sábado, 4 de setembro de 2010 By: Fred

PL E TIAMAT APRESENTAM - SAVANNAH RUSSE - AS CRONICAS DE DARKWING 01 - BEYOND THE PALE


Crônicas de Darkwing




Livro 1



Beyond the Pale
de
Savannah Russe

Disponibilização em Espanhol: NovelVampire
Envio: Safira
TRADUÇÃO: Giselda / Safira
REVISÃO INICIAL: Ady Miranda
REVISÃO FINAL: Fabrícia
FORMATAÇÃO: Ady Miranda



Índice




Argumento…………………………..004
Capitulo 01…………………………..005
Capitulo 02…………………………..018
Capitulo 03…………………………..033
Capitulo 04…………………………..049
Capitulo 05…………………………..069
Capitulo 06…………………………..087
Capitulo 07…………………………..103
Capitulo 08…………………………..111
Capitulo 09…………………………..140
Capitulo 10…………………………..156
Capitulo 11…………………………..171
Capitulo 12…………………………..189
Capitulo 13…………………………..206
Capitulo 14…………………………..217
Capitulo 15…………………………..231
Capitulo 16…………………………..250
Capitulo 17…………………………..266
Capitulo 18…………………………..272
Prévia do próximo livro.....………..275












Comentário da Revisora Fabrícia: A personagem principal de livro, apesar de ser uma vampira com mais de 500 anos, é uma mulher moderna, com todas as dúvidas e vícios dos nossos tempos,o mocinho, quando está com ela, é um cara meloso, romântico. Um livro com pouca ação uma vez que se trata de um livro de espiões...

Argumento



A vampira Daphne Urbano escapou da morte, fazendo seu papel perfeito, como espiã para a Equipe Darkwing. Sua primeira missão é aproximar-se de um comerciante de armas inescrupuloso. Mas quando Darius, um sexy assassino de vampiros, começa a perseguí-la, ambos se debatem entre o desejo e o dever. Original. Mas sua ágil jovem presa é também sua última tentação...







Capítulo 1
O Tio Sam quer me ver?

