Prólogo
N
ão sei o que faremos com esta menina. — Olha, Molly... — Com os olhos no espelho, Frank O'Hurley retocava a maquiagem no queixo para ter certeza de que seu rosto não refletiria a luz do palco. — Você está preocupada demais.
— Preocupada? — Remexendo-se para fechar o zíper nas costas do vestido, Molly decidiu permanecer na porta do camarim para ver o que se passava no corredor dos bastidores. — Frank, nós temos quatro filhos e eu os amo, todos eles. Mas o sobrenome de Chantel é "Problema".
— Você é severa demais com a menina.
— Porque você não é rígido o suficiente.
Frank riu e se virou para colocar a esposa no colo. Mais de 20 anos de casamento não haviam diminuído seu amor por ela. Ela ainda era sua Molly, linda e inteligente, mesmo sendo a mãe de um homem de 20 anos e de três meninas adolescentes.
— Molly, meu amor, Chantel é uma linda menina.
— E ela sabe muito bem disso. — Molly olhou por cima dos ombros de Frank para a porta dos fundos, ansiando que ela fosse aberta. Onde estava a menina? Tinham apenas 15 minutos para entrar em cena, e Chantel ainda não aparecera.
Quando dera à luz três filhas, com uma diferença de poucos minutos entre elas, Molly não fazia ideia de que a primeira lhe daria mais trabalho do que as outras juntas.
— É a beleza dela que lhe dará problemas — resmungou Molly. — Quando uma menina é linda como Chantel, os meninos não a deixam em paz.
— Ela pode lidar com eles.
— Talvez isso também me preocupe. Ela lida bem demais com eles. - Como Molly podia esperar que um homem tão simples e de coração tão gentil quanto Frank entendesse o complexo mundo das mulheres? Molly apoiou-se em uma enorme coluna. — Ela tem apenas 16 anos, Frank.
— E quantos anos você tinha quando nós...
— Aquilo foi diferente — disse Molly, mas foi obrigada a dar uma gargalhada quando Frank a olhou criticamente. — Bem, foi mesmo. — Ela ajeitou a gravata dele. Depois, tirou o pó que caíra no colarinho, dizendo: — Ela talvez não tenha a sorte de encontrar um homem como você.
Colocando as mãos sob os cotovelos dela, Frank a segurou.
— E que tipo de homem eu sou?
Com as mãos nos ombros dele, Molly o olhava. Frank era magro, possuía muitas rugas, mas seus olhos eram os do menino de fala mansa pelo qual ela se apaixonara. Embora jamais tivesse recebido aquela lua numa bandeja de prata que Frank lhe prometera, eles eram companheiros, no sentido mais exato da palavra. Na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza. E haviam enfrentado um bocado de pobreza! Passara mais da metade da vida com aquele homem, Molly pensou, e ele ainda a encantava.
— Um homem raro — disse-lhe, beijando-o. Ao ouvir o barulho da porta dos fundos se fechando, Molly se afastou.
— Não a ataque, Molly — disse Frank, segurando a esposa pelo braço. — Você sabe que ela vai se sentir ameaçada. Além do mais, ela já está aqui.
Resmungando, Molly se soltou, enquanto Chantel vinha dançando pelo corredor. Ela vestia uma blusa vermelha e uma calça preta de malha que acentuava seu corpo juvenil. O vento frio do outono deixara seu rosto rosado, destacando seus traços já elegantes. Chantel tinha olhos de um azul profundo, com uma expressão tranquila, confiante, de satisfação consigo mesma.
— Chantel!
Com seu talento natural para o drama, ela parou do lado de fora do camarim que dividia com as irmãs.
— Mamãe. — Ela retorceu um pouco a boca e abriu um sorriso ao avistar o pai, que lhe dava uma piscadela por sobre os ombros de Molly. Chantel sabia que sempre podia contar com ele. — Sei que estou um pouco atrasada, mas logo estarei pronta. Eu estava me divertindo tanto... — O entusiasmo acrescentou um brilho à beleza. — Michael me deixou dirigir o carro dele.
— Aquele belo carrinho vermelho... — começou Frank, detendo-se quando percebeu o olhar que Molly lhe lançou.
— Chantel, você tirou sua carteira de motorista há poucas semanas. — Como odeio dar sermão, pensou Molly, se preparando. Sabia muito bem o que era ter só 16 anos, e por isso mesmo sabia que não havia como evitar o que tinha de fazer. — Seu pai e eu não achamos que você esteja preparada para dirigir sem nossa companhia. E, de qualquer modo — acrescentou, antes que Chantel pudesse fazer qualquer objeção —, não é nada inteligen¬te dirigir o carro de outra pessoa.
— Estávamos numa pequena estrada deserta — disse Chantel, aproximando-se e beijando a mãe no rosto. — Não se preocupe tanto. Tenho de me divertir um pouco, ou vou definhar.
Molly percebeu a estratégia da filha, mas se manteve firme.
— Chantel, você é jovem demais para entrar no carro de um garoto.
— Michael não é nenhum garoto. Ele já tem 21 anos.
— Exatamente por isso.
— Ele é maluco — disse Trace calmamente, aproximando-se pelo corredor. Ele apenas ergueu uma sobrancelha quando Chantel o encarou com ódio nos olhos. — E se eu descobrir que ele tocou em você, vou arrebentar a cara dele.
— Isto não é da sua conta — respondeu Chantel. Uma coisa era ser repreendida pela mãe, mas pelo irmão era bem diferente. — Tenho 16 anos, não 6, e estou cansada de ser vigiada.
— Ah, que pena... — Trace pegou-a pelo queixo, segurando-a firme quando Chantel tentou se desvencilhar. Ele tinha uma versão rude e masculina da beleza de Chantel. Olhando para eles, Frank se sentia cheio de orgulho, a ponto de achar que explodiria. Eles eram os pavios curtos da família, mais parecidos com a mãe do que com ele. Frank os amava de todo o coração.
— Agora chega. — Bancando o apaziguador, Frank se pôs entre os dois. — Vamos discutir tudo isso mais tarde. Agora Chantel precisa se trocar. Você tem dez minutos, princesa — murmurou. — Não perca tempo. Vamos, Molly, vamos animar a plateia.
Molly lançou um olhar de censura para Chantel, avisando que o assunto não estava encerrado. Acalmando-se, tocou o rosto da filha.
— Você sabe que temos o direito de nos preocupar com você.
— Talvez. — Chantel ainda estava de nariz empinado. — Mas vocês não precisam se preocupar. Posso cuidar de mim mesma.
— E disso que eu tenho medo. — Com um suspiro, Molly acompanhou o marido até o pequeno palco sobre o qual ganhariam o sustento pelo resto da semana.
Longe de estar mais calma, Chantel pôs a mão na maçaneta da porta atrás dela antes de encarar o irmão.
— Eu decido quem me toca, Trace. Lembre-se disso.
— Apenas cuide para que seu amiguinho do carro bonito se comporte. A não ser que o queira com os dois braços quebrados.
— Ah, vá para o inferno!
— Provavelmente vou mesmo — disse ele, tranquilamente, para depois despentear-lhe o cabelo. — Vou abrir caminho para você, maninha.
Querendo rir, Chantel abriu a porta apressadamente, batendo-a com força.
Maddy lançou-lhe um olhar enquanto abotoava a roupa de Abby nas costas.
— Ah, então você resolveu aparecer.
— Não comece. — Com movimentos rápidos, Chantel tirou o vestido, que combinava com os das irmãs, de uma arara de ferro que ocupava quase todo o camarim.
— Não ousaria. Mas o que ouvi no corredor pareceu interessante.
— Eu queria que eles parassem de se intrometer na minha vida. — Chantel jogou o vestido no chão e tirou a blusa. Sua pele era alva e macia, as curvas já suaves e femininas.
— Encare deste modo — disse Maddy, depois de abotoar a roupa de Abby —: eles estão tão ocupados com você que mal prestam atenção em Abby ou em mim.
— Vocês me devem esta — disse Chantel, tirando a calça com movimentos bruscos, ficando apenas de calcinha e sutiã.
— Mamãe ficou mesmo preocupada — interveio Abby. Como sua maquiagem e cabelo estavam prontos, ela arrumava os tubos e potes para maquiar o rosto de Chantel.
Sentindo uma pontada de culpa, Chantel se pôs em frente ao espelho que dividia com as irmãs.
— Ela não precisa se preocupar. Eu estava bem. Estava me divertindo.
— Ele deixou mesmo que você dirigisse o carro? — perguntou Maddy, interessada, pegando uma escova para arrumar o cabelo da irmã.
— Sim. Eu me senti... Não sei, acho que me senti importante. — Ela olhou em volta, para o camarim todo desarrumado e sem janelas, com o piso de concreto e paredes sujas. — Vocês sabem que não ficarei neste tipo de lugar para sempre.
— Agora você está parecendo o papai. — Sorrindo, Abby lhe estendeu um chumaço de algodão para que ela começasse a se maquiar.
— Bem, mas não sou o papai. — Já com anos de prática, Chantel acrescentou cor ao rosto com movimentos rápidos. — Algum dia terei um camarim três vezes maior do que este. Todo branco, com um tapete tão grosso que vocês vão afundar até os tornozelos.
— Prefiro um camarim colorido — disse Maddy, sonhando por um instante. — Muitas e muitas cores.
— Branco — repetiu Chantel com firmeza. Em seguida, levantou para se vestir. — E terá uma estrela na porta. Vou andar de limusine e ter carros esportivos que vão fazer o do Michael parecer um brinquedinho. — Seus olhos escureceram enquanto ela vestia o figuri-no, que já fora remendado incontáveis vezes. — E uma casa com um jardim enorme e uma piscina de pedra gigantesca.
Como sonhar era de família, Abby também fantasiava, enquanto fechava os botões do vestido de Chantel.
— Quando você entrar num restaurante, o maitre a reconhecerá e lhe dará a melhor mesa e a melhor garrafa de champanhe da casa.
— Você vai ser gentil com os fotógrafos — disse Maddy, entregando os brincos a Chantel. — E jamais recusar um autógrafo.
— Claro! — Feliz, Chantel prendeu as pedrinhas de vidro nas orelhas, imaginando que eram diamantes. — Haverá duas enormes suítes na minha mansão, para cada uma das minhas irmãs. Vamos nos sentar juntas à noite e comeremos caviar.
— Prefiro pizza — disse Maddy, se apoiando nos ombros da irmã.
— Pizza e caviar — sugeriu Abby, ficando de frente para Chantel.
Com uma gargalhada, ela agarrou Abby pela cintura. Agora elas eram uma coisa só, assim como tinham sido antes de nascer.
— Vamos conhecer vários lugares. Seremos importantes.
— Já somos — disse Abby, inclinando a cabeça para olhar Chantel. — Somos As Trigêmeas O'Hurley.
Chantel observou seu próprio reflexo no espelho.
— E ninguém jamais se esquecerá disso.
Capítulo Um
A
casa era grande, elegante e toda branca. Nas primeiras horas do dia, uma brisa entrava pelas portas da varanda que Chantel deixara abertas, trazendo as fragrâncias do jardim. Do outro lado do quintal, escondido pelas árvores, havia um gazebo, pintado de branco, com glicínias subindo pelas treliças. Às vezes, quando o vento soprava, Chantel era capaz de sentir o perfume das flores entrando pela janela do quarto.
À esquerda do quintal ficava uma bela e rebuscada fonte de mármore. Estava desligada. Chantel raramente a ligava quando estava sozinha. Perto dali ficava uma piscina octogonal de pedra, cercada por um pátio. Ao seu lado, havia uma casa menor, também toda branca. Além das árvores havia uma quadra de tênis, mas fazia semanas que Chantel não tinha tempo ou vontade de pegar uma raquete.
Ao redor de toda a propriedade havia um muro de pedra da altura de dois homens, que ora a fazia se sentir protegida, ora lhe dava a sensação de confinamento. Dentro da casa, com o pé-direito alto e as elegantes paredes brancas, Chantel geralmente se esquecia da cerca, do sistema de segurança e do portão automático. Era o preço a se pagar pela fama que sempre quisera.
Os cômodos dos empregados ficavam na ala oeste, no primeiro andar. Nenhum deles estava acordado. O dia mal amanhecera e Chantel estava sozinha. Havia momentos em que ela preferia as coisas assim.
Arrumando o cabelo sob o boné, Chantel não se preocupou em ver o resultado no espelho do quarto de vestir. A blusa comprida e os sapatos de salto baixo que usava haviam sido escolhidos por causa do conforto, não da elegância. Aquele rosto que arrasava os corações dos homens e despertava a inveja das mulheres era mantido intocado pelos produtos de beleza. Chantel protegia o rosto abaixando a aba do boné e usando enormes óculos de sol. Ao pegar a bolsa com tudo de que achava que iria precisar naquele dia, o interfone ao lado da porta tocou.
Chantel deu uma olhada no relógio. Cinco e quarenta e cinco. Só então ela apertou o botão.
— Bem na hora.
— Bom dia, srta. O'Hurley.
— Bom dia, Robert. Já estou descendo. — Depois de acionar o interruptor que abria o portão da frente, Chantel olhou para a enorme escadaria que conduzia ao térreo. O corrimão de mogno parecia feito de seda ao toque de seus dedos. Sobre sua cabeça havia um lustre cujos prismas refletiam suavemente a luz da aurora. O piso de mármore brilhava como vidro. A casa era um cartão de visitas perfeito para a estrela que Chantel trabalhara tão duro para se tornar. Mas ela ainda não dava nada daquilo como certo. Era um sonho que viera de outros sonhos e se transformara em novos, e haviam sido necessários muito tempo, esforço e habilidade para mantê-lo vivo. Mas até aí, Chantel havia trabalhado a vida toda, e se sentia no direito de desfrutar o que começava a colher.
Enquanto caminhava até a porta da frente, o telefone começou a tocar.
Droga, sentia alguma mudança de planos? Como estava de pé e os empregados ainda dormiam, Chantel foi até a biblioteca e atendeu.
— Alô. — Ela imediatamente pegou uma caneta, pronta para tomar nota.
— Eu queria poder vê-la agora. — Aquele sussurro familiar deixou suas mãos úmidas e a caneta escorregou, caindo com um som surdo sobre o mata-borrão. — Por que mudou seu número? Você não está com medo de mim, está? Não precisa ter medo, Chantel. Não vou machucá-la. Só quero tocá-la. Só tocá-la. Você está se vestindo? Você está...
Com um grito desesperado, ela bateu com o telefone no gancho. O som de sua respiração ofegante naquela casa enorme parecia ecoar atrás dela. O pesadelo estava recomeçando.
Minutos depois, o motorista percebeu que Chantel não lhe dera aquele sorriso simples e suave com o qual geralmente o cumprimentava antes de entrar na parte de trás da limusine. Dentro do carro, Chantel jogou a cabeça para trás, fechou os olhos e tentou se acalmar. Enfrentaria as câmeras em poucas horas e precisaria dar o melhor de si. Aquele era seu trabalho. Sua vida. Nada podia atrapalhá-la, nem mesmo o medo de um sussurro ao telefone ou de uma carta anônima.
Quando a limusine atravessou os portões do estúdio, Chantel já havia retomado o controle. Ela deveria estar segura ali, não? No estúdio, Chantel podia se entregar ao trabalho que ainda a fascinava. Dentro das dezenas de prédios em forma de cúpula, a mágica acontecia, e ela fazia parte daquele universo. Até mesmo as coisas feias eram de mentira. Assassinatos, mutilações e paixões eram, sempre, simulações. Maddy chamava aquele lugar de Terra da Fantasia, um nome bastante justo. No entanto, Chantel pensou com um sorriso, era preciso trabalhar arduamente para tornar a fantasia real.
Às seis e meia, ela estava sentada na sala da maquiagem, com sete pessoas ajeitando seu penteado. Estavam na primeira semana de filmagem e tudo parecia novidade. Chantel relia suas falas enquanto a cabeleireira criava o penteado que seu personagem exibiria naquele dia.
— Que volume! — murmurou a cabeleireira, olhando para o secador. — Conheço mulheres que dariam uma fortuna por um cabelo farto assim. E que cor! — Ela se abaixou para olhar no espelho o resultado de seu trabalho. — Eu mesma tive dificuldade para acreditar que é natural.
— Culpa da minha avó paterna — disse Chantel, virando-se de lado um pouquinho para avaliar seu perfil. — Eu devo parecer uma menina de 20 anos nessa cena, Margo. Vou conseguir?
Rindo, a mulher de cabelos vermelhos se afastou.
— Esta é a menor das suas preocupações. Uma pena que tudo isso vá se molhar na chuva — disse, dando uma última ajeitada no cabelo de Chantel.
— Você é quem está dizendo. — Chantel ficou de pé assim que a capa foi retirada. — Obrigada, Margo.
— Antes que desse mais um passo, seu assistente estava a seu lado. Chantel o contratara porque era jovem e entusiasmado e não tinha ambições de ser ator. — Você vai estalar o chicote, Larry?
Larry Washington ficou vermelho e gaguejou, o que sempre acontecia nos primeiros cinco minutos que passava com Chantel. Ele era baixinho, forte, recém-formado e com a mente excelente para detalhes. A maior ambição dele, naquele momento, era comprar uma Mercedes.
— Ah, você sabe que eu jamais faria isso, srta. O'Hurley.
Chantel lhe deu um tapinha no ombro, fazendo o sangue dele ferver.
— Alguém tem de fazer. Larry, agradeceria se você encontrasse o assistente de direção e lhe dissesse que estou no meu trailer. Vou me esconder lá até que todos estejam prontos para o ensaio.
O ator que co-estrelaria o filme com ela surgiu, segurando um cigarro, numa tremenda ressaca.
— Gostaria de um cafezinho, srta. O'Hurley? — perguntou Larry, enquanto se afastava do ator. Qualquer pessoa minimamente inteligente logo percebia que era melhor evitar Sean Carter quando ele estava de ressaca.
— Sim, obrigada. — Chantel acenou para uns poucos membros da equipe, que retocavam os últimos detalhes no primeiro cenário: uma estação de trem completa, com trilhos, vagões de passageiros e um depósito. Era ali que sua personagem se despediria do-lorosamente de seu amado. Chantel só esperava que, até a hora do ensaio, Sean tivesse se recuperado da dor de cabeça.
Larry manteve o mesmo ritmo que Chantel, que atravessava todo o set de filmagens caminhando sob holofotes e desviando de cabos.
— Gostaria de lembrá-la de sua entrevista esta tarde. O repórter da Star Gaze deve estar aqui ao meio-dia e meia. Dean, da assessoria de imprensa, disse que a acompanharia se você quisesse.
— Não, está tudo bem. Posso lidar com um repórter. Veja se me consegue algumas frutas frescas, sanduíches e café. Não, é melhor chá gelado. Eu darei a entrevista no meu camarim.
— Tudo bem, srta. O'Hurley. — Solícito, ele começou a fazer anotações em seu caderno. — Algo mais?
Ela parou na porta do camarim.
— Há quanto tempo está trabalhando para mim, Larry?
— Ah, faz pouco mais de três meses, srta. O'Hurley.
— Acho que você poderia começar a me chamar de Chantel. — Ela sorriu e fechou a porta, deixando-o feliz e surpreso.
O trailer havia sido decorado recentemente de acordo com o gosto dela e para seu conforto. Com o roteiro ainda nas mãos, Chantel entrou na salinha de estar e foi até o pequeno camarim nos fundos. Não perdeu tempo, porque sabia que ele era limitado. Depois de tirar a roupa, vestiu a calça jeans e a blusa que usaria na primeira cena.
Ela interpretaria uma estudante de arte esforçada de 20 anos que vivia seu primeiro amor. Chantel deu uma olhada no roteiro novamente. Era bom, sólido. O papel que faria lhe daria a oportunidade de demonstrar seu talento, pois exigiria o máximo de dramaticidade. Era um desafio, e tudo o que Chantel precisava fazer era tirar vantagem daquilo. E era o que faria. Prometeu a si mesma que faria.
Quando lera Estranhos, se escalara para o papel de Hailey, a jovem artista traída por um homem e perseguida por outro. Uma mulher que, ao fim, encontrava o sucesso e perdia o amor. Chantel entendia Hailey. Entendia a traição. E, pensou ao olhar em volta, para o elegante camarim, entendia o sucesso e o preço que se pagava por ele.
Chantel sabia suas falas de cor, mas manteve o roteiro consigo ao ir para a sala de estar. Com sorte, teria tempo para uma rápida xícara de café antes de rodar a cena. Quando estava trabalhando num filme, Chantel achava fácil viver a base de café, um almoço rápido e leve, e mais café. O papel a alimentava. Raramente havia tempo para compras, um mergulho na piscina ou uma massagem no clube até que o filme fosse concluído. Essas eram as recompensas de um trabalho bem-feito.
Ela começou a se sentar, mas um vaso cheio de rosas vermelhas atraiu seu olhar. De um dos diretores do estúdio, pensou, aproximando-se para pegar o cartão. Quando o abriu, o roteiro caiu de suas mãos: "Eu estou sempre observando você. Sempre."
Ao ouvir uma batida na porta, ela deu um passo para trás, apoiando-se contra a bancada. O cheiro das rosas às suas costas se espalhava, pesado e doce. Com a mão no pescoço, Chantel olhava para a porta sentindo pela primeira vez um medo verdadeiro.
— Srta. O'Hurley... Chantel, é Larry. Estou com seu café.
Ofegando, ela atravessou a sala e abriu a porta.
— Larry...
— Café forte, do jeito que você... O que houve?
— Eu... eu só... — Chantel se interrompeu. Controle-se, disse a si mesma, desesperada. Você perderá tudo se perder o controle. — Larry, você sabe algo sobre essas flores? — perguntou, apontando para trás, mas sem olhar.
— As rosas. Ah, um dos copeiros as encontrou quando estava preparando o café da manhã. Como elas estavam com seu nome, achei melhor colocá-las ali. Sei como gosta de rosas.
— Livre-se delas.
— Mas...
— Por favor. — Chantel saiu do camarim. Gente. Queria muita gente ao seu redor. — Apenas livre-se delas, Larry.
— Claro. — Ele ficou olhando para as costas da atriz, que caminhava para o set de filmagem. — Agora mesmo.
Quatro aspirinas e três xícaras de café haviam dado vida nova a Sean Carter. Era hora de trabalhar, nada podia atrapalhar. Não uma ressaca. E muito menos umas palavrinhas assustadoras num cartão. Chantel trabalhara duro para projetar uma imagem de elegância e estilo. Do mesmo jeito, trabalhara duro para não adquirir a reputação de ser uma atriz temperamental. Estava sempre pronta quando a chamavam e tinha suas falas sempre decoradas. Se demoravam dez horas para gravar uma cena, paciência. Ela lembrou a si mesma de tudo isso ao abordar Sean e a diretora.
— Como consegue sempre dar a impressão de que acabou de sair das páginas de uma revista de moda? — resmungou Sean, mas Chantel notara que a maquiagem conseguira disfarçar as olheiras dele. O ator tinha a pele bronzeada e o rosto bem barbeado. Seus cabelos grossos, cor de mogno, haviam sido arrumados casualmente e caíam sobre a testa. Ele parecia jovem, saudável e belo, o amante ideal de uma jovem sonhadora.
Chantel levantou a mão e tocou no rosto do colega.
— Porque eu saí, querido.
— Que mulher! — disse ele. Como a aspirina o transformara em um ser humano novamente, Sean segurou Chantel e a inclinou com um gesto dramático. — Deixe-me perguntar, Rothschild — disse, chamando a atenção da diretora, com a boca a poucos centímetros da de Chantel. — Como um homem em sã consciência pode abandonar uma mulher como esta?
— Ninguém disse que você... ou Brad — corrigiu Mary Rothschild, referindo-se ao personagem — está em sã consciência.
— E você é um grosso — lembrou-lhe Chantel. Feliz por se lembrar daquilo, Sean a levantou novamente.
— Eu não interpreto um grosseirão de verdade há pelo menos cinco anos. Acho que ainda não agradeci ao escritor o suficiente.
— Você pode fazer isso mais tarde — disse-lhe Rothschild. — Ele está ali.
Chantel lançou um olhar para o homem alto e magro parado num canto do set, fumando nervosamente. Ela se encontrara com o autor diversas vezes, em reuniões e durante a pré-produção do filme. Pelo que lembrava, ele pouco dissera que não se relacionasse com seu livro e seus personagens. Chantel lhe lançou um sorriso contido, mas afetuoso, antes de se virar para a diretora.
Enquanto Rothschild repassava a cena, Chantel tratava de se concentrar totalmente. Em sua mente restariam apenas o coração despedaçado e a esperança de sua personagem enquanto seu amado partia. Mecanicamente, com as mentes ocupadas em ângulos e continuidade, Chantel e Sean repassaram a breve mas marcante cena de amor que fariam.
— Acho que eu deveria tocar seu rosto deste jeito — disse Chantel, estendendo-se para colocar a palma da mão no rosto dele, olhando-o, suplicante, nos olhos.
— Depois eu segurarei seu pulso. — Sean envolveu o pulso dela com os dedos, puxando a palma da mão de Chantel para seus lábios.
— Eu esperarei por você e por aí vai — disse Chantel, pulando as falas, enquanto um contrarregra colocava uma porta cenográfica no lugar, fazendo barulho ao encaixá-la. Ela deixou escapar um suspiro trêmulo, apertando o rosto contra o de Sean. — Depois começarei a levantar meus braços.
— Vamos tentar isso aqui. — Sean a pegou pelos ombros, segurou-a por um momento, encarando-a. Em seguida, deu dois beijinhos no canto de sua boca.
— Ah, Brad, por favor não se vá... Então eu o beijo até que seus dentes comecem a ranger.
Sean deu uma risadinha.
— Não vejo a hora.
— Vamos repassar isso — disse Rothschild, levantando a mão. Diretoras ainda eram uma exceção à regra. Ela não podia se dar ao luxo de recuar nem um centímetro. — Quero um beijo intenso — disse aos atores. — Continue chorando, Chantel. Lembre-se de que, no fundo, você sabe que ele não vai voltar.
— Eu sou mesmo um grosso — disse Sean, brincando.
— Todos a seus lugares. — Os figurantes se puseram em suas marcas. Uns poucos cinegrafistas conversavam, planejando um jogo de pôquer mais tarde. — Silêncio no set. — Rothschild também se afastou, até conseguir o melhor ângulo para a entrada de Chantel. — Ação.
Chantel entrou correndo na plataforma da estação, olhando em volta, enquanto as outras pessoas se aglomeravam ao seu redor. Seu rosto revelava desespero, ansiedade, as últimas esperanças e o sonho que ela não queria que morresse. Graças à equipe de efeitos especiais, havia uma tempestade se formando no cenário, com raios e trovões. Então, ela via Brad. Gritava o nome dele, forçando a passagem pela multidão até alcançá-lo.
Eles ensaiaram a cena três vezes antes que Rothschild estivesse suficientemente satisfeita para filmar. A maquiagem e o cabelo de Chantel foram retocados. Quando a claquete foi batida, ela estava pronta.
Durante a manhã eles lapidaram a primeira parte da cena: a busca, a impaciência e a corrida no meio da multidão, até o encontro com Brad. Tomada após tomada, ela repetiu os mesmos movimentos, as mesmas palavras, às vezes com a câmera colada a seu rosto.
Na sexta tomada, Rothschild finalmente deu o sinal para que a chuva começasse. Os jatos criaram uma névoa que a cobriu enquanto encarava Brad. Com os olhos cheios de lágrimas e a voz trêmula, ela implorava para que o namorado não partisse. Molhados e com frio, eles continuaram a rodar o que se transformaria em cinco minutos na tela até o intervalo para o almoço.
No camarim, Chantel tirou as roupas de Hailey e as entregou à responsável pelo guarda-roupa para secá-las. O cabelo teria de ser feito novamente e encharcado outra vez antes de darem o dia por encerrado.
As rosas já não estavam ali, mas Chantel pensou que ainda podia sentir o cheiro delas. Quando Larry surgiu na porta para lhe dizer que o repórter chegara, ela pediu cinco minutos e o dispensou.
Chantel disse a si mesma, pegando o telefone, que adiara por tempo demais. Aquilo não pararia. E chegara a um ponto em que não podia mais ignorar.
— Agência Burns.
— Preciso falar com Matt.
— Desculpe, o sr. Burns está em uma reunião. Posso...
— Quem fala é Chantel O'Hurley. Preciso falar com Matt agora.
— Claro, srta. O'Hurley.
Chantel não pôde evitar um sorriso malicioso ao perceber como a recepcionista mudara rapidamente seu tom de voz. Procurando na gaveta por um maço de cigarros, que mantinha para emergência, ela esperou até Matt atender.
— Chantel, o que aconteceu?
— Preciso vê-lo. Hoje à noite.
— Bem, querida, estou um pouco enrolado. Por que não amanhã?
— Hoje à noite. — Ela deixou transparecer um pouco do pânico. Chantel acendeu um cigarro e deu uma longa tragada. — É importante. Preciso de ajuda. — Ela soltou a fumaça lentamente. — Preciso mesmo da sua ajuda, Matt.
Já que nunca sentira aquele tipo de medo na voz dela antes, ele não fez mais perguntas.
— Darei um jeito. A que horas? Oito?
— Sim, sim. Ótimo. Agradeço imensamente.
— Pode me dizer do que se trata?
— Não posso. Não pelo telefone e não agora. — Chantel estava mais calma, só de saber que fizera alguma coisa a respeito do problema.
— Você é quem sabe. Estarei na sua casa hoje à noite.
— Obrigada. — Chantel desligou e logo escutou as batidas na porta. Amassando cuidadosamente o cigarro, jogou os cabelos ainda úmidos para trás e recebeu o repórter com um sorriso gracioso.
— Por que não me falou sobre isso antes? — perguntou Matt, andando de um lado para o outro na espaçosa sala de estar da mansão de Chantel, com uma profunda sensação de impotência. Em 12 anos ele passara de encarregado da correspondência a assistente e, depois, a executivo de numa prestigiosa agência artística. Ele alcançara o posto por saber o que fazer em qualquer situação. Agora tinha um vespeiro nas mãos, sem saber ao certo para que lado jogá-lo. — Droga, Chantel, há quanto tempo isso está acontecendo?
— O primeiro telefonema aconteceu há cerca de seis semanas. — Ela se sentou num sofá baixo, cinzento, com um copo d'água nas mãos. Assim como Matt, Chantel também não gostava de se sentir impotente. Não gostava de ter de pedir a outra pessoa que resolvesse seus problemas. — Olhe, Matt, as primeiras ligações e cartas pareciam inofensivas. — O gelo em seu copo tiniu quando Chantel o pousou e o pegou novamente. — Com o meu rosto estampado em todas as revistas e na tela dos cinemas, é óbvio que atraio atenção. E nem toda essa atenção é saudável. Achei que, se eu as ignorasse, as cartas e as ligações parariam.
— Mas não pararam.
— Não. — Ela olhou para baixo, para o copo, lembrando-se da mensagem escrita no cartão: Eu a estou sempre observando. Sempre. — Não, elas pioraram. — Remexendo os ombros, Chantel tentava fingir para si mesma e para ele que as coisas não eram tão ruins assim. — Mudei o número do telefone, e durante algum tempo deu certo.
— Você devia ter me contado.
— Você é meu agente, não minha mãe.
— Sou seu amigo — disse Matt.
— Eu sei. — Ela lhe estendeu a mão. Amizades verdadeiras eram raras no mundo em que Chantel escolhera viver. — Foi por isso que o chamei antes que me visse num beco sem saída. Não sou histérica.
Ele riu, soltando a mão dela para se servir de mais uma bebida.
— Tudo, menos histérica.
— Quando aquelas rosas... Bem, eu percebi que tinha de fazer alguma coisa, só não sabia o quê.
— O "o quê" é chamar a polícia.
— De jeito nenhum! — Ela ergueu um dedo quando Matt começou a retrucar. — Matt, suponho que você seja capaz de imaginar a cena com a mesma facilidade que eu. Chamamos a polícia e a imprensa vem junto. Manchete: Chantel O'Hurley Perseguida por Admirador Maluco. Sussurros ao Telefone. Cartas de Amor Desesperadas. — Ela passou a mão pelos cabelos. — Talvez consigamos rir disso e até tirar proveito, mesmo certo ponto, mas não demorará muito para que mais pessoas desequilibradas resolvam me escrever cartas de amor. Ou montem acampamento no meu portão. E não acho que seja capaz de lidar com mais de um maluco ao mesmo tempo.
— E se ele for violento?
— Você acha que já não pensei nisso? — Chantel tirou um cigarro francês do bolso e esperou Matt acendê-lo.
— Você precisa de proteção.
— Talvez precise. — Ela tragou rápida e apressadamente. — Talvez eu esteja prestes a admitir isso, mas estou no meio de uma filmagem. Se você levar policiais para o set, as pessoas ficarão comentando.
— E desde quando as fofocas a preocupam?
— Nunca me preocuparam. — Ela conseguiu exibir um sorriso calmo. — Exceto quando se trata de algo realmente pessoal. Meus, hã... casinhos fortuitos e meu estilo de vida hedonista são uma coisa. Minha vida real é outra. Nada de polícia, Matt, pelo menos não ainda. Preciso de uma alternativa.
Ele pegou o cigarro da mão de Chantel e tragou, pensativo. O primeiro trabalho dela no cinema fora obtido por ele. Matt a vira passar por tudo, de comerciais de xampu a filmes de sucesso, e era raro, muito raro, que ela pedisse ajuda em um assunto pessoal. Por todo o tempo em que a conhecia, até mesmo ele raramente conseguira ver o que havia sob a imagem da mulher que ambos haviam fabricado.
— Acho que tenho uma alternativa. Você confia em mim?
— Não confiei sempre?
— Sente-se. Vou dar um telefonema.
Chantel se sentou e fechou os olhos quando Matt saiu da sala. Talvez ela estivesse exagerando. Talvez estivesse reagindo desproporcionalmente a um fã que levara sua admiração um pouco longe demais.
Eu a estou observando... observando...
Não. Incapaz de ficar sentada, Chantel se levantou para andar de um lado para o outro na sala. Gostava de ser observada... nas telas dos cinemas. Chantel aceitava que a fotografassem entrando ou saindo de uma boate ou sempre que ia a festa ou uma pré-estreia. Mas agora era... assustador, admitiu. Era como se houvesse alguém do outro lado da janela, espiando. Ao pensar naquilo, Chantel deu uma olhada tensa por sobre o ombro. Claro que não havia ninguém. Tinha um portão eletrônico, muros, segurança. Mas Chantel não podia ficar trancada em sua própria casa 24 horas por dia.
Ela parou em frente ao espelho antigo sobre a lareira de mármore. Ali estava o rosto com o qual se acostumara, o rosto que os críticos diziam ser arrasador, incomparável, e até mesmo lindo de doer. Um golpe de sorte, Chantel às vezes pensava: a combinação de pele perolada, olhos azuis nórdicos e rosto de traços fortes. Ela não fizera nada para ter um rosto ovalado, clássico, e uma boca carnuda e exuberante, ou os cabelos louros como os de um anjo. Chantel nascera com tudo isso, mas trabalhara pelo restante. E trabalhara arduamente.
Ela se apresentava desde que aprendera a andar, viajando sem parar por todo o país com a família, se exibindo em casas noturnas e pequenos teatros. Ela ganhava seu próprio sustento muito antes de chegar a Hollywood, com 19 anos, não deslumbrada, mas determinada. Nos anos subsequentes, ela ganhara e perdera papéis, fizera propaganda de xampu, vendera litros de perfume em comerciais descaradamente sensuais e frequentemente bobos. Quando a primeira oportunidade surgira, Chantel estava preparada, mais do que preparada, para interpretar uma aproveitadora desalmada que ficava em cena durante menos de 20 minutos. Ela roubara a cena de um casal de veteranos e dali partira para um papel principal. Sem olhar para trás.
A primeira oportunidade logo a levara ao estrelato que sempre buscara. E, indiretamente, quase destruíra sua vida.
Mesmo assim, ela sobrevivera, lembrou-se, observando o próprio reflexo. Ela não permitira que o que acontecera a arruinasse. E se recusava a permitir que o que estava acontecendo naquele momento a arruinasse.
— Ele está vindo agora mesmo.
Chantel se virou do espelho quando Matt entrou na sala novamente.
— O quê?
— Eu disse que está vindo agora mesmo. Deixe-me preparar uma bebida de verdade para você.
— Não, preciso estar no estúdio às seis e meia da manhã. Quem está vindo?
— Quinn Doran. Talvez ele seja a solução, e, como nos conhecemos faz um tempo, eu consegui... convencê-lo a pensar no assunto.
Chantel enfiou as mãos nos bolsos do seu roupão branco de cetim.
— Quem é Quinn Doran?
— Uma espécie de detetive particular.
— Uma espécie?
— Ele tem uma empresa... uma empresa pequena, no ramo de segurança, qualquer coisa assim. Ele já trabalhou com um tipo de operação secreta. Talvez tenha sido para o governo, mas não tenho certeza.
— Parece fascinante, mas não acho que quero um espião, Matt. Um lutador de 150 quilos me parece melhor.
— É óbvio — lembrou-lhe Matt. — Você pode contratar por si própria uns dois guarda-costas gigantescos, querida, mas o que você quer mesmo é um cérebro... e discrição. Ou seja, Quinn. — Matt terminou a bebida e considerou mais uma dose. — Ele não costuma fazer muitos trabalhos em campo atualmente. Tem vários agentes para cuidar disso. Quinn se mantém disponível para resolver problemas eventuais. Mas, neste caso, quero que você tenha o melhor.
— Ou seja, Quinn — Chantel o imitou, se deixando cair sobre o braço do sofá. — O que ele vai fazer exatamente?
— Não tenho a menor ideia. Foi por isso que o chamei. Ele é um filho da mãe intratável — disse, recordando. — Não muito, digamos, educado, mas eu confiaria minha vida a ele.
— Ou, no caso, a minha.
A expressão de Matt mudou imediatamente.
— Chantel, se você está mesmo desconfiada...
— Não, não. — Com um aceno, ela eliminou as preocupações do agente. — Tenho a sensação de que esse Quinn Doran provavelmente vai ouvir o que preciso dizer, revirará os olhos e me dará uma lição de moral sobre como lidar com um telefonema anônimo obsceno. Já não gosto dele.
— Você só está nervosa — disse Matt, lhe dando um tapinha no joelho e indo até o bar. — E tem o direito de estar, Chantel.
— Não, não tenho. — Ela sorriu, determinada a ficar um pouco mais animada. — Não combina com minha imagem. Uma imagem que você me ajudou a construir.
— Você não precisou de ajuda para isso. — Sorrindo, ele se virou e ficou olhando para o esvoaçante cetim branco que combinava tão bem com Chantel. — Você nasceu com talento. Eu só a ajudei a expandi-lo.
Inclinando a cabeça, ela lhe deu um sorriso largo, exuberante.
— Como nos saímos?
— Digamos que ninguém que olhe hoje para você pensaria que um dia remendou suas próprias calcinhas.
Gargalhando, Chantel sentou no sofá.
— Você é tão bom para mim, Matt.
— Venho lhe dizendo isso há anos. É a campainha. Vou atender.
Chantel pegou sua água mineral já quente e ficou brincando com ela. Se Matt achava que Quinn Doran era uma solução, ela teria de acreditar nele. Mas contar seus problemas a um estranho a deixava realmente desconfortável.
E então o tal estranho entrou na sala.
Se tivesse de escalar alguém para o papel de espião, detetive particular ou mafioso, Chantel escolheria Quinn Doran. Ele preenchia todo o pórtico de sua sala de estar. Alguns centímetros mais alto do que Matt, mais largo nos ombros e, ainda assim, com uma estranha forma esguia que a fazia pensar que ele era capaz de se mover com agilidade e elegância. Chantel aceitou com naturalidade sua rápida aprovação feminina, antes mesmo de ver seu rosto. Foi quando ela concluiu que ele não era comum.
Ele não era lindo como um ator de cinema, mas aquela aparência rude e despojada era capaz de fazer o coração de qualquer mulher acelerar. Cabelos grossos e escuros caíam aos cachos sobre as orelhas e ao redor do colarinho da camisa de algodão. Sua pele era bronzeada e lisa, o rosto de traços fortes e as olheiras discretas pareciam sur-preendentemente agradáveis. Seus cílios eram compridos e grossos para os de um homem, mas agradáveis; nada femininos. Não havia nada nele que não fosse totalmente masculino. Quando caminhava, Quinn Doran andava com passos leves e medidos, de um homem que sabia como se aproximar silenciosamente. Ao chegar perto de Chantel, torceu ligeiramente a boca, mas ela não viu graça ou admiração nos olhos dele. O que ela percebeu, re-conheceu e contra o que reagiu foi menosprezo.
— Então esse é o palácio de gelo — disse ele, com uma voz surpreendentemente bela. — E essa é a rainha.
Capítulo Dois
E
le a vira antes, claro. Na tela do cinema, Chantel era extraordinária, indomável e intocável. O rosto, quase miticamente perfeito, podia controlar as fantasias de um homem. A aparência. Quinn entendia muito bem de aparência: como podia ser criada, alterada e distorcida, de acordo com o que as circunstâncias exigiam. Quinn se perguntava, ao olhar casualmente para Chantel, o quanto havia de verdadeiro sob aquela fachada externa de seda e cetim.
Matt conhecia Quinn há tempo suficiente para se incomodar com atitudes cavalheirescas. — Chantel, Quinn Doran.
As várias camadas de cetim deslizaram umas nas outras quando ela cruzou as pernas. Com uma espécie de displicente graciosidade, Chantel estendeu-lhe a mão.
— É um prazer conhecê-lo — murmurou, esticando os dedos quando ele apertou firmemente sua mão.
Quinn não sacudiu sua mão nem a levou aos lábios, num gesto distraidamente europeu, como Chantel achou que ele faria. Ele apenas a segurou um pouco enquanto a olhava fixamente com seus belos olhos verde-claros. A pele dela era como o cetim que vestia: macia, cheirosa e elegantemente feminina. A pele dele, por sua vez, era dura, inflexível e bronzeada pelo sol. Eles ficaram imóveis durante algum tempo, ela no sofá e ele em pé, de mãos dadas. Chantel já travara combate com homens antes, e só perdera uma vez. Ela percebeu que as luvas tinham sido jogadas, e aceitara o desafio.
— Você ainda gosta de vodca? — perguntou Matt a Quinn, virando-se para o bar.
— Sim. — Com uma leve inclinação de cabeça, Quinn indicava que conhecia o jogo de Chantel. Ele relaxou os dedos lentamente e deixou que ela se soltasse. — Matt me disse que você está com um problema.
— Aparentemente, estou. — Chantel tirou um cigarro de uma caixinha de porcelana e arqueou uma sobrancelha. Quando Quinn tirou um isqueiro do bolso e o acendeu, ela sorriu e se inclinou um pouco mais na direção dele. — Não sei ao certo se você é o homem para lidar com esse assunto... — Chantel ergueu o olhar e o encarou por um instante antes de se endireitar. — ... sr. Doran.
— Estou inclinado a concordar com você... srta. O'Hurley. — Por um instante ficaram se olhando fixamente, e algo não totalmente agradável pairou entre eles. — Mas já que estou aqui, por que não me diz do que se trata? — Quinn aceitou o copo que Matt lhe es-tendeu e depois lançou-lhe um olhar antes que o agente pudesse dizer qualquer coisa. — Por que não deixamos que a srta. O'Hurley me conte tudo, já que o problema é dela?
Como agente, Matt sabia quando negociar e quando recuar.
— Ótimo. Vou ficar aqui comendo esses canapés. — Ele se sentou, deixando-os à vontade.
— Tenho recebido alguns telefonemas irritantes — começou Chantel distraidamente, mas deixando transparecer brevemente a tensão ao dobrar e desdobrar os dedos. Quinn estava acostumado a prestar atenção aos pequenos detalhes. No momento, ele observava as mãos de Chantel, pequenas e estreitas, com dedos longos, unhas arredondadas, pintadas com um esmalte claro. Os dedos quase nunca ficavam imóveis.
— Telefonemas?
— E cartas. — Ela sacudiu os ombros e o cetim pareceu sussurrar em contato com sua pele. — Começaram há cerca de seis semanas.
— Telefonemas obscenos?
Chantel empinou o nariz, incapaz de resistir ao desejo de olhar para seu próprio narizinho reto.
— Acho que isso depende do que você considera obsceno. Talvez sua definição disso seja bem diferente da minha.
Seus olhos brilharam, zombeteiros, algo que os fez parecer ainda mais atraentes. Ela estava pensando em como muitas mulheres entravam rapidamente na toca dos leões e eram devoradas.
— Tenho certeza disso. Continue.
— A princípio... a princípio eu diria que fiquei quase receptiva. Parecia algo inofensivo, não irritante. Depois... — Chantel umedeceu os lábios, levando o cigarro à boca. — Então, ele ficou um pouco mais ousado, mais explícito. O que me deixou desconfortável.
— Você deveria mudar seu número de telefone.
— Fiz isso. Os telefonemas pararam por uma semana, mais ou menos. E recomeçaram hoje.
Recostando-se, Quinn experimentava a vodca. Era uma bebida de qualidade, como Chantel.
— Você reconhece a voz?
— Não. Ele sussurra.
— Você poderia mudar seu número mais uma vez. — O gelo tilintou no copo e Quinn deu de ombros. — Ou mandar a polícia grampeá-lo.
— Estou cansada de mudar meu número. — Impaciente, Chantel apagou o cigarro. — E não quero a polícia. Prefiro manter o assunto em sigilo. Matt parece achar que você é a solução para isso.
Quinn bebeu novamente. A sala era decorada em vários tons de branco, mas não era virginal. A própria ausência de cores, com Chantel no centro, era absurdamente fascinante. Ele tinha certeza de que a atriz sabia disso. Em todos os filmes dela, Chantel interpretava o papel de uma mulher que se aproveitava das necessidades, fraquezas e dos mais secretos desejos dos homens. Quinn não sentia muita pena de uma mulher que, de modo proposital, projetava uma imagem dirigida a excitar os homens para em seguida reclamar de alguns telefonemas inofensivos.
— Srta. O'Hurley, você provavelmente sabe que homens que se comportam dessa maneira, geralmente, ficam só na conversa. Eu sugeriria que mudasse seu número novamente e depois mandasse que um de seus empregados atendesse as ligações até que seu "admirador" se cansasse.
— Quinn — Matt agitava sua bebida. Ele tinha o hábito de manter as mãos e os pés em movimento quando estava sob pressão. Agora, ele pigarreou e tentou se acalmar. — Isso não é de muita ajuda.
— Ela pode contratar um guarda-costas se isso a fizer se sentir melhor. A segurança dela pode, com certeza, ser melhorada.
— Talvez eu precise de arame farpado e cães de guarda ferozes — intrometeu-se Chantel, levantando-se.
— É o preço que tem de pagar — disse-lhe Quinn, tranquilamente — por ser quem é.
— O que eu sou? — Seus olhos, de um azul vívido e duro, ficaram ainda mais intensos. — Ah, entendo. Eu me exponho na tela do cinema e não visto roupas grossas nem cubro meu rosto com um véu, por isso estou pedindo para ser perseguida. Eu mereço.
Sua beleza tranquila era irresistível, mas aquele seu ataque de raiva foi como testemunhar um incêndio no gelo. Quinn ignorou a pontada involuntária em seu corpo e não se aborreceu.
— É exatamente isso.
— Agradeço sua visita — disse ela, dando-lhe as costas. Antes que fosse capaz de se deter, Chantel deu meia-volta. — Por que você não dá uma espiada no que é o mundo atual? Só porque uma mulher é atraente e não disfarça, isso não significa que mereça ser atacada: verbal, física ou emocionalmente.
— Não acho que tenha dito que uma mulher atraente, ou qualquer mulher, mereça isso — afirmou Quinn.
O tom de voz despreocupado só a deixou mais irritada.
— Só porque sou uma atriz e a sensualidade faz parte do meu trabalho não significa que eu seja uma presa fácil para qualquer homem que queira tirar um pedaço de mim. Se interpretar uma assassina, isso não quer dizer que eu deva ir a julgamento.
— Você apela para as fantasias masculinas mais primitivas, srta. O'Hurley, e faz isso em tecnicolor. É natural que desperte algumas reações.
— Então eu deveria apenas usar o meu próprio remédio — resmungou ela. — Você é um idiota. É o tipo de homem que pensa com a cabeça errada. O tipo de homem que acha que se uma mulher concorda em jantar com ele, tem que recompensá-lo indo para a cama, também. Bem, eu posso pagar meu próprio jantar, sr. Doran, e posso lidar com meus problemas sozinha. Tenho certeza de que o senhor é capaz de encontrar a saída.
— Chantel — Matt chamou-a, mas ela lançou-lhe um olhar furioso. — Vou só comer mais alguns canapés — murmurou.
— Srta. O'Hurley.
— O que é? — Ela se virou rapidamente para encarar seu mordomo alto e velho, respirando fundo. — Sim, Marsh, o que houve?
Foi o tom de voz que fez com que Quinn ficasse intrigado. Havia certa naturalidade na voz dela, algo que ignorava qualquer sistema de discriminação e falava de ser humano para ser humano. Embora ainda estivesse nervosa, Chantel sorriu para o velho.
— Isso acabou de ser entregue para a senhorita.
— Obrigada. — Chantel foi até onde estava o mordomo e pegou o vaso de margaridas. — Não vou precisar de mais nada esta noite, Marsh.
— Perfeitamente, senhorita.
Passando por trás de Quinn, ela foi até uma mesinha próxima das janelas.
— Por que não mostra a saída ao seu amigo, Matt? Eu não acho que...
Ela estava com o cartão na mão e olhando fixamente para ele. Sua mão tremeu por um instante antes que Chantel amassasse o papel e o jogasse no chão, Quinn a segurou pelo pulso e lentamente tirou o cartão amarrotado de sua mão. O que leu revirou seu estômago.
— Eu mereço mesmo isso? — perguntou Chantel, numa voz gélida, quase desinteressada.
Mas quando Quinn a olhou nos olhos, viu que ela estava apavorada. Ele guardou o cartão no bolso e a pegou pelo braço.
— Por que você não senta?
— Mais um cartão? — perguntou Matt, aproximando-se deles, mas Quinn foi até o bar.
— Pegue um conhaque para ela.
— Não quero beber. Não quero sentar. Quero que você vá embora. — Quando tentou se soltar, Quinn apenas a segurou com mais força, empurrando-a para o sofá.
— Com que frequência você recebe esse tipo de coisa?
— Quase todos os dias. — Chantel pegou um cigarro mas não o acendeu.
— É sempre assim... direto?
— Não. — Ela pegou o conhaque e bebeu, odiando ter de admitir que precisava da bebida. — Isso começou há umas duas semanas.
— O que fez com os bilhetes?
— Os primeiros, joguei fora. Depois, quando o tom começou a mudar, pretendia queimá-los. — O conhaque a esquentou, mas não foi capaz de acalmá-la. — Eu os guardei. Não sei exatamente por quê. Acho que deveria tê-los se as coisas saíssem de controle.
