TAYLOR CALDWELL
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Orelhas do livro
Orelha esquerda:
Taylor Caldwell levou quarenta e seis anos para escrever este
emocionante livro sobre a vida de São Lucas. Lucano, ou Lucas, o único
apóstolo que não era judeu, nunca viu Cristo e tudo o que está escrito
em seu Evangelho foi adquirido por meio de pesquisas e dos testemunhos
da mãe de Cristo, dos discípulos e dos apóstolos.
Mesmo assim se tornou o maior defensor da fé cristã e, Saulo de Tarso
(mais tarde Paulo, o apóstolo dos gentios), não acreditava que Nosso
Senhor tinha vindo apenas para salvar os judeus.
Justamente por isso, os dois homens encontraram muita dificuldade com os
primeiros discípulos de Jesus.
Lucas foi, antes de tudo, um grande médico e quase todos os
acontecimentos narrados neste livro são autênticos o cenário do início
da vida de São Lucas, a idade adulta e sua busca, bem como fatos
relacionados a sua família.
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Orelha direita:
A história de São Lucas é a história da peregrinação de todos os homens
através do desespero e das trevas da vida, do sofrimento e da angústia,
da dúvida e do cinismo, da rebelião e da desesperança até a compreensão
de Deus.
Nascida em Manchester, Inglaterra, Taylor Caldwell viveu desde a
infância nos Estados Unidos, onde morreu em 1985.
Entre seus sucessos literários,muitos deles inspirados em personagens
bíblicos, estão O grande amigo de Deus, Só Ele ouve e Os servos de
Deus.
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Contra-capa:
A Bíblia apresenta São Lucas como o médico de coração generoso, bem
instruído e autor de um dos Evangelhos e do Livro de Atos. Lendas
antigas o descrevem como uma pessoa fora do comum, a quem são atribuídos
milagres e prodígios antes mesmo de sua conversão ao cristianismo. Em
Médico de homens e de almas, Taylor Caldwell combina estas duas imagens
de um dos homens mais importantes da igreja cristã primitiva,
caracterizado pela constante preocupação de enfermos, oprimidos e
pobres. A autora pesquisou a vida e as obras de Lucas durante anos, e as
descreve de forma romanceada num livro rico em detalhes históricos e de
narrativa emocionante.
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Outras Obras da Autora Publicadas Pela Editora Record
O grande amigo de Deus
Os servos de Deus
Só ele ouve
Um pilar de ferro
TAYLOR CALDWELL
Médico
de Homens
e de Almas
Tradução de
AYDANO ARRUDA
37ª EDIÇÃO
EDITORA RECORD
RIO DE JANEIRO - SÃO PAULO
CIP-Brasil Catalogação na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros. RJ
Caldwell, Taylor 1900 1985
C152m Médico de Homens e de almas / Taylor Caldwell;
37ª ed. tradução Aydano Arruda - 37ª ed. - Rio de Janeiro:
Record, 2005.
Tradução de: Dear and glorious physician
ISBN 85-01-01240-8
1.Romance norte-americano. I. Arruda, Aydano.
II. Titulo.
CDD-813
CDU-820(73)-3
93-0055
Título original norte-americano
DEAR AND GLORIOUS PHYSICIAN
Copyright by Reback and Reback.
O contrato celebrado com a autora proibe a exportação deste
livro para Portugal e outros países de língua portuguesa.
Direitos exclusivos de publicação em língua portuguesa no Brasil
adquiridos pela
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Rua Argentina 171 - Rio de Janeiro, RJ - 20921-380 tel.: 2585-21100
que se reserva a propriedade literária desta tradução
Impresso no Brasil
ISBN 85-01-01240-8
PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL
Caixa Postal 23.052
Rio de Janeiro. RJ - 20922-970
Prefácio
Este livro levou quarenta e seis anos para ser escrito. A primeira
versão foi escrita quando eu tinha doze anos de idade, a segunda, vinte e dois, a
terceira, vinte e seis, e durante todos esses anos o trabalho em relação a ele
não cessou.
A última versão teve início cinco anos atrás. Foi impossível
completá-la, como tinha sido impossível combletar as outras versões, até
que meu marido e eu visitamos a Terra Santa, em 1956, e ele me pôde dar as
informações para O ultimo terço do livro, bem como sua assistência.
Desde a minha primeira infância, Lucano, ou Lucas, o grande
apóstolo, obcecou minha mente. Foi ele o único apóstolo que não era judeu.
Jamais viu Cri sto. Tudo quanto está escrito em seu eloqüente mas limitado
Evangelho foi adquirido através de pesquisas, ouvindo testemunhas, a
mãe de Cristo, os discípulos e os apóstolos. Sua primeira visita a Israel
teve lugar quase um ano depois da Crucificação.
Ainda assim, tornou-se ele o maior dos apóstolos. Como Saulo de
Tarso (mais tarde Paulo, o apóstolo dos gentios), ele acreditava que
Nosso Senhor viera não só para os judeus, mas também para os gentios.
Tinha muito em comum com Paulo, porque também este jamais vira o
Cristo. Cada um deles tivera uma revelação individual. Aqueles dois
homens encontraram dificuldades com os primeiros apóstolos, porque estes
últimos acreditaram, obstinadamente, durante muito tempô, mesmo
depois de Pentecostes, que Nosso Senhor tinha encarnado e morrido
apenas para a salvação dos judeus.
Por que São Lucas foi uma obsessão para mim, e por que sempre o
amei, desde a infância? Não sei. Só posso, em tal assunto, citar Friedrich
Nietzche: "Ouvimos não procuramos; não perguntamos quem dá eu
jamais tive escolha nesse sentido.
Este livro trata de Nosso Senhor apenas indiretamente. Não há
romance e nem livro histórico que possam transmitir a história de Sua vida
tão bem quanto a Santa Bíblia. Assim, a história de Lucano, ou São
Lucas, é a história da peregrinação de todos os homens através do
desespero e das trevas da vida, através do sofrimento e da angústia, através da
amargura e da tristeza, através da dúvida e do cinismo, através da
rebelião e da desesperança até os pés e a compreensão de Deus. Essa busca de
Deus e da revelação final é a única significação na vida dos homens. Sem
essa busca e essa revelação, o homem vive apenas como um animal, sem
conforto e sem sabedoria, e sua vida é inútil, seja qual for seu grau de
poder e nascimento.
Um padre, que nos ajudou a escrever este livro, disse de São Lucas:
"Ele foi o primeiro trovador de Nossa Senhora." Somente para Lucas
Maria revelou o Magnificat, que contém as mais nobres palavras de
qualquer literatura. Ele amou-a acima de todas as mulheres que chegou a
amar.
Meu marido e eu lemos literalmente mais de mil livros sobre Lucas e
seus tempos, e recomendamos todo tipo de leitura relacionada. Se o
mundo de Lucas parecer espantosamente moderno a algum leitor com implicações
modernas, realmente isso se verifica.
Este livro pode não ser o melhor do mundo, mas foi escrito com amor
e devoção pelo nosso próximo, e assim é entregue finalmente em vossas
mãos, pois que ele se relaciona com toda a humanidade.
Quase todos os acontecimentos o cenário do início da vida de São
Lucas, a idade adulta e a busca, bem como a família e o nome do pai
adotivo são autênticos. Devemos ter sempre presente na lembrança que
São Lucas foi, antes de tudo, um grande médico.
Quando eu tinha doze anos, encontrei um grande livro, escrito por
uma freira que então vivia em Antioquia, e que continha muitas lendas
sobre São Lucas, lendas que não se encontram nos livros históricos que a
ele se referem, nem na Bíblia. A autora narrava as lendas e algumas
obscuras tradições a respeito de Lucano, incluindo os muitos milagres, de
início desconhecidos para ele próprio, que realizou antes de ir para a
Terra Santa. Algumas dessas lendas são do Egito, outras da Grécia, e
estão incluídas neste romance; Lucas não sabia, naquela ocasião, que era
um dos escolhidos de Deus, nem que chegaria à santidade.
O poderoso e esplêndido Império Babilônico (ou Caldéia) não é
familiar para muitos leitores, bem como não o são os estudos de
medicina, os tratamentos médicos ali feitos pelos sacerdotes-médicos e sua ciência
que egípcios e gregos herdaram totalmente. Os cientistas babilônios
conheciam as forças magnéticas e se utilizavam delas. Tudo isso
constava dos milhares de volumes da maravilhosa Universidade de Alexandria,
incendiada pelo imperador Justiniano vários séculos mais tarde, num
acesso de errôneo zelo. A medicina e a ciência modernos estão
começando a redescobrir essas coisas. A época atualficou mais pobre, em
conseqüência do fervor de Justiniano. Se a ciência e a medicina da Babilônia
nos tivessem chegado intactas, nosso conhecimento do mundo e do
homem seria muitíssimo mais avançado do que é atualmente. Ainda não
descobrimos como os babilonios iluminavam seus navios à noite com
um fogo frio, mais brilhante do que a lua -, e como iluminavam seus
templos com esse mesmo fogo frio. Aparentemente, eles tinham alguma
forma de utilizar a eletricidade, forma essa desconhecida para nós e
diferente da nossa maneira atual e tosca. Conta-se que eles usavam
veículos de terra sem cavalos, iluminados à noite, e atingindo grande
velocidade. (Ver o livro de Daniel.) Conta-se, também, que usavam
estranhas "pedras" ou uma espécie de minério, para a cura do câncer.
Eram hábeis no emprego do hipnotismo e na medicina psicossomática.
Abraão, um residente da cidade de Ur, na Babilônia, levou aquele
tratamento de medicina psicossomática aos judeus, que o usaram através
de séculos. Os magos, "Os Homens Sábios do Oriente", que levaram
dádivas au Menino Jesus, eram babilônios, embora aquela nação tivesse
sofrido um grande declínio muito tempo antes.
Onde as autoridades têm pontos de vista diferentes sobre alguns dos
incidentes relatados neste livro, ou sobre o cenário, adotei a decisão da
maioria. Aqui é usado exclusivamente o Evangelho de São Lucas, e o que
aparece nos Evangelhos de São Mateus, São Marcos e São João não está
incluído.
Quero, agora, agradecer ao Dr George E. Slotkin, de Eggertsville,
Nova York, famoso urologista e professor emérito da Escola de Medicina
de Buffalo, Nova York, pela inestimável assistência no terreno da
medicina, tanto antiga como moderna.
PRIMEIRA
PARTE
"Seguramente Deus escolhe seus servos ao nascerem, ou
talvez antes mesmo do nascimento."
12 13
Lucano nunca soube com certeza se gostava ou não de seu pai. Seria
possível admirar homens simples e despretensiosos. Seria possível
honrar homens sábios. Mas seu pai não era simples nem sábio, embora se
considerasse pertencente à classe destes últimos.
Guarda-livros e arquivistas tinham sua importância na vida
especialmente se fossem diligentes e soubessem o seu valor como guarda-
livros e arquivistas, sem pretender sugerir que possuíam maiores dons.
Não era agradável ouvi-los falar em "homens inferiores", tomando
para isso ares superficiais e altamente cultos. A mãe de Lucano,
porém, sorria tão terna e tão misericordiosamente, quando o marido dava
voz aos seus ridículos preconceitos, que a luz da sua compaixão
abrandava o coração do filho.
Enéias lavava as mãos em leite de cabra, pela manhã e à noite,
esfregando cuidadosamente o rico fluido em cada ruga, rachadura e
junta. Pelo que conhecia, aos dez anos de idade, Lucano
compreendeu que o pai não estava apenas tentando amaciar e branquear as
mãos, mas que pretendia apagar as cicatrizes de sua antiga servidão.
Aquilo irritava Lucano, pois já então sabia que o trabalho, não
importava de que espécie, não degradava ninguém, a não ser que parecesse
degradante ao espírito do trabalhador. Enquanto Enéias sacudia
muito delicadamente as mãos, para enxugá-las ao ar ameno da Síria, Lucano
podia ver as regiões desfiguradas de suas palmas e a comprida e feia
cicatriz que havia nas costas da fina mão direita; e um fluxo de vago
amor e piedade surgia nele. Mas sua compreensão real era ainda
infantil.
Enéias mostrava-se sob seu melhor aspecto exatamente antes da refei-
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ção da tarde, quando servia a costumeira libação aos deuses.* Lucano o
contemplava, então, com uma veneração sem palavras. A voz de seu pai,
habitualmente tão fina, seca e orgulhosa, tornava-se humilde e hesitante.
Enéias sentia-se grato aos deuses que o libertaram e tornaram possível a
casa pequena e agradável, com seus jardins de palmeiras, flores, árvores
frutíferas. Que o tinham levantado do pó e lhe haviam outorgado
autoridade sobre outros homens. O fato mais solene, para Lucano, porém, era
quando Enéias tornava a encher a taça de vinho e, com uma nova
reverência, derramava o líquido vermelho, lenta e cuidadosamente, e dizia com
brandura quase inaudível: "Para o Deus Desconhecido."
As lágrimas enchiam os grandes olhos azuis daquele Lucano de
dez anos. O Deus Desconhecido. Para Lucano, a libação era não só
um velho costume dos gregos mas, ainda, uma saudação mística, um
rito universal. Lucano ficava a olhar a queda das gotas de rubi, e seu
coração apertava-se com emoção quase insuportável, como se estivesse
testemunhando o derramar-se de sangue divino, a oferenda de um
Sacrifício inescrutável.
Quem era o Deus Desconhecido, sem nome? Enéias respondia ao
filho: era um costume dos gregos oferecer-lhe aquele ritual, e fazia-se
necessário manter os costumes civilizados da Grécia quando se vivia
entre romanos bárbaros, embora fossem os bárbaros que governassem
o mundo. Suas mãos marcadas de cicatrizes cruzavam-se num gesto
inconsciente de homenagem, e seu rosto estreito, tão insignificante e
comum, adquiria distinção e gravidade. Era nessas ocasiões que Lucano
tinha certeza de amar seu pai.
Sobre os deuses Lucano fora cuidadosamente instruído pelo pai,
que lhes dava seus nomes gregos e não os nomes toscos que os romanos
lhes atribuíam. Mesmo assim, com seus nomes poéticos e adoráveis, eles
eram, para Lucano, simplesmente homens que se tornaram gigantescos
e imortais, donos de toda a crueldade, rapacidade, luxúria, ódio e
malícia do homem. O Deus Desconhecido, entretanto, parecia não possuir
os atributos do homem, nem seus vícios nem suas pequenas virtudes.
- Os filósofos ensinaram que Ele não deve ser compreendido
pelo homem dissera Enéias a seu filho, certa vez. - Mas Ele é
poderoso, onisciente e onipresente, e ainda assim está impregnado em
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* Diante do altar dos deuses, ou antes de tomar alguma bebida especialmente vinho -, os
povos da Antiguidade costumavam derramar algumas gotas do líquido, previamente, em honra
das suas deidades. O vinho era considerado o "sangue da uva", por isso
mais usado do que o leite, o mel e o azeite, que tambem tinham seu uso
nos sacrifícios. (N do T)
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cada partícula de quanto existe, seja árvore, ou pedra, ou
humanidade. Assim dizem os pensadores imortais de nossa gente.
"O rapaz é sério demais para sua idade" dissera Enéias certa vez
à sua esposa, Iris. - "Entretanto, devemos recordar que seu avô, meu
pai, era um poeta, portanto não devo ser demasiado severo no meu
julgamento."
Íris sabia que o avô poeta era uma das mais patéticas ficções de seu
marido, mas concordou, com um movimento de cabeça.
- Sim, nosso filho tem alma de poeta. Apesar disso, eu o vejo e
ouço a brincar com grande vivacidade, em companhia da pequena Rúbria.
Correm juntos atrás dos carneiros e escondem-se um do outro entre as
oliveiras. As vezes, sua linguagem infantil é impetuosa e barulhenta.
Olhava meigamente para seu marido, ao vê-lo erguer a cabeça
comprida, com importância, numa tentativa para mostrar-se
carrancudo. Em seu pobre coração aquele homem sentia-se lisonjeado, apesar
de todo o seu desdém pelos romanos.
- Espero que não esteja negligenciando suas lições dissera ele.
- Com todo o respeito que devo ao meu patrão, é duro esquecer que se
trata de um bárbaro romano e que sua filha não pode oferecer a meu
filho qualquer divertimento intelectual. - E acrescentou,
rapidamente: - Contudo, temos de nos lembrar que ele tem apenas dez anos, e
que a pequena Rubria é ainda mais nova. Dizes, minha querida, que
eles brincam juntos constantemente? Não o tinha reparado. Também,
estou sempre ocupado, de manhã à noite, na casa do tribuno.*
- Lucano ajuda Rúbria nas lições dela contou Íris, afàstando
da testa um caracol de seus cabelos dourados. - É uma pena que o
nobre tribuno Diodoro Cirino não te empregue para ensinar a filha.
Enéias suspirou e tocou a fronte da esposa com seus lábios
agradecidos.
- Mas quem tomaria conta dos negócios dele em Antioquia? Quem
manteria os arquivos e supervisionaria os capatazes dos escravos? Ah!
Esses ávidos, esses sugadores romanos! Roma é um abismo no qual toda
a fortuna e todo o trabalho do mundo mergulham sem ruído, um
abismo do qual não sobe nem jamais subiu qualquer música.
Íris absteve-se, muito consideradamente, de recordar Virgílio a seu
marido. Ele costumava compará-lo, desdenhosamente, com Homero.
Enéias sentia-se ofendido por ser seu patrão apenas um rude
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* Magistrado encarregado de defender os interesses do povo, na antiga Roma. (N do T)
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tribuno e não um augustal.1 Na verdade, muitos dos tribunos romanos
eram augustais, mas não Diodoro, que odiava patrícios2 e cujo herói
era Cincinato.3 Diodoro tinha considerável instrução e muito
intelecto, era filho de sólida e virtuosa família de muitos soldados, mas
assumia a atitude de escárnio do militar pelos homens que preferiam as
coisas do espírito. Apertava contra o peito suas virtudes fora de moda,
afetava ignorar coisas que sabia, e falava com o rude e simples acento
de um soldado para o qual os livros eram desprezíveis. A sua maneira,
tinha tanta afetação quanto Enéias. Ambos eram uma fraude dizia
Iris consigo mesma, tristemente -, porém piedosas fraudes. Que Enéias
se mostrasse condescendente para com o soldado cujo pai o libertara,
e que Diodoro usasse deliberadamente má gramática e exibisse más
maneiras, isso não importava.
O pai de Diodoro Cirino, um homem moral, de nobres
qualidades, comprara o jovem Enéias de um conhecido, notável pela sua
extrema crueldade para com seus escravos, crueldade que se tornara
infame até mesmo para as pessoas mais duras e cínicas. Dizia-se que
nem um só de seus escravos deixava de ter cicatrizes, desde os que
trabalhavam em seus campos, vinhedos e olivais, até as mais jovens
escravas de sua casa. Apesar das leis, ele não desistia de matar
caprichosamente, quando bem entendesse, qualquer dos escravos que o
tivesse desagradado. e usava invenções próprias de tortura e assassínio
que lhe davam imenso prazer. Augustal de família orgulhosa, se bem
que decadente, e de imensa riqueza e poder, era também senador, e
dizia-se que até mesmo César o temia.
Houve apenas um homem em Roma que ousou escarnecê-lo
publicamente: o virtuoso tribuno Prisco, pai de Diodoro, amado pelas
turbas romanas, que, sendo elas próprias aviltadas e viciosas como
seus senhores, ainda assim honravam-no pela sua integridade e pelas
suas qualidades militares. As turbas admiravam-no mesmo pela sua
bondade e justiça em relação aos seus escravos e isso era paradoxal
num povo para o qual o escravo era pouco menos do que um
quadrúpede.
Enéias, o escravo grego, fora um dos trabalhadores das terras do
senador, e ninguém sabia com certeza de que forma Prisco o adquiri-
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1. Magistrado religioso, instituído por Augusto, prímeiro em Roma, depois em todo o
império.
2. Membros das velhas famílias predominantes de cidadãos da antiga Roma.
3. Lúcio Quinto Cincinato, senador romano, cônsul, depois por duas vezes ditador, que
deixou um nome proverbial pela austera simplicidade que usou no poder.
(Nota do tradutor)
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ra, a não ser ele próprio, que jamais falava nisso. Prisco, porém, levara
ojovem, machucado e ferido, para sua casa, chamara seu médico, para
que o tratasse; dera-lhe um lugar entre seu pessoal doméstico,
exigindo dele apenas obediência.
- Estamos todos sujeitos à obediência tinha dito Prisco
severamente a seu novo escravo. - Eu obedeço aos deuses e às leis de
meus pais, e há orgulho nessa obediência, porque ela é voluntária e
exigida de todos os homens honrados. O homem sem disciplina é um
homem sem alma.
Enéias era iletrado, mas rápido e respeitoso, dotado de mente
arguta e metódica. Prisco, que acreditava dever todo homem, mesmo
um escravo, desenvolver-se até o máximo de sua capacidade, permitira
que Enéias se sentasse a um canto do quarto onde seu jovem filho
recebia instrução. Num espaço de tempo espantosamente curto Enéias
alcançou Diodoro: sua memória era extraordinária. Não se passou
muito tempo e Enéias, com ordens de Prisco, estava ocupando uma
extremidade da mesa onde Diodoro se sentava com seu mestre.
- Temos aqui um erudito grego? perguntou Prisco
ironicamente ao mestre.
O mestre, porém, replicou com sagacidade que Enéias não era um
verdadeiro erudito e sim um jovem de mentalidade inteligente.
Quando Enéias completou vinte e cinco anos estava
administrando as propriedades romanas de seu senhor, Prisco, enquanto Diodoro
assumira sua profissão de soldado e assistia o procurador em
Jerusalém. Apaixonara-se, também, por uma outra escrava, a jovem Íris,
criada de quarto da esposa de Prisco, jovem e bela grega, a querida do
pessoal doméstico, educada pessoalmente por Antônia, que lhe
devotava afeto maternal. Prisco e Antônia presidiram o casamento dos
jovens, dando-lhes muitos presentes, inclusive a dádiva inestimável da
liberdade.
Diodoro Cirino, voltando para casa depois da morte de seus pais,
ficou satisfeito com o liberto Enéias, pois as propriedades romanas
estavam em excelente ordem. Lembrava-se de seu antigo colega de
estudos como de um indivíduo comum, sem brilho particular. mas
reconheceu suas qualidades e honestidade, embora se aborrecesse com
sua petulância e com as pequenas arrogâncias que exibia para com os
escravos sob suas ordens. Mas sendo Diodoro extremamente
inteligente, e secretamente niedoso, compreendera que daquela maneira
Enéias se estava compensando pelos anos de escravidão.
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O solitário e jovem romano, que tinha agora vinte e sete anos,
cinco menos do que Enéias, depressa casava-se com uma moça de
vigorosa família romana, que tinha suas próprias e robustas
qualidades, mas não sua inteligência. Logo depois disso Diodoro foi
nomeado governador de Antioquia, na Síria, e levou consigo Enéias e Íris.
Ali, Enéias encontrou campo mais amplo para seus talentos de
meticulosidade, gerência, escríturação e precísão, e pela primeira vez teve
sua casa própria em certa propriedade, num subúrbio de Antioquia.
Durante as noitadas ele sonhava seus sonhos dos gloriosos homens da
velha Grécia, identificava-se com eles, lia poemas de Homero,1 e
declamava-os em voz alta para a mulher e o filho. Seus conhecimentos,
inteleetualmente, permaneciam pequenos e escassos. Fazia-se loquaz,
falando de Sócrates,2 mas os Diálogos ficavam para além da sua
verdadeira compreensão. Sabia muito pouco sobre os gigantes menores da
Grécia, e quase nada sobre os estadistas de sua nação. Servia seus
deuses com o mesmo senso de dever com que servia Diodoro. Talvez
para Enéias eles representassem a Grécia. Talvez em sua beleza,
delicadeza e esplendor, trouxessem-lhe à memória que seus equivalentes
romanos eram grosseiros, lascivos, abrutalhados, além de toda a
sutileza e graça, simples sombras aumentadas dos próprios romanos. Em
seus deuses, Enéias encontrava refúgio contra as lembranças da
amarga escravidão; neles encontrava orgulho para si próprio, pois mesmo
os romanos os reverenciavam, construíam-lhes templos e começavam a
fazer distinções entre eles e suas próprias deidades.
Enéias teria preferido Roma a Antioquia, pois embora
desdenhasse a população romana, gostara do movimento das ruas repletas, da
excitação da cidade e da atmosfera de poder. Antioquia, para ele, era
"estrangeira" demais, pois era constantemente invadida por
embarcadiços rudes, que vinham de centenas de anônimas e suspeitas
regiões bárbaras. Tinha por eles uma aversão clara, e afastava-se de seu
contato, em melindroso estremecimento. Mas possuía uma pequena casa,
agradável, com soalhos frescos de pedra e brilhantes cortinas de lã,
arcos e jardins, longe bastante da casa maior de Diodoro para dar-lhe
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1. Poeta grego do século IX, considerado autor da Ilíada e da Odisséia,
os mais célebres poemas de sua língua.
2. Ilustre filósofo grego, mestre de Platão, igualmente célebre, que em
seus Diálogos expôs a da filosofia de Sócrates, pois este último nada
deixara escrito. Também as obras de Xenofonte divulgam as idéias de
Sócrates, que, acusado de impiedade pelos seus concidadãos, foi
condenado ao suicídio, através da cicuta. Morreu com a mesma digna
altivez com que vivera. É considerado o criador da ciência moral.
(468-400 ou 399 a.C.). (Notas do Tradutor)
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a ilusão de que era um senhor de terras, com seu direito próprio.
Muito de seu prazer, entretanto, era arruinado freqüentemente
quando tinha contato com Diodoro e se via forçado a ouvir em silêncio os
expletivos e a crua linguagem militar do romano.
Diodoro sentia-se ainda mais solitário na Síria do que o fora em
Roma. A esposa Aurélia -jovem gorducha e alegre, devotada ao lar,
aos escravos, ao marido e à filhinha era piedosa e virtuosa, à
maneira das velhas matronas romanas; mas não tinha instrução, sendo
apenas esperta, e tão naturalmente destituída de polimento quanto o
marido era secretamente refinado. Tagarelava sobre os escravos, a
filha, as modas mais recentes de Roma, falava de esbanjamentos na
cozinha, do clima, da saúde da família e dos pratos que ela própria
inventava sob os olhos das cozinheiras. Não havia dúvida de que se
tratava de uma mulher estimável, um tantinho gorda demais, mas ainda
assim tinha certa beleza no rosto rosado e redondo, nos grandes
olhos castanhos e no luxuriante cabelo preto. Diodoro ouvia-a
afetuosamente, depois metia-se em sua biblioteca, de onde retirava livros
surrados pelo uso, e lia até meia-noite, muito tempo depois de todos
da casa se haverem recolhido. Deleitava-se, especialmente, com
poesia, história e filosofia. Murmurava para ele mesmo um poema inteiro,
com uma espécie de caprichoso abandono ao ritmo das frases e dos
cantos.
Nunca lhe ocorria, como romano moral anacrônico, procurar
algum divertimento sexual nos apinhados bordéis de Antioquia, nem
considerava próprio reunir-se a alguns companheiros romanos da
cidade para jogar, assistir a rinhas de galos ou manter simples
camaradagem. O lugar de um homem, depois de seu trabalho, era no lar,
segundo pensava Diodoro, por mais insignificante que fosse a conversa da
esposa. Bebia muito pouco à mesa e acreditava ser a embriaguez um
dos pecados maiores. Assim, sua única evasão estava no trabalho.
Aurélia tinha amigas entre as famílias romanas de Antioquia, mas
eram tão virtuosas e comuns quanto ela própria. Reunidas,
tagarelavam sobre algumas mulheres mais emancipadas, de seu
conhecimento, e deploravam-lhes as atitudes com arrepios de horror.
Eram todas completas e inocentemente inconscientes da depravação de seu país,
de sua corrupção e de sua moral viciosa, de suas maneiras e costumes
licenciosos. E criticavam outras mulheres por um comportamento que,
em Roma, era comum e admitido. Seus lares e penares eram as coisas
mais importantes em suas vidas, e sua tagarelice mostrava-se tão exci-
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tante como uma tigela de feijões cozidos. Sentiam-se felizes; tinham
maridos, filhos, jardins, eram diligentes e devotadas.
Era entre os soldados mais simples de Antioquia que Diodoro
encontrava algum descanso, e com eles conversava facilmente sobre
assuntos militares, para sufocado vexame de seus oficiais subalternos. Os
próprios oficiais consideravam-se exilados naquele lugar, e suspiravam pelos
deleites, alegria e vícios de Roma, pensando em seu oficial superior com
espanto e secreto escárnio. Jamais duvidaram da moralidade dele, mas
isso não lhes inspirava respeito: ao contrário, achavam-no um tolo. Mesmo
sua severa justiça, que nunca era impulsionada pelo capricho ou
mesquinhez do momento, parecia-lhes algo de inumano. Diodoro punia
um oficial com a mesma presteza com que punia um soldado raso da
infantaria, sem se preocupar com sua família ou sua categoria em Roma.
Enéias solidarizava-se com eles, e os oficiais piscavam-lhe um olho ao
ouvir alguma ordem rígida de Diodoro, quando, então, Enéias fingia
pomposamente esconder um sorriso afetado.
Os fatos tinham sido particularmente complicados e desagradáveis
naquele dia. Diodoro, rodeado de seus oficiais, observava o embarque
por escravos, num navio romano, de frutos da Síria, mel, azeitonas e azeite
e muitas outras coisas. Embora estivessem em dezembro, e a festa das
Saturnais* se aproximasse, o sol mostrava-se quente demais para a estação,
o ar trazia umidade, aS águas gordurosas luziam como que cobertas de
graxa ardente. Os gritos dos capatazes tinham sido excepcionalmente
irritantes, e o estalido dos chicotes soam constantemente contra a muralha de
ar úmido. Os escravos, entretanto, suando profusamente, mostravam-se
apáticos. De súbito, com uma blasfêmia impaciente, Diodoro deixara a
mesa das docas onde Enéias ia meticulosamente registrando os fardos e as
barricas, e agarrara pessoalmente uma caixa das maiores sobre os ombros,
com tanta facilidade como se se tratasse de um cordeirinho. Caminhara
pelo pranchão do navio e atirara a caixa, com precisão rápida, sobre as
outras. Depois, ficara ali, de pé, sorrindo de contentamento.
Os oficiais estavam boquiabertos. Enéias, diplomaticamente, olhava
para o outro lado. Os soldados tinham os olhos fixos, e capatazes e
escravos pareciam petrificados. Mas Diodoro flexionara os músculos,
respirara profundamente, e dissera:
___
* Festas romanas em honra de Saturno, que de início constavam de
regozijos públicos, nos quais os escravos podiam vestir-se como os
senhores e censurarem-nos pelas SUàS faltas. Com o decorrer dOS tempos,
tais festas transformaram-se, tanto em duração como em caráter, passando
mesmo a constituir orgias coletivas. (N do T)
___
- Oh! Como isto faz bem à alma de um homem!
Enéias, o grego, partilhava com todos os gregos o desdém e a
aversão ao trabalho manual, e sentia-se escandalizado até o coração. E ele
e os outros ficaram ainda mais escandalizados quando ouviram Diodoro
gritar aos escravos:
- Vocês são homens ou vermes doentes? Isto tem de ser
carregado antes que o sol se ponha. Quando não, terão de trabalhar à noite,
à luz de tochas. Vamos, tratemos de nos mexer como homens que têm
um propósito, e acabar com isto! - De novo curvara-se, agarrara uma
barrica e rolara-a pelo pranchão. E seus músculos avultavam nos
ombros, pernas e braços. Era evidente que se estava divertindo. Os
escravos, estimulados pelos chicotes, voltaram correndo ao trabalho e,
inspirados por Diodoro, apressaram seus movimentos. Ele começou a
cantar, com voz rouca, num ritmo embalador, e os escravos riram-se e
cantaram com ele. Muito antes do pôr-do-sol, o navio estava
carregado. Nem um só oficial ajudara, nem mesmo um soldado raso da
infantaria, pois Diodoro indicara, com um olhar desdenhoso, que
repudiava sua assistência.
Diodoro, então, ficou de pé entre seus oficiais, limpando o suor
com o lenço que um deles lhe ofereceu e sorrindo amplamente a
contemplar o navio. O comandante aproximou-se dele, com respeitoso
temor, e Diodoro gritou:
- Dize àqueles homens-damas impotentes de Roma que Diodoro
Cirino, filho de Prisco, ajudou pessoalmente a carregar este navio!
Dize-lhes, enquanto eles se perfumam com nardo e óleo de rosas, e ouvem
alaúdes, e mergulham línguas de rouxinol no mel, que viste hoje um
romano trabalhar como os romanos outrora trabalharam, e que eles
devem trabalhar de novo, se quiserem que Roma sobreviva e não morra
para sempre entre vasos, flores, jovens cantoras, vinhos e elegâncias.
Depois, voltara-se para seus oficiais que coravam de vergonha
por ele -, blasfemara em voz alta e gritara, novamente.
- Onde estão vossas cicatrizes, vossos músculos, vossos ombros
morenos, ó pelintras? Sabeis o que é a guerra, o trabalho, o que é a
força dos corpos que vivem sobriamente e com resolução? Para o Hades1
convosco! Todos! Por Mercúrio,2 sois menos homens do que estes
pobres escravos!
___
1. Lugar para onde iam os mortos, na mitologia grega. Deus do Inferno.
2. Mensageiro dos deuses, deus ele mesmo da eloqüência e do comércio.
(Notas do Tradutor.)
22 23
Aquilo fora imperdoável. Os escravos tinham sufocado o riso
entre eles, e os rostos dos oficiais romanos ensombraram-se ominosamente.
Não ousaram responder, entretanto. Diodoro era bem capaz de
esbofetear abertamente um rosto atrevido; fizera isso muitas vezes, mesmo
diante de soldados rasos e escravos.
Infelizmente, o tribuno não havia terminado. Correra os olhos,
colérico, pelos seus homens, continuando:
- Cincinato deixou seu arado para salvar Roma e não se deteve
sequer para lavar as mãos manchadas ou calçar sandálias nos pés sujos
de terra. Nenhum de vós, porém, deixaria os braços de uma prostituta
síria para salvar a vida de um homem, ou para manter, em vossa
jurisdição, a lei de Roma.
Afastara-se deles, num repelão, e caminhara pesadamente pelas
docas, até seu cavalo, pondo-se a galope a caminho de sua casa do
subúrbio. Deixara sua biga, que um oficial teria de levar para as suas
cavalariças, e Enéias seguiu nela com o oficial. Uma vez em casa, Enéias
contara todo o horrível episódio a Iris, que o escutara em silêncio.
Esperava ver a esposa horrorizada, mas ouviu sua voz meiga, com seu
sorriso adorável:
- O nobre tribuno foi, outrora, meu companheiro de
folguedos, na casa de Prisco. Sempre foi um rapaz ativo e às vezes carregava-me
às costas, dizendo ser Júpiter em seu disfarce de touro, e eu
Europa.*
Observando a expressão horrorizada do marido, por um instante,
acrescentara, docemente:
- Ah! Éramos crianças nesse tempo, meu querido.
Havia ocasiões em que Enéias não podia entender Iris. Disse
então, pomposamente:
- Vejo que não percebes a maior implicação do incrível
episódio de hoje. Diodoro está constantemente falando de disciplina,
entretanto ridiculariza publicamente seus oficiais, diante de seus
homens e dos escravos. Isso engrandece a sua autoridade?
Iris compreendia que a cólera de Diodoro não fora lançada tanto
sobre os homens que ali estavam em derredor quanto sobre os
modernos costumes e a corrupção de Roma, que ele não podia suportar.
___
* Júpiter, deus maior do politeísmo antigo. Dizem que, se apaixonando
por Europa, filha de Agnor, rei da Fenícia, transformou-se em touro para
a roubar, atravesSOU o mar com ela sobre o dorso e trouxe-a para a parte
do mundo que tomou o nome da donzela raptada. Os gregos davam-lhe o nome
de Zeus. Jove é uma outra forma de seu nome. (N do T)
___
Esse tinha sido o fato que precipitara e aliviara a raiva crônica e sufocada
do tribuno. Suspirou e disse ao marido:
- Tenho certeza de que ele nunca mais fará isso.
Severo, Enéias replicou:
- Ninguém pode ter certeza quando se trata de um homem
caprichoso. Confesso que nunca o entendi.
A furiosa exaltação de Diodoro durara através da refeição
noturna. Contara tudo a Aurélia, e ela fizera um gesto de assentimento,
como esposa sensata, embora O assunto estivesse inteiramente fora de
sua compreensão. Deixou que se seguisse uma pequena pausa, e
depois disse, ansiosa, como se seu marido de nada lhe tivesse falado:
- A pequena Rúbria está de novo cuspindo sangue e queixa-se
de dores nos braços e pernas. O médico receitou fumigações na
garganta e nas juntas, e ela está dormindo, finalmente, embora tenha o
rosto ainda enrubescido. Que tristeza ver uma criança sofrer, uma
criança que nunca foi saudável, e quanto mais triste é, meu querido
esposo, eu te ter dado apenas aquele cordeirinho frágil e não filhos fortes.
Diodoro esqueceu imediatamente sua cólera, tomou a esposa nos
braços e beijou-a. Ela não se revoltou contra o odor acentuado de seu
Suor, antes encontrou conforto nele. Passou-lhe os braços em torno do
pescoço e disse:
- Mas tenho só vinte e cinco anos e ainda pode ser que os
deuses nos concedam filhos. Preciso ir a Antioquia muito em breve e fazer
um sacrifício especial a juno.*
A criança, Rúbria, era o coração do coração de Diodoro, embora
ele acreditasse ser o único a saber disso. Sem ruído, subiu a escadaria
de pedra branca que levava ao apartamento dela e, silenciosamente,
afastou para um lado os pesados reposteiros de seda escarlate. A
menina estava deitada em sua cama, na frescura do início da noite. Dormia,
com a ama vigilante a seu lado. A janela pequena era um quadrado
carmesim, e sombras arroxeadas suspendiam-se pelos cantos do
apoSento. Seria um reflexo do pôr-do-sol que avermelhava assim o
rostinho dela ou seria aquela febre sinistra e desconhecida? Diodoro
curvou-se sobre a filha, e seu indômito coração fremiu diante de tanta
fragilidade. Longos e espessos cílios pretos palpitavam, inquietos,
sobre o rosto fino e brilhante: a bonita boca infantil queimava. Tão
___
* Na mitologia romana era esse o nome dado a Hera dos gregos, filha de
Cronos (Saturno) e ela, a esposa e irmã de júpiter, ou Zeus. (N do T)
24 25
doce e tão querida criatura, cheia de risos e alegria, mesmo quando
estava sofrendo, uma pombinha tão terna! A mão nodosa de Diodoro
tocou a massa negra de cabelo que se espalhava pela brancura do
travesseiro, e ele suplicou, desesperadamente, a ajuda de Esculápio.*
- Suplico-te, Mestre Médico, filho de Apolo,2 que mandes
Mercúrio a esta criança, nas asas da compaixão, pois ela me é mais preciosa
do que a minha vida, e que tua filha, Higia,3 cuida dela com ternura.
Mercúrio, apressa-te a vir ter com ela, pois não é ela igual a ti, rápida
como o fogo, veloz como o vento, mutável como uma opala?
Prometeu sacrificar um galo a Esculápio, que preferia aquele
sacrifício, e um par de bois brancos a Mercúrio, com argolas de ouro
nos focinhos. O terror apoderou-se dele quando tocou o cabelo de
Rúbria e viu o tremor das mãozinhas sobre o lençol. Sem dúvida,
honrara os deuses por toda a sua vida, e eles não iriam tirar-lhe a vida
de seu coração. "Jamais temi espada ou lança, homem ou coisa,
contudo o medo me torna fraco, hoje", disse ele, consigo mesmo. "Não
que esta doença seja qualquer coisa de novo, mas minha alma
estremece, como que sob um pressentimento."
Renovou suas preces e acrescentou uma a Juno, a mãe das
crianças. Para eles, os deuses de Roma jamais tinham sido depravados
mesmo Júpiter, apesar de todas as suas propensões referentes às donzelas.
Ficou a cogitar se devia pedir a Marte,4 sua deidade especial,
padroeiro dos soldados. Resolveu o contrário: Marte não entenderia um
soldado que considerasse uma criança mais preciosa e importante do que
uma guerra. Tal prece que lhe fosse enviada poderia provocar-lhe a
cólera. Diodoro rapidamente tornou a implorar a Mercúrio, com suas
sandálias aladas e seu bastão de serpentes.
Quando tornou a se reunir a Aurélia, encontrou-a na antecâmara
do próprio quarto, fiando diligentemente lã fina para tecê-la e do tecido
fazer um capitium5 para sua filha. Era a perfeita encarnação de uma
matrona da velha Roma, ali sentada, o pé movendo-se ritmicamente
sobre o pedal, a mão na roda, o cabelo preto severamente trançado em
torno da cabeça, o rosto rosado sério e absorto. Suas vestes brancas
flutuavam em torno do corpo cheio, tombando em pregas modestas, e
___
* Nome latino do deus da Medicina, Asclépio, filho de Apolo.
2. Um dos grandes deuses da Grécia, personificação do Sol. Chamavam-no,
também, Febo.
3. Filha de Esculápio, adorada como deusa da saúde.
4. Deus da Guerra.
5. Capuz (em latim no original). (Notas do tradutor.)
___
tinha os braços voluptuosos cobertos a meio pelas mangas. Para Diodoro,
aquela era uma figura tranqüilizadora. Em vez de choramingar
futilmente pela sua filha, fiava um bom agasalho para ela. Diodoro
tocou-lhe afetuosamente a cabeça com a mão e depois com os lábios. O pé
ativo e a mão que se movia não pararam, mas Aurélia sorriu:
- Por que não vais andar pelo jardim, ao pôr-do-sol, meu bem-
amado? Ficarás confortado ali, como sempre. - A voz dela era firme e
calma.
Diodoro pensou em seus livros. Recebera naquele dia, por um
mensageiro especial, um rolo contendo a filosofia de Filo1 que,
dizia-se, era considerado superior a Aristóteles.2 Nisso Diodoro não
acreditava, mas sentia-se ao mesmo tempo excitado e curioso. De súbito,
porém, veio-lhe um peso de languidez ao coração, e resolveu fazer o
que a esposa lhe sugerira. O livro podia esperar; sentia-se inquieto
demais para dar-lhe a sua integral e considerada atenção.
Saiu para o pátio. um vermelhão escuro fluía através das frondes
das palmeiras e o perfume do jasmim subia em nuvens para a
atmosfera tépida. As laranjeiras e limoeiros ornamentais estavam envolvidos
em frutos verdes e dourados. Insetos zumbiam, com o som de
delgados arames, e subitamente um rouxinol cantou para o céu avermelhado.
As pedras brancas colocadas entre os carneiros de flores exóticas
estavam mergulhadas em sombras cor de heliotrópio, e luz de um azul
fosco enchia os arcos da colunata que rodeava o pátio. Uma fonte,
sobre a qual se erguia um fáurio de mármore, sussurrava docemente,
misturando sua canção frágil à canção do rouxinol. As tonalidades
púrpura e escarlate do poente luziam na bacia da fonte, a que peixes
brilhantes e pequenos davam vida. Agora, as palmeiras farfalhavam
sob o vento refrescante, vindo do mar distante, e através das frondes
em movimento Diodoro pôde ver a brilhante radiosidade da estrela
vespertina. Os troncos das árvores, plantadas ao longo das altas
paredes do pátio, pareciam espectros acinzentados.
Não vinha ruído algum do maciço alto e quadrado que era a casa
que ficara atrás de Diodoro; as colunas tremeluziam na meia-luz, como
que feitas de algo insubstancial e não de mármore. Diodoro sentiu
___
1 Filósofo helenístico de origem judaica, nascido em Àlexandria, no ano
20 a.C., que viveu até o ano 54 da nossa era.
2 Filósofo grego, nascido em Estagiros, chamado, por isso, o
Estagirista. Exerceu grande influência no pensamento europeu durante a
Idade Média (354 a.C. - 322 a.C). (Notas do Tradutor.)
26 27
que o silêncio se fazia de repente opressivo: a voz do rouxinol não o
seduzia como de costume. Era uma voz que não trazia consolo em si,
apenas melancolia, e a fonte murmurava sobre tristezas que não eram
humanas. Diodoro, de novo assaltado pela solidão, pensou em
Antioquia e nas comemorações que ali se iniciavam em louvor de
Saturno. Terminariam em deboche geral, como de costume, mas pelo
menos ali haveria ruídos de homens e mulheres. Pensou em cavalgar
de volta a Antioquia e convocar alguns de seus oficiais que lhe eram
menos repulsivos. Sabia, porém, que não poderia suportá-los: eles
quereriam participar da tumultuosa alegria e sua presença só iria
inibi-los. Se ao menos tivesse um companheiro, pensava o solitário tribuno.
Se ao menos houvesse apenas um com quem eu pudesse falar, para
afogar em mim a voz do medo, um que comigo partilhasse uma taça de
vinho e discutisse as coisas que para mim são importantes. Um
filósofo, talvez, ou um poeta, ou apenas um homem sensato.
Ouviu um movimento levíssimo, quase um sopro, e voltou-se de
novo para a fonte. O sol poente brilhou por um momento acima das
copas farfalhantes das palmeiras e veio cintilar sobre a cabeça loura de
um menino que se reclinava contra a bacia de mármore da fonte, em
completo encantamento, inconsciente da presença de Diodoro.
Caminhando silenciosamente, Diodoro avançou para junto da
criança, que se sentara no áspero gramado verde e erguia os olhos para
as janelas de Rúbria. Quando chegou ao lado oposto da ampla e rasa
bacia, Diodoro pensou: "Ora essa, este é o jovem Lucano, filho do
meu liberto Enéias." Seu coração palpitou com uma nostalgia ignota,
e ele pensou em Íris, sua antiga companheira de folguedos, Íris com
seu cabelo áureo, seus maravilhosos olhos azuis, sua macia carne branca,
seu rosto cheio que fazia covinhas, e seu fino nariz grego. Ouviu, como
se viesse de corredores compridos e ensombrados, o som de seu riso
de criança, o tom interrogador da sua voz ao chamá-lo. Iris, para ele,
não existira nem mesmo como companheira de brinquedos que se
recorda, depois de seu casamento com aquela empertigada e precisa
mediocridade de um Enéias. Agora, porém, recordava-se que quando
ele estivera fora, em suas campanhas, antes da morte de seus pais, Íris
tinha brilhado como estrela em sua mente, doce, sensata Íris, a jovem
escrava de sua mãe, a criada de quarto mimada, que para ela fora
como uma filha.
Ele, um tribuno, jovem e ambicioso, atlético, de família
impecável, chegara mesmo a sonhar em casar-se com Íris. Seus pais,
acreditava ele, apesar do afeto que nutriam por ela, teriam morrido de
humilhação se seu filho tivesse descido a uma escrava, se ela tivesse dito:
"Onde estiveres tu, Caio, estarei eu, Caia." Ainda assim, ao saber da
morte deles, enquanto ainda estagiava em Jerusalém, seu primeiro
pensamento, depois da angústia da primeira dor, tinha sido para Iris.
Voltara a encontrá-la não só liberta, mas casada e grávida, e afastara-a
severamente de seus pensamentos. Com certeza, então, sua solidão
tivera início, e ele a tomara como um desejo de voltar à sua vida ativa
no Oriente.
Todo o pátio encheu-se de doces sombras esverdeadas, nas quais
a cabeça recostada de Lucano era como a lua cheia amarela. Diodoro,
que podia ver-lhe apenas o perfil delicado, pensou: É a face do filho
de Iris. Jamais se sentira interessado pelas crianças, a não ser pela filha
Rúbria e, embora desejasse filhos, pensava neles como em jovens
soldados, como seus herdeiros. Agora fixava os olhos em Lucano,
forçando-os através da meia-luz colorida, e de novo seu coração estremeceu e
encheu-se de ternura.
Lucano estava sentado em silêncio, imóvel, ainda contemplando
o quadrado, que se apagava, da janela de Rúbria. Usava leve túnica
branca, suas pernas longas eram tão pálidas que se assemelhavam ao
alabastro e dobravam-se sob seu corpo. Em suas mãos havia uma
pedra grande, de feitio e colorido pouco comuns, que à luz nublada
inquietava. Toda a atitude de Lucano era de arrebatamento religioso,
e ainda assim ele estava absolutamente imóvel. Seus lábios rosados
entreabriam-se e seus olhos mostravam-se repletos de estranha
tonalidade azul. Era como se ele estivesse ouvindo algo, e Diodoro,
supersticioso como todos os romanos, observava-o com uma espécie de medo,
nervoso, a pele arrepiando-se.
Falou, de repente, em voz alta:
- És tu, Lucano?
O menino não se sobressaltou. Moveu-se um pouquinho, apenas,
e voltou para Diodoro seu rosto extasiado. Não saltou sobre os pés,
apenas ficou ali sentado, a pedra nas mãos. Era como se não estivesse
de forma alguma vendo o tribuno.
Diodoro ia falar de novo, mais asperamente, quando o menino
sorriu e pareceu vê-lo pela primeira vez.
- Eu estava rezando por Rúbria disse, e a voz era a da jovem
Íris.
Diodoro deu a volta à fonte, hesitou, depois acocorou-se e olhou
28 29
com firmeza para o menino, diante dele sentado, em tão absoluto
repouso de músculos e em tão absorto enlevo. O tribuno despira suas
pesadas vestes militares quando voltara para casa. Usava agora uma
túnica branca, solta, com um cinturão de couro simples, que trazia
Incrustaçoes de prata. Sob aquele material ligeiro, seu corpo moreno
era robusto e rijo, e suas pernas espessas mostravam músculos
salientes. Cruzou os braços fortes em torno dos joelhos e contemplou Lucano,
que lhe sorria com serenidade simples.
Lucano não se mostrava nem atemorizado nem tomado de
respeito pelo soldado. Olhava o altivo rosto moreno, agudo e severo, tão
tranqüilamente como teria olhado para seu pai. Aquele queixo áspero
e saliente não o alarmava, como não o alarmavam os olhos negros e
penetrantes, acomodados sob sobrancelhas escuras e fartas. Diodoro,
porém, confrontado com a verdadeira imagem da criança que outrora
conhecera, sentiu-se consciente de sua própria cabeça redonda,
coberta de cabelo preto e rígido, tosquiado e sem brilho, e da força bruta de
seu corpo disciplinado.
O menino nada tinha a fazer naquele pátio, pensou,
automaticamente. E então ficou envergonhado, recordando-se de Iris. Mas que
dissera ele? "Eu estava rezando por Rúbria." As duas crianças eram
companheiras de brinquedos, tal como ele e Íris o foram.
Diodoro abrandou sua voz rascante.
- Estás rezando por Rúbria, menino? Ah! Ela bem precisa de
tuas preces, a pobrezinha.
- Sim, senhor respondeu Lucano, seriamente.
- A que deus estás rezando? perguntou Diodoro. Com
certeza, pensou ele, os deuses ficam especialmente enternecidos com as
orações dos inocentes. E um pouco de sua dor foi aliviada.
Lucano disse:
- Ao Deus Desconhecido.
Os olhos escuros de Diodoro faiscaram, surpreendidos. Lucano
continuou:
- Meu pai ensinou-me que Ele está em toda parte e em todas as
coisas. - Estendeu para Diodoro a pedra que tinha nas mãos, e disse
simplesmente: - Encontrei isto hoje. É muito bonita. Achas que Ele
está aqui, e que me ouve?
Diodoro tomou a pedra nas mãos, ainda acocorado. Mal podia vê-la
agora, pois a escuridão se acentuara, mas sentiu que era quente.
Volveu-a nos dedos e a pedra cintilou de uma forma curiosa,
apagadamente, em muitas cores que refletiram as últimas luzes.
Estava quente, provavelmente por ter ficado muito tempo nas mãos
do menino. Mas o calor não diminuía, embora o ar estivesse esfriando
rapidamente. Ao contrário, crescia de intensidade. O supersticioso
Diodoro quis deixar cair a pedra, mas seria um gesto embaraçoso
diante da criança.
- Achas, senhor, que Ele está aí, e que Ele me ouve? repetiu
Lucano. Tinha uma voz clara e firme, sem servilismo, a voz de um
patrício pelo nascimento.
- Quem? perguntou Diodoro. De novo volveu a pedra nos
dedos, firmando os olhos nela.
- O Deus Desconhecido respondeu Lucano, pacientemente.
Diodoro sabia tudo sobre o Deus Desconhecido. Outrora, num
templo grego, tinha-Lhe feito sacrifícios, embora os gregos
acreditassem que Ele não desejava sacrifícios. Quem era aquele Deus que não
tinha nome? Quais eram os Seus atributos? De que homens era Ele o
padroeiro? Não havia imagens Dele em parte alguma. Poderia ser o
Rei dos Judeus, do qual Diodoro tanto ouvira falar em Jerusalém?
Mas soubera que eles, os judeus, sacrificavam-Lhe pombas e
cordeiros, em um festival a que chamavam Páscoa, na temporada da
primavera. Os judeus chamavam-No Senhor, e pareciam conhecê-Lo muito
bem. Com os olhos da mente, Diodoro podia ver o grande templo de
mármore pálido e dourado, que se erguia contra o céu azul-pavão de
Jerusalém. Lucano era grego, não judeu. Seria possível que os gregos
tivessem ouvido falar no Deus judeu e, não sabendo o Seu nome,
chamassemNo o Desconhecido.
Diodoro sacudiu a cabeça. Uma grande lua, como uma vasilha
repleta de fogo macio, ia, agora, erguendo-se por trás das palmeiras.
Encheu o pátio com uma torrente de raios cambiantes, e as sombras
das palmeiras tombaram, bem recortadas, sobre as pedras brancas e as
Paredes alvas da casa, insinuaram-se pela colunata, que começara a
reluzir como se as colunas fossem feitas de mármore amarelo. O perfu-
30 31
me do jasmim ergueu-se em ondas em torno do homem e do menino,
e grilos cricrilaram na relva e entre as flores destituídas de seu
colorido. Algures, fora do alcance da visão, um animal de carapaça passou
raspando pelas pedras.
Diodoro recordou-se do nome que ouvira de um principezinho
judeu: Adonai.* E disse a Lucano:
- Seu nome é Adonai?
- Ele não tem nome que os homens conheçam, senhor -
replicou o menino.
- Seja como for, creio lembrar-me de que esse nome
significa "Senhor" disse Diodoro, abstraidamente. - É o Deus dos judeus.
- Mas o Deus Desconhecido é o Deus de todos os homens -
falou Lucano, animadamente. - Ele não é Deus apenas dos judeus,
mas dos romanos e dos gregos, dos pagãos, dos escravos, dos césares e
dos homens selvagens das florestas e das terras ainda desconhecidas.
- Como sabes disso, criança? indagou Diodoro, com um
ligeiro sorriso.
- Eu sei. Eu sei no meu coração. Ninguém me disse falou
Lucano, com simplicidade.
Diodoro ficou estranhamente comovido. Recordou-se de que os
deuses dão às crianças, de preferência, a sua sabedoria, pois elas não
têm as mentes deformadas e torcidas pela vida.
- Um dia disse Lucano eu O encontrarei.
- Onde? perguntou Diodoro, tentando ser indulgente.
Mas Lucano erguera o rosto para o céu e seu perfil ficou banhado
pela luz dourada do luar.
- Não sei onde, mas eu O encontrarei. Ouvirei a Sua voz, e O
conhecerei. Ele está em toda parte, mas eu hei de conhecê-Lo em
particular; e Ele falará comigo, não só na lua e no sol, nas florestas e
nas pedras, nos pássaros e no vento, nas auroras e nos poentes. Eu O
servirei, e darei a Ele meu coração e minha vida.
Havia júbilo na voz do menino e de novo Diodoro sentiu um
frêmito de superstição.
- E rezastes para Ele pedindo por Rúbria? perguntou.
Lucano voltou o rosto para o homem e sorriu:
- Sim, senhor.
- Mas que nome Lhe dás, menino, quando rezas?
___
* Senhor, Soberano, Mestre, nome dado a Deus pelos judeus. (N. do T.)
Lucano hesitou. Olhou firme para Diodoro, como que em
súplica.
- Chamo-O Pai respondeu, em voz baixa.
Diodoro estava estupefato, apanhado que fora de surpresa.
Ninguém chamara jamais Pai a qualquer dos deuses. Aquilo era ridículo.
Seria afrontar os deuses, dirigir-se-lhe o homem insignificante de
maneira tão familiar. Se aquele menino falava assim ao Deus
Desconhecido, quem sabia se, em Sua cólera divina, Ele não golpearia o objeto
de tais preces? Rúbria!
Diodoro disse, severamente:
- Homem algum, nem mesmo os filhos dos deuses, jamais
ousaram chamar Pai a um deus. É ultrajante. E verdade que muitos
deuses têm filhos e filhas através de homens e mulheres mortais, mas
mesmo assim...
- Senhor, tu falas colericamente disse Lucano, não com voz
de medo ou servilismo, mas com a voz arrependida de quem ofendeu
sem o desejar e pede perdão. - O Deus Desconhecido não se zanga
quando um de Seus filhos chama-O Pai. Ele fica satisfeito.
- Mas como sabes isso, menino?
- Eu sei em meu coração. E assim, quando eu O chamo Pai e
peço-Lhe que cure Rúbria, sei que Ele ouve delicadamente e vai curá-la,
porque Ele a ama.
Um deus delicado. Isso era absurdo. Os deuses não eram
delicados. Tinham zelo de sua honra, eram vingativos, distantes e
poderosos. Diodoro fixou os olhos em Lucano, tomando uma nota mental
no sentido de dizer a Enéias que castigasse seu presunçoso filho. As
palavras de fria censura já estavam em seus lábios quando a lua
iluminou em cheio o rosto de Lucano, que se tornou soberbamente
radioso.
Diodoro, então, lembrou-se do que aquele menino dissera: "Ele
a ama." Os deuses não "amam" os homens. Pedem adoração e
sacrifíCiOS aos homens, mas o homem, como tal, é uma coisa sem valor para
os deuses.
"Ele a ama." Poderia o Deus Desconhecido ter como um de Seus
atributos a qualidade de amar os homens? Oh! Que absurdo! Que
presunção! E que estava fazendo ele, Diodoro, ali, ao luar,
conversando com uma criança, com o filho de um infeliz liberto como um
homem da nobreza pode conversar com seu igual?
Diodoro levantou-se bruscamente, num forte e flexível movimento.
32 33
- Vamos, menino, é tarde, eu te levarei para junto de teus pais.
Ficou espantado com suas próprias palavras. Que lhe significava
aquela criança, o filho de Enéias? Que importava se ele encontrasse
ou não o seu caminho, ou, errasse pela escuridão até o amanhecer?
Mas aquele era o filho de Iris, e imediatamente Diodoro desejou ver
sua antiga companheira de brinquedos. Havia também perigo na
distância embalsamada, mas ameaçadora, que corria entre a casa-grande
e as menores.
Lucano levantou-se e, ao luar, Diodoro viu que o menino sorria
timidamente.
- Senhor, quererás levar esta pedra para Rúbria e colocá-la
junto do travesseiro dela, esta noite, pois que parte do Deus
Desconhecido está nela?
A pedra, a pedra dotada de sentidos. Pulsava ela realmente em sua
mão, pensou Diodoro, como lento e meditativo coração, cheio de
mistério? De repente, ele sentiu que já não tinha medo da pedra.
Disse consigo mesmo, com certo acanhamento: É uma coisa bonita e nada
comum, e pode divertir a pequena Rúbria, que gosta de coisas
estranhas. Colocou a pedra na bolsa que pendia de seu cinturão de couro.
Mas Lucano lhe estava oferecendo uma pequena sacola. Diodoro
tomou-a. Dela emanava selvagem e intenso odor.
- São ervas disse Lucano. - Eu as apanhei hoje nos
campos, como se assim me tivessem indicado. Senhor, manda um escravo
as pôr de infusão em vinho quente, e faze Rúbria beber a mistura,
pois sua dor passará.
- Ervas! exclamou Diodoro. - Criança, como podes saber
se algumas delas não são venenosas?
- Não são venenosas, senhor. Para ter certeza, entretanto, eu
próprio comi uma porção, há algumas horas, e a dor de cabeça que
estava sentindo desapareceu.
Diodoro estava intrigado. Levou a mão rude ao queixo de Lucano
e ergueu-lhe a cabeça, a fim de estudar-lhe o rosto, meio a rir. O
menino, porém, falara com autoridade. Dissera: "como se assim me
tivessem indicado". Era possível que o próprio Apolo, que poderia
possuir um rosto assim, uma testa assm, límpida, tivesse instruído o
menino diretamente. Não podia haver mal algum em fazer o que Lucano
lhe sugeria e Diodoro meteu a sacola em sua bolsa.
- Ela beberá a mistura à meia-noite, hora em que
habitualmente acorda prometeu.
Tomou a mão de Lucano na sua, como faz um pai, e juntos
caminharam através da meia-luz dourada, mantendo-se cuidadosamente
no caminho de terra, receosos das cobras. Diodoro pensava: Este não
é um menino comum, mas um menino inteligente, desassomhrado e
pensador. Não há dúvida que está sendo preparado por Enéias para
seguir-lhe os passos como guarda-livros. De certa forma aquilo
contrariava Diodoro.
- És muito jovem, menino disse ele -, mas com certeza
pensas freqüentemente em ti próprio como adulto. Quais são os teus
projetos?
- Encontrar o Deus Desconhecido, senhor, e servi-Lo -
respondeu Lucano. - Posso servir melhor o homem como médico, que
é o meu caro desejo. Estive no porto e vi os homens doentes nos
navios, e os moribundos que vêm de toda parte do mundo. Rezei para
poder ajudá-los. Conheço os filósofos e médicos da Grécia, e seus
livros de remédios para os males dos homens, tanto mentais como
físicos, muitos dos quais eles receberam dos egípcios. E visitei muitas
vezes as casas dos médicos de Antioquia, e eles não me expulsaram,
antes agradaram-me e explicaram-me muitas coisas. Estou
aprendendo outras línguas, inclusive o egípcio e o aramaico, de forma a poder
conversar com os sofredores em suas próprias línguas.
Diodoro sentia-se vastamente espantado. Apertou a mão de Lucano
e disse, pensativamente.
- Há uma grande escola de medicina em Alexandria, da qual
ouvi falar muito.
- Irei para lá falou Lucano, simplesmente. - Também eu,
senhor, ouvi falar dela, pois os médicos de Antioquia referem-se
àquela escola com reverência. Vai custar-me muito dinheiro, mas Deus
proverá.
- Com que então temos um Deus que não só deixa de possuir
um nome ou atributos compreensíveis, ou rosto, ou forma, que está
em toda parte simultaneamente, mas é também banqueiro! disse
Diodoro, com um sorriso esquisito. - Achas que ele exigirá juros
também, meu filho?
- Com toda a certeza respondeu o menino, com voz grave e
cheia de segurança. - Toda a minha vida, toda a minha devoção.
Diodoro pensou que se um homem lhe falasse assim ele o
acreditaria louco. Ele, Diodoro, ouvira muitas vezes os judeus fàlando dos
homens sábios, nos portões, que nada pensavam e nada falavam a não
34 35
ser em seu Deus. Mas os judeus eram um povo que ninguém poderia
compreender nunca, e ainda menos do que todos um romano,
embora César Augusto, sendo homem tolerante e além disso supersticioso,
tivesse ordenado que em Roma o Deus dos judeus recebesse alguma
recognição, quando mais não fosse, para persuadi-Lo e amolecer os
pescoços duros e o sombrio ressentimento de Seu povo contra os
romanos, e assim tornar menos difícil o governá-los. Diodoro começou a
rir consigo mesmo, docemente. Lembrava-se de que, como jovem
tribuno, oferecera-se para colocar uma estátua do Deus judeu no
templo romano de Jerusalém, e quanto o grão-sacerdote ficara
horrorizado e como erguera as mãos, sacudindo-as violentamente no ar, como
se implorasse a seu Deus que fulminasse o tribuno de morte, ou o
amaldiçoasse silenciosamente. Diodoro, estupefato, percebera que
incorrera em um erro imperdoável, mas como e por quê, jamais pudera
compreender, deduzindo das abafadas imprecações do sacerdote.
Tentara argumentar com o santo homem: como era possível que uma
estátua do Deus judeu num templo romano O ofendesse, e por que
desprezaria ela a honraria do romano? O grão-sacerdote apenas arrancara
a barba e rasgara as vestes, olhando para Diodoro com olhos tão
terríveis que o pobre jovem tribuno despedira-se rapidamente. Aquilo
confirmara sua crença hesitante de que os judeus eram loucos,
especialmente seus sacerdotes.
Lucano, porém, era grego, não judeu, embora falasse em devotar
sua vida ao Deus Desconhecido do mesmo modo que os judeus
falavam em devotar as suas ao seu próprio Deus. Diodoro recordava-se
como nas ruas de Jerusalém vira homens chamados rabis, seguidos de
multidões humildes, que ouviam com ansiedade as suas palavras de
sabedoria. Havia alguns com fama de milagreiros, e aquilo interessara
Diodoro, que acreditava fervorosamente em milagres divinos. Mas não
acreditou naqueles homens, porque quase sempre andavam
descalços, andrajosos e eram desesperadamente pobres, apesar de seus olhos
fulgurantes e de suas palavras estranhas e incompreensíveis. Andando
em direção a Lucano, ele balançou a cabeça.
- Devias visitar o templo dos judeus em Antioquia disse
divertido.
- Eu o visito, senhor respondeu, serenamente, Lucano.
- Sim! exclamou Diodoro, afastando um galho de arbUStO
espinhoso do menino, como teria feito com sua filha. - E o Deus
deles é o Deus Desconhecido?
- Sim, senhor, estou certo de que é.
- Mas Ele não ama todos os homens. Ama apenas os judeus.
- Ele ama todos os homens disse Lucano.
- Estás enganado, rapaz. Ofereci-me para colocar uma estátua
Dele no templo romano de Jerusalém, e a estátua foi recusada. -
Diodoro riu e continuou: - Os judeus não fazem objeção a que
entres em seu templo? Ah! Agora recordo. Em Jerusalém o templo tinha
um lugar chamado o Pátio dos Gentios. Mas eles não podiam entrar
no santuário interno dos judeus.
- Eu presto culto no Pátio dos Gentios, na sinagoga de Antioquia
- disse Lucano.
Que menino estranho! Mas Diodoro começava a pensar na escola
de medicina de Alexandria. E disse:
- Penso que o Deus Desconhecido arranjou uma forma de
poderes estudar medicina, Lucano.
E riu de novo, penosamen te. Era homem justo, às vezes caridoso,
mas, tal como os antigos romanos, prudente no que se referia a
dinheiro, acreditando que duas moedas de ouro deviam voltar para
um homem acompanhadas de duas outras.
Tinham agora alcançado uma clareira diante dos jardins da casa
de Enéias. Altas palmeiras estendiam-se contra a lua, e o ar da noite
estava cheio dos perfumes das flores. No meio delas levantava-se,
brilhante, a casa branca do guarda-livros, pequena, baixa e compacta,
marcada com as sombras das palmeiras. Uma luz fulgurava, vinda da
porta aberta, e quando Diodoro e Lucano se aproximaram dela o
portal recortou a figura bem modelada de uma jovem mulher, cujos
cabelos soltos se tornaram uma nuvem dourada contra o resplendor de luz
que vinha por trás dela. Estava vestida com o traje branco, simples, da
mulher que passa seu tempo em casa, e chamou ansiosa:
- Lucano? És tu, querido?
- Sou eu, mãe respondeu Lucano.
Íris desceu para o relvado, depois parou, vendo quem estava
acompanhando seu filho.
Meus cumprimentos, Iris, disse Diodoro, a voz grossa e
baixa em sua garganta. Pensava nas palavras de Homero: "Filha dos
deuses, divinamente alta e divinamente loura."
- Meus cumprimentos, nobre Diodoro respondeu Íris,
hesitante. Ele se dirigira a ela com a delicadeza com que um homem se
dirige à esposa de um de seus pares, e ainda assim a delicadeza che-
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gou-lhe ansiosamente, com uma tonalidade de esperança. Por uma
razão qualquer os olhos de Íris arderam com as lágrimas e ela recordou
o companheiro de brinquedos de sua infancia. Fora um rapaz
candido e corajoso, tão verdadeiro e bom, tão honrado, tão cheio de
afeição por ela. A moça não o vira, a não ser de longe, desde muito
tempo e, a partir do momento em que se casara com Euéias, ele mal
tomara conhecimento de sua existência.
Enéias apareceu no limiar da porta, e depois desceu os degraus.
Vendo Diodoro, inclinou-se:
- Bem-vindo sejas ao nosso pobre lar, senhor disse ele, com
a voz trêmula de um homem que se sente dominado.
- Isto não é uma casa "pobre" falou Diodoro,
irascivelmente. - Era a casa do antigo legado de Antioquia, antes que a
minha casa fosse construída, e ele não a considerava sem valor.
Empurrou Lucano em direção de seu pai, e disse em voz áspera:
- Trouxe teu menino para casa. Estava em nosso jardim e
poderia ser mordido por uma cobra ou por um escorpião, depois que o sol
desceu.
Enéias era todo confusão e abjeto medo. Ofendera Diodoro e a
cólera dele voltava-se agora contra seu filho.
- Não te parece importante que tua mãe tenha estado aflita por
tua causa, pronta para ir procurar-te pela escuridão? Não te parece
importante teres afrontado o nobre tribuno.
- Ele não me afrontou interrompeu Diodoro. A luz que
saía da porta vinha de esguelha sobre o rosto bonito e desconsolado
de Íris. Diodoro desejava poder colocar no ombro dela a mão
consoladora. - A pequena Rúbria é sua companheira de
brinquedos. Encontrei-o no jardim rezando embaixo das janelas dela, pois a
menina está doente. Tenho motivo para lhe ser grato. - Olhou para
Íris e viu que ela começara a sorrir, em agradecido alivio. E falou ao
trêmulo Enéias, lutando para manter um tom mais natural: - Um
menino bem pouco comum, este teu, Enéias, e foi um privilégio
conversar com ele. - Hesitou: - Tenho a garganta seca. Posso
tomar um copo de vinho?
Enéias estava novamente estupefato. Mal podia acreditar em seus
próprios ouvidos. Olhou para Lucano com respeito. Aquele era O
filho do qual o tribuno falara! E era por causa daquele filho que O
tribuno condescendera em pedir vinho na casa de seu liberto. Enéias
sentia-se estonteado. Pôde apenas murmurar algo, e afastar-se para
um lado, até Diodoro entrar em sua casa. Olhou rápida e
estupidamente para Íris, mas ela passara o braço no pescoço do filho e o levava
para a frente. Enéias seguiu-os, os joelhos trêmulos. O tribuno
trouxera o menino para casa, quando lhe bastaria expulsá-lo de seus
jardins ou, se estivesse bondosamente disposto, mandar um escravo com ele,
pela escuridão!
Diodoro recuperara seu bom humor. Ficou de pé na pequena mas
de forma alguma humilde sala e examinou-a expansivamente. Sobre a
mesa havia flores numa vasilha e espalhadas em vasos pelo soalho, que
era de mármore. As portas que davam para as cozinhas e os quartos
tinham cortinas de lã de alegres coloridos, drapejando à brisa da
noite, que entrava pelas janelas pequenas e pela porta. Aqui e ali Diodoro
reconheceu, entre o mobiliário deixado pelo antigo administrador,
cadeiras e mesas, da casa de seu pai, dadas a Enéias quando de seu
casamento com Íris. Diodoro olhou, em particular e com prazer, para
uma cadeira. Era de ébano, marchetada de marfim, e fora uma das
prediletas de seu pai. Havia uma pequena mesa de limoeiro precioso,
reluzindo à luz da lâmpada, e que pertencera a Antônia. Sobre ela
ficava a lâmpada de prata, com sua Língua brilhante de chama.
- O escravo que designei para ti faz bem o seu trabalho
disse Diodoro, cada vez mais satisfeito. Sentou-se na cadeira de ébano e
estendeu as pernas morenas e muscolosas diante de si. com toda a
atitude natural de um soldado. E Enéias, de pé diante dele, incerto,
formalmente vestido com comprido traje branco, ele, o guarda-livros,
parecia mais o patrício, com suas feições finas, e face e cabeça estreitas,
do que o franco tribuno sem-cerimônia metido em sua túnica
ocasional, curta. Ora essa, pensou Diodoro, a pobre criatura até mesmo
possui uma toga para usar no seio secreto da família.
- Não tenho vinho digno de vós, senhor disse Enéias.
Íris, porém, deslizou graciosamente para trás da cortina e trouxe uma bilha
e duas taças de prata, que Diodoro também reconheceu como de sua
infância. Movendo-se como adorável estátua animada, colocou os
copos na mesa de limoeiro e serviu o vinho. A luz rosada refletiu em seu
rosto, vindo do liquido, e Diodoro pensou numa donzela feita de
mármore que a luz do poente banhasse. Desejava tocar seu cabelo
miraculoso, que com tanta facilidade tocara na meninice. Podia sentir
de novo seu sedoso comprimento, e todo ele era desejo. Pensou que
Sua mãe, Antônia, devia ter se oposto com mais vigor ao casamento de
Íris com Enéias.
38 39
- Não sou especialista em vinhos, graças aos deuses disse
Diodoro. - Para mim, uma vindima ou outra são o mesmo.
Estendeu a mão para a taça, e Íris deu-lha com seu sorriso
inefável, pois Enéias ainda estava estonteado demais para ter movimentos
voluntários.
- Que é isso, não vai beber comigo? perguntou Diodoro em
tom enfático.
Enéias agarrou a taça e algum vinho derramou-se sobre seus
dedos trêmulos.
Lucano, obedecendo a um leve gesto materno, inclinou-se diante
de Diodoro e, respeitosamente, desejou-lhe boa noite. O tribuno deu
um sorriso grave e o menino deixou a sala. Diodoro fez uma pequena
libação aos deuses, e Enéias, ainda muito pálido, também fez uma
libação. O tribuno ficou a observar enquanto o grego derramava mais
vinho, seus lábios movendo-se reverentemente.
- Ah! Sim disse Diodoro. - O Deus Desconhecido.
- É um costume grego falou Enéias, como quem se desculpa.
- Excelente costume disse Diodoro, e seu rosto altivo
tornou-se quase afável. Voltou a cabeça e viu que Iris acompanhara o
filho. Sentiu-se profundamente desapontado mas, como um "antigo"
romano, aprovou isso também.
- Dize-me, Enéias falou -, estou interessado por esse teu
filho. Quais são as tuas esperanças para o futuro dele?
- Posso sentar-me, nobre Diodoro? perguntou Enéias. -
Sentou-se rigidamente numa cadeira, a alguma distância de seu
hóspede. Pensou nas palavras de Diodoro e tornou a ficar estupefato e
submisso diante daquela condescendência. - Eu tinha pensado,
senhor, que ele me seguiria a seu serviço.
- Tratar de livros e de registros, esse menino? perguntou
Diodoro, zombeteiramente. - Ah! Não! Ele não te fez confidências
com referência ao desejo que tem de ser médico?
Enéias, ainda mais pálido, apenas continuou olhando para o
tribuno. Com certeza, o menino dissera aquilo a eie e Íris, mas Enéias
repelira severamente o pensamento presunçoso, e sentira-se ofendido.
- Vejo que sim disse Diodoro, com um movimento
afirmativo de cabeça. bem, meu bom Enéias, então ele sera um doutor. -
Tornou a hesitar, melancolicamente: - Eu próprio o mandarei para a
escola de medicina em Alexandria, quando tiver mais idade. Nesse
meio tempo, ele tomará lições com o preceptor de Rúbria.
Lágrimas correram dos olhos de Enéias. Antes que Diodoro
pudesse mover-Se, ele saltara sobre seus pés e prostrara-se diante das
sandálias empoeiradas do tribuno. Não conseguia falar, sequer, mas
apenas murmurar estonteadamente sua gratidão e incredulidade.
- Vamos, vamos, homem disse-lhe Diodoro, que nunca
tolerara que lhe agradecessem alguma coisa. - Não tenho filho meu, e
esse é o rapaz que eu devia ter tido. Será médico. Levanta-te, Enéias.
Não és escravo. E esqueceste que também tomaste tuas lições comigo?
Ele sabia exatamente quais eram as pretensões de Enéias, e como
ele considerava seu senhor um bárbaro, e a si próprio um filósofo
exilado de um país que jamais vira; e sabia que mentalidade
pequena, embora honesta, aquele homem possuía. Jamais chegaria Enéias
a esquecer que fora escravo? Diodoro olhava, escarnecedoramente,
o homem vestido de branco que tinha a seus pés. Moveu-os, como
que temeroso de que Enéias quisesse beijá-lo em seus extremos de
maravilha e gratidão, e isso, vindo do marido de Iris, ser-lhe-ia
insuportável.
Enéias sentou-se de novo em sua cadeira, enxugando as lágrimas.
O tribuno desviou os olhos para o lado, e seu olhar tombou sobre um
rolo de papel. Viu que continha o tratado de Aristóteles sobre
Democracia e Aristocracia. Sentiu-se imediatamente interessado. E disse:
- Entregaram-me hoje alguns dos livros de um filósofo, Filo. Há
muita excitação em torno dele, e eu desejava compará-lo com Aristóteles.
Durante um momento a esperança acordou no tribuno solitário.
Sabia, pelas rápidas conversas que antes mantivera com Enéias, que o
liberto, embora pudesse citar com exatidão grandes trechos de Platão
e Aristóteles, e em grego, era incapaz de qualquer compreensão sutil.
Ainda assim, Diodoro fitou esperando.
- Filo? murmurou Enéias, com voz fraca. Um esgar de
desdém, totalmente involuntário, repuxou-lhe a boca. Então, temeroso
de haver novamente ofendido Diodoro, apressou-se a dizer: - Deve
ser um grande filósofo, com certeza.
Diodoro encolheu os ombros.
- Há gente demais em Roma a aclamá-lo. Se um homem pode
Ser julgado pelos inimigos que faz, também pode ser julgado pelos
indivíduos que o louvam. Filo, ainda tão jovem, jã recebeu honrarias
demais, para que valha grande coisa. - Calou-se. Sob certos
aspectos, César Augusto se parecia aos esquecidos "velhos" romanos, pois
que se dizia ser ele um homem moral comparado aos que se aglomera-
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vam em sua corte. Tentava respeitar o Senado, e se não podia respeitar
os senadores, a culpa não era dele, continuou Diodoro,
que o próprio César tem conversado muito com Filo. Bem,
depressa saberei se Filo é merecedor de uma tal consideração.
Cruzou os braços curtos, mas sólidos, sobre o peito, e fixou os
olhos em Enéias.
- Aristóteles... prosseguiu, meditativo. - Gosto das suas
Definições. É filósofo superior a Platão, em vários aspectos, porque
Platão, embora julgando-se um realista, ainda assim velava-se em
misticismo. Embora ensinasse que o universal tem existência objetiva,
envolvia-se em poesia apesar de toda a sua República, que, na minha
opinião, é um trabalho etéreo. Que disse Aristóteles de Platão? "Amo
Platão, mas amo ainda mais a verdade."
Enéias, para quem Platão era a própria essência da verdade
revelada, apenas pestanejou. Lutava desesperadamente para seguir Diodoro,
que não acreditava capaz de compreender absolutamente os filósofos
gregos. Não conseguindo encontrar palavras, contentou-se em fazer
solenes movimentos de afirmação com a cabeça.
Diodoro suspirou. Percebia que Enéias não o estava seguindo,
mas, pelo menos, a pobre criatura possuía um remoto conhecimento
das palavras dos filósofos. O tribuno tornou a estender o corpo em sua
cadeira.
- Platão, embora herdasse de Sócrates, seu mestre, a maneira
de definir termos, não tinha realmente consciência da sua verdadeira
conotação, disse Diodoro, inflamando-se à proporção que
desenvolvia o assunto. - Não tinha essa consciência, mas tudo quanto
escreveu e disse foi subjetivo. Aristóteles é o verdadeiro pai da lógica.
O particular absoluto foi o único particular que ele reconheceu. Era
completamente objetivo. - Meditou por um momento, as
sobrancelhas carregadas, e depois continuou: - Platão foi um paradoxo:
exigindo precisão, tropeçou, finalmente, no mar de suas generalidades. É
interessante recordar que Aristóteles foi outrora um soldado, e um
soldado sabe que há aDsolutos, tais como disciplina, honra, obediência,
patriotismo e respeito pela autoridade.
- Evidentemente, há absolutos confirmou Enéias complacente.
- Em nome dos deuses, que viriam a ser esses "absolutos"?
Os olhos ferozes de Diodoro reluziram quase amavelmente,
voltando-se para o seu liberto. Bocejou, bebeu até a última gota de seu
vinho e recomeçou:
- Também é interessante recordar que Aristóteles pertenceu à
fraternidade médica de Asclepíades.* Isso me leva de novo a Lucano.
Penso que ele será um filósofo, além de médico. Não lhe negues o
acesso aos teus preciosos manuscritos, Enéias.
Enéias esqueceu quem era por alguns momentos, e disse, com
orgulho:
- Ele já tem esse acesso. Eu lhe dou lições, pessoalmente,
senhor.
- Muito bem.
Diodoro esticou o corpo e levantou-se. Enéias saltou sobre os pés.
Deus proteja o pequeno dos confusos ensinamentos de seu pai,
pensava Diodoro. Despediu-se amavelmente de Enéias, depois fez seu
solitário caminho de volta a casa, sob o luar que se tornava alvo e forte.
Começou a pensar sombriamente em suas frustrações. O coração doeu-lhe
e ele recordou Iris. Mesmo que desejasse comportar-se como os
suínos imundos da moderna Roma, sabia que tal coisa estava além de
suas possibilidades. Iris, antiga escrava, esposa de um liberto, não
ousaria negar-se-lhe. Se ainda o recordasse com amor ele não poderia
violar tal amor. Além disso, tratava-se de uma virtuosa matrona.
Olhara para ele, naquela noite, com olhos úmidos e sorrira-lhe como lhe
seria impossível sorrir para o marido, sem dúvida. Diodoro pensava
na criada de quarto de sua mãe com ternura reverente, o que era algo
tão diferente de seu amor por Aurélia que ele não poderia acusar-se de
licenciosidade mesmo em pensamento. Comparava Iris com Diana,2 a
inviolada, a eternamente pura.
Olhou para a lua e, em sua profunda simplicidade, implorou à
deusa que protegesse aquela grega que ele tinha amado e que ainda
amava. Sentiu com aquilo algum conforto.
Não se lembrou do menino, de Lucano, até o momento em que
entrou em casa e encontrou Aurélia tomada de ansiedade pouco
comum nela. A pequena Rúbria havia acordado, e gemia de dor,
chamando pelo pai.
___
* Família ou corporação de médicos gregos, que pretendem descender de
Asclénio.
2 Também chamada Artemis, pelos gregos, filha de júpiter e de Latona,
obteve de seu pai a graça de jamais se casar e foi feita rainha dos
bosques. Sua ocupação principal era a caça. (Notas do Tradutor)
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Juntos, de mãos dadas, subiram a escadaria e entraram no quarto da
menina. Duas lâmpadas ardiam num pequeno cômodo sobressalente,
e aumentavam o calor que ali se estagnava. Diodoro sentiu-se abafado,
quase sufocado, depois do frio ar noturno que encontrara lá fora.
Havia ali um estranho e desagradável odor. O tribuno olhou para a
janelinha que ficava bem alto, na parede branca, sobre a qual sombras
grotescas dançavam, pois que o médico escravo da casa, Keptah, e a
ama, rondavam o leito. As cortinas de seda tinham sido corridas
pesadamente sobre a janela, e Diodoro caminhou instantaneamente
para elas, abrindo-as rudemente.
- Ufa! exclamou ele. - Isto acaba asfixiando a menina! E
de onde vem este mau cheiro que estou sentindo?
As faces rubicundas de Aurélia empalideceram. Como obediente
matrona, raramente censurava o marido, muito menos na presença de
escravos. Disse, apenas:
- Diodoro, o ar da noite é perigoso nesta época do ano. Eu
mandei que fechassem a janela.
Mas Diodoro estava respirando profundamente a frescura do ar
novo. Apanhou as cortinas e abanou-as, impelindo assim para o meio
do quarto a brisa que entrava.
- Se a menina já não está asfixiada, isto a fará reviver disse.
Fez sinal à ama para que continuasse sacudindo as cortinas e ela, com
os olhos dilatados de susto, tratou alvoroçadamente de obedecer.
Diodoro aproximou-se da cama. Rúbria sorriu-lhe, lá de seu
travesseiro. Mas um sorriso doloroso, e a menina sacudia a cabeça escura,
inquieta, estendendo a mãozinha para o pai. Ele a tomou, fortemente,
entre suas firmes palmas morenas, e embora seu coração alterasse o
ritmo ao verificar aquele calor, disse, resolutamente: - O que é que
há, minha filha? - Seus olhos perscrutavam o rostinho dela,
notando-lhe os contornos definhados, os lábios quentes e secos. A febre
estava consumindo aquela criatura, a mais querida entre todas. Sob
sua carne enrubescida, o tom cinzento da morte se insinuava, comO
furtiva maré sob águas avermelhadas pelo sol. O terror torceu o
coração de Diodoro. comprimindo suas aurículas e trazendo com aquilO
uma angústia puramente física.
Keptah dizia, mansamente:
- Senhor, esfreguei um linimento nos membros da menina,
gordura de abutre, misturada com vesícula biliar de abutre. Por isso o
cheiro é tão irritante. Mas aprendi que este é o tratamento mais eficaz
para juntas e tendões doloridos.
Diodoro ouviu a respiração lenta e difícil que vinha dos
pulmõezinhos de Rúbria. Via, à luz vacilante das lâmpadas, o pulsar de
artérias torturadas na garganta da menina e em suas têmporas. Ainda
segurando a mão dela, colocou a mão direita sobre o peito da filha. A
vibração do coração foi sentida, rápida e frenética. A doença
misteriosa que assim afligia os tenros tendões de seu corpo alcançara o coração
inocente e o estava estrangulando.
Diodoro curvou-se sobre a menina, que, pequena como era,
percebendo o medo do pai e desejando apenas tranqüilizá-lo, sussurrou
fracamente:
- Estou muito melhor, meu pai. A dor não é tão forte agora.
O pai afagou-lhe os longos cabelos pretos que se espalhavam sobre
o travesseiro, com dedos trêmulos: eles estavam úmidos de suor. Afagou
a fàce ardente, a curva delicada do pescoço. E disse consigo mesmo:
Que eu morra, mas que minha filha seja poupada. Torcei meu corpo e
atirai-o no pó, mas que minha filha seja poupada. Para mim o fogo e a
espada de todas as maldições dos deuses, mas que minha filha seja
poupada. Um grande e terrífico silêncio tombou sobre ele.
O médico estava misturando uma poção num cálice, e um
momento depois chegava-o aos lábios de Rúbria. Ela, porém, teve
náuseas. Diodoro fez sinal ao médico para que se afastasse e tomou o
cálice na mão. Obedientemente, então, e controlando as náuseas, a
menina bebeu, lentamente, gota a gota, parando com freqüência para
respirar em haustos. Aurélia começou a fazer massagem nas partes
inchadas das perninhas e dos bracinhos bonitos, pacientemente, com
firmeza, e Diodoro observava-a, enquanto mantinha o cálice junto dos
lábios da filha. Quanto era calma a sua esposa! Se sentia terror, não o
revelara. Rúbria agora suspirava, sob o tratamento que lhe dava a mãe,
e os espasmos tornavam-se menos freqüentes. A ama continuava a abanar
as cortinas, e Keptah movera-se, afastando-se do leito, inperscrutável
e Silencioso.
Aurélia mergulhava sem cessar os dedos na vasilha de prata do
linimento à proporção que ia fazendo a massagem. Seus dedos curtos
e brancos tinham força e propósito. Ela parecia saber quando fazer
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pressão, quando erguer delicadamente a mão. Era como alguém que,
confiante e destemida, se movesse com firmeza contra um inimigo. O
corpo de Rúbria afrouxou a rigidez, polegada por polegada, tornou-se
menos tenso de agonia, menos rijo de sofrimento.
- Ah! Ah! exclamava Aurélia, em voz baixa e confortadora.
- Nós vamos mandar isto embora. Não vamos?
Os músculos de seus braços, de suas mãos gorduchas, erguiam-se
e abaixavam-se visivelmente, e a luz das lâmpadas ondulava sobre eles.
Ela combatia, mas não havia sinais de combate em seu rosto plácido,
em seus olhos serenos e sorridentes. Minha Aurélia pode não ter
muita imaginação, mas é uma mulher e a tenacidade está nas mulheres
como a força está no exército, pensou Diodoro, com humildade nova.
Rúbria agarrava-se à mão do pai, mas voltava-se inconscientemente
para sua mãe, como o faz um recém-nascido. O vestido de Aurélia era
decotado, e Diodoro podia ver o rico intumescimento de seu peito,
aquele peito imperturbado e sem agitação. Reluzia de suor, mas não
havia respiração ansiosa a erguê-lo e baixá-lo.
Sem interromper sua tarefa, Aurélia levantou os olhos para o
marido, e seu sorriso era cheio de amor. Seus olhos castanhos diziam-lhe:
Eu salvarei esta pequenina para ti. Não te tortures, meu querido. Não
havia ciúmes em seu olhar. O que importava era apenas que a Diodoro
fosse poupado um desgosto esmagador. As faces rechonchudas de
Aurélia luziam com seu calmo esforço e seus lábios cheios curvavam-se.
Tinha soltado os cabelos para a noite e eles derramavam-se como
negra cascata por sobre seus jovens ombros rotundos.
O medo de Diodoro, agora, diminuiu. Voltou-se para Keptah, o
médico. Tratava com muita atenção aquele escravo, e emprestava-o
com freqüência a seus amigos quando estes adoeciam. Prisco o
mandara para a grande universidade de Alexandria, reconhecendo muito
cedo que o rapaz tinha talento para a medicina. O pai de Diodoro
gostava dele como pessoa e fizera Diodoro prometer que quando Keptah
alcançasse os quarenta e cinco anos de idade seria libertado e
receberia ouro bastante para garantir-lhe a segurança. Diodoro tinha a
intenção de cumprir tal promessa. mas, embora tivesse respeito pelo escravo
como médico, não gostava dele como homem. Em Diodoro não havia
paciência para o sutil, o ambíguo, o secretamente sorridente, o
sombriamente enigmático, o suavemente cético e silencioso.
Pois Keptah, aos quarenta anos, era tudo isso. Jamais alguém
soUbera qual a sua origem racial, mas havia algo de egípcio em seu rostO
magro, tão remoto, misterioso e moreno, com seu nariz cinzelado,
adunco, com seus olhos oblíquos e secretos, sua boca de delgado
recorte. Seu cabelo, tão curto quanto o de Diodoro, parecia pintado
com pincel negro sobre um crânio comprido e frágil. Era alto, quase
descarnado, e sob suas vestes os ombros ossudos mostravam-se largos.
Tinha mãos morenas, longas e flexíveis, com unhas pálidas e juntas
grandes. Diodoro acreditava que aquelas juntas revelavam o filósofo,
mas se Keptah tinha filosofias, ocultas e místicas, que Diodoro
gostaria de descobrir, furtava-se agilmente às sondagens de seu senhor:
- Não sei, senhor murmurava com sua voz macia e de acento
curioso. - Não passo de um escravo.
Aquela altaneira paródia de humildade jamais deixava de irritar o
tribuno, intelectualmente faminto como estava e que se sentia
repelido como soldado rude e estúpido. Diodoro suspeitava, também, que
Keptah ria-se dele. Não se podia negar, entretanto, que se tratava de
homem sensato e grande médico.
Diodoro, olhando agora para ele, que estava de pé ali ao lado mas
de certa forma ausente, lembrou-se de um acontecimento estranho
que se passara naquela casa havia apenas alguns meses.
O vigilante do pavilhão dos escravos estivera conmentorando seu
aniversário naquele pavilhão. Diodoro, bom senhor que era e
reconhecedor dos servos fiéis, dera ordens para que excelente comida
e vinho de sua mesa fossem usados naquela noite. Como presente
pessoal, dera ao capataz uma bolsa de moedas de ouro. Não houvera
restrições para as comemorações e assim Diodoro, que ia abrindo
caminho lentamente, mas com segurança através de um obscuro tratado
sobre ética, pusera de lado o pergaminho e franzira as sobrancelhas.
Em sua biblioteca tudo era silêncio à luz da lâmpada, mas o tumulto
da instalação dos escravos fazia-se clamor ruidoso no ar tépido. Diodoro,
então, sorrira, num esforço de indulgência. Teodoro, um velho, não
teria muitas oportunidades para a hilaridade e os festejos. Que as
moças bonitas dançassem diante dele, e os jovens pinoteassem, e o vinho
corresse, e os ossos fossem atirados no piso de mármore, e a música
batesse Contra as paredes da casa.
O ruído, porém, ia ficando cada vez mais desenfreado. A pequena
Rúbria Seria perturbada e também Aurélia, que se levantava antes de
suas escravas. Havia um limite para tudo, mesmo para festas de
aniversário. Diodoro não confessou a si mesmo que o som de alegre vida
humana sob a lua o arrastava; pois não era um romano austero, que
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detestava a frivolidade? Resmungou consigo mesmo que precisava
deter aquele alarido, mas seu passo ia leve e rápido quando ele se
encaminhou para o pavilhão dos escravos.
As festividades haviam transbordado do pavilhão para o
perfumado pátio dos escravos. Lâmpadas foram colocadas em mesas trazidas
do pavilhão e faiscavam contra as palmeiras, as flores, e as humildes
estátuas em cantos distantes. O luar e a luz das lâmpadas
misturavam-se para mostrar uma cena da desenfreada e devassa festividade.
As moças escravas, particularmente aquelas que tinham deliciosos
corpos rosados, estavam quase nuas, os cabelos saltando em torno
delas, enquanto dançavam de maneira espantosamente licenciosa, os
rostos brilhantes de lascívia, juventude e vinho. Tranças castanhas,
negras e louras saltavam como flâmulas sobre seios despidos e
membros arredondados. Os rapazes, vestidos como faunos e sátiros,
saltavam no meio das moças, em gestos escandalosos. E a música se
esganiçava e erguia-se, dançava e ria, incitava, seduzia e guinchava.
Refestelado como o próprio amo num macio divã, Teodoro
observava tudo com alegria e impotente sensualidade, enquanto sua cabeça
branca marcava o ritmo da música, os dedos retorcidos estalando o
compasso.
A fragrância das flores, das ervas, do vinho, do suor, das carnes
assadas e quentes, bem como do pão, fazia-se um nevoeiro no ar. As
lâmpadas, elas próprias como que inspiradas, ardiam com brilho
maior, e a luz e a sombra perseguiam-se como dardos embriagados, através
do pátio. Diodoro ficou aterrado. Naquela casa tão correta e decorosa,
como haviam aprendido as moças e rapazes tais danças vergonhosaS,
tais gestos licenciosos, tais canções, tais gritos obscenos? Era um
bacanal! Tal coisa não devia ser permitida! Metido nas sombras
profundas, o tribuno sentiu-se corar. Precisava ter uma conversa com
Aurélia, na manhã seguinte. Mas, com toda a certeza, Aurélia também
devia estar ouvindo todo aquele barulho. Por que não chamara uma
escrava, severamente, e não dera ordem para que se pusesse fim em
tudo aquilo?
Hesitou. Teodoro estava agora cantando com sua voz rachada e
trêmula. Tinha começado a bater palmas. Para estupefação de DiodorO,
o velho incitava as moças e os rapazes para fantasias ainda mais
selvagens, com frases que seu amo nem sequer acreditaria que ele
conhecesse. Tais palavras, pelos deuses!
Mais habituado, agora, à escuridão, à luz das lâmpadas e ao
luar, Diodoro correu os olhos pela cena. Através do pátio viu um
movimento confuso, depois o brilho de um traje branco. Reconheceu a figura
alta e majestosa de Keptah, o médico. Diodoro ficou ainda mais
estupefato. Keptah jamais se reunia aos outros escravos. Não obstante, lá
estava ele também observando, como Diodoro. Também ele devia
sentir-se solitário.
Subitamente, Keptah saiu da sombra, revelando-se em seu traje
branco e longo de médico, ereto, e ainda incompreensível. A luz da
lâmpada brilhou por inteiro sobre seu rosto, e Diodoro mal o
reconheceu, tão estranho estava, tão cintilante, tão secreto, e tão contido.
Keptah ficou ali a observar os corpos saltitantes, as pernas e braços
enlaçados, os cabelos revoltos, o ritmo da carne quente, o jubiloso
abandono da juventude voluptuosa e ébria. Os pés dançantes
rodopiavam e rodopiavam, aproximando-se dele cada vez mais. As vezes
sua figura era obscurecida pelas moças e depois elas tornavam a
recuar, aproximavam-se e afastavam-se, sempre dançando, rapazes e
meninos seguindo em perfeito ritmo, as mãos agarrando-se e avançando
para seios e braços amorosos, ou atirando os cabelos para cima. Keptah,
porém, não se movia nem recuava. Começava a sorrir e, vendo aquele
sorriso, Diodoro franziu as sobrancelhas. A luz no rosto de Keptah
cintilou.
Então, Keptah levantou a mão direita. Se pensa que vai detê-los,
é louco, pensou Diodoro. Só um corisco produziria efeito.
Keptah manteve a mão erguida, e Diodoro podia ver a palma
rasa e trigueira. Não era um gesto de comando. O polegar dobrava-se
para a palma de forma curiosa, e os dedos afastavam-se. O tribuno
estava tão absorvido observando seu médico que só alguns
momentos depois teve consciência de que o mais profundo silêncio havia
tombado ali. Mesmo os músicos tinham cessado de tocar sua música
Selvagem.
Diodoro teve um sobressalto. Olhou ao seu redor, incrédulo, e
então a estupefação o dominou. Os dançarinos tinham se detido em
POsição de dança. Os alaudistas, flautistas e harpistas como que se
haviam congelado, as mãos imóveis no ar. A cabeça de Teodoro tombara
sobre o peito de ancião. Havia agora apenas o mais profundo
silêncio no pátio, exceto pelo silvo das lâmpadas, o chilro dos insetos
noturnos, os gritos distantes dos pássaros, o remoto ladrido de um
cão. O luar banhava o pátio e as lâmpadas baixavam suas flamas,
morrendo. Os dançarinos estavam ali, pernas erguidas, braços arremessa-
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dos para a frente, rostos brancos e enlevados. Aquilo podia ser uma
cena de um mural, ou um pátio repleto de estátuas, bacanal esculpida
por um artista louco.
Diodoro não podia acreditar no que via. De boca aberta e olhos
fixos, esfregava os olhos e tornava a fixá-los ali. A noite estava muito
quente, mas de repente ele sentiu um frio de morte. Algo farfalhou e
um passo levíssimo se fez sentir. Diodoro deu um salto, subitamente
assustado, e voltou-se. Keptah estava a seu lado, sorrindo sombria e
respeitosamente; depois, curvando-se, murmurou:
- Eles te estavam incomodando, senhor.
Diodoro estremeceu e deu um ou dois passos. Sussurrou:
- Que fizeste?
Os olhos insondáveis contemplaram-no seriamente, mas em suas
profundezas havia uma faísca avermelhada.
- Eu, senhor? disse o médico, levantando as sobrancelhas
oblíquas como que surpreendido por uma infantilidade. - Isto não
é nada. Eu te vi através do pátio e era evidente que estavas
aborrecido. Assim, mandei que esses malucos parassem e eles me ouviram.
- Que fizeste? repetiu Diodoro, e agora, apesar de seu
tremor, a voz saiu-lhe áspera e forte.
Mais uma vez Keptah estudou-lhe o rosto, com zombeteira
surpresa.
- Isto é algo que aprendi como médico, senhor.
Voltou-se um pouco e contemplou a terrível cena diante dele. O
luar, aqui e ali, banhava um jovem seio marmóreo, o movimento
imobilizado de um braço, a curva de um joelho.
- Isto te está alarmando, senhor? perguntou Keptah, como
que espantado. - Mas não é nada.
Diodoro levantou o braço num gesto involuntário de horror e
ameaça.
- Liberta-os imediatamente! exclamou, afastando-se num
recuo do médico, todas as suas superstições a arrepiar-lhe a pele.
- Para o abandono e o ruído, senhor? - Keptah parecia
perplexo. - Logo amanhecerá.
- Liberta-os, maldito! berrou Diodoro. Estava
terrivelmente amedrontado.
- Para mais decoro, talvel? urgia a voz insidiosa, em tom
ansioso.
Diodoro ficou em silêncio. Keptah parecia refletir sobre a
frustração de seu amo. Ergueu então os ombros. Levantou de novo a mão,
murmurando algo para si mesmo.
A cena não se modificou subitamente. Mas, lentamente, os braços
e pernas começaram a se mover, a tombar, relaxados. Os corpos
tornaram-se vivos, embora frouxos. Como que se movendo em sonhos,
cabeças voltaram-se, pés começaram a andar, não na dança, mas em
encantamento. O luar, frio e imóvel, brilhava sobre ombros pesados,
membros entorpecidos. Um por um os escravos deslizaram para fora
do pátio, sem falar, sem se olhar, completamente inconscientes uns
dos outros. Era como que observar uma cena de total exaustão e de
inconsciência animal. Para Diodoro, aquilo era um terrível e
insondável pesadelo.
Agora, o pátio estava vazio. Ficaram somente as lâmpadas, as mesas
cobertas de objetos, as cadeiras vazias. Os instrumentos dos músicos
estavam sobre as pedras, como se ali tivessem sido arremessados em
fuga. As lâmpadas, no último piscar, apagaram-se. A lua desceu
lentamente e as palmeiras farfalharam.
Keptah falou, e pareceu a Diodoro que ambos estiveram ali por
um tempo infinito.
- Eles esquecerão, senhor. Acreditarão que foram dormir
depois de uma noite feliz, de festança e regozijo. - Suspirou: - Como
são felizes, tendo um amo assim indulgente!
As roupas de Keptah tombavam ao longo de seu corpo com pregas
angulosas. O luar ganhava as cavidades fimdas de suas faces,
acentuava as cavernas em torno de sua boca.
- Pensaste que eu era mau, senhor disse ele. - Mas tenho
conhecimento. Há uma lenda antiga que diz que o mal e o
conhecimento são uma coisa só. Não é bom saber. É muito melhor ser um
animal inocente. - Olhava agora para Diodoro, e no lugar de seus
olhos, havia covas de trevas sem fundo. - Mas continuou ele -
quem existe, entre nós, que preferisse não ter conhecimento do bem e
do mal? Não saber é não ser homem. Ou os deuses acrescentou,
ainda mais baixo.
Afastouse, e não houve som em torno dele.
Fora aquilo que ele dissera. Quando Diodoro, pela manhã,
indagou, cautelosamente junto de Teodoro sobre as festividades da noite, o
esccravo responder alegremente:
Graças a ti, senhor, foi uma noite gloriosa! Nunca teus servos
se sentiram mais felizes!
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Dobrou os joelhos, que estalavam, e beijou as mãos de Diodoro.
O sol brilhava em seu rosto murcho.
- Nunca nos esqueceremos disse ele.
Diodoro, então, mandara chamar Keptah, que veio ter com ele
com pés que pareciam deslizar.
- Falaste comigo em bem e mal, na noite passada, e também em
conhecimento disse ele. - Tua linguagem foi muito obscura.
Diodoro fez uma pausa. Fixou os olhos em Keptah, não como
um amo olha para o escravo, mas como um homem olha para
outro.
Estudaste os trabalhos de Aristóteles durante teus anos em
Alexandria. Lembras-te que o sábio falou sobre absolutos. Acreditas
em absolutos?
Keptah não estava perplexo. Sabia que Diodoro pensara
longamente na conversa da noite. Sabia tudo quanto se podia saber sobre o
tribuno.
- Não, senhor, eu não acredito.
- E por quê?
- Porque, senhor, não há absolutos, a não ser Deus.
- Mas Aristóteles era um grande filósofo! Estás tendo a
pretensão de contradizê-lo?
Diodoro voltou-se em sua cadeira, ofendido.
Keptah sorriu, seu sorriso sutil:
- A sabedoria terminou com Aristóteles?
Diodoro franziu as sobrancelhas, mas sentia-se abalado.
- Então, a última palavra ainda não foi dita?
- Não, senhor, ainda não foi dita.
Diodoro assumiu aspecto ainda mais ameaçador.
- Não há absolutos! Não há a última palavra!
Estava desanimado. Já era bastante desagradável que a política
fosse sempre tão instável e a vida tão caprichosa. Mas a filosofia, com
certeza, e filosofia como a de Aristóteles, era uma coisa eterna e
imutável. A que se agarraria um homem num mundo imprevisível, a não ser
na filosofia, na memória de seus pais, nos templos de seus deuses, e na
sabedoria? Levantou os olhos para Keptah e percebeu que seus olhos
eram estranhos e distantes e que seus lábios exangues tinham um
contorno obscuro.
- Dize-me perguntou o tribuno -, que fizeste aos
escravos
na noite passada?
- Apenas uma forma de hipnotismo, senhor respondeu o
médico. - Uma ilusão, isso foi tudo.
- Ilusão de quem?
Diodoro estava encolerizado.
Keptah ergueu delicadamente os ombros.
- Quem sabe, senhor?
Diodoro, irritado, mandara que ele se retirasse. Os pensamentos
que as palavras de Keptah despertaram nele eram demasiadamente
perturbadores e, assim, ele os suprimiu o mais depressa possível. Não
se havia lembrado mais deles, até aquele momento.
E, agora, olhava para Keptah e estava mais convencido do que
nunca de que o escravo o considerava, a ele, o poderoso tribuno,
como um indivíduo simplório. Era simplicidade, então, acreditar na
virtude, no patriotismo, na moralidade, na honra, no dever? Diodoro
suspeitava que para Keptah, o misterioso, tal simplicidade era absur-
da. Mas, com certeza, um homem que não acreditava em absolutos era
um corrupto! Estaria direito que tal homem cuidasse de Rúbria? Mas
quem, em Antioquia, ou mesmo em Roma, era médico tão dotado
quanto Keptah?
Foi então, por uma razão qualquer, para ele desconhecida, que
Diodoro subitamente lembrou-se de Lucano.
Levou sub-repticiamente a mão à bolsa e tateou a pedra e o saqui-
nho de ervas. Viu que Keptah o observava, embora sem demonstrar. E
disse, como estudante tímido:
- Eu tenho um amuleto aqui.
Keptah ergueu suas aladas sobrancelhas negras e disse polida-
mente:
- Um amuleto? Ah! Amuletos às vezes possuem propriedades
sobrenaturais
Diodoro franziu o cenho. O homem estaria novamente zombando
dele? Keptah, porém, mostrava-se muito sério e esperava cortesmente.
Ele quase empurrou a estranha pedra na mão do médico.
Keptah estudou-a. E então, com a expressão mais enigmática,
passou-a sobre o próprio rosto. Voltara as costas para a lâmpada,
de forma que ficara na sombra, e Diodoro espiou por cima do
ombro dele. Nas mãos de Keptah, na obscuridade, a pedra luzia
como que ardendo com um fogo intenso e inextinguível. Lançava
uma claridade ligeira, mas firme, sobre os compridos dedos morenos
de Keptah.
52 53
- Que vem a ser isso? perguntou Diodoro, impaciente.
Keptah, com aquele ar secretamente divertido que lhe era
habitual, contemplou o alarma do amo e seu rosto subitamente
congestionado.
- Deram-me esta noite acrescentou Diodoro -, e quem a
deu foi o filho do meu liberto, o pequeno Lucano, para a senhora
Rúbria. Disse-me que a encontrara e declarou-me que os deuses, ou
Deus, estava nela.
O rosto de Keptah modificou-se:
- Lucano? perguntou ele.
Ficou refletindo. Sabia do afeto que ligava o jovem grego à mais
jovem Rúbria um afeto tão inocente e tão gentil. Sabia, também,
qual o tremendo poder da sugestão. Dirigiu-se ao leito, e,
imperativamente, como se fosse o senhor e Aurélia uma escrava, fez-lhe sinal para
que se afastasse. E ela, instintivamente, obedeceu. Rúbria estava
chorando baixinho, mas agora olhava para Keptah, como que
amedrontada. Ele sorriu para a menina, e mostrou-lhe a pedra, que não era
comum, mas não possuía outras qualidades além de sua beleza.
- Isto disse ele - é uma pedra mágica que foi achada pelo
teu companheiro de brinquedos, Lucano. Os deuses devem tê-lo
dirigido para ela. Isto te ajudará, senhorazinha, se acreditares nela,
pois não foi Lucano que a encontrou para ti?
Rúbria olhou para a pedra e tocou-a umidamente com um dedo
frágil. Começou a sorrir. Keptah mudOU-a de posição, rápida e
habilmente; apertou os contornos arredondados da pedra contra o flanco
esquerdo da menina, na região do seu fígado inflamado.
- Aqui ela deve ficar disse ele, aos pais e à ama durante
vários dias, até que a menina recupere a saúde.
Olhou firme para Rúbria, com um olhar imperioso, e a menina
bem como seu pai e sua mãe pareceram tomados de respeitoso temor.
Diodoro esfregou o queixo: podia ser supersticioso, mas também
era homem de razão e de lógica. Curvou-se sobre a filha e estudou a
pedra, vendo-a faiscar e refletir. um tanto desconliado, então, tornou
a levantar os olhos para Keptah, teve dificuldade para manter sua
gravidade.
- Não acredito em magia resmungou o tribuno.
- Senhor, há muita magia no mundo. Basta acreditar nela para
encontrá-la.
O tribuno achou aquilo ambíguo e franziu as sobrancelhas,
mas Keptah parecia muito sério. Bem, pensou Diodoro, é possível que eu
não saiba tudo; não sou médico nem faço magicas, como esse
charlatãO.
Sua atenção voltou-se rapidamente para Rúbria e ele sacudiu a
cabeça.
- Que será que faz mal a esta criança? perguntou. - Não
foste definitivo, bem ao contrário, foste evasivo, Keptah. O sangue,
derramamento nas juntas, regiões contundidas da carne, dificuldade
de respirar, gengivas com filtração, crescimentos nas glândulas...
Keptah desviou os olhos.
- Não é uma condição rara falou, suavemente -, embora
seja difícil... de curar.
Era impossível para ele dizer àquele pai que a menina Linha a
doença branca, invariavelmente fatal. Em seu coração havia piedade.
- Mas a pequena Rúbria vivera, indagou Diodoro, e seus
olhos abateram-se ao simples pensamento da morte da filha.
Keptah olhou-o por um longo momento antes de responder:
- Não está ordenado que ela morra agora, senhor, ou em um
futuro imediato.
Rúbria, ao contato aa pedra de Lucano contra sua pele jovem,
sentia que tudo acabara, e isso Keptah notou. A força do espírito,
refletiu ele, muitas vezes mantem a morte a distância, e a fé às vezes
realiza o impossível.
Diodoro não estava satisfeito e o medo acelerava seu coração.
- Falas de forma evasiva. O amuleto não a curara inteiramente?
- Não sei, senhor.
Os olhos emboscados olhavam para Diodoro com uma expressão
que o romano não reconheceu como distante compaixão.
- Então disse Diodoro, com irado frenesi ela morrerá no
futuro, com certeza?
- Não é esse o fado de todos nós, senhor?
Diodoro deixou que sua cabeça tombasse sobre o peito, e apertou
os lábios contra os dentes. Pensou, então, no saquinho de ervas que
recebera daquele menino altamente impenetrável, Lucano, e com
dedos trêmulos retirou-o da bolsa, entreggando a Keptah com repentina
rigidez.
- Lucano também me deu isto, e disse que deve ser misturado
à vinho quente e dado à senhora Rúbria.
Esperava nova zombaria de Keptah, mas o médico apanhou o sa-
54 55
quinho com leve e delicada rapidez. Abriu-o. Imediatamente o
quartinho aquecido foi invadido por um odor forte, amargo. ainda assim
agradável. Keptah levou o saquinho ao nariz. fechou os olhos e inalou.
- Onde, senhor, o menino encontrou estas ervas, e como as
colheu?
- Não sei! gritou freneticamente Diodoro. - Nos campos,
foi o que ele disse. Não me falou como as escolheu! Deuses! Não
haverá fim para este mistério? Que existe nesse saquinho?
Keptah sorriu e fechou cuidadosamente o saquinho.
- Ervas que eu próprio não consegui encontrar, embora as
tenha procurado longa e infinitamente. - Pousou os dedos ossudos na
boca, como para aquietá-los. Deu o saquinho à ama, ordenando que
as ervas fossem misturadas ao vinho quente, imediatamente. Voltou-se
sobre os calcanhares, em silêncio, dirigiu-se para a cama, e olhou para
Rúbria com a expressão de alguem que se visse diante de um milagre.
Diodoro agarrou o braço do médico.
- O menino, Lucano, disse que deseja estudar medicina e eu
lhe prometi... - Parou. seus olhos altivos apertados em conjectura e
pensamento, e sua mente frugal acelerada.
- Sim, senhor? perguntou keptah, outra vez o escravo
altaneiro parodiando a humildade.
- Eu lhe prometi que podia estudar com a senhora Rúbria, e que
mais tarde... mais tarde seria possível que ele fosse estudar... -
Diodoro parou, as sobrancelhas ferozes reunidas. - Tu o
Keptah, se acreditares que ele tem capacidade para se tornar um
médico, e então... respirou fundo e abandonou heroicamente a
precaução: - ...eu o mandarei para Alexandria.
Esperava que Keptah se mostrasse incrédulo e divertido. Mas este
curvou a cabeça, seriamente.
- Senhor, o que disseste está prescrito.
- Agora, em nome do Hades, que queres dizer com isto? -
perguntou Diodoro. perplexo. - Penso que está de novo falando nos
Fados. Mas Aristóteles e Sócrates não falaram na livre escolha do
homem, ridicularizando o que está prescrito?
- Muitos filósofos não são sábios em todas as coisas disse
com calma o irritante Keptah. - Se um homem tivesse de viver apenas
através das teorias dos filósofos ele não sobreviveria e nen
conservaria sua sanidade mental. - Sorriu amplamente para Diodoro, como
um pai magnânimo sorri para um filho jovem e obstinado.
A ama trouxe um cálice de prata com vinho quente, e Keptah
misturou nele, habilmente, as ervas que recebera. Os gemidos da
mepina eram agora mais baixos, embora fosse evidente que ainda sofria
grandes dores. Keptah entregou O calice a Aurélia, que o levou aos
lábios da filha com um sorriso amoroso. A menina bebeu
obedientemente entre profundos haustos de dor. Keptah ficou junto do leito,
observando-a atentamente por alguns momentos.
Os gemidos tornaram-se menos freqüentes, os olhos da menina
dilataram-se maravilhados e tranqüilos. Sua cabeça descansava sobre
os joelhos maternos, como que surpreendida com a diminuição da
angústia. Então pôs-se a respirar, um hausto depois do outro, lento e
profundo, como suspiros.
- Ah! Deuses! murmurou Diodoro, as pálpebras umedecidas
pela gratidão.
Como se fosse rubra maré, o surto de febre recuou das faces de
Rúbria e de seus lábios, substituído por uma palidez fantasmal. Para
seus pais aquilo era excelente, pois se haviam esquecido de que
aquele mesmo palor precedera sua última crise aguda da doença, havia
semanas já, despertando sua ansiedade. Keptah assentiu para si
mesmo, com melancolia.
- A menina está dormindo! exclamou Aurélia, muito
delicadamente. E Rúbria realmente adormecera. branca como se estivesse
morta sobre as madeixas escuras de seus cabelos.
- Sacrificarei não um galo, mas dois, a Apolo, exclamou
Diodoro, que o alívio tornava fraco. - E ao seu mensageiro, o
glorioso Mercúrio de pés ligeiros, duas hecatombes.*
Atirou-se para o médico e, esquecendo que era o senhor daquele
escravo imperscrutável, agarrou-lhe a mão, pestanejando para conter
as lágrimas.
- Ah, Keptah, pede o que quiseres! E terás o que pedires
instantaneamente, pelo seu trabalho desta noite!
Keptah ficou calado, enquanto Diodoro lhe apertava a mão.
Refletia que só um oportunista tiraria proveito do que não lhe pertencia.
Mas os escravos não têm escolha, a não ser o expediente. E disse, tão
baixinho que seus lábios mal se moviam:
___
* Expressão grega que se referia ao sacrifício (homenagem) feito aos
deuses, para atrair-lhes os favores ou agradecer-lhes uma graça
concedida, sacrifício feito, solenemente, com cem bois, OU, por
extensão, cem animais quaisquer. Figuradamente, usamos a expressão para
nos referirmos
à morte de um grande número de pessoas. (N. do T)
56 57
- Minha liberdade, senhor.
Diodoro foi apanhado de surpresa. Comprimiu a boca, relanceou
um olhar furibundo sobre o escravo.
- Ah! disse, com voz ameaçadora. - Queres tirar vantagem
da minha emoção, natural num pai?
Keptah encolheu os ombros.
- Foste tu que sugeriste isso, senhor, não fui eu respondeu
ele.
O cabelo curto de Diodoro arrepiou-se com aquela sua repentina
cólera. Em seu nariz adunco as narinas dilataram-se. A desconfiança
reluziu em seus olhos.
- Que velhaco lisonjeiro és tu, Keptah! Sabes que foi
prometido a meu pai que eu te daria a liberdade quando tivesses quarenta e
cinco anos, bem como ouro bastante para que vivesses bem. Quererás
que eu quebre a promessa que fiz a meu pai?
Keptah não pôde conter um sorriso diante desse sofisma e, vendo
o sorriso, Diodoro sentiu-se ainda mais encolerizado e
consideravelmente encabulado. Sacudiu para longe a mão de Keptah, levantou os
ombros, pesadamente, até a altura das orelhas, e manteve-se
obstinadamente, como um touro pronto a atacar. Tentou fazer o escravo
baixar os olhos, sombriamente. Keptah, entretanto, manteve-se em
tranqüila dignidade, tocando com os dedos uma preza de seu traje.
Diodoro por um momento esqueceu a filha adormecida e berrou:
- Muito bem, então, tratante! Que seja. Dentro de alguns dias
irás comigo à casa do pretor. - Sacudiu um dedo espesso diante do
rosto de Keptah: - Mas com a condição de que te conserves
voluntariamente comigo até que eu te despeça.
- Pensaste que eu iria deixar-te, senhor? perguntou Keptah,
como que estupefato, - Além disso, não está prescrito que eu fique
nesta casa e ensine o filho de Enéias?
Diodoro, porém, não se acalmou. Fervia de indignação, tentando
intimidar o outro. Keptah não estava intimidado.
- O pretor e tu, senhor, sem dúvida concordarão com um
estipêndio que eu preferiria sugerir.
Diodoro estava para estourar mais uma vez quando sentiu os
dedos de Aurélia em seu braço suarento. Ela sorriu para o marido, as
faces de novo rubicundas, uma covinha brincando ao lado da boca.
Parecia uma menina, sentada à beira da cama da filha, os cabelos
tombando em caracóis timidos por sobre a testa e os ombros.
- Nunca se dirá que o nobre Diodoro rompeu uma promessa
murmurOu ela.
Sua aparência e seu amor comoveram o coração secretamente
sensível de Diodoro. Mas era necessário não trair tal fraqueza pouco
militar. O homem atirou para a frente as mãos, num gesto de raivosa
capitulação.
- Eu o disse, portanto que seja! exclamou. - Direi também
que desprezo o homem exigente, seja ele amo ou escravo. Keptah, eu
te respeitei: agora sinto desdém por ti.
- O desdém de um homem como tu, senhor, vale a honraria
concedida por todos os demais homens falou Keptah, e Aurélia riu
alto, como que encantada.
Keptah esperou que o mandassem embora, e quando o fizeram
ele curvou-se profundamente diante de Diodoro e Aurélia, dirigindo-se
em seguida para sua própria farmácia, fechada à chave, onde
compunha suas poções e Linimentos, e onde conservava os corpos
reduzidos a pó de animais e insetos, bem como estranhas ervas, flores secas e
substâncias inorgânicas que nenhum outro médico conhecia, a não
ser os que com ele se ombreavam.
Aquela farmácia fazia parte de seus próprios aposentos, afastados
dos aposentos dos outros escravos. Não era necessário adverti-los para
que se mantivessem a distância: eles tinham pavor de Keptah, de sua
majestade e de seu ar abstruso. Tinham ainda pavor maior da magia
que havia por trás daquela porta fechada. Cochichavam que ele
visitava o crematório e retirava o sangue dos mortos antes da cremação,
usando-o em seus remédios. Cheiros nauseantes flutuavam em torno
dele, como uma aura, e às vezes havia luzes ardendo até bem depois de
meia-noite, através de sua janela. Alguns dOS escravos juravam que não
eram luzes de lâmpadas, mas faiscas movediças conto estrelas, e que
aquelas faíscas muitas vezes suspendiam-se sobre o peitoril da janela,
como fogos-fátuos.
Keptah preparou determinado líquido, que era cor de
ferrugem e tinha um cheiro sobrenatural. Derramou-o numa pequena
bilha e então manteve-a na mão. De pé em sua farmácia, com as
Prateleiras e jarros espectrais ao seu redor, fez-se imóvel como uma
pedra, os olhos subitamente fixos no céu, para além da janela. Seu
coração saltou, acelerado, tal cordeiro fugitivo, depois parou e
começou a trabalhar.
Chegou sussurrou, audivelmente. E então, exultante,
58 59
repetiu, com voz trêmula: - Chegou! Bem-aventurados sejam meus
olhos que viveram para ver isto!
Tateou no peito, procurando um pequeno objeto, que dali
retirou. Era feito de ouro, o desenho simples. Apertou-o de encontro aos
lábios, e curvou-se várias vezes, dizendo:
- Santo! Santo! Santo!
Tombou de joelhos, a cabeça inclinada sobre o peito, mal
parecendo respirar, tomado de um encantamento que ficava além da
compreensão do mundo. O objeto que retirara de sob a veste balançava-se
diante dele, pendurado a uma corrente de ouro, e aumentava diante
dos olhos deslumbrados de Keptah, até dar a impressão de que
abarcava o universo.
A lua era apenas pálida sombra nebulosa, bem distante no céu,
quando Keptah saiu daquela sua porta particular para o pátio. As
palmeiras, porém, interferiam com o firmamento, e ele deslizou para
mais longe, para dentro da treva, que se mostrava tremulamente
misteriosa, com sombras prateadas. O homem precisava de espaços abertos,
os quais pudesse contemplar. Perguntava a si mesmo, muitas e muitas
vezes, com o coração pulsando fortemente nos ouvidos: Eles me
deixarão ir? Eles deixarão que meus olhos vejam? Depressa serei um
liberto, e não há nada que impeça a minha ida durante algum tempo.
Bateu compulsivamente com as mãos no peito, e rezou para que Eles
consentissem.
Caminhou através dos jardins emaranhados até bem para além da
casa, e notou de novo como cada folha, cada fio de relva fremia, sob a
luz prateada, sobrenatural. Aquilo, para ele, era um reflexo sagrado;
às vezes, parava para sorrir e tomar uma folha espessa e reluzente, e
então levantava os olhos para o céu. Aqueles astrônomos, que não
eram caldeus como ele próprio, deviam estar falando agora,
medrosamente, de cometas, embora não se esperassem cometas. Mas sua
Fraternidade sabia. Desejava ir juntar-se a ela. Tinha rezado, outrora,
para que se a Estrela viesse durante a sua existência ele pudesse estar
entre os de sua Fraternidade, nessa ocasião. A Estrela viera, e havia
uma longa distância a pé, de Antioquia até onde a Fraternidade
deveria estar em jubilosa vigília, os olhos escuros cheios de mistérios e de
ações de graças. Tinham mantido tal vigília tão longamente que seu
início se perdia no tempo, desde os dias de Ur, desde os dias do
florescimento de Bit Yakin, desde os dias em que tinham vindo de
algum deserto longínquo, quando ainda eram um povo de sacerdotes
os kalu antes que os judeus os chamassem babilônios. "Nem aos
mais sábios entre nós é dado saber a hora: só Ele sabe", haviam
ensinado a Keptah. "Nem mesmo os Santos do céu o sabem, mas só o
Santo dos Santos, abençoado seja Seu Nome."
Keptah alcançou um lugar aberto nos grandes jardins, e ali estava
na margem baixa de um estuário do rio Orontes. O estuário era
estreito, mas rápido, e agora ainda mais rápido, como se apressasse, privado
de fôlego, a levar as notícias ao rio, e depois aos mares que banhavam
o mundo. As margens estavam escuras, embora longas lanças de luz de
mercúrio fulgurassem através delas. Mas a corrente estreita brilhava
com uma luz mais forte do que a do luar. Sua superfície rugosa, em
preto e branco, girava e cintilava. Sua voz era como a do tambor e da
flauta, misturadas, embora não houvesse vento.
E agora, Keptah, na margem, suas roupas e seu rosto
inescrutável, inundados de radiosidade, levantava os olhos para o céu aberto. A
Estrela estava nos céus, quase tão brilhante quanto o sol, seus raios
agudos lançando-se com firmeza na treva silenciosa que a rodeava.
Fora profetizado que ela se moveria, que ela apontaria o caminho.
Ainda estava fixa. Então, pensou Keptah, Eles ainda não escolheram
os que a devem seguir.
Observando a Estrela, que era tão imensa e que ardia tão
friamente, começou a rezar com humildade, tombando de joelho:
- Oh! Tu por Quem o mundo esperou tanto tempo, abençoado
sou eu, pois me foi dado ver o Teu Sinal! Abençoada é a terra que Te
recebeu. Abençoada é aquela que Te trouxe ao mundo, num lugar
que não conheço. Abençoado é o homem porque Tu redimiste o
homem. Porque agora os lugares trevosos serão resgatados, as regiões
secretas serão reveladas e as portas da Casa do Senhor se abrirão de par
em par até o fim do tempo, e não mais haverá morte.
Uma sensação súbita de incrível doçura veio ter a ele, êxtase
intenso, como se alguém profundamente adorado lhe tivesse sorrido, e
reconhecido, enviando-lhe sua mensagem de amor. Lágrimas rolaram
Pelas suas faces trigueiras e ele ergueu as mãos para o céu. num gesto
de adoração e de arrebatada humildade.
Murmurou, audivelmente:
- Fui limpo. Fui salvo. O que havia de mau, de zombaria ou de
dúvida em mim foi destruído. Banhei-me nas águas da vida. Desta
hora em diante eu nasci. Abençoado seja o Nome do Senhor!
Uma grande quietude e uma imobilidade se apoderaram dele,
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como uma bênção. Paz imensa envolveu-o. Não importava não ter
sido escolhido para ver com seus próprios olhos Aquele que nascera
nessa noite. Porque O que nascera estava com todos os homens, em
todos os lugares da terra, naquela hora, e jamais tornaria a partir.
A Estrela era brilhante demais para que pudesse ser contemplada
por muito tempo, e os olhos de Keptah abaixaram-se. Conservou-se
de joelhos, inteiramente quieto, observando como se fazia mais rápida
a corrente iluminada que corria diante dele. Seus olhos, então,
perceberam um levíssimo movimento, e houve um brilho maior não longe
dele, na descida da margem do estuário. Dirigiu sua atenção para
aquilo, e viu que se tratava de uma cabecinha loura que a luz da
Estrela fazia quase incandescente.*
Agora, podia ver o delicado perfil da criança que estava sentada
na margem do estuário, um perfil que se erguia para o céu. O belo
nariz apolíneo, a delicada curva da face e do queixo, a queda dos
cabelos dourados, mostravam-se inteiramente, desenhados, como se
uma luz interior brilhasse através de alabastro. É o menino, é Lucano,
pensou Keptah, maravilhado.
Levantou-se e encaminhou-se em silêncio pela margem abaixo,
parando junto do menino que nada via, observando como estava a
Estrela. Seus olhos azuis refletiam-lhe a radiosidade, e ele sorria, as
mãos cruzadas sobre os joelhos. Estava muito quieto, como que
encantado, sem pestanejar, o pescoço branco, limpo e liso, como que de
mármore.
Então, Keptah falou baixinho, para não sobressaltar a criança:
- Lucano, por que estás fora de tua casa a esta hora tão tardia?
Lucano voltou vagarosamente a cabeça e sorriu:
- És tu, Keptah? Eu não podia dormir, por isso esgueirei-me
para fora do quarto, pois tinha visto a Estrela pela minha janela. Foi
como se ela me chamasse, e eu não pudesse desobedecer.
Sua voz era serena e sem receio, e ele contemplava-o com seu
respeito habitual, embora Keptah ainda fosse um escravo.
- Não podias desobedecer, com certeza, criança disse Keptah,
sentando-se ao lado de Lucano. Juntos contemplaram a Estrela. Não
é possível que ele saiba, dizia Keptah consigo mesmo, perguntando-se,
ainda: Devo dizer-lhe o que significa? Esperou pela resposta. que
veio, calada e firme: Não. Mas havia também uma ordem, e um co-
___
* Esta Estrela foi vista em todo o mundo conhecido. (N. do T.)
___
nhecimento, seguindo aquela palavra. Curiosamente, Keptah
examinou o menino. Lembrou-se de que Lucano tinha uma forma
particular de silenciar SeUS paSSOS, aparecendo, sem que se soubesse de onde,
quando ele tratava os escravos doentes; e de que observava os
tratamentos de Keptah do limiar de uma porta, por trás de uma cortina, ou
de uma distância tímida e ansiosa. Sua presença muitas vezes o
irritara. Os meninos costumam ser animaizinhos indagadores, gostando de
ver violência ou dor, alguma selvageria primitiva animando-os e
excitando-os. Keptah considerava Lucano dessa forma, até aquela noite.
- É uma Estrela estranha, não é mesmo? esperou, atentamente, a
resposta.
- Sim disse Lucano. - É estranha! E bela! Acho que ela
nos está dizendo algo. - Sua voz era a de um jovem, e não a de uma
criança, e Keptah, que raramente o ouvira falar antes, teve consciência
daquela voz pela primeira vez.
- E que achas, Lucano, que ela nos esteja dizendo?
Lucano ficou silencioso. Suas sobrancelhas douradas
contraíram-se.
- Não sei. Mas sei que um dia o que ela diz será revelado.
Keptah teve um gesto de assentimento para si próprio. Pôs a mão
morena no alvo ombro do menino, e apertou-o:
- Isso eu sei murmurou. - Voltou Lucano para si, e o
menino, surpreendido, olhou para ele, tímida e atentamente. Keptah
estudou a serena e bela face, os contornos fortes sob a delicadeza, a
curva ardente da boca, a paixão nos olhos azuis. - Eu vou ser teu
professor disse ele, e sorriu. - Assim foi ordenado esta noite
pelo grande Diodoro. - O rosto de Lucano irradiou alegria e
espanto. - E então continuou Keptah, com delicadeza serás
mandado pelo amo para Alexandria, a fim de que ali continues os
estudos.
Lucano agarrou a mão do escravo e beijou-a com veemência.
- Sou teu escravo, nobre Keptah! exclamou, e apertou aquela
mão morena contra seu peito, num gesto comovente de enlevo. Keptah
pôs sua outra mão sobre a cabeça do menino, como se o abençoasse.
- Nunca tiveste medo de mim, Lucano?
Não. - O rosto do menino expressava admiração, quando
continuou: Eu tenho apenas honrado tua pessoa em meu coração,
senhor.
Keptah sorriu, tristemente:
62 63
- Não me chames senhor, Lucano. O nobre Diodoro não
aprovaria. Ele tem um senso imenso da propriedade.
Pensou em Diodoro, penalizado e não com seu divertimento
habitual. É verdade, pensou, que há coisas maiores e mais eternas do
que suas absurdas e férreas realidades. Mas eu errei, fui cruel na noite
em que os escravos dançavam com tamanha algazarra, tentando
desiludi-lo. Ainda bem que não o consegui.
A Estrela brilhava, resplandecente, seus raios alargando-se e
apagando todas as outras estrelas e todos os outros planetas menores,
fazendo-os correr através da curva do céu, rumo à aurora. Keptah
tornou a contemplá-la, esquecendo Lucano, e este, fixando os olhos
naquele perfil recortado, moreno e oriental, perguntou:
- Quem és tu, Keptah?
Keptah ficou silencioso por um longo momento, como se
perguntasse coisas a si próprio e recebesse respostas. Depois, sem olhar para
Lucano, começou a falar:
- Sou um caldeu. Isto contaram-me há muitos anos, embora eu
não o soubesse antes, tendo vindo para a casa de Prisco como uma
criancinha, e escrava. Meu pai era um kalu, que quer dizer sacerdote.
mas até hoje não sei quem era a minha mãe. Há, contudo, uma viagem
na qual eu ainda estava nos braços de minha mãe. Meu pai sabia
coisas misteriosas e estava a caminho... de um país distante. - Seus
olhos não se moviam da Estrela, enquanto continuava: - Ele
acreditava, erroneamente, estar prescrito que lhe caberia ver... - Calou-se,
e moveu-se, inquieto.
"No caminho para o tal país a caravana na qual ele e minha mãe
viajavam foi atacada por ladrões e escravagistas. Meus pais foram
mortos. Eu, uma criança, fui vendido com os demais homens e mulheres,
como escravo, e Prisco comprou-me e levou-me para sua casa de
Jerusalém, depois para Roma."
Lucano esperou que ele continuasse, mas Keptah ficou
silencioso. Seu rosto enigmático mostrava-se majestoso, tomado de frio e
recolhido desgosto.
- Quem te contou isso, Keptah, se nem mesmo o nobre Diodoro
o sabe?
Keptah olhou rapidamente para o menino, e riu, com ternura.
- Ah! Estiveste interrogando o amo, na minha ausência. Seu
riso cessou bruscamente: - Não te mostres tão embaraçado, menino.
Não estou ofendido. - Suspirou: - Que isto seja o suficiente para
ti, Lucano: contaram-me, mas quem me contou eu não te posso
revelar. Posso falar-te, entretanto, sobre a Caldéia, ou a Babilônia, e sobre
meu povo e isso me foi permitido contar-te, embora não esteja ainda
clara para mim a razão disso.
"Nós somos um povo tãO antigo, que os próprios judeus, que
dizem ser muito antigos, não têm sequer uma lenda relacionada com
nossa origem. Mas demos um Abraão aos judeus, que agora o chamam
de Abraão. Viemos para a terra de Ur, procedentes de lugar que não
ficou registrado, e tivemos outrora a mais florescente, sábia, urbana e
madura capital que desde então houve sobre a Terra. Seu nome era
Bit Yakin. É possível chegar a tamanha sabedoria, mas, se tal
sabedoria não tiver Deus, tomba-se na corrupção... Por que te sobressaltas
assim, menino?
- Nada sussurrou Lucano. Keptah, porém, deu-lhe uma
ordem com seus olhos cavos, e o menino disse, hesitante: - Eu estava
pensando no Deus, Desconhecido dos gregos.
- Ah! Sim! É o mesmo disse Keptah, abstraído. Continuou:
- No começo e durante séculos, Bit Yakin lembrou-se de Deus,
floresceu e foi poderosa. e vinham sábins de todos os lugares para estudar
com os seus kalu, aprendendo alguns dos mistérios que lhes eram
cautelosamente ensinados, bem como discernimento. E os sábios
levavam aqueles conhecimentos para seus países. Um deles foi o Egito, e
um homem chamado Moisés tomou conhecimento de tais mistérios
através do kalu que recebera ordens para ir ao Egito e ensinar o jovem
príncipe egípcio para além daquilo que os sacerdotes egipcios já
sabiam. Ouviste falar em Moisés, Lucano?
- Sim, os judeus me contaram, em Antioquia. Ele trouxe aos
homens os Mandamentos de Deus.
Keptah suspirou, e disse, ironicamente:
- E há séculos os homens se têm ocupado assiduamente em
transgredi-los todos!
Lucano receou que Keptah o tivesse esquecido, pois que ficou
silencioso durante muito tempo. Então, tornou a falar:
- Porque os homens são homens, tornam-se orgulhosos,
espeCialmente quando adquirem fama. Mesmo muitos dos kalu tornaram-se
orgulhosos e quando isso aconteceu eles perderam sua sabedoria,
pois que haviam esquecido de onde lhes vinha o conhecimento dos
mistérios. Assim, tornaram-se charlatães, em vez de sacerdotes, e
necromantes, já que se recordavam das palavras ocultas da magia. E
64 65
usaram-nas para ganhos e maus fins. Tais sacerdotes, tão empenhados
em crua magia, já não eram astrônomos, médicos, cientistas e
sacerdotes. Eram homens maus, ocupados em vaticínios vulgares, que
passavam a seus filhos. E, se um clero se torna decadente, o povo também se
torna decadente, e toda a Caldéia, traída pelos seus sacerdotes, foi
lentamente devorada pela corrupção. E anulou-se, caindo nas mãos
de inimigos. Se uma nação não tem Deus, terá de cair, mas se uma
nação tem Deus, nem todos os poderes do mal, nem todos os exércitos
podem sacudir seus fundamentos. Não. Nem mesmo que o mundo
inteiro se organize contra ela.
Keptah olhava para a Estrela, e seus lábios moveram-se
silenciosamente durante alguns instantes.
- Assim, os bons kalu, e bem poucos deles havia, deixaram a
Caldéia chorando e foram para muitos países com os seus segredos.
Nesses países eles são os magos do Oriente, e médicos, astrônomos,
vaticinadores para os eleitos, astrólogos, cientistas e metafísicos. Só
eles saberão sempre quem são. Porque se tornaram desconfiados em
relação à humanidade, e pelas mais excelentes razões. Formam uma
Fraternidade oculta, e escolhem os que nela devem entrar.
Agora, Keptah estava dando sua inteira atenção a Lucano, e
pensava consigo mesmo: Por que estive tão cego? E então falou, e a voz era
áspera e imperiosa:
- Esta não é uma história que irás aprender em Alexandria, e
devo dizer-te que não a repitas para ouvidos moucos, Lucano.
- Não a repetirei, mas não a esquecerei disse Lucano,
simplesmente.
Keptah abrandou-se:
- Eu sei, criança. Não há corrupção em ti. Mas deixa-me
continuar. Tão corrupta e orgulhosa tornou-se a Caldéia, ou Babilônia,
que já não reverenciava os kalu, e não mais dava a si própria o nome
de terra dos sacerdotes sábios, mas olhava cobiçosamente para seUS
vizinhos, desejando ouro, escravos e terra. E começou a dar-se O
nome de Kaldi-Kasdi, que quer dizer "conquistadores". E assim
guerreou, conquistou, escravizou e oprimiu e, como todas as nações
que guerreiam devem morrer, a Caldéia morreu, pois a guerra, acima
de todas as coisas, é a mais imunda, a mais abominável aos olhos de
Deus, a mais odiosa. pois que destrói o que o Santo criou em Seu
amor, e degrada o homem ao nível da formiga sem pensamento, que
obedece sem saber por que obedece e combate sem saber por que
combate. Pois, na verdade, na guerra o homem se bate por coisa
nenhuma.
Olhou longamente para Lucano, que estava sério e meditativo.
Depois, como se lhe fosse ordenado, retirou um objeto de ouro, que as
vestes encobriam sob seu peito, e manteve-o na palma da mão aberta.
- Olha, menino, e dize-me o que é isto.
Lucano fixou os olhos no objeto que estava na mão de Keptah, e
estremeceu:
- É uma cruz, o sinal da infâmia, pois que nela os romanos
executam os criminosos da mais baixa espécie.
A cruz de ouro empalidecia na palma de Keptah, tornava-se
branca e brilhante à luz da Estrela. Parecia possuir uma incandescência
própria.
- Isto é a Luz do Mundo disse Keptah. - Um dia saberás.
"Durante séculos, tantos que os homens os esqueceram, e eles
estão recobertos de pó, este Sinal foi conhecido pelos kalu, pelo que é.
Não te posso contar a significação dele, pois é proibido. Os kalu
usavam-no ao peito, antes que os judeus fossem uma nação ou um povo,
antes que o Egito tivesse um faraó, antes que a Grécia nascesse, antes
que Rômulo e Remo tivessem sido amamentados por uma loba.*
Alguns dos sábios do Egito levaram-na consigo da Caldéia para o seu
país sem conhecer seu significado. e ele pode ser visto nas pirâmides
até hoje, sinal oculto compreendido apenas pelos eleitos caldeus. Os
sacerdotes da Grécia conheceram-no vagamente, embora sem o
compreender, mas sob sua influência levantaram altares ao Deus
Desconhecido.
Certa emoção sem nome agitou subitamente Lucano. Os olhos
encheram-se de lágrimas. A cruz pareceu expandir-se na palma de
Keptah. Lucano estendeu a mão e tocou-a com um dedo trêmulo,
ficando imediatamente impregnado de uma sensação de indescritível
doçura e amor.
- Olha! exclamou Keptah, e Lucano teve um sobressalto.
Keptah apontava para o céu. A grande e adorável Estrela movia-se
para o lado do Oriente, inflexivelmente, como que levando um
propósito. Lucano ficou a olhar, tomado de respeito e temor. O brando
___
* Fundadores lendários de Roma, irmãos alimentados por uma loba. Rômulo
assassinou o irmão e reinou, segundo a tradição, entre 753 e 715 a.C.
Era detestado pela aristocracia e desapareceu, arrebatado por um
temporal, durante uma revista às suas tropas, conforme diz a lenda. (N.
do T.)
66 67
tom rosado da aurora estendia-se sob ela, como um lago, e recebia-lhe
os raios, tornando-se fulgurante. Keptah chorava: - Os escolhidos
foram escolhidos disse, baixinho. - Estão a caminho. Eu não fui
escolhido.
Ficaram a olhar até que a Estrela desceu lentamente,
mergulhando no mar róseo da manhã, e perdeu-se para eles, e eles se sentiram
desolados.
- Foi-se lamentou Lucano.
- Não respondeu Keptah, enxugando os olhos na manga -,
jamais ela se perderá, jamais, até o fim dos tempos. - Contemplou a
cruz na palma de sua mão, e pensou: E sobre isto escarrarão, e isto será
ignorado, ridicularizado e blasfemado, mas nunca será esquecido,
nunca explicado, nunca desvanecido, apesar da violência das raças ainda
por nascer, apesar da guerra, da morte, da agonia, do sangue e da treva
e fogo dos últimos dias e da última e desvairada fúria dos homens.
Voltou-se para Lucano, e por um momento sentiu a inveja.
Abençoada és tu, criança, disse consigo mesmo. E depois pensou:
Abençoado sou eu, que devo ensinar-te.
Uma fria austeridade voltou ao rosto de Keptah. A aurora
translúcida, cor de papoula, erguia-se por trás das grandes árvores e das
palmeiras que farfalhavam à brisa mantinal.
- Rúbria sofre da doença branca ejamais alcançará a idade adulta.
Ouve! Não chores tão alto e não te impressiones tanto. Por que
choras? A vida não é coisa tão bela para a grande maioria. Nascemos
obscuramente, vivemos obscuramente e morremos obscuramente. Mas
o que te disse não deve ser contado ao tribuno Diodoro, para que seu
coração não se despedace antes do tempo.
Lucano cobriu o rosto com as mãos e Keptah, compassivo,
sacudiu a cabeça. Para os jovens a morte é impossível, a morte é o supremO
e inacreditável horror. Olhou para o céu aperolado, onde a Estrela
estivera, e suspirou.
- Precisas dizer-me onde encontraste as ervas que suavizaram as
dores da senhora Rúbria.
- Encontrei-as nos campos e à margem dos regatos e sabia que
elas eram boas, Keptah.
A voz do menino era apenas um sussurro de medo.
- São boas. Precisas encontrar mais para mim, a fim de evitar
lhe sofrimento, e eu as secarei e reduzirei a pó para destilar-lhes à
essência, pois são preciosas.
Levantou, alto e distante, e Lucano levantou-se com ele.
- Já é manhã disse Keptah. - Tua mãe deve ter estado à tua
procura. Vai, menino, e não fales do que te falei, porque, se o fizeres,
nada mais te ensinarei.
4
- Bem, agora estás livre disse Diodoro, mal-humorado, depois
que ele e Keptah regressaram da visita ao pretor, em Antioquia. -
Mas não tenho a obrigação de te dar aquela grande soma de ouro
enquanto não fizeres quarenta e cinco anos. A essa parte da promessa
feita a meu pai hei de ser fiel.
O dia estivera quente, a cidade particularmente ruidosa e
demasiadamente colorida para um romano moral. Diodoro agora estava
sentado em seu vestíbulo de mármore branco e bebericava, amuado, um
copo de vinho frio, engolindo, zangado, figos maduros que tirava de
uma vasilha de prata colocada a seu lado.
- Ora, esse vinho grego resinoso! exclamou. O mau humor
era evidente. - Ainda estou certo de que te aproveitaste de um
momento de fraqueza e me obrigaste a agir. Mas deixemos isso, deixemos
isso, seu espertalhão! Já estou bastante ofendido com a quantia que
exigiste como remuneração. Logo estarás tão rico quanto os levantinos
dos bazares, e sem dúvida alguma terás teu próprio estabelecimento e
comprarás teus próprios escravos, e eu terei de suplicar tua
indulgência para vires atender doentes em minha própria casa.
Keptah escondeu um sorriso. Estava de pé diante de Diodoro e
olhava-o sombriamente e divertido.
- Senhor disse ele -,jamais deixarei de ser grato a ti, e de
estar pronto a atender teu chamado. Aonde fores, eu irei, e minha vida
ainda te pertence, quando a quiseres.
- Belas palavras resmungou Diodoro. Os olhos faiscaram,
irados, sobre seu liberto. Mas disse: - Acho que precisamos
comemorar o fato. Que o Hades te devore! Ali, naquela mesa, ha outro
copo. Se posso mandar como dizes, mando que partilhes comigo
deste vinho, e podes comer um ou dois figos.
68 69
- Senhor, eu prefiro os vinhos romanos, e peço-te que me
dispenses da obrigação de beber vinho grego.
Diodoro praguejou baixinho, mas não se irritou totalmente.
Lançou um olhar furioso para o copo.
- Esta coisa é mesmo péssima disse ele. - Respeito teu
gosto. Mas o próximo navio trará bom vinho, e acrescentou
sarcasticamente confio em que me permitirás mandar algumas garrafas aos
teus aposentos, para que te deleites com elas.
Retiniu as solas ferradas de suas sandálias sobre o piso alvo como
a neve e ficou a olhar para Keptah sob suas fartas sobrancelhas pretas.
- Come um figo disse.
Keptah curvou graciosamente o corpo comprido e apanhou uma
das frutas. Languidamente, Diodoro meteu outro na boca.
- Por Pólux,* esta cidade é detestável disse ele. - Um
monte de refugo que vem de todas as sarjetas do mundo. Se eu não tivesse
um senso tão grande de dever, pediria para ser exonerado. Mas quem
poderia arranjar-se tão bem com essa massa rastejante de gusanos?
- Ninguém a não ser tu, nobre Diodoro.
Diodoro o examinou outra vez, desconfiadamente.
- Tens a voz tão untuosa. Escorre, reluz e cheira mal. Acido
misturado com mel.
- Lamento não te agradar, senhor disse Keptah, tornando a
sorrir.
- Não poderias agradar menos a Plutão2 retrucou Diodoro,
ainda enfático.
Apanhou outro figo e chupou os dedos.
- Mandarei que doem um sestércio3 a cada escravo, em tua
honra. Que arrogante cão és tu, com toda a tua humildade fingida Na tua
opinião, não há ninguém tão sábio como tu.
Keptah manteve a dignidade, apesar da vontade de rir.
- Sem dúvida alguma vais te dar ainda maiores ares do que de
costume, mas eu te previno para que não uses novamente os teus
trUques para com os pobres escravos.
___
* Polux, irmão de Castor, e citados sempre untos como os dióscoros, eram
heróis mitológicos, Filhos de Júpiter e Leda, transportados para o céu,
ali se tornaram a constelação dos Gêmeos.
2 Rei dos Infernos e deus dos mortos, filho de Saturno e de Réia, eSposo
de Proserpina. É o Hades grego.
3 Moeda de prata dos antigos romanos, o grande sestércio, valia 1.000
sestércios comunS. (Notas do Tradutor)
___
Keptah estudou-O. Deveria contar a verdade a Diodoro? Dizer-lhe
que, na realidade, não havia hipnotizado os escravos, mas apenas
o tribuno? Resolveu não o fazer. Diodoro jamais o perdoaria.
Inclinou-se e disse:
- PrometO, senhor, que não farei mais truques. E agora, se me
despedires, eu devo ir ter com a senhorita Rúbria.
O rosto de Diodoro clareou.
- Ah! Ela está muito melhor, não está? Já pode sair da cama e
seu rosto tem um ligeiro colorido, que não é de febre e sim de saúde.
Quando pensas que ela estará curada?
Keptah hesitou:
- Penso, senhor, que daqui a alguns dias ela poderá deixar a
casa pelo jardim e quinze dias depois estará em condições de
recomeçar os estudos, com o professor que também dará aulas a Lucano,
filho de Enéias. Depois dessas lições, segundo compreendi, ele
estudará comigo?
- Por uma remuneração extra? perguntou Diodoro,
novamente zangado.
- Não, senhor, eu ensinarei ao menino tudo quanto sei, por
gratidão para contigo.
Diodoro resmungou e ficou contemplando a sombra comprida de
seu liberto esgueirar-se pela parede de mármore, enquanto Keptah
deslizava entre ela e o sol que fluía através daS colunas baixas da
direita. Sou acomodado demais, disse Diodoro consigo mesmo. depois de
tomar um gole do vinho resinoso. Trato meus libertos como iguais e
meus escravos como libertos. Não admira que não me respeitem.
Preciso ser mais rigoroso com isto e trazer um pouco de disciplina militar
a esta casa. Mas em seu coração sábia que era incapaz de se mostrar
injusto ou brutal, assim como seus estimaveis pais o tinham sido,
respeitando as vidas e as pessoas, mesmo os mais humildes homens.
Diodoro começou a cogitar de novo sobre a moderna Roma e fez uma
careta.
Os generais de gabinete, que podiam dirigir, petulantemente, as
campanhas de comandantes calejados em campos distantes e inventar
táticas e estratégias como se alguma coisa entendessem sobre elas! Os
pálidos e indulgentes senadores com as togas colantes, comprando e
vendendo em suas bolsas de ações, depois de uma longa manhã nos
banhos, refazendo-se de uma noite de devassidão e parcialmente
revigorados por escravos hábeis que, com mãos lubrificadas, massageavam
70 71
seus flácidos músculos! Comprando e vendendo os obesos patifes
aquilo que outros homens tinham dado a vida a fim de obter para
Roma, e sacudindo lenços perfumados diante do rosto, enquanto
regateavam e faziam lances, cada um tentando ser mais esperto do que o
outro. E, entre lances, contavam as últimas obscenas murmurações da
cidade! Suas mulheres prostituídas, suas concubinas, suas
depravadas esposas que usavam os mais nobres nomes de Roma e cometiam
adultério como se fosse passatempo da moda... o que realmente era.
Os parasitos, os augustais, que entravam e saíam do Palatino,* tão
aristocráticos como estátuas, com podridão em seus corpos e harpias
nas mentes e traição e assassínio em suas almas astuciosas! As liteiras
douradas, os jovens escravos, tratados com mimos e mantidos com
propósitos vergonhosos, a rapina e a licenciosidade de uma sociedade
que fora outrora disciplinada, parcimoniosa, modesta e heróica, o lento
desaparecimento de uma classe média sólida, um desaparecimento
deliberadamente planejado! A cidade resplandecente, a amante do
mundo, tornada um sumidouro de corrupção, traição, avidez,
prazeres e decadência, uma fedentina de imundície da qual emanavam as
febres, as loucuras e as moléstias que poluíam os mais remotos pontos
do Império!
E as turbas romanas de muitas raças! Mesmo Júlio César as temera,
com razão, e diante delas se acovardava, lisonjeando-as e aclamando-as.
As turbas romanas, volúveis, sanguissedentas, impiedosas, ávidas,
providas de muitas línguas! Quando outrora tinham vivido em sóbria e
próspera cidadania, orgulhosas de seus antepassados fundadores,
zelosas de sua República, encontrando sua integral razão de ser no trabalho,
na família e em seus deuses, em seus lares tranqüilos e nas sombras de
suas árvores, agora viviam como variegada e rapace canalha das ruas,
prontas a aclamar, prontas a matar, prontas a discutir e, da mesma
forma,
desprovidas de senso, prontas a aplaudir, aglomeradas em casas de
muitos andares que pareciam desaguadouros, odiando o trabalho e
preferindo mendigar, apelando permanentemente para o Estado, a fim de
que ele as mantenha, bajulando políticos vis que lhes davam vantagens,
e ameaçando os poucos homens honestos que se lhes opunham, pelo
bem de Roma, e mesmo para seu próprio bem, pedindo perpetuamente
pao e circo, procurando prazeres mesquinhos, adorando gladiadores
___
* Uma das sete colinas da Roma antiga, na qual, segundo a tradição, as
primeiras construções se ergueram. Ali os imperadores tiveram sua
residência. (N. do T)
___
estúpidos e prestando culto ao maior corredor ou ator, OU discóbolo,
como se fossem eles os maiores homens, devorando, em sua ociosidade,
as taxas esmagadoras impostas sobre homens mais dignos, taxas
destinadas a mantê-las, quando o mundo bem poderia livrar-se delas pela fome
ou pela pestilência ah! as turbas romanas, as malditas turbas,
senhores e escravos adequados de seus patronos, de seus políticos, dos
arrecadadores de seus votos!
Não era de admirar que houvesse tão poucos bons artesãos,
comerciantes, trabalhadores e construtores, em Roma. O governo
monstruoso sugava o fruto de seu labor sob a forma de taxas destinadas a
uma canalha vociferante, devoradora, ociosa, mantida pelo Estado.
Que importava ao homem da rua, ao homem abjeto, de olhos
exorbitados e boca aberta, ter ele destruído o esplendor de Roma,
difamado seus deuses, atirado excremento sobre as estátuas de seus
antepassados? Não podia ele, agora, uivando e marcando paredes
durante a noite, conseguir suas vasilhas repletas de mais feijão, mais
sopa e mais pão, ou não podia assistir a espetáculos mais sangrentos
no Circo Máximo? Os senhores valiam tanto quanto os escravos, e os
escravos eram bem dignos de seus senhores.
Ali estava, no Palatino, aquele soldado que envelhecia César
Augusto, um homem severo e moral. Que podia ele fazer, porém,
rodeado como estava de senadores e estadistas corruptos, eleitos pela
canalha das ruas ainda mais corrupta? Diodoro recordou-se, de
súbito, de uma carta que recebera algumas semanas antes, vinda de um de
meus amigos, cuidadosamente lacrada e enviada por mensageiros de
confiança. (Quanto tempo passara desde que os homens honestos
tinham começado a lacrar suas cartas para evitar os olhos indiscretos e
Vingativos dos espias empregados pelo Estado?) O amigo escrevera:
"Receio que Roma esteja morrendo. Eu, como tu, caro amigo,
acreditei durante demasiado tempo, suplicando para que isso acontecesse,
na Possibilidade de que as velhas virtudes ainda florescessem na
cidade, como excelentes e belas flores em jardim esquecido, preparando
Sementes que novamente seriam cultivadas nos lugares abandonados.
Mas o jardim não existe: Foi pisado e transformado em lama pelas
turbas e pelos seus senhores acovardados, que vivem dos favores
desta turba.
Diodoro, mergulhado em desânimo e desesperança, como jamais
sentira antes, pensava nos deuses de Roma. Outrora, eles haviam
personificado trabalho honroso, amor, a santidade do lar e da proprieda-
72 73
de particular, liberdade, graça, bondade, as qualidades militares de
devotamento e dever, o carinho para com os filhos, o respeito entre
empregados e empregadores, o patriotismo, a obediência aos decretos
divinos e imutáveis e o orgulho e dignidade de cada um. Mas o que
fizera Roma desses deuses? Tornara-os réplicas indizíveis e venais dela
própria em todos os seus aspectos.
Diodoro atirou para longe o copo, que se espatifou de encontro à
parede de mármore. Saltou sobre os pés e pôs-se a caminhar de cá
para lá sobre o piso branco e solitário, as sandálias martelando-o como
o rufar frenético de um tambor.
Recordava-se de como o amigo terminara a carta que lhe tinha
enviado: "A única esperança para Roma será o retorno aos valores
religiosos..."
Não um retorno aos deuses poluídos.-. Mas a quê? A quem? Ao
"Deus Desconhecido dos gregos. Mas quem era Ele? Onde estava
Ele? Ele, o incorruptível, o Pai, o Amoroso, o Justo? Por que estava
Ele silencioso, se existia? Por que não falava Ele à humanidade, e
reorganizava o mundo enfumaçado, trazendo paz aos que a tinham
perdido; esperança aos desesperançados; amor aos dele privados;
abundância aos que tinham fome de retidão? Se Ele vivia, aquela era a
hora em que devia manifestar Sua Presença, antes que o mundo
ficasse sufocado pela montanha de seus próprios excrementos, ou
morresse por sua própria espada.
Diodoro sentia-se latejante de selvagem ânsia e impaciência.
Parou entre suas colunas brancas e olhou para o céu do poente, acima
das árvores e das palmeiras. Durante um momento sua dor cessoU.
jamais vira antes arrebol tão glorioso, tão cheio de luz rosada e flechas
de ouro tão brilhante e tão puro que as moitas de árvores, as frondes
trêmulas das palmeiras, as colunas da casa luziam com radiosídade
própria e refletiam as cores do céu. Delicadeza e majestade irradiavam
dele, como se Voz poderosa tivesse outorgado bênção ao mundo
inteiro, como se Mão poderosa se houvesse erguido, com ternura e amor. O
rosto violento de Diodoro abrandou-se, tornou-se quase infantil. Sua
mente disciplinada disse-lhe que aquilo não passara de uma
resplandecência rara. Sua alma disse-lhe que uma Palavra fora
pronunciada.
Ele se recordou, então, dos desvairados falatórios ouvidOS em
Antioquia durante aquele dia. Uma Estrela particularmente brilhante,
mais fulgurante do que a mais fulgurante lua, aparecera no CéU na
noite anterior e fora vista por muitos, mesmo durante as mais
vergonhosas horas da Saturnal. Houvera muito terror, e turbas tinham
corrido cegamente através das ruas, em pânico, suas roupas festivas
arrastando-se atrás delas. Mas Diodoro fora informado por um sacerdote
do templo de Mercúrio que se tratava apenas de um cometa, ou de um
meteoro, do qual falava com indulgência.
- Mas onde estavas, que não a viste pessoalmente? indagara
Diodoro. O sacerdote respondera:
- Eu estava dormindo, nobre tribuno.
Diodoro procurou a Estrela onde lhe tinham dito que ela
aparecera. Não havia nada ali, a não ser a estrela vespertina, cintilando
docemente. De repente, entretanto, acreditou que realmente houvera
uma Estrela. Seu coração ergueu-se num poderoso impulso de júbilo,
e ele sentiu-se confortado, embora não pudesse explicar o que sentia.
Os jasmins de floração noturna acordaram numa onda de
fragrância, e Diodoro respirou-a, como se fosse incenso. Sentiu-se humilde e
calmo, cheio de força.
Posso fazer o que puder, viver segundo os valores e verdades nos
quais fui educado, nas virtudes e justiça que conheço, e seguramente
Ele se lembrará de mim, embora o mundo se torne louco.
Caminhou entre as colunas ao longo da passagem de mármore, em
direção ao compartimento das mulheres. Então, encontrou dois de seus
oficiais no pátio,jovens de quem ele gostava e que treinara pessoalmente,
e nos quais confiava por causa de seus rostos honestos, seus olhos
cândidos, seu devotamento por ele e suas velhas virtudes. Eles se perfilaram
ao vê-lo, saudando-o com elegância, e Diodoro parou, tentando compor
um ar severo, mas gostando demais deles para isso.
- Vamos, meninos, por que não voltastes para Antioquia? -
perguntou bruscamente. jamais mantivera guarda de corpo em sua casa,
como outros militares em comando faziam, pois confiava em seu próprio
braço direito e não apreciava grandes exibições de militarismo.
- Nobre Diodoro, ouvimos boatos alarmantes em Antioquia no
dia de hoje respondeu um dos soldados. - Há gente da população
que está a gritar que a Estrela que pretendem ter visto na noite
Passada indica a queda de Roma e a cólera dos deuses contra todos os
romanos. Dizem que a Estrela moveu-se em direção do Oriente,
afastando-se da Cidade Imperial, e isso indica, segundo declaram, que
Roma está para cair. E quando um império cai, raciocinam eles, é
de um país submetido levantar-se e golpear.
74 75
- Ficai à vontade, Sexto disse Diodoro, pondo a mão sobre o
ombro do jovem capitão. - Vamos, vamos, não estais com medo por
mim? Foi por isso que ambos desobedecestes minhas ordens
expressas? Eu vos digo, se Roma cair, será por lhe faltar mentes
disciplinadas.
- Ainda assim, nobre tribuno, preferimos permanecer de
guarda durante algumas noites disse o jovem Sexto, obstinadamente,
mas com seus devotados olhos suplicantes.
Diodoro calou-se. Desviou o olhar de Sexto para o centurião e
viu a obstinação de ambos. Se lhes der ordens para voltar a Antioquia,
pensou, eles permanecerão de alcatéia nos jardins, longe de meus olhos,
sem dormir e sem comer, e isso será duro. Seria justo fazer-lhes isso,
em troca do que estão considerando como de seu dever? E disse,
comovido:
- Bem, então, seus dois jovens malucos de cabeça dura, ficai
aqui o tempo que quiserdes. Mandarei arrumar instalações para vós,
bem como alimentos, e marchareis em torno da casa e guardareis as
portas, apenas para que fiqueis satisfeitos. Não que me desagradasse o
que quereis fazer disse, rapidamente, por amor da disciplina. - E
quando estou em casa não sou um soldado, e sim apenas um pacífico
cidadão.
Dirigiu-se às instalações das mulheres e procurava uma escrava
que chamasse a senhora Aurélia, quando ela própria apareceu,
acompanhada de Íris. Vinham rindo baixinho, juntas, como duas irmãs, e a
mão de Aurélia descansava levemente no braço de Iris, que jamais
parecera tão bela aos olhos de Diodoro. Foi para ela que olhou e,
como se houvesse algo de terrivelmente revelador em seus olhos
SObressaltados, o rosto da jovem obscureceu-Se e seus olhos azuis
enevoaram-Se, como se toldados por desgosto ou angústia.
Para a "velha romana" Aurélia a esposa de um liberto nãO era
objeto de desdém, embora tivesse sido outrora uma escrava. Se
merecia amor, recebia amor, se merecia respeito, recebia respeito. Aurélia
e Íris eram ternas amigas. Mas Diodoro não sabia que Iris visitava
freqüentemente sua casa, durante a sua ausência. Aurélia ficoU
surpreendída e feliz ao ve-lo.
- Estou atrasada, Diodoro? perguntou, caminhando para
ele e tomando-lhe a mão. - O sol ainda não desceu
completamente.
- Eu é que estou adiantado respondeu ele. Desejava
beijar-lhe o rosto moreno e corado, apertar a boca contra seus lábios cheios.
era um refúgio contra algo que o ameaçava.
Aurélia começou a tagarelar alegremente, como era de seu
costume.
- Íris esteve me ajudando a tecer os linhos e lãs para o inverno.
Olha para meus dedos! Estão calosos, quase sangrando.
Abriu as mãos diante dos olhos dele, e riu, O cabelo, penteado
com formalidade, tombava-lhe sobre o ombro em duas tranças negras
e reluzentes, que desciam bem abaixo de sua cintura; havia em seu
rOStO uma umidade luzidia na região das têmporas, e pequenas gavinhas
de obscura juvenilidade enroscavam-se nas frontes e nas faces.
Íris ficara de lado, tão inabalável quanto uma ninfa de mármore,
os cabelos dourados arranjados à moda grega, suas madeixas enroladas
em torno da cabeça com fitas brancas. Fitas iguais rodeavam-lhe
também a cintura esbelta, acima da qual erguia-se o busto perfeito. O
poente, tombando sobre ela, dava translucidez à sua carne, e Diodoro
pensou: Não a Diana, mas a Artemis grega. Os braços, pescoço e faces
de Íris tornaram-se tais uma rosa, e a expressão de seu rosto, a delicada
dignidade de sua figura eram as de uma estátua sonhadora, embebida
em pensamentos remotos que nada tinham a ver com a humanidade.
Aquele aspecto fez Diodoro pensar, apesar da presença da esposa: Eu
sou como Acteão,* e com certeza é proibido olhar para ela!
Aurélia percebeu a fixidez no rosto de Diodoro enquanto ele olhava
para a jovem liberta, e suspirou. Foi então Íris, depois de profunda
reverência, quem se afastou. Sua figura alta e bem-feita perdeu-se nas
sombras das árvores sonhadoras. Diodoro ficou a olhar, enquanto ela
desaparecia. Aurélia tomou-lhe carinhosamente o braço. Não havia
ciúmes em seu coração. Amava demais Diodoro e conhecia muito bem
a virtude de Íris. E, se era permitido que um homem olhasse para uma
mulher, sua esposa deveria ter dignidade e respeito próprios bastante
grandes para não se sentir constrangida.
Foram juntos para casa, Diodoro queixando-se de sua guarda de
Corpo. Mas Aurélia sentiu-se aliviada. Ouvira de suas escravas os
rumores correntes em Antioquia.
- Precisamos arranjar instalações e alimentos para esses
devotados soldados disse ela, placidamente.
___
* Caçador que, tendo surpreendido Diana no banho, irritou-a a ponto de a
deusa transformá-lo em cervo, fazendo-o estraçalhar pelos seus cães. (N.
do T.)
76 77
Encantava-a saber que também eles gostavam de Diodoro. Desejava
mostrar ao marido o maravilhoso progresso de saúde de sua filha
Rúbria, e embora Diodoro insistisse nas perguntas sobre o estado da
menina, Aurélia apenas sorria e movia misteriosamente a cabeça.
Diodoro, seguido por Aurélia, foi rumorosamente subindo a larga
escadaria de pedra e dirigiu-se para o quarto de Rúbria. A ama ali
estava, bem como Keptah e o menino Lucano, mas Diodoro viu apenas
sua filha, sentada na cama e rindo. Havia cores recentes nas faces
infantis; seus olhos escuros dançavam; os cabelos negros e compridos
tinham sido afastados do rosto e presos atrás com uma fita dourada. As
mãos pequenas seguravam uma boneca que Lucano fizera, toda de
cores brilhantes e alegres, com braços e pernas de madeira flexíveis. A
menina fazia a boneca dançar sobre seus joelhos, levando-a a adotar
atitudes grotescas. Lucano contemplava-a com um sorriso rígido e
ansioso, e Keptah misturava uma poção numa taça de vinho.
Vendo Diodoro, Rúbria empertigou-se na cama e exclamou,
excitadamente:
- Vê se não é uma maravilha, pai! Lucano trouxe-a hoje para
mim!
Beijou rapidamente Diodoro, desejosa de voltar ao brinquedo, e o
pai ficou a estudá-la, carinhosamente. Ah! a pequenina fora arrancada
dos próprios limites dos Campos Elíseos.* Viveria, seria o encanto do
coração do pai, com um bom casamento, mais tarde, dando-lhe netos
que faria saltar sobre os joelhos. Mas precisavam voltar para Roma, era o
que o tribuno pensava. Aquele clima não servia para uma criança.
Levaria a família para a sua propriedade rural nos arredores de Roma,
onde o ar era excelente e seco; seria um lavrador e esqueceria a cidade
podre, regozijando se com sua família. E poderia, mesmo, ter filhos.
Olhou para Lucano. O menino surpreendeu-lhe o olhar e disse,
timidamente, mas com orgulho:
- Rúbria esteve sentada na cadeira hoje, durante duas horas,
senhor.
Depois riu com a menina diante dos gestos cômicos da boneCa, e
foram ambos crianças que se divertem juntas. Pela primeira vez Diodoro
pensou nas despesas com a Universidade de Alexandria sem sentir
uma ferroada em sua bolsa. O menino viria a substituir Keptah, even-
___
* As almas dos justos vivem, depois da morte, segundo a mitologia
greco-romana, num lugar privilegiado, os Campos Elíseos. (N do T)
___
tualmente, quando este último estivesse velho demais. Ficaria com a
família, que gostava dele, e iria para onde a família fosse. Já que Lucano
nascera livre, poderia casar-se com pessoa de família sólida e virtuosa,
a família de um negociante próspero, talvez, uma família romana.
Lucano e sua esposa (que seria escolhida por Diodoro com um olho
em seu dote e virtudes, bem como na sua capacidade de se tornar mãe)
teriam um lar em sua fazenda. A alma paternalística do tribuno
expandiu-se. Em sua velhice teria os risos e vozes de crianças
em torno dele, e a visão dos campos e florestas, e o mugido agradável
do gado, e árvores de fruta e sombra, e os ruídos de um rio veloz.
Feliz como há muito não se sentia, Diodoro ordenou que Lucano
ficasse para o jantar, e disse à sua ama que mandasse um escravo à casa
de Enéias a fim de informar aos pais do menino que ele chegaria mais
tarde em casa. Lucano corou, pois nunca antes o convidaram a comer
à mesa do tribuno e sua senhora, mas não fez objeções. Rúbria pediu,
imediatamente, que a carregassem lá para baixo, e Keptah fez um
movimento afirmativo, respondendo ao olhar interrogador de Diodoro.
Este tomou a filha nos braços, e sentia o coração tão leve que nem
percebeu a fragilidade dela. Tinha consciência, apenas, de que a filha
ria ainda, e de que aninhara a cabeça em seu peito.
O salão de jantar era de ladrilhos coloridos, e havia um tapete
persa no piso. As janelas davam para as palmeiras, cujas pontas
mostravam-se tingidas de escarlate pelos ultimos raios do sol. A fragrância
dos jasmins e das rosas enchia o ar tépido. Tudo estava tão imóvel e
sereno que se podia ouvir a voz do rio. Keptah, em suas novas honras
de liberto e prezado médico, sentava-se longe, na outra extremidade
da mesa, mas Lucano sentou-se ao lado de Rúbria. Ele é como meu
filho, pensou Diodoro, subitamente amando o rosto de Lucano, tão
semelhante ao de Íris, e reparando na nobreza de sua fronte. Afinal,
pensou, para atenuar sua repentina democracia e violação das
propriedades, nós, romanos, sempre concedemos superioridade aos gregos,
inclusive entre os filósofos. Esse menino, sem dúvida alguma, teve
ancestrais patricios, provavelmente muito mais antigos do que os meus.
A refeição foi uma surpresa para Lucano, pois a mesa de seu pai
era muito mais pródiga e os vinhos melhores. Veio um prato de carneiro
assado, frio, sem grande capricho nos temperos, e demasiado
gorduroso. Veio uma bandeja de pão grosseiro e vários queijos não muito
finos. O vinagre e o azeite usados nos rabanetes e pepinos eram de
variedade ordinária, devido às economias de Diodoro e à sua falta de
78 79
apreciação. Lucano viu que o tribuno e Aurélia não tinham paladar:
eram, na verdade, pessoas simples e cordiais, preferindo alimentos
simples e cordiais, que comiam com prazer. Lucano teve saudades da
mesa de seu pai: Iris sabia temperar um prato de humildes feijões de
tal forma que aquilo se tornava um deleite epicuriano.*
Keptah, admitido pela primeira vez à mesa do tribuno, torcia seu
nariz moreno e aquilino. Aquilo era comida para porcos, não para
homens. Diodoro roía um ossinho e havia ali um odor pungente de
alho. Um homem civilizado pode distinguir-se da plebe pela
quantidade de alho em sua comida, foi o que pensou Keptah,
contentando-se com um pedaço de queijo, outro de pão, e um dos vinhos menos
revoltantes. Apesar disso, sentia bastante afeição por Diodoro.
Rúbria cansou-se, subitamente, e sua voz jovem e vivaz tornou-se
mais morosa. Diodoro levou-a pela escadaria até seu quarto. Os
escravos acendiam lâmpadas pela casa toda. Lucano acompanhou o tribuno,
e Rúbria suspirou de satisfação, ao recostar-se em seus travesseiros.
Estendeu a mão para Lucano, que a tomou, beijando-lhe
delicadamente os dedos. Rúbria fechou os olhos e sorriu, adormecendo
imediatamente.
Estava escuro, agora, e Diodoro informou Lucano de que ele, e
não um escravo, iria levá-lo a casa. No caminho, através da noite que
se fechava com rapidez, Diodoro falou eruditamente sobre Alexandria,
onde estivera. O colégio médico, só em si próprio, era vasto, e a
biblioteca representava uma das maravilhas do mundo. Lucano devia
sentir-se adequadamente humilde, ao pensar que iria ser um estudante
ali. O menino confirmou gravemente com a cabeça.
- Custará muito dinheiro disse Diodoro, cautelosamente,
tentando ver o rosto de Lucano à luz frágil das estrelas e da lua que se
erguia. - Não sou rico, Lucano. Tuas despesas serão pagas, mas
deves ser sóbrio.
Lucano conteve um sorriso.
- Senhor disse ele -, eu agradecerei um enxergão no piso
de um estábulo e minhas necessidades serão pequenas. Em troca,
suplico que me permitas servir-te. Ou, se não for assim, pagarei o que
gastares quando receber meus salários de médico.
___
* Por uma interpretação falsa, a palavra epicuriano é usada para
tendéncias ou prazeres sensuais. Epicuro, o célebre filósofo grego
(341-270 a.C.), ensinava que os homens devem procurar o prazer, que é o
grande bem da vida, mas com isso não se referia aos prazeres grosseiros
e sim à cultura do espírito e à prática das virtudes. (N. do T.)
___
Diodoro ficou satisfeito com aquela austeridade. Tomara a mão
de LucanO, e agora apertava-a.
Tolice, tolice disse ele, magnânimamente. - Só quero que
aprecies as vantagens que vais ter. Naturalmente, depois que te
diplomares, permanecerás com a família. Keptah estará mais velho,
também gozará de generoso estipêndio próprio, que lhe foi deixado
por meu pai Frisco. Que homem estranho e enigmático!
Atrás dele, sem que o soubesse sequer o soldado de ouvidos
agudos, seguia um jovem centurião, escondido entre as árvores, a
distância, a espada desembainhada pronta à proteção. Finalmente,
surgiu aos olhos deles a casa de Enéias, e Lucano pediu a Diodoro
que não fosse mais adiante. Correu então para a casa, parando por
um momento para acenar timidamente ao seu benfeitor, que o
saudou, indulgente, em resposta. Ah! Sim, disse Diodoro consigo
mesmo, este é o filho que eu devia ter tido. Por um momento,
quedou-se melancólico.
Demorou-se ali. Lucano entrou em casa correndo. Agora, tudo
era silêncio, a não ser pelo trilar agudo dos grilos e o misterioso
sussurro das folhas das palmeiras. Diodoro não sabia por que se
retardava,epor que havia em seu coração aquela desolação súbita. A única
lâmpada da casa de Enéias crepitou. A porta, então, abriu-se e Iris
saiu, sozinha. O luar dava um aspecto de prata flutuante ao seu
vestido branco e simples. Caminhou como uma deusa até uma árvore,
contra a qual se reclinou, sem saber da presença próxima de Diodoro.
Seu cabelo dourado tombava-lhe, solto, sobre os ombros.
Diodoro reteve o fôlego. Mal podia ver o perfil da jovem, na luz
difusa e argêntea. Mas viu que ela olhava em direção de sua casa, e
estava imóvel como uma estátua, a mão sobre a árvore. O braço nu,
estendendo-se dela, era perfeito e esbelto, e mais branco e radiante do
que a própria lua.
Nos ouvidos de Diodoro havia um ruído trovejante. Um
momento passou-se e Íris ainda olhava em direção da casa do tribuno. Estava
tão imóvel que Diodoro pensou numa aparição. Depois, sentiu o
ruíro de um choro abafado, e sobressaltou-se. Iris cobria as faces
com as mãos.
Diodoro deu um passo, um só, na direção dela, e então parou.
Desejava chamar, e não podia. Bastava-lhe ir até junto de Iris, tomá-la
nos braços, e por isto sua carne sentia terrível desejo. Podia sentir o
corpo dela contra o seu, e suas mãos nos cabelos maravilhosos, cabelos
80 81
com os quais brincara tão descuidadamente quando rapaz. Seriam
como seda dourada, e perfumados de flores frescas.
Mas não se moveu, apesar de toda a avidez apaixonada que fazia
tremer seus braços e seu coração pulsar ansiosamente. Baixou a cabeça
e, sem ruído, recuando passo a passo, retirou-se para entre as árvores
e se foi embora.
5
O professor grego de Rúbria e Lucano era um jovem ativo e pequeno,
de rosto moreno e malicioso e maneiras bizarras. Escravo, era muito
valorizado pelos seus conhecimentos. Custara a Diodoro quinhentas
peças de ouro, uma extravagância que só ocasionalmente causava um
frémito de arrependimento ao tribuno. Seu nome era Cusa, o que
para Diodoro soava como nome pagão, nem grego nem romano, e
tinha as feições de um sátiro jovem e língua apimentada e impudente.
Não temia nada nem ninguém, a não ser Diodoro, e embora fosse
brincalhão e não desdenhasse pregar peças e dizer gracejos grosseiros,
tinha mente brilhante e o dom das artes poéticas. Além disso, odiava o
analfabetismo e a estupidez, e atacava-os em linguagem suja, que fazia
Diodoro rir, mesmo quando censurava seu escravo.
- Por todos os deuses dissera ele, uma vez -, pensei que,
como soldado, conhecia todas as palavras, mas teu espírito inventivo
meu Cusa, melhorou meu vocabulário.
Cusa ressentiu-se da presença de Lucano desde o início. Como
rapaz feio, invejava do menino sua beleza apolínea. Na condição de
escravo, considerava Lucano, filho de antigos escravos, como que se
impondo sobre ele. Mas o senhor era homem caprichoso, suaS
ordens tinham de ser obedecidas. Nem por isso Cusa deixou de se armar
de um pequeno chicote, que usava em Lucano mais do que o
necessário, quando em sua opinião o menino estava demonstrando uma
estupidez irredutível. Fazia isso longe dos olhos de Rúbria e de
qualquer outro que fosse contar ao tribuno o que se passava, e Lucano,
embora dolorido, não se queixava. Um dia, porém o menino
prometia a si próprio -, tomaria aquele chicote e o usaria sobre OS
ombros de Cusa, com bons resultados. Cusa percebia o brilho nos
olhos azuis do orgulhoso menino, e fazia uma careta risonha. Pois é,
pensava ele, sou pequeno de estatura, e tu tens meia cabeça a mais do
que eu, meu belo ignorante, apesar da tua idade, mas aqui quem
manda sou eu!
A sala de aulas era pequena, com uma única mesa e três cadeiras,
e uma estante cheia de rolos, que eram livros. Cusa mantinha a porta
aberta, e às vezes, por gentileza e em deferência para com Rúbria,
levava os alunos para a relva e permitia-lhes sentar-se nela, Rúbria
numa almofada para protegê-la da umidade.
- Os filósofos perambulavam entre as colunatas dizia ele -
e reclinavam-se sobre pedras. - Mandava que Lucano se empoleirasse
numa pedra particularmente desconfortável, e dizia insinuantemente:
- Devemos aprender a ser estóicos: é excelente para a alma e uma
disciplina para a mente.
E, como não era um estóico, estendia sobre a relva seu manto de lã
carmesim, onde instalava suas próprias nádegas.
Uma vez, disse a Diodoro:
- Senhor, peço-te que não te sintas desapontado. Este menino
pode ser bonito, mas tem a cabeça como o mármore ao qual se parece.
- Pois então ensina-lhe a ser carne e cérebro disse Diodoro,
compreendendo Cusa. - Advirto-te, Tens de prepará-lo para
Alexandria, e o mais depressa possível.
Aquilo fez com que Cusa detestasse Lucano mais do que nunca.
Ah! Era bastante ter cabelos amarelos e pele branca para atrair um
benfeitor, dizia consigo mesmo, maliciosamente. Tu, meu bom Cusa,
parece-te a um camelo oa a um macaco e essa é a tua desffraça.
Apesar disso, durante o decorrer dos muitos momentos, horas,
semanas e meses, até alcançar dois anos, acabou, relutantemente por
olhar com respeito a rapidez dos progressos de Lucano, sua ponderação
e sua compreensão quase miraculosa do conhecimento. O menino
Possuía mente devoradora: fatos, poesias, línguas, tudo ele recebia,
assimilava e fazia seu. Aparentemente, nada esquecia. Suas declamações
eram maravilhosas. Havia já muito tempo que deixara Rúbria
Para trás, e ela o contemplava com admiração, aplaudindo-o. Como se
tratava de uma menina, não se esperava que tivesse uma inteligência
fora do comum: seu pai desejava que adquirisse apenas o conhecimento
necessário para apreciar a poesia e os livros menos exigentes.
Diodoro, ouvindo os relatórios sobre OS progressos de Lucano, dizia:
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- Bem, agora aquele patife do Cusa está começando a valer o
dinheiro que gastei com ele.
Relutantemente, Cusa começou a sentir prazer nas lições que dava
a Lucano. O menino mantinha-o alerta, e as horas de ensino já não
enfadavam, como acontecia quando Rúbria era sua única aluna.
Tentou alcançar os limites de Lucano dando-lhe lições intrincadas, muito
para além da idade do menino, mas Lucano estava sempre um passo à
frente delas, e sem dificuldade. Cusa, um verdadeiro professor, tinha
orgulho constrangido e secreto daquele aluno, embora sua língua ferina
e seu sarcasmo não traíssem tal coisa.
- Serás um esplêndido guarda-livros dizia ele,
freqüentemente. - Mas que fantasia é essa tua de estares convencido de que
serás médico um dia? Nada sabes, senão de cor, e eu choro pelos teus
futuros pacientes. - O chicote continuava sempre pronto.
Dentro de dois anos Lucano podia discutir com Diodoro os
poetas e os filósofos maiores, para satisfação do tribuno. Diodoro
abriu-lhe sua preciosa biblioteca, e Lucano ali ia estudar, depois das horas
que passava com seu professor. E só o escurecer o arrancava do lugar.
Havia também as horas com Keptah, e essas eram as que Lucano
considerava mais compensadoras.
Os dois jamais falavam da morte inevitável de Rúbria quando
estavam juntos. Era verdade que o corpo Jovem da menina se ia fazendo
arredondado, com a doçura da puberdade que se aproximaVa,
embora ela fosse dois anos mais moça que Lucano. Também era
verdade que seu bonito rosto moreno estava mais cheio e alerta com a
alegria de ser jovem e querida, e que seu apetite melhorara, podendo
ela, em curtos intervalos, brincar vigorosamente com Lucano. Mas sua
doença mortal, Keptah o sabia, permanecia latente. Para Lucano, era
bastante estar junto de Rúbria, tocar-lhe a pequena mão quente,
trocar com ela olhares divertidos, à custa de Cusa, correr pela grama e
apanhar uma flor imensa, vermelha e úmida, para colocar atrás da
orelha da menina. Atiravam bolas um ao outro, rindo e gritando.
Imitavam o chamado dos pássaros, e olhavam com respeito e amor os
pequeninos animais selvagens da floresta. Havia momentos em que
ficavam tão dominados por uma alegria inenarrável, que apenas
podiam olhar nos olhos um do outro, com radiante gozo e timidez. Dia após
dia, Rubria fazia-se niais bela, mais amada pelo seu companheiro de
brinquedos. As vezes, ele pensava: Com certeza Deus nãO levará
de mim este tesouro, esta querida, esta irmã, este coração do meu
Coração.
Sem Rúbria não haverá canções, nem alegria no sangue, nem
ternura, nem razão para existir. Brincava com os cabelos de Rúbria,
como Diodoro havia brincado com os cabelos de Iris, e regoziJava-se
com suas madeixas sedosas, tão impregnadas de frescura e do pungente
odor da vida. As vezes, sem se falarem, beijavam-se, e a sensação da
face de Rúbria encostada à face de Lucano dominava o menino em
fervorosa beatitude. Tomava a companheira nos braços e sentia
manter ali o mundo, e toda a beleza e doçura.
Vendo aquilo, Keptah já não advertia Lucano quanto à inevitável
desolação. Ele próprio acreditava na presença de algo sagrado e iluminado
pela inocência. Havia ocasiões em que se entristecia, e
perguntava: Deus da apenas para retomar? Rouba apenas a fim de voltar para
si o coração humano?
Cusa veio ter com Lucano e Rúbria, uma tarde, depois de terem
terminado suas aulas. Lucano tecia uma guirlanda de folhas e flores
para Rúbria e ela o observava, com intenso prazer. No ombro da
menina pousava um pássaro domesticado, todo escarlate e jade, que
pipilava em seu ouvido. De vez em quando, ela voltava a cabeça e
beijava-lhe o bico amarelo. O professor, sempre pronto a uma frase
cáustica para censurar a perda de tempo, ficou abruptamente silencioso.
Olhou-os de longe, e sentiu-se tomado de melancolia. Os deuses
ressentiam-se da juventude, da beleza e da alegria entre os mortais. Ali
estava um rapaz como Febo, deus do sol, e uma donzela de tímida
virgindade e doçura. Cusa, tomado por pressentimentos, voltou-se e
saiu dali. Cético como era, nem por isso deixou de rezar, naquela
noite, para que os deuses não invejassem aquela beleza, aquele ingênuo
dulçor. Na manhã seguinte, disse a Lucano, zangado:
- Se quiseres ser um erudito e um médico, advirto-te de que
não folgues com meninas, tão descuidadamente. Isso é para a plebe e
para os vulgares. Atenção! Vamos repetir esta manhã os diálogos de
Sócrates, singularmente obtuso no que a eles se refere.
Aquele foi um verão delicioso. Tudo era serenidade. O pedido de
Diodoro, a fim de passar para Roma e para a sua propriedade rural,
não tivera resposta, mas ele esperava que fosse favorável. Cultivara
assiduamente as horas com sua esposa, e alguma tranqüilidade
fez-se nele. Evitava Enéias o máximo possível, e nunca mais levou
Lucano de volta a casa. Íris demorava-se em sua mente com a
lembrança da manhã, mas ele evitava severamente encontrar-se com a moça.
Era um sonho, e devia ser recordada como um sonho. Se um homem
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não pudesse controlar estritamente seus pensamentos, então não era
um homem e, particularmente, não era um romano. A vida exigia
disciplina tanto da mente como do corpo e, especialmente, do
coração. Recebia livros de Roma, e mergulhava neles. Tinham agora para
ele uma significação especial aquelas filosofias de homens ascéticos,
cheios de sabedoria, que soavam a nota de paciência e fortaleza
quando os homens faziam soar sinos solenes e sonoros. Mergulhado na
filosofia eterna, esqueceu a corrupção de Roma e seu fétido e
clamoroso presente. Que o mundo todo tombasse. A verdade era imortal. "Os
imbecis correm para Roma", citava ele, para si próprio, "mas o
homem encontra refúgio nas verdades."
Rúbria alcançou a puberdade, e Aurélia regozijou-se. Houve
solenes sacrifícios no templo predileto de Aurélia, o templo deJuno. Ela
recomendou sua filha à esposa de Júpiter, a guardiã da lareira, da
família e das crianças. Olhou dentro dos olhos luminosos de Rúbria,
tão puros e inocentes, e sonhou com netos. Havia ainda em Roma
famílias que tinham filhos jovens e vigorosos, devotados aos deuses e à
sua pátria. Era possível ter netos, mesmo quando não se teve filhos
homens. Trançava os cabelos de Rúbria com fitas e aconselhava-a a
que fosse modesta. Ensinou-lhe as artes domésticas e da cozinha, e
como uma mulher pode agradar mais seu marido. Escreveu a amigos,
em Roma, e comentou a beleza e a maturidade crescentes de Rúbria.
- Estás apressando as coisas disse-lhe Diodoro, certa noite.
- A menina tem apenas onze anos.
Tinha ciúmes do jovem que iria tomar-lhe a filha, gozar de seus
risos e doçura, separá-la dele, e fazê-la esquecer o pai.
Murmurando sobre uma tabuinha encerada na qual escrevia a
uma amiga querida, mãe de filhos atléticos, Aurélia disse,
abstraidamente:
- Qual será o dote de nossa filha? Diodoro, esquece teus
bancos, peço-te. Precisamos considerar o futuro de Rúbria. Ela estará
pronta para o casamento em menos de três anos.
Três anos. Sou um velho, pensou Diodoro, ressentido. E disse:
- Estás apressando as coisas. A pequena diverte-se a correr pela
relva; é ainda uma criança.
Naquela noite embalou Rúbria em seus braços e cantou para
adormecê-la. Depois, ficou contemplando as sombras de seus cílios lançadas
sobre as faces cor-de-rosa, e a doce curva de sua boca. Minha querida,
pensou, querida do meu coração. Com certeza jamais houve donzela
tão adorável e tão inocente, tão tépida de carne e tão querida. Uma
Hebe,* nascida para servir os próprios deuses. Desviou o pensamento,
com um súbito sentimento de terror. Que os deuses arranjassem outros
servidores! Eram deuses, e tinham multidões, mas ele possuía
aquela filha.
Uma tarde, Keptah entrou na sala de aula e disse, laconicanlente,
a Lucano:
- Vem.
Cusa lançou-lhe um olhar furioso e disse:
- O menino está estudando Platão neste momento.
- Vem repetiu Keptah a Lucano, ignorando o professor, que,
afinal, não passava de um escravo. E Lucano, sem uma palavra,
ergueu-se e deixou o quarto com o médico. Mas, no limiar, parou para
uma reverência a Cusa, compreendendo que escravos e servos
são muito sensíveis.
- Diodoro tinha posto um burro a serviço de seu liberto, Keptah.
- Um animal desprezível disse o médico, um tanto mortificado.
- Mas ouvi dizer que os burros são freqüentemente mais inteligentes
do que os homens e têm senso de humor.
Pediu um burro emprestado para Lucano.
Hoje vamos a Antioquia disse ele, - Ah! Aqui está teu
animal, que vem das cavalariças. Ainda bem que não pedi cavalos,
pois ficaríamos desapontados. Para um romano, nosso senhor não se
deixa Impressionar pela carne eqüina, e todas as suas criaturas estão
picadas de pulgas. Que adianta o dinheiro se não o gozamos? Mas há
alguns homens que gozam a idéia de seus cofres mais do que o pensamento
de tirar proveito deles.
Sua má disposição fez Lucano sorrir. Os burros estavam gordos,
bem-tratados a almofaça, e fitavam o médico e o rapaz com arrogância.
- Eles também não se sentem impressionados a nosso respeito,
comentou Keptah, montando.
Suas pernas compridas e ossudas pendiam quase até o chão, e
Lucano sorriu. Saltou sobre o animal que lhe fora indicado,
acariciou-lhe o pescoço e o burro fechou os olhos, como que entediado.
Começaram, então, a trotar pela estrada de Antioquia, mantendo
___
* Hebe, deusa da juventude, filha de Júpiter e de Juno. Foi a esposa de
Hércules, o Héracles grego, semideus da mitologia latina que, em
consequência dos seus conhecidos doze trabalhos, tornou-se o símbolo
da força e da coragem. A referência, aqui, é o fato de ser
Hebe a encarregada de servir aos deuses o néctar olímpico.
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Keptah um silêncio fora do habitual. Tinha puxado o capuz sobre sua
cabeça, menos no esforço de se proteger contra o sol escaldante do que
para se retirar em solidão. As vezes, Lucano chicoteava o animal para
que ele saísse a galope, regozijando-se com o sol e com o vento, que
não crestavam sua pele alva. Seu cabelo louro esvoaçava para trás, e o
menino cantava. Não sabia onde Keptah o estava levando, mas era
bastante estar livre à luz do dia, ser jovem e ver vastidões azuis, flores
selvagens, escarlates e roxas, ao longo da estrada estreita. Ele tinha os
seus sonhos.
Antioquia, como sempre, era um turbulento lodaçal de cor, calor
e fedentina. Novas frotas vindas do Oriente e de outras terras
estranhas mantinham-se no porto azul e fulgurante, suas velas brancas e
vermelhas palpitando contra o céu. As ruas estreitas, curvas e
empinadas, retumbavam de vozes estrangeiras, e em todas as portas, em todas
as passagens e becos calçados de pedras, apareciam rostos morenos e
vorazes, soavam palavreado profano, gritos, risos e exclamações. As
lojas fervilhavam. Os gritos dos mercadores deixavam os demais
ensurdecidos. Camelos queixavam-se, bigas passavam em disparada
ruidosa. asnos zurravam, e havia um cheiro quente de carne assada, vinhos,
acidez, e de especiarias em bolsas aquecidas, ao longo das ruas.
judeus, sírios, sicilianos, gregos, egípcios, tessalonicences, negros, gauleses,
bárbaros de várias procedências e metidos em roupagens estranhas
caminhavam ou esbarravam uns nos outros por todas as ruas,
levantando nuvens de espessa poeira tranca que a luz do sol tocava. Havia,
aqui e ali, discussões acaloradas e brigas e edifícios pálidos e
brilhantes salientavam-se no ar. Crianças brincavam nos caminhos de
veícUlos e animais, xingavam os que os conduziam ou montavam, e pediam
esmolas, suas faces impertinentes bronzeadas de sol.
Lucano gostava da cidade fulgurante e ela o excitava. Viu homens
e mulheres entrando em pequenos templos de coluna, com pombas e
cabritinhos sob o braço. Viu as flâmulas brilhantes e sentiu o cheirO
do feno aquecido e a pungência do pó. Teve esperança de que Keptah
o levasse à taverna favorita do médico, mas este passou por ela sem
sequer lhe dirigir um olhar. Soldados romanos namoriscavam moças
vestidas de cores vivas, e sentiam-se particularmente atraídoS pelas
que usavam véu no rosto. Pilheriavam com as jovens, e olhos escuros
relampagueavam à luz do sol. O ruído era uma presença palpável no
ar quente e picante, que trazia em si um odor de alho e excrementos.
Diodoro falava em Roma, da Cidade Imperial, mas Lucano pensava
que cidade alguma poderia ter aquele cheiro e aquela sedução. As
mulheres debruçavam-se nas sacadas e de dentro de algumas casas
vinha o tanger de liras e risos, vinha o cheiro das flores de laranjeiras e
das rosas dos jardins que ficavam atrás das altas paredes.
Keptah lá se ia trotando em seu asno, presença recolhida e secreta,
para Lucano até depressiva, em todo aquele colorido. Um grupo de
marinheiros, usando tangas, e com grandes argolas de ouro nas orelhas,
estava discutindo numa esquina, os rostos escuros altivos e violentos,
os gestos veementes. As vozes estranhas, falando uma língua
que Lucano não reconheceu, gritavam no calor, e uma faca reluziu.
Keptah continuou seu caminho como se estivesse a sós. Lucano
suspirou. Havia mais vida do que filosofia. Corpos quentes apertavam-se
em torno de seu burro, e havia por toda parte um cheiro ácido de
suor. palmeiras secas, que a poeira recobria, espalhavam-se pelas ruas.
Vendedores ambulantes, levando tabuleiros de doces, sobre os quais
as moscas voejavam, apregoavam agudamente suas mercadorias e corriam
atrás do rapaz e do homem com seus pés nus e escuros. Depois,
desapontados, gritavam-lhes maldições. Mendigos sentavam-se contra
as paredes, gemendo, batendo em suas tigelas, as barbas emaranhadas
e sujas. Mulheres ofereciam flores em cestas, e velhos, com bastões,
andavam pelo meio do lodaçal, como se não enxergassem, como se
já não fosse o seu mundo. Um grupo de cabras, conduzido por
um menino, bloqueou momentaneamente a passagem, os animais
gemendo, zombando, dançando. Como sempre, Lucano estava
encantado. Riu de um macaco insolente trepado nos ombros de um homem,
e desejou inspecionar uma loja de papagaios.
As ruas foram se fazendo mais quietas e mais sombrias, e Lucano
percebeu que havia menos pedestres e menos veículos. Agora, os
edifícios, velhos e decrépitos, tinham aspecto soturno. Os ruídos da
cidade ficaram abafados. Os uivos dos cães diminuíram. Lucano,
deprimido, trotava ao lado de Keptah:
- Para onde vamos? perguntou. - Nunca estive aqui antes.
- Fica quieto disse Keptah, em voz fraca e rouca que veio de
dentro de seu capuz. - Esperei muito tempo pela resposta a uma
mensagem e ela só chegou hoje.
O ar era mais fresco ali, as pedras redondas estavam úmidas como
se houvesse chovido, as paredes das casas mostravam-se intransponiveis
e sombrias. As ferraduras dos asnos levantavam ecos e poeira
adstringente. Um riachozinho, proveniente de águas de valetas, corria
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sobre as pedras, escuro e lodoso. Produzia um ruído rouco e cheirava
mal. Paredes de pedra de um rosado escuro erguiam-se de cada lado
da rua fechada, e não vinham vozes delas. Mas, por uma ou duas
vezes, Lucano ouviu o miado brando de gatos invisíveis, e pensou em
Iris, a deusa branca dos egípcios, e nos rituais secretos, e nos mistérios
do Oriente. O menino estremeceu: a umidade do suor esfriou em sua
carne, e ele desejou ter trazido um manto.
Keptah, então, abruptamente, freou seu asno cinzento e fez um
gesto para o menino. Parara diante de uma alta parede de basalto,
preta e lisa. Não havia janelas recortadas em sua forte e impressionante
lisura. Não vinha som de vida de trás de sua altura. Apenas uma
portinha surgia em sua fachada repelente. Keptah desmontou e, deprimido,
Lucano seguiu-o. Sem falar, o médico bateu na porta, como que
dando um sinal. A batida ecoou de parede a parede. Keptah esperou,
depois tornou a bater. Dessa vez houve um tinir de correntes, e o som
de ferrolhos retirados. A porta abriu-se, com um queixume dos gonzos.
A abertura alargou-se, e um velho vestido com grosseira túnica
cinzenta ali estava, incrivelmente pequeno, com longa barba branca e
os olhos castanhos mais brilhantes que Lucano tinha visto em sua vida
- os olhos de uma criança sorridente e maravilhada. Havia chaves
retinindo em seu cinto de cânhamo, e trazia os pés descalços.
Falou com Keptah numa língua incompreensível, rápida e em
tom de boas-vindas, e curvou-se profundamente. Durante todo o tempo
lançava olhares curiosos sobre Lucano. Abriu a porta para trás, tornou
a inclinar-se e afastou-se para um lado.
Lucano pestanejou, estonteado. Atrás daquela porta havia um
jardim de relva sedosa, tamareiras, árvores brilhantes, fontes, canteiros
de rosas e lírios, e toda espécie de flores. O jardim fruía o sol como se
fosse um outro mundo. Maciços de salgueiros agitavam-se como
cataratas verdes, ao mais doce e mais silencioso dos ventos. As fontes
cantavam e as árvores respondiam. A uma certa distância, naquele brilho
e perfume, ficava um edifício retangular, baixo e radioso, feito de
mármore branco, e para além dele levantava-se um outro edifício de
granito cinzento, com janelas em arco, que fechavam, repelindo a luz, e tão
silencioso quanto um sepulcro.
Passagens de pedras amarelas serpeavam pelos jardins, e bancos de
mármore ficavam espalhados aqui e ali, em pontos de sombra claro-
escura, protegidos do sol. Jamais Lucano vira tal beleza e tranqüilidade,
e ainda assini havia um ar de dignidade e reserva naqueles jardins e em
torno dos edifícios. O silêncio não era perturbado sequer por uma voz,
nem se via alguem nos terrenos, no edifício de mármore, ou no Outro
edifício. O rapaz estava estupefato. Ficou a olhar, estonteado, enquanto
a porta se fechava atrás dele e de Keptah, e não teve consciência do
cuidadoso correr dos ferrolhos e do tilintar das correntes.
- Vem disse Keptah, e Lucano seguiu-o sobre a relva macia.
Pássaros coloridos fitavam-nos, das ramas douradas. As fontes
sussurravam. As rosas balançavam e exalavam tépida fragrância. Os lírios
erguiam seus cálices alvos, espalhando seu perfume sagrado,
enquanto abelhas suspendiam-se sobre eles, introduzindo os Corpos
dourados, profundamente naquelas taças. E, pela primeira vez, Lucano
percebeu um som que antes não ouvira: era um ruído que o ouvido
mal interceptava, não uma canção, não um cântico, mas apagada
combinação de ambos. Fazia parte do ar luminoso, parte das fontes, parte
do vento e, contudo, era Uma voz humana.
Keptah conduzia Lucano, em silêncio, através do relvado e em
direção ao edifício retangular de mármore, que não tinha janelas nem
pórtico. Uma porta de bronze esculturada com estranhas figuras, que
reluzia em toda aquela brancura, abriu-se.
- Entra disse Keptah. Lucano, mesmo em seu estonteamento,
teve um sobressalto. Mão alguma abrira a porta, que,
aparentemente, movera-se por si mesma, sem ruído de gonzos. Lucano ficou
no limiar e hesitou antes de entrar ali. Keptah murmurou: - Nada
fales, nada perguntes. Eu vou te deixar por alguns momentos.
A porta fechou-se diante do rosto dele, e Lucano ficou sozinho.
Embora não houvesse janelas nem porta aberta, a nua alvura do
amplo aposento estava impregnada de uma luz flutuante e aperolada
que se aCentuava, reluzia, desmaiava, depois tornava a reluzir. Era
impossível ver a nascente daquela luz, que pulsasa coroo um coração
acifico. Trazia com ela um toque como que de incenso, que vinha de
toda parte, e de parte alguma. Lucano percebeu, imediatamente que
estava num templo, mas não sabia de que espécie e, sem que pudesse
explicar por quê, começou a tremer.