Eu estava entre as relações, 180 e alguns anos entre as relações, para ser exata. Não longos beijos doces, não "Eu te amo", sem gemidos de êxtase ou a liberação de arrepios desde a rebelião grega contra os otomanos Turcos. Havia sido um pouquinho mais de uma temporada de seca. Chamei-a "O Sahara" quando cheguei a ela com minhas amigas. Alguém pensaria que já estaria acostumada a uma existência solitária no momento. Depois de tudo, ser uma mulher vampiro tende a desalentar as relações a longo prazo porque, inclusive, uma aventura casual pode ter consequências graves.
Por isso, minha última aventura quase me mata, literalmente.
O que me pôs fora de tudo isso, de compromisso homem-mulher, foi em 1824, quando eu era uma beleza de cabelos escuros em Missolonghi. O assunto tinha todo o potencial para ser um grande amor, um para os livros de história. Logo, praticamente, da noite para o dia, terminou mal. Não, isso é um eufemismo. Para dizer a verdade, terminou tragicamente.
Falando a verdade, deixe-me dizer-lhe, não acredite nem por um momento na história de que o grande poeta e revolucionário George Gordon, Lorde Byron, morreu de uma febre. Não posso crer que o público o comprará, mas claro as pessoas acreditaram em Nixon quando disse: "Eu não sou um delinquente". A verdadeira causa da morte de Byron foi uma mordida de amor que saiu mal, se infectou, para ser medicamente exata. Recordo o incidente como se fosse hoje...
Nós dávamos um passeio de mãos dadas, perto da pousada onde ele havia estabelecido sua residência temporária. Entramos no jardim de rosas, arduamente criado pelo dono da pousada, nos arredores desta cidade cheia de mosquitos. Essa não foi a primeira vez que andávamos por ali, mas foi a última. Esse dia de Abril se havia desvanecido em uma bruma púrpura a ponto de converter-se em uma noite negra aveludada. Uma ligeira brisa agitou a folhagem; o ar estava pesado com o aroma das flores.
- Fale-me mais a respeito de Londres, George. – Disse, abanando-me febrilmente e não só pela cálida temperatura. – Sente falta? É difícil estar tão longe das festas? – Assegurei-me de que caminhava muito perto dele, minha respiração tal qual uma pétala de flor acariciava sua bochecha.
- As festas são uma distração agradável à solidão mais aterradora de um poeta. – Disse vagamente. Então olhou fixamente para o Golfo de Patras, deitado e imóvel no oeste. Um barco estava ancorado longe da costa. Eu facilmente podia distingui-lo entre as ondas dispersadas de prata que saltaram e agarraram a última luz. Não sei se Byron viu o barco, mas acredito que sim. Flutuava ali no ponto de partida de uma viagem longa, as sombras de seus mastros se estendiam para o leste no sol poente.
- Então, por que você saiu de lá? – Perguntei-lhe. Sua cara ficou voltada para o golfo, quando respondeu.
- Me cansei de escutar os músicos contratados, atrás de uma fileira de palmeiras artificiais, em lugar do instrumento único, as puras cordas do meu coração. Sabia que era hora de ir-me.
Vendo-lhe de perfil, sua cara, inexplicavelmente triste, eu não podia manter meus olhos nele. Byron tinha uma ampla testa, lábios sensuais, pestanas longas e escuras sobre os olhos. Era tão finamente talhado como um deus grego, certamente ele tinha um aspecto melhor em seus retratos, que acredito lhe fazem parecer gay. Na vida real era um homem sem dúvidas, a testosterona transbordando, cheio de energia, ativado por assumir riscos.
Admito o que eu via de perto, suas roupas sujas de poeira e sujeira enegrecida na parte interna de seu pescoço. Linhas profundas saiam de seus olhos, sua pele estava pálida e seca. E quando ele se fatigava, seu pé torcido doía, aumentava a sua claudicação. Ultimamente George se via especialmente cansado, dissoluto de haxixe demais e mulheres demais. Ainda assim, tão pouco na vida parece tão agradável nas luzes brilhantes e no frio escrutínio, como isto faz sob a luz das velas e os olhares quentes trocados sobre os vidros de vinho.
Byron estava esta noite incrivelmente bonito. Eu estava encantada. Eu tremia por estar ao seu lado. Ele podia ter tantas mulheres, ele havia tido tantas mulheres, mas durante as últimas semanas, ele havia querido a mim, só a mim. No entanto, tinha horas que parecia muito distante em seus pensamentos, cruzando alguma geografia interior de sua mente.
- Não vamos falar da Inglaterra. Falar me aborrece, - disse. – Estou muito mais interessado nisto. – Ele aproximou seu rosto do meu, beijou-me com força e por muito tempo, sua boca tinha o sabor do vinho. Quando se deteve, ele olhou-me nos olhos. – Ela caminha na beleza, como a noite, - recitou, - dos climas sem nuvens e céus estrelados... – Eu quase desmaiei.
Este homem, duro e faminto, tinha chegado a lutar pela independência Grega. Ele era um herói. Eu estava aniquilada. Estava quente. Eu era coquete. Ele tinha trinta e seis. Eu um pouco mais de 274.
- Daphy, - disse, - vamos, coisa doce, me dê um pouco. Você sabe que quer. OH, sim, eu queria! Eu ri e lhe permiti mover a longitude de seu corpo contra mim. Conhecia sua reputação e eu sabia o que ele procurava, mas não me importava. Ele gemeu e sussurrou com uma voz rouca e baixa.
- Menina, você vai ser a minha morte. Já se passou muito tempo desde que eu desejei tanto a uma mulher. Há alguma coisa sobre você... algo... algo louco, mau e perigoso para conhecer. – Ele pegou a minha mão. À medida que se entrelaçavam nossos dedos, seu anel mordeu minha carne. A sensação me fez estremecer. Ele me levou a um banco, colocou um braço ao redor de minha cintura. Ainda recordo a sensação dos músculos duros de seu antebraço, através da fina seda de minha blusa. Eu não o detive. Sua boca era como seda ao baixar seus lábios em meu peito agitado.
Meu sangue estava correndo, minha cabeça girava, e foi então que a lua iluminou a pele branca na parte posterior de seu pescoço. Não pude resistir. Eu queria, eu tentei, mas me deixei levar pelo entusiasmo... e eu o mordi. Perdi todo o controle, bebi demais, demasiado rápido. Ele me olhou com olhos aturdidos e logo caiu na inconsciência. Pobre George. E essa e a verdade sobre a sua morte, mas não esperes ouvir falar disso na Lit 101. Ainda me dói falar dele.
Depois de apenas escapar de Missolonghi, antes que os companheiros de Byron cravassem uma estaca em meu coração, decidi que o celibato era o curso mais sábio. Mas até eu, decidida como sou, tenho meus limites. Eu superei os lamentos. Uma menina tem suas necessidades e certamente eu tinha as minhas.
Uma das necessidades que tinha, era conseguir uma nova identidade a cada vinte anos ou menos. Os vampiros não envelhecem. É o lado positivo, nunca vou precisar usar Botox. E o lado negativo: tenho que seguir mudando minha certidão de nascimento. E assim foi como me capturaram.