— Chame seu empregado novamente. Quero fazer algumas perguntas a ele. E vá pegar as outras cartas.
Aquelas ordens surtiram um efeito nela que o conhaque não tinha proporcionado. Chantel sentiu um arrepio na espinha.
— Isso não é da sua conta, sr. Doran. Nós já concordamos com isso.
— Mas isto aqui acabou de mudar as coisas. — Quinn tirou o papel do bolso e ficou observando Chantel, que recuou um pouco.
— Não quero sua ajuda.
— Eu não lhe disse que a ajudaria. — Quinn deixou que a afirmação pairasse no ar enquanto se encaravam. — As cartas? A não ser que você tenha uma ideia melhor sobre o que fazer com tudo isso.
Naquele momento, naquele instante de tensão, Chantel o desprezou. Ela poderia ter escondido. Tinha talento para isso. Mas não fez questão. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Matt pousou a mão sobre o ombro de Chantel. Seus dedos se mexiam, incansavelmente, como os dela.
— Por favor, Chantel. Pense antes de dizer qualquer coisa.
Ela continuou olhando para Quinn.
— Não quero dizer o que estou pensando. — Ao vê-lo retorcer a boca novamente, Chantel rangeu os dentes. — Ou talvez queira.
— Chantel. — Matt lhe beliscou o ombro. — Não gosto de ultimatos, mas se não pudermos contar com Quinn, vou chamar a polícia. Não — acrescentou, assim que ela olhou para trás —, estou falando sério. Você é uma mulher inteligente. Seja racional.
Ela odiava se ver sem alternativas, Quinn percebeu. Chantel era uma mulher que insistia em ter opções e o controle das coisas. Era algo que ele podia admirar e até mesmo respeitar. Talvez, só talvez, aquela mulher possuísse mais do que apenas uma bela aparência.
— Tudo bem, faremos as coisas do seu jeito. Por enquanto. — Chantel se levantou, ao mesmo tempo orgulhosa e forte. — Não atormente Marsh. — Ela olhou Quinn nos olhos. — Ele é velho e está ficando frágil. Não quero chateá-lo.
— Passei o dia todo sem chutar um cachorro — disse-lhe Quinn.
— Só criancinhas e gatinhos — resmungou ela, saindo rapidamente da sala.
— Uma mulher e tanto, essa sua cliente.
— É mesmo — concordou Matt. — E está morrendo de medo. Ela não fica com medo facilmente.
— Aposto que não. — Quinn pegou um cigarro e o ficou batendo distraidamente no maço. Ele era obrigado a admitir que tinha pensado que Chantel estava apenas exagerando. Aquelas poucas frases no cartão o fizeram mudar de ideia. Elas eram simplesmente detestáveis. Para Quinn, a fronteira entre o certo e o errado era flexível, mas o cartão, sem dúvida alguma, estava do lado errado. Mesmo assim, antes de decidir se queria mesmo se envolver naquilo, Quinn queria saber algumas coisas mais.
Ele dirigiu o olhar para Matt, observando-o andar de um lado para o outro.
— Vocês são muito íntimos?
— Temos um relacionamento sólido, vantajoso para ambos. — Matt deu um sorriso sóbrio para Quinn. — E ela não dorme comigo.
— Você está se confundindo.
— Ela sabe o que quer e o que não quer. Ela queria um agente. Mas realmente me preocupo com ela. — Matt lançou um olhar preocupado para a porta. — Ela já passou por muita coisa.
— Que tipo de coisa?
Balançando a cabeça, Matt sentou novamente.
— Uma outra história, nada a ver com isso. Conseguirá ajudá-la?
Quinn ficou olhando para o cigarro.
— Não sei.
— Com licença. — Marsh estava pé na porta, ainda vestido com seu terno preto de colarinho engomado.
— A srta. O'Hurley disse que o senhor queria falar comigo.
— Quero saber o que você pode me contar sobre a pessoa que entregou as flores — disse Quinn, apontando para o vaso e vendo o mordomo olhar de soslaio para as margaridas. Míope, pensou.
— As flores foram entregues por um jovem de 18, talvez 20 anos. Ele apertou a campainha e explicou que tinha uma entrega para a srta. O'Hurley.
— Ele estava usando um uniforme? Concentrando-se, Marsh franziu a testa.
— Acredito que não. Mas não posso afirmar com certeza.
— Viu o carro dele?
— Não, senhor. Recebi as flores pela porta dos fundos.
— Você o reconheceria se o visse novamente?
— Talvez. Acho que é possível.
— Obrigado, Marsh.
O mordomo hesitou. Então, lembrando-se da sua posição, curvou-se.
— Não há de quê, senhor.
Enquanto o mordomo saía pelo corredor, Quinn ouviu Chantel chamá-lo para uma conversa rápida e sussurrada. A voz dela, percebeu, parecia tranquilizá-lo. De perto, aquela voz era capaz de deixar um homem louco e despertar seu desejo. Chantel voltou à sala carregando uma pilha de cartas.
— Tenho certeza de que você achará a leitura fascinante — disse, jogando o pacote sobre o colo de Quinn.— Eu diria que é algo muito próximo da técnica que você usa para cortejar as mulheres.
Ela recuperou o bom humor, pensou Quinn, ignorando-a e abrindo o primeiro envelope. O endereço, assim como o texto da carta, fora escrito numa letra de forma pequenina. O papel era comum, vendido em grandes lojas. Quinn poderia investigar durante semanas sem jamais descobrir a origem daquele papel.
Os primeiros bilhetes eram de uma admiração bajuladora e sutilmente sugestivos. E bem escritos, pensou Quinn. Trabalho de uma pessoa com estudo. Ao continuar, a prosa e a sintaxe permaneciam boas, mas o conteúdo se deteriorava. Mesmo um homem que vira e fizera as coisas que Quinn vira e fizera se sentia instantaneamente enojado. O autor descrevia detalhes vívidos, expondo suas fantasias, desejos e intenções. As últimas cartas davam pistas de que ele estava por perto. Observando. Esperando.
Ao terminar o exame das cartas, Quinn as empilhou caprichosamente.
— Tem certeza de que não quer que a polícia investigue isso?
Chantel, que se sentara de frente para ele, tinha agora as mãos cruzadas sobre as pernas. Ela dizia a si mesma que não gostava de Quinn. Não gostava da aparência dele e do jeito de se mover. Não gostava daquela voz, que soava sempre poética, tão diferente daquele rosto experiente. Então por que, se tudo isso era verdade, Chantel se sentia como se quisesse e até mesmo precisasse da ajuda de Quinn? Ela continuava olhando-o fixamente. As vezes, as pessoas negociam com o demônio.
— Não, não quero a polícia envolvida. Não quero publicidade sobre esse assunto. Quero apenas que esse homem seja encontrado e detido.
Quinn se levantou e se serviu de mais uma dose de bebida. Os copos e o balde de gelo eram Rosenthal. Ele admirava as coisas elegantes, assim como as mais grosseiras da vida. Cerveja bebida na garrafa ou vinho em taças de cristal, nada importava, desde que sua sede fosse saciada. Quinn admirava a beleza, mas não se deixava envolver por ela. A aparência não significava nada. Até porque ele sabia muito bem usar disfarces, quando necessário.
Chantel O'Hurley possuía beleza e elegância. Se aceitasse aquele trabalho, pela própria natureza da investigação teria de descobrir o quanto havia de disfarce e o quanto havia de substância. Era isso o que o fazia hesitar. Quinn entendia como podia ser perigoso conhecer profundamente outra pessoa — para todos os envolvidos.
Ele podia controlar a atração que sentia pela aparência dela, desde que quisesse. Sua vontade poderia mudar de um dia para outro. O que Quinn não podia controlar, simplesmente porque nunca fora capaz, era sua curiosidade de saber o que havia sob a pele dela.
Bebendo a vodca, Quinn virou-se. Chantel estava sentada numa poltrona, e uma pessoa, olhando distraidamente, poderia pensar que ela estava relaxada e até mesmo alheia. Os dedos da mão esquerda se mexeram, um pouco, dobrando-se e se separando, como se Chantel fosse capaz de dirigir todo o seu nervosismo para os dedos. Quinn se mexeu, parecendo tão relaxado e desligado quanto ela.
— Quinhentos dólares por dia, mais despesas.
Ela ergueu a sobrancelha. Foi o único movimento que fez. Com isso, Chantel transmitia várias sensações: alegria, respeito e desgosto. O que seu gesto não revelou foi a onda de alívio que tomou conta dela.
— É um valor respeitável, sr. Doran.
— Você terá o melhor que o dinheiro pode comprar.
— Faço questão disso. — Recostando-se, ela tocou o queixo com a mão. Seu pulso era fino e as mãos tão delicadas quanto o rosto. Um diamante brilhou na mão direita de Chantel, tornando-se branco e frio, como o restante dela. — Mas o que exatamente terei por quinhentos dólares por dia, mais despesas?
Quinn retorceu a boca antes que pudesse beber sua vodca.
— Você terá a mim, srta. O'Hurley.
Ela deu um sorrisinho. Brigar era bom. Chantel havia retomado o controle, o medo diminuía.
— Interessante. — O olhar que ela lhe lançou foi planejado para pregar um homem na parede e fazê-lo implorar. Quinn sentiu o golpe, reconhecendo o poder. — O que faço com você?
— Você entendeu errado. — Então Quinn se aproximou dela, parando na poltrona e se inclinando.
Chantel sentiu o cheiro dele. Não do perfume, sabonete ou colônia, e sim de algo mais rude e adoravelmente masculino. Sem se render, ela ficou rígida, reconhecendo que se sentia atraída.
— O que entendi errado, sr. Doran?
Chantel parecia uma pintura que ele vira no Louvre há muito tempo.
— A questão é o que farei com você. Quinhentos dólares por dia, meu anjo, e sua confiança. Esse é meu preço. Você terá proteção 24 horas por dia, começando com um dos meus homens plantado no seu portão.
— Se já tenho um portão, por que preciso de um guarda?
— Já lhe ocorreu que um portão não serve para nada se você o abre para qualquer pessoa que peça?
— O que não me ocorreu foi que eu teria de me trancar em casa.
— Acostume-se, porque quem quer que esteja lhe enviando essas flores não é muito normal.
Seus olhos se encheram de pânico. Quinn a admirou ao ver que Chantel o dominara rapidamente.
— Sei muito bem disso.
— Preciso da sua agenda. Começando amanhã, um dos meus homens a acompanhará todas as vezes em que você meter seu narizinho bonito para fora daquela porta.
— Não. — A teimosia dos O'Hurley se revelou quando Chantel se levantou para encará-lo. — Por quinhentos dólares por dia eu quero você, Doran. É em você que Matt confia e é por você quem estou pagando.
Estavam perto um do outro, muito perto. Quinn podia sentir o perfume que parecia exalar dos poros de Chantel, algo que não era nada suave ou sutil. A perfeição daquele rosto podia matar um homem. Seus cabelos caíam sobre suas costas na forma de uma majestosa cascata, como um anjo. Se um homem tocasse aqueles cabelos, iria para o céu ou seria expulso do paraíso? Nesse ponto, Quinn não dava a menor importância para as consequências.
— Talvez você se arrependa — murmurou ele, sorrindo lentamente.
Talvez! Chantel já sabia disso, mas o orgulho não a faria recuar.
— Pago para ter você, sr. Doran. É o acordo.
— Você é quem manda. — Ele fez um brinde com a bebida. — Dois dos meus homens virão pela manhã para grampear o telefone.
— Não quero...
— Não aceitarei o trabalho se não tiver passe livre. — Seu sorriso tranquilo se fora com a mesma rapidez com que surgira. — Se grampearmos o telefone, talvez ele diga algo que o entregue, talvez tenhamos sorte e possamos localizá-lo. Pense em nós como médicos. — Quinn sorriu novamente, alegre consigo mesmo. — Se você quiser dizer algo mais íntimo para seus... amigos, não se preocupe. Já ouvimos de tudo.
Para Chantel, a raiva sempre fora a emoção mais difícil de controlar. Ela surgiu e foi bloqueada antes que ela pudesse extravasar.
— Tenho certeza de que você já ouviu de tudo. O que mais?
— Levarei as cartas. Duvido que consigamos descobrir a origem do papel, mas tentaremos. Agora, existe alguém que você conhece e que acha que pode ser o responsável por isso?
— Não — respondeu ela imediatamente, bastante segura do que dizia.
Quinn decidiu que o melhor era investigar todas as pessoas próximas a ela.
— Despediu alguém recentemente que possa estar com raiva de você?
— Milhares.
— Que lindo. — Quinn tirou um bloco e um lápis do bolso. — Preciso dos nomes dos homens com os quais você dormiu. Nos últimos três meses.
— Vá para o inferno — disse ela com doçura, começando a se sentar.
Quinn a segurou pelo pulso.
— Olhe, não vou ficar de joguinhos com você. Não estou interessado em quantos homens você teve em sua cama. São apenas negócios.
— Está certo. — Ela jogou a cabeça para trás. — Meus negócios.
A pele dela estava mais quente do que parecia. Era uma informação que Quinn arquivou para refletir mais tarde.
— Um desses homens pode muito bem ter perdido a noção do limite. Talvez você tenha dormido com ele algumas vezes e dado a impressão de que era algo mais sério. Pense um pouco. Isso tudo começou há seis semanas, então, com quem você esteve antes disso?
— Ninguém.
A irritação dominou o rosto dele, e ele segurou-a pelo pulso com mais força.
— Pare com isso, meu anjo. Não tenho a noite toda.
— Eu disse ninguém. — Com um gesto brusco, Chantel se libertou. Por um momento, ela desejou poder lhe dizer uma dúzia de nomes, até mesmo duas dúzias, só para vê-lo ficar suado. — Acredite se quiser.
— Eu não acredito é que você passe suas noites sozinhas, remendando meias.
— Não vou para a cama com todos os homens que chegam a um metro e meio de mim. — Com um movimento calculado, Chantel olhou para baixo, medindo a distância entre eles.
— Parece que estamos a uns 30 centímetros um do outro — murmurou Quinn.
— Desculpe por decepcioná-lo, mas tenho de estar interessada, e não me interessei por ninguém recentemente. Além do mais, estou trabalhando, e isso acaba ocupando um bom tempo da minha vida. — Inconscientemente, Chantel coçou o pulso, no exato ponto onde Quinn a tocou. — Satisfeito?
— Relaxe, Quinn. — Sentindo-se preso entre os dois, Matt se aproximou, passando um braço por sobre os ombros de Chantel. — Isso é duro demais para ela.
— Meu trabalho não é segurar-lhe a mão. — Quinn pegou uma das cartas, irritado com a pontada desagradável que sentiu. — Voltarei amanhã. A que horas você acorda?
— Cinco e quinze. — Ela não resistiu e lhe deu uma piscadinha, enquanto Quinn apenas a observava. — Saio para o estúdio às quinze para as seis. Da manhã, sr. Doran. Você vai conseguir acordar cedo assim?
— Apenas faça o cheque. Mil e quinhentos dólares de adiantamento.
— Farei. Boa noite, sr. Doran. Isso foi... diferente.
— E faça-me o favor de não atender mais ao telefone esta noite. — Dizendo isso, Quinn meneou a cabeça para Matt e saiu apressadamente.
Chantel esperou para ouvir a porta se fechando. Foi até a mesinha de centro e pegou outro cigarro.
— Esse seu amigo é um cretino, Matt.
— Sempre foi — concordou o agente. — Mas é o melhor.
Capítulo Três
C
hantel achava que não conseguiria dormir. A casa parecia grande demais ao redor dela — e também quieta demais. Ela subira até seu quarto com a imagem de Quinn Doran em sua mente. Só de pensar naquele homem ela ficava furiosa, sentindo-se insultada em sua inteligência e ferida em seu ego. Por outro lado, Chantel também se sentia mais segura.
Ela dormiu apenas seis horas, profundamente. Acordou com a música que tocava de um alto-falante embutido na parede. Ela rolou na cama, cercada por travesseiros e coberta com lençóis brancos de linho, nada mais.
A cama fora um dos primeiros luxos a que Chantel se permitira, mesmo antes de poder pagar por algo assim. Era uma cama enorme e antiga, com uma cabeceira em cerejeira esculpida que a fazia pensar em princesas acordando depois de um sono de cem anos. Chantel crescera dormindo em camas de hotéis. Por isso, quando assinou seu primeiro contrato para fazer filmes, decidiu que uma cama absurdamente bela era algo que merecia. Um pequeno papel no filme fora o suficiente para que Chantel se firmasse na carreira. Anos depois, quando acordou numa cama com dossel, sentiu a mesma satisfação.
Ela se lembrou do tempo em que morara em um pequeno apartamento em Los Angeles. A cama ocupava todo o quarto e Chantel tinha de se arrastar sobre ela para chegar à porta. Suas irmãs a visitaram certa vez e as três se deitaram naquela cama e ficaram conversando e rindo durante horas.
Chantel queria que suas irmãs estivessem ali agora. A sensação de segurança seria mais do que tangível.
Ela quase contou a Maddy sobre as cartas e os telefonemas quando fora a Nova York, há poucas semanas. Em parte, queria e precisava contar, mas Maddy estava preocupada demais. E tinha o direito de estar preocupada, lembrou-se Chantel ao sentar e se espreguiçar. O espetáculo no qual a irmã atuava estava para estrear, e seu coração se encontrava ocupado demais com o homem que patrocinava o musical. Sempre por uma boa causa, pensou Chantel, sorrindo. O espetáculo fora um sucesso e agora Maddy planejava seu casamento.
Tomara que aquele homem seja bom para ela, pensou Chantel, com seu velho instinto protetor. Ela vira uma de suas irmãs passar por um casamento infeliz. E não suportaria que Maddy também fosse magoada.
Chantel se tranquilizou, dizendo a si mesma que Maddy ficaria bem. Assim como Abby. Cada uma das duas encontrara o homem certo, na hora certa. Por isso, uma de suas irmãs planejava o casamento enquanto a outra se preparava para o nascimento do terceiro filho. Chantel não podia estragar tudo falando de seus problemas. Além do mais, ela era a mais velha das trigêmeas, se bem que por uma questão de minutos! Para Chantel, isso significava que tinha a responsabilidade de ser a mais forte. Maddy e Abby estariam ao seu lado, claro, assim como Chantel sempre esteve ao lado delas. Mas era a mais velha...
Elas tinham ido longe demais. Chantel sentou no meio da exuberante cama e olhou ao redor, para o quarto, que era maior do que o primeiro apartamento no qual morara na Califórnia. Por que ainda sentia que tinha mais a conquistar?
Mas agora não era hora de filosofar. Depois de aumentar o volume do rádio, Chantel saiu da cama e se preparou para enfrentar outro dia de filmagens.
Quinn não estava acostumado a acordar antes do nascer do sol. Seu estilo estava mais para passar a noite acordado e só então se deitar, do que para sair da cama àquela hora. Não que ele não gostasse do nascer do sol em Los Angeles, mas preferia admirar a aurora depois de uma noite de festa — numa cama ou fora dela.
Ele atravessou a cidade sob um céu em tons de rosa e lilás, lançando um olhar, aqui e ali, para alguém que corria. Trajes de ginástica de grife não faziam seu estilo. Se queria entrar em forma, Quinn ia à academia. E não para um destes spas de paredes em tom pastel, onde se escutava músicas clássicas. Uma academia de ginástica de verdade. Onde não se via conjuntinhos de malha da moda e o suor escorria livremente, onde se ouvia palavrões como linguagem comum. Um mundo masculino — onde ninguém bebia frapê de suco de cenoura. Uma mulher como Chantel O'Hurley jamais entraria com aquele seu narizinho de 1 milhão de dólares num lugar desses.
Ajeitando-se dentro do carro, Quinn fez uma careta para o nada. Ele não se lembrava da última vez em que uma mulher o deixara tão abalado. A beleza de Chantel fora criada para incomodá-lo — e ansiar. O problema era que ela sabia disso, e Quinn tinha certeza de que ela adorava.
Ele não podia deixar que a situação se transformasse num problema. Chantel estava pagando para que ele fizesse um trabalho. De agora em diante, Quinn deveria se preocupar apenas com a segurança dela. O cheque que a atriz lhe entregaria lhe dava o direito de ter o melhor, e ele era o melhor. Além do mais, Quinn não se importava com o conteúdo das cartas que Chantel lhe mostrara.
Não que ele apoiasse o movimento feminista. Para Quinn, homens e mulheres eram simplesmente diferentes. Ponto final. Se uma mulher fosse insultada ao passar por uma construção e recebesse alguns assobios e cantadas, aquilo não passava de uma diversão. Mas não havia nada de divertido naquelas cartas. E Chantel não parecia insultada. Se havia uma coisa que Quinn conhecia era o verdadeiro olhar de pavor.
Cedo ou tarde ele descobriria quem havia escrito aquelas cartas. Mas seria preciso paciência. Até lá, Quinn lhe daria a proteção total pela qual Chantel estava pagando. Ao se lembrar do rosto dela, Quinn percebeu que precisava ter muita força de vontade. Ele tinha isso, pensou, ao estacionar em frente ao portão de ferro da mansão. Além do mais, era muito provável que Chantel estivesse horrível naquela hora da manhã.
Abrindo a janela, Quinn apertou a campainha.
— Sim?
Ele franziu a testa. Bastava uma palavra para que reconhecesse a voz de Chantel. Quinn não esperava que ela atendesse o interfone.
— Doran — disse, ríspido.
— Você é pontual.
— Você está pagando pelo melhor. Não houve resposta, mas os portões começaram a se abrir lentamente. Quinn passou por eles, mas parou para ter certeza de que se fechavam.
A luz do dia, ele pôde ter uma ideia melhor do local. Qualquer pessoa que quisesse podia invadir a casa saltando o muro. Quinn e seu parceiro certa vez escalaram um penhasco íngreme no Afeganistão com nada além de cordas e vontade.
As árvores floridas do jardim exalavam um perfume adocicado. E poderiam servir como esconderijos perfeitos para um invasor. Quinn teria de dar uma boa olhada no sistema de alarme da casa, embora soubesse que não havia nada que não pudesse ser desativado.
Estacionou perto da escada e depois saiu do carro, inclinando-se sobre a capota. Daquele ponto, não era possível ouvir os sons da rua. Somente o canto dos pássaros. Quinn pegou um cigarro. Olhando em volta, viu alguns holofotes e, talvez, uma dúzia de luzes de solo, obviamente instaladas mais por uma questão estética do que por segurança. Depois de conferir o relógio, decidiu dar uma volta na casa e verificar algumas coisas.
Talvez por maldade, Chantel decidiu deixar Quinn no jardim enquanto demorava-se no quarto de vestir. Em outra situação, talvez o convidasse para uma rápida xícara de café, antes da chegada da limusine. Mas Chantel não estava com vontade de ser gentil. Pelo contrário. Ela demorou o mais que podia, penteando o cabelo, verificando o conteúdo da bolsa e escrevendo algumas instruções para a empregada. Quando ouviu a campainha do portão novamente, falou com o motorista e pegou seu roteiro. Ela foi até o quarto, onde encontrou Quinn, que viu a surpresa inicial se transformar em raiva.
— O que está fazendo aqui?
— Apenas dando uma olhada no seu sistema de segurança. — Ele se encostou na porta, notando, com uma pontada de irritação, que apesar da hora, Chantel estava linda. — É horrível. Um escoteiro seria capaz de passar por ele.
Chantel pôs a bolsa no ombro, prometendo a si mesma que iria brigar com Matt, nem que fosse sua última ação.
— Quando foi instalado, me disseram que era a melhor opção do mercado.
— Só se for no supermercado. Meus homens o reforçarão.
Ela nascera uma mulher prática, algo que não fora alterado com a idade.
— Quanto?
— Só saberei quando eles derem uma olhada. Mas diria que de três a cinco.
— Mil?
— Claro. Como disse, você...
— Paga bem pelas melhores coisas — murmurou ela, passando por Quinn. — Tudo bem, sr. Doran, vá em frente — disse, indo até o criado-mudo. — Mas da próxima vez que quiser conferir o sistema de segurança, não o aconselharia a entrar no meu quarto sem avisar. — Ao se virar, Chantel tinha uma pistola calibre 22 perolada na mão. — Eu costumo ficar nervosa.
Ele olhou firme para a arma, com a sobrancelha levantada. Quinn já ficara de frente para uma daquelas pistolas várias vezes na vida.
— Sabe como usar uma destas, meu anjo?
— É só apertar este gatilho aqui. — Chantel sorriu. — Claro que minha pontaria é horrível. Eu miraria na sua perna, mas acabaria acertando sua cabeça.
— Existe só uma regra, em se tratando de armas — disse ele, fazendo uma cara feia por sobre o ombro dela. Quando Chantel se virou para olhar, Quinn a atacou. Com um movimento rápido, tomou-lhe a arma e caiu sobre ela, na cama. — A regra é: não a aponte para uma pessoa, a menos que pretenda usá-la.
Chantel não se moveu sob o corpo dele. Ficou imóvel, deixando que a raiva e o nojo se esvaíssem. Com um gesto displicente, Quinn abriu o tambor da pistola.
— Não está carregada.
— Claro que não. Eu jamais manteria uma arma carregada dentro de casa.
— Uma arma não é um brinquedo. — Quinn fechou o tambor novamente antes de olhar para Chantel. Ela estava sem maquiagem, tão linda quanto furiosa. Odiando-se, Quinn pensou que aquela combinação era demais para seu gosto. O corpo de Chantel era pequeno e forte, não arredondado e feminino, como ele esperava. Mas o cheiro dela estava ali, assim como na noite passada, insuportavelmente feminino.
— Bela cama — murmurou, incapaz de resistir à vontade de olhar para a boca de Chantel. Ele achava, sem ter certeza, que a pulsação dela estava acelerada.
— Sua aprovação é muito importante para mim, sr. Doran. Agora, se não se importa, preciso ir trabalhar.
Quantos homens a haviam prendido sob seus corpos naquele colchão largo e firme? Quantos outros sentiram essa chama ardente e louca do desejo? Ambas as perguntas dominaram sua mente antes que Quinn pudesse evitar. E foram estas mesmas perguntas que o fizeram rolar para o lado e puxá-la para que ficasse pé, mas Chantel ainda estava perto demais.
— Devemos manter nossa relação num nível estritamente profissional — disse-lhe calmamente. — Ou talvez não.
Embora seu coração pulsasse de forma acelerada, Chantel não se enganou, pondo a culpa na raiva. O desejo era algo que ela compreendia muito bem, mesmo que raramente o tivesse sentido por um homem. O desejo era ainda algo que Chantel podia controlar. O instinto a alertara de que era essencial fazer isso agora, e continuar, no que se referia a Quinn.
— Você me instiga a colocar balas na arma, sr. Doran.
— Não fará mal algum. — Quinn deixou a arma cair novamente dentro da gaveta do criado-mudo. — E me chame de Quinn, meu anjo. Afinal, já estivemos juntos na cama. — Segurando-a pelo braço, ele a levou para o andar térreo e para fora da casa.
— Bom dia, Robert. — Chantel sorriu para o motorista, que lhe abria a porta traseira da limusine. — O sr. Doran vai me acompanhar até o estúdio nos próximos dias.
— Perfeitamente, srta. O'Hurley.
Quinn não deixou de notar o olhar avaliador que o motorista lhe lançou antes que estivessem acomodados atrás do vidro escuro.
— Como você se sente atiçando a paixão nos homens?
Chantel se recostou.
— Ele é só um menino.
— E isso faz alguma diferença?
Atrás dos óculos escuros, Chantel fechou os olhos.
— Ah, eu me esqueci. Sou uma dessas mulheres sem coração que provocam e flertam e depois jogam os homens fora, depois de tê-los sugado, como se fossem garrafas descartáveis.
Intrigado, Quinn esticou as longas pernas.
— Você descreveu muito bem.
— Você tem um notável desprezo pelas mulheres, sr. Doran.
— Não, está enganada. As mulheres são um dos meus passatempos preferidos.
— Passa... — Ela se conteve antes que começasse a falar agressivamente. Chantel tirou completamente os óculos escuros, pretendendo ver se Quinn a estava provocando ou simplesmente dizendo a verdade. Querendo acreditar no pior, ela se apegou à segunda alternativa. — Você é um porco chauvinista clássico, sr. Doran. Achei que homens da sua espécie estavam praticamente extintos.
— Somos péssimos procriadores, meu anjo. — Ele apertou o botão e ficou olhando enquanto o bar embutido rotatório girava em sua direção. Quinn pensou em preparar um bloody mary, mas se contentou com um suco de laranja puro.
Recolocando os óculos, Chantel achou melhor não provocá-lo.
— Prefiro não apresentá-lo como meu guarda-costas. Posso evitar esse tipo de especulação.
— Ótimo. Como pretende lidar com minha presença?
— Eles vão pensar que você é meu namorado. — Tranquila, ela pegou o copo de suco da mão dele e bebeu. — Estou acostumada a esse tipo de especulação.
— Aposto que sim. O jogo é seu. Jogue-o como quiser.
Chantel lhe devolveu o copo.
— É o que pretendo. E o que você fará?
— Meu trabalho. — Enquanto passavam pelos portões do estúdio, Quinn bebeu todo o suco. — Apenas mostre seu belo sorriso para as câmeras, meu anjo. E não se preocupe com mais nada.
Ela percebeu que sua boca estava tão tensa que doía. Agindo por impulso, Chantel se virou para Quinn e o segurou pela camisa.
— Ah, Quinn, é que estou muito apavorada. Assustada. Sem saber, de uma hora para outra, se estou segura. — Sua voz ficou trêmula quando Chantel se aproximou ainda mais. — Não sei nem como expressar o que significa para mim saber que você estará comigo. Protegendo. Sou indefesa e vulnerável. E você é tão... forte.
Chantel estava perto, tão perto que Quinn podia vê-la fechando os olhos atrás dos óculos escuros. O corpo dela tremia levemente, à medida que se inclinava. Aquilo despertou seu desejo de consolá-la e protegê-la. Chantel estava calma, dócil e impotente. Puxando-a para mais perto, Quinn sentiu seu perfume despertar-lhe os sentidos, ao ponto de sua cabeça começar a latejar.
— Não precisa se preocupar — murmurou ele. — Vou cuidar de você.
— Quinn. — Ela ergueu a cabeça até que seus lábios estivessem quase grudados aos dele. Quando sentiu que Quinn estava tenso, Chantel se afastou bruscamente, colocando algo na mão dele. — Seu cheque — disse friamente e então saiu da limusine.
Ele ficou sentando por cerca de dez segundos, perguntando-se por que nunca pensara em estrangular uma mulher antes. Ao sair do carro ao lado de Chantel, Quinn a segurou firmemente pelo braço.
— Você é boa. Muito, muito boa.
— Sim, sou. — Ela lhe lançou um sorriso breve e tranquilo. — E fico ainda melhor.
Enquanto Chantel cumpria sua rotina matinal de maquiagem e penteados, Quinn simplesmente observava.
Só na primeira hora, ela esteve em contato com uma dúzia de pessoas: atores, técnicos e uma multidão de assistentes. Ele queria uma lista, mas só agora estava começando a perceber como a lista seria gigantesca. Quem quer que a estivesse perseguindo, certamente conhecia a rotina de Chantel. Por isso, as pessoas que trabalhavam com ela eram prioridade.
— Senhorita... Ah, Chantel. — Larry parou ao lado dela, com uma xícara de café recém-preparado.
— Ah, obrigada. Você leu meus pensamentos. Ele se envaideceu, todo feliz.
— Eu sabia que o cabelo exigiria mais tempo esta manhã. — Larry observava enquanto o figurinista pacientemente prendia pérolas ao penteado já complicado.
— Você ficará linda para a cena do baile.
— Bem diferente de ontem. — Ela bebeu o café. — Se eles me molhassem mais uma vez, acho que derreteria.
— A srta. Rothschild disse que as as tomadas aproveitadas ficaram ótimas. Eu mesmo as vi.
— Obrigada. — Chantel viu o reflexo de Quinn no espelho e concluiu que era uma boa hora, como qualquer outra. — Larry, esse é Quinn Doran, um amigo.
— Graças aos anos de treinamento, Chantel conteve o riso ao dizer aquela palavra ao mesmo tempo em que mantinha uma das mãos sobre seu ombro, à espera da mão de Quinn.
— Larry é meu braço direito. E esquerdo também. Quinn vai assistir às filmagens por uns dias.
— Ah, bem... — Larry pigarreou. — Legal.
Quinn percebeu que o jovem achava que aquilo podia ser tudo, menos legal. Outra conquista, pensou. Mas Quinn não podia se dar ao luxo da solidariedade. Ele suspeitava de todos.
— Vou me manter afastado — prometeu Quinn, fazendo um esforço para acariciar, com os nós dos dedos, os dedos de Chantel. — Só quero ver Chantel no trabalho.
— Isso não é lindo? — perguntou Chantel, com um largo sorriso. — Quinn está procurando emprego no momento e tem bastante tempo disponível. Ora, não seja sensível, querido — disse, dando-lhe um tapinha na mão antes de puxar a sua. — Nós todos entendemos como é difícil o mercado de trabalho, especialmente para botânicos. — Feliz, Chantel se levantou. — Tenho de vestir o figurino.
— Eles agendaram uma sessão de fotos para divulgação para esta manhã — informou-lhe Larry depois de lançar um olhar enigmático para Quinn. — Assim que você estiver pronta, deve ir para o cenário do baile.
— Ótimo.
— Irei com você, querida. — Quinn passou um braço por sobre os ombros dela, apertando-a com um pouco mais de força. — Talvez precise de ajuda com botões e fechos.
— Vá com calma, Doran — murmurou ela, enquanto se afastavam. — Vou usar um vestido tomara-que-caia nessa cena, e não posso aparecer com hematomas.
— Estou com vontade de deixar hematomas em lugares de seu corpo que não aparecem. Um botânico?
— Sempre me senti atraída por homens sensíveis e introspectivos.
— Como Larry?
— Ele é meu assistente. Deixe-o em paz.
— Não me diga como fazer meu trabalho.
— Ele é um bom menino, veio com referências excelentes e...
— Há quanto tempo?
Irritada, Chantel abriu bruscamente a porta do seu trailer.
— Há cerca de três meses.
Quando a porta se fechou após Quinn ter passado, ele tirou do bolso um caderninho.
— Dê-me o nome completo dele.
— Larry Washington. Mas não vejo...
— Não precisa. E quanto ao cara da maquiagem?
— George? Não seja ridículo. Ele tem idade bastante para ser meu avô.
Quinn apenas desviou o olhar para encontrar os olhos dela.
— O nome, meu anjo. Não há limite de idade para pessoas perturbadas.
Ela resmungou o nome do maquiador e então saiu apressadamente para o camarim particular.
— Não gosto dos seus métodos, Doran.
— Vou avisar ao departamento de reclamações. — Sentando-se no braço de uma poltrona, ele deu avaliou o camarim rapidamente. Assim como a casa de Chantel, tudo era meticulosamente decorado em tons de branco. — Já que estamos aqui, dê-me os nomes dos outros homens com quem você trabalha nas filmagens.
Fez-se um silêncio longo.
— Todos?
— Isso mesmo.
— É impossível — disse-lhe Chantel. — Não posso me lembrar de todos. Ah, conheço a maioria de vista ou pelo primeiro nome, mas não sei tudo sobre todos.
— Então descubra.
— Preciso trabalhar. Não posso...
— Eu também. Consiga-me os nomes.
Chantel fechou o zíper da parte de trás do figurino e fez uma cara feia para a parede que os separava.
— Vou ver se Larry consegue uma lista.
— Não vai, não. Não quero que ninguém fique desconfiado.
— Está bem, está bem. — Por um momento, Chantel ficou convencida de que a cura era pior do que a doença. Depois se lembrou do que estava escrito no último bilhete que recebera. Gostasse ou não, Chantel precisava de Quinn. — O assistente de direção chama-se Amos Leery. O fotógrafo é Chuck Powers. E, droga, eles não foram ao centro da cidade ontem. Eles trabalham nessa indústria há anos. Têm famílias.
— Isso não faz diferença alguma. Uma obsessão é uma obsessão. — Quando voltou à salinha do trailer, Quinn ainda estava sentado, rascunhando algo no caderninho.
— E quanto ao diretor?
— O diretor é uma mulher. — Chantel tirou o relógio e o pôs de lado. — Acho que podemos excluí-la.
— E quanto ao... — E cometeu o erro de levantar os olhos enquanto falava. As palavras sumiram porque seus pensamentos simplesmente se desintegraram. Chantel estava usando um vestido vermelho vivo, quente e vibrante, que parecia colado à sua pele. O vestido tinha um decote e se ajustava bem sobre seus seios, para depois seguir as linhas do corpo dela. A saia tinha um caimento reto, com uma abertura em um dos lados quase chegando à altura dos quadris de Chantel, onde estava presa por uma pequena argola de pedras brilhantes. De repente, Quinn ficou com a boca completamente seca.
Chantel viu o olhar, que conhecia bem. Normalmente, aquele olhar a faria sorrir, seja de prazer ou como uma reação automática. Mas agora ela percebeu que não era capaz de sorrir, pois seu coração batia forte demais. Quinn se levantou lentamente e Chantel deu um passo para trás. Só muito depois lhe ocorreu que era a primeira vez na vida em que recuava quando um homem se aproximava.
— Vou lhe dar os outros nomes mais tarde — disse rapidamente. — Estão esperando por mim no set.
— O que você vai interpretar lá? — Ele não se aproximou mais de Chantel. Um instinto de autopreservação o conteve.
Chantel umedeceu os lábios.
— Uma mulher em busca de vingança.
Quinn olhou para ela de novo, lentamente, de cima abaixo, depois para cima de novo, até encontrar seus olhos.
— Eu diria que você está perfeita para o papel. Esforçando-se conscientemente, Chantel respirou fundo e expirou. Interprete o papel, disse a si mesma. Era sempre possível interpretar o papel.
— Gosta? — Intencionalmente, ela deu uma voltinha, revelando o enorme decote nas costas.
— Isso é um pouco demais para as sete e meia!
— Acha mesmo? — Chantel sorriu, mais à vontade agora. — Espere até você ver as jóias que vou usar com este vestido. A Cartier nos emprestou colar e brincos, no valor de 250 mil dólares. Logo teremos aqui dois guardas armados e um joalheiro bem nervoso.
— Por que não usar imitações? Elas também brilham.
— Porque jóias verdadeiras são mais adequadas para a publicidade. Você vem?
Ele a deteve na porta com apenas um dedo sobre seu ombro nu. Ambos sentiram um estremecimento.
— Só uma pergunta. Você está vestindo alguma coisa sob o vestido?
Chantel só conseguiu sorrir novamente porque sua mão já estava na maçaneta.
— Isto é Hollywood, sr. Doran. Deixamos esse tipo de detalhe para sua imaginação. — Ela deu um passo para fora, com a esperança de que o aperto em seu peito diminuísse antes da primeira tomada.
Ao meio-dia, Quinn se vira obrigado a rever sua opinião sobre Chantel em pelo menos um assunto: ela não era a atriz mimada e temperamental que ele achava. Chantel trabalhava como um cavalo — um puro-sangue, talvez, mas repetia as cenas seguidas vezes, sem reclamar.
Ela foi gentil com o fotógrafo, apesar de a sessão de fotos ter demorado 90 minutos. Chantel não brigou com o maquiador, como fez um dos outros atores principais do filme, quando chegou a hora de dar outro retoque. O set estava superaquecido, por causa das luzes, mas ela não perdeu a força ou a energia. Entre as tomadas, Chantel bebia um copo de água mineral onipresente, mas não podia se sentar, porque o figurinista reclamara das do¬bras no vestido.
Dois guardas armados mantinham os olhos treinados nela e na fortuna em jóias que Chantel usava. Quinn era obrigado a admitir que as jóias combinavam com ela: o colar grosso de ouro, incrustado de diamantes e rubis, ao redor do pescoço, os diamantes e rubis que pendiam das orelhas. Chantel as usava com a simplicidade de uma mulher que sabia que merecia aquelas jóias.
Quinn ficou a alguma distância do set, perguntando-se como os atores conseguiam suportar a monotonia das repetições.
— Incrível, não?
Ele se virou e olhou para o homem alto e grisalho atrás dele.
— O quê?
— Como são necessárias horas e horas para se gravar uma cena de dois minutos. — Pegando um cigarro fino e preto, o homem o acendeu no toco de outro cigarro. — Não sei por que vim aqui. Isto me deixa nervoso, mas não posso ficar longe enquanto eles dissecam minha cria.
Quinn arqueou a sobrancelha.
— Não, aposto que não.
O homem tragou profundamente antes de sorrir.
— Não estou louco... Ou talvez esteja. Eu escrevi o roteiro. Ou melhor, escrevi o que parece ser agora algo remotamente semelhante. — Ele estendeu a Quinn sua mão bem cuidada e magra. — James Brewster.
— Quinn Doran.
— Sim, eu sei. Você é o amigo da srta. O'Hurley. — Ele sorriu novamente, com um dar de ombros displicente. — As notícias correm rapidamente nas cidadezinhas. Ela é extraordinária, não?
— Não entendo muito disso.
— Ah, eu lhe garanto: ela é. Na verdade, não poderia haver outra pessoa para o papel de Hailey. Fria, vingativa, afiada e, ao mesmo tempo, vulnerável e desesperada para encontrar o amor. Uma das poucas coisas que não me incomodam nessa coisa até agora extravagante é a interpretação de Chantel.
— Ela parece saber o que está fazendo.
— Mais: ela sente o que está fazendo. — Brewster tragou rapidamente enquanto a equipe se preparava para mais uma tomada. — Sinto um enorme prazer só de observá-la.
Quinn deslizou as mãos para dentro dos bolsos e mentalmente acrescentou Brewster à sua lista crescente de homens a ser investigados.
— Ela é uma mulher extraordinariamente bela.
— Isso é óbvio. Se bem que, para usar um clichê, é superficial. O que me fascina é o que há no interior de Chantel O'Hurley.
Quinn estreitou os olhos ligeiramente.
— E o que é?
— Eu diria, sr. Doran, que todos os homens teriam de descobrir isso sozinhos.
A diretora pediu silêncio e Brewster obedeceu, nervoso. Quinn prestava atenção a seus próprios pensamentos.
Chantel parecia mesmo sentir a personagem. A cena principal exigia que ela confrontasse o namorado três anos depois de a ter abandonado. Mesmo após uma dúzia de tomadas, os olhos dela se tornavam gélidos e a voz adquiria um toque peçonhento, necessário. Num salão de baile lotado, ela conseguia seduzir e humilhar. Chantel fazia ambas as coisas com evidente facilidade, e Quinn achou que ela deveria estar gostando daquilo.
Mesmo para ele, um homem que aprendera a olhar além das aparências, Chantel parecia prestar atenção somente no homem com o qual dançava. Era como se não houvesse câmeras, técnicos, plataformas ou gruas.
Aquilo durou horas, mas Quinn teve paciência. Ele ficou interessado ao ver que, sempre que um intervalo durava mais do que cinco minutos, o assistente de Chantel aparecia a seu lado com um copo de água mineral fresquinha. Mais de uma vez o assistente de direção se aproximou para segurar a mão dela ou murmurar algo. O maquiador retocou-lhe o rosto várias vezes, como se trabalhasse numa tela emoldurada.
Já passava das 19 horas quando terminaram. Eles tiraram apenas uma hora para o almoço e, afora isso, Quinn calculou que Chantel estivera de pé durante 14 horas. Ele pensou que, levando tudo em consideração, preferia passar oito horas por dia cavando trincheiras.
— Já pensou em trabalhar em outra coisa? — perguntou-lhe Quinn assim que entraram no trailer novamente.
— Ah, não. — Chantel tirou os sapatos e logo sentiu câimbras nos pés. — Eu adoro o glamour.
— Onde estava o glamour?
Ela sorriu instantaneamente.
— Você é perspicaz. Se a diretora pedisse mais uma tomada, só mais uma, eu pediria que você atirasse no joelho dela. Pode me ajudar com o zíper? Meus braços estão moles.
— É porque você abraçou Carter quase o dia todo.
— Só mais um dos ossos do ofício. — Chantel arqueou as costas enquanto Quinn abria o zíper até os quadris.
— Ele é bacana, se você gostar do tipo garoto-propaganda.
Ela olhou por sobre o ombro com um meio sorriso.
— Eu adoro garotos-propaganda.
— Já pensou que pode ter sido Carter quem lhe enviou as flores?
Chantel bufou e depois foi até o quarto de vestir.
— Ele está ocupado demais tentando se livrar da terceira esposa. Além do mais, eu o conheço há vários anos.
— As pessoas mudam e fazem coisas inesperadas. Além disso, você passa várias horas por dia grudada nele.
— É só trabalho.
— Um bom trabalho. De qualquer modo, você não deveria confiar em ninguém.
— Só em você.
— Isso mesmo. Brewster me pareceu especialmente encantado com você.
— Brewster? O escritor? — Realmente intrigada, Chantel voltou para a sala do trailer, ainda abotoando a blusa. — James está mais interessado nos personagens do que nas pessoas que os interpretam. E ele vive um casamento feliz há vinte e tantos anos. Você nunca lê as revistas de fofoca?
— Não perco uma. — Quinn estava pegando um cigarro quando ela parou de repente e sentou, agarrando um dos pés. — Problemas?
— Sempre que se tira essas coisas é uma agonia. — Chantel estremeceu, praguejou e se massageou. — Posso lhe garantir que foi um homem quem inventou o sapato de salto alto. O mesmo que inventou o sutiã.
— São mulheres que usam essas coisas — argumentou Quinn, mas se ajoelhou e pegou o pé. — No peito do pé?
— Sim, mas... — A objeção morreu em seus lábios quando ele começou a massageá-lo. Com um suspiro longo e sincero, Chantel se recostou. — Sim, assim é maravilhoso. Você não seguiu sua vocação. Você teria feito uma fortuna como massagista.
— Você deveria ver o que posso fazer com outras partes do seu corpo.
Chantel abriu um olho.
— Vamos ficar apenas no pé, obrigada. Se eu fosse uns poucos centímetros mais alta, ou Sean uns poucos centímetros mais baixo, eu daria um jeito de usar sapatos baixos na maioria das cenas.
— Vou lhe dizer, as cenas de amor dele com você pareciam bem naturais.
— É para que sejam assim. — Exausta, Chantel abriu os dois olhos. — Olhe, somos profissionais. Parece assim porque interpretamos assim, e não porque temos algum interesse físico um no outro.
— Para mim, ele parecia interessado em você. Especialmente quando pôs as mãos em seu...
— Mude de assunto, Doran.
— Acho que você está tentando me dizer como fazer meu trabalho de novo.
— Gostaria que você fizesse seu trabalho — ela atacou —, em vez de perseguir um homem só porque ele é bom no trabalho.
— Só estou averiguando, meu anjo.
— Não quero que nenhum dos meus amigos e parceiros sejam espionados.
— Se quer alguém que tem medo de pisar em alguns calos, contratou o homem errado.
— Já cheguei a essa mesma conclusão várias vezes. — Chantel não entendia por que perdera a calma tão rapidamente, mas aquelas mãos que subiam e desciam pelo seu pé estavam lhe provocando reações indesejadas. Chantel queria que Quinn saísse dali. — Por que não dá uma voltinha, Doran? — Ela puxou o pé com um movimento brusco. — Você não faz meu tipo. — Levantando-se, Chantel deu uma volta ao redor dele. — Pode ficar com o troco.
— Ótimo. — Quinn estava tão furioso quanto ela e também perplexo com aquela situação. Tudo o que ele sabia era que, por um breve momento, sentira algo por Chantel, alguma coisa leve e tranquila. E já desaparecera, sumira como se nunca tivesse acontecido. Em seu lugar estava a raiva e o desejo, tão fortes que exigiam um alívio físico. — Talvez eu até receba um bônus por isso.
Ele a agarrou. Chantel sabia que Quinn não seria carinhoso. Ele a segurou pelos cabelos e a beijou. Chantel sabia que Quinn não mostraria muita sutileza. O que ela não sabia, ou não admitira ainda, era que reagiria positivamente.
Nenhum homem a agarrava sem que Chantel quisesse ser agarrada. Nenhum homem roubara dela algo que não quisesse lhe dar. Mesmo assim, Quinn a estava agarrando, e Chantel não encontrou motivo para impedi-lo. Seu rosto era áspero contra o dela e seus dedos apertavam Chantel, mantendo-a firmemente presa. Um gesto de autodefesa era algo simples e até mesmo automático, mas ela não tentou se soltar. Seus joelhos tremiam, mas Chantel nem mesmo sentiu isso. Tudo estava encoberto pela sensação de ter sua boca na dela e nos múltiplos sabores de Quinn. Algo perceptível. Chantel abriu ligeiramente a boca, convidando-o a entrar.
Ele raramente se preocupava com as consequências e, menos ainda, duvidava de seus instintos. Ao sentir o desejo de tocá-la, de tomá-la para si, ele agira. Quinn já estava pagando o preço por isso. Chantel era mais do que ele imaginava. Mais macia, suave, quente. Não era uma imagem o que ele tinha em seus braços, era uma mulher apaixonada, de sangue quente. Ao mesmo tempo em que saboreava e descobria os sabores e a textura dos lábios dela, Quinn entendia que precisava de mais. Essa era a armadilha na qual ele caíra.
Quinn a afastou porque queria ver a expressão dela depois do beijo. Chantel abriu lentamente os olhos, que estavam escurecidos, de um azul tão intenso que por um instante Quinn se sentiu mais vulnerável do que qualquer um dos dois poderia imaginar. Ele sentiu que o desejo se transformava em ânsia e a ânsia em insegurança, antes de recuar.
— Foi um dia interessante, meu anjo. — E um dia que, ele temia, jamais esqueceria. — Por que você não pede a Matt para encontrar outra pessoa?
Fazia muito tempo que Chantel não se sentia rejeitada. Aquilo doeu mais do que ela se lembrava. A experiência e o orgulho a fizeram se endireitar e manter a voz gélida.
— Se já terminou seu show de dominação masculina, pode ir embora. — A imagem voltou, mesmo antes que sua pulsação retornasse ao ritmo normal. — Se souber de alguém que precisa de um guarda-costas para o cachorrinho, darei seu cartão.
Chantel se virou quando o telefone tocou. Ela o atendeu e olhou por sobre os ombros enquanto Quinn abria a porta. Com um meneio de cabeça, ela colocou novamente o telefone no ouvido.
— Alô.
Aquela voz agora lhe era muito familiar — e um pouco mais ameaçadora.
— Esperei o dia todo para conversar com você. Você é tão linda, tão excitante! O dia todo fiquei imaginando como poderíamos...
— Por que você não para com isso? — Ela perdeu o controle ao gritar ao telefone. — Por que não me deixa em paz? — Antes que pudesse bater com o fone no gancho, Quinn pegou o telefone da mão dela.
