se a palma da mão ao subir pelo batente da janela. Nua, lubrificada pelo medo e o sangue, retorceu-se entre os barrotes.
Sempre tinha sido magra, e o comprido e escuro caminho do sul da França tinha afinado sua figura ainda mais. Mas não era fácil passar por entre os barrotes. Bordas de ferro arranharam sua pele. Pedra e metal que não queriam ceder machucaram seus músculos e ossos. Era necessário bloquear com firmeza sua mente contra a dor.
Muito em breve Grey despertaria e descobriria que sua cama estava vazia. Isso também era uma fonte de dor que devia bloquear de sua mente.
E então estava fora.
Escondeu-se no batente, tirou as pernas por debaixo e se lançou para fora, passada a escada da cozinha, com suas pequenas lanças afiadas, até chegar ao espaço pavimentado que havia debaixo. Golpeou o chão e controlou sua queda estendendo as mãos e logo girando até rodar. Um caleidoscópio de dor. Blocos de pedra, vidro, bordas afiados maltrataram seu corpo. Quando terminou de rodar, deixou-se cair, tombada no chão, com os braços estendidos. Estava suja, enjoada e semi-inconsciente.
Demorou uns poucos segundos em recuperar o sentido. O pavimento estava gelado debaixo de suas costas nuas. Sofria cada uma das diferentes dores individuais.
A casa em Meeks Street se estendia diante dela em meio à noite. Atrás da casa pendurava a vaporosa bola da lua. Quando girou a cabeça, as luzes eram umas largas filas de esferas que penduravam na escuridão, cada uma menor que a anterior. Oscilavam, reluzindo, porque ela estava chorando. Não tinha tempo para chorar. Nada de tempo.
Quatorze minutos.
Conseguiu ficar em pé com dificuldade, nua exceto pelos arrepios. Os espiões estacionados nesta rua a veriam, um fantasma curvado e pálido, enquanto se esforçava em recolher sua roupa. Primeiro a combinação branca passou por cima da cabeça. Logo, o vestido escuro que ocultava tudo. Retorceu-se para abotoá-lo.
Agora devia mover-se com rapidez. Grey começaria a procurá-la. Já devia haver homens avançando cautelosamente por essa rua tão brega. Meias, sapatos. Tinha planejado sua fuga com todo detalhe. Tem-se muito tempo livre para planejar coisas quando se está prisioneira.
Respirou uma última vez. O ar no número sete de Meeks Street cheirava a enxofre e carvão, como no campo de batalha. Logo, correndo, cruzou a rua até chegar a uma passagem estreita entre duas casas. Só tinha que saltar a cerca baixa e as ruelas que havia atrás levavam a Braddy Street.
Os homens a esperavam ali.
Deu-lhes uma rasteira. Correu a toda velocidade, até que os flancos lhe doeram com cada respiração. Deteve-se repentinamente e se deslizou para um jardim traseiro. Converteu-se em um vento que passava que nem sequer despertava aos cães. Desceu o beco sigilosamente até chegar à outra rua. Correu de novo, numa direção diferente.
Este era o jogo que tinha jogado tanto tempo e tão bem. De novo, ela era a pequena raposa que era mais inteligente que eles. Mas essa noite não se sentia feliz por isso. Essa noite, o jogo ao que ela jogava doía, e doía com cada passo que dava.
A noite estava cheia de espiões. Deixou para trás a alguns deles, evitou outros e enganou outros por completo. Mas os melhores desses homens seguiam seu ritmo e a rastrearam, tal e como sabia que fariam. Ao final, deixou que a encurralassem numa esquina detrás de uma loja. Eram homens grandes, firmes, hábeis e não lhe fizeram muito dano. Eram franceses.
***
Adrian sustentou o abajur para que pudesse ver o oco entre vos barrotes.
—Possivelmente Leblanc a tenha, ou Soulier. Reams deixou quatro oficiais da marinha em Braddy Street. Provavelmente os russos ainda estejam farejando por aqui e Lazarus. Esses são os mais prováveis.
—Lazarus está zangado contigo —Grey soltou as palavras do enorme e frio medo que tinha dentro. Entre outras empresas criminais, Lazarus comprava e vendia mulheres. Todos sabiam o que Lazarus fazia às mulheres.
—Se for Lazarus, temos tempo. Ao princípio vai devagar. Não lhe fará muito dano esta noite. Só fará... —Adrian começou a dizer mais, mas logo olhou o rosto de Grey e se deteve. — Não sou bem-vindo ali nestes momentos, mas posso averiguar se ele a tem.
Galba estava envolto numa bata com brocado, o nó estava torcido. Ele tocou os barrotes.
—Giles, consegue algumas grades e fecha isto. Robert, quais são as opções de que ela tenha deslocado entre eles escapando de Londres?
—Nenhuma —Trocou de lugar a mão de Adrian que sujeitava o abajur. Os rastros digitais manchados do sangue de Annique apareciam no batente em um tom vermelho cru, acima e debaixo dos barrotes, ainda úmidas.
—Não conseguirá percorrer nem um quilômetro. Se Soulier não a pegar, fá-lo-á Lazarus. Ele sabe que ela é importante para Adrian e tem centenas de ladrões e assassinos que vai enviar atrás dela.
—Onde enviamos os homens? —perguntou Galba.
Ele olhou para a noite, convertendo-se numa pessoa fria e analítica. Um demente que balbuciava ruidosamente na parte de atrás de seu cérebro. Ia matar a alguém essa noite.
—Iremos ver o Soulier. Vista-se, Caçador de Falcões. Possivelmente não tenhamos muito tempo.


Capítulo Trinta e Sete
Annique conhecia o Soulier desde toda sua vida. Tinha sido amigo de papai. Foi Soulier quem veio quando enforcaram a papai e a levaram em braços fora da prisão do rei. Anos mais tarde, Soulier foi um dos amantes de sua mãe.
Quando era a mais jovem do grupo do Vauban, Soulier tinha ido com freqüência à casa do Françoise no Quartier Latin para sentar-se na mesa da cozinha, rir, beber e urdir tramas com o René e os outros. Ela entrava e saía correndo, para trazer bolos e servir café em taças grandes ou pequenas, dependendo da hora do dia. Ele tinha elevado seu queixo e a tinha batizado como a Jovem Raposa e ela o tinha chamado Velho Renard. Juntos foram muito ardilosos.
—Entre. Entre donc, petite — Soulier lhe deu as boas vindas, como se não a acompanhassem homens enormes. Eles ficaram em pé contra a parede, observando cada movimento nervoso. Seis homens. Acaso imaginavam que saltaria e atacaria Soulier com os dentes? Algum dia ela descobriria de onde provinha este rumor sobre seu caráter sanguinário.
Soulier não tinha trocado absolutamente. Era magro e delicioso, em certo modo se parecia com um velho chupim cínico, um que tinha visto e que roubava muitos ninhos e como se rompiam muitos de seus ovos. Devia mentir para ele essa noite.
Seria difícil mentir para Soulier. Alguém não se converte em diretor de espiões no baluarte do inimigo da França por ser idiota.
—Vamos. Sim. Aproxima-te. Minha menina, rasgou-me o coração me inteirar da morte de sua mãe. Ainda me dói. Era uma grande dama, uma mulher formosa e minha amiga. Morrer de um modo tão repentino, em um acidente como esse... Causa-me uma tristeza enorme.
Em meio de suas conjurações e estratagemas, ela tinha esquecido que Soulier lamentaria a morte de sua mãe. Não tinha pensado nenhuma só vez em sua dor. Poderia parecer que se tornou fria e insensível esses dias, além de uma traidora. Ofereceu-lhe o único consolo que tinha.
—Foi rápido. Tão somente pôde senti-lo durante um único instante, quando a carruagem se inclinou. Logo... Caiu ao mar.
—Só segundos e se foi. A luz que era ela se apagou e nós ficamos aqui, jogados de lado. Sobre tudo você. Um acontecimento tão logo depois do outro... Mas não falaremos disso. É muito recente e doloroso.
—Eu não posso acreditá-lo de tudo, nem sequer agora.
—É bom que te tenha mantido ocupada. Isso é sempre o melhor nestes casos. —Atraiu-a. — Mas me deixe que te olhe. Converteste-te numa moça da última vez que nos vimos. Vais ser inclusive mais formosa que sua mãe. —Fez um gesto para seu rosto. — Está aí, esperando dentro de ti. Alegro-me de que tenha podido escapar dos britânicos.
—Embora esteja igual, saltei da frigideira para cair nas brasas, como dizem os ingleses.
—Sobre isso... Temo-me que Fouché está zangado contigo. Mas sente-se, sente-se ou me obrigará a jogar como um anfitrião educado e terei que estar em pé e sou muito indolente para fazer isso. Aproxime-se de mim, nesta poltrona. Não desejo ter que te gritar do outro extremo do quarto. Yves, traz a mesa de boule, sim, aqui, entre os dois, e coloca o abajur em cima. Justo desse modo. Agora podemos estar mais cômodos. Vinha para ver-me, menina? Por algum motivo me parece que não.
Era uma grande ironia que tivesse escapado de Meeks Street para acabar ficando nas mãos dos franceses de tal modo que tinha sido carregada a essa casa.
—É uma larga história. Por onde começo?
—Por monsieur Grey, possivelmente, e pelo motivo pelo que decidiu viajar com ele cruzando a França e Inglaterra. Sou um dos muitos que se perguntam a razão pela que tem feito isto. Não tenha pressa. Pensa nisto um tempo. Quero que sua história seja perfeita.