A terra gira sobre seu lado escuro. Assim é o inverno.
A gente pode conseguir quase tudo em Nova Iorque. Inclusive, um vampiro pode conseguir uma identificação falsa e, quando chega o momento, todos acodem ao Sid. Empreendi uma caminhada miserável até o apartamento na Rua 9 entre as avenidas B e C. O bairro me deu calafrios. E é obvio tinha que ir depois do anoitecer. Todos nos queixamos, mas Sid só disse: - E o que quer? A Park Avenue? - Sabia que podia ser assaltada. Apenas nunca esperei o que estava prestes a acontecer...
O dia tinha sido tempestuoso, a chuva e a nevasca tomavam turnos para apedrejar as ruas e essa noite a temperatura caía direto. Enquanto caminhava penosamente subindo as escadas do metrô sobre a rua St. Marks Place, me perguntava se a primavera voltaria algum dia. Meti minhas mãos nos bolsos. O vento parecia cortar através de mim. Meu sangue tem pouca densidade. Tenho frio facilmente. E essa noite tinha um pressentimento... um muito mau pressentimento que se balançou como um verme em meu estômago. Algo não estava bem. Algo era perigoso ali fora nessa noite.
Aprendi a ouvir meus instintos, assim eu vigiava as pessoas ao meu redor, enquanto me dirigia para leste pela rua 9. Não era tarde, apenas cerca de sete horas, embora os edifícios já estivessem no escuro. As calçadas brilhavam com as luzes das primeiras chuvas.
- Maldito seja! – disse em voz alta. – Maldito seja o inferno, que puta frio! – tremi, o frio úmido se filtrava pelas solas finas de minhas botas Nine West.
Caminhei duas quadras, quando ouvi passos atrás de mim. Alguns adolescentes negros passaram rápidos e me ultrapassaram, dando-se cotoveladas uns nos outros e girando ao redor, rindo e falando em sua gíria meio dançando, a metade correu para a outra quadra. Mas isso não foi o que ouvi. Meu ouvido é extraordinariamente discriminatório.
Atrás de mim um tipo diferente de passos mantinha uma distância, um ritmo constante. O medo caiu sobre mim como uma tela negra que baixava. Passei pelas janelas de uma adivinha. Uma mulher cigana se apoiou no batente da porta, fumando um cigarro na porta aberta.
- Strega! - gritou-me e se encolheu para trás, apertando o crucifixo pendurado no pescoço.
- Puta! – Respondi-lhe, mostrando os dentes. Dei-lhe um bom susto, pareceu-me. Eu não gosto de ciganos. São todos uns ladrões.
Não diminui o passo. Queria chegar ao Sid tão rápido como fosse possível. Cruzei a avenida A, tive que fazer todo o uso de meu autocontrole, para não sair correndo. Cheguei à Avenida B. Outra meia quadra e cheguei à escada da frente do edifício do Sid. Subi as escadas de dois degraus, detive-me acima e olhei para atrás à quadra.
Um homem jovem estava no lado distante de uma quadra de basquete cercada me olhando. Eu sabia, sem dúvida nenhuma, que eram seus os passos atrás de mim. Afastou-se rapidamente. Eu não vi sua cara, mas um rabo-de-cavalo de cabelo loiro apareceu por debaixo de uma boina de cor negra. Não duvidei mais. Coloquei-me dentro de vestíbulo do Sid e toquei a campainha da porta de seu apartamento. Ninguém respondeu. O medo se desabou sobre mim nesse momento. Segui pressionando o botão.
Maldito seja! Sid, onde te encontras?
Finalmente a porta fez um ruído e se abriu. Voei por ela. Esta se fechou atrás de mim. Tomei algumas respirações profundas e tranquilizadoras. Disse-me mentalmente que me acalmasse que não era nada. O homem não era ninguém. Não tinha nada a ver comigo. Sempre me ponho ansiosa quando tenho que ver o Sid. A necessidade de conseguir uma certidão de nascimento atualizada resolvia muitos de meus assuntos. Significava que outros vinte anos tinham passado, mas seguia sendo a mesma. As pessoas que uma vez me preocupavam se foram.
Eu ainda estava aqui. Um profundo abismo de solidão se abriu dentro de mim. Sempre sou forasteira. Um monstro. Um monstro. Incapaz de ter as balizas que marcam as vidas de outras mulheres, eu joguei um manto de piedade sobre mim mesma. Entretanto, para ser honesta, não sou sozinha. Muitos de nós vemos o Sid. Muitos mais do que alguma vez você poderia suspeitar.
Aliviada de estar dentro. Comecei a subir a escada, desabotoando o casaco enquanto subia. O corredor cheirava a repolho e à urina. Nunca respiro profundamente na subida desta escada. Maldito Sid por trabalhar em tal esgoto.
A iluminação era débil. Era melhor assim. "O escritório" do Sid estava em um apartamento de vizinhança no quarto andar, o tipo que tem uma banheira na cozinha, coberta com um tabuleiro para fazer uma mesa. Ele não vivia ali. Eu nunca soube onde ele vivia, se em um refúgio para indigentes, ou Scarsdale, ou vagando por aí, nunca soube, nunca disse nada.
Quando cheguei ao topo da escada, pude ver que tinha deixado a porta de seu apartamento aberta. Abri e entrei.
- Sid? É Daphne Urbano, sua entrevista das sete e quinze. – disse enquanto caminhava por seu apartamento. A luz não estava acesa. Senti um pânico repentino quando alguém me agarrou. Jogaram-me contra uma parede e permaneci ali com uma mão entre meus ombros. Meus braços foram puxados para trás de minhas costas e o frio do aço duro de umas algemas cravou-se em minhas mãos.
- Olá, senhorita Urbano, - disse uma voz sedosa enquanto me empurrava pela sala de estar e me derrubava sobre uma cadeira de madeira dura.
- Quem é você? O que você quer? – Comecei a tremer dos pés a cabeça. De dentro de meu abrigo vinha um som como o ruído de asas esvoaçantes. Comecei a levantar-me. Um homem em um terno pôs a mão em meu ombro para manter-me quieta. Polícia, estava escrito sobre ele todo.
Em frente a mim havia outro homem. Era de meia idade, bem vestido com um terno cinza, claramente Savile Row, e recém-passado. Tinha as pernas cruzadas, pelo que pude ver, calçava sapatos Gucci, já que um sapato estava a somente cerca de dois pés de meu joelho. O homem se sentou em um dos sofás verdes do Sid, o tipo tinha braços largos e era mais baixo, tinha um perfil de bloco, muito anos 50. Seu rosto estava iluminado por um remanso de luz amarela de uma luminária de mesa. Seu cabelo grisalho era longo, mas ordenado dando-lhe um aspecto artístico. Estava barbeado. Seus traços eram regulares, mas suaves, nada notável, nada pouco usual. Tinha as unhas curtas. Ele usava um relógio de prata, suponho que era de marca. Ele todo era limpo, neutro e inodoro. A única coisa fora do comum era que a metade de seu dedo indicador havia desaparecido. No geral parecia relaxado sentado imóvel, estudando-me.