Notou, então, que no centro do aposento estava a mais estranha
de todas as coisas; não um altar, mas algo que lançou um medo
impulsivo na alma do rapaz. Sobre a ampla plataforma central de três
degraus baixos de mármore branco levantava-se o grande símbolo da
coisa mais infamante do mundo, o símbolo da mais vil criminalidade
e morte. Era uma Cruz imensa, que parecia feita de alabastro transpa-
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rente, e que se erguia quase até o teto raso, de pedra lisa. O medo de
Lucano transformou-se em temor respeitoso e espanto. A Cruz
elevava-se, solitária, e nada mais havia no templo a não ser sua simples mas
terrífica majestade; nenhum som, mas absoluto silêncio.
A luz pulsava e desvanecia-se, e a Cruz esperava. Lucano,
entretanto, ficou de pé, longamente, a contemplá-la, o coração batendo
audivelmente em seus ouvidos. Poucas, muito poucas vezes, ele vira
um homem crucificado nas colinas dos arredores de Antioquia, e
sentira-se comovido até as lágrimas, tomado de uma cólera a que não
saberia dar nome. Depois vira a cruz de ouro na mão de Keptah, na
noite da Estrela, havia já dois anos. Tinha quase esquecido.
Timidamente, caminhando devagar como que para não perturbar
aquele silêncio santificado nem aumentar a maré da radiação
flutuante, aproximou-se da Cruz e ficou na base dos degraus rasos e
brilhantes, levantando os olhos para ela. Seus braços poderosos estendiam-se
bem acima dele. Ela mostrava uma qualidade sobrenatural de espera,
fria e interrogativa. Seu corpo era fixo e poderoso, ainda assim leve
como luz. Parecia agora, ao rapaz, menos do que pedra, mas algo
sensível e eterno, inalterável em sua vastidão, esculpida em grandeza.
Lucano olhava para ela, e seu olhar não podia desviar-se. Nada
havia agora nele, a não ser uma antecipação sem nome. Sua garganta
pulsava. Sem volição sua, seus joelhos dobraram-se e ele ajoelhou-se
no primeiro degrau, juntando as mãos, sem retirar os olhos da Cruz.
Ela agigantava-se por sobre o rapaz, que sentiu ali alguma horrível
presciência, mas, ainda assim, era como se braços se suspendessem
sobre ele, protetoramente. Agora, a luz do templo aumentava, como o
reflexo da lua em asas amplas.
Não havia pensamento em Lucano, nem consciência da carne,
apenas um profundo encantamento e algo como júbilo tocado de dor.
Esteve ajoelhado, longamente, seus olhos azuis levantados bem alto
para a Cruz, as mãos postas.
Não soube em que momento a Cruz começou a brilhar; em que
momento a própria Cruz começou a ondular com leves sombras
rosadas. Era como se a sua alma se tornasse consciente disso antes da sua
mente, e assim ele não se alarmou. Estava, também, sonhadoramente
consciente de uma Presença invisível, com a Cruz, com a luz, com ele
próprio. A Presença era como que um feixe da mais profunda
luminosidade, repleta de enorme ternura masculina. Lucano disse,
com seus lábios pálidos:
- O Deus Desconhecido.
Durante os dois últimos anos, sua juventude e a abundância de
sua vida, seu gozo apaixonado do conhecido, suas ambições, seu
muito caro amor por Rúbria, sua sensação de pertencer ao mundo e
àqueles que o amavam, sua dedicação pela medicina e sua preocupação
com Keptah, a própria alegria e alvoroço de sua idade, sua saúde
saltitante e seu deleite em todas as coisas, tinham obscurecido,
tornado apagado e ilusório o que ele tinha conhecido ou sentido quando
criança. Mesmo o Deus Desconhecido se tornara um dos do Panteão,
e os aspectos, relatos e benevolências dos deuses tinham intrigado seu
coração jovem como uma tremenda fantasia de beleza. Seus dias,
durante aqueles dois anos, corriam como um rio colorido e vivaz, atrás e
diante dele, cheio de promessas. Cusa era um cético e Lucano viera a
examinar as coisas sob tom humorístico, mesmo os sonhos e mistérios
que conhecera quando criança. Como se soubesse, Keptah também
falara cada vez menos no Deus Desconhecido e se limitara às lições de
medicina. As vezes seu rosto concentrado e secreto fizera Lucano
sentir uma constrangedora impressão de culpa.
E agora, naqueles momentos, sua vida tornou-se uma ilusão, a
vida de uma criança muito nova, e ele estava de novo na presença do
grande Milagre, que não o repreendia, antes lhe dava as boas-vindas.
Lucano não compreendia a significação da Cruz com a sua mente;
apenas seu coração compreendia e ainda assim não tinha palavras.
Sentia-se repleto de êxtase como se, diante dele, visões se
abrissem magnificentes, contudo dolorosas por um sofrimento
sobrenatural, que ficava para além da compreensão dos homens.
O faiscar da Cruz tornou-se mais profundo em colorido e mais
intenso, de forma que as paredes brancas, o teto e o piso
empalideceram como nuvens, parecendo tão tênues quanto elas. Lentamente, de
forma sincrônica, o colorido rosado e inquieto tomou a aparência de
flutuantes sombras de sangue, empoçando, tombando e derivando
dos braços e descendo por todo o enorme corpo da Cruz. A
luminosidade aperolada que tlutuava pelo templo moveu-se mais
rapidamente, como se presenças etéreas se estivessem reunindo em
maior concentração. O menino estava consciente de que não sentia medo,
apenas um assombro crescente e um amor tão profundo que seu corpo
mal podia conter. Os reflexos escarlates vindos da Cruz reluziam em
seu rosto, em sua túnica branca, em suas mãos postas, em seus olhos,
em seus joelhos dobrados.
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Vagarosamente, arrastado como que por um encanto, ele ergueu-se
e subiu os degraus rasos, pondo-se em nível com a Cruz. Era uma
árvore onde se misturavam o vermelho e o branco, palpitando com
força desconhecida para ele. Ousou estender a mão, e tocá-la; sentiu-a
fria sob seu toque, ainda assim vibrando lentamente. Súbito, Lucano
foi dominado por uma paixão que ia além do arrebatamento: sentia-se
arrastado para o próprio coração da Cruz. Suas pernas enfraqueceram
e ele deslizou sobre a plataforma, envolveu o tronco da Cruz com os
braços e encostou o rosto contra ela, sem a mais leve consciência de
que seu corpo tremia de adoração, e com a paz mais profunda que ele
já conhecera. Fechou os olhos: estava no âmago do universo.
A porta de bronze abriu-se silenciosamente, como que tocada por mão
invisível, e quatro homens apareceram no limiar, e um deles era Keptah.
Conservaram-se na abertura e viram o rapaz prostrado, os braços
circundando o pé da Cruz, o rosto contra seu fuste. Três dos homens,
muito mais altos e de ombros mais largos do que o do próprio Keptah,
sorriram com ternura, olhando uns para os outros. Aproximaram-se
da plataforma com pés que pareciam calçados de veludo, e ali ficaram,
sem uma palavra, contemplando a Cruz por muito tempo. Depois, os
quatro ajoelharam-se, inclinaram a cabeça sobre o peito e fecharam os
olhos. Seus lábios moviam-se em oração.
Três dos homens estavam vestidos como reis solenes, pois na
verdade eram reis. Suas túnicas e seus mantos reluziam em tonalidades
carmesins, azuis e brancas, e um tom jade dos mais delicados. Cinturões
de ouro trabalhado, incrustados com jóias reluzentes, rodeavam-lhes a
cintura. Turbantes da mais pura seda branca envolviam-lhes a cabeça,
constelados de pedras preciosas que brilhavam com resplendor
celeste. Traziam ao pescoço imensos colares largos de ouro e prata, cada um
mais comprido do que o outro, franjados de metais nobres e
intrincadamente trabalhados com pedras preciosas de muitas cores. Os
braços morenos e nus ostentavam largos braceletes incrustados de gemas,
logo abaixo dos ombros e em torno dos pulsos, e os pés calçavam
sandálias douradas. Os rostos orientais mostravam-se morenos pelo
sol do deserto, e as barbas curtas eram viris e reluziam com óleos
perfumados. De sob espessas sobrancelhas pretas seus olhos orientais
cintilavam como fortes estrelas escuras, e seus narizes eram de águiaS,
aduncos e poderosos, mais do que um tanto selvagens, como o eram
seus lábios vermelhos.
Lucano não saberia dizer quando teve consciência da presença de
Keptah e dos estranhos. Mas não lhe pareceu esquisito que ali
estivessem, e olhou-os com aceitação tranquila, esperando, os braços ainda
rodeando a Cruz. Quando se levantaram, Lucano não se moveu. POIS
foi como se eles o tivessem esquecido ou não o tivessem visto. Deixaram
o templo, e Lucano tornou a dormitar ou dormir, e aquilo foi algo
que mais tarde não soube explicar a si próprio. Sentia a mais
profunda relutância em deixar a Cruz. Enquanto ali estava, sentia segurança,
paz e a realização de todos os desejos.
Keptah ficou de pé, separado dos estrangeiros, no jardim,
enquanto eles se comunicavam uns com os outros, voltando-se para o
que falava, com a mais profunda gravidade, e depois confirmando
com um gesto de assentimento. Falavam uma língua que nem Keptah
conhecia, mas que tinha ressonâncias familiares, como se ouvisse ecos
de vozes de sua infancia.
Afinal, como que chegando a uma conclusão, sorriram
afetuosamente para Keptah, e um dos estrangeiros aproximou-se dele, e
quando Keptah ajoelhou-se, o outro colocou-lhe a mão sobre a cabeça,
abençoando-o. Falou então, de forma que Keptah pudesse entender.
- Não te enganaste, meu irmão disse ele. - Estas
verdadeiramente certo. O rapaz é um de nós. Mas não pode ser admitido na
Fraternidade, e eu não ouso dizer-te o porquê. Há um outro caminho
e uma outra luz para ele, através de longos e áridos lugares. cinzentos
e desolados, e ele terá de encontrá-los. Porque Deus tem trabalho para
ele realizar antes que chegue à sua última viagem, e uma mensagem
única para lhe dar. Não te sintas desapontado, não chores. Fizeste
bem, e Deus está contente contigo. Muitos serão chamados dos cantos
mais remotos da terra, e quando e como são escolhidos não está em
nossas mãos, mas nas mãos de Deus, apenas. Ensina-lhe o que puderes
ensinar-lhe, depois deixa-o ir, mas podes estar certo de que não se
extraviará nas sombras e de que voltará de novo para a Cruz.
Um deles contemplou meditativamente os jardins, como se visse
uma visão longínqua.
- Chegará até ela, e sentará em seus joelhos murmurou. -
Ela lhe falará das coisas que ponderou em seu coração e sobre as quais
não falará a outro homem. Tem poucos anos mais do que o próprio
Lucano, e também terá de sofrer sua angústia, que aceitou na noite da
Anunciação angélica. Ele verá sua beleza e doçura e ouvirá sua meia
voz. Mas isso será no futuro, não está prescrito para agora.
94 95
- Eu desejei vê-la, tocar seu manto disse Keptah, a voz
trêmula. - Sonhei com a visão do menino recém-nascido em seus
braços.
- Tu a verás disse um dos estrangeiros, em voz baixa. - Se
não a vires aqui, hás de vê-la no céu.
- Misteriosos são os caminhos de Deus disse ainda outro. -
Nós só podemos obedecer.
- Eu nada tenho a dar disse Keptah.
- Estás dando tua vida. És fiel e cheio de conhecimento.
Keptah levantou-se, depois inclinou-se e beijou a barra do manto
dos estrangeiros, os olhos nublados pelas lágrimas. Eles ergueram-no,
beijaram-no e deixaram-no, dirigindo-se para o edifício de granito
que ficava a distância.
- Dai-me sabedoria murmurou Keptah quando eles se
afastaram.
Lucano surgiu, passando pela porta que ficara aberta,
deslumbrado, pestanejando, e encontrou Keptah sozinho. O rapaz e o homem
contemplaram-se mutuamente, demasiado repletos de pensamentos
para poderem falar durante algum tempo. Depois, Lucano disse:
- Quem eram aqueles homens? Parecem reis.
- São reis disse Keptah, delicadamente. - São os reis
Magos.*
Tomou a mão fria de Lucano e conduziu-o para a saída, dizendo:
- Não faças perguntas porque eu não posso responder. Não me
é permitido falar.
6
- Um dos nossos maiores sacerdotes da Babilônia, ou Caldéia,
declarou, certa vez, que se um homem se priva das coisas boas do
mundo, coisas permitidas pelo mundo e por Deus, será chamado
severamente a prestar contas disso falou Keptah. - Isso é algo que esses
moralistas ascéticos, de rostos compridos, os judeus fariseus intelec-
___
* Mateus 2:1. (N. do T.)
___
tuais, negariam. E, possivelmente, também nosso bom senhor, o
tribuno, o negaria. Entretanto, é a verdade. E uma filosofia que não
pode ser desafiada pela declaração de um Sócrates dizendo que
desejar o mínimo possível é fazer aproximação mais chegada de Deus. Isso
vem a ser, como sempre te digo, meu jovem Lucano, uma
interpretação individual, e o que para um homem é felicidade, bondade e
moralidade, pode ser odioso para outro homem.
Lucano riu:
- Não admira, Keptah, que Diodoro esteja sempre se
queixando de que és um sofista, e de que qualificas uma declaração agradável
com outra desagradável, sendo ambas verdadeiras por igual.
- Meu gregozinho lidou Keptah, com indulgência -, eu te
disse: sou homem tolerante, por isso pareço complexo e tortuoso aos
simples, não merecendo a confiança deles. Para ser homem de
conhecimento é preciso que se saiba não só os próprios argumentos, mas
também os argumentos dos outros. Agrada-me que compreendas ser
uma declaração repulsiva à crença de alguém possivelmente tão
verdadeira quanto uma que é agradável a esse alguém. Tudo isso, com
certeza, relaciona-se apenas aos negócios do mundo, que eu acho
infinitamente divertidos.
Estavam sentados na taverna predileta de Keptah, muito
freqüentada por homens de negócios, estudantes, eruditos, mercadores, das
muitas raças que existiam em Antioquia. A rua, lá fora, calçada com
pedras escuras, reluzia com luz ofuscante, sua estreiteza varrida por
espessas nuvens de pó quente e branco, e retumbante de queixas dos
camelos e dos burros, das vozes dos homens rudes, bem como do
roçar pelo piso dos pés apressados dos passantes, e do rumor das
rodas. Do lado oposto, os edifícios de um branco-amarelo devolviam a
luz, como espelhos palpitantes, diante dos quais passavam homens e
mulheres vestidos de vermelho, azul, preto, amarelo, verde e escarlate.
Mas a taverna estava fresca, tranqüila e ensombrada, cheia de odores
do vinho, dos bons queijos e da excelente pastelaria pequena e quente.
Tigelas de madeira, onde se amontoavam as azeitonas da Judéia,
Pequeninas e salgadas, uvas dos vinhedos locais arroxeadas,
opalescentes e brilhantes mesmo na sombra -, romãs que pareciam
globos de fogo vermelho, outras frutas, e cachos de tâmaras douradas,
destilando sua gota de mel, estavam sobre as mesas brancas, bem
esfregadas. As paredes ásperas da taverna foram decoradas por um
artista da terra que, embora mostrasse crueza, falta de treinamento e
96 97
delicadeza na composição, compensava essas falhas pela criação de um
colorido vivaz pela inocente lascívia. O chão de ladrilhos vermelhos
era de uma frescura agradável para os pés de Keptah e seu aluno,
assim como o eram para seus lábios as taças de vinho bem frio.
A cabeça de Lucano formava um halo de esplendor na sombra
refrescante da taverna, o que atraiu a atenção dos homens escuros, nas
outras mesas. Um homem alto, moreno, com turbante à maneira
oriental, ficou particularmente encantado. Seu rosto estreito, astuto, mas
vigoroso, iluminado por um par de olhos extraordinariamente
brilhantes, e terminando numa barba rala e curta, não podia desviar-se
da contemplação do jovem grego. Seu vestuário, de um roxo sombrio
e verde-pálido, garantia a quem quer que o visse tratar-se de homem
de posição, o mesmo confirmando os muitos anéis que cintilavam em
seus dedos. Seus servos, armados com adagas, estavam de pé junto à
porta aberta, bebendo copinhos de vinho. Exibiam aspecto disposto,
suas fortes pernas morenas reveladas vigorosamente por baixo das
túnicas coloridas que usavam.
O estrangeiro, finalmente, inclinou-se para Keptah, em seu
comprido manto de linho palido, e falou em grego, com sotaque execrável:
- Estive ouvindo o que dizias, senhor, com muito interesse.
Fermita-me apresentar-me: sou Lino, o mercador de Cesaréia, naJudéia,
e negocio com sedas, jades e marfins de Cathay.* Minha caravana está
a caminho de Roma.
Falava com Keptah, mas seus olhos inquietos estavam voltados,
com encanto, para Lucano, que, reparando no homem pela primeira
vez, corou inexplicavelmente sob aquele olhar atento, que o percorria.
O rapaz mexeu-se na cadeira, constrangido.
Keptab estudou Lino fria e deliberadamente. observando em
particular a contemplação hipnótica de Lucano. Meditou. Não era cedo
demais, resolveu, para dar a oportunidade de Lucano conhecer
alguns dos aspectos mais sombrios e mais pungentes da vida. E disse,
com cortesia:
- E eu sou Keptah, médico do tribuno Diodoro, procônsul da
Síria. - Hesitou e continuou depois: - Vens daJudéia, disseste? És
judeu, senhor?
O rosto de Lino modificou-se, momentaneamente, quando teve
___
* Cathay (no original), ou Cataio, como usam os portugueses, é a designação antiga da
China. (N. do T.)
___
conhecimento da posição erudita de Keptah. O procônsul tinha fama
que desagradava muito os mercadores ao longo do Grande Mar, e
aquele Keptah era seu médico. Lino compôs as feições, dando-lhes
expreSsão de respeito, que não era de todo fingida. Atem disso, estava
satisfeito. Aquele menino de cabelos de sol seria, estava evidente, o
escravo do médico, e assim as coisas poderiam vir a ser negociadas,
conforme ele desconfiara.
- Posso oferecer-te uma garrafa de vinho, senhor Keptah? -
perguntou Lino. - Com os meus cumprimentos?
- Se beberes conosco disse Keptah, gravemente.
Lino levantou-se, alegremente, e mostrou-se um homem gracioso,
alto, ágil. Abrindo de leve suas vestes, Keptah viu que ele usava um
colar bem largo, de ouro intrincadamente trabalhado, à maneira egípcia,
mas que agora estava sendo adotado por alguns dos jovens
modernos, entre os romanos. Lucano, ainda corado e constrangido, sem
saber por quê, afastou um pouco sua cadeira a fim de dar lugar para o
mercador e, ao fazer isso, sentiu um leve beliscão em seu joelho.
Percebeu que se tratava de uma mensagem de Keptah. O médico lançou-lhe,
também, um rápido olhar que, interpretado, era ordem para que
segurasse a língua, fosse em que circunstância fosse.
Não parecia estranho para Lino o fato de um escravo sentar-se tão
familiarmente com seu senhor, quando o rapaz era, evidentemente, o
querido bem-amado de seu dono, o mimado e acariciado, usado para
certos propósitos. Agora que estava mais perto dele, Lino sentia-se
cada vez mais seduzido. Conhecia exatamente um senador romano
que acharia aquele garoto uma beleza, e que não discutiria o preço
dele. Mil sestércios não seriam demais. Lino sorriu, e a brancura canina
de seus dentes foi um clarão entre o moreno de seu rosto ladino e
inteligente.
-Não, senhor Keptah, não sou judeu disse ele. - Que Ball*
não permita! Sou de raça mais antiga. um babilônio, embora outras
raças igualmente esplêndidas do Oriente tenham contribuído para o
meu sangue.
Lucano olhou para Keptah, que tornou a beliscá-lo sob a mesa.
- Muito interessamt disse o médico, imperturbável. O
taverneiro aproximou-se da mesa e Lino ordenou-lhe, com maneiras
senhoris, que trouxesse o melhor vinho, enquanto Keptah, num gesto
___
* Divindade da religião fenícia. (N. do T)
98 99
aprovador, dizia: - O Abraão dos judeus era babilônio. Talvez tenhas
ouvido falar nele, senhor Lino?
- Ah! Sim disse Lino, despreocupadamente. Tornou a
sorrir: - Quando estou naJudéia sou judeu, quando estou na Síria sou
sírio, quando estou em Roma sou romano, e quando estou na Grécia
sou grego. - Riu, alegremente.
Keptah serviu-se de algumas minúsculas azeitonas pretas, e disse:
- E quando estás na Africa, sem dúvida, és negro.
O sorriso de Lino apagou-se abruptamente. Sua mão carregada
de anéis saltou para a adaga. Keptah cuspiu serenamente seus caroços
de azeitona na palma escura, depois atirou-os ao chão.
- Um homem inteligente é como o camaleão - ,disse ele, com
admiração excessiva. - Tem todas as coisas de todos os homens. Vejo
que és um filósofo como eu o sou, quando não estou destilando
poções e atendendo a família do ilustre Diodoro. - Olhou para cima, e
seus olhos enigmáticos fixaram-se no mercador, cuja mão ia
lentamente se afastando da adaga. - Penso que te disse ser o médico da casa do
procônsul da Síria, o romano de grande virtude e influência? E
particularmente entrosado com a disciplina e a espada.
Lino, cujas atividades menos horrorosas já chamara duas vezes a
atenção de Diodoro, sorriu sedutoramente:
- Imagino que ele deva pagar-te bem disse, com insinuaçãu.
O rosto de Keptah manteve-se inescrutável.
- Ah, sim! Tanto quanto um cavalheiro sóbrio se permite, e
meu senhor é famoso pela sua sobriedade. Um dos "velhos" romanos.
Conservo-me com ele porque sinto afeição pela família, embora tenha
recebido excelentes ofertas de outros.
Lino relaxou, recostando-se em sua cadeira em atitude graciosa.
Tornou a olhar para Lucano com intensidade. Este achava aquela
conversa atordoante. O taverneiro chegou com uma garrafa de
excelente vinho velho, mantendo-a reverentemente nas mãos, com toda a
sua poeira, e curvando-se. Keptah e Lino inspecionaram com olhos
críticos a garrafa, fizeram um gesto de que a aceitavam, e o vinho foi
servido em taças de prata adequadas à sua importância e raridade.
Keptah serviu um pouquinho a Lucano, e o rapaz sentiu a delicada e
fina fragrância da bebida.
- Não tomarás um vinho deste em casa de Diodoro, que os
deuses abençoem sua bolsa magra e sua língua bárbara disse Keptah.
Lino, que tinha pungentes e memoráveis lembranças do procônsul,
pensou perceber desdém e escárnio na VOZ de Keptah e ficou mais à
vontade do que nunca.
- Apesar disso disse Keptah, com um olhar furtivo e
dominador para Lucano -, ele cuida muito dos que o servem,
principalmente de seu médico. Temos respeito mútuo, e apreciamos o
valor um do outro. Por isso ele me forneceu quatro escravos bem
armados para minha proteção. Esperam apenas pelo som de minha
voz, na rua que fica aí atrás, e onde eles estão guardando a minha
liteira.
Os lábios vermelhos de Lucano abriramem estupefação diante
daquela inverdade, mas Keptah agora estava bebericando seu vinho
com o ar de um epicurista satisfeito. As sobrancelhas negras de Lino
levantaram-se em surpresa, mas o homem não duvidou das palavras
do médico nem por um instante. Aqui está, pensou ele, um homem
de importância, que tem ar elegante e seguro, ar que apenas as pessoas
muito estimadas adquirem. O taverneiro, em honra do vinho, trouxe
uma tigela polida e uma bandeja para a mesa.
- Ah! disse Keptah, com ar apreciador -, corações de
alcachofras em vinagre e óleo, com um toque discreto de alcaparras e alho-
poró. Há alguns pratos romanos que eu aprecio. - Mergulhou um
pedaço de pão na tigela e comeu elegantemente o que tinha ali pescado.
- É verdade que os romanos não são civilizados, mas, às vezes,
têm inspirações.
Lino estava ficando impaciente. Era um mercador e, portanto,
homem de decisão. Estalou um dedo na direção de Lucano e disse:
- Senhor Keptah, este moço é com certeza um grego? Esse
cabelo dourado, essa pele branca, esses olhos azuis, o contorno de suas
feições são encantadores e gregos.
- viste muitos como ele na Grécia? perguntou Keptah,
demonstrando surpresa. - Não. Os gregos são uma raça de pequena
estatura e de pele morena. Adoram o que é claro, por causa disso, e
imortalizaram tais coisas em suas estátuas. Podes estar certo de que o
ideal dos homens não se parece a eles próprios, mas apenas aos seus
senhores. Apesar disso, o rapaz é grego, embora, sem dúvida, seus
antepassados tenham entrado na Grécia vindos das frias regiões do
Norte, ou Gália, onde os homens usam peles de bichos e chifres de
animais, e vivem em florestas primitivas. Não é ele de considerável
beleza, mas também de infantil virilidade?
Lucano não podia compreender seu mentor e mestre, e estava
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indignado e humilhado. Agora não só temia Lino, achando-o
desagradável, mas detestava-o.
A maneira de falar de Keptah, como se Lucano não fosse humano
e pudesse ser discutido como se discutem cavalos ou bons cães,
confirmou para Lino a idéia de que se tratava de um escravo, e servo de
Keptah.
- Um belo rapaz disse ele, com abafado encantamento. -
Como se chama ele, senhor Keptah, e que idade tem?
Keptah bebericou seu vinho, olhos fechados, em reverência. Lino
esperou. Suas jóias reluziam nas sombras azuis da taverna.
- Tem treze anos diss Keptah -, embora seja alto, como
todos os pagãos. Mas é gracioso. não é?
Lino estava mais satisfeito do que nunca. O menino tinha treze
anos, portanto ainda não alcançara a puberdade. O velho senador
de Roma ficou esquecido. Havia damas patrícias, cansadas de seus
maridos e amantes, mulheres de grande fortuna, que achariam
prazeroso levar aquele menino à puberdade, e depois às suas
camas, para iniciar sua inocência nas artes do amor. Era bem possivei
que pagassem dois mil sestércios por um tesouro daqueles, para
iludir seu tédio. A esposa dissoluta de um dos augustais mais
notáveis, por exemplo, agora em seus quarenta anos, e que tinha
tendência para rapazes assim! Ela ficaria fascinada com aquela beleza
e não resistiria à compra. Lino reclinou-se confidencialmente para
o lado de Keptah e disse em voz baixa, mas que não escapou aos
ouvidos de Lucano:
- O nobre tribuno é um homem notável, como disseste, pela
sua sobriedade. Conservas-te com ele por motivos virtuosos, tais como
seja devotamento e lealdade para com a sua família. Este rapaz não é
um dos escravos dele?
- Não disse Keptah. - De certa forma, ele me pertence. O
tribuno entregou-o às minhas mãos, como recompensa daquilo que tu
bondosamente chamaste minhas virtudes.
Os lábios de Lucano tornaram a abrir-se em nova indignasão e
logo o rapaz pestanejava, sob o beliscão de Keptah. Lino sorria
beatificamente.
- Talvez, Keptah, possamos chegar a um certo acordo.
Tenho clientes em Roma que dariam valor a este rapaz.
- De verdade? indagou Keptah. - Um senador, talvez, OU
uma dama que explorou muitos deleites e sente-se entediada? -
voltou-se para Lucano e perguntou, afetuosamente: - Gostarias de ir
para Roma, Lucano?
- Não disse Lucano.
Lino, porém, estava dizendo-lhe, peremptoriamente, com um
estalido de dedos:
- Levanta-te, rapaz! Quero examinar-te melhor.
Lucano, incrédulo diante daquele tom com o qual ninguém
jamais se lhe dirigira antes, e sentindo-se ultrajado, agarrou-se às bordas
de sua cadeira e dirigiu um olhar furibundo para Keptah. E este,
indefinível e enigmático como só ele podia ser, devolveu-lhe o olhar
de uma forma sombria, que nada disse. Foi aquela expressão que
confundiu completamente Lucano, e levou-o a levantar-se, menos em
obediência à ordem de Lino do que num primeiro movimento de
fuga. O rosto de Keptah não se modificou. Atirou o braço longo e
emaciado por sobre o encosto de sua cadeira, e as pregas do linho
cinzento claro tombaram daquele braço como pano que caísse sobre
desenho de ossos.
Lino aproximou-se de Lucano, e os outros mercadores,
incluindo estudantes e eruditos que estavam na taverna, deram sua franca
atenção e curiosidade ao rapaz. Por Vênus!, pensou um homem que
comerciava com óleos e perfumes, aqui está um verdadeiro Adônis,*
com cabelos que parecem de sol, e olhos tão azuis como o céu
setentrional no inverno. Assemelha-se a uma estatua, com a doce rigidez
da juventude em seu rosto e a delicada severidade da inocência em
sua boca. E que fronte aquela. como mármore maciço, pés
arqueados como pequenas pontes, e uma altura que seguramente vem dos
deuses.
O próprio Lino surpreendeu-se com a estatura de Lucano e ficou
Um tanto desconfiado. Mas a túnica branca e curta do rapaz estava
orlada com o roxo pálido da pré-adolescência,2 e aos olhos argutos de
Lino, depois de um momento de observação, ficou evidente que
apesar de sua estatura e de seus ombros largos, o rapaz era
verdadeiramente muito jovem. Lucano teve violento sobressalto quando Lino
estendeu suas mãos morenas e ergueu-lhe a túnica, apalpando-lhe depois
___
* Divindade fenícia, jovem de imensa beleza, mortalmente ferido por um
javali. Vênus transformou-o em anêmona. Seu nome transformou-se o
símbolo da beleza efeminada.
2 era o vestuário habitual do romano. Os rapazes até os 17 anos usavam a
toga branca, debruada com uma barra de cor roxa, chamada toga praetexta.
Daí por diante passavam a usar a toga dos adultos, isto é, a toga
virilis. (Notas do Tradutor.)
102 103
as nádegas. Seus olhos azuis faiscaram de cólera, mas ainda assim um
orgulho novo o mantinha agora imóveL rígido como pedra.
- Ah! murmurou Lino, pensativamente. - Eu estava
pensando em certo califa rico como Creso, se as nádegas fossem mais
macias e mais arredondadas. Mas este rapaz é, evidentemente, o feto de
um homem, e não um brinquedo para um cavalheiro da Pérsia. -
Manejava Lucano com o grosseiro interesse de um homem que
examina um belo animal que lhe ofereceram à venda.
Lucano, apesar do embaraço e cólera que lhe subiam à mente,
conscientizou-se, pela primeira vez na vida, de profunda e inenarrável
depravação, e de inteira repugnância. Ouviu as palavras murmuradas
por Lino, que continuava a inspeção e sua carne branca arrepiava-se
e fazia-se fria, e ele não se poderia ter movido mais do que o mármore
- ao qual se assemelhava poderia fazê-lo por sua própria vontade.
Mas seu coração tremia e seu espírito sofria náuseas por aquele terror.
Percebia profúndezas nunca antes pressentidas, abismos, escuras e
ardentes obscenidades do espírito humano.jamais encontrara tais coisas
no lar do virtuoso tribuno, nem sequer com elas sonhara. Não que
estivesse integralmente consciente das insinuações ou que as
compreendesse por completo. Era como uma criança que, correndo e rindo
para uma gruta verde e secreta, esbarrasse com uma cena de
licenciosidade e, sem compreender inteiramente, sentisse que ali havia
alguma coisa de libertino e vergonhoso, e ficasse aterrorizada.
As mãos pesquisadoras, beliscadoras e tateantes de Lino tinham
monstruoso efeito hipnótico sobre o rapaz. Ele se sentia degradado,
mas incapaz de repelir a degradação. Sentia sua humanidade
insultada, sua integridade ameaçada. Ainda assim, como vítima destituída
de voz, não tinha o poder de resistir mas podia olhar, sem ver, para
Keptah, sentir náusea diante daquela traição incrível, e o fogo da
ignomínia mesclado à cólera furiosa, em seu peito.
Lino, sorrindo rapidamente, atirou-se de novo à sua cadeira.
- Quinhentas peças de ouro disse ele a Keptah.
Tirou uma bolsa dos grandes discos de ouro que formavam O
cinturão acima de sua cintura esbelta, e dela derramou um monte
faiscante de ouro:
- Sejamos breves. Tu compreenderás, senhor, que eu não posso
escoltar esse rapaz através das ruas à luz do dia. - Piscou e sorriu -
de forma forçada para o enigmático médico. - Já houve alguns
peqUenos aborrecimentos com os malditos soldados do procônsul, e eu não
desejo me encontrar de novo com eles. Aqui estão cem sestércios.
Entrega-me o rapaz esta noite, na hospedaria da Estrada das Virgens, e
receberás as quatrocentas peças restantes.
Toda a carne de Lucano ardia como se tivesse sido crestada com
fogo, e as veias de suas têmporas pulsavam visivelmente. Um dos
comerciantes exclamou:
- Quinhentos sestércios! Isso é roubo, senhor. Eu ofereço mil.
- E fez menção de se levantar de sua cadeira, ansiosamente.
Então Keptah falou, calmamente:
- O rapaz não está à venda.
Lino corou profundamente e debruçou-se para ele:
- Não está à venda? repetiu. - Este escravo não está à
venda... por uma fortuna? Estás louco?
- Mil sestércios! gritou o outro comerciante,
aproximando-se da mesa.
Os demais que estavam na taverna aplaudiram, assobiaram,
protestaram, riram. Ouvindo o alvoroço, o taverneiro correu para a sala,
trazendo uma bandeja com pastelaria nova e quente. Keptah chamou-o
com um gesto do dedo e disse:
- Meu bom Sura, queres ir, por favor, até a próxima rua,
imediatamente, e dizer ao jovem Capitão Sexto, que Keptah, o médico do
nobre tribuno Diodoro, requer sua rápida presença aqui?
O taverneiro curvou-se e saiu correndo para a rua. Lino saltou
para trás, blasfemando. Sacudiu o punho diante do nariz imperturbável
de Keptah. Os outros fizeram silêncio, boquiabertos.
- Maldito egípcio! gritou Lino. - Cortarei tua garganta!
Sacudia-se de fúria, e seus servos aproximaram-se dele
imediatamente, facas em punho.
Keptah não se abalou.
- Não sou egípcio, meu bom homem de muitos, abomináveis e
desconhecidos sangues. Nem sou homem que deseje o sangue alheio.
Apressa-te e parte já, antes que o capitão chegue com seus homens.
Não Compreendestes. Este rapaz é a menina dos olhos do procônsul, é
Para ele como um filho, e nasceu livre na casa de Diodoro.
Os outros correram para fora da taverna, trepidantes, não desejando
estar presentes quando os soldados chegassem, temerosos de
brutalidades. Lino ficou sozinho com seus servos. Olhou para Lucano, suas mãos
finas fizeram inconscientes movimentos de rapina, como se quisesse
agarrá-lo e levá-lo imediatamente. Começou a respirar pesadamente e
104 105
depois girou nos calcanhares. suas ricas vestes roxas e verdes flutuando
em torno do corpo. Saiu da taverna como um vendaval, os servos
correndo atrás dele. Keptah e Lucano ficaram sozinhos, e o rapaz sentou-se
lentamente, o suor descendo-lhe pelo rosto lívido, os olhos amargos e
frios fulgindo nas cavidades com tonalidades rancorosas.
Keptah, despreocupado, apanhou um cacho de tâmaras e
mastigou-as apreciativamente. A pilha de moedas de ouro estava sobre a
mesa, e reluzia na sombra azulada. Keptah teve a atenção atraIda para
ela, e então sorriu.
- Aquele comerciante velhaco não ficou para pagar sua conta
comentou ele. - Entretanto, deixou sua bolsa, generosamente, e
eu pagarei o que ele ficou devendo e guardarei o resto. Sem dúvida,
foi sua graciosa intenção que isso se fizesse, e eu não sou homem para
recusar um presente desses.
- Como ousaste. exclamou Lucano, e agora estava de novo
muito jovem, e próximo das lágrimas. - Não és apenas um mentiroso,
Keptah, mas também um ladrão e um velhaco!
Chorava e repelia as lágrimas com as costas da mão. Keptah ficou
a olhá-lo pensativamente. Afinal pousou o cacho de tâmaras, seu rosto
modificou-se severamente e seus olhos enigmaticos ficaram frios e
indiferentes.
- Tu me traíste! soluçava o menino. - Tu me envergonhastes
e me degradaste! E eu pensava que fosses meu amigo, bem como meu
professor.
- Ouve-me, Lucano disse Keptah, num tom firme e calmo, e
Lucano tirou as mãos dos olhos e ficou olhando para o médico. -Já
não és mais criança, pois viste, ouviste e sentiste o mal. É bom que o
tivesses conhecido, pois o conhecimento do mal traz virilidade e
aversão. Agora, estás armado.
Empurrou algumas moedas com o dedo fino.
- Nasceste livre, numa estimável casa, onde os escravos são
tratados com bondade. Jamais os viste serem tratados com crueldade,
apenas com justIça. isto é das coisas mais raras: a casa de Diodoro não
é como a maioria.
Um violento e frio reflexo escapou de sob suas pálpebras descidas.
- Foste degradado, tua humanidade tratada ignominiosamente,
tua dignidade de homem foi insultada. Viste cicatrizes nas mãos de teu
pai, que foi outrora escravo, e as aceitaste serenamente, como uma
criança, considerando-as naturais. Perguntastes algum dia a teu pai O
que significa ser escravo, ser tratado como menos do que um homem,
menos, mesmo, do que um cavalo de valor ou um bom cachorro? Tu
lhe perguntastes sobre sua própria jovem ignomínia, sua própria
vergonha, sua própria amargura, quando sua humanidade era
rebaixada? Sabes o que é ser escravo?
Lucano ficara inteiramente imóvel. Algumas lágrimas reluzentes
permaneciam em suas faces pálidas. Então, disse, em voz baixa:
- Não. Não. Perdoa-me. Eu não compreendi. Eu era uma
criança, e não compreendi. Tu me ensinaste.
Keptah sorriu, melancolicamen te.
- O conhecimento vem com lágrimas, desgosto e dor. Isso
é justo, pois o homem não pode compreender Deus quando é jovem, feliz
e ignorante. Só pode conhecer Deus através do desgosto: do seu
próprio desgosto e da agonia e desgosto dos outros.
- Homem algum, daqui por diante, será um escravo a meus
olhos, mas um homem de dignidade, e odiarei a escravidão com toda
a minha alma, com todo o meu coração! disse Lucano, a voz
trêmula.
Keptah pôs a mão sobre o ombro do rapaz, delicadamente:
- Eu te expus ao mal para que não continuasses a ser indefeso.
Eu te expus ao ar vil da escravidão para que nunca mais a aproves. E
agora aí está nosso bom Sexto, com seus dois bons soldados. Ah!
Sexto, por fàvor. espera um momento e bebe conosco um pouco deste
excelente vinho. Fomos incomodados por uma pessoa desprezível, e
estamos de certa forma em perigo. Desejamos tua escolta. Nossos
burros estão amarrados a pequena distância daqui e, sem dúvida, estarão
Impacientes os pobres animais.
- Que velhacaria desmanchaste agora? perguntou o jovem
capitão, com bom humor e algum cinismo. Serviu-se de uma taça de
vinho que bebeu num só gole. A boca de Keptah torceu-se, em
reprovação:
- Bebes esse vinho como se ele não tivesse sido destilado das
vinhas do próprio céu disse ele e como se fosse apenas o vinho
tinto barato do teu quartel.
Sexto estalou a língua, pensou um pouco, inclinou seu elmo para
um lado da cabeça e declarou:
- Não percebo qualquer sabor excelente ou especial. Tu és um
Charlatão, Keptah. - Piscou para Lucano, depois ficou preocupado
com a palidez do rapaz. - Esse menino está doente? indagou.
106 107
- Muito doente falou Keptah, levantando-se. - Mas não
morrerá disso.
O taverneiro aproximou-se, timidamente, e Keptah, com ares de
grandeza, somou sua conta com a de Lino e deixou mais uma peça de
ouro como gratificação. O taverneiro ficou encantado.
- Bom senhor disse ele -, lamento que tenhas sido
perturbado. Prometo-te que isso não tornará a acontecer.
- Não faças promessas temerárias disse Keptah. - Esta foi
uma tarde muitíssimo esclarecedora. - Encheu sua bolsa com as
moedas de ouro que sobraram e disse: - E agora, Lucano, vamos
embora.
7
Diodoro Cirino acordou e tomou conhecimento de três fatos
desoladores: o marido da irmã mais velha de Aurélia, o senador Carvílio
Ulpiano, era hóspede indesejável em sua casa. Chegara na noite
anterior, e mostrara-se afetuosamente complacente, tendo, ao que parecia,
esquecido de que, embora fosse membro de família muito nobre e
antiga, casara-se com Cornélia pelo dinheiro dela. Esse dinheiro não
só lhe servira para fazer-se senador apenas por suborno, era o que
Diodoro dizia, selvagemente mas possibilitara que se entregasse à
sua paixão pela arte egípcia. Ouvira falar em alguns vasos excelentes e
em estatuetas que datavam da Segunda Dinastia, e estava a caminho
do Egito, para negociá-los.
O segundo fato infeliz, com o qual Diodoro se confrontava
naquela manhã, era ser aquele o dia do mês em que devia reunir-se com
os magistrados sírios no Palácio da Justiça, e ouvir as queixas dos
nobres, proprietários e caudilhos locais, sobre as taxas extorquidas às
províncias, e especialmente a eles próprios, e ouvir os relatórios dos
velhacos coletores de taxas, que Diodoro detestava mais do que
qualquer outra espécie de homem. Para Diodoro, um coletor de taxas,
embora aparentemente necessário naquela época degenerada, era mais
imundo do que o mais imundo chacal, e tinha algo dos hábitos de um
chacal. Sobre isso, Diodoro discorria em altas vozes, com as mais
profanas expressões militares. Tal coisa entusiasmava, invariavelmente as
vítimas dos coletores de taxas.
O terceiro era estar com dor de cabeça. Conhecia aquelas dores de
cabeça, que o atormentavam habitualmente naqueles dias em
particular; e mesmo todo o saber de Keptah não era suficiente para aliviá-las.
Acordara com o temeroso e súbito fulgor da luz diante dos olhos,
depois com a náusea conseqüente, a seguir com agudo seccionamento
da visão e a temporária diminuição da vista, tudo rematado com a
maldita hemicrania. O fato de Keptah poder dizer-lhe, eruditamente,
que se tratava de uma enxaqueca e que Hipócrates* escrevera um
longo e precioso tratado sobre isso não eliminava as náuseas, não retirava
o martelo que batia de um lado de sua cabeça, nem a sensação de que
a morte estava próxima e não seria de todo mal recebida.
- Que o Hades engula o teu Hipócrates! dizia enraivecido, a
Keptah. - Não, não, não quero mais tuas poções e efusões malcheirosas.
Submetia-se quase sempre às efusões e às poções, e então
vomitava triunfantemente diante de Keptah, e dirigia-lhe olhares furibundos
e acusadores. A enxaqueca não o abandonava até a noite. Bastava que
deixasse Antioquia e fosse para casa, que ela desaparecia, deixando
uma fraqueza desagradável que antecipava o tratamento e a
preocupação da amorosa Aurélia. Gozando ambas as coisas, ele dizia a Keptah:
- Estás vendo, a mão de uma mulher é mais sabia do que a de
qualquer médico, seu charlatão. - A isso, Keptah respondia apenas
com um sorriso. Uma vez dissera a Diodoro que as suas dores de cabeça
eram seu protesto contra os magistrados e coletores de taxas, que ele
detestava, mas Diodoro ficara tão zangado com aquela insinuação de
debilidade feminina, que Keptah nunca mais repetiu a indiscrição.
Diodoro, o virtuoso romano, acreditava que o pessoal doméstico
responsável levantava-se antes do amanhecer. O senador não se
levantava ao amanhecer, e Aurélia, que tinha afeição até mesmo pelo seu
cunhado, não permitia aos escravos seu assalto habitual e ruidoso às
colunas, pisos e paredes com esfregões e vassouras, enquanto o
senador não chamasse para que lhe levassem ao leito a primeira refeição.
ISSO, para o tribuno, era empilhar degradação sobre degradação. Casa
Suja, e primeira refeição na cama, Sem dúvida, coisa típica da Roma
moderna. O séquito do senador, escravos mimados e secretários ("estava
sempre escrevendo cartas, mesmo quando visitava Diodoro para
* considerado o maior médico da Antiguidade, nascido mais ou menos em
460 a.C. (N do T)
108 109
ter certeza de que seus clientes não se esquecerão de manter-lhe os
cofres cheios durante a sua ausência) recebia invariavelmente os
melhores aposentos, nas instalações dos escravos da casa. O senador
costumava trazer com ele duas belas escravas, aumentando a cólera de
Diodoro, que enclausurava as moças, sombriamente. "Não haverá
orgias nesta casa!", dizia ele ao senador, que sorria com indulgência, e se
surpreendia sempre ao ver que as bonitas escravas daquela casa
bárbara jamais chamavam a atenção de seu dono.
Além disso, o senador usava nardo e essência de rosas, e Diodoro
dizia em voz alta:
- Não apenas uma casa suja e primeira refeição na cama, mas
também perfumes! - Fingia considerar extraordinário o senador, o
que convencia este último de que Diodoro devia permanecer na Síria,
apesar de suas cartas para Roma. Aquele era um assunto sobre o qual
o senador ainda não falara com seu hospedeiro. Sentia que
necessitava primeiro de um repouso prolongado. Enjoara durante toda a
viagem até Antioquia. E Diodoro era um homem difícil.
A dor de cabeça fora extraordinariamente forte naquela manhã, e
Keptah, misturando poções enquanto seu senhor urrava negativas,
percebeu que Carvílio Ulpiano acrescentava uma tortura extra à
aflição. Deu a taça a Diodoro, e disse, maciamente:
- Um estudante de Hipócrates uma vez perguntou ao grande
médico: "Assassínio permitido não aliviaria as dores da vítima?". Ao
que Hipócrates respondeu: "Com certeza."
- Estás querendo insinuar que se eu pudesse matar
alguém, ao
acaso, sem escrúpulo, isso melhoraria a minha dor de cabeça? -
perguntara Diodoro, ultrajado, sentando-se na cama.
Keptah anuiu. Diodoro começou a blasfemar. depois sorriu
pensando em seu cunhado.
- Essência de rosas! murmurou. - Puf! - Tornou a
tombar sobre os travesseiros e entregou-se a uma agradável fantasia. A
enxaqueca aliviou um pouco e daquela vez Diodoro não vomitou a
poção. Ainda assim, sentia-se mal e de mau humor quando saiu da
casa para a manhã fresca e reluzente, sem tomar qualquer refeição,
pois não podia comer quando se sentia assim aflito. Aquele filho de
uma raça inteira de porcos podia ao menos ter trazido Cornélia,
pensou ele, para visitar minha esposa, em vez de trazer apenas cartas.
Cornélia, porém, tão simples, robusta e destituída de imaginação quantO
Aurélia, teria inibido de certa forma as diversões do senador. Diodoro
consolou-se pensando que as visitas do cunhado eram poucas e bem
espaçadas.
A enxaqueca, depois de reduzir um pouco a visão, sempre fazia
Diodoro enxergar clara e rapidamente demais, de forma que enxergar
já era em si doloroso. Aquela possibilidade aumentada de ver
deprimia-o. Ouviu alguém sorrir, pestanejou, levando a mão à cabeça. Quem
podia rir quando o dono da casa estava morrendo em pé e temendo o
rumor, a aguação e o ribombar da biga que depressa chegaria para
levá-lo a Antioquia? Resmungando palavras que ele jamais usava
diante de alguém, a não ser dos coletores de taxas, deixou o pátio
externo e foi para os jardins. Sua filha Rúbria e Lucano estavam jogando
bola com duas jovens escravas e fazendo ruído bastante para acordar
os mortos ou, foi o que pensou Diodoro, o bastante para acordar
qualquer um, menos o fragrante senador, com os seus óleos.
Aquela donzela de olhos negros, faces vermelhas e cabelo preto
flutuando vestida com uma comprida túnica rosada a correr para
apanhar a bola que Lucano ou uma das escravas arremessava era
uma bela visão. Em contraste, Lucano parecia um jovem e dourado
deus, complementando-a, e as moças escravas, vestidas tão
simplesmente como sua jovem senhora, e tão encantadoras quanto ela,
assemelhavam-se a ninfas, seus pés brancos molhados de orvalho, as
tranças ruivas e castanhas cascateando atrás delas como flâmulas. Em torno
daqueles jovens todo ojardim parecia ter saído recentemente das mãos
de Ceres,* as palmeiras agitando-se e curvando-se sob o vento
perfumado, as estátuas resplandecendo, as fontes saltando como prata
líquida, e o arco do céu mostrando o azul mais inefável.
Durante um momento, o mau humor de Diodoro abrandou-se.
Contemplou o rapaz e a mocinha, e pensou: Como é maravilhoso ser
inocente e belo. Ficou então novamente zangado. Ninguém tinha o
direito, nem mesmo uma donzela e um menino, de ser inocente neste
mundo asqueroso, composto de senadores perfumados, vis coletores
de taxas, magistrados, oficiais e césares que não respondem cartas
urgentes.
A mocinha tinha quatorze anos; precisava ficar noiva agora e
preparar-se para o casamento, era o que pensava Diodoro, ressentido. O
fato de o senador ter mencionado discretamente um de seus próprios
filhos, agora com dezessete anos e pronto para o casamento, e daquela
___
* Filha de Saturno e Cibele, deusa latina da agricultura. (N. do T)
110 111
referência ter feito Diodoro parecer-se a um verdadeiro Marte, com
faíscas vermelhas nos olhos, fora completamente esquecido pelo
tribuno. Rúbria, embora ainda esbelta demais, e dada a ataques de
dispnéia e lividez em torno dos lábios quando se cansava, tinha
pequenos seios redondos, e suas pernas, surgindo sem modéstia alguma
de sob sua túnica esvoaçante eram, definitivamente, as pernas de uma
mulher. Diodoro ficou horrorizado, não só com esse novo aspecto de
sua filha, mas também com o fato de não estar ela ainda prometida em
casamento. E, de certa maneira, sentia-se furioso com Lucano, por
qualquer razão pouco conhecida.
Levantou a voz para um tom estentóreo:
- Que brincadeira é essa? Não é hora de aula? Por que esse
desregramento?
As moças escravas olharam-no, apavoradas, e correram para os
fundos da casa, como pétalas espalhadas pelo vento. Rúbria, ainda
sorrindo, ficou com a bola em sua mão fina e morena, e Lucano corou.
- Ainda não é hora, pai disse a menina, e correu para ele, a
fim de beijá-lo. Passou-lhe os braços ao pescoço e Diodoro não pôde
resistir a corresponder-lhe. Mas olhou furibundo para Lucano:
- Dezesseis anos! exclamou. - E brincando com meninas!
Não podes arranjar melhor companheiro de brinquedo, entre os de
teu próprio sexo?
Rúbria tornou a beijá-lo, contente, como fazia sua mãe, mas o pai
olhou zangado para Lucano, por cima dos ombros dela. O jovem
manteve-se em silêncio, a cabeça amarela erguida orgulhosamente, o rosto
frio e impassível.
- E com quem ele brincaria? perguntou Rúbria, as mãos
acariciando o braço do pai para confortá-lo. Não estava perturbada;
aprendera com a mãe a tratar Diodoro como uma criança querida, mas
às vezes rabugenta. - Nenhum dos moços escravos tem a idade dele,
e não há famílias com filhos perto de nós. - Olhou para Lucano,
rindo, com ar malicioso: - Ele também é sensato demais.
- Não é sensato demais para negligenciar suas lições e se meter
em brincadeiras infantis e grotescas disse Diodoro. Naquela
manhã não estava gostando do jovem. - Será preciso esperar até que a
ampulheta deixe cair os grãos de areia exatos para começar os estudos?
E é com um irresponsável desses que gasto meu dinheiro?
Lucano contemplou-o com uma luz azul firme em seus olhos, e
abriu a boca para responder colericamente. Viu então que DiodOro
estava amarelo, com ar de doente, e não tinha feito a barba. Lucano
lembrou-se de que aquele era o dia dos magistrados e dos coletores de
taxas, e que Diodoro, naqueles dias, estava invariavelmente de mau
humor. A barba por fazer podia ser tomada como sinal tão exato como
uma clepsidra.*
Assim, Lucano sorriu brandamente:
- Fazes bem em reprovar-me, senhor.
Afastou-se, pisando com altivez e graça, e Diodoro ficou a
contemplá-lo, sentindo-se mais deprimido do que nunca.
- Vai com tua mãe, menina disse, com aspereza incomum, à
filha. Agora sua biga chegava. Ele ouviu o ruído, o clangor infernal, e
tornou a pestanejar, gemendo. Rúbria beijou-o, acariciou-lhe o rosto,
olhou-o com amorosa comiseração e correu para a casa. Diodoro
seguiu-a com os olhos até que ela desaparecesse, e seu coração se
confrangeu. Ainda ontem era um bebê, preso ao seio materno; hoje fazia-se
mulher, e depressa deixaria seus pais. Eis um dos insuportáveis
golpes da natureza. Pensou de novo em Lucano, e agora sua cólera
obscura voltava. Vira o olhar ardente de Rúbria para o jovem, e vira
Lucano responder com um profundo sorriso. Diodoro chicoteou os
cavalos, tomado de pânico. Se não pudesse ser substituído naquele
lugar contaminado, mandaria Rúbria e Aurélia para Roma, e mesmo o
filho do senador, que era um jovem frágil e estudioso, e não correspondia
ao gosto exigente de Diodoro, poderia ser considerado um possível
genro. Pelo menos, algum dinheiro voltaria para a família, pensou o
tribuno, que considerava ofensivo o fato de Carvílio Ulpiano ter a
Possibilidade de gastar uma simples moeda de tal dinheiro.
Um velho orgulho retornou ao romano, e seu coração endureceu
diante da afronta. Irritava-o, agora, a idéia de que aquele Lucano,
aquele filho de um liberto, pudesse sequer olhar amorosamente para
Sua filha. Esqueceu, naquela sombria cólera que se ia inflamando,
que Lucano era filho de Iris, a quem ele não via de há muito, a não ser
bem de longe, e ainda assim furtivamente. Diodoro resolveu que
naquela noite teria uma conversa muito séria com Aurélia. Ele, Diodoro,
cumpriria a promessa de educar o jovem a fim de que servisse
humildemente em sua casa. Alguma das moças escravas, a mais fiel,
modesta e bem-dotada nas artes domésticas, seria liberta, e um
casamento arranjar-se-ia entre ela e Lucano. O senhor romano tinha ape-
___
* Relógio de água dos antigos. (N. do T)
112 113
nas de ordenar, e ordenaria. Que Lucano levasse sua esposa para
Alexandria, para que ela tomasse conta da casa humilde de seu
marido estudante, e lhe cozinhasse o pão e lhe servisse um vinho
adequadamente inferior. Tenho sido brando e fraco, pensava o tribuno,
mordendo seu espesso lábio inferior e chicoteando os cavalos. Esqueci
que sou um romano, nesta província abafada, efeminada, depravada.
Tenho tratado os escravos como iguais.
Esquecera, também, muitas outras coisas. O rosto de Enéias
ergueu-se diante dele aquela imitação de homem, ardilosa,
dissimulada, pusilânime! e a cólera cegou-o por alguns momentos,
enquanto o coração batia como se tivesse sido insuportavelmente
humilhado. Velha angústia, que não tinha feições, voltou a morder-lhe
o coração.
Quando chegou a Antioquia estava com excelente disposição
vingativa. Jamais matara um homem, a não ser em batalha, mas agora
desejava matar. Se ao menos fosse Hércules! Rasgaria aquela cidade
em duas, com as mãos limpas. Para suas narinas, que as fedentinas da
cidade assaltavam, prevalecia o cheiro de urina. Uma cidade tomada
por odores excrementícios! E que fazia um procônsul romano a guiar
sua própria biga ali, como um mesquinho comerciante? Ninguém o
respeitava? Onde estavam seus soldados? Esqueceu que tudo aquilo
fora coisa de sua própria deliberação, e que dissera freqüentemente
ser um simples soldado e não um homem-dama da moderna Roma;
que Cincinato entrara na Cidade Imperial montado num simples burro,
sem qualquer séquito, a não ser pobres lavradores como ele próprio.
Vai haver mudanças!, prometia Diodoro a si mesmo, em sombrio
silêncio.
A seu encontro vieram Sexto e uma tropa de soldados, com elmos,
escudos e armas, como de costume no dia da justiça. Diodoro berrou
para Sexto, o rosto flamejando de cólera:
- Então só agora pudeste arrancar-te para fora da cama a fim de
vir ao meu encontro e escoltar-me? Sou eu um cão de magistrado
provincial que não merece honras nem escoltas, mas devo guiar minha
própria biga como o mais mesquinho dos camponeses de minha
própria casa?
Sexto estava habituado ao mau humor do tribuno naqueles
dias, mas não a um ataque assim à sua integridade como soldado,
como oficial digno e leal. Foi tomado de surpresa, então. Não se
manteve em obediência e reserva militares, conforme estava treinado
a fazer quando chicoteado pela língua de seu superior. Disse
abruptamente:
- Por quê, nobre Diodoro? Eu apenas cumpri tuas ordens
expressas. Recusaste constantemente ser escoltado e ordenaste que em
tua casa não ficasse soldado algum. - Olhava com assombro para
Diodoro, e seus soldados mantinham rostos impassíveis, olhando para
a frente, carregando os fasces* e os estandartes.
Diodoro freou seus cavalos com tanta fúria que eles empinaram, e
um casco quase alcançou o rosto de Sexto que, entretanto, não
recuou. Seus olhos jovens mostrando-se repletos tanto de censura como
de espanto.
- Vamos, por Zeus! mugiu Diodoro, chicoteando os cavalos.
- Onde esta teu discernimento militar? - Conseguiu controlar os
animais, e blasfemou contra eles. - Não só me acompanharás até o
Palácio da Justiça, mas voltarás comigo à minha casa, e lá ficarás às
minhas ordens!
Saiu, num repelão, e Sexto sacudiu a cabeça desanimado. Depois
ordenou severamente às suas tropas que o seguissem, acompanhando
o tribuno. A biga de Diodoro estava agora envolvida na poeira quente,
branca e gredosa, ao fim da rua calçada de pedras lisas. Sexto e seus
soldados iniciaram um trote militar para segui-lo: e a humilhação do
jovem soldado foi completa quando passantes começaram a zombar
deles. Sexto rilhava os dentes.
Estivessem ou não os magistrados mais tediosos do que costume,
fossem os relatórios dos coletores de taxas os mais aborrecidos,
mostrassem-se-se os nobres e mercadores locais mais queixosos, o caso é que
para Diodoro aquele dia pareceu o pior de quantos se podia lembrar.
Gritou, esmurrou a mesa, espalhou papéis, denunciou, insultou, atribuiu
ancestralidade vergonhosa aos magistrados, juÍzes, nobres e coletores
de taxas, igualmente. Todos tinham cabeças de asnos; suas mães
se tinham empenhado desde a puberdade em obscenidades
indescritíveis; eles mostravam-se inteiramente analfabetos; eram
habitantes do país mais depravado e mais desprezível do mundo. O
espírito deles era igual ao das moscas. Antioquia era uma cloaca e eles
indignos habitantes dela. Desprezou-os todos, em linguagem enérgica. Com
___
* Feixe de varas, amarradas por uma correia, em volta de um machado,
cujo ferro surgia na parte de Cima. Fasces ou fascies, que eram levados,
na Roma antiga, pelos lictores, homens que precediam sempre os
ditadores, cônsules, e outros altos dignitários, quando se apresentavam
em público, deram origem à palavra Fascismo. (N. do T)
114 115
certeza, em alguma ocasião, ofendera imperdoavelmente os deuses,
quando não, jamais estaria ali. Mandou-os todos para Plutão, e
pugnou sua honestidade, suas decisões, seus registros. Eram todos
ladrões, mentirosos, idiotas e canalhas. Embora seu pulso estivesse
rodeado de tiras de couro ele deslocou-o com os murros sobre a mesa,
e seu rosto, intumescido e escarlate, esteve a ponto de estourar. Não
quis comer nada; quando lhe ofereceram vinho expôs sua opinião a
respeito dele e cuspiu.
A tarde, quando saiu dali ruidosamente, sua cabeça era uma
caldeira de dor e os músculos do pescoço estavam tomados de
espasmos. Os que ficaram, pela primeira vez mostraram-se partidários do
mesmo ponto de vista. O tribuno estava louco, naturalmente, e era
um animal como todos os romanos. Coletores de taxas e mercadores
reuniram-se para se darem mútuas condolências. Os magistrados
expressaram sua fervorosa esperança, em vozes baixas e cochichadas,
de que não só o tribuno descesse ao inferno, mas Roma junto com
ele.
Sexto arranjara cavalos para ele próprio e três de seus oficiais
subalternos, e saíram a galope atrás da biga de Diodoro. Mal conseguiam
manter-se no ritmo dele. Guia como Apolo, pensava Sexto, ainda
magoado, sem a beleza de Apolo. Devia entrar para as corridas dos
circos. Deuses, desgrudat daqueles pobres animais! Seu coração de
soldado, contudo, estava repleto de consternação. O tribuno parecia
estar temporariamente fora de si. Sexto invocou Ares,* enquanto
galopava pela estrada cheia de sulcos. O calor úmido era intenso, e sob sua
armadura os sombrios soldados suavam e seus escudos mostravam-se
pesados demais. Alguns deles pensavam em que castigo iriam receber
e qual a transgressão alegada.
O senador Carvílio Ulpiano estava sentado graciosamente no
pórtico externo com a cunhada Aurélia, bebericando um dos mais caros
vinhos de Diodoro e fazendo comentários sobre a bebida, para si
próprio, em linguagem expressiva. Aurélia, a boa matrona, ia
diligentemente ocupando as mãos em costurar, hábito vulgar e comum que sua
irmã compartilhava, pois Cornélia jamais seria uma dama elegante.
Tiveram um sobressalto ao ouvir o trovejar dos cascos e ao verem, a
distância, a grande nuvem de poeira luminosa. O senador ergueu-se,
seus trajes brancos flutuando em torno do corpo.
___
* O Marte da mitologia grega. (N. do T)
___
- Vamos, por Mitras,* é o Minotauro2 que se aproxima? Ou
Plutão que explode através da terra?
- Provavelmente é apenas Diodoro respondeu Aurélia, sem
se perturbar. - Esse é sempre um dia ruim para ele. Mas não há
outros cavalos seguindo os dele? - Pôs de lado sua costura e
levantou-se para ver e ouvir. Jovem mulher otimista, jamais pensava que
coisa alguma fora do comum pudesse ser de mau agouro. - Estará
trazendo hóspedes para o jantar?
- Se são hóspedes, trata-se com certeza de cocheiros que
perderam a prática disse o senador, resguardando os olhos do sol da
tarde e esticando o pescoço para poder enxergar. Começou então a rir,
distinguindo Diodoro a chicotear seus cavalos, de pé, como um
corredor, em sua biga, e os soldados precipitando-se atrás dele, todos
envolvidos em radiantes nuvens de poeira. Bateu as mãos e fez
exclamações de estímulo, como quem aplaude os cocheiros dos circos. - Ele
conseguirá! Ele chegará primeiro aos portões!
- Pelos céus, com esse calor murmurou Aurélia. - E com
aquela dor de cabeça. Por que Sexto veio com ele? E os outros?
- Sou eu sua esposa para saber o que Diodoro faz? -
perguntou o senador, razoavelmente, ainda a rir.
Diodoro alcançou o portão como uma trovoada, saltou da biga
e atirou as rédeas para o lado. Seus seguidores chegaram em tropel
e mal conseguiram evitar chocar-se contra a biga parada; seus
cavalos dançavam, empinavam-se, corcoveavam por ali, relinchando
angustiados. A luz do sol tirava reflexos dos elmos e das armaduras
dos soldados, e os cavalos estavam cobertos de suor. Diodoro
entrou pelo portão num arranco e foi num passo enérgico até o
pórtico externo. Relanceou um olhar furibundo para o senador e
ignorou sua esposa.
- Quê! Ainda estás aqui? perguntou grosseiramente. - Ainda
não começaste a sentir falta de teus coribantes e bacantes,3 nem
enlanguesces pelos teus gladiadores e atores prediletos?
___
* Um dos deuses da religião dos persas, deus da luz.
2 Monstro metade homem metade touro, que vivia em Creta e foi morto por
Teseu.
3 Coribanses eram sacerdotes da deusa Cibele (filha do Céu, deusa da
Terra e dos animais, esposa de Saturno, mãe de Júpiter, Netuno, Platão)
que dançasam e tocavam nas festas daquela deusa. Diziam-se os inventores
dos tambores. As bacantes eram sacerdotisas que nas festas de Baco (deus
romano do vinho, filho deJüpiter, O Dionísio dos gregos) celebravam os
mistérios, e dançavam, aos gritos, a cabeça coroada de hera. Tais
mistérios as celebradas bacanais acabaram por causar escândalo e
foram proibidos pelo Senado. (Notas do Tradutor)
116 117
Arquejava, tinha a fronte arroxeada e pingava suor.
- Querido disse Aurélia, estupefata diante daquela rudeza e
alarmada com a aparência do marido. Deu um passo para ele, que a
afastou com um gesto.
- Vai para os teus aposentos, mulher! disse isso sem olhar
para ela. Aurélia apanhou sua costura e desapareceu entre as colunas
da casa, os olhos repletos de lágrimas. Jamais Diodoro lhe falara assim.
O senador não se perturbou. Permaneceu ali, ostentando toda a
alta elegância, e o rosto mostrava-se divertido. Considerava Diodoro
um rústico, um militar imbecil, cuja disposição, como a de todos os
soldados, era mais adequada para um animal do que para um homem.
Ergueu as sobrancelhas, sorriu e olhou com ar crítico para a taça que
tinha na mão.
- Baco desdenharia este vinho, meu bom amigo e irmão, e
mesmo que eu estivesse saudoso, não há bacantes agitando-se em torno de
mim.
O leve insulto fez Diodoro tremer. Ficou diante daquele calmo
patrício, com suas mãos belas e sua toga lindamente pregueada, como
figura selvagem e sombria de um militar bárbaro, coberto de pó, os
olhos furiosos, o rosto violento e rubro todo convulso. Seu arquejo
fazia-se audível na quietude da tarde. Arrancou o elmo e atirou-o
sobre as pedras, onde rolou e retiniu. Carvílio Ulpiano tomou um
delicado gole do vinho e sacudiu a cabeça como que deplorando.
O senador sentou-se de novo, graciosamente. Suas sandálias eram
de prata, presas com fios de ouro.
- Senta-te sugeriu ele, como homem que hospeda outro de
categoria inferior. - Toma um pouco de vinho. Isso te refrescará. A dor
de cabeça ainda está muito forte? Tenho comigo meu médico e ele traz
uma poção que é muito eficaz. Queres que eu o chame para que te
preste serviços? - Estava sentado em sua cadeira, figura estranhamente
majestosa, à vontade no pórtico tosco da frente de uma casa que
considerava plebéia ao extremo, própria apenas para um capataz de escravos.
- Que Mercúrio amaldiçoe teu médico! disse Diodoro.
Atirou-se a uma cadeira e começou a enxugar com as mãos o suor que
escorria da testa. Quando o senador lhe ofereceu seu lenço
perfumado, Diodoro rejeitou-o, com uma blasfêmia. O senador riu.
- O dia deve ter sido excitante, no Palácio da Justiça -
comentou ele, servindo-se de um doce grosseiro que estava numa bandeja de
prata, a seu lado, sobre a mesa. Olhou em torno de si, procurando um
servo. Era demais pretender que houvesse um servo à mão naquela casa
bárbara, portanto o senador serviu o vinho para o tribuno, estendendo-lhe
o copo com uma reverência. Diodoro quis recusá-lo, mas sua boca
estava seca e ardente pela poeira e pela febre, e assim arrebatou a taça
das mãos do outro e esvaziou seu conteúdo num gole só. Começava
agora a sentir-se embaraçado por ter insultado seu hóspede mesmo sendo
esse hóspede o seu cunhado. Ali ficou, os joelhos afastados e seu
corpo forte e nervoso inclinado para frente, a cabeça ligeiramente
abaixada. Ficou a olhar sombriamente para o fundo da taça vazia:
- Sou uma chaga purulenta.
Carvílio Ulpiano cogitava onde seus próprios servos poderiam
estar. A frouxidão e o descaso plebeu daquela casa sem dúvida os
contagiaram, e os patifes estariam provavelmente folgando com os
ougros escravos. Contudo, afrouxou o corpo. Achava o ar da Síria muito
salubre e agradavelmente tépido, pois era homem de sangue frio.
O senador compreendia que Diodoro se estava desculpando,
menos para ele do que por se ressentir, sombriamente, de ter cometido
uma grande falta contra as boas maneiras, grande mesmo para um
soldado. Suas feições aristocráticas assumiram expressão agradável e
compreensiva, e seus olhos pequenos e pálidos, sem cor definida,
tomaram o aspecto benigno que ele reservava para os clientes,
principalmente para os grandes proprietários de terras que desejavam
favores em troca de respeitável emolumento.
O tribuno levantou-se, tirou o peitoral, soltou o cinturão de
couro com a espada curta, e atirou-os sobre uma cadeira. Seu corpo
revelou-se sob a túnica de linho cor de terra vermelha, tecida em casa pela
cuidadosa Aurélia, que também fiara e costurara para ele. Suas pernas
e braços robustos, bem como o peito, eram cobertos de pêlos pretos e
eriçados, e ele irradiava força, masculinidade e suor a tal ponto que o
senador fechou os olhos delicados. Soldados, refletia ele, são
inevitavelmente violentos e estúpidos, e Diodoro não constituía exceção.
Embora Cornélia, mulher simples, declarasse serem destinados a
Diodoro os livros que o senador estava sendo constantemente
compelido a mandar para Antioquia, o remetente não acreditava em tal coisa.
Um vândalo!* Ele, seu pai, e todos os seus ancestrais tinham fama de
___
* Vândalos eram um antigo povo germânico, que invadiu a Gália, depois a
Espanha e a África. Eram terríveis, onde quer que passassem, daí ter
ficado a expressão, até hoje, para designar depredadores de monumentos,
árvores etc. (N. do T)
118 119
absoluta integridade, honra, virtudes e qualidades militares em Roma.
Aquilo, considerava o senador, era a qualidade deles, prosaica,
rústica, sem inteligência. Ainda assim, embora os augustais rissem de
Diodoro, e mesmo o Tibério de rosto frio sorrisse à menção de seu
nome, ele tinha influência entre seus iguais de Roma, e nunca se
subestimava o poder dos tribunos e militares, embora eles fossem
estúpidos.
Diodoro tornou a encher a taça, deixando que algum vinho caísse
sobre suas mãos. O poente vermelho manchava as paredes brancas da
casa, e fazia dos pilares colunas rosadas. Um odor quente e doce
derivou dos jardins que ficavam atrás da casa, e as palmeiras farfalharam.
Tudo era quietude e paz, bom para os nervos de um cavalheiro que
viera de Roma, onde o ar recendia a intrigas. Diodoro sentou-se.
Repetiu em tom menos sombrio, porém mais duro:
- Sou uma chaga purulenta.
O senador suspirou e olhou para suas mãos cheias de jóias,
pensativamente. Tentou, entretanto:
- Não o és, com certeza disse ele -, em todo este encanto, e
com o poder que manténs na província. César está muito satisfeito
contigo. Disse-me, antes da minha vinda: "Meus cumprimentos ao
nosso bom Diodoro, e dize-lhe que não sei de outra província ou país
mais bem governado."
- Ele quer dizer falou Diodoro rudemente que não sou
mentiroso nem ladrão, que lhe mando as taxas prontamente, que
procuro ser o mais justo possível em meu trato, e com isso a Síria não lhe
dá preocupação.
O senador tornou a suspirar. Tinha cabeça estreita, de cabelos
pretos e lisos. Sua boca era ligeiramente efeminada, e um tantinho
cheia e vermelha demais para um homem. Diodoro continuou, e
agora sua voz tremia um pouco:
- Lembro-me de meu velho camarada de armas, Gaio Otávio,
que tu delicadamente chamas Augusto. Quando me escreveste que ele
morrera em Nola, velho lar de seu pai, nos braços de sua esposa, meu
coração despedaçou-se. Não reconheço seu sucessor como meu César,
não o reconheço em meu coração, mesmo que fales nele como uma
divindade. Divindade!
O senador olhou rapidamente em torno de si. Esperava que
ninguém os estivesse espiando, ninguém que pudesse repetir declarações
tão comprometedoras. Tossiu e murmurou:
- Um homem deve ser discreto. Não tornes esse aspecto tão
colérico, meu Diodoro. Se bem nie recordo, tu te queixaste, em cartas
que me escreveste, que teu "velho camarada de armas" tinha
finalmente destruído a República e terminado com a liberdade política.
Queimei tuas cartas, naturalmente, pois elas eram perigosas.
- Tolice falou Diodoro, com raiva, e cheio de
ressentimento.
- Eu lhe escrevi também uma carta nesses mesmos termos.
Velhos amigos, velhos soldados, são honestos uns para com os outros. Eu
era como um filho, para ele. Brigávamos a propósito das honrarias que
ele tinha aceitado, e meu pai também brigou com ele pelo mesmo
motivo. Sim, a República morreu com ele, e não inteiramente por sua
culpa, mas foi um bom soldado, melhor, na minha opinião, do que o
próprio Julio Cesar. Perdoa-se a um bom soldado muitas coisas,
embora não se perdoe, naturalmente, a usurpação do poder, e por isso eu
o censurava freqüentemente. E ele me disse, quando era homem
sensato: "Cidadãos corruptos criam governantes corruptos, e é a turba
que finalmente decide quando a virtude morrera."
A despeito de si próprio o senador sentiu-se surpreendido e
marcou seu primeiro respeito por Diodoro, que podia ralhar com César
impunemente, e receber respostas que eram desculpas.
- Esse patife, agora coroado com folhas de carvalho, pessoa de
sangue frio, pode ser, tecnicamente meu imperador, e eu o sirvo como
soldado, assim como meu pai serviu Gaio Otávio, mas não preciso
fingir que o adoro nem vê-lo como um dos deuses. - Diodoro reme-
remexeu-se em sua cadeira, raivosamente: - E quero ir para a minha
fazenda próxima de Roma e esquecer vossas malditas turbas, toda a
vossa política e depravação, e ficar com a minha família sob as árvores
frutíferas.
- E esquecer também que és um soldado, meu violento Marte?
Diodoro hesitou:
- Se Roma precisar de mim como soldado, então devo
responder. Não sou necessário na Síria. Mandai um dos vossos patifes para
cá e ele estará mais indicado para este lugar infernal do que eu. -
Lançou um imenso suspiro, continuando: - Pelo menos o meu César
era virtuoso, e sua esposa foi amada por ele até sua morte, durante
Cinqüenta anos inteiros. Dize-me: Tibério é homem assim?
O senador esfregou o queixo e seus olhos atiraram-se para o
pórtico, olhando para além da porta aberta. E disse, usando tato:
- Não sou homem de discussões e meu negócio é política, e
120 121
embora veja César frequentemente, não discutimos nada que possa
trazer controVérSias!
- Em outras palavras, Tibério tem ignorado as minhas cartas, e
tu não as discutiste com ele. - Os olhos veementes de Diodoro
faiscavam.
- Paciência, paciência murmurou o senador, cogitando
consigo mesmo sobre quando seria servido o jantar. Estava também
começando a sentir dor de cabeça.
E falou, cheio de esperanças:
- Haverá hóspedes para o jantar? - Talvez os hóspedes
tivessem efeito tranqüilizante sobre aquele incontrolável soldado.
- Hóspedes! exclamou Diodoro. - Não. Convidaria
inferiores a vir a minha casa? Não conheces Antioquia. Digo-te, eu
apodreço aqui! Se não visitar o procurador em judéia, uma vez por ano,
mais ou menos, morro de tédio e raiva. Esperaste um banquete como
aqueles a que estás habituado em Roma, com Tibério?
Ó! Deuses, pensou o senador, desanimado. E disse razoavelmente:
- Por que te ressentes assim? Afinal, Tibério é um magnífico
soldado; diminuiu a taxação onde pôde, em nome da economia; é
relativamente honesto e cavalheiro honrado, justo em seu trato com
as províncias, e consolidou o Império. Quanto a banquetes, como
soldado que é, Tibério não os aprecia. Pensava que ele fosse um
Baco?
- Estive com ele em campanha disse Diodoro, sombrio, e
esfregando a fronte dolorida. - Não se podia comparar a Gaio Otávio
acrescentou, como quem se defende. - Mas é homem silencioso,
de espírito frio. Entrega demasiado as coisas a vós, senadores; permite
a agitação a demasiadas línguas soltas e isso não são maneiras de
imperador. Não há disciplina...
- Ainda assim, ao contrário do teu querido Otávio, é um
romano de tua própria espécie. Quando subiu ao trono havia menos de
cem milhões de sestércios no Tesouro. Agora a quantidade cresce de
mês para mês. Ele é sóbrio.
- Apesar disso usa espias e informantes, como soldado algum
deve fazer disse Diodoro. - Quando um homem tem medo de
seus compatriotas e teme ser assassinado, é preciso examinar esse
homem. - Tornou a olhar com ira para o senador. - Por que ele nãO
responde às minhas cartas?
- Porque estás administrando a província a gosto dele. Se nãO
estivesse, seria chamado abruptamente. Digo-te, Tibério e tu sois da
mesma espécie.
- Isso não lisonjeia declarou Diodoro. Levantou-se. - Se
eu fosse César, poria todos vós, senadores, em vossos lugares.
- Em outras palavras, serias um tirano disse o senador,
sorrindo.
- Eu teria disciplina respondeu Diodoro, suspendendo o
cinto de sua túnica. - Encorajaria os "novos" homens, a classe
média, em Roma, os cavaleiros rurais, os mercadores, os lojistas, os
comerciantes, os advogados, os médicos, os construtores. Compreendo
que eles não são patrícios mas também eu não o sou! Muitos deles
pertencem a antigas famílias da Etrúria. - Os olhos dele acenderam-se.
- No que a mim se refere, podemos entregar a Itália de volta aos
etrúrios, e deixá-los, bem como os "novos" romanos, entender-se com
a populaça de Roma, não para afagá-la como fazeis vós, os senadores,
pelos seus favores imundos. Nem encheria meus aposentos de
gladiadores e de patifes e libertos, chamando-os meus clientes. Corja!
O senador estava de novo ligeiramente divertido.
- Tibério não é Catilina,* e, tanto quanto me consta, os
"novos" homens não produziram ainda nenhum Cícero.
Diodoro começou a afastar-se em passos pesados, resmungando,
desdenhoso. Então, deteve-se:
- Não te esqueças, meu bom Carvílio, de que jantamos quando
toca o gongo. Enquanto isso, vou lavar um pouco a fétida poeira de
Antioquia do rosto e das mãos.
O senador ficou sozinho no crepúsculo que descia rápido e
purpurino e recostou-se em sua cadeira, suspirando de satisfação. Alguns
dias mais aliviariam seu nervosismo. Aquela casa embora
bárbara e dispondo de poucos móveis, sem qualquer luxo ou distinção,
praticamente sem marfins, sem vasos murrinos2 e com poucas excelentes
estátuas, mesmo dos deuses, sem candelabros coríntios de bronze,
___
* Lúcio Sérgio Catilina, patrício romano (109-62 a.C.). Conspirou contra
o Senado, sendo denunciado por Cícero (Marco Tulio Cícero), o mais
eloqüene dos oradores romanos. Catilina morreu em PistÓia, de armas na
mão, e seus cúmplices foram executados, atrasés da insistência de Cícero
que, por sua vez, morreu assassinado a mando do Imperador Marco Antonio
e sua esposa Fúlvia, que ele atacara tremendamente em suas Filípicas. A
expressão "catilinária", usada para expressar violenta censura, vem dos
discursos de acusação feitos por Cícero contra Catilina.
2 Dá-se esse nome a certos vasos que eram altamente apreciados outrora,
e feitos de murra, material que não nos é muito conhecido. Custavam
verdadeiras fortunas. (Notas do Tradutor.)
122 123
sem quadros de mérito, e embora os dormitórios fossem meros
cômodos arranjados apenas para o vulgar dormir animal e não para o
prazer - tinha certo repouso simples. E, melhor do que tudo, não se
esperavam favores dele, e ali não se precisava estar em guarda. Os
bárbaros, conjeturava ele, às vezes podem ser admirados. Refletia também que
não era prejudicial, em Roma, estar ligado pelo casamento à "velha
família romana" de Diodoro, tão respeitada. Mesmo Tibério sorria
para Carvílio Ulpiano mais freqüentemente do que para seus colegas,
e se aquele sorriso era, invariavelmente, delgado e ácido, pelo menos
era um sorriso. E, também com freqüência, pedia notícias de Diodoro.
As fontes do jardim que ficavam atrás da casa cantavam, claras e
musicais, na sombra silenciosa, e os pássaros faziam coro para aquela
música. Espreguiçando-se prazerosamente, o senador levantou-se e
caminhou para os jardins. Tinha uma propriedade, fora das portas de
Roma, mas não se lembrava de que ela tivesse o efeito calmante
daquela, nem que as fontes murmurassem e jorrassem com tal harmonia
para a curva dourada da lua que ia subindo. O ocidente se tornara
uma série de pequenos lagos de fogo rodeados de um verde
sobrenatural, translúcido, que se parecia a verdor celeste. As colunas brancas
da casa, simples e jônicas, e as colunatas sem ornamentos pareciam
neve esculpida, salpicada, aqui e ali, pelas derradeiras tintas
profundamente purpurinas do sol.
O senador chegou aos jardins. Todo o recinto envolvia-se em luz
cor de heliotrópio, abafada e secreta, mas a água das fontes cintilava
como prata. O odor dos jasmins flutuava na branca aragem noturna, e
as palmeiras sacudiam seus leques contra o céu onde as cores de ametista
se iam aprofundando. O homem olhou em derredor com satisfação,
regozijando-se com aquele silêncio rompido apenas pelo som da água
e pela voz langorosa dos pássaros. Então, teve um sobressalto.
Jamais reparara antes naquela bela estátua de mulher, em
tamanho natural, erguida junto à fonte do centro, um braço de neve
estendido, de forma que as pontas dos dedos pudessem tocar as águas
levemente luminosas da bacia de mármore. Onde teria Diodoro, que jamaiS
apreciara trabalhos de arte, conseguido tão maravilhosa criação? O
senador fervia de inveja. Na Sicília, talvez. Os sicilianos coloriam
suas estátuas, às vezes com delicadeza. Aquela tinha cabelos douradOs,
estava vestida à moda grega, e o perfil adorável e pensativo fora tão
habilmente tocado de róseo que seria de supor tratar-se de carne viva. O
manto de alabastro envolvia o busto mais perfeito e divinamente belo,
que quase parecia respirar naquela misteriosa luz que ali pairava, e as
pregas do tecido, simples e nobres, tombavam da cintura esbelta como
um junco, e modelavam-se sobre as coxas cintilantes. Nunca o
senador vira coisa mais adorável. Praxíteles* jamais modelara forma tão
gtraciosa e de tão delicada perfeição.
Então, para terror do supersticioso augustal, que não acreditava
nos deuses, somente os temia, a estátua vacilou um pouco, e moveu-se,
recuou um passo, umedecendo os lábios com a língua. Não se
sentiria surpreendido se a estátua em movimento erguesse um arco de
prata e se voltasse para ele, visando-o no coração com uma flecha, pela
ousadia de vislumbrar Artemis em sua virgindade. Foi então que ele
viu Diodoro em pé no arco das colunatas, inconsciente da presença de
seu hóspede na sombra purpúrea que se adensava. Diodoro olhava
para a majestosa jovem que, com a cabeça baixa, ia lentamente
deslizando para fora, dirigindo-se para o portão do jardim.
A imobilidade absoluta do tribuno atraiu a atenção alerta do
senador. Viu o rosto de Diodoro, a sua sombria intensidade, que podia
ser observada mesmo naquela meia-luz. Viu-lhe o perfil, contorcido
por uma espécie de pesada dor, de desesperado sofrimento. A moça,
sem perceber a presença dos dois homens, alcançou o portão, abriu-o
e desapareceu na névoa.
Agora, por Jove, pensou o senador, intrigado com a atitude e
expressão de seu hospedeiro. Ele não é tão invulnerável, afinal. Essa não é a
expressão de um marido virtuoso, de um soldado absorto. É a expressão
de um homem apaixonado, e eu não o censuro. A escrava excitaria O
próprioJúpiter, levando-o ao êxtase.
Ouviu Diodoro suspirar. Foi um ruído rápido e terrível, na
sombra. As mãos cabeludas do tribuno contraíram-se ao longo de seus
flancos. Mais intrigado do que nunca, o senador tossiu, depois
aproximou-se do outro. Diodoro teve um sobressalto, e olhou para seu
hóspede como que estonteado, a dor desaparecendo devagar de seus
olhos altivos. Durante alguns instantes não pareceu estar vendo o
senador.
- Vamos disse Carvílio Ulpiano, em tom de cordial
congratulação -, esta é a escrava mais bela que já vi. Pensei, por um
momento, que se tratasse de uma estátua e que me pudesses vender. Na
verdade, minha oferta permanece.
___
* Escultor grego célebre (390 a.C.) (N do T)
124 125
Diodoro nada disse; de fato, parecia temporariamente incapaz de
falar. Conseguiu apenas fixar os olhos, com aquele alheamento
estranho, na figura do senador, como se tivesse sido profundamente
abalado. Carvílio Ulpiano bateu-lhe pancadinhas afetuosas no ombro.
- Afrodite* jamais se revestiu de tamanha beleza disse ele. -
Qual foi o mercador que te vendeu mercadoria assim, e onde existe
quem se lhe compare? Tem ele deleites similares? Tem ele um
estábulo de tais Eurídices,2 de tais formas feiticeiras e de tais faces
olímpicas?3 - Estalou delicadamente os lábios. Estava impregnado de
desejo e inveja. E continuou: - Embora seja possível que já tenha perdido
sua virgindade e tossiu eu estou disposto, meu Diodoro, a fazer-te
uma esplêndida oferta por ela.
Ficou assustado com o rosto que Diodoro voltou para ele, um
rosto de tão selvagem cólera, sofrimento e ultraje, que o senador
recuou precipitadamente, cogitando em se estaria diante de um louco.
Mas quando Diodoro falou, foi com voz baixa e rouca, como que
abafada:
- Estás enganado. Aquela mulher não é uma escrava. É minha
liberta.
- Libertaste tão gloriosa criatura? perguntou o senador, sua
perturbação dominada pelo espanto.
- Ela foi uma filha para minha mãe disse Diodoro, a voz
ainda sufocada. - Não é uma moça. É uma mulher de quase trinta
anos, e esposa do meu guarda-livros, Enéias, um liberto. - Respirou
pesadamente, continuando: - Além disso, é mãe do meu protegido,
Lucano, que eu estou educando para que seja médico.
O senador, desapontado e desgostoso, sacudiu a cabeça:
- Eu juraria tratar-se de uma jovem virgem. É uma calamidade
que ela seja livre. Daria uma fortuna ao seu senhor. - Bateu no
queixo, naturalmente, com uma unha polida. - Ela estava a tua espera,
por acaso, meu Diodoro, e eu vim perturbar-vos?
___
* Deusa grega da beleza. tal como Vênus com quem ela se identifica o
era na mitologia latina.
2 Eurídice era a esposa de Orfeu, músico divinal, que amansava as
próprias féras com o som de seus instrumentos. Tendo Eurídice sido
picada por uma serpente no dia de seu casamento, Orfeu desceu ao Inferno
e conseguiu abrandar as divindades infernais, que consentiram em lhe
restituir a esposa, com a condição de que a Levasse, precedendo-a, e sem
olhar para trás. Orfeu não resistiu e voltou-se para ver Eurídice,
perdendo-a, então, definitivamente. Tornou-se presa de grande dor e
abatimento, terminando por ser dilacerado pelas bacantes.
3 Relativo ao céu dos deuses, o Olimpo. (Notas do Tradutor)
___
Diodoro disse, quase num sussurro:
- Não. Ela não sabia que eu estava aqui. É evidente que se
tenha atrasado.
Seus olhos tomaram a luz dura do sofrimento, e ele voltou-se,
desaparecendo na casa. No momento em que entram, o gongo soou, e
o senador, tentando heroicamente engolir seu constrangimento diante
da rudeza de seu hospedeiro, que o precedera sem lhe dizer uma
palavra, seguiu-o, com tranqüila elegância.
8
Havia, realmente, vinho de Cefalônia para o jantar. Mas aquilo
não podia distrair o paladar delicado de Carvílio Ulpiano. Apício,
cujo livro de culinária era usado nas próprias cozinhas de Tibério,
registrava setenta e cinco maneiras excelentes de preparar feijão.
Aurélia e suas cozinheiras, porém, pareciam conhecer apenas uma,
e a mais grosseira, boa apenas para escravos das galés. O senador
patrício olhou para a travessa de feijão, bem temperado com alho,
no qual fora cozida uma carne qualquer, de aspecto duvidoso,
parecendo de cabra ou das menos desejáveis porções do porco. O pão
era inferior, as verduras flácidas, e o único prato que não pareceu
repulsivo ao melindroso Carvílio Ulpiano foi o de pequeninas
azeitonas pretas e salgadas que vinham daJudéia. Ele esquecera
quanto eram repulsivas as refeições naquela casa. Diodoro observava-o
ironicamente à luz fraca das lâmpadas fumacentas, que eram de
estanho, não de prata. O tribuno tocou na base de uma delas e
disse:
- Pareces aflito, meu irmão. Lamento que estas lâmpadas não
sejam de vidro de Alexandria. Se fossem, poderias ver melhor o teu
Jantar.
- Dizes essas mesmas palavras de cada vez que te visito falou
Senador, pacientemente. Que seria aquilo que passaram no pão?
Estava oleoso, rançoso; e o senador, que era homem de coragem,
sorriu e pôs um pedaço na boca. Era também polido, e teria murmurado
algo parecido a um cumprimento em relação ao jantar, se o pão não o
126 127
tivesse subitamente nauseado. - Por Hécate,* Diodoro! exclamou
ele, agitado. - É necessário viver assim? És rico como Creso.2
Poderias cobrir tua mesa com vasos murrinos e encher tuas lâmpadas com
óleo que não causasse náuseas a uma pessoa. Poderias ter taças que
rebrilhassem de ouro e pedrarias, e gozar o som dos alaúdes pelas
noitadas. Também poderias ter um cozinheiro com algum talento.
Diodoro, cujo rosto moreno estava lívido pela emoção passada,
olhou com escárnio para o senador:
- Podia ter também divãs onde me reclinasse para fazer as
refeições, e moças de Chipre para danças abomináveis e untar meus pés
com bálsamo. Contudo, não sou um urbano. Sou um simples
soldado, e vivo como soldado.
- Que detestável afetação disse o senador. - Júlio César era
também um soldado, e o mesmo era o teu bem-amado Gaio Otávio.
Viviam austeramente no campo. Quando estavam em Roma, viviam
como romanos e não como reles pugilistas.
Diodoro começou a sorrir. Comia o pão com prazer e havia agora
um clarão sombrio de zombaria sob suas sobrancelhas negras e
espessas.
- Talvez disse ele eu prefira guardar meu dinheiro... -
Comeu uma grande porção de feijão e rematou: - ...para dar um dote
à minha filha, que está quase pronta para o casamento.
O senador, que não tinha aversão pelo ouro e possuía quatro
filhos, perdeu seu ímpeto, coisa pouco comum nele.
- Ah! disse eis um assunto que me interessa. A pequena
Rúbria é de constituição delicada, mas ganhou consideravelmente em
saúde neste clima agradável. E tem uma beleza, também, que é quase
oriental, em sua vivacidade.
- Sim disse Diodoro, pensativamente. - Estou pensando
na possibilidade de mandar Aurélia e a menina para Roma, em futuro
próximo. Não há família nobre romana aqui em Antioquia que tenha
filho digno dela nem idade conveniente.
- Nesse caso disse o senador - é possível que Tibério, que
é justo, embora tenha água gelada nas veias, torne a chamar-te.
___
*A este nome correspondem duas divindades muito diversas: a infernal, de
três cabeças, identificada com Perséfona, rainha dos Infernos, a
Proserpina dos romanos; e a divindade lunar, identificada com Artemisa,
ou Diana.
2 Ultimo rei da Lídia, célebre pelas suas riquezas, que vinham do rio
Pactolo, de areias auríferas (563-54S aC.). (Notas do Tradutor)
___
- Sim falou Diodoro. Os dois homens estavam sozinhos na
sala de jantar e, como o tribuno não gostava da presença de escravos
em torno dele, tinha à mão um sino de cobre para chamá-los quando
necessário. Esfregou os dedos sobre o rendilhado do sino, que era do
tipo barato, e disse: - Estive pensando muito, hoje. - Atirou um
olhar agudo para o senador e acrescentou, o que o outro considerou
irrelevante: - Tenho também dor de cabeça.
Carvílio Ulpiano estava ainda curioso a respeito de Íris, que era,
segundo ele pensava, bonita bastante para animar o frio Tibério, e
criar loucuras em Roma. Tratava-se de uma liberta e contudo não
haveria augustal, ou patrício, que não ficasse ansioso para levá-la ao
leito e derramar sobre ela todo o ouro de seu cofre. Tocando
delicadamente o canto dos lábios com a língua, o senador disse:
- Levarás, naturalmente, todo o pessoal de tua casa se fores
chamado a Roma novamente. - Diodoro não respondeu. Sua dor de
cabeça não havia aliviado. Amaldiçoou Keptah em silêncio. O
senador, impelido pelo desejo e pela lembrança de lris, continuou: -
Também teu guarda-livros e a família, pois ele deve ser inestimável
para ti. Não contastes, uma vez, que ele foi escravo de Prisco, teu pai,
e que teu pai gostava dele?
- Sim disse Diodoro, em voz desanimada. - Entretanto,
Enéias é tão sóbrio quanto eu, e tem guardado seu dinheiro,
comprou também um pequeno olival que não fica distante de Antioquia,
e que ele se designa cultivar através de dois escravos meus. Aprendeu
a salgar as azeitonas à moda dos judeus, e elas são bastante gostosas.
Além disso, tem um respeitável rebanho de carneiros, cuja carne me
vende, e também aos mercadores de Antioquia. Duvido que deseje
voltar comigo para Roma.
A conversa enlanguesceu. Quando o senador comentou que Enéias
sem dúvida seria leal ao senhor e levaria seus desejos em consideração
como levaria em consideração os desejos dos deuses, Diodoro sacudiu
a cabeça:
- Não farei imposições à sua lealdade, se ele a tiver -
respondeu. - Além disso, lealdade é uma palavra pouco familiar para os
gregos.
Jamais tornaria a ver Iris. Olhava-a agora como um terror. Quando
a vira no jardim, tão perto, tão próxima, como há anos não a via, seu
COração saltara. Tivera que se controlar para não correr até ela,
agarrá-la, e mergulhar a cabeça em seus cabelos dourados. Houvera dentro
128 129
dele um grito, como o grito da maior alegria e angústia mescladas. A
desolação dominou-o.
O senador observava as paixões reveladas e os desesperos
galoparem através das feições vigorosas e sem sutilezas do tribuno, e sorria
consigo mesmo. Lembrou-se de que havia uma tristeza meditativa na
face da jovem mulher grega. Vênus jamais tivera devotos tão relutantes!
Diodoro era um tolo. Por que não se castrava de uma vez e acabava
com aquilo? O tribuno levantou involuntariamente os olhos e, vendo
o leve sorriso, os olhos mundanos do senador, corou. Encheu sua taça
lisa novamente e bebeu o vinho até o fim. Depois disse:
- Talvez te surpreenda saber, Carvílio, que sou um marido
virtuoso.
- Infelizmente, isso não é surpresa disse o senador. Estava
um tanto espantado ao ver que Diodoro era tão perceptivo. Bocejou e
aquilo o espantou ainda mais. Não eram horas de se recolher. Depois
recordou-se de que todos, naquela casa bárbara, deitavam-se cedo.
Refletiu, sentindo-se infeliz, que não seria confortado em sua cama
dura, naquela noite, por uma de suas bonitas escravas. Por que
imaginara que poderia passar muitos dias naquele lugar? Teria de ir
embora o mais depressa possível, depois de ter chegado a um certo acordo
com Diodoro a respeito de Rúbria.
Antes de se deitar, Diodoro dirigiu-se pesadamente para os aposentos
de sua mulher. Aurélia, cujas faces morenas e coradas mostravam
sinais de lágrimas recentes, e cujos olhos bondosos tinham as pálpebras
avermelhadas, estava consentindo que uma escrava lhe escovasse os
cabelos pretos. Estava sentada junto à mesa, vestida com sua camisola
de noite, de linho branco, e sob o pano seu corpo voluptuoso era
inquestionavelmente matronal. Quando viu Diodoro, seus lábios
vermelhos estremeceram e seus olhos brilharam. Controlou-se,
instantaneamente, e compôs um rosto frio.
Diodoro teve um gesto brusco para a escrava, mas Aurélia, pela
primeira vez desde que se casara, disse com energia pouco habitual:
- Não me deixes, Calíope. Não terminaste de trançar meus
cabelos e há outras coisas para fazer.
- Sim, senhora disse Calíope. Tinha uma voz rude e
desagradável, que feria os ouvidos, voz estridente demais para uma jovem
tão pequena e tão bem-feita.
Diodoro era sempre bastante vago quanto aos servos de seu
serviço doméstico, e raramente prestava-lhes atenção. Mas, tendo algo em
mente, olhou perscrutador para Calíope e disse, com sua habitual
falta de tato:
- Calíope!* E com uma VOZ destas!
A moça sorriu com afetação e curvou a cabeça:
- Sim, senhor.
Diodoro examinou-a. Parecia ter, evidentemente, dezessete ou
desoito anos, rosto vivaz e impertinente, não belo, mas tão animado que
lhe dava certo encanto. Tinha ar enérgico e competente, e seu corpo
possuía bastante graça. As tranças compridas, de um tom castanho
claro, tombavam-lhe abaixo dos quadris. Diodoro percebeu um
fulgor castanho, brilhante, embora leve, sob seus cílios. Olhou para as
mãos dela. A moça estava acostumada ao trabalho árduo, sob a direção
de sua senhora. Parecia integralmente adequada para o que o tribuno
tinha em mente.
- Gostarias de te casar? perguntou-lhe ele bruscamente.
- Oh! Sim, senhor. - E a moça olhava-o impudentemente,
sob as pálpebras descidas.
- Está bem. Tenho um excelente marido para ti disse ele,
assim aparentemente concluindo o assunto. De novo fez-lhe sinal para
que se fosse, e dessa vez Aurélia não rebateu a sua ordem. Quando a
moça já se fora, puxando a pesada cortina de lã azul sobre a porta,
Aurélia disse, contrariada:
- Penso que é prerrogativa da senhora arranjar os casamentos de
suas escravas, moças ou mulheres.
- Sim, sim disse Diodoro, impaciente. - Mas esta é uma
Ocasião especial.
Aurélia levantou o espelho de prata e fingiu estar ocupada em
examinar a pele. Diodoro, finalmente, percebeu que sua mulher
estava descontente com ele. E disse:
- Que fiz eu?
Aurélia examinava a pele, e suspirou.
- Deve ter sido coisa muito má continuou Diodoro .-, mas
agora não é ocasião para exasperações matronais.
Aurélia ficou ofendida. Pousou o espelho sobre a mesa, com um
movimento brusco, e a lâmpada estremeceu. Sua luz fraca brilhava
sobre um leito austero, sem decorações de bronze e sem esculturas; o
___
* Musa da poesia épica e da eloqüência. (N do T)
130 131
móvel era de madeira, sem ornamentos, e os tapetes que estavam de
ambos os lados dele eram apenas de lã castanha.
- Sou eu dada a caprichos? perguntou ela. - Tenho
acessos de raiva? Quando foi que te aborreci, Diodoro? Quando mereci o
insulto que me fizeste esta tarde, diante do marido de minha irmã?
- Oh! disse Diodoro, franzindo as sobrancelhas. Sentou-se
e ficou a olhar para seus joelhos nus. - Não sabia que te havia
ofendido. Peço-te perdão, Aurélia. Eu tive hoje uma dor de cabeça
verdadeiramente infernal. - Esperou pelas habituais palavras de
preocupação de Aurélia, mas ela apenas fungou e a frieza de seu rosto tornou-se
ainda mais acentuada. - Deve ter sido muito grave repetiu Diodoro.
Aurélia começou a trançar os cabelos, e Diodoro tentou reprimir
sua impaciência. Estava magoado por sua esposa não ter mostrado
comiseração a seu respeito, não ter aberto a caixa dos ungüentos para
friccionar em sua testa, não o ter convidado a deitar-se em sua cama a
fim de que ela pudesse tomá-lo nos braços, como de costume, e
cantarolar baixinho para ele até que esquecesse a sua dor, ou que ela
passasse.
- Quero dizer falou o tribuno, irascível que é mau
quando uma esposa não mostra solicitude para com seu marido.
Aurélia tornou a fungar. As madeixas brilhantes de seu cabelo
preto fluíam de entre seus dedos.
- Além disso continuou Diodoro, em voz mais alta -,juro
por todos os deuses que eu não sabia que te havia ofendido diante
daquele pretensioso de toga. Por que usa ele toga numa casa tão
simples?
- Ele é um cavalheiro informou-lhe Aurélia,
significativamente. Diodoro dirigiu-lhe um olhar furibundo, que ela retribuiu
com outro igual. Aquilo se parecia tão pouco com a amável Aurélia,
dona de uma afeição tão ampla e tão difundida por todos, que Diodoro
se viu tomado de surpresa.
- É isso, então: eu não sou um cavalheiro observou ele.
- Tu nunca o foste. - Contra sua vontade, uma covinha
apareceu em seu rosto moreno. Depois, desapareceu. - Que história foi
essa de casamento para Calíope? Com quem queres casá-la?
- Com Lucano disse Diodoro, e deu uma palmada no joelho
como se a coisa estivesse de todo resolvida.
Os olhos de Aurélia arredondaram-se de espanto. Suas mãos
gorduchas tombaram dos cabelos para o colo:
- Lucano! exclamou ela. - O filho de Íris?
- Quem mais? respondeu Diodoro, com irritação.
- Ele pediu essa moça? indagou Aurélia, incrédula.
- Não, não. Eu não disse isso. Resolvi por mim esse caso. Antes
que ele se case eu a libertarei e ela será meu presente para Lucano.
Quem é ele para protestar contra minhas ordens?
Aurélia abriu a boca, incrédula.
- Esqueceste de que não lhe podes ordenar que se case com
uma jovem que escolheste, mesmo sendo tu procônsul e tribuno?
Ele nasceu livre! - Estava cada vez mais incrédula. Tinha afeição
por Lucano, que era filho de sua amiga Íris, e um jovem bonito,
condiscípulo e companheiro de brinquedos de Rúbria. Mas
pensara sempre que Diodoro se mostrava excessivamente entusiasmado
pelo rapaz.
- Eu posso dar-lhe ordens! gritou Diodoro, tomado de
cólera. - Quem é ele, senão o filho de um cão fraco e antigo escravo,
aquele Enéias!
Aurélia ficou calada. Depois, olhando firme para ele, disse:
- Ele é também filho de Iris.
Diodoro fez menção de falar, depois calou-se, e Aurélia
continuou:
- Não grites comigo. Posso surpreender-te. mas às vezes
também tenho dores de cabeça, embora pareças inconsciente das dores de
cabeça que se referem aos demais. Deixa-me continuar. Lucano
nasceu livre. E orgulhoso. Não podes ordenar que se case com uma
escrava. Nem podes mandar açoitá-lo ou prendê-lo, se te desobedecer. Creio
que mencionaste, com aprovação, que o próprio Tibério baixara editais
proibindo violência e ordens ilegais.
- Tibério! disse Diodoro, num tom que enviava o
Imperador para o esgoto. - Ouve-me: falarei com Enéias e dir-lhe-ei que é o
meu desejo. Ele, pelo menos, não ousará desobedecer-me. Eu o disse.
Eu o farei.
Levantou-se, determinado. Mas Aurélia não estava impressionada.
- Pensaste em Íris, que estás para ofender profundamente? Não
POSSO permitir esse ultraje.
O rosto de Diodoro intumesceu de fúria, diante daquilo.
Ultraje! berrou. - Dou ao rapaz uma escrava para atendê-lo,
enquanto pago suas contas imensas em Alexandria, roubando minhha
própria filha de seu dote...
132 133
Aurélia levou as mãos aos ouvidos. Quando Diodoro parou,
fervendo, ela removeu as mãos e disse, tranqüilamente:
- Sem dúvida, estás sendo impelido pelos mais elevados
motivos. Contudo, dá Calíope a Lucano quando ele partir para Alexandria,
se queres.
- Darei disse Diodoro.
Agora, a curiosidade apoderava-se de Aurélia:
- Mas por quê? perguntou.
- Eu resolvi isso. Não é bastante?
- Não disse Aurélia, recomeçando a trançar os cabelos.
Depois, sacudiu a cabeça: - Não sei o que tens em mente. Sabes que,
ocasionalmente, és sinistro?
Diodoro estava para explodir em gritos coléricos, de novo,
quando uma palavra chamou-lhe a atenção. Sinistro. Jamais se considerara
assim. Fosse como fosse, o pensamento intrigou-o. Esfregou a testa,
desapontado, e disse, num tom mais manso:
- Falei várias vezes: sou apenas um simples soldado. Meus
motivos são sempre tão puros como o mel.
Aurélia parecia mais compreensiva e aquilo agradou Diodoro.
- Mesmo que Calíope fosse uma pérola de Cós, dotada pelas
próprias Graças* disse ela -, Lucano não a quereria. Iris disse-me,
hoje, com muita preocupação, que ele fez um voto sagrado aos
deuses, de jamais se casar.
- Jamais se casar! exclamou Diodoro. - Que loucura: O
que o levou a tal maluquice? As moças não o atraem?
Aurélia ergueu os ombros:
- Não olho Lucano como um filho, como tu fazes com
freqüência disse ela, significativamente. Deixou aquela farpa palpitar em
Diodoro por um momento, depois continuou: - Não sou sua
confidente; ele é demasiado silencioso e reservado para um jovem.
Entretanto, um homem não faz voto sagrado de furtar-se ao casamento se
não se sentir atraído pelas jovens.
Aquilo parecia razoável. Diodoro franziu o cenho e murmurou:
- Tolice.
Aurélia tornou a erguer os ombros.
- Tens algo em mente disse ela. - E eu sou muito curiosa.
___
* Em grego, Cárites, divindades pagãs que eram a expressão do que havia
de mais sedutor em beleza. Eram três: Aglaia, Tália e Eufrosina. (N. do
T)
___
Enorme alívio inundou Diodoro. Sorriu:
- Se ele fez tal voto, então não o violará. Portanto, está
acabado.
- Ainda estou curiosa insistiu Aurélia.
Diodoro sabia que sua esposa não era intelectual nem sutil. Mas
era astuta. Tinha, também, um grande respeito por Aurélia.
- Não sou homem para satisfazer a curiosidade de uma mulher
disse ele, zombeteiramente. Sua dor de cabeça desaparecera como
por milagre. - Pensei em fazer isso para beneficiar Lucano, nada
mais.
- Oh! disse Aurélia, sem se convencer. Bocejou. Perdeu o
interesse pela conversa e esqueceu seus sentimentos ofendidos.
Relanceou os olhos para a cama, depois sorriu inocentemente para seu
marido.
- Ficaste mais exaltado hoje do que de costume, Diodoro. Os
magistrados, os coletores de taxas, os nobres e os caudilhos
mostraram-se excepcionalmente odiosos?
- São uns porcos disse Diodoro, expandindo-se. Percebera
o olhar da esposa para a cama. Suas mãos começaram a afrouxar o
cinturão. Aurélia levantou-se, sacudiu as tranças, depois apagou a
lâmpada.
Quando estavam deitados, e abraçados, Diodoro disse:
- Arranjei o casamento entre Rúbria e teu sobrinho predileto.
Piso. - Encostou a cabeça no seio de sua esposa, o que aqueceu seu
coração e refrigerou sua fronte. Envolveu-se quase desesperadamente
na força dela e entregou-se aos afagos delicados de suas mãos. Fëchou
os olhos e ordenou a si próprio esquecer Iris, que se havia retirado,
como a lua se retira para trás de uma nuvem.
9
Pela manhã, Diodoro levantou-se sentindo-se comunicativo, tocado
de algum remorso. Lucano era apenas o filho de um liberto,
disse Diodoro, que o amava verdadeiramente como a um filho, sentia
vergonha de si próprio. Fora aquela maldita enxaqueca, naturalmente
134 135
que exercem sobre a razão de um homem o mesmo efeito que Medusa*
tinha sobre a carne, O que o levara a esquecer que uma modesta
donzela romana não se poderia casar sem o consentimento de seu pai?
Era, antes, seu jovem coração que ele estava considerando, pensou o
tribuno. Não o queria esmagado. Assim como ele amara Iris, era
possível que a delicada e pequena Rúbria amasse Lucano. Aquilo tornou
Diodoro mais determinado do que nunca a mandar a menina e a mãe
para Roma. Neste ínterim concluiu os arranjos para o noivado de
Rúbria, à hora da primeira refeição, com Carvílio Ulpiano.
Regateando no que se referiu ao dote. O cauteloso tribuno queria ter certeza
de que, se Piso um dia viesse a divorciar-se de Rúbria, ou se ela
resolvesse deixar a casa do esposo, o dote lhe seria devolvido. O
senador ficara bem-humorado, embora tivesse resolvido deixar aquele
lugar impossível na manhã seguinte.
Keptah, naquela aurora rosada, esteve no quarto de Rúbria, para
o costumeiro exame matinal. Sentia-se profundamente angustiado. A
mocinha tivera sua doença mortal estacionada durante um período de
tempo que durara mais do que em qualquer outro caso registrado por
Hipócrates ou pelos seus discípulos. Os sintomas do retorno, porém,
estavam ali. As mucosas macias de sua boca e garganta mostravam o
crescimento mortal da doença branca. Um de seus joelhos estava
inchado e quente e, da noite para o dia, ela perdera o colorido das faces
e de novo se fizera pálida como um fantasma. Sentia-se lânguida e
febril, mas havia um bom sinal: sua disposição ainda era alegre.
Poderia haver outro estacionamento, se não ocorresse hemorragia interna.
O médico examinou-lhe a urina, fez certas perguntas à ama. Até então,
as secreções do corpo estavam livres de sangue. Recomendou, então,
que ela passase alguns dias na cama.
Encontrou-se com Diodoro na escadaria. O tribuno tinha uma
expressão altamente satisfeita e contente em seu rosto feroz.
- Por que a pequena não está com sua mãe? indagou.
- Ela sente-se hoje um pouco cansada respondeu o médico,
em voz baixa.
Diodoro parou na escada.
- Está doente? perguntou, sentindo o coração acelerado.
___
* Uma das três Cérgonas (monstros da fábula: Medusa, Euríade e Estênio)
que tinham poder de transformar em pedra todos os que as olhassem, poder
ainda mais forte em Medusa, que é representada com uma cabeleira feita
de serpentes. (N. do T.)
___
O médico hesitou. Por quanto tempo deveria manter o tribuno
inconsciente de que sua filha ia morrer? Diodoro observava-lhe
agudamente o rosto. Keptah sorriu:
- Acho que ela esteve brincando demais disse ele. - Torceu
um joelho e precisa ficar na cama até que a inchação desapareça. - E
acrescentou: - Dei-lhe uma poção que a fará dormir, a fim de
desCansar o ponto machucado.
A forte compressão que Diodoro sentira na garganta afrouxou.
Sacudiu a cabeça, dizendo:
- Parece impossível que uma jovem de quatorze anos se
comporte como uma criança saltitante de quatro. Eu estava a tua
procura, meu Keptah. Antes que comecem as chuvas da primavera, a
senhora Aurélia, minha filha, e tu partireis para Roma. Acabo de
contratar o casamento dela com meu sobrinho, Piso, filho de Carvílio
Ulpiano.
Keptah ficou apavorado. Cruzou as mãos finas e morenas sobre
seu traje branco, de forma que Diodoro não pudesse ver como se
contraíam, trêmulas.
- Senhor disse ele -, não é boa a ocasião. Rúbria fez
muito progresso neste clima tépido e suave. Passou bem durante
alguns anos. Entretanto, ainda tem a constituição delicada, e
expô-la à umidade e às chuvas de inverno de Roma a esta altura será
perigoso.
- Tolice disse Diodoro, mas sentia-se abalado. - Vi
meninas mais doentes tornarem-se vigorosas e rechonchudas depois de
casadas e, particularmente, depois que tiveram filhos. Rúbria tem sido
muito mimada.
Keptah umedeceu os lábios e manteve os olhos baixos, para que o
tribuno não pudesse ver neles o medo. A menina tinha menos de um
ano de vida: podia morrer no dia seguinte, ou no outro. Afastá-la de
seu pai, de seu querido companheiro de brinquedos, da tepidez e dos
aromas da Síria apressaria sua morte, arrebataria à doente a sua tranqüilidade.
- Um ano, seis meses suplicou Keptah. - Ela tem só quatorze
anos.
- Não falou Diodoro, batendo enfaticamente com a mão na
parede branca da escadaria. - Dentro de um mês.
Keptah, esquecendo sua posição, levantou a voz e exclamou:
- Em nome de Deus, Diodoro, não afastes de ti a menina! Ela é
136 137
o coração de teu coração, e ama-te mais ternamente do que qualquer
outra pessoa no mundo.
- Isso eu sei disse Diodoro, em tom mais brando. - Achas
que será fácil para mim renunciar a ela? Mas se ela e sua mãe forem
para Roma, aquele César de sangue gelado poderá chamar-me de
volta. Carvílio Ulpiano fará o que puder. Tibério sempre ouve os
senadores, e Carvílio tem muitos amigos entre eles. Quero paz. Quero
retirar-me para a minha fazenda.
Keptah pensava no amor entre Rúbria e Lucano. Observara como
crescia a inocente paixão entre a donzela e o filho de Enéias.
Ultimamente, não dissera a Lucano que a menina ia morrer. Eles precisavam
ter o seu jovem sonho de amor, o mais belo e mais doce de todos os
sonhos, até o momento inevitável. Era um amor puro e, tristemente, ia
passando, a cada dia que corria, a ser o amor de uma mulher por um
homem. Se Rúbria não estivesse morrendo, Keptah teria sugerido ao
tribuno que afastasse sua filha de uma situação que, inevitavelmente,
traria angústia para ela.
O médico sentia-se perplexo. Não tinha coragem de dizer àquele
pai que sua filha morreria, fatalmente, no máximo dentro de alguns
meses. Mas sabia, ainda assim, que ela não podia ir para Roma, e ali
morrer em lágrimas, por causa de Lucano e de seu pai. Havia apenas
uma coisa a fazer: Inclinando-se em silêncio diante do tribuno, dirigiu-se
aos apartamentos das mulheres e pediu a uma escrava que
solicitasse de Aurélia um momento de consulta. Aurélia, que estava
fiando diligentemente entre as escravas, mandou chamá-lo, sem
interromper seu trabalho. Keptaih estudou-a. Era uma mulher de
senso e força, nunca histérica, nunca se mostrando caprichosa, nunca
amuada ou irracional. Suas faces estavam mais coradas do que de
costume, naquela manhã. e seus grandes olhos castanhos pareciam
mais meigos, como se ela estivesse devaneando sobre algum prazer,
algum amor passado.
- Posso falar-te em particular, senhora? pediu Keptah.
Aurélia imediatamente mandou que suas escravas se retirassem,
mas suas mãos continuaram ocupadas.
- Como está a nossa Rúbria esta manhã? indagou.
Keptah disse:
- Há algo de que te preciso falar, senhora, e que não ouso
dizer ao nobre tribuno.
Aurélia ficou com o fuso na mão, e seu pé imobilizou-se sobre O
pedal. Empalideceu um pouco, mas seus olhos não se obscureceram,
nem se alargaram de susto. Disse, serenamente:
- Rúbria está doente outra vez?
- Sim, senhora. Ela não pode viver. Morrerá antes do outono.
Aurélia tornou-se lívida sob a pele morena. Pousou o fuso sem
que a mão lhe tremesse.
- Conta-me pediu ela, em voz abafada.
Keptah jamais a admirara tanto quanto a admirava agora. A força,
nela, era a força de um carvalho, atormentado por um vendaval, mas
sem ser arrancado por ele. Como Ceres, que perdera sua filha
Proserpina para o deus da morte, Plutão, também para ele perderia
sua filha. Ao contrário de Ceres, não amaldiçoaria a terra, nem
andaria sobre ela, de lá para cá, lançando queixumes. Suas raízes eram
profundas e vigorosas.
- A pequena Rúbria tem a doença branca disse Keptah, sem
conter as lágrimas que alluíram aos seus olhos enigmáticos.
Aurélia as viu e comoveu-se. Disse:
- A doença branca. Não há cura para isso, eu sei. Tens certeza,
Keptah?
- Sim, senhora. Ela teve uma recuperação de alguns anos, bem
para além das minhas expectativas. Mas agora a doença voltou. Deus
concedeu um milagre para seus próprios e misteriosos propósitos.
Não concederá outro milagre, desta vez.
Aurélia cruzou as mãos robustas sobre os joelhos e ficou a olhar
para elas.
- Eu não disse ao tribuno que estou grávida. Queria ter certeza.
Devo dizer-lhe, para aliviar o golpe da morte próxima de Rúbria?
- Senhora, dentro de duas semanas podes falar-lhe na criança
que vem, pois, então, teremos certeza. Mas não lhe fales de Rúbria.
Seu coração está nas mãos dela.
Aurélia fez um movimento de confirmação. Tornou-se silenciosa,
durante muito tempo, enquanto Keptah ali estava, em pé, no quarto
despido e brilhante. Mesmo a morte ela aceitava com coragem.
- Que ele tenha paz. Que ele se sinta alegre tanto pela filha
como pela criança que nascerá disse Keptah, reverenciando-a. -
COntei-te a verdade, senhora, porque preciso de tua ajuda. Rúbria
não pode ir para Roma. Como inevitavelmente morrerá, é melhor que
morra aqui, com o pai a seu lado.
- Compreendo disse Aurélia. Mecanicamente, fez um movi-
138 139
mento como se fosse erguer o fuso, depois afastou as mãos. - Direi a
Diodoro que prefiro ficar aqui até o outono, e que este verão em
Antioquia melhorará ainda mais a saúde de Rúbria. Devíamos partir
dentro de quatorze dias.
Olhou de novo para Keptah, e seu busto generoso estremeceu:
- Obrigada falou, com profunda gratidão. E apanhou de
novo o fuso.
Keptah interceptou o passo de Lucano quando o jovem ia entrar
na sala de aulas, onde Cusajá estava dispondo as lições.
- Vem comigo disse Keptah. Tomando o braço do rapaz,
conduziu-o para a doce brisa silvestre do início daquela manhã
primaveril. Ficaram no centro do jardim, onde ninguém os podia ouvir.
Keptah olhou o jovem nos olhos, e disse, serena e gravemente: -
Tenho más notícias para ti, meu Lucano. A doença branca voltou em
Rúbria, e ela morrerá antes que as folhas tombem.
Lucano enrijeceu. Suas faces tornaram-se como que de mármore.
Durante os últimos dois ou três anos ele chegara a acreditar que Rúbria
viveria. Além disso, parecia-lhe que seu próprio espírito estava ligado
ao dela, como as duas árvores que eram as almas de marido e mulher
e que haviam recebido a graça dos deuses por causa de seu grande
amor. Não falara de Rúbria com Keptah: tivera demasiado medo. Cada
dia ele se regozijava com o florescimento dela, cada hora com ela era
como ouro, recentemente tirado da mina, e primitivo. O riso dela era
mais claro e mais forte; o colorido de suas faces mais brilhantes; seus
membros mais leves e mais rápidos nos movimentos. Deus fizera um
milagre, e embora Keptah o tivesse advertido no início de que se
tratava apenas de um recuo, Lucano, obstinadamente, chegara a acreditar
que o milagre tivesse permanência.
- Não acredito nisso disse Lucano, com voz estrangulada,
tentando arrancar o braço do aperto das mãos de Keptah. Agora seUS
olhos brilhavam de dor e medo, e o rapaz olhava para Keptah como
para um temível inimigo. Keptah apertou ainda mais o braço dele.
- Eu não minto falou. - A menina está morrendo.
- Deus não pode permitir que essa coisa horrível aconteça
disse Lucano, uma nota de ódio em sua voz. Olhava para a abóbada
translúcida do céu. - Ele não pode levar Rúbria, que não fez mal a
ninguém, cujo coração é puro, que carrega deleite e amor até em sua
própria sombra.
Keptah suspirou:
- Se Deus levasse apenas os perversos, então este mundo seria
realmente um paraíso. Dizem que os que os deuses amam morrem
jovens. Deus ama aquela criança. Rúbria será levada para Ele, a fim de
repousar em paz e luz, pela eternidade, esperando por ti.
Mas o jovem coração de Lucano rebelou-se violentamente. Sua
mente estava cheia de escuridão e desespero. O macio vento que lhe
roçava a carne fazia-o estremecer. Odiava Deus, que podia privar o
mundo de Rúbria e despedaçar seu espírito em farrapos. Tudo quanto
soubera sobre Deus, todo o amor que Lhe dera, humildemente,
com júbilo e exaltação, morria em cinzas amargas, espalhadas por um
vento mortífero. Tinha rezado, freqüentemente: "Rúbria não, Pai, mas
eu, Poupa Rúbria." E acreditara que Deus o ouviria e atenderia sua
prece.
Dizia consigo mesmo, desesperado: Não acredito! Não acredito
mais! Se Deus deixar que isso aconteça, então Ele é mau, e não há
nada senão mal neste mundo. Não há Deus.
Se Rúbria tivesse morrido quando a doença se manifestara pela
primeira vez, Lucano teria aceitado aquilo com a simplicidade e a
tristeza de uma criança inocente, e teria rezado pela alma da menina.
Amava-a agora como homem, com poder, intensidade e toda a aspiração
e dedicação de sua alma. Como homem, acreditava, de súbito,
que ela morreria completamente, e estaria perdida para ele, pela
eternidade.
Observando-o, Keptah viu o ódio violento e a agonia nos olhos
do jovem, a amarga rebelião, a recusa. Disse, alarmado:
Esqueceste, então, tudo quanto sabias, meu Lucano?
Esquecestes a Estrela, o amor, a compreensão? Perdeste teu devotamento a
Deus, e teu conhecimento Dele?
Lucano disse, através dos lábios ressecados:
- Esqueci. Sonhei, como uma criança. Agora estou no mundo
dos homens.
- Então, como homem, deves aceitar. A revolta é para as
mulheres, que não têm conhecimento disse Keptah, tornando a suspirar.
Levou a mão ao ombro rígido de Lucano, recordando-se de que os
Magos lhe haviam dito que o jovem deveria fazer sombria e solitária
jornada a até Deus. Ainda assim, desejava que Lucano não viajasse
sozinho.
"Pensas ser o único a conhccer o infortúnio? perguntou
Keptah.
O coração revolta-se contra a dor, pois isso é natural. Mas tu co-
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nheceste mais do que a dor. Conheceste Deus. Ele é assim tão fácil de
esquecer?
Lucano ficou silencioso.
- Não repelir instantaneamente a dor é não ser humano
continuou Keptah com urgência na voz. - Felicita-te por todos
estes anos terem sido teus, por não haver a tristeza roçado por ti, por
teres tido o amor de teus pais, e de Diodoro, de ter sido tua vida
serena e alegre, de teres amado Rúbria. Deus tem sido terno e
amoroso para contigo. E, apesar disso, exatamente quando Ele pede que
compreendas, que tenhas fé, que no desespero e no temporal O
aceites simplesmente, como O aceitaste ao sol radiante e à beleza, e
ao riso, tu Lhe voltas as costas com ódio e gritas em tua alma: Não há
Deus!
- Que Ele faça outro milagre disse Lucano, respirando
profundamente.
Keptah sacudiu a cabeça:
- Tu é que vais dispor o que Ele deve fazer? - E acrescentou:
- Tenho sido teu professor. Tens estado comigo em meio a tantos
fatos desagradáveis. Viste dor; sofrimento e morte. Ajoelhaste ao lado
da enxerga de escravos moribundos e os consolaste com palavras de
paz, amor e fé; dirigiste para Deus os pensamentos deles. Mas... Deus
não deve tocar-te, Ele não deve torcer teu coração! És, então, de tal
forma sacrossanto que devas ser poupado ao fato comum a todos os
outros homens? Oh! egoísta! Oh! homem de pouca fé!
Lucano não respondeu. Seus olhos pareciam pedras azuis. Keptah
prosseguiu:
- Uma mulher é mais forte e mais sensata do que um homem.
Dei a notícia a Aurélia, e ela aceitou-a com coragem e submisssão, - E
acrescentou: - Nada disse a Diodoro. Ele, como tu, não tem força.
Lucano exclamou:
- Como se pode ter força quando não há uma resposta para O
infortúnio e para o sofrimento?
Keptah baixou os olhos, pensativamente.
- Houve um homem chamado Jó que fez essa pergunta. E Deus
lhe disse: "Onde estavas tu quando Eu lancei os fundamentos do
mundo?" E Jó silenciou.
- Isso é uma resposta de sofista falOU Lucano.
- Ainda assim é uma resposta mais confortadora do que muitas
outras.
Lucano apertou as mãos contra os olhos, e Keptah contemplou-o
compassivamente. Depois, disse:
- Regozija-te com as pequenas bênçãos. Era desejo de Diodoro
que Rúbria te deixasse, dentro de duas semanas, partindo para Roma.
Agora, a heróica Senhora Aurélia o dissuadirá, porque sabe. Ela não
quer que a filha morra tão longe do pai. E de ti. Não podes ser tão
nobre quanto uma mulher?
Cusa surgiu no jardim.
- Aí estás, aluno velhaco! disse o professor grego. - Queres
evitar as lições, não é? Apressa-te, vagabundo!
Lucano olhou com raiva para ele, mas Keptah sorriu e tocou-lhe
no braço:
- Meu bom Cusa, teu aluno está pronto. Eu acabo de
completar a lição.
Voltou-se para Lucano, e indagou:
- Completei a lição?
Lucano, porém, olhou para ele sombriamente. E deixou Keptah,
que o acompanhou com os olhos, tomado de tristeza.
10
- Preferirias, sem dúvida, estar seguindo Keptah entre as enxergas
infectadas de febre dos escravos, e examinar eruditamente seus vasos
noturnos disse Cusa, sarcasticamente. - Ainda assim, se quiseres
chegar a Alexandria com algo mais do que simples tinturas de
conhecimentos, advirto-te que te apliques às tuas lições. Não -
acrescentou, sombrio que isso adiante muito para uma pessoa de tua
limitada inteligência.
Aquela era a sua maneira de estimular Lucano a fazer esforços
extras. O rapaz habitualmente respondia com um de seus calmos e
austeros sorrisos. Dificilmente encorelizava-se, mas quando isso
acontecia, ficava resistente como uma pedra, e em suas órbitas surgia um
fulgor azul.
Naquele dia Lucano sentou-se em silêncio, a mão ociosa sobre o
estilo, os livros enrolados, a cabeça baixa. Mas quando Cusa o ridicu-
142 143
larizou, ele ergueu a cabeça, e o fogo gelado de seus olhos foi uma
advertência para o grotesco professor. Entretanto, Cusa falou:
- Não olhes assim para mim, filho de um antigo escravo, como
se fosses meu amo e eu te houvesse insultado de maneira imperdoável.
Foi apenas o acaso que te fez livre. Numa casa mais sensata estarias
derramando água sobre as pedras e esvaziando os vasos noturnos, e
não sentado a uma mesa de mármore, como um prático.
- Deixa-me em paz disse Lucano, em voz abafada.
Cusa então viu que o jovem estava tomado de tremenda angústia,
e que mais zombarias o incitariam à violência. O professor de há
muito deixara de chicoteá-lo durante as lições. Em seu coração ele agora
amava aquele aluno, e quase cessara de invejar-lhe a beleza e os favores
com que Diodoro o cumulava.
- Bem disse Cusa, pensativamente, um dedo em seu rosto
de
sátiro.
Estudou Lucano, e sua mente saltava como uma cabra, olhando
para a cadeira vazia de Rúbria. A mocinha, ultimamente, andava
respirando com mais dificuldade do que antes, e uma ou duas vezes
tinha fechado os olhos, como se fosse desmaiar, os lábios e faces
tomando um tom peculiar, de um cinzento fantasmal. Cusa, cuja
curiosidade não tinha limites, passara anos estudando os livros de medicina
de Keptah, e algo faiscou em sua mente ágil. Era qualquer coisa
implacável. Refletiu que Lucano não estaria assim angustiado se a
doença de Rúbria fosse banal. Viu que o jovem também fixava a cadeira
vazia de Rúbria, e que sua boca se retorcia, rigidamente. Conforme o
professor temera, os deuses, esperando em seu relampejante silêncio,
tinham ferido a donzela de alguma forma particular e mortal, e Lucano
o sabia. O professor pigarreou.
- Rúbria está ausente hoje disse ele, observando Lucano
com atenção. - Ah! Como é cansativo ser mulher! Amanhã ela estará
presente.
Mas Lucano, sem ouvi-lo, apenas contemplava a cadeira de Rúbria.
e sua garganta tornava-se rígida como se fosse feita de mármore. Cusa
sentiu uma piedade que não lhe era familiar.
- Atenção! disse, desenrolando um manuscrito, que estalou
no silêncio. - Diodoro está gastando contigo muito tempo e esforço
e, eventualmente, dinheiro. Sejamos homens, não crianças.
Lucano não respondeu; seus dedos torciam o estilo, como se ele
estivesse torturado. Cusa meditou e então disse:
- Consideremos Anascrúsio* por um momento, de passagem.
Observa a sua filosofia:"E o momento crítico que revela o homem.
Portanto, quando a crise te atingir, lembra-te que Deus, como um
treinador de lutadores, deu-te um antagonista áspero e rijo. Com que fim?,
perguntarás. Para que te consagres vitorioso nos Grandes Jogos.
Um sorriso sardônico e enlutado passou pelos lábios de Lucano.
Ele levantou os olhos para o professor e disse:
- Tu sempre declaraste, Cusa, que Deus era uma alegoria. Uma
invenção poética.
Cusa sacudiu a cabeça, em reprovação.
- E é. Mas, ultimamente, tenho notado que Ele é algo mais. O
elemento vital do universo, como disse Aristóteles.
- Depressa estarás sacrificando em algum templo disse
Lucano, com frio desdém.
Cusa encolheu os ombros:
- Foi declarado que os sacrifícios não são prejudiciais. Se os
deuses existem, os sacrifícios lhes agradam, e isso é excelente. Se não
existem, teus vizinhos falarão sobre a tua piedade, e isso é ainda mais
excelente. - Estava magoado ao perceber que sua tentativa para
aliviar a atitude sombria de Lucano não dera resultado. - Atenção!
Anaxágoras2 declarou que o homem tornou-se inteligente porque
aprendeu a usar as mãos. Faltou observação: os macacos usam suas mãos, e
sua inteligência não é notável. Os coelhos dos campos levantam as
cenouras nas patas da frente e devoram-nas como os homens as
devoram, mas os coelhos são apenas um pouco menos inteligentes do que
alguns estudantes que eu poderia nomear. Aristóteles garantia que os
homens aprenderam a manipular as mãos porque se haviam tornado
inteligentes. Garantia, também, que o cérebro é apenas um órgão para
refrescar o sangue. Os filósofos orientais declaram que o cérebro é a
sede da alma, do ego, da mente, e não o coração. Aristóteles tem seu
momento de estupidez, e prefiro os filósofos orientais nesse assunto.
Afinal, este não é o ponto em discussão. Qual dos filósofos te parece
mais válido no caso: Anaxágoras ou Aristóteles? E por quê?
O estilo de Lucano moveu-se lentamente, e depois com maior
velOcidade, conforme a mente erguia o problema em suas mãos
invisíVeis e fazia-o girar, estudando-o e pesando-o. O rapaz escrevia
clara e
___
* Filósofo cita, do sexto século a.C., que viveu em Atenas.
2 Filósofo grego, que morreu no ano 428 a.C. (Notas do tradutor)
144 145
concisamente. Cusa admirava-o de maneira furtiva. Algum horrendo
conhecimento chegara a Lucano e, apesar disso, ele poderia deixar
que uma idéia reunisse seus pensamentos. Somente um camponês
ficaria dominado pelas suas emoções. Entretanto, e nisso Cusa refletia
melancolicamente, o camponês goza considerável paz de espírito, paz
desconhecida do homem de cultura. O preço da inteligência seria
sempre a dor?
Cusa bocejou de repente, e Lucano, ainda muito pálido e rígido,
aplicou-se às suas lições. O dia se fizera muito quente, muito
silencioso, sem ar. O sol brilhava demasiadamente. Os pássaros estavam
imóveis. De repente, apesar do sol, um som trovejante e cavernoso se fez
ouvir, sacudindo a casa, e momentaneamente agitando as árvores para
além da porta aberta. O silêncio foi seguido por uma espécie de
augúrio nefasto. Cusa foi até a porta e olhou para o jardim. A grama, as
flores, as proprias fontes pareciam apanhadas e aprisionadas em luz
absoluta, ao mesmo tempo terrifica e estranha. Cada cor se
intensificcara e tomara vagamente uma qualidade de terror. Cusa percebeu
que arquejava; era como se tivesse levantado a tampa de uma caldeira.
Olhou para o céu. Ali, a luz mostrava-se curiosamente cuprea,
obscurecendo o azul. Ah!, pensou Cusa, vamos ter mau tempo. Conhecia
aquelas rápidas tempestades semitropicais, violentas e destrutivas.
Passavam rapidamente, porém, jamais, entretanto, vira luz tão semelhante
ao latão. Num momento a terra tornou-se de cor citrina. Mesmo as
palmeiras banhavam-se em claridade ocre, e as folhas das árvores
caducas amarelaram. As folhas da relva eram cor de topázio. Os lírios
brancos fizeram-se morenos. Uma inquietação e um pressentimento
feriram o ar. E o calor cresceu insuportavelmente enquanto o sol
parecia aumentar de tamanho, tornar-se o escudo de ouro do próprio Zeus,
voltado para o mundo e exibindo sua intensa cor de açafrão.
Não gosto disso, pensou Cusa. Como que respondendo, numa
zombaria dos deuses, os céus explodiram em chama ambarina. A fúria
atirou-se às árvores, às palmeiras, às próprias folhas de relva, e elas
torceram-se incontrolavelmente. Livros voaram de sobre a mesa de
mármore da sala de aula. Houve um grito estridente e insuportável no
ar, como que de milhões de papagaios que tivessem enlouquecido. As
cores todas desapareceram dojardim, perdidas numa fulguração ictérica.
O mundo todo ficou amarelado!, pensou o assustado Cusa. LutOu
com a porta, pois o vendaval se tinha transformado em golpes
selvagens contra seu corpo. Chamou Lucano para ajudá-lo, e sua VOZ foi
carregada pelo vento. Mas o jovem grego estava a seu lado. Foi preciso
que reunissem suas forças, para fechar a porta, e depois ficaram ali,
arquejanteS, olhando um para o outro. Não houve oportunidade para
falar. O trovão, contínuo e ensurdecedor, envolveu-os, acompanhado
de terríveis e contínuos coriSCOS cor de limão. O piso ressoava
seguidamente sob seus pés. Ambos mantinham a boca aberta, lutando para
respirar, pois o calor era como a ardência de muitas fornalhas. Uma ou
duas vezes ouviram um som selvagem, como de águas em tormenta.
Depois, veio a chuva, não constantemente, mas em lençóis
pesados de água pura e esmagadora, da cor dos crocos amarelos.
Cusa e Lucano foram para a mesa de mármore, que tremia sob suas
palmas suadas. Os lábios de Cusa moviam-se em frenética oração.
Lucano observava-o, sua boca se curvava, desagradavelmente. Cusa,
parando por um momento em suas preces, ficou espantado com a
expressão do jovem. Continuou a rezar apressadamente, conforme o
trovão retumbava como se sobrc a terra passassem as rodas de uma
poderosa biga, mas ficou pensando. Os relâmpagos inflamados
faiscavam e tornavam a faiscar no rosto de Lucano, naquela sombra
ictérica, e pareciam estar ferindo o rosto de uma estátua trágica. Uma e mais
vezes a terra estremeceu.
O vendaval batia de encontro à porta de bronze com punhos de
ferro. A cortina da janela estendeu-se para fora, direita, como vela
encapelada de um barco. Enceguecido pelos relâmpagos, e tiritando até
dentro do coração, Cusa cobriu os olhos. Não viu a água começando a
filtrar por baixo da porta. Primeiro, veio como se lançasse gavinhas,
tremulamente. Depois, correu em regatos serpenttinos, mais largos,
luzindo e refletindo os coriscos. A seguir foram lençóis, levantando-se,
fluindo, torcendo-se. E cobriu o piso de mosaicos. Quando alcançou as
sandálias de Cusa, ele deu um salto e abriu os olhos. Lucano, porém,
não se moveu. Tinha a cabeça abaixada e parecia meditar.
Com certeza isto acaba logo, pensava o professor tomado de
pânico. Mas a tempestade aumentava de intensidade. Parecia devorar a
terra em fogo. Som estranho acentuava o mugido do trovão, um som
ipitado, indescritível. Cusa perdeu a noção do tempo. Se os
pilares da casa ruíssem, se as colunas se espalhassem, ele não se teria
surpreendido. Ninguém se aproximou da sala de aula pela porta
interna. A casa inteira acovardara-se. Ocasionalmente, o forte clamor do
trovão era acompanhado de um som de algo que voa em lascas, numa
reverberação de chama, e uma árvore era atingida. As paredes
146 147
brancas do aposento palpitavam em vagas de brilho, que se apagavam,
momentaneamente, em seni-obscuridade, e depois acendiam-se de
novo.
Jamais Cusa testemunhara semelhante temporal. Aspirava sentir
encorajamento e consolo humanos. Lucano não lhe dera nenhum.
Estava, ao que parecia, inconsciente dos assaltos que a terra sofria por
parte dos céus sibilantes e enfurecidos. Apoiara os cotovelos na mesa,
e amparava o queixo com o polegar e o indicador da mão esquerda.
Podia ser tomado por um estudante que refletisse sobre um teorema.
Então, da mesma forma súbita com que começara a tempestade
terminou. Os relâmpagos cessaram de atirar seus dardos inflamados
contra a terra, e da mesma maneira abrupta o trovão deu fim à sua voz
estrondosa. As flamas que refletiam nas paredes do aposento
desapareceram. A cortina caiu, desarvorada, sobre a janela. Os ouvidos de
Cusa, entretanto, zumbiram durante alguns minutos ainda, e algum
tempo se passou antes que lhe fosse possível controlar o tremor das
pernas e pudesse se levantar, patinando na água límpida que
inundava o piso. Empurrou a porta para trás e mais água invadiu o local.
Um sol claro e inocente, recém-nascido e de olho arregalado,
espiava para a terra. Árvores e palmeiras despedaçadas espalhavam-se pelo
terreno todo, como cavacos de lenha. As fontes transbordavam em
cascatas de luminosidade argentina. Mas as flores foram atiradas a
terra como cadáveres frageis e coloridos. Imediatamente, o mais doce
odor ergueu-se do chão, vindo das rosas quebradas e dos jasmins
arrancados. Os pássaros iniciaram uma canção tímida, ação de graças
por terem sido poupados. A voz do rio, demasiado próxima,
conversava alta e agitadamente com o céu. Tons de mercúrio corriam por toda
parte, através da relva batida, das árvores tombadas e dos troncos e
folhas.
Os escravos começaram a sair aos magotes da casa gotejante.
Observavam a destruição e lamentavam-se. Cusa gritou para eles:
- Olá! Onde vos estivestes escondendo, covardes! Trazei pão,
queijo e vinho imediatamente. Devemos morrer à fome entre os livros?
Pela primeira vez, Lucano ergueu os olhos e sorriu levemente.
Mas não era o sorriso de um jovem, e sim o de um homem cansado.
Um escravo, ainda tremendo, trouxe uma bandeja de pão grosseiro,
vinho barato local, e uma fatia espessa de queijo duro amarelo, bem
como alguns pepinos em coalhada. Tagarelava:
- Oh! Houve muito estrago! Quatro das melhores cerejeiras
caíram, seis macieiras e todas as romãzeiras foram fulminadas lá nos
campos, e os carneiros desapareceram.
Cusa dirigiu-se para a mesa com ar fanfarrão, meteu um dedo na
tigela de pepinos, lambeu-o, e comentou, com ares críticos, lançando
um olharj furibundo para o escravo:
- És criança, para teres medo do temporal? Enquanto ele
passava... e houve, mesmo, um temporal?... nós estudávamos o Fedo.*
Fora daqui!
A água fluía através da porta. Lucano falou:
- Quem será que estava encolhido junto de mim, dizendo ao
mesmo tempo imprecações e preces?
- Atenção! disse Cusa. - Vamos estudar as Categorias de
Aristóteles.
O sol quente secou a água e o piso cobriu-se de vapor. Agora, todo
o jardim e toda a terra estavam envolvidos em névoa radiosa. O rio
ainda clamava, e Cusa, constrangido, pensava se ele não iria invadir a
terra. Tudo gotejava: milhares de minúsculas vozes musicais eram
ouvidas por toda parte. As estátuas do jardim brilhavam sob a água
iluminada. O perfume dos jasmins parecia-se ao odor dos lírios brancos
das margens do Lete,2 dominando e anestesiando os sentidos. As vozes
dos escravos vinham lá de fora para o aposento, cheias de jaculatórias
e temor respeitoso diante da destruição feita pelo temporal.
Cusa comia com satisfação. Lucano apenas bebeu um pouco de
vinho. Parecia absorvido em seus livros. Uma hora passou-se e outra e
mais outra. O sol primaveril enviesou para o Ocidente. Cusa não
podia decifrar o rosto quieto de Lucano, que tinha em si algo de maciço.
O estilo rangia.
A porta interna abriu-se e Diodoro entrou na sala de aulas. Cusa
e Lucano se levantaram. O rosto do tribuno estava cadavérico e tenso.
Caminhou até a mesa de mármore, olhou Lucano bem dentro dos
Olhos, tentou falar, não pôde. Lucano soltou uma exclamação,
agarrando-lhe o braço:
- Rúbria! Rúbria?
- Vem comigo disse o tribuno. E, estendendo o braço,
pasSOU-O pelos ombros do jovem, como o faria um pai.
___
* Diálogo de Platão, tratando da imortalidade da alma.
2 Rio dos infernos, cujo nome significa esquecimento. As sombras
bebiam-lhe as águas para esqUecer. (Notas do tradutor.)
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Íris estava augusta em sua dor. Aurélia chorava ao lado dela, mas Íri8
não chorava. Lucano não pôde aproximar-se da mãe, pois havia nela
uma majestade que repelia gestos de consolo. Estava de pé, no centro
do vestíbulo de sua casa, vestida de silêncio, o rosto cego e fechado,
as mãos apertadas uma contra a outra diante do corpo. Parecia Ouvir
apenas Diodoro, que lhe falava na morte do seu marido Enéias.
- Enquanto os outros fugiam como frangos, ele ficou com seus
livros de escrituração, no pequeno abrigo da margem do rio dizia
Diodoro, em voz baixa. - Há ocasiões em que a coragem é uma
loucura, mas quem pode questionar a lealdade e a coragem? Ele não
poderia levar consigo todos os livros, portanto ficou. Mas o rio subiu
sobre a terra, sobre as docas, sobre o abrigo, e levou Enéias consigo ao
retrair-se.
Estava cheio de espanto e reverência por ter aquele liberto tentado
preservar seus registros até morrer. Não sabia que para Enéias os
registros em si mesmos, as coisas que escrevia com sua mão, eram mais
valiosos, em momentos de desastre, do que sua própria vida. Tinham
simbolizado para ele a razão de sua existência; neles estava registrada a
evidência de que o homem que os fazia tivera importância, e sua
correção era uma negativa quanto à antiga escravidão que sofrera.
Triunfantemente, afinal, vira Diodoro sair em busca de terreno mais alto, sem ter
podido arrancá-lo de suas tabuinhas, de sua mesa, de seu estilo.
Somente Lucano, com percepção interior, compreendeu, e ficou
abalado. Durante os últimos anos, ele e o pai se vinham separando, e
a estatura de Enéias minguara diante dos olhos jovens do filho. Ele
não ouvira com demasiado senso de dever quando Enéias, pelas
noitadas, expunha os filósofos gregos, pomposamente. Lucano sabia mais
acerca deles, e com mais verdade, com maior profundidade. Freqüentemente,
irritava-se ao observar a superficialidade do pai. Só a presença
de Íris impedia Lucano de usar expressões de impaciência. As
vezes, achava seu pai insuportável. Ele encolerizava Lucano com seUs
comentários zombeteiros sobre a falta de cultura de Diodoro. Sugerira
que o interesse do tribuno em relação a Lucano era um
reconhecimento de sua inferioridade como romano perambulante. "É o tributo
que a grosseria só muito infreqüentemente paga ao refinamento",
dizia ele. Lucano abria a boca, num impulso, mas percebia os olhos
ternos e cheios de advertência da mãe, e recolhia-se, furioso.
Para Lucano, a morte do pai era uma tragédia que ia além da
simples morte. Não podia chorar. Apenas conseguia ficar ali, sentado,
contemplando a mãe. Desejava cair aos pés dela, prostrado,
implorando-lhe o seu perdão.
Eu apenas tenho vivido na casa de Diodoro, pensava Lucano.
Tenho vivido apenas para Rúbria, para Keptah, para meus livros. Um
homem deseja parecer um deus aos olhos do filho. Eu deixei que meu
pai percebesse que era um pigmeu, vi que ele se encolhia sob meu
olhar. Oh!, não pude deixá-lo crer que era importante, embora
tentasse falar-lhe respeitosamente, e com falso tom de submissão! A tal
degradação cheguei!
- Quando o rio devolver seu corpo, faremos para ele o funeral
de um herói dizia Diodoro, olhando para a bela Iris, que nele
fixava os olhos que eram uma cegueira azul. - Eu próprio acenderei
a pira. Haverá flâmulas e trombetas; e a presença de soldados com as
insígnias reais, incenso, rufar de tambores, e um vestuário de púrpura
e branco misturados.
Aurélia, chorando, pensava no que seria para ela se Diodoro
tivesse sido estúpido bastante para tentar salvar aqueles tolos livros e
registros.
- Começarei os sacrifícios amanhã, no templo de Hércules, o
deus de todos os heróis disse Diodoro. Se Aurélia e Lucano não
estivessem presentes, bem como Keptah, ele teria se ajoelhado e
beijado a barra das vestes de Iris. Desejava prestar lhe honras, em nome de
seu marido morto. Detestava Enéias, mas esse sentimento fora
devorado pela admiração, e pelo seu amor em relação a Iris. A face imóvel e
maravilhosa da moça tocava-lhe o coração. Queria gritar-lhe: "Íris,
minha companheira de brinquedos, minha bem-amada, minha vida é
sua quando a quiseres pedir!"
Keptah desaparecera atrás da cortina que levava à cozinha, e agora
voltava com uma poção numa taça. Curvando-se como diante de uma
deusa, colocou a taça nas mãos de Iris. Ela bebeu, mas ainda olhava
para Diodoro com aqueles olhos afogados e sem visão.
- Mandarei esculpir uma estátua para ele dizia Diodoro,
sem saber o que fazer. - Ela terá um nicho de honra próximo ao altar
de Hércules. Em nome de Enéias certa soma te será entregue todos os
anos. É o mínimo que posso fazer.
Aurélia tornou a chorar, com uma nova torrente de lágrimas. Os
livros, afinal, tinham sido carregados com Enéias. Seu gesto de trágico
heroísmo fora desperdiçado. Oh!, os homens comoventes e tolos, que
supunham ser um gesto mais importante para suas famílias que as suas
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vidas! Os homens eram heróis, mas as mulheres eram sensatas. Aurélia
sentia muito por Íris, que tinha por marido um herói.
- Eu não o amei como meu marido, mas apenas como a mãe
ama um filho disse Íris, falando pela primeira vez.
Aurélia compreendeu, e, mesmo soluçando, confirmou com um
aceno de cabeça. Não a surpreendia aquela honestidade.
- Ele era para mim um filho, digno da minha ternura, da
minha proteção continuou Iris, em voz fraca e sonhadora. - Ele era
trágico.
- Sim, sim disse Diodoro, sem nada compreender. - Mas a
tragédia é a sina dos heróis.
Estava muito cansado, coberto de lama. Trabalhara durante horas
salvando o que podia ser salvo. Três navios carregados com os
melhores produtos da Síria tinham naufragado. Ele nadara, com seus
oficiais, procurando, em vão, o corpo de Enéias. Quando vira Enéias ser
arrastado, mergulliara, de peitoral, sandálias, espada e tudo,
atirando-se às águas violentas e amarelas. Pensara apenas em Iris.
- Penso disse Keptah, em voz branda que seria melhor a
Senhora Aurélia conduzir Iris para seu quarto. A poção está fazendo
efeito.
E, realmente, Íris começara a cambalear perceptivelmente.
Aurélia levantou-se, cercou a amiga com o braço e levou-a, através
da cortina, para seu quarto de dormir. Disse, por sobre o ombro,
ao marido:
- Ficarei com ela algum tempo. Quando voltares, Diodoro,
manda minha escrava especial, Maria, para ficar aqui e tomar conta de Iris
durante a noite.
Os três homens ficaram sozinhos: Diodoro olhou para LucanO,
que em sua dor se havia sentado na presença do tribuno. Pôs a mão
no ombro do jovem:
- Que a nobreza e a noção de dever de teu pai sejam uma
imorredoura lição para ti falou, em tom comedido. Keptah cruzou
as mãos sobre sua roupa e baixou os olhos.
- Não fui um bom filho disse Lucano.
Diodoro bateu-lhe no ombro, afetuosamente:
- Nós nos censuramos quando os que amamos nos são levadoS
disse ele. - Mas, se meditarmos, conseguiremos ver como podem
eles inspirar nossas vidas e fazer nossos anos mais signicativos, pelas
suas lições.
- Peço-te perdão, senhor, mas não compreendeste disse
Lucano, esmagado pelo seu desgosto.
- Eu nunca compreendo: é o que toda gente me diz falou
Diodoro, um tanto irritado. Sua exaustão enfraquecia-o. Tornou a
dar pancadinhas nos ombros de Lucano. - Fica com tua mãe.
Conforta-a. Exalta-lhe o espírito, pois ela tem um herói por marido.
Lucano levantou-se e foi para o quarto da mãe. Ela estava deitada,
uma estátua, tombada no leito, os olhos fechados. O rapaz
ajoelhou-se ao lado de Iris, enquanto Aurélia arranjava os tapetes sobre
os pés níveos dela. Beijou-lhe a mão abandonada. Iris abriu os olhos,
viu-o, seus lábios moveram-se. Pela primeira vez, chorou; Lucano
ergueu a cabeça dourada dela contra seu ombro, e abraçou-a, num
amplexo doloroso e mudo.
Seu coração parecia uma pedra imensa. Desejava rezar pela alma
de seu pai, que agora vagava em algum fantasmal Campo Eliseo,
chamando, em voz apagada e solitária. Mas, mesmo agora, só podia
pensar em Rúbria, na jovem, terna e adorável Rúbria, que depressa
viajaria por aquele penoso caminho para as profundezas da morte, e estaria
perdida para ele, por toda a eternidade.
11
Rúbria recuperou um pouco as forças, o bastante para ser levada para
baixo de uma árvore, à tépida luz do sol da primavera. O aspecto
fantasmal de seu rosto iluminou-se com leve colorido. Keptah dissera
a Diodoro que as mocinhas têm, freqüentemente, essas recaídas que
tomam aspecto de invalidez parcial. O devotado pai não sabia que as
mangas compridas usadas pela menina escondiam a seus olhos o doloroso
derramamento de sangue sob a pele, e aqueciam seu corpo que ia
desfalecendo. Entre ele e Aurélia ficara convencionado que Rúbria e a
mãe não iriam para Roma, a não ser no outono. No entanto, cartas
fogosas, concernentes ao dote, eram trocadas entre ele e o senador.
Cusa, tanto quanto possível e quando Lucano o contemplava
especialmente, permitia que o rapaz viesse fazer suas lições no jardim,
junto de Rúbria, para que ele pudesse ver a donzela. Rúbria já não
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estudava mais: sua força que desaparecia, seu langor, suas súbitas
caídas em profundo sono proibiam qualquer esforço. A moça ria
gentilmente de algumas das saídas de Cusa, que sempre se acreditara muito
espirituoso. E para distrair a mocinha, Cusa muitas vezes ficava
acordado, durante a noite, inventando coisas espirituosas ou histórias
alegres. O coração do astucioso grego se tornara mole como manteiga na
presença de Rúbria. Acreditando apenas que todos os homens eram
maus, incapazes de razões verdadeiramente desinteressadas, que eram
cruéis por natureza e dissolutos em todos os seus pensamentos,
espantava-se de si próprio. Diante daquela menina, a única inspiração
poderia ser amor.
Havia moças escravas naquela casa, mais bonitas do que a
jovenzinha. Em comparação com Íris, que tinha idade bastante para
ser sua mãe, ela era uma mortal comparada com deslumbrante deusa.
Ainda assim Cusa começava a acreditar que jamais havia existido
criatura tão perfeitamente adorável. A proporção que seu rosto emagrecia,
em sua esbeltez morena, seus olhos tornavam-se imensos, brilhantes,
repletos de uma luz sobrenatural, umedecidos de sonhos e amor. Sua
boca, dizia Cusa para si próprio, parecia-se a uma flor. Seus longos
cabelos pretos assemelhavam-se a um entrançado de cristal, tombando
em cascata sobre seus ombros jovens e sobre seus seios imaturos.
Recostava-se em sua cadeira, as nernas e nés cobertos com tapetes de lã,
mesmo nos dias mais quentes. E os contornos de seu corpo tomavam
um aspecto impalpável, como contornos de um espírito. Quando
dormia, parecia ter cessado de respirar. Acordava tão subitamente quanto
tinha tombado numa sonolência, e olhava em derredor com timidez e
afeição ardentes. Donzela romana, de nobre família, como era, tratava
as escravas sempre com a cortesia que se oferece aos nossos igUais.
Aceitava a vida com carinho e reverência. E à proporção que sua
existência mortal declinava, sua alma tomava dimensões para além da
compreensão dos homens.
Na companhia dela ficavam todos convencidos de que tudo na
vida era bom e cheio de significação e poesia. Seus pássaros prediletOS
pousavam-lhe ao ombro para comer o pão ou a fruta que ela lhes
oferecia de seus lábios. Empoleiravam-se em seus dedos delicados e
curvavam-se para a jovem, ansiosos, como para aprender com ela
algum segredo inefável. Mesmo o sol parecia brilhar mais, quando ela
estava presente, e luzir mais tepidamente sobre seu corpo. Se tinha
alguma dor, ninguém o sabia, a não ser Keptah. Tranqüilidade e
serenidade envolviam-na como uma aura; ela não tinha medo. Durante os
meses que se tinham passado, desde que sua doença voltara, Rúbria
tornara-se uma mulher, e, para a humilde crença de Cusa, uma
divindade.
sabia que ela estava morrendo: todos o sabiam, exceto o pai,
apaixonadamente devotado. Cusa suspeitava que Rúbria também sabia.
Sua paciência sublime, sua ternura, sua maneira de olhar em torno,
pelo jardim e para todos os rostos, com silenciosa intensidade e
encanto, asseguravam-lhe que ela partiria antes que viesse o inverno. Sem
embargo, Rúbria jamais se queixava, e sorria, apenas, como se
possuíse algum segredo divino.
Diariamente, Lucano se ia fazendo mais severo e mais frio, a não
ser quando em companhia da mocinha. A austeridade de seu rosto
parecia alcançar os próprios ossos. Sofria por seu pai, e isso Rubria
sabia. Raramente vira Enéias, mas sofrera por Íris e Lucano. Não
falava no morto, mas às vezes suspirava, contemplando seu antigo
companheiro de brinquedos. Era por solicitação específica sua que Lucano
comia frequentemente com ela e seus pais, quando lhe chegavam as
forças para descer à sala de jantar. A fim de poupar angústia ao pai,
vinha caminhando, vagarosa e debilmente, até seu lugar à mesa. Quando
ali chegava, toda a sua atenção era para Diodoro, que a contemplava
com amor. Acreditava que a mocinha melhorava, e Keptab fugia às
suas perguntas mais diretas, em tom brando.
Diodoro, feliz porque Carvílio Ulpiano terminara, afinal, por
concordar com as condições por ele propostas em relação ao dote, exultava
em sua crença de que a filha ia melhorando lenta e seguramente.
Também exultava com a idéia de que Aurélia lhe daria um filho.
- Naturalmente dizia ele, afetuosamente, à esposa será
um menino. Não sacrifiquei bastante aos deuses? Ainda ontem
sacrifiquei uma hecatombe, e os preços que esses sírios pedem, os ladrões!
Dediquei o menino a Marte. Ele deve nascer em Roma, é natural, não
nesta terra desprezível.
Aurélia lhe sorria. As vezes, ele a encontrava em lágrimas, mas a
esposa dizia-lhe, rapidamente:
- Deves lembrar-te que as mulheres tem desses caprichos durante
a gestação. Põe a mão no meu ventre, meu muito querido, e
sente como teu filho salta: parece um cordeiro, Ah! Ele é forte! Vale
tanto quanto seu pai.
154 155
Um dia, ao fim do verão, Rúbria e Lucano estavam sozinhos sob a
sombra de uma árvore grande, verde e brilhante. Lucano estava
sentado ao lado dela, que dormitava, e ia fazendo suas lições e
desenrolando seus livros de referência. De súbito, tremendo cansaço tombou
sobre ele, e uma sensação de desespero esmagador. Pôs de
lado SUas tabuinhas e seus estilos. Olhou para Rúbria, para os cílios longos e
pretos que desciam como sombras sobre suas faces pálidas, para suas
mãos cruzadas, transparentes como alabastro. Tinha o aspecto da morte,
de absoluta entrega, o peito mal se movendo. Então ele soube, com
absoluta certeza, a despeito de sua rebelião, a despeito de suas preces
entre lágrimas, e às vezes mesmo blasfemas, a despeito da oposição de
sua vontade contra a vontade de Deus, que ela morreria, e muito em
breve. Seus malares apareciam como de marfim, sob a carne delgada,
e seu pescoço era uma haste. Lucano deixou a cabeça cair lentamente
contra o joelho dela, fechou os olhos, e entregou-se à dor.
Quando ela morrer eu irei embora, pensava. Irei fazer-me um
andarilho sobre a face da terra. Partirei pela noite até os mais remotos
cantos do mundo, e ninguém saberá qual o meu nome. Não há nada,
se não houver a querida de meu coração, sem tudo quanto
verdadeiramente amei.
Os pássaros cantavam e tagarelavam, e ele não os ouvia. O sol
dançava em cada folha e em cada flor, e diante de seus olhos havia
apenas escuridão. Era jovem e quente, mas sentia-se velho e frio como
a morte. Todo o desejo por tudo quanto vive desertara dele. Quando
as trevas do túmulo ou da pira funerária tivessem devorado aquela
jovem, também a ele teriam devorado. Um torpor de fraqueza
correulhe pela carne, e Lucano sentiu-se mortalmente doente, como se
também estivesse para morrer. Um gemido ligeiro escapou de seus lábios.
Mão leve como o toque de uma folha tocou o alto de sua cabeça
dourada e ele, sobressaltado, levantou os olhos. Rúbria sorria-lhe com
a terna sabedoria de uma mulher. Todo o amor brilhava em seus olhos,
toda a compreensão. Ele tomou-lhe a mão e beijou-a com força
desesperada. Podia sentir sua fragilidade, sua delicadeza quase
espiritual.
Então, ela falou:
- Não deves sofrer, Lucano querido.
Sua voz era baixa, e infinitamente suave. O coração de Lucano
estremeceu. Então, a menina sabia. E era possível que o soubesse de
há muito tempo. Ele não podia suportar a idéia de que aquela criatura
tão jovem e tão bela soubesse a verdade e a tivesse aceitado, sem medo
natural, sem lamentações, somente com uma coragem sublime. Intimamente,
amaldiçoou Deus, e pensou: Quando ela morrer, eu irei
com ela, pois nada existe sem ela. Então uma grande imobilidade e
quietude caíram sobre ele.
- Não deves sofrer repetiu a menina, e sua voz ainda era mais
grave. - Eu sou muito feliz. Não estarei separada muito tempo de ti e
de meu pai. Os deuses são bons, e não odeiam o amor entre os mortais.
Mas Deus é perverso, pensou Lucano. Pôs de novo a cabeça sobre
os joelhos de Rúbria, e o belo jardim que o rodeava tornou-se
fantasmal a seus olhos, que se enchiam com as formas da agonia.
Rúbria falou de novo, muito baixinho:
- Sinto em meu coração o que estás pensando, querido. Não
deves pensar assim. Deus tem um grande destino para ti. Ele é nosso
Pai,e nós somos Seus filhos. Achas que Ele nos infligirá desgosto e
dor sem um propósito? Seremos chamados até Ele!
- Não! exclamou Lucano. - Se Ele é como dizes, Rúbria,
te erga dessa cadeira e ponha sangue em tuas fàces e força em teus
membros. - A garganta dele apertou-se num espasmo de angústia.
A donzela suspirou:
- Ele sabe, seguramente, o que é melhor. Com toda a certeza a
paz que sinto é a Sua misericórdia, a Sua bondade. Hoje não tenho
dores. Na noite passada dormi como uma criancinha, e meus sonhos
foram adoráveis, mais do que se possa imaginar. Eu estava cheia de
alegria, e a alegria está comigo, hoje. O mundo é belo mas o lugar para
onde vou é ainda mais belo e não haverá mais separação.
Levantou a cabeça de seu travesseiro e olhou para Lucano, para
seu rosto esculpido, para a sua boca imóvel e rígida, para o amargor
azul de seus olhos.
- Ah! Tu te esqueceste disse ela. - Quando éramos mais
novos, foste tu quem me disseste tudo isto.
Mas era mentira!, pensava Lucano. Não podia falar, não podia
privar aquela mocinha de seu último consolo, mesmo quando ele
fosse falso. Rúbria observava-o, gravemente:
- É a verdade falou. - Tudo quanto me disseste quando
éramos crianças é verdade. Minha alma afirma-me isso, e não há
mentira à beira da sepultura. Vou ter com Deus.
Tateou seu peito, e dali tirou a cruz de ouro que Keptah lhe dera.
Colocou-a na palma da mão de Lucano, e então levantou os olhos
Para contemplar o céu.
156 157
- Keptah é um homem estranho, cheio de sabedoria, Lucano.
Contou-me que Aquele que irá morrer nesta Cruz está vivendo agora
no mundo, conosco, e é pouco mais do que uma Criança. Mas Onde
Ele vive ninguém sabe, a não ser Sua Mãe. Seu nascimento foi
profetizado pelos padres da Babilônia, há milhares de anos, e Ele veio.
Há de levar-nos para a vida eterna, e não haverá mais morte, mas
júbilo.
Lucano pensou, de repente, na grande Cruz branca que vira no
templo escondido dos caldeus, em Antioquia. E ficou dominado
pela cólera, pelo auto-escárnio, pelo ódio e pela repulsa. Os padres
eram charlatães notórios, com seus oráculos, profecias, conjuraçÕes,
ilusões e jargão misterioso. Riam em segredo da ingenuidade dos
que neles acreditavam. Engordavam com os sacrifícios. Cometiam
abominações. Enchiam seus cofres com o ouro dos fátuos. Em face
da morte definitiva, seus rostos hipócritas desapareciam, suas vozes
silenciavam.
A cruz de ouro reluzia na mão de Lucano. Ele desejava atirá-la
apaixonadamente, para longe, e amaldiçoá-la, como quinquilharia que
era. Rúbria debruçou-se em sua cadeira, cruzou-lhe delicadamente os
dedos sobre ela:
- É um presente que te dou.
O poente mostrava-se, no céu ocidental, um mar de ouro e
escarlate, repleto de velas verdes, pequenas nuvens que se espalhavam. A
brisa suave se abateu e o perfume das flores e da terra fértil ergueu-se
como incenso. Rúbria dormia, e Lucano estava sentado a seu lado, a
cabeça sobre os joelhos da mocinha, a mão dela em seu cabelo
dourado. Não saberia dizer quanto tempo permaneceu assim. As pontas da
cruz enterravam-se em sua mão, cortando-a, e ele não sentia.
Por fim, ergueu a cabeça, e a mão da donzela tombou,
pesadamente, de sobre ela. Havia um sorriso no rosto de Rúbria, como se
tivesse
acordado para a alegria serena e completa. Suas faces e lábios tinham
empalidecido para absoluta alvura, a sua testa reluzia. Os cílios
desciam sobre as faces como a mais doce das sombras.
Lucano pôs-se de pé, lentamente, e o peso da idade tombou sobre
ele. Curvou-se para Rúbria, e lançou um só grito, alto e terrível.
12
- Os ciprestes ergueram-se diante da porta da casa de Diodoro, e
diante desta porta disse Iris a seu filho. - Um pai desesperado
chora sua filha, uma mãe de coração despedaçado sente-se inconsolável.
E eu, eu não sou senão tua mãe: lembra-te de teu pai.
"Mas só tu sofres! Não ouves o grito alheio de aflição, mas só o
teu. Quando eras criança, vivias como criança. Mas agora és um
homem, e deves pôr de lado as coisas infantis. Pensa que o mundo é todo
ele um sonho de doçura e felicidade? Isso é sonho de loucos, dos que
serão crianças para sempre, dos que se apavoram diante da noite e
querem ter rouxinóis, como Edon, cantando eternamente para que
eles nunca ouçam a voz da tragédia. Felicidade! Os que dizem que ela
existe, que devia existir; que os homens têm direito a ela apenas
porque nasceram, são como crianças idiotas cujos lábios balbuciantes
estão úmidos de mel.
Fechaste tua porta àquele escravo, teu professor, Cusa, e ao
médico, Keptah. Fechaste tua porta em meu rosto. Vai vingar-te do
mundo, porque a criatura que amavas te deixou. Vai vingar-te de Diodoro,
que te ama e te valoriza como a um filho. Vai vingar-te dos deuses. Irás
perambular pelo mundo, e tudo ficará desolado, é o que acreditas.
Mas eu te digo que Diodoro será confortado quando seu filho nascer;
e te esquecerá, ou pensará em ti com desprezo. Teu professor terá
Outro aluno. Só eu me lembrarei de ti, eu, tua mãe, que não viste
como uma mulher sem marido e sem filho."
Ela tremia em sua cólera. Para além das portas e janelas, as chuvas
e os ventos outonais carpiam. Íris entrara no quarto de dormir do
filho, e à luz triste da tarde vira-o à mesa, a cabeça entre as mãos. Mas,
Pela Primeira vez depois de muito tempo, ele estava ouvindo. O rosto
lívido dele contorceu-se de dor silenciosa.
Oh!, recebeste tantas bênçãos! exclamou Iris. - Tens sido
rodeado de amor. Não és escravo. És um homem livre, nascido livre.
Que Sabes das horríveis dores e agonias do mundo? És jovem, foste
educado. Mas não levantarás tua dor como um homem. Tal Orfeu,
deves chorar eternamente.
- Eu vi sofrimento e morte muitas vezes falou Lucano, a voz
rouca de quem esteve silencioso por muito tempo. - Não são coisas
158 159
pouco familiares para mim. - Agora, seus olhos fundos brilhavam na
sombra, e ele apertava os punhos cerrados contra a mesa. - Sabes
quais têm sido os meus pensamentos durante esta semana? Que Deus
é um torturador, que o mundo é um circo onde homens e animais são
dados selvagemente à morte, sem razão, sem consolo.
Íris regozijava-se consigo mesma por seu filho ter mostrado
finalmente alguma emoção, mas disse severamente:
- É coisa má blasfemar contra os deuses.
As palavras de Lucano, porém, jorraram dele como um regato
incontido:
- Para que nasce um homem? Nasce só para torcer-se em
tormento, e depois morrer tão ignominiosamente como viveu, e da
mesma maneira sombria. Grita para Deus, mas não recebe resposta.
Chama por Deus. Chama por um carrasco. Seus dias são curtos, e nunca
livres de transtornos e dores. Sua boca se extingue no pó e ele desce a
seu túmulo, e o horrível enigma permanece. Quem voltou do túmulo
com uma mensagem de conforto? Que Deus já disse: "Levanta-te, e
Eu aliviarei tua carga e guiarei tua vida"? Não, nunca houve tal Deus,
nunca haverá tal Deus. Ele é nosso inimigo.
Olhava para os punhos, depois abriu-os, e voltou as mãos de
forma a olhar para as palmas e para os dedos. Seu rosto mostrou-se
áspero e duro de ódio.
- Aprenderei a derrotá-lo murmurou. - Arrancarei Dele
as Suas vítimas. Afastarei a Sua dor dos desamparados. Ele estende
Sua mão para uma criança, e eu golpearei aquela mão, para afastá-la.
Quando Ele decretar morte, eu decretarei vida. Essa será a minha
vingança sobre Ele.
Levantou-se. Estava fraco, pois quase não se havia alimentado.
Cambaleou e agarrou-se à beirada da mesa. Levantou-se, olhou para
sua bela mãe e viu lágrimas em seus olhos. Deu um grito e tombou de
joelhos diante dela, rodeando-lhe a cintura com os braços e
encostando a cabeça contra seu corpo. Iris colocou as mãos sobre a cabeça do
filho e abençoou-o silenciosamente. Depois curvou-se, e beijou-lhe a
testa.
- Hipócrates disse que esta coisa odiosa às vezes tem cura
espontânea disse Keptah. - Contentou, em certa ocasião, que se
trata de uma visita dos deuses que, certamente, numa ocasião destas não
se mostram melhores do que os homens. Recomendava infusões e
destilações de determinada erva para aliviar o estranho tormento, e
aconselhava tampões empapados em vinho e poções para o alívio de
mulheres afligidas pela moléstia que as devora nos lugares secretos. Para
homens, aconselhava cauterizações e castrações. Supunha tratar-se de
uma doença que atacava apenas partes particulares, embora se
contradiga em algumas de suas afirmativas. Trata-se de uma doença só ou de
muitas? Um seu aluno considerava-a aparentada com a lepra, quando
ataca a pele. Trata-se da mesma coisa, quando uma verruga aumenta
de tamanho, escurece e mata rapidamente? Será, também, a doença
branca a que destrói o sangue e torna-o pegajoso ao toque, como xarope?
Será isso que destrói os rins, os pulmões, o fígado, os intestinos?
Hipócrates não tem certeza. Mas eu tenho. É o mesmo mal, com
manifestações diferentes. É o pior dos males, pois chega como um ladrão
pela noite e só ao fim a vítima grita e pede morte, quando a faca se
revolve em seus órgãos.
Estavam ele e Lucano num pequeno hospital arranjado para os
escravos. Cinco camas se viam ocupadas por homens e mulheres que
gemiam e se debatiam. Três escravos seguiam-nos com vasilhas de
metal, óleos, tiras de linho branco. Outro escravo levava uma bandeja de
pequenos frascos, repletos de líquidos. O médico e Lucano tinham
parado ao lado do leito onde um homem arquejava, na mais pura das
agonias. O lado esquerdo de seu rosto fora corroído pelo mais
monstruoso gusano, a carne viva e lacerada, o lábio intumescido e
destilando sangue. O escravo ergueu os olhos para o médico, que o
contemplava com tristeza. E Lucano ficou a olhar para ele, em amargo
desespero.
Murmurou para Keptah:
- Não seria, com certeza, mais misericordioso, dar-lhe uma
poção que lhe trouxesse paz e morte?
Keptah sacudiu lentamente a cabeça:
- Hipócrates declarou que isso é proibido. Quem sabe em que
inStante a alma tomará conhecimento de Deus? Deveríamos matar o
SOfredor esta noite, quando pela manhã esse conhecimento viria? Além
disso, o homem não pode dar vida. Portanto, não lhe compete dar
morte. Essas são coisas reservadas apenas para Ele, que é impenetrável
Para as nossas naturezas, e que se move em mistérios.
- Mata-me! exclamou o escravo, debatendo-se em sua cama.
Agarrou o braço do médico com sua mão esquelética. - Dá-me a
morte! - Sua voz gargarej ou, num jato de sangue.
160 161
Keptah voltou-se para Lucano, que olhava com horror para o
homem que sofria. Tocou-lhe no braço, e Lucano moveu a cabeça e
fixou os olhos nele, com obstinada severidade e acusação.
- Terias privado Rúbria de uma hora de sua vida? E eu te diga
que ela sofreu tanto quanto este homem e ainda mais.
Embebeu um chumaço de linho num líquido branco que
derramou de um dos frascos. Lucano cerrava os dentes com ódio. Que
tinha feito contra os deuses aquele pobre escravo, um jardineiro, para
merecer tal coisa? Fora uma alma inocente e delicada, deleitando-se
com as flores, orgulhoso de suas cercaduras, amando seus lírios,
confortando suas rosas como um pai. Havia milhões menos merecedores
de paz e de vida do que ele. O mundo estava repleto de monstros que
comiam, bebiam e riam, e cujos filhos dançavam nos jardins
agradáveis de seus lares e não conheciam pragas.
Keptah, com grande delicadeza, tomou a mão que o escravo
atirara para ele, e segurou-a com firmeza.
- Ouve-me disse-lhe -, porque és um bom homem e vais
compreender-me. Há quem tenha esta doença, mas no espírito, e digo-te
que eles suportam mais do que tu. Quando tua boca esguicha
sangue, suas almas esguicham violência e veneno. Onde tua carne está
dilacerada, os corações deles estão dilacerados. Níger, eu te juro que és
mais feliz do que eles.
O escravo começou a soluçar e seus olhos tornaram-se grandes e
imóveis. Sussurrou, entre seu sangue:
- Sim, senhor.
Selvagem escárnio corroía Lucano como um ácido. Observou
Keptah colocar o chumaço de linho molhado sobre o horroroso rosto
desfigurado. O escravo arquejava. Os outros escravos, menos aflitos,
olhavam lá de suas camas. Então, finalmente, nos olhos do doente
surgiu um alívio úmido, uma tranqüilização trêmula. Uma lágrima
correu do canto de sua pálpebra. Keptah apanhou um copo e colocoU
o braço sob a cabeça do escravo, erguendo-a tão ternamente quanto
uma mãe ergue seu filho. Chegou o copo junto dos lábios torcidos e,
lentamente, Níger bebeu, em comovente obediência. Quando Keptah
tornou a colocar-lhe a cabeça no travesseiro, Nígerjá adormecera,
gemendo baixinho. Keptah contemplou-o enigmaticamente durante um
longo momento. Seu rosto moreno, com os olhos encovados,
mostrava-se impenetrável.
- já invadiu a laringe murmurou. - Ele não viverá mUitO.
Voltou-se para um dos escravos:
- Dá-lhe esta poção quando ele não puder suportar mais,
porém nunca antes que se tenham passado três horas da última dose,
segundo a clepsidra.
- E isso é tudo quanto podes fazer! exclamou Lucano.
- Não. Se ele tivesse me procurado quando a primeira ferida,
pequena, dura e branca, apareceu na parte interna de sua face, eu a
poderia ter destruído, queimando-a com um ferro quente. Ele só me
procurou quando sentiu dificuldade de engolir e as partes internas de
sua boca sangravam, corroídas, os tecidos desfazendo-se. Lembra-te
que, seja a doença do espírito ou da carne, o melhor é procurar auxílio
e conselho logo ao começo. Mais tarde, tudo estará perdido.
Dirigiram-se para o leito de uma escrava que sofria pouco menos
que Niger. Tinha a cama suja pelas exonerações de sua vagina. Keptah
virou-se para um escravo e exclamou:
- Não te disse que mantivesse a roupa seca e limpa? Isto é
veneno que está saindo dela. Vou fazer queixa de ti ao capataz, portanto
prepara-te para ser açoitado.
- Senhor, eu tenho outros serviços choramingou o escravo.
- Não há serviço maior do que curar ou aliviar o sofrimento. A
medicina é, verdadeiramente, a arte divina. E chega. Trabalha melhor,
e eu esquecerei o açoite.
A moça escrava, apesar de descabelada e febril, era bonita e
atraente. Keptah tocou-lhe a testa, para sentir-lhe o calor. E disse a Lucano:
- Ela tentou fazer em si própria um aborto, com um
Instrumento sujo e primitivo, que os selvagens usam. Este é o resultado.
- Eu não podia ter um fIlho nascido na escravidão! chorou a
moça.
Sombriamente, Keptah falou:
- O pensamento foi virtuoso; a ação não o foi. Devias ter
mantido a virtude. Tens um mau senhor? Se lhe tivesse pedido um marido,
ele o haveria dado. Esta casa é uma casa virtuosa. Mas tu foste leviana.
POr capricho e luxúria. Não tens culpa. Ensinaram-te a ler e escrever,
a fiar e coser, a cozinhar e a fazer outros serviços valiosos. Não eras
como as escravas de Roma, que são chamadas ao leito de seu senhor,
quando a ele bem lhe parece. Ah! bem! Vamos examinar-te.
Antes, porém, lavou as mãos com água e depois esfregou-lhe um
óleo de odor pungente. Então, examinou a moça que chorava e tocou
seus órgãos inflamados, que destilavam pus.
162 163
- Vou morrer, senhor? exclamou Júlia, aterrorizada.
Keptah não respondeu. Torceu um pedaço de linho, formando
com ele um delgado cone branco. Mergulhou-o no líquido de um dos
frascos. A moça empalideceu. Mas Keptah, com firmeza, afastou-lhe
as pernas e introduziu o cone em seu corpo. Ela gritou, O ar estava
cheio de um odor aromático.
- Deixa o tampão permanecer até a noite ordenou Keptah ao
escravo que era seu assistente. - Depois tira-o, e trata de destruí-lo.
Está contaminado e é perigoso. A seguir, lava os órgãos com água
corrente e limpa, faze outro tampão, e deixa que ela mesma o coloque.
Doerá menos.
Deu umas pancadinhas na mão úmida da moça, apresentou-lhe
algo para beber, e disse-lhe:
- Não morrerás, eu espero. Viverás para pecar um pouco mais,
é o que receio. - Olhou para Lucano: - Visita-a ao cair da noite.
Renova as minhas ordens.
- Por que censuras esta pobre criança? perguntou Lucano,
ressentido. - Ela é maior do que a sua natureza, que foi Deus quem
lhe deu? Ele deu-lhe seus instintos normais.
- Quando os instintos normais podem ser perigosos, então é
preciso controlá-los disse Keptah. - E o que é normal? O
mundo? Precisamos discipli nar nos para enfrentar as urgencias do
mundo, a fim de não sermos como os animais.
A moça, um tanto aliviada, sorria para Lucano, dengosamente.
Ele desviou o olhar e afastou-se, triste, mas revoltado.
As janelas estavam abertas e o fresco ar invernal bem como as
brisas enchiam o aposento.
- Ar e luz são inimigos da doença dizia Keptah, contra o
ponto de vista dos outros médicos. - A limpeza também é um
inimigo. Para não mencionar o respeito próprio e a estima pela carne, na
qual o espírito está enroupado.
Pararam junto à cama de uma mulher jovem e graciosa, que
moStrava um ventre enorme. Ao lado dela, acocorado, estava seu marido,
igualmente jovem e bonito, cujo rosto mostrava lágrimas. Levantou-se
ansiosamente e olhou para Keptah com olhos brilhantes e
urgentes.
- Ah! senhor! disse ele. - Seguramente ela está
grávida e a criança vai nascer logo?
Keptah suspirou.
- Já te falei, Glauco. Isto não é criança, mas um grande tumor.
Ela precisa retirá-lo, pois caso contrário morrerá. Deixei o caso em
tuas mãos, embora pudesse ter operado antes. Esperaste, e assim
diminuiste suas possibilidades de viver. Não é mais possível. Faze agora a
tua escolha.
- Senhor, eu não passo de um escravo. Tu só tens de ordenar
disse Glauco, lacrimoso.
Keptah sacudiu a cabeça:
- Homem algum é escravo, por muito que esteja amarrado e
encadeado, até que admita ser um escravo. És um homem. Devo salvar
tua esposa agora, ou esperarás que ela morra? Morrerá, sem dúvida, se
não fizer a operação. Poderá viver, talvez, se eu a fizer.
Voltou-se para Lucano:
- Apalpa-lhe o ventre disse.
Lucano estava cheio de piedade por aquela jovem e estóica
mulher, que não chorava, apenas sorria corajosamente. Levantou-lhe a
camisa. Seu ventre estava liso e cortado de veias, como o mármore, e
luzia, pela tensão da pele esticada. Apalpou-o cautelosamente, fechando
os olhos para concentrar-se através dos dedos delicados. Do lado
direito era como se apalpasse uma pedra, mas havia um gorgolejar de
líquido e algo de esponjoso, quando ele moveu os dedos para o
umbigo.
- Tenho certeza de que não se trata de um carcinoma disse
ele a Keptah, que anuiu satisfeito.
- É um tumor lipóide e de soro disse o médico. - Muito
comum. Eu deveria ter removido isso há muitos meses, mas este casal
desejava muito um filho, e acreditou que o tumor fosse isso, depois de
três anos de casados. O tumor está preso ao ovário direito, que terá de
Ser, também, removido.
- Então ela não terá filhos! lamentou Glauco. - Ou só terá
menina!
- Não sejas tolo ralhou Keptah. - Aristóteles afastou a
antiga teoria de que um ovário produz uma menina, ou um rapaz, ou um
testículo produz apenas um sexo. Tua mulher ficará com o ovário
esquerdo, e isso dela ter mais tarde um filho ou uma filha é a
misteriosa escolha de Deus.
Socou algumas folhas frescas e acres num almofariz, acrescentou
um pouco de vinho, e deu a mistura a Hebra, que a tomou
obedientemente. Keptah disse a um dos escravos:
164 165
- Fica com ela e dá-lhe um grande copo de vinho, depois outro.
Quando adormecer, chama-me.
Os olhos de Hebra estavam começando a fechar-se, enquanto o
marido a observava, temeroso. Ela ergueu languidamente a mão
bondosa e acariciou-lhe o rosto, consolando-o.
- Podes observar que as mulheres têm menos medo da morte e
da dor do que os homens disse Keptah a Lucano, enquanto iam
para junto de outra cama. - Será fé? Ou, como as mulheres são
realistas, aceitam a adversidade com melhor espírito?
Lucano relanceou os olhos para ele, sombrio. Talvez, pensou,
todos aqueles comentários tivessem sido dirigidos para ele, na
primeira manhã de sua volta à casa de Diodoro. e as lições do médico fossem
farpas sutis e censuras para a sua sensibilidade. Sentia-se encolerizado
e envergonhado.
O homem do leito vizinho estava imensamente gordo, e tão
branco e flácido como massa crua de pão. Olhava para Keptah num
siléncio ressentido. O médico lançou os olhos para a mesinha que ficava ao
lado da cama e na qual havia um jarro de água e um copo.
- Bebeste toda esta água hoje, meu amigo?
O homem murmurou algo lá dentro da garganta. Um cheiro de
maçãs, ou feno, flutuava em seu hálito pesado.
- Há meses eu te avisei para que moderasses teu amor pelas
pastelarias, pelos pães, pelo mel disse Keptah, severamente. - Eu
te disse que tinhas a doença doce, e que se não tivesses cuidado teus
próprios músculos e ossos correriam de ti num rio de urina. Mas vejo
que não te contentaste com carnes magras e vegetais, coisas que
existem com fartura nesta casa, que é uma casa pronta a alimentar
suficientemente os escravos. Se não controlares teu apetite de porco,
morrerás muito depressa, em convulsões. A escolha te cabe. Trata de fazê-la.
Voltou-se para Lucano e deu-lhe uma rápida explicação sobre a
doença.
- O homem é sempre sua própria doença disse ele. - O
que sofre da doença doce, quando a urina é sacarina, quase sempre é
um temperamento auto-indulgente que tem origem numa recusa
egoística de cuidar de outros a não ser dele próprio. Assim, os outroS
não o amam e, para satisfazer seu natural e humano desejo de amor,
come os doces da terra, em vez dos doces do espírito. Há outras
manifestações desta doença, especialmente em crianças que,
invariavelmente, morrem dela. Seria interessante conversar com essas crianças
que,
em seus mais tenros anos, possivelmente são de disposição
ávida, pensando apenas em si próprias. Nada podemos fàzer senão
prescrever as carnes mais magras, os legumes e frutas que menos
amido contenham, e restringir, ou omitir, os doces e os amidos. Pouco,
entretanto, se consegue, exceto a penosa privação e o prolongamento
de uma vida restrita, a não ser que o paciente tenha um
enfraquecimento de espírito e assim se habilite a amar para além de si próprio.
Olhou para o escravo carrancudo, que o estivera observando com
olhos que pestanejavam.
- Olha para tua esposa com amor advertiu ele. - Não digas:
"Ela me pertence, e me servirás!" Dize, antes, em teu coração: "Esta é
a minha esposa bem-amada, e que posso eu fazer para torná-la a mais
feliz das mulheres, de forma que ela diga se ter casado com o mais
bondoso e mais nobre dos homens?"
Enquanto se afastavam, Lucano perguntou:
- Então, esta não é uma doença orgânica?
Keptah parou e meditou, dizendo por fim:
- Não se pode separar a carne do espírito, pois é através da
carne que ele se manifesta. Estás cogitando em como certas pessoas
contraem doenças e contagiam-se em epidemias, e outras não.
Hipócrates falou de imunidade natural nos que escapavam. Um de
seus discípulos acreditava que escapam, fabricando em si próprios
alguma essência que repele a doença. Mas por que será certo que
determinados temperamentos resistem as infecções, enquanto outros
não? Imunidade? Se é assim, então é imunidade do espírito, embora
outros médicos não acreditem nisso. Não estou falando do homem e
do mal. Estou falando apenas do temperamento.
Chegaram à última cama. Ali estava um jovem com febre. a perna
direita contraída, de maneira que os músculos avultavam nela como
protuberâncias. Tinha o rosto moreno, agudo, com olhos
excepcionalmente inteligentes e ousados, e uma expressão colérica. Keptah
Olhou para um dos escravos atendentes.
- Eu disse que esta perna precisava estar constantemente
enfaixada em compressasquentes de lã, dia e noite, tão quentes quanto
ele pudesse suportá-las. Não me venhas com desculpas! irritado,
ergueu a mão e deu uma bofetada no rosto do escravo. - Não temos aqui
senão homens e mulheres que procuram apenas seus próprios prazeres e
satistações? Vamos!
Olhou para o jovem que estava na cama e disse a Lucano:
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- Aqui está um jovem de natureza altaneira, orgulhosa e
inconsiderada, superocupada com o seu amor-próprio, e arrogante
Despreza a ignorância e a estupidez. Sua mente é como a lâmina
delgada de uma faca muito bem afiada. Odeia seu próximo, que
raramente tem a inteligência dele. Não tem paciência, nem bondade.
Ensinei-lhe a ler e escrever e ele tem acesso à minha própria biblioteca, onde
entra e sai à vontade. Nunca pensa com o coração, mas só com o
cérebro. Descobrirás que os que se parecem com ele são muito
suscetíveis a esta doença que aleija. Descobrirás, também, que os mais
estúpidos, mais bovinos, raramente a contraem, mesmo entre crianças.
Diomedes estava sorrindo, um sorriso onde se misturavam o
orgulho e o mau humor.
- Obrigado, senhor, por tuas palavras sobre o meu intelecto -
disse ele. Era evidente que sentia grandes dores, mas seu orgulho não
permitia que expressasse tal coisa.
- Não te estou lisonjeando disse Keptah. - Era quase
inevitável que tivesses essa miserável doença que, receio, vai deixar-te com
perna coxa.
- Importo-me pouco com o meu corpo, se puder alimentar
minha mente disse Diomedes.
Keptah olhou para Lucano.
- Observaras este traço nas pessoas que sofrem dessa doença.
Por que deve um homem desprezar sua carne e a carne dos outros,
quando ela é invenção maravilhosa de Deus e pode ser mais bela do
que qualquer outra coisa viva? É através da carne que nos
comunicamos com os outros. Homens como Diomedes não desejam
comunicação. Almejam apenas obediência e adulação para suas mentes, de fato
excelentes. Digo aos pais de filhos assim: "Ensinai vossos filhos a amar,
a dar, e treinai-os na reverência diante de Deus."
Os lábios de Lucano contorceram-se, mas ele nada disse. Keptah
falou com Diomedes:
- Mandarei alguns livros para ti esta tarde. Vejo que já lestes OS
que te havia mandado. No intervalo, há aquela donzela. Leda, que
escreve com freqüência as cartas para a Senhora Aurélia. É uma menina
bonita, inteligente e amorosa, e adora-te. Recebe o seu amOr, mas
trata de retrihuí-lo com todo o teu coração. Sei que isso será difícil
para ti, mas poderá ensinar-te a amar, se assim o quiseres. Nada é
impossível quando se tem mentalidade pesquisadora e intelectual. A
Senhora Aurélia é tão apegada àquela moça, que me disse estar disposta
a dar-lhe a liberdade, quando ela se quiser casar. Afastarás dela
essa dádiva?
Diomedes deixou escapar um riso zombeteiro. Então, seu rosto
abrandou-se e, subitamente, voltou-se em seu travesseiro. Seus
ombros delgados erguiam-se, e Keptah disse com suavidade:
- Tem havido mais almas salvas através de lágrimas humildes do
que de todas as poções deste mundo.
Lucano disse, desafiante, a si próprio: Ele simplifica demais.
Estava comovido, no entanto, com os soluços de Diomedes, que não se
podia controlar, embora todos os seus músculos se contraíssem com o
esforço. E Keptah falou:
- Apressa-te a ficar bom, Diomedes. Eu precisarei de ti como
assistente, quando sentires piedade e amor pelos demais.
Diomedes ergueu do travesseiro seu rosto coberto de lágrimas, e a
alegria brilhou em seus olhos:
- Tu me deixarás assistir-te, senhor? exclamou ele,
incrédulo. Keptah sorriu:
- Será um excelente auxiliar, Diomedes. Quando amares e
tiveres piedade, quando sentires a dor alheia em teu próprio corpo.
Voltaram para junto da cama de Hebra, que estava como que
adormecida, respirando suavemente. Keptah mandou vir biombos, que
foram colocados em torno do leito. Retirou Glauco do recinto formado,
colocou sobre a mesa uma bandeja, onde estavam agulhas, suturas
e três escalpelos, um grande e dois pequenos. Disse a Lucano:
- É tempo de veres a primeira operação. Se vomitares, por
favor, usa este balde, mas nada digas. Se desmaiares, eu te deixarei onde
Caíres. Há uma vida a salvar. Precisarei do teu auxílio. Apanha esse
Chumaço de linho e mergulha-o neste óleo pungente. Há infecção
aqui até mesmo no ar.
Lucano começou a tremer. Mas obedeceu às ordens,
silenciosamente. Olhou para a moça anestesiada pela droga, e que se mostrava
doce em seu sono profundo. Sentiu-se repleto de apaixonada piedade.
Por que um deus qualquer deveria afligir aquela criança que só
queria filhos, o amor de seu marido e uma vida tranqüila? Oh! Tu
que fazes estas perversidades aos homens, eu te desprezo!, pensou
Lucano. Mesmo o mais baixo dos homens não mostraria maior comiseração?
Keptah expôs o ventre reluzente e tenso de Hebra. Apalpou-o
Com cuidado. Depois, com golpes firmes do escalpelo, como quem
desenha um cuidadoso diagrama, correu a lâmina sobre a carne bran-
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ca. Sua passagem foi seguida por uma lista vermelha, que se alargou e
abriu, como boca faminta. Lucano teve náuseas, mas ficou olhando.
Agora, os músculos vermelhos e brilhantes estavam expostos,
recortados de veias que pulsavam. Keptah afastou-os, hábil e delicadamente
dizendo:
- Agora usaremos os ganchos egípcios para fazer a ligadura dos
vasos sanguíneos, a fim de manter o campo operatório tão livre quanto
possível e para impedir a hemorragia até a morte. Observa estes vasos
e as pulsações do coração que os fazem latejar! Não é tudo perfeito?
Quem pode olhar para isto e não reverenciar Deus em seu coração?
Ele desenhou o homem tão maravilhosamente quanto desenhou o sol
e seus planetas. Ali! Cuidado! Usa esses pequenos chumaços dc linho
para manter a ferida aberta. Não deixes que teus dedos toquem
qualquer parte da ferida, pois há veneno em teus dedos e no ar. Os
egípcios sabiam isso há muitas centenas de anos, mas os gregos e romanos
zombam de tal coisa, dizendo: "Onde está o veneno? Nós não vemos."
Há milhões de coisas no universo que os homens não podem ver e,
apesar disso, elas existem.
Hebra começou a gemer, a falar incoerentemente.
- É a sua carne assaltada que fala disse Keptah. - O
espírito também está protestando contra a ignomínia de sua passividade sob
a droga. Há quem diga que as drogas submetem o espírito: não é
assim. Ela sente dor? Com certeza. Mas, quando acordar, não se
lembrará do que sofreu. Dirá: "Eu fui uma das que dormiram através da
tempestade."
Lucano, cheio de piedade pela moça, disse-lhe, bem no fundo de
sua alma, silenciosamente: "Repousa, suporta, tem coragem. Nós te
salvaremos, criança querida". Dirigiu a força intelectual da sua mente
para ela, a fim de tranqüiilizá-la. Talvez fosse apenas a droga que
tomara,
e o vinho entorpecedor, mas imediatamente a jovem suspirou, e
relaxou a tensão. Os músculos contraídos suavizaram-se.
Os intestinos cinza-róseos e lustrosos estavam agora expostos. Ali
estavam, em suas convulsões, massa e mais massa escorregadia.
Palpitavam, torcendo-se um pouco, e Lucano falou com eles, bondosamente,
em sua mente, e também eles se fizeram flácidos. Com o mais
delicado dos cuidados, Keptah afastou-os para um dos lados e, como mão
que brotasse, uma bolha imensa e opalescente subiu de sob eles,
empurrando-os desapiedadamentt; uma bolha enevoada e lustrosa,
fervilhante de corrupção e desenhos movimentados e de sangue.
FiCOU a mover-se, sem parar, sobre os intestinos. Estava ligada, embaixo,
por uma corda de cor mais acentuada do que ela própria.
- Este é o momento vital disse Keptah, trabalhando com
mãos seguras. - Agora, observaremos cuidadosamente o ovário. O
mais leve descuido fará estourar esta bolha e encher todo o ventre com
a morte. - Expôs o ovário, de um amarelo esbranquiçado. - Ah!
está de boa saúde. Afinal, vamos salvá-los. Estás preocupado demais.
Usa mais chumaços, segura a carne com firmeza, separando-a.
Imediatamente, a cena obscureceu-se e crepitou diante dos olhos
de Lucano. O cheiro do sangue quase o abateu. Suas pernas
tremeram violentamente, e houve uma grande náusea seca em seu estômago.
Disse consigo mesmo: Se eu falhar, se desmaiar, quem a ajudará? Olhou
para a bolha perversa e inquieta, e forçou sua repulsa natural e
humana a acalmar-se. Tentou observar as camadas de gordura sobre o
peritônio, amareladas e úmidas como gordura de carneiro. Apertou os
chumaços mais fortemente contra a boca bocejante da ferida e seus
músculos fizeram-se tensos, enquanto ele suava. Keptah estava
amarrando corretamente a corda da bolha em várias alturas, apertando bem
o fio. A corrupção opalescente tornou-se leitosa, obscurecendo-se, e
os riscos de sangue se acentuaram. Então, com um movimento lento
do escalpelo, Keptah cortou a corda. A bolha aquietou-se sobre os
intestinos.
Com o maior dos cuidados, e vagarosamente, Keptah ergueu-a de
sua posição e deixou-a cair na bandeja. Os olhos de Lucano nadavam,
e gotas de suor pingavam de seu rosto.
- Observa como vou costurar estas camadas, agora, tão
corretamente quanto uma costureira disse o médico. - Nem um só erro
deve ser cometido nas suturas. - Empregou um desenho em zíguezague,
usando linha clara, que explicou ser corda de tripa. - Com o
tempo o corpo a absorverá, as ligações estarão mais firmes do que
antes. Alguns médicos usam fio de linho, que o corpo não absorve e
que mais tarde causa problemas.
A bolha perversa mostrava-se tão grande quanto um recém-nascido
que se tivesse encolhido na bandeja. Com infinitos cuidados, o
médico juntou uma por uma as camadas do ventre e costurou-as com
firmeza.
- A gordura é difícil. As vezes separa-se da linha, ou dilacera-se.
Aqui. Pronto. E agora, a pele, que é muito dura. Usaremos fio de
linho, que dentro de uma semana retiraremos.
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O ventre se havia tornado milagrosamente achatado. A moça
gemia e tornava a gemer, procurando respirar em soluços
desesperados.
- Ela está acordando disse Keptah. Amarrou o último e
hábil nó. Mergulhou um pano em água quente, torceu-o, e colocou-o
sobre o coração da moça; depois, mergulhou outro pano e envolveu-lhe
com ele os pés, pondo ainda outro sobre seus pulsos. Curvou a
cabeça e apertou-a contra o coração da doente. - Rápido, mas forte.
Ela não terá choque, que é muito temeroso. Usa o balde junto da boca
e segura-lhe a cabeça.
Enrolou largas tiras de pano no corpo dela, como se fossem
sudários. Recuou e contemplou a jovem com satisfação. Estava muito
calmo. Relanceou os olhos para Lucano e viu que a túnica do rapaz
estava molhada e pingando. Riu, suavemente:
- Suportaste tudo muito bem. Eu te felicito. Bebe este vinho o
mais depressa possível. Posso mesmo dizer que estou orgulhoso de ti.
A moça abriu olhos enevoados. Keptah debruçou-se sobre ela.
- Está tudo terminado, minha pequena. Estás muito bem. - A
moça gemeu, começou a chorar, e Keptah pisou mais folhas picantes e
levou-lhe a poção à boca, dando-lhe água depois. Ela engoliu,
fracamente. Estava pálida como a morte. - Dorme disse ele. - O sono
cura mais doenças do que a arte de qualquer médico.
Fez um movimento de cabeça para Lucano.
- Reparei, com prazer, que mantiveste bem os chumaços
restringentes. Agora, limparás esta confusão e virás visitá-la dentro de
algumas horas.
- Glauco murmurou a moça. Keptah afastou o biombo e
chamou o marido, que veio mais rápido do que o vento. Ajoelhou-se
ao lado da esposa e encostou o rosto no dela, soluçando:
- É mais duro para o marido observou Keptah,
disfarçadamente.
Deixou a Lucano o sujo e repulsivo trabalho de remover todos OS
sinais da operação. As mãos do moço moviam-se fracamente e com
repugnância. Lavou os escalpelos e colocou-os de novo na bandeja. O
cheiro de sangue era nauseante, bem como o de todos os eflúvios do
corpo violado. Por que não poderia um escravo ter feito aquele
trabalho? Sentia-se irritado. Quando saiu de detrás dos biombos
encontrou Keptah conversando jovialmente com os outros pacientes, e
dando ordens. Keptah lhe disse:
- Nem sempre terás um assistente. Com muita freqüência um
cirurgião precisa arranjar-se sozinho e fazer tudo por si mesmo. -
Olhou para Lucano e, rapidamente, agarrou um balde onde o rapaz
vomitou num ímpeto, até parecer que suas próprias entranhas, estômago
e fígado, sairiam por sua boca aberta. Keptah foi paciente: -
De novo te felicito, meu Lucano. É melhor dar largas ao que se sente
depois de uma emergência do que durante. Vai deitar-te até poderes ir
ter com Cusa.
Lucano enxugou a boca amarga.
- Prefiro ir para casa.
- Não disse Keptah. - Irias pensar demais no que aconteceu.
Arruma-te e continua teu trabalho.
Os ventos outonais carpiam como as vozes de uma multidão de
pombas quando Lucano deixou a sala de aulas. As chuvas cinzentas
arremetiam contra as palmeiras e as árvores, através das colunatas da casa
de Diodoro, e agora, subitamente, a rajada de vento que trazia consigo
a voz do mar branqueava todas as folhas, todos os galhos e troncos,
alvejava a relva. um uivo em surdina elevava-se da terra, som dos mais
dolorosos. Lucano puxou para a frente o capuz de seu manto, e ficou
contemplando sombriamente o jardim pálido e retorcido. As fontes
queixavam-se, angustiadas; das estátuas escorria a água cinzen ta,eas
flores inclinavam as cabeças em sofrimento resignado. Lucano era
jovem. Esqueceu que amanhã tudo estaria de novo sorridente e quente,
as palmeiras reluzindo, os pássaros cantando para o céu azul. Para ele,
como estava agora tudo estaria sempre, despedaçado com dilacerante
tortura, respondendo fragilmente ao vento que chegava roncando, vindo
do mar, curvando-se perpétua e desamparadamente, como as relvas
dos Campos Elíseos fantasmais.
Tudo está morto, dizia Lucano para si mesmo. Tudo está batido,
afogado, perdido. O que eu amei se foi. Enxugou o rosto molhado
com a ponta do manto e sentiu em si próprio a mais temerosa desolação,
vazio onde não havia um único sonho, uma única esperança. Sua
carne jovem pesava-lhe sobre os ossos, como se aquela carne fosse
Velha, embebida, saturada de terra. Olhou para o céu coberto de
névoa, tão descolorido quanto a própria morte, e desejou chorar. Mas
não havia lágrimas nele, apenas uma aridez onde nada crescia, onde
nada se movia.