—Eu também.
—Confio plenamente em ti. Até é possível que me diga a verdade. —Estendeu suas elegantes mãos. — O que tomaria comigo? Vinho? Bolachas? Café? Enviarei esta enorme parte de carne que está aí em pé sem fazer nada à cozinha para que seja útil. Nem sequer sei se for cedo ou tarde para tomar o café da manhã em Londres. Uma cidade que não tem uma confeitaria como tem que ser que lhe relate que já é pela manhã.... Como pode sabê-lo um homem?
Ela levantou a mão, com a palma para cima, para mostrar o mesmo desconcerto. Sentia-se francesa. Era estranho como voltava a sê-lo quando falava francês.
—Sabe uma coisa? Quase morri de fome neste horrível país. Eu gostaria de tomar café, um café realmente bom e uma parte de pão, do pão que se pode comer. Não acreditaria o que os ingleses comem no café da manhã.
—Vivi neste país durante cinco anos. Não há nada que não me cria destes ingleses. Yves, diga a Babette que prepare o café da manhã para nós e café —Soulier ajustou meticulosamente a tela do abajur, fazendo que a luz caísse sobre seu rosto, sem piedade e brilhante.— Beberemos café juntos e me explicará o motivo pelo que foste uma menina tão travessa que Fouché me enviou as ordens que me enviou. Além do motivo pelo que Leblanc te seguiu até aqui desde seu posto na França.
Leblanc era um dos muitos temas que não desejava tratar essa noite.
—Os acontecimentos são tão complexos…
—Diz-se que te converteste na amante de Grey, o chefe da seção. É um homem admirável, monsieur Grey.
Ela sabia o que todos estavam pensando. Para o Soulier e seus agentes ela se converteu em nada, numa pessoa que não era de confiar, que contava seus segredos na cama de um homem. Tinha sido humilhada ante a única audiência que importava.
—Somos amantes. —imaginou que seria amargo converter-se em traidora. Mas não se preparou para a vergonha que percorria seu corpo.
Olhos serenos e sábios a estudaram.
—Estávamos acostumados a rir contigo, Vauban e eu, porque interpretava tão bem às prostitutas e debaixo do disfarce era tão escrupulosa e virginal. Pensávamos que quando o momento adequado chegasse, seria René quem te levaria para trás dos arbustos alguma noite e te faria mais pronta.
Ela teve que sorrir ao ouvir isto.
—René estava acostumado a brincar sobre isso, sempre. Fez-me promessas que nem um pachá do oriente poderia cumprir.
—Esse é um homem selvagem. Ri muito. Desperdiçamo-lo ao enviá-lo com os russos. Todos estavam disseminados por aí quando Vauban se retirou. Não acredito que nenhum de vós estivesse na França, além de Leblanc.
Ela deixou cair suas mãos, vazias, em seu colo. Leblanc, sempre Leblanc.
—Ele nunca foi um de nós.
Soulier estalou os dedos. Um de seus serviçais se aproximou lentamente para ajoelhar-se junto à chaminé para avivar o fogo. Ela estava tremendo quando ele tinha falado em Leblanc, assim Soulier esquentou a estadia para ela. Ele via tudo.
Sua bengala estava apoiada ao seu lado, era uma bengala fina de ébano com um punho de prata. Jogou com ela, girando-a entre dois dedos desse seu modo habitual.
—Grey foi o primeiro? O primeiro amor é doce, forte e fresco. Minha cidade natal tem um vinho que é assim. Beaujolais. Alguém o bebe sem processar, quando acabam de fazê-lo, em grandes quantidades, quando a gente é jovem, antes de passar aos melhores vinhos.
Ela pigarreou.
—Ele foi o primeiro.
—Essa será uma boa lembrança que levará contigo quando partir da Inglaterra. Não é a escolha mais inteligente em homens. Mas não acredito que ele te deixasse outra opção, verdade, petite?
—Não, monsieur.
—Me chame Soulier, como sempre. As coisas não mudaram entre nós só porque te tenha comportado como uma parva com um inglês. Embora... Temo que enfureceste ao Fouché.
Yves, que era o chefe dos homens do Soulier na Inglaterra e não era nenhum estúpido, tinha retornado para colocar uma bandeja de prata na mesa entre os dois. Trazia pequenos pãezinhos de folhado, muito quentes, envoltos em um guardanapo, uma cafeteira de prata e umas terrinas largas de cor nata, de um tamanho que encaixava comodamente entre as duas mãos. Este tipo de café da manhã era totalmente francês.
Soulier serviu o café numa terrina.
—Você gosta de ter bastante leite quente e tão só um toque de açúcar. Recordo o que come pela manhã, que Babette decidiu deve ser isto. É infalível, minha Babette, assim podemos dizer que é pela manhã. Devemos esperar pacientemente até a noite para deixar que prove um pouco do vinho que estive reservando e para o que, algum dia, desenvolverá um paladar que saiba apreciá-lo.
Ela agarrou a terrina de café quente e o pãozinho de suas mãos. Ao receber estas coisas, desse modo, já não tinha nada mais que fazer que afundar o pãozinho no café e comer-lhe dentada a dentada, tal e como fazia em casa quando estava completamente a salvo. Esta era a mensagem de Babette para ela, também era a mensagem do Soulier.
—Então viverei até esta noite. Talvez viva o suficiente para desenvolver o paladar adequado para o vinho.
—Se dependesse de mim, viveria tanto como Matusalém. É obvio, ignorarei essas ordens que Fouché me enviou um dia no qual lhe caiu mal a comida. Não me agradeceria que tivesse obedecido literalmente cada palavra que tenha escapado de seus lábios.
—Obrigado —Ela sabia que de todos os agentes do serviço secreto francês, só havia dois homens suficientemente valentes para ignorar uma sentença de morte do Fouché. Vauban era o outro.
Terminou o pãozinho e bebeu o café com leite com goles largos e lentos, segurando a terrina entre as duas mãos.
—Foi um longo caminho para ti, minha Jovem Raposa, desde Marselha, com Leblanc, que se comporta de um modo tão incompreensivelmente letal. Os homens que enviei não foram suficientemente rápidos para te encontrar e te resgatar. —Sacudiu a cabeça para os lados. —Sou culpado disso. Acredito que se sentiu abandonada e logo caiu nas mãos dos britânicos. Dir-me-á que segredos pagaste para que lhe dessem refúgio na Inglaterra?
—Responderei a todas as perguntas que me faça, monsieur.
—Annique, chérie, ofende-me.
—Soulier. Sim. Dir-lhe-ei tudo, Soulier.
—Assim está melhor. Foste uma convidada do serviço secreto britânico durante muitos dias. O que lhes contaste?
Não era hora de falar dos planos Albión. Ainda não. Ainda não. Primeiro falaria das pequenas traições, porque isso seria acreditável.
—Confirmei os nomes dos velhos agentes de Vauban, embora nos conhecem todos. Entreguei ao Frederick Tillman, que trabalha para nós e está no serviço de inteligência do exército britânico.— Tragou saliva. — Há mais.
O agente Yves cruzou com passo irado a estadia para ocupar-se de uma corrente de ar que penetrava entre as cortinas. Não jogou nem uma olhada em sua direção, mas a condenava com cada passo zangado que dava. Era o primeiro de muitos que iriam desprezá-la.
Não, não era o primeiro. Desprezava-se a si mesma. Essa noite marcava o final de sua prolongada lealdade para com a França. Também tinha abandonado Grey e o serviço britânico. Depois dessa noite, não seria leal a nenhum homem nem nação. Ela que, no passado, tinha acreditado que defenderia sua lealdade até a morte.
Parte dela observava como lhe tremiam as mãos sobre a terrina de café. Parte dela se sentia agradada por interpretar com tanta destreza o papel de ovelha desencaminhada que retorna ao redil. Tinha uma técnica excelente. Era uma agente muito hábil.
Estava bastante farta de Annique Villiers. Depositou a terrina na mesa porque era impossível beber o café, depois de tudo.
E Soulier via tanto...
—Hei dito isso e isto, Annique, mas vós, os jovens apaixonados nunca acreditam em mim —Soulier cravou sua bengala no chão, enfatizando suas palavras. — Todos os homens podem ser corrompidos. Todos! Você, eu. Esse jovem idiota e santarrão que caminha dando fortes pisadas por meu salão. Todos. O serviço britânico tem homens que pode extrair o fundo de sua alma sem te deixar uma marca. Grey é o mais perito de todos eles. Não tinha nenhuma oportunidade contra ele. Petite, por favor, me olhe.
Olhou-o. A gente obedecia ao Soulier.
—Dir-me-á, um por um, os buracos que criaram em nossas defesas. Repará-los-ei. Vi enganos em minha vida. Este não é um muito grande.
—Há mais. Não sabe...
—Corrigi-los-ei todos. Jovem Raposa, isto já ocorreu antes, muitas vezes. A França não vem abaixo como um castelo de naipes quando apanham a uma agente. Algumas operações se cancelarão. Será necessário mover um agente ou outro e lhe trocar de nome. Entreter-me-ei enviando alguns de nossos gordos colegas a correr para ficar a salvo. Hein? Não lhes virá mau. Ficamos confiados. Agora teremos que brincar de ser uma dona-de-casa organizada e varrer o pó de nossas esquinas.
Os planos Albión não eram um tema doméstico, nem questão de mover a um agente ou outro. Esse tipo de traição não se pode perdoar. Soulier receberia ordens que nem sequer ele podia ignorar.