- Senhorita Urbano, - disse, fazendo contato visual comigo e não piscava em absoluto, como um lagarto ou uma serpente. – Na verdade, estivemos observando-lhe. Estávamos esperando para nos pormos em contato com você em um lugar onde tivéssemos... digamos, privacidade e anonimato, sem ser observado. Por quê? Para colocá-lo de forma simples, o governo dos Estados Unidos a quer. E tenho uma oferta que você não pode recusar. – ele apresentou um meio sorriso quando disse isso. Mas não estava sendo divertido. – Isso não é exato - completou. – Você pode recusar nossa oferta. Com certeza, pode. Assim sendo, sua negativa significaria que está cansada de viver.
- Não entendo – disse. O homem se sentou muito perto, para que pudesse sentir seu perfume. Acredito que usava Versace. Eu gosto das coisas boas. Prestei atenção a ele. Ocorreu-me que o homem queria silenciar certa pomposidade determinada sob seu aspecto normal. Nada sutil ou conservador, ele usava Versace. Ele não era o que parecia ser. Também me dei conta de que o policial junto a mim, com sua mão em meu ombro, tinha um aroma ácido como o medo. Conhecia esse aroma e sabia que ele tinha medo de mim. Mas a ideia só ondeava por minha mente como uma asa de morcego, centrada no controle de meu próprio medo. O medo é sempre o inimigo. Uma vez que floresce no pânico, a razão se perde. O cérebro primitivo assume o controle e isto é o voo ou a luta. Quais? Havia ao menos três homens nesta sala. Dois deles tinham me agarrado, e um devia estar de pé atrás de mim na penumbra da sala. Sustentava uma arma? Um revólver? Uma estaca? Algo.
Para fugir teria que chegar à porta ou à janela. Eles tentariam deter-me. Eu escolheria lutar. Ainda que presa por algemas podia lutar. Mas deveria combater? Deveria converter-me no monstro que vivia dentro de mim? Concentrei-me em minha respiração para acalmar-me e o homem sentado esperava por minha resposta.
- Senhorita Urbano, - ele disse outra vez, cravando seus olhos em mim. – Se você está pensando em escapar, não o faça. Escute-me. Sabemos quem você é, o que é. Não somos caçadores de vampiros. Não a capturamos com o fim de matar-lhe. Necessitamos de você e pensamos que você necessita de nós. Queremos oferecer-lhe uma nova vida. Uma vida melhor, nós cremos. Uma com um propósito, com um significado.
Nada do que dizia tinha sentido. Eu sempre temi o dia em que ia ser capturada. Algo como isto. Mãos cruéis agarrando-me, logo uma estaca de madeira causando-me uma dor insuportável, atravessando minha pele, rasgando minha pele, rompendo minhas costelas, e perfurando meu coração. Depois, a escuridão, a poeira, o esquecimento. Mas, o que era isto? Quem eram estes homens?
- Não entendo. O que vocês querem de mim? – Disse quando meu corpo começou a tremer. Lutei contra o impulso de transformar-me. O pânico se acercou um pouco mais. Um pouco mais e não seria capaz de detê-lo. Converteria-me em outra coisa, a coisa com presas e garras e instintos animais. A mão gorda em meu ombro se fez mais pesada, aumentando seu controle.
- Senhorita Urbano. – A voz do homem sentado, tinha uma borda de autoridade. – Quero ser o mais direto possível. Trabalho para uma agência de inteligência do governo dos EEUU. Eu sou o que eles chamam: um recrutador. Você é um vampiro. As pessoas a temem. Algumas pessoas a perseguem. Mas você é também uma mulher bonita com talentos extraordinários. Este país, esta nação está em guerra. Nossa forma de vida, nossa existência mesmo, está ameaçada por pequenos grupos de terroristas, tanto dentro de nossas fronteiras como fora delas. Eles chamam a este país de o Grande Satanás. Estes fanáticos tomam pessoas inocentes na busca de seus objetivos. Atacaram em 11 de setembro. Eles atacarão de novo e, se conseguirem, o que vão fazer vai ser pior, muito pior do que o que aconteceu em 11 de setembro. Nosso trabalho é nos assegurarmos de que não tenham êxito. Necessitamos que você nos ajude a detê-los.
"Você fala, nós acreditamos, treze idiomas e viveu em muitos países. Seu coeficiente intelectual é tão alto que é classificada dentro de um por cento das pessoas neste planeta. É forte e tem a astúcia suficiente para ter escapado à detecção e captura durante quase quinhentos anos. Srta. Urbano, você é admirável. Mais importante ainda, sua família, sua mãe para ser exato, teve uma longa participação na diplomacia internacional...
- Deixe a minha mãe fora disto, disse-lhe - meu medo retrocedeu em uma explosão de cólera repentina. – Tudo o que fez, aconteceu faz séculos.
O homem sacudiu a mão de uma maneira desdenhosa.
- Como você quiser. Meu ponto é que você está familiarizada com a intriga, tomou-a com o leite de sua mãe, por assim dizer. Você viu a traição e a mentira toda a sua vida. Você foi traída e alternadamente traiu a outros. As profundidades da depravação humana e do mal obscureceram sua alma e espírito, ainda assim, tem sobrevivido e, mais que isso, prosperou. Seus sentidos são sobrenaturais. E, oh sim, pode voar. O que queremos de você, Srta. Urbano, é que seja uma espiã. Para nós. Para a justiça. Para a bondade.
- Uma espiã? – Fiquei muda. – Uma espiã? Para os Estados Unidos? Estás de brincadeira?
- Senhorita Urbano, nunca falei mais sério. Nós a escolhemos. Podemos e o faremos terminar aqui mesmo, agora mesmo, se for necessário. Essa é sua opção de Hobson.
Você pode tomar o que estamos oferecendo ou nada em absoluto. Por nada, me refiro ao final de sua existência. Morte. Extinção.
- Quer dizer... – Disse, começando a sentir o frio, a derrota. Como o gelo em pleno inverno, me sentia frágil, sem vida e em silêncio. – Ou trabalho para você ou morro.
- Isso é parcialmente correto. – disse o homem, inclinando-se para mim. – Se você decidir trabalhar conosco... necessitamos que você queira trabalhar para nós. Acredite no que está fazendo. E isso de não morrer não é suficiente. Necessita ter um compromisso total.
Eu ri, não era um som bonito.
- Compromisso, com você? Você está me obrigando a fazer isso. Você me disse que, ou trabalho para você ou você vai me matar. Agora me diz que devo sentir que é meu golpe de sorte, uma nova carreira, a oportunidade de lutar pela verdade, a justiça e o estilo americano. – Eu ri de novo, e me pareceu quase como um soluço, minha voz, como vidros quebrados. – Quer que acredite que posso ser uma super heroína para os EUA e não mais uma vilã. Sério. Não posso mover uma alavanca dentro de mim e de repente trocar quem sou.
O homem frente a mim parecia aumentar de tamanho, emanava energia, até quase ser incandescente. Ele me mantinha com o puro poder de suas palavras, as palavras de um verdadeiro crente.
