O CORAÇÃO DA DONZELA
Tradução e Pré-Revisão: GISELDA
Revisão Inicial: Márcia de Oliveira
Revisão Final: Silvia Helena
Formatação: Cris Skau
Informação da saga
01 - A Dama e o Dragão – Distribuído RS & RTS
02 - O Coração da Donzela – Distribuído PL
PEGASUS LANÇAMENTOS
Sinopse
A condessa Darkmoon deixou para trás sua infância em Norfolk para converter-se em uma das herdeiras mais desejáveis da corte de Enrique VII, mesmo quando suas reiteradas negativas em aceitar um marido lhe valeram o sobrenome de Lady Não. Mas quando os laços de fidelidade que a unem a Adrian Wentworth, seu mentor e protetor, obrigam-na a casar-se com Hugh de Claire, não terá mais remédio que aceitar esta união e tentar salvar da forca o homem pelo qual esteve apaixonada em sua infância. O reencontro com este ex-mercenário desperta em seu coração velhos desejos que não está disposta a reviver.
Acusado falsamente de assassinato, Hugh de Claire aguarda sua morte em uma escura masmorra da cidade de Amsterdã. Quando todas suas esperanças de redenção se desvaneceram recebe um trato que não poderá recusar embora isso implique casar-se com Anne, aquela irritante menina que ele estava acostumado a chamar "menina".
Dedicado a meu pai e meus irmãos: Merce, Bego e José. Ao Omar e Astrid (meus outros irmãos).
Capítulo 1
Dezembro de 1505, Canal da Mancha.
O casco do navio abria passo entre as águas cinza e agitadas do oceano Atlântico. No convés, sob o mastro, Hugh de Claire observava o mar. Seus olhos se elevaram até a vela do mastro que o vento agitava com rudeza invernal. Os três mastros estavam com suas velas inchadas, cheias pelo ar do oeste. "Uma noite mais de temporal", prognosticou visivelmente chateado. Odiava navegar quase tanto como as tormentas. Soltou uma maldição segurando-se com força quando o intenso vento açoitou o navio mercante, um arsenal de sólida e pesada aparência que nivelava em seu casco, ideal para o transporte de mercadorias. O navio fazia parte da incipiente frota que Hugh tinha construído prevendo os benefícios que o comércio com o continente traria para seus bolsos em médio prazo. Para ele, navegar continuava sendo sem atrativos. Seu meio era a terra firme, não a água!
Uma nova onda elevou a proa sobre as enfurecidas águas, depois, com a mesma velocidade com que se elevou, voltou a afundar-se, permitindo que uma crista de espuma salgada varresse o convés. Um suor frio escorreu por suas têmporas. Dissimuladamente, olhou ao redor ao sentir uma ânsia. Vários marinheiros trabalhavam em diversas partes do navio, concentrados em ajustar cabos, fixar cabotagens e pregar velas. Conseguiu conter-se bem a tempo e, sem se importar em ter alguém por testemunha de seu mal-estar, inclinou-se pelo corrimão de apoio, ignorando o perigo de cair pela amurada, devolveu seu jantar sobre agitado mar. O vômito aliviou fugazmente seu enjôo. Discretamente, enxugou os lábios com o extremo de seu capuz tentando recuperar o aprumo necessário para caminhar pela proa. O camarote vazio não diminuiu seu mal estar, era estreito, escuro, e tinha cheiro de suor e umidade das adegas. Deixou-se cair na incômoda cama de armar e cobriu seu rosto com um braço. Odiava os navios, o mar e as tormentas! Repetiu a si mesmo esforçando-se para dormir. Se o mau tempo permitisse, chegariam ao porto de Amsterdã em dois dias. Perguntou-se por seus ilustres convidados, os embaixadores que Enrique VII tinha renomado para aquela particular empresa. Uma pontada de culpa o assaltou ao recordar sua precipitada partida durante o jantar no qual os emissários reais desfrutavam no camarote principal. Nessa mesma noite deviam discutir a estratégia para conseguir a comercialização do grão procedente do báltico. E pestes do inferno! Era impossível concentrar-se em algo quando seu estômago gemia e se retorcia como se tivesse vida própria.
Enrique esperava que as emergentes cidades holandesas se convertessem em suas novas aliadas comerciais, substituindo o monopólio comercial da Liga Hanseática e isolando a França, seu eterno inimigo. O Conselho Real tinha decidido empreender aquela campanha desde Amsterdã para posteriormente estendê-la pelas principais cidades do antigo condado holandês (agora sob domínio burguês). De Claire, excelente conhecedor desses negócios, tinha sido recrutado como patrocinador e conselheiro dos emissários reais e obrigado a ceder um de seus navios para tal viagem. Uma viagem que tinha começado com mau pé. Para começar, a segunda embarcação, um navio militar que devia escoltá-los em sua viagem, tinha retornado ao porto de Greenwich ao abrir um buraco em seu casco, o qual os deixava com uma única linha de artilharia ante a rapina dos Vitalianos , piratas que cruzavam o continente em busca de vítimas imprudentes. Com o inverno chegando, a travessia se complicou com tormentas e ventos que os obrigaram a ficar em Calais, último lugar inglês no continente, durante quase duas semanas. Essa lista de despropósitos finalizava com a descoberta de que não tinha sido feito para navegar. Tinha-lhe sido impossível reter alguma coisa no estômago desde seu embarque. Só de ver seu reflexo, estava seguro de que a cor de sua pele tinha mudado para verde oliva.
Londres.
Não havia nada mais delicioso que os bolos de mel e amêndoa, decidiu Lady Anne Philippa Darkmoon deixando cair um pedaço da pegajosa massa em sua boca. Seu olhar vagou pelas animadas cozinheiras, cheias de atividades com a chegada do almoço. Alvoroçadas conversas se viram silenciadas repentinamente com a chegada da cozinheira mais velha, a Senhora Grint. A mulher governava aquele pequeno reino com a despótica inflexibilidade de um tirano. Seus olhos redondos, incrustados em um rosto bochechudo perpetuamente avermelhado, brilhavam sob sua touca rígida percorrendo a estadia como dois pequenos detectores de maus usos. Ao descobrir sobre a saliência de pedra próxima à mesa onde se amassavam os bolos, deteve-se com manifesto desagrado.
-Não deveria estar no salão atendendo a seu pretendente, minha senhora? - inquiriu enquanto um suspiro coletivo se elevava a suas costas.
Desta vez, seria Lady Anne a receptora do irado caráter.
- Já chegou? - interrogou a jovem com desinteresse deixando cair outro pedalo do bolo em sua boca.
-Oh, vamos, senhora! Não tenho tempo para brincadeiras no salão! - grunhiu enquanto fiscalizava o cofre de espécies ao que só ela e a jovem tinham acesso.
-Brincadeiras? A que se refere? - perguntou a jovem franzindo o cenho, a imagem da inocência.
-Sabe perfeitamente. Tende a desaparecer assim que seus pretendentes anunciam sua chegada. Então, Lady Botwell fica louca lhe procurando por esta bendita casa, mobilizando para isso todos meus ajudantes enquanto meu pão queima nos fornos e minha carne queima nos espetos - manifestou pegando um vidro de pimenta e entregando a um de seus ajudantes. - Trate de não usar muito - ordenou sem tirar os olhos da jovem ama.
Anne olhou o pequeno grupo de empregados que escutava dissimuladamente. Sabia o que estavam pensando, todo mundo pensava igual. Este era um segredo as vozes que a maior herdeira do reino fugia dos pretendentes e do matrimônio com firmeza e vontade. Tanto, que no círculo da corte tinha começado a ser conhecida como Senhorita Não.
-Procurarei não lhes importunar com minha presença, se isso vos molesta - ofereceu fingindo-se contrariada.
-Ah, ah! Nem suas palavras nem seus olhos de cordeiro degolado conseguirão me comover - replicou a mulher, com as mãos nos quadris e olhando-a fixamente. - Não adianta você fingir modéstia.
-Está bem - aceitou e limpou as mãos em um pano. Pouco impressionada pelo caráter de dragão da mulher, passou a seu lado para entrar no estreito corredor. - mas quando um desses pretensiosos perus se converterem em seu senhor, não quero escutar recriminação alguma - gritou sobre o ombro com efetiva teatralidade levantando as grossas saias de veludo para chegar aos degraus que conduziam a sala principal.
A mansão capitania que os duques de Norfolk tinham cedido para seu uso ocupava uma extensa parcela com lojas de doces e salgados com a imagem do Tamisa como cortina de fundo. Seu estilo era muito similar ao que todos denominavam Tudor: um primeiro andar de tijolo e pedra, com a aparência dos velhos palácios de outras épocas, sobre o qual se elevavam dois andares com madeira na fachada de estuque acrescentado de um pavilhão de plantas quadradas. Seu abrupto terraço estava coberto de palha, imitando o estilo camponês que tanto agradava a Enrique. A casa tinha sido um presente do rei ao duque de Norfolk, seu protetor e mentor na infância, pelos serviços prestados nas campanhas irlandesas, depois de ser confiscado do seu dono anterior, um simpatizante da causa Yorkiana. Não era uma mansão excessivamente grande se a comparasse com seu anterior lar em Norwich, mas era quente no inverno e fresca no verão, e possuía acolhedores vitrôs de vidro chumbado com vistas para horta que se estendia até a beira do rio. Currais, galinheiros e estábulos rodeavam o pátio de lajes, convenientemente afastados da entrada principal. Havia também um bebedouro para os animais com água de seu próprio poço junto ao sólido muro que isolava a propriedade do transitado caminho vicinal que os camponeses utilizavam em seu ir e vir da jornada aos mercados da cidade.
A entrada principal era adornada com passarelas de mármore no estilo dominó que iam até as portas de carvalho da sala principal, uma despensa com sala de espera onde as empregadas estendiam seu colchão de palha e uma habitação posterior com um leito de baldaquino ocupado por Lady Botwell, sua dama de companhia. Anne observou com desejo a estreita escada com base de pedra e balaústre esculpido que levava ao andar superior. Seu quarto era uma meta mais que desejada, dadas às circunstâncias. Mas não, aquilo não seria tão fácil. Lady Botwell poria toda a casa em xeque com tal de arrastá-la ante seu pretendente.
Justo nesse instante, um menino de apenas dez anos passou a porta principal levando uma jarra de vinho vazia sobre uma pomposa bandeja de prata. Lady Botwell parecia disposta a impressionar o conde, pensou cáustica. O pajem olhou surpreso para a sua senhora ao encontrá-la encostada junto à parede.
-O conde bebeu toda a jarra? - interrogou colocando o boné de feltro marrom sobre a desgrenhada cabeleira quando o teve ao alcance.
-Sim, senhora.
Anne cheirou a jarra enrugando o nariz com desagrado. Seu melhor vinho desperdiçado com aquele pavão. No que estaria pensando Lady Botwell? Todo mundo sabia que em questão de encher o bucho, o conde não fazia distinção entre um bom vinho e a água dos atoleiros.
-Lady Botwell pediu que buscasse mais nas adegas.
Uma brilhante idéia veio em sua mente. Aí estava! A maneira eficaz de desfazer-se de Lorde Morgan e economizar seu bom vinho.
-Eu cumprirei essa tarefa, Nathaniel, espere aqui. - Repentinamente inspirada, deu um alto para atender essa última ordem. - Melhor, retorne à cozinha e conte para todos o muito que gosta do vinho lorde Morgan - disse, despachando-o com a bandeja. O menino assentiu. Se pudesse franquear a vigilância da Senhora Grint, talvez encontrasse alguma migalha com a que entreter a fome.
Anne saiu da casa e dirigiu-se a um dos edifícios adicionados à construção principal. Procurou entre o maço de chaves pendurado na sua cintura e escolheu uma peça dentada de grandes proporções para abrir a porta. As dobradiças chiaram dolorosamente, como uma fria e escura bem-vinda. Passou pelo intrincado labirinto de barris sem necessidade de iluminação, conhecia o lugar como a palma de sua mão. Deteve-se ante um barril de carvalho e sorriu afastando as teias de aranhas que cobriam a garrafa. Era justamente o que estava procurando, pensou enquanto enchia a jarra.
A figura de Gantes O'Sullivan apareceu na porta olhando-a com curiosidade. O irlandês rondava a casa, aborrecido ante a falta de atividade. Tempos atrás, converteu-se em um dos homens mais valiosos do Dragão na Irlanda. Depois do traslado da jovem à cidade, ocupava o posto de capitão de sua guarda.
-Esse vinho está azedo, minha senhora, e só é usado para esfregar chão ou desinfetarem feridas - informou-lhe.
-Sei. - A jovem sorriu fechando o fluxo de líquido e endireitando-se. - Estou fazendo minha boa ação do dia - explicou.
O capitão se afastou lhe permitindo passagem. Havia um brilho zombeteiro em seus olhos, mas se absteve de fazer algum comentário.
Anne retornou ao vestíbulo com um sorriso. Sem vacilar, entrou na sala com uma expressão beatífica.
- Lorde Morgan! Que agradável surpresa! - saudou inclinando graciosamente a cabeça, apenas coberta com a metade do chapéu que deixava ver seus escuros cabelos.
O cavalheiro ficou em pé ao vê-la enquanto mantinha sua mão no pomo de uma ostentosa espada, apta para impressionar a qualquer donzela, mas imprestável no campo de batalha. Ele era um homem alto, de ombros largos e volumoso abdômen, protótipo do galã que tanto se usava na corte e se vestia com a elegância própria de um deles. Capa curta de veludo combinando com seu chapéu de pluma. Seu colete, profusamente bordado em fios de ouro, adornado com botões de tartaruga. O volume de suas pernas, embutidas em meias de lã granada lhe trouxeram a memória a lembrança do velho cavalo que em Norfolk se utilizava para puxar as carroças mais pesadas. O profuso vestuário tinha como último toque de opulência umas quatro grotescas pontas, a última moda da corte, cuja braguilha se adornava com laços grandes nos quais estavam pendurados pequenos arremates metálicos que tilintavam desagradavelmente ante qualquer movimento do varão. Obviamente, Lorde Morgan confundiu seu estupor com admiração e com presteza pegou a jarra de sua mão para deixar dar-lhe um ardoroso beijo no dorso de sua mão depois de uma galante inclinação.
-Minha senhora, sua presença iluminou este dia triste e cinza com sua beleza.
O elogio fez com que a jovem erguesse uma sobrancelha e olhasse ceticamente para Lady Botwell, que de algum lugar da sala lhe lançou um olhar de ansiosa complacência.
-Sente-se, senhor, e me deixe lhe servir um gole para que refresque a garganta enquanto nos conta de sua viagem a Castilha - ofereceu uma vez que recuperou a mão de seus cuidados.
O homem consentiu e se deixou cair de novo na cadeira e elevou sua taça de estanho para que Anne a enchesse até a borda.
-Castilha ainda está de luto por sua rainha morta. Isabel deixou sua marca entre os nobres castelhanos. Todos eles desconfiam das pretensões de seu viúvo Fernando tanto como de seu ambicioso genro, e têm motivos, acredite ambos são umas sanguessugas. Conforme comentam, Felipe e Juana estão regressando de Flandes para reclamar o trono de Castilha - Morgan fez uma pausa, pensativo. - A única distração que encontrei em terras tão ermas foi a caça. A planície do terreno não tem o encanto de nossas verdes colinas, mas proporcionam um entretenimento aceitável. Quanto a suas mulheres, o que dizer? Nenhuma pode igualar-se a você.
-É certo que a princesa Juana está tão louca como afirmam? Dizem que agrediu a uma de suas damas lhe lançando um pente e que a outra cortou o cabelo com suas próprias mãos por inveja - interrogou Lady Botwell com interesse, fazendo eco do escandaloso comportamento daquela rainha.
Morgan deixou escapar uma gargalhada que sacudiu o afiado acabamento de uma barba que tentava ocultar inutilmente sua falta de queixo.
-Em Flandes a apelidam A Terrível, se me entendem. São os ciúmes que a enlouquecem. Felipe é um homem robusto, de boa imagem, as mulheres suspiram por ele, Juana pretende o impossível ao lhe exigir fidelidade.
-Acaso não está no seu direito? - interveio Anne elevando uma sobrancelha. - Acredito recordar que ambos juraram fidelidade com seus votos. É justo que honrem essa promessa por igual.
Consciente do perigo que entranhava esse tipo de conversa sobre direitos e obrigações conjugais, Lady Botwell se apressou para retomar a conversa e levá-la a um tema mais seguro. Sua pupila tendia a defender suas opiniões com um ardor que alguém podia confundir com simples irritação, uma qualidade pouco apreciável em uma donzela em busca de um pretendente.
-Lorde Morgan lhe trouxe um presente de Castilha - disse assinalando atrás da jovem para distrair sua atenção. - Um formoso detalhe verdade? - perguntou incentivando-a a uma resposta positiva.
Anne se voltou para o objeto, um móvel com pequenas gavetas com incrustações em marfim em sua tampa cujas formas geométricas imitavam a arte muçulmana, tão presente na península ibérica.
-Coloque em seus aposentos, será uma recordação de minha pessoa ao despertar - assinalou o conde piscando os olhos. Elevou a taça até seus lábios grossos dando o primeiro gole.
Anne atenta observou como suas bochechas ficavam vermelhas ante a azeda bebida.
-Obrigado, senhor, está bom o vinho? Eu mesma o escolhi com cuidado - inquiriu sem tirar o olhar do rosto corado.
O homem tomou ar secando o suor da testa com a manga de sua camisa branca. A educação o obrigava a ser cortês e não feri-la se desfazendo do vinho.
-Um pouco forte para meu gosto - grasnou esforçando-se para engolir.
-Beba, beba e se refresque, há um barril inteiro lhe aguardando - falou Anne - O caminho até aqui deve ter lhe resultado longo, beba quanto desejar.
Com um pouco de sorte a língua dormiria e as tripas lhe retorceriam, pensou Anne malevolamente.
-Não tenho muita sede - assegurou.
-Ah! Então, seu paladar mudou com as excelências dos caldos castelhanos.
-Não, é só... -Morgan fez uma valente tentativa de provar um novo gole que lhe provocou uma ânsia. Finalmente, ante a perspectiva de ter que acabar a taça ficou em pé, deixando de lado o vinho - Acabo de recordar certos assuntos que requerem minha presença na corte. Nosso jovem príncipe deseja que faça um relatório pessoalmente de minha viagem, sente especial interesse por essas terras, como bem podem imaginar - anunciou apressadamente.
-Mas não pode ir assim, devemos lhe agradecer por seu presente. Fique e compartilhe a mesa conosco. A Senhora Grint escolheu o melhor leitão de nossos chiqueiros, agradar-lhe-á sua forma de prepará-lo; manteiga de primeira e nabos tenros - ofereceu Lady Botwell disposta a tentá-lo. E pelo brilho ofegante dos olhos do homem quase conseguiu.
Anne se viu obrigada a intervir para salvar a situação.
-Sim, fique e lhe servirei meu melhor vinho - disse com um beatificado sorriso enquanto elevava ligeiramente a jarra.
O conde franziu os lábios com espanto.
-Temo que seja impossível. - E para suavizar sua negativa acrescentou: - Em outra ocasião possivelmente - dispôs ansioso por congratular-se com a donzela.
Dedicou uma cortês saudação a Lady Botwell enquanto ajustava sua espada em torno da cintura e, sem mais palavras, foi em direção a saída com enormes passos.
O repicar de seus sapatos ressoou no pátio exterior onde um dos empregados sustentava as rédeas de seus arreios. O rosto redondo de Lady Botwell mostrou certa perplexidade enquanto Anne fingia interessar-se pela partida do conde aparecendo na janela. Saudou energicamente quando o conde conseguiu montar seu cavalo com a ajuda de um cavalariço e seguido por vários homens armados se dirigiu para o portão de saída. Lady Botwell levava a sério sua missão de encontrar um marido adequado. Não queria defraudar suas infrutíferas tentativas mostrando seu desgosto.
-Que estranho! Lorde Morgan se mostrava impaciente para lhe ver e agora, diz ter pressa em partir - meditou a mulher, observando o exterior junto à jovem.
-É um homem ocupado desde sua nomeação como adjunto de Henry Richmond , o embaixador é um homem aplicado em suas tarefas, sem dúvida tem coisas mais importantes que fazer que sentar-se a tagarelar com duas mulheres - Meditou Anne que, indiferente, sentou-se em um dos sofás alinhados em frente à chaminé de pedra.
-Um homem poderoso na corte - comentou acariciando a frase entre seus lábios. - Ouvi dizer que o príncipe de Gales, nosso jovem Enrique, tem-lhe em alta estima e busca sempre de sua opinião. É uma sorte que se fixou em ti.
-Lorde Morgan me parece um pouco simplório, tanto em intelecto como na aparência – assinalou enquanto pegava seu bordado em uma mesa próxima. Acariciou com ar distraído os fios de cores compondo mentalmente os pontos. Sempre gostou de bordar, relaxava-lhe pensar nas combinações exatas para cada peça, sua ansiedade diminuía ponto a ponto quando tinha uma agulha entre os dedos.
-Não há um homem que te agrade? Aos de rosto bonito os chama vaidosos, e aos de porte senhorial, simplórios. Qual seria, em sua opinião, o homem ideal?
-Meus gostos se decantam pelo término médio. Atrativos, sem chegar a ser formosos, e fortes, sem chegar a ser... Gordos.
-Gordos? Lorde Morgan não é gordo! - gritou a mulher como uma galinha poedeira, como se o conde em questão fosse carne de sua carne. Os lóbulos das orelhas se agitaram enquanto estalava a língua. - É forte e são, e conta com...
-Uma excelente posição na corte - recitou ela mecanicamente.
Lady Botwell a olhou ofuscada. Tratava-se de uma mulher generosa em formas, de volumoso peito e abdômen. As amplas roupas acrescentavam largura a seu contorno esférico, adoçado tão só pela eterna bondade refletida em seus olhos castanhos - Qualquer donzela consideraria os cuidados de Lorde Morgan uma bênção.
-Não é meu caso. Já ouviu o que disse sobre a fidelidade, acredita ser um defeito e não uma virtude.
A matrona emitiu um suspiro.
-Temo que o matrimônio de Lorde Wentworth com nossa senhora tenha transtornado sua visão do que é a vida conjugal.
-O que tem de mau em que um marido ame a sua esposa? - inquiriu suscetível dando um primeiro ponto a seu bordado.
-Oh! Eu não desejaria para ti outra coisa, Anne, mas temo que Lorde Wentworth seja a exceção que confirme a regra.
Não, não era assim. Anne sabia de outros matrimônios por amor. O sapateiro de Darkmoon havia se casado na primavera passada com uma saudável leiteira e proclamava aos quatro ventos que estava apaixonado por ela.
-Sabe que sua condição te obrigará a aceitar um matrimônio benéfico para seus interesses.
Sim, já sabia isso, e a única coisa que podia fazer era confiar no destino e rogar por um marido aceitável. Não podia prolongar sua situação eternamente. Cedo ou tarde, Lorde Wentworth se decidiria por um ou outro pretendente e devia estar preparada. Perguntou-se que opinaria Enrique de sua velha pretensão de entrar para um convento e doar sua fortuna e terras à coroa. Estava segura de que o monarca não veria com maus olhos uma decisão de tal calibre. Muitas jovens nobres optavam por este tipo de vida e gozavam de grandes comodidades. Não seria estranho, nem insólito. Estar presa em um convento por toda a vida, deixar passar os dias entre as quatro paredes de uma cela...
A quem queria enganar? Não tinha nascido para ficar trancada, nem para rezas ou jejuns. Gostava das danças alegres da corte, o galanteio e a particular liberdade que Wentworth lhe tinha outorgado, o único que detestava era saber que, cedo ou tarde, tudo aquilo terminaria com a chegada de um marido.
-Mas tenho direito de sonhar com um bom marido; um garboso e galante, de boa imagem e melhor porte. Um homem de inteligência e bom coração que não seja um esbanjador nem dado ao jogo. Que saiba apreciar o bom vinho sem exceder-se. Que não vá atrás de cada saia - recitou de cor. - Alguém que saiba me tratar bem.
Lady Botwell se enterneceu ante esta última declaração. Não se esqueceu do que a jovem tinha suportado, em sua infância, a dureza de uns familiares pouco afetuosos.
-Essa lista está cada dia mais longa. - A mulher riu e acariciou com afeto seu rosto, agasalhando-a com seu corpo terminante. - Duvido que exista um homem assim.
Capítulo 2
Amsterdã.
Hugh se deixou cair sobre o ostentoso colchão de plumas. Um arroto etílico brotou de seus lábios enquanto os jogos de dados escorregavam de sua mão e ricocheteavam fracamente no chão de madeira. A seu lado, uma mulher seminua deixou escapar uma risada enquanto se colocava escarranchada sobre o corpo masculino sustentando em sua mão uma coxa suína.
-Dois de cinco. Volto a ganhar - disse dando uma dentada à carne. A gordura escorreu por seu queixo redondo. Com outra risada limpou com a manga de sua camisola, deixando descoberto seu ombro.
Hugh elevou uma mão para lhe acariciar os peitos enquanto acomodava as generosas formas sobre seu colo nu.
- É um homem de sorte, Maese De Claire - pronunciou a mulher com seu forte sotaque holandês. - Quando começa perder, volta a ganhar.
Hugh sorriu fracamente, fazendo com que sua mão vagasse sob as saias da camisola para lhe percorrer a coxa carnuda. A mulher deixou de lado a comida e elevou-se sobre os joelhos. Entreabriu os olhos azuis ao sentir a primeira investida daquele corpo fibroso. Hugh de Claire era um homem atrativo, muito para conservar a dignidade e o decoro que supõe a toda grande dama. Sem poder controlar-se, a mulher gemeu e se retorceu sobre ele lhe percorrendo o abdômen duro com a ponta dos dedos. Era uma pena não possuir nenhuma gota de sangue nobre, de Claire sabia deslumbrar a nobres damas e as tímidas criadas por igual, pensou enquanto passava seu dedo indicador pelos duros abdominais e descia lentamente até a dourada capa de pêlo do peito. Inclinou-se para beijar sua garganta sentindo em seu corpo as primeiras sacudidas do prazer. Margrietje Vão Dijk, a jovem esposa do atual Estatúder, sentiu prazer sobre seu amante. Beijou sua boca dura brincando com seu lábio inferior. Ele elevou os quadris preenchendo-a por completo e arrancando um grito de sua garganta. Uma breve risada escapou da mulher. Hugh elevou uma mão para colocá-la sobre sua boca e impedir que mais sons saíssem de sua boca.
-Ssh, senhora, ou Heer Vão Dijk ouvirá seus gritos do outro lado da cidade.
Quem podia pensar em um marido ciumento tendo o sensual corpo do inglês entre as pernas?
-Pelo amor de Deus! Continue não pare agora - choramingou ela movendo os quadris com impaciência.
E ele a agradou com supremo gosto levando-a ao êxtase.
Depois de um tempo, Hugh vestiu sua roupa lançando um breve olhar à mulher ainda nua. Estendeu uma mão para a jarra de vinho e deu um prolongado gole para saciar sua repentina sede. Devia acabar de vestir-se e partir antes que Van Dijk retornasse, O Legislador era ao fim e ao cabo, o homem mais poderoso da região na ausência do Duque de Borgonha, senhor daquelas terras. O sistema legislativo importado de Flandes permitia às cidades com privilégios próprios, como Amsterdã, operar com autonomia, e a Van Dijk dirigi-la com as prerrogativas de sua autoridade. Havia agido errado ao se relacionar com sua jovem esposa, Margrietje, mas em sua defesa devia alegar que ela o tinha deixado realmente em uma situação difícil depois de vários meses de abstinência. Desgostava-lhe profundamente ser o responsável por fazer de um homem corno, sobre tudo, se este era a chave do êxito de sua missão em Amsterdã. Tinha o sólido costume de separar os negócios do prazer. Pensou em se levantar do leito revolto e evitar as possíveis dificuldades de ser descoberto, mas se sentia extremamente cansado, como se seus membros fossem como areia. As pálpebras se fecharam enquanto um doce torpor assaltava seu corpo. Fez uma última tentativa de incorporar-se. Margrietje roncava brandamente a seu lado, com o corpo enfraquecido sob uma confusão de mantas e cobertores. Tinha que levantar-se, abandonar o lugar antes de ser descoberto, mas seu corpo não lhe respondia. Lentamente, rendeu-se à distração do sono e emitindo um suspiro caiu em uma profunda inconsciência.
***
A débil luz do sol invernal penetrava pela janela de vidro do quarto quando o grito de uma mulher o despertou repentinamente. Pegou sua espada do monte de roupas que se empilhavam no chão em um ato reflexo de seus muitos anos como mercenário. Uma empregada de tosto cinzento olhou horrorizada, como se ele fosse o mesmo Belzebu. Gritou de novo histericamente retrocedendo quando ele fez a ameaça de aproximar-se - Maldição, mulher! Despertará toda a casa - grunhiu mal-humorado antes de perceber que estava falando em inglês e de que, portanto, ela não podia lhe entender. Franziu o cenho tentando recordar alguma palavra em holandês - Eu não... - tentou torpemente, mas aquilo não pareceu funcionar. A mulher saiu do quarto com grande estrondo fazendo soar seus tamancos de madeira contra o chão da escada enquanto gritava algo naquele idioma infernal.
Hugh arrumou o cabelo. O melhor seria sair dali quanto antes, pela janela se fosse necessário. Olhou para o leito esperando receber as indicações de sua moradora. Então, compreendeu o que tinha provocado o horror na criada. O corpo de Margrietje jazia em meio de um atoleiro de sangue que salpicava também o chão. Alguém tinha lhe aberto o pescoço de lado a lado e sua cabeça repousava sobre o travesseiro de um modo grotesco, fazendo ressaltar o profundo corte de sua garganta. Alguém, quem? Perguntou-se consternado, no quarto só estava ele, e ele não poderia... Tentou recordar os acontecimentos da noite anterior, mas as vozes iradas no andar inferior o impediram. Um estremecimento de horror o percorreu. Com mão trêmula recolheu suas botas do chão e depois cobriu o corpo pálido e sem vida da mulher com o lençol ensanguentado. Percebeu que seu próprio corpo estava salpicado com esse mesmo sangue. Frenético tentou limpar as mãos e o peito com um tecido. O que tinha acontecido na noite anterior?
As vozes do andar inferior subiram pelo oco da escada. A voz de Heer Van Dijk se impôs entre todas elas pedindo uma explicação sobre aquele alvoroço. Hugh colocou o casaco sobre os ombros ajustando precavidamente a espada à cintura. O coração pulsava agitado no peito. Alguém tinha matado à mulher e ele tinha sido o único que tinha estado a seu lado toda a noite. Inexplicavelmente, adormeceu, quando sua intenção tinha sido abandonar a casa. Recordou tibiamente seu apaixonado encontro com a senhora Van Dijk depois do jantar que o Estatúder tinha oferecido a ele e ao resto da comitiva inglesa em seu próprio lar, uma típica construção holandesa alinhada frente a um dos canais que atravessavam a cidade e cuja parte inferior se utilizava também como armazém. Van Dijk se vangloriou de ter seu leito entre suas mercadorias e de preferir a companhia destas a de qualquer mulher. Os embaixadores ingleses e o próprio Van Dijk tinham partido depois do jantar em um barulhento grupo. De Claire tinha declinado o convite o que, intuiu, seria uma noite de álcool e mulheres em algum bordel da cidade. Deveria ter voltado para a pequena casa de madeira que um comerciante inglês tinha cedido para sua estadia na cidade, sim, deveria ter feito isso, mas uma empregada lhe tinha sussurrado na penumbra da embarcação onde aguardava seu bote que a senhora Van Dijk o esperava para tratar com ele um tema pessoal. E o tema tinha sido bastante pessoal, tanto que ambos tinham acabado no leito bebendo, jogando dados e fazendo o amor. Quando foi o momento de separar-se. Hugh franziu o cenho, tentando recordar o que tinha acontecido? O som das vozes aumentou. Pareceu-lhe escutar a voz de Van Dijk dirigindo toda elas. Houve ruído de espadas desembainhadas, o metálico chocar das lanças de ferro. O dono da casa tinha chamado sua guarda pessoal. Hugh retrocedeu duvidando se conseguiria fugir. Observou com os olhos obscurecidos a janela. Não, não fugiria como um covarde. Estava seguro de sua inocência. Tinha matado antes, às ordens do Dragão, mas como soldado, não como assassino.
Um suor frio lhe impregnou a testa. Notou, então, a carícia gelada do ar que penetrava através da janela. Essa janela tinha estado fechada na noite anterior, recordou repentinamente, ele mesmo tinha fechado sua trava metálica!
Nesse instante, o quarto se viu invadido por um tumultuoso grupo de homens armados que inclinaram ameaçadoramente suas lanças até lhe roçar o peito. Hugh desembainhou lentamente sua espada. Não era a primeira vez que se enfrentava a um rival superior. O capitão da guarda o repreendeu alarmado, lhe aguilhoando o ombro com a lança. Seus olhos estavam cobertos por um ódio que ia mais à frente da simples dor pela perda de sua senhora, Hugh tomou nota do dado antes de esquecê-lo por completo ante a gravidade da situação em que se via sumido. Van Dijk ordenou a seu homem retroceder com um gesto impaciente reclamando para si a tarefa de entender-se com aquele gigante dourado.
O marido avançou um passo, lançando um breve olhar ao corpo ensanguentado. Seus olhos aquosos repararam no corpo de sua esposa. Deu uma ordem a seu capitão antes de voltar-se para Hugh que, com o cenho ferozmente franzido, aguardava com a espada na mão. O homem se limitou a estalar a língua lhe cravando um olhar gélido. Tratava-se de um homem maduro em idade com um aspecto de imponente sobriedade. Vestia-se com a rigorosidade de todos os comerciantes holandeses, salvou a ornamentada insígnia de prata com a cruz de São Nicolas que proclamava seu poderoso status nessa comunidade.
- Se entregue de Claire, de nada serve derramar mais sangue - disse com forte sotaque.
-Sou inocente - declarou, apertando o punho de sua espada com força.
Van Dijk elevou uma fina sobrancelha.
-Isso se decidirá em seu julgamento - grunhiu agitando sua mão. Embora possa saber o resultado: Será julgado culpado e pendurado por este atroz crime - expressou.
Voltou-se para o grupo de homens armados que o rodeavam e deu ordem de lhe prenderem.
-Sua mulher foi assassinada, mas não por minha mão, juro-o - gritou defendendo-se eficazmente do ataque. - Alguém quis me colocar nessa armadilha.
-Atreve-se a proclamar sua inocência quando lhe encontro em minha casa, compartilhando o leito com minha mulher que jaz gelada pela morte que, certamente, sua adaga lhe infringiu? É um estúpido!
-Aceito todas suas acusações exceto a última, eu não matei a sua esposa.
O capitão da guarda emitiu um som rude e abrupto tentando equilibrar-se sobre ele. Van Dijk o deteve.
-Acha que isso importa? É minha honra o que exige ressarcir-se, não sua inocência. - Deu-lhe as costas para dirigir-se a seus homens - Capturem-lhe e se resistir lhe matem - ordenou.
-Está cometendo uma injustiça.
Van Dijk o ignorou e saiu do quarto.
-Maldição! Não sou um assassino - bramou defendendo-se com o ardor de quem se vê apanhado.
Elevou sua espada enviesando os primeiros cortes e mantendo os seus rivais atrás da linha defensiva de seu fio, mas sabia de antemão que aquela batalha estava perdida.
Capítulo 3
Londres.
A corte estava agitada, excitada como um mar enfurecido no qual as notícias passavam com a mesma profusão que as ondas. O anúncio público do príncipe herdeiro renunciando a seu compromisso com Catalina de Aragón estava na boca de todos. Ninguém duvidava que o monarca estivesse por trás de todo aquele assunto. Enrique tinha desejado Castilha como aliada no passado, motivo pelo qual tinha se casado o defunto Artur, seu primogênito, com a filha do todo poderoso rei Católico. Mas o matrimônio apenas durou uns meses antes que Artur sucumbisse à morte. Agora, Enrique desconfiava do poder castelhano e não via vantagem em se unir a uma família tão poderosa como a espanhola. A aliança tinha passado a um segundo plano a favor de candidatas mais proveitosas para seus interesses. O futuro Enrique VIII tinha que renunciar às promessas feitas por seu pai, mesmo que todos soubessem que o jovem príncipe encontrava-se profundamente apaixonado pela Princesa Viúva . Como sempre nestes assuntos, partidários e refratores da princesa espanhola encontravam um profundo prazer nas confrontações que este fato provocava e que animavam os banquetes da corte. Os caluniadores da princesa a consideravam muito "estrangeira", sóbria na aparência ou muito católica em suas convicções para ser a esposa do jovem príncipe, outros, entretanto, viam nela uma mulher comedida, capaz de equilibrar o apaixonado caráter do futuro monarca. No momento, o rei tinha ordenado à reclusão de Catalina com um punhado de empregados e limitado sua manutenção até a indigência para pressionar Fernando a pagar seu dote, convertendo à triste e desafortunada princesa em uma refém dos interesses ingleses.
O afamado caráter de avaro do monarca tinha limitado também as reuniões palacianas, mas com a volta do herdeiro a Londres as coisas tinham mudado e, depois do obrigado retiro imposto pelo falecimento da rainha, os cortesões não tinham demorado muito em celebrar uma grandiosa festa em sua honra.
Aquele era o terceiro dia de banquetes e bailes animados com a presença do jovem príncipe, "a esperança do reino", como o apelidava a corte, grande aficionado à música e a dança.
Em uma esquina da grande sala do palácio, de costas ao resto dos convidados, Adrián Wentworth aguardava a chamada do monarca enquanto observava com seriedade o rosto de sua esposa que, junto a ele, esperava com impaciência.
-Odeio o mistério de Enrique, exige nossa presença na corte, mas não esclarece para que.
O guerreiro encolheu de ombros, sorrindo ante o nervosismo de sua esposa.
-Nunca foi uma mulher paciente, reconheça.
-Não pensará em lhe mandar a alguma dessas guerras absurdas, verdade?
Adrián levantou uma sobrancelha.
-Vamos senhora, insulta meu ofício com muita alegria.
Ela deixou escapar um suspiro, ele emitiu uma risada enquanto deslizava uma mão por seu ventre redondo onde crescia seu quarto filho.
-Espero que nossa filha tenha um caráter mais doce que o da senhora - sussurrou inclinando-se sobre a dama que tinha conseguido conquistar seu coração.
-Filha? Quem lhe disse que esta vez será menina?
Ele se inclinou ainda mais, até roçar com seus lábios a delicada orelha de sua esposa.
-Deve-me isso. Essa foi sua promessa na última vez.
Ela riu, afastando a mão de sua cintura.
-Pobre Dragão, derrotado por três simples meninos.
-São filhos do mesmo demônio! Posso jurar.
Ambos sorriram ao recordar alguma das "façanhas" de seus filhos.
-Então, reze senhor, reze e rogue a Deus que premie seus esforços com uma menina de doce caráter. Alguém como Eugen, por exemplo.
Um suspiro desdenhoso escapou do homem.
-Essa doninha faladora - grunhiu, mas Margaret estava muito acostumada aos "carinhosos" apelidos de seu marido para seu escudeiro para lhe prestar atenção.
A agradável conversa poderia ter continuado, mas um dos pajens reais cruzou a sala até deter-se ante eles.
-O rei deseja falar com você agora, milord.
Enrique estava acostumado a receber seus vassalos nas dependências privadas do Salão Pintado, longe do folguedo habitual do grande Salão. Margaret reconheceu o lugar onde anos atrás selou seu futuro. Poucas mudanças aconteceram no lugar, entretanto o monarca parecia ter envelhecido uma eternidade desde seu último encontro, pensou depois de apresentar seus respeitos. A morte de sua esposa, e de seus três filhos tinha acabado com seu ânimo e agora seu rosto, enxuto e afiado, mostrava uma palidez doentia, enquanto seu corpo era consumido por uma magreza preocupante. Sua mão, em outro tempo firme, tremia ostentosamente quando chamou um de seus secretários, que se aproximou com um pergaminho na mão.
-Aqui está, Wentworth leia - disse com voz fraca levando o documento em sua direção.
Adrián pegou o pergaminho lançando um olhar furtivo para sua esposa. Tinha aprendido a ler graças aos esforços de Margaret, mas seu domínio não era de todo completo. Levou alguns minutos para compreender a elaborada escrita e quando o fez, releu de novo as linhas tentando assegurar-se de ter entendido bem.
-Meus embaixadores em Amsterdã o enviaram a caráter de urgência. E bem, o que opina? - inquiriu o monarca, impaciente.
Adrián deixou cair à mão lhe dedicando um olhar funesto.
-É uma suja mentira! Uma argúcia sem sentido! - declarou em voz o suficientemente alto para fazer tremer as paredes.
Margaret pegou o documento de sua mão.
-Tudo o que aqui se declara é uma falsidade - exclamou surpreendido. De Claire seria incapaz de matar a nenhuma mulher.
-Poriam sua mão no fogo por ele? - interrogou o monarca mal-humorado. Foi encontrado no leito dessa mulher pelo próprio marido. Quem pôde matá-la se não ele?
-Não acredito, e sim, poria minha mão no fogo por ele, sua graça - declarou a duquesa elevando sua mandíbula.
Os lábios finos do monarca desenharam um morno sorriso. Aquela mulher sempre soube ganhar com a palavra. Mas a questão que os ocupava agora era outra de suma importância. Todos seus esforços para expandir as fronteiras dos mercados ingleses poderiam ver-se afetados por aquele despropósito. O Concílio Real devia tomar decisões imediatas.
-Opino que incube a você, Wentworth, desfazer esta ofensa. Hugh de Claire chegou aqui graças a suas recomendações.
-Ele é o melhor mercador deste reino, e sabe. Ninguém como ele conhece esses negociadores.
-Seja assim ou não, agora mesmo está detido por ordem de Van Dijk, seu julgamento não demorará muito para acontecer. Esperemos que o fato em questão não afete à decisão dos holandeses.
-Estou seguro de sua inocência - insistiu Adrián com a mandíbula apertada por uma ira mal contida.
-Isso carece de importância - desprezou o monarca agitando uma mão. Devemos oferecer uma cabeça de turco ao "Estatúder ". Não arriscarei um substancial acordo para a Inglaterra por uma amenidade como essa.
-Assim, sacrificará um bom homem - disse Adrián sem se importar já se sua ira desagradava ao monarca.
Margaret apoiou uma mão sobre seu braço tentando contê-lo.
-Esse homem lhe serviu fielmente todos estes anos. Surpreender-me-ia que não agisse de idêntica forma - pronunciou com calma.
Enrique se recostou cansadamente em sua cadeira, com um súbito ataque de tosse.
-Estou cansado destes assuntos, meus ossos clamam pelo retiro. Digam-me, pois, o que devo fazer? Iniciar um conflito pela falta de cérebro de um homem que não soube conter seus apetites arriscando os interesses da Inglaterra?
Margaret se adiantou inclinando pensativamente a cabeça.
-Existe outro modo, majestade.
Ele desprezou seu sorriso com um movimento.
-Deixe de mistério, mulher, e fale.
-Poderia solicitar sua custódia, aqui na Inglaterra.
-Isso é impossível, milady, essa potestade se limita somente aos homens com título e de Claire carece dele - informou Sir Richard Empson, conselheiro real.
-No momento, mas e se convertesse em nobre?
-Inglaterra não pode conceder um título de qualquer jeito a um homem acusado de assassinato. Isso seria insultar o Estatúder e, como sabem desse homem dependem as negociações futuras - apontou o homem.
-E se obtiver o título por outros meios?
-O que outros meios? - interrogou o monarca interessado.
-Mediante um matrimônio arranjado, por exemplo.
-E quem seria a afortunada? Devo lembrar que seu amigo está detido sob a acusação de assassinato, se encontrar uma candidata capaz de aceitar esse fato tem meu consentimento. E bem, existe essa dama?
A mente de Margaret trabalhou freneticamente em busca de possíveis candidatas rejeitando com rapidez os nomes que passavam por sua memória. Não, não havia nenhuma dama apta para seus propósitos e isso condenava a de Claire. Salvo...
-Nossa pupila, Anne, está como bem sabe solteira. Você mesmo assinou uma prerrogativa sobre seu título como condessa de Darkmoon para protegê-la de seus familiares. Seu futuro esposo terá direito sobre suas propriedades e linhagem tal e como dita a lei. Utiliza-a para salvar de Claire - exclamou surpreendendo-se a si mesma com a prática solução.
-Lady Darkmoon? -fizeram coro os conselheiros ao uníssono.
Margaret assentiu enquanto o plano, um simples esboço em sua cabeça, tomava forma.
-Sua união outorgaria a de Claire o título que necessita.
-Não acredito que o Estatúder consinta liberar o assassino de sua esposa para permitir esse casamento - opinou demoradamente Lorde Braxton, integrante do gabinete real.
-Presumindo, Braxton, presumindo assassino - corrigiu-o o monarca.
-A idéia de minha esposa me parece factível majestade - declarou Adrián depois de meditar pensativamente sobre as palavras de Margaret - Podemos recorrer aos fatos consumados.
-O matrimônio poderia se celebrar em segredo - continuou a mulher levando uma mão ao lugar onde gerava seu filho. - Levaremos a noiva junto ao futuro esposo. Um sacerdote de sua confiança pode acompanhá-la e oficiar o matrimônio. Os mesmos embaixadores atuarão de testemunhas.
-Com os certificados creditados podem solicitar sua custódia na Torre com base em seu direito real, o Estatúder não terá mais remédio que ceder a sua vontade - finalizou Adrián.
-É uma manobra muito arriscada, senhora, se o Estatúder suspeitasse de nossas intenções poderia condicionar a decisão de todo o ducado em nosso contrário - assinalou Richard Empson.
-Esse homem arriscou sua pele por você em outro tempo, deve-lhe isto. A Inglaterra o deve - grunhiu Norfolk enquanto posava um escuro olhar no conselheiro.
-A Inglaterra não pode aventurar-se por um simples homem - negou intimidado.
-A Inglaterra não pode permitir-se perder um homem assim - precisou Wentworth. E voltando-se para o monarca disse - Salve-o, majestade, permita retornar a casa e seus esforços se verão devidamente recompensados.
Enrique levantou uma mão pedindo silêncio. Parecia esgotado, desejoso de desfazer-se de todos.
-Está bem, Wentworth. Ponha em marcha seu plano, mas negarei rotundamente qualquer vinculo com ele se os holandeses descobrirem algo. Meus embaixadores se manterão a margem de tudo isto.
- Majestade - aceitou disposto a aferrar-se a qualquer oportunidade que lhe brindasse para salvar seu amigo.
-E agora Braxton, me acompanhe. Devo visitar a tumba de minha esposa na abadia. Passou muito tempo desde a última vez que lhe dediquei uma oração. - O conselheiro se apressou a tomar sua mão enquanto o monarca ficava trabalhosamente em pé. - Iniciem suas pesquisas, Wentworth, e procurem que ninguém saiba delas.
Adrián acatou a ordem com uma seca sacudida de cabeça.
O monarca se deteve ante Margaret.
-E você, milady, cuide de sua saúde, esse menino deve chegar a este mundo são.
-Meu marido afirma que esta vez será menina.
Enrique arqueou uma de suas finas sobrancelhas.
-E no que apóia essa afirmação? - perguntou olhando de soslaio ao guerreiro, que franziu o cenho contrariado.
-Acredito em um Deus misericordioso, majestade, só isso - declarou com as bochechas ligeiramente avermelhadas.
Enrique riu entre dentes. Wentworth lhe tinha relatado em numerosas ocasiões as pequenas diabruras de seus filhos. Os meninos tinham tomado conta do coração do guerreiro, não havia dúvida, mas também sua paciência.
-Podem começar seu treinamento com sua pupila. Conforme sei a chamam Lady Não e já sabem o motivo.
Adrián piscou ligeiramente.
-O que quer dizer?
-Que é a ela a quem devem convencer de seu maluco plano antes de continuar adiante. Sorte, meu amigo, será uma tarefa titânica, conforme dizem as más línguas.
Adrián empalideceu ao perceber a verdade naquelas palavras. Ele, que tinha enfrentado centenas de inimigos, o terrível Dragão que todos temiam, encolheu-se ante a idéia de ter que enfrentar-se aos encantadores olhos de Lady Darkmoon e obrigá-la a se casar.
***
Algo estava acontecendo, algo decididamente importante, mas ainda não sabia se bom ou mau. Os duques tinham retornado já da corte e se trancaram misteriosamente na sala principal junto com lady Botwell, e ali continuavam discutindo. Como era impróprio de uma dama escutar atrás das portas, tinha encarregado a desonrosa tarefa a Nathaniel, o pajem, enquanto ela aguardava sentada na escada, deixando aparecer seu rosto entre os barrotes de madeira do piso superior.
Nathaniel não era um bom espião, descobriu. Quando o menino elevou o olhar até ela e encolheu os ombros ante a silenciosa pergunta de sua ama.
-Não se ouve nada, minha senhora - disse desejoso de abandonar a desonrosa tarefa.
Anne lhe fez furiosos gestos para que mantivesse a orelha grudada à porta e ele obedeceu à contra gosto.
-Falam de Amsterdã e de um navio que deverá partir o quanto antes.
-E que mais? - disse a moça.
-Algo sobre uma travessia perigosa...
-Nathaniel!
A formidável figura da Senhora Grint fez com que o menino se encolhesse contra a parede.
-Farei que lhe cortem as orelhas e as assarei para dar aos porcos. Afaste-se dessa porta - resmungou deixando cair um pano de prato nas costas do menino.
Anne se deixou ver no alto da escada enquanto tentava silenciar os bramidos da cozinheira.
-Deixe-o, Grint - ordenou com voz forte.
A formidável mulher a olhou perplexa.
-Senhora! - exclamou com incredulidade, dotando a sua voz de suficiente potência para fazer-se ouvir naquele novo mundo descoberto por volta de escassos anos. - Bendito Deus! É que ninguém nessa casa sabe o significado da palavra discrição?
A porta se abriu nesse instante dando passo à apocalíptica presença de Adrián Wentworth, o Dragão. Anne obteve um malévolo prazer ao ver o súbito terror no rosto da cozinheira.
-Mi... milorde - gaguejou flexionando uma perna para inclinar-se ante ele como se tratasse do rei da Inglaterra.
-Procure sua senhora, lhe diga que minha esposa e eu desejamos falar com ela - disse-lhe com sua habitual brutalidade.
A Senhora Grint piscou como uma vaca deslumbrada com os olhos cravados na esmerada folha de sua espada.
-É que está surda mulher? - insistiu Adrián com irritação.
Anne desfrutou imensamente do momento. Ver a tirana tremer como uma folha lhe provocou uma escandalosa diversão. Nathaniel, por sua parte estava preparado e fugiu como um trombadinha ante o oficial. Mas não podia continuar escondida enquanto Wentworth perdia a paciência com sua cozinheira, além disso, intrigava-lhe saber do que queriam falar com ela.
-Buscava-me, meu senhor? - inquiriu do alto da escada.
O olhar do Dragão passou para ela, suavizando-se perceptivelmente.
-Anne, está aí - disse ignorando a cozinheira que seguiu os passos do pajem. Desça - ordenou secamente, e sem esperar para ver se ela obedecia ou não, entrou de novo na sala.
Anne afogou um suspiro. Quem esperasse gentileza de Adrián Wentworth deveria escolher um assento bem cômodo para fazer mais suportável sua espera.
A jovem desceu alegremente com as grosas saias sobre os tornozelos.
Na sala, Margaret aguardava sentada junto ao fogo enquanto admirava sinceramente o trabalho com a agulha de sua pupila. O passar dos anos só tinha acrescentado mais beleza a sua atrativa aparência. A enérgica duquesa ainda conservava aquele brilho decidido em seus olhos azuis que tanto parecia fascinar a seu marido. Lady Botwell se encontrava seu lado com um gesto de preocupação no rosto que a fez parar no meio da sala enquanto Adrián fechava a porta a suas costas. Por que se sentia como um cristão entrando em um acampamento de sarracenos?
-O que está acontecendo?
-Sente-se, Anne - indicou Margaret assinalando um assento vazio a seu lado.
Anne acatou seu pedido com contrariedade. A solenidade daquele assunto começava a inquietá-la.
-No próximo mês será seu aniversário - comentou a duquesa com tom casual. - Dezenove anos são muitos anos.
-Conforme se olhe - respondeu com atitude.
-É para uma herdeira com propriedades a seu cargo que necessitam supervisão. Necessita um marido, Anne, e é inútil continuar atrasando o inevitável. Lorde Wentworth foi muito considerado ao te conceder todos estes anos, anos nos quais se supõe que deveria escolher um candidato. E bem, há algum homem ao que você gostaria de chamar marido? -interrogou Margaret, levando a pé da letra o plano elaborado: encurralar a jovem com um ataque em toda regra.
-Não sabia que minha decisão tinha um prazo final.
-Lady Botwell comentou a existência de um excelente candidato; Lorde Morgan.
-O que? - gritou a jovem ficando em pé de um salto. Um olhar acusador voou até o rosto da matrona.
-É um homem agradável e parece sincero em seus afetos - defendeu-se a dama encolhendo os ombros.
-Afetos diz? Sim, mas pelo vinho e a boa mesa. Um faisão bem assado pode lhe arrancar inclusive alguma lágrima.
-Parece-me um pretendente excelente, com posição na corte, atrativo e jovem. E se seu vigoroso aspecto é um indício de algo, acredito que lhe dará robustos filhos - insistiu Margaret.
Anne se negou a responder, com a boca franzida com desagrado.
-Bem, descartemos lorde Morgan. Sigamos o que acha de Lorde Hyde? Entendi que já esteve interessado em ti.
-Nada gosta mais que escutar-se a si mesmo, é pomposo e vaidoso - respondeu sem poder conter-se.
-E Keating? - apontou Lady Botwell.
-Eugen poderia lhes contar umas quantas coisas sobre ele, todas elas capazes de lhe condenar ao fogo eterno, como bem sabem, seus interesses estão em seu mesmo gênero - exclamou ofendida.
-Longfellow? Vi você tontear com ele em mais de uma ocasião - mediu Margaret.
-Suas mãos são tão largas como seu sobrenome e sempre empenhadas em meter-se sob as saias das empregadas, rotundamente não.
-O conde Melville?
-Esse velho presunçoso!
-Anne, está nos deixando em um difícil situação.
-Sinto muito, mas meu futuro depende de minhas exigências atuais.
-Overbury?
Anne apertou os lábios procurando um defeito atribuível.
-Overbury? - repetiu Margaret subitamente alerta.
-Muito espiritual para meu gosto - apontou triunfalmente deixando-se cair de novo na cadeira. - É um homem agradável, não nego, mas seu desejo é ser padre e dedicar sua existência a Deus, não queria condenar minha existência por afastá-lo do caminho.
Margaret e Adrián trocaram um olhar.
-Não há ninguém que possa te interessar, então? - interrogou Adrián substituindo sua esposa naquela corrida de perseguição e demolição.
Anne duvidou um segundo. Não, decididamente não havia ninguém. Apagou com determinação o único rosto capaz de agitar seu coração. Um rosto do passado que tinha jurado esquecer.
-Não - negou enfrentando o intimidante olhar do guerreiro. - E não é necessário que tenha. Minhas propriedades estão bem administradas graças a você, confio em suas decisões, sei que velam por meus interesses como se tratassem dos seus.
-A situação não pode alargar-se por mais tempo. Minha autoridade sobre suas propriedades cria receios no Concílio Real. O rei me advertiu sobre isso. Os grandes nobres temem que possa ficar muito ganancioso e me apropriar do que não é meu.
-Mas vocês nunca fariam algo assim - protestou Anne indignada.
-Sou seu tutor legal e protelei todo este tempo o tema de seu matrimônio. Ignorando minhas obrigações, suas suspeitas se verão confirmadas.
-Falem, pois! Se minha opinião não vai ser levada em conta, não vejo motivos para andar com rodeios - explorou finalmente zangada.
Adrián vacilou embora só sua esposa percebesse isso.
-Seu primo William solicitou em White Chamber o direito sobre suas terras - informou.
Anne sentiu um calafrio. Fazia muito tempo que não ouvia falar de seus familiares. Sua menção sempre lhe provocava um desassossego na base do estômago.
-E?
-No momento, o conselho revogou sua petição, mas não sei quanto tempo mais poderei mantê-lo a distância. Se tivesse um marido todas suas velhas reivindicações careceriam de validez.
-Quer dizer, necessito de um marido.
Margaret assentiu enquanto Lady Botwell sorria levemente ante sua irritação.
-Sim, e pensei em um possível candidato.
Adrián se apoiou contra a lareira de pedra deixando que o fogo esquentasse suas longas pernas, era na verdade uma imagem prodigiosa a que nenhuma mulher poderia resistir. Os olhos de sua esposa lhe lançaram um sinal de cautela ante o lamacento terreno no qual entravam.
Anne conteve o fôlego à espera de que o guerreiro fizesse seu anúncio.
-Hugh de Claire.
A jovem piscou perplexa, ficou de pé porque não podia continuar sentada fingindo indiferença.
-Não podem me pedir isso - sussurrou muito emocionada para reagir com maior ímpeto.
Não era uma moça baixa, e apenas ultrapassava o queixo do enorme guerreiro. Para rebater o desequilíbrio, elevou o queixo enquanto cravava seus olhos cinza no rosto sério do Dragão.
Adrián amaldiçoou interiormente. Por São Jorge! Preferia ser esquartejado a discutir com mulheres.
- Deixe que lhe explique meus motivos, Lady Darkmoon - resmungou com o olhar obscurecido.
O tratamento formal incomodou a jovem. O Dragão sempre se referiu a ela como Anne, ou menina, não estava acostumada a que a tratasse com a circunspeção que seu título de condessa lhe outorgava.
-Nada do que digam poderá me fazer mudar de opinião.
Agitou a cabeça regiamente e, lhe dando as costas, caminhou fazendo um vendaval.
- Expliquem-me por que consideram que esse mercador me convém como marido. É um burguês dado a empresas vulgares.
-É um homem rico - assinalou Lady Botwell.
-E eu também. Sou a condessa Darkmoon, a herdeira mais desejada do reino, recordam? Deve haver um candidato mais idôneo.
-Anne, vocês possuem boas terras, mas a peste e os cultivos baldios têm suposto um forte gasto para seus baús, necessitam liquidez para fazer frente a futuras necessidades, algo que de Claire pode lhe proporcionar soberanamente. A sua seria uma boa aliança, forte ao menos - ofereceu Wentworth.
-As alianças fortes só criam inimigos, você melhor que ninguém sabe isso - rebateu ela com o olhar perdido na pequena horta, desolada pela crueldade do inverno. Nas tardes de verão, Anne encontrava grande prazer descansando sob os ramos frutíferos. Tomara pudesse se sentir essa mesma paz agora!
-Não se trata do que ele pode lhe oferecer, mas sim do que você pode oferecer a ele - interveio Margaret, aproximando-se pelas costas para apoiar suas miúdas mãos em seus ombros - Em certa ocasião, ele lhe salvou a vida.
Não, não e não! Negava-se a seguir escutando.
-Isso foi há muito tempo, eu era uma menina.
-Mas lhe resgatou pondo sua vida em perigo. De Claire precisa agora desse favor retribuído - explicou com voz fraca - Sua vida corre perigo e só você pode salvá-lo.
-Não me interessa - negou, mas algo tinha picado sua curiosidade.
A jovem voltou o rosto sobre seu ombro para lançar um rápido olhar a seu preceptor. Margaret fixou sua atenção no delicado traço de seu rosto, com o tempo Anne Darkmoon se converteu em uma jovem formosa, reconheceu com orgulho.
-Em que confusão se meteu?
- Claire se encontra detido em Amsterdã, lhe acusam de um terrível crime. Alguém quis culpá-lo passando por cima de sua inocência. Será julgado pelo assassinato de uma mulher e será pendurado por isso se não fizermos algo.
-Já vejo que suas confusões de saias lhe puseram a corda no pescoço. - Enrugou os lábios ante suas próprias palavras. Havia algo em tudo aquilo... Algo que a incomodava profundamente. E no que pensam que pode lhe ajudar um proverbial matrimônio comigo?
-O rei tem protestado para julgar a seus nobres.
-Mas de Claire não possui nenhum título.
-Você pode proporcionar-lhe através do matrimônio.
Anne girou com brutalidade sobre si mesma.
-Assim, existe um plano! - acusou olhando com receio à mulher que adorava como uma mãe.
-Deverá viajar para Amsterdã em segredo. O Arcebispo de York lhes acompanharão em sua visita a prisão antes de dirigir-se a Roma - explicou precipitadamente ante o brilho interrogante de seus olhos. - Quando o rei tiver em seu poder as certificações oportunas de seu matrimônio, solicitará a custódia de Claire aqui, na Inglaterra.
-Pretendem que me case em uma masmorra imunda com um condenado a morte?
-Ninguém lhe imporá nada. Você irá decidir se quer salvar a de Claire ou não.
-Difícil dilema me deixa - grunhiu asperamente. De quanto tempo disponho para pensar?
-Um dia - anunciou Adrian - O navio estará preparado para partir nesse momento. O tempo corre contra.
Anne ignorou os três rostos que a observavam. Deu-lhes as costas para olhar uma vez mais pela janela. Por um defeito do cristal, a visão do exterior ficava parcialmente distorcida, como tinha estado seu coração anos antes, ao apaixonar-se por Hugh de Claire.
-Bem - disse e sem nada mais a acrescentar saiu da sala.
Capítulo 4
A lua cheia brilhava no alto do céu povoado de estrelas enquanto a geada noturna ia acomodando seu manto sobre a cidade e os ecos das atividades diurnas se apagavam lentamente. Só o ritmo do rio contra a embarcação rompia o silêncio noturno. Anne, sentada nas escadas de pedra, observava o reflexo lunar, absorta em seus pensamentos.
A conversa da tarde lhe rondava uma e outra vez a cabeça. Faria praticamente qualquer coisa pelo duque, algo menos casar-se com Hugh de Claire. O rosto do homem apareceu ante seus olhos como um velho fantasma do passado, quando ele apenas era um rapaz e ela pouco mais que uma menina. Tinha proclamado seu amor por ele à tenra idade de nove anos, quando foi salva das garras do infame Marlowe e sua amante Angeline, seu sequestro tinha sido ordenado por seu tio em uma vã tentativa de apoderar-se dela e, deste modo, de sua extensa herança. O Dragão e seus homens tinham ido a seu resgate e foi precisamente Hugh quem a liberou de Angeline quando esta ameaçava acabar com sua vida. O jovem se transformou em seu cavalheiro andante depois de sua heróica intervenção. Que ridícula deve ter lhe parecido!
-Faz muito frio para que passe aqui toda a noite - repreendeu a voz preocupada de Margaret.
Anne levantou o olhar até ela e esboçou a ameaça de um sorriso.
-Precisava pensar.
Margaret desceu os degraus com grande cuidado e se sentou aparatosamente em um deles.
-E chegou já a uma decisão?
Anne encolheu os ombros não querendo comprometer-se. Olhou tristemente o rio.
-Sempre sonhei com um matrimônio como o seu. Esperava que Deus me concedesse um marido que me amasse já que não me deu uma família. Ao menos, não uma que sentisse afeto por mim - explicou.
-Hugh é um bom homem e saberá como lhe cuidar.
-Mas nunca me amará como eu desejo.
-Não podemos afirmar isso - negou a duquesa.
-Sabe que estive apaixonada por ele, envergonha-me pensar em meu tolo comportamento daquele tempo.
-Era muito jovem, ele nem sequer se lembrará.
- Temo isso.
-Anne continua sentindo algo por de Claire? - inquiriu com o cenho franzido.
A jovem sacudiu a cabeça.
-Foi meu primeiro amor e minha primeira desilusão – suspirou - Só Isso.
A duquesa estendeu uma mão para seu ombro e o apertou levemente.
-Mas agora é uma mulher, é possível que...
-Não, e não me importa o que ele possa pensar de mim.
-Adrián não te obrigará a casar-se sabendo o quanto o detesta.
-E deixar que a culpa de sua morte recaia em minha consciência? Não, obrigado. Suponho que devo me casar com ele e tentar lhe salvar - reconheceu finalmente, sacudindo o musgo grudado em sua saia ao levantar-se.
Margaret se levantou, maravilhosamente arredondada em sua gravidez.
-Anne. - Deteve-a para abraçá-la consoladora - Minha pequena e vivaz Anne.
A jovem aceitou de bom grado aquela amostra de carinho, mas se manteve firme em suas pretensões quando se separou ligeiramente.
-Mas se fará a meu modo. O matrimônio não será valido, só durará o tempo necessário para deixá-lo a salvo - acrescentou com prontidão surpreendendo a duquesa.
-Mas...
A jovem a interrompeu elevando uma mão.
- Deixe-me acabar. Devo a vida a esse homem e lhe pagarei na mesma moeda, mas não me condenarei a ser infeliz, aspiro algo mais. Casarei-me com de Claire, mas meu matrimônio só será valido nominalmente. Chegado o momento, a igreja ou o rei poderá anular nossa união. É justo para ambos.
-Não podemos incluir essa cláusula no contrato matrimonial - protestou a mulher.
-Eu mesma o comunicarei, então.
-E se ele não estiver de acordo? O que alegará?
-Qualquer coisa que ocorrer - disse, e depois de uma pausa acrescentou-: E ele estará de acordo - asseverou segura de que de Claire não se recusaria a recuperar sua ansiada liberdade.
***
O calabouço era um lúgubre e úmido reduto onde uns vinte homens doentes e fedorentos se apinhavam sobre um chão de terra que as contínuas filtrações marinhas tinham convertido em um barro escuro. Uma janela gradeada era ele único foco de luz e ar fresco. Hugh se embrulhou no puído cobertor amaldiçoando uma vez mais sua sorte. Já estava a três longos meses naquele buraco e, se ninguém fizesse nada, aquelas quatro paredes seriam as últimas coisas que veria antes de acabar pendurado com uma corda no pescoço. Se possível, expressaria sua raiva de uma maneira mais efetiva, mas as forças lhe tinham esgotado há muito tempo. Praticamente os matavam de fome e sede para evitar motins. Faziam suas necessidades em um dos cantos mais afastados, mas o aroma do lugar era tão fétido que inclusive os ratos se recusavam visitá-lo. Tudo isso contribuía para lhe fazer sentir-se mais um animal que um ser humano. De noite, quando os corpos se apertavam uns contra os outros tentando infundir-se calor, ele permanecia com os olhos abertos, obcecado com o acontecimento da noite do crime, repassando um a um os detalhes. Acreditava adivinhar o motivo de seu atordoamento aquela noite; alguém o tinha drogado, o vinho naquela noite tinha um suspeito sabor amargo. Aquilo explicava o porquê de ter adormecido e por que não se despertou quando o assassino (ele se inclinava por esta primeira possibilidade) ou assassinos entraram no quarto. Mas quem estava por trás de tudo aquilo? Depois de dar voltas ao assunto, a única resposta que lhe ocorria era Van Dijk. Mas no momento do assassinato se encontrava no outro extremo da cidade em companhia dos embaixadores de Enrique. Como descobriu Van Dijk a traição de sua esposa? Certo era que a mulher tinha paquerado descaradamente com ele durante o jantar, mas até o último momento ele não tinha aceitado a proposição de compartilhar seu leito (mil vezes maldito por isso!), quando Van Dijk e seus convidados partiram. Administrar-lhe a droga no vinho foi um plano mais meticuloso que um simples arranque de ciúmes. Em qualquer caso, de nada lhe servia suas conclusões. Estava sob a jurisdição do Estatúder e só um milagre podia salvá-lo.
-É inútil que continue pensando nisso, inglês. Será julgado em menos de um mês. Não acredito que nesse tempo o Estatúder sofra um acesso de culpa.
Hugh girou a cabeça para Rufus Van der Saar. Aquele indivíduo tinha sido acusado de espionagem e pirataria, o pior crime em uma cidade de comerciantes, motivo pelo qual tinha sido condenado a morrer com a cabeça sobre a madeira, quer dizer decapitado pela tocha do verdugo, mas antes, seus outros crimes deviam ser igualmente castigados. Os juizes tinham decidido por uma pena que lhe usasse como exemplo; cortariam suas mãos depois de desconjuntar um a um todos os ossos de seu corpo. Para admiração de Hugh, a sentença não parecia ter mexido com o ácido humor do homem.
- Cuide de seus assuntos, Van der Saar - pronunciou lhe dando as costas.
-Hummm, sua pronúncia está melhorando. Lástima que não tenha tempo para ampliar seus conhecimentos - disse em referência a seu uso do holandês.
Hugh lhe respondeu com um grunhido que deixava bem claro sua intenção de finalizar a conversa.
-A mulher do Estatúder tinha fama de ser uma fêmea fogosa. Conte-me, amigo era tão especial na cama como dizem as más línguas?
Hugh o ignorou, apoiando a cabeça sobre seu braço dobrado a modo de travesseiro.
-Me deixe em paz - grunhiu.
-Vamos inglês, estou a um ano aqui preso. Nem sequer recordo o que é isso. Diga-me, como eram seus peitos? Grandes ou pequenos?
Hugh se propôs ignorá-lo.
-E seu traseiro era grande? Sim, teria que ser grande. Umas boas nádegas, e certeza que sabia truques de cama. Conforme dizem, o Estatúder se casou com ela por uma aliança de família, certamente não a satisfazia com a regularidade que ela necessitava, por isso o convidou a sua cama não é certo? Sim, Santa Maria! Tomara estivesse estado em seu lugar - resmungou com voz afogada.
Muito a seu pesar, Hugh esboçou um sorriso. Caía-lhe bem aquele enganador. Só ele podia nomear em uma mesma frase a virgem Maria e o vulgar emparelhamento entre um homem e uma mulher.
-Nesse caso, o afortunado teria sido eu. Seu pescoço teria ocupado meu lugar no cadafalso, uma morte mais doce do que a que a sua será, em qualquer caso.
-Razão demais para ser generoso com sua sorte. - Fez uma pausa antes de exibir um sorriso ladino. - Diga-me inglês, chupou-lhe?
Hugh deixou escapar um suspiro mal-humorado.
-Fecha o bico. Essa mulher está morta. Mostre ao menos algo de respeito por sua memória - aconselhou-lhe fechando os olhos, sabendo que o sonho não chegaria.
***
Anne levantou o rosto para o céu deixando que o ar do norte brincasse com seu cabelo. Tinha encontrado um inesperado prazer na navegação. Os horizontes abertos do oceano conseguiam comovê-la. A imensidão cinza e agitada a assustava ao mesmo tempo em que a atraía. "A terra é redonda", pensou maravilhada, ou ao menos assim o afirmavam. E ali, no meio do nada, a consciência de si mesma se misturava. Entre o selvagem fluxo, a raivosa sensação de liberdade era quase tangível.
Aquele era o sexto dia de travessia e quase lamentava seu final. Wentworth tinha posto ao seu dispor o navio de seu futuro marido junto com um sortido grupo de homens que deviam velar por sua segurança. A companhia feminina se reduzia a lady Botwell e três empregadas. Todas elas se queixavam do desconforto da viagem que as obrigava a permanecer nos escuros camarotes nas vísceras da caravela. O pequeno exército que as custodiavam estava comandado por Gantes O'Sullivan, cujo rosto risonho desmentia um caráter intransigente que Anne tinha sentido em sua própria carne desde que foi nomeado capitão de sua guarda. Nesses momentos, o homem permanecia a suas costas fortemente armado com o firme propósito de que nenhum dos marinheiros lhe dedicasse mais de um olhar.