Desejava ir para casa, ainda assim recuava a tal pensamento. Íris,
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sua mãe, estaria ali, seu belo rosto pálido de silencioso desgosto;
olharia longamente para ele, interrogando-o com o olhar, e Lucano não
teria respostas para dar-lhe. Era velha; tinha trinta e um anos. Os mais
velhos não têm sabedoria, apenas indagações. Somente a juventude
possuía as respostas, e só podia responder quando era feliz. Na verdade,
disse Lucano em seu coração, não há resposta para a inanidade. E
existe apenas inanidade. Sentia-se, então, cheio de raiva selvagem e
tumultuosa, e levantou seu punho fechado para o céu:
- Eu Te derrotarei! exclamou. - Eu Te privarei de Teus
sacrifícios!
A ventania que vinha com a voz do mar, contra o rosto dele,
pareceu-lhe uma zombaria e um desafio. Começou a caminhar através dos
jardins tremendo de fúria, e chegou ao pórtico aberto diante da casa.
As portas de bronze esculpido estavam fechadas. Caminhou para elas
sem pensar e bateu com o punho. Quando se abriram, disse ao
escravo:
- Quero falar com teu senhor Diodoro.
O chefe do vestíbulo olhou-o com impudência.
- O senhor está na biblioteca. Há muitos dias que não fala.
Queres impor-lhe a tua presença, Lucano? Não te receberá; recusou
receber seus amigos romanos. Receberia o filho de um liberto?
Lucano abbriu a porta para tras e, com um safanão, atirou para o
lado o escravo. A luz espectral e aguada que vinha do céu caiu sobre o
mármore branco e preto do piso do vestíbulo, e Lucano entrou, suas
sandálias fazendo ruído, seu manto branco flutuando atrás (de si em
dobras, como que de um fantasma. O ar parado e frio da casa parecia
o ar de uma sepultura, mofada e sem vida. Nenhuma voz, nenhum
movimento rompia o silêncio, a não ser o bater dos pés de Lucano. O
arco da entrada da biblioteca estava acortinado em pesado pano cor de
castanha, que Lucano afastou. Só quando entrou no aposento
espantou-se, de súbito, pensando no porquê de ter vindo e no que estava
fazendo ali.
Diodoro estava sentado junto de uma mesa de mármore clarO,
muitos livros enrolados em torno dele, a cabeça nas mãos. Estava
imóvel como uma estátua esculpida em bronze escuro, pois mesmo sua
túnica era de tecido sombrio. Quando ouviu o roçar do pano da
cortina, deixou cair as mãos, pesadamente, e levantou um rosto sem vida,
pondo-se a olhar Lucano como que atordoado, Lucano que ele não
via desde a morte de Rúbria.
Lucano ficou aturdido com a aparência de seu protetor, com a
cor cinzenta de suas faces, com a secura de sua boca, com as órbitas
cavadas onde os olhos ocultavam-se, sem brilho e sem interesse.
Mesmo a carne do tribuno parecia ter murchado. Seus ombros
afrouxavam-se, lânguidos, e quando ele se moveu um pouco, foi com
esforço. Lucano sentiu de repente sua própria juventude, a força de
seu corpo, a flexibilidade de seus ombros, a vitalidade de seu sangue,
apesar de seu desgosto e de sua cólera infinita. Ali, como dissera
sua mãe, estava o desespero absoluto, para além de qualquer tentativa
de consolação.
- Quê? murmurou Diodoro, como se não reconhecesse o
jovem. Ficou a olhar para Lucano que se aproximava, e com completo
desinteresse o observou quando o rapaz se ajoelhou a seu lado, a cabeça
curvada para o peito. Um som abafado veio de Diodoro, um som
cansado e insondável. Depois, tornou a deixar cair a cabeça nas mãos,
e esqueceu-se de seu visitante.
Az palavras vieram ter aos lábios de Lucano, involuntariamente:
- Senhor, há uma velha história que meu pai me contou. Um
velho perdeu seu único filho, e seus amigos vieram procurá-lo e
disseram: "Por que choras? Nada te pode devolver teu filho." E o
velho disse: "É por isso que eu choro."
A única janela alta da biblioteca deixava passar luz hesitante e
crepuscular, ensolarada e vaga. O silêncio enchia o aposento. O jovem
estava ajoelhado junto do homem e ambos conservavam-se imóveis.
Então, Diodoro, lenta e hesitantemente, pôs a mão no ombro de Lucano.
Disse, enfim, com voz rouca:
- Também tu a amavas. Mas não eras pai dela.
- Eu perdi meu pai disse Lucano, voltando o rosto de forma
que ele descansasse sobre a mão de Diodoro. Suas palavras vieram
num impulso violento. - Olha para mim, nobre tribuno. Sou um
filho que não chegou a odiar seu pai, mas chegou a desprezá-lo
levianamente, como homem de pouco conhecimento e de muitas pretensões.
Tornei-me arrogante, impaciente e condescendente. Esqueci tudo
quanto ele sofrera, tudo que ele tinha sabido. Já não achava comovente
seu ar bombástico: considerava-o risível. Não perdi meu pai nesses
anos, mas meu pai perdeu um filho. E, agora, o filho perdeu seu pai,
enão pode ir alcançá-lo para pedir perdão pela crueldade, impaciência
e orgulho da juventude.
A mão de Diodoro repousava ainda no ombro de Lucano, e pela
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primeira vez a vida e a simpatia voltavam aos olhos do tribuno. Não
podia ver o rosto de Lucano, escondido como estava nas sombras do
capuz. Disse, muito delicadamente:
- Os deuses com certeza não rejeitam contrição, e com certeza as
sombras da região da morte têm consciência do arrependimento.
Mas Lucano sacudiu a cabeça, sem poder falar.
- Eu honrei meu pai disse Diodoro, compassivamente. -
Não sou homem sem compreensão. Posso imaginar o que deve ser a
lembrança de se ter desprezado o pai.
Fez uma pausa, depois continuou:
- Enéias era um bom homem, honrado, e eu confiava nele sem
qualquer reserva. Se lutou para obter sabedoria, essa luta não foi
desprezível. Apenas quando um homem não se esforça é que chega a
ser menos do que um bom cachorro. Honremos os que em seus
corações sabem que não são grandes, pois que eles respeitam e
reverenciam a grandeza.
- Sim disse Lucano. - Mas isso não me absolve.
Diodoro ficou alguns momentos sem nada dizer. Depois, como se
pensasse em voz alta, falou:
- É bom viver de tal maneira que quando uma pessoa amada
morre não tenhamos remorsos. Mas quem não tem remorsos? Quem
não foi rude, ou áspero, ou insensível algumas vezes? Quem não foi
humano, com todas as faltas? Por que, então, deveríamos castigar-nos
e gritar em voz alta: "Se eu ao menos tivesse sabido! Se eu ao menos
tivesse observado! Então, talvez tivesse podido imobilizar a morte com
as minhas mãos nuas, antes que fosse tarde demais."
Um ar maravilhado correu pelo seu rosto torturado, como luz
frágil, e seus ombros ergueram-se:
- Disse muitas vezes a mim mesmo que fui negligente, que se
tivesse guardado mais de perto a minha filha ela poderia estar viva.
Mas agora vejo que os deuses têm a hora de sua escolha, e que nada
podemos fazer senão rezar pela alma dos que nos deixaram, e que
elas terão paz e saberão que nós as amávamos e continuamos a amá-las.
Mas a secura em Lucano tornou-se ainda mais sombria, e O
que Diodoro dizia não passava, para ele, de um eco sem
significação.
- Sim, sim! exclamou Diodoro. - Por que me afastei da
vida? Por que fui pouco menos do que um bruto, que se enluta e
nisso resume sua vida? Se essa foi a vontade dos deuses, que seja.
Eles não têm necessidade de nos responder, pois sua natureza fica
além de nosso entendimento. - Sacudiu a cabeça com veemência,
continuando: - Deixei minha pobre esposa chorar sozinha em seu
leito, e ela é a mãe de minha filha, e está pesada com outra criança.
Abandonei-a, e quando veio consolar-me eu me afastei dela. Terá
sofrido? Terá vagado pelo quarto vazio? Sente falta da voz da donzela,
daquela donzela feita de sua própria carne? Que aconteceu comigo,
o odioso, o amargurado, que queria vingar em si mesmo a morte de
sua filha? Lucano, com toda a certeza os deuses misericordiosos te
enviaram hoje até junto de mim! Se eu tivesse continuado a meditar
assim sombriamente, acabaria por me atirar sobre a ponta de minha
própria espada!
"Eu a vingarei", murmurou Lucano para si mesmo. "Eu a vingarei
durante toda a minha vida."
Diodoro olhou para o jovem ajoelhado, cujo rosto duro e branco
estava escondido no capuz, e pareceu ao tribuno que ali estava um
verdadeiro mensageiro do Olimpo. Rodeou os ombros do jovem com
os braços nodosos, como um pai abraça o filho.
- Não mais precisamos rezar para que nos absolvam dos nossos
crimes contra os mortos, mas dos nossos crimes contra os vivos -
disse ele. Levantemo-nos, pois, como homens, e vamos cuidar das
coisas da vida. Os vivos esperam por nós.
Então, como Odesseu* e seu filho, choraram juntos, e as lágrimas
de Diodoro curavam, enquanto as de Lucano eram escaldantes e ácidas.
O moço atravessou a floresta gotejante em direção de sua casa e
dizia consigo, transido e incrédulo: "Mas que lhe disse eu? Que
mensagem lhe levei? Na verdade nada disse. Falei sobre meu pai, por
quem não sofro realmente, por quem sinto apenas remorso. Quando
falei, meus pensamentos estavam com Rúbria e não com Enéias, meu
pai, e a ela hei de vingar, seja contra que deuses for."
Diodoro entrou no quarto de sua esposa, que estava deitada em
sua cama, mergulhada em tristeza. Ela teve um sobressalto, quando o
marido entrou, e ao lhe ver o rosto ajoelhou-se na cama com um grito
___
* Nome grego de Ulisses, lendário rei de Ítaca, um dos principais heróis
do cerco de Tróia, cantado por Homero na Iliada. Sua volta ao lar é o
objeto da Odisséia, o outro célebre poema homérico. (N. do T)
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soluçado, estendendo-lhe os braços. Agarrando-se a ele, pôs-se a
chorar contra seu ombro.
- Perdoa-me. querida disse-lhe ele, suas lágrimas
confundindo-se com as dela.
Íris, de pé na sombria e enevoada escuridão da noite, à porta de sua
casa, viu o filho aproximar-se, e esperou por ele, sem fazer-lhe um
aceno, sem cumprimentá-lo. O rapaz entrou, atirou para um lado sua
capa e a moça viu-lhe o palor dos lábios, o azul pétreo e áspero de seus
olhos. E falou:
- Viste Diodoro? Rezei para que fosses ter com ele, para que te
lembrasses de que ele é um pai para ti. Dize-me: ainda está
alquebrado pela tristeza?
Os olhos de Lucano faiscaram.
- Há uma coisa que eu não compreendo e que poderia ter
entendido quando era uma criança irrefletida. Falei com Diodoro. Não
lhe falei de Rúbria, mas de meu pai. E ele se levantou como se tivesse
renascido. Não me perguntes o que eu disse, porque não me recordo.
Iris acendeu uma lâmpada. Voltou o rosto para o filho, e nunca
lhe tinha parecido tão bela, assim envolvida em luz dourada, tão
semelhante a sua estátua esculpida por Fídias. Dirigiu-se para Lucano e
pôs delicadamente a mão no rosto dele.
- Aqueles aos quais os deuses dão uma mensagem nem sempre
a compreendem disse ela e, pela primeira vez desde a morte de
Enéias, sorriu. - Outros ouvem, e seus corações compreendem.
Lucano jamais havia falado bruscamente com a mãe, mas agora
exclamou:
- Estás falando tolamente. Falas como mulher e as mulheres
tagarelam a propósito de nada. Ah! e a voz dele modificou-se -
lamento. Não chores, mãe. Tens o mais terno dos corações. Mas eu
não sinto outra coisa além de ódio e desejo de vingança. E hei de me
vingar!
Foi para seu quarto, não vagamente, mas com um propósito.
Apanhou os rolos dos livros que estavam nas prateleiras, acendeu uma
lâmpada, e começou a estudar.
13
Cusa pensou: Arquimedes* garantiu que com uma alavanca poderia
mover o mundo. Mas, ó deusa de Chipre, a mais poderosa de todas as
imortais, podes mover não só o mundo, mas os mundos, e os próprios
deuses; podes erguer a vida dos próprios braços de Plutão, e dar ao
homem uma estatura tal que ele consegue desafiar o Olimpo com um
só juramento, que será ouvido pela estrela mais longínqua!
Olhava para Lucano com disfarçada comiseração. pois o rapaz
parecia não mais dormir. porem devorar as lições, como se tivesse os
olhos de Hidra.2 Em certa ocasião dissera a Lucano, sorrindo, mas
alarmado:
- Virgílio3 disse que a prerrogativa dos deuses e dos homens é o
riso. Agora, nunca ris. Por acaso odeias? Lembra-te que o ódio tem
apenas vitória de Pirro.4
Lucano, porém, deu-Lhe um rápido olhar e desenrolou outro
livro, curvando sobre ele sua cabeça dourada, como se Cusa tivesse
articulado o mais asnático dos comentários.
Com certa irritação, Cusa falou:
- Virgílio também disse que a humanidade despertava o riso
dos deuses. Será por serem os homens tão sérios, especialmente quando
são jovens? Por Atenas, tu depressa farás com que nada mais tenha
a ensinar-te!
Em outra ocasião, ele disse:
- Há mais alguma coisa no mundo, além da medicina. Espera
até que chegues a ALexandria! - Sacudiu a cabeça, com ar agoureiro,
e rematou: - Cláudio Vesálio, que ali vive, uma criaturinha afetada,
irá levar-te pelos caminhos da matemática, coisa de que entendes
tanto quanto um macaco.
Caminhando a sós através das florestas ao lado do rio, ou nos
___
* Matemático ilustre, nascido em Siracusa. 287 a.C.
2 Referência à chamada Hidra de Lema, que, segundo a fábula, era uma
serpente monstruosa, com sete cabeças que renasciam à proporção que eram
cortadas. Um dos doze trabalhos de Hércules foi a destruição desse
monstro.
3 O mais célebre dos poetas latinos (71-19 a.C).
4 Rei de Epiro, nascido mais ou menos em 318 a.C. e célebre pelo seu
combate aos romanos. Teve algumas vitórias, mas tão caro lhe custaram
que ele próprio respondeu a um dos generais que o felicitavam: "Mais uma
dessas vitórias, e estou perdido." Daí a expressão usada. (Notas do
Tradutor)
178 179
jardins, ou deitado na cama, ou comendo e bebendo sobriamente, ou
trabalhando em suas lições, ou assistindo Keptah, Lucano tinha
apenas uma imensa pergunta: Onde está Rúbria? Todas as cores, luzes,
formas maravilhosas de árvores, flores, fios de relva, pássaros, animais,
insetos, borboletas, abelhas e estrelas tinham desaparecido dos olhos
de Lucano. Todo o seu trabalho significava apenas caminho para a
vingança, que era o seu fim, e a beleza deixava a medida e a
consciência de seus olhos. A nada respondia, a não ser a um grito de dor, e
quando um escravo morria ficava inconsolável durante vários dias.
Não havia mãos mais delicadas e compassivas do que as suas, e não
havia olhar mais amargo do que o seu, quando Keptah mostrava-se
impotente para ajudar um sofredor.
- Se isso é tudo quanto podes fazer, então não podes fazer nada
dizia ele.
Keptah respondia, brandamente, mas com alguma severidade:
- Os homens são imortais?
Sem se sentir confortado, Lucano perguntava a si mesmo: Se não
somos imortais, então por que nascemos? Se ao menos eu pudesse
acreditar que Deus não existe! Mas acredito Nele, e Dele tirarei Suas
vítimas, se não consigo tirar Sua resposta! Ele me persegue. Ele
persegue todos os homens, para a satisfação de Seu ódio.
Outrora, o aspecto do mundo parecera iluminado por alguma
radiosidade profunda que não vinha do sol, da lua ou das estrelas,
mas de certa emanação que jazia por baixo, e ainda em torno de sua
aparência física. Agora, o mundo estava iluminado a seus olhos por
um clarão violento, que magoava a vista, levando consigo a
incandescência do inferno. Conforme os dias passavam, sua ira e sua
angústia não decresciam. Eram como que um fogo eternamente
alimentado, que cada noite, ao dormir, queimava até se reduzir a
cinzas, e pela manhã erguia-se das cinzas, como uma fênix,* cujas asas
fossem de agonia. Keptah, observando-o à socapa, pensava: Ele é
como Jacó: lutando com o anjo, mas meu pobre discípulo está
lutando com ódio e tormento. Não tem a visão da escada pela qual OS
anjos sobem até Deus; sua escada tem degraus de chama, que
descem para as regiões infernais. Como o Rei de Nemi, caminha pelOS
campos da ira de espada desembainhada, esperando pelo destrui-
___
* Pássaro fabuloso, que viveu durante vários séculos nos desertos da
Arábia, deixando-se queimar numa pira e renascendo das próprias cinzas.
Era o único de sua espécie. (N. do T.)
___
dor. E Keptah rezava: "Oh! Tu, o muito Santo, o muito
Misericorjioso, o muito Divino, o muito Compassivo, que caminhas hoje
sobre esta terra, num lugar que não conheço, sob o disfarce de uma
criança, olha com compaixão para este que é pouco mais velho em
carne do que Tu! ComoJó gritou para Ti, assim ele grita em seu
coração, e ainda não ouviu a Tua voz. Tem misericórdia, Senhor,
misericórdia!"
Lucano, quando criança, indagava das coisas mais simples e
inocentes: "Estás aí? Ou Ali?" Agora, porém, nada via em torno de si, e
perguntava, apenas: "Onde está Rúbria?" O único alívio para sua dor
era tratar de alguém que sofresse. Os escravos viam-no aproximar-se, e
Keptah maravilhava-se com o súbito brilho ansioso de seus rostos, e
com a cessação de seus gemidos quando Lucano, deliberadamente,
fazia-lhes perguntas, e como respondiam, humildes e esperançosos.
Bastava que ele pusesse a mão em fronte febril para afastar a febre e
dar sono ao pobre escravo. Seus olhos azuis tinham agora uma qualidade
profunda e penetrante, e uma figura apaixonada. Ajudava Keptah
nos trabalhos de parto, e mantinha os recém-nascidos em seus braços,
como um pai, junto de seu peito, protegendo-os. Os escravos esqueciam-se
de que se tratava do filho de um antigo escravo; os mais velhos
esqueciam-se de que outrora o haviam ridicularizado por suas pretensões,
de que tinham rido dele quando criança; de que tinham
repreendido, invejado, e mesmo esbofeteado aquele menino. Em poucas
semanas ele se tornara um libertador; alguém que era santo e podia
aliviá-los, cujos olhos podiam levar os seus a se fecharem em repouso;
cujas mãos possuíam estranha qualidade de conforto e cuja voz conseguia
afastar o terror ou a culpa. "Apolo tocou-o", sussurravam uns
para os Outros. Olhavam-no com supersticioso e temeroso respeito;
com medo e reverência. Quando um marido, uma esposa ou um lilho
morria, os parentes agarravam a mão de Lucano e suplicavam-lhe, a
ele, o inconsolável, que lhes desse consolo. Lucano tinha apenas
lágrimas para dar-lhes, mas eles viam aquelas lágrimas, consideravam-nas
como piedosas lágrimas dos deuses, e sentiam-se consolados. Keptah
não se surpreendia com tais manifestações do mágico poder de curar
que Lucano possuía. Sua única preocupação era o próprio Lucano.
Quando estava longe do pequeno hospital, o brilho suave do rosto do
Jovem desaparecia e, de tão austero e reservado, aquele rosto se
tornava quase áspero.
Um dia, Keptah chamou Lucano para junto de si, em seus pró-
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priOS aposentos. O médico estava à sua mesa, com muitos livros
desenrolados em torno, e tinha o rosto grave e sombrio.
- Deves ter percebido, meu Lucano, que tens o dom de
Curar. Estás surpreendido? Não o fiques. Chega, não discutiremos isso
agora. Temos um problema sério pela frente. - Estendeu para ele um
frasco com urina turva e escura. - Dize-me: o que achas disto?
Lucano apanhou o frasco, cheirou seu conteúdo, deixou que ele
corresse pela parte clara do cristal. Depois, disse:
- Este homem está muito doente, a urina mostra-se cheia de
venenos, condensada, má e de cor escura. Penso que vejo a presença
de sangue. Os rins dele estão perigosamente comprometidos. o
rosto jovem animou-se: - Devemos prescrever grandes quantidades
de água, e proibir sal, mandando dar imediatamente banhos de vapor
para provocar suores abundantes.
Keptah respondeu:
- Não se trata de um homem. Essa urina é de uma mulher que
muito em breve dará à luz. Ela tem edema do ventre e do rosto, bem
como em torno dos tornozelos.
- Então devemos retirar o fluido disse Lucano, em tom
interrogador. Tornou a examinar o frasco, e disse: - Ela pode morrer.
- Sim confirmou Keptah. Suspirou profundamente. -
Faltam ainda pelo menos seis semanas para que a criança esteja em
condições de nascer. Mas precisamos apressar imediatamente o parto. A
criança, muito provavelmente, morrerá, como prematuro que é. Trata-se
de uma escolha terrível que devemos fazer. A única oportunidade
de salvar agora a mulher, que está sendo envenenada pelo seu próprio
feto, é o parto induzido. Na verdade, não há sequer escolha! A situação
é desesperadora.
- E a criança não pode viver?
- A possibilidade é mínima disse Keptah, deixando Cair a
cabeça entre as mãos e soltando um suspiro que era quase gemido.
Lucano texe pena dele, e da pobre mulher, e ainda mais pena da
criança inevitavelmente condenada à morte, fosse ou não fosse o partO
provocado de imediato. Depois disse consigo mesmo: Ainda assim,
é bom viver?
E disse a keptah:
- A mulher pode ter outro filho, mesmo que perca este.
Ela já
foi mãe?
Keptah olhou com ar estranho para ele.
- Sim. Teve uma filha. E essa filha morreu. A mulher não é
jovem; esperou por este filho muitos anos, e agora ficará inconsolável
se ele também morrer. E o marido também sofrerá muito, ou ainda
mais, pois esperou longamente por um herdeiro.
Lucano sentou-se bruscamente, o rosto lívido. Então, suas mãos
apertaram-se sobre a mesa:
- Aurélia sussurrou ele.
- Tudo ia muito bem até cinco dias atrás disse Keptah. - É
a toxemia gravídica, uma coisa letal. Tive receio disso quando a
Senhora Aurélia começou a apresentar dores de cabeça, ultimamente, e
úm pouco de febre. Observaste a urina. Sabes o que isso significa.
Preciso do teu auxílio. Vou mandar um escravo chamar tua mãe. É
felicidade que o nobre tribuno não tenha ido hoje a Antioquia.
Levantou-se, e olhou severamente para Lucano:
- Aurélia teve duas convulsões esta manhã. Dei-lhe um
sedativo, e suas aias estão com ela; não a deixam por um momento. Eu a
sangrarei daqui a pouco, e preciso de tua assistência. - Parou, e seu
olhar tornou-se mais profundo, sobre o jovem: - Que é isso? Estás aí
sentado, como se tivesses sido atingido pela morte. - Levantou a
mão, em advertência: - Há trabalho sério a fazer, e se tu me faltas
nisto, terei de dizer a Diodoro que está desperdiçando seu tempo, que
desperdiçará seu dinheiro em tua educação, Vamos!
Keptah abriu o caminho de seus aposentos até a biblioteca,
através da casa. Ali, Diodoro esperava, impaciente. Seus olhos violentos
estavam fixos de medo.
- Bem! exclamou. - Não é sem tempo, pelos deuses!
Mandaste-me um recado esta manhã, relacionado com a Senhora Aurélia!
De que se trata!
Lucano contemplou-o com piedade e temor. Não amara
exatamente Diodoro, pois seu temperamento naturalmente austero e
reservado se coadunava com violência e emoções fortemente expressas,
e era raro que se mostrasse zangado ou furioso. Para ele, Diodoro era
rápido demais em suas tumultuosas mudanças de disposição. Suspeitava
que ele fosse instável, embora o honrasse pelos seus conhecimentos
e pelo seu amor da beleza de um poema ou de uma prosa elevada
pela Sua vasta e para Lucano - às vezes incrível erudição. Lucano
sabia que o proconsul gostava dele, não como um filho, mas também
como um sobrinho predileto, e lhe era grato a seu modo calmo, tentando
sempre retribuir aquele afeto com simpatia e respeito. Apesar
182 183
disso, e muito lhe pesava, não podia retribuir, e não retribuía
integralmente a afeição de Diodoro.
Fora atingido menos pelo pensamento do parto iminente de
Aurélia, com morte possível, do que pela volta súbita de sua dor por
Rúbria, numa casa que ainda tão recentemente conhecera a morte.
Para Lucano, não era tanto Aurélia que estava em perigo, e sim a
mãe de Rúbria.
Mas agora, ao olhar em silêncio para Diodoro, seu coração
apertou-se, e sentiu por ele um amor filial, e desejou tombar aos seus
joelhos, como um filho, e encostar a face em sua mão, cobrindo-a de
lágrimas. Soube, instantaneamente, que aquele romano de olhos
violentos, de nariz adunco, estava para suportar de novo a agonia do
desgosto, se não por uma esposa, então por um filho, e daria naquele
instante sua própria vida para poupar a Diodoro tal indizível tortura.
Keptah disse:
- Senhor, tenho notícias tristes a te dar. Deverei ver
imediatamente a Senhora Aurélia, mas ainda devo preparar-te. Preciso fazer o
parto imediatamente, se tua mulher tem de viver. - Calou-se, e seu
rosto moreno ficou lívido de emoção.
Diodoro tombou pesadamente numa cadeira. Tentou umedecer
os lábios grossos. Depois, teve um paroxismo de tosse seca, como se
estivesse sufocado. Não podia olhar para o médico, que se conservava
de pé a seu lado, como descarnada estátua da dor, em seu traje de
linho cinzento.
Keptah continuou, rapidamente:
- Não temos alternativa, senhor. Não te posso dizer: "Devo
salvar a senhora ou devo salvar a criança?" A não ser que o parto seja
provocado, tua esposa morrerá, não levando a termo o filho, e a
criança morrerá no corpo dela. Desejei preparar-te para o fato de ser a
criança prematura ao nascer, sendo mais provável que morra
imediatamente. Agora, devo ir.
Diodoro agarrou uma dobra da veste de Keptah, prendendoa
fortemente e em seu rosto havia o mais acovardado desespero.
- Salva Aurélia! suplicou ele, em voz abafada. Olhou
alucinadamente, quase cegamente, para o médico, e chegou o corpo
até a beirada da cadeira, tremendo violentamente em sua forte
estrutura.
- Que é um filho para mim, se minha esposa morrer? Que seria
uma dúzia de filhos? - As veias de sua testa fizeram-se roxas e salientes,
e em seu pescoço distinguia-se um forte latejar: - Tu a salvarás!
Tu precisas salvá-la!
Havia Uma súplica em sua voz hesitante, uma angústia crescente.
Lucano aproximou-se rapidamente dele, colocando a mão sobre
seu ombro largo. E disse, em voz clara e forte:
- Foste um pai para mim, senhor e, como filho, deixa que eu te
console. Dou-te minha força! Daria a minha vida por ti!
Keptah, que estava fazendo um movimento para partir, olhou por
sobre o ombro para Lucano, e sorriu, ligeira e estranhamente. Diodoro,
porém, apenas deixara o manto do médico escapar de sua mão
enfraquecida, e embora voltasse seu rosto lívido para Lucano, era
evidente que não o via nem o entendia.
- Vem disse Keptah. - Precisarei de teu auxílio, e não
podemos nos demorar mais nem um instante.
- Não posso ficar com ele?
- Não. Pensas que ele é mulher? Trata-se de um homem.
Keptah saiu rapidamente do aposento, o manto inflado, as
sandálias deslizando pelo piso de mármore. Lucano hesitou. Gotas de suor,
como grandes pedras úmidas, corriam pesadamente da testa de
Diodoro, e depois caíam, intactas, no peito de sua túnica, ou rolavam
por ele abaixo. Lucano correu para a mesa, deitou um pouco de vinho
num copo, e chegou-o aos lábios secos de Diodoro. Como alguém
tomado de estupefação, ou atordoado para além da resistência humana,
o tribuno engoliu obedientemente um gole lento após o outro.
Se eu ao menos pudesse rezar!, pensou Lucano. E nele houve um
terror frio, compreendendo, estranhamente, quanto Deus representa
para um homem em suas horas supremas, e tendo noção de sua própria
e horrível solidão. Mas não se reza para um Deus de aflição, que
nada se importava com as lutas humanas, antes as ordenava.
Diodoro sussurrou, roucamente:
- Se ela morrer, eu seguramente não poderei viver, pois lhe fui
infiel em meu coração, e ela é a mais amorosa e terna das esposas, a
que mais se sacrificou, a mais Querida.
Lucano viu que o homem abatido mal tinha noção de sua presença,
como se ele fosse uma sombra misteriosa que lhe estivesse dando
auxílio. Não pôde suportar aquele sussurro seco e rumorejante. E disse:
- Senhor, permite-me; tens sido o melhor dos maridos e... os
deuses não te abandonarão. Ela viverá, com certeza!
Os olhos de Diodoro não tinham lágrimas; tudo quanto podia
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fluir dele, fluía de sua testa. Lucano, porém, chorou, baixando a
cabeça sobre a do homem mais velho e encostando a face sobre seu
cabelo áspero e eriçado. Diodoro ouviu aquele som lamentoso, e
moveu-se vaga e inquietamente, vendo então Lucano pela primeira
vez.
- Ah! És tu? murmurou. - Tu me consolaste antes. Tu me
consolas agora, Lucano.
Lucano pousou o copo vazio e puxou, para mais perto do tribuno
tiritante, o braseiro onde o carvão ardia. Apanhou de sobre uma das
cadeiras um manto de lã e envolveu com ele aqueles ombros curvados,
pois o dia estava frio e o sol mostrava-se pálido, descolorido. Diodoro
permitiu que ele lhe prestasse aqueles pequenos serviços carinhosos,
e um leve estupor passou-lhe pelo rosto, logo substituído por uma
expressão vaga.
- Devo ir ajudar Keptah disse Lucano, sentindo de novo sua
própria e horrenda solidão. Sem olhar para trás correu para fora do
aposento, as lágrimas ainda rolando pelo rosto.
Keptah encontrara Aurélia entorpecida pela droga que ele lhe
ministrara. Arquejava, porém, em sua cama, e em seu rosto tumefato
um horrível tom azulado se espalhava. Erguera os joelhos SOD as
cobertas, e uma das mãoS apertava-se contra o ventre dolorido. Seus
músculos contraíram-se em todo o corpo, como se possuíssem vida
própria, desligada da mulher. Sua língua inchada surgia de entre os
lábios intumescidos e nos cantos deles havia espuma sanguinolenta.
Sua respiração estertorosa enchia o aposento. As enfermeiras deram ao
médico a notícia de que alguns momentos antes a senhora estivera
quieta e aparentemente adormecida.
Keptah tomou-lhe o pulso e, encostando a cabeça ao peito dela,
ouviu-lhe o coração. Estava acelerado, e dava saltos. Levantou a
cabeça, e Aurélia recomeçou a debater-se contra as almofadas que lhe
amparavam o corpo, na prevenção de que tombasse da cama durante
uma das convulsões. Enquanto seu corpo em sofrimento retorCia-se
ela se ia fazendo cada vez mais consciente. Disse a Keptah:
- Deves salvar a criança estou muito doente. Talvez
morra, isso não tem importância. Salva a criança para meu querido
esposo.
Levantou-se a meio na cama, e agarrou o braço magro dele,
enquanto suas tranças escuras e úmidas tombavam, emaranhadas,
sobre seus ombros e seios.
Keptah estendeu a mão para uma bandeja que uma das enfermeiras
lhe apresentava, e deitou um pouco de um líquido dourado, viscoso
e brilhante, num copinho. A arquejante Aurélia olhou para aquilo
com ar de dúvida.
- Isso salvará meu filho? suplicou ela, em tom lastimoso.
O médico nutria por ela demasiada reverência para mentir-lhe.
- Senhora... e se Diodoro desejasse que tu sobrevivesses e a
criança morresse?
Seus lábios intumescidos e raiados de sangue sorriram tristemente:
- A criança será um conforto para ele. E terá outro consolo, e eu
abençôo esse consolo e, se me for permitido, ao atravessar o Estígio*
rogarei pela felicidade dele. Porque ele foi para mim mais do que pai,
irmão, irmã e filho.
Keptah curvou-se reverentemente diante dela, como diante de
uma deusa, e levou-lhe o copo aos lábios. Aurélia bebeu, em goles
que lhe custavam dores, pois tinha a garganta contraída. Então, por
sobre o ombro de Keptah ela viu alguém, e seus olhos embaçados
fizeram-se imediatamente atentos, profundamente amorosos e
suplicantes. Keptah seguiu-lhe o longo olhar e viu que Iris tinha entrado
no aposento, envolvida em lã branca que a protegia do frio; suas tranças
douradas tombavam quase até os joelhos.
A grega aproximou-se imediatamente de Aurélia e acariciou-lhe o
cabelo escuro com delicada solicitude, os olhos azuis estudando o
rosto cianosado e tenso da doente. Aurélia esqueceu todos os demais
que estavam no quarto, menos a sua amiga. Levantou a mão trêmula e
tomou a de Iris, e entre as duas mulheres passou uma permuta, eloqüente
e Silenciosa.
Então, Aurélia tombou de novo sobre seus travesseiros e olhou
para Keptah:
- Contam que retiraram Júlio César do ventre cortado de sua
mãe para que ele vivesse. Podes fazer isso comigo? Que é a minha
vida, comparada com a felicidade de meu marido?
- O que te dei a beber, senhora, apressará o trabalho de
parto disse Keptah, evitando-lhe os olhos, - O resultado só a Deus
pertence.
- Mas a criança está longe do tempo gemeu a infeliz senhora.
___
* Rio do Inferno, ao qual se dava a volta sete vezes. Suas águas
tornavam invulnerável quem nelas mergulhasse e quando os deuses juravam
por ele tal juramento tornava-se irrevogàvel. (N. do T.)
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- Não muito longe, um pouco menos de sete semanas falou
o médico. - Vi outras mais novas sobreviverem.
Lucano entrou no aposento e ficou ao lado do médico, o rosto
marcado com a evidência de suas lágrimas. Ele e sua mãe enchiam o
quarto com a beleza e a solenidade de sua estatura, e mesmo Keptah
alto e nobre, ficava diminuído. O vento tardio e frio do inverno fazia
voar as cortinas da janela. Vasilhas de bronze, cobertas, cheias de
brasas ardentes, foram colocadas em torno do corpo convulsionado ,de
Aurélia. A mente da senhora aclarava-se, com a chegada da morte. Iris
ajoelhou-se ao lado dela, pois Aurélia não lhe largava a mão. E disse à
liberta, em tom franco:
- Tudo quanto tenho eu te entrego. Não chores. Tens sido
minha amiga, e amigos valem mais do que nascimentos, mais do que
dinheiro, mais do que posição, mais, mesmo, do que a própria Roma.
Peço-te o que darias em qualquer circunstância: devotamento e amor,
de todo o teu coração.
Lucano, em pé ao lado de Keptah que esperava, ficou espantado
e confuso. Que dizia Aurélia à sua mãe? Que significava aquela
enigmática conversa, e por que sua mãe chorava silenciosamente, sem fazer
perguntas? Então, esqueceu tudo, no seu apaixonado cuidado por
Aurélia, pois o rosto da senhora sofrera modificações, uma atenção
como se ela estivesse ouvindo algo que só poderia ouvir com sua alma.
Seu corpo inchado tornou-se instantaneamente rígido, e ela atirou os
braços, erguendo-se em arco, em súbita convulsão. Seu pescoço
esticou-se, seus ombros ergueram-se, e um vasto e oculto gemido subiu
de sua garganta, como se viesse de algures, de um lugar
profundamente enraizado em sua carne. Os olhos tornaram-se protuberantes e a
língua debatia-se entre os lábios arroxeados.
- Olha disse Keptah em voz baixa, para Lucano. Afastou
para
o lado as cobertas e dobrou para trás a camisa de Aurélia. O ventre
azulado e alto, veiado como o mármore, palpitava com força, e
ondulações musculares corriam por ele. Então, pelo canal do nascimento,
veio
um rápido jato de sangue e água misturados, e o quarto encheu-se do
odor daquele líquido. Keptah introduziu os longos e finos dedos no
corpo da pobre senhora, e ela gemeu de novo, enquanto Íris tomava-lhe
ambas as mãos nas suas, apertando-as com força. Uma das enfermeiras
começou a soluçar, e as outras duas tombaram de joelhos, em oração
desorientada. Agora, Aurélia gemia continuamente, até que o som
pareceu parte do próprio aposento, parte do vento equinocial.
LucanO sabia o que fazer. Apertou com ambas as mãos o alto
ventre e acompanhou ritmicamente as ondulações dos músculos, em suas
tentativas para expulsar o filho da carne materna. Mas os músculos
estavam contraídos pelas convulsões de Aurélia e resistiam como ferro
sob as mãos do jovem. Ele fechou os olhos, e suas mãos e dedos sensíveis
cumpriram sua tarefa, dando sua força à ondulação muscular,
quando esta enfraquecia.
As convulsões produzidas pela doença de Aurélia estavam
impedindo o nascimento da criança, mas Keptah ainda hesitava diante da
coisa horrível que sabia, agora, ia ser obrigado a fazer. A criança
morreria, provavelmente, depois de nascida, ou nasceria morta. Ainda
assim, havia uma possibilidade de ser um parto viável, e mínima
possibilidade de que a criança sobrevivesse. Para que isso pudesse
acontecer, entretanto, o colo do útero tinha que ser alargado com o bisturi,
e a criança extraída à força. Aurélia, então, morreria de hemorragia
proveniente do órgão cortado. A cabeça da criança não podia ser
encontrada pelo fórceps nas condições presentes, pois não tinha ainda
descido para a entrada do útero, devido a sua prematuridade, e tambem
por causa das convulsões do corpo de Aurélia. Pior ainda -
Keptah agora verificava, depois de mais um exame -, a criança
apresentava-se em posição anormal, de nádegas. "Oh! meu Deus!", gemeu
Keptah, audivelmente.
A um sinal de Keptah, Lucano colocou o ouvido sobre o peito
levantado de Aurélia. Olhou alarmado para o médico, pois o coração
da senhora mostrava-se perceptivelmente mais fraco, embora o ritmo
se acelerasse. Além disso, a agonia de Aurélia estava se tornando maior
do que lhe era possível suportar. Quando Lucano viu a mão trêmula e
escura de Keptah estender-se para um bisturi curto e forte, mordeu os
lábios com força, e sentiu-se repleto de selvagem e impotente cólera.
Curvou-se então sobre Aurélia, e tomou-lhe o rosto gelado e
úmido nas mãos. Pela força de sua vontade atraiu para os seus os olhos
nublados dela, e começou a murmurar, hipnoticamente:
Não sentes dor e repetia, repetia. - A dor passou. Estás
com sono, cansada. A dor passou, tens muito sono, estás relaxando
teus músculos, a dor passou, dormirás agora...
Aurélia viu-lhe os olhos e ouviu-lhe a voz. Os olhos do rapaz
brilhavam para ela como luas azuis nadando nas trevas. Encheram
todo o Universo, tornando-se a cada momento mais brilhantes. E tudo
era embalado por aquela voz: ela sentia-se flutuar num
188 189
mar sem luz, mas infinitamente consolador, sem dores. Uma sensação
beatífica apoderou-se da mulher, uma leveza, uma liberdade sem
angústia. Tudo estava explicado, tudo estava compreendido, tudo era
júbilo e paz. Ela não sentiu o bisturi recortar sua carne, nem o
cascatear de seu sangue. Não tinha corpo. Sorria, e o sorriso parecia ser
retribuído por alguém, que de profundidade muito mais longínqua vinha
ao seu encontro, uma profundidade impregnada de amor, ternura e
compaixão. "Mamãe", disse ela, com voz fraca, e contente. Depois,
ficou imóvel.
Lucano levantou a cabeça, olhou para Keptah, e sentiu-se repleto
inteiramente de fel.
- Morreu disse ele.
Mas Keptah puxava as pernas de uma criança de dentro do corpo
da mãe, pernas minúsculas, grotescamente cambaias, pequeninas como
as de uma boneca e azuladas. Agora, com rapidez cada vez maior, foi
aparecendo seu ventre mínimo, seu peito minúsculo, depois a cabeça
molhada de sangue, como se mostrava todo o seu corpo, onde os olhos
de boneca estavam fechados, a boca sem hálito.
A criança, então, ficou entre as pernas mortas da mãe, tão imóvel
quanto ela, num charco de seu sangue. Iris pôs a cabeça ao lado do
rosto imóvel de Aurélia, e seu choro encheu o aposento, no qual os
gemidos tinham cessado: foi como que a continuação do lastimoso
som.
Estava acabado; nenhuma das vidas fora salva. Keptah cobriu o
rosto com as mãos e ajoelhou-se aos pés da cama. Lucano endireitou o
corpo rigidamente. Todo ele parecia estourar de fria cólera,
abominação e ofensa. Duas criaturas haviam morrido sem razão alguma, e sem
qualquer bom propósito. Mais duas que eram dadas à morte pela mão
selvagem de Deus.
- Não! exclamou Lucano, com veemência. - Não!
Correu para os pés do leito e levantou nos braços a criança que
não respirava. Por um momento, a leveza dela apavorou-o. Pesava
menos do que o boneco que ele dera a Rúbria havia muitos anos.
Tinha carne fria e pálida, o rosto azulado, a cabeça baloiiçante. Lucano
abriu à força os lábios do menino, meteu-lhe o dedo na garganta,
arrancando dali um coalho de sangue e muco. Ninguém lhe prestava
atenção quando ele apanhou uma coberta quente e envolveu nela a
criança. Abriu de novo a boca incrivelmente pequena, segurou a
criança contra seu rosto, e forçou profundas expirações sobre sua
garganta e pulmões. Concentrou toda a sua atenção, todo o seu desejo, no
recém-nascido. Iris continuava a chorar alto, Keptah estava ajoelhado,
rezando pelas duas almas que tinham deixado seus corpos, e as
enfermeiras se lamentavam, as cabeças encostadas ao soalho.
- Vive! ordenou Lucano à criança, e grandes gotas de suor
porejavam-lhe da carne e encharcavam suas vestes. Seu hálito forte
entrava e saía na garganta da criança, como a própria vida, sombria e
propositadamente, que não quisesse ser negada. Seus dedos
delicados, mas firmes, rodeavam o tórax do bebê, comprimindo e
rapidamente soltando aquele peito, enquanto mantinha e continuava a
respirar profundamente dentro da garganta dele.
Íris puxou uma colcha sobre o rosto tranquilo e morto de Aurélia,
e seu choro apagou-se ao ver o leve e calmo sorriso nos lábios de sua
senhora. O retalho de céu cinzento escurecia como uma tempestade
que se aproximava; havia sons distantes de trovoada, e depois veio o
fulgir de um relâmpago. As enfermeiras escravas continuavam a
soluçar, a gemer e a rezar pelos mortos. Keptah sentou-se sobre os
calcanhares, a cabeça baixa. O vento e a trovoada misturavam-se às suas
vozes.
De repente Keptah teve um sobressalto e deu um pulo, pondo-se
de pé. Porque havia no quarto um som novo, frágil e delgado como o
grito de um filhote de pássaro. Keptah correu para Lucano e
exclamou, com temeroso respeito:
- O menino vive! Não está morto!
Mas Lucano não o via nem o ouvia. Seus dedos moviam-se com
firmeza e ele introduziu seu hálito e sua vontade e sua vida naquele
Corpo infinitesimal. A criança moveu-se contra o seu coração,
fragilmente, como uma avezinha que se debatesse. Seu rosto manchado de
Sangue perdeu seu livor, enrubesceu profundamente. A mão
incrivelmente pequenina atirou-se contra a coberta de lã.
- Ele vive! exclamou Keptah, dominado pela alegria. - Ele
respira! Foi um milagre de Deus!
Ninguém, a não ser Íris, viu Diodoro entrar no quarto,
cambaleando como um homem embriagado. Ela dirigiu-se para ele e tombou
de joelhos, abraçando -lhe as pernas e chorando em voz alta.
190 191
14
Lucano estava lendo o sétimo livro de Heródoto,* no qual ele
escrevera sobre Xerxes, que chorara quando da vitória. Então, o tio de Xerxes,
Artábano, viera consolá-lo, e dissera: "Majestade, primeiro
congratulai-vos convosco mesmo, depois chorai", ao que Xerxes respondeu: "Eu
fui tomado de piedade à lembrança da brevidade da vida humana,
quando compreendi que, de todas essas multidões, nem um só
indivíduo estará vivo daqui a cem anos.
Artábano replicara: "Na vida temos outras experiências mais
lastimáveis do que essa. Nossa existência é realmente breve, como dizeis,
e, ainda assim, não há um só indivíduo, neste exército como no
mundo, tão constitucionalmente feliz, que neste prazo, breve como é, não
se encontre, não uma vez, mas várias vezes, desejando estar morto e
não vivo."
"Sim." Lucano pôs de parte o livro e encostou a cabeça na mão,
olhando sem ver para o quente raio do sol de verão que tombava sobre
seu pé calçado de sandália. Estudava muito em casa, agora, fugindo da
sala de aula no momento em que as lições terminavam, para escapar
dos escravos, que persistiam em curvar-se diante dele, ou em tocar-lhe
as roupas ou em cair de joelhos à sua frente, implorando sua
interferência junto dos deuses. Horrorizava-o e causava-lhe repulsa a idéia
de que ele, tão írremediavelmente afastado de Deus, recebesse
súplicas para ser intermediário entre os sofredores e Ele. Evitava os olhos
de adoração e as mãos erguidas. Desejava gritar-lhes:
- Eu vos digo! Ele nos dá a vida só para que morramos na
escuridão. Dá-nos olhos para que possamos ver a fealdade da morte,
dá-nos amor para que possa destruir-nos! É melhor adorar Caronte2 do
que Ele!
Mas não podia dizer tais palavras, embora fervessem em seu
coração. Desde que salvara a xida do pequeno Prisco, os escravos
acreditavam, devotadamente, que ele fora tocado pela divindade. Não podia
mais ir ao hospital nem visitar um escravo doente em companhia de
___
* Historiador grego, chamado o Pai da História (484-425 a.C.).
2 Barqueiro do Inferno que atravessava em sua barca as almas dos mortos,
desde que lhe dessem um óbolo. Por isso havia o hábito de colocar uma
moeda na boca dos defuntos antes de amortalhá-los. (Notas do Tradutor.)
___
Keptah. Havia seis meses que aquilo se passava. Depressa iria para
Alexandria, onde seria apenas um dos estudantes anônimos, e tratado
com altaneria, o filho de um antigo escravo, o protegido de um romano
de bom coração. Neste meio tempo mantinha a porta fechada para
os que chegavam até ela, humildemente, e punha as mãos sobre os
ouvidos, à noite, para não ouvir sua mãe, que respondia com tristeza
às importunaÇõeS deles. Estudava desenhos mortos de anatomia com
Keptah, mas não ouvia os vivos. Quando Keptah o censurara, certa
vez, respondera, frenético:
- Devo dizer-lhes aquilo em que acredito? Que Deus é o seu
inimigo? Hei de dizer isso, com certeza, se me forçares a falar com
eles. E que lhes adiantará isso? Eu não sou um mentiroso!
- Tu te pareces ao arqueiro parta que, recuando, atira flechas
envenenadas por cima dos ombros disse Keptah. - Digu-te, Ele te
persegue e tu não Lhe escaparás. Teus dardos ferem-No, mas ainda
assim Ele te persegue por Seu amor, não por Seu ódio. - Apesar
disso, o médico compreendia com profunda piedade.
Uma abelha zumbiu através da janela sem cortinas, e pousou no
livro enrolado que estava junto da mão frouxa de Lucano. As asas
douradas fremiam, e ela, delicadamente, explorou o manuscrito. Suas
pernas delgadas perambularam nervosamente. De repente, errgueu vôo
e pousou na parte de trás do dedo do jovem, que lhe viu os grandes
olhos brilhantes e suspirou. Levantou-se devagarinho, caminhou
lentamente até a janela e deixou a pequenina criatura voar, separando-se
dele, seguindo-lhe o vôo brilhante até que ela desaparecesse. Havia
uma grande dor nele, e uma secura nos olhos. Oh! Os inocentes, que
viviam só para que pudessem morrer! Lucano descansou a testa no
peitoril da janela e sentiu uma tremenda compaixão e um tremendo
amor por tudo quanto vivia e era torturado, murchava, desfazia-se em
pó, desde uma abelha até um homem, de uma folha a uma criança, de
uma árvore a um boi, de uma estrela a uma aranha. Desejava abarcar a
vida em seus braços, acarinhá-la, murmurar-lhe amor e consolo, e,
mantendo-a assim, desafiar seu Destruidor.
Tornouse claramente consciente dos rumores da casa e do riso
de Uma criança. Era uma criança muito nova, a filha de uma escrava
que estava amamentando o pequeno Prisco. Íris era, agora, a guardiã
do filho de Diodoro; levara-o para casa poucas horas depois de seu
nascimento, trazendo com ela a ama-de-leite e mais uma escrava.
Fora Íris quem cuidara carinhosamente do pequeno Prisco, sem deixá-
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lo um só momento, durante os primeiros e precários meses de sua
vida. Fora Iris quem vira seu primeiro sorriso desdentado e ouvira
seu primeiro murmúrio afetuoso. Embalava-o ao colo e dormia ao
lado de sua caminha. O mais leve som por parte dele trazia-a
correndo para perto. Tecia os panos para suas roupas e costurava-as.
Embalava-lhe o berço, quando ele estava inquieto, e debruçava-se
sobre ele, cantarolando. Lavava-lhe o corpo minúsculo, e jamais se
separava dele.
Lucano ouvia agora a voz de sua mãe, e a resposta balbuciada da
criança. A cabeça dourada dela passou pelo lado de fora da janela de
Lucano, e a mulher levava Prisco nos braços, bem preso ao seu peito.
O rosto da criança espiava por cima do ombro dela, e seus olhos
encontraram os de Lucano. O jovem pestanejou, pois o pequeno rosto
era o de Rúbria, e ele não podia suportar aquilo. Prisco sorriu
alegremente, pois era uma alma alegre e afável para com todos. A despeito de
si próprio, Lucano correspondeu-lhe ao sorriso. O bebê esticou para
trás a cabecinha e guinchou alegremente, esfregando o nariz na orelha
de Iris. Ela ia levá-lo para a frescura do jardinzinho que havia atrás da
casa. Ali, iria sentar-se sob uma grande árvore, murmurando e
cantando até que o menino dormisse. O sol caminhava para o Ocidente, o ar
mostrava-se amplo, empapado de ouro, sussurrante de vida secreta. O
cheiro da terra, das flores, da relva misturava-Se com a luz morena, e
algures, uma escrava cantarolava, cuidando de suas tarefas. As palmas
chocavam-se e balouçavam e os pássaros voavam como flechas de uma
árvore para outra, as asas douradas pela luz do sol.
Lucano saiu para ojardim. Iris apanhara uma flor branca, e Prisco,
sentado nos joelhos da moça, examinava atentamente aquela flor. O
menino ainda era pequeno para a sua idade, mas rechonchudo,
animado e vivo, os olhos escuros irradiando a alegria de ser e de ver.
Estava nu, a não ser pela fralda branca. Seu peito miúdo era largo e
moreno, e caracóis de cabelos pretos rodeavam-lhe as orelhas, o
pescoço e a testa. Pequeno como era, possuía uma força quase incrível
para alguém tão novo, nascido prematuramente. Dava a impressão de
um guerreiro em mininatura, mas seu sorriso era o de Rúbria,
cativante e doce, com uma sugestão de travessura, e a expressão de seus olhos,
comovente e indagadora, era a dos olhos de Rúbria. Era por essa razão
que Lucano, habitualmente, evitava a criatura. Prisco viu-o antes
que Iris o visse, e guinchou de novo jubiloso, sacudindo a flor para ele,
como um cumprimento.
Íris sorriu para o filho, escondendo a constante ansiedade a seu
respeito.
- Vê disse ela. - Não é mesmo um arqueiro, ou um lutador,
ou um condutor de biga? Seus musculos são verdadeiras couraças.
A boca do menino ainda conservava vestígios do leite que mamara
recentemente, e ele saltava sobre os joelhos de Íris de tal maneira que
a fazia rir ao mesmo tempo em que o tentava conter. Lucano estendeu
um dedo, que o pequeno agarrou, examinou seriamente, e depois
meteu na boca. O moço sorriu. Sentia-se como um pai para aquele
menino. Depois, franziu as sobrancelhas:
- Acho estranho que Diodoro se demore tanto em Roma. Seria
de esperar que tivesse pensamentos para seu filho. - E,
imediatamente, exclamou: - Ui! Ele tem dentes!
- Quatro disse Iris, orgulhosa. - Não é maravilhoso? - As
faces dela mostravam-se puramente coloridas, e tão jovens como as de
uma menina. Depois de um momento, falou, abstraidamente: -
Diodoro? Sim, há quase seis meses... Desta vez ele não voltará enquanto
não obtiver permissão para deixar Antioquia. Foi o que me escreveu.
Imagino continuou ela, com um leve sorriso que está enfrentando,
severa e impacientemente, Carvílio Ulpiano, e perseguindo o Palatino.
Já não pode mais suportar a Síria, e está resolvido a recolher-se às suas
propriedades. Acredito que a esta altura já reduziu César a uma sombra,
pois é homem obstinado e tem considerável influência.
Afagava a cabeça ágil da criança, enquanto falava. Diodoro havia
levado as cinzas de sua filha e de sua esposa para Roma, a fim de
depositá-las no cemitério da família. Iris sabia que aquela viagem fora
dolorosa, sem consolo. Diodoro, após a morte de Aurélia, tornara-se
silencioso, a seguir partira para Roma, de onde só muitas semanas
depois escrevera laconicamente, para falar de seus planos e perguntar
do filho. Houvera indiferença naquela pergunta. Vira Prisco apenas
poucas vezes e não demonstrara qualquer espécie de emoção. Mas sua
última carta era mais animada. Convencera-se de que a Síria se fazia
maléfica no que se referia à sua família. Quando voltasse, seria apenas
para reunir seu pessoal doméstico, esclarecer seu sucessor. Depois,
deixaria para sempre aquela terra "maligna". Seu filho seria educado
na terra dos pais, tendo a visão das Sete Colinas, e sob a proteção de
seus deuses.
Escrevera apenas uma linha que se relacionava com Íris: "Espero
que tU, minha antiga companheira de brinquedos, minha irmã em
194 195
espírito, consintas em voltar comigo, para continuar a servir de mãe
para meu filho."
Iris suspirou. Esperava muito mais do que isso! Mas seu próprio
filho estaria longe, em Alexandria, seu filho tão impulsionado, tão
obcecado, tão incessantemente batido pela dor, tão sombrio e
desolado. Ah!, pensou ela, ele, porém, é jovem e há muito que estudar e que
aprender. Compreendia que Lucano se lhe parecia muito, em
temperamento e na aparência: paciente, dedicado, profundamente amoroso,
embora se mostrasse calmo nesse sentimento, reservado em palavras e
em ações, vivendo uma existência plena, embora oculta; disciplinado
e de certa forma austero consigo mesmo. Ainda não adquirira a
flexibilidade que a mãe apresentava agora, sua delicada resignação, sua
profunda fé de que Deus era bom e não malévolo.
Sempre se haviam comunicado, menos em palavras do que em
olhares eloqüentes, ligeiro sorriso, o mais leve dos gestos, a mínima
inclinação de cabeça. Houvera sempre o mais profundo
entendimento entre ambos, até a morte de Rúbria. Então, Lucano se afastara até
mesmo de sua mãe, e se mantivera fria e voluntariamente a distância.
Recusara-se a interessar-se pela criança que salvara, até aquele
momento, embora Íris carinhosamente percebesse que havia menos frieza
do que medo de mais uma vez se ver envolvido num amor pessoal,
fosse pelo que fosse, pois no amor, acreditava ele, havia sempre
presente o perigo e a ameaça de desastre.
Sentiu-se intensamente comovida quando Lucano de subito
acocorou-se, a fim de trazer o rosto ao nível do da criança. Prisco ficou
encantado. Estendeu a mão para o nariz de Lucano, o que fez o jovem
exclamar:
- Ele tem mãos de gladiador! E calcanhares de águia!
Prisco gritava de alegria. Largou o nariz de Lucano e agarrou O
caracol de cabelo que tombava sobre a testa do moço, puxando-o. Lucano
estava maravilhado com a força dele. Ali estava uma criança que havia
apenas seis meses jazera em seus braços como um frágil boneco, sem
fôlego, azulado, indefeso e inerte. De repente, Lucano sentiu-Se
inundado de orgulho e afeto. Estendeu os braços ao menino, e Prisco
prontamente atirou-se para eles. O calor daquele pequeno corpo robUStO
transpassou Lucano até dentro do coração e ele beijou os ombros nús e
morenos, os joelhos e cotovelos cheios de covinhas. Beijou os olhos tão
parecidos aos de Rúbria, e depois, muito carinhosamente, a boca, qUe
era uma réplica pequena da boca dajovem morta. As pálpebras de Lucano
arderam e sua garganta apertou-se. Oh! Não me deixes amar de novo!,
suplicou ele a uma deidade sem rosto.
Pôs nos braços de Iris a criança que protestava, levantou-se
abruptamente, e saiu dali. Iris Seguiu-o com um olhar longo e tristonho,
mas, ainda assim, sentia-se consolada.
Na manhã que se seguiu à noite em que Diodoro voltou para
Antióquia, o tribuno deu ordens para que Keptah viesse atendê-lo. O
médico entrou na biblioteca de seu senhor e seus olhos cavos
instantaneamente avaliaram as condições físicas e mentais do homem que ali
estava. O rosto de Diodoro parecia gasto e mais pálido, e suas feições
mostravam-se como se muitos anos se tivessem passado por elas. Apesar
disso, havia nele uma tranqüilidade sombria, e seu rosto adunco
adquirira maturidade mais firme. Era mais romano do que nunca, e
menos simples do que jamais fora.
- Estou bem de saúde disse, bruscamente, antes mesmo que
Keptah pudesse cumprimentá-lo. - Não é preciso que teus olhos de
médico me esquadrinhem. Chega. Dentro de quatro semanas partirei
para Roma, com todo o pessoal de minha casa. Tujá não és um escravo.
Sei que compraste vinhedos de olivais nestas redondezas, e que na
própria Roma tens alguns investimentos. Não tenho tempo a perder.
Não te posso dar ordens, sendo tu um liberto. Posso apenas pedir te.
Queres voltar para Roma comigo?
- E era necessário pedir-me isso, senhor?
Diodoro nada disse por um momento. Depois falou, com aquela
sua tranqüilidade nova:
- Uma coisa aprendi nestes sete meses de Roma: um homem
nunca pode confiar em outro homem. Se confia, é para seu próprio
prejuízo, e quem negar isto é um mentiroso ou um tolo. Quem foi o
filósofo que disse: "Sê amistoso para com todos, e com ninguém mantém
intimidades"? Não se trata, como alguns me disseram em Roma,
apenasdo fato de ser o homem um mal, é que ele nunca é o mesmo
homem, de hora para hora, de dia para dia. Minha pergunta não foi
um insulto para ti. Eu estava apenas me informando.
Keptah não respondeu. Estava cheio de compaixão por aquele
homem mais magro e menos veemente, cujos olhos altivos estavam
ainda enevoados e fixos pelo desgosto. O tribuno perdera determinada
animação, e sua vitalidade estava em suspenso. Ainda assim, sugeria
certa ferocidade e melancolia. Diodoro continuou:
196 197
- Pensei, quando fui para Roma, que iria associar-me aos meus
antigos camaradas, e que eles me recordariam afetuosamente. Vês bem
que tolo eu era. É verdade que me receberam com a afetação de muito
prazer, e isso porque se lembraram de que tenho muita influência
mesmo com aquele Tibério, que pelo menos recorda-se de que SOU
excelente soldado, se não se recorda de que sou um ser humano.
Pensei que em Roma fosse encontrar algum conforto... - Calou-se, e
uma sombra profunda passou-lhe pelo rosto. Levantou-se, deitou
vinho num copo e depois fez sinal a Keptah para que se servisse.
- Numa palavra, senhor disse Keptah, depois de ter
respeitosamente tomado um gole de seu vinho -, descobriste que os
homens não são diferentes, seja em Roma, e na Síria, na Bretanha, na
Gália, na Judéia, no Egito ou na Grécia.
Diodoro pousou lentamente seu copo, sem aquela sua maneira
habitual de bater com ele sobre a mesa. Havia desaparecido de sua
maneira e de sua voz a velha ênfase. E disse:
- É essa a verdade, sim. Mas eu estivera fora de Roma durante
muito tempo e tinha esquecido. A propósito disto conversarei mais
tarde contigo. - Começou a andar de cá para lá, pela biblioteca, num
passo pesado e lento. - Por que a inteligência e o intelecto são tão
raros? Por que devemos procurá-los como quem procura ouro?
- Os deuses disse Keptah, contornando a questão ainda
têm ciúmes de sua sabedoria. Ela é o fogo de Prometeu,* e quando
arde num homem os deuses o castigam, contudo seus semelhantes
ainda o castigam mais. Disseram, também, que nada se pode ensinar a
um homem; apenas se pode assisti-lo na procura do que há dentro
dele próprio. Se não tiver mente, todas as vossas exortações, todas as
vossas lições, todas as vossas tentativas para melhorar seu ambiente,
todos os vossos sacrifícios e vossos ideais não o afastarão de sua
animalidade. Em troca da presunção de que ele é dono de sua mente,
só porque tem forma humana, volta-se e dilacera quem assim o vê. E
eu acho que essa é uma retribuição justa.
Diodoro deu-lhe uma olhadela. Serviu-se de mais um copo de
vinho, bebendo até o fim. Depois olhou para o fundo do copo. E
disse, parecendo mais dirigir-se a ele próprio do que a Keptah:
___
* Gênio do fogo, que aparece na mitologia como o iniciador da primeira
civilização humana. Formou o homem com o barro e, para dar-lhe vida,
roubou o fogo do céu. Teve como punição ficar acorrentado no alto do
Cáucaso, onde um abutre lhe devorava continuamente o fígado. Hércules
libertou-o. (N. do T.)
___
- Preciso de uma mãe para meu filho.
O rosto de Keptah transformou-se, alarmado.
- Encontras-te em Roma tal senhora, senhor?
Pensou em Iris consternado, mas Diodoro era romano!
- Fiz uma coisa vil disse Diodoro, como se Keptah não
tivesse falado. Olhava agora para o médico, e sua fisionomia mostrava-se
severa. - Por que confio em ti, um homem que me pode trair amanhã?
Devo subornar-te para que te conserves quieto e não vás espalhar
isto em Roma? Posso contar que não dirás palavra alguma em
algum ouvido indigno, quando tiveres bebido, se jamais chegas a beber
assim? Garantes que não te tornarás meu inimigo, neste ano ou no
próximo? Acho melhor, afinal, para ti mesmo, que não voltes comigo
para Roma.
- Como quiseres, senhor disse Keptah, e havia alguma cólera
em sua voz.
Então, Diodoro pousou seu copo com algum de seu ardor
antigo.
- Afinal disse ele -, quem aceitaria a palavra de um antigo
escravo contra a de Diodoro?
Keptah cruzou, sobre o peito, os braços envolvidos no manto.
- Essa é a verdade disse ele. - Portanto, não precisas
confiar em mim, senhor. Não pedi confiança. Pela tua própria paz de
espírito, prefiro que não a concedas.
- Ainda assim, estaria mais seguro em Roma tendo-te como meu
médico. Ouvi contar coisas! Podem não ser verdadeiras, mas dizem
que Tibério se livrou de alguns homens intransigentes, inclusive dois
senadores, subornando seus médicos. Isso me parece mentira: Tibério
pode ser pessoa de coração frio, mas o veneno não é maneira de um
Soldado tratar com seus inimigos, mesmo que empregue informantes.
Todavia, eu soube de excelente fonte que alguns canalhas ricos e
depravados, que ocupavam altos cargos em Roma, subornaram os médicos
dos maridos das mulheres que cobiçaram, ou usavam do mesmo
expediente para auferir qualquer vantagem política. - Sorriu para
Keptah, de maneira estranha - Quando o escândalo vinha a público
os subornadores não eram punidos. Os médicos, habitualmente, eram
encOntrados no Tibre, algum tempo depois.
Keptah não pôde evitar um largo sorriso:
- O Tibre não me atrai como cemitério, senhor.
Diodoro deu um leve sorriso, sem alegria.
198 199
- Que as Fúrias te levem! Não entendeste. Preciso de um
amigo. E tenho de recorrer a um liberto para isso! Não é irônico?
- E não encontraste amigos entre teus companheiros de armas
e em tua própria categoria, senhor? perguntou Keptah.
- Não. - Diodoro sentou-se e ficou a olhar para O riSO de
mármore entre suas pernas. - Vejo que respondeste a minha
pergunta. Todavia, a fim de garantir tua presença em Roma com o pessoal de
minha casa e manter-te fiel, triplicarei teu estipêndio e dar-te-ei uma
casa em meus domínios.
- Não disse Keptah. - Não estou à venda, senhor. - Sua
voz levantara-se, em dura frialdade. - Roma não te fez feliz, é o que
vejo. Suplico-te que recordes de que confiaste implicitamente em mim
antes que para cá voltasses, e que teu pai também confiava em mim,
sentia-se profundamente ligado a mim, e que a Senhora Aurélia fazia-me
confidências, e que jamais te desapontei, nem uma só vez na vida,
a não ser quando pensei, apenas com espírito misericordioso, que a
verdade te iria ferir. Posso ir-me, senhor?
- Não disse Diodoro. Olhava ainda para o chão. Não era
apropriado para um romano desculpar-se diante de um homem de
condição inferior à dele, mas Diodoro disse:
- Sinto muito.
Keptah ficou estupefato, e comovido. Tomou uma das mãos de
Diodoro e beijou-a.
- Senhor, sabes quão profundamente eu venero Deus. Se te
sentires consolado por confiar em mim, embora, por ti mesmo, eu
prefiro que não o faças, eu juro, pelo Seu Muito Sagrado Nome, que
jamais te trairei, que esquecerei instantaneamente a tua confidência.
Diodoro ficou a escutá-lo, sombriamente.
- Então devo contar-te a coisa vil que fiz, a coisa mentirosa, em
Roma, não só porque és meu amigo, mas também porque estou
confuso, e porque... - Parou e respirou profundamente, continuando
depois: - Há um senador que é amigo de Carvílio Ulpiano, e só sua
fortuna, sua impiedade e fama de vingativo cruel mantêm seu segredo
conhecido apenas de Carvílio. Discuti certo assunto com meu
cunhado, e então ele partilhou comigo o segredo do senador. Suspeito, a
propósito, de que o senador tem certa ascendência sobre Carvílio, e
que o arruinaria se este não se conservasse silencioso. Vê bem como eu
me tornei desconfiado!
Keptah esperava, e Diodoro, lentamente, foi corando.
Fiz o que o senador fez. Ele amava uma escrava de seu pessoal
doméstico, em uma de suas propriedades da Sicília. Libertou-a. Sua
esposa era estéril, e ele divorciou-se. Então, recorreu a um genealogista,
que inventou excelente linhagem para a liberta, com quem se casou
com honra. E ela é uma das grandes prediletas de Roma, considerada
como digna matrona.
Keptah franziu a testa:
- Compreendo, senhor. Procuraste algum genealogista e ele
inventou uma distinta linhagem grega para Iris.
O homem sentia-se imensamente aliviado.
- Sim falou Diodoro, carrancudo.
Keptah sentiu o primeiro júbilo, em tantos meses. Depois, seu
rosto fez-se sombrio:
- Esqueceste, senhor, de que todo o pessoal de tua casa sabe
que Íris foi uma escrava? Como podes ter certeza que tantas pessoas
deixarão de tagarelar?
- Naquela linhagem disse Diodoro, ignorando o comentário
eu mandei escrever que Íris foi roubada de sua distinta família de
Cós, por negociantes de escravos que se sentiram atraídos por sua
beleza infantil, e que só ultimamente foi descoberto quem ela era
realmente. Seus pais morreram de desgosto e descobriu-se que haviam
deixado sua fortuna para a filha raptada, uma fortuna bastante respeitável.
Keptah pesou tudo aquilo, criticamente:
- Bem, senhor disse ele, finalmente. - Então não
precisavas me ter confessado que essa linhagem era inventada. Por que fizeste
isso?
Diodoro sacudiu lentamente a cabeça, de um lado para o outro.
- Era necessário que houvesse um homem para o qual eu não
pudesse mentir ou não quisesse mentir. É estranho que tivesse de ser tu!
Preferi, por alguma estranha perversão, que conhecesses a verdade.
- E assim, enquanto esperavas confiar em mim, ainda me
ameaçavas.
Diodoro levantou os olhos para ele, com alguma de sua antiga
irritação.
- Para homem sábio.. tu és bastante obtuso! - Levantou-se,
pôs-se a andar outra vez de cá para lá, dizendo: - Carvílio Ulpiano
também sabe a verdade. Mas não falará nisso. nem mesmo com Cordélia,
irmã de minha esposa morta. Por varias razões.
200 201
Parou de caminhar e falou, as costas voltadas para o médico, a voz
muito baixa:
- Amei Iris desde nossa infância. Ela ainda poderá ter
filhos. Não posso pensar em casamento com outra mulher, nem mesmo com
uma mulher de qualquer das maiores famílias de Roma. Não
conheces as mulheres romanas! Perderam toda a feminilidade. Metem-se em
negócios! Tornaram-se homens, dissolutos e fraudulentos. Andam
através de Roma em suas liteiras douradas, desacompanhadas, e podem
repetir-te quais são os últimos preços das ações com a facilidade dos
banqueiros! Muitas preferem não se casar, mas têm muitos amantes.
Eis a degeneração em que Roma tombou. Não sujarei minha boca
com a enumeração de seus hábitos abomináveis.
Cruzou apertadamente as mãos e continuou:
- Tenho tido muitos sonhos estranhos, nos quais a senhora
Aurélia vem ter comigo sorrindo, não como uma sombra, tal nos
ensinaram, mas em belo desabrochar da juventude, com amor em seus
olhos e consolo em suas mãos. Tem insistido para que me case com
Íris, a quem chamava "irmã". - Girou sobre os calcanhares para
enfrentar Keptah, desafiando-o com seus olhos salientes. - Achas
que sou supersticioso? Declararias, naquela tua forma oculta, como
freqüentemente fizeste, que os sonhos não passam da rcalização de
desejos secretos?
Keptah falou com seriedade:
- Creio, neste caso, que és supersticioso, que não estás tentando
racionalizar um profundo desejo pelo qual te atormentas, sentindo-te
culpado. Antes da Senhora Aurélia morrer, Iris veio vê-la. - E
contou a Diodoro o que Aurélia dissera à liberta, com tanta urgência e
com tanta esperança.
Enquanto Keptah falava, o rosto de Diodoro mudou e
empalideceu. Tombou na cadeira. Depois, curvou a cabeça entre as mãOS e
gemeu. Keptah ficou alarmado, Esperava alívio e júbilo, mas DiodOrO
parecia impressionado até quase à morte.
- Então disse ele, em voz lamentosa não enganei minha
pobre esposa! Ela sempre soube que eu lhe era infiel em meu coração,
Mas não soube quanto lutei contra aquilo, não soube quanto a amei.
O que ela deve ter suportado e quanta solidão e tristeza! Não era
bastante que sua filha tivesse morrido. Não era bastante que expirasse
ao dar-me um filho. Eu tinha de tomar-lhe o que é mais caro para
uma mulher. E ela sofreu em silêncio, com devotamento e
ternura.
- Estás errado, senhor! exclamou Keptah, aproximando-se
dele. - A Senhora Aurélia pode não ter sido uma mulher
erudita e sofisticada. Mas compreendia tudo quanto devia ser
compreendido. Era uma boa mulher.
Desejou, com certa selvageria e piedade, que Diodoro fosse menos
complicado, menos inteligente e menos difícil, e que desse menos
importância ao hábito de introspecção crítica. Inventaria culpas para
si próprio, mesmo que não houvesse cuipa alguma:
deixou tombar das faces, fatigado, as mãos que as cobriam.
Seu rosto estava avermelhado pela pressão dos dedos, e,
embora não tivesse chorado, seus olhos mostravam-se congestionados. E
disse serenamente:
- Está tudo muito bem. Mas agora sei que jamais poderei me
casar com Iris. Minha consciência não permitiria tal coisa. Nem a
levarei comigo para Roma. A vida terminou.
15
Diodoro mandou chamar Íris naquela tarde.
Em seu caminho, acompanhada por uma escrava e com a criança,
dirigiu-se a Aurélia, do fundo mesmo de seu coração: "Ele
chamou-me, senhora. Sabes que nós nos amamos, e que jamais te fomos
infiéis, pois também te amávamos. Posso ir ter com ele, agora, e
dizer-lhe: "Onde estiveres tu, Caio, estarei eu, Caia." Minha amiga mais
querida, nós te recordaremos com amor e com as mais preciosas
lembranças. Se formos abençoados com filhos, daremos teu nome à primeira
menina, ó tu, a mais bondosa das amigas."
A alegria era tão explosiva que o rosto bonito irradiava luz. Tinha
trançado os cabelos de ouro com fitas brancas, e sua estola fora
cuidadosamente drapeada, as pontas encanudadas ondulando sobre o alto
e alvo arqueado de seus pés. Ia radiante como uma jovem deusa, seu
pescoço rosado pelo sangue que ali pulsava rapidamente. Precisava
conter-se Para não correr em seu entusiasmo.
Entrou sozinha na biblioteca, e o êxtase azul de seus olhos foi
um relance de céu. Diodoro, de pé junto da mesa, sentiu a
202 203
dominadora agonia do desespero do amor ao vê-la, e pensou que
Afrodite, surgindo das águas, jamais apresentara tal aspecto de radiosa
e perfeita beleza ao mundo atônito. Não se lembrava inteiramente da
maravilha que eram os seus cabelos, da brancura de sua pele, da neve
modelada de seus braços, da iridescência de seu corpo. Mas não era
apenas a beleza que o estonteava; para ele, a mulher tinha certa
emanação de divindade, envolvida em luz, intocada pela poluição
humana. Usava sua maravilhosa beleza, tão simples e inocentemente quanto
um lírio, e com idêntica pureza.
Ficou em pé ao lado da mesa, vestido com sua túnica de soldado,
a armadura, a espada curta e larga metida no cinto. Seu elmo estava
sobre a mesa, ao lado dele, e era evidente que sua partida de Antioquia
fazia-se iminente. Havia nele um ar de pressa e brusquidão, um
militarismo frio, algo de alheamento. E foi aquele ar que fez Iris parar de
súbito à entrada da sala e impediu-a de tombar de joelhos diante dele,
para beijar-lhe a mão. Uma forte sensação de desgraça assaltou-a, e o
brilho desapareceu do rosto. Aquele homem cansado e mais magro,
aquele homem altaneiro e formidável, não era o Diodoro que ela
conhecera.
- Eu te saúdo, nobre senhor murmurou ela, e a sensação de
desgraça aprofundou-se. - Espero que tenhas tido agradável viagem.
- Entra, Íris disse ele, voltando para a mulher seu
perfil de águia. E ela viu seu constrangimento de férro. - Não te deterei por
muito tempo. Disseram-me que deste cuidados ternos e maternais a
meu filho, e que apenas o ouro não poderá pagar tais cuidados. Mas
isso é tudo quanto tenho para te oferecer.
Iris olhou para ele, com um sorriso pungente.
- Tu nada me deves, senhor disse ela, com voz fraca. - Foi
uma alegria servir de mãe a teu filho, que parece um jovem Marte, e é
muito brincalhão. - Calou-se e sua garganta e seu peito doíam
penosamente.
Observando, desalentada, o rosto dele, sentiu uma pontada maiS
forte de ansiedade, e esqueceu de si própria. Diodoro estaria doente?
Por que aquela expressão de reprimida angustia, a aspereza pálida dos
lábios, o amargo franzir da testa? E exclamou, com medo:
- Senhor, nem tudo corre bem para ti! Estiveste doente de
febre em Roma? - Adiantou-se para ele, então, o coração trêmulo de
amor e receio, e seus olhos azuis apegaram-se com força ao perfil do
homem, observando-o. Diodoro não olhou para ela. Tinha as mãos
sobre o elmo, os tendões salientes. Diodoro!, gritava a moça,
intimamente. Querido de minha alma! Não sabes que eu daria alegremente
minha vida por ti? Conta-me o que te perturba!
DiodOrO continuava a não olhar para ela. Não ousava fazê-lo. Sentia
a fragrância de sua carne, tépida, jovem e doce como uma flor. Sua
mão agarrou-Se ao elmo, num espasmo de aguda agonia.
E disse, como se ela não tivesse falado:
- Na última carta que te escrevi, Iris, perguntava-te se voltarias
comigo para Roma quando eu deixasse para sempre este lugar maligno,
a fim de tomar conta de meu filho. - Parou. A carne cinza-
castanho em volta de seus olhos desviados enrüeceu. - Agora, porém,
não peço isso, não posso pedir-te. Teu filho irá para Alexandria
dentro de três semanas. Desejarás estar junto dele. Como um presente, e
para demonstrar minha estima por ti, dou-te Cusa, que auxiliará os
estudos de Lucano em Alexandria, e Calíope, que agora é esposa dele,
como tua criada particular. Além disso, depositarei mil sestércios de
ouro em teu nome, de modo que possas viver confortavelmente em
uma casa pequena, próximo da universidade e a cada dezembro a
mesma quantia te será entregue. Compreendo, naturalmente, que é
uma pobre retribuição pelo que tu e teu filho fizestes por mim, mas é
tudo quanto tenho.
O terror, a derrota, o assombro apoderaram-se de Íris, que ficou a
olhar para Diodoro, incrédula.
- Estás me afastando de junto de ti, senhor... para sempre! -
exclamou, apertando o peito com as mãos. - Para sempre, Diodoro?
Sou assim tão odiosa a teus olhos? - As lágrimas começaram a descer
pelas faces alvas da moça.
- Estou apenas tentando ser justo disse Diodoro, em voz
abafada. - Pensei que preferias ficar junto de teu filho. Compreendo
que será duro para ti separar-te de Prisco, do qual tens sido a mãe, tal
Como a minha mãe o foi para ti. Mas a vida é toda uma separação. -
Ouvira o tormento na voz dela, o incrédulo tormento e a descrença. -
não deves pensar que sou ingrato.
Então voltou o rosto para ela, e esse rosto mudou.
- Achas que é fácil para mim? perguntou, asperamente. -
Apesar disso, tal é o meu desejo, pois não há outra alternativa.
- Então, de alguma forma imperdoável, eu te contrariei
terrivelmente balbuciou lris. Ele não mais me ama, pensou, com
profundo e dominador desespero e despedaçamento. Encontrou alguma dama
204 205
em Roma, com a qual se vai casar, e eu agora me faço inconveniente e
constrangedora para ele. Esquecerá até mesmo que eu existo.
O sofrimento debilitava-a, e ela desejava deitar-se no chão e
entrar em estado de insensibilidade piedosa, ou mesmo morrer. Uma
aridez, como que de poeira na boca de um moribundo, ressecara
seus lábios, sua língua, e o coração latejava-lhe com dor esmagadora.
Deixa que eu seja a mais humilde escrava de tua casa, implorava-lhe
ela, em silêncio. Deixa que eu nem sequer seja vista por ti. Mas não
me mandes para longe de ti, em nome de todos os deuses! Será
bastante estar sob o mesmo teto que te cobre, ter um relance de tua
presença, bem de longe, ouvir o eco de tua voz. Como poderei viver
de outra maneira?
- Íris disse ele, e depois parou. Não podia mudar de idéia.
Não ousava mais ver a jovem. Pensava em Aurélia, e parecia-lhe que a
morta olhava severamente para ele, exigindo aquele terrível sacrifício
para revelar sua culpa.
Colocou o elmo na cabeça. Não podia olhar de novo para Íris,
pois seus braços sentiam-se destituídos de poder, vazios, e ele sabia
que devia fugir daquele aposento, se se quisesse salvar.
- Deves querer preparar-te para a viagem com teu filho disse
ele, olhando cegamente para o chão. - Íris. Nunca mais nos veremos.
Dei ordem para que meu filho voltasse para esta casa amanhã pela
manhã com a sua ama. - Fez uma pausa, e concluiu: - Iris, eu te
desejo todas as bênçãos dos deuses e toda a felicidade.
Ela estendeu as mãos trêmulas para uma cadeira, sentou-se,
deixou que a cabeça caísse sobre o peito, os braços tombados. Depois
começou a falar, em voz baixa, porém muito clara:
- Senhor, nada posso receber de ti. O que fiz, se teve alguma
importância, foi por amor... por amor... de Aurélia e da criança.
Receber de ti o menor dos presentes seria insultá-los. E insultar-me.
Diodoro começou a caminhar em direção à porta. Foi tomado,
então, por tremenda desolação, pelo desgosto, e por um desejo
ardente. Parou, de costas para ela.
- Apesar disso falou, a voz velada sou um romano, e devo
de alguma forma expressar minha gratidão.
Iris ergueu a cabeça e olhou para ele como para um igual que
tivesse ofendido imperdoavelmente. Diodoro sentiu a força da mulher
e, involuntariamente, voltou-se sobre os calcanhares e encarOu-a. Íris
parecia uma nobre estátua, ali sentada, a estola branca tombando sobre
o peito e sobre as coxas perfeitas, e pousando sobre o alto arqueado
de seus pés. Estava pálida como o mármore. Envolviam-na dignidade
e orgulho, enquanto seus lábios esmaecidos curvaram-se,
escarnecedores.
- Diodoro disse ela, e sua voz era forte e colérica. - Há algo
que te preciso dizer. Não sou uma simples criada para ser despedida e
mandada embora. Mantive um segredo durante longo tempo, porque
esse era o desejo de tua mãe, a Senhora Antônia. Ela pensava que tal
coisa te ofenderia profundamente... como a um romano! Entretanto,
deu-me permissão para contar-te este segredo quando eu o julgasse
necessário, e agora acho que é necessário. Depois que teu pai morreu,
ela adotou-me legalmente, mas em segredo, como sua filha. O pretor
assim o registrou, em Roma, antes que voltasses de Jerusalém. E em
Roma há muito dinheiro a minha espera, que eu ainda não usei. Meu
marido nunca soube disso. Ficas a olhar para mim, como se eu estivesse
mentindo! Basta que visites o pretor de Roma!
Levantou-se, lenta e graciosamente, e era como uma estátua de
uma deusa, esculpida por Escopas.* Enchia a biblioteca com luz e
com um solene poder.
- Não imagines falou, amargamente que eu jamais divulgue
isso, seja diante de quem for, para tua humilhação! Não serei uma
intrusa a teu lado, em Roma, ou seja onde for, exigindo que me
reconheças como tua irmã. Jamais direi: "O nobre tribuno Diodoro é meu
irmão adotivo", pois conheço teu orgulho terrível! Tua mãe amava-me,
tão carinhosamente como a uma filha. Embora não o saibas, ela
não desejava que eu me casasse com o pobre Enéias. Mas eu te
conhecia, Diodoro! Sabia que me amavas, então, e sempre me havias amado.
Sabia também que, como romano, jamais pensaria em te casar comigo,
uma antiga escrava. A fim de terminar para sempre com o teu
desejo, tuas lutas Íntimas, casei-me com Enéias. Eu teria consentido,
antes daquela adoção, em ser tua amante, em ser a mais baixa, em
carregar lenha para teu banho. Mas passei a ser filha da tua mãe, e não
podia ofender-lhe a memória.
Diodoro voltou cambaleante para a mesa, retirou o elmo, depois
ficou a olhar para ela. Sentia-se abatido de vergonha. Umedeceu os
lábios, tentou falar, conservou-se silencioso. Tossiu, uma tosse seca, e
passou a mão pela testa.
___
* Escultor grego, nascido em Paros (420-350 a.C.). (N. do T.)
206 207
- Deixe-me falar disse ele, quase inaudivelmente e então
nos separaremos. - Continuou a fixar os olhos no elmo, enquanto
falava. - Sabes o que sofro? Sabes quanto te amo, e sempre te amei?
Sabes que apenas a tua lembrança sustentou-me enquanto levei as
cinzas de minha filha e de minha esposa para Roma? Sabes que nas
noites mais escuras eu tinha o brilho da visão de teu rosto? - Parou,
tornou a tossir: - Mas soube que Aurélia teve conhecimento da
minha paixão por ti. Penso no que ela deve ter sofrido por isso.
Tornei-me culpado diante dela. Devo penitenciar-me.
- Oh! exclamou ela, chorando outra vez, o rosto como o
sol sob a chuva. - Ó tu, louco romano, tu, querido, tu bem-amado
louco! Aurélia sabia, naturalmente. Soube desde o momento em
que entrou em tua casa. Nós te amávamos juntas, e ela sentia-se
contente, pois era uma senhora de senso e não um homem de cabeça
estúpida! Nem uma só vez sentiu-se perturbada. Eras o marido dela,
e eras homem de honra. Tua alma é tão pequena que ousas insultar
a grande e bondosa alma de Aurélia, minha amiga? Quando
começou a gerar teu filho teve o pressentimento da morte e confiou em
mim. Antes de morrer pediu-me que permanecesse a teu lado para
sempre, que te consolasse, que te desse felicidade. Ainda assim tu
agora a insultas!
Ëstava colérica, outra vez. Deu duas ou três passadas em
direção à porta. E Diodoro disse:
- Espera... meu amor. Tenho algo pior a dizer-te. Enquanto
estava em Roma inventei uma linhagem falsa para ti, a fim de poder
casar-me contigo e com a honra.
Ela parou e olhou para o homem com olhos muito abertos, depois
com ternura, a seguir com um sorriso, e logo após com um súbitO
espocar de risos divertidos. Correu para a porta e chamou a ama-de-
leite que esperava lá fora.
- Traze aqui a criança! exclamou. E quando o menino lhe
foi entregue ela o tomou nos braços e o pequenino pôs-se a exultar e a
esfregar o narizinho no rosto dela.
- Teu filho disse ela a Diodoro. - O filho que
negligenciaste e que mal querias ver, porque o acreditavas culpado da morte da
mãe. O menino querido, que se parece tanto contigo quanto com
Aurélia. Olha para ele! Não te conhece, romano orgulhoso.
Então, meteu a criança nos braços paternos e atirou a cabeça
para trás, rindo-se como uma menina. Prisco deixou escapar alguns gritinhOS
de contentamento e agarrou-se ao cabelo de Diodoro. O tribuno olhou
para Íris, e toda a sua alma liberta estava em seus olhos com todo o seu
amor.
- Não disse Íris, fazendo uma covinha no rosto rosado. - É
a ele que deves beijar primeiro!
208 209
SEGUNDA
PARTE
210 211
"Se um homem olhar com amorosa compaixão para seus
semelhantes sofredores, e tomado de amargura indagar
aos deuses: Por que afligis meus irmãos?, então ele é,
sem dúvida alguma, olhado por Deus mais ternamente
do que o homem que com Ele se congratula por ser
misericordioso e o deixar florescer com infelicidade, tendo só
palavras de adoração para oferecer Porque o ftrimeiro
reza por amor e piedade, atributos divinos, tão
próximos do coração de Deus, e o outro fala pelo egoísmo
complacente, um atributo animalesco, que não se
aproxima da luz envolvente do espírito de Deus."
212 213
16
Íris escreveu a seu filho Lucano:
"Já faz quase quatro anos que nos vimos pela última vez, meu
querido e bem-amado filho, e tu não te tens cansado de inventar
desqulpas para não vir a Roma que, confesso, não é tão bela quanto a
Síria. Apesar disso, vivemos tranqüilamente em nossas propriedades e
gozamos a paz da noite e o brilhante cristal das manhãs. É o que basta
para mim. Tua irmã, Aurélia, depressa fará três anos; é a luz das nossas
almas, com os cabelos de ouro e os olhos tão castanhos e doces como o
coração de uma margarida. Nada há que ela peça, em sua insistência
infantil, a Diodoro, seu pai, que ele não lhe dê imediatamente, apesar
dos meus protestos. Teu irmão, Prisco, é o companheiro de brinquedos
mais afetuoso de Aurélia, que o tiraniza, um estado de coisas que
ele suporta com o mais afável junilo. Seu novo irmão, Gaio Otávio,
nome do antigo companheiro de armas de teu pai, está quase com um
ano e é um menino muito sério, com meus olhos e a expressão grave
do pai. Raramente ri, e prefere engatinhar na grama e inspecionar
cada fio dela, cuidadosamente. Certamente é um filósofo. Se ao menos
meu filho Lucano estivesse conosco, seríamos os mais felizes dos
mortais. Não nos escaparás! Dentro de três meses não encontrarás
mais desculpas, pois terás deixado a Academia, já serás um médico!
"Durante o ano passado Diodoro tornou-se inquieto. Ele é homem
de ação, tanto quanto de pensamento. Durante muito tempo
contentou-se com a biblioteca, os olivais e palmeiras, o jardim, os
campos e a família. Filo, o filósofo judeu que é muito admirado e
amado em Roma, visitou-nos, e os dois conversaram incessantemente
até o amanhecer. Desde então, Diodoro começou a mostrar-se
214 215
medidativo e a visitar Roma pelo menos uma vez cada sete dias. E volta
com o gênio muito irascível, e nova sensação de ultraje. Digo-lhe que
não é possível um homem sozinho salvar o mundo ou endireitá-lo, e
isso só serve para irritá-lo ainda mais. Ouço-o amaldiçoando muitas
vezes a sua biblioteca, e uma vez atirou uma porção de livros de
encontro à parede e pôs-se a andar opressivamente de um lado para o
outro, durante horas. Mas comigo é delicado como uma pomba e o
mesmo é para nossos filhos. Talvez quando nos visitares e eu rezo
para que queiras permanecer conosco possas clarear sua expressão
sombria e consolá-lo."
A carta dela irradiava seu delicado amor e contentamento, e sua
solicitude pela família. Lucano podia sentir essas coisas, e movia-se,
agitado, no grande jardim próximo da principal colunata. O piso da
colunata era de mármore amarelo-escuro, mas a dupla fileira de
colunas jônicas brilhava como neve acanalada, subindo do chão para o
teto branco. Dois homens passeavam de um lado para o outro, ao pôr-
do-sol, um deles, estudante respeitoso, alto, e o outro um professor de
matemática, baixo, de rosto de harpia, Cláudio Vesálio. A luz dourada
iluminava-os enquanto andavam entre as colunas. As vezes, Cláudio
Vesálio parava para gesticular com veemência, e sua voz aguda e
feminina perturbava a paz dos pássaros e perturbava, mais especialmente,
Lucano. O professor não gostava de nenhum de seus alunos, e, em
particular, de Lucano, porqne o jovem era o melhor matemático da
universidade e, ainda assim, inflexível, insistia em ser médico. LucanO
sorriu de leve, lembrando-se disso. Cada professor acreditava ser a sua
arte a mais importante, e todas as demais de menor significância, com
exceção de José ben Gamliel, que acreditava ser Deus a única
Importância, e que todas as artes, ciências e conhecimentos caminhos
da Roma onipresente, levavam apenas a uma compreensão maior
de Deus e da Cidade de Deus. Mas josé ben Gamliel era judeu.
A universidade cobria oito acres de terra, uma ágora* mais ou
menos quadrangular em torno de imensos jardins tropicais e de todos OS
quatro lados havia colunatas como aquela que agora se achava em
frente de Lucano. Cada escola tinnha sua entrada particular através dos
jardins e colunatas, e havia escolas de democracia, filosofia, medicina,
matemática, arte, arquitetura, drama, ciência, poesia épica, didática e
___
* Nome dado às principais praças públicas das cidades da Grécia antiga,
e, por extensão, aos grandes espaços abertos entre edifícios. (N. do
T.)
___
gramática, línguas e filologia, leis, história, astronomia e líteratura.
Havia, também, uma escola de governo para jovens romanos
que aspiravam o serviço público, um museu guardado pelos vigilantes
professores egípcios, a mais famosa biblioteca do mundo, um odeum
ou salão de música, e para além da ágora, propriamente dita, um teatro
para jovens dramaturgos promissores e um panteão. Cada professor
imaginava que sua própria colunata abrigava o saber mais profundo
da casa e os estudantes mais estúpidos, indignos de serem
ensinados por tal mestre. Apenas José ben Gamliel possuía humildade,
e sua colunata de religião oriental era o único lugar pacífico, onde
não se ouviam vozes insolentes e imprecações contra os estudantes de
cabeça de burro, regularmente enviados para o Inferno e aconselhados
a se dedicarem ao ofício de oleiro, ou ainda a ofícios menores do
que este. Nada representava para os professores dizer, por exemplo, e
violentamente: Os idiotas dos meus alunos e eu nos parecemos ao
Laocoonte,* e quem me livrará daquelas serpentes!" Mas José ben
Garnliel dizia, delicadamente: "Contemplemos juntos a Deus, e tentetemos
descobrir Seus mais Sagrados desígnios."
Pensando naquele professor, agora, Lucano moveu-se, inquieto,
em seu banco de mármore, no centro dos jardins. Só ele não encontrava
paz na colunata de José ben Gamliel. Muitas vezes cogitava,
sombriamente, por que o professor o procurava com tanta freqüência
para conversar com ele nos jardins.
Os edifícios da escola, atrás das colunatas, escondiam o mar, mas
Lucano podia ouvir sua voz eternamente inquieta falando para a luz
dourada e para os céus. Por que Cláudio Vesálio, cuja voz aguda gania
continuamente para o estudante silencioso, não se ia dali para que os
jardins pudessem trazer a Lucano a única tranqüilidade que ele
conhecia? O grande jardim ali estava a rodeá-lo, musical em suas fontes,
brilhante em seus canteiros floridos, farfalhando suavemente nas
palmeiras, murmurando com o vento do mar, harmoniosamente vivo com os
chamados, as canções e o sonolento tagarelar dos pássaros. Os escravos
de rostos escuros que vinham buscar água nas fontes, carregando seus
jarros de terracota aos ombros, ou os escravos que alcançavam os cachos
dourados das tâmaras nas palmeiras e os colocavam em seus cestos, ou
os escravos que passavam o ancinho no caminho de terra vermelha entre
___
* Um dos personagens que aparecem na Ilíada, filho de Príamo e Hécuba,
sacerdote de Apolo, em Tróia, sufocado com seus filhos por duas
serpentes monstruosas que saem do mar. (N. do T.)
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os canteiros não perturbavam Lucano. Eram partes da flora e da fauna
naturais. Suas peles escuras contrastavam lindamente com as muitas e
altas estátuas dos deuses, deusas, eruditos e filósofos, que se
levantavam com alva e poderosa graça de entre as moitas e olhavam para os
jardins com dignidade, majestosamente. O perfume das rosas, dos lírios, dos
jasmins, e odores mais pungentes, erguiam-se como teias de fragrâncias
no ar da tarde que se ia fazendo noite. De súbito, um papagaio
guinchou ruidosamente, um escravo riu e respondeu ao grito da ave, que
saiu de um maciço de árvores para a luz, num bater de asas vermelho
verde e amarelo, vindo pousar no ombro do escravo. Comeu com
elegância um pedaço de tâmara, tomando ar de tolerante cortesia.
- Velhaco! disse o escravo, em egípcio.
O pássaro inclinou a cabeça para um lado, o olho inteligente e
alerta, cínico e brilhante, no ar dourado. Lucano sentiu vontade de
rir. Como se o papagaio tivesse percebido esse divertimento, soltou
um grito único, áspero, que pareceu uma blasfêmia. Voltou a cabeça e
dirigiu um olhar furibundo para o jovem, que estava sentado em seu
banco de mármore, depois elevou-se nos ares e foi praguejar num
ramo de árvore.
O escravo riu baixinho, e depois, humilde e disfarçadamente,
ficou a olhar para Lucano, que tinha sobre os joelhos as suas cartas.
Todos os professores, estudantes e escravos tinham consciência da
beleza e das maneiras majestosas do jovem grego, e ficavam secretamente
espantados com aquilo. O rosto claro, que nem mesmo o sol violento
conseguira escurecer, tinha traços firmes e lisos, como se esculpido em
pedra branca. Os olhos azuis, perfeitamente cerúleos, assemelhavam-se
a pedras preciosas, e, como pedras preciosas, eram frios. Seu cabelo
louro tombava-lhe da testa cor de neve em ondas brilhantes,
encaracolava atrás das orelhas. O pescoço era uma coluna, os ombros perfeitos
sob a túnica de cor suave. Era extraordinário nas corridas, no arremesso
do disco, na luta, no boxe, no salto, no arremesso da lança, na
natação, no mergulho e nos demais esportes estudantis.
- Mente sã só pode existir num corpo são, e um corpo são não
pode existir sem mente sã dizia o mestre da escola.
Lucano apanhou a carta de Diodoro, que chegara de Roma
naquela manhã. Gostava das cartas do tribuno; elas podiam ser violentas,
picantes, cheias de blasfêmias coléricas, mas possuíam vitalidade e
uma cólera saudável, bem como alguma eloqüência. Desabafava suas
iras com seu enteado, percebendo que ali estava um ouvido receptivo.
"Cumprimentos a meu filho Lucano", começava a carta, com
formalidade.
Depois continuava:
"Tudo está bem em casa. Tua mãe goza o calor entre seus filhos,
como Níobe,* e é uma coisa bela de se ver. Ao contrário de Níobe, ela
é infinitamente sensata e um consolo constante para meu coração, que
freqüentemente se inflama, depois de visitas à Cidade. Cada ano ela
parece mais encantadora, como se a própria Vênus a tivesse tocado
com o dom dajuventude e da beleza imortais. Que fiz eu para merecer
tal esposa e tão adoráveis filhos? Sinto que devo esforçar-me para ser
digno de tanta felicidade. Daí minhas freqüentes visitas a Roma e
meus coléricos debates com os senadores de sandálias vermelhas, que
observam, complacentes, como nosso mundo vai rapidamente
descendo para o inferno. Por causa das minhas relações, e através dos
bons ofícios de Carvílio Ulpiano, que cada dia se torna mais gordo de
corpo e mais magro de rosto, tenho, de vez em quando, licença para
dirigir-me ao Senado. Eles ouvem sem tédio, eu te garanto!
"Preferem a serenidade ao pensamento, empoladas conversas sobre
seus Interesses particulares às sérias reflexões sobre o estado de nosso
pai. A maior parte deles é de generais de gabinete, gostando de sentar-se
em seus terraços, pelas tardes, com um copo de vinho nas mãos,
discutindo com os amigos as campanhas de algum militar em evidência,
fazendo comentários eruditos de desaprovacão. Preparam diagramas de
campanhas. Que sabem eles da vida em tendas, nos lugares selvagens,
das longas e ardentes caminhadas, das lutas com os bárbaros? São
legisladores, dizem. Pois que se contentem com suas leis e deixem os
soldados em paz! Mas logo que há qualquer arruaça entre o populacho são os
senadores os primeiros que falam de pretorianos e de legiões. e com
Vozes acovardadas. Os prefeitos e a polícia da cidade não são suficientes
para esses patifes. Precisam que os militares os protejam! Roma, às vezes,
parece um acampamento armado.
"Enquanto não se dirigem a seus companheiros senadores a
proPósito dos banhos públicos, de mais circos e de mais habitações
gratuitas para a multidão heterogênea de Roma, e mais comida gratuita
Para a turma que detesta o trabalho, vigiam furtivamente negócios tais
___
* Níobe, rainha de Tebas, que por ter ousado zombar de Latona, mãe de
Apolo e Diana, de seus sete Filhos e sete Filhas, viu-os todos mortos
pela cólera da deusa. Transformada em rochedo, pelo sofrimento, dele
correm constantemente as lágrimas daquela que, em literatura, simboliza
a dor maternal. (N. do T.)
218 219
como a confecção de uniformes e de armas para os militares, fábricas
de cobertores e de tecidos, ou ajudam a dar subsídios a parentes que
estão em tais negócios, quando não atiram os contratos do governo em
sua direção. Não conheço um senador cujas mãos não estejam
enlameadas de suborno ou mesmo que não tenha recebido um suborno.
O senado tornou-se uma organização fechada de canalhas que
saqueiam o Tesouro em nome do bem-estar geral, e que têm como
séquito uma populaça composta de barrigas esfaimadas e ladrões
ávidos, a que dão o nome de clientes, e pelos quais exibem a mais
Comovedora solicitude. O destino de Roma, o destino dos contribuintes
desesperados, nada é para eles. Que a dívida pública cresça! Que a
classe média seja esmagada até morrer sob taxas, extorsões e
explorações! Por que os deuses criaram a classe média senão para servir de
bois de tiro para as bigas de senadores seguidos das multidões de
mendigos vorazes? Um homem honesto, um homem que trabalha e
honra a cidade de Roma e a Constituição da República não é apenas
um tolo. É um indivíduo suspeito. Manda-se-lhe o coletor de taxas
para novos assaltos! Provavelmente, ele está pagando sua "justa" cota
de impostos.
"Os militares estão constantemente reclamando novas verbas para
a "defesa" de Roma, e contra o "inimigo". Discutir tais verbas é
despertar o grito da denúncia. Eu sou um traidor, Eu sou um
indiferente no
que se refere ao fortalecimento de Roma? Quero ver Roma em
condições fracas diante de bárbaros circundantes? Não compreendo que
precisamos manter fortes nossos aliados, com donativos do Tesouro,
com armas e com a presença das nossas legiões? Isso para não falar na
assistência dos nossos especialistas em assuntos militares e políticos,
cujas longas e dispendiosas viagens em suas capacidades de aconselhar
são financiadas pelo Tesouro? Não é de estranhar que Carvílio Ulpiano,
que é egiptologista, um amante da arte egípcia, chegasse a convencer O
Senado de que era absolutamente necessário que lhe fosse financiado
o "estudo das defesas presentes do Egito" e de que sua presença era
exigida no Cairo, para tal "estudo". Foi, naturalmente, acompanhado
de pretorianos e todo um séquito de bonitas senhoras e escravos, atores,
gladiadores, tudo pago com os fundos do Tesouro. Voltou, e
dirigiu-se ao Senado, dando-lhe as tranqüilizadoras notícias de que O
Egito era leal no que se referia à Paz Romana, embora o procônsul
do Cairo pudesse ter mandado tais notícias, a pedido, pelo custo de um
só mensageiro ou de um navio de carreira regular."
Lucano sorriu, involuntariamente, mas o sorriso tinha um toque
de fatigada melancolia. A carta que tinha nas mãos parecia vibrar com
a cólera apaixonada do tribuno. Lucano Continuou a leitura:
"Há dez dias, porém, fui apresentado como convidado ao
Senado. Um senador declarou triste, mas nobremente, que a liderança do
mundo fora colocada sobre os ombros de Roma: "Não fomos nós que
escolhemos isso", disse aquele mentiroso hipócrita, articulando
heroicamente as suas palavras, "mas houve a escolha do fado, ou dos
deuses, ou das misteriosas forças da História." Dava assim a impressão de
que a História, de uma certa maneira mítica, existe acima e à parte da
humanidade que faz a História! "Devemos recusar de novo esse jugo?",
perguntava o vomitador de mentiras. "Devemos recusar de novo
receber o que nos foi decretado porque possuímos o gênio do governo, o
gênio da invenção, o gênio do trabalho produtivo? Não, Por Júpiter,
não! Embora a carga seja onerosa, nós a aceitamos por amor da
humanidade!"
"Não me pude conter. Levantei-me de meu lugar de convidado,
sentado que estava ao lado de Carvílio Ulpiano, e ali fiquei de pé, os
polegares metidos do cinturão, deixando que eles vissem minha
couraça e minha espada. Como aqueles homens efeminados gostam da
exibição do militarismo! Tomaram, imediatamente, expressões sérias,
embora me tenham visto bastantes vezes, Marte o sabe! "Que fale o
tribuno!", alguns deles gritaram, como se pudessem impedir o filho de
Prisco de falar!
"Levantei meu punho e o sacudi em direção de suas faces mendazes.
"E quem", perguntei, "declarou que Roma recebeu a liderança do
mundo? Os gregos civilizados, que nos detestam, e riem de nós e de
nossas sanguinolentas pretensões? Os egípcios, que eram uma velha
dinastia quando Remo e Rômulo ainda estavam sendo amamentados
pela loba? Os judeus, que tinham seu sábio código de lei quando
Roma não possuía outro código senão sua curta espada? Os bárbaros
da Bretanha, que põem abaixo nossas fortificações assim que terminamos
de levantá-las? Os gauleses, os godos, os antigos etruscos, os
germanos, os milhões dos que ainda não foram infelicitados pelo
militarismo romano? Os milhões que não sabem nosso nome ou, se o
sabem, cospem ao ouvi-lo? Quem nos deu a liderança, se não nós
próprios, usando nossa força, nossa habilidade e nossas ameaças,
nossa urgência de despojar e roubar, nossa avidez de poderio? Somos
como jovens, rudes, mas corruptos fanfarrões, contando basófia entre
220 221
anciãos, ou entre criancinhas que no futuro estarão crescidas,
alimentadas pelo leite materno.""
As sobrancelhas louras de Lucano juntaram-se, em súbita
ansiedade. Seu coração palpitou, tomado de vago receio. Respeitava
Diodoro por aquelas palavras valentes e honestas, aquelas palavras
atiradas aos rostos de mentirosos, políticos e outros canalhas
intumescidos de ambição. Ainda assim, tinha medo. Tentava consolar-se com
o pensamento de que Tibério César também era um soldado, e
respeitava Diodoro, sendo à sua moda um homem de honra. A carta de
Diodoro continuava:
"Eu esperava que me fizessem calar aos gritos. Mas aqueles que
estavam mais perto de mim continuaram apenas sentados, em silêncio,
contemplando-me de cenhos carregados. Um ou dois, mais jovens do
que os outros, enrubesceram e ficaram a olhar para as próprias mãos.
Carvílio Ulpiano evitava meus olhos e retorcia-se em sua cadeira. É
possível que tenha um reto irritado, por isso eu o perdoei. Esperei,
mas ninguém me respondeu.
"Roma não é a minha Roma, a Roma dos meus antepassados. Os
Pais Fundadores estão esquecidos, ou são mencionados apenas
quando algum político deseja cometer infâmia ainda maior. Os dias de
fortaleza, de fé, de caráter foram para sempre, como os dias da coragem
e da disciplina. Por que então eu luto? Porque é da natureza do
homem lutar contra a escravidão e a mentira. Se tombar, então tombo em
boa luta, embora irremediável.
"Chega, porém, destas coisas sombrias. Voltarás para tua família,
em futuro próximo. Receberemos nosso filho querido com regozijo e
afeto. Deus te abençoe, meu filho."
Os olhos de Lucano estavam secos e ardentes enquanto ele
enrolava a carta. Era sempre perigoso dizer a verdade. Num mundo
corrupto como este é coisa fatal. Se Deus chegasse a se preocupar comos
homens, pensou Lucano, amargamente, criaria muitos DiodorOS, OU
os protegeria quando eles falassem com suas vozes altas e claras.
Depois, com severidade, ordenou a si próprio: Que eu esqueça
minha família. Não devo amar embora ame! porque se me
deixar envolver profundamente, as conseqüências, como sempre, serão
trágicas e eu já tive bastante tragédia. Se eu pudesse rezar,
rezaria para que os senadores depressa fechassem suas portas com
cadeados, contra Diodoro, para sua própria querida e vociferante
segurança, e para segurança de minha mãe e de meus irmãos.
Lembrou a si mesmo que entrara na posse, ultimamente, e a
preço consideráVel, de um manuscrito traduzido, vindo de Catio,
contendo palavras sábias escritas, havia séculos, por um K'ung Fu'tze, ou
Confúcio,* como José ben Gamliel o chamara. O professorjudeu relutara
para separar-se dele, mas Diodoro, refletia Lucano, poderia ser
acalmado por aquelas palavras altaneiras, tão calmas, tão resignadas,
tão corteses, tão contemplativas. Também haveria de fazer um vigoroso
movimento aprobatório de cabeça, ao ler: "Lembrai-vos disto, meus
filhos, um governo opressivo é mais violento e mais de temer do que
um tigre."
O pequeno Cláudio Vesálio, de cara de harpia, viera parar bem
junto de Lucano, com seu desventurado aluno, e elevara a voz:
- A matemática, realmente, é uma arte apolínea esganiçava-se
ele. - Quem a detesta, ou a evita, ou vê nela uma ciência menor,
não passa de um macaco imprudente e obstinado!
Ele está se referindo a mim, pensou Lucano, um tanto divertido,
fingindo estar muito absorvido na carta. O gregozinho afetado sentia-se
tomado de irritação. Continuou a falar com o aluno, mas em
realidade dirigia-se a Lucano.
- Considero Pitágoras2 superior a qualquer Aristóteles ou
Hipócrates ou Júlio César! declarava ele. - Ou a qualquer Fídias3
ou a qualquer artista, ou seja a quem for. Toda a ciência e toda a arte
estão baseadas em princípios matemáticos definidos. Raciocínio! Tudo
é matemática! Digamos que desejemos provar que a soma dos
primeiros números ímpares N é N-2, isto é, um mais três mais cinco mais..
mais 2N... um igual a N-2. Não é verdade que N é igual a 2? Sim.
Pois um mais três é igual a quatro igual a 22. É também verdade que N
é igual a K. Nesse caso teríamos...
Lucano bocejou longamente e, vendo isso, Cláudio Vesálio se
agitou. O jovem grego levantou se calmamente e caminhou aW o portao
distante, na outra extremidade do jardim. Os dentes de Cláudio Vesálio
rangeram. Ali estava um indivíduo dotado para a arte apolínea e que
preferia meter a mão em cadáveres e ensangüentar suas vestes e respi-
___
* O mais célebre filósofo da China, fundador de um sistema de moral
muito elevada, o chamado Confucionismo (551-479 a.C.).
2 matemático grego do sexto século a.C., a quem se atribui uma escola á
qual se devem descobertas matemáticas, geométricas e astronômicas, a
tábua de multiplicar, o sistema decimal e o quadrado da hipotenusa.
3 O maior escultor da Grécia antiga, nascido em Atenas, 431 a.C. (Notas
do Tradutor)
222 223
rar cheiros odiosos em enfermarias e casas de tratamento! Ufa! Odiava
Lucano por esse desperdício todo. Que fosse para o inferno! Que
trouxesse garotos ao mundo, garotos que jamais deveriam ter nascido,
e abrisse barrigas para retirar pedras dos que não resistem ao seu
desejo ardente à mesa! Digno trabalho para um digno choramingas!
Aquele embusteiro não freqüentava os bordéis de Alexandria, como
qualquer jovem normal fazia, nem se mostrava demasiado respeitoso no
que se referia aos professores. Suas atitudes eram despropositadas.
Por acaso dava a honra de sua presença às tavernas, circos e teatros?
Não, realmente não. Valia demais para isso. Estava sempre cuidando
de proteger suas delicadas mãos durante os esportes mais rudes,
receoso de lesar o dedo que devia manter o bisturi.
- Ele é um jovem Hermes* disse o perseguido aluno, em tom
de admiração, seguindo Lucano com os olhos. Cláudio Vesálio,
furioso, guinchou como um porco e esbofeteou-lhe o rosto.
Lucano saiu dos jardins e da universidade. Mais adiante estavam os
vastos gramados verdes sobre os quais as palmeiras, ciprestes, mirtos e
salgueiros lançavam sombra esmeraldina naquela atmosfera brilhante
e dourada. Uma imobilidade suave estendia-se sobre a terra. O mar
em seu mistério insondável, estendia-se para o infinito. Lucano estava
só. Tudo era silêncio, exceto pelas vozes inquietas das águas que
corriam para o ocidente.
De súbito, o crepúsculo desceu e terra e mar modificaram-se. Lá
em cima, o céu tornou-se um arco côncavo e sombrio, de um azul
esverdeado, O mar escureceu para um violeta intenso e tranqüilo, seus
pontos mais distantes alvoroçando-se com o vermelhão do sol que
parecia pousar sobre as ondas. O ocidente ilimitado queimava em luz
cor de laranja e escarlate contra as nuvens negras que se deslocavam
sob a forma de galeões romanos, movendo-se em suas viagens
desCOnhecidas, as velas enfunadas por um vento não-sentido e não-terreno.
A imensidade do céu e do mar fazia minúscula a terra, crescia sobre
ela, rolava em torno dela, em tom de respeitoso temor, ainda assim
carregada de fatalidade e pressentimento para Lucano.
Involuntariamente, recordou-se de José ben Gamliel falando num
crepúsculo como aquele, aquela sua voz sonora, embora suave: "Os
Céus declaram a glória Dele!"
___
* Nome grego de Mercúrio. (N. do T)
___
Lucano sentou-se na relva. Sentiu de novo a terrível estranheza
entre ele e Deus. Ah! Mas não devemos permitir jamais que Deus
entre em nosso coração! Porque, com Ele, vêm a angústia, a dúvida, as
ordenS, as exortações, o medo e a tragédia. Uma vez dono da alma do
homem, Ele torna-se Rei, e não há mais ninguém além Dele.
Mas com Suas ordens e Suas leis Ele também traz amor e
deleite espiritual, e pão para a alma, e luz para as trevas disse José ben
Gamliel a Lucano, certo crepúsculo. - Sem Ele apenas temos o
mundo de desilusão, de fome, poeira e dor, e um vazio que o homem não
pode preencher. Temos a morte, sem o Mais Santo, abençoado seja Seu
Nome. Temos apenas lágrimas, que não podem ser consoladas. Todo o
ouro do mundo não pode comprar a Sua paz, que fica para além do
entendimento. Ensinei-te os salmos de Davi, o Rei: "O Senhor é
gracioso e cheio de compaixão, lento para encolerizar-se e de grande
misericórdia. O Senhor é reto em todos os Seus caminhos, e santo em todos os
Seus trabalhos... Não criticará sempre nem para semplc conservará Sua
cólera... Pois, assim como o céu é alto acima da terra, tão grande é a Sua
misericórdia em relação aos que O temem."
"Meu Lucano, eu O sinto junto de ti. Sinto-O tão próximo quanto
o respirar. Sua Mão está sobre ti. Não tenhas medo, meu filho. Volta-te
para Ele, em teu desgosto e pavor, pois sei que tais coisas te devoram."
- Ele nos angustia respondera Lucano, amargamente - Nada
quero Dele. Que explicação tens tu, Rabi, para o que diariamente
vejo nas enfermarias públicas e nas casas de tratamento? Por que deve
uma criança sofrer, e um homem ter a aflição da lepra? Como
chegaram eles a ofender a Deus para que Ele os castigue? O mundo é um
imenso gemido de agonia.
José voltara para seu aluno seus grandes olhos luminosos, que
irradiavam compaixão:
- Jó foi homem angustiado, chorou por ele próprio e pelos seus
semelhantes e censurou Deus pelo que lhe parecia a miséria sem
sentido da Terra. E Deus respondeu-lhe, reprovando-o: "Por acaso deste
tu ordens às manhãs, desde os teus dias, e levaste a aurora a conhecer
seU lugar... Entraste nas nascentes do mar?... Viste as portas da
sombra da morte? Podes fazer Mazarote surgir na sua época? Ou podes
guiar Arcturo* com seus filhos? Conheces os decretos do céu? Podes
determinar o domínio dele sobre a temtação... Podes enviar o relâmpago,
___
* Estrela dupla da constelação do Boiciro. (N. do T)
224 225
para que ele se aproxime de ti e diga: "Aqui estou"?... Quem fornece o
alimento ao corvo, quando seus filhotes gritam para Deus?.., O que
discute com o Todo-Poderoso deverá instruí-Lo? Que responda aquele
que reprova Deus.
José ben Gamliel estivera ali com ele, naquele mesmo lugar,
alto, majestoso e delgado até a transparência, vestido em trajes de cor
castanho-escura e carmesim, sua cabeça altaneira envolvida num tecido de
algodão vermelho. O rosto provido de barba, com sua pele aperolada,
nariz delicadamente aquilino e boca suave, brilhara ao crepúsculo
como alabastro. Lucano amava-o e venerava-o mais do que a qualquer
dos outros professores, e ele, entretanto, estava constantemente
exacerbando o próprio coração do jovem. Mesmo assim, procurava José e
não saberia dizer por quê, a não ser por lhe atirar friamente suas
perguntas e comentar cinicamente as respostas amorosas que recebia.
Naquele crepúsculo, Lucano arremessara palavras como se fossem
pedras sobre aquele rosto venerável e delicado.
- Se tivesses sofrido, professor, se tivesses suportado a perda de
alguém que te fosse mais querido do que a vida, se tivesses visto esse
ser amado morrer em aflição e sem esperança, a vitalidade deixando-lhe
o corpo como um vazamento invisível de água, sendo ela a mais
doce das mulheres, não falarias assim. Como Jó, cobririas de cinzas
tua cabeça e gritarias tua censura contra Deus! Falarias, então, da Sua
misericórdia?
O rosto de José modificou-se, ou talvez fosse apenas porque a
noite descera um pouco mais. Fora, sem dúvida, apenas o cair da noite
que atirara aquele aspecto de tragédia e cansaço sobre o rosto do
professor. José jamais falava a não ser tranqüilamente, como alguém que
tivesse jantado bem ou que vivesse confortavelmente, sem indagações
nem transtornos.
Sim, era apenas o crepúsculo que se fizera de súbito mais denso e
contorcera-lhe o rosto por um só momento. Depois, sorrira para
Lucano e partira, suas vestes flutuando em torno do corpo. Era fácil,
para os que não tinham ferimentos, considerar insignificantes os
ferimentos alheios, espantando-se de que os atingidos por eles se
queixassem!
Agora, Lucano estava ali, naquele crepúsculo, e olhava para O
mar que escurecia e para o reluzir distante do poente de um laranja
esCarlate. E sentiu novamente aquela horrorosa solidão, seu abandOnO, e O
infinito, o inconsolável desgosto, não apenas por Rúbria, que estava
perdida para ele pela eternidade, mas por todos quantos sofriam e
choravam em voz alta, sem conforto. Sua alma enrijeceu nele,
resistindo. Jamais Deus tornaria a falar-lhe, pois ele fechara os ouvidos! O
irrespondível não tivera resposta nem consolação.
Um vento frio, picante e imenso varreu-lhe a carne. Voltou-se
para se ir dali, desolado como sempre, para voltar à pequena casa
onde vivia com Cusa e a esposa deste, Calíope. Voltava para a lâmpada
acesa, para o jantar frugal e para seus estudos. Era um soldado em
bivaque, preparando-se para o dia próximo em que estaria adequadamente
armado a fim de encontrar o Deus da dor e vencê-Lo.
- Ora! disse Cusa à esposa Calíope, que estava diante dele com a
filha gorducha empoleirada em seu quadril. - Tu não passas de uma
mulher, e é sabido que as mulheres não possuem inteligência.
- Eu tive conhecimento bastante para te apanhar como marido,
embora não sejas, verdadeiramente, o mais belo dos homens existentes
respondeu Calíope, o rosto atrevido e bonito sorrindo petulantemente
- Fui eu quem te pediu a Aurélia, e fui eu quem sugeriu
àquela pobre e nobre dama que desejávamos ser libertos. Ela comunicou
a Diodoro os meus desejos, e assim aqui estamos, livres, embora
tenhamos nascido livres.
- Estáç enganada disse Cusa, mal-humorado, mas sorrindo à sua
filhinha, que arrulhava para ele. - Aurélia nos libertou, ou aquele
feroz descendente dos Quirites? Não. Quando fomos oferecidos por ele a
Lucano, nosso grego de olhos azuis disse que não nos aceitaria a não ser
que fôssemos primeiro libertos, e como o romano lhe tem um amor paternal
e adotou-o como filho, o pedido foi aceito, a fim de que Lucano não
ficasse sozinho em Alexandria. Teria o Tribuno pensado que sem a nossa
assistência Lucano se tornaria um sibarita? Ou um frequentador de
bordéis? Ou um jogador? Ora! Eu só desejaria que ele apreciasse tais
coisas um tantinho! É uma virgem vestal do sexo masculino. Não terá ele
sangue. nem órgãos, nem paixões, a não ser para o estudo da sua maldita
medicina?
- Poderás observar disse Calíope. sentando-se e pondo-se a
amamentar a filha que tu mesmo andas cheio de dúvidas, apesar de
teus cOmentários sobre a minha inteligência. Por que Lucano foge a
todos os prazeres nos jovens, por que é tão abstemio,* Alguem menos
___
* Nome antigo dado aos cidadãos romanos, depois de se unirem com os
sabinos. (N do T.)
226 227
caridoso poderia supor que ele fosse um devoto de Narciso* ou que se
desse a relações inomináveis com outros jovens. Mas ele não é uma
coisa nem outra. Algo está roendo as partes vitais de seu espírito, como
a raposa espartana. Mostra-se impaciente com todo mundo, suas
palavras são frias ou sombrias. Senta-se durante horas no terraço, em
silêncio, com seus livros abertos, ou com as mãos caídas sobre eles.
Quando interrompido, torna-se áspero e seco de palavras. Já o viste
sorrir com alguma freqüência? Somente nossa pequena Mara
consegue diverti-lo. Ontem visitei o templo de Serápis2 a fim de rezar por
ele. Não é que eu o ame, pois é impossível amar um jovem tão distante
que mais parece uma estátua do que um ser feito de carne. Mas estava
pensando em nós.
- Esqueces de que foi ele quem insistiu pela nossa liberdade?
Calíope ergueu os ombros.
- Liberdade é bom para a alma. Assim dizes tu, com
freqüência, e quem sou eu para contradizer-te? Ainda assim, nos aposentos
dos escravos, em casa de Diodoro, havia alegria. Sem dúvida, deve ser
tudo ainda mais alegre em Roma, ou nas propriedades do tribuno.
Quem vem a esta casa a não ser professores e filósofos fanfarrões? E
ainda assim aparecem sem que Lucano os convide. Lucano tem
amigos entre os estudantes? Há risos aqui, e conversas animadas sobre
moças e festas? Não! Nós não somos velhos, mas esta casa parece-se a
uma casa de ancião.
Cusa fez-lhe uma tremenda carranca, mas a moça sacudiu suas
tranças longas, de um tom castanho-claro, e resmungou:
- Hum!
- Quando voltarmos a Roma daqui a quatro semanas, Calíope,
verás de novo as tuas amigas, e terás tuas tagarelices e tuas alegrias.
Diodoro já garantiu uma situação para Lucano como funcionário
médico em Roma, com excelente salário. Ele poderá ter certo número de
clientes particulares e também se ocupará no sanatório. Poderemos
ter, então, nossos próprios e pequenos banquetes particulareS, cOm OS
nossos amigos. Não podemos culpar Lucano por não termos amizadeS
aqui; somos estrangeiros.
Calíope sorriu para ele, afetadamente:
___
* Figura mitológica que, apaixonando-se pela sua própria imagem,
refletida nas águas de uma fonte, precipitou-se nela. Foi transformado
na flor que tem o seu nome.
2 Deus egípcio que combinava os atributos de Osiris e Apis, grandemente
cultuado na Grécia e em Roma. (Notas do Tradutor.)
___
Com o generoso estipêndio que o tribuno te envia, e com tua
avareza, podemos bem comprar um pequeno horto e granja perto de
Roma. É neCesSariO que continuemos a ser parte do pessoal doméstico
de Diodoro e que sejas professor de seus filhos?
- Jamais ouviste falar em gratidão disse Cusa, severamente.
Deu uma palmada na própria coxa, e continuou: - Não. Se Diodoro
nos quiser, devemos permanecer em Roma, com Lucano, e tomar
conta do pessoal dele. Estou certo de que ali ele se casará.
- Ah! disse significativamente Calíope. - Digo-te que ele
jamais se casará. Por acaso aceitou os convites das famílias dos
estudantes aqui de Alexandria? Não. Vive, sozinho, naquele seu terrível
silêncio marmóreo. Pensa apenas em Rúbria, jamais a esqueceu. Ela
se tornou uma divindade para o rapaz. Em nome dela, despoja-se de
dinheiro, e isso não é coisa natural num grego; dá o que pode a cada
mendigo que vê. Não está sempre visitando as prisões para curar e
confortar criminosos e escravos? Aquele moço é um escândalo. Sou
mulher de intuição. Ele nada disse com respeito a essa situação de
fúncionário médico em Roma, e fica silencioso quando te referes a
isso. Receio que recuse...
- Não sejas néscia! trovejou Cusa, indignado. - Lucano
pode não ser natural ou caloroso, mas não é um imbecil. Para que tem
estudado?
- Por alguma terrível razão que só ele conhece disse Calíope.
Contente por ter conseguido deixar Cusa ansioso, a mulher
retirou-se com a filha para fazer a sesta. Cusa, entretanto, estava
perturbado demais para repousar. Saiu para o terraço alto, resmungando
consigo mesmo.
A casa não era pequena nem grande, e fora construída com pedra
branca, com um pórtico externo agradável, voltado para o mar,
apoiado em simples colunas. Atrás da casa ficava a quente e impetuosa
cidade de Alexandria, ainda mais poliglota do que Antioquia, maior e
mais ofuscante e muito mais corrupta. Fervia, rolava, gritava, urrava
em inúmeras línguas. Em uma torrente inquieta de faces negras,
morenas e brancas, e de trajes de outras terras. As ruas abafadas e
tortuoSas ferviam de caravanas, camelos, cavalos, bigas e burros. Os
chacais Uivavam a noite inteira, lá pela periferia da cidade. O prefeito nunca
Podia estar certo de quantos de seus homens voltariam à noite de seus
POStos; o assassínio era muito freqüente. Mesmos as legiões romanas
que ali estavam não poderiam manter sempre a ordem. Coletores de
228 229
impostos desapareciam quando não iam acompanhados de soldados
e seus corpos eram com freqüência encontrados no rio, quando a
maré os devolvia para o porto de esplêndido colorido. Aquele era,
para Cusa, um dos aspectos agradáveis da cidade que ardia como se
tivesse fogo interno dia e noite, de manhã e à tarde. Prostitutas de
todas as raças e de todas as cores freqüentavam as ruas estreitas e
violentas a qualquer hora. Toda casa de família de algum porte tinha sua
própria guarda armada nos portões, e mesmo assim o roubo era coisa
tão comum que pouca gente chegava a comentá-lo. Sobre a cidade,
uma poeira amarela e quente esvoaçava em nuvens tais que fazia
vermelhos os ares sufocantes, à noite, sob o luar, em cima das tochas
colocadas em soquetes ao longo dos muros. Turbas assaltavam-se
mutuamente no meio da noite, e havia sempre bandos de jovens judeus e
egípcios em conflitos, amaldiçoando-se e espancando-se com cacetes,
e usando navalhas brilhantes. A cada manhã, os becos ficavam cheios
de cadáveres, evidência de outros conflitos também entre outras raças.
Embora os romanos tivessem criado um sistema sanitário muito
adequado de esgotos, que iam desaguar no porto, o povo usava as ruas
como latrinas durante a noite, desprezando os sanitários públicos,
que ficavam a pequena distância. Conseqüentemente, Alexandria
tresandava, mesmo durante o mais brilhante e seco dos dias. Em
comparação, Antioquia era um sanitário limpo. O alho parecia ser o perfume
popular, e as ruas cobertas de pedras lisas estavam sempre juncadas de
entranhas, tanto de animais quanto de homens, apesar dos exércitos
de escravos que eram levados diariamente aos trabalhos de limpeza.
Era uma cidade perigosa e flamejante, uma cidade sufocante e
violenta, sempre ruidosa pelos gritos de perseguição e fuga. As epidemias
assolavam as casas de famílias e as prisões estavam constantemente
repletas. Bigas faziam estrondos pelas ruas, sem cessar, e as pessoas
jamais estavam longe de serem arrastadas ou batidas por elas.
A casa de Lucano, porém, ficava num ponto mais ou menos
isolado, não muito longe da universidade. Era rodeada de jardins
alcantilados e de um muro confortavelmente alto, rematado por agudas
pontas de ferro. Cusa espalhara cuidadosamente na cidade o boato de que
Lucano não tinha dinheiro, que a casa era espartana, sem conter ouro
nem prata ou qualquer outra coisa que valesse a pena roubar. Em
conseqüência, houvera na residência apenas doze tentativas de roubO
durante aqueles quatro anos.
Cusa amaldiçoava a cidade e sua inquietação, ao ficar ali, na
colunata alta, sobre o porto. O mar exibia o mais régio dos tons azuis,
quase um arroxeado imperial, enquanto fervia lentamente sob o céu,
aquecido a ponto de parecer branco. Centenas de navios, pequenos e
grandes atravancavam o porto. Velas azuis, vermelhas, brancas,
escarlates e amarelas pendiam frouxas de seus mastros, pois não havia vento
na imobilidade brilhante do meio-dia. Nenhum navio se movimentava:
era a hora da sesta, a fuga ao calor intolerável. A cidade mostrava-se
relativamente tranqüila, para Alexandria, e só o mais leve dos
estrondos alcançava os ouvidos de Cusa. Ele enxugou o suor da testa
com o braço nu e arquejou. Aquela brisa quase imperceptível, vinda
do mar reluzente, era úmida; Alexandria fazia-se tolerável apenas
quando um vento quente e seco vinha dos desertos. Os navios agora
balançavam pesadamente, tocados pela maré lenta e incandescente.
As palmeiras no jardim, a grama ressecada e as árvores
enlanguescidas sobrecarregavam-se com poeira amarela faiscante. Era
impossível combater o calor da Africa com qualquer água, e as fontes
mostravam-se apáticas. Cusa podia ouvir sua queixa leve entre ele e o
mar. As flores magoavam os olhos com suas cores demasiado intensas,
e a luz vinda do céu bem como o fulgor arroxeado do porto ainda os
magoavam mais. Apesar disso, Cusa sentou-se e entregou-se a
pensamentos perturbadores.
Lucano jamais fora uma alma jubilosa, mesmo quando menino, a
não ser quando em companhia da jovem Rúbria ou cavalgando
loucamente o pequeno burro, no caminho para Antioquia, com Keptah.
Sempre se mostrara demasiadamente reservado, quieto demais,
contemplativo demais para uma criança, e suas cóleras, apesar de
infrenes, eram frias e glaciais como o gelo. Qualquer calor solar,
qualquer tepidez e amor que tivessem sido parte de sua personalidade
gastara-os com a filha de Diodoro. Rira muito raramente e quase
sempre em presença dela.
Se Lucano se mostrara bastante difícil em Antioquia, depois da
morte de Rúbria, fora, às vezes, intolerável para Cusa durante aqueles
quatro anos. Fixava em Cusa um olhar sardônico, quando o professor
discordava dele a propósito dos trabalhos que trazia da universidade
Para casa. (Cusa sentia-se em igualdade com qualquer dos professores
da universidade e ofendia-se quando Lucano preferia a interpretação
deles à sua.) Lucano o provocava, atormentando, não com leveza, mas
Com uma espécie de amargo desejo de aguilhoar.
- Não és Sócrates dizia-lhe Cusa, intimamente ofendido -, e
230 231
eu me ressinto desses intermináveis diálogos que não levam a coisa
alguma a não ser a me apresentar como um tolo. É essa a tua intenção?
Lucano desculpava-se, com sincero arrependimento, mas seu
rosto permanecia sombrio. Era como um homem que aperta
constantemente um dente tomado por um abscesso, pensava Cusa. Quando, em
nome dos deuses, irá ele esquecer aquela donzela?
Ali estava Cusa, sentado, pensando em Lucano, na colunata.
Sacudia e tornava a sacudir a cabeça. Apesar das queixas de Calíope,
resolvera não deixar Lucano, a não ser que o jovem grego o despedisse.
17
- É uma pena, meu bom Lucano disse Rustrumjee, o licenciado
em letras -, que estejas firmemente decidido a ser médico, pois és
artista de imenso mérito.
Rustrumjee, curador do museu de arte na universidade de
Alexandria, era homem erudito, vindo da Índia; seus gostos eram
universais, curiosamente aparentando deformidade, tinha rosto moreno e olhos
de estranha palidez, bem como sorriso sutil. Para Rustrutujee, um
homem que não produzisse arte ou não estivesse envolvido com a arte
era um homem incompleto. Como a maior parte dos hindus, a arte,
para ele, não se separava da religião. Ensinara também o sânscrito a
Lucano.
- Como brâmane,* pertenço à casta exclusiva dos sacerdoteS, e
nosso voto é preservar a nossa velha língua. - Olhou para LuCano
com dignidade, por um momento, depois apanhou dois pequenos
retângulos de madeira no qual Lucano pintara retratos. Franziu
delicadamente as sobrancelhas.
Lucano recebeu um pedido do professor para permanecer ali
quando os outros alunos se fossem.
- Mestre disse o jovem -, eu sou um médico desde que
nasci. Não posso conceber para mim nada a não ser a medicina.
___
* Membro da casta sacerdotal, a primeira das quatro castas da Índia (N.
do T.)
___
Rustrumjee fez um sinal afirmativo com a cabeça, e suspirou:
- O que foi ordenado durante o carma* deve ser realizado.
É provável que isso seja um outro aspecto do teu carma, a transmissão de
tua alma, precisando completar as necessidades de teu espírito. Gosto,
muitas vezes, de fazer trabalho especulativo sobre os pecados que
cometeste contra teu próximo, durante um carma prévio, e que agora
deves expiar, salvando-o da dor e da morte.
Lucano sorriu, involuntariamente, rompendo a rigidez habitual e
mostrando a juventude de suas feições. Em seguida ficou novamente
sombrio. Jamais discutia com Rustrumjee sobre religião, ou entabulava
conversa com ele a esse respeito. Reservava isso paraJosé ben Gamliel,
que ensinava religião, era compassivo, ao contrário do hindu, que não
tinha compaixão verdadeira, pois acreditava que a sorte terrena do homem
era determinada antes de infinitos renascimentos e deveria ser recebida
sem protestos. Ainda assim, Rustrumjee jamais mataria a mais detestável
mosca ou inseto, receoso de interferir com seu próprio e determinado
carma. Homem, mosquito, ou rato: eram todos a mesma coisa para o hindu,
movendo-se lentamente, através de penosos renascimentos. para chegarem
ao ser e depois irem ao Nirvana2 não recebendo nem pedindo, no caminho,
a piedade humana, pois eram o que eles próprios haviam formado, sem
auxílio nem condenação dos deuses, através de eons3 de tempo, através de
eons de existências. Lucano considerava de certa forma fascinantes os
vastos encadeamentos da religião bramanista. Pareciam explicar, em
grande parte, as agonias da vida, suas misteriosas calamidades, sua
aparente anarquia. Que tal se os miseráveis doentes das prisões e das
enfermarias, sofrendo torturas aparentemente imerecidas, estivessem
apenas expiando antigos crimes e desajustamentos espirituais? E, ao
expiá-los, estivessem subindo para melhores condições de xida?
Discutira isso com José ben Gamlíel. Então, o judeu dissera:
- Não. Temos a considerar a ilimitada harmonia da Natureza,
que é um reflexo de Deus. suas leis precisas, jamais desviadas, sua
exatidão. Deus é a Lei, e a Lei é perfeita e imutável. Considera os Dez
___
* Segundo as religiões hindus, sujeição em que fica a alma a um
encadeamento de causas, isto é, cada existência servindo de motivação
pará a seguinte (teoria da reencarnação), gerando bom OU mau karma, que
deve ser contado como causa de processo espiritual, no primeiro caso, e
justifica sofrimentos e lutas (lições) no segundo caso. Lei de ação e
reação.
2 Conforme a religião budista, um estágio no qual não há mais desejo -
deixando, portanto, de haver sofrimento.
3 Idade, ciclo, era, tempo de duração contínua. (Notas do Tradutor)
232 233
Mandamentos, a Lei. O fato de romper a Lei traz sofrimentos ao
homem, sofrimentos intensos, físicos, espirituais, às vezes as duas
formas, e obedecer à Lei traz amor e justiça, de forma que se ele tiver
dor mortal terá sustentáculo espiritual e isso prova, sem dúvida, que a
perfeição não está além dele, mas dentro de seu alcance. Por que, então,
os contínuos renascimentos? Não. A expiação é de forma espiritual, um
reino de expectativa onde a alma pode limpar-se e purificar-se.
Lucano não acreditava em José ben Gamliel, como não
acreditava em Rustrumjee, pelo simples fato de que, embora não pudesse
rejeitar a existência de Deus, não acreditava na imortalidade do
homem. Convencido tanto da morte física quanto da morte
espiritual, jamais deixava de se sentir tomado da mais terrível cólera
contra Deus.
Rustrumjee dizia, agora:
- Estes retratos. São rostos de homens que pintastes nas
enfermarias ou nas prisões; faces moribundas. Que colorido
extraordinariamente apaixonado! Quase que vívido demais, quase amedrontador
demais em sua crueza. Alguns diriam que tal colorido não é a
verdadeira realidade, mas expressam apenas a emoção que vem de tua
própria alma. Há qualquer coisa de deformado nestas feições, também,
que não vem do que realmente existe, mas também de tua emoção
pessoal. Esta agonia! Esta angustia imensa! Esta fantasmagoria
atormentada! Estas linhas torcidas que se destacam de tal maneira que
sentimos poder tocá-las e encontrá-las em relevo, como uma
excrescëncia! O suor nas frontes e nas faces parece vividamente
úmido, e espera-se ver rolar as gotas. Os olhos dilatados de sofrimento têm
sangue latejante, e não me surpreenderia vê-los voltarem-se para mim
em desespero e súplica, implorando consolo. Os outros professores
estão horrorizados com as tuas pinturas, mas eu não! Ah! Lucano, tU
pertences à India. e sinto que em vários de teus carmas tu ali viveste,
pois só os hindus pintam assim. e são uma afronta para os moderados
gregos, que preferem a beleza olímpica e a harmonia à realidade;
preferem esculpir estátuas de seus deuses e colori-las para além das cores
naturais dos homens. Ainda assim, Zéuxis* pintou um cacho de uvas
tão realista, dizem, que vários pássaros entraram como flechas na sala
da exposição para debicá-las.
___
* Pintor grego, um dos mais ilustres artistas da Antiguidade (464-598
a.C.). (N do T)
___
Olhou pensativamente para Lucano e prosseguiu:
- Tens certeza de que não te inclinas mais para a arte do que
para a medicina?
- Tenho, professor. Sou médico.
Lucano foi para a enfermaria, embora, tendo já passado duas
horas ali, naquela manhã, muito cedo, não tivesse de voltar naquele dia.
Ali havia, também, um médico hindu, mas era budista e se esforçava
por aliviar a tortura, de forma que a alma pudesse ficar em
contemplação pacífica. Havia também um médico judeu, que tinha as mãos mais
delicadas e a mais profunda piedade por todos os que sofriam. Havia,
ainda, um grego e um egípcio, e mesmo um romano interessado em
epidemiologia, que era a sua especialidade. Lucano de há muito
observara que em Alexandria os professores não tinham arrogância a
propósito de suas raças individuais, suas famílias ou ambientes. Nem
mesmo o romano jamais declarava, orgulhosamente: "Sou um
romano!" A humanidade, a fraternidade, a animada troca de
conhecimentos entre os professores, a aceitação mútua e sua reverência uns pelos
outros foram, de início, uma revelação para o jovem grego. Tratava-se
de uma fraternidade dedicada à verdade e ao esclarecimento. A
verdade e o partilhar dela eram tudo.
Viram Lucano entrar e o receberam com sorrisos afetuosos,
sabendo que para ele a medicina era arte divina, acima de todas as artes, e
conhecendo-lhe a dedicação. Mas só o judeu podia entender sua
obstinada preocupação pessoal com a dor e a morte. Para os Outros, ele
parecia um estudioso como eles próprios, academicamente
interessado nos aspectos da doença e impelido por desejo de pesquisa, por
amor apenas à própria pesquisa. Para eles, a morte era somente um
dos seus malogros, o malogro derradeiro, e excitavam-se com aquilo
desinteressadamente, discutindo-a sem cessar. Faziam experiências por
amor à experiência em si.
A enfermaria limpa e branca tinha dez camas. Ali vinham os que
estavam irremediavelmente enfermos, e eram trazidos das prisões e dos
bairros miseráveis de Alexandria. Também vinham os enfermos crônicos,
os desesperadamente atingidos. Como todos aqueles doentes eram
escravos, ou destituídos de tudo, as experiências feitas com eles, às
vezes impiedosas, muito freqüentemente não tinham de forma alguma
relação imediata com a sua moléstia. Isso Lucano considerava odioso e
Intolerável e nisso também ainda era apenas o professor judeu que o
COmpreendia.
234 235
Os outros riam bondosamente de Lucano:
- Não é justificável que um homem morra para que outros,
para que multidões de outros, se possam salvar? perguntavam-lhe. E ele
respondia, enquanto o professor judeu ouvia em silêncio:
- Não. Um homem é tão importante quanto a massa, e talvez
ainda mais.
Essa atitude estranha não diminuía a afeição e o respeito que lhe
votavam os médicos. Mas quando Lucano se lamentava a propósito de
uma doença mortal e trabalhava e suava para aliviar as dores e salvar o
paciente, todos, menos o judeu, ficavam perplexos. A verdade, o
conhecimento, eis o objetivo da medicina. A morte era o fadário de todos
os homens, a dor também.
- Sim, os homens devem morrer dizia Lucano, amargurado.
- Mas não é dever nosso nos preocuparmos grandemente com a dor?
Mesmo com a dor de um escravo?
Ele não faria experiências apenas pela própria experiência.
Tratava a enfermidade, pois, para ele tanto quanto para Keptah, a
enfermidade era o homem. Para além da enfermaria ficava o necrotério, onde
corpos de escravos e de abandonados, que morriam na enfermaria ou
nas prisões, eram dissecados. As leis do Egito, ao contrário das leis da
Grécia e de Roma, permitiam tais dissecações, pois os escravos e os
pobres eram vistos como desprovidos de alma, e o Egito não era
particularmente obcecado pela carne, a não ser que se tratasse de carne
régia ou aristocrática.
O médico hindu e seus assistentes tinham ensinado a
Lucano a arte da vacinação contra a varíola. Ele permitia que o vacinassem
muitas e muitas vezes, e vacinava os pacientes.
- Tu és excessivamente zeloso diziam-lhe os
professores, em afetuosa zombaria. - Experiências, só em ti!
- Ele não é excessivamente zeloso! dizia o professor
judeu.
- Só deseja ajudar o paciente que se pode recuperar da doença atUal
e evitar a varíola para o futuro. Mas ele jamais operaria o olho das
nossas... vítimas.., por exemplo, se esse olho não estivesse doente,
nem injetaria em um paciente outra doença, fosse remédio ou veneno,
apenas para observar o resultado, para saber por que o paciente não
pode resistir. Ele aliviará a dor, e dará todo o tratamento que acredita
capaz de aliviar a dor ou aquela particular doença, mas infligirá
dor ou doença em nome da pesquisa.
O professor egípcio e seus assistentes tratavam dos olhoS, do
coração, e de vários órgãos separadamente, e Lucano resistia contra essa
idéia de especialização.
- Se o fígado está doente protestava ele então o homem
todo está doente, pois suas toxinas alcançam o sangue, os olhos, o
coração, o estômago, os intestinos, a pele. E o mesmo se dá com as
úlceras, degenerescências e todas as outras doenças. Não é apenas o
peritônio que está inflamado, é o corpo inteiro que está inflamado,
por solidariedade. O câncer é doença do homem inteiro, não apenas
da parte que está atacada. Se um homem tem artrite, não deve tê-la
no ombro, no joelho, no tornozelo, nos artelhos ou nas mãos.
tem-na universalmente.
Os médicos egípcios divertiam-se, exceto o judeu, que
concordava. E o judeu falou particularmente com Lucano:
- A doença não é apenas o homem inteiro mas também a sua
alma. Um espírito doente cria um corpo doente, ou um corpo doente
cria uma alma doente. Não só a carne e sua doença devem ser tratadas,
mas também a mente. É muito possível, embora não esteja provado,
que todas as doenças, mesmo as epidêmicas, originem-se em alguma
câmara secreta da alma.
pacientes não eram, para Lucano, escravos, destituídos, ou
criminosos. Eram homens, que deviam ser auxiliados para
combater a inexorável ira de Deus contra eles mesmos. Seus sofrimentos
atormentavam-no pessoalmente; tratando um homem com uma
doença cardíaca, sentia arrepios doloridos em seu próprio coração. A
artrite que retorcia e aleijava as juntas de um sofredor, muito
freqüenLemente pungia em suas próprias juntas. Sentia,
realment, o câncer devorar sua própria carne sadia, quando tratava de um
canceroso. Um tumor no cérebro de um escravo dava-lhe latejantes
dOres de cabeça. Era como se a doença lhe mandasse filamentos
do paciente e esses filamentos o emaranhavam em seus
sintomas e agonias.
O professor egípcio e seus assistentes usavam com freqüência a
magia no tratamento de seus pacientes da enfermaria. Aquilo provocava
a hilaridade amistosa entre os eruditos professores gregos e romanos
que havia muito perderam suas crenças nacionais no valor dos
amuletos e encantamentos ou ritos. Mas o professor judeu ensinara a
Lucano que "já que a alma está tão doente quanto o corpo, esse corpo
Pode ser curado freqüentemente através de mistérios e, como a doença
do Corpo humano pode bem originar-se na mente, aquela mente pode
236 237
ser convencida pela taumaturgia de que está curada, e em
conseqüência muitas vezes o próprio corpo se cura
E acrescentara:
- Esses egípcios não estão assim tão errados quanto os demais
acreditam. Repara que quando pões tua mão suavemente, e com uma
espécie de vigorosa resistência, sobre um paciente, os egípcios se
tornam inexcedivelmente interessados, embora os outros pilheriem
contigo. Porque os egípcios descobriram, através da observação, que tens
um misterioso poder curador. Os outros são nacionalistas,
acreditando apenas em poçoes e na cirurgia. Os gregos, entretanto, como
observaste, não são da escola de Cnidos, que tratava apenas o órgão
atingido. Eles acreditam, também, como nós, que o doente é parte de sua
estrutura.
Exatamente naquele momento Lucano estava particularmente
interessado num homem que sofria de uma doença do cérebro então
frustradora. Alguns dos cirurgiões haviam sugerido um tumor: não era
comum terem a oportunidade de estudar um cérebro vivo. Lucano
suspeitava que eles, realmente, não acreditavam que o homem tivesse
tal tumor. Agora, completara seus estudos e era médico. Podia,
portanto, protestar, o que não lhe fora permitido enquanto estudante.
Além disso, o paciente era do judeu e depois de o ter ouvido, Lucano
não deixara que seus colegas interviessem com suas serras, brocas e
trépanos ansiosos.
O homem era um escravo, enviado por seu dono à prisão por um
roubo insignificante. De acordo com a lei, poderia tê-lo mandado
executar e, realmente, ele estava condenado à morte. O dono fora
persuadido a mandá-lo para a prisão. Dentro dos últimos dias o professor judeu
comprara a pobre criatura, e dera-o a Lucano como paciente:
- Se o curares, Lucano, será teu.
- Se eu o curar respondera Lucano comprá-lo-ei de ti e o
libertarei.
- Então, dou-to como um presente, e poderás libertá-lo
pessoalmente. Bem me lembro que os judeus foram escravos no Egito.
Lucano dirigiu-se imediatamente ao leito do homem, e os
médicos egípcios reuniram-se em torno para observar. O nome do escravo
era Odílio, homem de origem racial obscura, como acontecia com
muitos dos escravos no Egito. Tinha rosto delgado e aquilino, olhos
fundos, ardentes e escuros, corpo emaciado e alto, com bonitas mãos
inquietas e pés longos e delicados. Devia ter mais ou menos vinte e
dois anos. Olhou suplicante para Lucano, em silêncio, mas suas mãos
ergueram-se um pouco, como que em oração.
Lucano puxou um banquinho para junto do leito e olhou para o
escravo com ansiosa piedade. Desenrolou um papiro e de novo tomou
conhecimento dos sintomas do homem. Não havia dor premente e
contínua, como num tumor. Não havia sinais de paralisia.., ainda. As
íris não se mostravam turvas ou escurecidas. Faculdades e sentidos
estavam inalterados. Mas o homem agonizava. Controlava-se muito,
mas com freqüência gritava, angustiado, apertando a cabeça com as
mãos. Sua pressão arterial era descontrolada. As vezes, o coração
sacudia-se e saltava, embora nada houvesse de organicamente lesado nele.
Outras vezes todo o seu corpo era convulsionado por espasmos.
Depois de tomar sedativo os espasmos cediam rapidamente e um aspecto
de profundo alívio surgia no rosto sonolento, aspecto muito comovente
e tocante para Lucano. Não havia mais sinais físicos de doença em
qualquer de seus órgãos: sua pele, se bem que frequentemente lívida
ou manchada e trêmula, era sadia. Mas as dores de cabeça, segundo
dissera o doente a Lucano, em tom lamentoso, variavam em
intensidade e forma, mas estavam sempre presentes.
Os outros professores médicos chegaram até o leito e ficaram
observando Lucano, que fazia mais um dos seus meticulosos exames.
Viram que ele chegava uma vela acesa junto dos olhos do homem e
tornava a pesquisar o estado das íris. Viram-no mandar Odílio erguer
as mãos, os pés, a cabeça. Lucano procurava reflexos perdidos ou
exagerados. Todos estavam praticamente normais, porém o homem
torcia-se na cama e gemia. Era inteligente, sabia ler e escrever em três
idiomas, e fora o secretário de seu senhor.
Lucano cruzou os braços nus sobre o peito, contemplou o homem
durante um longo momento.
- Qual é a dor de hoje? indagou, com ar abstraído. Ao lado
do ombro dele o professor judeu inclinava-se, observando tudo bem
de perto.
- Oh! senhor gemeu o escravo -, hoje meu crânio está
apertado demais para meu cérebro! Meu cérebro está para estourar a sua
caixa!
- Tumor, evidentemente disse o professor grego, com avidez.
Lucano sacudiu a cabeça, sem retirar os olhos do escravo.
- Há mais de um mês ele está aqui, e não mostra perda de
qualquer faculdade ou sentido, nem epilepsia, nem há o mais leve sinal,
238 239
mesmo da mínima paralisia, cegueira ou surdez. Os reflexos hoje estão
apenas um pouco mais acentuados. Não, não se trata de um tumor
que é inexoravelmente progressivo em seu dano. Ele informa que tem
sentido esses sintomas já há anos, embora menos agudamente. Não
tem tumor, portanto, nem benigno nem maligno.
Seu rosto bonito, repleto de comiseração, ternura e simpatia,
curvou-se para o escravo que gemia. Tomou uma das mãos dele e
imediatamente o gemido cessou e Odílio perscrutou suplicante o rosto de
Lucano. Lucano disse:
- Vou dar-te essência de ópio, não o bastante para atordoar-te,
mas para aliviar-te as dores. Então, farei perguntas. Tenho algo em
mente... - Parou, depois disse: - Hoje a pressão arterial dele está
perigosamente alta.
- Há possibilidade de um derrame sugeriu um dos jovens
assistentes.
- É possível que ele venha a ter um derrame concordou Lucano.
- Mas não em conseqüência de qualquer tumor e, possivelmente, não
em conseqüência de qualquer moléstia do cérebro ou de qualquer
parte do seu corpo. Seria pOSSÍVel que os derrames pudessem resultar, às
vezes, de causas que não sejam orgânicas? murmurou ele.
Deram ao escravo essência de ópio, que ele engoliu avidamente,
sabedor de que aquilo lhe traria alívio. Lucano esperou. Minuto a
minuto. Os gemidos foram se espaçando, as contrações dos músculos diminuíram
visivelmente, e as linhas cavadas de angústia cessaram de se mostrar no
rosto fino e inquieto. Odílio sorriu levemente de gratidão, sem retirar os
olhos do misericordioso Lucano. Seus olhos começaram a fechar.
- Vou dormir murmurou ele.
Mas Lucano apertou-lhe fortemente a mão:
- Ajuda-me, Odílio, para que possas ficar curado disse ele.
Odílio respondeu, com um soluço:
- Senhor, não quero ficar curado, porque então terei de
voltar para meu senhor e ser executado.
Lucano abriu a boca para dizer algo em consolação, e para
informar-lhe que já não tinha aquele senhor. Mas calou-se. A preocupação
em sua mente acentuou-se.
- Antes de seres condenado, Odílio, quando teu senhor
confiava em ti, e ainda não havias roubado, tinhas, entretanto, essas
terríveis dores. Por favor, abre os olhos e responde-me! Não é issO?
Os olhos que se fechavam foram se abrindo, relutantes.
- É iSSO, senhor. Ah! Deixa-me dormir. Se ao menos -
murmurou ele eu tivesse tido a coragem de me matar, quando era mais
jovem...
falou Lucano, excitado. - Dize-me, Odílio, há quanto
tempo és escravo?
- Não sei, senhor. Minha lembrança mais remota é de ser muito
pequenino, e vir para o Egito, trazido por um senhor escravagista, um
persa, que me veio vender aqui. Não sei se nasci livre ou escravo. Meu
senhor atual é meu dono desde que eu tinha três ou quatro anos, e
não sei quem são meus pais.
- Por que roubaste, Odílio? Teu senhor não era mau para ti, e
merecias a sua confiança.
Os olhos adormecidos do escravo acenderam-se como um fogo
sombrio.
- Mergulhei as mãos nos cofres dele, pois era homem rico e
nem sempre tinha conhecimento da quantia que existia em seus
cofres, para poder fugir. Pretendia retirar uma bolsa de ouro. Mas ele
mandara o dinheiro naquela manhã para a fortaleza de Alexandria, e
só ficara no cofre uma pequena bolsa de prata. Eu não a queria. Ainda
assim, tomei-a. Estando ali, não pude resistir.
- Por quê? Uma soma tão pequena!
- Sim, senhor. - O escravo ficou silencioso por alguns
momentos, e seus olhos expressivos pararam, muito abertos, tomados de
alguma lembrança profunda e dolorosa. - Ainda assim continuou
ele seria o primeiro passo para a liberdade.
Então, estalou em soluços e lágrimas, com tal intensidade que seu
Corpo tiritante fazia sacudir a cama.
- Mesmo que eu tivesse roubado ouro isso não me teria salvo!
exclamou ele. - Eu teria sido encontrado!
Agarrou a mão de Lucano com seus dedos suarentos.
- Tu não podes entender, senhor, tu, que és homem livre, o
que significa ser escravo! Muitos havia naquela casa, com os quais eu
falava em liberdade, e eles me sorriam com sorrisos estranhos e
espantados. "Não estamos abrigados, alimentados, adequadamente
vestidos, não temos os dias santos e, quando particularmente agradamos ao
senhor, não temos recreação e mesmo uma peça de prata? Estamos
melhor do que os pobres da cidade, que são livres mas dormem nas
sarjetas ou sob as arcadas, e esmolam seu pão, ou morrem de fome. Por
que, então, uma liberdade onerosa para morrer como cães?"
240 241
- Sim disse Lucano. - Ah! sim!
O escravo olhou suplicante para ele, e viu que havia umidade em
seus olhos azuis. Ergueu-se sobre um dos cotovelos, esquecendo-se
dos demais que ali estavam.
- Senhor, agora sei que desejei roubar porque sabia que seria
apanhado e morto! E preferi a morte à escravidão! Podes
compreender isso?
- Sim disse Lucano. - Sim, sim.
O escravo tornou a tombar no leito, gemendo novamente.
- Não me cures, senhor. Deixa-me morrer aqui. Então, ficarei
livre para sempre.
Levou a mão à cabeça e seus olhos abateram-se nas órbitas, em
renovado tormento.
- Opio, senhor. Ópio bastante para matar-me imediatamente.
Então eu adormecerei profundamente e nunca mais acordarei, e serei
um dos inumeráveis que são livres para sempre.
Lucano ergueu sua voz para que os ouvidos endurecidos do
homem o ouvissem. Olhou para os outros médicos, que observavam
atentamente tudo.
- Nesta universidade precisam de um homem hábil em
escrituração e contabilidade, e que seja digno de confiança? -
perguntou.
O escravo abriu os olhos, olhando com a mais completa
perplexidade. Os outros médicos franziam as sobrancelhas, tentando
compreender.
- Ele é um escravo, Lucano disse um egípcio -, e não nos
pertence, mas a seu senhor.
Lucano riu baixinho e sacudiu a cabeça. Pôs a mão no rosto do
escravo como no de um irmão.
- Não. Ele pertencia a meu professor, Jacó, que o comprou de
seu dono antigo, mas agora pertence-me, e amanhã visitarei o pretOr e
lhe darei liberdade.
O escravo fez um movimento para se levantar, e lançou um gritO
abafado de estonteada alegria. Atirou os braços ao pescoço de Lucano,
depois retirou-os, agarrou a mão do jovem, cobriu-a de beijos.
Soluçava e gemia, estava fora de si. Todo o seu rosto ardia. Arquejava, e
atirou-se ao chão. Ali ficou deitado, abraçando os pés de Lucano, e
apertando a fronte contra eles, alternadamente.
Lucano ergueu-o com a maior delicadeza e colocou-o de novo no
leito, mas o homem agarrou-se à mão dele, sem a querer largar. Olhava
com adoraÇão para o jovem médico.
- Meus caros colegas disse Lucano -, repito meu
oferecimento e o oferecimento de Odílio para vós. Precisais dele?
- Posso usá-lo imediatamente como meu próprio funcionário
disse Jacó, cujos olhos se tinham enchido de lágrimas.
LucanO fingiu duvidar e sacudiu a cabeça.
- Ah! Que coisa triste disse, baixinho. - O pobre Odílio
está liberto, mas está doente, e quem sabe se vai ficar bom?
O enfermo fez de novo menção de se levantar, e o ardor de seu
rosto parecia mais brilhante.
- Senhor! Já não estou doente! Ja não tenho dor de cabeça, que
está fresca e tranqüila. Deixa-me servir-te, suplico-te!
- Como ficarás livre pela manhã, estás tacitamente livre agora
para planejar teu próprio futuro, e não me deves dizer: "deixa-me!"
falou Lucano, com zombeteira severidade.
Odílio, cujos olhos estavam em fogo, olhava-o como se olhasse
um anjo. Então sorriu radioso e disse:
- Senhor, se o médico jacó deseja meus serviços, ficarei
encantado em servi-lo, como homem livre.
- E com um estipêndio que discutiremos disse o jovem e
barbudo judeu.
- Agora, dorme falou Lucano, levantando-se - Quando
acordares, Odílio, não tens dor, e a dor jamais voltará.
Os médicos riam-se um tanto ao se afastarem, com Lucano entre
eles.
Um grego disse, divertido:
- Agora, estamos privados de um cérebro vivo para estudar.
- Mas vistes o morto reconduzido à vida disse Jacó - Vede
como dorme, ali, com o sorriso de uma criançajubilosa em seu rosto,
e a liberdade é mais do que a vida para os que são como ele, e
que seu nome seja legião. Que Deus conceda a todos os homens a
graça de serem livres, de forma a que eles não pensem na morte como
Única evasão.
Odílio não sofria de qualquer doença do corpo ou do cérebro
disse Lucano, respeitosamente, aos pragmaticos gregos. sofria
uma doença da alma e agora está curado. Em vosso racionalismo,
vos esquecestes de Hipócrates.
242 243
18
O crepúsculo lilás impregnava a atmosfera de Alexandria quando
Lucano, exausto, deixou a enfermaria e o necrotério. Aqui e ali um
rastro de sangue manchava sua túnica, e a cabeça latejava. Encontrou
José ben Gamliel, que aparentemente o esperava.
José disse:
- Cumprimento-te, Lucano. Desejo um favor teu. Tenho um
amigo querido que está vivendo em Alexandria há dois meses, não por
escolha, mas porque adoeceu gravemente e está próximo da morte.
Chama-se Eleazar ben Salomão, negociante rico que viaja em torno do
mundo. Negociante riquíssimo, e um bom homem. Irás vê-Lo?
Lucano respondeu secamente:
- Lamento, José, mas não desejo tratar nenhum homem rico,
em parte alguma. Tomei a resolução de viajar para cada porto, em
qualquer navio, a fim de tratar dos miseráveis e dos escravos das galés,
pois estes não tém hospital em parte alguma, a não ser em Roma, que,
portanto, não precisa de mim.
- Dizemos em nossas Escrituras falou José, sorrindo que
a sabedoria com herança é coisa muito boa. Não fiques assim vermelho,
meu Lucano. Estou apenas felicitando-te por teres um pai
adotivo rico. De outra maneira, como viverias em tuas viagens por todos os
portos? Não me consta que os ricos sofram menos com suas doenças
do que os pobres, nem que Deus tenha outorgado a eles qualquer
imunidade. Um câncer é tão doloroso em César quanto no mais
mesquinho dos escravos.
- Apesar disso, não desejo tratar de qualquer homem rico -
repetiu Lucano, friamente. Depois, ficou curioso: - Ainda SOU um
principiante. Teu amigo ainda não consultou os médicos competentes
de Alexandria, os que estão ávidos de gordas remunerações? Eu podia
dar-te o nome de uma dúzia deles!
José olhou-o, pensativo:
- Lucano, eu acredito que podes ajudar Eleazar ben Salomão, e
só tu. Ele está morrendo, é provável que não Lhe possas salvar a
vida. Está também conturbado em sua alma, e poderias confortá-lo.
- Eu! exclamou Lucano, sorrindo penosamente. - Eu, o
destituído de conforto, dar conforto?
- Fazes isso constantemente disse José, com gravidade.
Virás, como favor que me fazes, pois que eu quero muito a Eleazar ben
Salomão. Crescemos juntos em Jerusalém, antes que eu viesse para
Alexandria. - O rosto dele modificou-se, tornou-se sutilmente
desolado. - Minha liteira está à espera lá fora do jardim.
Lucano hesitou. Havia algo misterioso nas maneiras de José,
pensava, e apesar da repugnância que o jovem grego sentia em tratar dos
ricos e privilegiados, seu coração de médico não poderia ter negado.
Ele disse:
- É possível que ele tenha uma doença na qual eu esteja
interessado, por isso irei.
José sorriu para ele mesmo. Ambos aproximaram-se dos portões,
que foram abertos para eles por escravos armados. José, como a sua
família, não tinha escravos; empregavam apenas homens livres, que
tinham comprados como escravos e libertado. Os carregadores de sua
liteira eram jovens e fortes, que se inclinaram afetuosamente diante de
seu amo. O entardecer estava muito quente e o céu agora parecia uma
ametista em fogo. José e Lucano sentavam-se lado a lado na liteira,
abrindo as cortinas de lã, a fim de usufruir alguma brisa erradia. De
súbito, naquela terra tropical, o dossel da noite tombou sobre
Alexandria, e a lua saltou para o seu lugar.
A cidade, como sempre, era um tumulto de cores, lâmpadas, vozes
que clamavam, animais, homens e mulheres, pois só ao entardecer é
que Alexandria acordava completamente. As tochas escarlates
silvavam em seus soquetes, mendigos guinchavam e suplicavam a cada
passo. Bigas estrondejavam, correndo pelas ruas tortuosas. Homens
berravam, mulheres riam, a música erguia-se por trás de paredes e
jardins, anunciando a turbulência de uma cidade ensandecida.
Rapidamente, veio o luar, banhando os telhados brancos e baixos, planos
como a terra. Naqueles terraços ele parecia pálido, tal água, e ali as
pessoas das casas se iam reunindo para obter um pouco mais de
frescor. Suas formas escuras e rostos sem feições moviam-se, e elas
falavam, riam, batiam com as mãos, para que os escravos lhes trouxessem
vinho. E vozes chamavam em muitas línguas estranhas. As vezes, uma
Porta em arco se abria numa parede, e era possível ver jardins
iluminados, docemente perfumados e cheios de fontes e estátuas sobre as quais
O luar derivava como chuva prateada.
José flão falou durante o curto percurso. Parecia mergulhado em
melancolia que só a ele dizia respeito e Lucano não o interrompeu.
244 245
Estava zangado consigo mesmo e cogitava na razão de lhe parecer
sempre tão difícil negar alguma coisa a José ben Gamliel. A voz e o cheiro
do mar aproximavam-se, e assim Lucano percebeu que a casa a que se
destinavam ficava perto da água e seria, portanto, muito desejável. A
imensa e branca lua olhava lá de cima, implacavelmente, para a cidade
quente e fervilhante, sem lhe dar frescor. Agora, eles chegavam a uma
parede lisa, branca e alta, toda iluminada, e um liberto bateu numa
porta em arco. Ela se abriu, e para além de suas portas dormia o
tranqüilo jardim banhado de luar, cheio de flores, árvores, relva,
fontes, mas sem estátuas. O perfume das flores dos figos e dos jasmins veio
em baforada para a rua. A casa, a uma pequena distância, era grande e
branca, com ampla colunata e, lateralmente, com sacadas à maneira
oriental.
Mesmo ali, entretanto, naquela tépida limpeza, o odor fétido e
aromático do Oriente mostrava-se insistente, O odor não era
desagradável; tinha mesmo um certo aroma de especiarias, e de incenso, e de
terra extraordinariamente fecunda.
- É agradável, isto aqui disse Lucano, de má vontade,
lembrando-se da enfermaria da universidade. - Este homem não poupa
o seu dinheiro!
- Por que pouparia? indagou José em voz razoável. -
dinheiro foi feito para ser acumulado?
- Poderia ser usado com maior vantagem no auxílio a os
desamparados, na construção de sanatórios para os pobres, em abrigos para
os que não têm lar disse Lucano.
José ben Gamliel suspirou:
- Eieazar ben Salomão é conhecido por suas muitas caridades e
por sua bondade, pois tem o maior dos corações, Liberta todo escravO
judeu que encontra e não descobrirás escravos em sua casa nem em
suas muitas casas em muitas cidades. Quanto mais dá, mais Deus lhe
dá.
As cortinas das janelas estavam afastadas. para que algum freSCOr
pudesse entrar. Ali fora, nos jardins, tudo estava imóvel, quando OS
dois homens se aproximaram da casa. Rouxinóis cantavam à luz, e as
canções eram ao mesmo tempo lancinantes e pungentes. Grilos
trilavam. Em algum lugar papagaios esganiçavam-se Mas não havia
humanas. As grandes portas de bronze estavam abertas para trás, e O
vestíbulo a que elas davam acesso era de mármore alvacento, cheio de
altas colunas, e iluminado por muitas lâmpadas de prata em suportes
altos. Havia flores por toda parte, em vasos gregos e egípcios, pousados
no chão.
A mais bela das jovens que Lucano jamais vira apressou-se a vir
em direção de José, as mãos estendidas em afetuosa saudação. Era
mais bela do que Iris, a mãe de Lucano, que o jovem considerara sem
rival, mesmo no que se referia às mais belas estátuas. A moça parecia
ter menos de vinte anos, provavelmente estava mais próxima dos
dezesseis, e era tão leve, ainda assim tão bem-feita em suas roupagens
azuis, que sua altura não se fazia imediatamente aparente. Parecia uma
rainha e movia-se de forma régia, deslizando sobre o piso de mármore
branco. A cabeça pequena e soberana deixava tombar tranças escuras
e desfeitas, como seda ondulada, e o cabelo mostrava-se tão fino que
dava a impressão de uma névoa vaporosa. O rosto oval era cor de
pérola, translúcido e luminoso, como que interiormente aceso, e seus
lábios mostravam um vermelho suave. O nariz era fino e delicadamente
moldado, os olhos profundos e de um violeta brilhante. Usava
colar, brincos e braceletes de pedras azuis cintilantes, engastadas em
ouro finamente trabalhado. Delicioso perfume, como que de rosas,
parecia exsudar de sua carne cor de neve, mais do que dos enfeites de
seu cabelo. As vestes azuis arredondavam-se docemente sobre seus
seios virgens, e sua cintura esbelta via-se rodeada com um cinto de
ouro, onde também se inscrutavam pedras de um tom azul mais
escuro. A seda drapejava sobre suas macias ancas jovens e roçava seus
tornozelos delicados. Suas sandálias eram de couro dourado.
Ficou jubilosa ao ver José, e seu pescoço de brancura luminosa
palpitou, como se estivesse se contendo para não estalar em lágrimas
de alívio e gratidão pela presença do amigo. José tomou-lhe as mãos
estendidas, apertando-as calorosamente e olhando a moça nos olhos,
com amor paternal.
- Minha querida Sara disse ele, delicadamente -, espero
que teu pai esteja passando melhor esta noite.
Sara não observara imediatamente que Lucano estava presente e
mantinha-se ao fundo, encantado pela visão daquela beleza virginal
que tinha um toque primaveril de pureza e adoráveis coloridos. O
sorriso desapareceu do rosto da moça e seus lábios cobriram os dentes
de branca porcelana.
- Não, ele não está melhor, José declarou ela, e sua voz era
tão lamentosa e branda quanto o arrulhar de uma pomba. - Mas
ficará feliz ao ver-te.
246 247
Como José, a moça falava aramaico. Seus cílios longos palpitaram
e suas sobrancelhas castanhas, sedosas e brilhantes, pareciam flechas
contra sua testa clara. Não precisava de artifício algum para pintar seus
olhos ou usar nele o kohl,* como não necessitava colorir de róseo as
pontas de seus dedos. A natureza a havia agraciado com as cores mais
sedutoras, vivas como as de uma flor.
José voltou-se para Lucano:
- Sara disse ele-, aqui está meu discípulo predileto, Lucano,
do qual te tenho falado freqüentemente. Ele é grande médico e eu o
convenci a vir ver teu pai.
Lucano estava de tal modo deslumbrado, enfeitiçado e estonteado
com a visão de tão jovem e sobrenatural bclcza, que se passaram alguns
segundos antes que pudesse fazer uma inclinação cerimoniosa diante
da jovem. Seu sangue grego saltou em adoração por aquela beleza e
pensou numa estátua da jovem Hebe que vira certa vez num templo de
Alexandria, pois Sara nascera para servir com amor e devotamento.
Isso estava evidente em seu ar de ternura e solicitude, em sua delicada
humildade.
- Antes que vejais meu pai, José disse ela, os olhos
subitamente fixos em Lucano como que fascinados -, deveis ambos jantar
e tomar um pouco de vinho.
- beberemos o vinho disse José, acompanhando a moça para
um aposento que se seguia ao vestíbulo e que estava mobiliado com
bom gosto, embora sem ostentação, cheio de flores de coloridos
variegados. Também ali não havia estatuas. As paredes eram
brilhantemente coloridas, de mosaicos que formavam florações, folhas torcidas e
formas orientais estilizadas. As colunas eram de mármore amarelo, as
lâmpadas de bronze corintio, o piso de quadrados brancos e pretos,
sobre os quais espalhavam-se tapetes persas, que pareciam jóias tecidaS.
- Mas devemos voltar às nossas casas para jantar, pois, em caso
contrário, nossas famílias ficariam preocupadas conosco.
- Ah! Compreendo... disse Sara, sem poder retirar os olhos
de Lucano, que estava de pé, constrangido, no centro do aposentO
grande e fresco, alto e bonito como um deus. Depois de um momento Sara
teve um sobressalto e baixou os olhos, Seus belos seios ergueram-se
rapidamente. depois abaixaram. Bateu palmas, e wn criado entrou
trazendo uma bandeja de prata na qual havia copos cravejados com muitas
___
* Substância negra com que as orientais pintam olhos e pálpebras. (N do
T.)
___
pedras preciosas diferentes. A própria Sara serviu o excelente vinho,
que cheirava a vinhedos aquecidos ao sol. Como que fascinada, deu a
Lucano o primeiro copo, em vez de entregá-lo a José, o mais velho.
Lucano tomou-o e seus dedos encontraram-se. O rapaz, a despeito de si
próprio, sentiu como que uma descarga elétrica. Habituado às maneiras
reservadas de Aurélia e de Iris, e das "antigas" mulheres romanas, estava
pensando na liberdade e naturalidade daquela jovem.
Bebeu o vinho, que tinha um aroma e um gosto sedutores, e
aborreceu-se consigo mesmo por ter apreciado a bebida. José, também
bebendo, fazia perguntas à jovem, em relação ao pai, falando baixo. E
ela respondia com notas de angústia na voz. Lucano ouvia, encantado,
o som da voz dela, tão dulçoroso, tão variado, tão eloqüente. De vez
em quando, falando, ela relanceava os olhos, timidamente, para o
jovem médico, e quando os olhos dele encontravam os seus, Sara
corava profundamente.
Finalmente, os dois homens seguiram a jovem através de uma
colunata aberta, cujas colunas eram prata e brilho sob luar. A moça
afastou para um lado uma cortina de pesada renda oriental, e
entraram todos num amplo dormitório, que brilhava docemente com as
lâmpadas de prata, e cheirava a flores e a especiarias. Num grande
leito esculpido em marfim, prata e ouro, jazia um homem de meia-
idade, recostado em almofadas de seda, e um cobertor leve. de lã
colorida, a cobrir-lhe os pés. Antes de Lucano ver-lhe o rosto, ouviu-lhe
os arquejos desesperados em busca de ar, e seu espírito de médico
esqueceu tudo, menos sua dedicação.
- Cumprimentos, meu caro Eleazar disse José,
aproximando-se da cama seguido por Lucano. José tomou a mão do amigo e
curvou-se para ele, sorrindo com carinhosa preocupação, enquanto
Sara ficava aos pés do leito, também sorrindo ansiosa para seu pai.
Eleazar tentou falar, mas sua voz, no meio da respiração alta,
abafava-se e desaparecia. Tossia repetidamente.
- Repousa disse José. - Trouxe comigo o jovem médico
Lucano.
Ergueu o corpo e olhou para o grego, chamando-o com os olhos.
Lucano aproximou-se, toda a sua vivacidade concentrada no enfermo.
Imediatamente, sem falar, viu que Eleazar estava no momento
extremo. O negociante e mercador judeu mostrava-se um homem moreno,
emaciado, tonalidade de chumbo na pele, dono de grandes olhos
tristes onde havia o brilho da vida, apesar de seu estado agonizante. Suas
248 249
feições lembraram a Lucano as de Diodoro, pois Eleazar tinha o
mesmo perfil agudo de rosto e de expressão, e o jovem pensou novamente
na estranha semelhança entre os judeus e os romanos.
Eleazar tentou sorrir polidamente para Lucano, mas estava
extremamente agitado, apesar de sua prostração. Seus lábios, lóbulos
das orelhas, bem como as pontas de seus dedos, mostravam-se
cianosados. Um ar de profunda melancolia se estampava em seu
rosto. A boca mantinha-se aberta, na tentativa de absorver o ar, e os
estertores de seus pulmões faziam-lhe a respiração rascante e cheia
de silvos. Lucano, sem falar, ergueu a túnica do homem, e
inclinando a cabeça em seu peito encostou o ouvido sobre a região do
coração. Sim, havia as extra-sístoles e fibrilação auricular; os sons
pareciam abafados, curtos e fracos, entremeados com um ritmo inconstante.
O latejar deslocado do ápice ali estava, o ligeiro e rápido pulsar, a
fraca, mas bem definida primeira bulha, com segundo e abafado
som. O paciente sofria de grave crise cardíaca. Erguendo a cabeça,
Lucano estudou silenciosamente, mais uma vez, o rosto dele, a cor
mortal da pele, ouviu a tosse, que trazia um pouco de sangue aos
cantos dos lábios moribundos, e notou o intumescimento
aumentado e tóxico da glândula do pescoço. O jovem médico, então, ergueu
um frasco que reuousava sobre a mesa dourada de mármore, à
cabeceira da cama, e cheirou o conteúdo, examinando-o. Franziu as
sobrancelhas; o estimulante cardíaco que ali estava era forte demais.
Apesar disso, pouco podia ser feito agora pelo doente, e
imediatamente a alma de LUcano se comoveu e esqueceu que Eleazar Ben
Salomão era um homem rico. Tratava-se, apenas, de um homem
atormentado pelo sofrimento.
Em aramaico, Lucano disse, delicadamente:
- Tivestes os melhores médicos? Não tentes falar; responde
apenas com movimentos de cabeça. Penso que já deves estar doente há
semanas. Deves ter tido indigestões, vômitos, náuseas e diarréia. -
Calou-se, e depois, ainda mais delicadamente: - Compreendes quais
são as tuas condições de saúde?
Eleazar, recostado em seus travesseiros, olhava intensamente para
os lábios cheios e bem recortados, embora ascéticos, para o longo e
bem-feito nariz grego; para a fronte em declive, e para os eloqüentes
olhos azuis, agora repletos de compaixão, simpatia e bondade. Uma
ansiedade passou pelo moribundo, uma luta para reunir as últimas
forças. Seu olhar fixo penetrava na alma de Lucano com a intensidade
peculiar dos que estão morrendo, e ele sorriu. Murmurou roucamente,
com dificuldade:
- Sim, compreendo, e não me causa pesar, a não ser pela filha
que precisarei deixar.
Olhou para Sara com profundo amor, e a moça rompeu em soluços.
Ajoelhou-se ao lado da cama e colocou a cabeça sobre o ombro do
pai.
- Na qualidade de médico disse Lucano nada posso fazer
por ti.
E disse-o porque compreendia que ali estava um homem heróico,
que se sentiria insultado com mentiras consoladoras.
- Estás para além do auxílio humano, Eleazar.
- Mas não além do auxilio de Deus, louvado seja Seu Nome -
disse Eleazar.
- Louvado seja Seu Nome repetiu José ben Gamliel, com
grande emoção.
O rosto de Lucano tornou-se novamente frio e distante. Voltou-se
para José e disse:
- Não sei por que fui chamado. Apenas para repetir o que
outros e melhores médicos já tinham dito a Eleazar ben Salomão?
- Não disse José. - Foi para ouvir a história dele e prometer
ajudá-lo. Por que acredito que possas fornecer tal auxílio, não sei.
Nós, judeus, temos, com freqüência, intuições espirituais, acima das
razões racionais; além de qualquer explicação. - Seus olhos
demoraram-se em Lucano, e ele alisou a barba.
- Ergue-me pediu o doente, e Sara e José suspenderam-no
contra os travesseiros. Durante esse intervalo ele não retirou os olhos
suplicantes do rosto de Lucano, como se soubesse que ali estava sua
derradeira esperança.
- Ele deve descansar disse este -, não se lhe devia permitir
que falasse.
Estava grandemente constrangido a propósito das palavras
enigmáticas de José, pois sua mente grega, portanto lógica, rejeitava o
sonoro misticismo dos judeus.
- Apesar disso, se eu puder ajudar Eleazar, ajudarei, embora tal
forma de auxílio me seja desconhecida.
- Talvez não seja desconhecida de Deus disse José, e Lucano
ignorou aquele comentário. Misturou o elixir do frasco com um
pouco de vinho e chegou o copo aos lábios de Eleazar, que engoliu peno-
250 251
samente o conteúdo. A imensa glândula em seu pescoço parecia a
ponto de estourar, abrindo a pele esticada e cor de chumbo. Lucano
sentia a dor em sua própria garganta e a dificuldade de engolir. Sua
cabeça começou subitamente a doer.
Eleazar disse:
- Preciso falar, pois tenho pouco tempo, e ouvi José ben
GamlieL.
Jamais esse homem fez um comentário tolo. E há também em mim
alguma coisa que assegura,jovem senhor, que me podes auxiliar. Ouve-me
com atenção.
Parou para lutar novamente pelo fôlego, e o rosto de Lucano
endureceu de angústia àquele som lamentoso.
- Há dois anos prosseguiu Eleazar, arquejante minha
amada esposa, Rebeca, deu à luz nosso primeiro e único filho homem,
nesta mesma casa. Morreu desse parto. - Seus olhos encheram-se de
lágrimas que pareciam de sangue. - Dei o nome de Arieh, o leão, ao
menino, e ele me consolava, pois realmente assemelhava-se a um
jovem leão e era forte e belo. Tratava-se da alegria do meu coração.
Jamais em Israel houve criança mais adorável e eu o ofereci a Deus.
Apertou as palmas lívidas das mãos, uma contra a outra, num
gesto convulsivo de angustioso desgosto.
- Meu tempo vai expirando arquejou. - Sara, não chores.
Preciso falar. Jovem senhor, eu não tenho escravos, só homens e
mulheres libertos, que me são devotados e à minha família. Um dia, duas
moças, pajens, brincavam com Arieh, meu filho, neste jardim e pátio
fechados, e da minha biblioteca eu ouvia o riso do menino. Então,
percebi que, de repente, não havia mais vozes, nem mais alegria.
Deixei a biblioteca para saber o que acontecia. As moças jaziam entre
flores, suas cabeças esmagadas e sangrentas, e meu filho desaparecera.
Parou e fechou os olhos, e a tortura daquela lembrança saltou-lhe
para o rosto em grandes gotas de suor. Fez um gesto fraco e tornoU a
abrir os olhos:
- O prefeito da cidade tomou conta do caso. Eu tinha
inimigos? Tinha tentado ser justo, honrado em minhas transações todas, e
enriquecera muitíssimo. Isso teria levado amigos a conceberem inveja
e ódio a meu respeito? É possível. Um homem pode guardar-se contra
seus inimigos, mas nunca no que se refere a seus amigos, pois eles
estão dentro de suas paredes. O prefeito, contra os meus protestos,
prendeu alguns de meus bons empregados e mesmo chegou a torturá-los.
Como, perguntava ele, dois assassínios haviam sido cometidoS
dentro de muros guardados de jardins, e uma criança roubada sem o
conhecimento dos outros servos? Os guardas do portão não deixaram
entrar ninguém. Teria havido suborno? Isso era muito possível. Minha
gente foi libertada por insistência minha. Jurara-me que não estava
implicada no caso.
Lucano sentia-se tomado de cólera, esquecido de que Eleazar era
um homem rico, e sentindo sua angústia em si próprio.
- Isso passou-se há dois meses disse Eleazar. - Meu filho
Arieh só tem dois anos. Que fizeram eles com meu filho? Está morto,
jazendo em algum ponto solitário do deserto, ou foi afogado? Não
sinto isso em meu coração. Sei que ele esta vivo, e que aquele
desaparecimento foi malícia deliberada, inspirada pelo ódio. Qual o amigo
que subornou um servo para matar e roubar o pequenino? Ficara ele,
às vezes, ao lado de minha cama, murmurando palavras consoladoras,
bebendo meu vinho, confortando minha filha? É muito possível. Meus
olhos cegaram de tanto investigar rosto por rosto. Quem é o amigo?
Envolve-se em perversidade, portanto faz-se invisível.
ergueu a mão esquerda e mostrou-a a Lucano. O dedo
mínimo era estranhamente deformado, dobrado em curva aguda na
segunda falange, de forma que passava por sobre o dedo anular.
- Esse dedo é a marca dos elementos masculinos de minha fa-
família disse ele. - Meu filho Arieh o tem. Isso o identificará.
Parou de falar, mas seus olhos dolorosos não se afastaram do rosto
de Lucano.
- Tu encontrarás meu filhu disse ele, com um leve sorriso.
Meu coração diz isso. Talvez não seja amanhã, nem dentro de um
ano, ou de dez, vinte anos. Mas tu o encontrarás. Mandei anunciar
imensa recompensa em todas as capitais do mundo, mas ainda não
houve resposta, embora milhares e milhares de informantes, ladrões,
soldados, marinheiros, escravos, bem como marítimos, estejam à procura
movidos pela cobiça. As mãos de rapazinhos, multidões de
rapazinhos em toda parte, têm sido furtivamente examinadas, em centenas
de aldeias, cidades e comarcas, em becos, em cortiços, em ruas;
nas casas dos poderosos e dos pobres. Tenho libertos pelo mundo
todo, investigando boatos e enviando todos os relatórios. Mas ainda
não há sinal de meu filho.
É mais provável que esteja morto disse Lucano, com tristeza.
- Não disse Eleazar, levando a mão ao peito. - Meu coração
diz-me que ele está vivo, talvez escondido, mas vivo, com certeza. Eu
252 253
saberia se ele estivesse morto. E, assim, tu o encontrarás, e o trarás para
Jerusalém, a fim de que herde o que lhe deixarei, a meu filho que
carrega no dedo a marca da família, a meu filho que se assemelha a um
leão novo.
Lucano ficou silencioso, tanto por compaixão como por ódio
contra Deus. Compreendia agora que Eleazar estava morrendo em
conseqüência daquela angústia, daquele desgosto.
- Encontrarás meu filho disse Eleazar, e um sorriso de
trêmula alegria passou-lhe pelo rosto. - Ele voltará para a sua gente e
para sua irmã e para as portas de Jerusalém.
Lucano achou aquilo despropositado. Abriu a boca para
protestar, depois silenciou, sem saber por quê. Finalmente disse, enquanto
Eleazar o observava:
- Sou médico, e estarei sempre entre os pobres, que não têm
amigos nem consoladores, e não podem pagar uma consulta. E
procurarei teu filho. É tudo quanto posso prometer.
- É o bastante disse Eleazar, estendendo sua mão trêmula
para Lucano, que lhe sentiu a úmida algidez. O rosto de Eleazar, ao
toque dos dedos de Lucano, sofreu mudança extraordinária. Um ar
de maravilhosa paz instalou-se nele; uma cessação de suas dores. Seus
olhos fecharam-se, sua respiração irregular abrandou-se, enquanto
Lucano lhe segurava a mão, e tornou-se ainda mais lenta, de momento
para momento. E então aquela respiração cessou e apenas um rosto
ligeiramente sorridente, rígido e cadavérico, permaneceu.
Sara ergueu-se com um soluço despedaçador e ficou de pé ao
lado da cama. As lágrimas rolavam-lhe pelas faces pálidas. Cruzou as
mãos e estremeceu.
José bem Gamliel disse, em voz alta e reverente:
- O Senhor dá e o Senhor Deus tira. Louvado seja o Nome do
Senhor.
- Louvado seja o Nome do Senhor repetiu Sara, atraVéS de
lágrimas.
Lucano pousou a mão morta, com amorosa delicadeza, mas em
seu coração havia uma cólera e uma dor que lhe causavam náuseas.
Relanceou os olhos, que faiscavam violentamente, para José bem
Gamliel. Como era possível que um homem sábio e erudito lOWvasse O
Nome do mortífero inimigo de todos os homens, considerou pusilânimes
e fracas as palavras de José, as palavras de um escravO servil sob
o chicote. Teve nojo, e sua cabeça estonteou, de furiosa dor e aVerSão.
Girou nos calcanhares e deixou o aposento, caminhando rapidamente
através da colunata e deixando a casa.
19
É perigoso andar sozinho pelas ruas de Alexandria, durante a noite,
e Lucano afrouxou a lâmina de sua adaga, no cinturão. Medo não
tinha; era atleta, alto e forte, e não estava longe de casa. Mantendo a
mão no punho da adaga e caminhando rapidamente, cheio de fervente
sensação de cólera e piedade, puxara o capuz de sua capa branca
sobre a cabeça e deixava que flutuassem atrás de si as suas roupagens.
Descia as ruas tortuosas, pelo centro delas, evitando os resíduos
espalhados, sem ver ninguém que por ele cruzava, as narinas cheias de
fedentina, do picante e aromático odor da cidade, coração e mente
consumidos pelos pensamentos que levava. As tochas metidas em seus
soquetes das paredes salpicavam sua figura com uma luz vermelha que
saltava e morria, alternadamente. A grande lua branca e luzente corria
sobre ele em lençóis de fogo prateado, e tão formidável e poderoso era
o seu aspecto, que rostos furtivos a espiar das arcadas e dos limiares
das casas pestanejavam e retraíam-se, como se tivessem visto uma
aparição caminhando a passos largos.
Lucano não estava consciente dos gritos e exclamações distantes,
nem da música e risos, nem de todos os tumultuosos arquejos e sons
à cidade tórrida. Tinha consciência apenas dos pensamentos
turbulentos, da piedade por Eleazar e pela jovem Sara, e de sua ira contra
Deus, que sem cessar traía e perseguia, em Sua vingança insone contra
o homem. Pensava na criança, Arieh, que estava morta, ele tinha certeza,
assassinada com malícia e ódio. E agora, pela primeira vez, Lucano
revoltava-se contra a perversidade dos homens; contra sua crueldade e
impiedade; contra sua avidez e inveja; contra sua sede de sangue e
desmesurada dureza de coração e contra os crimes que cometiam em
relação a seu próximo. Ali estava outro inimigo, além de Deus; o próprio
homem. Naqueles terríveis momentos, Lucano odiou tanto Deus
como os homens, e sentiu-se nauseado de sua própria existência, de
sua presença no mundo da humanidade, O universo era per-
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verso em seu âmago, e as próprias estrelas mostravam-se manchadas
com as nódoas da vida. Tudo aumentou, distorceu-se e inclinou-se
aos ardentes olhos do jovem grego. Estava embriagado de cólera. Quando
um homem que passava esbarrou nele, sua mão apertou o cabo da
adaga, e pela primeira vez em sua existência ele lançou uma praga
violenta. E o homem fugiu aterrorizado, vendo a adaga fora da bainha
e sentindo, mais do que vendo, uma raiva maior do que a raiva
humana, consciente de olhos que fulguravam, mesmo sob o abrigo do
capuz, e que ultrapassava a raiva dos homens.
Os pés de Lucano, calçados com sandálias, soavam sobre as
pedras como as passadas de um deus. Sem pensar conscientemente, a
não ser que procurava caminho mais curto através de um beco para
alcançar sua casa, entrou por uma rua escura e estreita, iluminada pela
luz de uma só tocha colocada logo à entrada e pelo reluzir do luar.
Muros altos fechavam a rua e subitamente tudo ficou muito quieto ali,
sinistramente quieto. O único som próximo era o borbulhar de água
suja na sarjeta. E a fedentina dominava. Lucano continuou a descer a
rua, depois párou. Defrontava-se com uma parede alta. A rua não
tinha saída. Olhou em torno de si para as formidáveis paredes que o
haviam como que apanhado em armadilha. Estava sozinho, ali; nada
podia ver a não ser os vultos escuros dos andares superpostos e sem luz
das casas que ficavam para trás daquelas paredes. Ninguém falava ou
gritava; era um lugar morto.
Bufando de cólera, percebeu que se perdera, momentaneamente.
Teria de retraçar seus passos até o início da rua e olhar em torno de si.
Tornou a soltar aquela blasfêmia, em tom baixo e violento. Talvez
houvesse uma porta na parede que tinha pela frente, o que o permitiria
entrar num pátio e daí para a outra e menos perigosa rua. Com o auxíliO
do luar e de seus dedos sensíveis, explorou a parede, e então, na junção
da extremidade da parede e da parede da rua, sua mão caiu sobre um
ferrolho. Levantou-o, uma porta abriu-se, estreita e pequena, e Lucano
viu um pátio calçado de pedras lisas, rodeado das habitações coletivas
que se foram delineando, as habitações onde viviam os muitos pobres
da cidade. Mas as janelas estavam cerradas e sem luz, e as portas
fechadas com trancas. No centro do pátio havia um poço redondo,
comunitário, construído de pedra escura. Não havia flores desabrochando,
ali, não havia perfume de rosas, jasmins ou lírios para o cheiro azedo da
pobreza, do medo e da morte. A luz do luar, Lucano podia ver as casas
sórdidas fazendo círculo ao pátio, e observou que ali não havia saída
para qualquer outro beco ou rua. Fechou a porta; deixou tombar o
ferrolho e recomeçou a subir até a extremidade do beco que o aprisionava.
Percebeu que havia água malcheirosa, silêncio, paredes ameaçadoras
e ia apertando a mão, fortemente, sobre o punho de sua adaga. A
tocha crepitava, avermelhada e fraca, lá na ponta.
Estava junto da esquina quando ouviu o rápido ruído de pés
ainda invisíveis que se aproximavam. Parou bruscamente. O som de
uma corrida despertou todos os seus prudentes instintos. Pensou que
as pessoas fugitivas podiam ser ladrões, escapando a uma perseguição.
Então, um homem e uma mulher viraram a esquina e correram em sua
direção, os pés impulsionados por um terror palpável, as cabeças
olhando para trás dos ombros. Lucano podia ouvir as respirações
arquejantes, no silêncio intenso, e o tropeçar da mulher sobre as pedras.
Estavam quase a esbarrar em Lucano, antes de o terem visto,
quando estacaram no ímpeto da corrida, olhos fixos nele, os globos
oculares reluzindo, como os de animais aterrorizados, à luz do luar. Se
Lucano tivesse saltado de seu lugar para supreendê-los, não se
mostrariam mais apavorados. O capuz do seu manto havia tombado sobre os
ombros e a luz arrancava reflexos dourados de sua cabeça, enquanto
as feições rígidas e lisas de seu rosto pareciam as da face de uma
estátua. O homem e a mulher recuaram, pois algo havia no altaneiro
aspecto de Lucano que lhes sufocava a respiração na garganta, e seus
olhos cansavam-se a examiná-lo.
Lucano notou que eram jovens e imediatamente percebeu que
não se tratava de criminosos, embora o homem estivesse vestido com
adejantes farrapos e seus pés se mostrassem descalços. Não tinha capa,
nem armas. A roupa da mulher era boa, modesta e respeitável, e de
um tom roxo escuro, com cinto de prata. Trazia nas orelhas argolas
também de prata, brilhando como jóias simples, e em seus braços
tilintavam vários aros de prata. Tinha os pés calçados.
- O que houve? perguntou Lucano rapidamente, em grego.
Eles não responderam, e o moço repetiu a pergunta em egípcio. A
mulher estalou em soluços desvairados, depois atirou-se de joelhos
diante de Lucano e agarrou-se às suas vestes.
- Ajuda-nos, senhor! exclamou ela, gemendo baixinho. O
jovem mantinha-se de lado e não podia tirar os olhos de Lucano. Mas
encolhiase e tentava cobrir o corpo com seus farrapos.
Então, Lucano ouviu muitos passos de perseguidores que corriam
e que se aproximavam da rua; e viu o clarão vermelho das tochas que
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eles levavam. A moça gemeu e instintivamente apertou a fronte contra
Lucano, enquanto de novo lhe suplicava auxílio. Mas o jovem disse,
numa voz curiosamente rouca:
- Asah, vai com este homem, e ele te ajudará a escapar.
Deixa-me,
Asah! Volta para nossos filhos!
A moça apenas tornou a gemer.
- Não! Ficarei contigo para sempre soluçou ela. - Morrerei
contigo.
O som dos perseguidores se aproximava e despertou Lucano.
Fez a moça levantar-se e disse ao jovem:
- Vinde comigo! Depressa!
Agarrou a mão da moça e correu com ela em direção à parede da
retaguarda e o homem seguiu-o. Encontrou a porta, abriu-a,
empurrou os dois lá para dentro, e disse, baixinho:
- Ficai aqui. Eu os distrairei.
Tremendo, eles ficaram por um momento a olhá-lo, e de novo
sentiram-se estranhamente impressionados com o que viam. Então a
porta fechou-se e ficaram sozinhos.
- Ele se parece com Osíris* murmurou a moça, juntando as
mãos e deixando-se cair sobre a borda do poço. O homem não se
aproximou dela, mas se afastou contra o lado das casas circulares e
fechou os olhos.
- Viste o rosto dele! continuou a moça, inclinando a cabeça.
- Psiu! Querida... disse o homem, mantendo-se sempre
afastado dela.
Lucano subiu rapidamente a rua, e então um grupo de homens e
soldados apareceu na entrada e hesitou, erguendo as tochas altas e
blasfemando. O jovem grego retardou o passo e aproximou-se deles
calmamente. Os homens começaram a descer pelo beco, mas viram-no
aproximar-se e pararam. Lucano caminhava com dignidade e segurança, como
um nobre caminha, a adaga na mão. Olhou para os soldados suarentoS,
metidos em armaduras, e falou com a linguagem autoritária de Roma:
- Quem estás procurando? e dirigia-se apenas ao centurião.
- Sou Lucano, filho de Diodoro Cirino, de Roma, e médico.
A luz da tocha iluminou os rostos da turba que rodeava os
soldados e Lucano pôde ver os olhos desvairados, as bocas selvagens e as
clavas levantadas que dançavam naquela luminosidade vermelha. Si-
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* Um dos deuses do Egito antigo, protetor dos mortos, esposo de Íris,
pai de Horo. (N. do T.)
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lêncio pleno tombou entre os perseguidores, e então o centurião deu
um passo à frente, levantou a mão, respeitosamente, e falou, os olhos
cOgItativos:
- Senhor, estamos procurando um homem e uma mulher, um
homem e sua esposa. Correram diante de nós! Tu os viste?
LucanO parou. Não costumava mentir. E disse:
- Vês que estou só, e não há ninguém aqui comigo. Além disso,
é uma rua sem saída. Observa aquela parede no fundo. Estava
voltando para casa, e perdi-me. Agradecerei a escolta de um dos
soldados, pois esta cidade é perigosa.
Seu único pensamento era afastar os soldados e a turba daquela
rua, de forma que o homem e a mulher pudessem escapar mais tarde.
O centurião saudou-o.
- Senhor, um dos meus homens te acompanhará. Nesse
entretempo, devemos procurar aquelas pessoas até que as encontremos.
- São ladrões? indagou Lucano. E defendia as narinas
contra o odor impregnante de suor e violência que envolvia os
perseguidores.
- Não, senhor. O homem é leproso.
- Leproso?
Lucano ficou a olhar para eles.
- Sim, senhor, chama-se Sira. Há alguns meses foi expulso da
cidade, lançado no deserto. Sabes que é obrigatória a morte para o
leproso que volta depois de ser exilado para viver nas cavernas.
Entretanto, esta noite alguns de seus vizinhos viram-no espiando, através da
janela, sua casa que fica a algumas quadras de distância daqui,
contemplando sua esposa e filhos. A mulher, Asah, vive com seus pais, e
seu pai é um lojista de alguma prosperidade. Os vizinhos deram o
alarma. Como médico, senhor, compreendes que um leproso que
volta não é apenas uma ameaça, mas deve morrer, pois rompeu a lei e
pode contagiar outros.
- Sim, compreendo disse Lucano, cujos pensamentos se iam
fazendo selvagens. Fremiu, e imediatamente seu coração encheu-se de
uma piedade calorosa e de tristeza ao considerar a situação de Sira;
desejava apenas lançar um olhar para sua esposa e seus filhos, mais
uma vez, antes do exílio eterno e da morte. E disse: - Como foi que
a mulher soube da presença do marido ali fora, na Janela?
O centurião respondeu, pacientemente:
- Ela ouviu os gritos da vizinhança, os seus gritos de alarma, e
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correu com ele, sabendo que o homem tinha de ser morto
imediatamente.
O centurião sacudiu a cabeça:
- As mulheres não têm inteligência, senhor.
Não, têm apenas amor, pensou Lucano.
Embainhou sua adaga. Não sabia o que fazer, mas devia fazer
algo. Refletiu que Sira apenas desejara ver a família. Era evidente que
não tinha a intenção de permanecer na cidade ou sequer de permitir que
sua esposa tivesse conhecimento de sua presença. Aquilo significava
que, se os vizinhos não o tivessem visto, ele teria partido
silenciosamente, sem nada dizer, como viera, retornando à sua morte em vida, e
sofrendo no deserto. Precisava ter aquela oportunidade, embora a morte
fosse melhor do que a vida para um leproso. Ainda assim, havia a esposa
a considerar. Ela devia ser poupada ao espetáculo da turba sórdida
caindo sobre seu marido, e trucidando-o diante dos seus olhos. Lucano
sentia o cheiro da volúpia do sangue naqueles homens, a ânsia de
esmagar, de destruir, de pisotear, e foi aquela volúpia que o decidiu.
E falou:
- A situação é muito séria, meu bom centurião. Por isso, não
quero privar-te de um só homem nessa tua busca. Sou médico,
compreendo a gravidade do assunto. Não moro longe daqui. Nesse
tempo, aquele desgraçado está fugindo. Vai, imediatamente, em
procura dele.
O centurião hesitou. O filho de Diodoro Cirino era homem
importante e reverenciado, e um médico. Deveria ser protegido. Mas
Lucano era muito mais alto do que ele, jovem e forte, e estava armado.
O centurião sorriu, saudou-o, e soldados e homens apressaram-se a
subir rua acima, com as bandeiras carmesins de suas tochas,
desaparecendo, em avalancha ruidosa.
Lucano esperou até que a rua se fizesse novamente silenciosa.
Nem uma só luz havia aparecido nas janelas escuras que se erguiam
sobre os muros, nem um só estranho surgira, nenhuma porta
escondida se abrira, apesar do ruído. Aquele lugar era escuro e sinistro, e OS
moradores se haviam mantido em paz, discretamente, dentro de ssuas
casas e de suas paredes. Lucano voltou, cautelosamente, à porta, olhou
de um e de outro lado da rua, depois ergueu o ferrolho e entrOU,
calado, no pátio circular.
Asah estava sentada no paredão baixo do poço, chorando e
lamentando-se. Sira mantinha-se a distância, fugindo ao luar, suplicando
à esposa, em voz abafada, que cessasse com aquelas lágrimas.
Nenhum deles percebeu a presença de Lucano, que ficou dentro das
trevas profundas, junto da porta fechada.
- Ah! meu querido chorava a jovem -, se ao menos, como
médico que és, não tivesses tentado curar os leprosos! Mas tu, tão
misericordioso, tão terno, tão bom, quiseste atendê-los, e quiseste
sacrificar por eles nos templos. Quiseste escondê-los das autoridades,
em tua compaixão sem remédio. "Não são humanos, e sangue do meu
sangue, meus irmãos, o latejar do meu coração?" Isto dizias, meu
muito querido. Mas os deuses e os homens não conhecem justiça, e a
horrível doença veio dos que a sofriam para ti. Pensaste em tua esposa
e em teus filhos pequenos? Não. Tu me disseste que o médico é dedicado
a Um, maior do que nós, que jura um juramento sagrado, que é
de amar a humanidade e aliviar-lhe os sofrimentos. E em vingança, os
deuses te enviaram esse monstruoso horror e arrancaram-te de junto
dos braços de tua esposa e dos beijos de teus filhos!