Disse-lhe em voz baixa:
—Levar-te-ei a Paris e te arrastará diante do Fouché, que o desfrutará enormemente porque é uma garota bonita. Atribuir-te-á um trabalho do mais desagradável durante um tempo, para pôr a prova sua lealdade. Um ano, possivelmente dois. —Ele dissecou seu espírito, com precisão, com uma amabilidade distante. — Fará o que ele te diga. Não, me escute. Fará isto. Acostumar-te-á e seguirá viva. Será mais fácil aceitar isto quando tiver passado mais tempo e esqueça o dia no qual saiu da cama de seu amante inglês, ainda sente o calor dessa cama —Viu como se estremecia involuntariamente e estendeu a mão por cima da mesa para tocar seu braço. —Te entendo melhor do que imagina, menina. Não vou fazer nada que danifique suas lembranças de Grey, mas o interlúdio terminou. Agiste como uma idiota. Agora será sensata.
Ela se separou de sua mão.
—Não me prostituirei para Fouché.
Soulier suspirou, girou e ajustou ligeiramente a mecha do abajur. Era elegante inclusive nesse despacho diminuto e doméstico.
—Por desgraça não depende de que dê seu consentimento, petite. Farei o que possa para te ajudar a suportá-lo. Mas isto é doloroso para os dois. Em lugar disso, me diga a razão pela que Leblanc está tão zangado contigo que se tornou louco deste modo. O que é o que lhe passou?
«Avareza e maldade».
—Quem sabe? É um homem cheio de idéias muito desagradáveis.
—Sem dúvida. Mas seus planos nunca o têm feito desejar te matar, nem sequer quando tinha doze anos e era tão exasperante como um saco cheio de ratos. Por que agora?
Não podia fazer nada absolutamente. Era um baile letal que tinha iniciado com Leblanc. Os dois sujeitavam ao outro pelo pescoço. Não o acusou de nada. Em troca, ele se manteria calado sobre Vauban e esse dia em Brujas.
Os olhos do Soulier nunca abandonaram seu rosto.
—Não quer fazer conjeturas a respeito? Não? Acredito que isto é interessante. E o que é isto? —Uma faxineira, que por seu aspecto devia ser inglesa, entrou e se deteve para sussurrar umas poucas palavras ao ouvido do Soulier.—De que maneira viajam os rumores nesta cidade de Londres. Vieram a te ver.
—Leblanc?
Ele tinha vindo matá-la. Tirá-la-ia desse salão, arrastando-a até a rua para acabar com ela.
—Não ponha essa cara de lebre ferida, Annique. Não vou deixar que manche estes preciosos tapetes com seu sangue. Em lugar disso, lhe perguntarei o motivo pelo que leva a cabo ação tão extraordinariamente estúpidas em meu território nesta ilha—Escutou de novo o que a donzela lhe dizia e logo lhe deu ordens em voz baixa.—Leblanc é unicamente o primeiro dos cavalheiros que solicitam audiência contigo esta manhã. Seu amante, Grey, também se aproxima, quase pisa nos calcanhares de Leblanc.
Grey a tinha encontrado. Lutou contra um sentimento repentino e absurdo de alívio que se apropriou dela. Isto não era um resgate. Era uma confusão incrível.
A bengala nas mãos do Soulier desenhou um círculo perfeito no chão.
—Isto será engraçado. Devo aceitar que Grey entre nesta casa. Sou um agente a descoberto na Inglaterra e me toleram a contra gosto, assim tenho que me comportar.
—Deveria lhe dizer que se vá. É perigoso.
—É sem dúvida. Mas, possivelmente fale comigo sobre os planos de Leblanc, dado que você demonstra tão pouco interesse.
Na parte da frente da casa, portas abriram-se e fecharam. Ela tentou imaginar o que passaria quando esses três chefes de espiões se encontrassem e não pôde; só pôde imaginar que provavelmente ela ia morrer nas mãos de Leblanc. Tudo parecia um desastre e uma confusão desenfreada. Não podia conceber nenhum plano para solucionar isto.
Então Leblanc entrou no quarto e ela simplesmente se sentiu tão aterrada que já não pôde pensar.
—Jacques—Era fácil perceber que a voz de Soulier soava mais fria. Seus homens, que esperavam em silencio no fundo, ficaram em alerta.—Te dignaste a me visitar. Vêem. Babette preparará café para ti também ou se preferir vinho...
—Vim pela Annique. Entregue-a e irei.
Leblanc sustentava seu braço esquerdo com rigidez sobre o peito. Assim ainda doía, o ponto no qual tinha acertado sua faca. Seu rosto estava pálido em contraste com o escuro casaco inglês que tinha posto. Mas não era unicamente a dor que fazia com que empalidecesse. Tinha muito medo. Acaso era porque Grey o seguia de perto? Ou era porque pensava que ela tinha quebrado seu silêncio sobre o que tinha passado em Brujas? Ele devia saber que ela não trairia Vauban.
—Jacques, hoje está do mais brusco e a meu parecer temos muito sobre o que falar. Temos o assunto do ataque contra o quartel geral do serviço secreto britânico... —disse Soulier metodicamente.
—Não tenho tempo para tagarelar com um velho. Sou um oficial do Primeiro Cônsul da França. Não é meu trabalho aplacar espiões ingleses. Quando a França esteja ameaçada, atuarei. Eu...
—E sou um velho—disse Soulier, — que interpreta dramas às três da manhã. Vê Annique? Está sentada com a sentença de morte do Fouché pesando sobre sua cabeça e, além disso, temos essa armadilha irresponsável no beco que está planejando. Entretanto, ela não monta estes melodramas em horas tão inoportunas. Sente-se.
—Annique é minha — Seus olhos disseram às claras que tinha vindo matá-la.—Fouché atribuiu-a a mim. Não te coloque entre mim e o que é meu, Soulier.
—Estão em meu território, você e esses homens que trouxeste para a Inglaterra, sem minha permissão e sem me informar. Cometeste várias ações descabeladas em meus domínios. Terá que me dar uma explicação por isso e talvez eu não levante a voz tanto que possam me ouvir em Paris.
—Não faça que me zangue. Tenho uma agente a quem castigar e uma sentença de morte que...
A porta se abriu e Grey entrou.
Ele tinha vindo por ela, aqui no baluarte de seus inimigos. Transmitia a autoridade de seu cargo e a capacidade letal controlada de um soldado. Nunca tinha parecido mais ameaçador.
Soulier inclinou a cabeça.
—Monsieur Grey, dou-lhe as boas vindas. Desculpe que não me ponha em pé. É um antigo problema com uma ferida. Veio para assegurar-se de que Annique sobreviveu aos perigos da noite. Como pode ver, não está ferida.
Ignorando-o, Grey avançou irado.
Intrépido, Soulier continuou.
—Aceite minhas desculpas mais sinceras e humildes pelo dano que sofreu seu quartel geral. Suplico-lhe que não envie homens para repetir a mesma estupidez conosco em Paris. É a obra deste cretino que corre loucamente pela Inglaterra. Será submetido às medidas adequadas de controle.
Grey a levantou até tirá-la quase por completo da cadeira para beijá-la, de forma apaixonada e possessiva, com força na boca. Surpreendeu-a, mas estava mais interessada em receber e esconder a faca que lhe estava passando. Como declaração de afeto, a faca era tão interessante como qualquer número de beijos que pudesse lhe dar.
A expressão de seu rosto era cruelmente sombria. Se ia matar a alguém, ela esperava que fosse Leblanc.
—Por que ele está aqui? —A voz de Leblanc se elevou como um chiado. Assinalou com o dedo a Grey, cuspindo.—O que está fazendo? Que tramas com os ingleses? Acusa-me de estar louco, mas isto é uma loucura—Passeou o olhar entre os dois homens e logo olhou o círculo de agentes de Soulier.—Levem este inglês. Tenho a autoridade que me concedeu Fouché e digo que façam isto.
Ninguém se moveu.
—Sem dúvida, explicará o motivo pelo que dá ordens em minha casa, Jacques—disse Soulier.
—É você o que te excede no exercício de seu cargo. Nem sequer você pode te associar publicamente com espiões ingleses. Aqui está levando a cabo uma traição.
—Possivelmente levo a cabo algo incomum, mas posso sentir nos ossos que esta é uma madrugada incomum. Monsieur Grey e eu nos conhecemos faz tempo que, embora nunca nos tenhamos visto cara a cara... Como você fez quando o teve prisioneiro em seu porão em Paris.
Leblanc cuspiu no tapete.
Soulier sorriu.
—Acaso Fouché sabe como reteve o chefe da seção britânica e não foi suficientemente esperto para reconhecer quem era? Esperemos que esteja de bom humor o dia que se inteire disto.
Agora Leblanc se pôs avermelhado, do mesmo modo que antes tinha empalidecido.
—Minha posição é segura. Não me desafie, velho. Converti-me numa pessoa poderosa na França, o confidente de Fouché.
—Então, possivelmente Fouché se mostre compassivo com seus erros.
Soulier e Grey intercambiaram olhadas frias.
—Jacques tem razão numa coisa. Isto não tem precedentes, o que estamos fazendo aqui. Esta noite, você e eu estamos saindo dos papéis que nos atribuíram e nos encontramos um frente ao outro. Sou um homem que não gosta das coisas estranhas. O que meu colega exige desta maneira tão grosseira, eu vou perguntar com mais educação. Para que veio aqui?
—Annique.
—Não pode tê-la. Deve ser consciente disso.
—Isto é a Inglaterra, Soulier—disse Grey.