-Deseja retornar ao camarote? - interrogou ansioso quando a jovem deixou escapar um suspiro. O muito tirano só lhe permitia subir ao convés nas últimas horas do dia e em intervalos de tempo muito curtos.
Anne voltou o olhar para o homem provido sob sua pesada armadura.
- Relaxe e desfrute Gantes - animou ela inspirando pelo nariz o salubre aroma marinho. - Encha seus pulmões com esta maravilha.
-Não respire assim, maldição, todos os homens lhes estão olhando - admoestou-o.
Anne deixou escapar uma risada, mas comprovou com um rápido olhar sobre o ombro que certamente estava sendo objeto de atenção de toda tripulação, incluído o capitão que, da cabine de comando, olhava-a arroubado com seu único olho são. Por pudor, fechou a capa de pele mantendo-a segura com uma mão.
-É um estorvo estar em um navio cheio de homens - grunhiu.
-Possivelmente se fosse menos formosa... - assinalou seu capitão adotando uma pose afetada.
-Vá! Obrigado, Gantes - disse divertida olhando o homem.
-Não me agradeça, senhora, não é um elogio. Sua beleza me trouxe mais problemas que outra coisa.
-Então, pareço-lhe formosa?
Os lábios do homem se levantaram em um sorriso malicioso.
-Oh, não! Não serei eu quem jogarei mais lenha a esse fogo, poderia inflar seu ego além do aconselhado.
-Irlandês mal educado. - Ela riu lhe dando de novo as costas para cravar o olhar no horizonte aberto - Olhe! O sol está se pondo!
-É hora de voltar para baixo - assinalou ignorando a beleza do momento.
-Teme que o salitre oxide sua armadura?
-Mas bem, que certa dama acabe pela amurada.
-Assim, é isso o que lhe preocupa? Se caísse pela amurada morreria afogada antes que você ou algum dos seus conseguissem desfazer-se dessas armaduras e lançarem-se em meu resgate - afirmou fazendo um gesto para os homens que a acompanhavam.
-Por isso mesmo, senhora, nos economize problemas e retorne lá para baixo - insistiu o capitão teimosamente.
A jovem lhe cravou um olhar altivo.
-O'Sullivan, é um verdadeiro aporrinho - queixou-se meio de brincadeira e meio a sério.
O irlandês riu baixo passando por cima do sarcasmo.
-Sim, suponho que sim - disse cedendo o passo com galanteio. Fez um gesto aos dois homens que lhe acompanhavam e todos juntos partiram pelo estreito convés.
Gantes sorriu com pesar observando as enrijecidas costas de sua senhora. Tinha chegado a sentir verdadeiro carinho por aquela donzela sonhadora. Não tinha mentido quando afirmou que ela era formosa, na realidade, nenhuma outra podia comparar-se a ela pensou com orgulhosa prepotência enquanto observava os escuros cabelos que o vento agitava. Não precisava levantar o olhar para saber que todos os homens olhavam para o mesmo lugar, embevecidos com seus encantos. Tinha sido testemunha de comportamentos similares centenas de vezes. A admiração que a jovem levantava a seu passo podia havê-la convertido em uma pequena mulher consentida, mas Lady Anne Philippa Darkmoon não o era absolutamente, era, mas bem, uma jovem cheia de sonhos românticos que, em ocasiões, deixava-se levar por seu caráter fantasioso. Qualquer homem podia apaixonar-se por seus olhos cinza, emoldurados por longas pestanas negras capazes de varrer as nuvens com um simples bater das asas. Não era miúda como as mulheres da corte, mas sim de estatura mediana, com ombros elegantes. Sua pele imaculada teria inspirado um poeta, face à ligeira chuva de sardas que adornava seu reto nariz. As ciumentas línguas da corte se empenhavam em vê-lo como seu maior defeito, mas qualquer homem encontraria naquela boca generosa um deleite infinito.
Gantes encheu o peito lançando um olhar para o grupo de marinheiros que, suspensos sobre os equipamentos de barco, observavam a moça como um bando de gaivotas.
-Voltem para trabalho, ociosos! - gritou apurando o passo atrás de sua senhora.
***
Hugh observou suas mãos imundas. Conforme o passar do tempo se aproximava a data assinalada para sua execução, o desespero rugia em seu interior. Encontrou um inesperado aliado na figura de Rufus, que se converteu em seu escudeiro frente a outros presos. Na prisão, como no mundo exterior, era necessário fazer boas alianças para quase tudo.
-Com um pouco de sorte, o mal dos ardentes acabará conosco antes do verdugo - grunhiu quando Rufus lhe estendeu um pão amanhecido queimado.
Hugh observou o pão com repulsa, mas levantou uma mão para lhe dar uma mordida. O ruído metálico do ferrolho o deteve na metade do caminho.
O elmo de um dos soldados apareceu pela abertura da porta.
-Hugh de Claire - gritou.
Rufus lhe dedicou um olhar curioso que ele ignorou para olhar o soldado.
-Hugh de Claire - repetiu o guardião mal-humorado, olhando com manifesto desagrado ao grupo de homens que se amontoavam sobre o piso como se tratasse de um monte de despojos.
-Aqui - assinalou lutando para ficar em pé. Cambaleou precariamente sobre suas pernas sujeitando-se contra a parede.
-Têm uma visita. Vamos, suba - ordenou.
Se lhe tivessem anunciado a chegada do fim do mundo não teria ficado mais surpreso. Desde sua prisão, só os embaixadores ingleses tinham mostrado interesse por sua situação.
-Hugh der Claire? - inquiriu o soldado suscetível.
-De Claire - corrigiu-o adiantando um passo para olhar com curiosidade as sombras do corredor.
Rufus o seguiu, mas o guarda o despediu com um empurrão antes de fechar a porta.
-É você Hugh de Claire? - pronunciou uma voz em francês.
-O mesmo, quem pergunta? - interrogou fechando os olhos deslumbrado com a luz amarelada das tochas. Um homem de alta estatura deu um passo para ele deixando ver seus hábitos.
-Sou Thomas Savage. - Apresentou-se e, ante a ignorância do homem, apontou um segundo dado - Arcebispo de York.
Hugh piscou e cravou no homem um olhar impressionado. O arcebispo Savage era um dos homens de confiança do rei e quem oficiou o desgraçado matrimônio entre os príncipes Artur e Catalina de Aragón.
-Veio para que eu possa confessar? - perguntou divertido e mal-humorado por aquela brincadeira do destino. Seria irônico que aquela fosse a ajuda divina pela que tanto tinha rogado.
O homem negou com solenidade e lhe fazendo retroceder e assinalou um pequeno banco de madeira.
-Pode me entender? - quis saber assinalando brevemente o soldado que estava a uns metros mais à frente.
-Fale em inglês - disse. O francês era a língua não oficial da diplomacia, era possível que algum dos soldados pudesse entendê-la.
Um gesto de alívio abriu passo no enxuto rosto do arcebispo, embelezado com um triste hábito jesuíta.
-Então, finja confessar-se enquanto lhe explico que me trouxe até aqui - disse fazendo um gesto para a bojuda figura feminina que se alinhava a suas costas.
A mulher, prudentemente coberta com uma grossa capa, mostrou, ao fim, seu rosto bochechudo e rosado. Observou-o com óbvio desagrado retirando-se para trás quando o denso aroma de seu corpo a alcançou. Pouco acostumado a rejeição feminina, Hugh arqueou uma sobrancelha e, convenientemente, tentou ignorá-la.
***
-E bem? - adiantou-se Rufus de volta à cela.
Hugh o olhou em silêncio. Desceu os degraus para o lugar que estava acostumado a ocupar e se deixou cair cansadamente no chão. Mais tarde, pegou o fardo de mantimentos que a mulher lhe tinha dado momentos antes de partir. Estendeu-o para Rufus que o vigiava atentamente.
-Reparta com o resto - disse ausente, abismado na cascata de pensamentos que se amontoavam em sua cabeça.
-O que queria esse padre? Dar-te a extrema unção? - perguntou o homem com a boca cheia minutos depois.
Hugh o olhou sem vê-lo, emocionado e com esperança ao mesmo tempo.
-Inglês, começa a me assustar - brincou Rufus, mas seu sorriso se evaporou quando se inclinou sobre ele - Maldição! O que queria esse homem de você?
-Diabos! Acho que vou me casar.
***
Anne notava a agitação de seu coração a cada golpe de remo. Frente a ela, o arcebispo Savage a observava com um matiz de preocupação em seu sério rosto.
-Encontra-se bem, condessa? - inquiriu com uma doçura que contrastava com sua fama de homem grosso e violento.
A jovem agitou a cabeça sem saber se afirmava ou negava. Era-lhe impossível pronunciar uma palavra, como se seu cérebro o considerasse um exercício muito complicado em seu atual estado.
Com mão trêmula cobriu a cabeça com o capuz olhando a sólida estrutura dos edifícios em cujas masmorras se encontrava seu futuro marido. Lady Botwell notou sua confusão, pegou sua mão e a apertou com insistente força.
-Coragem, minha senhora, coragem - recitava.
Que fácil era falar! Mas era ela quem devia casar-se na escuridão de uma masmorra, pensou acidamente. Além disso, a dama em questão, não tinha colaborado muito na hora de aplacar sua angústia. Tinha sido ela a que acompanhou o arcebispo em sua primeira visita a prisão e o único que pôde extrair de seu nervoso discurso a sua volta foi que de Claire mais parecia um saco de ossos sarnentos que o afamado conquistador do qual tanto se falava.
O'Sullivan aguardava no alto da embarcação exercendo uma discreta vigilância que tentava por todos os meios não chamar a atenção na ampla praça com tendas de comidas e edifícios com gabinetes escalonados. Tinha sido ele o encarregado de subornar o guarda com um substancial acordo. Acompanhou-os até a porta de entrada golpeando com sua manopla a prancha de madeira. O pequeno séquito entrou na fortaleza, um edifício com fachada de pedra que exercia funções tão diversas como masmorra ou centro de reunião dos mandatários locais. Cruzou em fila o pátio interior de lajes evitando olhar o cadafalso de madeira instalado no centro do lugar.
Penetraram nos túneis subterrâneos através de uma porta lateral cujas escadas desciam diretamente às masmorras. À cabeça, um soldado holandês iluminava a descida com uma tocha de sebo animal que deixava atrás de si um rastro de fumaça negra e nauseabunda.
-Esperem aqui - balbuciou em um grotesco francês assinalando uma estadia escavada na rocha.
Anne se moveu nervosa no estreito reduto. "Santa Maria de Deus" rezou, "faça com que tudo isto saia bem".
Hugh aguardava impaciente no alto da escada, atento a cada som proveniente do outro lado da sólida porta. Aquele era o dia de seu casamento! Rufus, a seu lado, escavava-se os dentes com uma unha imunda.
-Têm muita sorte, inglês. Uma doce donzela veio em seu resgate para lhe alegrar os últimos dias. Acha que lhes deixarão deflorá-la?
A pergunta poderia ter lhe incomodado em outras circunstâncias, mas a essas alturas, os ordinários comentários de seu companheiro passaram a um segundo término enquanto usava o ouvido para escutar os apagados sons do exterior. Tinha contado a Rufus parte da história reservando para si certos detalhes.
-Se não puderem com essa encomenda, eu posso ocupar seu posto e empurrar por você - prosseguiu.
Hugh lhe dedicou um olhar enfastiado.
-Se visse a noiva possivelmente pensaria melhor suas palavras - comentou recordando a terminante figura que tinha acompanhado o arcebispo em sua visita. Tinha suposto, sem que ninguém o dissesse, que aquela seria sua esposa. O tenor de sua áspera expressão deduziu que o Dragão tinha aplicado todos seus dotes de persuasão (quer dizer, o fio de sua espada) para conseguir que a dama aceitasse.
-Uma fêmea é uma fêmea, o que têm entre as pernas é igual em todas - descartou Rufus.
Hugh estalou a língua. Não pensava queixar-se de sua sorte se o plano saísse bem.
-Alguém vem - anunciou Rufus lhe fazendo esquecer sua meditação.
A fechadura chiou dolorosamente abrindo passo a um soldado.
-De Claire, esse padre e uns familiares estão aqui – chamou-lhe fazendo um gesto para que o seguisse. - Não cometa nenhuma tolice tentando escapar - aconselhou lhe mostrando a clava que estava pendurada em seu cinto.
Ele assentiu com gesto zombeteiro e o seguiu pelo escuro corredor.
O arcebispo esperava acompanhado de sua noiva. Adiantou-se ao lhe ver com o rosto crispado pela preocupação e as mãos entrelaçadas sob o hábito.
-Tenho que se lavar - aconselhou lhe estendendo um pano úmido.
Hugh recebeu com agrado o oferecimento. Esfregou o rosto e as mãos com o tecido notando imediatamente o esquivo aroma floral que simplesmente lhe pareceu celestial.
-Obrigado - disse.
O clérigo descartou o agradecimento com um gesto premente.
-Agradeça a sua futura esposa.
Hugh olhou à grossa mulher parada junto ao padre. Inclinou a cabeça galantemente, mas a dama franziu o cenho. Não era uma mulher formosa e nem sequer jovem, se bem que mais velha para seu gosto, volumosa e de baixa estatura, lábios grossos e bochechudas bochechas. Uma boa égua inglesa, como diria Rufus. Melhor não continuar pensando em seus defeitos, disse a si mesmo notando um nó de angústia na garganta.
-Milady - saudou.
- Tem bom aspecto! - balbuciou esta extraindo da manga de seu vestido um lenço que umedeceu com o toque de sua língua - Aproxime-se - ordenou.
Perplexo, Hugh obedeceu sentindo-se como um rapaz desgrenhado. A mulher ficou nas pontas dos pés e lhe esfregou com energia a cara. Seus volumosos peitos roçaram seu torso. Uma onda de pânico subiu por sua garganta. Retrocedeu torpemente, mas a dama o seguiu com o lenço em mão.
-Quieto! - arreganhou-o umedecendo de novo o lenço com sua saliva - Não irá querer se casar com um aspecto tão lamentável, verdade?
Não, a verdade é que não queria se casar, ao menos não com uma mulher que lhe recordava irremediavelmente sua mãe. Ironias do destino, aquele matrimônio o salvaria proverbialmente da forca para condená-lo igualmente a outro tipo de pena. De novo, os peitos da mulher empurraram seu corpo encurralando-o contra o muro de pedra. Imaginou ambos na intimidade do leito. Tragou saliva horrorizado pela sensação de "impotência" que aquela visão gerou enquanto aqueles poderosos peitos o investiam com enérgica insistência.
-Está bem assim, Lady Botwell - suspirou uma voz do canto mais afastado da estadia.
Hugh endireitou as costas subitamente alerta. Examinou a penumbra com o cenho franzido, enquanto se afastava dos cuidados de sua futura esposa. Havia algo naquela voz suave e rouca...
-O tempo passa, procedamos com a cerimônia - interveio o arcebispo abrindo seu livro de orações - Aproximem-se, meus filhos.
Lady Botwell se adiantou colocando-se a um flanco do clérigo. Uma risadinha nervosa escapou de seus lábios. Hugh sentiu uma súbita repulsão por eles, mas se obrigou a caminhar até ela e tomar sua mão como faria todo noivo.
Uma nova e desagradável risadinha brotou de seu largo peito.
-O que faz patife? -perguntou lhe apartando a mão. Golpeou-o na mão como se tivesse cometido uma travessura imperdoável. Pode que, finalmente, sua falta de higiene jogasse a seu favor, pensou Hugh aliviado, mas então a matrona voltou falar sumindo-o no caos. - É sua mão a que deve tomar.
Teria sido cômico observar a reação de De Claire se seus próprios nervos o tivessem permitido, mas Anne estava tão nervosa que só pôde piscar sem atrever-se a respirar. Gantes tomou a iniciativa ante a paralisia de sua senhora e, de um leve empurrão, enviou-a dando tombos aos braços do noivo.
Os braços do homem se fecharam em torno dela em um ato reflexo, sustentaram-na protetoramente contra um peito largo e duro lhe alagando as fossas nasais com um forte aroma corporal aderido a sua pele e roupas. Vestia farrapos que suspeitava era de cor parda e o fazia parecer um porco selvagem. Separou-se dele enfrentando pela primeira vez a seus olhos dourados. Conteve o fôlego sem perceber, sentindo uma ligeira contração no peito, à altura do coração, esperando que ele a reconhecesse, mas aqueles olhos, escurecidos pela penumbra, só a olharam com desconcertado.
Tinha que reconhecer, sob as capas de imundície que o cobriam, Hugh de Claire se converteu em um homem impressionante, nem rastro do jovem que ela se recordava. Um ligeiro estremecimento se deslocou por sua garganta enquanto observava seus traços simétricos e regulares, envelhecidos pela dourada barba que cobria suas bochechas enxutas.
-Bom dia, De Claire - saudou tentando parecer resolvida e olhando diretamente em seus olhos dourados à espera de algum gesto de reconhecimento.
Hugh franziu o cenho observando-a atentamente.
-Senhora, será que nos conhecemos?
Anne se permitiu um sorriso.
-Vamos, De Claire, não vai me dizer que não se lembra de mim?
Por Deus que não! Jamais esqueceria um rosto como aquele.
-Milady, não há tempo para bate-papos - apressou Gantes do corredor de entrada.
Anne assentiu notando em seu rosto o olhar fixo do homem.
-Continue, padre e resolva o mistério de minha identidade - indicou desfrutando do desconcerto provocado e disposta a prolongá-lo.
-Não me casarei sem saber antes seu nome.
Ela levantou uma sobrancelha para enfrentá-lo.
-Me olhe bem senhor, me olhe e diga de novo que não sabe meu nome.
Hugh grunhiu algo baixo. As narinas de seu nariz se moveram quando inspirou com energia. Havia algo naquele rosto... Um pouco decididamente familiar.
-Oh, Por Deus! Vai casar-se com a condessa Darkmoon, Lady Anne Darkmoon - explodiu Lady Botwell pondo fim ao mistério.
Os olhos do homem se abriram de surpresa, retornaram ao rosto feminino para estudá-lo com atenção.
-Anne?- repetiu ele - Mas... Mas você mudou - afirmou em tom acusatório.
O sorriso presumido da jovem teve um desagradável efeito em seu ânimo, fez-lhe sentir como um bêbado dado a levantar o cotovelo. Ao parecer, a donzela desfrutava com a vantagem ganha.
-Acho que é o que acontece com todas as crianças antes de converter-se em adultos e agora, se fechar à boca, possivelmente o arcebispo possa nos casar - assinalou com petulância.
Hugh demorou uns segundos para entender a mensagem. Apertou a mandíbula que inconscientemente tinha afrouxado, molesto com aquela menina que parecia tomar a dianteira a cada minuto.
De modo, que aquela era a solução que tinha encontrado Adrián! Uma onda de emoções correu por suas veias. Pegou a moça pelo braço e a arrastou para frente do clérigo, que iniciou a liturgia com voz monótona. Espiou-a pela extremidade do olho incapaz de tirar o olhar de cima. Sua cabeça seguia sem conjugar a idéia de que aquela mulher era na realidade Anne. A insofrível obcecada e insolente Anne.
Capítulo 5
Anne inspirou o ar no exterior. Cruzou a passo rápido o pátio interno com uma furiosa labareda no peito. Hugh de Claire! Patife! Vilão!
A suas costas, o resto da comitiva tentava seguir sua enérgica marcha, mas ela os ignorou para deter-se somente ante o portão de madeira que permitia o acesso à fortaleza. Esperou mal-humorada que Gantes desse as ordens pertinentes para sair do lugar com a mandíbula crispada por seu recente alvoroço com De Claire. O arcebispo tinha oficiado o casamento com rapidez e assim, com a pompa de uma masmorra em penumbras, converteu-se em Anne De Claire. Sem sinos que anunciassem a boa nova, sem convidados, nem banquete, e sem o mínimo gesto de cortesia de um marido ao que já começava a considerar insofrível e que com rematada estupidez só se dirigiu a ela para lhe dizer: "Já podem retornar a Londres".
E o tinha feito com aquele desagradável tom de autoridade que todos os homens adquirem junto à condição de marido.
-Não entra em meus planos retornar ainda, tinha pensado que... - estava contrariada.
Ele a tinha interrompido para arrastá-la para um dos cantos, longe dos ouvidos dos guardas. Cercou-a com seu corpo inclinando-se intimidadoramente enquanto lhe sussurrava furiosamente ao ouvido.
-Não me importa o que tenha pensado, ordeno-lhe que retorne - tinha-lhe dito sem a menor delicadeza.
Anne tinha sacudido o desejo de empurrá-lo para tirar-lhe de cima compondo um sorriso, enquanto o punha em seu lugar.
-Não confunda este matrimônio com os que já conhece senhor. Não admitirei ordens nem seus mandatos.
-Menina impertinente, sempre soube que me traria problemas - tinha grunhido ele.
Aquela lembrança de seu passado foi à gota que acabou com sua paciência. Tinha aceitado aquele matrimônio para saldar sua dívida com ele. Tinha-lhe salvado a vida casando-se com ele em uma masmorra de um país estrangeiro lhe oferecendo seu sobrenome. E o que recebia em troca?
-O problema quem ocasiona é você, conde Darkmoon - disse realçando seu recém adquirido título. - Não foi a mim quem encontraram com as meias nos tornozelos e um cadáver como companheiro de cama.
Um raivoso rubor se estendeu pelo rosto masculino, visível, inclusive, sob a tímida luz das tochas.
-Eu não matei essa mulher - resmungou com os dentes apertados.
-Acaso acha que teria aceitado me casar com você assim? – bufou - Agora me solte, faz-me mal - exigiu sacudindo a mão que ele mantinha presa em um punho de ferro.
Os olhos dourados tinham descido para ali. Entre seus dedos magros a pele pálida de Anne ressaltava como um raio de lua na escuridão da noite. Sempre tinha tido uma pele tão branca? Sempre tinha cheirado como um campo de flores depois da chuva primaveril? Se fosse assim, ele não recordava como tampouco recordava a perfeita combinação de seus traços. Hugh se surpreendeu admirando-os.
Anne tinha conseguido soltar-se com um puxão fingindo estar enojada com sua proximidade ao limpar-se furiosamente contra o vestido.
-Devemos ir - anunciou nesse momento Gantes.
Lady Botwell e o arcebispo Savage aguardavam já no corredor de terra simulando não ouvir nada daquela discussão.
-O rei deu ordens a seus embaixadores para que pressintam seus créditos como novo conde de Darkmoon ante o Estado Geral da província holandesa. Em duas semanas sua custódia passará às mãos inglesas. Poderá sobreviver até então?
-Teme se converter em viúva antes que esposa? - interrogou incapaz de deixar passar a oportunidade de chateá-la.
-Já sou sua esposa - recordou-lhe.
-De palavra, senhora, não de fato, embora isso tenha fácil solução - disse e um malicioso sorriso se estendeu por seu rosto barbudo deixando entrever uma fileira de dentes surpreendentemente brancos e sãos.
O coração da jovem deu uma pirueta no peito enquanto assimilava tal afirmação. Não teve o valor de lhe informar sobre os términos daquele matrimônio, simplesmente apertou os lábios e se disse que já encontraria um momento melhor.
-Dirija seus feitiços em outra direção, De Claire, em mim deixaram de surtir efeito.
-Senhora? - A voz impaciente de Gantes indicou a chegada dos soldados.
Anne tinha aberto passo com um empurrão lhe roçando o peito com o ombro.
-Vá tranqüila, minha senhora, sobreviverei embora só seja para desmentir essas palavras - havia dito elevando ligeiramente a voz. Depois, quando ela acreditava que a batalha estava ganha tinha se dirigido a Gantes - É seu capitão? - e ante o gesto afirmativo - Agora está sob minhas ordens, te ocupe de que ela embarque o quanto antes possível. Pode dispor de meu próprio navio. Assegure-se de pô-la a salvo.
-Gantes é meu homem, não pode lhe dar ordens - disse Anne rancorosa, interpondo-se entre ambos os homens.
-Menina, acabou de se casar, se for inteligente saberá a quem tem que obedecer. Entendeu? - interrogou dirigindo-se de novo a Gantes.
-Não me chame assim - balbuciou furiosa.
A chegada dos guardas pôs fim à discussão. Hugh tinha inclinado garbosamente a cabeça com aquele sorriso que tinha começado a detestar. Depois, simplesmente desapareceu pelo corredor como se em vez da uma masmorra se dirigisse a um baile real.
***
O bote que os aguardava no embarcadouro se balançou precariamente quando o abordaram. Anne ocupou o solitário assento dianteiro, com os lábios apertados e amassados em sua capa. Lady Botwell e o arcebispo ocuparam a parte traseira, intimidados ante o azedo humor da jovem. Gantes equilibrou o peso sentando-se frente a ela com a pesada armadura chiando e a espada sobre as pernas. Ao olhá-lo, uma suspeita expressão de inocência brilhou em seus olhos.
-Não se atreva a rir, traidor - advertiu-lhe.
-Não estou rindo - negou ele escondendo sua risada sob um suspeito ataque de tosse.
-Está sim - acusou-o irritada.
-Faz-me graça a situação, isso só.
-Mereceria que te atirasse ao canal, com armadura e tudo.
-Só foi sua primeira discussão marital, senhora. Acostume-se a não se sair sempre com a sua.
-Fala por experiência? Asseguro que sua esposa se queixa disso - resmungou ela.
-Seis anos de matrimônio me deram o conhecimento necessário para saber em que frentes apresentar batalha. - Riu fazendo um sinal ao remador que aguardava a ordem de partir.
Dizia-se que Amsterdã era uma cidade com olhos nas esquinas e ouvidos nas janelas. Nada era mais certo. A partida da comitiva inglesa teve um atento espectador. Quando a barcaça se afastou, o observador atravessou a praça deixando atrás a Niewe Kerk e se internou em Eggert straat cruzando uma de suas pontes de madeira até chegar ao acomodado bairro dos comerciantes germanos. A chuva da manhã tinha deixado revolta a água dos canais, mas apenas tinha influenciado a enchente de Amstel, que agora discorria docilmente através do labirinto de diques da cidade. Seus pensamentos retornaram ao grupo de ingleses. Suas indagações poderiam ter um valor, pensou.
Klemens Dwarswaard escutou atentamente a informação de seu confidente. Nas semanas precedentes, seus espiões lhe tinham informado da correspondência mantida entre Enrique e seus embaixadores. O monarca tinha ordenado a seus homens desvincular o prisioneiro inglês e tratar de aplacar a ira do Estatúder. Van Dijk, a velha raposa, saberia tirar vantagem daquele assunto, não era homem dado a perder oportunidades, não com a morte de sua esposa como vaza para espremer a bolsa dos ingleses. Para os membros da Liga era prioritário impedir o acordo entre ingleses e holandeses, proteger a hegemonia comercial de Hansa. Seus olhos recaíram no tabuleiro de xadrez com o qual estava acostumado há entreter suas horas. Como no jogo, devia estudar a estratégia a seguir, para isso requeria saber que peças eram fundamentais e quais descartáveis.
-Averigue quem é a mulher, não utilize intermediário, faça você mesmo, com discrição. Quero saber se Enrique tem algo a ver e o que é o que se propõe. Decidirei em consequência - ordenou a seu homem.
O homem assentiu e saiu silenciosamente da sala. O mercador permaneceu pensativo durante uns minutos. Acariciou o queixo coberto por uma barba. A morte de Margrietje Van Dijk não tinha resultado tão produtiva como a princípio tinha suposto, ela era um simples peão e não uma rainha, seu primeiro movimento tinha falhado, deveria esperar e aguardar a seguinte oportunidade.
***
Rufus o recebeu com a alegria de um cão amigo. Seguiu-o passando pelo resto dos presos e arrastando-o até um canto habitual para interrogá-lo.
-Posso lhe felicitar já por seu novo estado? Noto mudanças em seu rosto, esse olhar não estava aí antes e tampouco esse sorriso. Por São Nicolas! Conseguiu se colocar sob as saias da dama? Com todos os guardas olhando? Como foi? - adiantou-se para esquivar-se. - Sim, não há dúvida, cheira a fêmea, poderia distinguir esse aroma a cem milhas de distância.
Hugh deixou escapar uma risada fica enquanto o empurrava levemente.
-Afaste-se caipira.
-Mudou de opinião com respeito às gordas?
-Rufus?
-Sim? - respondeu ansioso.
-Vá à merda.
-Então, não vai me contar nada? - Sua expressão denotava tanta desilusão como a de um menino a quem negaram um doce.
Hugh se refugiou nos recentes acontecimentos. Aquele não seria um matrimônio como qualquer outro, tinha assegurado Anne Darkmoon. Certamente que não seria. Franziu o cenho ao recordar a descarada resposta a sua ordem de abandonar a cidade, não tinha sido uma ordem dada por capricho. A cidade estava cheia de intrigantes, não queria que ela se visse envolta de modo algum. Recordou o fulgor daqueles olhos cinza. Que incrível como nunca se fixou neles! Sempre estava ocupado tentando perder a de vista. Mas agora... Tivesse desejado possuir mais tempo para contemplá-la a gosto. Pensou no que faria quando voltasse a Londres, se os planos saíssem bem, permitiu-se recordar.
***
Amsterdã estava resultando ser uma cidade fascinante que apesar de sua molesta umidade, meditou Anne a sua volta de Kalver straat, e ela estava desfrutando imensamente de sua primeira viagem ao estrangeiro, um luxo para muitas mulheres de seu tempo. Sua estadia na cidade se prolongou por própria vontade e não tinha nada a ver com a imperativa ordem de Hugh de abandoná-la, ou sim? A cidade parecia haver-se recuperado sem problemas do devastador incêndio que no ano 1452 tinha reduzido três quartos de seus edifícios a cinzas. Lady Botwell, excitada ainda por sua assistência a que se chamou a capela do Milagre, tagarelava com uma das criadas sobre a veracidade de quão prodígios ali tinham acontecido, um milagroso feito pelo qual a sagrada hóstia tinha gravitado sobre o fogo do lar de um moribundo sem que o fogo pudesse consumi-la, convertendo a cidade da noite para o dia em um lugar de peregrinação de cristãos chegados de todas as partes do continente. Dois passos atrás, um mal-humorado Gantes as seguia pela estreita margem da rua de pedra e livre do barro que por normativa geral impregnava o resto da cidade.
-Eu gostaria de visitar os mercados do centro da cidade - anunciou esperançosa referindo-se ao corajoso marketing que tinha lugar frente à prefeitura - Tenho entendido que os judeus estabeleceram na cidade o comércio de pedras preciosas.
A armadura de Gantes chiou desagradavelmente a suas costas.
-Retornaremos para casa agora - grunhiu asperamente.
-Gantes, sua má bílis acabará por te envenenar. Deteve-se para olhá-lo com um zombeteiro sorriso no rosto angélico.
-Não será minha má bílis o que acabará comigo a não ser você - concordou ele - Deveríamos estar de volta a Londres há dias, como ordenou seu marido.
Ela se enrijeceu ante o aviso.
-O temporal nos impediu. O próprio capitão nos recomendou atrasar a partida - recordou-lhe.
-Isso foi há uma semana.
-Lady Botwell não se recuperou ainda de sua enfermidade - alegou em sua defesa reatando a marcha.
Gantes se permitiu um rápido olhar em direção da matrona. Sob seu severo rosto redondo brilhava sã como uma maçã.
-Pois eu juraria que sim. Por que me faz isto? Acabarei mendigando pelas ruas quando seu marido se inteirar de que não cumpri suas ordens.
-Suas ordens carecem de validez, não me submeterei aos seus caprichos e mais vale esclarecer-lhe desde o começo. É uma estupidez partir agora quando podemos fazê-lo todos juntos, logo que subtrai uma semana para que seja entregue à autoridade de Enrique.
-Joga com fogo ao lhe desafiar dessa maneira.
-Sei o que faço.
-Ele já não é um rapaz e você não é nenhuma menina - advertiu abrindo a caminho.
Beginjnhof era um distrito puramente feminino, quer dizer, em suas mais de quarenta casas de madeira, só se hospedavam mulheres solteiras ou viúvas. A mediação dos embaixadores tinha conseguido para eles uma pequena casinha de estilo germano nas imediações do bairro. Gantes tinha protestado furiosamente ao vê-la, a fachada estreita de tijolo e a carência de um pátio que a isolasse, não reuniam as condições necessárias para garantir sua segurança, era vulgar e faltavam as comodidades necessárias para uma condessa, segundo sua opinião. A escassez de espaço obrigava os homens de Gantes a estender seus corpos em frente ao fogo da cozinha junto ao resto dos empregados, enquanto ela e Lady Botwell compartilhavam o leito em um dos dois quartos do andar superior. Embora incômodo, o revestimento de madeira das paredes e as grandes chaminés do andar inferior faziam do lugar um refúgio quente em frente ao inoportuno inverno continental. A sua chegada ao diminuto vestíbulo, Anne entregou seu capuz a uma das criadas. Embora a tarde fosse jovem, já era noite fechada no exterior, o que obrigava os moradores da casa a usarem velas.
-Subirei por meu bordado - informou enquanto Lady Botwell se dirigia à cozinha em busca de algo quente com que esquentar a barriga.
O passeio tinha conseguido elevar seu humor. Cantarolou uma canção enquanto subia ao andar superior.
O quarto se achava às escuras, com as grossas cortinas de pano fechadas. Caminhou para a cabeceira. Estendeu uma mão para guiar-se e avançou um passo, mas se deteve subitamente com a arrepiante sensação de não encontrar-se a sós.
-Há alguém aí? - perguntou tentando apurar sua visão na escuridão.
Silêncio.
Deu um novo passo. Por trás, um imperceptível som, tão ligeiro que não estava segura de havê-lo escutado, arrepiou-a. Inspirou levemente tentando sufocar seu horror. Agora estava segura, havia outra pessoa no quarto. Todas as predições de Gantes caíram sobre sua cabeça: "qualquer assassino poderia entrar neste lugar, lhe violar e logo lhe cortar o pescoço sem que ninguém percebesse". Girou sobre si mesma só para se chocar contra a forma sólida de outro corpo. Abriu a boca disposta a dar a voz de alarme, com o coração tão acelerado que parecia querer sair do peito. O intruso atuou com rapidez. Imobilizou-a contra seu peito duro lhe tampando a boca com uma mão e privando-a subitamente de ar. Anne se debateu freneticamente tentando empurrá-lo, mas a força sólida do atacante era muito superior à sua. Pegou-a entre seus braços apertando seus membros com um punho brutal enquanto a força de sua mão sobre sua boca se incrementava. Aterrada, Anne lutou para escapar. Santo Jesus! Ia morrer assassinada! O intruso gemeu longamente saltando sobre um só pé quando a jovem descarregou a força de seu pé no seu. Anne investiu com toda sua força lhe fazendo perder o equilíbrio. O intruso caiu, mas em vez de liberá-la, arrastou-a com ele para o chão. A jovem abriu os olhos horrorizados ao cair sobre o homem. Um grito escapou de sua garganta, mas quando o intruso tentou pegá-la de novo entre seus braços, defendeu-se golpeando cegamente. Um novo grunhido escapou de seu atacante.
-Briga como uma peixeira de porto - vaiou finalmente enredando suas largas pernas entre as dela para deter seus chutes.
E não foram suas palavras a não ser o idioma usado o que conteve Anne.
-Quem é? -interrogou em inglês tentando lhe ver o rosto.
-Dói-me sua pergunta, acaso não reconhece seu marido?
- Claire?
-O mesmo.
-O que... O que está fazendo aqui?
-As notícias de suas vagabundagens chegaram a meus ouvidos, ainda quando acreditei ser bastante claro a respeito do que devia fazer.
-O temporal manteve os navios no porto. Era uma loucura partir - alegou com urgência, arrependendo-se imediatamente. Detestava sentir-se culpada de suas ações.
-Isso foi há uma semana.
-Lady Botwell se sentiu indisposta pela febre, não me atrevi a embarcar com ela nesse estado.
-Desculpas - zumbiu ele.
-Pode pensar o que quiser, não acho que preciso dar nenhuma explicação.
-Eu diria que sim - contradisse, deixando cair à cabeça sobre o chão para tentar ver seu rosto na penumbra do quarto.
A jovem se acomodou sobre ele, como uma gata sobre uma enorme almofada de músculos. Elevou-se sobre seu peito para lhe olhar, mas o único que pôde ver foi um irregular grupo de sombras.
Santa mãe de Deus! Seu rosto estava tão perto que Hugh pôde notar seu fôlego quente sobre os lábios. Um repentino ardor se apoderou dele. Recordou sem pensar a forma exata daquela suculenta boca.
-Talvez não tenha entendido bem quando disse que este não seria um matrimônio comum.
-Talvez. Por favor, se fizer suas explicações algo mais razoável agradeço.
- Está fazendo hora comigo?
-Absolutamente, não.
-Já está outra vez! - exclamou recordando aborrecida, quase tinha esquecido que permanecia ali deitada sobre ele, com seu enorme corpo como colchão. Tentou levantar-se apoiando os joelhos sobre suas coxas. O movimento arrancou de Hugh um grunhido de dor.
-Vá com cuidado, senhora, isso no que se apóia guarda minha descendência.
-O que? Oh, céus! –Tentou mudar sua posição, mas só conseguiu que sua perna entrasse em um contato mais direto com a parte aludida. Um sufocante rubor se estendeu por todo seu rosto. Com a pressa a pesada saia de veludo lhe enredou nos pés e, quase quando tinha conseguido, caiu de novo sobre Hugh, só que esta vez foi muito pior, compreendeu quando sentiu o ar frio sobre a pele nua de suas panturrilhas. Forçou-se para trás tentando pôr ordem entre suas roupas, mas o enérgico esfregar só conseguiu com que o homem que jazia debaixo vaiasse.
-Basta mulher! Quer acabar com minha dignidade? - protestou segurando seus quadris com firmeza.
Anne o montou escarranchada em uma posição tão indigna como obscena. O punho de sua adaga? Sim, devia ser sua adaga, contra a pele morna de sua coxa. Doce Jesus! É que não tinham fim seus infortúnios? E como se Deus tivesse decidido responder a sua pergunta, a porta do quarto se abriu bruscamente dando passo a Gantes e ao resto de seus homens com espadas em mãos.
-Que diabos...? - Gantes derrapou sobre o tapete de linho como se a terra tivesse se aberto a seus pés. Uma empregada iluminou a cena com uma vela aumentando sua vergonha.
Hugh colocou uma mão sob sua saia para apertar sua coxa pondo fim aos desesperados movimentos da jovem.
-Saudações a todos. Minha esposa e eu estávamos nos pondo em dia - informou com galhardia à aturdida concorrência.
O quarto inteiro emudeceu enquanto observavam emocionados o casal.
Os olhos cinza descenderam até ele. Era formosa, muito mais do que recordava. Entretanto, a delicadeza de seus traços ficava atenuada pela teimosa expressão de seu rosto.
A jovem conseguiu ficar em pé com a ajuda de seu capitão, lhe dando de presente uma inesperada visão do que guardava sob as volumosas saias de seu vestido. Hugh franziu o cenho, molesto ante a sensação que essa visão deixou atrás de si. Ficou em pé com agilidade.
-O que faz aqui se pode saber? Supõe-se que seria liberado em uma semana.
-Um pequeno contratempo, minha deliciosa esposa, recebi inquietantes notícias dentro da prisão me informando de que se encontrava em risco, intuí que tinham ignorado minhas ordens de abandonar a cidade e estava metida em algum tipo de problema que certamente ignoram.
-Que estupidez! - disse.
-Isso mesmo que fiquei sabendo - comentou.
-Estou bem, como pode comprovar. Escapou por isso? - interrogou Anne colocando as mãos na cintura em uma atitude rabugenta.
Os empregados e os soldados ainda no quarto prestavam atenção à discussão.
-Por sua causa, sim - respondeu Hugh irado.
-Por mim causa? Jesus Bendito! Casaram-me com um bêbado!
O grupo de atentos ouvintes conteve o fôlego e fixou a atenção no homem que agora deviam chamar senhor.
-Escute menina...
-Não me chamem assim! - estalou dando um passo à frente. - É você o causador de todas as ofensas, não tente colocar sobre minhas costas sua estupidez. Diversas complicações impediram que pudesse partir para Londres, só isso.
Gantes esclareceu garganta e Anne o fulminou com o olhar. - Agora, estragou tudo. O Estatúder ficará furioso quando... Oh meu Deus! Devemos partir quanto antes. Agora é um fugitivo - disse ao perceber repentinamente o perigo no qual se encontravam.
-Em fim algo inteligente! - disse lhe dando as costas. - Você faça a bagagem de sua ama - disse assinalando a uma das empregadas, que estava tremendo. - E quanto a ti, acertarei contas mais adiante - afirmou dirigindo-se a Gantes, que acatou suas palavras com uma sacudida de cabeça falsamente aflita. Secretamente desfrutava com tudo aquilo, intuiu Anne.
-Devemos embarcar o quanto antes possível.
-O lugar estará devidamente vigiado e se o Estatúder já foi informado de sua fuga... - comentou Gantes.
-Ainda dispomos de um pouco de tempo. Confio em que os guardas não descubram minha fuga até dentro de um par de horas.
-Não é boa idéia - interveio Anne deixando cair um cáustico olhar sobre ambos.
-Têm uma melhor? - grunhiu contrariado pela interrupção da jovem.
Ela soprou enfrentando-se sem temor o escuro olhar do homem que era agora seu marido.
Ele estava com o mesmo aspecto desarrumado com que o viu na última vez. Sob a luz das velas os ângulos de seu rosto se viam mais afiados e a dourada barba mais escura. E a influência de sua atitude era evidente para qualquer mulher, como testemunhavam os tímidos olhares de suas empregadas. Mas ela já tinha sido imunizada contra essa enfermidade, pensou repassando sem dissimulada atitude sua longa figura. Era alto, inclusive mais que o Dragão, com uma figura galharda e esbelta de largos ombros e estreitos quadris remarcados pela planície de seu estômago duro. Seus músculos eram de elástica aparência como bem evidenciavam as imundas meias que rodeavam suas coxas. Anne acabou a inspeção em seus pés, grandes e bem separados sobre o chão de madeira. Suas botas que antes tinham conhecido tempos melhores mostravam um grande buraco por onde aparecia descaradamente seu dedo gordo.
-Minha senhora, terá tempo de me valorar adequadamente em outro momento - assinalou surpreendendo seu olhar.
Anne retrocedeu ligeiramente com as bochechas ruborizadas. Idiota! Exclamou para si mesma.
-Se não se importar, meu pescoço está em perigo, agradeceria que se apressasse - continuou ele.
-E não pode retornar e esperar ser liberado pelos embaixadores? - opinou dissimulando a vergonha sob um ar inquisitivo.
-Temo que o Estatúder não tomaria muito bem, escapei de seus guardas, irá querer me castigar como todos àqueles que ousam escapar. Agora, vamos depressa.
Anne soprou pelo nariz. Insolente burguês!
-Saia de meu quarto, então. Nada posso fazer a não ser tropeçar com todos se estiverem no meio.
Hugh arqueou uma sobrancelha ante o irado caráter da dama. Não recordava que fosse tão fogosa, nem tão veemente claro que tampouco recordava que ela fosse tão formosa. Na realidade, a única lembrança que tinha dela era o de uma menina cheia de sardas empenhada em intrometer-se em sua vida. Posteriormente, os ocasionais encontros em Norfolk lhe tinham permitido ficar sabendo de sua vida. Ele estava tão embebido em suas preocupações que apenas tinha prestado atenção aos lânguidos olhares da menina. Depois daquilo, não havia tornado, a vê-la.
Não, aquilo não era verdade, quisesse ou não, as notícias sobre ela pareciam lhe perseguir aonde ia. Por volta de alguns anos, a capital inteira comentava a graça, loquacidade ou formosura da protegida do Dragão, também se comentava seu passeio pela casa da rainha como donzela de companhia da princesa Maria e do número de pretendentes que aspiravam conquistar seu coração. As contínuas negativas da condessa a contrair matrimônio e os desplantes aos seus pretendentes entretinham a língua da plebe.
-Bom, senhor, vai ficar aí como um mentecapto? - disse ela estalando os dedos sob seu nariz - Vamos! Mova-se!
Hugh saiu de seus pensamentos bruscamente. Apertou a mandíbula que suas divagações tinham afrouxado. Fixou sua atenção no rosto da mulher, em seus lábios frescos, deslizando o olhar pelo perfil de seu lábio inferior, um arco de cupido perfeito, apetecível.
-A fome afetou seu cérebro, não há dúvida! - grunhiu ela ignorando-o para voltar-se para as três empregadas que aguardavam junto à porta, pasmadas ante aquele formoso intruso. - Retornamos a Inglaterra, me ajudem com meus baús. Vamos, movam-se! - Urgiu-as passando a seu lado como se não fosse mais que um móvel. – E quanto ao senhor, meu olfato lhe agradeceria se tomasse um banho o quanto antes possível. O Estatúder poderia seguir seu rastro sem problema algum se guiando por seu nariz.
Hugh se recuperou com um piscar ante esse azedado tom. Inspirou pelo nariz e se conteve para não dar uma resposta adequada àquela ofensiva acusação.
Capítulo 6
Hugh foi muito cuidadoso com os preparativos de sua partida. Uma das empregadas vestida com as roupas de sua ama partiu a pé seguida de Gantes e uns quantos homens. Se alguém estava vigiando o lugar pensaria que a senhora tinha saído para dar um passeio noturno seguida de seu guarda, algo estranho, mas não impossível. Enquanto, Anne e Lady Botwell embarcaram em um pequeno bote em um dos canais posteriores a casa. Os pertences de Anne teriam que esperar uma segunda viagem custodiada pelo resto dos homens. Com golpe de remo, Hugh se internou pelo labirinto dos canais em direção ao porto. Algo cheirava mal naquela cidade, seu infalível instinto lhe exortava a sair dali o antes possível. Na proa, Anne sustentava no alto uma tocha e ia lhe indicando autoritariamente as manobras a realizar. Ele fechou os olhos concentrando-se, tentando usar as escassas forças de seus membros extenuados depois dos meses de prisão. Seus pensamentos voltaram para a prisão. Tinha sido fácil escapar do lugar, excessivamente fácil. Um ferrolho aberto, um guarda dormindo, e a escura tranquilidade da noite. Como se alguém tivesse preparado tudo. Hugh tinha suspeitado, mas as inquietantes notícias que tinha recebido do exterior lhe tinham obrigado a deixar de lado as precauções e comprovar com seus próprios olhos que a mulher com a qual havia se casado tinha ousado lhe desafiar tão descaradamente, pondo a ambos em perigo.
-À direita, rápido - urgiu Anne em um sussurro.
Ele reagiu tarde, irremediavelmente o bote se chocou contra o muro do canal batendo de lado. O golpe sacudiu a pequena embarcação. Lady Botwell ricocheteou sobre suas nádegas e Hugh recebeu o golpe do remo solto no queixo. Uma palavra de maldição surgiu de sua garganta.
-É sempre tão tolo? - inquiriu Anne desde seu lugar.
Hugh sentiu crescer em seu peito uma desconhecida repreensão. Refreou o impulso de jogar aquela pequena víbora pela amurada com o extremo de seu remo. Ela desafiou seu furioso olhar com um suspiro forte e lhe dando as costas, empurrou a embarcação apoiando uma mão contra o canal.
Lady Botwell procurou seu olhar, com um gesto de ombros tentou suavizar a situação.
Hugh mordeu a língua para não responder com uma grosseria. São Alberto! Aquela mulher lhe desesperava! Grunhiu para si mesmo observando o reflexo da tocha em seu cabelo negro. Assombrosamente, aquela visão conseguiu acalmar sua irritação. Ela voltou a colocar o capuz francês que o desafortunado golpe tinha feito escorregar sobre os ombros ocultando sua cabeleira de novo. Hugh afastou o olhar irritado. Todos seus gestos pareciam querer lhe importunar, disse para si mesmo irrefletidamente.
Alcançaram um dos canais principais e Hugh deixou que a suave corrente os arrastasse para o mar. Em uns minutos se encontrariam no porto e o perigo de ser descobertos aumentaria. Com os sentidos aguçados, estudou as sombras. Os cinco navios ancorados se alinhavam em frente ao dique principal. O ranger das cordas se elevava na escuridão da noite como o gemido de bestas infernais. Parou o bote em frente a uma das escadarias, desceu de um salto e prendeu o bote com uma das cordas.
-Apague a tocha e fique em silêncio - ordenou subindo pela escada.
Anne obedeceu afundando o extremo da tocha na água. As chamas se extinguiram fazendo com que as sombras os rodeassem. Lady Botwell procurou sua companheira. Anne segurou sua mão animando-a com um suave apertão.
-Ave Maria, tenha piedade de nós! - implorou a mulher observando com receio a escuridão.
Hugh se moveu em silêncio sobre a plataforma de madeira, escondeu-se entre as cordas desprezadas e esperou atentamente. Cinco minutos depois uma luz intermitente se fez ver do outro extremo, em um dos últimos navios. Bom Rufus! Pensou, ambos tinham acordado separarem-se ao escapar, ele iria em busca de sua esposa e Rufus tentaria encontrar seu navio no porto pondo sobre aviso à tripulação para a partida.
Caminhou de volta ao bote e com um gesto indicou a seus dois ocupantes que o seguissem. Cruzaram em silêncio a prancha de madeira atento a qualquer movimento. Em um dado momento, Hugh parou espiando com os olhos quase fechados as redes abandonadas dos pescadores. Havia alguém ali! Anne deu um pequeno salto assustada quando uma escura sombra parou ante eles. Sem precaver-se, aferrou-se a ele tomando pegando sua mão instintivamente. O corpo do homem se esticou enquanto a adrenalina disparava o ritmo de seu coração. Encontrava-se em uma posição vulnerável, desarmados e sem uma via de escape definida. Se fosse descoberto, o Estatúder não deixaria por menos e acabaria com sua vida nesse momento e Anne ficaria a sua mercê. Instintivamente, aproximou a mulher de seu corpo. Não era justo que ela pagasse por seus enganos, disse a si mesmo, não depois de sua generosidade para com ele. A sombra se moveu de novo deixando-se ver. Lady Botwell as suas costas emitiu uma espécie de gemido enquanto se segurava em sua protegida.
-Bom Jesus, nos salve!- choramingou.
A sombra lhe respondeu com um doído uivo. Hugh deu um passo adiante arrastando para trás de si as duas mulheres. Inclinou-se ligeiramente e começou a rir entre dentes.
-Vamos minhas arrojadas senhoras, duvido que nosso espião dê voz de alarme - disse.
Anne seguiu seu olhar e se viu observada pelos atentos olhos de um cão, um cão guia de rua que revolvia os restos de peixe descartado esse dia.
Deixou escapar um suspiro de alívio sentindo as pernas trêmulas.
-Vamos depressa - assinalou Hugh, e sem soltar a mão da jovem se dirigiu a passo rápido para a passarela, uma simples prancha de madeira sujeita com cordas.
Vários rostos apareceram pela amurada fazendo gestos para que subissem ao tablado que teriam que içar.
-Você primeiro, Lady Botwell - convidou. A mulher olhou com desconfiança as pranchas, posou a ponta de seu pé em seu extremo como querendo verificar que as cordas aguentariam seu peso. Adiante - incentivou-a Hugh com urgência, seguindo atento o seu movimento.
Anne se surpreendeu com a preocupação que ele demonstrou com sua dama de companhia, embora, conforme recordava, a cortesia era um dos traços mais destacados de Hugh, uma gentileza da qual ela apenas tinha sido beneficiária. Olhou de esguelha seu perfil recortado pela escuridão. Sentia o calor de seu punho lhe rodear a mão e subir por seu antebraço. Não a sujeitava com galanteria e sim com autoridade, mesmo assim, sua proximidade lhe provocava uma suave batida de asas no estômago. Ele girou a cabeça nesse momento topando-se com seu olhar. Um ligeiro sorriso lhe estirou os lábios fazendo com que seu coração pulsasse mais rápido.
-Se estiver com medo posso lhe ajudar - ofereceu quando Lady Botwell chegou a salvo no convés.
Teve que fazer um esforço para tirar os olhos daquele rosto. Era fácil gostar dele, de seu severo atrativo, do pecaminoso brilho de seus olhos dourados. Mas não, ela não seria uma de suas conquistas, disse a si mesma, tentaria manter-se a distância e sufocar qualquer romantismo que pudesse surgir em seus pensamentos.
-Não, obrigada. Suas habilidades estão ainda por demonstrar - respondeu altiva aludindo a sua estupidez com os remos momentos antes. Soltou-se de sua mão e iniciou a subida com cautela, finalmente, quando se sentiu bastante segura, girou a cabeça para olhá-lo com altivez. Queria lhe deixar claro que ela podia valer-se por si mesma, que não o necessitava para... Sem saber como, seu pé se enredou em um cabo solto, a prega de sua saia fez o resto, bracejou em um inútil esforço por conservar o equilíbrio, mas a passarela serpenteou sob seus pés. Um grito abafado escapou de sua garganta um segundo antes de cair a água. A escuridão a apanhou engolindo-a nas gélidas profundidades da doca. Suas pesadas roupas atuaram como âncora, arrastando-a. Sacudiu as pernas vigorosamente tentando alcançar a superfície. Conseguiu finalmente, cuspindo água, ofegante e emocionada. Vários homens se encontravam já na água tentando ajudá-la, mas foram os braços de Hugh os que a alcançaram e a levantaram consoladoramente contra seu peito. Sujeitou-se a seu pescoço notando o lacerante frio das águas.
-Calma, calma, está a salvo - sussurrou-lhe com suavidade, lhe fazendo cócegas no ouvido com seu fôlego, antes de lançar uma série de ordens aos homens amontoados pronto para ajudá-los. Uma chuva de cabos caiu sobre eles segundos mais tarde. Hugh alcançou o mais próximo e colocando-lhe na cintura a incentivou a sujeitar-se a ele.
Eles foram içados para o convés como um fardo. Atentas mãos a ajudaram a ficar em pé enquanto Hugh desatava as cordas. A comoção tinha sido tal que nenhum dos pressente se atreveu a articular palavra. Lady Botwell foi em sua ajuda.
-Minha menina, minha pobre menina - choramingava lhe esfregando os braços para fazê-la sentir-se aquecida.
Anne sacudiu as saias tentando separar o veludo molhado e arruinado de suas pernas. Tremia incontroladamente enquanto a água escorria por seu rosto. Levantou o olhar em busca de seu salvador. Ele a observava com uma dissimulada diversão e o cabelo grudado. Anne franziu o cenho lhe desafiando a dizer algo. Teria sido convincente se os dentes não batessem. Nesse instante sentiu um escorregadio corpo em suas costas. Abriu a boca sentindo uma repugnante viscosidade mover-se entre o tecido de sua camisa interior e sua pele, então aquela coisa começou a agitar-se a fazendo gritar enquanto se retorcia como se o mesmo diabo estivesse nela.
- Tirem isso, tirem isso. - Suplicou batendo em suas costas.
Os marinheiros a observaram sem se moverem. Só Lady Botwell foi auxiliá-la ajudando-a com os cordões de sua roupa.
-O que? O que aconteceu? -perguntava tão aterrada como sua protegida.
A seu redor, os homens abriram caminho. Anne gesticulou desesperadamente. Finalmente, parou sentindo como aquela asquerosa coisa escorregava sob suas anáguas e caía úmida a seus pés. Os olhos dos homens desceram até esse lugar para observar assombrados o causador de semelhante comportamento. O diminuto peixe prateado enquanto suas brânquias lutavam para conseguir mais oxigênio, agitou-se desesperadamente sobre as pranchas antes de abandonar-se à morte. Um pesado silêncio se apoderou da noite. Anne observou surpreendida o peixe. Retirou de seu rosto o cabelo molhado sentindo um furioso rubor nas bochechas. Talvez, somente se talvez pudesse chegar a seu camarote com um pouco de dignidade, disse a si mesma. Mas Hugh não estava disposto deixá-la ir tão fácil. Um tremor lhe sacudiu o corpo e antes que ela pudesse dizer ou fazer algo, uma estrondosa gargalhada ressoou atrás dela. Anne o olhou consciente de sua escassa dignidade.
Franziu a boca furiosa com aquele homem impossível enquanto outra gargalhada rompia o silêncio. Girou sobre si mesma e com passo medido, encaminhou-se para os camarotes. Seus pés chapinharam em suas sapatilhas de couro produzindo um desagradável som. Uma nova gargalhada acompanhou sua partida enquanto os homens se colocavam de lado tentando conter com muita dificuldade o sorriso que pugnava em seus lábios.
-Bom trabalho, milady, lhes proporcionou um suculento jantar - disse Hugh entre gargalhada e gargalhada.
Anne endireitou suas costas, mas se negou a lhe seguir o jogo. Elevou o queixo e continuou caminho com a graça de uma princesa real.
Uma partida muito digna decidiu Hugh enquanto secava as lágrimas com o torso da mão. Digna e divertida! Riu de novo seguindo o úmido rastro da jovem. As grossas roupas de inverno escondiam sua esbelta figura, mas quando foram içados para o convés ele pôde inspecionar a gosto a pronunciada curva de seu traseiro aproveitando que ela estava muito emocionada para dar-se conta de suas manobras. Aquele pensamento o alegrou. Por fim, uma ligeira vantagem sobre a donzela.
-Ah, inglês! Que fêmea! Generosos peitos e bom traseiro - assinalou uma voz atrás de si.
Hugh franziu o cenho irritado, quase tinha se esquecido de Rufus. Girou a cabeça sobre o ombro disposto a pôr o rufião em seu lugar, mas para sua surpresa os olhos do homem não seguiam sua esposa e sim a volumosa figura de Lady Botwell. Rufus levantou o olhar até ele esgrimindo um sorriso em seu rosto afiado.
-Acha que tenho alguma oportunidade com ela? - inquiriu aparando o bigode espaçado.
-Está doente - afirmou concluindo a conversa.
***
O Estatúder escutava atentamente a monótona voz de seu contador. O inventário de seus pertences se incrementou grandemente depois de seus negócios com Castilha. Converteu-se em um homem rico, quase tanto como o próprio duque de Borgonha. Uma satisfatória sensação se apoderou dele. Sua bolsa ainda teria que crescer mais com o pagamento dos ingleses. Tinham-lhe prometido uma grande fortuna pela morte de Margrietje, uma indenização para "suprir a dor da perda", conforme tinham informado os embaixadores ingleses, mas também para lhe acalmar. O assassinato de sua esposa suporia um inesperado benéfico para seu bolso. Os ingleses sabiam que sua palavra era lei, sem seu apoio, qualquer acordo mercantil com Benelux naufragaria. Convinha-lhes lhe manter contente.
-Continue Levi - disse quando o contador percebeu sua abstração.
Não havia música mais deliciosa que esse baile de cifras. O homem acatou a ordem com uma sacudida de cabeça e continuou recitando suas notas. Sua voz relaxou Van Dijk. Sim, e ainda podia incrementar mais seus benefícios se aparentasse o suficientemente doído. Claire não tinha sido o primeiro amante de sua esposa, ele sempre soube das conquistas dela. Tinha antecipado, pelos olhares famintos dessa noite, que Margrietje tinha posto seus olhos no mercador enquanto ele fazia vista gorda analisando como poderia isto beneficiar seus interesses. Uns golpes na porta o afastaram desses pensamentos.
-Estatúder Van Dijk! -bramou a voz de seu guarda do outro lado da porta.
Van Dijk franziu o cenho. Seus homens tinham ordens estritas de não lhe incomodar quando estivesse nos armazéns.
-Entre - ordenou a contra gosto.
Seu capitão entrou na sala, cruzou com passo militar o corredor até parar em frente a mesa de seu escritório.
-O prisioneiro inglês fugiu da prisão, senhor, ele e esse inseto do Van Der Saar - anunciou quadrando-se com rigidez.
As povoadas sobrancelhas do Estatúder se encontraram sobre seu nariz.
-Como?
-Alguém subornou os soldados encarregados de sua custódia. Dei ordem de um castigo exemplar para ele, mas temo que os prisioneiros tenham podido alcançar mar aberto com a maré cheia, os navios ingleses já não estão ancorados no porto.
Uma maldição saiu da boca de Van Dijk enquanto golpeava a mesa com ambas as mãos.
-Inúteis bastardos! - gritou. O inglês era sua carta para obter um benefício pessoal em suas negociações.
As apostas acabavam de subir um inteiro com aquele desafio e Enrique ia se encarregar de pagar por isso; sua indenização devia incrementar-se depois da fuga de seu prisioneiro.
***
Do outro lado da cidade, enquanto isso, Klemens Dwarswaard saboreava o êxito de seus planos. Tinha sido ele, pessoalmente, quem planejou a fuga do inglês. Aquela fuga deveria enfurecer a Van Dijk o suficiente para romper suas conversas com os embaixadores de Enrique. Um sorriso elevou a comissura de seus lábios enquanto pegava a figura da rainha de seu xadrez, sopesando-a.
***
Anne se mexeu incomoda em seu catre. Com frustração, observou o teto de madeira do camarote. Do outro lado do biombo ressoavam os roncos dos marinheiros. O ruído das ondas contra o casco de madeira, antes relaxante, parecia-lhe agora irritante e desesperador. Voltou a mover-se inquieta.
-Deixe de dar voltas ou acabará afundando o navio – disse Lady Botwell de sua cama de armar.
"Pois melhor!", pensou Anne mal-humorada. Possivelmente, isso incitaria o Lorde Marrento a deixar de rir. Há uns breves instantes, o insofrível homem tinha passado em frente sua porta caminho do camarote principal deixando atrás de si um rastro de gargalhadas. Um suspeito ofendido escapou de seus lábios. Lady Botwell tinha conseguido alguns roupas masculinas para abrigá-la, mas se tivesse que passar o resto da viagem de semelhante forma acabaria jogando-se pela amurada. Qualquer coisa antes de voltar a ver a graça nos olhos de Hugh. Asno irritante! Idiota! Sua cabeça rememorou os desastrosos acontecimentos da noite. Ao menos, ele tinha ido em sua ajuda, tentou se consolar. Teria sido mais humilhante se só se limitasse a rir deixando que fosse outro quem a resgatasse. Em certa medida, comportou-se gentilmente, concedeu, lançou-se para salvá-la sem pensar duas vezes. E quando seus braços a tinham sujeitado, tinham-no feito com segurança, lhe sussurrando palavras de consolo no ouvido que a tinham feito sentir-se a mulher mais segura do mundo pelo mero feito de encontrar-se entre seus braços... Uma vez mais, ele se tinha convertido em seu salvador, em seu cavalheiro de brilhante armadura. Seu corpo a tinha protegido...
-Ajh! - uivou sentando-se bruscamente no catre. Pagou sua imprudência com uma dolorosa batida na cabeça.
-O que acontece? - interrogou Lady Botwell assustada. A escuridão de seu estreito alojamento lhe impedia ver sua ama com a suficiente claridade.
-Esse negociante de ovelhas! Marrento!
-Refere-se a seu marido?
Marido! Marido! O vocábulo lhe produzia urticária.
-Dá igual - resmungou deitando-se novo sobre o colchão de palha de lã. Logo acertaria as contas com De Claire. Cruzou os braços sobre o peito fulminando com o olhar o teto como se fosse o próprio Hugh. Acabava de recordar como ele estava sujo e magro quando ele conseguiu a liberdade ante o atento olhar da tripulação!
***
Hugh se deitou em seu colchão de palha com as mãos entrelaçadas na nuca. Os meses na prisão lhe fizeram apreciar esses pequenos detalhes que o rodeavam como verdadeiros luxos; um colchão de palha, mantas, roupa limpa e comida quente. Um travesso sorriso apareceu em seus lábios ao recordar o rosto de Anne. A orgulhosa donzela levaria tempo para esquecer o ocorrido, pensou deixando escapar uma risada entre dentes, isso a poria em seu lugar. Seu rosto ao cair à água tinha sido cômico, receptível, e quando as águas a tinham tragado... Hugh franziu o cenho. Bom, aquilo não tinha sido tão divertido, disse ao recordar o denso nó que se deslizou por sua garganta quando ela tinha desaparecido sob a água. Uma não tão estranha sensação o tinha paralisado lhe impedindo de reagir durante os três segundos seguintes uma sensação bastante conhecida para um ex-mercenário, muito similar ao medo prévio à batalha, mas multiplicado por mil. Seu bom humor se esfumaçou ante esse pensamento. Sim, tinha sentido medo de que ela morresse afogada, arrastada pelo peso de suas roupas ou esmagada pelo casco do navio. Nem sequer tinha parado para pensar em sua própria segurança quando se lançou em seu auxílio, tal era sua ânsia protetora. Franziu os lábios com preocupação ao pensar em sua irrefletida reação. Seu comportamento foi motivado por algo concreto ou simplesmente pela preocupação lógica de um homem que acaba de casar-se com uma donzela que sempre viu como uma irmã menor irritante? Mas Anne já não era uma menina indefesa e sim uma mulher como muito bem tinha comprovado, e duvidava muito que nenhum irmão desfrutasse como ele o tinha feito ao tê-la em seus braços. Um ardente formigamento de desconforto lhe percorreu a espinha dorsal, a classe de pressentimento que sentia quando se encontrava ante um mau negócio.
A afortunada chegada de Rufus o distraiu de seus pensamentos.
-Segui seu exemplo - disse o recém-chegado assinalando seu corpo asseado. E também consegui algumas roupas - acrescentou arrojando um vulto sobre a cama de armar.
Hugh aceitou o maço de roupas secas deixando de lado a manta com que se cobria. Depois de desfazer-se de suas roupas úmidas no camarote, deu-se o luxo de um rápido banho em água fria, também tinha raspado a barba antes de meter-se entre as mantas da cama de armar à espera de que Rufus encontrasse algo para vestir. Ficou em pé ante o atento olhar de Rufus.
-Agora compreendo a admiração de certas damas por sua pessoa. Maldição, sim que está bem dotado!
O comentário de Rufus lhe fez elevar uma sobrancelha enquanto colocava um pé nas grosas meias de lã cinza, sua malha prometia uma erupção a toda regra, mas até que não conseguisse algo melhor devia conformar-se.
-Essa lança de guerra deve as deixar louca - prosseguiu com a vista cravada em suas pernas. Se eu tivesse algo assim passaria o dia olhando ou deixando que me olhassem.
-Feche a boca, será que não pode pensar em outra coisa? - balbuciou calçando urgência as meias.
Rufus fingiu pensar uma resposta.
-Pois não. Embora não deva me culpar. - Fez uma pausa para levar um miolo de pão na boca - Essa Lady Botwell me pôs como um carneiro.
Hugh o olhou com horror enquanto vestia um colete de couro sobre a camisa de linho.
-Cristo Bendito, homem! Essa mulher lhe dobra em tamanho - sentenciou afastando a mão do homem de seu jantar com uma palmada.
-Uma mulher deve ter onde agarrar, carne sobre os ossos que reconfortem as mãos de um homem - suspirou com desejo. Depois se inclinou sobre a mesa e lhe roubo um pedaço. Por certo, inglês, devo-lhe a vida.
Hugh encolheu os ombros.
-O mérito não foi meu como bem sabe alguém nos facilitou as coisas.
-A pergunta é: quem? - interrogou Van Der Saar em tom formal.
Hugh encolheu os ombros afastando a comida para o lado, sentindo já sua habitual indisposição ao navegar, as coisas piorariam quando entrassem em mar aberto.
-Alguém disposto a enfrentar Enrique, possivelmente.
-Teme a ira do rei?
-O caráter do rei é tormentoso, se considerar que meus atos danificaram a coroa e seus interesses, de algum jeito me tiraria às tripas acima de tudo Londres antes de me jogar aos corvos.
-Então, procure o causador de sua situação, lhe apresente a ele como culpado com provas que convençam o rei e seu conselho. Quanto ao Estatúder, estou seguro de que uma boa bolsa de ouro e umas oportunas desculpas saciem sua sede de vingança.
Hugh se levantou da mesa desprezando a comida. Por seu próprio bem esperava que as coisas fossem tão fáceis como pintava Rufus. Muitos outros tinham perecido sob a tocha do verdugo por ofensas menores. Salivou sentindo-se mal.
-Tenho... Tenho que... Desculpe - balbuciou com urgência equilibrando-se para a porta à primeira arcada.
***
O dia longo e frio fazia com que o horizonte marinho se fundisse com o azul do céu. Anne admirou a cena antes de levantar o olhar para os homens que trabalhavam desdobrando velas e amarrando cabos. Abrigada com a ampla capa de Lady Botwell (a sua tinha ficado irremediavelmente imprestável) desfrutava de uns momentos de distração inclinada sobre o corrimão, tentando distinguir o segundo navio onde estavam Gantes e suas empregadas e onde seus baús tinham sido embarcados. O segundo mercante seguia sua esteira a escassa distância com a vela desdobrada. Perguntou-se Gantes poderia vê-la no convés. Se fosse assim seus dentes chiariam de horror ao vê-la sozinha. Estava segura de que seu capitão se manteria no convés escondido disposto a abater na distância a todo aquele que ousasse aproximar-se. Todos os seus pensamentos ficaram suspensos nesse instante ao notar uma presença as suas costas. Ao girar se topou com um homenzinho de cabeleira loira algo mais baixo que ela.
-Quem é você? - exigiu saber lhe dedicando um olhar escrutinador enquanto tentava elucidar sua posição às ordens de seu marido.
-Sinto muito, senhora, confundi-a - desculpou-se retrocedendo e lhe mostrando as palmas nuas. Seu forte sotaque germânico chamou sua atenção. Meu nome é Rufus Vão Der Saar, solteiro e a sua absoluta disposição - explicou, como se essa informação lhe interessasse, antes de agitar os braços em uma florida reverencia.
Anne apertou os olhos até convertê-los em duas franjas cinza. O homem lhe desagradava profundamente, bem por seu descaramento, bem por seu olhar, insistentemente em seu peito. Se não fosse pela grossa capa de Lady Botwell haveria se sentido nua, exposta como um pedaço de carne ante uma horda de carentes.
-Uma boa notícia para as mulheres de todo o mundo! - assinalou com sarcasmo. Sabe onde posso encontrar De Claire?
Rufus aparou a ponta do bigode.
-Refere-se a seu marido? - inquiriu zombador.
Anne enrugou o nariz com desagrado, mas acabou assentindo.
-A última vez que o vi estava no camarote principal. Sentindo falta do cuidado de umas mãos femininas que aliviassem sua "indisposição" - acrescentou enganchando o dedo mindinho na parte superior de seu colete e flexionando uma de suas pernas em uma pose pretendida sedutora que fez com que as sobrancelhas da jovem se elevassem ante aquele grotesco homem. Em troca o ignorou para lhe dar as costas, mas no último instante se girou para descobrir seu olhar na parte baixa de suas costas avaliando suas formas. Piscou aturdida sem saber muito bem o que dizer enquanto o homem fingia que nada tinha acontecido. A situação lhe pareceu tão ridícula que quase a fez sorrir.