— Não fique com raiva. — O desespero naquela voz o deixou tenso. — Eu amo você. Posso fazê-la feliz, mais feliz do que jamais foi.
— A srta. O'Hurley é mais feliz sem você — disse Quinn calmamente. — Você realmente deveria parar de importuná-la.
Fez-se um longo silêncio e Quinn ouviu a respiração do outro lado da linha ficar mais pesada.
— Ela não precisa de você. Ela precisa de mim. Ela precisa de mim — repetiu a voz antes que a ligação fosse interrompida. Calmamente, Quinn pôs o telefone no gancho. Chantel estava de costas para ele, mas depois de um momento ela se virou.
Quinn percebeu que ela se esforçara para recuperar a calma. Mas sua pele estava tão branca quanto as paredes que a cercavam.
— Achei que você já tivesse ido embora.
— Bem que eu queria. — Quinn seguia uma regra de jamais pedir desculpas por suas atitudes. Não que ele não acreditasse que podia estar errado. O problema era que Quinn achava que desculpas tendiam a enfraquecer sua posição. Nesse caso, ele achou melhor chegar o mais perto possível de quebrar a regra. — Olhe, não temos que gostar um do outro para que eu possa fazer esse trabalho, e eu não gostaria de abandonar as coisas antes de terminar. Por que simplesmente não esquecemos o que acabou de acontecer?
Ela não gostava de promessas tanto quanto Quinn não gostava de desculpas. Mas Chantel gostava, menos ainda, de se imaginar sozinha. Para satisfazer as necessidades de ambos e seu orgulho, ela lhe deu um sorriso suave.
— Aconteceu algo?
Entendendo a brincadeira, Quinn fez um gesto mínimo com a cabeça.
— Não aconteceu nada. Vamos sair daqui.
Capítulo Quatro
C
hantel há muito tempo compreendera que não poderia ter privacidade e ser famosa ao mesmo tempo. Para se tornar famosa, teve, invariavelmente, de sacrificar a privacidade. Se saía para um jantar tranquilo com um amigo, no dia seguinte isso era notícia. Se dançava com outra celebridade, haveria fotografias e muita especulação quando a música parasse. De acordo com a imprensa, sua vida era cheia de homens, de romances quentes e enlouquecidos, além de casos fortuitos. Chantel aceitava isso. Também era bastante esperta para saber que, se fosse rude ou agressiva com os paparazzi, tanto sua reputação quanto as fotografias que tiravam dela seriam pouco lisonjeiras. Por isso Chantel queria, dentro dos limites do aceitável, cortejar os fotógrafos e, assim, apresentar uma imagem glamourosa e imperturbável para o público.
Mas o grampo no seu telefone e o guarda no portão eram algo completamente diferente. Eles não faziam parte da mística de seda branca e diamantes que Chantel sempre quisera mostrar. Se ela tivesse escolha... Todas as vezes que pensava nisso, rangia os dentes, lembrando-se de que não tinha alternativa.
Ela deveria se sentir agradecida. Era difícil aceitar esse fato, mas Chantel sabia que deveria mesmo se sentir agradecida. Desde aquele telefonema no camarim não houvera mais nada: nem cartas, flores ou vozes sussurradas. Chantel disse a si mesma que deveria se sentir aliviada. Mas, ao contrário, ela se sentia como se estivesse esperando pelo próximo ataque.
Durante a semana seu trabalho a mantinha ocupada demais para pensar nessas coisas. Algumas poucas horas por dia ela podia mergulhar totalmente na personalidade de Hailey e em seus problemas. Enquanto o filme estivesse sendo rodado e houvesse pressão, era difícil pensar em seus problemas pessoais. O trabalho a fizera sobreviver a outros períodos difíceis. Chantel contava que o trabalho a ajudasse também agora.
Mas era sábado e as filmagens avançavam lentamente, por isso ela não tinha de ir trabalhar. As sete e quinze Chantel olhava para o teto, pensando muito em sua paz de espírito. As mulheres belas e glamourosas deveriam dormir até o meio-dia e depois mimadas com massagens e tratamentos faciais. Ela teria acreditado nisso, se não estivesse no jogo há tanto tempo.
Jogando as cobertas para o lado, foi até o escritório, ao lado do quarto de vestir. De todos os cômodos em sua mansão, esse, apenas esse, revelava seu outro lado. Os móveis, embora sofisticados, eram simples e práticos; os tecidos das cortinas tinham sido importados de Paris, mas o espaço como um todo demonstrava um senso de organização e praticidade. Sua mesa fora comprada tanto pela utilidade quanto pela aparência. E Chantel realmente a usava. Assim como usava o computador que ficava sobre a mesa.
Sim, Chantel tinha um agente e um administrador pessoal, uma equipe de assessores de imprensa e um assistente, mas acreditava que devia manter o controle de sua própria vida e de seus negócios. Ela sabia em que ações investira e quanto faturara com os filmes que fizera. Cópias de seus contratos estavam meticulosamente arquivados. Chantel não apenas os assinava; ela os lia.
Foi diretamente para a mesa e, ignorando a agenda grossa e a pilha de mensagens telefônicas deixada por sua empresa, pegou um grande pacote de papel. Eram três roteiros nos quais Chantel não dera uma olhada mais cuidadosa. A filmagem de Estranhos não duraria para sempre. Quanto mais cedo começasse a pensar em seu próximo projeto, menos tempo vago teria.
Chantel voltou para a cama, jogou o primeiro roteiro sobre os joelhos e disse a si mesma que esperaria até às oito horas para tomar café. Muito antes disso, porém, percebeu que o primeiro roteiro era inútil. A história não tinha nada demais, só que na maioria das cenas Chantel estava nua, envolvendo-se num romance atrás do outro. Ela não era nenhuma puritana, mas não queria usar seu corpo como destaque para um roteiro medíocre. De qualquer modo, Chantel estava cansada de interpretar a vampira ou a vítima. Ela jogou o roteiro fora e pegou o outro. Esse chamou sua atenção desde a primeira página.
Uma comédia. Finalmente alguém lhe enviara uma história inteligente que não se baseava exclusivamente em sua sexualidade para vender ingressos. Não só os diálogos eram inteligentes como também a história tinha várias reviravoltas e piadas que a fizeram rir alto. Eram piadas tanto físicas quanto orais, que iriam, Chantel sabia, deixá-la à vontade. Seu personagem a faria agir como uma tola na tela, cena após cena. Ela acabaria com a cara enfiada na lama. E Chantel adoraria isso.
Abençoado seja você, Matt. Depois de ler metade do roteiro, Chantel o deitou sobre o seio. Ela queria fazer algo que divergisse da imagem que ela e o agente cuidadosamente criaram ao longo dos últimos seis anos. Seria arriscado. Será que as pessoas pagariam para ver seu rosto sujo de lama? Chantel queria apostar que sim.
Mais feliz do que estivera em semanas, Chantel apertou o botão do interfone e pediu que o café da manhã fosse servido. Ela não sairia dali até terminar a última página. E, quando terminasse, ligaria para Matt. Se tivesse de fazer um teste para o papel, ela faria. Se tivesse de estudar o papel, estudaria. Ela até mesmo aceitaria uma redução no cachê, mas aquele papel seria dela.
Chantel deixou-se cair contra os travesseiros, encolheu as pernas e virou a página seguinte.
Ao ouvir a batida na porta, estava totalmente concentrada. Chantel respondeu distraidamente e então começou a rir da personagem, sua personagem, esquecendo-se de que passava por outro momento de crise.
— Deve ser algo muito engraçado — afirmou Quinn.
Chantel virou a cabeça. A alegria em seus olhos se transformou instantaneamente em irritação. Era uma pena, pensou, que Quinn fosse tão bonito.
— Pena que não municiei aquela pistola.
— Você não atiraria num homem que está lhe trazendo o café na cama. — Ele atravessou o quarto, pôs a bandeja no colo dela e se ajeitou sobre a cama ao lado de Chantel. Quinn vestia uma camiseta e calças jeans desbotadas, e parecia não se importar que seus tênis estivessem sobre a colcha costurada à mão. — O que está lendo?— perguntou, esticando as pernas e cruzando as mãos atrás da cabeça.
— Os relatórios do mercado de ações.
— Claro, eu também sempre dou uma olhada neles.
— Os travesseiros continham o cheiro dela: sensual, exótico, atraente. Chantel estava um pouco amassada de sono, o cabelo caindo desordenadamente ao redor dos ombros e nas costas. Mesmo sob a luz forte da manhã, era impossível encontrar uma única falha no rosto dela. Havia duas alças finas nos ombros de Chantel e um pouquinho de renda sobre os seios. Quinn se lembrou do que não devia: o que sentiu ao segurá-la contra seu corpo e beijá-la até que sua mente se perdesse. Ele pegou um pedaço de torrada da bandeja e se esticou para alcançar a geleia.
— Sirva-se — resmungou ela, contendo o desejo.
— Obrigado. — Ele se inclinou sobre a bandeja enquanto espalhava uma porção farta de geleia na torrada. Com o calor da respiração dele sobre o ombro nu, Chantel se enrijeceu, lembrando-se do quanto não gostava de Quinn. — Como disse antes, esta cama é enorme.
— Depois que mandar a colcha para a lavanderia, deduzirei a conta dos seus honorários. — Determinada a não demonstrar nenhuma reação, Chantel pegou o bule de café e serviu-se. — Em que posso ajudá-lo, Doran?
Ele mordiscou a torrada e apenas olhou para Chantel. O sorriso surgiu bem lentamente.
— Não se acanhe — disse ela, bebendo o café que ainda estava quente demais. Queimando a língua, Chantel concluiu que não apenas não gostava dele: ela o detestava.
— Eu lhe fiz uma pergunta — começou ele, servindo-se também de uma xícara de café.
— Olhe, estou ocupada, então se...
— É, estou vendo.
— Eu estava lendo alguns roteiros.
— Algum bom?
Chantel respirou fundo. Alguns homens eram mais teimosos do que outros, lembrou-se. Talvez, se o divertisse um pouco...
— Na verdade, sim. Quero terminar de ler este ainda pela manhã. Por isso, se temos de discutir negócios...
— Você vai arrasar com outro homem nesse? Paciência, disse Chantel a si mesma. Era um sinal de compaixão demonstrar paciência a um idiota.
— Não. Por acaso, é uma comédia.
— Uma comédia? — Ele deixou escapar uma risadinha rápida antes de beber. — Você?
Ela estreitou os olhos.
— Não abuse da sorte, Doran.
— Pare com isso, meu anjo. Um homem não jogaria uma torta num rostinho como o seu.
— É lama.
— O quê?
— Nesse filme, meu rostinho é jogado na lama. Quinn pegou um pedaço de melão de uma tigela.
— Isso é algo que tenho que ver.
— Conto com milhões de pessoas fazendo o mesmo.
— Com uma elegância natural, Chantel desdobrou o guardanapo e entregou a ele. — Afinal, você é um homem comum, não?
— O mais comum dos homens — disse ele calmamente.
— Agora, por que não me diz por que está aqui a essa hora da manhã, com seu pé na minha cama e suas mãos no meu café.
— Faz parte dos meus serviços. Ótimo café.
— Vou repassar seus elogios ao chef. Agora, por que não vai direto ao ponto?
— Você não vai comer?
— Doran.
— Está bem. — Quinn tirou uma pasta de dentro de uma cestinha perto da bandeja e a abriu. — Tenho alguns relatórios preliminares. Achei que você poderia ficar interessada.
— Relatórios de quê?
— Larry Washington, Amos Leery, James Brewster. Também tenho algo sobre o maquiador e seu motorista.
— Meu motorista? Você está investigando Robert? — Sem apetite, Chantel se aconchegou na cama. Quinn viu a pele rosada sob o sutiã e ficou imaginando até onde aquelas carnes iam. — Essa é a coisa mais ridícula que ouvi.
— Meu anjo, você nunca leu livros policiais? O culpado é sempre a pessoa de quem se suspeita menos.
— Não estou pagando para que você banque o Sam Spade, e estaria mentindo se dissesse que posso aceitar vê-lo investigando pessoas como Robert e George.
Depois de pensar um pouco, Quinn optou por um morango.
— Você já percebeu como Robert olha para você?
O sutiã subiu e se acomodou novamente com a respiração dela. Chantel intencionalmente levantou a cabeça.
— Querido, todos os homens olham para mim daquele jeito.
Quinn a encarou longamente antes de beber do seu café mais uma vez. Até mesmo ele tinha problemas em separar a atriz da pessoa real.
— Como tenho de começar de algum ponto, resolvi começar com os homens próximos a você.
— Você vai acabar me dizendo que investigou até Matt. — Diante do silêncio dele, Chantel olhou para Quinn novamente. — Você só pode estar brincando. Matt é...
— Um homem — completou ele. — Como você mesma disse, basta ser um homem.
Furiosa, Chantel pegou a bandeja e a jogou sobre o colo dele. O café quase transbordou das xícaras.
— Olha, vamos parar com isso agora mesmo. Não quero que as pessoas das quais gosto sejam espionadas e se sintam constrangidas. Matt é meu melhor amigo e eu achava que era seu amigo também.
— É uma questão profissional.
— Então digamos que seu trabalho tenha terminado. As ligações cessaram, assim como as cartas.
— Por um total de 48 horas.
— Isso me basta. Vou lhe pagar os honorários e nós...
— Chantel se interrompeu, as palavras presas na garganta quando o telefone ao lado da cama começou a tocar. Sem perceber, ela segurou Quinn, os dedos apertando a mão dele.
— Eles atenderão lá embaixo — murmurou ele. — Não entre em pânico. Se for ele, mantenha a calma. Tente fazer com que ele fale e fique na linha o máximo possível. Precisamos de tempo para descobrir de onde ele está ligando. — Quando o interfone soou, Chantel se assustou.
— Acalme-se, Chantel. Você pode cuidar disso. Esforçando-se para conseguir respirar, Chantel falou no interfone.
— Sim?
— Tem um homem no telefone, senhorita O'Hurley. Ele não quis dizer o nome, mas diz que é importante. Devo lhe dizer que a senhorita está ocupada?
— Sim, eu... — Quinn apertou seu pulso. — Não, não. Eu atenderei. Obrigada.
— Vá devagar — disse-lhe Quinn. — Deixe-o falar. Seus dedos estavam trêmulos e frios quando pegou o telefone.
— Alô.
Quinn teve apenas de olhar para o rosto dela para saber que Chantel estava ouvindo o sussurro.
— Não desligue — disse ele, calmamente, segurando uma das mãos dela. — Apenas o mantenha na linha. Fique calma e responda.
— Obrigada — conseguiu dizer Chantel, apesar do nó na garganta. — Sim, sim. Recebi todas as suas cartas. Não, não estou com raiva. — Ela fechou os olhos e tentou fingir que as coisas que estava dizendo não lhe davam arrepios. — Eu queria que me dissesse quem você é. Se você... — Surpreendida entre a frustração e o alívio, ela afastou o telefone do ouvido. — Ele desligou.
— Droga. — Depois de colocar a bandeja no chão ao lado da cama, Quinn se inclinou sobre ela, pressionando alguns botões no aparelho de telefone. — É Quinn. — Ele praguejou novamente. — É, apesar disso, continue trabalhando. Certo. Foi rápido demais — disse a Chantel, desligando o telefone novamente. — Ele disse algo que você tenha achado curioso, algo que a fez pensar em alguém que conhece?
— Não. — Chantel tremeu novamente antes de recuperar o controle. — Ninguém que conheço tem uma mente perturbada como essa.
— Beba um pouco de café. — Quinn lhe estendeu uma xícara cheia.
Chantel bebeu para aliviar o nó na garganta.
— Quinn. — Ela teve de engolir em seco novamente.
— Ele disse... ele disse que tinha uma surpresa para mim, uma grande surpresa. — Ao virar-se para olhá-lo, Chantel estava com os olhos arregalados e escuros. — Ele disse que não vai demorar muito.
— Deixe que eu me preocupe com ele. — Quinn sempre tivera uma queda pelas mulheres indefesas. Isso lhe trouxera problemas antes: na América do Sul, no Afeganistão e incontáveis outros lugares. Embora soubesse que fosse um gesto perigoso, de um jeito mais pessoal, Quinn passou um braço sobre os ombros dela e a puxou para perto. — É para isso que você está me pagando, meu anjo.
— Ele vai me pegar — ela disse, com um tom de voz tão fatalista que Quinn a apertou. — Posso sentir.
— Ele vai ter dificuldades para fazer isso comigo no caminho. Ouça, tenho dois homens patrulhando sua casa e outros dois monitorando suas ligações.
— Isso não parece ajudar. — Chantel fechou os olhos e por um momento deixou-se apoiar nele. — Talvez porque eu não os veja.
— Mas você está me vendo, não?
— Sim. — E podia também senti-lo, sentir os músculos rijos de seu braço e ombro e a pele nem tão lisa de seu rosto.
— Quer ver mais de mim?
Com cautela, Chantel ergueu o rosto para olhá-lo. Havia graça ali, mas — e ela tinha certeza de estar enganada — parecia também que havia uma preocupação sincera.
— Como é?
— Gosto do jeito como você faz isso. Meu anjo, você é capaz de mutilar um homem sem levantar um só dedo.
— É um talento meu. Explique, Doran.
— Por que não me mudo para cá por algum tempo? Ah, e não se deixe levar por seu ego — advertiu Quinn, percebendo que ela começava a tremer. — Você tem um bocado de quartos neste lugar e, ainda que eu realmente esteja começando a gostar da sua cama, posso muito bem dormir em outra. O que me diz, meu anjo? Quer dividir sua casa comigo?
Ela franziu a testa para ele, odiando ter de admitir que se sentia muito mais segura tendo-o por perto o tempo todo. A casa era mesmo bem grande para mantê-los afastados um do outro, se bem que aquilo acabaria com sua privacidade. O problema era se lembrar de como Quinn a fizera se sentir durante aquele beijo acalorado. Se ele estivesse por perto 24 horas por dia, talvez a lembrança não bastasse.
— Talvez eu devesse comprar um cachorro feroz — murmurou Chantel.
— Você é quem sabe.
Era verdade. Era. E Chantel sabia muito bem como lidar com aquilo... com ele.
— Vá em frente e pegue suas tralhas, Doran. Vamos encontrar um cantinho onde você possa dormir. — Sentando-se, Chantel folheou o roteiro novamente. Ela não podia negar que se sentia melhor. O vazio em seu estômago fora abrandado. — Quanto mais isso vai me custar?
— Só as refeições. E quero mais do que apenas uma tigela de frutas pela manhã. Também vou usar outros cômodos, e já que isso vai acabar com minha vida social, mais duzentos dólares por dia.
— Duzentos? — Chantel riu debochadamente, de um jeito nada educado. — Eu achava que sua vida social não valia mais do que 50 dólares por dia. Não é isso o que cobram nas casas de massagem?
— O que sabe sobre casas de massagem? Chantel lançou-lhe um olhar.
— Só o que vejo nos filmes, queridinho.
— Que tal uma demonstração das minhas habilidades como massagista? — Quinn ergueu um dedo e tirou uma das alças dos ombros dela. Em vez de colocá-la no lugar de volta, Chantel simplesmente ficou lendo o roteiro.
— Não, obrigada. Duvido que você tenha qualquer coisa para me ensinar.
— Estava pensando que você tinha algo para me ensinar. — Quando ele tocou a outra alça, Chantel o fitou nos olhos. Quinn estava lhe jogando uma isca que ela ainda não estava preparada para morder.
— Tente novamente quanto eu tiver algumas semanas de folga, Doran. Com você, tenho a impressão de que teremos de começar do zero.
— Eu aprendo rápido. — Ele deslizou a mão até os ombros dela, passando o dedo pelo queixo de Chantel.
Ela segurou-o pelo pulso antes que pudesse se impedir, mas a voz permanecia firme.
— Olhe por onde anda.
— Se você olhar para o chão, deixa de ver muita coisa.
Quinn queria tocá-la novamente e sentir aquela pele lisinha e quente em suas mãos. Queria ver os olhos dela se escurecerem, em parte por causa da raiva e, em parte, pela tentação, quando a tocasse. Chantel parecia prestes a arranhar seu rosto, mas as unhas afiadas não o impediriam de experimentar o fogo que ela escondia dentro de si. O fogo que Chantel deixava à mostra apenas na tela do cinema.
Quando ela ergueu a mão, Quinn a segurou. Chantel segurou-lhe uma das mãos e ele, uma das dela. Até onde entendia Quinn, estavam empatados. Ele achava que era o orgulho que a impedia de lutar, orgulho e a segurança de que podia fazê-lo ajoelhar-se quando bem entendesse. Quinn não tinha tanta certeza de que Chantel não era mesmo capaz disso.
Ele estava prestes a soltá-la quando Chantel ergueu a cabeça, desafiando-o com os olhos. Quinn sempre adorara um desafio.
Com os olhos abertos e fixos nela, Quinn se aproximou. Mas não a beijou. Chantel sentiu o impacto, surpreendente e excitante ao mesmo tempo, quando Quinn segurou seu lábio com os dentes. A indiferença fria que ela estava determinada a lhe mostrar começara a ser aquecida.
Chantel poderia tê-lo impedido. Trace, seu irmão, ensinara, a ela e às irmãs, como deviam se defender dos ataques dos homens. Chantel sabia que podia pegá-lo de surpresa e fazê-lo se contorcer de dor e pedir por ar com apenas uma joelhada bem dada. Mas ela ficou imóvel, hipnotizada por aqueles olhos verdes.
Não era normal ela ter esse tipo de sensação, esse tipo de desejo. Há muito anos, desde que agira como uma tola por causa de seus sentimentos, Chantel os bloqueara. Não era normal sentir aquele aperto no estômago. Não era normal que ossos se derretessem com o carinho. Ela fizera várias cenas de amor — coreografadas, planejadas, encenadas várias vezes para a câmera —, e não sentia nada que não fosse previsto em seu persona-gem. Chantel sabia muito bem que o mais apaixonado dos abraços podia significar muito pouco para as duas pessoas envolvidas.
Aquela pequena mordida em seu lábio deveria apenas irritá-la, mais nada. Mas Chantel ficou imóvel, presa pelo desejo urgente de absorver todas as sensações que aquilo despertara.
Impossível! Tinha de ser impossível, mas Quinn sentiu a inocência fervilhando no interior dela. Se estava interpretando, Chantel era mais talentosa do que poderia ser. Se não... Mas Quinn não conseguia sequer pensar. Ela mexia de um jeito com sua mente, de um modo absurdo. Chantel forçou a entrada e tomou conta de seus pensamentos ao ponto que Quinn se viu prestes a esquecer tudo, menos ela.
Desejo. O desejo era algo facilmente saciado e esquecido. Custaria caro se lembrar daquilo. Qualquer homem a desejaria. Mas Quinn não tinha certeza se um homem normal seria capaz de esquecê-la. Havia algo de poderoso nela, o poder de deixar um homem excitado, de fazê-lo latejar, de enfraquecê-lo. Quinn não podia se dar ao luxo de soltá-la. Com aqueles lábios macios e quentes sob os seus, ele se lembrou de que tinha prioridades. Uma delas era garantir a segurança de Chantel. A outra, cuidar de si mesmo.
Quando sentiu que estava afundando, afastou-se. O chão não era muito sólido. Pela primeira vez Quinn realmente olharia por onde estava andando. — Você é perigosa, meu anjo.
Calma, disse Chantel a si mesma, lutando para encontrar um porto seguro. Aquilo não significava nada para Quinn. Era apenas a eterna guerra de desejos entre homens e mulheres. Ele não se tornara mais gentil nem sentia necessidade de ser amado, necessidade de acreditar que talvez, só talvez, tudo isso fizesse algum sentido. Chantel não lhe daria o prazer de saber que ela acreditava nisso.
— Da próxima vez, você pode se machucar.
— Talvez você tenha razão — resmungou ele, afastando-se. — Você parece um pouco pálida. — Quinn deu uma olhada nos ombros nus dela e se amaldiçoou por sentir uma fisgada de desejo. — Vista-se e me encontre na piscina. Vou atualizá-la sobre o que descobrimos até o momento. — Ele rolou na cama e, levando a pasta, deixou-a sozinha.
Quinn precisava de um pouco de ar fresco. E rápido.
Ele nadava como uma enguia, suave, feliz e tranquilamente. Quando Chantel surgiu no pátio, ela ficou parada sob o sol, observando-o. Ela não se enganara quanto aos músculos dele. Agora Chantel podia admirá-los, alongando-se a cada braçada e agrupando-se a cada pernada. Quinn optara por usar um calção de banho preto que pegara de uma pilha que Chantel mantinha na casa da piscina para os hóspedes. O calção se ajustava perfeitamente ao corpo dele.
Se bem que Chantel imaginasse que Quinn escolhera aquele calção pelo conforto, não para causar impacto. Até onde entendia, Quinn Doran se considerava irresistível demais para pensar nessas coisas. Ela se sentou em uma cadeira perto da mesa coberta e esperou que ele emergisse.
O cansaço físico lhe ajudara. Quinn percebera que chegara mais perto do seu limite do que pretendia. Ele ainda não sabia ao certo por que tentara se aproximar de Chantel, mesmo tendo certeza que um homem inteligente manteria distância daquele tipo de mulher. E Quinn sempre fora inteligente. Foi assim que ele havia sobrevivido. Mas também sempre tivera o péssimo hábito de se render às tentações. Era assim que ele vivia. Ainda que sua vida jamais tenha sido monótona, Chantel O'Hurley era, até agora, a maior tentação que tivera.
Depois de nadar 30 piscinas, a maior parte da tensão desaparecera. Em outras circunstâncias, Quinn teria um saco para esmurrar e se acalmar. Mas, naquela situação, estava disposto a usar o que estivesse disponível.
Tirando o cabelo molhado que lhe caía sobre o rosto, ele ficou em pé na parte rasa da piscina, com a água chegando até suas coxas. Foi quando Quinn a viu.
Deitada de costas na cadeira, o rosto escondido por um enorme guarda-sol branco, ela era o símbolo da beleza elegante e arrebatadora. Chantel prendera seu cabelo no alto e atrás, de modo que rosto não estava emoldurado. Chantel não precisava de molduras. E o maiô comportado que usava só reforçava isso. Ele era cavado nos ombros e bem justo na cintura, deixando à mostra suas pernas longuíssimas. Quinn admirou aquelas pernas en-quanto saía da piscina.
— Você tem bases sólidas, meu anjo.
— É o que dizem. — Virando-se para o lado, Chantel pegou uma toalha. — Vejo que já se instalou muito bem. — Ela lhe jogou a toalha, mas Quinn apenas a pendurou no pescoço. As gotas em sua pele bronzeada reluziam à luz do sol.
— Bela piscina.
— Eu gosto dela.
— Você deveria usá-la mais. Natação é um ótimo exercício para se manter em forma.
— Deixe que eu me preocupe com minha forma, Doran. — Ela estava começando a perder a calma. Chantel mascarou sua raiva com sarcasmo. — Isso vai demorar muito? Quero fazer minhas unhas esta tarde.
— Chegaremos a tempo.
— Nós? — Chantel não pôde conter um sorriso quando Quinn sentou-se à sua frente. — Eu não consigo imaginá-lo num lugar como o Unhas Feitas.
—Já estive em lugares piores. — Ele ajeitou a cadeira, colocando-se sob o sol. — Tem mais algum compromisso para hoje?
— Ah, talvez dar uma olhada nas vitrines na Rodeo Drive — disse Chantel, no calor do momento, só para dificultar as coisas. — Almoço no Ma-Maison, acho, ou talvez no Bistrô. — Ela apoiou o queixo nas costas da mão. — Já faz dias que não saio com ninguém. Você tem algo apropriado para vestir, não?
— Darei um jeito. E você tem aquele jantar de caridade à noite.
O sorriso dela desapareceu.
— Como sabia disso?
— Meu trabalho é saber. — Embora sem explicar, Quinn folheou suas anotações. — Minha secretária entrou em contato com Sean Carter e explicou que você tinha outro acompanhante.
— Então ela pode ligar para Carter de novo. Eu e ele combinamos de aparecer juntos para promover o filme.
— Você está disposta a entrar numa limusine escura com o homem que talvez seja...
— Não é Sean. — Depois de interrompê-lo, Chantel pegou o maço de cigarros que Quinn jogara sobre a mesa.
— Vamos fazer as coisas do meu jeito. — Quinn pegou o isqueiro e o acendeu. — Vou levá-la à sua festinha e, se você quiser, pode abraçar Sean para as câmeras. E quanto a amanhã?
Chantel lançou-lhe um olhar cheio de veneno.
— Diga-me você.
Quinn pacientemente abriu a pasta.
— Às 13 horas, um repórter e um fotógrafo da revista Estilo de Vida virão aqui para escrever uma matéria sobre você e a casa. Foi tudo o que consegui.
Chantel deixou o cigarro queimando sozinho num cinzeiro.
— Porque é tudo o que há. Eu tenho alguns compromissos pessoais aqui em casa e depois vou dormir cedo, porque tenho de trabalhar na segunda.
— Matt disse que você era mesmo uma mulher prática. — Quinn pegou a primeira folha da pasta. — Larry Washington.
— Acabe logo com isso — disse-lhe Chantel. — Você não vai mesmo ficar feliz até fazer isso.
— O menino parece ter a ficha limpa. Formou-se na Universidade da Califórnia no ano passado, em administração de empresas. Parece que sempre se sentiu atraído pelo teatro, mas prefere cenários e bastidores a atuar.
— E foi exatamente por isso que o contratei.
— Aparentemente, há seis meses ele teve uma espécie de relacionamento sério com uma colega. Uma atraente loura de olhos azuis. Ela terminou com ele.
Quinn não precisava deixar claro as implicações do que dizia.
— Existem várias mulheres de olhos azuis. E vários namoros de faculdade terminam.
— Amos Leery — continuou Quinn, ignorando-a. — Você sabia que a primeira esposa se divorciou dele porque não conseguia ficar longe das outras mulheres?
— Sim, sei. E isso foi há 15 anos, então...
— É difícil se livrar de velhos hábitos. George McLintoch.
— Isso é detestável, Doran. Mesmo para você.
— Ele trabalha como maquiador há 33 anos. Tem cinco netos e terá mais um no próximo outono. Desde que a esposa morreu, há uns dois anos, está tendo problemas com a bebida.
— Chega. — Ela se levantou e ficou andando pela beira da piscina. A água era cristalina. Assim como sua vida, há somente poucas semanas. — Isso basta, mesmo. Não vou ficar aqui sentada ouvindo-o descrever os problemas das pessoas com as quais trabalho. — Chantel olhou para trás, por sobre o ombro. — Seu trabalho é nojento.
— Você tem razão. — Ele não revelou nem por um instante seus sentimentos quanto àquele assunto. — James Brewster. Parece um cara com uma família estável. Casado há 21 anos, com um filho estudando direito na Costa Leste. O interessante é que ele faz análise há mais de dez anos.
— Todos nesta cidade fazem análise.
— Você, não.
— Farei, se você continuar por perto.
Ele sorriu brevemente e depois virou a página.
— Seu motorista, Robert, é um cara interessante. O jovem Robert DeFranco tem casos com várias mulheres.
— Parece ser da mesma espécie que você.
— Não posso deixar de admirar a resistência dele. Matt Burns.
Chantel deu meia-volta. Dessa vez Quinn não viu raiva, percebeu repulsa. Aquilo despertou algo nele.
— Como você pôde? — perguntou ela tranquila e dolorosamente. — Ele é meu amigo.
— É meu trabalho.
— Seu trabalho é espionar a vida das pessoas das quais você deveria gostar?
Ele continuou olhando-a fixamente.
— Não posso me dar ao luxo de gostar de outras pessoas a não ser dos clientes que estão me pagando. É o meu serviço.
— Então mantenha essa parte para você. O que quer que tenha descoberto sobre Matt, não quero saber.
Quinn não poderia deixar que Chantel fizesse com que ele se arrependesse do que fizera. Até porque Quinn já fizera coisas piores. Muito piores. Ele se perguntava como Chantel o trataria se soubesse.
— Chantel, você tem de pensar em todas as possibilidades.
— Não, você é quem tem. Você agora está ganhando 700 dólares por dia para fazer isso. É seu trabalho encontrar quem está me perseguindo e garantir minha segurança.
— É assim que faço isso.
— Ótimo. Desse modo, tudo o que quero ver de você é sua conta.
Ela começou a voltar correndo para dentro da casa, mas Quinn bloqueou a passagem.
— Cresça. — Segurando-a pelos ombros, ele a mantinha imóvel. Chantel estava chateada, Quinn percebeu, realmente chateada, por causa das pessoas de que gostava. Ele tinha de convencê-la de que não podia se dar ao luxo daquilo. — Qualquer pessoa pode estar fazendo estas ligações. Talvez seja alguém que você não conheça, mas meus instintos me dizem o contrário. Ele conhece você, moça. — Quinn a sacudiu de leve para reforçar o argumento. — E ele a deseja loucamente. Até que o encontremos, você vai fazer exatamente o que eu digo.
O telefonema daquela manhã ainda estava bem nítido em sua mente. Se tinha de fazer algum sacrifício, Chantel faria. Mas não gostaria disso.
— Farei o que você mandar, Doran, até certo ponto. Meu telefone será grampeado e terei aqueles malditos guardas no meu portão e você na minha casa, mas não ouvirei esse lixo.
— Em outras palavras, você vai se comportar, mas não quer saber dos detalhes.
— Você entendeu.
Quinn deixou as mãos caírem.
— Achei que fosse mais corajosa do que isso.
Chantel abriu a boca para gritar, mas a fechou de novo, porque Quinn estava com a razão. Ela simplesmente não tinha estômago para essas coisas. — Cale a boca, Doran.
Ela deu meia-volta e saiu. Observando-a, Quinn concluiu que, como sempre, podia confiar em seus instintos. Quando a pressão aumentasse, Chantel não se entregaria.
Capítulo Cinco
D
epois que passaram todo o fim de semana sem brigar, Chantel achou que poderiam conseguir. Ela não ficou feliz por ter de ir ao jantar com Quinn e fingir, para 300 pessoas, que estava adorando a companhia. Chantel disse a si mesma que deveria encarar aquilo como um trabalho — um trabalho particularmente difícil e nada interessante. Então, Quinn a colocara numa situação difícil. Ele foi encantador.
Surpreendentemente, o traje de gala combinava com ele. Ainda que o smoking não tenha suavizado seus modos rudes, tornou-os mais atraentes. Quinn jamais seria um homem suave, educado ou refinado. Por algum motivo, Chantel percebeu que estava feliz com isso. Ele podia até vestir terno e gravata, e itens mais sofisticados, mas você sabia — pelo menos se fosse mulher saberia — que por baixo de tudo havia um bárbaro.
Antes do fim do evento, Quinn bebera champanhe com o protagonista do filme mais visto do ano e dançara com uma atriz três vezes ganhadora do Oscar. Um ator veterano de 73 anos dera um tapinha no joelho de Chantel, dizendo-lhe que seu gosto pelos homens estava melhorando. Era difícil de engolir aquilo, mas nenhuma vez, durante toda a noite, Quinn dera a Chantel a oportunidade de repreendê-lo.
No domingo, ele a deixou sozinha. Quando os repórteres chegaram e ela concedeu a entrevista e fez com eles um passeio pela mansão, foi como se Quinn nem mesmo estivesse ali. Chantel sabia que ele estava por perto, em algum lugar, mas ele não invadiu sua privacidade. Ela se sentiu livre para voltar à sua leitura, para se deliciar com um demorado e relaxante banho de hidromassagem, para pôr a correspondência em dia e se ocupar com assuntos de negócios. Na segunda-feira de manhã, quando saiu de casa, Chantel estava quase prestes a rever sua opinião sobre Quinn.
Ela se sentia relaxada e ansiosa para trabalhar. Na noite anterior, terminara de ler o roteiro que começara a folhear na manhã de sábado — e estava mais empolgada do que nunca. Ela acordara Matt de um sono profundo para lhe dizer que conseguisse o papel. Talvez fosse algo vergonhoso de se fazer às 6 horas, mas Chantel se sentia ótima.
Ela deu uma olhada para Quinn ao seu lado, as pernas esticadas e os olhos fechados atrás dos óculos escuros. Dava para perceber que ele não se barbeava desde sábado. Parecia-lhe injusto notar que aquela aura de despojamento combinava tanto com ele.
— Noite difícil?
Quinn abriu apenas um olho. Então, sentindo que estava se esforçando demais, fechou-o novamente.
— Pôquer.
— Você jogou pôquer a noite passada? Eu não sabia que você tinha saído.
— Na cozinha — resmungou ele, perguntando a si mesmo quanto tempo demoraria para conseguir uma xícara de café.
— Minha cozinha? — Chantel franziu a testa, um pouco irritada por não ter sido convidada para o jogo.
— Com quem?
— Jardineiro.
— Rafael? Ele mal fala inglês.
— Não é preciso falar inglês para saber que uma trinca e um par ganham de uma sequência.
— Entendo. — Um sorriso surgiu nos lábios dela.
— Então, você e Rafael jogaram pôquer na cozinha, bebendo e dizendo mentiras.
— E Marsh.
— E Marsh o quê? — perguntou Chantel, a meio caminho de pegar um copo de água. — Marsh joga baralho? Meu Marsh?
— O cara alto, com poucos cabelos.
— Ora, Quinn, ele tem quase 80 anos e já está enferrujado. Estou surpresa que até mesmo você pudesse se aproveitar dele.
— Ele me tirou 83 dólares. Maldito velho filho-da-...
— Bem feito — disse Chantel, com satisfação. — Para você aprender a não ficar sentado na minha cozinha, se enchendo de cerveja, fumando charutos e se vangloriando de mulheres enquanto estou lhe pagando pelo seu tempo.
— Você estava dormindo.
— Isso não vem ao caso. Você está sendo pago para cuidar de mim, não para jogar pôquer.
— Pôquer fechado. E eu estava cuidando de você.
— Mesmo? — Ela levou o copo de suco aos lábios.
— Que estranho. Não vi nenhum sinal da sua presença ontem.
— Eu estava por perto. Você gostou do banho de hidromassagem?
— Como é que é?
— Você passou quase uma hora naquela banheira.
— Quinn pegou o suco da mão dela e o bebeu todo. Talvez aquilo servisse para tirar o gosto ruim da boca. — É engraçado, mas eu pensava que mulheres como você tinham dezenas de biquínis. Mas acho que não conseguiu encontrar nenhum.
— Você estava me vendo.
Ele lhe estendeu o copo e se recostou no assento novamente.
— É para isso que você me paga.
Chantel ficou indignada e bateu com o copo no suporte.
— Não estou pagando para você bancar o curioso. Alivie sua excitação nos seus momentos de folga.
— Meu tempo é seu tempo, meu anjo. E vi quase o mesmo que já havia visto quando gastei 10 dólares para assistir O fio da navalha. Além do mais, se fosse uma questão de excitação, eu teria me juntado a você.
— E eu o teria afogado — retrucou Chantel. Mas ela apenas sorriu e fechou os olhos novamente.
Sua cabeça latejava como uma britadeira. Ele já dormira pouco antes, mas fizera isso por sua própria escolha. O jogo de pôquer foi o modo que encontrara para se distrair e esquecer que Chantel estava dormindo no andar de cima. Foi seu jeito de tentar ignorar a imagem dela relaxada na água borbulhante da banheira de hidromassagem aquela tarde.
Quinn queria acreditar que não a espiara. Ele a vira entrar na casinhola anexa à piscina. Depois, já que Chantel não saía de lá, ele fora dar uma olhada. Ela estava descansando em uma enorme banheira, ouvindo um concerto de Rachmaninoff. Os cabelos soltos flutuavam sobre a espuma. E seu corpo... seu corpo era comprido, magro e branquinho. Quinn ainda podia sentir o impacto daquela visão como uma marreta em seu ponto fraco.
Ele não ficara ali para provocá-la ou importuná-la. E saíra do mesmo jeito que entrara: em silêncio. Quinn sentira um medo verdadeiro de que Chantel pudesse abrir os olhos e vê-lo saindo sem perturbá-la.
Chantel invadia seus pensamentos dia e noite. Quinn sabia que deveria ser capaz de evitá-los. Nada nem ninguém podia ter poder sobre ele. Mas estava começando a perceber como uma mulher pode se tornar uma obsessão apenas pelo fato de existir. Ele estava começando a entender como um homem podia perder a sanidade por causa de suas próprias fantasias.
Isso o fez ficar preocupado, porém ainda mais preocupado com Chantel. Se outro homem ficara obcecado por ela e o outro homem ultrapassara certos limites, a que ponto esse homem seria capaz de ir para tê-la? O caso das cartas e dos telefonemas estava começando a se tornar mais urgente. Quando o maluco pararia com as cartas e com os telefonemas para tentar algo mais desesperado?
Quinn não acreditava que Chantel, assustada como estava, fosse capaz de refletir sobre até onde aquele tipo de loucura poderia levar um homem. E quanto mais tempo passava perto dela, mais entendia o perigo de uma obsessão.
Eles filmariam nos fundos do estúdio naquele dia. Uma outra equipe de cinegrafistas já estava em Nova York, filmando externas. Chantel esperava ansiosamente pela hora de viajar para o Leste para algumas tomadas que deveriam ser filmadas lá. Isso lhe daria a chance de ver sua irmã Maddy e, com alguma sorte, assistir à peça que ela estrelava na Broadway.
Aquela possibilidade lhe despertou a alegria que durou até mesmo durante o atraso de uma hora que enfrentara enquanto os técnicos tentavam solucionar alguns problemas.
— Parece a Nova Inglaterra — comentou Quinn, dando uma olhada no cenário ao ar livre.
— Massachusetts, para ser exata — informou-lhe Chantel, beliscando um biscoitinho. —Já esteve lá?
— Nasci em Vermont.
— Eu nasci dentro de um trem — disse Chantel, mordendo mais uma vez o biscoito e rindo. — Bem, quase isso. Meus pais estavam a caminho de um espetáculo quando minha mãe entrou em trabalho de parto. Eles pararam bem a tempo de eu e minhas irmãs nascermos.
— Suas irmãs e você?
— Isso mesmo. Sou a mais velha de trigêmeas.
— Existem três de você! Meu Deus!
— Sou única, Doran. — Ela engoliu o restante do biscoito, deliciando-se com o ar fresco e com o sol. — Somos trigêmeas, mas cada uma de nós é única. Abby cria cavalos e cuida dos filhos na Virgínia, Maddy, atualmente, encanta plateias na Broadway.
— Você não me parece uma mulher muito apegada à família.
— Mesmo? — Chantel se sentia bem demais para se ofender. — Também tenho um irmão. Não sei lhe dizer o que ele faz, porque ninguém sabe ao certo. Eu me divido entre imaginá-lo como um gigolô ou um ladrão internacional de jóias. Você se daria bem com ele. — Ela observava alguns homens que pegavam uma grande pedra e a moviam alguns metros. — Incrível, não?
Quinn observava as árvores. Elas pareciam reais, iguais as que ele tinha em sua casa, até que você visse as bases de madeira.
— Existe alguma coisa real por aqui?
— Isso não é nada. Dê-lhes algumas horas e eles transformarão isso tudo numa selva do Quênia. — Espreguiçando-se, ela brincava com o gelo em seu copo. Chantel estava acostumada a esperar. — Era para filmarmos isso ao ar livre, mas tivemos problemas.
— Seu trabalho envolve um bocado de espera.
— Não é para pessoas impacientes. Voltei para meu trailer e fiquei esperando durante horas, até que me chamaram para uma cena de cinco minutinhos. Em outros dias, você é capaz de trabalhar durante 14 horas, ininterruptamente.
— Por quê?
— Por que o quê?
— Por que você faz isso?
— Porque é o que eu sempre quis fazer. — Era uma resposta direta. Chantel não entendia por que se sentia obrigada a se aprofundar naquele assunto. — Quando eu era pequena, me sentava no cinema e via o que podia acontecer, sabia que tinha de fazer parte daquilo.
— Então você sempre quis ser atriz? Ela jogou os cabelos para trás e sorriu.
— Sempre fui uma atriz. Eu queria ser uma estrela.
— Parece que conseguiu.
— Parece — murmurou Chantel, sentindo uma pontada de tristeza. — E quanto a você? Você sempre quis ser um... isso que você é?
— Eu queria ser um jovem delinquente, e estava indo muito bem.
— Parece fascinante. — Ela queria saber mais. Para ser honesta, Chantel queria saber tudo sobre ele, mas teria o maior cuidado em perguntar. — Por que não está cumprindo dez anos no presídio?
— Fui recrutado. — Quinn deu uma risadinha, mas ela percebeu que era uma piada que só ele entendia.
— O Exército forma homens.
— Algo assim. De qualquer modo, aprendi a fazer aquilo no que sou bom, ganhei dinheiro e saí da prisão.
— E no que você é bom? — Ela virou a cabeça, apenas o suficiente para ver a curiosidade e o desafio nos olhos de Quinn. — Esqueça o que acabei de perguntar. Vamos tentar outra coisa. Quanto tempo você ficou no Exército?
— Eu não disse que fui para o Exército. — Quinn lhe ofereceu um cigarro e depois o acendeu, enquanto Chantel balançava a cabeça.
— Você disse que foi recrutado.
— E fui. Recrutado e treinado pelo governo. Quer mais café?
— Não. Quanto tempo esteve nisso?
— Tempo demais.
— Foi lá que aprendeu a não dar uma resposta direta?
— Sim. — Quinn sorriu novamente. Depois, antes que os dois percebessem, ele se aproximou para tocar nos cabelos dela. — Você parece uma criancinha.
Seu coração não deveria estar batendo tão forte, mas estava. Era apenas um toque, umas poucas palavras e um longo olhar num mundo de mentiras, cheio de pessoas.
— Essa é a ideia — Chantel conseguiu dizer. — Tenho 20 anos nessa cena. Sou inocente, ansiosa e ingênua... E estou prestes a ser deflorada.
— Aqui?
— Não. Na verdade, ali. — Ela apontou para uma clareira na floresta criada pela equipe técnica. — O caipira do Brad me seduz, com a promessa de devoção eterna. Ele desperta uma paixão intensa, do tipo que até então eu devotara apenas às minhas pinturas. Depois ele me explora.
Quinn mordeu a língua.
— Com todas essas pessoas olhando?
— Adoro uma plateia.
— E você ficou com raiva porque a vi na banheira.
— Você...
— Eles a estão esperando, Chantel.
Depois de acenar para o assistente, Chantel se levantou e cuidadosamente tirou a poeira das calças.
— Sente-se, Doran — sugeriu ela. — Talvez você aprenda algo.
Aceitando o conselho, Quinn a viu passar e repassar a cena várias vezes. De onde estava, parecia uma desanimada cena de amor — uma mulher ingênua, um homem esperto, num belo cenário primaveril. Plástico, pensou ele, olhando para as folhas das árvores, puro plástico. Quinn conservava os olhos em George, o maquiador que retocava o rosto de Chantel para manter aquela aparência orvalhada e virginal intacta. Um dos cenógrafos lhe devolveu o bloco de desenho e um lápis.
— Aos seus lugares. Silêncio. — O burburinho desapareceu, sendo substituído pelo silêncio. — Ação. Rodando. — Alguém bateu a claquete para a primeira tomada. — Ação.
Começou do mesmo jeito, com Chantel sentada sobre uma pedra, desenhando. Sean entrou, ficou parado olhando para ela durante algum tempo. Quando Chantel ergueu os olhos e o viu, Quinn sentiu que sua boca ficou seca. Tudo o que um homem poderia querer estava naquele olhar. Amor, confiança, desejo. Se um homem tivesse uma mulher capaz de olhá-lo daquele modo, ele podia ganhar todas as guerras e escalar montanhas.
Ele nunca quis ser amado. O amor o prendia e o tornava responsável por outra pessoa. Exigia o mesmo ou mais do que lhe dava. Era isso o que ele pensava, era disso que ele estava certo, até ver aquele olhar de Chantel.
Um filme, lembrou-se, ao perceber que perdera cinco minutos de filmagem. Eles já estavam rodando a segunda tomada. O olhar de Chantel era uma ilusão, tanto quanto a floresta na qual estavam. E não era direcionado a Quinn. Era apenas um filme, e ela era uma atriz. Tudo isso fazia parte de um roteiro.
Da primeira vez em que Sean Cárter a tocou, Quinn ficou tenso. Para a felicidade dele, a diretora interrompeu a cena.
Quando retomaram a filmagem, Quinn disse a si mesmo que estava no controle. Recordou que só estava ali porque era pago para aquilo. Chantel não significava nada para ele, pessoalmente. Ela era apenas um caso. Ele não se importava com quantos homens ela fizera amor, diante das câmeras ou longe delas.
Então, Quinn viu que Chantel dava um beijo suave e hesitante em Sean — e pensou em matar.
Era apenas uma cena de um filme, com pedras, árvores e emoções falsas. Mas tudo parecia tão real, tão verdadeiro! Ao redor dele estavam dezenas de pessoas, com máquinas para controlar luzes e microfones. Quando Sean puxou Chantel para perto, a câmera o acompanhou.
Mas ela se arrepiou. Droga, Quinn vira o arrepio quando Sean tirou-lhe a faixa dos cabelos e os deixou caírem livremente. Chantel ficou com a voz trêmula quando ela lhe disse que o amava, que o queria e que não estava com medo. Quinn descobriu que suas mãos estavam fechadas em punho dentro de seus bolsos.
Chantel fechou os olhos quando Sean a beijou por todo o rosto. Ela parecia tão jovem e vulnerável, tão prestes a fazer amor! Quinn não percebeu a câmera se aproximando. Ele apenas viu Sean desabotoando-lhe a blusa e os olhos dela, arregalados e azuis, fixos nos do namorado. Ela desabotoou-lhe a camisa, hesitante. Chantel ficou vermelha quando jogou a camisa dele para o lado e colou seu rosto ao peito de Sean. Eles se deitaram na grama.
— Corta!
Quinn voltou à realidade, assustado. Ele observou enquanto Chantel se sentava e depois dizia algo a Sean que o fez rir. Ela estava usando um sutiã sem alças, pequenino, que ficaria fora de quadro, e calças jeans. Larry jogou-lhe a blusa sobre os ombros e Chantel sorriu distraidamente para ele.
— Vamos filmar novamente. Chantel, depois que você tirar a camisa dele, quero que erga a cabeça. — Mary Rothschild agachou-se enquanto Chantel abotoava a blusa. — Nesse ponto, quero um beijo longo, antes que vocês se deitem na grama.
Em algum momento durante a quinta tomada Quinn recobrou sua objetividade. Ele examinava as expressões das pessoas que olhavam a filmagem. Se havia um nó em seu estômago, agora ele podia ignorá-lo. Seu trabalho era descobrir quem podia estar observando Chantel não de um jeito admirável, e sim alguém que poderia se consumir em ciúmes. Ou fantasias. Não seria bom para nenhum dos dois se essa pessoa fosse ele mesmo.