Sira gemeu:
- Não traí meu juramento. Se os deuses traíram-me, esse é um
crime que a eles diz respeito.
A moça ergueu o rosto pálido para a luz, e seu cabelo escuro
desenrolou-se em desordem sobre seus ombros. Suas lágrimas
tOrnaram-se como que gotas de mercúrio.
- Ah! Sim murmurou ela. - É verdade que os homens são
às vezes melhores do que os seus deuses. Eu teria conseguido que
voltasses as costas aos sofredores? Não o acredito, agora. Que pode um
homem fazer, senão aquilo que é o seu dever?
Levantou-se, dirigiu-se para o marido, os braços estendidos
lastimosamente para ele. Mas o homem exclamou, repelindo-a:
- Imundo! Imundo!
- Não para mim, não para mim, Sira. Sou tua esposa. Onde
fores, irei. Onde viveres, viverei. Que são filhos e pais para uma esposa
que ama seu marido? Nada são, nem mesmo fantasmas, quando ela
ouve a voz de seu esposo. Morarás numa caverna? Pois numa caverna
viverei, também. Comerás o pão da caridade? Desse pão também eu
comerei. Se dormires com as raposas e com os abutres selvagens, também
eu dormirei, e tua cama será a minha cama. No mundo nada há
para mim senão tu, e não há mar, nem morte, nem sangrenta mão de
homem, nem ódio de deuses que nos possam separar.
Sira estendeu as mãos, desesperadamente, para mantê-la a distância.
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- Eu te imploro, meu amor, não te aproximes de mim! Em nome
dos deuses, mantém-te longe de mim! Não, não irás comigo para
morreres como leprosa, para uma campainha que avise os demais que não
se devem mostrar amigos, para apodrecer, e sangrar, e tornar-te
entorpecida, e cega, e cheia de chagas. Amei tua doçura e tua beleza.
Devo morrer relembrando o que fiz de ti?
- Devo morrer eu, Sim, lembrando-me de que desertei de teu
lado, eu, que jurei jamais deixar-te? - A mão dela estendia-se, mas o
homem apertava-se contra a parede, como um réptil, rastejando ao
longo dela e fazendo um ruído rascante.
- Deves torturar-me, Asah, com a visão de teu rosto amado e
leproso? Vai, suplico-te. Vai e esquece-me. Eu estou com os mortos.
Eu morri. A coisa apodrecida que vês não é o teu marido. És jovem.
Casa-te novamente e tem outros filhos, e chora por mim, mas não me
recordes por muito tempo.
- Em meu coração a lembrança viverá para sempre. Não me
expulses de junto de ti, Sim. Deixa-me beijar-te. Deixa-me beijar teus
lábios mais uma vez.
Asah chorava, e o som leve de seu pranto enchia o pátio com os
ecos mais desoladores. A moça seguia-o lentamente, uma perseguidora
trêmula de amor e devotamento.
- Não! gritou Lucano, saindo de entre as sombras. - Teu
marido tem razão. não deves tocá-lo!
Sira e Asah sobressaltaram-se ao som daquela voz, e ficaram a
olhar para o jovem, sem nada dizer. A cabeça dele erguia-se sobre OS
ombros largos como a cabeça de um deus, belo e terrível em sua
beleza. Asah levou a mão aos lábios e manteve-se imóvel, o vento da noite
sacudindo-lhe os cabelos soltos, como uma flâmula. Sira olhava
longamente para ele, lá das trevas, os olhos ardentes. Lucano
aproximou-se dele, tomou-o pelo ombro e puxou-o para a luz do luar,
examinando-o de perto e rapidamente.
- Sou médico disse Sira, em voz quebrada. - E tenho lepra.
Não havia dúvida. A aparência leonina da moléstia já se
materializara nas feições de Sira. Trechos eritematosos, de tons azul-averrnelhados
e de um castanho-amarelado, marcavam-lhe o rosto. Aqui e ali, em
sua testa e em seu pescoço, lesões ulcerosas exsudavam soro e pus. Sua
voz rouca traía a invasão da laringe. Mesmo suas mãos revelavam a
repugnância da moléstia, e dois ou três dedos já estavam gangrenados.
- Como são impiedosos os deuses disse Asah, seus braços
trêmulos estendidos para o marido. - Meu Sira é o mais delicado
dos homens, O mais devotado deles. Entretanto, deve morrer, se não
fugir da cidade sem ser visto. Mas se ele deve morrer, então eu morrerei
com ele, bom senhor.
- Senhor, leva-a para longe de mim implorou Sira. - Leva-a
para nossa casa. Porque, seguramente, ela se perderá, se se demorar mais
tempo.
Lucano foi tomado de um verdadeiro êxtase de ódio, desespero e
piedade. Agarrou Sira pelos ombros, em suas mãos fortes, e fechou os
olhos, dirigindo-se silenciosamente a Deus, mas com fúria.
"ó! Tu que assim atormentaste este homem que apenas desejava
salvar tuas vítimas de Tua ira! Deves para sempre golpear os que
ajudam os aflitos, os que são inocentes, os que não têm malícia nem
perversidade? Deves sempre reservar Teus sorrisos para os vis e seus
filhos, e Tuas bênçãos devem ser derramadas sobre os que não procedem
com retidão? Por que não nos destróis e não nos deixas ter paz
na sepultura sem dias, cobertos pela noite misericordiosa,
longe de teus olhos vingativos? Que Te fizemos para merecer Teu ódio,
Tu que não tens os olhos, os membros e o sangue dos homens, e não
és da carne deles? Sangras, como os homens sangram? Teu coração
treme,como treme o coração de um homem? Sofreste dor, ó Tu que
infliges a dor? Amaste como os homens amam, geraste um filho,
para que pudesses chorar por ele?"
Sira e a esposa estavam de pé, imóveis, seus ouvidos
esforçando-se. Não ouviam voz alguma, mas, vagamente, tinham consciência de
que algo muito terrível estava soando naquele lugar batido de luz da
lua, naquele lugar silencioso e fétido. Viam o rosto contorcido de
Lucano, seus olhos fechados, seus lábios entreabertos, entre os quais
os dentes luziam como o mármore.
De novo ele se dirigiu a Deus, na desvairada amargura e angústia
do coração:
- Oh! se fosses misericordioso, em Teu ilimitado poder, curarias
este desgraçado e o devolverias à esposa e filhos! Se possuísses um
frêmito apenas de piedade humana retirarias dele a moléstia e o
deixarias perfeito. Eu serei maior do que Tu, mais misericordioso do que
Tu? juro-Te, por tudo que tenho de mais querido, que se eu pudesse
tomaria sobre mim as lesões desse horror, no lugar desse homem, e
fugiria para sempre em direção do deserto, lembrando-me de que
tinha salvo um homem, sua esposa e seus filhos."
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Sira sentia as mãos de Lucano em seus ombros magros, e
pareceu-lhe que uma força estranha e temível emanava dos dedos do jovem
como um fogo frio que jorrasse. A força impregnou-lhe o corpo,
percorrendo-lhe os ossos, ondulou sobre sua carne, fez com que a
espinha e seus cabelos se arrepiassem. Era como se um corisco o tivesse
atingido. Não podia respirar nem se mover. Encostou-se às mãos de
Lucano e seu coração esmagou-se, estalou em sons contra seus
ouvidos, como que de tambores não terrenos. Pensou: Estou morrendo! E
a luz do luar apagou-se de seus olhos e tudo se fez trevas diante deles.
- Não sou Deus! exclamou Lucano, de dentro de seu
coração. - Sou apenas um homem. Entretanto, tenho piedade. Oh! Sê
misericordioso! Tu! Oh! Sê misericordioso!
Agarrou Sira contra o peito e abraçou-o estreitamente e suas
lágrimas tombaram sobre as faces e caíram sobre a testa do outro homem. E
Asah, compreendendo vagamente que algo acontecera para além da
compreensão humana, tombou aos pés de Lucano e encostou a cabeça
contra eles.
Lucano, então, sentiu certa virtude tremenda abandoná-lo, como
sangue que escoasse, e misteriosa fraqueza sacudiu-lhe o corpo.
Delicadamente, com mãos trêmulas, afastou Sira, suspirando.
- Toma o meu manto, que tem capuz disse-lhe. - Esconde
nele teu rosto. Aqui tens minhas sandálias.
Curvando-se, retirou suas sandálias e colocou-as junto dos pés do
leproso.
- Aqui tens minha bolsa, minha adaga. Ninguém te
reconhecerá nem te encontrará. Vai para longe da cidade e não voltes. E se há
um Deus, vai na Sua paz.
Atirou o manto sobre os ombros de Sira e colocou-lhe nas mãoS a
bolsa e a adaga. Ficou de pé diante do marido e da mulher com os péS
nus, vestido apenas com sua túnica amarela. E eles olharam-no e não
podiam falar, de estupefatos e gratos, e parecia-lhes que o jovem fosse
o próprio filho de Iris.
Lucano voltou-se, abriu a porta e saiu para a rua fétida. Uma
pedra cortou-lhe os pés e ele não sentiu a dor, Cego pelas lágrimas.
caminhou, cambaleante, mergulhado em desgosto e tristeza.
Durante muito tempo Sira e Asah não se moveram nem falaram.
Ficaram sob o luar como estátuas esculpidas de si próprios, mudos de
espanto. Então Asah tornou a aproximar-se do marido com braços
estendidos, e ele a repeliu.
- Imundo murmurou, e fez com que ela visse seu rosto e
braços, claramente, à luz.
Asah soltou um grito agudo e alto, depois caiu desmaiada sobre as
pedras, como que abatida por um golpe. E Sira olhava para seus braços
e via que estavam inteiros, limpos, sem qualquer sinal. Estonteado,
moveu-Se e examinou-os, e não havia marcas ali. Pôs as mãos nas
faces e na testa e elas se mostraram lisas e macias como a carne de uma
criança, e quentes, cheias de sensações.
Olhou para a porta fechada, através da qual Lucano desaparecera.
Caiu de joelhos junto da esposa desmaiada, e ergueu as mãos em prece:
- Oh! Louvadíssimo! murmurou. - Oh! Tu, que nos
visitaste!
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Cusa olhava para Lucano, consternado:
- Não é possível, senhor! exclamava ele, agarrando a própria
cabeça entre as mãos. Seu rosto malicioso de sátiro, com as bochechas
gorduchas e a barba pequena, os olhos cheios de humorismo e o nariz
Insolente, havia empalidecido de horror.
- Sinto muito disse Lucano. com paciência. - Tentei
explicar; não há necessidade de mais um funcionário médico em Roma,
que está cheia de hospitais modernos. Sim, compreendo que a
Assembléia Pública me nomeou, graciosamente. por ordem de Diodoro,
e com um estipêndio considerável. Mas um médico não deve ir para
onde mais necessitam dele? Hipócrates disse isso, e eu jurei por ele.
Meu trabalho será entre os pobres, os oprimidos, os abandonados, os
moribundos, os desesperadamente doentes, para os quais não há
assistência nas cidades que ficam ao longo do Grande Mar. Tratarei de
escravos e dos que vivem em pobreza irremediável, e não pedirei
pagamento, a não ser dos ricos senhores de escravos. Irei xisitar as prisões e
as galés, as minas e os cortiços, os portos e as enfermarias para
indigentes. Esse é o meu trabalho e não me posso desviar dele.
- Mas por quê? indagou Cusa, incrédulo.
Lucano sentou-se na cama do simples quarto branco de dormir
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onde se acomodara, e ficou a olhar longamente para suas próprias
mãos, compridas e pálidas.
- Eu te disse falou. - Devo ir para onde sou
necessário.
Cusa balançou a cabeça entre as mãos. Lucano teria
enlouquecido? As Fúrias vermelhas teriam posto em desordem a sua mente? Flécate
o teria visitado durante a noite? Por todos os deuses, aquilo não era
coisa que se entendesse ou que se suportasse! E Cusa falou,
sensatamente, como se fala com um homem atacado de insanidade.
- Senhor, tua família precisa de ti. Teu pai adotivo orgulha-se de
ti, e ele é o mais orgulhoso dos romanos. Tua mãe há anos que não te vê.
Teus irmãos jamais te viram. Que se dirá de Diodoro se seu filho adotivo
for um indivídho errante, tratando da escumalha da terra em cidades
quentes e bárbaras, em estradas e atalhos? Isso é bom bastante para um
médico escravo, mas não para o filho de Diodoro Cirino. Que dirás a
Diodoro, e à tua mãe? Eles ficarão envergonhados diante de Roma.
Lucano sacudiu a cabeça.
- Não tenho palavras que te alcancem, Cusa, ou que afastem a
névoa de tua perplexidade. Chega. Tu e tua família ireis comigo
amanhã para Roma, para as propriedades de meu pai. Ali, sereis felizes.
E sorriu afetuosamente para seu velho professor.
- Minha falta de compreensão é suave, diante da falta de
compreensão que Diodoro demonstrará, senhor.
- Eu sei.
Lucano franziu as sobrancelhas, depois sorriu, recordando o
belicoso romano.
- Mas farei o que devo.
- Não sabes o que é a pobreza, senhor! Quando fores um médico
mendicante, derivando de um porto para outro, POIS, com certeza,
dadas as circunstâncias, Diodoro não te sustentará com seu dinheiro
parcimonioso, então descobrirás o que é ter fome, estar sujo e sem lar,
vestir farrapos. Não acharás deleite nessas coisas, Lucano, tu, cuja
carne foi cuidadosamente alimentada e assistida e vestida em linhos e
lãs finas. Lucano, esclarece-me Que vem a ser essa loucura? Que são
um escravo, um pobre ou um criminoso? MenOS do que seres humanos.
Seria melhor para ti tratar cães e outros animais dos patrícios
ricos em Roma! Isso daria menos vergonha e tristeza a Diodoro!
Lucano retletia. Como podia ele dizer a Cusa: "Devo libertar os
atormentados de seu Inimigo?" Cusa teria completa certeza, então, de
que ele estava louco.
O outro observava-o de perto. Explodiu então:
- Foi aquele maldito José ben Gamliel! Eu ouvi quando ele
falava contigo nos jardins. Senhor, os judeus são incompreensíveis,
com seu Deus misericordioso. Seus Mandamentos, e Suas ridículas
leis para relações equânimes entre os homens. Tudo isso não passa de
superstição, é deplorável, pois faz a vida mais sombria ainda. Já viste
um judeu de rosto feliz? Já ouviste os risos das festas romanas e a
despreocupação das danças romanas na casa de um judeu? Não, isso
são coisas só para os bárbaros romanos! Não acrescentou Cusa -
que eu considere os romanos muito mais do que bárbaros. Mas, pelo
menos, são homens de fibra e sangue e têm adequado respeito pelas
artes da Grécia, embora não passem de filhotes de lobo. Os romanos
sãO realistas. Os judeus tratam com superstições transcendentes. Falam
de liberdade, o que é absurdo. Esperam o impossível de seu Deus, e
uma pessoa de senso compreende que os deuses nunca tratam do
impossível. E nunca se espera deles grandes virtudes.
Lucano falou, encolerizado:
- Eu não acredito que Deus seja misericordioso e bom! Não
acredito no que José ben Gamliel diz Dele! Poupa teu fôlego, Cusa.
Preciso ir despedir-me de meus professores.
Cusa, ofendido, ferido e perplexo, compreendeu que tinha sido
despedido dali e foi procurar a esposa. Calíope ouviu-o enquanto
amamentava a filha, revelando um semblante meditativo. Depois,
ergueu os ombros:
- Sempre achei Lucano extraordinário disse ela.
Lucano não tinha pena de deixar Alexandria. Desde que Rúbria
morrera ele não se sentia ligado a lugar algum do mundo, nem tinha
desejo de visitar qualquer deles, ou de viajar como um jovem rico. O
mundo, para ele, era um hospital, cheio de gemidos. Nem a beleza da
arquitetura nem a música tinham o poder de aliviar o desgosto
infinito. Na noite anterior, porém, sonhara com Sara bas Eleazar, Sara, cujo
pai fora enterrado na véspera. O sonho fora dos mais confusos. A
moça procurara-o, correndo através de um campo florido, rindo
docemente, e quando o alcançou seu rosto era o de Rúbria, faiscante sob
o sol da primavera. Seu cabelo escuro caíra da fronte branca, e Lucano
Sentira um arrebatamento de completa beatitude e júbilo. Então, vira
O Violeta dos olhos dela e a ctor voltara. Em seu sonho, não sabia por
que, dissera à moça, em tom indagador: "Rúbria?" E ela respondera,
a voz dulçorosa: "Amor." O rapaz sacudira a cabeça: "Não há na mi-
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nha vida lugar para o amor. Não amarei de novo, pois o amor é como
uma serpente que tivéssemos no coração, cheia de veneno e de
agonia." Ela se afastara, então, olhando tristemente para seu rosto, até
o
último instante, como que indagadora e dolorida. E as flores se
haviam erguido, escondendo-a aos olhos dele. Então Lucano sentira de
novo o velho desgosto e acordara gritando.
Lembrava-se daquele sonho enquanto arranjava em sua grande
bolsa de médico, feita de couro, seus preciosos instrumentos
cirúrgicos: bisturis, fórceps, serras de amputações, sondas, seringas, trépanos
Cada instrumento, feito de ferro cuidadosamente trabalhado, e
perfeito, fora envolvido por ele num pano de lã impregnado de óleo de
oliva, a fim de protegê-lo de ferrugem. Havia também instrumento
mais antigo e grosseiro de cobre ou bronze. Também esse ele colocou
delicadamente na bolsa, envolvido em suas capas. Acrescentou vários
de seus preciosos livros de medicina, certa quantidade de ligaduras
num invólucro de seda, e alguns frascos de remédios especiais, vindos
do Oriente. Cusa tomaria conta de seus objetos pessoais, que eram
poucos. Lucano examinou-os para ver o que poderia dar aos pobres e
aos desvalidos da enfermaria da escola de medicina. Uma pequena
bolsa tombou no chão, caindo de uma peça de roupa, e produzindo
som pesado. O moço inclinou-se, apanhou-a e abriu-a. A cruz de
ouro que Keptah dera a Rúbria estava em sua mão, a corrente tilintando.
Lucano sentiu um súbito fervor de desespero, e desejou atirar a
cruz para longe de seus olhos. Mas Rúbria a apertara na mão no
instante de sua morte. Não se lembrava de ter trazido aquilo para ali.
Esquecera-o. Agora, bafejou o ouro e esfregou-o com a manga até que
ele brilhasse e, recordando-se de Rúbria com uma nova crise de dor,
beijou o símbolo da infância, recolocou-o em sua bolsa, e deixoU-o
tombar em seu estojo médico. Pensou de novo em Sara, na bela e
jovem Sara, com figura graciosa, desabrochando apenas para a vida
adulta de mulher, em seu pescoço branco e adorável, em seus olhos
sem artifícios. Deixou o aposento apressadamente, como se fugiSSe, e
dirigiu-se para a universidade.
Seus professores saudaram-no carinhosamente, e todos lhe
ofereceram amuletos, mesmo os cínicos professores gregos, expressando
desgosto pela partida do jovem e dando-lhe suas bênçãos.
- Lembra-te, meu caro Lucano disse-lhe um dos gregOS -
que a medicina sempre esteve associada ao sacerdócio, pois há campo
maior para a medicina do que o corpo e um médico deve tratar também
da alma de seus pacientes e, finalmente, deve depender, para a
cura, do Médico Divino. - Lucano ficou surpreendido com aquela
declaração do tal grego, de mente das mais lúcidas, mas o homem
olhava para ele com seriedade e depois beijou-o nas duas faces: -
Não receio por ti acrescentou.
Havia apenas um de seus professores que Lucano desejava evitar.
Mas encontrou José ben Gamliel à sua espera, e o professor chamou-o
à biblioteca de sua colunata. A biblioteca era pequena, fria e
austera, o mobiliário simples.
- Nunca mais nos encontraremos disse o professor judeu
contemplando-o com tristeza. - Nunca mais nos encontraremos. Isto,
para nós, é o adeus.
- Tu não sabes...
- Ah! Eu sei. - E José ben Gamliel ficou silencioso durante
algum tempo. Voltou seu perfil barbado para Lucano, e a luz quente e
branca que entrava impiedosa, através da janela pequena, iluminou
aquele perfil, dando-lhe radiosidade misteriosa, aguçando-o e
modificando-o. - Preciso contar-te uma história disse José.
tucano sorriu, impaciente.
- já percebi que os judeus sempre têm uma história para contar
disse ele. - Tudo é em poesia ou metáfora, hipotético ou obscuro,
ou oferecido sob a forma de pergunta. A vida é curta. Por que os
eruditos judeus tratam o tempo como se ele não existisse, e como se
houvesse uma eternidade para discussão?
- Pela razão respondeu José de que o tempo não existe e
há uma eternidade para a discussão. Ainda acreditas, meu pobre
Lucano, que o espírito do homem está acorrentado pelo tempo ou
pelos acontecimentos?
Voltou-se de novo para ele e de novo seu rosto modificou-se, fazendo-se
estranha e infinitamente doloroso, e Lucano pensou nos velhos
profetas de que tinham falado os judeus de Antioquia, e José, em
Alexandria.
- Recordarás a esperança que os judeus têm a respeito de um
Messias que virá, e do qual te falei disse José. - Ele libertará
nosso povo, Israel, de acordo com a promessa de Deus. Foi Abraão, o
Pai dos judeus, um babilônio da velha cidade de Ur, quem nos trouxe
essas boas novas. Leste as profecias de Isaías com relação a Ele. Será
chamado o Príncipe das Dores, segundo aquele profeta, e Sua Mãe
esmagará a cabeça da serpente com o seu calcanhar, e o homem ficará
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liberto do mal e do sofrimento e não mais existirá a morte. Por Suas
feridas, seremos salvos.
- Sim disse Lucano, com impaciência crescente, enquanto
José cravava-lhe os olhos. - Conheço as Escrituras judaicas.
Conheço as profecias em relação ao vosso Messias. Mas que tem isso a ver
comigo? Todos os povos têm seus mitos e seus deuses, e que vem a ser
um Deus judeu para os outros?
- Há apenas um Deus disse José. - E é o pai de todos os
homens. Pensas que o Messias virá apenas para os judeus? Eles são
um povo de profecias. Assim, compreende-se que a profecia lhes
tenha sido dada. A Lei foi entregue nas mãos deles por Moisés. Por
aquela Lei o homem vive ou morre. Isso os gentios precisam aprender,
através da elevação de seus impérios e de seu sangrento declínio e da
vasta e amontoada poeira dos séculos.
"Lucano, tu te lembrarás que a profecia referente ao Messias
insinuou-se em todas as religiões do mundo, e não apenas nas Escrituras
dos judeus. Deus outorgou a todos os homens, em toda parte, a vaga
noção de Sua vinda entre os homens. A alma tem seu conhecimento,
que fica para além do estéril raciocínio da mente. Tem seus instintos
tanto quanto o corpo.
Lucano não respondeu. Sua impaciência ia se fazendo selvagem.
Remexia na corrente de ouro que lhe pendia do pescoço e então
recordou-se de que à última hora retirara a cruz de Keptah da bolsa
médica e a pendurara ao pescoço. Agora, a cruz aparecia sobre sua
túnica, e José a viu. Grande emoção cruzou-lhe o rosto, como um
relâmpago, mas ele continuou a falar, calmamente:
- Há treze anos, Lucano, eu era professor da Sagrada Lei, em
Jerusalém. Minha esposa teve um filho numa fria noite de invernO.
Foi uma noite muito estranha aquela, pois uma grande Estrela
aparecera subitamente no céu, mantivera-se firme durante algumas horas,
depois movera-se para a direção do Oriente. Nossos astrônomos ficaram
muitíssimo excitados. Chamaram-na a Nova, e profetizaram que
sua aparição agourava tremendos acontecimentos. Lembro-me bem
daquela noite. Herodes era nosso rei e um homem mau. Correu pela
cidade um boato de que na pequena cidade de Belém nascera O Rei
dos judeus. Tal notícia foi trazida a Jerusalém por homens humildes e
simples; entre eles alguns pastores que tinham uma história das mais
temíveis a contar. Falavam de Hoste Celeste que lhes aparecera,
quando cuidavam de seus rebanhos de carneiros, nas montanhas, e que
lhes tinha dado notícias de grande júbilo. Como os reis são
desconfiados, tem milhares de ouvidos, e assim essa história chegou aos de
Herodes, a história dos pastores anônimos e ignorantes. Imediatamente,
receando pelo seu poder, ele ordenou que todos os meninos
nascidos recentemente fossem mortos, passados a fio de espada.
José fez uma pausa. Lucano ouvia-o com relutante fascinação.
Então, de repente recordou-se da grande Estrela que vira em Antioquia,
quando criança, e seu coração bateu, apavorado.
José continuou, dizendo, simplesmente:
- Meu filho estava entre os que Herodes mandou assassinar, e
minha esposa, com o coração despedaçado, morreu.
Lucano sentiu-se imediatamente tomado de compaixão e
envergonhado de sua impaciência; e ainda mais envergonhado pelos
comentários coléricos e veementes que outrora dirigira a José. Este
conhecera a morte, o desgosto, a dor amarga, e ele, Lucano, o acusara de nada
saber. Olhou com piedade para José. E disse:
- Quanto deves ter odiado, não apenas Herodes, mas Deus, por
aquelas mortes sem sentido!
José sacudiu a cabeça e sorriu de leve:
- Não. Como pode um homem de compreensão odiar Deus?
Isso é coisa para a paixão de crianças.
Ficou silencioso durante tanto tempo que Lucano chegou a
pensar que ele o esquecera. Então José, contenmplando a distância através
da janela, continuou, ainda mais sossegadamente:
- Na última Páscoa visitei meu velho lar, em Jerusalém. A
cidade fervia de peregrinos vindos da Galiléia, Samaria, Judéia. Num pátio
interno eu estava conversando com meus eruditos amigos e
comentaristas. Era um adorável dia de primavera, repleto do perfume das
florações e dos ricos odores das especiarias e do incenso. O céu era de
um aperolado reluzente e a cidade via-se inundada de luz e dos sons
de cânticos e de regozijos. Jamais eu vira dia tão calmo e belo, e os
corações de todos se regozijavam com ele, esquecidos de César e
Herodes, pois Deus os tinha livrado novamente da Terra do Egito.*
Ouviam-se por toda parte os sons dos címbalos e das trombetas. A
cidade brilhava com suas flâmulas coloridas, e o Templo suspendia-se
contra o céu, como jóia de ouro. Embora fosse viúvo, com uma só filha
___
*Referência ao Êxodo, isto é, à saída dos judeus das terras do Egito, conduzidos por
Moisés.
A cada ano se renova a alegria da libertação, nas festas da Páscoa judaica. (N. do T)
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casada em Alexandria, pela primeira vez em treze anos senti alegria, e
meu coração ergueu-se numa espécie de expectativa.
Parou. Suas mãos serenas cruzaram-se, seu rosto ergueu-se e ele
sorriu sonhadoramente.
- As ruas estavam cheias de soldados romanos. Também eles
tinham sentido um deleite incomum na primavera. Tinham apenas
uma forma de expressar tal sentimento, pois eram estrangeiros em
terra estranha que os odiava. Pobres rapazes. Desejavam tomar parte no
regozijo geral, mas os judeus os ignoravam em seus dias santificados.
Os soldados embriagaram-se e andaram pelas ruas, cantando. É triste
ver qualquer homem rejeitado pelos seus irmãos e eu tive compaixão
dos romanos.
"Temos guardas no Templo para proteger os pátios internos de
qualquer intrusão. Onde estava o guarda daquele pátio, naquele dia?
Não sei. Mas de repente as cortinas afastaram-se, e um rapazinho
entrou no pátio, um rapazinho alto e muito bonito, trajado com a
grosseira veste parda do povo comum. Seus pés mostravam-se descalços e
queimados de sol. A pele clara também fora amorenada pelo sol; seus
caracóis louros mostravam sinais de terem sido queimados pelo calor,
e caíam-lhe sobre os ombros. Tinha olhos azuis como o céu de verão,
e um aspecto solene e majestoso. Sorriu-nos, não como um rapaz que
acaba apenas de alcançar a idade de Bar-Mirzvah* e, portanto, ainda
tímido quando num grupo adulto. Seu sorriso era o sorriso de um
homem, e ele estava à vontade, como um homem entre seus pares,
como um erudito e um sábio entre eruditos e sábios.
"Ficamos muito espantados e alguns entre nós franziram as
sobrancelhas. Que estava fazendo aquele rapazinho em nosso pátio
reservado, dedicado apenas à sabedoria e à discussão? Onde estava O
guarda? O menino, era evidente, não passava de um camponês. Mais
tarde, ficaram a cogitar na razão de não terem mandado que ele se
fosse imediatamente dali. Mas, ao vê-lo, pensei em meu filho, que se
não tivesse sido assassinado teria a idade daquele menino. E disse-lhe
"Menino, que estás fazendo aqui, e onde estão teus pais?" E ele me
respondeu, com seu sorriso grave, e com o sotaque rude dos pobres e
iletrados galileus: "Vim para fazer-te perguntas e para dar-te
reSpOStas, senhor."
___
* Ao alcançar os treze anos de idade o rapazinho judeu, através de
determinada cerimônia de caráter, religioso, passa à categoria de
adulto, reunindo-se aos homens em suas orações especiais. É como que a
Confirmação, entre os cristãos. (N. do T.)
___
O rosto e o couro caheludo de Lucano arrepiaram-se. Então, de
repente, desejou ir embora e pulou sobre os pés. José, entretanto, não
pareceu notar tal coisa, e continuou com sua voz remota e como que
sonhadora:
- Ele tinha o porte régio de um rei, aquele jovem camponês da
Galiléia, com as mãos ásperas pelo trabalho, os pés descalços e a cabeça
erguida. Penso que foi aquele seu aspecto que evitou a despedida
encolerizada dos eruditos e doutores. Não temos grande respeito pelo
povo da Galiléia. São pastores e artesãos, e sua fala é iletrada. Gente
humilde. Mas aquele rapaz era um rei.
"Sentou-se entre nós, falou conosco, e depressa estávamos estupefatos
com as suas perguntas e com as suas respostas, pois, apesar de
seu sotaque galileu, falava com autoridade e profunda erudição.
Ficamos absorvidos nele. Perguntamos-lhe as coisas mais obscuras e
difíceis, e ele as respondeu com simplicidade. Era como a luz da aurora
entrando em aposento escuro, repleto de livros eruditos, cheios de
dificuldades. E mal saíra da infância, aquele jovem do campo, que
vinha das nuas e quentes montanhas da Galiléia, onde não há doutores
nem sábios. E eu lhe disse: "Menino, quem é o teu professor?" Ele
sorriu para mim, com um sorriso que se parecia ao sol, e não respondeu.
Foi então que a cortina afastou-se, agitada, e um homem humilde,
barbado, e uma bela e jovem senhora, vestida como camponesa,
entraram, num Ímpeto, pelo nosso pátio adentro.
De novo José se calou. Sorria, e seu sorriso era infinitamente
suave e remoto. Lucano sentou-se de novo, lentamente. Dizia de si mesmo:
Não devo ouvir! Isto é tolice obscura! Mas ouvia e esperava que José
continuasse.
- Jamais esquecerei aquela jovem senhora, Lucano, pois seu
rosto era o de um anjo, radiante para além de qualquer descrição.
Lembro-me de ter ficado instantaneamente atônito diante daquele
rosto, que se erguia de pescoço e ombros vestidos em roupas
ordinárias e opacas. Um pano azul tombava de sua cabeça, e eu vi o cabelo
brilhante de sua fronte pura. Como posso descrevê-la? Não há palavras
para isso, em idioma algum. Devia ter uns vinte e sete anos, o que
não é muita idade, mesmo para uma mulher. Dava a impressão de ser,
ao mesmo tempo, velha como Eva, e nova como a primavera. Passado
e futuro mesclados num só: ela não tinha tempo, não tinha idade.
Imediatamente, eu soube que se tratava da mãe do rapazinho, pois
tinha um aspecto régio.
272 273
"O camponês barbado nada disse, embora fosse aparente a sua
angústia. Manteve-se junto da cortina, mas a mulher adiantou-se para
o menino, que voltou a cabeça e olhou para ela. E ela lhe disse: "Meu
filho, por que nos deixaste, de forma que sentimos falta de ti em nOSSO
caminho para casa e ninguém te havia visto? Temos estado a tua
procura com grande ansiedade." O rapaz não respondeu por um
momento, e depois disse, muito suavemente: "Por que me procurastes? Não
sabeis que devo tratar dos negócios de meu Pai?" E seus olhos
irradiavam terno amor para ela.
José silenciou e Lucano ficou à espera. Mas José não tornou a
falar e Lucano perguntou, impaciente:
- É tudo?
- É tudo.
Lucano mordeu o lábio.
- Tu nada explicaste, José ben Gamliel. Quem era aquele
rapazinho?
José levantou-se e Lucano levantou-se com ele. José pôs a mão no
ombro do moço e olhou-o bem dentro dos olhos, profundamente.
- Isto terás de descobrir por ti mesmo, Lucano.
Sorriu para o moço, com súbita melancolia.
- Dizem as nossas Escrituras que Deus nem sempre lutará
contra os espíritos dos homens. - Hesitou, depois prosseguiu: -
Quando Deus luta contra o espírito de um homem é pelo mais sagrado e
misterioso propósito, e aquele propósito muitas vezes permaneCe oculto
ao homem até o dia de sua morte. No teu caso, não creio que issO
permaneça sempre oculto para ti. - Levantou a mão, em bênção: -
Vai em paz, meu aluno, querido e muito amado médico.
21
Foi apenas quando se viu no convés do navio, no porto de Alexandria,
e olhou para a cidade, vistosa e vociferante, aglomerada contra O
ardente céu azul, que Lucano sobressaltou-se ao sentir a pungência da
nostalgia. Deixou que os olhos errassem pela cidade, e imediatamente
pensou onde tinham ido ter os anos, por que ele jamais sentira qualquer
afeto antes, por seus companheiros e professores e por que o
tempo fora para ele como um sonho negro. Dera excelentes presentes
a seus professores, nas suas despedidas, mas sabia, agora, que foram
dados sem sentimentos, e envergonhava-se. Era tarde demais para ir
ter com os professores e dizer o que sentia em seu coração: "eu vos
amei e respeitei, pois os professores são os mais nobres dos homens e
trabalham por pouco, apenas para realizarem o que desejam suas
almas sem egoísmo. Em vosso nome, e lembrando-me de vós, farei o
melhor que puder, e vos recordarei sempre."
O grande galeão balançava-se pesadamente no ancoradouro.
Embarcações menores, com velas azuis, brancas, amarelas e escarlates
voavam como flechas sobre as águas, como que em travessuras em torno
do grande vulto do galeão, parecendo-se a libélulas que lançassem
seus vívidos reflexos na água imóvel e arroxeada. Aquelas embarcações
estavam cheias de pescadores seminus, os corpos morenos reluzindo
ao sol quente e branco, bocas vermelhas abertas para lançar
blasfêmias, zombarias, risos e canções. Passando rapidamente ao lado
do galeão romano, levantavam os olhos para Lucano e cumprimentavam-no
ou pilheriavam obscenamente com suas vozes roucas, ou pediam-lhe
esmolas. Sorrindo, como havia muitos anos não sorria, ele abriu a
bolsa, atirou-lhes moedas, que refletiam o sol e brilhavam como ouro
ou prata. Os homens apanhavam-nas habilmente e, sendo velhacos
e alegres, beijavam-nas, cumprimentavam Lucano com irônicas
reverências, faziam comentários licenciosos, depois tornavam a vogar com
rapidez. A água marulhava placidamente contra o navio, que ainda
estava sendo carregado no cais. Escravos negros, núbios ou citas faziam
rolar pesados tonéis de óleo, mel ou vinho pelas rampas ou
carregavam fardos de algodão, barricas de azeitonas e cestos de coco.
Outros traziam para cima os sacos e as caixas carregadas com especiarias
e
outros produtos do Oriente. Então um som de pranto subiu do cais
repleto e um certo número de escravos encadeados, homens e
mulheres, escuros pelo caminho feito através do deserto, foram sendo
tangidos a chicote pela rampa. Lucano, observando-os, já não sorria.
Voltou-se e contemplou os rostos chorosos e desesperados, e algo ergueu-se
dentro dele, em cólera apaixonada. Algumas das mulheres carregavam
crianças recém-nascidas, e aqui um pequenino corria atrás de seu pai
ou de sua mãe, em prantos. Os escravos foram amontoados embaixo,
como um rebanho, onde as lamentações se tornaram mais abafadas,
apesar de mais insistentes.
274 275
Dois centuriões romanos foram designados, para guardá-lo
durante a viagem, e apareceram ao lado de Lucano, que olhou para seus
rostos jovens e morenos de sol com aversão.
- Senhor disse um deles -, estamos a vosso serviço.
Estavam encantados por voltar à pátria, mesmo que fosse servindo
um grego, o que eles consideravam aviltante. Ainda assim, mostravam-se
gratos para com Lucano.
- Eu de nada preciso disse este, secamente.
Um deles tirou o elmo enquanto enxugava o rosto suarento:
- Ufa! Que cidade desprezível falou, com movimento de
cabeça para Alexandria. - Estou fervendo sob a minha armadura, como
fogo.
Por que não a retiras, então? indagou Lucano.
Os dois jovens soldados, escandalizados diante de tal
impropriedade, recuaram um pouco. Lucano deu um leve sorriso. Não tinham
culpa, aqueles rapazes, que os escravos fossem impelidos para o navio,
e ele fora ilógico, exibindo sua aversão. Contemplou os homens que
ali estavam olhando para as docas e para o carregamento das
mercadorias, os polegares metidos no cinturião de couro, as costas mais retas
do que de costume, como que a censurá-lo. Procurou com os olhos
Cusa, que estava supervisionando espalhafatosamente a armação do
toldo roxo da popa, reservado a Lucano. E chamou-o:
- Atenção!
Este olhou para ele, irritado, depois, repetindo avisos e ameaças
aos marinheiros suarentos que lutavam com cordas e tecidos, veio, de
andar balouçante e ares importantes, ao encontro de Lucano. Vestia
uma suntuosa túnica de algodão egípcio, de um vermelho brilhante e
bordada trabalhosamente com seda amarela. A barba rala fora ungida
com óleo perfumado, o mesmo se dando com o cabelo, e ele trazia à
cinta, metido numa bainha de prata, um delgado punhal alexandrino.
- Tu disse-lhe Lucano cheiras como uma prostituta.
- Ah! replicou Cusa, com um sorriso lascivo. - Como
Sabes disso?
- Não importa falou Lucano. Indicou os jovens e ofendidOS
soldados com um movimento de cabeça. - Traze um jarro do nosso
melhor vinho. Se temos um melhor vinho.
- Para eles? perguntou Cusa, incrédulo.
- Para eles.
- Mas, senhor, o vinho da região é bastante bom. Não é
uma das bazófias dos romanos, isso de dizerem que, cosmopolitas como
são, o que cada região produz a eles parece bom?
- Eu disse repetiu Lucano, severamente, mas com uma
fagulha divertida nos olhos, que jamais havia ali aparecido desde sua mais
recuada adolescência o melhor vinho que tivermos.
Cusa considerou. Depois, olhou para Lucano com um ar de
completa candura, que não enganou o rapaz.
- Senhor, tu sabes que nunca tivemos qualquer vinho melhor.
Sem desrespeito para contigo, devo confessar que não tens paladar.
- Ladrão disse Lucano. - Sempre tiveste o cuidado de
manter o melhor vinho em tua mesa. Não há muito tempo vi, de
relance, várias garrafas encrostadas, cobertas de teias de aranha, que trazias
para bordo em teus próprios braços, ternamente, como se se tratasse
de uma criança querida. Traze-me uma delas e três taças. Eu próprio
estou curioso para provar aquele néctar.
Cusa empertigou-se:
- Senhor Lucano, eu trouxe aquelas garrafas compradas com
meu próprio dinheiro, segundo o generoso estipêndio que me envia
Diodoro Cirino.
- Muito bem disse Lucano. - Comprarei de ti uma dessas
garrafas.
Cusa fez uma reverência solene:
- Permita-me, ó Baal, que te faça presente de uma garrafa, com
meus cumprimentos. - Falava sarcasticamente, depois hesitou e olhou
para Lucano, com olhos imploradores: - É um crime contra os deuses
permitir que esses romanos bárbaros lavem suas bocas de couro em
semelhante vinho! Vamos, eu tenho um bom e forte vinho da Alexandria
mais a gosto deles.
- O melhor vinho repetiu Lucano. - E não me enganes. Eu
examinarei cuidadosamente o sinete.
- Suponho disse Cusa que não teria permissão para trazer
uma quarta taça e ficar a uma distância humilde desses patrícios
romanos e provar um pouco do meu próprio vinho?
- Podes tomar um pouco, muito pouco, do vinho que
comprarei de ti disse Lucano, gravemente.
- Eu o estou dando de presente falou Cusa, com altivez. E
desceu.
Enquanto esperava, Lucano tornou a observar a cidade. As cores
violeta obrigavam-no a pestanejar. O sol brilhava fortemente sobre as
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águas arroxeadas e arrancava odores da madeira, do óleo e do alcatrão
aquecidos do navio, bem como a fedentina dos peixes mortos e o
picante do sal e do suor. Sua luz fervente dançava sobre as
embarcações menores que corriam lá embaixo e suas velas pareciam arder. As
armaduras dos soldados reluziam. Os escravos amontoados
começaram a cantar tristemente, e os capatazes irritaram-se contra eles e
fizeram estalar o chicote. Mais e mais carroções, carregados com
mercadorias, rolavam pelos cais, com ruído surdo.
Cusa apareceu, com grande dignidade, trazendo uma bandeja de
prata na qual havia quatro taças, uma delas de prata, incrustada com
turquesas, para Lucano. Colocou a bandeja sobre um rolo de cabos
que estava próximo, com um gesto que mostrava estar ele mais
habituado à mesa de mármore. Os centuriões voltaram a cabeça e ficaram a
olhar com interesse, e quando viram o vinho rosado lamberam
furtivamente os lábios. Ficaram estupefatos quando Lucano os chamou:
- Quereis dar-me o prazer de tomar comigo este excelente
vinho, que meu professor garante ser o melhor do mundo?
Os homens aproximaram-se com sorridente alacridade,
perdoando-o imediatamente- Lucano, pondo Cusa de lado, com um gesto,
serviu-lhe o vinho. O sol refletia-se nele e fazia-o semelhante a uma
destilação de pálidos rubis. Lucano deu uma taça a cada um e serviu
uma terceira para si próprio. Deixou tombar algumas gotas em libação -
e os outros fizeram o mesmo- Provou um pouco, e disse:
- Excelente! Excelente! Meu professor tem o paladar mais
impecável em três mundos!
- E como saberias isso? murmurou Cusa, sem se deixar
aplacar. Encheu uma taça inteiramente, como um sacerdote ao altar, lenta
e reverentemente. Pelo menos um dos quatro saberia apreciar aquela
delícia. Conservou-se afastado do grupo composto de Lucano e dos
soldados e bebericou o seu vinho. Era uma vindima maravilhosa, dos
melhores anos possíveis. O sol ali estava, fogo tépido e doce. Ficava na
boca, perfumado, delicioso, intoxicante. Cusa, relanceando os olhos
para Lucano e para os soldados, sentia-se deprimido. Os soldados, era
evidente, percebiam apenas o fato de ser o vinho capitoso, quanto a
Lucano era impossível conceber que ele sequer provasse a sua
delicadeza. Estava conversando, para surpresa de Cusa, com maior
animação do que jamais demonstrara diante dele, e com um interesse mais
magnânimo. Afinal, pensava Cusa, que lhe aconteceu? Posso quase
acreditar que ele tem carne latejante e não é feito de mármore rígido...
Por Baco, foi realmente um gracejo que ele disse agora? E não um dos
mais altamente delicados! Deve ter aprendido isso,
inconscientemente, com aqueles estudantes velhacos. Será que realmente entende o
que isso quer dizer? Ah! Ah!, foi muito bom, muito bom, é
lindamente malicioso. Cusa estava muito animado. Se Lucano mantivesse
aquele estado de espírito durante a viagem, esta não seria tão monótona
quanto ele esperara. O professor, sentindo-se delicadamente
exultante, nem sequer pestanejou quando Lucano tornou a servir o
vinho aos soldados e para ele mesmo. Se ele se embriagasse, pensou
Cusa, eu ficaria regogijadíssimo.
O comandante do navio aproximou-se de Lucano, mas antes que
pudesse falar, Lucano exclamou:
- Meu bom Galo, vem beber conosco! Cusa, traze outra taça!
Amaldiçoando o comandante, que ele suspeitava saber farejar uma
garrafa, Cusa obedeceu e trouxe outra taça. O comandante era de meia-
idade, corpulento, de rosto áspero, mas inteligente. Começou a contar
histórias muito indelicadas, que faziam os centuriões explodir em risos
divertidos e Lucano sorrir. Azedo, Cusa disse consigo mesmo que
pelo menos aquelas histórias obscenas estavam para além da
compreensão de Lucano, pois um ar distraído surgira no rosto do Jovem
grego, indicação de que ele agora achava a conversa tediosa ou de mau
gosto. Era evidente que Galo aprendera aqueles gracejos em grande
número dos bordéis menos seletos, e mesmo Cusa os achou um tanto
crUs para seu gosto.
Expansivamente, Galo falou:
- É uma honra ter-te a bordo, Lucano. És nosso passageiro mais
ilustre. Este navio, como sabes, é cargueiro, mais rápido, e não se
retarda como os navios de recreio. Embora tenhamos vários portos de
escala, chegaremos depressa à Itália.
- Estou ansioso por chegar a casa disse Lucano.
- Num dos portos de escala haverá, sem dúvida, cartas para ti.
O comandante olhou de soslaio para as grandes velas brancas que
começavam a desdobrar-se como asas de pássaros gigantescos contra o
céu, e gritou algumas advertências aos marinheiros que subiam
precipitadamente pelos mastros. Lucano serviu mais vinho, mas dessa vez
não se serviu. - Temos bom vento disse o comandante, falando
agora em tom de voz normal. - E quando a maré descer, sairemos.
Isso se dará em menos de uma hora.
Lucano olhou para a cidade, e por uma razão qualquer foi subita-
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mente assaltado por uma saudade e uma sensação de tristeza
poderosas. Seu coração doeu com um desejo sem nome, e ele sentíu-se
solitario e perdido. Urgência quase irresistível lhe veio de deixar o navio.
Esqueceu o comandante e os soldados. Lutou contra as suas emoções
às quais não podia atribuir face nem voz.
- Que foi? - Galo perguntou a um oficial inferior que subiu e
o estava saudando. O oficial murmurou-lhe algo ao ouvido, e o
comandante relanceou depressa os olhos para Lucano e seus próprios
olhos de um tom enfumaçado de ágata, embora já alegres e astutos,
iluminaram-se. Seu rosto queimado de sol desmanchou-se em rugas
sorridentes. Voltou-se para Lucano e deu-lhe calorosas pancadas no
ombro, piscando-lhe os olhos.
"Uma liteira carregada por escravos bitínios bem-vestidos acaba
de chegar ao cais, Lucano! exclamou ele, piscando também para os
centuriões. - Não sou o oráculo de Delfos, mas apostaria contigo três
sestércios como se trata de uma dama nobre! Ah! Isto é ser jovem!
Falei-te que os escravos declararam que a dama deseja dizer-te uma
palavra antes da nossa partida?
Lucano teve um sobressalto. Olhou para o cais, e viu, realmente,
que uma liteira ali esperava, as cortinas bem fechadas, e carregadas
por seis robustos bitínios, cujos braços fortes mostravam largos
braceletes de prata. O sangue subiu à cabeça de Lucano que começou a
tremer.
- Não conheço ninguém murmurou ele. - Tens certeza de
que é uma senhora? - Olhava com insistência para a liteira fechada.
- Eu apostaria! exclamou o comandante. Cusa, ouvindo aquela
conversa, aproximou-se e também ficou a olhar a liteira, distante,
apertando os olhos para ver melhor. Uma mulher? Era impossível, no caso
desta Virgem Vestal do sexo masculino. Cusa sacudiu a cabeça em
dúvida. Mas Lucano desceu vagarosamente a rampa, a cabeça brilhando ao
sol, e os alegres soldados, bem como o comandante e Cusa,
debruÇaram-se sobre a amurada do navio e deram à liteira toda a sua
atenção.
Quando Lucano chegou ao lado da liteira, disse:
- Quem deseja falar comigo?
As cortinas afastaram-se e Lucano viu o rosto pálido e
desgostoso de Sara ben Eleazar que se levantava para ele. Estava vestida
inteiramente de preto, e o médico reparou que tinha as roupas rasgadas aqui
e ali conforme o costume judaico de usar luto, e que seus lindos olhos
cor de violeta estavam enegrecidos pela dor.
- Sara disse Lucano, sentindo que seu coração crescia no
peito.
Ela estendeu-lhe a mão pequena e branca que ele tomou.
- Eu não devia ter vindo, Lucano murmurou ela -, pois
ainda choro a morte de meu pai.
Seu cabelo preto mostrava sinais das cinzas.* Tentou sorrir, mas
apenas soluçou, sem lágrimas.
A mão dela estava fria entre as de Lucano. Tudo, em torno dos
jovens, era ruído e movimento, naquele cais, com os escravos
correndo, os gritos, os chamados, mas ele nada via além daquela moça tão
jovenzinha, e pensava: Certamente ela se parece com Rúbria!
- Sara disse ele de novo, e agora seu desejo e sua urgência
tinham um rosto e uma voz.
- José ben Gamnliel disse-me que partias hoje falou ela, a voz
ligeiramente rouca, porque estivera chorando. - Tinha que vir ver-te,
embora seja errado e escandaloso o que fiz, para agradecer-te,
querido Lucano, pelo alívio que levaste a meu pai e pela promessa que
lhe fizeste.
- Foi uma promessa feita com a certeza de que provavelmente
será impossível cumpri-la disse Lucano, abstraidamente. Pensava
que a manhã de primavera estava ali, nos olhos da jovem; uma
fragrância, como de incenso feito de resina aromática, evolava-se das vestes
dela. Mesmo em seu desgosto era mais bela do que qualquer mulher
que ele já vira; a fronte mais pura e mais branca, o corpo virginal mais
doce e mais suave. O sol brilhava-lhe no rosto, através das cortinas
afastadas, e suas faces mostravam os vestígios das lágrimas.
- Encontrarás meu irmão, Lucano disse, com sua voz
dulçorosa. - E eu estarei à espera, em Alexandria ou em Jerusalém.
Ou acrescentou, em tom mais baixo e mais trémulo em
qualquer lugar. Poderás sempre encontrar-me, Lucano.
Ficaram então silenciosos, olhando um para o outro. O rosto dele
estava tão pálido quanto o dela. Depois, ele disse:
- Sara... Aonde eu vou, ninguém pode ir, nem irmão, nem irmã,
nem mãe... Nem esposa. Há muita coisa que eu preciso fazer, e não
terei lar nem paradeiro. Não há lugar na minha vida para o amor
pessoal, pois o amor, para mim, significa perda.
Subitamente, lembrou-se de Asah, no pátio, das palavras dela ao
___
* Uma das demonstrações de desgosto entre os judeus era cobrir a cabeça
com cinzas. (N. do T.)
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marido, e sacudiu a cabeça em desesperada negativa. Mas não largou a
mão de Sara.
Ela disse:
- Eu sempre poderei encontrar-te, Lucano e seus olhos
encheram-se de saudade. De novo ele sacudiu a cabeça. Mas levou a
mão da jovem aos lábios e beijou-a, voltando-se depois, bruscamente
e tornando a subir a rampa. Mesmo quando ela exclamou: "Adeus!
Que Deus te acompanhe! ", ele não olhou para trás.
Lucano não usou o toldo roxo reservado para ele na coberta e, assim,
quem o aproveitou foi Cusa, que se esparramou sobre as almofadas
como um rei, em meditação. Por quê, perguntava-se ele, aquele
incompreensível louco do Lucano mantinha-se lá embaixo, durante
todos aqueles belos dias de outono, subindo para a parte de cima do
navio apenas ao crepúsculo? Ficava sentado lá embaixo com seus
livros, mas, ao crepúsculo, vinha para a coberta balouçante, deixando
claro que não queria conversa. Debruçava-se na amurada e ficava a
olhar para o intenso céu do poente e para o mar chicoteado pelo fogo
escuro, inconsciente da presença dos marinheiros, dos centuriões, do
comandante e dos poucos Outros passageiros. Seu rosto mostrava uma
expressão imóvel e fechada, de pedra, e seus olhos causavam medo.
Perdera-se em algum sonho torturante, do qual ninguém conseguia
arrebatá-lo.
Àquela hora, a voz do mar, quieta e marulhenta durante todo o
dia, começava justamente o seu ciamor. A esteira branca e as velas
brancas que se curvavam contra o céu tomavam sombras de sangue
vindas do poente aceso, tão silencioso e ainda assim tão ameaçador.
Uma vez o céu explodiu em curta, mas turbulenta tempestade, nuvens
negras com cristas brilhantes de relâmpagos correndo perto dos altos e
balouçantes mastros, o trovão ecoando com voz gigantesca através dos
vagalhões assustadores e semelhantes a montanhas. Lucano, entretanto,
parecia inconsciente daquilo e debruçava-se pesadamente contra a
amurada, sem sentir o encharcamento da chuva quente e abafada.
Olhava essa direção de leste, como se tentasse atravessar com os olhos
as milhas que se estendiam. Sentia-se doente, com seu imenSo vaziO e
seu anelo. Acima e abaixo do trovão e da ventania tumultuosa ele
ouvia a voz de Sara.
O navio se deteve em vários portos, brilhantemente coloridos
durante o dia, mas Lucano não subiu para vê-los. Era como se a Vida se
tivesse de novo tornado para ele uma coisa que magoava terrivelmente,
como se todas as suas feridas tivessem começado a reabrir com novas
infecções. Suas lutas consigo mesmo tinham alcançado um estado
insuportável. "Não posso amar de novo!", gritava ele, para si próprio.
"Amor é corrente e cadeia; amor é morte. Amor é ficar preso à lareira,
e o fogo da lareira destrói a paz de um homem."
A Grécia não o seduziu; ficou sentado lá embaixo, em seu
quartinho quente, os olhos vazios, as mãos cruzadas entre os joelhos.
- Pelo menos podias dar uma olhadela à pátria de tua gente...
insistia Cusa, com um misto de impaciência e preocupação. Mas
Lucano apenas sacudia a cabeça. - Se me dissesses o que te
despedaça a alma... começou Cusa. E Lucano apenas tornou a sacudir a
cabeça. - Não comes falou Cusa. - Trouxe meu vinho, meu
próprio e precioso vinho, e tu mal o provas.
Lucano continuava silencioso.
Um dia, o mar e o ar estavam tão calmos que as velas tombaram
encolhidas e o sol fez-se uma fúria, O navio seguia mais lentamente,
pois o único meio de propulsão era, agora, o fornecido pelos escravos
das galés. Ao crepúsculo, o navio era como mariposa erradia sobre a
flor lisa e cor de heliotrópio do oceano, e a esteira silvava com um som
mal audível. Então, Lucano, na coberta, ouviu o profundo e doloroso
cântico dos escravos, e aquilo lhe pareceu um prolongamento de sua
própria dor. Eles têm de cantar assim todo o tempo..., pensou. Não
ouvi isso antes! Estive pensando, egoisticamente, apenas em meu próprio
sofrimento. Ao pensar nisso voltou-se e viu alguns homens
subindo a escada que vinha da coberta inferior, carregando,
penosamente, um homem negro e nu. Colocaram o corpo sobre a balaustrada
e daí o atiraram ao mar, onde ele mergulhou com um ruído leve de água
esparramada.
Os escravos ficaram a vê-lo desaparecer, depois levantaram até os
Lábios os amuletos que traziam pendurados ao pescoço, beijaram-nos, e
trataram de descer rapidamente. A morte vem para os navios como para
as cidades, pensou Lucano. Lembrando-se de que tinha ouvido
vagamente aquele agoureiro som de um corpo atirado ao mar, em outros
crepúsculos, franziu as sobrancelhas. Então foi procurar o comandante,
que estava sentado em seu próprio aposento, lá embaixo, com alguns
subalternos. O homem levantou os olhos para Lucano, ao vê-lo
e o jovem percebeu que seu rosto largo estava ansioso e colérico.
ergueu-se, sorridente, dizendo, com ar cordial:
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- Pensei que te havia ofendido, Lucano. Não me dirigiste a
palavra desde que saímos de Alexandria. Queres jantar comigo?
- Obrigado. Já jantei, Galo. - Lucano hesitava,
perscrutando o rosto do homem: - Acabo de ver atirarem um corpo ao mar. Estou
errado ao acreditar que isso se tem repetido muitas vezes nestes
últimos dias?
O comandante nada disse. Relanceou sombria e furtivamente os
olhos para seus oficiais, depois sorriu mais amplamente:
- Ah! Sempre há algumas mortes numa viagem longa como essa
- disse ele. - Trazei vinho falou, imperioso para o oficial. -
Não é um vinho excelente como o seu, Lucano acrescentou,
dirigindo-se ao jovem grego -, mas espero que sirva.
Ele curvou-se ante Lucano e ofereceu-lhe o amplo assento
próximo à vigia. A sala do comandante estava quente e abafada; tinha as
paredes cobertas de mapas e, sobre uma mesa de madeira,
encontravam-se o sextante e um diagrama das estrelas. Lucano sentou-se,
percebendo um curioso aroma seco naquele ar viciado, e subitamente
percebeu que se tratava de especiarias, incenso e ervas medicinais que
ardiam numa lamparina pequena sobre a mesa. Uma lanterna
balançava, pendurada no forro e lançando fumaça.
Um oficial trouxe uma jarra de vinho e algumas taças, e Lucano,
com o comandante e os oficiais, bebeu lentamente. Por um motivo
qualquer, estabeleceu-se na cabina um silêncio tenso e estranho, e a
alma de médico de Lucano começou a latejar. Estudou o rosto de Galo
e dos outros, e esses rostos estavam definitivamente fechados e
secretos. O navio mal balançava, e parecia mover-se em óleo espesso. O
cântico dos escravos estava mais próximo e mais agudo.
Então Lucano disse calmamente:
- Conta-me, Galo.
O comandante olhou para ele, como em alegre surpresa:
- E que devo contar-te, Lucano?
- Esqueceste, Galo, de que sou médico. - Este fixou nele os
olhos com firmeza, por alguns instantes. Olhou então,
significatívamente, para a lamparina fumegante, mas não perdeu a rápida troca de
olhares entre o comandante e seus oficiais.
- Ah! És médico, sim disse Galo, animadamente. - E eu
não o esqueci. - Fez um movimento de cabeça para os oficiais, que
deixaram a cabina. Mas quando acabaram de sair, Galo não mostrou
pressa em falar. Ficou a olhar para seu copo, tornou a enchê-lo,
fechou os olhos, fingiu estar absorvido no bouquet do vinho, e em seu
gosto, que era inferior.
Depois, disse:
- Estou contente por te teres mantido à parte, Lucano, e por
não te haveres misturado aos outros passageiros. Afinal, és nossa carga
mais importante.
- Parece-me, Galo, que nada notei nos outros passageiros,
embora confesse que não lhes procurei a companhia.
- Eles se mantiveram aqui embaixo por sugestão minha. - Galo
pousou o copo e virou-se para o gráfico que estava sobre a mesa.
- Peste? indagou Lucano, baixinho.
Foi como se ele não tivesse falado, durante uns dois minutos.
Então, Galo empurrou pa a o lado o seu gráfico e descansou o rosto
na palma da mão.
- Deves ter percebido que passamos sem parar por vários portos
de escala disse ele. Então, deu uma palmada sobre a mesa ejá não
sorria: - Eu devia ter dito antes para tua própria proteção, mas tu
não estavas entre os outros. Sim, é a peste. Estamos agora levantando a
bandeira amarela, que provavelmente viste. Os portos não nos
deixatão entrar, quando virem essa bandeira. Mas houve apenas alguns
casos e, ainda assim, entre os escravos das galés. - Suspirou: - Este
maldito Oriente! Todos os transtornos de Roma vêm de lá. Quando
chegarmos à nossa terra não nos permitirão descer, até que estejamos
livres da peste, pelo menos durante uma semana. É a lei.
- Sou médico repetiu Lucano.
- Temos médico no navio disse Galo, contrariado. - És um
passageiro. Não estas a meu serviço. És o filho de Diodoro Cirino. -
Que me aconteceria se te expusesses ao perigo, ou se apanhasses a peste
e morresses? - Seus olhos castanhos faiscavam de ressentimento. - Já
te disse: apenas os escravos estão atacados, e nós os conservamos
fechados na coberta inferior. Na noite passada não tivemos mortes. Foi uma
pena que visses o sepultamento no mar, esta noite. Lucano, eles não
passam de escravos, cães e criminosos acrescentou, com sensatez.
Lucano pensou nos desgraçados de rostos anônimos, no porão,
encadeados uns aos outros, inchando, doentes, morrendo. E disse,
bruscamente:
- Chama teu médico.
O médico era um homem de meia-idade, de ar cansado, um gaulês
olhos percucientes e escuros, ele próprio um escravo.
curvou-se para ele e disse, num tom contido:
- Tu ainda não entendeste. És um romano, e pensas e sentes
como um romano, Galo. Um escravo, para ti, é menos do que um
chacal. Para mim, ele é um irmão.
Galo estava desesperado. Tinha muitos transtornos ainda mais
um louco em seu precioso navio! Relanceou os olhos para Príamo,
que fixava Lucano como que hipnotizado, uma lágrima a um canto da
pálpebra. Galo ficou olhando para seu médico. Estaria bêbado aquele
patife? E disse, encorelizado:
- Príamo, conduz o nobre Lucano aos seus aposentos e
prepara-lhe imediatamente um sedativo, pois ele está doente, é óbvio.
Lucano, porém, voltou-se para Príamo e disse:
- Meus professores hindus ensinaram-me que os ratos e suas
pulgas é que espalham essa doença. Ouvistes falar nisso?
Príamo não conseguiu falar. Sacudiu a cabeça, confuso.
- É verdade disse Lucano, como um médico a outro.
Apontou para as pernas finas e escuras de Príamo. - Deverias usar
envoltórios
de linho para protegê-las das pulgas, quando vais tratar dos escravos.
Galo perdeu o controle, e berrou:
- Pensas que eu permitiria que o meu médico, pelo qual paguei
mil sestércios de ouro... mil sestércios de ouro!... vá até as galés? Ele
está aqui para proteger meus passageiros e não os escravos, e nenhum
dos passageiros foi atingido. No momento em que ele me. comunicou
que a peste havia surgido entre os escravos das galés eu o proibi de se
aproximar da porta fechada com cadeado. Sou o comandante!
Minhas ordens são vida e morte neste navio, e não peço perdão nem
mesmo a ti, Lucano, quando te faço lembrar isso!
Lucano respondeu, calmamente:
- Sugiro que todos os ratos deste navio sejam encontrados e
exterminados imediatamente; que todos os aposentos sejam fumigados
contra as pulgas; que cada polegada de madeira deste navio seja lavada
com lixívia.
Galo havia recuperado o controle. Lucano falava razoavelmente,
mas os loucos também têm seus momentos de sensatez. E ele disse:
- Darei essas ordens imediatamente. E agora...
Lucano levantou-se.
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- Este é Príamo, o meu próprio médico disse Galo.
Príamo olhou para Lucano e inclinou-se.
- Há peste a bordo? perguntou Lucano.
- Apenas entre os escravos das galés disse Galo, com
impaciencia. - Mas agora sabes, Lucano... e eu temia que soubesses... e
mandarei colocar em tua cabina uma destas lamparinas de fumigação.
Teu Cusa já sabe, e mantém-se fechado, com a mulher e o filho, em
sua própria cabina, a não ser quando te serve. Dei-lhe ordem, como
comandante e absoluta autoridade neste navio, de que não espalhase
a notícia da peste a bordo, a fim de te poupar inquietação.
- Os escravos são homens disse Lucano, a voz dura.
Galo olhou para ele, estupefato. O rosto de Príamo tornou-se
estranho e também ele fixou os olhos em Lucano.
- Que é um escravo? - Galo estava horrorizado. Não podia
acreditar no que ouvia. Sabia que Lucano era estranho e não se
parecia aos outros jovens, mas aquilo ficava para além do que se poderia
acreditar. - Lucano, essas criaturas são traidores. assassinos, ladrões,
condenados perpétuos às galés.
- Ainda assim, são homens disse Lucano. O rosto claro
trazia manchas de um furioso vermelho sobre os malares e os olhos azuis
revoltavam-se sob as sobrancelhas louras. Galo convenceu-se de que o
rapaz era louco. Um escravo das galés era um homem! Galo sentia-se
alarmado. E disse, com solicitude:
- Tua aparência não é boa, Lucano. O clima de Alexandria é
penoso, eu sei. Se permitires que Príamo te receite um ligeiro sedativo
para que...
- Tu não me compreendes disse Lucano, tentando manter a
voz num tom tranqüilo. - Para mim, médico, um escravo é um
homem, um ser humano, que pode sofrer tão violentamente quanto César.
Criminosos, traidores, assassinos também são homens. Não estãO à
parte de nós em sua humanidade.
Os olhos de Galo apertaram-se. Mandaria pôr uma droga no
vinho de Lucano. Deuses, pensou ele, não sou responsável por esse
desvairamento! Mas, que direi às autoridades quando chegarmos à
pátria? Que o filho adotivo de Diodoro Cirino foi trancafiado COmO
louco? Só aquele pensamento fê-lo estremecer. E disse, num tom
fraternal, tentando acalmar Lucano:
- Sim, sim, certamente. Príamo te levará aos teus
aposentos. Ficará contigo durante algum tempo, Lucano. Ele se diplomou
em Tarso, e sem dúvida tereis muitos conhecimentos médicos a discutir
juntos.
Fez um movimento para se erguer de sua cadeira, mas Lucano
curvou-se para ele e disse, num tom contido:
- Tu ainda não entendeste. És um romano, e pensas e sentes
como um romano, Galo. Um escravo, para ti, é menos do que um
chacal. Para mim, ele é um irmão.
Galo estava desesperado. Tinha muitos transtornos ainda mais
um louco em seu precioso navio! Relanceou os olhos para Príamo,
que fixava Lucano como que hipnotizado, uma lágrima a um canto da
pálpebra. Galo ficou olhando para seu médico. Estaria bêbado aquele
patife? E disse, encorelizado:
- Príamo, conduz o nobre Lucano aos seus aposentos e
prepara-lhe imediatamente um sedativo, pois ele está doente, é óbvio.
Lucano, porém, voltou-se para Príamo e disse:
- Meus professores hindus ensinaram-me que os ratos e suas
pulgas é que espalham essa doença. Ouvistes falar nisso?
Príamo não conseguiu falar. Sacudiu a cabeça, confuso.
- É verdade disse Lucano, como um médico a outro.
Apontou para as pernas finas e escuras de Príamo. - Deverias usar
envoltórios
de linho para protegê-las das pulgas, quando vais tratar dos escravos.
Galo perdeu o controle, e berrou:
- Pensas que eu permitiria que o meu médico, pelo qual paguei
mil sestércios de ouro... mil sestércios de ouro!... vá até as galés? Ele
está aqui para proteger meus passageiros e não os escravos, e nenhum
dos passageiros foi atingido. No momento em que ele me. comunicou
que a peste havia surgido entre os escravos das galés eu o proibi de se
aproximar da porta fechada com cadeado. Sou o comandante!
Minhas ordens são vida e morte neste navio, e não peço perdão nem
mesmo a ti, Lucano, quando te faço lembrar isso!
Lucano respondeu, calmamente:
- Sugiro que todos os ratos deste navio sejam encontrados e
exterminados imediatamente; que todos os aposentos sejam fumigados
contra as pulgas; que cada polegada de madeira deste navio seja lavada
com lixívia.
Galo havia recuperado o controle. Lucano falava razoavelmente,
mas os loucos também têm seus momentos de sensatez. E ele disse:
- Darei essas ordens imediatamente. E agora...
Lucano levantou-se:
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- E agora irei até as galés e verei o que posso fazer, depois de ter
envolvido minhas pernas e braços contra as pulgas.
Galo ergueu-se. E disse, num tom implacável:
- Devo fazer-te lembrar, de novo, que sou aqui o comandante, e
que mesmo César, se fosse meu passageiro, teria de obedecer às leis
marítimas. Enquanto estivermos neste navio, meu navio, sou a
autoridade suprema. Voltarás para teus aposentos, Lucano, e meu
médico irá contigo para acalmar-te.
- Não disse Lucano. - A não ser que me arrastes até lá. Sou
médico e também tenho meus deveres e minhas leis.
Ele terá que ser confinado com firmeza, pensou o desventurado
comandante. A qualquer momento pode tornar-se perigoso, e só os
deuses sabem o que acontecerá. Como é possível que mesmo um
louco chegue a tão alto grau de loucura? "Irei até as galés..." Galo
hesitava. Chamaria seus oficiais e mandaria prender correntes leves às
pernas e pulsos de Lucano. Diante dele surgia a desanimadora expectativa
de entregar o filho adotivo de Diodoro Cirino, o descendente dos
quirites, o antigo procônsul da Síria, acorrentado como um
criminoso, no porto de chegada. As cóleras e indignações de Diodoro eram
famosas. O próprio comandante teria que responder por aquela séria
ofensa contra a pessoa de Lucano, apesar de o jovem estar
evidentemente louco. Galo raciocinava. O dilema era horrível. Mas ainda
tinha a lei a seu favor, e era para proteger Lucano que devia agir.
- Não tens piedade, Galo? perguntou Lucano, desanimado.
- Sei que um escravo, e particularmente um escravo das galés, é
menos do que um animal para ti. Os escravos das galés podem ser
assassinados com impunidade. Mas considera. Deixa teu coração
oUvir e comover-se por um momento. Os escravos sangram como tu
sangras, morrem como tu morres. E aonde teu espírito vai, também vão as
almas deles. Estás preocupado com a minha própria saúde e
segurança? Sim. Se eu adoecesse, ou morresse, então terias medo de Diodoro,
meu pai adotivo. Compreendo. - Sua voz suavizou-se: - Basta que
deixes sem cadeado a porta das galés. Tenho meus remédios e juro-te
que me protegerei e que te absolverei de qualquer censura em relação
a mim. Ninguém precisa saber, a não ser nós, que estou tratando dos
escravos. Irei e voltarei, sem ser visto senão por eles.
- Estou cansado, Lucano disse o comandante. - Vai para
teus aposentos imediatamente, ou eu terei... eu terei... de levar-te à
força para lá.
- A não ser que eu detenha essa doença, Galo, ela se espalhará entre
os passageiros. Podemos ir à deriva para um porto, o navio cheio
de mortos.
Galo voltou-se, afastando-se dele.
- Vai para os teus aposentos repetiu. - Nesse meio-tempo darei
ordens para que façam o que sugeriste.
22
Preciso entrar naquelas galés disse Lucano, depois de chamar
Cusa à meia-noite. Durante horas ouvira o rumor provocado pelos
escravos e marinheiros, na caça e destruição de ratos, e na limpeza
inteira do navio, feita com lixívia.
Cusa disse:
- Estás louco, naturalmente. Vou aquecer um pouco de vinho
para ti, e nele COlocarei especiarias.
Lucano contemplou-o demoradamente.
- És um homem esperto, Cusa. Quanto tempo levarias para
forçar o cadeado da porta que dá para as galés?
Cusa recusou-se a levá-lo a sério, ou antes, recusou-se a mostrar
que o tomava a sério.
- Forçar um cadeado, Lucano? Eu? - E riu-se, divertido.
Depois, bocejou amplamente: - Por que me acordaste a esta hora? Foi
para trocar gracejos?
- Seu grego velhaco disse Lucano. - És um especialista,
sem dúvida alguma, nisso de forçar cadeados. Não havia coFre, ou
arca, ou armário, que estivesse seguro contra a tua curiosidade, em
Etioquia. Dizes que Calíope é uma mexeriqueira, mas tu és o pior de
todos os mexeriqueiros. Eu costumava observar-te com admiração,
confesso, a uma certa distância, quando era criança. Lembro-me bem
de teus talentos. Não precisas mostrar-te tão ofendido. - Prestou
atenção por uns momentos. Os guinchos dos ratos perseguidos
terminaram, e o navio estalava e gemia, balançando-se languidamente.
Apenas os apelos do vigia podiam ser ouvidos, aqui e ali.
Lucano começou a meditar em voz alta.
288 289
- O navio dorme, a não ser pelos escravos das galés e pelo vigia
e oficiais de convés. Segundo minhas observações no passado, Cusa,
acho que poucos momentos serão suficientes para que abras aquela
porta no interior do navio, e me permitas entrar ali com meus
remédios.
Agora, Cusa estava grandemente alarmado.
- Senhor! Imagina se tu próprio te contagiares! Ah! Sim! Já
pensaste nisto? Devo entregar a Diodoro um cadáver? Teu rosto
parece de ferro. Consideremos os aspectos mais práticos da situação. Galo
recusou-se a deixar que entrasses nas galés, eu me desculpo diante
dele por o haver considerado pessoa grosseira, para a qual o
oferecimento de um bom vinho é uma blasfêmia. Ele tem o comando
supremo neste navio. Se o vigia me descobrisse às voltas com o cadeado, o
comandante me poria a ferros, e isso seria apenas o que eu mereceria.
Tu e ele, então, manteríeis um silêncio de gelo, enquanto eu teria que
me conformar, esperando pelo dia em que chegássemos, e então eu
fosse arrastado para a prisão. Sim, sim e ele erguia a mão delicada
-, compreendo que te arrogarias a culpa. Galo, porém, não iria
colocar Lucano, o filho de Diodoro, a ferros. Poderia confinar-te em teus
aposentos, o que ele devia ter feito desde o momento em que
começamos a viagem. Tenho mulher e filha; a expectativa de prisão por
violação das leis marítimas não me seduz. Pensa na minha esposa e
minha filha, Lutano.
O jovem tornou-se impaciente:
- Pensei em tudo disse. - Irei contigo até a porta, e se
formos apanhados direi ao comandante que te obriguei sob as mais
ferozes ameaças, e então podes pedir ao homem que te proteja contra a
minha loucura. Se os ferros ainda forem o resultado, Diodoro te
libertará num abrir e fechar de olhos.
- Duvido! exclamou Cusa. - Sabeis bem como ele respeita
a lei!
O rosto de Lucano iluminou-se, e ele estalou os dedos:
- Traze Cipião, o mais jovem dos centuriões!
- A esta hora?
- A esta hora. Depressa, Cusa. Teus argumentos aborrecem-me.
Sacudindo a cabeça melancolicamente, Cusa deixou a cabina
fumacenta e depressa voltava com Cipião que, embora de rosto
avermelhado pelo sono e com os olhos inchados e remelosos, tinha
envergado primeiro sua armadura, elmo e espada, como convém a um
soldado. Levantou o braço direito em saudação a Lucano, que
retribuiu o cumprimento.
- Senta-te a meu lado, meu excelente Cipião disse ele. -
Quero conversar contigo.
Cusa ficou junto da porta, ouvindo, coçando-se sob a túnica de
noite e cheio de ansiedade.
- Cipião disse Lucano -, como soldado não tens os
marinheiros em alto conceito, não é mesmo?
- Senhor, como soldado, eu os desprezo. Servem apenas para
manobrar navios de guerra, colocando-os em boas posições para que
os soldados possam atacar.
Os olhos negros de Cipião começaram a brilhar com interesse,
mas, militar que era, não perguntou por que Lucano o mandara
chamar à meia-noite. Lucano, para ele, era um procurador daquele
homem poderoso, Diodoro, cujo nome todos os soldados reverenciavam.
- Marinheiros são tão arrogantes disse Lucano, suspirando.
- Sabes que Galo esta noite ameaçou-me fechar-me em meus
aposentos porque eu demonstrei Opinião diferente da dele? Gritou
comigo e disse que ele era um rei neste navio.
Cipião sentiu-se ultrajado.
- Ele falou assim contigo, senhor, contigo, o filho de Diodoro
Cirino? - Não podia acreditar em coisa tão monstruosa.
Lucano tornou a suspirar:
- Fez isso. E na presença de seu escravo.
- Na presença de seu escravo! - O rosto jovem de Cipiao
escureceu, e ele levou a mão ao punho da espada, fazendo um movimento
como que para se levantar.
- Vamos gemeu Cusa, atirando as mãos para a frente -,
quem é agora o grego velhaco?
Lucano ignorou.
- Sou médico, Cipião, e seguramente um médico é mais inteligente
do que um simples comandante de navio cargueiro e, sem dúvida
alguma, vale muito mais. Há peste a bordo.
Ouvindo isso, Cipião empalideceu, e sentou-se de novo,
lentamente.
- A não ser que eu examine as galés, o navio inteiro ficará
contaminado e talvez nós pereçamos. Já viste casos de peste, Cipião? Ah!
É uma coisa das mais horrorosas. As glândulas distendem-se, ficam
cheias de pus, os corpos apodrecem, vomita-se sangue e a tosse é san-
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gue. A pessoas em delírio, se arrisca às mais perigosas situações. É o
que nos espera a todos. Morte. Há poucas possibilidades de
sobrevivência, quando se contrai a peste. Mas aquele comandante de cabeça
de marionete se recusa a permitir que eu trate e detenha a doença.
Não é uma coisa incompreensível?
O soldado jovem e simples estava incrédulo.
- Mas que se pode esperar de um miseráVel marinheiro,
senhor? - Ele ia se excitando.
- Posso falar? perguntOU Cusa.
- Não podes respondeu Lucano, rapidamente, enquanto
Cipião dirigia a Cusa um olhar ameaçador.
- Naturalmente, como médico e homem de nobreza e família,
desejas ignorar as ordens desse comandante de cabeça de suíno -
disse Cipião, fervendo de cólera.
- Cipião, és um jovem de compreensão das mais agudas -
disse Lucano, com admiração.
- Hum! grunhiu Cusa. - Fui acusado de ter uma natureza
serpentina, mas aqui está um que envergonha as próprias serpentes de
Ísis.
Lucano continuou a ignorá-lo. Cipião, com voz que tremia de
cólera, disse:
- Como se atreve ele a ter a presunção de dar ordens ao filho de
Diodoro Cirino?
Lucano sacudiu tristemente a cabeça:
- Gritou-me a sua autoridade, bateu com o punho na mesa.
Ameaçou-me com... como é que dizes mesmo, Cusa?... com os ferros.
Cipião se pôs em pé de um salto:
- Alguém pagará por isso! exclamou.
- E tudo quanto eu desejava era protegernos a todos
contra a peste. Estamos com a bandeira amarela arvorada, CipiãO.
Poderemos não obter permissão para descer na Itália. Podemos mesmo ser
mandados de volta para Alexandria ou ficarmoS flutuando no mar
até que morramos todos. Sabes como os médicos de Roma são rigorosos. Há
quanto tempo não vês tua namorada, CipiãO, e teus pais, e Roma,
onde os romanos são romanos e não guardiães de um mundo ingrato?
Os olhos de Cipião encheram-se de lágrimas. Naquele momento,
ele teria matado Galo num relance.
Cusa, boquiaberto, fitava LucanO em atônita admiração. O
corajoso néscio era tão sutil quanto um oriental!
- Preciso de tua ajuda, Cipião. Poderá haver uma sentinela
junto da porta das galés, fechada a cadeado. Ou a sentinela de vigia pode
fazer suas rondas anteS que o meu maravilhoso Cusa force o cadeado.
Forçar cadeados era coisa censurável e por um momento no rosto
de Cipião transpareceu certa dúvida. Depois, clareou. Que significava
para um grego isso de forçar um cadeado?
Assim disse Lucano, com um gesto da mão -, tudo
quanto precisas fazer, Cipião, é dizer que não tens sono ou que te
ordenei
que me guardasses esta noite, porque sou homem muito nervoso e
sujeito a pesadelos. Assim, perambularás com ares desconfiados, pelo
navio. Irás até a porta das galés e descobrirás para mim se tal porta está
guardada. Depois, distrairás a sentinela enquanto Cusa força o
cadeado. Preciso apenas de uma ou duas horas. Cusa te dirá quando
sairmos das galés. Ele é um homem medroso, naturalmente, e não se
aventurará a entrar lá.
- Ser pusilânime nada tem a ver com isso! exclamou Cusa.
- Trata-se de respeitar a lei!
Lucano olhou-o, ainda com mais tristonho ressentimento.
- Cusa, esqueceste o que significa ser um soldado de Roma,
que é executora da suprema lei.
- Nós somos a lei disse Cipião, lançando a Cusa um olhar
furibundo e imobilizante. - Pensas que as ordens de um marinheiro
são mais importantes do que nós?
Cusa, porém, apenas olhava com piedade para ele, pois o via como
vítima de um plano que ele considerava não só perigoso como
abominável.
- Ordeno-te que guardes silêncio, Cusa! disse Lucano.
- Silêncio! disse Cipião. - Ouviste o que teu senhor falou.
- Hum... sim... Mas ele não te disse...
Lucano interveio:
- Agora tudo está muito silencioso, Cipião. Recebe meus
agradecimentos e vai. Não desejamos chegar bem e depressa à nossa pátria?
- E a ferros disse Cusa, desesperado.
- Vai também, Cusa, e traze aquela tua pequena bolsa de couro
preto, com aquelas excelentes ferramentas para forçar cadeados, que
provavelmente compraste de algum ladrão disse Lucano, sorrindo.
- E trata, Cusa, de não fazer qualquer tentativa para choramingar
acovardados receios aos ouvidos de um soldado de Roma, quando
estiveres longe de meus olhos.
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- Senhor disse o jovem centurião, altivamente -, um
romano é surdo para a conversação de um liberto.
Cusa voltou sozinho, com sua bolsa preta. Lucano estava
ocupado em examinar o conteúdo de seu estojo médico.
- Naturalmente disse Cusa, com amargura mandarás
algum vinho fino para Cipião, a fim de consolá-lo, quando o
comandante o puser a ferros. E esquecerás de mandar-me do mesmo vinho.
- Tu te preocupas demais falou Lucano. Estava alerta e
enérgico, como que renascido. Suas faces mostravam-se rosadas e seus
olhos faiscavam de satisfação.
- Nunca pensei que meu aluno chegasse à degradação das
mentiras falou Cusa.
Lucano verificava seus bisturis.
- Jamais cheguei a dizer uma só mentira falou.
- Não, não, evidentemente não. Tu és um sofista. Tresandas
virtudes. Isso faz de ti também um estóico.* És um homem de muitos
recursos, Lucano, e confesso que havia subestimado o veio de vilania
que há em ti. E assim, como teu professor, confesso que estava cheio
de ilusões, o que foi uma grande tolice de minha parte.
- Grande tolice concordou Lucano, com um sorriso juvenil.
Cipião voltou, irradiando satisfação.
- A porta das galés não está guardada, senhor. Evidentemente,
não o consideram necessário. Quanto à sentinela, descobri que se
trata de agradável pessoa de meu conhecimento, da qual fui instrutor
em assuntos militares. Penso acrescentou Cipião, com o entusiasmo
de um conspirador que um pequeno jarro de vinho, bebido
em minha companhia no convés superior, aguçará seu interesse pelas
campanhas militares.
- Um jarro de vinho disse Lucano a Cusa, que, gemendo
como que atacado de fortes dores, foi buscar o que lhe pediam. Cipião
descobriu, com alegria, que o jarro estava cheio, e lá se foi para o seU
trabalho de distrair a sentinela mantendo-a quieta.
- O comandante mandará enforcar a sentinela lá no mastro da
ponta da verga, ou da maldita coisa que seja disse Cusa. - Isso,
naturalmente, não te preocupará. Esqueceste o oficial de serviço no
convés superior.
___
* Adeptos da doutrina filosófica de Zerda, cujo ideal é obedecer às
circunstâncias exteriores, como sofrimento, fortuna, saúde etc. (N. do
T.)
___
- Cipião é um jovem e inteligente oficial disse Lucano,
pondo o comentário de parte. - Ele, como tu, ama a tagarelice e conhece
todos os oficiais de bordo. Assim, conversarão alegremente entre eles.
Como se deve sentir solitário o que está de serviço com o mar tão
calmo! Vamos. Dentro de três horas amanhecerá. Ah! Espera um
momento. Preciso de dois baldes para água. Não te arrastes como um
velho, Cusa. Não estás para ser executado.
- Isso eu duvido disse Cusa.
Apanharam a lanterna da cabina e levaram-na para o estreito
corredor externo. Lucano tinha pena, tanto pelo medo de Cusa quanto
pela crença do professor na autoridade absoluta, e pela sua aceitação
indiscutível de tal autoridade. Embora o comandante tivesse direito
de vida e morte sobre as pessoas que estavam no navio, por amor
dessas mesmas pessoas em face de elementos caprichosos e imprevisíveis,
quando o perigo estava sempre presente havia, ainda mais importante,
uma lei moral que um homem não tinha o direito de ignorar. O
comandante tinha suas leis, mas que se tornavam opressões, em lugar de
leis, quando ele negava àqueles pobres escravos qualquer socorro,
alívio ou direito à vida.
Lucano recordou histórias autênticas de navios como aquele,
quando escravos das galés tornavam-se doentes, com distúrbios violentos e
brutais e ficavam trancados lá embaixo, sem auxílio. Os pa sageiros e
outros escravos que se não haviam contagiado tinham permissão para
desembarque, depois de examinados pelos funcionários da saúde
pública, e então o navio era rebocado para o mar, com sua carga de
prisioneiros, moribundos escravos de galés, irremediavelmente
atingidos. E incendiavam a embarcação. Lucano fremiu, recordando
aquilo. Aquele era o destino que esperava OS pobres desgraçados do porão.
O jovem grego cobrira as pernas e braços com apertadas tiras de
linho, bem como as mãos. Envolvera-se em seu manto, com o capuz
cobrindo a cabeça. Cusa levantava bem alto a lanterna fumegante. As
passagens estreitas, de madeira, estavam absolutamente silenciosas e
escuras, e os dois homens deslizaram por elas, para baixo. Cipião fizera
bem o seu trabalho; não encontraram sentinela. Deslizando pelas
portas fechadas, retendo o fôlego e caminhando tão levemente quanto
possível, podiam ouvir o longínquo e rítmico movimentar-se dos
remos nas profundezas do navio, o estalido e os gemidos na madeira, o
ressonar distante de homens. Todo o navio recendia a lixívia e alcatrão
e a diversas fedentinas de cargas, gente, óleo, e do calor e sal dos
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últimos dias. O piso dos corredores, enquanto eles se moviam como
fantasmas descendo as escadas para os fundos da embarcação, estava
quase tão imóvel quanto a terra. O navio deslizava sobre a face do
oceano com um movimento apenas perceptível.
Mais e mais desceram eles, e a vigorosa fedentina ia se fazendo
quase insuportável. Agora, outro cheiro se acrescentara: o da morte e
da doença. O forro do último corredor tornara-se tão baixo que Lucano
era obrigado a curvar sua cabeça. Viu que água estagnada se ia
infiltrando ali em pequenos fios negros, infinitamente nauseantes para
as narinas. Num esforço para deter a infecção que se espalhava, ervas,
especiarias e substâncias insalubres foram queimadas ali, aumentando
a fumaceira, o calor sufocante e a poluição do ar. A lanterna atirava
sombras atrás dos dois homens que deslizavam sobre o piso imundo,
pelas paredes de madeira podre, com forro que deixava vazar líquidos.
Lucano teve consciência de um som como que de um sopro
contínuo de vento, selvagem e ainda assim abafado, sonoro e melancólico.
Era a voz dos escravos das galés, a voz sem amparo, menos do que
humana e, entretanto, repleta da agonia de toda a humanidade. Cusa
parou, assustado.
- São apenas os escravos murmurou Lucano, confortando-o.
Mas Cusa tremia. Lucano empurrou-o com delicadeza e a lanterna
vacilava na mão do outro, que cochichou:
- Como poderemos evitar que o comandante venha a saber
disto? Ali há muitos escravos e um capataz. Isto transpirara.
- Provavelmente respondeu Lucano. - Mas um fato consumado
é um fato consumado, e somente eu serei visto. Contudo, se
tiver sucesso, e sinto que o terei, o comandante será o primeiro
homem a ser cumprimentado pelas autoridades e podes estar certo de
que não mencionará a parte que terei tomado nisto.
O corredor era tão estreito que eles tinham de andar um atrás do
outro. Era, também, bastante curto. No fim, uma espessa porta de
madeira, com ferrolho e cadeado. Lucano fez sinal a Cusa, que deslizou
em direção a ela, abrindo sua bolsa de ferramentas. sa, que
- Não te ajoelhes sussurrou-lhe Lucano. há infecção na
água.
Cusa curvou-se para o cadeado e começou a trabalhar nele, suas
mãos ágeis e úmidas tremendo, o suor correndo-lhe por sobre os olhos.
Lucano mantinha a lanterna junto dele, e observava-lhe o trabalho
por sobre os ombros. As lamentações dos escravos, atrás da porta,
pareciam parte do próprio ar, e as paredes e forro vibravam com elas.
Outros escravos estavam confinados no corredor vizinho, pois tinham
o dever de levar comida aos escravos das galés, bem como água, e
substituir aqueles que morriam. A maior parte deles eram os que Lucano
vira serem trazidos para bordo no dia em que embarcara. Foram
condenados à morte, sem culpa, pelo comandante, e sabiam disso. Lucano
podia ouvir os soluços sufocados de suas mulheres, e os gritos de seus
filhos, através das paredes.
Enquanto Cusa trabalhava, Lucano despejava pacotes de
desinfetantes em dois baldes de água que tinham trazido com tanta
dificuldade. Um era para que o bebessem os escravos doentes e moribundos, o
Outro para seu próprio uso. Tinha que manter as mãos molhadas,
enquanto fazia os tratamentos. O cheiro de desinfetante misturou-se
aos outros cheiros intoleráveis, e Cusa espirrou miseravelmente,
limpando o nariz na manga e continuando a trabalhar. Houve, então, um
estalido agudo, e o cadeado estava aberto.
- Vai embora já murmurou Lucano. - Não abrirei a porta
enquanto não estiveres longe dela. Fica na minha cabina e, se alguém
vier, dize que estou dormindo.
Durante um longo momento, entretanto, o professor ficou a olhar
estranhamente para Lucano, à luz alta da lanterna, e seus olhos ativos
mostravam-se estranhamente imóveis e fixos. Estava pensando: Se eu
tivesse tido um senhor menos bom e justo do que Diodoro, também
poderia estar nestas galés, morrendo, sem auxílio, sem esperança. Se
não fosse por Lucano, eu ainda seria um escravo.
E sussurrou:
- Senhor, eu não te deixarei.
Lucano franziu para ele as sobrancelhas, mas Cusa repetiu:
- Aonde fores, eu irei.
O jovem grego sorriu, e pareceu a Cusa que seu rosto tinha um
rápido e súbito halo de luz.
- Vem comigo disse o jovem grego.
Alguns ratos, que escaparam à matança geral daquela noite,
passaram correndo por eles, guinchando, alvoroçados, e Cusa teve a
impressão de que eles se mantinham contra as paredes do corredor, como
se houvesse algo que só eles viam, algo não terreno, que lhes dera
uma ordem não ouvida. Com aquilo, veio a coragem a Cusa. Sentiu
um ímpeto de exaltação. Nada jamais poderia ferir Lucano,
nem aqueles que o serviam.
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Foi preciso que ambos reunissem suas forças para abrirem a porta,
e ainda assim apenas com um esforço tremendo o conseguiram.
Tinham colocado no chão os baldes, a lanterna e o estojo médico, no
ponto mais seco, de forma que a luz tombava apenas no piso da galé.
O resto era treva absoluta. Mas tão poderosa insalubridade e calor
correram dali para fora que Cusa os sentiu como poderosos golpes em
seu corpo e em seu rosto, e tropeçou, recuando, cobrindo a face com
a manga. Os gemidos e lamentações dos escravos encheram todo o
corredor com um eco surdo.
- Depressa! sussurrou Lucano. Apanhou a lanterna e seu
estojo, e Cusa, recuperando o controle, mas nauseado, levantou os
dois baldes com os desinfetantes. Lucano dirigiu a luz fraca da
lanterna para as galés e Cusa seguiu-o. A porta rodou, fechando-se atrás
deles, pesadamente, pois o navio jogava um pouco, pela força do mar.
Lucano se havia preparado para uma cena de desolação. Mas aquilo
ficava para além da sua imaginação, quando ele, devagar, foi
iluminando a galé. Apenas pequenas e altas vigias, descobertas, admitiam
ali alguma luz que vinha do céu estrelado, mas sem lua, e da
fosforescência do mar. Não se podia chamar luz aquilo, e sim sombras
de luz, como o reflexo das asas das mariposas. E, naquela iluminação
erradia, assistida pela pálida luminescência de remos
que saíam através das vigias, e pelos raios bailarinos da lanterna, Lucano
pôde ver homens nus e barbados, em seus bancos, homens
acorrentados, agrilhoados, brancos, pretos, amarelos e morenos, as
cabeças baixas, os olhos fechados de dor, os peitos arquejantes, costelas e
ossos visíveis sob a pele esticada. Seus braços moviam-se em ritmO
mecânico, suas vozes carpiam em vasto gemido, e o unir e reunir de
suas correntes e grilhões acrescentavam um coro surdo de ferro ao seu
lamento. Ao longo das paredes, próximas da porta, estavam os mortos
e os moribundos empilhados; os que ainda viviam, os que tinham
acabado de morrer Ou que estavam mortos havia horas, os roStOS
semelhantes a crânios rijos, à luz incerta. O capataz, ele próprio escraVo e
criminoso, caminhava de cá para lá entre as fileiras de remadores, O
chicote estalando, os olhos arregalados de terror. Parou, ao ver Lucano
e Cusa, e ficou calado, umedecendo os lábios.
Lucano teve a impressão de que aquilo era uma cena do inferno,
cheia de espectros torturados, impregnada com as fedentinas que só uma
cavidade carnal pode expelir. Riachos profundos e imundícies, negros
como serpentes rastejantes, movimentavam-se de cá para lá,
com o balanço do navio, correndo pelo piso. Havia vômitos de
sangue; fezes sangrentas foram expelidas no chão, bem como urina
contaminada.
O capataz voltou a si de seu espanto ao ver os dois intrusos.
Pensou que fossem fantasmas, pelas suas roupagen brancas. Então,
adiantou-se para eles, amedrontado. Lucano disse, imediata e calmamente:
- Sou médico e preciso de tua ajuda, e ele é o meu assistente.
Não temos nomes. Devemos trabalhar depressa.
O homem ali ficou a olhar, tão despido quanto os outros escravos.
Lucano fez-lhe sinal, impaciente:
- Devemos trabalhar repetiu. - Ou todos morrerão. Toma
este balde, e dá um gole desta água a cada homem.
Em sua voz ressoava autoridade, e o capataz agarrou o balde,
recuperando-se da surpresa. Mas foi o primeiro a tomar um gole. Lucano
e Cusa, nesse meio-tempo, molhavam o rosto e as mãos com o
conteúdo do outro balde, e Cusa molhou também as pernas. Enquanto o
capataz obedecia, Lucano examinava os que ainda estavam vivos,
morrendo junto dos já mortos. Os que não pareciam estar no fim ele
separava para a parede oposta, encostando-os nela. Os que já não podiam
ser ajudados, deixava que ficassem com seus companheiros imóveis.
Era, sem dúvida, a peste mortal. Os fígados dos doentes
mostravam-se imensamente inchados. suas línguas in umescidas e cobertas
de uma grossa capa branca, as peles febricitantes. Bubões erguiam-se,
intumescentes de sangue e pus, nas regiões inguinais latejantes. As
pernas dos doentes tinham sangue que escorria do reto, e sangue corria
da boca de outros. Alguns bubões já haviam estourado e seu conteúdo
corria pelos corpos dos homens.
O coração de Lucano subiu-lhe à garganta, soluçante de piedade.
Não havia tratamento efetivo para os já atingidos, apenas algum alívio
para seus sofrimentos. Rapidamente abriu seu estojo e tirou dele
pequenas bolsas contendo fortes sedativos em frascos. Em cada boca
arquejante derramou um pouco do liquido. Os homens levantavam os
olhos para ele, como animais mudos e atormentados. Lucano sorria-lhes,
suavemente. A lanterna fazia faiscar part de seus cabelos que
exposta, e seus olhos azuis irradiavam para eles a mais profunda
e terna compaixão. Os lábios inchados dos homens moviam-se
silenciosamente; um ou dois, inconscientemente, estenderam as mãos para
as roupas do jovem, pois sentiam sua dor e seu amor por eles. O
capataz voltou com o balde vazio e olhou para Lucano com olhos
298 299
estranhos e dilatados. Cusa tornou a encher o balde, com água de um
tonel que ali estava e, a um gesto de Lucano, deitou nele novo
remédio.
Lucano disse ao capataz:
- A cada hora que se passar, dá a cada homem um gole da
agua deste balde. Amanhã, baldes iguais, para os que não estão
atingidos, serão colocados do lado de fora da porta. Manda que o
escravo que abre a porta os traga para dentro. E haverá também baldes de
água, marcados com sinal vermelho, contendo desinfetante, Os que
estiverem bem devem molhar o corpo, com intervalos freqüentes.
Procura e mata todos os ratos, imediatamente, e atira os corpos deles
pelas vigias.
- Sim, senhor murmurou o capataz. Olhava Lucano com
respeitoso temor. Sorriu, um sorriso trêmulo: - Senhor, foi como se
um deus tivesse entrado aqui. Bebi o teu remédio e vida nova entrou
em mim, como nos escravos das galés.
Foi Cusa quem percebeu que os homens já não se lamentavam. À
luz da lanterna podia ver dezenas de olhos dirigidos para Lucano, que
os socorrera, e eram olhos de homens que subitamente adquiriram
esperança naquele buraco fétido e pobre. Alguns deles começaram a
cantar uma canção sem nome, e um momento depois outros se reuniram.
Era um canto de ação de graças, de gratidão, mesclado com o
sibilo e o estalido dos remos. Mesmo os moribundos e os doentes o
ouviram e moveram as cabeças, cessando de se lamentar. O rosto
grotesco de Cusa mantinha uma expressão iluminada, enquanto
auxiliava Lucano. Não havia escravos naquele buraco úmido: todos eram
homens.
- Bom disse Lucano, abstraidamente. Estava em pé, entre os
destroços dos doentes, dos moribundos e dos mortos e, para Cusa,
realmente, ele tinha o aspecto de um deus conquistador. Havia
pendurado a lanterna num gancho de ferro gotejante. Suas vestes estavam
manchadas de sangue e sujeira. Mas seu rosto era radioso. E disse ao
capataz: - No convés, duas cobertas acima, há vigias ejanelas
bastantes. Manda dois ou três dos remadores removerem os mortos daqui, e
atirá-los, sem muito alarde, no mar. isto não pode esperar até
amanhecer. Os mortos são o perigo.
O capataz encolheu-se:
- Senhor, estou proibido, como todos esses remadores, de
deixar as galés!
- Se isso não for feito todos morrerão disse Lucano,
severamente. - Movei-vos o mais silenciosamente possível. Não sereis
ouvidos. Isto tem de ser feito! É minha ordem.
O capataz relutou, depois viu a luz autoritária nos olhos de Lucano
e não mais pôde hesitar, pois era como se um deus lhe desse ordens.
Chamou dois ou três dos homens mais confiáveis e soltou-lhes os
grilhões. Os homens ergueram-se de seus bancos ásperos, rígidos e
enfraquecidos e adiantaram-se cambaleando. Começaram a erguer OS
mortos sobre os ombros, seus próprios corpos ensopados de suor misturado
ao desinfetante. Um ou dois, reconhecendo entre os mortos OS
rostos de amigos, soluçaram alto.
A porta abriu-se para trás, e os escravos, com sua lastimável carga,
deslizaram para fora. Um por um, enquanto Lucano continuava a
tratar dos doentes, os mortos foram silenciosamente removidos. O
navio balançava e murmurava por todo o seu madeiramento. Quando o
arquejante capataz tornou a se aproximar dele, Lucano disse:
- Deves também molhar as paredes e o forro com este
desinfetante. Lembra-te das minhas ordens! É a vossa única possibilidade de
sobreviver!
O capataz disse, em voz abalada:
- Senhor, estive pensando. Os que atiramos ao mar foram mais
felizes do que nós.
- Sim falou Lucano, franzindo as sobrancelhas. Apesar
disso, alguns entre vós serão eventualmente libertados, depois de terem
cumprido as suas sentenças. Quanto aos outros, enquanto
viverem, terão esperança.
E disse, apaixonadamente:
- Pensas que sou mais afortunado do que vós? Digo-te, todos
os que vivem estão condenados!
Os doentes e os moribundos adormeceram subitamente,
amontoados. Nos rostos de alguns dos doentes havia um grande alívio das
dores, e uma paz em suas faces barbadas e sujas. Cusa ficou a olhar
para eles, com medo.
- Não há esperança para esses falou Lucano, pesaroso. -
temos métodos efetivos de tratamento. Mesmo sob as melhores
a peste é quase sempre fatal. - Sua sombra aparecia
alta nas paredes, e dava a impressão de ser alada.
Ao capataz ele deu o resto dos frascos, ainda não abertos.
- Tem misericórdia, pois és um homem disse-lhe. - Dá a
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cada um dos doentes e dos moribundos um gole disto, a cada três
horas, para que eles possam morrer em paz, sem dores.
Parou e, depois, involuntariamente, disse:
- Que Deus vos acompanhe.
E não foi realmente ele quem falou, mas Sara através dele.
Repetia mecanicamente as palavras da moça, vendo de novo o rosto dela
diante de seus olhos. Reteve o fôlego, com um som áspero, e fez sinal
a Cusa, que apanhou a lanterna do forro e ergueu do chão o estojo
médico. Tinha trabalho a fazer. Precisava destilar mais desinfetantes e
remédios, sozinho em sua cabina, de forma que os escravos tivessem o
fornecimento necessário. Cipião e Cusa, de certa maneira, poderiam
deixar os baldes à porta, pela manhã.
Com o professor, ele abriu a porta. As vozes dos escravos
ergueram-se atrás dele, numa vaga estática de trêmulo regozijo, e foi sob
aquele som, como uma prece em uníssono, que fechou a porta e
tornou a trancar o cadeado. Então, Cusa inclinou-se, ergueu a fímbria da
túnica de Lucano e beijou-a em silêncio.
Três dias depois o comandante chamava Lucano à sua cabina, e Lucano
obedecia, depois de dizer palavras que aliviaram a ansiedade e o medo
de um aflito Cusa.
- A culpa é minha. Ninguém estava comigo disse ele,
confortadoramente.
O rosto de Galo era um amplo sorriso.
- Senta-te, digno Lucano! exclamou ele, para espanto do
jovem grego, que vinha preparado para qualquer acontecimento
calamitoso. - Vinho? Sim, vinho! Hoje, sinto-me um homem feliz, meu
querido amigo! Um homem muito feliz!
Lucano provou o vinho que o comandante lhe dera com uma
reverência de encantada cerimônia, e olhou para o rosto bem-
humorado do homem, no qual os olhos dançavam triunfantes. O
comandante sentou-se em lugar oposto ao dele. as grandes mãOS
abertas sobre os joelhos, e ficou a olhar zombeteiramente para Lucano.
Sacudiu um dedo como um pai amistoso que advertisse o jovem
médico:
- Todas as tuas sombrias profecias! exclanmou. - Ah! Se
não fosses o filho de Diodoro Cirino eu riria de ti! Mas és jovem e sem
experiencia. desgraças que o tempo curará!
Estava exuberante, e Lucano sentia-se perplexo.
- Tens boas notícias? aventurou ele. - Vindas do porto em
que tocamos rapidamente na noite passada?
- Não tocamos no porto disse o comandante - Uma pequena
embarcação remou até nós, trazendo cartas. Uma é para ti. Aqui
está, sobre a mesa. Não temos permissão para tocar nos portos, se
levantamos a bandeira amarela. Mas a bandeira está sendo arriada,
hoje.
Gritava de alegria, batia nas próprias coxas, e abria amplamente a
boca num sorriso para Lucano.
Depois, sacudiu a cabeça, o ar tolerante:
- Vós, médicos! Mesmo meu Príamo se enganou. Não havia
peste a bordo. Sabes que todos os que apanham a peste morrem, mas
mesmo os escravos das galés, que foram atingidos, ficaram bons, e há
três dias que a doença não aparece entre eles. Estás ouvindo, jovem
senhor? Mesmo os atingidos ficaram bons, e isso é impossível,
tratando-se da peste! De uma hora para outra levantaram-se do chão da galé
e tomaram seus lugares nos remos. - Bateu de novo nas coxas, e
mugiu alegremente, em seu alívio. - E nem uma só morte, em três
dias! Não era absolutamente a peste!
Lucano estava incrédulo.
- Não é possível! exclamou ele. E quase se traía. Mas
acrescentou: - Teu Príamo é excelente médico. Não se podia ter enganado.
Já tinha visto a peste, antes.
Sentia sua autoconfiança grandemente abalada. Seria possível que
tanto ele como Príamo tivessem cometido um erro? Recordou-se dos
rostos dos mortos e dos que morriam sob seus olhos, viu de novo os
bubões, sentiu o cheiro do vômito vermelho e o ardor crescente da
febre. Sacudiu a cabeça em absoluta perplexidade. Os doentes e os
moribundos não tinham mais possibilidade de cura. Entretanto,
haviam sobrevivido, recuperado rapidamente a saúde, retornando ao bem-
estar! Algo impossível acontecera.
Não era trabalho dos remédios que deixara para os que estavam
irremediavelmente perdidos. Aquilo não passava dos opiatos comuns,
que aliviam a agonia do moribundo. O desinfetante podia ter tido sua
parte na prevenção de novas infecções da peste, mas mesmo isso era
com freqüência inútil, diante de tanta virulência. Entretanto, os doentes
e moribundos viviam! Lucano tornou a sacudir a cabeça, estonteado,
e pensando: Que espécie de médico sou? A única explicação
para isto é estar meu diagnóstico errado. Mas os bubões, as hemorra-
302 303
gias do reto e dos pulmões! Poderia, por acaso, tratar-se de alguma
outra doença ainda desconhecida com os sintomas da peste?
- De uma hora para outra os que estavam aparentemente
doentes
e moribundos levantaram-se do chão e estavam curados! disse o
comandante, jubiloso. Estendeu a mão e deu uma palmada no ombro
de Lucano. E sacudiu-se em riso, muitas e muitas vezes. - Falei com
o capataz, e sabes como são supersticiosOS aqueles animais. Juroume
que Apolo e um de seus assistentes, brilhantes como a luz, entraram
através da porta fechada a cadeado... fechada a cadeado!... e trataram
dos moribundos. E eles se curaram! - O comandante sacudiu a
cabeça, divertido: - Ah! Bem... Deixemos que os pobres desgraçados
tenham seus sonhos. É tudo quanto têm.
- Sim disse Lucano, levantando-Se. - É tudo quanto
temos.
Apanhou de sobre a mesa do comandante a carta que lhe era
destinada e, seguido pelo riso do homem, deixou a cabina e foi para a
que lhe pertencia, com um andar pesado e a cabeça meditativa. Que
isto te sirva de advertência, disse a si próprio, com severidade. Não
faças julgamentos precipitados. Encontrou Cusa na cabina, que
tremia na expectativa de ser apanhado e atirado aos ferros. Lucano
sorriu-lhe, um sornso fraco.
- Não tenhas medo disse. - Tudo esta bem. - E contou-lhe
a conversa com o comandante.
Cusa ouviu, e seu rosto alerta fez-se grave e imóvel. Fixou os olhos
em Lucano, com a mais estranha das expressoeS.
- É o que suspeitei murmurou, e antes que LucanO pudesse
evitá-lo, caiu de joelhos e encostou a cabeça nos pés do jovem, para
espanto deste.
- Não, não disse Lucano. - Eu não os curei, meu bom
Cusa! Não se tratava de peste, afinal.
Cusa, porém, beijou-lhe os pés e nada disse.
Lucano ergueu-o, tentando rir.
- Tenhamos juízo falou. E, apanhando a carta vinda de ROma,
pôs-se a lê-la. Era Íris quem lhe escrevera.
Então, Lucano soltou um grande grito de desgosto e desespero, e
quando Cusa correu para ele, o moço atirou-se nos braços de seu
professor, chorando desabaladamente.
23
Duas semanas antes de Lucano deixar Alexandria, escrevera a Keptah
e agora, naquela manhã, cinco semanas depois, Keptah desenrolava a
sua carta, que chegara naquele dia, através dos serviços tanto de um
navio rápido como de correios especiais. O médico leu a carta, depois
olhou pensativa e melancolicamente para o jardim onde estava
sentado. Para além do pórtico aberto as árvores cantavam ao brando sopro
do vento outonal e a terra exalava tal doçura e frescor que chegava a ser
pungente para o coração. O sol reluzia sobre fontes rústicas e sobre as
grandes estátuas malfeitas, pois Diodoro preferia formas e movimentos
que se assemelhassem aos da Terra, em seu esboço forte, no gesto e na
simplicidade. Daí as cores brilhantes das lajes que formavam o piso do
pórtico, a robustez despretensiosa das colunas que o rodeavam, o
colorido vigoroso das flores, as poderosas e resistentes árvores.
Bem além do jardim erguiam-se as colinas baixas, como que
trabalhadas em mosaicos, com os cachos maduros nos vinhedos
pertencentes à propriedade. Seu perfume vinha com o vento, como uma rica
promessa. Os olivais e pomares subiam para outras colinas, e entre a
casa e essas colinas as pastagens ainda conservavam um verde
esmeraldino, povoadas com as formas plácidas do gado, dos carneiros
e dos cavalos. O pequeno regato, que se movimentava através dos
prados, mostrava-se de um verde mais brilhante, muito calmo, porém,
esquecendo a turbulência da primavera. Uma atmosfera de paz, quase
palpável, suspendia-se sobre aquele trecho de terra, colorida de uma
doçura dourada, ampla e tépida.
Keptah pouco envelhecera durante os quatro anos passados.
Havia nele aquele ar sem idade e a secreta sabedoria do Oriente. Seus
olhos fundos, entretanto, estavam inquietos naquela manhã. Pensava
em Diodoro. Deveria contar ao senhor a decisão a que Lucano
chegara, quanto ao seu futuro? Ou, considerando as condições físicas do
tribuno, seria melhor deixar o assunto para o próprio Lucano? Keptah
tornou a ler a carta, especialmente a última parte.
"Tenho certo pressentimento sombrio e temeroso quanto a nieu
pai Diodoro. Ele me escreveu, e também minha mãe, sobre suas
freqüentes visitas ao Senado, como convidado de Carvílio Ulpiano. Eu
não conheço esse senador, que é aparentado com meu pai, mas há algo
304 305
de inquietação em mim, quando penso nele. Quem poderia Conhecer
Diodoro sem honrá-lo, amá-lo e respeitá-lo? Sem dúvida, apenas
homens perversos.
"Compreendo que Diodoro, homem tanto de ação como de
pensamento, amando patrioticamente seu país, sinta que devemos fazero
possível para salvar Roma. Cheguei, entretanto, à conclusão de que
Roma não merece que a salvem, tão baixa se tornou nestes últimos
cem anos, tão corrupta e monstruosa. Por quê, então, deve meu pai
lutar assim desesperadamente? Além disso, o destino do homem está
nas mãos de Deus, e Deus não é notável, segundo minhas
observações, pela demonstração de misericórdia ou amor pelos Seus profetas.
Ainda ontem um dos meus professores censurou-me por essa
convicção. Disse-me: "Tu estás demasiado absorvido nos homens. O
sofrimento e a morte são o destino comum de todos os homens. Portanto,
por que sentes tão amarga rebelião? Que desejas tu? Que todos os
homens sejam imortais e jamais tornem a sentir dor?" Vi que ele não
me compreendera, mas disse: "Quando Deus fez o mundo e o homem,
por que os fez tão imperfeitos, tão cheios de agonia, tormento e
perversidade?" E ele me respondeu: "És jovem. Mas eu te falei de nossos
heróis e profetas e de nossa antiga religião e lendas. Deus fez o homem
dotado de livre-arbítrio; quando não, o homem seria tão inocente
como os animais dos campos. Como o homem é uma alma imortal,
bem como um corpo físico, a honra de escolher seu próprio destino
lhe foi outorgada, pois o espírito não é uno com as árvores e os
animais. Se o homem escolhe o mal, e suas conseqüentes dores e
sofrimentos, ele é o único a ser censurado por isso, e não Deus."
"Ao que parece, Roma escolheu dores, sofrimento e morte através
da sua sede de sangue, seus crimes contra a humanidade. sua
libertinagem e opressão. Deve meu pai esforçar-se contra isso,
inutilmente? Há também minha mãe e irmãos a considerar. Se ainda
acreditas no poder das preces a um Deus que não ama os homens, reza para que
meu pai volte para a paz de suas propriedades, das quais falava
constantemente em Antioquia, pois eu temo por ele."
E eu também, pensou Keptah. O vigilante do vestíbulo veio ter
com ele, então, caminhando apressadamente pelos caminhos
apedregulhados que corriam em curvas pelo jardim.
- Meu senhor deseja falar contigo, senhor. Está com uma das
suas dores de cabeça.
Franzindo as sobrancelhas, Keptah levantou-se e dirigiu-se
majestosamente até a casa grande, mas simples, e foi ter ao quarto de
Diodoro. O tribuno estava deitado em sua cama, torcendo-se e
blasfemando, apertando violentamente as têmporas entre as palmas das mãos.
Vendo Keptah, sentou-se e lançou-lhe um olhar de furibunda cólera.
- Estou de novo com a enxaqueca! exclamou, em tom de
acusação. - Mas esta é a pior de todas; devo ser convidado de Carvíllio
Ulpiano hoje, no Senado, onde falarei para aqueles canalhas, num
último esforço para comover suas almas de aves de rapina. Vós, médicos!
Não podeis curar uma simples dor de cabeça, ou entupimento de
nariz, ou inflamação de garganta, e falais eruditamente de doenças
obscuras e seu tratamento! Ora!
Gemeu e tornou a deitar-se, sempre blasfemando terrivelmente.
Era óbvio que estava muito doente. Sua fronte baixa mostrava-se
tomada de vermelhidão brilhante, e os lóbulos das orelhas, bem como
os lábios, exibiam coloração azulada. Seus olhos envesgavam de dor
sob as sobrancelhas pretas e ferozes, e rios de suor rolavam-lhe das
têmporas. Em seu pescoço robusto era visível o latejar das artérias, e a
respiração parecia fazer-se penosa.
Keptah sentou-se silenciosamente ao lado do leito. Então, falou:
- Senhor, eu te disse, durante todo o ano passado, que não tens
apenas as tuas enxaquecas habituais. Tua pressão sangüínea está
excessivamente alta, e eu tive de sangrar-te várias vezes. De vez em
quando teu coração tem bulhas alarmantes. Tenho suplicado que lutes
pela calma e tranqüilidade; um homem só é vítima de suas emoções
quando permite que tal coisa aconteça. Imploro-te que esperes por
aquela raiz que virá da India, pois estou informado de que os médicos
têm usado ali há milhares de anos, com efeito maravilhoso, no
tratamento da alta pressão sangüínea, mentes confusas e insanidade. O
professor hindu de Lucano prometeu mandar-me essa raiz, que deverá
aqui chegar dentro de quatro semanas.
Diodoro sentou-se de súbito, furioso, e tomou a agarrar as
têmporas, gemendo, depois olhou encolerizado para Keptah:
- Insanidade! trovejou ele, blasfemando. - Escravo infernal!
Keptah respondeu com um sorriso afetuoso:
- Não sou escravo, senhor, graças a ti. Como médico, e livre,
segundo a lei de Júlio César, também sou um cidadão de Roma. Não,
senhor, não te considero louco. Considero-te um nobre espírito de
retidão, tomado pela paixão da justiça e da verdade.
Devemos nossos poetas e nossos heróis a mentes e almas como as tuas, bem
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como nossos artistas, professores, eruditos, patriotas, e todos os que,
como Pigmalião,* tentam transformar a pedra obstinada em carne
resplandecente. E quem sabe? Talvez daqui a milhares e milhares de
anos suas palavras de exortação, beleza e força, suas censuras piedosas
ecoarão como poder dominador nos corações dos homens e não mais
haverá o mal.
Diodoro ouvia encolerizado, ali estendido, com a cabeça entre as
mãos. Então, berrou:
- Tudo belas palavras! Mas só a minha voz se deve erguer em favor
de Roma? E se há apenas a minha voz, devo eu retrai-la? Não estou
interessado em nações que ainda não surgiram. Estou interessado em meu
país! Como posso viver de outra maneira diante de mim próprio?
Keptah suspirou e nada disse. Diodoro sentou-se penosamente, e
agora sua voz era mais tranqüila, quase suplicante:
- És homem de sabedoria, meu bom Keptah, mas és um
filósofo, esperando que a poeira do deserto chegue a ser governo num
futuro remoto. Suponhamos que todos nós tomemos as palavras dos filósofos
a sério e deixemos o mal presente fazer seu caminho, indiferentemente.
Então, o mal se tornaria universal e não haveria nem presente
rejuvenescido nem futuro!
"Keptah, eu estou neste mundo, e em seu presente. O futuro
pertence a meus fiihos. Não devo lutar por um mundo de lei, ordem e
justiça, para eles, quando eu for um punhado de cinzas, junto a meus
pais? Ou devo resmungar, como tu, sobre futuras e grandes gerações e
deixar que nieus filhos herdem, de imediato, degenerescência,
ilegalidade e crime?
"Ouve-me, Keptah! O primeiro dever do homem é seu dever para
com Deus e para com a sua pária. As nações são expressões dos remoS
espirituais de Deus. Quando essas nações tornam-se abandonadas e
rebaixadas, entregues a um orgulho sanguinolento e ao deboche, à
guerra e à tirania, então elas desfiguram o reino da terra, e a
penalidade é a morte. Roma morrerá, inevitavelmente, a não ser que
como eu falem. E onde estão as vozes que se erguem em favor dela?
Quem gritará aos romanos: "Destruístes o que Deus construiu e deveis
retornar à liberdade, à pureza e à virtude, imediatamente, a não ser
que desejeis morrer"?
___
* Célebre escultor da Antiguidade que, tendo realizado obra perfeita com
a estátua de Galatéia, obteve de Vênus que lhe desse vida, casando-se
com ela, segundo a lenda (N. do T.)
___
Levantou a mão para impedir o médico de falar. Sua testa estava
quase tão vermelha quanto o sangue, e veias arroxeadas corriam-lhe
pelas têmporas, enquanto ele arquejava:
- Deixa-me acabar. Deus é a pátria. Eles são a Lei. Tu me
falarias de minha família, como já o fizeste antes, advertindo-me,
constrangido, do perigo mortal. Mas minha primeira responsabilidade é
para com Deus e a minha pátria, para com a memória de meus pais,
que morreram por ambos. Se eu morrer, então deixarei o destino de
minha família nas mãos de Deus. Devesse também ela perecer, por
minha causa, então não teria suportado o horror de viver num mundo
que se tornou depravado, sem misericórdia ou bondade. Eu preferiria
que morresse, pois quem, sendo homem, escolheria a escravidão?
Levantou seu punho fechado, solenemente:
- É melhor morrer do que viver num mundo como o de hoje. E
é meu desesperado dever tentar modificar esse mundo, mesmo que
não o consiga!
Keptah levantou-se e curvou-se profundamente diante dele:
- Sim, senhor, eu compreendo. Perdoa-me colocar meu amor
por ti antes da poderosa ejusta paixão que te domina. Prepararei agora
uma poção que te aliviará os sofrimentos temporariamente, a fim de
permitir que vás a Roma esta manhã.
Ia saindo do quarto, quando Diodoro, a voz estranhamente suave,
chamou-o de volta. O tribuno estendeu timidamente a mão e tomou a
do médico:
- Meu bom Keptah, amado tanto por meu pai como por mim e
pela gente da minha casa, seu miserável obscurantista! Sei que jamais
deixarás minha família.
A emoção não permitiu que Keptah falasse. Apenas pôde levar a
mão de Díodoro até os lábios.
- Que fale o nobre tribuno! gritaram os senadores, e aqui e ali o
coro era zombeteiro.
Diodoro levantou-se, escura e aquilina figura em sua túnica militar,
o elmo emplumado e a armadura com a espada curta e larga pendente
do cinto. Levantou sua mão revestida de malha, e os senadores, alguns
desdenhosos, outros sorridentes, alguns velhos, outros jovens, alguns
patrícios, outros desprezíveis libertos sem honorabilidade, ficaram em
silêncio, olhando para o tribuno. A luz do sol deslizava pelos ombros
vestidos de branco, e aqui e ali um rosto nobre recortava-se em clarida-
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de sombria, ou um lábio se iluminava, ou um olho faiscava, ou fazia-se
de fogo, ou um perfil mesquinho se revelava no recorte de seu contorno
como o desenho tosco de uma criança. O piso de mármore e as paredes
reluziam, as colunas fulguravam, e soldados de espadas
desembainhadas perfilavam-se às portas de bronze das entradas.
Diodoro olhou para eles todos e um pressentimento estranho e
poderoso desceu sobre ele. Aquilo apenas aumentou a crescente força
da ira em seu coração, sua repulsa, sua sensação de que as soldaduras
de seu corpo lutavam contra a paixão de sua alma que desejava
explodir. Caminhou para O podium e, no silêncio, o eco de suas sandálias
revestidas de ferro soou de parede a parede, de coluna a coluna, e a
luz do sol relanceou pelo seu elmo e pela sua armadura, em súbita
fulguração. Ele era Marte, abroquelado e belicoso, armado com o raio,
e envolxido em alta grandiosidade.
Descansou as mãos no rebordo da estante e olhou para os
senadores. Sorriu, não agradavelmente, mas tomado de raiva.
- Vós, romanos, amigos e compatriotas, ouvistes-me antes deste
dia. Falo hoje em nome de Roma, pela última vez. Depois, silenciarei.
Aspirou o ar, profundamente, e seu peito se dilatou, tomado pela
paixão e força:
- Não vim honrar Roma, mas enterrá-la.
Uma voz gritou:
- Traição!
Diodoro tornou a sorrir, e curvou a cabeça.
- É sempre traição falar a verdade.
Ergueu a cabeça e lixou os senadores, com o faiscar poderoSO de
seus olhos.
- Neste mesmo Senado, não há muitos anos, um senador foi
assassinado por ter falado a verdade. Não pela faca ou pela espada OU
pela lança foi ele assassinado, nem pelas pedras honestas. Não foi mão
digna a que o atingiu e derrubou, pois não havia aqui mãos dignas.
Ele falou de Roma. Critou que Roma já não era uma República. E
que se tornara um império sedento de sangue, governado não por
homens de sabedoria, não pela lei, mas por César e suas legiões, seus
generais e seus libertos rapaces, e seus políticos palicianos. O senador
ergueu-se neste mesmo pódium e chorou pela República. Chorou
porque os imperadores não eram eleitos pelo povo, mas por legiões
infames e pelas turbas ociosas e ávidas que desejavam apenas devorar os
frutos dos celeiros e os tesouros, e divertirem-se com charlatães e
saltimbancos, atores e cantores, gladiadores e pugilistas.., a expensas
do público.
"Aquele senador era um jovem de olhos brilhantes e coração como
o do touro sagrado, ardoroso de amor pelo seu país. Um jovem brutal,
que não usava frases polidas e não tinha elegância. Tinha apenas amor
pelo seu país. Um jovem apaixonado, que acreditava ser a verdade
invulnerável e as mentiras frágeis teias de aranha! Mas, como sabeis,
ele apenas amava sua pátria, e só os loucos amam sua pátria.
Os senadores conservavam-se em duro, mas tenso silêncio, e
alguns dos mais velhos baixavam a cabeça, lembrando-se de sua
vergonha, e encolerizavam-se contra o tribuno, que trazia tal vergonha à
sua lembrança. Os soldados andavam de um lado para o outro, nas portas,
lentamente, e ouviam, os seus rostos voltados para Diodoro; alguns
eram jovens e patriotas, e seus corações batiam apressadamente.
O tribuno bateu com a mão recoberta de malha sobre a estante, e
foi como que o ribombar de um trovão no resplandecente silêncio
marmóreo.
- Por avidez, aquele jovem senador gritou-vos, as turbas desta
cidade têm prestigiado péssimos césares, que andavam apenas poder,
porque aqueles césares lhes prometeram o saque dos tesouros
públicos. Senadores venais apoiaram esses césares, para retirar disso
proveito e poder. Os césares mentirosos falaram às multidões e disseram-lhes
que nossa pátria não se podia defender dos bárbaros sem aliados, e
esses aliados deviam ser eternamente comprados, adulados e afagados.
os césares traidores conspiraram contra sua nação, enlouquecidos
pela avidez de serem adorados como os deuses, por todo o mundo, e
serem aclamados por milhões de ladrões, mendigos, lutadores, libertos
e pusilânimes, que jamais sentiram pulsar o patriotismo em seus
corações de abutres!
- Traição! várias vozes exclamaram, aterrorizadas, e rostos
voltaram-se uns para os outros, em fúria e alarma.
Diodoro manteve-se atrás da estante e pôs os polegares no cinto,
olhando para eles com ódio e escárnio.
- Estas são as minhas palavras, embora eu já as tenha dito diante
vós. São as palavras do senador que entregastes à morte neste
mesmo local.
Abriu a túnica no peito, e a armadura tombou ao solo,
retumbando:
- Olhai para as minhas cicatrizes, para a evidência dos meus
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ferimentos! Vós, senadores, vós, canalhas, vós, mentirosos
perfumados, olhai para os meus ferimentos! Vós, velhacos e ladinos, que vos
deitais sobre sedas ao som das liras e sob o murmúrio das mulheres
prostitutas e dissolutas, e das concubinas compradas... olhai para os
meus ferimentos! Estão eles em vossa carne lisa? Há ferimentos
semelhantes em vossos corações que traem Roma a cada movimento
respiratório e levam-na para o inferno com cada lei?
Virou lentamente seu peito nu e coberto de cicatrizes, para que
todos o pudessem ver. Era uma visão terrível, e alguns dos senadores
mais velhos cobriam os olhos com as mãos.
A voz de Diodoro ergueu-se e estava mais profunda em gravidade
e força:
- Tais feridas estavam na carne do senador que enviastes à
morte naquele dia. Não com uma espada honesta, não com um estoque
embotado, mas com mentiras e condenações, com ostracismo e com
silêncio. Porque ele ousara amar sua pátria, e ousara tentar salvá-la de
traidores, assassinos, ambiciosos e mentirosos! Seu coração partiu-se e
não houve conforto para ele.
"Poderíeis vós confortá-lo, vós que traístes vossa pátria e sustentastes
vossos traiçoeiros césares? Ousaríeis confortá-lo, vós, cujas línguas
envenenaram seu próprio sangue e o levaram à morte? A ele, o único que
amava seu país e inocentemente acreditava que também vós amásseis
vosso país?
Diodoro tornou a bater na estante, e agora pareceu a alguns
senadores que o próprio Marte produzira aquele som em seus ouvidos.
- Deixai-me comover vossos corações! exclamou ele. - Ainda
não é tarde demais! O curso do império conduz apenas à morte.
Senadores, olhai para mim! Ouvi com vossos corações, e não com
vossas mentes malévolas. Voltai à liberdade, à frugalidade, moralidade,
à paz, a Roma. Não penseis mais nos que vos elegeram naqUeleS cUjOS
ventres exigem, para se satisfazerem, o próprio sangue de Roma,
a própria carne de Roma, o ouro duramente ganho de Roma. Não vos
inclineis mais diante de falsos Césares que desabando nossa própria
Com stituição, lançam mandatos contra o bem-estar de Roma e
colocam-se acima da lei que nossos pais formularam, e pela qual
ganharam suas vidas, suas fortunas e sua sagrada honra.
"Roma foi concebida com fé e justiça, e na veneração de Deus, e
em nome da varonilidade do homem. Devolvei esse país ao governo
da lei e derrubai o governo dos homens. Restaurai os tesouros. Retirai
nossas legiões dos países estrangeiros que nos odeiam, e que nos
destruirão num relance, assim que isso sirva aos seus interesses. Repeli as
taxas que esmagam os que trabalham dura e industriosamente. Dizei
às multidões que devem trabalhar ou morrer à fome. Arrancai do
próprio PalatinO as massas de parasitas, aproveitadores e ladrões! Arrancai
do Palatino os mesquinhos libertos que dizem "sim, sim" a César, e se
inclinam diante dele como se fosse um deus e não um ser feito de
carne humana! Limpai este local dos velhacos, charlatães e demagogos
que declamam frases arredondadas, dizendo que o bem-estar do povo
está dentro de seus corações, mas que realmente querem dizer que
farão a vontade das turbas em troca de seus aplausos, poder e suborno!
Levantou as mãos para eles, numa atitude de premência, e seus
olhos violentos encheram-se de lágrimas enquanto observavam os
senadores imóveis:
- Romanos! Em nome de Deus, em nome de Cincinato, o pai
de sua Pátria, em nome do heroísmo e da paz, do brio, da liberdade e
da justiça, eu vos suplico que restaureis vossa qualidade de guardiães
de Roma, que expulseis o usurpador dos poderes que de direito vos
pertencem, que impeçais e castigueis todos os que se apoderaram de
tais poderes a fim de perverter as leis de nossos pais! Deixai que falem
vossos corações romanos e vosso espírito romano grite contra o
oportunista e o corrupto, contra o fanfarrão e os traidores. contra os césares
que se ungem a si próprios como reis e mantêm cortes para os
depravados e ambiciosos, e contra os que dissipariam a força de nosso povo,
a nossa Constituição e nossas tradições! Se voltardes as costas à vossa
pátria, ela morrerá, então, e os milhares e milhares de legiões não a
salvarão, e os milhares de césares sedentos de sangue em vão gritarão
contra os ventos.
Os olhos percorriam desesperadamente os rostos. Então a cabeça
tombou-lhe sobre o peito e ele saiu do podium, caminhando
vagarosamente, naquele silêncio acovardado, até as portas, e sem olhar para
trás. Os jovens soldados que ali estavam, com os olhos fixos nele e os
rostos resplandecentes, perfilaram-se e saudaram-no e ele, voltando
para os moços seus olhos cegos de lágrimas, sorriu-lhes como um pai
cujo coração sangrasse.
Depois, endireitou-se, como um general ferido que morre pela
pátria, e retribuiu-lhes a saudação militar.
Carvílio Ulpiano precipitou-se para o Palatino em sua liteira. Seu
capataz chicoteava os escravos núbios para que tomassem velocidade
312 313
furiosa, e seu trombeteiro corria diante da liteira, tocando e gritando.
"Fazei caminho para o nobre senador Carvílio Ulpiano!" As turbas
fervilhantes afastavam-Se, na Via Apia, alvoroçadas, mas havia os que
paravam para zombar e cuspir na direção da liteira cujas cortinas
estavam cerradas.
Descendo no Palatino, Carvilio subiu aos saltos a longa
escadaria de mármore, como um jovem, achegando ao corpo a toga
senatorial, o que fazia sobressair seu ventre adiposo. Trazia no rosto terror
e sórdida apreensão. Os lacaios e soldados afastaram-se à sua
passagem frenética. Os vigilantes dos vestíbulos ficaram impressionados
com a sua agitação e prometeram informar Tibério César de que o
senador desejava falar imediatamente com ele, e pela mais urgente
necessidade.
Foi admitido na biblioteca de César. Tibério estava,
languidamente, lendo mensagens militares. Levantou seu rosto pálido e frio
quando Carvílio Ulpiano apareceu e seus lábios embranquecidos
torceram-se. Disse:
- Cumprimentos, Carvílio. CongratulO-me contigo por teres
vindo tão junto dos calcanhares dos meus informantes. Deves ter voado
do Senado até aqui. Mercúrio emprestou-te suas asas?
Levantou uma taça de vinho até os lábios, sorveu um gole, e sobre
a beirada de ouro e pedrarias da taça seus olhos eram uma geada
negra, cheia de maliciosO divertimento.
Carvílio foi apanhado de surpresa. Sentiu os joelhos tremerem
diante de Tibério, e beijou a mão pálida e indiferente que o outro lhe
estendeu.
- Senhor falou, em voz trêmula -,já foste informado,
portanto não é necessário falar-se na atrevida traição de meu parente por
afinidade, Diodoro Cirino. Juro-te, Divino Cesar, que se eu soubesse
que ele iria agir assim, jamais o teria levado ao Senado. Em suas
visitas anteriores à Câmara, como meu convidado, servia apenas para
divertir os senadores e eu pensei que hoje aconteceria a mesma coisa.
Mal
sabia que meus ouvidos e os omidos de meus colegas iam ser atingidos
pelas expressões mais traidoras contra tua pessoa divinal, e que
iria gritar contra ti e contra teus decretos!
Uniu as mãos num gesto de súplica, e seu rosto suava de pavor.
- Ele é meu parente por afinidade, mas eu o denuncio.
- És homem discreto e de novo eu me congratulo contigo -
falou Tibénio, secamente. Não mandou que o senador se erguesse de
sua posição ajoelhada, e não lhe ofereceu vinho. Os pretorianos, das
grandes portas douradas, olhavam para Carvílio Ulpiano, e seus rostos,
como que esculpidos em bronze, mostravam-se imóveis.
Tibério contemplava sua taça. Estava sentado numa cadeira de
marfim, e sua toga branca, bordada com a púrpura imperial, envolvia
um homem alto e magro, de rosto frio e absorto, e expressão
inescrutável. Então falou, a voz dura e melancólica, como para si
próprio:
- Sou um soldado. Estou rodeado de bajuladores mentirosos,
e nisso Diodoro diz a verdade. Que vem a ser o elogio derramado e
sem compreensão, dado apenas por ambição ou medo? O que é a
lisonja, se os lábios que a articulam só o fazem por bajulação, e nessa
bajulação buscam proveito? Ouvidos estúpidos são servos de língua
ainda mais estúpida. Como soldado, prefiro homens de simples
verdades e sem complexidades, que falam com honra e patriotismo. Também
prefiro a condenação da inteligência aos aplausos da populaça.
Mas onde estão os homens de hoje em Roma?
Carvílio Ulpiano ouvia-o, incrédulo, umedecendo os lábios que
se haviam tornado ressecados de repente. Estava apavorado.
- Divino César gaguejou ele -, não compreendo.
- Não disse Tibério. - Tu não poderias compreender -
Tornou a contemplar sua taça. - Como soldado, posso prestar
homenagem a Diodoro Cirino. Conheço-o bem. Não é mentiroso e jamais O
ouvi dizer uma mentira. Ama sua pátria.
O Imperador deu um riso curto e amargo.
- Só por isso merece a morte! Quem ama Roma, agora? Tu,
Carvílio Ulpiano? Eu, César?
O senador acocorou-se sobre os calcanhares e estremeceu.
- Deixa-me dizer isto falou Tibério, calmamente. -
Césares venais, césares enlouquecidos pelo poder, jamais tomam,
jamais destroem a lei e seu país. O poder lhes é imposto por um
povo mau e desprezível, um povo ávido, estúpido e cúpido, egoísta
e pusilânime. Onde estão os guardiães da liberdade do povo,
então? Vós ficais silenciosos, sois escravos em espírito, sois ladrões e
covardes. Mas um povo merece os legisladores que tem. Merece a ti
disse ele.
Deuses, ajudai-me!, pensou o senador, a mente rodopiando.
Mordeu o lábio, tremeu, seu corpo todo fremia. Tibério sorriu,
sombriamente.
314 315
- O que eu te disse não será repetido por ti, meu caro
senador, meu caro e devotado amigo.
- Divino César falou o senador, com os lábios trêmulos,
eu nada ouvi!
- Bom. É muito triste que mesmo os césares precisem às vezes
ter o desejo de dizer a verdade. Eu te agradeço pela minha felicidade,
Carvílio.
Pousou com força a taça sobre o mármore dourado da mesa que
tinha ao lado e, não sendo ele homem violento, o gesto foi mais terrível
do que o de qualquer um mais veemente.
- Roma! disse ele. - Reconheço eu esta Roma de escravos
poliglotas, dos citas, bretões, gálios, bárbaros, gregos, assírios, egípcios,
e a escumalha de todo o mundo? Onde estão os romanos? Perderam
sua identidade. Perderam sua língua, suas mentes, suas almas, sua
virilidade. Que tenho eu a fazer com uma tal Roma? Não sou homem
digno! Sou o que meu povo fez de mim. Sou seu cativo, não seu
Imperador. Não se pode escapar ao mal de um povo degradado.
Suas mãos apertaram os braços da cadeira.
- Estou aqui apenas pelo imundo desejo de uma nação
obstinadamente resolvida a suicidar-se. Se transgrido a lei e a Constituição,
em favor de sua avidez, eles me aplaudem. Se abandonei a esperança
de restaurar o Tesouro, louvam-me por ter tomado a peito seu bem
estar. Seu bem-estar! Cães e chacais!
Fixou os olhos no senador atônito, que se humilhava servilmente
diante dele. Houve, então, um imenso e envolvente silêncio na grande
biblioteca. Os soldados estavam perfilados, como estátuas cegas.
Então, Tibério tornou a falar.
- Apesar disso, é tarde demais para a verdade, e os que falam a
verdade não têm o direito de viver em Roma. Portanto, DiodOrO Cirino
deve morrer. Como ousa ele falar a verdade em tal nação!
Fez um sinal ao capitão da guarda, que se aproximou saudando-o.
- Irás imediatamente, capitão, à propriedade do tribuno Diodoro
Cirino, e dir-lhe-ás que seu Imperador, seu general, não tem
necessidade de seus serviços, e que, neste caso, ele tem de obedecer.
Apesar de si próprio e de sua traição, Carvílio Ulpiano
pestanejou. Sabia o que aquilo significava. Diodoro estava recebendo
ordens para se atirar contra sua espada.
O capitão saudou, girou nos calcanhares, fez sinal a dois soldados
para que o acompanhassem e deixou a biblioteca. Carvílio permaneceu
de joelhos, a cabeça baixa. Tibério sorria perversamente, olhando
para ele.
- Está feito disse. - E, novamente, congratulo-me
contigo,
Carvílio Ulpiano. Meus informantes eram homens inferiores, metidos
à sorrelfa no Senado e eu, como o deus que fizestes de mim, não podia
acreditar muito nas palavras deles. Diodoro precisava ser condenado
por um de seus iguais, e tu me prestaste esse serviço.
O senador ergueu a cabeça, e Tibério fez um gesto de
assentimento.
- Sim, compreendo disse o Imperador. - É do costume
confiscarem-se os bens daquele que denuncia César e fala
traiçoeiramente. Mas eu estou disposto a ser misericordioso. Decretarei que a
fortuna de Diodoro permaneça com sua viúva e seus três filhos.
Aplaude-me por minha compaixão, Carvílio Ulpiano!
O senador estava dominado pelo desalento. Seus olhos foram
observados pelos olhos glacialmente frios de Tibério, e este tornou a
assentir com a cabeça, dizendo:
- Pensaste, não é mesmo?, que, como meu devotado amigo e
adorador, e denunciante do traidor que falou contra mim, eu te
recompensaria com as propriedades de Diodoro Cirino. Ah! Vamos,
Carvílio, tu és homem muito rico, e eu te recompensarei em ocasião
que considerar própria, à minha maneira. Mas não com a fortuna de
Diodoro e não em tal medida.
O senador estava doente de desespero, desapontamento e também
porque sentia sua degradação. Não era homem inteiramente perverso.
Teria preferido viver em paz, em agradável luxo; nem por um instante
pensara que Diodoro, excelente bastante para atacar senadores, tivesse
passado o limite de segurança. Afinal, Diodoro era estimado por Tibério
pessoalmente, e o senador sentira satisfação ao ouvi-lo atacar os outros
senadores, muitos dos quais ele não tinha em bom conceito. Tinha,
mesmo, exibido Diodoro aos seus rostos astuciosos, na certeza de que
eles sabiam que o Imperador o admirava. Mas Diodoro falara contra
"falsos césares" em tal tom, e implorara ao Senado que se voltasse para
suas antigas leis e prerrogativas, que Carvílio se sentira em tremendo
perigo, também.
No caminho, entretanto, considerara que Tibério o recompensaria
com as propriedades de Diodoro. Não esquecera Iris, e de cada vez
que a via, desde que a família voltara para Roma, seu desejo por ela se
tornava como uma fome desesperada.
316 317
Inclinou a cabeça diante de Tibério. Depois, gaguejou:
- É, realmente, muita compaixão do Divino César não
deixar, como mendigos os filhos de Diodoro, que é nobre e tribuno. Mas a
esposa de Diodoro é uma liberta e foi, outrora, escrava dos pais dele,
viúva de um antigo escravo, que também fora liberto.
- É assim? - Tibério franziu os sobrolhos.
Carvílio olhou para ele ansiosamente, e um pouco de saliva
surgiu a um canto de sua boca lasciva.
- Sim, César. Diodoro inventou uma falsa genealogia para ela,
de forma a não ofender seus amigos de Roma, e a ti.
A carranca de Tibério fez-se formidável. Tamborilou com os
dedos sobre a mesa, pensativo. Depois, involuntariamente, seus olhos
fixaram-se no senador, que se remexia no chão, em sua excitação e
ansiedade.
- Ah! disse o Imperador. - E é uma bela mulher, a tal
liberta?
- Das mais belas, majestade!
Tibério sorriu:
- E tu serias o tutor dos filhos de Diodoro, e particularrnente de
seus cofres. E quererias que eu revogasse a liberdade da bela esposa de
Diodoro e que a desse a ti, em sinal da minha gratidão?
- Há anos eu a desejo, majestade, desde que a vi pela primeira
vez em Antioquia. Ela é a própria Afrodite!
Tibério estudou-lhe o rosto, impassivamente. Depois disse:
- Amanhã baixarei um decreto resolvendo que a espOSa de
Diodoro seja tutora de seus filhos e da fortuna do pai deles, e que o
nome dela e sua falsa genealogia sejam inscritos nos livros públicos de
Roma.
Carvilio ficou a olhar para ele, boquiaberto, os olhos
exorbitados, os braços caídos ao lado do corpo; estava cheio de terror e
vergonha.
Tibério, então, ergueu sua taça da mesa e atirou o conteúdo no
rosto do senador.
- Aqui tens disse-lhe tua Justa recompensa, meu nobre
senador.
24
Keptah estava sentado no jardim, dominado pela exaustão e pelo
desgosto. Suas mãos jaziam abandonadas sobre osjoelhos e seus olhos
fatigados desfaleciam. Viu o céu que se avermelhava sobre as colinas
e estremeceu. E embora o ar se mostrasse tépido ele sentia frio. As
árvores, mirtos, carvalhos, pinheiros e salgueiros banhavam-se de
luz rosada, e o zênite do céu luzia com muitas colorações delicadas
como uma opala. O cincerro de uma vaca soava docemente,
enquanto o gado ia fazendo lentamente seu caminho para os estábulos, e
uma cabra elevou sua voz, grasnidos dos gansos protestavam contra
os pastores que os tangiam, e os carneiros deitavam-se pacificamente
sob as oliveiras e nos declives das colinas mais próximas. Agora, uma
pequena luz crescente estremecia no vermelho ocidental do céu. Em
Keptah não havia tranqüilidade e seu rosto moreno estava pálido e
esgotado.
Como pela manhã, o vigilante do vestíbulo veio procurá-lo excitdo,-
mas dessa vez o rosto do homem estava contorcido de medo.
- Senhor! exclamou ele. - Estão aqui três pretorianos que
acabam de chegar, e um deles é alto oficial. Pedem para ver o tribuno
imediatamente. Eu lhes disse...
Keptah empalideceu e levantou-se.
- Eu irei vê-los imediatamente. Ofereceste-lhes vinho?
- Sim, senhor. Mas recusaram.
Keptah estacou em seu movimento para a frente e fechou os olhos
espasmodicamente. Entrou então na casa e dirigiu-se ao grande
vestibulo, com seu mosaico rude, azul, amarelo, vermelho e branco, suas
colunas baixas e corpulentas e seu mobiliário simples. Os raios do sol,
de um vermelho intenso, inundavam o vestíbulo e, em sua luz agoureira,
o médico viu os pretorianos, suas armaduras vermelhas como sangue,
suas cabeças cobertas com os elmos mantendo-se altas e sombrias.
- Sou médico, cidadão romano, e tomo conta do pessoal desta
casa disse Keptah para o oficial, inclinando-se. - Disseram-me
que desejais ver o nobre tribuno Diodoro.
O oficial olhou para ele por um momento, depois disse:
- Sim. Vim diretamente mandado pelo Divino Augusto, com
uma mensagem de grande importância.
318 319
Keptah estudou-lhe o rosto e viu mais agudamente as bordas
ásperas das pálpebras do jovem soldado, e ficou pensativo. Disse, a
seguir:
- Por acaso conheces Diodoro?
A cabeça do oficial ergueu-se, e seus altivos olhos romanos se
desviaram dos de Keptah. Falou, truculentamente:
- Ele foi meu general, quando eu era muito jovem e novo no
campo, e foi amigo de meu pai. Meu nome é Plócio Lisânias. O tribuno
me conhece bem. Foi o padrinho de meu ftlhinho, nascido há um
ano, e eu dei a esse filho o nome de Diodoro, em honra dele. - Sua
garganta convulsionou-se de repente, e ele ergueu a cabeça ainda mais
alto. - Preciso ver imediatamente o tribuno.
Keptah falou, muito delicadamente:
- Tu sentirás no fundo do coração saber que Diodoro está
morrendo. Voltou de Roma hoje, e desmaiou neste mesmo vestíbulo, em
meus braços. Há dois anos que está morrendo. Agora, chegou o
último instante, e ele expirará antes que a lua se erga por completo. Sua
esposa e seus filhos estão agora com ele.
O oficial ficou a olhá-lo por alguns momentos, incrédulo, depois,
subitamente, seus olhos de moço encheram-se de lágrimas. Olhou
para os soldados e disse:
- Deixai-me a sós com o médico.
Quando ficaram sozinhos, Keptah lhe disse:
- E qual é a tua mensagem, nobre senhor, a um romano heróico
que está morrendo como morre um soldado, cheio de ferimentos?
Plócio ficou silencioso. Depois, embainhou sua espada e olhou
com altivez para Keptah.
- Como oficial subalterno do tribuno, sei como me dirigir ao
meu general disse. Hesitou, depois continuou: - Meu tio era um
bravo e jovem senador, Plócio, cujo nome me foi dado, e que o
Senado condenou à morte há alguns anos, e não pela espada do soldado
nem protegido pelo escudo do soldado. Morreu, ignominiosamente,
pelo veneno da mente dos homens.
- Não morreu ignominiosamente disse Keptah, com tristeza.
- Não há verdadeiro herói que morra assim. Ele vive no coração de
seus compatriotas, para sempre, e no âmago brilhante da História.
Conduziu, então, o oficial até o aposento de Diodoro, onde o
tribuno jazia imóvel em sua cama, sob o profundo vermelhão do
poente. Estava consciente, entretanto, rodeado por sua esposa e seus
filhinhos. Plócio, oprimido como estava, viu que a esposa de Diodoro
era bela e régia como Vênus, sentada à beira da cama e segurando a
mão do esposo. Na sua atitude havia amor, devotamento e fortaleza
espiritual. As crianças estavam de pé junto do leito paterno, chorando
Lastimosamente, e o tribuno tentava consolá-las.
- Ah! Meu Prisco dizia ao mais velho, em voz amorosa e
fraca. - Não deves sofrer assim. És meu filho, e serás um soldado, e
soldados não choram. Deveis tomar conta da tua mãe, de teu irmão e
de tua irmã e recordar, sempre, que a morte é preferível à desonra.
Subitamente calou-se e arquejou. Íris curvou-se sobre ele e
beijou-lhe a fronte pálida, onde corria o suor da morte, depois beijou-lhe
os lábios. Seus cabelos dourados tombaram sobre ele como um véu.
Diodoro ergueu a mão trêmula e fraca para aqueles cabelos. Íris
deitou a cabeça sobre seu peito arquejante, e ficou inteiramente imóvel.
- Minha muito querida, minha muito amada esposa -
murmurou ele. - Mãe dos meus filhos. Eu vou, mas não vou para
sempre. Esperarei por ti, fora destes portais, e quando teu dia chegar eu
estarei ali, para tomar-te a mão novamente, na paz e na resplandecência
eternas.
Keptah e Plócio aproximaram-se da cama e Diodoro notou-lhes a
presença. Seus olhos moribundos fizeram-se vívidos e alertas.
- Ah! Plócio disse ele, com ligeiro espanto -, ouviste dizer
que estou sendo chamado para os vestíbulos de Plutão. Obrigado por
teres vindo, pois tu és como um filho para mim.
O arrogante pretoriano ajoelhou-se do outro lado da cama e olhou
para o tribuno; de seus olhos de soldado corriam lágrimas de soldado. E
disse:
- Nobre Diodoro, eu tenho uma mensagem para ti, vinda de
César, e que te devo transmitir pessoalmente.
O rosto acinzentado de Diodoro modificou-se. Tentou levantar a
cabeça. Olhou para Íris por um momento, depois para as cnanças, e
seu rosto balançou. A última agonia que devia sofrer correu como
lívida maré pelas suas feições.
O soldado ergueu a voz e disse, claramente:
- César chorará esta noite, pois a mensagem que te trouxe, meu
general, é um chamado para que te apresentes diante dele a fim de
discutires a colocação pouco satisfatória de certo general no campo.
Ele deseja que seja a tua própria pessoa que substitua o general.
Uma grande vaga de alegria envolveu o rosto de Diodoro. Olhou
arrebatado para a esposa:
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- Ouviste, minha bem-amada? Falei contra Tibério hoje,
dizendo que ele era um falso César, sedento de sangue e corrupto, e
ainda assim recordou-se de que sou um soldado e deseja dar-me a
honra que se dá a um soldado. Ah! Então ele não é venal como julguei
e há ainda esperança para Roma, minha pátria querida!
Sua mão incerta procurou a mão de Plócto, e o jovem oficial
baixou a cabeça e beijou aquela mão, sentindo contra seus lábios a
frialdade da morte.
Diodoro falou, em voz mais alta:
- Dize a César que Diodoro Cirino não pôde responder ao seu
chamado, pois foi solicitado por alguém maior do que ele, em cujas
mãos deve encomendar seu espírito.
Tentou levantar Plócio, mas este continuou ajoelhado e chorando.
Então Iris soltou um grande grito e tombou sobre o corpo do
marido, como uma bétula branca derrubada pelo raio.
Keptah e Plócio voltaram para o vestíbulo, ouvindo o som de
pranto que se erguia de todos os cantos da casa. Plócio ali ficou, em
silêncio, a cabeça baixa, os lábios severos latejando. Finalmente, olhou
para o médico, e disse:
- Foi Carvílio quem procurou César, mas, fosse como fosse, o
resultado teria sido o mesmo. - Fez uma pausa, e concluiu: - Não te
aflijas pela esposa e pelos filhos dele. Com meus próprios ouvidos
ouvi Tibério dar sua palavra que eles não seriam atingidos, e que a
esposa de Diodoro seria nomeada tutora das crianças e da fortuna, e
que sua genealogia iria ser inscrita nos livros públicos de Roma,
testemunhando sua ascendência patrícia.
- Deus é misericordioso disse Keptah. - Mesmo do mal ele
pode retirar o bem, louvado seja o Seu Nome.
O Senado, ao ter conhecimento da morte súbita de Diodoro,
resolveu, furtivamente, entre seus membros, que não compareceria ao
funeral, receoso da cólera de César. Tais membros ficaram atônitos, em
perplexidade, quando César ordenou que estivessem todos presentes,
com honras integrais e suas togas senatoriais. Não podiam acreditar no
que ouviam quando souberam que a própria guarda pretoriana de
Tibério escoltaria o corpo até a pira, em completo garbo militar, e que
um destacamento de velhos soldados, membros da antiga legiãO de
Diodoro, deveria levar o corpo, envolvido nas bandeiras do Império.
A última e estupefaciente notícia foi que o próprio Tibério faria a
oração fúnebre, vestido com seu aparato militar e de pé sobre sua biga
de guerra. Dez corneteiros também ali estavam, e dez tambores.
Antes de entregar o corpo à pira, Tibério disse:
- Aqui estava um soldado de Roma, simples em suas palavras,
terno em seu coração, arrebatado em sua cólera e rápido em sua
misericórdia. Aqui ESTÁ um soldado de Roma, que ajudou a forjar o
Império com sua espada valente que ninguém jamais ouviu
pronunciar mentiras, ou enganar, ou trair, tanto sua pátria como seu próximo.
Nós, de pé neste momento, não o podemos honrar, pois a honra lhe
foi dada pelo nascimento, manteve-se a seu lado no campo de batalha
e deitou-se a seu lado quando ele morreu! Não somos nós que
entregamos suas cinzas às cinzas de seus pais, e às mãos dos deuses. Ele
jamais os desertou.
Alguns dias depois, Carvílio Ulpiano era misteriosamente
envenenado. Contaram isso a Keptah, que disse:
- Que ele tenha paz, como Diodoro a conquistou.
25
Aquele fora o mais miserável dos invernos. As Sete Colinas erguiam-se
como sepulturas fortificadas, imóveis como a morte, recobertas por
uma crosta de neve durante longos e amargos dias. A Campânia,
alternadamente, estalava com o gelo, ou escurecia com a absorvência
pantanosa. A neve soprava sobre o rosto das pessoas, as estradas
reluziam como espelhos, levantavam vapor gelado à hora do meio-dia,
tornavam a luzir sob uma lua de aço. Os palácios brancos assemelhavam-se
a lousas e ossos apoiados nas extremidades, contra a brancura
que os rodeava. Suas colunas deixavam escorrer água mortal e suas
cornijas fremiam com os pingentes de gelo. O Tibre imobilizava-se
pesadamente e às vezes sua corrente fluía entre neve, como a corrente
escura do Estígio, refletindo um céu esmaecido e um pálido sol.
Fumaça elevava-se dos centros dos templos e dos lares dos ricos; mas no
além-Tibre havia uma quietude como de peste; pessoas pobres,
desoladas, famintas, amontoavam-se, aconchegando-se umas às outras em
aposentos minúsculos e fétidos, para obter calor. De vez em quando, o
322 323
vendaval invernoso mugia através da grande cidade segregada, Como
em cólera divina, e o povo declarava que aquela ventania estava cheia
de vozes selvagens, que não pertenciam à Terra. Poucos iam para o
Exterior, mesmo as senhoras com seus casacos de pele e suas liteiras
aquecidas. Preferiam sentar-se no aposento menor e mais quente de
suas casas, trazendo para junto de si os braseiros repletos de carvões ao
rubro. As vezes, turbas reuniam-se no Panteão, no centro do qual,
sobre o próprio piso de mármore, protegido por uma lâmina de aço,
grande fogueira fora levantada. As estátuas dos deuses e das deusas,
em seus nichos dourados, pareciam vivas e movimentadas contra as
sombras vermelhas e faiscantes. A fumaça da fogueira e do incenso
revelava-as e depois as escondia, revelando-as de novo, como que
através de nuvens. O imenso orifício do forro lançava a fumaça para fora e
quando o vento mudava caprichosamente de direção, a mesma fumaça
era devolvida ao templo, onde quase sufocava seus tiritantes
freqüentadores. As estátuas iam lentamente adquirindo tons sombrios, e seus
pés brancos escureciam.
Os velhos de barbas grisalhas diziam aos jovens, pomposamente.
- Este não é o pior dos invernos. Recordo-me de quando o
Tibre ficou de braços gelados durante semanas, e as pontes pareciam
mármore de gelo, reluzindo de maneira tão deslumbrante à luz do sol,
quase cegando os que as atravessavam. Vós, jovenzinhos, é que sois
fracos e moleirões!
As pombas juntavam-se sob os beirais; algumas delas congelavam
e tombavam na calçada. Suas vozes silenciavam.
Sua Majestade, Augusto Tibério, sua corte, todo o Senado, todos
os cavalheiros, os augustais e o pessoal de suas casas, escravos
prediletos, libertos, concubinas, esposas e filhos, gladiadores, cantores,
dançarinos e lutadores, pugilistas e condutores de bigas deixaram Roma
num vasto êxodo, para as ilhas aquecidas da Baía de NápoleS, OU para
Pompéia ou Herculano. Correios, em cavalos velozes, corriam entre a
cidade, e Nápoles, e suas ilhas, com os últimos boatos e notícias, e as
cotações diárias do mercado, bem como relatórios sobre o tempo.
Diziam estar os celeiros assustadoramente vazios, o povo desesperado
e alimentando desejos de vingança. A corte e os que a rodeavam,
entretanto, erguiam os ombros. Era agradável ver o mar cor de ameixa, ao
crepúsculo, fluindo com reflexos vermelhoS vindos do céu ardente,
jantar nos terraços e nos jardins fechados, que OS SOnS vindos dos
pássaros, inquietos, e das fontes povoavam; visitar TibériO, jogar e
beber, rir e divertir-se com os variados entretenedores que os haviam
seguido, como animais comedores de carniça. Tibério construíra grandes
áreas de banhos na ilha de Capri e barcos coloridos corriam para eles,
com regularidade, cheios de risos e dos rOStOS pintados das damas.
Então, quase entre um dia e uma noite, o Vento sul rugiu baixinho
sobre a crestada terra nortista, cheio de perfume da vida e da fragrãncia
dos campos longínquos de flores, e de promessas de verão. Em Roma
tudo começou a gotejar e a tilintar, em súbito degelo, colunas ardiam de
luz, platibandas corriam como cataratas, e as Sete Colinas e seus
palácios repletos brilharam com o sol vivaz. As ruas inundaram-se com água
de mau cheiro, mas o povo sentia-se feliz. As lojas abriram-se, os
mercados alvoroçaram-se outra vez com a vida, o movimento dos animais e das
criaturas humanas, os coloridos das mercadorias. As tavernas
encheram-se, um perfume de pastelarias e carne assada introduzia-se no vento
tépido. Um fluxo contínuo de passageiros apareceu animadamente
pelas estradas que levavam à cidade. Os campos ondulavam com extensões
de pequenas papoulas vermelhas, como sangue vivo. A Campânia, como
sempre, cheirava mal, e nuvens de mosquitos apareceram. Mesmo eles
não incomodaram demais o povo, pois que eram arautos da primavera
que voltava. O inverno, com suas férreas misérias, foi esquecido. O
Tibre corria, sob o sol esverdeado, e as pontes fervilhavam de gente.
Tibério e sua corte voltaram à cidade.
- É uma pena que o Senado também esteja voltando disseram
alguns céticos, azedamente. - Pelo menos durante o inverno não
tivemos de suportá-los e à sua corrupção. Ufa!
Tibério não era popular; a natureza fria, o rosto fixo e pálido não
o recomendavam à volúvel populaça romana, que preferia em seus
césares certa vivacidade e histrionismo. Caio Otávio, um simples soldado,
não servira para o temperamento dela e Tibério ainda servia
menos. Alguns dos velhos falavam de Júlio César e da animação de
seus amigos. Então, eles apenas sacudiam as cabeças quando seus
filhos e netos faziam lembrar que Júlio fora um ditador em potencial e
um desprezador do Senado, e que Otávio e Tibério prestavam
deferência ao Senado de acordo com a Lei.
- E chamais a isso leis? perguntavam os velhos, com soberbo
desdém. - O Senado pode ter a aparência do poder, mas Tibério é o
poder. Abdicaram em favor dele para terem por sua vez mais poder!
- Isso não é absolutamente um paradoxo.
As multidões encaminhavam-se como rebanhos para a Porta
324 325
Ostiana, a fim de observar o retorno de Tibério e de seu séquito,
mesmo antes que o sol se levantasse em dourado esplendor sobre as
casas mais para as bandas do leste, e sobre os palácios e colinas. César
pára primeiro em Ancio para visitar sua vila e para se divertir à sua
maneira parcimoniosa, além de sacrificar a Ceres e Proserpina, agora
que esta última havia voltado para sua mãe, saída dos vestíbulos
crepusculares da morte. Mesmo sua própria face, imóvel e descolorida,
parecia tomar certo fulgor de vida que retornava a seu tom; estava
menos áspero do que de costume, com os senadores. Quando viu as
vastas turbas que o esperavam à Porta Ostiana, rodeado como estava
pelos seus pretorianos que levavam as águias romanas, chegou a sorrir,
à sua maneira frígida. Desdenhoso da multidão fervilhante, era ainda
humano bastante para se sentir aquecido pela estrondosa ovação que
lhe prestou ela. Estava de pé em sua biga dourada, como um corredor,
e levantou seu braço direito, em rígida saudação militar. Poeira
amarela, iluminada pelo sol, cintilava em derredor dele e também aquilo,
depois do inverno úmido e gélido, deliciava o povo. Embora
assobiassem para as damas, lançassem risonhas imprecações aos senadores,
fizessem, mesmo, comentários sardônicos sobre o próprio Tibério e
zombassem dos augustais e dos patrícios, aqueles homens e mulheres
sentiam-se felizes.
O inverno sombrio e escuro, chicoteado pela neve e pela areia
esquecido, também, nos domínios do tribuno morto,
Diodoro. Quase da noite para o dia, ao que pareceu, as colinas
estouraram em verdor, os olivais faiscaram como prata nova, o regato luziu
com tom azulado quase celestial, o céu emaciou-se em turquesa
delicada. os campos dançaram com as papoulas, e os ciprestes pontudos e
negros recortaram-se contra o firmamento, perdendo sua rigideZ.
Renovos intumesciam e expandiam-se em árvores; as pastagens
aveludavam e tornavam-se esmeraldinas; os cordeiros novos saltavam atras
de suas mães; os cavalos recomeçavam seu terno jogo libidinoso com
as mulas; o gado perambulava de cá para lá e ficava a observar seu
reflexo nos pequenos crescimentos do rio minúsculo; folhas
pequeníssimas apareciam nos roseirais dos jardins, e as fontes libertas
murmuravam ao longo dos pórticos, arcadas e colunatas. Pássaros
gorjeavam veementes, enquanto se preparavam para construir novos ninhos.
E ao entardecer o ar resplandecia de amplo e tépido ouro, a estrela
vespertina parecia nascida de novo e a luz cúprica suspendia-se,
baixa, no horizonte, dentro de uma névoa do derradeiro escarlate. E mais
doce do que tudo, mais excitante, era o apaixonado e invasor perfume
da terra, ao mesmo tempo sagrado e carnal, ao mesmo tempo pacífico
e perturbador.
Lucano jamais vira uma primavera romana, O Oriente vermelho e
turbulento tomava apenas uma forma ainda mais turbulenta naquela
época do ano. Agora, aquela suavidade verde e primaveril, aquele som
murmurado e doce, aquele contraste delicado de colorações o
encantavam, apesar de todo o seu desgosto e da inquietação crônica de seu
espírito. Mesmo no pequeno hospital para os escravos, ele não podia
evitar erguer a cabeça ainda no meio de um grave exame, para ouvir as
vozes da terra e aspirar o divino e insistente perfume, sentindo a
tepidez do vento macio contra suas faces. As vezes, chegava mesmo a sorrir,
e era jovem novamente.
- Mesmo o mais duro dos miseráveis sentiria uma promessa na
primavera disse Keptah a Cusa, numa tarde abençoada, quando
ambos estavam sentados no pórtico externo e olhavam para o céu. -
É a profunda promessa de Deus, e homem algum pode resistir-lhe,
embora seu coração esteja vazio como um vaso quebrado.
- Lucano resiste com certo sucesso disse Cusa.
- Ele pensa demais em Diodoro comentou Keptah, com tristeza.
Uma vez, repreendeume por ter deixado o tribuno ir à cidade
naquele dia fatal. Gritou-me que eu lhe devia ter dado uma droga que
o adormecesse. O fato do destino do tribuno ser inevitavel como
homem de caráter, integridade e honra que era, em nada aliviou a cólera
do jovem contra mim. Como todos os jovens, ele é imnulsivo. Está
determinado a fazer seu caminho ao longo do Grande Mar, nos navios
barulhentos e pelos portos, cidades e comarcas fétidas, pois acredita
que esse seja o seu dever. Disse-lhe que Diodoro estava preocupado
com seu próprio dever, tão selvagemente quanto ele se preocupa com
o seu.
- E que disse ele ao ouvir isso? indagou Cusa, avidamente.
- Disse que Roma já estava perdida, mas o homem não está
perdido! Uma resposta de sofista, não pude evitar de dizer-lhe. O
homem é o seu próprio carrasco, pendura-se pessoalmente em sua
Própria cruz. É sua própria doença. SeU próprio fado, sua própria
morte. Suas Civilizações são as suas expressões. Mas nosso jovem
médico não se preocupa com as civilizações. Pensa apenas nos oprimidos,
desprezados, rejeitados, que assim se acham porque suas nações
apodrecem e porque eles trabalharam para que assim seja. Apesar dis-
326 327
so, está mais agarrado ao seu estreito ponto de vista do que mosca ao
âmbar. Os homens sofrem pelos homens, disse-lhe eu, mas ele
responde que algo amorfo como a sociedade é o torturador do homem.
Só Deus, é o que ele pensa, e os poderosos que Ele criou são os
opreSSores.
Keptah voltou-se para Cusa, que refletia sobre isto. E, como
perguntara muitas vezes antes, perguntou agora:
- Tens certeza de que havia peste naquele navio?
- Senhor Keptah, tenho toda a certeza. Descrevi várias vezes os
sintomas para ti, o aspecto dos mortos, os bubões e os vômitos de
sangue.
Keptab confirmou com um movimento de cabeça.
- Embora eu saiba muito que não te posso dizer, meu bom Cusa,
estou ainda espantado com o que me contaste.
Cusa olhou fixa e curiosamente para Keptah no crepúsculo
tépido de ouro e escarlate.
- És muito misterioso. Eu acredito que ele foi dotado pela
divindade. É protegido de Quíron,* não há dúvida. Tento lembrar-me
disso, quando ele me exaspera demais.
Keptah ficou um instante silencioso, depois disse:
- Há outra coisa que devora e entristece o rapaz, além de seu
desgosto a propósito de Diodoro.
Cusa animou-se, pois tanto quanto a esposa Calíope, gostava de
comentar a vida alheia. Pela primeira vez falou a Keptah da dama
escondida na liteira, que viera dizer adeus a Lucano, nas docas de
Alexandria:
- Vi-lhe a mão branca disse ele com satisfação -,
embora
não lhe visse o rosto. Mas a mão era notavelmente pequena e bela, e
nunca vi mulher feia com mão igual àquela, nem mulher realmente
bela que tivesse mão feia. Lucano voltou ao navio com o rosto morto e
imóvel e seus olhos abatiam-se de desgosto e desespero. Incidentalmente,
ele beijou aquela mão.
Keptah endireitou-se na cadeira e coçou o queixo, a expressão
mostrando-se animada:
- Uma dama! Damas não vão a docas cheias de escravos e de
populaça para dizer adeus, a não ser que amem e sejam amadas. Ah! A
___
* Centauro, Figura mitohlógica, metade cavalo, metade homem, filho de
Saturno, muito versado na arte de curar, considerado, por isso, protetor
dos médicos e íntimo dos deuses na medicina. (N. do T.)
___
coisa se explica! Ele renunciou à dama, e a todas as damas, por causa
da sua obsessão. Apesar disso, regozijo-me. Continuemos a ter
esperança. Se a dama tem liteira e escravos, tem dinheiro, e uma mulher
que ama e tem dinheiro é tão inquieta, audaciosa e inamovível como
um tigre. Lucano tornará a vê-la.
- Ela terá que ser de fato muito audaciosa disse Cusa,
ambiguamente. - Mas é possível que também nisto tenhas razão. Lucano
passou muitas noites perambulando pelo navio, como sombra, sem
nada dizer. Também o ouvi chorar dolorosamente, dormindo, como
quem chora pelos mortos.
Lucano estava sentado com sua mãe e irmãos, à noitinha, e
mostrava-se ainda mais calado do que de costume. Olhava para os vales
verdejantes, que as sombras cobriam, e para as colinas iluminadas
pelo sol poente. O ar tinha iridescência, como se repleto de pedras
preciosas pulverizadas, e nas concavidades mais escuras dos jardins os
vaga-lumes começaram a faiscar silenciosamente.
A carnadura de lris perdera seu fulgor rosado e fizera-se de um
palor translúcido semelhante ao da madrepérola, e o azul de seus olhos
se intensificara com a calada serenidade de um sofrimento resignado.
Lucano sentia-se tomado de orgulho e piedade; via sua mãe, não
apenas como tal, mas como esposa e mulher, e em muitas ocasiões cogitara
em que pensaria ela, o que desejaria. As vezes, ela o surpreendia pela
sua aceitação dos acontecimentos e da morte do esposo amado. Teria
preferido vê-la rebelada e colérica contra os fados. Certa vez, Íris lhe
dissera:
- Sei que Diodoro vive, e que algum dia irei reunir-me a ele, com
alegria e júbilo, pois Deus é bom e Ele não desapontará Seus filhos.
Havia ocasiões em que ela era, para Lucano, um mistério
impenetrável.
Amava seus próprios filhos, os que tivera de Diodoro, a pequena
Aurélia e Gaio Otávio, mas parecia amar ainda mais o filho de Diodoro
e Aurélia. O alegre Prisco era afétuoso e devotado, adorava sua
madrasta e, apesar de sua natureza afável, tinha profundo senso de
responsabilidade, embora mal tivesse feito cinco anos. Parecia um pai,
em relação à sua irmãzinha, cujo cabelo se assemelhava ao da mãe e
Cujos olhos castanhos e meigos, luziam com doçura; e para seu
pequeno irmão, que ainda não tinha dois anos, mas caminhava pela relva,
vacilante e grave, observando as flores como um filósofo. O pequeno
Gaio fazia lembrar seu pai, espantosamente, e às vezes aquilo divertia
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Lucano. Prisco, porém, tocava-lhe dolorosamente o coração, POIS seu
rosto era o da irmã morta, Rúbria, e tinha de Rúbria a vivacidade e a
alegria.
Gaio desejou inspecionar os vaga-lumes, porém Íris apanhou-o
no momento exato em que ele tropeçava e colocou-o sobre seus
joelhos, beijando-o. O cabelo dourado da mãe foi iluminado num
relance pelo último fulgor de sol, antes que ele expirasse atrás das colinas
que iam escurecendo suas cristas ainda douradas. Gaio inspecionou
seriamente o rosto materno, depois encostou a cabeça escura e
redonda contra o peito dela, que se curvou sobre o menino.
- Embora ele mal saiba falar disse Íris -, tem pensamentos
muito profundos e as mais intrigantes perguntas deste mundo. -
Relanceou os olhos para Lucano e rematou, baixinho: - Como seu
caro e amado irmão.
Lucano nada disse. Tentara, durante todos aqueles meses,
manter-se à parte de sua família, receando amá-la demais. Sentia-se
repleto de inquietação e ansiedade selvagens. Devia ir-se dali o mais
depressa possível ou aquelas crianças e sua mãe lhe tomariam o coração
e o despedaçariam de dor em suas mãos. Observava a lua lustrosa
surgir trêmula por trás de uma colina. Para ele, a lua era como um
crânio velho, batido pelo desgosto e pela tragédia. Sua beleza,
portanto, não o comovia, pois era a beleza da morte, tal como no amor existe
sempre tal beleza ameaçadora.
Iris observava-o por sob os cilios. Via o resplendor branco do
rosto dele, a rigidez de sua expressão, seus olhos que se furtavam.
Suspirou. Então, disse:
- Nunca fui mulher de temperamento tão expansivo que
pudesse falar abertamente das minhas emoções. Mas tu deves
compreender,
meu Filho querido, o que significa para mim ter minha família
comigo, e tu em casa finalmente, depois de todos esses anos. Não é
maravilhoso que tenhas sido nomeado, através da graciosa vontade de
César, para o cargo de médico-chefe oficial de Roma? Estarás na
cidade apenas três dias da semana, e depois voltarás para cá, onde o
pessoal doméstico precisa de ti. tua mãe mais do que todos os outros -
acrescentou, em tom mais natural.
Os lábios de Lucano reabriram-se, como se fosse falar, mas
conservou-se silencioso. Olhava para o belo anel que Diodoro mandara
fazer, para com ele presentear seu filho adotivo, quando voltasse ao
lar.
Era trabalho realizado com grande delicadeza e habilidade, larga e
intrincadamente esculpida banda de ouro, na qual se mncrustava uma
grande esmeralda. Nela fora engastado o caduceu de ouro, emblema do
médico, bastão enlaçado pelas duas serpentes e rematado pelas asas de
Mercúrio, cravejadas de rubis. Para Prisco, ficara o anel de cavalheiro de
seu pai, que, no entanto, não era tão maravilhoso e rico quanto aquele
e não tinha a metade da significação que aquela jóia trazia. Diodoro não
esquecera Lucano, no que se referia a dinheiro. Fizera-o beneficiário de
grande soma e nomeara-o, em caso de morte da mãe, o guardião de seus
filhos. Mas, era o que Lucano dizia consigo mesmo, embora sua mãe
não fosse mais tão jovem, quase com trinta e oito anos, tinha boa saúde
e poderia esperar viver ainda alguns anos.
Viu que agora precisava falar, embora tivesse evitado tal coisa
durante seis meses, temendo perturbar a mãe e aumentar seu desgosto.
Disse, o mais delicadamente possível:
- Preciso dizer-te, mãe. Não posso aceitar a nomeação de Tibério.
Não ,posso permanecer aqui.
Iris esperava. Lucano fixou os olhos nela, aguardando lágrimas e
protestos, mesmo incredulidade. Iris, porém, esperava calmamente. E
disse:
- Conta-me, meu filho.
Ele contou-lhe e ela ouviu-o, a cabeça curvada, as mãos
acariciando abstraidamente o pequeno Gaio, que ia adormecendo. Prisco e
Aurélia ocupavam-se em correr atras dos vaga-lumes, e sua tagarelice e
risos infantis misturavam-se aos sons dos pássaros vespertinos. A lua
erguera-se mais, e o cheiro pungente da terra e dos ciprestes, bem
como das árvores de recente floração, tornou-se insistente. De repente,
os picos dos ciprestes fizeram-se de prata.
Iris mantinha-se tão silenciosa depois que Lucano terminou de
falar que ele disse, finalmente:
- Tu não compreendes.
- Sim disse Iris -, eu compreendo. És como Diodoro, meu
filho querido, e isso me faz feliz. Tens a mesma severidade e disciplina
de cárater, a mesma dedicação ao dever, coisas raras neste mundo
desmoralizado. Tens consciência, naturalmente, de que o caminho que
traçaste para ti próprio é doloroso e solitário, cheio de pedras agudas e
sem luz do sol a iluminá-lo?
- Sim disse ele. - Mas isso não tem importância. De há
muito sei que o mundo não tem para mim promessas de alegria ou de
felicidade.
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- Rezei falou Íris para que te casasses e trouxesses tua
esposa para esta casa a fim de que eu tivesse netos que me dessem
regozijo.
Lucano sacudiu a cabeça.
- Não te esqueceste de Rúbria disse Íris, e tornou a suspirar.
- jamais a esquecerei.
Lucano hesitou, depois disse, abruptamente:
- Mas eu amo uma mulher que para mim é Rúbria renascida.
Encontrei essa parecença na natureza dela, a mesma força feminina.
Seu nome é Sara bas Eleazar. Isto é tudo quanto te posso dizer. Para
mim, ela se mistura em minha mente com Rúbria, de forma que se
tornam uma e a mesma pessoa. Entretanto, assim como Rúbria
desapareceu, Sara também deve desaparecer da minha vida.
Aquilo, para Iris, era uma grande calamidade. Lágrimas
subiram-lhe aos olhos.
- Amor entre um homem e uma mulher é coisa sagrada, meu
filho, e abençoada.
- Não para mim disse Lucano, com firmeza, e a mãe viu-lhe
o rosto. Um pouco depois, ele disse: - Escrevi hoje a César,
agradecendo-lhe a oferta, mas recusando-a. Roma não precisa de mim, como
te disse. A cidade está cheia de excelentes hospitais e de excelentes
médicos. Há mesmo um bom hospital para os escravos e criminosos
mais abandonados, numa ilha do Tibre. Mas nas cidades e comarCas
e lugarejos perdidos ao longo do Grande Mar, há poucos lugares para
os doentes e para os pobres.
Embora compreendesse, Íris sentia-se um tanto desapontada. Um
jovem tão belo e tão bem-dotado, dispondo de tal fortuna, com uma
família amorosa, e considerado graciosamente até pelo próprio César!
E tudo isso ele abandonaria pelas multidões sem faces definidas, em
cidades que para ele não tinham nomes.
- Quero ser livre disse Lucano. - Quanto mais
necessidades um homem tem, menos liberdade. Eu nada quero para mim
mesmo.
Tinha as mãos pousadas sobre os joelhos, imóveis, e elas
pareciam esculpidas em pedra, à luz da lua que se erguia. O maravilhoso
anel brilhava levemente em seu dedo. Lucano vestia-se com uma túnica
simples e barata. Seu guarda-roupa era tão pobre e limitado quantO O
de um humilde liberto. Ainda assim, sua mãe pensava, o mOÇO
mostrava uma majestade para além da de César, e uma nobreza que se
igualava a dos deuses. O coração dela subitamente aliviou-se, e Íris
sentiu-se misteriOSamente confortada. Olhou para o céu que escurecia
cada vez mais, como se tivesse ouvido uma voz que dali viesse.
As amas chegaram, vindas da agradável casa que ficava atrás deles,
em busca das crianças, e Iris levantou-se. Quando as mulheres
levaram os pequeninos, ela seguiu-os com seus olhos azuis, molhados de
ternura. Então, pôs uma das mãos no ombro do filho:
- Deus esteja sempre contigo, meu querido Lucano disse
ela, deixando-o.
Keptah encontrou Lucano sozinho à luz do suave luar, sob as lustrosas
murtas. Os ciprestes recortavam-se negros, contra a luz, e uma grande
imobilidade envolvia os jardins. Keptah sentou-se na cadeira que Iris
ocupara e ficou a olhar para o seu antigo aluno.
- Contaste à tua mãe declarou ele.
Lucano moveu-se, constrangido.
- Contei. Ela compreende.
- Tens a visão de vida mais espantosa disse Keptah. - Como
não tenho tal visão, embora reverencie a tua, só posso ficar atônito.
Apesar de que, naturalmente, estava determinado que seria assim.
- Por quem? perguntou Lucano, desdenhosamente. - Eu
fui quem determinou a minha vida.
Keptab sacudiu a cabeça:
- Não. - Fez uma pausa e continuou: - Estás em erro,
também sobre um certo número de coisas e esses erros devem ser
corrigidos ou não encontrarás verdadeiramente o teu caminho. Para ti, a
natureza é caótica, varrida pelos ventos da anarquia, sem propósito,
inspirada apenas pela violência e por uma vida clamorosa,
essencialmente sem finalidade. A civilização, para ti, é uma patética
tentativa do homem para colocar a natureza em ordem; para dar-lhe de certa
maneira uma forma e significação; para guiar seu caminho sem alvo e
dar-lhe alguma espécie de motivação. Para ti, a natureza, em seu
semear, crescer e morrer, é uma soma sem equação, um círculo que envolve
o nada, árvore que floresce, dá flores e frutos e morre em
sombrio deserto. Tais pensamentos são letais; carregam consigo a morte...
- E que mais carregariam? disse Lucano, impaciente.
pensou, consigo, que Keptah se estava tornando tão tedioso quanto José
ben Gamliel.
De novo Keptah sacudiu a cabeça:
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- Estás errado. A natureza é a ordem suprema, governada
pelas leis imutáveis e absolutas, estabelecidas por Deus desde o inÍcio do
universo. As civilizações, enquanto concordarem com a natureza e suas
leis, tais como criação, liberdade de crescimento, dignidade de tudo
quanto vive, beleza de forma, reverência pelos seres de Deus e pelo
seu próprio ser, sobrevivem. Desde que se fazem rígidas e anônimas
sob o Estado e regulam formas sutis de desmantelamento e degradação
do melhor das massas infecundas de homens, a rejeição da liberdade
para todos... então a natureza precisa destruí-la, através de guerras ou
pestilências, ou rápida deterioração. Estás no centro, nesta época, dos
trabalhos da Lei.
- Estamos apenas continuando as infinitas conversações sobre o
mesmo assunto que tivemos durante estes últimos meses disse
Lucano, cansado.
- Não tornarei a discutir tal tema falou Keptah. - Só quero
lembrar-te de que estás errado. O homem não é a criatura pobre,
destituída de voz, sofredora que o imaginas. Ele é uma Fúria, nascida
de Hécate, e só Ele pode salvá-lo de seu fado, nascido de
autodeterminação. Esperou que o obstinado Lucano falasse mas este nada disse.
Então Keptah continuou:
- És de carne e sangue ou de pedra? Tua preocupação com
os homens é impessoal, embora compassiva. ReCeio que seja, mesmo,
vingativa. És jovem, ainda. O mundo está cheio de mulheres bondosas,
amorosas. Devias ter uma esposa.
Lucano corou e voltou-se colérico para ele.
- Quem és tu, para falares assim? Jamais te casaste!
Keptah olhou-o de maneira estranha.
- Enéias e Diodoro não foram os únicos homens que amaram
tua mãe. Conheci Íris desde que ela era uma criança. Tu me
consideras presunçoso, eu, que outrora fui escravo?
- Não penso em homem algum como num escravo disse
Lucano. Fixou os olhos em Keptah e seu rosto jovem e duro
abrandou-se por um momento.
- Mas tOdOs os homens são escravos. Sempre quiseram ser
escravos. Só Deus pode libertá-los, Ele, que lhes deu liberdade quando
nasceram, embora eles tenham renunciado a ela e sempre continuarão a
renunciar. - E Keptah levantou-se. Então, sem dizer mais nada,
deixou Lucano.
O jovem médico olhou para o céu que agora explodia em estrelas
cintilantes. Subitamente pensou na Estrela que vira quando
criança. Os astrônomos egípcios lhe haviam falado naquela Estrela.
Era apenas uma Nova.* De início, pensaram tratar-se de um
meteoro, mas ela se movera muito lentamente, mostrara-se brilhante
demais, firme demais em sua passagem. Desaparecera, na noite
seguinte. Lucano recordou a profunda emoção que sentira no
coração ao vê-la, a segurança apaixonada e sem nome que se instalara
em seu âmago, a intensa alegria. Agora sentia-se, de repente, dominado
por uma sensação de profunda perda e desgosto e cobriu o
rosto com as mãos.
26
No dia seguinte, Plócio, o capitão da guarda pretoriana do próprio
César, chegou à casa de Diodoro em sua bíga oficial, circundada por
um destacamento de guardas armados. Tendo visitado aquela casa
com freqüência, depois da morte de Diodoro, e se havendo afeiçoado
muito a Keptah, ao qual honrava como homem sábio, sua visita não
deu origem a qualquer consternação. Keptah convidou-o a tomar
algum refresco, mas Plócio disse:
- Hoje não vim para uma proveitosa tagarelice contigo, meu
bom Keptah. Vim por ordem de César. Ele deseja ver o filho de Diodoro,
Lucano, imediatamente.
Vendo que Keptah demonstrava certo susto, Plócio sorriu:
- Deves lembrar-te de que César fez a oração fúnebre.
Mencionou, repetidamente em minha presença, seu profundo respeito por
Diodoro, e sua determinação de honrar-lhe a memória. Creio que
Lucano enviou-lhe ontem uma mensagem, e Tibério deseja discutir
com ele os termos de tal mensagem.
- Penso saber de que se trata disse Keptah. - Lucano
recuSOU a nomeação para médico-chefe oficial de Roma.
___
* Estrela cujo brilho aumenta muitíssimo em pequeno período de tempo e,
atingindo um máximo de resplandecência, vai diminuindo lentamente seu
fulgor até voltar ao primitivo, ou mesmo chegar abaixo dele (N. do T.)
334 335
- O médico está louco? perguntou Plócio, estupefato,
sacudindo a cabeça.
- De certa forma, sim falou Keptah.
Plócio acompanhou Keptah aos jardins brilhantes onde Lucano
como uma criança, brincava com seus irmãos. A pequena Aurélia
estava montada às costas dele, que fingia ser um cavalo bravo, rosnando
ferozmente e sacudindo a cabeça dourada. Plócio achou aquela cena
belíssima. Estava, também, estupefato diante da beleza de Lucano.
Mas quando o jovem médico viu seus visitantes, retirou Aurélia de
suas costas e com um gesto mandou que as crianças se afastassem, o
que elas fizeram, desapontadas, correndo a brincar na outra
extremidade dos jardins. Prisco voltou um momento depois, fascinado como
sempre, pelos soldados em armaduras, que muitas vezes lhe traziam
doces e diziam-lhe ser o próprio Diodoro quando criança.
- Queres falar comigo? perguntou Lucano, que jamais tinha
visto Plócio, embora o conhecesse pelas cartas em que Keptah a ele se
referia.
- Cumprimento-te disse Plócio, erguendo o braço na rígida
saudação militar. És Lucano, filho de Diodoro Cirino? Eu sou
Plócio, comandante dos pretorianos na casa de César. Deves vir
comigo para uma audiência com César.
Lucano relanceou os olhos para Keptah, que disse:
- Quando César ordena, deve ser obedecido.
- Muito bem disse Lucano. Sacudiu da túnica as folhas de
relva. Hesitou, e disse: - Não tenho grandes roupagens. Devo ir
como estou.
- Não insultarás César aparecendo diante dele como um pastor
rústico disse Keptah, sorrindo para Plócio. - Aqui está, meu bom
amigo, um jovem de fortuna considerável. Ainda assim, faz-se passar
por um pobre camponês. Vamos, Lucano, tenho uma bela toga, que
mandei fazer para mim, e para o arranjo de suas dobras treinei uma
pequena muito inteligente.
Tomou o braço relutante de Lucano. Ojovem corara de
constrangimento diante da zombaria que se filtrava no tom de Keptah. Plócío
ficou a vê-los entrar na casa. Prisco, como sempre, estava tocando
pensativamente, no punho da espada curta e larga do soldado.
- Ah! disse Plócio. - Tu serás um esplêndido soldado
como
teu pai. - Desembainhou a espada e deu-a ao menino, que a agarrou
com suas pequenas mãos fortes e morenas. O rosto moreno dele
reluziu e seus olhos iluminaram-se. - Agora disse Plócio ataca
assim, virando o punho desta maneira.
- Eu servirei César disse a criança, atacando e desviando-se
de Plócio. - Serei um grande soldado.
As outras crianças voltaram para observá-lo, mas Prisco ignorou-as,
orgulhosamente, embora as vigiasse com o canto dos olhos. Aurélia
bateu palmas e deu gritos de admiração, vendo Prisco movimentar-se
como um esgrimista e manejar poderosamente a pesada espada. O
cabelo da menininha era como lua dourada em torno de seu rosto
bonito.
Keptah voltou com Lucano, agora vestido com uma toga de régia
aparência. Um cavalariço estava trazendo para o portão um dos mais
belos cavalos da casa, um garanhão da Iduméia. Quando Lucano
montou-o e dominou-o com hábil mestria, Plócio pensou em Febo, pois
cavalo e cavaleiro destacavam-se contra o azul intenso do céu como
estátuas subitamente dotadas de vida.
Lucano cavalgou silenciosamente ao lado da biga de Plócio, até a
cidade, os demais pretorianos montados atrás deles. Ele é muito
estranho, pensava o comandante. E disse para Lucano, algum tempo
depois:
- Roma está hoje em disposição muito festiva. O povo festeja
Cibele e seu templo transborda de gente.
- Eu nada sei de Roma respondeu Lucano, secamente. -
Passei apenas fora de suas portas em meu caminho para casa.
Plócio ergueu os ombros e a conversação morreu. Mas Plócio
continuou admirando as qualidades de cavaleiro de Lucano, a maneira
pela qual ele se mantinha sobre o garanhão. Tinha, sem dúvida
alguma, a aparência de um deus. As damas de Roma ficariam doidas por
ele.
Muito antes de terem entrado na cidade, através da Porta Asinara,
Lucano podia ver Roma, brancura, bronze e ouro, sobre suas Sete
colinas, amontoando-se contra o céu de turquesa. Ali estava ela, imensa,
intumescida não só de romanos, mas de homens de muitas naçoes e
muitas línguas, cidade violenta e depravada, a senhora de toda a lei, a
senhora do mundo, gloriosa em potência e colorido, núcleo de suas
estradas tremendas, alimentadas pelos seus grandes aquedutos que traziam
água fresca e clara de milhas sem conta de distância, retirando-a de
córregos e rios, e por seus navios, que vinham de todos os recantos da
terra. Ali estava Roma, a devoradora, a destruidora, mais terrível
336 337
do que suas águias, diante de cujas faces milhões incontáveis de
gerrnanos, árabes, gauleses, bretões, egípcios e núbios, bem como
miríades de outros povos, inclinavam-se, aterrorizados. O sol refulgia
nas paredes distantes e nas colunas resplandecentes, dourava os
templos longínquos com ouro deslumbrador. Toda a riqueza do mundo
estava ali, todo o seu poder, todas as suas depravações e línguas e
costumes e anelos, todas as suas belezas e artes e filosofias, todas as
intrigas e conspirações. Não é de admirar, pensou Lucano, que Diodoro
a um só tempo amasse e odiasse esta cidade.
A estrada pavimentada de pedra, orgulho de Roma, estava
apinhada de cavalos, bigas, carretas e carroças, carregadas de mercadorias
e produtos. Um aqueduto corria paralelamente, suas águas alias
cantando ao sol tépido da primavera. Campos de papoulas e de botões de
ouro ondulavam às margens, o ar enchia-se do fermento da terra e do
suor e odores das caravanas. Plócio ordenou que alguns de seus lictores
o rodeassem, bem como a Lucano, para abrir passagem. Este, a
despeito dele mesmo, foi dominado pela curiosidade e pela fascinação.
Baixava os olhos para os muitos rostos escuros de seus companheiros
de viagem, aspirava o odor das especiarias e do alho. O ar troava com
o ruído de pés e de cascos e com o retumbar e estalar de inumeráveis
veículos. Os olhos do médico ardiam, tal era a movimentação de cores
vigorosas ao sol violento.
- O trânsito disse Plócio, revoltado torna-se cada dia
pior. Todas as demais estradas que vêm a Roma também ficam assim
extremamente movimentadas. E com tudo isso Roma jamais se cansa;
é como uma boca enorme, eternamente aberta e insaciável. É como
Crono, que devorava seus filhos.
Nuvens de andorinhas barulhentas voejavam sobre suas cabeças,
aumentando o barulho feito pelos homens, veículos e cavalos, barulho
que parecia sacudir a estrada. Os campos cultivados, de cada lado,
brilhavam em seus tons verdes, quase incríveis, com as culturas novaS,
feitas em fileiras, sobre a terra vermelha e fecunda. De vez em quando,
havia um grupo de murtas, carvalhos, ciprestes, lançando sombra
ocasional nas pedras ardentes, e aqui e ali, ao lado de um córrego azul e
raso, erguiam-se maciços de grandes salgueiros, deixando tombar de seus
troncos pálidos e mosqueados, para a água brilhante, sua frágil
cabeleira de jade. A estrada tumultuosa fazia caminho pelas vilas brancas,
instaladas em jardins, pastagens cheias de gado tranqüilo, grupos de
escravos encadeados erguendo novas paredes ou consertando as antigas.
Agora, a poeira amarela espessava-se e tornava-se névoa reluzente
sobre os viajantes, e um pó semelhante a ouro apareceu nas dobras da
preciosa toga de Keptah, que fora tão artisticamente drapeada sobre a
leve túnica azul de Lucano. O rapaz tentou sacudi-lo, mas ele
agarrava-se ao linho fino. Seu garanhão espirrou e bufou. Plócio achava
ridículo que um homem de toga estivesse a cavalo. Oferecera trazer
Lucano de volta a casa em sua biga, mas seu oferecimento tinha sido
friamente recusado pelo jovem.
Quanto mais se aproximavam da cidade, mais a sensação excitante
crescia em Lucano, além de uma curiosidade muito humana. Roma já
alcançara os Setecentos anos de idade, e era velha, agora, tendo
cometido inúmeros pecados. Ficava-lhe bem ter sido fundada sobre um
fratricídio. Entretanto, seu declínio começara com o declínio da
República, que passava a império absoluto. Suas flâmulas abertas aos
ventos de todo o mundo agitavam-se com o turbilhão. seu poderio era
mantido por centenas de legiões, de espiões, informantes e assassinos
entre as turbas. A intriga sufocava o ar, outrora honesto da República.
Mas aquele era, inevitavelmente, o curso do império, o preço do
poder e "liderança mundial". O poema de Lucrécio, Do Rerum Natura,*
que Lucano lera, tinha dupla significação: uma para as latrinas de
Roma, e outra para as latrinas do espírito romano. Nas latrinas físicas
as mães freqüentemente abandonavam recém-nascidos não desejados,
e nas latrinas espirituais os homens tinham abandonado sua fé e seu
caráter.
Que importava o fato de Caio Otávio, Augusto César, terem-se
gabado de que encontraram uma cidade de tijolo e a converleram
numa cidade de mármore, que luzia e reluzia ao sol? Seria melhor,
pensava Lucano, uma cidade humilde com justiça do que um
sepulcro de mármore das virtudes transcendentais. Mas, ainda assim, estava
excitado. A cavalgada parou à porta, e os que queriam entrar foram
cuidadosamente examinados pelos soldados de cuarda, com suas
espadas desembainhadas. No topo da porta sacudiam-se as flâmulas de
Roma e as terríveis águias de pedra olhavam para baixo furiosamente,
para a estrada e para as turbas inquietas de homens, animais e
veículos.
Plócio e os que o seguiam foram admitidos com cumprimentos, e
cavalgaram através da porta, deixando atrás deles um ensurdecedor
___
* Lucrécio, poeta latino (98-53 a.C., aproximadamente), autor do poema
Da natureza das casas (Em latim, no original.) (N. do T)
338 339
alarido de impaciência. E agora estavam na cidade enorme, envolvidos
e devorados por ela.
Se Lucano ficara aturdido pelos sons e ruídos da estrada, agora
estava inteiramente estonteado pela cidade. O período de repouso,
que se fazia depois da refeição do meio-dia, tinha terminado, e
enquanto prosseguiam seu caminho ao longo da Via Asinara eram
obrigados a diminuir a marcha para menos do que um trote, pela
multidão de lojistas, funcionários e banqueiros que voltavam ao
trabalho.
Embora Gaio Otávio tivesse declarado que todos os cidadãos romanos
deveriam usar toga, a maioria dos homens apressados usavam a túnica
curta de muitas cores: azul, escarlate, amarela, branca, marrom,
vermelhão e verde, e matizes de todas essas colorações. A maioria
andava a pé; alguns dos mais influentes eram carregados em liteiras.
Bigas e cavaleiros tentavam forçar a passagem sobre as pedras lisas ou
arredondadas. O tráfego ficava ainda mais congestionado quando
grupos de animados cidadãos resolviam parar mesmo no centro da rua
para discutir negócios ou trocar boatos. Quando obrigados a se
separarem pela força do próprio tráfego, refugiavam-se nos limiares das
lojas e tavernas, para gritar, gesticular, blasfemar e rir, ou para concluir
o negócio. O caminho era ladeado pelas casas altas, às vezes até de oito
andares, onde mulheres debruçavam-se aos peitoris das janelas, a fim
de gritar com crianças que haviam fugido dos pátios da retaguarda e se
tinham juntado ao alvoroço e ao ruído gerais. Ali, a maior parte dos
edifícios era construída com os compridos tijolos lisos e vermelhos da
época anterior. Homens empurravam carros sobre os quais havia
braseiros fumarentos, e no topo desses braseiros salsichas e pequenos
pastéis fritavam. Outros carros, impulsionados por seus donos,
estavam cheios de mercadoria barata, para que a vissem as mulheres que
se esticavam lá de suas janelas e guinchavam agudamente com os
vendedores, insultando-lhes as mercadorias, ou faziam sinal de que
ficariam com determinado pedaço de lã, linho ou algodão de cor bizarra,
e com outras ofertas diversas. Para Lucano, a cidade tinha cheiro bem
pior que Antioquia e Alexandria, a despeito das eternas leis sanitárias,
mas era um odor mais acentuado e de conseqüência quase temerosa.
Suas narinas foram atingidas pelos maus odores, pelo calor odorífero
de vitualhas em cocção, pelo óleo e entranhas de animais, Pelo
impregnante miasma de milhões de latrinas, pela poeira adstringente e
pelo cheiro de pedra e tijolo aquecidos ao sol. Ali, o frescor da
primavera campesina perdera-se em imenso e sufocante calor, como em
meados do verão. Marés de ar quente fluíam de outras ruas, como de
bocas de fornos. E por toda parte o clamor, as corridas, os berros, as
exprobações, o retumbar de rodas e cascos, e as nuvens encapeladas e
pombas e andorinhas. Quando os lictores dos pretorianos
interromperam uma turba particularmente grande de mercadores que estava
disputando uns com os outros, vociferantemente, mesmo no meio da
rua, Lucano teve consciência de dezenas de olhos escuros e
indignados que se voltavam para ele e para sua escolta e, por causa do
barulho, só pôde ver as bocas torcidas que lançavam maldições. A Urbs*
não temia quem quer que fosse, nem mesmo César.
O que mais impressionava Lucano, e estonteava-o, era a altura da
cidade, os edifícios elevados, os apartamentos altaneiros, encostados
uns aos outros e amparando-se uns aos outros, contrastando em suas
cores: vermelho, amarelo-calcário, cinza-esverdeado, os arcos repletos
de redemoinhantes grupos, como água a girar. A cidade, contida pelos
seus muros e portas, tinha apenas uma forma de crescer: para cima.
Conseqüentemente, todas as ruas ferviam como corredeiras impetuosas
e os cidadãos, forçados a empurrar ombros e cotovelos dos vizinhos
para arranjar passagem, mostravam-se irritáveis, o que bem se
compreendia, e muitas vezes pegavam-se aos bofetões ou em
discussões abertas por causa do movimento bloqueado. Conforme Lucano
se foi aproximando de um bairro mais abastado, aquela confusão e
ruído faziam-se entre paredes, edifícios mais altos, circos, teatros,
casas particulares, estabelecimentos do governo, cobertos com mármores
não só branco mas dourado, castanho, vermelho e, ocasionalmente,
com uma lousa de fulgurante cor negra. Roma absorvera todos os
deuses das nações conquistadas por ela, num fervilhante panteão de
religiões. Templos salientavam-se por toda parte, e através de suas
portas de bronze corria um fluxo perpétuo de fiéis, os que levavam
sacrifícios e os que saiam, cheirando a incenso. Muitos, esperando
amigos, estavam de pé nos pórticos, gesticulando, cuspindo,
argumentando. Agora, colunas altas e acanaladas apareciam, e sobre elas
erguiam-se estátuas dos deuses, em bronze, ferro, ou mármore branco,
e de deusas, e de heróis montados, apontando para cima, como
piques gigantescos saídos das hordas fervilhantes e dos apertados templos
e edifícios, às vezes empoleiradas de cada lado de amplas escadarias
que levavam aos edifícios públicos e locais de oração, e às vezes
___
* Cidade. No caso, a cidade por excelência, Roma. (N. do T)
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saltando de um alargamento da rua e ao centro dele, circundadas por
pequenos círculos de terra cheios de flores brilhantemente Coloridas
no meio de fontes, ou reluzentes de mosaicos. E sobre tudo aquilo,
sobre todo o ruído ensurdecedor de milhões de vozes, bandos de
veículos e cavalos, todo o poder da Roma imperial e de suas colinas de
mármore arqueava-se o quente azul do céu, cobertura abobadada e
sufocante sobre um caldeirão fumarento e colossal.
O cavalo de Lucano tropeçou mais de uma vez nos sulcos que as
bigas faziam nos caminhos. Ele suava vigorosamente. Como seria
inútil tentar fazer-se ouvir, Plócio ergueu a mão e, sem palavras, apontou
para o Palatino, onde ficava o palácio dos césares, construído por
Gaio Otávio. O palácio e suas vizinhanças pareciam pequenos e
distantes, vistos dali, mas Lucano, apesar da névoa de poeira amarela que
se suspendia no ar, palpável, com ardente brilho, podia ver o Palácio
Imperial rodeado por um bosque de colunas brancas, subindo de
andar a andar, em níveis diminuídos de colunas menores e arcos
ascendentes. Templos, jardins verdes, terraços suspensos e belas vilas
fluíam, em descida, do palácio sobre a colina régia, rodeados por uma
profusão de arcos, pórticos, teatros e imensos monumentos
aglomerados. Lucano pensou que naquele grande palácio vivesse o próprio
Zeus, com seus filhos em palácios menores, abaixo do seu,
ostensivamente afastado, entre as árvores, os pátios floridos e as fontes
perfumadas. Tudo aquilo estava contra o sol, reluzindo como se fosse de fogo
branco, aquela seleta e faustosa cidadezinha de poderio e beleza reais.
Pela primeira vez, Lucano, que estivera absorvido por tudo
quanto vira naquele dia, pensou em sua próxima entrevista com Tibério
César. Tentou recordar-se do que Diodoro dizia daqquele homem, de
seu frio capricho, de sua desconfiança em relação a todos os romanos,
a tal ponto que colocava guarnições de soldados fora das portas de
Roma, soldados que só a ele prestavam contas. Outrora fora homem
mais alegre e feliz, quando casado com sua amada Vipsania, mas
cedera aos pedidos de sua mãe e de seu Imperador, e divorciara-se de sua
encantadora esposa por causa de uma mulher que mais tarde o traiu.