- Senhorita Urbano. Você é feliz? Alguma vez foi feliz? Encontra-se satisfeita? Sua vida tem sentido? Vou responder por você. Não. Para cada pergunta. Não. Não. Não. Não. Por quê? Porque você viveu uma vida frívola. Uma vida desperdiçada. Você não tem feito nada importante em quase quinhentos anos. Você vive para seu seguinte horário com a manicure, para ir às compras, para os sonhos românticos de amor, ou pelo prazer momentâneo do bom sexo. Se você não pode ter isso, conforma-se com o último filme no Cineplex ou vendo um episodio dos Sopranos na HBO. Você tem muito para dar. E não dá nada. Você faz – você tem feito...nenhuma diferença neste mundo. Você não está desperdiçando uma vida, está desperdiçando dez vidas ao mesmo tempo.
Não pude respirar. Senti como se tivessem me esbofeteado. Eu sabia que tudo o que ele disse era certo. Sempre soube disso. Era o que me acossava na noite. Cada vez que me permitia refletir sobre a minha existência, me sentia assustada. Sentia-me vazia. Eu não tinha nem amor, nem trabalho. Acreditava em alguns vagos ideais, mas não tinha paixão por nenhum. Não senti orgulho de quem eu era, do que havia feito. Eu estava envergonhada, desgostosa com minhas necessidades e com os atos que havia cometido. E, exceto pelo horror que havia inspirado e a dor que havia causado, não havia feito nada de importante.
Minha vida não tinha sentido. Havia pensado em dar um fim nisso? Sim. Havia pensado alguma vez acerca do compromisso? Por um curto tempo, uma vez, fazia muito tempo, tratei de ter um compromisso com um homem. Havia fracassado tão estrepitosamente que havia endurecido a couraça ao redor de meu coração. No entanto, um compromisso total com algo maior que o indivíduo, com algo maior que um eu mesmo insignificante? Para uma causa? Para um governo? Uau!
Teria problemas em identificar-me com um governo. Havia visto muitos governos irem e virem.
- Srta. Urbano. – O homem começou a falar de novo. – Acredito que é capaz de dar muito mais do que dá. Eu e vários dos meus colegas acreditamos que tem o potencial de grandeza. Nem todos os meus colegas estão de acordo. Alguns deles sentem que você é um risco. Um risco imoral e perigoso. Eu não acredito nisso. Acredito que, dada a oportunidade, pode se sobressair. Não só pode salvar sua própria alma, mas também a esta nação, uma democracia e a milhões de pessoas da dor e da morte. Não lhe estou pedindo que se comprometa com o governo, Srta. Urbano, se você pensar isso. Eu lhe estou pedindo que se entregue a um bem maior. Aos ideais sobre os que fundaram este país. À verdade que têm como evidência. Ao direito a ser livre, à bondade, Srta. Urbano. Pela vida. Oferecemos-lhe a oportunidade de deixar para trás a escuridão, os desejos escuros, o sangue que a leva a atormentar-se. Sabemos que você luta contra eles. Sabemos que não matou nas últimas décadas. Por isso é que estamos sentados aqui e já não está sem vida, como um pedaço de lixo no chão com uma estaca em seu coração. Sabemos que dentro de você, Srta. Urbano, há algo puro e bom. Você pode ser um diamante impecável, não uma coisa coberta pelas sombras. Pode ser uma heroína mais verdadeira que seu Byron nunca poderia ter sido se houvesse vivido...
- Como você sabe disso? Como sabe tudo isso sobre mim? Você sabe sobre meu passado. Parece que, inclusive, conhece meus pensamentos, - disse em voz baixa. Sentia-me estranha. Meu coração batia e meu alento estava estrangulado em minha garganta. Era como a sensação que sentia no último segundo antes de transformar-me: uma misteriosa dúvida, uma grande pausa entre duas existências, uma expectativa silvestre, a continuação, um país livre de ruptura.
- Sabemos tudo sobre você, senhorita Urbano - o recrutador respondeu com suficiência. – A verdade sobre o passado nunca poderá chegar aos livros de história, mas quase sempre se registra até o mais mínimo detalhe. E quanto a como sabemos sobre você e sua vida... sua carência de dedução lógica me decepciona, Srta. Urbano. Você pensa que os seguidores de Byron não falariam disso entre eles? Eles sabiam o que você era. Eles a perseguiram. Eles tentaram matá-la, não? Você escapou por pouco. E não é provável que alguém que estava ali, com problemas em sua alma, caiu de joelhos na igreja e com temor e tremor contou sua história a seu sacerdote? E logo, Srta. Urbano, o sacerdote disse o quê? Escreveu ao bispo? E o bispo fez o quê? Você tem ideia.
- Assim que, sim, Srta. Urbano, a informação sobre você, e sobre muitos outros, sempre é escrita por alguém. Se pode pôr em um arquivo. O arquivo pode estar oculto nas catacumbas de Roma, ou encerrado em uma abóboda do Vaticano, mas está aí para aqueles que tem o poder para obtê-los. E nós temos nossas formas de encontrar os arquivos, Srta. Urbano. Somos muito bons no que fazemos. Sabemos quem e o que realmente são. E nós a escolhemos.
Surpreenderam-me suas palavras. Eu estava cega para não me dar conta do quão visível meu caminho tinha sido.
- E uma coisa mais, Srta. Urbano, - disse o recrutador em uma voz mais forte.
-Sim? – disse, ainda aturdida pela revelação de meu passado. A escuridão da sala me encheu, brilhos de pânico perseguiam através de minha mente, como sombras, e eu, em uma das poucas vezes em minha vida, tive realmente medo.
- Nem pense em não aceitar nossa oferta e logo escapar - disse ele, suas palavras foram como uma queda de pedras, cada uma dita com um estalo seco cheio de faíscas. – Estivemos lhe observando 24 horas, os sete dias da semana com o fim de lhe recrutar. Continuaremos fiscalizando seus movimentos 24 horas e os sete dias da semana com o fim de lhe aniquilar se você declinar da oferta e fugir. Você tem sido visível para nós durante muito tempo. Por favor, entenda – e escute com cuidado – não há nenhum lugar para onde ir, em nenhum lugar você poderá se ocultar, não pode escapar de nós. Ouviu-me?
Eu gaguejei.
- Tenho que pensar. Necessito de algum tempo. Você está pedindo mais do que qualquer outra pessoa já me pediu antes.
- Desafortunadamente, Srta. Urbano, a única coisa que não posso dar-lhe é tempo para pensar. Está parada em uma encruzilhada e a fera está atrás de você. É necessário dar um salto de fé e fazê-lo agora.
E nesse momento, eu sabia. Tive que saltar desde a borda e em queda livre em algo de que eu não sabia nada. Eu havia estado em Nova York em 11 de setembro. Nesse dia e nos dias que se seguiram a destruição do World Trade Center, me sentia impotente e afetada pela dor. Agora eles estavam me dando a oportunidade de fazer algo que eu não podia fazer antes. Poderia parar outro ataque. Podia ser importante de uma forma magnífica, positiva. Uma nova porta se abria para mim. Um novo caminho existia para mim, assim, eu o tomei.
- Bem – disse. – Sim, vou ser uma espiã.
E me levantei, no caminho havia uma vida diferente.