Sua segurança minguou frente à porta do camarote principal. Levantou um punho para golpear a madeira, mas em um segundo último de incerteza se deteve colocando o ouvido na porta. Nenhum som se deixava escutar do outro lado. Inspirou brevemente pelo nariz e antes de perder a integridade, golpeou com os nódulos a porta. Ninguém respondeu a sua chamada. Aguardou impaciente um segundo antes de tentar novamente. Pareceu-lhe escutar um gemido afogado, como o gemido de um moribundo. Intrigada levantou a tranca de metal e olhou com curiosidade. O camarote principal era a estadia mais luxuosa do mercante, o qual não era dizer muito. Tinha uma mesa de pernas esculpidas de um tamanho médio onde os oficiais de bordo se reuniam para o estudo das rotas e cartas marinhas, um banco de madeira preso à parede que servia como único assento, o resto do espaço estava ocupado por um grande aparador cujas portas apareciam abertas, como se alguém tivesse procurado algo entre o montão de pergaminhos primorosamente enrolados e de cartas marítimas. Um olho de boi selado com um grosso cristal de dois palmos de longitude permitia que a escassa luz diurna se esparramasse sobre o chão de madeira roçando ligeiramente a cama esquecida em uma das laterais. Anne posou o olhar no baile de bolinhas de pó em suspensão que a franja de luz deixava ao descoberto antes de centrar-se no corpo enfraquecido que ocupava o catre. Junto ao leito alguém tinha colocado estrategicamente uma terrina de madeira. Não precisava muita imaginação para saber por que estava ali. Enrugou o nariz ante o azedo aroma de vômito, mas aquilo não lhe impediria de lhe dizer o que tinha ido dizer. Com decisão entrou na estadia e fechou a porta com grande barulho. Para sua satisfação o som fez com que Hugh gemesse.
Seus olhos frágeis se abriram procurando pela a origem de seu brusco despertar.
-Bom dia, milorde - saudou Anne e apoiando-se na mesa observou o catre com um falso sorriso na boca - Uma má noite? A bebida dos marinheiros costuma ter esse efeito conforme entendi.
Hugh observou aquela doce aparição, esticou uma mão trêmula para ela como se fosse um anjo celestial. - Água - balbuciou com a boca pastosa.
Anne levantou uma sobrancelha pouco comovida.
-Não bebeu suficiente, então? - quis saber movendo-se pela estadia - Deixe-me olhar por aqui talvez encontre algo que lhe acalme. - Abriu metodicamente as portas do aparador - Oh, olhe! Está com sorte - exclamou ao encontrar uma garrafa de aguardente. Desarrolhou-a com alegria para farejar seu conteúdo - O que lhe parece isto? - interrogou aproximando-se do catre para agitar a garrafa ante o nariz do homem.
O rosto decomposto de Hugh se contraiu enquanto seus lábios tentavam de conter uma arcada.
-Por Deus, mulher! Quer me matar? - choramingou antes de inclinar-se sobre a terrina para arrojar a bílis.
Anne o observou sorridente.
-Tenho que responder? - Mas as musculosas costas do homem a distraíram. Com o esforço, os fortes músculos dorsais se esticaram sob o úmido tecido de sua camisa e a pressão de sua coluna vertebral era também visível, reforçada por sólidos músculos. Anne a percorreu avidamente até que seus olhos alcançaram suas nádegas, bem marcadas através da grossa lã de suas calças. Inconscientemente, tragou saliva. Se fossem tão duras como pareciam teriam a consistência de granito. Afastou a vista com pudor enquanto Hugh se sacudia ante uma nova arcada. Não podia permitir-se esse tipo de pensamentos! Disse a si mesma, mas seus olhos retornaram teimosamente aos estreitos quadris. Santa Catarina! Como podia um homem ser tão esbelto? Endireitou as costas tentando impor certa sensatez em seus pensamentos.
-No futuro, aconselho-lhe que modere seus apetites, ao que parece só lhe trazem pesares.
Hugh se deixou cair de novo sobre a cama de armar, cobriu o rosto com o antebraço sem dignar-se a responder.
-Encontra-se melhor agora? - sondou com certa preocupação ao ver a cinzenta cor de seu rosto. Quer que lhe traga algo que lhe assente o estômago? Leite? Algo de comer, talvez?
Um gemido afogado escapou de seus lábios.
-Não é o que pensa mulher, simplesmente sofro indisposição ao navegar. Enjôo com facilidade.
-Está enjoado? - repetiu surpreendida. Parecia-lhe inconcebível que um homem como aquele fosse vencido por uma coisa tão simples. Percorreu com o olhar as sólidas formas de seu corpo. Quem ia dizer? Seus olhos escrutinadores se detiveram nas bochechas enxutas, limpas já de sua barba dourada. Também seu cabelo tinha sido cortado e roçavam a nuca. Seu percurso finalizou no nariz reto. Do outro seu extremo uns olhos salpicados a observavam com interesse. Temerosa de que ele pudesse ler sua admiração lhe deu as costas para colocar a garrafa sobre a mesa.
-Conheci seu homem - disse depois de esclarecer a garganta, desesperada para desviar sua atenção - Esse tal Rufus Van...
-Van Der Saar - finalizou por ela ante sua dificuldade de pronúncia. E?
-É um homem desagradável e ridículo - resumiu.
-Sim, está acostumado a ter esse efeito - comentou lhe dando a razão.
Anne cravou os olhos em sua garganta admirando seu movimento quando Hugh tragou.
-Deveria lhe advertir sobre os perigos de mostrar-se excessivamente amistoso.
-O que disse ou fez desta vez? - perguntou apoiando-se sobre ambos os cotovelos para olhá-la com o rosto pálido.
Anne abriu a boca para responder, mas absurdamente seus pensamentos se evaporaram quando seus olhos toparam com a pequena abertura da simples camisa que vestia. Os laços frouxos deixavam entrever uma extensão de pele peitoral que ao parecer era incapaz de ignorar. Supunha-se que quando um homem passa meses em uma masmorra cheia de ratos teria que ter ao menos, mau aspecto disse a si mesma mal humorada.
-Nada - suspirou finalmente, furiosa consigo mesma.
-Veio me dizer algo? - Hugh estendeu uma perna apoiando um pé nu sobre o chão. Anne fixou aí seus olhos, em seus dedos grandes e a capa de pêlo que salpicava. É que tudo naquele homem conseguia fasciná-la?
Sacudiu a cabeça a que saísse desse encantamento.
-Na realidade, queria lhe informar de certos aspectos de nosso matrimônio que não foram devidamente tratados.
Hugh arqueou uma sobrancelha.
-Que aspectos?
A jovem enrugou o cenho sem saber como começar.
Hugh dobrou um braço atrás de sua nuca para observá-la. Sim, certamente a pequena Anne tinha mudado, mas havia traços nela que continuavam sendo os de sempre, disse a si mesmo vê-la enredar indecisa um dedo no fio solto de sua capa.
-Sempre dorme com sua espada? - perguntou apontando para o punho metálico que sobressaía junto a seu quadril.
-Eu gosto de sua companhia. Suponho que os velhos hábitos nunca se perdem.
-Sente falta de sua vida mercenária?
Hugh sacudiu ligeiramente a cabeça.
-De certa forma, tudo era mais simples então - ouviu-se confessar e, triste porque o fazia reconhecer coisas que nunca antes tinha reconhecido, decidiu pôr fim aquele interlúdio amistoso. Vamos menina, veio aqui para falar de outra coisa. Do que se trata?
Hugh observou com satisfação como ela se enrijecia. Seus olhos cinza refulgiram quase ocultos atrás das espessas pestanas. Tinha olhos enormes, capazes de absorver a alma de um homem com um só olhar, pensou repentinamente.
-É que não vai parar de me chamar assim nunca? - resmungou colocando as mãos nos quadris.
-Quem sabe - disse Hugh incapaz de resistir.
-Já não sou nenhuma menina e você está casado comigo - disse dando um passo adiante com desafio. E assim que, o que me trouxe aqui, é muito simples; quero a anulação deste matrimônio assim que estiver livre desse perigo. - Levantou uma mão para deter seus protestos – Claro, você será ressarcido generosamente com alguma de minhas posses.
Pronto, já havia dito. Sentiu-se muito melhor por isso.
-Têm tempo para pensar o que é que deseja - acrescentou ante o persistente silêncio - De Claire?
Os olhos dourados se elevaram até ela. Uma vaga sensação de perigo lhe subiu pelas costas. Retrocedeu um passo precavidamente sem separar o olhar daquele rosto escandalosamente viril. Ele tinha a mandíbula fortemente apertada e um inquietante tic no olho direito.
-Está com vontade de vomitar de novo? - perguntou confusa.
Tudo aconteceu muito rápido, estava de pé e um segundo depois estava sobre a cama, com o fornido corpo de Hugh sobre ela.
-O que está fazendo? - exigiu saber ao sentir sua mão sob suas roupas.
Maldição se sabia! Pensou Hugh antes de imobilizar à inquieta donzela com uma de suas pernas. Deteve sua mão no quadril, repassando com o polegar a protuberância de seu osso. Aproximou seu rosto ao dela, tão perto que podia sentir sobre os lábios sua respiração rápida. Anulação! Anulação! A perniciosa palavra parecia golpear seu cérebro com a força de um martelo. Anne o olhou como se tivesse ficado louco e possivelmente era verdade, porque era impossível resistir ao impulso de beijá-la, de posar seus lábios em sua boca e atravessá-la com sua língua para degustar seu sabor, um sabor que o enfeitiçava. Anne deixou de chutar, fico tão quieta como uma estátua de sal enquanto ele a beijava, enquanto suas mãos lhe apalpavam o corpo sobre a roupa. Hugh se acomodou melhor entre suas pernas elevando ligeiramente a cabeça para olhá-la nos olhos. Ambos tinham a respiração agitada. Hugh inspirou pelo nariz como se necessitasse mais oxigênio.
-Querida... - pronunciou com suavidade posando sua boca entreaberta em seus lábios.
Isso foi tudo porque a porta se abriu para dar passo a Van Der Saar. O homem não deu amostras de surpresa quando o casal se separou apressadamente.
-Sinto interromper, mas ali em cima não há nada interessante para olhar, ao menos não tanto como aqui - disse cravando os olhos em Anne que colocava a capa.
-Rufus, suma - resmungou Hugh com frustração.
O homem lhe dedicou um sorriso que parecia dizer "nem louco". Anne ignorou ambos ficando em pé. Inspirou levemente pelo nariz com as bochechas avermelhadas. Mesmo assim, elevou o queixo para enfrentar seu olhar.
-Pense em minhas palavras De Claire - sussurrou dando um passo para a saída e passando uma mão pela boca como se quisesse apagar desta maneira seus beijos.
O gesto o enfureceu. Como se atrevia menosprezar seus beijos? Quis segui-la e sacudi-la para fazê-la entrar em razão.
-Tem gosto de sapo morto - disse ela como que querendo afirmar seus pensamentos antes de sair do camarote. No futuro procure manter suas mãos longe de mim.
Deixou atrás de si o cacarejo agudo de Rufus.
-Acredito que não lhe gostou - assinalou Rufus - Uma fêmea com caráter. Eu gosto. Faz-me perguntar como será na cama.
-Vá embora- respondeu Hugh sentando-se sobre o colchão. O que menos gostaria de pensar era em deitar-se com Anne. Ela tinha sugerido a anulação, bem, então que assim fosse, pensou um pouco mais cometido, mas antes ele obteria a satisfação de dobrá-la a seus desejos.
-Vá com cuidado, De Claire, conforme me contaram no navio, seu coração é de pedra.
-Cuide de seus assuntos – disse firmemente.
-Também parece gozar do dom da cura. Está melhor a sua cor. -Riu.
Hugh arqueou uma sobrancelha. Sim, seu enjôo tinha desaparecido deixando em troca uma inquietante tensão sob sua calça. A Lady queria a anulação e, por todos os anjos, ele não se oporia.
Capítulo 7
Porto de Londres, doze dias depois.
O corpo de guardas reais criado por Enrique para a custódia de prisioneiros na Torre de Londres aguardava no porto com seus vistosos uniformes e suas características albardas em alto. Numerosos curiosos se amontoavam em torno deles, impactados ante a formidável visão dos homens robustos.
Hugh os observou do convés da caravela com os braços cruzados sobre o peito. Não oporia resistência a sua prisão quando tinha sido ele mesmo quem fez chegar a notícia ao monarca sobre sua chegada ao porto, pondo sua vida e lealdade ao seu dispor. Esquivar a justiça real equivaleria a perder inteiramente seu favor e este, precisamente, era o único que poderia inclinar a balança de sua sorte. Rufus a seu lado observava com belicosidade a doca.
-É uma estupidez entregar-se sem mais – grunhiu - Nem sequer pude ter uma mulher.
Hugh o olhou com surpresa. Um sorriso de agradecimento no fundo de seus olhos.
-Enrique desconhece o que é o Fantasma Branco, ninguém pôde lhe informar de sua identidade. Mantenha-se a margem disto, Rufus, ele se conformará com minha pele.
-Estamos juntos nesta, inglês - rechaçou inchando seu peito esquálido.
-Talvez necessite seus serviços para outras coisas.
-Por exemplo?
-Minha esposa. Quero que esteja perto dela, necessito um homem de confiança que cuide dela.
Rufus poliu o espaçado cabelo deixando entrever as pronunciadas entradas de sua testa
-Ela parece estar bem protegida - assinalou fazendo um gesto para o casco do navio vizinho, onde Gantes aguardava impaciente a autorização para descer a terra.
-Sua custódia é uma obrigação que agora me corresponde.
Uns rápidos passos sobre o convés puseram fim à conversa. Hugh se virou para encontrar-se com a Anne que com o cenho franzido observava os homens do rei.
-Por que estão eles aqui? -exigiu saber.
Ambos os homens se olharam divertidos ante o tom exigente da dama.
Nos dias de travessia que tinha precedido Hugh apenas a tinha visto em algumas ocasiões. Ela sempre parecia estar fugindo dele quando não estava vomitando pela amurada. Percebeu que nunca teve oportunidade de vê-la sob a luz do sol. Passou o olhar em seu rosto, era possível que ela fosse mais formosa do que se recordava? Essa manhã, a jovem havia posto especial cuidado em seu aspecto. Horas atrás seus baús tinham sido içados ao navio enquanto aguardavam permissão para desembarcar. Anne tinha escolhido para a ocasião um régio vestido de damasco azul escuro com bordas de veludo em sua barra. As volumosas saias ocultavam parcialmente a ponta diminuta de seus sapatos. Sobre os ombros, um broche de ourivesaria prendia seu manto evitando que seus extremos escorregassem. Seu cabelo estava coberto com um arranjo discreto que ressaltava seus olhos. Suas sobrancelhas negras guardavam uma simetria quase perfeita que imprimia uma nota de caráter a seus traços delicados. As pupilas cinza cintilavam como dois diamantes expostos à luz do sol. Hugh surpreendeu a si mesmo admirando o conjunto de bolinhas esverdeadas no fundo de sua íris. Bom Deus! Tinham estavam aí antes?
-E bem? - inquiriu ela com o cenho ligeiramente franzido ante seu olhar embevecido.
-O rei os envia para me prender - obrigou-se a responder.
-O que? - Anne se inclinou sobre a amurada com uma expressão agressiva em seus traços - Por quê?
-Foi informado sobre minha fuga e sem dúvida não achou muita graça - indicou com rapidez.
Anne o olhou com aborrecimento. Como podia mostrar-se ele tão depravado? Acaso não temia a justiça real? Assaltou-lhe a visão de Hugh inclinado e o verdugo ele. Um medo atroz penetrou em seu coração.
-Não podemos permitir - disse enquanto seus olhos percorriam o navio em busca de possíveis vias de escape - Esconda-se! Rápido!
Uma risada seca escapou entre seus dentes.
-Adula-me sua preocupação, minha senhora, mas enfrentarei Enrique e sua justiça.
-Não! - Era o medo o que a fazia falar, atuar como uma louca equilibrando-se sobre ele, retendo-o com ambos as mãos pelo seu colete. - Hugh pense bem. Lorde Wentworth pode falar em sua causa, lhes pôr a salvo enquanto...
Hugh lhe rodeou as mãos com um punho, estavam frias e pálidas. Comovia-lhe o pânico que seus olhos e refletiam a preocupação que seus lábios trêmulos tentavam conter, mas acima de tudo, o sussurro de seu nome. Era a primeira vez que ela o chamava por seu nome e devia reconhecer; excitava-lhe.
-Anne. – Ele a silenciou colocando um dedo sobre seus lábios. Isso me converteria em um proscrito e a você na esposa de um proscrito. Enfrentaremos isto de frente, milady fará o que for necessário para demonstrar minha inocência, mas não desafiarei Enrique.
-Mas... - tentou intervir - É injusto! - estalou finalmente.
Dedicou-lhe um sorriso. Um tipo de sorriso capaz de fazer com que os joelhos de uma mulher se dobrassem. O tipo de sorriso que nunca tinha lhe dado. O coração saltou no peito. Em outro tempo, teria morrido por um sorriso assim.
-Tudo acabará logo, prometo - assegurou-lhe inclinando o rosto até lhe roçar o nariz com os lábios.
-Não prometa coisas que não pode cumprir - disse.
-E você guarde suas garras para outra ocasião. Temos que nos despedir e quero lhe pedir uma última coisa. Duas, na realidade.
-Sim? - perguntou ansiosamente. Piscou nervosa cravando o olhar em seus olhos dourados, como se esperasse uma revelação divina.
-Mantenha Rufus perto de você. Ele saberá como cuidar de ti.
As sobrancelhas da jovem se curvaram com surpresa enquanto olhava com dúvida para o ridículo galã.
-Pode confiar nele para qualquer assunto - insistiu Hugh apertando levemente suas mãos, insistindo para ela aceitar.
-Sempre confiei em Wentworth.
-Não podemos comprometer sua posição ante o rei, ele será nosso maior trunfo no futuro. Deixemos que permaneça neutro no momento.
Anne compreendeu. Recorrer ao Dragão só serviria para incitar seus inimigos na corte.
-Está bem – aceitou - E o segundo pedido? - disse quando o guarda real subiu pela precária passarela.
Subtraíam-lhe escassos segundos.
Os olhos marrons, quase ambarinos sob a luz diurna, olharam-na com seriedade. O recente corte tinha escurecido seu cabelo convertendo-o em ouro. O desejo de deslizar sua mão entre os densos fios a obrigou a apertar as mãos.
-Me diga Anne - ronronou exercendo sobre ela um poder hipnótico.
O coração da jovem disparou seu ritmo golpeando furiosamente contra suas costelas. Doce Maria! Pensou a ponto de fraquejar ante o sensual sussurro, agora compreendia por que as damas se lançavam a seus pés para implorar seus favores. O braço de Hugh deslizou sobre sua cintura puxando-a sobre suas pernas. Deslizou uma coxa dura entre ambas transpassando com seu calor as capas de roupa que os separavam, alcançando as parte mais escondidas de seu corpo. Anne se esqueceu de respirar, mas gemeu longamente quando Hugh se aproximou um milímetro mais, lhe enchendo a boca com seu fôlego. Entreabriu os lábios inconscientemente, prontos para recebê-lo com os olhos já fechados. E quando ele a beijou finalmente, aceitou-o com um suspiro de boas-vindas. Hugh lhe roçou os lábios com a língua medindo brandamente entre ambos, estimulando sua resposta. Anne lhe correspondeu com uma tímida carícia que o avivou. Estreitou-a possessivamente contra si lhe sujeitando o queixo com uma mão, estendendo os dedos sobre suas bochechas para retê-la mais perto.
-Hugh De Claire! - bramou um soldado. Por ordem do rei Enrique está detido! Se entregue!
Hugh levantou a cabeça para olhar a seu redor. Anne permanecia entre seus braços com os olhos fechados. Deixou cair um último beijo em seus lábios lhe golpeando levemente a ponta do nariz para fazê-la sair do transe.
-Anne? - chamou apoiando sua testa na da moça como se o que tivesse que lhe dizer a seguir tivesse uma importância vital para ele.
-Sim? - respondeu ela com o olhar deslocado.
-Meus beijos continuam com sabor de sapo morto? - perguntou deixando que um sorriso zombeteiro lhe elevasse a comissura dos lábios.
Anne o olhou como se não compreendesse, muito comovida ainda para entender o completo significado do que lhe perguntava. Finalmente, abriu os olhos devagar. Ele estava zombando dela, de seus beijos.
-Oh! - resmungou afastando-o com um empurrão - Você!... Sujo... Bastardo, tolo vendedor de ovelhas - gaguejou muito furiosa para pensar em um insulto melhor e voltando-se para os soldados - Prendam-lhe - ordenou fazendo com que todos eles saltassem sobre seus pés.
Um deles deu um passo adiante evitando olhar para a agressiva donzela.
-Sua arma, milorde - exigiu quase se desculpando.
Hugh se desembaraçou de sua espada lançando a capa de couro a Rufus.
-Cuide dela com sua vida, Van Der Saar - ordenou apontando para a donzela.
Anne não se dignou a lhe olhar, zangada, deu-lhe as costas enquanto os soldados o rodeavam. Hugh se inclinou sobre ela ao passar pegando-a de surpresa.
-Me deseje sorte, querida - sussurrou-lhe ao ouvido tocando com a ponta da língua a cartilagem de sua orelha.
O gesto lhe provocou um espasmo de prazer na boca do estômago com o qual jovem retrocedeu ofendida, lhe cravando o cotovelo nas costelas como último gesto de despedida.
***
O palácio se encontrava surpreendentemente vazio, ou isso ao menos pareceu a Anne enquanto apertava as mãos com nervosismo. O príncipe herdeiro se transladou ao campo para praticar uma de suas afeições favoritas: a caça e grande parte dos cortesãos o tinham seguido em uma tentativa de conseguir seu favor. Só o monarca e um exíguo séquito permaneciam em Westminster. Apesar de seu delicado estado de saúde, Enrique continuava dedicando maratonas jornadas ao cumprimento de seu dever como regente dos destinos ingleses. Anne inspecionou as sombras que circundavam a sala onde aguardava, muito perto da câmara pessoal do rei. Temia que uma vez mais sua audiência fosse atrasada e suas petições desprezadas, uma visão nada aduladora para sua minguada paciência. Com um suspiro se moveu incômoda no banco de madeira junto a sala de audiências, olhando sem dissimulado aborrecimento aos dois guardas reais que custodiavam a porta de entrada. Perguntou-se se poderiam ouvir algo do que acontecia na sala. A pergunta lhe queimou na língua, mas se conteve sabendo que nenhum deles responderia. Junto a ela, a presença de Gantes e esse mequetrefe do Rufus lhe conferiam certa segurança a respeito de seu propósito naquele lugar, mas se absteve de olhar para eles. Em seus olhares só encontraria censura, mas o que esperavam que fizesse? Aguardar sem mais que De Claire fosse julgado traidor? Os marcados passos do outro lado da porta afastaram esses incômodos pensamentos. Sir Mathews Fairfax, fidalgo da câmara real, deteve-se indeciso ao vê-la em seu lugar, tal e como a viu horas antes.
-Senhora? - saudou com o cenho franzido. Sem dúvida, o homem tinha esperado que ela tivesse desistido de seus propósitos de entrevistar-se com o rei depois de horas de espera.
Anne ficou em pé. Por sua condição de condessa não estava obrigada a inclinar-se, mas o fez de todos os modos sabendo que aquilo agradaria o homem.
-Sir Fairfax, está Enrique disposto a escutar meus pedidos agora?
A boca do homem se curvou com um gesto. Olhou sobre o ombro ao monarca que, sentado em sua cadeira preferida, respirando aliviado depois da incessante tarefa do dia.
-Não acredito que consiga lhe receber hoje - suspirou fazendo um gesto a um dos pajens reais. O moço entendeu a mensagem e se apressou para fechar a porta.
Anne percebeu a manobra. Exalou uma irada exclamação e cruzou a sala a passo rápido.
-Não aguardarei nem um dia mais, esta é minha terceira semana de espera – ameaçou levantando a voz. Se Enrique não tiver tempo de me escutar, gritarei minhas queixa de modo que toda a Inglaterra possa ouvi-las. - Com grande teatralidade se moveu pela sala fazendo com que sua sombra se projetasse sob a luminosidade das velas que pendiam dos abajures de bronze. Quem sou eu afinal mais que uma simples mulher? Um ser vácuo ao que a justiça evita por sua mera condição - recitou como se fosse uma atriz ante seu público. Os olhos exagerados de todos os presentes seguiram seus dramáticos gestos.
A porta da sala se abriu bruscamente dando passo a Enrique. Os soldados se quadraram ante sua presença, mas o monarca os ignorou com a atenção fixa na jovem que alheia a sua presença continuava sua cena.
-Mas, me diga que homem ou mulher escapa a ela finalmente? - repreendeu o ar enquanto Gantes fazia frenéticos sinais de advertência.
-Quem esta gritando dessa maneira? - interrogou Enrique irritado.
Anne se virou violentamente para ele fazendo com que seu cabelo se agitasse precariamente. Ao ver Enrique, seus olhos aumentaram fingindo surpresa.
-Sua graça! - exclamou inclinando-se com elegância teatral.
O monarca desprezou sua saudação com um ligeiro movimento de sua mão ossuda.
-Lady Darkmoon, tinha ouvido falar de suas argúcias para evitar as atenções de seus pretendentes, não acreditei que estas servissem também para atraí-los - comentou.
A jovem teve a decência de ruborizar.
-Meu Senhor, o que tenho para lhe pedir não podia esperar mais tempo.
O monarca se apoiou cansativamente em um dos lacaios.
-Então, fale antes que perca a paciência.
-Rogo libere De Claire de todos os cargos que lhe imputam. Como bem sabe é inocente.
-Foi obrigada a se casar com esse homem, por que merece tanta confiança?
Anne apertou os lábios. Não podia confessar a viva voz que seu interesse era obter sua própria liberdade. Sua palavra a comprometia a estar casada com esse homem até que toda suspeita sobre sua inocência fosse dissipada.
-Em certa ocasião me salvou a vida. Não acredito que um homem capaz de arriscar sua vida por uma menina possa ser um assassino de mulheres.
Os olhos do monarca se estreitaram.
-Lady Norfolk lhe treinou bem - comentou exasperado.
-Estou disposta a chegar ao final neste assunto, majestade.
-Cuidado, milady, isso soa uma ameaça - interveio Fairfax.
-Deixe Fairfax, ao parecer esse fanfarrão conseguiu ganhar seu coração, a dama se conduz como uma esposa apaixonada.
O estupor abriu passo no rosto feminino.
-Não estou...
-Não vêem acaso o brilho de amor em seus olhos? - Enrique acompanhou suas palavras com uma risada zombeteira - Deus me libere de interferir entre dois apaixonados!
-Pois, então atenda a minhas palavras, sua graça - explorou Anne sem dar uma opinião sobre esse último comentário.
O estalo de mau humor divertiu o monarca.
-Não posso liberar seu marido, Lady Darkmoon - explicou com paciente resolução.
-Então, exijo para mim idêntico tratamento, me prenda também em uma cela, se não houver justiça para ele, tampouco a desejo para mim - resmungou tentando pressionar o monarca.
A magra sobrancelha de Enrique se elevou com admiração. Um pesado silêncio pairou na sala. Anne tragou saliva consciente de ter ultrapassado os limites.
-Muito bem - concluiu Enrique depois de uns segundos de reflexiva concentração - Fairfax?
-Sim, majestade?
-Prendam esta mulher, junto com seu marido. Que ele seja quem sofra com seu caráter - grunhiu e sem mais palavras mancou de volta a seus aposentos.
-Majestade! - exclamou Gantes adiantando-se para a jovem em atitude protetora.
Enrique lhe dedicou um breve olhar.
-Sua fidelidade ficou devidamente demonstrada capitão não a confunda com estupidez - aconselhou quando este se interpôs entre o jovem e seu guarda.
-Obedeça, Gantes - ordenou Anne temerosa de que a ira de Enrique se estendesse para seu homem.
Gantes acatou suas palavras com um olhar feroz. Apertou os punhos se afastando um passo.
-Informem o Wentworth sobre o assunto Fairfax, e procure todas as comodidades necessárias a essa teimosa donzela - suspirou Enrique já a sós.
-Majestade, se me permitir...
-Sim, já sei - interrompeu-o levantando uma mão. Mas, era necessário dar um castigo a essa moça impetuosa. Não tema, não sofrerá mais que de aborrecimento.
-Seus inimigos lhes acusarão de abuso. - Não se antes fizerem circular o rumor de que ela mesma solicitou estar junto a seu marido. Digam que aceitei seu pedido comovido ante essa amostra de amor conjugal.
-E é assim?
- Não! Mas me assegurarei de que essa moça se lembre bem disso e não cometa alguma estupidez típica de sua condição.
Capítulo 8
Devia reconhecer, a estadia escolhida para seu cativeiro superava todas sua expectativa, meditou Hugh repassando com atenção os limites de sua cela na Torre Beauchamp. Sempre tinha acreditado que a Torre era um lugar apocalíptico, com suas escuras masmorras e câmaras de tortura. Para sua surpresa, ele foi colocado, em uma das melhores estadias, destinada aos membros da corte, um lugar de luxo sob a estreita vigilância do guarda do Enrique, com refinado mobiliário para adoçar os grossos muros de pedra. Sob a abóbada de planta uma mesa de cerejeira e várias cadeiras com respaldo recebiam em horas diurnas a luz da janela de arco pontudo. Um degrau de pedra dava acesso a cama ancorada contra uma das paredes. A seus pés, um grande braseiro de ferro forjado alimentado com carvão parecia cálido ante o gelado inverno, um dos mais duros que Hugh se recordava. Inclusive lhe tinha permitido o uso de um grosso tapete de pele de cordeiro que criava a vaga ilusão de conforto.
Hugh apoiou um ombro na parede para observar o lugar onde Ricardo III tinha feito executar a William Hastings. Era fácil que sua cabeça tivesse o mesmo destino se Enrique assim o decidisse. Aquela inatividade estava acabando com ele, grunhiu passando a mão pelo cabelo. Os fios dourados escorregaram entre seus dedos arrepiando sua nuca. Passeou-se irritável frente à janela. Quando estava nesse estado, seus pensamentos se convertiam em um caos, começava a pensar em coisas estranhas, como por exemplo, Anne. Franziu o cenho zangado consigo mesmo. Ultimamente, ela parecia monopolizar suas horas mortas. Fez uma careta. Era como se alguém tivesse arrojado sobre ele um feitiço. Por regra geral, sua cabeça se ocupava do desenvolvimento de seus negócios, mas agora todos seus pensamentos se empenhavam em desembocar nela. Certamente, era formosa, mas não muito mais que outras que tinham compartilhado seu leito, e em qualquer caso seus defeitos deveriam decantar a balança em seu contrário. Sempre tinha preferido as mulheres doces, dóceis e maleáveis e Anne era exatamente o contrário: instada, altiva e mandona. Nada nem ninguém, parecia governá-la exceto aquele sentimento de fidelidade que a unia aos duques de Norfolk, o mesmo que a tinha levado a aceitar casar-se com ele. E não podia chamar-se engano, a jovem tinha deixado claro que qualquer sentimento por ele se apagou de seu coração. Um formigamento de desconforto desceu pela boca de seu estômago. Bom, provavelmente era melhor assim, as coisas entre ambos estavam claras desde o começo. Detestaria fazer frente a uma dama embargada pelo amor sendo ele incapaz de lhe corresponder. Anne desejava a anulação daquele matrimônio, ser livre para seguir com seus planos, quaisquer que fossem estes. Hugh moveu os ombros com irritação. Não teria que passar muito tempo para que toda sua legião de pretendentes se lançasse atrás dela como em uma corrida de galgos. Chegado o momento, ele se limitaria a ficar de lado e divertiria-se com as intrigas que se desprendessem dessa situação, quer dizer, se conseguisse manter a cabeça sobre os ombros porque, até o momento, Enrique tinha rejeitado emitir qualquer opinião a respeito de sua situação e se limitou a lhe informar sobre os cargos dos quais lhe acusava: Traição e desobediência. A pior acusação dada sua situação. Só esperava que o julgamento do Conselho Real fosse favorável a sua causa. Enrique tinha a posteridade de mandá-lo ao talho ou liberá-lo uma vez o veredicto fosse emitido. Maldição! Se sua teimosa "salvadora" tivesse atendido a suas ordens, ele se tivesse se limitado a esperar os acontecimentos seria possível que a essas alturas o embrulho que tinha resultado aquele matrimônio tivesse já seus dias contados, mas ao saber que ela podia encontrar-se em perigo quase havia lhe deixado doente de desespero na prisão de Amsterdã. Nem sequer se tinha parado para pensar nas consequências de seus atos quando fugiu da prisão. Fugiu amparado pela escuridão da noite com o único propósito de pôr Anne a salvo. Tinha esperado impacientemente a volta da donzela na escuridão de seu quarto, recreando-se em todos e cada um dos castigos que para ela tinha urdido sua imaginação. Quando ela entrou no quarto cantarolando alegremente, sua ira se aumentou ante sua despreocupada atitude. É que essa moça não tinha cérebro? Sentiu um malévolo prazer quando ela percebeu sua presença e sorriu diabolicamente quando o temor se refletiu em sua voz, um morno consolo em troca das noites em branco que tinha passado por sua causa. Depois, ela tinha se chocado contra ele e juntos tinham terminado sobre o chão. E ali tinha começado sua confusão. Por regra geral, conseguia submeter seus apetites carnais, era um homem apaixonado, sim, mas somente quando assim o desejava e com Anne não desejava sê-lo absolutamente. Por São Gabriel! Ela tinha sido como uma irmã pequena para ele, mas nenhum irmão teria desfrutado como tinha feito ele com o calor de seu corpo feminino sobre a virilha. O sedoso tato de suas coxas tinha ficado gravado na ponta dos dedos. Fechava os olhos e podia rememorar com exatidão sua textura, como se tratasse de alguma estranha seda do oriente. Inconscientemente, tinha procurado qualquer oportunidade ao alcance da mão para tocá-la de novo, como tinha acontecido no camarote ou no convés do navio. A indiferença que ela mostrava com seus avanços só atiçava seu interesse, não estava acostumado a que as mulheres lhe respondessem com apatia. Claro que em seu último beijo, pensou, ela não tinha parecido tão indiferente. Um sorriso travesso lhe esticou os lábios ao recordar os olhos entreabertos da moça, nesse momento o cinza tormentoso tinha perdido a cor a favor do verde luminoso do fundo de sua íris. Hugh franziu o cenho porque a lembrança lhe disparou o coração. Deu as costas à janela, agitado, para concentrar-se no gélido exterior. Pareceu notar o esquivo perfume de flores do campo em suas fossas nasais. Deveria estar ficando louco! Pensou flexionando uma perna enquanto enganchava o polegar no cinto de couro em seu quadril. Algumas vozes no pátio o distraíram de seus pensamentos. Um reduzido grupo de soldados franqueou o recinto interior escoltando a esbelta figura de uma mulher envolta em sua capa. Desde sua posição no segundo andar da torre era impossível distinguir seus traços, mas por seus movimentos ligeiros e elegantes deduziu que devia tratar-se de uma moça. Perguntou-se que crime teria cometido para que Enrique lhe tivesse imposto pena de prisão. Por regra, somente princesas aspirantes ao trono ou intrigantes tinham o duvidoso privilégio de hospedarem-se nos complexos da Torre, as demais mulheres eram simplesmente desterradas a remotos conventos onde esgotavam seus dias entre quatro paredes sem que ninguém se preocupasse com sua existência. Seguiu atentamente os movimentos do grupo. Face à escuridão, as numerosas tochas que iluminavam o perímetro da muralha permitiam distinguir com total nitidez os uniformes do Guarda Real. Para sua surpresa, o pequeno séquito entrou no interior da Torre Beauchamp.
O silêncio se estendeu de novo pelo pátio interior atrás daquela breve irrupção. Hugh soltou um suspiro de tédio esfregando a nuca. Fez rodar os ombros para aliviar a rigidez de seus músculos. Se ao menos lhe permitissem certa atividade... Não estava acostumado a ociosidade. Até onde ele recordava, nenhum período de sua vida anterior tinha estado sem trabalho. Sendo rapaz e ante a necessidade de sua família, ofereceu-se como mercenário às ordens do Dragão. Anos depois, focou suas energias no lucrativo negócio das mercadorias. Em dez anos se consolidou como um dos comerciantes mais reputados de Londres graças à firmeza de seu trabalho. Seus negócios se estendiam agora até as portas do oriente. Especiarias, tecidos, cristais venezianos, rendas belgas, tudo passava por suas mãos e deixava atrás de si benefícios que o tinham convertido em um homem rico, um comerciante de posição. Perguntou a si mesmo se continuaria sendo-o quando esse assunto chegasse a seu fim.
Antes que esse pessimista pensamento criasse raízes, a porta de sua cela se abriu repentinamente. Hugh virou a cabeça levantando uma sobrancelha com estranheza. Um homem robusto entrou na câmara inclinando sua albarda de ferro ao passar sob a porta.
-Milorde - saudou antes que o restante dos homens o seguisse ao interior.
As sobrancelhas de Hugh se levantaram recordando tardiamente sua nova condição como conde de Darkmoon, mas qualquer palavra que poderia dizer morreu em seus lábios quando descobriu a identidade da dama custodiada. Seus braços caíram a ambos os lados de seu corpo.
-Bom Deus, mulher! O que faz aqui? - Quis saber confuso. Era uma hora estranha para uma simples visita de cortesia. Seu coração começou a pulsar com urgência. Acaso Enrique tinha chegado já a uma decisão sobre seu destino? Era aquela sua despedida?
Anne inspirou brevemente tentando infundir o valor necessário para lhe informar da verdadeira natureza de sua visita. Intuía que o assunto ia deixá-lo zangado de sobremaneira. Espiou-o através das pestanas enquanto fingia desamarrar os laços de sua capa. Frente a ela, com as pernas ligeiramente separadas, Hugh De Claire a olhava como se fosse um espectro. Tragou saliva e notou suas mãos úmidas. Apertou os punhos tentando acalmar seu nervosismo. Finalmente, levantou a cabeça para olhá-lo cara a cara. Alguma lei deveria proibir tanta beleza masculina em um só homem, pensou observando seu contundente queixo e as enxutas bochechas. Demorou o olhar em uma pequena cicatriz com forma de estrela sobre sua maçã do rosto direito, como se alguém, em sua juventude, tivesse lhe golpeado o rosto com uma lança metálica. Recordou que ele tinha sido um assíduo nos campos de batalha que anualmente se celebrassem em Norfolk. Todas suas intervenções, naquele tempo, despertavam as admirações das damas por sua destreza no manejo da espada ou lança.
Um suspiro de impaciência a trouxe de volta.
-E bem? - insistiu Hugh olhando-a com seriedade.
Piscou para concentrar-se na questão que os ocupava nesse instante.
-Enrique pensou que seria cruel separar dois recém casados - explicou com ironia ensaiando um sorriso que apenas lhe roçou os lábios. Dispôs que lhe acompanhe em seu cativeiro.
Hugh a olhou como se falasse uma língua estranha a seu ouvido.
-Repita isso - ordenou franzindo o cenho e cruzando os braços em atitude beligerante.
Anne tentou dissimular sua perturbação. Criou-se sob a tutela do Dragão e, até o momento, jamais pensou que existisse outro homem capaz de intimidá-la.
-Enrique ordenou que compartilhasse seu castigo na Torre - comunicou atropeladamente passando a um lado para permitir que os homens entrassem com seus baús - Ali, por favor - assinalou, recuperando parte de sua compostura.
Hugh seguiu o processo impassível, como se realmente não acreditasse em suas palavras.
-Acha que sou estúpido? - inquiriu com um sorriso na boca.
Aquele sorriso a afetou mais do que estava disposta a admitir. Tirou a capa dobrando-a com cuidado sobre o braço.
-Todo mundo sabe que tem uma cabeça privilegiada e que é impossível lhe enganar - respondeu ela a modo de graça.
Hugh levantou uma sobrancelha ante a brincadeira. Deixou que seus olhos percorressem o perfil feminino parando na sutil curva de seu lábio inferior por simples capricho.
-Agora, me explique o que lhe traz realmente aqui - exigiu menos alterado, não parecia que Enrique tivesse decidido nada sobre seu futuro, pensou aliviado, se ela se atrevia a brincar dessa maneira.
-Já disse se tivesse se dado ao trabalho de escutar minhas palavras...
-Não, até que decida falar com seriedade.
Os olhos da jovem brilharam atrás das largas pestanas.
-É tão obtuso como para não entender? Enrique ordenou minha prisão junto a você - resfolegou pronunciando as palavras sílaba a sílaba.
Hugh levantou uma sobrancelha. Obviamente, continuava sem acreditar.
-Enrique nunca faria algo assim.
-Pois acredite, fez - contradisse Anne franzindo o nariz em um gesto que a Hugh recordou o de uma gata zangada.
-Mas algo deve ter lhe empurrado a tomar uma decisão assim, alguém lhe acusou? Não tem sentido que a tenha mandado prender por simples capricho.
-Terminamos milady - disse um dos soldados fazendo com que Hugh tirasse o olhar da jovem.
Anne se virou para o homem com um sorriso de gratidão em seus lábios que fez com que este se ruborizasse até as orelhas.
-Foi muito amável, me diga seu nome para que possa lhe recompensar adequadamente - pediu colocando uma mão sobre o antebraço do soldado, quem parecia próximo ao desmaio.
-Seymur, milady - gaguejou quadrando-se. Hugh revirou os olhos. Pobre diabo! Grunhiu para si mesmo, irritado.
Anne disse umas palavras mais a ele, mas Hugh as ignorou para fixar sua atenção nos baús depositados no chão. Ainda não conseguia entender o que podia significar. Sem dúvida, Anne zombava dele e não o fazia nada mal ao considerar seu desconcerto. O que se propunha aquela temerária donzela agora? A pergunta piscava em seu cérebro insistentemente sem que no momento pudesse encontrar uma resposta satisfatória.
O grupo de homens partiu. Depois deles a trava metálica da fechadura foi assegurada do exterior.
Não podia ser! Continuava sem acreditar! Sem dúvida, tudo aquilo era uma brincadeira de péssimo gosto e a jovem, que agora inspecionava a cela, era a culpada!
-Senhora! Estou esperando suas explicações - grunhiu asperamente.
-É cabeça dura - suspirou ela sentando-se sobre a cama para comprovar sua firmeza.
Os olhos de Hugh viajaram até os tornozelos da jovem, descobertos por descuido. Subiu trabalhosamente por suas panturrilhas cobertas com grossas meias de lã. Tinha as pernas magras, com tornozelos finos, tal e como gostava.
-Continuo sem me convencer. Diga-me, Anne o que fez? - interrogou com os olhos estreitos.
Aquele tom fez com que Anne lhe prestasse a devida atenção com o pêlo do corpo arrepiado. Podia a limitação do espaço lhe fazer parecer mais corpulento e mais perigoso? Perguntou-se sentindo a garganta seca.
Inspirou pelo nariz levantando da cama.
-Nada. Simplesmente, cansei de esperar uma audiência que sempre parecia atrasar-se - afirmou levantando o rosto.
-O que?
-Enrique estava muito ocupado com outras questões de estado para atender as minhas suplicas.
-O que suplicava?
-Minhas petições sobre sua liberdade.
Hugh recebeu essa afirmação com uma leve piscada de desconcerto. Uma agradável sensação de calma subiu por seu peito. Anne tinha tentado advogar por ele.
-Está claro que Enrique não tem interesse em resolver esta situação, eu somente tentei lhe pressionar.
- Pressionar? - repetiu ele incrédulo com sua audácia. Que diabos lhe disse para acabar na prisão?
A jovem apertou levemente a mandíbula o que fez com que Hugh suspeitasse que fosse um gesto inequívoco de teimosia.
-Simplesmente que não lhe considerava capaz de um crime tão atroz.
Hugh balançou a cabeça. Se havia uma maneira de surpreendê-lo ainda mais, Anne se encarregaria de encontrá-la.
-Que me parecia injusto que lhe retivesse aqui sem que mediasse nenhum julgamento no qual pudesse demonstrar sua inocência - prosseguiu ela.
-Ah, sim? - inquiriu levemente divertido.
A jovem esquentou as mãos frente ao braseiro.
-Sim. Isto podia prefaciar-se durante anos e não estava disposta a continuar esperando de braços cruzados.
Sua afirmação fez com que Hugh se endireitasse. Assim, a verdade do assunto era que a jovem desejava se desfazer desse matrimônio imposto o quanto antes. Sua impaciência por livrar-se dele era o que a tinha levado a atuar como uma louca inconsciente.
Uma corrente de irritação fluiu por suas veias lhe fazendo apertar os punhos.
A jovem alheia a seu tormentoso estado, sacudiu a cabeça olhando sobre o ombro os móveis dispostos ante ela.
-É essa a única cama? - interrogou com curiosidade, enquanto as brasas iluminavam seu perfil.
Hugh franziu o cenho ante seu tom exigente, mas seus olhos se atrasaram na feminina visão que lhe apresentava. Anne usava um vestido francês com sutiã e mangas largas em seda azul. O suave brocado do espartilho superior se ajustava sem excesso a seu torso fazendo ressaltar as formas arredondadas de seus peitos. O tom escuro de suas roupas contrastava com a camisa de linho elegantemente rematada com renda no pescoço e punhos. Usava o cabelo preso na nuca, entretecido artisticamente com uma rede de linho de ouro e pérolas que deixava escapar largas mechas frisadas em torno das têmporas. O decote alto de seu vestido lhe permitia vislumbrar uma pequena fração de sua deliciosa clavícula. Hugh sentiu pulsar o desejo entre as pernas. Afastou o olhar com desgosto. Nem todos os Santos celestiais poderiam lhe obrigar a pensar nela de outro modo que não fosse como o de uma donzela chata e impertinente.
A jovem escolheu esse momento para inclinar-se ligeiramente sobre o fogo, fazendo com que o tecido de seu vestido acariciasse a curva de suas nádegas. Tinham forma de coração, ligeiramente empinado e de aparência firme. Tão perfeito que as mãos arderam de vontade tocar. Então percebeu que ficaria preso entre essas quatro paredes com ela a ela tantos dias e tantas noites como quisesse Enrique.
-Não pode ficar aqui - resolveu repentinamente pegando-a pelo braço para arrastá-la para a porta. Não era tão estúpido como para não reconhecer o perigo. Se ela ficasse ali acabaria sucumbindo aquele incipiente desejo e ambos acabariam apanhados em um matrimônio não desejado. Guardas! - bramou esmurrando as sólidas paredes - Guardas!
A mira metálica se abriu deixando entrever a parte superior do rosto de um homem.
-Milorde?
-Houve uma confusão, Lady Darkmoon deve ser liberada.
-Sinto muito, senhor, sua majestade impôs assim.
-Então, tire-a daqui, estou seguro de que há celas livres neste lugar - argumentou interrompendo a tentativa da jovem de liberar-se com um aperto.
-São ordens de Enrique, milorde, no momento, ela permanecerá aqui, junto com você - explicou o soldado, que com uma inclinação de cabeça se despediu de ambos fechando a mira.
Maldito Enrique! Maldita Anne! Malditos todos!
-Quer deixar de atuar como um demente e me soltar? - suspirou Anne tentando separar seu braço das garras do homem.
Hugh reagiu de má maneira, soltando-a bruscamente e lhe dando as costas para passear pela estadia como um leão raivoso.
-É a mulher mais rebelde, impertinente e teimosa que tive a desgraça de conhecer - trovejou levantando o olhar até o teto como se exigisse uma explicação de Deus.
-Acho que exagera – contradisse ela rejeitando qualquer sentimento de culpa por suas ações.
-Que exagero! - Hugh parou com o olhar escurecido pela fúria abatendo-se sobre ela como um gigante helênico - Obviamente, senhora, ignora em que situação se colocou. Não, nem sequer se deteve para pensar que podemos permanecer aqui semanas, meses ou anos, presos na mesma cela, enlouquecendo de tédio.
Ela pestanejou com o estômago subitamente encolhido ante essa perspectiva.
-Estou segura de que Enrique atenderá meu pedido com maior presteza agora que todo mundo sabe da minha sorte - assegurou-lhe - O Conselho Real lhe urgirá a encontrar uma solução para nossa situação, meu pai tinha grandes amigos entre os conselheiros, eles não apoiarão minha prisão - afirmou, mas sua voz denotava certa inquietação.
-Enrique pode nos manter aqui até o fim dos tempos, se assim o desejar, e sabe - zombou ele - E nem o parlamento nem os anjos do céu poderão fazer nada contra isso.
Anne retrocedeu rejeitando fisicamente essa perspectiva. Ele a seguiu com o olhar delimitando a escassa luz com o largo contorno de seus ombros.
-Por sua culpa estamos obrigados a compartilhar esta maldita cela. E se for medianamente esperta pode imaginar em que pode acabar todo este embrulho.
De repente, a certeza de suas palavras a golpeou. Não podia ser! Repetiu para si mesma notando que lhe faltava o ar. Olhou-o com os olhos totalmente abertos, como se tivesse despertado de um plácido sonho para enfrentar-se um terrível pesadelo.
-Eu somente pretendia defender sua causa - desculpou-se um pouco enjoada.
-Por seus próprios interesses - bufou ele - Acaso me acha estúpido? Sei muito bem que para se desfazer deste matrimônio precisa que minha inocência seja provada.
Anne tentou balançar a cabeça afirmativamente, mas frente a seus olhos a realidade se apagou como um reflexo sobre a superfície da água. As palavras de Hugh deixavam clara a situação. Via-se obrigada a permanecer a seu lado indefinidamente juntos dia e noite, compartilhando uma intimidade própria de um marido e uma esposa. Não, negava-se a aceitar essa opção. Enrique reconsideraria sua atitude (tinha que fazê-lo) e quando isso acontecesse teria a liberdade de solicitar a anulação desse matrimônio. Aferrou-se a essa idéia com força, como um náufrago a sua tábua de salvação.
-Responda a minha pergunta: É essa a única cama? - inquiriu sem atrever-se a lhe enfrentar, porque a questão tinha adquirido uma nova importância.
-Sim.
-Então, terá que dormir no chão - disse com suavidade, sem achar outra solução adequada a seus planos. Não podia compartilhar o mesmo leito com Hugh. A anulação do matrimônio se complicaria terrivelmente.
Hugh levantou uma sobrancelha sem deixar de olhá-la.
-Em meu baú há alguma capa além desta, além de outra roupa de cama, pode fazer uma cama com elas. – Parou para observar os tapetes de pele de ovelha no chão - Isto também pode lhe servir. - Hugh a viu colocar sua capa sobre a pele de ovelha, perto do braseiro de ferro.
-Estou segura de que não passará frio - concluiu olhando com o cenho franzido para a cama.
-Seguro que não - aceitou ele com um sorriso ressentido. Agora senhora, proponho que descansemos, amanhã decidiremos como enfrentar esta situação. Jantou?
-Comi algo no palácio, o que... O está fazendo? - perguntou alarmada quando começou a desfazer-se de seu colete. - A isso, seguiu sua camisa de linho.
Os olhos da jovem se abriram ao observar o torso nu. Um torso de elegantes músculos e pele dourada adornado com uma capa de pêlo castanho que afinava até converter-se em uma tênue flecha de pêlo castanho que atravessava seu ventre plano e entrava sob a cintura de suas meias de pele. Tragou saliva notando como a temperatura de seu corpo se elevava lhe esquentando as bochechas.
-Eu gosto de dormir sem roupas - explicou ele levando as mãos ao lugar justo onde ela olhava nesse instante. Seu sufoco aumentou fazendo-a sentir incomoda inclusive com o roce de seu vestido. Continuou hipnotizada, o movimento dos largos dedos sobre a fivela do cinto de couro. Um selo de ouro cintilou em seu dedo anelar tirando-a de seu encantamento. Com um som afogado, apressou-se a lhe dar as costas. O coração trovejava no peito com fortes palpitações que se estenderam por seus membros.
Hugh se permitiu um sorriso enquanto se desfazia de suas botas com um chute antes de empurrar a calça quadril abaixo. Viu que ela tinha a respiração agitada, quase ofegante e lhe ocorreu pensar que o som era dos mais sugestivos, quase como o de uma mulher entregue ao prazer. Aquele pensamento lhe fez franzir o cenho desconcertado. Pensamentos daquele calibre não eram adequados dada a situação. Se quisesse sair ileso daquilo teria que impor certa disciplina. Tentaria ver a jovem como a sua própria irmã, ignorando qualquer tipo de atração entre ambos. Com um grunhido, recolheu suas roupas e, tão nu como Adão no Éden, dirigiu-se para a cama.
Anne se negou a olhar quando o quarto ficou em silêncio. Estava muito emocionada para fazê-lo. Não é que nunca tivesse visto um homem nu. Na realidade, tinha visto um bom número em distintos graus de nudez. Em Norfolk, os camponeses costumavam trabalhar sem camisa no verão, tinha atendido a inúmeros feridos nas justas que se celebravam anualmente em Norwich e em certa ocasião surpreendeu alguns dos soldados do Dragão refrescando-se no riacho que percorria a propriedade sem nada que os cobrissem. Mas nenhuma dessas ocasiões a tinham preparado para ver um homem como Hugh, cujo corpo parecia ter sido moldado pelos deuses do Olímpio, um Adônis grego capaz de inspirar a poetas, um verdadeiro herói homérico.
Conseguiu reunir a coragem necessária para olhar sobre o ombro só para encontrar-se com o olhar zombeteiro dele, que, acomodado na cama, aguardava com paciência.
-Boa noite, esposa - disse antes de lhe dar as costas e fechar os olhos.
-Mas... Acreditei que dormiria no chão - acusou-o sufocada com a brincadeira.
Hugh abriu um olho.
-Exatamente, esposa, "acreditou" - murmurou colocando-se sob as mantas. Por favor, durma bem e apague as velas, os guardas as racionam com mesquinharia.
-Não dormirei na mesma cama com um... com um... - gaguejou.
-Sim? - Com um negociante de ovelhas! - finalizou triunfal elevando o queixo.
Hugh desdenhou o insulto com um bocejo.
-Como queira. De minha parte, já estive em muitas camas incômodas pela resto de minha vida - disse lhe dando as costas.
Ela o olhou, zangada. Face às escassas velas que iluminavam o lugar, havia luz suficiente para distinguir o jogo de músculos de seu ombro nu ou o alvoroço das mechas douradas que seu cabelo tinha formado em torno de sua nuca robusta. Esteve a ponto de bufar ao perceber que novamente estava olhando seu corpo como uma total e absoluta obtusa.
Girou sobre seus pés para olhar com o cenho franzido a cama que momentos antes tinha estendido junto ao braseiro. Não parecia tão incomoda, se adiantou e não seria a primeira vez que dormiria no chão. Sentou-se sobre o monte de roupas e depois de assegurar-se que Hugh continuava de costas a ela subiu o vestido, desfez o nó de suas sapatilhas e as colocou com esmero junto à cama antes de soprar a grossa vela sobre a mesa. Deitou-se na cama abrigando-se com cuidado dos pés a cabeça. Não estava tão mal, consolou-se, retorcendo-se sobre o duro chão de pedra até encontrar uma posição mais cômoda. As roupas a incomodavam limitando seus movimentos. Apesar de tudo, poderia dormir, pensou vitoriosa. Não emitiria uma queixa embora sua vida dependesse disso. Suspirou com fingida comodidade enroscando-se em um novelo.
-Estou tão cansada que dormiria sobre um leito de pregos - declarou bocejando.
-Cuidado com os ratos, então. Costumam aparecer com a chegada da noite - aconselhou Hugh da cama.
A recomendação fez com que a jovem se sentasse bruscamente sobre as peles olhando ao seu redor com apreensão. Pareceu-lhe ver algo entre as sombras. Conteve um grito enquanto observava atentamente a escuridão. Finalmente, não seria uma boa noite, reconheceu desgostosa.
Hugh observou a jovem enquanto colocava o colete. Ela estava deitada de lado sob a grossa capa, com o rosto parcialmente oculto sob um braço e seu negro cabelo estendido sobre a pele de cordeiro. Um irrefreável desejo de inclinar-se e afundar os dedos em sua densa suavidade o invadiu. Face à placidez que agora relaxava seus traços, havia linhas de cansaço em seu rosto. A dama não tinha desfrutado de seu descanso tal e como pretendia, pensou com maligna satisfação. Um sorriso ligeiro borbulhou em seus lábios negando-se a sentir compaixão. Depois de tudo, ela era a responsável pela situação. Incompreensivelmente, um sentimento de amparo o assaltou apagando toda amostra de diversão de seu rosto. Antes que percebesse se encontraria comendo e dormindo no chão para lhe evitar moléstias, disse a si mesmo com irritação. Já tinha visto o que seus encantos provocavam nos homens: um sorriso, um bater de cílios, bastava para convertê-los em escravos incondicionais de sua pessoa. Aquela visão de futuro lhe fez afastar-se enquanto ajustava o cinto sobre as roupas. Sentou-se na mesa e esticou suas largas pernas. Estudou com atenção a jovem com o cenho franzido. Lentamente, a luz matinal foi entrando na cela. Ele, entretanto, permaneceu imóvel, com o olhar atento a jovem que agora era sua esposa.
Anne piscou pesadamente enquanto se sentava sobre a improvisada cama. Desesperou-se notando a rigidez de seus músculos. Olhou a seu redor em busca de Hugh que, apoiado contra a parede, observava concentrado o exterior. Perguntou-se se ele teria retomado o aborrecimento por suas ações. Encolheu-se mentalmente os ombros enquanto ficava de pé. Observou com o cenho franzido suas roupas enrugadas enquanto movia lentamente o pescoço.
Sobre a mesa, os restos do café da manhã que Hugh tinha tomado chamaram sua atenção, tinha uma fome canina. Anne pegou um pedaço de pão e de queijo e se sentou em uma cadeira para degustá-los.
-O que se faz em um lugar como este? - perguntou engolindo o último pedaço de queijo.
-Isto não é um salão da corte, menina. As únicas diversões que nos podemos permitir são contar os minutos. - Assinalou com atitude.
Anne fixou sua atenção nas largas costas do homem enquanto levantava uma sobrancelha. Nunca pensou que Hugh fosse um homem mal-humorado, a lembrança que tinha dele era a de um jovem bem disposto à diversão e as graças, claro que os últimos acontecimentos de sua vida possivelmente azedaram seu caráter. Ficou em pé e se dirigiu aos baús disposta a encontrar algo com o que matar o tempo.
-Procura algo? - interessou-se Hugh ante seus esforços.
Anne lhe devolveu a olhar inclinada sobre a beirada do baú, afastando uma rebelde mecha de cabelo com um sopro. Esse gesto infantil fez com que o cenho do homem se aprofundasse. Viu-a tirar um singelo vestido de lã azul, uma anágua de linho, um tecido e uma escova de prata.
-Eu gostaria de me assear um pouco - disse dirigindo-se para a jarra de água. Hugh a seguiu com o olhar, incomodando-a. Sem dúvida, ele sabia que não podia realizar tão íntima tarefa ante seu olhar, pensou molesta. Ao parecer, propunha-se a pôr a prova seu temperamento - Volte-se e vigie a porta.
A petulante ordem fez com que Hugh eleva-se uma sobrancelha zombadora. Ela o olhou desafiante.
-Por favor - acrescentou sem parar para comprovar se ele obedecia.
Depois de uns tensos segundos de espera, Hugh emitiu um grunhido ofendido enquanto se dirigia à porta. Apoiou um ombro contra a parede e encarou sua tarefa com concentrada aspereza.
Anne olhou indecisa suas amplas costas. Frente a ele fingia uma segurança que estava muito longe de sentir. Para não delatar-se atuava tal e como faria Margaret, a duquesa de Norfolk. Uma das vantagens de ter sido sua pupila era precisamente esta. O férreo caráter da dama podia ser muito inspirador.
Voltou à cabeça sobre o ombro para comprovar que Hugh continuava de costas a ela e com presteza se desfez de seu vestido. Afundou as mãos na água fria e se lavou com energia o rosto vestida unicamente com suas anáguas.
- Já acabou? -perguntou Hugh com impaciência de onde estava.
Sua voz bastou para que Anne desse um salto.
-Não se vire! - exigiu com agitação enquanto seus dedos se enredavam nos laços de sua anágua.
A impaciência do homem se elevou um grau ante esse tom.
-Eu não gosto de ordens, senhora - pronunciou ameaçador, e como não era um homem dado a obedecer sem mais, virou a cabeça sobre o ombro disposto a desafiar a "autoridade" da pequena tirana.
Péssima idéia. Soube assim que seus olhos toparam com as cremosas costas e escorregaram como uma gota de água até as nádegas nuas. Todos seus instintos masculinos despertaram ante a inusitada visão da donzela que com os braços sobre a cabeça tentava colocar uma nova camisa interior.
-Me assegure de que não está olhando - requereu ela com a voz apagada pelo tecido.
-Asseguro-lhe - mentiu com a boca seca enquanto seus olhos devoravam a feminina curva de seus quadris para deter-se com atordoamento nas encantadoras covinhas de suas costas. A jovem ainda estava com as meias, presas com ligas cor nata à altura da coxa que lhe acenderam o sangue. Se alguma mulher o tinha excitado mais que essas meias, vestindo o corpo nu de Anne Darkmoon não conseguia se recordar. Ao fim, ela conseguiu colocar a anágua. O ligeiro tecido ocultou o pálido corpo atrás de uma cascata branca. Hugh voltou à cabeça com rapidez olhando de novo para a porta. Ficou contra a parede com a testa apoiada contra seu braço em uma tentativa de se recuperar do ardente incêndio sob sua calça. Um intenso rubor lhe cobria o rosto enquanto mantinha os olhos fortemente fechados.
Anne ajustou os nós de seu vestido torpemente. A ensurdecedora batida de seu coração a obrigou a olhar sobre o ombro. Hugh continuava contra a porta, com uma de suas largas pernas flexionada. Com um suspiro de alívio, esticou a saia de seu vestido sentindo-se ao fim cômoda. As elegantes roupas que tinha vestido na noite anterior estavam bem para a corte, não para os incômodos limites de uma cela. Mais segura de si mesma, pegou o pente da mesa e tentou pôr ordem em seu alvoroçado cabelo.
-Pode voltar - anunciou calçando seus sapatos de couro.
Hugh permaneceu de costas a ela, imóvel e silencioso.
-Ouviu-me? - perguntou recolhendo sob o braço as roupas desprezadas.
-Sim, maldição, ouvi - resmungou Hugh. Sua voz rouca e mal-humorada fez com que a jovem parasse para lhe observar.
-Não pode continuar zangado eternamente – disse jogando a roupa no interior do baú.
-Não esteja tão segura - respondeu ele.
Anne o ignorou, o rápido asseio tinha melhorado seu humor, mas ainda ficava uma questão de suma urgência para resolver. As necessidades de seu corpo se tornavam prioritárias. Precisava encontrar algum modo de aliviar-se e rápido, meditou enquanto tirava um tabuleiro de jogo do fundo de sua arca. O caso é que no lugar não havia nada remotamente parecido a uma latrina e tampouco a privacidade necessária para uma atividade dessas características.
Hugh se voltou por fim. Tinha o cabelo revolto e seu desalinhado somente contribuía para incrementar seu atrativo. Não era estranho que as mulheres suspirassem por ele. Anne observou sua roupa; calça de couro escuro que cobria seu corpo como uma segunda pele os maciços músculos de suas pernas e uma camisa branca cujas mangas se sobressaíam sob o colete de veludo, uma discreta criação bordada em fio de seda negro. Como único complemento a esse desdobramento de virilidade, um grosso cinto de couro em cuja fivela de prata aparecia gravado o emblema de sua família. Anne finalizou seu percurso em suas botas. Bastava um vistoso chapéu ou um ostentoso broche para imaginá-lo nos salões da corte. Sua elegante estampa acabou irritando-a. Não era justo que ele parecesse um príncipe com qualquer coisa que usasse!
Afogou um suspiro e colocou o tabuleiro sobre a mesa.
-Gosta dos jogos de mesa?
Hugh olhou com ceticismo o tabuleiro.
-Muito inocente para meu gosto - objetou desprezando as fichas redondas que lhe estendia.
-Têm outra coisa melhor com que ocupar seu tempo? - perguntou ela irritada.
Dedicou-lhe um escuro olhar e durante um escasso segundo uma eletrizante sensação de vertigem a fez emudecer, como se uma voz rouca lhe tivesse sussurrado ao ouvido. Anne conteve o fôlego sem atrever-se a piscar, tão agitada que o coração quase parou no peito. Finalmente, ele encolheu os ombros e pegando a caixa de fichas de sua mão, começou a colocá-las com brutalidade sobre o tabuleiro.
-Não, suponho que não - resmungou.
Anne o viu colocar as fichas com destreza, seus dedos largos e ligeiros se moveram com rapidez como se estivessem ansiosos por ocupar-se de algo.
-Hugh?
-Sim? - respondeu ele distraído.
A jovem inspirou profundamente tentando reunir a coragem necessária para dizer o que queria. Hugh deve ter notado sua inquietação porque levantou a cabeça para olhá-la com uma sobrancelha arqueada.
-Sim? - repetiu, apoiando os quadris sobre a mesa.
-Há neste lugar...? Quero dizer onde posso...? - Ai! Por que era tão difícil dizer?
Sua gagueira captou a completa atenção do homem, que com os olhos cravados em seu rosto aguardava que continuasse. Um furioso rubor tingiu as bochechas femininas. Anne inspirou furiosamente pelo nariz, mas sua integridade se veio abaixo ao enfrentar-se aos olhos dourados.
-Anne, se o que deseja é se aliviar chame os guardas, eles lhes acompanharão às latrinas - indicou Hugh com naturalidade. O divertido tom em sua pronúncia desmentia a circunspeção de seu rosto.
A jovem sentiu ferver as bochechas. Fingiu desenvoltura ao colocar a escova sobre a mesa.
-Obrigado - disse com estoicismo e sem atrever-se a olhar seu rosto, encaminhou-se para a porta desejando que a terra se abrisse sob seus pés e apagasse seu passo pelo mundo.
Hugh observou a meritória partida da jovem a caminho das latrinas com um gesto de triunfo que perdurou até sua volta.
Capítulo 9
Anne olhou sob o véu de seus cílios os movimentos de Hugh. Ele trabalhava sobre a mesa com a cabeça inclinada sobre um monte de pergaminhos enquanto uma grossa vela brilhava a um lado conferindo a seu cabelo a tonalidade do ouro fundido. Enrique tinha embargado suas posses mediante um decreto real, assim o tinha feito saber através de um de seus tesoureiros cuja missão era avaliar seu patrimônio. Ambos tinham mantido uma azeda discussão na cela que tinha finalizado com um acerto insatisfatório para Hugh; ele continuaria à frente de suas empresas, mas seus lucros futuros recairiam nas arcas da coroa. Uma solução sardônica havia dito o tesoureiro, injusta na opinião de Hugh, cujo espírito empreendedor tinha surpreendido Anne. Só ele era capaz de ver vantagens onde outros viam prejuízos e atuar em consequência, obtendo folgados benefícios. Graças a seus conhecimentos, Anne tinha aprendido os fatores primitivos na hora de empreender uma negociação. Hugh tinha se descoberto ante seus olhos como um homem inteligente, de calculada moderação na hora de tomar decisões. Nesses momentos, quando o ritual de entrega de chaves se efetuou horas atrás, ele continuava trabalhando conscienciosamente, alheio a sua presença. Embora isso não fosse nada novo, na semana de cativeiro que tinham compartilhado, ele a tinha ignorado convenientemente, exibindo um humor de cão. Apesar disso, em várias ocasiões a jovem se sentia observada, perseguida pelos olhos ambarinos.
Anne emitiu um suspiro de tédio. O som chamou a atenção de Hugh, que levantou a cabeça para olhá-la. Observou-a massagear o pescoço enquanto ficava em pé com ar cansado.
-Hoje dormirá na cama - anunciou deixando cair de lado a pluma com a qual escrevia.
Ela olhou cética, mas se absteve de perguntar o por que dessa mudança, estava farta do chão duro. Dirigiu-se para a jarra de água para seu asseio. Dias atrás tinha disposto um improvisado biombo com um tecido suspenso sobre uma corda que lhe permitia gozar de certa intimidade para efetuar sua higiene íntima ou trocar de roupa sem ter que obrigar De Claire a olhar à parede. Despiu-se com rapidez substituindo seu vestido por uma camisa de noite e um grosso robe de veludo. Depois, esfregou o rosto com a água refrescando a boca com umas luxuosas folhas de hortelã fresca que Lady Botwell lhe tinha feito chegar. Antes de abandonar a segurança do biombo observou seu marido afastando o tecido ligeiramente. A rotina diária estabelecida entre ambos começava a agradá-la, reconheceu. Pela manhã, quando a luz do sol apenas era visível, compartilhavam o café da manhã sentados na mesa, depois, enquanto as empregadas da torre recolhiam a mesa, ela se ocupava de arrumar seu aspecto. Também sacudia as cobertas da cama e ventilava as peles nas quais dormia. Os guardas a acompanhavam às latrinas três vezes ao dia. Também tinha um passeio permitido ao redor da fortaleza, pois não tinha sido considerada por Enrique uma presa do estado, mas sim, mas bem uma mulher disposta a compartilhar a sorte de seu marido, algo honroso desde todos os pontos de vista. A sua volta, ocupava o tempo com sua correspondência. Diariamente, escrevia a Lady Norfolk, a Lady Botwell e, ocasionalmente, ao secretário real para rogar sua liberação. A chegada do almoço interrompia essa atividade. Depois da comida e enquanto Hugh sumia no trabalho de cifras e cálculos, bordava animadamente frente à janela até a hora do jantar. Por regra geral, Hugh continuava trabalhando até bem entrada a noite. Anne o observava em sua cama, memorizando cada um de seus gestos: o cenho franzido quando calculava uma cifra, as diminutas dobras ao redor de seus olhos quando lia algo, o mecânico golpear de seus dedos quando algo o deixava impaciente. Entesourava todos eles com precisão pictórica, recreando-se em sua lembrança na escuridão da noite. Perguntou-se se sua antiga obsessão pelo homem tinha retornado. Apaixonar-se por Hugh de novo seria uma estupidez como lançar-se a um canal cheio de crocodilos. Sua experiência no passado assim o testemunhava. O homem adorava as mulheres (em plural) e reservava seu coração para seu amor mais prezado: seu trabalho.
Anne se deixou arrastar pela suavidade da cama. Depois de uma semana de medo atroz de ser assaltada pelos ratos sobre o duro e frio chão, a morna e bem-vinda cama lhe pareceu simplesmente gloriosa. Apoiou o rosto contra o travesseiro de plumas observando calidamente Hugh, de novo imerso em seu trabalho. O distinto perfume do homem impregnava as cobertas com seu exótico toque de madeira e essências orientais, a sugestiva fragrância com a qual ele lavava o rosto depois da visita do barbeiro da Torre. Anne inspirou fundo enchendo os pulmões, invocando sua imagem atrás das pálpebras fechadas. Nessa imagem, a luz das velas brincava sobre a dourada pele de seu peito, criava sombras sobre os magníficos músculos de suas costas, sublinhava a fina linha de pêlo castanho que se perdia sob a cintura de sua calça de pele. Imaginou a si mesma roçando a dureza de seu ventre, a rugosidade desse pêlo contra seus dedos. Uma doce sacudida se deslizou por suas vísceras. Uma estranha ansiedade lhe fez apertar as coxas ao notar um pulsar entre as pernas e a dolorosa contração de seus mamilos. A sensação foi tão intensa que um gemido escapou de seus lábios. Ao perceber, abriu os olhos, envergonhada procurando com o olhar o causador de semelhante ofensivo. Felizmente, Hugh não lhe prestava atenção. Deu-lhe as costas com cautela e concentrou toda sua atenção na gretas da parede que tinha a sua frente.