—E a mulher chamada Carruthers é sua agente em Paris. Não falemos de força. Não entrará em meu quartel geral e levará meus agentes. Em troca, a mulher chamada Carruthers seguirá tecendo placidamente em sua casa grafite e branca, com venezianas azuis no Faubourg Saint-Germain. Durante uma década, Galba e Fouché acordaram que uma casinha do tabuleiro do jogo seja sacrossanta em cada uma das capitais. Esta é nossa casinha. Annique fica comigo.
—Não está a salvo—Grey assinalou com o polegar ao Leblanc.—Esse bastardo vai matá-la.
—Não em minha casa—Soulier juntou as pontas dos dedos, apoiando-as nos braços acolchoados da poltrona. —Monsieur Grey, não acontecerá nada a Annique. Com a morte de sua mãe, e, também, a do meu velho amigo Vauban, me converti em seu protetor. Não permitirei.
Vauban? O que havia dito? «Não podia ser verdade». Ela sentiu como se a sala se sacudia, como se fosse de uma carruagem que se deteve de repente.
—Vauban morreu?
Eles se detiveram e a olharam.
—Não sabia? —disse Grey.
—Já faz semanas, não o tinha ouvido? O último dia de julho. Morreu em paz enquanto dormia, minha menina. Seus anos de vida se cumpriram. Estávamos... —disse Soulier com muito cuidado.
Estalou o som de disparos. Uma surpresa. O calor golpeou sua bochecha. Estava no chão, com a cara grudada ao mesmo, sem recordar haver-se jogado por sua conta. A pólvora flutuava no ar. Não tinha sido alcançada. Não sentia dor, tão só frio e medo.
Estava-se produzindo uma refrega desesperada. Podia ouvir os golpes surdos e vários grunhidos que os homens produziam quando brigam. Uma cadeira caiu ruidosamente. A pistola ricocheteou pelo chão.
Soulier ficou em pé, sua bengala ocultava uma fina espada dentro. Seu guarda-costas se colocou diante dele, protegendo-o.
Leblanc tirou a faca. De forma tão rápida que pareceu impreciso, Grey girou, lhe deu um pontapé. O savate. Não sabia que Grey era um savateur . Leblanc cambaleou, gritou e se lançou sobre Grey, empunhando a faca.
Os dois caíram ao chão. Um abajur caiu. Os pratos ficaram em pedacinhos no piso. Não podia lançar sua faca no enredo que esses dois homens tinham criado ao brigar. Os guarda-costas, idiotas, não fizeram nada.
Era uma briga rápida como os relâmpagos, uma briga de gatos em um beco. Leblanc elevou o aço que brilhou como o gelo. Atacou. Grey segurou seu braço. A folha da faca cortou para frente e para trás e logo deu a volta, de um extremo ao outro, para terminar caindo ruidosamente junto aos pés do Soulier. O punho de Grey golpeou. Leblanc caiu, cheio de sangue, no chão.
Agachou-se, respirando com dificuldade, a faca que ela não tinha utilizado ainda estava em sua mão. Grey não estava ferido. Não estava ferido, nem sequer um pouco. Estava a salvo.
Os guarda-costas avançaram correndo, sem saber com certeza a que homem deviam deter. A voz do Soulier soou serena.
—Yves, ajuda ao Leblanc a ficar em pé. Justo assim. Segue lhe ajudando. Monsieur Grey, não posso lhe expressar minha gratidão. Annique, querida.... Não te feriu? Já vejo que não.
Ela ficou em pé, tremendo tanto que procurou algo em que apoiar-se. O arranhão em seu pescoço... Foi limpo com o dorso da mão. Não era nada. Quando virou para olhar, atrás dela, a bala tinha deixado um buraco perfeito e redondo no painel de seda amarela da parede, com as bordas negras.
Leblanc pendurava pesadamente entre os braços implacáveis de um dos homens. Parecia... Ter ficado reduzido. Tão só era um homem magro e feio, vestido com roupa enrugada, que sangrava pelo nariz. Não era o espião importante da França. Não era o homem do saco que tinha sido para ela durante sua infância.
Sua voz soou como se viesse de muito longe.
—Vauban morreu. Não sabia.
Grey se aproximou dela por detrás.
—Teria te dito isso. Pensava que sabia.
Ouvia um zumbido nos ouvidos. Era tão estranho... Sentia como se estivesse flutuando, porque sabia tudo, podia vê-lo tudo. Era tão óbvio...
—Vauban morre, e não tinha passado mais que uma semana desde que a carruagem de mamãe tinha caído de uma forma incrível de um penhasco elevado. Eu tinha que ter ido com ela esse dia.
—Meu deus—murmurou Grey.
Atrás de seus olhos, o fogo palpitava. Enfrentou-se a Leblanc.
—Era tão difícil me matar que teve que acabar também com mamãe? Ou pensou que tinha lhe contado o segredo?
—Não sei do que te refere—Leblanc afastou o olhar. Suas pupilas se moveram bruscamente em pequenas contrações nervosas. Era culpado. Culpado e estava assustado.
«Ele matou a mamãe». O mundo se tingiu da cor vermelha do sangue. Deixou cair a faca e foi para cima dele com as mãos nuas.
Ele se afogou enquanto suas mãos se fechavam em torno de sua garganta. Ia despedaçá-lo, rasgar sua pele até deixá-la em farrapos. Brigou com os dois guarda-costas que afastaram ao Leblanc. Brigou com Grey quando ele segurou seus braços em suas costas e não a deixou cair nas garras de Leblanc.
—Arrête, chérie—Escutou a voz do Soulier.
—Vou matá-lo—Ela chutou a Grey, que a manteve afastada de Leblanc.—Vou matá-lo cinqüenta vezes. Assassino! Assassino, animal! —ia fazê-lo em migalhas.
—Ela mente. Não a escute, são todas mentiras.
—Até agora, só prometeu te matar. —disse Soulier—Quase me sinto tentado a permitir-lhe. Mas primeiro escutaremos o que ela tem a dizer. Tranqüilize-a, monsieur Grey. Acabará se machucando.
Ela ia eliminar essa parte de lixo do universo. Ia amassá-lo até que não ficasse nada mais que sebo.
—Filho de cadela, assassino.
—Annique, pára—A força de Grey a rodeou e já não pôde mover-se. —Diga-me.
O aroma de Grey, a firmeza que ele representava, invadiu seus sentidos por completo. A fúria foi evaporando-se. Ficou vazia, desabou-se sobre ele, gelada e enjoada, ofegando para recuperar o fôlego.
Vauban estava morto. Nunca mais voltaria a dobrar juntas as páginas de seu informe e assentiria, completamente brusco e logo diria «bom trabalho» diante de todo mundo. Nunca voltaria a servir água em seu vinho como se ainda fosse uma menina. Nunca, nunca, nunca mais veria Vauban, nem a mamãe. Tudo se tinha perdido. As lágrimas queimavam em seus olhos e a dor a asfixiava. Grey a sustentou de modo que ficasse oculta.
—Menina, não temos tempo para isto. Deixa-o para depois—disse Soulier.
Ela se segurou um minuto à jaqueta de Grey. A raiva tinha passado, deixando-a vazia. Era como se tivessem extraído por completo seu coração e sua mente. Não era nada mais que um vento frio envolto na pele de uma mulher.
Tentou afastar de um empurrão a Grey e descobriu que seguia entre seus braços, que a mantinham quente e a sujeitavam com cuidado e firmeza. Não ia deixá-la partir. Girou-a entre seus braços para que olhasse Soulier. Dava a impressão de que ia desfrutar do consolo de seu corpo tanto se quisesse como se não.
—Estou tranqüila—disse ela.
—Bem. Tenho que me ocupar de Leblanc—disse Soulier, — me diga a verdade sobre este tema.
A verdade. Que estranho resultava que ela pudesse dizer simplesmente a verdade em companhia destas pessoas. Já não havia nenhum ancião em sua casa de pedra da Normandia que dependesse de seu silêncio. Vauban estava morto. Nada podia prejudicá-lo.
—Vauban roubou os planos Albión —disse ela e observou como as palavras apunhalavam o coração do Soulier.
—Isso é impossível.
Atrás dela, Grey contraiu os músculos profundamente.
—Roubou-os para passá-los aos britânicos. Não por dinheiro, nunca foi por dinheiro—Não conseguia desfazer o nó que tinha na garganta.—Foi... Se entregassem ouro, inclusive se fosse uma pequena quantidade de ouro, ninguém poderia suspeitar de Vauban.
—Ninguém acreditaria isso dele—Soulier se afundou pesadamente na cadeira.—Imaginou uma operação perfeita. Como sempre.
—Planejou-a durante meses, sozinho, em segredo—Seus sentimentos eram caóticos, inclusive depois de tantos meses.—Acredito... Acredito que Vauban se voltou um pouco louco quando seus filhos morreram no Egito.
Soulier afastou o olhar, os lábios desenhavam uma linha magra.
—Outros homens perderam seus filhos.
—Seus filhos morreram para nada. Napoleão voltou para casa para preparar desfiles e pôr esfinges nos pés das mesas. Émile e Phillipe morreram em meio à febre e o fedor do Cairo, abandonados pelo homem que os levou até ali. Vauban disse que morreram pela vaidade de um homem da Córsega.
Como era possível que Soulier não o compreendesse? Ele tinha sido amigo de Vauban. Como podia ter esse aspecto, de comoção e condenação?
—Era velho e estava cansado e doente. Passou toda sua vida a serviço da França. Perdeu tudo durante o Reinado do Terror, seu lar, sua família e sua mulher.
—Minha menina, eu estive aí. Sei.