Capítulo 2

O salto no abismo


Recebi instruções para comparecer às seis da tarde do dia seguinte no número 175 da Quinta Avenida, também conhecido como Prancha de Ferro de Manhattan e eu devia ir ao escritório dos meios de comunicações ABC S.A. Ali eu encontraria o meu controlador, conseguiria minha atribuição e começaria a orientação. Disseram-me que meu controlador se chamava J. Então os homens me deixaram ir. Simplesmente, me permitiram sair do apartamento de Sid.
Com certeza estavam me seguindo. Por certo que estavam me observando. Agora sabia que nunca me deixariam em liberdade. Mas, o quê? Nunca tinha sido livre, sempre sendo refém, do medo ou da ansiedade e das rígidas "regras" de minha existência.
Uma vez dentro do meu apartamento no lado Oeste, não fui direto para a cama, inclusive quando já era tarde. Depois do pôr do sol, os vampiros não dormem. Rodamos pela noite. Eu fiquei em casa esta noite, sem sossego, através da madrugada eu andava feito um tigre no zoológico, pensando demais sobre o meu passado.
Estava profundamente preocupada de que existisse um arquivo sobre mim e que havia existido durante séculos. Finalmente me dei conta de que não tinha meios para eliminá-lo e tinha que aceitar o que não podia mudar. Liguei num canal de filmes antigos e vi velhos filmes de Hitchcock. As horas avançavam lentamente. Minha mente vagava, ainda que meu corpo permanecesse imóvel. O sono não vinha, inclusive depois de que os dedos rosados da aurora começaram a tingir o céu da noite com raios de cor vermelha.
Fechei bem as persianas e, durante as horas do dia, - quando em geral descanso - esfreguei o piso do banheiro, limpei a fundo a geladeira e reorganizei os móveis da sala de estar. As mulheres, cheias de energia nervosa e diante da espera, não ficam ao redor das janelas ou olhando fixamente ao espaço, igual aos homens. Temos que estar em movimento. Inclusive enquanto estamos esperando diante do forno de micro-ondas para esquentar uma xícara de café, lavar os pratos, limpar o mostrador, pôr a roupa na máquina de lavar. Sabemos o muito que se pode obter em dois minutos.
Todo o dia, enquanto esfreguei e limpei, pensei no trabalho. E quanto mais pensava mais, excitada me sentia. Logo as borbulhas de antecipação me sustentaram em cima, levantando meu espírito.
Dei-me conta de que queria fazer isto, eu realmente o queria. Não necessitava do salário, é obvio. Minha mãe tinha herdado uma parte de sua considerável fortuna fazia séculos. Minha conta bancária na Suíça era grande, meu seguro de propriedades, minhas prósperas ações. Entretanto, durante o ano, o aborrecimento ou a necessidade de adaptar-me e aparecer como um humano normal, haviam-me levado a manter muitos postos de trabalho. Alguns haviam sido medianamente interessantes para mim. Este apesar das circunstâncias da contratação, encheu-me de confiança e esperança.
Nesta tarde passei horas preparando-me para a reunião. Fui olhar meu armário. Os jeans eram demasiado casuais. Um terno, demasiado sério. Finalmente, decidi ir toda de negro era a roupa adequada para uma espiã. Calças de gabardine negra, uma blusa de caxemira negra e botas de Donald Pliner com salto de oito centímetros. Contrariamente a crença popular, eu e todos os vampiros que conheço pessoalmente, raramente nos vestimos de preto. Nossa pele é demasiado pálida. Acredito que o preto me faz parecer um cadáver e isso não é bom. E mais, eu não gosto dessa onda de góticos. Não tenho piercings. O ressentimento, a loucura diante do mundo, a aparência morta, não é a imagem que espero apresentar.
Eu tinha trabalhado muito duro para mesclar-me e parecer normal. E eu nem sequer tinha uma capa, ou ao menos não a tenho nos últimos cem anos. Os vampiros não são como os Amish, ou os Hasidim ou o Conde Drácula. Não estamos obrigados a nos vestir no estilo de nossos antepassados. Posso comprar na Bloomingdale's em Nova York e aproveitar o catálogo de Neiman Marcus, quando não posso ir fisicamente a Galeria de Houston, Texas, que prefiro mais que as lojas de Dallas. A Galeria de Houston é meu centro comercial favorito, em absoluto. Posso obter uma cesta de alta costura, só pensar em Dolce & Gabana, Gucci, Kenneth Cole, Nine West, Chocolates Teuscher da Suíça, todos juntos, todos em um centro comercial. Quem projetou a Galeria, merece o prêmio Nobel das compras. Mas estou divagando.
Para minha reunião com J, coloquei um lenço italiano, de cor dourada e escarlate no pescoço para suavizar a dureza do preto. O vermelho é uma de minhas cores favoritas. Considero que é uma cor de poder, mas não descarto que, subconscientemente, seja uma forma de apelar à minha libido ou apetite. Também acrescentei um amplo cinto enfeitado de uma cor vermelha mogno. Sou de estrutura magra, não tenho muito busto, mas tenho uma cintura pequena. Se você a tiver, acentue. Mantive uma maquiagem sutil, embora soubesse que me via como um milhão de dólares. Como toque final, coloquei meu anel favorito, feito durante o Renascimento em Florência. São duas cabeças de pantera criadas a partir de diamantes, uma cabeça de pantera está fixada em ouro branco frente a um conjunto em ouro amarelo e cada um tem os olhos verdes esmeralda. Não é um anel sutil, mas então nunca pus muita fé na sutileza. Como roupa exterior, escolhi um casaco de três quartos de couro preto. Senti confiança, segura de mim mesma e com muita vontade de ir. Até que conheci meu chefe.
Às 5:45 da tarde, saí vinte metros antes da Terceira com a Quinta Avenida. Ao sair do túnel escuro a tênue luz do dia, que havia me acordado, me inundou plenamente. A ansiedade umedeceu um pouco de meu entusiasmo, esfriando-me realmente, como as temperaturas previstas para cair à noite. Empurrei as portas de vidro do Edifício Flatiron e abri caminho através da multidão de trabalhadores que iam saindo e entrei no elevador vazio. Ele subiu rangendo e sacudindo. Uma editora de Nova York ocupava os andares mais altos do numero 175 da Quinta Avenida. A ABC Media era uma companhia falsa em uma planta muito baixa. Encontrei o escritório, toquei a campainha, a porta se abriu e entrei em uma sala de conferências longa e estreita. Não havia nada ali.
Três portas fechadas se alinhavam na parede esquerda. Uma mesa de madeira quadrada ocupava o centro da sala de conferência, onde parei olhando para todos os lados, deixando que meu instinto me alertasse e reagiria a qualquer perigo em potencial. De trás de uma das portas fechadas ouvi uma rádio tocar algo do Fantasma da Ópera. Senti que havia seres vivos por perto, mas não senti maldade neles. Tudo que senti foi o ar viciado e o odor mofado de caixas de papelão.
Uma cafeteira vazia, um pote de leite em pó Cravo sem lactose, e uma xícara de plástico cheia de sobras de açúcar sobre a mesinha perto das janelas que eram quase opacas pela sujeira. As janelas ocupavam quase toda a parede direita, que se inclinava para dentro, da parte dianteira do edifício, fazendo com que a sala tivesse uma forma trapezoide. Uma porta com um cartaz de "Diretor" estava entreaberta no final da sala de conferências.
O edifício Flatiron tem a forma de uma cunha de grande quantidade de queijo. Considerado como o arranha-céu mais antigo, existente em Nova Iorque, o edifício chega a seu ápice na parte dianteira na esquina da Broadway, onde percorre a Quinta Avenida. Nesse lugar triangular, como o capitão Ahab na proa de seu navio baleeiro, o Pequod, o homem que assumi que era J, ficou quieto como uma estátua, olhando pela janela, de costas para mim. Não se moveu quando me aproximei dele. Chamei à ombreira da porta junto a sua porta aberta. Sem voltar-se para me saudar, o homem disse:
- Entre - e o fiz.
Fiquei aí por todo um comprido minuto. Finalmente, olhou por cima do ombro para mim. Seus olhos eram azuis, frios como uma geleira e duros como pedra, estavam cheios de ódio puro.
- Sente-se, - ordenou. Obedeci.
Meu rosto se manteve inexpressivo. Se este era o jogo, tinha a intenção de ganhar. Mas quando o homem voltou a olhar para as janelas, mantendo as costas bruscamente para mim, levantei as sobrancelhas, como dizendo, Que diabos é o seu problema? Estava me alterando rapidamente, mas mantive minha voz baixa e neutra quando lhe disse:
- Sou Daphne Urbano. Disseram-me que me apresentasse para você.