Hugh observou a crescente escuridão da janela, sua cabeça abstraída se encontrava muito longe. Seus pensamentos giravam em torno de uma única idéia: Anne Darkmoon. A dama parecia haver-se situado em sua cabeça para fixar-se ali permanentemente. Desde que seus olhos se abriam na manhã se sentia enfeitiçado com sua presença, excitado com seu aroma, derrotado frente a seus intensos olhos, ávido de cada um de seus gestos, pendente de sua respiração, faminto de sua atenção. Nunca antes havia se sentido tão estupidamente afetado por uma mulher. Por que precisamente com Anne? Era como se ela lhe tivesse se metido debaixo de sua pele, como se sua vontade tivesse sido vencida pelo capricho de uma menina. E a desejava. Demônios do inferno! Como a desejava! Quando fingia trabalhar o único pensamento coerente que lhe rondava a cabeça era deitá-la de costas e meter-se dentro dela. Essa ingovernável sensação de descontrole o enfurecia. Se continuasse assim cometeria alguma estupidez, como deitar-se com ela e condenar a ambos a um matrimônio permanente.
Olhou sobre o ombro para a jovem placidamente descansando sobre a cama. O cabelo derramava as mechas sobre o travesseiro. Com um suspiro pesaroso observou a incômoda cama no chão.
A luta entre sua cabeça e corpo estava lhe deixando louco, pensou irritado.
***
O estranho ruído que a despertou horas depois parecia provir do outro lado da estadia, justo atrás do biombo. Anne estreitou os olhos tentando distinguir entre as escuras sombras. Pareceu-lhe escutar um gemido afogado, tão tênue que se confundia com o sussurro do vento no exterior. O som se repetiu segundos depois. Hugh! Compreendeu repentinamente e sem parar para pensar, saltou da cama.
-Hugh? - chamou buscando no escuro a dura pedra de quartzo convenientemente depositada junto a cama.
Um grunhido animal se elevou do canto quando a fraca chama de uma vela fez retroceder as sombras da cela.
-Apague essa vela, mulher - bramou fazendo-a saltar sobre os pés do biombo.
Ela se moveu indecisa enquanto Hugh lhe dava as costas apoiando uma mão sobre a parede. O desespero de sua voz a animou a aproximar-se com cautela. A amplitude de suas costas se sobressaía sobre o biombo lhe permitindo ver os robustos ombros inclinados contra a parede.
-Encontra-se bem? - interrogou avançando um passo.
-Maldição! Deixe-me em paz! - gritou furioso por aquele assalto a sua intimidade.
O brutal grito a fez piscar. A jovem cravou um ofendido olhar no centro dessas costas. Que direito tinha de tratá-la assim quando só se preocupava com seu bem-estar?
-Só tentava ser amável, mas vejo que as amabilidades com vocês caem por terra, estou farta de seu humor de cão - assinalou colocando as mãos aos quadris. Conforme-se com o fato de que estamos juntos nisto, milorde.
Hugh voltou o rosto para olhá-la. Seus olhos exibiam um olhar feroz, quase animal. Suas pupilas dilatadas refulgiram como duas brasas ardentes fazendo-a retroceder instintivamente. O que menos necessitava nesse momento era manter uma discussão sobre seu estado de ânimo.
-Anne, por favor, volte para a cama - sussurrou com suavidade rogando para que ela obedecesse sem protestar mais.
Ela assentiu, mas em um último momento, avançou para colocar-se a suas costas.
Maldição! Grunhiu Hugh para si mesmo puxando torpemente suas roupas. Nesse instante, notou a mão de Anne sobre suas costas nuas. Um tremor sacudiu o corpo do homem enquanto tentava de colocar freneticamente a roupa.
-Hugh, se houver algo no qual possa lhe ajudar...
-Anne - grasnou ele tentando afastar-se de sua mão.
A rejeição de seu contato feriu a jovem. Os olhos cinza ficaram suspensos sobre a fibrosa estrutura de seus músculos. Sua calça frouxa tinha escorregado sobre o quadril mostrando uma mínima porção de pele de suas escuras nádegas. Hugh permaneceu de costas a ela com uma expressão de intenso sofrimento sobrecarregada em seu perfil. Com um suspirou posou a mão em um de seus braços para obrigá-lo a voltar-se. Ele podia ser teimoso, mas ela era mais.
-Me deixe ver o que lhe adoece, posso lhe ajudar se me deixar - pediu piedosa fazendo escorregar sua mão pelo forte antebraço dele confundindo seu mal-estar.
Hugh deixou escapar um assobio tentando se afastar quando seus dedos toparam acidentalmente com aquela parte de seu corpo.
-Anne, não! - conseguiu pronunciar a ponto de fraquejar.
Sua voz afogada e trêmula convenceu à jovem: ele estava sofrendo. Empurrou-o com resolução tentando que a olhasse.
-Não seja criança, Hugh. Deixe-me ver. O que é? O jantar lhe caiu mal? Tenho que chamar o médico? - disse lhe dando um último puxão.
Seus olhos desceram por seu ventre nu. Hugh mantinha as mãos sobre sua entre perna. Anne compreendeu tardiamente o porquê.
-Oh, Céus! - exclamou retrocedendo torpemente. Seus olhos conseguiram distinguir a dura protuberância que Hugh sustentava em seu punho. A extensa rigidez apontando em sua direção a fez sentir-se ameaçada, como se ele esgrimisse uma espada em vez... Em vez... Não podia acabar esse pensamento, compreendeu presa pelo pânico. O fogo da vergonha a envolveu lhe impedindo de reagir. O corpo de Hugh se contraiu, uma gota de suor escorregou por sua têmpora enquanto tentava se ocultar do olhar da jovem. Um estremecimento o sacudiu. Os olhos da jovem voaram para seu rosto.
-Diabos, não! - ouviu-lhe gemer com as mandíbulas rígidas enquanto uma delatora umidade impregnava seus dedos e seus traços se distorciam convulsionados.
Consternada, Anne observou a morna destilação de sua semente sobre o chão. Vacilando para trás caindo torpemente sobre a cama. Envolveu-se nas mantas ocultando a cabeça enquanto rogava fervorosamente a todos os Santos de sua devoção que tudo fosse um sonho.
Depois de uns segundos de recuperação, Hugh acomodou a calça olhando furioso a jovem. Não tinha nenhum direito de lhe fazer sentir-se culpado por seus atos! Inferno e condenação! Ele era um homem, um homem com necessidades de homem. Adiantou-se com gestos bruscos para a mesa. Inspirou pelo nariz várias vezes observando com concentração a imprecisa figura da Anne sob os cobertores. Só seus cabelos eram visíveis. Ser surpreendido procurando um pouco de prazer não era algo que devesse lhe envergonhar. Era um homem são com meses de abstinência a suas costas. Que mal havia em procurar quietude em seu próprio corpo? Era um mal menor se o comparasse com o que lhe rondava a cabeça ultimamente. Mesmo assim, compreendia que aquela imagem pudesse resultar dura para uma donzela sem iniciação no mundo das paixões carnais. Possivelmente deveria lhe explicar que aquilo era normal em um homem, que assim era como os homens canalizavam suas "energias".
-Anne.
Ela permaneceu imóvel, a salvo sob as capas de cobertores.
-Vamos querida, não o faça mais complicado do que já é. O que viu é mais normal do que acha. Todos os homens o fazem. Continuamente. Certamente, inclusive você... - Sua voz se apagou envergonhada.
Um suspiro apagado se elevou da cama. Anne emergiu da confusão de mantas com um enérgico movimento.
-Não se atreva a insinuar que eu... Que eu faço essas coisas - gritou ofendida, ajoelhando-se sobre o colchão para lhe enfrentar com toda a indignação que sentia. Estava... Estava...
-Pacificando meu espírito? - ofereceu zombeteiro. Uma sutil diversão brilhava no fundo de seus olhos ambarinos. A tensão dos dias anteriores tinha abandonado parcialmente seus traços dando-lhe um ar mais juvenil, decididamente irresistível, notou Anne com estupor. Perguntou-se se certamente aquela "atividade" lhe tinha produzido alívio.
-Oh! - exclamou sem saber o que dizer - Perdoe-me por esquecer que é um devasso, um libidinoso incapaz de manter as calças em seu lugar - acrescentou porque ele parecia aguardar que dissesse algo.
Um sorriso torcido esticou os lábios do homem lhe dotando com uma aparência de um lobo.
- Acredite, nenhum "devasso" teria suportado o que eu suportei.
-A que se refere? – perguntou a jovem franzindo o cenho.
Todo rastro de diversão desapareceu do rosto do homem. Não, não lhe confessaria que a causa de suas insônias, de seu mau humor não era estar ali preso, nem sequer ter sido despojado de tudo o que lhe pertencia por direito depois de anos de trabalho. Não, a causa de todas suas inquietações e vigílias tinha nome próprio e uns olhos cinza capazes de acabar com a vontade de um exército.
Seu corpo pediu uma trégua e ele tinha decidido dar-lhe para evitar tentações maiores.
-E bem? - insistiu ela cruzando os braços sobre o peito.
Hugh apoiou os quadris sobre a mesa cruzando as pernas ante si com aparente tranquilidade enquanto acomodava as roupas. Seus olhos percorreram a ligeira camisa da jovem. O linho lhe permitia distinguir as suaves curvas que moldavam seu corpo feminino. A lembrança desse corpo nu completou a visão. Sob a tensão de seus braços o decote redondo se abriu lhe permitindo ver o pálido canal de seus peitos. Uma lunar cor canela marcava o nascimento de seu seio direito recalcando sua curva natural. Hugh apertou os punhos enquanto um novo inferno de desejo se deslocava por seu ventre. Como era possível? Rugiu para si mesmo.
Anne sacudiu a cabeça chateada ante seu silêncio. As largas mechas de seu cabelo se agitaram às suas costas lhe roçando os ombros e lhe tirando da seus pensamentos. Caminhou até a cama fazendo-a retroceder para o lugar mais afastado. Deteve-se ante ela como um titã, todo pele dourada cobrindo sua elástica musculatura.
-De verdade quer saber, querida? - ofereceu com voz rouca decidido a escandalizá-la com a intimidade de seu gesto.
-É um presunçoso que acredita que todas as mulheres deste mundo cairão rendidas a seus pés! Vou deixar claro de uma vez, De Claire, não me interessa - exclamou desafiando-o com o olhar.
-Mente - disse disposto a impedir que aquela presunçosa pisoteasse seu orgulho masculino.
-Nem todas as mulheres são estúpidas, milorde. Algumas preferimos remendar meias a ficarmos com qualquer macho que se cruze em nosso caminho, espero que sua privilegiada cabeça possa compreender.
Sem aviso prévio ele puxou os cobertores fazendo com que um irado protesto surgisse da garganta da jovem.
-Nem sequer você pode ser tão fria. Pode haver exceções, Anne e eu posso ser essa exceção - desafiou-a.
Alcançou um de seus tornozelos para arrastá-la através do colchão.
-Me solte! - exigiu a jovem tentando lhe chutar quando a dura determinação que leu em seus traços conseguiu assustá-la.
Hugh desatendeu essa ordem para situar-se entre suas coxas descobertas. Uma onda de pavor se elevou por sua garganta enquanto tentava tirar-lhe de cima. Mas ele possuía cem vezes sua força. Sem esforço a segurou; em um punho de aço as mãos com as quais tentava lhe arranhar. Puxou ela com força contra ele encaixando seu corpo no vértice de suas pernas. Nem as meias, nem o tecido de sua camisola puderam dissimular a pulsante rigidez de sua masculinidade.
Anne o olhou com os olhos exagerados. Hugh tinha o rosto sobre ela, com o nariz em sua bochecha. A cheirou como um lobo faminto provando com a ponta da língua sua pele. A umidade de sua saliva provocou uma convulsão na jovem.
-Você gostaria que voltasse a te beijar? - Subitamente Hugh tinha adoçado suas formas até converter-se em algo irresistível. Acariciou com seus nódulos o oco da garganta depositando um beijo morno sobre seu acelerado pulso. Sua boca flutuou sobre seus lábios, tão próxima como inalcançável. Um nó de desespero se trancou nas vísceras da jovem. Sim! Clamou todo seu corpo.
-Não - mentiu com voz trêmula, apertando as mãos contra os cobertores para não ceder ao impulso de esticá-las até ele.
Hugh se sustentou sobre seus antebraços liberando-a de parte de seu peso. Aquilo lhe permitiu inspirar profundamente, acomodar-se debaixo dele e reunir forças para resistir a um novo assalto.
-Embusteira - assinalou voltando para cheirá-la, roçando com seu nariz o sensível lóbulo de sua orelha. Posso sentir seu coração, bate rápido, mas se fizer isto - Fez uma pausa para lamber com a ponta da língua a parte posterior de sua orelha - então, parece querer voar - disse mordiscando a sensível cartilagem.
Anne fechou os olhos porque a sensação foi muito deliciosa para permanecer com os olhos abertos. Inspirou pelo nariz notando o peito masculino contra seus seios.
-O que quer de mim? - sussurrou abrindo os olhos.
-Um beijo que acalme esta fome.
Um suspiro trêmulo escapou dos lábios femininos.
-Me soltará depois disso?
-Sim, se assim o desejar - disse brincando com um cacho de seu cabelo.
Conseguiu assentir sabendo que sua mente era um caos. Esticou os braços para lhe rodear o pescoço. A boca de Hugh caiu sobre seu lábio inferior, mordiscando-o docemente, rendendo-a com sua paciente persuasão. Penetrou com sua língua na doçura de sua boca roçando o fio de seus dentes. Anne lhe saiu ao encontro recebendo-o em seu interior.
O coração da jovem pareceu estalar de puro êxtase ante o contato. Moveu ligeiramente os quadris acomodando-se melhor sob seu corpo. O beijo continuou até que Hugh se separou com a respiração agitada apoiando o rosto contra seu pescoço.
-Quem te ensinou a beijar? - perguntou retirando-se ligeiramente para observá-la.
Anne olhou sua boca desejando seu calor.
-Eugen - respondeu sem pensar, referindo-se ao antigo escudeiro do Dragão. O jovem tinha declinado suas obrigações marciais por causa de sua personalidade e na atualidade se ocupava da confecção do vestuário da duquesa e de grande parte de suas damas de companhia.
Hugh levantou uma sobrancelha com interrogante ceticismo.
-Quando fiz quatorze anos lhe pedi que me ensinasse como eram os beijos entre um homem e uma mulher. Quer ver como?
Hugh a soltou movido pela curiosidade.
Anne fechou a mão frente a seu rosto imitando com seu polegar a boca humana. Colocou os lábios sobre a falsa boca e fechou os olhos como se estivesse recebendo os beijos de um apaixonado amante.
Hugh a observou com diversão, enternecido pela menina cheia de sonhos que tinha sido.
-Esse maricas se esqueceu de umas quantas coisas - disse substituindo sua mão por seus lábios - Assim beija um homem a uma mulher, Anne - murmurou quando se separaram com as respiração agitada. Deixou-se cair a um lado olhando o teto.
-O que vou fazer contigo, menina? - inquiriu com um tom de desespero.
A dourada suavidade de seu cabelo parecia chamá-la. Incapaz de resistir esticou uma mão para acariciar as densas mechas.
-Não me chamem assim. Já não sou uma menina - repetiu uma vez mais fazendo escorregar seu olhar pela extensão de seu peito. Os planos bicos de peito chamaram sua atenção. O desejo pulsou em suas vísceras lhe fazendo notar uma úmida sensação de vazio.
Hugh se levantou da cama, deu-lhe as costas para dirigir-se para a janela. Uma mescla de alívio e frustração invadiu a jovem enquanto observava a elástica musculatura.
-O trato foi cumprido, senhor, posso me considerar a salvo? - perguntou tentando pôr ordem em seus loucos pensamentos.
Ele permaneceu em um frustrante silêncio.
-Hugh?
-Durma Anne, não tente sua sorte - resmungou impaciente.
-Mas...
-O que quer de mim? Diabos, mulher! Estou tentando evitar um desastre e não poderei fazê-lo se continuar com esta conversa.
Anne apertou os lábios. Sua arrogância conseguiu enfurecê-la. Com um suspiro indignado se deitou de novo na cama muito zangada para sentir-se doída com sua rejeição.
Hugh não conseguia compreender. Sentia-se como um mercenário ansioso por tomar uma praça alheia sabendo que o prejuízo que provocaria superaria o prazer da conquista. Se cedesse a tentação de deitar-se com Anne, condenaria a ambos. Deixou-se cair em uma das cadeiras e esticando as pernas ante si, dispôs-se a uma larga noite de insônia.
***
O compungido rosto de Lady Botwell mostrava o desgosto provocado pela prisão de sua jovem pupila. Ao vê-la, lançou-se sobre ela lhe dando um formidável abraço. Tinha conseguido a permissão real para visitar a condessa depois de longos trâmites. Juntas passeavam nessa manhã pelo perímetro da fortaleza, conversando em voz baixa e observando distraidamente a casa dos animais, um surpreendente recinto no interior da torre onde se exibiam exóticos animais de terras infiéis, enquanto, os armeiros reais faziam uma pausa em seu trabalho e agrupados sob um teto discutiam animadamente.
Ambas pareciam alheias à fina chuva que umedecia suas capas, absortas na conversa que as ocupava.
-É uma insensatez que Enrique consinta em lhe manter prisioneira neste lugar sinistro - sussurrava a matrona observando com desconfiança os dois soldados que escoltavam seus passos, pois estava segura de que o responsável pela Torre seria pontualmente informado sobre aquela conversa.
-Têm alguma notícia da duquesa?
-Lady Norfolk não pôde vir a Londres devido a seu avançado estado, mas enviou numerosas cartas a Enrique rogando por sua liberação.
Anne inspirou pelo nariz tentando infundir-se calma. Não estava segura de poder seguir resistindo seu cativeiro, não depois do ocorrido na noite anterior. Algo em seu rosto fez com que Lady Botwell se detivesse para olhá-la.
-Poderá suportar?
A jovem assentiu levemente com a cabeça.
-Não tente lutar contra isso, Anne, aceite sem mais - aconselhou tomando seu rosto entre suas mãos.
Os olhos cinza voaram para o rosto da matrona, havia ela adivinhado a causa de sua insônia?
-A que se refere? - perguntou tentando sorrir.
A mulher lhe golpeou o nariz com o dedo índice.
-O seu futuro, querida. As mudanças sempre lhes resultaram difíceis de aceitar. Não as tema. Em algumas ocasiões trazem coisas boas.
Anne olhou seu rosto maternal. Seu agitado coração tentava assimilar essas palavras. Odiava as mudanças, odiava sentir-se insegura, sempre tinha apostado sobre o seguro e Hugh De Claire era uma aposta totalmente incerta.
-Deixem de me olhar com olhos de cordeiro, vamos para dentro, não é bom ficar aqui, sob a chuva. O capelão da torre se ofereceu para oficiar uma missa - disse empurrando-a levemente.
-Como vão as coisas em casa? Necessitam de algo?
-Lorde Wentworth se encarregou de tudo, não se preocupe - confiou-lhe. Embora tivesse desejado que o homem de seu marido se hospedasse em outro lugar.
-Rufus?
Lady Botwell fez uma careta de desagrado.
-Essa anomalia se instalou em um dos melhores quartos com a pompa de um príncipe. Confesso que sua presença me desagrada profundamente. Acha-se um presente para as mulheres. Encomendou suntuosos trajes a conta de seu marido e passeia pela casa com ares de grande senhor quando não é mais que um... - A mulher se deteve bruscamente com as bochechas ruborizadas.
-Por que lhe desagrada tanto esse homem? - interrogou Anne subitamente divertida.
-É um ser descarado. Suas brigas com a Senhora Grint me deixam louca - apontou puxando imperiosamente a moça.
Seu nervosismo só aumentou a curiosidade da jovem. Até onde ela sabia, Lady Botwell era considerada uma matrona (embora em sua opinião uma mulher em seus quarenta anos não podia ser considerada velha) e tinha rejeitado voltar a unir-se a outro homem depois da morte de seu marido, Lorde Botwell, um valoroso homem de armas, do feudo de Norfolk. Como lhe tinha confessado a mulher em várias ocasiões, o seu tinha sido um matrimônio cordial efetuado por interesses familiares. Ambos tinham se respeitado profundamente, mas não se amado. A morte do único herdeiro varão, o jovem Thomas Botwell, foi um duro golpe para as aspirações de Lorde Botwell. O homem se voltou para a bebida em seus últimos anos de vida deixando que Lady Botwell formasse parte do pequeno séquito de Lady Norfolk, "o exercito ducal", como o denominava Adrián. Depois de seu traslado à capital se converteu em sua tutora. A relação entre ambas tinha sido a de uma mãe e uma filha, e salvo pelas frustradas tentativas da dama por conseguir um bom partido, nada até o momento tinha minado a confiança que tinham. Anne, que sempre tinha anteposto essa imagem maternal às demais imagens, perguntou se o coração de Lady Botwell guardava as aspirações próprias de toda mulher.
Olhou com novos olhos os terminantes contornos da matrona.
-Por que me olha assim? - interrogou com uma leve nota de irritação que lhe fez esboçar um sorriso. Que ela soubesse, Lady Botwell nunca se irritava.
-Simples curiosidade - respondeu enrugando o nariz com uma piscada.
O gesto fez com que a dama soprasse.
-Não é o que está pensando.
-E o que estou pensando?
O chamativo rubor da mulher fez com que seu sorriso se ampliasse.
-Nada bom, sem dúvida.
-Ao contrário - negou Anne golpeando os lábios pensativamente - Sabe? Agora que estou convenientemente casada pensei que possivelmente devesse retribuir seus piedosos esforços nestes anos lhe encontrando um marido.
Um agudo som escapou da boca de Lady Botwell.
-Que tolice, bom Deus! Quem vai querer casar-se com uma velha como eu?
-Deixe em minhas mãos.
-Nem lhe ocorra - advertiu abaixando a voz ao entrar na capela de Saint Peter Ad Vincula. O recinto se encontrava timidamente iluminado, apenas umas vinte pessoas se agrupavam em seu interior - Resulta que me encontro muito a gosto com minha atual condição - protestou fazendo o sinal da cruz em frente o pequeno altar.
-Lembro-me haver dito essas mesmas palavras. - Anne deu por finalizada a conversa inclinando a cabeça para entregar-se à oração.
***
Hugh teve a oportunidade de desfrutar de um rápido banho durante o passeio das damas. Trocou de roupa e desfrutava de do bom vinho entregue por Lady Botwell sentado à mesa. Assim encontrou Anne a sua volta e apesar de ambos terem optado por uma silenciosa trégua, uma sutil tensão se elevava no ambiente.
Os olhos do homem a seguiram quando com as mãos estendidas procurou o calor do braseiro. Fora, o clima tinha piorado repentinamente, acelerando a partida de Lady Botwell. Anne se aproximou da janela para observar através do cristal chumbado a iminente tormenta. Curiosamente, os grossos muros da cela lhe brindaram uma inesperada segurança. O ferrolho da porta foi empurrado do lado de fora. O rosto amável de Seymur, o soldado real, apareceu em seu extremo.
-Seu banho está preparado, milady - anunciou passando a um lado para que duas moças entrassem com uma jarra de grandes dimensões.
A notícia fez com que Hugh engasgasse.
-Banho? - repreendeu, intimidando com seu corpo os três homens que retrocederam precavidamente até a segurança do corredor onde um grupo de empregadas aguardava.
Um gesto de chateação cruzou o rosto de Anne.
-Deixem de se comportar como um ogro. Solicitei água quente e eu gostaria de aproveitá-la. Seymur, por favor, diga às moças que entrem.
O homem robusto obedeceu fiel como um cão pastor. Hugh o olhou com desgosto. Ele somente tinha conseguido dois baldes de água do poço para seu asseio e isso depois de uma dura insistência. Mas a Anne parecia lhe bastar com um sorriso e uma leve piscada para fazer sua vontade. Hugh tinha notado que desde sua chegada o número de velas da habitação se incrementou notavelmente e que sua comida chegava saborosamente enfeitada. O poder da donzela sobre a vontade dos homens conseguia enfurecê-lo como nada no mundo. Sentindo-se infantil, retirou-se para o banco da janela.
As empregadas entraram na estadia. Anne lhes encomendou as tarefas a realizar com voz suave. Ao parecer, só usava sua língua viperina com ele, pensou Hugh com acidez olhando sobre o ombro ao grupo de mulheres.
Ao sentirem-se observadas, as moças riram bobamente. Hugh levantou uma sobrancelha ao reconhecer as tímidas tentativas das jovens de paquerar com ele. Inclinou galantemente a cabeça a modo de saudação obtendo uma nova salva de risos nervosos. Anne lhe tinha feito esquecer que, por regra geral, as mulheres não eram imunes a seus encantos. Cedeu ao impulso de observar a reação da jovem ante esses flertes. Anne lhe dedicou um sorriso zombeteiro com as mãos na cintura, como se ante ela tivesse a confirmação de algum feito. Depois, com majestosa indiferença, deu-lhe as costas ignorando-o por completo.
Minutos mais tarde, Hugh se encontrava apoiado contra a parede olhando concentrado o grosso tecido que separava "o banho" da donzela do resto da estadia. Seus olhos seguiam o contorno das sombras projetadas. Um suor frio se deslizou por suas costas. A fantasia daquele corpo nu submerso entre as vaporosas águas bastava para lhe fazer ferver o sangue. Apertou a mandíbula ignorando a descarada atenção que uma das moças lhe dedicava. Tinha o aspecto fogoso que sempre lhe tinha atraído, em outra ocasião, provavelmente não tivesse duvidado em aceitar o explícito convite de seus olhos. Agora, entretanto, somente podia concentrar-se em Anne e em cada um dos sons produzidos do outro lado do maldito biombo.
O formigamento em seu ventre ameaçava desembocar em uma catástrofe se não fizesse algo. Dirigiu-se para a mesa e encheu sua taça até a beirada. Esvaziou-a de um só gole antes de repetir a ação. O bom vinho lhe permitiria, ao menos, abaixar a tensão de seu corpo.
Anne emitiu um suspiro de prazer quando a água se deslizou sobre sua cabeça arrastando o espumoso sabão de seu cabelo. Um alegre aroma floral se elevou em uma nuvem de vapor. Eugen era um professor naqueles pequenos detalhes, pensou. Não havia melhores sabões nem cosméticos que os que o antigo escudeiro do Dragão elaborava. Teria prolongado esse momento eternamente se pudesse, mas a água começava a esfriar-se. Era hora de enfrentar Hugh e seu tormentoso humor.
-Pensa ficar aí eternamente? - resmungou o homem depois de um ruidoso estrondo metálico - Merda!
Uma das empregadas correu em seu auxílio.
-Fique quieta, maldição, só quero mais vinho - grunhiu asperamente desfazendo-se da solicita ajuda que tentava de secar o vinho derramado sobre a mesa.
Seus gritos puseram fim à paciência da jovem. Saiu do banho, mal-humorada e deixou que as moças a ajudassem com suas roupas: um grosso vestido de veludo verde sob o qual aparecia uma singela anágua bordada. O cabelo úmido foi preso simplesmente sobre sua nuca e adornado com dois broches de pérolas. De melhor disposição, abandonou o amparo do biombo para enfrentar a aceso olhar de Hugh. A suas costas, as empregadas começaram a abandonar a estadia contentes com a generosa retribuição da condessa.
-Se for protestar por algo mais, faça-o de uma vez - disse plantando-se ante o homem que enfraquecido sobre a cadeira, bebia ociosamente um copo de vinho.
-Incomoda-me sua corte de aduladores, me impedem de me concentrar em meu trabalho - resmungou pronunciando cada palavra com uma lenta cadência.
Anne levantou uma sobrancelha lançando um breve olhar à jarra de vinho disposta sobre a mesa.
-Não será o vinho o que lhe impede essa concentração?
-Está me chamando de bêbado? - perguntou ele com um brilho zombeteiro em seus olhos.
A jovem deu um passo em sua direção e inclinou o corpo sobre ele observando seu fôlego.
-Acaso não está?
Hugh respondeu a essa pergunta com um suspiro ofendido.
-Faz falta algo mais que uma jarra de vinho francês para me embebedar - afirmou ofendido, mas depois, com o semblante suavizado por sua proximidade, esticou uma mão para brincar com a saia de seu vestido. Um sorriso brincalhão lhe roçou a comissura dos lábios conferindo-lhe um atrativo irresistível. – Já lhe disse o quanto está bonita hoje? Brilha com o esplendor de uma rosa inglesa.
Anne afastou seus dedos com um tapa enquanto o olhava com desconfiança. Os floridos galanteios de Hugh eram típicos de um homem ébrio.
-Está bêbado! - acusou já sem dúvidas.
Hugh apoiou a cabeça sobre um cotovelo para olhá-la. Seus olhos entortaram ligeiramente enquanto dava um longo gole em seu copo.
-E se estiver? Seria um dos poucos consolos dos quais disponho dado as circunstâncias. - Esticou uma mão para os quadris da jovem atraindo-a torpemente - Também você poderia ser um consolo para mim se o desejasse. Quer sê-lo, querida? Quer ser meu consolo?
Anne se debateu entre seus braços, mas Hugh a obrigou a situar-se entre suas coxas e apoiar os quadris contra a mesa do escritório. Dedicou-lhe um olhar travesso enquanto suas mãos, apoiadas sobre sua cintura, acariciavam-na com descaramento. Anne se sentiu incapaz de resistir aos avanços do velhaco. Aquele sorriso que brincava em seus lábios estava a ponto de derrubar o muro de suas reservas.
-Mas disse...
Ele a silenciou colocando um dedo sobre seus lábios. Seu olhar lhe acendeu a pele.
-Não lhe fiz mais promessas que as pronunciadas ante Deus - sussurrou tão perto que seu fôlego lhe acariciou o rosto. Cravou seus olhos nos da moça afundando-se nas profundidades cinzentas, seduzindo-a com seu ardor.
E durante um tortuoso segundo, Anne reconsiderou a idéia de entregar-se a esse homem e de ceder ao impulso físico de seu corpo. Oh, como o desejava!
Afastou impulsivamente seu dedo e retrocedeu como se lhe oferecesse um pacto com o diabo. Conseguiu inspirar uma baforada de ar e acalmar seu ardor.
-É um descarado muito convincente, De Claire - pronunciou com voz trêmula - mas, como já assinalou, tudo acabaria em um desastre.
Os traços enxutos do homem voltaram a endurecer-se, como se suas palavras tivessem sido acompanhadas de uma bofetada a seu orgulho.
Anne lhe deu as costas com um sussurro de saias que se elevou no detestável silêncio. O olhar de Hugh se cravou em suas costas enquanto a via tomar assento junto ao braseiro no outro extremo da cela.
Capítulo 10
Anne afogou uma maldição quando a ponta da agulha se afundou pela terceira vez na ponta de seu dedo. Levou a boca o dedo ferido chupando a diminuta gota de sangue e lançando um breve olhar no lugar ocupado por Hugh. Ele tinha permanecido imutável em seu silêncio, dando conta de uma nova jarra de vinho enquanto balançava penosamente uma perna sobre o apoio de madeira de sua cadeira. Por que tudo em Hugh De Claire resultava atrativo? Perguntou-se deixando que seus olhos vagarem timidamente pela larga extensão de seu peito. Ele tinha esse toque de manifesta masculinidade que outros muitos se esforçavam por conseguir. Seria fácil voltar a gostar dele, excessivamente fácil.
Hugh levantou o olhar para ela nesse momento e descobriu sua inspeção, seus olhos se estreitaram concentrando toda sua intensidade nela, fazendo com que seu coração pulsasse com força. Depois, ficou em pé arrastando a cadeira para trás de suas pernas, olhando-a daquela maneira tão especial, como um felino atraído pela promessa de uma presa fácil. Deu um último gole em seu copo e o abandonou com descuido na borda da mesa. Secou os lábios com a manga de sua camisa em um gesto feroz de indolência. Os pensamentos de Anne retrocederam às antigas lendas vikings contadas pelos normandos.
-Aconteceu algo? - perguntou alarmada.
-Se for esperta poderá adivinhar - disse com voz afetada.
Alerta Anne ficou em pé.
-Deveria comer algo.
-Estou de acordo - aceitou ele deslizando um olhar licencioso sobre o decote de seu vestido - Ocorre-me um par de coisas com as quais tentar o paladar.
Anne lhe devolveu um olhar inquieto ante seu humor. Uma vez mais, ele a fazia sentir-se como uma presa encurralada. Odiava essa sensação de indefinição que ele se empenhava em provocar continuamente, pensou ficando em pé.
-Hugh, abandone esta tolice, está bêbado - ordenou com falsa confiança. Retrocedeu quando ele avançou em sua direção posicionando-se atrás da cadeira que tinha ocupado.
A risada do homem reverberou em toda a estadia.
-Fugir é o último que poderá fazer Anne. Ouvi falar de sua fama de donzela de gelo, na realidade tive suficientes mostra dela - assinalou adiantando um novo passo.
Anne estudou as possíveis vias de escape, mas ele estava certo, fugir era o último que poderia fazer naquele lugar.
-Aproxime-se mais um passo e grito. - A ameaça era o recurso dos desesperados, mas sua cabeça se achava bloqueada, completamente em branco.
-Isso é tudo? Esperava muito mais da célebre Lady Não. - Fez uma pausa para olhar seus olhos. - Desejo-te, Anne e estou disposto a me condenar por isso.
Hugh a encurralou contra a parede apoiando os braços a ambos os lados de seu corpo, criando uma efetiva jaula com seu corpo. Inclinou-se sobre ela para lhe percorrer a mandíbula com úmidos beijos que lhe impediam de reagir deslumbrada com a explosão de prazer que seu contato lhe provocava. Tentou lhe rejeitar virando o rosto para o lado, mas os lábios de Hugh seguiram seu movimento deslizando-se por suas bochechas até a comissura de seus lábios.
-Se renda - sussurrou deslizando uma mão sobre seu quadril.
A jovem negou sem convicção. Fez uma tímida tentativa de rejeição, mas quando a língua de Hugh alcançou o lóbulo de sua orelha um som abafado escapou de sua garganta. Lentamente, seu rosto se elevou para ele. Sua rendição fez com que Hugh esgrimisse um fugaz sorriso de triunfo. Sua embriaguez tinha destampado seus instintos primários desterrando suas boas formas habituais. Aproximou-se de novo para beijá-la, medindo com sua língua a comissura de seus lábios entreabertos. Anne o recebeu com um ruído gutural de surpresa ante aquela brusca invasão que o encantou. Abraçou-lhe os quadris estendendo uma mão sobre a curva de suas nádegas, levantando-a entre suas pernas. Anne deixou escapar um protesto que Hugh silenciou com um novo beijo que a deixou sem ar, sem mais possibilidades que aferrar-se a seus ombros.
-Deve estar louco - disse com voz entrecortada apoiando a testa em sua bochecha.
-Sim, louco de desejo. Ardo por ti e este fogo me queima o corpo - afirmou cravando seus olhos dourados em seu rosto.
Deslizou uma mão sobre o decote de seu vestido liberando seus seios. Observou-os com os olhos entreabertos percorrendo-os com uma carícia reverencial. Não eram seios excessivamente grandes, mas eram firmes e redondos, com diminutos mamilos de cor cereja. Sem poder conter-se, sua boca rodou sobre eles para coroá-los com mordidas preguiçosas que fizeram com que os olhos da moça se fechassem com um gemido escandalizado.
-Por favor, Hugh... - Choramingou deslizando os dedos por seus cabelos. Mediu com suavidade sua nuca pressionando-a inconscientemente para frente.
Hugh riscou um círculo sobre sua carne.
-Todo estes dias te imaginei assim - disse lambendo-a lentamente.
-Mentiroso - ofegou ela ruborizada. A sensação daquela boca sobre sua pele era a mais deliciosa das torturas.
-Não minto - confessou-lhe. Ontem à noite quando me surpreendeu pensava em ti, nas coisas que desejava te fazer - afirmou enquanto chupava delicadamente a trêmula carne de seu seio. Levantou-lhe a saia subindo uma mão sob o tecido para acariciar a coxa da jovem - Pensava em lhe provar, em descobrir o sabor que guarda seu corpo - afirmou tocando com seus dedos entre suas coxas.
O calor de sua mão lhe queimou através do ligeiro tecido de sua roupa. Emocionada apoiou o rosto contra seu ombro inalando ar.
-Hugh! Isto não é correto.
-Desejo-te como nunca desejei uma mulher - aceitou com uma risada pesarosa. E nem sequer posso explicar por que.
Sua mão forçou o tecido entrando sob a suavidade de sua pele. As pernas de Anne falharam quando o sentiu ali onde ninguém nunca a havia tocado.
-Hugh - repetiu retrocedendo até a parede, mas aquela mão a seguiu firmemente instalada entre suas pernas. Ele sussurrou algo a beijando de novo. Sua boca lhe fez esquecer qualquer temor. Respondeu fervorosamente a seus lábios dando em igual medida que recebia. O tato frio da parede contra suas nádegas lhe arrepiou a pele. Fechou os olhos abandonando-se a suas carícias, sentindo-se pecaminosamente sensual por isso. Viu-se apoiada contra a parede, com as saias levantadas enquanto Hugh a acariciava e seus seios nus se balançavam ao compasso de sua errática respiração. Que vulgar comportamento para uma dama de linhagem! Deveria gritar sua consciência, mas o único que podia atender era ao furioso pulsar de seu coração, à magia das carícias masculinas.
Hugh alcançou suas partes mais íntimas. Roçou com seu polegar o traçado úmido dos lábios internos. Sua boca, de novo sobre seus seios, lambeu os contraídos mamilos.
Uma explosão de prazer se estendeu sob ventre ascendendo vertiginosamente até sua garganta. O corpo inteiro lhe formigou de prazer enquanto choramingava uma súplica.
A mão de Hugh a obrigou a abrir-se, lhe introduzindo um de seus dedos.
-Não quero que esqueça isto, Anne. Recorde sempre quem foi o primeiro.
Ela aceitou com uma afirmação. Seu cabelo revolto caiu sobre seu rosto, mas não lhe impediu de ver o brilho satisfeito dos olhos ambarinos ante sua aceitação.
-Hugh - gemeu estremecendo contra sua mão.
Ele a apertou contra a parede antes de afastar-se ligeiramente. O abandono lhe fez choramingar um protesto. Hugh a aplacou com um beijo terminante que a deixou sem fôlego. Introduziu um joelho entre suas pernas antes de arrastá-la para o chão enquanto lutava contra a peça de tecido que fechava sua calça. Colocou-se entre suas coxas com movimentos urgentes. O peso de seu corpo a esmagou contra o chão, mas o aceitou porque se tratava de Hugh, o homem com quem tinha sonhado toda sua vida, o valente cavalheiro de seus sonhos. Abraçou-se a ele flutuando em uma nuvem de romantismo. Hugh se adiantou sobre ela com a mandíbula apertada, fazendo-a inspirar violentamente quando a turgidez de seu membro investiu contra seu corpo. Tentou resgatar de sua memória detalhes sobre o que acontece entre um homem e uma mulher, as numerosas conversas que tinha escutado sobre o tema todos esses anos. Anne não era uma completa ignorante a respeito. "Um homem penetra a mulher com seu membro", tinha escutado quando era menina. Com os anos sua imaginação tinha adornado aquele rudimentar acontecimento com pinceladas fantasiosas, quase místicas. Aquela deveria ser uma experiência espiritual, uma viagem mística nos braços de seu herói, como rezava os elaborados cantos cortesãos. Viveria ela uma experiência semelhante nos braços de Hugh?
Hugh se elevou sobre seus braços. O suor impregnava seu lábio superior e uma forte expressão lhe endurecia o rosto marcando os tendões de seu pescoço. Em seu fôlego se adivinhava o sabor do vinho. Um rugido animal escapou de seus dentes apertados quando moveu os quadris impulsionando bruscamente no corpo feminino. Anne se moveu incomoda debaixo desse peso.
-Hugh está me machucando - protestou.
Ele se moveu ligeiramente retrocedendo. Afundou o rosto contra seu pescoço arranhando as bochechas da jovem com sua barba. Rodeou-lhe as nádegas com ambas as mãos elevando-a contra seu corpo antes de penetrar totalmente nela. Uma aguda dor acabou totalmente com todo rastro de romantismo. Aquilo não tinha nada que ver com suas fantasias, nada era como ela tinha imaginado. Gemeu dolorida quando Hugh empurrou dentro de seu corpo.
-Hugh, não.
Mas nada podia detê-lo, parecia disposto a alcançar sua meta a qualquer preço. Com os olhos fechados e a mandíbula apertada, ele parecia alheio a seus protestos. Anne esticou as mãos para seu peito tentando se afastar. Sua pele era cálida e suave, notou com estupor através da abertura de sua camisa. Hugh se retirou de seu interior por completo, uma breve trégua antes de se impulsionar de novo. Beijou-a grosseiramente lhe machucando os lábios, lhe percorrendo a bochecha, arranhando-a com sua barba. Seu fôlego áspero zumbiu em seu ouvido, agora percorrido por sua língua, como a respiração com de uma besta selvagem. Algo despertou em seu interior, algo puramente carnal, uma desesperada ansiedade animal. O que lhe ocorria? Bom Deus! Era como se seu corpo tivesse tomado o controle de suas ações, de seus pensamentos. Soluçou umedecendo os lábios. Hugh tinha descoberto uma parcela oculta de sua personalidade. Aquilo era pelo que as criadas gemiam na escuridão da noite! O impulso animal do emparelhamento, algo alheio a toda dama. A ensurdecedora batida de seu coração a fez ofegar, suada se elevou compassando seus movimentos aos duros ataques masculinos. Aquilo nada tinha a ver com suas fantasias e, entretanto, era tão prazeroso! Pensou quando Hugh lhe lambeu a clavícula nua apertando seu peito com uma de suas mãos. O pulsar de seu membro duro se transladou até o último lugar de seu corpo como um eco. Segurou-se nele com força, lhe cravando as unhas nas costas, lhe mordendo os ombros, agarrando-se a suas nádegas nuas. A pedra do chão lhe arranhou a pele, mas só serviu para incrementar seu prazer. Uma convulsão lhe estremeceu o corpo elevando-a sobre o chão. A explosão de prazer lhe arrepiou os mamilos, dilatou seus olhos até deixar tudo impreciso. Tentou gritar, mas Hugh lhe esmagou a boca com os lábios penetrando-a com sua língua. Ela ficou esgotada. Hugh ofegou sobre seu corpo, passou as mãos em suas costas para sujeitar seus ombros, imobilizando-a entre seu corpo e o chão para cravar-se em seu ventre, penetrando-a a fundo. O rígido punho de seu membro acariciou as úmidas dobras de seu corpo provocando uma nova descarga de prazer. Anne se abraçou a ele, escondeu o rosto contra seu pescoço lhe rodeando os quadris com as pernas. Os movimentos de Hugh se prolongaram uns segundos mais antes que seu corpo se esticasse. O fluxo de seu esperma invadiu o interior da jovem com ligeiros estremecimentos. Depois, aquele Adônis dourado se derrubou sobre ela esmagando-a contra o chão enquanto seu coração retumbava velozmente contra o ouvido.
Permaneceram assim uns minutos, deixando que o prazer fluísse por seus corpos. Anne retornou a terra lentamente. Seu corpo inchado começou a ser consciente de outros aspectos. Jazia sobre o chão com as saias levantadas como uma vulgar camponesa surpreendida nos campos. O peso de Hugh a impedia de respirar ou mover-se. O calor do momento tinha dado passo a um incomodo frio. Tinha as bochechas em carne viva e o fôlego etílico de Hugh flutuava frente a seu rosto desagradavelmente. As consequências do ocorrido sobre esse chão a golpearam repentinamente. Entregou-se a Hugh como uma prostituta. E ele não tinha duvidado em tomá-la como uma delas. Nem sequer tinha tido a decência de levá-la para a cama.
-Hugh - chamou-o empurrando-o levemente. Deviam falar do acontecido, chegar a algum acordo.
Um ronco foi sua única resposta. Ele tinha dormido! Invadiu-a uma profunda indignação. Tentou tirar-lhe de cima inutilmente. Como última ofensa a sua vergonha, o membro de Hugh se deslizou entre suas coxas lhe umedecendo as pernas com os restos de sua semente. Conseguiu sair de debaixo dele serpenteando sobre seu corpo. Hugh se deixou cair de lado. Tinha a boca entreaberta enquanto roncava asperamente. Sua calça continuava abaixadas sobre suas coxas. Anne retirou o olhar. Como pôde entregar-se a um homem como aquele? De um puxão liberou a saia seu vestido e engatinhou torpemente. Ficou em pé com esforço. A debilidade de suas pernas a obrigou a apoiar-se sobre a mesa. Avaliou seu aspecto com um rápido olhar enquanto puxava nervosamente seu vestido. Tinha o cabelo alvoroçado e um de seus broches tinha desaparecido. Havia marcas de Hugh por todo o corpo e tinha os lábios inchados pelos beijos. Suas meias formavam redemoinhos em torno de seus tornozelos e tinha perdido um de seus sapatos. Olhou novamente para o homem deitado sobre o chão. Ele dormia alheio ao mundo. Por que teria que ser de outro modo? Tinha conseguido o que queria como costumava fazer, sem dar importância a como, quem ou onde. Anne lhe deu as costas para dirigir-se à jarra de água. Pegou com mão trêmula um pano e o afundou no frio líquido. Esfregou entre as pernas tentando apagar qualquer vestígio do ocorrido. Observou os restos de seu sangue virginal, misturados com esperma de Hugh. Nenhum símbolo sobre a indissolubilidade do matrimônio lhe pareceu tão preciso como aquele. Por sua estúpida debilidade estava obrigada a renunciar a seus sonhos! Uma onda de pessimismo afundou seus ombros.
Hugh balbuciou algo rodando sobre seu estômago até ficar de barriga para baixo. Anne olhou suas tensas nádegas nuas.
Uma delas exibia as recentes marca de suas unhas. Um furioso rubor se estendeu por seu rosto. Envergonhava-a pensar em seu comportamento dessa noite. Não deixaria que Hugh voltasse a tocá-la, que voltasse a fazer dela um ser volúvel. Desfez-se do vestido atrás do biombo e vestida unicamente com sua anágua deitou-se na cama. "Desejo-te, Anne e estou disposto a me condenar por isso", às palavras de Hugh lhe vieram a cabeça. "Mas eu não" grunhiu golpeando o travesseiro com um punho.
Capítulo 11
Hugh despertou com frio, seminu sobre o chão de pedra. Tinha a cabeça embotada e a boca tão seca como o couro. Rodou sobre suas costas para observar cegamente o teto enquanto colocava a calça. Apesar de seu desastroso estado se sentia eufórico, cheio de energia. Franziu o cenho tentando recordar como tinha chegado a esse estado. Durante a tarde tinha matado o tempo bebendo, recordou. Lady Botwell tinha levado para a cela uma generosa garrafa do melhor vinho. Ela e Anne... o pensamento ficou suspenso no ar. Anne! As lembranças do acontecido se amontoaram em sua cabeça. Incorporou-se olhando ao redor. A habitação se encontrava às escuras, mediu até encontrar uma vela. A chama da vela iluminou parcialmente a cela descobrindo finalmente à donzela. Ela dormia encolhida sobre si mesma na cama, como se quisesse proteger do mundo, dele. Com um grunhido, Hugh passou uma mão pelo cabelo. Não era nada estranho dada a maneira como se equilibrou sobre ela. Um forte rubor lhe cobriu o rosto. Tinha tomado a jovem sobre o chão, ébrio, sem o menor cuidado. Jamais tinha se comportado tão estupidamente, pensou depositando a vela junto a cama. Seus olhos continuaram cravados nela. Que tipo de loucura lhe tinha levado a atuar desse modo? Por regra geral se vangloriava de seu tato com as damas. O encanto da conquista era para ele tão prazeroso como a rendição. Com Anne, entretanto se tinha se comportado como um animal no cio. Tinha-a abordado com a estupidez de um rapaz, tirado sua virgindade em um ato grosseiro, carente da ternura que ela merecia. Sentou-se na cama enquanto velava seu sono. O peso de seu corpo afundou o colchão fazendo com que a jovem rolasse em sua direção. Hugh estendeu uma mão e acariciou docemente sua testa afastando uma suave mecha de seu cabelo. Anne voltou o rosto para ele procurando seu calor. Hugh se maravilhou com a delicadeza de seus traços. Um profundo sentimento de amparo lhe sobreveio. Envergonhava-se do modo como tomou sua inocência, do modo como a tinha tratado. Devia-lhe uma desculpa e se fosse possível, uma explicação. Explicação? O que podia lhe explicar? Que tinha enlouquecido de desejo por ela? Anne o acharia um hipócrita além de um descerebrado, pensou enquanto se desfazia de suas roupas. Seguia sem poder explicar como um homem de sua experiência tinha acabado atuando como um idiota exímio.
Fechou os olhos deixando-se cair a seu lado. Anne permaneceu como um novelo. Hugh lhe rodeou os ombros com um braço respeitando a distância que os joelhos flexionados da jovem lhe impunham na estreita cama.
O certo é que aquele ato carnal e desesperado sobre o chão da cela era o resultado de outro tipo desejos. Tinha estabelecido com aquela mulher um vínculo sólido e tangível que não tinha podido criar com nenhuma outra.
***
Quando os empregados da Torre chegaram à estadia na manhã seguinte encontraram a condessa Darkmoon devidamente vestida e escrevendo vivazmente.
Anne tinha despertado nos braços de Hugh. Tomou uns minutos para recordar onde se encontrava e por que Hugh tomou aquela liberdade. As lembranças da noite anterior a golpearam fazendo-a abandonar a cama precipitadamente. Aquele sujo negociante de ovelhas!
Uma hora depois, os ligeiros roncos do homem se interromperam fazendo com que a jovem elevasse o olhar em sua direção. Apoiado contra a cabeceira de madeira, Hugh a observava com concentração. Tinha o peito descoberto e os cobertores formavam redemoinhos perigosamente em seu colo.
-Bom dia - saudou preguiçoso.
Anne o ignorou voltando sua atenção ao pergaminho que tinha ante si, mas a masculina imagem daquele despertar tinha ficado gravada em sua mente lhe impedindo de continuar com a tarefa. Aqueles olhos carregados de sono e o lânguido gesto de sua boca lhe fizeram tremer o pulso.
Hugh passou uma mão pelo queixo. Seus membros denotaram a debilidade que deixava atrás de si o abuso do álcool, mas contrariamente, sentia-se cometido, depravado, pela primeira vez em semanas.
-Meu humor me impede de ser cortês esta manhã. Desculpe-me, milorde se não cair a seus pés, como sem dúvida está acostumado em seus devaneios com criadas e faxineiras, depois da noite de espanto e horror vivida – assinalou com atitude.
O sorriso de Hugh se evaporou. Ao parecer, Anne não recordava com bons ânimos sua sedução. Mas ele recordava vividamente a ávida resposta de seu corpo. Embora fingisse o contrário, ela tinha desfrutado, disso estava seguro.
-Minhas lembranças se limitam a uma donzela bem disposta que gemia meu nome e arranhava minhas costas.
Um intenso rubor cristalizou as bochechas da jovem que agitadamente ficou em pé.
-Estava bêbado, recorda isso também?
Hugh franziu o cenho.
-Recordo e desejaria te pedir desculpas por isso.
-Basta que assine isto - resmungou ela aproximando-se da cama para deixar cair sobre seu colo o pergaminho no qual tinha estado trabalhando.
Ele o recolheu com desconfiança. Anne retornou a seu assento aguardando impacientemente que ele terminasse a leitura. Finalmente, a cabeça de Hugh se elevou para ela mostrando um gesto sarcástico.
-Pretende que aceite ser impotente para anular este matrimônio? - inquiriu divertido e incrédulo tanto pelo fato de que ela soubesse escrever em perfeito latim (poucos nesse reino podiam presumir desse fato) como pelas petições que o documento encerrava.
-Não, exatamente. Tão só que finja que o de ontem à noite não ocorreu e que admita que minha companhia nunca lhe provocou desejo carnal, pois vê em mim uma irmã ou uma amiga. Quando a questão de sua inocência se resolva favoravelmente, ambos poderemos apelar a isso quando solicitarmos a anulação deste matrimônio.
-Já vejo, fingiremos que ontem à noite não ocorreu - comentou com pastosa calma relendo o documento novamente. Afastou os cobertores e esticou as pernas nuas sobre a borda do colchão.
-O que está fazendo? - perguntou Anne horrorizada ao ver sua nudez.
Hugh se deteve em meio da estadia com desenvoltura enquanto os olhos cinza o seguiam escandalizado. Gostava de pavonear-se, exibir seu impressionante físico, pensou Anne crispada enquanto seus olhos viajavam por aquele Atlas anatômico de quadris enxutos e fibrosa musculatura. Parte de sua altura residia em suas largas pernas, sólidas e proporcionadas. O dourado pêlo que as cobria se espessava sobre sua virilha, ali onde sua orgulhosa masculinidade repousava languidamente. Aquela parte de seu corpo tinha estado dentro dela na noite anterior. Essa lembrança se transformou em uma cálida explosão na parte baixa de seu ventre. Sobressaltada afastou o olhar.
-Se vista, não é correto que se mostre assim ante mim se desejarmos que alguém acredite em nós - exigiu fechando os olhos.
-Não queria ferir sua sensibilidade, querida "irmã".
Hugh rodeou a mesa para tomar um longo gole de água enquanto olhava divertido à donzela, regozijando-se com seu desgosto. Seu olhar escorregou para o recatado decote de seu vestido. Uma pequena cruz de ouro brilhava entre o pálido vale de seus seios. Recordava ter beijado aquela parte de seu corpo, havê-la talhado com seus lábios, sua língua.
-Por que tem tanto interesse em se desfazer de mim? Guarda acaso um candidato melhor para ocupar o posto? - inquiriu.
-Não falarei com você a menos que esteja vestido - asseverou a jovem ternamente.
Hugh grunhiu algo baixinho, retornou a cama e arrancou o cobertor superior para envolver em torno dos quadris.
-Já pode abrir os olhos.
Anne o fez com suma precaução. Espiou-o através de suas pálpebras entreabertas para descobri-lo envolto naquela improvisada toga, como um decadente general romano.
-Existe este pretendente Anne? - repetiu, qualquer signo de brincadeira ou diversão se apagou de seus traços afiados.
-Não, mas sim meu desejo de viver a vida como me agradar.
-Com seus amados parentes lhes espreitando nas sombras? Sem um homem a seu lado que lhe proteja? - incidiu.
-Isso não lhe incumbe. Agora, assinará esse documento, sim ou não?
Hugh inspirou bruscamente pelo nariz. Enrugou o pergaminho em uma mão jogando-o sobre as brasas do braseiro.
-Não me convence os termos – afirmou - Deverá melhorar meus benefícios.
Anne assentiu rigidamente, doída por ele ter concordado tão alegremente a se desfazer dela. O que esperava por acaso? Uma terminante oposição a seus planos? Uma irada amostra de posse? Hugh tinha se limitado a encolher os ombros e exigir uma melhoria de suas condições. Sua veia de comerciante se impunha, mas por que teria que surpreender-se? Ele tomado dela o que desejava, o mesmo que poderia conseguir de qualquer tola que caísse sob seu domínio. Estupidamente, sentiu desejo de chorar enquanto o observava recolher suas roupas do chão com gestos furiosos.
Hugh se vestiu incitado pela cólera mais intensa que recordou haver sentido. Bramou aos guardas para que o acompanhassem às latrinas. Aqueles breves minutos de solidão entre os estreitos e fedorentos muros do lugar lhe concederiam a lucidez necessária para planejar a estratégia seguinte com Anne Darkmoon.
***
A inquietação de Anne tinha roçado a ansiedade ante a indiferente atitude de Hugh ao longo desse extenuante e longo dia. Nem sequer seu trabalho com a agulha outorgou um respiro a seus desenquadrados nervos. Para surpresa de ambos, uma ingerência externa interrompeu essa tensa atmosfera, um convite pessoal do responsável da Torre, Sir William Kingston, para jantar em suas dependências privadas. Não era um fato incomum, o regente daquela pequena cidade que era a Torre outorgar esse distinto privilégio aos detentos de estado, mas não o fazia movido pela compaixão a não ser para informar a Enrique sobre seus prisioneiros. Em qualquer caso, o convite foi bem recebido por ambos.
Anne escolheu uma senhoril capa de seda granada com amplas mangas em damasco dourado; como único adorno, modestos brincos de pérola cor champanha combinando com sua camisa interior. Hugh aguardou impaciente vestido com uma austera calça de veludo negro combinando com seu colete acolchoado e as altas botas de couro. Sua imponente imagem desatou o delírio das jovens empregadas que entre risadas e paqueras tentavam atrair sua atenção. Para satisfação de Anne, ele fez caso omisso delas precedendo-a rigidamente pelas escadas de pedra enquanto uma escolta os seguia.
A residência do regente constituía um amálgama de distintas dependências em um dos lados dos pátios interiores. Sir William os aguardava junto ao fogo elegantemente uniformizado. Sua fulgurante ascensão junto a Enrique VII contrastava com sua juventude, apenas trinta anos. Despediu-se dos guardas com um simples gesto acompanhando-os até o salão principal.
-Lamento não ter podido lhe saudar antes, Milady. Compromissos no exterior me mantiveram ocupado estes dias - disse beijando com suavidade sua mão.
Anne o olhou com recriminação.
-Dispusestes esta reunião para que firme em seu livro de prisioneiros?
Kingston sorriu mostrando irregulares dentes através de sua barba castanha.
-Não é uma prisioneira aqui, senhora, só uma deslumbrante companhia entre estes tristes muros.
Ela aceitou a adulação com um frio sorriso enquanto se deixava conduzir à mesa disposta no centro da estadia. Hugh os seguiu tenso por aquele leve flerte.
-Há alguma notícia sobre meu julgamento? - indagou enquanto se enxaguava as mãos na bacia oferecida por um dos pajens. Anne e o mesmo Kingston o imitaram antes de dispor-se para jantar.
-O Conselho Real se encontra ocupado com outros assuntos, deve aguardar com um pouco mais de paciência.
-Não é paciência o que me sobra quando meu pescoço está em jogo - resmungou acidamente, aceitando uma porção de carne de veado bem servido por seu anfitrião.
-No momento, as acusações de traição estão sendo estudadas. De Amsterdã lhes acusam de fuga e assassinato.
-Estupendo - suspirou Hugh mal-humorado dando um gole a sua taça.
-Possivelmente queira fazer alguma declaração neste sentido.
-É os ouvidos de Enrique neste lugar, abstenho-me de dar opinião alguma se isso puser em risco minha cabeça - assinalou sagazmente.
A complacente atitude de seu anfitrião se esfumou com aquela áspera declaração. Um tenso silêncio se instalou entre eles.
-Seu trabalho neste lugar é elogiável tendo em conta a dureza de seu cargo – interveio Anne tentado melhorar a hostilidade entre os dois homens.
-Apenas tenho tempo para desfrutar do entretenimento do qual se desfruta na corte - queixou-se o regente.
-Sim, sem dúvida, torturar e martirizar a pobres diabos tem que ser uma tarefa exaustiva - apontou Hugh dando uma enorme mordida em sua carne.
Anne lhe lançou um olhar agudo.
-O humor de me... de De Claire não é o melhor nestes dias, lhe desculpe - rogou sorrindo.
O homem aceitou seu pedido com um gesto de magnificência. Depois disso, Hugh se viu excluído da conversa, alegremente amenizada por Anne e Kingston, que flertaram descaradamente ante seu próprio nariz.
De volta a "seus aposentos" o humor de Hugh tinha sofrido um sério reverso. Próximo à violência, despojou-se de seu colete para jogá-lo sobre uma das cadeiras. Anne optou por despir-se atrás do biombo de tecido, a salvo de seus incendiários olhares. Ela e o escrupuloso de Kingston tinham combinado assistir juntos à missa da capela enquanto ele devia permanecer preso na cela desejando demolir o lugar a murros.
-Dormirá no chão ou na cama? - perguntou Anne deixando-se ver de novo adequadamente vestida para dormir. Seu cabelo livre caía-lhe sobre as costas em uma cascata de ébano.
Hugh a observou com os olhos estreitos e os braços cruzados à altura do peito.
- Ande com cuidado em suas paqueras, Anne, por bem ou por mal é minha esposa.
Os olhos cinza lhe devolveram um olhar desafiante.
-Atuava em sua causa ao aceitar as atenções de Kingston, necessita um amigo neste lugar. Quem melhor que ele?
-Abstenha-se de favores semelhantes.
Ela recebeu sua recriminação com um suspiro impróprio enquanto ajustava furiosamente o cinto de seu robe.
-Me desculpe por tentar de salvar sua pele. Pelo modo que se expõe qualquer um pensaria que não está muito apegado a ela - espetou-lhe caminhando para a cama. Desfez-se de seus sapatos com um chute deitando-se sob as mantas.
Hugh a seguiu abrindo os botões de sua camisa, pensando na melhor maneira de abordá-la. Todos seus dotes de sedutor pareciam esfumar-se ante a obcecada donzela. Depois da torpe sedução da noite anterior, estava seguro de que ela rejeitaria qualquer tipo de aproximação.
-Esta noite dormirei aqui - declarou sentando-se sobre a cama para desfazer-se de suas botas quando ela elevou um olhar vazio a ele.
-Mas... Não pode, nosso acordo era outro.
-"Seu" acordo ainda não foi assinado. Em qualquer caso estou muito cansado para tentar nada, se isso lhe servir de consolo - mentiu levando as mãos a sua calça.
A jovem fechou os olhos bruscamente, deixou-se cair sob as mantas cobrindo o rosto com elas. Uma suave risada a fez apertar os punhos, mas covardemente se manteve a salvo em seu refúgio. Aquele rufião se empenhava em escandalizá-la!
- Deixe um pouco de roupa posta e me prometa que não tentara nada - pediu ainda oculta.
Hugh puxou de lado as mantas. O leito vibrou sob seu peso. Acomodou-se de lado com a cabeça apoiada sobre uma mão para olhar o impreciso vulto formado sob as mantas. Descobriu-lhe o rosto com sua mão livre retirando o lençol de sarja antes de inclinar-se solenemente sobre ela para depositar um suave beijo em sua bochecha.
-O que aconteceria se o fizesse? Se te beijasse ou te acariciasse como fiz ontem à noite?
Anne notou a garganta seca e uma humilhante umidade entre as pernas. Não se acreditava capaz de resistir a nada que ele se propusesse fazer, pensou apreensiva.
Hugh lhe percorreu o queixo com o dedo polegar até alcançar sua orelha como se desfrutasse com o morno contato de sua pele. Anne elevou os olhos para ele desafiante. Um golpe de prazer a percorreu ante aquele rosto, belamente masculino, suspenso sobre ela. Umedeceu os lábios em um convite inconsciente. Hugh continuava lhe acariciando o lóbulo, esfregando-o brandamente com a ponta dos dedos. Anne se revolveu incomoda ao sentir um formigamento em seus seios. Seu coração deteve seu palpitar quando Hugh se inclinou para aproximar seus lábios a seu ouvido. Seu fôlego quente se derramou sobre sua pele lhe provocando um estalo de prazer que fez com que seus mamilos se arrepiassem.
-Por esta noite está a salvo - assegurou alisando um cacho com os nódulos. Abrigou-a sob as mantas com fraternal preocupação antes de lhe dar as costas.
Anne se encontrou observando a musculosa amplitude de sua espinha enquanto o coração lhe pulsava furiosamente no peito. Com um gemido afogado fechou as pernas que instintivamente tinha aberto. Exalando uma baforada de ar girou para o lado evitando lhe tocar e aferrando-se à diminuta cruz que pendia de seu pescoço, tentou controlar o frenético palpitar de seu coração.
***
Sir Kingston veio buscá-la de manhã. Aguardou pacientemente a que a dama desse os últimos retoques enquanto lançava um olhar complacente à cela. A Torre contava com numerosas habitações como aquela, destinadas aos detentos de linhagem. As masmorras se usavam geralmente geral com o povo, embora muitos nobres se vissem castigados com tal trato quando seus crimes assim o mereciam. Kingston procurava evitar essas zonas, as câmaras de tortura ou os fétidos calabouços comunais estavam sob sua jurisdição, mas estava acostumado a delegar suas funções a outros. Observou brevemente a De Claire que, com carrancuda expressão, trabalhava em seus papéis.
-Têm boa cabeça para os negócios conforme dizem - comentou com cortesia.
-Quer separá-la de meu tronco para comprovar? - resmungou Hugh áspero.
-Enrique decidirá não eu - asseverou esticando seus finos lábios em um sorriso que Hugh desejou apagar com um murro.
Anne se adiantou para o homem prendendo sua mão da dobra de seu braço, imagem mesma do esmero feminino.
-Só posso lhe dar um conselho, De Claire, dada a bênção que recebestes - disse referindo-se a jovem donzela que agora custodiava - conduza com prudência e moderação para lhe manter a seu lado o maior tempo possível.
Minutos depois, Hugh os observou da estreita janela enquanto cruzavam lentamente o pátio central. Ao parecer, o regente desejava alargar o tempo em companhia da jovem detendo-se cada dois passos para lhe murmurar ao ouvido ocorrências que ela festejava com alegre risada. Enquanto isso, ele devia conformar-se em observá-los a distância, chamuscado por seu ciúme.
Ciúmes. Aquela palavra sempre lhe tinha sido alheia e agora, entretanto, parecia lhe acompanhar a cada momento lhe corroendo as vísceras.
Olhou uma vez mais o casal. Kingston se inclinava solicitamente sobre Anne, lhe explicando, possivelmente, o lugar exato das diversas execuções levadas a cabo. A jovem reluzia como uma pérola, formosa, calidamente feminina.
E ali de pé, enquanto a espiava com olhos ansiosos, percebeu que seu comportamento era consequência de um misterioso sentimento situado em algum lugar entre sua pele e sua alma. Aquele sentimento tinha um nome próprio, um que ele nunca tinha pronunciado ante nenhuma mulher: amor. Porque em alguma curva do caminho, ele tinha se apaixonado profundamente, absurdamente, loucamente de Lady Anne De Claire, sua esposa.
***
Embora Kingston fosse uma grata companhia, os pensamentos da jovem se achavam longe de sua animada conversa. Voavam insistentemente para o homem que aguardava confinado no alto da sólida torre Beauchamp. Pela primeira vez naquele agitado baile que tinha resultado ser seu matrimônio, sentiu verdadeiro pânico naquele lugar. Possivelmente fosse pelas acidentadas histórias que Kingston lhe tinha narrado ou pelas escuras lendas que impregnavam de morte e dor aqueles muros, mas precisava retornar junto a Hugh, como se sua sobrevivência dependesse de que ela estivesse ao seu lado. Aquela necessidade pulsou junto a seu coração fazendo-se vital. Comeu junto a Kingston e outros convidados, mas rejeitou alongar o convite fingindo um repentino mal-estar para adiantar sua volta à cela enquanto recebia piedosos olhares de compaixão pelo amargo golpe que Enrique lhe tinha imposto. Kingston lhe ofereceu a visita de seu médico pessoal, inclusive propôs que ela pernoitasse em sua casa em vez de na incomoda cela. Anne se negou com cordialidade, mas deixou que o homem a acompanhasse até o interior da Torre.
-Têm minha confiança a sua inteira disposição, milady, algo que necessite ou deseje será concedido de bom grado se estiver a meu alcance - disse beijando seus nódulos com ardor.
Anne lhe dedicou um sorriso de agradecimento.
-Obrigada.
-Sou eu quem deveria estar agradecido de um dia tão especial, como bem sabe, minha esposa faleceu recentemente, ambas compartilhavam o mesmo nome e a mesma idade, você me recorda a ela irremediavelmente.
-Encontrará outra mulher logo, estou segura.
O regente sorriu afetuosamente.
-Espero que se pareça com você, então. A devoção por seu marido é admirável, mas se quiser aliviar sua carga com uma pessoa de confiança...
-Levarei em conta - suspirou retirando sua mão.
Kingston aceitou sua negativa com galanteria inclinando sua cabeça a modo de despedida. Dois soldados a acompanharam até o escuro corredor do segundo andar. Destravaram a fechadura metálica inclinando-se respeitosamente a seu passo. Estupidamente, sentia-se nervosa. Como a receberia Hugh? Uivaria sua indignação ou se limitaria a ignorá-la?
Ganhou o segundo, ou ao menos isso pensou quando a porta se fechou a suas costas. Hugh continuava sentado atrás do escritório. Seus olhos ambarinos a estudaram brevemente antes de concentrar-se de novo em seus documentos. Sem saber o que fazer, liberou seu cabelo com uma sacudida e brincando com o chapéu de veludo se dirigiu para a janela para observar o exterior. Lentamente, seu nervosismo foi se convertendo em ira. Por que estúpida razão tinha retornado junto a Hugh quando podia estar desfrutando de alguma outra distração em companhia de Kingston? A prisão deve ter afetado seu cérebro por preocupar-se com um homem como aquele, pensou lançando o chapéu sobre uma das cadeiras.
Hugh observou cativado os escuros cachos que formavam aquela gloriosa cabeleira. Os recentes descobrimentos quanto a seus sentimentos por aquela jovem o tinham atendido, acovardado. Tentou ignorá-la simulando trabalhar em suas contas, mas fracassou.
-Divertiu-se? Depois do comportamento de Kingston me sentiria defraudado se não fosse assim - incidiu sem poder conter-se.
Anne se deteve para descarregar sobre ele um olhar altivo. "Ah, moça altiva! Acaso não vê que morro por te beijar?", pensou esfregando a pluma com a qual escrevia contra sua mandíbula.
-Kingston ao menos pode manter uma conversa coerente - indicou com petulância.
-Eu também, se me propuser a isso.
-O caso é que não o faz, limita-lhe a me ignorar como se eu fosse um móvel a mais - respondeu ressentida, e quase imediatamente se arrependeu de soltar sua língua. Queria demonstrar a Hugh o pouco que lhe afetava sua atitude, não queria parecer uma esposa queixosa.
Hugh jogou de lado a pluma e arrastou a cadeira para trás de suas pernas ao ficar em pé.
-Quer falar? Bem, falemos. Não suporto que esse bufão ponha as mãos em você, que aceite suas ásperas decisões ante meu próprio nariz - cuspiu apoiando-se com ambas as mãos sobre a mesa como se tentasse controlar sua ira - Sei que não esperará que meu sangue se esfrie no cadafalso para prostrar-se a seus pés com um anel na mão e promessas de amor na boca.
-Hugh!- exclamou surpresa com aquele agitado discurso.
-Queria falar, não é certo?
Anne se recompôs com rapidez desse ataque. Elevou o queixo.
-Então falemos deste matrimônio e sua nulidade. Revisemos esse maldito acordo e seus termos - espetou-lhe com crueldade.
Os olhos ambarinos a olharam através da desordenada franja. Seus lábios se apertaram em uma linha rígida. A veia de seu pescoço se inchou perceptivelmente enquanto dava um passo para trás assinalando a cadeira vazia.
-Sente-se - ordenou com dureza.
Ela obedeceu orgulhosa recolhendo as grossas capas de sua saia com uma mão.
-Comecemos - grunhiu Hugh posicionando-se a suas costas.
Anne se moveu incomoda sobre o assento de couro. Podia sentir os olhos de Hugh cravados em suas costas, atravessá-la como dois carvões incandescentes. Ele se apoiou no respaldo lhe fazendo notar seu fôlego sobre a nuca. Era como ter um lobo ofegando a suas costas. Pegou com mão trêmula a pluma descartada e a molhou no tinteiro.
-O que é o que deseja?
-O que pode me oferecer?
Ela se voltou ligeiramente lhe lançando um olhar precavido.
-Posso lhe fazer um inventário de minhas posses se assim o desejar - indicou com sarcasmo.
-Bem, faça - grunhiu ele, captando o gesto ofendido ante essa proposta.
Os olhos de Hugh se mergulharam nos seus. Estava muito perto, realmente perto, disse a si mesmo observando as bolinhas douradas que salpicavam sua íris. Um suspiro trêmulo escapou da boca feminina. Sua proximidade tinha agitado o ritmo de seu coração. Girou sobre si mesma e tomando um pergaminho, começou a escrever.