Desde então, fizera-se um homem sombrio e caladamente vingatibo,
apesar de todas as suas declarações de que todos os romanos deveriam
gozar de palavra e pensamento livres, inclusive o Senado, ao qual ele
prestava deferência exterior, enquanto intimamente o desprezava. Mas,
pelo menos, tinha gênio no que se referia à delegação do poder, e seus
magistrados procônsules e procuradores tinham liberdade de açãO e
julgamento. Se exibia, agora, sintomas de se estar tornando tirânico e
intolerável, se ia cada vez mais usurpando o poder pertencente ao
Senado, ao povo e aos tribunais, e mostrando disposições para o
absoluto despotismo, ninguém a ele se opunha. Isso, Diodoro escrevera a
Lucano, relutantemente, era mais por culpa do Senado, do povo e
dos tribunais do que de Tibério. Apesar disso, ele era, naquela
ocasião, ainda um administrador competente e justo, e ainda um soldado
em seu coração, embora alvo freqüente do espírito rude da plebe
romana, que rabiscava comentários obscenos sobre ele e sua infiel
esposa, Júlia, nas paredes de Roma. As vezes, em caligrafia mais audaciosa,
apareciam as letras verrnelhas: "Onde está nossa República? Vivam os
homens livres /ingenui/. Abaixo o tirano!"
Mas a República morrera, e não fora César algum que a levara à
morte.
A cidade, conforme disse Plócio, estava festiva naquele dia. Mas os
romanos eram sempre festivos, e constantemente estavam festejando
deuses nativos ou estrangeiros. Tudo era escusa para um feriado, para
sacrifícios, para comemorações nos circos ou nos teatros, ou nos incontáveis
banhos públicos. Três circos, apenas, estavam anunciando corridas de
bigas e combates entre gladiadores, e escravos fluíam entre a populaça,
gritando as novidades, inclusive a informação de que algumas das melhores
e mais libertinas peças gregass deviam ser representadas em certos
teatros. As hordas lutavam, insistentemente, em direção desses
espetáculos públicos, blasfemando contra os ociosos que bloqueavam a sua
passagem, e gritando imprecações em vários idiomas.
O jovem médico e sua escolta começavam agora a subir o Palatino
e, enquanto subiam, o ar se ia tornando mais fresco. Lucano estava
deliciado pela beleza que o rodeava e, momentaneamente esqueceu-se
de Tibério. Ali havia menos aglomeração, e os que iam levados em
liteiras, bigas e carros, eram homens e mulheres de elite, que se
dirigiam para os templos e teatros que circundavam o palácio, ou para suas
vilas. Alguns procuravam ser recebidos pelo Imperador. Lucano olhou
para os rostos aquilinos dos homens e para as faces pintadas das
adoráveis mulheres que lhe sorriam, de súbito, com satisfação. A despeito
de sua beleza, pareciam-lhe estranhas e devastadas e, de certa forma,
depravadas. Viu portões de vilas abrindo-se para receber os que voltavam
para suas casas, teve relances de jardins que faiscavam para além
deles, e de fontes argentinas e inquietas, e de arcos brancos, pórticos
repletos de deuses e heróis montados. Nunca em todo o mundo a
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deidade fora tão linda e arrogantemente exibida, e nunca no mundo,
era o que pensava o jovem, houvera tão pouca fé. Os deuses
adornavam a Cidade ImperiaL mas não a governavam.
Agora, de um nível mais alto, Lucano olhava para baixo, para a
cidade ávida e tremenda, com seus precipitados e coloridos rios de
humanidade; para seus monumentos salientes e para seus edifícios
sufocados, todos desaparecendo, finalmente, na grande distância
dourada. De novo ficou atônito com o próprio peso e potência de Roma;
com sua vastidão incrível; sua força dinâmica; seus milhões de
pessoas carregadas, sombrias e excitadas; sua grandiosidade altiva,
embora prodigiosa e vulgar; suas turbas esmagadoras; seu alvoroço
descontrolado; seu temporal de flâmulas e, daquela altura, por sua feérica
e incandescente beleza. Viu o Tibre, verde e pesado, as pontes
esculpidas, e os edifícios que vinham até as bordas dele, e os telhados
brancos e rosados que faiscavam violentamente ao sol. Aqui e ali,
um domo dourado flamejava entre platibandas pontudas, como
luminárias menores. Seus olhos ardiam, seu espírito estava quase
dominado. E agora, sentia-se de novo como que vagamente
amedrontado. Pequenas pérolas de suor explodiram ao longo da linha loura de
seu cabelo.
As portas do palácio, guarnecidas com pretorianos severos,
abriram-se para ele e sua escolta. E se tivesse ofendido Tibério? O
imperador, de quem Diodoro desdenhara em linguagem tão rude, não se
iria vingar dessa ofensa em Íris e nas crianças?
O prefeito dos pretorianos veio ao encontro deles no imenso
vestíbulo do palácio, homem grande e formidável, de olhar furibundo e
desconfiado, de sob seu elmo. Brilhava como uma estátua de bronze e
de mármore marrom, sob a grande chapa de vidro que servia de forro
e deixava passar a luz do sol, e seu passo era medido e pesado. PlóCiO
levantou seu braço direito em saudação e apresentou Lucano, que não
sabia como cumprimentar aquele homem imponente, que o examinava
com tanta curiosidade.
- Cumprimentos disse, rapidamente.
Então aquele era o filho adotivo de Diodoro Cirino, o médico
grego?
- Cumprimentos respondeu Lucano, com alguma rigidez,
não gostando daquele exame. O prefeito sorriu: tinha agudOS dentes
caninoS.
- César mandou chamar-te comentou ele, dando a entender,
pelo SeU tom de voz, que César era pessoa imprevisível, dada aos mais
extraordinários caprichos.
Lucano corou. E disse, friamente:
- Isso eu compreendo. Pensas que eu estaria aqui, se não fosse
assim?
Plócio escondeu rapidamente um sorriso, pois o prefeito ficara ao
mesmo tempo espantado e aborrecido com a resposta de Lucano.
Ainda assim, depois de um momento, ele se sentia impressionado pelas
maneiras altivas do jovem, pela segurança rigorosa de seus maxilares e
pela evidente carência de temor obsequioso. Como acontecia a muitos
militares rudes, tinha uma paixão secreta por rapazes e meninotes.
Resolveu que o bonito Lucano lhe agradava, e pôs a mão no ombro
relutante do jovem.
Sentia-se mais à vontade falando a vulgata,* mas agora falava em
grego, para aplacar Lucano, que não estava, obviamente, gostando
dele.
- Tu estás sendo grandemente honrado disse, e notou com
prazer os ombros largos do jovem, o pescoço que parecia uma coluna,
feições lindamente cinzeladas e os grandes olhos azuis.
Lucano não se moveu. Lembrou-se, subitamente, do mercador
de escravos, Lino, e uma náusea quente apoderou-se dele. Apesar
disso, não se moveu, reprimindo sua súbita aversão. Disse, em vulgata:
- César é muito bondoso.
Olhou para Plócio, que observava tudo com atenção, franzindo
ligeiramente as sobrancelhas. Falou com o jovem comandante,
desdenhando mover-se de sob a pressão da mão morena que estava em seu
ombro.
- Como devo cumprimentar César?
Plócio tornou a lutar contra um sorriso, porque Lucano falara
com ele em grego, a língua dos patrícios e dos educados. Disse
gravemente:
- Chegas à sua augusta presença, e quando ele te vir, o que
pode não acontecer imediatamente, e quando ele falar, deves ficar de
joelhos e tocar o solo com tua fronte.
Lucano disse:
- Mas essa é uma posição com que se honram apenas os deuses.
___
* A língua latina falada pelo povo. Com maiúscula significa a versão latina da Bíblia, feita por
Jerônimo. (N. do T)
344 345
Os judeus se prostram diante de jeová, mas não diante de homem
algum.
O prefeito ainda apertou mais os dedos nos ombros de Lucano
de uma forma paternal, e disse:
- Meu caro rapaz, não ouviste? César é um deus, e tu lhe
rendes honras devidas à divindade.
Lucano percebeu que Plócio sacudia a cabeça para ele,
ansiosamente. Portanto, nada disse. O prefeito, sorrindo-lhe afetuosamente,
falou:
- Eu mesmo te conduzirei diante do Divino Augusto. -
Despediu Plócio com um seco movimento de cabeça, e este, sem saber
bem o que pensar, saudou-o e afastou-se. Seguindo um gesto afetuoso
do prefeito, Lucano acompanhou-o.
O jovem médico jamais vira um local assim, e nunca imaginara tal
esplendor e imensidão. Esqueceu mesmo o prefeito em seu espanto e
em sua tentativa de tudo ver. Passara do mesmo vestíbulo para um
imenso salão, e daí para infinitos outros vestíbulos e salões, e os pisos
de cada um eram de mármore policrômico ou branco como a neve,
incrustado com mosaicos ou pedras de um azul e vermelho brilhantes,
cada qual refletindo a luz, como se viesse de alguma radiosidade
interior. Florestas de colunas acanaladas abriam-se em toda parte, feitas de
ônix, mármore branco, metal dourado ou alabastro. Estátuas de
deuses e deusas erguiam-se em arcos, e bustos de César e de seus
predecessores descansavam em pequenas colunas. As paredes reluziam com
mosaicos que pintavam as vitórias e episódios das vidas dos deuses, e
tão habilmente eram trabalhadas que pareciam as mais delicadas e
heróicas pinturas. Divãs e cadeiras encostavam-Se as paredes, peças
feitas de marfim, teca e ébano, decoradas com ouro e estofadas com
almofadas de sedas vermelhas, azuis, brancas e amarelas. Requintadas
mesas de mármore e limoeiro estavam espalhadas junto delas e mantinham
lâmpadas, de ouro e de prata, ainda não acesas, e peqUenOS
vasos de cristal de Alexandria, cheios de flores, bem como bandejas de
ouro e prata onde se viam romãs brilhantemente coloridas, uvas, figos
e azeitonas brancas e pretas. Tetos enormes, de mármore ou de vidro,
pareciam flutuar sobre as colunas, alguns deles pintados de branco e
com relevos de delicado desenho, que eram folhas de ouro. E por toda
parte, em todos os cantos, ficavam vasos altos, com galhos de floreS,
vasos importados de Catam, Pérsia e India, reluzindo em cores sutis,
Fontes perfumadas embalsamavam o ar.
Não havia um vestíbulo ou um salão que não estivesse cheio e
movimentado, com escravos, estafetas, pretorianos e altas patentes
militares, senadores em busca de audiéncia, patrícios e augustais que ali
se colocaram com idêntica intenção. Alguns desses últimos estavam
sentados, empenhados em gracejos, pilhérias ou boatos, e
negligentemente servindo-se das guloseimas que havia sobre as mesas. Quando
viam o prefeito, sorriam-lhe encantadoramente, sabedores de seu
poder, e trocavam palavras com ele. Mas olhavam, meditativos, para o
jovem que ele conduzia com ar tão solícito. Vendo sua aparência, os
cavalheiros piscavam-se mutuamente os olhos, cobriam a boca com a
mão e sussurravam comentários obscenos.
O prefeito e aquele do qual se encarregara passaram entre a colunata
aberta, depois para outra profusão de salas, até que Lucano se sentisse
estonteado. As vezes, tinha relances de jardins, através de uma janela OU
de uma porta guardada, e do verde das árvores e da relva, das flores de
colorido forte, contrastando com o alvo frescor lá de dentro. As vezes,
supunha estar vendo imensas pinturas nas paredes, tão vívidas e
inesperadamente lhe surgiam os jardins com seus amplos terraços. Os ouvídos
eram tomados por vozes, música e risos distantes e do exterior vinham as
canções dos pássaros e o jorrar de fontes gigantescas. Ocasionalmente,
uma dama do palácio passava por ele e pelo homem que o escoltava, o
rosto bonito coberto de cosméticos; os cabelos, negros, ruivos ou louros,
apanhados em redes de malhas de ouro onde se incrustavam pedras
preciosas; os trajes brancos ou de cores delicadas a drapejar em torno
dela. Invariavelmente, cada uma delas olhava bem de frente para Lucano
e sorria-lhe. Jóias faiscavam nos pescoços e colos brancos, nos braços,
pulsos e dedos.
Os dois homens alcançaram uma porta de bronze de tão altas
proporções que Lucano ficou estupefato. Essa porta era guardada por
pretorianos. A um gesto, quatro deles abriram as folhas da porta para
trás e Lucano viu diante de si uma biblioteca, ampla, mas com
mobiliário esparso. Sentado a uma mesa, cenho franzido, e lendo, um
homem pouco atraente, de túnica roxa e branca, lentamente ergueu os
olhos escuros e ressentidos.
- Salve, Divino César disse o prefeito, saudando. - Eu
trouxe...
- Estou vendo interrompeu Tibério, a voz áspera. - Podes
ir embora, meu bom prefeito, e leva contigo teus pretorianos. Fecha a
porta e espera lá fora.
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Aquilo era incrível! Apenas os mais altos potentados tinham
audiências particulares com César e assim mesmo em raríssimas ocasiões.
O prefeito ficou a olhar.
- Vai! disse Tibério e agora seu tom era friamente vitriólico.
O prefeito, desapontado, tornou a saudar, fez um gesto para seus
pretorianos, saiu e fechou a porta atrás deles.
Tibério recostou-se em sua cadeira e fixou os olhos em Lucano,
sem nada dizer, enquanto este retribuía-lhe o olhar, com ingênua
curiosidade. Ali estava César, o próprio coração do centro do poder e
da força romanos, e era apenas um homem como outro qualquer, alto
e magro, calvo, de feições amarguradas num rosto pálido, e marcas de
eczema nas faces, reluzindo de ungüento oleoso.
Lucano não estava com medo daquele homem tão temível.
Sentia-se apenas curioso. E sua mente de médico também comentava,
automaticamente, o fato de aquela erupção de pele estar sendo tratada
erradamente. Além disso, sua mente continuava, Tibério sofria, era
evidente, de alguma forma obscura de anemia para a qual o fígado era
altamente recomendado pelos sacerdotes-médicos egípcios.
Tibério, naquele longo silêncio, percebeu o exame agudo que
Lucano estava fazendo, e sorriu. Para o jovem, o sorriso foi
desagradável, mas se outros o tivessem visto, teriam ficado estupefatos com sua
benevolência nada habitual!
- Cumprimentos, Lucano, filho de Diodoro Cirino disse
César.
Lucano hesitou e agora lembrava-se do que Plócos lhe havia dito.
Mas não podia ajoelhar-se diante de homem algum! Assim, em sua VOZ
jovem e sonora, respondeu:
- Cumprimentos, César!
O sorriso de Tibério alargou-se, divertido; seus lábios eram
delgados e repuxados e mostravam dentes pequenos e amarelos. Fez sinal
para uma cadeira, junto de sua mesa.
- Senta-te, por fàvor disse ele. Os que esperavam para
vê-lo, e os que tinham estado esperando durante horas, teriam ficado
arquejantes de espanto, pois ninguém se sentava na presença de César, a nãO
ser numa refeição. Lucano, aparentemente, não sabia de tal coisa e,
assim, apenas fez um cortês cumprimento de cabeça e, sentando-se,
esperou.
- Um dia agradável disse Tibério.
- Sim respondeu Lucano. - E continuou a esperar.
27
Lucano não podia saber que tinha merecido uma grande honra com
a permissão de ver César a sós, sem sequer a presença de um guarda.
Não podia saber que o astuto Tibério vira imediatamente que ali
estava um jovem no qual se podia depositar absoluta confiança.
Lucano também estava julgando rapidamente Tibério. Um homem
rude e ressentido: de que se ressentia ele? De sua esposa infiel, de
seus amigos, de seus encargos, de Roma? Lucano sentiu até mesmo
compaixão.
Em algum lugar, no jardim que ficava para além da biblioteca,
pavões pipilavam, e havia um som distante de música. Mas, na
biblioteca, os dois homens, um o poderoso César, o outro apenas um jovem
médico, olhavam-se francamente. Lucano cheirou o ar; um odor leve,
mas desagradável, dos ungüentos que se espalhavam pelo rosto
espinhento de Tibério, chegou até ele. Desejou falar mas recordou-se de
que César sempre deveria falar em primeiro lugar. Tibério por sua
vez, viu que Lucano não o temia. Ficou a cogitar, por um momento, se
ojovem seria um tolo. Apesar disso, sentia-se impressionado pela
aparência de Lucano.
E disse, observando atentamente o rapaz:
- Posso apresentar-te, meu bom Lucano, minhas condolências
pela morte de teu pai? Homem justo, simples e heróico. O último dos
grandes romanos.
Sua voz, embora áspera e relutante, revelava sinceridade. Lucano
sorriu, grato. Provavelmente, para Tibério não seria um segredo o fato
de Diodoro ter desdenhado de suas qualidades militares, e ainda
assim César podia falar de maneira tão bondosa a respeito dele. Lucano,
embora com desgosto renovado, pensou que também Tibério era um
homem justo. Tibério recostou-se em sua cadeira, e ficou a olhar para
a janela aberta, que reluzia com o sol.
- Ordenei que levantassem uma estátua dele para o pórtico do
Senado falou. Distraidamente, coçou um ponto irritado de seu rOSto.
Lucano sorriu, diante de tal ironia. Os senadores teriam o
duvidoso prazer de ver sempre a estátua de alguém que os denunciara e
mesmo no limiar de sua casa, armado com sua espada de mármore.
- Majestade, és muito sutil falou.
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Tibério ergueu as sobrancelhas negras. O jovem não era um tolo,
afinal. E disse:
- Se eu tivesse mil homens como Diodoro Cirino em Roma,
poderia dormir bem as minhas noites... Estou preocupado, Lucano,
em fazer tudo quanto estiver em meu poder para mitigar o desgosto da
família e honrar a memória do tribuno. Não compreendo tua carta.
Nomeei-te médico-chefe oficial em Roma, contra o ranger de dentes
dos demais médicos, e tu me pediste que anulasse tua nomeação.
Estou curioso para saber por quê.
Lucano corou. Não tinha noção de que fosse não só incrível, mas
perigoso, aquilo de recusar o que César oferecia. Era como se uma
mariposa tivesse desafiado uma águia. E disse, gravemente:
- Roma não precisa de mim. Foi isto que te escrevi, majestade.
Mas os pobres e os escravizados precisam de meus serviços nas
províncias.
Tibério ficou silencioso. Seus olhos estreitaram-se e fixaram-se
intensamente no rosto bonito do jovem. Mergulhou em seus
pensamentos. Estava diante de algo que não podia compreender, e que lhe
parecia louco. Pensou nos velhos filósofos que tinham ordenado que
o homem tratasse bondosamente seu próximo. Também os sacerdotes
dos templos de Roma exortavam as pessoas a terem bom coração, em
nome dos deuses, e serem justas, honestas e misericordiosas.
Entretanto, tudo aquilo não passava de palavrório. Nenhum homem
mentalmente são acreditava em tal coisa, considerando o que o mundo
sempre fora. A boca de Tibério curvou-se num sorriso.
- És médico, cidadão de Roma, filho adotivo de um grande e
venerável homem e possuidor de fortuna disse ele. - As portas
dos patrícios e dos augustais estão abertas para ti. O que te ofereci foi
apenas o limiar. E ainda assim, abandonarias tudo isso pela
disposição de tratar de pobres, mendigos, e escravos sem valor?
Pertenceria Lucano a alguma estranha e obscura seita de estóiCoS,
ou se teria dedicado a um deus estrangeiro em particular?
Lucano respondeu:
- Sim, pois tudo o mais nada significa para mim.
- Por quê?
Lucano tornou a corar.
- Porque, de outra maneira, minha vida não teria sentido.
Tibério franziu as sobrancelhas. Que sentido havia na vida, a
não ser poder, fortuna e posição? Refletiu em sua própria vida, e suas
feições estreitas revelaram dor involuntária. Que significação existia
para a sua própria vida?, perguntou-se, com absoluta sinceridade.
Fizera o que pudera; era administrador cuidadoso, tentara erguer o
orgulho no endurecido Senado e desejara devolver àquela casa o seu
poder. Tácito* não gostava dele, mas concordava em que era homem
de sensatO jUlgamento. Ele, um soldado, desejava ter paz ao longo de
todos os seus limites e fronteiras. Não aumentara as taxas, a despeito
das vorazes exigências da plebe romana, em relação a novos benefícios.
Quando cortesoes se queixavam de injustiças pessoais, friamente
advertia-os para que levassem o assunto aos tribunais e não interferia
pessoalmente.
Estava tentando, naquela ocasião, salvar Roma, restaurar algumas
das qualidades que a tinham feito grande. Mas um povo depravado
não aceitaria sua liberdade e sua antiga disciplina, seu antigo caráter.
Tibério podia sentir um pressentimento terrível de que a poluição
daquele povo eventualmente o poluiria também, e aquilo, tomado de
cólera, ele arremessava de volta contra os que insistiam em corrompê-lo.
Pensou em sua esposa; pensou nos que tinham fome de seu trono.
Pensou em seu filho único, Druso, jovem de paixões violentas e mente
limitada, no momento atirando desajeitadamente tribos germânicas
umas contra outras, em llírico, acreditando, à sua maneira simplória,
que os portões da paz só podiam ser atingidos através de sangue.
Tibério podia sentir as forças inexoráveis que o rodeavam e que o
destruiriam como homem justo, que o degradariam ao nível de um cão
romano, por sua avidez, sua política mesquinha, suas exigências, sua
sensualidade, sua própria cobiça de poder. Tinham, pensava com
horrível lucidez, feito de sua vida uma inanidade, todos eles, sua
esposa, seu filho, seus generais, o Senado. Mais do que tudo, porém, as
desprezíveis turbas de Roma, as turbas gananciosas, poliglotas, que
Viam seus césares como deidade equipada com uma comnucópia de
infinitos benefícios para recompensar os ociosos, os fracos, os inúteis,
OS irresponsáveis, os ventres insaciáveis, que se alimentavam à custa de
Seus vizinhos industriosos. Animais desalmados! Subitamente, Tibério
Odiou Roma.
Fixou os olhos em Lucano, que lhe falara como um menino de
escola em significação da vida!
___
* Historiador latino, pessimista, mas de extrema originalidade de estilo
(55-120 d.C., aproximadamente). (N. do T.)
350 351
- A vida deve ter um significado? indagou ele. - Mesmo os
deuses não deram ao homem um sentido para a sua existência.
- Sim, majestade, isso é verdade respondeu Lucano, o rosto
endurecendo-se. - Mas podemos dar às nossas próprias vidas
alguma significação. A que dei à minha foi a de aliviar a dor e o
sofrimento, salvar os moribundos, evitar a intromissão da morte.
- Com que propósito? indagou Tibério. - A morte é fado
comum a todos. Assim como a dor, seja do corpo ou do espírito. E que
valem os pobres e os escravos, também?
- São homens disse Lucano. - É verdade que dor e morte
são inevitáveis. Mas a dor pode ser aplacada freqüentemente e a morte
pode se tornar menos desconfortável, ou ser adiada. Quem pode olhar
o mundo dos homens sem sentir piedade e sem desejar confortá-lo?
Tibério pensou em Roma e sorriu sombriamente. Ali estava,
certamente, um menino de escola, loquaz, um filósofo amador, no qual a
barba mal despontava. Tudo sabia a respeito de Lucano, que vivera
existência tão protegida, que jamais tomara parte numa campanha
militar e que passara seus anos num ambiente de família, pacífico e
virtuoso e em escolas. Teve pena do jovem. Falava daquela turba
fedorenta como "homens". Falava de escravos como "homens". Sem dúvida
também consideraria um senador venal como "homem"! As narinas
de Tibério contraíram-se.
- Estás dedicado a algum deus obscuro que ainda não teve sua
estréia em Roma? perguntou ele a Lucano, com leve sorriso
zombeteiro.
Ficou surpreendido ao ouvir o rapaz responder com
extraordinária veemência:
- Não estou dedicado a deus algum!
- Não acreditas nos deuses? perguntou Tibério.
Lucano ficou silencioso por alguns momentos, os olhos baixados
para a vasta mesa de mármore que tinha diante de si. Depois, disse:
- Acredito em Deus. Ele é nosso Inimigo. Aflige-nos sem
raZãO. Mesmo um carrasco lê para sua vítima a relação dos crimes de que ela
é acusada, e diz-lhe por que dexe morrer. Ele não nos disse por que
devemos sofrer. Condena-nos à morte por sermos o que somos. Ele,
que nos fez o que somos.
- Então, consolarás os que ficaram privados de um consolador
disse Tibério. Estava com o espírito aberto e alegre e pensou
novamente que Lucano seria um simplório. Continuou: - Estudaste em
Alexandria. Sem dúvida encontraste professores judeus ali. Quando
estive em Jerusalém, ouvi o povo falar de um Messias, isto é, de um
consolador, de um Redentor, que livrará os judeus do domínio de
Roma e os colocará em altos tronos, de onde eles governarão o mundo.
Não é um pensamento pretensioso? Mas verás que todos os homens
são iguais, que desejam poder.
Desenrolou a carta de Lucano e repassou-a, num murmúrio.
Depois disse, sem olhar para o jovem:
- Quando eu era maisjovem e estava em uma das minhas
campanhas, ficamos atônitos ao ver uma grande estrela no céu certa noite. Foi
ocasião da Saturnal. A estrela moveu-se para o Oriente e então
desapareceu. Meus astrônomos dizem-me que aquela estrela foi visível em toda
parte, e era a Nova, e os astrólogos falaram de um grande destino que
virá para o mundo. Mas do Oriente ouxi dizer que a estrela levava ao
lugar onde nascera um deus. Isso passou-se há uns quatorze anos ou
mais. Se um deus tivesse nascido, então, seguramente já teríamos notícia
dele a esta altura. Bem vês quanto são supersticiosos os homens.
Lucano viu-se tomado por uma grande emoção. Lembrou-se de
José ben Camliel e de sua história do menino camponês que discutira
com os mais competentes e eruditos doutores do Templo. Sacudiu a
cabeça, em negativa.
Tibério pousou sobre a mesa a carta de Lucano. Depois, estendeu
a mão para apanhar um grande objeto chato, envolvido em seda
amarela. Retirou cuidadosamente a seda e mostrou o objeto. Era feito de
ouro na forma de um escudo. Lucano inclinou-se para a frente, a fim
de vê-lo mais de perto. Viu o rosto de Diodoro, de perfil, gravado em
relevo no escudo de ouro, e sob ele uma mão que agarrava uma espada
curta, desembainhada. Com a espada havia uma citação tirada de
Homero, em grego:
Sem um sinal, sua espada o valente arranca,
E não pede outro augúrio senão as leis de sua pátria.
Ainda mais abaixo, uma linha de Horácio, em latim:
Non omnis moriai (Não morrerei inteiramente).
Os olhos de Lucano encheram-se de lágrimas. Tibério falou, com
Sombria satisfação:
352 353
- Mandei que isto fosse pendurado atrás da estante de
leitura do Senado.
Os olhos de ambos encontraram-se em completo entendimento.
Tibério passou a mão delicadamente sobre o escudo e disse:
- Consideraste o que Diodoro teria desejado que fizesses? Ele
desejaria que servisse Roma, como ele a serviu.
- Ele era um grande homem, que acreditara na liberdade do
indivíduo disse Lucano. - Embora estivesse em desacordo comigo,
sei que ainda assim desejaria que eu fizesse o que considerasse direito.
- Apesar disso falou Tibério deverias honrar sua memória
bastante para passar algum tempo em Roma, servindo o povo. Disseste
em tua carta que desejas deixar Roma imediatamente. Para ser justo em
relação a Diodoro, não posso consentir nisso. Ordeno-te que
permaneças aqui durante seis meses. Se, ao fim desse período, ainda estiveres
convencido de que teu dever está em outro lugar, eu te dispensarei.
O obstinado Lucano ia protestar, quando sentiu sobre sua pessoa
a força dos olhos imperiais, e compreendeu, inteiramente, pela
primeira vez, que aquele era César, e que diante de seus decretos ele nada
podia. Tibério não sorria, agora. Depois de um momento, Lucano
curvou a cabeça:
- Seja murmurou. - Em nome de Diodoro.
- Quero ter-te ligado à minha casa duranre esse período -
disse Tibério com um riso de lábios apertados. - Talvez até te consulte,
pessoalmente, sobre alguns assuntos.
O pensamento de ficar totalmente aprisionado naquele imenso
palácio apavorou Lucano, mas compreendia, agora, que não poderia
protestar.
palácio apavorou Lucano, mas compreendia, agora, que não poderia
protestar.
- Os funcionários médicos estão se fazendo indolentes disse
César. - Gostaria que inspecionasses os trabalhos deles e sugeriSSes
melhoramentos. Além disso, minha casa está cheia de escravos,
libertos e pretorianos. Teus serviços para com eles serão apreciados. Não
estou inteiramente satisfeito com meus próprios médicos.
Lucano ficou um pouco mais encorajado.
- Se me permites, majestade, pOSSO sugerir que teu tratamento
para o eczema está errado?
As sobrancelhas de Tibénio ergueram-se:
- Realmente? Que sugerinias tu? - Sentia-se de novo
divertido.
- Ungüentos oleosos apenas aumentam os óleos naturais e
infeccionados contidos nas bolhas disse Lucano, de novo o médico.
- Prefiro uma pasta de água com flúor e enxofre, aplicada depois de
cuidadosa limpeza do local, com sabão forte, duas vezes por dia. Ela
tem uma influência secativa e desinfetante. - Hesitou, mas disse,
depois: - Também acredito que César tem qualquer distúrbio de
sangue. Se me permitisses...
Intrigado, Tibério fez um movimento de aceitação, e Lucano
levantou-se e dirigiu-se para ele. Esqueceu-se, de novo, que aquele
homem era o formidável e irresistível poder de um grande e temível
império. Para Lucano, era apenas um homem que não gozava de boa
saúde. Com dedos firmes e delicados baixou as pálpebras inferiores
de Tibério, depois abriu-lhe a boca e examinou as membranas
pálidas. Sentou-se de novo, sem perrnissão.
- Sentes um cansaço constante, majestade? Uma lassitude? O
trabalho cansa-te para além do que deveria cansar-te naturalmente?
a Tua respiração torna-se mais rápida com o mínimo exercício e
tens, com freqüência, sensação de vertigem e tontura?
Como a discussão da própria saúde encanta até mesmo um César,
Tibério confirmou com a cabeça.
- Explicaste exatamente como me sinto, meu bom Lucano.
- Então, tens anemia disse o jovem médico. - Não é ainda
um tipo muito perigoso embora possa tornar-se assim. Qual é a tua
alimentação?
- Sou muito frugal disse Tibério. - Sou soldado. Não
freqüento orgias nem banquetes. Alimento-me como um soldado, muito
sobriamente, de um pouco de queijo, leite de cabra, pão, vinho tinto
simples, frutas e verduras. Ocasionalmente um pouco de carne ou
uma coxa de ave.
- A alimentação é errada para um homem em sua sexta década
disse Lucano, em tom reprovador. - Sugiro carne fresca, de vaca,
três vezes por dia, rico e pesado vinho, poucos vegetais, e frutas só uma
vez por dia. O peixe não é muito bom para a anemia, nem as aves. O
melhor, que receito, é uma boa porção de fígado de vaca pelo menos
uma vez por dia.
Tibério fez uma careta:
- Meu cozinheiro prepara um acepipe com fígado gordo de porca
que tenha sido alimentada com grande quantidade de figos maduros.
Detesto aquilo. Apesar disso, já que agora és meu médico, comerei
fígado de vaca na refeição da tarde.
354 355
Apoiou o queixo na mão direita e ficou a olhar para Lucano.
- Ésjovem disse e dono de extraordinária beleza. És
também rico, estimado e médico. Entretanto, és infeliz. Se eu tivesse tua
idade e fosse dono dos dons que possuis, sem ser César, seria o mais
feliz dos homens. Vejo tua angústia. De onde vem ela?
Lucano não pôde falar durante alguns momentos. Depois,
respondeu, em voz baixa:
- Um dos desgostos da vida é a precariedade de todas as
alegrias.
Tíbério ergueu os ombros.
- Até um menino de escola entende isso. Devemos nos privar
de prazer, de alegria, hoje, por se tratar de coisas fugazes?
Lucano olhou diretamente para ele, então, e viu,
instantaneamente,
que ali estava um homem profundamente perturbado, sofrido e em
desespero. E sentiu-se repleto de desespero correspondente, pois não
tinha palavras para confortá-lo, nem esperança para dar-lhe. Como
ele próprio perdera Rúbria, Tibério perdera seu amor, e
compartilhavam, assim, uma desolação comum a ambos. Tibério olhou-o nos olhos
e viu que deles emanavam sofrimento e desejo de ajudar, e viu a
impossibilidade em que o jovem se sentia de ajudá-lo. Comoveu-se, e era
espantoso que alguma criatura ainda conseguisse comovê-lo.
Respondeu, rapidamente, sua própria pergunta:
- O que os deuses nos deram não deve ser recusado, seja bom
ou mau, pois que escolha temos nós? Mesmo eu não posso
embriagar-me para alcançar a crença temporária de que o mundo é tolerável para
um homem de pensamento.
Bateu uma campainha que estava sobre a mesa e as portas de
bronze giraram, maciças, abrindo-se. Plócio e quatro pretorianos
entraram imediatamente. Plócio relanceou olhos preocupados para
Lucano, mesmo enquanto saudava o imperador, e ficou estupefato de
ver que o jovem se encontrava recostado em sua cadeira de marfim,
como um igual reconhecido.
- Meu bom Plócio disse Tibério -, tu conduzirás Lucano
aos melhores aposentos, onde ele ficará durante algum tempo como
meu hóspede de honra. E mandarás uma mensagem para sua mãe,
informando-lhe que seu filho está comigo.
Depois de Lucano ter saído com Plócio, o imperador permaneceu
sozinho durante algum tempo, a cabeça entre as mãos. Havia
senadores, augustais e patrícios à espera para vê-lo, e também
magistrados, e ainda assim Tibério não os mandava chamar. Pensava na ausência de
afetação de Lucano, em sua nobre simplicidade e naquela qualidade
férrea que havia nele e não podia ser removida, e em suas manifestas
virtudes. Não podia decidir se Lucano era um tolo ou um homem
muito sabio, apesar de toda a sua juventude. Depois, riu asperamente
consigo mesmo. Lucano estava, agora, no Palácio Imperial. Depressa
correria a notícia de que ele estava ali como hóspede de César, e a
corrupção filtraria lenta e insidiosamente em direção dele, como água
oleosa e negra. Seria o moço envolvido por ela? Seria, certamente,
pois homens têm uma tendência natural para o vício, e poluição é seu
elemento natural.
- Veremos! disse Tibério, em voz alta, e tornou a rir,
amargamente.
28
Enquanto Plócio conduzia Lucano através de outra floresta de
brancos pilares e aglomerados de estátuas, disse-lhe:
- Só por curiosidade, que foi que disseste a César?
- Que foi que eu disse? - Lucano olhava para ele,
surpreendido. - Ora essa, conversamos sobre vários assuntos, e César se
mostrou muito compreensivo. Também receitei para ele.
Plócio sacudiu a cabeça, estupefato. Sabia-se que Tibério era
caprichoso.
- Insististe em tua recusa? indagou o jovem pretoriano.
- Certamente falou Lucano, um tanto irritado. - Eu disse
que César foi muito compreensivo. Entretanto, concordamos em que
permanecerei em Roma, entre o pessoal de sua casa, durante mais ou
menos seis meses, a fim de honrar a memória de Diodoro. Depois
desse tempo, partirei.
Plócio pensou que não ouvira direito e voltou a cabeça para fixar
olhos confusos no médico. Um homem, um grego, recusara um
Oferecimento de César e não só deixara sua presença em liberdade
mas fora tratado graciosamente como pessoa da mais alta importância.
Seguiram em silêncio, Lucano interessado em tudo quanto o rodeava,
Plócio em estado de perplexidade. Se as estátuas se tivessem subita-
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mente animado ele não poderia sentir-se mais atônito ou mais
incrédulo.
Entraram num corredor amplo e particular guardado por dois
pretorianos, que saudaram e ficaram a olhar para Lucano com
curiosidade. O jovem observou que as paredes brancas eram delicadamente
pintadas com cenas da mais alta licenciosidade e depravação,
apresentando centauros e sátiros, ninfas e deuses, homens e mulheres
divertindo-se das maneiras mais impudicas. Mas aquele suave deboche não
nauseou nem revoltou Lucano, que era médico e nada achava de
obsceno nas intricadas e maravilhosas belezas e funções do corpo
humano. Para ele, aquelas pinturas eram imaginação de crianças
pervertidas e impudentes, que encontravam prazer em diversões bestiais. Vira
coisas muito piores pintadas cruamente nas paredes e tavernas de
Alcxandria e de Antioquia; as que ali estavam foram, pelo menos,
executadas por um excelente artista. Uma das cenas era tão
esdruxulamente divertida que ele parou por um momento, sorrindo
para ela. Disse a Plócio:
- Esse homem teve um excelente treinamento em anatomia, e
sentido do humorístico. - Os dois jovens contemplaram o trabalho
de arte, depois entreolharam-se e riram.
Os pretorianos estavam em toda parte, rígidos, saudando, mesmo
no vestíbulo que levava ao mais maravilhoso dos apartamentos, com
grandes portas abertas e janelas que davam para um terraço amplo,
florido e relvoso. Jamais Lucano vira tal luxo e nunca o imaginara. O
vasto e espaçoso aposento tinha paredes de quatro cores diferentes de
mármore, contrastantes lousas em branco, em preto brilhante, em
dourado e cor-de-rosa, e o forro multicolorido e cintilante refletia a luz do
céu e as tonalidades do jardim. No centro do aposento ficava uma
grande cama de madeira dourada, no feitio de um delfim, marchetada
de gemas rutilantes, de madrepérola, marfim e prata. Sobre ela estava
atirada uma coberta de seda de desenho intricado, como um canteiro
florido. Pedestais esbeltos, de mármore branco ou preto, espalhados
pelo local, sustentavam graciosas estatuetas de bronze, representando
mulheres nuas e altas laminadas de ouro e prata, bem como outros
inestimáveis objetos de arte. De limoeiro, ébano e mármore eram feitas
as mesas, cobertas com vasos de vidro murrino, cheios de flores de
forma que a brisa leve da primavera fluía através das portas e janelas
carregadas de fragrâncias. Divãs voluptuosos estavam dispostos pertO
das mesas, coDertos de sedas brilhantes, e junto das paredes havia
muitas cadeiras, elaboradamente esculpidas e douradas, com pernas
de marfim. Uma arca maravilhosa, de cobre batido, cravejada com
pedrarias vermelhas, ficava entre as janelas, onde ondulavam delicadas
cortinas de rendas. Um espelho de prata polida pendia sobre a
arca. Para além daquele compartimento luxuoso de repouso havia outro,
inteiramente de mármore rosado; a banheira instalada abaixo do nível
do piso tinha pelo menos doze pés de comprimento por seis pés de
largura, e estava cheia de água tépida e perfumada, o fundo revelando
uma cena lasciva, no mais brilhante dos mosaicos.
Isto é um apartamento de mulher disse Lucano, habituado
à austeridade das casas de Diodoro. Dois escravos entraram, nus,
curvando-se diante dele, que ficou a contemplá-los com admiração. Eram
um casal, altos e esbeltos, e de cor negra tão incrível e entontecedora
que pareciam feitos mais de mármore polido do que de carne. Os
vales e ondulações de seus corpos tinham um reflexo pálido, como
que polvilhados de prata, e suas feições finas, delicadamente esculpidas
e patrícias, davam a impressão de terem sido criadas pelo artista
mais bem-dotado. Os cabelos negros da moça tombavam em vagas
crespas, pelas suas costas macias, e seus seios eram altos e pontudos,
brilhando com fulgor lustroso. Nem ela nem o rapaz usavam coisa
alguma, a não ser pesados colares de ouro e argolas também de ouro
nas orelhas, que atiravam reflexos sobre suas peles espelhantes.
- Estes são os teus servos disse Plócio. Parecia ridículo a
Lucano estar naquele apartamento, com escravos unicamente para
servi-lo. Quis protestar, mas Plócio, com um piscar de olhos, saudou-o e
se foi dali. O médico olhou para o rapaz e para a moça e ficou sem
saber o que dizer, e eles também o olhavam, com seus grandes olhos
negros e amplo sorriso branco. Esperavam que ele falasse, portanto
Lucano perguntou, desajeitadamente:
- Quais são os vossos nomes?
O rapaz respondeu, tornando a fazer uma reverência:
- Meu nome é Nuno, senhor, e esta é minha irmã gêmea, Nema.
Dá-nos tuas ordens. Estamos a teu serviço.
A moça caminhou graciosamente até a mesa e serviu vinho para
Lucano, enchendo uma taça incrustada com pedrarias. Ele tomou-a
da sua mão direita, encantado com a beleza incrível da jovem, com a
perfeição de seu rosto e de seu corpo. Levou o copo aos lábios e bebeu
um pouco. Jamais bebera tal vinho, rosado, pertumado e adoçado
com mel. O rapaz trouxe-lhe uma bandeja de figos maduros rolados
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sobre nozes quebradas, e outras guloseimas. Lucano comeu um ou
dois. Franziu as sobrancelhas e disse:
- Não preciso de servos.
O rapaz e a moça sorriram-lhe um sorriso vazio, mas se
conservaram como estátua, imóveis, como se o que ele dissera tivesse sido dito
num idioma estrangeiro. Se ele estava estupefato com os dois, os dois
estavam igualmente estupefatos com ele, pois jamais viram pele tão
branca, cabelos tão dourados e tanta beleza. Os três jovens ali estavam,
admirando-se uns aos outros, com simplicidade.
Outro servo entrou, curvando-se profundamente, e informou a
Lucano que a Augusta, Júlia, ordenara que ele comparecesse ao
banquete que seria dado naquela noite às oito horas. Retirou-se,
deixando os três novamente sozinhos em sua mútua contemplação. Então,
Lucano disse, como um rapazola:
- Acho que não posso recusar. Mas nada tenho para vestir, a
não ser o que trago no corpo.
Olhou para a toga que Keptah considerava tão preciosa, e que
estava suja pela viagem, e para suas sandálias empoeiradas, feitas de
couro simples. Nemo foi ter à arca de cobre, abriu-a, e dali tirou uma
túnica de linho fino, com a beirada bordada a ouro, um par de
sandálias douradas e um cinturão de ouro intricadamente trabalhado com
pedrarias, bem como braceletes que com ele combinavam. Como um
mercador que exibisse reverentemente sua mercadoria, colocou sobre
o braço, em drapeado, aquele traje, erguendo o cinturão e os
braceletes com a outra mão.
- Bem falou Lucano. Considerava o guarda-roupa efeminado,
mas, apesar disso, estendeu a mão para sentir a finura do tecido e
examinar aquelas jóias. - Vou sentir-me como um ator.
Nemo fez sinal de que o banho o esperava e que ele e a irmã o
lavariam e ungiriam com óleos perfumados, fazendo-lhe massagem
pelo corpo. Lucano, porém, revoltou-se contra aquilo. Os dois
escravos olharam-no espantados e contemplaram-se mutuamente sem dizer
palavra.
- Desde que fiz três anos passei a tomar banho sozinho -
explicou Lucano. Os escravos apenas continuaram a olhá-lo,
incrédUlos. Ele ergueu a voz: Quero ficar sozinho falou.
Perplexos, eles inclinaram-se e o deixaram, fechando asportas
atrás de si. Tomaram seus lugares do lado de fora e tocaram música
suave, a fim de embalá-lo, com flauta e lira. Sobre o som da frágil
harmonia, Lucano podia ouvir o contínuo passo de vigilância do
pretoriano que o estava guardando. Sacudiu a cabeça. Experimentou
um divã e ficou alarmado ao sentir-se engolido pela sua ampla maciez.
Levantou-se e foi de uma obra de arte para outra. Jamais vira coisas
tão artísticas. As minúsculas estatuetas eram tão lindamente
executadas que revelavam as mínimas veias de suas mãos, pescoço e pés.
Correu os dedos sobre elas, e teve a impressão de que tinham vida.
Chamou-lhe a atenção o ressoar de vozes juvenis masculinas, no
terraço que ficava para lá das portas abertas, e aproximou-se delas.
Dois jovens, de sua idade, ou mais novos, completamente nus,
estavam lutando sobre o relvado. Seus corpos, cor de âmbar, mostravam o
ondular de músculos disciplinados, e depois de alguns momentos
cansativos sua carne deixou pingar suor brilhante. Eram,
evidentemente, atletas hábeis, antes praticando do que se divertindo, e seus
rostos bonitos mostravam-se tensos, atentos, sem sorrisos. Grunhiam,
imprecavam e gritavam, sem perceber que Lucano os observava com
profundo interesse. As vezes usavam blasfêmias obscenas. O médico
ficou a cogitar se seriam escravos. Observou suas quedas, seus assaltos,
seus músculos em movimento, sua destreza e força. Depois atravessou
o limiar da porta. Viram-no, saltaram sobre os pés, separando-se, as
sobrancelhas franzidas.
- Cumprimentos disse Lucano, de súbito consciente de
animosidade, de hostilidade.
Ambos fixaram os olhos nele, e insolente e deliberadamente
examinaram sua roupa de viagem, suas sandálias simples. Como se
tivessem falado, Lucano sentiu seu comentário de escárnio pela falta de
jóias, e sua opinião de que se tratava de pessoa sem importância, bem
como seu espanto ao ver um indivíduo como ele presente no palácio.
Acreditavam que fosse um liberto intruso, homem que de certa
maneira conseguira meter-se naquele apartamento tão próximo dos
apartamentos da Augusta. Mas não sabia que também havia despertado o
ciúme deles por causa de sua aparência, pois embora fossem jovens
bonitos, não se podiam comparar a ele. Então, um olhou desconfiado
para o outro. Aquele estrangeiro iria ser o novo favorito da caprichosa
e insaciável Júlia?
- Cumprimentos disse um deles, carrancudo, e piscou, em
ridícula ostentação, para o companheiro, que tossiu com força.
- Sou Lucano, médico. e filho de Diodoro Cirino disse
Lucano, que sentiu calor no rosto.
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- Oh! disse um dos lutadores em tom pesado, indicando
que não se impressionara. Um médico. Sem dúvida algum antigo
escravo. Nenhum dos jovens tinha jamais ouvido falar de Diodoro. O
outro lutador disse:
- Estás aqui para tratar de nós?
- Estou aqui como hóspede de César respondeu Lucano
friamente. Então, seus olhos azuis faiscaram diante dos insultos
evidentes que lhe tinham sido lançados. E disse, enquanto eles estavam
incredulamente se refazendo de sua casual referência a César: - Sois
bons lutadores, mas toscos. Aos vossos treinadores falta arte. Não
poderíeis competir por mais de um momento com um atleta completo.
Sois amadores. Sem dúvida, entretanto, melhor treinamento vos
transformaria em lutadores medianos, se trabalhásseis bastante para isso.
Ambos ficaram em silêncio, respirando descompassadamente.
Ainda não podiam acreditar que Lucano, vestido como um homem do
campo, fosse realmente hóspede de Tibério César. E odiavam-no pela
sua crítica.
- Sem dúvida disse um deles tu és muito melhor lutador.
- Sou disse Lucano, encostando-se ao umbral da porta.
comeu o doce que tinha na mão, e fingiu estar absorvido em saboreá-lo.
Depois, acrescentou, enquanto os olhos dos outros ardiam sobre ele:
- Eu já era bem superior, mesmo antes do meu treinamento em
Alexandria - E continuou, enquanto os outros permaneciam em
silêncio: - Poderia lutar melhor do que vós quando tinha dez anos
de idade. - E sorriu radiosamente para os jovens.
Um deles deu um passo a frente, os olhos faiscantes de cólera.
- Meu nome é Jacinto disse - E eu tenho dez sestérCiOs
que me dizem ser eu capaz de atirar-te ao solo em três segundos.
O outro repetiu-lhe as palavras.
- Meu nome é Óris disse e eu tenho doze sestérciOS
que me dizem ser eu capaz de atirar-te ao solo em dois segundos.
Lucano encostava-se languidamente ao portal, lambendo os dedos
lambuzados de doce. Depois tateou a bolsa que trazia no cinto e disse:
- E eu tenho quatorze sestércioS que acabam de me sussurrar que
posso enfrentar um de cada vez e atirar-vos ao solo em um segundo.
Cogitou, por um momento, se deveria informar-lhes de que
fora instruído numa forma particular de combate, que um professor
vindo de Cataio lhe ensinara em Alexandria. Resolveu que não. Eram
insolentes demais, aqueles moços, demasiado insultuosos, demasiado
seguros de si, e Lucano não gostava deles. Rapidamente endireitou-se,
atirou para o lado a toga de Keptah, depois despiu a túnica de pano
azul e grosseiro que lhe cobria o corpo. Surgiu diante dos outros dois
como uma coluna de mármore branco e ambos recuaram, constrangidos.
Mas o corpo dele, depois de um momento, pareceu-lhes demasiado
suave e elegante. Riram-se, e um deles dobrou o corpo a meio,
para a frente, e veio ao encontro de Lucano, as pernas arqueadas. Era
Jacinto.
Lucano esperou calmamente. Apenas ergueu o braço direito, e
estendeu-o. O gesto era lânguido, quase frouxo, e ele não curvou
o corpo. Ónis soltou um riso seco. Os dentes de Jacinto reluziam entre
os lábios esticados. Então, com grande agilidade, seu braço atirou-se
em direção a Lucano e sua mão curvada agarrou o ombro do médico.
Óris pestanejou, pois algo toldou o ar diante dele. Aturdido, viu Jacinto
tombado de costas na relva, os olhos protuberantes e fixos, como
que estonteados. Lucano bocejou.
- Bem? disse ele a Óris, ignorando o outro jovem. - Foi um
segundo. E tu?
Óris umedeceu os lábios com a ponta da língua. Jacinto gemia, lá
da relva onde estava, como uma estátua caída. Óris, então, que era
muito corajoso, saltou sobre Lucano. Foi como se um corisco macio o
tocasse. Sentiu-se projetado no espaço e foi cair junto de Jacinto,
redondamente, sobre a relva, o corpo todo tomado de tremores.
Lucano vestiu a túnica, sorrindo.
- Deveis-me vinte e dois seStércios disse ele. - Não vos
esqueçais de pagá-los.
Os dois jovens ergueram-se de sua posição sentada, examinando-se
cuidadosamente. Sacudiam a cabeça, a fim de clarear a mente
confusa.
- Não estais feridos, nem sequer contundidos disse Lucano
sacudindo a toga de Keptah. - Naturalmente, se tendes cérebro, coisa
que eu duvido, ele está apenas um pouco confuso agora.
E entretanto, tornara a clarear.
- Que fizeste? exclamou Jacinto, erguendo-se cuidadosamente.
Não vi que te movesses! Nada senti! Entretanto, um segundo
depois eu estava voando pelos ares. Isso é magia!
- Sim, é magia repetiu Óris. - Quem pode resistir á magia?
Esfregando o corpo, olhavam furiosos para Lucano, que erguia
suas sobrancelhas douradas.
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- Magia... Tolice! respondeu. - Não passais de amadores!
Eu não vos tinha dito?
- Ganhei uma bolsa de ouro nos Grandes Jogos! berrou
Jacinto, corando violentamente.
- E eu ganhei a segunda bolsa! ecoou Óris, rangendo os
dentes.
Lucano riu em pleno rosto de ambos.
- Então eu deveria ganhar duas bolsas disse. - Vamos, que
mais sabeis fazer? - Estava animado, seu corpo jovem e forte ansioso
por mais exercício. - Arremesso do disco? Arremesso da lança?
Boliche de nove pinos? Boxe? Corrida? Salto em distância? Esgrima?
Seguramente podeis fazer algo mais do que esse ingênuo corpo-a-corpo?
Afastou-se dois passos para trás, saltou para a frente, dobrou as
pernas e atirou-se ao espaço. Incrédulos, dois pares de olhos
estupefatos seguiram-no. Os pés elevaram-se limpamente para cima das
cabeças erguidas dos outros dois rapazes e Lucano foi pousar de novo na
terra, como um gato branco.
- Fazei a mesma coisa disse, sem que sua respiração sequer
se acelerasse e nada me devereis.
Houve um ruído de entusiástico aplauso, junto da porta, e os
moços, voltando-se, viram que Plócio ali estava rindo. Então, Jacinto
e Óris ficaram assustados. Conheciam bem Plócio, e sabiam da alta
estima em que Tibério o mantinha, pela sua coragem, discrição e
qualidades militares. Plócio pôs-se a andar pelo relvado, e veio colocar a
mão sobre o ombro de Lucano.
- Que exibição! exclamou ele. - Meu caro Lucano, tu
poderias competir em todos os papéis, no circo, e ter Roma a teus pés!
Para instrução minha peço-te que faças comigo, amanhã, uma sessãO
de esgrima. - Olhou para os dois jovens lutadores, perguntou -
Quem são esses meninos?
Mas Jacinto e Oris baixaram a cabeça e foram escapulindo em
direção à outra extremidade do terraço. Plócio falou:
- Eles precisavam de uma lição, esses queridinhos mimados da
Divina Augusta. Cuidado para que eles não tentem envenenar-te no
banquete que Augusta está dando hoje à noite, em honra de Cibele;
ela é devota das deusas viúvas. Sem dúvida gostaria também de ser
viúva. A propósito, não pude seguir teus movimentos, quando lutaste
com esses dois rapazes. Nada fizeste, a não ser estender teu braço e
então, quando te agarraram pelo ombro, tu te inclinaste para trás e
eles saíram voando! Como Icaro, com o mesmo resultado.
- Eu me prevaleci da ignorância deles disse Lucano, num
riso feliz. Voltaram juntos para o quarto, enquanto Plécjo indagava
por que os escravos estavam ausentes, tocando sua música no corredor
externo. - Eles queriam lavar-me e lambuzar-me com óleos
perfumados disse Lucano. Arrancou a túnica e saltou para a banheira onde
nadou alguns pés, atirando para trás seu cabelo molhado e como que
de ouro e levantando prateado chuveiro de água. Plócio acocorou-se à
beira da banheira e ficou a observá-lo com intensa admiração.
- Jamais vi um corpo assim disse ele.
Lucano deslizava através da água como se fosse de alabastro
branco e com a mesma maciez.
- Ah! As mulheres vão amar-te! acrescentou Plócio,
sacudindo a cabeça coberta com o elmo.
Nenhum dos jovens tinha visto uma senhora, na extremidade mais
distante do terraço, e que saíra de seus aposentos ao som das vozes que
discutiam. Ela ficara ali, observando, o rosto bonito, sem qualquer
expressão, banhado de sol. Quando Plócio apareceu, ela recuou para
seus aposentos, sorrindo. Dirigiu-se ao espelho e estudou-se
intensamente, cantarolando baixinho.
29
Nemo garantiu a Lucano que ele estava "radiante como um deus"
depois do banho e da unção, da qual Nema fora banida, e depois de
ter vestido suas roupas brancas e colocado as jóias de ouro. Lucano
rejeitara a investidura, embora não o fizesse depois de um olhar
subreptício ao espelho. Curiosa excitação obcecava-o. Jamais confessaria
tal Coisa a si próprio, mas o mundo de homens estranhos e novas
experiências agora invariavelmente o impressionavam, como se fosse
um recém-nascido. Estava para ser iniciado numa atmosfera da qual
Diodoro falara com raivoso desprezo. O que Lucano até então vira o
obrigara, relutantemente, à admiração, pois seu olho de grego não era
insensível à beleza, e sua alma não era tão severa a ponto de se sentir
degradada pela visão da adorabilidade e grandeza.
Agora, Lucano estava sozinho, ao crepúsculo, olhando la embaixo
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a Cidade Imperial, das alturas em que se encontravam os jardins que
ficavam do lado de fora de seus aposentos. A cidade tombara diante
dele, como um sonho, púrpura, ouro, violeta e branco, nadando em
névoa rósea, que de vez em quando elevava uma estátua alada em seu
alto pilar, um domo incandescente, uma parede branca de neve batida
pela luz dos últimos raios do sol, um arco esculpido e poderoso, ou um
imenso leque de pedras de um lance de escadas olímpicas. Tudo
quanto estava invisível na cidade envolvia-se naquela névoa rosada que
começava a fluir, não apenas no céu mas sobre toda a face do centro da
cidade, de forma que parecia a difusão de milhares de rosas, que se
mesclassem num vasto turbilhão, através do qual emergiam sempre
novas visões. O Tibre cheio de curvas, que parecia uma vela de fogo
escarlate e polido, pulsava através de macia névoa cor-de-rosa, suas
pontes frágeis dando a impressão de serem feitas de prata e marfim.
Mesmo as colinas distantes coravam levemente, e não pareciam reais.
E agora as colunas do palácio, que estavam em torno de Lucano,
erguiam-se num tom suave e adejante de pérola, seu lado ocidental
tomado de rubor. O som de fontes próximas desciam para música leve, e
as vozes dos pássaros murmuravam em puro devaneio. Odor de floração
de jasmins e lírios impregnava o ar doce, colorido e etéreo. As folhas
de murta reluziam como se fossem de metal, e a relva tornou-se um
cintilar de ametistas.
Enfeitiçado e preso pela miragem colorida que era a cidade
colossal, Lucano recostou-se contra uma coluna e ficou a ouvir e ver. Teve
consciência então da voz de Roma, abaixo, e ainda assim acima das
vozes dos pássaros que estavam próximo dele. Era como o mover-se de uma
roda gigantesca, um trovão abalado e titânico, constante e incansável.
Lentamente, Lucano foi ficando impressionado por uma percepção
muito estranha. Impregnante como era a voz da cidade, faltavam-lhe
certa firmeza, certo ardor, certa intensidade, certa masculinidade.
Lucano recordou-se, então, do que Diodoro lhe dissera uma vez. "Roma
é agora uma cidade sem cólera, uma cidade sem virilidade nem
heroísmo."
Diodoro, aquele homem viril, colérico e heróico ao extremo,
falara bem. O rumor abafado de Roma era um rumor enfastiado. Seu
esplendor e seu poder imperial eram uma opulência. Ela podia ser,
em seus múltiplos aspectos, monstruosa e cruel. Mas eram a
monstruosidade e a crueldade de um homem que envelhecia, que se fartara
em excesso e esquecera a força dos membros e o entusiasmo do coração.
Ela jazia no centro do mundo, como um sátiro intumescido, embora
ainda potente, reclinado num divã de seda carmesim e ouro, a mão
agarrando uma espada, a outra levando, cansada, uma taça de vinho
aos lábios, a grinalda escorregando-lhe da cabeça, suas bochechas
pesadas repousando num peito saliente como o de uma mulher.
Falta de cólera. Falta de virilidade. Aquele podia ser o epitáfio de
Roma. Ela não tombara ém batalhas. Ganhara-as todas. Era o mesmo.
O triunfo, não menos que a derrota, tornou-se morte. Se um homem
morria valentemente, metido em sua armadura, em algum campo de
batalha de princípios ou patriotismo, ou na proteção do que
considerava mais caro para si, então não vivera em vão. Mas aqueles que
ganhavam batalhas pelo poder e quinquilharias viviam ingloriosamente
e morriam também ingloriosamente, objeto de sátiras, mais tarde, ou
de advertência para a posteridade. Era estranho que os homens jamais
aprendessem coisa alguma. De repente, olhando para baixo, para a
cidade envolvida no turbilhão róseo, Lucano sentiu-se tomado de
tremendo constrangimento, de fatídica certeza. Sentiu que estava de pé
no abismo de algo que ainda não podia discernir; era como se algo se
houvesse modificado, apressado, vindo das imensas eternidades.
A névoa rosada diminuiu sobre a cidade. Um entardecer lilás,
como vasta maré, deslizou sobre Roma, mergulhou nos jardins onde
Lucano estava. A lua ergueu-se lentamente no céu cavado. Os pássaros
estavam silenciosos, as fontes mais claras. Nemo tocou o braço de
Lucano, e o jovem grego sobressaltou-se e voltou-se para o escravo.
- É a oitava hora, senhor disse Nemo.
Lucano olhou mais uma vez para a cidade. E murmurou:
- Não. Esta é a undécima hora.
Um clarão de tochas vermelhas lambeu a escuridão violeta, lá
embaixo, milhares e milhares de tochas, como línguas rápidas e
inquietas. Para Lucano, elas pareceram o início de uma conflagração.
Alguns momentos depois ele era parte de um bando de homens e
mulheres vestidos de branco, movendo-se através de vestíbulos e vastos
salões, que agora estavam iluminados por centenas de lâmpadas.
As mulheres caminhavam com enérgica segurança entre seus homens,
Pois Roma, segundo Diodoro amargadamente comentara, era agora
Uma cidade de mulheres, com mulheres arrogantes dirigindo SeUS
homens em vozes estridentes, cheias de insolência. Aquilo era Um
matriarcado disfarçado, corrupto, egoísta, de peito de bronze,
insistente e ávido. Era para as mulheres de Roma e seus corpos ociosos que
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galeões saíam em fileiras de todos os portos, com seu carregamento de
luxo, alimentos, sedas e jóias. Era para as mulheres de Roma que as
flâmulas estalavam sobre cidades e comarcas, e cornetas clangoravam.
Elas não podiam invadir o Senado, mas ali estavam, nas pessoas de
seus maridos, filhos, ou amantes. As salas de vendas e os mercados,
febris com o câmbio de ouro e a furia dos investimentos, podiam
ressoar com vozes masCUlinas, mas o eco estridente vinha da voz das
mulheres. Elas possuíam a fortuna de Roma. Sua macia brutalidade
soava no clangor das correntes de milhões de escravos.
EnquantO Lucano caminhava entre o grupo que se destinava ao
pátio de Júlia, teve consciência de que os que se dirigiam
apressadamente para as festividades tornavam-se mais numerosos. Era como se
as estátuas dos deuses e deusas, com suas togas e estolas, estivessem
deixando pórticos e nichos, juntando-se aos homens e mulheres, e
como se os pOUCOS que se conservavam em seus lugares olhassem com
desprezo ou celestial indiferença para os desertores. Eu só conheço o
mundo através do que tenho ouvido dele, maravilhava-se Lucano.
Olhava para os rostos belos e depravados das mulheres, recobertos
com cosméticos, via as jóias, os cabelos, negros, castanhos, dourados,
ou bronZeadoS, mantidos em redes consteladas de pedrarias, ou
trançados com fitas, à maneira grega. Uma névoa de perfume flutuava,
vinda de seus corpos e de suas roupas. Seus pescoços brancos ou cor
de mel brilhavam como pedras preciosas, seus braços lustrosos traziam
ouro e seus dedos refulgiam. Entre elas, havia cortesãs famosas e
antigas escravas libertadas por senhores fascinados, bem como mulheres
notórias. Era impoSSível distingui-las das damas das grandes casas e
dos grandes nomes. As mulheres casadas apenas podiam ser
reconhecidas entre as solteiras pelas suas estolas, e as solteiras mostravam trajes
de falsa simplicidade e tinham os rostos tão mundanos e desiludidos
como os das matrOnaS e os das mulheres dissolutas. Não havia um
olhar tímido, um sorriso jovem e cogitador, ou um relance de ternura,
entre elas; apenas arrogância, avidez e um olhar em torno, para ver se
estavam sendo admiradas. Alto sussurro de conversação incoerente
sus pendia-se sobre elas.
Os homens não eram menos ambíguos. Os senadores podiam ser
reconhecidos pelas suas sandálias vermelhas, mas os augustais não se
diferenciavam do gladiador, do liberto e do patrício, nem os
mercadores dos homens que possuíam nomes brilhantes. Lucano ficou a
cogitar em se aqueles que mostravam os ares mais altaneiros não seriam os
mais baixos, e se os que se exibiam com maior elegância não teriam
alcançado a fortuna saindo de alguma sarjeta. Diodoro dizia,
freqüentemente, que Augusto, Gaio Otávio, jamais permitira os
malnascidos no seu palacio, fosse qual fosse sua posição e fortuna
presentes. Mas sua degradada filha Júlia, esposa de Tibério, fazia
frequentes menções ao seu espírito democrático. Para ela declarava -
um gladiador famoso era tão bem recebido quanto um senador. Pedia
apenas que as mulheres suas convidadas fossem divertidas, e sugeria
que entre concubinas e cortesãs encontrara com freqüência mais
espírito do que entre as esposas e filhas das casas nobres.
Seu próprio pai uma vez a exilara pelo seu comportamento de
meretriz. Por que forçara Tibério àquele casamento era coisa que
permanecia como um enigma, pois Augusto tinha alguma afeição e
admiração pelo César atual. Era possível ter Augusto acreditado que
Tibério,
frio, justo e notável por sua carência de suscetibilidade em relação a
mulheres, e pela sua virtude particular, pudesse ter um efeito
tranquilizador sobre Júlia.
O som de pés que se apressavam elevou-se acima dos acordes de
música distante. Lucano teve relances de pés calçados em sapatos de
prata ou ouro, ou em material de brocado, com pedrarias. Os homens
riam e murmuravam, olhando, insolentemente, em torno de si. O rio
branco fluiu, subindo uma escadaria baixa e larga, através de longos
pátios. Algumas das senhoras, em particular, olhavam curiosamente
para Lucano, através de pestanas pesadamente recobertas de kohl, ou
sorriam-lhe tentadoramente. Em certo momento ele viu um par de
olhos cor de violeta, impressionantemente parecidos com os de Sara
bas Eleazar, e ficou de súbito abalado. Mais adiante, um perfil
recordou-lhe o de Rúbria, e de novo ficou abalado. Encolerizava-o o fato
de qualquer daquelas mulheres poder parecer-se às moças que ele
amara e que ainda amava. Curvou a cabeça, a fim de não mais olhar
para elas. Os homens atiravam-lhe olhadelas desconfiadas, e
perguntavam uns aos outros de quem se trataria. As lâmpadas deixavam
tombar sua luz mutável sobre a multidão e as jóias, bem como sobre os
olhos predatórios, que dançavam nela.
Lucano pensou: Cícero lamentava que embora as formas da
Republica ainda fossem celebradas, a República não mais existisse.
Entre estes homens e mulheres não havia amor por seu país, nem
comemoração de liberdade, nem honra pelos mortos poderosos que
fundaram sua nação e suas instituições. Suas bocas exalavam perfu-
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mes, vindo de pastilhas que haviam chupado. Para Lucano, exalavam
corrupção. De repente, sentiu-se profundamente deprimido. Pensou
com saudades em seu lar. Teve a impressão de estar despido entre a
turba, e que todos os trechos de seu corpo eram vulneráveis.
Um vento suave soprou-lhe no rosto, e ele levantou os olhos e viu
que estava sendo levado para um vasto pórtico aberto, onde, por estar
o tempo tão moderado e fresco, o banquete fora arranjado. O pórtico
dava para um grande jardim, decorado com um emaranhado de luzes
cintilantes, que se refletiam no orvalho da relva escura. Mesmo as
estátuas tinham sido iluminadas com tonalidades diversas, de forma
que se erguiam sobre águas coloridas, como figuras de fogo pálido.
Flores juncavam o chão, ou arrumavam-se em vasos altos, de forma
que o ar palpitava com seu perfume. O pórtico, também iluminado,
brilhava como neve esculpida contra o negrume do céu, e em torno
dele foram levantadas grutas artificiais de musgos e flores, nas quais
estavam as mais delicadas estátuas, atraindo ambiguamente a atenção e
luzindo ao luar. Músicos tocavam sem serem vistos, com flautas,
harpas e alaúdes. As mesas instaladas no pórtico estavam cobertas com
toalhas carmesins, barradas de ouro e trabalhosamente bordadas com
fios brilhantes. Os divãs que ficavam em derredor delas tinham a
mesma decoração e aguardavam os convidados. Bem lá para baixo a cidade
jazia vociferante, trêmula pelas lâmpadas, as tochas vermelhas
batendo suas línguas. e dela vinha um som distante e rosnado, como de
floresta repleta de animais.
Os convidados começaram a sentar-se com muitos risos
antecipatórios, e Lucano ficou de pé, incerto, junto de uma coluna
brilhante. Olhava para as árvores que rodeavam os jardins como se
esperassem alguém, os galhos com lâmpadas penduradas de feitios estranhos
e fantásticos, e a luz passando através de vidros coloridos. Escravos,
homens e mulheres, belos como jovens deuses e sereias, nus como
estátuas, estavam à espera de que os convidados tomassem seus
lugares, as mulheres em cadeiras de marfim e ébano incrustadas com
metais preciosos, e os homens nos divãs. Lucano não sabia o que fazer,
pois todos davam a impressão de conhecer os lugares que deviam
ocupar. As vozes dos convidados tornaram-se veementes de excitação, de
forma que o jardim e o pórtico ecoavam como se ali estivessem
papagaios ou macacos libidinosos. A música era abafada pelo rumor;
caSUalmente, fluindo com maior intensidade, era ouvida, num instante em
que o clamor descia. Os rostos dos escravos mostravam-se impassíveiS
e belos. Um bando de menininhas vinha, agora, para ungir os pés dos
convidados com bálsamo. e havia inocência em sua nudez. Copeiros
apareceram, trazendo grandes vasilhas de prata, cheias de neve, na
qual estavam enterradas garrafas de vinho, que eles serviam em taças
incrustadas de pedrarias, engrinaldadas com hera verde. O perfume
do líquido, dourado ou vermelho, misturava-se ao odor das flores e da
relva. Os convidados deixavam tombar um pouco de vinho, em libação,
e Lucano recordou-se da oferta ao Deus Desconhecido,
parecendo-lhe, então, que todo o seu corpo estremecia de sentimento e solidão.
Ainda estava ao lado da coluna. Embora os copeiros servissem vinho,
nada havia nas mesas cobertas de seda a não ser flores e taças. Os
convidados estavam aguardando. Conversavam sobre os últimos
divórcios, os últimos investimentos, sobre as corridas e jogos, e olhavam
para os gladiadores que se apresentavam cobertos com seus mantos
fazendo comentários. Sua tagarelice animada, tão trivial, tão
maliciosa, era tão estranha para os ouvidos de Lucano quanto a tagarelice
de um bando de pássaros rouquenhos. Ouviu nomes famosos e
antigos mesclados e escândalos da espécie mais debochada. Uma grande
dama e aquilo era afirmado com grandes risos acabava de tomar
seu décimo amante, mas desta vez tratava-se de uma escrava. Uma das
moças contava veementemente que Cupido a visitara certa noite, e
descrevia a visita com pormenores lascivos. Um senador começou a
discutir com outro a propósito de seus investimentos na Terra de Israel
e ele declarava que seus homens haviam descoberto as minas de Salomão.
O outro senador garantia-lhe que fora defraudado e que deveria trazer
de volta os seus descobridores acorrentados. Um gladiador, bebendo
seu excelente vinho, declarava poder estrangular um leão, com as mãos
nuas. Imediatamente foram feitas apostas para os próximos jogos.
O ar tornava-se opressivo; os jardins tinham uma aparência
secreta e lúbrica à luz do luar. Os convidados bebiam cada vez mais,
tornavam-se inquietos e suas vozes aumentavam de volume. Algumas damas
que estavam mais próximas de Lucano olhavam-no com súbito
interesse. Todas as mulheres tinham, agora, posto de parte a estola
clássica, e ali estavam, moldadas nas sedas mais delgadas, mais finas e
coloridas, bem como em linhos, em brocados bordados com pedrarias
que, embora lhes cobrissem os seios, revelavam cada curva deles, e os
próprios bicos. Seus ombros macios brilhavam à luz das lâmpadas, e
elas tinham as fontes úmidas, os lábios iam tornando-se mais cheios,
mais lustrosos e vermelhos. Algumas curvavam-se em suas cadeiras,
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encostando os corpos contra os dos homens, provocando beijos no
pescoço, nos ombros e na boca. Escravos colocaram grinaldas em
todas as cabeças, e agora o perfume do jardim, da relva, das flores e
dos
bálsamos fluía através do pórtico. O tremeluzir das jóias magoava os
olhos de Lucano e as lâmpadas pareciam aumentar de fulgor, fazendo
mais intenso o colorido. Ele tinha fome e sentia-se embaraçado, em
seu isolamento, ali perto da coluna. A música mesclava-se ao fragrante
jorrar das fontes, quando podia ser ouvida por sobre o ruído das
vozes. Lucano reparou que à cabeceira da mesa em forma de U havia um
grande divã, coberto com a púrpura imperial e cheio de almofadas da
Síria. Então, os convidados esperavam pela Augusta, Júlia. Ele não
sabia ser costume dela permitir que os convidados se embriagassem
bastante até o momento em que ela aparecesse, de forma que o fato de
não ser mais jovem lhes passasse despercebido em seu estonteamento.
Os vasos de Alexandria, que estavam com flores sobre a mesa,
começaram a faiscar aos olhos de Lucano com demasiado colorido. Sentia-se
muito entediado. Diodoro falara das orgias e dos "deboches". Aquilo
parecia excessivamente estúpido para o jovem grego. As vozes dos
homens, fazendo-se roucas, o incomodavam, os tons guinchados e
estridentes das mulheres pareciam unha arranhando-lhe os tímpanos.
Uma mão respeitosa tocou-lhe no braço. Um dos vigilantes do
vestíbulo, que estivera observando os copeiros para ver se cometiam
algum erro, encontrava-se a seu lado.
- Senhor, ainda não encontraste teu lugar? murmurou ele.
- Não disse Lucano, secamente. - Não sei se tenho um
lugar. - Hesitou, depois disse: - Sou Lucano, filho de DiodorO
Cirino, e nunca estive aqui.
O vigilante olhou-o, horrorizado. Curvou-se tão profundamente
que a cabeça dele alcançou o nível do joelho de Lucano. Depois disse,
com voz trêmula:
- Mas, senhor! Tu deves sentar-te no próprio divã da Augusta!
Sua voz tornou-se terrível, quando olhou para os outros vigilantes
que vieram correndo:
- Aqui está o convidado de honra e ninguém o escoltou até O
seu lugar! Haverá chicoteamento amanhã!
Os convidados que estavam mais próximos pararam de conversar
para ver o que se passava. Lucano, corando, recuou, e seus pés
meteram-se em um dos tapetes persas que cobriam o mármore branco do
piSO do pórtico.
- Não disse ele -, a culpa foi minha e não de terceiros.
- Não vieste escoltado até aqui, senhor? perguntou o
primeiro vigilante, enquanto os demais se reuniam em torno de Lucano,
para seu maior enleio. Então Lucano recordou-se. Plócio dissera que
o levaria até ali, mas Lucano esquecera de esperar. E acrescentou,
rapidamente:
- Tinha uma pessoa para escoltar-me, sim, Plócio, dos
pretorianos, mas não esperei por ele.
O vigilante gemeu, e seus companheiros fizeram-lhe eco.
Inclinaram-se como um só corpo. Um maior número de convidados foi se
mostrando interessado. Os vigilantes rodeavam Lucano, como guarda-
costas e, cerimoniosamente, conduziram-no ao divã recoberto de
púrpura. Um profundo silêncio tombou entre os convidados, quando
Lucano sentou-se e todos os olhos voltaram-se para ele. Uma grinalda
foi-lhe colocada na cabeça, uma criança removeu-lhe as sandálias e
ungiu-lhe os pés e vinho lhe foi servido. Tinha o rosto vermelho e
suava. Não sabia para onde olhar mas, finalmente, relanceou os olhos
para a outra extremidade do pórtico. Plócio ali estava, tentando
franzir as sobrancelhas, mas conseguindo apenas revelar-se divertido.
Lucano tomou um grande gole de vinho. O silêncio do pórtico, os
olhares, atrevidamente fixos nele eram enervantes. Agora, a música
erguia-se, exuberantemente, acompanhada de muitas vozes suaves, e
as fontes cantavam para o luar.
As nádegas de Lucano foram engolidas pela brandura do divã.
Não podia reclinar-se, como os outros homens estavam reclinados.
Chegou a fincar um cotovelo numa das almofádas e intimamente
amaldiçoava Plócio, os convidados, ele próprio, Júlia, e até Tibério. Via-se
como um plebeu, naquela reunião, como um rústico recém-chegado
do campo. E ficou de novo encolerizado.
Um certo alvoroço e um certo murmúrio, então, foram ouvidos entre
os convidados, pronunciando seu nome. Foi como um vento turbulento
que agitasse fileiras de flores, pois soberbas jóias e ricas tonalidades, e
peles de tons morenos ou alabastrinos, alegres túnicas, olhos vibrantes,
cabelos lustrosos mesclaram-se em séries de confusa exuberância e
excitação, sob o oscilar das lâmpadas prismáticas. Os homens ergueram-se
de seus divãs, as mulheres mostraram interesse e curiosidade, dentes
brancos faiscando através dos lábios vermelhos, enquanto sorriam
audaciosamente para Lucano. As mãos do rapaz firmaram-se sobre a taça
incrustada de pedras preciosas e ele bebeu mais um gole.
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- Lucano! corria nos murmúrios e exclamações. - Lucano,
filho de Diodoro!
Então todos explodiram em risos amistosos e taças foram
levantadas para ele, os homens inclinando a cabeça, as mãos das mulheres
erguendo-se acima dos cabelos bem-arranjados, nos quais faiscavam
jóias, como gotas de chuva:
- Bem-vindo sejas! Cumprimentos! exclamaram os
convidados. - Bem-vindo sejas, nobre Lucano!
O jovem tentou sorrir, mas sentia-se extremamente desconfortável.
Plócio, ele bem via, também estava a fazer-lhe uma reverência,
ironicamente, e então, sem o querer, foi que ele riu. Um copeiro já estava
de novo ao lado dele, enchendo-lhe a taça. O vinho era adoçado e
capitoso. A lua fulgurava através da atmosfera límpida e as estrelas
pestanejavam sobre o jardim, onde as lâmpadas oscilavam e as fontes
luminosas atiravam luz sobre as estátuas que se erguiam dentro delas.
Subitamente, uma trombeta soou, uma só trombeta, e os
convidados ergueram-se num rápido movimento sussurrante, à espera. Lucano
teve alguma dificuldade para se erguer, pois o divã era demasiado macio
e profundo, e ele estava começando a sentir os efeitos do vinho. Júlia,
acompanhada por Jacinto e Oris, os atletas, aparecera no pórtico.
Estava vestida e isso Lucano observou com repulsa
considerável no velho estilo cretense. Não era alta nem baixa. O corpo
mostrava-se voluptuoso e a pele muito branca. O traje justo, copiado do
das mulheres cretenses, fora trabalhado com fio de ouro e cobria-lhe
todo o corpo, inclusive os braços, com exceção dos seios nus, cujos
bicos estavam tingidos de escarlate. Das ancas para baixo o vestido
descia em pregas bordadas com pedrarias e pintadas com plumas de
pavão. Ela mostrava orgulho de seus seios, tão abertamente exibidos,
pois tinham a alvura da neve e possuíam um polimento lustroso,
mostrando curvas e erguimento impecáveis. O cabelo dela, de um colorido
ruivo como o do vinho velho, fora penteado de forma complicada
e alta e, para completar o traje cretense, neles Júlia colocara um
pequenino chapéu, na forma de uma borboleta colorida,
resplandecente de pedrarias, a descansar bem no alto de seus caracóis em
cascata. O ouro de seu traje, moldado nas ancas como se tivesse sido
colado nelas, a radiosidade de suas pedrarias, a coruscação de seu
chapéu, tudo se mesclava para deslumbrar os olhos, para estontear pela
magnificência. Todos os seus movimentos eram sensuais e calculados
pelo vestido metalico e, pelo menos para Lucano, vulgares e lascivos.
Os convidados aplaudiram delirantemente aquela visão cintilante
de luz. Ela parou por um momento, para receber a ovação, e Lucano
viu-lhe o rosto, primeiro de perfil, depois de frente. O perfil, ele
percebeu, tinha uma certa frieza remota, fazendo-lhe lembrar uma estátua
de Falas Atenas,* mas quando ela se voltou, o rosto era largo,
imperioso e endurecido e um tanto mais do que áspero. Tinha pele
excelente e as rugas finas foram habilmente disfarçadas sob camadas de pó
rosado e pintura. Os olhos estranhos eram como lápis-lazúli entre as
rígidas pestanas pretas, polvilhadas com ouro; a boca, com o lábio
inferior cheio e saliente, reluzia como uma pintura oleosa. Tinha nariz
curto, e de certa forma largo, de narinas desdenhosamente abertas.
Dava uma impreSSão ao mesmo tempo cruel e sentimental, orgulhosa e
espalhafatosa, arrogante, e ainda assim demasiado familiar. Para Lucano,
tinha uma espécie de bárbara altivez, e ele pensou no frio e
afetadamente virtuoso Tibério, que era o marido dela, e no velho soldado,
Augusto César, Gaio Otávio, que fora seu pai. Tentou não olhar para
a libertina exibição de seus seios, que o embaraçavam.
Jacinto e Óris, segurando-a familiarmente pelos cotovelos,
conduziram-na em direção ao divã imperial e, pela primeira vez, ela olhou
para Lucano. Seus lábios entreabriram-se em um sorriso sedutor,
arqueado, de boas-vindas, e foi um sorriso encantador, como o de uma
menina. Lucano curvou-se diante dela e manteve a cabeça baixa
enquanto Júlia se sentava, graciosamente, com um sussurro metálico.
Sentiu-se quase sufocado pelo perfume de almíscar que a mulher
usava. Depois, ficou assustado ao ver que era desejo dela que Jacinto e
Óris, que tinham fechado o rosto ao reconhecê-lo, se sentassem ao seu
lado direito, enquanto Lucano sentava-se à sua esquerda.
- Cumprimentos, nobre Lucano disse ela ao jovem. Tinha
VOZ velada, quase masculina, das mulheres do povo, apesar de ser de
grande família.
- Cumprimentos, Augusta, respondeu ele, num murmúrio,
deixando-se engolir de novo pelo divã, sem defesa, que estava. Os
Convidados sentaram-se com estardalhaço. e a musica tornou-se mais
alta e desvairada, com os cantores lançando um cântico de adulação
para uma deusa. Júlia estava em boa disposição. Costumava sentir-se,
com freqüência e perigosamente, entediada, mas naquela noite encon-
___
* Um dos nomes de Minerva, deusa da sabedoria, considerada em seu
aspecto de deusa da guerra. (N. do T)
374 375
trava-se cheia de animação. Jacinto e Õris, de túnica cor-de-rosa presa
com cinturões de ouro, pareciam amuados, e dirigiam olhares ferozes
a Lucano, o que divertia a imperatriz. Os convidados, certos de que o
jovem grego ia ser o novo favorito, tal como ele, sem o saber,
verdadeiramente, o era, sorriam-lhe amável e entusiasticamente. Mas Júlia até
então ignorara-o, a não ser pelo cumprimento inicial. Em
compensação, atormentava Jacinto e Oris com sorrisos especiais, leves carícias
no rosto e no pescoço, feitas com sua mão carregada de pedrarias
acompanhada de murmúrios especiais.
Agora um bando de servos entrava no pórtico, trazendo pratos
fumegantes e bandejas cheias de uvas, figos, azeitonas, e outras
guloseimas. Pratos de ouro foram colocados diante dos convidados, e as
taças encheram-se novamente. junto de cada prato os servos
colocavam facas de ouro, colheres de vários feitios e palitos,
pequenas vasilhas de água tépida, perfumada, e guardanapos bordados.
A curiosidade dominou o constrangimento de Lucano. Observou o
primeiro prato servido, momentaneamente surdo para as vozes
clamorosas, para a música e para Júlia. Uma imensa bandeja de prata, com
entalhes, estava cheia de minúsculos arganazes, cozidos em azeite e
mel e polvilhados com sementes de papoulas. Outras bandejas traziam
ovos temperados, rins ao molho de azeite, pequenos peixes
defúmados, fígado de ganso sobre o qual vinha um molho pungente, e
cabeças cozidas de vitela. Os servos movimentavam-se em derredor dos
convidados, oferecendo guardanapos limpos, depois dos dedos
mergulhados nas vasilhas com água, a fim de se limparem do azeite e dos
molhos, e tornando a encher taças de vinho adoçado com mel,
distribuindo pão feito em fôrmas curiosas e muito quentes.
Lucano jamais vira tal profusão de comida. Ingenuamente,
pensou que aquilo fosse o banquete completo. Estremeceu, olhando para
os arganazes, comeu um pouco do fígado e um pedaço de queijo. O
vinho começava a dar-lhe uma visão alterada da mesa, brilhante
demais, colorida demais, demasiado intensa em sua iluminação. Seu
desconforto por estar junto de Júlia, cujos seios iam se fazendo
importunos, crescia. Em seus ouvidos ressoavam vozes, risos e música, e
sua cabeça lateJava. Para refrescar a boca febril comeu uma romã,
algumas tâmaras, um punhado de uvas. As frutas não lhe abateram a febre, e
ele se viu bebendo de novo o vinho que a neve gelara.
Houve uma pausa no banquete. Os servos removeram o vasilhame
usado e a baixela, e substituíram novamente os guardanapos. Ninguém,
até então, falara com Lucano. Os convidados esperavam que Júlia lhe
dirigisse primeiro a palavra e, na voz dela, entenderiam a situação do
favorito, e saberiam como se dirigir ao moço e tratar com ele. Júlia,
porém, estava meio reclinada sobre o corpo de Jacinto. Também as
outras mulheres, que tinham abandonado suas cadeiras retiradas
habilmente pelos servos, reclinavam-se nos divãs mais próximos delas, seus
corpos licenciosamente apertados contra a carne dos homens. Rostos
enrubesciam, grinaldas escorregavam de cabeças e os risos elevavam-se
para gritos roucos. Aqui e ali homens afastavam as túnicas dos ombros e
seios de algumas mulheres jovens, e beijavam-nos ardentemente. Lucano,
embora fosse médico, tornou a sentir-se desconfortável e embaraçado.
Assim, àquilo chegara a emancipação das mulheres, àqueles guinchos
sem espírito, àquelas discussões de semi-embriagados, àquela vulgar e
desavergonhada licenciosidade, àquele desprezível tagarelar sobre
negócios, boatos e política, àquela impudência, àquela ruidosa lascívia! Pensou
em Aurélia, e em sua mãe, Íris, habilidosas nos deveres domésticos, na
delicadeza no trato das crianças, no carinho aos esposos. Podiam saber
pouco sobre Virgílio ou Homero, não saberiam discutir campanhas
militares ou processos legais importantes nos tribunais públicos, como
aquelas mulheres tinham feito um pouco antes, mas sabiam levar ao lar
alegria, paz e honra. E seus filhOS e maridos reverenciavam-nas. Delas
eram desconhecidos o divórcio e o adultério. Lucano ficou pensativo. A
nação declinava e decaía quando as mulheres ganhavam predominância
e quando não se fechavam para elas as portas da lei, dos negócios ou da
política? Ou seria a dominação das mulheres apenas uma indicação de
que a nação estava em decadência?
Lucano pensou na doce e jovem Rúbria, na tímida e adorável
Sara bas Eleazar. Pareceu-lhe, subitamente, impossível que elas
tivessem existido em tal época. De repente, teve saudades de Sara, com
desesperada paixão, e esqueceu os seus votos. Tinha as mãos cruzadas
nos joelhos, enquanto ouvia as mulheres que estavam à mesa. Embora
O pórtico fosse aberto e os jardins iluminados se ligassem a ele, a
atmosfera entre as colunas parecia poluída com os odores e o suor
quente. De súbito, a coxa sibilante de Júlia moveu-se contra a dele
furtivamente, embora ela fingisse estar absorvida na conversa com outros.
Lucano ficou rígido, com um novo acesso de intensa repulsa, ódio
e vergonha. Aquela muiher era a Augusta, Júlia, a imperatriz do
mundo, esposa de Tibério, e sua voz, seus gestos, seus movimentos
proVocadores, sob a estreita veste dourada, eram característicos de uma
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prostituta, de uma dissoluta mulher das ruas. A coxa apertava mais
insistentemente a dele, e Lucano não se podia mover. Júlia estava
reclinada, de meio perfil para o jovem; seus seios voluptuosos erguiam-se,
as pontas escarlates retesadas, o tecido metálico da veste
desenhando cada curva insolente, cada recorte de seu corpo, inclusive seu
umbigo. O odor almiscarado que dela emanava tinha, para o jovem,
um resquício de carne putrefata.
O ressoar dos címbalos anunciou novo serviço, e os escravos
entraram triunfalmente, carregando bem alto uma grande bandeja de
prata na qual estava um enorme peixe ainda vivo, irisado com escamas
e debatendo-se desesperadamente na agonia final. Lucano,
horrorizado, pôde ver seus olhos exorbitados que agora se enevoavam e o bater
de sua cauda em arco-íris. Cerimoniosamente, o peixe foi levado entre
os convidados, que aplaudiam e examinavam a pobre presa com
exclamações de ébrios. Neste ínterim, outros servos instalaram um
caldeirão de cobre fumegante, com água aromática, no centro da mesa em
U, e o cozinheiro-chefe apareceu com uma pequena mesa de serviço
coberta com uma toalha bordada, de fina musselina. Os que carregavam
a bandeja trouxeram o peixe, que se debatia freneticamente, até o
cozinheiro. Este o agarrou com suas vastas mãos e meteu-o no
caldeirão. Imediatamente, a água fez um remoinho e o cheiro de especiaria e
ervas mesclou-se a quantidade de vapor.
O cozinheiro, com o auxílio de dois servos que agiam de maneira
cerimoniosa, finalmente retirou o peixe e colocou-o sobre um bloco de
madeira, preparado sobre a mesa. O cheiro mesclava-se agora a todos os
demais odores, e a carne mostrava-se rosada e suculenta. E foi servido
num pequeno lago de molho picante, feito de vinhos, cravos, alhos e
suco de limão. Lucano olhou para a porção que lhe serviram e não a
pôde comer, pois sentiu-se imediatamente nauseado. Comeu mais um
pedaço de queijo, um pouco de alface, cenouras e alho-poro, algumaS
azeitonas e uvas, um pedaço de pão, e bebeu mais uma taça de vinho.
Júlia, para saborear o peixe, ergueu-se apoiada num cotovelo e
inclinou o corpo através do divã. Aquilo afastou-lhe a coxa da de
Lucano, e pela primeira vez a mulher falou com ele em forma de
conversação e Com outro de seus sorrisos encantadores.
- Não gosta muito de peixe, Lucano? perguntou ela e, no momento,
por alguma razão peculiar, sua voz não desagradou tanto o jovem
grego, cuja cabeça girava de uma forma curiosa.
O seio dela estava agora contra o ombro do rapaz, e os olhos dele
nãO podiam fugir a contemplá-los. E Lucano pensou: Embora ela não
seja moça, tem beleza considerável, se bem que não tenha vergonha. E
murmurou:
- Venho de família austera e luxos são desconhecidos para mim.
Ela sorriu, e uma covinha profunda e rosada apareceu num canto
de sua boca vermelha. Levantou as sobrancelhas, corrigidas com a
pinça e polvilhadas de ouro, de uma forma indagadora:
- Temos de dar remédio a essa austeridade falou.
Tocou o rosto dele, de leve, com as costas das mãos macias, e a
seguir beliscou-o. A notícia correu célere, mesmo entre aqueles
convivas embriagados. Júlia tornara conhecidos seus favores. Daquele
momento em diante o belo e jovem grego teria no palácio um poder
formidável. Alguns senadores, menos embriagados do que os outros,
pensaram rapidamente. Jacinto e Oris enrubesceram, trocaram
olhares, depois dirigiram a Lucano uma olhada de profundo ódio, que o
moço ignorou. Os dois atletas tornaram-se meditativos.
Talvez os músicos e cantores se tivessem aproximado das mesas
um tanto mais, no fundo do cenário, pois Lucano podia agora ouvi-los
com forte e súbita nitidez. Uma mulher, cuja voz era rica e
eloqüente, começou a cantar:
Donzela, perguntas por que choro, em luto,
Digo-te por que se me queres ouvir,
Choro por um corpo ainda agora sepulto,
E pela luz que de uns olhos vi fugir,
Por uns lábios que amei, e já não amam...
Por tudo isso estou eu a carpir
É melhor para sempre amar em vão,
E almejar a beatitude ignorada...
Da dor eterna sofrer a escravidão,
Por uma alegria que jamais nos será dada,
Do que boceja, tendo o desejo satisfeito,
E fugir da carícia apresentada.
Os lábios de Júlia estavam novamente contra a orelha de Lucano,
e ele evitava afastar-se dela, em parte por uma advertência deseu instinto
e em parte porque não podia insultar nem mesmo aquela mulher
depravada. Ela sussurrou:
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- E almejar a beatitude ignorada!...
Agora Lucano percebia o que a mulher pretendia dele, ao
olhar-lhe os olhos, estranhos e dilatados, ao ver a umidade de seus lábios e
o arquejo de seus seios. Ficou apavorado e sua repulsa foi tão forte
quanto a náusea em sua garganta. As carícias de Júlia não tinham
sido apenas as leviandades amorosas de uma mulher desavergonhada,
e que ela confere a qualquer homem. Eram um convite e uma ordem.
Uma cólera súbita apoderou-se dele, sentindo-se pessoalmente
degradado. Júlia chegava-lhe aos lábios sua própria taça, e ele foi forçado a
beber o vinho. Embora o rapaz se sentisse repleto de emoções
tempestuosas, também estava estonteado. As mesas e seus ocupantes
oscilavam delicadamente diante de seus olhos, como se navegassem numa
embarcação. Lucano disse consigo mesmo, incapaz de mover a mão
que agora estava em seu pescoço, acariciando-o: Não estou apenas
enojado, assustado e cheio de repulsa; também estou bêbado e
entorpecido. Os dedos de Júlia iam explorando-lhe o pescoço, de leve,
delicadamente, e tão hábeis eram aqueles toques, tão conhecedores,
que ele sentiu um calor de correspondência. Desejos e arrepios corre-
ram subitamente através de sua carne, e a sensação de vergonha que
dele se apoderou só serviu para aumentá-los. Engoliu, então, um grande
gole de vinho.
J uiia ria baixinho, compreensiva. Retirou a mão, pois os servos
iam trazendo outra enorme bandeja na qual havia uma roda de
pequeninos leitões, chafurdando num molho escuro, suculento, de
cheiro forte, e rodeados de laranjas assadas e corações de alcachofras.
Isso vinha acompanhado por outra bandeja contendo vitela assada e
diversos acepipes. Os servos tornaram a lavar os dedos dos convidados
e deram-lhes guardanapos limpos.
O ruído do pórtico tomou proporções formidáveis. Guinchos
selvagens e risos estouravam entre as mulheres e gritos roucos vinham dos
homens. O estalido de beijos e o estalido de palmadas em carnes
macias ressoavam contra a música. Imitando Júlia, as mulheres se haviam
despido até a cintura e seios brancos, róseos e ambarinos reluziam à
luz das lâmpadas. Lucano olhava aquilo, avidamente; já não era o
médico neutro, já não pensava naquela turbulência de seios despidos
como simples exibição de órgãos mamários. As pernas retorcidas das
mulheres fascinavam-no e comoviam-no. Esqueceu-se de abster-se de
vinho, e sua taça tornou a se encher, sendo o líquido bebido
sofregamente. Toda a cena de bacanal emergiu numa grande onda de cOr, de
nudez brilhante, de odores sensuais e deslumbrantes luzes
multicoloridas. Parecia-lhe que as colunas do pórtico irradiavam uz lunar
que lhes fosse própria, como que iluminadas internamente, que as
estátuas da entrada das grutas tinham vida e faziam-lhe sinais, somente
a ele, em gestos libertinos e obscenos.
Teve um sobressalto. Os lábios de Júlia estavam contra seu
pescoço, e a mão dela errava-lhe pelo corpo. Uma poderosa urgência tomou
conta do jovem. Ela parecia-lhe a mais bela e desejável das mulheres.
Estremeceu em êxtase vergonhoso. Os olhos dela, ardentes, riam-se
para ele e, com um movimento de cabeça que denotava aprovação,
Júlia levantou-se, afastando-se do moço, umedecendo a boca latejante.
Então devotou-se, caprichosa e zombeteiramente, aos seus antigos
favoritos, que estiveram meditando o assassínio de Lucano. Mas os
traços de seus dedos haviam deixado o moço ardente como fogo.
O tempo tornou-se infinito para Lucano, mas também de arrdente
iminência, estonteante, fervilhante de desejos estridentes, de
confusão, de trevas momentâneas e silêncios repletos de arco-íris que se
modificavam e de estupendos clamores. Pestanejava constantemente,
para limpar os olhos das névoas rosadas, prateadas, azuis e escarlates.
Seus ouvidos trovejavam de vozes e música. Chegou a indagar de si
próprio, acreditando ser aquela a pergunta mais séria e mais
importante do mundo: Quem sou eu? Em sua língua havia gostos
deliciosos; o vinho era enlouquecedor. Esbarrou contra a mesa e agarrou-se
à borda do divã, receoso de cair, pois que o sentia balançar sob seu
corpo. Estava certo de que seus pensamentos continham a sabedoria
dos séculos, de que a ele tinham chegado segredos tremendos,
jorrando nele, vindo das eternidades. A mão esquerda de Júlia, em sua coxa,
parecia uma deliciosa pressão. Tenho perdido tanto, pensou
solenemente e seus olhos encheram-se de lágrimas de autopiedade. Aquela
companhia era deliciosa e todos os convidados perfeitos, como deuses e
deusas, encantadores, maravilhosos em sua amizade, sofisticados e
adoráveis. A lua era o escudo de Artemis, e ele estudou-a, espetando
que a radiante virgem-deusa surgisse por trás dela, prateada em sua
beleza. As estátuas dançavam freneticamente nas grutas. A grinalda de
botões de rosa escorregou da fronte de Lucano e ele, meticulosamente,
e com gestos lentos e cuidadosos, recolocou-a na posição devida.
Havia uma razão qualquer que fazia aquilo parecer absolutamente
necessário. Com certeza não estou bêbado, disse ele, consigo mesmo,
severamente. E que jamais soube o que é viver. Havia lágrimas em seus
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olhos, novamente, e ele soluçava pelo seu eu antigo, despojado. Pés e
mãos estavam dormentes, mas o corpo latejava. Não pensava em Rúbria
nem em Sara. Mas a imagem difusa de ambas permanecia, como
espectros destituídos de faces, aumentando sua presente e ofuscada
animação. Seus membros espalharam-se.
Eternidade de tempo passou em pensamentos imensuráveis, em
conversação. Lucano voltou a si, muito rapidamente, para descobrir
que estava conversando bastante jubilosamente, em feliz entusiasmo,
com uma dama a seu lado e, aparentemente, tal conversa já durava
havia algum tempo. Mas o que dissera à mulher, em tão enceguecedor
enlevo, não sabia. Sacudiu a cabeça, como que perplexo, e ela
murmurou:
- Tu falas arrebatadoramente. Continua.
Lucano tornou a sacudir a cabeça e houve outro hiato brilhante.
Ainda assim, todos os seus sentidos pareciam iluminados,
aumentados, e ele retirou-se consigo mesmo, durante algum tempo, para
refletir jubilosamente sobre aquilo. Estava excessivamente bêbado.
Os escravos levaram para fora uma ampla plataforma de madeira e
colocaram-na sobre o relvado, junto do pórtico. Atiraram pétalas de
rosas sobre os convidados e vaporizaram o ar tépido com perfume. A
lua pareceu aproximar-se, até dar a impressão de que poderia ser tocada
com a mão; brisa estimulante levantou-se do jardim e os topos dos
ciprestes coroaram-se como espigas de fogo prateado. Apareceram
dançarinos, lutadores, cantores, atores, mas quase ninguém prestou
atenção ao espetáculo oferecido por eles, pois a maioria dos convidados ou
estava ressonando ruidosamente, ou distraída com um vizinho, ou
pestanejando estupidamente. Lucano, porém, observava os atletas,
tentando vê-los através de uma névoa. E disse para a dama que havia
seduzido com sua conversação:
- Eles estão oferecendo uma demonstração pobre.
Óris adormecera, mas Jacinto, que ouvira as palavras de LucanO,
exclamou:
- Eles não usam mágica! São homens honestos. - Seus olhoS
faiscavam de raiva e ciúme.
Lucano falou solenemente:
- Eu poderia vencê-los a todos. - E, após outro trago, assentiU
com a cabeça e repetiu, com pesada ênfase: - Eu poderia vencê-los a
todos.
Júlia voltou-se para ele, beijou-lhe o ombro e murmurou:
- Sim, eu sei, meu divino Apolo.
Houve um clangor áspero de cornetas e as lâmpadas coloridas
brilharam com resplandecência maior sobre a plataforma. Escravos
atiraram rosas sobre ela. Cinco jovens, as pernas e os pés cobertos de
forma a se assemelharem aos pés e cascos caprinos de Pã,* os lombos
envolvidos em grinaldas de papoulas vermelhas, saltaram sobre a
plataforma, com gritos altos e delirantes. Mantinham flautas junto dos
lábios e, acompanhados por outros músicos, encheram o ar com
delgados silvos, quase enlouquecedores. Seus olhos selvagens e vivos
dardejavam para um e outro lado, como libélulas, enquanto eles
dançavam, saltavam e corcoveavam no ar. As flautas assaltavam os ouvidos
e mesmo os que ressonavam e dormitavam pesadamente acordaram e
tornaram-se interessados. Os jardins escuros formavam um cenário de
fundo perfeito para aqueles jovens em sua dança sensual; os cascos,
armados de cravos, retiniam e sapateavam na plataforma, o suor corria
deles e eles arquejavam, faziam círculos, empinavam-se, alteando os
lombos rodeados de papoulas. Os gestos eram lascivos e tentadores, os
rostos de risos selvagens excitavam as paixões. A música e o trilo das
flautas tornaram-se mais loucos, mais rápidos, mais exigentes.
Um grupo de moças, vestidas como ninfas, em trajes flutuantes e
transparentes e coroadas de lírios, saltou sobre a plataforma, os braços
direitos erguidos e mantendo véus muito tênues diante dos rostos
bonitos. Com fingida modéstia dançaram, os olhares tímidos e
aparentemente inconscientes dos Pãs que saltavam em derredor. Fugiam às
mãos ávidas, cantando baixinho para si próprias. Os Pãs se foram
fazendo frenéticos e suas línguas vermelhas apareciam, lambendo o ar.
Os corpos rosados das moças luziam através das vestes, os seios jovens
estremeciam, as coxas movimentavam-se com elegância. Os olhos
brilhavam atrás dos véus, luzindo em preto, azul e castanho, e os longos
Cabelos turbilhonavam em torno delas. Os Pãs saltavam mais alto,
desesperados e lascivos, perseguindo as ninfas enquanto elas faziam
círculo e flutuavam cantando.
Lucano não soube em que momento exato se tornou sóbrio e frio,
tanto na mente quanto no corpo. Olhou para os dançarinos com súbito
nojo e repulsa. Desejava erguer-se e ir embora e as têmporas lateja-
___
* Filho de Mercúrio, deus que presidia os rebanhos. Acompanhava suas
danças com uma flauta que ele próprio inventara, tinha cornos e pés de
cabra. Temia-se sua aparição, daí a expressão "terror-pãnico", para
significar um medo violento e súbito. Mais tarde passou a signilicar o
Grande Todo, a Vida Universal. (N. do T)
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vam. Era como se algum horrível perigo o ameaçasse. Mas a carne não
obedecia à sua ordem: manteve-se, flácida, sobre o divã. Teve
consciência do hálito quente de Júlia em seu rosto; da mão dela
acarlclando-lhe o braço; da voz em murmúrio dizendo coisas vergonhosas. A
náusea dominou-o e se odiou. Desejou saltar dentro de água fria e
limpar não apenas o corpo, mas a boca pastosa e quente, e seu
espírito. Olhou para os convidados, parte dos quais estava boquiaberta,
lançando o hálito carregado de vinho aos borbotões; olhou para as
mulheres com os seios nus e uma espécie de horror apoderou-se dele,
detestando-os a todos e detestando-se. Seus olhos queimavam, secos,
e seu estômago tinha engulhos.
As ninfas estavam agora gritando, num misto de deleite e
simulado terror, pois os Pãs as haviam agarrado em seus braços ágeis. Os Pãs,
então, com música mais selvagem e mais rápida, rasgaram os véus e os
trajes das moças e envolveram-lhes os corpos nus com suas pernas
peludas. Os convidados gritavam, enlouquecidos, e alguns ergueram-se
a meio, aos berros. Os Pãs ergueram as moças nos braços,
levantaram-nas sobre suas cabeças, como estátuas vivas, e levaram-nas para a
escuridão, com relinchos animalescos de triunfo e desejo.
Como se aquilo fosse um sinal, todas as luzes do pórtico e dos
jardins foram imediatamente apagadas, e apenas o luar cascateou
sobre o relvado, sobre as árvores e as mesas em desordem e tresandantes.
Os convidados sentaram-se no silêncio que se seguiu, como que
estupidificados, eles próprios silentes. Então, casal por casal,
agarrados um ao outro, foram tropeçando para as grutas que esperavam e
para os jardins distantes onde apenas a lua penetrava. Lucano viu-os
partir, e uma intensa aversão renovou-se nele.
Então viu-se a sós com Júlia e os dois atletas. Óris ressonava,
mergulhado no esquecimento, e a face de Jacinto manchava-se de lascívia.
Quando a imperatriz levantou-se, brilhante ao luar, Jacinto levantou-se
com ela, mas Júlia voltou-lhe as costas. Sorriu a Lucano e tomou-lhe
a mão, sussurrando, "Vem", e assim, colocou-o sobre os pés.
O corpo estava ainda dormente e entorpecido pelo vinho, seuS
joelhos tremiam, mas a sensação de terrível ameaça veio ter a ele mais
fortemente. Agora, podia pensar em Tibério, no poderoso César. OlhoU
para Júlia com aversão e seus olhos azuis faiscaram à luz prateada. A
mulher viu naquilo um sinal de animação e desejo, e atirou-se sobre O
peito dele. Lucano cambaleou sob o impacto, pois Júlia não era leve e
ele estava fraco.
Jacinto, bêbado e inflamado de vinho e ciúme, andava em torno
de Lucano e Júlia, e então agarrou Lucano pelos ombros, rugindo
ameaças e obscenidades. Lucano empurrou para longe de si a
imperatriz, e a força voltou-lhe ao corpo. Agarrou Jacinto, fê-lo dar uma volta
e atirou-o violentamente para os braços de Júlia. Caíram ambos sobre
o divã, num monte de corpos com pernas e braços emaranhados.
Então Lucano correu. Correu toda a extensão do pórtico,
desviando-se das mesas e das cadeiras. Correu para dentro do palácio.
Desçeu, correndo, o piso silencioso e brilhante, sob as lâmpadas esparsas.
Ouviu que alguém corria atrás dele, aproximando-se mais, e voltou-se,
o punho fechado e erguido. Mas era apenas Plócio.
- Depressa! disse o jovem pretoriano, agarrando-lhe o
braço. - Por todas as Fúrias, sê rápido!
Fez Lucano voltar-se para um corredor de mármore, longo e
estreito, e ambos correram por ali, como jovens Mercúrios.
- Estás doido? exclamou Plócio, arquejante.
- Achas que devia deitar-me com ela? exclamou Lucano,
furioso.
- Não, mas há maneiras menos violentas de rejeitar uma dama
disse Plócio. - Gemeu: - E eu estava nomeado pelo César como
teu guarda-costas!
Fez Lucano parar, num movimento súbito, e seus olhos
examinaram o corredor. Pretorianos, ainda inconscientes da presença dos dois,
andavam na extremidade dele, as espadas desembainhadas. Plócio
puxou Lucano para trás de uma coluna imensa, de mármore. Agora,
sussurrava:
- Estás em perigo de morte. A Augusta não se esquecerá disto.
Ela terá sua vida, se lhe for possível, pois que a humilhaste para além
do que lhe seria possível suportar.
Gemeu baixinho, tirou o elmo, enxugou o rosto suado com seu
braço moreno e forte.
- Ouve-me! Há uma porta de bronze a oito passos para a
esquerda e só oficiais têm chave, pois leva para os nossos aposentos, que
ficam lá para baixo. Eu irei até lá, fingiremos examinar a fechadura.
Então, começarei a conversar com os nieus homens. Num momento
propício, corre até a porta que eu deixarei sem a volta da chave, abre-a
devagarinho, entra no corredor que fica além dela, onde esperarás por
mim. - Havia na voz dele uma áspera urgência.
Relanceou os olhos para o caminho que já tinham feito. Com um
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olhar furibundo para Lucano, que se estava sentindo violentamente
nauseado, deixou o jovem médico. Desceu em passo militar até o
vestíbulo, parou à porta, fingindo examiná-la. Depois, continuou, e foi
ao encontro de seus homens, que pararam para saudá-lo.
Arquejante com a náusea e com eructações azedas a subir-lhe pela
garganta, Lucano espiou cuidadosamente por trás da coluna. Esperou
até que Plócio tivesse manobrado os pretorianos, de forma que
ficassem de costas para ele. Ouviu-lhes os fortes risos jovens, enquanto
Plócio contava-lhes gracejos. Depois, correu para a porta de bronze,
abriu-a o mais caladamente possível, e entrou correndo para o
corredor frio e escuro que ficava adiante dela, fechando a porta atrás de si.
Encostou-se na parede úmida de pedra, cruzou os braços com firmeza
contra o ventre, e fechou os olhos para evitar a dor latejante de sua
cabeça.
30
O corredor era tão estreito quanto umido, pequenos riachos de água
corriam entre as pedras escuras e o forro em arcos baixos era opressivo.
Na extremidade, uma lanterna frágil e amarela suspendia-se a um
gancho, e mais adiante ficava outra passagem, correndo em ângulos retos.
Havia ali profundo e pesado silêncio, cortado apenas pelo delgado
gotejar de água.
Depois de controlar sua náusea, Lucano olhou em torno dele
mesmo e pensou. Parecia-lhe que esperava por Plócio havia muito
tempo. Franziu as sobrancelhas. Nunca fora desconfiado ou
cauteloso. Refletiu em que sua vida fora demasiadamente protegida,
demasiadamente restrita, demasiadamente erudita, ligada ao lar, à família, aOS
estudos. Fora precipitado numa cena e numa experiénCIa, naquela
noite, que o haviam deixado apavorado. Ouvira falar daquelas orgias e
vira uma ou duas versões menores em Alexandria, versões que não o
impressionaram, pois não fora parte delas. Se eu me revolto com tanta
violência, agora, como será quando estiver inteiramente integrado a um
mundo bruto assim? Tornar-me-ei indefeso como uma criança,
novamente?
Aborrecia-o recordar que considerara Tibério César apenas um
como outro qualquer, poderoso, todo-poderoso, sim, mas apenas
um homem como qualquer outro. Agora ele era o terror, o
governador do mundo, marido de uma harpia, senhor de legiões, dono
absoluto de todos os homens. Vingaria Júlia? Havia Plócio, devotado
a César. Poderia ter confiança nele? Teria sido ele, Lucano, iludido
para entrar naquele corredor estreito, a fim de que ali o matassem?
Estaria ele com Tibério, naquele momento, embora fosse quase o
amanhecer, conversando sobre aqueles assuntos? O filho de Diodoro Cirino
não podia ser executado em público, como um criminoso. Sua morte
não devia ser vista por ninguém, testemunhada por ninguém, e aquele
era o lugar perfeito e o momento perfeito. Seu corpo, então, seria
atirado ao Tibre, e dir-se-ia que ele morrera misteriosamente, embora
estivesse sob a proteção do próprio César.
Lucano não desejava morrer. Pensava na mãe, nos irmãos e na
irmã. Pensava em todo o trabalho que devia fazer. Estava preparado
para defender-se. Maldito fosse todo aquele vinho que ele bebera!
Afastou-se da parede e experimentou os próprios músculos. Tornou a
pensar em Plócio, armado com a espada curta, e que depressa estaria
vindo para aquele corredor. Somente ele ejacinto tinham visto Lucano
repelir Júlia com violência. Era possível que agora Plócio nem mesmo
estivesse com César; sua fidelidade devia-se também a Júlia e ele podia
estar a consultá-la sobre a melhor forma de acabar com o filho de
antigos escravos da maneira mais discreta possível.
Ele é grande e forte, pensou Lucano, mas sou maior e mais forte.
Sem a espada que usa, eu poderia estrangulá-lo ou pelo menos dominá-lo.
Entretanto, ele tem a espada. Lucano pensava, alerta. Seja como
for, dominarei Plócio, disse consigo mesmo. Então, de alguma forma
encontrarei o caminho de saída deste lugar abominável, não para
voltar à minha família, o que lhe traria perigo, mas para sair de Roma.
Por que esperar pela volta de Plócio? Fugiria agora. Ouviu, então, o
ranger da chave na fechadura, e percebeu que era tarde demais.
Correu de volta à porta e encostou-se à parede, numa posição que
lhe permitia ficar escondido atrás dela, quando se abrisse, e assim
saltar sobre Plócio antes que o capitão pudesse defender-se. Se Plócio
entrasse com a espada desembainhada, teria de morrer. Lucano vacilou.
Mas é minha vida, a vida de minha família, todo o meu trabalho
que eu tenho de proteger, pensou com a rapidez do relâmpago.
Recordou-se do Mandamento de que José ben Gamliel lhe falara: "Não
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matarás!" Mas não houve recomendação alguma dizendo que um
homem não pode se defender.
A porta abriu-se rapidamente e o perfil de Plócio apareceu. Lucano
viu que ele não tinha desembainhado a espada. Plócio, sem ver Lucano
atrás da porta, blasfemou baixinho e chamou-o pelo nome,
ansiosamente. Entrou para o corredor, fechou a porta atrás de si, correu o
ferrolho, depois deu uma volta. Então viu Lucano, com seu rosto
pálido e tenso e compreendeu. Sorriu amplamente:
- Então, estavas preparado, meu Hércules disse ele. -
Não faças perguntas. Conversei com César. - Mostrava-se divertido.
- E que disse César? perguntou Lucano, sem confiar nele.
- Ah! Estás aprendendo! replicou Plócio, sacudindo a
cabeça, com admiração. - Eu apenas contei a Tibério que eras
inexperiente, e que, sem querer, tinhas ofendido a Augusta, que é
conhecida por não suportar ofensas. Mas eu te disse que não me
fizesses perguntas. Tua vida ainda está em perigo mortal. Segue-me.
Lucano, entretanto, hesitava. Recuou, afastando-se cautelosamente
de Plócio.
- Não estou sob a proteção de César? Não sou um hóspede em
seu palácio? Basta que ele diga uma palavra e nem mesmo a Augusta
ousará erguer a mão contra mim.
Plócio suspirou, impaciente:
- Como sabes pouco, meu inocentezinho. Júlia não poderia dar
ordens claras para tua morte, consideradas as circunstâncias em que
aqui te encontras. Não, tua morte ocorreria de maneira mais furtiva e
César não a poderia evitar. Há o veneno ou um acidente,
compreendes, e então teu corpo seria tristemente levado à tua família, com um
pergaminho escrito pela própria mão de César. Júlia tem muitos
espiões e partidários no Palatino, mais do que o próprio César. Assim,
tens de ser protegido. Amanhã, sob disfarce, deixarás a cidade num
navio que estará à tua espera no porto. De forma alguma deves voltar a
tua casa, pois para lá irias levar não só a tua morte como a daqueles
que amas. Desde que estejas livre, Júlia será habilmente levada a crer
que César encolerizou-se contigo e baniu-te.
Parou e fixou os olhos em Lucano, que ainda o estava
observando.
- Foi uma sorte para mim que Júlia não soubesse que eu
observei toda a cena da extremidade do pórtico disse ele. - Mas para
Jacinto não foi sorte ter sido a única testemunha da sua humilhaçãO.
Sem dúvida alguma ele estará morto antes que o sol se ponha, por
haver rolado uma escadaria, por exemplo.
- Que César; que Augusta, que cidade! exclamou Lucano
Plócio ficou a olhá-lo, boquiaberto.
- Que inocente! replicou, então.
- Eu não confio em ninguém disse Lucano.
- Excelente, meu bom amigo. Vou para meus aposentos e tu me
seguirás. Tive de deixar-te aqui para me certificar de que os oficiais,
meus camaradas, estavam dormindo ou de serviço. Mas dentro de
alguns momentos havera mudança de guarda, e devemos nos apressar.
Lucano ainda hesitava. Pouco sabia de Plócio, afinal, mas acabou
por dizer:
- Seguirei. Mas, primeiro, deixa-me tirar tua espada.
Plócio olhou-o nos olhos, depois levantou os braços, sorrindo, e
Lucano desarmou-o. O oficial foi descendo rápida e energicamente
pelo corredor, voltando à direita e Lucano seguiu-o, agarrado à espada
e relanceando os olhos em derredor, cautelosamente. Bem ao fim do
corredor uma longa série de portas de carvalho tinha sido inserida, e
atrás delas ouviam-se sons fracos de gente que ressonava. Ali era mais
seco, e de um lugar qualquer, desconhecido, vinham o cheiro de relva
e o sussurro claro da brisa. Plócio parou diante de uma porta, abriu-a,
entrou, fazendo; silencioçamente, sinal a Lucano. Quando ele já
estava dentro, Plócio rapidamente fechou a porta e correu-lhe o
ferrolho. Sua voz era mais baixa, quando tornou a falar:
- Precisamos falar baixo. Ninguém deve saber que estás aqui,
pois eu, como tu, não tenho confiança em ninguém.
Seu pequeno quarto de dormir, iluminado apenas por uma
lâmpada que silvava, era nu e austero, com somente uma cadeira, uma
cama tosca e uma mesa sobre a qual ficava a lâmpada. Das paredes de
estuque pendiam espadas e dois escudos, e em vários nichos foram
Colocadas cabeças rústicas de deuses, que pareciam brinquedos. Em
um nicho um tanto maior, uma pequena cabeça de mármore de
Diodoro, habilmente executada, estava sozinha; sobre ela pendia a
flâmula romana, e foi aquilo que Lucano viu. Embora ainda
estonteado pelo vinho, sentiu que seus olhos enchiam-se de lágrimas.
Colocou a espada de Plócio sobre a mesa, olhou-o de frente e disse:
Sei que posso confiar em ti e apontou para o busto. - Tu
amaste meu pai.
- Sim disse Plócio. Chegou para junto do pequeno busto e
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tocou-o, reverentemente. - Como meu pai o amou, e como o amou
meu tio, o senador, que foi morto por seus colegas por ter amado seu
país e ser homem honrado. - Fez uma pausa e rematou: - Assim
Tibério o amou.
Lucano sentou-se à beira da cama. Sua dor de cabeça estava cada
vez mais forte e ele sentia-se desolado por não tornar a ver sua família
talvez nunca mais. Segurou a cabeça entre as mãos e resmungou:
- Eu gostaria de um pouco de água, de água muito fria.
Plócio, rindo baixinho, ergueu um jarro do chão e levou-o à boca
ressecada de Lucano, e ojovem bebeu com sofreguidão. Imediatamente,
sentiu-se nauseado, e Plócio depressa puxou para o lado uma cortina de
lã marrom e empurrou-o para um banheiro que ficava do outro lado.
Ali, teve náuseas até vomitar o vinho azedo, exaurindo-se pelo esforço.
Mas a dor de cabeça permanecia. Quando terminou de aliviar-se, voltou
para o quarto de dormir, onde Plócio o esperava, ainda armado e com o
elmo na cabeça. Acrescentara uma capa ao uniforme e bocejava como se
tudo aquilo fosse a coisa mais comum deste mundo.
- Não devo deixar-te nem por um momento disse. Retirou o
elmo e pousou-o sobre a mesa. - Ocuparás minha cama e eu
dormirei encostado ao limiar da porta, enrolado em minha capa. Não
protestes. Tua carne é mais delicada do que a minha. Sou um soldado e
estou habituado a dormir no chão. Passei o ferrolho na porta, mas é
possível, embora não provável, que alguém nos tenha visto quando
fugíamos do banquete de Júlia.
- E nem mesmo César pode proteger-me! disse Lucano,
escarnecedor. - Nem mesmo contra uma mulher com maneiras de
meretriz.
- A uma certa altura não parecias vê-la como tal disse
Plócio,
mostrando todos os seus dentes brancos num sorriso alegre. -
Lembro-me do momento em que retribuíste ardentemente seus beijos e
houve mesmo um instante em que lhe tiraste da cabeça seu chapéU
cretense e o equilibraste gravemente na tua, para grande admiracãO
dos convidados!
- Impossível! disse Lucano, horrorizado.
- Foi assim, realmente. - Plócio se divertia. Ergueu a
mão em
juramento. juro que foi assim. Também te ofereceste, em mais de
uma ocasião, a Júlia, para dar uma demonstração de tuas proezas
atléticas, e só não o fizeste porque nem Oris nem Jacinto estavam
dispostos a tal. Declaraste, então, que, por ocasião dos Grandes Jogos,
que se
realizarão dentro de uma semana, desafiarias qualquer atleta para
qualquer demonstração. Os convidados ficaram muito impressionados e
Júlia sentiu-Se muito orgulhosa.
Lucano recordou-se dos intervalos brilhantes que se tinham
apresentado a seus olhos durante o banquete. Enquanto Plócio falava,
recordou-se, de súbito, envergonhado, dos aplausos dos convidados e
vagamente, como num sonho, viu-se a si mesmo erguendo-se e
curvando-se, em cumprimento. Gemeu, apertando as têmporas nas mãos.
- Tu te gabaste disse Plócio, mais profundamente divertido
um Bruno, que parecia um urso, e que te ensinou a luta, em
Álexandria, e ao qual derrotaste finalmente. Falaste, também, que
possuis uma taça de ouro que confirma seres o melhor dos jogos atléticos.
Lucano gemeu mais alto. Era verdade. Plócio não podia saber
aquelas coisas sem as ter ouvido dele próprio.
- Quanto à dança declaraste eras, realmente, um
conhecedor. Se Júlia não te detivesse, terias dado uma esplêndida exibição
imediatamente.
Plócio suspirou:
- Eu gostaria de ter assistido a essa exibição. Era evidente,
entretanto, que a Augusta desejava ver-te em espetáculo particular, tanto
Desse terreno como em vários outros. - Tornou a suspirar: -
Tivesses, entretanto, teimado em mostrar tuas outras proezas, irias ferir
tremendamente César por teres dormido com a esposa dele, pois apesar
de ela ter dormido com muitos, ele te considerou como homem
honrado. - Esticou os lábios, pensativo: - Ele compreendeu, quando
lhe falei a pouco.
Lucano balançava a cabeça sobre as mãos, tiritando:
- Por que não se divorcia, por que não a manda embora? Ele é
um homem ou um idiota?
- Júlia é filha do antigo Augusto e o povo amava-o. E o povo
ama Tibério.
Lucano tornou a tiritar. Ainda estava nauseado e milhares de
diabinhos davam-lhe murros no crânio. Também se sentia
profundamente envergonhado. Levantou os olhos para Plócio e então,
subitamente, os dois jovens estavam rindo, Plócio encostado à parede, sem
forças, e Lucano esparramado na cama. Seus paroxismos eram maus
Violentos por serem obrigados a abafar o riso com as mãos e os braços.
Quando Plócio conseguiu controlar-se, disse, rouco de tanto rir:
- Juraste que se Júlia beijasse tua grinalda seria capaz de comer
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todas as rosas de que ela se compunha, inclusive os espinhos. Mas ela
sussurrou algo em teus ouvidos que, aparentemente, mudou tua
disposição. Eu adoraria saber o que foi que ela te disse.
- Pois eu não! - Lucano viu, então, que a uma certa altura
pusera de parte a toga e estava apenas com sua túnica azul-clara: -
Esperemos que ela me considere impotente, e pense que não lhe quis
dar uma demonstração disso!
Tornaram a rir. Lucano bebeu, cautelosamente, um pouco mais de
água. Plócio não permitiu que ele apagasse a lâmpada. Estendeu-se sobre
o chão de pedra, envolvido em sua capa, e adormeceu imediatamente.
Lucano, porém, agora que ficara a sós consigo mesmo, não podia dormir.
Depressa estaria longe de tudo quanto amava, no exílio. Mas não era isso
o que tinha desejado? Virava-se na cama, agitado. De há muito a aurora
surgira e ele ouvira muitos pés apressados de oficiais no corredor que
ficava do outro lado da porta, antes de tombar numa sonolência febril.
Teve um sonho estranho e terrível. Viu Roma em chamas, ouviu o
estrondo de dezenas de milhares de colunas esboroando-se no chão,
ouviu o alarido lamentoso da multidão. Os céus negros avermelhavam-se
para cima das cabeças, e um imenso odor de corrupção, como de
carne putrefata e cozida, corria por sobre a cidade. Viu césares
intumescidos de maldade, rostos estúpidos ou depravados, coroados com
folhas de carvalho e louro. Pórticos lançavam chamas, templos
estremeciam como se fossem feitos de papel e dissolviam-se. Arenas
rugiam, cheias de animais, e leões saltavam de suas jaulas sobre a populaça
que fugia. De algum lugar uma voz veio, alta e profunda: "Ai, ai de
Roma!" E o clamor da trovoada encheu todo o universo e as estátuas
de deuses, tingidas de vermelho e ouro, explodiram em fragmentos
carmesins e tombaram com as colunas. Paredes brancas inclinavam-se
como velas de embarcações e tombavam. As Sete Colinas fumegavam,
como fogueiras, e a água do Tibre corria, semelhante a sangue.
Quando acordou, Lucano viu que a lâmpada tinha sido de nOVO
provida de azeite e que estava silvando e ardendo com luz amarela.
Não podia saber que horas seriam, mas sentiu que já se fazia bastante
tarde. Não havia janela alguma naquele aposento. Foi ao banheirO,
onde havia alguns orifícios para a entrada do ar, feitos no alto, na
pedra espessa. Subindo sobre a latrina e olhando por aqueles orifícios
viu uma margem tufosa e verde e teve um relance de ciprestes, dos
quais vinha um cheiro pungente, aquecido de sol. Calculou que
devia passar de meio-dia. Voltou para o quarto de dormir e pela primeira
vez viu que uma refeição fora colocada ali para ele, vinho de soldados,
queijo fresco, pão moreno e limpo e uma cesta de frutas. Com apetite
surpreendente, comeu e bebeu. Aquela era comida que ele conhecia.
Compreendeu que teria de esperar. Sua segurança dependia das
fontes que menos se poderia confiar, das mais equívocas. De uma feita
experimentou a porta, e viu que ela fora fechada pelo lado de fora.
Cautelosamente, fechou o ferrolho interno. Caminhou pelo pequeno
quarto, inquieto, pensativo. Se não fosse pela sua família, ele se
regozijaria de deixar Roma e seus arredores imediatamente.
Por fim, uma chave rangeu na fechadura, e Lucano ficou diante
da porta, silencioso. Então ouviu a voz abafada de Plócio:
- Sou eu. - Abriu o ferrolho e recuou vivamente. Plócio
entrou com um sorriso de compreensão; trazia nos braços uma grande
trouxa, que colocou sobre a cama. - Enquanto dormia como uma
criancinha, meu bom Lucano, estive ocupado. Primeiro, por ordem
de César, o prefeito dos pretorianos colocou avisos bem visíveis em
todo o palácio, dizendo que foste banido logo pelo amanhecer. isso foi
para aliviar a cólera da Augusta. - O rosto dele transformou-se: -
Eu não estava enganado. Jacinto foi encontrado morto há algumas
horas, envenenado em sua própria cama. Seu amigo, Óris, está agora
em Mamertine, acusado de assassínio.
- Mas ele não assassinou Jacinto.
Plócio espichou os lábios e olhou para o forro;
- Disseram-me que ele confessou... sob tortura. Se Óris não
estivesse bêbado ou adormecido, também teria sido envenenado. Ah!
Bem! Todos os homens têm de morrer.
- Que acontecerá a Óris?
- Nada poderás fazer, meu amigo. Eu te disse que tinha estado
ocupado. Fui à tua casa e ali, naquela grande trouxa, estão teu estojo
médico, alguma roupa, algumas lembranças de tua mãe, de Keptah, e
teus livros de medicina. Quê! Vais chorar? Tua mãe compreende e
Keptah também. Há cartas deles. - Acrescentou: - Apesar do edital
de banimento, é muito provável que a Augusta tenha espiões por aí,
não só no palácio como nas portas da cidade, prontos para cair sobre
ti e matar-te. Portanto, é necessário um disfarce.
Abriu a trouxa e retirou dela uma veste marrom muito rústica,
usada, habitualmente, por escravos ou capatazes rurais, e uma
cabeleira bem trabalhada, de caracóis pretos. Havia também um par de
sandálias de sola de madeira e um cinturão feito de cordas trançadas.
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- Irás até a Porta Esquilina, atrás da qual está a tua espera um
modesto cavalinho. Terás de andar até a porta, entretanto. É um longo
caminho. - Mais uma vez remexeu na trouxa e dela retirou dois sacos
de dinheiro. Fez cascatear as tilintantes moedas de ouro sobre a cama;
- O menor é de tua mãe, o maior é de César, com seus
cumprimentos. E aqui outro presente de Tibério, que realmente deve gostar de ti.
- Plócio desembrulhou, respeitosamente, um anel de incrível
magnificência. Imenso, representava o arco e o escudo de Artemis em
diamantes fulgurantes, incrustados no coração de uma turquesa, e
todo engastado em ouro polido. - Observarás disse Plócio,
secamente que é um anel virginal.
- Não sou virgem, embora isso possa espantar-te disse
Lucano, com um riso ligeiro. Colocou o anel no dedo, depois voltou-o
para dentro, de forma que sua riqueza ficasse escondida na palma da
mão. Estendeu essa mão para as cartas de sua mãe e de Keptah e
sentou-se para lê-las rapidamente. Eram curtas, cheias de amor e
confiança e, para não magoar, deixavam de expressar receio ou desgosto.
Sua mãe explicava que de vez em quando lhe enviaria dinheiro,
segundo a recomendação de Diodoro, bastaria que ele escrevesse, e ela
despacharia o dinheiro para a cidade onde se encontrasse.
Havia outra carta, em delicada caligrafia, e Lucano abriu-a. Era
de Sara bas Eleazar, e também essa era curta, mas ardente e terna:
"Eu te amarei e te guardarei ternura sempre, meu querido Lucano.
Como Ruth, gostaria de seguir-te para onde quer que fosses, e ficar a
teu lado eternamente. Não te surpreendas quando me vires, pois
saberei onde estás. Para mim não pode haver outro homem e minhas
orações estão contigo. Sei que procuraras sempre meu irmãuzinho, Arieh,
e que um dia o encontrarás para mim, em nome de meu pai, que tu
consolaste. Deus te abençoe e te proteja, e possa Ele seguir-te em tuas
andanças e estar à tua mão direita, sempre cuidadoso de ti, e possam
Seu bordão e Seu cajado confortar-te."
- Quê! exclamou Plócio, Estas chorando? Deve ser uma
carta muito comovente. De uma dama, sem dúvida.
- Cala-te. pediu Lucano limpando as lágrimas.
Levantou-se, examinou seu estojo médico e, ao abri-lo, um objeto
dourado caiu dele, com sua corrente, Era a cruz de Keptah. Hesitou,
depois colocou-a ao pescoço. Os olhos enérgicos de Plócio alargaram-se,
depois apertaram-se.
- Uma cruz! disse ele. - E de ouro! Por quê?
- Não sei disse Lucano. - Keptah, porém, disse-me que se
trata de um velho símbolo da Caldéia, chamada Babilônia pelos
judeus, aquele grande império. É um símbolo que os egípcios também
usaram, recebendo-o dos babilônios, e que colocaram em suas
pirâmides. Um de seus faraós, que declarou existir apenas um Deus e
assim incorreu no ódio dos sacerdotes, usou este símbolo em seu
pescoço, e o mesmo faziam os que nele acreditavam. O nome do faraó era
Amon, mas isso passou-se há muito tempo. Eu uso o símbolo, porque
me foi dado por uma jovem que eu amava...
- Bem, seca tuas lágrimas disse o prático Plócio. -e- Quando
o crepúsculo chegar, tu deixarás este aposento e irás para a seção dos
escravos, com uma vassoura que te espera aí fora. Então, ninguém
reparará em ti. No entanto, terás de disfarçar essa tua pele de lírio com
este óleo escuro. Sê discreto! Não fales com ninguém. Resmunga
contigo mesmo, constantemente, como se fosses um simplório. Então
sairás furtivamente do Palatino, ficarás mesclado às turbas da cidade,
depois caminharás até a Porta Esquilina o mais depressa possível.
Deu a Lucano uma adaga curta e forte, que ele deveria esconder
sob o vestuário.
- Nunca se sabe... disse. Passou cuidadosamente o óleo
sobre o rosto e o pescoço de Lucano, ajustou-lhe a cabeleira preta e
ajudou-o a vestir as roupas rústicas. - Agora disse, com uma
risada, afastando-se para admirar o trabalho de suas mãos nem mesmo
Júlia olharia para ti.
Hesitou. Depois, subitamente, abraçou Lucano como um irmão,
e beijou-lhe as faces, desajeitadamente.
- Que os deuses te protejam falou. - Não te digo adeus,
pois acredito que nos tornaremos a encontrar.
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TERCEIRA
PARTE
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"A vida pertence a Deus, pois a atividade da mente é
vida e Ele é essa atividade. A pura auto-atividade da
razão é a mais abençoada e eterna vida de Deus.
Dizemos que Deus vive, eterno e perfeito, e que a vida
contínua e eterna é de Deus, pois Deus é a vida eterna."
ARISTÓTELES - Ensaio: A razão divina
como primeiro móvel.
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31
"Sara bas Eleazar a Lucano, filho de Diodoro Cirino:
"Saudações, meu mais querido amigo, meu único amado. O Dia
da Expiação* terminou, e eu me regozijo na paz de Deus, sabendo que
Ele me perdoou e que estou inscrita no Livro da Vida. Uma bela
tranqüilidade pousou sobre Jerusalém. Da minha janela posso ver o
Templo, brilhando como um escudo de ouro à luz da lua, e a cidade faísca
sem cessar, como um campo de vaga-lumes. As colinas são de cobre, o
vento um hálito de lagar de vinho e, lentamente, abaixo de mim, as
folhas amarelas tombam de uma árvore como pequenas chamas. As
mulheres estão no quintal, tirando água da cisterna, e suas vozes são
calmas. Das janelas e portas da hospedaria vem o cheiro forte de
carneiro assado, de pão, de especiarias e o faiscar das lâmpadas, pois que o
homem de novo foi perdoado por Deus e há um tranquilo regozijo, ja
que todos conhecem Seu amor e Sua promessa dos tempos.
"Ah! Se ao menos estivesses aqui, a meu lado, segurando minha
mão e gozando desta paz! Se ao menos viesses uma vez a jerusalém!
Contudo, sempre quando falo assim de ti, desvias os olhos dos meus,
como se temesses um terror na cidade. Não compreendo isso, mas
recordo as últimas palavras de nosso querido amigo, José ben Gamliel,
antes de morrer, há dois anos, à vista do Templo: "um dia Lucano virá
ter aqui e encontrara Aquele que está procurando em todos os dias de
sua vida."
"Rezei hoje para que tivesse júbilo na alma e pela tua saúde e
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* É o décimo dia após o Ano Novo judaico, quando Deus escreve em seus
livros os destinos dos homens, dando-lhes uma oportunidade de se
arrependerem de suas faltas. (N. do T)
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felicidade. Rezo assim todos os anos, durante esses longos sete anos
em que nos conhecemOS. Por muitas e muitas vezes tu me imploraste
que me casasse e te esqueCeSSe; não há uma só carta que me escrevas
que não contenha essa admoestação e essa súplica. Mas como pode
uma mulher que ama esquecer aquele a quem ama? Como pode uma
fonte encher-se de água, se a sua nascente secar? De onde virá o
vinho, se a vinha perecer? Pedir-me que me deite com outro homem é
pedir que degrade meu espírito, que me entregue como mulher
dissoluta, mesmo que antes de tomar a mão de um estranho eu passasse sob
o dossel nupcial. Minha alma está casada com a tua.
"Queridíssimo bem-amado, encontramo-nos pela última vez em
Tebas e embora tuas palavras fossem de recusa eu vi a luz em teu rosto
quando me olhaste. Conversamos baixinho, sob as sombras do teu
jardim, mas o que falamos em nossos corações não eram as palavras de
nossas almas e de nossO entendimento. Por que não podes esquecer
tua amargura contra Deus? Disse-te freqüentemente, como o disse
José ben Gamlid, que Deus criou o homem peffeito e integral, sem a
ameaça da doença e da morte. Mas os homens desobedeceram a Deus
e com a sua desobediência, trouxeram essas coisas para o mundo. Foi o
homem quem se exilou da alegria, quem atraiu para ele próprio o
espfrito do mal, quem fez com que a maldição caísse sobre a terra.
"Aonde quer que eu va, através de todas as cidades e portos, ouço
o teu nome, como o de um grande médico. Sei que não te importas
com isso, que desejas apenas aliviar a dor, dar conforto, retardar a
morte. Apesar disso, é uma felicidade para mim Ouvir-te aclamado
pelos pobres, pelOs abandonados, pelos escravos e pelos oprimidos.
Falam de ti nas praças dos mercados.
"Embora nunca o tenha conhecido, senão através de tuas
palavras, lamentei contigo a morte de teu velho amigo e professor, o
médico Keptah. Rezei pela alma dele hoje, pois Deus disse que é bom rezar
pelas almas dos mortos que dormem na terra. Sua memória é para nós
uma bênção.
"Às vezes, quando estou maiS triste, recordo-me de tuas histórias
sobre Roma e rio alegremente. Compreendo que no mundo de hoje
pouca coisa existe que desperte o desejo de rir, pois a Pax Romana
disfarçada em paz mundial, trouxe opressão, sofrimento
e exploração a todos os povos do mundo. Poder é corrupção, e está na
natureza do homem insultar o que domina e o desejo de dominar vive
em nós, como negra enfermidade.
"Regozijo-me por não teres sofrido mal algum, meu querido,
quando visitaste Roma uma ou duas vezes por ano, durante todos estes anos.
Como eu gostaria de ver tua bela mãe, tua encantadora irmã, teus
irmãos, e todos os teus amigos. Posso rir durante horas quando estou
lendo a respeito do teu antigo preceptor, Cusa, o esperto velhaco.
"Tive uma experiência estranha, embora quando eu a contar tu
possas nada ver de estranho nela, a não ser os pensamentos
sentimentais de uma mulher de vinte e quatro anos, que precisa encher sua
vida solitária com prodígios, imaginações e fantasias.
"Jerusalém, como sabes, está cheia e rodeada de peregrinos, que
vêm de toda a Terra de Israel nos dias santilicados. Os ricos podem
encontrar acomodações confortáveis nas hospedarias e nas tavernas ou
nas casas de amigos, quando comemoram o Ano Novo em agradável
companhia, em mesas festivas e em tranqüila conversação. Mas os
pobres procuram as brechas que possam encontrar na cidade abarrotada
ou acampam fora das grandes muralhas, em tendas ou cavernas.
Freqüentemente eu caminho entre os amontoados de centenas de
peregrinos que ficam para fora das portas, observando suas vestes toscas,
seus pés nus, suas barbas emaranhadas, suas crianças que choram,
seus bandos de cabras, e ouvindo suas vozes marcadas pelos dialetos
da Galiléia e de Samaria, de Moab, Perea e Decápolis. Divertem-se no
Ano Novo e suas faces morenas mostram-se piedosas e olham para o
Templo com amor apaixonado, observando a mais msignilicant das
Leis com muita gravidade. Dormem ao uivo agudo dos chacais e sua
comida é pobre, o vinho azedo. Ainda assim, são felizes, e a alegria e as
preces, nas vertentes empoeiradas das colinas para alem das muralhas,
têm significado mais profundo e maior ressonância do que as que
ouvimos nas casas-grandes, circundadas de jardins, dentro da cidade.
Certa vez tu observaste, amargamente, que os pobres rezam com maior
paixão porque não têm prazeres, apenas Deus. Nisso eles são,
realmente, abençoados, pois se um homem não tem Deus, nada tem, e se
tem Deus, então tem tudo o mais com Ele em seu coração.
"Ao crepúsculo, no dia do Ano Novo, os peregrinos amontoaram-se
nas ruas estreitas e tortuosas de Jerusalém, seus filhos nos braços ou
a segui-los de perto, e eram um rio quente e multicolorido, movendo-se
sob nuvem prateada de pó. Desci da minha liteira, num impulso, e
acompanhei-os para além das portas, onde seus repastos frugais
estavam servidos em toalhas estendidas no chão. E a lua levantava-se
sobre eles e abrilhantava suas fogueiras. Muitos foram os convites que
402 403
me fizeram, a fim de que me reunisse a uma família para compartilhar
do pão, do vinho ou de um pouco de carne, pois, como eu estava
humildemente trajada, pensavam que fosse uma jovem mulher sem
família, ou que me tivesse perdido entre as caravanas aglomeradas.
Ouvi as canções deles, seu riso, as vozes de seus filhos, que corriam e
tinham fome, os gritos de seus animais, suas orações. De repente,
oprimiu-me uma solidão, uma nostalgia. Fiquei de parte, junto de uma
árvore retorcida, olhando para as fogueiras que estalavam nas
vertentes das colinas e olhando seus reflexos naqueles rostos simples. Foi
então que um jovem aproximou-se de mim, vestido com um manto
azul, rústico, os pés metidos em sandálias presas com cordas ásperas.
"Aquele rapazinho não poderia ter mais de dezoito ou dezenove
anos. Ficou a meu lado, solenemente alto, e sorriu-me.
Instantaneamente, parecemos ficar a sós e infinitamente solitários, juntos. Era
como se um círculo de silêncio nos rodeasse, e vozes e gritos
diminuíram, fazendo-se como que um sonho. Havia no rosto dele profunda
sabedoria e delicadeza, ternura imensa, como se compreendesse que
eu não tinha ninguém e tivesse piedade de mim. Trazia na mão um
copo de barro, cheio de vinho, que me ofereceu. Tomei-o e bebi-o,
tão simplesmente quanto ele o dera a mim. Imediatamente, meus olhos
encheram-se de lágrimas e os soluços sufocaram-me e eu desejei contar
àquele jovem todo o meu sofrimento, meu exílio e minha tristeza. Ele
tomou o copo vazio da minha mão, enquanto eu tentava controlar-me.
Esperou até que eu me visse mais segura, e depois me disse, na mais
doce e mais forte das vozes "Sara bas Eleazar, eleva teu coração e seca
tuas lágrimas, pois Deus está contigo e tu não estás só."
"Fiquei atônita e muda. Como sabia ele meu nome e a tristeza do
meu espírito? Sorriu-me profundamente e uma fogueira próxima
inflamou-se e vi seus olhos azuis, que se pareciam a estrelas infinitas.
Senti que ele tudo sabia, não só a meu respeito mas a respeito de todo
o mundo, e que nele havia uma paz para além de qualquer
imaginação, para além de todo o amor e esperança.
"As lágrimas cegaram-me, e quando eu as enxuguei e meu coraçãO
deixou de estremecer o jovem se fora. Cheguei a pensar que tinha
sonhado aquilo, mas o gosto de vinho estava em meus lábios. Súbita e
horrível sensação de perda se apoderou de mim e eu o procurei entre
os peregrinos mas não tornei a vê-lo. Não pude dormir, naquela noite,
mas, a cada vez que choro, um conforto me vem, que não é conforto
vindo de homem.
"Chega. Mesmo a lembrança dele deixa-me sonhadora e dá-me
uma sensação de alegria. Seria um anjo, vestido humildemente, como
eram os anjos que Abraão abrigou em sua tenda? Gostaria de acreditar
nisso, quase acredito nisso. Agarro-me à lembrança do rosto dele.
"Estou enviando esta carta para Atenas, para tua casa, onde deves
permanecer durante mais algumas semanas. Saúdo-te agora, meu
querido Lucano, com todo o amor do meu coração e do meu espírito, e
penso em nosso próximo encontro. E um destes dias, em tuas buscas
de meu irmão Arieh, hás de encontrá-lo. Agora ele tem nove anos, e
tudo em mim diz-me que está vivo e que um dia será restituído aos
braços de sua irmã e de seu povo. Deus esteja contigo."
Lucano tinha, de inicio, refletido na terra de seu povo. Grécia,
esperando encontrar ali um lar. Mas depois de algum tempo, a amarga
certeza lhe veio de que também ali era um estrangeiro e de que, na
verdade, não tinha lar em parte alguma. Nascera em Antioquia, e
Antioquia não fora seu lar; vivera nas proximidades de Roma, e vira-a
ocasionalmente, mas ali também era um estrangeiro. Visitara todos os
portos e cidades ao longo do Grande Mar e tivera casas pequenas em
muitas delas, quando deixava os navios, e ainda assim em parte
alguma possuía um lar, gozava da companhia de amigos ou tinha paz. Os
desgraçados, os humildes, os pobres, os abandonados e esquecidos,
os escravos, os miseráveis pequenos mercadores dos bazares e lojas
abençoavam-lhe o nome e beijavam-lhe as mãos e os pés. Mas era um
estrangeiro, sempre um estrangeiro em terra estranha, e embora
soubesse muitas línguas, era como se um estranho falasse com ele. Suas
únicas satisfações estavam em confortar e curar, e nas cartas que
recebia de sua família e de Sara bas Eleazar. Uma inquietação terrível e
uma ansiedade dolorosa, bem como sensação de inanidade, estavam
sempre presentes nele, dando-lhe a sensação de alguém que procura
água no deserto.
Três anos antes comprara uma pequena casa, que ficava próxima
aos arredores de Atenas. Quando voltava para sua casa de Atenas ou
para suas outras casas, não era como se voltasse para um ponto que lhe
fosse familiar, com vozes e jardins familiares, mas como um viandante,
cansado e detendo-se apenas por uma noite.
Ali estava a terra de seus pais, mas não era a sua terra, embora o
esteta que nela vivia se regozijasse com sua pura beleza luminosa, suas
Planícies ossudas, suas colinas prateadas e faiscantes, suas pedras relu-
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zentes, seus mares de azul intenso, seus telhados rosados ou de leve tom
castanho, sua história inscrita em mármore, seus templos brancos, seus
carvalhos empoeirados, seus loureiros, oliveiras e murtas, seus vinhedos
sob o céu brilhante, seu glorioso Partenao* elevando-se nobremente na
Acrópole2 como uma coroa de pedras preciosas. Ali estava a terra de
Hélio,3 a terra de Demóstenes, de Péricles,4 de Homero, de Fídias, de
Sócrates e Platão, de toda a ciência e arte, graça e poesia, da própria
alma civilizada do homem, da fronte calma dos deuses, do Olimpo. Ali,
a lei e ajustiça tinham colocado os pés poderosos no mármore e naquela
atmosfera seca e adstringente se haviam desdobrado as asas das
deidades, as filosofias. Ali os oráculos5 falavam, e as frotas de Jasão6 paravam
em cada porto. Ali, naquela terra, o heroismo tinha feito sua estrada,
com um escudo igual à luz e uma espada que se parecia ao corisco, e ali
as montanhas fixavam seus olhos em Maratona7 e as Terrnópilas8 ainda
vibravam com a lembrança daqueles poucos que haviam derrotado as
hordas dos persas. A glória mostrava-se na fronte da Grécia, para que
todas as cidades a vissem, e jamais seria apagada.
Aquela Grécia moderna não era a Grécia de Péricles, mas
continuava a viver como sonho imóvel, eterno e ainda não-imitado. E ali,
como sempre, Lucano era um estrangeiro, preparando suas poções,
solitário, anônimo, a não ser para os pobres e para os abandonados,
cultivando seu jardim, no qual plantava flores e ervas, bebendo seu
vinho a sós, preparando seus repastos frugais com suas próprias mãos,
lendo, meditando, escrevendo suas cartas e observando as estrelas
Quase sempre ao amanhecer, quando o pálido sol mal atirara seus
___
* Célebre templo de Atenas, dedicado a Minerva, decorado com trabalhos
de Fidias.
2. Cidadela da antiga Atenas, sobre um rochedo. O cume era coberto de
templos, entre Os quaiS estava o Partenao.
3. Sol.
4. Orador e estadista grego célebre, exerceu a melhor das influências
sobre seus concidadãOS, fazendo-se chefe do partido democrático. Dá-se
seu nome ao século mais brilhante da história da Grécia (499-429 a.C.)
5. Acreditavam os pagãos que seus deuses lhes davam respostas, através
dos sacerdotes e sacerdotisas. Essas profecias eram levadas muito a
sério e um dos oráculos mais respeitados era o de Delfos.
6. Figura mitológica que se celebrizou, pela busca do Velocino de Ouro,
conduzindo os Argonautas à Cólchida. Foi educado pelo Centauro Quirão.
7. Cidade que se celebrizou, na `Ática, pela vitória dos gregos sobre os
persas, no ano 490 a.C.
8. Célebre desfiladeiro da Tessália, onde Leônidas, com trezentos
espartanos, tentou deter o exército de Xerxes. Não o conseguiu, porque
um traidor, Efialta, indicou aos persas um caminho que permitia
contornar o monte. O sacrifício desses trezentos homens ficou célebre na
história da Grécia. (Notas do tradutor)
___
raios fracos sobre Atenas e a cidade apenas começava a mover-se, Lucano
passava pelo Templo de Teseu1 e subia a longa escadaria branca que
levava ao topo da Acrópole e ao Partenão. Ali, sozinho, errava entre a
colunata onde Sócrates ensinara e passava com delicadeza a mão sobre
as colunas dóricas que pareciam de prata à luz primeira do sol. Fixava
os olhos respeitosamente nas estátuas aladas que pareciam prontas a
voltar para o espaço vazio e reluzente e ficava de pé diante do frontão
ocidental do templo de Zeus, ou movia-se através da cella para admirar
a imensa estátua de Atenas com seu grande elmo e sua imponente
e nobre face. Errava dali para o frontão ocidental, a fim de se
maravilhar com o grupo de Fados reclinados, em seus delicados drapejamentos
de mármore, e que se pareciam mover à brisa seca e luminosa. Como
médico, pensava na genialidade do escultor que esculpira a figura
reclinada de Ilisso no frontão ocidental e que dera ao alabastro o
aspecto de carne. Ali, a sabedoria tremia na pedra e a beleza pusera sua
mão nas sombras luzentes dos baixos-relevos, no corpo prateado, no
rosto grave e no casto seio, como no perfil imperial e nos membros
imaculados. Ali havia silêncio, mas presenças imortais podiam apenas
ser observadas para além das fronteiras dos olhos, como um coro
translúcido, e toda aquela reunião poderosa esculpida em mármore
esperava apenas por algum chamado misterioso para se movimentar
em uma vida igual à dos deuses, para encher os ouvidos com imortais
canções e vozes sonoras. Por fim, a fria turquesa do céu erguia-se entre
as colunas brancas, pintadas e nítidas, e os mantos das cariátides2
tornavam-se de ouro.
Ali, Lucano sentia-se menos solitário do que entre homens. De pé
entre as estátuas, vestido de branco, era uma delas. Movendo-se entre
elas, era como se tivesse sido a primeira a acordar. No meio da beleza,
do solene heroísmo e da gelada grandeza, podia esperar de novo que,
assim como o homem criara tudo aquilo, havia uma possibilidade
remota de que os homens se tornassem homens uma vez mais, falando
com majestade e poesia, revelando seg-redos da eternidade. Seus
passos ecoavam entre as colunas e ao longo das colunatas e às vezes,
enquanto andava, quase acreditava ter ouvido passos mais fortes atrás
dos seus, passos de pés heróicos, que tinham descido pelos frontões
para o chão branco e reluzente.
___
1. Herói grego, a que se atribui, entre outras proezas, a destruição do
monstro de Creta, o Minotauro.
2. Estátua de homem ou de mulher, que sustenta uma cornija. (Notas do
Tradutor)
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O sol tornava-se de um ouro mais brilhante e a cidade, lá
embaixo, movia-se visivelmente, os telhados róseos ou de um
amarelo-pálido movendo-se dentro da luz, e vozes inquietas e imperiosas
levantavam-se da Acrópole como um vôo de pássaros alvoroçados. Sua
solidão voltava então e ele fugia do Partenão.
Por que não era possível ao homem, quando atingia as
culminâncias da glória, mantê-la? Por que devia ele tombar do céu? Seria
porque mesmo nas alturas ele cometeria as loucuras e os crimes que levam
inexoravelmente à extinção? Tucídides* escrevera: "A espécie de
acontecimentos que uma vez teve lugar, terá lugar novamente, pelas razões
da natureza humana." Ali é que estava a tragédia.
Lucano sabia pela sua inquietação crescente, que em breve
estaria a caminho outra vez. Dentro de duas semanas devia aceitar o posto
de médico em um navio que fazia rota entre Creta e Alexandria, e
consentira em se empregar assim durante três meses. Procuravam-no
muito, não só pelos seus poderes curadores mas por cobrar honorários
pequenos. Sempre distribuía aquilo que ganhava entre a tripulação
quando se despedia.
Certa manhã, descendo do Partenão e sentindo aversão ao pensar
no retorno a sua casa solitária, que ficava no fim do Caminho Panatenaico,
meteu-se entre a multidão da Agora e errou por entre Stoa de Átalo,
fervilhante de homens, ruído, comercio e lojas. Os pequenos gregos
negros eram mais ativos e mais efervescentes do que os romanos e muito
mais astutos, muito mais alegres e charlatanescos. Roubavam com ares
modestos em suas vinte e uma pequenas lojas, ao fundo dos passeios e
colunatas. Seus deuses eram mais coloridos e pretensiosos, pois ali não
prevaleciam as severas leis romanas de valores; ainda assim, suas
mercadorias tinham encanto. Como sempre, mesmo naquela hora matinal,
quando as lojas se estavam movimentando e os mercadores
ruidosamente andavam por ali, abrindo portas e espanando suas mercadorias,
um orador fervoroso já estava sobre a plataforma, arengando para as turbas
indiferentes. Era um velho, de barba grisalha e revolta, e com um bastão
nas mãos. Lucano parou para ouvir suas palavras incoerentes. Ele
gritava, sacudindo o bastão e lacerando a barba:
- Arrependei-vos, arrependei-vos! O Reino de Deus está
próximo!
___
* O maior dos historiadores gregos, autor da Guerra do Peloponeso
(460-395 a.C., aproximadamente). (N. do T)
___
O homem devia ser judeu, pois eles estavam sempre exclamando
essas palavras, que ninguém ouvia. Lucano olhou para a
impressionante biblioteca pública e lembrou-se de devolver alguns livros antes
de sua viagem. Homens e mulheres começavam a subir os degraus
para as portas abertas. Jovenzinhas, vestidas com trajes de um escarlate
brilhante, ou amarelos, ou azuis, haviam-se reunido na casa da fonte
para encher seus jarros. Tinham vozes como as dos papagaios,
enquanto trocavam tagarelices e riam e empurravam-se para obter
posição da fileira dupla. E agora havia o tribunal, muito solene, e
declarando, com suas amplas colunas e arcos, que a regra da lei era a que
regia a humanidade civilizada e não a regra dos homens. Lucano
sorriu, cinicamente. Fixou os olhos com frieza sobre os dois legionários
romanos que estavam de sentinela às portas de bronze. Onde o puro
poder existia não havia lei, a não ser a lei da força. Ouvia músicos
ensaiando no odeum, para os concertos e representações do dia. Parou
por um momento a fim de olhar a casa redonda, onde os burocratas
acocoravam-se e vomitavam suas opressmvas regras, na forma imemorial
de todos os homens maus e opressores. Uma enorme procissão de
devotos comecava a subir a Acrópole, para honrar Palas Atenas,
levando pombas que se debatiam em seus braços. Lucano desviou-se para o
lado, a fim de deixar que a procissão passasse, e ao olhar para o rosto
perturbado dos fiéis sentiu de novo sua velha e crônica tristeza.
Agora, a cidade estava inteiramente viva e ruidosamente
ensurdecedora, o céu pesado e azul, polido de sol e sem uma nuvem. O calor
soprava pelas ruas e das colunas próximas. Que significavam todas
aquelas atividades, aquela veemência, aquelas rápidas idas e vindas,
aqueles pés velozes e determinados, aquele comércio, aquelas moças
risonhas, aqueles mercadores vociferantes? Um grupo de advogados,
vestidos de branco e com rostos solenes, subiu os degraus do tribunal,
conversando em voz baixa, como se suas preocupações contivessem
toda a vida e toda a morte. Era maravilhoso acreditar que o próprio ser
tem significação, coisa que ele não tem. Mas que aconteceria ao
mundo se os homens cessassem de acreditar que sua existência tinha
alguma importância? São eles mais sensatos do que eu? pensou Lucano,
inquieto. Passou pelo Templo de Heléstion,* o teto de musas
vermelhas brilhando como imensos rubis dentados sob o sol furioso.
Caminhara muito, estava cansado e com fome e desejava estar em sua casa
___
* Deus grego do fogo e dos metais, o Vulcano dos latinos (N. do T)
408 409
silenciosa, em seu jardinzinho com o tanque cheio de lírios-d'água,
cor-de-rosa, a fazer sua primeira refeição com leite de cabra, pão
escuro e mel. E ali estava o mercado de escravos, os mercadores já
arranjando da melhoi maneira sua mercadoria humana. Lucano desviou os
olhos, nauseado como sempre; tinha por hábito passar por aquela alta
plataforma de madeira, e evitava olhar para os escravos, pois não podia
suportar aquela agonia.
Por alguma estranha razão sentia, agora, um peso nos pés e um
grande cansaço, e parou abruptamente diante da plataforma. Os
mercadores estavam repreendendo e estalando chicotes; uma mulher
soluçava, um homem suplicava, uma criança chorava. Ali estavam
expostos à venda os que tinham ficado cobertos de dívidas, os que não
tinham lar e ofereciam-se como escravos, os que transgrediram alguma
lei insignificante e alguns criminosos. Três bonitas jovenzinhas, de
rostos morenos e olhos grandes e negros, vestidas lindamente, estavam
sendo arranjadas em grupo coquete, sobre almofadas de seda
carmesim. Não se sentiam absolutamente impressionadas; passavam entre
elas uma vasilha de doces e olhavam os compradores que se
aproximavam, arqueando as sobrancelhas. Enquanto durasse a sua beleza,
estavam certas de ter boas casas, muitos agrados e mimos. Atiravam para
trás seus longos cabelos negros, alisavam os pescoços e murmuravam
entre elas numa língua estranha, rindo de seus próprios e dibertidos
comentários. Estavam sentadas na plataforma, afetadamente cingindo
ao corpo as suas vestes, de forma a mostrar bem todas as curvas das
pernas, das coxas e seios, sob a fazenda diáfana.
Os mercadores ainda não tinham muito que vender, pois era cedo
demais. Algumas mulheres rechonchudas, evidentemente esplêndidas
cozinheiras ajulgar pelas panelas arranjadas a seus pés, algumas
crianças nos braços de moças apavoradas e chorosas, alguns jovens que não
tinham qualquer graça ou força particulares, um velho ou dois, e um
grupo de prisioneiros carrancudos. Lucano começou a mover-se, mas
o cansaço permaneceu, e ele ali ficou. Atraiu a atenção de três bonitas
moças, e as vozes delas ergueram-se, animadas, pipilantes. Um
mercador correu para ele e agarrou-lhe o braço:
- Senhor, exclamou. - Olha para estas moças, virgens
vindas de Arábia! irmãs! Não encantariam tua casa? Todas sabem tocar
citaras e outros instrumentos para enfeitiçar tuas horas! Todas sabem
dançar como ninfas!
Lucano sacudiu o braço daquele aperto. As moças
contemplavam-nO com arrebatamento e batiam as mãos. Estavam atraídas pela
sua aparência.
- Apolo! gritou o mercador. - Estas são as tuas Graças! E o
preço é ridiculamente baixo para elas todas!
- Não estou interessado disse Lucano.
O mercador curvou-se e disse-lhe ao ouvido, com ares
entendedores:
- Senhor, tenho um rapaz bonito e gorducho, de só dez anos,
que vem também da Arábia e foi castrado...
Lucano voltou-se a meio para ele, cheio de poderoso impulso de
atirá-lo ao chão com um golpe. Mas, naquele momento, ouviu o
ressoar de correntes, um grito e uma bofetada, e outro mercador
conduzia um homem para a plataforma e Lucano virou-se para olhar, o rosto
já suando de cólera. O escravo estava literalmente vestido de correntes,
que pendiam e tilintavam de seus punhos algemados e terminavam em
argolas de ferro em torno de seus tornozelos. Ninguém, a não ser um
perigoso bandido, era assim acorrentado. O chicote do mercador
estalava por sobre o corpo, as pernas e os ombros do homem, mas ele
movia-se com dignidade, como se não sentisse dor e não estivesse
absolutamente consciente do lugar onde estava.
Ali estava, agora, as correntes brilhando à luz ardente do sol. Achava-se
completamente nu, e a pele era de um castanho escuro, lustrosa e
brilhante como seda. De ares régios, soberanos, muito alto, peito
semelhante a dois peitorais unidos de uma armadura de bronze, com
músculos ondulantes e pernas e braços maravilhosamente bem-feitos,
ele contemplava o céu, com expressão remota e imutável. As feições
eram negróides, ainda assim majestosas. Usava o cabelo preto e frisado
em duas tranças curtas, torcidas juntas. Um anel de ouro fora passado
através do septo de seu nariz. Seus olhos pretos brilhavam ao SOl como
dois poços.
Lucano aproximou-se mais da plataforma, fascinado. Soube, com
Instintivo conhecimento que, a despeito das feições e da cor, aquele
homem não era criatura da selva. Era um soberano; ignorava todos em
derredor, mas não pela cega ignorância de um animal. Os olhos
grandes e reluzentes irradiavam sofrimento mas um sofrimento tranquilo e
resignado e, ao mesmo tempo, inteligente. Então, ele viu Lucano, e
OS dois jovens olharam-se em silêncio, um do alto da plataforma, outro
do chão ardente.
O mercador, vendo aquilo, agarrou de novo o braço de Lucano:
410 411
- Senhor! Muito barato: Absurdamente barato. Um escravo
forte, que, se for conservado cuidadosamente acorrentado, ganhará
muito bem sua manutenção. Olha para estes músculos! Olha para estas
mãos, para estas pernas! Senhor, tenho vergonha de dizer-te o preço!
O escravo olhava para Lucano e um misterioso entusiasmo, uma
ansiedade, brilhou em seus olhos. Deu um passo para a frente, e as
correntes rangeram. Havia uma busca apaixonada na face do escravo,
agora, uma súplica, uma esperança.
- Seu nome disse o mercador, esfregando suas mãos levantinas
- é Ramo.
- Que fez ele? murmurou Lucano, elevando os olhos para os
olhos apaixonadamente indagadores do escravo.
O mercador tossiu e coçou o queixo barbudo.
- Bem... bem... nada, senhor. - E acrescentou,
confidencialmente: - Para te dizer a verdade, Apolo, ele é mudo. Não pode falar.
Veio para Atenas há algum tempo, caminhou pelas ruas, espiou o rosto
das pessoas. Foi encontrado, esse pagão, no próprio Partenão,
movendo-se entre as estátuas, invadindo os templos. O vigia viu-o, durante a
noite, caminhando à luz de tochas, às vezes levando uma lanterna.
Dizem que tinha braceletes e tornozeleiras de ouro, mas acredito que
seja mentira, pois tudo quanto tem é essa argola de ouro no nariz. Foi
levado diante da justiça, interrogado por intérpretes em muitas
línguas, e sempre sacudiu a cabeça. Deram lhe um estilo e uma tabuinha
para escrever, mas ele sacudiu a cabeça. Naturalmente é um bárbaro,
vindo de alguma selva longínqua ou do deserto.
- Como sabes, então, que ele se chama Ramo? perguntou
Lucano. Aproximara-se um pouco mais da plataforma e seu coraçãO
batia, em pesada compaixão.
O mercador ergueu os ombros.
- É o nome que o povo de Atenas lhe deu, pois foi uma
curiosidade pelas ruas, durante muitos meses. Bandos de crianças
zombeteiras seguiam-no.
- Então? indagou Lucano, quando o mercador cessou,
abruptamente, de falar.
- Bem, agora, senhor, sabes quanto são supersticiosas as
turbas. Começaram a dizer que ele tinha olho mau. Repararás quanto
são estranhos e luminosos os seus olhos. As mulheres começaram a dizer
que o olhar dele as fazia abortar, e quando passava através de um
campo, durante a noite, um camponês o viu, e jurou, depois disso,
que todas as suas ovelhas morreram e suas oliveiras murcharam. Os
falatóriOs aumentaram e crianças tombavam na rua, em convulsões,
quando ele passava. Moças gritavam que eram tomadas pelo demônio,
durante a noite, depois que os olhos dele as tinham fixado. o
mercador riu e piscou um olho: - Nós, mercadores, somos homens
práticos. Sabemos que seu único mal é não ter dinheiro.
- Ele não é um escravo disse Lucano, amargamente. -
Tinha algum dinheiro!
O mercador meditou, os olhos ambíguos sobre o jovem grego.
Coçou a barba rala.
- Tinha moedas de ouro com inscrições estranhas, mas de
grande peso. Eruditos as examinaram, mas não puderam declarar qual a
origem delas. Apesar disso, comprou comida com essas moedas,
embora ninguém saiba onde se alojava. O caso tornou-se sério quando
comprou várias fôrmas de pão e deu-as a um grupo de escravos
encadeados que trabalhavam numa estrada. É verdade que tais escravos
não são bem alimentados... Naquela noite os escravos fugiram.
Disseram que o olho mau tinha dissolvido o ferro... Devemos pensar em
quanto são ignorantes e supersticiosos os...
- Como chegou ele a ser vendido como escravo? perguntou
Lucano, em voz áspera e alta.
- Senhor, o tribunal não mais podia esconder seu
conhecimento dessa criatura e das coléricas queixas contra ela. Como te
disse, foi interrogado; não pôde falar, não se pôde defender. Decidiram que se
tratava de criminoso que representava muito perigo. Foi atirado na
prisão. Osjuízes não são superstmciosos, com certeza. mas são criaturas
do povo. Recordarás que Sócrates foi considerado como tendo
pervertido os jovens e ridicularizado os deuses. Osjuízes não acreditavam
naquilo, verdadeiramente, mas havia a turba a considerar, a turba que
tem votos. Daí a taça de cicuta. Nós hoje o compramos do carcereiro,
e assim ele aqui está.
- Sem crime algum, apenas por buscar alguma coisa! disse
Lucano.
- Sim. Que estaria ele buscando, senhor? - O mercador olhou
Com firmeza para Lucano. - És homem sensato, ó Apolo, e belo
como os deuses. O que estaria ele buscando a errar pelas ruas, dia e
noite, e olhando com timidez para todos os rostos?
Lucano disse, secamente:
- Eu o comprarei. Mas tu lhe retiraras as correntes.
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Tirou o manto de capuz de sobre os ombros e estendeu-o para
Ramo que, os pulsos tilintando, recebeu-o, com dignidade, cobrindo
o corpo despido. Então, para tristezà de Lucano, os olhos do escravo
encheram-se de lágrimas, e ele sorriu, um sorrito trêmulo, uma grande
alegria iluminando-lhe as feições.
O mercador Saltou sobre a plataforma, lambendo os
lábios. Ruminava sobre o preço enquanto removia as correntes. Depois, fez um
ar feroz para Lucano e pediu uma alta soma. Lucano atirou-lhe
desdenhosamente uma bolsa sobre a plataforma e o mercador agarrou-a com
avidez, pondo-se a contar o dinheiro, os lábios molhados. Exclamou,
encantado:
- Senhor, fizeste um grande negócio! Não te arrependerás disto!
- Vem disse Lucano para o escravo, que, rapidamente,
saltou da plataforma e ficou de pé a seu lado. Uma corrente fina tilintava,
pendendo-lhe do pulso; Lucano compreendeu que devia apanhar
uma ponta e levar assim a sua compra. Agarrou a corrente, que se
partiu entre suas mãos fortes, atirou-a para longe, como se fosse um
objeto infeccionado.
- És livre disse Lucano. - Segue-me até minha casa. Até
nossa casa.
32
A pequena casa, pintada de azul-claro e de telhado rosado, ficava
dentro de um pátio fechado. Um tanque, onde flutuavam lírios-d'ágUa
cor-de-rosa e grandes folhas verdes, bem como pequeninos peixes
dourados, erguia-se no centro do jardim. Uma grande figueira dava
sombra escura sobre um banco de pedra. Algumas árvores frutíferas,
cítrico e maçãs, e uma grande tamareira espalhavam-se em derredor dos
muros. Lucano, além de tratar do seu jardim, cultivava algumas rosas
que lhe recordavam Rubria. Jasmins rodeavam a casa austera.
Podiam-se ver, do jardim, as colinas prateadas da Grécia, marcadas aqUi
e
ali, com a escuridão dos ciprestes pontudos, o prateado escuro das
oliveiras e o azul puro dos céus.
O interior da casa, que continha apenas três cômodos, fora caiado
de branco, contra o qual a mobília pobre lançava sombras escuras no
esplendOr do sol matinal. Ali, as cortinas das janelas eram de um
tecido pesado e espesso, azul, e o mesmo material barato pendia das
esquadrias das portas. O piso de lajedo vermelho mostrava-se
despido. Lucano levou até sua casa o homem que ele comprara. e Ramo
olhou ao seu redor mudo e indiferente. E sempre seus olhos
reluzentes voltavam-se para o rosto de Lucano, com ansiedade e indagação.
Este foi ter à nascente de seu jardim a nascente que alimentava o
tanque e trouxe um grande jarro de leite de cabra. Colocou-o,
espumoso e fresco, sobre a mesa de madeira, sem toalha, cortou
algumas fatias de pão escuro, colocou-as com um pouco de queijo barato,
sobre a mesa, e acrescentou àquilo uma vasilha de madeira cheia de
frutas e uma tigela de mel. Ramo observava-o em completo silêncio,
de pé, no centro da sala. Então Lucano disse-lhe delicadamente:
- Esta é a nossa refeição. Senta-te comigo e come.
Ramo ficou a olhar, estupefato. Lucano, observando-o, repetiu
aquelas palavras em latim, depois em alguns dos dialetos
mediterrâneos. Não teve resposta. Tentou o egípcio, e depois uma mistura de
babilônio hebraico, aramaico e africano. Finalmente, chegou à
conclusão de que Ramo havia compreendido todas aquelas línguas e que
só o terror o impedira de dar conhecimento disso. Então, Lucano
ergueu os ombros e disse em grego:
- Há alguma razão que te leva a recusar compreender-me. Se eu
soubesse qual é essa razão, compreenderia. Até que confies em mim,
podes guardar o silêncio como te parecer. - Olhou com firmeza para
Ramo, e continuou: No idioma grego, a palavra que significa "escravo"
também significa "coisa". Para mim és um homem, portanto
nem um escravo nem uma coisa.
O majestoso rosto negróide de Ramo não se modificou, mas
uma lágrima correu de sua pálpebra e seus lábios estremeceram. Lucano
desviou os olhos por um momento, depois tornou a encarar o homem
de cor. E disse, muito docemente:
- Vejo que me ouves. Não és também surdo?
Durante um longo momento Ramo não respondeu; depois, quase
imperceptivelmente, sacudiu a cabeça. Lucano sorriu, e fez-lhe sinal
para que se sentasse em um dos dois bancos que estavam junto à mesa.
Ramo, Porém, ergueu as mãos sobre a cabeça, juntou as palmas,
deixou-as assim tombar sobre o peito, depois caiu de joelhos e tocou o
chão com a testa em oração silenciosa. O rosto de Lucano ensombrou-
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se de tristeza, mas esperou, polidamente. Ramo ergueu-se e sentou-se
à mesa; o manto de Lucano tombava-lhe dos ombros, e o grande anel
de ouro que Ramo trazia no nariz reluzia ao sol. Lucano dividiu o pão
e deu metade ao outro. Começaram a comer. A luz enchia o pequeno
aposento despido e colocava um halo dourado em derredor da cabeça
de Lucano. E Ramo, comendo e bebendo, não cessava de observar o
médico.
- Eu poderia levar-te amanhã ao pretor e dar-te tua liberdade
disse Lucano, calmamente. - Mas isso não te adiantaria. As
autoridades te agarrariam, te atirariam na prisão e te entregariam aos vendedores
de escravos, mais uma vez. Dentro de duas semanas
partiremos da Grécia por algum tempo, pois que sou médico, médico de um
navio, com algumas casas aqui e ali, para repousar. No primeiro porto
eu procurarei um pretor romano e tu terás tua liberdade, e assim
poderás partir para tua terra.
Olhou para Ramo. Então, para surpresa sua, ele sorriu, radiante,
e sacudiu a cabeça. Levantou sua grande mão morena, apontou para
si próprio, depois para Lucano, e inclinou-se.
- Não mantenho escravos falou Lucano, severamente. - O
dono de escravos, ante meus olhos, é mais degradado que os próprios
escravos. - Estudou demoradamente o outro homem e rematou: -
Ah! Compreendo! Queres dizer que aonde eu for tu também queres ir?
Ramo confirmou com um gesto, o sorriso ainda mais radiante.
- Por quê? perguntou Lucano.
Ramo fez sinal de que desejava escrever, e Lucano levantou-se,
trazendo-lhe uma tabuinha e um estilo. Ramo começou a escrever,
lenta e cuidadosamente, em grego, depois estendeu-a a Lucano:
"Chamo-me Ramo, senhor, pois foi esse o nome que os gregos me
deram, e meu próprio nome nada significará para ti. Deixa-me ser teu
servo, quer me libertes ou não, pois meu coração disse-me, vendo-te
esta manhã, que aonde fores eu devo ir, pois tu me conduzirás até
Ele."
Ramo escrevera corretamente em grego, mas era um grego erudito,
afetado e pomposo. Lucano ergueu as sobrancelhas louras e bateu o
estilo contra os lábios.
- Não compreendo disse. - Quem é esse "Ele" ao qual
devo conduzir-te?
Ramo sorriu, um sorriso brilhante. Tomou novamente o estilo e a
tabuinha, e escreveu:
"Ele é o que livrará meu povo da maldição atirada sobre Cam,*
meu velho pai, e a Ele procuro, e através de ti irei encontrá-lo, e só
através de ti, a quem Ele tocou.
Lucano contemplou longamente a tabuinha. Finalmente, sacudiu
a cabeça.
- Entendo a religião judaica. Foi Noé quem censurou seus
filhos porque o encontraram ébrio e despido. Lançou maldição
especial sobre seu filho Cam, o de pele preta. E verdade que o homem negro
foi verdadeiramente amaldiçoado, mas não por qualquer deidade, apenas
por um homem. Se há Deus, e eu sei que há, Ele não amaldiçoou
nenhum de Seus filhos. Nem deu a qualquer homem ordem para
amaldiçoar qualquer de Seus filhos, mas só lhes ordenou que
fizessem o bem a todos.
Falava relutantemente; sua cólera contra Deus fazia-lhe o rosto
corado. E disse, meio para si próprio:
- Tenho uma questão com Deus, cuja existência não posso
negar. Começo a compreender que tu acreditas existir, em algum lugar
do mundo, um homem que pode anular a maldição lançada contra os
filhos de Cam, e afastar deles o ódio. Pensas que só os filhos de Cam
sofrem a raiva e o ódio dos homens? Não. Todos somos angustiados
uns pelos outros. - Falou com alguma impaciência: - E como é
possível que eu, encolerizado contra Deus, possa conduzir-te a quem
quer que seja que te possa ajudar, e a teu povo?
Ramo não respondeu. Depois de alguns instantes, levantou-se
com dignidade, tomou a mão de Lucano e apertou-a contra sua testa.
Tornou a sentar-se e estudou o grego atentamente. Suave resplendor
de satisfação surgia em seus lábios grandes e espessos, e em seus olhos
brilhava a ternura. Lucano levantou-se, procurou sua bolsa de
médico, e disse:
- Deixa-me examinar tua garganta, a fim de ver se há alguma
razão física para a tua mudez.
Ramo sacudiu a cabeça, mas abriu a boca, obedientemente. Lucano
VOltou-lhe o rosto para o sol, abaixou-lhe a língua com uma espátula de
Prata. A garganta era notavelmente clara e sadia, a laringe não mostrava
nenhum distúrbio patológico e as cordas vocais eStavam em perfeita
Ordem. Lucano sentou-se e descansou o rosto na palma da mão.
___
* Segundo filho de Noé, amaldiçoado por seu pai por ter zombado dele ao
encontrá-lo em postura pouco digna, embriagado pelo efeito que
desconhecia do vinho. Seus descendentes são os chamados camitas. (N.
do T)
416 417
- Podes falar disse ele se quiseres. Tu é que não queres
falar?
Ramo negou aquilo com um veemente gesto de cabeça.
- Já falaste algum dia?
Ramo indicou que assim era. Levantou dez dedos para indicar os
anos.
- Quem te pôs mudo, então?
Ramo alcançou a tabuinha e o estilo, e encheu-a com sua escrita
minúscula e bem junta:
"Senhor, sou rei de uma pequena nação secreta da Africa, terra
que não conheces. Fica perto de uma das antigas minas e tesouros de
Salomão que escondemos de todos os homens, por causa de sua
avareza. Quando eu era um rapazinho, meu pai mandou-me para o
Cairo, onde aprendi os vários idiomas da humanidade, pois nieu pai
desejava tirar seu povo da escuridão para a luz. Era um homem justo e
nobre. Como o de meu pai, meu coração afligia-se com os sofrimentos
de todos os filhos escuros de Cam que, sem saber por quê, sofriam nas
mãos de outros que os escravizavam e matavam. Foi no Cairo que tive
conhecimento da maldição de Noé. Uma noite, porém, quando havia
apenas um ano que eu era rei, tive um sonho, ou visão, de um homem
com um rosto que parecia de luz, vestido de luz, e com grandes asas
brancas. Ele pediu-me que andasse pelo mundo todo, procurando
Aquele que nos libertaria e faria com que não mais nos desprezassem
e escravizassem. Assim, saí, sozinho, com moedas de ouro em
quantidade suficiente, retiradas do tesouro de Salomão, na tentativa de
encontrar o nosso Salvador."
Ramo pegou uma tabuinha nova e continuou escrevendo:
"E através de todo o mundo, onde errei, procurando, vi apenas
terror e desespero, ódio, morte e opressão entre todos os homens. Vi a
mão de cada homem voltada contra seu irmão. Não ouvi bênçãos e sim
apenas maldições. E isto afligiu-me. Quando estavam secas as minhas
lágrimas, mas não acalmado meu desgosto, descobri que não maiS
podia falar. Quando eu encontrar aquele que procuro, porém, não só
a maldição que pesa sobre meu povo será anulada, mas eu tornarei a
falar, em regozijo."
Lucano ficou sentado durante muito tempo, lendo e tornando a
ler as tabuinhas. Sentia-se doente de piedade. Como é sem esperança
a busca deste pobre homem!, comentava ele, consigo mesmo. Pensou
na carta de Sara. Hesitou. Depois, ergueu os ombros, dirigiu-se a um
cofre rústico de madeira onde guardava suas cartas. e tirou dele um
rolo. Pelo menos a carta de Sara poderia confortar Ramo, que era
supersticioso e ingênuo. Como médico, Lucano sabia que a fé ajuda
com freqüência onde a medicina nada pode fazer. Colocou o rolo na
mão de Ramo, e disse, com voz dura, e sem emoção:
- Isto me foi escrito por uma mulher que amo. É uma judia. Se
te dá conforto, então não lamentarei ter violado sua confiança.
Ramo desenrolou o pergaminho e começou a ler. Imediatamente,
lágrimas saltaram-lhe dos olhos e ele sorriu, radiante; era como
alguém que tivesse recebido suspensão de uma sentença de morte. E
assentia continuamente com a cabeça, o peito erguendo-se em deleite.
Quando terminou a leitura, comprimiu o rosto com as mãos e
balançou-se lentamente em sua cadeira.
Lucano disse, secamente:
- Deves compreender que isto foi escrito por uma jovem
impregnada de sua fé, com a promessa de um Messias sempre soando em
seus ouvidos. Eu, porém, não acredito nisso. Sou um médico, um
cientista, enfrentando todos os dias a vida crua e a morte, e para os
homens não há significação nem numa coisa nem noutra. Quem é o
filho do homem para que Deus o visite, ou quem é o homem para que
Deus se ocupe com ele? Estudei também astronomia, e há galáxias e
constelações de tal magnitude que a mente vacila com a simples
con templação delas. Que vem a ser, para Deus, este mundo minúsculo?
Minha única discordância, e é uma discordância insignificante,
está no fato da mão Dele ter escorregado e nos ter
feito, dando-nos apenas
sofrimentos e morte.
Voltou-se para Ramo, e seu rosto estava pálido e severo.
- A única esperança que podemos ter é a de fazer sozinhos
nosso caminho, diminuir a opressão do homem pelo homem, alixiar suas
dores. Se achas que na Terra de Israel realmente vive aquele que te
pode ajudar, vai em paz.
Ramo mostrou-lhe o rosto, reluzente de lágrimas e alegria. E
escreveu, na tabuleta:
- "Tu me levarás até Ele"
- Não disse Lucano, - Jamais irei a Israel, por muitas
razões. Podes ir embora amanhã. Eu te darei dinheiro.
Ramo escreveu:
- "Não. Aonde fores, eu irei. Não me peças que te deixe. Meu
coração diz-me que devo permanecer contigo, e que tudo irá bem!"
418 419
Lucano ficou comovido, apesar de sua severidade. E disse:
- De há muito vivo só. Portanto, se assim o desejas, fica Comigo,
e sê meu amigo.
Encontrou, nos dias que se seguiram, uma grande e misteriosa
consolação na presença de Ramo, que cuidava dos jardins e cozinhava suas
refeições simples, e o assistia nos cuidados da fila de miseráveis que
vinham à sua porta, pedindo cura. Era uma paz estranha para ele,
pelas noitadas, quando se podia sentar com Ramo,junto de um jantar
humilde, contar coisas de si próprio ao mudo, falando-lhe de sua
família, de seus amigos.
- Não sou muito sensato disse-lhe, certa vez. - O homem
mais sensato que conheci foi meu velho professor, Keptah, que agora
está morto. Tinha língua eloqüente, e se estivesse ainda vivo eu te
enviaria para ele, pois não tenho consolo nem esperança verdadeiros
para dar-te.
Ficou profundamente interessado ao descobrir que Ramo sabia
preparar ervas de maneiras estranhas, e foi grato pela compreensão
que tinha dos doentes que vinham a sua casa, e pelas suas maneiras
hábeis e delicadas em relação a eles. Embora conhecesse aquele
homem escuro havia apenas dez dias, era como se sempre tivesse morado
com ele, e cogitava em como podia ter vivido sem aquela augusta e
silenciosa presença. Sentavam-se juntos, ao crepúsculo, olhando as
colinas que mudavam de aspecto, ouvindo os pássaros, e vendo a asa
imensa da noite ir descendo lentamente sobre a terra. Liam juntos OS
livros de Lucano e o médico comentava-os, escrevendo Ramo nas
tabuinhas seus próprios comentários. Sentavam-se, con tentes, Ramo
vestido com as roupas baratas que Lucano comprara para ele. o anel
brilhando em seu nariz.
Quando Lucano fechou a casa e saiu para o navio, Ramo o
acompanhou. Mantendo sua promessa, quando o navio atracoU em
Antioquia, Lucano levou Ramo ao pretor romano, e libertou-O,
pagando-lhe dali por diante um salário.
Passou-se um ano, mais outro, e Lucano tinha mais de trinta anos
quando voltou para sua casa dos subúrbios de Atenas, onde ficaria
apenas alguns meses. Era como se tivesse saído dali uns dias antes. O
caseiro, um agricultor local, fizera bom trabalho, e tudo estava limpo e
em ordem, as árvores carregadas de frutos, e as flores, desabrochando.
A única mudança estava neles próprios, O sofrimento, a dor e a morte
que tinham encontrado pesava duramente em Lucano, mais do que
nunca. Ramo, entretanto, estava mais sereno, tinha mais habilidade e
paz e havia nele uma atmosfera de quem aguarda algo.
33
Lucano falou a Ramo da sua procura em relação ao rapaz, Arieh,
que, se estivesse vivo, teria então doze anos de idade.
- Jamais olhei para um rapazinho dessa idade sem reparar no
meu dedo mínimo disse ele seja na rua, na Agora de Atenas, nos
templos, entre os meus pacientes e em cada alameda e atalho do
mundo que conheço. Mas ele está morto, com certeza; quem o roubou era
pessoa repleta de maldade e malícia para com Eleazar ben Salomão,
que jamais prejudicou quem quer que fosse, e fez sua fortuna como
um homem justo. - Ficou pensativo, depois continuou: - Por que os
homens odeiam outros homens, por inveja, despeito, ou por não
serem de sua raça ou cor? É uma interrogação que vem sendo feita há
muito tempo, que se torna corriqueira e monótona de tão repetida.
Mas é aí que está a tragédia do homem.
Falava com Ramo como jamais falara com outro homem, nem
mesmo com Keptab, Cusa ou José ben Gamliel. O primeiro ensinara-lhe
coisas e repreendera-o, e ele se sentira rebelde; o segundo fora seu
professor, com amor, e o considerara algo assim como um tonto; o
Último tentara apaixonadamente conduzi-lo para Deus, quando seu
coração estava mais amargo. Ramo, porém, sorria para ele e cruzava as
mãos.
Explicou a Ramo que não tratava dos ricos e dos homens de
posição que podiam ter outros médicos, aos quais pagassem grandes
salários. Mas com o tempo ficara perspicaz; e ele percebeu que com muita
freqüência alguns camponeses prósperos, desejando poupar salário,
Vinham pedir-lhe caridade. Lucano disse:
- Quando descubro quem são, e tenho um sentido oculto
muito desenvolvido que me serve bem, de vez em quando, nessas
descobertas, cobro-lhes um honorário simbólico. Por que tomariam meu
tempo quando podem pagar um médico e outros necessitam de meu
420 421
auxílio? Trato dos ricos apenas quando me procuram em desespero,
quando os demais médicos os consideram casos perdidos.
Quando Lucano disse isso, Ramo procurou uma tabuinha, e
escreveu: "Mas todos os homens sofrem, e é bom ajudá-los." Lucano
contemplou-o em melancólica admiração; ali estava alguém que
sofrera tormentos por parte dos homens, e tinha compaixão.
Um dia, quando se aproximava a ocasião de Lucano tornar a
embarcar no navio, uma liteira magnificente, carregada por seis belos
escravos negros, parou à sua porta, e o que dirigia e falava em grego
eloqüente suplicou-lhe que visitasse seu senhor, que estava às portas
da morte e fora abandonado pelos médicos que o tratavam. Lucano
quis recusar, pois andava muito cansado naqueles dias. Torrentes de
infelizes formavam-se à porta de sua casa desde o alvorecer, e também
ao crepúsculo.
E disse:
- Se os médicos de teu senhor o abandonaram, eu, que trato
das piores doenças, a bordo de um navio e nas cidades, não poderia
ajudá-lo. - A curiosidade do médico aguçou-se nele, e perguntou:
- Que sente o teu senhor?
- Está morrendo em todos os seus órgãos, senhor. Os filhos
estão desorientados. Ouviram falar de ti, e sentem-se dispostos a
pagar-te um salário enorme pelo teu auxílio.
Lucano ficou pensativo. Usara grande parte do legado de Diodoro
em caridade, e naquela ocasião possuía muito pouco dinheiro.
Começou a sacudir a cabeça. Pelo menos uma vintena de homens, mulheres
e crianças doentes esperavam em seu jardim, alguns deitados no chão,
outros tombados sobre o banco, ainda outros prostrados nos degraus
da entrada. Ramo, porém, tocou-lhe no braço e fez um gesto de assen-
assentimento, humildemente. Lucano relanceou os olhos pelos pacientes, e
assentimento, humildemente. Lucano relanceou os olhos pelos pacientes, e
muitos deles eram portadores de moléstias crônicas; Ramo, que aprendera
coisas e tinha um misterioso poder de cura que lhe era próprio,
poderia examinar e tratar alguns daqueles tristes infelizes.
- Não demorarei mais de uma hora, então disse LucanO,
relutantemente entrando na liteira, que o levou. Mas, ainda assim, sua
curiosidade fora despertada. A liteira deslizou rapidamente pelas ruas
movimentadas de Atenas, depois saiu da parte mais freqüentada e
passou para um ponto onde existiam vilas e jardins agradáveis, com
paredes brancas sobre as quais se debruçavam flores rosadas e roxas.
Parou num portão de ferro delicadamente trabalhado, mostrando
Apolo e seus enigmas, e um escravo abriu o portão e o fez entrar num
jardim onde ele viu uma casa sOlitária, a uma certa distância.
Lucano olhou com admiração para a casa, pois era uma verdadeira
miniatura de vila, reduzida em escala de tamanho magnificente para
uma forma pequena e delicada. Os mosaicos do pátio eram cor-de-
rosa e cada pequenino canteiro fora rodeado com ladrilhos azuis, como
um halo cor de turquesa. Havia apenas uma fonte, uma bacia baixa,
de mármore, cheia de água faiscante e lírios, e sua figura central era
um delfim, pousado sobre a cauda; de sua boca aberta jorrava um jato
iridescente. A própria casa brilhava, alvacenta, ao sol, com colunas
pequenas mas perfeitas à moda jônica.
Ele ficou tão impressionado com aquela visão deliciosa que nem
reparou, de início, em três homens de meia-idade que descansavam,
juntos, num banco recurvo de mármore, do outro lado da fonte,
sombreado pelas murtas. Estavam formalmente vestidos de togas brancas,
com as quais formavam agudo contraste, pois, apesar de altos, não
tinham atitudes aristocráticas, e suas feições eram grosseiras. O olho
clínico de Lucano reparou nas mãos grandes, retorcidas pelo trabalho,
nos olhos pequenos, nas peles escuras e oleosas, marcadas de
bexigas, no cabelo áspero e grisalho. Observou, também, que todos
eles usavam anéis de considerável valor, e que suas sandalias eram
feitas do melhor couro. Pareciam libertos toscos, vestindo os traies de
seus senhores. Sua parecença uns com os outros era notável, e ele
percebeu, imediatamente, que se tratava de irmãos.
O primeiro, evidentemente o mais velho, disse:
- Meus cumprimentos! - E acrescentou, rapidamente, na voz
monótona e incerta dos que tiveram nascimento humilde: - Bem-
vindo à casa de Flégon, meu pai. Meu nome é Turbo, e estes são meus
irmãos, Sérgio e Mele.
Lucano retribuiu as reverências dos três homens com um
murmúrio cortês, sem mostrar que para ele a voz de Turbo nada tinha do
sOtaque dos atenienses elegantes e cultos.
Sérgio e Mele contentaram-se em permitir que seu irmão falasse
por eles. Sua passividade era a passixidade dos que estão habituados a
obedecer. Ainda assim, conforme Turbo continuava a falar, Lucano
reparava que todos aqueles homens mostravam certa qualidade de
força e um orgulho áspero e defensivo. Começou a sentir-se bem-
disposto em relação a eles. Turbo dizia:
- Nosso pai, Flégon, está doente. Assim tem estado há quase
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um mês, e tivemos os melhores médicos. Mas e fez uma pausa -
ele os manda embora, declarando que são todos tolos ou malandros.
Lucano olhava em torno do jardim com admiração e, vendo
aquilo, os três irmãos ergueram mais o corpo, e sorrisos tímidos
apareceram em seus rostos, de certa forma já sorridentes.
- Pode bem ver-se que nada foi desperdiçado. Quais são os
sintomas de vosso pai?
Os irmãos mais moços olharam para Turbo, que disse:
- Ele se diz muito fraco, e meu pai sempre foi homem que falou
a verdade, sem exagero. Tem dor em todo o corpo. Sente a espinha
rígida. Não há uma noite, jura ele, em que durma sem dor, e não pode
comer.
Os sintomas sugeriam artrite, foi o que Lucano comentou. Turbo,
entrentanto, sacudiu a cabeça:
- Não. Todos os médicos nos disseram que não há artrite, não
há inchação ou deformação das juntas, nenhum estropiamento. -
Seus pequenos olhos tornaram-se menores, como que perplexos: -
Não podemos, é certo, aceitar a palavra dos escravos, há cinco escravos
nesta casa. Interroguei-os severamente. Juram que meu pai come com
grande apetite, tal como um jovem. Não come diante deles que se
devem retirar. Ele nos diz que dá a comida a seu grande cão, que
jamais o abandona, e que ele próprio apenas bebe um pouco de
vinho, como remédio. Deve um omem acreditar em seu velho e digno
pai, ou deve aceitar a palavra de escravos?
Lucano ficou silencioso, mas inclinou a cabeça, com diplomacia.
Depois perguntou quantos anos tinha Flégon, e disseram-lhe que ele
tinha setenta e três.
- Uma boa idade comentou ele. - Devemos lembrar que OS
velhos têm seus caprichos muitas vezes.
Turbo ficou ofendido:
- A mente de meu pai é tão vigorosa quanto a de um jovem,
Lucano, e tão cheia de vida como uma árvore nova. Até um mês atrás
ele caminhava como um homem moço, e sua voz podia ser ouvida em
toda parte. Sua mão era pesada... E olhava de esguelha para os
irmãos.
- Agora interrompeu Lucano a carne dele mutChOU de
repente, não pode caminhar sem auxilio, sua cor tornou-se cinzenta e
sua voz mostra-se fraca e trêmula.
Turbo coçou a orelha e olhou para os pés. e os irmãos o imitaram
com tanta precisão que Lucano se esforçou para conter um sorriso.
Naquele silêncio ele podia ouvir o cântico da fonte. Finalmente,
Turbo disse, sem encará-lo:
- Não, não é isso. A cor dele é excelente, a voz mais forte do que
nunca, e a carne gorda. Acontece, apenas, que se queixa e declara
sofrer de forma angustiante. Sempre foi homem dominador e...
- E? indagou Lucano, quando Turbo se calou.
- E ainda é dominador, o que nos anima. - A voz rude se
havia modificado, como que perplexa: - Deita-se na cama, não anda,
e seu gênio...
Lucano esperava, mas Turbo não estava disposto a discutir o
gênio do pai.
- Temos receio de que esteja para morrer disse ele,
simplesmente. - Consultamos os sacerdotes, em nosso desespero. Ele diz
que os sacerdotes são uns imbecis, e nós uns tolos supersticiosos.
O retrato de um velho poderoso e irascível começava a se formar
na mente de Lucano. Sentia-se curioso por ver o paciente e disse isso.
Turbo curvou o dedo e chamou o escravo que estava no portão.
- Desejo ver teu pai a sós acrescentou Lucano.
O escravo conduziu-o para dentro da casa, que era tão
delicadamente bela no interior como no exterior, e fora construída,
desenhada e mobiliada por um mestre. Ali havia de novo beleza e luxo em
escala menor. Lucano refletiu que aquela poderia ser uma vila de
brinquedo de algum cavalheiro romano ou pompeano, e,
recordando a rusticidade dos três irmãos, conjecturou se seria possível
que a mãe deles fosse pessoa de origem humilde, casada com um cavalheiro
de Atenas. Sacudiu a cabeça, olhando os pequenos vestíbulos
iluminados, os murais nas paredes, a brancura dos forros, o belo
mármore das colunas, as cores dos pisos e a excelência do
mobiliário.
Foi levado a um dormitório onde a luz do sol entrava, o piso
polido resplandecendo com seus tapetes persas e liberalmente ornado
de flores. Um velho de grande porte estava deitado num leito de
marfim esculpido, incrustado de couro, com folhas e flores de esmalte. Ao
lado dele estava uma mesa de pernas de marfim, na qual tinham
colocado Uma vasilha de prata, cheia de frutas. Sementes de uvas e caroços
de ameixas bem como miolos de maçãs, tinham sido atirados sobre
um tapete que merecia a admiração de César. Um grande cão de pêlos
castanhos, muito feio e feroz, levantou-se rosnando quando Lucano
424 425
entrou, e o velho sentou-se de súbito na cama, lançando olhares
irados ao médico.
- Quem és tu? indagou, em tom furioso. Lucano percebeu,
imediatamente, que ali não estava um ateniense culto, nem um
erudito, nem um aristocrata. Tudo quanto havia no rosto dos filhos se
reproduzia na face barbuda do pai, e ainda mais. Contudo, o velho era
realmente cheio de vida, e seus ombros e músculos do peito, bem
como os braços encordoados, pareciam os de um forte trabalhador,
que nada conheceu em sua vida além do trabalho físico e árduo, o
qual não lhe causou incômodo algum.
Lucano aproximou-se da cama, sentou-se numa cadeira e pôs o
estojo a seu lado. Sorriu para os olhos impetuosos que eram mais
brilhantes do que os dos filhos e não viu neles a névoa da idade.
- Sou o seu médico disse calmamente. - Seus filhos
chamaram-me.
- Outro! berrou o velho, lançando uma torrente de
obscenidades. - Eles nunca deixarão de gastar o meu dinheiro? Vai embora,
patife!
Lucano cruzou as mãos sobre os joelhos, placidamente. Se o
velho estava enfermo, tal coisa não era evidente. Nem se podia acreditar
que estivesse mentalmente doente, pois não havia incerteza nele, nem
violência sem alvo, nem guinchos em sua voz. Tinha um temperamento
violento, mas sabia controlar sua língua, força animal nas linhas de
seu nariz bulboso e de sua boca, e um temperamento profundamente
desconfiado que traía o camponês analfabeto.
- Deves preocupar-te com a ansiedade em que estão teus filhoS
disse Lucano. - Por isso é que estou aqui. Se não puder ajudar-te,
então nada tens a pagar-me.
As sobrancelhas brancas, tão Ferozes e carrancudas, apertaram-se
sobre os olhos de Flégon.
- Ah! exclamou ele, atirando-se para trás, para os travesseiros
bordados. Estendeu a mão para uma maçã, mordeu-a com os
dentes mais brancos e mais compridos que Lucano jamais vira. Mastigou
selvagemente, depois atirou a maçã para longe. O cão rosnou para
Lucano e começou a andar em volta dele, como um lobo que esperasse
o momento de atacar.
- Meus filhos! gritou Flégon, a voz exaltada, cheia de cólera
e nojo. - Esperam que eu morra, para agarrar meu dinheiro!
Deixa-me dizer-te, médico branco mentiroso e sacudiu um dedo grande e
moreno diante do rosto imóvel de Lucano -, que de mim nada
receberás!
O cão estava começando a deixar Lucano nervoso, de forma que o
médico franziu o cenho e murmurou uma palavra. O animal ficou
imóvel como pedra. Lucano tornou a murmurar, e o cão tombou
subitamente sobre o ventre, descansou a cabeça maciça entre as patas e
fechou os olhos. Vendo aquilo, Flégon disse:
- Um mágico! Um homem que faz encantações! Vieste
envenenar-me!
- Não sou mágico! disse Lucano. - Isto é algo que me foi
ensinado pelo meu primeiro professor, também médico. Pensei
perceber um alarme autêntico em teus filhos. Entretanto, tu falas que eles
esperam pela tua morte e quase os acusaste de me pedirem que te
envenenaSSe.
O velho recostava-se em seus travesseiros, arquejante, os olhos
fixos no chão. Estava assustado.
- Tira-o dessa feitiçaria pediu e eu poderei conversar
contigo.
- Certamente disse Lucano. - Mas ele me perturba andando
em volta de mim e rosnando. Chama-o para junto de ti, e manda
que se deite a teu lado e me deixe em paz.
Estalou os dedos e o cão ergueu-se num salto sobre os pés,
rosnando novamente e preparando-se para se acercar de Lucano. Flégon
chamou-o, com voz rancorosa, e as orelhas do animal abateram-se, ele
choramingou, depois aproximou-se do leito e deitou-se ao lado dele.
Seu dono continuava a olhar para Lucano, com cauteloso respeito e
contínuo medo.
- Falarei contigo disse ele mas isso nada adiantará. É
muito possível que eu esteja sendo envenenado lentamente, por ordem
de meus filhos. Disse isso aos três outros médicos, cujos salários
poderiam resgatar um escravo valioso Mas os três não acreditaram.
Digo-te, também, meus filhos estão esperando a minha morte, estão
planejando a minha morte.
- Então, basta que proíbas que venham a tua casa disse
Lucano.
Ah! Eles subornaram meus escravos.
Algo deslizou sobre o rosto , como óleo, com secreta esperteza.
Entretanto, agora estava disposto a falar, em sua raiva, pois Lucano lhe
prestava grande atenção. Flégon tornou a encher-se de vigor.
426 427
- Deixa-me falar-te de meus filhos, de meus preciosos
filhos. Turbo, o primeiro, é um ladrão. Nasceu ladrão, tem vivido como
ladrão, e morrerá como ladrão.
Estendeu a mão para um cacho de uvas, começou a comê-las com
gosto, cuspindo as sementes. Não oferecera vinho ou qualquer fruta a
Lucano. Fechou os olhos, saboreando o que comia e estalando a
língua. Disse, depois, num tom profundo e carinhoso: - Dos meus
próprios vinhedos, amadurecidas sob o melhor sol. - Abriu os olhos
e fixou-os furibundos em Lucano. - Turbo roubou dos meus cofres,
nesta casa, uma opala das mais valiosas, pela qual me haviam
oferecido uma fortuna. Usa-a abertamente, como bandido que é, no dedo de
sua mão direita, e tu a poderás ver. Sérgio, meu segundo filho, tem a
mente de uma ovelha. E a alma também. Apesar disso, é o mais vil dos
meus conspiradores, e um mentiroso incurável. Quanto a Mele, é
libertino com meu dinheiro. Gasta-o todas as noites nos mais
dispendiosos bordéis de Atenas, e desperdiça o que me pertence com
mulheres dissolutas.
Lucano recordou-se do rosto dos filhos. Apertou um pouco os
lábios, e perguntou:
- Teus filhos são casados, Flégon?
O velho soltou mais blasfêmias e obscenidades.