Quinn pegou um cigarro e ficou observando os rostos ao redor. Ele estava à espera de relatórios sobre todos, do fotógrafo ao contrarregra. Seu instinto lhe dizia que, quem quer que estivesse enviando as cartas, era alguém que Chantel conhecia, com quem ela podia conversar trivialidades diariamente.
Ele queria descobrir o criminoso, e pretendia fazer isso rapidamente. Antes que acabasse obcecado também.
O assistente de direção passou o braço sobre o ombro de Chantel e, com a cabeça bem perto do ouvido dela, conduziu-a para fora do cenário. Antes que alcançassem o trailer que servia como camarim, Quinn estava na frente deles.
— Indo a algum lugar?
Chantel lançou-lhe um olhar torto, mas manteve a calma.
— Para falar a verdade, vou sair do sol um pouco. Amos estava me dando uma lista das cenas agendadas para hoje. Você terá de perdoar Quinn, Amos. Ele é um tanto... possessivo.
— Não posso culpá-lo. — O educado e rechonchudo Amos deu-lhe um tapinha no ombro. — Você estava maravilhosa, Chantel. Simplesmente maravilhosa. Nós a chamaremos quando precisarmos de você para os closes. Você tem, talvez, meia hora.
— Obrigada, Amos. — Chantel esperou até que ele saísse para se virar para Quinn. — Não faça isso.
— Fazer o quê?
— Você só precisa de uma faca entre os dentes — resmungou ela, abrindo bruscamente a porta do trailer. — Eu lhe disse que Amos é inofensivo. Ele...
— Tem o hábito de tocar em mulheres. E uma dessas mulheres é minha cliente.
Chantel pegou um refrigerante dietético do frigobar e deixou-se cair no sofá.
— Se não quisesse que ele me tocasse, eu lhe garanto que ele não me tocaria. Esta não é a primeira vez que trabalho com Amos. E, a menos que você insista em agir como um idiota, não será a última.
Quinn abriu o frigobar e, para sua alegria, encontrou cerveja.
— Olhe, meu anjo, não posso diminuir a lista de suspeitos para fazer sua vontade. Já é hora de parar de fingir que a pessoa que a está deixando apavorada não é alguém que você conheça.
— Não estou fingindo — disse Chantel.
— Está. — Ele abriu a garrafa de cerveja e bebeu antes de se sentar ao lado dela. — E está fingindo sem metade do estilo que mostrou rolando lá na grama há alguns minutos.
— Aquilo era trabalho. Isto é minha vida.
— Exatamente. — Quinn a segurou pelo queixo de um jeito que fez seus olhos brilharem. — E minha tarefa é cuidar dela. Se isso a faz se sentir melhor, estamos quase excluindo Carter.
— Sean? — Chantel sentiu, primeiro, uma onda de alívio, depois, outra, de cautela. — Por quê?
— Por uma questão simples de lógica. — Ele bebeu mais um gole da cerveja, mantendo-a no ar. — Acho que se um homem está obcecado por uma mulher... Você concorda que estamos lidando com uma obsessão?
— Sim, droga. — Ela tirou a garrafa das mãos dele. — Aonde você quer chegar?
— Quero dizer que se eu ultrapassasse os limites por causa de uma mulher, não seria capaz de me levantar, sacudir a poeira e me afastar depois de passar boa parte do dia abraçado, seminu, com ela.
— É mesmo? — Chantel lhe devolveu a cerveja. — Eu me lembrarei disso. — Mais relaxada, ela se recostou nas almofadas e esticou as pernas. — O que achou da cena?
— Vai fazer muita gente suar.
— Ah, pare com isso, Quinn. — Levantando a garrafa, Chantel ficou olhando as gotas que pendiam dela.
Não era uma questão de sexo, apenas; era um abuso da inocência e da confiança. O que aconteceu com Hailey naquele bosque da Nova Inglaterra terá consequências por toda a vida dela. Uma simples brincadeira entre os pinheiros não tem esse efeito.
— Mas uma simples brincadeira entre os pinheiros vende ingressos.
— Esse é um filme para a televisão. O que buscamos é audiência. Droga, Quinn, investi muito naquela cena. Ela é uma reviravolta na vida de Hailey. Se isso não significa mais do que...
— Você esteve boa — interrompeu ele, o que fez com que Chantel o encarasse.
— Bem. — Ela abaixou a garrafa. — Pode repetir isso?
— Eu disse que você esteve boa. Mas não sou eu quem dá prêmios, meu anjo.
Chantel encolheu as pernas e apoiou a cabeça sobre os joelhos. Com uma nesga de sol entrando pelas cortinas, ela ainda parecia jovem e inocente.
— Boa mesmo?
— Como você consegue mimar seu ego quanto está sozinha?
— Eu nunca neguei que tenho o ego inflado. Boa mesmo?
— Boa o bastante para que eu quisesse dar um soco em Carter.
— Mesmo? — Feliz, ela mordeu o lábio. Chantel agiria com cautela. Ela não pretendia deixar que Quinn soubesse o que significava aquele elogio. — Antes ou depois que as câmeras estavam rodando?
— Antes, durante e depois. — Inesperadamente, Quinn se esticou para segurá-la pela blusa. — E não abuse da sorte, meu anjo. Tenho o péssimo hábito de tomar para mim tudo que me agrada.
— Você tem classe, Doran. — Chantel afastou os dedos dele de sua blusa. — Terceira classe.
— Apenas lembre-se disso, meu anjo. Sabe, senti um ou dois arrepios ao ver você e o Carter passando a mão um no outro.
— Nós não estávamos...
— Chame como quiser. Mas você era boa e não perdi meu tempo olhando só para você. Olhei em volta e vi algumas coisas bem interessantes.
— Como...?
— Brewster fumou meio maço de cigarros enquanto você e Carter estavam... trabalhando.
— Ele é um homem nervoso. Já vi escritores fazendo coisas piores quando seus roteiros estavam sendo filmados.
— Leery quase caiu no seu colo tentando ver mais de perto.
— O trabalho dele é olhar.
— E seu assistente quase engoliu a língua quando Carter tirou sua camisa.
— Pare agora mesmo! — Levantando-se rapidamente, ela correu até uma das janelas. A equipe logo a chamaria. Não seria nada bom se Chantel deixasse tudo aquilo que Quinn estava dizendo a incomodasse. — Até onde sei, todos no set também o viram vidrado na cena.
— O que levanta outra questão. — Quinn sentou-se e esperou que Chantel voltasse a olhar para ele. — Matt ainda não apareceu no estúdio. Estranho. Você não é a cliente mais importante que ele tem?
Chantel o ficou encarando por um bom tempo.
— Você está mesmo determinado a me deixar sozinha, completamente sozinha.
— Isso mesmo. — Ele ignorou o gosto amargo em sua garganta. — Por enquanto, você deve confiar em mim, só em mim.
— A equipe vai me chamar logo. Vou deitar um pouco. — Sem olhá-lo, Chantel foi para os fundos do trailer.
Quinn sentiu uma vontade repentina de jogar a garrafa de cerveja contra a parede, apenas para ouvi-la se quebrando. Chantel não tinha motivos para fazê-lo se sentir culpado. Ele estava cuidando dela. Era para isso que estava sendo pago. E era mesmo muito mais fácil se Chantel tivesse algumas suspeitas. Se isso significava que ela teria de chorar um pouco, paciência. Quinn não estava preocupado com isso. Ele não se importava.
Praguejando, Quinn bateu com a garrafa na mesa ao lado dele. Brigando consigo mesmo, saiu correndo pelo trailer e foi até o quarto.
— Olha, Chantel...
Ela estava sentada ao pé da cama, olhando para baixo, para o envelope em suas mãos. Quinn sentiu o cheiro doce e macabro de rosas selvagens antes de vê-las sobre a cômoda.
— Não consigo abri-lo — murmurou ela. Quando Chantel levantou os olhos para Quinn, ele sentiu algo se revirar em seu estômago. Não era apenas a palidez dela. Não era apenas o medo, visível pelo modo como seus dedos tremiam. Era o completo e inequívoco desespero em seus olhos. — Não suporto mais isso.
— E não tem que suportar. — Com uma solidariedade que Quinn considerava perdida há muitos anos, ele sentou ao lado de Chantel e a abraçou. — É para isso que estou aqui. — Ele tirou lentamente o envelope dos dedos dela. — Não quero que abra mais nenhuma carta. Se receber alguma, você deve me entregá-la.
— Não quero saber o que está escrito. — Chantel fechou os olhos, odiando-se por isso. — Apenas livre-se dessa carta.
— Quanto a isso, não se preocupe. — Quinn enfiou a carta no bolso traseiro da calça e lhe deu um beijo no alto da cabeça. Ele tinha de fazer algumas perguntas, muitas perguntas sobre quem tivera acesso ao camarim dela naquele dia. — Parte do acordo é que você confie em mim. Apenas me deixe cuidar de tudo.
A cabeça apoiada no ombro dele balançou só uma vez, negando.
— Você não pode acabar com o que sinto por causa dessas cartas. Eu sempre quis ser alguém. Sempre quis me sentir importante. É por isso que estou sendo perseguida? — Com um soluço seco, ela se afastou de Quinn. — Talvez você esteja com a razão. Talvez eu tenha pedido por isso.
— Pare. — Ele a segurou firmemente pelos ombros e pediu que Chantel controlasse as lágrimas que ele via surgindo. — Eu estava descontrolado. Você é linda e talentosa, e tirou proveito disso. O que não significa que seja a culpada pela loucura de outra pessoa.
— Mas sou eu o que ele quer — disse, baixinho. — E estou com medo.
— Não vou deixar que nada lhe aconteça. Chantel respirou fundo, dando-lhe a mão.
— Você assinaria isso com sangue?
Ele sorriu, acariciando-lhe o rosto com um dedo.
— De quem?
Precisando de contato humano, Chantel apoiou o rosto contra o dele por um momento. O gesto lhe provocou um arrepio.
— Obrigada.
— Claro.
— Olhe, sei que não estou tornando isso tudo mais fácil para você. — Chantel se afastou novamente. Quinn teve suas preces atendidas: ela não estava chorando. — Eu não quis fazer isso.
— Eu trabalho com problemas. Além do mais, gosto do seu estilo.
— Já que estamos sendo bonzinhos um com o outro, acho que vou confessar que também gosto do seu estilo.
— Que dia memorável — murmurou ele, levando a mão de Chantel aos lábios.
Foi um erro. Eles se deram conta disso assim que fizeram contato. Por sobre os dedos juntos, seus olhares se encontraram. Chantel achava que era capaz de sentir a tensão passar da mão dele para a dela. Não era uma questão de tentação, desejo ou paixão repentina. Era uma necessidade! Ela precisava sentir o abraço de Quinn novamente, aqueles braços quentes, fortes e exigentes. Chantel sabia que tudo mais podia sumir se ficassem juntos naquele momento.
Eles ainda estavam de mãos dadas, e Chantel não reclamou quando Quinn a apertou forte. No que ele estava pensando? De repente, parecia uma necessidade entender e ver o que se passava na mente e no coração de Quinn. Ele a queria? Haveria alguma possibilidade de ele querê-la com a mesma intensidade que Chantel o queria?
Nenhuma outra mulher o fizera latejar tanto assim. Não de desejo. Nenhuma outra mulher fizera seu sangue ferver. Não com apenas um olhar. Quinn achou que era capaz de ficar ali, sentado por toda a eternidade, apenas admirando o rosto dela. Era só a beleza? Será que Quinn estava mesmo envolvido somente por causa de um rosto perfeito?
Ou seria outra coisa, algo que parecia fluir do seu íntimo? Havia algo de desconcertante e até mesmo secreto, que transparecia nos olhos de Chantel se você olhasse com bastante atenção. Quinn achava que vira o mistério. Então só conseguiu pensar no quanto a desejava.
Com a mão livre, ele começou a acariciar-lhe os cabelos. Eram feitos de ouro, como os cabelos de um anjo. Foi nisso que Quinn pensou. Mas Chantel era também corpo e alma. Não uma fantasia, uma mulher. Ele se inclinou e a viu fechar os olhos.
Ao ouvir a batida na porta do trailer, Chantel se levantou com a rapidez de uma flecha. Ela pôs as duas mãos sobre o rosto e balançou a cabeça quando Quinn se aproximou.
— Não, está tudo bem. É apenas alguém me chamando para voltar ao set.
— Sente-se. Vou dizer que você não está se sentindo bem.
— Não.— Ela deixou as mãos caírem ao lado do corpo. — Não, isso não vai interferir no meu trabalho.
— Sua mão esquerda fechou-se num punho e Quinn percebeu que Chantel estava se esforçando para recobrar o equilíbrio.— Não posso deixar que isso aconteça.
— Virando-se, ela olhou para as rosas sobre a cômoda.
— Não deixarei.
Quinn queria controlá-la, mas ele sabia que aquela era uma das coisas que mais admirava em Chantel, desde o início. Ela era bastante forte para contra-atacar.
— Tudo bem. Você quer mais alguns minutos?
— Sim, talvez. — Ela foi até a janela e abriu as cortinas para que a luz do sol entrasse. Tudo aquilo era assustador de mais para se pensar na escuridão. À noite Chantel ficava sozinha com seus pensamentos e com sua imaginação. O sol estava brilhando, observou, com toda a intensidade. E ela precisava trabalhar.
— Você se importaria de avisá-los que voltarei em um minuto?
— Deixe que eu cuido disso. — Quinn hesitou, querendo se aproximar, mas sabendo que seria um erro para ambos. — Estarei ali fora, Chantel. Não saia até que esteja pronta.
— Eu ficarei bem.
Ela esperou até ouvi-lo saindo antes de apoiar a testa no vidro da janela. Chorar podia ser um alívio. Chorar, gritar, extravasar — qualquer coisa serviria para acalmar-lhe os nervos. Mas Chantel não podia se permitir tal coisa, assim como não podia se permitir que o incidente a transtornasse tanto. Ela teria de trabalhar ainda por muitas horas antes que o dia terminasse. Chantel precisava de sabedoria e força.
Ela se prometeu que conseguiria. Respirando fundo, Chantel se virou da janela. As flores não estavam mais ali. Ela ficou olhando para a mesa com uma sensação meio tola de alívio. Quinn as levara. E Chantel nem mesmo teve de pedir.
Que tipo de homem era ele? Rude e grosseiro num minuto, afetuoso no outro. Por que ele não era um homem fácil de se entender e de se desprezar? Balançando a cabeça, Chantel foi para a parte da frente do trailer. Era impossível compreendê-lo. E Quinn despertava algo dentro dela. Ele podia ser qualquer coisa, menos o tipo de homem com o qual uma mulher se sentiria à vontade.
Mas Chantel se sentia tão segura sabendo que Quinn estava por perto...
Se não se conhecesse muito bem, se não estivesse tão certa de seu próprio controle, Chantel poderia até mesmo acreditar que estava se apaixonando por ele.
Capítulo Seis
N
ão foi uma semana tranquila e relaxante, ainda que Chantel tivesse passado boa parte dela na cama. Sua cama era grande, macia e toda decorada — ela ficava no set de filmagens, no estúdio D. A cena principal a ser filmada era a da noite de núpcias dela — ou melhor, de Hailey —, não com o homem que amava, mas com o homem que queria amar.
Entre os adereços do cenário havia um balde de gelo com champanhe, uma pele de zebra jogada sobre uma poltrona e uma mesa cheia de rosas regadas constantemente para mantê-las frescas sob os refletores. Don Sterling, um ator relativamente desconhecido, fora escolhido para interpretar o homem com o qual Hailey se casaria. Ele fora escalado principalmente por causa da aparência e da química. Embora o último ensaio com Chantel tivesse sido excelente, Sterling estava nervoso, e isso o fizera estragar a cena meia dúzia de vezes pela manhã.
Abraçada a ele, Chantel sentiu-o apertá-la. Antes que ele pudesse estragar a cena mais uma vez, ela interrompeu a filmagem, na esperança de tirar um pouco da pressão de cima do ator.
— Desculpe — disse, dando de ombros. — Podemos fazer um intervalo de cinco minutos, Mary? Estou apertada.
— Vamos fazer um intervalo de dez, então — ordenou Rothschild, virando-se para conversar com o assistente.
— Que tal uma xícara de café? — Chantel pegou o roupão que lhe estavam estendendo e o vestiu enquanto sorria para Don.
— Só se eu puder me afogar nele.
— Mas tente bebê-lo antes. — Ela fez um sinal para Larry e depois se sentaram em banquinhos dispostos num canto relativamente tranquilo. Ao ver que Quinn se aproximava, Chantel fez que não, inclinando-se para mais perto de Don. — É uma cena difícil.
— Não deveria ser. — Ele passou a mão pelos cabelos escuros e grossos.
— Olhe, do jeito que até agora eles estão filmando a minissérie, só tivemos umas poucas cenas juntos. A primeira coisa que você deve saber é que nós nos casamos e estamos em nossa lua-de-mel. — Chantel pegou o café das mãos de Larry. — Não sei quanto a você, mas acho mais fácil ir para a cama com alguém depois que o conhece um pouco.
Segurando a xícara com as duas mãos, Don conseguiu dar uma risadinha abafada.
— Eu deveria agir como um ator.
— Eu também.
— Você consegue fazer a cena de olhos fechados. — Ele bebeu o café e depois, com uma expressão de nojo, o pôs de lado. — Vou ser honesto: você me deixa muito intimidado. — Ao ver que Chantel apenas arqueara uma sobrancelha, Don bufou longamente e olhou para longe. — Quando meu agente me ligou e me disse que eu conseguira esse papel e que contracenaria com você, quase entrei em coma.
— Isso só torna mais difícil simular uma paixão. — Chantel pôs sua mão sobre a dele. — Olhe, no ensaio você foi ótimo. Nenhum outro homem chegou perto.
— A ponta no ateliê de Hailey. — Ele pegou a xícara de café com um olhar pesaroso. — Não havia nenhuma cama por perto.
— A primeira cena de amor que fiz foi contracenando com Scott Baron. Uma lenda em Hollywood, o homem mais sexy do mundo. Eu tinha de beijá-lo, mas meus dentes estavam tremendo, de tanto medo que eu sentia. Ele me levou para um canto, comprou um san-duíche de atum para mim e me contou várias histórias, metade das quais, com certeza, era mentira. Depois ele me disse uma coisa que era verdade: todos os atores eram crianças e que as crianças gostavam de brincar. Se nós não brincamos bem, temos de crescer e arranjar trabalhos de verdade.
A tensão que Chantel vira na boca de Don já diminuíra.
— Funcionou?
— Não sei se foi por causa do que ele disse ou por causa do sanduíche de atum, mas voltamos às filmagens e eu brinquei.
— Você roubou a cena naquele filme. Ela sorriu.
— Ouvi dizer. — Chantel continuou a sorrir enquanto bebia seu café. — Mas não pense que vou deixar que você roube a cena nessa minissérie.
— Você errou aquela última fala de propósito. Chantel podia se tornar uma estrela intratável com não muito mais do que um menear de cabeça.
— Não sei do que está falando.
— Você tem uma reputação de ser fria e determinada — comentou ele. — Não esperava que você fosse, bem, tão legal.
— Não espalhe. — Levantando-se, Chantel estendeu-lhe a mão. — Vamos acabar de uma vez com essa lua-de-mel.
A cena saiu perfeita. Quinn não sabia o que Chantel dissera a Don durante o intervalo, mas o truque dera certo. Quanto ao próprio Quinn, ele estava aprendendo a não ficar tão tenso quando Chantel estava nos braços de outro. Era difícil alimentar qualquer ressentimento com toda aquela tecnologia envolvida na filmagem. As luzes tinham de ser ajustadas para simular uma iluminação com velas. Chantel e Don se deitavam na cama, ele de peito nu e ela numa camisola que lhe cobria as coxas. A câmera estava quase em cima deles. A diretora, agachada ao lado da cama, determinava os movimentos. Quando ordenado, Chantel e Don se viravam um para o outro como se fossem as únicas duas pessoas sobre a Terra.
Quinn ficou pensando em como era fácil, para Chantel, simular uma paixão. Quando a via daquele jeito, ele se perguntava se Chantel tinha algum sentimento verdadeiro. Suas emoções pareciam ser desligadas e ligadas sob as ordens da diretora. Como se fosse uma bela marionete, pensou Quinn, bem construída por fora e vazia por dentro.
Mas ele a abraçara. E sentira a paixão crescendo dentro dela. Os sentimentos, desejos e inseguranças estavam lá, para que Quinn os tocasse. Ou será que isso tudo também fora parte de um teatrinho? Aquilo não deveria importar, lembrou-se, acendendo um cigarro. Quinn não podia deixar que importasse. Chantel era um trabalho — nada mais. Se ela despertava sentimentos, e com certa regularidade, Quinn teria apenas de se afastar um pouco. Para um homem incapaz de se controlar plenamente, um envolvimento com uma mulher como Chantel O'Hurley era suicídio.
Mas, quando olhou para ela, Quinn ficou com a boca seca.
É apenas desejo, disse para si mesmo. Ou, para ser mais exato, luxúria. Não havia como negar que desejá-la era algo tão fácil e natural quanto respirar. Mas não fora desejo ou luxúria o que Quinn sentira ao segurá-la em seus braços.
Então, isso significava que Quinn ainda era capaz de sentir um pouco de compaixão. Ele encontrou uma cadeira e descobriu que estava excitado demais para permanecer sentado. Quinn seria uma pessoa muito fútil se não sentisse compaixão ou se não fosse capaz de consolar uma mulher apavorada e vulnerável.
Mas aquilo não tinha sido simplesmente compaixão; fora algo semelhante a um êxtase. Mesmo agora, Quinn percebia a fúria incandescente que o assolava ao pensar naquela mulher sendo ameaçada. Sua mulher! Aí é que estava o problema. Quanto mais tempo ficava perto de Chantel, mais fácil estava se tornando pensar nela como sua.
Afaste-se disso, Doran, ordenou-se. E logo. Se ele não se recuperasse logo, seria incapaz de compreender a situação. Não era algo que poderia durar muito tempo.
Quinn esmagou o cigarro, desejando que aquele dia interminável chegasse ao fim.
Naquela semana, Chantel recebera mais duas cartas — que Quinn não lhe mostrara. O tom mudara, de suplicante a quase lacrimoso. Aquilo preocupou Quinn mais do que as ameaças sutis das primeiras cartas. O autor estava prestes a enlouquecer. E quando isso acontecesse, Quinn tinha certeza de que seria como um gêiser, rápido e violento. Como não estava com muita paciência, Quinn esperava que aquilo acontecesse logo. Assim, teria como liberar um pouco daquela fúria que crescia dentro de si.
— Acabamos, pessoal. Nada de exageros no fim de semana. Queremos vocês vivos e em forma na segunda-feira.
Ainda usando a camisola, Chantel sentou na beira da cama, mantendo uma conversa honesta com Don. Ciúme. De onde aquilo surgira e por quê, Quinn não tinha a menor ideia. Ele sempre fora uma pessoa desapegada. Se uma mulher, mesmo uma mulher com a qual estivesse envolvido, decidisse olhar para outro homem, o problema era dela. Sem amarras, dor ou complicações. Quinn vivera assim muito bem a vida toda. Nunca sentira essa fisgada por causa de uma mulher. Quinn estava sentindo agora, e não estava gostando nada daquilo — nem de si mesmo. Incapaz de se conter, ele se aproximou e puxou Chantel.
— A brincadeira acabou — disse, segurando-a.
— Me largue — disse-lhe baixinho, a caminho do trailer.
Larry se pôs na frente dela com as roupas mas, ao ver o olhar de Quinn, recuou.
— Apenas cale a boca.
— Doran, este é meu local de trabalho, mas se você continuar com isso vou criar o maior escândalo que seu cérebro doente já imaginou. Você lerá sobre isso nos jornais durante semanas.
— Vá em frente. Chantel ficou séria.
— Qual é o seu problema?
— Você é o meu problema, moça. Para uma mulher que deveria olhar por onde anda, você está ficando íntima demais daquele menino.
— Menino? Don? Pelo amor de Deus, ele é um colega e não é nenhuma criança. Ele é dois anos mais velho do que eu.
— Você o estava deixando louco.
— Você não se cansa de repetir sempre as mesmas coisas? — Chantel libertou o braço com um movimento brusco e abriu a porta do camarim sozinha. — Se você tivesse feito seu trabalho, já teria um relatório sobre Don Sterling e saberia que ele está praticamente noivo da mulher com quem namora há dois anos.
— E a mulher em questão está a milhares de quilômetros daqui, em Nova York.
— Sei disso. — Quando se mexeu para tirar o cabelo que lhe caía sobre o rosto, a camisola deslizou, com a seda farfalhando sobre a pele. — Ele estava justamente me dizendo que iria pegar o voo noturno para a Costa Leste para passar o fim de semana com ela. Don está apaixonado, Doran, se bem que percebo que você talvez não entenda muito disso.
— Um homem pode estar apaixonado por outra mulher e ainda assim querer você.
Chantel bateu a porta do trailer e se apoiou nela.
— O que você sabe sobre o amor? O que sabe sobre qualquer sentimento verdadeiro?
— Você quer sentimento? — Quinn apoiou as mãos espalmadas na porta, ao lado da cabeça de Chantel. Embora de olhos arregalados, ela permaneceu imóvel. — Você quer experimentar o tipo de sentimento que desperta num homem? O sentimento verdadeiro, meu anjo, e não algo tirado das páginas de um roteiro. Você acha que é capaz de suportar?
Seu coração batia forte. Era loucura, mas Chantel queria mesmo que Quinn a puxasse, atacasse, sugasse e enfraquecesse. Tudo o que ela via nos olhos dele era fúria, mas de algum modo Chantel gostou daquilo. Se raiva era tudo o que Quinn podia sentir por ela, quase bastava. Chantel estava disposta a aceitar aquilo — o que a deixou ainda mais assustada.
— Deixe-me sozinha — sussurrou.
— Você é bem inteligente para ter medo de mim.
— Não tenho medo de você. Quinn se aproximou ainda mais.
— Você está tremendo.
— Estou furiosa. — Ela apoiou as mãos espalmadas e úmidas contra a porta.
— Talvez esteja. E talvez esteja tremendo porque não sabe ao certo o que acontecerá. Não é algo que foi escrito, não é, Chantel? Não é algo tão fácil de ligar e desligar.
— Saia da minha frente.
— Ainda não. Quero saber o que você sente. — Ele pressionou seu corpo levemente contra o dela. — Quero saber se você está sentindo alguma coisa.
Chantel estava perdendo espaço — e o que restava era incerto. Se Quinn a tocasse naquele momento, realmente a tocasse, ela receava se entregar totalmente. Como Chantel poderia lhe dizer o que sentia, já que o que sentia ia contra todas as suas regras? Chantel queria ser abraçada, protegida, acariciada e amada. Se ela lhe dissesse isso, Quinn apenas sorriria e tomaria o que queria. E Chantel já fora deixada sem nada antes — e isso jamais lhe aconteceria novamente.
Chantel empinou o nariz e esperou até que os lábios dele estivessem a poucos centímetros dos dela.
— Você não é muito diferente do homem que está me perseguindo, e do qual você deveria me proteger.
Quinn deu um passo para trás, como se Chantel o tivesse estapeado. O olhar de surpresa dele fez com que ela quisesse se grudar a Quinn. Mas, em vez disso, Chantel se segurou na porta e esperou que ele agisse.
— Vista algo — disse-lhe Quinn, afastando-se para o lado.
Enquanto Chantel ia se trocar, ele foi ao frigobar para pegar uma cerveja. Ela tinha razão. Quinn abriu a garrafa e deu dois grandes goles. Ele queria assustá-la, enfraquecê-la e possuí-la ali, do seu jeito. Se pudesse apenas provar a si mesmo que o que acontecera entre eles era algo frio e calculado, talvez Quinn acreditasse que Chantel não significava nada.
Ele quis machucá-la. Chantel estava ameaçando sua paz de espírito, e Quinn precisava contra-atacar. Ele teria usado o sexo para se purificar e para puni-la pelas noites insones que Chantel lhe causara. A pontada de repulsa era algo tão diferente e intragável quanto a fisgada de ciúme que Quinn sentira há pouco.
Ele disse a si mesmo para dar um passo atrás, mas mesmo assim deu um salto à frente, caindo bem no alvo. Quinn fizera e vira coisas em sua vida que deixariam outras pessoas pálidas e sem fala. Mesmo assim, pela primeira vez, ele se sentia verdadeiramente desgraçado.
Quando ouviu que Chantel estava voltando, Quinn jogou a garrafa de cerveja no lixo. Ela vestia calça de linho cor de rosa e uma jaqueta com uma estampa de motivos florais, esmaecida. Ela parecia tranquila, calma, nem um pouco a perturbada e aturdida personagem que interpretara o dia todo.
Sem dizer nada, Chantel passou por Quinn e pôs a mão na maçaneta. Antes que pudesse abrir a porta, ele pôs sua mão sobre a dela, e se amaldiçoou ao ver que Chantel ficara rígida, olhando-o friamente e com desprezo.
— Você tem todo o direito de me insultar o quanto quiser — disse ele, tranquilamente. — Não vou me importar.
Chantel ficou um momento sem dizer nada. Então, sentindo a raiva se dissipando, ela suspirou. Chantel estava cansada, exausta do trabalho intenso e das repetições de emoções.
— Vou deixar para outro dia.
Ela girou a maçaneta e Quinn a segurou mais fortemente.
— Chantel...
— O quê?
Ele queria pedir desculpas. Não era seu modo de ser, mas Quinn queria desesperadamente lhe dizer que sentia muito.
— Nada. Vamos.
Eles voltaram para casa em silêncio, a culpa o consumindo. Aquilo diminuíra, Quinn garantiu a si mesmo. Era apenas mais uma das emoções estranhas que Chantel lhe despertava. Agora ela parecia exausta, embora Quinn tivesse se lembrado do quanto Chantel estava bem — na verdade, maravilhosa — antes que ele...
Droga! Quinn não podia perder tempo se incomodando com esse tipo de coisa. Ele tinha um trabalho a realizar, e se saíra da linha aquilo não se repetiria. Ponto final. Quinn a acompanharia até a casa, certificando-se de que as portas estivessem trancadas e o alarme ligado. Então, relaxaria. Quinn precisava ler o relatório de um de seus investigadores, embora já soubesse que não havia nada de relevante naquele papel. O que Quinn e sua equipe precisavam era de um deslize. Até agora, por mais instável que fosse, o admirador de Chantel tinha sido bastante esperto.
Quinn se recostou no assento da limusine enquanto o enorme carro passava pelos portões, desejando poder dizer o mesmo sobre si mesmo.
Ele preferia agir por impulso. Ao sair do carro, não hesitou nem pensou duas vezes: segurando Chantel pela mão, começou a conduzi-la para a lateral da casa.
— O que está fazendo?
— Hoje é sexta-feira e estou cansado de ficar preso nesta casa. Vamos sair para jantar. — Quinn parou diante de seu carro, acenando para um dos homens que patrulhavam a propriedade.
— Você já parou para pensar que talvez eu não esteja a fim de sair?
— Aonde eu for, você vai. — Ele abriu a porta e começou a empurrá-la para dentro.
— Doran, trabalhei durante 60 horas esta semana, estou cansada. Não quero ir a um restaurante para que todos fiquem me olhando.
— E quem falou em restaurante? Apenas entre no carro, meu anjo. Isso se você não quiser fazer papel ridículo diante dos meus homens.
— Não estou com fome.
— Eu estou. — Quinn lhe deu um empurrãozinho e depois fechou a porta do carro.
— Alguém já lhe disse que você não tem educação nem habilidade social?
— As pessoas me dizem isso o tempo todo.
Quinn ligou o motor e partiu. Chantel tentava colocar o cinto de segurança.
— Se você bater esta lata-velha comigo dentro, os produtores vão mandar matá-lo. — Por um instante Chantel se perguntou se não valeria a pena.
— Nervosa?
— Você não me deixa nervosa, Doran. Você simplesmente me irrita.
— Tudo mundo tem de ser bom em alguma coisa. — Ele ligou o rádio e logo começou a soar um rock alto, de batidas fortes.
Chantel fechou os olhos e fingiu ignorá-lo.
Quando o carro parou, Chantel não se moveu. Ela estava determinada a mostrar-se indiferente e ficou sentada, em silêncio. Fora do carro, Chantel ouvia o som do tráfego do fim de semana aumentando. Ela não tinha ideia de onde estavam e dizia a si mesma que não importava. A porta de Quinn se abriu e fechou, mas mesmo assim Chantel não se mexeu. Entretanto, ela abriu os olhos.
Chantel o viu entrar numa espelunca de fast-food e conteve uma gargalhada. Ela não estava se divertindo. Em casa Chantel podia tomar uma bela taça de vinho e comer uma salada temperada com o molho de ervas especial da sua cozinheira. Só Deus sabia o que Quinn estava trazendo para o carro naquele pacote branco. Chantel simplesmente se recusaria a comer, disse a si mesma. Ela o deixaria extravasar o que quer que o estivesse incomodando, mas se recusaria a comer.
Fechando os olhos novamente, Chantel tentou não reagir aos aromas, aos deliciosos perfumes que encheram o carro. Quinn deu uma olhada, sorriu e ligou o carro novamente.
E mais uma vez Chantel ignorava para onde ele estava indo, mas a estrada começou a ficar mais sinuosa e o tráfego diminuiu. Ela ficou praticamente entorpecida enquanto seu corpo absorvia a viagem tranquila ao pôr-do-sol. Chantel não tinha percebido o quanto precisava se desligar um pouco do trabalho, da casa e, talvez, até de si mesma. Seria difícil não agradecer a ele. Mas Chantel se convenceu de que daria um jeito.
Quando o carro tornou a parar, ela se recusou a se mover. Mesmo que estivesse curiosa, Chantel manteve os olhos firmemente fechados. Sem dizer nada, Quinn pegou o pacote, balançando-o de um jeito que deixou o cheiro da comida no carro. Então, ele saiu e fechou a porta.
O estômago de Chantel se contraiu, lembrando-a de que o prato de frutas e o queijo que comera no almoço não eram o suficiente. O pior que ele poderia fazer era obrigá-la a comer algo, do mesmo jeito que a obrigara a fazer outras coisas que não queria. Mas, não, pensou ela, começando a perder a calma. Ele apenas sairia e engoliria o que quer que houvesse naquele pacote, deixando-a faminta.
Abrindo os olhos, Chantel abriu a porta do carro. Ao fechá-la, o barulho pareceu ecoar durante uma eternidade. Maravilhada, ela olhou à volta.
Eles estavam nas montanhas, mais longe do que ela jamais estivera. Lá embaixo, a quilômetros, Los Angeles se estendia, brilhando e piscando com as luzes da noite. Ela podia ver os vários tons do céu ao pôr do sol. Um azul mais escuro dava lugar a um azul-claro, e o azul-claro ao violeta, lilás, rosa, todas as cores com um brilho dourado. A primeira estrela surgiu sobre sua cabeça e esperou pacientemente pelas companheiras. A brisa soprava por entre os arbustos, mas a cidade que ela conhecia tão bem parecia cercada por uma redoma, de tão quieta.
— Impressionante, não?
Chantel se virou e viu Quinn apoiado num enorme H. A placa de Hollywood, percebeu ela, quase caindo na gargalhada. Ela via o letreiro com tanta frequência que nem o notava mais. De longe, a placa parecia mais branca, inacessível e, talvez, imortal. De perto, como a cidade que anunciava, era uma grande ilusão. Era grande e alta, clara, mas também um tanto suja e um pouco frágil. Pichações se acumulavam perto da base.
— Isso aqui merecia uma boa camada de tinta — ela murmurou.
— Não, é mais verdadeiro desse jeito. — Quinn chutou para longe uma lata de cerveja. — Os adolescentes vêm aqui para bagunçar... e namorar.
Ela inclinou a cabeça.
— E você?
— Ah, eu só gosto da vista. — Ele subiu em umas pedras sem esforço e se posicionou na base de um dos Ls. — E do silêncio. Com um pouco de sorte, você pode subir aqui e não ouvir nada, a não ser o uivo de um coiote, de vez em quando.
— Coiote? — Chantel olhou por sobre o ombro.
— Isso mesmo. — Sem se importar em esconder o sorriso, Quinn pegou algo no pacote. — Quer um taco?
— Um taco? Você me trouxe aqui para cima para comer tacos?
— Pegue uma cerveja.
— Adorável.
— Está esquentando. É melhor você beber.
— Não quero nada.
— Fique à vontade. — Quinn desembrulhou um taco e o mordeu. — Também tem batata frita — disse, com a boca cheia. — Um pouco gordurosas, mas ainda não estão frias.
— Não sei se poderei resistir. — Chantel se virou para olhar a cidade novamente. Como parecia ser a vontade do destino, a brisa levou os cheiros dos temperos até ela. Chantel ficou com a boca molhada. Fez uma careta para as luzes, desejando que Quinn Doran fosse para o inferno.
— Eu bem que achava que uma mulher como você recusaria tudo que não fosse champanhe e caviar.
Dando meia-volta, Chantel ficou em pé, com a cidade e o pôr do sol às suas costas. Quinn sentiu seu coração se remexer no peito. Ela estava mais linda do que nunca.
— Você não sabe nada sobre mim. Nada mesmo. — Havia uma certa irritação na voz dela, fraca e ao mesmo tempo corajosa, que a fez estreitar os olhos. — Passei quase 20 anos da minha vinda indo de uma cidade a outra, comendo com talheres sujos ou sobre um fogareiro em quartos de hotéis de beira de estrada. Às vezes, se tínhamos sorte e o espetáculo era bom, ganhávamos uma refeição da cozinha do hotel. Se não tínhamos tanta sorte assim, comíamos ovos cozidos com café. Não fique aí sentado no seu mundinho presunçoso, me apedrejando, Doran. Você não sabe quem ou o que eu sou. Tudo o que você sabe é que venci sozinha.
Lentamente, Quinn apoiou a cerveja em uma pedra a seu lado.
— Ora, ora — disse, calmamente. — Eu não saberia de nada disso lendo sua biografia oficial, não é mesmo?
Chantel apenas o encarou. O que havia nele que a fazia perder o controle? Por que ela se abrira completamente e lhe contara sobre suas origens?
— Quero voltar para casa.
— Não quer, não. — Sua voz não estava ríspida agora, e sim carinhosa. Foi aquela ternura que derrubou todas as defesas dela. — Não há mais ninguém aqui. Só eu, Chantel. Por que você não senta e admira um pouco o mundo?
Antes de pensar naquilo, Chantel dera um passo na direção de Quinn. Quando ele se levantou e lhe estendeu a mão para ajudá-la a subir, Chantel lhe deu a mão sem hesitar. A hesitação só surgiu quando suas mãos se tocaram. Ela se lembrava daquela sensação e por isso levantou a cabeça e o olhou fixamente. Eles ficaram imóveis por algum tempo, com o pôr do sol ao redor. Então, Quinn a puxou para cima.
— Desculpe. — Aquele pedido de desculpas o surpreendeu, tanto quanto a Chantel.
— Pelo quê? — Chantel começou a puxar sua mão da dele, mas Quinn se aproximou para acariciar-lhe os cabelos.
— Pelo que aconteceu antes. Não sei por quê, mas algo em você me deixa nervoso.
Ela mantinha os olhos no mesmo nível dos dele.
— Então estamos quites.
O vento soprou os cabelos que lhe caíam sobre o rosto. Quinn sabia que, em todas as situações, chegava um momento em que era preciso ser honesto. Talvez fosse o momento.
— Chantel, eu a desejo. Estou tendo enorme dificuldade para lidar com isso.
Outros homens a desejaram, outros homens confessaram isso, das mais belas maneiras, mas jamais as palavras a fizeram perder o fôlego.
— Eu poderia despedi-lo.
— Não importa.
— Não, achei mesmo que não importasse. — Chantel afastou o olhar, surpresa ao perceber como o desejo podia ser algo forte. — Quinn, não posso ir para a cama com você.
— Achei mesmo que diria isso.
— Quinn. — Ela o segurou pela mão quando Quinn começou a se afastar. — Não sei em quais justificativas você está pensando, mas lhe garanto que está enganado.
— Não faço seu tipo — disse ele, pegando a cerveja novamente. — Não estou no seu nível.
Chantel pegou a garrafa dele e a jogou para cima. O líquido espirrou sobre as rochas antes que a garrafa se quebrasse.
— Não me diga o que penso. Não me diga o que sinto.
— Então me diga. — Quinn a segurou e a puxou para bem perto.
— Não tenho de lhe dizer nada. Não tenho de lhe dar justificativas. Droga, só quero um pouco de paz. Só quero algumas horas sem ser pressionada. Não sei se vou aguentar isso por muito tempo.
— Certo, certo. — Quinn a soltou um pouco. Murmurando, ele passava a mão nas costas dela, para cima e para baixo. — Você está certa. Eu não a trouxe aqui para brigar com você, mas você me deixa nervoso.
— Vamos voltar.
— Não. Sente-se, por favor — pediu, passando os lábios pelo cabelo dela. — Vamos ver se conseguimos ficar juntos aqui por uma hora, sem brigar. Coma um taco.
Quinn sorriu para ela, puxando-o para que se sentasse. Chantel deu uma olhada no pacote de comida e se rendeu.
— Estou faminta.
— Deu para perceber. — Ele lhe deu alguns guardanapos de papel. Durante minutos comeram em um silêncio solidário. — Sua infância foi difícil?
Chantel, que estava abrindo o pacotinho de batatas fritas salgadas, parou imediatamente.
— Ah, não. Não quis dizer isso. Foi apenas diferente. Meus pais são artistas. Eles fazem números de canto e dança juntos há 30 anos. Nós seis viajamos por todo o país e alguns lugares onde nos apresentamos eram espeluncas. Mas minha família... — Chantel sorriu, aceitando distraidamente uma cerveja. — Eles são maravilhosos. Trace apresentava alguns números, mas ele era bom mesmo no piano. Eu sempre me sentia frustrada porque, por mais que me esforçasse, jamais conseguia tocar melhor do que ele.
— Rivalidade entre irmãos.
— Claro. A vida seria chata demais sem isso. Trace e eu sempre fomos muito parecidos e não conseguíamos ficar sem brigar por muito tempo. Isso nunca aconteceu entre mim e minhas irmãs. Nós sempre fomos parte uma das outras. — Chantel bebeu cerveja no gargalo e olhou para baixo, para a cidade ao longe. — E ainda somos. Deus, às vezes é tão difícil ficar longe delas! Quando éramos crianças, sonhávamos em nos apresentar juntas sempre. — Ela se lembrou daquilo com uma pontada de remorso. — Mas depois nós crescemos.
— Que tipo de espetáculo?
Rindo, Chantel lambia o sal dos dedos.
— Você nunca ouviu falar das Trigêmeas O'Hurley?
— Desculpe.
— Você se sentiria pior se tivesse ouvido. Fazíamos harmonias em três partes, cantando músicas de programas de televisão e de cantores populares, com alguns clássicos no meio.
— Você canta?
— Doran, eu não apenas canto. Sou uma ótima cantora.
— Mas você nunca canta nos filmes. Ela deu de ombros.
— Ainda não aconteceu. Matt vive me dizendo que eu deveria surpreender o público um dia desses e fazer um espetáculo como convidada, onde possa apresentar alguns números e talvez até dançar. É — acrescentou, quando Quinn lançou-lhe um olhar —, eu sei dançar, do contrário, meu pai morreria de vergonha.
— Mas por que você não faz tudo isso?
— Simplesmente porque ainda não surgiu a oportunidade. Além do mais, tenho me concentrado naquilo em que sou melhor.
Ele amassou o pacote vazio e o pôs ao lado do pé.
— E o que seria isso?
Chantel o olhou rapidamente, com ironia.
— Interpretar.
Em vez de retribuir o sorriso, Quinn ajeitou o cabelo dela atrás da orelha.
— Eu diria que você não está interpretando agora. Ela virou a cabeça rapidamente, olhando vagamente.
O céu estava quase completamente escuro e havia apenas umas poucas estrelas.
— Você não pode ter certeza disso. Eu mesma não tenho certeza, na maior parte do tempo.
— Acho que você tem certeza.
Quando voltou a olhar para Quinn, Chantel sentiu sua boca muito perto da dele. E, com a proximidade, sentiu a tentação.
— Não. Eu lhe disse que não posso... — Mas os lábios dele resvalaram nos seus como um sussurro, acabando com a recusa de Chantel.
— Você tem ideia do que senti ao vê-la deitada naquela cama com Sterling hoje?
— Não. Nem quero saber. Já lhe disse que é meu trabalho.
Ela já estava a meio caminho de ser seduzida. Quinn podia perceber isso na voz dela. Ele sentiu imensa ansiedade ao se imaginar levando-a a outro patamar.
— Eu estava em dúvida se queria estrangulá-lo ou estrangular você, mas tinha certeza de que queria que me olhasse do jeito que estava olhando para ele.
— É só um papel. Minha função é...
— Não há câmeras aqui, Chantel. Somente eu e você. E é disso que acho que você tem medo. Não há ninguém por perto para lhe dizer o que deve sentir. Ninguém vai gritar "Corta!" antes de as coisas saírem um pouco do controle.
— Não quero que ninguém me diga como devo me sentir. Não preciso de ninguém — repetiu ela, puxando a boca de Quinn para a sua.
Era o que Chantel queria. Ela queria sentir-se inundada pelas sensações que Quinn era capaz de despertar. Ninguém, ela podia lhe dizer que ninguém jamais a tocara daquele jeito, mas Quinn não acreditaria. A imagem dela fora esculpida em pedra — e a própria Chantel a polira. E ela sabia o que era, no íntimo. E Chantel estava determinada a não dividir aquela parte com ninguém novamente.
Mas ainda podia ter isso: calor, desejo, ansiedade. Chantel podia tomar para si essas coisas e ainda retribuir, desde que se prometesse que não se entregaria demais. Contanto que não se entregasse a ele completamente.
O céu sobre eles escurecia e o vento soprava por entre os arbustos.
Chantel estava tirando algo dele, sugando-o. E Quinn parecia incapaz de impedi-la. As mãos dele não estavam calmas quando a tocaram para acariciar-lhe os cabelos. A mente de Quinn nadava numa confusão de desejos, que não eram tão simples quanto ele se convencera de que seriam. O desejo pode até doer, mas você não deve deixar que ele o mutile.
Quinn queria possuí-la ali mesmo, entre as pedras e o chão de terra. Ao mesmo tempo, pretendia tratá-la como porcelana, com delicadeza e todo o cuidado do mundo.
Seu corpo estava contraído, prestes a explodir. Meu Deus, ele tinha de tocá-la, nem que fosse uma só vez. Com um gesto suave, Quinn passou a mão pela perna e pelos quadris de Chantel, até encontrar e envolver o seio. Era pequeno, incrivelmente frágil e macio como a água. Instigado, Quinn abriu dois botões na jaqueta de Chantel para saborear a pele quente que ela protegia.
Fazia tanto, tanto tempo que Chantel se permitira ser tocada, tanto tempo desde que sentira aquela necessidade de um contato íntimo! Ela queria que Quinn colocasse as mãos em seu corpo, queria os lábios dele, o corpo duro e ansioso contra o dela. O que importava onde estavam e quem eram? O preço que ela certamente pagaria por se permitir amá-lo não tinha importância.
Num gesto de rendição que o fez estremecer, Chantel o abraçou e encostou o rosto contra o pescoço dele.
— Chantel... — Quinn começou a erguer a cabeça dela, esperando, por motivos que descobria, ver o que havia nos olhos dela. Então, ouviu um barulho nos arbustos. Uma, duas vezes. E ficou tenso.
— O quê? O que é isso? — Chantel ouvira também e apertara o braço dele. — Um bicho?
— Sim, provavelmente. — Mas Quinn achava que não. Com os nervos agitados, ele a afastou.
— Aonde você vai?
— Dar uma olhada. Fique aqui.
— Sente-se. Provavelmente é apenas um coelho.
Não era um coelho. Chantel percebeu isso na voz dele. Quinn não era um bom ator. O medo a fazia querer se encolher. Mas o orgulho a fez segui-lo, passo a passo.
— Vou com você.
— Chantel, sente-se.
— Não. — Segurando-o pelo braço, ela caminhava com dificuldade.
Resignado, Quinn a ajudou a recuperar o equilíbrio.
— Tudo bem, então. Mas tenha cuidado. Se você se arranhar, serei o culpado.
— Será mesmo.
Como a luz diminuíra, Quinn foi até o carro, onde encontrou uma lanterna.
— Por que você não fica sent...
— Não.
Praguejando baixinho, Quinn a pegou pelo braço mais uma vez. Ele caminhava lentamente em direção aos arbustos, às vezes se virando para usar seu corpo como escudo.
— Há muitos animais aqui em cima — disse, mas seus músculos estavam contraídos e preparados. Ele se movia suavemente, abrindo caminho através dos arbustos e segurando Chantel pela mão.
— Eu lembro. Coiotes.
— É. — Ele se agachou quando avistou pegadas no solo macio. O clarão da lanterna passou pelas pegadas, fixando-se.
Chantel ficou séria.
— Eu diria que coiotes não usam sapatos.
— Nenhum que eu tenha visto. — Ele odiou ouvir um indício de medo na voz dela. — Olha, provavelmente é só um menino.
— Não. Nem você nem eu acreditamos nisso. — Chantel ficou olhando para baixo, para as pegadas. Os arbustos onde estavam ficavam a menos de 1 metro de onde, ainda há pouco, eles estavam sentados. — Alguém está nos observando, e acho que nós dois sabemos por quê. Deus! — Ela levou os dedos aos olhos. — Ele estava aqui. Bem aqui, apenas nos observando. Por que ele não para? Por que ele não...
— Ataca você de uma vez. — Quinn a segurou pelos ombros e a sacudiu.
Chantel respirou fundo e quase gritou ao ouvir o eco de um motor sendo ligado.
— Ele me seguiu. — Ela parou de tremer. Seu corpo estava mole demais, até mesmo para isso. — Quantas outras vezes ele esteve por perto, me observando?
— Não sei. — Frustrado, Quinn ficou olhando para a estrada já escura. Mesmo se ousasse deixá-la sozinha ali, jamais conseguiria alcançar aquele carro. — Apenas se lembre de que, agora, ele está observando nós dois. Eu não vou deixar que ele se aproxime de você.
— Por quanto tempo? — perguntou ela, calmamente, virando-se. — Quero voltar.
Capítulo Sete
P
arece que não estamos avançando. — Chantel se serviu de um pouco de conhaque e depois encheu a taça de Matt.
— Desculpe, Chantel. Eu podia jurar que se havia alguém capaz de solucionar esse caso, essa pessoa era Quinn.
— Não o estou culpando. — Segurando o conhaque com ambas as mãos, ela foi até a janela. O sol estava se pondo. Aquilo a lembrou de outro pôr do sol. Levando a bebida à boca, ela observava a noite cair.
— Você mudou o discurso desde a primeira vez em que conversamos sobre ele.
Mais do que você imagina, pensou Chantel, mas apenas deu de ombros.
— Só não posso negar que ele esteja fazendo tudo o que pode.