—Só ficaram seus meninos. Então Napoleão desperdiçou suas vidas, com seu grandioso capricho de controlar o Oriente.
Ela se sacudiu para liberar-se de Grey e começou a caminhar de um lado para o outro. Não podia ficar quieta. Os franceses, os agentes de Soulier, seguiram-na com o olhar, esperando o que ela ia dizer. A dor de Soulier a açoitava com chicotadas silenciosas.
Ela temperou a voz.
—E agora Napoleão planeja outra expedição enorme, a Inglaterra. Por isso Vauban roubou os planos. Disse que Napoleão tinha traído à Revolução.
Soulier passou uma mão pela frente.
—Sempre, de todos nós, ele foi o sonhador, o idealista. Mas isto...
—Vauban disse que já não haveria mais batalha sem sentido no estrangeiro. Não se abandonariam mais soldados franceses. Ele ia evitá-lo.
Soulier elevou os olhos para ela.
—Obedecia as suas ordens, Annique. Se ele te disse que o ajudasse nisto...
Acaso pensava que Vauban poderia lhe fazer isso?
—Não, não me disse nada. Levou-me a Brujas para que levasse a cabo pequenos recados, como sempre. Para que vigiasse os britânicos. Mas Leblanc...
Leblanc lutou com os homens que o sujeitavam, consciente do que ela ia dizer a seguir. O ódio que sentia chegou a ela em ondas. Ela aspirou ar quente, tremendo, antes de ser capaz de falar.
—O pequeno verme do Leblanc no serviço de inteligência militar da Inglaterra, Tillman, disse a Leblanc o lugar no qual os britânicos iam entregar o ouro. Os ingleses foram traídos, primeiro por um inglês.
Girou para Grey. Seu rosto seguia igualmente inexpressivo, seus olhos serenos e frios. Ela falava para ele.
—Leblanc esperou, assassinou e levou o ouro. Cometeu incontáveis assassinatos por esse ouro.
Uma vez que disse isso, ele assentiu, só durante uma fração de segundo. Leblanc estava morto a partir desse momento. Talvez ainda pudesse falar e caminhar durante uma hora ou uma semana, mas estava morto. Soulier soube. Parecia que Leblanc ainda não tinha se dado conta.
—Ela mente. Juro-o, Soulier, isso é mentira—Leblanc se retorcia por culpa da fúria e do medo. Tinha largos arranhões vermelhos em seu rosto.— Foi Vauban, unicamente Vauban. Eu não sei nada disso.
Ela nem sequer se incomodou em olhar para Leblanc.
—Eu estive com Vauban. Leblanc veio à estalagem com a roupa ainda manchada com o sangue desses pobres homens assassinados—Recordava a comoção e a vontade de vomitar. A raiva cheia de incredulidade de Vauban. —Leblanc sabia que Vauban devia ter os planos. Exigiu-os, como preço por seu silêncio.
—A raposa mente. Mente descaradamente. Estive em Paris esse dia. Posso trazer uma dúzia de homens para que o jurem.
—Ele esteve ali. Escondeu-se na granja do Paul Drouet essa noite, no Brésanne. Não—disse bruscamente.— Cala-te, verme. Seus homens, Plaçais e Vachelard, estão mortos por culpa de sua ordem secreta. Os membros da família Drouet morreram queimados em suas camas. Não foi bom para a saúde conhecer este teu segredo, Leblanc. Mas uma filha escapou e segue com vida. Aí tem a sua testemunha.
A vontade de Yves e dos outros guarda-costas de segurar de maneira violenta ao Leblanc foram aumentando a cada minuto que passava.
—Não escute a esta prostituta, esta cadela no cio, que sua e grunhe debaixo de um cão inglês.
—Matou a mamãe quando eu estava cega e inútil, a três ingleses em Brujas, dois de seus próprios homens e à família Drouet em sua granja—Ela olhou fixamente aos olhos de Leblanc e sua voz se quebrou,—inclusive aos meninos. E só o bom Deus sabe quantos mais. Tudo por ouro... —Já não era capaz de falar.
Leblanc era um rato encurralado, que mostrava os dentes.
—Lamentará isto, Soulier. Fouché te esmagará como a uma formiga quando contar isto.
Soulier tinha se convertido numa geleira, em algo frígido, azul e reluzente.
—É um homem ambicioso, Jacques. Suficientemente avaro para que eu realmente acredite nesta atrocidade. É a resposta a algumas das perguntas que me fiz este último ano. Por que outro motivo queria matar Annique?
—Ela mente—vaiou Leblanc.
—É incrivelmente estúpido se pensar que pode atacar a alguém a quem ofereci santuário em minha própria casa. Para lhe fazer isto a uma mulher a quem Grey decidiu proteger... Não te dá conta, idiota, de que tem a uma dúzia de homens aí fora? Não te dá conta de que veio esta noite para te enforcar?
Grey estava atrás dela e não podia ver a expressão de sua cara. Mas Leblanc a viu. Empalideceu até ficar da cor das vísceras de pescado. Não gostava de pensar em sua própria morte, por todas as mortes que tinha imposto aos outros.
Soulier trespassou a magra espada na bengala, dentro de sua capa secreta e a encaixou ali com um giro rápido e brutal.
—Economizar-lhe-ei o trabalho de Grey, se ele estiver de acordo. Entregá-lo-ei a Fouché, para que sirva de exemplo. Aliviará seu baço te separando da sua cabeça. Dá sua permissão, monsieur Grey?
A voz de Grey em seu ouvido.
—Annique, Leblanc é teu. Quer que o enforque por ti? Também pode matá-lo com suas próprias mãos, se for isso o que necessita. O que queira.
A idéia de pôr suas mãos sobre Leblanc para matá-lo fazia com que quisesse vomitar. Sacudiu a cabeça rapidamente.
—Leve-o daqui. Temos que falar. A sós—Grey disse a Soulier.
Soulier sacudiu a mão com impaciência.
—Yves, lhe ponha... Não sei. Não tenho jaulas para este tipo de ratos em minha casa. Ponha em algum lugar e vigia-o. Na despensa. Partam todos. Sim, todos. Não deixem que escape.
Arrastaram Leblanc para fora do quarto, enquanto ele deixava no seu rastro, ao partir, ameaças como o visco de um caracol.


Capítulo Trinta e Oito
Uma vez que Leblanc se foi, a sala parecia estar estranhamente silenciosa. Apoiou-se nos braços de Grey, com a bochecha pressionada contra sua manga. Na verdade, o amor era capaz de fazer que todo o sentido comum de uma pessoa desaparecesse. Sentia-se tentada a agarrar-se a ele, alimentar-se de sua força e sentir-se segura. Não sabia que esse tipo de tentações existia até que o conheceu.
Quando o empurrou para soltar-se, Grey a deixou partir depois de duvidar durante um instante, que dava a entender que em realidade não queria fazê-lo.
—Soulier deve saber a verdade do que tenho feito—disse ela, o que em si representava um aviso, para um homem ardiloso como Grey, de que ela estava a ponto de mentir muito bem.
Esta era a última vez que atirava os dados neste jogo. Isto era o que tinha planejado durante os dias que tinha passado em Meeks Street, caída ao lado de Grey, jogando xadrez com Galba, ensinando o Caçador de Falcões a fazer malabares com facas. Se mentisse suficientemente bem, poderia terminar com a ameaça de invasão, sem ter que depositar a vantagem nas mãos dos britânicos.
Soulier se sentou, cortês e com o traje impecável, emoldurado pela poltrona com seu elevado respaldo estofado. Podia ter sido um cortesão do antigo rei que recebia a um embaixador em Versalles.
Devia fazer que a olhasse, não a Grey. Ele não estava preparado, e possivelmente podia revelar algo em seu rosto.
—Não falei dos planos Albión diante dos outros. Sei que não desejava que o fizesse.
—Então não fale deles agora—Soulier estava zangado com ela.
—Devo fazê-lo – se plantou diante dele. Tinha estado em pé em frente dele muitas vezes, apresentando um relatório ou recebendo ordens.—adivinhaste quase tudo. Dos planos Albión só restaram cinzas. Vauban os queimou na chaminé da estalagem essa noite, em lugar de entregar-lhe a Leblanc.
—Há dito suficiente.
—Antes deu-os a mim para que os memorizasse.
Soulier indicou a necessidade de que fosse discreta com um movimento zangado e enfático da cabeça.
—Os britânicos sabem sobre minha memória. Passei dias em Meeks Street copiando os planos, página a página.—Criou uma imagem disso em sua mente, tão vívida e exata que nem sequer lhe pareceu uma mentira.—Agora eles os têm.
A França não invadiria. A Inglaterra estava a salvo. Agora tinha que fazer frente ao que passaria com ela.
Soulier observou fixamente suas mãos, que repousavam, uma sobre a outra, no cabo de sua bengala.
—Fez isto por Vauban.
—Pediu-me isso, em Brujas.
—Então ele te condenou a morte—Soulier se apoiou de novo em sua poltrona e fechou os olhos.—Nem sequer eu posso te salvar.
Os cabelos de sua nuca ficaram arrepiados. Existe uma diferença entre saber que alguém vai morrer e escutar como pronunciam a sentença de morte.
—Aceitei as conseqüências de minhas ações. Atrasei em vir para a Inglaterra durante muito tempo, esperando que Napoleão desistisse desta invasão e que os planos perdessem importância, mas isso não aconteceu. Eu não desejo morrer, como compreenderá. Feriram-me e fiquei cega,—notou a boca seca—o que complicou as coisas. Além disso, Leblanc complicou tudo.