Hugh se afastou ligeiramente para observá-la. Deslizou um olhar lento pela elegante linha de suas costas. Seus olhos subiram até seu ombro direito onde os escuros fios de seus cabelos deixavam entrever a pálida pele de sua clavícula. Hugh a percorreu ansiosamente até desembocar no discreto decote de sua capa. A curva de seu peito se achava discretamente oculta sob o grosso peitilho espanhol de suas roupas, mas ele recordava perfeitamente sua forma exata, o lunar cor canela que se escondia sob sua curva. O lento pulsar de seu sangue começou a concentrar-se em seu ventre. Sacudiu a cabeça tentando concentrar-se no que a jovem dizia, uma aborrecida descrição da titularidade de suas extensas propriedades.
Anne continuou rabiscando sobre o papel, alheia à apaixonada tormenta que tinha lugar a suas costas. A elaborada lista de propriedades, baronias, vilas e vilarejos que rendiam tributos a seus baús era complicado, mas Alfred, o tesoureiro do Dragão, sempre tinha tentado mantê-la informada sobre eles. Usou três folhas de caro papel para concluir sua lista. Quando finalizou, repassou atentamente o que escreveu, reparando distraidamente nas escuras manchas que a tinta tinha deixado impressa em suas mãos.
-Aqui têm, escolha o que gostar - disse estendendo a lista em sua direção.
Hugh apoiou os quadris sobre a mesa com as pernas estendidas para frente em uma pose de indolência masculina. Pegou a folha de sua mão e começou a ler.
-Baronia de James's Fields, não. Torre de Darkwall, decididamente não! Conheço, não é mais que um ninho de ratos. vilarejo de Sant Helen, um montão de monges chorosos sempre rogando esmola, não. Douglas Manor? -perguntou detendo sua leitura.
-Herança de minha mãe na fronteira da Escócia, tem extensos pastos com um bom rendimento no futuro - explicou esperançosa.
-Já. As previsões nesse sentido não são aduladoras. Este verão se prevê seca. Tenho entendido que o lugar esteve afetado com a última praga de peste o verão passado. Não haverá mãos suficientes para trabalhar essas terras - prognosticou desprezando-a.
-Como pode saber isso? - interrogou impaciente enquanto ficava em pé. A proximidade de Hugh lhe alterava os nervos, não podia concentrar-se em nada mais que as robustas coxas roçando seu antebraço.
Hugh lhe dedicou um ardente olhar.
-Meu trabalho é prever essas coisas. Analiso os riscos de todas as empresas nas que intervenho e os comparo com os benefícios, se o resultado for positivo terei feito um bom negócio se não... - Encolheu ligeiramente os ombros a modo de explicação.
-Bem, o que acha do resto?
-Feudo de Bruns, Vamos senhora! Não é,mais que um pasto abandonado.
Anne apertou os punhos, Hugh tinha chegado à metade da lista sem achar nada de seu agrado.
-Será que não há nada que lhe agrade nessa lista?
Hugh a contemplou antes de negar.
-Oferece-me as migalhas de suas posses. Se deseja se desfazer de mim, o preço será mais elevado que um montão de pedras velhas.
Anne emitiu um suspiro ofendido.
-Faça com uma nova lista, uma que possa me convencer - disse lhe oferecendo as ofensivas folhas com um sorriso malicioso. Anne pegou de sua mão, descartando-os seguidamente com um gesto furioso.
-Pode me dar alguma pista a respeito de suas pretensões? - inquiriu ofendida.
-Posso se assim o desejar - murmurou ocupando a cadeira que ela tinha abandonado. Recolheu as pernas sob o assento inclinando-se perigosamente para ela - Quer uma pista a respeito de minhas pretensões? O que te parece esta? - disse arrastando-a a seu colo.
-O que propõem? - ofegou surpresa quando sentiu sob seu peso as robustas coxas do homem.
-Te dar uma pista.
-Os guardas podem entrar a qualquer momento - protestou tentando levantar-se.
-Há tempo de sobra - disse retendo-a.
-Joga sujo.
-Foi a senhora mesma quem quis saber minhas pretensões - grunhiu ele colocando os lábios na curva que unia seu ombro e pescoço.
O inesperado contato dessa boca a paralisou.
-Hugh!
-Deixa de dizer meu nome como se fosse o de um louco. Maldição Anne! Você é a única coisa que desejo dessa lista.
A rude declaração a fez endireitar-se.
-Não pode voltar a acontecer - choramingou tentando levantar-se de novo.
-Sempre podemos fingir que não aconteceu verdade? Guardaremos o segredo de nossa relação entre nós dois, vamos fingir que não aconteceu - sussurrou-lhe em clara referência ao insultante acordo que tinha feito no dia anterior.
Voltou a colocar os lábios sobre o ombro deixando um rastro de beijos úmidos encaminhando-se para sua nuca enquanto separava de seu caminho o denso cabelo com a palma de sua mão.
-O que quer de mim? - perguntou a ponto de perder a integridade.
Hugh parou com a boca atrás de sua orelha.
-Quero que se entregue para mim, quero sentir suas pernas rodeando meu corpo enquanto suspira meu nome, quero estar dentro de ti... - confessou com a voz reduzida a um rouco murmúrio.
-Não pode me pedir algo assim. O que acontecerá depois?
As mãos de Hugh se deslizaram sobre seu torso detendo-se sob a curva de seus seios para acariciar com seu polegar a generosa forma redonda sobre o tecido de seu vestido.
-Não posso te oferecer um futuro, Anne, mas sim um presente - opinou beijando sua nuca nua – Devemos aproveitar as circunstâncias.
Anne lutou contra a força dominadora de seu desejo. Fechou os olhos implorando a vontade necessária para negar-se a aquele pacto diabólico.
-Não renunciarei a minha liberdade - assegurou inclinando ligeiramente a cabeça para permitir um melhor acesso de seus lábios.
-É justo - aceitou Hugh notando próxima sua rendição.
-Não se oporá?
-Não - mentiu retendo entre seus dentes a fragrante pele de sua nuca como o faria um lobo selvagem com sua fêmea, rendendo-a a seu desejo - Quero fazer amor com você – grunhiu - Na realidade não posso pensar em outra coisa.
Anne gemeu, curvou as costas para trás empurrando seus seios contra as palmas estendidas. Hugh lambeu as ligeiras marcas de seus dentes sustentando seus seios, estimulando seus mamilos rígidos através do grosso tecido de seu vestido. A jovem gemeu de novo lhe oferecendo o pescoço.
-Terá que ser mais discreta se deseja que isto fique entre estas quatro paredes - recomendou reprimindo um sorriso.
A jovem balançou a cabeça taciturnamente apertando os lábios quando sentiu a língua de Hugh lamber sua orelha.
Hugh apoiou as mãos em seus quadris abraçando-a por trás.
-Desta vez faremos as coisas direito - assegurou ficando em pé, e pegando sua mão a conduziu para a cama. Sentou-se na beirada do colchão com a jovem entre as coxas e elevou o rosto contra seu peito. Lentamente, os braços da jovem se fecharam em torno de seu pescoço. Um sorriso elevou suas comissuras ante a tímida resposta.
A jovem contemplou comovida; seu cabelo dourado e duvidou uns segundos antes de acariciar os sedosos fios com as mãos trêmulas. Capturou esse momento em seu coração, entregue ao sonho de sua juventude.
-Hugh - suspirou acariciando seu rosto, roçando as bochechas enxutas com seus dedos.
As mãos do homem se moveram sobre seu corpo envolvendo-a com seu carinho. Posou seus lábios sobre sua boca. Obrigou-a sentar-se a seu lado sem interromper o beijo. Como um verdadeiro professor na arte da sedução, pensou Anne entregando-se sem reservas a aquela mágica ilusão. Sentiu sua língua medir humildemente seus lábios. Com um suspiro foi a seu encontro, aceitando-o sem reservas no interior de sua boca, imitando os lentos movimentos, empurrando-o e atraindo-o com uma suave sucção. Hugh descansou sua testa contra sua bochecha tentando recuperar a chama de prazer daquele beijo.
-Que segredo guarda para fazer de mim um escravo? - murmurou enredando seus dedos nos escuros cabelos.
-Sempre segurou as rédeas deste cavalo e sabe - indicou com um sorriso pesaroso.
-Apenas coloquei meu pé no estribo me senti sem sela, acredite - declarou pegando sua mão para colocá-la sobre seu peito, fazendo notar contra os dedos o furioso pulsar de seu coração - Vê? É assim cada vez que te tenho perto, cada vez que ouço sua voz ou sinto sua presença - confessou lhe dedicando um olhar intenso que lhe roubou o fôlego.
Voltou a beijá-la, brandamente, como se temesse assustá-la, e Anne emitiu um suspiro de prazer enquanto se deixava cair para trás.
-Hugh.
-Eu gosto quando pronuncia assim meu nome, como se doesse - disse aspirando o fragrante aroma de seu pescoço.
-Hugh - repetiu ela entregue.
As mãos de Hugh puxaram os laços corpo do vestido, afrouxando suas costuras, descobrindo a regata interior com um movimento sutil.
-É tão bonita... - disse acariciando com reverência a estreita curva de seus quadris. A jovem emitiu um som afogado. Aquela mão parecia abrasá-la. A pele lhe ardia sob a regata. Ele pareceu entender sua necessidade, inclinou-se sobre ela posando sua boca nos endurecidos bicos de seus seios fazendo rodar sua língua sobre o tecido que os cobria para umedecê-los com sua saliva. A jovem enredou seus dedos entre as suaves mechas de seu cabelo, estreitou-o contra seu peito oferecendo-se por completo. Hugh levantou sua anágua e desfez o nó de sua calça descobrindo o triangulo de escuro pêlo que coroava suas pernas. Ela se estremeceu sob seu olhar com a mão ainda enredada em seu cabelo.
-Sinto-me enfeitiçado, enfeitiçado por seus olhos de gata.
Não, era ela a enfeitiçada, pensou fundindo-se sob seu olhar. Uma certeza surgiu de entre a bruma, seu amor por aquele homem tinha permanecido latente no fundo de seu coração, como uma semente aguardando a chegada da primavera.
-Esta vez serei cuidadoso Anne - prometeu acariciando com ternura suas bochechas.
Anne sentiu seus lábios deslizarem por seu pescoço, bordar os franzidos de sua camisa com beijos ligeiros. Suas mãos puxaram o tecido descobrindo seu ombro. Mordiscou o arco de sua clavícula rodeando-a com sua língua antes de escorregar humildemente para o nascimento de seus seios. Pegou um deles contra sua palma áspera atraindo-o para sua boca. Uma explosão de prazer contraiu o ventre da jovem ante o rítmico sugar de seus lábios sobre a crista erguida de seus mamilos. Afundou seus dedos na firme musculatura de seus ombros, procurando um ponto de fixação que lhe impedisse de elevar-se até o teto. Freneticamente, suas mãos procuraram o contato de sua pele, puxou sua camisa despindo seu torso. A suavidade de seu corpo conseguiu lhe arrancar um gemido. Hugh a estreitou contra seu peito. Seus seios, úmidos pelos recentes cuidados de sua boca, aplanaram-se contra os contundentes músculos peitorais. O pêlo dourado fez cócegas contra os sensíveis mamilos provocando uma descarga de prazer que a fez arder. Hugh se desfez de sua camisa com rudeza enquanto se posicionava entre suas coxas. A aguda necessidade de estar dentro dela golpeava rudemente suas intenções de mostrar-se terno e atento.
-Preciso estar dentro de ti - sussurrou fazendo eco dessa necessidade.
Abraçou-lhe os quadris, balançou-se entre suas coxas abertas cobrindo sua excitação contra seu corpo. A feroz paixão do homem a avivava. Sua pele sensibilizada notou a rugosidade da malha de sua calça. Hugh conseguiu desfazer-se de sua roupa elevando-se sobre um braço enquanto sua mão livre manipulava os cordões de sua braguilha. Em uns segundos mostrou sua esplêndida nudez ante os olhos ávidos da jovem. Seu corpo de guerreiro alimentou seu desejo.
-É perfeito, nunca tinha imaginado... - deixou a frase no ar, incapaz de continuar falando quando a seda de seu membro acariciou as dobras íntimas entre suas pernas. Com a ponta dos dedos percorreu a avultada musculatura de seus bíceps descendo admirativamente por seus tensos antebraços. Seus dedos logo lhe rodearam os fortes pulsos. Tudo em Hugh denotava solidez, firmeza. Desejava fundir-se contra ele, meter-se sob sua pele, formar parte dele. Hugh entrelaçou suas mãos lhe sussurrando ao ouvido.
-Sou todo teu.
Sentiu sua boca sobre seus seios beijando-a avidamente.
-Queria um acordo? Bem, então me ceda este tesouro - disse ele lambendo com sua língua o lunar de seu peito - Junto com estas jóias - manteve sua boca sobre a cúpula arrepiada de ambos os seios; sugou-os com sua boca até que estes ficaram rígidos - Entregue a posse destes feudos. - Lambeu seu estômago até chegar a seu umbigo - O direito sobre este poço de vida.
Anne se retorceu entre seus braços quando ele passou a língua naquela depressão.
-Sim - choramingou rendida.
-Me ceda um lugar neste santuário de vida. - Sua boca rodou sobre a pele interna de suas coxas - Quero ser peregrino nos caminhos de seu corpo, semear estes campos com minha semente - disse antes de posar sua boca entre suas pernas.
Anne se elevou sobre o colchão olhando horrorizada a dourada cabeça inserida entre suas coxas nuas.
-Hugh! - exclamou tentando livrar-se.
Ele a seguiu, plantando firmemente sua boca no centro de sua feminilidade. A jovem emitiu um gemido ao sentir sua língua entre as úmidas dobras que davam acesso a seu corpo. Uma espiral de prazer e confusão a engoliu. Doce Jesus! Aquela era a boca do diabo! Pensou desfalecendo sobre o colchão. Hugh mordiscou sua carne levemente, alimentou-se dela circundando a pequena pérola que custodiava com o extremo de sua língua, estimulando-a com lentas estocadas.
Anne se aferrou aos cobertores lutando para manter o controle. Elevou os quadris para Hugh sentindo-se pecaminosa por isso. Rodeou-lhe as nádegas com ambas as mãos sujeitando-a, penetrando em seu corpo com uma lenta e carícia de sua boca que desatou por completo o nó de emoções. Um brilho ardente estalou entre suas pernas convertendo seu corpo em fogo. Ofegou elevando os quadris, completamente deslumbrada pelo intenso prazer. Hugh a obsequiou com uma carícia de sua mão, acalmando seu ardor com um beijo na parte interna de suas coxas. Elevou-se entre suas pernas com os joelhos separados. Anne o observou através de suas pálpebras entreabertas incapaz de mover-se. Fixou a atenção na orgulhosa masculinidade erguida como um estandarte de guerra assinalando a fortaleza a conquistar. Elevou as mãos para seus quadris enxutos atendo-se a ele.
-Deus do Céu, mulher! - grunhiu Hugh caindo torpemente sobre ela.
-Toma-me Hugh.
Ele se elevou ligeiramente sobre ela feliz com sua urgência, guiando-se firmemente com uma mão. Seu tenso membro penetrou parcialmente em seu corpo. Anne continuava se segurando a ele, com a boca entreaberta beijava seu pescoço, percorria suas costas com suas mãos apertando-se contra ele. Hugh deixou cair um beijo em sua têmpora. Empurrou dentro dela com suavidade, apertando os dentes quando a estreita umidade de seu canal o atraiu a seu interior. Anne permanecia quieta sob seu corpo, com os olhos fechados e um gesto carnal nos lábios vermelhos.
-Não desejo mais que isto - recitou mergulhando nas profundidades cinza quando ela o olhou ao fim. Beijou-a na boca penetrando entre seus lábios com sua língua.
Anne se rendeu ao impulso dessa boca recebendo-o em seu interior duplamente. Uma ardente onda tomou conta do homem. Pela primeira vez em sua vida, o significado do ato carnal se revelou em toda sua magnitude; aquilo era pertencer um ao outro, aquilo era entregar-se sem reservas. Anne se revolveu sob seu corpo, capturou-o firmemente entre suas pernas elevando seus quadris. Hugh escorregou em seu interior enchendo-a por completo, encaixando perfeitamente nela como a peça final de um quebra-cabeça.
Balbuciou um juramento com a mandíbula apertada. Tentou de conter o raivoso desejo de cravar-se em seu ventre uma e outra vez. Em troca, deu-lhe tempo para que se acostumasse a seu corpo. Com um grunhido se elevou sobre seus antebraços, deslizou-se para fora com suavidade procurando em seu rosto algum sinal de dor ou desconforto antes de voltar a penetrá-la com um lento embate. Anne gemeu sob seu corpo, arqueando-se. Hugh inclinou o rosto para lhe mordiscar o pescoço exposto.
A febre do desejo se acendeu no rosto feminino. Abraçou-se a Hugh deslizando ambas as mãos sobre seus quadris, sobre a tensa curva de suas nádegas. Lutava por seu prazer com unhas e dentes, pensou divertido ao notar o agudo fio de seus dentes sobre seu ombro. Inspirou pelo nariz antes de balançar seus quadris em um movimento de avanço e retrocesso compassado. Aferrou-se com força à moça notando o reflexo de seus arremessos nos suaves estremecimentos que a sacudiam. Apertou os dentes ao enchê-la. Viu-se miserável por seu ardor, unido a essa mulher em corpo e alma. A eternidade se abriu ante ele. Anne gemia seu nome sob seu corpo, arranhava-lhe as costas, soluçava, quando a culminação o alcançou. Seu corpo inteiro tremeu liquidificando-se, fluindo em uma pulsação constante dentro de Anne. A força do orgasmo lhe arrancou um grito rouco do fundo da garganta, acreditou morrer quando o rugido de seu coração retumbou em seus ouvidos. Deixou-se cair desmaiadamente a um lado arrastando a jovem consigo. Ela respirava com rapidez, ainda unida a ele. As paredes de sua vagina tentavam retê-lo em seu interior com rítmicas contrações que intensificaram seu orgasmo.
Hugh se inclinou sobre ela para beijá-la. Embalou uma de suas nádegas com a palma de sua mão retendo-a junto a ele.
-Foi a melhor... - deteve-se subitamente envergonhado. Ao parecer, tinha passado muito tempo em companhia de Rufus - Algo mágico - retificou encostando em seu pescoço. O fôlego quente acariciou a pele suada da jovem arrepiando-a. Hugh saiu de seu corpo com um movimento.
Não gostou quando ele se retirou, queria-o sempre ali, unido a ela, pensou Anne flutuando. Hugh pareceu notar seu descontentamento e a beijou possessivamente.
-Poderia repeti-lo toda a eternidade - confessou lambendo a comissura dos lábios.
E ela também, eternamente, mas se aproximava a visita de seus carcereiros. Uma parte dela compreendia que aquilo não era mais que uma falsa ilusão, um refúgio que ambos tinham construído com quiméricos argumentos. Quando ele fosse liberado e declarado inocente, suas prioridades voltariam a relegá-la, voltaria a ser uma esposa imposta pela necessidade enquanto ele retornava a sua antiga vida, a suas mulheres, a seus negócios. A temporalidade daquele acerto obrigava a sua consciência a prevenir seus sentimentos. Desfrutaria daquela extravagante representação de matrimônio, mergulharia nela consciente de seus perigos, guardando seu amor nos limites de seu coração.
-Será melhor que nos vistamos - disse evitando seu olhar. Sentou-se sobre o colchão em busca de suas roupas que desordenadamente jaziam sobre o chão. Cobriu o corpo com a enrugada anágua. Devia levantar-se, pensou, mas não estava segura de que suas pernas pudessem sustentá-la.
Hugh a seu lado, observava-a com expressão grave, glorioso em sua nudez. Não queria lhe olhar, não queria ver aquele corpo de herói grego, disse elevando as meias sobre os joelhos e ajustando o laço de suas ligas.
-Seguirá adiante com seus planos de anulação? - perguntou obrigando-a a lhe olhar.
Ela olhou para ele indecisa. Os traços de Hugh se endureceram conferindo uma fera expressão, a mesma teria feito estremecer seus inimigos em seus tempos de guerreiro. A pálida marca de sua cicatriz se contraiu com esse gesto.
- Disse que o faria - sussurrou segura de que aquela era a única maneira de proteger seu coração.
-Sim, claro - grunhiu ele ficando em pé com um ágil salto. Recolheu sua calça do chão e começou a vestir-se com bruscos movimentos. Pequena descarada! Nunca antes havia sentido algo similar por uma mulher e assim o pagava: com obcecada determinação de desfazer-se dele.
Ela pôde desfrutar de uma vista parcial da firme linha de suas nádegas antes que Hugh vestisse a calça. Depois, deslizou a camisa sobre seus largos ombros antes de recolher seu colete do chão para deter-se ante ela, assinalando-a com o objeto apertado em um punho.
-Juro pelo mais sagrado que é a mulher mais teimosa que conheci - explorou.
Anne o imitou colocando a regata. Vestiu sua roupa ajustando torpemente os laços. Convenientemente vestida, dirigiu-se para Hugh que, inclinado sobre o escritório, colocava-se as botas com enérgicos puxões.
-Não pode me acusar de nada, esse foi nosso acordo - disse.
Hugh descarregou sobre ela um olhar ardente.
-Seu acordo, senhora, não o meu - resmungou plantando-se ante ela como um gigante dourado.
Anne retrocedeu intimidada por sua fúria. Não conseguia compreendê-lo, entregou-se a ele. Que mais queria dela?
-Está bem. Continuemos com esta pantomima - grunhiu ele finalmente, tomando a mandíbula com uma mão para plantar em sua boca um beijo antes que ela pudesse se afastar. Sua boca se abriu instintivamente para lhe receber, mas ele se retirou bruscamente, deixando-a plantada no meio da estadia, frustrada e furiosa.
Hugh se dirigiu fazia a janela observou furiosamente o exterior sem vê-lo. Menina presunçosa! Respirou profundamente tentando acalmar-se. Ninguém tinha conseguido lhe tirar do sério, como aquela instada donzela.
Minutos depois, os soldados irromperam na cela em sua rotineira inspeção. Anne, que fingia ocupar-se de seu bordado, elevou até os recém chegados uma modesta saudação, imagem do próprio recato. Atuava muito bem, pensou Hugh, somente o rubor de suas bochechas ou o ligeiro inchaço de seus lábios delatavam as atividades que a tinham entretido essa tarde. Seus olhos se detiveram uns instantes na cama impecavelmente arrumada depois dos esforços da jovem. Seus olhos se detiveram nas borlas que roçavam o chão. Um objeto enrugado jazia esquecido, quase oculto sob a cama. Um sorriso diabólico apareceu em seus lábios ao compreender de que se tratava. Anne falava com os guardas enquanto ele se aproximou da cama disposto a pegar o íntimo objeto feminino.
-Necessitaremos mais uma manta Seymur, o conde se queixa do frio nas noites - dizia ela assinalando a cama no chão.
O soldado assentiu com o olhar cravado sobre as peles.
- De Claire se ofereceu galantemente para dormir no chão para preservar meu descanso - continuava explicando ela enquanto Hugh se sentava na cama apanhando o objeto com o salto de sua bota.
-Não quero que esses terríveis pesadelos que lhe acossam voltem a aparecer, minha esposa - interveio Hugh - É impossível descansar quando grita e se curva como se o diabo habitasse seu corpo.
Anne lhe lançou um olhar irado ante essa intromissão.
-Sim, está acostumado a ocorrer de vez em quando - chiou ela lhe dando as costas e chamando a atenção dos homens com uma piscadela de seus cílios negros. Hugh aproveitou o momento para pegar o enrugado objeto. Sustentou uns instantes em seu punho desfrutando de sua suavidade antes de escondê-lo sob a manga de sua camisa.
-De Claire se preocupa comigo como um irmão – disse - Cresci imaginando-o como tal, na realidade nem sequer posso lhe ver como um marido - suspirou convincentemente.
Para Hugh, estava clara sua intenção: confundir aquelas mentes simples com suas paqueras, lhes fazendo acreditar que somente o amor fraternal a unia a ele para assim em um futuro reclamar a nulidade de seu matrimônio. Com o objeto em seu poder, ficou em pé para dirigir-se a pequena porta.
-Pois é isso o que sou desde nosso casamento - assinalou lhe rodeando os quadris com um braço.
Essa amostra de afeto enfureceu a jovem que se endireitou bruscamente a seu contato. Hugh ignorou o tormentoso olhar cinza e apertou levemente seu braço em torno de seus quadris. Anne posou uma mão sobre seu braço simulando uma carícia antes de lhe cravar as unhas em uma vã tentativa de lhe afastar, enquanto os empregados colocavam um novo balde de água atrás do biombo. Os guardas ficaram de lado para lhes permitir o passo. Anne aproveitou a ocasião para incrementar a pressão de suas garras, mas só conseguiu arrancar um sardônico sorriso do insofrível homem.
-O que está fazendo? - disse usando seu cotovelo como alavanca para mantê-lo à distância.
- Relaxe estou lhe devolvendo algo que lhes pertence - indicou com um gesto de falsa humildade.
Anne descarregou sobre ele seu melhor olhar ofendido.
-Pois faça de uma vez e me deixe em paz - resmungou lhe cravando o cotovelo com maior firmeza.
Seu ocupado abraço atraiu a atenção dos guardas, justo o que menos lhe interessava. Deteve seus esforços de separar-se de Hugh. Já se encarregaria mais tarde que cobrar essa ofensa. Hugh exibiu um sorriso.
-Preferiria fazê-lo em outro momento - murmurou-lhe ao ouvido.
Os guardas se distraíram com a saída dos empregados, momento que aproveitou a jovem para lhe dar um novo golpe.
-Faça agora ou me deixe em paz - pronunciou com a mandíbula apertada e um falso sorriso no rosto.
-Seus desejos são ordens, querida. - Aquela repentina ingenuidade deveria havê-la posto de sobre aviso a respeito de seus propósitos, mas Anne estava muito furiosa para perceber. O muito estúpido estava a ponto de jogar por terra seus planos de fingir uma relação fraternal entre ambos, o grau de intimidade desse abraço era muito específico para considerá-lo somente amistoso.
Hugh lhe mostrou sua mão livre com um florido movimento. Havia algo em seu punho...
-Acredito que isto lhe pertence - disse com inocência.
Os olhos da jovem se abriram ao descobrir sua roupa íntima em poder dele. Tentou abrir a boca enquanto uma ardorosa onda de vergonha lhe subia pelo rosto. Arrebatou-lhe a ofensiva peça em um movimento rápido para escondê-la entre suas amplas saias.
-É um bastardo - balbuciou lançando um rápido olhar para trás onde os guardas que, alheios por completo ao feito, retornavam as suas tarefas com outros presos.
-Só fazia um favor, pense o quão humilhante seria que um desses homens o tivesse achado... - defendeu-se ele com afetada ingenuidade.
Quando a porta foi trancada, Anne se desfez do abraço com um enérgico empurrão que apenas conseguiu lhe fazer cambalear enquanto ele se desfazia em risadas.
-Não é mais que um negociante de ovelhas sem maneiras, grosso e pestilento - Espetou-lhe fulminando-o com seus incríveis olhos cinza. Hugh festejou suas palavras com uma nova gargalhada - Oh, cale-se! - deu-lhe as costas com um magnífico girou para ocultar-se atrás do biombo.
***
Anne sucumbiu ao sonho sobre o escritório. Teimosamente, negou-se a deitar-se na cama, zangada por seu estratagema. Sem rastro algum de arrependimento, Hugh o tinha permitido e agora recostado comodamente observava o sonho de sua teimosa esposa. Em realidade, tinha passado da observação à admiração sem perceber. Aquela jovem tinha conseguido o que nenhuma mulher tinha antes: capturar seu coração. Observou-a encantado enquanto ela descansava incomodamente com a cabeça apoiada em ambos os braços e o rosto voltado em sua direção. Tinha os lábios entreabertos e o cabelo revolto sobre as costas. Era formosa e era dele. Uma onda de posse o alagou. Nunca antes tinha considerado que uma pessoa lhe pertencesse, mas Anne lhe pertencia, possivelmente sempre, só que ele tinha sido muito obtuso para perceber. Levantou-se silenciosamente para aproximar-se dela. Meigamente, acariciou-lhe o nariz, entreteve uns segundos em contar suas sardas enquanto um sorriso aparecia em seus lábios.
Anne abriu os olhos ao notar-se elevada, murmurou algo enquanto Hugh a apertava entre seus braços.
-Durma - sussurrou-lhe beijando-a na testa. Ela se aconchegou entre seus braços enquanto fechava novamente os olhos. Hugh a acomodou delicadamente sobre o leito soltou seu cabelo de suas presilhas e os deixou sobre a mesinha para que ela pudesse encontrá-los na manhã seguinte. Apagou as velas antes de deitar-se a seu lado curvando seu corpo em torno dela para lhe brindar seu calor. Fechou os olhos enterrando o nariz em seus cabelos. Dois segundos, depois, dormia placidamente.
Capítulo 12
Como cada manhã, Lady Botwell desceu até a cozinha com um recorrente rubor tingindo suas bochechas ao pensar em um possível encontro com aquele insidioso do Rufus. O muito descarado teve o desatino de entrar em seu quarto oferecendo-se como seu amante, muito orgulhoso ao parecer de seus atributos. Que disparatado cérebro regia suas ações! Aquele esquálido corpo tinha feito com que as sobrancelhas da viúva se curvassem de incredulidade ante seu atrevimento e, entretanto, em um minúsculo canto de seu coração onde dormia seu ego feminino, não podia evitar sentir-se um tanto elogiada por seu interesse. Fazia anos que os homens tinham deixado de apreciar a mulher que habitava nela para voltar-se para as mais jovens, nem sequer seu marido se interessou por ela como mulher, tão só se preocupou em procriar um herdeiro antes de desfazer-se dela para entregar-se de cheio a seus próprios interesses. O anúncio de sua morte não lhe tinha provocado mais que umas mornas tristezas, ao fim e ao cabo, tinham vivido separados desde a morte de seu único filho. Tinha sido feliz formando parte do "exercito ducal" de Lady Norfolk e, mais tarde, como dama de companhia da jovem condessa Darkmoon a qual tinha chegado a apreciar como uma verdadeira filha. Sua vida transcorria satisfatoriamente até que esse escutelo vindo do continente cruzou seu caminho, abordando-a com seus insistentes requerimentos, confundindo-a com suas enjoativas adulações.
Nathaniel se interpôs em seu caminho na metade da escada. Sua expressão se esfumou de seu rosto miúdo levantando as imediatas suspeitas da viúva.
-Vêem aqui, moço - ordenou lhe examinando com olho crítico - Deve ter mais cuidado com sua roupa, Nathaniel - assinalou rabugenta observando as sujas panturrilhas de suas meias e as manchas de fuligem que tingiam os punhos de sua camisa - Não está roubando comida na cozinha?
O menino negou com a cabeça tragando precipitadamente o pedaço que tinha na boca. Lady Botwell escondeu sua diversão sob um gesto severo.
-Vá ao pátio e fique bem atento a qualquer mensagem que possa chegar de Lady Darkmoon.
-Sim, senhora - aceitou desejoso de desaparecer do cenário e andar a vontade. Possivelmente Gantes poderia lhe ensinar alguns truques com a espada...
-Senhora Grint está na cozinha?
O menino assentiu mostrando um sorriso desdentado.
-Ela e sir Van Der Saar estão tendo uma de suas brigas – confirmou prevenindo-a.
Lady Botwell aceitou essa afirmação com integridade e arrumando o cabelo, entrou no lugar disposta a mediar na disputa.
Não se equivocava. Em frente a lareira principal da cozinha, a formidável cozinheira da casa empunhava uma longa faca com uma expressão ameaçadora. Tinha o rosto vermelho e um olhar aceso. Frente a ela, aquele desgraçado do Rufus olhava as unhas com expressão aborrecida. Os empregados se amontoavam a seu redor com entusiasmo, fazendo apostas pessoais a respeito de quem ganharia a discussão.
-Não se aproxime de meu fogão se não quiser acabar com a garganta aberta - bramou a mulher adiantando a faca uns centímetros.
-Vamos, vamos, acabará se machucando com esse brinquedo - zombou o holandês com seu sotaque germânico. Apoiou uma mão no cabo de sua espada, desviando o olhar da cozinheira para esse lugar - Não acredito que seu aço possa comparar-se ao meu.
A cozinheira soltou um suspiro feroz.
-Só tento lhe dar um conselho para melhorar seus métodos. A carne servida ontem estava seca e pouco saborosa - continuou alheio ao perigo de morrer sob o incendiário olhar da mulher. Ninguém criticava a comida da Senhora Grint e vivia para contar. Lady Botwell se adiantou disposta a salvar aquele ser inconsciente.
-Senhor Van Der Saar, podemos falar? – perguntou abrindo passo entre o grupo de empregados que rodeavam os competidores. Sua expressão séria deixava claro que não toleraria nenhuma negativa.
Rufus se virou para ela exibindo um sorriso. Seus olhos pálidos escorregaram sobre as generosas curvas da matrona.
-Como não, Lady Botwell - aceitou polindo a ponta dos bigodes.
Ah, que odioso ser! Grunhiu Lady Botwell para si.
-Me siga, por favor – disse ela saindo na frente - Senhora Grint encarregue-se de que tudo esteja em ordem - acrescentou sem enfrentar o furioso olhar da cozinheira.
-Já ouviram, todos ao trabalho agora! - gritou a mulher a suas costas.
Rufus a seguiu docilmente, admirando o rebolado daqueles quadris terminantes. Amparando-se em seu status de matrona, a mulher o enfrentou na solidão da sala.
-Estas brigas com a Senhora Grint não podem continuar senhor Van Der Saar - começou com tom conciliador.
-E suas negativas tampouco, formosa dama, deixe de resistir e se entregue a mim, se compadeça de minha dignidade - disse fincando um joelho ante ela para beijar sua mão com entusiasmo.
Lady Botwell puxou a mão dando um passo para trás. Ele a seguiu chamando nome com grave pronúncia.
-Não vê acaso o desgraçado que me faz com suas negativas? - perguntou beijando a saia de seu vestido.
Que patético caipira! Pensou divertida.
***
Klemens Dwarswaard escutou com inquietação as notícias chegadas da Inglaterra. O mediador de Van Dijk já tinha se entrevistado com o Conselho Real em Londres expondo as novas exigências do Estatúder e, por uma vez, o monarca inglês parecia disposto a render-se a elas. Uma ardilosa retirada se levasse em conta que atrás da assinatura do acordo comercial, as arcas inglesas se veriam beneficiadas. Uma terminante maldição escapou de sua boca. Nessa mesma noite teria lugar uma reunião da Liga para posicionar-se nesse novo cenário. A nova aliança ameaçava seus interesses, as rotas utilizadas exclusivamente por seus comerciantes corriam perigo se a frota holandesa navegasse sob o patrocínio da incipiente armada inglesa. Sua estratégia de semear a desconfiança entre ambos os lados aproveitando-se da morte de Margrietje Van Dijk teria resultado ser um fracasso. A desmedida ambição do Estatúder ante o assassinato de sua esposa podia enfurecer os ingleses, mas não bastava para provocar uma ruptura definitiva. Necessitava uma ação mais contundente, menosprezar a confiança entre ambos os lados sem que a Liga se visse implicada de algum modo, mas como? Seu único recurso no momento era fomentar os ataques dos Vitalianos dissuadindo os comerciantes holandeses de utilizar suas mesmas rotas, mas aquela era uma arma de dois gumes, o descaro dos piratas começava a enfrentar a cidades inscritas dentro da Hansa.
Devia pensar em uma nova fórmula que lhe permitisse ganhar tempo e reorganizar sua estratégia. A conspiração era um trabalho extenuante. Pegou um dos peões do tabuleiro de xadrez fazendo-o escorregar entre seus dedos enquanto fazia uma lista mental das vantagens com as quais contava: no momento ninguém suspeitava da Liga, era possível, inclusive, que a Inglaterra acreditasse que a ingerência proviesse de seu eterno inimigo: França. Sim, fomentaria as súplicas inglesas nessa direção. Livre de toda suspeita, a Hansa poderia pensar no seguinte passo a dar.
Seu espião, até o momento silencioso, inclinou-se sobre a mesa com um sorriso. Klemens estudou o rosto de seu informante.
-Têm algo mais para mim?
-Na realidade, é um esboço, uma idéia que surgiu de certa informação que acredito possa ser de utilidade para seus interesses. - O espião se deteve aí deixando que o homem pensasse em suas palavras.
O comerciante emitiu um suspiro ante seu mutismo, adivinhando o porquê de seu dramático silêncio.
-Quanto?
-Não desejo nada material.
-O que procura, então?
O espião franziu os lábios em uma careta convertendo seu rosto em uma máscara de avareza.
-Uma vez que tudo tenha acabado, me entregará a Condessa Darkmoon.
Klemens estudou com atenção esse pedido. Tardiamente, havia descoberto que a jovem que visitou a prisão na cidade não era na realidade uma figura insignificante, como tinha pensado no princípio, mas sim fazia parte de um elaborado plano do monarca inglês para salvar a De Claire, se tivesse tido conhecimento dessa informação antes, teria podido dispor tudo em seu benefício, mas suas habituais fontes de informação tinham fracassado estrepitosamente impossibilitando tal façanha. A possível vantagem lhe tinha escapado entre os dedos como um punhado de areia. Maldição!
-Merece esse prêmio sua informação? - interrogou afastando a um lado o tabuleiro de jogo.
O homem sorriu esfregando a mandíbula.
-Só saberá se me escutar. Verdade?
***
O tamborilar da intensa chuva contra a janela distraiu os pensamentos de Hugh. Tinha transcorrido uma semana mais na prisão e nada do exterior indicava que as coisas fossem mudar. Olhou de esguelha para Anne que, recostada sobre a cama, relia a última missiva procedente de Norfolk. Seu olhar ficou preso em seu rosto ante as notícias da duquesa. Darius, o filho do meio dos duques, tinha quebrado uma perna e se recuperava trabalhosamente da infecção posterior as suas lesões e também progredia a gravidez da duquesa com as moléstias típicas de seu estado. A jovem emitiu um suspiro ao finalizar sua leitura dobrando a carta com cuidado. Seus olhos cinza vagaram pela estadia até topar com ele.
-Acha que a duquesa dará a luz a uma menina? - perguntou sentando-se na beirada do colchão.
Hugh, acomodado na grade de pedra cruzou as pernas à altura dos tornozelos.
-Se não for assim, Wentworth sofrerá um ataque - disse pensando divertidamente nos rebeldes descendentes do temível Dragão.
-Acho que eu gostaria de ter uma menina - comentou Anne descuidadamente, mas ao perceber seu deslize se ruborizou profundamente.
Para sua surpresa, Hugh não brincou sobre o tema, mas sim se manteve silencioso, inquietantemente sombrio. Como podia um homem esconder tão diversos estados de ânimo? Durante esses dias, ele se tinha mostrado cortês, inclusive encantador, mas não havia tentado nenhum tipo de aproximação. Contrariamente a seu sentido comum, começou a aguardar algum tipo de sinal que indicasse que o acontecido entre ambos não tinha sido um mero capricho temporário, mas ao parecer Hugh tinha assumido finalmente um tipo de preocupação mais fraternal que marital. E ela se encontrou desejando a volta daquela apaixonada intimidade que tinham compartilhado em duas ocasiões.
-Venha aqui - ordenou com o tipo de entonação que utilizaria um irmão mais velho ante uma pequena irmã.
-Tenho que obedecer? - perguntou sem poder evitar que seus lábios se esticassem em um sorriso.
-Sim, se for sensata. Vamos, mulher, venha pressa - decretou arrogantemente.
Anne ficou em pé com uma reverência.
-Com gosto, milorde - aceitou com falsa docilidade.
Hugh emitiu um suspiro divertido.
-Jamais me deixaria enganar por um estratagema semelhante, é tão irreverente quanto um exército de escoceses - assinalou deixando que um sorriso lhe tocasse os lábios. Quando esteve o suficientemente perto a apanhou pela mão puxando-a para ele. Contente com sua proximidade, Anne se deixou acomodar sobre suas coxas. Tinha sentido falta daquele tipo de intimidade, reconheceu surpresa.
-Uma menina estaria bem para começar - sussurrou-lhe Hugh beijando sua nuca. Sem uma empregada que pudesse ajudá-la com suas roupas, Anne tinha se limitado a prender seu cabelo com um coque, deixando livres pequenos fios em torno de seu rosto e têmpora.
Anne soprou pela boca para dissimular o estremecimento de seu corpo.
-É uma tolice, esqueça - disse revolvendo-se nervosamente entre seus braços.
-O tema acorda meu interesse e minha imaginação.
-Está paquerando comigo?
-Parece-lhe isso?
Anne alisou as dobras de seu vestido, alterada ante a mudança da conversa.
-Será uma boa mãe, Anne, posso te imaginar com uma pequena cigana com olhos de gata nos braços - prosseguiu fazendo com que seu fôlego roçasse sua têmpora.
O coração da jovem parou durante um segundo.
-Não era mais que um pensamento - ruminou nervosa quando ele brincou com um de seus cachos. Não tive uma mãe que me servisse de guia, só o exemplo de Lady Norfolk.
-Nestas questões o que importa é a natureza de cada um. Vi a forma como trata os empregados, é generosa e cuidado. Será menos cuidadosa ou menos generosa com o filho de sua própria carne? - pensou distraído pelo perfume de seu cabelo. Anne meditou sobre suas palavras. Ouvir de boca de Hugh que seria uma boa mãe, que seus medos eram infundados, fez com que franzisse os lábios pensativamente.
-Não, suponho que não.
Depois disso permaneceram em silêncio, escutando o cadencioso som da água contra os muros exteriores, cada um perdido em seus próprios pensamentos. Para Hugh, Anne despertava um amálgama de emoções difíceis de catalogar: nunca antes tinha estreitado uma mulher em seus braços pelo mero prazer de fazê-lo, nem tampouco tinha falado com uma mulher tanto como com aquela irresistível donzela. Interessava-lhe todas suas opiniões, comparava-as com as suas e as rebatia apaixonadamente quando não as compartilhava. Quando antes tinha tido uma intimidade semelhante? Impotentemente, via como seu amor pela jovem crescia, junto às dúvidas sobre seu futuro comum. Este último tema lhe rondava a cabeça atormentando-o. Como podia desejar um futuro comum quando não podia prever seu próprio presente? Aquele era o motivo pelo qual se manteve afastado de Anne nas noites. Temia que esses tipos de encontros tivessem um fruto e, mesmo que todas as células de seu corpo clamassem o contrário, sabia que seria egoísta colocar a carga de um filho no atual estado de incerteza. Se cumprisse as mais pessimistas previsões, ele acabaria com a cabeça sobre o chão. Anne tinha direito a reiniciar sua vida livre de ataduras se isto acontecesse. O pensamento o sumiu em um escuro estado de ânimo.
-Com quantas mulheres já se deitou? - perguntou Anne tirando-o de seus pensamentos.
-Por que deseja saber? - perguntou surpreso. Para seu desgosto, sua voz revelou certo desconforto.
-Seria justo posto que você sabe com quantos me deitei - contra-atacou ela lhe olhando sobre o ombro. Os felinos olhos cinza estudaram o rosto masculino com seriedade. Por São Gabriel! Ela era tão condenadamente bonita que às vezes lhe deixava sem fala.
-Atentaria contra meu cavalheirismo falar de antigas conquistas - grunhiu incômodo.
-Não lhes peço nomes e sim números, estou segura de que sua integridade se manterá sã e salva. Lembro-me que em Norfolk se relacionou com umas quantas empregadas, inclusive uma convidada da duquesa presumiu ter visitado sua cama em várias ocasiões. Debatia-se intensamente sobre seus romances, foram tantas em realidade ou eram as más línguas as que aumentavam suas façanhas?
Hugh afastou o olhar incômodo.
-Não me lembro - mentiu.
Anne o olhou com surpresa.
-Como não pode recordar uma coisa assim? - perguntou ofendida.
-A maioria das vezes estava bêbado - defendeu-se ele.
-Então, não sabe com quantas mulheres compartilhou a cama?
Hugh soltou uma maldição.
-Cinco ou seis - mentiu.
-Só?
-Vai questionar minhas respostas? - replicou melindroso.
-Sempre estava lhe seguindo, sabe?
-Foi uma mocinha tola e descarada - rememorou.
-Uma vez lhe segui aos estábulos. - Hugh levantou uma sobrancelha ante suas palavras. Celebrava-se uma festa, você e Marcus tinham participado das justas.
-Seguiu-me aos estábulos? -repetiu ele escandalizado enquanto tentava resgatar de sua lembrança esse fato em concreto. Tinham sido muitas as ocasiões nas quais tinha utilizado os estábulos para seus encontros íntimos, naquela época era um jovem fogoso disposto a desfrutar extensamente de todas as possibilidades que o trato com o gênero feminino pudesse lhe proporcionar. Uma fugaz evocação surgiu repentinamente ante ele. Tratava-se da festa da primavera. O Dragão tinha celebrado uma memorável festa com justas e bailes noturnos para aclamar o nascimento de seu segundo filho: Darius. Hugh tinha participado das justas junto com Marcus, ele tinha resultado vencedor nos lances de espada e Marcus na sorte de lanças. Juntos tinham celebrado sua vitória com uma memorável bebedeira. Hugh recordava ter abandonado o salão em companhia de duas complacentes empregadas para os estábulos. Poderia dizer que elas estavam ansiosas para provar seus dotes com a espada, e ele ávido para mostrar. Anne tinha sido testemunha de tudo isso? Um profundo rubor correu por suas bochechas. Ela era tão somente uma menina, Diabos!
-Não pude ver nada, se isso lhe preocupa, tão somente ouvir alguma coisa -respondeu ela.
-Quantos... Quantos anos tinha?
-Onze.
-Inferno e condenação! Como pôde me espiar? - Se soubesse que você estava ali...
-Sim?
-Maldição! Anne, isto não tem graça, não era mais que uma criança - balbuciou.
-Não feriu minha sensibilidade nem minha inocência, se isso lhe preocupa. Os empregados não costumam ser tão considerados em seus encontros, vi muitas coisas na escuridão da noite. E lembro que em uma ocasião Alfred e Eugen...
-Basta, mulher! - grasnou com as orelhas vermelhas, completamente escandalizado. Seus olhos marrons se escureceram perigosamente, doído pelo fato de ninguém prestar a devida atenção àquela menina.
-Só queria lhe ver, mesmo sabendo que você detestava que lhe seguisse, queria lhe ver. Em minha cama sonhava com o dia que voltaria para mim com seu cavalo e se ofereceria para ser meu campeão, então eu lhe entregaria um laço de meu cabelo como objeto. Seria meu paladino e eu sua dama. - deteve-se em um suspiro para olhar indecisa o rosto de Hugh que, inclinado sobre ela, olhava-a com concentrada atenção sem transluzir nenhum pensamento. Tragou nervosamente sentindo o calor de seu olhar sobre seu rosto - Eram os sonhos tolos de uma menina, não se preocupe, recuperei-me depois de seus desplantes.
-Anne, eu não sabia... Maldição! Se tivesse suspeitado que você... - deteve-se confuso. A figura daquela bisbilhoteira e intrometida menina, sempre lhe tinha tirado do sério, ela tinha se convertido em sua sombra, seguindo-o como um guia de cegos onde fosse. Seus enormes olhos sempre o perseguiam ansioso, como se esperasse algo dele. Que completamente estúpido tinha sido! Se tão só tivesse dedicado uns instantes a aquela sonhadora menina...
-Esqueça Hugh, só eram sonhos infantis. Fez bem em não me dar atenção. Era uma menina terrível, de verdade.
Tinha certeza disso. Em mais de uma ocasião tinha sentido sobre sua pele os insultos daquela pequena gata que tinha por costume lhe ridicularizar ante suas conquistas. Agora compreendia que era uma maneira de chamar sua atenção. Levantou uma mão para retirar de seu rosto um rebelde cacho. Colocou-o amorosamente atrás de sua orelha alagado por um vibrante sentimento de ternura. Se pudesse retroceder no tempo, se pudesse apagar aquelas ações. Embalou seu rosto com a palma de sua mão.
-Eu gostaria que minha filha fosse como você - disse sem separar seu olhar de seu rosto. Que estranho reconhecer essas palavras em sua boca! Nunca se tinha se exposto a paternidade em toda sua idade adulta, e sempre se conduziu com a prudência necessária para evitá-la, exceto com Anne.
Ao cílios cor ébano se agitaram sob seu olhar, por um instante ela pareceu não saber o que dizer. Umedeceu os lábios com a ponta de sua língua afastando-se ligeiramente.
-Possivelmente alguma dessas mulheres com as quais...
-Sempre tomei precauções.
-De que tipo? Conforme assegura estava bêbado em muitas dessas ocasiões.
Ela tinha que recordar todas suas palavras?
-Nem tanto - resmungou.
-Estava quando se deitou com a mulher do Estatúder?
-Não.
-Não?
-Ela se jogou em cima. Tínhamos bebido, sim, mas me assegurou ter experiência em evitar uma gravidez não desejada, eu só tomei o que ela me ofereceu.
-Costuma tomar tudo o que lhe oferecem? Negaria acaso se uma das empregadas levantasse as saias para você? -Encurralou-lhe picada pelo ciúme.
Um gesto de horror cruzou o rosto masculino.
-É obvio que não! Eu nem sequer... - Conteve sua língua bem a tempo. Tinha estado a ponto de reconhecer o quanto significava para ele, que nunca poderia pensar em outra mulher que não fosse ela, uma perigosa declaração. Por que teria que me fixar nelas tendo você a minha disposição? - grunhiu asperamente.
E quando esse desejo desaparecesse? Quando outra mulher chamasse sua atenção? O que seria dela então? As perguntas lhe amontoaram na língua. Anne tentou afastá-las. Aquela última declaração doeu muito. Sentiu uma horrível umidade lhe alagando os olhos e fluir calidamente por suas bochechas. Tentou levantar-se horrorizada com sua própria reação, mas Hugh a impediu forçando-a a permanecer sobre seu colo. Seus lábios procuraram sua boca tentando beijá-la, mas ao descobrir suas lágrimas se deteve.
-Anne, não chore. Pequena, não chore. Eu... Eu não mereço nenhuma só lágrima.
Ah, que tolo era aquele homem! Suas lágrimas não eram por ele, mas sim por ela. Ao parecer, estava condenada a não ser amada. As lágrimas seguiram fluindo como um rio incontrolável transbordado pela tormenta de seus sentimentos.
-Anne, carinho, rompe-me o coração - sussurrava-lhe Hugh beijando os mornos olhos, embalando-a entre seus braços. Ela escondeu o rosto contra seu pescoço inspirando um trêmulo suspiro. Sua terna preocupação só incrementava aquela corrente. Por que nenhum homem podia amá-la como ela desejava?
Hugh abraçou-a torpemente contra si, comovido pelos silenciosos soluços da jovem.
-Me deixe fazer esquecer, deixe que apague suas lágrimas - ofereceu beijando seu pescoço. Ela permaneceu imóvel entre seus braços, deixando-se ficar, como uma estátua de gelo, tentando manter-se alheia a seu contato, levantar uma barreira emocional enquanto Hugh fazia escorregar seus lábios por sua pele. Se ao menos pudesse ser indiferente a seus beijos, possivelmente poderia manter intacto um pedaço de seu coração. Mas seu corpo era débil e o calor dessa boca tão maravilhoso... De repente, toda sua indiferença se transformou em ansiosa necessidade. Notou as mãos de Hugh sob a saia de seu vestido acariciando suas coxas, obrigando-a a lhe montar sobre o banco de pedra. Sentiu-o puxar sua roupa interior, freneticamente de seus franzidos. Anne se elevou sobre seus joelhos, beijou-o na boca imobilizando sua cabeça contra o muro, ansiosa pelo consolo de seu corpo, o único, ao parecer, que ele estava disposto a lhe dar. Os nódulos mornos do homem lhe fizeram cócegas sobre a pele interna das coxas. Ainda era de dia, a luz cinza da tarde penetrava pela estreita vidraça de vidro. Os guardas podiam entrar a qualquer momento e surpreendê-los, mas a Anne não importou. Tudo tinha deixado de ter importância, só Hugh e as emoções que suas carícias lhe provocavam tinham sentido. Acariciou avidamente o torso masculino enredando os dedos em seu pêlo peitoral.
Suas mãos tropeçaram torpemente no faminto reconhecimento de seus corpos.
-É uma feiticeira - gemeu ele liberando seu membro. Guiou a mão da jovem até ele, obrigando-a a segurá-lo, a rodear sua envergadura com seus dedos.
-Me leve dentro, devagar, se incline, assim... Melhor. Sim! Assim muito melhor - guiou-a entrecortadamente.
Reteve-a pelos quadris ajustando sua posição antes enchê-la por completo. A jovem ofegou tentando amoldar-se a sua invasão. Levantou-se sobre seus joelhos movendo-se sobre ele tentativamente. Hugh a observou com a cabeça apoiada sobre o muro, em seus olhos entreabertos fulgurava um estranho brilho.
-É minha e sempre o será - asseverou lhe afastando o cabelo do rosto. Obrigou-a lhe olhar lhe sujeitando o queixo, detendo os movimentos de seu corpo com seu abraço antes de beijá-la possessivamente - Diga, Anne, diga que é minha.
-Sou sua - ofegou em sua boca. Sua.
Hugh se moveu em seu interior. Tremeu ao sentir os estreitos limites de seu corpo albergando-o, aferrando-o.
-Sim, está feita para mim. Eu nunca... Anne, nunca havia sentido algo assim - reconheceu com um suspiro entrecortado embargado pela paixão. A jovem inclinou o rosto até lhe tocar os lábios com sua boca. Moveu-se sobre ele sem afastar seus olhos de seu rosto.
-Eu tampouco, eu... - interrompeu-se ao sentir o primeiro estremecimento de prazer - Ame-me, Hugh, me ame.
Esmagou-lhe a boca em um beijo feroz que lhe roubou o fôlego. Elevou os quadris enterrando-se por completo em seu corpo, fundindo-se nela. Um áspero som escapou de sua garganta contraída. Anne se revolveu sobre ele afundado a penetração com um desesperado movimento. Hugh apertou os dentes tentando conter a iminente explosão de seu corpo, desejando estender aquele momento eternamente. Anne choramingou lastimosamente retorcendo-se sobre suas coxas quando o orgasmo a alcançou. Hugh observou seu rosto contraído pela força do prazer antes de sucumbir a sua própria liberação.
-Anne. - Seu nome escapou de sua boca em um gemido rouco. Apoiou a testa contra o ombro da jovem que exausta descansava sobre ele.
Ela permaneceu com os olhos fechados enquanto recuperava a respiração. Fazer amor com Hugh se converteu em um vício, uma armadilha da qual não desejava escapar. Deixou que lhe arrumasse as roupas, muito esgotada para pensar nos guardas ou qualquer outro tipo de interrupção. Hugh a abraçou delicadamente contra seu peito, lhe deixou ficar, debilitada depois do ardoroso encontro carnal apoiando o ouvido contra seu peito. Podia sentir suas mãos acariciando suas costas, brincando distraidamente com os cachos de seus cabelos, pequenos gestos que a faziam sentir-se enganosamente querida. Era fácil adivinhar por que Hugh era tão disputado entre as damas, tinha a facilidade de fazer uma mulher se sentir única, a salvo do mundo.
Permaneceram assim até que a escuridão se abateu sobre o pátio interior estendendo suas sombras sobre as muralhas. O ferrolho da porta os surpreendeu ainda abraçados, mas por uma vez, nenhum dos dois se viu com forças para separar-se.
Seymur lhes informou que estavam convidados (quer dizer obrigados) a ir ao jantar celebrado essa noite pelo regente. Surpreendentemente, Hugh se mostrou corajoso ante o encontro. Por regra geral, as reuniões semanais mantidas com sir Kingston desembocavam em uma evidente rivalidade masculina que Anne se via obrigada a conter. Mas essa noite foi Hugh quem a incentivou ante sua falta de entusiasmo. Levantou-a entre seus braços quando Seymur fechou as portas para cruzar a cela em um par de passos e depositá-la atrás do biombo de tecido obrigando-a a levantar o rosto para ele.
-Esta noite quero te ver sorrir - disse lhe sujeitando o queixo.
Como se fosse tão fácil!
Hugh a incentivou lhe esfregando o lábio inferior com seu dedo indicador, como se fosse um bebê ao que queria ver sorrir.
Anne franziu os lábios com a bajulação incapaz de resistir. Havia algo que não estivesse disposta a fazer por ele? Abriu os lábios.
-Serve assim? – perguntou levantando uma sobrancelha.
Hugh fez uma careta ao observar a torpe tentativa.
-Pode servir - concordou deixando cair um beijo sobre sua boca suculenta. Agora se apresse. - Empurrou-a ligeiramente para o arca de suas roupas, mas em um último segundo a reteve levando uma de suas mãos aos lábios.
-Anne prometo que farei todo o possível para que isto saia bem - sussurrou-lhe.
Ela piscou tentando reter suas lágrimas. E se não for assim? E se ele acabasse seu dia condenado? O que ocorreria com ela? O que ocorreria se recuperasse a liberdade? Continuariam sua vida como se nada tivesse acontecido? Muitas interrogações enchiam sua mente.
Aceitou suas palavras com uma sacudida de cabeça, lhe dando novamente as costas.
***
Thomas Kingston se mostrou exultante ante a aparição da jovem donzela. Vestido especialmente para a ocasião com uma ostentosa casaca de couro tingido, adiantou-se a seu encontro fazendo destacar sua mão em uma elaborada reverência. Hugh levantou uma sobrancelha ante aquele desdobramento de atributos, mas por uma vez não fez nenhum comentário a respeito, mas sim se limitou a ficar de lado cedendo seu lugar junto à dama.
-Minha senhora, a prisão parece incrementar sua beleza dia a dia.
-Não soa muito adulador.
-Pois o é no que se refere a você.
-Alguma boa nova da corte? - perguntou ocupando seu lugar na mesa.
O regente estalou a língua situando-se à cabeceira da mesa. Depois de um sinal dois empregados apostados junto à parede serviram vinho em suas taças e lhes ofereceram a tradicional jarra de água de rosas para lavarem as mãos.
-Enrique tornou a recair em sua enfermidade e o Conselho Geral adiou sua reunião até sua recuperação - informou cheirando uma das travessas dispostas ante ele.
Anne não pôde ocultar sua desesperança em um gesto de desalento. Seus olhos se encontraram com os de Hugh.
-Esqueçamos por uns instantes qualquer mau pensamento, nos refugiemos na alegria da boa comida e o bom vinho - convidou Hugh elevando sua taça.
Anne franziu o cenho ante seu júbilo enquanto tomava sua taça. Degustou um bom gole olhando com desinteresse as abundantes bandejas de carne.
-Um botim de guerra? - interrogou Hugh assinalando a abundante comida.
Kingston começou a rir enquanto cortava uma generosa porção de cordeiro com sua faca.
-Faz um par de dias um rebanho de ovelhas atravessou a ponte da Torre. Para desgraça do pastor, seu rebanho se topou com uma tropa de soldados reais. Os cavalos de guerra espantaram aos animais, muitos acabaram no rio e, como bem sabem tudo o que acaba no rio nessa parte da cidade me pertence por direito. Assim, consegui um botim inesperado - explicou afavelmente. O vinho é um presente de seu insigne protetor: Lorde Wentworth. Envia-o junto com seus desejos de um trato favorável para sua pupila.
-Minha esposa é uma mulher com sorte - considerou Hugh lançando um breve olhar ao prato de estranhos caules dispostos frente a ele.
-São aspargos, um manjar muito apreciado nos banquetes da corte, prove, gostará de sua tenra carne - explicou Kingston.
Foi um jantar agradável, surpreendentemente ameno graças à loquacidade de Hugh, que os entreteve com divertidas anedotas. Anne, apática, escutava somente pela metade, imersa em seus próprios pensamentos.
-Sabem tocar o alaúde? - interrogou o regente depois do jantar, notando possivelmente seu melancólico estado.
Anne assentiu afirmativamente, a música ocupava uma parte importante na educação de uma dama.
-Minhas qualidades artísticas se reduzem ao alaúde ou o piano.
-Eu cantarei, então. Ah! Que bela deve ser a vida de artistas! Visitar terras e castelos para amenizar festejos - gabou-se Kingston passando por cima o depreciativo olhar de Hugh, para quem os artistas eram algo assim como uma subespécie. Kingston poderia encaixar perfeitamente nessa categoria, pensou malevolamente - Conhece a balada Dourado Amor Eterno?
-É uma das obras de nosso príncipe Hal, tive ocasião de escutá-la em certa ocasião de sua própria voz - afirmou a jovem enquanto provava as cordas de seu instrumento. Ajustou vários acordes e depois de um breve ensaio, o casal iniciou a atuação.
Hugh, convenientemente apoiado junto a lareira, escutou a balada, uma dessas bobeiras cortesãs que imperavam nos salões do palácio, sorvendo uma taça de vinho doce. Seus olhos se centraram em sua jovem esposa que com o cenho ligeiramente franzido tocava as cordas de seu instrumento. Observou-a fascinado com cada um de seus gestos, consciente do lento pulsar de seu coração. A balada finalizou com um novo miado de Kingston, Hugh se apressou a desviar o olhar fingindo observar as chamas da lareira, afirmando-se em suas determinações para essa noite.
-Parabéns, milady. Sua habilidade ficou plenamente demonstrada - adulou Kingston tomando sua mão para depositar um beijo de devoção em seus nódulos.
-Foi sua destreza o que ocultou minhas carências - refutou Anne naquele estúpido ritual de troca de elogios banais olhando de esguelha a seu marido. Ele parecia absorto em seus próprios pensamentos, alheio às doces adulações do regente.
Hugh deu um novo gole a seu vinho, consciente de que suas novas resoluções lhe impediam de atuar conforme os funestos pensamentos que lhe rondavam nesses momentos a cabeça. Inexperiente no manejo daqueles sentimentos liquidou seu cálice com um longo gole e o depositou com certa brutalidade sobre o suporte de pedra da chaminé. A rudeza do golpe fez com que Kingston elevasse até ele um olhar interrogante. Seus olhos pardos brilharam de diversão ao ver o gesto sério de seu prisioneiro. Adivinhando o motivo desse comportamento, separou-se ligeiramente da donzela para entregar o alaúde a um dos empregados.
-É possível que queira retirar-se já, De Claire? – disse. - Ou posso lhes tentar com outra taça de vinho doce?
-Eu gostaria que alguém acompanhasse minha esposa. Há certo tema que queria tratar a sós - informou Hugh ignorando o curioso olhar da jovem.
Kingston pareceu surpreso. Até o momento, De Claire se mostrou pouco colaborador com seus pedidos. Aceitou com um ligeiro cabeceio dando uma silenciosa ordem a dois de seus homens.
-Milady, seria tão amável de seguir a meus homens a sua cela? - ofereceu com gentileza.
Anne concordou com o cenho franzido e, depois de abrigar-se com sua grossa capa de peles, partiu silenciosa e contrariada.
Qualquer traço de gentileza se evaporou depois da marcha da donzela. Ambos os homens se avaliaram com desconfiança.
-Em que posso lhe ajudar, De Claire? - interrogou o regente sem demora indicando uma das cadeiras.
Hugh aceitou seu convite. O ambiente de diversão ficou relegado pela gravidade de suas expressões.
-Quero que faça chegar uma oferta a Enrique - abordou Hugh esticando as pernas ante si.
-Não está em posição de negociar.
-Preste atenção as minhas palavras, Kingston, e decida em consequência - disse olhando o homem fixamente.
Kingston apertou a mandíbula contendo com muita dificuldade seu mau humor. Cruzou os braços sobre seu peito olhou concentradamente a seu prisioneiro.
-Fale.
-Estou disposto a confessar ante o Conselho Real, aceitar as acusações que estão sobre mim com uma única condição.
Kingston levantou uma sobrancelha castanha a modo de interrogação.
-Como sabe, o Estatúder exigiu a cabeça do assassino de sua esposa para aceitar a aliança inglesa.
O regente assentiu.
-Além de uma quantia das arcas reais - acrescentou.
-Bem, abra bem as orelhas. Esta é minha proposta...
***
A manhã era triste e brumosa, observou Anne nada mais despertar. Esticou-se sentindo o quente corpo de Hugh a suas costas. Percebeu que estava completamente nua sob os cobertores. Franziu o cenho ao recordar o por quê. Depois de sua volta à cela, a noite anterior, Hugh tinha ocupado seu lugar atrás do escritório retomando seu trabalho com ímpeto, como se tivesse pressa por resolver seus assuntos. Anne tinha dormido lhe vendo trabalhar. Horas depois, foram seus beijos e o roçar de suas mãos sobre seu corpo as que a despertaram. Adormecida, Anne tinha se acomodado contra aquele corpo fibroso enquanto Hugh tirava todas suas roupas e inibições para lhe fazer amor com violenta paixão, e ela tinha respondido com idêntico ardor, entregando-se novamente a ele, pondo em perigo todas suas resoluções de manter seu coração a salvo. Ao finalizar, Hugh a tinha mantido abraçada, junto a seu corpo enquanto ela memorizava seu tato, o salubre sabor de sua pele contra os lábios para, finalmente, adormecer. Tinha tido a impressão de que Hugh tinha permanecido acordado ao seu lado, observando-a enquanto ela se inundava em um inquietante sonho. Nele, cavalgava junto a Hugh sobre um corcel pela campina aberta, seus fortes braços a retinham protegendo-a da violenta cavalgada. Ela ria feliz, livre de ataduras e, quando seus arreios se detinham sobre a crista de uma colina, ambos observavam o pôr-do-sol.
Anne sacudiu a cabeça ante esse sonho. Estudou o homem a seu lado. A estreita cama os obrigava a permanecer abraçados um ao outro, mas inclusive ante essa certeza podia imaginar que ele a abraçava por outros motivos. Com um suspirou resgatou sua camisa do chão. Passou os braços por suas mangas e puxou o cordão de seu decote antes de levantar-se com cuidado. Hugh se moveu inquieto a suas costas, mas continuou dormindo quando ela o observou já de pé. O coração palpitou ao observar aquele rosto nitidamente masculino. Seus olhos vagaram pela ampla extensão de seu peito. As lembranças da noite anterior voltaram a golpeá-la pela intensidade das emoções que ele tinha conseguido despertar em seu coração. Ah! Como odiava ser tão débil, mas inclusive dormindo, Hugh fazia com que pulsasse com força.
Uns bruscos golpes na porta interromperam seus pensamentos. Três soldados entraram na cela fortemente armados. Surpresa, Anne se enfrentou a eles com o coração agitado. Olhou nervosamente o leito onde Hugh, já acordado, observava os soldados com um olhar cético.
-Hugh De Claire, conde do Darkmoon, nos acompanhe.
Hugh assentiu enquanto buscava suas roupas.
Com o coração em punho, Anne se adiantou colocando-se apressadamente o grosso robe de veludo.
-Por que lhe chamam?
-É ordem de Sir Kingston, milady.
-Ocorreu algo? Chegou o rei a uma decisão sobre meu marido?
Os soldados permaneceram em silêncio voltando sua angústia em desespero. Hugh se comportava com uma serenidade elogiável. Ajustou o cinto em torno dos estreitos quadris com o olhar cravado no rosto de sua esposa.
-É possível que minha causa se adiantasse finalmente - disse tentando tranquilizá-la.
-Irei com você - resolveu buscando apressadamente em sua arca. Somente necessito uns minutos...
-Anne, não pode me acompanhar - negou ele, carrancudo, lançando a capa sobre os ombros.
Ela o olhou com os olhos banhados em lágrimas. O delator brilhou bastou para que Hugh a tomasse em braços.
-Anne, me escute. Deve esperar aqui.
Ela o olhou com os olhos transbordados.
-Me prometa que voltará, que retornará são e salvo. - Soluçou desviando o olhar para observar a cela invadida por soldados.
Apertou os lábios olhando impotente seu rosto. Tomou sua mandíbula entre seus dedos obrigando-a a lhe olhar de novo.
-Deixo aqui meu coração, Anne.
-Hugh!
-Prometo-lhe que se meu destino for não voltar a ver seu rosto, burlarei o diabo para retornar junto a ti.
A jovem afogou um soluçou estreitando-se contra ele, desfrutando de uns segundos mais de seu calor. Havia tantas coisas que dizer...
-Oh, Hugh! Não poderia viver sem você, não agora.
Sentiu seus lábios sobre sua testa.
-Tenha-me presente em suas orações.
Ela assentiu levando a mão ao pescoço para arrancar-se de um puxão o minúsculo crucifixo que sempre a acompanhava.
-Tome, te protegerá. - Soluçava com os olhos arrasados pelas lágrimas.
Hugh pegou em seu punho para elevá-lo até seus lábios, o metal conservava o calor de seu corpo e ele ansiou guardá-lo eternamente.
-Milorde, devemos ir - indicou um dos soldados.
Hugh elevou o olhar sobre a cabeça da jovem para lhe observar. Assentiu imperceptivelmente deixando cair as mãos.
-Aconteça o que acontecer, estarei sempre contigo. Não esqueça.
-Não o farei - prometeu.
-Viverei em seu coração até que decida me tirar daí - sussurrou olhando-a fixamente.
Ela assentiu antes que ele se inclinasse sobre ela para beijar sua boca. Os lábios de Hugh escorregaram por seu rosto provando o sabor de suas lágrimas. Apertou-a contra seu peito como se quisesse fundi-la contra seu próprio corpo. Depois a afastou com firmeza como se necessitasse de toda sua resolução para partir. Uma escura e perigosa sombra se assentou no fundo de seus olhos quando a olhou pela última vez. Finalmente, voltou-se para os soldados afastando-se definitivamente dela. Negou-se a olhá-la temendo sucumbir ao desejo de estreitá-la de novo contra seu coração e não deixá-la jamais, mas o destino lhe requeria, devia enfrentar-se a ele antes de poder encarar o futuro.
-Até logo, menina - disse.
Anne se derrubou sobre a cama quando a porta se fechou atrás dos homens. Escutou atentamente o som de seus passos afastarem-se. "Volte! Volte, por favor!", rogou quando tudo ficou em silêncio. Torpemente deixou-se cair sobre o chão e, arrastando-se sobre os joelhos, começou a orar desesperadamente.
Capítulo 13
Os agudos uivos a obrigaram a abrir os olhos e observar a pequena horta para tentar de identificar o causador de tanta irritação. Sob os ramos de uma árvore frutífera, o enorme galgo da casa brigava contra um inimigo invisível. Anne fixou sua atenção na densa rama. Uma escura sombra se moveu furtivamente entre os ramos, um felino de olhos brilhantes e pelagem parda que observava o seu competidor com manifesta indolência. Anne observou indiferente a dissonante desordem até que um dos empregados saiu da casa agitando um pau e afugentado o bagunceiro. Um suspiro saiu de sua boca enquanto se sumia de novo em sua sensação. Com esforço apoiou um lado de sua cabeça contra o vidro e observou de novo o exterior, agora já calma. Insensível à deliciosa manhã, deixou que seus pensamentos vagassem pelo mar de lembranças de seu recente passado. Fazia um mês que Hugh lhe tinha sido arrebatado, mas, contrariamente ao que todos asseguravam, a dor de sua partida aumentava dia a dia. O único consolo possível provinha de suas lembranças. Ensimesmada neles, apenas era consciente do passar do tempo. Fechou os olhos invocando o rosto de Hugh, aguardando a que o dia se convertesse em noite e a noite em dia, sabendo que sua vida se deteve no preciso instante em que Hugh saiu da cela.