— Então talvez eu deva discordar — retrucou Matt, odiando perceber o tom de resignação e cansaço na voz dela. — Ele não obteve nenhuma evidência sólida. E quanto às cartas?
— O papel no qual elas foram escritas pode ter vindo de dezenas de milhares de lojinhas na área de Los Angeles. Não há como rastreá-lo.
— Mas as flores... — Impaciente, Matt foi até o piano de armário e depois voltou para perto da lareira, o cigarro deixando um rastro de fumaça atrás dele.
— Deve ter um modo de descobrir onde foram compradas.
— Aparentemente, não. Na maioria das vezes, as flores simplesmente apareceram no meu camarim ou em qualquer outro lugar do estúdio. Até agora, ninguém viu quem fez as entregas.
— Os floristas guardam esse tipo de informação.
— Se você pagar em dinheiro e pegar as flores, não há motivo para alguém pedir o número da sua identidade.
— Chantel passou os dedos pela nuca, apertando e soltando, tentando inutilmente suavizar a tensão.
— Alguém talvez se lembre de quem...
— Quinn me diz que seus homens fizeram uma varredura de todos os floristas da região. Não há nada.
— Os telefonemas...
— Eles não conseguiram rastreá-los.
— Droga! — Se algo, ou alguém, existia, Matt tinha a impressão de que devia haver um modo de encontrá-lo. — Chantel, talvez você devesse voltar a pensar em chamar a polícia.
Ela se virou. Com seu agente, Chantel se permitia demonstrar o pânico. Parecia à vontade com Matt. Parecia que ela ficaria contente de se aconchegar nele e permanecer assim por horas.
— Foi eu quem o recomendei — disse Matt, calmamente. — Odiaria dizer que cometi um erro.
— Você não errou. — Quinn foi até o bar e se serviu de uma dose dupla de conhaque. — Como tem passado, Matt? Achei que o veria mais.
— Ando ocupado.
Sentindo a tensão entre os dois, Chantel se adiantou.
— Pare — disse ela a Quinn. — Não comece a atacá-lo.
— Você está me dizendo como fazer meu trabalho de novo, meu anjo.
— Não vou permitir que fique encurralando meus amigos contra as cordas.
Quinn bebeu seu conhaque de uma só vez.
— É uma pena que eu tenha esquecido minhas luvas de boxe lá em cima.
— Por que não nos sentamos? — Matt pôs a mão sobre o ombro de Chantel. — Agradeço tudo isso, mocinha, mas não é preciso. — Ele olhava fixamente para Quinn. — Acho que quando recomendei a Chantel que o contratasse, já devia saber que você desencavaria algo.
Quinn o encarou, mas sem demonstrar o que sentia.
— É, devia saber mesmo.
— Desencavar o quê? — perguntou Chantel. Quinn levantou a taça, numa espécie de saudação.
— Talvez você mesmo prefira lhe contar, Matt.
— Sim, prefiro. Sente-se, Chantel. — Como ela ficou apenas olhando para ele, Matt apertou-lhe o ombro.
Por favor, sente-se.
Ela sentiu aquele familiar vazio no estômago ao se sentar numa poltrona.
— Está bem, estou me sentando.
— Há alguns anos, quase dez, passei por alguns problemas financeiros. — Matt pegou seu conhaque e deu um gole.
— Matt, você não precisa me contar isso.
— Sim, preciso. — Ele voltou a olhar para Quinn. — Quero que você fique sabendo da minha boca. — Matt levantou a mão antes que Chantel pudesse reclamar novamente. — Apenas me ouça. Quando eu terminar talvez não me sinta como se estivesse prestes a ser guilhotinado.
— Está bem — disse Chantel, batendo impacientemente com a mão no braço da poltrona.
— Jogo — disse ele, com um toque de medo na voz.
— Matt, isso é absurdo. — Ela quase caiu na gargalhada. — Você não joga nem pega-varetas.
— Agora. E o que estou lhe contando foi em outros tempos. Eu não conseguia ficar longe das corridas de cavalo. — Com um ar zombeteiro, ele voltou a olhar para Chantel. — Foi uma febre, uma mina de ouro que me deu muito dinheiro, até que entrou em decadência. Fiquei desesperado. Peguei dinheiro emprestado com algumas pessoas, um tipo de gente que quebra seus ossinhos se você não lhes faz os pagamentos mensais do empréstimo.
— Ah, Matt!
— Eu precisava de dez mil dólares, mas não tinha essa quantia. Falsifiquei um cheque. O cheque de uma cliente. — Matt fechou os olhos antes de dar mais um gole no conhaque. Chantel permaneceu sentada e em silêncio. — Claro que não demorou muito para que fosse descoberto. Minha cliente não queria se expor e por isso não deu queixa. Eu hipotequei minha alma e empenhei o restante para devolver a quantia. Você pode dizer que foi um momento decisivo na minha vida.
Dessa vez Matt riu, mas não havia graça nenhuma naquilo. — Minha carreira estava em perigo, por isso resolvi me olhar de frente. Entrei para um grupo de viciados em jogatina. Já faz quase oito anos que não aposto. E mesmo que as apostas tenham quase acabado com minha vida, tenho de me esforçar diariamente para me manter longe delas. — Matt pousou novamente a taça, olhando para Chantel. — Se você quiser outro agente, vou entender.
Ela se levantou lentamente e foi até onde Matt estava. Sem dizer nada, Chantel o abraçou e o puxou para perto. Por sobre o ombro do agente ela lançou um olhar longo e neutro para Quinn.
— Não quero outro agente. Você sabe que faço questão de ter o melhor.
Com uma risada abafada, ele beijou-a na testa.
— Você é uma moça muito especial.
— Tem sempre alguém me dizendo isso.
Matt apertou os dedos dela e Chantel percebeu como a mão dele estava úmida.
— Não a abandonarei, Chantel.
— Eu sei.
Ele a beijou novamente antes de se afastar.
— Tenho de ir. Você me liga se houver algo que eu possa fazer?
— Claro.
Matt se virou para Quinn. Por um instante ficaram apenas se encarando, um em cada canto da sala. Se algum dos lados estava arrependido, não era possível notar.
— Cuide dela.
— É o que pretendo.
Com um meneio de cabeça, Matt saiu. Chantel se virou para ele imediatamente.
— Como você ousa? Como você pôde humilhá-lo desse jeito?
— Era preciso. — Se aquilo era ou não verdade, o fato é que a situação deixou um gosto amargo em sua boca. Quinn serviu-se de mais conhaque, sabendo que aquele gosto não desapareceria facilmente.
— Preciso? Por quê? O que uma dívida de jogo de dez anos atrás tem a ver com o que está acontecendo agora?
— Se um homem se torna obcecado por alguma coisa, pode ficar obcecado por outra.
— Isso é ridículo.
— Não, é um fato.
Chantel estremeceu, mas não de medo, de raiva.
— Matt Burns nunca tentou ser outra coisa que não meu agente e amigo. E ele teve muitas oportunidades.
— Você teria deixado?
Ela pegou um cigarro e tentou acender o isqueiro de mesa três vezes antes de conseguir uma chama.
— O que isso tem a ver?
Quinn se aproximou, segurando-a fortemente pelo braço.
— Teria?
— Não. — Levantando a cabeça, ela soltou a fumaça. — Não.
— E ele sabe. — Chantel se livrou com um gesto brusco e Quinn a ficou observando andar de um lado para o outro da sala. — Você é boa com cenários. Tente este: o homem trabalha para você há anos e a vê atingir o topo da carreira. Ele a ajuda, passo a passo, a construir a imagem de uma sexualidade elegante e, ao mesmo tempo, gélida. Talvez ele queira aquilo que ajudou a criar.
Chantel sentiu um arrepio descer pela espinha, mas seus olhos pareciam tranquilos quando ela se virou.
— Isso não faz sentido, Doran.
— Faz sentindo, como qualquer outra coisa.
— Não, não faz. — O medo voltara. Chantel se esforçou para escondê-lo. — Por que um homem que eu conheço, do qual sou íntima, simplesmente não me aborda diretamente?
— Justamente porque ele é um homem que você conhece e do qual é íntima — respondeu Quinn. — Ele sabe que não tem nenhuma chance com você.
Impaciente, ela bateu o cigarro.
— Como ele saberia, se nunca perguntou?
Quinn pôs a mão no rosto dela, boqueando os passos nervosos.
— Você não acha que um homem sabe quando uma mulher está interessada? — Passando um dedo pelo queixo dela, Quinn a puxou para perto. Havia algo entre eles. Chantel sentia, droga, Quinn sabia que ela sentia, mesmo que se recusasse a revelar. — Você não acha que um homem pode olhar para uma mulher, ver o jeito como ela olha para ele e saber se eles se tornarão amantes?
Chantel o agarrou pelo pulso e cuidadosamente o afastou. Sua pele estava quente.
— Estou cansada — disse-lhe. — Vou para a cama.
Quando ficou sozinho, Quinn se sentiu seduzido pelo conhaque. Mas, sabendo que era uma escapatória fácil, deu-lhe as costas. Saiu da casa, para andar pelos jardins.
Dormir estava ficando cada vez mais difícil. Já tarde da noite, Chantel se revirava na cama, depois caía num sono leve, apenas para acordar novamente, nervosa e tonta, para se revirar um pouco mais. Várias vezes se sentiu tentada a ceder e tomar um comprimido para dormir. Mas todas as vezes ela lembrava de que se prometera jamais tomar qualquer tranquilizante para lidar com a pressão, quer por motivos pessoais ou profissionais.
Chantel pensou em Matt, no ódio e na desculpa estampados no tom dele quando lhe contou algo que não era do seu interesse.
Ela pensou em Quinn, duro e inflexível, mas dando a Matt a oportunidade de se explicar sozinho.
Era estranho, mas Chantel pensou no seu irmão e numa briga que haviam tido quando ela era adolescente. Trace ameaçara bater num garoto se ele se aproximasse novamente de Chantel. Ela se lembrou de ter ficado furiosa com a interferência de Trace e de lhe dizer que era capaz de cuidar daquilo sozinha.
Mas, então, por que não estava no controle da situação agora?
Chantel sempre estivera. Até mesmo Trace sabia, naquela época, que ela não precisava da ajuda dele. Talvez por ser uma entre trigêmeas, ela nascera preparada para lidar com seus próprios problemas. Ela passara por tragédias, perdas pessoais e desilusões, mas sempre conseguira lutar e se recuperar. Chantel não estava lutando agora, mas deveria. Ela jamais precisara pedir proteção a um homem, e ainda assim...
Então Chantel pensou em Quinn mais uma vez e na promessa dele de protegê-la. Ela queria acreditar. E quando Quinn estava ali, bem ao lado dela, Chantel se sentia segura.
Mas era madrugada e sua mente estava enevoada. Tudo o que Chantel queria era dormir. Os lençóis se emaranharam no seu corpo, que se revirava novamente, e finalmente se assentaram.
Quando o telefone tocou, ela o procurou, às cegas. Quase sonhando, Chantel achava que era sua mãe ligando para lhe dar uma bronca por ter se atrasado para um ensaio.
— Sim — resmungou ao telefone. — Sim, estou indo.
— Não consigo dormir. Não consigo dormir de tanto pensar em você.
O sussurro parecia ligeiramente desesperado, algo que despertou Chantel completamente.
— Você tem de parar com isso.
— Mas não posso. Eu tentei, mas não consigo. Você não sabe o que faz comigo? Sempre que a vejo, sempre que estou por perto, eu...
— Não! — gritou ela para o telefone. Então, enojada, começou a chorar. — Por favor, me deixe em paz. Por favor. Não quero ouvir mais nada.
Mas, virando o rosto para o travesseiro, Chantel continuou ouvindo. E o ouviu até mesmo quando, atrapalhadamente, tentou desligar o telefone. Mesmo depois de colocar o telefone no gancho, Chantel continuou ouvindo a voz daquele homem ecoando em sua mente. Ela se encolheu toda e deixou as lágrimas rolarem.
Quinn estava olhando pela janela quando ouviu o telefone tocar. Praguejando, saiu correndo pela sala, esperando atendê-lo antes que o som acordasse Chantel. Mas os sussurros já haviam começado. Por um instante ele pensou ter reconhecido algo — um jeito de falar, um sotaque ou uma entonação da voz. Quinn tentou se concentrar nisso, esquecendo-se das palavras que eram ditas e do pavor de Chantel. Então, sua boca se torceu quando ouviu que ela implorava e começava a chorar. Quinn a ouviu desligando e, depois, o homem soluçando, antes que a ligação fosse interrompida.
Após bater o telefone, ele enfiou as mãos nos bolsos, os dedos se fechando em um soco. Quinn deixara escapar algo, talvez algo essencial, porque sua concentração e objetividade tinham sido afetados pelo choro de Chantel.
Aquela mulher o estava amolecendo. Ele não podia deixar que isso acontecesse. E não deixaria. Quinn tinha de deixá-la sozinha. Ela queria mesmo ficar sozinha, disse Quinn a si mesmo. Chantel não gostaria que ele a visse agora que perdera o controle. Uma mulher como Chantel só chorava escondida. Mesmo se estivesse em busca de algum consolo, a última pessoa na qual procuraria isso era em Quinn. Lutando contra a assustadora sensação de impotência e fúria, ele voltou à janela.
Chantel parecia tão amedrontada!
Ele não podia deixá-la sozinha numa hora como essa. Não agora, pensou, apoiando a mão fechada na janela. Talvez ela queira ficar sozinha, mas Chantel precisava ficar com ele. Quinn só podia rezar para que fosse capaz de saber o que fazer quando estivesse com ela.
Uns poucos raios de luar entravam pela janela, dando a tudo um tom prateado. Quinn entrou silenciosamente, esperando que Chantel tivesse dormido novamente e que pudesse apenas dar uma olhada, talvez sentar-se perto dela um pouco, sem acordá-la. Se Chantel soubesse como ele queria desesperadamente estar com ela, protegê-la — droga, cuidar dela —, isso não acabaria lhe dando todos os motivos para afastá-lo?
Quinn jamais tivera esse tipo de cuidado com uma mulher. Porque — e ele era obrigado a admitir isso — nenhuma outra jamais lhe importara. E Chantel era tão importante...
Ela não estava dormindo. Quinn podia ouvir o choro abafado ao se aproximar da cama. Ele parou onde estava, aterrorizado por um pequeno barulho. Quinn conhecia o som de uma granada explodindo e lançando estilhaços pelo ar. Ele ouvira o terrível som de tiros e o indescritível barulho de uma bala atingindo um corpo. Tudo isto eram coisas que Quinn encarara com mais segurança do que os soluços de Chantel.
Se ela estivesse com raiva, Quinn poderia ter brincado com isso. Se apenas estivesse amedrontada, ele poderia acalmá-la. Mas Chantel estava chorando.
Silenciosamente, ele foi até a beirada da cama e se agachou. Desejando ser capaz de usar as palavras certas, mas sabendo-se incapaz, Quinn passou a mão pelos cabelos dela. Ao sentir o toque, Chantel se levantou, gritando.
— Sou eu. Apenas eu. — Quinn pegou as mãos dela e as apertou. — Calma. Ninguém vai machucá-la.
— Quinn. — Suas mãos estavam flácidas na dele, mas enrijeceu novamente, enquanto ela tentava se controlar.
— Você me deu um susto.
— Desculpe. — O luar era bem forte para que ele lhe visse o rosto, e as lágrimas que lhe molhavam a face.
— Você está bem?
— Sim. — Seu peito doía e a garganta estava seca por causa das lágrimas contidas. — Sim, estou bem. Acho que você ouviu o telefone.
— Ouvi. — Quinn soltou-lhe as mãos, porque temia quebrar seus dedos. — Quer que eu pegue alguma coisa para você? Água? — Ele enfiou as mãos nos bolsos novamente. — Qualquer coisa.
— Não, não preciso de nada. — Com os nós dos dedos Chantel enxugava as lágrimas do rosto. — Não consegui fazê-lo falar mais. Simplesmente não fui capaz.
— Está tudo bem.
— Não, não está. — Levantando as pernas, Chantel apoiou a cabeça nos joelhos. — Esse problema é meu, e, enquanto eu continuar fugindo dele, isso não acabará. Tudo o que você disse até agora é verdade, tudo o que fez foi certo, e não estou cumprindo minha parte.
— Ninguém a está culpando, Chantel. — Quinn tentou se aproximar novamente, para tocar seus ombros branquíssimos que, por desespero, estavam caídos. Contendo-se, Quinn fechou a mão. — Você deveria tentar dormir um pouco.
— É.
Ele estava se deparando com a própria impotência. De onde Quinn tirara essa ideia estúpida de que Chantel precisava dele? Ele não sabia como acalmá-la e consolá-la. Não tinha palavras belas que a fariam relaxar e a ajudariam a dormir. Quinn não tinha nada, a não ser uma fúria incontrolável dentro de si e um desejo louco de mantê-la segura. Mas nada disso seria de grande ajuda agora.
— Olhe, posso pegar algo para você. Descer e preparar, sei lá, um chá.
Com o rosto ainda de encontro aos joelhos, Chantel fechou bem os olhos.
— Não, obrigada. Ficarei bem.
— Droga, quero fazer alguma coisa. — A explosão tomou conta dele antes que Quinn pudesse evitar. — Não posso ficar aqui vendo-a desse jeito. Deixe-me pegar uma aspirina ou ficar sentado na poltrona até que você consiga voltar a dormir. Qualquer coisa. Você só não pode me pedir para deixá-la sozinha.
— Abrace-me. — As palavras foram ditas em meio a um soluço, enquanto Chantel levantava a cabeça. — Você pode só me abraçar um pouco?
Quinn sentou-se ao lado dela e, puxando-a para perto, colocou a cabeça de Chantel sobre seu ombro.
— Claro. Desde que você queira. Siga com sua vida e esqueça, meu anjo.
Chantel não tinha mais forças para se conter e já não queria fazer isso. Com os braços de Quinn a envolvendo, deixou as lágrimas rolarem com força total. Quinn a aninhou e murmurou coisas que esperava que ajudassem, coisas que não tinha certeza de que Chantel ouviria. Quando ela começou a se aquietar, Quinn tirou os cabelos que lhe caíam sobre o rosto, sem dizer nada.
— Quinn?
— Hã?
— Obrigada.
— Ao seu dispor.
— Não me deixe ficar mal acostumada. — Ela fungou. — Tem um lenço?
— Não.
Relutando em se afastar um pouco, Chantel pegou um lenço de papel na mesinha de cabeceira.
— Eu achava que homens como você saíam correndo quando uma mulher começava... — ela fungou novamente — ... a chorar.
— É diferente.
Chantel ergueu a cabeça. Seus olhos estavam inchados e o rosto marcado pelas lágrimas.
— Por quê?
— É apenas diferente. — Quinn enxugou uma lágrima dos cílios dela. Depois, ainda que se sentisse ridículo, ficou sentindo a umidade com o dedo. — Sente-se melhor?
— Sim. — Chantel se sentia melhor, mas não sabia por quê, já que nunca acreditou que lágrimas fossem a solução para um problema. Agora, depois de chorar, ela se sentia exausta e envergonhada. — Eu... hã, agradeceria se nós dois nos esquecêssemos desse lapso quando amanhecer.
— Você nunca recua, não é?
— Odeio chorar.
Ela disse aquilo com tanta amargura que Quinn soube que Chantel derramara lágrimas doídas por causa de alguma coisa séria antes. Ou por causa de alguém.
— Eu também. Chantel sorriu.
— Você sabe ser um cara legal quando se esforça.
— Mas tento não deixar que isso aconteça com mu¬ta frequência. — Quinn acariciou-lhe os cabelos novamente, antes de puxá-la para perto. Ele descobriu que confortá-la não era assim tão difícil. Assim como não era tão difícil ser necessário. — Acha que consegue dormir agora?
— Acho que sim. — Chantel fechou os olhos, descobrindo que era muito bom descansar o rosto contra o dele.
Reconfortando-a, Quinn passou a mão pelas costas dela. Mas ficou tenso quando sentiu que a seda dava lugar à carne.
— Amanhã é domingo. Você pode ficar na cama o dia todo.
— Tenho uma sessão de fotos às treze horas. — Com os olhos ainda fechados, ela explorava os músculos do ombro dele com a ponta dos dedos.
— Você pode cancelar isso.
— Vai ser bom. O fotógrafo arranjou um tempo especial para mim por causa das filmagens.
— Então é melhor descansar um pouco, se não ficará horrível.
— Muito obrigada.
— De nada.
Quando Quinn a deitou, Chantel ergueu a cabeça e sorriu para ele. Os dedos dele apertaram-lhe os ombros; os de Chantel fizeram o mesmo. Então, o sorriso dela desapareceu. O desejo vibrava entre eles com tanta intensidade que parecia vibrar no ar.
— É melhor eu ir.
— Não. — Chantel sabia que a decisão já fora tomada e, talvez, antes mesmo que eles se conhecessem. Seu coração acabara de aceitar. Ela amava. Não havia como mudar isso. Até agora, até o surgimento dele, Chantel não sabia ao certo como estava precisando dar outra chance ao amor. — Quero que você fique. — Ela deslizou a mão sobre os ombros dele. — Quero que faça amor comigo.
O desejo que começara a pulsar antes mesmo de olhar para Chantel ficou mais forte, quase insuportável: uma sensação adoravelmente dolorosa. As mãos dela pareciam tão frias em sua pele! Os olhos pareciam afetuosos e escuros. O luar banhava o quarto como em um sonho, mas Quinn não podia se dar ao luxo de esquecer a realidade.
— Chantel, eu a desejo tanto neste momento que mal consigo respirar. Mas... — Ele deslizou as mãos, segurando-a pelo pulso. — Não sei se poderia conviver com o fato de que isto só aconteceu entre nós porque você está com medo e fragilizada.
Um sorriso se insinuou nos lábios de Chantel, que os aproximavam dos dele.
— Você ainda não percebeu que sei o que quero? — Ela virou a cabeça ligeiramente, para que o beijo resvalasse no queixo dele. — Você não disse que um homem percebe só pelo modo como uma mulher o olha? Você não está vendo como estou olhando para você?
— Talvez eu apenas veja o jeito como quero que você me olhe. — Mas Quinn afundou os dedos nos cabelos dela.
— Quero que você fique — repetiu ela. — Não porque estou com medo, quero que fique pelo que sinto quando você me beija. Quando me abraça. Quando me toca. — Chantel esfregou o rosto no dele. — Quero que fique porque você pode me fazer esquecer que existem outras coisas fora deste quarto.
Algo o atingiu. Alguém poderia dizer que era força. Com um xingamento baixinho, Quinn a puxou pelos cabelos e a beijou profundamente.
Ela era misteriosa, ansiosa e desejável. Chantel era afrodisíaca. Enquanto deitavam sobre a cama, Quinn deixou que seus sonhos ganhassem vida e a beijou por todo o rosto, cabelos e pescoço. Aquele perfume que já fazia parte dela se embrenhou em sua mente como uma névoa. E Chantel estremeceu. Não por obrigação, mas de prazer, de um prazer que Quinn estava lhe proporcionando. Semi enlouquecido, ele a beijou novamente, saboreando-lhe a paixão.
Nunca antes e, Chantel tinha certeza, nunca no futuro um homem a faria reagir assim. Nunca antes e nunca no futuro ela desejaria com aquela intensidade. Seu corpo era como um vulcão, expelindo calor e energia, enquanto sua mente estava inundada sob um brilhante caleidoscópio de sensações. Não, um homem jamais lhe daria isso novamente, porque havia apenas um homem capaz. E Chantel sabia, de algum modo, desde o princípio.
Tudo era tão óbvio! Ela sentiu a aspereza do queixo dele sobre seu ombro, sentiu o colchão afundar-se sob o peso de seus corpos unidos e sentiu o peito dele contra o seu. Chantel podia ver o luar contra a pele dele ao mover as mãos pelos ombros de Quinn e, depois, por suas costas. Os músculos dele se contraíram com aquele carinho e ela ouviu um gemido baixo com a respiração de Quinn. A ansiedade temperou os beijos dele e alimentou o desejo dela. Um caleidoscópio, um redemoinho, uma corrida. Os aromas do jardim invadiam o quarto. Com um murmúrio de deleite, Chantel levou os lábios ao ombro dele e o mordiscou.
Um homem era capaz de perder sua mente e alma para ela. Quinn sentiu seu peito se contrair ao deslizar a mão livremente sobre o corpo de Chantel. Dor e poder... As duas coisas estavam entrelaçadas em seu desejo. Chantel provocava dor e o fazia flutuar só por estar em seus braços.
Não era apenas a forma perfeita do corpo e do rosto, era a sensualidade desenfreada e arrojada que Chantel mantinha numa caixa de gelo. Ao liberá-la, era uma caixa de Pandora de emoções. Algumas, misteriosas; outras, perigosas. Algumas insuportavelmente excitantes.
Quinn não resistiria. Ele não era capaz. Tocando-a, saboreando-a, provocando-a, Quinn podia senti-la estremecer e ouvir seus gemidos. A pele dela estava quente e já úmida. Respirando, ela sussurrou seu nome. Naquela noite, mesmo que fosse uma noite apenas, Quinn a deixaria tão enlouquecida quanto ele.
Segurando-a pelos cabelos, ele empurrou sua cabeça de volta para a cama, deixando exposto o pescoço branquíssimo. Quando a acariciou com a língua, seu coração disparou. Com as mãos, Chantel o tocou no peito e, depois, mais embaixo, e os músculos da barriga dele se contraíram com aquele afago. Enquanto Chantel abria o zíper da calça jeans dele, Quinn percebeu o seio escapando da camisola de seda fina. Quando ele puxou a seda e levou a boca à sua carne, Chantel se enrijeceu, trêmula. Sua garganta se encheu de murmúrios ininteligíveis de prazer, enquanto as mãos tiravam-lhe a calça.
Ao sentir as mãos dela, Quinn perdeu qualquer resquício de racionalidade. Num gesto louco, rasgou-lhe a camisola de seda. Chantel ofegou contra a boca dele quando Quinn a posicionou sobre seu corpo.
Ele não conseguia nem pensar. Só conseguia sentir. Quando a possuiu, ela estava quente e úmida. Quinn imaginava se um homem podia morrer depois de ter seu maior sonho realizado. Depois Chantel o abraçou, guiando-o mesmo que Quinn quisesse guiá-la. Ele podia vê-la com os cabelos espalhados sobre os lençóis brancos, os olhos semifechados, a boca ligeiramente aberta e a respiração sôfrega.
— Quinn. — Ela sussurrou o nome dele ao ser atingida pelas gigantescas ondas de sensações. Calor, leveza, liberdade. Nada a preparara para algo assim. Chantel tentou revelar isso, mas ele a beijou novamente. Ela era parte dele! O prazer veio numa torrente que a deixou paralisada, incapaz de falar.
Chantel não sabia o que dizer. Será que Quinn esperava alguma frase de efeito, algumas palavras de agrado? Não era possível explicar que ela se entregara somente a um outro homem e nunca, jamais daquele jeito. Se aquilo não fosse tão importante — se Quinn não fosse tão importante —, Chantel tinha certeza de que poderia ter pensado em algo para quebrar o silêncio e diminuir a tensão que sentia aumentar novamente.
Quinn não sabia o que dizer. Ele a possuíra como um louco. Chantel merecia algo melhor, mais carinhoso e, certamente, com mais delicadeza. Se pelo menos Quinn não tivesse se descontrolado. Mas foi o que aconteceu, constatou, com raiva de si mesmo. Ele não podia mudar esse fato, nem que estragara o que parecia estar se desenvolvendo entre eles. Quinn podia apenas esperar que não fosse tarde demais para consertar o estrago.
Os dois ficaram rígidos e depois se viraram, dizendo o nome um do outro ao mesmo tempo. A estranheza perdurou por um longo momento, até que sorrissem.
— Estava pensando que você estava com a razão — disse Chantel — sobre eu precisar de um roteiro. Não sei o que dizer.
— Eu estava tendo o mesmo problema. — Quinn pegou a mão dela e a levou aos lábios. — Acho que fui um pouco rude.
— Foi? — Feliz e aliviada, Chantel procurava pelo que restara de sua camisola de seda. Arqueando a sobrancelha, deixou os retalhos caírem sobre o peito dele.
Quinn esfregou o tecido entre os dedos.
— Você pode descontar isso do meu pagamento.
— É o que pretendo. Trezentos e cinquenta dólares.
— Trezentos e cinquenta? — Quinn apoiou-se sobre um cotovelo para examinar a seda rasgada com mais cuidado. — Você tem de estar louca para gastar 350 dólares numa roupa de dormir.
— Eu gosto de me gratificar um pouco. — Para provar o que dizia, Chantel se aproximou dele para mordiscar-lhe o lábio. — E, diante das circunstâncias, acho que seria mais justo se eu descontasse apenas metade do preço da camisola.
— Metade?
— Foi um trabalho em conjunto. — Ela sorriu, deslizando um dedo pelo peito dele. — Além do mais, valeu a pena.
— Valeu? — Quinn pôs a mão na perna dela e a deslizou até o quadril. — Tem certeza?
— Bem, sou uma mulher precavida. E você sabe o que eles dizem no cinema?
— Não. — Os cabelos dela resvalaram sobre os ombros dele quando Chantel se aproximou ainda mais. — O que é que eles dizem no cinema?
— Tomada 2. — Chantel suspirou, abaixando-se para beijá-lo.
Capítulo Oito
Q
uinn, prometo a você que isto vai levar no máximo três horas. Talvez quatro. — Chantel saiu do carro e se inclinou para pegar as roupas penduradas no gancho do banco do passageiro.
Ele percebeu como a saia justa assentava bem no bumbum de Chantel.
— Eu sei ser paciente.
— Uma sessão de fotografia é geralmente um tédio para as pessoas envolvidas, e ainda mais para alguém que apenas vai ficar observando.
— Deixe que eu me preocupe com isso — disse Quinn, pegando as roupas dela.
— Eu tenho de me preocupar com isso. Só de saber que você estará por perto, resmungando baixinho, vai me deixar tensa. — Chantel apertou uma campainha e depois abaixou os óculos de sol para espiar sobre eles. — E a tensão aparecerá nas fotografias. Esse ensaio para The Scene é muito importante.
Quinn pôs os óculos escuros dela de volta no lugar.
— Assim como você.
Aquilo a emocionou. Chantel já não sabia como fingir que não se emocionava. Ela ficou na ponta dos pés para lhe dar um beijo nos lábios.
— Agradeço. Mas vou ficar perfeitamente segura. Margot estará aqui para cuidar do meu cabelo e a maquiadora é uma freelancer que já trabalhou comigo antes. Srta. Alice Cooke. Elas têm de ficar para toda a sessão. Vou estar cercada por mulheres de bem.
— E o fotógrafo — lembrou-lhe Quinn. — Não vou deixá-la sozinha com esse tal de Bryan Mitchell ou com qualquer outro homem.
Chantel pensou em corrigi-lo, mas mudou de ideia. Uma mulher tinha o direito de aceitar tudo o que lhe ofereciam. Ela passou o dedo pelo colarinho da camisa dele.
— Está com ciúme?
— Cauteloso.
— Bryan Mitchell. — A voz que surgiu no interfone era baixa, macia e feminina.
— É Chantel O'Hurley para a sessão das 13 horas.
— Bem na hora.
Ouviu-se um barulhinho da porta sendo destravada automaticamente.
—Bryan Mitchell é uma pessoa linda, alta e loura — disse Chantel, subindo as escadas. — Nós nos conhecemos há anos.
Quinn lhe deu a mão.
— Mais um motivo para não deixá-la sozinha com ele. Até que tudo tenha acabado, o único homem com o qual você ficará sozinha sou eu.
— Bem. — Chantel parou na porta do estúdio, abraçando-o. — Gosto disso — murmurou ela, beijando-o.
— Aposto que sim. — Bryan estava na porta, rindo.
— Quinn Doran. — Chantel acariciou-o de leve no braço. — Bryan Mitchell.
O fotógrafo era mesmo uma pessoa alta, loura e linda. E era uma mulher! Quinn lançou um olhar atravessado para Chantel, que sorria.
— Prazer em conhecê-lo.
Bryan estendeu a mão, já se perguntando se poderia convencê-lo a posar para ela.
—Bem-vindo ao caos — disse aos dois, indicando-lhes que entrassem. — Ainda estou arrumando tudo. Chantel, você sabe onde ficam as bebidas geladas. A cabeleireira e a maquiadora estão na sala dos fundos discutindo moda. Pessoalmente, não consigo me envolver emocionalmente discutindo sobre a volta ou não da hena. — Enquanto falava, Bryan se dirigia a um cenário cheio de sombrinhas brancas e as ajustou.
Chantel foi até uma salinha bagunçada ao lado do estúdio e ficou olhando para a geladeira aberta.
— Quinn, isso vai durar horas. Tem de haver alguma outra coisa que você queira fazer.
Ele podia ouvir as outras duas mulheres conversando na sala dos fundos. Algo sobre máscaras faciais e cremes para os olhos.
— Posso pensar em dezenas de coisas melhores.
— Então vá fazê-las. — Chantel deixou uma garrafa de refrigerante de lado para segurar as duas mãos dele. — Bryan mandou instalar um sistema de segurança há algumas semanas, quando houve uma onda de roubos na vizinhança. Ninguém entra se ela não abrir a tranca. Estou cercada por mulheres que vão ficar rindo de mim durante horas. E você nos distrairá. Vá jogar basquete ou coisa parecida.
Ela tinha razão. Chantel ficaria segura ali e Quinn só atrapalharia — além de ficar insuportavelmente entediado. Sair também o ajudaria a ficar algumas horas longe dela, de passar algum tempo relaxando. Será que Quinn conseguiria esquecê-la?
— Minha academia fica a poucos quarteirões daqui — murmurou.
— Que Maria?
— Academia — corrigiu Quinn, colocando as mãos nos lábios dela.
— Você está falando de um desses lugares com pesos e máquinas complicadas que o fazem grunhir e sonhar?
— Mais ou menos. — Tirando seu caderninho do bolso, ele escreveu um nome e um número de telefone.
— Ligue-me quando terminar e voltarei para pegá-la.
— Academia do Rizzo. — Ela manteve a expressão imperturbável ao olhar para Quinn. — Parece um lugar sério.
— Apenas me ligue. — Ele se abaixou para beijá-la e mordiscar seu lábio. — Por que você não se embeleza toda?
Chantel o abraçou e franziu a testa.
— Já não estou linda?
Quinn sabia muito bem que tudo o que Chantel usara fora uma máscara facial pela manhã. Seus olhos estavam azuis e brilhantes, a pele, luminosa e branquinha. Fresca como estava, Chantel tinha uma beleza de tirar o fôlego. Quinn ergueu a cabeça para acariciar-lhe o rosto.
— Tão feia...
Antes que Chantel pudesse contra-atacar, Quinn a puxou para perto, interrompendo o que ela diria com um beijo que pareceu durar horas. Ele pensou que precisava mesmo levantar alguns pesos. Precisava eliminar pelo suor um pouco do desejo por Chantel.
— Tente dar um jeito nesse rosto, sim?
— Vá passear, Doran.
Ele deu uma risada e depois voltou ao estúdio. Chantel deixou escapar um suspiro trêmulo e apoiou as mãos espalmadas na bancada bagunçada ao lado da geladeira. Não havia nada que ela pudesse fazer, e Chantel estava prestes a admitir que não havia nada que quisesse fazer sobre o fato de estar apaixonada por Quinn. Aquilo tudo era provavelmente um erro, um grande erro, mas já estava feito.
De algum modo, se Chantel pudesse refrear parte de si mesma, não ficaria tão devastada quando Quinn seguisse seu próprio caminho. E era o que ele faria, não? Um homem como Quinn vivia, trabalhava e andava pelo mundo sozinho. Quando seu trabalho tivesse terminado, Quinn lhe daria um beijo de adeus e iria embora. Chantel mordeu o lábio e se endireitou. Não, ele não faria isso. Não se ela pudesse evitar.
Você perderá essa batalha, Doran, prometeu Chantel a si mesma. Ele não lhe daria as costas e a abandonaria — de jeito nenhum!
— Chantel, elas estão à espera.
Ela estava pronta. Chantel deixou a bebida sobre a bancada. Ela estava mais do que pronta.
Durante duas horas Chantel trabalhou sem parar. Seus cabelos foram frisados, alisados, laqueados e lambuzados com gel. Seu rosto fora pintado e empoado. Todas as vezes em que mudava o figurino, seu rosto e cabelo eram sutilmente alterados, para enfatizar o visual. Bryan trabalhava com um entusiasmo contido, como sempre.
— Eu não lhe perguntei como está Shade.
— Coloque sua mão direita sobre o ombro esquerdo — instruiu Bryan. — Abra os dedos. Bom. Shade está ótimo. Ele está em casa, trocando fraldas. — Ela registrou o sorriso rápido e malicioso de Chantel no filme.
— Isso eu gostaria de ver.
— Ele é ótimo fazendo isso. Organizado, sabe.
— Bem, vou lhe dizer uma coisa: nem parece que você teve um bebê há dois meses.
— Quem tem tempo para comer? Levante o queixo e tente fazer um ar de desdém. Isso. — A fotógrafa se abaixou, buscando novos ângulos. — Andrew Colby é um ditadorzinho de cinco quilos.
— E você é louca por ele.
Bryan abaixou a câmera e sorriu alegremente.
— Ele é o bebê mais maravilhoso do mundo. Eu e Shade já gastamos uns 500 rolos de filme. Todos os dias algo acontece. — Ela jogou seus cabelos louros e compridos para trás. — Dá para perceber como ele é inteligente só de vê-lo olhando para as coisas. Ontem mesmo ele.-— Bryan se interrompeu, gargalhando. — Amarre-me. É uma obsessão.
— Não. — Chantel sorriu, embora tenha ficado surpresa com a lufada de inveja que sentiu. — É adorável.
— É mesmo, sabe? Eu nunca me vi como mãe. — Bryan recolocou a câmera no lugar. — Agora não consigo imaginar minha vida sem Andrew. Ou Shade.
— Acho que o homem certo pode mudar seu jeito de ver a vida.
Bryan concluiu que aquela expressão desejosa que surgiu no rosto de Chantel seria a melhor fotografia que tirara dela.
— Você, com certeza, facilita meu trabalho. Voltando à realidade, Chantel olhou para a câmera.
— Como?
— Vire para o lado e olhe por sobre o ombro. Um pouco mais. Mais sensual. — Bryan tirou quatro fotografias, uma atrás da outra. — É sempre um prazer fotografar um rosto como o seu, especialmente quando está assim tão entregue. Mas eu não esperava por essa dose extraordinária.
— Que dose extraordinária? — perguntou Chantel, virando-se para olhar por sobre o outro ombro.
— Não há nada mais belo de se fotografar do que uma mulher apaixonada. Feche a boca — mandou, deixando a câmera de lado para alongar os ombros.
Lentamente, Chantel se virou para encarar Bryan novamente.
— É tão óbvio assim?
— Você não quer que seja?
— Não... sim. Não sei. — Ela passou a mão pelos cabelos cuidadosamente arrumados. — Não quero agir como uma tola.
— As tolas são as que se apaixonam por qualquer um. Acho que você não é assim. Ele tem um belo rosto. Será que você não consegue convencê-lo a posar para mim?
— Talvez, se você amarrá-lo pelas mãos e pelos pés. Bryan, como você lida com Shade?
Bryan pegou uma barra de chocolate do bolso.
— Você está me pedindo conselhos sobre homens? Chantel aceitou um pedaço do chocolate.
— Não espalhe.
— Você já teve vontade de matá-lo?
— Várias vezes.
— Então vocês estão no caminho certo. O melhor conselho que posso lhe dar é deixar as coisas acontecerem. Terminamos. — Bryan deu uma mordida na barra de chocolate. — Se eu fosse você, não desperdiçaria o resto do fim de semana.
A academia tinha cheiro de homens. Homens atléticos e suados. O ar estava carregado de suor e xingamentos. A maioria usava somente um calção e só alguns estavam de camiseta. Sobre um colchonete, um homem com pesos nas pernas grunhia enquanto fazia uma série de abdominais. Numa plataforma, outro xingava todas as vezes que levantava uma barra de pesos sobre a cabeça. O equipamento era de última geração, mas há muito tempo perdera o brilho.
Chantel entrou e ficou admirando a cena, com a testa franzida. O primeiro homem a vê-la foi um jovem que estava puxando pesos presos à parede por duas cordas.
Ele se exercitava firmemente, as veias em seu pescoço saltando todas as vezes em que girava os braços. Ele abriu a boca e as cordas atrás dele chicotearam a parede. Chantel lhe lançou um sorriso.
Cuidando para que ninguém chegasse perto dela, Chantel contornou na plataforma de levantamento de peso. O homem parou de praguejar e seus olhos se esbugalharam. Demorou menos de dez segundos para que a barulhenta e agitada academia ficasse em completo silêncio. Foi quando ela viu Quinn.
Ele não percebera o silêncio repentino. De costas para a sala, dava socos ritmados num saco para esmurrar. Os socos abafados eram a única coisa que se ouvia na academia. Quinn estava lindo, as pernas esticadas, os olhos intensos e as costas se contraindo quando ele se concentrava no ritmo. O saco marrom era apenas um borrão, e seus socos jamais paravam. Chantel se aproximou, esperou um pouco e depois deslizou a ponta de um dedo pelas costas dele, de cima a baixo.
— Olá, querido.
Quinn xingou e deu meia volta, as mãos ainda erguidas e fechadas num soco. Chantel arqueou uma sobrancelha e depois empinou o nariz, como se o convidasse para lhe bater com o melhor soco.
— O que é que você está fazendo aqui?
— Observando-o. — Com um dedo, ela empurrou o saco. — Qual o sentido de bater nessa coisa?
— Eu lhe disse para me ligar. — Quinn limpou o suor que lhe caía sobre os olhos, a fim de vê-la melhor.
— Eu fiquei com vontade de caminhar. Além do mais, queria saber onde um homem como você... brincava. Intencionalmente, Chantel olhou por sobre o ombro analisando todo o lugar. — Fascinante.
Todos os homens na academia sentiram um frio na barriga.
Praguejando, Quinn a pegou pelo braço.
— Você deve estar louca. Este não é um lugar para você.
— Por que não? — Enquanto passavam pelo homem na plataforma de levantamento de peso, Chantel lhe lançou um sorriso radiante. Os pesos se chocaram contra a bancada de segurança.
— Pare com isso — resmungou Quinn. — Rizzo, vou usar seu escritório.
— Ah, onde está ele? — Enquanto a empurrava para fora, Chantel olhou para trás. — Estou louca para conhecê-lo.
— Cale-se. Você tem de entrar aqui com estas pernas?
— É o que uso para andar!
— Sente-se. — Quinn lhe jogou uma velha cadeira de plástico. — O que é que vou fazer com você?
— Você quer algumas alternativas?
— Droga, Chantel. Isso não é brincadeira. — Quinn procurou sobre a bagunçada mesa de Rizzo até encontrar um maço de cigarros todo amassado. — Olhe, Chantel, nós fizemos um acordo. Você deveria me ligar. Há vários motivos para isso. — Ele pegou um cigarro e o acendeu.
— Quinn, a tarde está linda e a academia não ficava longe. Não é fácil encontrar um lugar para se caminhar em Los Angeles. Eu não resisti. Se você me disser que não posso andar dois quarteirões em plena luz do dia, vou gritar. — Ela deu uma olhada para a porta. — Não posso nem imaginar o que os seus, digamos, colegas fariam se me ouvissem gritar.
Ele soltou uma longa baforada e depois amassou o cigarro, transformando-o numa papa de tabaco e papel branco.
— Você não vai a lugar nenhum sem mim. Você foi instruída, Chantel, e achei que você seguiria minhas instruções.
— Ah, acalme-se. — Chantel se levantou, colocando as mãos espalmadas sobre o peito nu dele.
— Estou suando como um porco — ele reclamou, segurando-a pelos pulsos.
— Eu percebi. Não sei o que os homens veem nesses lugares que cheiram como meias suadas. Mas se é assim que você se mantém em forma... — Chantel olhou para o corpo dele, aprovando-o. —... talvez eu deva mandar construir uma academia na minha casa.
— Não mude de assunto.
— Qual é o assunto mesmo?
— Não quero que nada lhe aconteça.
Passando a língua pelo lábio, Chantel se aproximou de Quinn.
— Por quê? Você já recebeu seu pagamento da semana.
— Não ligo para a porcaria do dinheiro — disse ele, nervoso.
— Para que você liga, Quinn?
— Você. — Ele disse aquilo bem baixinho, antes de dar-lhe as costas. Quinn achava que precisava de um pouco de espaço, só um pouco de espaço e algum tempo para recobrar o equilíbrio. Mas não havia espaço que bastasse no mundo. — Jamais faça uma coisa dessas novamente.
— Está bem. Desculpe.
— Tenho de tomar um banho. Fique bem aqui. Quando ele fechou a porta ao sair, Chantel se sentou.
Quinn se importava! Ela fechou os olhos, apegando-se àquela ideia. Quinn se importava com ela! Se Chantel conseguira que ele admitisse, o próximo passo era fazer com que ele gostasse daquilo.
— Por quanto tempo você vai ficar com raiva?
Eles voltaram para a casa de Chantel com a capota aberta. Ela deixou os primeiros 15 minutos se passarem em silêncio.
— Não estou com raiva.
— Você está rangendo os dentes.
— Considere-se uma pessoa de sorte por eu estar fazendo só isso.
— Quinn, já pedi desculpas. Não vou pedir novamente.
— Ninguém está lhe pedindo para fazer isso. — Ele reduziu a marcha para fazer uma curva. — O que estou pedindo é que leve a sério sua situação.
— E você acha que não estou levando a sério?
— Não depois da sua estripulia desta tarde.
Chantel se ajeitou no assento do carro. O vento atingiu seus cabelos e os desarrumou. Ela estava perdendo a calma.
— Pare de me tratar como criança. Eu entendo perfeitamente a situação em que me encontro. Convivo com isso 24 horas por dia, todos os dias e noites. Todas as vezes em que o telefone toca, todas as vezes em que recebo minha correspondência. Quando, à noite, vou dormir, é nisso que continuo pensando. Quando acordo pela manhã, é nisso que fico pensando. Se eu não puder ter uma hora, de vez em quando, em que seja capaz de esquecer esse assunto, vou enlouquecer. E estou tentando sobreviver, Doran. Não fale comigo como se eu fosse irresponsável.
Ela se virou para o outro lado novamente e o silêncio dominou o ambiente mais uma vez. Acelerando, Quinn disse a si mesmo que estava com a razão. Mas Chantel também tinha certa razão. Havia momentos em que ela parecia de tão bom humor que Quinn acre-ditava que Chantel se esquecera de que estava em perigo. Mas percebeu que ela jamais se esquecia. Quinn só não sabia como dizer a Chantel que a amava ainda mais por isso.
Ele a amava. Era difícil de engolir aquilo, se bem que geralmente era difícil engolir certas verdades. Quanto mais seus sentimentos por Chantel cresciam, mais preocupado ele ficava com o bem estar dela. Quinn sabia que ela trabalhava duro e várias horas seguidas. Com o tipo de pressão que Chantel estava sofrendo, ela só poderia continuar naquele ritmo por pouco tempo. Mesmo mulheres voluntariosas como Chantel às vezes acabavam desmoronando.
Droga, Quinn queria ter algo, qualquer coisa, a que se apegar. Eles estavam entrando já na terceira semana de investigação e Quinn não se achava nem perto de esclarecer as coisas. Ele precisava vê-la segura, confiante e feliz. Mesmo que tivesse medo de que, quando isso acontecesse, Chantel lhe fizesse um cheque e lhe desse um beijo de adeus.
Suas mãos apertaram ainda mais o volante, mas depois relaxaram. Quanto a se livrar dele, Chantel teria dificuldade.
Relaxe, disse Quinn a si mesmo. Ela não se livraria dele tão fácil assim. Olhando-a de soslaio, viu como Chantel estava sentada furiosa, tensa. Meu anjo, disse-lhe em silêncio, sou o homem que cortará suas asinhas.
Distraidamente, Quinn pôs o braço atrás do assento dela.
— Você está fazendo biquinho.
— Vá para o inferno.
— Se continuar assim, vai ficar cheia de rugas. O que será de você?
— Vá ver se estou na esquina
— Adoraria. — Quinn parou o carro no acostamento. Chantel nem mesmo teve chance de tentar se desviar antes dele a puxar para perto. — Mas, em vez disso, por que não começo beijando este seu rostinho lindo e depois todo o seu corpo?
— Não.
— Está bem. Se prefere, posso começar de baixo para cima.
Quando Quinn começou a virá-la, Chantel começou a lutar, irritada.
— Pare. Não quero que você me beije em lugar algum.
— Tem certeza? — Ele levou os pulsos dela aos lábios e beijou-lhe a parte interna. — Que tal aqui?
— Não.
— Aqui, então? — Quinn a beijou no pescoço.
Chantel parou de lutar.
— Não.
— Bem, pode ser arriscado beijá-la em outros lugares aqui neste acostamento. Mas se você insiste...
— Pare. — Ela desatou a rir enquanto o empurrava. Chantel se apoiou contra a porta e cruzou os braços. — Seu louco.
— Adoro quando você me xinga.
— Então você vai adorar isso — disse, mas Quinn foi mais rápido. O que quer que Chantel tivesse em mente, foi abafado pelo beijo. Ela reagiu imediatamente, com todo o coração. Chantel o abraçou e abriu a boca. Por um momento não existia mais nada, a não ser o sol quente do fim da tarde e o intenso e desenfreado prazer.
Ela ficou de olhos fechados mesmo depois que Quinn se afastou. Quando os abriu, lentamente, suas íris estavam escuras e enevoadas.
— Você está tentando se reconciliar? — murmurou Chantel.
— Pelo quê?
Ela torceu a boca e envolveu o rosto dela com as mãos.
— Esqueça. Vamos para casa, Quinn.
Ele a beijou novamente, um beijo longo, antes de se sentar e ligar o carro.
— Por sinal, Rizzo me pediu para lhe perguntar se poderia ter uma fotografia autografada sua no escritório.
Chantel gargalhou, depois se recostou e ficou admirando a paisagem pelo resto da viagem. Ao passarem pelos muros altos que cercavam sua propriedade, ela começou a pensar em dar um mergulho na piscina. Bryan tinha razão: seria uma pena desperdiçar o que restava do fim de semana. Ao mesmo tempo em que se virou para convidar Quinn, ele parou o carro subitamente.
— Quinn, nós realmente deveríamos esperar até que estivéssemos lá dentro.
— Há um carro no portão. — Seu tom de voz a deixou tensa, olhando em volta. — Há um homem lá. Está vendo? Parece que está causando uma baita confusão.
— Você não acha que... — Chantel molhou os lábios.
— Ele não tentaria entrar pelo portão da frente.
— Por que não descobrimos? — Quinn pegou as chaves da ignição e com elas destrancou o porta-luvas. Chantel o viu apanhar um revólver. Não era nada como sua elegante pistola calibre 22. E ela também tinha certeza de que a arma não estava descarregada.