—Annique—disse Soulier com delicadeza.
—Sim?
—Cala, estou pensando—Abriu os olhos para franzir o cenho ante a garota,—e não fique aí como uma barra de pão. Esta sala está incrivelmente desordenada por culpa dos homens que vieram aqui brigar por ti. Faz algo útil—Fechou de novo os olhos.
Isto era reconfortante. Possivelmente Soulier pensasse num modo de salvá-la de Fouché. Não era impossível.
Grey não dizia nada, detalhe pelo qual estava agradecida. Ele sabia, melhor que ninguém, que os planos Albión não estavam em mãos britânicas. Por agora, ele estava participando de seu jogo.
Ela colocou a pequena mesa em seu lugar, colocou em cima a bandeja de prata e se ajoelhou para recolher os fragmentos de vidro do abajur da chaminé na palma da mão. Umas atividades tão mundanas como essas. A vida do espião estava cheia de tarefas aborrecidas, normais, levadas a cabo enquanto a morte arranha a janela. Ela tinha sete anos quando Soulier lhe contou isso.
As coisas não foram tão mal. Leblanc não tinha lhe disparado, depois de tudo. O abajur de azeite que tinha caído da mesa não iniciou um fogo que a tivesse queimado viva. Tinha contado uma mentira convincente a Soulier, que era um professor na hora de detectar mentiras. Soulier ainda não se sentia obrigado a matá-la. E, possivelmente, tinha conseguido impedir a invasão da Inglaterra. Em geral, tinha muito pelo que felicitar-se.
Soulier abriu os olhos.
—Não entregaste os planos Albión ao serviço segredo britânico.
Seu estômago se encolheu. Depois de tudo, não lhe tinha acreditado. «Diable».
—Soulier, eu hei...
—Não comece a tagarelar. Foi Leblanc quem vendeu os planos aos britânicos.
—Leblanc?
—Exato. Estou emocionado. Monsieur Grey está ainda aqui me informando da culpabilidade do Leblanc. Faz-lo como uma vingança pelo que Leblanc fez no assunto do ouro e nos assassinatos em Brujas, sua autoria acaba de ser descoberta.
Ela não olhou Grey, que, sem dúvida, tinha um rosto de expressão inescrutável.
—Compreendo.
—Você, minha menina, nunca esteve em Brujas. Esteve em outro lugar. Possivelmente em Dijon.
—Essa é uma cidade aborrecida. Alegro-me de ter estado ali—colocou a baixela quebrada na bandeja de prata.—É prático que Leblanc seja tão culpado.
—Negá-lo-á tudo e se enredará numa dúzia de mentiras e não lhe acreditarão. Fouché adora as coisas simples. Só temos que atribuir um crime mais a este salafrário, que cometeu tantos. Por desgraça só pode morrer uma vez. E você, minha menina, não vais pagar pela loucura de Vauban.
—Não é...
—Já tem que pagar bastante por suas próprias loucuras—disse Soulier bruscamente.—Agora tenho que me ocupar disso.
As pisadas de Grey quando deu um passo para diante se converteram no modo de andar de um lutador, equilibradas e ligeiras. A tensão, ferocidade e algo invisível se retorciam no ar.
—Então terá que ocupar-se de mim.
—Salvou sua vida esta noite, monsieur Grey, quando meus homens me falharam. Devo-lhe uma. Mas ela já está a salvo, com sua gente. Deve deixá-la conosco.
—Isto não é negociável—disse Grey.
—Ela é minha, monsieur, e não vou entregá-la—Soulier titubeou, então deixou a um lado sua bengala, inclinou-se se apoiando contra o braço da poltrona.—Mas sou suficientemente inteligente para não enfrentá-lo diretamente. Vamos, sente-se. Falemos sobre isto como homens civilizados.
Grey escolheu uma cadeira dourada que estava derrubada no chão e a colocou corretamente para sentar-se diante de Soulier. Sentou-se e a empurrou para que ela estivesse em pé ao seu lado, enquanto ele a rodeava com o braço.
—Fale.
—Et bien. Temos que ser diretos, como preferem vocês, os ingleses—Soulier se inclinou para ele.—conseguiu os planos Albión. Isso deveria ser suficiente. Como sente afeto por minha pequena, peço-lhe que a deixe comigo e parta. Pode fazer que sua despedida seja tão terna como você queira, mas despeça-se rapidamente. É o mais considerado.
—Não vou permitir que fique.
—Acaso sabe tão pouco sobre mim? Teme que me vingue dela? Nós, os franceses, temos em conta as debilidades humanas. No caso de uma mulher como Annique, podemos perdoar muitas debilidades.
—Dá-me igual o que perdoem.
O silêncio se prolongou. Ela escutou claramente como fazia tic tac o relógio dourado sobre o suporte da chaminé. Não tinha imaginado planos além dessa sala e de ver-se cara a cara com Soulier. Não tinha esperado que Grey aparecesse. Passasse o que acontecesse, recordaria que Grey veio por ela.
Soulier suspirou.
—Pensava que a imprudência... De Annique... Não era compartilhada. Ela é jovem, se apaixonou e acredita, um pouco, nos contos de fadas. Ela não compreende que uma relação entre você e ela é impossível. Você e eu, Grey, sabemos. Se a leva deste modo tão egoísta, destruirá sua vida. Literalmente. Fouché se encarregará de que a matem antes que passe um mês. Deixe a Jovem Raposa comigo. Encarregar-me-ei de que não lhe aconteça nada.
—Ela partirá daqui comigo.
—Muito comovedor—Soulier olhou Grey fixamente.—Converte-se no mau desta história. Mas é você que fez Annique enfrentar esse desastre. Utilizou-a, Grey, sem pensar nela absolutamente.
—Escute, filho de prostituta...
Soulier levantou sua mão.
—Deixe-me terminar, por favor. Posto que, a seduziu para que se afastasse da França, Fouché ditou uma sentença de morte em seu nome. Não existe nenhum lugar, nem sequer nos desertos da Arábia, nem na cara da lua, onde ela possa se esconder dessa ordem. Devo solucionar o desastre no qual converteu sua vida. Levá-la-ei ante Fouché e dissiparei sua ira. Prepará-la-ei para que consiga o perdão do único modo que pode, se quer viver. Esta formosa história de amor que tiveram fará que seja terrivelmente doloroso para ela —Seus olhos reluziram, negros e opacos como o ônix. — Minha Jovem Raposa é uma mulher de qualidade excepcional, seu valor como agente supera ao das jóias. É única. Quase a arruinou. Estou zangado pelo que lhe fez. Muito zangado.
—Ela é parte do serviço secreto britânico.
—Mon Dieu, não deveria dizer isso! —Soulier se levantou da poltrona, furioso e tremendo.—Nem sequer nesta sala quando estamos a sós. Nem sequer a mim. Não o sussurre. Vocês não a recrutaram. Tudo se pode perdoar... Exceto que uma agente troque de lado. Sentenciá-la-á a morte sem dúvida.
—Ela é minha. Sua mãe era dos nossos.
Um sentimento de amor profundo e incondicional percorreu seu corpo. Deste modo Grey pagava por sua liberação com o grande segredo de seu armazém de segredos. Era como um rajá que depositava o rubi legendário de seu reino para pagar o resgate de sua mulher.
Soulier o olhou fixamente.
—Lucille?
—Era membro do serviço secreto britânico.
—Nom d'um nom dun nom. Não, não posso acreditar—Soulier se afastou com passadas largas com uma brutalidade que não concordava com sua idade e atravessou o quarto.—Não pode ser.
—Do primeiro dia em que chegou a França. Posso lhe mostrar o informe que têm vinte anos de idade. Sempre foi uma dos nossos.
—Ma belle Lucille. Que algo assim seja possível—Afastou uma cortina e olhou a noite. Demorou um comprido minuto antes de falar de novo.—Lucille... Sabia que era a melhor agente que tinha a França. Não me dava conta de que em lugar disso, era a melhor agente que tinha a Inglaterra—Não se podia ver o rosto de Soulier, só era possível ouvir sua voz.—Ela era... Lumineuse. Nada tão comum como a beleza. Eu fui um dos muitos que a amaram.
—Disseram-me que era uma mulher extraordinária.
—E pertencia a Inglaterra. Seremos o bobo de toda a Europa se isto chegar a ser divulgado.
—Saber-se-á. Estas coisas sempre se sabem.
Depois de um minuto, Soulier deixou cair a cortina. Começou a rir.
—Lucille, como você teria rido me vendo étonné deste modo. Mon Dieu, mas me permitirei o capricho de contar ao Fouché, cara a cara. Será um modo de me vingar por muitos dos difíceis momentos que tive com ele —Coxeou de volta à poltrona estofada, sacudindo a cabeça. — Minha formosa Lucille. Agora me dirá que era inglesa... Sim, posso ver que vai fazê-lo. Já é bastante que um homem adulto chore ao pensar em quantos de nossos segredos se deslizaram por esses formosos dedos até chegar a vocês durante estes anos. Ver-me-ei metido em um bom problema, ao tentar solucionar este desastre.
Sentou-se na poltrona murmurando.
—Mon Dieu, mon Dieu, o que não sabia essa mulher. Estarei ocupado durante meses—Soulier estendeu a mão.—Annique, vem comigo.
Ele tinha sido seu protetor e professor durante muitos anos. Ela tomou sua mão e olhou para baixo, para ele.
—Esses segredos que conseguiu para mim... Os que trazia e levava para mim dentro de sua preciosa cabeça. Todos esses segredos estão em mãos dos britânicos, verdade?
