segunda-feira, 16 de agosto de 2010 By: Fred

[livros-loureiro] E-BOOK - "Explicando a Filosofia com arte", de Charles Feitosa

 
 
 
 
 
"Explicando a filosofia com arte" do doutor em filosofia Charles Feitosa.
Sua proposta é bem diferente, é de uma - filosofia pop - , que envolve uma associação de imagens, em uma linguagem acessível e bem humorada, sem perder o rigor e a densidade inerentes a filosofia.
 
 
"Explicando a Filosofia com arte", de Charles Feitosa
 
 
 
 
 
110 MB
 
 
 
 
 
 
Explicando a Filosofia com Arte, livro de Charles Feitosa, Prêmio Jabuti de 2005 na categoria "didáticos", traz um título enriquecido pela ambigüidade: "com arte" tanto significa "através da arte" quanto "de maneira artística". Resta ver se o livro corresponde a estes dois sentidos.
 
Explicar a filosofia através de imagens artísticas é o objetivo do livro. A edição caprichada, apresentando todas as cores e uma diagramação limpa, se adequa bem à pretensão. Eu diria apenas que o tamanho da letra é um pouco maior do que o necessário, subestimando o leitor e sugerindo que se trata de um manual de filosofia para dummies, isto é, para palermas (em tradução menos direta: "pessoas com pouca informação e não muito espertas"). Na introdução, no entanto, o autor afirma que não fez nem um manual nem uma enciclopédia, pretendendo "explicar o inexplicável". Inexplicável é a filosofia ou a arte – ou ambas? Ou inexplicável é alguém tentar explicar o que não pode ser explicado?
 
Por estranho que pareça, explicar o inexplicável é de fato o trabalho da filosofia. Segundo Bertrand Russell, "ciência é o que sabemos" enquanto "filosofia é o que não sabemos". Em outras palavras, ciência é o que podemos provar provisoriamente como verdadeiro, enquanto na filosofia não podemos provar isto ou aquilo como falso. Por isso, a filosofia busca a verdade mas não pode encontrá-la. Quando a filosofia encontra a verdade, a perde para a ciência. Sua tarefa no mundo é a de duvidar sempre.
 
A tarefa mostra-se interminável como o trabalho de Sísifo, que carrega até hoje a pedra para o alto da montanha só para vê-la despencar ao vale, onde ele deve buscá-la novamente para carregá-la para o alto da montanha de onde ela despenca, outra vez e sempre. Não há progresso, no sentido cientificista e historicista do termo: o filósofo se espanta com os mesmos problemas desde antes de Pirro e de Heráclito. O pensamento, a realidade, a natureza, o amor, a divindade, a morte: essas são as questões também de Charles Feitosa.
 
Ele as enfrenta com competência, clareza e, posso dizer agora, arte. Dialogando com imagens do cult ao trash – de um quadro de Vermeer a uma foto de Schwarzenegger quando Mr Universo –, seu texto mostra que não há porque não considerar Sísifo feliz. Pensar é um prazer inenarrável, por isso mesmo gera tantas narrativas. Charles incorpora o prazer de narrar ao prazer de pensar, movendo-se entre aquelas questões e as diferentes manifestações artísticas. Interessa-lhe menos qualificar e classificar do que se deixar estimular para melhor questionar e estimular o seu leitor.
 
A primeira imagem que se destaca no livro é o quadro "Tentando o impossível" (1928), de René Magritte. O quadro retoma a lenda do escultor Pigmalião, fazendo o pintor "esculpir" com o pincel uma bela mulher. O artista, de terno e com a paleta no braço, pinta a mulher não numa tela mas diretamente no ar. Ela está de pé, nua e tranqüila, faltando-lhe apenas um braço por pintar. Este quadro mostra que não existe algo assim como um pintor, que de fora possa escolher pintar uma modelo, nem algo assim como uma modelo prestes a ser retratada: existe, sim, o gesto concreto de pintar, e nele se "realizam" (na acepção britânica do verbo) o pintor e a mulher. A técnica de Magritte, intencionalmente acadêmica, contrasta com o conteúdo provocador da obra. Sua originalidade não se encontra nos objetos que pinta mas na forma de relacioná-los uns aos outros. O título dos seus quadros sempre é importante não porque explicam, mas porque põem sob suspeita as explicações vigentes: a suspeita permite a poesia, isto é, conexões inesperadas.
 
É o que faz o filósofo no livro, em linguagem clara e bem-humorada. Charles procura associar conceitos com imagens buscando preservar o espanto e, portanto, o inesperado. Não à toa começa o livro com um quadro de Magritte e o termina com outro quadro do mesmo Magritte: "A ponte de Heráclito" (1935). Na imagem, uma ponte se interrompe no ar ao tocar na névoa, não conduzindo quem a atravesse, ou quem esteja admirando o quadro, a lugar algum. O reflexo dessa ponte na água do rio, porém, mostra-a completa, atravessando o rio.
 
Temos certeza então da imagem da ponte, mas não temos qualquer certeza da ponte ela mesma. Temos certeza do reflexo, do sintoma, da conseqüência, mas não podemos ter qualquer certeza da coisa que provoca o reflexo, da doença que gera o sintoma, da causa que produz a conseqüência. Como se trata da "ponte de Heráclito", segundo o título que lhe deu o pintor, podemos ainda dizer que essa ponte incerta atravessa o rio que nos banhamos e no qual não somos os mesmos que éramos, assim como o rio não é mais o mesmo. Ou seja: trata-se de um rio, de uma ponte, de um pintor e mesmo de espectadores que, a rigor, não existem.
 
Existem os gestos: de pensar, escrever, ler, pintar, esculpir, fotografar, dançar. Existem as perguntas, embora as respostas sejam suspeitas. Por isso é precisa, ainda que paradoxal, a formulação "explicando o inexplicável". O gesto de explicar, como o gesto de pensar, é possível e necessário, sem que isso implique que a coisa reste explicada e resolvida. Neste sentido, o título do livro, Explicando a Filosofia com Arte, é bom, por causa da sua ambigüidade, mas eu acharia ainda melhor um outro título que usasse uma expressão cara a Nietzsche: Filosofia dançarina.
 
Porque a filosofia de Charles é menos uma velha senhora pedante, falando difícil, do que uma bela bailarina a dançar entre os conceitos.
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