- Sei exatamente quem você é e por que está aqui. – Respondeu com uma voz de aço e ferro. Pouco a pouco se separou das janelas voltando-se para mim, mas manteve a mesa entre nós dois. Ele se levantou, eu estava sentada. E como tinha seus bons 6,3 pés de altura, se encurvou sobre mim. Foi uma jogada clássica de poder.
Ele continuou falando e me soou como um sargento.
- Agora eu gostaria de deixar uma coisa bem clara desde o princípio. Eu não a queria, ou a qualquer um de seu tipo, trabalhando nisso. Eu acredito que são maus. Mas também sei que há um mal neste mundo muito maior que você. E trabalharia até com o Diabo, se isso fosse necessário, para derrotá-lo. Mas entenda, meu trabalho não é estender-lhe a mão ou ser seu amigo. Agora que já faz parte oficialmente desta operação, tenho um trabalho... um único trabalho para assegurar-me de que tenha êxito. Vidas estão em jogo aqui, Srta. Urbano, potencialmente milhões de vidas inocentes e o estilo de vida Americano mesmo. Assim, eu deixo de lado qualquer sentimento pessoal. Espero que faça o mesmo. Não gosto de você, mas eu a protegerei. Farei tudo o que for necessário para mantê-la viva. Não me importa se você gosta de como eu sou, mas tem que escutar-me e confiar em mim. Temos que ser uma equipe. Eu vou ser duro, mas justo. Não espero que você dê cem por cento nesta operação, mas cento e dez por cento, ou cento e vinte por cento, o que for necessário para acabar com os bastardos que estamos procurando.
Seus olhos sustentaram os meus durante todo o tempo. E isso foi um grande engano. Suas palavras me incomodaram em certa altura, mas já tinha sido insultada antes por bastardos mais arrogantes que este J. E não me intimido facilmente. Já escutei os gritos de meu pai e sustentei por esta razão que este pequeno discurso não me assustou, nem sequer me impressionou muito. O verdadeiro problema era que à medida que seus olhos se pousavam sobre os meus, comecei a me conectar com ele. Sentia-me como se estivesse caindo em um frio lugar azul em seu interior e fazia tanto frio que não sei como não se queimou.
O gelo de sua alma estava em chamas, e pude vê-lo. Minha pele estremecia como se a eletricidade se tivesse posto a correr através dela. O ar carregou-se, como acontece antes de um raio. Esta foi uma química que não havia experimentado nas últimas décadas, uma dinâmica sexual que podia complicar a vida mais que a imaginação. Acredito que se deu conta do que estava acontecendo, porque se deteve bruscamente e desviou o olhar. Pôs-se a trabalhar em sua mesa como se estivesse buscando uns papéis, mas não antes que me desse conta do rubor que subia de seu pescoço.
O que posso dizer? Os pescoços são uma zona erógena para mim. E o seu era musculoso, grosso e tentador. Tentei afastar os pensamentos que se infiltravam através das sombras de minha mente.
- Permita-me apresentar-lhe aos demais - disse, sem me olhar. – Então vamos começar.
- Os outros? – eu disse. – Que outros?
Agora ele me olhou e seu olhar era condescendente, quase compassivo.
- Acredita, de verdade, que é a única a quem recrutaram? Sim, Srta. Urbano, há outros.
- Mas eu pensava... – comecei a dizer.
- Você pensou que era especial - disse ele, cortando-me. – Você pensou que era a eleita. É o que eles dizem a cada vampiro que recrutam. Mas se isto a faz sentir-se melhor, não recrutaram muitos como você. A maior parte de vocês, simplesmente, eles os aniquilam. Então, considere-se afortunada. Você subiu de categoria, ou como dizemos, fez o corte final. Você ainda está viva.
Logo, saiu detrás da mesa, passou junto a mim e entrou em uma sala de conferências. Eu o segui. Abriu a primeira porta à direita.
- Seu escritório - disse. Passei a cabeça pela porta.
Não vi nada, exceto uma velha mesa de metal com um computador portátil nela, uma cadeira de madeira e um triturador de documentos. Uma luz fluorescente zumbia. Isso foi tudo. Um palácio real.
- Você parece surpresa, Srta. Urbano. Sim, você necessitará de um escritório. Terá trabalho administrativo para fazer de vez em quando e terá material classificado para repassar. E o que acontece aqui, fica aqui. – Deixou a porta aberta e me disse que tomasse assento junto à mesa de conferências. Assim que me sentei, ele bateu na porta em frente ao meu escritório. – Srta. Polycarp, nós estamos preparados para começar - disse ele.
A porta foi aberta e uma mulher incrivelmente bela e loira apareceu. Ela tinha lábios deliciosamente vermelhos, um bronzeado profundo e um sorriso que cegava. Havia algo nela bastante brilhante, estava tão radiante.
- OK, chefe, estou a caminho, - disse irreverentemente para J, que já estava batendo na porta fechada atrás dela.
- Sr. O'Reilly? Por favor, venha e una-se a nós - disse.
O'Reilly? Pensei. Eu conheci um vampiro chamado Cormac O'Reilly. Havia estado no coro de uma dúzia de espetáculos da Broadway, mas nunca pareceu capaz de dar seu "grande salto". Era autoindulgente, absorto em si mesmo e totalmente superficial. Surpreendeu-me que tivesse sido contratado. A loira se aproximou e deslizou em uma cadeira junto a minha.
- Oi!, amiga. – Ela se dirigiu com a voz com acentuado sotaque do sul. – Meu nome é Benny Polycarp, abreviatura de Benjamina. – Qual é o seu? – Ela olhou na direção de J, então me deu uma piscada de olhos, dizendo em voz baixa – Então, o que pensas de nosso intrépido líder?
- Daphne Urbano. Meus amigos me chamam de Daphy - falei. Eu não podia deixar de sorrir de novo para ela, enquanto em voz baixa lhe disse – Creio que foi feito para as regras, é homem de livros e creio que deve ter irritado alguém grande, já que está aqui conosco. E isto é um pouco do tema, mas, te importa que te pergunte algo pessoal?
- Não - ela sussurrou. – Dispara.
- Como diabos você conseguiu esse bronzeado?
- Oh, doce! De um pote. Vou a um SPA de dia e me dão um tratamento chamado Pula V Glo, uma massagem... e a aplicação de um autobronzeador em uma sessão deliciosa - disse, e riu. – Como loira, me via como uma albina, com esta pele de ventre de pescado que todos nós temos. Não é que não seja bem para ti, - esclareceu rapidamente. – Você está grandiosa de preto, com esse look Irlandês, se não se importa que lhe diga isso.
- Obrigado pelo elogio - disse-lhe - mas acredito que esses bronzeadores, me fariam ficar com a cor amarelada, cítrica, você sabe. Nunca vi ninguém que ficasse tão bem. Eu me acovardei para tentá-lo. Pensei que me veria como se tivesse um problema de fígado. Entretanto, sem exagerar, ninguém adivinharia nunca que essa cor saiu de uma garrafa.
J começou a caminhar para nós e rapidamente sussurrou-me o nome de seu salão. Enquanto isso, um homem jovem, sigilosamente sentou-se no final da mesa. Era Cormac, mas antes que pudesse dizer alguma coisa, J se sentou à cabeceira da mesa, olhando para Benny e para mim. Evidentemente o bate-papo era proibido.
- O Senhor O'Reilly e a senhorita Polycarp já se apresentaram - disse. E pelo que se vê, a Srta. Urbano, já conhece Sr. O'Reilly.
Olhei para Cormac e disse:
- Nós nos conhecemos há bastante tempo. Então voltei a cabeça para J e disse baixinho para Cormac:
- O que você está fazendo aqui? – Ele se limitou a me olhar de mau humor e não respondeu. J pegou uma caixa de papelão do chão e colocou sobre a mesa diante dele. Dela tirou três pacotes grandes.
- Posso ter a sua atenção? O nome da equipe é Darkwing. O pacote que estou passando a cada um de vocês lhe falará sobre a sua designação. Contém um CD, com um dossiê completo do destino individual e/ou da organização com que estarão envolvidos. Depois de terem a oportunidade de revisar a informação, me reunirei com vocês individualmente para responder as suas perguntas e dar-lhes instruções. Srta. Urbano, tenho que reunir-me com você amanhã à noite, aqui, lá pelas 5 da tarde ou assim que possa. Sei que você tem que esperar o pôr do sol. Você tem que estar preparada para começar. Espero que revise o dossiê e venha preparada com perguntas. Sua operação é de particular urgência.
Eu não havia podido abrir meu pacote, mas Benny e Cormac já haviam aberto um caderno preto cada um.
- O que é isto? – Cormac disse enquanto abria à primeira página do seu. – Não pode estar falando sério. Supõe-se que devo ser um espião, arriscando minha vida para salvar a humanidade. Não posso estar lendo isto.
- Se pensava que você ia ser como James Bond, Sr. O'Reilly, lamentavelmente, isso não é o que tínhamos em mente para você.
- Diabos, sim! Quero ser um agente secreto que salta para a ação. Lutando com os tipos maus. Mas o que tenho aqui? Você me quer – e tem que estar brincando, porque tenho esta coisa sobre crucifixos - quer que eu me infiltre em uma ordem católica, uma dessas ordens que usam o cilício ao redor da coxa, e que têm uma corda no pescoço para golpear-se? Tenho lido a respeito destes meninos no Código Da Vinci. Mas não é exatamente minha preferência para um bom momento. – Olhando repugnado, Cormac fechou de repente sua pasta e a separou.
- Este trabalho não se trata de agradar a você, Senhor O'Reilly. Trata-se de fazer o que se deve ser feito. Sua área de operações é de fato o Opus Dei, seu quartel geral novo, aqui em Manhattan. Quando ler no material, verá o que queremos fazer, mas Senhor O'Reilly siga com o verdadeiro material do dossiê e esqueça o Código Da Vinci. Dado que sua missão tem um tempo mais generoso que o da Srta. Urbano ou da Srta. Polycarp, não é necessário satisfazer suas demandas imediatamente. Eu gostaria de vê-lo dentro de uma semana a partir de hoje, aqui nesta sala, às seis horas da tarde. E Sr. O'Reilly, sou consciente de que tem preocupações especiais. Vamos trabalhar ao redor delas. Veja que você terá um pouco de tempo, por favor, use a semana que vem, para desembaraçar-se de suas obrigações e enredos pessoais.
- Oh, isso é muito lindo - não podia deixar de dizê-lo em voz alta. – Cormac, em uma ordem católica. O mesmo homem que não foi capaz de manter suas calças fechadas por mais de vinte e quatro horas nos últimos trezentos anos.