Ela assentiu.
—Foi uma agente dupla inclusive quando era uma menina?
Fingir que lhe tinha mentido toda sua vida, que tinha interpretado um papel com o Vauban, René e Françoise... Há algumas mentiras que não podia dizer.
—Já vejo. Então não foi exatamente uma agente britânica. Lucille não lhe disse isso.
—Annique sempre foi nossa.—disse Grey—Tenho relatórios dela de antes de aprender a soletrar.
—Sem dúvida os tem, mas não acredito que minha Jovem Raposa os enviasse. Não,—disse Soulier—deixaremos passar isso. O Senhor sabe que não estou pedindo sua cabeça. Sigo tentando encontrar um modo de ficar com ela.
Ela só podia se manter calada. A ingenuidade de Soulier era impressionante.
—Infelizmente, Annique, não lhe tratamos bem, verdade? Vauban te converteu na mula de carga de sua loucura e Leblanc te ameaçou com facas e pistolas. Demorei muito, não te encontrei a tempo. Fugiste com a gente de sua mãe em lugar de vir para mim e te perdi para sempre. Leblanc deveria ser assassinado várias vezes. Tentarei fazê-lo. E Pierre, seu pai?
—Nosso—disse Grey.
—Morbleu, mas isto não deve saber-se. Pierre Lalumière é um dos mártires da Revolução. Um homem de ideais cheios de paixão. Se não tivesse morrido jovem possivelmente tivéssemos sofrido menos açougues nessa época que todos queremos esquecer—Um espasmo de consternação sacudiu seu rosto.—Não me diga, Grey, que era britânico.
—Temia isso.
—Não o teria acreditado. Uma mente tão ilustrada... Agora me dirá que Voltaire e Racine eram os resultados da educação de sua universidade de Oxford. Não, não o diga. Não quero sabê-lo. O mundo é em geral um lugar decepcionante—Soulier recolheu sua bengala, segurou-a entre as mãos e falou em voz baixa.—Tenho que admitir, unicamente entre estas quatro paredes, que não lamento se Vauban tivesse tido êxito em sua última loucura. Napoleão desenvolveu um gosto pelas apostas ambiciosas que não deveria ser animado. Nosso Primeiro Cônsul não tem sorte na água. Leve-a e vá-se, Grey. É seu agente e é intocável. Sem dúvida o deixará louco.
—Entregarei Leblanc, perfeitamente envolvido para que dele disponha. Estamos em paz.
—Ao contrário. Eu sou, como dizem vocês, os ingleses, a vítima de seu engano. Não gostei da virada dos acontecimentos. Perdi minha esplêndida e jovem agente cheia de recursos e inteligência, e agora devo substituir o chefe de seção da área central da França, embora ele fosse uma excrescência no furúnculo de um sifilítico e, além disso, se por acaso fosse pouco, era estúpido. A única compensação que recebi esta madrugada é a de saber que não será necessário corromper a petite, coisa que não gostava o mínimo.
—A sentença de morte do Fouché?
Soulier fez um gesto movendo a mão como se estivesse varrendo.
—Pode considerá-la cancelada. Seu objetivo era evitar a fuga de segredos. É muito tarde para isso.
—Bem—Grey foi direto.—Então não ordenarei nenhuma sentença por minha parte.
—Você e eu não matamos os agentes do outro—Soulier plantou a bengala no chão e ficou em pé, apoiando-se com força nela.—Muito sangue no tabuleiro deste jogo e não seremos distintos dos selvagens do exército que pulverizam por todos os campos da Europa os cadáveres desses pobres jovens. Annique, dá-me um beijo e vá. Nossa relação se tornou tão complicada que nem sequer um francês pode desenredá-la. Assegure-te de que não voltemos a nos ver, agora que somos inimigos.
—Tomarei cuidado de não te encontrar, Soulier—Ela beijou sua bochecha, tal como o tinha feito milhares de vezes.—Sentirei saudades de você.
—Vê com a bênção do bon Dieu. Estes dias já não está na moda em Paris, mas sem dúvida reaparecerá em seu devido momento.—Suspirou—Acredito que vou declarar de novo que estamos ainda de noite e beberei uma taça de vinho antes de ir à cama.


Capítulo Trinta e Nove
A carruagem que pertencia ao serviço secreto britânico estava esperando-os no meio-fio da calçada fora da encantadora casa do Soulier.
—Não sei como me sentir—Se sentou junto a Grey. Nesse momento não importava muito para onde fossem.—É estranho que Leblanc não esteja tentando me matar.
No assento em frente havia uma pilha de roupa de lã negra. Quando Grey desatou o fardo, era uma larga capa de lã, como as que usavam as mulheres do campo. Envolveu-a nela. Não se tinha dado conta até esse momento de que estava tiritando.
—Tremo como um pudim. Demonstra como sou fraca—disse ela— acredito que ainda estou assustada.
—Não te culpo. Pequeno bastardo, frio e calculista que é esse homem.
—Não lamento absolutamente que Fouché possa matá-lo. É uma idéia excelente.
—Referia-me a Soulier —disse Grey em tom seco.
—Mas ele terá que enfrentar Fouché em Paris e mentir para negociar e me salvar a vida. Está arriscando sua carreira e possivelmente sua vida. Não deve culpá-lo por não ser delicado comigo. Ninguém é com seus próprios agentes.
—Tampouco prostituiria seus agentes. É a primeira coisa que ensinam na escola de professores de espiões. Não, não discuta. Isto é para ti—Entregou um pequeno saco pesado que continha moedas. Ela o sacudiu para abri-lo um pouco e colocou os dedos.
—Há muito dinheiro aqui—disse com tom neutro. Não podia estar segura do valor das moedas britânicas só as tocando, mas havia muitas.
—Não quero que perambule pelas ruas sem dinheiro no bolso. Também tenho suas três libras com seis penses na gaveta de meu escritório. Devolvê-las-ei em algum momento.
—Vá, isso. Se te lembrar, o roubei de Henri, assim não sei se é meu ou não. É difícil decidir, quando se trata de dinheiro.
—Verdade? —Deu dois golpes no teto da carruagem com a palma da mão.—A menos que tenha algo que objetar, descemos aqui.
A carruagem se deteve.
—Deixa que me vá?
—Em efeito, faço isso—Ele saltou fora sem baixar o degrau, esticou os braços para colocar com firmeza suas enormes mãos ao redor de sua cintura para levantá-la e logo depositá-la no chão.
Era um bairro tranqüilo e respeitável. A rua tinha de ambos os lados fileiras de casas prósperas, cada porta estava silenciosa e escura nas horas que precedem ao amanhecer. Inclusive os gatos dormiam. O som da respiração dos cavalos da carruagem e o estalo metálico de seus cascos eram todo o ruído que se percebia. Se Grey ia acompanhado por muitos seguidores, não se deixavam ver.
—Deixa-me partir com os planos Albión na cabeça—não era a primeira vez que seu comportamento a tinha deixado perplexa.—Saiba, que não ponho objeções, mas me parece contraditório.
—Os franceses estão tão seguros de que os temos que dá igual se os tivermos ou não. Afastará de suas idéias a de aparecer ante a soleira de nossa porta esta primavera. —Assim que fechou a porta, deu um golpe ao painel lateral e a carruagem se afastou rodando. Ela escutou o passo das rodas sobre a pavimentação enquanto lhe colocava a capa por cima e a atava a seu pescoço.—Fez o que devia na Inglaterra.
—Sim—Não tinha vindo à Inglaterra para apaixonar-se, mas o tinha feito. Fazia uma porcaria com esse tema.
—Kent está a salvo durante um tempo. Não posso remover entre os planos para encontrar segredos franceses, de modo que a França também está a salvo. Chegamos a um ponto morto.
—Justamente.
Não parecia estar zangado com ela. Afastou o cabelo de sua frente e o penteou com os dedos atrás de sua orelha.
—Ganhaste.
Não era capaz de decifrar sua expressão na escuridão. Tão só era uma sombra e um par de mãos suaves. Mas a delicadeza não é amor.
Ela tragou saliva.
—Quando te deixei esta manhã, não queria ir. Não tinha outra opção. Havia muitas vidas em jogo.
—Sei. O que vais fazer agora que é livre e que ninguém tenta te matar?
«Estarei completamente sozinha».
—Sempre pensei que me converteria em cozinheira algum dia, se conseguia viver o suficiente para me aposentar. Possivelmente vá a Gales. Parece ser um lugar no qual uma mulher que tenha por sobrenome Jones pode viver sem parecer ridícula.
—Será melhor que te deixe fazer isso. O oeste,—disse assinalando com o dedo—é nessa direção.
Era completamente livre. Tal como tinha desejado. As pessoas devem tomar cuidado com o que desejam.
Não há nada mais a dizer a um amante quando se rechaçou o seu amor e escapou secretamente de sua cama. De todos os modos, o chefe da seção britânica não se pode aliar com uma espiã francesa que não é de confiar. Possivelmente Grey mentiu de vez em quando sobre este tema. Do mesmo modo que ela mentira a si mesma.
De maneira que se voltou e começou a caminhar para o oeste. Podia cheirar o rio a sua esquerda. O Tamisa.
Soube imediatamente que ele a seguia. Depois de dar vinte passos, ainda não estava segura do que sentia a respeito.
—Está-me seguindo. Por que o faz?
—Para te proteger,—algo que já lhe havia dito em outra ocasião—e porque quero.
Ela respirou fundo e seguiu caminhando.
—É um homem difícil para a mulher que te quer. —Inclusive apesar da tênue luz, ela soube que ele tinha sorrido.