- Sim, E com mulheres odiosas como eles mesmos, que
escondem sua vilania sob rostos lívidos e palavras doces. Nenhuma delas
trouxe dotes aos maridos. Proibi que viessem a minha casa, bem como
seus rebentos.
Assumiu a expressão de um velho angustiado e indefeso, solitário,
traído e abandonado. Uma lágrima deslizou-lhe pela face.
- Ainda assim falou Lucano -, deste-lhes casas própriaS,
penso eu.
- Disseram-te isso? - Flégon tornou-se imediatamente
cauteloso.
- Não. Eu apenas tirei conclusões. Teria sido esta a atitude de
um pai amoroso.
Flégon suspirou profundamente e deixou que Lucano o visse
enxugar a lágrima com a ponta do dedo.
- Sim confirmou.
- E também lhes deste muito, espontaneamente?
- Sim. Eu vejo, meu jovem médico, que és homem de
compreensão. - Tornou-se excitado, e continuou: - E, em troca de
tudo quanto lhes dei e fiz por eles, nada me deram a não ser ódio,
a não ser roubos, conspirações, mentiras e libertinagens. Estou
abandonado para morrer, para temer pela minha vida, por não
ter outra companhia a não ser a dos escravos.
Sua excitação aumentava. O médico tornou a apertar os lábios.
Havia naquela excitação uma deliberação bem calculada. Lucano estendeu
a a mão para seu estojo médico e dele tirou um frasco que
continha pílulas brancas. Numa taça, deitou um pouco de vinho.
- Não disse Flégon, recuando e encolhendo-se, em recusa
exagerada. - Não posso confiar em ti.
- Muito bem falou Lucano, pousando a taça e a pílula. -
Não precisas tomá-la. Pensei apenas em aliviar as dores de que teus
filhos me falaram.
Depois de um momento tornou a colocar a pílula no frasco.
Flégon pensou um pouco, depois disse:
- Que sentiria eu com esse remédio?
- Já te disse: terias alívio de tuas dores.
Flégon umedeceu o lábio barbado com a ponta da língua.
- Dá-me essa pílula pediu, rudemente.
Com um ligeiro sorriso, Lucano obedeceu. O velho bebeu o
vinho sofregamente.
- Agora disse Lucano deves falar-me de tuas dores,
preciso examinar-te.
Com nova e surpreendente docilidade, e mesmo com entusiasmo,
Flégon respondeu às perguntas e submeteu-se ao exame. Lucano foi
cuidadoso, usando toda a sua experiência. Era o que suspeitava. Flegon
gozava da mais completa e perfeita saúde. Tinha o corpo e o físico de
um homem pelo menos vinte anos mais jovem. Seus músculos pareciam
de ferro, suas juntas eram flexíveis. Lucano chegou a uma
conclusão. Sentou-se e olhou gravemente para Flégon.
- Teu caso não é para ser levado em brincadeira disse, muito
Sério.
Durante um momento, Flégon ficou satisfeito, mas logo depois
falou, assustado:
- Trata-se de doença fatal? - E o tom avermelhado do seu
rosto ficou menos intenso.
Lucano sacudiu a cabeça, com gravidade.
- Não é fatal. Contudo, é um caso que deve ser estudado
cuidadosamente.
428 429
Flégon ficou de novo satisfeito.
- Tu és o primeiro médico inteligente que me visita, juro por
Mitras! Todos os outros ousaram informar-me de que minha saúde
era perfeita e que eu estava tão sadio quanto uma maçã. Que
mentirosos! Que ignorantÕes!
- Pensavam apenas em seus salários disse Lucano,
mostrando solidariedade.
- Isso, isso! - Colocou a mão no peito e revirou os olhos. - A
dor já está deixando meu coração! Ele se está aquietando, e já não
salta. Não posso dormir durante a noite porque minha garganta e as
minhas têmporas latejam.
Lucano não duvidou de que o velho realmente sofresse daquilo.
Seu pulso mostrava-se forte demais, rápido demais, a pressão muito
alta, apesar dos sons cardíacos normais. O médico levantou-se.
- Desejo conversar com teus filhos falou.
Flégon olhou para ele, astutamente:
- E que lhes dirá?
- Que tUa... doença... merece toda a consideração e deve ser
cuidada imediatamente.
Flégon remexeu-se, instalou-se melhor nas almofadas.
- Deixa, então, que seus corações se aflijam! Deixa que passem
noites sem dormir, sabendo o que fizeram, em sua avidez e ódio. Deixa
que sintam a cólera dos deuses, que recomendaram ao homem: honra
teus pais!
Lucano deixou o quarto e caminhou lentamente através da casa,
que tomava cada vez mais o especto de uma jóia preciosa, a seus olhos.
Foi para o jardim. Os três filhos ergueram-se agitados, de seu banco,
e vieram imediatamente ao encontro dele.
- Que se passa com meu pai? indagou Turbo, e sua voz rude
estava trêmula.
Lucano observou os três. Relanceou os olhos para a mão direita de
Turbo e viu que o mais maravilhoso anel de opala estava no dedo
indicador do rapaz. Brilhava com luzes róseas e azuladas, e parecia conter
crepúsculos dourados. Olhou para Sérgio, para seu rosto sadio e
ansioso, para sua expressão sincera. Olhou para Mele, que parecia menos um
freqüentador de bordéis do que o cão de Flégon. E franziu as
sobrancelhas, e depois fingiu voltar ao presente, com um sobressalto.
- Deves perdoar-me disse. - Mas sou um admirador de
opalas, e vejo em tua mão, Turbo, uma delas, e maravilhosa.
Turbo, durante um momento, ficou perplexo, pois era evidente
que sua mente estúpida não se movia com grande agilidade. Depois,
seus olhos pequenos brilharam de orgulho e ele estendeu a mão para
que Lucano pudesse admirar a jóia.
- É muito antiga e tem grande tradição disse ele. - Minha
esposa descende de respeitada linhagem de eruditos. Seus
antepassados receberam este anel do próprio Péricles. - Suspirou: - Não sou
homem culto. Mas respeito este anel de todo o meu coração, e vou
deixá-lo a meu filho quando morrer. Não queria aceitá-lo de minha
esposa, mas nós nos amamos ternamente, e ela o colocou à força no
meu dedo.
Sérgio falou, pela primeira vez, e sua voz enferrujada mostrava
tratar-se de homem de poucas falas. Disse a Turbo, afetuosamente:
- Foi no décimo aniversário de teu casamento que tua esposa te
deu esse anel, meu irmão. Fica-te bem, embora não sejas um erudito.
Teu filho, contudo, há de trazer honra a teu nome.
Turbo suspirou:
- Ainda assim, meu pai deseja muito este anel. Muitas vezes fico
pensando se não sou um filho desobediente por não o dar a ele de
presente.
- É teu, e de teu filho disse Mele, também falando pela
primeira vez. Tua esposa ficaria magoada se desses o anel a meu
pai. É preciso ter consideração para com as mulheres.
Lucano sentou-se no banco, mergulhado em seus pensamentos.
Turbo corou profundamente, de súbito, e bateu as mãos.
- Deves perdoar-me, Lucano disse ele. - Eu deveria ter
mandado vir vinho para ti, mas estava pensando apenas enu meu pai.
Um escravo apareceu e ele ordenou-lhe que trouxesse vinho.
- Meu pai vai ficar zangado disse Mele. - Tu mandaste vir
o melhor vinho.
Turbo falou, e agora havia nele uma dignidade nova:
- A adega de meu pai pode ser pequena, mas é uma das
melhores de Atenas, e eu a mantenho bem abastecida. Ele pode fornecer um
Pouco de vinho a Lucano. Mas ainda não me disseste, Lucano, qual é
a terrível moléstia que aflige meu pai.
O médico falou:
- Sabe-se que a doença de um homem não pode ser separada
daquilo que ele é e de seu ambiente. Primeiro preciso fazer-vos algumas
Perguntas, que desejo me sejam respondidas com toda a sinceridade.
430 431
- Perguntas! exclamaram os irmãos, em coro, e Lucano viu,
pelas suas expressões, que não era fingida a ansiedade de seus rostos,
e que a afeição dedicada ao pai mostrava-se neles profunda e sem
afetação. O rosto do rapaz tornou-se, de certa forma, tristonho.
O escravo trouxe uma bandeja de prata com quatro taças, e Turbo
serviu o vinho, observando ansiosamente Lucano para ver se ele o
apreciaria. A bebida era deliciosa, e Lucano foi sincero em sua
apreciação. Os três irmãos rodearam-no e beberam com o que
aparentemente esperavam fosse o mais aristocrático dos gestos de apreciação...
e com comedimento.
- Vosso pai disse Lucano, depois de uma série de sinceros
cumprimentos deve ter herdado muito dinheiro e indicava o
jardim e a casa.
Os irmãos relancearam os olhos uns para os outros e hesitaram.
Turbo então ergueu a cabeça:
- Há pessoas que escarnecem dos humildes murmurou ele.
- É privilégio delas, embora estejam erradas. Somos pessoas
humildes, mas ganhamos bem e fizemos nossas fortunas. Meu pai era muito
pobre, embora livre. Teve uma pequena fazenda, seca, e de terra má.
Meus irmãos e eu não nos podemos recordar de um dia, em nossa
infância e adolescência, em que nos sentíssemos bem alimentados,
embora todos trabalhássemos pesadamente com nosso pai. Nossa mãe
morreu quando éramos crianças.
Turbo corou e tossiu.
- Tu nos pediste que fossemos sinceros. Meus irmãos e eu
demos esta casa a nosso pai, cinco anos atrás. Ele jamais tinha morado
numa casa que não fosse humilde e marcada pela pobreza. Tomamos
para o trabalho os melhores arquitetos. Desejávamos dignificar a
velhice de nosso pai, recordando-nos de seus sofrimentos; do telhado
cheio de goteiras de sua casa e do piso sujo. Desejávamos que ele
tivesse os deleites e luxos que merecia.
- Nada achávamos que fosse bom demais para ele disse Mele. o
rosto simples iluminando-se. - Mandamos buscar tesouros de todos oS
pontos da terra, a fim de ornar esta casa. Nunca em sua vida ele tivera
nada de seu, em particular, nem a dignidade de um lar que não se
mostrasse cheio de crianças e de animais. Bastava que ele dissesse o que
desejava, e nós lhe dávamos imediatamente, pois é nosso pai e sofreu muito.
- O mobiliário disse Sérgio custou-me dois anos de
rendas. Tive orgulho de poder dar a meu pai essa satisfação.
- Estou vendo falou Lucano, compassivo. - Vosso pai não
teria preferido ,morar com um de vós?
- Não. É homem orgulhoso e não gosta de crianças, e temos
muitas. Queria uma casa sua. - E Turbo sorria, compreensivo.
- E fazeis fortunas? perguntou Lucano, que estava
intensamente interessado.
- E honestamente afirmou Turbo, bem depressa. - Os deuses
nos foram muito bondosos. Fazemos sacrifícios, regularmente, em sua
honra. As coisas aconteceram assim: quando eu era jovem e trabalhava
na fazenda, percebi que corria o perigo constante de passar fome, até
mesmo miséria. Tinha grande admiração pela boa cerâmica, que era
exposta nas lojas. Assim, aprendi com um ceramista, famoso pelos
seus belos vasos e estatuetas, bandejas e trabalhos em camafeus, feitos
em branco, sobre o mais profundo tom vermelho, ou azul. Depois de
alguns anos, ele expressou sua admiração pelo meu trabalho,
declarando que eu tinha a mão mais segura e sentimento de arte e beleza.
- Olhou para Lucano, desafiante: - Não acreditas nisso?
Lucano estendeu a mão, tomou a de Turbo, e examinou
delicadamente os seus dedos. Maltratados como estavam pelos infinitos anos
de uma juventude dedicada a trabalhos pesados, os dedos tinham a
forma espatulada que marca o verdadeiro artista.
- Sim respondeu, respeitosamente. - Acredito em ti.
- Obrigado falou Turbo, com uma humildade que era, em
si mesma, inocente orgulho. - E aqui estão meus irmãos. Eu
consegui que o ceramista os empregasse. Sérgio revelou extraordinário
poder para produzir formas, invariavelmente perfeitas, quase sem
perdas. Ele ainda faz girar o torno, pois não confiamos em outro para isso.
E Mele inventou um polimento que é nosso segredo.
"O ceramista, que não tinha filhos, deixou-nos sua fábrica. E
nossa mercadoria é procurada no mundo inteiro, mesmo em Roma.
Temos uma frota de navios que nos pertence; e empregamos muita
gente e muitos escravos. Se pudéssemos produzir o dobro do que
produzimos, poderíamos vender todas as bandejas e vasos e objetos de
arte, mas com isso sacrificaríamos nossa alta qualidade. Preferimos
manter a fábrica do menor tamanho possível de forma que nosso
produto não deixe de receber inspeção pessoal nossa, pois todos levam
nosso nome, e ninguém, em parte alguma, deve ficar desapontado.
Estava em pé, e parecia ainda mais alto.
- O palácio de César está cheio de trabalhos nossos. Os vasos
432 433
têm preços iguais aos das jóias, e urnas funerárias são compradas
pelos grandes patrícios de Roma.
- Infelizmente disse Mele, com tristeza nosso pai
escarnece de nosso trabalho e não permite que sequer a cabeça de um deus
feita por nós apareça nesta casa.
- Mas os egípcios declaram que só seus antigos artistas podem
comparar-se conosco falou Sérgio, os olhos iluminados. - Têm
nos mandado objetos que estimam muitíssimo, a fim de que os
copiemos para eles. Nossas estatuetas de Apis* e cabeças de Isis estão nos
mais resplandecentes de seus templos. Mas é Turbo quem as desenha,
quem produz o pergaminho de onde eu as copio. E é Mele quem lhes
dá o polimento.
- Sem o polimento, e tua magistral compreensão do meu
desenho, o que faço não tem valor disse Turbo. Suspirou: - Meu pai
nos considera tolos inúteis continuou -, embora as grandes
damas de Roma, do Egito e de Atenas usem nossos medalhões ao
pescoço, em correntes consteladas de pedrarias, ou os mandem incrustar em
braceletes de valor inestimável. Certo senador famoso compra nossos
vasos ejura que os prefere às mais belas de suas escravas. Deves
perdoar-me se pareço e star lançando gabolices, Lucano.
Este nada disse.
- Talvez continuou Turbo, timidamente tu me
permitisses mandar-te de presente alguns de nossos trabalhos.
O jovem grego ficou emocionado e disse:
- Eu ficarei em débito para convosco. - Depois, ergueu a
cabeça: - Preciso fazer perguntas grosseiras, e peço-vos que as respondais.
Por que amais vosso pai?
Os homens ficaram a olhá-lo, boquiabertos, com espanto sincero,
durante alguns momentos. Então, Turbo gaguejou:
- Por que nós o amamos? É uma pergunta estranha! Não foi ele
quem nos deu vida e nos tornou possível termos o que temos, nossas
adoráveis esposas e nossos filhos amorosos? E não está recomendado
que um homem deve honrar seus pais?
Lucano recordou-se do Mandamento dos judeus: "Honra teu pai
e tua mãe..." Mas, ainda assim, havia pais que não mereciam ser
honrados.
___
* Boi sagrado, que os egípcios consideravam como expressão da divindade
sob a forma animal. (N. do T)
___
Turbo, calorosamente, falou:
- Meu pai também não sofreu bastante? Bem pouco é que
possamos aliviar e tornar mais alegres os dias de sua velhice, pois ele
nunca pôde satisfazer o estômago, quando era jovem, e nunca usou
senão andrajos.
Lucano meditou na estranheza e na inocência do amor, e como o
amor pode ser explorado pelos indivíduos brutais. Levantou-se.
- Preciso dizer de novo uma palavra a vosso pai. Dei-lhe um
remédio. Mas isso eu vos posso dizen quando eu tiver ter ninado a
consulta e feito a prescrição, a saúde dele estará recuperada por
muitos anos, pois é um homem forte.
Os irmãos chamaram sobre ele muitas ejubilosas bênçãos, e Lucano
deixou o jardim. Dirigiu-se até o dormitório de Flégon. O velho estava
consideravelmente calmo, encostado tranqüilamente em seus
travesseiros, e quando viu Lucano levantou de leve a cabeça e deu ao
médico um sorriso quase agradável.
- Minha dor passou disse ele. Depois, o rosto modificou-se,
fez-se mais uma vez enigmático e desconfiado. - Falaste com meus
filhos?
Lucano sentou-se deliberadamente e serviu-se de um cacho de
uvas, fixando durante todo o tempo seus brilhantes olhos azuis no
rosto de Flégon. Depois de alguns momentos o rosto do homem
tornou-se sombrio e estúpido.
- Eles te mentiram acrescentou, com algo de monótono na
voz alta.
- Acho que não disse Lucano. - Há muitos anos sou
médico, e os médicos adquirem um sentido a mais que os possibilita
perceber mentiras. - Seus olhos estavam cheios de ressentimento. Apesar
disso, também tinha pena de Flégon, que podia invejar os filhos,
ressentir-se de seus sucessos, posição e fama, pois fora apenas um pobre
camponês analfabeto. Além disso, era bem evidente que ele sabia ser
amado pelos filhos e por isso os atormentava.
- Vai embora disse Flégon, abruptamente, virando a cabeça
no travesseiro, erguendo seus ombros poderosos. - Sou um velho
fraco, abandonado, enganado, solitário. Deixa-me com os meus
deuses, pois pelo menos eles são os únicos consoladores dos homens.
- É verdade disse Lucano. - Mas eu duvido que acredites
nos deuses. Vou dar a teus filhos alguns bons conselhos, antes de
deixar esta casa. Vou dizer-lhes quem na realidade és tu, e o que ho-
434 435
nestamente pensas deles. Sugerirei, também, que te levem de volta a
tua pequena fazenda, e nunca mais te visitem, pois acredito que isso
será melhor para eles, para sua paz de espírito. Há ocasiões em que os
filhos devem abandonar os pais, por amor deles próprios.
Flégon teve um impulso, erguendo-se da almofada; os dentes
apareceram entre os lábios barbudos, e os olhos faiscaram com o mais
selvagem medo, com ódio.
- Tu me destruirás! bradou, amaldiçoando Lucano numa
linguagem tão expressiva que o médico admirou seu sabor e
imaginação. Esperou, pacientemente, até que Flégon se exaurisse, e
explodisse em lágrimas verdadeiras. Depois disse com bondade:
- Não farei isso, não desiludirei teus filhos a teu respeito, se me
obedeceres imediatamente, e continuares a me obedecer.
- Maldito sejas gritou Flégon. - Possam os abutres
dilacerar teu fígado!
Parou, percebendo que Lucano não se mostrava impressionado,
antes um tanto entediado. Depois, choramingou:
- Dize-me o que devo fazer. Mas, bom médico, tem piedade de
um velho! Seria capaz de mandar-me de volta para aquele miserável
retalho de terra, que está cheio de pedras e espinhos, para viver de
novo meus dias na miséria?
- Farei isso, com certeza afirmou Lucano. A não ser que
obedeças. O primeiro passo é saltar agora mesmo dessa cama, vestir-te
com tuas melhores roupas, pendurar um ornamento ao pescoço.
Então, irás para o jardim comigo, para cumprimentar teus filhos como
um pai amoroso, beijando-os e abraçando-os. E irás fazer-me um
juramento, aqui em segredo, de que jamais tornarás a mentir a teus filhos,
nem os censurarás falsamente, e nunca mais fingirás estar doente para
despedaçar-lhes o coração. - Parou, depois rematou, com
severidade: - O juramento que te peço é o mais sério dos juramentoS pOiS,
embora não acredites nos deuses, há magia nele e, se o violares,
alguma desgraça monstruosa tombará sobre ti.
Flégon arregalava os olhos para ele, tomado do mais completo
terror, e Lucano ria interiormente, mantendo os lábios apertados para
evitar uma gargalhada.
Flégon atirou para o lado a colcha e saltou da cama, pálido e
trêmulo, nu e grande, como um Hércules ancião, seus múscUlOS
morenos movendo-se como seda. Com mãos tiritantes vestiu-se, usando
uma túnica do mais fino linho, comprida, presa à cintura esbelta com
um cinturão de ouro, e colocou braceletes de ouro nos braços. Pendurou
um ornamento ao pescoço. Penteou os compridos caracóis
grisalhos e a barba. Ficou magnífico.
Então, Lucano administrou-lhe um juramento fantasista, que
inventou na hora, chamando os deuses para ouvi-lo, enquanto Flégon
se ajoelhava diante dele. Finalmente, aspergiu o velho com algumas
gotas de vinho e tornou a adverti-lo severamente. Ajudaria o velho a
erguer-se, mas Flégon saltou sobre os pés como um atleta, e apertou
seugrande punho nodoso contra o peito.
- Sou algum inválido? perguntou, com voz trovejante. -
Posso ter idade para ser teu avô, médico dissimulado, mas poderia
partir-te a espinha com minhas próprias mãos.
- Acredito disse Lucano. Toma cuidado, daqui por
diante, para não partires o coração de teus filhos, pois sobre ti cairia
imediatamente a desgraça.
Deu a Flégon o frasco que continha as pílulas brancas.
- Isto te acalmará por algumas noites, durante as quais ,disse
Lucano, virtuosamente poderás refletir com serenidade sobre teus
pecados.
Flégon caminhou através da casa em grandes passadas, seguido
por Lucano. O velho parava aqui e ali, a fim de chamar
orgulhosamente a atenção do médico para alguns objetos inestimáveis, que
Lucano admirava com a devida atenção.
- Observarás disse Flégon, estufando o peito que meus
filhos não são para serem desprezados.
Seu rosto largo resplandecia; subitamente, ele se libertara da
inveja e do ressentimento, e Lucano ficou a meditar em quanto seriam
felizes os homens se se libertassem da baixeza, do ódio e da
malícia.
Entraram no jardim e os filhos ficaram estupefatos e emocionados
quando viram seu vigoroso pai apressando-se em direção a eles. Seus
olhos encheram-se de lágrimas e nem puderam falar. Tombaram aos
pés dele, humildemente, e ele os ergueu com grandes gestos, como se
os perdoasse, mas, na verdade estava perdoando a si próprio, como
Lucano bem compreendia. E abraçou e beijou um por um, gozando
seus abraços que o perdoavam.
- Que médico, este! exclamou Flégon, os braços a rodear os
filhos. - Que presente lhe poderemos dar por ter-me restituído
imediatamente a saúde?
436 437
Antes que Turbo pudesse responder entusiasticamente, Lucano,
o rosto sério, disse:
- É uma bênção quando aquele que foi aliviado pelo seu
médico lhe dá um presente de suas próprias mãos.
Flégon, com um sorriso jubiloso, pensou um pouco. Mas ainda
era um camponês, com a sovinice do camponês. Então, como se
chamasse toda a gente a testemunhar um ato de supremo sacrifício, tirou
um bracelete do braço, peça ricamente ornada de pedras preciosas, e
meteu-o nas mãos de Lucano. Seus olhos pestanejavam, cheios de
lágrimas.
- Que os deuses te abençoem! disse, em voz rouca, e com
toda a sinceridade.
34
Lucano foi reconduzido a casa na liteira de Turbo, e viu-se sorrindo,
satisfeito. Cogitava em quantos de seus pobres pacientes estariam à
espera de seu tratamento. Ramo trataria bem disso, pois tinha a mais
terna das piedades e as mãos muitíssimo hábeis. Era amado, apesar da
sua Cor, da qual os gregos desconfiavam. Lucano refletia sobre
os gregos modernos, que viviam das passadas glórias de seu país, e
exaltavam-no, embora não estivessem agora produzindo grandes homens.
Por quê? O poeta Ésquilo* escrevera: "Deus nunca é um anteparo.
Não há defesa para aqueles que desprezam o grande altar da justiça de
Deus!"
Ficou surpreendido ao perceber o silêncio que reinava em torno
de sua casa, quando despediu a liteira. A porta do jardim estava aberta
para trás, estalando ao vento áspero e seco, e parecia o eco de cena e
incompreensível desolação que viesse da casa. O jardim mostrava-Se
vazio; não havia pacientes à espera, ali. Uma como que mudez
suspendia-se sobre tudo, tal como o faria uma ausência. De súbito,
Lucano sentiu que seu coração batia muito depressa, e correu para o jardim,
chamando pelo nome de Ramo. Então, viu que algum mal havia tom-
___
* Chamado o pai da tragédia grega. Pensador e poeta lírico (525-456
a.C.). (N. do T.)
___
bado sobre seu pequeno e bonito jardim: a pequena estátua de Eros,*
que enfeitava o tanque cheio de lírios, fora derrubada na água e
esmagada. Os canteiros foram pisados brutalmente, galhos arrancados
das árvores e frutas espalhadas. As moitas de jasmins estavam atiradas
ao chão, e agora ele via uma grande mancha negra nas paredes de sua
casa como se um fogo se tivesse elevado ali, logo apagado.
Correu para dentro da casa, a cabeça trovejante com um ruído
interior. Também ali reinava a destruição. Poucas cadeiras, a mesa,
sua cama, e a cama de Ramo tinham sido atiradas e despedaçadas. Os
quadros, que ele próprio pintara e pendurara nas paredes brancas,
haviam sido arrancados e pisados, as molduras, inutilizadas. Suas
vasilhas e panelas estavam destruídas. O armário onde guardava a maior
parte de seus instrumentos cirúrgicos fora aberto, e não havia
instrumentos ali; os frascos conservados tão cuidadosamente estavam
quebrados, seus sacos de ervas abertos, as ervas espalhadas. E, sobre tudo,
suspendia-se abandono e desolação.
Atônito, Lucano pôs a palma das mãos na cabeça e ali ficou
estático. Olhava em volta de si sem acreditar no que via, pestanejando. Por
que aquele vandalismo? E onde estava Ramo, seu amigo, seu auxiliar?
Começou a correr pela casa, gritando, as pernas trêmulas. Pensava,
confusamente, que os médicos de Atenas, sempre ciumentos dele, e
desprezando-o, tivessem feito aquilo, mas seus pensamentos
espalhavam-se, num emaranhado desespero. Ramo não estava na casa. Mais
uma vez correu para o jardim, depois para os muros, tão maltratados.
Foi ali, finalmente, caído e sangrando, que encontrou Ramo
inconsciente. Ajoelhou-se ao lado dele, chorando alto, pois viu que Ramo
não só fora espancado da maneira mais selvagem, mas algum
instrumento agudo chicoteara a parte superior de seu rosto, e de seus olhos
corria sangue. Estava cego. Aqueles olhos, inconscientes e cegos,
voltavam-se para o céu ardente de luz.
De início, Lucano pensou que ele estivesse morrendo. Levantou-o
contra seu peito, e febrilmente examinou-o, tateando-lhe o pulso.
Estava muito fraco e irregular, mas o negro ainda tinha vida. Lucano,
a cabeça girando como num pesadelo, deitou delicadamente o amigo
de novo no chão e correu para dentro de casa, em busca de seu estojo
médico, com o qual voltou. Deu estimulantes a Ramo mantendo sob
seu nariz uma garrafa de cheiro pungente, forçando líquidos entre
___
* O deus do amor, Cupido. (N do T)
438 439
seus lábios entreabertos. Trabalhava febrilmente, cem nada mais
pensando senão em salvar seu amigo. Repetia baixinho para si mesmo,
uma e muitas vezes: "Isto é um sonho! Isto não aconteceu! Ninguém
maltrataria uma alma tão boa! Ninguém faria uma coisa destas à
minha casa!"
Não ouviu passos que se aproximavam, e levou um susto violento
quando uma voz rude e assustada falou a seu lado:
- Senhor, eu fugi quando eles fizeram isto... tive medo..,
estavam tão furiosos... Perdoa-me... Oh! que fizeram a este pobre
homem?...
Lucano levantou os olhos azuis, que estavam selvagens e dilatados.
Viu que seu visitante era um pobre camponês de cuja esposa
estava tratando com bons resultados.
- Síton! disse ele, a voz rouca. - Que é isto? Quem fez isto?
Síton acocorou-se junto dele, as lágrimas correndo pelo rosto
queimado de sol. Mas, respondendo, mantinha o olhar assustado por cima
do ombro.
- Senhor, se eles soubessem que eu voltei para te contar,
também me matariam. Procuravam-te.., teriam te assassinado.., era uma
mulher, Gata, que disse ter Ramo olhos maus... há muito tempo
ouvira dizer isso na cidade... ela teve um aborto, e seu marido levantou o
povo contra ti.
Agora Lucano, fel em sua garganta, compreendia. O marido de
Gata era um camponês próspero, com muitos e excelentes vinhedos,
um homem mau, hipócrita e mentiroso, que se lamentava
constantemente, dizendo-se oprimido pelos ricos e poderosos de Atenas, que
não lhe pagavam o justo preço pelas suas uvas. Entretanto, era o mais
rico de todos os camponeses, em muitas milhas ao redor, e sua avidez
fizera-se bastante conhecida. Ele, com a esposa e filhos, vivia em
aposentos que porcos teriam desdenhado, embora suas contas de ouro
nos ban os da cidade fossem a inveja dos advogados, dos médicos, dos
legisladores e dos escribas. Duas semanas antes trouxera sua espOSa
desleixada, de olhos suínos, para que Lucano a tratasse, declarando-se
inteiramente pobre, impossibilitado de pagar qualquer quantia pelO
parto de seu quinto filho. Acreditara que, vivendo tão longe dele, o
médico nada soubesse da sua fortuna, mas um paciente sussurrara aos
ouvidos de Lucano, e este dissera friamente ao homem que ou ele
pagaria uma quantia muito modesta ou teria de ir a um outro médico
da cidade, cuja cobrança pela consulta seria dez vezes maior. Os dois
tinham ido embora, guinchando ameaças e sacudindo os punhos
fechados, chamando Lucano de ladrão e opressor.
- Veio aqui hoje, em tua ausência, senhor chorava Síton,
ainda olhando medrosamente por sobre o ombro. - Sabes que ele
tem os camponeses à sua mercê, pois que lhe devem muito dinheiro.
No ano passado apenas os vinhedos dele produziram, e os dos outros
deram pobre colheita. Aparentemente, estivera vigiando para arranjar
uma ocasião em que não estivesses em casa... Veio logo depois que
partiste, e declarou aos pacientes que estavam à espera que tu usavas a
eles todos para experiências maldosas, que eras um feiticeiro, que eras
homem muito rico desejando a morte dos pobres, pois sabes que os
médicos de Atenas têm estado pleiteando o controle dos nascimentos
entre os miseráveis. Compreendes quanto são inflamáveis os homens
estúpidos e ignorantes de mente, como acreditam depressa no mal e
na malícia, embora tu os tenhas ajudado tantas e tantas vezes durante
estes anos e os tenhas curado. O marido de Gata disse que havia em
tua casa ouro de procedência escusa, que pertencia ao povo...
Síton olhou para Ramo, que estava começando a gemer, em
agonia. O camponês fungou, limpou o nariz e os olhos com as costas da
mão, enquanto Lucano se conservava ajoelhado, estupidificado.
- Eu estava aqui, senhor, por causa dos meus furúnculos, que
estavas fazendo desaparecer. Que podia eu fazer diante daquela turba
que gritava, que pedia a tua morte ou o teu banimento? Atacaram
Ramo e deixaram-no como morto... Senhor, precisas ir embora daqui
imediatamente. Eles voltarão e hão de matar-te.
Lucano respirou profundamente.
- Ajuda-me a levar Ramo para dentro e arranja-lhe a cama.
Preciso pensar.
- Senhor, deves partir imediatamente!
- Ajuda-me. E enquanto levo Ramo para casa, corre já, se tens
alguma misericórdia e gratidão, até a casa de Turbo, o ceramista, e
dize-lhe que Lucano, o médico, suplica-lhe que lhe envie uma liteira
para meu amigo, e que nos dê abrigo em sua casa.
Por trás do remoinho trovejante e da angústia de sua mente, um
pensamento frio surgiu. Não tinha amigos entre os miseráveis que
socorrera. Não se associara com os homens ricos, educados e inteligentes
de Atenas. Turbo era sua única esperança.
Síton hesitava. Levantou-se torcendo as mãos. Choramingava:
- Senhor, se eu te ajudar eles se vingarão em mim!
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Lucano levantou-se. Ficou de pé, mais alto do que o camponês, e
seus olhos ardiam de ódio e nojo.
- E eu te digo, Síton, que, se não me ajudares, um mal maior
cairá sobre ti!
Síton olhou para ele, meio acocorado diante do médico, vendo a luz
terrível no rosto do outro, e não duvidou do que Lucano dizia nem por
um só momento. Soluçando, ajudou Lucano a erguer Ramo e a levá-lo
para dentro de casa, depois fugiu. Lucano meteu uma adaga aguda em seu
cinturão, apertou os punhos, e sentiu-se cheio de ódio. Voltou sua
atenção para Ramo, esparramado na cama. O homem moreno gemia, tornava
a gemer, e agitava-se levemente. Lucano examinou-lhe os olhos, e tornou
a chorar. A córnea estava dilacerada e sangrando, as pupilas torcidas e
apertadas. Ramo ficaria cego da mesma maneira que era mudo. O coração
de Lucano torcia-se e latejava, mas suas frias mãos de médico iam tratando
dos olhos arruinados enfaixando-os. De novo administrou estimulantes,
embora pensasse: Seria melhor que ele morresse do que acordasse para
saber que os homens são animais que só merecem a morte. Os homens
ricos, poderosos e privilegiados, não são maiores em sua maldade do que
os oprimidos, escravizados e sem lar. Fui um ingênuo!
Sentia-se destituído de tudo, vazio e seco como o pó. O ódio era
nele como um poço escancarado, esperando para devorar a maldade
que era o homem, e escondê-lo para sempre. Sentou-se ao lado de
Ramo, segurando-lhe a mão fria, as lágrimas rolando-lhe pelas faces.
Sara escrevera-lhe, alegremente, dizendo-lhe que seu nome era
abençoado em todos os portos e que os pobres o adoravam. Lucano riu
alto, amargamente.
A mão de Ramo foi se aquecendo na sua, os lábios mudos
moveram-se sob as ataduras brancas dos olhos. Lucano curvou-se sobre
ele, e disse, delicadamente:
- Tu me ouves, querido amigo?
A cabeça moveu-se, em resposta; os gemidos roucos Continuavam,
e Lucano reparou, pela primeira vez, que Ramo, afinal, podia
articular alguns sons, embora fossem apenas gemidos.
- Vamos receber auxílio, Ramo. Fica tranqüilo. Seremos
levados para um lugar seguro.
Procurou seu estojo e dele tirou um frasco com xarope de ópio.
Ramo devia dormir, não devia começar a pensar no que lhe acontecera,
e nas pessoas que o espancaram. Levou o frasco aos lábios de
Ramo e disse:
- Bebe um gole.
Ficou a pensar no porquê de não lhe dizer: "Bebe tudo!" Mas seu
treinamento de médico advertia-o, embora seu espírito se sentisse
amargurado para além de qualquer apreciação. A morte seria
misericordiosa, mas ele era constrangido a evitá-la. Depois que Ramo bebeu e se
tornou sonolento, Lucano ainda ficou sentado, segurando-lhe a mão,
e o outro finalmente adormeceu, um leve sorriso de paz em seus lábios
grossos.
Pareceu a Lucano que demasiado tempo se passara. Teria o
acovardado e ingrato Síton tido receio de obedecer-lhe? Não duvido
disso, pensou Lucano. São cães, ovelhas e chacais, por natureza. Não
mais terei piedade deles, e lhes voltarei as costas pelo resto de minha
vida. Minha vida terminou. O que restar eu devotarei ao meu pobre e
afetuoso amigo, e serei seus olhos e sua voz. Tocou em sua adaga, e
teve desejo de usá-la, como uma outra adaga fora usada em Ramo.
O imenso e brilhante silêncio envolveu a casa. Lucano colocou os
dedos, ternamente, sobre os olhos enfaixados, e sussurrou:
Eu Te escarneci e Te odiei porque fazias sofrer os homens, e não
tinhas piedade deles e os deixavas nas trevas. Mas agora sei que és
severamente justo e que não merecemos senão o que temos, e ainda
menos do que temos. Se Tu rejeitaste o homem, é porque ele não
merece aceitação. Dá-me alguma sabedoria. Deixa-me raciocinar o
porquê de teres criado este mundo, o porqê de seres onisciente, e de
teres sabido o que o mundo seria, e quão detestável seria. Como podes
Tu, que lançaste as constelações radiosas sobre as trevas, perdoar-me
pelas minhas blasfêmias contra Ti? Ilumina-me! E tem piedade deste
bom, deste querido amigo, que tem estado à Tua procura e chorado
por Ti, até perder a voz. Tem piedade! Piedade!
Seus dedos, sobre os olhos enfaixados, começaram vibrar
misteriosamente. Desejou retirá-los, temeroso de renovar as dores de Ramo.
Mas parecia estar paralisado, e o delicado estremecimento de seus
dedos permanecia sobre as faixas. Finalmentt, depois de longos
momentos, pôde levantar as mãos. Havia nelas uma fraqueza estranha,
um entorpecimento, que começou a correr pelo seu corpo como se o
Sangue dele se estivesse esvaindo.
Houve súbita movimentação no pátio e no jardim, o pisar de pés
decididos, e Lucano saltou e puxou a adaga para fora da bainha.
Sentia o desejo apaixonado de matar, como fome em suas entranhas. A
cortina despedaçada viu-se posta de lado e foi Turbo quem entrou,
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Turbo, de rosto transtornado e manchado de lágrimas. E atrás dele
estavam escravos armados. Ao vê-lo, Lucano começou a soluçar,
soluços sem lágrimas. Estendeu os braços e cambaleou em direção do
ceramista, e Turbo tomou-o nos braços, apertando-o contra o peito.
- Não te aflijas, querido senhor disse o ceramista. - Estou
aqui para levar-te, e também ao teu servo, à minha casa. E sinto-me
honrado!
35
O procônsul romano em Atenas era um homem jovem, ambicioso e
expedito. Jamais fora soldado, e sua família era grande em Roma. Lá
ele cometera consideráveis indiscrições, o que tornara necessário que
a família usasse dinheiro e influência para tirá-lo de Roma por algum
tempo. Fora educado para as leis e era muito inteligente.
Lucano, durante toda aquela semana, estivera atirando o nome de
seu pai adotivo ao rosto do procônsul, quando pedia justiça. O
procônsul, embora admirasse a aparência, o intelecto e a força de
Lucano, achava o grego muito tedioso. Lucano era, evidentemente,
um cavalheiro, e o procônsul, que também o era, estava inclinado a se
mostrar indulgente e grave. Mas o assunto era tão insignificante! O
procônsul reclinava um cotovelo elegante sobre a mesa e ficava a olhar
bondosamente para Lucano. Atrás dele, em seu gabinete de trabalho,
as flâmulas de Roma pendiam majestosamente, e os soldados
perfilavam-se com as faces que as águias imperiais rematavam.
- Meu caro Lucano dizia o procônsul, melifluamente. -
Compreende-se, como te disse, tua indignação. O camponês rico de
que se trata está arrependido e disposto a pagar os reparos da tua casa.
Que mais desejas? Está disposto a pedir-te perdão em público, e
confessa que sua mulher tentou pessoalmente o aborto. Ajoelhará diante
de ti. Chorará a teus pés. Sejamos razoáveis.
Lucano olhou-o com toda concentração possível de seus furioSOS
olhos azuis.
- Eu quero que ele seja punido. Quero que seja sentenciado a
um longo período na prisão. Que adianta o arrependimento dele para
meu amigo Ramo, que ficou cego? As lágrimas do camponês lhe
restituirão a vista e removerão seus ferimentos e contusões?
- Tu és tão inexorável suspirou o procônsul. Ofereceu-lhe
vinho, mas o grego o recusou com um gesto de desdém. - Consideremos,
Lucano. Teu servo, um negro escravo...
- Já te disse, milhares de vezes, que ele não é um escravo! -
gritou Lucano. - É verdade que o acusaram erradamente de uma
tolice qualquer e ele foi aprisionado. Comprei-o, e já te mostrei os
papéis de sua liberdade, liberdade que lhe dei! Como podes pedir-me
que aceite o arrependimento do camponês por ele? Se tivesse
injuriado minha pessoa, talvez eu chegasse a perdoá-lo. Mas não tenho o
direito de oferecer perdão em nome de meu amigo, que não só é mudo,
mas agora está cego. Onde está a justiça romana? continuou ele,
amargamente. - Toda a minha vida ouvi falar na justiça romana, e
meu pai adotivo a reverenciava: "justiça igual para todos os homens!"
Que falsidade! Que mentira!
O procônsul tornou a suspirar:
- Teu servo não é apenas um negro, mas um bárbaro. O
camponês é um cidadão da Grécia, embora eu pense, particularmente,
que os gregos são superestimados. Estou falando dos gregos
modernos, que se alimentavam da reputação dos seus antigos grandes
homens como as bancarrotas se alimentam do seu capital. Deixa-me
ler-te uma regra e um regulamento. - E apanhou um manuscrito, do
qual leu: - "Um cidadão de Roma, ou um cidadão de qualquer país
que esteja sob a jurisdição da Pax Romana, em certos direitos de
dignidade, recurso à lei e à justiça de seus pares." Mas teu servo
bárbaro não é homem de origem clara. nem mesmo é egípcio. Não tem
categoria. É homem de cor; não é um homem branco. E tu me pedes
que condene um rico cidadão grego, que envia seus impostos para
Roma, que é amigo de políticos gregos, mandando-o para a prisão!
Precisamos analisar o assunto dentro de um quadro de referências,
sem preconceitos, e com senso comum. Já imaginaste o que os
cidadãos de Atenas julgariam de uma sentença de prisão imposta a um
simples camponês, que honestamente acreditava ter Ramo olho mau?
Malditas sejam tuas regras e regulamentos! berrou Lucano,
enquanto batia duramente com a mão aberta sobre a mesa elegante. -
O que vem a ser a lei quando esta se opõe à justiça? Advogados ejuízes
são asnos abomináveis e deveriam ser suspeitos. Peço justiça para Ramo.
É um homem, e foi injuriado quase mortalmente por outro homem; se
444 445
eu não tivesse chegado a tempo, ele teria morrido. Não tem ele os
direitos de um homem, seja qual for a sua origem? Sua qualidade de
homem deve ser desprezada? - Respirou profunda e furiosamente.
- Que vem a ser Atenas para mim? Jamais voltarei aqui, onde
misericórdia foi paga com ódio.
O procônsul sorriu, um sorriso quase coquete.
- Isso não será desagradável para os médicos atenienses, que
estão extremamente revoltados contra ti. Os médicos dizem que tu os
privas de pacientes que lhes pagariam consultas. Sentem que os
prejudicaste com teus tratamentos gratuitos e que os clientes esperam pela
tua volta.
- Eu só ajudei os que não podiam pagar...
O procônsul ergueu os ombros:
- Quem se importa com esse rebanho irresponsável? Além
disso e ele tossiu -, dizem-me que aceitaste pacientes ricos, cujos
casos eram perdidos, e que pagariam quantias elevadas.
- Curei muitos daqueles que os médicos consideraram casos
sem esperança. Se provei que os médicos estavam errados, e
humilhei-os em sua ignorancia, não é culpa minha.
Lucano batia os punhos sobre a mesa, e seu rosto mostrava-se
vermelho e colérico.
O procônsul tossiu mais fortemente:
- Não te disse isso antes, mas os médicos escreveram-me
queixando-se de que praticas a magia e a feitiçaria, e isso é uma séria acusação.
Lucano estava perplexo.
- Estás tentando dizer-me que os médicos da Grécia, esses
médicos modernos, dão ouvidos a tão bárbaras superstições?
- Oh! Deves saber que eles vão ao oráculo de Delfos, e
que todos os homens são supersticiosos, Lucano! Mesmo os médicos. Uma
queixa em particular, fala de um comerciante rico que sofria de câncer
e que tinha apenas um mês de vida. E tu o curaste.
- Conheço esse comerciante. Seu nome é Cálias. Isso se
passou há dois anos. Eu lhe disse que os médicos tinham razão, mas dei-lhe
uma poção para aliviar-lhe as dores. Morreu. Tenho certeza disso!
- Não morreu. Está vivo e são, e retirou-se para suas
propriedades em Cós.
Lucano estava incrédulo:
- Então os médicos estavam errados, e eu estava errado.
Veio procurar-me com o corpo cheio de feridas. É provável que se tratasse
de alguma moléstia de pele que se pudesse confundir com câncer,
todos nós nos enganamos.
O procônsul sacudiu a cabeça.
- Não. Os médicos estavam certos e tu também o estavas. Por
alguma forma de magia tu o curaste, e os mágicos são vistos com
profunda suspeita, acreditando-se que estão ligados às forças mais trevosas
do inferno!
- Já ouvi antes coisas ridículas, mas esta é a pior! Os médicos
apenas se ressentem da minha presença. E os que não podem pagar a
consulta? Devem morrer por falta de auxílio?
- Faço honra à tua compaixão, Lucano, embora a deplore. Devo
dizer-te, agora, que o camponês fará penitência, mas deves esquecer os
danos sofridos pelo teu servo. Para mim, punir o camponês será
colocar toda Atenas em torno de meus ouvidos, e é da política de Roma,
da explícita política de Tibério César, nosso divino Imperador,
manter a paz nas províncias.
- Jamais chegaste a pensar que um ato de justiça romana
inspiraria respeito à Grécia, que inventou a democracia? Já ouviste, como
eu tenho ouvido, o povo zombar de Roma? Eles não praticam a
democracia, mas, como todos os hipócritas, fingem venerá-la. Declara-lhes
que todos os homens têm recursos iguais perante a lei...
- Mesmo um antigo escravo, um negro, um servo, que foi
estupidamente machucado por um grego? Que é teu servo?
Lucano rangeu os dentes. Aquela discussão perdurava, e sempre
terminava daquela maneira. Relanceou vagamente os olhos pelas mãos.
Usava sempre o anel de Diodoro e o anel que Tibério lhe dera. Jamais
tornara a pensar neles. Mas agora seu rosto corou, e ele se excitou.
Tirou do dedo o anel de Tibério e fê-lo rodopiar sobre a mesa.
- Olha para este anel! exclamou ele. - Eu te juro, por todos
os deuses, que o próprio Tibério, que honrava meu pai e me honra,
deu-o a mim para que eu usasse sempre! Duvidas disso? Escreve a
Plócio, o bem-amado comandante dos pretorianos, no Palácio Imperial,
que é meu amigo, e pergunta-lhe! Tibério ama-o como a um
filho, e confia nele acima de todos os homens. E ele é como um irmão
para mim.
O anel magnificente jazia sobre a mesa, brilhante e reluzente, e o
cônsul, que adorava anéis, ao notar o enorme valor daquele, ficou
mudo de espanto. Estava assustado. Apanhou o anel respeitosamente,
e examinou-o com reverente temor.
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- Se não fizeres justiça no que se refere a esse camponês -,
disse Lucano, que desprezava os que usavam nomes e influência -
eu mandarei este anel a César e lhe pedirei sua própria justiça, pois ele
não permitirá que eu seja humilhado e meu pedido seja rejeitado
desdenhosamente.
O procônsul manteve o anel entre os dedos, como quem segura
um objeto sagrado e disse, a voz trêmula:
- Por que não me falaste nisso antes, nobre Lucano?
- Não pensei em tal coisa. Não pensei que um funcionário
romano precisasse do nome de César para cumprir com seu dever! - O
rosto de Lucano brilhava de escárnio. - Meu pai adotivo era um
nobre, um tribuno justo, mas os de sua espécie se extinguiram. Ele
jamais precisaria de uma quinquilharia vinda das mãos de César para
agir!
O procônsul umedeceu os lábios com a ponta da língua.
Levantou-se, ainda segurando o anel, curvou-se diante de Lucano e,
suplicando-lhe perdão, recolocou-lhe o anel no dedo. Depois, voltou-se
para seus soldados e disse-lhes em voz que retinha de cólera:
- Prendei imediatamente aquele canalha, e atirai-o na prisão, a
fim de esperar o que me parecer melhor. Deve um romano sofismar
diante de seu dever? Ide! O nobre Lucano foi imperdoavelmente
insultado por um mero camponês, e eu o vingarei!
- Tu não ficarás sem a tua vingança disse Lucano a Ramo,
preparando-se para remover as ataduras de seus olhos cegos. - Tenho a
palavra do procônsul romano, dada ontem, de que prenderia o
marido de Gata e o entregaria à justiça.
Estendeu as mãos, delicadamente, para as ataduras, mas Ramo
afastou a cabeça daquele toque delicado, e sua grande boca retorceu-se.
Lucano recuou, e ficou apavorado quando viu uma lágrima rolar
de sob o pano.
- Que é isso? interrogou, consternado. Ramo agarrou-lhe a
mão, articulando silenciosamente, mas em desespero.
- Não chores falou Lucano, assustado. - Magoarás o que
resta de teus olhos.
O belo quarto que Turbo destinara a seus hóspedes brilhava com
a luz do sol. Lucano, sacudindo a cabeça diante de sua própria falta
de consideração, puxou as cortinas sobre as janelas. Depois recordou-se,
sentindo o coração abater-se, de que Ramo jamais tornaria a ver O
sol. Voltou-se para o servo, e viu as lágrimas que corriam. Pôs a mão
na testa dele:
- Não chores tornou a dizer, em voz sussurrante. Depois,
mais alto, falou: - Pensas que me dá prazer imaginar que mesmo
aquele camponês, que destruiu teus olhos, deve sofrer pelo que fez?
Compreendes que eu só desejei que ele aprendesse que não se podem
fazer essas coisas aos inocentes; que ele não pode, impunemente,
devastar o lar de um homem, que não pode prejudicar os que não o
prejudicaram? Ele será homem melhor depois de levar alguns açoites,
depois de passar algum tempo atrás das grades. A lei é a lei.
Voltou para Ramo, que mais uma vez agarrou-lhe a mão. Turbo,
humildemente animado, entrou no quarto.
- Ah! As ataduras vão ser retiradas hoje disse ele, dando, ao
passar, pancadinhas amistosas nas costas de Ramo. Olhou
significativamente para Lucano e inclinou-se. Parecia oprimido. - Senhor -
continuou num murmúrio -, o próprio procônsul, o procônsul romano,
espera aí fora, para dizer-te uma palavra.
- Trá-lo aqui respondeu Lucano. - Quero que ele veja por
si mesmo o que pode ser feito sob a sua jurisdição, e o que pode ser
consertado só depois de insistentes pedidos!
Seu tom autoritário fez com que Turbo tornasse a se curvar.
- Mandarei meu melhor vinho! exclamou ele,
ansiosamente. - E vinho para seus centuriões, no pátio. - Parou: - Achas que
o nobre procônsul honrará esta casa?
- O procônsul romano disse Lucano, ambiguamente -
apreciará qualquer coisa de valor.
Lucano quase esquecera o procônsul. Com um toque tão leve
como o de uma pluma começou a remover a espessa atadura dos
olhos feridos. Tentava ignorar o lento escorrer das lágrimas que
deles vinham. Esperava apenas que a ferida estivesse curada, que não
existisse infecção. Mas suspirava, sabendo que a luz diminuída
revelaria olhos afundados, pálpebras murchas e pupilas para sempre
destruídas.
- Ah! murmurou se eu pudesse dar-te um dos meus olhos,
meu querido Ramo! Eu o arrancaria de sua órbita para colocá-lo na
tua! Peço apenas que não sofras dores daqui por diante, e que
consigas te resignar.
- Resignação, com uma fortuna, mesmo sem olhos, pode ser
uma recompensa disse uma voz suave junto de Lucano. E ele vol-
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tou-se, para ver o procônsul, que ali estava, sorrindo agradavelmente.
- Cumprimentos, nobre Lucano! Trago-te excelentes notícias!
- Bom falou o médico, as sobrancelhas franzidas e voltando
ao trabalho. - Poderás ver que isto é coisa das mais delicadas. Estou
com esperança de que os olhos de Ramo estejam cicatrizados, e que
não exista qualquer inflamação.
O procônsul quedou-se numa atitude elegante e apertou os
lábios, enquanto olhava para o negro. Todo aquele ardor por causa de
um miserável, de um desgraçado sem nacionalidade, que pouco mais
era do que um escravo! Esses gregos... era impossível entendê-los.
Naturalmente havia a lembrança de Tucídides, de Xenofonte, de
Ésquilo, que consideravam todos os homens valiosos e, Deus, Todo-
misericordioso, amando todos os Seus filhos. Mas aquilo não passava
de filosofia. Os homens lidavam era com a matéria bruta da vida, e só
durante o repouso, com um vinho como aquele, é que se poderia falar
nesses nobres assuntos, virtuosamente, e congratular-se consigo
mesmo pela sua sensibilidade.
- Ah! Sim disse ele -, entreguei o camponês à justiça, meu
caro Lucano. Os magistrados informaram-me hoje que, quando ele
lhes for apresentado, ordenarão sua execução. Além do mais, e isso
alegrará o teu servo, suas terras e seu dinheiro serão confiscados e
entregues a vitima em recompensa.
Lucano teve um sobressalto violento, e Ramo, deitado em sua
cama, sentou-se de repente, torcendo as mãos.
- Execução! exclamou Lucano. - Eu te pedi justiça, não
assassinato!
O procônsul não estava acostumado a ouvir ninguém falar-lhe dessa
maneira, e muito menos um grego. Fechou o rosto, furioso, para Lucano.
- Não me fales dessa maneira, filho adotivo de Diodoro Cirino
disse ele, a voz fria. - Podes ser um médico e cidadão de Roma, o
herdeiro de uma fortuna romana, pois disso me informaram ontem,
mas eu... eu sou um romano!
- E eu sou um homem! exclamou Lucano, o rosto sombrio.
- E que é um romano, afinal, senão um homem também? Ah! Terei
que aparecer diante dos magistrados. Então direi o que devo dizer:
que a justiça deve ser temperada pela misericórdia.
O procônsul sorriu, e tornou a bebericar o seu vinho.
- Foste tu, caro Lucano, quem me perseguiu como uma
sombra, pedindo o castigo do camponês. Agora, recuas.
Lucano apertou as mãos e olhou, angustiado, para os olhos
zombeteiroS do procônsul.
- Sim disse ele -, pedi justiça, acreditando que se tratasse
de alguns açoites e umas tantas semanas na prisão. Isso, porém, é
monstruOSO.
O procônsul levantou as sobrancelhas, cuidadosamente
depiladas, sob o remate de seu elmo bem trabalhado.
- Vê o que deseja o teu servo disse. - Não sentes que ele
está puxando teu braço? Com toda a certeza não queres ignorar
alguém que te é tão precioso.
Recostou-se a uma coluna de ônix, os olhos faiscantes de
jovialidade. Lucano ainda contemplou o por um momento, depois voltou
sua atenção para Ramo, que forçou a se deitar novamente.
- Acalma-te falou, severamente, - Não deves debater-te.
Isto pode causar-te dores, mas a dor será de curta duração. -
Relanceou os olhos para o procônsul, por cima do ombro: - Peço-te
que esperes até que eu complete este trabalho.
- Eu tenho apenas vinte gregos insistentes à minha espera -
disse o procônsul. - Isto não tem importância, naturalmente. Uma
casa encantadora. Estive observando-a. Ah! Quando chegará o dia em
que escravos e camponeses e homens de trabalho pesado consigam
adquirir maravilha igual!
Lucano não lhe deu resposta. A última atadura manchada de
sangue estava agora em seus dedos suaves. O procônsul, de súbito
interessado, esticou o pescoço. Lucano aspirou profundamente o ar, depois
retirou o derradeiro pano. Fechou os olhos, para não ver a horrorosa
ruína no mesmo momento.
O silêncio rodeava-o, e sua testa porejava suor. Ninguém se
moveu, e então o procônsul disse:
- Ora, mas o escravo nada tem de mau nos olhos! Que
tolice é
esta?
Imediatamente, os olhos do médico abriram-se. Olhou para Ramo,
que lhe sorria, radiante. Os grandes, límpidos e negros cilios estavam
perfeitos, brilhantes e sem qualquer cicatriz. Lucano, mudo,
curvou-se para o negro, pestanejando para afastar o enevoado de seus
próprios olhos. Estava incrédulo. Não podia acreditar numa coisa
daquelas. Agarrou o queixo de Ramo em seus dedos suados e
movimentou-lhe a cabeça de um lado para o outro. Correu a abrir para trás as
cortinas. Seus joelhos estremeciam. Voltou para o leito, e ficou a olhar
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os olhos que se levantavam para seu rosto, sem poder acreditar no que
via.
A habilidade médica não podia ter realizado tal coisa. Mais uma
vez ele se enganara! Recordou-se da peste, do câncer de Cálias, de
outros casos estranhos que atendera, e agora havia aquilo. Gritou para
Ramo:
- Podes ver-me? Em nome de Deus, podes ver-me, meu amigo?
Ramo confirmou com um movimento de cabeça. Estendeu a mão
e tocou a de Lucano, e uma luz pura irradiava de seu rosto. Ergueu
então a barra das vestes do médico e beijou-a, como quem beija a
barra da veste de um deus, encostando a cabeça à anca de Lucano,
como uma criança.
- Eu te digo falou Lucano, através de lábios gelados que
vi os olhos dele! Sou médico. Aqueles olhos estavam diminuídos,
rasgados, sangrando; a pupila se havia retraído, desaparecendo; o
fluido vital se escapara deles. Ele estava cego!
O procônsul deixara de sorrir. Recuou alguns passos e olhou com
medo para Lucano. O médico estava repetindo:
- Ele estava cego! gritava. - Conheço a cegueira quando a
vejo! Isto não podia ter acontecido!
- Feitiçaria! murmurou o romano, recuando um pouco mais.
Tossiu. Relanceou os olhos para o anel de TibériO, na mão de Lucano,
e parou. Depois, disse: - Meu caro LucanO, bem sabeS quanto OS
gregos são sensíveis à feitiçaria. Aconseihu-te que deixes Atenas o mais
discretamente possível. Eu, como romano, estou acima de
superstições, mas tenho que administrar este maldito país e naO quero
transtornos.
A cabeça de Lucano remoinhava, com ruídos confusos e relances
de luz. Correu para o procônsul, levou a mão ao braço dele, mas O
romano, assustado, recuou.
- O camponês! disse Lucano. - Que vai ser do camponês
depois de eu me ter enganado desta maneira terrível?
- Tratarei de que seja solto, depois de passar um mês na
prisão
por assaltar o servo de Lucano, prejudicar-lhe a casa e incitar levantes
disse o procônsul. E fugiu dali. O som de suas sandálias apressadas
levantava ecos. Turbo entrou, timidamente:
- Senhor disse ele -, o nobre procônSUl correu para fora
desta casa como se as Fúrias estivessem a persegUilo. Tê-lo-ei eu
ofendido, de alguma forma?
- Não disse Lucano, abstraído. Apontou para Ramo. Tu
vês que ele não está cego, Turbo. Eu tinha me enganado de uma
maneira terrível. Não sou um bom médico; engano-me demais.
Contudo, estou feliz por me haver enganado...
Turbo aproximou-se de Ramo e olhou para os olhos sorridentes
dele. Fixou então os seus em Lucano. Ramo ergueu-se da cama,
levantou as mãos acima da cabeça, as palmas juntas, trouxe-as ao peito e
prostrou-se aos pés de Lucano.
- Meu pobre amigo disse o médico, em voz trêmula. -
Deite tantos dias de sofrimento, por dizer-te que estavas cego. Peço-te que
me perdoes.
36
Em anos posteriores, Lucano pensou com freqüência na época que se
seguiu à sua rápida fuga de Atenas embora para ali voltasse, quase
sem ser notado, muitas vezes depois como um período "árido".
Movimentava-se através do Império sussurrante, fulgurante, efervescente,
e ia desatento, embora a habilidade e a delicadeza, como médico,
aumentassem. Nunca tendo sido loquaz, tornou-se ainda mais silencioso. Sua
vida pessoal fez-se mais sóbria; era semente em sua casca, esperando a
primavera e as águas da primavera, a fim de se transformar em árvore. A
semente, que era ele próprio, não se moveu durante aqueles anos, não
lançou galinhos verdes, antes manteve-se ressecada e sem muitos
pensamentos ou emoções. Cada vez se tornava menos comunicativo. Apenas
quando Sara aparecia inesperadamente em algum porto, seus olhos azuis
brilhavam, e seu belo rosto iluminava-se. Mas via Sara somente uma OU
duas vezes por ano. Ramo não podia falar com ele. Tinham organizado
um eloqüente código de sinais, que lhes convinha melhor do que a
palavra. Andavam como espíritos benevolentes, mas silenciosos, através
dos portos fervilhantes, e sentavam-se calados nas pequenas casas e
jardins de Lucano, bem como ficavam encostados às amuradas dos navios,
observando as estrelas e a lua, as auroras e os crepúsculos. Lucano
preferia chegar à noite às suas casas para evitar cumprimentos da multidão,
como acontecera algumas vezes. Quando visitava Atenas, tinha que in-
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ventar algumas pequenas mentiras para recusar a hospitalidade de
Turbo. Milhares de pessoas amavam-no, milhares olhavam-no como a um
deus. Ele evitava-as, a não ser quando o procuravam angustiadas ou
cheias de dor. Sua sensibilidade aumentou e havia nele uma espécie de
melancólica expectativa. Esperava ansiosamente as cartas vindas de sua
casa, e deleitava-se especialmente com as de Prisco e Aurélia, mas as
poucas cartas com que as respondia eram breves. Parecia alguém que
morresse de fome, e ainda assim tivesse tremenda aversão pelo alimento.
Ia a Roma uma vez por ano, e de cada vez pretendia demorar-se mais
tempo. invariavelmente, porém, depois de poucos dias, uma
inquietação se apoderava dele, e partia, entre exclamações de lástima, de censura
e de amor.
Certa vez disse à mãe:
- Não me perguntes o que há de mau comigo, pois não sei.
Quando procuro em minha mente, nada acho a não ser pó, e mesmo
nesse pó encontro sempre o movimento da dor. Tenho medo de me
aventurar mais profundamente.
As vezes, ele relia a vasta quantidade de escritos que Keptah lhe
deixara. Um escrito, especialmente, ele lia e relia, franzindo as
sobrancelhas, em perplexidade, mas sentindo que palpitava aquela dor
sufocada. "O que procura no homem a significação da vida procura
uma desilusão, pois os homens nada são exceto em sua relação com
Deus. Não centralizes teu coração na humanidade, pois que ela é
quimera, miragem. Houve os que glorificaram o homem, os que elevaram
a humanidade como um absoluto em si própria; eles declararam,
com veemência, que o homem só tem valor em suas manifestações
externas. Este ensinamento alcançou quase todos os países civilizados,
para mal deles, pois a lei de justiça e misericórdia não tem raízes nos
homens, mas em Deus, e sem Ele os homens realmente não podem
existir, sem Ele que os fez. O homem é apenas o receptáculo da graça;
não é a própria graça."
Quando Lucano lia aquilo, era como se portões antigos e
enferrujados rangessem, em seus gonzos, implorando dentro dele, desejando
serem abertos. Mas ele se afastava. Não sentia mais a cólera apaixonada
contra Deus, pois agora bem raramente Nele pensava. Se Deus se
introduzia em sua mente, ele encolhia-se, cansado, pois Deus era
realmente um grande enigma para Lucano, e não devia ser despercebido,
nem cogitado, nem levado ao combate, nem olhado apenas de forma
abstrata, pela fé, ou racionalizado através da ciência. As vezes, pensava
nas épocas inúteis passadas antes dele, nas épocas de sombra que
tinha diante de si, e uma fadiga imensa dominava seus sentidos. Fitava
as estrelas e recordava-se das conjecturas dos astrônomos egípcios, que
perguntavam se aquelas poderosas constelações não seriam planetas
infinitos, girando em torno de sóis, e se novas constelações, com novos
mundos e novos sóis, não estariam sendo constantemente criadas. Aquele
pensamento intensificava a exaustão espiritual de Lucano e trazia-lhe
uma sensação de futilidade.
Uma vez, em Corinto, um velho sacerdote, muito pobre, muito
humilde e muito sensível dissera-lhe:
- Quando estou deitado em meu catre, durante a noite, uma
estranha segurança se apodera de mim, como se eu tivesse recebido
uma mensagem. Deus nunca está ausente dos negócios dos homens,
embora com muita freqüência nós não estejamos conscientes da
presença Dele. Mas agora eu sei que uma tremenda revelação está
próxima, mas a forma ainda não é clara para mim. Deus se manifestará
poderosamente a Seus filhos, de novo, como fez em épocas passadas, e
a própria terra lateja em expectativa. Sinto isso! Sei isso! Porque o
mundo inteiro perdeu a visão de Seu rosto, e de novo Ele a revelará,
talvez em cólera, mas, seguramente, também com amor.
- Por que essa folha amarelecida numa floresta infinita? -
perguntara Lurano cinicamente. - Por que esse grão de areia numa
praia sem fronteiras? Por que esse fragmento insignificante num
vendaval? Isso é fantasia!
Estavam sentados no empoeirado jardim do sacerdote, no qual os
frangos ciscavam esperançosos. O sacerdote sorrira e apontara para
uma galinha rodeada de muitos pintos. Eles seguiam-na, às vezes,
escondendo-se sob suas asas, às vezes perambulando a distância.
- Eles conhecem-lhe a voz dissera o sacerdote. - Aquela
pobre galinha não sabe contar, mas conhece o que lhe pertence. Se
um dos pintos se perde, o menor, o mais sujo, o mais fraco, ela o
procura e o encontra. Talvez aquele pequenino pense na razão de sua
mãe se preocupar com ele, com sua plumagem reles, com sua absoluta
inutilidade como ave, e com sua insignificância. Como pode ela,
talvez pergunte a si próprio, saber onde estou, se tem tantos filhos; e que
lhe importa que eu tenha minha parte de alimento, que receba
proteção e afeto? Digo-te, meu caro Lucano, que para o amor nada é inútil,
nada é demasiado, nada é quantidade exagerada, nada é muito pouco.
O amor jamais abandona. Para Deus, esse fragmento insignificante em
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que nos encontramos é tão caro quanto a Sua mais vasta coroa de
estrelas, no espaço que fica para além da nossa compreensão.
E acrescentara:
- Tu raciocinas com a tua mente, que é a escrava cega de teus
cinco e incertos sentidos. Os maiores filósofos gregos, que adoravam a
razão, finalmente tiveram de voltar ao Misterioso, ao Desconhecido, e
sempre com relutância, pois Ele está para além de sua razão, essa
minúscula, pequenina faísca numa caverna escura e inexplorada. Deus
só pode ser compreendido pelo espírito.
Lucano, contudo, entorpecido pelo cansaço, levantara-se e saíra
dali. Não desejava revelação alguma. Havia ocasiões em que anelava a
morte.
Quando recebia cartas de sua irmã Aurélia pensava nela como numa
criança. Ao voltar a Roma, em uma de suas raras visitas, ficou
perturbado ao vê-la atingindo a idade adulta. E agora, que ela estava
para se
casar, Lucano devia assistir ao casamento dela com Clódio Flamínio,
filho de antiga e aristocrática família. A moça tinha dezenove anos,
ultrapassara de muito a época normal do casamento, o que preocupara
Iris, sua mãe. Pretendentes não faltaram, em profusão, pois a filha
de Diodoro Cirino, com seu dote, era um bom partido além de ser
extremamente bela. Aurélia, entretanto, não mostrara urgência de se
casar aos quatorze, dezesseis, ou mesmo dezessete anos. Sorria da
ansiedade de sua mãe e não se preocupara quando Íris lhe dissera:
- As moças da tua idade já são esposas e mães há anos. Estás
pensando em te tornares uma Virgem Vestal?
Lucano, porem, sabia que sua irmã não tinha devoção especial
para os deuses, embora oS aceitasse serenamente. Suspeitava, também,
que ela não fosse de inteligência acima do comum, pois ouvira o velho
Cusa queixar-se de sua falta de gosto pelos livros.
- Não é companheira para um Péricles! resmungou ele,
certa vez, para Lurano. - A filosofia fica além de suas possibilidades.
Não se interessa por política, ações, leis e bancos, como todas as outras
mulheres de Roma. Nem sabe da existência do mercado de ações,
negócios, casas de corretagem na parte norte do Fórum, como as
outras mulheres romanas de sua idade sabem muito bem. Mesmo suas
amigas, jovens matronas, sentam-se com ela, tagarelando sobre seus
investimentos e discutindo casos sensacionais dos tribunais, ou se
gabando de suas próprias contas bancárias, ou das de seus maridos,
antecipando acontecimentos sociais, viagens de inverno ao sul, as modas
mais recentes, jogos e gladiadores, e ela ali fica, sorrindo
agradavelmente, mas bocejando.
- Parece nada desejar disse Íris, cujo cabelo maravilhoso era
agora uma cascata de pura prata. - Mas até quando uma mulher que
já não é jovem pode contentar-se com uma lareira, sem desejos?
Certa vez, Lucano, persuadido por sua aflita mãe, conversou com
Aurélia, quando ela tinha dezoito anos, uma solteirona já. Fez aquilo
com relutância, pois acreditava que não se devia interferir na vida dos
outros. Mas disse:
- Por quê, minha irmã, não te preocupas com o teu futuro?
Nossa mãe é muito velha, e viveu para além do tempo normal de vida,
pois tem cinqüenta e quatro anos. Como podemos esperar que viva
muito mais tempo, para proteger-te? Teu irmão, Prisco, é um soldado
de Druso, e é pai de família; nosso irmão mais novo está metido entre
seus livros, e deseja ser professor. Provavelmente jamais se casará.
Esperas viver teus dias nesta terra, como a irmã indesejada de Prisco,
quando nossa mãe morrer e ele trouxer sua esposa e sua família para
esta casa, como herdeiro que é?
Mas Aurélia dera-lhe apenas um profundo e lento sorriso,
chamara-lhe a atenção para um bando de borboletas amarelas que flutuavam
sobre as rosas. Fora inútil. Ainda assim, estava para se casar, com
grande alivio para Iris, e o jovem tinha a idade de Aurélia. Lucano devia ir
de novo a Roma para o casamento.
Agora, enquanto Lucano se apoiava na beirada do pequeno mas
veloz galeão romano que o apanhara em um porto africano perdido,
pos-se a pensar insistentemente em Aurélia. Iris, que conhecia tão
fortemente o amor, não arranjara o casamento para a filha: ao contrário
de outras mulheres, acreditava na necessidade do jubiloso
consentimento da noiva, no que se referia ao matrimônio que ia contrair. Sua
amiga, a esposa de Plócio, embora muito mais nova do que ela,
organizara um encontro entre a família de Clódio Flamínio e Íris, e Clódio
e Aurélia. A primeira vista, haviam, aparentemente, sentido amor um
pelo outro, embora o jovem pudesse ter escolhido noiva mais
adequada, de quatorze ou quinze anos, e não uma mulher de dezenove. Aquela
altura, Lucano percebera certa nota enigmática nas cartas de Íris, tal
fato o deixara perplexo e nada explicara. Íris deveria mostrar, sem
dúvida, mais felicidade e alívio com a expectativa do casamento entre
membro de tão distinta família patrícia e sua filha. Embora a in-
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quietação de Lucano reaparecesse a cada vez que tinha necessidade de
pensar nos que o amavam, e em seus negócios pessoais, forçou seu
interesse por aquele caso.
Toda uma seqüência de quadros levantou-se diante dele,
mostrando-lhe a irmã em sua infância e idade adulta. Via seus tranqüilos
olhos castanhos, cheios de luz, ouvia-lhe o riso delicado. Via-se
correndo para apanhar um pássaro caído, mantendo-o contra o peito; via
os cães da propriedade seguindo-a com olhos de adoração e orgulho,
e mesmo os touros mostrarem-se calmos quando ela se aproximava
deles. Os cavalos veneravam-na e os servos não sabiam mais o que
fazer por ela. Observando o porto quente e abarrotado, com suas
turbas veementes movendo-se nas docas, e ouvindo os gritos
intermináveis do Oriente, farejando seus odores, fétidos ou aromáticos, Lucano
pensava naquilo. Ali havia um enigma que lhe aguçava o interesse.
Ramo estava ao lado dele e observava o carregamento do navio. O
rosto, africano e majestoso como de costume, tinha um ar de busca
ansiosa, e ainda assim de confiante espera. Seu cabelo negro e crespo
estava agora entremeado com mechas de um cinza carregado, mas seu
corpo não mostrava sinais da idade, retendo sua força muscular e sua
agilidade. Os olhos úmidos observavam cada rosto que se aproximava.
Por instinto, através de todos aqueles anos, sabia quando Lucano se
voltava para ele, e quando começava a pensar nele, e relanceou os
olhos para Lucano, sorrindo com amor. Depois, recomeçou a estudar
a turba das docas.
O navio saiu, e pareceu imobilizar-se sem navegar, sobre a seda
azul e plana de um mar tranqüilo. A praia ficou para trás como se se
retraísse. O sol olhava lá de cima, de um céu branco de tão ardente, e
as velas mal se enfunaram. O próximo porto de escala era o mais
acima, no continente onde um carregamento de especiarias estava à
espera. Ali chegariam dentro de duas horas. Lucano sentou-se sob o
toldo de listras brancas e vermelhas da coberta. Havia alguns outros
passageiros, pois o navio era correio e cargueiro. O grego começou a
pensar em sua vida, todo o seu temperamento, até então, fora objetivo
pois que se forçara a ser assim, temendo o subjetivo, sabendo que se se
desse à introspecção ficaria reduzido ao desespero. Olhou para trás,
para a sua vida, como alguêm que, de pé na montanha mais alta,
pudesse olhar para as planícies onde estão as cidades, os rios
distantes, o oceano longínquo, os campos e as aldeolas. Ainda assim,
quando agora olhava para sua vida, era como se tudo fosse obscuro, sem
sentido, infrutífero, desprovido de cor. Esqueceu os incontáveis
milhares de pessoas que curara e consolara, ou que guiara com
misericórdia para a morte inevitável, mas tranqüila. Jamais pensara assim em
si próprio, e aquilo perturbou-o, aquela sua falta de raízes fora
escolha própria, e ele fizera sua própria vida. Agora, via-se diante de
si mesmo, e via-se como alguém que nada dera e nada recebera, alguém
que jamais faria falta. Sua melancolia tornou-se em sua boca sabor
pesado de metal, pedra sobre seu peito. Ramo olhou para ele, da
amurada em que se apoiava, e pensou: Meu Senhor está desgostoso.
Procura, embora não saiba o que e quem procura.
Antes do arrebol o navio atracou no porto seguinte, e um centurião
subiu a bordo, acompanhado de seis soldados. O centurião também
trazia consigo a sua família; era um homem moreno, de tipo adunco,
como a maior parte dos soldados romanos, mas sua expressão
mostrava-se delicada e paciente, e aquilo atraiu o interesse errante de Lucano.
Era coisa pouco habitual um oficial romano falar bondosamente com
seus soldados e mostrar um aspecto de tão tolerante compreensão.
Quando falou com os escravos que traziam os pertences de sua casa -
via-se que retornava a Roma, pois não era jovem sua voz rascante
revelava estranha profundeza e compaixão. E ele sorria aos escravos,
encorajando-os. Ainda assim, a atitude era meio arrogante, o corpo,
largo, forte e poderoso, apesar da idade; e o rosto queimado de sol,
embora curtido, conservava linhas de uma intolerância passada.
Caminhava com firmeza, e olhava em torno de si com o ousado escrutínio
de um romano. Quando seus olhos divisaram Ramo, encostado à
balaustrada, Ramo vestido com a roupa pobre de um escravo ou de um
liberto sem recursos, não os desviou, embora por um instante hesitassem.
Depois, sorriu para Ramo, como um homem sorri para seu irmão,
e Ramo sorriu, em retribuição.
Instalou a família numa coberta mais abaixo, com o auxílio de
seus escravos e servos, e voltou sozinho para a coberta superior. Olhou
para o mar, satisfeito, e depois para o céu, sorrindo. Abriu as pernas
grandes e morenas e equilibrou-se contra o leve balanço do navio, os
Polegares metidos no amplo cinto de couro onde ficava sua espada
Curta. Removeu o elmo e enxugou o rosto suarento. A expressão
tornou-se jovial, e ele relanceou os olhos para Lucano. Era evidente que
desejava companhia, e o médico levantou-se polidamente convidando
O soldado a tomar com ele um pouco de vinho. Ramo desceu e trouxe
para cima o vinho e três taças, servindo o líquido vermelho. O médico
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esperou um olhar de surpresa ou de afronta no rosto do romano, pela
presença tão natural do negro, e pelo seu espanto ao ver que sua
participação no vinho era tolerada por Lucano. Mas o centurião aceitou o
vinho de Ramo, com um sorriso bondoso, e depois sentou-se junto de
Lucano, que se apresentara enquanto esperavam pelos serviços de
Ramo.
- Deixei a Judéia há três semanas disse ele para reunir-me
à minha esposa e minhas duas filhas que estiveram gozando o ar seco do
deserto. Minha família não está muito bem suspirou ele, mas
imediatamente o ar de paz voltou a seu rosto. - Agora, fui reformado, tenho
uma pequena propriedade perto de Nápoles e ali pretendo viver o que
me resta de vida, sem remorsos nem mais ambições. - Seu nome era
Antônio, e ele continuou: - Houve um tempo em que acreditei que
para mim não houvesse outra vida a não ser a de soldado e guardião de
Roma. Houve um tempo em que fui o mais orgulhoso dos homens e,
envergonha-me confessá-lo, o mais impaciente.
Lucano mostrou-se interessado. Orgulho e impaciência não eram
sentimentos vistos como censuráveis pelos romanos, mas como parte
mesmo do caráter nacional.
O centurião deu um olhar tímido, hesitante, e Lucano ficou
muito intrigado. O olhar tinha algo de infantil, uma certa candura. Ramo,
que estava de pé ali perto, aproximou-se mais.
- Mas tudo isso não te deve interessar, Lucano disse o
soldado, como quem se desculpa. - Deves perdoar os devaneios de um
velho. - Bebeu seu vinho e olhou sonhadoramente para o céu. -
Ainda assim, sinto-me impelido a falar com quem quer que deseje
ouvir. - Levou a taça aos lábios e ainda ficou contemplando o mar que
subia, e um ar de exaltação e candura brilhou em seus olhos altivos.
- Realmente, estou muito interessado disse Lucano, fazendo
sinal a Ramo para que servisse mais vinho. Antônio agradeceu a Ramo
e o médico tornou a espantar-se.
O centurião afastou os olhos do mar e ficou a olhar para a taça que
mantinha nas mãos morenas. E disse:
- Durante muito tempo vivi em Cafarnaum. Ali estive em meu
posto, até que a meu pedido volto para Roma. Deves compreender,
Lucano, que os judeus se parecem muito aos romanos. Têm o mesmo
orgulho, a mesma tenacidade e amam seu país; também são astutos,
embora sejam igualmente muito religiosos. Negociam. E rezam. São
excelentes negociantes. E dão esmolas aos pobres.
- Sim disse Lucano com um sorriso afetuoso, - Compreendo.
Meu pai adotivo era assim. Ele também costumava dizer, com
freqüência, que os romanos e os judeus eram muito parecidos.
Antônio confirmou com um movimento de cabeça. Estava muito
sério, como um velho soldado.
- Os judeus detestavam-me, como detestam todos os romanos...
e irmãos não detestam uns aos outros?.. e ainda assim, com a
passagem dos anos, tornamo-nos excelentes amigos. Aprendi, não só a vulgata
e o aramaico, mas também o hebraico dos sábios, e às vezes eles me
visitavam, embora sem grande freqüência, e falavam de muitas coisas
comigo. Eu cooperei, há alguns anos, na construção de uma sinagoga
que, sendo as de Cafarnaum muito pobres, fazia-se muitíssimo
necessária. Não sou homem pobre, e dei dinheiro meu, com generosidade,
para a sinagoga. Sim, éramos amigos, gostando uns dos outros, os
judeus e eu. Minha filha mais velha casou-se com um jovem e erudito
judeu, e vive com ele em Jerusalém. Têm três filhos, que são belos -
acrescentou, os olhos umedecidos.
Lucano ouvia, cortesmente, mas começava a se entediar. O centurião
tinha um ar muito grave, e o médico lembrou-se de que os antigos
soldados são às vezes muito cansativos e dados a divagações que eles
acham, em retrospecto, verdadeiramente portentosas.
- Deixei meu servo com minha filha e sua família disse
Antônio, sempre olhando para sua taça. - Devo falar-te a cerca desse
servo, pois que é importante. Foi meu companheiro de infância e era
escravo. Éramos como irmãos. Quando entrei para o exército, meu pai
deu-me aquele escravo, e eu o libertei pois queria-lhe um grande
bem. Seu nome é Crético, e ele tem cincqüenta anos, dois mais do que
eu. Jamais foi um escravo para mim, Lucano disse o centurião,
levantando os olhos para desafiar o outro.
- Homem algum é realmente escravo respondeu Lucano. O
sol estava descendo rapidamente e o mar tornara-se de púrpura, o céu
uma conflagração.
Antônio fixou no grego um olhar penetrante.
- Deves lembrar-te de que os gregos têm uma tradição. Fazem a
libação ao Deus Desconhecido, antes de beberem.
- Sim disse Lucano, o coração apertado e sentindo-se
cheio de uma dor amorfa, ainda assim impaciente. - Meu pai
fazia isso.
Antônio ergueu a taça para que Ramo lhe servisse mais vinho.
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Mas, quando servido, não chegou os lábios à taça. Olhou para o
espaço, diante dele, para o escarlate glorioso do céu.
- Eu vi o Deus Desconhecido disse, num tom muito calmo.
Lucano franziu as sobrancelhas. O homem se estava fazendo
tedioso. Sabia existirem entre os romanos essas superstições, embora
eles insistissem em se dar como realistas. Não havia santuário algum
em todo o mundo, dedicado que fosse a qualquer obscuro deus do
Oriente, da Grécia ou da Africa, que eles não tivessem visitado,
afetando sempre desprezá-los. Mas estavam sempre ali e deixavam
dinheiro para os templos e enchiam-se de amuletos.
- Sim disse Antônio, cuja voz tremia. - Eu vi o Deus
Desconhecido. Mas agora Ele não é desconhecido! Meus olhos viram No
a distância, há apenas alguns meses. Precisas acreditar em mim -
acrescentou, implorando, percebendo o desinteresse de Lucano.
- Não duvido que acredites nisso falou Lucano, voltando o
rosto para o centurião. O cabelo dourado, agora prateado nas
têmporas, fazia halo para sua nobre cabeça, e o arrebol refletia-se em seus
olhos de um azul de gelo.
- Eu acredito! exclamou o centurião, com voz de poderosa
exaltação! - Precisa ouvir; não deves duvidar! É imperioso que
acredites, que todos os homens acreditem!
Lucano, algo desgostoso, murmurou. Mas a dor aumentava em
seU coração, desabrochando como flor imensa e vermelha, e ele não
sabia por quê. Desejava desculpar-se; nunca tendo sido emotivo, a
não ser na cólera, ficava embaraçado diante da impetuosidade, diante
da ansiosa imaturidade e insistência. Moveu-se, constrangido, em sua
cadeira, mas não podia sair dali, não seria decente. Olhou para Ramo,
cujo rosto escuro ele notou estava iluminado, como que
arrebatado. O grego disse:
- Conta-me sobre esse... sobre esse homem...
O centurião estendeu a mão e agarrou o braço de Lucano.
Os dois olhos dele luziam como um fogo escuro.
- Isto devo eu dizer a todos os homens; que vi Deus, que estive
em Sua presença, embora não ousasse me aproximar demasiado Dele.
- Compreendo disse Lucano. penosamente. - Eu próprio
estive no Pátio dos Gentios, em várias sinagogas. Mas não fui admitido
no pátio interno, onde estão os manuscritos, e os altares. Teus amigoS
judeus admitiram-te ao santuário, embora isso seja proibido aos
Gentios?
A mão que agarrara seu braço tornou-se mais forte, e o centurião
inclinou-se para ele, trêmulo. A luz carmesim brilhava em cada ruga
de seu rosto bronzeado, nas suas órbitas, ao longo da linha de seu
nariz aquilino.
- Precisas ouvir! disse. - Não, não fui admitido diante do
altar nem diante dos manuscritos. Mas vi Deus, e isso há apenas
aUguns meses. - Levantou a mão, em solene gesto de juramento: -
Juro-te que O vi, com estes olhos, e que Lhe ouvi a voz.
O homem é louco, refletiu Lucano.
O centurião tocou seus próprios olhos com os dedos.
- Com estes olhos! exclamou e, de súbito, havia uma
lágrima em seu rosto. Ramo estava de pé, ao lado dele, e a respiração do
negro vinha forte, seus próprios olhos reluziam. - Lucano disse o
centurião, em voz de profunda urgência -, tu deves recordar que os
judeus ensinam, há muitos séculos, que um Messias nasceria entre
eles, um Rei. E nasceu, e está agora na Terra de Israel. Eu O conheci
antes que chegasse a Cafarnaum. É jovem, na carne de um homem, e
talvez não seja assim tão Jovem. Há muitos falatórios. E Ele tem
realizado muitos milagres.
A boca de Lucano comprimiu-se até que dela desaparecesse toda
a cor. De súbito, sentia-se esclarecido. E disse, friamente:
- Penso que compreendo. Tenho uma amiga, uma mulher, que
me falou nesses milagreiros judeus, nesses místicos. Muito antes que
os médicos gregos compreendessem que a mente doente pode
infeccionar o corpo, os judeus sabiam disso. E assim, os milagreiros,
libertando e curando a mente enferma, podem restaurar a saúde do corpo.
ISSO não é novo, Antônio. Nem mesmo é milagre, embora não
saibamos, naturalmente, o que vem a ser a mente, nem possamos explorar
seus mistérios com um escalpelo ou uma sonda.
Sentiu-se, de repente, tomado de estranho terror. Não queria
ouvir mais nada. Antônio, porém, agarrara de novo seu braço, e o rosto
do soldado estava trêmulo, cheio de uma profunda emoção.
- Lucano, eu tudo sei sobre as tradições e as crenças dos
judeus. Vivi naJudéia muito tempo, e meus amigos confiaram em mim.
Esse Homem não é um simples milagreiro. Ele é o Messias. Ele é
Deus. Pensas que só eu acredito nisso? Não, multidões de judeus
acreditam nisso, desde que Ele apareceu pela primeira vez entre Seu
POVO para exortá-lo.
- Os judeus são pessoas excitáveis murmurou Lucano. Sentia
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o coração pulsar nos ouvidos, e quadros e lembranças tentavam
formar-se diante de seus olhos, que se fechavam para aquelas visões.
Acrescentou, desesperado: - Quando a mente está dominada pela histeria, o
corpo torna-se doente. Todos os médicos compreendem isso.
O centurião sorriu, e aquele sorriso era infinitamente doce.
- Ele não é um médico. Seus seguidores O chamam rabi, isto é,
mestre. Conheci muitos desses rabis, homens devotos, que podem
curar através de orações, e que passam seus dias ensinando o povo e
confortando-o.
O sol intumescido e vermelho mergulhou no mar e marinheiros
apareceram com lanternas, pendurando-as pelo convés. Levantou-se
um vento fresco e as velas inflaram e fizeram o navio deslizar mais
depressa pelo mar de púrpura.
- Mas esse rabi não é um daqueles que vieram antes Dele -
disse Antônio, numa voz trêmula. - Ele é o Deus Desconhecido dos
gregos, dos egípcios antes deles, e dos babilônios e caldeus antes dos
egípcios. Ele é o Messias. Como sei? Quando ouvi falar Nele através
de meus amigos que me visitavam em Jerusalém e Cesaréia, soube,
instantaneamente, quem Ele era! Precisas acreditar em mim!
- Como soubeste? perguntou Lucano, abstraído.
O centurião bateu no peito com o punho fechado.
- Como pode qualquer homem sentir a verdade, a não ser
conhecendo-a? Ele conheceu-a através de seu coração.
Deixou cair o punho sobre o joelho, e suspirou:
- Falei-te de Crético meu amigo, meu liberto. Ele caiu doente,
não da mente, mas do corpo. Chamei para ele os melhores médicos,
não poupei dinheiro, não poupei esforços. Sentei-me à sua cabeceira
durante muitos dias, e ele não me conheceu. Vomitava sangue, excretava
sangue, e o sangue marcava sua pele. Seus olhos nadavam em sangue,
e o sangue formava crosta em seus lábios. Sua carne murchava a cada
dia, até que ele ficou semelhante a uma sombra.
Lucano teve um sobressalto. A doença branca! A assassina,
incurável e temível moléstia, para a qual não havia lenitivo, a doença que
matara Rúbria e, matando-a, matou o espírito dele próprio! Olhou
fixamente para o centurião, e umedeceu os lábios com a língua, os
lábios que estavam frios e rígidos.
- Disseram-me que Crético ia morrer continuou o
centurião
-, que não havia remédio para a sua enfermidade. A qualquer hora,
dia ou semana, ele tinha de morrer.
- Não há cura falou Lucano, em voz monótona.
O centurião confirmou com um movimento de cabeça, e seus olhos
iluminaram-Se e encheram-se de lágrimas à luz das lanternas
balouçantes. E disse baixinho:
- Mas Crético curou-se, instantaneamente.
- Impossível! exclamou Lucano.
- Impossível para o homem, Lucano, mas não para Deus. Crético
foi curado de um momento para o outro, levantou-se de seu leito, as
faces coradas de vida e saúde, abraçou-me e disse-me: "Ele tocou
minha mão enquanto eu dormia e disse-me que me levantasse e
deixasse meu leito!"
- Quem! perguntou Lucano. - Que é isto que estás me
dizendo?
- É o que estou lhe dizendo. Foi o Deus Desconhecido.
Perdoa-me, sou apenas um rude soldado, não tenho eloqüência, e conto
mal a minha história. Eu disse que meus amigos judeus tinham me
fàlado do Messias, e um dia Ele veio a Cafarnaum. Meus servos
correram a contar-me que o estranho rabi judeu vinha à nossa cidade, e
que se dizia ser Ele o Messias. Três dos meus amigos, anciãos judeus,
estavam sentados a meu lado, consolando-me, pois Crético morria. Só
conseguia arrancar do peito um vagaroso hausto depois do outro, e
havia um rumor em sua garganta. Tinha os olhos voltados para cima e
vidrados, O tiritar gelado da morte estava sobre ele, que gemia nas
profundezas de seu corpo. O médico acabara de sair, sacudindo a
cabeça.
A lembrança daquelas horas fazia estremecer a voz do centurião.
Cobriu o rosto com as mãos e continuou:
- E pedi aos nicus amigos, aos anciãos judeus, que fossem ter
com Ele e Lhe suplicassem que curasse meu servo, meu querido
Crético. Foram procurá-Lo. Ele estava pregando ao povo. Disseram-Lhe
que viesse até a minha casa. Os anciãos lhe disseram que eu
construíra uma sinagoga para eles, e era seu amigo. Assim, rodeado
pelos seus seguidores e por algumas pessoas do povo, e acompanhado
pelos anciãos, Ele se aproximou da minha casa.
As lanternas balançavam-se no escuro frescor da noite. a lua
navegava sobre as velas altas, como uma inundação de água prateada. Lucano
esqueceu Ramo, esqueceu tudo, menos aquela história incrível.
- Eu os ouvi chegar disse o centurião, e agora sua voz se
fizera rouca e lenta. - Sabia que Deus vinha à minha casa e sabia que
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não era digno de que Ele se aproximasse do meu limiar. Corri ao
quarto de dormir, fugi da casa. O sol estava alto e quente, e ali eu O vi!
Com estes olhos eu O vi!
"Lucano, tu precisas acreditar em mim. A poeira envolvia o povo
e Ele, que estava no centro, era de um amarelo dourado. Ele era alto,
entre os outros, um jovem de rosto belo, e a poeira amarela ficava
luminosa em torno de Seu corpo. Vi-Lhe os olhos, como o céu, vi
Seu sorriso, e de novo senti que Ele era Deus.
"Minhas pernas tremiam e parecia-me que a terra e os céus se
tornavam incandescentes em torno Dele. Atirei meus braços para a
frente, a fim de impedi-Lo de se aproximar, pois eu não o merecia.
Baixei a cabeça, pois era sacrilégio fixar os olhos Nele. E disse:
"Senhor, sou homem de autoridade, um romano, tenho soldados às
minhas ordens, e se eu disser a um deles Vai e se eu disser a outro deles
Vem, eles me obedecem. Tudo quanto ordeno é feito quando eu o
ordeno. Portanto, Senhor, dize apenas uma palavra, e meu servo
ficará curado."
Lucano estremeceu e apertou as mãos uma contra a outra. A brisa
da noite estava parecendo gelo contra seu rosto. Mas ele disse, consigo
mesmo: "Não! Não! Isso é impossível!"
- Então continuou o centurião, quase num sussurro eu
O ouvi falar e Sua voz parecia vir do céu e da terra ao mesmo tempo,
e Ele disse as pessoas que o rodeavam: "jamais encontrei fé tão grande
em Israel!" E Lucano, quando eu abri os olhos, Ele se fora, e as
pessoas com Ele, e só meus amigos ali estavam. Entramos na casa e
encontramos meu servo curado.
Acima dos sons da noite e do trovejar das velas, Lucano ouviu a
mais leve das exclamações, como que um eco. Assustou-se e olhou
estonteado em torno de si, vendo que Ramo já ali não estava.
Levantou-se, e teve que agarrar-se à cadeira, pois seus joelhos
sentiam-se fracos. Ficou a olhar para o centurião, sem dizer palavra.
- Precisas acreditar repetiu o centurião. - Olha para mim e
vê que não minto. Sei que não minto! Ele curou meu servo e
transformou minha alma!
Lucano virou a cabeça e afastou-se dali.
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Lucano e Ramo comeram juntos, na cabina, uma ascética refeição. O
grego estava mais silencioso do que de COstume e mal podia comer.
Ramo estava sentado a seu lado, e Lucano via que o rosto do negro
irradiava contentamento, e que seus pensamentos o absorviam por
inteiro. Falou-lhe, então, lenta e cuidadosamente:
- Ramo, deves lembrar-te de que não há médico que saiba tudo
o quanto há para se saber. O homem é muito misterioso. Filósofos e
médicos, bem como sacerdotes, têm em vão tentado explorar o seu
mistério. A magia, a necromancia e a feitiçaria talvez não sejam o que
têm parecido ser. É possível que elas operem através de leis naturais
ainda desconhecidas para nós. Uma vez, meu professor, Keptah,
disse-me que nos livros sagrados da Babilônia estava escrito que um dia
os homens se moverão através do oceano, sem velas, que um dia
voarão como pássaros através dos continentes. E que, algum dia, em sua
incontinência, destruirão a terra em que vivemos. Todos os filósofos
conheceram essas profecias, mas temeram conta-las ao populacho. Hás
de recordar Sócrates, que foi forçado a morrer por causa de seus
pensamentos e idéias.
"Se alguém hoje, neste moderno mundo romano de força, poder e
materialismo, proclamasse o que os babilônios e judeus há séculos
sabem, seria chamado louco, idiota ou magiCo, e tratariam de eliminá-lo.
Apesar disso, acredito que todas essas coisas acontecerão. A história que
ouvi esta noite, dos lábios do centurião Antônio é, sem dúvida,
verdadeira... do ponto de vista dele. Talvez o rabi judeu, o mestre, conheça
alguns segredos que parecem sobrenaturais para nós, mas que são parte
de leis naturais que ainda não descobrimos. E, como já disse.., e isso
parece muito razoável para mim... os médicos que tratavam do servo de
Antônio cometeram algum erro. O servo não estaria mortalmente
enfermo e, de qualquer maneira, teria recuperado a saúde.
Lucano partiu um pedaço de pão, ficou a olhar pateticamente
para ele, depois pousou-o sobre a mesa.
- Vi que te comoveste muito com a história do centurião.
Pensaste que o rabi judeu é o que tens esperado. Não te iludas.
Olhou para Ramo, cujo rosto continuava radiante, com firmeza:
- Eu te disse que podes falar, que não há nada de organicamen-
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te errado com tua garganta ou teu aparelho fonador. Estás tomado pela
histeria. Um destes dias, entretanto, falarás e não será um milagre.
A cabeça de Lucano doía, e pequenos tremores, que pareciam de
água gelada, corriam sobre sua pele. Suas juntas doíam. Levantou-se
da mesa, e disse:
- Tenho frio. Vou deitar-me.
Puxou o biombo para junto de sua cama, entre ele e Ramo, e
apanhou seu estojo médico. Apalpou o próprio pulso, que parecia
normal. A pele estava quente, mas normal. Examinou-se, e nada
encontrou de errado. Ainda assim, sentia-se dominado pela sensação de
estar profundamente enfermo. Disse consigo mesmo: Não sou homem
influenciável mas, por qualquer idiota razão que seja, as palavras
daquele centurião me impressionaram.
Foi para a cama e ouviu Ramo fazer seus preparativos para deitar-se
na sua própria. Quando Ramo olhou por trás do biombo, Lucano
fingiu estar adormecido. O negro apagou a lanterna com um sopro e
tudo ficou silencioso, a não ser pelos murmúrios e estalidos do navio,
pelo som distante dos remos batendo na água quando o vento
tombava, e algumas vozes longínquas dos vigias. Depois de algum tempo
Lucano adormeceu, mas agitadamente, tomado de pesadelos em que
predominava o terror.
Estava num vasto quarto cavado, cujas paredes e forro pareciam
nuvens, sem começo nem fim. Estava sozinho, dominado por uma
sensação de inanidade universal e medo. Então, diante dele, uma grande
cruz ergueu-se, branca como a neve, e sombras rosadas corriam por
ela, de alto a baixo, e através. Seu topo erguia-se até o infinito, e seus
braços envolviam o universo. Lucano estava ao pé dela, e começou a
chorar, dizendo consigo mesmo: "Fiz o possível para não me
lembrar!" E exclamou, em voz lacrimosa: "Senhor! Vem a mim!"
Mergulhou no espaço profundo, negro como a noite, e sem-fim.
E então, da mesma vastidão, dos confins da criação, ouviu alguém
chamá-lo ternamente: "Eu não me esqueci de ti, á Meu servo! Desde
o início dos tempos. Eu te conheço, e tu ouvirás a Minha voz."
Lucano acordou num sobressalto violento, em plena escuridão. O
navio gemia e murmurava consigo mesmo. Ele começou a dormitar de
novo, tremendo ao pensamento de seus sonhos. Chegou a pensar que
via uma faísca de luz, mas ela desapareceu. Remexia-se na cama,
inquieto. Sua carne parecia quente como fogo, e Lucano disse conSigo
mesmo, vagamente, que tinha febre. Tombou adormecido, de novO, e
de nOVO a desolação impregnou seus sonhos agitados numa sensação
de perda e de busca. Estava num deserto fulgurante e ardente, de
areias que pareciam imensas ondas do mar. A sede consumia-o. Errava
daqui para ali, procurando um oásis, ou um sinal de vida, ou uma
palmeira, ou uma linha de camelos contra o horizonte em chamas.
Tombou de borco na areia ardente e disse consigo mesmo: Agora devo
morrer, pois em torno de mim há a inutilidade da minha vida, como
um deserto, e nada existe para estancar a minha sede.
Instantaneamente, água fresca correu contra seus lábios, e ele bebeu
sofregamente, sem poder se saciar. Seus olhos estavam cegos pela luz que o
envolvia, e ouviu, então, uma voz que dizia, suavemente: "Eu sou o único
que pode saciar tua sede, á Meu servo, Lucano!"
Agora estava tropeçando numa estrada estreita, juncada de pedras
lisas, que subia para a montanha altaneira, cujo topo desaparecia entre
nuvens. A montanha não tinha árvores, nem relva, nem vegetação.
Suas rochas e rochedos de tons amarelados e esbranquiçados
pareciam nadar em fogo. Monstruosas cabeças feitas de pedra, como as de
uma Medusa, ou as cabeças das Fúrias, avançavam dentre os
rochedos, ou empinavam-se à sua passagem. Lucano tinha as costas
curvadas, com uma carga terrível, que ele não podia ver, e seus ombros
gritavam de dor sob aquele peso. Tombou contra o lado de um
rochedo, e arquejou desesperadamente, dizendo consigo mesmo que não
conseguiria ir mais adiante. E alguém falou, com uma voz que enchia
todo o espaço: "Vinde ter Comigo, todos os que estais
sobrecarregados, e eu vos darei repouso!"
Lucano acordou de novo, empapado em suor. O navio gemia,
balançando. A escuridão era sufocante, e ele fez um movimento para
se levantar, para procurar água, mas tornou a tombar, adormecido. E
agora estava com fome, uma fome para além de todas as existentes,
como jamais conhecera ou imaginara. Dentro dele havia um poço
retumbante de angústia e desejo. Mordia as mãos e gemia. Então, no
meio da dor, viu duas mãos que partiram pão e deram-lhe um pedaço
que ele devorou e que o satisfez. E uma voz disse: "Esta é a Minha
verdade, e só ela pode aliviar a tua fome."
Encontrava-se, depois, entre a destruição das cidades. Via a curva
do mundo, e ela estava envolvida em fumaça. Caminhava entre as
ruínas, de horizonte a horizonte, sob um céu tenebroso. Não havia
lua, nem estrelas, nem sol, nem esperança. E cidades
lançavam fumaça, como esqueletos incendiados. Então, bem para longe e para cima,
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Lucano viu a estrela que vira quando criança, e ela se movia.
Começou a segui-la, correndo furiosamente. E, ao fazer isso, ouviu um coro
de vozes poderosas, cantando de dentro de toda a eternidade, como se
multidões incontáveis se regozijassem. E gritou: "Esperai por mim!
Estou perdido!"
Os sonhos tornaram-se mais confusos, mais insistentes, correndo
um atrás do outro, emergindo, separando-se, espiralando-se até
desaparecer, para retornarem mais clamorosos, mais confusos, mais
carregados de temor e profecias. Ele debatia-se para acordar e, através da
vigia, um feixe de luz solar se derramou em seu rosto contraído.
Alguém mantinha uma mistura de água e vinho junto de seus lábios,
dizendo:
- Estás doente. Bebe e repousa!
Tornou a adormecer, mas era como se jazesse num leito de fogo, e
gemia. Mãos moviam-se sobre ele e seu corpo empapava-se como que
inundado.
Ouviu vozes preocupadas em torno, depois do que lhe pareceu
um tempo infinito. Olhou, mas nada pôde ver senão as luzes das
lanternas, embaçadas como arco-íris. Algo quente e acido estava em sua
boca, e ele engoliu, e toda a sua garganta inflamou-se. Uma frialdade
úmida envolveu-o, e Lucano suspirou grato. Sentiu que lhe erguiam a
cabeça, e que lhe deitavam água entre os labios. Apareceram lanternas,
e retraíram-se; o sol veio e se recolheu; a lua brilhou através da
vigia, mas quando ele estava olhando já eram as estrelas que ali apareciam.
Auroras vinham atrás de crepúsculos e ele disse, em voz alta: "Estou
morto?" Ninguém respondeu. Lucano sentia-se exausto, seu corpo
não tinha peso. Sua cabeça era um globo de vidro flamejante. Desejava
repousar, mas os pesadelos saltavam sobre ele.
Então, certa manhã de um dia fresco e aperolado, acordou e viu
um estranho vestido de branco, que sacudia a cabeça num movimentO
afirmativo, junto a seu leito. Não se podia mover, mas ouvia o navio e
o lamento das velas. Uma chuva cinzenta atirava-se contra a vigia, e
ouvia-se o som das cortinas batendo. O estrangeiro, em sua cadeira,
movimentava a cabeça e dormitava. Mas Ramo não estava ali.
Lucano, com súbita e calma lucidez, soube que estivera
perigosamente doente durante muito tempo. Ficou deitado, quieto,
exausto,
sua carne úmida e entorpecida, a mente clara. Mas que febre era aquela
que o assaltara? Não tivera premonição dela, não sentira qualquer
sintoma se avolumando. Virou-se na cama e viu que havia nas
cobertas a umidade de seu próprio corpo. Pensou em seus sonhos, e a
lembrança deles oprimiu-o.
O estranho gemeu e moveu-se, sacudiu a cabeça e abriu os olhos.
Vendo Lucano desperto, debruçou-se sobre o doente e disse
bondosamente:
- Estiveste doente durante quatorze dias, senhor, mas estás
recuperando a saúde. Sou o médico do navio. Durante muitos dias não
acreditei que pudesses viver. Mas, graças aos deuses, tua vida te foi
devolvida.
Lucano tentou falar, mas sua voz era apenas um Sussurro:
- Foi malária, sem dúvida.
- Não senhor. Foi uma doença misteriosa, Tomei conta de ti
desde que teu servo desapareceu, e os passageiros te ouviram gritando
entre estas paredes.
Lucano ficou imóvel, olhando para o outro homem. Molhou com
a língua os lábios secos, e o médico deu-lhe água, bocejando e
sorrindo com o contentamento de quem devolveu a vida ao seu paciente.
Então, Lucano disse, num sussurro rouco:
- Ramo? Foi embora?
- Sim, senhor. Mas que podemos esperar de servos, que são
desleais e egoístas e só pensam neles mesmos? Quando o navio
atracou, à meia-noite, na primeira noite de viagem, ele deve ter saído,
abandonando-te, pois que desde então não mais foi visto. Ah!
Deixou-te uma carta nessa tabuinha aqui sobre a mesa.
- Lê essa carta para mim pediu Lucano, enquanto sua
fraqueza o envolvia.
O médico, erguendo os ombros, pegou a carta e começou a
lê-la.
A luz aperolada estava agora impregnada de rosado e ouro, e o navio
balançava levemente.
Ramo escrevera: "Perdoa-me, senhor, pois devo deixar-te, quando
o navio atracar, esta noite. Preciso ir encontrar aquele que estive
procurando e sobre o qual o centurião nos falou oa hora do crepúsculo.
Olhei para ver se estavas acordado, mas estavas dormindo, então vi que
seria melhor não esperar, pois se me tivesses pedido eu não poderia
deixar-te. A busca de toda a minha vida está em Israel, e quando eu O
vir, Ele levantará a maldição do homem sobre os filhos de Cam, e eu
tornarei a falar, adorando-O. Deixo te com preces e lágrimas, pois eu
te amei mais do que a meu pai e meus irmãos, e foste, não meu senhor,
mas, meu amigo."
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Lucano pensou com desespero naquele homem solitário, negro,
mudo e indefeso, andando a pé para atingir sua esperança. Seria um
estranho, pois só podia fazer gestos. Haveria florestas que teria de
atravessar lutando, desertos, montanhas para galgar, cidades e aldeias
hostis. Haveria, sempre, homens hostis. Ele iria morrer de sede, ou de
fome, ou atacado pelos animais selvagens, ou mesmo poderia ser de
novo agarrado e vendido como escravo. As lágrimas vieram, fracas, aos
olhos de Lucano e ele voltou a cabeça no travesseiro sem nada dizer.
Finalmente adormeceu, e quando acordou, ao crepúsculo, sua força
voltara e ele não podia compreender. Tornara-se quase emaciado, mas
estava novamente forte.
Mandou chamar o centurião naquela noite, e mostrou-lhe a carta
de Ramo, dizendo, amargamente:
- Não duvido que acredites teres contado a verdade, e que tudo
corresse, para ti, exatamente como descreveste. Eu mesmo, como
médico, tenho uma explicação própria para o caso. Mas tua história
despropositada, Antônio, enviou meu amigo para sua morte certa.
O centurião disse, gravemente:
- Não. Eu o enviei para a sua verdadeira vida.
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- Não está na hora, meu filho, de dizeres algo? perguntou Íris,
sentada com Lucano nos jardins outonais.
- Não há nada a dizer replicou este em voz melancólica. Sua
lassitude, que era de espírito e não de corpo, não o abandonava. A
irmã, Aurélia, estava casada havia seis meses e já esperava um filho no
lar de seu marido.
- Eu devia me sentir feliz por não nos teres deixado desta vez -
disse Íris, com um suspiro meditativo. Talvez não devesse insistir
pelas tuas confidências, pois podes ficar aborrecido e de novo partir.
Ele tentou sorrir para a mãe, mas tudo era um esforço. Íris estava
a seu lado, à luz fria do sol, e seus olhos fixavam-se nas árvores de
folhas caducas, cujos ramos despidos eram como que ouro áspero contra
o azul do céu. Uma fragrância de vinho, maçãs, louro, tâmaras
maduras soprava docemente no ar irisado, e as colinas distantes
mostravam-se cor de ameixa. Lucano pensou que o rosto da mãe pouco mudara
através dos anos, e que sua translúcida aparência era como a de um
rosto de criança. Tinha o corpo ainda esbelto, os olhos continuavam a
possuir a coloração viva de sempre, as mãos eram claras e castas.
- Quando eu for, Prisco e sua família ficarão contigo, nesta casa,
e há também meu irmão, Gaio Otávio. Não estás feliz com tua nora e
as crianças que estão agora contigo? A casa ressoa com o riso delas.
- Esqueces algo importante falou Iris. - Tu foste o filho da
minha juventude. Tenho agora cinqüenta e cinco anos, ejá ultrapassei
os anos de expectativa, portanto estou velha, e minha memória volta
para Antioquia, e vejo-te como um bebê, num cobertor a meus pés,
tomando sol, enquanto eu ficava na minha roca. Nem Prisco, nem
Aurélia, nem Caio são tão queridos para mim, meu primeiro e sempre
lembrado filho.
Lucano, sentado com ela no pórtico externo, estendeu a mão e
colocou-a sobre as dela. Iris sorriu-lhe com lágrimas nos olhos.
- Se ao menos estivesses casado murmurou, levantando a
mão dele até o rosto por um momento. - Se estivesses casado com
Sara bas Eleazar. Cheguei a amá-la como a uma filha, desde que ela
veio no verão e permaneceu conosco até se restabelecer de sua febre
pulmonar. Vê-te e ama-te como eu via e amava Diodoro. Que maior
tesouro pode existir do que o amor? Ela te seguiu em muitas cidades
e muitos portos. Por que a repeliste sempre?
- Já te disse, minha mãe. Não há lugar na minha vida para o
amor de uma esposa, de filhos, de uma lareira tranqüila. Uma vez tu
me disseste que eu era egoísta. Talvez tivesses falado a verdade. Nada
sei além disso; sou como a casca de um coco, flutuando sem rumo no
mar, sua parte vital removida, e sendo atirada de um lado para o outro
pelas marés. Outrora tive uma batalha... já não tenho batalhas, pois
meu próprio espírito está cansado de morte, e nada me parece ter
qualquer importância. Não deixei esta casa porque me faltou vontade
para deixá-la. Magoei-te e peço-te perdão. Mas tu és aquela para a
qual a verdade tem de ser sempre dita.
Voltou o rosto para o outro lado, e ela o viu de perfil, severo e
pálido, como pedra, gasto pelos anos até uma figura ascética. Lucano
falou:
- Outrora eu sabia o que queria, e estava cheio de esperança.
Houve um tempo em que, a cada manhã, levantava disposto para a
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luta. Mas, aproximando-me agora dos quarenta anos, pode ser que
minhas forças vitais estejam sendo drenadas, e que a hesitação da
idade venha tomando conta de mim. Lembro-me de que José ben Gamliel
citava-me suas Escrituras, embora não me recorde das palavras exatas.
Era uma advertência aos jovens para que não se esquecessem de seu
Criador nos dias de sua juventude, antes que os maus dias de invalidez
e cansaço os envolvessem, quando eles dissessem: Não tenho prazer
nos meus dias." - Lucano sorriu de leve e penosamente: jamais
me esqueci de Deus. Ele perseguiu minha vida, até alguns anos atrás,
quando, de súbito, se afastou de mim e deixou o campo onde
batalhávamos diariamente. Sinto falta do meu velho Adversário e pela
primeira vez, em meses, Íris percebeu um divertimento ambíguo na
VOZ dele.
- Mas Keptah me disse que Deus jamais abandona os homens
falou Iris.
Lucano ergueu os ombros.
- Pois eu te digo que a mim Ele deixou. Há um grande silencio
onde outrora Ele estava, e não mais discutimos. Talvez seja porque Ele
sabe que venceu, e que eu não valho mais nada como adversário.
Minha vaidade está ferida acrescentou, com um ligeiro sorriso.
Íris, porem, sabia que seu filho não estava tão fraco como
acreditava estar. Ouvia-o, à noite, na grande biblioteca de Diodoro,
andando de um lado para o outro. Sentia-lhe a fervente inquietação, como
se ele estivesse procurando algo. Muito tempo depois de estarem todos
adormecidos, a lâmpada de seu quarto ainda ardia, às vezes até a
madrugada. Um homem totalmente desprovido de interesse, ou de ardor,
afrouxaria, tornar-se-ia apático. Entretanto, os olhos de Lucano
mostravam-se exaustos, atormentados.
- Que desejas tu, meu filho? perguntou Íris, cheia de dor e
piedade.
- Nada desejo. Posso dizer, verdadeiramente, que nada desejo.
E esse é o meu terrível transtorno.
A conversa entediava-o, e Íris sabia disso. Ambos observavam as
folhas caírem, as pontas dos ciprestes tornarem-se tocadas de luz, e as
colinas escurecerem em sua coloração. Depois de prolongado silêncio,
Íris falou:
- Eu tive receio de que visses Clódio.
- E eu fiquei horrorizado quando o vi, o jovem aleijado desde
sua infância pela paralisia e que não pode andar sem o auxílio de dois
fortes escravos. Por que minha irmã, que é tão bela, desejou esse homem?
Mas tal pergunta me fiz antes de compreender.
Ficara aterrorizado quando Clódio viera àquela casa para vê-lo, e
à sua noiva e família. O jovem tinha um rosto simples e gentil com
olhos sinceros e feições delicadas. O perfil aquilino, típico dos patrícios
romanos, era mais suave nele, e sua expressão mostrava-se sonhadora.
Lucano esperara, ansiosamente, que pelo menos ele possuísse um pouco
de intelectualidade, algum poder interior, certa força de espírito e
caráter. Clódio, porém, era tão transparente quanto Aurélia, e da
mesma forma sem complexidade, embora da mesma forma impenetrável.
Do que eles falavam? Lucano ouvia, sem qualquer sensação de
que invadia a intimidade de ambos. Desejava saber. A autêntica e
simples verdade lhe foi então revelada: eles amavam todas as coisas,
sem malícia, sem hipocrisia, sem medo, fosse um escravo ou uma
folha, um cão ou um cavalo, a relva ou uma árvore, um homem ou um
pequenino animal fugitivo. De início, Lucano ficou aterrorizado. O
mundo os roubaria, com o tempo, daquele amor absoluto; era infantil
e estúpido acreditar que viveriam num jardim brilhante e adorável,
onde o mal jamais entraria. Pensou em quando a morte entrasse na
casa deles, eventualmente para atingir um filho amado ou um servo
querido, ou um deles próprios. Pensou na doença que lançaria
sombras sobre o aconchego de sua lareira, ou na natural ansiedade de
viver, na petulância, na irritação, ou em alguma longa e irremediável
moléstia. Que seria, então, do jardim e do amor?
Um dia, encontrou sua irmã sozinha, brincando com alguns gatinhos
no jardim, e sentou-se ao lado dela, tentando falar-lhe daquelas
Coisas. Falou como a uma criança, e ela ouvia, sorridente, os lábios
rosados entreabertos, seus grandes olhos castanhos suaves e
translúcidos. "Ela não me compreende, absolutamente!", disse Lucano,
Consigo mesmo, impaciente. Aurélia então dissera:
- Eu te compreendo, meu irmão. Clódio e eu conversamos
sobre isso muitas vezes. Sabemos, certamente, que o mundo está cheio
de dor, de morte, de injustiça e de miséria. Não temos olhos? Somos
Crianças? Temos ouvido e visto tudo isso.
Levantara nas mãos um gatinho branco e beijara-lhe a cabeça
pequena. Lucano podia ouvi-la murmurando palavras de afeto ao
animalzinho, que saltou para o ombro da moça e pôs o focinho contra
O queixo dela, mostrando-se contente.
- Mas continuou Aurélia sabemos também que o amor é
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inexaurível, que sempre haverá algo para amar; o mundo está cheio de
coisas para amar! Uma existência não é bastante para o amor.
Lucano pensara, alucinadamente: Como é incrível, como é
lastimável essa inocência!
Aurélia sorrira-lhe com ternura.
- Pensas que somos crianças, sem razão ou compreensão. Pensas
que somos vulneráveis. Esperei por Clódio, embora não soubesse da
existência dele, até o dia em que ele veio com seus pais a esta casa. Mas
eu soube que era ele imediatamente. Não temos medo de viver, Lucano.
Aquilo deixou Lucano mudo. Procurara o núcleo brilhante dos
olhos da irmã, não como homem, mas como médico. E uma luz pura
o enfrentara, delicada e forte. Aurélia, sentada na relva como uma
criancinha, junto de seu irmão, encostou a cabeça nos joelhos dele em
completa confiança.
- Não sou uma erudita, Lucano, pois os livros são velhos e o
mundo é jovem e cheio de glória. Mas, quando vi Clódio, lembrei-me
do que Keptah me dissera um dia: "Sócrates disse que um homem
bom não precisa temer nem esta vida nem a morte."
- O mundo esta tão cheio de males quanto de beleza falou
Lucano, rudemente.
- É porque o mundo odeia, e não ama respondeu Aurélia.
Um cachorro entrou no jardim, correndo e latindo, e Aurélia
chamou-o, saltando sobre os pés e correndo a consolá-lo e a brincar com
ele. Lucano ficou sozinho, inteiramente imóvel. Quando se levantou
para entrar na casa, meditativo, sentia-se vulnerável e sensibilizado.
- Eles serão felizes sempre disse ele, agora, à mãe. -Jamais
haverá um fim para sua felicidade e para seu amor. E eu confesso que
isso é um grande mistério para mim, que já não sou um jovem.
Iris sorriu-lhe, e Lucano teve a revelação de que sua mãe era
semelhante a Aurélia.
- Estou contente murmurou ela. - Sim, estou contente,
porque um dia, e eu o sinto em nieu coração, encontrarás também esse
amor e essa felicidade.
Sara bas Eleazar veio ao jardim e encontrou Lucano sozinho.
Caminhava vagarosamente, pois estivera doente durante muitos meses, e
era hóspede naquela casa, onde todos a amavam pela sua delicadeza e
caridade. Estava com trinta e cinco anos, já não era jovem, mas seuS
olhos cor de violeta pareciam tão radiantes como se fossem os de uma
criança, e o rosto doce, e tão bem talhado, dava-lhe certa serenidade,
tocada de melancolia. O corpo delgado escondia-se sob um traje de lã
da cor de seus olhos, que Iris fizera para aquecê-la, para afagar seu
corpo que se recuperava, e ela usava um xale branco sobre os ombros.
O cabelo escuro, com camadas grisalhas, era usado, simplesmente,
muma coroa de tranças sobre a cabeça pequena, e a linda boca
curvava-se em leve sorriso. Havia em suas faces um rubor constante,
e aquilo quando ela se aproximou de Lucano, que se levantou para
recebê-la era a primeira coisa que o médico, inevitavelmente, via
nela, em especial ao cair da tarde. A mão da moça mostrava-se de um
calor fora do comum.
Lucano recordou-se de que Hipócrates advertia os médicos que
jamais tratassem pessoalmente das pessoas amadas, pois podiam fechar
os sentidos contra a verdade que suspeitavam, ou que eles
confundiam desastradamente, pela sua frenética ansiedade.
- Tossiste muito hoje, minha querida Sara? perguntou,
conduzindo-a até a cadeira onde Íris estivera sentada, e envolvendo-lhe os
ombros frágeis bem aconchegadamente no xale, a fim de protegê-la
contra a frescura do ar da tarde. Ela sorriu-lhe docemente.
- Não. Tossi muito pouco estes últimos dias, Lucano.
- Recusas a atenção dos melhores médicos de Roma, Sara!
Precisas deixar que eu chame alguns deles para examinar-te disse ele.
Ela apertou o rosto contra a mão pousada em seu ombro:
- Eu estou muito bem. Não te alarmes. Bastas para mim, como
médico. - Olhou para as colinas, calmamente, e com paz. - Terei
pena de deixar tua casa, mas preciso voltar a Jerusalém, para os dias
santificados. Vou embora depois de amanhã.
- Mas não estás boa de todo: A viagem será exaustiva demais,
Sara. Sabes que fiquei aqui por tua causa?
De novo ela sorriu, pois sabia que aquilo apenas em parte era
verdade.
- Não fiques aflito murmurou ela. - Sinto falta do meu
povo.
Lucano sentou-se ao seu lado, debruçado para ela, estudando-lhe
o perfil frágil, um camafeu puro, na luz dourada da tarde. Se Sara,
disse ele consigo mesmo, estivesse doente, não teria aquela calma; o
COrpo, quando cheio de pressentimentos de sua própria calamidade,
manifesta seu constrangimento no repuxar de um olho, na distensão
de uma narina, na contração de um lábio. Seus penetrantes olhos de
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médico nada disso encontravam no rosto de Sara. A expressão dela,
como sempre, era de tranqüila alegria, de esperança realizada.
Ficou sentado em silêncio ao lado dela, sentindo os ossos fracos
da mão de Sara, a maciez de sua pele acetinada. Olharam ambos para
as colinas e vales, durante muito tempo. E Lucano pensava: Por que
não me caso com ela e mantenho-a comigo, a esta querida que há
tantos anos amo? Tenho perambulado por todo o mundo, pois não
possuo um lar, e sempre fugi do amor. Mas agora já não sou jovem, e é
possível que minha lassitude, meu vazio, meu desespero torturante
sejam resultado da falta de raízes, da sensação do que perdi, ou jamais
atingi, da significação da vida. Se me casar com Sara, então terei um
lar, uma lareira, uma companheira amorosa para o resto dos meus
dias. Posso comprar uma pequena propriedade, uma vila, onde
tivéssemos nossos próprios vinhedos e pomares, e embora agora já seja
muito tarde, talvez um filho. Eu me privei do que os homens sempre
procuram em suas vidas.
Moveu-se com um acesso da antiga inquietação. Disse para Sara,
inclinando-se junto dela, ignorando o triste estremecimento que de
novo se apoderara dele:
- Sara, minha bem-amada, queres casar-te comigo e
permanecer em Roma, construindo uma casa comigo?
O tranquilo perfil dela manteve-se tão imóvel, tão inalterado,
enquanto a moça olhava para as colinas, que Lucano pensou não ter
sido ouvido, por estar Sara mergulhada em seus pensamentos. -
Estou me sentindo vazio disse ele, levando a mão dela a seus lábios.
Sara então disse:
- Ficaste vazio para que possas ser cheio de alegria e paz para
além de tua imaginação, Lucano. O amor conta-me isso, mas não me
conta como. Não, Lucano. Não posso casar contigo, pois casando
contigo eu te afastaria do teu destino, que não encontrarás em meus
braços. Deus chama os homens das cidades, de suas lareiras, de suas
esposas e filhos, de tudo quanto eles amam, e Sua voz não pode ser
ignorada. Ele te chamou.
- Isso é tolice disse Lucano. - Estou vazio porque tenhO
recusado amar por medo do que o amor pode fazer a um homem.
Tenho tido medo de viver, Sara, e peço-te, agora, que vivas comigO
como minha esposa.
Ela sacudiu a cabeça, leve mas firmemente.
- Não pode ser, Lucano. Outrora, quando deixaste Alexandria,
acreditei que fosse possível. Mas, durante estes anos, eu vi que era
impossível, pois pertences a Deus. Tu O desejas com um desejo
terrível, e ele será satisfeito, pois tu Lhe pertences.
sara tinha ido embora e Lucano estava sozinho com sua família. A
velha e dolorosa inquietação se apoderara dele novamente. A casa
estava cheia, mas não havia ali ninguém com quem pudesse falar, e isso
espantava. Havia seu irmão solteiro, Gaio Otávio, eternamente
ocupado com seus livros, jovem sério, que vivia uma existência absorvente
e secreta que lhe pertencia por inteiro. Lucano sabia que ele tinha
grande intelecto, mas, estranhamente, sentia-se menos capaz de
conversar com aquele Gaio sem sorriso do que com qualquer outro
membro do pessoal doméstico. Havia uma grande formalidade e cortesia
entre os irmãos, porém Lucano não podia penetrar na reserva do
jovem. Esses pedantes!, dizia ele, consigo mesmo. São mesquinhos e
egoístas. Teimosos e veladamente arrogantes. Vivem acastelados numa
torre de marfim, onde imperam sozinhos.
Prisco, o feliz e alegre soldado, voltara a casa de suas campanhas
com Druso, ao qual jamais criticava por suas loucuras patentes e sua
falta de organização, comentando-as, apenas em tom humorístico.
Entre todos os filhos da casa, era aquele que Lucano mais queria.
Entretanto, ficava a pensar, às vezes, se Diodoro o teria achado
satisfatório, pois Prisco aceitava tudo com uma pilhéria; com simples
contentamento, e nunca se mostrava sério, fosse a propósito do que fosse. O
rosto redondo e moreno e os olhos castanhos faziam Lucano recordar
Rúbria, agudamente. Tinha as maneiras joviais dela, seu humor, seu
riso fácil e a faísca nos olhos. Gostava da guerra e gostava da paz;
gostava de seu dever e gostava de sua família. Nunca se sentia mais feliz
do que quando tinha hóspedes em casa. Possuía muitos amigos e
visitava-os em sua volta. Era evidente que gozava a vida, não lhe fazia
exigências despropositadas, amava os jogos, o teatro, os dados, todos
OS gladiadores, as noitadas de bebidas com companheiros. gracejos e
alegria bem-humorada em geral. Adorava os filhos. Quando Lucano
falava de política sentiase tão entediado quanto Aurélia, e punha de
Parte o assunto com um forte piscar de olhos e um sorriso, saindo para
inspecionar a grande propriedade agrícola. Lucano suspeitava de que
Prisco, que o amava, também o achava tedioso.
Apesar disso, Prisco era o chefe da família, e Lucano sentia a
urgente necessidade de fazer o exuberante capitão olhar com seriedade o mundo
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em que vivia. Tinha uma grande fortuna, influência política e militar,
tinha filhos, e isso era o mais importante. Assim, certa noite, Lucano
chamou Prisco em seus aposentos, e o soldado entrou gingando, com
suas pernas fortes e morenas, vestindo uma túnica simples. Estivera
brincando com os filhos antes que eles se recolhessem, e seu cabelo áspero e
preto mostrava-se despenteado. Em seus lábios grossos e vermelhos
havia um sorriso. Cumprimentou afetuosamente Lucano, mas seu coração
abateu-se quando viu a expressão grave do mais velho.
Prisco tentou evitar o que temia fosse uma conversa pesada,
fazendo vários comentários enérgicos sobre a colheita de uvas, as condições
dos pomares, seus planos para reabastecer o rio com maior número de
peixes, suas observações sem maldade quanto à frouxidão dos escravos
e libertos, suas suspeitas sobre a honestidade de seus capatazes. Tinha
a voz feliz, o rosto sem rugas, as maneiras sossegadas.
Lucano disse:
- Como sabes, Prisco, logo irei embora. Deves ter
tolerância para comigo; és o cabeça desta casa, e o que pensas e o que dizes é da
maior importância não só para a tua família mas para o teu país.
- Oh! Certamente! disse Prisco, servindo-se de um cacho de
uvas purpúreas, de um prato que havia sobre a mesa. Suspirou. Era
paciente, e gostava de Lucano. - Eu sempre cumpro meu dever.
Acho fácil, devo confessar.
Sentou-se e comeu suas uvas com prazer, cuspindo as sementes na
mão e colocando-as em uma pequena pilha, sobre a mesa, pois era
muito ordeiro.
- Teu verdadeiro dever disse Lucano não é fácil.
- Já me disseste isto muitas vezes falou o soldado. Esfregou
uma maçã na manga curta da túnica. - Mas eu nunca entendo e tu
não podes perdoar isso.
- Desconfio que entendes bem demais disse Lucano,
sombriamente. Prisco mordeu a maçã e ofereceu a Lucano o prato, que ele
recusou impaciente. Prisco ergueu os ombros.
- Talvez tudo seja bastante verdadeiro disse mas estou
vários séculos atrasado, penso. Que posso fazer a propósito de Roma,
agora, em minha geração? Sejamos razoáveis, Lucano. - Os olhos
castanhos estavam, de súbito, privados de riso, e se mostravam duros
quando os fixou no outro homem.
- Teu pai morreu fazendo o que podia falou Lucano.
As espessas sobrancelhas de Prisco franziram-se, encontrando-se.
- Sim disse ele e, como disseste, morreu. Que proveito
tiveram suas advertências, sua morte? Moveu uma polegada algum
homem? Tornou algum senador corrupto menos corrupto? Inspirou
em Cícero, um Cincinato? Fez César menos do que ele é? Lembro-me
de que me disseste que os césares não arrebatam o poder. Que o
poder lhes é imposto por um povo degenerado que perdeu sua
virtude e sua força, e que prefere segurança à varonilidade, facilidade ao
trabalho, e circos ao dever. O que meu pai disse no dia em que morreu
despertou a consciência de algum homem? Ficou inscrito para os
tempos vindouros? Não. Ele não pôde, nem mesmo durame a sua
existência, fazer uma só coisa que fosse para deter o curso da História.
- Tu não me entendeste bem, Prisco. Sei que era inevitável que
Roma se tornasSe o que é. As repúblicas decaem para democracias, e
as democracias degeneram em ditaduras. Isso é um fato imutável.
Quando há igualdade... e as democracias sempre trazem igualdade... o povo
torna-se descarado, perde o seu poder e a iniciativa, perde o orgulho e
a independência, perde o esplendor. As repúblicas são masculinas, e
assim geram as ciências e as artes; são orgulhosas, heróicas e viris. Dão
enfase a Deus, e O glorificam. Roma, porém, tombou numa
democracia confusa, e adquiriu traços femininos, tais como materialismo,
avidez, anseio de poder e utilitarismo. A masculinidade nas nações é
demonstrada pela lei, idealismo, justiça e poesia, e a feminilidade pelo
materialismo, dependência de outros, sentimentalismo flagrante, e
ausência de gênio. A masculinidade é visão, a feminilidade ridiculariza a
visão. Uma nação masculina produz filósofos, e respeita o indivíduo;
uma nação feminina tem o desejo insensato de controlar e dominar. A
masculinidade é aristocrática, a feminilidade não tem aristocracia e é
feliz apenas quando encontra uma porção de rostos que a ela se
pareçam exatamente, e uma porção de vozes que façam eco para seus
próprios e insignificantes sentimentos, desejos, medos e loucuras. Roma
tornou-se feminina, Prisco. E nações femininas, como homens
femininos, morrem, inevitavelmente, ou são destruídas por povos
masculinos.
Prisco tentou tornar o assunto mais leve. Disse, gracejando:
- Meus soldados, as legiões de Roma, não são mulheres, Lucano.
- Mas franziu as sobrancelhas, pensando. Que devia um homem
fazer? Ele estava absolutamente impotente onde o povo preferia,
unanimemente, a escravidão à árdua liberdade.
Ele disse então:
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- Consinto em afirmar que tens razão. Mas eu já te disse que
meu pai nasceu tarde demais. Morreu com o coração despedaçado.
Eu nasci ainda mais tarde. Não pretendo morrer com o coração
despedaçado. Que adiantaria a minha tentativa para chamar um só homem
que fosse à sobriedade e ao heroísmo? Nada resolveria.
- Mais uma vez me entendeste mal, Prisco. Compreendo que
não podes deter a História, pois podridão e morte são inevitáveis nas
repúblicas. A única sociedade que pode durar no mundo, com
grandeza, é a sociedade aristocrática, governada por homens sábios
escolhidos, sacerdotes, cientistas, heróis, artistas, poetas, filósofos. As
repúblicas geram políticos exigentes, e esses políticos criam sempre,
infinitamente, democracias e morte. Se os homens quisessem ao
menos vigiar atentamente, de forma que a masculinidade não se separasse
de uma nação! Mas isso nunca acontece.
"Prisco, tu, como esposo e pai, e mais particularmente como pai,
podes cultivar a masculinidade de homens nobres e livres em teus
filhos; um homem deve começar sempre por sua própria família, e
então estender sua atividade aos seus vizinhos. Pode fracassar, mas
pelo menos tentou. O homem não é julgado pelos seus fracassos, mas
pela ausência de esforços. Pelo menos, o homem é julgado
separadamente, nunca é julgado como a massa.
Prisco estava irritado.
- Eu não fiz este mundo, Lucano. Não posso modificá-lo.
Devo bater a cabeça contra a parede e esmagar meu crânio? Vivo minha vida
o mais utilmente possível, servindo minha pátria, fechando meus olhos
para seus defeitos fatais, que não posso eliminar, gozando minha
existência, minha família, meu lar, meus amigos. Perdoa-me, mas com
toda a tua filosofia jamais gozaste a vida. Quem, então, é mais feliz?
- E isso é tudo, no que se refere a viver, Prisco? indagou
Lucano, melancolicamente, sabendo muito bem que seu irmão
compreendera. - Apenas gozar a vida? Seguramente. o homem deve ter
maior destino do que esse. Sua vida tem uma significação maior, além
deste mundo.
Prisco levantou-se, estendeu os braços sobre a cabeça, bocejou.
- Deves dizer-me, Lucano e havia em sua voz robusta uma
leve zombaria.
Lucano ficou silencioso. De repente, pensou em Keptah, em José
ben Gamliel, em todos os filósofos e devotos que conhecera. Disse,
com hesitação:
- É possível que o destino do homem esteja além de sua morte,
e O que ele faz aqui decida esse destino.
- Tu não acreditas nisso! falou Prisco, rindo. - És o mais
ático dos céticos. Já te ouvi falar muitas vezes nesta casa.
Lucano ficou em silêncio outra vez, desprezando a si próprio. Viu
a terrível responsabilidade dos adultos, sejam pais ou irmãos. Viu que
devem estar sempre ensinando aos jovens que eles são mais do que
animais; que suas vidas têm uma significação mais sutil e maior do
que superficialmente parecem ter. Lucano pôs a cabeça entre as mãos,
pois, subitamente, sentiu pequenas fisgadas e a sensação de que a
comprimiam. Prisco, contemplando, apertava os olhos.
- Não te acuses, Lucano. Sempre falaste de acordo com a tua
convicção, embora falasses amargamente. Poderias tu me ter feito
diferente do que sou? Não.
Sim, pensou Lucano, com fel na boca. E disse:
- E estás satisfeito, Prisco? Não desejas nada mais além daquilo
que possuis?
Seria possível que Prisco estivesse hesitante? Lucano levantou os
olhos, esperançoso. Prisco estava sério, agora, e coçava o queixo,
enquanto flexionava, abstraidamen te, um braço musculoso. Depois
fálou, como para Consigo mesmo.
- Ouvi rumores em minha última campanha. Rumores loucos,
talvez. Vinham da Síria, ou talvez da Armênia, ou Egito, ou Israel.
Não me recordo. Mas o boato diz que Deus está se manifestando em
algum lugar, e que bem depressa modificará o mundo.
Olhou para Lucano e riu meio encabulado.
- Claro está que são falatórios loucos. Nossa religião está cheia
de manifestações de deidade, e como sabes, os deuses estão sempre se
envolvendo e interferindo com es homens, ou discutindo
acaloradamente entre eles próprios. Ainda assim e ele fez uma pausa esse
rumor parece ser inteiramente diferente. Uma grande revelação está
para vir, segundo dizem. E o mundo será regenerado. - Deu uma
palmada nas costas de Lucano: - Portanto, anima-te, meu irmão.
Talvez nem tudo esteja perdido.
E lá se foi, cantarolando. Se Lucano tivesse prestado atenção,
perceberia que os passos de Prisco não eram tão enérgicos quanto de
costume; que, de certa forma, arrastavam-se como se o soldado estivesse
pensando. Mas Lucano não ouvia, Um grande terror, uma grande
fome, uma grande inquietação se apoderaram dele, e o médico recor-
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dou, embora tentasse não recordar, seus sonhos horríveis de quando
estivera doente, tomado pela febre.
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- Não podemos descer em Creta, senhor Lucano disse o
comandante do navio.
- Por quê? indagou preocupado. - Tenho quatro
pacientes Lá, e prometi ir vê-los nesta época. Eles estão sob meu tratamento.
- Senhor, está amanhecendo disse o comandante,
significativamente. - Se me quiseres acompanhar eu te mostrarei a razão.
Lucano acompanhou-o para o convés superior. O mar, calmo e
azul, riscado com o vermelho e ouro da aurora, desenrolava-se em
torno deles. Não estavam longe de Creta, verde e iluminada pelo
primeiro sol, rodeada por um halo esbatido de espuma. Um grande
navio de guerra romano estava próximo do porto, suas altas velas brancas
sacudindo-se ociosamente à brisa matinal, suas flâmulas drapejando
contra o céu. Circundando-o, como pequenos peixes em redor da
mãe, havia uma atividade febril de barcos pequenos, que pareciam
densamente aglomerados de gente que estava para subir a bordo do
navio de guerra, sob um chuveiro de chicotadas. Suas vozes
lastimosas, fracas e distantes, ecoavam através da água.
O capitão debruçou-se à amurada e ficou a palitar os dentes
pensativamente. Era um levantino velhaco e moreno, de bigodes pretos.
- Houve uma insurreição disse ele, observando com
interesse. - O povo desta cidade, inspirado pelos jovens, OUSOU desafiar
Roma e pedir sua liberdade! Não é ridículo que uma ilha tão
pequena... e a ilha inteira está fervendo.., desafie o poder e a força de Roma?
Que ganharam com isso? Suas ruas estão empilhadas de corpos
jovens; homens, mulheres e crianças, aos montes, foram apanhados e
escravizados, e agora estão sendo levados a Roma, a fim de serem
vendidos. Tolos mesquinhos! Nunca houve para eles a menor esperança.
Mas, segundo ouvi, enquanto lutavam, chamavam pelos gregOS, pelOS
egípcios, pelos sírios, a fim de que se reunissem a eles na batalha por
liberdade! Receberam apenas expressões de simpatia ou silênCio.
Disseram-me que mandaram mensageiros com tochas, correndo, durante
meses, através do mundo, pedindo um levante geral contra o tirano de
Roma. Mas os outros preferiram lançar expressões de apoio moral em
seus tribunais de leis, e saíram para jantar. Outros países, segundo
ouvi, apressaram-se a assegurar aos procônsules romanos, e aos tribunos,
que não tinham a intenção de se unir "à desordem", e desejavam
apenas uma oportunidade de continuar a coexistir amistosamente com
Roma. - O homem riu asperamente.
Mais barcos pequenos carregados com rebeldes iam correndo
ansiosamente em direção do navio de guerra, como que para aplacá-lo.
Lucano via agora nuvens de fumaça e pequenas línguas de fogo
erguendo-se da cidade. Pensou nos cretenses que haviam lançado um
golpe furioso contra o Império, suplicando e rezando para que as
nações submetidas a eles se juntassem. Mas estiveram sozinhos, como
todos os homens que lutam pela liberdade estão sozinhos. E os povos
pusilânimes, soluçando sentimentalmente por eles, preferiram não ser
valentes. Os homens oferecem sua escravidão, sua sujeição, seu
sofrimento, foi o que Lucano pensou com amargura. Nunca são realmente
oprimidos. Permitem a opressão.
Mas talvez o amor instintivo da liberdade vivesse em toda parte,
severamente abafado e ainda assim existindo, embora numa ilha tão
pequena, num povo tão pequeno, que ousara levantar mãos valorosas
contra a Roma Imperial. Lucano sacudiu a cabeça. Sempre era tarde
demais. Não podia suportar os gritos e lamentos e brados dos homens,
mulheres e crianças escravizados, e desceu. Sua porta abriu-se sem
que batessem, e o comandante entrou, sentou-se junto dele numa
cadeira e ficou a olhá-lo.
- A morte disse o comandante - é sempre o preço que o
homem deve estar preparado a pagar pela sua dignidade.
- Quando ele perde sua dignidade como homem, já não é mais
homem disse Lucano. - Os crerenses, que parecem ter sido
esmagados, tiveram seu homem de glória. Que Deus esteja com eles.
- É evidente que ninguém mais estará disse o comandante,
com um riso sufocado. - Mas é possível que eles não tenham sequer
a simpatia dos deuses, que achem os homens deploráveis.
O navio fez a volta e afastou-se. No porto seguinte, Lucano recebeu
Cartas de sua casa, mas nenhuma, conforme esperava, de Sara bas Eleazar.
Prisco fora reunir-se a Plócio em Jerusalém. Escrevera: "Acho os judeus
muito interessantes. Atualmente, toda a Judéia ressoa com o nome de
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um mestre judeu, um jesus de Nazaré, que prefere falar com a plebe a se
reunir aos homens sábios da cidade. Corre o rumor, entre a populaça
fervilhante, de que Ele é o seu Messias, aquele cuja vinda foi profetizada
nos velhos tempos, e que os livrará de Roma! Não é ridículo? Os
sacerdotes desprezam-No, como camponês de pés descalços. Vive rodeado
de seus seguidores, tão destituídos de tudo quanto Ele próprio.
Naturalmente, ninguém de importância O leva a sério. Alguns de fOSSOS
soldados declaram que Ele realiza milagres como um verdadeiro deus.
Precisamos descontar os exageros dos ignorantes, e nossos soldados são
supersticiosos. Gosto daJudéia; o clima é salubre; o povo de fisionomia
franca. Além disso, não se precisa ter medo de comer em suas tavernas,
mesmo na mais humilde, porque tudo quanto se refere a alimento é
manejado com a mais escrupulosa limpeza. Na noite passada os oficiais
foram convidados ajantar com Herodes Antipas, que é homem cauteloso,
e que parece, a esta altura, andar muito preocupado. Ouvi dizer que
é abstêmio em seus hábitos, o que possivelmente será falso, pois bebeu
mais do que nós, depois se debulhou em lágrimas e falou de um João
que tinha mandado matar por causa de sua selvagem rebelião, que
agitava o povo. Isso aconteceu há quase dois anos; ainda assim parece
perturbar Herodes. O país está fervendo."
Lucano leu e releu aquela carta, e pensou no centurião Antônio.
Sacudiu a cabeça. Um rabi judeu, obscuro, iletrado, miserável! Riu,
levemente. Seria ele o Deus Desconhecido a que se referia o centurião?
Deus se manifestaria, sem dúvida, na pessoa de um grande rei, de um
poderoso sábio, de um nobre, de um patrício. Mas aquilo, sem
dúvida, estava de acordo com a natureza mística dos judeus, que viam
Deus em toda parte. Então, Lucano pensou em Sara e no que ela lhe
escrevera, havia anos, sobre o jovem que dela se aproximara,
chamando-a pelo nome e a consolara.
Ficou pensando naquilo. Disse consigo mesmo que em todos os
países há sempre boatos sobre milagreiros, sobre rápido aparecimento
de deuses vestidos de luz, de estranhos acontecimentos. Um mundo
reduzido à subserviência e sujeição, sob os romanos, voltava-se para os
mitos e superstições.
Apesar disso, terrível inquietação apossou-se de Lucano. Sentiu
a Judéia puxar por ele, como se fosse irresistível maré. Começou a
pensar em fazer uma visita a seu irmão, em Jerusalém, e então encolheu-se
interiormente. Não desejava saber daquele perturbador misticismo dos
judeus; estava farto de homens como José ben Gamliel.
No porto seguinte recebeu numerosas cartas, não só de sua casa,
mas de Sara, e de estrangeiros em Jerusalém. E quando leu a carta de
sara, fez-se imóvel e frio como pedra, e toda a emoção entorpeceu-se
nele, pois agora sabia que Sara tinha morrido. Ela escrevera:
"Quando esta carta chegar às tuas mãos, meu bem-amado, meu
muito querido Lucano, eu terei ido reunir-me a meus pais, pois estou
morrendo. Não sofras, não chores. Regozija-te comigo por ter sido eu
chamada por Deus, que jamais esteve ausente de mim num só
momento de minha vida. Reza por mim, se quiseres. Quando deixei Roma,
sabia que levava a morte comigo e estava feliz. Voltei para Jerusalém a
fim de morrer em meu lar, sem remorsos, sem anseios, sem desejos
mundanos, pois que me ia reunir a meus pais e a outros que me
amaram. A morte não é uma calamidade, quando morremos; só é uma
calamidade para aqueles que ficam, pois a morte é libertação, alegria,
paz e beatitude eternas. Os dias dos homens são curtos e cheios de
perturbações. O que há no mundo que nos ofereça consolo? Não te
desgostes. Estarei sempre contigo e rezarei por ti. Nossa separação será
breve. Deus esteja contigo, e possa Ele trazer-te Sua abençoada paz.
Dos céus olho para ti, quando tiveres esta carta nas mãos, e rezo para
que não chores. Encontrarás meu irmão, Arieh. Antes de ficar
confinada ao leito eu vi Aquele que estás procurando, misturei-me com as
multidões pelas ruas, e toquei-Lhe as vestes. Ele voltou-se e sorriu-me
compassivamente, dizendo-me que não desanimasse; que minhas
preces já tinham sido ouvidas. Traze meu irmão para casa, pois agora sei,
sem a menor dúvida, que o encontrarás. Adeus, mas só por pouco
tempo, meu Lucano. Beijo teus lábios e teus olhos."
Lucano não chorou, como Sara temera. Nada sentia, a não ser um
grande vazio e silêncio, um abandono de toda a sensação. Leu,
calmamente, as cartas dos estranhos de Jerusalém, amigos de Sara, cartas
grandiloqüentes assegurando-lhe que ela morrera sem dores; que seu
corpo fora levado à sepultura de seus pais, e que Sara lançara seu
último suspiro com um sorriso cheio de paz. Havia cartas dos
advogados que eram os curadores da fortuna da família de Sara, fortuna
reservada para o filho de Eleazar ben Salomão, que agora devia ter
mais ou menos vinte anos. Eram homens Céticos, aqueles advogados.
Apesar disso, Sara os convencera, e eles expressavam sua confiança em
que Lucano poderia encontrar o filho de Eleazar, o irmão de Sara, e
devolvê-lo a seu povo.
Lucano pôs de lado as cartas e serviu-se de um pouco de vinho.
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Bebeu lentamente, cogitando, de maneira vaga, no porquê de nenhum
vendaval levantar-se nele, no porquê de não ter paixão ou desgosto
por alguém que amara com tanto carinho. Então, como médico, soube
que estava misericordiosamente entorpecido pelo choque. Bebeu mais
e mais, até que as paredes de sua cabina enviesassem. Tornou a beber,
e tombou sobre o leito, onde passou vinte e quatro horas sem acordar.
Quando voltou a si, teve violentos vômitos, e sentiu-se vagamente
grato pelas náuseas e pelo corpo dolorido, pela cabeça estrondejante,
pois, preocupado com sua miséria física, não podia pensar.
Dias depois, enquanto o navio fazia seu caminho, sentiu-se como
se se movesse num mundo vazio. Trabalhava em silêncio. Não sorria
mais, nem mesmo um pouco. Temia adormecer, pois via em sonhos os
rostos dos que amara e perdera. Ouvia suas vozes amorosas. E disse a
eles:
- Não me consoleis, pois estais mortos e na sepultura não há
recordações.
Os meses monótonos e descoloridos se passaram, gotejando uns
sobre os outros, como turvas poças dágua. Escrevia cartas breves à
família. Receava perdas novas, outras notícias dolorosas. Tinha medo
e tremia quando recebia cartas. Mas Aurélia teve um belo filho, e
estava de novo grávida. Cusa tinha dois netos. Gaio pensava em casar-se
com uma virtuosa donzela de velha e sólida família, mas pobre.
"Ela me agrada", escrevia Íris. "É muito erudita. Era inevitável que
Gaio, se um dia chegasse a casar, o fizesse com uma jovem assim. Há
quase um ano que aqui estiveste, meu filho. Compreendo que em teu
desgosto por Sara não desejes ver nossa felicidade, nem ouvir as vozes
de teus sobrinhos e sobrinhas, nem mesmo a voz de tua mãe. Mas
estou ficando muito velha. Volta para a tua casa, nem que seja por
alguns dias, a fim de que eu te possa ver outra vez."
Lucano, porém, não podia ir para casa. Encolhia-se à idéia de
viver, e dos rostos deles, temia seu amor e seu consolo, e sua ternura.
Podia agora recordar Rúbria sem dor. Mas não podia recordar Sara
sem agonia, uma agonia que jamais o deixava. Em cada porto, quando
o navio atracava, ele procurava entre a multidão o rosto dela. QuandO
chegavam cartas, procurava uma que fosse dela. Caminhava, em sua
desolação, tratava dos enfermos, sentava-se nos jardins de suas
peqUenas casas, lia, comia, dormia. Vivia como um espectro. Uma vez,
muito calmamente, abriu sua bolsa de médico e olhou para um remédiO
que havia preparado, e que, dado numa taça de vinho, aliviaria a dor,
mas, tomado em quantidade traria morte rápida. Esteve com o frasco
na mão até que ele ficasse quente entre seus dedos. Depois, colocou-o
de lado. Mas sempre pensava nele, em sua horrível solidão, em seu
frio desespero.
Soube, num porto, que apenas por uma hora não encontrara com
seu irmão Prisco. Este lhe deixara uma carta, antes de partir para Roma,
onde iria passar algumas semanas de licença. Escrevera sobre o
entusiasmo com que ia ver sua família e censurara o irmão por
negligenciá-la. Mandava a Lucano uma mensagem de Plócio, e depois passava a
discorrer sobre Jesus de Nazaré, o mestre judeu mendicante, cuja
influência crescia na Judéia. Escrevia superficialmente, mas era bastante
claro que estava profundamente impressionado: "Falei muitas vezes
com os que dizem terem sido curados por ele instantaneamente, pelo
toque das mãos. Na verdade, havia um mendigo aqui, que eu conhecia
de vista, sentado contra a parede do templo, e que era cego de
nascença. Em certa ocasião dei-lhe esmolas, pois seu rosto era nobre e
possuía considerável conhecimento. Depois, um dia, encontrei-o
rodeado de muita gente excitada, e seus olhos estavam abertos, e ele
enxergava! Eu não podia acreditar naquilo, meu caro Lucano! O
homem não era um mistificador, eu o juro, contudo olhava para mim,
com olhos abertos e vivos e, quando eu lhe falei, correu para mim,
agarrou minha mão, e exclamou: "O Filho de Deus abriu-me os olhos,
quando eu Lhe implorei que o fizesse!"
"Na verdade, meu irmão, isto eu mesmo vi, e não o posso duvidar.
Contaram-me que aquele mestre fez viver um morto, tirou a loucura
da mente de homens, e que todos, ao som de sua voz, sentem êxtase e
alegria. Vai de cidade em cidade, de aldeia em aldeia, curando, dizem,
e quando opovo fala nele é como se estivesse tomado de
arrebatamento divino. E ele ApoIo, aparecendo sob o disfarce de um pobre
carpinteiro judeu? Ou Mercúrio? Ou Eros? Haverá proximamente
alguma grande revelação? Os eruditos, e uma casta daqui, que se dá o
nome de fariseus, riem em voz alta, ou se encolerizam. Sentem-se
ofendidos ao saber que um homem, sem nada possuir, sem erudição, sem
família, sem poder pessoal, sem recomendações de homens distintos,
pode atrair para si multidões, no momento em que aparece. Receiam
que ele venha a advogar um levante contra os romanos, por parte dos
judeus, e aqui o medo é legítimo, pois sua influência entre o povo é
estupenda. Nesse caso, se houver um levante, haverá muito derramamento
de sangue, e eu não gosto de pensar nisso, pois cheguei a admi-
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rar os judeus e visito as casas dos que não pensam que a presença de
um gentio e, pior, de um oficial romano, é insultuosa. Mas Israel é um
país muito pequeno, e não tem importância. Só quando ali estou é
que tenho a impressão de que algo de portentoso está para acontecer.
Não é estranho? Voltarei dentro de três meses para lá."
Prisco escrevia a respeito de Pôncio Pilatos, o procurador.
"É homem pacífico, mas vacilante, e prefere sua biblioteca e a
companhia de sua esposa aos banquetes e à política. Gosto de
conversar com ele. Os judeus aborrecem-no. Declara que vivem com um pé
neste mundo e outro no próximo, e que sua piedade é incompreensível.
A Herodes, ele despreza como a um tolo efeminado, a um tempo
cheio de superstições gregas e de profecias judaicas. Disseste-me, certa
ocasião, que Roma fora profundamente tocada pelo Oriente, e se
influenciara demasiado por ele. E que a mente ocidental jamais poderá
compreender a oriental. Isso é verdade no caso de Herodes. O
encontro do Oriente e do Ocidente, nele, desordenou-lhe o espírito e criou
confusão em sua mente.
"O procurador não deixou de ser tocado pelas histórias do mestre
judeu. Mas não se perturbou com a agoureira profecia de que Jesus
incitará os judeus contra Roma. Declarou que um dos seus soldados
lhe dissera que quando os fariseus, que são mercadores emproados, e
advogados e médicos muito orgulhosos, desafiaram Jesus a trair sua
missão real e perguntaram lhe se era certo os judeus prestarem
homenagem a César, Jesus replicara que se deve honrar as leis do mundo,
que são de César, em vez de honrar as do mundo sobrenatural, que
são de Deus. Não é isso sofisma? Mas muito inteligente, deves
confessar. Pôncio achou muito divertida essa história. Disse que o homem
deveria ser advogado, pois faria fortuna."
Depois, Prisco acrescentava algumas palavras estranhas.
"Recordo-me de nossa última conversa, em casa, e quando me
recordo, penso nesse mestre judeu de pés descalços, miserável. OS
pensamentos vêm simiutaneamente. E isso é muito esquisito."
Lucano ficou sentado muito tempo com a carta de Prisco na mãO.
De vez em quando estremecia. Sua fria mente grega o censurava, mas
não podia conter-se, e lia e relia a carta. Por mais de uma vez o suor
porejou de sua fronte, acompanhado de um anelo desesperador.
Então destruíu a carta, como quem destrói algo que o está atirando a um
turbilhão.
- Superstição! exclamou, em voz alta. - Histórias idiotas!
Quando chegou a Atenas soube, por uma carta de Íris, que Prisco
voltara a Jerusalém. A esposa de Gaio estava para ter um filho. Cusa
andava adoentado, lamurioso. Lucano pôs a carta de lado, desatento.
Havia uma outra, que lhe era dirigida em caligrafia estranha, e vinha
de um lugar do qual jamais ouvira falar, na África.
"Querido e bem-amado amigo! Esta carta é de Ramo, que pensa
em ti constantemente e reza por ti sem cessar."
Lucano não podia acreditar naquilo. Ficou a olhar para a carta,
incrédulo, e depois sentiu a primeira alegria, desde há muito tempo.
Ramo estava vivo! Não morrera, não se perdera, não fora vendido
como escravo.
- Ó Deus! exclamou em voz alta, encantado. Apertou a carta
contra o coração, e lágrimas subiram-lhe aos olhos.
A carta continuava: "Só agora voltei para minha gente, trazendo
paz e felicidade comigo. Depois que te deixei e ainda suplico que
me perdoes fiz meu caminho, através de meses de lutas e esforços,
até a Terra de Israel. Das minhas privações não falarei, pois agora elas
nada são. Eu esperava hostilidade, por ser o que sou, mas em toda
parte, embora não falasse, encontrei a bondade que é oferecida aos
peregrinos que se dirigem a um lugar sagrado. Fui alimentado e
abrigado sem que me fizessem perguntas, e assim compreendi que Deus
me estava protegendo. Nenhum lar humilde se fechou para mim, em
parte alguma, e em cada oásis deram-me água, vinho e alimento, junto
das caravanas solitárias. Minha cor não foi desprezada. Mas essa é a
menor das maravilhas, e eu não falarei dela.
"Cheguei a Israel, e imediatamente procurei por Ele, Aquele que
eu vinha procurando. E encontrei-O na cidade de Naim. Não ousei
aproximarme, pois a multidão era muito grande, e eu era um homem
de pele escura, sem lar, os pés esfolados, sem dinheiro. Posso falar
Dele? Que palavras pode usar um homem para dizer que esteve em
presença de Deus? Como foi que Ele me apareceu? Como o sol? Estas
palavras não O descrevem. Eu O segui, atrás da multidão, desejando
aproximar-me mais. Podia ouvir-Lhe a voz, embora estivesse tão
distante; era como um trovão abafado e muito bondosa. Soube que Ele
Vinha com freqüência àquela cidade, onde o povo é pobre e vive
oprimido pelos romanos e desprezado pelos eruditos. São agricultores
miseráveis e pequenos comerciantes, gente muito humilde.
"Ele aproximou-se das portas, de Naim, e um homem morto, o
filho de uma viúva, ia sendo levado para fora. Um grande grupo
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de amigos dela a acompanhava. O Senhor, vendo-a, teve compaixão
dela, pois a mulher chorava desconsoladamente, e depois de um longo
e carinhoso olhar para a mãe, Ele dirigiu-se à padiola e fixou os olhos
nos que a carregavam, e estes imediatamente, ficaram imóveis. Ele
levantou Sua mão e disse ao filho morto: "Jovem, levante-te, eu te
digo!"
"Lucano, precisas acreditar nisto, pois eu o vi, e jamais te disse
uma mentira! Declaro que o morto sentou-se e começou a falar em voz
vaga e confusa, como alguém que é acordado subitamente de um Sono
profundo em que tivera sonhos agradáveis. Mas o Senhor tomou-lhe
delicadamente a mão, ergueu-o da padiola e deu a mão dele à mãe,
que se agarrou ao filho, abraçando-o, depois atirou-se aos pés
Daquele que lho restiruíra. O povo recuou, aterrorizado, e então alguém
glorificou a Deus com gritos muito fortes, exclamando: "Um grande
profeta ergueu-se entre nós e Deus visitou o Seu povo."
"Lucano, eu O vi. Com estes meus olhos, com os olhos que tu me
devolveste, eu O vi.
"Deslizei atrás Dele, pensando comigo mesmo: "Se Ele não me
devolver a minha voz, não terei pena, pois eu O vi, e que mais
necessita um homem? Queria, entretanto, aproximar-me mais Dele; queria
ver Seus olhos brilharem sobre mim , embora eu seja um homem de
pele escura. Seguramente, pensei, Ele não me desprezará, Ele, que me
fez; seguramente Ele anulará a maldição de Noé sobre meu povo. Ele
estava conversando com os Seus seguidores, jovens como Ele próprio;
então, subitamente, parou. olhou por sobre o ombro, e Seus olhos
iluminaram-se sobre mim. Sorriu, e pareceu esperar. Então, de
repente, senti algo mover-se em minha garganta, tremer em minha
língua e imediatamente minha voz estava em meus lábios, e eu exclamei:
"Abençoado sou, que vi o senhor nosso Deus!"
"Devo ter caído desmaiado no chão, pois quando acordei estava
sozinho sob o crepúsculo ardente e poeirento, e quando levantei sabia
o que devia fazer. Devia voltar para a minha gente e trazer-lhe a
mensagem de vida e alegria, pois eu tinha visto Deus, eu O conhecera, e a
maldição fora afastada de nós.
"Que a paz esteja contigo. Possa a Sua paz descer sobre ti, e possa
Ele chamar-te para Si. Pois Ele é O que tens estado procurando.
Adeus. mas nÓs nos encontraremos outra vez, onde os homens não Se
odeiam nem se desprezam mutuamente, mas compreendem mutuamente
seus corações."
Lucano pôs a carta de lado, e de novo sentiu a pesada náusea do
coração, e a depressão, o imenso repúdio. Ele, como médico,
acreditava saber o que acontecera a Ramo. O homem vira o que desejava ver, a
histeria que o silenciara fora de súbito libertada e ele tornara a falar.
Era muito simples.
Mas e o jovem que se erguera, o que estava "morto"? Também
aquilO era simples demais. O homem sofrera um ataque de catalepsia.
Estivera em estado de animação suspensa. Felizmente para ele não
tinha sido fechado numa sepultura, para acordar com a boca sufocada
pela terra! Aquele mestre judeu devia ser uma espécie de médico, que
percebera não estar o homem realmente morto.
Eu tenho muitas explicações, Lucano começou a pensar. Depois
parou, impressionado. Preciso sempre raciocinar, pensou, de subito.
Preciso sempre afobar-me para explicar as coisas à luz da razão? Que
me trouxe a razão, a não ser desgosto? Entretanto, tudo quanto não é
lógico me parece revoltante. infantil, mesmo profano.
E, sem saber por quê, começou a chorar.
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Lucano voltou a Atenas. Era um dia quente de início de primavera, e
mesmo aquele ar seco e adstringente tinha vida, uma alegria. As
mulheres que vendiam flores sentavam-se em suas barracas com
pequenas montanhas de louro, violetas, rosinhas, anêmonas e papoulas
diante delas. E apregoavam, com vozes roucas. As ruas deixavam escorrer
a vida. Jamais fazia muito frio, e ali, ainda assim, quando vinha a
primavera, com florações e uma atmosfera azul e brilhante, o povo
tornava-se animado de uma espéci de júbilo e prazer. As pequenas
lojas ecoavam com as vozes dos compradores e havia por toda parte o
cheiro de salsichas e alhos que se coziam. Crianças corriam e gritavam,
lutando pelas sarjetas. Velhos sorriam uns para os outros, cofiando
Suas barbas, e conversavam com vozes eruditas. As colinas mostravam-se
viçosas, cobertas de um verde puro. Sobre a Acrópole, o Partenão
era uma coroa de luz gelada. A poderosa estátua de Atenas recortava-se
contra o céu. Em toda parte havia uma aceleração, uma espécie de
senso de antecipação. Moças e moços andavam de mãos dadas, sorri-
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dentes. Bebês riam no colo das mães. Os soldados romanos
encostavam-se às paredes dos edifícios, bocejavam, sorriam, coçavam o queixo
e olhavam entusiasmados para as mulheres. Os cavalos, puxando bigas,
empinavam-se. Cães ladravam. Advogados e homens de negócios
tinham parado em seu alvoroço e caminhavam calmamente,
esquecendo de discutir seus problemas.
Lucano sabia que aquilo era o início da Páscoa dos judeus. Havia
uma sinagoga ali perto, mas o médico desviou-se dela. Tinha a
sensação de estar fugindo, alvoroçado, de alguma coisa, a cabeça baixa. Mas
aquilo era ridículo. Havia descido a terra à meia-noite, e fora para a
sua casinha solitária. Tinha muitos antigos pacientes a visitar, e faria
isso no dia seguinte. Não era pessoa que caminhasse calmamente, pelo
simples prazer de caminhar, e não sabia por que fora levado, naquele
dia, a andar pela cidade. Mas havia nele uma sede em ver seu
próximo, e não se fartava de olhar. Não sou jovem, pensava. Nunca fui
pessoa de se misturar com outras para gozar-lhes a companhia. Por
que me sinto mal assim? Sorriu para uma velha florista e comprou-lhe
um pequeno ramalhete de lírios brancos. Caminhou, mergulhando o
nariz nas flores, cuja fragrância quase o estonteava.
Resolveu voltar a sua casa e escrever cartas que de há muito devia
à sua família. O jardim estava silencioso e cheio de sol. Tudo tinha
uma patina de luz, tal como ele jamais vira antes. Cada folha nova era
recoberta com aquela luz, cada flor nela mergulhava. Ela faiscava na
fonte e iluminava cada grão de terra. As paredes da pequenina casa
brilhavam, como se fôsem polidas. Lucano olhou para o céu. Jamais
ele estivera tão claro ou mais brilhante. Nem uma sÓ nuvem se via ali.
Comeu sua refeição, parca e frugal, e bebeu seu vinho. Ouviu o
silêncio de sua casa. Era como se algo tivesse retido uma respiração
poderosa e a estivesse mantendo assim. Nada se movia. Agora, tudo
refletia radiosidade, mesmo sua taça simples de prata, mesmo seu
garfo e sua colher, mesmo os lados de suas mãos, mesmo o piso de madeira
branca, bem esfregada. Os olhos de Lucano começaram a arder com
tanta luz. Sentiu um cansaço dominador e pensou: Vou deitar-me e
repousar.
Deitou-se e fechou os olhos. Esperava dormir durante o calor das
primeiras horas da tarde. Mas havia um resplendor, uma iridescência,
atrás de suas pálpebras. Sentiu que começava a suar. Todo o seu
corpo parecia esticar-se em agonia. Não podia repousar. Levantou-se;
sentia-se muito fraco. Seria de novo a febre?, perguntou-se alarmado,
pensando nos pacientes que devia visitar no dia seguinte e nas turbas
que se reuniriam à sua porta. Não podia faltar-lhes, pois que
esperavam por ele. Foi, tropeçando, pela casa, naquela tremenda inundação
de luz, e apanhou o estojo. A mão tateante chegou ao fundo e fechou-se
sobre algo frio e metálico, e ele retirou dali a cruz que Keptah dera
a Rúbria e que Rúbria lhe dera. Olhou-a, brilhando ofuscantemente
em sua palma, como se ardesse ao sol. E agora lhe queimava a carne.
Pestanejando, pousou a cruz e ficou a contemplá-la, e todos os
seus sonhos, tudo quanto ouvira, voltaram-lhe em trovejante clamor.
Mas que tinha aquela cruz a ver com o miserável mestre judeu, na
Israel distante que, segundo diziam, levantava os mortos, realizava
milagres e arrastava consigo as multidões? Que tinha aquela cruz dos
caldeus, dos babilônios, dos egípcios, a ver com alguém tão distante,
alguém tão humilde e desconhecido no mundo dos homens?
Não havia repouso naquela casa; não havia repouso em parte
alguma para quem estava tão embaraçado, tão acossado e tão desolado.
Lucano foi para o jardim, arquejante, procurando sombra. Mas não
havia sombra, não havia proteção contra o sol. Tudo estava dentro de
uma luz sem sombras, reunido em flamejante cristal. Então, de súbito,
uma escuridão tombou sobre a face da terra, engolindo toda a luz,
extinguindo-a, levando-a pela frente como uma maré, e banindo-a.
Ah!, pensou Lucano. Teremos um temporal, um temporal que
refrescará o ar! Olhou para o céu, e o céu estava muito escuro.*
Onde estava o sol? Contemplou o céu negro, buscando. Tudo se
mostrava inteiramente imóvel. Nenhum grilo erguia sua voz. Os
pássaros silenciavam, embora tivessem estado murmurantes durante toda a
manhã.
O médico olhou para a cidade. O Partenão era um contorno
apagado, de prata pura. A cidade imergia na escuridão. Foi quando ele
OUVIU um som abafado, como do mar, e soube que era a voz da cidade,
cheia de pânico e interrogações. Correu para o seu portão. A estrada
___
* Ocorreu nessa hora um grande terremoto em Nicéia. No ano IV da 202ª
Olimpíada. Flégon escreveu que uma grande escuridão inexplicável aos
astrônomos cobriu toda a Europa. De acordo com Tertuliano os relatórios
romanos registram uma escuridão completa e universal que afligiu o
Senado então reunido e lançou a cidade em tumulto, pois não havia
tempestade nem nuvens. Os relatórios dos astrônomos gregos e egípcios
registram que a escuridão foi tão intensa que até mesmo os cientistas se
alarmaram. O povo gritava em pânico pelas ruas, os pássaros abrigaram-se
nos ninhos e o gado procurou os estábulos. No entanto não existe
registro de eclipse que, aliás, não era esperado. Era como se o sol se
houvesse retirado de seu sistema. Os relatórios maia e inca também
anotam essa ocorrência, levando-se em conta a diferença de tempo. (N do
T.)
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que por ele passava estava vazia. Olhou para longe e viu, vagamente o
gado deitado na relva, como que adormecido.
O ar mostrava-se tão claro como água e, como água, límpido e
fresco. Portanto, pensou Lucano, não é uma tempestade de poeira.
Sentou-se num banco e sentiu a frialdade da morte correr por sobre
seu corpo. Recordou-se dos velhos mitos que falavam da cólera dos
deuses. Haveria um dia em que os deuses, nauseados com os homens
retirariam o sol e mergulhariam a terra em trevas eternas e na morte.
Moveu o corpo, inquieto. Levantou-se e caminhou, dando voltas e
voltas pelo jardim. Um aroma de rosas e lírios ergueu-se no ar, como se
as flores tivessem sido esmagadas sob um pé gigantesco. A cidade
começou a brilhar e faiscar com lanternas e tochas rapidamente acesas.
Lucano percebeu que, muito provavelmente, um imenso rio de seres
humanos estaria começando a correr para o Partenão, a fim de
suplicar aos deuses ali que levantassem de sobre a terra aquela terrível e
inexplicável escuridão. Quanto a ele próprio, estava consumido, não
de ansiedade por si mesmo, mas por uma interrogação apaixonada.
Como alguém que fora instruído pelos maiores cientistas do
mundo, começou a fazer conjeturas. Acreditava se que um dia o sol
consumiria a própria força, e este planeta, a terra, rolaria pelo espaço,
reunindo gelo e frio mortal, e toda a vida se extinguiria nele. Mas isso,
diziam os astrônomos, levaria idades e idades para acontecer, O sol
morreria devagar, ficaria avermelhado, apagar-se-ia pestanejando, como
lava. Isso ocorreria depois de milênios, jamais ocorreria
instantaneamente. Mas o que se passara, então, ocorrera num abrir e fechar de
olhos, entre uma respiração e outra. Lucano procurava novamente o
sol, o sol que se retraíra. Seria possível que ele se tivesse atirado para
longe de seus filhos e se tivesse ido reunir a seus irmãos radiantes?
Uma enorme sensação de excitamento correu de súbito por ele
todo, e também um terror que antes jamais conhecera. Onde, entre as
constelações ardentes, estava agora o sol? Que caos estava causando
entre a fraternidade bem organizada, aquele intruso que vinha de um
canto do universo? Que planeta iria devorando em sua passagem
chamejante?
Então, sentiu que não estava sozinho. Firmou os olhos em torno,
no luar, na luz das estrelas. Havia sombras pálidas movendo-se em
torno dele, no jardim, ou era apenas ilusão de seus olhos cansados?
Seu coração saltou. Sombras passavam junto dele, e pensOU ver OS
rostos de Rúbria, Keptah e Sara, sorrindo nebulosamente.
Flutuavam, como flocos de neve, e então de súbito! ali estava Diodoro,
forte, valoroso, sua mão levantada em cumprimento. Havia José
Gamliel oh! aquilo era loucura! com um olhar carinhoso.
as muitas sombras femininas, mulheres que ele socorrera, estava
Aurélia, animada e sorridente. Uma multidão passou por ele, parou
diante dele, cumprimentando-o, com silêncio e afeição. Lucano
sacudiu violentamente a cabeça, arquejou, fechou os olhos.
Então, a terra ergueu-se como um vagalhão, estremeceu,
convulsionada, e deslizou sob os pés. Um retumbar profundo subiu, como que
de suas entranhas. Levantou-se um vento, um furacão, que tombou
rapidamente, recomeçou, uivando, de tal forma que a respiração do
médico abafou-se em sua garganta. Agora, ele já não era o médico, o
filósofo ou o cientista. Era um homem, e estava dominado pelo medo.
Levantou-se, tremendo, os dentes castanholando.
Caminhou pelo jardim, que parecia espectral. Sua carne tremia,
como em acesso de febre intermitente. Foi até a fonte, e ouviu sua água
que saltava. Entrou na casa. Forçou-se a acender uma lâmpada. Ficou
ali, de pé, olhando estupidamente para ela. Apanhou um livro e
tornou a pousá-lo. Sua cabeça latejava.
Em dado momento tentou falar razoavelmente consigo mesmo.
Recordou a astronomia que estudara, O sol não se podia destacar dos
"perambulantes" seus filhos, os planetas. Aonde ele fosse, os planetas
também iriam. "Certamente, certamente", disse ele, em voz alta, para o
silêncio pesado que o envolvia, e sacudia a cabeça em aprovação, como
que satisfeito. Mas sabia que aquela era uma reflexão idiota. O sol se
fora, e o céu, lá em cima, estava muito escuro. Todas as rarões do
homem, suas reflexões mais profundas, não podiam alterar aqueles fatos.
Ele não conseguia ligar um nome, uma teoria, ao que era impenetrável,
não podia ajustar o desconhecido ao que conhecia. Apesar disso, a mente
de Lucano disparava, como pássaro estonteado, tentando, febrilmente,
explicar o que não podia ser explicado. De novo a terra trovejou sob
Seus pés e um longo gemido derramou-se pelo ar frio.
Teria o mundo se inclinado por trás de outro planeta? Mil
soluÇões rodopiavam em sua mente, e ele as rejeitava imediatamente, como
absurdas. Então, pela primeira vez, pensou em sua família de Roma,
Com um tremor. Pensou em Prisco, que estava em Jerusalém. Se o
mundo estava sendo destruído misteriosa e inexoravelmente, então
todos os homens deviam morrer juntos. Pânico, egoísmo, medo, terror,
ansiedade, amor, tudo isso, nada poderia afastar a fria mão do
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destino. Acendeu outra lâmpada, depois outra, até que a casa ficasse
cheia de luz. Sentou-se e fixou os olhos à frente.
Voltou a si com um sobressalto, consciente de que tombara num
sono doentio, dominado pela coisa horrorosa que viera sobre o
mundo. Suas lâmpadas estavam piscando, quase apagadas. Levantou-se
para reabastecê-las. Então, reparou que uma luz acinzentada aparecia
nas portas e janelas, como luz da madrugada. Correu de novo para o
jardim. A luz tornou-se mais forte, mas muito lentamente. A terra já
não deslizava, estremecia ou roncava; estava firme. Lucano olhou para
o céu. Ampla extensão rosada ali se via, como se o crepúsculo se
estendesse de horizonte a horizonte. A terra perdeu seu ar espectral, e a cor
veio voltando, de momento a momento. Os pássaros piavam ou
tagarelavam excitadamente, nas árvores. A fonte cantava mais alto, como que
liberta. A voz da cidade chegou a Lucano e tinha som de regozijo,
embora com uma nota mais alta de histeria. Então, o colorido rosado
separou-se, como uma cortina, e o sol saltou no céu, como um
guerreiro com seu escudo de ouro.
Lucano respirou profundamente. Nunca o mundo, nunca nem
mesmo em seus tempos de criança, parecera-lhe tão claro, tão
querido, tão precioso, agora que fora libertado da morte. E da morte ele
fora sem dúvida libertado, como um pássaro é libertado de mão
raivosa e próxima. As fundações da terra tinham sido sacudidas, e o sol se
perdera. Mas agora o terror e a cólera se tinham ido, e uma doçura
erguia-se das flores e da relva, como se a terra exalasse a respiração que
retivera por demasiado tempo, apavorada. Lucano apertou os dedos
contra o rosto e suspirou profundamente.
Com certeza, pensava agora, há uma explicação científica para
isto. O fato de eu não conhecer a causa do fenômeno não significa que
ele esteja fora de uma explicação. A tarde ia terminando e ele tinha
fome. Sentou-se e comeu um pouco, e jamais o vinho tivera tão
agradável gosto, jamais o pão e o queijo lhe tinham parecido ames tão
saborosos. Escreveu cartas, e uma delas se dirigia a um astrônomo de
Alexandria, comentando a escuridão, perguntando-lhe se ela fora
observada ali, qual seria a causa e se poderia acontecer de novo.
Quando dormiu, naquela noite, foi como se tivesse tido
suspensão de uma sentença, e com aquela suspensão tivesse vindo não só O
perdão, mas vida, paz e tranqüilidade, como no primeiro dia que O
mundo conhecera e em que o homem acabava de nascer.
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Vários dos pacientes que vieram procurar Lucano no dia seguinte lhe
eram desconhecidOS. Estavam em estado de choque, muito pálidos, e
tinham perdido a voz. Ele os tranqüilizou, sorridente, dizendo
que nada do que ocorrera no dia anterior deixava de ter explicação
por parte dos homens da ciência. Era bem provável que se tratasse de
um eclipse. E só as crianças tinham medo de eclipses. Os astrônomos
egípcios, muito tempo antes, não tinham mostrado possibilidade de
predizer eclipses, não so para o futuro imediato, mas tambem para
épocas ainda não concebíveis? Podiam ter confiança nos letrados, nos
homens que compreendiam, que podiam fazer o mapa dos céus,
marcar as fases da lua, o movimento das estrelas com precisão. Lucano,
com seus pacientes aglomerados em derredor, demonstrou um eclipse
com uma maçã e uma noz. Eles ficaram muito interessados, seguindo
as explicações boquiabertos e com olhos alargados e, como tinham
feito na véspera, sacudiam a cabeça, sensatamente, uns para os outros,
e declaravam que durante todo o tempo tinham sabido que se tratava
de uma coisa daquelas. Eles não sabem mais do que eu, pensou
Lucano secamente.
- Tudo isso está muito bem disse um velho, sacudindo a
cabeça e olhando com ar astuto para o médico. - Mas tu nada
explicastt. Isto é coisa que fica para além das explicações dos homens. -
Os outros riram-se alegremente dele, chamaram-no de barbudo
grisalho, mas Lucano não riu. Os olhos fortes e agudos do velho o
transpassaram. E ele disse:
- Bem, vamos ver teus tornozelos reumáticos outra vez, meu
amigo. Tenho um novo ungüento que, acredito, irá aliviar-te.
- Tive esperança, ontem disse o velho que se tratasse do
fim do mundo, pois não somos todos perversos, um insulto para o
céu?
Os Outros riram-se dele ainda mais alto mas fixavam-lhe, de certa
forma, olhos maldosos. Os homens, meditava Lucano, não gostam de
Ser chamados maus e de afronta para os deuses, e que tenha cuidado
aquele que lhes disser a verdade.
Além da família de Turbo, havia apenas uma outra família rica de
Atenas, da qual Lucano tratava. O nome do pai era Cleonte, e ele se
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gabava de descender da família de correeiro, célebre no tempo de
Péricles. Ele e sua esposa, bem como uma filha viúva, moravam em
esplêndida vila próxima da Acrópole, cujos jardins eram rodeados de
altos muros e vigiados por escravos armados com espadas ou cimitarras
à moda do Oriente. Lucano não gostava de ninguém daquela família,
mas Cleonte era portador de uma doença ainda não conhecida que
interessava o médico. Periodicamente, rebentava-lhe enorme erupção
de pele, que se tornava lívida, depois empalidecia e ao fim de alguns
dias estourava em furúnculos horríveis. O médico jamais vira uma
coisa assim e estava escrevendo um tratado sobre o assunto. Eliminara
as fontes habituais das erupções de pele como causa. A dieta do
homem fora restringida de maneira severa. Tratando-se de pessoas de
forte gênio e tendo sua esposa igual temperamento, tudo isso
acompanhado da fama péssima de usurário, era detestado por todos quantos o
conheciam, inclusive por Lucano. O médico estava começando a
formular uma teoria, segundo a qual o próprio temperamento do homem
era o causador das crises. A carne dele mostrava-se esburacada como
uma pedra velha, e um dos olhos ficara inutilizado para sempre. Não
se tratava de coisa nova, isso de se dizer que os maus humores
podiam atuar somaticamente, mas aquela demonstração era tão
extraordinária que intrigava Lucano.
Naquela tarde, ele foi à luxuosa mansão de Cleonte. Cobrava ao
velho, invariavelmente, uma quantia elevada, mas dava-lhe, também
invariavelmente, alívio temporário. Foi recebido imediatamente nos
compartimentos emparedados onde Cleonte passava o tormento de
seus dias. A erupção chegara havia uma semana, e já estava
supurando. Lucano tratou dos furúnculos, enquanto Cleonte se queixava,
batia as pálpebras e blasfemava. Era homem minúsculo, de corpo
intumescido, uma vesguice onde sofrera a doença no olho, e um rosto
pequeno, tão enrugado quanto uma noz.
- Depois que estiveste aqui pela última vez, meu bom LucanO
disse ele lastimosamente -, eu tive um alívio de muitas semanas e
pensei estar curado. Se não tivesses chegado agora, tenho certeza de
que morreria dentro de poucos dias.
Mostrou a Lucano uma erupção nova, em uma das nádegas, mas
essa intumescência tomara o tamanho de um punho de homem. LucanO
passou um pouco de ungüento ali, depois de banhar o local em água
muito fria.
- Tu não vens com a necessária freqüência disse o velho,
zangado. - Acrescentei um novo médico ao pessoal da minha casa,
mas ele não é melhor do que os outros. Mandei açoitá-lo em várias
ocasiões pois ele tem boca violenta e blasfema, quando se zanga,
embora, quanto ao resto do tempo, seja um miserável de temperamento
carrancudo, frio e reservado.
- E que te disse ele? perguntou Lucano, abstraidamente.
Dentro de poucos dias a erupção degeneraria num formidável
furúnculo, que teria de ser lancetado.
O velho saltou na cama e sacudiu o punho fechado.
- Da última vez que tive essas erupções, chamei-o, ele me
examinou, e então disse, ousou dizer, o cão, que não era minha carne que
adoecia e sim meu espírito! Eu devia tê-lo mandado para a prisão, ou
açoitado até morrer, ou vendido para as galés. Mas paguei dinheiro
demais por ele.
- Um médico? Um novo médico? - Lucano levantou a
cabeça, alertado.
O homem era, então, consideravelmente esperto.
- Comprei-o no mercado, por uma soma esplêndida, posso
dizer-te! Dizem que foi educado em Tarso, mas eu juraria que recebeu o
pouco que sabe de alguma parteira ou de um açougueiro! Sabes o que
aconteceu ontem? Quando o sol desapareceu, e compreenderás que
não sou um ignorante, tive consciência de que se tratava de um
eclipse. Ouvi minha mulher e minha filha se lamentando; os escravos
tinham fugido para as adegas. Então, aquele velhaco, aquele riieu novo
médico, veio até meu quarto, olhou-me com olhos que pareciam de
fogo. E nada disse. Apenas ficou ali durante um bom pedaço de
tempo, olhando para mim, até que eu pensei enlouquecer. Ah! Quando
ficar bom de novo, vou usá-lo para qualquer serviço! Preferivelmente,
é natural, para cuidar da pocilga.
Recostou-se em seus travesseiros e deu a Lucano a melhor
imitação de um sorriso agradável.
- A dor já está cedendo, meu Lucano. Eu te sou grato.
Lucano deu ao escravo assistente um jarro do ungüento e indicou
Como devia usá-lo a cada duas horas, dias e noites. Caminhou então
para o vestíbulo e chamou o vigilante.
- Gostaria de conversar com o novo escravo falou, em voz
baixa. - Penso que posso deixar ao médico algumas instruções
relacionadas com o tratamento, quando não estou aqui. Como se
chama ele?
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- Seu nome é Samos, pois dizem que nasceu lá, senhor -
falou o vigilante, respeitosamente. - É um cão rabugento. Não duvido
de que outrora fosse ladrão, pois foi ferreteado de uma forma bastante
desagradável.
Mandou buscar vinho para Lucano, que se sentou numa cadeira
confortável, no vestíbulo cheio de sol, e então mandou chamar Samos.
O escravo voltou com um rapaz alto e moreno, cabelos pretos e
profundos olhos azuis, ombros largos fortes, e a atitude de um rei.
Caminhou em direção a Lucano, silenciosamente, e seus movimentos eram
solenes. Então, parando diante do médico, levantou a mão, ergueu o
cabelo da testa e mostrou, desdenhosamente, a marca do ferrete. Era
de um violeta escuro, empolado e repelente. Deixou cair de novo o
cabelo e disse, a voz mal-humorada:
- Que desejas de mim?
A compaixão cresceu em Lucano. Pediu ao vigilante que saísse
dali e fez sinal a Samos para que se sentasse a seu lado. Este, porém,
disse, com sua voz amarga:
- Não. Sou apenas um escravo, sempre fui um escravo. Não
sejas magnanimo comigo. Não desejo a amizade dos homens nem a sua
bondade. Sou inimigo de todos os homens.
- É assim? perguntou Lucano, com um pequeno sorriso,
embora sua compaixão aumentasse. - Então, fica diante de mim, de
pé, como um escravo, se acreditas que és. Como a um colega médico,
quis fazer-te algumas perguntas. - Parou, e acrescentou, em voz mais
baixa: - Acredito que estais bem certo em teu diagnóstico da erupção
e dos funinculos de Cleonte.
O rosto de Samos modificou-se; sua boca ampla e sensível
moveu-se, os grandes olhos azuis pestanejando, como se evitassem
lágrimas. Não era velho. Lucano imaginou que ele não teria mais de vinte
e dois anos. O jovem hesitava. Depois, com uma blasfêmia abafada,
puxou uma cadeira para frente e sentou-se
nele olhos furibundos.
- Estou certo disse, e sua voz era desafiante. - Mas que
pode um homem fazer com alguém como Cleonte, a não ser chamar
padres e pedir que exorcizem seu demônio? E é possível que ele
próprio seja um demônio.
Lucano riu baixinho.
- Quem sabe? murmurou. - Mas, dize-me. Foste,
realmente, educado em Tarso?
Samos olhou para o lado. Seu perfil era forte e clássico, com as
faces finamente cinzeladas, e excelente queixo. tucano Sentiu um abalo
dentro de si próprio; o médico, mais novo do que ele, lembrava-lhe
alguem, vagamente, e a recordação era dolorosa, Então, o escravo disse:
- Nasci em certa casa de Samos. Tinham ali um esplêndido
médico, e eu seguia-o sempre, e finalmente fui seu assistente. Aquele
médico, que estava ficando velho, recomendou-me a meu senhor, que
era quase tão cruel e perverso quanto este Cleonte, e a um
comerciante internacional, para que ele me mandasse estudar em Tarso. E eu
fui. Passei ali três anos e diplomei-me com coroa de louros, e meus
professores foram todos homens bons, gentis e aqueles anos foram
toda a felicidade que conheci.
Uma lágrima deslizou pelas suas pálpebras e ele pestanejou
furiosamente, retirou um lenço do cinto e assoou o nariz. Depois, ficou a
olhar, abstraído, para o piso branco e polido.
- Enquanto estive em Tarso percebi que não mais poderia ser
um escravo. Devo libertar-me ou morrer. Assim disse a um dos meus
professores, mas ele me aconselhou paciência. Médicos não se
suicidam. Se eu ganhasse bastante, em presentes dados pelo meu senhor,
poderia, eventualmente, comprar minha liberdade. Mas ele não
conhecia meu senhor que era menos generoso do que Midas. Não recebi
presentes, nem mesmo esperava presente algum. Depois de um ano,
fugi. - Parou e reteve o fôlego. - Fui capturado e mandado de volta.
Esperava a morte ou, no mínimo, ser mandado para as galés. Mas meu
senhor gastara muito dinheiro comigo, de forma que me mandou
marcar com o ferrete. Então, tornei-me um lobo selvagem, segundo ele,
até que me vendeu. E assim vim ter a esta casa, que é igual à dele.
Lucano olhava para ele com uma compaixão tão vivida que
chegava a doer fisicamente:
- Gostaria de ficar comigo? perguntou. - Gostarias que te
comprasse? Se o conseguir liberto-te, pedindo apenas que sejas meu
companheiro pois sou solitário e não tenho amigos.
Samos teve um sobressalto e virou-se sobre as nádegas para
encarar Lucano, com expressão incrédula. Viu os olhos radiantes e azuis
do médico, o sorriso delicado, o cabelo dourado que se tornava grisalho,
e percebeu que Lucano não estava gracejando. Lançou um gritO
abafado, baixo, e caíu de joelhos diante do outro homem,
descansando a Cabeça em seus joelhos, sem uma só palavra. Então começou a
chorar, não com lágrimas, mas com os soluços secos do homem que,
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encarando a morte, vê lhe prometerem a vida. Passou os braços em
derredor da cintura de Lucano e agarrou-se a ele, sempre mudo.
Lucano pôs a mão na cabeça que repousava em seu joelho. O
cabelo de Samos era liso como seda, muito espesso e ligeiramente
crespo. Lucano suspirou e deixou que ele ficasse a seus péS, agarrado
ao seu corpo como uma criança, até que se controlasse um POUCO
mais. Então, disse, com a máxima delicadeza:
- Fica aqui, enquanto eu falo com Cleonte. E reza.
Soltou os braços que o prendiam, e que eram macios, embora
musculosos, e voltou ao quarto de Cleoute. Este estava meio
adormecido, seu sofrimento aliviado, mas quando viu Lucano levantou a
cabeça dos travesseiros.
- Ah! disse ele que tesouro és tu, meu Lucano. Há
muitas noites que não durmo, e agora estou como uma criança em berço
macio.
- Eu quis examinar a erupção de tuas nádegas mais uma vez
falou Lucano, fingindo estar de novo interessado. - Está cedendo e é
possível que não chegue a supurar. É um lugar difícil para ter tal
tormento, pois pode estender-se perigosamente.
Sentou-se e encarou Cleonte com uma expressão que tinha
esperança! era bondosa.
- Estive conversando com teu escravo, Samos. Acredito que
foste roubado. Isto é, o jovem nada poderá fazer por ti ou pela tua
família.
Cleonte gritou de raiva e bateu seu punho fechado nos
travesseiros.
- Eu saLia disso! exclamou. - Maldito seja aquele
mercador, aquele abutre imundo! Eu nunca devia ter confiado nele. Tinha
péssima reputação. Ah! mandarei Samos para as galés. - Sugou suas
gengivas desdentadas e seus olhos reluziam de prazer: - Será uma
felicidade para mim, pensar nele ali! Mas fui oubado, depenado!
Qual será minha vingança! - Inclinou-se para Lucano,
astuciosamente: - Não me podes dar uma carta dizendo que o miserável
tentou envenenar-me? Então poderei mandar executá-lo. - Uma gota
de saliva apareceu no canto de sua boca, e ele lambeu-a.
Lucano fingiu considerar o assunto judiciosamente. Depois,
sacudiu a cabeça:
- Lembrei-me de que preciso de um escravo para minha casa.
Queres vendê-lo a mim? Ele é muito orgulhoso e arrogante.
Os olhos duros e agudos de Cleonte interrogaram o rosto do
médico. Tornou a reclinar-se, grunhindo:
- Bem, vamos, ele me custou um dinheirão.
O médico assentiu com a cabeça:
- Solidarizo-me contigo, Cleonte. Quanto pagaste por ele?
Ele apertou os olhos astutos. Cleonte sabia tudo sobre Lucano;
sabia tudo quanto se dizia na cidade. Aquele tolo, mas talentoso
médico, era rico. Se era louco bastante para tratar da plebe de graça,
adquirindo assim a reputação de um deus, deveria pagar por aquela
loucura e por aquela reputação. Assim, Cleonte falou numa soma
tremenda, além dos recursos imediatos de Lucano. O médico ficou, ao
mesmo tempo, zangado e preocupado.
- Ora essa, esse é o preço do médico mais qualificado, para
além de todo o preço. Isso é o resgate de um príncipe!
Cleonte ergueu os ombros. Estava outra vez sonolento.
- Então disse conservo-o, faço dele o que quero,
mando-o açoitar todos os dias, neste quarto, para gozar a cena.
Lucano conhecia sua obstinação. Levantou-se:
- Se não me venderes Samos, jamais voltarei aqui, e então, com
toda certeza, morrerás. Estou falando sério, Cleonte acrescentou,
severamente.
Cleonte abriu os olhos, assustado.
- Tu não abandonarias um velho!
- Com toda certeza abandonarei. Não duvido de que tenhas
pago um preÇo alto por Samos mas não o que dissestes. Ofereço-te,
agora, e pela última vez, trezentos sestércios de ouro,
cunhados recentemente. Toma-os, ou procura outro médico.
- Tu me condenarias à morte!
- Sem dúvida alguma.
- Por que queres Samos, aquele cão!
- já te disse. Ele tentou meu capricho. Em minha juventude
domei cavalos selvagens.
Cleonte calou-se, arquejante, furioso e despeitado. Desejava que
Lucano fosse um escravo. Mandaria açoitá-lo regularmente,
mandaria ferreteá-lo com ferros quentes até que a carne dele torrasse.
Gritou:
- Dá-me o dinheiro, e que o Hécate persiga teus sonhos!
Lucano sorriu:
- Retira tua maldição, ou não será possível minha volta amanhã
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para continuar teu tratamento. - Atirou uma bolsa sobre a cama.
E, agora, assina um recibo de venda para mim.
Alguns minutos depois voltava ao vestíbulo onde Samos estava a
sua espera. Samos olhou-o com olhos azuis e selvagens, os olhos
torcendo-se desesperadamente. Lucano tomou-lhe o braço.
- Vamos para casa disse, como dissera a Ramo havia muito
tempo.
Lucano colocou todas as lâmpadas que tinha sobre a mesa, na qual
pusera seus instrumentos agudos e brilhantes. Samos estava sentado
numa cadeira, ao lado da mesa, rígido e na expectativa, olhos fixos,
com amor e devotamento, no outro homem. O médico misturou uma
poção numa taça de vinho e entregou-a a Samos.
- Isto aliviará tua dor disse. - Não sei até aonde terei
sucesso na diminuição desta marca terrivel do ferro, mas farei o melhor
possível.
- Terás sucesso afirmou Samos. - Caro senhor.
- Não me chames senhor disse Lucano. - Chama-me pelo
meu nome.
- Ficarei sempre contigo, queira tu me dês ou não a minha
liberdade, Lucano.
- Amanhã eu te levarei ao pretor romano, e terás tua liberdade.
Poderás não gostar da vida que levo. És jovem, e na altiva expressão de
teu rosto vejo ambição. Não faças juramentos, dos quais poderás te
arrepender.
Lucano sorria, e ainda estendia a taça.
- Como poderia jamais me arrepender? perguntou Samos,
apaixonadamente. - Tu me trouxeste para tua casa como um amigo,
o único amigo que conheci! Tu te ofereceste para me libertar, a mim,
que preferia morrer a continuar escravo. Só peço para te servir
eternamente.
- Ainda assim disse Lucano - és jovem; és excelente
médico. O mundo será teu. Como homem livre, serás cidadão de Roma. A
fortuna pode vir a tuas mãos. Primeiro, antes de todo esse brilhante
futuro, e eu não te manterei ligado a tua promessa, a marca deve ser
removida. Bebe isto já.
Samos, a mão tremendo, tomou a taça. Olhou para sua
profundidade sombria.
- Ópio murmurou. Olhou para os olhos de Lucano, depois
colocou devagar a taça sobre a mesa, tomou um grande folêgo, e falou:
- Não.
Lucano examinou-lhe o rosto e depois fez um movimento de
aproximação.
- É doloroso tornar-se um escravo, mas é mais doloroso tornar-se
livre. Compreendo. Preferes tomar tua liberdade com sofrimento,
pois assim limparás o coração. Contudo, advirto-te de que será
angustioso.
Samos agarrou-se aos lados da cadeira e ergueu o rosto.
- Estou pronto disse.
- Fecha os olhos para que o sangue não pingue neles.
Lucano ergueu uma lâmina afiada e estreita. Examinou de novo a
marca. Feia como era, não se tratava de cicatriz antiga, e a pele, em
de redor, estava ainda fina e flexível, pois Samos era jovem. Podia
tirar cuidadosamente a marca, sem magoar os tecidos que ficavam
abaixo dela, e poderia puxar as margens intocadas, reunindo-as. Quando
a ferida cicatrizasse, haveria apenas uma ruga comprida e fina, da
linha dos cabelos até as sobrancelhas, e dentro de poucos meses
aquela ruga estaria branca e passaria despercebida. Lucano explicou ao
outro o que ia fazer, e Samos aprovou com um gesto de cabeça. Sua
boca empalideceu, em antecipação, e ele se tornara rígido.
Lucano correu a lamina de alto a baixo com um toque delicado
e o corte abriu como uma boca, sangrando. Mas não havia grandes
vasos sangüíneos abaixo. Samos não pestanejou; estava bem imóvel.
Lucano limpou o sangue que pingava e recortou a marca. Samos
fez-se branco como a morte e suas falanges cresceram nas mãos apertadas.
Mas ele não se moveu. Lucano começou a suar, em sua rapidez de
trabalho; lágrimas de sangue corriam da ferida e rolavam em gotas
vermelhas pelas faces de Samos. Algumas juntavam-se, em pequenas
poças, aos cantos de sua boca. As lâmpadas crepitavam e se debatiam
Contra uma brisa ligeira que vinha da janela.
O médico, preocupado com a dor que estava provocando, relanceou
por um instante os olhos para o rosto tenso de Samos. De novo a
sensação de um rosto familiar lhe veio.
- És muito corajoso disse, com voz trêmula. - És um
homem bravo e nobre, Samos.
A marca jazia sobre um pequeno pires, má como o olho de um
demônio, e já encolhendo. Lucano apanhou agulha e linha. Samos
tinha o ar exausto e o médico só desejava que ele desmaiasse. Mas a
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orgulhosa expressão da boca do jovem não afrouxava. Lucano
Começou a suturar habilmente, e falava em voz suave do trabalho que
fazia entre os pobres, dos casos estranhos que tinha encontrado. Samos
sorria levemente. A pele macia e jovem tinha que ser esticada para se
encontrar. A cicatriz, porejando pequenas gotas de sangue, já não
sangrava.
- Abre teus olhos, Samos disse Lucano, e deixou-se cair
numa cadeira, limpando o suor com as costas da mão. Samos abriu os
olhos e soniu para ele com orgulho e alegria. Depois de alguns
instantes, Lucano cobriu o ferimento que já parara de sangrar.
- Ah! disse ele estou contente com isto. Ficará melhor do
que eu esperava. Mas agora deves beber uma taça de vinho comigo,
pois estou exausto!
Rindo, com a voz trêmula, serviu duas taças de vinho. Samos
estendeu a mão para uma, a sua mão esquerda. Lucano colocou a taça
naquela mão, e então parou, abruptamente. Seu coração também
pareceu parar, e houve um trovejar em seus ouvidos. Seu rosto tornou-se
mais branco e mais imóvel do que o rosto de Samos.
O moço olhou para ele e ficou assustado.
- Lucano! exclamou. - Isto foi demais para ti! Parece que
vais desmaiar!
Levantou-se, cambaleante, e passou os braços em torno dos
ombros de Lucano. A boca do médico abriu-se silenciosamente, e
então ele arquejou. Seus olhos encheram-se de lágrimas. Levantou-se
e ficou de pé ao lado de Samos, tentando falar, e conseguindo
apenas crocitar. Depois, olhou para Samos e disse na mais calma das
vozes:
- Tu não és Samos. Esse não é teu nome. Teu nome é Arieh
ben Eleazar, e és um judeu, que eu estive buscando há vinte anos!
Levantou a mão esquerda do jovem, que estava estupefato, e
voltou-a para a luz. O dedo mínimo era torcido e dobrado fortemente
para dentro, na direção dos outros dedos. E Lucano olhou nos olhos
de Arieh, vendo ali os olhos de Sara. Estalou em choro abafado.
- Deus é bom gaguejou ele. - Acima de todas as coisas,
Deus é bom!
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Imediatamente, Lucano escreveu aos advogados de Sara bas Eleazar,
em Jerusalém. Disse a Arieh:
- Deves partir pelo próximo navio, que chegará depois que
minha carta alcance os advogados. Eu te acompanharia, pois isto é uma
coisa muito cara para meu coração, mas tenho contrato de dois meses
com outro navio e não posso romper minha palavra. Mas irei
encontrar-me contigo mais tarde, em Jerusalém, talvez.
Arieh, porém, disse-lhe:
- Não me peças que te deixe. Não tive muita experiência, e
quero ser teu assistente durante esses dois meses.
Lucano sorriu; sabia que Arieh dera aquela desculpa para não se
separar dele. Assim, Lucano concordou, e Arieh, caminhando com a
altivez e agilidade de um jovem que está libertado, foi com ele. Lucano,
que se sentia como se um horrível abscesso tivesse sido finalmente
lancetado nele, purificando-o, começou então a ensinar a Arieh sua
antiga religião, nas vigílias noturnas. Arieh fora educado,
indiferentemente, na religião greco-romana da casa de seu primeiro senhor, e
depois em Tarso, por seus professores. Ouvia Lucano com a mais
profunda atenção. e fazia perguntas pertinentes:
- É estranho descobrir que sou Judeu disse, certa vez,
sacudindoacabeça.- Meus senhores odiavam os judeus. Diziam-nos
avarentos e astutos, sendo, eles próprios, os homens mais perversos,
ávidos e espertos do mundo! Meu primeiro senhor, em particular, não
podia dormir, por causa de seus planos, e jamais eu o vi regozijar-se, a
não ser quando tinha arruinado um outro homem.
Quando Arieh andava, Lucano recordava o que Eleazar ben
Salomão dissera de seu filho: "Ele é um jovem leão!" Perguntou a
Arieh sobre lembranças que pudesse ter do passado.
Arieh franziu as sobrancelhas, tentando lembrar-se.
- Disseram-me que eu tinha nascido em Samos, e que por isso
deram-me esse nome. Eu tinha dois anos de idade quando fui
comprado para ser um brinquedo nas mãos dos filhos do meu primeiro
senhor; fui comprado de um bloco de escravos. Isso é tudo quanto sei.
Fez uma pausa, e depois continuou: - Tive um sonho que me
Perseguiu durante toda a minha infância, e que às vezes ainda tenho.
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Eu estou num jardim, grande e belo. Vejo colunas brancas, mas não
vejo estátuas como mais tarde vi em outras casas. Vejo uma profusão de
flores em toda parte, e fontes brilhantes. Tenho um cãozinho branco,
que é meu. Muito belo e muito sossegado. Um jovem aparece no
jardim, atira-me no ar e beija-me. Há uma jovenzinha, também, com
cabelo preto, que brinca comigo.
Arieh passou a mão pela testa que ia cicatrizando:
- O sonho mistura-se. Era no mesmo dia ou em oUtrO? Estou
com duas mocinhas no jardim, e elas correm e brincam cOmigO. O
jardim está muito silencioso e muito brilhante, ao SOl. Meu cãozinho
não está ali e eu sinto falta dele. De repente, dois homens escuros,
quase nus, aparecem. Olho para eles sem medo, embora não os
reconheça como reconheço os que me guardam. Eles atiram-se sobre as
mocinhas e levantam em suas mãos algo que brilha ao sol. As
mocinhas tombam de borco. Eu rio e bato as mãOS, pOiS penSo que se trata
de uma brincadeira. Então, sou agarrado por um dos homens, que se
movem como sombras. Uma mão é posta sobre a minha boca e eu
começo a me sentir sufocado. Não
pOSSO respirar. Então, algo preto
tomba diante de meus olhos. Isso é tudo do que
me recordo. Minha
lembrança, a seguir, é de uma casa estranha, e crueldade, e pancadas.