"Até logo, menina", aquelas tinham sido suas últimas palavras. Como em um eco longínquo ressonavam em sua cabeça sem abandoná-la jamais. Oh! Se pudesse voltar a vê-lo uma vez mais... Mas aquilo era impossível já. Hugh tinha sido julgado aquele mesmo dia sob a tocha do verdugo.
O Conselho Real, reunido repentinamente por ordem de Enrique desde seu leito, tinha concordado finalmente com sua culpa encomendando o monarca à máxima pena. As conclusões do julgamento lhe tinham sido entregues sem mais explicações na mesma cela da Torre enquanto Hugh era conduzido ao cadafalso, longe dos olhares indiscretos. Nem sequer tinha tido o consolo de lhe acompanhar em seus últimos momentos, embora isso não tivesse minguado sua dor.
"Deixo aqui meu coração". Uma solitária lágrima rodou pelo rosto triste e pálido da jovem. Com sua morte, Hugh tinha levado também seu coração, sua alma e sua vontade de viver. Apertou os olhos tentando encontrar força para seguir adiante. Examinou entre suas lembranças até resgatar uma de seu agrado, aquela ocasião em que ele se lançou à água em seu resgate; "está a salvo" tinha-lhe sussurrado. Como posso estar a salvo se não estiver comigo? Soluçou afundando-se no desespero. Abriu os olhos para buscar entre suas negras roupas um lenço. Limpou as lágrimas antes de enrugar o delicado tecido em seu punho.
Depois da execução, o corpo de Hugh tinha sido enterrado no pequeno cemitério da Torre, sem lápide comemorativa, somente um monte de terra úmida coroada com uma singela cruz de pedra. Anne recordava vagamente ter assistido aos distintos ofícios em sua memória, a difusa presença de Lady Botwell a seu lado, consolando-a, e os atentos braços de Kingston sujeitando-a quando as pernas falharam.
Depois daquilo, suas lembranças dos dias posteriores se esfumavam na dor e sofrimento. Tudo tinha sido disposto para sua volta a Norfolk, mas Anne tinha rejeitado a possibilidade alegando que desejava continuar visitando a tumba de Hugh e optando por permanecer em Londres.
Uns golpes a obrigaram a abrir de novo os olhos. Lady Botwell avançou pela estadia com o cenho franzido seguida por Nathaniel, que levava com estupidez uma bandeja repleta de comida.
-Disse que queria ficar sozinha - disse lhes dando as costas para observar o jardim.
-Trouxe-lhe um pouco de comida. Não pode continuar se matando de fome.
-Não tenho fome - negou sentindo como o nó que se abatia sobre seu estômago se fechava ainda mais ante o mero aroma da comida.
-Deve comer - insistiu sua dama fazendo um silencioso gesto ao pajem para que colocasse a bandeja sobre uma mesa próxima.
O menino obedeceu sem deixar de observar as costas de sua jovem ama. Da morte de seu marido ela se converteu em uma viúva de negras roupas chorosa e mal-humorada. Era impossível não ter saudades da alegre donzela de outros tempos, sempre disposta à aventura e as travessuras.
-A Senhora Grint preparou para você um bom guisado. Há também uvas e olhe! Sua sobremesa favorita: Bolo de amêndoa. - A matrona a tentou destampando os pratos um por um.
A jovem lançou um olhar desanimado em sua direção ignorando a comida.
-Não quero nada, levem isso.
-Mas deve comer algo - reclamou a mulher detendo o Nathaniel quando este se dispôs obedecer.
O menino lançou um olhar apreensivo a ambas as damas desejando desaparecer de cena.
-Não tenho fome - repetiu cansativamente Anne elevando o olhar para o céu azul e espaçoso.
-Pois não irei até que tenha comido algo.
Anne endireitou os ombros. Suas grossas roupas rangeram quando se girou ao fim para enfrentá-los.
-Querem que coma? Bem! - resmungou e de dois passos se plantou ante a bandeja cheia de comida. Pegou um punhado de uvas da jarra de barro e as introduziu na boca. Agora podem ir - assinalou com a boca cheia e ao ver a imobilidade da dama - Vamos! A que espera? - gritou.
-Anne, não pode continuar assim. Todos estão muito preocupados com sua saúde.
-Me deixem em paz! Revoam sobre mim como um azoar sobre sua presa - espetou notando como o escuro nó de desesperança se convertia perigosamente em ira mau contida.
-Se matar de fome não vai solucionar nada - continuou a matrona pacientemente.
-Não quero comer, não quero ver ninguém, só quero estar sozinha. É pedir muito? - gritou dando um tapa à bandeja. A comida caiu em todas as direções até alcançar a grossa tapete de pele.
Perplexa por seu próprio comportamento, Anne observou o resultado de sua cólera com olhos aquosos. Afogou um soluço com seu punho.
-Oh... Sinto muito. Eu o amava, sabe? Amava-lhe! - balbuciou com as bochechas arrasadas, e abandonou a estadia precipitadamente.
Lady Botwell não tentou retê-la, limitou-se a olhar para Nathaniel que, desconcertado, observava a comida disseminada por toda a estadia.
-Busque alguém para limpar este desastre.
-O que lhe acontece com a senhora? Na cozinha dizem que o amor a deixou louca - disse.
-É a dor o que a perturba, Nathaniel. Dê um pouco de tempo. Ela se recuperará - confiou Lady Botwell rogando interiormente para que assim fosse. Alisou o eterno redemoinho de seu cabelo - Vamos, vá para baixo - suspirou.
O menino obedeceu arrastando os pés enquanto ela observava o andar superior pensativamente. Deveria subir?
-Deixe que chore, com o tempo suas lágrimas se secarão e sua dor passará - confiou-lhe a voz de Gantes Ou'Sullivan.
A matrona olhou o capitão da guarda parado junto à porta.
-Deve haver algo que possa fazer por ela.
Os lábios do homem se esticaram ligeiramente enquanto apoiava uma mão no punho de sua espada.
-Já fez. Comportou-se como uma verdadeira mãe para essa moça.
-Mas o aborrecimento de hoje...
-Indica que tudo segue seu curso. A dor dará passo à ira e esta abrirá a porta da aceitação.
-Fala por própria experiência?
Os olhos do homem cintilaram brevemente.
-Sim - disse desviando o olhar para o vendaval de vidro - Perdi parte de minha família na guerra que enfrentou meu país com a Inglaterra. Durante anos odiei todo inglês, rogava a Deus por seu desaparecimento dia a dia até que alguém me fez mudar de opinião e me ajudou a aceitar que o pincel com que Deus pinta nossa existência pode usar mais tinta além do negro.
-Refere-se ao Dragão?
Gantes balançou a cabeça afirmativamente.
-Ele me derrotou na batalha. Supliquei-lhe que acabasse com minha vida, mas me obrigou a viver apesar de minhas feridas, a tomar como esposa a mais teimosa das moças. Jurei odiá-la com todas minhas forças como odiava todos os ingleses, mas acabou me convencendo de que tanto ódio me estava envenenando. Ela me rendeu, mas o vencedor fui eu - finalizou com um novo sorriso. Anne deverá encontrar de novo o caminho quando tiver forças para fazê-lo, nós somente temos que nos conformar em estar aí quando nos necessitar.
Os olhos de Lady Botwell se encheram de lágrimas ao assentir.
-Não suporto permanecer de braços cruzados enquanto ela se consome dia a dia vestida com essas horríveis roupas.
A chegada de Rufus Van der Saar interrompeu sua amarga conversa. Gantes ofereceu uma desculpa e saiu deixando-os a sós.
Rufus enfrentou o olhar da matrona com desenvoltura.
-Estive-lhe procurando...
-Pois deixe de fazê-lo - estalou ela - Deixe de seguir meus passos, de me olhar dessa maneira. Os empregados começam a murmurar.
-A quem lhe importa esse atalho de inúteis? Ponha fim a este inferno, senhora, e se entregue a mim! - E sem prévio aviso se equilibrou sobre ela surpreendendo-a em um abraço. Nas pontas dos pés, tentou beijar os lábios da matrona, excitado com a suavidade de suas carnes - Posso lhe fazer gozar como nunca ninguém o fez, prometo-lhe - ofegou tomando as liberdades que só um homem pode tomar com sua esposa. Lady Botwell sentiu suas mãos amassarem suas nádegas com deleite. Um abrasador rubor lhe queimou o rosto, pelo impróprio da situação e por suas últimas palavras que tinham despertado algo em seu interior. Conseguiu se liberar do homem com um empurrão e cambaleante, dirigiu-se ao único lugar da casa em que podia sentir-se segura frente aos avanços do rufião. A Senhora Grint tinha ameaçado esquartejar o homem e cozinhar sua carne no forno se atrevesse a pôr um pé em sua cozinha. Em seu caminho topou com uma das empregadas, que com um balde de madeira na mão se dirigia à sala. Absteve-se de parar e falar com ela e continuou seu caminho com o coração agitado.
***
Anne permanecia de pé no meio do desastre. A raiva tinha desatado nela um impulso irracional de destruir tudo; almofadas de penas esparramadas pelo chão, cortinas de veludo rasgadas, arrancadas de seus trilhos e pisoteadas, tapeçarias desfiadas abandonadas sem mais cuidado, móveis derrubados, vasilhas quebradas... Como se toda sua dor se transfigurasse em ira quando minutos antes se despertou sonhando que Hugh vivia e que a segurava entre seus braços. Um ruído exterior tinha afastado seu sonho obrigando-a a enfrentar a realidade: Hugh estava morto e nunca mais voltaria. O pensamento tinha explodido em sua cabeça em toda sua magnitude, como se alguém tivesse aproximado um ardente barril de pólvora. Um uivo de dor e cólera tinha brotado de seu peito ao compreender que nada tinha mudado, que continuava imersa no inferno. Tinha atuado como uma demente, como se a balsa de insensibilidade em que tinha navegado todo aquele tempo tivesse se quebrado afundando-a na loucura, mas absoluta.
Ofegante afastou o cabelo do rosto com a respiração agitada. Aspirou uma baforada de ar. Por que doía tanto? Esgotada, deixou-se cair no meio do desastre golpeando a cabeça contra o chão. Fora do quarto, os empregados permaneciam reunidos no corredor sem atreverem-se a penetrar naquele reino de caos e delírio. Lady Botwell chegou do andar inferior, seguia-a de perto estava Gantes com uma lamparina de azeite na mão para iluminar o caminho. Todos estavam emocionados com a violenta explosão de sua senhora.
Nathaniel, vestido com uma regata que lhe roçava os joelhos e os pés nus, escondia-se atrás dos largos quadris da cozinheira, por uma vez mais assustado de sua própria senhora que dela mesma.
-Todos abaixo, agora - ordenou Ou'Sullivan com gesto feroz. Ninguém se atreveu a contradizê-lo, desfilaram ordenadamente ante ele sem ousar murmurar em voz alta seus pensamentos, quer dizer, que os maus espíritos parecia haverem-se apoderado de sua jovem senhora, que o feitiço do diabo obscurecia sua razão. Ao fim e ao cabo, apenas tinha desfrutado de dois meses de matrimônio antes que seu marido fosse julgado, tempo insuficiente para desenvolver um sentimento profundo por ele, pensava. Para aquelas mentes simples, o prático se impunha. Uma jovem viúva como ela deveria pensar em como lhes prover de um senhor poderoso e deixar de choros e lamentos porque o que Deus te dá, o diabo lhe tira e o que era essa vida a não ser um vale de lágrimas onde deveria conformar-se com sua sorte?
Lady Botwell ordenou que lhe servissem uma generosa taça de "Água do Carmen", bebida elaborada pelos monges beneditinos a base de Melissa, enquanto Gantes entrasse na estadia como se esta fosse a guarida de um animal perigoso. Fez um sinal para que Lady Botwell iluminasse o caminho e ao descobrir Anne sobre o chão a amaldiçoou sonoramente correndo para ela.
-Por Deus, milady pretende se matar? - grunhiu levantando-a nos braços.
Os olhos claros da donzela se abriram desfocadamente. O soluço de Lady Botwell ressoou a suas costas enquanto ele saltava os móveis derrubados com a dama em braços e a depositava sobre a cama revolta antes de ser substituído pela matrona.
-Minha querida, minha querida - repetia embalando-a entre seus braços.
Anne a deixou fazer isso, desfalecida. Notou seus quentes lábios sobre a testa, seu maternal calor envolvendo-a.
-Quero morrer, quero ir com ele.
-Shss, querida, tudo se solucionará - cantarolou a seu ouvido balançando-a entre seus braços.
Gantes se voltou para a porta confundindo a chegada de Rufus com a de uma das empregadas. O homem parou no corredor observando a cama com o cenho franzido.
-Irei para baixo - anunciou Gantes. Rufus o deteve quando chegou a sua altura lhe colocando uma mão sobre o ombro. Sem humor, Gantes o fulminou com o olhar, mas se conteve ao descobrir a preocupação gravada no rosto do homem.
-Eu farei com que ela volte a ficar bem - pronunciou arrastando seu grave sotaque germânico. E depois de quadrar seus esquálidos ombros abandonou o corredor com decisão, como se tivesse por diante uma extensa tarefa.
Uma semana depois, Anne ocupava o banco de madeira disposto à entrada da mansão com ar calmo. Entrelaçou as mãos sobre seu colo abrigando-se sob uma grossa capa de pele. Um dos empregados abriu as cortinas encarregadas de guardar seu anonimato antes de colocar-se em seu lugar e elevar sobre seus ombros o cabo. Gantes abriu passo para a saída montando um poderoso corcel. Vestia sua habitual armadura coroada com um casco de ferro e couro um tanto opaco, mas útil segundo as circunstâncias. Levava sua espada no quadril e um pesado capuz às costas junto a uma generosa bolsa de pólvora. O resto de seus homens (três em total) eram iguais custodiando o beliche por seus quatro lados. Antes de dar o sinal de marcha, o irlandês levantou o rosto para a casa. Lady Botwell observava sua partida de uma das janelas como era seu costume. A via triste e apagada, como se os acontecimentos recentes tivessem acabado com seu habitual brio; sua jovem protegida parecia cada dia mais, sumida no abatimento e seu solícito pretendente se evaporou da noite para o dia sem uma palavra de despedida.
Com um sinal de sua mão, o portão de entrada foi aberto enquanto um dos cães, preso ao muro por uma grossa corrente ladrava nervosamente. O cortejo deixou atrás a segurança da mansão para entrar na cidade em suas intrínsecas ruas.
Gantes detestava aquela cidade de vias estreitas e lamacentas onde os ratos corriam de extremo a extremo para cevar-se no putrefato lixo abandonado em qualquer canto. A falta de latrinas obrigava os londrinos a realizar suas necessidades em plena rua, e quando a chuva intensa saturava suas escassas bocas-de-lobo, os excrementos gotejavam aqui e lá provocando um aroma insuportável, enquanto enfermidades, piolhos e demais parasitas rondavam a seu redor. A boa gente tinha que fazer frente além aos habitantes que aguardavam nas esquinas as vítimas propícias para seus fins. Entre a ampla gama de delinquentes comuns que proliferavam naquelas ruas estavam os bagunceiros, ex-soldados mercenários ou empregados despedidos por seu mau comportamento que perambulavam ante as portas das igrejas e conventos ostentando feridas que eles mesmos se infligiam para despertar a piedade dos bons corações, diferente dos fingidos, que tiravam suas boas esmolas de falsas enfermidades. Os patifes, pelo contrário, eram a não ser mendigos ladrões dispostos a rachar a suas vítimas por uma mínima ninharia, também proliferavam os enganadores cujo engano na hora de penetrar nas casas alheias eram já famosas, sabia-se de enganadores que tinham conseguido até cinco xelins em uma só jornada de trabalho! Gantes preferia enfrentar-se a todo um exército antes que a semelhante tropa. Só cabia esperar que a vista de suas armas fosse suficientemente dissuasiva para que nenhum deles cometesse uma estupidez, sobre tudo porque as rotineiras idas e vindas à Torre poderiam dar pé a que muitos deles tivessem a ocasião de organizar um ataque. Mas nem sequer aquela sólida razão podia fazer desistir a condessa de sua visita diária à tumba de seu marido. Chovesse ou trovejasse, o silencioso cortejo atravessava as ruas até chegar ao bairro de comerciantes estrangeiros que rodeava a Torre antes de penetrar na fortaleza onde o regente aguardava pontualmente à condessa para acompanhá-la nos ofícios da capela.
Todos opinavam que o interesse do Sir Kingston superava a simples cortesia, mas, não tinha feito movimento algum que indicasse suas intenções para com a jovem viúva.
Sumido nesses pensamentos, Gantes não foi consciente do imperceptível movimento ao redor da comitiva que encabeçava. Umas dúzias de homens seguiam atentamente seus movimentos aguardando o sinal convindo para cair sobre eles.
Dado que o dia era claro e espaçoso, as ruas se achavam lotadas de comerciantes ávidos por desfazerem-se de suas mercadorias, estragadas depois das intensas chuvas que tinham precedido os dias anteriores. Em um dado momento, desatou-se um alvoroço entre rufiões, que atraiu a atenção de alguns curiosos que bloquearam a rua impedindo o passo de cavalheiros e carros (com preferência aos cidadãos a pé). Furioso, Gantes se adiantou para pôr ordem. Olhos atentos aguardaram esse momento para aproximar-se e rodear efetivamente o pequeno grupo, equilibrou-se conjuntamente sobre os cavalheiros armados para sustentar as rédeas de seus cavalos e tentaram derrubá-los a empurrões antes que desembainhasse suas espadas. Gantes se precaveu do sucesso ante o grito de um de seus homens e tentou retroceder entre a multidão desembainhando sua espada. Seu rugido fez com que as pessoas se separassem de seu caminho, mas não impediu que um daqueles vilãos chegasse até sua senhora e, depois de um forte empurrão sobre um dos portadores que desestabilizou o primeiro, todo o conjunto caísse ao chão.
Assustada pela brusca sacudida, Anne tentou aferrar-se a um dos postes, mas, desequilibrada, acabou sobre o chão de lama. Alguém a puxou pelos braços e a arrastou afastando-a de seus homens. Aturdida, tentou escapar de seu agressor, mas este a sujeitou com mais força sossegando seu grito com uma mão. Foi arrastada sob os cascos dos cavalos enquanto uma ensurdecedora gritaria se elevava a suas costas. Gantes bramava furioso acabando com sua espada a vida de todo aquele que ousava interpor-se em seu caminho. Por um instante, Anne confiou que seu assaltante fugisse antes de ter que enfrentar-se a tão fabuloso cavalheiro.
-Tome, leve meu anel - ofereceu enquanto o homem continuava arrastando-a para um dos becos.
O homem arrancou a jóia de sua mão e, depois de sopesá-la brevemente, a introduziu sob a calça continuar puxando-a sobre o barro.
-Já têm o que quer, agora me solte - exigiu com o coração bombeando freneticamente.
-Permaneça calada e conseguirá sair viva disto - aconselhou-lhe ele.
Ato seguido a levantou sobre o ombro sem lhe importar se o barro de seu vestido sujasse suas opacas roupas. Obviamente, confiava em um benefício futuro para ressarcir-se. Com urgência, imobilizou-a lhe segurando com um robusto braço sobre as pernas e sem mais demora começou a correr rua abaixo com seu botim.
Anne elevou o rosto tentando avistar Gantes ou a algum de seus cavalheiros, mas seu desgrenhado cabelo impediu. Antes que percebesse o homem se deteve junto a um carro parado em um lado da rua, jogo-a em seu interior e continuou sua corrida rua abaixo em uma óbvia tentativa de confundir seus perseguidores. Anne tentou levantar-se, mas alguém a imobilizou atando suas mãos e pés com rapidez enquanto outra pessoa a amordaçava para impedir que nenhum som saísse de sua boca. Seu corpo foi coberto com sacos de palha que a sepultaram em um escuro nicho de vasto tecido. Distintas vozes se mesclaram na confusão que seguiu. Anne apenas pôde distinguir o atropelado galopar dos cavalos de seu guarda, o rugido da voz de Gantes exigindo passo. Gantes! Quis gritar, mas eles passaram longe deixando atrás o carro. Um calafrio se estendeu por seus membros imobilizados. Tinha sido sequestrada! Disse a si mesma atônita. Tentou com força soltar suas ataduras, mas estas permaneceram fixas lhe roçando a delicada pele dos pulsos. O peso dos sacos a impedia de respirar enquanto um atroz temor crescia na boca de seu estômago. Seu sequestro não parecia obra casual de uns rufiões, ao contrário, parecia estar pontualmente calculado. Quem estava por trás? Perguntou-se com angústia quando a carreta começou a se movimentar tomando uma das ruas laterais.
O sólido baú no qual foi obrigada a introduzir-se foi transladado em uma das grandes barcaças que desciam rio abaixo essa mesma noite. Uma vez na costa, foi içado sobre o convés de um navio mercante e transladado por dois marinheiros. Advertidos sobre a delicadeza de seu "carregamento", os homens comprovaram que os diminutos buracos de sua tampa não estavam obstruídos para permitir que o ar chegasse à prisioneira e, depois de brincar sobre a sorte da dama, subiram ao convés enquanto as manobras do navio aproveitavam para alcançar o Mar e deixar-se arrastar para o continente.
Apesar do cansaço, todos os sentidos de Anne se encontravam alerta. Estava segura de achar-se a bordo de um navio alemão, pelo idioma utilizado pelos marinheiros. O porquê escapava a sua compreensão, fazendo com que as interrogações passassem por sua cabeça. O estalo da fechadura metálica da arca fez com que a jovem se esticasse com o fôlego contido. O resplendor das velas a cegou momentaneamente quando a tampa foi aberta e provocou em seus olhos lágrimas, mas apesar disso, tentou identificar o seu raptor, uma imprecisa figura que se inclinou sobre ela para tirar sua mordaça.
-Bem-vinda condessa - saudou o desconhecido estendendo uma mão para as ataduras de suas mãos.
Anne não o impediu olhando com concentrada atenção seu rosto.
-Não me reconhece, querida prima? - perguntou inclinando-se um pouco mais para que ela pudesse observá-lo a vontade. Transcorreram muitos anos desde nosso último encontro, mas não tantos como para que me tenha esquecido sem mais - indicou o homem acariciando-se instintivamente a pequena cicatriz que adornava sua sobrancelha esquerda.
O efetivo aviso fez com que os olhos cinza se cravassem incrédulos nos daquele homem: William Wilson.
-Lembro-me bem, Willy, como também me lembro da hospitalidade de sua casa - cuspiu utilizando seu diminutivo a modo de insulto e rejeitando sua ajuda para sair do baú.
O homem se retirou um passo inclinando-se com galanteria.
-Não foram mais que travessuras entre meninos.
Anne cambaleou precariamente ao ficar em pé, suas roupas estragadas pelo barro entorpeceram seus movimentos fazendo-a desequilibrar. William estendeu as mãos, mas Anne se opôs o seu gesto com irritação.
-Guarde suas galanterias para quem sabe as apreciar.
-Vamos, prima, ainda guarda rancor?
-Rancor, diz? Pelas surras recebidas, pelos dias de jejum que seu pai me obrigou a sofrer, pelos golpes, abusos e insultos com os quais me coroavam sendo uma menina indefesa? Acredito que há motivos suficientes para lhe odiar eternamente. Agora me diga o que se propõe a fazer comigo? - interrogou percorrendo-o com o olhar. Certamente, William tinha mudado pouco em todos aqueles anos, seu corpo era agora o de um homem robusto, com robustas pernas e braços. O bochechudo rosto de sua infância mantinha seu viço e o matreiro brilho de seus olhos escuros continuava lhe arrepiando a pele. Apesar de estar ricamente bem vestido, Anne não confundiria jamais suas boas maneiras com as de um cortesão. Em William, seu gesto de boa vontade, estava acostumado ir seguido de alguma classe de crueldade. Anne tinha aprendido a desconfiar dele em sua infância e o sentimento se mantinha intacto com o passar dos anos.
-Suas perguntas terão resposta amanhã, quando estiver mais descansada. Vê, prima? Minhas boas maneiras melhoraram.
-Sim, bastante. Por agora só posso lhe acusar de assalto, sequestro e violência, confio em que não siga melhorando a fim de conservar vida - observou ironicamente - Agora, responda a minha pergunta: A que se propõe? - exigiu perdendo parte de sua compostura. Possivelmente estava esgotada depois de tudo, as semanas precedentes tinham sido psicologicamente tristes.
-Tenho previsto que, agora que é viúva e que, conforme me informaram meus amigos da corte,...
-Amigos! Quer dizer espiões - interrompeu-o desdenhosa.
-Parte das riquezas de seu marido reverterá diretamente em suas arcas, possivelmente necessite um novo protetor - continuou, ignorando suas palavras, como se estas não tivessem sido pronunciadas.
-E você está convenientemente disposto a isso verdade? - finalizou ela ocultando seu esgotamento e debilidade sob uma fachada de zombeteira diversão.
-Exatamente. Quando tiver acabado nossa aventura no continente, ambos retornaremos a Inglaterra como marido e mulher, entendi que assim aconteceu a primeira vez. Com seu título em minha mão, as portas da Corte se abrirão ante mim.
-Isso é o que sempre ambicionou, não é verdade? - Ela compreendeu finalmente - Sem um título não podia ser chamado pelo rei, nem formar parte de sua Câmara. Não eram as riquezas, a não ser o poder de um título o que desejava de mim.
-Não nos unem laços de sangue que possam impedir este matrimônio, meu pai se casou com sua tia atribuindo a mim filho de seu primeiro matrimônio.
-Estou sob o amparo de Lorde Wentworth. Esqueceu acaso que ele jurou vingança sobre todo aquele que ousasse me fazer machucar? Acaso acredita que sairá impunes desta situação?
-O Dragão está muito ocupado com o nascimento de seu novo filho, todo mundo sabe que o ponto débil de seu protetor é a duquesa e suas crias. Até a novo deslumbre permanecerá fielmente aos pés de sua dama. Quando perceber algo, tudo haverá se resolvido meu favor. Meus contatos na Corte pressionarão ao monarca para impedir que ele se intere.
A jovem cambaleou para trás obrigando-se a apoiar seu peso sobre uma mesa próxima.
Viu como William deveria estar vendo-a nesses momentos, como uma jovem amarga e suja, indefesa ante o mundo, esgotada pelos acontecimentos. A falta de apetite tinha reduzido suas curvas marcando a fina estrutura óssea de seu rosto, aumentando ainda mais seus olhos como se fossem os de uma gazela encurralada. Imperceptivelmente, quadrou os ombros e elevou o queixo para enfrentar-se com orgulho a seu captor.
-Preciso descansar - declarou reunindo as escassas forças das quais dispunha.
-Ocupará este camarote até nosso desembarque. Não se incomode em tentar escapar, meu melhor ferreiro se encarregou da fechadura - disse lhe mostrando uma única chave - Encarregarei de que lhe sirvam algo de comer. - E depois de um rápido olhar a seu desastroso aspecto disse - seu asseio deverá aguardar um par de dias mais.
A porta foi fechada deixando a jovem com a única companhia de uma decrépita vela. Exausta, Anne se deixou cair sobre a cama de lã observando as quatro paredes do camarote. Uma extrema debilidade a atacou fazendo com que suas mãos tremessem. Tudo aquilo devia ser um pesadelo, disse a si mesma afastando o cabelo do rosto. Um novo estremecimento a sacudiu ao pensar no que aquele sequestro significava. Se William levasse o cabo seus planos, sua vida se converteria no inferno que tanto tinha temido. Não duvidava na contundente resposta do Dragão uma vez que os fatos chegassem a seus ouvidos, mas possivelmente seria muito tarde para salvá-la. Uma onda de fatalismo a sobreveio, nem sequer tentou ocultá-la quando um dos soldados de William entrou no camarote levando uma tigela de caldo, pão e salgados. Anne observou seu jantar com escasso interesse, mas se obrigou a si mesma a ficar de pé e arrastar os pés até o baú onde tinha sido depositada. Sorveu parte do caldo, mas o pão lhe fez uma bola na boca e com muita dificuldade conseguiu tragar. Com o estômago reconfortado se deixou cair na cama de armar e se envolveu o corpo com uma manta. Era curioso, durante semanas tinha desejado morrer, mas a provocação que William lhe tinha imposto lhe impedia de conformar-se com sua sorte. Estava muito cansada para pensar em nada, disse a si mesma enquanto seus olhos se fechavam lentamente. Dormiria para tentar recuperar parte de suas forças.
Quando despertou, a vela tinha se apagado com o agitado fluxo do alto mar que sacudia a embarcação. Descansada pela primeira vez em dias, desentorpeceu seus músculos duros e se levantou. A penumbra que reinava lhe impedia de saber se tinha amanhecido ou não. Moveu-se tentativamente entre as estreitas margens do camarote. Devia pensar em um plano que a ajudasse a resolver aquela situação, meditou. Possivelmente pudesse subornar a um dos marinheiros para que, uma vez em terra, enviasse uma mensagem ao Dragão. Ainda seguia contando com seus brincos, poderia oferecê-los como pagamento antecipado. Sim, poderia tentar fazer amizade com um desses homens e lhe persuadir para que a ajudasse. Seu plano foi tomando forma e ocupando todos seus pensamentos, relegando a morte de Hugh a um segundo plano pela primeira vez.
***
A névoa ocultava o sol envolvendo tudo quando o estalo de um canhão deixou seu eco sobre o convés da embarcação. Sobressaltados, os marinheiros (pescadores em sua maioria sem instrução na arte militar) observaram como de entre as brumas surgia a fantasmagórica aparição dos Vitelinos. O pânico se estendeu no convés onde todos corriam de um extremo a outro como um bando de galinhas alvoroçadas enquanto o capitão ordenava armar a única linha de canhões. O alvoroço fez com que William subisse ao convés com espada em mão.
-Maldição! - cuspiu equilibrando-se por volta de um dos canhões - Afastem-se, inúteis - bramou calibrando visualmente a distância de tiro.
O fogo inimigo voltou a assobiar sobre suas cabeças e estilhaçou o mastro, que com um rangido se afundou arrastando em sua queda velas e cordas. Uma nova maldição brotou de sua boca. Não podia deixar-se apanhar, não agora que tinha um futuro prometedor ao alcance de suas mãos. Sua "carga" era muito valiosa para cedê-la sem mais.
-Fogo! Necessito fogo - gritou a um dos marinheiros encarregados dos canhões e lhe arrancando a pólvora das mãos, acendeu o cordão molhado de petróleo. A mecha faiscou consumindo-se, segundos depois o aroma de pólvora queimada alagava tudo. O disparo esticou as cordas de sujeição do canhão ensurdecendo os gritos do convés por uns segundos. William observou ansiosamente a trajetória da bala que com um assobio agudo se afundou inofensivamente na água, longe da linha de flutuação dos atacantes.
Um novo assobio roçou sua cabeça, arrancou parte da vela e se afundou com um assobio agudo no oceano. O capitão do navio ladrou uma seca ordem a seu contramestre.
-Não! - exclamou William ao compreender sua intenção de render o navio.
-Não há mais remédio, não permitirei que meu navio seja afundado por um simples capricho - contradisse.
-Paguei-lhe generosamente por seus serviços - exigiu desesperado.
-Não o suficiente, a vida de meus homens não está em venda, milorde - disse lhe dando as costas e agitando um pano branco em sinal de rendição.
Anne aguardava impacientemente o resultado da batalha. Acaso o Dragão já tinha sido avisado de seu sequestro? E se não fosse assim, a que se devia o ataque? Só podia haver uma resposta que explicasse tal agressividade, uma que não lhe conferiu nenhum alívio. Só os Italianos e suas desonrosas empresas podiam levar o cabo tão temerário ato.
Um calafrio lhe sacudiu o corpo. Tinha ouvido histórias a respeito daqueles piratas, todas elas horríveis: donzelas violentadas por toda uma tripulação, vendidas como escravas nos mercados do sul ou jogadas no mar para perecer afogadas, mutilações para exigir resgates, roubos, assassinatos... Uma lista de crimes muito longa para permitir que a jovem se sentisse tranquila. Com expressão ansiosa, levantou o rosto para o teto de madeira, onde os acelerados passos dos marinheiros punham de manifesto o caos da batalha.
A pasmosa calma que sobreveio a seguir a fez retorcer as mãos enquanto sua respiração descompassada alagava o camarote. O som dos ganchos de ferro cravando-se na madeira lhe provocou um estremecimento. E agora o que? Perguntou-se se apertando contra a parede. Novas vozes se elevaram sobre o convés indicando que o navio tinha sido tomado. Possivelmente os assaltantes só pretendiam fazer-se com a mercadoria do navio, tratou de animar-se, possivelmente nem sequer se incomodassem em procurar nos camarotes...
O ruído de passos sobre a escotilha deteve a corrente de seus pensamentos obrigando-a a encolher-se contra as pranchas. Santo Deus, não permita que eles me descubram! Rogou. Tudo foi em vão. Tinham transcorrido uns breves minutos de calma quando a porta foi derrubada por dois gigantescos marinheiros. Ambos entraram no camarote esperando encontrar algum estranho tesouro, mas ao descobri-la - pararam abruptamente. Naquele lugar só havia uma moça suja, sem nenhuma riqueza a lhes oferecer salvo sua beleza. Um luxurioso sorriso se estendeu por seus rostos barbudos deixando entrever uns dentes torcidos. Golpearam-se entre si felicitando-se por sua sorte. Assustada, encolheu-se contra as pranchas quando um deles se adiantou para ela.
-Não! - exclamou quando tentou tocá-la alargando uma gigantesca mão.
Sua rejeição só provocou uma de onda de risadas entre ambos piratas. Novamente, um deles tentou tocá-la obrigando-a a afastar-se de novo e golpear seu antebraço com a única arma ao seu dispor, a bandeja de madeira de seu jantar. A bandeja foi arrebatada de um golpe fazendo com que seus medos se incrementassem com aquele único gesto. Tentaram contê-la, mas ela se revolveu com brio, golpeando mordendo e arranhando. Finalmente, os sorrisos burlões se esfumaram de seus rostos ante o esforço. Foi rudemente arrastada para o exterior e obrigada a subir para o convés onde a gritaria ficou silenciosa ante sua aparição. Quem teria pensado que o silêncio poderia ser mais aterrador que seus gritos? Foi jogada no chão, sobre um monte de cordas. O rude golpe lhe fez chiar os dentes, mas lutou corajosamente para levantar-se e enfrentar-se aquele mar de caras com um olhar desafiante.
-Se alguém me tocar, acabará morto e eu amaldiçoarei sua alma eternamente para que se apodreça no inferno - ameaçou sacudindo seu cabelo atrás de suas costas como um sinistro estandarte de guerra. Pôde distinguir seu covarde primo reduzido pelos golpes observando a cena junto ao resto dos homens capturados. Ele tinha sido o causador de sua situação, pensou sem a mínima compaixão. Anne lhe dedicou um áspero olhar antes de concentrar-se no grupo de rufiões.
-Exijo saber quem está ao mando - gritou.
Um murmúrio inteligível se elevou entre os homens.
-Temo, senhora, que esse sou eu - assinalou uma voz com forte sotaque germânico da proa.
Anne lançou um olhar curioso para encontrar-se com um singular personagem que, vestido com uma vistosa capa, inspecionava a pilhagem de seus homens.
-E posso perguntar seu nome?
-Importa acaso?
-Importa e muito. - Riu ele dirigindo-se para a pequena escada de madeira que se conectava ao convés. Anne ficou em pé elevando orgulhosamente o queixo.
-A simples vista um poderia pensar que não é mais que uma simples empregada em desgraça - continuou detendo-se ante ela com um olhar especulativo que se deslizou por suas roupas sujas - e nesse caso nada impediria os meus homens gozar de seus encantos, são homens do mar, obrigados a permanecer longe de terra...
-Não serei a prostituta de nenhum de seus homens - interrompeu-o ofendida.
Esse último tratamento fez com que os lábios finos e pálidos do homem se esticassem em um sorriso divertido. Tratava-se de um homem de compleição magra, quase esfomeada cujo rosto ossudo e maltratado pela varíola lhe resultava estranhamente familiar.
-Não, não o será, porque obviamente não são nenhuma dessas coisas -aceitou ele rodeando-a lentamente para examiná-la especulativamente - Não, apostaria meus dentes sãos a que é uma mulher de posição, a soberba que refletem seus olhos é típica daqueles seguros de seu lugar no mundo, poderíamos estar ante uma cativa de posição?
-Proclamo meu direito sobre ela - bramou William desde seu canto. Se tocarem a essa mulher estarão condenados.
-Ah, William! Cale-se - exclamou irritada pela interrupção.
O pirata se voltou para ele com gesto zombeteiro, fez um gesto a um de seus homens.
-Escutou isso? Este homem proclama seu direito sobre a mulher - assinalou zombeteiro o capitão dirigindo-se a seus homens em alemão.
Um coro de risadas se elevou a suas costas.
-Deixarei que escolha, milorde: Têm direito a decidir sobre sua pessoa ou pode lhe esquecer de tão egoísta posição e resolver o futuro de nossa cativa. E agora me diga sobre quem preferem decidir?
William sob seu olhar deixando cair os ombros em sinal de derrota.
-A mulher é sua - aceitou com pavor.
-Sempre soube que era um covarde - cuspiu Anne lhe dedicando um último olhar de desprezo antes de concentrar-se no pirata. Deveria ser ela quem negociasse os términos de sua captura.
-Até que decida o que fazer com você, senhora, é minha prisioneira e como tal poderá desfrutar da hospitalidade de meu navio. - Convidou-a fazendo um gesto para a passarela que unia ambos os navios.
-Nem sequer sei seu nome.
A diversão brilhou nos pálidos olhos do homem.
-Todos me conhecem como o Fantasma Branco, mas você pode me chamar Ibarr.
Anne o estudou com confusão, lhe percorrendo o rosto com o olhar. Quanto mais o olhava mais se incrementava a impressão de havê-lo visto antes.
-Tenho a sensação de havê-lo conhecido antes. - E então recordou exatamente onde tinha visto aquele rosto - Bom Deus! É irmão de Rufus?
A menção daquele nome apagou todo rastro de diversão do rosto do homem.
-Conhece Rufus?
-Tive essa desgraça, sim.
Uma sombra de dúvida cruzou o rosto do homem.
-Não é o tipo de mulher com que Rufus acostuma a tratar.
-É uma adulação?
E como única resposta obteve uma forte gargalhada.
Capítulo 14
O traço de uma sombra se apagou sob a vacilante luz das tochas fundindo-se sigilosamente na noite. A sombra aguardou oculta, envolta na úmida névoa do mar até que os passos de sua vítima ressoaram com claridade contra o chão empedrado. Silenciosa, a sombra se moveu atrás dela seguindo seus movimentos com os olhos vigilantes.
-Detenha se estima sua vida - ordenou acompanhando suas palavras com o metálico ressoar de sua espada desembainhada.
Sua vítima retrocedeu com expressão de espanto.
-Tome minha bolsa - ofereceu apalpando nervosamente sob sua capa.
-Mantenha as mãos quietas, onde possa ver. Não me interessa sua bolsa, Goudriaan.
-Como sabe meu nome? Mostre seu rosto - exigiu o homem observando as sombras com apreensão.
-Está disposto a ver um fantasma? A um demônio chegado do mesmo inferno? - inquiriu a voz, deixando que o brilho de sua espada se aproximasse do rosto do homem e riscasse um arco frente a seus olhos.
-O que quer de mim?
-É simples, tão só que responda a minhas perguntas.
A vítima assentiu levemente tentando vislumbrar seu assaltante. A escuridão da noite sem lua lhe impedia ver seu rosto oculto sob o grosso capuz de sua capa.
-Não sou mais que um humilde servo.
-É o delator de Klemens Dwarswaard.
-Não. Eu jamais...
-Oh, sim! É, e bastante bom conforme entendi e sabe a pena que há para esse tipo de delito, verdade? Seria muito triste que acabasse sem língua se a confraria de comerciantes soubesse de suas atividades, por isso me explique a implicação dos alemães no assassinato do Margrietje Van Dijk.
-Todo mundo sabe que foi seu amante quem lhe cortou o pescoço. Certamente brincou com o orgulho do pobre diabo e ele não pôde suportar, os ingleses são excessivamente presunçosos.
-Obrigado pela elucidação, mas tenho uma opinião diferente - grunhiu a sombra cravando a ponta de sua espada em sua bochecha -e Acredito, mas bem, que o inglês só foi um peão às mãos de Dwarswaard e quero saber por que - exigiu infligindo um corte no rosto do infeliz - Que tal se veria sem nariz para começar? - Roçou com sua espada sua ponta farpada.
-Está bem, está bem, falarei, mas, por favor, não me faça mal. - Soluçou notando a palidez de seu sangue deslizar-se por seu queixo.
-Fale - exortou-o a sombra retirando levemente o fio de seu ferro.
-Klemens Dwarswaard foi quem decidiu tratar de bloquear os acordos com os ingleses, teme que sua associação com os holandeses prejudique os interesses da Liga. Por isso tentou fomentar sua inimizade. Utilizou a morte da mulher do Estatúder contra os ingleses, desejava que ele rompesse suas relações e predispor às demais cidades adstritas ao ducado em seu contrário.
-Foi Dwarswaard quem preparou a fuga do inglês?
-Subornou dois dos guardas, esperava que deste modo o Estatúder se enfurecesse o suficiente para expulsar os embaixadores ingleses, mas Van Dijk resultou ser mais avaro que vingativo.
-Quem assassinou a mulher?
-O inglês o fez.
-Não - trovejou a sombra tocando o pescoço ao homem, que se debateu pateticamente contra aquela força bruta. Quero o nome do responsável.
Um choramingo infantil escapou da boca do homem.
-Não sei mais do que contei. Fui informado do interlúdio entre esse inglês e a mulher por um dos empregados da casa.
-Tem espiões ali?
-Tenho ouvidos e olhos em toda a cidade - afirmou com certo orgulho.
-Continue – insistiu golpeando seu rosto com o punho da espada.
-Sabia do interesse da Liga por todo o relacionado com a visita dos ingleses. Pensei que a informação seria bem recompensada - explicou atropeladamente.
-Sei que a Liga assassinou a mulher do Estatúder e também sei que fizeram todo o possível para culpar o inglês. - O suave sussurrou de sua voz gelou o sangue da vítima que, indefesa, tentou liberar-se da garra que lhe impedia de respirar.
-Por favor, senhor, não me faça mal, não sei mais do que lhe contei, juro-o pela santa Trindade! - choramingou.
Frustrada, a sombra se retirou, liberando-o. Uma onda de impotência o percorreu lhe fazendo apertar os dentes. Seguia sem provas que demonstrassem a inocência do "inglês". Dedicou um último olhar ao delator antes de descarregar sobre seu rosto um contundente murro que o sumiu na inconsciência.
A sombra se perdeu no labiríntico discorrer das ruas, pensativo e furioso. Quanto tempo mais ia se prolongar sua busca? Perguntou-se indo para sua guarida na cidade. Havia-lhe custado quase uma semana dar com Goudriaan e estudar seus movimentos, e tudo para nada. Seu tempo começava a esgotar-se e suas pesquisas pareciam lhe levar uma e outra vez ao mesmo beco sem saída. Desalentado apressou o passo. Deteve-se uns instantes para comprovar que ninguém lhe seguia antes de penetrar na humilde casa de tijolo e madeira situada em uma das ruelas próximas ao porto em um bairro miserável de homens livres e vilões sem ofício onde proliferavam os malfeitores. Para não levantar suspeitas se fez passar por um marinheiro em busca de fortuna, para isso tinha alugado uma cama na casa de um velho bêbado e sua filha, Enjoe.
O lar se encontrava aparentemente calmo. Enjoe deitada junto ao fogo se levantou quando ele entrou no estreito reduto do andar de baixo. Pendurou sua capa atrás da porta e sacudiu as pernas intumescidas pelo frio enquanto lhe dirigia uma saudação.
Enjoe o observou com olhos ávidos. Lançou-se apressadamente sobre o pequeno monte de tigelas empilhados junto a mesa para lhe servir um fumegante caldo feito com despojos de peixe e convidando-o a tomar assento com um gesto de sua mão. No andar superior ressoavam os etílicos roncos de seu pai. Enjoe tinha tomado a precaução de fechar a tramela que unia ambos os andares e retirar a escada de madeira para procurar certa intimidade. Pôs a tigela e uma colher de madeira ante ele antes de colocar-se a suas costas para admirar a largura dos ombros masculinos à luz da vela que ardia sobre a lareira.
-Hoje demorou mais que os outros dias - indicou-. Encontrou trabalho? -perguntou esperançosa ante a idéia.
O inglês encolheu os ombros enquanto devorava a comida.
-Entretive no botequim - explicou seco.
Atrás dele, o cenho da moça se franziu. O botequim, um escuro tugúrio onde os marinheiros iam beber, era também conhecido pelos serviços oferecidos pelas mulheres que ali trabalhavam. Teria estado ele em companhia de alguma delas? O tema suscitava a inquietação da moça. Ela tinha mais direitos sobre esse homem que essas prostitutas do porto! Tinha grandes planos para aquele homem. O mais ambicioso consistia em convertê-lo em seu futuro esposo. Toda moça devia procurar um marido são e capaz, e este inglês prometia ser muito, muito capaz. Ele se passava por marinheiro, mas ela não era nenhuma estúpida para acreditar em algo semelhante, a qualidade de suas escassas roupas era suficiente para alimentar a toda uma família durante todo um ano e tampouco tinha o rude aspecto que a vida no mar outorgava aos homens, não, seu corpo era forte e fibroso como o de um campeão de campos de batalha. Nenhum marinheiro, vilão ou servo tinha direito a levar espada e, entretanto, aquele inglês o fazia com a destreza de um guerreiro. Aquele corpo era o sonho de qualquer mulher como bem tinha podido comprovar dias atrás quando o tinha surpreendido em seu asseio sem mais que uma diminuta roupa interior. Praticamente tinha se derretido ante a visão daqueles flancos firmes e magros que desembocavam em estreitos quadris. Ao irromper no minúsculo quarto adjacente à casa que ele ocupava com a desculpa de lhe proporcionar mais água quente. Estava disposta a conseguir aquele homem apesar de sua rejeição contínua. Ela era uma empregada atrativa, com um bom número de encantos, pensou puxando as mangas de sua camisa para aprofundar seu decote. Observou seus seios cheios para infundir confiança necessária para iniciar um novo ataque. Plantou ante o homem um odre de vinho que ele apenas olhou enquanto devorava seu jantar. Enjoe se sentou sobre a mesa e balançou as pernas sob a saia inclinando-se ligeiramente para ele.
-Papai dorme. Esta noite bebeu mais da conta - informou satisfeita quando os olhos do homem subiram por seu sutiã de lã atado para deter-se sobre sua camisa interior enrugada. Seu olhar se manteve sobre ela uns segundos antes de retornar de novo a seu jantar.
Enjoe se obrigou a ignorar o desgosto de sua indiferença Esticou uma mão para o denso cabelo para afundar os dedos entre as rebeldes mechas.
-Deveria cortar o cabelo para que não lhe confundam com um Viking. - Riu estimulada por seu contato.
O olhos dourados se centraram finalmente nela que riu nervosamente sem saber o que dizer.
-Eu gosto como está - disse ele sujeitando sua mão e afastando-a de sua cabeça com delicadeza.
Enjoe se deslizou um pouco, mas sobre a débil mesa pondo em perigo sua estabilidade enquanto ele tentava ocultar sua hilaridade ante a tosca sedução. Lançou um breve olhar para aqueles seios leitosos e plenos. Em outro tempo, a moça já teria obtido o que procurava, mas em sua atual circunstância pessoal só podia pensar na maneira mais efetiva de tirar-lhe de cima. Ficou em pé tomando a tigela em sua mão. Estava resolvido a evitar a Enjoe, mas não a perder seu jantar.
Os olhos da moça o seguiram faminto.
-Não se vá - rogou se colocando em movimento. Correu em sua direção tentando impedi-lo que ele saísse pela porta - Não quer ficar aqui, junto ao fogo? - perguntou assinalando a cama de palha que ela ocupava.
-Obrigado, mas não. - Rejeitou esticando uma mão para sua capa.
Ela interrompeu o movimento tomando a mão e levando-lhe para o seio quente.
-Tome meu senhor - ofereceu deixando que sua camisa se deslizasse um pouco mais.
Ele afastou lentamente sua mão, deixando impresso o calor de sua mão sobre sua pele. Puxou-lhe o queixo fazendo com que suas pernas tremessem quando se inclinou para beijar sua testa.
-Enjoe, guarde-se para um homem que lhe mereça.
-Você pode me ter - brindou sem fôlego.
-Não desejo.
Os chamejantes olhos da moça se elevaram até aquele rosto bronzeado.
-Ama a outra, é isso, verdade? - perguntou com voz fraca.
O homem deixou cair a mão enquanto seus olhos adquiriam um véu melancólico que outorgou a seu olhar dourado uma palidez tangível.
-Sim - admitiu roucamente, evocando aquela que tão certamente se instalou em seu coração.
Um golpe na porta os fez separar-se apressadamente. Obrigou a moça a pegar-se contra a parede lhe colocando uma mão sobre a boca. O impaciente tamborilar se repetiu, obrigando-o a desembainhar lentamente a espada da capa que pendia de seu quadril. O familiar peso desterrou a gentileza de seu rosto convertendo-o em um guerreiro. Indicou a Enjoe que se adiantasse e respondesse à chamada. A jovem obedeceu intimidada pela mudança operada no homem.
-Quem... É? – perguntou depois de esclarecer a garganta.
-Abra em nome de Deus - respondeu uma voz com grave sotaque.
Enjoe o olhou interrogante enquanto ele cabeceava afirmativamente. A moça desobstruiu a porta de madeira colocando- apressadamente a roupa.
***
Anne sujeitou o capuz de seu disfarce sobre a cabeça seguindo as instruções de Rufus enquanto a porta da humilde cabana emitia um chiado discordante. O desconfiado rosto de uma moça apareceu atrás dela. Anne se precaveu da desarrumação de suas ásperas roupas como se a inoportuna visita a tivesse tirado de sua cama. Perguntou por que Rufus tinha querido levá-la a um lugar como aquele.
-Pelas barbas de Satanás, Rufus, que demônios faz aqui? - inquiriu uma segunda presença trás da porta.
Anne elevou o olhar com curiosidade. Embora o homem tivesse falado em holandês havia algo naquela voz estranhamente familiar. Seu olhar fatigado viajou através da larga extensão de seu peito para finalizar nos marcados traços que a luz da única vela da estadia deixava entrever. Então, o mundo começou a girar vertiginosamente. A visão a fez retroceder e emitir um som torturado. Um longínquo eco se reproduziu em sua cabeça: "Prometo-te que se meu destino for não voltar a ver seu rosto burlarei ao diabo para retornar junto a ti", havia dito Hugh ao despedir-se. Era certo então? Tinha retornado ele do inferno?
-Hugh? - pronunciou com a boca seca enquanto as batidas de seu coração ficava suspenso quando os olhos dourados se centraram nela, tentando averiguar a identidade que o amplo capuz ocultava. Um novo som emergiu de sua garganta.
-Que demônios...
Suas seguintes palavras se perderam na lonjura. Algo a arrastou para o chão, uma força abominável que lhe dobrou os joelhos consumindo todo o oxigênio a seu redor. Um segundo depois sumia em uma venturosa inconsciência nos braços de seu marido.
As vozes retornaram lentamente, mas os olhos de Anne se mantiveram fechados enquanto tentava distinguir os distintos aromas que banhavam o lugar: a fumaça do lar, o azedo rastro de couve cozida, um aroma mais denso, irreconhecível, aderido à palha do colchão onde se achava deitada... Abriu bruscamente os olhos ao recordar o que a tinha levado a semelhante estado de debilidade. Umedeceu os lábios com a ponta da língua sem atrever-se a afastar o olhar do teto de madeira escurecido pela fumaça, enquanto seu coração começava a bombear adrenalina a todos os cantos de seu corpo. Temia estar ficando louca, possivelmente sua debilidade a fez ter visões, possivelmente tudo era obra do esgotamento acumulado nas jornadas precedentes, quando Ibarr Van der Saar tinha procurado o rastro de seu irmão ao longo da costa francesa ou quando uma vez entregue a este se viu obrigada a atravessar a completa extensão d Benelux disfarçada como um monge sem mais ajuda que um asno esquálido.
Umas mãos se esticaram sobre sua cabeça para colocar um pano úmido em sua testa. Anne tentou concentrar-se na escura sombra inclinada sobre ela enquanto uns lábios perfeitamente cinzelados falavam com suavidade. Eram os lábios de Hugh os que falavam, mas aquele não podia ser Hugh, ele estava morto e enterrado por ordem de Enrique. Estava louca então? Possivelmente, porque a necessidade de lhe tocar, de comprovar que era real se tornou insuportável, obrigando-a a elevar uma mão e acariciar com a ponta de seus dedos a tensa linha de sua mandíbula. O tato e calor de sua pele transpassaram a frieza de seus próprios dedos, transmitindo-se ao longo de seu braço. Seus dedos subiram por sua maçã do rosto reconhecendo a firmeza de sua estrutura óssea, plenamente terrestre, maravilhosamente tangível. Ah! Que sonho tão real, pensou maravilhada e aterrada de uma vez. Deteve sua exploração na minúscula cicatriz com forma de estrela que coroava sua bochecha direita, apalpou com a gema de seu dedo indicador sua superfície ligeiramente rugosa. O homem mantinha os olhos fechados como se seu contato lhe aliviasse alguma dor.
-É realmente você? - perguntou com voz trêmula, temerosa de que, como em outras ocasiões, sua visão se esfumasse entre seus dedos deixando-a de novo à deriva.
Então ele abriu os olhos e atrás dos densos cílios castanhos, Anne pôde distinguir o inconfundível brilho dourado de seu olhar.
-Está vivo! - exclamou com o coração comprimido.
-Tanto como pode estar um homem ao que arrancaram o coração - respondeu ele inclinando-se ligeiramente sobre a cama, reduzindo seu mundo ao maravilhoso espaço de seu corpo.
Vivo! Ele estava realmente vivo! Mas como?
Um grito rouco surgiu de sua garganta. Se aquilo era um sonho, não desejava ser despertada, pensou enquanto os lábios de Hugh desciam sobre sua boca lhe transmitindo seu úmido calor. Anne entreabriu a boca para recebê-lo em seu interior com uma sensação de irrealidade. Ele a beijou como só um homem vivo pode beijar, fazendo-a arder, lhe roubando o fôlego com cada carícia de sua língua. Anne apalpou sob seu corpo até dar com o rítmico bombear de seu coração, uma prova categórica, indisputável, de que não estava louca. Hugh estava vivo, abraçava-a, beijava-a, dava-lhe seu fôlego com cada um de seus beijos.
-Hugh...
Repetia seu nome uma e outra vez, como se não houvesse outra palavra em sua cabeça, e chorava e ria sem ser consciente de fazê-lo. Ele a estreitou entre seus braços deslizando os lábios por seu pescoço, aspirando seu aroma floral.
-Mesmo com o risco de ofender a Deus, senhora, devo reconhecer que nunca os hábitos tiveram um efeito similar em mim - brincou Hugh apalpando a grossa lã que envolvia seu corpo.
Anne riu maravilhada acomodando-se em seu colo, enredou os dedos em seu cabelo dourado afundando o rosto contra seu pescoço, desfrutando da consoladora palidez de sua pele.
-Anne...
-Shss. Não fale só me abrace. - Silenciou-o posando uma mão sobre sua boca. Necessitava tempo para acostumar-se à idéia de que ele estava vivo. Hugh beijou seus dedos e, apoiando as costas contra a parede, esticou as pernas sobre a cama com a jovem enroscada em torno dele. Embalou-a entre seus braços sem deixar de observar seu rosto, embriagado com sua presença. Em todo esse tempo se havia sentido mais morto que vivo, pensou maravilhado, e agora Anne estava ali com ele, lhe devolvendo a esperança. Encerrou-a entre seus braços como se tratasse de um valioso tesouro enquanto os olhos da jovem lutavam para manter-se abertos, como se temesse adormecer. Finalmente, rendeu-se à tormentosa fadiga e, com um suspiro, entregou-se ao sonho.
Hugh selou suas pálpebras com um beijo enquanto deslizava uma carícia sobre suas bochechas avermelhadas pelo calor do fogo. Finalmente, elevou distraidamente o olhar para Rufus e Enjoe testemunhas silenciosas daquele reencontro. Enjoe sentada em um banco de madeira o observava sem dissimular seu ressentimento, ciumenta de seus cuidados para com a recém chegada. Rufus, pelo contrário, exibia uma expressão zombeteira.
-Provavelmente lhe interessa saber como chegamos aqui - disse usando o inglês antes de dar um longo gole ao odre de vinho.
-Pode começar por me explicar o que faz em Amsterdã. O Estatúder pôs preço a sua cabeça se por acaso não se recorda.
-Não queria ser menos que você - presumiu, fazendo com que o vinho transbordasse em sua boca para gotejar sobre o chão de terra.
Hugh emitiu um grunhido. Sua volta tinha sido uma eleição própria com um fim plenamente justificado. Tinha jurado ante o mesmo rei da Inglaterra, encontrar ao verdadeiro culpado do assassinato de Margrietje Van Dijk e Rufus era a única pessoa que estava a par disso.
-Na realidade, não tive mais remédio que fazê-lo - suspirou Rufus assinalando a jovem que dormia entre seus braços - Quando foi levado, ao "cadafalso" ela se voltou louca de dor, apenas comia e raramente dormia. Nunca vi sofrer a uma mulher como ela o fez por ti, inglês. Vi-me na obrigação de te advertir que era possível que a sua triunfal volta talvez não tivesse a ninguém com quem compartilhar sua vitória.
Hugh franziu o cenho observando com atenção o rosto de sua esposa.
-Eu não sabia...
-Todos temiam que se deixasse morrer. Lady Botwell estava tão preocupada com ela que nem sequer prestava atenção em mim e maldição! Sabe o tempo que levo sem me desafogar com uma mulher? Não podia continuar de braços cruzados esperando que se fizesse sua ressurreição. Decidi viajar incógnito a Calais e lhe enviar uma mensagem para lhe ajudar em suas pesquisas e lhe advertir sobre a situação de sua dama, mas houve um contratempo, um bastante curioso, por certo. Ela foi raptada por William Wilson.
Hugh assentiu pensativamente. Tinha ouvido falar de William com antecedência. O Dragão se referiu a ele em certa ocasião queixando-se da ambição desmesurada de seu pai e de suas reiteradas petições ao Conselho Real a respeito de seus direitos sobre a herança da jovem.
-Sua esposa foi embarcada rumo ao continente e hei aqui o surpreendente do assunto; seu navio foi abordado pelos Vitalianos.
Aquela informação fez com que Hugh se endireitasse contra a parede. De sobra conhecia as sanguinárias façanhas daqueles piratas.
- Relaxe, amigo, sua esposa caiu em boas mãos. Ouviu falar do Fantasma Branco?
-Você é o Fantasma Branco - assinalou Hugh. Foi julgado por isso, recorda?
Rufus arranhou a barriga lançando um olhar de soslaio a Enjoe que seguia seu dialogou com o cenho franzido.
-Ela não pode nos entender, continue - animou-o Hugh.
-Me alegro. Por certo, boas tetas. Já a tocou? Dá igual, não quero saber. Estou tão excitado que dormiria com uma galinha e tudo por sua culpa, inglês. Lady Botwell não se deixará baixar as calcinhas a menos que se encontre a salvo, enquanto eu terei que esperar a que...
-Rufus? O Fantasma Branco recorda? - interrompeu-o exasperado.
-Sim, perdoe. Na realidade, não existe um Fantasma Branco, a não ser dois.
-Que diabos está dizendo?
Um sorriso de orgulho dos finos lábios do homem.
-Quero dizer meu bom amigo, que minha mãe foi bendita com dois filhos em um mesmo parto.
-Você e o Fantasma Branco são gêmeos? - perguntou surpreso.
-Sim, embora tenha que reconhecer que Deus me concedeu mais encanto que a meu irmão, coisa que ele se empenha em negar - presumiu.
Hugh o observou atônito.
-Quer dizer que Anne foi capturada por seu irmão?
-Ela percebeu o parecido e o fez saber. Ibarr me entregou faz isso duas semanas. Não sabia o que fazer com ela, assim que me propus te encontrar e deixar a ti com o dilema - finalizou bocejando sonoramente - Levo todo este tempo daqui para lá te seguindo os passos e tentando que ninguém descubra a identidade de sua dama. Temia que ela não acreditasse quando lhe explicasse que seguia com vida, assim deixei que o descobrisse por si só.
Sua cabeça descansava sobre algo quente. Abriu os olhos lentamente notando a compassada respiração junto a seu ouvido. Hugh! Recordou. Seu olhar voou para o rosto do homem que a sustentava possessivamente contra si. O coração lhe deu um tombo. Então era certo! Não era um sonho! Ele continuava vivo. Deixou que essa idéia se assentasse em sua cabeça. Uma efervescente onda de alegria lhe alagou a alma. De repente, sentia vontade de rir, de dançar e cantar. Hugh estava vivo! A maravilha desse milagre impediu que seu olhar se separasse de seu rosto. Elevou uma mão para a marcada linha de sua mandíbula, mas a deixou cair sem atrever-se a tocá-lo. Acomodou-se na curva de seu braço desfrutando do calor que desprendia de seu corpo. Depois dos dias de inferno que tinha vivido aquilo lhe parecia simplesmente celestial.
Seus olhos passearam pela humilde estadia até deter-se na moça que, sentada sobre o banco, olhava-a ressentidamente. Anne sustentou seu olhar um instante incômodo pela evidente inimizade. Hugh a envolveu com seu corpo obrigando-a a acomodar-se sobre ele. Ela o fez ronronando de prazer, enroscando os braços em torno de seu pescoço enquanto tentava ignorar o tormentoso olhar da moça.
-Bom dia. - A voz de Hugh ressoou junto a sua orelha fazendo com que seu corpo estremecesse. Deixou cair um beijo sobre sua boca enquanto se acomodava contra a parede de pedra e observava ao seu redor. Seus olhos toparam com o irado olhar de Enjoe. Tinha razões para mostrar-se mal-humorada, meditou. Tinha tido que ceder sua cama a uma desconhecida e se ver obrigada a pernoitar sobre o incomodo banco de madeira. Hugh sentiu o corpo de Anne preso ao dele e, embora a sensação fosse deliciosa, não podia continuar vagabundeando. Era um proscrito, recordou-se, e devia viver como tal. A presença de Anne a seu lado, apesar de lhe alegrar a alma, complicava terrivelmente a situação. A cidade se converteu em uma ratoeira onde ele era o camundongo.
Deixou cair um novo beijo sobre a cabeça da jovem e ficou em pé tentando reorganizar sua estratégia. Acima de tudo, devia assegurar-se de que Anne estivesse a salvo. Sentia os olhos da jovem fixos nele enquanto a luz da alvorada se abria passo através das estreitas ranhuras da porta. No momento, a comoção do reencontro tinha sossegado suas perguntas, mas esta não demoraria a chegar e Hugh precisava estar preparado. Dirigiu-se a Enjoe para lhe ordenar que preparasse um pouco de comida enquanto ele ia em busca de um pouco de lenha para avivar o fogo do lar. Rufus tinha desaparecido na noite anterior em companhia do odre de vinho. Falaria com ele sobre a melhor maneira de tirar a jovem da cidade, se havia alguém capaz de burlar o cerco do Estatúder era Rufus, disse a si mesmo olhando de soslaio o grosso hábito que cobria Anne, quem nesses momentos estava sobre a cama de palha. Tinha desejado poder estar a sós com ela, vê-la fazer isso completamente nua entre lençóis de fina seda enquanto lhe percorria o corpo com a língua... Teve que deter-se aí. Sacudiu a cabeça como se dessa maneira pudesse apagar a imagem de sua cabeça enquanto acendia uma vela.
Desde seu canto, Enjoe protestou ante, semelhante gasto, as velas eram um artigo caro nesses dias e não podiam desperdiçar-se de qualquer jeito quando a luz diurna podia fazer o mesmo trabalho. Mas Hugh não queria que ela abrisse o estreito oco coberto com pranchas de madeira, não necessitava a curiosos farejando a seu redor. Colocou-lhe uma moeda na mão para sossegar seus protestos e lhe pediu que lhes servisse água e comida. A moça fez uma careta, mas acabou colocando a moeda em seu decote e, tomando o balde de madeira, saiu ao exterior abrigada sob seu manto.
Anne seguiu os movimentos de Hugh pela estadia com uma mescla de euforia e incredulidade. Ficou em pé esticando o áspero tecido do hábito que Rufus a tinha obrigado a vestir. Devia ter um aspecto horrível, pensou com apreensão penteando com seus dedos o desordenado cabelo. O sofrimento pela "morte" de Hugh tinha deixado um rastro impossível de apagar em seu coração, mas também em seu corpo a modo de profundas olheiras e uma grande palidez. A perda de peso tinha marcado o angulo de seu rosto fazendo com que seus olhos e sua boca parecessem desproporcionais em suas dimensões. Emitiu um suspiro de derrota quando as rebeldes mechas de seu cabelo caíram de novo sobre seu rosto. Hugh, agachado frente ao fogão, descarregou sobre ela uma daquelas olhadas que lhe faziam arder a planta dos pés.
-Venha aqui - disse tomando a barra de seu hábito em um punho e puxando-o para fazê-la avançar em sua direção.
Anne o deixou fazer porque aquele olhar tinha acendido suas lembranças. Muitos momentos íntimos se iniciaram com um olhar assim.
Hugh se esticou frente a ela, tão incrivelmente vital tão extraordinário em seu dinamismo, que teve que conter o desejo de beliscar-se para certificar-se de que não estava sonhando. Limitou-se a lhe olhar, a devorar cada um de seus gestos e entesourá-lo condicionalmente. Hugh deslizou uma de suas mãos atrás de sua nuca e com um leve empurrão de seus dedos a obrigou a inclinar a cabeça para depositar sobre sua boca um beijo lento. Depois sua mão se deslizou por suas costas, afundando a palma contra a depressão de sua coluna antes de lhe rodear a cintura e pegá-la a seu corpo. Anne emitiu um gemido de rendição elevando os braços para ele, aceitando sua boca. Havia se sentido tão morta, tão fria e só nesse tempo...
Hugh deslizou os lábios por seu pescoço curvando os dedos ao redor de suas nádegas. Levantou-a para ele sem deixar de beijá-la, aspirando o aroma floral que sempre parecia acompanhá-la. Seu nome escapou de sua boca enquanto a empurrava contra a parede e a encurralava com seu corpo.
-Todo este tempo estive mais morto que vivo - reconheceu.
Os olhos cinza se cravaram nos seus.
-Quando me disseram que tinham morrido uma parte de mim morreu com você. Não volte a me deixar, Hugh, meu coração não poderia resistir - sussurrou enterrando os dedos em seu cabelo dourado e lhe obrigando a beijá-la de novo.
Hugh a apertou contra si. Abriu a boca sobre seus lábios para medi-la com sua língua. Anne o recebeu com um gemido.
-Poderia te tomar agora, mas temo que isso acabe por ofender a Enjoe - suspirou apoiando os lábios sobre sua testa.
Anne se aferrou a ele tentando pôr ordem em seus acalorados pensamentos. É obvio, ele tinha razão, e a propósito, onde estava a sua?
-Ah, diabos! - grunhiu quando Anne elevou para ele seus enormes olhos. Não conhecia nada mais efetivo contra a vontade de um homem que aquele par de olhos cinza. Voltou a elevá-la sem delicadeza. Manipulou torpemente suas roupas tentando levantá-la sobre suas pernas, enquanto acariciava rudemente seus seios, poderia ser rápido, na realidade estava seguro de que não poderia ser de outra maneira. Aquele desejo insatisfeito tinha bramado em suas veias há uma eternidade. Tinha passado muito tempo sem que se sentisse completo e Anne era a única pessoa no mundo capaz de lhe fazer sentir-se assim. Apenas tinha conseguido deslizar uma mão sob suas roupas quando a porta da cabana se abriu de novo. Enjoe franqueou a entrada e se deteve bruscamente quando os descobriu. A água transbordou de seu balde e regou seus pés embainhados em toscos tamancos.
Separaram-se apressadamente tentando pôr ordem em suas roupas. Hugh apoiou o queixo no peito olhando concentradamente o chão de terra, tentando de recuperar o controle.
-Devo ver Rufus - anunciou saindo pela porta depois de pegar sua capa do gancho da parede.
Depois de sua marcha, a tramela que havia sobre sua cabeça se abriu bruscamente para dar passo ao rosto mal-humorado de um ancião desdentado. Bramou a Enjoe uma série de perguntas sobre sua identidade que a moça respondeu com indiferença enquanto colocava a escada de madeira. O homem desceu sem deixar de observá-la.
-Enjoe disse que é monja - disse depois de avaliar seu aspecto com um lento olhar que escorregou desagradavelmente pelas grossas dobras de seu disfarce para deter-se nas sandálias de couro verde que apareciam baixo ele. Suas sobrancelhas se arquearam especulativamente. Aquele par de sapatos era um luxo do que só um benjamim poderia presumir em um lugar como esse.
Anne retrocedeu um passo para evitar o vapor etílico que lhe alagou as fossas nasais. O homem lhe tinha falado em um quase inteligível francês, por isso respondeu na mesma língua.
-Assim é - disse sem esclarecer sua procedência exata.
O ancião coxeou até a mesa para acomodar-se sobre o banco, dando a sua filha um empurrão. A moça se apressou a lhe servir um pouco de comida.
-É a puta do inglês? - inquiriu sem delicadeza.
As maçãs do rosto da jovem avermelharam.
-Não - negou encrespada pelo insultou. Resolveu que era mais prudente evitar revelar o tipo de relação que a unia com Hugh.
O ancião arrotou percorrendo-a com desprezo.
-Me alegro, porque minha Enjoe pôs seu interesse nele, não é uma moça muito inteligente, mas é forte, vê? - disse apalpando os quadris da jovem como se tratasse de uma égua - Sabe como agradar a um homem e esse inglês não foi uma exceção, verdade? - Riu apalpando novamente a sua filha, que assentiu conforme antes de afastar-se.
O amargo sabor da bílis lhe alagou a boca ante essa afirmação.
-O que quer dizer?- perguntou com o fôlego retido.
O homem a olhou sobre a beirada da tigela e depois de um ruidoso sorvo se limpou os lábios contra o imundo manto com o que se cobria o corpo. Esgrimiu um sorriso desdentado e, apoiando as costas contra a parede, permitiu-se degustar a inquietação que sua afirmação tinha provocado na mulher que tinha ante si.
-Quero dizer que eles compartilharam algo mais que o calor do fogo nestas noites. - Uma gargalhada alagou a estadia- E se minha moça acaba prenhe, esse inglês vai ter que responder sobre o menino.
Anne retrocedeu incrédula. Não! Aquilo não podia ser certo. Ela tinha chorado a morte de Hugh porque lhe amava e ele tinha assegurado lhe entregar seu coração. Negava-se a acreditar algo tão pernicioso quando a alegria de tê-lo de novo junto a ela supurava pelos poros de sua pele.
-É mentira - balbuciou retrocedendo.
O velho a olhou de soslaio, zombando dela.
-É livre para acreditar o que quiser, mas essa é a natureza do homem.
Anne lhe deu as costas encaminhando-se para a cama de palha. Abaixou-se sobre esta tentando conter a maré de incerteza que crescia em seu interior. Negava-se a acreditar que seu coração se equivocou com Hugh e, entretanto, as palavras do homem tinham semeado um perigoso germe em seu interior.