Diante deles havia um parque com uma cerca de barrotes de ferro afiados nas pontas. Não sabia que parque era. Não sabia em que parte de Londres estava exatamente, posto que não estava prestando a devida atenção.
—Planeja me seguir até Gales?
—Se tiver que fazê-lo... Por certo, pararemos em Tydings. Quer que nos casemos aqui em Londres ou prefere que o façamos quando chegarmos a casa de meus pais?
Ela se chocou com ele. De algum jeito ele se colocou diante dela, lhe bloqueando o passo. Era algo quente e desconcertante contra o que chocar-se.
—Não me pediste que me case contigo —Essa era a coisa mais estúpida de todas as que podia haver dito.
—Te case comigo, Annique.
Queria rodeá-lo, seguir caminhando e afastar-se, mas não conseguia mover-se.
—Não é possível para nós. Oxalá tivesse decidido ser inteligente. Então não teria que escolher.
Ele acariciou seu cabelo, como um vento quente.
—Te case comigo.
Doía, saber que tinha que dizer as muitas coisas sensatas que deviam dizer-se.
—Perderá seu cargo se te casar com uma espiã francesa, que é o que sou, uma espiã das que não pode confiar, e não pode.
—Então renunciarei a meu maldito cargo. Há uma carta na gaveta do meu escritório. Escrevi-a no dia em que te trouxe para Meeks Street. Doyle sabe. Tirá-la-á amanhã quando vir que não retorno.
—Não a encontrará, porque vai a seu escritório imediatamente e a vais rasgar.
—Você gostaria de ir à Índia? Tenho uma oferta permanente de um dos diretores da Companhia das Índias Orientais. Ficaremos tremendamente ricos, se lhe importarem esse tipo de coisas.
—Não quero ser rica e sei que já é rico. Adrian me disse isso. Ele pensou que devia sabê-lo.
—Me recorde que estrangule Adrian. Podemos nos casar dentro de cinco horas, no St. Odran, se te parecer bem. Isso me dará tempo suficiente para convidar a todos. Convidaremos Soulier... Já está. Isso te fez sorrir.
—Está completamente louco. Sem dúvida encherá teu cabelo de palha e logo fará cambalhotas pelas ruas.
—Vamos encontrar um lugar mais privado para fazer essas coisas. —Pensou no parque. Era um lugar grande. A gente podia cheirar uma ampla extensão coberta por folhagem e possivelmente também teria um lago, em algum lugar.—Tem algum problema com essas pontas e coisas afiadas?
As portas deviam estar fechadas a estas horas da madrugada.
—Muito fácil. Essa pequena cerca? Mas, estou de saia e com uma larga capa, que é muito quente e agradável, mas incômoda para subir. Assim se você... Sim. Isso ajuda—Pôs o pé nas mãos que ele tinha cavado e em seguida o tinha feito. Grey a seguiu um instante depois.
Ele segurou sua mão. A escuridão os rodeou. Podiam ter estado no campo: tudo estava tão tranqüilo, com tantas estrelas em cima de suas cabeças... Deu-se conta de que nunca tinha caminhado de noite, de mão dadas com seu amante. Em realidade, tampouco o tinha feito com o chefe da seção britânica.
Chegaram a um montículo plano e coberto pela erva, no mais profundo do parque. Tirou-lhe a capa girando-a e a recolheu, colocando-a sobre o chão antes que ela pudesse protestar.
—Cala, manter-te-ei quente—antes que ela pudesse falar, ele fez que se deitasse no chão, sobre a suave lã e se colocou a seu lado, rodeou-a com seu braço e a atraiu para ele.—Assim está melhor?
—Isto é uma tolice.
—Não tiveste suficientes tolices em sua vida. Não, fique perto—A animou com um sussurro, um toque, até que ela se tombou a seu lado, seu corpo junto ao dele.
As estrelas se estendiam sobre ela, desenhando amplos e misteriosos padrões.
—Vais gostar de Tydings,—disse ele—é feita de pedra antiga, da cor do mel. Há um prado atrás e uma vista das colinas que parece não ter fim. Faremos amor sobre cada centímetro dessa vista, de noite, de forma secreta.
Como podia fazer isto a ela?
—Seduz-me com sonhos e me enreda com este sacrifício que vais fazer. É como lutar contra as sombras.
—Não lute. Quando formos velhos, caminharemos cambaleando pelo atalho para o rio e desabaremos no banco para ver nossos netos jogar no barro. Recordaremos o momento no qual fizemos o amor nesse banco e junto ao rio. Possivelmente também no rio, uma noite quente.
—Nunca tinha pensado em ser velha.
—É hora de que o faça. Envelhece comigo. —Sonhos e coisas impossíveis protegidos entre seus ossos e músculos. Quando a abraçava desse modo, quase podia acreditar neles.
—Eu não gosto que me tenha liberado com uma mão e que com a outra me apanhe. Não é honrado de sua parte.
—Não sou um homem honrado.
—Não pode se demitir do serviço secreto britânico, querido Grey. Napoleão não irá ao mar esta primavera, ao menos isso já o consegui, mas algum dia virá. Não pode deixar seu cargo. É um dos guardiões desta terra.
—Como Doyle. Deixa que seja ele quem se sente nesse escritório mal ventilado e seja o chefe de seção durante um tempo — Suas mãos deslizaram por seu lado, ocupando-se em subir e descer por seu corpo. Havia poucas horas desde que ela tinha estado na cama com ele e seu corpo o recordava.
—Mas você é o chefe. Tem esses homens letais de seu serviço secreto em suas mãos e os protege, e eles confiam completamente em ti. Tem uma responsabilidade com eles—Começava a perder as forças e sentir o desejo, pegando-se a ele.—Não escuta. Em lugar disso, está-me seduzindo.
—Tento-o.
Ela não sabia que suas pálpebras podiam sentir-se desse modo quando alguém posava seus lábios sobre elas. Era como a seda. A luz florescia ali onde ele passava sua língua.
—Faz que fique impossível pensar.
—Sério?
—Não é necessário que se note o tanto que isso te agrada. É uma amostra de debilidade de minha parte.
—Isso soa prometedor. Vais casar-te comigo?
Ele se inclinou apoiando-se no cotovelo e a olhou de cima. Seu rosto projetava sombras na luz da lua, a escassos centímetros de distância do dela, com uma expressão séria e resolvida.
—É simples. Não é fácil, a não ser simples. Inclusive em Gales ou na Índia, terá que escolher... França ou Inglaterra.
—Escolhi. Devo lutar contra Napoleão, na medida em que possa. Mas o matrimônio... Verá, é uma questão de lealdades. Não posso ser inglesa, nem sequer para ti. Não posso te dizer tudo o que sei. Tenho muitos antigos amigos...
—Pensa que ia pedir-te isso?
—É um professor dos espiões britânicos. Não seria estranho que o fizesse...
Os dedos dele tocaram seus lábios.
—Não sou o dono das almas de meus agentes. Adrian tem uma amante francesa. Supõe-se que eu não devo sabê-lo. Além disso, Doyle é meio francês. Seus primos estão dispersos por todo o serviço secreto francês. Irá bem. —Acariciou seu vestido até que o levantou por cima de sua coxa.
—Freqüentemente os ciganos se deitam um junto a outro deste modo, no chão, com o céu em cima de suas cabeças. Casar-me-ei contigo.
—Agora? —Suas mãos se fecharam, com força, sobre ela.—Esta manhã? No St. Odran?
—Sim a todas essas perguntas.
—Bem—Deixou escapar o fôlego durante um bom momento com satisfação. Essas mãos inteligentes se moveram entre suas pernas para seduzi-la, tentá-la e lhe prometer coisas.—Iremos a Gales?
As sensações fluíam por seu corpo e afastaram seus últimos pensamentos.
—Não... Imediatamente. Vamos fazer amor, não é certo? Parece-me que é depravado fazê-lo num parque.
—Verdade?
E tal como lhe tinha prometido, não permitiu que passasse frio.

2


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 Nunca antes tinha conhecido a um homem que não pudesse enganar… Ela enfrentou o desafio dos campos de batalha. Tinha interceptado e roubado mensagens diante dos narizes dos chefes de estado. Tinha interpretado o papel da experimentada cortesã, da virgem inocente, da dama britânica de maneiras refinadas e inclusive se disfarçou de menino cigano. Mas Annique Villiers, a escorregadia espião conhecida como Jovem Raposa, finalmente se encontrou com o único homem que era mais inteligente do que ela…
    
     Até agora…
    
     O chefe dos espiões britânicos, Robert Grey, deve entrar na França para procurar a brilhante, formosa e perigosa espiã, Jovem Raposa. Seu dever é capturar a jovem e descobrir seus segredos para levá-los à Inglaterra. Quando estes dois inimigos naturais são presos juntos em um cárcere, se vêem obrigados a forjar uma complicada aliança para poder escapar. Entretanto, seu pacto é temporário e a traição, inevitável. Fogem, perseguidos a cada passo do caminho pelas implacáveis autoridades, apanhados numa rede de segredos e mentiras. Enquanto o destino de seus países pende por um fio, Grey e Annique lutam contra a paixão que surge entre eles, pois é um sentimento proibido, impossível e completamente irresistível…


     
Disponibilização: PRT
Revisão Inicial: DIDA
Revisão Final: Drikka
Visto Final: Joelma
Formatação: Dyllan
Projeto Revisoras Traduções



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“…esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que
diante de mim estão, prossigo para o alvo..."

 

 

 
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