Quanto mais tarde foi isso eu não saberia dizer. Deve ter sido um
sonho rematou Arieh, sacudindo a cabeça.
- Não disse Lucano -, não foi um sonho.
Arieh mostrava um desejo intenso de tudo saber sobre a família,
seu pai, sua irmã. Lucano jamais se cansava de falar em Sara. Uma vez,
enquanto estava falando, percebeu que Arieh o contemplava com uma
expressão impenetrável.
- Ela era a mais adorável, a mais doce e a mais bondosa das
mulheres dizia ele, numa voz que acreditava ser desapaixonada.
Lucano bateu amistosamente no ombro de Arieh: - Sinto-me como
se fosse teu pai disse - é verdade, podias ser meu filho, pois não
sou jovem. - Sentia-se confortado.
Pintou para Arieh um pequenO retrato de Sara. O rosto claro, OS
olhos sinceros e o belo sorriso irradiavam da madeira, como se fossem
de carne, e o pescoço branco era altivo.
- Ela parece uma divindade disse Arieh.
Aquilo fez rir Lucano.
- Não fales como um grego ou um romanO! exclamou. -
Teus concidadãos olharão para ti ofendidos e revoltados se chamares
divindade a qualquer ser humano. Sentemo-nos e estudemos de
novo Moisés, que libertou teu povo dos egípcios. Acho que a história
te fascina. E, como filho de Eleazar ben Salomão, é melhor que te
apliques mais às tuas lições de hebraico.
Cresceu entre eles um apego que era como o profundo devotamento
do homem que tem um filho único, e cujo coração fala a esse filho. O
misterioso senso de consolo e realização crescia em Lucano dia a dia.
como se tudo quanto ele amara estivesse corporificado em Arieh, a
quem ensinava como se ensina uma criança. Jamais se cansavam de
conversar. Lucano, falando de sua própria vida, vivia-a de novo,
contando-a a Arieh. Quando pararam num porto, um mensageiro veio a
bordo, entregando a Arieh uma grande bolsa de ouro e alegres
mensagens dos advogados de Jerusalém. "Esperamos a chegada do filho de
Eleazar ben Salomão", tinham eles escrito. "Ele será purificado no
Templo e devolvido a seu povo. Louvado seja Deus porque Ele te
encontrou."
Arieh distribuiu o dinheiro entre os membros da
miserável tripulação. Foi às galés e deu a vários escravos ouro bastante para que
comprassem sua liberdade. Durante dias e noites, depois disso, o
pequeno navio atroava com gritos jubilosos e saudações aos deuses.
Marinheiros beijavam as mãos de Arieh quando o moço passava por
eles, e o jovem ficava embaraçado.
Lucano agora podia falar integral e amorosamente de Deus, com
Arieh. Seu espírito estava liberto. Ele se parecia a alguém que espera
por um chamado que virá, com certeza, e espera com serenidade. Foi
franco com Arieh, e explicou seu ódio antigo por Deus.
Entretanto, durante todo o tempo eu estava secretamente
enraivecido, pois Ele não se manifestava a mim. mas parecia ignorar-me.
Desafiava-o e não tinha resposta. Isso foi imperdoável!
Contou a Arieh tudo quanto Keptah e José ben Gamliel haviam
contado, e quando Lucano assim falava era como se seus queridos
professores ali estivessem, a seu lado, sorrindo e aprovando com
movimentos de cabeça. Falou a Arieh das profecias babilônicas e egípcias.
Falou também no estranho mestre judeu sobre o qual Prisco escrevera
e que Ramo vira:
- Não ouvimos mais falar Dele disse Lucano. - Outrora,
Contavam-se muitas histórias, até dois meses atrás. Desde então, só
existe silêncio. Perguntei a várias pessoas, em vários portos, pedindo
mais notícias, porém recebi apenas sorrisos de mistificação. Escrevi a
510 511
meu irmão Prisco, várias vezes, pedindo mais notícias, entretanto,
nenhuma veio. Ele não me tem escrito. Terá voltado para Roma? Escrevi
a minha mãe, há dois dias.
- Encontraremos o rabi judeu em Jerusalém disse Arieh,
intensamente interessado. - Ele invade meus pensamentos. Repete-me
de novo a profecia de Isaías.
Quando encontravam uma pequena sinagoga judaica nos portos,
Lucano levava Arieh a visitá-la. Mas não podiam penetrar além do
Pátio dos Gentios.
- Compreendo que não me possa aproximar do Santo dos
Santos enquanto não for purificado dizia Arieh, olhando em derredor,
com curiosidade. - Mas por que proíbem os gentios de entrar? Deus
é o Deus de todos os homens. Meu povo deve ser uma raça orgulhosa
e obstinada.
- Se não fosse assim, não teria sobrevivido à passagem dos
tempos disse Lucano. - Um homem deve preservar o que há de
melhor nele e em seu povo. Ainda assim, como dizes, Deus é o Deus
de todos os homens. Entretanto, prestei atenção nas cerimônias dos
templos gregos, romanos e egípcios. Apenas os sacerdotes, os eleitos,
podem partilhar dos mistérios. Apenas os sacerdotes bebem os vinhos
dos sacrifícios e comem os animais sacrificados. Há coisas que devem
ser afastadas dos vulgares e dos estúpidos, pois eles podem corromper.
Os sacerdotes ordenados abençoam e realizam seus atos mas deves
recordar que para isso foram ordenados.
- Meu povo é um povo sacerdotal dizia Arieh. - E só tem
ordenado que os homens amem-se mutuamente e façam-se
mutuamente justiça, não como assunto filosófico, mas como ato de fé. É um
mandamento estranho.
Contemplou Lucano com movimento solene de cabeça. Tocou
com a mão o ombro do outro.
- Sim, Ele chamou-te.
Um grande temporal armou-se certa noite e o navio foi forçado a
recolher-se a um pequeno porto que já estava repleto de navios que
para ali tinham corrido diante do mugido do vento e do assalto das
vagas. Quando o dia amanheceu, incendiando o céu, o mar ainda
estava tumultuoso, e os navios maltratados oscilavam em seu
ancoradouro e receavam partir de novo. Lucano e Arieh estavam de pé no
convés agitado de sua embarcação, e viam que seu vizinho mais
próximo era um navio magnificente, de esplêndida madeira. Suas velas
forradas jaziam como montanhas de seda lustrosa no convés. O
comandante era, aparentemente, homem sem prosápia, embora estivesse
agora andando de cá para lá, com expressão preocupada, e os dois
amigos vissem-no morder os lábios.
- É um navio particular, o brinquedo de algum homem muito
rico disse Lucano. Fez sinal ao comandante, que veio
relutantemente até a amurada de seu navio incrustado com ébano, madrepérola
e dourado. O médico reparou que o navio não tinha figura de proa
representando uma cabeça de mulher ou uma sereia.
- Há alguma coisa que não vai bem a bordo? indagou
Lucano, em grego. O capitão sacudiu a cabeça. Lucano tentou o
aramaico e o capitão fez ansioso sinal afirmativo, respondendo:
- Sim, há algo que vai muito mal. Meu glorioso senhor, o dono
deste navio e olhou em derredor, com orgulho -, está de cama,
doente. Nosso médico morreu ontem à noite, no temporal; foi atirado
contra uma parede e teve a cabeça esmagada.
- Que doença tem teu senhor?
O comandante sacudiu a cabeça:
- Quem sabe? Há mais de dois meses está assim deitado como
quem foi tomado de doença mortal. É de Jerusalém. Seu médico era
muito famoso. Há dois meses meu senhor recolheu-se ao leito,
chorando violentamente, e não quis ver a esposa nem os filhOS, nem a
mãe nem o pai. O médico ficou estupefato. Então meu senhor disse que
sairia pelos mares para esquecer, mas o que estava tentando esquecer
ninguém sabe. Não saiu da cama, e está morrendo de momento a
momento; torce as mãos e não fala.
Lucano disse a Arieh, em voz baixa:
- Ao que parece o homem está mentalmente enfermo. - Olhou
para o comandante e disse, com certa hesitação: - Sou médico.
Gostaria de ver teu senhor.
O rosto do comandante iluminou-se; era evidente que amava seu
amo.
- Espera, senhor! Eu arranjarei para receber-vos a bordo, pois
receio, verdadeiramente, que a morte se esteja aproximando.
Foi difícil para Lucano e Arieh a passagem para o outro navio,
Pois os dois barcos jogavam sem cessar, mas não em ritmo um com o
OUtro. O comandante recebeu-os conto se fossem reis.
- Oh! Deus é bom exclamou. - Meu amo não morrerá
agora!
512 513
jamais Lucano vira navio tão maravilhoso; um augustal romano,
ou mesmo um César, teria se sentido orgulhoso de possuí-lo. As
cobertas eram de teca, as paredes de ébano incrustado com artístico
desenho de flores e folhas em pérolas, ouro e prata. Brilhavam ao sol
ardente. Lucano disse ao comandante:
- Soisjudeus, pelo que vejo, pois não há aqui estátua de deuses
nem murais de animais. Qual é o nome de teu amo?
- Hilell ben Hamram disse o comandante, e olhou para
Lucano e Arieh esperando um ar de respeitoso temor. - Conheceis,
sem dúvida, a família dele, não só a mais rica de toda a Judéia, mas
famosa por seus médicos, advogados e eruditos. E meu amo é amigo
do próprio Pôncio Pilatos. O Rei Herodes Antipas lisonjeia-se de
recebê-lo como hóspede.
Lucano sorriu levemente. O jovem Arieh ouvia com interesse. O
médico dirigiu-lhe um aceno:
- Vamos ver o nosso paciente.
Foram levados para duas cobertas abaixo, cada qual mais
esplêndida do que a outra, cheias de luz, tecidos, madeiras e mobiliário
preciosos.
- Sabei que meu amo não tem escravos disse o comandame,
adoração na voz. - É contra os princípios de um judeu devoto.
Lucano não pôde evitar de dizer, um gesto indicando Arieh:
- Tu sabes muito, meu comandante, sobre os nomes
importantes de Israel. Com certeza reconhecerás o filho de Eleazar ben Salomão,
que tem estado dando a volta ao mundo a fim de se aperfeiçoar nas
artes da medicina?
Arieh corou; Lucano se estava divertindo com aquilo. Os olhos
do comandante arregalaram-se e ele olhou para Arieh:
- O filho de Eleazar ben Salomão! Mas o filho dele foi
roubado, em criança, e ficou perdido.
Estava perdido, mas foi encontrado disse Lucano. -
Vamos. Esta é a porta do teu amo?
Silencioso, sem retirar os olhos de Arieh, o comandante abriu
uma porta escondida atrás de uma cortina de brocado de ouro, e os
médicos entraram num aposento tão luxuoso em sua magnificência
oriental que eles ficaram deslumbrados. Cortinas de brocado de prata
pendiam das janelas, tapetes persas cobriam o piso. O navio jogava e
oscilava, mas o grande leito dourado estava parafusado com firmeza ao
chão. Nele, sob cobertas ricas, jazia um homem que não teria mais de
vinte e nove anos. O rosto parecia de mármore antigo. O cabelo preto
espalhava-se em leque, por sobre os travesseiros bordados e suas
feições mostravam-se finas e austeras. Quando Lucano e Arieh se
aproximaram, ele não se moveu.
- Hilell ben Hamram disse Lucano, educadamente,
curvando-se sobre ele -, sou Lucano, um médico, e vim para ajudar-te.
- E eu sou Arieh ben Eleazar, também médico, e teu
concidadão disse Arieh, com profunda compaixão em sua voz.
O enfermo não se moveu. Era como se já tivesse ultrapassado a
capacidade de ouvir. Arieh então pareceu escutar algo. Colocou a mão
sobre a fronte fria de Hilell e disse:
- Ouve, ó Israel, o Senhor Nosso Deus é Um!
Hilell manteve-se imóvel. Os dois médicos observaram-no
ansiosamente. Lucano levantou a mão dele, fraca e gelada, e tateou-lhe o pulso.
Colocou o ouvido sobre o peito quase sem arquejo. O coração revelava-se
lento e fraco. Quando Lucano tornou a endireitar o corpo, viu que
lágrimas lentas filtravam-se de sob as pálpebras fechadas. Arieh
sentou-se ao lado de Hilell, tomou-lhe a mão na sua, mantendo-a com força, e
Lucano ficou impressionado com a beleza do quadro que formavam
aquele belo rapaz e seu irmão, que ele confortava silenciosamente. O sol
derramou-se através da janela e repousou nos rostos deles.
- Não chores disse Arieh, carinhosamente - Deus está
contigo, e Ele te ajudará com o Seu poder.
As lágrimas correram mais depressa de sob as pálpebras do outro,
e Arieh teve a impressão de que os dedos do enfermo apertavam-se
contra os seus. Disse, então:
- Eu estava perdido, e Ele encontrou-me. Eu era um escravo, e
Ele libertou-me. Eu era um estranho, e Ele trouxe-me para meu povo.
Louvado seja Ele, Rei dos Reis! Pois nada está fora de Seu poder, e
Ele não silenciará quando Seus filhos chamarem por Ele.
Hilell gemeu, e foi como se o som não viesse apenas de sua carne,
mas de seu espírito. Não abriu os olhos, mas sussurrou:
- É tarde demais. Ele me chamou, e eu Lhe voltei as costas. Não
O esqueci, e um dia soube que não poderia viver sem Ele, embora o
que Ele me pedia fosse árduo. Por isso, fui procurá-lo novamente.
Era tarde demais. Os romanos O haviam matado, O haviam cravado
na cruz como a um criminoso.
Lucano teve um violento sobressalto. Agarrou es ombros emaciados
de Hilell em suas mãos e a seda macia rangeu sob seus dedos:
514 515
- Quando se passou isto? exclamou.
Durante alguns momentos Hilell não respondeu, e foi como se
tivesse tombado no sono da morte. Então, disse baixinho:
- Foi na Páscoa, quando a terra escureceu.
Lucano sentou-se abruptamente. Seu coração estava saltando e
havia em seus ouvidos um som trovejante. Apertou a mão contra eles,
a fim de aclará-los. Depois de alguns instantes estendeu
mecanicamente a mão para seu estojo e tirou dali um frasco que continha um
estimulante. Suas mãos tremiam enquanto punha um pouco daquele
líquido na taça de vinho que estava sobre uma mesa de limoeiro, ao
lado do enfermo. Levou a taça aos lábios de Hilell e exclamou,
peremptoriamente:
- Bebe isto! Então, deves contar-nos, pois essa é a história que
temos estado a procurar!
Hilell bebeu sem abrir os olhos. e Lucano tornou a deitar-lhe a
cabeça no travesseiro. O mar, radiante, atirava relances de luz e
sombra dentro do aposento; gaivotas gritavam junto das janelas e as vozes
de muitos marinheiros ecoavam ao vento. O cheiro quente de
alcatrão, do sal e do peixe misturava-se a um odor aromático, que se
assemelhava ao da mirra. Lucano e Arieh esperavam que Hilell
falasse. Um leve colorido começou a insinuar-se em suas faces de
marfim; seus lábios cinzentos tóram tomando um tom de coral, e o suor
secou em sua fronte. O homem então abriu olhos trágicos, escuros e
atormentados.
- Vós O procurais? murmurou. - Mas Ele está morto. Vi as
três cruzes, minúsculas, diminuídas, no distante Local dos Crânios,
contra um céu turbulento, de nuvens róseas e lilás, imenso e fervente,
e dali vinha para a terra uma luz horrenda. E as pessoas me contaram,
ali onde eu estava, que Um dos que estavam nas cruzes era jesus de
Nazaré, que Ele fora condenado por escarnecer da Lei e ser causa de
insurreições contra Roma. E enquanto ali fiquei, uma sensação de
morte e perda tombou sobre mim, o sol retirou sua face radiante e a
terra estremeceu. As pessoas tombaram de borco, com um grande gritO
de terror e luto. Era tarde demais, tarde demais para sempre, e não
Lhe pude dizer que eu O seguiria.
- E então? perguntou Lucano, quando Hilell silenciou,
virando a cabeça para o outro lado, angustiado.
O enfermo fez um gesto fraco.
- Não sei. Fugi daquele lugar maldito, naquela noite, e fui para
Cesaréia, onde passei uns dias sem propósito. Depois, fugi para o mar,
pois nada mais para mim tinha qualquer valor.
- As antigas profecias dizem que Ele tornará a erguer-se -
falou Lucano. Curvava-se sobre Hilell, que sacudiu a cabeça.
- Como é possível? murmurava ele. - Sim, ouvi de meus
servos que aqueles que O seguiam tinham dito isso. Mas Ele era apenas
um homem. - Olhou para Lucano, e seus olhos imploravam: -
Ele morreu! Precisas dizer-me, por amor da paz de minha alma, que
Ele era apenas um homem, afinal, e que eu não O traí,
verdadeiramente, que eu não O feri!
- Os homens não O têm traído sempre? perguntou Lucano,
com tristeza. - E não o trairão sempre, neste mundo sem fim? Não O
traí eu próprio, embora tivesse visto a estrela de Seu nascimento e
ouvisse falar Dele desde a minha infância? Tu te arrependes, a
penitência é tudo quanto Ele pede.
Hilell chorava.
- Então não estou perdido e Ele me perdoou?
- Ele não desprezará um coração arrependido disse Lucano,
limpando o rosto do enfermo com uma toalha molhada em água fria.
- Mas, conta-nos.
Passou-se algum tempo, antes que Hilell pudesse falar. Torcia
seus dedos finos e olhava para as janelas brilhantes, como se visse algo
para além delas.
- Eu estivera visitando Herodes, que é amigo de minha família,
em seu palácio de Cesaréia. Deveis saber que isso se passou há quase
um ano. Eu, minha esposa e meus filhos, que estavam também
comigo, mas como o Dia da Expiação se aproximava eu não podia
permanecer com Herodes, que em parte é grego, e homem caprichoso, que a
um dado momento é grego, e logo depois judeu. Não sou homem
piedoso, nem observo a Lei estrita. Ainda assim, não pude suportar
por mais tempo a conversação de Herodes, nem suas maneiras. Ele
sacrifica em templos romanos, depois vai a Jerusalém para purificar-se
e atira cinzas à cabeça, pede perdão e empilha ouro nas mãos dos
sacerdotes. Assim, mandei caladamente minha família para Jerusalém,
e depois de um ou dois dias para lá também fui.
Fez uma pausa, e Lucano tornou a refrescá-lo com o vinho e o
estimulante.
- Deveis saber que eu ouvira falar muito no rabi judeu que
estava ensinando o povo, na poeira das cidades e atalhos. Herodes
516 517
falou dele com um riso constrangido. Havia muitos que o acusavam
de incitar os judeus à rebelião contra o opressor romano. Herodes,
porém, estava constrangido por causa da morte de João, o Batista,
conforme o chamava o povo, pois de certa forma Herodes é homem
erudito e pensava ser João o Elias, tendo, de início, poupado a vida
dele. João o denunciara, a ele, o tetrarca,* por se ter casado com
Herodíades, a esposa de seu irmão.
"Compreenderás, Lucano, que estas coisas estavam muito vagas
em minha mente, pois o que era um pobre rabi judeu, vindo da
Galiléia, em relação aos ricos e poderosos? Sempre há profetas, pois
os judeus geram profetas como os gafanhotos, filhotes. Um a mais ou a
menos não tem importância. Eu nem sequer teria dado atenção
àquelas histórias se Herodes não me tivesse parecido caprichoso e
perturbado, de uma forma pouco comum, e não se tornasse imprevisível e
selvagem desde que mandara executar João.
"Compreende-se que Herodes pudesse ter esquecido João como
se esquece um sonho violentamente colorido depois de certo tempo,
se aquele rabi judeu não tivesse aparecido na trilha dos passos do
outro. Herodes disse-me que João lhe falara Dele. Então, contou-se
que o rabi estava realizando grandes milagres, e todo o palácio ecoava
com as notícias. Dizia-se que era Ele O Messias. O estranho é que só
os escravos e os miseráveis libertos é que falavam Dele com tal
expressiva paixão e excitamento. Mas os governantes ouvem o que dizem os
escravos e, assim, os boatos sobre o Messias chegaram aos ouvidos de
Herodes e ele ficou fora de si.
Lucano enxugou o rosto do homem. Arieh conservava-se em
silêncio e Hilell não largara a mão dele.
- Estava quente aquele dia em que deixei Herodes e guiei
minha biga, rodeado de meus servos, a cavalo e a pé. A poeira parecia
fogo branco, e eu enrolei um pano sobre meu nariz e meus olhos.
Então, à beira da estrada, vi um pequeno grupo de homens sentados
em pedras, sobre a terra, junto de uma pequena aldeia, e crianças que,
timidamente, se aproximavam deles.
"Por que parei? Um dos meus homens cavalgou até a minha biga
e disse-me, com veemência, que ali estava o humilde rabi, com Seus
amigos, e tive curiosidade de ver o homem que indignara Herodes de
___
* Governador de uma das quatro partes em que se dividiam alguns Estados,
fossem elas províncias ou governos (tetrarquias). (N do T)
___
tal maneira, e sobre o qual contavam-se histórias tão incríveis. Assim,
guiei a biga até junto Dele e de Seu pequeno bando de seguidores e
crianças e ouvi, com um sorriso, o que dizia Aquele que parecia tão
pobre e humilde quanto um mendigo, comentando comigo mesmo: É
Deste que estão falando?
"Ele estava contando uma história, uma parábola, e os judeus
vivem tão cheios de histórias como uma romã de sementes. Seu
sotaque era tosco pois tratava-se de um camponês da Galiléia, um
carpinteiro, segundo me disseram. Relatava muito bem a sua história, com
muita eloqüência. Olhei para Seu rosto empoeirado, para Suas vestes
simples e para Seus pés, enquanto Ele ali estava, sentado na pedra, e
fiquei impressionado com o que dizia. Ele falava de um fariseu.., e os
fariseus são homens muito devotos e rigorosos, que defendem a Lei
como as Legiões defendem Roma... que ia ao Templo para rezar, e ao
lado dele estava um publicano* sem importância, que, sem dúvida, o
fariseu considerou insuportável. E o fariseu, melindrado e contrariado
com a presença do publicano, puxou a ponta de seu turbante
sobre o nariz para não ser ofendido pela proximidade do outro e pela
sua mesquinha ocupação.
Os olhos de Hilell modificaram-se, tornaram-se ansiosos e
quentes ao olhar para Lucano:
- Era uma história muito interessante, e eu não gosto dos fariseus.
Eles me aborrecem com sua piedade excessiva, que está só na letra e
não no espírito da Lei. Queria divertir-me, e divertia-me ver aquele
homem, pobre e andrajoso, falar assim dos fariseus, que são o terror
daJudéia, com suas constantes acusações aos padres, a propósito de o
povo não observar convenientemente todo o ritual. São cansativos e
perigosos aqueles fariseus, sempre farejando heresia.
O enfermo arquejou um pouco, e mais uma vez Lucano refrescou-o.
Ele recostou-se em seus travesseiros e seus olhos fizeram-se
sonhadores:
- Uma história excelente. O rabi disse que o fariseu rezava a
Deus, dizendo: "Graças, Senhor, pois não sou como os outros
homens, adúlteros, ávidos, injustos e nada sabendo sohre a Tua Lei.
Não sou como esse miserável publicano, que não deveria profanar
Teu Templo com a sua presença. Eu jejuo em todos os jejuns e pago
escrupulosamente os dízimos." E o fariseu estava muito contente con-
___
* CObrador de rendas públicas em Roma. (N. do T.)
518 519
sigo mesmo. O publicano, porém, batia no peito, chorando, e não
levantava os olhos, exclamando apenas: "Senhor, tem piedade de
mim, que sou um pecador!"
Hilell estava tão melhor que pôde rir baixinho.
- E o rabi disse aos que O seguiam: "Digo-vos que aquele
publicano valia mais do que o fariseu, e Deus o confortou mas não
confortou o fariseu. Pois o que se exalta será humilhado, mas o que se
humilha será exaltado."
"Preciso contar-vos sobre aquele rabi. O sol estava vívido mas no
rosto Dele mostrava-se ainda mais fulgurante e intenso, pois Sua
emoção era mais do que a emoção de um homem. Sentava-se como um
príncipe em seu trono e a gente se esquecia de que se tratava apenas de
um membro do Amuratzem* sobre uma pedra, e que Seus pés estavam
lavados pelo pó. Sorria como um pai. Olhava para seus seguidores
com olhos azuis e carinhosos, e eles ouviam reverentes. Sua barba era
dourada, e Suas mãos descansavam em Seus joelhos. Falava como
quem está coberto de autoridade.
"Foi então que as crianças, andrajosas e descalças que se tinham
mantido afastadas, aproximaram-se timidamente Dele. Enquanto eu
estivera ouvindo o rabi, suas mães se juntaram a elas, pobres mulheres
que se vestiam de farrapos, com jarros aos ombros. Empurravam os
filhos para Ele, olhando em derredor, humildemente, como que
implorando perdão. E Seus seguidores disseram: "Não perturbai o Mestre,
e levai daqui vossos filhos, pois Ele está cansado e não deve ser
interrompido quando fala com Sua sabedoria."
Hilell suspirou protundamente e fechou os olhos.
- Mas o rabi chamou as crianças, abriu-lhes os braços e diçse
aos Seus seguidores: "Deixai vir a mim as criancinhas, e não as
censurais, pois destes pequeninos é o Reino do Céu." E as crianças
rodearam-No, subiram-Lhe ao colo, envolveram-Lhe o pescoço com os braços,
rindo e beijando-O. E Ele as mantinha contra Seu corpo. E eu
juro que tornei a emocionar-me, pois sou pai e conheço a doçura dos
beijos do amor das crianças. O rabi disse a Seus seguidores: "Quem
não receber o Reino de Deus como uma criancinha, não entrara para
além de suas portas."
Hilell abriu os olhos, que estavam de novo atormentados.
- Compreendi o rabi, embora antes jamais tivesse compreen-
___
* Casta pouco versada nas coisas da religião, de cultura limitada. (N do
T)
___
dido. Desci de minha biga, aproximei-me Dele, e meus servos
disseram ao povo que abrisse passagem para mim. Ele observava-me,
enquanto eu ia chegando, e sorria-me como a um irmão que
reconhecesse. E esperava. Meus servos gritavam: "Fazei caminho para
Hilell ben Hamram, que é homem poderoso em Israel, pois dirige
uma cidade e sua família é famosa e tem muito ouro!" E o rabi
nada disse, e só esperou por mim, embora o povo recuasse,
assustado.
"Parei diante Dele perto o bastante para tocar-Lhe o ombro, e Ele
fixou-me em silêncio. Disse-Lhe: "Bom Mestre, o que devo eu fazer
para merecer a vida eterna?" Ele tornou a sorrir para mim, e disse, com
sua voz que se fizera sonora: "Por que me chamas bom! Ninguém é
bom, apenas Deus. Conheces os Mandamentos, e não deves matar,
roubar, dar falso testemunho ou cometer adultério. Deves honrar teu
pai e tua mãe." Eu Lhe disse: "Desde a minha juventude respeito os
Mandamentos."
"Ele ficou silencioso por tanto tempo que eu pensei ter sido
dispensado de ali ficar, isso da parte Dele, um pobre rabi ignorante, com
seu sotaque vulgar. Então Ele levantou os olhos e disse-me, em tom
meditativo: "Falta-te uma coisa: vende o que tens, pois és rico, e dá o
resultado aos pobres. Então, terás os tesouros do céu."
Hilell ergueu-se em seus travesseiros e olhou para Lucano, os
olhos implorantes:
- Médico! Compreendes quanto aquilo era incrível! Por que
teria Ele de pedir-me que também eu fosse um mendigo?
Lucano olhou para o oceano, que podia ver através da janela, e
disse baixinho:
- Ele pede a cada homem que Lhe entregue o que mais ama no
mundo, e é evidente que tu colocavas teu dinheiro acima de todas as
coisas.
Hilell gemeu, e tornou a deitar-se.
- É verdade. Agora, compreendo. Afastei-me Dele,
horrorizado. Ele viu minha agitação, e disse-me, muito suavemente, em voz
baixa: "Vem, segue-Me."
Hilell passou a mão pelo rosto:
- E pedia-me que O seguisse, que me tornasse um de Seus
seguidores sem lar, a mim, Hilell bem Hamram! Disse-Lhe que
aquilo era loucura. Então, Ele voltou-se para seus seguidores e disse muito
tristemente: "Como é difícil aos ricos entrarem no Reino do Céu!" E
520 521
levantou -se. Começou a falar, de novo, para os que O rodeavam, e eu
voltei para a minha biga e me afastei dali.
Lucano e Arieh não falaram. Hilell olhava de um para o outro,
suplicante.
- Fui educado em Atenas e em Roma. Sou homem de erudição,
de poder, influência e fortuna. Sou um homem do mundo. Sou Hilell
ben Hamram e Ele me pedira o impossível.
- Compreendo. Compreendo quanto aquilo te deve ter
parecido incrível disse Lucano, com um suspiro. - Pois eu próprio não
O censurei e odiei, quando Ele levou a querida de meu coração, e não
jurei vingarme Dele? Eu não sabia, como tu não sabias, que Ele toma
apenas para dar, priva e logo oferece Seu conforto, cega, para que
possamos ver a Sua luz. Quem sou eu para censurar-te, Hilell ben
Hamram?
Indicou Arieh, com um gesto da mão:
- Quem pode conhecer os mistérios de Deus? Ele entregou este
jovem em minhas mãos, depois de mais de vinte anos de procura, e
agora sei que quando Ele me deu Arieh foi para me libertar de meu
ódio e levar-me para Ele.
Hilell fixou os olhos em Lucano, viu como Arieh encostava a
cabeça ao ombro do amigo, e dizia:
- Abençoados somos nós, pois Ele nos visitou.
Lucano estendeu sua mão a Hilell:
- Vejo bem que nunca O esqueceste, que Ele está em tua
vida e em teus sonhos, que não poderias fugir Dele. Repousa, cc
consola-te, pois sofreste muito e Ele te perdoou e apenas pede que tu
O sigas e jamais O deixes. Vem conosco para Israel, onde nós o
encontraremos outra vez, porque, com toda a certeza, Ele não está
mortO, mas vive.
43
Hilell ben Hamram levantou-se da cama, animado e jovem
novamente. Não permitiu que Lucano e Arieh o deixassem. Eles, em seu navio,
atendendo à tripulação, seriam seguidos pelo seu barco magnífico, até
que terminasse o contrato de Lucano. Este e Arieh então passariam
para bordo do outro navio e iriam todos juntos para Israel.
- Eu estava morto, e tu me chamaste à vida! exclamava ele
para Lucano, abraçando-o.
Quando paravam rapidamente nos portos, Hilell insistia em
compartilhar das casas de Lucano, com ele e Arieh. Deitava-se numa esteira,
no chão, comia as refeições frugais que Lucano arranjava, e seguia-os
aonde quer que ele e Arieh fossem fazer tratamentos e visitar pacientes
que os esperavam. Mas sua atitude, como a atitude de Arieh, enchia de
respeitoso temor os pacientes humildes. A noite, sentados em torno da
mesa e comendo à luz da lâmpada, Hilell contava aos companheiros o
que sabia e o que ouvira sobre Jesus de Nazaré. Seu rosto de fino marfim
resplandecia, seus olhos escuros faiscavam e a alegria morava neles.
- Dizem-me meus servos que os seguidores do Mestre
espalharam-se, depois de Sua crucifixão, temerosos dos romanos, pois
tinham sido proscritos como arruaceiros. Eu os levarei para a minha
casa de Jerusalém, e nós nos sentaremos entre eles e falaremos Dele!
Lucano ouvia com profunda atenção as histórias de Hilell. Quando
estava sozinho, durante a noite, começou a escrever aquelas histórias.
Escrevia com a força e precisão translúcidas de um erudito grego, e
também com a calma, com a clemente eloqüência desse erudito. Parecia-lhe
ter testemunhado tudo aquilo com seus próprios olhos; enquanto escrevia,
via as cenas, ouvia as vozes das pessoas. Começou, assim, seu Grande
Evangelho, escrito para todo o mundo e para o mundo dos homens, pois
sabia, embora Hilell não o soubesse, que Deus se revestira de humana
carne, não só pelos judeus, mas também pelos gentios.
- Como sabes, Lucano dizia Hilell -, de há muito temos
uma profecia que diz que o Messias seria da casa de Davi, e dizem que
Jesus é dessa casa. Ouvi contar que Sua Mãe foi visitada pelo Anjo
Gabriel, que lhe falou no nascimento do Messias que viria. Mas em
Israel deves verificar por ti mesmo essas coisas.
Lucano pensava na Mãe do Messias, cujo nome era desconhecido
de Hilell. Uma noite, ele se recordou do que josé ben Gamliel lhe
Contara a respeito dela, quando seu Filho era menino e visitara os
anciãos e doutores do Templo. A mais doce e terna das emoções
apoderou-se de Lucano. A mãe de jesus começou a corporificar, para ele,
todas as queridas mulheres que conhecera: Íris, sua mãe, Rúbria e
Sara, e sua sensata e infantil irmã Aurélia, que amava todas as coisas
que tinham sido criadas.
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Esperava ardentemente estar na presença de Maria, embora não
lhe soubesse o nome. Desejava ouvir dos próprios lábios dela a
história do nascimento Dele, Sua infância, juventude, e idade adulta.
Seguramente, ela poderia contar-lhe mais do que qualquer de Seus
seguidores. Guardara o Filho em seu ventre, alimentara-O em seu seio.
Ensinara-O a andar; lavara Suas roupas, tecera-as, cosera-as. Afligira
se com as doenças de que O tratara, e sentara-se junto do leito Dele, à
noite, vigilante. Quando Lucano pensava em Maria, uma sede
apaixonada de sua presença e de sua voz se apoderava dele, e ele a amava. Ela
era o grande Mistério, e era uma mulher; e as mulheres sempre lhe
confiavam seus mais profundos mistériOS.
- Quando soubermos o que ela pensou, o que ela fez,
saberemos tudo disse ele a Arieh e Hilell.
- Ela foi apenas um instrumento de Deus falou Hilell.
- Foi Sua Mãe, e as mães não sabem tudo a respeito de
seus filhos? perguntou Lucano. - E por que aquela mulher foi
escolhida para ser Sua Mãe? Há uma razão para que todas as mulheres
sejam escolhidas, e ela pode dizer-me.
- E os homens não amam suas mães? perguntou Arieh. -
Ele não a amou acima de todas as outras criaturas? Não a ouvia
ternamente, quando pequenino, quando jovem, quando homem? Sim?
- Ela é, sem dúvida, a abençoada de todos os tempos disse
Lucano.
Registrou a história do centurião Antônio e de seu servo.
Registrou a história de Ramo, que vira o Messias erguer um jovem de entre
os mortos e dá-lo de novo a sua mãe. Mas a primeira parte de seu
Evangelho ele deixou aberta para quando visse Maria. Uma coisa O
perturbava. E disse a Hilell:
- Quando o Messias veio pela última vez aJerusalém, disseste-me
que o populacho judeu margeava seu caminho, juncando-o de folhas de
palmeiras, que o asno em que Ele montava ia pisando. E que aquele
povo o saudava como o Altíssimo, e se aglomerava em derredor Dela
para beijar-Lhe as vestes, erguendo seus filhos a fim de que Ele os
visse
e os abençoasse. E quando Ele foi levado ao local da crucifixão, Seu
povo encheu o caminho e chorou e uma mulher enxugou-Lhe o rosto,
quando Ele tombou sob o chicote romano, e um pobre e miserável
judeu carregou-Lhe a cruz. Por que, se assim O amavam, permitiram
Sua morte, e denunciaram-No, e espalharam Seus seguidores, depois
de tudo quanto, em Sua misericórdia, o Senhor fizera por eles?
Hilell respondeu:
- As relações entre os judeus e os romanos são precárias, e os altos
sacerdotes e sábios de Israel fizeram bem o seu trabalho. Agiram como
mediadores entre seu povo e Roma, prometendo que não haveria revoluções
sangrentas contra Roma, que não permitiriam agitadores entre o povo,
pOis temiam que, se tais coisas acontecessem, israel fosse destruída
pelos romanos como outras nações o foram. E há os jovens chamados
essênios, que são muito devotos e passam meses no deserto, rezando pelo
Messias e pela libertação de Israel, do poder de Roma. Dizia-se que
Jesus era um deles, embora eu não saiba se isso é ou não verdade.
"E há os fariseus sombrios, rostos azedos, que se colocaram como
guardiães da Lei. São mercadores banqueiros, advogados e doutores.
Não vivem alegremente, nem permitem que os outros assim vivam.
Desprezam os pobres, os humildes, os sem lar, os Amuratzem e os
camponeses. Sugeriram, mesmo, que se devia proibir que um
Amuratzem se aproximasse demais do altar, pois são iletrados e
vestem-se rUSticamente!
"E há a turba, a turba da praça do mercado, que não ama nem seu
país nem Deus.., a turba petulante, ignara, que aflige todas as cidades
e todas as nações, sempre exigindo, ávida, ansiosa por diversões com
lascivos apetites animais, desordeira, desenfreadamente inquieta,
incapaz de aprender seja o que for, disputadora e dependente. Não
tendes turba assim em Roma, e Roma não morrerá dela, e dos mpostos
que ela impõe aos que lhe são superiores, a fim de mantê-la na
ociosidade?
"Agora, quando o Messias causou tal comoção através de toda a
Judéia, falando com os delicados, os trabalhadores e os humildes,
prometendo-lhes que Deus jamais os abandonará, antes ama-os,
curando-os carinhosamente, e dizendo-lhes que embora não tivessem
dinheiro, não eram desprezados por Deus, como os fariseus os
desprezam; assegurando-lhes que são tão valiosos aos olhos do
Todo-Poderoso como qualquer imperador, ou rei, ou padre vestido de seda, ou
fariseu.., isso originou a cólera destes. Além disso, pareceu aos fariseus
que o Messias não era muito rigoroso quanto à Lei, interpretando-a
para Seus seguidores como nenhum fariseu a interpretaria. Aos olhos
deles, Ele estava rebaixando Deus ao nível dos mais humildes,
lançando heresias que destruiriam a força espiritual de Israel. Quando Seus
seguidores O aclamaram como o Messias, os fariseus ficaram enfureci-
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dos, pois não era crença deles que o Messias viria para os judeus como
o mais poderoso dos reis, vestido de glória, altivez, e poder,
circundado por uma hoste angélica, e que expulsaria imediatamente os
romanos, fazendo-os fugir para sempre? Ainda assim, ali estava um
Homem humilde, membro do Amuratzem, da Galiléia, desconhecido de
todos, a não ser pelos três últimos e curtos anos, um Homem
anônimo, de sandálias de corda e vestes grosseiras, falando a língua comum
dos camponeses... e diziam, abertamente, que Ele era o Messias! Não
era aquilo uma blasfêmia contra Deus, contra a profecia?,
perguntavam os fariseus. Pior: Ele não negava ser o Messias!
"Os seguidores, e também o povo, sentiam-se confusos. Ali estava
o Messias, e contudo não falava com ódio de Roma, condescendia,
mesmo, em curar alguns romanos. Entretanto, os seguidores e o povo,
que através Dele tinham tido alegria e alívio, amavam-No e
conheciam-No. E aceitavam-No. Eram eles os que O aclamavam na estrada de
Jerusalém, e choravam quando Ele levava Sua cruz ao Calvário.
Esperavam, até o último instante, que quando um romano batesse um cravo
através de Seus pés, os céus se abrissem e a cólera descesse sobre a
terra.
"E havia os sacerdotes, muitos deles membros da classe dos fariseus,
honestamente horrorizados com os Seus ensinamentos. Receavam, também,
que os romanos usassem o Messias e suas palavras como uma
desculpa para a retaliação, para o derramamento de sangue, para leis
opressoras... depois de tudo quanto os sacerdotes haviam feito para
acalmar Roma e manter certa liberdade para seu povo.
"Assim, tens os sacerdotes, assustados por seu povo e por sua fé;
tens os que fizeram de si próprios os guardiães da Lei, os fariseus, que
detestam os humildes; tens a turba guinchadora, sempre em busca de
uma vítima. E tens Roma, vigiando constantemente os sinais de
rebelião contra seu poder. Considerando tudo isso, o que espanta é que
Lhe tenham permitido viver tanto! Eventualmente, Ele veio a ser
denunciado aos funcionários romanos, e isso foi o fim. Ou o começo -
acrescentou Hilell.
Suspirou, e continuou:
- Contaram-me que muito antes de Sua morte Ele a profetizou.
Disse que nascera para morrer como morreu. Deus desejara que assim
fosse, desde o início dos tempos, para reconciliar Seu povo com Ele;
para mostrar que Ele jamais o abandonara, que o amava e desejava
perecer por ele a fim de que esse povo pudesse ver a verdade, a luz e a
vida, a vida eterna e a misericórdia sem limites. Envolveu-se a si
próprio em carne para demonstrar que nada era impossível, com Deus.
Os homens que O mataram, foram, finalmente, apenas seus
instrumentos instituídos. Sem sua morte, como sem Sua vida, não haveria a
realização das profecias.
Lucano ficou silencioso durante muito tempo. De vez em quando
sacudia a cabeça, em aprovação. Depois disse:
- Não sabes o que aconteceu depois?
Hilell hesitou:
- Não. Mas Seus seguidores disseram que Ele se ergueria de
entre os mortos, no terceiro dia, pois que lhes havia dito isso.
Lucano sorriu:
- Ele levantou-se falou. - Podes animar-te, meu querido
amigo. Levantou-se! Sei disso em minha alma.
O júbilo e a clara e brilhante segurança enchiam seus dias. Era
como um jovem, repleto de palavras e envolto por mensagens. Olhava
em derredor e era como se nada tivesse visto antes, como se pela
primeira vez lhe tivessem sido dados visão, ouvidos e compreensão. A
treva e o desgosto o haviam deixado, como temporal que passa.
Quando sorria aos amigos ou àqueles que tratava, o sol parecia brilhar em
seu rosto. Tocava a cruz, que usava sempre em seu peito. E escrevia
seu Evangelho.
Eles tinham a intenção de descer em Jopa, mas um temporal surgiu e
foram levados para fora de sua rota, até Cesaréia. Lucano, Hilell e
Arieh estavam juntos, na amurada do navio, observando a aproximação
da costa da Judéia, e Lucano pensava: Aqui está meu lar, do qual
fúgi sempre. O porto de Cesaréia era um comprido contraforte negro
de pedra, que avançava pelo mar adentro, e Hilell explicou que de
um lado os galeões romanos carregavam e descarregavam a carga, e que
do Outro desembarcavam passageiros ou os tomavam a bordo. Disse,
Sorrindo:
- Tenho um amigo querido, um oficial romano, que foi
designado para esta região há três anos. Gostareis dele: um tipo mordaz e
oblíquo, sem ilusões.
Por trás do maravilhoso navio de Hilell imensa nuvem negra
formava torre enorme, sublinhada pelo ouro refulgente do sol que
descia; o mar fluía, como rubi líquido. Marte, uma jóia de âmbar,
levantava-se contra o edifício enevoado. O navio deslizou pelo contraforte
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movimentado que era o porto; vários galeões e embarcações menores
estavam ancorados, suas velas frouxas manchadas de escarlate pelo
poente. Uma lombada baixa de colinas era vista para além do porto,
bronzeada e despida, e o ar pungia, com os odores do Oriente.
Hilell apontou para as colinas, e disse, com certa amargura:
- Os romanos arrancaram do nosso chão nossos ciprestes
escuros para fazer seus navios. - Os olhos azuis de Arieh estavam
agudos e penetrantes ao olhar para a terra de seus pais. E seus lábios
fremiam de emoção. Vendo isso, ele pôs a mão no braço do jovem,
apertando-o afetuosamente. Tinha uma irmã jovem e bela, Lea, de
quinze anos, pronta para o casamento. Começou a planejar o
matrimônio entre ela e Arieh, o filho de Eleazar ben Salomão, um nome
nobre em Israel.
O navio, habilmente manobrado, deslizou para dentro do porto,
todas as suas alegres flâmulas adejando, suas velas inclinadas contra o
temeroso céu do poente. Foi saudado por outros navios, e Hilell
cumprimentava, seu rosto bonito sorrindo. Os marinheiros gritavam lá do
mastro. As docas agitavam-se, movimentando-se com a aproximação
da noite; lanternas começaram a aparecer no crepúsculo que descia
rapidamente. Certo número de soldados romanos estavam de pé,
ociosos, observando o trabalho, e o oficial veio correndo, com passo leve,
até o cais onde ancorou o navio de Hilell.
- Hilell! chamou ele, a voz forte e satisfeita. -
Cumprimentos!
O elmo reluzia como fogo, refletindo o sol que desaparecia
depressa e que brilhava, em tons vermelhos, sobre seu rosto masculino
bem marcado. Começou a rir, de pé no cais, os polegares metidos no
cinturão largo, as pernas nuas separadas, a túnica batendo ao vento
ligeiro. Então, o pranchão saiu do navio e ele correu, subindo e rindo
para bordo. Hilell caiu-lhe nos braços, e ambos abraçaram-se.
- Como sabias que chegaríamos aqui? perguntou Hilell. O
romano deu uma vasta piscada, fingindo não ver Lucano e Arieh, que
estavam ali perto.
- Como sei? perguntou ele. - Gostaria que acreditasse, seu
judeu místico, que um anjo inclinou-se e sussurrou aos meus ouvidos,
ou que um oráculo me disse, ou que um sacerdote mencionou tal
coisa ao examinar as entranhas de um animal sacrificado. Mas não.
Minha obrigação era saber, exatamente, onde estiveste navegando
nestes últimos dois meses, e quem tinhas a bordo.
Já não sorria. Voltou-se abruptamente para Lucano, que olhava
atentamente para ele.
- Não me conhece, Lucano, filho de Diodoro Cirino? -
perguntou ele, em voz grave e desapontada.
Lucano teve um sobressalto. Retirou os cotovelos da amurada.
- Não! exclamou. - Não pode ser! Plócio!
E, agarrando o braço de Plócio, não podia falar.
Hilell olhava espantado para os dois. Plócio lhe disse:
- Esses gregos! São muito emotivos, embora finjam não o ser. -
Segurou Lucano, afastando-o para vê-lo melhor, e seus olhos de
soldado estavam úmidos. - Bem, aqui estas, finalmente; mais uma vez nos
encontramos. Eu estava em Jopa, há dois dias, e ali ouvi dizer que o
navio não atracaria. - Parou, depois disse, como alguém que está
profundamente comovido: - Lucano, jamais nos escrevemos, mas eu
sempre soube onde estavas, pois César tinha-te sob sua proteção.
- Não posso crer disse Lucano. - Estou muito feliz! És
realmente tu, Plócio, meu querido amigo, depois de todos estes anos!
- Riu um pouco, para esconder quanto estava emocionado, mas as
lanternas desabrochavam em luz e as tochas carmesins dançavam
diante de seus olhos.
- Juro por Castor e Pólux que não mudaste! disse Plócio.
Pousara as mãos nos ombros de Lucano, e ele se inclinava para a
frente, a fim de observar-lhe o rosto. - Ainda és um jovem e no
entanto tens idade bastante para mostrar barba grisalha. - Olhou
para Hilell, e disse: - Este é o nosso querido Hermes, que fugiu dos
braços de Júlia e do qual eu te falei. - E ria.
- Também tu não mudaste disse Lucano, de certa forma
mentirosa, pois Plócio estava mais gordo e mais robusto do que ele se
recordava, e tinha a estrutura pesada de um homem de quarenta e seis
anos. As sobrancelhas, abaixo do elmo, estavam misturadas com fios
brancos.
- Ah! -disse Plócio. -Os deuses não me deram o segredo da
Juventude eterna, como te deram, meu querido Lucano. Sob este elmo
tenho a cabeça calva. Poucas vezes o tiro, pois tenho receio de que,
Como aconteceu com Ésquilo, uma águia pense ser minha cabeça uma
pedra e atire sobre ela uma tartaruga. Prefiro, entretanto, recordar que
também Péricles era calvo e mantinha o elmo na cabeça por essa
mesma razão. - Riu de novo, e seu riso ressoou por sobre a água.
AbraÇou Lucano mais uma vez, depois deu-lhe palmadas nas costas.
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Lucano apresentou-o a Arieh.
- Sim, sim, compreendo disse Plócio, cordialmente. - Ouvi
falar em Arieh ben Eleazar, pois os advogados zumbem a respeito dele,
em Jerusalém. Sabia que estava contigo nesse navio. Hilell, estou
contente por ver que não estás doente, como me haviam informado.
- Estou muito bem respondeu o outro. - E agora deves nos
arranjar alojamento para a noite, Plócio, pois pretendo permanecer
aqui alguns dias.
O rosto de Plócio modificou-se, tornou-se sombrio e
impenetrável. Voltou-se para o lado e não olhou para Lucano, quando disse:
- Está tudo arranjado, pois que sabia que chegaríeis aqui; Pôncio
Pilatos ofereceu bondosamente a casa dele para vosso uso, pois estará
em Jerusalém algumas semanas. Acredito que deseja retornar a Roma,
pois sua esposa tem estado... perturbada... há algum tempo.
- Tua própria casa seria muito boa disse Hilell. Franziu
ligeiramente as sobrancelhas. - Prefiro não ser hóspede de Pôncio
Pilatos.
- Minha casa disse Plócio foi vendida recentemente.
Estou agora adido ao pessoal da casa de Pôncio Pilatos. Não deves ficar
na ofensiva, meu querido Hilell! Sei que nunca tiveste simpatia pelo
procurador...
- Não gosto de Herodes, que construiu para ele aquela bonita
casa! disse Hilell, em tom veemente.
Plócio estudou-lhe o rosto, astutamente, e falou:
- Queres dizer que não gosta mais dos romanos. Bem, então vai
para uma taverna, saduceu* de pescoço duro! E goza as pulgas e os
cães.
Hilell hesitou. Olhou para Lucano e Arieh Depois, ergueu os
ombros.
- Bem, se meus amigos não fazem objeção, iremos para a casa de
Pilatos... sem prazer.
- Eu prefiro ir para onde fores disse Lucano.
Plócio olhou para ele estranhamente.
- Acho que não, quando te disser que teu irmão adotivo, Prisco,
está na vila de Pilatos, naquelas colinas que ficam lá adiante, e espera
por ti.
- Prisco! Há tanto tempo não tenho notícias dele! Pensei
___
* Membro de uma seita judaica que negava a imortalidade da alma. (N do
T)
___
que estivesse em Jerusalém! e Lucano mostrava-se de novo
encantado.
- Estava até algumas semanas atrás e o tom de Plócio era
estranho e reservado. - É amigo de Pilatos, e esteve em visita a ele. -
O soldado parou, depois disse: - O ar aqui é mais salubre do que em
jerusalém e ele tem estado ligeiramente doente.
Hilell percebeu, na voz de Plócio, a reserva e o tom de quem
deseja evitar algo, mas Lucano, dominado pela alegria de ver seu velho
amigo e pela notícia da presença de seu irmão na cidade, não
percebeu. Os três foram para a grande biga de Plócio, puxada por quatro
cavalos pretos. A última luz tombava sobre a terra, e, quando a biga
saiu, Lucano olhava ansiosamente em derredor.
Havia pouco para ver naquela escuridão, a não ser o faiscar
ocasional de uma luz em vasta e distante fortaleza, ou uma lâmpada numa
casa pequena, ou um bosque de ciprestes que pareciam lanças,
recortando-se contra a lua amarela que se ia erguendo. Moças e rapazes,
soltando gritos roucos e guturais, corriam na frente da biga e de seus
cavalos, tocando para casa seus rebanhos, ou um bando de cabras, ou
ovelhas marrons com focinhos pretos. Lucano imaginou, pelo cheiro
da poeira, que a terra era seca, arenosa e friável. À medida que subiam
as colinas baixas, a cidade ficou abaixo dele, com seus telhados rasos
reluzindo, suas ruas estreitas inquietas con suas luzes e com seus
portais dourados. Havia tão pouco para ver naquela rápida escuridão, e
no entanto Lucano estava profundamente excitado, como nunca estivera
em sua vida. Não eram os odores intensos e profundos, pungentes
e quentes sobre a brisa do mar, pesados com uma sugestão de
incenso, de especiarias, exalações pela própria terra, o que o
comoviam. Não era o cheiro picante das árvorris e da relva ressecada, nem da
poeira. Ele conhecia bem o Oriente. Os odores ali apenas eram mais
consistentes do que em Alexandria ou no Cairo, em Tebas ou na Síria.
Nenhum daqueles odores comovia Lucano, mas apenas a idéia de que
ali tinham vivido os sábios e os profetas, os patriarcas e os homens
poderosos, os homens de Moisés, Davi, Saul, Elias, que aquela era a
terra de Golias, de Caza, de reis e guerreiros, de Samuel.
Ali tinham retumbado os trovões dos tempos. Ali Deus caminhara,
como um terremoto. Ali o Sinai mugira, trovejara e ficara entorpecido
pelos coriscos. Ali os Mandamentos tinham sido dados aos homens.
Ali se havia erguido a concepção de que o homem podia ser mais do
que homem, e que lhe ordenavam que assim fosse. Ali, naquela pe-
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quena região, os gigantes, os Titãs,*e tinham realmente saltado da terra
e o retumbar de suas vozes ecoara mesmo no silêncio. Ali havia mais
sabedoria do que a Grécia concebem, mais grandeza do que Roma
conseguira sob o sol. Não existia ali uma polegada de terra que não
fosse abençoada, não havia uma árvore que não se erguesse em
maravilha. Ali os heróis espirituais tinham tido o seu ser, e suas sombras
caminhavam em cada estrada. Ali, uma jovenzinha levara Deus em seu
ventre, e ali Ele se manifestara ao homem, ali Ele vivera e ali morrera,
e ali preferia falar como homem.
Estou em meu lar, pensou Lucano, e nele havia profundo
arrebatamento, porque Deus, naquele pequeno pedaço de terra, fizera Seu
próprio lar, entre os que escolhera para ouvi-Lo.
Os que cavalgavam diante da biga levavam tochas, como flâmulas
escarlates. Refletiam uma árvore ocasional, uma pedra, um caminho
apedregulhado, rostos, lombos de cavalos. Lucano viu que se iam na
direção de dois palácios impressionantes. Plócio apontou para um deles.
- Pilatos disse. - Apontou para o outro: - Seu querido
amigo, o tetrarca de Jerusalém, Herodes Antipas. - Os edifícios
brancos, de colunas, brilhavam à luz do luar. O palácio de Herodes
rematado por um domo dourado. Legiões romanas começavam a
margear a estrada, saudando.
A cidade jazia lá embaixo, toda em telhados rasos, prateados,
de fogo pelas tochas e pelo pálido fulgor das lanternas. De algum lugar
vinha o lamento de uma mulher.
- Amanhã eu vos mostrarei um dos nossos grandes templos -
disse Plócio, orgulhoso. - Duas vastas estátuas, uma de Zeus e outra
de Apolo, de frente uma para a outra, Zeus de mármore, Apolo de
pórfiro vermelho. Esta é uma região muito estranha! Os judeus
desprezam nossos templos em toda parte, desviam o rosto deles e são o
povo mais religioso que existe! Eu vos digo, não há meios de
compreender os judeus. Os piores, entre eles, cospem, quando passamos.
Muitos dos nossos soldados casaram-se com bonitas donzelas judias.
mas só depois da mais dolorosa circuncisão, e só depois de prolongado
choro por parte das mães e de escândalos por parte dos pais. Até
parecem selvagens da mais negra Africa.
___
* Filhos do Céu e da Terra que, revoltados contra os deuses, tentaram
alcançá-los amontoando montanha sobre montanha, sendo fulminados por
júpiter. Daí a expressão "trabalho titânico", para algo que exige
esforço imenso, quase sempre infrutífero. (N. do T)
___
Ele ria.
- Desejam manter-se e à Lei, sem eiva alguma disse Hilell.
Plócio piscou um olho para Lucano.
- É como vos digo continuou -, são muito estranhos.
Detestam Herodes, mesmo quando ele fica de pé em seu Templo de
Jerusalém e espalha cinzas na cabeça e faz sacrifícios. Olham suas
lágrimas com desdém. Ah! Mas como são emproados! - Animou os
cavalos com um estalido de chicote. - Mas esta terra tem para mim
uma curiosa fascinação. Prisco terá muito que contar-vos. É preciso
descontar muita coisa, ele não está realmente bem.
- Por que não? perguntou Lucano, com o primeiro alarma,
levantando a voz sobre o ruído da biga.
Plócio ergueu os ombros.
- Esteve de serviço na crucifixão de um miserável rabi judeu, e
parece que lhe fizeram algum feitiço. Os judeus tém encantações
próprias, e eu já te disse que odeiam os romanos. Estou feliz por ver-te
aqui. Conseguirás afastar com risos as superstições de teu irmão. -
Mais uma vez sua voz mostrava-se estranha.
Lucano relanceou os olhos para Hilell ben Hamram, e os dele
olhavam silenciosamente para a dança das tochas contra o vento.
- Como sabes continuou Plócio, guiando habilmente seus
grandes cavalos-, a família de Prisco não está com ele, e até a crucifixão
Prisco era o mais alegre e o mais robusto dos homens, o meu oficial
predileto. Freqüentava também as prostitutas mais elegantes e
fanfarronava pelas tavernas. Entretanto acrescentou -, lembro-me
de que ele tinha freqüentes crises de melancolia e tornava-se
meditativo, mesmo antes dessa crucifixão, e discutia comigo a respeito de Roma,
desejando se convencer de que a nossa nação não era verdadeiramente
depravada, perdida e corrupta. Não recorda meu tio, o senador, que
verdadeiramente morreu por sua pátria, como qualquer general numa
batalha, e sem razão alguma? Mas agora devo dizer-te que Prisco
mudou.
- De que forma?
A voz de soldado de Plócio tornou-se evasiva:
- Sou médico, por acaso? Trouxe-o para Cesaréia, pois que o
amo como a um filho. Não te alarmes disse Plócio, bondosamente.
Pode ser coisa sem importância. Tanto Pilatos como Herodes
mandaram-lhe seus melhores médicos, a meu pedido, e dois estão agora
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com ele e poderás conversar com ambos. A mim dizem muito pouco,
Prisco passa o tempo em sua cama e parece ter alguma dificuldade
para comer. Estoura, às vezes, em lágrimas misteriosas, mas os médicos
não permitem que se façam perguntas. Esses médicos são arrogantes e
tomam liberdade mesmo com soldados. - Tocou o braço de Lucano,
amistosamente, com o cabo de seu chicote: - Ah! Eu te deixei
preocupado! Sossega. Garanto-te que Prisco está sendo tratado, por seus
amigos, como um sátrapa da Pérsia. Como irmão, e médico, curarás
logo o rapaz, com lógica e razão.
Lucano estava alarmado com a maneira evasiva de Plócio, mas
sabia que este também era obstinado e não desejava continuar
discutindo Prisco. Disse então:
- No dia daquela crucifmxão houve trevas, não houve?
- Houve. E dizem, também, que muitos viram os mortos pelas
ruas e pelas casas. São pessoas muito supersticiosas! O sol realmente
escureceu, e ficou perdido durante muito tempo. Mas foi apenas um
temporal de poeira. - Hesitava. - Prisco pode contar-te, se o
persuadires a falar. Chorou como uma mulher quando eu lhe falei, nas
poucas ocasiões em que me deixaram aproximar-me dele.
- E por que chora ele? indagou Lucano, obstinadamente.
Plócio sorriu-lhe com exasperação.
- Tenho receio de te falar, meu querido amigo, pensando no teu
riso. Ele declara que foi Deus, ou talvez Zeus, ou Hermes, ou Osíris, ou
Apolo, que morreu naquela cruz de criminosos! Não rias de mim, eu te
imploro. Estou repetindo apenas o que teu irmão me disse.
Lucano ficou silencioso, e Plócio olhou para ele, divertido.
- Não te preocupes disse, tornando-se de certa forma
aflito.
- Estou certo de que ele não está louco, mas é apenas vítima de
algum encantamento ou de sua própria imaginação.
- Por que está ele aqui? perguntou Lucano, em voz baixa.
De novo Plócio hesitou:
- Eu sugeri isso, pois, durante muito tempo, ele andou
estonteado em Jerusalém e os soldados repararam nisso e na sua palidez,
nas maneiras abstraídas, nas súbitas explosões de lágrimas. Queria eu,
por acaso, que esse escândalo fosse relatado em Roma, e a Tibério,
que mudou selvagemente para pior, e agora odeia todo mundo? Não
podia deixar que Prisco caísse em desgraça, que voltasse a Roma para
ser punido por um comportamento que falasse em detrimento de sua
fama como soldado romano. Isso é muito mau em Jerusalém, eu te
digo! Desde aquela crucifixão houve muita turbulência ali, e muitos
soldados são parte da loucura histérica, Pilatos foi forçado a banir os
seguidores do rabi crucificado, a fim de restabelecer a paz. e
finalmente eles fugiram da cidade. Mas as coisas ainda andam muito agoureiras
por lá. A ralé bate-se com freqüência contra os que murmuram ser
realmente o rabi o Deus judeu. Bem sabemos o que é, em toda parte,
o populacho do mercado, em nome de Marte! Nada mais quer do que
levantes e conflitos, pois seus componentes tem almas de
animais e amam a excitação, seja qual for a causa. São anônimos, o
tumulto lhes dá oportunidade de assumirem a postura de homens e
tornarem-se importantes, mesmo que seja apenas diante da lei, que
eles odeiam, naturalmente.
A voz de Plócio expressava uma irritação mal-humorada, e Lucano
não tornou a falar. Compreendia que aquela cólera não era dirigida
contra ele, mas contra as turbas universais da plebe. Plócio
resmungava, furiosamente:
- Ah! Se ao menos nós, soldados, tivéssemos permissão para
reprimir a ralé! Outrora era permitido, e era salutar. Mas, agora, a ralé,
em toda parte, tem de ser bem tratada, instalada, alimentada e
divertida, pois tornou-se um terror. Contudo, quem a fez assim? Os
estadistas venais, que desejam seu apoio, malditos sejam!
Lucano percebeu que agora subiam através de jardins luxuriantes,
pois odores suaves prevaleciam em toda parte, bem como a fragrância
resinosa das árvores. Viu fontes luminosas, distantes, à luz do
luar, como náiades dançando na solidão contra as trevas da noite.
Ouviu o monótono bater dos pés dos soldados e em cada portão
brilhavam elmos e espadas nuas. A cúpula dourada da casa de Herodes
rivalizava com a luz da lua. Os cavateiros e as bigas entraram pelo
último portão e a casa de Pilatos estava diante deles, luzindo como se
fosse feita de alabastro.
Uma vez no magnificente vestíbulo iluminado, cheio de estátuas,
de flores e de lindo mobiliário, Plócio sugeriu que seus hóspedes se
retirassem para os quartos que os esperavam e descansassem até a hora
do jantar. Lucano percebeu que seu amigo estava constrangido e
tomado de pensamentos secretos e desejoso para se livrar dele
por algum tempo. Pôs-lhe a mão no braço e disse-lime:
- Plócio, eu não estou cansado. Gostaria de conversar com os
médicos de Prisco, pois estou muito ansioso. E também há muito
tempo que não vejo meu irmão.
534 535
- Certamente, meu querido Lucano! falou Plócio, cordial.
- Considera esta casa como tua, na ausência de Pilatos. - Sorriu a
Hilell e deu-lhe uma palmada no ombro: - Senti falta de ti!
declarou. Olhou para Arieh e piscou um olho. - Não há nada como
uma fortuna para trazer ao lar os que se perderam! Os escravos vos
levarão aos vossos apartamentos, meus caros amigos, e mais tarde, ao
jantar, ficaremos à vontade e falaremos de muitos lugares. - Meteu os
polegares no cinturão, depois tirou o elmo. Realmente, estava calvo,
mas sua calvície aumentava-lhe o aspecto viril. Tocou no cotovelo de
Lucano, evitando-lhe os olhos. - Vem disse. - Os médicos estão
agora com Prisco e podem dizer-te muita coisa que não sei.
44
Ele não falou, enquanto conduzia Lucano através de aposentos cada
qual mais belo do que o outro. Escravas estavam cantando em
alguma parte, acompanhadas pelos sons feiticeiros de flautas e harpas.
Riso macio vnha de detrás das cortinas. Luzes de lâmpadas
iluminavam colunas de mármore multicolorido. As paredes cobertas com
murais brilhavam com tais coloridos que as criaturas ali pintadas
pareciam mover-se numa vida secreta, mas absorvente, que lhes era
própria. Os pisos de mármore fulguravam e toda a casa tinha sido
recentemente perfumada. Lucano refletia que Herodes realmente
construira uma casa esplêndida para seu amigo, o prOCurador de
israel. Havia relances de ouro e prata por toda parte e as lâmpadas
eram de vidro de Alexandria. Conforme os dois amigos, silenciosos,
passavam de um aposento para outro, o vento agudo e pungente do
mar soprava em torno deles. Em certo momento Lucano viu, de
paSsagem, o zinibório dourado da casa de Herodes, através de colunas
lisas, e ouviu o som de vozes distantes e a monótona troca de senha
das sentinelas. Fora disso, uma atmosfera pesada de silêncio jaZia
sobre todas as coisas.
Chegaram a uma alta porta de bronze, e Plócio bateu nela de leve.
A porta foi imediatamente aberta por um escravo armado, que se
inclinou. Plócio disse:
- O nobre Lucano, que é hóspede de Pôncio Pilatos, deseja
conversar com os médicos do capitão Prisco. Trazei-os até ele.
O escravo saudou ligeiramente Lucano, sorriu um pouco e
apressou-se a sair, como que perseguido. Lucano observou aquilo, as
sobrancelhas cerradas. O escravo conduziu-o a uma antecâmara e
indicou-lhe uma cadeira estofada em tecido de ouro, entre muitas outras.
Trouxe-lhe vinho numa salva de prata. As taças eram incrustadas com
pedras preciosas de várias cores. Lucano bebeu, agradecido, pois
descobriu que o vinho tinha um delicioso odor e um gosto de mel de
rosas. As lâmpadas, muito trabalhadas, crepitavam ao vento leve e os
pés de Lucano enterravam-se no rico e colorido tapete da Pérsia. Ali
uma pessoa podia deslizar para certo langor, tão gracioso e adorável era
o ambiente e tão forte o vinho. Mas Lucano estava ansioso demais.
Olhou para as portas de teca, intricadamente esculturadas, e esperou
os médicos, com impaciência.
Chegaram finalmente, e inclinaram-se com dignidade e, como
colegas que eram, Lucano se levantou e inclinou-se também para eles.
Eram homens de meia-idade e Lucano percebeu que um deles era
judeu e o outro grego. Apresentaram-se. O grego disse:
- Chamo-me Nícias, e este é o médico Josué.
O grego tinha uma atitude sutil e fria, que indicava natureza
impessoal. O médico judeu era menor e havia uma vivacidade e
uma inteligência inquietas em seus olhos negros e brilhantes.
Ambos estavam vestidos formalmente, de togas azuis, barradas de ouro.
Ambos usavam anéis de médico, trabalhados com pedras preciosas
e fulgurantes. Era evidente serem homens de muita honra e
importância e estarem surpreendidos diante das vestes humildes de
Lucano.
Sentaram-se ao lado dele, puxando suas cadeiras para mais perto
do visitante, no gesto imemorial dos médicos que estão para entrar em
Conferência de muita importância, a propósito de um paciente de
valor. Beberam o vinho que o escravo trouxe e olharam para a frente,
COm ar meditativo. Lucano ainda esperava. Médicos de posição não
deviam ser apressados de maneira vulgar. Tinham sua dignidade a
manter e, assim, sentiam-se portentosos.
Nícias fez perguntas sobre Atenas e Lucano foi forçado a
responder Cortesmente. Nícias mencionou Sócrates,* que era seu filósofo
___
* Orador ateniense, que pregava a união de todos os gregos contra a
Pérsia. (N do T) 534
536 537
predileto, e Lucano respondeu com erudição. O grego ficou satisfeito.
Josué inclinava-se para a frente, a fim de ouvir.
- Consta-me que foste educado em Alexandria, nobre Lucano
disse Josué, com ar de leve condescendência. - Acredito que
Alexandria perdeu um pouco de sua fama nestes últimos cem anos.
Eu próprio fui educado em Tarso. Qual é a tua opinião sobre os
méritos rivais das escolas que citei?
Lucano, devorado pela ansiedade, ainda assim respondeu com
forçada calma. Percebia que aqueles homens o estavam sondando para
ver se lhe faltava cultura, antes de confiarem nele e antes de decidir se
mereceria ou não sua confiança integral. Era, pensava ele cheio de
impaciência, como uma dança majestosa e sagrada, na qual um
estrangeiro se introduziu, e durante a qual deveria ser determinado se ele
poderia ser admitido ao ritual.
- Eu vos asseguro, meus nobres colegas disse ele, com
imensa exasperação, finalmente -, que sou capaz de compreender vosso
jargão médico e que tive muita experiência e conheço a maioria dos
tratamentos modernos! Portanto, suplico-vos que considereis minha
natural ansiedade! Falai-me de meu irmão.
Ambos os médicos deram a impressão de se sentirem ofendidos,
por um momento, embora os olhos do judeu não pudessem reprimir
um faiscar divertido. Lucano, espantado, pensou ter visto josué
piscar, mas não podia ter certeza, pois o rosto dele permanecia grave e
retinha a atitude do médico, classica através dos tempos: cabeça
pensativa e projetada para a frente, o cotovelo direito no braço da
cadeira, o dedo indicador da mão direita em parte escondendo a boca
sensível. Nícia debatia sohlenemente. Então, josué, depois de
relancear rapidamente os olhos para ele, decidiu, ao que pareceu, que
já tinha havido formalidade bastante. Deixou cair a mão e disse,
imediatamente:
- É verdade que estás ansioso, Lucano. Deixa-me pôr-te ao
corrente com rapidez.
Nícias lançou-lhe um olhar gelado, que não pareceu
desconcertá-lo.
- Teu irmão tem câncer no estômago; a doença invadiu
amplamente também o fígado. Pediste que falássemos. Não acredito em
frases vagas, por isso contei-te. Compreendes que, em tais condições, ele
não pode viver. Fizemos quanto nos foi possível. Demos-lhe comida
altamente temperada, para despertar-lhe o apetite, que é fraco, e todo
o vinho que ele deseja, além de anódinos para suas dores, que são
tremendas.
Lucano ali ficou, transfixado, o coração doente de desespero. josué
olhava-o compassivamente. Nícias cruzara os dedos brancos sobre o
regaçO.
- Pode viver um mês, talvez dois meses, mas, com certeza, não
durará muito.
Era como se ele estivesse polidamente discutindo o tempo com
dois amigos aristocráticos e que o assunto não tivesse importância
pessoal. Lucano, lutando contra seu abatimento, odiou-os, de maneira
desarrazoada e, por isso, concentrou-se em Josué, no qual pressentira
mais calor humano, mais bondade.
- Há quanto tempo meu irmão está doente? perguntou, com
voz trêmula.
Josué encolheu os ombros, eloqüentemente.
- Já estava doente quando foi trazido para cá. Imagino que a
doença esteja nele há uns oito meses. E é a responsável pelo seu
abatimento, sua abstração, sua perda de carnes, o acinzentado do rosto, sua
aversão pela carne, suas raras, mas copiosas hemorragias de estômago,
seu andar vacilante, seus tornozelos inchados. Está nos últimos
estágios de sua moléstia. Nada podemos fazer por ele a não ser aliviar-lhe
as dores e tranqüilizá-lo. Soubemos, também, que a doença causou
instabilidade de gênio, acessos de choro, pois embora ele não saiba
que está mortalmente doente, seu corpo envia ao cérebro sinais de
angústia e o pressentimento da morte.
Nícias disse, a voz calma e reprovadora:
- Isso é uma teoria tua, não-aprovada, Josué. Isso de que o
cérebro chega a receber qualquer mensagem. Estou firmemente
convencido de que o coração é a sede das emoções e pressentimentos. Prefiro as
teorias de Aristóteles, embora, por alguns, eu seja considerado
antiquado.
Os "alguns" eram aparentemente, o próprio Josué, e os olhos dos
médicos cruzaram-se por alguns momentos, em rápido combate.
- Oh! exclamou Lucano, quase fora de si. - Precisamos
discutir as várias teorias? Disseste, Josué, que meu irmão tem câncer.
Isso é certo?
- Absolutamente certo falou Josué, ofendido. Seus olhos
mostravam simpatia e ele continuou: - Desejas examiná-lo
pessoalmente?
538 539
Os três médicos levantaram-se. As pálpebras pálidas de Nicias
ergueram-se ao ver o estojo rústico e barato de Lucano, onde os frascos
produziam rumor, como acontece com os médicos mais simples. Nícias
abriu a porta de teca, com ar de altaneira resignação diante de homens
menores e importunos. O dormitório que ficava ali era magnificente,
repleto do mais belo mobiliário e com um leito dourado. Quatro
escravos estavam às ordens, vestidos de túnicas brancas. Lucano, porém,
correu para o leito, exclamando:
- Meu querido Prisco! Aqui estou, finalmente!
Agarrou uma lâmpada que estava sobre a mesa de mármore, e
levantou-a sobre a cama. Prisco ali jazia e Lucano ficou atônito até o
coração diante de seu aspecto e quase incapaz de reconhecer, naquele
homem cinzento e magro, seu jovem e querido irmão. As pálpebras,
como que feitas de pedra, desciam sobre olhos abatidos, a boca se
contraíra, apertando-se contra os dentes. Durante um terrível
momento Lucano pensou que o irmão já estivesse morto, pois não parecia
respirar.
- Ele dorme, sob influência das nossas drogas disse Josué,
cheio de piedade. Pôs a mão no ombro de Lucano: - Assim, pelo
menos, tem uma paz temporária e por isso devemos agradecer a Deus
misericordioso. Ele sofre muito.
Lágrimas inundaram os olhos de Lucano, enquanto ele
contemplava o irmão, à luz da lâmpada que erguera. Ali jazia um jovem que
lhe era mais querido do que seu irmão e sua irmã pelo sangue, pois ele
dera vida a Prisco, que estava morto. Ali estava o irmão da bem-amada
Rúbria, e morrendo como ela morrera. Ali estava o querido do
coração de Íris. Ali estava o filho de Diodoro, aquele guerreiro virtuoso
e valoroso, cujo nome jamais fora esquecido. Ali jazia a casa de Diodoro,
o filho mais adequado e mais valioso para o nome do soldado morto
do que o erudito e melindroso Gaio, que estremecia ao ver espadas e
flâmulas. Ali estava alguém que fora alegre e moreno como uma noz,
inocentemente alegre e altivo, alguém que se regozijava por viver, que
amava seu país e seus deuses. Lucano recordava-se do temperamento
de Prisco, afetuoso, considerado, bom, ainda assim forte, jubilosamente
ativo e animado, amável, solícito e cheio de risos. Lucano não podi
suportar aquilo. Pousou lentamente a lâmpada, apertou os dedos
contra os olhos, para fechá-los contra aquela visão extremamente
dolorosa.
- Sim, é triste disse Josué, suspirando.
Nícias aproximou-se do leito, caminhando, como um dos mais
solenes dos deuses, fixou os olhos em Prisco, como os fixaria num
teorema.
Prisco moveu-se. Lucano, os olhos ainda cobertos, ouviu a voz
mais fraca, animada por um frágil encantamento:
- Lucano! És tu! Eu tenho esperado...
Lucano tombou de joelhos e agarrou a mão magra e diminuída do
outro nas suas. Estava fria, seca ao seu toque, e o pulso mostrava-se
erradio. Viu os olhos de Prisco, toldados pela dor e pela exaustão,
embora eles se tivessem iluminado pela alegria de vê-lo.
- Querido Prisco gaguejou Lucano. lutando para controlar a
agonia que se apoderara dele. - Sim, eu aqui estou. Tens dores?
Os dedos magros apertaram-se nas mãos de Lucano, como os
dedos de uma múmia. Prisco umedeceu os lábios ressecados, depois
olhou resolutamente para Lucano.
- Dor disse ele, em sussurro, e com esforço - é tudo quanto
um homem suporta. Isso tu me disseste um dia, Lucano. Um soldado
compreende a dor, está habituado a ela. Mas há a dor do espírito...
Tiveste notícias de casa recentemente?
Disse a palavra "casa" em tom de desesperado anelo.
- Tudo vai bem falou Lucano, engolindo o bolo amargo que
sentia na garganta. Prísco nunca mais voltaria para casa, nunca mais
faria saltar os filhos em seus ombros, nunca mais veria sua esposa nem
se deitaria com ela, acariciando-lhe os compridos caracóis escuros e
roçando a boca pelas suas faces onde havia covinhas, pelos seus seios.
Nunca mais veria os pomares, seu gado e seus cavalos. Nunca mais
nadaria no cristal verde do riacho, nem beberia vinho de suas uvas. As
adoráveis e simples coisas que davam alegria e prazer, que os homens
recebem como naturais, jamais seriam dele outra vez. Porque Prisco
estava morrendo e Lucano imediatamente compreendera isso. O
coração do médico apertava-se. Então, instantaneamente, sorriu, pois Prisco
o observava com ansiedade.
- Tudo bem? perguntou o jovem soldado.
- Tudo bem respondeu Lucano. Prisco suspirou e fechou
por um instante os olhos, contente.
Lucano começou a examiná-lo, delicadamente, e sua última
esperança de que tivesse havido um diagnóstico errado veio a morrer. Na
região direita do estômago havia uma grande massa palpável, que podia
ser facilmente tateada através da delgada camada de carne que expirava.
540 541
Os dedos de Lucano moveram-se para o fígado e ali também havia aquela
massa. As glândulas linfáticas periféricas estavam muito intumescidas,
especialmente a supraclavicular. O exame custou a Prisco as dores mais
insuportáveis, apesar de ter sido delicadíssimo, mas, como soldado, ele
se manteve rígido e calado. Os olhos ansiosos não se afastavam do rosto
de Lucano, não para buscar ali uma expressão de alívio mas pela alegria
de vê-lo. Sabia, em sua alma, que não viveria muito mais.
Disse, em voz fraca:
- Minha mãe. Minha esposa, meus filhos. Deves contar-lhe...
- Não pôde controlar um gemido, quando Lucano encontrou um
ponto particularmente doloroso, mas continuou: - ...que eu morra
em paz... de um acidente, talvez. E rapidamente. Eles não devem
saber... Ah!... suspirou, quando Lucano retirou as mãos tateantes.
- Tu compreendes, Lucano...
- Sim disse Lucano. - Eu compreendo.
Pôs a palma da mão contra o rosto febril, como um pai; seu peito
ergueu-se. Tentou sorrir:
- Mas não está tudo perdido acrescentou, em tom consolador,
e na forma mecânica de um médico.
Prisco rolou a cabeça no travesseiro.
- Tudo está perdido disse ele, calmamente.
- É preciso ter esperanças falou josué.
- Não desejo mais viver disse Prisco, com simplicidade. -
Tu falas de meu corpo, bom Josué. Não me importo com o meu
corpo. - Pôs sua mão na de Lucano, como uma criança exausta. -
Preciso falar com meu irmão, sozinho disse ele. - Há muito a
dizer, antes que eu parta para a minha longa viagem.
- Compreendo disse josué, sentindo seu próprio desgosto,
pois viera a tomar-se de carinho por Prisco, como todos quantos O
conheciam. - Mas não deves cansar-te.
- A não ser que me alivie da minha carga, não conseguirei
reunir-me em paz a meu pai, minha mãe e minha irmã disse Prisco. -
Disponho de pouco tempo.
- Só os deuses sabem disso falou Nícias, friamente. Inclinou
a cabeça e Josué o seguiu saindo ambos do quarto, de onde saíram
também os escravos. Prisco ficou a olhá-los enquanto saíam, e depois,
forçando-se a algum vigor, disse a Lucano:
- Ergue-me sobre os meus travesseiros, querido irmão, de
forma que eu possa falar mais facilmente.
Lucano ergueu-o e ficou apavorado com a leveza do corpo do
soldado, com a ausência de carne. Contudo, obrigou-se a sorrir,
confortadoramente. A cabeça de Prisco tombou sobre os travesseiros
erguidos, e ele arquejou, enfraquecido, por alguns momentos. Fechou
os olhos.
- Devo falar disse, com algo da maneira imperiosa de Diodoro.
Não me digas que não me canse. O que tenho a dizer, devo dizer,
Lucano.
- Sim disse Lucano. A mão de Prisco procurou a sua, e o
jovem sorriu, levemente.
- É uma história terrível falou, depois de alguns momentos,
e seu rosto modificou-se, tornou-se cadavérico, como se tivesse morrido
atormentado naquele momento. Então começou a sua história.
As lâmpadas crepitavam ou aumentavam de intensidade à brisa marinha
que vinha através das colunas, lá fora. Os odores do Oriente
corriam com o vento e os sons das fontes sonoras. Prisco falou com
firmeza, com a urgência da derradeira força, e Lucano não o interrompeu
nem uma só vez.
Plócio fora designado para Jerusalém e ali estava havia bastante
tempo. Achara a cidade fascinante e cheia de excitamento. Os judeus
eram um povo estranho, mas nunca monótonos ou fracos. Olhavam
para os romanos friamente e evitavam-nos, mas não quando se tratava
dos comerciantes ricos, dos políticos e dos proprietários de navios
cargueiros. O povo inferior, mais humilde, desprezava-os, a não ser
quanto aos altos sacerdotes, cujas famílias estavam ligadas ao comércio
e tinham fortunas a fazer.
- O povo é ao mesmo tempo tão realista e tão materialista
quanto nós, romanos disse Prisco -, e ainda assim cheio de devoção e
miSticismo. Mesmo o mais grosseiro e exigente dos comerciantes,
mercadores e manufatureiros põe de parte as preocupações mundanas nos
dias santificados e torna-se tão pouco ligado ao mundo quanto as
Sombras, esquecendo tudo. O Templo está repleto de fumaça dos
sacrifícios e do cheiro do incenso, e há choro e lamentos em certos dias
santificados, e regozijo e dança em outros. Os judeus choram
eternamente mesmo quando sorriem. E falam de um Messias que os
libertara de Roma, e que colocará Seu pé sobre o peito prostrado de Roma.
Jamais permitindo que ela torne a levantar-se.
Prisco, jovem e cheio de curiosidade, ouvira muita coisa sobre
542 543
aquela religião dos judeus, pois desejava ser amigo dos que rejeitavam
sua amizade. Ninguém, entretanto, queria discutir religião com ele,
nem mesmo os mercadores e comerciantes que conhecia. Nesse
assunto eles se encolhiam e seus rostos gordos e corados pelo vinho se
tornavam sombrios e desviavam-se. Começaram a surgir rumores de um
rabi estranho, vindo do campo, sem erudição, descido das colinas da
Galiléia, pertencente a um povo desprezado em Jerusalém, pelos
mundandos e pelos cultos. Era homem sem nome de família e sem
fortuna. Nada tinha, a não ser a roupa pobre que o cobria e as
sandálias de corda que trazia nos pés. Não possuía cavalo nem liteira, nem
sequer o mais insignificante dos asnos. Ainda assim, quando veio a
Jerusalém, foi rodeado pelas multidões, que se moviam para onde Ele
se movia, ouvindo-O. Dizia-se que Ele curava os enfermos, levantava
do túmulo os mortos. Os sacerdotes riram-se, de início, depois se
encolerizaram. Aquilo nada significava para Prisco, que jamais pudera
entender os judeus, suas muitas seitas rixosas, sua insistência em
certos rituais, suas constantes e veementes discussões sobre as belezas da
significação dos antigos profetas mesmo a turba das ruas discutia
essas coisas! Viam a religião com sevendade e devoção e observavam-na
meticulosamente. Nem tinham dúvidas cínicas a propósito dela,
como tinham os gregos, nem as mundanas superstições dos romanos.
Aquilo explicava, sem dúvida, a excitação no que se referia ao rabi
que diziam erguer os mortos, curar os doentes e realizar muitos outros
milagres. Explicava também o ódio dos altos sacerdotes patrícios, que
detestavam o povo comum e achavam indignos seus sacrifícios pobres.
O rabi estava invadindo suas sagradas atribuições e desviando o povo
de seus deveres. E, o que era quase tão ruim quanto isso, dizia-se que
Ele incitava o povo contra Roma. Tal coisa era perigosa.
Disseram, finalmente e com intensa excitação, que Ele era o
Messias. Viria salvar Seu povo de Israel do poder de Roma, com suas
hostes de anjos que expulsariam as legiões romanas para fora dos
muros de Jerusalém. Pela primeira vez, então, Pôncio Pilatos, que jamais
interferia nas questões judaicas, pois era homem discreto, ficou
preocupado. Que os judeus brigassem entre eles, como faziam,
interminavelmente, a propósito de uma doutrina ou outra, desde que suas
brigas não afetassem a autoridade de Roma. O tetrarca, Herodes, meio
grego meio judeu, recebeu a visita dos altos sacerdotes, que
declararam estarem os judeus em perigo por causa dos ensinamentos daquele
miserável rabi, que não apenas afirmava ter vindo para fazer cumprir
as leis dos profetas e dizer que os sacerdotes estavam enganando e
oprimindo o povo, como também estava causando confusão e
separação inamistosa nas relações pacílicas entre os judeus e seus senhores,
os romanos. Herodes discutiu o assunto com Pilatos, que visitava
Jerusalém, lugar do qual não gostava, sentindo-se contrariado por lhe
ter sido imposta aquela visita. Chamou Plócio e Prisco para
interrogá-los. Plócio ergueu os ombros e declarou que os padres estavam sempre
frenéticos e que não se devia levá-los muito a sério. Prisco falou a
Pilatos dos boatos sobre os milagres, e Plócio riu. Pilatos estava mais
preocupado com um possível levante de judeus do que com o rabi
como Pessoa.
- Não sei ao certo o que aconteceu depois continuou Prisco,
a voz fraca, mas insistente e olhando fixamente para o irmão, os olhos
vívidos e estranhos. - Os assuntos dos judeus nada representavam
para mim. Consta-me, entretanto, que os altos sacerdotes pediram a
morte do rabi errante, de pés machucados, e que Ele foi levado diante
de Pilatos para julgamento. Pilatos não o encontrou em falta, mas a
ralé uivava, pedindo-Lhe a morte, não porque particularmente o
detestasse, mas porque desejava excitação. Era na Páscoa judaica, e eu
estava ali, e tive ordem para manter a paz. Durante a Páscoa os judeus
se nos dirigem chamando-nos egípcios, e isso é incompreensível e
insultante. Meus amigos judeus se afastam de mim durante esse
período.
Foi na véspera da Páscoa. O excitamento na cidade, a propósito
do rabi, foi crescendo até uma altura insuportável. Grupos brigavam
pelas ruas e amaldiçoavam os soldados que os separavam. Então Prisco
recebeu ordens para executar o rabi, causador dos distúrbios, com
dois ladrões que tinham sido condenados à morte. Era apenas mais
uma tarefa desagradável, e Prisco cumpriu suas ordens.
Era costume, segundo a lei romana, que os condenados à mais vil
das mortes, na cruz, fossem chicoteados antes da execução. Prisco
ordenara a dois de seus oficiais inferiores que tomassem a si a tarefa. O
rabi estava na prisão, aguardando o castigo final. Ele próprio esperou
pela hora em que levaria os soldados e os carrascos ao lugar de
costume, um monte conhecido como Gólgota, ou Local dos Crânios.*
FiCOU montado em seu cavalo, entediado a ponto de sentir fadiga, pois
___
* A denominação de Local dos Crânios deve-se a palavra calvário
(caveira) depois usada como Calvário, nome que se ligou ao monte Gólgota
onde se faziam as execuções dos criminosos. (N do T)
544 545
passara horas em sua taverna favorita na noite anterior; sentia-se
impaciente por lhe ter sido dada aquela tarefa mesquinha. O criminoso
não passava de um miserável judeu, abatido pela pobreza e indigno da
atenção de um alto oficial como ele. Olhou em derredor, para a
multidão turbulenta e excitada, com olhos levemente curiosos. Mas os
judeus estavam sempre excitados, e com freqüência pelas coisas mais
insignificantes. Ouviu maldições abafadas que lhe eram dirigidas,
enquanto estava ali em seu cavalo, entre seus oficiais também montados,
mas os judeus, principalmente quando se aproximavam seus dias
santificados, freqüentemente amaldiçoavam os romanos, embora nos
outros dias pudessem tratá-los de forma amistosa. Nada daquilo tinha
importância. Chegou a rir, bem-humorado, a gracejar com seus
oficiais, e a bocejar.
A multidão ia se reunindo ao longo da passagem estreita que
levava da prisão ao Local dos Crânios. Prisco ficou subitamente
interessado pelas expressões de muitas daquelas pessoas. Os volúveis
judeus rapidamente ficaram silenciosos, de maneira pouco comum.
Centenas de mulheres choravam abertamente e outras levantavam
seus filhinhos ao alto, como fazem as mães que desejam dar a seus
rebentos a visão de um alto potentado ou de um príncipe que se
aproxima. Muitos homens torciam as mãos e choravam em silêncio,
ou batiam no próprio peito. Uma atmosfera de fatalidade
pairava sobre a cidade e sobre o povo. Uma luz quente e misteriosa
banhava a terra; era como se o sol, perdendo sua natural coloração
dourada, se tivesse tornado violentamente incandescente. E as vestes
das pessoas tomavam colorido vivo. Vermelhão e azul, listras
vermelhas e brancas, amarelas e pretas, cor-de-rosa e esmeralda reluziam
como se fossem estalar em chamas. Os rostos fizeram-se avultados,
cada linha, cada desenho de nariz ou boca, cor de olhos, brilho de
fronte ou queixo, mesmo os mais distantes, adquiriam selvagem
nitidez e veemência. O cheiro do suor impregnava o ar escaldante. Não
havia sacerdotes naquela multidão aglomerada, e ainda assim
estranhamente silenciosa. Eles tinham feito seu trabalho e estavam
no Templo, preparando-se para a Páscoa. Prisco relanceou olhos
inquietos para o céu. Ali, sobre as montanhas cor de bronze, o
firmamento mostrava uma cor peculiar. Era como se uma caldeira
invisível fervesse para lá do Local dos Crânios, atirando para cima
seu vapor que se condensava, em tons de vermelho pálido e roxo. O
vapor queimava e movia-se. Prisco chamou para aquilo a atenção do
oficial que estava mais perto dele. O oficial era jovem e superstícioso
e olhou com desânimo para aquele movimento colorido e maligno.
Quem vai ser executado? indagou.
- Apenas três criminosos respondeu Prisco.
O jovem oficial tocara um amuleto e sacudira a cabeça,
murmurando: - Não gosto disto. Há coisas sinistras aqui.
Prisco rira-se dele, mas mudou o cavalo de posição. Espirrou. O
ar violento, tão flamígero, estava cheio de um pó quente amarelo, e ele
suava sob a armadura.
Houve, então, uma turbulência diante dos portões da prisão. Um
grito trovejante assaltou os ouvidos, e depois um profundo gemido,
seguido de lamentações. Prisco e seus oficiais cavalgaram até mais
perto dos portões. Um homem estava sendo arrastado para fora por
soldados a pé. Era alto, tinha cabelos dourados e barba igualmente
dourada. Parecia prostrado. Usava uma veste rasgada, branca, e sobre ela
um manto carmesim, de tecido grosseiro. Em Sua cabeça erguida
havia uma coroa de espinhos, que ali fora enterrada, e Seu rosto branco
estava riscado de sangue.
- Que é isto? murmurou o jovem oficial a Prisco, mas este
não podia responder.
Porque vira o rosto do criminoso, o qual, apesar do sangue e da
sujeira, era nobre para além do que se pode imaginar, e calmo,
delicado, parecendo irradiar luz que lhe fosse própria, maior ainda do que
a claridade furiosa do sol. Tinha a atitude de um rei, majestoso e
sagrado, e faltava-lhe qualquer medo. Um horror frio, que ele não
podia explicar, apoderou-se de Prisco. Aquele homem não era um
criminoso, e sim pessoa do mais alto sangue. Suas vestes tomavam a
majestade da púrpura dos reis e a coroa de espinhos era uma coroa de
Ouro. O horror cresceu em Prisco. Era aquele miserável rabi, na
verdade? Era aquele o camponês sem família e sem fortuna? Parecia
incrível. Ele tinha o aspecto de um imperador, embora os soldados O
empurrassem e batessem Nele, rindo-se Dele, como fazem todos os
grosseiros subordinados, e cuspindo-Lhe no rosto.
- Saudações, Rei dos judeus! gritavam os soldados, e a ralé
do mercado uivava. Mas centenas de mulheres soluçantes tombaram
de Joelhos e estenderam seus braços para a frente e centenas de
homens se lamentaram, o rosto sulcado de lágrimas, e centenas de
crianças choraram. A cena era caótica demais para um simples par de
olhos.
e os olhos de Prisco ficaram frenéticos, na tentativa de abarcar todas as
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coisas. Finalmente, só podia ver o condenado, que estava
cambaleando sob as pancadas dos soldados.
Prisco esporeou o cavalo e as mãos tremiam segurando as rédeas.
Fez sinal aos seus oficiais e começaram a trotar largo em direção às
portas da cidade, que já estalavam, ao se abrirem. Prisco disse para si
mesmo: Quem é este que está para morrer? Olhou para trás, por sobre
os ombros. Uma cruz fora atirada aos ombros do enfraquecido rabi, e
ele oscilava desesperadamente sob ela, tentando manter o passo sob o
peso e sob as pancadas dos soldados. O horror aprofundou-se em
Prisco. Levantou a mão à armadura, procurando seu amuleto, um
talismã contra o mal. O metal, porém, queimou-lhe os dedos e ficou
molhado com o seu suor.
Em volta e junto dele, ouvia os uivos mais ensurdecedores, berros,
gritos e lamentações. A luz estava insuportável; era como se dezenas de
sóis se tivessem reunido ao seu ardente irmão. A claridade feria as
pálpebras e inflamava a fronte. A fedentina da humanidade e o gosto
ácido do pó levantado nausearam o jovem romano. Sua cabeça doía
violentamente e era como se os ossos, dentro dele, estremecessem e
fremissem. Todas as cores reluziam, selvagemente demais para ele, que
entrecerrou as pálpebras para escapar à fúria da luz e da violenta
coloração. Os edifícios próximos e distantes dançavam desvairadamente ao
seu redor, ondas de calor estremeciam sobre todas as coisas, dando-lhes
aspecto de loucura e instabilidade. E além do Gólgota as nuvens
vermelhas e roxas derramavam-se pelo céu como línguas faiscantes,
espalhando-se sobre o firmamento aquecido ao branco, saltando de
detrás do cobre da montanha.
Um grito maior assaltou o ar terrível e de novo Prisco olhou por
sobre os ombros. O criminoso tombara no chão; uma jovem, o rostO
coberto de lágrimas, estava enxugando o rosto Dele. Um soldado
gritara peremptoriamente com uma pessoa que estava de lado, e o homem,
de pele escura e imenso de corpo veio imediatamente, e ergueu a cruz
dos ombros do condenado. Com a assistência dos soldados, colocou a
cruz sobre seus próprios ombros, levantou-se de sua posição curvada,
e um sorriso profundo espalhou-se em SUaS feições. Olhou para o céU,
e de sua carne queimada de sol porejavam lágrimas e suor. Moveu-Se,
docilmente, como alguém que está em sonho extático e com forças,
sem desfalecimento. Era como se levasse aos ombros a liteira de um
rei, orgulhosamente. E atrás dele tropeçava o criminoso. Seus lábiOS
movendo-se. A populaça seguia, como um rio multicolorido, gritandO
ou gemendo, sacudindo os punhos no ar ou chorando. E sobre tudo
aquilo derramava-se aquela claridade fragmentada e irreal.
Então Prisco ouviu uma voz que falava um aramaico confuso, mas
puro, seguro e forte, como a voz de um governante:
- Filhas de Jerusalém! Não choreis por mim, mas por vossos
filhos. Pois, atendei, os dias estão se aproximando em que os homens
dirão: "Abençoados são os estéreis e os ventres que jamais conceberam
e os seios que jamais amamentaram!" Então, eles começarão a dizer às
montanhas: "Tombai sobre nós!" E às colinas: "Escondei-nos!"
Prisco ficou estonteado com aquela voz e com as estranhas
palavras que ela articulara. Era como se milhares de oráculos tivessem
fàlado, era como se Apolo, comovido com a agonia dos homens,
tivesse chorado por eles. Era como se Zeus houvesse atirado coriscos e
trovões pelo céu. E o povo, tão ruidoso, tão insistente, tão choroso, tão
despedaçado pela dor, ficou silencioso por um momento.
- Quem é Ele? exclamou o jovem soldado, dirigindo-se a
Prisco. E este não lhe podia responder.
A estrada que subia quente e íngreme estava diante deles,
erguendo-se para o Gólgota. E Prisco disse consigo mesmo, em terrível e
inominável desespero: Não devo olhar para tras outra vez! Mas não
podia fugir à consciência das tremendas lamentações que se
misturaram àquela luz de fatalidade, lamentações que seguiam o condenado
Como se fosse maré de dor e desespero. E acima daquela maré
estridulavam os guinchos da plebe do mercado, refocilando-se, como
sempre, em seus instintos de ódio, de ameaça e de ansiedade para
obter uma vítima.
As paredes amarelas da cidade, recortadas de ameias, ficaram para
trás, e o caminho estreito ergueu-se fortemente para o Monte do
Gólgota, cujo topo cor de cobre parecia lançar fumaça, de um fogo
infernal que lhe fosse próprio. Pedras saltavam sob os cascos do cavalo
de Prisco e caíam atrás, rolando. Ele ouvia o ruído dos cavalos,
daqueles que o seguiam, e suas maldições abafadas, assustadas. Estonteado,
olhou para a paisagem rural, batida de calor, para as colinas em
terraços, com sua carga de ciprestes e oliveiras, seus recortes de hortas
Verdes. Mas tudo mostrava aquele clarão sinistro de pesadelos,
movimentado e sem substância. O suor corria pelo rosto de Prisco e ele
tirou o elmo para enxugar a cabeça e as faces. A respiração vinha
com enorme esforço. Não devo pensar!, exclamava ele, para
si próprio. Estou doente, estou vendo com olhos de doença. Isto não
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tem significação, isto é apenas a execução de alguém que se tornou um
criminoso aos olhos de Roma, um incitador das multidões contra
nossa autoridade.
Mas o terror e o horror cresceram nele como uma explosão,
comprimindo o coração, a mente, os órgãos e a carne. Estava apavorado
com o céu que via sobre o monte. As flamas coloridas levantavam-se
mais altas, devoradoras. Poderia, realmente, sentir-lhes as palpitações.
Seu espírito supersticiOSO de romano acovardou-se. As lamentações
enchiam o ar funesto.
Prisco disse, ao oficial que estava mais próximo:
- Mantende a multidão a distância. Que não cubra o topo do
monte. Deve ficar embaixo! Quem sabe o que nos fará? Somos
poucos, e ela se compõe de milhares, aumentados pela excitação e pela
emoção.
Os oficiais deram a volta com seus cavalos indóceis e cavalgaram
contra a multidão, mas Prisco não olhou para trás. Arquejando,
deixou tombar a cabeça no peito e esperou. Depois de algum tempo
pareceu-lhe que os gritos e lamentações diminuíam ligeiramente, à
proporção que seus oficiais e soldados voltavam a pé para o povo a fim
de impedir que subissem pessoas ao último ponto. Então Prisco viu
que duas cruzes estavam sendo agora levantadas contra o céu agoureiro
e violáceo, deixando um lugar entre elas. Podia ver claramente os
homens nus, embora estivesse ainda a alguma distância e mais abaixo.
Tinham os rostos escuros e contorcidos; seus braços estendiam-se na
cruz em agonia. Um deles gritava.
Agora os oficiais estavam novamente em derredor dele, e o mais
jovem disse:
- Nós os mantivemos para trás. Não se farão intrusos, pois
nOSsos homens estão de espadas desembainhadas.
Agora Prisco sentia-se impelido a olhar para trás. O povo cobria as
extensões mais baixas do monte como turbulenta floresta de muitas
cores. Moxiam-se constantemente, sacudindo e estremecendo em
todas as suas partes. E diante deles a pequena procissão daquele que
conduzia a cruz chegou com o condenado e alguns soldados. O rabi
subia, com movimentos fracos, a cabeça curvada. Ainda assim, seu
aspecto era régio; rei cativo aguardando a execução. Prisco
contemplou-o com terrivel intensidade, e naquele momento Jesus levantoo O
rosto e o azul de Seus olhos luziu em Sua face. Seu manto vermelho
arrastava-se de seus ombros e era um ornamento real.
Apesar das precauções havia um grupo esperando no topo do
monte, algumas mulheres silenciosas, um ou dois jovens vestidos
pobremente e, para cólera indesejável de Prisco, alguns fariseus e escribas,
que ele reconheceu. Reunindo toda a sua força, Prisco cavalgou pelos
últimos e mais difíceis alcantilados e disse aos fariseus, em voz velada:
- Que estais fazendo aqui, numa execução romana de humildes
criminosos?
Um deles fez uma altaneira cortesia e replicou:
- Estamos aqui como testemunhas, pois há um tolo rumor de
que esse estúpido miserável, Jesus, não morrerá, mas descerá vivo da
cruz e levará o povo à anarquia e ao levante contra a paz. Diremos ao
povo, mais tarde, o que tivermos testemunhado e assim tudo
terminará.
Prisco não soube por que disse em voz alta:
- Não, não terminará! Isto nunca terminará! - Bateu com o
punho contra a espada e o suor rolou-lhe pelo rosto.
Os fariseus franziram as sobrancelhas, consultaram-se uns aos
outros, levantaram os ombros e os escribas escarneceram. Prisco, porém,
a respiração audível no silêncio temeroso do topo da montanha,
voltou sua atenção para as mulheres. Entretanto, realmente só viu uma
esbelta mulher de idade não-determinada, pois seu rosto liso e pálido
tanto poderia ser a face de uma jovenzinha como a de uma mulher
madura, serena, mas rígida de dor. Pensou consigo mesmo: Ela é Sua
esposa, Sua irmã, Sua Mãe? Não, não é possível que seja Sua Mãe,
pois tem um ar de eterna juventude, é muito bela, mais bela ainda do
que minha mãe adotiva, Iris, ou que minha irmã Aurélia. A mulher
olhou para ele, como se lhe ouvisse os pensamentos, voltando para
Prisco a profundeza azul de seus olhos. Alguns caracóis de seu cabelo,
dourado como o sol, tinham escapado do turbante azul-escuro e se
agitavam sobre sua fronte branca, ao sopro do vento árido. Sua boca
era suave e descolorida, cheia de ternura. Mas foi sua imobilidade que
impressionou Prisco, a imobilidade de seu corpo jovem, a
imobilidade de sua notável beleza. Estava vestida de linho branco e nistico e
trazia um manto azul, do mesmo material. Prisco desejou falar-lhe,
Pois tinha nobre atitude naquela atmosfera de calado desgosto. Não
Soube por que desmontou e aproximou-se dela. A mulher observava-o,
vendo-o chegar, e sua face dolorosa estava voltada para ele.
O homem tentou fazer áspera a voz:
- Quem és tu, e quem são esses que contigo estão?
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Ela disse, delicadamente:
- Sou Maria, Mãe Dele, e estes são nossos amigos.
Prisco teve vontade de ordenar-lhe que descesse. Hesitou. Ela
continuava a olhar tranqüilamente para o moço e seus olhos
transpassavam-no. Tinha as mãos cruzadas frouxamente; duas
mulheres estavam de pé ao lado dela, como aias junto de uma rainha.
Choravam, mas ela não chorava. Uma profunda dignidade envolvia-a.
- És Sua Mãe disse Prisco, desajeitadamente. Pensou em
Íris, e na mãe que jamais conhecera, e teve uma piedade imensa por
todas as mães do mundo.
Maria inclinou a cabeça e seus olhos continuavam a implorar.
Prisco fez um gesto incerto.
- Não é uma visão agradável para uma mulher falou ele.
- Mas de há muito eu sabia disto respondeu ela. O homem
ficou a olhá-la, pestanejando. E ela sorriu um pouco, e Prisco tornou
a pensar, outra vez, incoerentemente, no sorriso compassivo de Iris.
Como era possível que aquela pobre mulher sentisse piedade dele, o
executor romano de Seu Filho? Desejou falar mais com ela, mas os
olhos o haviam deixado para ver o Filho, agora chegando ao topo. Um
tremor, como de reflexo na água, correu sobre seu rosto e ela deu um
único passo, as mãos estendidas, na eterna atitude de uma mãe. As
mulheres abraçaram-na e mantiveram-na afastada. As cores do céu
sulcado de rosa e purpura flutuaram em seus rostos.
Os oficiais de Prisco olhavam, espantados, para seu oficial
desmontado, que se dignara aproximar-se e falar com uma pobre judia.
Viram a expressão de desespero, a ansiedade, os olhos apavorados e
ficaram ainda mais pensativoS e constrangidos- O jovem oficial
resmungou algo, baixinho, suas encantações contra os acontecimentOS
maléficos. Os fariseus e escribas mantiveram-se afastados, aqueles de
aspecto frio e sem falar, e estes escarnecendo e gracejando entre SI.
Prisco, olhando para o prisioneiro silencioso que estava de pé
junto dele e vendo as gotas de sangue que rolavam pela Sua face sem
palavras, sangue que vinha dos espinhos da coroa, vendo Seu
absoluto sofrimento, exclamou:
- Vamos acabar com isto, em nome dos deuses! - Voltou-se
um lado, com um gesto desordenado e hesitante: - Onde estão o vinho
e a taça? perguntou a um de seus oficiais, que ficou a olhá-lo
estupidamente por alguns momentos e depois procurou em seu alforje e
retirou dali um frasco de vinho de soldado e uma taça grosseira. Desmontou
para vir colocar ambas as coisas nas mãos trêmulas de Prisco. - Ópio também
disse Prisco, desejando dar ao condenado alguma espécie de
entorpecimento contra sua dor. Sem falar, o oficial polvilhou um pouco de ópio,
de uma sacola de lã, sobre a superfície do vinho que servira.
A luz temerosa e estupenda aumentara, como um olhar furioso e
ameaçador do Olimpo. Prisco aproximou-se do condenado e tudo
silenciou naquele momento. As mulheres cessaram de chorar. Agora,
diante de Jesus e olhando bem de frente para Ele, Prisco não
conseguia levantar a voz, presa em sua garganta. Os olhos, que pareciam os
de um deus, olhavam-no diretamente, como que sondando sua
própria alma, e Prisco pensou, com terrível estupefação: Quem é Ele?
- Bebe gaguejou. - Isto Te ajudará...
Mas Jesus sacudiu levemente a cabeça, em negativa. Contudo,
inclinou aquela cabeça, com gratidão. E agora o olhar que derramou
sobre Prisco era suave para além de toda a suavidade que se possa
imaginar e da maior, da mais incrível bondade e delicadeza. Prisco
recuou diante daquele olhar, ainda mais aterrorizado e temeroso do
que antes, até esbarrar contra seu cavalo.
- Que seja consumado! gritou. - Que acabemos com isto!
- E apertou o rosto contra o pescoço do cavalo, que tremia.
Agarrado ao animal. os olhos fechados, ouviu, vindo lá de baixo,
o som de um mar doloroso, o ímpeto das lamentações e dos prantos.
Mas, acima deles - Prisco não conseguia forçar -se a olhar veio o
som das marteladas. Por que estava tudo tão silencioso ali? Por que
aquele condenado não gritava, quando os cravos lhe eram introduzidos
na carne?
Então, Ele falou, em voz alta:
- Pai, perdoa-lhes, porque eles não sabem o que fazem.
Prisco sentiu um arrepio horrível correr-lhe pela carne, e seu
cavalo assustou-se com o aperto de suas mãos. Está Ele implorando a
Seu Deus, perguntava Prisco a si mesmo, na trovejante confusão de
sua mente. Por que devem os deuses perdoar e a quem devem
perdoar? A mim? Ao povo? Aos carrascos? Que loucura é esta? Por que
deve qualquer homem perdoar seus Inimigos ou implorar aos deuses
que os perdoem, quando está sofrendo agonias e tem a morte sobre si?
O jovem soldado desejava que as trevas descessem sobre ele. que
Pudesse desmaiar e nada mais ver. Mas a luz horrenda atravessava suas
Pálpebras e ele levantou a cabeça, afastando-a do pescoço do cavalo, e
foi compelido a ver. Os carrascos tinham terminado seu trabalho: o
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condenado fora despido, a não ser pelo pano que lhe rodeava os rins.
Os homens começavam a levantar a cruz entre os dois ladrões, contra o
céu temeroso. A cruz era maior do que as outras e, em contraste com a
madeira escura e áspera, o corpo do homem suspenso parecia branco e
macio como o alabastro, dando a impressão de refulgir. Ele parecia
inconsciente de Sua angústia; seus olhos calmos observavam a mulher,
Sua Mãe, e Ele sorria amorosamente, como para consolá-la e
tranqüilizá-la. Então, aqueles olhos a deixaram e olharam para as turbas
inquietas que estavam nos planos mais baixos da montanha, varreram a cidade
lá no fundo, suas retorcidas paredes amarelas banhadas naquela
claridade terrifica, seus telhados e cúpulas iluminados. Ergueu o peito num
grande e tempestuoso suspiro e, por um momento, fechou Seus olhos.
Ali, o silêncio era pavoroso. Maria sentara sobre uma grande
pedra, o rosto nas mãos, duas mulheres ajoelhadas a seu lado,
confortando-a. Os amigos Dele, pobres como Ele própriO, estavam juntos, sem
afastar os olhos do homem condenado. Eram jovens obviamente
humildes, e suas barbas pequenas moviam-se em seus queixos ao mais
leve sopro de vento e em seus rostos as lágrimas rolavam.
O jovem centuriãO tocou o ombro de Prisco, como quem se
desculpa:
- Os soldados estão esperando o sinal, nobre Prisco -
murmurou. - Como sabes, a lei permite-lhes dividir os pertences dos que
são condenados à morte.
Priscu olhou para ele, confuso, pois tudo nadava diante de seus
olhos. Fez um gesto abrupto. Os soldados impacientes dividiram as
vestes de Jesus, queixando-se entre eles, de serem elas de tão pobre
material e de não haver ali bolsa de dinnheiro ou qualquer outra coisa
que representasse valor. Descontentes, e depois de bocejar, afastaram-se
um tanto e se ajoelharam, começando a jogar dados. Demorariam
um pouco para descer, pois os crucificados morriam lentamente. Era
entediante. As mulheres pareciam estátuas. Então, Prisco viu que
sobre a cabeça do moribundo um escrito fora cravado, e ali estava, em
letras gregas, romanas e hebraicas.
"Este é o Rei dos judeus".
Uma explosão de cólera atordoante invadiu o coração de Prisco
diante daquela zombaria. Fechando os punhos, forçou-se a
aproximar-se da cruz e levantou os olhos para o homem suspenSO. SeUS
lábios tremiam. Tentou falar. Os olhos misteriosos voltaram-se para
baixo com um sorriso complacente que continha ao mesmo tempo
agonia e compaixão. Prisco pôs a mão contra a parte mais baixa da cruz
e sentiu-se cheio de desejo de entregar-se e chorar. Voltou-se e viu que
sua mão estava manchada de sangue, e ficou olhando para aquele
escarlate brilhante, estupidificado. Como o estalido alto de ossos,
podia ouvir o ruído dos dados dos soldados e a excitação de suas apostas.
Um grupo de escribas e fariseus também se aproximou da cruz.
Um dos fariseus levantou os olhos para o moribundo e disse,
severamente:
- Ele salvou outros! Que salve a Si próprio, se é o Cristo, o
escolhido de Deus!
A atenção dos soldados jogadores foi atraída por aquela voz, e eles
explodiram em risos. Um deles, muito jovem, veio até a cruz, uma taça
de vinho na mão. Seu sorriso era incerto, não maldoso, antes
estúpido. Levantou a taça para Jesus, quase que amistosamente, e disse:
- Se és, realmente, o Rei dos Judeus, salva-Te!
Mas o moribundo não falou. Seus olhos começaram a
empalidecer, a vidrar, e Ele dava a impressão de ter mergulhado em insondável
meditação.
Um dos ladrões gemeu de maneira terrível. Voltou sua cabeça
hirsuta e torturada para Jesus, as feições brutais retorcidas. Tentou
cuspir naquela face heróica, mas sua saliva caiu no chão e ali ficou,
reluzente. Ele gritou:
- Se és o Cristo, salva-Te e salva-nos! e voltou a gemer e a
blasfemar com escárnio.
Prisco moveu-se, convulsivamente. Desejou levantar a espada e
golpear a boca do ladrão. Mas, antes que pudesse arrancar a arma, o
Outro ladrão disse, em voz apagada e de censura:
- Não temes sequer a Deus, vendo que estás sob a mesma
sentença! E nós aqui estamos com justiça, realmente, pois recebemos o
que nossas ações mereciam. Mas este homem nada fez de mal!
Prisco estava transfixiado. Sua mão tombou da espada. O
segundo ladrão voltou a cabeça para Jesus e suas feições grosseiras
estremeceram, as lágrimas fluindo de seus olhos atormentados. Seu peito
ergueu-se, e seus braços torceram na cruz.
- Senhor, lembra-Te de mim, quando entrares em Teu Reino.
E esforçava-se para o lado de Jesus, como se sua miserável alma
fosse impelida por uma força tremenda, como se todo seu espírito
estiveSse sendo atraído para seu companheiro.
Jesus, durante alguns momentos, não pareceu ter ouvido as pala-
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vras dele. Depois, ergueu Sua cabeça, deixando Sua serena
contemplação da cidade lá embaixo, das turbas chorosas, e falou. Sua voz
ainda estava forte, clara, ainda delicada. Contemplou o segundo
ladrão com uma compaixão que não era deste mundo, e sorriu:
- Em verdade eu te digo que ainda hoje estarás comigo no
Paraíso!
De novo olhou para Sua Mãe e de novo uma luz correu sobre seu
rosto lívido, no qual o sangue rolava como rubis. Como se tivesse
ouvido uma ordem, ela ergueu a cabeça tombada e Mãe e Filho
olharam-se, como se comungassem as palavras que não deviam ser ouvidas
por ninguém. Prisco observava-os e seu coração se descompassava dee
medo e de um curioso anelo.
Passou-se tempo sem conta. Prisco tombara num estado de
devaneio. Pensava que sempre estivera assim, a cabeça contra o pescoço
do
cavalo, aquela doença sempre dentro dele. Pensava que jamais tinha
conhecido nada em sua vida a não ser o brilho dos elmos dos soldados
ajoelhados, que jogavam e suas mãos reluzentes, a luz dançando em
suas armaduras. Eternamente, ele vira aquelas nuvens que ferviam
coloridas, como vapor, subindo para o céu aquecido ao branco. E
eternamente, sua visão havia fixado as três cruzes. E eternamente
contemplara a branca figura contra a madeira escura, os tendões
forçados e latejantes, os pés alvos como a neve. Estava gelado dentro da
eternidade e nunca mais deixaria aquele lugar, e nunca mais saberia
de outra coisa!
Os jovens amigos de Jesus se haviam arrastado até a cruz e
tinham tombado contra ela, como que abatidos por um raio, sua postura
abandonada na imobilidade da dor, suas cabeças encostadas ao lenho. As
mulheres estavam sentadas à parte. Maria olhava para a frente, como
que contemplando os tempos, sua nobre cabeça erguendo-se entre as
das duas mulheres.
O jovem centurião tornou a aproximar-se de Prisco. Estava muito
pálido, e murmurou:
- Prisco, não gosto disto! Há algo horrível aqui!
Prisco umedeceu os lábios febris.
- Dá-me vinho pediu. O centurião deu-lhe vinho,
servindo cautelosamente. Mas seus olhos fixavam o céu, assustados. Prisco
tomou a taça e bebeu sofregamente; era um vinho pobre e ácido e
nauseou-o. Atirou o resto no chão e estremeceu.
Era a sexta hora. A luz apavorante latejava mais cegadora do qUe
nunca, como se se reunisse para uma imensa conflagração. Prisco
passou a mão pelo rosto e encontrou riachos de suor. Os dois ladrões,
crucificados antes, estavam tombando na inconsciência da morte.
Jesus, entretanto, ainda olhava para a cidade e para os outros montes,
como que pensando, como que inCOnsciente de que estava morrendo.
Então, a luz desapareceu. Desapareceu tão completamente como
se meia-noite tivesse caído sobre a terra. Os soldados ajoelhados, que
jogavam, levantaram-se num salto, com um grito de terror. O centurião,
com pavor renovado, agarrou o ombro de Prisco, procurando
proteção. Da multidão, lá embaixo, veio um gemido poderoso. Nesse
momento, o chão ergueu-se como um navio sobre gigantesco vagalhão e
estremeceu. Um som de trovoada rasgou as trevas. A terra balançou e
sacudiu e de algum lugar veio um vasto gemido, ao mesmo tempo da
terra e do céu.
- É verdade, é verdade! gritou Prisco, mas não sabia o que
queria dizer com aquilo. Agarrou o pescoço de seu cavalo, para se
manter de pé. Um pensamento vago lhe veio de que devia tranqüilizar
seus homens, mas as pernas tremiam sob seu corpo.
Então o ar ficou impregnado de uma voz poderosa, sonora, forte
e cheia de exultação:
- Pai, em Tuas mãos entrego o Meu Espírito!
As trevas acentuaram-se e os soldados gaguejavam, incoerentemente,
juntos. Os fariseus e escribas recuaram pela montanha abaixo,
articulando silenciosamente e agarrando-se aos braços uns dos outros. Prisco,
porém, olhou para a cruz do meio com olhos desolados. A Figura que
ali estava era a única luz na escuridão temível, e que parecia de fogo
branco, dando a impressão de que se esticava e alcançava o próprio
céu acima da montanha. A terra, que fugia trêmula e ofegante, parou,
ficou imóvel.
Prisco ouviu seu jovem oficial, o centurião, falando em voz velada
e trêmula:
- Na verdade, esse homem era um justo!
E tombou de joelhos, depois prostrou-se e os outros soldados,
igualmente transidos, tombaram em torno dele, implorando a seus
deuses auxílio e salvação.
Uma imensa náusea apoderou-se de Prisco. Afastou-se de seu
caValo e com alguns passos fracos aproximou-se da cruz do meio e de sua
fulgurante Figura. Jesus estava morto e Sua cabeça tombara para Seu
Peito, As gotas de sangue pingavam, escuras, sobre Sua carne, naquela
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treva profunda. Prisco olhou para as figuras silenciosas dos amigos de
Jesus, e sua cabeça doía, uma dor lancinante. Tornou então a encostar
a mão na cruz e, dessa vez, chorou.
Lucano inclinava-se bem perto do irmão, mantendo na sua a mão fria
e latejante dele. Não tivera consciência do tempo que se passara. A luz
da lâmpada continuava a queimar no rosto desbotado de Prisco, do
qual corriam rios de suor. Muito tempo se passara. Prisco fechou os
olhos velados e houve silêncio. Lucano olhou em derredor, como quem
está sonhando. Nem ele nem Prisco tinham percebido que os servos
se haviam introduzido caladamente no aposento, para anunciar o
jantar. Não sabiam que Plócio terminara por se alarmar, e viera; mas
depois, vendo os dois com as cabeças juntas, e ouvindo que Prisco
estava falando e não quisera deter-se, afastara-se, franzindo as
sobrancelhas e apertando os lábios.
Lucano ergueu a cabeça. Estava cheio de respeitoso temor, de
desgosto, e ainda assim sentia-se repleto de júbilo e segurança. Tocou
a fronte de Prisco com a mão, e este abriu os olhos.
- Não há nada mais disse o soldado, a voz moribunda.
Houve rumores de que no terceiro dia Ele se ergueu de entre os
mortos, mas os rumores foram abafados e Seus seguidores banidos.
Fugiram da cidade, tomados de medo. Foi então que eu fiquei muito
doente e estonteado. A dor começou no estômago, e eu sabia que Ele me
condenara à morte, pela parte que tomei na Sua execução.
Lucano, porém, sorrindo alegremente, colocou a palma da mão
contra a face acinzentada e murcha do irmão.
- Não! exclamou ele. - Como poderia Deus condenar-te?
Está profetizado, desde tempos imemoriais, que Ele morreria dessa
maneira, pela salvação de todos os homens, não só pelos judeus. Eu
sempre soube isso. Ele te odiou? Não. Ele te amou! Falaste de Seu
olhar Compassivo sobre ti, e de Sua compreensão. Ele deseja que te
aproximes mais, que repouses em Seu coração, e que sejas um com
Ele. Ouve! Eu te digo que Ele te ama, e que está sempre contigo!
Os olhos abatidos de Prisco iluminaram-se. Encostou a face na
mão de Lucano e lágrimas correram ao longo das pálpebras.
- É verdade? indagou, aflito. - É verdade?
- Sim, é verdade. E Ele ergueu-se! Oh, verdadeiramente, Ele
ergueu-se de entre os mortos!
- E é Deus, com certeza?
Lucano inclinou-se para a trente e beijou a testa do irmão. Seus
olhos estavam próximos, os escuros e os azuis. Lucano sorria
amorosamente e com força. Prisco murmurara, aconchegando o corpo murcho
mais junto do irmão e adormecendo subitamente, em absoluto estado
de abatimento. Não parecia respirar, sequer. Uma expressão de paz e
contentamento instalou-se em suas feições agonizantes. Era como
alguém que tivesse chegado ao lar, depois de uma viagem terrível, onde
encontrara monstros ameaçadores. Era como alguém que tivesse sido
exilado no deserto ardente, e então fosse chamado de volta.
Lucano levantou-se e olhou para o homem abatido, que dormia.
Juntou as mãos e murmurou:
- Ó, Tu que me trouxeste dos espaços vazios, das trevas, da
esterilidade, por Teu amor e por Tua misericórdia eterna! Ó Tu que
és compassivo para além do que se possa imaginar! Tu, que obcecaste
a minha vida para me trazer a Ti! Tu, que conheces os sofrimentos dos
homens, porque os sofreste! Oh! santificado és em minha alma, e Te
imploro que aceites a minha vida a fim de que Te possa servir!
Sempre Te amei, mesmo quando discutia Contigo pela minha falta de
compreensão! Tem piedade de mim, um pecador, um homem sem
importância! Ouve minha voz que Te chama.
"Tem piedade de meu pobre irmão, a quem foi outorgado o
mérito de ver-Te em nossa carne. Ele Te ama, e Te conhece. Dá-lhe paz,
dá-lhe alívio para suas dores. Se ele tem de morrer, concede-lhe,
então, morte tranqüila, sem mais angústia. Não és Tu compassivel para
com Teus filhos? Chamam eles por Ti em vão? Não, jamais eles
chamam por Ti sem Teu auxílio e Teu consolo! Aqui está meu irmão, que
Te ama. Sê misericordioso para com ele, e conduze-o para Ti!
Prisco dormia como criança cansada. O suor secava em seu rosto.
Lucano curvou-se e beijou-o, a voz sussurrante e carinhosa. Então,
apagou as lâmpadas e saiu do aposento.
Entrou na sala de jantar, onde estavam Nícias, Josué, Àrieh, Hilell
e Plócio. Não o sabia, mas sua pessoa brilhava como a lua, e os outros
espantaram-se, fixando os olhos nele. Lucano olhou para Arieh e Hilell.
e exclamou:
- Durante todo este tempo estixe ouvindo meu irmão. E eu
vos digo que ele conheceu Deus, e O viu crucificado, e é abençoado por
iSSO! E, com certeza, conforme foi dito, Deus ergueu-se de entre os
mortos! Ergueu-se. louvado seja Seu Nome.
558 559
Os outros ficaram sentados, como estátuas, e empalideceram.
Então, Josué levantou-se e estendeu a mão a Lucano. Disse:
- Eu sabia. Desde o princípio eu sabia!
Arieh e Hilell levantaram-se, estenderam suas mãos a Lucano e
sorriram. Lucano via-lhes as lágrimas. Plócio perturbou-se, franziu as
sobrancelhas e apertou os lábios.
45
Muito depois de estarem todos dormindo, a não ser os vigilantes do
vestíbulo e os guardas, Lucano escrevia seu Evangelho da Crucifixão.
As portas de seu quarto estavam abertas para a voz marinha do vento e
para os odores aromáticos dos jardins. As vezes, como que em meio de
um sonho, o estilo na mão, levantava sua cabeça dourada para ouvir o
canto selvagem e doce dos pássaros noturnos e o incessante murmúrio
das fontes. Em derredor dele ardiam lâmpadas de ouro, prata e vidro
e, com freqüência, sem os ver, o médico fixava os olhos nos murais.
Quanto, pensava ele, tinha Prisco contado, e quanto tinha ele
visto, espiritualmente, através dos olhos moribundos do irmão? Prisco
não era um jovem de grande poder descritivo, entretanto conduzira
Lucano através daquelas horas de grandiosidade e terror do Gólgota,
de uma forma tal que era como se o médico tivesse testemunhado tudo
com seus próprios olhos. Era como se ele próprio tivesse tocado a
cruz, tivesse visto nela o Homem, tivesse recebido seu esplendente e
misericordioso sorriso, tivesse olhado para Maria e se sentido
despedaçado de dor por ela, tivesse ouvido os uivos e lamentações do povo.
Qual era aquele grito que Deus lançara da cruz, em hebraico, e que
Prisco recordava, mas não podia traduzir? Lucano parou, pensativo.
Como grego, era preciso no que escrevia e nada colocaria em seu
Evangelho a não ser o que Prisco vira e recordava e o que, através dos olhos
do irmão, misteriosamente, ele próprio discernira. Enquanto Lucano
escrevia, os olhos freqüentemente enchiam-se de lágrimas e o coração
intumescia de amor. As vezes, não podia suportar a própria emoçãO e,
levantando-se, caminhava em seu quarto, inquieto de cá para lá. Não
havia cansaço nele. Ocasionalmente, bebia um pouco do doce vinho
judaico ou comia uma tâmara e um pedaço de pão. E, agora, também
não havia nele desgosto por Prisco. O jovem oficial estava seguro; vira
Deus com seus próprios olhos, O desgosto que Lucano Sentia era por
sua mãe, por Íris, e por aqueles que amavam Prisco e chorariam por
ele. Mas eu não posso chorar por ele, pensava Lucano. Ele foi
abençoado.
Os pássaros noturnos silenciaram e, então, subitamente, o ar frio
da madrugada foi rasgado pelos cânticos de outros pássaros e as fontes
soaram mais próximas. O Evangelho da Crucilixão estava terminado.
Haveria outras partes a acrescentar, depois de conversar com Maria e
os Apóstolos. Feixe rosado de sol, fino e tênue, entrou através de uma
coluna branca e Lucano levantou-se e caminhou para a colunata que
ficava além de sua porta.
Jamais tivera vista tão bela e tão pacífica, ali do alto daquela
colina. O mar, para o ocidente, estava da cor das uvas maduras, fluindo
para leste, onde as luzes subiam. O porto agitava-se com altos galeões,
seu mais alto mastro branco apenas tocado de um tom róseo e fugitivo.
O céu ocidental arqueavase em púrpura e em seus pontos mais baixos
as estrelas continuavam a brilhar de leve à proporção que desciam
para o horizonte arredondado da terra. Como cansada Arteniis, a lua
pálida as seguia, mergulhando para repousar. Cesaréia mal acordara; a
cidade ficava entre o mar e a colina em que se erguia o palácio de
Pilatos, aglomeradas massas de telhados rasos e brancos rebrilhando
como neve. Juntô daquele monte erguiam-se montes similares, argênteos
pelas oliveiras, murmurantes pelas palmeiras e ciprestes, embora
alguns fossem despidos, como que de bronze. Os jardins, porém, que
desciam levemente, afastando-se dos palácios gêmeos de Pilatos e
Herodes, estavam viçosamente verdes, cheios de passagens de
pedregulhos brancos ou vermelhos, encantadores, com seus frescos
caramanchões e canteiros, fragrantes pelas árvores resinosas. O ar puro
fluía sobre tudo aquilo clarificando-se e fazendo-se iridescente à
proporção que a terra se iluminava, e as estátuas brancas, disseminadas
através dos jardins, começavam a brilhar ligeiramente.
Lucano suspirou, com prazer e realização. Vento limpo elevou-se
do mar e a crista da água faiscou, num delicado tom de rosa. O médico
olhou para o céu do oriente, amplo e puro, fremindo com luz escarlate,
e acima daquele lago de fogo trêmulo o firmamento tomara um tom
de jade, insondável e intenso. Lucano deixou a colunata e voltou para
o palácio, caminhando sem rumor sobre o caminho apedregulhado.
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Franziu então as sobrancelhas. Não havia janelas dando para aquele
lado da colina e, em conseqüência, ela era despida e amarela, cheia de
saliências sulfurosas. Mesmo a luz que estava começando a aparecer
ali era de uma tonalidade limão, como o deserto, e o ar que dela se
levantava mostrava-se entorpecido e quente. Lucano passara,
instantaneamente, da beleza para a fealdade. Teve consciência, pela primeira
vez, de estar cansado, e seus olhos arderam. Desceu um trecho da
colina, sentindo o desmoronamento da terra amarela e seca sob suas
sandálias, ouvindo o retinir dos pedregulhos que saltavam sob seu
passo. Ali, tudo era desolado, e a desolação fora criada pelo homem.
Sentou-se numa das saliências, suspirando e esfregando os olhos.
Fixou-os, depois, na ondulação dos montes vizinhos, que se iam
iluminando de momento a momento. Dentro de alguns minutos o sol
saltaria sobre o monte que ficava mais para leste, como um guerreiro
em armadura de ouro.
Ouviu, então, um ruído e um rolar de pedras e, baixando os olhos,
deparou com um cão amarelo, da própria cor da terra. O cão, vendo-lhe
o olhar, parou e olhou também para ele. Era um animal de
tamanho médio, e cada pêlo de seu bonito pelame crespo brilhava no ar
agudo e despido. Havia-lhe algo de estranho e sinuoso, algo de
selvagem e tímido, muito prudente. Sua cabeça rasa adiantava-se, olfateando,
e seus olhos luziam como rubis selvagens. Lucano sentiu-lhe a
desconfiança e sorriu. Não se tratava de um cachorro de alta raça,
elegantemente tratato e mimado, alimentado com acepipes das mesas patrícias.
Aparentemente, fora maltratado, já que olhava irado para Lucano e o
médico podia ver-lhe o rápido movimento das costelas, pois que ele
arquejava um pouco.
O médico era muitíssimo amigo de animais. Assobiou de leve,
estendeu a mão e estalou os dedos. O cão saltou para trás alguns passos,
sem retirar dele seus olhos selvagens. Então, de repente, ficou
inteiramente imóvel, a cabeça ainda avançada, os olhos fixos nele, como que
espantados. Atrás dele havia uma moita de arbustos empoeirados,
ressecada pelo pó amarelo. Lucano sorriu ao ver uma ninhada de
quatro filhotes, meio crescidos, saindo dali, gemente, e juntando-se
em torno do cão maior que, ao que parecia, era a mãe deles.
- Vem murmurou Lucano, estendendo a mão e estalando os
dedos para tranqüilizá-los. A cadela ergueu as orelhas, e de sua
garganta veio como que uma interrogação esperançosa. Então, sua boca
abriu-se mostrando os dentes, num sorriso quase humano de alegria e
afeição, e ela saltou para Lucano, subindo a ladeira e atirando-se,
malcheirosa, pungente e empoeirada, contra o peito dele. As patas de
unhas agudas plantaram-se nos ombros do médico e o animal farejou-lhe
o pescoço e o rosto, lambendo-lhe depois as faces em beijos frenéticos.
Ele não se sentiu revoltado pelo seu cheiro de carniça. Manteve-a
nos braços e falou com ela como um pai. Pobre criatura! Lembrava-se
que Deus abençoara os animais da terra, bem antes de ter criado o
homem. O coração selvagem batia contra o de Lucano como num
anelo e num amor febris. Os filhotes subiram desconfiadamente a
ladeira, observaram estupefatos o que fazia sua mãe e examinaram
Lucano, cheirando-lhe os tornozelos. Ele continuava a afagar a mãe e
a falar com ela, e o animal a ele se agarrava como se desejasse fundir-se
em seu corpo. De sua garganta vinha um sussurro inefável de desolação
e suplica.
Como os animais eram consoladores! Nunca se mostravam maus e
viviam sem hipocrisia, de acordo com suas naturezas. Caçavam, não
por prazer, e sim para conseguir alimento. Tinham inocência selvagem,
adorável espírito brincalhão e sua lealdade era segura e sem
malícia. Os gregos declaravam que eles não tinham almas. Mas aquilo,
com certeza não era verdade. Tinham almas de crianças, simples e sem
astucia. e mesmo suas paixões eram infantis e não-corruptas, como as
paixões dos homens. Conheceriam Deus? Quem poderia responder
tal coisa com segurança? Incapazes de virtude, eram, portanto, sem
verdadeira culpa. Mesmo o tigre audacioso, o leão terrível, o pesado
elefante, as serpentes multicoloridas eram incapazes da verdadeira
perversidade, da qual o homem era capaz. Portanto, por que Deus não os
amaria?
A cadela enrigeceu de súbito nos braços de Lucano. Ergueu a
cabeça, tensamente, rosnou, afastou-se bruscamente dele, saltou para
o chão com um uivo que pareceu ao médico, de repente, muito
familiar. Ouvira-o na Síria, nas redondezas de Alexandria, nas colinas
Prateadas da Grécia. Ficou atônito. A cadela uivou para seus filhotes,
que saltaram dos pés de Lucano, rodearam a mãe e fugiram com ela
Para dentro das moitas, onde desapareceram instantaneamente. Eram
chacais, o mais odiado e mais odioso dos animais, os transmissores da
raiva, os comedores de carniça, os desprezados pelos homens e pelos
animais! Lucano jamais os vira antes, pois eram criaturas da noite, os
espoliadores. Olhou para suas mãos, que realmente tinham acariciado
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chacais, e para seus pés, sobre os quais se haviam deitado chacais, e
sentiu-se tomado de estonteante estupefação, pois sabia que eles tanto
odiavam quanto temiam o homem e o evitavam como a própria morte.
Olhou para trás, e lá em cima da colina, amarela, quente e
empoeirada, viu um grupo de soldados petrificados, entre eles Plócio e
Josué, o médico, bem como um homem que ele jamais vira, mas no qual
reconheceu um romano. O homem vestia uma toga branca, tinha rosto
pálido e severo e nariz aquilino. Era calvo, e só possuía, em torno das
orelhas, uma franja rala de cabelos escuros. Seus braços nus traziam
braceletes de ouro e anéis brilhavam em seus dedos, ao primeiro sol. E
todos aqueles homens estavam absolutamente silenciosos, com
expressões apavoradas. Lucano levantou-se. Achava ligeiramente tolo aquilo
de ser encontrado naquela horrível ladeira. Começou a subir. Então
Plócio deu um passo para a frente, com um aspecto estranho.
- Eram chacais, Lucano disse, em tom esquisito, olhando
profundamente para os olhos do outro homem.
- Sim, eu sei disse Lucano, sorrindo. - Preciso lavar já as
mãos. Eles são portadores de raiva.
A expressão estranha de Plócio fez-se mais acentuada.
- Eles ficaram sentados em derredor de ti disse. - E a mãe
beijou-te. Jamais ouvi falar de uma coisa destas. - Estremeceu, e
ainda olhava para Lucano com olhos maravilhados.
- Eu não percebi logo de início que se tratava de chacais -
falou Lucano, como que compelido a desculpar-se. Então, viu que
havia lágrimas nos olhos do soldado. Teve um sobressalto. - Prisco!
- exclamou. - Prisco!
Plócio sorriu, um sorriso peculiar.
- Não, ele não está morto Ele,.. está muito melhor.
Parecia abstraído, enquanto acabavam de subir juntos a ladeira.
Então Josué, destacando-se do grupo, desceu ao encontro deles. Seus
olhos buliçosos estavam úmidos e ele estendeu a mão a Lucano,
ajudando-o a subir a montanha, em silêncio. O estranho esperava, e olhava
com curiosidade para o médico.
Josué disse uma coisa misteriosa.
- Não me espanto dos chacais. Não me espanto de não terem
fugido dele, de o terem beijado.
- Nem eu falou Plócio.
Lucano riu.
- Pobres criaturas -, disse. Desejava ir ver, imediatamente se
seu irmão precisava de assistência. Mas agora estava face a face com o
estranho. Plócio dirigiu-se a ele:
- Nobre Pôncio Pilatos, este é nosso querido e bem-amado
médico Lucano, filho de Diodoro Cirino.
Pôncio Pilatos, então o altaneiro procurador de Israel, fez uma
Coisa sem precedentes. Levantou os braços, descansou-os nos
ombros de Lucano e beijou-lhe o rosto. Os outros observavam,
estupefatos, pois aquele homem frio e imperioso, habituado a adulações,
jamais falava, a não ser de maneira impessoal, rapidamente, fosse
com quem fosse, como se homem algum fosse digno de sua
consideração.
E Lucano pensou: Aqui está o homem que tentou salvar Jesus,
mas a plebe do mercado, assassina como sempre, não consentiu que
ele o fizesse. Também teria ele se emocionado, como Prisco? Pilatos
sorria-lhe, os pálidos sulcos de suas faces se aprofundando.
- Ouvi César falar muito de ti disse ele. - Uma vez César
me disse: "Um dia encontrei um homem justo, incorrupto e bom, sem
artifício nem avidez. Seu nome é Lucano, e ele é médico. Recordo-me
dele nos meus momentos mais tenebrosos."
Lucano corou, embaraçado.
- César me honra muito disse mas isto não é verdade. Eu
fui o mais cego dos homens, o mais amargo, o mais irredutível e sem
mérito.
Pilatos tomou-lhe a mão e examinou o anel de Tíbério.
- Há muito tempo o possuis, mas nunca o enviaste a César e
nunca lhe pediste nada. Só isso já é maravilhoso. - Examinou,
então, o anel de Diodoro. - Usas este anel com dignidade, Lucano. -
Suspirou: - Mandei minha esposa para Roma, pois está doente do
espírito. - Parou e depois recomeçou: - Mas tive um sonho, duas
noites atrás, dizendo-me que devia voltar para cá. Acredito em sonhos.
Minha mulher teve um, dos mais estranhos, bem antes, e eu devia tê-la
ouvido mas não ouvi.
- O sonho falou a verdade, nobre Pilatos disse Josué.
Tomou o braço de Lucano, delicadamente: - Vem, vamos ver teu irmão,
que deseja falar contigo.
A ansiedade de Lucano retornou e ele esqueceu de maravilhar-se
ante as palavras de Pilatos.
- Ele dormiu durante a noite? Está sentindo dores?
- Dormiu durante a noite e não está çentindo dores falou
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Josué, num tom ambíguo. Olhou longamente para os olhos de Lucano,
como se ali procurasse algo.
Lucano começou a andar depressa e agora somente o médico
judeu o acompanhava, o qual disse, enquanto subiam os degraus de
mármore branco que levavam à casa:
- Nícias está junto de teu irmão. Não fala, e chora.
- Por quê? exclamou Lucano, tomado de pressentimentos
funestos.
- Tu verás por quê. Eu te digo, teu irmão está muito melhor.
Lucano começou a correr, e Josué bufava atrás dele, exclamando:
- Já não somos jovens e eu não sou um atleta como tu, meu
querido Lucano!
Mas este corria como o vento, através dos brilhantes aposentos
iluminados pelo sol, e chegou ao apartamento de Prisco. Quando um
escravo abriu a porta, Lucano atirou-a para trás, precipitadamente,
meteu-se pela antecâmara e depois no dormitório. Correu para o leito
de Prisco, esperando ver ali um cadáver, mas viu, para sua completa
estupefação, que Prisco estava sentado, recostado em seus travesseiros,
comendo com prazer sua primeira refeição. Ao lado dele, sentado em
silêncio, estava Nícias, a cabeça baixada para o peito, como que em
meditação.
- Bem-vindo sejas, bem-vindo sejas! disse Prisco, pousando
uma grande taça de leite de cabra. - Querido irmão Lucano! Tu me
ajudaste; dormi como uma criancinha a noite passada e acordei sem
dores, apenas esfaimado.
Lucano fixou os olhos nele, estupidificado. O rosto magro de Prisco
estava liso e colorido com um rosado levíssimo. Seus olhos fundos
irradiavam mocidade. Ele estendeu os braços:
- Eu poderia sair agora mesmo desta cama, pois estou bem! -
disse ele. - Olha para mim. Tenho o aspecto de um doente? Mas
preciso ficar aqui, é o que esses doidos médicos dizem, quando a
saúde lateja, alta e forte, em meu corpo!
Nícias levantou-se e fez uma profunda reverência a Lucano.
- Ó Esculápio! murmurou o médico. - Realizaste um
milagre. - Apanhou a mão frouxa de Lucano e beijou-a,
humildemente. Tinha os olhos cheios de lágrimas.
- Eu nada fiz, a não ser rezar por ele gaguejou Lucano.
- Isto foi o bastante disse Nícias. - Deus nega alguma coisa
a seus irmãos?
- Isso foi o bastante disse Josué. - Deus nega alguma coisa
aos Seus escolhidos?
O peito de Prisco ergueu-se num profundo soluço seco e ele
encostou a cabeça no braço do irmão.
- Em meus sonhos disseram-me que quando meu irmão
chegasse ele me libertaria da dor.
Lucano levou a mão à fronte, esfregando-a, estonteado:
- Não compreendo murmurou. Então, afastou num repelão
as cobertas de sobre o corpo do irmão, apalpou-lhe o estômago, o fígado
e as glândulas. Os funestos tumores tinham desaparecido. A carne estava
delgada e emaciada, mas firme, e o pulso mostrava-se forte.
Lucano endireitou o corpo:
- Não é possível! exclamou ele. Olhou para Nícias e Josué e
seus olhos imploravam. - Estávamos enganados!
- Não disseram eles, sorrindo-lhe.
- Através de ti Deus realizou Seu milagre, para que nós o
testemunhássemos disse Josué. - Ele curava homens, tocando-os ou
com a Sua palavra; assim curou teu irmão, a teu pedido. Bem-aventurado
és tu, Lucano, pois és um dos Seus, e vimos com nossos olhos e
ouvimos com nossos ouvidos, e glorificamos o Seu Nome.
Lucano sentou-se abruptamente e ficou de olhos fixos à frente.
Depois, tornou a levantar-se e examinou Prisco, minuciosamente. Não
havia tumor algum fazendo resistência a seus dedos. O soldado
levantava um cacho de uvas e comia-as com satisfação. Os olhos estavam
pousados com suavidade em Lucano.
- Eu sabia que tu me podias ajudar repetia ele. - Conhecia
minha doença, e ela era mortal. Tu, porém, me curaste.
Lucano sentou-se e desviou o rosto, onde as lágrimas corriam.
Oh! Que me tivesses escolhido, a mim, que Te odiava!, exclamava ele,
Consigo mesmo. Oh! Que condescendestes comigo, quando eu Te
rejeitava, através de todos os anos de minha vida! Perdoa-me, Pai, pois
eu não sabia o que fazia!
Voltou o rosto para os médicos, e disse:
- Não fui eu quem curou meu irmão, mas apenas Deus, Não
Sou eu quem tem o mérito, mas apenas Deus. Louvado seja Ele,
porque é bom e misericordioso, e ouve seus filhos e não os aflige sem
razão.
Josué mergulhou os dedos em vinho e traçou a figura de um peixe
Sobre o mármore da mesa.
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- Em grego, o que é isto, se arranjado como anagrama? -
perguntou ele a Lucano.
- Cristo disse Lucano.
- Este é o sinal dos cristãos falou Josué. - Tu os
encontrarás por este sinal.
46
Embora Pôncio Pilatos, um romano de categoria Eqüestre,* fosse
invariavelmente cortês para com Hilell ben Hamram e Arieh ben Eleazar,
era evidente, para o supersensível Lucano, que ele não amava os
judeus. Aquilo ficou bastante aparente na expressão de alívio que teve
quando ambos os jovens judeus partiram para Jerusalém a fim de
reunir notícias para Lucano, sobre o paradeiro dos cristãos que se haviam
espalhado. Pilatos disse a Lucano:
- Sou amigo de Herodes, mas ele é grego pela metade. Quanto
aos judeus, não os compreendo. Quando construí um aqueduto,
muito necessário para uso deles, e não havia dinheiro no Tesouro,
confisquei os fundos do Templo. Os deuses, mesmo esse Deus Judeu,
devem curvar-se diante das necessidades humanas. Pois, ao que parecia,
com aquela confiscação eu cometia o mais vil dos crimes. Houve
levantes, que fui obrigado a abafar asperamente, e muitos morreram.
Nós, romanos, aceitamos nossos deuses com realismo, e também com
alguma ironia. Mas sorri sarcasticamente a um Deus onipresente e
judeus se atirarão à tua garganta, mesmo que sejam teus amigos! Eles
não gracejam com o seu Deus, como gracejamos, civilizadamente, com
os nossos. Sua Lei está acima de qualquer sensata lei humana! Tenho
dez anos de convivência com judeus e estou desesperadamente
cansado de seu fanatismo, de sua devoção ao seu Deus. Falam Dele,
discutem por causa Dele, estão cheios de seitas onde mantêm suas
diferenças de opinião.
"Vamos tomar os judeus intelectualmente continuou PilatOS
___
* Referência a descendência dos habitantes da colônia (Julia equestris
colonia) estabelecida por César na Helvécia. (N do T.)
___
impaciente. Discutem eles as filosofias do mundo, a história, as
artes, as ciências? Gostam de boatos? Não! Eles são eruditos.
Entretanto, juro-te, meu bom Lucano, que suas discussões se centralizam
quase que no que um de seus comentaristas particulares quer dizer
quando interpreta a mínima Lei de Deus! São loucos, totalmente
loucos. Desprezam nOSSOS deuses, chamam-nos maus espíritos, e a nós
denunciam como adoradores de ídolos. Não tenho reverência
particular pelos nOSSOS deuses, mas sinto-me pessoalmente insultado,
pois trata-se de uma afronta feita a Roma. Se o Deus deles é tão Poderoso,
por que não os liberta de nossa mão? Eu, com um sorriso, tenho feito
esta observação aos sacerdotes e eles me olham com olhos furiosos,
conservando-se em silêncio.
Lucano ouvia e nada dizia. Pilatos tornou a suspirar, repuxando,
inquieto, as dobras de sua toga.
- Eu tenho pedido a Tibério que me chame de volta a Roma, e
espero ser atendido. Minha pobre esposa, Prócula, agora está lá,
quase fora de si. Teve um sonho sobre o Homem cuja execução ordenei.
Um rabi judeu ou um mestre, que estava levantando o povo contra
Roma. Não o considerei culpado, mas Herodes estava frenético. Ele e
os altos sacerdotes asseguraram-me solenemente que o rabi incitava o
povo, que havia muitas testemunhas de outra seita judaica, os fariseus,
que são homens de respeitabilidade. Eu próprio acredito que Ele
estava apenas zombando dos sacerdotes, aos quais ofendeu com
alguma liberdade em Sua própria interpretação da Lei. Que Lei, a deles!
Estão realmente dispostos a morrer por seu Deus, a abandonar tudo
por Ele, e isso é uma coisa que causa loucura.
- Não te preocupes disse Lucano, calmamente. - Estava
nas profecias, desde o início dos tempos, que Ele morreria assim. Tu
foste apenas Seu instrumento.
Pilatos fixou os olhos nele, curioso. Depois, sacudiu a cabeça.
- Meu querido Lucano, tu não deves ouvir esses judeus. Esta
não passa de mais uma das suas numerosas e rixentas seitas, esses
homens que se dão o nome de cristãos. Há apenas duas semanas fui
forçado a ordenar o massacre de alguns galileus que, quando ofereciam
sacrifícios, pediam a seu Deus que destruísse Roma e libertasse dela
a terra santa. Temos nossa própria lei e ela deve ser mantida.
- Um massacre? - Lucano olhou para ele com horror.
Pilatos ergueu os ombros.
- Já te disse que esses judeus sãü loucos. E tresandam insurrei-
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ção. Acredito, inteiramente, que aquele seu rabi, que eu tive de
mandar executar, lançou um encantamento sobre minha esposa e por isso
ela teve aquele sonho.
- E agora, que há com os cristãos? indagou Lucano, em voz
baixa.
Pilatos mexeu-se, encolerizado, em sua cadeira esculpida.
- Eu os exilei de toda a judéia. O povo olha carrancudo para
mim, em Jerusalém, por causa de sua nova seita e de seu chefe
executado, e sacode os punhos às minhas costas e profetiza-me coisas más.
Dei ordens para que seus seguidores, que agora se chamam cristãos,
declarando-O Cristo, o esperado através dos tempos, sejam caçados,
aprisionados e destruídos. São um perigo para Roma.
Lucano levantou-se e foi até as colunas, e através delas olhou para
Cesaréia, rebrilhante ao sol ardente. e para além de Cesaréia, para o
mar purpúreo, com suas enceguecedoras cristas de luz. O porto estava
muito movimentado. Mas aqui, como nos jardins lá embaixo, tudo era
frescor, e as abelhas zumbiam sobre as flores, enquanto as fontes
dançavam.
- É um alívio disse Pilatos, bebendo um pouco de vinho, e
depois esfregando fatigadamente as mãos sobre o rosto marcado
de rugas falar com um homem sensato, que não seja um judeu.
Ouvi falar do milagre que realizaste a favor de teu irmão, a quem
muito carinhosamente quero. Estou doente, Lucano, e minha carne
pesa sobre meu corpo. Minha alma está agitada, embora não consiga
saber qual a razão disso. Que valem os deuses para os homens? É
presunçoso pensar de outra maneira. Além disso, sinto-me certo de
que Apolo tocou -te, deu-te o seu misterioso poder de curar.
- Queres que eu te cure? perguntou Lucano, sem se voltar
para ele.
Pilatos riu, meio encabulado.
- Eu te digo que já não durmo. Não rias de mim! Mas vejo O
rosto daquele rabi, que me pareceu um homem delicado, sem maldade
particular, a não ser o fato de incitar o povo. Terá Ele lançado um
encantamento também sobre mim, quando olhei para o Seu rosto?
Lucano voltou para junto de Pilatos, Sentou-se ao lado dele e
contemplou-o com compaixão:
- Eu te darei uma poção, nobre Pilatos, que te fará dormir esta
noite. Alegra-me saber que vais voltar para Roma, pois algo aqui te
oprime.
- É isso mesmo suspirou o procurador. Depois, fez-se um
pouco mais animado, e continuou: - Mas chega de judeus e de seu
Messias! Falemos de assuntos mais importantes e mais eruditos. Sabes
há quanto tempo não tenho uma conversa inteligente com alguém?
Estive estudando a teoria aristotélica da origem espiritual de todas as
coisas. Aquela teoria diverte-me, pois nOSSOS deuses não são tudo quanto
há de menos espiritual, embora sejam imortais? Os romanos, que são
dualistas, preferem a teoria dos epicuristas, com sua explicação
mecânica do universo. Sua teoria de Demócrito,* a teoria atômica da
origem de toda a matéria, é mais realística e atrai a mente racional. Nossa
virtus romana é uma qualidade moral e social. Recordarás que nosso
Imperador Augusto disse: "Quem ousará comparar a estes poderosos
aquedutos as ociosas pirâmides, ou os famosos, mais inúteis, trabalhos
dos gregos?" Concordo com ele. Como romano, prefiro a nossa virtus
ao incompreensível aretê dos gregos, que procuram e exigem uma
excelência mental e de espírito que fica para além da capacidade
humana.
Lucano sorria, abstraidamente:
- Devo discordar, pois sou grego. O homem é mais do que um
animal. Os romanos são realmente materialistas, epicuristas, e assim
inventaram a democracia, que leva consigo a semente da destruição.
Os olhos exaustos de Pilatos faiscaram com interesse novo.
Entusiasmou-se.
- Mas dizem que foram os gregos que inventaram a democracia,
meu caro amigo!
Lucano sacudiu a cabeça:
- Não a espécie de democracia dos romanos. Era a democracia
da mente, a reunião ilimitada de homens de intelecto e não a simples
e grosseira reunião de corpos físicos da turba para seu próprio
interesse e para exploração dos que se lhe avantajam intelectualmente. Não
Concordo com Platão, mas tu recordas suas advertências de que a
cidade caira quando um homem de bronze lhe guardar as portas. O
mundo romano está guardado por homens de bronze. Muito depois
de Roma ter caído, o aretê dos gregos continuará a iluminar a mente
dos homens, porque as coisas do espírito são mais importantes para
ele do que as coisas do corpo.
___
* Filósofo grego do quarto século a.C. que ria constantemente da loucura
humana. Dizia que o ser consiste numa porção de átomos movendo-se no
vácuo. (N do T)
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Pilatos olhava para ele, incrédulo:
- Não estás falando sério, estás?
- Estou, com toda a certeza. Entretanto, não temas por tua Roma
e Lucano sorria ambiguamente. - Haverá sempre nações
materialistas seguindo-a através dos tempos, e sua virtus continuará a
dominá-las: a crença de que aquedutos e departamentos sanitários, edifícios
públicos e pão, ciência, circos e estradas podem satisfazer os anseios
da alma humana. A luta iniciou-se séculos atrás entre homens de
mentalidade que reverenciam o espírito humano e homens grosseiros que
não só declaram que o espírito não existe como afirmam que esgotos,
encanamentos, negócios prósperos e comércio são o único significado
da vida.
Pôncio refletia. O brilho pálido do constrangimento estava
refletido em seu rosto. Bebeu um pouco mais de vinho, e disse:
- Não sou um obtuso, um homem completamente materialista.
Acredito na mente humana, embora ela pereça com o corpo. Acredito
mais no bem-estar físico do povo.
Seu constrangimento crescia. As feições finas enrijeceram, enquanto
ele pensava.
- Não posso afastar aquele Homem da minha mente disse,
desassossegado, como se ele e Lucano não tivessem falado de outra
coisa. - Tuas poções serão recebidas por mim com alegria, Lucano.
- Olhou de esguelha para o médico. - A cura de teu irmão, feita
por ti, não se enquadra, certamente, na maneira formal e aceita dos
médicos inteligentes. Podes curar-me sem poções, Lucano.
Lucano debruçou-se para ele, e havia um faiscar de luz tão vívido
em seu rosto que Pôncio encolheu-se supersticiosamente e tateou um
amuleto, que trazia sob a túnica.
- Sim! exclamou Lucano, sentindo em si um poder
arrebatador. Estendeu ao elegante romano o anel de Tibério. - Deves
cancelar o banimento dos cristãos, imediatamente!
- Estás louco! exclamou Pôncio, fitando os olhos no
magnífico anel. - Eu te digo, tu não conheces esses judeus enlouquecidos
pela idéia de Deus! Nem sabes quem se tornou Tibério. Agora, é um
homem temível e selvagem. Deu-me apenas uma ordem: manter ordem
na Judéia. Eu te digo: ele é apavorante!
- A ralé corrompeu-o, tal como ele disse que aconteceria -
falou Lucano, severamente, ainda oferecendo o anel.
- Se eu cancelasse o banimento dos cristãos judeus, então
haveria de novo desordem, levantes, e Tibério me trataria com severidade.
Que representa essa gente para ti, um grego, o filho adotivo de um
nobre romano?
- Contar-te, exigiria toda uma existência disse Lucano. -
Mas sinto que algo doloroso está sobre ti. Disseste que aquele Jesus
obceca teus sonhos e que não te deixa em paz. Achas que terás paz
enquanto não abandonares a perseguição a Seu povo e a Seus
seguidores? Eu te digo que não! - Tirou o anel do dedo e apertou-o
contra a palma da mão de Pilatos. Envia isto a César. Escreve-lhe
que eu te pedi que tuas ordens contra os judeus fossem levantadas.
Dize-lhe que te supliquei, e que tu, diante deste anel, não tinhas o
direito de recusar minha solicitação.
Pilatos, amedrontado, girou reverentemente o anel na palma da
mão. Estava perplexo. E disse:
- Se esses judeus promoverem novos levantes e eu for acusado
por isso... - Hesitou, e depois disse: - Entretanto, esse é o teu
pedido, embora incompreensível para mim! E quem sou eu para
ousar desobedecer os desejos de César, implícitos neste maravilhoso anel?
Pôs o anel na bolsa e o alívio levou-o a diminuir a tensão, do
mesmo modo que um doente se sente aliviado depois de ter tomado
um remédio excelente.
- Francamente disse ele não me sinto feliz a propósito das
ordens que dei contra os cristãos. Não gosto dessas discussões sobre
religião, que é coisa insignificante. Os deuses romanos riem. O Deus
judeu jamais ri.
Endireitou o corpo:
- Já estou aliviado! Minha dcpressão está desaparecendo, bem
como a minha melancolia. E, por antecipação, estou gozando a
decepção de Herodes.
Falava de Herodes com maliciosa alegria.
- Houve um judeu miserável que foi a Jerusalém. Chamavam-no
João, o Batista, e ele gritava ser o mensageiro que vinha antes de
Deus. Gritava estar anunciando o Messias judeu. Herodes ouviu falar
naquilo, seu espírito judaico vibrou, excitado, embora ele seja tudo
menos religioso, sendo antes um realista. Interrogou João. Ao que
parece, houve caloroso desentendimento entre ambos, entre Herodes,
o culto tetrarca de Jerusalém, e aquele selvagem e iletrado habitante
do deserto! Por que Herodes chegou sequer a interrogá-lo está além
da minha compreensão, a não ser por ter ele superstições judaicas na
572 573
cabeça. Seja como for, mandou destruir João prudentemente. Eu
estava em Roma, nesta ocasião, e Herodes, até hoje, recusa-se a discutir
João, o que me diverte. Compreendi, entretanto, que Herodes ficou
desapontado, mais tarde, com Jesus, embora também a ele interrogasse.
Seu desapontamento alcançou alturas de raiva frenética. Sabes o
que penso? Herodes esperara, na parte judaica de sua alma, que ali
realmente estivesse o Messias judeu, vindo para libertar a Judéia das
mãos de Roma e levantar Seu povo como reis sobre todo o mundo!
Pilatos estava agora em muito boa disposição. Sentia a saúde
voltar a seu corpo, a tranqüilidade à sua alma. Serviu uma taça de vinho
a Lucano e fez-lhe um brinde.
- Foi um belo dia aquele em que nos visitaste, Lucano disse.
- E agora sei por que tive aquele sonho.
- Também eu sei falou Lucano, com um sorriso enigmático.
Hilell ben Hamram escreveu a Lucano, de Jerusalém.
"Encontrei Maria, a mãe de Jesus. Ela mora fora das portas de
Jerusalém, com um jovem chamado João, que é como seu filho. Ouvi
dizer que há um Pedro, o seguidor de Jesus de Nazaré, em Jopa,
escondido. Vem.
"Ficarás contente ao saber, meu querido Lucano, que Arieh ben
Eleazar viu com bons olhos minha linda irmã, Lea. Há muitas
festividades aqui, pois Arieh recebeu o patrimônio de seu pai. Vem ter
conosco, vem ser feliz conosco.
47
Lucano permaneceu na casa de Pilatos até ter certeza de que seu irmão
estava completamente restabelecido. A saúde de Prisco voltava
rapidamente; o corpo emaciado consumia alimento em proporções enormes.
O rosto tomou sua velha e risonha tonalidade bronzeada. Estava
resplandecente de entusiasmo. Ele e Plócio esgrimiam no pórtico externo
e o jovem não se furtava àqueles jogos atléticos. Lucano sentia-se repleto
de felicidade. Prisco voltaria à sua propriedade e à sua família, e Iris se
regozijara.
- Não tenho muita confiança em meus vigilantes dizia Prisco,
sombriamente. - Ficarei lá pelo menos um ano, se César permitir,
antes de me aventurar em outra campanha.
Tentou persuadir Lucano a voltar com ele, mas este sacudiu a
cabeça:
- Tenho muito que fazer aqui disse. E não explicou o quê.
embora Prisco e Plócio ficassem a olhar, curiosos, para seu rosto.
Quando Prisco, um dia, insistiu para que Lucano pelo menos
voltasse a Roma com ele por um pequeno espaço de tempo, o irmão
mudou de assunto. Ele, Prisco e Plócio estavam gozando o ar
brilhante da tarde, frio e vivo naquela montanha. Lucano levantou-se e disse,
rindo:
- Estou cansado de ver-vos lutar, gladiadores desajeitados.
Atirou para o lado o manto e ficou de pé, vestido apenas com a
túnica, e flexionou os músculos. Embora muitos fios grisalhos se
mesclassem ao dourado de seus cabelos e houvesse linhas ascéticas em seu
rosto grego, no corpo ele era um jovem. Prisco vaiou-o e dirigiu-se
para ele na posição do lutador, enquanto Plócio observava, sorrindo.
Ojovem se aproximou de Lucano e estendeu o braço para agarrá-lo. O
médico esperou até que os dedos apertassem seu ombro, então
curvou-se rapidamente para trás e Prisco voou por cima de seu ombro e
foi cair duramente na relva. Plócio estava estupefato e nem mesmo
podia aplaudir. Prisco ficara deitado no chão, pestanejando e
sacudindo a cabeça enquanto Lucano ria.
- Um corisco me atirou aqui! exclamou Prisco,
levantando-se. Correu de novo para Lucano e este, quase sem se mover, atirou-o
mais uma vez ao chão. Aquilo excitou Plócio, que era vigoroso e
robusto. Pediu uma luta com Lucano e voou também pelos ares. Ambos
estavam agora muito excitados.
- É muito simples explicou Lucano, como quem se
desculpa. - Nem vos posso dizer quanto isto me ajudou a manter-me em
Vantagem quando atacado por desordeiros e ladrões, nas cidades.
Aprendia lutar assim com o meu professor chinês, em Alexandria, sob
juramento de que manteria o segredo.
Contudo, podia revelar o segredo do arremesso do disco, o do
boxe, o da esgrima, e do salto em distância. Chegou, mesmo, a
derrotar na esgrima o habilíssimo Plócio.
- Ufa! exclamou este, enxugando o suor do rosto com seu
grande braço. - Tu pareces um rapazinho!
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- Não se trata de força disse Lucano, que se estava
divertindo. - Trata-se de usar a força habilmente, gastando a menor
quantidade possível dela.
Prisco e Plócio queriam levá-lo ao circo próximo a Cesaréia, mas
Lucano não gostava dos jogos nem da brutalidade dos gladiadores.
Quando Pilatos anunciou que devia voltar para Jerusalém e se
ofereceu para levar o médico em sua companhia, Lucano aceitou
animadamente. Chegara a ocasião de partir. Abraçou o desconsolado Prisco e
deu-lhe recados amorosos para a família, em Roma. Então,
acompanhando Pilatos e Plócio, despediu-se de Cesaréia e de Josué, o
médico, que ele viera a amar não apenas como a um colega, mas como a um
irmão.
Plócio insistiu para que Lucano visitasse o templo de Zeus e
Apolo da cidade, quando a caravana de cavalos e bigas deixou a montanha.
Herodes construíra o templo, imenso e magnífico, para seu amigo
Pilatos, e o procurador orgulhava-se dele. Comprida colunata dupla,
de colunas gigantescas, conduzia ao templo, alternando o mármore
branco com pórfiro vermelho-escuro, o que dava ao todo uma
aparencia exótica. O forro alto da colunata era pintado em afresco, com
deuses e deusas às cambalhotas, centauros, ninfas, dríades e náiades,
satiros* e Pãs, seus membros lisos e voluptuosos entrelaçados, seus rostos
risonhos e maliciosos. O ar brilhante dava-lhes aparência de movimento e
vida. O piso era feito de mármore multicolorido, em círculos vermelhos e
azuis sobre fundo branco. Mas o templo alto, largo e
imponente, mostrava-se estranhamente austero, e ali ficava revelado o inquieto
espírito grego de Herodes, pois não havia afresco e nem baixos-relevos
nas reluzentes paredes brancas, bem como nos forros. Duas estátuas
enormes defrontavam-se, em posição sentada, três vezes maiores do
que o tamanho natural de um homem, Zeus, com sua barba, feito em
mármore branco, e Apolo, em mármore vermelho. Olhavam um para
o outro, com rostos frios e sobrenaturais, as mãos sobre os joelhos
como que em desafio. Diante deles havia altares, onde o incenso
fumegava. E havia um altar raso, no qual brilhava uma lâmpada de ouro
e onde havia a inscrição: "Ao Deus Desconhecido."
Lucano ficou parado, meditativo, diante daquele altar despido de
ornamentos, que a lâmpada iluminava. Pilatos colocou um dedo nOS
___
* Ninfas eram as divindades das águas e florestas; dríades, as
divindades menores das florestas; náiades, as das fontes e rios;
sátiros, semideuses de pernas e pés de bode, que habitavam as florestas.
(N. do T)
___
lábios, pensativo, e ficou a olhar para a pedra grande e simples. Plócio
deixou cair algumas moedas numa caixa de bronze que estava aos pés
de Zeus. Cada respiração ou movimento voltava em eco das paredes e
do forro, e até o leve silvar da lâmpada podia ser ouvido. Lucano virou
a cabeça e olhou para a poderosa figura de Zeus, com sua barba, suas
feições severas, seus olhos profundos. O grego recordou-se de Moisés
e sorriu, tristemente, ao pensar em Herodes, homem que se
despedaçava entre dois mundos, entre duas religiões. O rosto de Apolo,
embora divagante, tinha uma expressão mais inquieta: as órbitas cavadas
davam um aspecto de inconstância às suas feições, bem como de
desafio. Era como se mesmo na escultura de suas vestes, no posicionamento
de sua cabeça tremenda, ele estivesse para erguer-se e solicitar uma
luta a Zeus, pelo controle da humanidade. E Zeus, numa atitude de
repouso olímpico, ali estava em divina segurança e grandeza. Lucano
teve a certeza de que, naquela luz mutável e radiante, um sorriso
ligeiro pairava nos lábios barbados do deus.
O grupo tomou um caminho estreito, próximo ao velho mar, cuja
coloração cerúlea era tal que seduzia os olhos. Muito calmo, o mar
jazia como um piso azul estendido até o horizonte, no qual os navios,
suas velas brancas flutuando, deslizassem majestosamente. Os cavalos
apressaram o passo na estrada, pois até Jerusalém a caminhada
era longa. O ar mostrava-se límpido e agradável, embora a poeira amarela
se levantasse em nuvens, pois ali o chão era arenoso. Para a esquerda
dos viajantes levantavam-se as montanhas, baixas e retorcidas, algumas
bronzeadas e nuas sob o sol incandescente, outras marcadas com
terraços curvos de pedra, fechando trechos de terra cultivada, esmeraldina
e fértil. Olivais, que pareciam de prata velha, atiravam para cima seus
galhos retorcidos; carneiros pastavam ou dormiam sob aquelas
árvores, deixando seus excrementos para fecundá-las. Moitas de
tamareiras subiam pelas encostas, e entre suas frondes poeirentas era possível
enxergar o ouro quente dos cachos de suas frutas. Vinhedos
banhavam-se de sol, nos terraços em degraus, e árvores frutíferas
recortavam-se contra as pedras amarelas. Ciprestes formavam grupos em sentinela,
escuros e vigilantes, suas lanças sem tremores. Nas encostas mais
baixas das montanhas, frescas e luxuriantes, o gado pastava e pequenas
nascentes surgiam da terra, borbulhando como o mercurio. Crianças
guardavam, preguiçosamente, aquele gado. Um bando de gansos comia
o grão espalhado e seus componentes brigavam entre si. Aqui e ali
Uma casa baixa aparecia dentro de seus recortes verdes de chão, cir-
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cundada por vinhas e flores. Mulheres ficavam, à porta, sentadas nos
degraus, e levantavam a cabeça para ver o grupo de viajantes com o seu
estrépito. Alguns cães ladravam. A manhã era nova e os pássaros
estavam silenciosos, no calor.
Lucano estava em paz naquela pacífica região rural, o mar à
direita, a montanha à esquerda. Ia sentado na biga de Plócio, os
homens montados cavalgavam na frente, levando os fasces, as águias e
os estandartes de Roma, suas espadas largas à cinta, os elmos reluzindo
ao sol. Plócio começou a cantar cantigas libertinas de soldados.
Pôncio Pilatos ia em sua própria biga, esculpida em bronze,
palidamente silencioso, a cabeça baixa, como que pensando. Um
escravo mantinha-se de pé, ao lado dele, segurando um pára-sol de
seda purpurina. Camponeses descalços, vestidos com roupas
suarentas, em preto, laranja-escuro ou azul-escuro, caminhavam ao
longo da estrada, levando cestas de frutas na cabeça, ou legumes em
outras cestas que carregavam nos braços. Moviam-se para um lado,
silenciosamente, para deixar passar o grupo importante, e ficavam a
olhá-lo, depois, com olhos violentos e ressentidos. Um homem ia
espicaçando um burro obstinado, que seguia as bigas com zurros
escarnecedores, como uma fieira de rudes blasfêmias. E o camponês
sorria, sombriamente.
Espalhadas aqui e ali, estavam as fortalezas de pedra de Roma,
nos telhados das quais havia soldados que faziam sua saudação.
Estandartes pendiam, sonolentamente, no ar quieto e ardente. Um odor
forte erguia-se dos pinheiros que os camponeses sangravam para obter
resina. Moças fofocavam junto aos poços onde enchiam suas jarras. E
aqueles homens olhavam para as bigas e para os cavalheiros com olhos
sombrios, de repúdio, as dobras de seus turbantes cheias de poeira
iridescente, seus pés morenos descalços e flexíveis. Então, pensou
Lucano, isto não é tão pacífico quanto eu pensava. O povo odeia os
romanos, essa gente simples da terra, ao contrário de seus irmãos mais
sofisticados das cidades, que fazem negócios com o inimigo, e riem e
bebem com ele. O grupo parou para comprar figos e tâmaras de um
camponês, que, silenciosamente, vendeu-os em grandes folhas verdes,
e para beber água de uma nascente fresca e esticar o corpo. Mais tarde,
os viajantes sentaram-se num arejado bosque de pinheiros para comer
excelente carne fria de aves, de vaca, azeitonas, romãs, língua de
cordeiro em conserva e beber vinho.
- Eu detesto viajar queixava-se Pôncio Pilatos, limpando
cuidadosamente as mãos num guardanapo branco, de linho. - E,
principalmente, nesta terra estrangeira. O vinho é odioso.
Mas o vinho parecia doce, melífluo e suave aos lábios de Lucano.
O rosto de Pilatos mostrava-se avermelhado e ele suspirava. Disse a
Lucano, com um olhar afetuoso:
- Dormi como uma criança, graças a ti, meu querido Lucano, e
embora às vezes meus pensamentos sejam pesados, já não me sinto
deprimido. Mandei a César o anel que te deu, e ele devolverá a ti por
um mensageiro.
Continuaram seu caminho. As montanhas ferviam com o calor.
Passaram por aldeolas de casas feitas de barro amarelo, protegidas por
moitas de ciprestes escuros. A terra dançava, em ondulações quentes,
e o mar faiscava como fogo azul. Aqui e ali as montanhas tomavam
curioso aspecto quadrado, sulfuroso e áspero. Paredes brancas, ao
longo da estrada, derramavam para fora flores arroxeadas ou cor-de-
rosa. Em certo momento ouviram o trovejar brando de uma catarata
estreita, numa encosta de montanha. Pequenos vales, de um verde
vívido, metiam-se como dedos entre as elevações dos montes.
Aqui, ao longo desta estrada, indo para Jerusalém, vindo de sua
terra, Ele deve ter caminhadomuitas vezes, pensava Lucano. Ele conheceu
esta poeira, estas aldeolas, onde parara para se refrescar, estes
ciprestes, estas flores, estes pequeninos prados. Terá Ele sentado
naquela pedra que ali está, falando com seus cansados seguidores? Terá
Ele levantado a mão para um cacho de tâmaras, naquele grupo de
tamareiras que ali está? Terá Ele comido um punhado dessas pequenas
azeitonas pretas, pingando salmoura? Terá sorrido a 'stes carneiros?
Terá fixado os olhos neste mar cintilante? Terá apreciado o sabor de uma
romã vermelha? Há um poço ali, como um espelho azul. Terá Ele banhado
naquela água Seus pés cansados? E que terá Ele dito, em sua delicadeza,
àquelas moças que estão junto da cisterna? E que pensou Ele das
fortalezas redondas ou quadradas de Roma, levantadas no chão de Seu
país? Deve ter olhado para os estandartes e para os soldados, pensativo.
O ar é aqui tão luminoso e cheio de silêncio, terá Ele ouvido o ruído
dos cascos dos cavalos romanos e das rodas das bigas romanas, como eu o
ouço agora? Lucano sentia-se cheio de humildade e respeitoso temor.
Fizeram a volta a um flanco de montanha que avançava, e uma
planície rasa, onde rebrilhavam papoulas vermelhas ficou à direita
deles, mostrando igualmente estranhas flores amarelas, todas ardentes
sob o sol. E havia um campo de trigo, ouro puro, levemente recurvo,
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com ceifeiros ao trabalho, gritando uns para os outros em rústico
aramaico. Pararam em sua tarefa durante alguns momentos, para ver o
grupo passar, ruidosamente. E seu silêncio era agoureiro. O céu
flamejante arqueava-se sobre as montanhas e a luz refazia-se terrível
sobre as colinas bronzeadas. Pilatos aprovaria sua nudez evidente, pois
não precisavam os romanos dos seus ciprestes para os navios que
construíam? O fato de com aquilo fazerem desoladas as colinas não era
importante.
Então, ouviram o que lhes pareceu o mais doloroso lamento ou
cântico:
- "O Senhor é o meu pastor!" gritavam vozes rudes, em
hebraico. - "Nada me faltará. Ele me faz repousar em pastos
verdejantes. Leva-me para junto de águas, de descanso...!"
Ali, a terra era ressecada e fiável e no ar rodopiava a poeira. As
montanhas despidas, que iam escurecendo lentamente, levavam a
pequena distância suas cabeças sombrias.
- Um funeral judaico disse Plócio, apontando para a direita,
com seu chicote.
- Vamos ver pediu Lucano, e Plócio fez parar sua biga
imediatamente, pois nada podia negar a Lucano, nem mesmo aquela
tolice. Os cavaleiros retardaram o ritmo de sua marcha, depois frearam os
animais e esperaram, tomados de curiosidade. A biga de Põncio Pilatos
emparelhou-se com a de Plócio, e ele disse:
- Que aconteceu?
- É um funeral judaico respondeu Plócio. - Lucano
desejava observar.
As sobrancelhas de Pilatos juntaram-se, incrédulas.
Homens barbudos e fatigados, vestidos de preto e cobertos de
pó, levavam um ataúde preto, e mulheres, vestidas com roupas de
cor cinza, seguiam-nos, chorando. Um deles ia ao lado, cantando O
Salmo de Davi, um gorro preto na cabeça, as mãos postas, os olhos
levantados para o céu. A cena, naquele lugar poeirento e seco,
naquele pobre cemitério e naquele silêncio ardente, era infinitamente
dolorosa. Os carpidores não tinham notado que os romanos se haviam
detido para observá-los. Estendiam-se sobre a terra crestada, em
fileira patética.
O cantor exclamava:
- "Ele refrigera minha alma! Guia-me pelas veredas da justiça
por amor de Seu nome! Ainda que eu ande pelo vale da sombra da
morte, não temerei mal algum, porque Tu estás comigo, e Tua vara e
Teu cajado dão-me coragem!"
Outros homens reuniam-se a ele, em voz mais fraca; os que
levavam o ataúde curvavam-se sob o peso dele, pois eram velhos. As
mulheres ergueram vozes agudas e desesperadas, em desgosto, e seguiam
os homens batendo no peito. E então Lucano viu que havia um outro
homem separado do cortejo, um jovem que não olhava para o céu e
sim para o chão, e que não juntava sua voz às vozes dos cantores. Seu
rosto estava terrivelmente pétreo. Parecia inconsciente de todas as
coisas. Os poucos que estavam presentes não olhavam para ele, a não ser
o cantor, o rabi, que relanceava para o jovem olhares de censura e
elevava ainda mais sua voz.
"Bondade e misericórdia com certeza me seguirão por todos
os dias da minha vida!"
O jovem sobressaltou-se, olhou em torno de si alucinadamente, e
levou as mãos ao rosto. Um grito horrível escapou de seus lábios,
súbito e agudo, depois ele tornou a ficar imóvel.
Lucano não saberia dizer por que desceu da biga e ficou de pé no
chão e por que começou a caminhar em direção ao grupo que realizava
o funeral.
- Que acontece com ele? perguntou Pilatos, com certa
petulância. Os soldados montados, reunidos em grupo, observavam Lucano,
os olhos fixos nele.
O rabi cantor agora murmurava preces e então viu Lucano que se
aproximava, vestido com sua leve túnica branca bordada, debruada de
ouro, e com o rosto severamente belo, a cabeça amarela. O velho rabi
pestanejou, olhando confuso para ele; seus olhos orlados de vermelho
estavam injetados pela poeira e pela dor. Então, um ar de fria afronta
passou sobre seu rosto moreno e ele viu os outros na estrada, os
odiados e arrogantes romanos com seus fasces coroados de águias, suas
bigas ricas, seus belos cavalos, seus elmos, suas espadas e seus
estandartes.
- Precisas ser aqui um intruso? perguntou o rabi a Lucano.
As feições contorciam-se desesperadamente. Exclamou: - Deixa-nos,
vós, romanos, vós, adoradores dos maus espíritos! Vós poluís este
lugar onde nossos mortos sagrados dormem sob a terra!
Lucano ergueu a mão e disse, muito delicadamente, em aramaico:
- A paz seja contigo, rabi.
Ouvindo aquela saudação judaica, o rabi ficou silencioso. Olhou
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bem para o rosto de Lucano e só viu ali amor, bondade e simpatia
para com seu sofrimento. Seria aquele homem também um judeu,
tocado no coração por aquele pequeno funeral de pobres? Os olhos
do rabi encheram-se de lágrimas. Olhou para os que conduziam o
ataúde, que tinham parado junto da sepultura recém-aberta na terra
ocre.
- A paz seja também contigo disse em voz trêmula o rabi.
Depois, murmurou: - É minha filha, minha única filha, que
morreu. Minha pequenina, o cordeirinho da minha velhice e tão bela.
Morreu esta manhã, de parto, e ali está o marido dela, que não se quer
conformar e que maldiz Deus em seu coração.
Lucano olhou para o jovem marido, tão abalado, tão silencioso,
com as mãos sobre o rosto. Estava de pé, sob a luz cegante, vestido de
preto, alto e esbelto, e tão só como apenas aqueles que solrem a morte
do amor podem estar sós.
- Ele está desolado, rabi disse Lucano, que pensou em
Rúbria.
O rabi bateu no peito e as lágrimas rolaram pelo rosto sulcado de
rugas.
- E não estou eu desolado, senhor, eu, o pai, um viúvo, que
não tem senão um neto fraquinho? Ainda assim, louvo a Deus e
inclino-me diante de Sua vontade, e sei que Ele dá e que Ele tira. Mas
para o marido de Rebeca há esperança, pois é jovem e tem seus pais, e
se casará de novo, apesar de seus juramentos, de seus gritos de ódio
contra Deus e de todo o seu desespero.
Lucano, porém, não acreditava naquilo, pois na atitude do
enlutado esposo ele via agonia ilimitada. Hesitou. Depois, lentamente,
aproximou-se do jovem e pôs a mão no ombro dele. O moço não se
moveu, mas murmurou, incoerentemente:
- Oh! Se ao menos Ele estivesse aqui, Ele que parou para
falar conosco e que fazia erguer os mortos! Ele chamaria minha esposa, e
ela se levantaria e voltaria para os meus braços!
Lucano olhou em derredor, na luz ofuscante. Os que carregavam
o ataúde o tinham colocado à beira da sepultura, e esperavam. Todos
eles fixavam agora o rabi, Lucano e o esposo, na estonteada
imobilidade da dor.
Lucano disse ao jovem marido:
- Ele não está morto, mas vivo. Ele não é surdo, mas ouve.
Ele
não se foi, mas está entre nós.
Sua cabeça começou a girar, no calor e na luz, mas um
arrebatamento vagaroso se ia desdobrando em seu coração.
- Vamos até a sepultura disse, tomando o braço do esposo.
o jovem resistia, como se fosse de pedra.
Eu te disse falou o rabi que ele não se quer conformar,
e não se curva à vontade de Deus. - E o velho chorava alto. -
Conforma-te, Davi!
- Tem esperança, Davi! disse Lucano, e de novo puxou o
braço do marido. Davi deixou cair as mãos e voltou para Lucano um
rosto seco como a própria poeira, abatido e pálido, ainda assim
bonito. Seus olhos reluziam como fogo.
- Esperança! gritou, com voz horrenda. - Eu não amava
senão minha esposa, e éramos como crianças, juntos, e agora ela nada
mais é senão barro e seu espírito fúgiu para longe de mim!
Lucano estava tremendo, e não sabia por quê. Tudo pareceu
expandir-se e contrair-se diante dele, e todas as coisas tinham uma aura
cristalina a seus olhos, e havia nele uma ordem, como uma grande voz
immperiosa.
- Vamos até a sepultura repetiu.
Os lábios mordidos de Davi tremiam, seus olhos fixavam-se,
vazios de expressão, no rosto de Lucano. E agora não resistia. Caminhava
ao lado do grego, a cabeça baixa. Os outros observavam-nos vir,
seguidos pelo rabi, que rezava. Então, pararam ao lado da sepultura e do
ataúde.
Lucano estava silencioso. Fixou os olhos no ataúde e sentiu subir
em si um tumulto, e a ordem mais alta, a tal ponto que seus ouvidos
nada mais distinguiam a não ser ela. Então, disse:
- Abri o ataúde, para que eu possa ver a moça.
Os Outros ficaram imóveis, absolutamente imóveis, como estátuas
brancas e cinzentas, e olharam para Lucano com olhos desvairados e
úmidos.
A voz de Lucano ergueu-se, fortemente:
- Abre o ataúde, quero ver a moça!
As lágrimas correram, de repente, pelas faces de Davi.
Encostou-se ao ombro de Lucano, e disse, em voz rouca:
- Vós o ouvistes. Eu sou o marido dela. Abri o ataúde. Eu Lhe
verei o rosto pela última vez.
Os homens barbudos olharam, desalentados, para o rabi, cujos
Velhos lábios contorciam-se. Então ele disse, com voz fraca:
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- Ele é o marido, eu sou apenas o pai. Abri o ataúde, pois antes
ele não lhe queria ver o rosto.
Eles abriram o ataúde, forçando sua tampa frágil, coberta de
preto. Os pregos guincharam, em protesto. Mas a tampa abriu-se. Lucano
inclinou-se para o ataúde e viu, nas profundezas de sua madeira nova,
uma jovem, que não teria mais de quinze anos, jazendo, amortalhada,
as mãos cruzadas sobre o peito. Lucano ergueu o pano de sobre seu
rosto e um odor de ervas e óleos fragrantes ergueu-se no ar aquecido.
Davi tombou de joelhos, soluçando alto, e agarrou o lado do ataúde,
olhando para a esposa morta.
A moça era muito bonita. O rosto mostrava-se distante e sereno
como se ela dormisse. Tinha a carne pálida e translúcida como
alabastro. O cabelo preto derramava-se em torno dela como um
manto. e os lábios inocentes sorriam de leve. Era impossível acreditar
que estivesse morta. Lucano ficou pensativo. Os judeus enterravam seus
mortos antes do pôr-do-sol, no dia em que morriam. Curvou-se ainda
mais para o ataúde; o seio jovem não tinha respiração, os lábios eram
frios e imóveis, as narinas estavam rígidas. O médico sentiu em si um
imenso tremor. Seria possível que aquela moça não eçtivesse morta,
mas apenas em estado de catalepsia? Seus olhos de médico estudaram
ansiosamente as feições calmas.
Levou a mão ao rosto suave e branco. Estava gelado como o
alabastro, mas não rígido. A verdade é que ela morrera naquela mesma
manhã e o calor do dia retardara a rigidez. A voz imperiosa soava cada
vez mais alto dentro dele. e agora Lucano ouvia as palavras: "Toma
essa mulher pela mão e levantava-a!"
- Sim, Senhor disse ele, em voz alta. Tomou a mão da moça,
gelada demais naquele calor feroz. Lucano tornou a hesitar. Então,
segurando a mãozinha flácida, sentiu o escoamento de forças, a fraqueza
familiar que se apoderava dele, como se as energias lhe abandonassem o
corpo. Como que de uma imensa distância ele ouvia os gemidos de Davi e o
pranto das mulheres. Porque algum poder se estava concentrando nele. E
esse poder mantinha apartados o mundo e tudo quanto nele havia.
Lucano disse:
- Acorda, Rebeca. pois não estás morta, apenas adormecida!
Diante dessas palavras protundas e misteriosas, os outros
cessaram de chorar e Davi, ajoelhado junto do ataúde, deixou tombar as mãoS
dos lados do corpo e olhou para Lucano. Uma enorme radiosidade
brilhava no rosto dele.
A mão que estava imóvel na de Lucano ia aquecendo-se
rapidamente. As narinas dilataram-se, os lábios moveram-se. Os seios jovens
ergueram-se, num hausto profundo. Os olhos dela abriram-se,
escuros e úmidos, fixando-se confusos, em Lucano. O médico sorriu-lhe
carinhosamente, puxando-a pela mão, fazendo-a erguer-se em seu
ataúde, e ela sentou-se, atirando o cabelo para trás, como uma pessoa
que fosse acordada em meio de seus sonhos.
Vendo aquilo, os enlutados ergueram a voz, num grito de pavor; e
recuaram. Mas o rabi e Davi permaneceram junto do ataúde, sem voz,
o velho curvando-se como um junco sobre sua filha. Foi só Davi que
se atirou aos pés de Lucano e apertou a fronte contra ele, cobrindo-o
de lágrimas e beijos.
O rabi desatou num hino arrebatado, de mãos postas, erguendo o
rosto barbudo para o céu.
- Ela estava morta e Tu a ressuscitaste! Ó Rei dos Reis! Ó
Senhor do Universo! Louvado seja o Nome do Senhor!
Lucano curvou-se e ergueu Davi, pondo-o de pé, e o jovem
agarrou-se a ele.
- Ele mandou-te para nós exclamava. - Oh!
bem-aventurados somos porque tu nos visitaste, em Seu Nome!
- Louva a Deus, porque Ele fez isto e não eu falou Lucano.
- Porque Ele é a Ressurreição e a Vida.
Voltou-se, sorrindo, arrebatado de alegria, mas fraco em todo seu
Corpo. Só olhou para trás uma vez. As mulheres estavam ajudando a
moça a sair de seu ataúde e o marido beijava-lhe as mãos. O velho
rezava. Agora, o ar atroava com exclamações confusas de regozijo.
Os homens do grupo de viajantes tudo tinham visto, e observavam
Lucano aproximar-se com terror em seus rostos. Ele sorriu-lhes,
tranqüilizando-os.
- A moça não estava morta. Dormia, apenas disse, subindo
de novo para a biga. E se foram eles, com o ruído das patas dos
animais e das rodas dos carros mas em silencio.
Então, Pilatos, inclinando-se de sua biga, disse a Lucano, e havia
uma nota aguda e trêmula em sua voz altaneira:
- Os judeus enterram seus mortos antes do pôr-do-sol. Ela não
estava morta, então?
Era como se fizesse uma súplica.
- Ela não estava morta disse Lucano. Plócio, porém,
olhou-o
longamente, e seu rosto de soldado mostrava-se profundamente emo-
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cionado e reverente. Lucano tombou adormecido, de súbito, como
alguém que estivesse esmagadoramente exausto.
Lucano acordou quando foi feita a muda de cavalos. O ar da tarde
refrescara, e Plócio o cobrira com seu próprio manto áspero de
soldado. Para a direita, o mar era uma planície imensa e resplandecente de
luz, brilhante demais para que nela se pousassem os olhos, e
descolorida. O céu se fizera um arco côncavo e o colorido cerúleo queimara-se
e desaparecera, tomando a pureza de uma chama branca. A região
se modificara; contra os céus pálidos e ardentes erguiam-se montanhas
vazias, de coloração quase preta, feitas de dobras e dobras de pedra.
Cactos altos orlavam a estrada, apresentando frutos escuros e
espinhentos, e os emaranhados cardos, cobertos de poeira, como sebes
mortas, espalhavam-se sobre campos sombrios, tão sem vida como os
campos da morte. Mesmo os ciprestes tinham desaparecido e não
havia oliveira ou palmeira que redimisse a terra ou as montanhas. Aqui e
ali, as montanhas mais escalvadas mostravam projeções de pedras
esbranquiçadas e rompidas. Casas de telhados rasos, da cor da terra
ressecada, erguiam-se no silêncio e no abandono.
As estradas, porém, viam-se cheias de pessoas ruidosas, montadas
em camelos ou burros, a caminho de Jerusalem. Levantavam-se ecos de
todos os lados. O grupo de viajantes desviou-se do mar e apressou O
passo, com os novos cavalos. Lucano olhava para a desolação provocada
pelos romanos com a retirada dos ciprestes e pensou que ali a própria
terra fora amaldiçoada. Mesmo os tanques ocasionais de água salobra,
onde as cabras bebiam, pareciam sem vida e cor de chumbo. Aquele era
o progresso de que Pôncio Pilatos falara, aquela selvagem devastação,
aquela solidão, aquele deserto invasor. Onde os homens caminhavam,
ávidos e rapaces, a morte se seguia e a terra se crestava.
- Uma região medonha disse Pôncio Pilatos. E Lucano
respondeu:
- Não era medonha enquanto o homem aqui não chegou.
Fealdade segue sempre o passo do homem, que deforma tudo quanto vê
Ou toca.
Pilatos franziu as sobrancelhas, diante daquela resposta áspera.
Depois disse:
- Não encontrarás em Jerusalém nenhum encanto e vais achá-la
peculiar. Lamento que não venhas ficar comigo, em minha casa.
Disseste que vais ser hóspede de Hilell ben Hamram, que espera por ti.
Meu querido Lucano! Os judeus sabem contar as histórias mais
estranhas! Tu te banharás em misticismo.
Lucano respondeu:
- Tenho estado a cogitar no porquê de Deus ter escolhido o
pOVO judeu para nele nascer, em vez dos gregos, com sua cultura, ou
dos romanos, com seu poder. Mas agora eu sei.
Estremeceu, sob o manto que Plócio colocara por cima dele, e
dormiu de novo, pois sua exaustão era enorme. Mas, enquanto
dormia, sua mente estava movimentada e triste. Pensava nos dois mil
judeus da Síria, que o legado Varo mandara crucificar por pregarem
rebelião contra Roma. Pensava nos terrenos de execução, perto de
Cesaréia, onde os judeus eram frequentemente crucificados, "por
incitação contra o Império". Pensou nas miríades, nos incontáveis
crimes que o homem cometia contra o homem, através dos tempos, e nos
gemidos que incessantemente chegavam aos ouvidos de Deus, e
perguntava a si mesmo, em sua sonolência, por que Deus não destruía
esta raça humana de devastadores, aquele horror que estava sobre a
terra brilhante, aquele inimigo de seu irmão e inimigo de todas as
coisas inocentes, aquele pária do qual os animais sem pecado fugiam
apavorados, cheios de medo e horror, aquele arrasador de cidades e de
civilizações, aquele saqueador, fazedor de guerras e o mais vil dos
criminosos, aquele hipócrita e mentiroso, aquele assassino e traidor, aquele
inquieto espírito mau que caminhava, como Lúcifer, para baixo e para
Cima, na terra, vendo o que poderia destruir. Mas também eu não
tenho mérito, pensou Lucano, pois houve um tempo em que pensava
ser o homem o injustiçado e não o pecador.
Abriu os olhos. A biga na qual viajava ia subindo um monte
pedregoso, de um tom negro-azulado. Ali parou, e Plócio apontou com
o chicote.
- Jerusalém disse ele.
Ali estava Jerusalém, no Monte Sião, para o ocidente, a sombra da
terra, naquele entardecer, um azul vago e empoeirado contra o
horizonte que se avermelhava, curvando-se sobre a cidade. Em derredor
do Monte Sião erguiam-se outros montes de um tom castanho-
esbranquiçado, recortados em pedra ou cobertos de estreitos terraços
que pareciam degraus caprichosos nos quais cresciam ciprestes, louro,
oliveira, palmeira, vinhedos, romãzeiras e alfarrobeiras, e árvores
amarelas, verdes, ou cor de ameixa, por causa das frutas. Alta em seu
MOnte próprio, Jerusalém parecia fazer parte dele, uma parte de tom
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castanho-pálido, que dava a impressão de ter sido convulsivamente
expulsa da terra, e não feita pelo homem. Os muros tortuosos e cheios
de seteiras, recortados e assustadores, torciam-se protetoramente em
derredor da cidade, seus portões e torres guardados, os estandartes de
Roma flutuando nas alturas maiores. Ladeiras de um tom castanho-
acinzentado subiam até os muros, fervilhantes de poeira. Caravanas já
tinham acampado, para passar a noite; abaixo dos muros, fogueiras já
estavam acesas e havia movimento inquieto de lanternas por ali.
Ninguém podia entrar na cidade depois do pôr-do-sol. Os que eram
apanhados pela noite armavam suas tendas, fervilhavam em torno de suas
pequenas aldeias provisórias, cuidavam de seus cavalos e camelos, e
esperavam pela manhã. As portas estavam fechadas e os caminhos
alcantilados, bem como as escadarias, encaminhando-se para os muros,
mostravam-se desertos.
Enquanto Lucano observava, a noite rápida começou a inundar a
cidade e as montanhas circundantes, como agua escura, e o relampejar
vermelho das tochas saltou dentro dos muros, e as lanternas brilharam
em seu interior. Uma lua cúprica ergueu-se sobre um monte daquela
mesma cor, e Marte parecia um topázio junto dela. As cores deixaram
as montanhas que ainda eram férteis e estavam plantadas e o cenário
todo ficou de um castanho-amarelado puro, sob o céu que se ia
fazendo púrpura acima de um lago de desolado fogo carmesim. Lucano
pensou que jamais vira paisagem tão desprovida, tão contida, tão
sombria, tão sem vida, a não ser pelas fogueiras, tochas e lanternas. Um
vento frio da montanha, que não trazia odores nem fragrância, tocou-lhe
o rosto. Habituado às cidades que acordavam à noite e ressoavam
de vozes altas e risos, Lucano percebeu o silêncio pesar sobre aquela
cidade, como se ela tivesse engolido todos os ecos e clamores. Daquela
altura, podia ver sobre os muros e observar as ruas estreitas e tortuosas
a que as tochas conferiam sombras avermelhadas, e que se mostravam
cheias de uma turba sem voz. E ali, alto e impressionante, estava O
Templo de mármore amarelo, silencioso, com suas torres douradas,
rodeado de jardins imóveis e çercado além dos jardins por uma
infinidade de casas de telhados planos, todas construídas com as
tonalidades impregnantes de castanho-amarelado, que se repetiam na terra e
nas próprias montanhas. Apenas ocasionalmente alguns maciços de
ciprestes negros apareciam na cidade aglomerados como para proteger.
- Compara isto com Cesaréia, que construímos disse Pôncio
Pilatos, em voz fria e enojada. Lucano, porém, compreendia que a
cidade se havia recolhido em si própria a fim de se proteger contra o
conquistador, e que se muitas de suas Colinas estavam mortas, os
romanos é que tinham feito aquela coisa maldosa e ávida. A antiga
cidade repudiara seus senhores e seu ar pensativo era o do desespero.
O grupo dos viajantes movimentou-se pela montanha rapidamente,
os legionários cavalgando à frente, com seus estandartes e seus fasces.
A acritude da poeira dos tempos estava nas narinas de Lucano.
Brechas de luz faziam brilhantes as ameias dos muros, que agora se
levantavam diante deles. As bigas e cavalos passaram rudeniente através dos
acampamentos, e ao clarão das tochas que ficavam perto das tendas era
possível apanhar a súbita brancura furiosa de olhos taciturnos e
observadores. Burros, cavalos e camelos desviavam-se para lhes ceder
lugar, gritando e protestando. Crianças reuniam-se em grupos para
observar-lhes a passagem. Agora, das montarihas cheias de ecos, vinha
o uivo dos chacais, fantástico e sobrenatural. A lua era um crânio
amarelo no céu escuro.
Os cavaleiros e as bigas tiveram alguma dificuldade na subida da
colina que levava à cidade, e pequenas pedras escorregavam atrás deles.
Um portão se estava abrindo e uma corneta romana soou sua
saudação, acordando ecos agudos e saltitantes. Entraram na cidade
através de fileiras de soldados que os saudavam. E então estavam nas ruas
estreitas e empoeiradas, cujas lojas se viam fechadas e cujos moradores
mostravam-se silenciosos. Eles se foram, com estrépito, sobre as pedras
lisas e pretas. Grupos de famílias apareceram nos telhados planos
e viraram o rosto aos romanos. A luz das lâmpadas, portais
resplandeciam, dourados, contra a escuridão pegajosa, e as janelas
empalideciam. Era uma cidade sitiada, silenciosamente raivosa, orgulhosa em sua
poeira. Para Lucano, habituado ao colorido Oriente, Jerusalém não
parecia oriental, pois não tinha alegria, riso, música, pés apressados e
vozes jubilosas. Teve a impressão de que o tempo se havia instalado
ali, como uma sepultura de pedra, e não poderia jamais ser retirado. E
as tochas metidas em seus soquetes antes diminuíam do que
aumentavam a vida confinada da cidade. As sombras vermelhas moviam-se
nas paredes como as sombras de uma conflagração que queimasse
nas habitações dos mortos.
- Durante o dia há mais vida aqui disse Plócio, como que
surpreendendo os pensamentos de Lucano. - Os judeus não folgam
durante a noite; são um povo sombrio.
Viraram numa rua mais larga, cheia de tochas iluminadas e de
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luar cor de limão, guardada por paredes mais altas. Agora, Lucano
podia sentir a fragrância dos jardins e a frescura das fontes, podia
ouvir vozes ocasionais e, uma vez ou outra, o som de um alaúde ou de
uma lira arpejando timidamente contra a quietude da noite. Ali
moravam os administradores romanos e os judeus ricos que colaboravam
com os romanos, e tomavam alguns dos costumes romanos para seu
uso. Os viajantes pararam num portão, e Plócio disse:
- Hilell ben Hamram, teu hospedeiro, mora aqui! Nós vamos
seguir como o nobre Pôncio Pilatos para sua casa.
Um portão preto, de ferro, abriu-se e Hilell apareceu, sorridente
e bonito, em suas vestes brancas.
- Saudações, àmigo, falou ele. - Eu vos esperava mais cedo.
- Lucano teve de parar para ver um funeral judeu disse
Pilatos, secamente. - Felizmente pôde evitar que uma mulher fosse
enterrada viva. Como vós, judeus, tendes pressa de vos livrar de vossos
mortos, antes do pôr-do-sol! ... Eu muitas vezes penso nos muitos
infelizes que acordam na terra, e penso em seu terror antes que morram,
sufocados na escuridão.
O rosto de Hilell modificou-se sutilmente, àquele insulto, mas ele
continuou a sorrir. Lançou um olhar afetuoso a Plócio e convidou
todos para tomar vinho. Pilatos, porém, disse estar cansado, e movia-se
inquieto em sua biga. Hilell estendeu a mão a Lucano e ajudou-o a
descer. Seu aperto era quente e cheio de advertências, pois percebera
a cólera no grego. Plócio deu um sorriso alegre para Hilell e o saudou,
pondo-se o grupo em movimento. Ainda segurando a mão de Lucano,
Hilell conduziu-o a um grande jardim, cheio de fontes e da fragrâncía
dos jasmineiros e das flores que desabrochavam pela noite. A grande
casa de mármore no meio do jardim refletia o luar, como ouro. Lucano
suspirou de prazer, consciente de seu cansaço. Agora, era Arieh ben
Eleazar quem descia correndo os degraus de mármore, em direção a
eles, estendendo as mãos e gritando o nome de Lucano. Encantados,
abraçaram-se.
Os dois jovens levaram Lucano para um grande salão, e o médico
olhou em derredor, com interesse. Hilell era um cosmopolita; as
paredes de mármore, de murtas cores, tinham sobre elas as mais finas e
coloridas tapeçarias, brocados, sedas, tecidos constelados de pedras
preciosas, reluzindo e faiscando à luz de muitas lâmpadas altas e
candelabros de bronze coríntio, instalados em mesas esculpidas de
mármore, ébano e limoeiro. Grandes vasos persas e vasos vindos de Cataio
erguiam-se ao longo das paredes e nos cantos, e deles levantavam-se
altos e odorosos lírios, rosas, galhos de jasmins e lustrosas folhas de
um verde profundo. Exóticas gelósias orientais decoravam as janelas,
incrustadas em ouro, prata e marfim, e deixavam passar o frescor
perfumado dos jardins. Cadeiras cobertas com brocados e sedas tingidas
mantinham-se em torno de pequenos tapetes persas. Lucano entrara
em muitas belas casas, antes, mas achou que aquela era a mais
repousante. Não via estátuas em parte alguma. No centro do vasto
salão uma fonte prateada jorrava água numa bacia redonda, e enchia o
ar de perfume. Os três homens sentaram-se em um macio divã romano,
cor de romã, e um servo lhes trouxe vinho romano, um prato de
tâmaras e figos rolados em nozes, e outros doces delicados.
Lucano, fatigado, estendeu os ombros com prazer. Seus amigos
olhavam para ele, afetuosamente. Arieh disse:
- Minha casa, que era de meu pai, é mais humilde do que esta,
mas dentro de alguns dias deves também ser meu hóspede. - Sua
mão ainda segurava a de Lucano, como faz um filho.