Hugh retornou depois de uns minutos. Seus olhos inspecionaram a pequena estadia até dar com a Anne, seu gesto se endureceu em troca ao dirigir-se ao ancião. Teve umas breves palavras com ele enquanto entregava um saco de couro marrom que o homem pegou com uma mão. Anne seguiu a discussão de ambos atentamente. Apesar de não entender suas palavras, esperava achar em seus gestos uma resposta às dúvidas que corroíam sua mente. Hugh? Tomou à moça? Hugh deu por finalizada a discussão e, dirigindo-se a Enjoe, teve umas palavras com ela no lugar mais afastado da diminuta estadia. Anne pôde ver como lhe oferecia um par de moedas de ouro que a moça se apressou a pegar e colocar no decote de sua camisa. Suas dúvidas cresceram com esse singelo gesto. Pagava Hugh seu silêncio ou outro tipo de serviços? Tragou saliva angustiada. Olhou-se a si mesma envolta naquele horrível hábito, suja e magra. Frente à saudável robustez de Enjoe, ela parecia apenas uma criança.
Hugh se voltou finalmente para ela. Ajoelhou-se a seu lado na cama e, lhe afastou uma rebelde mecha do rosto, colocou com delicadeza atrás da orelha.
-Temos que ir - sussurrou-lhe lhe elevando o rosto com seu punho. Encontra-te com forças para tentar? Devemos aproveitar o bom tempo, prevê-se uma iminente chuva, antes que isso aconteça tem que estar fora da cidade.
-Retornará comigo a Londres?
Hugh estirou os braços para ela e a acomodou sobre suas pernas.
-Não.
Anne olhou fixamente suas mãos entrelaçadas. Ficou em pé se desfazendo o abraço.
-Então, não irei.
-Anne, não pode ficar.
-Quero fazê-lo - insistiu dirigindo-se à porta, não suportava o especulativo olhar de Enjoe e o bêbado de seu pai.
O exterior a recebeu com uma forte rajada de vento gelado, acomodou-se o capuz sobre a cabeça olhando à frente com a mandíbula tensa. Rufus trabalhava animosamente sob seu disfarce de monge carregando diversos vultos na garupa de um burro castanha.
Hugh a seguiu ao exterior abrigado com seu capuz. Seu cabelo dourado e a capa ondeando a suas costas assemelhavam a um anjo caído. Apoiou-a contra seu peito envolvendo-a em seu abraço, sem lhe importar a escandalosa visão que esse gesto pudesse provocar aos estranhos que passavam ante eles.
-Acompanharei vocês até Hoorn. Tenho contatos ali que poderá embarcar a Londres - explicou no seu ouvido com suavidade.
-Não quero ir sem você - replicou teimosamente.
-Deve fazê-lo, seria perigoso que ficasse - formulou.
-Explique-me Hugh, me explique por que todo este tempo estive chorando sobre uma tumba vazia - exigiu elevando até ele seu olhar.
Hugh se perdeu na imensidão de seus olhos cinza. Esqueceu-se de respirar enquanto seu coração lhe dava um salto no peito. Naquela pequena eternidade que tinha sido sua separação tinha tomado consciência da profundidade de seu amor por Anne. Resultaria doloroso voltar a separar-se dela, quase tanto como arrancar o coração do peito.
-Cheguei a um acordo com Enrique através de Kingston - começou separando-se dela.
-Foi naquela noite, verdade? Fizeram-me retornar à cela para poder falar com ele.
-Não sabia se minha proposta seria aceita, na realidade, surpreendeu-me que tudo acontecesse tão rápido. Prometi a Enrique encontrar o verdadeiro culpado do assassinato da mulher do Estatúder antes da chegada da primavera.
-O que ocorrerá se não descobrir o assassino?
Um sorriso sem humor se estendeu pelo rosto masculino.
-Minha cabeça ficará a disposição de Enrique – resumiu - Para o resto do mundo eu estou morto. Enrique exigiu que ninguém soubesse de meus planos, nem sequer você devia ser informada. Só Rufus teve notícias de meus propósitos. Ele se encarregou de meu traslado ao continente. Se as coisas saíam bem, Enrique prometeu uma ressurreição "apoteótica" para minha triste pessoa - finalizou com os lábios torcidos em uma careta.
-E bem? Descobriu algo, algum indício que...
A dura expressão que escureceu o olhar de Hugh a interrompeu.
-Tenho descoberto o interesse oculto da Hansa em dificultar qualquer tipo de acordo com a Inglaterra, mas nenhuma evidencia clara de sua implicação no assassinato. Até o momento me movi em águas pantanosas sem nenhum objetivo claro - reconheceu lúgubre.
-Apenas falta um mês para que se cumpra o prazo que te outorgou Enrique.
-Sei - suspirou ele mexendo o cabelo.
-O que fará se não o conseguir?
Seus olhos voltaram a encontrar-se. Ele permaneceu em um recalcitrante silêncio. Acabou por retirar o olhar com os punhos apertados aos flancos e um gesto de teimosa decisão no rosto.
-Não pode fazê-lo! - exclamou ela ao perceber seus propósitos. Aproximou-se de novo a ele sujeitando-o com força pela capa.
-Devo fazê-lo - contradisse ele deslizando um rápido olhar sobre aquele rosto cativante.
-Não!
-Empenhei minha palavra, Anne. Retornarei e farei frente ao que o futuro me proporcionar.
-Mas se retornasse morreria - predisse.
-Para o resto do mundo já estou morto.
-Podemos ficar aqui, no continente, pedir asilo em Roma ou nos ocultar na França...
-Não, Anne. Fui deposto de tudo que tenho, não renunciarei também a minha palavra, não lhe converterei na esposa de um traidor.
-Fará algo pior! Vai me converter na viúva de um estúpido - estalou ela imprevisível, lhe dando um ultimo puxão ofuscado, como se deste modo pudesse lhe fazer raciocinar-. Chorei sua perda em uma ocasião, não o farei uma segunda.
-Anne? -Tentou abraçá-la, mas ela empurrou-o enfurecida.
-Não, não me convencerá.
Rufus se aproximou o que pôs fim à discussão momentaneamente. Os escassos pertences se achavam já devidamente sujeitas os lombos do burro de carga mediante uma intrincada amarração de cordas. Hugh a ajudou a montar sobre o animal abrigando-a atentamente com uma grossa pele de ovelha. Para qualquer olho observante, não se tratava mais que de um par de peregrinos de volta a seu lar com um mercenário a salário que os defendesse dos perigos do caminho.
***
O frio era uma intolerável tortura depois de uma larga jornada de caminho. Hugh olhou preocupado, para Anne. Ela permanecia silenciosa, acorçoada sob a tosca pele de carneiro enquanto a gélida brisa açoitava seu rosto. Atrás de sua frágil aparência, ela guardava a força de dez homens em seu interior, reconheceu com admiração. Rufus fez um alto para assinalar o irregular contorno de uma edificação não muito longe do caminho. Com passo lento o grupo tomou sua direção, reconfortados com a idéia de um teto sobre suas cabeças que suavizasse suas penúrias. Tratava-se de uma pequena hospedaria para viajantes composta por um salão comum, onde várias pessoas se misturaram já em suas improvisadas camas. Havia também uma cozinha com simples mesas e vários bancos dispostos junto à parede para aqueles que não pudessem pagar o luxo de uma cama. Não era um alojamento confortável, mas era o único com o qual podiam contar no momento. Rufus se encarregou de arrastar o burro para os estábulos, uma débil construção dava estrutura à casa principal. Para não levantar suspeita, seria ele também quem se encarregaria de contratar os serviços da hospedaria, por isso Hugh e Anne se limitaram a aguardar junto à entrada para se esconderem das intensas rajadas de vento.
-Está bem? - perguntou Hugh em um murmúrio preocupado aproximando-se da jovem na penumbra.
-Acaso lhe importa? - replicou ela azeda.
-Anne... -suspirou ele esticando uma mão para lhe acariciar o rosto. Ela o rejeitou dando um passo atrás.
-Guarde suas gentilezas, de nada me serve - vaiou lhe dando as costas para aguardar a volta de Rufus.
Hugh observou suas costas retas, a aguda inclinação de seu queixo indicava que ela continuava furiosa com sua decisão de entregar-se à justiça de Enrique passasse o que passasse. Mas, o que outra coisa podia fazer? Ele era um homem de palavra e sua honra era a única riqueza com a qual contava nesses momentos. Ela devia entender... O que? Que ele devia entregar-se à justiça do verdugo apesar de ser inocente? O azedo sabor da derrota lhe subiu pela garganta. Seus dedos se apertaram sobre o punho de sua espada tratando extrair a força necessária para encarar aquela dura prova do destino enquanto seus olhos caiam avidamente sobre a ligeira figura feminina. Seu amor por aquela mulher estava a ponto de fazer renunciar a sua honra. Diabos! Renunciaria a sua alma só para estar um dia mais a seu lado.
Foram instalados no canto mais afastado da estadia graças à árdua negociação de Rufus. Desprezaram ocupar as sujas camas de palha dispostas para os viajantes envolvendo-se em suas peles depois de um ligeiro jantar a base de carne defumada frente ao fogo. Ao contrário que outras de melhor condição, a hospedaria não contava com uma sala de banhos, por isso tiveram que conformar-se fazendo suas necessidades na escuridão da noite entre o denso matagal que rodeava o lugar e assear-se com um cubo de água gelada procedente do poço. Anne ocupou sua cama junto à parede enquanto Hugh dispunha suas peles a seu lado, de modo que qualquer que chegasse até ela teria que passar por ele. Anne, oculta sob seu disfarce de monge, observou-o com os olhos entreabertos enquanto ele colocava sua espada sob as peles, à mão para o caso de surgir dificuldades. Seus rostos ficaram a escassos centímetros quando Hugh se recostou sobre um lado e atrás dele se elevava um coro dissonante de roncos provenientes dos outros ocupantes da sala, mas estes ficaram totalmente apagados quando os olhos ambarinos escorregaram por seu rosto. Sem aviso prévio sua cabeça se inclinou para lhe roubar um beijo e apesar o esgotamento de todos seus membros, o coração lhe pulsou mais rápido quando lhe dedicou um daqueles sorrisos torcidos antes de lhe sussurrar: "boa noite, querida". Anne emitiu um suspiro afogado. Ansiava esticar a mão e entrelaçar seus dedos, mas as palavras daquele ancião bêbado retornaram a sua mente nesse momento lhe impedindo de mover-se. "Fez isso, Hugh? Deitou-se com essa moça?". A pergunta lhe ardeu na língua, mas se convenceu de que era melhor esquecer o tema. Sem atrever-se a olhá-lo de novo, girou sobre si mesma encarando o muro. Dois segundos depois dormia profundamente. Hugh a observou longamente. O estado de Anne raiava a extenuação. Ela necessitava descanso e ele estava disposto a oferecer-lhe dentro de suas estreitas limitações, disse a si mesmo curvando o corpo em torno dela para velar seus sonhos.
Retornaram a marcha sob um ventoso dia. A chegada da primavera apenas se fazia notar baixo as frias correntes que os açoitavam. Posteriormente, quando a manhã estava avançada, o sol se impôs e seus estimulantes raios reforçaram seus ânimos. Rufus entoou uma vivaz canção que o burro se encarregou de acompanhar. Anne, que seguia a marcha a pé, rompeu a rir provocando mais urros. Hugh contemplou a cena com um sorriso inclinado, totalmente enfeitiçado com a jovem que o destino tinha convertido em sua esposa. Ela ria ao pensar que sua união lhe tinha conduzido mais penúrias que alegrias.
A possante cidade de Hoorn tinha desenvolvido uma importância estratégica na comercialização de especiarias graças a seu porto, bem protegido com seus aterros defensivos. Sua frota naval se incrementava dia a dia congregando em suas ruas um florescente mercado. Rufus os conduziu até um pequeno botequim portuário animado com a chegada de marinheiros castelhanos desejosos de apurar suas últimas horas em terra. Anne estudou com interesse o lugar. Uma donzela tinha poucas oportunidades de visitar um botequim quando desde seus púlpitos os bispos clamavam por seu desaparecimento, tachando-os de antros de perversão onde o álcool e o jogo faziam com que os bons cristãos esquecessem os sagrados preceitos promulgados nas santas escrituras. Os últimos raios do sol penetravam pela abertura da porta de duas folhas que dava à sala retangular e irregularmente iluminada com abajures de azeite que desenhavam sombras ondulantes sobre as paredes de pedra nua. Sobre o fogo principal pendia uma panela de bronze na qual borbulhava um espesso caldo que muitos degustavam já em pratos de madeira. Acostumada aos seletos pratos da Senhora Grint, Anne sentiu uma contração de asco na boca do estômago. Lançou um breve olhar a Hugh. Ele parecia desenvolver-se com êxito naquele ambiente. Hugh ocupou seu assento no banco de madeira esticando uma de suas largas pernas à frente como para estudar com aparente distração o lugar. Com mão no punho de sua espada tinha a indolente aparência de um guerreiro em repouso.
-Mantenha o capuz bem sujeito, se um só desses marinheiros ver seu rosto se formará um tumulto - aconselhou atento a todos os detalhes. Sob seu aparente descuido se intuía uma perigosa tensão.
Hugh tinha motivos para estar preocupado. A jovem era deliciosa para que algum daqueles marinheiros ébrios não reparasse nisso. Se ela tirasse o capuz e mostrasse como era, teria que enfrentar-se a toda uma revolta. Sua inquietação se viu confirmada quando uma moça desceu do andar superior seguida por um marinheiro que sujeitava sua calça em seu lugar com um punho. A jovem deu salto para recompor sua imagem, colocou o sutiã de tecido e, depois de aparar o cabelo murcho com uma mão, umedeceu os lábios com a ponta da língua observando os homens congregados nas mesas. Um coro de risadas e vivas se elevou com sua chegada. A moça se pavoneou entre os homens em busca de um novo cliente e, a tenor das expressões ansiosas dos marinheiros, não demoraria a encontrar. Então, seus olhos se posaram em Hugh. Um amplo sorriso se estendeu por seu rosto deixando entrever uma fileira de dentes irregularmente alinhados, pequenos, mas sãos.
-Bem, bem, o que temos aqui? - perguntou aproximando-se com um suave meneio de quadris.
Hugh afogou uma maldição olhando fixamente à mulher. A seu lado, Anne se encolheu sob seu disfarce. O olhar da prostituta se deslizou apreciativa pela amplitude de seus ombros para seu rosto. Seu sorriso se ampliou agradada.
Seu interesse pelo recém-chegado semeou o receio entre os marinheiros desdenhados. Que direito tinha aquele homem de levar-se a única fêmea do lugar depois de chegar por último? Um murmúrio ofendido se elevou atrás da mulher que, apoiada sobre a mesa, mostrava seu busto. Quando o companheiro daquele deus dourado emitiu uma exclamação ofendida ela só elevou uma sobrancelha divertida. O diabo que habitava em seu corpo de mulher a instigou a ir mais longe e sorteando suas pernas se encarrapitou no colo do homem. Os olhos ambarinos desceram sobre ela como se na verdade se tratasse da serpente do paraíso disposta a lhe tentar.
-O preço não é caro e lhe dou licença para quanto desejar. Seus amigos podem olhar se gostarem - ronronou com picardia beijando seu pescoço. O homem se moveu inquieto sob seu peso olhando de soslaio a seu companheiro, aquele tétrico monge. Depois, obrigou-a a ficar em pé sacudindo com força as pernas.
Rufus se fez cargo da situação e ficando em pé com as mãos afundadas nas largas mangas de seu hábito se interpôs entre a prostituta e Hugh.
-Perde tempo. Este homem fez voto de castidade. Deixe-lhe em paz se não quiser que a fúria do senhor caía sobre sua alma pecadora.
Os olhos da mulher escrutinaram a alta figura de Hugh dos pés a cabeça. Santa Maria! Deveria ser pecado que um homem como aquele se mantivesse celibatário, decidiu. Um ofuscado miado escapou de entre seus lábios carnudos. Finalmente elevou a saia sobre as panturrilhas e, sacudindo alegremente sua barra, retornou junto ao grupo de marinheiros, que a recebeu entre aclamações de boas-vindas lhe mostrando seus sacos repletos de moedas. Ela se inclinou sobre eles tal e como o tinha feito momento antes frente a Hugh, estudando atentamente o peso de suas bolsas. Escolheu a mais pesada e deixando-se abraçar pelo sortudo se dirigiu para a escada.
Hugh ocultou uma careta atrás da beirada de sua jarra olhando de esguelha a sua esposa.
-Tem fome?- interrogou solicitou.
Anne assentiu levemente desejando poder fundir-se com as sombras. O ocorrido com a prostituta lhe tinha provocado um profundo mal-estar. Hugh parecia estar sempre exposto a esse tipo de comportamento. Ela mesma tinha sido testemunha dos devastadores efeitos que sua presença provocava entre as de seu gênero. Criadas e damas tendiam a atuar como estúpidas quando aqueles olhos dourados estavam por meio. Até onde ela sabia Hugh sempre tinha sabido tirar partido disso, o qual lhe recordou irremediavelmente a Enjoe. As palavras do ancião voltaram a golpeá-la com toda sua crueldade: "essa é a natureza do homem".
Hugh ordenou que lhes servisse a melhor carne, uma fornada de pão branco e queijo de vaca, ao que se acrescentou uma jarra de cerveja por pedido de Rufus, a bebida preferido da plebe que a jovem tinha provado em certa ocasião e cujo amargo sabor lhe desagradava profundamente. Por sua parte, preferia a profundidade dos vinhos burgueses na hora de degustar as saborosas carnes de caça. O só pensamento a fez salivar. Quando chegou a comida, tomou uma fatia de pão e se obrigou a engolir o mofado queijo que a acompanhava.
-Beba um gole - aconselhou-lhe Hugh lhe estendendo sua jarra quando percebeu de sua dificuldade para tragar.
Ela aceitou agradecida. Seus dedos se roçaram inesperadamente, obrigando-a a elevar o olhar surpreendido. Ele exibia uma séria expressão, olhando-a concentradamente. Bebeu um ligeiro gole da espumosa bebida medicinal ou mágica elevando as sobrancelhas ao degustar o sabor suave, levemente umbroso, da cerveja. A bebida não era tão amarga como ela recordava, bem ao contrário, deixava atrás de si um refrescante sabor que lhe adoçou a boca. Provou um novo gole saboreando-o mais a fundo.
-Não é tão mau como eu o recordava - reconheceu devolvendo a jarra a Hugh.
Ele o fez rodar colocando seu lábio justo no lugar onde ela tinha bebido.
-Indubitavelmente seu sabor é muito mais doce agora - concordou ele dando um longo gole sem separar seu olhar do rosto oculto sob o capuz.
O gesto lhe fez avermelhar as bochechas ante seu dissoluto sorriso. Uma de suas pernas roçou a lateral de sua coxa e seu cotovelo, apoiado como por descuido sobre a mesa, friccionou acidentalmente seu seio. O contato a fez recuar em seu assento enquanto um golpe de prazer lhe sacudia o corpo. Seus olhos se elevaram para averiguar se alguém mais era testemunha da tenaz perseguição, mas o jogo de dados concentrava agora o interesse dos homens, e Rufus se entretinha sorvendo sua própria jarra. Os avanços de Hugh foram mais à frente quando fez descansar a palma de sua mão sobre sua coxa para acariciar atrevidamente sua parte interna.
-Embora existam bebidas muito mais doces ainda... - sussurrou de modo que só ela pudesse escutar suas palavras.
O olhar da jovem ficou suspenso sobre seu rosto enquanto um trêmulo suspiro escapava de sua boca.
A intervenção de Rufus rompeu o feitiço.
-É pelo lúpulo. Suaviza o sabor da cevada e conserva suas propriedades.
Hugh desviou sua atenção para ele, mas sua mão permaneceu calidamente sobre sua perna.
-Acrescentam lúpulo à cerveja? -interrogou esporeado por seu instinto comercial.
-Ah, inglês! É um remédio de pessoas humildes, mas lhes asseguro que o sabor de nossa cerveja é preferível ao amargo da urina que tão alegremente degusta em seus botequins - zombou Rufus.
Hugh fez uma anotação mental a respeito. Mais adiante estudaria aquele assunto a fundo, disse a si mesmo saboreando lentamente a suavidade da cerveja, antes devia resolver questões mais urgentes. Um dos navios ancorados naquele porto tinha como missão lhe devolver a Inglaterra. Depois de dar um último gole, Hugh ficou em pé e discretamente abandonou o lugar enquanto Anne e Rufus aguardavam sua volta.
Conforme a noite ganhava terreno, os ânimos dos marinhos se elevaram, convertendo-se em um ensurdecedor folguedo que fazia impossível qualquer conversa discreta. Anne tragou saliva olhando de esguelha ao resto das pessoas. Aterrava-lhe pensar que podia ser descoberta sob seu disfarce. Rufus insistiu a permanecer em silêncio e ordenou uma nova jarra de cerveja. Os gritos dos homens fizeram tremer as vigas quando, pela quarta vez, a mulher encarregada de entretê-los desceu do andar superior. Seus rugidos e gritos a incitaram a voltar-se para Rufus, ocupado nesse momento em encher as jarras.
- Relaxe, milady - aconselhou lhe servindo um gole.
-Acha que os homens preferem às mulheres de duvidosa virtude ou às virtuosas?
Os pálidos olhos do homem se elevaram com brincadeira.
-Depende.
-O que quer dizer? - inquiriu dando um primeiro gole a bebida. O gole se deslizou por sua garganta expandindo-se agradavelmente por seu estômago.
-Os homens de fila se desposam com mulheres virtuosas, mas lhe asseguro que preferem às de escassa virtude em suas camas. Os homens como eu, em troca, devem se conformar com as segundas sem importar quanto desejamos as primeiras - resumiu com uma piscada.
Anne o olhou com estranheza.
-Quando se refere a uma mulher virtuosa está se referindo a lady Botwell, por exemplo.
Rufus emitiu um suspiro ante a menção de tão doce dama.
-Não a há melhor - admitiu elevando sua jarra em silencioso brinde.
Anne o acompanhou com um novo sorvo.
-Têm alguma intenção com ela?
-Mais de uma, minha senhora, e nenhuma confessável - reconheceu interrompendo-se quando o alvoroço dos homens celebrou a ascensão de um novo cliente ao andar superior.
-Fale sério! - insistiu contagiada pelo ânimo dos homens.
-O que posso responder? Acha que uma mulher como ela pode fixar-se em um rufião como eu? - perguntou.
-Poderia se suas palavras se sustentaram sobre verdades - meditou elevando a jarra até seus lábios. Um alegre sorriso se estendeu por seus membros afrouxando-os.
-Não houve verdade tão verdadeira como esta, senhora, quando essa mulher está perto meu sangue se esquenta.
-Interessante. - Deteve-se intercalando um novo gole - Tem outras mulheres o mesmo efeito?
Rufus apurou os sedimentos de sua bebida servindo uma nova ronda.
-Antes qualquer podia ter. - Riu e, esquecendo a diferença de filas e gênero que os separava, propondo a sua companheira de confidências uma cotovelada.
A jovem se sacudiu em seu assento. Por que aquela endiabrada bebida a fazia sorrir como uma estúpida? Perguntou-se dando um longo gole. Imitou a Rufus ao secar o lábio superior com a manga de seu hábito.
-Então... - vacilou como se lhe custasse alinhavar as palavras. Mantêm-se celibatário por ela?
-Como um monge.
Suas palavras lhe pareceram tão divertidas que rompeu a rir.
-Shhs. - Rufus a silenciou olhando precavidamente sobre o ombro, o qual provocou uma nova gargalhada muito aguda para passar pela de um homem.
Ela tentou obedecer fazendo uma expressão séria, mas a risada voltou escapar entre seus lábios. Conseguiu dominar-se sorvendo de sua jarra.
-Os homens são umas espécies estranha. Regem-se por seus desejos nos empurrando a nós, as mulheres, com a culpa de tudo - disse apurando sua jarra antes de enchê-la até a borda.
-Seu grande mentor, por exemplo – continuou - Maestro de mercado. - Um bufado desdenhoso escapou de sua boca. Diz atuar em meu benefício ao entregar-se a Enrique, embora ambos saibam que o faz para satisfazer seu estúpido sentido de honra.
-Não diga isso, minha senhora. A ele...
-Não me importo - disse ela elevando de novo a jarra, seus olhos deslocados dançaram pelo denso ambiente do lugar-. Nem sequer se deteve a pensar no que será de mim uma vez... Uma vez... - Incapaz de finalizar a frase estalou a língua com irritação. Acha que ele se deitou com essa tal Enjoe? - perguntou apoiando a cabeça sobre um punho.
-Por que pergunta?
Ela fez um gracioso gesto com sua mão.
-É óbvio; é homem e já vi como lhe acossam as mulheres.
Rufus riu ante essa ridícula idéia. A dama parecia desconhecer seu poder sobre De Claire. Abriu a boca para esclarecer suas dúvidas, mas a chegada de Hugh o impediu. Sua alta figura se deslizou junto à mulher acomodando-se sobre o banco.
-O capitão do navio concordou a lhes levar a Inglaterra, elevará âncoras amanhã - comentou satisfeito.
-Brindemos por isso! - exclamou Anne elevando sua jarra.
Hugh voltou o rosto para o Rufus, elevando uma sobrancelha interrogante.
-Esteve bebendo?
-Apenas um par de jarras... - deteve-se imprecisa.
O cenho de Hugh se rendeu ferozmente dedicando um olhar funesto a Rufus antes de concentrar toda sua atenção em sua esposa. O capuz de seu disfarce tinha escorregado sobre seu cabelo deixando descoberto seu rosto. Era uma sorte que nenhum dos homens se fixasse nisso, disse a si mesmo esticando uma mão para colocar o objeto em seu lugar.
-Aluguei um quarto, a levarei acima - resolveu ficando em pé.
Ela se afastou dando um tapa.
-Estou farta de ser arrastada daqui para lá como se carecesse de vontade – protestou -. E não estou beb... Bêbada - finalizou estragando sua afirmação com um ligeiro arroto que lhe arrancou uma risada tola - Oh, céus! Possivelmente esteja - reconheceu com hilaridade frente ao escuro olhar de Hugh.
-Pode andar? - perguntou secamente puxando ela.
-É obvio! - exclamou com gestos exagerados. Levantou-se sobre suas pernas, mas tropeçou com seus próprios pés com estupidez - Ups! O chão se move - afirmou enjoada.
-Vamos, deixa que te ajude - grunhiu Hugh lhe passando uma mão pelo quadril.
-Milorde! - admoestou. A circunspeção de Hugh só aumentava sua hilaridade por efeito do álcool.
-Se agarre a mim – insistiu obrigando-a a lhe abraçar antes de estudar com um breve olhar a rota a seguir no intrincado labirinto de mesas e homens.
Anne se segurou a ele na medida de suas possibilidades. O calor de seu corpo transpassou a grossura de suas roupas estendendo-se por todos seus membros. Enfocou um olhar estrábico sobre seus traços no momento em que Hugh se inclinava sobre ela.
-Sabe que é um homem bonito? - interrogou com certa perplexidade - Oh, sim! Sem dúvida sabem.
-Um elogio de seus lábios? Sem dúvida está bêbada.
-Vejamos como era? - Franziu o cenho tratando de recordar as palavras exatas que ele usou em certa ocasião-. "Brilham com o esplendor de uma rosa inglesa".
A gargalhada de Hugh se elevou sobre outros ecos impondo-se. Apurou o passo escada acima com sua "carga". O quarto atribuído para seu uso não era mais que um estreito chiqueiro sob o teto. Sobre o chão se estendia uma cama de lã recoberta com uma sarja que Hugh arrancou para deixar de lado. Minutos antes tinha ordenado ao moço que atendia nos estábulos que lhe enviasse as grossas peles de carneiro que Rufus tinha deixado a seu cuidado. Teriam que servir para lhes dar calor na noite.
-Espero que não tenha pagado muito por esta pocilga - assinalou Anne com voz fanhosa olhando com escasso seu entusiasmo os "aposentos".
-Duas moedas de prata - reconheceu a contra gosto, estudando o escasso mobiliário na penumbra. Distinguiu um pequeno candil de sebo sobre uma desmantelada arca e um balde de madeira com um suspeito vapor a urina.
-Pois pagou duas moedas de mais - concluiu balançando-se.
Hugh a conduziu até a cama. Pegou uma das peles depositadas junto a cama com sua mão livre para estendê-la sobre o colchão, fazendo equilíbrios com a moça para não acabar no chão. Ajudou-a tomar assento antes de acender a vela. A luz brilhou fracamente quando abriu a porta e lançou para fora do quarto o fedorento balde. Depois assegurou a débil tranca de madeira arrastando a arca até a porta, aquilo não impediria que ninguém entrasse, mas faria o ruído suficiente para lhe alertar. Satisfeito com o acerto, devolveu a atenção a jovem que brigava para desfazer-se de seus sapatos de couro sentada sobre a cama.
-Deixa que te ajude - ofereceu inclinando-se até ficar agachado. Deixou de lado a capa de sua espada e tomou o pé da jovem entre suas mãos. Seus dedos desenredaram os nós dos cordões com rapidez. Deixou cair a um lado o sapato e massageou a planta do pé descalço com seu polegar.
Um ronronar de satisfação escapou da jovem enquanto o estudava com olhos entreabertos. Estendeu uma mão para acariciar sua mandíbula de ferro até que os olhos dourados cravaram nela um olhar incendiário. Animada com sua audácia, a jovem desenhou o contorno de seus lábios com um dedo.
Rufus assegurava que os homens procuravam mulheres de duvidosa virtude para satisfazer seus apetites. Preferia Hugh esse tipo de mulheres? Divertidas companheiras de cama como Margrietje Van Dijk? Ou Enjoe? Ela recordava claramente o tipo de mulheres com as quais se fazia acompanhar em Norfolk, empregadas cabeças-de-vento que presumiam de suas façanhas a todo ouvido disposto, damas de bom berço e moral relaxado que não duvidavam em penetrar em sua cama a menor oportunidade...
Hugh continuava olhando-a com os olhos acesos. E ela se sentiu o bastante valente para comprovar essa idéia. Deixou cair o capuz para trás sacudindo seu longo cabelo que, livre de seu confinamento, estendeu-se a suas costas.
-Têm muita destreza nas mãos. Vocês gostariam de exercitá-la em algum lugar mais? - convidou tentando soar sedutora.
A expressão de Hugh desenhou certa perplexidade, mas depois de uns segundos de meditação esgrimiu um sorriso capaz de lhe fazer voar o coração.
-Nada gostaria mais, senhora, mas temo que não esteja em condições de apreciá-lo.
-Oh, vamos! Não seja tão escrupuloso. Acaso você não gosta? Não sentiu minha falta? - Enlaçou suas mãos atrás de sua nuca - Eu me recreei em minha imaginação muitas vezes. Têm o corpo de um herói grego. Vi como era, sabe? em Norfolk, Eugen guarda um escandaloso volume com representações gráficas - confessou taciturna - Mas deve manter o segredo, prometa - exigiu lhe aproximando o rosto.
Hugh lhe dedicou um sorriso divertido enquanto brincava com o cabelo escuro enrolando uma mecha entre seus dedos.
-Deve descansar, deixa que te ajude - sussurrou tentando se desfazer seu abraço.
-Não quero dormir - rejeitou aferrando-se com mas força a ele-. Beije-me – pediu - Imagine que sou uma dessas mulheres, me diga o que você gostaria?
-Não sei a que se refere, está esgotada e esse maldito Rufus... - interrompeu-se quando a jovem cobriu seus lábios com sua boca e colocou em seu interior sua língua.
-Você gosta assim?
Oh, sim! Assim estava muito bem, grunhiu Hugh para si mesmo, e esse era o problema, sua calça estava a ponto de arder. A jovem estava muito ébria para saber o que fazia, não seria honroso aproveitar-se, mas, por outro lado, levava uma eternidade sonhando com isso. Desejava-a como a nada no mundo. A larga separação tinha sido para ele uma tortura da qual seu corpo ansiava ressarcir-se.
Anne pegou uma mão para colocá-la sobre seu seio.
-Desejam assim? -insistiu provando um novo beijo. Está quieto - arreganhou-o quando dois rostos flutuaram ante seus olhos. A imagem ficou suspensa uns instantes sobre ela para convergir em uma só.
A mão de Hugh penetrou sob a lã do folgado disfarce para roçar com seus dedos a camisa interior. Animados com sua suavidade, subiram sobre o doce promontório de seus seios. Puxou brandamente da arrepiada ponta, rígida sob a ponta de seus dedos. Um gemido contido escapou dos lábios femininos.
-Eu gosto quando me acaricia assim. Seus dedos me fazem tremer, mas não sinto frio a não ser algo gostoso - suspirou deixando-se cair sobre a pele. Fazem-me desejar coisas inconfessáveis.
-Que tipo de coisas, menina? - perguntou lhe cobrindo o corpo com o seu para posicionar-se audazmente entre suas pernas.
-Já não sou uma menina - queixou-se ela com uma careta que lhe enfraqueceu a alma. E retomando sua anterior pergunta - Eu gostaria de sentir seu fôlego sobre meus seios, em meu estômago, entre as pernas. Quero lhe provar com minha boca e lhe cavalgar até a alvorada... - Sua voz perdeu volume até converter-se em um murmúrio incompreensível, mas Hugh não foi consciente disso. As palavras de Anne tinham acendido uma fogueira em seus sentidos. Afundou a boca em seu pescoço degustando-a com a língua. O tecido rígido do hábito lhe atrapalhava, queria fazer todas aquelas coisas, queria vê-la nua, lamber seus seios...
-Anne... - grunhiu lutando com suas roupas, cego de desejo. - Amo-te.
As palavras escaparam de sua boca sem querer. Nunca antes o tinha reconhecido em voz alta, mas o sentimento estava ali, mais vivo que nunca, lhe alagando o coração. Apaixonou-se por aquela jovem no mesmo instante que entrou naquela masmorra escura e lúgubre. Moveu-se cautelosamente apoiando o peso de seu corpo em seus antebraços. Anne tinha ficado estranhamente silenciosa, passiva ante sua torpe declaração. Afastou o cabelo que ocultava seus traços. Um suspiro prazeroso surgiu dos lábios femininos.
Ela tinha dormido.
Capítulo 15
O contorno da terra firme foi perdendo-se ao longe conforme a pequena caravela entrava nas geladas águas do mar. Anne permaneceu no convés observando, impassível às glaciais rajadas de vento. Seus olhos cinza, baixos, densos cílios fundiam-se com as revoltas águas que açoitavam a popa, perdida em seus próprios pensamentos, nos demolidores acontecimentos desse dia quando em companhia de Rufus tinha embarcado de volta para casa. Mas seu mal-estar tinha começado antes, quando nesta mesma manhã se despertou com a dolorosa sensação de ter sido jogada de uma ravina. Reconhecia bem o mal que a afligia, ela mesma tinha aliviado os excessos com o álcool de numerosos cavalheiros em Norfolk. Sempre tinha rejeitado esse tipo de comportamento, o álcool embrutecia os homens, segundo sua opinião. Que vergonha ser vítima de semelhante debilidade! Não recordava o modo como tinha chegado ali, mas a grossa pele que a cobria indicava que Hugh se ocupou de sua comodidade. Sentia a boca seca e uma débil sensação de enjôo que brotava de seus sentidos. Recordava pedaços da noite anterior. Endireitando-se entre as peles tentou pôr ordem seu cabelo desgrenhado e a roupa enrugada. Venderia sua alma ao diabo por um banho de água quente! Pensou afastando uma molesta mecha do rosto. Onde estava Hugh? Perguntou-se procurando com os olhos algo com que aliviar sua sede.
"Desejo sentir seu fôlego sobre meus seios, em meu estômago, entre as pernas. Quero lhe provar com minha boca". De onde tinha tirado tal afirmação? As palavras ressoavam em sua cabeça como um eco longínquo, uma lembrança difusa de algo... Algo que ela havia dito em voz alta! Algo que Hugh tinha escutado de sua boca! Evocou consumida pela vergonha, o pano de fundo disposto ante os acontecimentos da noite anterior que foi retirado deixando ao descoberto uma sucessão de imagens vergonhosas: ela ébria cambaleando sob braço de Hugh, comportando-se como uma qualquer... Sua vergonha aumentou dez graus e sentiu que não poderia voltar a olhar Hugh no rosto, nem enfrentar seu zombeteiro olhar.
Hugh entrou nesse momento, agachou sua corpulenta estatura por causa da escassa altura do teto. Anne sentiu suas bochechas arderem sob a estreita inspeção de seus olhos.
-Está bem? - perguntou com suavidade.
Não havia zombaria em seu olhar, descobriu Anne com certo alívio, a não ser uma leve preocupação. Inspirou profundamente pelo nariz compondo o que esperava fosse uma expressão estóica.
-Sim, obrigado.
Um sorriso enviesado iluminou o rosto do homem.
"Eu gosto quando me acaricia assim. Seus dedos são mágicos, tremo ao seu roçar, mas não sinto frio a não ser algo gostoso". Oh, céus! Como pôde dizer algo assim? Os olhos dourados brilharam de diversão. Anne retirou o olhar seguro de que ele estava recordando essas palavras nesses mesmos momentos.
-Trouxe-te algo para comer - anunciou.
Anne reparou no pequeno maço de tecidos que levava em sua mão.
-Pão, nozes e carne. É tudo o que pude encontrar, e suponho que tenha sede também - disse assinalando um odre de couro que pendia de seu ombro - Vinho, embora se preferir cerveja...
-Muito gracioso! - grunhiu.
-Que humor! – disse ficando de lado - Confesso que ontem à noite estava mais divertida e audaz.
As cores voltaram a iluminar o rosto da jovem fazendo destacar suas sardas.
-Esqueça, Hugh, por favor.
-Esquecer? Esquecer que tenho um corpo de herói grego? Sabe que é a primeira pessoa a me chamar escrupuloso?
Suas brincadeiras martelavam em seus ouvidos, mas se obrigou a ignorar o olhar para concentrar sua atenção na comida disposta ante si. Devorou grande parte enquanto Hugh, lhe dando uma pausa, recolhia seus pertences e formava com eles uma trouxa que depositou sobre a cama.
Uma vez saciada, Anne ficou em pé.
-Queria ficar aqui com você - começou enquanto Hugh comprovava o fio de sua espada com atenção.
-Já discutimos a questão - comentou embainhando a arma para ajustar-lhe aos quadris.
-Possivelmente possa lhe ajudar em suas pesquisas.
-E expor sua vida além da minha? Não obrigado - bufou ele como se não houvesse nada mais absurdo - Eu sou o único responsável por minhas ações e serei eu quem lidará com as conseqüências.
-Sou sua esposa, minha obrigação é estar junto a você. - Hugh desdenhou suas palavras olhando concentrado à parede. Posso me ocultar aqui enquanto retornar a Amsterdã, não correrei perigo algum.
-Em uma cidade cheia de marinheiros ébrios? Duvido.
Os olhos cinza desprenderam um brilho gelado.
-Então, me prometa que não se entregará a justiça de Enrique se não conseguir dar com esse assassino, não irei sem essa promessa.
-Anne - pronunciou com um deixe de desespero, tentado por suas palavras.
-Jurou estar a meu lado, cuidar de mim. Acaso os juramentos feitos ante Deus não são mais importantes que seu estúpido orgulho?
-Ambos sabemos as condições nas quais foram feitos esses votos - exclamou Hugh perdendo a paciência.
Sua resposta estalou ante ambos abrindo uma brecha. Os olhos da jovem se fecharam tentando ocultar a dor que sua afirmação lhe tinha infligido. Deu um passo atrás inspirando agitadamente pelo nariz.
-Anne... - Hugh tentou se aproximar, mas ela o rejeitou lhe dando as costas - Não quis...
-Considera-me um estorvo, não é assim? Deixe de se preocupar, milorde, aliviarei sua carga - afirmou com vacilante entonação.
Hugh voltou a tentar uma aproximação, mas Anne se encaminhou para a porta lhe impedindo dissipar seus temores e desmentir suas palavras. Ela era sua esposa, nunca a tinha considerado de outra maneira.
Rufus aguardava no andar inferior. Vários homens roncavam sobre as mesas e bancos do botequim, mas nenhum deles se achava em condições para notar sua partida.
Dirigiram-se em silêncio para o porto. Anne escutava pela metade as indicações de Hugh. Em seu coração algo se murchou. Ele a considerava um estorvo, uma moléstia dispensável, seus sentimentos por ela (se é que havia algum) não eram suficientemente fortes. Seu orgulho lhe impedia de exteriorizar a dor que tal afirmação lhe tinha causado.
Abordou um bote que a golpe de remo os levou ao navio ancorado no pequeno porto. O capitão indicou prudentemente a necessidade de aproveitar o mar enquanto Hugh inspecionava com azedume seu camarote, um estreito reduto encaixotado junto ao camarote principal. Depois de umas palavras com Rufus se voltou para a jovem que, silenciosa, aguardava com as mãos entrelaçadas ante si.
-Nos despeçamos sem rancores, Anne, não quis te ferir, lamento... Diabos venha aqui - grunhiu puxando ela para envolvê-la em seu abraço. Ela o deixou fazer isso, insensível. Prudentemente, tinha decidido resguardar seu coração, não mostrar a profundidade daqueles sentimentos que a faziam tão vulnerável àquele homem e que ao parecer não sentia nada. Ela entregaria sua alma com tal de permanecer a seu lado, por manter-se viva por ele. Ele considerava mais importante sua honra que seu amor por ela.
-Não voltarei a lhe fazer chorar - assegurou contra seu pescoço, fechando os olhos com força quando os lábios de Hugh se deslizaram sobre sua bochecha deixando um rastro de beijos, um sobre cada sarda.
Hugh apertou os lábios sossegando as palavras que pugnavam por escapar deles. Se Deus fosse benevolente, ele teria a oportunidade de expressá-las no futuro. Deixou cair sobre sua boca um beijo antes de separar-se.
-Até logo, querida.
Anne ouviu seus passos afastando-se, golpeando ritmicamente sobre o convés antes de ser substituídos pelo chiar das gaivotas. Depois, a autoritária voz do capitão se elevou indicando sonoramente as ordens para seu contramestre. O navio todo pareceu gemer quando as cordas foram retiradas. O impulso das correntes bamboleou o casco de madeira enquanto as velas desdobradas aguardavam inchar-se com ventos favoráveis, deslizando-se lentamente para o porto. Anne permaneceu imóvel todo o tempo, paralisada como uma estátua de sal, enquanto as lágrimas se deslizavam por suas bochechas.
Capítulo 16
A primavera tinha irrompido no palácio e se fez notar nos ânimos dos cortesãos, que festivamente retornavam depois da chamada dos corneteiros reais das justas celebradas durante esse dia na ampla esplanada dos jardins. O alegre séquito estava amenizado com um bom número de músicos e bufões que rondavam entre tão nobre gente em busca de alguma moeda com suas bobeiras. Anne formava parte do grupo fielmente escoltado por Lorde Morgan, seu antigo pretendente. Escutava pela metade sua animada conversa, mas a maior parte do tempo suas palavras pareciam ricochetear em seus ouvidos como um eco vazio.
Lorde Chambelán e seu exército de empregados aguardavam a chegada dos cortesãos nas estadias do príncipe, verdadeiro promotor daquela aventura, enquanto o rei tinha preferido encerrar-se em suas estadias privadas para fugir da cansativa presença de seus convidados. Esmagava-lhe a energia do herdeiro a seu progenitor, debilitado pela enfermidade pulmonar que o acossava.
Os convidados se congregaram em um dos halls reais, um formoso salão coberto, aguardando o momento de ocupar os assentos dispostos em torno do estrado real para o banquete que a seguir teria lugar. Os músicos receberam ordem de tocar uma alegre música de uma das danças favoritas do príncipe, que briosamente tomou a mão da dama mais próxima e a arrastou ao centro da estadia.
Anne esticou o pescoço para observar o atlético jovem executar os passos da dança italiana com a mesma destreza com a qual se dirigia no campo de batalha. Era um príncipe formoso, alto, de bochechas rosadas, perfeito em sua majestade. Na verdade seria um rei magnífico, embora sua marcada tendência ao desenfreio quando algo ou alguém o frustrava faziam suspeitar a Anne de um caráter volúvel.
Mais cortesãos se uniram a dança ocupando o centro da espaçosa estadia.
-Talvez você gostasse... - iniciou Morgan.
-Ainda guardo luto - recordou-lhe assinalando suas escuras roupas.
-Nunca lhe pude dizer isso, mas lamento a morte de seu marido - expressou com sinceridade.
Anne fez uma careta e fugiu do olhar do conde fixando a atenção no baile. Apesar de sua opinião inicial sobre aquele homem, Lorde Morgan se mostrou como um bom amigo.
-Era um bom homem - assegurou fazendo pendurar seus polegares no cinto.
-Conheceu-o? - perguntou repentinamente atenta a suas palavras. Para o resto do mundo, Hugh continuava morto, decapitado pela tocha do verdugo nos pátios da Torre.
-Tive ocasião de lhe conhecer na recepção do embaixador espanhol de Povoa.
Ela assentiu dando por concluída a conversa.
A execução de Hugh se converteu em um tema recorrente na corte. A maioria das mulheres assegurava entender o motivo de sua aflição. Um homem como Hugh De Claire era impossível de esquecer ou substituir.
Com a chegada da primavera se cumpriu o prazo outorgado por Enrique para sua volta, mas nenhuma notícia tinha chegado a seus ouvidos em um ou outro sentido. Se ele continuava vivo o desconhecia.
Esgotada depois das extensas celebrações, emitiu um suspiro. Tinha ido a aquela reunião depois das reiteradas conversas de Lady Botwell. A matrona dava por feito que seu sequestro teria avivado seu desejo de continuar com sua vida, animando-a a unir-se a qualquer festejo em uma tentativa de evitar que voltasse a recair em sua anterior melancolia.
Na sua volta a Londres, Anne descobriu que seu sequestro às mãos de Wilson tinha incrementado sua fama entre os cortesãos, avivando o interesse do jovem príncipe. Por seu capricho, via-se obrigada a permanecer na corte quando seu desejo era instalar-se por uma temporada sob o teto dos duques de Norfolk, mas aquilo não ocorreria até que o interesse do herdeiro virasse em outra direção.
A entrada de um sobressaltado pajem passou despercebida para todos. Lorde Chambelán, ocupado nesses momentos com a chegada das provisões que tinham que alimentar o grupo, silenciou-o lhe fazendo esperar em um canto. Finalmente, o moço, incapaz de aguardar por mais tempo, dirigiu-se diretamente à condessa Darkmoon.
-Senhora condessa? - interrompeu nervoso.
Um dos nobres cavalheiros que a custodiavam o sossegou com um rude golpe assinalando sua falta de educação.
-Senhora condessa? Prostre-se antes de falar, tolo!
-Chanceler Steven, guarde seus punhos ou utilize no campo de campos de batalha, onde tenha um digno competidor com o que se medir. – Ofendida a reprimenda de Lorde Morgan, satisfez a Anne e lhe demonstrou, uma vez mais, o quão equivocada tinha estado com aquele homem.
Depois de um olhar agradecido, afastaram-se uns passos incentivando o moço a falar.
-O rei requer sua presença neste instante, minha senhora - anunciou apuradamente. Deteve-se um segundo para tomar ar antes de continuar - Seu marido está vivo.
Anne retrocedeu levando uma mão ao peito. Vivo! Hugh estava vivo depois de tudo. Um suspiro escapou de seus lábios. Notava a garganta seca e uma sensação de vertigem sob seus pés. Lorde Morgan acudiu logo em sua ajuda, sujeitou-a diligentemente por um braço suportando seu peso. Com grande estoicismo, Anne elevou a barra de seu vestido com um gesto gracioso.
-Me leve até ele - disse deixando para trás uma perplexa concorrência.
Como era de esperar, a câmara real se achava abarrotada. Homens de confiança do rei, médicos e representantes do clero se misturavam com lacaios e empregados. Ser rei tinha esses inconvenientes, as pessoas careciam de intimidade.
-Não deixa de me surpreender, De Claire. Meu verdugo tinha perdido a esperança de aplicar o fio de sua tocha sobre seu pescoço e meus conselheiros não deixa de murmurar a meu ouvido a palavra traidor - assinalou o monarca prostrado em seu leito real.
Hugh inclinou a cabeça aceitando suas palavras.
-Lamento o atraso, sua graça, mas meus motivos são justificados.
-Justificados! Explique-se - exigiu o monarca acomodando-se sobre as almofadas de seda.
Nesse momento, um murmúrio procedente do hall real interrompeu a conversa. A condessa Darkmoon entrou na estadia abrindo-se passo. Seus olhos cinza procuraram entre os pressente até dar com o rosto de Hugh, detiveram-se um segundo breve sobre ele como querendo corroborar que ele se achava a salvo antes de inclinar-se regiamente ante Enrique.
-Informou-me que desejava falar-me, majestade.
-Deixe sua estóica interpretação, condessa, já demonstrou seus dotes de atriz. É obvio que queria lhe ver! - estalou Enrique antes de ver-se acossado por um ataque de tosse.
Ela assentiu olhando de soslaio a Hugh. Os quentes olhos do homem, fixos nela, provocaram-lhe um tremor que se estendeu por todo seu corpo. Fingiu ignorá-lo para chegar perto de Enrique, que, aliviado com um gole de vinho, parecia respirar com mais facilidade.
-É óbvio que não lhe surpreende se encontrar com um marido vivo, devo deduzir que estava informada de suas aventuras no continente.
-O segredo foi revelado depois de meu sequestro, majestade - apressou-se a assegurar para não complicar a situação de Hugh nem, zangar ainda mais a Enrique.
-Alegra-me sabê-lo. Seu papel como viúva deleitou a meus nobres, não me agradaria me inteirar que só fingia.
Anne sentiu as bochechas arderem enquanto lançava um rápido olhar sobre Hugh, que continuava observando-a com uma sobrancelha elevada zombeteiramente. Tinha uma imagem impressionante que lhe destacava sobre qualquer homem daquela câmara. Suas largas pernas se achavam recobertas por uma calça negra que se confundia com o couro negro. Um colete de damasco destacava sua estreita cintura e a amplitude de seus ombros sob um casaco de couro também negro. Os punhos de sua camisa de cambraia se ajustavam a seus pulsos formando um elegante vinco em torno de suas folgadas mangas.
-Seu marido exigiu lhe ver antes de se explicar. Sua ousadia roça a rabugice, como vê - grunhiu mal-humorado antes de dar um gole a sua taça - E bem, De Claire, explique de uma boa vez ou continuará olhando a sua esposa, embevecido?
A aguda reprimenda atingiu seu objetivo. A contra gosto, Hugh afastou o olhar de Anne para olhar a Enrique.
-Prometi retornar, sua graça.
-Acredito que isso está claro para todos. - Desprezou o comentário com um vago movimento de sua mão - Continue.
-Minhas indagações em Amsterdã não discorreram por bom caminho inicialmente, mas minhas suspeitas sobre os membros de Hansa ficaram justificadas com minhas descobertas.
-Vamos, vamos, continue - inquiriu um dos conselheiros reais.
-A questão é mais difícil do que em a princípio tinha imaginado - concluiu flexionando uma de suas pernas com galhardia. Todos os olhares da sala convergiram nele - Quando minhas esperanças de encontrar o culpado do assassinato de Margrietje Van Dijk pareciam esgotar-se recebi uma interessante informação de uma das empregadas do Estatúder. A senhora Van Dijk tinha tomado como amante o capitão do guarda de seu marido. - Hugh fez uma pausa dramática. Ao parecer, todos os empregados da casa estavam à corrente, mas nenhum se atreveu a falar por medo às represálias. Consegui a confissão desse homem sobre o crime.
-E como diabo conseguiu algo assim? Ah, não importa! Posso imaginar, prossiga - interrompeu Enrique.
-A senhora Van Dijk espiava seu próprio marido e vendia essa informação a Klemens Dwarswaard. Foi ela quem informou aos alemães sobre suas intenções de iniciar uma nova aliança.
Hugh deixou que a espera criada se aplacasse para continuar com seu relato.
-Ela e Klemens Dwarswaard tinham uma sólida aliança, benéfica para ambos em qualquer caso. Mas os tentáculos de Hansa não se limitam ao continente, majestade. Dwarswaard possui também colaboradores nesta terra, colaboradores muito próximos a sua pessoa.
-O que quer dizer? - bramou Enrique, que por um segundo pareceu recuperar-se da enfermidade.
-Um de seus cortesãos lhe traiu ao vender informação, informação privilegiada procedente de seu próprio conselho - acrescentou.
Um clamor ofendido se elevou na câmara real.
-São acusações sérias, De Claire, têm provas que justifiquem suas palavras?
Hugh sacudiu a cabeça afirmativamente.
-Várias cartas assinadas de punho e letra pelo traidor e subtraídas dos arquivos de Klemens Dwarswaard. Curiosamente, William Wilson, primo de minha esposa, atuava como correio entre ambos.
-Quem é o traidor? - inquiriu Enrique.
-Lorde Braxton, sua graça.
Uma sombra de dor velou os olhos do monarca. Braxton tinha sido um de seus homens de maior confiança e sua traição o afetava profundamente.
-Lorde Braxton prometeu interceder por Wilson ante o Conselho Real uma vez tivesse adquirido o título de conde através de seu matrimônio com minha esposa, esse seria o pagamento por seus serviços.
A notícia agravou a expressão de Enrique.
-Nenhum traidor rondará meu leito! - assegurou Enrique. Detenham! - ordenou a seu capitão com voz apagada.
Hugh extraiu um maço de documentos de seu colete.
-E isto, majestade, é uma declaração assinada ante um bispo holandês e rubricada por três testemunhas mais nas quais Claus Holsbein, capitão da guarda pessoal de Van Dijk, assume a culpa do assassinato da dama em questão.
Ofereceu o documento a Enrique, mas este o rejeitou a favor de um de seus conselheiros, que o examinou avidamente.
-Conforme consta aqui, majestade, Holsbein confessa que manteve uma larga relação amorosa com a assassinada e que, preso ao ciúme, assassinou-a depois de narcotizá-la com o vinho servido por sua própria mão. Culpa de seu despeito a pecaminosa inerente a Margrietje Van Dijk, da qual diz era um instrumento do diabo ocupado em fomentar a debilidade nos homens de bem.
-Holsbein entrou na habitação quando esteve seguro dos efeitos das drogas subministradas e assassinou a mulher com sua faca. O medo de ser descoberto lhe fez fugir pela janela, sua covardia me salvou a vida. Hugh fez uma pausa deixando que os que lhe escutavam assimilassem sua explicação. Na manhã seguinte, fui descoberto no leito da dama e acusado do assassinato ante a falta de outra explicação mais razoável.
A sala permaneceu em silêncio aguardando o juízo do monarca. Enrique suspirou cansativamente.
-Encarregarei que se investigue tudo o que afirma, enquanto isso será preso de novo na Torre a esperará o juízo de meu conselho.
Hugh recebeu suas palavras com um grunhido de protesto, mas acatou suas palavras sacudindo a cabeça. No momento tinha burlado o verdugo, não tentaria à sorte com protestos inúteis.
-Acompanhe meus homens, De Claire decretou o monarca assinalando a dois de seus guardas.
-Desejo me despedir de minha esposa - inquiriu e, ante o gesto afirmativo e curioso do monarca, Hugh se voltou para a jovem envolvendo-a em seus braços para deleite dos ali presentes e obrigando-a a elevar o rosto antes de posar sua boca sobre seus lábios. Anne respondeu ao beijo porque não havia modo de rejeitá-lo, não quando Hugh a arrasava com sua língua, quando seu aroma lhe alagava os sentidos. Com grande horror, notou que perdia o controle de seus atos enquanto suas mãos se elevaram para entrelaçar-se atrás de sua nuca.
-Talvez deseje que ela lhe acompanhe em sua reclusão uma vez mais? -inquiriu Enrique divertido.
Hugh interrompeu o beijo para lançar sobre o ombro um olhar esperançado.
-Vamos, vamos, levem-no antes que sua paixão se converta em espetáculo - decretou o monarca provocando a hilaridade de todos.
Anne afastou nervosamente a saia de seu vestido. Procurou com o olhar o apoio de seu acompanhante, Lorde Morgan, e depois que posou uma mão em seu braço se enfrentou a Hugh.
-Tenho que entender que ao fim está a salvo? - interrogou obrigando-se a manter uma calma que estava muito longe de sentir.
Hugh dedicou um agudo olhar lorde Morgan antes de concentrar-se em sua pergunta.
-Estou seguro de que esta causa se decidirá a meu favor, senhora - afirmou com certa arrogância confundindo o interesse da jovem pela questão.
-Então, tudo acabou.
Capítulo 17
O arrogante repicar da enérgica cavalgadura encheu o pátio interior da mansão obrigando um dos cavalariços a abandonar suas tarefas nos estábulos e atender o recém-chegado. Nathaniel segurava as rédeas do cavalo admirando o corpo compacto e as espessas crinas do animal. Um total de cinco carretas repletas de equipamento transpassou o portão de entrada fortemente custodiado por um pequeno exército de mercenários. Hugh desmontou de um salto e sem parar se dirigiu para a mansão com passo rápido. Lady Botwell o abordou ao passar pela porta de entrada.
-Onde está? - grunhiu Hugh passando a seu lado.
-Refere-se a Anne? - perguntou nervosa olhando de esguelha o andar superior onde a donzela tinha optado por refugiar-se.
-Refiro-me a minha esposa, onde está? - bramou ele.
Lady Botwell retrocedeu impressionada. Hugh sabia ser um patife encantador a maioria do tempo, mas furioso prometia ser mais desumano que o próprio Dragão. A mulher pensou em apaziguá-lo, mas o perigoso brilho de seus olhos lhe aconselhava guardar silêncio e deixar que fosse a donzela quem enfrentasse a semelhante colosso.
-Vai responder-me, mulher? - voltou a bramar ele.
- Acalme-se, inglês, Lady Botwell não merece seus gritos. Sua esposa está lá em cima, em seu quarto - assinalou Rufus colocando-se junto à dama em atitude protetora sem lhe dar importância ao feito de que a dama em questão lhe dobrava em tamanho.
Hugh fixou nele um breve olhar, nem sequer tinha percebido sua presença quando atravessou a sala principal. Obviamente, Rufus continuava com seu atordoado cortejo. Decidiu ignorá-lo para dirigir-se às escadas. Lady Botwell o seguiu lhe retendo fracamente pela manga de sua capa.
-Tenha paciência com ela, milorde - rogou assustada com o violento arrebatamento do homem.
Hugh se desprendeu com um forte puxão, mas finalmente conseguiu olhar o redondo rosto da matrona.
-Procurarei não estrangulá-la, se isso lhe servir de algo - conseguiu pronunciar antes de saltar de dois em dois os degraus.
Paciência! Exclamou para si, aquela palavra soava a insulto em seus ouvidos. Anne tinha se encarregado de esgotar esse recurso ao solicitar a anulação de seu matrimônio alegando impotência! A escada continuava para um terceiro andar, mas ele parou no primeiro patamar. Não saberia dizer como soube que quarto ocupava, mas sabia. Encaminhou-se para a porta com longos passos que fizeram com que sua espada golpeasse violentamente sua coxa.
-Anne, abra a maldita porta! - ordenou esmurrando a madeira com um punho. Os prementes gritos congregaram os moradores da mansão aos pés da escada.
A única resposta do outro lado foi um desafiante silêncio.
-Menina malcriada! - resmungou entre dentes golpeando novamente a porta.
Paciência! Já!
-Dou-te três segundos para que abra, três! Um...
-Besta!
O insulto chegou nitidamente através da grossa barreira de madeira.
-Menina, joga perigosamente com seus desafios. Dois...
-Vá embora, Hugh. Não há nada sobre o que falar.
-Três!
O forte estrondo fez tremer as vigas da casa. Um murmúrio afogado se elevou do andar de baixo, mas nenhum valente ousou colocar o rosto ali onde o casal dirimia suas diferenças.
Anne olhou com olhos exagerados como Hugh penetrava na estadia como um viking ao assalto, e pela funesta expressão de seu rosto bem poderia ser um deles. Defendeu-se atrás de uma poltrona próxima enquanto o coração retumbava em seu peito. O olhar de Hugh a cravou sobre seus pés lhe impedindo de mover-se, respirar.
-Não... Não têm direito A... - gaguejou.
-Aconselho-te a ficar em silêncio. Procure que nenhuma só palavra escape de seus lábios a menos que eu te pergunte - falou ele através da mandíbula apertada.
Por que aquilo soava tão ameaçador? Anne inspirou uma baforada de ar sentindo-se próxima à inconsciência. Preparou-se mentalmente para um confronto com Hugh, mas nada a tinha preparado para aquela fúria.
Hugh lançou um de seus olhares.
-De todas suas loucuras, desmandos e desafios, este foi o mais desafortunado, senhora - disse encurralando-a contra a lareira para sujeitar o teimoso queixo com uma mão. Seus dedos se cravaram sem compaixão em suas bochechas como tentáculos de ferro.
-Tinh... Tínhamos um acordo - conseguiu articular notando sobre o rosto o quente fôlego de Hugh.
Os olhos dourados se fixaram sobre seu rosto. Nervosa, Anne umedeceu os lábios com a ponta da língua. O gesto fez com que o olhar do homem se escurecesse até converter sua íris em dois carvões ardentes. Sua mandíbula se tornou mais rígida, mas finalmente deu um passo atrás a liberando.
-É e será minha esposa, goste ou não - resmungou ferozmente e, depois de lhe dar as costas, saiu da estadia.
Anne procurou o apoio da parede. O coração continuava lhe pulsando agitadamente e tomou uns segundos, para recuperar o fôlego. Nunca tinha visto Hugh tão furioso. Ainda tremia, aproximou-se da janela. O pátio se encontrava invadido por soldados e empregados, todos eles trabalhando em excesso ao descarregar as carretas. A figura de Hugh reapareceu ante seus olhos, procedente do interior da casa cuspindo ordens a mão direita e sinistra. O que significava aquilo? Por que estava ele descarregando seu equipamento pessoal no pátio de sua casa? A sombra de uma suspeita a fez endireitar-se substituindo seu atual desgosto por outra mais inquietante. Animou-se o suficiente para aparecer as escadas. Nathaniel, com dois fardos de tecido sob os braços cruzou o vestíbulo nesse momento. Anne o chamou.
-Minha senhora? - perguntou adiantando-se para as escadas.
-Por que estão descarregando todas essas coisas?
-São as coisas do senhor. Ele disse que esta é agora sua casa - explicou.
Hugh se propunha ocupar seu lar, invadir sua intimidade com sua presença, entendeu repentinamente. Sem pensar duas vezes desceu as escadas para dirigir-se ao exterior. Lady Botwell observava a invasão de um lado do pátio, Rufus permanecia a seu lado como um cachorro perdigueiro marcando sua presa. Anne procurou Hugh com o olhar entre aquele pequeno exército de portadores.
-Lady Anne? - pronunciou Lady Botwell com urgência, sem dúvida temerosa de que cometesse alguma loucura.
Hugh se encontrava junto à terceira carreta com um desses enormes fardos de tecido jogado sobre o ombro. Despojou-se de sua espada deixando que as abas de sua camisa roçassem a cintura de sua calça de tecido. Ele elevou o rosto para ladrar alguma ordem, mas se deteve o encontrar-se com ela.
-O que está fazendo? - contra-atacou.
-Tomando posse de meu novo lar.
-Esta casa não lhe pertence, não pode...
-Deixa de dizer o que posso e não posso fazer. Minha paciência tem um limite e você o superou com acréscimo. Ao parecer, ambos estivemos atarefados neste tempo. Você, procurando uma maneira de desfazer este matrimônio e eu... - deteve-se com o olhar injetado.
Anne teve a coragem suficiente para lhe olhar com o queixo elevado. Por São Alberto! Desesperava-o em igual modo como o avivava. Nesse mesmo instante, consumido pela ira mais intensa, desejava carregá-la como um fardo mais e levá-la a algum lugar privado onde pudesse descarregar sua frustração. Uma frustração que tinha começado tempo atrás, quando, depois de semanas de reclusão na Torre, o Conselho Real tinha decidido restabelecer sua inocência. O documento redigido pelos secretários do rei aceitava sua inocência do cargo de assassinato, mas mantinha a culpa sobre a acusação de amancebamento, um mal menor. Enrique, sempre ambicioso, tinha decretado a confisco de parte de seus lucros. Demoraria anos para recuperar-se de semelhante rapina, mas continuava mantendo a cabeça sobre os ombros e os desafios sempre lhe tinham caído bem. Recuperaria o perdido cedo ou tarde.
Quanto a Anne, quando ela tinha aclamado ante o mesmo Enrique "tudo acabou" não o tinha feito como expressão de alívio, mas sim como uma declaração de intenções.
Com um grunhido recolocou o fardo sobre seu ombro e, tomando sua pele de carneiro do lugar onde a tinha depositado, extraiu um grosso maço de documentos para entregar-lhe Os olhos cinza olharam com desconfiança sua mão.
-O que é?
-As escrituras desta propriedade junto com o contrato de compra e venda assinado de punho e letra por Wentworth.
Anne olhou incrédula duvidando de suas palavras.
-Mentiroso.
Hugh torceu os lábios em uma careta.
-Pense o que quiser - balbuciou encaminhando-se para a entrada.
Hugh tinha cavalgado por volta de Norfolk dia e noite uma vez que Kingston lhe fez partícipe das intenções de sua esposa de anular seu matrimônio.
Em Norfolk, Adrián tinha aceitado de bom grado sua proposta de aquisição da propriedade em troca de uma substancial porcentagem em suas futuras empresas. Previamente, Lady Norfolk tinha advogado a favor de sua jovem protegida obrigando-o a reconhecer seu amor em voz alta antes de aceitar suas pretensões, e tudo isso ante a zombeteira expressão de seu marido e o delírio daquele maricas de Eugen. Adrián tinha renunciado a custódia de sua pupila enquanto sustentava entre os braços o seu novo filho. Uma preciosa menina com cabelos castanhos que chupava energicamente seu polegar e da que, ao parecer, o legendário Dragão gostava muito.
Anne espremeu os documentos em um punho e correu atrás dele no interior da casa.
-A casa me pertence, Anne, como você e maldição se permitirei que me arrebate algo mais do que me arrebatou! - exclamou descarregando com um gesto furioso o fardo de tecido.
Anne apertou os lábios. Isso era o que era para ele! Uma posse mais.
-Não viverei sob o mesmo teto que um... Que um negociante de ovelhas.
Hugh a olhou com uma sobrancelha arqueada.
-De modo que se trata disso? Envergonha-se de minhas atividades? Não estou à altura desse pomposo do Morgan?
Anne se conteve para não burlar-se de suas palavras. Doía-lhe que ele pensasse assim dela, que a acreditasse tão mesquinha. Mas suas palavras seguiam pesando em seu coração. Ele a considerava uma esposa imposta. Com o tempo, converter-se-ia em um estorvo e acabaria presa em algum lugar. Não, não desejava essa classe de vida para ela. Sonhava com um amor ardente, um campeão disposto a entregar sua vida, e não se conformaria com menos.
-Recolherei minhas coisas, se não puder viver aqui, farei em outro lugar - afirmou cravando nele um olhar determinado.
-Não tem aonde ir. Suas posses passaram a meu poder. Tudo me pertence agora. - Fez uma pausa para lhe dedicar um sorriso sem humor. E isso inclui a ti.
-Não pode me reter aqui.
-Posso e não duvide que o faça se for forçado a isso - grunhiu ele apanhando seu pulso em um punho de aço – Encerrar-te-ei se tentar escapar de mim. E conte com isto, Anne, não importa aonde vá; encontrarei-te - prometeu.
-Adrián não permitirá...
-Ele me entregou sua custódia com o beneplácito da duquesa - agradou-lhe anunciar.
-Não pode falar a sério!
-É a segunda vez que me chama mentiroso. Não tolerarei mais insultos.
O olhar da donzela ficou velado sob a espessura de seus cílios. Conseguiu escapar de seu punho e, elevando a saia, começou sua ascensão pela escada.
-Pois isso é a única coisa que ouvirá de minha boca, milorde... Bastardo - assinalou consumida pela raiva. Quadrou os ombros e, com um soberbo giro de tornozelos, sapateou furiosamente até seu quarto, sublinhando seu mau humor com uma magnífica batida de porta que acabou de arrancar a porta de suas dobradiças.
Hugh observou sua saída de cena com um olhar admirado. Emitindo um suspiro observou o chão de mármore do vestíbulo, consciente de ser o vencedor daquele primeiro assalto.
***
O dia transcorreu com uma horrível lentidão para a Anne. Hugh tinha decidido ocupar o quarto da torre, uma imensa estadia situada no terceiro andar da qual se divisava o palácio real nos dias ensolarados. Ela mesma tinha considerado ocupá-la algum tempo atrás, mas tinha desistido por sua atual estadia ser muito mais prática. Os atarefados empregados, agora às ordens do Lorde, tinham trabalhado duramente para melhorar a estadia a gosto de seu atual amo, conduzindo acima e abaixo seus pertences. Aquele burguês com gostos principescos tinha feito transladar até os seus novos aposentos um sem fim de formosas peças provenientes de seus negócios com o continente: seda e veludo do oriente para suas cortinas, tapetes de pele de urso, delicadas taças de vidro, pratos, faqueiros de prata, os mais finos tecidos. Anne não tinha podido evitar espiar através da fechadura de sua porta uma vez que esta foi reajustada e martelada.
À tarde primaveril chegava a seu quarto quando o silêncio se impôs ao fim na escada. Anne observou o exterior desde sua janela. Os raios do sol tinham perdido força, mas seu longo confinamento a fazia desejar passear pelo jardim para desfrutar da suave brisa proveniente do Tamises. Poderia fazê-lo, ninguém lhe impediria de fazer o que quisesse em sua própria casa, mas se contentou sentando-se com seu bordado e observar seus fios até que uma das criadas entrou com um cesto cheio de lenha para acender o fogo da lareira.
Ela fingiu estar interessada em seu bordado, enquanto a moça se entregava a sua rotina diária.
-Terminou Lorde Darkmoon de acomodar suas coisas? - perguntou como ao azar.
A moça fez estalar vários palitos que acomodou sob os troncos mais grossos. Aproximou a isca à lenha seca e soprou brandamente enquanto uma minúscula chama iluminava seu rosto.
-Sim, senhora, ele está embaixo junto com o senhor Van der Saar e o senhor Ou'Sullivan. Lady Botwell está na cozinha arrumando tudo para o jantar. Disse que lhe perguntasse se iria descer para jantar à sala e se lhe oferece algo.
-Acredito que ficarei em meu quarto, faça com que suba aqui uma bandeja de comida.
A moça assentiu e, ficando em pé, limpou uma mancha de fuligem em seu avental.
-Senhora, alegra-nos muito de que seu marido tenha retornado de entre os mortos. As moças estão alvoroçadas com sua chegada, todas opinam que é muito bom moço e galhardo. A Senhora Grint arreganhou a Jane em duas ocasiões por ficar olhando-o.
Uma cantiga conhecida para Anne. Um desagradável sentimento a fez retroceder no tempo, voltar a sentir-se uma menina desdenhada, ignorada em seu afã de fazer-se notar. Teria que presenciar furtivos encontros de amantes também no presente? O desgosto a fez ficar em pé e passear nervosamente de um lado a outro.
Nathaniel entrou na estadia depois de solicitar permissão. Levava o boné para trás e uma das abas de sua camisa solta sobre a calça. Inconscientemente, Anne se aproximou para lhe arrumar as roupas, como fazia sempre.