— Quinn.
— Fique aqui.
— Não, eu...
— Não discuta.
— Mas eu não quero... — A medida que a discussão no portão aumentava, as vozes chegaram até ela. Ouvindo atentamente, Chantel se segurou em Quinn. — Eu não acredito — murmurou ela. Com os olhos semicerrados, ela tentava descobrir quem era o homem à distância.
— Não consigo acreditar — repetiu, saindo correndo do carro antes que Quinn pudesse detê-la.
— Chantel!
— É meu pai. — Rindo, ela se virou rapidamente para Quinn. — É meu pai. Meu pai. — Suas longas pernas ganharam vida e ela saiu correndo pela estradinha.
— Papai! — Ainda rindo, Chantel abriu os braços.
Frank O'Hurley ignorou a argumentação acalorada que estava tendo com o guarda. Seu rosto magro irrompeu em um riso.
— Aí está minha menina. — Ágil e magro, Frank percorreu a curta distância que ainda o separava de Chantel. Com um grito, ele a girou no ar três vezes. — Como está minha princesinha?
— Surpresa. — Chantel beijou seu rosto macio como o de um bebê e o abraçou novamente. Frank cheirava, como sempre, a talco e menta. — Eu não sabia que você viria.
— Não preciso ser convidado, preciso?
— Não seja bobo.
— Bem, diga isso para o palhaço do outro lado deste portão. O idiota não me deixou entrar nem depois de eu lhe dizer que você era sangue do meu sangue.
— Desculpe, srta. O'Hurley. — O homem sério do outro lado do portão lançou um olhar duro para Frank. O velho maluco ameaçara puxar-lhe a língua e enrolá-la no pescoço. — Não havia ninguém aqui para confirmar.
— Está tudo bem.
— Tudo bem? — Frank começou a cantarolar. Ele estava prestes a começar uma canção tradicional irlandesa. — Está tudo bem quando seu pai é tratado como um invasor?
— Não seja rabugento. — Chantel tirou poeira do colarinho dele. — Eu reforcei a segurança. É isso.
— Por quê? — Imediatamente alerta, ele segurou o queixo de Chantel. — O que está havendo?
— Nada. Eu lhe contarei tudo mais tarde. Agora estou apenas feliz em vê-lo. — Ela olhou para trás, para o carro alugado todo sujo. — Onde está mamãe?
— Disse que não estava pronta para ver ninguém até que fosse a um salão de beleza. Eu não ia ficar sentado enquanto ela se embeleza. Mais tarde ela virá, de táxi.
— Mas me diga o que vocês estão fazendo aqui e quanto tempo ficarão. O quê?
— Deus seja louvado, menina! Não pode esperar até que um homem tire a poeira da garganta? Vim dirigindo desde Las Vegas hoje.
— Las Vegas? Eu não sabia que vocês se apresentariam em Las Vegas.
— Você não sabe tudo. — Ele apertou-lhe o nariz e depois olhou por sobre o ombro dela, para Quinn, que se aproximava. — Ora, quem pode ser esse homem?
— É Quinn. — Chantel lhe lançou um olhar rápido. — Quinn Doran. E você tem razão, papai, podemos conversar melhor lá dentro. Especialmente depois que você tomar um copo de uísque.
— Agora você está falando minha língua. — Frank sentou-se atrás do volante de seu carro e passou pelos portões agora abertos. Chantel o viu olhar de soslaio para o guarda.
— Seu pai? — perguntou Quinn assim que Chantel entrou novamente no carro.
— Sim. Eu não o estava esperando, mas isso não é novidade. — Ela entrelaçou os dedos. — Você guardou a arma?
Acenando para o guarda, Quinn passou pelos portões da propriedade.
— Não se preocupe.
— Mas estou mesmo preocupada. Não quero envolver minha família nisso tudo. — Chantel passou os dedos no nariz. — Vou ter de lhes contar um pouco. Afinal, ele viu o guarda no portão. E, com certeza, perceberá os homens patrulhando a propriedade.
— Por que você não tenta lhes contar a verdade?
— Não quero preocupar meus pais. Droga, eu só consigo vê-los três ou quatro vezes por ano, e agora isso. — Ela olhou para Quinn, que diminuía a velocidade do carro ao se aproximar da entrada da casa. — E terei de explicar você.
— A verdade — repetiu ele.
— Está bem. Não consigo pensar em outra coisa mesmo. — Chantel pôs a mão no braço dele antes de sair do carro. — Mas farei isso do meu jeito. Quero ser a mais discreta possível.
— Ora, ora. — Risonho e afável, Frank se aproximou correndo do carro. — Parece que você arranjou um amigo bonito e forte, Chantel.
— Quinn Doran, meu pai, Frank O'Hurley.
— Muito prazer. — Frank estendeu a mão e sacudiu empolgado a de Quinn. — Você não se importaria em me ajudar com as malas, não é, filho?
Chantel teve de rir quando Frank abriu o porta-malas e de lá tirou apenas uma mochilinha, deixando duas malas gigantescas para que Quinn carregasse.
— Você não muda nunca — murmurou, enganchando seu braço no dele e o conduzindo para dentro da casa. — Deixe-as aí — disse para Quinn, apontando para a base da escada. — Mais tarde você as pega.
— Obrigado.
Ela aceitou o sarcasmo com um sorriso sincero.
— Por que vocês dois não vão para a sala de estar e bebem algo? Preciso dizer à cozinheira que temos mais duas pessoas para o jantar. — Lançando uma olhar rápido para Quinn, Chantel saiu pelo corredor.
— Bem, filho, não sei nada sobre você — disse Frank, dando um sólido tapa nas costas de Quinn. — Mas seria bom beber alguma coisa. — Ele se dirigiu à sala de estar e foi direto para o bar. — O que você prefere?
— Uísque.
Frank meneou seus ombros estreitos e os serviu.
— Um para cada. — Localizando uma garrafa de uísque irlandês, ele soltou um grunhido de satisfação e se serviu de uma generosa dose. — Ora, ora... Quinn, não é? Por que não brindamos à minha menina? — Ele bateu seu copo contra o de Quinn sem se importar que era um copo de cristal Rosenthal. Depois, deu um grande gole. — Eis uma bebida na qual um homem pode até se afogar. Sente-se, meu filho, sente-se. — Ainda bancando o anfitrião simpático, Frank apontou para uma poltrona antes mesmo que encontrasse uma para si. — Agora... — Ele se recostou e suspirou. Depois, abruptamente, seus olhos se tornaram agudos e perspicazes. — O que você está fazendo com minha filha?
— Papai! — Feliz por ter chegado na hora certa, Chantel entrou apressada na sala de estar e depois sentou no braço da poltrona onde estava seu pai. — Você terá de desculpá-lo, Quinn. Meu pai nunca foi um homem dos mais sutis.
Quinn ficou olhando para seu uísque por um instante.
— Para mim, parece uma observação bem apropriada.
— Isso mesmo. — Satisfeito com o que via, Frank assentiu. — Nós vamos nos dar muito bem.
— Eu não me surpreenderia — murmurou Chantel, despenteando o cabelo de Frank. — Agora me conte como foi em Las Vegas.
— Adoraria. — Frank bebeu mais um gole de uísque, gostando da maciez quente da bebida. — Mas só depois que você me explicar por que tem um gorila adestrado no seu portão.
— Já lhe disse que reforcei a segurança. — Mas, assim que Chantel começou a se levantar, Frank pousou firmemente a mão sobre o joelho da filha.
— Você não vai querer mentir para um velho tolo como eu, vai, princesa?
Seria mesmo inútil, admitiu Chantel, sentando-se novamente.
— Tenho recebido alguns telefonemas irritantes. É só. Achei que seria inteligente tomar algumas precauções.
— Que tipo de telefonemas?
— Só umas ligações que me chatearam.
— Chantel. — Ele conhecia muito bem a filha. Uns poucos telefonemas que a chatearam seria algo que Chantel ignoraria, riria e se esqueceria. — Alguém a está ameaçando?
— Não. Não é nada disso. — Ao perceber que estava num beco sem saída, ela lançou um olhar suplicante para Quinn.
— Eu ainda acho melhor contar a verdade — disse ele.
— Obrigada pela ajuda.
—Fique quieta — disse-lhe Frank, com um tom de voz tão autoritário que Chantel fechou a boca imediatamente. — Você me diz o que está acontecendo — ordenou a Quinn. — E o que você tem a ver com tudo isso.
— Quinn...
— Chantel Margaret Louise O'Hurley, cale a boca e fique quieta.
Foi o que ela fez, e Quinn apenas sorriu.
— Belo truque — disse ele a Frank.
— Eu o uso raramente, para mantê-lo sempre renovado. — Frank bebeu de um só gole o que restava de seu uísque. — Vamos ouvir.
Resumidamente, Quinn contou a situação pela qual Chantel estava passando. Enquanto falava, Frank arqueou as sobrancelhas, seu rosto magro avermelhando-se e a mão que ainda estava sobre o joelho de Chantel se fechando.
— Maldito bastardo! — Frank levantou-se da cadeira como um cão feroz prestes a atacar. — Se você é um detetive, Quinn Doran, por que diabos ainda não o encontrou?
— Porque ele ainda não cometeu nenhum deslize. — Quinn pousou o copo e encarou firmemente o olhar revoltado de Frank. — Mas ele ainda cometerá, e eu o encontrarei.
— Se ele machucar minha menina...
— Ele não vai chegar perto dela — interrompeu Quinn. — Porque ele terá de passar por mim primeiro.
Frank engoliu em seco sua fúria — algo que ele geralmente não fazia — e mediu de cima a baixo o homem à sua frente. Frank sempre se orgulhara de ser um bom juiz de caráter. Você precisa saber quando mostrar os punhos, rir ou recuar. O homem à frente dele era duro como pedra e honrava suas palavras. Se Frank tivesse de confiar a segurança de sua filha a alguém, Quinn seria essa pessoa.
— Então, você está morando aqui, na casa, com Chantel.
— Isso mesmo. Cuidarei dela, sr. O'Hurley. Eu lhe dou minha palavra de honra.
Frank hesitou por um momento antes de mostrar os dentes num sorriso.
— Se não cuidar dela, eu o esfolarei vivo. E me chame de Frank.
Tranquila e altiva, Chantel se levantou.
— Talvez agora eu possa dizer algo.
— Não me olhe desse jeito, moça. — Frank foi até ela e carinhosamente pegou seu rosto com ambas as mãos. — Você deveria ter contado tudo isso para sua família.
— Não havia motivo para preocupá-los.
— Motivo? — Frank balançou a cabeça. — Nós somos sua família. Somos os O'Hurley. Nós cuidamos um do outro.
— Papai, Maddy vai se casar no fim de semana. Abby está grávida. E Trace...
— Por favor, mantenha-o fora dessa — disse Frank, sério. — As coisas da família não tem nada a ver com seu irmão. É uma escolha dele.
— Sério, papai, depois de tanto tempo você deveria...
— Não mude de assunto. Sua mãe, eu e suas irmãs temos o direito de nos preocuparmos com você.
Não era hora de sair em defesa do irmão. E Chantel não tinha mesmo certeza se Trace se importava. Agora tudo o que ela queria era tirar aquelas rugas de preocupação do rosto do pai.
— Tudo bem, então. — Ela lhe deu um beijo estalado.
— Preocupe-se o quanto quiser, mas já fizemos tudo o que era possível.
Mantendo as mãos nos ombros da filha, Frank virou-se para Quinn.
— Nós viajaremos para Nova York na sexta-feira, para o casamento da minha outra filha. Você vai conosco?
— Eu não acho que seja necessário arrastá-lo até...
— Vou — cortou Quinn. Seus olhos se fixaram nos de Chantel, como numa espécie de desafio. — Já tomei todas as providências.
— Você não me contou.
— E por que deveria? — argumentou ele, pelo simples prazer de deixá-la furiosa.
— Não lhe parece que seja necessário, não é? — Sentindo-se acuada por Quinn e Frank, ela se armou para a briga.
— Se vocês dois me dão licença, vou me embebedar.
— Que mulher difícil, hein? — disse Frank, obviamente orgulhoso, quando Chantel saiu apressadamente da sala.
— Difícil e muito mais.
— É o sangue irlandês, sabe? Nós somos poetas ou guerreiros. E os O'Hurley são um pouco de cada.
— Estou ansioso para conhecer o restante da família. E eles também vão querer conhecê-lo, pensou Frank.
— Diga-me, Quinn — começou, num tom de voz amigável. — Você pretende, hã, cuidar da minha filha, por assim dizer, depois que isso tudo estiver terminado?
Quinn ficou só olhando para o homem à sua frente. Parecia que era um momento de dizer algumas verdades.
— Sim. Goste ela ou não. Frank deu uma risada.
— Vamos beber mais uma dose.
Capítulo Nove
M
amãe, você não precisa fazer isso. Molly O'Hurley dobrava cuidadosamente uma jaqueta de seda branca e a envolvia em papel de seda.
— Para que chamar a empregada? — Com anos de experiência, Molly sabia fazer a mala de Chantel cuidadosamente. — Com as costas da mão, Molly se livrou das objeções da filha. — Eu acho que nunca posso dizer o que penso na frente de empregadas e mordomos.
Chantel olhava para a mala e para a pilha de roupas. Ela passara os primeiros 20 anos da sua vida fazendo e desfazendo malas. Por uma questão de princípio, Chantel deixara de fazer isso há alguns anos. Mas ela jamais conseguia ganhar uma briga com sua mãe. Conformada, começou a selecionar cuidadosamente seus itens de banheiro.
— Desculpe por não termos passado tanto tempo juntos nos últimos dias.
— Não seja boba. — Alegre e prática, Molly pegou mais um pouco de papel de seda. — Você está no meio de uma filmagem. Seu pai e eu não esperávamos que ficasse à nossa disposição.
— Papai parecia se divertir quando vocês foram ver as filmagens.
Rindo, Molly levantou a cabeça. Ela era uma mulher bela e em forma, que conseguia parecer dez anos mais jovem do que era sem muito esforço. Ao olhar para a mãe, Chantel se deu conta de que a pressa e a loucura do estilo de vida de seus pais combinavam com Molly tanto quanto combinavam com Frank.
— Ele parecia mesmo, não é? Se bem que eu acho que ele não deveria ter discutido com a diretora sobre como rodar aquela cena.
— Mary tem senso de humor.
— Ainda bem. — Por algum tempo, elas ficaram fazendo a mala em silêncio. — Chantel, estamos preocupados com você.
— Mamãe, é exatamente isso o que eu não quero.
— Nós a amamos. Você não pode esperar que nós a amemos sem que fiquemos preocupados.
— Eu sei. — Chantel guardou um frasco de perfume em uma embalagem de viagem especial. — Foi por isso que não lhes contei o que estava acontecendo. Vocês já se preocuparam demais comigo quando eu era criança.
— Você não acha que os pais simplesmente param de se preocupar só porque os filhos já são maiores de idade, não é?
— Não, acho que não. — Ela sorriu, guardando os itens de maquiagem nos estojos. — Mas me parece que vocês deveriam se preocupar menos depois que os filhos passam de certa idade.
— Só posso lhe dizer que um dia você descobrirá que está enganada.
Foi quando Chantel sentiu aquela pontada novamente. Franzindo a testa, tentou ignorar a sensação.
—Não sei nada sobre isso — murmurou. — Mas sei muito bem que não quero que essa situação incomode minha família.
— O que incomoda um de nós incomoda todos nós. É só isso. — Molly disse isso com tanta simplicidade que Chantel foi obrigada a sorrir.
— É seu lado irlandês.
— E por que não seria? — perguntou Molly. — Seu pai e eu achamos que deveríamos voltar para Los Angeles com você depois do casamento.
— Voltar? — Chantel parou o que estava fazendo para olhar a mãe. — Vocês não podem. Têm de se apresentar em New Hampshire.
Molly dobrou calças de linho pelas pregas e disse, com um sorriso:
— Chantel, seu pai e eu nos apresentamos há mais de 35 anos. Não acho que cancelar um compromisso fará muita diferença.
— Não. — Chantel deixou de lado os frascos e potes que tinha nas mãos e se aproximou de Molly. — Não sei como expressar o quanto significa para mim o fato de saber que vocês fariam algo assim. Mas para que serviria?
— Nós poderíamos ficar com você.
— Vocês mal podem fazer isso, mamãe. As filmagens ainda durarão algumas semanas. Você viu como fiquei pouco tempo em casa nos últimos dias. Eu me sentirei mal só de pensar em vocês dois sentados aqui o dia todo sem fazer nada, enquanto queriam estar trabalhando.
— Sentados? Sem fazer nada?
Chantel torceu a boca, balançando a cabeça.
— Se eu acreditasse que vocês ficariam felizes por mais de 48 horas, seria diferente. Mas, seja racional, mamãe. Se ficarem aqui vou ficar preocupada porque vocês estarão preocupados. Papai vai deixar os serviçais malucos e eu nem estarei por perto para aproveitar.
— Eu disse a Frank que você se sentiria assim. — Suspirando, Molly tocou os cabelos da filha. — Você sempre foi a que mais me preocupou, sabia?
— Acho que fui a que mais deu motivos.
— Você fez o que tinha de fazer. E Trace também tinha de seguir seu caminho, não importa como. Seu pai se recusa a ver isso, mas era algo que sempre esteve dentro dele. De algum modo, eu sempre soube que Abby e Maddy ficariam bem, mesmo quando Abby passou por toda aquela confusão do primeiro casamento e Maddy estava lutando para se manter como dançarina. Mas você... — Molly acariciou o rosto de Chantel. — Eu sempre tive medo de que você perdesse o que tinha a seu lado porque estava sempre olhando para a frente. Quero que você seja feliz, Chantel.
— Eu sou. Não, sou mesmo. Nestas últimas semanas, mesmo com essa situação sobre minha cabeça, descobri uma coisa.
— Quinn.
Chantel fez um gesto de impaciência antes de ir para as janelas.
— O que sinto é óbvio para todo mundo, menos para ele.
Molly tinha uma opinião própria sobre Quinn Doran. Ele não era um homem fácil, nem sempre seria dos mais carinhosos, mas Chantel não precisava mesmo de um homem fácil e carinhoso. Ela precisava de um homem que lhe desse valor.
— Os homens são mais teimosos — afirmou Molly. Ela sabia muito bem o quanto um homem podia ser cabeça dura. — Por que você não lhe diz?
—Não. — Virando-se, Chantel apoiou as mãos no beiral da janela. — Pelo menos não ainda. Isso vai soar estúpido, mas eu quero... Preciso que ele me respeite. A mim — enfatizou. — Pelo que sou. Preciso estar segura de que não sou apenas um passatempo.
— Chantel, você não pode comparar todo mundo com Dustin Price.
— Não estou comparando. — Sua voz se encheu de ira. Ela conseguiu se controlar apenas porque sua mãe continuava a olhá-la fixamente. — Não, não estou. Mas não é algo tão fácil de se esquecer.
— Não, é impossível. Mas você não pode viver sua vida sempre pensando nisso. Você já contou ao Quinn sobre ele?
— Não, não posso, mamãe. Há muitas complicações neste momento. Por que criar mais uma? Já se passaram quase sete anos.
— Você confia em Quinn?
— Sim.
—Você não acha que ele entenderia?
Chantel levou os dedos aos olhos por um instante.
— Se tivesse certeza de que ele me ama, de que o que há entre nós é sincero, eu poderia lhe contar tudo. Até sobre Dustin Price.
— Eu queria poder lhe dizer que tenho certeza, mas não posso. — Molly se aproximou dela e puxou Chantel para perto. — Só posso lhe dizer que não cogitaria deixá-la sozinha, nem por um minuto, até que tudo isso estivesse resolvido, se não tivesse certeza de que Quinn a protegerá.
— Eu me sinto segura com ele. Até conhecê-lo, não sabia se algum homem era capaz disso. — Ela esfregou os olhos fechados. — Eu não sabia que precisava de um homem que fizesse com que eu me sentisse segura.
— Todos nós precisamos de segurança, Chantel. E de amor. — Molly passou a mão pelos cabelos da filha, pelos cachos louro-prateados que tantas vezes ela penteara e arrumara. — Há algo que eu nunca lhe disse. Algo que eu deveria ter lhe contado há muito tempo. — Ela abraçou Chantel. — Tenho muito orgulho de você.
— Ah, mamãe.
Sentindo as lágrimas surgirem, Molly balançou a cabeça.
— Ora, chega disso — murmurou. — Vou descer com os olhos inchados e seu pai ficará insistindo para descobrir por que nós ficamos sentadas aqui em cima, chorando. — Molly beijou a filha no rosto e a abraçou mais um pouco. — Vamos terminar de fazer as malas.
— Mamãe?
— Sim, querida.
— Eu também sempre tive orgulho de você.
— Bem. — Ela pigarreou, mas a voz ainda estava carregada quando disse: — Isso é uma coisa e tanto de se ouvir de uma filha crescida. Você vai ficar bem?
— Vou ficar muito bem. Vou ficar ótima.
— Esta é a minha menina. Agora vamos terminar isso.
Virando-se, Molly tratou de se ocupar com as roupas.
— Olhe só isso. — Com um assobio, ela segurava no ar uma camisola toda feita em seda preta e rendas. — Parece algo pecaminoso.
Esfregando os nós dos dedos nos olhos para secá-los, Chantel só pôde rir.
— Não posso garantir. Acabei de comprar. Molly segurou a camisola contra a luz.
— Acho que fala por si mesma.
— Você gostou dela. — Feliz, Chantel se aproximou, dobrou a camisola cuidadosamente e a deu para a mãe.
— Uma lembrancinha de Beverly Hills.
— Não seja boba. — Mas Molly não resistiu e ficou passando o dedo pela seda. — Eu não poderia usar uma coisa dessas.
— Por que não?
— Tenho quatro filhos já crescidos.
— E você não conseguiu ter quatro filhos colhendo-os numa horta.
— Bem, seu pai ficaria... — Ela deixou a ideia no ar, pensativa. Chantel viu que os olhos da mãe brilharam.
— Obrigada, querida. — Molly deixou a camisola de lado, separando-a das outras peças íntimas de Chantel. — E seu pai também agradece, antecipadamente.
Ao chegarem no andar térreo, ouviram Frank tocando banjo.
— Ele está praticando — disse Molly. — Para poder tocar na festa de casamento. Eles terão de bater nele até deixá-lo desacordado se quiserem que Frank não toque.
— Você sabe muito bem que Maddy jamais faria isso.
— Já está na hora, mulher. — Sem parar de tocar, Frank levantou os olhos para a família, que se aproximava. — Um homem precisa de um pouco de apoio, sabia? Este cara aqui — disse, apontando para Quinn com a cabeça — não sabe cantar.
— Estou apenas lhe fazendo um favor — disse Quinn, tranquilamente, deixando-se cair no sofá.
— Nunca ouvi falar de uma pessoa que não soubesse cantar — afirmou Frank. — Já ouvi falar de várias pessoas que não podiam, mas jamais de pessoas que não sabiam. Sente-se aqui, Molly, meu amor. Vamos mostrar a este homem quem são os O'Hurley.
Obediente, Molly sentou-se ao lado do marido, pegou o ritmo e se pôs a cantar com uma voz simples e forte. Chantel se sentou no braço do sofá ao lado de Quinn e ficou ouvindo seus pais trabalhando juntos, algo que lhe era familiar. Era bom e consistente. A tensão dos últimos dias desapareceu.
— Venha cá, princesa, você se lembra do refrão. Chantel se juntou a eles, e as palavras e o ritmo da música surgiram facilmente. Eles raramente cantavam sozinhos. Para Chantel, cantar era uma atividade em família. Mesmo agora, acrescentando sua voz à de seus pais, ela pensava em Trace e nas irmãs, e nas incontáveis vezes em que cantaram todos juntos a mesma canção.
Ela o surpreendia. Quinn se recostou no sofá e se divertiu, enquanto Frank emendava uma música na outra. Chantel já não era mais a estrela de cinema, nem a mulher apaixonada e incansável que ele descobrira sob a fachada. Chantel estava em casa, com as canções sem sentido que seu pai tocava. Ela era a filha — e uma filha adorável. A inocência que Quinn vira nela se revelava quando Chantel ria e acusava o pai de errar uma nota.
O cheiro dela pairava no ar, misterioso e provocante, em contraste com seu comportamento relaxado e brincalhão. Quinn jamais a vira daquele jeito. Nunca soube que Chantel podia ser assim. Ele se perguntava se ela percebia como a família era importante, se Chantel sabia que sua imagem hollywoodiana desaparecia quando estava na companhia deles.
Foi uma boa semana. Chantel não ficara sabendo das cartas que haviam lhe enviado, porque Quinn as interceptou. Nem ficara sabendo que ele conseguira rastrear um dos telefonemas, feitos de um orelhão no centro da cidade. Quinn não via motivo para lhe dizer ou alertá-la de que duas cartas que ela recebera imploravam por um encontro em Nova York.
Ele sabia quais eram os planos dela.
Quinn ergueu a mão e acariciou-lhe o braço. Os dedos de Chantel se entrelaçaram aos dele naturalmente. Não havia por que contar a ela. Chantel não ficaria sozinha, nem por um segundo. Quinn já tomara as providências necessárias para que três dos seus melhores homens fossem para Nova York. Cada passo que Chantel desse seria monitorado.
Frank interrompeu a linha de raciocínio de Quinn ao lançar um olhar de desafio para a filha.
— Você ainda toca aquela coisa? Ou usa como apoio?
Chantel olhou para o piano de armário branco e depois para suas próprias unhas.
— Acho que ainda consigo tocar algumas notas.
— Com um instrumento bonito daqueles você deveria ser capaz de fazer muito mais do que isso.
— Não quero roubar sua cena, papai.
— Isso seria impossível.
Dando de ombros, ela se pôs de pé e foi até o piano. Só para provocar, Chantel piscou os olhos, sentou-se e se pôs a tocar um longo e complicado arpejo.
— Você tem praticado — acusou Frank, gargalhando alegremente.
Chantel lançou um olhar para Quinn.
— Não passo minhas noites dobrando meias. Quinn aceitou o golpe com uma ligeira inclinação de cabeça.
— Sua filha é cheia de surpresas, Frank.
— Não precisa me dizer. Ah, as histórias que eu poderia lhe contar. Porque, certa vez...
— Pedidos? — perguntou Chantel, interrompendo-o. — A não ser que papai queira amarrar a língua.
Sempre cauteloso, Frank pigarreou.
—Por que você não faz aquele número que sua mãe não a deixava cantar antes dos 18 anos?
— Abby sempre foi a melhor cantando essa música.
— É verdade. — Frank deu uma risadinha ao mesmo tempo amuada e amável. — Mas você não era tão ruim assim. — Molly conseguiu esconder a risada ao ver que a filha fazia uma cara feia.
— Nem tão ruim assim? — Ela torceu o nariz para o pai, mergulhando na introdução da canção.
A balada tranquila arrepiou Quinn. A voz de Chantel era macia como o uísque que ele tinha nas mãos, e tão poderosa quanto. A letra era triste e frágil, mas na voz dela se tornava algo sedutor. Chantel estava vestida de branco quando se sentou ao piano brilhante, também branco. Mas Quinn já não pensava em anjos. A sala ficou mais quente, somente por causa do som da voz dela. Era algo que parecia pesar sobre ele, empurrando-o para baixo até que Quinn já não tivesse certeza de que estava respirando.
Então, ela levantou os olhos do teclado para vê-lo.
Não era uma canção de amor, e sim de amor perdido. Foi quando Quinn pensou que, se a perdesse, nenhuma palavra escrita seria capaz de descrever seu desespero. Chantel o fizera ansiar. E o fizera arder de desejo. Agora, pela primeira vez, ela o enfraquecia.
Chantel tocou os últimos acordes com os olhos ainda fixos nos dele.
— Nem tão ruim assim — repetiu Frank, feliz com a apresentação. — Agora, se vocês...
— Já é tarde, Frank. — Molly lhe deu um tapinha na mão, amando-o por ser tolo como era. — Nós deveríamos ir para a cama. Amanhã será um longo dia.
— Tarde? Besteira. Não é nem...
— Tarde — repetiu Molly. — E está ficando ainda mais tarde a cada minuto. Tenho uma surpresa para você lá em cima.
— Mas eu estava apenas... Uma surpresa?
— Isso mesmo. Venha, Frank. Boa noite, Quinn.
— Molly. — Mas ele não conseguia tirar os olhos de Chantel.
— Está bem, está bem. Eu vou. Boa noite para vocês dois. Chantel, veja se sua cozinheira pode preparar alguns waffles pela manhã, sim?
— Boa noite, papai. — Ela estendeu o rosto para que Frank a beijasse, mas continuava olhando fixamente para Quinn.
— Enquanto subia as escadas na companhia da esposa, podiam ouvir Frank perguntando qual era a surpresa.
— Você foi bem — murmurou Quinn quando a sala ficou em silêncio novamente.
— Sobre o quê?
— Você foi ótima. — Ele se levantou e se aproximou dela. Pegando-a pela mão, Quinn virou-lhe as palmas para cima e as beijou, uma de cada vez. — Quanto mais tempo fico com você — murmurou —, quanto mais a conheço, mais a quero.
Com as mãos ainda nas dele, Chantel ficou imóvel. Seus olhos se iluminaram.
— Eu jamais senti por outra pessoa o que sinto por você. Preciso que você acredite nisso.
— E eu preciso acreditar. — Eles estavam próximos, muito próximos de dar o último passo. Compromissos, promessas, dependência. Quinn sentiu-se prestes a tomar a iniciativa, mas teve medo de que Chantel recuasse e se afastasse se a pressionasse cedo demais. — Diga-me o que você quer, Chantel.
— Você. — Ela podia lhe dar uma resposta completa sem exigir mais do que Quinn estava preparado para lhe dar. — Só quero estar com você.
Por quanto tempo? Era o que Quinn queria perguntar, mas o medo o impediu. Ele aproveitaria o dia e a noite de hoje e lutaria pelo amanhã.
— Venha para a cama.
De mãos dadas e corações perdidos, eles subiram as escadas.
Eles deixaram uma luz fraca acesa ao lado da cama. Era estranho, pensou Chantel, que sua pulsação estivesse tão acelerada e seus nervos tão sensíveis, já que ela sabia o que eles eram capazes de dar um ao outro. Por que aquilo deveria ser diferente agora? Especial. Era algo tão especial quanto a primeira vez. A única vez.
Chantel lhe ofereceu a boca, antecipando o desejo ele.
Quinn foi carinhoso. E... terno. Quando ele passou os lábios de leve sobre os dela, Chantel sentiu que seus músculos se desfaziam e os ossos derretiam. Quinn segurou-lhe o rosto com ambas as mãos e seus dedos acariciavam o pescoço como se fossem sussurros e promessas. Num suspiro, ela disse o nome dele e sentiu-se flutuar.
Que tipo de paixão era essa que se consumia tão tranquilamente? O desejo estava lá, já crepitando, mas a cada carícia Quinn o abrandava — e, ao mesmo tempo, atiçava. Sua boca era paciente e deslizava sobre o rosto dela como se quisesse memorizar a essência de Chantel por meio do toque e do gosto. Quinn lhe deu beijinhos de pluma por todo o rosto, depois buscou-lhe a boca. Comi a língua, ele delineou o contorno e depois se deteve pre-guiçosamente num lábio. Foi quando tudo começou a rodar na cabeça dela.
Chantel era incomparável. E dessa vez Quinn prometeu a si mesmo que lhe mostraria isso. Agora ele sabia que Chantel tinha uma beleza que ia muito além da pele. E ele a acariciaria. Passando a mão pelos cabelos dela, Quinn se deleitou com a sensação sedosa deles. Ele murmurou e ela suspirou, jogando o corpo contra o dele.
Com a boca ainda a explorando, Quinn começou a desabotoar-lhe a roupa nas costas. Quando o tecido se abriu, ele deslizou as mãos ao longo da coluna de Chantel, suavemente, como um homem que toca um cristal fino. Quando a seda caiu no chão, Chantel estremeceu. Sob aquela roupa, ela estava quente e nua. Quinn sentiu o coração pulsar na garganta. Era como se ela tivesse esperado a noite toda para ter aquele momento na sua companhia.
Quinn a afastou um pouco para admirá-la sob a luz do abajur. Chantel era tão pequena e delicada, com uma pele de porcelana e uma forma que talvez tenha sido esculpida em alabastro. Os cabelos lhe caíam sobre os ombros, terminando pouco abaixo dos seios. Seu tronco era estreito. Quinn passou as mãos pelo seu corpo, intrigado por saber que a força de Chantel provinha de algo tão delicado. Sua cintura era tão fina que Quinn quase podia envolvê-la com as mãos antes de se transformar suavemente em quadris firmes e coxas fortes.
— Você é tão linda! — Com a voz controlada, ele tornou a fitá-la nos olhos. — Você me deixa sem fôlego.
Dando um passo à frente, Chantel se jogou nos braços dele.
O tecido da camisa que ele usava parecia áspero contra sua pele nua. Com os olhos semifechados, Chantel se aproximou dele, exigindo que aquela boca a possuísse completamente. Sua língua se encontrou com a dele e começou um silencioso e exótico cortejo de sedução. O tempo todo, com a ponta dos dedos, Quinn a acariciava, do mesmo jeito que Chantel, há algum tempo, acariciara as teclas do piano.
Pela janela soprava uma brisa, anunciando chuva. Chantel inspirou as fragrâncias da noite, que se misturavam aos cheiros almiscarados da paixão. Lentamente, e com o mesmo cuidado que Quinn lhe demonstrara, ela o despiu.
Chantel passou as mãos espalmadas sobre os músculos duros e tensos dos ombros dele, deliciando-se com a sensação. Havia certo poder e disciplina no corpo de Quinn, algo que a estimulava a tocá-lo e provocá-lo. Os músculos no peito dele a fascinavam. Com um murmúrio de aprovação, Chantel o beijou novamente. Foi quando eles se deitaram na cama. Sem pressa. Nem afobação. O momento parecia se alongar, como um sonho, enquanto proporcionavam prazer um ao outro. Chantel se ajeitou para olhá-lo. Como ela poderia contar para Quinn o quanto ele significava para ela? Como poderia lhe explicar como precisava que ele ficasse a seu lado — agora, amanhã, para sempre? Será que um homem como Quinn acreditava na eternidade? Ela balançou a cabeça rapidamente, engolindo todas as perguntas. Chantel não poderia dizer nada, nem perguntar nada. Mas poderia mostrar.
Ela o beijou suavemente, passando, depois, a ponta dos dedos pelos lábios dele, como se para provar o calor que despertava. Aprovando o que sentira, Chantel o beijou novamente, saboreando-o.
Quinn não sabia que o amor podia ser daquele jeito. Mesmo nos momentos mais insanos da paixão que criavam um para o outro, Quinn não sabia da existência de tantas coisas admiráveis. Antes, ele já afirmara a si mesmo que Chantel lhe pertencia. Mas agora, com o corpo suplicante e macio em seus braços, Quinn podia finalmente acreditar naquilo. E o mais importante: ele era dela! Completa e totalmente. O amor, sustentado pela ternura, era mais profundo do que qualquer loucura.
Ele a possuiu facilmente e com naturalidade. Com um gemido suave, Chantel o recebeu. Eles despertaram numa harmonia de movimentos que possuía beleza própria.
Quando já não havia nada mais para darem um ao outro, Quinn e Chantel se abraçaram e dormiram abraçados.
— Não me apresse, não me apresse. — Dando pulinhos, Frank valsava em frente ao balcão da companhia aérea.
Só quero ter certeza de que vocês não enviarão meu banjo para Duluth.
— La Guardia. — Com uma risadinha nervosa, a funcionária da companhia aérea mostrava a Frank os canhotos da passagem. — Não se preocupe.
Para você, é fácil. Eu tenho este banjo há mais tempo do que sou casado. — Então, com uma risada abafada, ele apertou o ombro de Molly. — Não que você signifique menos para mim, meu amor.
Mas eu e o banjo estamos lado a lado. Você tomou seu Dramin, Frank?
— Sim, sim. Não se preocupe.
— Frank é um péssimo viajante — disse Molly, guardando os cartões de embarque no bolso. — Foi dele que Chantel herdou isso.
Surpreso, Quinn parou de empurrar o carrinho com as bagagens de mão.
— Você não gosta de voar?
— Estou bem — disse Chantel. Ela já tomara meio pacote de antiácido e duas pílulas contra enjoo.
Molly deu uma olhada no relógio de pulso.
— É melhor irmos andando.
— Mulheres. Sempre afobadas — disse Frank, dando um tapinha nas costas de Quinn. — Por que aguentamos isso, menino?
— É a única diversão que temos.
— Você está certíssimo. — Feliz da vida, Frank gargalhava ao passar apressadamente pelas portas automáticas do aeroporto.
— Você está mais falante esta manhã — comentou secamente Chantel, recusando-se a perceber o peso que sentia no estômago.
— E por que não? — Frank deu uma risada alegre enquanto subiam a escada-rolante e se dirigiam ao portão de embarque. — O segredo é uma bela noite de sono. — Ele arqueou a sobrancelha para Molly, perguntando-se se ela tornaria a usar aquela camisola preta novamente.
Enquanto passavam pela segurança do embarque, Chantel começou a praticar a técnica de respiração lenta e profunda que a ajudava a embarcar no avião.
— Meu anjo. — Quinn a puxou para um canto. — Você não tomou um tranquilizante ou algo parecido?
— Eu não tomo isso. — Ela remexeu na alça da mala. — Além do mais, estou bem.
Para relaxá-la, Quinn acariciou-lhe os dedos.
— Suas mãos estão geladas.
— Está frio aqui.
Quinn percebeu um homem limpando a testa por causa do calor da multidão.
— Eu não sabia que você ficava nervosa quanto viajava de avião.
— Não seja bobo. Eu voo o tempo todo.
— Eu sei. Deve ser difícil.
Com raiva de si mesma, Chantel olhou por sobre o ombro dele.
— Todo mundo tem direito a uma fobia.
— Você está certa. — Quinn levou as mãos dela aos lábios. — Deixe-me ajudá-la.
Chantel começou a soltar a mão, mas descobriu que estava firmemente presa.
— Quinn, eu me sinto uma idiota. Eu preferia que você me deixasse.
— Certo. Mas você não se importaria em segurar minha mão durante o voo, não é?
— É um voo de seis horas — murmurou ela. — Seis horas inacreditavelmente longas.
Ele se virou.
— É melhor pensarmos em algo para passar o tempo, — Ao beijá-la, nem Quinn nem Chantel perceberam um homem que usava óculos escuros se sentar num banco no canto da sala de embarque. E também não perceberam como o homem fechou os punhos ao observá-los.
— Se fizer isso que você está imaginando, seremos presos — murmurou Chantel, mas a tensão em seus ombros diminuiu.
Quinn mordiscou-lhe o lábio.
— Estou surpreso com você. Eu só estava pensando num joguinho de cartas.
— Pois sim! — Quando anunciaram o voo deles, Chantel respirou fundo, ainda de mão dada com Quinn. — Valendo um dólar cada partida?
— Feito.
Rindo, Chantel acompanhou Quinn e os pais dela através do portão.
O homem de óculos escuros se levantou, colocando um chapéu de abas baixas na cabeça e pegando seu próprio cartão de embarque. Ele se misturou à multidão que entrava na aeronave.
Capítulo Dez
— V
ocê tem certeza de que não se incomoda em ser obrigado a conhecer toda a minha família? — Chantel cuidadosamente pendurava um vestido no cabide. Ela contratara um dos melhores estilistas de Hollywood para criá-lo, mas não era um vestido para ser usado no palco ou na tela do cinema. Não era todo dia que Chantel era dama de honra no casamento da irmã.
— É assim que você vê as coisas? — Intrigado, Quinn sentou-se na cama desfeita, coberto apenas com uma toalha.
Havia um terno recém-passado no armário, mas Quinn não queria nem pensar naquilo.
— Não sei como ver a situação de outro jeito. — Preocupada, Chantel dava uma olhada no estojo de maquiagem. Se tivesse esquecido algo, com certeza Maddy teria para lhe emprestar, e provavelmente ainda na caixa. — Papai disse que você tem de estar no quarto de Reed uma hora antes da cerimônia. — Ela parou e lançou-lhe um olhar. — O que é que os homens fazem antes de um casamento?
— Isso é segredo de Estado. E não me incomodo. Chantel parou novamente, batendo com uma escova na palma da mão.
— O que você acha do Reed, Quinn? Sei que nós passamos apenas umas horas juntos na noite passada, mas você deve ter uma impressão.
— Está preocupada com sua irmã?
— É uma questão territorial.
Quinn se recostou nos travesseiros e ficou olhando para Chantel. Calça justa, blusa de seda e os cabelos louro-prateados penteados para trás de um rosto de bochechas douradas. Chantel O'Hurley não se parecia nada com a mãe, mas Quinn aprendera a ver o que havia sob a superfície. Quando se tratava da família, ela era um doce de pessoa.
— Seguro e certamente bem sucedido. Meticuloso, acho. Conservador.
— E Maddy?
— Espalhafatosa, teatral e exagerada.
— É exatamente Maddy — murmurou Chantel. — Não parece que eles têm muita coisa em comum. Mas...
— Mas?
— Parece certo. — Suspirando, ela deixou a escova cair na mala. — Simplesmente parece certo.
— Então, por que está preocupada?
— Ela é minha irmã caçula.
— Por quantos minutos? — perguntou ele, secamente.
— O tempo não tem nada a ver com isso. — Chantel afirmou com tanta certeza que Quinn percebeu que ela ouvira a mesma pergunta antes. — Ela é minha irmã caçula e sempre foi a mais confiável e adorável. Abby é tão... sólida — disse. — E eu tenho bastante maldade em mim para sobressair. Mas Maddy... Maddy é o tipo de mulher que acredita que o cheque foi depositado, que o alarme não foi desligado e que o medidor de gás está quebrado.
— Acho que sua irmã sabe exatamente o que quer e como conseguir.
— Eu também. De verdade. Acho que estou apenas agindo emocionalmente.
Quinn arqueou a sobrancelha.
— Por que você não vem para cá e age pelas emoções?
Ela lhe lançou um sorrisinho.
— Pensei que você estivesse esperando o serviço de quarto.
— Odeio esperar sozinho.
— Quinn, se eu voltar para a cama...
— Sim?
— Vou fazer amor com você de um jeito incrível.
— Está me ameaçando? — Ele se deitou de costas, cruzando os braços atrás da cabeça. — Por que não vem aqui e me diz isso?
Chantel jogou o estojo de maquiagem para o lado e se aproximou.
— Você não tem a menor chance.
— Convencida.
— Eu posso fazer muito mais do que ficar me gabando — murmurou Chantel, passando a ponta dos dedos pela perna dele, fazendo a toalha deslizar para o alto de suas coxas. — Muito mais.
Antes que Chantel pudesse provar o que dizia, Quinn a segurou pelo pulso e a puxou bruscamente, fazendo com que ela caísse sobre seu peito. Ela riu, mas a risada acabou abafada por um gemido de encontro aos lábios dele.
Não lhe parecia possível que Chantel o desejasse com a mesma intensidade da noite anterior, quando se deitaram pela primeira vez sob os lençóis de linho do hotel, mas a excitação era como nova — e entusiasmada.
Quinn cheirava a banho — um perfume fresco e penetrante. Quando seus cabelos resvalaram no rosto dela, estavam ligeiramente úmidos. Seu corpo estava ali ao dispor dela — forte, viril e completamente nu. Com uma risada, Chantel o beijou no pescoço.
— Qual é a graça?
— Eu me sinto segura. — Ela levantou a cabeça para sorrir-lhe. — Maravilhosamente segura.
Quinn tirou os cabelos que lhe caíam no rosto, segurando-a por um instante e depois deixando que as mechas escorressem por sua mão. Como era possível que Chantel significasse tanto para ele em tão pouco tempo?
— Não quero que você se sinta apenas segura.
— Não? — Chantel levou os lábios até os ombros dele e deslizou a língua por sobre a pele de Quinn. — O que mais você quer que eu sinta?
Amor, lealdade, devoção. Era assustador que fossem estas as palavras que lhe surgiram à mente. Para se proteger — e talvez para protegê-la —, Quinn não disse nada.
O amor físico não faria mal a nenhum dos dois. Não do mesmo modo que as emoções podiam fazer.
— Por que eu não lhe mostro? — Com um movimento rápido, Quinn a pôs deitada de costas sob ele. A toalha enrolada na sua cintura era mantida no lugar apenas pela pressão de seus corpos unidos. Quando Quinn a beijou, Chantel começou a tirar-lhe a toalha. Excitado, ele riu e desabotoou-lhe rapidamente a blusa. Ao ouvirem uma batida na porta, ambos gemeram, frustrados. Chantel se levantou, apoiada nos cotovelos, e jogou o cabelo para trás.
— Você tinha de tomar café, hein?
— Mande-os trazerem o café mais tarde. — Quinn deslizou a mão por sob a saia dela, explorando-lhe a coxa.
Ouviu-se a batida na porta novamente, dessa vez com mais insistência.
— Eu atendo. — Livrando-se de Quinn, ela arrumou a blusa. Então, dando uma risadinha, pegou a toalha e a jogou do outro lado do quarto. — Fique aqui. — Chantel o beijou novamente, um beijo rápido. — Bem aqui.
— Você é quem manda.
— Nunca se esqueça disso. — Chantel estava sorrindo quando saiu em direção à sala anexa à suíte.
Quinn tomaria o café da manhã, mas o tomaria frio.
Na cama, Quinn se esticou e ligou o rádio. Um pouco de música, pensou. Com as cortinas ainda fechadas, o quarto estava escuro. Eles podiam estar em qualquer lugar. Por um momento, ele se permitiu imaginar que estavam no quarto deles — não o que havia na mansão de Chantel, nem no quarto da casa de Quinn e muito menos no quarto de um hotel de luxo, e sim no quarto que transformaram no recanto deles. Quando você ama, percebeu Quinn, não pensa apenas no momento, mas na eternidade.
Talvez fosse a hora de lhe dizer, de admitir para Chantel, e não apenas para si mesmo, que a amava e que queria viver uma vida ao lado dela. Que queria lhe dar sua vida — o passado, o presente e o futuro, e não apenas a ânsia passageira de satisfazer a paixão, de saciar o desejo. Havia, sim, paixão, mas era algo que jamais se esgotaria. O desejo jamais poderia ser totalmente saciado. E o mais importante: havia um sentimento que se dilatava e se expandia todas as vezes que Quinn estava ao lado dela.
Ele queria se casar com Chantel. Isto deveria apavorá-lo, mas quase agradava. Quinn a queria, de todos os jeitos tradicionais, algo que ele sempre desprezara como coisas limitadoras e sem importância. Uma casa, uma família e uma aliança no dedo dela e no dele. Quinn Doran, um homem de família! De repente, aquela ideia pareceu combinar com ele.
Chantel talvez o rejeitasse. Provavelmente, o rejeitaria. Quinn tinha apenas de pressioná-la do jeito certo. Ao pensar naquilo, ele deu um rápido sorriso. Persuadir Chantel O'Hurley a se casar com ele talvez fosse a tarefa mais difícil de sua vida.
— Quinn?
— Sim?
— Pode vir aqui um minuto?
Ele percebeu um quê de tensão na voz dela. Deixando de lado as fantasias, Quinn pegou o roupão. Ele viu as flores assim que pôs os pés na sala da suíte. Uma dúzia de rosas vermelhas como sangue, com as pétalas se abrindo, estavam na mesa perto da porta. Chantel estava de pé ao lado delas, com o rosto branco como o cartão que tinha nas mãos.
— Ele sabe que estou aqui. — Chantel conseguiu manter a voz firme, quase tranquila. — Ele diz que me seguirá aonde quer que eu vá. — Seus dedos não tremiam quando Chantel entregou o cartão a Quinn. Mas quando os dedos dela resvalaram nos dele, es-tavam gelados. — Ele diz que está esperando a hora certa.
Quinn pegou o bilhete e olhou rapidamente para a mensagem. No canto do envelope havia o nome da floricultura.
Ele acabou de cometer o primeiro deslize — murmurou Quinn. — Quem trouxe estas flores?
— O mensageiro do hotel. — Ela olhava para a parede do outro lado da sala, para uma reprodução de um quadro de Monet, se perguntando por que não sentia nada, nada mesmo. — E nem mesmo lhe dei uma gorjeta.
— Pare.
Chantel se sentiu atacada pela voz dele. Depois de um longo tremor, olhou para Quinn. Ela sabia que não conseguiria uma reação de solidariedade, nem palavras de conforto ou promessas vazias. Chantel não queria isso, ela queria a verdade.
— Ele está aqui, não é? Talvez até mesmo neste hotel.
— Sente-se. — Quinn tentou segurá-la pelo braço, mas Chantel se desvencilhou.
— Não preciso me sentar. Preciso de algumas respostas.
— Chantel...
Quando ouviu outra batida na porta, ela levou as mãos à boca para abafar um grito. Praguejando, Quinn a empurrou para uma poltrona e foi até a porta. Pelo olho-mágico ele viu um garçom do serviço de quarto, com uma bandeja de café da manhã.
— Está tudo bem — disse, olhando para trás. — É apenas o serviço de quarto.
Quinn abriu a porta e deixou que o garçom empurrasse o carrinho até uma mesa perto da janela. Depois de assinar o pedido, seguiu o garçom até a porta para dar uma boa olhada no corredor.
— Você deveria tomar um pouco de café — disse Quinn, passando por Chantel e indo até a mesinha.
— Não. Respostas. — Ainda que sentisse os joelhos trêmulos, Chantel se levantou. — Não sei por quê, mas acho que você as tem. Você sabia que ele estaria aqui.
Apesar da recusa dela, Quinn serviu duas xícaras.
— Sim.
— Sim? — Uma risada seca surgiu do nada, enquanto Chantel apertava as têmporas com os dedos. — Você não é um homem de muitas palavras, não é, Quinn? Como você sabia que ele estaria aqui? Sexto sentido? Intuição masculina? Instinto?
— Qualquer uma dessas alternativas. — Quinn sentiu um vazio no estômago ao se virar para encará-la novamente. — Eu esperava que ele fosse aonde você fosse, mas, além disso, ele disse que estaria em Nova York nas últimas cartas que mandou.
Chantel cruzou os braços. Um arrepio passou por todo o corpo dela rapidamente. Ela estava começando a sentir agora — e sentir intensamente.
— Você não acha que eu tinha o direito de saber?
— Se achasse, teria lhe contado. Por que você não come alguma coisa?
Sim, havia sentimentos. E eles estavam fervendo dentro dela, ameaçando transbordar à primeira palavra que Chantel dissesse. Ela foi até a mesa e, mantendo os olhos fixos nos de Quinn, pegou um prato e, de propósito, deixou-o cair no chão.