- Não estou aqui para tagarelar disse Lucano. Mas sorria. -
Deves lembrar-te de que já não sou jovem, e que ainda tenho muito
que aprender e fazer. - Hilell o observava preocupado. - Outrora
continuou Lucano eu não tinha esperança. O mundo era
inteiramente corrupto e sem Deus. Vivia na amargura e no desespero. Como
me disse meu irmão Prisco, porém, a Revelação foi dada ao homem
por Deus, e jamais o mundo tornará a ser o mesmo. Esperança e júbilo
foram outorgados ao mundo, uma era nova iniciou-se, cheia de
grandes acontecimentos. Eu fui chamado para ajudar essa era em seu
desenvolvimento e levar as boas novas a todos que encontrar.
Hilell hesitava:
- Estive em Jopa, vi Pedro, um dos apóstolos de Cristo, o mais
destacado entre eles. É homem de seus trinta e quatro anos,
impetuoso e impaciente, de certa forma dogmático. Sua maneira de falar é
rude e direta. Deves lembrar-te de que ele não teve, ou teve pouco
contato com os gentios. É um pescador da Galiléia, homem do campo.
Judeu muito devoto, de poucas luzes sobre o mundo. Apesar disso,
impressiona e é cheio de ardor. Está escondido numa pequena casa de
Jopa e passa o tempo no telhado, olhando para o mar e rezando.
Hilell tornou a hesitar, depois riu, um pouquinho:
- Quando cheguei, ele não me olhou com bondade. Durante
muitos dias recusou ver-me, desconfiado. Depois censurou-me, em
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seu idioma galileu. Eu era um judeu corrupto, foi o que me disse em
pleno rosto. Tinha relações familiares com gregos e romanos e Outros
povos abomináveis. Que achava eu dos Livros Sagrados? Era evidente,
declarou, olhando escarnecedoramente para as minhas roupas, que
eu vivia para o prazer, e que era muito possível serem os Mandamentos
apenas palavras para mim. Eu era homem de fortuna; como me seria
possível compreender os pobres e os humildes? O Senhor não viera
morrer pelas pessoas como eu. Sua mensagem seria incompreensível
para mim. Apesar disso, depois que eu o deixei dizer tudo quanto de
repreensivo e desdenhoso quis, ouviu minha história, embora não
deixasse de reparar nos meus anéis e nas minhas sandálias de prata.
Amaciou, finalmente, e recordou-se de mim como do rico que falara
ao Senhor. Então, começou a chorar, e disse: "Por que te estou
censurando, eu que O neguei três vezes e fugi quando O levaram e O
crucificaram?"
Hilell serviu mais vinho a Lucano.
- Depois, em tons vacilantes continuou: "Quando Ele voltou,
para nós, e esteve conosco, disse-nos que devíamos dar as boas notícias
a todas as nações. Confesso que fiquei horrorizado. Somos poucos
e somos judeus, não temos amigos nem dinheiro. Fomos banidos pelo
procurador romano. Que podem os gentios compreender sobre Ele, e
que lhes podemos dizer? Não os conhecemos, Para nós eles têm sido
abominações. A Lei diz que devemos ficar de parte e não nos deixar
corromper pelos gentios. Os não-circuncisos estão fora da Lei, são
imundos, e seus hábitos não são os nossos. Fracos e sem poder, devemos
ir entre os estrangeiros, com seus ídolos e seus deuses vis e seus
costumes indizíveis! Devemos falar-lhes de nosso Messias, que
acreditamos ter vindo só para este povo. Vim a Jopa não só para me esconder
da cólera dos romanos, que nos declarou insurretos, mas para rezar e
tentar compreender. Todas as noites fico neste telhado, pensando. E
então tenho visões. Devo fazer conforme Ele ordenou, mas ainda há
uma náusea em meu coração e eu me encolho diante dos gentios e de
todos os seus trabalhos, crueldades e abominações."
Hilell sorria, divertido:
- Embora jamais eu tenha olhado os gentios com o ódio e o
terror daquele homem humilde e enfático, compreendi. Falei de ti.
Disse-lhe que tinhas vindo para falar com ele. És um grego, um
pagão! Adoraste falsos deuses, falas língua estranha e não és circunciso.
Então ele recomeçou a chorar, e censurava-se, confessando estar de
novo cometendo o pecado de orgulho e rejeição. Consentiu em ver-te.
Antes que eu o deixasse, batizou-me. Não é o mais amável dos
homens, e hás de encontrá-lo rude e mesmo insultuoso, com a língua
áspera de um homem do campo.
"Encontrei também mais dois apóstolos, Tiago e João, irmãos,
filhos de um tal Zebedeu, também galileus. São chamados os
Boanerges, filhos do trovão, e isso os descreve exatamente. Vivem fora
de muros. A Mãe de Cristo mora com eles, como sua mãe, pois assim
Deus ordenou. São muito jovens e possuem uma espécie de violenta e
fanática dedicação. Há neles, mesmo, uma sugestão de vingança. Ouvi
dizer que desejavam ver Cristo enviar o fogo do céu sobre a aldeia
samaritana que mostrou pouca vontade de ouvi-Lo. Mesmo quando
censurados por Ele, ainda respiravam chamas. Não te olharão com
bondade, embora eu os tenha persuadido a ver-te.
Hilell suspirou:
- Mesmo entre os santos, entre os que caminharam com Ele,
comeram e dormiram junto Dele, e ouviram diariamente a Sua voz, há
dissensão. Alguns deles insistem, com veemência, em que antes de um
homem se tornar cristão deve passar pelo judaísmo e precisa ser
circunciso. São os mais velhos que se agarram ferozmente à Lei dos
velhos tempos. Os mais jovens dizem que não é necessário; têm sua
própria interpretação. Os anciãos acreditam que quando Cristo falou
na missão das "cidades de Israel" quis dizer, literalmente, tal coisa. Os
mais jovens acreditam, com firmeza, que Ele quis falar em todos os
homens. Não só estão separados, escondidos, por causa do decreto de
Pôncio Pilatos, mas estão separados também pelas suas opiniões. Eu
me senti muito pessimista.
- Eu não disse Lucano, com firmeza. - Deveis recordar,
meus amigos, que os apóstolos são apenas homens, e os homens
diferem uns dos outros. Irei ver Pedro o mais depressa possível.
Uma jovem entrou, deslizante, para o salão, vestida com umapalla
branca, um véu de gaze na cabeça. Teria mais ou menos quinze anos e
era extremamente graciosa, corpo amadurecido e gentil, belos olhos
escuros sob sobrancelhas finas, pele branca como a neve. O pescoço
era uma esbelta coluna, a boca uma rosa, e sob a gaze que trazia na
cabeça pequena tombava a massa de ondas e caracóis escuros. Tinha
uma expressão tímida, mas coquete, e era, ao que se deduzia, bem
Consciente de sua beleza. Hilell levantou-se e tomou-lhe a mão.
- Ah! Lea! disse ele, afetuosamente. Trouxe-a até junto de
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Lucano, e disse: - Esta é minha irmã, que dei a Arieh como noiva.
Não é ele um jovem de sorte?
Sorria a Lea, com orgulho. Muitos braceletes incrustados de
pedrarias tilintavam nos pulsos da moça, e um colar pesado de gemas
rodeava-lhe o pescoço. Suas sandálias eram de prata. Lucano ficou
ternamente divertido. Lea, embora jovem, querida, e guardada
cuidadosamente, mostrava um ar bastante mundano. Respondeu-lhe
baixinho em grego, que falava com perfeição. Arieh ficou em pé ao lado
dela, seus olhos azuis-escuros brilhantes de amor. Ela fingia não lhe
perceber a presença, embora suas faces proeminentes mostrassem
certo rubor. Falou com o irmão arrogantemente, como fazem os jovens
mimados.
- Por que nosso hóspede não está em seus aposentos,
repousando? Estás em falta, Hilell!
- Estou, sim concordou. Bateu as mãos e o vigilante do salão
entrou imediatamente. - Tu conduzirás o nobre Lucano aos seus
aposentos, Simão disse ele. Pensou um momento, depois
acrescentou: - Conhecerás minha esposa na hora do jantar. As crianças estão
deitadas. Meus pais e ele hesitava não jantarão conosco, pois são
velhos e tiveram febre.
Lucano compreendeu, imediatamente, que os pais de Hilell não
aprovavam que seu filho recebesse gentios sob seu teto. Fez um gesto
de assentimento gravemente:
- Espero que tenham melhorado falou. E não pôde deixar
de acrescentar, com certa malícia: - Gostarias que eu os examinasse,
e se necessário, receitasse para eles?
Hilell disse com certa rapidez:
- Obrigado, meu querido amigo. Mas eu não gostaria de me
impor assim. Além disso, eles confiam apenas nos médicos da família.
Precisamos ter paciência com os velhos. Eles têm suas peculiaridades.
- São muito cansativos disse Lea, petulantemente. -
Nunca me falam sem desaprovação ou censuras. Pensam eles que vivemos
nos velhos tempos, quando as moças ficavam segregadas e mantidas de
longe, vestidas antiquadamente e escondiam os cabelos depois que se
casavam. - Sacudiu seus bonitos caracóis, e continuou: - Este é um
mundo moderno, e devemos ter maneiras modernas, que são mais
agradáveis e esclarecedoras.
Hilell riu, e puxou um de seus caracóis, carinhosamente:
- Lembra-te de honrar teus pais, Lea disse ele.
Ela arrebatou-lhe o caracol das mãos, exasperada.
- Isso é muito bom para ti, meu irmão falou. - Não tens
que passar a tarde ouvindo reprimendas, como eu. Não sou modesta;
não sou versada nas leis dos profetas; não tenho consideração para
com os patriarcas; sou ignorante dos costumes piedosos; graves
dúvidas são expressas a meu respeito; serei uma esposa como as dos
romanos, e meus filhos ficarão neglicenciados e não lhes ensinarei os
deveres sagrados. E quanto à tua esposa, Débora, ela é quase tão má quanto
eu, com seu cabelo escondido e seus olhos baixos e seu silêncio em
presença dos homens! Se tu não insistisses, ela não apareceria em tua
mesa e comeria sozinha, humildemente. Para todos eles, eu sou uma
Jezabel.*
- Vai embora, pequena disse Hilell. - Já falaste bastante.
- Tu não sabes como eu sofro! exclamou Lea, batendo o
pezinho bonito. - Além disso, és um homem, não uma moça!
- Tuas maneiras são deploráveis falou Hilell, tornando-se
severo. - Bem se vê que és muito maltratada, e com isso nos
solidarizamos. Estás cansando nosso hóspede.
Lea saiu correndo do salão, sacudindo a cabeça. Hilell explicou a
Lucano, desculpando-se:
- Ela é filha da velhice de meus pais, e foi excessivamente
mimada. Só eles são culpados. Deleitam-se com a beleza dela, e só
temem pela sua alma. Ela se tornará uma matrona judia como deve ser,
assim que se casar, e sem dúvida fará aos próprios filhos as censuras
que agora ouve, e se afligirá por eles.
- Ela é uma alegria para meus olhos disse Arieh. - Tem
estado a me dar instruções sobre a Lei, e suspira por causa da minha
ignorância. É a mais doce das mulheres.
Quando chegou aos aposentos que lhe tinham sido destinados,
Lucano olhou com prazer em derredor. Saiu para uma sacada e
lançou o olhar para Jerusalém, que brilhava com lanternas e tochas.
Lavou as mãos em água perfumada e recebeu de um servo guardanapos
brancos. Belos trajes novos, de fino linho, foram preparados para ele
com muito tato. Lucano despiu as vestes grosseiras que usava, e que
estavam empoeiradas e manchadas pela viagem, e calçou as sandálias
feitas com o mais fino couro. Relanceou os olhos para a cama rica,
Com grande desejo de repousar. De algum lugar, na casa, ouvia-se uma
___
* Figura bíblica, mulher de Acabe, rei de Israel, assassinada e devorada
por cães. (N do T)
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harpa distante, e ele suspeitou que aquela música alegre era tocada
por Lea, como um desafio. Por uma razão que não sabia qual,
ouvindo aquela música de dança, seu coração se animou. Havia nela uma
inocência, uma afirmação. Ela acreditava na vida, e abraçava-a
animadamente.
Um servo levou-o através de salas luxuosas até o salão de jantar,
onde Hilell, Arieh e Débora, a esposa de Hilell, o esperavam. Débora
era uma mulher jovem e gorducha, vestida muito modestamente, com
um traje azul. Um tecido azul cobria-lhe completamente o cabelo.
Seus braços e pescoço estavam escondidos. O rosto redondo da
senhora fez Lucano lembrar o de Aurélia, e seus olhos castanhos, que
ela levantou rapidamente, uma vez, para o rosto dele, baixando-os a
seguir, eram vivos, apesar da sua atitude. Uma covinha esboçava-se no
canto de sua boca empertigada, e falava de uma capacidade de rir que
ela guardava, provavelmente, para o esposo. Não usava jóias. Sentou-se
ao pé da mesa luxuosa, junto de Lea, e não falou uma só vez. Lea
relanceava os olhos para ela, impaciente, mas acabou por ignorá-la. A
moça reuniu-se impudentemente à conversação, discordou, riu,
gracejou e comportou-se realmente como uma jovem de mimada beleza,
da maneira moderna. Débora porejara desaprovação, e Lea fungava,
atirava seus caracóis e fazia tilintar seus braceletes.
- Tens um excelente cozinheiro disse Lucano,
descobrindo que tinha fome. Os bolinhos de peixe estavam temperados e
suculentos, o cordeiro assado bem coberto de molho e os legumes e
saladas bem condimentados. Havia bolos folhados, recheados com
passas, ameixas secas e tâmaras cobertas com sementes de papoulas.
O vinho era romano, da melhor qualidade. Velas em candelabros de
prata brilhavam sobre a toalha branca, na qual corriam fios de prata.
Colheres e facas eram pesadamente trabalhadas com recortes e
ornamentos, as taças de ouro maciço incrustadas com pedras preciosas,
os saleiros também de ouro e com pedras, o mesmo acontecendo aos
pratos.
- Vivemos como camponeses disse Lea, descontente. - Não
é que eu deseje o que não é apropriado. Mas gostaria de maior
elegância e variedade. A mesa da minha melhor amiga é encantadora.
- Cala-te, menina disse Hilell, automaticamente. - Lucano,
eu às vezes desejo que se tivesse conservado o velho costume que
excluía as mulheres da mesa de refeição dos homens.
- Ela é jovem disse Arieh. Voltou-se para sua prometida
esposa e perguntou, gravemente: - Disseste que sou ignorante, e sou
mesmo. Repete-me algumas das leis de Moisés em relação a templos e
sacrifícios.
Lea ergueu altivamente a cabeça, e com voz severa começou a
instruir Arieh. Lucano ouvia com divertido afeto, e Arieh com
respeitosa humildade. Débora não falou, mas uma ou duas vezes Lucano
percebeu-lhe uma covinha no rosto. A felicidade daquela jovem
família impressionou profundamente Lucano. Ouvindo Lea e
percebendo a sua inocência, as faces rosadas e o faiscar dos olhos, bem como a
flexibilidade daquele pescoço e daqueles braços nus, pensava em
Rúbria e Sara, as mortas que ele amara com tamanha ternura, e dizia
consigo mesmo que na realidade não existia a passagem dos anos, a
fadiga, a dor, o desespero, a separação, a morte. O mundo e os
planetas, os sóis incontáveis, vibravam de eterna mocidade, e as
constelações e galáxias regozijavam-se com isso. Uma sensação jubilosa
invadiu-o. Tudo quanto amara estava com ele para sempre.
Naquela noite, antes de adormecer, ouviu o uivo dos chacais
dentro dos portões, e pareceu-lhe que aqueles uivos eram vozes bradando
na solidão, esperando conforto, aguardando serem admitidas na
companhia dos bem-aventurados.
48
Lucano recebeu um convite para jantar com Pôncio Pilatos, e estava
para recusar, impaciente, quando Hilell lhe disse:
- Foste seu hóspede na casa de Cesaréia. E, seja lá pelo que for,
tu o impressionas. Ele se sente muito inquieto, desde a crucifixão de
Cristo. Custa-te dar-lhe algum conforto?
- Sim, pois meu hospedeiro não foi convidado. E isso é uma
grande descortesia.
Hilell sorriu:
- Digamos que seja. Os romanos, porém, pouco observam a
Cortesia em relação àqueles que conquistaram. Ia dizer que ele não
gosta de judeu. Seríamos intolerantes se fôssemos intolerantes para
Com a intolerância.
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- Isso é sofisma disse Lucano. Mas aceitou o convite.
Hilell vestiu-o de maneira elegante.
- Os romanos, tão materialistas, deixam-se deslumbrar pelos
trajes ricos e apropriados disse ele. - Desprezam a simplicidade e
gostam de uma exibição de riqueza.
Lucano vestia uma túnica azul e sobre ela uma toga do linho mais
delicado, embora pesado, debruado de ouro. As sandálias eram
douradas, trazendo lingüeta de couro com incrustações de pedras
preciosas sobre o peito do pé. Nos braços dele Hilell colocou braceletes
ornados de gemas.
- Estás realmente magnífico disse, bondosamente. -
Pareces uma das mais nobres estátuas gregas.
Deu ordem para que à hora do crepúsculo uma liteira levasse
Lucano à casa de Pôncio Pilatos, casa grande, instalada dentro de
altos portões e de jardins ricamente floridos, animados pelas fontes
que dançavam ao ar avermelhado pelo sul poente. Soprava,
entretanto, uma brisa vinda da região da Rua dos Queijeiros, que todas as
fragrâncias das árvores, da relva e das flores não conseguiam dominar.
Pilatos disse, torcendo o nariz:
- A fedentina é abominável.
Lucano, recordando que devia ser polido, absteve-se de comentar
as fedentinas de Roma, e especialmente os odores que emanavam do
Trans-Tibre, quando o vento mudava. Pilatos mostrava-se preocupado,
ao levar Lucano para um salão ainda mais suntuoso do que o salão
de Hilell. Lucano ficou estupefato com aquele esplendor, que parecia
excessivo e de mau gosto. A fonte central era pesadamente perfumada,,
e o perfume revelava-se enjoativo. A casa parecia repleta de bonitas
escravas, sentadas em almofadas sobre o chão branco e reluzente,
tocando harpa, alaúde e flauta, atirando para trás seus longos caracóis
de cabelos.
- Iremos para o telhado disse Pilatos -, onde há frescor e
de onde temos bela vista para a cidade: Estou esperando outros
hóspedes. - Seu rosto remoto sorriu, friamente. - Nada menos do que
o próprio Herodes Antipas e seu irmão. Ele deseja falar contigo, e
deves compreender que tal coisa é uma condescendência! Houve um
tempo em que não gostavantos um do outro, mas agora somos execelentesa
amigos. Foi uma questão de diplomacia.
- Falaste de mim a Herodes? perguntou Lucano,
perturbado.
- Sim. E, a propósito, ele enfadou-se comigo por eu ter
cancelado o banimento da seita daqueles que se dizem cristãos. Está
inclinado a não gostar de ti.
Pilatos ria-se com um bom humor súbito e conduzia Lucano por
vários lances de escadas, cujos degraus de mármore, muito largos,
estavam cobertos com tapetes persas. Durante aquela subida Lucano teve
relances de ricos apartamentos. A música seguia-os. O telhado era
amplo e comprido, com parapeítos de altas pedras perfuradas em
desenhos complicados; o piso mostrava tapetes espalhados, e havia
cadeiras baixas e divãs cobertos com toldos listrados de seda, em várias
cores, as mesas instaladas com lâmpadas que aguardavam. As escravas
seguiram-nos e recomeçaram a tocar.
Lucano interessou-se pela vista da cidade, observada daquelas
alturas. O vermelhão ardente do crepúsculo atingia os montes pedregosos
ou desenhados em terraços, montes que rodeavam a cidade, dando-lhe
um aspecto ardente. As paredes tortuosas e recortadas em ameias de
Jerusalém tinham um ar melancólico. Um colorido fosco e avermelhado
recobria as ruas apertadas e estreitas como reflexo de fogo. Um som
monótono e sussurrante subia das ruas, abafado e murmurante. Lucano
podia ver o torum romano, suas paredes e colunas brancas brilhando
como neve contra a luz ardente; o teatro romano, como taça dentada; os
palácios erguendo-se acima da infinita e interromnida planície de casas
menores com seus telhados iluminados pelas pinceladas vermelhas do
sol. Dominando tudo, via-se o Templo, alto dentro de suas próprias
muralhas, as torres douradas em incandescência, as paredes rosadas.
Como ficava voltado para leste, visto daquele ponto do terraço de Pôncio
Pilatos, o céu que ficava por trás dele mostrava um tom profundo de
azul-pavão, contrastando com o firmamento flamejante do ocidente. A
distância, havia um grande maciço de ciprestes escuros, amontoados ou
espalhados por um jardim verde.
- É o Getsemâni* disse Pilatos, notando o interesse de
Lucano. Havia em sua voz uma nota peculiar. Sentaram-se os dois sob
Um dos toldos e beberam vinho. Pilatos tornou-se silencioso, como
que pensativo. A música erguia-se em torno deles e uma das jovens
Cantava docemente. Lucano ouvia. A cadência não lhe era familiar,
parecia-lhe dolorosa e obcecante. Aramaico era a língua da canção:
* Aldeia próxima de Jerusalém, onde ficava o Monte das Oliveiras, no
qual jesus teve sua última Vigília. (N. do T)
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Quanto é misericordioso o Senhor nosso Deus!
Sua misericórdia é mais ampla do que o mar,
Sua afetuosa bondade envolve a terra e o céu,
E Suas palavras são júbilo para meu coração.
Quem pode conhecer o Senhor e Seus sagrados pensamentos?
As colinas O conhecem, ou as cinzentas montanhas?
Ou a vasta região inculta onde o homem não chega?
Ou o tigre em seu caminho, ou as árvores solitárias em sua majestade?
Ou a mulher que adormece com um infante ao seio,
Ou o moribundo sozinho em sua dor? Ou os rios dourados
Que correm para os oceanos, ou os jardins de madrugada?
Nos lugares mais secretos Ele é conhecido!
Lucano olhou para a moça, e os grandes olhos negros dela
pareciam cismados sob as sobrancelhas e seu rosto mostrava-se liso e
pálido. O médico surpreendia-se com as palavras da canção e relanceou
os olhos para Pilatos, que, aparentemente, não estava ouvindo. O
cotovelo do romano descansava no braço de sua cadeira, e seus dedos
encobriam-lhe em parte o rosto. Estava absorvido em seus
pensamentos, esquecido de seu hóspede. Então, disse, sem retirar a mão do
rosto, como se falasse consigo mesmo:
- É impossível que Ele se tenha levantado de entre os mortos!
Seus seguidores levaram-No embora, curaram-No, pois Ele foi
retirado da cruz depressa demais.
Lucano esperava, sem falar. A música desceu para um tom mais
baixo, que nada interrompia. Pilatos disse, então, a voz ainda mais
distante:
- Eu não me surpreenderia Se aquele velho patife devoto, José
de Arimatéia, tivesse tido interferência nisso. É conselheiro, e dizem
que justo e bom. Conheci-o, e apesar do meu ceticismo, não pude
apanhá-lo em sofisma ou futilidade. Foi José quem suplicou o corpo
Dele e o colocou na sepultura. Ouvi falar muito daquele Homem,
que, confesso, não mostrou a meus olhos qualquer culpa verdadeira!
Foi o alto sacerdote, Caifás... E não nos podemos opor aos sacerdotes
sem correr perigo.., eles podem usar de muita malícia. E eu tive ordem
para manter a paz nesta regrno, a qualquer custo. Posso ser censurado
por isso?
Agora, olhava agudamente para Lucano.
- Não disse o grego, um tanto hesitante.
Pilatos continuou:
- José é um homem rico. É possível que o suborno tenha
entrado em algum lugar e Jesus possa ter sido retirado da cruz ainda vivo, e
levado para a casa de José, a fim de que ali o tratassem e curassem. -
O romano movia-se, inquieto. - Por causa dos rumores de que Ele se
ergueria de entre os mortos, ao terceiro dia, coloquei guardas junto ao
túmulo, para que não se fizesse qualquer chicana. O grande sacerdote
me havia pedido isso.
Parou. Desviara a cabeça, de forma que o médico não podia ver-lhe
o rosto. Lucano tornou a esperar. Então, o procurador suspirou:
- Os homens são muito supersticiosos, e também histéricos. Meus
guardas vieram depois falar comigo, e eu os ouvi, incrédulo. Estavam
quase incoerentes. Tinham mantido fogueiras acesas junto ao túmulo,
bebido vinho, jogado dados e contado galhofas. Teria sido o vinho
misturado a alguma droga por aquele onipresente patife, o velho José?
- Ele jurou-me, solenemente, que não houve tal coisa. Ainda assim,
meus homens declararam, com juras e temerosos olhares em derredor,
que antes da madrugada do terceiro dia uma grande luz brilhou em
torno da sepultura e eles tombaram ao chão, sem sentidos. Quando
acordaram, a pedra maciça e pesada fora retirada para trás e ali no
sepulcro nada mais havia a não ser roupas, um banco de pedra vazio,
e o cheiro das especiarias e ungüentos!
Olhou para Lucano, suplicante:
- Como pode um homem sensato acreditar que tal coisa seja
sobrenatural? Foi um gracejo sombrio, realmente, com a intenção de
enganar e lançar o temor no peito dos simples, uma simulação para
dar como realizada a profecia feita. Tu, Lucano, és homem educado,
de família nobre. Espera que eu acredite em tal tolice referente a um
miserável e iletrado rabi vindo da Galiléia? Quem podia inspirar
menos os deuses?
- Que desejas que eu diga? perguntou Lucano, em voz baixa.
- Dize-me o que pensas dessa tolice.
E Pilatos inclinou-se para ele. Lucano pôde ver que o homem
estava perturbado, e colérico por se sentir perturbado.
Tateando entre suas vestes, o médico encontrou e mostrou, à luz
vermelha do sol, a cruz que trazia pendente do pescoço. Pilatos fixou
os olhos nela.
- Séculos atrás disse Lucano aquele Homem foi
profetizado. Os rumores a respeito Dele espalharam-se por todo o mundo
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civilizado. Os egípcios decoraram suas pirâmides com este Signo. Os
gregos ergueram altares ao Deus Desconhecido. As Escrituras dos
judeus, escritas anteriormente, falam Dele, de Sua missão, de Seu
nascimento, de Sua vida, e de Sua morte.
Pilatos estava aterrorizado. A luz escarlate do último sol refletia-se
em cheio sobre seu rosto. Olhava para Lucano com olhos penetrantes:
- Acreditas nisso? indagou, a voz apavorada.
- Sim. Acredito. Sei que é assim.
Pilatos ficou silencioso durante algum tempo. Depois disse, a voz
alterada:
- Então, que será de mim, que O entreguei à morte?
- Foste apenas um instrumento.
- Os deuses são vingativos...
- Ele não é vingativo. Não temas.
Pilatos meditou:
- Curaste teu irmão, que estava morrendo...
- Não. Deus curou-o. Eu também fui apenas um instrumento.
- Dize-me o que devo fazer! exclamou Pilatos, subitamente
desesperado. Olhava para Lucano, tomado de temor. - Pensei
demais nisto. Aquela mulher que ia ser enterrada... não estava morta?
- Eu te disse: ela não estava morta. Não há mortos.
- Tu falas por enigmas, como os oráculos de Delfos.
- Os homens fazem das coisas mais simples enigmas e mistérios,
Pôncio.
- Estou perdido disse Pilatos, em tom desesperado. O
coração do supersticioso romano batia depressa. - Quem és tu, Lucano?
- perguntou.
Lucano franziu os sobrolhos.
- Sou o que sabes que sou.
- Mas tens poderes misteriosos.
- Não. Não tenho poder, nem mérito. Só Deus os tem.
- Então Ele permitiu que os tiçesses.
Lucano sacudiu a caheça, Mas naquele momento um escravo
chegou, anunciando a presença de Herodes Antipas, o tetrarca de
Jerusalém, e de seu irmão, Herodes Filipe. As escravas tocaram música triunfal,
e outras jovens correram pelo telhado, atirando cestas de pétalas de
rosas pelo piso enquanto outras pulverizavam perfumes no ar. PilatoS
foi ao encontro de seus convidados e, enquanto as lâmpadas do
telhado eram rapidamente acesas, Lucano olhou com curiosidade para OS
dois homens. Antipas levou-o a recordar, imediatamente, uma raposa
vermelha: tinha rosto estreito e irritado, e seus movimentos eram
impacientes e bruscos. Usava barba curta avermelhada, e Lucano
lembrou-se de que Antipas deixava crescer a barba para os próximos dias
santificados dos judeus, mas depois a retirava. Filipe, porém, o mais
jovem, era mais alto, de aparéncia mais nobre, belos olhos negros e
líquidos, o rosto clássico de estátua, e maneiras tranqüilas e dignas.
Parecia estar absorvido em sombrios pensamentos. Antipas retribuiu
o cumprimento de Lucano, e a sua inclinação, com uma palavra
rápida e um relance de desagrado nos olhos cor de avelã. Filipe,
entretanto, sorriu-lhe e perguntou-lhe pela saúde, indagando cortesmente quais
as suas impressões de Jerusalém.
Os homens sentaram-se e beberam mais vinho, enquanto a noite
fluiu sobre a cidade e as tochas arderam e as lanternas reluziram lá
embaixo. Antipas estava de mau humor, era evidente, e confinou sua
conversação caprichosa a Pilatos. Outrora tinham sido inimigos, mas
agora eram amigos. Filipe relanceava os olhos para ele, ocasionalmente,
e suas sobrancelhas pretas franziam-se. Conversava bondosamente
com Lucano, e disse-lhe que muito ouvira falar nele. Ouvindo aquilo,
Antipas olhou por sobre o ombro, ameaçadoramente, para Lucano, e
disse, num tom agudo e matreiro.
- Sim. E precisamos falar sobre isso.
Deu um repelão com o ombro vestido de brocado azul e coçou a
barba. Antes de se voltar de novo para Pilatos lançou um olhar
venenoso para o irmão, que o recebeu, imperturbavelmente.
Um gongo soou e todos se levantaram para descer à sala de jantar,
que reluzia de mármores, tapeçarias bordadas, pedras preciosas e ricas
lâmpadas. A refeição era luxuosa. Antipas pouco comeu, e bebeu
vinho com parcimônia. Queixava-se ao poderoso romano de uma
porção de assuntos insignificantes. Nada lhe era agradável em Jerusalém,
nem em seus negócios particulares. Seu rosto suavizou-se um pouco
apenas quando falou de sua esposa, Herodíades. Ouvindo aquilo,
Filipe endireitou-se em sua cadeira e olhou para o irmão com olhos
acesos, e sua boca tomou linhas duras e amargas.
- Como eu gostaria de morar em Roma! exclamou Antipas.
- Ali temos apenas civilização e realidade. Mas aqui tudo é Deus,
tudo é observância religiosa, tudo é entediante discussão religiosa!
Mesmo o alto sacerdote só sabe falar de comentários. Para os judeus
nada mais existe, a não ser Deus.
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Lucano disse:
- Demócrito escreveu, há mais de quatrocentos anos: "Se
alguém escolhe as coisas da alma, escolhe a porção divina; se escolhe as
coisas do corpo, escolhe o que é simplesmente mortal."
- Isso está muito bem falou Antipas em tom desagradável,
com um sorriso de escárnio. - Mas o homem também é mortal, e os
mortais devem ser alimentados. - Fez uma pausa, depois disse, quase
ameaçadoramente: - Ouvi coisas estranhas a teu respeito, Lucano!
Dizem que realizas milagres!
Deu um breve sorriso, e Lucano respondeu, sentindo em si um
movimento idêntico de desagrado:
- Não. Não realizo milagres. Só Deus os realiza.
As faces dele estavam coradas, pela afronta.
- Ah! disse Antipas. - Isto é excelente. Já tivemos bastantes
milagreiros na Judéia! Ou charlatães! Confio em que não estás aqui
para incitar o povo. Ou para proclamar que trazes uma única missão
de Deus.
- Estou aqui apenas para descobrir a verdade e registrá-la -
disse Lucano, encolerizado. Pilatos começou a sorrir. Filipe ouvia,
com a taça de vinho junto aos lábios, apenas o olhar estava alerta,
brilhando sobre Lucano.
- E eu aqui estou para manter a paz e a ordem entre meu
povo. disse Antipas. - Serei impiedoso para com os desordeiros.
Seus olhos rebrilhavam, ameaçadores.
- Estas azeitonas judaicas são deliciosas, se posso dizer isto em
minha própria mesa falou Pilatos. - Que é isso, Lucano? Pareces
ter pouco apetite. Meu cozinheiro é excelente, e o leitãozinho assado
está ótimo.
- Talvez nosso digno visitante não goste de carne de porco -
falou Antipas, com um sorriso maldoso. Lucano recusou-se a
responder àquela agulhada e permitiu que uma jovem escrava o servisse de um
pouco de leitão.
Começava a cogitar na razão de se mostrar Antipas tão
evidentemente agitado e irritável. O tetrarca pôs um punhado de
azeitonas judaicas na boca, mastigou-as sombriamente, depois cuspiu os
caroços.
- Então disse ele estás aqui para descobrir a verdade e
registrá-la. Dize-me, és cristão?
- Fui cristão desde o dia em que Cristo nasceu disse
Lucano.
Antipas quase deixou cair a taça, em seu espanto. Ficou
boquiaberto.
- Que disseste? indagou, incrédulo. Filipe inclinou-se para
a frente, em sua cadeira, e o sorriso sutil desapareceu do rosto de
Pilatos.
- Estás louco? exclamou Antipas, batendo com a mão na
mesa. - Ninguém ouviu falar em Cristo até quatro anos atrás! Foi
então que aquele galileu apareceu pela primeira vez!
- Entretanto, eu O conheci desde o dia em que nasceu. Foi
a minha própria falta de mérito que me levou a esquecê-Lo durante
muitos anos, foi a minha própria obstinação e cólera.
Lucano olhava de frente para Antipas, que estava estupidificado.
- Deixe-me explicar.
Tirou a cruz de sob as vestes mais uma vez e mostrou-a a Antipas,
que recuou, subitamente. Lucano falou-lhe em Keptah, nos caldeus e
babilônios, nos egípcios e nos gregos, em suas antigas profecias.
Falou-lhes nos Magos, na grande cruz de seu templo secreto, em
Antioquia. Falou-lhes na Estrela que vira quando menino e no
movimento dela para leste. Muitos dos escravos que se alinhavam ao longo
tdas paredes inclinavam-se ansiosamente para a frente, a fim de ouvi-lo,
e entre eles havia os que tinham os olhos cheios de lágrimas.
- Eu estava em Atenas no dia da Sua crucifixão disse Lucano,
em voz baixa e urgente. - O sol desapareceu e houve sons e gemidos
de terremotos. Ouvi, em minhas caminhadas, rumores de que a mesma
coisa aconteceu em todo o mundo conhecido. Achais que foi uma
coincidência?
O vermelhão do rosto estreito de Antipas desapareceu e foi
substituído por uma tonalidade lívida. Ficou silencioso, mas seus olhos
Corriam de um lado para o outro, como se buscassem um ponto de
evasão. Lambeu os lábios. Pôncio estava meditabundo, brincando
com a taça que tinha na mão. Filipe sorria, e erguia a cabeça como se
tivesse tomado uma profunda resolução.
Antipas, subitamente, começou a tremer, como que tomado de
cólera interior. Disse, finalmente, em voz contida e furiosa:
- Tudo isso é tolice. Eu próDrio falei com Jesus. Esperava
que Ele fosse o Messias. Desejei ver pessoalmente os milagres que Lhe
atribuíam. - Atirou um furioso e furtivo olhar para Pilatos: - Conheço
as profecias do Messias. Toda a minha vida eu as ouvi. - De
novo lambeu os lábios e relanceou os olhos para Pilatos: - O Messias
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deveria livrar os judeus do... do opressor. Tu me perdoas, Pôncio?
Essa era a verdadeira profecia! Mas esse Jesus declarou que Ele não
era deste mundo; que as coisas de César não Lhe diziam respeito. Eu
fiz com que O trouxessem até mim.
Fez uma pausa, e seu tremor se tornou evidente:
- Apesar do alto sacerdote, que o acusava não só de perturbar a
Lei como de incitar o povo e provocar levantes, em detrimento da
segurança do povo judeu, eu O mandei chamar para interrogatório.
Se Ele fosse o Messias, ter-se-ia revelado diante de mim em glória e
milagres, e se teria transformado diante de meus olhos. Mas, para meu
grande desapontamento, Ele era apenas um camponês galileu,
miserável, vestido rusticamente. Fiz-Lhe perguntas. Implorei-Lhe que se
revelasse, se era o verdadeiro Messias. Mas ele ficou em pé diante de
mim, em silêncio, e não respondeu. Eu, o tetrarca de Jerusalém! Só
ficou a olhar para mim, como se não me tivesse ouvido. Eu fora bem
informado de que Ele me chamara "aquela raposa". Estava disposto a
perdoá-Lo, se Ele fosse de verdade o Messias, pois os deuses não têm
reverência pelos homens, nem mesmo pelos reis.
Pela primeira vez, Antipas bebeu sofregamente seu vinho,
estendendo a taça para que lhe tornassem a encher. Sacudia e tornava a
sacudir a cabeça.
- Um miserável galileu! A imprudência Dele, asseverando ser o
Messias de todos os tempos! Ali estava, e só fixava os olhos em mim,
sem responder. Por que não respondeu? Falava bastante entre seus
seguidores e ante o povo! Cheguei a uma conclusão, apenas: diante da
majestade da autoridade, e cheio de medo, Ele não podia falar.
Perdera a língua. Portanto, não era o Messias, mas apenas um insurreto. Era
somente um camponês tomado peh pobreza, que iludira as pessoas
ignorantes, de mentalidade simples. Fiquei indignado, tanto contra a
blasfêmia como contra a insurreição que Ele tinha instigado. E disse-Lhe,
portanto: "Não és o Messias. És uma falsidade, um mentiroso."
Não posso descrever minha cólera e meu desapontamento, e aquele
Seu olhar fixo em mim. Assim, entreguei-O àjustiça, e para zombar de
suas pretensões atirei-Lhe sobre os ombros um manto vistoso e mandei-O
embora.
Filipe falou:
- Também te encolerizaste contra o chamado João Batista. Ele
invectivou-te por causa de tua esposa, Herodíades. Permitiste sua morte,
a pedido de tua mulher.
Os olhos dos irmãos chocaram-se visivelmente, como espadas que
se cruzassem.
Então, Antipas olhou para o irmão com ódio, e disse:
- Não sejas ambicioso. Eu sou o tetrarca de Jerusalém e o amigo
de Pôncio Pilatos.
Filipe ergueu os ombros:
Falas dos que são crédulos. No entanto, pensaste que João era
Elias renascido.
Antipas virou-lhe o rosto e dirigiu seu olhar avermelhado e
malévolo para Lucano.
- Portanto, devo advertir-te, embora sejas hóspedes de meu
querido amigo, Pôncio Pilatos, e cidadão romano, que não permitirei
mais desordem entre meu povo, nem mais incitamento. Procura a
verdade, se assim o queres, mas não entre os ignorantes e os iludidos.
Falei-te a verdade. Contenta-te com ela.
Não há nada mais louvável do que a franqueza falou Pilatos,
sorrindo.
- Lucano, como todos os gregos, é supersticioso disse
Antipas, com outro olhar de ódio.
- Ainda assim, procurarei a verdade afirmou Lucano,
olhando friamente para Herodes. - Quem me pode impedir isso?
As narinas de Antipas dilataram-se e ele respirou audivelmente.
- Sou homem civilizado. Conheço meus deveres como
convidado de Pôncio Pilatos. Mas tenho uma disputa contigo, muito nobre
Lucano. - Teve um riso zombeteiro, e prosseguiu: - A meu pedido,
Pôncio baniu os cristãos. É homem justo, um administrador da Lei
Romana. Agora, tu o influenciaste para que cancelasse o banimento,
apesar das minhas solicitações e dos meus argumentos. Isto dará início
a novos conflitos e a desordens perigosas. Estou preparado para
enfrentá-los.
Pôncio sorria:
- Eu presto obediência a César. Tibério deu a Lucano um anel
magnífico. Lucano pediu-me que cancelasse o banimento e colocou o
anel em minha mão. Tibério tem grande consideração por ele, e eu
não podia deixar de obedecer ao seu pedido. - Parecia estar divertido.
Herodes Antipas disse, então:
- Eu venero César. Mas mesmo os Césares podem ser iludidos.
- É verdade falou Pilatos, brincando ociosamente com a haste
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de sua taça. Lucano apertou os lábios. Ia falar, quando viu que Pilatos
e Herodes Filipe trocavam olhares significativos, e que a mão de Filipe
fechara o punho sobre a toalha de seda da mesa. Então, Pilatos
sacudiu a cabeça levemente, como que negando, e ergueu a palma da mão,
num gesto de quem pede paciência.
Antipas falou diretamente com Lucano:
- Eu te disse a verdade. Que podes aprender de outra maneira,
a não ser através de Pilatos e de mim, senão mentiras? A quem farás
perguntas? Aos desprezíveis seguidores de Jesus? Vieste armado de
superstições. As criaturas imaginam muitas coisas, e o que nos falaste
te foi ensinado em tua inocência e pode ter sido fantasia de tua parte, ou
imaginação de criaturas anônimas, cheias de crenças na feitiçaria e na
magia. Lembro-me de quando também eu era criança. Sonhei que
veria o Messias com meus próprios olhos!
- E assim O viste disse Lucano.
Antipas tornou a bater com a mão na mesa, em completa
exasperação. Apelou para Pilatos, com seus olhos movimentados, como a
dizer: "Que se pode fazer com um louco destes?" E falou:
- Compreendo que és um homem culto, maravilhosamente
dotado na arte de curar. Sem dúvida, encontraste sábios e eruditos.
Ainda assim, tu, que nunca viste aquele galileu, para aqui vens trazendo
uma crença obstinada. Verdadeiramente, isso é demais para que o
suporte um homem de inteligência! - Voltou-se para Pilatos: -
Suplico-te que restabeleças o banimento contra os que se dizem cristãos,
em nome da paz do Império, em nome de César.
- Não tinha alternativa disse Pilatos, calmamente, abrindo
as mãos num gesto de quem se rende. - Havia o anel de Tibério. A
significação do anel é de que o possuidor pode usar o nome de César,
como se fosse o próprio César a falar. Compreendes isso, meu querido
Antipas?
Antipas pensou no caso, seus pequenos dentes amarelados
mordendo o lábio inferior. Os olhos faiscavam, aprofundavam-se,
reluziam. Finalmente, falou com Lucano, num tom modificado, suplicante:
- Perdoa-me se pareci ameaçar-te. Tenta compreender. Ouvi
dizer que amas profundamente o povo judeu. Desejas que esses
conflitos e desordens voltem, e com eles a morte dos inocentes? Desejas
ver a mão de Roma descer com violência sobre esta pequena região,
que suportou tanto, sofreu tanto? Que tens a ver com Israel, para que
assim a destruas?
- Não vim destruir disse Lucano. - Vim apenas em busca
da verdade.
- Sim, sim falou Antipas, impaciente. - Eu não estava
falando disso. Mas quando conseguiste que Pôncio Pilatos cancelasse o
banimento dos ignorantes e desordeiros cristãos, que têm considerável
violencia e fanatismo abriste, outra vez, a porta dos transtornos
desesperadores. Os judeus são povo amigo de discussões e combatem-se
mutuamente por uma interpretação da Lei. Discordam
furiosamente. O banimento espalhou os cristãos, e os manteve separados,
evitando que discutissem com seus companheiros judeus. Agora, aparecerão
de novo, e estará tudo perdido.
- Espero que não disse Lucano, sério. - Seguramente, Ele
é um homem de paz. Com o tempo, Seus seguidores compreenderão
isso.
- Não disse Antipas. - Tu não conheces os judeus.
Então, Filipe falou:
- Nem tu, disse, calmamente. - Não foste amigo de teu povo.
Foste um inimigo.
Um grande silêncio pairou sobre a mesa. Todos ficaram parados,
como estátuas. Antipas olhava apenas para o irmão, e Lucano e Pilatos
olhavam apenas para ambos. Então, depois de um longo momento,
Antipas disse, baixinho:
- Filipe, tu ousas falar assim comigo?
- Sim, ouso disse Filipe, em voz suave. - És um homem
pequeno, mau. Digo-te isto em plena face. Não tens estatura, nem
honestidade, nem dignidade, nem presença.
E fixava os olhos em seu meio-irmão, com aversão.
Antipas explodiu numa gargalhada atirando a barba para cima.
- Oh! exclamou. - Ele não me perdoou por lhe ter tomado
sua esposa, Herodíades! Insultaste-me em presença de meu amigo,
mas eu te perdôo tua falta de compostura. Chamaste-me "pequeno".
Se fosses de maior estatura eu não poderia ter arrebatado de ti a tua
esposa. Quem é, portanto, o homem maior?
Seus olhos dançavam sobre Filipe, zombeteiros e malignos.
Os lábios do outro ficaram lívidos, mas ele falou, em voz baixa:
- Não te tenho ódio por causa de Herodíades. Se eu a amasse e
se ela me amasse, não terias possibilidade de seduzi-la. Não me sinto
diminuído, porque ninguém pode diminuir outro homem sem
consentimento dele. Falas de compostura. És tu quem não a tens.
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Lucano estava embaraçado. Não se habituara a tão crua discussão,
a tais insultos, especialmente entre homens aparentados.
Então, Pilatos interveio, falando agradavelmente:
- Tu erraste, Antipas, quando procuraste uma coroa. Ninguém
procura uma coroa com César. Estás em más graças com ele. Ainda
hoje recebi uma carta dele sugerindo que te removesse discreta e
espontaneamente. César nem sempre sugere, e sim ordena. Por que
esperar uma ordem?
Antipas ficou tão branco quanto a morte e sua barba ruiva fez-se
destacada contra a coloração estranha que tomou sua carne.
- Estás gracejando sussurrou.
- Não falou Pilatos, ainda agradavelmente. - César olha
com simpatia para teu irmão. - Bebericou algum vinho, enquanto
Antipas agarrava-se à beirada da mesa e inclinava-se para ele,
arquejante. - Chamei-vos aqui esta noite para contar-vos isso, a ti e a
Filipe. Tens tua Herodíades, tens tua fabulosa fortuna. Sugiro,
portanto, que deixes a Judéia. Será mais agradável para todos.
Lucano quase teve compaixão do desesperado Antipas, e desviou
os olhos. A humilhação não devia ter sido infligida diante de um
estranho como ele.
- Eu apelarei para Agripa disse Antipas, em voz guinchada e
cont usa.
- Não o faças, advirto-te. Tua atitude não será bem-vista.
- Pensei que fosses meu amigo, Pôncio.
- É como teu amigo que te transmito esta mensagem. Se fosse
teu inimigo, mandaria uma ordem peremptória e te removeria
publicamente diante dos rostos zombeteiros de teu povo.
Antipas virou-se para seu irmão e a mão saltou para a adaga que
usava. Filipe fixou os olhos nele, com altaneiro desdém.
- Tu fizeste isto! exclamou Antipas. - Tu me traíste, tu
conspiraste contra mim, para te vingares!
- Sugiro disse Pilatos que nenhum mal venha a
Filipe. Na verdade, designei meu oficial-chefe, Plócio, para guardar a
casa de Filipe, no caso de seres indiscreto bastante para violar os
desejos de Tibério e fazer com que a Filipe aconteça... um
acidente.
Lucano levantou-se e disse, friamente:
- Estou cansado. Devo implorar da tua generosidade, Pilatos,
que me desculpes.
Antipas voltou contra ele sua cólera. Apontou para Lucano, com
um dedo que tremia:
- Foste tu, usando o anel de César, que não só induziste Pilatos
a cancelar o banimento dos cristãos, como sugeriste meu exílio para
proteger teus andrajosos amigos!
Pilatos ergueu uma das mãos, em admoestação:
- Ninguém te traiu, Antipas, nem teu irmão nem eu próprio.
Acabemos com estas acusações.
Fez sinal a um escravo e mandou vir uma liteira para Lucano. O
grego inclinou-se para os que ficavam à mesa, e deixou a casa.
- Sugiro também disse Pilatos a Antipas que nada
aconteça a Lucano. Ele está sob proteção de Tibério. e sabes em que
homem sanguinário o César se tornou.
49
Lucano contou a seus amigos, Hilell e Arieh, o que se passara na casa
de Pilatos. Eles ouviram com profundo interesse, depois Hilell disse,
jubilosamente:
- Agradeçamos a Deus a remoção de Herodes Antipas!
- Apesar disso, Pilatos não o deveria ter humilhado diante de
mim.
- Ele é um homem inescrutável, e teve suas razões.
E Hilell continuou, para dizer que Maria, a Mãe de Cristo, havia
voltado a seu povo para uma visita a Nazaré. Houvera morte entre seus
parentes.
- Eu a visitarei ali disse Lucano. Hilell comentou que a
viagem era demorada.
- Entretanto disse ele poderás ver a Galiléia, onde Ele
primeiro ensinou, É um lugar belo! Mas há ali uma pequena cidade,
chamada Tiberíades, construída por Herodes em louvor de César. Os
judeus a vêem como uma abominação, e não a visitam. Nem o Cristo a
Visitou. Falou num monte próximo, na sinagoga, que é simples e
humilde, como é o povo. Mas não há pressa. Fica conosco até o
casamento de Arieh e Lea.
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- Devo ir tratar dos meus assuntos disse Lucano, pesaroso.
- Então, esperaremos até que regresses.
Naquela noite, ao ficar sozinho, Lucano escreveu o que ouvira de
Pilatos e de Herodes Antipas sobre Jesus. Seu Evangelho crescia. Nada
colocou ali de suas próprias opiniões, apenas as informações que lhe
eram dadas. As vezes, vinha-lhe um desejo dominador. Se ao menos
tivesse visto pessoalmente o Cristo, se ao menos tivesse podido falar
com Ele, olhar para Seus olhos maravilhosos. Eu não o teria desertado
quando seus seguidores o abandonaram em pânico, pensava.
Na manhã seguinte, bem cedo, foi de liteira até a casa de Tiago e
João, fora das portas. Hilell mandara uma mensagem aos dois jovens
irmãos, que concordaram, embora um tanto mal-humorados, em
receber Lucano. Hilell escrevera-lhes dizendo que, se não fosse Lucano,
a ordem de banimento teria sido mantida. Uma vez fora das portas, e
descendo a colina de Sião, Lucano olhou através da quente e ardente
poeira. Embora a manhã fosse nova, as paredes amarelas de Jerusalém
reluziam com uma luz terrível. Deslumbradora e sinistra incandescência
iluminava as pedras das paredes e as montanhas onduladas e
pedregosas. Mesmo as colinas cultivadas mantinham-se rígidas, desdobrando-se
em amarga desolação.
As casas amontoadas fora das muralhas subiam pela montanha
de um tom cinza-amarelado e ardente à luz. A maior parte delas era
pobre, com pequenos retalhos de jardins empoeirados, palmeiras,
pinheiros, oliveiras e árvores frutíferas a arquejar em torno delas.
Jamais Lucano vira terra tão ressecada, tão árida, tão cheia de pó. Os
servos que levavam a liteira começaram a arquejar quando subiam
uma das colinas, e pararam, finalmente, aliviados, diante de uma
pequena casa amarelada, ainda mais pobre do que as outras. Um
jovem estava de pé nos degraus, a expressão sombria, esperando em
silêncio, a fronte carregada. Deveria ter feito algum comentário, porque
veio ter com ele outro jovem com o rosto muito estreito e pálido,
sobrancelhas negras e exuberantes, boca cheia, porém dura, e uma
quantidade de cabelos encaracolados, castanhos, tombando de sua
cabeça alta. O primeiro homem estava vestido de cinzento, e trazia
por cima desse traje um manto verde. O segundo usava um traje de
tom amarelo-fosco. Ambos pareciam muito pobres. Nada disseram,
quando Lucano desceu da liteira. Apenas ficaram a olhar para ele,
ali, de pé.
- Sou Lucano, médico, e hóspede de Hilell ben Hamram -
disse Lucano, tentando sorrir diante do olhar formidável, combinado,
que os outros haviam fixado nele.- Vós me esperáveis?
Os dois entreolharam-se. O mais velho não tinha o rosto tão
estreito quando o do irmão, porém mostrava um nariz longo e fino,
barba, cabelo escuro e boca mais delgada. Aparentava ar mais
moderado do que o do outro, que era de indômito fanatismo e gelada
selvageria. Disse, em aramaico, empastado pelo sotaque galileu:
- Nós te esperávamos.
Não fizeram outra saudação a Lucano.
- Eu sou Tiago, filho de Zebedeu de Cafarnaum, e este é meu
irmão, João e Tiago indicava o irmão mais moço, o do rosto
intimidador e grandes olhos vingativos, que tinha a fixidez de um
temperamento arrebatado. "Filhos do trovão!" Como a descrição
estava bem aplicada àqueles dois homens. Lucano sentiu-lhe a intensa
hostilidade, sua relutância em falar com ele e sua apaixonada
desconfiança.
- Sou cristão disse, caminhando para ambos, e esperando
abrandá-los. Mas eles não lhe responderam. Com um movimento de
cabeça, Tiago indicou a Lucano que os seguisse, e levaram-no em
silêncio para o fundo da casa, pequena e miserável, onde as paredes
lançavam alguma sombra dentro da luz violeta. Havia ali um jardim,
apenas poeira amarela e pedras; dois bancos de madeira ficavam perto
da parede da casa. Os irmãos sentaram-se em um e tornaram a pregar
olhos perscrutadores em Lucano, que se sentou no outro banco.
Suspirou. Aqueles homens iam ser difíceis. Ele era o estrangeiro, o
incircunciso, o imundo. Se tivessem vinho ou pão não iriam oferecer-lhe,
nem mesmo iriam agradecer-lhe tê-los redimido.
Pensara em falar-lhes de Keptah, dos caldeus, dos babilônios, de
José ben Gamliel, dos gregos e de seu Deus Desconhecido e de todas
as profecias que tinham vindo com o correr dos tempos, não só dos
judeus, mas de outros. Mas viu, imediatamente, que não só eles não
poderiam entender, mas ficariam incrédulos e ainda mais ressentidos
do que antes. Olhando gravemente para eles, cogitou no porquê
daqueles que haviam caminhado com Jesus serem tão pouco
hospitaleiros, tão sem caridade para com o estrangeiro, tão duros e violentos.
Sob o duplo e inamistoso olhar, Lucano falou com hesitação do
Evangelho que estava escrevendo. Disse-lhe que em suas viagens
ouvira falar muito no Messias. Desejava apenas que eles lhe contassem o
que tinham sabido, de forma que ele pudesse continuar seu trabalho.
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- Eu nunca O vi, mas amei-O durante muitos anos disse ele, -
delicadamente.
João falou pela primeira vez, a voz firme:
- Nós te diremos o que vimos com os nossos olhos.
Respirou profundamente, e o arrebatamento frio e selvagem de
seus olhos tornou-se mais concentrado.
- Mas tu não compreenderás. Viste-O? Ouviste-O? Sem isso
nada podes saber.
Sim, pensou Lucano, vós O conhecestes e O ouvistes, mas Sua
delicadeza e amor não estão em vós, nem Sua caridade. Sereis bons
evangelistas, mas haverá pouca misericórdia ou ternura, ou bondade
no que dizeis ou fazeis.
Tiago disse, a voz comida:
- Se ao menos Ele tivesse fulminado esta cidade, quando ela
ousou rejeitá-Lo! Por que não trouxe Ele a fúria do céu contra esta
cidade?
Lucano não respondeu. Descansou as mãos nos joelhos, e
esperou. Os irmãos trocaram outro olhar. Não eram gêmeos, mas via-se
que se faziam inseparáveis. Conversavam um com o outro através de
olhares eloqüentes, e tinham pouca necessidade de palavras. O calor
terrível penetrava mesmo aquela sombra empoeirada e Lucano
enxugou a testa e as faces com o lenço. Os outros recomeçaram a
contemplá-lo, e agora, pela primeira vez, aparecia curiosidade em seus rostos
abrasados. A calma de Lucano, sua gravidade, a beleza de seu
semblante, o azul sereno de seus olhos tinham começado a impressioná-los
e a diminuir um tanto sua animosidade natural pelo estrangeiro.
Foi João, o mais jovem, que começou a falar em frases curtas e
relutantes. Mas, depois de algum tempo, foi tomado por um
arrebatamento incontrolável. Seus olhos adquiriram luz vívida e interior, e ele
fixou-os no céu ardente. Eloqüência surgiu em sua voz.
- No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o
Verbo era Deus! Louvado seja o Seu Nome! Nele estava a vida, e a
vida era a luz dos homens!
João falou dos milagres de Cristo, de Seus ensinamentos, de João
Batista. Quando estava falando sobre a selvagem veemência de João
Batista, sua voz tomou uma qualidade lírica e enfática. Ali estava
alguém que falava de cólera e vingança de Deus contra os incréus, do
julgamento que viria, de proclamações apavorantes. Ali estava um que
advertia, que não falava de misericórdia! O apaixonado cidadão do
deserto, o comedor de mel agreste e gafanhotos, o vociferante, barbado,
seminu diante de Deus, estava próximo do coração de joão. Ele
apertava as mãos finas contra os joelhos e estremecia de deleite e júbilo.
- Eu tive grandes Revelações! exclamou ele, batendo nos
joelhos com os punhos. - Do Dia do Julgamento, das tremendas
coisas que acontecerão, dos ferventes poços do inferno dentro dos
quais as almas perversas cairão como flocos de neve, de querubins e
serafins vingadores, dos bons e dos maus que serão separados pela
eternidade, da cólera de Deus e dos condenados perpetuanlente! Eu
próprio escreverei sobre essas coisas!
- Sim, sim disse Lucano, abrandando-o. - Mas eu vim
para saber das palavras Dele e de Seus milagres.
Não gostava do fulgor terrível nos olhos do jovem João.
As narinas dilatadas de João estremeceram. Ele estava tendo as
mais pavorosas visões com seus olhos interiores, e regozijava-se com
elas, vingativamente. Teve um sobressalto ao ouvir a voz de Lucano, e
olhou para ele como um cego. Tiago disse:
- Nosso visitante perguntou sobre as palavras de Deus e sobre
Seus milagres entre os homens. Fomos testemunhas. Continua.
Assim, João, cujos gestos tornaram-se mais eloqüentes, mais
arrebatados, disse a Lucano o que ele desejava saber. O tempo passou,
sufocante, com o calor e a poeira irritante, e Lucano ouvia com toda a
sua alma. Avoz deJoão tomou tonalidades triunfantes dejúbilo. Quando
outros, falando de Cristo, tinham palavras de amor e terna alegria,
João falava com crescente exaltação e poder. As vezes, não se podia
conter e levantava-se, pondo-se a andar de cá para lá, o rosto estreito
flamejante. Parecia crescer em estatura e força, caminhando da sombra
de um tom violeta forte para a ainda mais forte fulguração da luz, de
forma que suas feições mostravam-se iluminadas e ensombradas,
alternativamente, suas mãos a um momento obscurecidas, e a outro
momento assemelhando-se a mãos feitas de chama. A despeito de si
próprio Lucano estava fascinado, tanto pela maneira estranha do jovem
evangelista como pelas histórias que ele relatava. As vezes, Tiago
interrompia, quando João, cansado, parava por um momento para
esclarecer uma parábola ou uma história. E João o contemplava, impaciente,
os olhos profundos. Durante as pausas, Lucano escrevia,
rapidamente, com seu estilo, para que as informações fossem precisas. Uma ou
duas vezes pensou: Este homem apenas desanimaria os considerados,
os delicados, os compassivos. Mas será um pilar de pavoroso fogo para
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os lânguidos, os apagados, os egoístas, os indiferentes, os céticos, os
apáticos, e para os que são capazes de visões e escarnecem dos exatos.
Será o terror dos materialistas. Atrairá as paixões, e pode acender
paixões mesmo nos mais complacentes.
Quando João relatava o que vira e ouvira, não era com o
deslumbramento, a felicidade e o desgosto expressos pelos outros a Lucano.
Contava a história com ar de furioso desafio, como que reptando a
incredulidade, e pronto a esmagá-la.
Contou sobre a crucifixão, sem a dor, o medo, a melancolia de
Prisco, mas com raiva e agonia, o seu rosto vingativo tornou-se ainda
mais acentuado. As vezes, Tiago movia-se, constrangido, não em
desacordo com o irmão, mas pela visão dos seus olhos furibundos e pelo
tom de sua voz. E, às vezes, João olhava para Lucano com uma
violência que indicava acreditar quase que o próprio Lucano se incumbira
de transpassar com os cravos a carne sagrada. Eu estou aqui
condenado como os perversos gentios que destruíram o Corpo de Cristo,
refletiu ele, e está claro que ele me acredita consignado ao mais fervilhante
inferno.
A hora do meio-dia veio com luz intolerável sobre a pequena e
pobre casa, e a sombra diminuiu. Agora, João estava exausto; tombou
no banco e cobriu com as mãos o rosto suarento, soluçando alto.
Murmurava, continuadamente:
- O Dia do Julgamento Eterno! Eu o vi em minha alma e minha
alma estremece de medo, contudo está exaltada!
Duas cabras aproximaram-se do lado da casa, procurando
sombra, mais cardos e relva seca. Tiago entrou na casa e trouxe um balde
de bronze, passando a ordenhar os indiscretos animais. Levou o balde
para dentro e retornou trazendo três canecas de barro e um prato com
pão preto e um pouco de queijo. Colocou tudo no banco, a seu lado,
bondosamente, para o irmão.
- Vamos repousar e comer disse.
- Aproxima-se o dia em que não mais haverá o que comer e o
que beber disse João, a voz trêmula. Apesar disso, deixou tombar
as mãos. Seu rosto pálido estava manchado pela pressão desesperada
de seus dedos. Olhou para as três canecas onde espumava o leite de
cabra, e sua boca abriu-se, como que para protestar. Ainda não estava
preparado para comer e beber sem constrangimento com o gentio, ou
para aceitar sua presença com equanimidade. Tiago, porém, tomou
uma das canecas e deu-a a Lucano, apresentando-lhe o prato de
estanho onde estavam o pão e o queijo. Lucano sorria-lhe, com gratidão,
e o rosto de Tiago tomou um aspecto de incerteza encabulada.
- Compreenderás que a alma de meu irmão ainda não se
conformou com os acontecimentos disse ele.
- João franziu as sobrancelhas, implacável. Em silêncio, tomou
tambem uma caneca, mas recusou o alimento.
- Temos ordens para levar as notícias a todas as nações do
mundo disse ele, como que litigiosamente.
- Eu sou uma "das nações do mundo" disse Lucano, que ao
mesmo tempo sentia piedade e algum constrangimento diante daquele
homem orgulhoso, maltratado e arrebatado. João bebia o leite,
sombriamente. Seus pensamentos já haviam abandonado Lucano e era
como se conversasse apenas consigo mesmo, agora, e intimamente
rezasse com crescente fervor. Tiago, entretanto, olhava para Lucano,
cada vez mais incerto, como se sua opinião se estivesse modificando e
ele se arrependesse de se ter mostrado pouco hospitaleiro, de início.
Falou, finalmente:
- Não pense que somos ingratos em relação ao que fizeste por
nós.
João levantou a cabeça, e disse, escarnecedor:
- O Senhor não permitiria que fôssemos perseguidos durante
muito tempo!
Lucano não fez comentário algum. Sua liteira chegou, e ele
levantou-se para sair, agradecendo a Tiago o bom leite e o alimento. Tiago
levantou-se e seguiu-o até a frente da casa, mas João permaneceu em
• seu banco, a cabeça baixa e o peito arquejante. Quando Lucano
entrou na rica liteira e ergueu a mão em despedida, Tiago hesitou,
depois ergueu desajeitadamente a própria mão, saudando-o. E voltou-se
rapidamente. Lucano sentiu piedade maior pelos irmãos. Tinham sido
exortados a realizar uma tarefa gigantesca entre estrangeiros; seus
espíritos temiam-na, mas mesmo assim precisavam obedecer.
Quando os portadores da liteira subiram os quentes degraus
brancos que levavam às portas de Jerusalém, pararam para descansar por um
momento, e daquela altura Lucano podia ver a pequena cidade de Belém,
a distância, toda ela de reluzentes casas quadradas, amarelas, com seus
telhados planos. Ali Jesus nascera, naquele lugar empoeirado, e ali, nas
montanhas próximas, brilhara a grande Estrela e os pastores tinham
ouvido as vozes dos anjos trazendo a mensagem dos tempos. Uma região
de portentos, uma região das mais estranhas e constrangedoras!
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Hilell esperava, nos jardins, onde as fontes irradiavam frescor. Lucano
olhou em derredor, com satisfação. Os muros transbordavam de
flores, que se espalhavam em nuvem de púrpura. Passagens calçadas com
lajes retorciam-se em torno de tanques quebrados, em cuja agua nadavam
peixes dourados, e moitas de um amarelo brilhante mostravam-se
consteladas de flores. Os oleandros floridos exibiam corolas róseas em
sua espessa folhagem verde. Canteiros de rosas vermelhas e brancas
eram rodeados de passagens pequenas, avermelhadas ou cor de
castanha, cuidadosamente rastejadas. Tamareiras, altas e esbeltas, ricas de
frutos, lançavam sombras, como as alfarrobeiras. As fontes tagarelas e
fulgurantes atiravam água sobre a relva, que reluzia vividamente, num
verdor quase impossível. Lucano bebeu um pouco de vinho gelado e
contou a Hilell o que fora sua visita a Tiago e João.
- Há homens que fazem a vida difícil para os pacíficos -
Comentou Hilell, sacudindo a cabeça bonita.
- Amanhã sigo para Nazaré e Galiléia disse Lucano.
- O cancelamento da proscrição dos cristãos causou muito
excitamento em Jerusalém disse Hilell. - A propósito, Pôncio
partiu subitamentc para Roma, esta manhã, e mandou-me um recado
animador, cheio de satisfação. Ele jamais gostou daJudéia. E um
grupo de centuriões veio, com toda a importância, trazer para ti uma
mensagem de Tibério, com o teu anel.
Deu a Lucano o maravilhoso anel, que este colocou no dedo.
Depois abriu a carta de César.
"Saudações ao nobre Lucano, filho de Diodoro Cirino:
"Foi com alegria que recebi o anel que te dera, e que estou
devolvendo. Sou agora um velho, e muito cansado. Muitos anos atrás
esperava, cinicamente, receber este anel em muitas ocasiões. Mas os anos
se passaram e havia silêncio Quando o anel finalmente chegou, por
intermédio de Pôncio Pilatos, com o pedido que lhe fazias a respeito
de certa proscrição lançada sobre pequena seita judaica, e que devia
ser cancelada por ele e, por consequência, por mim próprio, fiquei
surpreendido. Nada pediste para ti próprio. Meditei. Tenho pensado
muitas vezes em ti, meu caro Lucano. Ouvi muito a teu respeito,
notícias vindas da casa de Diodoro Cirino. Ficarás satisfeito ao saber que
tua família vai bem. Teu irmão, Prisco, foi chamado a Roma para uma
longa licença. Ouvi dizer que o curaste de moléstia monstruosa.
Ficarás surpreendido se te disser que não sou cético a esse respeito?
Aceitei integralmente a história. Nas minhas horas mais difíceis volto meus
pensamentos para ti. As vezes, sinto-me tentado a ordenar que voltes a
Roma, para poder conversar contigo e olhar teu rosto. Entretanto, sei
que não desejas isso, embora obedecesses ao chamado. Não devo dar
ordens a homens como tu, nem mesmo para meu próprio prazer. Vejo-os
como outrora os romanos viam os seus deuses: não são para
receberem ordens sequer de Césares.
"Ouviste, sem dúvida, as histórias mais horríveis sobre as minhas
crueldades e opressões, nos últimos tempos. Não as negues, mesmo
para ti próprio. São verdadeiras. Estou repleto de ódio, e o meu ódio
cresce com o tempo. Vingo-me naqueles que me corromperam no
povo de Roma, em suas criaturas, nos senadores e tribunos, e nos
políticos, e em todos os ávidos e desavergonhados abutres que me
rodeiam. Houve um tempo em que sonhei fazer Roma novamente
Roma, cheia de virtude, paz, justiça e honra, como teu pai sonhou.
Que César pode prevalecer contra seu povo? Ele o profana. Arrasta
sua púrpura pelas sarjetas. Ensurdecem-no com suas esfaimadas
exigências. Desonram-no com seus apetites. Enferrujam-lhe a espada com
as suas línguas babosas. Estou perdido. Pensa em mim com bondade, se
quiseres, pois te amo como um pai."
Lucano não pôde evitar as lágrimas lendo aquela carta, e deu-a a
Hilell para que a lesse. Hilell, que começou a ler friamente, terminou
bastante comovido.
- Pobre homem .murmurou, finalmente. - Como deve ser
amargurado e sofrido, para confiar assim em alguém.
E continuou:
- Apesar da advertência de Pilatos, Herodes Antipas apelou para
seu cunhado Agripa, em Roma. Agripa tem muita influência.
Portanto, haverá um adiamento na partida de Antipas de Jerusalém, até que
se veja qual o poder de Agripa junto de César. Adiamentos são as
armas formidáveis dos príncipes. Não haverá imediato recomeço de
perseguição aos cristãos, aqui, mas nada se pode dizer quanto ao
futuro. Tudo dependerá da própria discrição deles, que, como se trata de
homens fervorosos, é coisa que lhes falta. O alto sacerdote está furioso,
e manda mensagens constantes a Antipas. Quem sabe o que trará o
futuro? De uma coisa podemos estar seguros: trará modificações, para
bem ou para mal.
"Tenho amigos em muitos pontos do mundo. Os judeus-cristãos
tentam fazer proselitismo em Damasco, e há ali muita cólera. Isso
disseram-me hoje. Parece que alguns dos mais jovens e mais fervorosos
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discípulos de Jesus chegaram àquela cidade, e pregam e exortam
constantemente levando suas notícias aos mais piedosos judeus em suas
próprias residências. Recebi esta manhã uma carta de meu bom
amigo, Saulo de Tarso, cidadão romano, membro de nobre casa judaica,
advogado de grande magnitude e oficial romano. Vai a Damasco para
abater a insurreição e as desordens naquela cidade. Toma a sério seus
deveres romanos. Pretendia visitar-me aqui, mas trabalhos de último
momento, no tribunal de leis, o impediram. Saulo é homem de poder
bastante grande, e severo. Receio pelos cristãos de Damasco.
Lucano ficou pensativo e ansioso. Então, depois de ter meditado,
de súbito se sentiu aliviado, misteriosamente consolado.
- Não te aflijas falou, espantado com suas próprias palavras.
- Tudo correrá bem.
- Não gosto de premonições disse Hilell, sorrindo pois
sou homem de mentalidade lógica e não muito dado ao otimismo.
Mas quando dizes que tudo irá bem, sinto que falas com a língua dos
anjos, e não com a língua dos homens.
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Hilell desejava fornecer uma escolta a Lucano, até Nazaré e Galiléia.
Este, porém, recusou, com gratidão. Necessitava apenas de um cavalo
forte e robusto, com resistência suficiente para aquele longo e
acidentado percurso. Passaria muitas noites na estrada, em tavernas. Hilell
ficou horrorizado. Mesmo conhecendo Lucano como conhecia,
parecia-lhe incrível que um cidadão romano, de família nobre, médico de
fortuna considerável, amigo de César, pudesse viajar como homem
comum.
- Não estou tentando mostrar-me humilde disse Lucano,
sorrindo. - Só desejo viajar mais depressa, sem nada que me
preocupe, e ver a região.
O cavalo que Hilell forneceu a Lucano era um árabe de tranqüila
disposição e habituado a longas viagens no pó e nas montanhas.
Lucano prendeu à sela seu estojo de médico, um cobertor, e seu
material de pintura; Hilell insistiu em acrescentar uma cesta com comidas
e vinhos. Lucano envolveu a cabeça num turbante, contra o sol
ardente, e cobriu as pernas com um manto pesado. Com apreensão,
Hilell despediu-se dele, acenando com a mão para o amigo.
Era pela manhã, bem cedo. Lucano deixou Jerusalém, e o ar já
estava quente. O cavalo, descansado, trotava energicamente. Cruzaram
o rio Cedron sobre uma ponte de pedra. O céu mostrava um
profundo tom dourado, que se refletia em veios e sombras sobre as águas
estreitas e quietas, com suas ondulações de colorido mais brilhante.
As margens eram guardadas por ciprestes de poutas negras. Hilell
aconselhara o itinerário através de Betânia e jericó, de forma que Lucano
chegasse ao rio Jordão, seguindo-o até a Galiléia, que visitaria em
primeiro lugar. Depressa o viajante encontrou-se em região erma,
desolada, de um tom castanho-esverdeado, despida de árvores, a terra
emaranhada de cardos, toda rodeada de colinas baixas e rasas, cor de
bronze, e reluzentes sob o calor. A estrada rústica e estreita mostrava-se
vazia, pois era pouco freqüentada, os demais preferindo o caminho
mais longo da Via Mare, próximo do mar.
As vezes, Lucano passava por uma fortaleza romana solitária, de
cujo topo os soldados, com curiosidade, olhavam para ele. Certa
ocasião foi detido e interrogado informalmente por um oficial, que não
compreendia como um homem vestido tão humildemente podia ter
cavalo tão belo, em tal estrada. Quando Lucano revelou sua
identidade, o oficial ficou mais perplexo que nunca, mas tornou-se respeitoso.
Convidou Lucano a tomar vinho com ele, e o médico, que tinha sede,
aceitou e entrou no interior mais fresco da fortaleza, sentando-se num
banco de pedra para beber o vinho com o jovem oficial. Depois de
algumas perguntas indiscretas, Lucano respondeu dizendo que ia
visitar Tiberíades. O oficial reparou nos esplêndidos anéis do médico e
disse:
- Embora judeu algum tentasse roubar-te, nem mesmo os
bárbaros samaritanos, haverá caravanas mesquinhas, pobres, pelas
estradas, que não hesitarão em cortar-te o pescoço por esses anéis.
Assim, Lucano guardou-os em seu estojo.
Ao continuar o caminho encontrou, de fato, uma ou duas
pequenas caravanas de camelos, burros e homens de rostos violentos, que
fixaram os olhos em seu cavalo. Lucano, porém, olhou também para
eles. Era homem de alta estatura, trazia uma espada à cinta e seus
olhos mostravam-se frios e desassombrados.
Chegou a Betânia, trotando sob ondulantes vagas de calor. As
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ruazinhas apertadas eram forradas e encobertas por uma poeira
flutuante, amarela, e o povo movia-se ruidosamente, tagarelando e
discutindo, as faces severas escuras pelo sol, as cabeças protegidas com
turbantes pretos, brancos ou marrons, acompanhando roupas empoeiradas
das mesmas cores. As lojas minúsculas ferviam de gente, todos
parecendo irritados, e cães ladravam, crianças brincavam nos degraus das
ladeiras, e as mulheres, com seus jarros à cabeça, paravam para trocar
mexericos. Cheiro forte de carne assada, vinho ácido, ervas, alho,
entranhas de animais suspendia-se sobre a pequena cidade, e Lucano
sentiu-se satisfeito por sair dela dentro de pouco tempo. Então, veio
de novo a região erma. As montanhas modificaram-se, tornaram-se
monótonas, cor de terracota, com projeções de vilarejos amontoados,
recobertos de uma tonalidade cinza-esbranquiçada. As planícies que
rodeavam Lucano eram abandonadas, com ar infinitamente solitário e
deserto, crestadas e vazias. Uma palmeira ocasional, que mais parecia
um bastão empoeirado, lutava pela sua miserável vida, num chão
escuro e friável, onde se espalhavam grandes pedras redondas e negras.
Moitas raquíticas, semimortas, abafadas pelos cardos que tudo
submergiam, e pelas altas massas de cactos, só aumentavam a melancolia
daquele cenário selvagem. E o sol, como um orbe esbraseado,
despejava para baixo suas cataratas de insuportável luz.
Era meio-dia quando Lucano chegou, num tanque de
água intensamente azul, naquela tarde abandonada, mantido por uma
nascente subterrânea. Para seu deleite, salgueiros novos, de um tom
verde-amarelado, sacudiam seus galhos em derredor dele, deixando
que sua ramagem delicada se balançasse ao ar quente. Amarrou o
cavalo, depois que o animal bebeu o quanto quis daquela água fresca,
e deu-lhe um saco de aveia. Então sentou-se à sombra dos salgueiros e
abriu sua cesta de comida. Comeu uma porção da deliciosa ave
assada, recheada com miolo de pão, ervas e cebolas, alguns bolos de aveia,
que cobriu de mel, e dois deliciosos pastéis. Bebeu o excelente vinho
de Hilell, que tivera o cuidado de mergulhar antes na água fria. Era
como se estivesse sentado no centro de uma miragem, com a terra
selvagem e estéril a rodeá-lo, as colinas pedregosas fumegantes pelo
calor e pela poeira a pequena distância. Em parte alguma via criatura
viva; imenso silêncio jazia sobre a terra e as colinas. Sentiu sonolência,
sacudiu a cabeça e tornou a montar.
Teve cuidado de manter-se na estrada que passava por fora de
Jericó, mas pôde ver a cidade propriamente dita, toda aglomerada,
casas marrons, de dois andares, separadas por maciços de ciprestes,
abatidos sob o calor. E, mesmo àquela distância, pôde ouvir o clamor
de vozes. Agora, encontrava rebanhos de carneiros pastando na relva
crestada, e pastores de rostos sombrios. Ou numerosas cabras
guardadas por meninos suarentos e ruidosos. Acelerou o passo de seu cavalo
na direção do rio Jordão, pois a noite caía subitamente naquela região
e Hilell lhe falara numa taverna próxima ao rio. Quase
imperceptivelmente, a terra começava a fazer-se mais fértil. Um monte ocasional
mostrava terraços que fechavam pequenos tratos de relva ou de
paineira e oliveiras, mesmo de alguma fruta. Vinhedos atiravam sua fra-
fragrância ao ar ardente. Lucano subiu uma montanha despida, as
pedras rolando em torno dele, ruidosas naquele silêncio. Alcançou o
topo, e ali, abaixo dele, estava o estreito e tortuoso Jordão, de um
verde incrível, margeado de salgueiros e de altas árvores refrescantes.
Sentindo o cheiro da água, o cavalo desceu rapidamente a montanha,
e aumentou sua velocidade.
Alcançando os altos barrancos do rio, Lucano desmontou, e
homem e cavalo deslizaram e desceram com dificuldade pela terra
quente e úmida, até a água. O cavalo bebeu, sofregamente, e Lucano
banhou a cabeça, o rosto e as mãos. A doçura da fertilidade estava no rio
esmeraldino, que se dobrava fortemente, a distância. Pequenas granjas
erguiam-se próximo dele, as casas brancas, claras sob o sol, ou abrigadas
sob ciprestes e outras árvores. Daquele lugar, mesmo as montanhas
que estavam em toda parte mostravam aspecto menos impressionante e
terrível. Uma criança, com um bando de gansos, aproximou-se de
Lucano, olhando-o curiosamente, com grandes olhos negros. Lucano
Cumprimentou bondosamente a menininha. Ela hesitou, depois
respondeu em aramaico, com o sotaque dos samaritanos. Ele fez-lhe sinal
para que se aproximasse, desejando dar-lhe um dos doces de sua
cesta, mas ela não se chegou mais. Pensava que ele fosse um judeu, e os
samaritanos estavam sempre em conflito com seus companheiros
judeus, considerando-os demasiado cultos, demasiado superiores e
pregando-lhes peças durante os dias santificados, tal como acender
fogueiras nas montanhas, para embaraçar os sacerdotes. De súbito ela
deu um riso estridente, pôs a língua para ele com atrevimento, e
correu, fugindo com seus gansos, que silvavam e grasnavam atrás dela.
Lucano, tornando a montar, seguiu o rio, incrivelmente tortuoso, e
arejou seus sentidos com as pequenas granjas, os sons vindos do gado e
carneiros, o chilrear de muitos pássaros nas árvores de um verde
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escuro, os campos dourados de cevada, aveia e trigo, sob a luz que
descia, e com as agradáveis casas das granjas, brancas e quadradas, com
seus alegres jardins. As vertentes das montanhas eram ali cultivadas, e
pareciam ter sido recobertas com imensos, gigantescos tapetes persas,
multicoloridos. Agora, a luz descia mais depressa. O rio modificava-se,
correndo, dourado, entre seus barrancos. O céu tomou rubor escarlate e
fez-se cor de jade sobre as montanhas. O ar tornou-se mais frio.
Lucano então encontrou a taverna próxima do rio, com um pátio
cujo piso era de pedras lisas, reluzentes e negras. Era uma taverna
pequena, mas limpa. O taverneiro recebeu Lucano com prazer,
reparando em seu cavalo. Nem mesmo o aramaico corrente de Lucano o
incomodou, ou esfriou seu coração samaritano. Não era sempre que
abrigava viajantes com cavalos tais, e as maneiras de Lucano, pelo
menos, asseguravam ao taverneiro que ali não estava um homem
abatido pela pobreza. Ficou tão satisfeito com aquele visitante que
resolveu não lhe cobrar mais do que três vezes o preço da tabela, pelo
alimento e pelo quarto. Levou Lucano para um pequeno aposento,
limpo, de frente para o rio, e garantiu-lhe que o leito era confortável,
nele não existindo pulgas ou piolhos. Lucano olhou para o piso nu,
de madeira branca, e confirmou com um movimento de cabeça.
Sentou-se cansado à beira da cama, bocejando. A taverna enchia-se
com as vozes rudes dos homens e seu riso alto. Cavalos batiam com
as patas no estábulo. Pés roçavam nas pedras do pátio, e algumas das
moças que serviam soltavam risadas alegres. Através das gelosias
rústicas que cobriam uma janela pequena, um aroma de terra fértil, uvas e
esterco invadia o quarto, acompanhado pelo bom cheiro de cabrito
assado e do pão que cozia, bem como da sopa espessa e temperada.
Uma arrumadeira, sem bater na porta, trouxe para Lucano um jarro
de água quente, bacia, e toalha de linho áspero. Ele deu-lhe uma
moeda, e a moça ficou tão surpreendida e encantada que o
surpreendeu com um risinho amplo, examinando-o mais de perto. A aparência
dele agradou-lhe, embora a pele clara do médico estivesse quente e
vermelha, queimada pelo sol. A moça lhe fez uma mesura e deixou-o,
descendo para a cozinha, a fim de falar sobre o cavalheiro estrangeiro
que lhe dera tão valiosa moeda.
Lucano abriu as gelosias e olhou para o céu alaranjado sobre as
montanhas. Ouviu as vozes sussurrantes do rio, que falava consigo
mesmo entre suas árvores e salgueiros. Lavou cuidadosamente o rosto,
fazendo careta, e passou óleo na pele queimada. Desceu, então, um
lance curto de degraus de pedra, entrando na sala de refeições
comum, onde pelo menos dez viajantes já estavam sentados. Uma imensa
lareira de pedra estava com o fogo de lenha e, num espeto, a carne
girava lentamente, tendo ao lado uma jovem que a ia banhando com a
gordura que dela pingava. O piso da sala era de lajes, as paredes
caiadas. Os outros viajantes silenciaram ao ver Lucano, seus rostos
morenos tornando-se vigilantes, enquanto tentavam identificá-lo como
judeu, galileu ou samaritano. Tinham retirado seus turbantes, e
mostravam cabelos rusticamente penteados. Aqueles olhos luziam à
luz misturada da lareira e das lâmpadas.
Lucano saudou-os, cautelosamente, em aramaico. De início, não
lhe responderam. Ergueram os ombros e trocaram olhares. Depois,
responderam, com voz cansada. Os galileus eram quase tão louros
quanto ele, assim como muitos dos judeus. Mas Lucano não tinha
aparência judaica, apesar da perfeição de sua linguagem. Agora, os
olhos que reluziam tornavam-se desconfiados. Lucano sorriu para
todos, mas eles não lhe retribuíram o sorriso. Então o médico pensou,
com ansiedade, em seu estojo lá em cima, com seus anéis. Tinha
fechado à chave a sua porta, mas ladrões jamais se deixam deter por uma
porta fechada à chave. Lembrou-se de Cusa e de sua habilidade e
tornou a sorrir. Os homens durante algum tempo não falaram; sentiam
uma presença estranha. Relanceavam os olhos para os trajes pobres de
Lucano e ficavam perplexos. Ele tinha um ar de segurança e calma,
apesar de suas roupas, e os viajantes já haviam tido conhecimento de
seu belo cavalo. Ele era misterioso, com suas maneiras principescas, e
aqueles homens não gostavam de mistérios.
Ao redor da mesa, havia pouco vociferante, caiu um silêncio
cismarento. A sopa era espessa e boa, carregada com especiarias e
ervas, e com pedaços de carne cozida e farinha. Os viajantes
comeram, em silêncio pesado, olhando ocasionalmente para Lucano, que
estava apreciando a refeição. Os criados, tendo tido notícias de sua
generosidade, serviam-no em primeiro lugar, com deferência, na
esperança de maior largueza. Ele recebeu os pedaços mais macios do
cabrito assado, e a ração mais suculenta da ave cozida. Do vinho,
execrável, sua taça era mantida cheia. Seu prato via-se
constantemente renovado com as tâmaras mais maduras e muitas azeitonas
salgadas e legumes cozidos. Uma das criadas, com floreio, abriu a
fruta de um cacto e, requintadamente, retirou-lhe a polpa com uma
Colher, para que ele não se machucasse com os espinhos da casca.
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Tudo aquilo os viajantes notaram, com mescla de ressentimento e
aumentada hostilidade e desconfiança. Lucano comeu com apetite.
Terminando a refeição, abriu a bolsa e depositou o que era
considerado uma gratificação enorme, ao lado do seu prato. Os viajantes
remexeram-se em seus lugares, entreolhando-se.
Um deles, homem arrogante, barbado, olhos coléricos, falou,
grosseiramente:
- Quem és tu, senhor?
- Eu? perguntou Lucano, surpreendido. - Sou médico, e
chamo-me Lucano.
- Romano? foi a pergunta, repleta de desprezo.
- Não. Grego. - E Lucano sorria.
- Falas o aramaico muito bem, senhor.
- Falo muitos idiomas.
Pela primeira vez, Lucano teve noção da hostilidade reinante.
- Usas espada. Os médicos costumam usar espadas?
- Numa região pacífica? indagou outro.
Lucano olhou para sua espada, depois para os rostos
ameaçadores.
- Sou excelente espadachim disse, calmamente. - Fui o
melhor atleta de Alexandria.
Ninguém lhe respondeu, mas todos eles olharam-no ferozmente.
Um deles falou, finalmente, constrangido diante da firmeza azul dos
olhos de Lucano:
- Somos gente pacífica. Não gostamos de armas.
Lucano ergueu os ombros.
- Eu durmo com a espada na mão disse ele, levantando-se.
Pensara em sair por ali a pé, depois do jantar. Desistiu da idéia.
Foi para o quarto e trancou cuidadosamente as gelosias e a porta.
Tirou a espada da bainha e colocou-a na cama. Subitamente, sentia-se
exausto. Deitou-se e adormeceu instantaneamente. Conservou a
lâmpada acesa.
Levantou-se logo depois do amanhecer, e tornou-se depressa querido
do estalajadeiro por não protestar contra a vergonhosa soma de sua
conta. O homem despediu-o com bênçãos e as criadas reuniram-se nu
pátio para guinchar-lhe adeuses. Seguiu o rio, tanto quanto lhe era
possível, mas às vezes a estrada se afastava dele, e de novo era o ermo,
durante algum tempo. Agora, muitas das altas colinas mostravam-se
interrompidas e bronzeadas, da cor da terra, contra o céu
embranquecido e flamejante. Faziam voltar, em eco, o ruído do trote do
cavalo. Lucano sentiu-se sozinho, num mundo de vasta desolação; às
vezes, via casas sombrias nas colinas, com um ou dois ciprestes poeirentos,
e ficava a cogitar em como era possível um ser humano morar em lugar
tão terrível. Quando a estrada voltava de novo para junto do rio
brilhantemente verde, ele se regozijava, e descia as suas margens para
banhar seus braços e pernas aquecidos. Era meio-dia quando comeu
o que vinha embrulhado no guardanapo de sua cesta e bebeu algum
vinho, arquejando sob o calor insuportável. Recortes do rio reluziam,
esmeraldinos, em trechos que ficavam entre as árvores. Mas em suas
mãos havia frescura, claridade e calma.
Lucano cavalgou entre minúsculas aldeias, e os cães seguiam-no,
ladrando e saltando aos cascos de seu cavalo. Agora estava na província
de Decápohs, e notou que o povo se ia tàzendo mais louro e mais
alto, de olhos azuis ou cinzentos e cabelos e barbas de um tom
castanho-claro. Quando passou por um rebanho de cabras, na estrada, o
camponês levantou os olhos para ele, sorriu agradavelmente, e
saudou-o com o chicote. Cavalgando através da aldeia, passou pela
pequena casa de um carpinteiro; o homem estava rodeado por seus
quatro filhos e tagarelavam enquanto iam trabalhando na madeira crua,
amarelada, que tinha odor resinoso. Lucano pensou em Jesus e em
Seu pai adotivo. Assim Ele trabalhara, com martelo, plaina e serrote,
fabricando o mobiliário simples da zona rural. Assim, José O advertira
por ter entortado um prego mal batido. Lucano sentiu-se mais próximo
de Cristo junto daqueles carpinteiros do que se sentira em Jerusalém,
ou com João e Tiago. Uma mulher saiu da casa com um balde de
leite e algumas tigelas, e pai e filhos pararam de trabalhar para beber
longamente. A mulher tinha na mão uma roca e sorriu para Lucano. A
Mãe de Cristo teria aparecido assim, para refrescar seu Filho e seu
marido?
Naquele crepúsculo ele passou para a província da Galiléia, e
teria continuado até o próprio mar da Galiléia, mas encontrou uma
pequena hospedaria exatamente quando a noite caiu. Estava na região
de Jesus, e quando se envolveu no cobertor, naquele lugar pobre,
sentiu que tinha chegado à sua pátria.
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Continuando o caminho, na manhã seguinte, Lucano ficou
impressionado pela grande modificação na paisagem e no povo da Galiléia.
Passou por um vilarejo de pequenas casas brancas, brilhando com
luz enceguecedora sob o sol do amanhecer, rodeadas de reduzidos
jardins férteis e de granjas, tendo, para além, montanhas de um
negro especial, brilhante, interrompidas e ásperas, todas contra um
céu descolorido, de ardente radiosidade. Tanto as roupas dos
homens quanto as das mulheres, que passavam por ele na estrada ou
eram vistos atendendo a rebanhos de carneiros de focinhos pretos,
eram ali mais alegres. Entre as vestes de um tom roxo escuro ou
preto, via outras, amarelas, vermelhas e azuis. As pessoas ali eram
mais altas do que as de Decápolis ou da Judéia, e excessivamente
louras, com cabelos dourados ou ruivos, e olhos brilhantes, azuis ou
de um cinzento claro; suas peles mostravam-se pálidas ou rosadas.
Os homens usavam foices nos cardos e cactos, preparando a terra
recoberta para trigo e árvores, e havia neles um ar animado, simples,
bondoso e rústico. Crianças tomavam conta de carneirinhos e de
aves domésticas, junto de pequenos riachos ondulantes que fugiam
do verde Jordão, e riam-se, patinhando na água ou atirando pedras
nelas. Mulheres estavam sentadas no limiar das portas,
amamentando crianças ou fazendo girar o fuso, ou repreendendo crianças que
começavam a andar, cambaleantes. Uma paz profunda e tranqüila se
espalhava sobre aquela região rural, que as montanhas de basalto e o
calor não conseguiam abalar.
Lucano deixou o rio para seguir a estrada, que subia por um
monte escuro e dentado, coberto de saliências de pedra da mesma cor.
Alcançou o topo a fim de dar ao seu cavalo um espaço para respirar e
olhou em derredor e para o que jazia lá embaixo. Instantaneamente
ficou atônito e tomado de respeitoso temor pela cena. Era como
alguém que tivesse lutado penosamente para subir montanha escura e
nua, vindo do inferno, e subitamente se visse defrontando o Paraíso,
imbuído de inefável radiosidade. Porque, numa taça de montanhas
que se desdobram, pálido heliotrópio amarelado, estava o mar da
Galiléia, brilhante e inteiramente imóvel, celestialmente azul e
fulgurante, com sombra de um azul mais escuro riscando sua lisura
incandescente. Ali havia não apenas calma, mas uma paz que não era
da terra, mais do que completo silêncio. Mesmo quando observava, a
taça de montanhas clareou, e pareceu enroscar-se em torno do mar,
como píton protetora, suas concavidades cheias de luz dourada,
crespa. As silenciosas sombras purpúreas, sobre o mar, aprofundavam-se
por cima da expansão azul.
O rio Jordão retorcia-se afastando-se do mar, e era verde
-esmeralda, rodeado pela fertilidade rica dos salgueiros e das árvores, da
sombra e da terra quieta e fecunda. Nenhuma voz e nenhum movimento
interrompiam a abafada quietude, embora na vertente escura, abaixo
de Lucano, estivessem plantados palmeiras e olivais, bem como
vinhedos e árvores frutíferas. A folhagem das oliveiras tinha o aspecto de
prata cinzelada; as palmas verdes não oscilavam no ar puro e sem
vento, as romas deixavam-se pender dos galhos, como pedras
preciosas. Os carneiros dormiam em torno das oliveiras, sua lã de um tom de
ouro pálido. Não havia ali grito de pássaro, rompendo a aurifulgência.
A paz que ficava para além da compreensão, a luz que não pousava na
terra nem no mar estavam como que colhidas em cristal radiante,
eterno e imutável.
Lucano ficou sobre seu cavalo, como uma estátua, durante muito
tempo, respirando o ar brilhante e banhando-se naquela paz que
infundia respeitoso temor. Então viu Tiberíades à beira da água, a
cidadezinha construída por Herodes Antipas em honra de Tibério,
amaldiçoada e evitada pelos judeus, pois fora erguida no local onde ficava
o velho cemitério que se chamara Rakkath. O basalto negro da
montanha fora usado para construir as fortalezas romanas que guardavam a
cidade, e também muitas das casas, embora as do centro fossem
brancas e cor de açafrão, com telhados rasos e brilhantes.
Lucano pensou: Aqui está o que Ele conheceu, e foi aqui que Ele
caminhou, e ensinou e trouxe os homens para Si, sem discussão. Ele
conheceu este mar de turquesa e estas montanhas de âmbar
sombreadas de violeta.
Começou a lenta descida para o vale e para o mar, sobre a
pequena e rústica estrada. Chegara exatamente ao fundo quando ouviu
ruido de cascos, e seis soldados e um centurião vieram a meio galope da
fortaleza, dirigindo-se a ele, de armadura e elmos, com espadas nas
mãos, refletindo a luz como se fossem de fogo. O centurião vinha à
frente e saudou-o, com um sorriso sombrio:
- Saudações ao nobre Lucano, filho de Diodoro Cirino dís-
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se, em latim, gozando a surpresa do outro. Era homem robusto, de
meia-idade, com o rosto aquilino dos romanos, olhos ásperos e
pele tisnada de sol. - Sou Aulo, o comandante da fortaleza.
- Saudações, Aulo disse Lucano. - Mas como soubeste
que eu vinha?
- Teu amigo, Hilell ben Hamran, escreveu-me e pediu-me que
te prestasse todas as honras e conforto.
Lucano, embora dizendo a si próprio quanta solicitude havia em
Hilell, de certa forma ficou desgostoso. Tinha esperado encontrar uma
pequena hospedaria onde pudesse permanecer por alguns dias,
meditando naquele lugar sagrado, e perambulando por onde entendesse,
explorando o território. Mas não podia fazer outra coisa senão sorrir
agradecido a Aulo, que o observava. E o soldado disse, seu rosto
áspero suavizando-se:
- Fui um jovem subalterno sob o comando do heróico Diodoro,
e amava-o como a um pai, pois era um grande homem, cheio de
virtudes. Agrada-me, agora, atender seu filho adotivo.
Os soldadôs circundaram Lucano e o centurião, e trotaram na
direção da pequena cidade, passando através dos portões da fortaleza.
Levaram o hóspede para dentro da fortaleza, para uma pequena sala
onde era servida uma refeição simples. Aulo puxou cerimoniosamente
uma cadeira para seu hóspede. Havia ali uma sombra azul, e um
frescor se mantinha dentro das paredes de pedra escura.
- Não posso oferecer-te asas de avestruz ou pontas de línguas de
flamingos, como se come em Roma disse Aulo. - Temos, porém,
bom peixe do mar, pão escuro umedecido, um ganso, frutas e vinho
da região. - Parou e piscou um olho: - Tomarias primeiro uma taça
desta excelente aguardente síria? É forte e faz com que um homem
esqueça suas mágoas.
Lucano pensou que ainda era cedo para a aguardente, mas
aceitou, polidamente. O licor parecia âmbar, na taça, mas ácido e ardente
na língua e na garganta. Apesar disso, depois de alguns goles Lucano
sentiu-se animado, riu e gracejou com o centurião. Seu rosto
queimado do sol enrubesceu, os olhos azuis faiscaram. Parecia de novo um
jovem. Aulo contou-lhe que tomara aposentos para ele na melhor
hospedaria de Tiberíades, à margem forrada de basalto do mar, onde o
médico estaria confortavelmente instalado.
- És hóspede de Roma disse o centurião. - Todos sabem
que estás sob a proteção de César.
Aulo fez uma pausa. Em sua carta, Hilell apenas mencionava que
Lucano desejava dar a volta à região, que o interessava como viajante e
como médico. Estava interessado, também, na medicina judaica.
Depois da assinatura, Hilell desenhara o contorno de um peixe. As linhas
de sol em derredor dos olhos enérgicos do centurião aprofundaram-se.
Tornou a encher a taça de Lucano com mais aguardente e fingiu fazer o
mesmo na sua. Tinha observado a reserva inicial de Lucano, e não
havia nada melhor para soltar a língua de um homem do que uma boa
aguardente. Lucano teceu elogios a propósito dos pequenos peixes
frescos, que tinham sido grelhados sobre o carvão de lenha; encantou-se
com o ganso bem cozido que fora recheado com farinha de pão, ervas e
cebolas; a salada, a fruta e os queijos mostravam-se simples, mas de
excelente gosto. O profundo silêncio plácido em derredor deles e depois
a aguardente e a comida diminuíram um tanto a maneira naturalmente
taciturna de Lucano. Olhava para Aulo, afetuosamente:
- Jamais tive tão esplêndida refeição disse ele, recostando-se
no banco para bebericar seu vinho e gozar a sensação de bem-estar.
Aulo sorria, cogitando em qual seria a verdadeira razão que levara
Lucano a visitar aquele lugar. Lucano fora hóspede de Pôncio Pilatos,
daquele áspero e altaneiro patrício, tinhajantado com Herodes Antipas.
Era protegido de Tibério. Rico, filho adotivo de uma casa nobre.
Aulo não acreditava que o simples desejo de passeio o impelisse, nem
que ele viesse procurar ali qualquer interesse em medicina. Podia
bem ser que fosse um belo e muito perigoso espião. Aulo coçava o
queixo e refletia. Não tinha apenas de proteger a si próprio, mas a
muitos de seus soldados, que o amavam.
Como quem o faz distraidamente, mergulhou um dedo em sua
taça, e devagar correu o dedo molhado sobre a mesa, desenhando um
tosco peixe. Então levantou rapidamente os agudos olhos negros para
Lucano. Este viu o desenho úmido, riscado com vinho. Seu rosto
modificou-se, tornou-se delicado, embora surpreendido. Devolveu o
olhar de Aulo. Depois, deliberadamente, molhou seu próprio dedo e
desenhou a mesma imagem. Aulo franziu as sobrancelhas, ainda
desconfiado, e muito surpreendido, disse:
- As coisas tornaram-se mais tranqüilas em Jerusalém depois da
crucifixão daquele judeu galileu, Jesus? Ouvi dizer que tinham
corrido muito mal durante algum tempo.
Lucano olhou pensativamente para a parede. Também ele estava
desconfiado. Abriu a bolsa e tirou seus anéis, colocando-os nos de-
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dos. Eles cintilaram ao crepúsculo frio, na pequena sala de refeições,
e Aulo olhou-os com admiração:
- Este anel disse Lucano me foi dado por César quando
eu era jovem. Jamais o usei, até três meses atrás, quando o dei a Pôncio
Pilatos e ele o enviou a César. - Esperou um momento, depois disse:
- Pilatos tinha banido os cristãos, que são homens inocentes.
Pedi-lhe que cancelasse o banimento, e isso foi feito. Ouviste falar que o
banimento foi cancelado?
- Sim disse Aulo. Cruzou os braços musculosos sobre a mesa
e seus olhos encontraram-se diretamente com os de Lucano. - Eu
não sabia que estava na causa, Lucano. - Olhou para os dois
desenhos dos peixes, que tinham secado, em vermelho, sobre a madeira
branca. - Posso perguntar por quê?
Mas Lucano disse:
- Quando Jesus esteve aqui na Galiléia, tu O ouviste
pessoalmente?
- Sim. - O rosto do centurião era inescrutável.
- Eu ouvi falar Dele quando era criança, no dia em que Ele
nasceu. - E Lucano contou, rapidamente, a Aulo, o que soubera,
observando-o cautelosamente enquanto falava. O rosto de Aulo se foi
iluminando lentamente, abrandando-se, e um vagaroso clarão exultante
brilhou em seus olhos. Quando Lucano terminou de falar e mostrou-lhe
a cruz na corrente de ouro que lhe pendia do pescoço, Aulo ficou
muito tempo em silêncio. Depois, murmurou:
- A paz seja contigo, Lucano.
- E contigo, Aulo.
Observando a expressão de Lucano, viu que não mais precisava
temer. Levantou-se, e fez sinal ao médico para que o seguisse lá para
fora, para a luz deslumbrante. Apontou para um monte não muito
distante, no qual havia uma pobre sinagoga, feita de basalto, com
portas pintadas de branco e um telhado raso, de lajes.
- Ali Ele falou, freqüentemente. Eu não podia entrar, é
natural, mas ouvia da porta. Seguido de Seus discípulos, Ele ficava de
pé na praia e falava ao povo. E, certo dia, eu O ouvi pregar ao ar
livre, sobre o monte, e fiquei entre o povo, homens e mulheres
pobres da região. E ouvi. - Aulo parou. O sol tombava com
vivacidade sobre seu rosto sereno. - Digo-te, Lucano, que era impossível
ouvi-Lo sem sentir o coração comovido. Quem é Ele?, perguntava
eu a mim mesmo. Que deuses falaram assim, nossos deuses venaiS,
caprichosos e cruéis? Que esperança de paz e alegria trouxeram eles
aos homens em sua corrupção e em sua abstraçãO, gozando de
divinos prazeres? Mas este Homem fala da misericórdia e do amor de
Deus por Seus filhos, de Seu desvelo permanente da vida eterna
em beatitude, da piedade de Deus e do desejo de que os homens vão
ter com Ele, não apenas para louvá-Lo e se prostrarem diante Dele,
temerosos, mas para regozijarem com Ele através da eternidade,
partilhando de Sua própria felicidade.
"Que espécie de homem é este?, perguntava eu a mim mesmo,
estupefato. Por que fala Ele com tamanha autoridade, como quem traz
mensagem de um grande Rei? Por que o povo olha para Ele com tanta
alegria e amor, e queda-se em silêncio, de forma que nem uma só de
Suas palavras se perca? Por que seguem-No como um séquito, e
aglomeram-se em derredor Dele para olhar-Lhe o rosto e tocar-Lhe as
vestes? As crianças, nos braços maternos, riam-se de prazer, e Ele lhes
sorria, com um rosto que se parecia ao próprio sol. Ainda assim, o que
podia impressionar alguém em Sua aparência? Usava as vestes de um
camponês galileu, com pobres sandálias de corda, e não tinha
dinheiro, nem servos. Caminhava a pé.
"Este lugar é tranqüilo, LucanO, mas desde a hora em que Ele
apareceu por aqui veio com Ele esta paz que observas, esta profunda e
santa paz, e nunca mais daqui saiu.
"Um dia, meu amigo, eu estava à beira da multidão, ouvindo, e
Ele falou ao povo numa oração que devia ser dita: "Pai, abençoado
seja Teu Nome! Venha o Teu Reino! Dá-nos NOSSO pão cotidiano e
perdoa nossoS pecados, pois também nós perdoaremos a quem quer
que tenha dívidas para CONOSCO. E não nos induzas em tentação." A
voz Dele ressoava sobre as montanhaS como trovoada de verão, e o
povo rezava com Ele. E quando terminaram a oraçãO, os olhos Dele
de súbito me encontraram, pensativo e embaraçado, e Ele me sorriu
por sobre as cabeças do povo. Daquele momento em diante
pertenci-Lhe, e teria morrido por Ele, alegremente. Mas não posso
explicar por quê, já que sou um romano, e Ele era apenas um judeu
galileu, um carpinteiro.
"Tal milagre não se deu apenas comigo. Vários de meus homens
também O ouviram, e Ele tomou-lhes o coração com Suas mãos.
Aulo suspirou.
- Eu estava transformado. O mundo de Roma não era
importante para mim. Minhas ansiedades e perturbaçõeS desapareceram.
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Eu tinha paz. Senti-me completo de exultação. A terra já não era
povoada por inimigos, mas por amigos. Eu só tinha um desejo:
aperfeiçoar-me de forma a me tornar digno de deitar-me a Seus pés e olhar para
Ele, eternamente. Como se pode explicar tal coisa? É preciso ter a
própria experiência. Mas isto eu posso dizer: vejo agora todas as coisas
como se delas irradiasse uma luz que lhes fosse própria. A lua jamais
brilhou com luz tão prateada, antes, nem jamais o sol foi tão radiante
aos meus olhos. Os homens, para mim, já não têm uma categoria, e
não acho que devam ser reverenciados pela simples posição e fortuna
mas somente pela virtude. Portanto, todos os homens são agora meus
irmãos, mesmo os mais baixos entre eles. As vezes, digo comigo
mesmo: Mas és um romano, o senhor do mundo! E isso nada significa
para mim. De novo advirto a mim mesmo: Temos a liderança da terra
toda. E uma voz em meu espírito responde: A nação que procura a
liderança da terra está fadada à morte, pois é uma nação má, sejam
quais forem as suas altaneiras pretensões. Os homens procuram
liderança apenas para dominarem e escravizarem os outros homens.
Aulo e Lucano olharam para a paisagem que os rodeava. A luz se
modificara. As montanhas estavam lavadas por um violeta profundo,
em várias tonalidades. O mar havia tomado a cor de uma
água-marinha, riscada de cobalto, e o céu era de esmalte azul. Lucano sentiu
que daquilo tudo vinha emanação espiritual, profunda, vasta, imutável,
como se seres invisíveis e celestiais estivessem suspensos sobre
todas as coisas, com asas de sol.
- Um dia disse Aulo, em voz baixa trouxeram dez
leprosos até Ele, mulheres, homens e crianças que choravam. Gritavam
para Ele, pedindo misericórdia, e as pessoas afastavam-se, medrosas.
Mas Ele os tocou e levantou Suas mãos sobre os doentes, que ficaram
instantaneamente curados. E a grande multidão regoziJou-se, e os que
tinham sido doentes tombaram-Lhe aos pés, beijando-os. Vi isto com
meus próprios olhos! Deves acreditar em mim.
- Eu acredito em ti disse Lucano, delicadamente.
Naquela noite, Lucano escreveu tudo quanto o centurião lhe contou
durante um período de longas horas, todas as parábolas que Cristo
contara na Galiléia, todas as coisas gloriosas que Ele dissera. Lucano
recordou-se da pedra que fora misteriosamente removida da sepultura
onde O haviam colocado depois da crucífixão. Assim como a pedra
fora removida, sem que o fosse por mãos humanas, assim a pedra que
fecha um coração morto pode ser removida para o lado, apenas pelo
amor de Deus, e o coração tornará a viver.
- Faze-me digno de escrever a Teu respeito, digno de seguir-Te,
e lança sobre mim a Tua graça, ó Pai! rezou ele humildemente.
Herodes construíra Tiberíades em louvor de Tibério, os
judeus não entravam no local da profanação. Mas Herodes mandara
apanhar muitos galileus e os obrigara a trabalhar e a ter casas na
cidade. Eram miseráveis que tinham visto, conhecido, e amado Jesus, bem
como os de Caná, Magdala e Cafarnaum, cidades próximas do mar.
Que alívio e júbilo devia Ele ter levado àquelas vidas pobres e
lutadoras! Fizera suportável sua sorte, a sorte dos que se esfalfavam contra o
chão negro e ríspido, e moviam as pedras escuras da região, e eram
oprimidos pelos romanos e pelos seus próprios senhores.
A hospedaria à qual Aulo levara Lucano era muito grande e
agradável, e o hospedeiro homem bondoso, que se sentia orgulhoso de sua
mesa simples, mas farta, e da limpeza de seus quartos. O edifício
levantava-se na praia, juncada de grandes pedras de basalto, pesadas e
negras, que despencavam pela inclinação ligeira que se dirigia à água
azulada. Diante dela havia um terraço de piso de lajes, e grandes
salgueiros com troncos esbranquiçados, marcados de castanho,
inclinavam-se para as vagas pequenas, levemente onduladas. Lucano
sentouse no terraço, numa cadeira confortável, sozinho, embora em torno
dele viajantes bebessem em mesinhas e comessem doces, conversando
com grande gesticulação e vozes animadas. Muitos deles eram simples
negociantes. Lucano ficou satisfeito quando eles se levantaram e
entraram na hospedaria para a refeição da noite. Agora, podia observar
as montanhas acentuarem ainda mais o violeta profundo de sua
coloração, e o mar refletir-lhes a imobilidade. Momento a momento, a
paisagem se tornava mais silenciosa ainda, mais vasta, mais envolvente.
O céu escureceu para um violeta intenso, e a água modificou-se com
ele. O sol deixou a terra. A lua crescente, de um branco ardoroso,
levantou-se acima de uma das montanhas e olhou a própria imagem
nas águas: as estrelas dançaram. não apenas no céu, mas no mar. Da
pequena sinagoga do monte, à esquerda de Lucano, veio o cântico dos
sacerdotes, quebrando a quietude.
Deus tinha visto e ouvido tudo aquilo. Tinha rezado naquela
pequena sinagoga. Tinha fixado os olhos naquela mesma lua,
naquela água cor de jacintos, tremeluzente de estrelas, naqueles
salgueiros, naqueles ciprestes negros, naquelas moitas com suas flores
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amarelas, que se assemelhavam a lírios, naquelas romãs junto do rio
verde, naquelas palmeiras e oliveiras que rodeavam Tiberíades,
naquele vale tão verde.
Bem-aventurado sou, pois que me deste vida para Te conhecer,
disse Lucano, em seu coração. Sou indigno; tem misericórdia de mim,
um pecador.
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Lucano permaneceu poucos dias apenas em Tiberíades. Durante esse
tempo perambulara pelo vale e pelos montes, ficou em pé à porta da
sinagoga e ouviu as preces dos que estavam lá dentro. Ficou em pé
onde Cristo ficara, e dali olhou, lá embaixo, o mar da Galiléia, sempre
mutável, sobrenaturalmente azul e tranqüilo. Depois, partiu para
Nazaré, à procura de Maria. Desejava vê-la, àquela que dera à luz
Deus, e O amamentara e O embalara em seus joelhos, e O levara aos
mestres e ao Templo, e O amara acima de tudo o mais, e O vira morrer
da morte odiosa dos perversos. Pensando nela, Lucano a reverenciava
em seu coração e o fato de nela pensar era uma alegria. Bem-aventurada
era ela acima de todas as mulheres de todas as gerações.
Aulo separou-se dele com tristeza.
- Se não nos tornarmos a encontrar na terra, então nos
encontraremos no céu disse ele, abraçando Lucano.
Enquanto seu cavalo subia a colina pedregosa, Lucano olhava
para tras, para o mar, e pensava que só no Paraíso devia existir paz
assim, vasta e azul tranqüilidade, tão envolvente calma. Então, no topo
da montanha, ele olhou para Nazaré, a distância, sobre as colinas
ressecadas e escuras, com suas projeçoes de pedras quebradas. As
casas de telhados planos eram da cor circulante, brilhando ao sol e
rodeadas, espaçadamente, por espessas árvores verdes e ciprestes
pontudos, que pareciam sombrios contra o céu ardente. A cidadezinha
empoleirava-se ali, como se colocada pela eternidade, para não ser
movida de novo, para não ser perdida. Para além dela, as montanhas
distantes se iam desdobrando uma após outra, em profunda
tonalidade castanha, como uma barreira. Ondas de calor estremeciam sobre o
cenário amplo, dando-lhes aparência sobrenatural. Lucano desceu o
monte, para um pequeno vale juncado espessamente de enormes
pedras de basalto negro, entre as quais havia relva esparsa, pálida e cvestada
à luz do sol. Ali, carneiros pastavam, guardados por pastores sentados
nas pedras. Os homens olhavam fixamente para Lucano, seus turbantes
abrigando-lhes os rostos queimados de sol. Ele saudou-os, e os
homens retribuíram-lhe a saudação, cheios de curiosidade. Olhando
para eles, Lucano pensava: Eles O viram, conheceram-No, falaram
com Ele e talvez muitos tenham brincado com Ele, em sua infância.
Uma grande sensação de entusiasmo ergueu-se nele, ao deixar o
vale, pondo-se a subir o monte para Nazaré. Nuvens de poeira branca
e ardente seguiam-no, rodeavam-no, sufocavam-no, forçando-o a
tossir. Ele porém, conservava os olhos em Nazaré e esporeava o cavalo,
desejando sombra. As montanhas devolviam o eco do galopar e do
tropeçar do cavalo, e do rolar de pedras à sua passagem. Então,
finalmente, estava na periferia de Nazaré, nas pequenas e alcantiladas ruas
estreitas, onde a poeira rodopiava e onde fervilhavam crianças
brincando. As ruas eram margeadas por minúsculas lojas abertas, que
vendiam cordeiro e carneiro assados, salsichas, vinho barato, artigos
domésticos, sandálias e tecidos de cor. O ruído foi quase um alívio para
Lucano, depois do silêncio das montanhas e, enquanto cavalgava
através de mais ruazinhas, espessa e purpúrea sombra era atirada
ocasionalmente por um carvalho, uma alfarrobeira, pinheiro alto ou um
cipreste, uma acacia, ou um grupo empoeirado de tamareiras. No
centro de uma praça redonda, pavimentada de pedras lisas, feitas,
principalmente, de basalto preto, havia um poço, e moças ali estavam
enchendo seus jarros e tagarelando; as cordas rangiam e os baldes
deixavam pingar gotas brilhantes ao sol. As donzelas olharam Para
Lucano e sobressaltaram-se; seus olhos, azuis, cinzentos ou de um
castanho claro tornaram-se curiosos sob os véus coloridos. Era um
lugar pobre. Não havia casas bonitas, nem jardins ornados de pontes,
nem paredes altas de onde cascateassem flores vermelhas ou rosadas.
Não se viam liteiras, nem bigas, nem homens ou mulheres bem-vestidos.
Atrás de algumas das casas cresciam pequenos retalhos de
verduras, ou vinhedos que se apoiavam em estacas. Todas as ruas
mostravam-se ruidosas, com cães e burros, estes últimos pacientes e
pesadamente carregados com produtos para as lojas. Lucano parou
junto à cisterna e perguntou às moças se poderiam indicar-lhe onde
ficava a casa de Maria, Mãe de Jesus.
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Elas olharam para aquele homem alto e louro, em seu cavalo
preto, e o aprumo dele tornou-as tímidas e prudentes. Deram risinhos
abafados, olharam-se umas às outras, e então uma delas, sem dizer
palavra, apontou para uma rua que saía da praça. Lucano seguiu,
deixando as moças sussurrando alvoroçadamente. Aquela rua ainda
era mais pobre do que as outras, e havia poucas casas nela. Eram casas
excessivamente baixas, com escadas curtas que levavam aos terraços
planos, onde as pessoas se podiam reunir depois do crepúsculo, em
busca de frescor. Através de portas abertas Lucano podia ver os
degraus de pedra que desciam, em forte declive, para as frias adegas
subterrâneas, onde as famílias passavam as horas quentes do dia e
faziam suas refeições.
Lucano parou o cavalo e olhou em derredor, hesitante. O animal
movia-se, impaciente, e sacudia a cabeça e a cauda para livrar-se da
multidão de moscas. Na luz enceguecedora do meio-dia a pequena
rua alcantilada tinha ar de infinita desolação, e a poeira ondulava
sobre ela. Não havia ninguém por ali. Lucano escolheu a casa mais
próxima, apeou, chegou à porta aberta, e olhou para dentro, depois
para os degraus que desciam para o aposento abaixo, tipo adega, mas
fresco. Havia poucos e pobres artigos de mobiliário no quarto
minúsculo, acima dos degraus. Uma ou duas cadeiras feitas em casa, um
banco, uma mesa. As paredes eram caiadas e reluziam com os reflexos
do sol lá fora. Da adega vinha um grugulejar agradável de água. Lucano
chamou e, não recebendo resposta, entrou pela porta estreita e olhou
para os degraus; pôde ver um pequenino poço no piso da adega, um
piso de pedra, algumas panelas de ferro, e uma chaminé preta.
Tornou a chamar. Agora, ouviu-se o roçagar de roupas e uma mulher
apareceu no fundo, levantando os olhos para ele, silenciosamente.
- Estou procurando Maria, a Mãe de jesus, senhora disse
Lucano. - Fiz uma longa viagem para falar com ela.
Sem responder, ela subiu os degraus, e Lucano viu, pelo reflexo
da luz, que era jovem e flexível, vestida com um tecido barato, azul-
escuro, e usando véu branco. Enquanto ia subindo os degraus, o rosto
levantou-se para o médico, e ele percebeu que a mulher era
extremamente bela, de faces lisas e pálidas adelgaçando-se no queixo onde
havia uma covinha. Tinha o nariz delicado, os lábios de um rosa suave
e os olhos azuis mais encantadores que o médico já vira. Um caracol
de cabelo dourado escapara de seu véu. Seu corpo e sua esbeltez eram
os de uma jovenzinha, e seus pés, descalços, muito brancos.
Então, em pé diante dele, cheia de simples dignidade, ela disse:
- Sou eu.
Lucano estava estupefato. Segundo tudo quanto ouvira, Maria
devia ter agora quarenta e oito anos, e ainda assim mostrava o aspecto
e a juventude de uma jovem princesa, gentilmente nobre e
infinitamente suave. Não havia rugas marcando-lhe o rosto, e ela sorria,
indagadora, para Lucano, mostrando dentes pequenos, que pareciam
pérolas perfeitas. Contudo, olhando-a, ele percebeu que ela sofria
uma sutil modificação, tornava-se mais velha, enchia-se de desgosto e
tristeza, curvava-se um pouco. Então, de novo, estava misteriosamente
jovem e erecta, calma como uma estátua, com a fronte lisa e branca.
Lucano, sem saber por quê, começou a tremer. Estava dominado
pela reverência e pelo amor. Desejava ajoelhar-se diante dela e
beijar-lhe as mãos que o trabalho gastara. Entretanto, Maria fixava nele um
olhar sem curiosidade, e seus olhos azuis pareciam transpassar-lhe a
alma.
- Sou Lucano, médico grego, senhora murmurou ele. -
Vim de longe para ver-te pois amo e sirvo teu Filho, embora nunca O
tenha visto, a não ser em meus sonhos.
Ela não se mostrou surpreendida. Sorriu-lhe ternamente, e falou,
com voz sussurrante como a de uma harpa que fosse suavemente tangida:
- Sentemo-nos atrás da casa, na sombra, Lucano.
E conduziu-o para trás da casa, onde havia um banco contra a
parede. Todos os seus movimentos eram cheios de graça, flexíveis como
os de um salgueiro, e havia nela uma alta majestade. Sentaram-se,
lado a lado, e Maria olhava para a distância, sonhadoramente.
Imediatamente, Lucano teve certeza de que ela tudo sabia a seu respeito,
mas ele não podia dizer como isso se dava.
Duas ou três cabras ocupavam-se em mordiscar alguns cardos
baixos, na relva pálida. Algumas aves domésticas ciscavam no pó. E, para
além delas, os vinhedos subiam em estacas e enchiam o ar quente e
seco com o seu perfume. Maria, sentada, tinha as mãos cruzadas no
regaço adorável, com seu perfil delicadamente tranqüilo.
Lucano começou a falar. Disse-lhe de sua longa amargura. depois
de sua longa busca. Contou-lhe as histórias de Jesus, que ouvira, e
falou de sua visita a Tiago e João. Ela nem uma só vez lhe dirigiu
qualquer pergunta, nem mesmo o interrompeu. Seu perfil adoçava-se
com suas visões. A pequena sombra azul aumentou; uma cabra veio
farejar os joelhos de Maria e os franguinhos alvoroçavam-se em torno
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de seus pés. Os montes pálidos a distância tornaram-se de um
castanho-dourado, sob um céu também dourado.
Então, tendo terminado sua história, Lucano ficou silencioso.
Olhava para o perfil de Maria, e ele parecia-lhe concentrar as feições
de todas as mulheres que amara: sua mãe, Iris, Rúbria e Sara. A
tranqüilidade dela invadiu-o e ele sentiu-se repleto de paz. Esqueceu que
ali estava uma pobre mulher gadiléia, a viúva de um pobre carpinteiro.
Ela mantinha os tempos em suas mãos imóveis, e era rainha entre as
mulheres. E outra vez a modificação misteriosa apareceu,
movimentando fluidicamente as feições dela, dando-lhe a um momento um
aspecto envelhecido e sofredor, e então, imediatamente, fazendo dela
uma jovem, uma virgem, um ser puro e intocado.
- Queres saber a meu respeito disse ela muito docemente -
e sobre meu Filho. Eu te direi. Mas primeiro deves refrescar-te -
acrescentou, em tom maternal. Levantou-se, caminhou até os
vinhedos e apanhou um cacho de uvas e trouxe-o a Lucano. Eram uvas
grandes e redondas, ambarinas, com riscos vermelhos e roxos,
reluzentes como pedras preciosas. Ele as tomou da mão dela e começou a
comê-las. O suco era tépido e doce, e sua sede acalmou-se. Olhou
com gratidão para Maria; era como se com aquelas frutas ela lhe tivesse
dado vida, e Maria sentou-se, sorrindo-lhe, o rosto luminoso dentro
da sombra.
Começou a falar, e todo o ar ardente em derredor encheu-se com
sua voz delicada e musical. Falou de sua velha prima, Isabel, cujo
esposo era Zacarias, um sacerdote. Não tinham filhos, o que para eles
era muito doloroso. Viviam numa cidade pequena da Judéia, e
gostavam muitíssimo da jovem Maria, que tinha apenas quatorze anos e
que os visitava com freqüência, quando a caminho de Jerusalém para
os grandes dias santificados. E eles a acompanhavam, e a seus pais,
pelo resto da viagem. Sempre, com seus pais, vinha seu noivo, José,
um carpinteiro, homem bom e amistoso.
Um dia, enquanto Zacarias oficiava como sacerdote no templo de
sua pequena cidade, um anjo apareceu diante dele, junto do altar
onde o velho queimava incenso sozinho, em sua sala sacerdotal. O
povo esperava lá fora, rezando, àquela hora. Zacarias, vendo o anjo,
ficou muitíssimo perturbado e cheio de medo, mas o anjo Lhe disse:
Não temas, Zacarias, pois tua petição foi ouvida e tua esposa
Isabel te dará um filho a quem chamarás João. Deverás ter alegria e
júbilo, e muitos se regozijarão com o seu nascimento, pois que ele será
grande diante do Senhor. Não beberá vinho nem bebidas fortes, e
será repleto do Espírito Santo, mesmo desde o ventre materno. Levará
de volta ao Senhor muitos dos filhos de Israel, e ele próprio ira ter
diante de Deus no espírito e poder de Elias, a fim de voltar o coração
mais para seus filhos e dar aos incrédulos a sabedoria dos justos,
preparando assim para o Senhor um povo perfeito.
Mas Zacarias exclamou, em voz alta:
- Como saberei de tal coisa? Sou velho, e minha esposa vai
avançada em anos!
O anjo respondeu-lhe:
- Sou Gabriel, que está na presença de Deus, e fui mandado
para falar contigo e trazer-te as boas novas.
Então, Gabriel parecia encolerizado diante da dúvida de Zacarias,
e continuou:
- Ficarás mudo, incapacitado para falar até o dia em que essas
coisas aconteçam, porque não acreditaste nas minhas palavras, que a
seu tempo serão confirmadas.
O anjo ficou ali por um momento, palpitando na luz, suas
poderosas asas dobradas. Desapareceu então e Zacarias se viu sozinho
diante do altar cheio de fumaça, e em seu espirito havia terror e espanto.
Quando saiu da sala não podia falar, e as lágrimas rolavam pelas suas
velhas faces, sabendo assim o povo que ele tivera uma visão. Visões
não eram coisa rara para aquele povo simples e piedoso. Lendas sobre
aparecimentos de anjos e presságios corriam através de suas
conversações. Fizeram perguntas a Zacarias, excitadamente, mas ele apenas
podia fazer gestos mudos e maravilhados.
Zacarias era homem pobre, apesar de ser sacerdote, e voltou à sua
miserável casa e olhou para sua esposa, chorando silenciosamente
Mais tarde, para grande e incrédula alegria dela, Isabel concebia, em
sua velhice, e escondeu-se durante cinco meses, dizendo:
- Isto é a graça que o Senhor me fez, nos dias em que se dignou
retirar meu opróbio entre os homens!
Maria parou e olhou para Lucano, e seus olhos azuis estavam
brilhantes e sorridentes, entre lágrimas. Era como se de novo se
regozijasse com sua prima Isabel, naquele milagre, e recordasse com
ternura e compreensão as palavras dela.
Ia aproximando-se o tempo para seu próprio casamento com José,
que ela amava, e de quem era noiva. Tinha quatorze anos, estava
preparada para o casamento, mas às vezes perturbava-se, sem saber se
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poderia ser uma excelente esposa para aquele bom homem: Era a
única filha de seus pais, e fora carinhosamente mimada por eles, e o
pouco de que eles dispunham lhe tinha sido dado com devotamento e
amor. Sua mãe poupava-lhe muito trabalho, e ela não tinha, como as
demais jovens, todo o conhecimento da vida de uma esposa e dona-
de-casa. Sabia fiar e costurar, cozinhava um pouco, e tratava de um
pequeno jardim. Seus pais se haviam preocupado mais com sua
piedade do que com deveres humildes, pois eram muito devotados ao
Senhor seu Deus e falavam sempre Dele, e não apenas nas orações.
O rosto de Maria transformou-se enquanto ela falava, olhando
para o céu, com tranqüilo êxtase. Desde o tempo em que era muito
pequenina, mal sabendo andar, amara e conhecera Deus. Ele enchia
seus dias como o sol. Maria conversava com Ele quando se deitava em
seu catre pobre, seu coração regozijava-se Nele com apaixonada fé e
júbilo. Raramente podia pensar em outra coisa, e sua vida inteira
ficava absorvida em adoração. As árvores e a terra falavam-lhe Dele. Ele
estava em cada flor da primavera que via, e Sua presença irradiava-se
do céu e no âmago dos frutos. Via Sua sombra à noite, quando a lua
era cheia, e vivia, respirava com o pensamento Nele. As vezes o
arrebatamento tomava-a, de maneira quase insuportável, e ela fugia de junto
de seus pais, amigos e parentes, para meditar sobre Ele. Cada pedra,
cada estrela, cada árvore tinha um halo de ouro, pois Ele estava ali.
Muitas vezes ela chorava sem saber por quê, e seu coração tremia. Seu
espfrito expandia-se e crescia, e Maria desejava apenas servi-Lo, e
passar sua vida refletindo sobre Ele.
Mas dos deveres domésticos conhecia muito pouco, e às vezes a
mãe censurava-a docemente, e censurava-se também por não ter sido
melhor mestra daquela jovenzinha. Maria, finalmente, ficava também
perturbada, pensando na bondade de José, e cogitando em se poderia
ser uma boa matrona judia, como ele devia esperar, abençoando as
velas, observando cada pormenor das leis sanitárias e dietéticas,
fazendo-se uma honra para a casa do esposo.
Assim, certa noite, subiu a escada que levava ao telhado daquela
casa, onde ela nascera, a fim de rezar ao Senhor seu Deus e pedir-Lhe
consolo e orientação. O céu estava da cor de ameixas maduras, o calor
da cidadezinha cedera um tanto, e havia paz sob as estrelas. Uma
grande lua dourada tremeluzia sobre todas as coisas, atirando sua luz
amarela sobre muros e árvores, e formando no chão desenhos
dourados e complicados. Vento fresco soprava, vindo das montanhas, e no
ar havia o perfume dos jasmins. Maria ficou a cogitar naquilo, pois o
tempo estivera seco e quente e as flores haviam murchado. Então a
brisa encheu-se do perfume de lírios e rosas, erguendo-se como
incenso em derredor dela. A lua cresceu, as montanhas banharam-se em
cobre, e os telhados, em torno de Maria, estremeciam sob a luz
dourada. Ela não sabia por quê, mas seu coração contraiu-se e a moça reteve
o fôlego.
Momento a momento o ar foi ficando mais esplendente, sob a luz.
Maria estava de pé, as mãos postas, rezando inocentemente. Uma
sensação de algo sobrenatural invadiu-a. Poderia ter gritado, em sua
alegria temerosa. Voltou a cabeça, e um anjo poderoso estava a seu lado,
mais brilhante do que a luz. Suas vestes brancas agitavam-se como
faiscas luminosas, suas asas deixavam tombar fagulhas prateadas e seu
rosto era mais belo do que qualquer rosto mortal. O coração de Maria
estremeceu, num misto de veneração e temor, e seus lábios gelaram.
Pensou que ia tombar desmaiada ali no telhado. Teve um movimento
para cobrir o rosto, pois o anjo irradiava uma luz ofuscante.
Então ele disse, muito suavemente:
- Ave, cheia de graça! O Senhor é contigo. Bendita és tu entre
as mulheres!
As mãos de Maria pararam a meio caminho, paralisadas por
aquela saudação. Sua cabeça rodava e seu corpo tremia. Que queriam dizer
aquelas palavras? Sua resmração prendia-se na garganta, e conseguiu
libertar-se, finalmente, num alto soluço seco. Era muito jovem:
sonhara com anjos, e agora um estava a seu lado e ela se sentia tomada de
terror.
Ele disse, na mais bondosa das vozes:
- Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus, Eis que
conceberás em teU ventre e pariras um Filho, e dar-lhe-ás o nome de
Jesus. Ele será grande. e será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor
Deus Lhe dará o Trono de Seu pai, Davi, e reinará eternamente na
Casa deJacó. E o Seu Reino não terá fim.
Maria, aquela jovenzinha, não podia falar. Olhava vaga e
estonteadamente em derredor. Pensou que estivesse sonhando e que suas
meditações tivessem imaginado tudo aquilo. Mas a pequena cidade
jazia em torno dela, em sua luz alaranjada, e a fragrância das flores
intoxicava seus sentidos. Podia sentir sob os pés o piso áspero, e a mais
leve das brisas tocava-lhe o rosto jovem. Não estava dormindo: com
um canto dos olhos podia ver aquela palpitante presença ali perto, e
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seu coração estremecia. Pensou no que o anjo dissera. Ela conceberia
em seu ventre, e pariria um Filho... Sua cabeça moveu-se lenta, em
humilde negação.
- Como se fará isso, pois eu não conheço varão?
O anjo sorriu, e aquele sorriso era como um relance de sol. Maria,
involuntariamente, recuou e fechou os olhos.
- O Espírito Santo descerá sobre ti e a virtude do Altíssimo te
cobrirá com a Sua sombra. E por isso mesmo o Santo que há de
nascer de ti será chamado Filho de Deus.
Maria umedeceu os lábios frios. Pensou nas profecias referentes
ao Messias. Levantou as mãos pequenas e ficou a olhar para elas,
vendo as marcas produzidas pelo trabalho. Olhou para a rusticidade
de suas vestes, recordou-se de que era uma jovem de apenas quatorze
anos, e filha de um camponês da Caliléia. Como poderia ela ser a
escolhida, e não uma princesa de Israel, rodeada de trombetas e de
colunas de mármore, de fontes perfumadas e servidores? Sua mente
entorpecida lutava com as reflexões que lhe acudiam. Olhou para o
anjo e cogitou, estonteadamente, no porquê de estar ele a contemplá-la
uma jovenzinha iletrada, sem importância alguma com tanta
reverência. E por que mantinha as mãos postas diante dela, como
diante de uma rainha? As lagrgrimas corriam-lhe dos olhos.
O anjo inclinava a cabeça, como perante a majestade.
- Vê Isabel, tua parenta, que até concebeu um filho em sua
velhice; e este é o sexto mês da que se diz estéril. Porque para Deus
nada é impossíveL.
Maria ficou pensativa. E foi como se uma grande onda de luz a
envolvesse, afogando-lhe o ser por completo, e tudo se fez claro para
ela.
Em voz alta e jubilosa, exclamou:
- Eis aqui a escrava do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua
palavra!
O anjo dobrou o joelho diante dela; e enquanto Maria o
contemplava ele desapareceu. Mas ali, onde ele estivera de pé, permaneceu
uma luz, como que do reflexo da lua, luz que refluiu, girou, tal
farrapo de névoa, durante alguns momentos, antes de se extinguir de
todo.
Maria cobriu o rosto com as mãos e chorou. Não sabia se chorava
de medo ou de alegria, pois ambas as sensações se mesclavam nela. O
primeiro pensamento foi para seus pais. Desceu a escada e entrou na
casa minúscula. Joaquim e Ana estavam adormecidos e ela podia
ouvir-lhes a respiração tranqüila, na escuridão. Desejou acordá-los e
falar-lhes da visitação. Suas faces estavam quentes e ruborizadas. Eles
acreditariam? Compreenderiam? Ou sorririam para ela, com
delicadeza, e diriam de novo, como tantas vezes antes o tinham feito, que
tudo fora apenas um sonho? Pensou em José, seu noivo. Teve um
impulso de correr até a casa dele, com sua estranha revelação. Todo o
seu espírito, então, recuou. Encostou-se contra a parede escura e ficou
a pensar. Devia ir ter com Isabel e imediatamente. Aquela velha
prima, tão estranhamente grávida, devia ser a primeira a saber. Com pés
que não se moviam mais pesadamente do que a respiração, Maria
passou pelo quarto dos pais e foi ter ao seu pequeno aposento, onde
lhes escreveu um rápido recado, dizendo que ia imediatamente ver
Isabel e que eles não deviam temer, pois retornaria em segurança.
Sozinha na cidade adormecida, onde todos dormiam, menos ela,
partiu a pé para a longa viagem, sem hesitação, sentindo-se guardada e
protegida com carinho. Jamais tinha saído à noite, a não ser
acompanhada. Mas cada ruazinha brilhava com luz amarela, e ela podia ver as
portas claras dos ciprestes contra a luz e o movimento suave da sombra
protetora das árvores na escuridão macia e aveludada. Sentia-se
repleta de paz e segurança. Os cães não ladravam à sua passagem pelas casas
sem luz. Uma ou duas vezes, em ímpeto de sua juventude, ela saltava
ou corria um pouquinho. Havia força a encher-lhe o corpo. Como
poderia, sem dinheiro ou comida, encontrar seu caminho distante
para Ain Karim, naJudéia? Tratava-se de uma viagem de vários dias e
noites, mesmo cavalgando sobre burros. Ela sabia, apenas, que
chegaria lá, que era querida, que nada de mal lhe aconteceria.
Confiantemente, deixou Nazaré, e a estrada estreita que corria para o sul estava
diante dela, suas pedras britadas surgindo, agudas, à luz do luar.
Caminhou longamente, sem exaustão, e não encontrou quem quer que
fosse. As vezes, via os pastores adormecidos nas vertentes das montanhas
pálidas, descansando entre seus carneiros. Passou através de uma ou duas
aldeolas, onde não havia movimento algum. Colinas despidas e escuras
apertavam-se contra o céu incandescente. Subitamente, Maria teve sede e
olhou em torno, pela vasta e silenciosa região rural; ali, as colinas
eram cultivadas, e ela viu bosques de oliveiras filigranados em prata
sob a luz, e palmeiras adejando suas frondes ao ar tépido da meia-noite.
Então ouviu o rumor de um pequeno regato, e encontrou-o, correndo
dourado entre as pedras negras. Ajoelhou-se
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à margem dele e bebeu no côncavo das mãos, profundamente, e era
como se bebesse um vinho confortador. Levantou as mãos para o
tronco de uma tamareira jovem, alcançando um cacho quente de tâmaras
maduras, e satisfez sua fome. Então recomeçou sua jornada, cantando
baixinho, seus pés de criança brilhando sob as vestes pobres, e a
poeira erguendo-se atrás dela. De vez em quando mal podia controlar seu
júbilo, e de outras vezes meditava, em seu coração simples. Toda a
dúvida desaparecera. Algo latejava em seu corpo, forte e firme, e era
como um coração novo e vigoroso, e ela, inocentemente, cogitava no
que poderia ser.
Resolveu descansar, embora não sentisse fadiga. Encontrou um
maciço de fresco carvalho e deitou-se na relva que ficava embaixo
deles, adormecendo instantaneamente, enroscada como uma criança
protegida, a face encostada à palma da mão. Quando acordou, o céu
nadava em escarlate e pérola, e as montanhas de ocre refulgiam.
Encontrou outro regato e lavou as mãos e o rosto, bebendo água depois.
Saiu da estrada para um pomar de romãzeiras e comeu com prazer
alguns frutos. Encheu a bolsa com dois ou três para comer mais tarde,
e continuou seu caminho, cantando agora em voz alta.
Algumas horas mais tarde, quando o sol estava alto, uma caravana
alcançou-a, uma pobre caravana de dois camelos e alguns burros,
carregados com mercadoria para as cidades. Os três homens da caravana
tinham as feições grosseiras dos montanheses de lugares remotos.
Ainda assim, um deles, vendo-a, instantaneamente desmontou do burro
em que viajava e sem dizer palavra ajudou-a a subir para as costas do
animal. Tudo pareceu natural ejusto para Maria, que de vez em quando
dormitava. Quando acordava, sempre encontrava a mão escura do
homem mantendo-a firme sobre a sela. Ninguém lhe fez perguntas.
Quando a caravana parou para repousar, os homens taciturnos
partilharam com ela seu pão, queijo e vinho. Tratavam-na com grande
cortesia. Seus olhos inquietos não tinham interrogações nem espanto
diante daquela jovenzinha, tão clara e tão sorridente, assim sozinha e
desprotegida. Dormiram na estrada, aquela noite, e os homens
estenderam no chão, para Maria, um cobertor grosseiro. Ela ficou deitada,
sem dormir, ouvindo os queixumes dos camelos ajoelhados, o bater
dos pés dos burros, os uivos distantes dos chacais. Uma pequena
fogueira crepitava no centro do acampamento. Acabou por adormecer,
tomada de grande júbilo.
Assim seguiram. As vezes os homens sombrios cantavam orações, e
ela, montada no burro, reunia-se a eles, timidamente. As vezes ficavam
os homens a olhar-Lhe para o rosto tranqüilo e infantil, e sorriam
como pais. Traziam-lhe cabaças cheias de água fresca, davam-lhe
frutas. Passaram através de uma região selvagem, e os poucos que
encontraram pensaram que ela fosse uma filha, viajando com seus parentes.
Chegaram finalmente a Ain Karim, aquela pequena aldeia, e como
se soubessem os homens ajudaram-na a descer do burro e, hesitante,
um deles tocou-lhe o rosto quente, ternamente, com as costas da mão.
Maria desejava agradecer-lhes, mas os homens acenaram-lhe um adeus
e partiram. Ela tomou o caminho da casa de Isabel e Zacarias, uma
pobre casa cor de argila, empoleirada num recorte da vertente da
colina, entre ciprestes e outras árvores. Mal amanhecia. Maria bateu à
porta fechada da casa, depois entrou. A velha Isabel já estava
acordada, cuidando das tarefas domésticas. Fixou os olhos em Maria, tomada
de absoluta estupefação, depois um grande tremor apoderou-se dela,
que estendeu as mãos para sua jovem prima, exclamando, em voz alta
e estranha:
- Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto de teu
ventre! E de onde vem a mim esta dita, que me venha visitar a Mãe do
meu senhor? Porque assim que chegou a voz de tua saudação aos
meus ouvidos o menino deu saltos de prazer no meu ventre! Bem-
aventurada és tu porque creste, porque se hão de cumprir as coisas
que da parte do Senhor te foram ditas!
O rosto enrrugado dela estava transformado e seus olhos ardiam.
Estendeu os braços a Maria, e ambas abraçaram-se, como mãe e filha,
cheias de compreensão, sem perguntas. Beijaram-se e sussurraram
ternamente contra as faces uma da outra. Encantamento as tomava todas,
arrebatamento umedecia-lhes os olhos. Então Maria recostou-se nos
braços de sua prima e olhou para o rosto dela, jubilosamente.
Em sua voz inocente e pura, o éxtase elevou-se, como um cântico:
- Minha alma engrandece ao Senhor e meu espírito se alegrou
por extremo em Deus, meu Salvador! Por Ele ter posto os olhos na
baixeza de Sua escrava; pois eis aí, de hoje em diante me chamarão
bem-aventurada todas as gerações. Porque me fez grandes coisas, que
é Poderoso; e santo é o Seu Nome. E Sua misericórdia se estende de
geração em geração sobre os que O temem. Ele manifestou o poder de
Seu braço; dissipou os que no fundo de seus corações formavam
altivos pensamentos. Depôs do trono os poderosos, e elevou os humildes.
Encheu de bens os que tinham fome; e despediu vazios os que eram
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ricos. Tomou debaixo de Sua proteção a Israel, Seu servo, lembrado
da Sua misericórdia! Assim como tinha prometido, a nossos pais, a
Abraão e a sua posteridade, para sempre!
Lucano ouvia-a, sem se mover em seu banco. A voz de Maria, ao
recordar aqueles dias, elevara-se como o cascatear de sinos suaves. E,
como acontecera entre ele e seu irmão Prisco, o médico ficou a
pensar em quanto aprendera através das palavras de Maria e quanta
visão mística interior lhe fora concedida, através dos olhos e das falas
dela.
O rosto de Maria, que olhava para o céu, mostrava-se vívido de
júbilo, e ela levantou as mãos, de forma que as palmas ficassem
douradas pela luz. Lucano olhava-a com amor e respeito temeroso, olhava
aquela mulher que trouxera Deus sob seus seios de criança, e que O
dera à luz num estábulo. Inclinou-se para ela, que deixou tombar as
mãos, e olhou-o, sorridente, o que levou o médico a pensar que jamais
vira semblante tão gracioso e tão nobre, nem conhecera ninguém
assim dotado de uma beleza que não era terrena. Hesitou, depois
tomou-lhe as mãos e beijou-as, dizendo:
- Feliz sou eu por ter ouvido estas coisas de teus lábios,
Senhora. Não mereço tal felicidade.
Contemplava-a com reverência, e pensava: Realmente, ela é a que
não tem pecado, a que nasceu e viveu sem pecado, a que suportou o
mal sem jamais ter sido tocada por ele. Ela conheceu a dor, mas não a
culpa. Ela chorou, mas não por transgressões próprias. Ela amou, mas
seu amor era puro como o luar. Ela caminhou entre o terror e o
desgosto. Mas não há sombras em seu espírito, nem impureza em suas
mãos. Ela é bendita entre as mulheres.
- Só Deus pode julgar se um homem merece ou não a
felicidade disse Maria, docemente. - Tu sofreste muito, e Ele te
trouxe para junto de Si.
As sombras da tarde alongavam-se rapidamente, e um vento árido
e quente movimentava a poeira. As cabras berraram. Maria levantou-se
e disse:
- Vou ordenhar estas cabras e, se quiseres, comerás e beberás
Comigo.
- Deixe-me ajudar-te disse Lucano. E ambos ajoelharam-se
no chão terroso e ordenharam as cabras, o líquido tépido espumando
nos baldes. Então Maria trouxe pratos com pão e queijo, pequenas
azeitonas pretas, alguns bolinhos que tinha cozido mais cedo e uma
bandeja de madeira com frutas. Sentaram-se, em silenciosa satisfação
comendo.
E Maria começou de novo a falar. Contou a Lucano que
permanecera com Isabel até o nascimento do pequeno João. Este, desde o
instante em que nascera, era animado e emitia enérgicos gritinhos de
contentamento. E contou que, no instante em que a criança saíra do
ventre materno, a fala fora devolvida a Zacarias.
O velho sacerdote erguera as mãos para o céu, enquanto seus
amigos vinham ter com ele, um por um, beijando-lhe a barba, em
congratulação, e o velho exclamava, em voz alta:
- Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e redimiu
Seu povo e porQue nos suscitou um Salvador poderoso, na casa de
Seu servo, Davi. Segundo o que tinha prometido por boca de Seus
Santos Profetas, que viveram nos séculos passados: que nos havia de
livrar de nossos inimigos, e das mãos de todos que nos tivessem ódio;
para excitar a Sua misericórdia a favor de nossos pais e lembrar-se de
Seu santo pacto, segundo ojuramento que Ele fez a nosso pai, Abraão,
de que Ele nos faria esta graça; para que, livres das mãos de nossos
inimigos, O sirvamos sem temor. em santidade e justiça diante Dele.
por todos os dias de nossa vida!
Exaltado, e cheio do Espírito Santo, ele tornou a exclamar,
enquanto seus amigos agrupavam-se em derredor dele, boquiabertos e
pensativos:
- E tu, ó Menino, tu serás chamado o Profeta do Altíssimo,
porque irás ante a face do Senhor, a preparar os Seus caminhos. Para
dar ao Seu Povo o conhecimento da salvação, a fim de que ele receba
o perdão de Seus pecados, pela bondade e misericórdia de nosso
Deus, com que lá do alto nos visitou nesse sol do Oriente, para
alumiar os que estão nas trevas, e na sombra da morte, para dirigir nossos
pés no caminho da paz!
Maria contou como voltara para seus pais, e para José, que estava
grandemente perturbado. Contou seu casamento com José, e o
decreto de Augusto César de que todos os seus súditos, através do mundo,
deviam ser contados, e sua viagem, com José, para Belém. Hesitando
agora, e narrando em voz baixa e trêmula, contou o nascimento de seu
filho, falou dos anjos que apareceram aos pastores das montanhas e
que estavam cheios de medo por terem visto a Estrela. E como foram
conduzidos ao estábulo onde seu Senhor estava deitado em Sua
manjedoura. Muito daquilo Lucano ouvira por outros, mas ouvia ago-
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ra com a absorção de quem escuta pela primeira vez. Porque a voz
doce e modulada de Maria era música para ele. As colinas em
derredor de Nazaré tornaram-se da cor dos limões maduros e o céu fez-se
dourado por sobre elas. O ruído da cidadezinha penetrava agora
naquela pobre e miserável rua.
Maria se estava fatigando; uma sombra pálida aparecia em seu
rosto liso, e seus olhos azuis escureciam de cansaço. Assim, quando o
sol começou a desaparecer abruptamente, lavando toda a terra com
uma luz súbita e violenta como a de uma conflagração, Lucano
levantou-se e beijou a mão de Maria.
- Deixa-me voltar amanhã, por alguns momentos suplicou.
- Desejo saber como Foi a infância de teu Filho. Nesse entretempo
vou procurar uma hospedaria.
- há apenas uma na cidade disse Maria, suas roupas
movimentadas pelo vento da tarde. - E muito pobre.
- Não faço questão de luxo disse Lucano.
Maria acompanhou-o até a frente da casa, e ele tornou a ficar
abalado pela empoeirada desolação da ruazinha, onde cabras erravam
sobre pedras pequenas e crianças gritavam dentro das casas fechadas, e
enquanto abutres cortavam o céu ardente. Maria ensinou a Lucano
onde encontraria hospedagem, e ele desceu a rua. Olhou para trás e
ela levantou a mão, sorrindo-lhe.
A hospedaria, como receara Maria, mostrava-se realmente
abominável, uma casinha rústica, com um poço aberto no pátio
pavimentado com pedras pretas. Lucano era o unico hóspede, e o hospedeiro,
homem de barba cinza-avermelhada, recebeu-o com gratidão,
mostrando-lhe o melhor dos quatro quartos existentes, um aposento
minúsculo, o piso coberto de junco, com cama estreita e uma cadeira, a lâmpada
pendurada na parede de madeira. Mais tarde, Lucano estava sozinho no
miserável refeitório comum, mas o dono da casa apresentou,
orgulhosamente, cerveja fria, vinho, um prato de carneiro, morno e muito oleoso,
metade de uma ave assada, dura e cheia de gordura amarela, alguns
nabos machucados e uma tigela com romãs, tâmaras e uvas.
- A cerveja vem do Egito disse o estalajadeiro, de pé ao lado
de Lucano. - Eles fazem a melhor cerveja do mundo; os romanos são
pobres imitadores.
Tossiu, como quem se desculpa.
- Não sou romano falou Lucano, sorrindo. - Tomarás
comigo um copo de cerveja. Tem excelente aspecto.
O estalajadeiro disse, alegremente colocando um dedo ao longo
do nariz:
- Ah! Eu ainda tenho coisa muito melhor do que isto! - Piscou,
como um conspirador, e disse: - Tenho uma aguardente esplêndida!
Lucano pensou com desconfiança naquela mistura de cerveja com
aguardente. Mas estava cansado, e também repleto de um estranho
sentimento de exultação.
- Se tomares comigo falou, polidamente.
O estalajadeiro ficou encantado, mas, sendo homem honesto e
notando as vestes simples de Lucano, hesitou:
-O preço da aguardente é muito alto. Talvez não o possas
pagar, meu bom senhor. Custa três siclos* a garrafa. Por causa dos
impostos altos que os romanos colocam sobre essa mercadoria. Eles, com
seus impostos infernais! Um homem não pode viser, é o que te digo!
Se exportamos, a alfândega aí está, de mão estendida e com muitas
folhas de papiro. Se importamos, e somos gente pobre que precisa
importar muito, aí está de novo a alfândega, com a papelada
burocrática, a mão estendida e suas estampilhas.
- Os burocratas não deixarão de estar sempre conosco disse
Lucano, com um suspiro de solidariedade. - Mas tomemos um
pouco de aguardente e esqueçamos o governo, seus impostos e seus
funcionários que se apropriam do trabalho do povo.
O estalajadeiro trouxe, reverentemente, uma empoeirada garrafa
de aguardente.
- Precisamos importá-la da Síria disse ele porque nossa
gente não vê com bons olhos as bebidas fortes. Mas ficarias estupefato
se soubesses quanto é importada e bebida! Olha para os selos e para
os carimbos sobre eles. É aguardente autêntica, e não ilícita, feita nas
colinas por homens furtivos.
Lucano examinou cortesmente o selo, e aprovou com um
movimento de cabeça. O hospedeiro trouxe dois cálices pequenos, e Lucano
encheu-os. O estalajadeiro sacudia a cabeça contra a quantidade, mas
não disse uma só palavra de censura ou protesto. Sentou-se ao lado de
Lucano, e os olhos velhos reluziam. Falou:
- Aguardente é o sangue da velhice, e eu sou um velho e preciso
de calor, mesmo neste clima. Já que estamos próximos da Síria, muito
mais próximo do que Jerusalem...
___
* Moeda usada entre os hebreus, também como peso (6 gramas). (N. do T)
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Tornou a tossir.
Lucano sorriu:
- Já te disse que não sou romano. Sou grego, e, como grego,
admiro contrabandistas.
- Burlar um governo opressor não é burlar disse o
hospedeiro, com ar sensato. - Como é possível fazer outra coisa? Além disso,
quem ganha o dinheiro que ganhamos: o governo, ou nós? Devíamos
recordar aos governos um dos grandes Mandamentos: Não roubarás!
Mas, em toda a história do mundo, houve outra coisa a não ser
governos ladrões?
- Nunca concordou Lucano. - Os governos, por sua
natureza, são ladrões.
Bebericou cautelosamente sua aguardente. Não era da melhor
qualidade, e pareceu queimar e cauterizar o estômago. O estalajadeiro
bebeu com satisfação e disse:
- Ah! - Mas tanto ele quanto Lucano beberam
apressadamente um grande gole da cerveja. O velho tinha uma mancha num olho e
aquilo dava-lhe uma aparência muito maliciosa.
- Se não houvesse impostos não haveria dinheiro para soldados
disse ele e se não houvesse soldados não haveria guerras nem
conquistas, e se não houvesse guerras nem conquistas os homens
poderiam aprender a viver juntos em paz. Mas não é o que os governos
querem! Fazem guerra por cobiça, para ter proveitos!
Tinha trazido, prudentemente, outro prato, e servia-se da refeição
de Lucano, que o médico não achara particularmente apetitosa. O
velho continuou a investir contra os governos e comentou que Samuel
tinha advertido o povo que nunca pusesse um rei sobre ele próprio,
pois dessa maneira vinha o desastre. O estalajadeiro não era apenas
velho, mas pobre, e apesar disso tinha mente aguda, fazendo com que
Lucano o ouvisse com interesse. Os simples, pensou ele, são muitas
vezes uma fonte de sabedoria, e os intelectuais da cidade poderiam
ouvi-los com proveito.
- Meu nome é Isaque disse o hospedeiro, expandindo-se,
suas faces murchas enrubescidas. - Também sou viúvo. Não é
sempre que tenho hóspedes, e às vezes chego a fatigá-los. - Ajustou à
cabeça o barrete preto, de algodão.
- Tu não me fatigas disse Lucano, que bebeu um pouco
mais da aguardente. Dessa vez ela não lhe pareceu tão atroz. Seu
ventre aqueceu-se e as poucas lâmpadas do aposento pareceram mais
brilhantes. Ambos tragaram mais cerveja. Lucano resolveu que um
pedaço da ave, um bolinho, algumas azeitonas e um cacho de tâmara eram
o bastante. Depois de provar a ave, decidiu concentrar-se nos
bolinhos recheados com sementes de papoulas e passas, nas azeitonas e
nas frutas. Estava começando a sentir-se bastante tranqüilo. A
aguardente tomara, agora, um sabor verdadeiramente estranho. Lucano já
não acreditava que aquilo viesse da Síria; fora destilada perto de Nazaré.
Isaque comia com satisfação o carneiro.
- Tens o estômago delicado, senhor? indagou ele.
- Muito delicado respondeu LucanO, gravemente. -
Carneiro não me faz bem.
Bebiam com gosto, e Isaque passou a contar alguns gracejos
judaicos, maliciosos e picantes, e Lucano ria. O médico viu-se observando,
fascinado, duas compridas rachaduras na caiação das paredes. Davam
a impressão de rios tortuosos, e as manchas de cada lado tomavam o
aspecto de aldeias férteis. Abruptamente, pousou seu cálice de
aguardente. Isaque se tornara muito conversador. Seus gracejos
aproximavam-se do obsceno, tal como acontece com os velhos.
- Ah! disse ele, como quem se desculpa -, quando um
homem já não é potente deve divertir-se com palavras maliciosas. Isso
ilude quem ouve, e pensa que realmente ali está um homem libertino.
Davi procurou esposa jovem para mantê-lo aquecido. Eu prefiro a
aguardente.
- Um bode é muito potente disse Lucano. - Um bode
tem a mente sã, em sua velhice? Não; ele vai para a panela ou para o
espeto.
Isaque começou a gostar de Lucano. Seus olhos ficaram
enevoados e ele colocou a mão nodosa no braço do médico.
- Como és compreensivo! disse.
Lucano bebeu um pouco de cerveja. Pousou os cotovelos sobre a
mesa rústica e escalavrada.
- Estou fazendo algumas pesquisas disse, com ar
despreocupado. - Estou interessado num certo jesus, que era filho de Maria e
de José, o carpinteiro. Podes falar-me deles?
Instantaneamente, o rosto de Isaque tornou-se fechado e
vigilante. Fixou os olhos em Lucano, desconliado. Depois disse, assumindo
indiferença:
- Oh! Maria e José. E Jesus.
- Não sou espião falou Lucano. - Não sou romano.
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Isaque não estava tão animado quanto Lucano esperava, nem sua
língua se soltara suficientemente. Apertou os olhos, fixando-os no
médico, e disse, em tom espantado:
- Quem fálou em espiões? Por que viriam espiões a esta
obscura cidade, e a que propósito? Uma família judia, humilde, a de Jesus,
Maria e José! Que importância teriam eles para o mundo? O pai e o
filho.., eram carpinteiros, simples, gente honesta, como são todos em
Nazaré. - Cofiou a barba, olhando cada vez mais agudamente para
Lucano, e acrescentou: - Disseste que Maria mandou-te a esta
hospedaria? Preciso agradecer-lhe, quando a vir, pois é ela uma das
minhas primas muito distante e deseja-me bem.
Subitamente, bateu com força na mesa, com a mão, e um bonito
rapaz aproximou-se, imediatamente, dizendo:
- Que desejas, avô?
Isaque falou num hebraico tão perfeito e culto que Lucano ficou
surpreendido. Percebeu que aquilo era para que ele não entendesse,
ele, um médico grego que viajava, e que não podia, com certeza,
compreender a linguagem erudita. Isaque disse:
- Ezequiel, vai imediatamente à casa de nossa prima Maria e
pergunta-lHe se é verdade que mandou este estrangeiro para cá, este
grego, e se ele merece confiança, o que deseja que lhe digamos. Ele
pode estar mentindo. Olha-o bem, de forma que o possas descrever
para ela. Seu nome, segundo declara, é Lucano e ele é médico. Está,
também, de posse de um belo cavalo árabe e parece que dinheiro não
lhe falta. Temos que ser muito cuidadosos, precisamos nos lembrar de
Pilatos e Herodes.
Ezequiel estudou com firmeza os traços de Lucano, guardando-lhe
as feições de memória, e o médico bebeu mais cerveja e comeu um
punhado de uvas, fingindo não entender o hebraico. O moço falou:
- Ele tem anéis belíssimos e maneiras civilizadas.
Lucano sorriu consigo mesmo. O jovem deixou o aposento e Isaque
falou de maneira desarmante:
- Como eu disse, somos gente simples. Falei com meu neto em
um dos nossos dialetos, sugerindo que, já que as noites esfriaram, ele
pusesse mais um cobertor na tua cama.
- És muito bondoso mespondeu Lucano. - Meu cavalo está
instalado?
- Ah! Sim, senhor. Também disse a Ezequiel que lhe levasse
água fresca.
Beberam sua cerveja em confortável siléncio. Isaque terminou,
abstraidamente, o prato de carneiro. Depois, disse:
- Tenho um quarto onde durmo e vivo. Gostaria de
mostrá-lo ao senhor.
Levantou-se, suas vestes solenes arrastando-se como mantos reais,
apesar de sua pobre qualidade. Levou Lucano a um pequeno quarto
atrás das instalações do refeitório, e acendeu uma lanterna na parede.
O quarto estava mobiliado com simples cadeiras, uma grande mesa,
uma cama estreita, uma cômoda, e tudo era brilhante. Isaque disse:
- Observarás que esta mobília não é esculpida, nem dourada,
nem especialmente fina. Mas é excelentemente trabalhada, lisa e
polida. José e Jesus fizeram para mim estas coisas, e não havia melhores
carpinteiros na Galiléia. José, ai de nós, morreu, e também Jesus,
infeliz mente. Agora teremos de comprar mobílias de artesãos bem
inferiores.
Lucano pousou a mão nos móveis, e pensou: Então Ele fez isto,
Ele, o Senhor de tudo! Ele não desdenhou ser um carpinteiro Ele
que criou as galáxias, e as constelações, e os sóis que ardem pela
eternidade. Aplainou esta madeira para que ela brilhasse como seda, fez
esta cama, esta mesa. E, sem dúvida, Ele teve tanto orgulho deste
trabalho quanto da criação das Plêiades!*
O médico desejava não só colocar as mãos, mas os lábios, naquela
mobília calma e simples que conhecera as mãos de Deus. Seus olhos
umedeceram-se. Sentou-se numa cadeira. Isaque o observava. Viu a
emoção de Lucano e franziu as sobrancelhas, perplexo.
- Havia outros homens deste lugar disse Lucano. -
Conversei com Tiago e João. E logo verei Pedro.
- Oh! Sim falou Isaque, descuidadamente. - Eu os
conheci bem.
Também ele sentou-se. Dentro de alguns momentos Ezequiel
voltava, os olhos brilhantes de excitamento, dizendo:
- Avô, Maria declara que podes falar livremente com este
homem pois ele amou Nosso Senhor e está escrevendo a respeito Dele, e
fez uma longa viagem para ouvir falar Dele!
- Maria nunca se pode enganar disse Isaque, suspirando de
alívio, e despedindo o neto. Voltou-se para Lucano e falou animada-
___
* Constelação do hemisfério boreal. A Mitologia dá esse nome às sete
filhas de Atlas e Phone, que se mataram de desespero e foram
transformadas em estrelas. (N. do T)
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mente: - Pergunta o que quiseres sobre Jesus. Maria é uma prima
distante, que eu amei desde que ela era uma criança. Um bebê tão
adorável, uma jovem tão adorável! Ela tem uma inocência eterna e
uma sabedoria sobrenatural. Conhecê-la é sentir a alma repleta de
doçura, como que de mel. Não disse eu à minha esposa, quando
Maria nasceu: "Ela foi concebida e nascida sem pecado! Basta olhar-lhe
o rosto para saber isso"?
Pôs as velhas mãos engelhadas sobre os joelhos e deixou o rosto
barbado tombar contra o peito.
- Maria e José eram da casa de Davi. As profecias conhecidas
sobre o Messias falam nisso, e elas declaram, também, que o Redentor
de Israel nasceria em Belém, e que morreria como Ele morreu, em
Jerusalém. Isto foi conhecido durante séculos. Ainda assim, quando
as profecias se realizaram, as pessoas recusaram-se a aceitá-las, a não
ser os muito humildes e desamparados.
Isaque falou longamente. Muito do que ele disse Lucano também
sabia, mas havia muito que lhe era desconhecido. A lâmpada faiscou
na parede; insetos, com seus sons estridentes, meteram-se pelo quarto
e dele tornaram a sair. Havia lá fora o cricrilar dos grilos e, às vezes, a
voz de uma ave noturna. Isaque contou a Lucano sobre o tempo da
purificação de Maria, depois do nascimento de seu Filho, segundo a
Lei de Moisés, e de como ela O levara a Jerusalém, a fim de apresentá-Lo
a Deus. José era um homem pobre e delicado, e tinha pouco
dinheiro para o sacrifício habitual, e tudo quanto pôde pagar foi um par
de toutinegras que levou numa gaiola a Jerusalém.
- Ele não podia pagar os preços daqueles que estavam no
Templo disse Isaque, com alguma amargura. - Como é possível que
homens sejam tão ávidos a ponto de fazerem dinheiro com assuntos
sagrados?
Falou no velho Simeão, que tinha sido muito devoto e que,
quando no Templo, por ocasião da apresentação, olhou para o infante
Redentor e sentiu-se instantaneamente tomado pelo poder do
Espírito Santo. Tinha-lhe sido revelado que ele não morreria sem que visse
o Cristo do Senhor. Tomara a criança nos braços, chorando, rezando,
e exclamara:
- Agora é, Senhor, que despedes Teu servo em paz, segundo a
Tua palavra, porque meus olhos já viram o Salvador que nos deste, o
qual aparelhaste ante a face de todos os povos, como lume para ser
revelado aos gentios, e para glória do Teu povo de Israel!
Simeão abençoara depois Maria e José, e dissera então à
jovenzinha:
- Eis que aqui está Posto este Menino para a ruína e para a
salvação de muitos em Israel e para ser o alvo a que atire a
contradição. E será essa uma espada que transpassará tua própria alma, a fim
de descobrir os pensamentos que muitos terão escondidos no
coração.
- Eu estava ali continuou Isaque, abrindo as mãos. - Ouvi
essas palavras com meus próprios ouvidos. Pois Maria ficou espantada
ou assustada? Não. Ela parecia saber de tudo, embora seu rosto jovem
se tornasse triste diante das palavras de Simeão.
- E quando os três voltaram para Jerusalém? perguntou
Lucano, suavemente.
- Tornaram-se o que o povo percebeu. Uma boa mãe e
dona-de-casa: era Maria. Um consciencioso carpinteiro: era José. Um
menino tranqüilo e bonito: era Jesus. Eram um só, com seus vizinhos.
Ouviste falar nos Zelotes? Sim. Eles apenas queriam livrar sua terra
sagrada da mão dos romanos. Havia muita conversa secreta sobre
insurreição, e sobre a expulsão dos romanos de nosso país, os romanos
com sua arrogância e seus impostos. A Galiléia teve um entusiasmo
particular por esses assuntos, pois para os simples tudo é simples. Os
galileus não pareciam conscientes de que Roma era a senhora do
mundo, de que tinha centenas de legiões armadas e poderosas. Para os
galileus, que viam poucos romanos, o sonho de expulsar as legiões
para o mar e libertar a terra santa não tinha complicação alguma.
Bastava que se tivessem algumas facas afiadas, pedras, e vontade. Os
judeus tinham sido libertados da Babilônia e do Egito. Podiam, com o
poder de Deus, ser libertados de Roma.
"Todos os nossos Zelotes eram jovens. Tentaram incluir em seu
meio Jesus, nosso jovem caminteiro. Mas Ele não se interessou. Seus
olhos olhavam sonhadoramente para a distância. Aquilo aborreceu os
patriotas. Como podia um jovem não se preocupar com a expulsão
dos ateus daquela região de Deus, purificando os lugares sagrados?
Jesus tornou-se pouco popular. Houve alguns que disseram,
escarnecedoramente, que Maria, tendo apenas aquele Filho, nutria
ambições por Ele. Ela O mandara à Escola de Shammai. Uma vez Jesus
disse aos mais obstinados, que foram vê-lo na casa de Maria e de seu
pai adotivo, José: "Meu Reino não é deste mundo!" Aquilo era
incompreensível. Um reino para um galileu? Ojovem estava louco! Os Zelotes
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fizeram-se escarnecedores e os anciãos sacudiam a cabeça. Maria
estava educando aquele jovem para além de Seus desertos e de Seu
destino. Ele era muito estranho; perambulava pela região rural e sorria às
flores, aos animais e aos pássaros. As vezes sentava-se numa grande
pedra lisa e meditava sob o sol. Digo-te, Lucano, que não há homem
mais detestado do que o homem que se mostra diferente de seus
vizinhos. Sentem-se violadôs e ameaçados se alguém ousa ser o que eles
não são. Quando ele está numa comunidade, deve conformar-se com
suas idéias e costumes. De outra forma, é um cão pária, que ofendeu
mortalmente o que é aceito. Deve pentear o cabelo e a barba da
maneira habitual, deve falar como os outros falam. Indiferente ao que é
aceito, torna-se um inimigo. O povo é muito estúpido, não é mesmo,
senhor?
- Mais crimes se realizaram através da estupidez do que através
dos exércitos disse Lucano. - Poderíamos ter piedade dos
estúpidos, se eles não fossem tão invencíveis, tão vociferantes, tão positivos.
Mas eles são terríveis em seu poderio universal.
- Mas é possível ter pena deles, senhor?
Lucano refletiu, depois sacudiu a cabeça:
- A não ser que tenha nascido com um defeito mental, o
homem não pode ser perdoado por ser um tolo, um descarado, ou tão
completamente igual ao seu vizinho quanto possível.
Isaque cofiou a barba.
- Não foi Jesus quem violou qualquer das leis cerimoniais
levíticas ou aborreceu Seus professores com perguntas heréticas, ou
expressou dúvidas sobre os regulamentos dos fariseus. Ainda assim,
mesmo para os olhos mais estúpidos, Ele não era como os outros, daí
a mortificação de muitos dos vizinhos. Recitava as preces e salmos, na
sinagoga, com fervor e devoção, as lágrimas correndo-Lhe pelas faces.
José ensinou-Lhe coisas de Sua tribo e de Sua casa. Ensinou-Lhe o
ofício de carpinteiro, pois os judeus antiquados acreditam que não é
bastante cultivar a mente. Devemos aprender a usar também as mãos,
pois é uma coisa bela conhecer um ofício tão bem quanto os livros.
Em tudo isto Jesus observou meticulosamente os costumes. Talvez
fosse o olhar distante de Seus olhos, as Suas maneiras. Seus silêncios,
Seus sorrisos, a maneira pela qual Ele caminhava. Como criança, Ele
brincou tal uma criança, e era forte, cordial, e tinha uma risada clara e
infantil. Ainda assim, não era como os outros.
"Nós, os muito poucos que compreendíamos as profecias, e como
Ele tinha nascido e para que fora destinado, não O achávamos
estranho. Mas os vizinhos sentiam-se ofendidos por Ele. Era mais belo
do que os jovens de Sua própria idade? Isto é duro de responder.
Só sei que olhar para Ele era sentir o coração vacilar, mesmo entre
aqueles que não sabiam quem Ele era, Fazia-se perturbador para
quantos O observavam, e os homens não gostam de se sentir
perturbados.
A luz amarela olhava para dentro do aposento e algum animal de
carapaça dura raspava as pedras do pátio. Isaque falou no aparecimento
de João Batista no vale do Jordão, exclamando:
- Eu, realmente, vos batizo com água! Um mais poderoso,
porém, um de quem não sou digno de desatar os cordões da sandálias,
virá e vos batizara com o Espírito Santo e com o fogo.
João era homem de temperamento furioso. Jesus sabia que ele
era Seu parente. João não usava manto, como os fariseus, trajes de
púrpura com longas franjas brancas, nem trazia a cabeça coberta
com o gorro pontudo dos levitas. Era homem selvagem, morador do
deserto, uma barba que parecia feita de bronze, rosto moreno, voz
forte, que inspirava medo. As vezes mugia como um touro, quando
estava encolerizado, e o estava freqüentemente. Vestia-se com a pele
dos animais. Mas falava com autoridade, e o povo ouvia, mesmo os
romanos que encontrava. Seu fervor era impulsionante, como o sol.
Falava constantemente no Redentor, que estava para vir. O povo
tornou-se excitado! Os dias dos romanos estavam contados! O Cristo
atiraria todos os romanos para o mar e libertaria Seu povo de Israel,
sentando-se num trono de ouro, e o mundo fixaria os olhos Nele e
diria: "Como é poderoso o Rei e como é poderosa Israel!" O Sinai
trovejaria e faiscaria novamente e a Lei seria de novo proclamada por
toda a terra, e os arcanjos ficariam de pé no céu, acima do Templo de
Jerusalém. Os corações das pessoas alvoroçavam-se de esperança e
júbilo, quando ouviam João, embora de nada dissesse do que
esperava toda a gente. Acreditavam naquilo em seus espíritos, pois caso
Contrário, como reconheceriam o Sagrado? Esqueciam-se das
profecias.
- Meu neto Ezequiel desceu oJordão para ser batizado porJoão
continuou contando Isaque. - Havia grande aglomeração às
margens do rio, e acima do murmúrio zumbidor ele pôde ouvir João
gritando exortações, enquanto batizava, pedindo penitência e
prometendo o perdão dos pecados. Nos intervalos de tais pronunciamentos ele
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inseria sua opinião da humanidade em geral que era muito baixa e
muito fraca. O último de seus gritos para o povo era: "Raça de víboras,
quem vos advertiu que fugísseis da ira que vos esta ameaçando? Rezai,
portanto, frutos dignos de penitência, e não comeceis a dizer: "Nós
temos por pai Abraão", porque eu vos declaro que poderoso é Deus
para fazer com que destas pedras nasçam filhos a Abraão. Porque já o
machado está posto à raiz das árvores. E assim, toda árvore que não
der bom fruto será cortada e lançada ao fogo."
"As mulheres choravam e os homens golpeavam o peito, e as
crianças gritavam, e todos desciam para a margem do rio a fim de
serem batizados e confessarem os miseráveis pecadores que eram.
Não duvido de que ao mesmo tempo que sentiam um frêmito de
santidade e pureza sentiam-se insuportavelmente excitados com a
idéia da chegada do Salvador, que faria deles príncipes, em Israel, à
sua mão direita. Alguns deles eram de Nazaré, e meu neto estava
entre esses.
"João estava no meio de uma condenação ainda mais veemente
dos crimes da humanidade, pois era homem que não tinha paciência
com o menor dos pecados e pouca compaixão havia em sua alma,
quando, subitamente, jesus apareceu acima dele, no barranco do rio.
Que fez o povo levantar instantaneamente a cabeça e olhar para Ele,
com súbito silêncio? Estava de pé no barranco do profundo rio verde,
e um feixe de luz solar fazia com que brilhassem seu cabelo e sua
barba dourados. Olhava para João e para o povo soluçante com Seus
piedosos olhos azuis.
"Ezequiel contou-me que Ele tinha a majestade de um rei, o
esplendor de um grande potentado, a glória de um profeta, a autoridade
de um Moisés, ali, de pé, com Suas roupas de camponês e Seus pés
descalços. Sentia-se que uma Visão aparecera, e mesmo os que O
conheciam sentiam-se tomados de respeitoso temor, pois nunca O
tinham visto envolvido em poder sobrenatural.
"Vendo-O, João parou sua fala de censura, e chorou,
estendendo as mãos para seu parente. Então, Jesus, no meio daquele
silêncio inexplicável, desceu o barranco e pediu que João O
batizasse. João ficou horrorizado. Cruzou os braços sobre o peito,
depois de tocar na testa com os dedos. E disse, em voz fraca: "Mas eu
é que devia ser batizado por Ti." Jesus sorriu meigamente e olhou
para o rosto das pessoas que ali estavam. Inclinou a cabeça, entrou
na água e esperou, calmamente. O povo tomava completamente os
barrancos. Alguns de Nazaré murmuravam para seus Vizinhos: "Mas
é Jesus, nosso vizinho, nosso carpinteiro, o filho de Maria e José,
que conhecemos!" Ficavam a olhar para os dois homens no rio, um
de aparência tão selvagem, o Outro tão Silencioso e tão cheio de
dignidade. E assim João batizou-O, erguendo a água verde em suas
mãos trêmulas, o rosto maravilhosamente humilde, e com lágrimas
nos olhos. As árvores espessas e as moitas lançavam sombras
esmeraldinas sobre os dois, e ainda assim a barba e a cabeça de Jesus
pareciam douradas.
"Foi imediatamente depois do batismo que uma coisa estranha
aconteceu, embora tivesse havido certa discussão quanto aos
pormenores. Jesus ficou subitamente luminoso, como se as árvores se
houvessem afastado bruscamente a fim de deixar passar o sol e sua luz
rigorosa, e fosse deslumbrador demais aquele momento para que se
pudesse olhar para Ele. Um pássaro branco surgiu, não se saberia
dizer de onde, e pousou-Lhe no ombro. E uma grande Voz foi ouvida,
saindo do céu: "Tu és aquele meu Filho especialmente amado e em Ti
é que tenho posto toda a minha complacência."
"Ezequiel jura que isto aconteceu, meu caro Lucano-,disse Isaque,
enxugando as lágrimas de seus velhos olhos com a manga de sua veste
-, e Ezequiel jamais mentiu em sua vida. Voltou para Nazaré muito
agitado e contou-me, explodindo depois em soluços. "Eu ouvi a voz
de Deus!", exclamava e tornava a exclamar, tapando os ouvidos com as
mãos. como se tentasse reter aquele som. Estava fora de si de
arrebatamento e medo, e ele é, habitualmente, um jovem de muita
compostura.
"Quando nossos conterrâneos nazarenos voltaram para casa,
muitos deles estavam nas condições de Ezequiel. Aglomeravam-se em
torno da casa humilde de Maria e Jesus, onde eles viviam sozinhos desde
a morte de José. Gritavam que Jesus viesse falar com eles, e finalmente
Jesus saiu para o limiar da porta, e as pessoas caíram prostradas diante
Dele, que as abençoou, sorrindo, com aquele Seu sorriso bondoso e
compassivo. Conhecia Sua gente e sabia quanto eram pobres aquelas
pessoas, como eram desprezadas pelos levitas e fariseus, como eram
oprimidas pelos impostos romanos, como eram sem defesa. Amava-as;
eram sua gente.
"Mas alguns em Nazaré ficaram terrivelmente zangados e
escarnecedores. Declararam que não tinham visto nada de milagroso noJordão.
Quê! Aquele carpinteiro com Seus ares e Suas graças! Aquele filho de
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Maria, que ainda era mais pobre do que eles próprios? Que
presunção! Profétas jamais vinham de Nazaré, nem de gente como eles. Se
vizinhos mais iludidos declaravam que O tinham visto iluminado e
ouvido uma voz que viera do céu, e se um pássaro branco pousara no
ombro Dele, não passava de uma auto-alucinação. Era, mesmo,
blasfêmia.
"Coléricas discussões surgiram entre amigos e vizinhos, entre pais
e filhos, entre mães e filhas, entre vizinhos e vizinhas. Foi logo depois
disso que jesus deixou Nazaré, e disseram que Ele fora para o deserto,
em meditação.
"Ele é um Zelote falavam alguns, sombriamente. - Vai nos
causar transtornos com Roma. Nossa vida não é dura bastante como é,
sem maiores aflições? Não vos recordais do que nos aconteceu
quando os romanos caçaram os Zelotes, apenas alguns meses atrás?
Era muito tarde, agora, e Isaque, embora exaltado, era velho e se
fatigara. Lucano poderia ter ouvido durante toda a noite. mas, vendo
o rosto exausto de seu hospedeiro, levantou-se, desejou-lhe uma boa
noite e foi para seu quarto.
Sozinho, escreveu seu Evangelho. A luz da lua amarela pousava
em seu ombro, e a lâmpada fazia-se mais fraca. Um cão solitário
ladrou, e chacais distantes responderam, com suas vozes selvagens.
Lucano escrevia rapidamente, sem parar, enquanto não completou a
história contada por Isaque. Finalmente, a madrugada deu tom de
pérola ao céu e os pássaros cantaram, cumprimentando o sol que
ainda não nascera. Lucano deitou-se em seu leito, rezou, e adormeceu
tranqüilamente. Sonhou que estava de pé na margem do Jordão e
que, no rio, Alguém vestido de luz emergia em direção dele, o que o
fez tombar de joelhos. Sentiu-se submergido em radiosidade e
colOcou as mãos sobre os olhos.
53
Pela manhã, o jovem Ezequiel bateu à porta do quarto de LucanO
abrindo-a, o médico viu que o rosto dele estava cheio de medo e
incerteza. Meteu um pacote nas mãos de Lucano e gaguejou:
- Isto chegou de Tiberíades esta manhã, trazido para Li por um
soldado romano.
- Não tenhas medo disse Lucano, bondosamente, tocando o
ombro do moço. - São apenas cartas para mim, enviadas pelo amigo
de Jerusalém, Hilell ben Hamram.
Sentou-se na cama e leu as cartas que tinham sido entregues na
casa de Hilell. Havia uma de Íris, outra de Aurélia, sua irmã, outra de
Prisco, e ainda outra de Plócio. Leu-as todas com amor. As vezes,
suspirava. Tornaria a ver aqueles que tinham seu afeto? Sua mãe
estava velha. Mas, pela primeira vez, não Implorou que ele voltasse a Roma,
ao menos para uma visita. Escrevia:
"Caro Filho, deves fazer o que teu espírito ordenar, e eu
compreenderei. Tive um sonho no qual me disseram que já não pertences à
tua família, e que Deus te chamou e deves obedecer. Lembra-te,
porém, com amor, de nós, pois realmente estás sempre em nossos
corações."
Havia muitas notícias felizes da família, e Lucano regozijou-se com
elas. Mas Tibério César ia declinando, e Roma secretamente esperava
que ele morresse, pois se tornara terrível e crudelíssimo, totalmente
sem compaixão ou piedade. Seus crimes eram legião. Era como se
tramasse contra seu Império e seu povo uma vingança horrenda. Lucano
suspirou. Que o povo sentisse a cólera de seus governantes, pensou.
pois é ele o culpado de seus excessos.
Agora lia a carta de Hilell, com profundo interesse e excitamento.
Antes de mais nada, Hilell estava esperando pela volta de Lucano para
realizar o casamento de Arieh ben Eleazar e Lea.
Tivera um visitante em sua casa: "Hás de lembrar-te, meu
querido Lucano, que te escrevi sobre Saulo de Tarso, ou Gaio Júlio Paulo,
como é conhecido em sua cidadania romana. É um fariseu, e foi
antigamente um dos homens de convicções religiosas mais conservadoras
e profundo observador da Lei, apesar de sua posição entre os
romanos e de sua alta categoria como administrador e advogado. Era,
também, homem orgulhoso e arrogante, de língua muito flexível, como
acontece a muitos advogados, e das opiniões mais rígidas. Em parte
ISso correspondia ao seu temperamento. É dado a intensos
entusiasmos e dogmatismos, e a acessos de altivez. Jamais deixaria alguém
esquecer-se de que ele é ao mesmo tempo cidadão romano e judeu de
família nobre e influente. Insolência, para ele, era coisa insuportável,
que devia ser punida de imediato. Para um jovem, mostrava-se imen-
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samente rígido, em seu orgulho, e terrivelmente honesto. Nos
tribunais de leis, seu gênio forense era muito temido e admirado.
"Acima de tudo, sempre foi um judeu devoto, odiando os que
sequer ousavam duvidar da Torá* em seu mínimo pormenor. Quando
ouviu falar em jesus, o humilde Nazareno, e nos boatos de que Ele era
Filho de Deus, ficou ultrajado e pessoalmente insultado. "Nada de
bom jamais veio de Nazaré", escreveu ele certa vez. "Quando Deus nos
mandar o nosso Messias, Ele chegará como o relâmpago, entre uma
companhia de arcanjos, e com as trombetas do Senhor nosso Deus, e
todos O conhecerão e as nações do mundo se curvarão diante Dele.
Como ousa esse camponês, esse carpinteiro, esse Jesus de Nazaré, ser
proclamado o Salvador, pelos ignorantes? Isto é uma blasfêmia diante
de jeová. Estou cheio de indignação e justa afronta. A lei foi violada
por massas idiotas e iletradas. Sabes que sempre desprezei os ilerados
que cantam suas preces por ouvi-las, e nada sabem da verdadeira Lei
e suas implicações. Se eu pudesse fazer o que desejo, confinaria essa
gente aos pátios externos do Templo, pois cheiram mal e seus rostos
estúpidos são uma afronta diante da glória de Deus! E seus sacrifícios
deveriam ser rejeitados."
"Receio, Lucano, que minhas cartas a ele só tenham aumentado
sua cólera. Como podia eu, Hilell ben Hamram, de uma grande
família judaica, um erudito, um homem de posição, venerado no Templo,
estar tão iludido com os boatos relativos a esse Jesus, a esse Homem
das colinas despidas, das ravinas e barrancos de Nazaré. Algum
encantamento fora atirado contra mim. Isso era intolerável! E agora, os
Cristãos espalhados estavam causando muitos transtornos em
Damasco, discutindo com os vizinhos, zombando da lei, declarando que o
Messias nascera de uma virgem, numa família humilde, e pregara
através de Israel, ultrajando os sacerdotes que são os guardiães da Lei,
falando contra os fariseus que administram a Lei e chamando-os de
uma geração de víboras e hipócritas. E então Ele fora justamente
crucificado por incitar o povo contra Ronía, para perigo mortal desse
mesmo povo!
"Como administrador romano ele seguira seu dever, segundo as
leis, indo a Damasco para abafar o que os romanos chamavam
insurreição, mas que ele declarava ser blasfêmia. Cavalgava com sua
companhia de colegas advogados, e com um séquito de soldados romanos,
___
* Nome dado pelos judeus à lei mosaica (Pentateuco). (N. do T)
___
cheio de vingança e fúria. Tão inflamado ia que não parava numa
hospedaria sequer para passar a noite, mas cavalgava para Damasco
como um turbilhão.
"E agora, como meu amigo e hóspede de minha casa, conta-me a
mais maravilhosa e estranha das histórias. Está cheio de paixão e
excitamento ao repetir o fato, como se eu fosse um descrente e ele o
evangelista que precisa me convencer.
"Estava ele cavalgando à frente de seu séquito, na estrada de
Damasco, seus cabelos e suas vestes voejando ao vento provocado pelo
seu galope. Subitamente, o animal que ele montava nitriu e empinou
no ar, tendo Saulo um trabalho imenso para dominá-lo, Os que o
acompanhavam empinaram também, e os homens, lutando contra seus
cavalos e blasfemando, fizeram círculos na estrada, estalando os
chicotes, enquanto as patas dianteiras dos animais batiam no ar num frenesi
e os arreios brilhavam ao luar como prata agitada.
"Então, diante de Saulo, uma luz tremenda apareceu, como sol
novo, e no meio dela surgiu uma Figura radiante, coroada de
espinhos, e envolvida em luminosidade enceguecedora. E a Figura ergueu
as mãos feridas e disse a Saulo, em voz imensa, ainda assim suave,
"Saulo, Saulo, por que Me persegues?"
Saulo fixou os olhos na Figura, abrigando-os contra a luz.
Um tremor horrível apoderou-se dele, e uma sensação da mais
devastadora culpa e de poderosa adoração. Não sabia o que fazer, ou
o que responder. Sua alma estava estraçalhada e derrotada. Aquele
era o Messias que ele estava para perseguir e cujos seguidores ia
disposto a destruir! Olhou para a Face gloriosa e seu coração saltou
de júbilo, humildemente. A criatura humana de forma alguma
poderia suportar a visão. Saulo foi abatido pela vertigem, e tombou
de seu cavalo.
"Houve alguns, entre os que o acompanhavam, que nada viram.
Outros declaravam ter percebido luz deslumbradora que os enchera
de terror. Fosse como fosse, Saulo voltou para Jerusalém homem
transformado, elevado, cheio de lágrimas, repleto de alegria e angústia que
se mesclavam, e de apaixonado amor. Ele vira o Ressuscitado. Toda a
sua natureza veemente aceitava o que aquela mesma natureza ainda
não havia muito rejeitara com desdém e repulsa.
"Agora, está em minha casa. Declara que vai procurar Pedro, em
Jopa, imediatamente, para ser batizado e para receber instruções. Irá,
então, cuidar de sua própria missão. Disse-me: "Ele, Nosso Senhor,
664 665
não veio apenas para os judeus, mas para os gentios! Eu me tomarei
uma voz para os gentios, e hei de levá-los à salvação!" Lembra-te que
isto estava sendo dito pelo altaneiro Gaio Júlio Paulo!
"Consegui persuadi-lo a esperar até a tua volta, quando retornasses
da visita a Maria e à Galiléia. Ele ainda é homem muito impaciente, e
de início recusou. Não podia adiar por um instante o trabalho que
deve fazer. Contei-lhe tudo a teu respeito, meu querido amigo. E
agora ele declara que tu e ele ireis juntos até Pedro. Não sei o que Pedro
fará com ele, Pedro, o pobre galileu, o humilde pescador. Saulo é um
homem impetuoso e mesmo agora não consegue esquecer-se de que
pertence a uma nobre família judia e é cidadão romano. Está imbuído
de entusiasmo e adoração. Discutirá com Pedro, e Pedro com ele?
Saulo acredita ter recebido uma incumbência especial de Nosso
Senhor, incumbência que, segundo ele próprio insinua, ainda é
superior à dos apóstolos. Será ele arrogante para com Pedro? Humildade é
coisa que dilicilmente lhe chegará à alma. Pedro viu, e acreditou.
Saulo não viu o Senhor em carne, mas agora acredita, com uma
exultação que, às vezes, é assustadora. Chega a fazer-me discursos,
adverte-me, a mim que há tanto tempo tentei convencê-lo. É como ter
um temporal em casa; passeia de cá para lá a noite inteira,
murmurando consigo mesmo, e rezando.
"Ontem, disse-me: "Estou muito interessado nesse Lucano, e nas
histórias que a respeito dele me contaste. Mas é um gentio, e deve ser
convencido por mim, pois os gentios tem corações endurecidos, e eu
tenho ordem para trazê-los à Fé." Consegui reter o riso. As vezes ele
quase chega a convencer-me de que sou um homem ignorante, e
inconsciente da mensagem do Messias.
"E agora, meu querido Lucas, nós te esperamos."
Aquela era a primeira vez que Lucano era chamado pelo
diminutivo afetuoso. Leu e tornou a ler a carta de Hilell. E seu excitamento
cresceu. Tinha a impressão de que ele e Saulo iriam entender-se, pois
nenhum dos dois vira o Messias em carne. Apenas com seus espíritos
O haviam visto, e seguramente a visão do espírito era mais pura do que
a visão dos olhos mortais. Pensou em Saulo com súbita afeição, que
era inexplicável. Sorriu, ao pensar no homem orgulhoso e veemente,
cidadão romano como ele era cidadão romano. Saulo realizaria
grandes coisas. Falaria com enfática autoridade. Seria um açoite para os
apóstolos, que ainda suspeitavam dos gentios e temiam-nos. Seria um
açoite para os gentios.
Lucano apanhou seu material de pintura, depois de ter jantado
em seu quarto. Queria retratar Maria, para os tempos vindouros.
Pensou em suas feições tranqüilas e belas, em sua majestade, em sua graça,
em seu aspecto sereno e sobrenatural. Pensou nos olhos percucientes,
mas suaves, no sorriso heróico, nas maneiras doces. Começou a
trabalhar. Mas Maria lhe fugia. Era, ao mesmo tempo, velha e imortalmente
jovem, simples, contudo profunda. Como poderiam simples tintas
descrevê-la, a ela, a Mãe de Deus?
54
Lucano foi, a pé, ver Maria pela última vez. A rua despida e silenciosa
em que ela vivia deprimia-o. A passagem mostrava-se repleta de buracos,
nos quais a poeira quente e branca se aninhara. As janelas e portas
fechadas, escondendo-se do sol, reluziam à sua passagem. Algumas
cabras empoeiradas e alguns frangos corriam ao movimento de seus
passos. As colinas cor de sépia dançavam em ondulações de calor, sob
um céu esbraseado. Lucano sentia-se satisfeito ao saber que Maria iria
depressa para Jerusalém, onde moraria com o jovem João, a cujo
cuidado seu Filho a deixara. João falara nela com lágrimas e profunda
devoção, a voz faltandolhe, e por isso Lucano não temia que ela fosse
negligenciada pelo moço.
Maria atendeu à batida de Lucano em sua porta, que abriu,
sorrindo gentilmente e conduzindo-o a descer o inclinado lance de
escada de pedra que dava para o aposento de baixo, parecido a uma
adega, onde havia frescura. Preparara uma refeição para seu
hóspede, sobre a mesa de madeira: mel em favo, pão fresco, torcido como
rosca, frutas e queijo, leite de cabra e vinho. Uma luz fraca, azulada,
difundia-se pelo aposento pobre, onde Maria era uma sombra
brilhante. Enquanto Lucano comia ela o observava, as mãos cruzadas
no regaço, o belo rosto tranqüilo. Lucano pintara-lhe o retrato em
madeira, mas, fixando agora os olhos nela, sentia-se frustrado.
Pensara que tivesse obtido, pelo menos, uma imagem apropriada
daquela Mãe. Entretanto, ela mudara, novamente; era uma donzela
tímida, digna e correta, os olhos sonhadores, distantes. Parecia lançar
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luz de sua própria carne, de forma que em torno dela havia uma
cintilação.
Lucano disse:
- Senhora, teu Filho sempre soube quem Ele era? Desde Sua
infância?
Maria meditou, depois inclinou a cabeça:
- Acredito que sim. Sei que sim. Mesmo em Seu berço, que
José meu marido fez tão amorosamente com suas próprias mãos, Ele
parecia estar sempre meditando. Foi o mais doce dos bebês. Jamais
chorava, nem mesmo quando tinha fome. Parecia conhecer-nos desde
o dia em que nasceu. As vezes, à noite, eu erguia uma lâmpada sobre
Ele, para ter certeza de que tudo estava bem, e de que Ele dormia.
Abria então Seus olhos queridos e sorria, tranqüilizando-me.
"Foi um menino forte e vigoroso, obediente, mas muitas vezes
silencioso. Divertia-se com os brinquedos que José fazia para Ele e
brincava como as outras crianças brincam. Mas, no meio de seus
brinquedos, ficava de súbito imóvel como se pensasse ou refletisse. Era
isso que aborrecia as outras crianças, isto, e Seu súbito afastar-se delas
para ficar sozinho.
"Não falamos com Ele sobre Seu nascimento e Sua missão.
Havia como que um entendimento entrc nós todos. Certa vez, Ele me
encontrou chorando, pois eu compreendia, vagamente, Seu fado
inexorável, segundo as profecias e segundo o que o velho Simeão
dissera no Templo. Sou mãe, Lucano. Meu Filho era mais querido
para mim do que a própria vida, e às vezes meu coração quase se
despedaçava quando eu ousava pensar se a humanidade seria digna
Dele. Quando Ele me viu chorando, e então tinha dez anos de
idade, veio ter comigo, abraçou-me e apertou-me contra Seu peito de
menino, calado e consolador. Não me fez perguntas. Enxugou
delicadamente meus olhos, e eu não consegui aplacar a força dos meus
soluços. Finalmente, Ele disse: "Não deves chorar, minha Mãe, pois
eu estou sempre contigo."
Maria calou-se, e, embora sorrisse, havia lágrimas em seus
olhos. Suas mãos tranqüilas começaram a tremer.
- Quando Ele me deixou, depois que João o batizou, e
retirou-se para o deserto durante quarenta dias, foi como se para mim
toda a luz tivesse desaparecido da vida, pois compreendi que já não
O tinha mais, que dali por diante Ele pertencia a Deus e ao mundo.
José morrera. Segui meu Filho através do país muito freqüentemente,
e Ele se preocupava comigo, que já não era jovem. As vezes, quando
o povo o rodeava, ouvindo-O, eu ficava à margem da turba, não
desejando perturbá-Lo com a minha presença. Mas Seus olhos
sempre me encontravam, e às vezes tornavam-se tristes. Houve sempre,
entre nós, o maior amor e devotamento. E compreensão. Muitas
vezes, quando Ele estava mais longe, aparecia-me em sonhos, cheio de
ternura e consolo. Sabia que eu era uma mulher, e mãe, e que sofria
por Ele, e que sempre pensava Nele como fruto do meu próprio
ventre e o querido de meu coração, acima de tudo.
Fechou os olhos, em dor profunda, e Lucano sentiu que ela
pensava na crucifixão, pois seu rosto empalideceu e tornou-se rígido.
Depois de um momento recomeçou a falar, em voz baixa.
- Houve uma noite estranha, de que me recordo. quando
Ele tinha quatorze anos. Durante todo o dia trabalhara na oficina,
pois era um carpinteiro maravilhoso, e tinha muitas encomendas.
Estava fatigado. Mas, naquela noite, ao crepúsculo, deixou a casa e
subiu para a colina que ficava atrás de nossa habitação. Não havia
ninguém por ali, pois era a hora da refeição noturna. Eu jamais
vira o céu tão vermelho como estava então, como se o firmamento
se incendiasse. Mesmo as montanhas flamejavam, como pedras
reluzentes. Não sei por que O segui. Fiquei de pé, abaixo Dele, na
pequena passagem de pedra, e levantei os olhos para onde Ele
estava. Meu Filho vestia uma roupa branca, que eu fiara e
costurara para Ele, e parecia uma estátua, de pé, contra a paisagem
fulgurante. Não se movia, era como se esperasse. Tão grande e inspiradora
de respeitoso temor era a cena, tão flamejante de fogo fosco, que
fechei os olhos por um momento. Quando os abri de novo, ele não
estava sozinho.
"Um grande anjo escuro, alto e majestoso, estava em pé diante
Dele, e eu senti que aquele anjo era só maldade, embora tivesse um
rosto sombriamente belo. Parecia estar vestido ao mesmo tempo em
flama e noite, e suas asas poderosas refletiam o crepusculo, como basalto
esculpido.
"Ele e meu Filho contemplavam-se mutuamente, em silêncio, e
meu coração estremeceu de terror, ao vê-los assim se defrontando.
Falaram? Não sei. Embora tudo estivesse silencioso, não ouvi uma só
palavra. Meu Filho era muito jovem, mas alto e ereto, e não mostrava
receio diante do terrível anjo de rosto belo, que era sarcástico e cheio
de orgulho.
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"Então, enquanto eu os observava, o anjo abaixou-se e levantou
nas mãos um punhado de terra, mostrando-o a meu Filho, e então
ouvi um riso leve e escarnecedor. Como compreendi, não sei, mas ele
estava mostrando a Jesus a inutilidade do mundo. Atirou a terra e
pisou sobre ela, e foi então que ouvi o leve cascatear de trovão, que
parecia vir do próprio anjo.
"Então, Jesus também abaixou-se, levantou alguma terra em Suas
mãos, e segurou-a ternamente, esfregando-a entre Seus dedos. Era
terra seca e sem verdura, mas, quando Ele a segurou, ela subitamente
floresceu num ramalhete de espessas folhas verdes de onde surgiam
minúsculos lírios, que se curvavam. Pude sentir-lhes a fragrância que
o vento trazia.
"O anjo olhou para as flores, recuou e cobriu o rosto com as mãos.
Então, com um grito tremendo, desapareceu, e meu Filho ficou
sozinho.
"Corri, descendo o caminho da colina, para a minha casa, e logo
depois jesus voltava. Olhou muito para mim, depois abraçou-me, e
beijou-me na face. Agarrei-me a Ele. Nada dissemos. Sentamo-nos e
lizemos a nossa refeição.
Lucano fixava os olhos naquela adorável mulher que tanto vira e
tanto sofrera. Ela sorria de leve, de novo tomada pelos seus sonhos.
Então, o médico ajoelhou-se ao lado dela e tocou-lhe os pés com os
lábios, trémulo de respeito e de amor. Ela desceu os olhos para Lucano,
e seu rosto mostrava-se iluminado. Pôs a mão na cabeça do homem, e
ele pensou em Íris, sua mãe.
Maria tornou a encher o copo de vinho e deu-o ao médico, que,
sempre de joelhos, bebeu-o, sentindo-se maravilhosamente
revigorado.
- Meu caro filho disse ela -, não chores. Não sou eu a mais
abençoada das mulheres? Regozija-te comigo por Ele ser meu Filho.
Subiram juntos os degraus, saindo para o clarão incandescente do
meio-dia, que, entretanto, fazia a ruazinha parecer ainda mais
desolada do que antes.
- Devo deixar-te agora, Senhora disse Lucano. - Tenho
muito que fazer.
Ela confirmou, com um movimento de cabeça.
- Eu sei. Que a paz seja contigo, Lucano.
Ele deixou-a, caminhando vagarosamente, na descida da rua
estreita. Então, chegando ao fim, voltou-se, e olhou para Maria.
Ela estava de pé, contra o cenário de fundo das montanhas
ardentes e bronzeadas, e pareceu a Lucano que a Senhora se fizera muito
alta, que estava vestida de pura luz, e que seu rosto irradiava
luminosidade, como a lua, quando está em seu auge. Tinha o aspecto
incrivelmente belo e cheio de paz, intrépido. A rua já não se mostrava
desolada.
Ela ergueu a mão, para Lucano, em adeus e em bênção.
Medico de Homens e de Almas
Orelhas do livro
Orelha esquerda:
Taylor Caldwell levou quarenta e seis anos para escrever este
emocionante livro sobre a vida de São Lucas. Lucano, ou Lucas, o único
apóstolo que não era judeu, nunca viu Cristo e tudo o que está escrito
em seu Evangelho foi adquirido por meio de pesquisas e dos testemunhos
da mãe de Cristo, dos discípulos e dos apóstolos.
Mesmo assim se tornou o maior defensor da fé cristã e, Saulo de Tarso
(mais tarde Paulo, o apóstolo dos gentios), não acreditava que Nosso
Senhor tinha vindo apenas para salvar os judeus.
Justamente por isso, os dois homens encontraram muita dificuldade com os
primeiros discípulos de Jesus.
Lucas foi, antes de tudo, um grande médico e quase todos os
acontecimentos narrados neste livro são autênticos o cenário do início
da vida de São Lucas, a idade adulta e sua busca, bem como fatos
relacionados a sua família.
___
Orelha direita:
A história de São Lucas é a história da peregrinação de todos os homens
através do desespero e das trevas da vida, do sofrimento e da angústia,
da dúvida e do cinismo, da rebelião e da desesperança até a compreensão
de Deus.
Nascida em Manchester, Inglaterra, Taylor Caldwell viveu desde a
infância nos Estados Unidos, onde morreu em 1985.
Entre seus sucessos literários,muitos deles inspirados em personagens
bíblicos, estão O grande amigo de Deus, Só Ele ouve e Os servos de
Deus.
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Contra-capa:
A Bíblia apresenta São Lucas como o médico de coração generoso, bem
instruído e autor de um dos Evangelhos e do Livro de Atos. Lendas
antigas o descrevem como uma pessoa fora do comum, a quem são atribuídos
milagres e prodígios antes mesmo de sua conversão ao cristianismo. Em
Médico de homens e de almas, Taylor Caldwell combina estas duas imagens
de um dos homens mais importantes da igreja cristã primitiva,
caracterizado pela constante preocupação de enfermos, oprimidos e
pobres. A autora pesquisou a vida e as obras de Lucas durante anos, e as
descreve de forma romanceada num livro rico em detalhes históricos e de
narrativa emocionante.
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"odeio quem rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeiramente companhia..."
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1 comentários:
Já li esse livro e o lerei de novo. Fantástico, emociona e inspira à uma vida digna e fortificada no espírito desses homens que morriam por aquilo que acreditavam: fé, justiça, amor ao próximo. Esta é uma obra que contém história, amor, ensinamentos valorosos e que instrui para compreensão da vida.
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