-O amo me envia para que lhe diga que se sentirá... Isto, profundamente defra... Defraudado se não descer para jantar - disse aplicando-se na tarefa de recordar as palavras exatas.
A jovem franziu os lábios com desagrado.
-Diga ao "amo" que não descerei para jantar em sua companhia até se o mesmo diabo me implorasse isso.
O menino compôs uma expressão de espanto.
-Zangará comigo se lhe disser isso!
-Não, zangará comigo. Agora vá.
Nathaniel partiu a contra gosto com sua missão no andar de baixo. Ao cabo de uns minutos, seus passos se arrastaram de volta à habitação.
-Diz o amo que não deveria memorar ao diabo a risco de lhe invocar e que se não jantar lá embaixo não jantará.
Um rubor intenso se estendeu pelas bochechas da moça. Toda uma vida de independente existência reduzida pela ameaça de um... Negociante de ovelhas!
Afastou de lado a Nathaniel que, aliviado por não ter que retornar à sala, brincou de correr atrás dela escada abaixo.
Os enérgicos passos da jovem interromperam o tranquilo bate-papo dos três homens em torno da grande lareira da sala. Hugh, com as pernas esticadas para o fogo e os calcanhares apoiados sobre o suporte de pedra, observou-a com um zombeteiro desafio. Seu colete caía solto a ambos os lados de seu quadril, deixando entrever o punho de sua faca, perfeito em seu papel de dono de seus domínios.
-Alegra-me que nos honre com sua presença, finalmente. - Saudou-a elevando uma taça de prata.
Ou'Sullivan lhe dirigiu um olhar curioso. Respondeu-lhe com um gesto desdenhoso que fez com que o sorriso do irlandês se alargasse regozijado ante a iminente batalha de vontades que estava a ponto de presenciar.
-Não cante vitória, milorde. Desci para lhes esclarecer algo; não atenderei a suas ordens em meu lar enquanto me ridiculariza ante minha própria gente me tratando como uma...
-Esposa malcriada? - concluiu Hugh levando uma taça de vinho aos lábios sem deixar de observá-la.
Um som afogado escapou da garganta feminina. Anne entrou na sala para plantar-se ante ele.
-Não me subestime, De Claire, não tenho intenção de me deixar avassalar.
-Responde bem às provocações, isso é certo. Deseja chegar a algum tipo de acordo? Em minha habitação, possivelmente?
Anne inspirou pelo nariz ante aquela clara alusão à intimidade que tinham compartilhado quando ela tentou de lhe impor seu último acordo.
-Por que teria que confiar em sua palavra quando já a quebrou? Assegurou consentir com a anulação deste matrimônio quando fosse declarado inocente! -resmungou.
-Descobri que obtenho maior benefício sendo seu marido.
- Deixando a mim a mercê de seus caprichos?
Hugh assentiu.
-Nego-me a que interfira em meus assuntos - clamou lhe dando as costas para dirigir-se à saída.
Hugh aguardou a que ela chegasse ao outro extremo da sala para dar sua resposta.
-Faça o que quiser - resmungou ele com suavidade - por hoje - acrescentou antes que pudesse sentir-se vitoriosa.
Anne se aferrou àquela pequena vantagem e, depois de assentir regiamente saiu da estadia rigidamente.
A sala ficou em silencio depois de sua partida.
-Mulheres! -suspirou Ou'Sullivan enquanto seus companheiros assentiam em uma amostra de solidariedade masculina.
-É sempre tão fogosa? - inquiriu Rufus.
Hugh deu um gole a sua taça. Oh, sim! Ela era o suficientemente fogosa quando a ocasião o requeria.
***
Anne despertou em sua cama, rodeada de objetos familiares, mas com a clara sensação de que a mudança se assentou em sua vida. Ficou deitada observando a brilhante manhã através da moldura de seu leito. Desfrutou de uns minutos mais entre as mantas. Estaria Hugh acordado? Certamente. Ele costumava levantar-se com a alvorada. A contra gosto, levantou-se. Chamou uma das criadas enquanto escolhia o que vestiria esse dia. Lavou o corpo com um pano umedecido em água e essência de flor de laranja enquanto tentava convencer-se de que não era vaidade o que a levou a selecionar seu melhor vestido, uma sobreveste sob a qual aparecia discretamente uma camisa de seda cinza. Depois, prendeu o cabelo em uma grossa trança em forma de coroa sobre sua cabeça, por comodidade não porque acreditasse que seus traços se destacavam mais deste modo. Não colocou seu melhor cinto como amostra de ostentação, mas sim o fez porque aquele cinto era um de seus preferidos. Devidamente vestida, desceu ao andar inferior com uma sensação de mariposas na boca do estômago. Para seu alívio? Hugh não se achava na sala. Tomou o café da manhã apressadamente, uma tigela de caldo acompanhado de uma fatia de pão e presunto defumado. A ansiedade a levou a perguntar por seu marido a um dos empregados. Ao fim e ao cabo, raciocinou, tratando-se de um inimigo lhe convinha saber de seus movimentos, não ignorá-los. No pátio, Ou'Sullivan deteve seus exercícios de espada para lhe informar que De Claire quis classificar o conteúdo das barricas da adega. "Suas barricas" pensou Anne mentalmente seguindo o rastro de espera deixado por Hugh até as adegas. Abriu-se passo entre os escuros e frescos passadiços da edificação detendo-se o escutar a voz de Hugh no extremo mais afastado. Suas palavras que foram seguidas por um riso histriônico. Jane. Anne apertou os lábios com desagrado encaminhando-se para o lugar.
Hugh se achava inclinado sobre um tonel de carvalho medindo cuidadosamente seu conteúdo com uma vara. A seu lado, Jane sustentava uma vela para lhe iluminar em suas notas.
-Pensa em algum tipo de negócios com meus vinhos? - interrompeu. O eco de sua voz ricocheteou nos grossos muros subterrâneos matizando sonoramente as duas últimas palavras.
Hugh se endireitou sobre um dos tonéis para olhá-la enquanto o tolo sorriso de Jane era substituído por uma expressão de cautela.
-Senhora - saudou com uma rápida reverência.
-Não tem nada que fazer na cozinha? - espetou-lhe furiosa consigo mesma por sentir-se ciumenta de uma simples empregada.
-Eu... Estava ajudando ao amo.
-Eu lhe ajudarei agora, obrigado.
A moça se apurou a obedecer e, depois de lhe entregar o cantil, correu para o exterior.
-Isso não foi bom, qualquer pensaria que está com ciúmes - comentou Hugh encaminhando-se para outra barrica.
Anne apertou os punhos contendo o desejo de rebater suas palavras.
-Agradeceria que procurasse diversão longe da servidão. Não estou disposta a criar seus bastardos em meu próprio lar.
-Acreditava que sua petição de não interferir em nossos assuntos me incluía. - Hugh fez uma pausa para golpear o lábio inferior com um dedo - Embora, por outro lado, pode ficar tranquila. Minha "incapacidade" me impede essa classe de divertimentos, não haverá bastardos rondando esta casa, conforme se encarregou de anunciar ao mundo inteiro - grunhiu introduzindo a varinha no seguinte tonel.
Ele jogava com suas palavras, burlando-se delas. Ambos sabiam que nenhuma "incapacidade" o afligia.
Anne emitiu um suspiro pouco feminino.
-Por que está medindo meu vinho? - perguntou mudando de assunto.
- Calculo quanto dinheiro investiu neste lugar - afirmou anotando minuciosamente o conteúdo da barrica em uma pequena tabuleta de cera - e se será necessário contratar um professor de vinhos.
A idéia interessou a jovem.
-Conhecem algum de prestígio?
-Um português chamado Paolo Ramírez – comentou - Aproxime mais a chama, que não vejo nada - ordenou cravando um olhar preguiçoso em seu rosto.
Ela obedeceu agitadamente e deu um passo adiante enquanto ele inclinava a cabeça sobre suas notas. Anne observou a densa cabeleira, tentada pelas douradas mechas. Seus olhos escorregaram pela bochecha, ali onde sua barba tinham sido cuidadosamente raspada. Recordava perfeitamente a textura dessa pele, seu sabor...
Hugh levantou o olhar surpreendendo-a em sua detalhada observação. Anne fixou a atenção em sua boca e tragou saliva. Umedeceu os lábios sem atrever-se a piscar. Repentinamente, o ar pareceu carregado de energia, a sensação de desejo os envolveu criando uma conexão invisível, mas intensa.
-Eu... - tentou pronunciar renunciando com um suspiro.
Hugh amaldiçoou em voz baixa jogando de lado a tabuleta de notas para esticar seus braços para ela. Obrigou-a apoiar-se contra um dos tonéis enquanto a beijava e ela, bom Deus! Respondia a seus beijos com igual paixão. Hugh lhe devorou os lábios com crueldade, esquecendo qualquer gentileza para penetrá-la com sua língua, fazendo amor com ela. Anne passou as mãos sob seu colete lhe acariciando, degustando através do tato de seus dedos a fortaleza daquele corpo magnífico. Hugh a apertou contra o tonel com sua alta envergadura. Sem deixar de beijá-la, levantou-lhe o vestido e, inclinando-se, colocou a ponta dos dedos sob a liga de suas meias para acariciar a pele de suas coxas. Anne notou o ar frio sobre suas panturrilhas nuas, o contraste com as cálidas mãos de Hugh lhe provocou um estremecimento. Hugh fez escorregar seus lábios até o oco de sua orelha. Lambeu a cartilaginosa borda retendo entre seus dentes o lóbulo de sua orelha. Anne sentiu uma descarga de prazer enredar-se em seu ventre. Hugh procurou com uma mão a abertura de sua anágua para penetrar sob sua roupa interior e rodear uma de suas nádegas. Afundou seus dedos em sua carne obrigando-a a elevar-se contra ele.
-Esqueceu isto, querida? Porque eu não pude fazê-lo - ofegou junto a sua orelha - Deus! Cheira tão bem...
Anne emitiu um gemido, pela metade uma suplica pela metade um protesto, sujeitando-se a seus ombros. Hugh a surpreendeu ao cravar um joelho sobre o chão de terra e rebuscar ansiosamente sob suas roupas. Observou seu dourado cabelo desorientada a respeito de suas intenções. Ele mantinha suas saias elevadas, enrugadas em seu punho deixando a parte superior de suas coxas ao descoberto. Aturdida, tentou escapar, mas Hugh o impediu imobilizando-a com sua mão livre.
-Vou beijar lhe, Anne vou provar seu sabor com minha boca - anunciou resolvido, aproximando o rosto ao vértice de suas coxas, muito perto do ponto onde sua necessidade pulsava dolorosamente - Eu desejo... Isto.
Um gemido afogado surgiu de sua garganta ao notar o fôlego quente sobre seu pêlo. O desejo se intensificou até ficar insuportável, lhe fazendo arder a pele. Jogou a cabeça para trás deixando que o aroma de mofo e umidade do lugar alagasse seus sensibilizados sentidos. Hugh apoiou seu polegar em seu corpo procurando com suavidade entre os suaves cachos. O contato a fez mover os quadris a um lado. Hugh a reteve sujeitando-a com mais força. Fez rodar seu dedo com lentidão sobre sua carne úmida procurando o lugar exato de seus impulsos, guiando-se pelos suaves suspiros que ela emitia e quando o achou, posou ali sua boca sugando-a, lambendo-a até que Anne se rendeu a ele choramingando seu nome, enterrando seus dedos em seus cabelos para lhe obrigar a aproximar-se mais. Degustou-a contra sua língua como se tratasse de um bom vinho: sal e flor de laranja. Obrigou-a passar uma perna sobre seu ombro direito equilibrando-a contra o tonel, deixando-a a sua mercê por completo. Continuou lambendo-a, devorando-a, investindo-a com sua língua. Anne arqueou os quadris notando que o prazer se voltava insuportável. Achava-se perto, realmente perto de... Notava-o no acelerado pulsado de seu coração, nas doces sacudidas que se estendiam desde seu ventre até seus seios. Quase podia tocar a liberação quando tudo cessou.
Hugh se separou depois de uma última carícia de sua língua elevando-se com agilidade ante ela. Sua mão liberou suas saias lhe provocando um último estremecimento.
-Acabaremos com isto quando aceitar este matrimônio - disse estampado um último beijo em seus lábios. Inclinou-se para recolher a tabuleta e saiu do lugar com sua habitual elegância felina.
Anne observou incrédula. Por uns instantes considerou a idéia de lhe suplicar que retornasse, mas a voz lhe falhou no último momento. Com mãos trêmulas acomodou as roupas, não muito segura de poder abandonar o lugar por seu próprio pé. Permaneceu entre as barricas até recuperar o fôlego, mas o eco do desejo insatisfeito ressoou com força em todos os cantos de seu corpo.
Retornou a casa de péssimo humor. Vagabundeou pela cozinha sem atrever-se a enfrentar-se de novo Hugh, mas o especulativo olhar, dos empregados a fez abandonar o lugar. Sem nada que a entretivesse, perambulou taciturna até a sala. Tomou assento junto à janela sem encontrar nenhuma quietude. Doía-lhe o corpo de desejo. Aquela fome lhe corroia as vísceras lhe impedindo de concentrasse em nada.
Lady Botwell escolheu esse momento para entrar na sala. Tomou assento frente a ela, olhando-a com concentração.
-Ocorre algo? - obrigou-se a perguntar.
-Ocorre que é a moça mais teimosa, instada e estúpida do reino - espetou-lhe.
A brusca reprimenda fez com que a jovem se endireitasse em seu assento.
-De Claire e eu tínhamos um acordo - defendeu-se adivinhando o motivo de tão irada queixa.
Lady Botwell emitiu um som de desespero.
-Até o momento não tive ocasião de lhe dar minha opinião a respeito. Esse absurdo pedido de anulação está a ponto de lhe converter na brincadeira de todos.
Anne elevou o queixo. Depois do ocorrido nas adegas não se achava com ânimos para esse tipo de conversa.
-Não gosto de falar disso.
-Ninguém acredita que De Claire seja incapaz, moça, e menos que você não tenha desfrutado já de... De sua destreza no leito, vendo a maneira como o olha - insistiu.
-Não me importa - afirmou ficando em pé, mas sim lhe importava, e muito. Estou segura de que De Claire não se oporá à anulação uma vez que seu ego...
Lady Botwell bateu as palmas nas coxas com impaciência.
-Bom Deus, Anne! Acha que um homem que atua como ele o faz por uma mera afronta a seu ego?
Anne a observou com os olhos transbordados de assombro. Nunca tinha visto tão furiosa a sua dama.
-Esse homem está apaixonado por você e seria uma tola se não o entendesse - continuou.
Apaixonado? Hugh? O coração lhe golpeou o peito freneticamente. Não, não acreditava.
-É óbvio para todos que você mesma o ama. Sempre o fez. Ele foi o modelo pelo qual mediu o resto de seus pretendentes. Alguma vez se perguntou por que nenhum parecia lhe agradar? - A matrona se deteve para inspirar brevemente e continuar mais sossegadamente. De Claire foi o paladino de seus sonhos desde que era uma menina - finalizou com um suspiro.
-Acha que é assim? – ouviu-se perguntar.
-Minha menina, minha preciosa menina - cantarolou Lady Botwell ficando em pé para abraçá-la com força contra seu elíptico abdômen.
Os olhos cinza se elevaram para esse rosto maternal em busca de consolo.
-Acreditei me voltar louca quando me disseram que tinha morrido, não poderia voltar a suportá-lo - disse.
-E decidiu blindar seu coração contra todo sentimento, verdade? Por isso solicitou a anulação, por medo.
Sim, o amor doía muito e ela era muito covarde. Tinha medo de que Hugh não a quisesse que se esquecesse dela uma vez que recuperasse sua vida e voltasse para seus antigos namoricos, que desaparecesse de sua vida, que não a quisesse como ela o queria.
-Cresceu pensando em um amor ideal sem saber que o amor, o amor de verdade, dói tanto como o ódio. É bom que os sonhos inspirem nossa existência, querida, mas não devemos deixar que nos dominem. O mundo real é um lugar imprevisível, têm que lhe enfrentar para crescer. A vida, minha querida Anne, consiste em arriscar, em saber ganhar e também perder. Nada ganhará vivendo sob uma carapaça vazia, sonhando com cavalheiros que cavalgam em seu resgate. A realidade requer que se arrisque a sentir.
Anne meditou suas palavras. Em todos esses anos, ela tinha reservado seu coração para um idílico campeão, alguém irreal, como medida de amparo contra a dor e a decepção, até o momento nenhum homem tinha conseguido superar aquela medida de perfeição que ela tinha estabelecido como modelo de homem ideal. Só Hugh tinha apagado os vestígios dessa fantasia obrigando-a a enfrentar-se a um amor real.
Olhou para o exterior. A primavera tinha irrompido no pequeno jardim, a explosão de vida a chamava incitando-a a unir-se ao festim de luz e cor.
***
Anne circundou as margens do jardim até chegar ao rio. Sentou-se sobre a pedra onde tempo atrás decidiu converter-se na esposa de Hugh. Um dos cães da propriedade se uniu a ela e, depois de olhar a barra do vestido, tombou-se a seu lado com um sentido suspiro. Anne lhe acariciou detrás das orelhas, pensativa. As palavras de Lady Botwell tinham aberto uma nova visão sobre si mesma, tinha estado escondendo-se atrás da figura de Hugh todos aqueles anos? Possivelmente sim e possivelmente era o momento de avançar sem o amparo daquele imaginário escudo. Arriscaria a amar Hugh até as últimas consequências? Aquele homem era capaz de lhe fazer amor ébrio sobre o chão? Incapaz de reter nada no estômago quando estava em um navio? Um homem com debilidades de homem?
Inspirou brevemente esperando a resposta de seu coração. Sim, sim, sim, compreendeu surpreendida. Fazia meses que o Hugh de carne e osso tinha substituído a sua antiga fantasia. Por algum motivo, não conseguia imaginar-lhe sobre um corcel branco com uma espada em sua defesa, a não ser esgotando os olhos quando algo levantava suas suspeitas, o furioso brilho de seus olhos quando algo o enfurecia. Podia evocar com total precisão o aroma de seu corpo, a expressão de seu rosto quando desejava algo. Tantas e tantas coisas que enumerar lhe levaria uma pequena eternidade. O descobrimento não lhe provocou nenhuma comoção, a não ser uma prazerosa paz interior.
Tempo depois, seu olhar se elevou até o pátio quando as portas de entrada se abriram para dar passo à pessoa que esteve aguardando toda à tarde. Os cães da casa ladraram furiosamente quando lorde Morgan cruzou o jardim em sua direção depois da indicação de um dos empregados, inclinando-se para frente para saltar os ramos baixos das árvores. Anne o observou com atenção pela primeira vez. Lady Botwell tinha razão; era um homem corpulento, embora não tanto como para tachá-lo de gordo. Um sorriso lhe esticou o lábio ao recordar o tão galante que tinha sido ao provar o vinho azedo que lhe tinha servido e qualquer outro homem a teria chamado de harpia. O bom Morgan tinha sabido guardar as maneiras.
Morgan se deteve no alto da escada e, depois de uma florida inclinação, elevou sua grossa sobrancelha.
-Juro não ter contemplado uma maravilha semelhante. Sou eu o responsável por esse sorriso?
-Não há ninguém mais ante meus olhos, verdade? - Ela riu e tomou sua mão para levantar-se.
O homem pestanejou afetado.
-Lady Darkmoon...
-Shss. Por uma vez, me deixe falar com galanteria. Foi um pretendente persistente e fiel, agora lhe descobri como um bom amigo ao vir a minha chamada com tanta presteza.
Suas bochechas se coloriram sob sua barba espaçada.
-Confesso que a urgência de sua chamada despertou meu interesse.
-Gostaria de passear junto ao rio enquanto conversamos?- convidou ela.
Capítulo 18
Hugh utilizou seu ábaco de madeira para realizar o calculo de sua seguinte anotação. Registrou a cifra em uma das colunas e calculou mentalmente o resultado final.
-Por seu rosto qualquer um diria que achou a fórmula para converter o ouro - comentou Rufus que, agachado junto ao fogo da lareira, revolvia ociosamente suas brasas com um gancho de ferro metálico.
-Estamos ante um bom negócio, Rufus, pressinto - inquiriu com jactância.
-De que tipo?
-Do tipo de que fazem um homem imensamente rico - assinalou mostrando seus dentes em um sorriso.
-Ah! - exclamou Rufus, como uma fracassada tentativa de mostrar-se interessado no assunto enquanto continuava escavando entre as cinzas com o olhar perdido.
-Ocorre algo?
-O que? Não, eu só... Maldição, De Claire! O que passa na cabeça de uma mulher? - perguntou esfregando a bochecha avermelhada.
Que lhe partisse um raio se soubesse! Sempre se tinha considerado um grande entendedor das complicadas mentes femininas. Sua esposa lhe tinha demonstrado o quão errado estava.
-Lady Botwell voltou a me rejeitar. Consegui encurralá-la no corredor, mas apenas consegui colocar uma mão sob a saia. Tenho necessidade de me desafogar, e logo. O que tenho entre as pernas começa me doer.
-Por todos os Santos, Rufus! Tentou se ultrapassar com a dama?
Rufus deixou de lado o gancho.
- Ultrapassar? Dobra-me em tamanho, como acha que poderia me ultrapassar?
Hugh emitiu um suspiro. Cruzou as mãos atrás de sua nuca para observar seus novos aposentos.
-Pelo que sei das mulheres, não estaria demais se a galanteasse com um pouco mais de tato.
-Acha que isso daria resultado? - perguntou esperançoso.
-Diga um poema, dizem que um bom poema costuma adoçar as reticências de qualquer mulher. - Por sua parte, nunca tinha tido que recorrer a medidas tão extremas. Por norma geral, as mulheres se rendiam a seus pés com um simples olhar. Todas exceto a única que lhe interessava. Sacudiu mentalmente a cabeça estacionando o tema de sua esposa - Machuca que Eugen não esteja aqui, esse maricas tem um dom com a pluma. Seus miados estavam acostumados a atrair às mulheres em Norfolk, embora nunca soubesse muito bem por que.
-Possivelmente tenha razão! Possivelmente um poema consiga abrandá-la suficiente para permitir que lhe levante as saias – disse excitado.
Hugh o observou mover-se pela estadia para deter-se ante o vendaval.
-Por certo, que tal os problemas com sua esposa? - interrogou sem separar o olhar do exterior.
Hugh se aconchegou em seu assento satisfeito. O ocorrido essa manhã nas adegas lhe dava sobras de esperanças a respeito. Anne nunca imaginaria o que lhe havia custado abandonar essa condenada adega, não quando todo seu corpo clamava por tomar o que tinha ao alcance da mão. Tinha-a degustado, torturado com sua boca lhe negando o prazer no último momento a modo de castigo. Uma pequena vingança. Ainda seguia furioso com ela. Oh, sim! Desejava estrangulá-la com a mesma intensidade que possuí-la, mas tinha considerado muito mais conveniente não fazer nenhuma delas. Esperava que há essas horas sua donzela de gelo se convertesse em uma mulher desesperada.
-Digamos que espero que essa menina acabe comendo em minha mão - assegurou com prepotência, fantasiando mentalmente com aquela possibilidade.
-Ah, sim? - Rufus deu as costas à janela para lhe olhar com malicioso regozijo.
-É uma jovem instada. Está furiosa por... o que?
-Ela está lá em abaixo - anunciou Rufus assinalando sobre seu ombro com o polegar - passeando com seu pretendente à vereda do rio. Isso soou bem, acha que poderia incluí-lo em meu poema?
Hugh franziu o cenho fulminando-o com o olhar. Ficou em pé para observar da janela o florescente jardim. Anne se achava em seu extremo norte junto com lorde Morgan. O homem inclinava a cabeça solícita atendendo às palavras da jovem. Seu olhar recordou a de um São Bernardo faminto. Uma labareda de fúria se estendeu por seu peito. Supunha-se que Anne devia adoecer de desejo por ele depois do ocorrido essa manhã, não flertar com seu antigo pretendente à beira do rio. Mas com Anne as coisas nunca eram como a gente supunha. Ao parecer, sua experiência prévia com outras mulheres não podia aplicar-se a jovem com a qual havia se casado. Ela era única em muitos sentidos, disse a si mesmo. A lembrança de seu sabor ainda perdurava em sua boca, como um bom vinho. Bom Deus! Ninguém teria idealizado uma tortura mais efetiva. Ouviu-se inspirar enquanto a observava com o torvelinho de emoções que despertava em seu peito. Aquela donzela tinha apanhado seu coração tão efetivamente que sentiu medo.
Até o momento, Hugh soube se aproveitar do desejo que despertava nas mulheres. Dirigir suas emoções quando só mediava uma queda entre as peles tinha sido extremamente fácil para ele, nada a ver com a explosão de emoções que Anne estava acostumada arrancar de seu peito com o mais mínimo de seus gestos.
-Procurarei inspiração em outro lugar - anunciou Rufus depois de uma palmada solidária em suas costas.
Hugh assentiu distraído. Manteve-se de pé ante a janela, desejando ser Lorde Morgan, a quem Anne dedicava agora um sorriso radiante.
***
Depois da partida de Lorde Morgan, Anne entrou na casa de excelente humor. Dirigiu-se à cozinha e, depois de beijar lady Botwell e a Senhora Grint na bochecha, acomodou-se em seu lugar favorito, junto à mesa do pão e, balançando as pernas pausadamente, pegou um pedaço de pão recém assado para devorá-lo com deleite.
-O que lhe traz entre mãos? - perguntou lady Botwell, mas sua expressão sorridente expressava sua satisfação ao ver a jovem ao fim contente.
-Por que todo mundo acredita que tem algo malvado quando estou de bom humor? - queixou-se ela.
-Porque geralmente é assim – resmungou a Senhora Grint com desconfiança.
Anne começou a rir e lady Botwell pensou que era uma delícia ouvi-la.
-Temo que seja o que for descobriremos muito tarde para poder fazer nada - comentou a Senhora Grint - Deixe de roer meu pão, o jantar estará pronto em breve - disse lhe arrebatando das mãos o pão.
Anne elevou uma queixa.
-Tenho fome.
-Deixe-a comer, Senhora Grint - clamou lady Botwell - A moça está nos ossos e nem os cães se incomodam em farejá-la - brincou.
As risadas e sorrisos dos empregados encheram a cozinha.
-Thomas, é o menos indicado para rir assim de mim - reclamou ela elevando o nariz, mas com um inconfundível brilho travesso nos olhos ao dirigir-se a um dos encarregados de sortir a lenha ao fogo, cuja fibrosa anatomia recordava a de um débil junco.
A gritaria continuou até que a Senhora Grint decidiu que tanta diversão punha em perigo seu jantar.
-Seu marido decidiu jantar em seu quarto, deseja subir sua bandeja? –A pergunta foi pura retórica, pois simplesmente colocou entre suas mãos a pesada bandeja cheia de comida que serviria para alimentar a um exército de mendicantes - Poderá com ela? Sim, verdade? - dizia enquanto a empurrava para a saída.
-Por que tenho a impressão de que sempre quer desfazer-se de mim?
-Porque sempre que ronda meus fogões meus ajudantes se esquecem de suas obrigações - assinalou agudamente.
Anne emitiu um lamento, mas, dado que levava grande parte do dia sem ver Hugh e que não tinha melhor desculpa que aquela para lhe visitar, continuou caminhando até chegar às escadas por onde, nesse momento, descia Rufus coloridamente vestido.
-Vai a algum baile, senhor Van der Saar? - perguntou divertida.
-Uma missão muito mais arriscada, minha senhora. Tento ganhar o coração de minha dama.
Uma careta distorceu os lábios da jovem enquanto seus olhos cinza se deslizavam da pluma de intenso verde de seu chapéu até os sapatos de couro brando.
-Que tal estou? - perguntou nervosamente.
-Muito elegante. - Anne mentiu de forma consciente, mas Ai! Era impossível lhe desiludir. Suspeitava que todos as tentativas de Rufus para conquistar à Lady Botwell cairiam no vazio.
-Se me desculpar, compus um poema em sua honra e desejo recitá-lo sob o pôr-do-sol - informou esfregando a ponta do bigode com os dedos.
-Vá, pois - apressou-lhe ficando de lado para lhe permitir o passo. Seguiu-o com o olhar até que sua figura foi engolida pela penumbra do corredor. E sorte - acrescentou quando ele não podia escutá-la.
***
Rufus achou sua presa na cozinha e, depois de ignorar os sonoros protestos da cozinheira, esse ogro da Senhora Grint, conseguiu arrastar a dama ao exterior por uma porta lateral.
-Senhor Van der Saar, me solte. Não é necessário que me reboque como uma mula a seu arado - protestou a mulher cravando os calcanhares sobre o chão.
Ao perceber seu excesso de entusiasmo, Rufus reduziu o ritmo de seus passos, mas não liberou seu pulso que seus dedos apenas conseguiam rodear.
-Desejo lhe recitar um poema.
-Um poema? Em minha honra?
-Demorei toda a tarde para compô-lo, queria que o escutasse a beirada do rio.
-Oh, bom! Eu... Estarei encantada sempre e quando mantiver suas mãos longe de mim - gaguejou ela deixando-se arrastar. Aquela era a primeira vez que um homem lhe dedicava semelhante atenção.
Rufus parou junto ao rio, situou a dama de costas ao minguante sol e arrancou um punhado de margaridas para oferecer-lhe com um sorriso oleoso que elevou a ponta de seus bigodes loiros.
-Ejem... – esclareceu a voz tentando encontrar a entonação adequada. Logo, pensando que resultaria mais romântico, fincou um esquálido joelho sobre a pedra úmida, tomou a dama por uma mão e iniciou seu poema:
Nem o sol nem a lua.
Nem a terra nem o mar.
Comparar-se a você poderão.
Rufus se interrompeu quando um dos cães se aproximou.
-Não é você, vira-lata! -grunhiu lhe lançando uma patada que o cão se esquivou agilidade - Por onde ia? Não importa, começarei de novo.
Nem o sol nem a lua.
Nem a terra nem o mar.
Comparar-se a você poderão.
O cão voltou para ataque e, depois de lhe lamber o tornozelo com grande deleite, sentou-se para escutar com aparente interesse.
-Chisst, vá embora... - insistiu.
O animal emitiu um bufo, olhou à Lady Botwell com a extremidade do olho e agitou a cauda.
-Voltarei a começar - suspirou Rufus fulminando o insidioso animal com o olhar.
Nem o sol nem a lua.
Nem a terra nem o mar.
Comparar-se a vocês poderão.
O cão se uniu a ele com um longo uivo.
Pois juro que não houve
Nem haverá
Um peito igual
O final do poema ficou desigual com uma série de excitados latidos de cão.
Lady Botwell ficou paralisada observando consternada a ansiosa expressão de Rufus. Retrocedeu liberando sua mão para ocultar seu rosto. Seu corpo se estremeceu com uma sacudida que fez com que Rufus a olhasse triste.
-Emocionei-lhe? - perguntou ficando em pé. Por que chora?
Lady Botwell emitiu um soluço afogado que sacudiu seus terminantes peitos. Rufus cravou ali um olhar ansioso.
-Minha senhora? - insistiu.
Incapaz de resistir por mais tempo, a mulher retirou a mão de seu rosto e se enfrentou ao homenzinho com os olhos brilhantes de lágrimas. Não chorava. Ria.
-É um velhaco do mais absurdo, ridículo e descarado.
-Então, existe alguma possibilidade de que você...
Lady Botwell se separou de um tapa sua mão.
-Existe... Mas está muito longe de consegui-la - assegurou festejando suas palavras com uma nova gargalhada - patife - acrescentou antes de girar majestosamente sobre seus pés e dirigir-se para a casa.
Rufus seguiu seu bamboleio com um olhar faminto. Aquele traseiro era sua perdição.
-Isso é um sim? - perguntou em voz alta, mas ela continuou caminho sem dignar-se a responder. Acredito que é um sim - assegurou ao ruidoso cão que permanecia atento.
***
A falta de mãos livres, Anne golpeou a porta com um pé. Um apagado "adiante", ressoou do outro lado fazendo com que algo quente se expandisse por seu ventre. Esse "algo" cobrou intensidade quando manobrou torpemente com a porta e descobriu que Hugh não se achava atrás de seu escritório, como em a princípio tinha suposto, a não ser sobre a cama. Ele tinha se desembaraçado de todas suas roupas à exceção de sua camisa e de sua ajustada calça de uma peça. Anne tinha chegado à conclusão de que nenhum homem podia luzir aquela galhardia de Hugh.
Ao descobrir a identidade de sua visita, Hugh se incorporou ligeiramente sobre os almofadões de seda observando-a com receio.
Anne procurou um lugar onde depositar a pesada bandeja e, depois de colocá-la em um canto do escritório, olhou curiosa a seu redor.
-Sabe se rodear de luxos - comentou passeando entre os valiosos objetos que adornavam a estadia. Claro que o objeto que mais atraía sua atenção estava sobre a cama. Tinha o cabelo da cor do ouro velho e um olhar suspicaz nos olhos.
Permaneceu quieta olhando a um e outro lado da ampla câmara.
-Nem tudo nesta vida tem que ser ruim - respondeu ele encolhendo ligeiramente os ombros. Disse a si mesmo como se o resto de sua vida fosse exatamente isso. Fosse exatamente "ruim". Anne se sentiu incluída nesse "ruim" sem que ele o especificasse de outra maneira.
-Trouxe-lhe o jantar - disse como se a bandeja repleta de comida não fosse suficientemente óbvia - A Senhora Grint disse que desejava jantar aqui. - Seu rosto mudou ficando preocupado - Encontra-se bem? - interrogou lhe percorrendo dos pés a cabeça tentando detectar algum indício de mal-estar.
-Estou bem, menina - respondeu Hugh agonizando seu olhar enquanto apoiava um pé em seu joelho flexionado.
De novo tinha pronunciado aquele odioso apodo e, entretanto, esta vez ela não se sentiu irritada, porque tinha descoberto que ele estava acostumado a suavizar seu tom quando o dizia e porque Hugh utilizava aquele apelido exclusivamente com ela.
-Vai permanecer aí de pé enquanto janto?
-O que?
Ele emitiu um som que ilustrava seu desespero.
-Tem algo mais que me dizer, Anne?
As bolinhas verdes dos olhos femininos refulgiram à luz das velas. Que Hugh se sentisse enfastiado com ela era o último queria. Abriu a boca para dizer algo, mas tinha ficado com a mente em branco. Notou as mãos úmidas e um terrível acanhamento sob a cáustica inspeção de seu olhar.
-Sim. - Acompanhou sua resposta com um passo adiante e uma elevação de sua mandíbula.
Hugh tomou nota de todos aqueles gestos e deduziu que ela tentava lhe dizer algo importante. Compôs uma expressão estóica, quase indiferente, mas por São Roberto! Se ela se referisse a algo remotamente relacionado com a anulação de seu matrimônio a estrangularia.
-Adiante. Suponho que seu pretendente a espera abaixo, não lhe façamos esperar.
Anne curvou uma sobrancelha ao ouvir suas palavras.
-Refere-lhe a lorde Morgan?
-Vi vocês passeando junto ao rio. Ele não perdeu tempo em retomar sua corrida para lhe arrastar ao altar - disse com sarcasmo. Propôs-se a não mostrar seus sentimentos ante ela, mas ao parecer não era destro naquelas questões. As palavras escaparam de sua boca antes que pudesse impedir e o fizeram com um suspeito vapor a ciúmes.
-Lorde Morgan só veio porque chamei.
Bem! Tinha sido ela a que o tinha chamado. Estupendo! E então todos seus esforços por permanecer indiferente saltaram pela amurada. Ficou em pé com um único movimento, tão brusco que a jovem retrocedeu surpresa e assustada? Sim, tinha motivos para mostrar-se assustada. Assim que lhe pusesse as mãos em cima, se encarregaria de assustá-la ainda mais.
-Moça descarada. É capaz de alentar seus desejos? Paquerar com ele como uma...
-Não diga - estalou ela.
Mas ele o fez de todos os modos.
-... Qualquer? Esta manhã me permitiu levantar sua saia! Respondeu a meus beijos, deixou que minha boca te tocasse. - Recordou-lhe sem piedade. Asseguro-te, querida, que ninguém antes esteve tão perto de me levar a loucura. Deseja acabar com este matrimônio? Bem, mas antes responde a uma pergunta. Permitiu a esse asno te tocar da mesma maneira que o fiz? Responde a seus beijos com igual ardor?- disse.
Ela poderia havê-lo sossegado, poderia ter cruzado a pequena distância que os separava e aplicar a palma de sua mão contra sua bochecha. Poderia fazê-lo, deveria havê-lo feito. Entretanto, limitou-se a lhe olhar com uma insidiosa sobrancelha elevada, como se ele não fosse mais que um bêbado, um estúpido ou um mentecapto ou tudo junto a vez.
-Na realidade, são duas perguntas.
-O que?
-Fez-me duas perguntas não uma - indicou com petulância - Mas lhe responderei de igual modo. Não e não.
Hugh deixou cair os braços com a expressão de alguém que foi golpeado com um pau.
-Anne, o que quer de mim? - suspirou olhando-a com algo um pouco parecido a derrota brilhando em seus dourados olhos.
Ela voltou o rosto lhe mostrando seu perfil. Observou pensativamente o fogo da lareira.
-Desejo que termine com o que começou esta manhã. - E se por acaso houvesse alguma dúvida acrescentou - Nas adegas.
Se ficou surpreso com seu pedido, Anne não detectou, tão só um leve escurecimento em suas pupilas que podia significar algo; fúria, horror, aversão...
-Está disposta a aceitar minhas condições? - perguntou com desconfiança.
-Ser sua esposa?
-Com todas as irritantes obrigações que o fato suporta - assinalou inundando-se na profundidade cinza de seus olhos. E sem querer conteve o fôlego enquanto o pulsar de seu coração se tornava lento, muito mais lento, como se sua vida dependesse de suas seguintes palavras.
-E sobre meus direitos?
-Direitos? - repetiu manifestando a dificuldade que tinha para seguir seus pensamentos.
-Você fala de obrigações, mas e meus direitos? - insistiu modulando lentamente as palavras.
Um sorriso presumido coroou seus belos lábios marcando seu sensual contorno. Ela desfrutava com seu desconcerto, desfrutava criando-o e Hugh tinha a impressão de ir sempre atrás.
-Terá direito sobre tudo quanto possuo - declarou veemente, contendo o impulso de esticar uma mão e acariciar seu sorriso com a ponta dos dedos.
Presumido o sorriso se transformou em uma careta. Anne estalou várias vezes a língua.
-Não, não, senhor. Não é isso o que quero de você.
Hugh piscou tentando encontrar um pouco de lógica naquele caos.
-Me diga o que é o que quer - ofereceu flexionando uma perna e apoiando ambas as mãos no quadril com os dedos estendidos para dentro. Se não entendia mal, achava-se imerso em uma negociação de condições e ele era um perito em negociação de condições. Claro que antes deveria entender de que diabos estavam falando. Inclinou atentamente a cabeça à espera de sua resposta.
Anne voltou a surpreendê-lo. Aproximou-se dele e apoiou uma mão sobre seu peito, justo onde seu coração se esforçava por pulsar. E foi como se lhe tivesse atravessado a carne para lhe espremer o coração.
-Me prometa - começou lhe golpeando o peito com a ponta de seu dedo indicador. - Que não haverá outras mulheres.
Hugh abriu a boca surpreso com seu pedido.
-Não haverá nenhuma empregada com a que se envolver, nenhum encontro fortuito nos estábulos ou nas adegas ou em qualquer outro lugar que possa imaginar...
-De que demônio está falando? - interrompeu-a estupefato.
-Falo de suas amantes. Se me quiser como esposa, se quer seguir adiante com este matrimônio, será fiel... Do que ri? - deteve-se com o cenho franzido porque ele continuava rindo com gargalhadas tão profundas que faziam com que seus largos ombros se sacudissem. Os espasmos continuaram obrigando-o a retroceder e sentar-se sobre a cama.
-Acha meu pedido divertido? - estalou. Porque se for assim não retrocederei em meu pedido de anulação. Não quero ser a esposa de um homem infiel, não quero ser...
-Anne? - conseguiu formular Hugh secando o dorso dos olhos com uma mão. Céu Santo! Supõe-se que aquilo deveria lhe pôr de mau humor. Ser acusado de infiel pela única mulher que tinha amado em sua vida, a única capaz de fazer renunciar a todas as demais, tinha graça, muita graça.
-O que?
-Venha aqui - grunhiu o mais autoritariamente que pôde. Ela duvidou se obedecer ou não, finalmente atravessou o tapete de pele e se posicionou aos pés da cama com as mãos apoiadas sobre a armação de madeira.
-Se acha isto tão divertido não vejo necessidade de continuar com esta conversa. Dou-lhe a oportunidade de recuperar sua liberdade. Se não me quiser, se não quer aceitar minhas...
-Deus Santo, mulher! É que não percebe nada? Não entende que te amo? Que é a única mulher a que quis em toda minha vida? Sabe o tempo que levo esperando para tomá-la em meus braços e lhe confessar isso Não pude pensar em outra mulher desde que se apresentou naquela maldita masmorra. Meu desejo por ti vai mais a frente do desejo carnal. Desejo tudo de ti, seu corpo, seu coração, sua alma, tudo.
Anne o olhou com os olhos dilatados. Tinha a boca aberta, como se tivesse querido dizer algo, mas em um último momento esqueceu.
Hugh emitiu um suspiro enquanto passava a mão pelo o cabelo.
-Se alguém tivesse querido me castigar por meus pecados não teria encontrado melhor aliado que seu desdém. - Fez um amplo gesto com o braço destacando-se a si mesmo - Aqui me tem! Adoecendo de amor por ti! - exclamou estendendo os braços, como se tratasse de uma maldita brincadeira do destino. Quer minha fidelidade? É tua, mas terá que aceitar meu coração com ela.
Anne tinha se aproximado silenciosamente com a surpresa refletida em seu rosto. Esticou uma mão para sua bochecha e o acariciou com a ponta dos dedos.
-Ama-me? – perguntou em voz baixa lhe olhando nos olhos.
Ele emitiu um suspiro metade queixa.
-Mais que a minha alma - reconheceu apoiando o rosto contra sua mão.
Anne fechou os olhos deixando que o significado daquelas palavras a alcançasse.
-E se acredita que não pode me corresponder, se me tirou de seu coração, se o tiver feito, então eu...
-Shh - silenciou-o apoiando uma mão sobre sua boca cálida - Não diga nada, mais - murmurou com os olhos cheios de lágrimas - Amo-te, Hugh De Claire, amei-lhe desde que tenho uso de razão. Habitou em meu coração desde que era uma menina e me condenou a lhe querer. Não posso nem quero lhe tirar de meu coração, porque você é meu coração, minha vida e meu fôlego.
-Anne! - Abraçá-la foi fácil, mais fácil do que seria soltá-la daqui ao resto da eternidade. Enterrou o rosto contra seu peito afogando um gemido - Esteve a ponto de me deixar louco! - finalizou, e posou a boca em seus lábios.
Anne estremeceu. Felizmente, Hugh a mantinha abraçada, rodeada a seu corpo com seus poderosos braços, porque, se não fosse assim, nada lhe teria impedido de elevar-se ao céu. Hugh a amava! Aquelas três palavras se repetiam em seu coração. Toda sua vida, sua completa existência estava destinada a esse momento. Ele selou seus lábios com um beijo, outro e outro.
-Hugh. - Pronunciou seu nome com reverência. Fechou os olhos apoiando sua testa sobre a dele, enterrando seus dedos nas densas ondas douradas de seu cabelo. - Valeu a pena.
Ele estendeu uma mão sobre suas costas empurrando-a levemente entre suas pernas.
-O que? - perguntou distraidamente beijando lentamente o oco de sua clavícula.
-Isto. Você e eu. Você - disse alternando cada uma de suas palavras com um beijo.
Suas bocas voltaram a encontrar-se para um beijo urgente. Hugh lambeu seu lábio inferior com a ponta da língua, penetrando em seu interior com um suave bater de asas. Anne emitiu um gemido, uma inconfundível boas-vindas, enquanto respondia a seus embates. Hugh curvou uma mão sobre suas nádegas atraindo-a a seu colo. Continuou beijando-a, fazendo-a arder com sua paixão. Ela se apoiou desfalecida sobre os largos ombros incapaz de sustentar-se. Hugh lhe percorreu o pescoço com beijos urgentes.
-Hugh? - Ele se deteve para elevar até ela um olhar escuro, transbordante de desejo, que a deixou sem fôlego.
Anne beijou com os lábios a abertura de sua camisa deixando um rastro de beijos sobre seu peito. Seu pêlo dourado lhe fez cócegas no nariz. Em seu pescoço estava pendurado um pequeno objeto de ouro. Seu crucifixo reconheceu tomando-o entre seus dedos.
-Levei-o perto de meu coração todo este tempo - reconheceu beijando-o com reverência - E me deu sorte. Muita sorte.
Os olhos da moça se encheram de lágrimas.
-Oh, Hugh! - Obrigou-lhe a inclinar a cabeça para lhe dar um beijo profundo. Depois, farejou com deleite lambendo o oco criado entre sua mandíbula e seu pescoço. Inclinou-se entre suas pernas retomando o caminho descendente que desenhava seu pêlo, deslizando-se sobre seu estômago plano, tabelado por fortes músculos abdominais.
Um respiro ofegante e desigual surgiu de sua garganta quando a boca da moça alcançou seu umbigo.
-Já te beijaram alguma vez aqui? - perguntou ela elevando seus olhos enquanto pinçava ali com a ponta da língua. Ele negou com a cabeça antes de fechar os olhos. Anne reparou na sensualidade de seus traços. Os densos cílios acariciando suas maçãs do rosto enquanto seus lábios entreabertos deixavam escapar sua respiração ofegante - Então, sou a primeira - afirmou com complacência chupando e mordiscando sua pele.
Hugh abriu os olhos para lhe dedicar um sorriso lento.
-Querida, é primeira em muitas coisas - disse com voz rouca enquanto suas mãos se deslizavam brandamente sobre seus magros ombros procurando a abertura de sua roupa.
Anne apoiou os braços sobre suas coxas de aço. Acariciou-lhe o marcado contorno de seu quadríceps terminando a carícia em seus joelhos. Podia um homem ter joelhos bonitos? Hugh sim. Voltou a lhe beijar o estômago roçando seu ventre com seu peito inconscientemente. Um murmúrio escapou dos lábios masculinos obrigando-a a elevar de novo o rosto.
-Você gosta?
-Mata-me.
-Parece mais vivo que nunca - assinalou enquanto seus dedos roçavam timidamente a frente de sua calça. Sua masculinidade pulsou sob o tecido ansioso por um contato mais profundo. Anne posou sua boca sobre seu colo sentindo-se perversa por isso. Hugh fechou suas mãos em torno de seu pescoço acariciando sua mandíbula com os polegares.
-Anne! - Seu nome escapou como um assobio de sua boca.
-E aqui lhe beijaram? - perguntou ela apoiando o queixo sobre o os cordões.
-Mãe de Deus! Que tipo de pergunta é essa?- grasnou.
Sua reação impressionou a jovem. Ver gemer e retorcer-se a aquele deus grego por uma simples carícia sua a fazia sentir-se poderosa. Deixou de lado o acanhamento e voltou a inclinar-se para beijá-lo "ali".
-Já te beijaram aqui? - insistiu lambendo um dos cordões que fechavam sua calça.
As fossas nasais de Hugh se incharam quando ele inspirou profundamente.
-Sim – reconheceu - Mas nunca... Eu nunca o havia sentido assim - chiou. Era um milagre que pudesse dizer mais de duas palavras seguidas.
Anne guardou sua decepção. Obviamente, tinha havido outras mulheres. Era lógico que nenhuma resistiu a explorar seu magnífico corpo. Deslizou um dedo sobre o nó de sua calça. Um só puxão serviu para desfazê-lo. Continuou puxando até que os extremos da calça de abriram de ambos os lados de seus quadris. Abraçou-lhe o torso para beijar suas costelas por debaixo de sua camisa solta. Hugh permanecia tenso, com a respiração contida enquanto se perguntava uma e outra vez se ela se atreveria...
Anne tomou fôlego. O coração ia muito rápido, como se tivesse subido as escadas a grande velocidade. Atreveria-se? A pergunta pulsou insistentemente em sua cabeça. Inclinou-se para lamber seu estômago, fechou os olhos e deixou que seus lábios a guiassem. E eles sim se atreveu...
Hugh tinha a carne tensa, uma estranha mescla de dureza e suavidade, notou deslizando seus lábios ao longo de seu membro. Hugh elevou os quadris ligeiramente para puxar para debaixo sua calça lhe permitindo um melhor acesso a seu corpo.
-Não pare, por favor! - suplicou quando ela se deteve um instante para lhe observar fascinada.
Seu ofegante tom lhe agradou. Havia algo perverso em ter um homem como aquele a sua mercê. Fechou os lábios em torno dele deslizando sua língua sobre seu extremo, tal e como ele tinha feito essa mesma manhã, nas adegas. Como ele, procurou o ritmo adequado percorrendo-o em sua totalidade com os lábios, com sua língua. Hugh lhe ajudou na tarefa com urgentes indicações.
-Assim, mais depressa Oh, Deus! Sim! - Respirou deixando-se cair sobre o colchão.
E Anne continuou lhe demonstrando a devoção que sentia por seu corpo. Continuou lambendo, beijando-o, absorvendo-o até que a respiração de Hugh se tornou em uma série irregular ofegante. Então, deteve-se sustentando com uma mão. Dedicou-lhe uma última lambida antes de subir sobre o leito e lhe lançar um olhar travesso.
-O que? - perguntou ele abrindo os olhos desorientado.
Anne lhe dedicou um sorriso enquanto sua cabeça descia sobre seu peito para apanhar com seus dentes um de seus mamilos.
-Poderemos acabar com isto quando aceitar minhas condições - disse apoiando o queixo sobre seu peito.
-Bom Deus, mulher! Quer me matar? Aceitaria se o mesmo diabo assim me pedisse.
-Olho por olho... - cantarolou ela acomodando-se sobre ele sem lhe importar que as saias se enrugassem em torno das coxas.
-É uma mulher vingativa - grunhiu ele posando ambas as mãos em seu traseiro para empurrá-la contra seu membro latente, mas as capas de roupa impediram qualquer aproximação íntima - Felizmente, sou um homem de ação. - E dizendo isto, girou sobre si colocando-a embaixo dele. Elevou-se sobre os braços para desfazer-se de sua camisa e puxou sua calça até que estas acabaram descartadas em um enrugado monte de roupa sobre o chão.
Havia algo mais pecaminoso que estar vestida enquanto Hugh permanecia completamente nu?
Hugh apalpou sob suas roupas até achar a liga de suas meias de linho, deslizou-as para baixo com ambas as mãos e se posicionou entre suas coxas com movimentos urgentes. Guiando-se com uma mão fez com que o extremo de seu membro acariciasse os cachos úmidos.
Anne se agitou debaixo dele. Ofegou quando Hugh a penetrou ligeiramente. Suas mãos se deslizaram sobre a amplitude de suas costas, desceram até sua cintura para ancorar-se sobre os músculos tensos de suas nádegas.
Ele emitiu um som, metade risada, metade gemido ante suas pressas.
-Me rodeie com as pernas - indicou desterrando qualquer demonstração de jogo. Aguardou a que ela obedecesse para lançar uma profunda estocada em seu interior penetrando-a por completo. Ambos gemeram de uma vez. Hugh fechou os olhos deixando que as sensações fluíssem por seu corpo. Passou uma eternidade desde a última vez - disse com a mandíbula apertada em seu esforço por conter-se.
Anne se arqueou embaixo dele lhe dando abertura seu interior. Sentia-a tão perfeita, tão incrivelmente cálida... Começou a empurrar em seu interior.
-Ohh! - gemia Anne.
Hugh notava suas mãos deslizando-se ansiosamente sobre suas costas, lhe arranhando, lhe obrigando a mover-se. Apertou os dentes aprofundando nela até que ambos os corpos ficaram completamente acoplados.
-Anne!
Ela elevou o rosto para lhe beijar.
-Não pare, não agora - suplicou elevando os quadris. Hugh passou uma mão atrás dela para sujeitá-la. Manteve-a elevada desse modo enquanto continuava movendo-se em seu interior.
-Aah! Sim! - ofegava ela arqueando-se embaixo ele.
Hugh afundou o rosto em seu pescoço para mordiscá-la incrementando o ritmo de seus embates.
Anne se sentiu arrastar. Fechou os olhos emitindo um gemido. O prazer estalou entre suas pernas incrementando-se até o intolerável quando Hugh se deslizou ao longo de seu canal em um movimento profundo que a encheu.
-Aaahh!
Hugh murmurou algo que ela não pôde entender. A força de seu orgasmo concentrava agora todas suas energias. Boquejou em busca de ar completamente exausta deixando-se balançar pelas investidas de Hugh. O tempo deixou de existir enquanto ficava suspensa em um nada.
Hugh fez um último movimento antes de desabar-se sobre ela, estremecendo. Seu corpo se diluiu nela enchendo-a de sua semente. Ofegava empapado de suor com o rosto voltado sobre o colchão, incapaz de nada mais que não fosse tentar recuperar o fôlego. Conseguiu arrastar-se sobre Anne e tombar-se a um lado para não esmagá-la.
-Não sei como o faz, mas sempre consegue melhorá-lo - soprou entrecortadamente passando uma mão pelo cabelo. Depois de uns minutos a olhou apoiado em um cotovelo - Ah, ah! Eu gosto assim - disse retendo sua mão em um punho quando ela tentou cobrir o corpo. Levou sua mão para os lábios para beijar seus nódulos. Olhou-a nos olhos, cheio de devoção - Amo-te - sussurrou esticando uma mão para afastar um escuro cacho de sua têmpora. Aproximou-lhe o rosto até que seus narizes se tocaram - Amo-te - repetiu-. Deus, não pode imaginar quanto!
Gostava de como lhe que dizia isso. E também gostava do desespero que se detectava em sua voz. Amava-a. Hugh a amava.
Elevou os braços para ele cobrindo-se no oco de seu braço. Repousaram assim, um junto ao outro, em silêncio, escutando o pulsar de seus corações. Hugh brincou com sua mão lhe mordiscando a parte interna do pulso.
-Quer saber por que veio Lorde Morgan a me visitar? - perguntou Anne depois de um momento.
Ele elevou uma sobrancelha castanha com desdém.
-Para costurar as barra da saia?
-Não, tolo. - Ela riu tentando liberar-se quando ele ameaçou lhe cravar os dentes.
-Tolo? Começava a tomar carinho por Lorde Bastardo.
O rosto da jovem se iluminou com um sorriso.
-Esse título sempre lhe pertencerá - disse lhe beijando uma de suas bochechas - Agora, quer que lhe explique sobre Morgan?
-É necessário? Não, está bem. Escuto-te.
-Eu lhe chamei. Esta manhã, tive uma conversa com Lady Botwell sobre você, quer dizer, sobre nós.
-Isto fica interessante - murmurou lhe lambendo a gema de um dedo - Continue.
-Ela me abriu os olhos a certas coisas, coisas que sempre tinham estado aí, mas que nunca tinha visto.
Hugh a incentivou a prosseguir com um olhar interrogante.
-Desde que era uma menina minha mente lhe recordava como um campeão. Os anos aumentaram suas qualidades até lhe converter em um homem irreal. Em meus sonhos lhe via como o perfeito cavalheiro, capaz de tudo, incapaz de um engano. Idolatrei-lhe comparando-o inconscientemente com meus outros pretendentes. Depois, quando reapareceu em minha vida jogou por terra todas minhas lembranças, relegando aquele brilhante cavalheiro em meus pensamentos. Apaixonei-me por você, de seus defeitos e virtudes... - deteve-se franzindo o cenho - Quando acreditei que estava morto sofri sua perda como se me tivessem arrancado o coração. Percebi o quão perigoso podia ser lhe amar. Não desejava sofrer, não desejava sentir. Têm o poder de me destruir, um poder que nenhum outro possui. E quando esse ancião me disse que Enjoe...
-Um momento, o que tem que ver ela em tudo isto?
-Seu pai disse que... Disse que estava na natureza do homem ser infiel, que você e ela...
-Nunca houve um eu e ela. Quero-te e não quero estar com nenhuma outra que não você seja. Esta fome só pode ser satisfeita contigo, Anne, com nenhuma outra - declarou com veemência.
Vale, aquela declaração merecia um suspiro e um beijo, pensou lhe roçando os lábios. Sua língua degustou seu sabor, o sabor de seu fôlego em seus lábios.
-Mas, eu não sabia que me amava. Nunca me disse isso - sussurrou tragando-se seu fôlego.
-Não podia fazê-lo até que meu futuro não se esclarecesse. Não queria te prender a mim quando não sabia se ia viver ou morrer.
-Acreditava que uma vez que retornasse este matrimônio acabaria por lhe pesar - reconheceu aflita.
Hugh se elevou sobre ela. Sujeitou-lhe o queixo com uma mão com uma expressão solene no rosto.
-O que aconteceu na Torre não era indicio o bastante de meu amor por ti? Fui eu quem propôs a Enrique levar o cabo esse maldito plano de retornar a Amsterdã. Queria ter um futuro para lhe oferecer antes de declarar meu amor.
Os olhos cinza brilharam de emoção.
-De verdade?
-De verdade - murmurou ele em sua boca. Anne se aproximou de seu corpo. Quando o tinha assim, nu e ao alcance da mão, era incapaz de concentrar-se em nada mais.
Hugh deslizou uma mão sob sua saia medindo a parte superior de suas meias.
-E Morgan? - interrogou arrastando as meias perna abaixo com sua mão.
Ela inspirou fundo tentando concentrar-se em sua pergunta.
-Eu... Chamei-o através de um mensageiro. Queria lhe pedir algo.
Aquilo chamou a atenção de Hugh, que elevou o rosto para olhá-la interrogante.
-Sabia que viajaria a Roma em missão diplomática. Pedi-lhe que intercedesse por mim ante a Igreja, queria que dissesse que desejo seguir sendo sua esposa.
-Quer dizer que já não sou impotente?
-Ninguém acreditou nunca - suspirou ela.
-Alegra-me sabê-lo, temia ter que recorrer aos guardas da torre para que declarasse a meu favor a respeito da consumação de nosso matrimônio.
-Eles não poderiam saber...
-Oh, sim! Claro que poderiam. Nenhum homem poderia ficar preso contigo em uma mesma cela sem tentar entrar sob suas saias ao menos cem vezes ao dia.
O rubor de suas bochechas se incrementou ante o zombeteiro olhar ambarino.
-Diz para me mortificar - balbuciou.
-Pode ser - reconheceu ele com um grande sorriso que fez com que o coração da jovem se acelerasse. Voltou a beijá-la enquanto suas mãos trabalhavam com rapidez tentando tirar suas roupas. Conseguiu desfazer-se de seu vestido e se retirou um instante para observá-la em roupa interior.
Anne acariciou com um dedo a cicatriz de seu rosto enquanto ele a despia com movimentos lentos, quase estáticos.
-Descobri que há algo pior que o medo ou a dor e é não sentir nada. Você me faz sentir, Hugh, faz com que meu coração esteja vivo. Quero-te.
-Apesar de meus defeitos? - murmurou sobre seus lábios.
-Graças a eles. - Suspirou atraindo sua boca para seus lábios. Enredou uma perna em torno de seu quadril e apoiou um pé sobre uma de suas nádegas. Hugh se acomodou sobre ela e deslizou uma mão ao longo da perna que o envolvia.
-Tem fome? – perguntou a penetrando ligeiramente.
Anne emitiu um som de surpresa pela audaz aproximação.
-Não - grasnou lhe fazendo esboçar um sorriso.
-Bem, este é o plano: passaremos os próximos trinta anos fazendo amor, de todas as maneiras possíveis, aqui, você e eu - murmurou capturando sua boca.
E ela não protestou, porque isso era precisamente o que desejava.
Epílogo
Norfolk, 1506
As cigarras emitiam seu canto do verão enquanto o sol brilhava sobre um céu intensamente azul. Uns metros mais à frente, o alvoroço dos gritos infantis se unia ao da corrente do pequeno riacho.
Anne inspirou profundamente o reconfortante aroma de feno recém talhado tombada sobre a erva com os olhos fechados. Aquele aroma formava parte de sua infância em Norfolk. A seu lado, Margaret observava atentamente os perigosos jogos de seus filhos na água. Fazia um calor impróprio nessas terras. Aquele tinha sido o motivo pelo qual, as duas damas tinham procurado refúgio sob os densos ramos de uma árvore e pelo qual os meninos se achavam agora com poucas roupas e até a cintura na água do riacho. A duquesa gritava de vez em quando alguma ordem do tipo "Adrián, solte seu irmão!" ou "Darius, não afogue Harry", enquanto Anne sorria.
-Oh, já verá quando tiver os seus! - grunhiu a duquesa ante seus sorrisos.
Anne franziu o cenho ligeiramente. Hugh tinha tomado cuidado de não deixá-la grávida em seu primeiro ano de matrimônio, mas suspeitava que isso tinha terminado há um mês depois das ardentes noites de prazer nos braços de seu marido. Acariciou o ventre plano escondendo um sorriso.
-Um pequeno diabo de olhos dourados não estaria mau! - opinou Eugen que, sentado sobre a erva, trançava com esmero um arranjo floral, uma coroa de margaridas que colocou sobre a cabeça de Lady Juliet, a filha menor dos duques, que em seu ano e meio de vida se aferrava hesitantemente ao ombro do "escudeiro"- Verdade que não? Verdade que você se casaria com ele? -cantarolou à menina de cabelos castanhos. Os enormes olhos infantis se elevaram até ele.
-Olha - disse com simpatia.
Eugen a estreitou entre seus braços.
-Não é a menina mais bonita deste mundo, minha pequena Lady Juliet? - dizia beijando as gordinhas bochechas.
Anne se incorporou sobre a erva para lhes observar melhor. Eugen seguia mantendo um aspecto infantil apesar do passar dos anos. Seu cabelo intensamente vermelho contrastava com a palidez de sua pele. Tinha consolidado sua posição às ordens da duquesa por muito que pesasse a Adrián. Juliet se debatia por liberar-se entre seus braços, ansiosa por escapar de suas excessivas demonstrações de amor e, uma vez que conseguiu, adiantou-se uns passos em sua direção.
-Olha! - exclamou olhando-a com seus impressionantes olhos cor anil.
Avançou até se deixar cair em seu colo e Anne a embalou entre seus braços.
-Têm idéia de quando retorna Adrián e Hugh? – perguntou Margaret esticando as pernas sobre a erva.
-Levaram seus assuntos com muito mistério, nem sequer tive oportunidade de perguntar aonde foram. Só sei que esta manhã, quando despertei, Hugh não estava.
Eugen elevou até ela um olhar divertido.
-Pergunto-me o que lhe levou a dormir tão profundamente.
As bochechas da jovem se alagaram de um profundo rubor que escondeu atrás da inquieta cabeça de Juliet.
-Eu não me preocuparia muito - continuou Eugen assinalando para a colina da colina - Parece que seu cavalheiro não pode estar muito tempo longe de você, algum dia deverá nos explicar o motivo de tal devoção - acrescentou com certa inveja.
Anne se voltou na direção assinalada. Hugh coroava nesse momento o topo da colina a lombos de seu cavalo. Os prodigiosos cascos do garanhão arrancaram a erva a seu passo quando Hugh o apurou com um golpe de joelhos. Anne colocou uma mão sobre o rosto a modo de viseira para poder lhe observar melhor.
Seu coração se contraiu ante tão fabulosa visão. Os raios do sol se refletiam sobre o colete metálico de sua armadura intensificando a cor dourada de seus cabelos.
-Santa Maria! - ofegou Eugen impressionado com a imagem. O que faz esse homem para ficar tão bonito?
Anne sentiu um golpe de possessivo prazer. Aquele deus grego era dela, seu por completo, Hugh sempre encontrava uma e mil maneiras de fazê-la saber.
O trote do cavalo se reduziu quando cruzou o pequeno prado lhe oferecendo uma imagem única. Ali estava o cavalheiro de seus sonhos! De carne e osso! Não brandia nenhuma espada, nem montava um corcel branco, mas era mil vezes mais maravilhoso assim.
-Não esteve muito tempo fora - saudou quando Hugh se deteve por fim a escassos metros do grupo.
Dedicou-lhe um sorriso radiante, inteiramente para ela.
-Senti sua falta. Quer dar um passeio? - ofereceu assinalando a garupa do animal.
-Deixa provar eu De Claire - gritou um dos meninos da água.
-Em outra ocasião - gritou ele sem separar o olhar da jovem.
Anne sentiu que seu coração se elevava até o céu. Ficou em pé e caminhou até ele. Hugh se inclinou agilmente para colocá-la sobre a garupa do cavalo em um só movimento. Dirigiram-se para a colina enquanto Hugh a rodeava com seu antebraço. Seu punho fechado em torno das rédeas de couro se apoiou intimamente em uma de suas coxas.
-Me dê um beijo - exigiu a seu ouvido enquanto a suave brisa enredava os longos cabelos de sua esposa em seus ombros.
Ela se retorceu sobre a garupa para deixar cair um rápido beijo em seus lábios.
-Só isso? – interrogou decepcionado.
-Tenho muito medo de acabar sob os cascos para tentar algo mais arriscado - grunhiu ela apoiando a cabeça sobre seu ombro.
Continuaram cavalgando através de campo aberto, coroando colinas, cruzando gargantas. No horizonte, o sol estival decaía lentamente provocando um fulgor alaranjado.
Em um dado momento, Hugh parou no alto de um morro para assinalar à frente um denso arbusto.
-Vê isso? - perguntou apoiando a boca na curva que unia seu pescoço e ombro.
Anne assentiu levemente.
-No próximo ano, começaremos a comercializar nossa própria cerveja. Uma mescla especial de malte e lúpulo. Wentworth quis participar do negócio nos provendo de seu grão. Quer convencer a Enrique para que sirvam nossa cerveja nos banquetes da corte.
Anne se voltou para ele com alegria. Em sua vida conjugal Hugh a tinha surpreendido de muitas e diversas maneiras, mas a mais grata tinha sido aquela, fazendo-a partícipe de todas e cada uma de suas empresas, de seus êxitos e seus fracassos.
-Estupendo! - Riu lhe jogando os braços ao pescoço. Com um suspirou-se segurou entre seus braços - Olhe! - disse assinalando o pôr-do-sol.
Hugh apoiou o queixo em sua cabeça. Inspirou profundamente enchendo os pulmões com as fragrantes essências estivais.
-Quero-te - sussurrou estreitando-a intimamente entre seus braços.
Anne se endireitou repentinamente.
-Repita isso.
-Quero-te.
Um sorriso radiante iluminou os olhos cinza. Em certa ocasião, tinha sonhado com esse momento.
-Sonhei com este momento faz tempo, cavalgávamos por um campo aberto, com o sol se pondo e você me dizia isso mesmo em meu sonho - afirmou elevando o rosto para ele.
Hugh curvou uma sobrancelha, divertido.
-E fazia ou dizia algo mais nesse sonho?
Ela franziu o cenho encantadoramente.
-Não - reconheceu inocentemente.
-Então, posso melhorá-lo - grunhiu, e depois desmontou com um salto e estendeu as mãos em sua direção.
-O que lhe parece montar um corcel mais brioso? - resmungou arrastando-a ao chão.
Anne riu de seu ímpeto.
-Hugh, pare, não podemos fazê-lo... Aqui.
Ele esboçou um sorriso colocando-a em cima.
-Oh, sim! Claro que sim - afirmou passando uma mão em baixo da singela blusa de uso camponês que ela vestia.
O calor de sua mão rodeando seu peito arrancou um gemido afogado na jovem.
-O que tem sobre sua irmã? - conseguiu pronunciar tentando lhe distrair.
Hugh se dobrou sobre si mesmo para beijá-la.
-Mandei um grupo de homens em sua busca – pronunciou - O convento está há dez dias a cavalo. Poderemos nos encontrar com ela na metade de caminho.
-Isso eu gostaria - comentou, distraída pelos movimentos dessa mão sob sua blusa. O gesto fez com que Hugh esboçasse um sorriso triunfal.
-Farei com que sua irmã... Esteja tão... Cômoda entre nós que não deseje retornar ao convento. Hugh! - finalizou com uma exclamação quando ele conseguiu avançar ao longo de sua coxa com uma lânguida carícia.
-Quer continuar falando de minha irmã ou prefere que continue com isto? -interrogou martirizando-a com uma nova carícia.
Ela emitiu um gemido afogado. Perguntou a si mesma se poderia distraí-lo anunciando sua gravidez, mas desprezou a idéia com rapidez. Poderia fazê-lo depois, quando ele a tivesse feito desfrutar intensamente de seu "sonho".
-Continua...
Fim
NOTA DA AUTORA
Alguns dos personagens que aparecem nesta novela foram reais, é o caso do Thomas Savage (Arcebispo dos York) ou o regente da Torre de Londres, William Kingston, curiosamente casado em segundas núpcias com uma jovem chamada Anne.
Por outra parte, o sistema de canais da cidade de Amsterdã não se criou tal e como o conhecemos até uns anos depois ao transcurso desta história, sob a regência de Margarida da Áustria, tomei-me a licença de "me adiantar" no tempo.
Certamente, a Torre de Londres albergou prisioneiros de renome cujas celas podiam considerar-se verdadeiras "suítes", com serviço de empregados e serventes incluídos.
CAROLINE BENNET.
Caroline Bennet nasceu na Astúria há trinta e quatro anos.
Diplomada na RRLL, mas sua vida trabalhista gira entorno a administração, na atualidade, ocupa o posto de secretária de direção em uma agência de publicidade. Seus interesses são muitos e variados: como boa asturiana adora uma boa mesa, gosta dos passeios longos de outono ou as escapadas à praia no verão, cinema, teatro... e gosta de escrever, mais que como um hobby como uma necessidade, "sou escritora vocacional e nem sequer me lembro quando comecei nisso".
Sua paixão pela novela romântica a levou a decidir-se a escrever suas próprias histórias. Participou de vários concursos literários e deleitou com suas preciosas histórias suas admiradoras nos foros de Internet sobre o gênero. Mas foi o selo Valery o que apostou por ela publicando seu primeiro livro A dama e o dragão.


SAGA CORAÇÃO 02
O CORAÇÃO DA DONZELA
Caroline Bennett
Tradução e Pré-Revisão: GISELDA Revisão Inicial: Márcia de Oliveira Revisão Final: Silvia Helena Formatação: Cris Skau Acusado falsamente de assassinato, Hugh de Claire aguarda sua morte em uma escura masmorra da cidade de Amsterdã. Quando todas suas esperanças de redenção se desvaneceram recebe um trato que não poderá recusar embora isso implique casar-se com Anne, aquela irritante menina que ele estava acostumado a chamar "menina".

Informação da saga
01 - A Dama e o Dragão – Distribuído RS & RTS
02 - O Coração da Donzela – Distribuído PL
http://br.groups.yahoo.com/group/Amo_ Romances_HOT
Link do Blog Pegasus Lançamentos
http://pegasuslancamentos.blogspot.com
Link da Lista de Revisão
https://spreadsheet s.google. com/ccc?key= 0AgtwrWSDY_ IedGhMVC 05ZHQybUNpSWo5dUpNU XpZX0 E&hl=pt_BR
http://br.group. yahoo.com/ group/Pegasus_ Lancamentos
Quem quiser ajudar com tradução, revisão, formatação ou banners, basta clicar no endereço acima.


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