— Quem você pensa que é? — Sua voz era ainda mais agressiva quando ela falava baixinho e calmamente. — Como você ousa me tratar como se eu fosse uma mulher estúpida e covarde que precisa ser guiada com coleira e guia? Eu tinha o direito de saber que ele pretendia me seguir, que as coisas aqui seriam as mesmas que na Costa Oeste.
Quinn podia perder a calma ou se controlar. Ele sentou, pegando a xícara de café. A raiva tirara a expressão apaixonada dos olhos dela. Ele a deixou prosseguir com aquilo.
— Eu fiz do meu jeito. Você me paga para que eu faça as coisas do meu jeito.
Desprevenida, Chantel recuou. Ela o pagava. Como pôde se esquecer de que Quinn estava apenas fazendo um trabalho? Uma pontada de dor a atingiu. Mas até mesmo aquilo parecia melhor do que o torpor.
— Eu esperava me manter informada do avanço das investigações, Doran.
— Ótimo. — Ele pegou uma torrada e começou a passar geleia.
— Vou sair para que você aproveite seu café da manhã.
— Chantel. — Sua voz era calma, mas tinha bastante força para detê-la antes que ela saísse do quarto. — Você também pode se sentar, não vai a lugar algum sozinha.
— Vou para o quarto de Maddy.
— Você pode tentar sair. — Deliberadamente, Quinn pôs a faca ao lado do prato. — Mas não conseguirá. Eu a levarei ao quarto dela assim que me vestir. — Ele lançou-lhe um olhar frio e desafiador. — E você ficará lá, dentro do quarto, até que eu volte para buscá-la.
— Eu não...
— Tenho um homem hospedado no quarto em frente e outro no quarto em frente ao da sua irmã. Você está perfeitamente segura aqui dentro, mas quero acompanhá-la.
Ela estava bastante irritada para arriscar. Chantel mediu a distância até a porta, e olhos nos olhos de Quinn, sem dizer nada, deixou-se cair numa poltrona e o ignorou, até que ele terminasse o café da manhã.
Quinn encontrou a floricultura toda bagunçada na altura da rua Sessenta, no lado oeste da cidade. Apesar do ar-condicionado, estava abafado, e o lugar cheirava a diversos perfumes florais. Havia três clientes na loja, dois deles em frente a um comprido balcão coberto por pedaços de papéis e um estridente telefone que o estressado homem atrás do balcão ignorava. Outro cliente estava em frente a uma vitrine, olhando os arranjos.
— Não posso entregá-las antes das 16 horas. Não posso. — O proprietário escrevia algo em um formulário, balançando a cabeça. Ele pegou um cartão de crédito e o passou pela máquina que autorizava a transação. — Sim, elas estarão lindas — respondeu, para a resposta sussurrada do cliente. — Enormes cravos cor de rosa decorados com mosquitinhos. De bom gosto. Muito bom gosto. Assine aqui.
Quinn passava por um arranjo de lírios enquanto o homem atendia os outros clientes.
— Certo, certo. Você quer comprar flores ou vai só ficar olhando?
Quinn virou-se para ver um homem cortando papéis no balcão.
— Isto daqui está bem movimentado hoje.
— Não me diga. — O homem baixinho tirou do bolso um lenço para limpar o suor na nuca. — Problemas com o ar-condicionado, meu funcionário teve apendicite e tem pessoas demais morrendo. — Diante da expressão de dúvida de Quinn, o homem explicou. — Funerais. Todo mundo está à procura de margaridas.
— Que dureza! — Quinn lançou um olhar de soslaio para algumas margaridas que estavam em um balde com água. — Isto é seu?
O homem deu uma olhada no cartão na mão de Quinn.
—É o que diz aqui. — O floricultor apontou para o nome no cantinho do cartão. — Flores do Bernstein.
— Eu sou o Bernstein. Você teve algum problema com a entrega?
— Uma pergunta. Rosas vermelhas, uma dúzia, entregues no Plaza esta manhã. Quem as comprou?
— Você está me perguntando quem comprou? — Bernstein deixou escapar uma longa risada fanhosa. — Meu jovem, eu vendo 20 dúzias de rosas por semana. Como vou saber alguma coisa sobre quem as compra?
— Você os guarda? — Quinn apontou para a caixa registradora. — Os recibos. Você deve ter um recibo de uma dúzia de rosas entregues no Plaza às, digamos, dez e meia, onze horas desta manhã.
— Você quer ver meus recibos?
Quinn tirou uma nota de 20 dólares do bolso.
— Isso mesmo.
O homem ficou impassível, a boca semiaberta, num sinal de indignação.
— Eu não aceito propina. Se você tem 20 dólares, então compre 20 dólares em flores.
— Ótimo. E quanto aos recibos?
— Você é policial?
— Detetive particular.
Bernstein hesitou. Então, resmungando, foi até a gaveta na qual guardava os recibos do dia. Procurando entre eles, o floricultor dizia algo para si mesmo.
— Ninguém comprou rosas hoje.
— Ontem.
Aquilo rendeu a Quinn um olhar de reprovação, mas Bernstein foi até outra gaveta.
— Rosas vermelhas para o Maine. Duas dúzias para a Pensilvânia. Uma dúzia para a rua Vinte e Sete... — Ele citou mais alguns endereços. — Uma dúzia para o hotel Plaza, suíte 1.203, para ser entregue nesta manhã.
— Posso dar uma olhada? — Sem esperar pela resposta, Quinn arrancou o recibo das mãos do homem. — Pago em dinheiro.
— Eu não tenho problema em aceitar dinheiro. Mas dinheiro significava que não havia assinatura.
Quinn devolveu o recibo.
— Como ele era?
— Como ele era? — O homem riu novamente. — Como vou me lembrar da sua aparência amanhã? As pessoas vêm aqui e compram flores. Eu não ligo se elas têm um olho na testa, desde que tenham um bom cartão de crédito ou paguem em dólares.
—Tente se lembrar. — Quinn pegou outra nota de 20. — Você tem belas flores aqui.
O florista o olhou irritado.
— Os cravos ali na vitrine estão ficando velhos.
— Acontece que sou um admirador de cravos. Com um meneio de cabeça, o homem aceitou as duas notas de 20 dólares e depois pegou os cravos da vitrine.
— Eu me lembro que ele disse para mandar as rosas para Chantel O'Hurley. As coisas estavam bem confusas aqui ontem. Eles levaram meu funcionário numa ambulância. Meu outro funcionário está de férias e nós temos dois casamentos. — Como amava sinceramente as flores, o homem as borrifou com um pouco de água. — De qualquer modo, ele disse para entregar as flores para ela, então eu disse: "Ei, ela não é a atriz?". Sabe, eu e minha mulher vamos muito ao cinema. Ah, sim, eu perguntei se ele era da Califórnia. O homem estava usando um chapéu panamá e óculos escuros.
— O que ele disse?
— Acho que nada. E não me pergunte como ele se parece de novo, porque não sei. A sra. Donahue estava aqui, aprontando a maior confusão por causa do casamento da filha. Pétalas de rosa. Um monte delas. Rosas.
— Ele balançou a cabeça. — Ele era um cara que nunca vi na vida.
— Quantos anos?
— Pode ser mais novo ou mais velho que você. Mas não era grande. E tinha mãos nervosas — lembrou-se de repente e, num gesto de agrado, adicionou um pouco de fertilizante aos cravos.
— Por que diz isso?
— Ele chegou aqui fumando um cigarro estrangeiro. Eu não permito que fumem aqui dentro, por mais chique que seja o cigarro. Não é bom para as flores.
— Como sabe que o cigarro era estrangeiro?
— Como sei? Como sei? Eu conheço um cigarro ame¬icano quando vejo um — disse o florista, com irritação.
— E não era um cigarro americano. Eu o fiz jogar fora. Não me importa quanto dinheiro você vai gastar aqui, não vai poluir minhas flores.
—Certo. Então ele tinha mãos nervosas.
—Não conseguia mantê-las paradas depois que jogou o cigarro fora. Olha, eu tive problemas demais aqui sem esse cara. A sra. Donahue estava me levando para a cova e meu funcionário teve de tirar o apêndice. Se duvidar, ainda vai pedir uma indenização por acidente de trabalho.
—Algo mais? — sugeriu Quinn, ignorando a história de apendicite do funcionário. — Algo que ele fez ou disse e que chamou sua atenção?
— Um maço de dinheiro preso por um grampo — disse ele, abruptamente. — É, ele pegou o dinheiro de um maço, não da carteira. Um belo grampo, nada que você consiga comprar na rua. De prata. Com um monograma.
— Que iniciais?
— Iniciais? — O florista começou a guardar a pilha de recibos. — O que sei eu sobre iniciais? O grampo tinha uns rabiscos gravados.
— Anéis? Relógio?
— Não sei. Notei o grampo porque o cara tinha um maço enorme de dinheiro. Talvez usasse jóias, talvez não. Eu estava recebendo o dinheiro dele, não fazendo uma avaliação.
—Obrigado. — Quinn pegou um cartão e nele escreveu o número do telefone do hotel. — Agradeceria se você me ligasse se lembrar de algo mais. Ou se ele voltar.
— Ele está metido em alguma encrenca?
— Digamos que eu adoraria ter uma oportunidade de conversar com ele.
— Não se esqueça dos seus cravos. Quinn enfiou o buquê sob o braço e se dirigiu à saída.
— Acho que você tem um bando de caras esquisitos lá na Califórnia — comentou Bernstein.
— Alguns.
— As estrelas de cinema! — Ele deu outra risadinha. — O cara disse que ele trabalha de perto com a srta. O'Hurley. Bem de perto.
Os dedos de Quinn apertaram a maçaneta.
— Obrigado.
Ao sair para a calçada, jogou as flores nos braços de uma mulher que carregava um carrinho de supermercado. Ele não olhou para trás para ver a surpresa dela. Quinn estava sentindo o estômago revirado. Ele conhecia uma pessoa que carregava um grampo de prata. Um grampo que fora um presente de Chantel: Matt Burns!
Ele não queria acreditar naquilo. Matt era um amigo e ninguém melhor do que Quinn sabia como era difícil fazer e manter amizades nesse tipo de negócio. Mas o quão bem ele realmente conhecia Matt Burns?
Quinn jamais soubera do vício em corridas de cavalos até que desencavara aquela história. Matt traíra a confiança de um cliente por causa de uma fraqueza. Isto não fazia dele o suspeito número 1 de trair Chantel por causa de outro tipo de fraqueza?
Vários homens usavam grampos para prender o dinheiro, lembrou-se Quinn afastando-se do hotel em vez de voltar para ele. Antes de regressar para Chantel, ele precisava pensar um pouco. Vários homens usavam grampos de prata, admitiu Quinn, assim como vários homens fumavam cigarros estrangeiros. Mas ele se perguntava quantos homens conheciam Chantel, trabalhavam com ela e, ainda por cima usavam grampos e fumavam cigarros estrangeiros.
Ele fora estúpido, concluiu Quinn ao parar num telefone público. Estúpido era pouco, corrigiu-se. Uma mulher o transformara num estúpido. Seu trabalho nao era encontrar motivos por que o admirador secreto não era Matt; seu trabalho era descobrir os motivos por que ele era.
Abrindo seu caderno de anotações, procurou pelo número do telefone de Matt e ligou.
— Escritório do sr. Matt Burns. Preciso falar com ele.
— Desculpe, mas o sr. Burns está indisponível até segunda-feira.
— Chame-o de qualquer jeito, querida. É importante. Do outro lado da linha, a voz ficou mais afetada.
— Desculpe. O sr. Burns está fora da cidade. Quinn sentiu um arrepio na espinha.
— Onde?
— Não tenho permissão para lhe dar esse tipo de informação.
— Quem fala é Quinn Doran. Estou ligando da parte de Chantel O'Hurley.
— Ah, desculpe, sr. Doran. O senhor devia ter dito quem era. O sr. Burns está fora da cidade, infelizmente. Devo dizer a ele que o senhor entrou em contato se ele ligar?
— Eu entrarei em contato com ele na segunda-feira. Onde ele está?
— Ele foi para Nova York, sr. Doran. Tratar de assuntos particulares.
— Sei. — Ele conteve um xingamento ao desligar o telefone. Era um assunto muito particular mesmo. Matt iria machucá-la, pensou Quinn. E a machucaria feio.
— Mais três horas. — Maddy O'Hurley saltou da cadeira, andou de um lado para o outro da sala e se deixou cair em um sofá. — Nós deveríamos ter casado pela manhã.
— Logo já será tarde. — Chantel bebia sua terceira xícara de café, perguntando-se quando ouviria notícias de Quinn novamente. — Você não deveria estar aproveitando suas últimas horas como uma mulher solteira?
— Estou cansada demais para aproveitar qualquer coisa. — Maddy estava em pé de novo, os cabelos avermelhados balançando a cada gesto. — Estou tão feliz que você esteja aqui. — Ela parou tempo suficiente para dar um rápido abraço em Chantel. — Eu estaria louca agora sem você. Eu queria que Abby pudesse descer.
Ela descerá, assim que conseguir deixar Dylan e os meninos com papai. Pense em outra coisa.
— Outra coisa. — O corpo em forma, de dançarina, de Maddy girou rapidamente. — Como posso pensar em qualquer outra coisa? Andar pela nave da igreja é a maior estreia que já tive.
— Por falar em estreias, conte-me sobre sua peça.
— É ótima. — Seus olhos de âmbar se iluminaram com o amor pelo teatro. — Talvez eu esteja sendo preconceituosa, porque foi a peça que me uniu a Reed, mas é a melhor coisa que já fiz. Esperava que você pudesse assisti-la.
— Logo estarei em Nova York para filmar algumas cenas externas. E você já terá voltado da sua lua-de-mel e estará se apresentando. — Impaciente, Chantel pegou um cigarro. — E se as críticas forem um sinal, a peça vai ficar em cartaz por anos.
Maddy observava a irmã brincar com o cigarro e depois acendê-lo. Fumar era algo que ela raramente fazia só quando estava mesmo nervosa.
— Como estão indo as filmagens?
— Não tenho do que reclamar.
— E esse tal de Quinn? É sério? Chantel deu de ombros.
— Ele é só um homem.
— Pare com isso, Chantel. Eu sou Maddy. E já a vi com "só um homem" antes. Vocês brigaram? — Ela conseguiu se manter calma bastante tempo para se sentar no braço da poltrona de Chantel. — Noite passada você parecia feliz. Seus olhos brilhavam todas as vezes que olhava para ele.
— Claro que estou feliz. — Chantel deu um tapinha no braço de Maddy. — Minha irmã caçula está se casando com um homem que acho que quase a merece.
— Deixe de rodeios, Chantel. — Repentinamente séria, Maddy pegou as mãos impacientes de Chantel nas dela. O nervosismo parecia ter passado de uma irmã para a outra. — Ei, está acontecendo algo muito sério, não é?
— Não seja boba. Eu... — Chantel se interrompeu ao ouvir uma batida na porta.
Maddy sentiu que os dedos da irmã ficaram ainda mais rígidos.
— Chantel, o que é?
— Nada. — Irritada consigo mesma, Chantel relaxou. — Só veja bem quem está à porta, Maddy. Não queremos que um noivo superentusiasmado entre no seu quarto.
Longe de estar satisfeita, Maddy se levantou e foi até a porta.
— É Abby — disse, olhando através do olho-mágico. Com a ajuda de Abby, Maddy pensou que poderia descobrir o que estava preocupando tanto a irmã. — Como você consegue não estar gorda ainda? — perguntou, abrindo a porta.
Rindo, Abby pôs a mão na barriga e com a outra acariciou o rosto de Maddy.
— Ainda tenho cinco meses de gravidez. E você, como consegue não estar pronta ainda?
— Ainda tenho três horas até o casamento.
— Tempo de sobra. — Abby jogou seu vestido sobre uma cadeira e foi até Chantel. — Acha que conseguimos vesti-la a tempo?
— Talvez. Pelo menos se começarmos ela não poderá ficar andando de um lado para o outro da suíte. Ainda bem que Reed a convenceu a desistir daquele seu apartamento. Se não, estaríamos sentadas uma sobre a outra.
— Ainda sinto falta daquele lugar. — Com uma risadinha, Maddy se aproximou para abraçar as duas irmãs. — Eu tive tanta dificuldade me imaginando morando numa cobertura. Dylan e os meninos estão com papai?
— Eu os deixei na porta. Mamãe está arrumando o cabelo e papai estava tentando convencer Dylan a fazer um brinde antes do casamento. Mal posso esperar para ver Ben vestindo um smoking novamente. Ele parece um homenzinho. E Chris está irritado porque estamos alugando os trajes, e não comprando. Ele acha que um smoking é algo para mostrar para os amigos da escola. E por sinal... — Abby deu um beliscão em Chantel antes de soltá-la — ... eu gostei do seu Quinn.
— O pronome possessivo é um tanto apressado. — Chantel conseguiu sorrir. Depois, por impulso, foi até o telefone. — Eu sei o que está faltando aqui — disse às irmãs, ligando para o serviço de quarto. — Gostaria de uma garrafa de champanhe e três taças. Dom Pérignon, 1971. Sim, suíte de Madeline O'Hurley. Obrigada.
Abby franziu a testa e apoiou o braço no ombro de Maddy.
— Não são nem onze horas da manhã.
— Quem liga para isso? — perguntou Chantel. — As Trigêmeas O'Hurley vão celebrar. — Sem motivo aparente, seus olhos se encheram de lágrimas. — Ah, Deus, às vezes sinto tanto a falta de vocês duas que mal posso suportar.
Elas se juntaram imediatamente, abraçadas e presas no cimento que as uniu antes mesmo do nascimento. Maddy fungou, Abby a confortou e então, para surpresa das duas irmãs, Chantel começou a chorar incontrolavelmente.
— Ah, menina! — Abby a deitou no sofá, lançando um olhar rápido e preocupado para Maddy. — O que está acontecendo, Chantel?
— Nada, nada. — Ela secou as lágrimas. — Só estou fragilizada. Acho que ando um pouco estressada, trabalhando demais. Só de ver vocês duas, você com sua bela família, Abby, e Maddy prestes a começar a dela... Eu fico imaginando se as coisas tivessem sido diferentes... — Chantel deixou as palavras desaparecerem com um menear de cabeça. — Não, eu fiz minhas escolhas, e agora preciso aceitar as consequências.
Abby tirou os cabelos que caíam sobre o rosto de Chantel. Sua voz era sempre calma e as mãos sempre carinhosas.
— Chantel, tudo isso é por causa de Quinn?
— Sim... Não. — Ela ergueu as mãos e as deixou cair novamente. — Não sei. Estou tendo alguns problemas com um fã entusiasmado demais — disse, menosprezando o problema. — Contratei Quinn para mantê-lo à distância. E depois me apaixonei por ele e... — Chantel se interrompeu mais uma vez, respirando fundo. — Nossa, acabei de dizer isso em voz alta.
Maddy se abaixou para beijá-la no alto da cabeça.
— Ajudou?
Um pouco da tensão se desfez.
— Talvez. Estou agindo como uma idiota. — Ela procurou por um lenço de papel. — E vou me odiar se entrar na igreja como dama de honra com os olhos inchados.
— Agora você está parecendo mesmo a Chantel que conhecemos — murmurou Maddy. — Além do mais, se você está apaixonada por Quinn, tudo vai dar certo.
— Sempre a otimista.
— Com certeza! Abby encontrou Dylan, eu encontrei Reed e agora é sua vez. Se apenas pudéssemos arranjar alguém para Trace...
— Você está exagerando — disse Chantel, rindo. — Se existe uma mulher capaz de segurar nosso irmão mais velho, eu adoraria conhecê-la — afirmou, mas a batida na porta a trouxe de volta à realidade. — Deve ser o champanhe. — Enfiando o lenço no bolso, Chantel foi até a porta, mas antes achou melhor dar uma espiada pelo olho-mágico. — Uh-oh! — Um sorriso se insinuou em seus lábios quando ela olhou para trás. — Sim, é nosso champanhe. Mas não é só isso. Abby, leve Maddy para o quarto. Tem um maníaco apaixonado na porta.
— Reed? É Reed? — Maddy estava a meio caminho da porta quando suas irmãs a seguraram.
— De jeito nenhum! — Mesmo grávida de quatro meses, Abby ainda era bastante ágil. Ela agarrou Maddy pela cintura. — Azar o seu, querida. Você vai já para o quarto. Chantel e eu podemos lhe passar quaisquer mensagens.
— Isto é ridículo!
— Não vou abrir a porta até que você saia desta sala — disse Chantel, impedindo a passagem. — Saia já daqui!
Depois de torcer o nariz, Maddy bateu a porta do quarto após passar. Como precaução, Abby se pôs em frente à porta. Com um aceno de satisfação, Chantel abriu a porta que dava para o corredor.
— Bem aqui — disse ao garçom. — E quanto a você... — ela pôs um dedo fino e de unhas bem acabadas no peito de Reed — ... nem mais um passo.
— Só quero vê-la por um minuto.
Chantel conseguiu esconder um sorriso e fez que não. Ela podia quase sentir o amor que ele emanava, o nervosismo, a ansiedade. Reed ainda não estava usando seu smoking; ele usava calças simples e uma camisa que era reflexo de seu estilo conservador. Parecia um executivo. Ele era um executivo, pensou Chantel, ainda negando com a cabeça. E o homem mais diferente do tipo que as pessoas imaginavam para sua irmã libertária e boêmia. Mesmo assim, eles combinavam. Chantel pensou que a primeira coisa que havia atraído Maddy tinham sido aqueles olhos acinzentados. O resto foi uma questão de tempo.
— Olhe, tenho algo para ela. — Acostumado a conseguir o que queria, Reed deu um passo à frente, apenas para ser bloqueado por Chantel. — Vou entrar e sair antes que vocês percebam.
— Você não vai entrar, de jeito nenhum! — corrigiu Chantel. — Somos irlandesas, Reed, e também artistas. Você jamais conhecerá pessoas mais supersticiosas do que nós. Você só verá Maddy na igreja.
— Isso mesmo. — Ouvindo uma confusão atrás de si, Abby segurou firmemente a maçaneta da porta do quarto. — Tenho certeza de que você é um cavalheiro e não tentará passar por cima de nós duas. — Usando sua arma secreta, ela sorriu e pôs a mão na barriga. — Ou melhor, nós três.
Reed não tinha tanta certeza disso. Ele queria ver Maddy, tocá-la nem que fosse por um minuto, para ter certeza de que aquilo era real. Abby sorriu para ele com seus olhos afetuosos e solidários, mas não recuou. Chantel assinou o recibo pela garrafa de champanhe sem sair da porta.
— Desça até o oitavo andar e tome uma bebida com papai — aconselhou.
— Eu só quero...
Esqueça. — Então Chantel se acalmou e beijou-o no rosto. — Só mais algumas horas, Reed. Acredite, a espera valerá a pena.
Há poucos minutos Reed conseguira convencer Dylan e passar por cima das objeções de Frank. Mas de algum modo ele sabia que vencer aquelas duas era algo acima de suas forças.
— Vocês podem lhe dar isso? — Ele tirou uma caixinha do bolso. — Era da minha avó. Eu iria dar isso para Maddy mais tarde. Mas, bem, gostaria que ela usasse isso hoje.
— Ela usará. — Chantel começou a empurrá-lo para fora novamente, mas parou. — Reed.
— Sim?
— Seja bem vindo à família. — Então ela bateu a porta. — Deus, mais um minuto e eu começaria a chorar. Deixe-a sair.
— O que ele lhe deu? — Maddy já estava cutucando a irmã. Ela pegou a caixa das mãos de Chantel e a abriu. Dentro havia um coraçãozinho de diamantes preso numa correntinha de prata. — Ah, não é lindo?
— Vai ficar ainda mais lindo com seu vestido. — Abby passou o dedo pelos brilhantes. — Venha, vou colocá-la em você.
— Agora sou eu quem vai chorar. — Maddy levou a mão ao coração. Reed seria dela, só dela, em questão de horas. E sua nova vida começaria.
— Chega de choro. — Chantel abriu o champanhe com um estampido. O líquido caiu no tapete, algo que foi ignorado quando Chantel sentiu o transbordante vinho nas três taças. — Vamos nos embebedar só um pouquinho. Bem, nós duas vamos ficar um pouquinho bêbadas e Abby vai beber só meia taça. Depois, juntas, vamos arrumar a mais bela noiva que já entrou na igreja de St. Patrick. A você, irmãzinha.
— Não. — Maddy brindou com Chantel e depois com Abby. — A nós. Enquanto tivermos uma à outra, jamais estaremos sozinhas.
Capítulo Onze
D
iante da insistência de Chantel, ela e Quinn pegaram o voo noturno para Los Angeles na noite de sábado. Nova York não fora o paraíso que Chantel esperava. Depois que o casamento terminou e Maddy foi passar a lua-de-mel no Caribe, ela só conseguia pensar em voltar para casa.
A festa tinha sido estressante. Chantel se viu olhando para os estranhos, examinando rostos conhecidos e imaginando coisas. Quando, já no avião, se permitiu dormir um pouco, prometeu a si mesma que, da próxima vez que fosse a Nova York, seria sem medo.
E o que podia dizer para Quinn? Por mais traída que Chantel se sentisse com o silêncio dele, não fora por isso que pedira, levando em conta o quanto confiava nele? Será que Chantel se julgava tão fraca e covarde que sentia ser preciso um escudo para protegê-la de tudo? Chantel queria a proteção dele, mas também queria seu respeito. Teria ela perdido o respeito de Quinn ao se recusar a ouvir os relatórios dele e permitindo que interceptasse os bilhetes e mantivesse o conteúdo distante dela? Já era hora de tudo terminar. Por toda a vida, exceto por um breve período, Chantel tivera o controle da situação. Agora, por causa do medo, ela desistira. Mas decidiu reassumir o leme, imediatamente.
Quinn se perguntava quanto tempo demoraria para que Chantel voltasse ao normal. Ela, com certeza, agira friamente durante toda a tarde e noite. Fria, desdenhosa, distante. Era algo que Quinn tinha de aceitar. Mesmo assim, quando a vira entrando na igreja, na frente da irmã, usando aquele vestido azul-claro, elegante e romântico, Quinn desejou sair do seu banco, pegá-la no colo e levá-la dali. Para algum lugar. Qualquer lugar.
Ele se perguntava como seria estar no lugar de Reed Valentine e observar Chantel, como Reed observara Maddy, aproximar-se dele vestida de noiva. Como seria ouvi-la fazendo os mesmos votos feitos pela irmã? Quinn se obrigou a se livrar do mau humor.
Eles estavam quase prontos para a aterrissagem e Chantel cochilava agitada ao lado dele. Será que ela era incapaz de entender que o que Quinn fizera, o fizera pelo bem dela, porque precisava vê-la relaxar, nem que fosse por uns poucos dias? Não, Chantel não entendia — ou não queria entender —, e Quinn não tentara lhe explicar. Ele não sabia como fazer isso.
Quinn não era talentoso como os atores com os quais ela contracenava. Ele não tinha as palavras caprichosamente impressas num roteiro que podia decorar. Quinn possuía apenas o que estava dentro dele, e aquele lugar não parecia o mais adequado para expli-car-lhe tudo. Palavras não eram sentimentos. Frases não eram emoções. E tudo o que Quinn tinha eram suas emoções.
Quando chegaram a Los Angeles, Chantel parecia r¬novada e descansada, como se tivesse dormido durante oito horas numa cama macia, e não apenas cochilado num avião. Eles pegaram as bagagens sem maiores inc¬dentes e em 20 minutos já estavam dentro da limusine, rodando em direção a Beverly Hills.
Chantel aceitou um cigarro e então olhou distraidamente para o relógio. Ela se sentia cansada e impaciente. O jet lag a atingiria no dia seguinte, mas Chantel sobreviveria.
— Gostaria de ver seus relatórios, todos eles, amanhã, ao meio-dia.
As luzes dos postes iluminavam os aposentos pela janela. O rosto dele estava coberto por uma sombra, se bem que Chantel duvidasse ser capaz de interpretar a expressão dele.
— Certo. Levarei o arquivo à sua casa.
— Também quero saber de tudo o que você descobriu em Nova York.
— Você é quem manda.
— Que bom que você se lembra disso.
Ele podia tê-la estrangulado. Quinn ficou pensando em vários métodos rápidos e silenciosos, mas em vez de fazer qualquer coisa simplesmente se recostou e esperou o tempo passar. Ele saiu da limusine ao chegarem ao portão. Embora Chantel discordasse, ele achou melhor deixar o guarda de plantão. Depois de umas poucas palavras, Quinn voltou para a limusine, passando lentamente pelos portões abertos.
Na entrada, Chantel passou por ele. Ela havia chegado no alto da escada antes que Quinn pudesse alcançá-la.
— Que bicho a mordeu, meu anjo?
— Não sei do que você está falando. Quer me dar licença, Quinn? — Delicadamente, ela afastou um a um os dedos dele que a seguravam. — Quero tomar um banho quente e demorado.
Ninguém fazia aquilo melhor. Quinn tinha de admitir isso ao vê-la sair pelo corredor em direção ao quarto. Ela podia, com um olhar, com um gesto, decapitar um homem sem deixar escorrer uma só gota de sangue.
Quinn achou que estivesse tranquilo. Pensou que estivesse no controle — até ouvir a porta do quarto dela sendo trancada. Foi quando a raiva que o assolara o dia todo se revelou. Quinn não hesitou. Talvez ele nem me¬mo estivesse pensando. Ele foi até a porta do quarto de Chantel e a arrombou com um chute.
Ela não ficava sem palavras frequentemente. Chantel apenas permaneceu imóvel. Ela tirara a parte de cima do terninho, e estava somente com uma blusinha rosa-clara e uma saia também rosa. Uma de suas mãos permaneceu congelada no alto da cabeça, pois Chantel havia começado a desfazer o penteado.
Ela já vira ataque de fúria antes, verdadeira e simulada, mas jamais vira aquilo que parecia ferver nos olhos de Quinn.
— Jamais tranque a porta para mim. — A voz dele estava tão tranquila depois de ter arrombado a porta que Chantel se arrepiou. — Jamais me dê as costas.
Lentamente, Chantel abaixou as mãos, o que fez com que seus cabelos caíssem soltos sobre os ombros.
— Quero que você saia.
— Talvez seja hora de você aprender que mesmo uma estrela não pode ter tudo o que quer. Estou aqui para ficar. E você vai ter de fazer muito mais do que trancar a porta para me manter fora do seu quarto.
Quando Quinn se aproximou, Chantel ficou imóvel, recusando-se a recuar. Ela estava cansada de fugir das coisas, até mesmo dele. Quinn pegou seus cabelos e os enrolou com a mão.
— Você quis me humilhar, tudo bem. Mas não permitirei que me afaste da sua vida por fazer meu trabalho.
— Eu não serei tratada como uma boba ou uma pessoa fraca. — O lacinho da blusa tremeu sobre os seios quando Chantel respirou fundo. — Você sabia que ele me seguiria até Nova York, sabia que eu não estaria mais segura lá do que aqui.
— Você tem razão. Eu sabia, e você não. E teve uma noite sem agitação no sono.
— Você não tinha o direito...
— Eu tinha todo o direito do mundo. — Ele a segurou mais forte. Chantel queria se soltar, mas não parecia capaz de se mover. — Eu tenho o direito de fazer qualquer coisa, tudo, para mantê-la segura, para lhe dar um pouco de paz de espírito. E vou continuar fazendo isso, porque, no mundo nada importa mais para mim do que você.
Chantel soltou um ar que ela não sabia que estava preso. Ela percebera nos olhos dele, além da raiva e da frustração, mas não tinha certeza se era capaz de acreditar.
— É assim... — Ela se interrompeu, fechando bem a boca. Não seria bom se sua voz tremesse agora. Chantel queria ser forte, para ele e também para si mesma. — É assim que você me diz que me ama?
Quinn a encarou, um pouco mais surpreso com o que dissera do que ela. Ele não queria que aquilo soasse como uma ameaça. Quinn queria dar a ambos tempo e espaço, para que pudesse persuadi-la a perceber que precisava dele. Mas ele jamais foi muito bom em persuadir as pessoas.
— É pegar ou largar.
— Pegar ou largar — repetiu ela, murmurando. Bem típico dele. — Você se importaria em soltar meus cabelos? Eu preciso deles para algumas cenas na segunda-feira. Além do mais, soltando-os, você terá os dois braços livres para me agarrar.
Mas antes que Quinn pudesse fazer isso, Chantel se jogou contra ele, abraçando-o fortemente e rezando para nada daquilo ser um sonho.
— Acho que isso quer dizer que você está pegando.
Quinn afundou o rosto nos cabelos dela, perguntando-se como seria capaz de viver sem aquele cheiro e sem aquele prazer de tocá-la.
—Sim. Estava tentando pensar num jeito de fazê-lo se apaixonar por mim, para que você não fosse embora. Chantel jogou os cabelos para trás para vê-lo. — Diga-me que não vai embora.
— Não vou a lugar nenhum. — Então Quinn, beijando-a, transformou aquelas palavras em uma promessa.
— Deixe-me ouvi-la dizendo. — Ele a segurou pelos cabelos novamente, mas a afastou carinhosamente, até que pudesse olhá-la nos olhos. — Olhe para mim e diga. Sem luzes, câmeras ou roteiro.
— Eu o amo, Quinn, mais do que pensei que era possível amar alguém. E isso me deixa apavorada.
— Bom. — Ele a beijou outra vez, com mais vontade.
— Isso também me deixa apavorado.
— Nós temos de conversar sobre tantas coisas!
— Mais tarde. — Quinn já estava abrindo o zíper da saia dela.
— Mais tarde — concordou Chantel, puxando a camisa dele para fora da calça. — Quer tomar um banho? — Enquanto perguntava, ela tirou-lhe a camisa pelos ombros.
— Sim.
— Antes? — Rindo, Chantel mordiscou-lhe o mamilo. — Ou depois?
— Depois. — E ele a empurrou para a cama. Antes, o amor foi intenso, violento, apaixonado e também muito carinhoso. Mas agora havia sentimento, um amor que ambos sentiam, revelavam e correspondiam. Chantel deixara de acreditar que sua vida chegaria a esse ponto: amor, aceitação, compreensão. E, por fim, tudo o que ela teve de fazer foi abrir os braços e receber. Num arroubo de sentimento eles se uniram, as bocas abertas e famintas, os corpos quentes e atentos. Chantel o ouviu inspirar longamente quando Quinn mergulhou o rosto em seus cabelos, como se ele também só agora tivesse percebido a dádiva que recebera.
Chantel achou que Quinn estremecera. As mãos espalmadas nas costas dele sentiram os músculos ficarem tensos. Ela não queria acalmá-los. Chantel queria que Quinn estivesse como ela, maravilhada, com um pouco de medo e deliciosamente feliz. Quando lhe beijou o pescoço, Chantel sentiu uma veia latejar de entusiasmo, com intensidade de paixão. Numa carícia longa e possessiva, ela passou as mãos pelas costas de Quinn, de cima a baixo, e depois para cima novamente. Ele era dela. A partir de agora, ele era dela!
E Chantel estava ali para ele, macia, submissa e, ainda assim, forte o suficiente para agarrá-lo. Quinn não procurou por ela. Ele se conhecia bem para saber que jamais procurara outra pessoa com a qual pudesse partilhar sua vida. Mesmo assim ele a encontrara — e em Chantel encontrara tudo. Uma parceira. Havia algo de primitivo e ao mesmo tempo elevado na palavra. Significava alguém com quem se deitar entre os lençóis nas noites quentes. Significava alguém com quem acordar nas manhãs preguiçosas e geladas. Alguém em quem confiar, alguém para proteger, alguém com quem contar.
Só de pensar nisso Quinn fechou os olhos, como se quisesse ficar preso naquela conclusão para sempre. Passou a ponta dos dedos por todo o rosto de Chantel, como se quisesse gravar aquela imagem em sua mente.
— Tão linda! — sussurrou ele. — Aqui... — Seus dedos pousaram no rosto de Chantel. — E aqui. — Lentamente, suas mãos desceram pelo corpo dela. Foi então que Quinn abriu os olhos para fitar dentro dos olhos dela. — E dentro.
— Não, eu...
— Não contradiga o homem que a ama. — Quinn levou a mão espalmada dela aos seus lábios, observando-a. Virando-lhe a mão, ele beijou cada um dos dedos. O diamante em um deles brilhou, como um símbolo do que Chantel era para o mundo. Uma sexualidade fria e um glamour bem acabado. Sua mão estremeceu como a de uma menininha.
Quinn a beijou por todo o queixo e Chantel começou a respirar com alguma sofreguidão. Ela podia quase ouvir sua pele murmurar quando Quinn deslizou os dedos sobre ela. A cada carícia Chantel mergulhava mais fundo num mundo fluido e misterioso, onde era guiada apenas por sensações.
Só mesmo Quinn podia fazê-la se esquecer dos limites que demarcara para si mesma. Só ele podia fazê-la se esquecer de que, quando você ama, corre riscos. Com Quinn, Chantel podia se entregar sem medo, sem reservas ou restrições. Com Quinn, haveria um amanhã. Haveria toda uma eternidade de amanhãs.
Ele não tinha certeza de que sabia demonstrar tudo o que sentia. Quinn não estava acostumado a mimar as mulheres. Romance era algo para livros e filmes, para jovens e tolos. Mesmo assim, ele sentiu uma necessidade intensa de mostrar a Chantel que seus sentimentos eram tão maiores do que o simples desejo que era impossível medi-los.
Apoiando-se nos cotovelos, Quinn tirou cuidadosamente os cabelos que caíam sobre o rosto de Chantel, afundando seus dedos nos cabelos louro-prateados que se espalhavam sobre a cama. Suavemente, como se ela pudesse se quebrar ao menor toque, Quinn envolveu todo seu rosto com as mãos. Será que Chantel estava ainda mais bela agora? De algum modo, ao admirar os primeiros raios de sol entrando pela janela e banhando a pele dela, Quinn achou que sim.
Ele passou o dedo sobre os lábios de Chantel, fascinado pelo formato, pela maciez, pelo sabor que achava que ficaria preso para sempre à sua pele. Como se fosse a primeira vez — e talvez fosse —, Quinn acariciou-lhe os lábios com os dele.
O corpo dela fraquejou. Diante daquele beijo suave, as mãos de Chantel, que lhe apertavam as costas, pareceram perder o vigor, inertes. Ela achava que entendia o que era ser possuída, mas estava enganada. Chantel pensava que podia imaginar como era ser amada, amada completamente. Mas não tinha a menor ideia. Algo vibrou dentro dela, tão suavemente que talvez tenha sido apenas um sonho. Mas aquilo pareceu crescer, e uma promessa foi feita.
O calor se concentrou e aumentou. Chantel sentiu a força inundá-la com tal paixão que gemeu de prazer. Juntos, eles rolaram pela cama até que Chantel ficasse em cima dele. Juntos, se entregaram um ao outro.
Quinn tinha mãos rápidas, não mais ansiosas do que as dela. Ele tinha lábios famintos, mas seu desejo encontrara uma concorrente à altura. Eles se livraram de qualquer sanidade com a mesma facilidade com que se livraram da seda e das lingeries. Eles alcançaram o prazer ao mesmo tempo, como se fosse um trovão em meio a uma tempestade que durou toda a manhã. Enquanto o sol nascia, eles levavam um ao outro a lugares fantásticos.
— Estou tão feliz por hoje ser domingo — disse Chantel, mergulhando os ombros na água quente cheia de espuma. Ela pegou uma taça de vinho ao lado da banheira e por sobre a borda lançou um sorriso para Quinn. — Você não deveria reclamar das bolhas, deveria aproveitá-las.
Quinn se virou para pegar sua taça de vinho. A banheira de Chantel era grande o suficiente para duas pessoas, e a clarabóia deixava ver um céu perfeitamente azul. A água que quase transbordava estava coberta por bolhas brancas e perfumadas.
— Vou ficar com cheiro de mulher.
— Querido — Ela passou a língua pela borda da taça de vinho. —, ninguém mais vai cheirá-lo. Só eu.
— Com todas as coisas que você pôs na água, eu me considerarei feliz se o cheiro desaparecer em uma semana. — Quinn se remexeu novamente na banheira, e dessa vez sua perna deslizou sobre a dela. — Mas tem lá suas vantagens.
—Hummmm. — Com os olhos semifechados, Chantel se recostou. — Para nós dois. Eu preciso disso. As filmagens agendadas para a próxima semana são de matar. Tem três cenas, em especial, que sei que vão me deixar esgotada. Aquela em que Brad e Hailey quase morrem num incêndio é a pior.
— Que incêndio?
— Leia o roteiro — disse ela, preguiçosamente, sorrindo quando Quinn tentou atacá-la com bolhas. — Eu confio na equipe de efeitos especiais, mas não é nada fácil rastejar numa cabana a céu aberto ou no estúdio, enquanto eles estão ativando o fogo e criando mais fumaça. Por isso é ainda mais especial que hoje seja domingo e eu possa ficar deitada na banheira, pensando em fazer amor com você. — Chantel olhou para ele com olhos que não eram mais do que pequenas fendas em seu rosto — De novo.
— Você pode ficar deitada na banheira e fazer amor comigo. — Quinn se remexeu, aproximando-se de Chantel até seu rosto ficar bem perto do dela. — Ao mesmo tempo.
Rindo, Chantel prendeu a cabeça dele com as mãos, enquanto a água transbordava, molhando todo o chão.
— Água demais.
— Foi você quem a encheu.
— Eu me enganei. Geralmente tomo banho sozinha.
— Agora não mais. — Enquanto Quinn a beijava, bolhas estouravam. — Por que você não desliga a hidromassagem?
— Não consigo alcançar o interruptor. — Ela inclinou a cabeça para mudar o ângulo para o próximo beijo. — Está, ah, atrás de mim. Mas imagino que um homem grande e forte como você pode dar um jeito nisso sozinho.
— Aqui? — perguntou, passando a mão sobre o seio dela e depois a deslizando para baixo.
— Perto. Bem perto. — Ela sentiu os dedos dele deslizarem em seu quadril. — Está quase lá. Por que nós não...
As palavras desapareceram quando Chantel percebeu que estava submersa, sendo violentamente beijada por Quinn. Quando voltou à superfície, respirou fundo, limpou o rosto e olhou torto para ele. — Quinn!
— Escorreguei. — Ele encontrou facilmente o interruptor e desligou a hidromassagem.
— Sei. Agora estou com sabão nos olhos. — Quinn começou a dar uma risada, mas ficou com a boca seca quando Chantel se levantou, majestosamente, e deixou a água escorrer por sua pele, enquanto pegava uma toalha. — Lembre-me de que preciso trazer um aparelho de mergulho da próxima vez que tomar um banho.
— Chantel!
— Ela segurava a toalha perto do rosto, mas a abaixou com um meio sorriso que desapareceu quando percebeu que Quinn estava ao seu lado. Sem dizer nada, ele a puxou para si. E ficaram assim, enquanto as bolhas secavam em seus corpos, sobre a pele deles.
— Eu nunca soube que isso seria desse modo — ela murmurou. — Não assim.
— Somos dois. — Quinn a encontrara. Parecia tão inacreditável que a encontrara, encontrara tudo, sem sequer procurar. — Você está ficando com frio. — Sentindo a temperatura da pele, Quinn pegou uma toalha e a envolveu. — Acho que teria de dar várias explicações se você fosse para o trabalho amanhã com o nariz vermelho.
— Nunca fico com o nariz vermelho. — Agora foi a vez de Chantel pegar uma toalha e cobri-lo. — Está no meu contrato.
— Você acha que pode tirar urnas férias quando terminarem as filmagens?
— Depende. — Ela sorriu novamente. — De onde e com quem.
— Comigo. E podemos discutir um bom lugar.
— Estarei livre em três semanas. Você escolhe o lugar. — Chantel começou a sair da banheira, mas teve de se apoiar na parede. — Cuidado. Nós inundamos o banheiro.
— Apenas jogue no chão algumas toalhas. — Quinn pegou outra toalha de um armário e a deixou cair no chão, para absorver um pouco da água.
— Minha empregada vai adorar você. — Por hábito, Chantel pegou um pote de hidratante e começou a espalhá-lo pela pele.
— Depois que nos casarmos, teremos de mudar drasticamente as regras sobre esta banheira. — Quinn, que estava prendendo a toalha em volta da cintura, não percebeu o modo como os dedos dela ficaram paralisados sobre o rosto. — Não tenho problemas com a espuma, mas os sais de banho terão de ser sem perfume. Uma coisa são os empregados, mas não podemos deixar que as crianças fiquem se perguntando se o pai delas usa per-fume.
De algum modo Chantel conseguiu fechar o pote de hidratante e o guardar sem deixá-lo cair.
— Nós vamos nos casar?
Quinn não precisou olhar para ela para saber que Chantel dera três passos para trás. Ele percebeu na voz dela.
— Com certeza!
Por mais que seu coração parecesse estar batendo na garganta, Chantel fora treinada para falar claramente, mesmo nervosa.
— Você quer ter filhos?
— Sim. — Um a um, Quinn sentiu os músculos da sua barriga se contraírem. — Isso é um problema?
— Eu... As coisas estão indo bem rápido — conseguiu dizer.
— Não somos adolescentes, Chantel. Acho que sabemos o que queremos.
— Tenho de me sentar. — Ela não confiava mais em suas pernas, por isso foi correndo para o quarto e sentou numa poltrona. Chantel segurava a toalha firmemente contra o corpo, com mãos brancas, frias.
Quinn esperou algum tempo. O vapor embaçara o enorme espelho em frente à banheira, mas ele podia imaginá-la sentada no quarto e a beleza refletida, magra, jovem e perfeita. Chantel era um sonho e, mais do que isso, era uma estrela, alguém que iluminava a tela do cinema e criava fantasias. Ele estava sério quando entrou no quarto.
—Parece que toquei em alguns pontos fracos. — Procurando no bolso da camisa, ele encontrou seu maço de cigarros. — Eu achava que era isso que você queria.
Acendendo um cigarro, Quinn tragou lentamente.
— Mas acho que um marido e filhos não combinam com sua imagem.
Chantel levantou os olhos bem devagar. Seus olhos estavam secos, mas Quinn percebeu a dor, algo profundo, pesado e antigo.
— Chantel...
— Não. — Ela o interrompeu com um gesto de mão.
—Talvez eu mereça isso. — Levantando-se, foi até o armário e pegou um roupão. Com gestos pensados, deixou cair a toalha e vestiu o roupão, prendendo-o com um laço. Chantel cruzou as mãos por um momento, mas depois deixou-as cair ao lado do corpo. — Minha carreira é importante para mim, mas nunca deixei que interferisse na minha vida pessoal e vice-versa. Meu trabalho é muito exaustivo. Você viu que as horas no estúdio podem ser insuportáveis.
— Então não há lugar na sua vida para mim e uma família?
Algo surgiu no rosto dela novamente. Dor, mas desta vez com uma pitada de raiva.
— Meus pais criaram quatro filhos na estrada. Há sempre espaço e tempo para uma família.
— Então, o que há de errado?
Chantel enfiou as mãos nos bolsos do roupão, só para depois tirá-las, incapaz de ficar imóvel.
— Antes de qualquer coisa, quero lhe dizer que não há nada que eu queira mais do que me casar com você e começar uma família. Por favor, não — disse rapidamente, quando viu que Quinn começou a se aproximar.
— Sente-se, Quinn. Vai ser mais fácil para mim se você estiver sentado.
— Está bem.
Quando ele sentou, Chantel respirou fundo.
— Existem algumas coisas que você precisa saber antes de darmos o próximo passo. É difícil, pelo menos para mim, admitir erros do passado, mas você tem o direito de saber. Se eu tivesse escutado minha mãe, teria lhe contado antes. Talvez tivesse sido mais fácil.
— Olhe, se você quer me dizer que esteve com outros homens...
Uma risada baixa o interrompeu. Aquilo era irritante.
— Não é isso, exatamente. Isso também não combina muito com minha imagem, mas eu só dormi com um homem na minha vida, antes de você. Surpresa? — disse calmamente ao perceber que Quinn apenas a encarava. Chantel, então, foi até a janela. — Eu tinha acabado de completar vinte anos quando o conheci. Eu fazia comerciais, frequentava aulas de teatro. Até mesmo tinha um emprego de meio expediente vendendo assinaturas de revistas pelo telefone. Eu continuava me dizendo que era apenas uma questão de tempo, e até mesmo acreditava nisso, mas era difícil. Ah, Deus! Era tão difícil estar sozinha. Então Matt me ligou e disse que tinha conseguido que eu fizesse um teste para um pequeno papel num filme. Ilegal, meu primeiro trabalho de verdade. O produtor era...
— Dustin Price.
Chantel se virou, as mãos fechadas em punho.
— Sim. Como você sabe?
— Um bando de fãs de cinema talvez já soubesse, mas o fato é que eu já sabia sobre Price. Ele surgiu quando investiguei seu passado.
— Você investigou meu passado? — Chantel se percebeu segurando-se na moldura da janela. — O meu passado?
— É o procedimento padrão, Chantel. Investigando-a, talvez surgisse algo que você tivesse esquecido, ou esquecido de mencionar. Como Dustin Price. Por sinal, ele não é um suspeito. Ele está morando na Inglaterra há um ano e meio.
— Procedimento padrão — repetiu, deixando que o resto se espalhasse como areia. — Acho que eu deveria ter esperado por isso.
— Que diferença isso faz agora? Então você dormiu com ele. Você precisava do papel e ele lhe deu o papel. Isso foi há muitos anos, e eu não me importo.
Todos os músculos do corpo dela estavam rígidos.
— É isso o que você pensa? Você acha que dormi com ele para conseguir um papel?
— Já lhe disse que não me importo.
— Não me toque! — Chantel se livrou dele quando Quinn se aproximou. — Não preciso ir para a cama com ninguém para conseguir um papel, e nunca precisei. Eu posso ter feito concessões e talvez tenha passado por cima de mais coisas do que deveria, mas jamais me prostituí.
— Desculpe. — Dessa vez ele a segurou pelos braços, ignorando suas reclamações. — Estou tentando lhe dizer que, o que quer que tenha acontecido entre você e Price, não importa.
— Ah, importa, sim. — Chantel se livrou novamente e serviu-se de vinho numa taça limpa. — Importa. Quando Matt me ligou para me dizer que o papel era meu, fiquei muito feliz. Eu sabia que era o começo de tudo. Eu seria reconhecida, seria alguém. — Ela levou os dedos à boca até ter certeza de que podia falar com mais calma. — Dustin me mandou uma dúzia de rosas, uma garrafa de champanhe e uma linda carta me parabenizando. Ele disse que sabia que eu seria uma estrela e sugeriu que jantássemos juntos para conversar sobre o filme e minha carreira.
Chantel bebeu porque sentia a garganta seca. Então, deixou a taça de lado, recusando-se a ter de recorrer ao vinho para contar toda a história.
— Claro que aceitei. Ele era um dos grandes produtores de Hollywood, aproveitando o sucesso de três campeões de bilheteria seguidos. Sim, ele era casado, mas eu não pensei nisso. — Havia um tom de escárnio na voz dela, um tom de menosprezo e desgosto consigo mesma.
— Chantel, já se passaram anos...
— Há certas dívidas que você nunca consegue quitar. Eu queria ser sofisticada. Estávamos apenas jantando juntos, com colegas. Deus, ele era charmoso. — A lembrança ainda machucava, mas a dor era mais forte agora, coberta por uma fina cicatriz. — As flores continuaram chegando, os jantares. Ele conhecia profundamente a indústria, as pessoas, com quem conversar, ao lado de quem ser vista. Naquela época, tudo isso era importante para mim. Eu achava que podia lidar com a situação. Mas a verdade é que eu era apenas uma menininha ingênua vivendo por conta própria pela primeira vez.
Respirando fundo, Chantel continuou:
—Eu me apaixonei por ele. Acreditava em tudo o que ele me dizia e que ele vivia com a esposa apenas para manter as aparências. Eu acreditava no que ele me dizia sobre o divórcio já estar em andamento. Sobre nós dois formarmos o melhor e mais inteligente time que Hollywood vira desde a época de ouro do cinema. A coisa toda talvez tivesse seguido seu curso natural quando fiquei mais esperta e ele um pouco entediado.
— Mas, antes que isso acontecesse, cometi um erro.
Ela passou as mãos espalmadas pelo roupão e depois as segurou. — Eu engravidei. — Chantel engoliu em seco.
— Você não descobriu isso com sua investigação, não é?
Quinn sentiu a aproximação da fúria, mas conseguiu se controlar.
— Não.
— Ele tinha dinheiro e influência para manter a coisa em segredo. E durante muito tempo isso não foi um problema.
Quinn estava se esforçando, lutando desesperadamente para entender.
— Você fez um aborto?
— Era o que ele queria. Ele ficou furioso. Acho que vários homens ficam furiosos quando a amante... e era isso mesmo o que eu era... engravida e se torna uma ameaça para o casamento. Claro que ele nunca pensara em se divorciar e se casar comigo. Tudo isso ficou claro quando revelei que teria a criança.
— Ele a usou — disse Quinn. — Você tinha vinte anos, e ele a usou.
— Não. — Era estranho que Chantel pudesse dizer aquilo com tanta calma agora. — Eu tinha só vinte anos e fingia que conhecia as regras do jogo. Eu fingia muito bem. Cometi apenas um erro, mas depois cometi outro. Disse a ele que fosse para o inferno, que teria a criança. Foi quando as coisas ficaram feias. Ele ameaçou destruir minha carreira se eu não fizesse as coisas do jeito que ele queria. Bem, não vale a pena repetir o que foi dito. Mas o namoro estava terminado e meus olhos arregalados.
— Você ainda está magoada — disse Quinn, baixinho.
— Sim, mas não pelo motivo que você deve estar imaginando. Eu achava que o amava, mas logo depois que enfrentei a realidade percebi que nunca o amara. Liguei para meus pais. Eu estava prestes a voltar para casa e deixar tudo para trás. Comprei a passagem de avião. Quinn, eu não sabia ao certo o que faria, porque não estava pensando com clareza. E o pior é que não sabia o que fazer. Mas houve um acidente a caminho do aeroporto.
Chantel respirou fundo, esforçando-se para terminar.
— Nada de muito grave. O taxista quebrou alguns ossos e eu... eu perdi o bebê.
Com um soluço incômodo, Chantel levou os dedos aos olhos.
— Perdi o bebê e tentei me convencer de que tinha sido melhor assim. Mas só conseguia pensar que nunca tive a oportunidade. Eu estava grávida de apenas seis se-manas. Seis semanas. E, de repente, tudo estava acabado. Matt me resgatou e fez com que eu voltasse a trabalhar assim que saí do hospital. Foi então que tudo aconteceu: os papéis, as pessoas, a fama que eu sempre quis. E tudo o que tive de fazer foi perder o bebê.
— Chantel! — Quinn se aproximou, passando as mãos pelo rosto, cabelo e ombros dela. — Não há nada que eu possa dizer. Nada que eu saiba fazer.
— Tem mais.
— Chega. — Quinn começou a puxá-la para perto, mas Chantel se desvencilhou.
— Quando perdi o bebê, tive algumas complicações. Os médicos me disseram, bem, eles disseram que havia uma possibilidade de que eu pudesse ter filhos novamente, mas não me davam garantias. Possível, só possível, nem mesmo provável. Talvez nunca haja outro bebê, outra oportunidade. Entende?
— Ele segurou as mãos dela.
— Você vai se casar comigo?
— Quinn, você não estava ouvindo? Eu acabei de lhe dizer...
— Eu ouvi. — Seus dedos se entrelaçaram aos dela, segurando-a firmemente. — Talvez você não possa ter filhos. Eu quero ter filhos, Chantel. Seus, meus. Se pudermos tê-los, será ótimo. Mas primeiro, sempre... — Quinn se abaixou para beijá-la. — quero você, preciso de você, meu anjo. O resto é obra do acaso.
— Quinn, eu o amo.
— Então vamos nos casar amanhã.
— Não. — Ela pôs as mãos no peito dele para mantê-lo à distância. — Quero que pense sobre isso tudo, pense de verdade. Você precisa de algum tempo.
— Preciso de você — ele corrigiu. — Não preciso de tempo.
— Eu sinto que lhe devo isso. Vamos deixar as coisas como estão. Alguns dias.
Quinn podia ter insistido. E podia ter obtido o que queria. Mas, naquele momento, a mágoa parecia estar viva demais.
— Bem, poucos dias. Venha cá. — Dessa vez se jogou nos braços dele. — Não vou deixar que ninguém a magoe novamente — Quinn murmurou.
Ela fechou os olhos, na esperança de que pudesse lhe prometer o mesmo, ainda que só pudesse falar por si mesma.
Capítulo Doze
O
dia começou às seis horas da manhã e não parou mais. As filmagens tiveram início em uma cabana construída numa área externa nos fundos do estúdio. O interior não tinha quase nada; era apenas uma construção de mentira já usada em diversos filmes. Para Estranhos, ela foi "reformada", recebendo uma frente nova que a transformou numa cabana de troncos dos bosques da Nova Inglaterra. Numa cena emocionante, a equipe de efeitos especiais iria queimá-la. O fogo teria começado em circunstâncias misteriosas, com Brad e Hailey dentro dela.
As cenas do interior da cabana seriam filmadas depois, num cenário de dois andares no estúdio, mas a manhã se passaria toda no exterior. Chantel dirigiu a Ferrari de Hailey até a cabana deserta. Ela estava mais velha agora, porém ainda dividida entre o homem com o qual se casara e o homem que a traíra. A cena exigia que a atriz, à beira de um colapso, buscasse se isolar na cabana, à procura da essência de sua arte, algo que perdera no auge do sucesso.
Todas as cenas foram rodadas em sequência, para que pudessem ser editadas juntas. Durante várias horas das gravações não havia diálogos. Chantel era filmada de¬embalando seu material de arte, armando um cavalete numa varandinha e entrando e saindo da cabana, usando vários figurinos diferentes. Havia uma longa tomada de perto, na qual Chantel se apoiava no parapeito da varandinha com uma xícara de café na mão. Sem dizer nada, ela teria de usar somente o rosto para expressar a confusão da personagem.
Hailey pintava na varanda e fazia rascunhos nos degraus da varandinha, cheios de flores. Usando a postura e os gestos e relaxando os músculos da face, Chantel mostrou a cura gradual da personagem.
Dos bastidores, Quinn a observava, sentindo seu orgulho por ela aumentar. Ele não sabia a história, mas entendeu a mulher na qual Chantel se transformou em frente às câmeras. E começou a torcer por Hailey.
Havia uma tocante cena na qual, sentada na varanda, Hailey desabafava para um cão vira-lata. Era uma análise de sua vida, com todas as falhas, as escolhas erradas, os arrependimentos. Mesmo quando a cena foi refilmada de outro ângulo, a emoção que ela gerara permanecera intensa. Quinn viu mais de um membro da equipe enxugando as lágrimas.
Antes do almoço eles terminaram várias cenas, incluindo uma discussão breve, mas violenta, entre Hailey e Brad, na varanda. Durante o intervalo para o almoço, Chantel tirou um cochilo rápido, mas necessário, e depois repôs as energias com frutas, queijos e uma bebida energética, antes de ir para o estúdio, filmar as cenas internas.
O cenário era tão rústico quanto a fachada da cabana, mas havia algumas pinturas de Hailey nas paredes. Entre os objetos de cena, havia uma enorme caixinha de música esculpida, um presente de casamento do marido da artista. Ao abrir a caixa e deixar que soasse todo o peso da Sonata ao luar, todo o nervosismo voltara a tomar conta da personagem de Chantel.
Insatisfeitas com o modo como a cena estava evoluindo, Chantel e a diretora começaram a discutir o clima psicológico e os movimentos.
— O que você acha da nossa história?
James Brewster surgiu ao lado de Quinn. Os dois ficaram olhando quando Larry Washington levou um copo de suco para Chantel.
— É difícil dizer algo vendo-a dividida desse jeito.
Quinn manteve os olhos sobre Larry enquanto o jovem cercava Chantel, preparado para pular ao menor gesto.
— Mas espero que seja boa. Ela tem tudo: sexo, violência, melodrama.
— Você não pode escrever um livro de sucesso deixando essas coisas de lado — disse Brewster, calmamente.
— Claro que Hailey é a personagem-chave, a atração. O que ela faz e sente afeta todos os personagens. Quando comecei a escrever o livro, pensei em contar uma história de traição e nascimento. Mas ele se transformou na história de como uma mulher, e o que lhe acontece, determina o destino de todos que entram em contato com ela. — Ele se interrompeu com uma risada. — Parece pretensioso e talvez fosse mesmo, sem Chantel. Ela é Hailey.
— Ela realmente o faz acreditar — murmurou Quinn.
— Exatamente. — Feliz, Brewster meneou a cabeça. — Como escritor, não há recompensa maior do que ver um de seus personagens ganhar vida, especialmente um personagem pelo qual você tem tanto carinho. Eu quase a matei no incêndio, sabia?
Quinn ficou alerta.
— O que está querendo dizer?
Rindo novamente, Brewster acendeu um cigarro.
— Você é um homem que leva as palavras ao pé da letra, sr. Doran. Eu quis dizer que quase terminei o livro naquele momento, na cabana, com Hailey perdendo tudo, incluindo a vida, num incêndio causado pelo único homem que realmente a amara. Mas achei impossível fazer isso. Ela tinha de continuar, entende. E sobreviver.
Os dois ficaram apenas olhando enquanto o cenário era montado para a tomada seguinte.
— Uma mulher extraordinária — murmurou Brewster. — Todos os homens aqui estão um pouco apaixonados por ela.
— E você?
Com um sorriso malicioso nos olhos, Brewster se virou.
— Sou um escritor, sr. Doran. Eu lido com fantasias. Chantel é real demais para mim.
Ao sinal do assistente de direção, o estúdio ficou em silêncio e a filmagem recomeçou.
Quinn observou Brewster cuidadosamente. O escritor parecia menos nervoso do que nos primeiros dias de filmagem. Talvez ele estivesse feliz com o avanço do trabalho. Larry Washington era quem parecia nervoso agora. O assistente de Chantel nunca ficava parado por muito tempo, sempre indo de um lugar a outro. Será que a tensão que Quinn sentia no estúdio vinha dele? Estava lá. Quinn sentia a tensão no ar, algo nervoso e desesperado. Mesmo assim, para onde quer que olhasse, as pessoas faziam seu trabalho com a eficiência que a diretora exigia.
Talvez a tensão estivesse dentro dele mesmo. Havia razões de sobra. Chantel estava fora do seu alcance, ainda despreparada e talvez incapaz de se envolver totalmente. Quando um homem que vivera a vida toda evitando se comprometer finalmente encontra alguém que quer, é normal que fique um pouco impaciente. Foi o que Quinn disse a si mesmo enquanto observava Chantel ouvindo a caixinha de música com dúvida e dor nos olhos.
Será que ela estava pensando nele, perguntou-se Quinn, ou será que estava imersa na personagem? Seu talento tornava quase impossível a tarefa de separar a atriz do papel.
Todos os olhos se concentravam nela, mas Chantel estava sozinha, na cabana no meio das árvores, num momento crucial da sua vida.
— Corta. Maravilhoso! — Mary Rothschild levantou-se de seu lugar atrás do cinegrafista. — Realmente perfeito, Chantel.
— Obrigada. — Ela respirou fundo, tentando se livrar do sentimento que a possuíra durante a cena. — Estou feliz que não tenha de repetir.
— Vamos filmar sua briga com Brad. — Enquanto falava, Mary começou a massagear os ombros de Chantel. — Você sabe o que está sentindo. Você ainda o quer.
— Depois de tudo o que ele fez, tudo o que você sabe, você não pode se livrar da menina que se apaixonou por ele. Você quer amar seu marido, você tentou, mas tudo o que conseguiu foi magoá-lo. Você está numa encruzilhada aqui, sabe que se for com Brad não sobreviverá. Mesmo assim você está tentada.
— Eu lutando comigo mesma mais do que com ele.
— Exatamente. Vamos repassar isso tudo.
Eles trabalharam até as 18 horas. Antes que a filmagem estivesse terminada, a equipe de efeitos especiais encheu o cenário de fumaça. Hailey, atordoada pela fumaça e horrorizada com o incêndio que acabara de começar na cabana, rastejava pelo chão de madeira, procurando desesperadamente pela porta. Tudo o que ela carregava consigo era a caixinha de música.
— Um dia infernal — comentou Quinn mais tarde, já no trailer de Chantel.
— Nem me fale. — Cansada, ela tirava a fuligem com a qual a equipe de maquiagem sujara seu rosto. — Não quero nem comer. Só dormir.
— Eu vou forçá-la a comer.
Chantel sorriu, e depois de secar o rosto pendurou a mochila no ombro.
— Forçar-me a comer? Prefiro ter alguém em quem me aconchegar.
— Você também terá isso. Dentro de algumas horas.
— Eles saíram do trailer e passaram pelo estúdio, onde a diretora e o fotógrafo estavam tendo uma reunião de última hora.
— Vai a algum lugar?
— Tenho alguns compromissos. — Quinn pensou em Matt, seu amigo, e em Chantel, a mulher que amava.
— Eu lhe contarei tudo quando voltar.
— Preferia que você me contasse agora. — Quando saíram, Chantel foi diretamente para a limusine, que a aguardava. — Quinn, eu não quero ser protegida desse jeito. Não mais.
Ela estava certa, e Quinn sabia que, cedo ou tarde, teria de lhe contar. Quando Chantel se sentou na limusine, ele passou o braço por trás dela, preparado para consolá-la.
— Não quis tocar nesse assunto em Nova York. Você estava no meio do casamento da sua irmã e tínhamos de lidar com nossos próprios problemas. Ontem... — Ele hesitou, ainda sem saber ao certo o que as últimas 24 horas significaram. — Eu queria o ontem só para nós dois.
— Entendo. — Chantel levantou a mão para tocá-lo.
— Então, o que está havendo, Quinn?
—Eu consegui uma pista do homem que encomendou as flores. — Ele sentiu que Chantel ficou nervosa, mas não tentou acalmá-la. Naquele momento, não era algo que ela quisesse. — Ele pagou em dinheiro, por isso não havia registro da compra. O floricultor não conseguiu me dar uma boa descrição. O cara usava óculos escuros e chapéu. Mas o floricultor percebeu algumas coisas. — Quinn hesitou novamente, odiando-se por ser a pessoa que destruiria uma relação de confiança e amizade. Mas Chantel era mais importante do que isso. Do que qualquer coisa. — Ele fumava uma marca estrangeira de cigarros e carregava um maço de dinheiro preso com um grampo no qual havia um monograma.
Por um instante, Chantel não pensou em nada. Lentamente, ela entendeu o significado daquilo. Em vez de decepção, Quinn percebeu um brilho de determinação.
— Vários homens preferem cigarros estrangeiros e grampos.
— Mas nem todos esses homens trabalham com você. Este homem disse que trabalhava.
— Ele podia estar mentindo.
— Podia. Mas nós dois sabemos que não estava. Levando tudo em consideração, a única coisa na qual concordamos é que esse homem a conhece... e você o conhece. Chantel, você deu um grampo de prata para um homem que trabalha com você.
— Não Matt.
— Meu anjo, já é hora de separar o que você quer da realidade, ou pelo menos do que talvez seja a realidade.
— Não me importa o que você diga. Eu não acredito.
— Eu liguei para Matt quando estávamos em Nova York. — Quinn levantou a mão para envolver-lhe o rosto firmemente. — Ele estava fora da cidade, Chantel.
— Então ele estava viajando. — Ela sentiu algo se agitar dentro dela, mas ignorou. — Várias pessoas saem da cidade nos finais de semana.
— Ele estava em Nova York, por motivos particulares. Chantel ficou pálida, mas rapidamente fez que não.
— Quinn...
— Preciso conversar com ele.
— Não quero que o acuse... — Mas o olhar firme dele a interrompeu. — Tudo bem — murmurou, virando a cabeça para olhar pela janela. — Não devo lhe dizer como fazer seu trabalho.
— Isso mesmo, meu anjo. Olhe. — Segurando-a pelo ombro, Quinn a virou na sua direção. — Olhe para mim. — Quando Chantel o fez, ele praguejou baixinho e tirou o cabelo que lhe caía sobre o rosto. — Não quero que fique chateada com tudo isso.
— Você está me dizendo que meu melhor amigo é o principal suspeito. Não posso não me chatear.
— Vá para casa. — Quinn se aproximou e a beijou nos lábios. — Vá para a cama. Pare de pensar sobre esta noite. Por mim — disse, antes que ela pudesse falar. — Eu a amo, Chantel.
— Fique em casa e prove.
— Não. — Quinn segurou o rosto dela com as duas mãos. — Não vou demorar. E tudo estará terminado. Eu prometo.
Eles passaram pelos portões e seguiram pela propriedade.
— Eu confio em você — disse-lhe Chantel, obrigando-se a relaxar. — Vou esperá-lo.
— Espere por mim na cama — murmurou ele, esperando, para o bem dela, que Chantel caísse no sono rapidamente.
Eles saíram da limusine.
— Você vai tomar cuidado?
— Eu sempre tomo cuidado.
Ela começou a subir as escadas, mas parou e se virou.
— Odeio isso, mas não posso mais desprezar essa situação, porque ela me trouxe você. Volte logo. — Chantel entrou na casa sem olhar para trás.
Ela não queria pensar no assunto. O dia de trabalho a esgotara e Chantel queria se concentrar em recobrar as energias. Ela jantaria em seu quarto quando Quinn voltasse. Por ora, Chantel se acalmaria com um mergulho na piscina e um banho de hidromassagem.
Se fosse mesmo Matt, tudo estaria acabado até a noite. Acabado! Por um instante, todas as esperanças dela se concentraram nisso. Mas, de repente, Chantel sentiu um enjoo revirar-lhe o estômago. Não, era melhor não alimentar este tipo de fantasia. Fugindo de seus próprios pensamentos, subiu correndo as escadas para se trocar.
— Ainda bem que consegui encontrá-lo.
— Mesmo os superagentes não vão a festas todas as noites. — Matt usava uma camisa e calça simples, e botas, e estava verdadeiramente surpreso. — Na verdade, vou jantar tranquilamente em casa hoje à noite. Eu não esperava vê-lo. Quer uma bebida?
— Não, obrigado.
Matt deixou a garrafa de lado.
— Como está Chantel?
— Ela está bem. — Ou melhor, Quinn garantiria que ela ficasse bem, não importa o que tivesse de fazer. — Engraçado, achava que você cuidaria mais de perto disso.
— Eu percebi que ela ficaria em boas mãos com você.
Matt ficou andando de um lado para o outro, sem sentar e sem dizer a Quinn que sentasse. — Tenho estado ocupado com alguns assuntos particulares.
— O assunto que o levou a Nova York no fim de semana?
— Nova York? — Matt franziu a testa. — O que o faz pensar isso?
— O floricultor tem boa visão. — Quinn pegou um cigarro e ficou olhando para Matt enquanto o acendia.
— É? — Rindo, Matt finalmente sentou. — Do que é que você está falando, Quinn?
— As rosas que você mandou para Chantel. Dessa vez você cometeu um erro. O envelope do cartão tinha o nome da floricultura impresso.
— Rosas que mandei? — Matt passou as mãos pelos cabelos enquanto fazia que não com a cabeça. — Não sei aonde você está querendo chegar. E... — Ele se interrompeu, finalmente compreendendo. — Meu Deus, você acha que eu a estou perseguindo? Você acha que sou eu? Droga, Quinn. — Matt levantou-se repentinamente da poltrona. — Achei que nós nos conhecíamos.
— Eu também achava. Aonde passou o fim de semana, Matt?
— Não é da sua conta.
Soltando a fumaça, Quinn permaneceu sentado.
— Ou você me conta ou vou descobrir sozinho. De qualquer modo, vou dar um jeito de você sair da vida dela.
Matt mostrou toda a sua fúria quando suas mãos se fecharam em punhos. Quinn olhou para as mãos dele, quase desejando que Matt as usasse. Um confronto físico seria mais do seu agrado do que aquela batalha psicológica que esperava acabar com a resistência do inimigo.
—Sou o agente dela. O amigo. Quando ela estava no fundo do poço, eu estava lá para ajudá-la. Se eu tivesse este tipo de sentimento, podia ter feito algo naquela ocasião.
— Aonde você passou o fim de semana? — perguntou Quinn, determinado a levar aquilo até o fim.
— Estava viajando — respondeu Matt. — Assuntos particulares.
— Você está cheio de assuntos particulares ultimamente. Você não apareceu durante as filmagens. Você é tão amigo de Chantel que só se encontrou com ela duas vezes desde que descobriu o que estava acontecendo.
A culpa surgiu de relance nos olhos de Matt, mas a raiva a disfarçou.
— Se a Chantel quisesse minha presença, ela teria me ligado.
— Fico me perguntando se é você quem está ligando para ela.
— Você está louco. — Mas as mãos de Matt tremeram um pouco quando ele foi se servir de mais bebida.
— Você usa um grampo de dinheiro, Matt. De prata — acrescentou Quinn. — O grampo que Chantel lhe deu. O floricultor se lembrou de detalhes como esse.
— Você quer ver meu grampo? — Furioso, Matt enfiou a mão no bolso e de lá tirou um maço de notas presas por um pequeno grampo de metal. O objeto caiu sobre a mesa com um baque surdo.
Franzindo a testa, Quinn o pegou. Era de ouro, não de prata, e tinha as iniciais de Matt gravadas.
— Eu uso esse grampo há dois meses, já que você parece tão interessado. Desde que Marion me deu. — Matt pegou sua bebida e a tomou de um só gole. — Se não fosse por Chantel, eu arriscaria expulsá-lo daqui.
— Você tem todo o direito de tentar. — Quinn deixou o grampo cair novamente. — Talvez você seja bastante esperto para ser honesto comigo. Onde estava no fim de semana, Matt?
— Nova York. — Praguejando, ele foi até a janela e voltou. — Brooklyn. De sexta-feira à noite até domingo à tarde. Eu estava conhecendo os pais de Marion. Marion Lawrence, uma professorinha de vinte e quatro anos. Vinte e quatro — repetiu, baixinho, passando a mão pelo rosto. — Eu a conheci há cerca de três meses. Ela é 12 anos mais nova do que eu. Inteligente, inocente e confiável. Eu devia ter me afastado. Mas, em vez disso, me apaixonei por ela.
Depois de lançar um olhar furioso para Quinn, ele procurou por um cigarro.
— Passei os últimos três meses pensando em como me relaciono com casinhas de cerquinhas brancas. Essa jovem e bela mulher vai se casar comigo e passei o fim de semana tentando convencer seus preocupados e conservadores pais de que não era nenhum safado de Hollywood querendo me aproveitar da filha deles. Eu preferia ter enfrentado um pelotão de execução.
Matt soltou uma baforada do cigarro sem tragá-lo.
— Ouça, Quinn, se não estive por perto o suficiente, era porque perdi a cabeça por uma professorinha do primário. Olhe para ela. — Matt tirou uma fotografia da carteira. — Ela parece que poderia ainda estar na escola. Estou nervoso com isso há semanas.
Quinn acreditava nele. Com uma mistura de alívio e frustração, fechou a carteira. Podia ser tudo mentira, mas um homem apaixonado reconhece facilmente outro.
— O que é que ela viu em você?
Matt deixou escapar uma risada trêmula.
— Ela me acha maravilhoso. Ela sabe tudo sobre o problema com apostas, ela sabe de tudo e ainda assim me acha maravilhoso. E quero me casar com ela antes que mude de ideia.
— Boa sorte.
— É. — Matt deixou a carteira de lado. Ele não estava mais com raiva, nem com vergonha ou nervoso. Mas continuava se sentindo culpado. — Já que esclarecemos isso, gostaria que você me contasse tudo sobre Chantel. Esse maníaco mandou flores para ela em Nova York?
— Isso mesmo.
— Ele se parecia comigo?
— Não sei como ele se parece.
— Mas você disse...
— Menti.
— Você sempre foi um canalha — disse Matt, sem se alterar. — Como ela está lidando com a situação?
— Ela está se esforçando. E ficará melhor quando souber que você está limpo.
— Deixe-me sair com você. — Ele coçou a nuca. — Eu devia ter contado sobre Marion antes, mas me senti... Acho que me senti como um idiota. Aqui jaz Matt Burns, agente das estrelas, nocauteado por uma mulher que ajuda as crianças a amarrar os sapatos o dia todo.
Com os cabelos molhados e soltos, Chantel entrou na casa anexa à piscina depois de um mergulho rápido. A água e o exercício ajudaram-na a pensar com mais clareza. Agora tudo o que ela queria era relaxar. Ao ligar a banheira de hidromassagem, Chantel fez com que as bolhas esguichassem. Ela deixou escapar um pequeno gemido de gratidão ao entrar na água quente e agitada.
Quinn logo estaria de volta, e de um jeito ou de outro eles esclareceriam tudo. Chantel tinha de se concentrar nisso, não nas circunstâncias que os uniram. Nem nas circunstâncias que o levaram embora esta noite.
Raios do sol poente entravam por entre as cortinas dos janelões. Sobre ela, a clarabóia deixava ver um céu azul escuro, da noite que se aproximava. Chantel deixou que os jatos d'água combatessem o cansaço de seus músculos e suavizassem a tensão em seus membros.
Ela estava prestes a ter tudo o que sempre quis. Chantel tinha apenas de dizer "sim" a Quinn. Ele a amava. Ao pensar isso, Chantel fechou os olhos. Quinn a amava pelo que ela era, não pelo que parecia ser. Ninguém, a não ser sua família, jamais a aceitara totalmente, com suas falhas, inseguranças e erros. Quinn, sim. Uma mulher podia viver toda uma vida e nunca encontrar um homem que a amasse pelo que ela era no íntimo.
O que a impedia de aceitar o que precisava era o medo que sentia de talvez não ser capaz de dar-lhe tudo — a começar por uma família.
Chantel queria filhos. Os filhos dele. E se ela acabasse por decepcioná-lo nesse ponto? E se Quinn também tivesse de pagar por seus erros do passado? Se não o amasse tanto, seria fácil dizer-lhe "sim".
Ela o queria de volta; queria que Quinn estivesse com ela naquele momento. Se apenas ele pudesse abraçá-la agora, Chantel saberia, de algum modo, a resposta certa para lhe dar. Ela fechou os olhos e se deixou afundar um pouco mais na água. Quando Quinn voltasse, ela saberia, e o que quer que fizesse seria o melhor para os dois.
Chantel ouviu um pequeno som nos fundos da casinhola. Endireitando-se, afastou o cabelo molhado do rosto.
— Quinn? Não diga nada. — Ela fechou os olhos novamente. — Apenas entre aqui.
Então Chantel ouviu a música e seu coração pareceu sair pela boca.
Era algo tranquilo e adorável, aquele som de sininhos que só as melhores caixinhas de música podiam produzir. O céu estava quase escuro quando a melodia da Sonata ao luar fluiu por sobre o som da água agitada.
— Quinn. — Mas Chantel disse o nome dele sabendo que não estaria ali. Sua mão começou a tremer quando se esticou e desligou a hidromassagem. Com o silêncio, a caixinha de música soou mais alta. Colocando as mãos fechadas atrás do corpo, Chantel apoiou-se para sair da banheira.
— Esperei muito tempo por isso.
Ao ouvir aquele sussurro, o ar pareceu congelar na garganta. Chantel tinha de respirar, disse a si mesma. Se pretendia chegar até a porta, tinha de respirar. Mas a porta estava tão longe! A iluminação foi diminuída e o medo percorreu toda a sua pele.
— Você é tão linda! Incrivelmente linda. Nada que eu pudesse imaginar ou criar poderia ser tão perfeita. Esta noite, finalmente ficaremos juntos.
Ele estava nas sombras, perto da porta. Chantel se obrigou a olhar, mas mesmo assim não conseguiu ver quem era.
— Tem um monte de guardas lá fora. — Ela fechou as mãos, recusando-se a permitir que sua voz soasse trêmula. — Eu posso gritar.
— Só existe um guarda, no portão. E ele está longe. Eu tive de ferir os outros. Às vezes, quando se ama, é preciso ferir as pessoas.
Chantel mediu a distância até a porta da frente.
— Como você entrou?
— Pelo muro, perto da quadra de tênis. Você não usa muito a quadra. Eu tenho observado você.
— O alarme...
— Eu cuidei do alarme. Conheço um pouco do assunto. Minha reputação como bom pesquisador é merecida. — Brewster saiu das sombras com a caixinha de música nas mãos.
— James! — O ar na casinhola da piscina estava abafado, mas Chantel começou a tremer. — Por que está fazendo isso?
— Eu a amo. — Seus olhos estavam vitrificados, e quando ele se aproximou, Chantel não pôde ver nenhuma emoção neles. — Quando você surgiu pela primeira vez na minha mente, eu sabia que tinha de possuí-la. Depois você apareceu em carne e osso. Real. Eu fiz isso para você.
Brewster estendeu-lhe a caixinha de música, mas Chantel deu um passo para trás.
— Não tenha medo de mim, Hailey.
— James, sou Chantel. Chantel.
— Sim, sim, claro. — Ele sorriu, depois pousou a caixinha de música numa mesinha ao lado da banheira. Ela continuava a tocar a melodia romântica e doce. — Chantel O'Hurley, com o rosto perfeito. Tenho sonhado com você há meses. Não consigo escrever. Minha esposa acha que estou angustiado por causa do meu novo livro. Mas não há livro algum. Nunca haverá outro livro. Chantel, você não ficou com as minhas flores.
— Desculpe. — Quinn voltaria, disse ela a si mesma. O pesadelo terminaria. Sentindo-se desprotegida em seu biquíni, Chantel pegou uma toalha. A experiência manteve o gesto como algo despreocupado, mesmo que ela sentisse o coração pulsando em sua cabeça. — Foi o modo como você as enviou, James. Você me assustou.
— Eu jamais quis assustá-la, Hailey...
— Chantel — corrigiu ela, sentindo um tremor de pânico na voz. — Sou Chantel. James, acho que deveríamos entrar na casa e conversar sobre isso.
— Chantel? — Por um momento, ele pareceu intrigado. — Não, não. Quero ficar sozinho com você. Esperei muito tempo por esta noite. A noite perfeita, com a lua cheia. A canção. — Brewster olhou para a caixinha de música. — Ela foi feita para você.
— Por que não conversou comigo?
— Você teria me rejeitado. Rejeitado — repetiu, agora mais alto. — Você acha que sou um idiota? Eu a vi com aqueles jovens, todos musculosos e com rostinhos bonitos. Mas nenhum deles a amou como eu a amo. Você me deixou louco com a espera. Você estava obcecada com Brad. Era sempre Brad.
— Não existe nenhum Brad! — gritou Chantel. — Ele é um personagem. Não existe nenhuma Hailey. Você os inventou. Eles não são reais.
— Você é real. Eu a vi com ele. Eu vi o modo como você olhou para ele e deixou que a tocasse, quando deveria ser eu. Mas sou paciente. Esta noite. — Ele se aproximou. — Eu esperei por esta noite.
Chantel saiu correndo em direção à porta, sabendo que, se quisesse vencê-lo, teria uma chance. Ela segurou firmemente a maçaneta e a empurrou, mas a porta não se moveu.
— Eu a fechei pelo lado de fora — disse-lhe Brewster, calmamente. — Eu sabia que você tentaria fugir. Eu sabia que você jogaria meu amor na minha cara.
Chantel deu meia-volta, apoiando-se de costas na porta.
— Você não me ama. Você está confuso. Eu sou uma atriz. Não sou a sua Hailey.
Ele estremeceu, como se estivesse sentindo alguma dor, e levou a mão aos olhos.
— Malditas dores de cabeça — murmurou. — Não, — advertiu ele, ao ver que Chantel ameaçou correr para a porta dos fundos. Brewster bloqueou-lhe a passagem e depois voltou para as sombras para pegar alguma coisa.
— Eu sei o que tenho de fazer e não há escapatória para nenhum de nós dois, Hailey.
— Não sou...
— Agora é tarde — disse ele, com maldade na voz.
— Tarde demais. Acho que sempre soube. Odeio o que você me causou. — Brewster apertou os dedos nas têmporas, ao mesmo tempo em que seus olhos se encheram de lágrimas. — Mas, tendo Deus por testemunha, não posso deixar que outro homem a tenha. Você é minha. Desde o primeiro instante, você era minha. Se ao menos você pudesse entender isso.
— James. — Chantel tinha medo de tocá-lo, mas deu um passinho à frente. — Por favor, entre na casa comigo. Eu... eu estou com frio — disse, rapidamente. — Estou molhada e preciso me trocar. Então podemos nos sentar e conversar.
Brewster olhou para ela, mas viu apenas o que queria ver.
— Você não pode mentir para mim. Eu a criei. Você vai tentar me abandonar. Você quer vê-los me levando embora. Meu médico quer me levar embora, mas sei o que tenho de fazer. Por nós dois. Isto acaba aqui, Hailey.
Ele ergueu uma lata e Chantel sentiu o cheiro de gasolina.
— Ah, Deus, não.
— Era para você morrer no fogo antes, mas não consegui que isso acontecesse. Agora tenho de fazer.
Quando Chantel se lançou sobre ele, Brewster jogou a lata longe. Ela caiu no chão e rolou, espalhando a gasolina, que ensopava a madeira. Chantel tentou passar por Brewster. Ela o ouviu soluçar quando a empurrou e sua cabeça bateu na mesinha. De repente, só havia estrelas diante de seus olhos.
— Chantel vai abrir uma garrafa de champanhe.
— Acho que todos poderemos nos dar bem com isso — disse Matt, ao entrarem na casa. — Quinn, agradeceria se você me deixasse contar.
— Você tem todo o direito. — Ele olhou ao redor do salão frio e silencioso. — Você tem o direito de me dar um soco.
— Você é maior do que eu — disse Matt, calmamente.
— Eu exagerei, Matt. Não estou acostumado a agir assim. — Quinn pensou em Chantel esperando por ele no andar de cima e no que teria feito e continuaria fazendo para mantê-la em segurança. — O fato é que eu pulei no seu pescoço porque aquela foi a primeira pista concreta que consegui no meio dessa confusão toda.
— Pelo que você me disse, parece que eu me encaixava em tudo o que o floricultor lhe disse.
— O que se encaixa em você se encaixa em outra pessoa. E eu não sei quem — murmurou. — Não estou vendo quem é porque estou envolvido demais. Você sabe qual é a primeira regra da investigação, particular ou da polícia? Não se envolva.
— Pelo que entendo, agora é um pouco tarde.
— Tarde demais. Mas ela acreditava em você — acrescentou Quinn. — Acho que você deveria saber. Mesmo depois de eu contar tudo, Chantel ficou do seu lado.
Emocionado, Matt ficou remexendo na lapela do paletó.
— Ela é uma mulher muito especial.
— Ela é a mais bela mulher que já conheci, por dentro e por fora. Integridade. Você não vê a integridade quando olha para ela. Ou a coragem, a lealdade. Precisei de algum tempo para conseguir ver tudo o que havia sob a superfície. — Quinn deu de ombros, impaciente e insatisfeito. — Talvez, se eu tivesse um pouco da fé que ela tem nas pessoas das quais gosta, não teria chegado a este beco sem saída.
Matt seguiu o olhar de Quinn para o andar superior. Se Quinn tivesse exagerado, pensou, ele, Matt, menosprezara o problema. Nas últimas semanas, estivera tão envolvido com seu próprio mundo que foi incapaz de dar à melhor amiga o tempo e a atenção de que ela precisava. Matt revirou a garrafa que tinha nas mãos. Ele trataria de se desculpar agora mesmo.
— Olhe, eu estava furioso, mas acho que você é tão louco por Chantel quanto eu sou por Marion. Eu provavelmente teria agido da mesma maneira.
— Talvez. — Quinn olhou para as escadas novamente. Ele não queria champanhe. Ele queria apenas ficar sozinho com Chantel, mas ela precisava ver Matt e conversar com seu agente. Chantel ficaria aliviada, mesmo assim Quinn se perguntava se ela sentiria a mesma frustração que ele estava sentindo. Eles foram tão longe e não chegaram a lugar algum. — Eu odeio essa situação pela qual ela está passando.
— Eu também. — Matt pôs a mão sobre o ombro do amigo. — Os últimos meses me ensinaram que o amor pode deixar todo mundo louco. Acho que foi isso que o Brewster disse naquela entrevista.
—Que entrevista?
— Saiu no jornal da noite. Eles escreveram um artigo sobre Estranhos, focado em Hailey. O modo como ele a descreveu, caramba, você seria capaz de achar que ela era real. Mas ele disse uma coisa que me pareceu verdadeira: quando um homem realmente ama uma mulher, ele a vê como nenhum outro homem, que não importa o que o homem faça ou não faça, a mulher amada sempre será o centro da vida dele. Acho que fiquei um pouco emotivo ao ler isso — disse Matt, um pouco enverg¬nhado. — Mas achei que entendia o que ele queria dizer. Uma vez Brewster até mesmo confundiu os nomes de Chantel e Hailey.
— O quê?
— O repórter até mesmo brincou com isso. Ele disse que Chantel acabaria por ganhar um Emmy por sua interpretação, depois de fazer com que o autor confundisse a atriz com o personagem.
— Droga! — Quinn deu um soco no corrimão e começou a subir as escadas. — Ele praticamente me confessou esta tarde. Ele quase vomitou isso em cima de mim.
— O que você... — Mas Quinn desaparecera. Matt apenas deu de ombros, perguntando-se se já era hora de ligar para Marion.
— Ligue para o Corpo de Bombeiros — gritou Quinn, descendo a escada correndo. — A casa da piscina está indo pelos ares.
— Está pegando fogo?
— Ela está lá. — Quinn chegou à porta antes mesmo que Matt pegasse o telefone. — Ele a está prendendo lá.
Chantel sacudiu a cabeça, tentando pensar melhor. A casinhola estava inundada, e ela teve dificuldades para se ajoelhar. Primeiro Chantel sentiu o cheiro da fumaça, forte e penetrante, igual ao cheiro de fumaça que sentira naquela tarde, durante as filmagens. Mas aqui não era obra da equipe de efeitos especiais, lembrou-se. Chantel ouviu as chamas crepitarem e olhou mais ao longe, para ver o chão se transformar em uma labareda de fogo.
Brewster ainda bloqueava a porta dos fundos, parado como se hipnotizado pelo fogo, que se espalhava rapidamente. Ele não estava tentando fugir. Ele morreria ali, queria morrer ali. E a levaria com ele.
Chantel ficou imóvel, engasgando-se com a fumaça e olhando desesperadamente à sua volta. Sua cabeça latejava e rodava, mas ela não podia se dar ao luxo de se deixar abater. As janelas eram altas demais. Só havia uma saída. Chantel tinha de passar por Brewster antes que o fogo aumentasse.
Ao tossir, ela voltou a respirar normalmente, mas Brewster não a ouviu tossindo. As chamas captavam sua atenção, consumindo avidamente as paredes. O calor estava aumentando, criando ondas visíveis, que tremeluziam entre Chantel e a porta. Movendo-se com rapidez, ela pegou uma toalha e a molhou na banheira. Depois, enrolando-a no rosto, procurou por uma arma.
A caixinha de música estava sobre a mesa, tocando, ainda que a melodia fosse abafada pelo som das chamas. Chantel a pegou e, com as pernas ameaçando cederem, passou por trás de Brewster.
Ele estava chorando. Ela o ouviu chorar ao levantar a pesada caixa de madeira sobre a cabeça. As lágrimas começaram a rolar pelo rosto dela, embaçando-lhe a visão. O que estava acontecendo era parecido demais com a cena que Chantel estudara, ensaiara e tentara entender.
Hailey, pensou, sentindo a fumaça enevoar-lhe a mente. Ali era a cabana, o retiro da artista na Nova Inglaterra. Ela era Hailey e atraíra para si e para aquelas que a amavam a tragédia. Os erros, amor e vidas do passado. Se pelo menos Hailey não tivesse entregado seu amor e ingenuidade para Brad... Para Dustin?
Sua visão escureceu, mas Chantel se esforçou para enxergar melhor. Não havia nenhum Brad. Apenas Quinn. Quinn era real, e ela era Chantel. Uma O'Hurley. E os O'Hurley eram sobreviventes.
Chorando, ela bateu com a caixinha na cabeça de Brewster.
Quando ele caiu a seus pés, tudo o que Chantel pôde fazer foi se arrastar, ofegante, lutando para puxar o ar num lugar cheio de fumaça e chamas.
Será que ela o matara? Chantel olhou para a porta, agora emoldurada pelas chamas. Sua única saída. Sobrevivente. Chantel deu um passo à frente, parou e se abaixou sobre Brewster.
Ele a amara. Louco ou são, tudo o que Brewster fizera estava ligado a ela. De algum modo, mais tarde, Chantel pensaria no assunto, mas não podia se salvar sem tentar salvá-lo.
Ela tirou a toalha do rosto, usando-a para cobrir o rosto dele. A clarabóia rachou com um ruído, mas Chantel não ousou olhar para cima. Ela não pensava, concentrada em sobreviver. Segurando-o pelas axilas, Chantel começou a puxá-lo em direção à porta, cada vez mais perto das chamas.
Ela estava perdendo a batalha. Não havia oxigênio para encher-lhe os pulmões enquanto carregava o corpo do inconsciente Brewster. O fogo estava vencendo, aproximando-se. Ela sentiu a onda de calor em sua pele e desejou desesperadamente que tivesse tido tempo para molhar mais toalhas.
À centímetros da porta, Chantel tropeçou e caiu, entorpecida pela falta de oxigênio. Só mais um pouco, pediu, arrastando a si mesmo e a Brewster pelo chão. Ah, Deus, só mais um pouco.
Ela ficou olhando, atordoada demais para ter medo, quando uma viga em chamas caiu dentro da banheira.
— Chantel!
Ela ouviu o grito ao longe, já começando a perder a consciência. De algum modo, Chantel conseguiu se deslocar mais alguns centímetros.
Quinn arrombou a porta da frente, mas não viu nada, a não ser uma parede de fogo. Ele gritou o nome dela novamente, mas não ouviu nada, somente o fogo. O teto estava cedendo. Ele passou pela porta, mas o calor o fez recuar. Foi quando Quinn a viu, ou pensou tê-la visto, cercada pelas chamas e com o fogo a separá-los.
Tossindo por causa da fumaça que inalara, Quinn correu em volta da construção, rezando pela primeira vez desde que se tornara um adulto.
Ela quase conseguira. Foi o que Quinn pensou ao vê-la caída contra o corpo de Brewster, perto da porta. Lascas incandescentes de madeira caíam do teto, enquanto Quinn se desviava delas. Ele sentiu sua mão sendo atingida e queimada antes que conseguisse deitá-la sobre a grama.
— Em nome de Deus — começou a dizer Matt, correndo ao encontro deles.
— Brewster está lá — disse Quinn. — Cuide dela.
Quinn lutou contra o fogo novamente, quase recuando quando chegou ao que um dia fora a porta dos fundos. Rastejando-se de bruços, ele se aproximou até conseguir agarrar Brewster pelo pulso. Se havia pulsação, ele não podia senti-la, mas mesmo assim o puxou. Enquanto o teto desmoronava, Quinn deitava James sobre a grama e se jogava de costas para respirar melhor.
— Chantel. —Ainda tossindo, Quinn rastejou até ela. Seu rosto estava sujo de fuligem. Ele ouviu as sirenes quando Chantel abriu os olhos para fitá-lo.
— Quinn. Ele...
— Eu o tirei de lá. Não tente falar agora. — Ela começou a tremer, embora o calor ainda fosse intenso. Quinn tirou a camisa e a cobriu. — Ela está em estado de choque — disse, laconicamente. — Intoxicação pela fumaça. Ela precisa ir para o hospital.
— Eu disse para mandarem uma ambulância. — Matt tirou a camisa e a pôs por cima da de Quinn. — Ela ficará bem. Ela é forte.
— É. — Quinn pôs a cabeça de Chantel em seu colo. — É.
— Ele achou que eu fosse Hailey. — Chantel procurou pela mão dele, perdendo e recuperando a consciência.
— Eu sei. Shhhh. — Quinn segurou e apertou a mão dela. A dor de suas queimaduras era real. Chantel era real. E eles estavam vivos.
— Eu... por um momento, também achei. Quinn, diga-me quem eu sou.
— Chantel O'Hurley. A única mulher que já amei.
— Obrigada — ela sussurrou, desmaiando em seguida.
Quando finalmente lhe permitiram vê-la, Quinn estava há 24 horas sem dormir. Ele se recusou a deixar o hospital para se trocar, e suas roupas estavam rasgadas e cheirando a fumaça. Por toda a noite Quinn andou de um lado para o outro, deixando as enfermeiras malucas.
Ela fora tratada por estar em choque e por ter inalado muita fumaça. Os médicos garantiram que tudo o que Chantel precisava era de um pouco de descanso. Quinn queria vê-la e falar com ela antes de ir a qualquer lugar. E, quando fosse, Chantel iria com ele.
Na alvorada do dia seguinte ao incêndio, Chantel acordou do sono induzido pelos remédios. O médico saiu do quarto dela balançando a cabeça. Ele olhou para Quinn, notando a mão enfaixada e as roupas rasgadas.
— Você pode vê-la agora. Vou preparar os papéis para liberá-la. Mas, se você for capaz, deveria convencê-la a ficar mais um dia, em observação.
— Posso cuidar dela em casa.
O médico lançou um olhar de dúvida em direção à porta.
— Talvez possa. Sr. Doran?
Quinn parou, com a mão na maçaneta.
— Sim?
— Ela é uma mulher muito teimosa.
— Eu sei. — Pela primeira vez em muitas horas, Quinn sorriu. Ele abriu a porta para encontrar Chantel sentada na cama, franzindo a testa para um espelho.
— Eu estou horrível.
— A beleza é algo superficial — disse, assim que ela abaixou o espelho para vê-lo.
— A boa notícia é que você parece pior do que eu. Ah, Quinn... — Chantel abriu os braços. — Você está mesmo aqui — sussurrou, usando toda a força para beliscá-lo. — Está tudo bem agora, não é? Tudo vai ficar bem.
— Acabou. Eu deveria ter cuidado melhor de você.
— Vou reduzir seu pagamento.
— Droga, Chantel, isso não é uma brincadeira.
— Você salvou minha vida — disse, afastando-se.
— Quando penso no que podia ter acontecido...
— Não. — Ela pôs o dedo sobre a boca de Quinn. — Não quero pensar nessas coisas, Quinn. Estou segura, e você também. É o que importa agora. E... e James...
— Ele vai sobreviver — disse Quinn, respondendo à pergunta não feita. Em pé, ele começou a andar de um lado para o outro no quarto. — Ele será preso, Chantel. Vou garantir que isso aconteça.
— Quinn, ele era tão patético e estava tão confuso! Ele criou algo que o dominou completamente
— Ele a teria matado.
— Ele teria matado Hailey — corrigiu Chantel. — Eu só consigo sentir pena.
— Esqueça-o — disse Quinn, sabendo que era o que ele teria de fazer se não quisesse ser destruído pela amargura. — Sua família está vindo para Los Angeles.
— Para cá? Todos eles?
— Suas irmãs, seus pais. Ninguém sabe onde localizar Trace.
— Quinn, não quero atrapalhar a lua de mel de Maddy. E todos os outros...
— Eles querem ter certeza de que você está bem. É para isso que servem as famílias, não é?
— Sim. — Ela cruzou os braços. — É. Quinn, você merece uma família, sua própria família.
Ele se virou para Chantel, já preparado para lutar pelo que queria.
— Eu sei o que quero, Chantel.
— Sim, acho que sabe. — Ela tomou a decisão assim que abriu os olhos sobre a grama e viu o rosto dele. — Quinn, antes que tudo isso acontecesse, na noite passada, eu estava esperando por você. Eu sabia que quando você voltasse e me abraçasse eu faria a escolha certa, para nós dois. — Chantel olhou em volta do quarto e depois para o espelho. Com uma risada nervosa, ela baixou os olhos para a mesinha ao lado. — Não era assim que eu esperava que as coisas acontecessem, mas ajudaria muito se você viesse até aqui e colocasse seus braços ao meu redor.
— Quinn sentou-se na cama ao lado dela e a puxou para perto.
— Ouça, tenho de lhe dizer uma coisa: quando cheguei lá, na noite passada, e a casinhola perto da piscina estava pegando fogo, eu sabia que você estava lá dentro porque meu coração parou de bater. Se eu a tivesse perdido, ele jamais tornaria a bater novamente.
— Quinn! — Chantel ergueu a cabeça, procurando pelos lábios dele. Ao encontrá-los, ela obteve todas as respostas de que precisava. — Eu quero um noivado rápido — disse, sorrindo. — Bem, bem rápido.
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| 03 - Chantel | |
| CAPA | SINOPSE |
| Quatro irmãos fascinantes criados nos palcos. Quatro histórias de amor e perseverança. Linda e talentosa, Chantel O'Hurley era uma grande estrela das telas de cinema sempre presente nas fantasias masculinas. Atrair e ser adorada eram parte de seu trabalho. Mas ser perseguida por um fã obsessivo já era algo bem diferente… Por isso, ela precisa de um guarda-costas. E rápido. Quinn Doran não era um homem especialmente bonito, mas tinha um charme irresistível. E, embora arrogante, era a melhor proteção que o dinheiro podia pagar. Apesar de se desafiarem a todo momento para decidirem quem estava no comando, era inegável que a atração pulsava entre Quinn e Chantel. E cada vez com mais intensidade. Diante da ameaça, Chantel não tinha alternativa senão ser acompanhada por Quinn durante a produção de seu novo filme. Para eles, sustentar um aparente relacionamento apaixonado não seria difícil. Na verdade, era perfeito e provocante. A dificuldade estaria em resistir à tentação de cruzar a fronteira entre a realidade e a ficção. | |
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Bjksss
Eve
"Democratização sem discriminação."
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