- Cala-te, Daphy. - Cormac disse. – Todavia estás irritada porque te ganhei aquele doce garoto, digamos, embaixo do teu nariz em Veneza?
- Temos uma agenda aqui, - J interrompeu: - Se vocês têm um problema pessoal, resolvam isso depois. – Ele deu um olhar severo para ambos. – Srta. Polycarp, - J continuou, - Eu vou me reunir com você em quarenta e oito horas, aqui, também lá pelas 5 PM, ou como você possa manejar. Sua tarefa, bem como a da Srta. Urbano, tem que fazer-se tão rápido como seja possível.
- Sim, senhor. – Benny disse, enquanto lhe dedicava um sorriso deslumbrante e uma saudação fingida.
- No seu pacote tem um CFR, Código de Regulamentos Federais, tem também um Guia de Emergências para Empregados e várias outras publicações da OPM, Escritório de Administração de Pessoal, que contém informações detalhadas sobre seu status de empregada do governo dos EE.UU. Se lhe foi outorgado um uniforme do governo em qualquer momento, por favor, recorde que não pode utilizar sua posição e seu uniforme para benefício pessoal ou com fins lucrativos. Você também encontrará alguns formulários que necessita preencher e devolver para mim.
- Srta. Urbano, você não tem que terminá-los para amanhã, mas sim, o quanto antes. Como lhe disse, vou falar de cada atribuição em detalhe, com cada um de vocês, um por um. Mas no geral, há uma regra inquebrável. O que se faz em uma operação é segredo. Vocês não podem dizer nada, e quero dizer nada, sobre seu trabalho para mais ninguém. Vocês terão um tema de capa para dizer a seus parentes e companheiros. Atenham-se só a isso. Não se desviem disso. Não confiem em ninguém. Se você vai a um psiquiatra Senhor O'Reilly, acredito que você precisa parar. Cancele sua próxima entrevista e não retorne. A agência lhe oferecerá um apoio terapêutico em caso de necessidade.
- O quê? – Cormac quase gritou. – Tenho um ataque de ansiedade quando meu psiquiatra vai a Hampton por um fim de semana. Acredito que vou hiperventilar.
J ignorou o dramatismo de Cormac.
- Vocês são agentes que operam no que se chama cobertura profunda... Cada um de vocês está em uma operação escura. Isso significa que inclusive, outras agências do governo não sabem, nem tampouco os órgãos de controle no Congresso. Oficialmente sua operação não existe. Vocês não existem, como um espião. Sob a máscara, vocês são assessores técnicos em um projeto de restauração histórica para o Parque Nacional.
- Que gracioso, - disse Cormac. – Podemos trabalhar, quem sabe, na restauração de sua mãe, Daphy. Quantos anos ela tem, oitocentos anos agora?
- Cala-te Cormac! Se há um corpo que necessita de restauração, é o seu. Porque não falamos dessa extremidade caída...
O rosto de Cormac estava contraído pela fúria, quando abriu a boca para responder.
- Srta. Urbano, Sr. O'Reilly, - J falou com sua voz de sargento. – Eu não vou pedir-lhes que se calem novamente. Não temos muito tempo, Tenho que completar esta orientação dentro dos próximos quinze minutos.
- Espere um minuto, espere em minuto, - disse Benny, saltando de seu assento – Espere um minuto! Esta é a orientação? Quando vamos aprender a usar explosivos e executar através de um labirinto, de memorizar os objetos e contra-senhas para lembrar, como nesse programa de televisão, mestre dos espiões? Eu quero aprender coisas legais de espião.
- Sim - eu apartei. – Pensei que você nos enviaria ao campo de treinamento ou algo assim.
- Queres dizer que não vamos ter um treinamento básico? – falou Cormac. – Não vou avaliar a todos esses deliciosos jovens apertados em suas calças de ginástica?
E nesse momento a cara de J havia mudado para uma cor vermelho cereja. Pensei que ia golpeá-lo na nossa frente. Ele fechou de repente seu punho sobre a mesa.
- Srta. Polycarp, por favor, sente-se. Todos vocês, façam silêncio e me escutem. Agora! Vocês não vão ser Seals da Marinha, não vão estar nas Forças Especiais e isto não é um programa de televisão! Todos vocês têm memória fotográfica e não acredito que seja sequer uma questão de se podem ou não recordar uma contra-senha. Vocês já são peritos em vários tipos de artes marciais. Senhor O`Reilly, ganhou torneios de kickboxing. Srta. Polycarp, você deu aulas de Tae kwon Do. E Srta. Urbano, foi uma ninja no Japão feudal, em um ponto em... em... Como diabo se chama o que fez na sua carreira?
J fazia espuma virtualmente, estava muito irado. Começou a falar mais alto à medida que continuava.
- E além de sua destreza nas artes marciais, uma vez que trocaram, tem presas e garras e três vezes a força humana. Cada um tem mais histórias de matar, que qualquer soldado que eu conheço. E, francamente, eu não posso imaginar como vão ter necessidade de porem em prática seu treinamento, quando você, Srta. Polycarp, estará trabalhando como uma especialista em diamantes, você Sr. O'Reilly, estará em uma ordem religiosa, e você Srta. Urbano, será uma negociante de arte aborígene.
- Tudo mais que necessitam saber para sua orientação, está em suas pastas. Srta. Urbano, nos veremos em 24 horas. Pode se retirar. – ele grunhiu. Com isso, J se levantou, recolheu sua pasta e saiu de seu escritório, dando uma pancada na porta atrás de si.
- Ohhh, alguém simplesmente teve um ataque de histeria. – disse Cormac.
- Creio que ele não gosta de nós, - disse Benny. – Que lástima! Ele é um tipo tão lindo. Não o meu tipo, mas lindo.
Não seguiria com esse comentário. Era melhor mudar o tema.
- Antes de irmos, Cormac, conte-me, como você se meteu nisso? Nunca lhe vi como um espião.
- Daphy, querida, meti-me da mesma forma que você. Eles me armaram uma armadilha. Arranjaram-me um falso encontro com este delicioso fisiculturista do clube atlético. Então slam, bam, obrigado. Eu estava algemado antes de tentar dar um passo. Pensei que fosse me afogar antes que o suplício tivesse terminado. Presumo que te ofereceram as mesmas opções. A princípio, eu ia lutar, mas você me conhece, tenho estado incrivelmente entediado ultimamente. Minha carreira está estagnada e se eu for a uma audição em que o diretor me diga que eu sou muito baixo, eu vou perder o controle. Pelo menos esta gente reconhece meu talento para a espionagem. Por isso me escolheram. – Balançou o cabelo comprido de novo dramaticamente. – Não posso imaginar por que lhe escolheram, Daphy.
- OH, claro, Cormac, - disse com sarcasmo. Foi eleito por seu talento para a espionagem. Todo mundo sabe que não dançaste profissionalmente em anos e sua última aparição na Broadway teve lugar atrás do conjunto dos gatos. Foi parte da equipe de produção do diretor. E ainda assim não conseguiu um papel, assim acredito que uma vez mais, foi considerado muito pequeno...
- Puta! – Cormac chiou, de pé e caminhando ao redor da mesa de conferências para me atacar, quando Benny gritou:
- Hei vocês dois! Já basta!
Cormac se deteve em seco e olhou. Benny continuou falando.
- Assim está melhor. Todos nós temos que lembrar que estamos nisto juntos. Temos que ajudar-nos uns aos outros. Creio que vocês dois tem uma história, mas seja lá o que for, esqueçam. Eu sou a menina nova do quarteirão. Eles trouxeram-me de Branson, Missouri. A um vampiro em Branson não é que só importa um apito. Para ser honesta, tenho medo. Se me enganar, não só incontáveis pessoas morrerão, como eu também serei aniquilada. E eu gosto de viver. Assim, vamos tratar de trabalhar juntos.
- Amém, irmã. – disse Cormac. – Você tem razão.
- Concordo. – disse. – Trégua? – Eu disse para Cormac.
- Trégua. Venha, me dê um abraço, Daphy. – disse, enquanto se aproximava de mim.
- Não se aproxime, Cormac, - disse, mas deixei que ele e Benny se aproximassem de mim para um abraço em grupo. Então tomamos nossos papéis e saímos do edifício, juntos.
Depois de tudo, me sentia malditamente bem. Meu primeiro dia como espiã, tinha algo arriscado com meu chefe, não estava aborrecida e não sentia pena de mim mesma. Estava desejando chegar ao meu apartamento e colocar o CD em meu computador.
Os passageiros de Nova York, sabem que há duas entradas para o metrô na rua 23. A bela entrada do centro no Edifício Flatiron, no lado oeste, ao lado da Quinta Avenida. Para chegar à linha alta da cidade, o passageiro tem que cruzar a Broadway no lado oriental do edifício, com seis pistas cheias de carros, taxis e ônibus de três ruas diferentes. Esta noite estava relativamente vazio desolado. Caminhei rapidamente através da Broadway e desci as escadas do metrô. Ao descer, me pareceu ouvir que o trem chegava à estação, assim peguei o Cartão do Metrô de meu bolso e passei pela roleta como uma louca. Quando entrei na plataforma pude ver a cidade no centro das pistas de limpeza através da estação sem deter-me. Não era meu trem. Mas em minha pressa, tinha esquecido minhas próprias medidas de segurança, a regra número um; olhar ao redor antes de entrar em qualquer zona concreta. É uma coisa de Nova Iorque tanto como uma tática de sobrevivência de vampiro.
Agora estava ali, na penumbra, nesse meio metro misterioso que parecia uma cova e emoções antigas que quis esquecer, ignorar e sufocavam por nascer dentro de mim. Olhei para cima e imaginei a roupagem parecida com um morcego em um teto de rocha com o gorjeio todo ao redor de mim, aguardava o voo que viria com o pôr do sol e aquela antecipação que acordava minha fome e desejos de sangue. Sacudi minha cabeça e tratei de afugentar aqueles pensamentos, me concentrando em alguns anúncios vistosos na parede para uma série do HBO. Tratei de passar por cima do forte aroma fétido da água de chuva que se estendia entre os charcos das pistas, o odor de urina do lugar onde os bêbados haviam urinado fora da plataforma, às faixas, os gritos dos ratos nos túneis que ficavam na parte alta da estação. Mas meus sentidos foram atraídos pelo lado escuro e as andanças noturnas que rondavam minha alma.
Resisti a esse empurrão parcialmente, por que fiquei na área mais iluminada, dentro da vista dos trabalhadores do trânsito na cabine do outro lado das catracas. Tive – especialmente – fortes sentimentos que se agitam através de mim na noite. Olhei com impaciência para o relógio. Caminhei pela borda da plataforma para olhar a escuridão do túnel, com a esperança de ver o farol de um trem amarelo que vinha. Foi então que me dei conta de um homem, a mais ou menos uns trinta metros mais abaixo na plataforma, esperando o trem. Jurei para mim mesma que ele não estava ali ainda há pouco.
Estava com uma jaqueta de aspecto caro, de aviador marrom de couro e calças jeans. Ele se colocou de pé com uma arrogância preguiçosa, com as mãos nos bolsos, com os pés ligeiramente separados. Mas o que me surpreendeu foi seu gorro preto e o rabo de cavalo loiro. Meu primeiro pensamento foi que este era o tipo que me havia seguido até o apartamento de Sid. Meu segundo pensamento foi que não estava segura. Como se ele soubesse que eu o estava olhando, lentamente se voltou para mim. Olhou-me, com atenção deliberada, com os olhos ardendo com intensidade.
Meu corpo ficou tenso. Meu coração começou a bater em meu peito. Os sentimentos estavam rompendo sobre mim como ondas. Meus instintos me advertiram que deveria ter cuidado, estava pronta para correr. Minha mente racional tomou o aviso que, ele era arrumado, quase um modelo, exceto por uma cicatriz franzida ao longo de sua maçã do rosto. Quase no mesmo momento me dava conta de que estava provocando o alarme no estômago. Tinha os punhos fechados e seu rosto se via – eu não estava segura do por que, zangado, talvez predador. Fosse o que fosse, não me sentia no ambiente. O cabelo da minha nuca arrepiou e, de improviso, senti um impulso fugaz de me transformar.
A razão pôde mais que esse reflexo e pensei em voltar a subir à rua muito transitada e parar um táxi. Mas, enquanto estava tomando essa decisão, o homem se moveu. Dei um passo para trás, para as catracas. Pensei que vinha em minha direção, mas fez uma coisa mais estranha. Olhou ao seu redor até que viu os barrotes de ferro giratórios da plataforma e abriu o ferrolho que havia neles. Em um instante golpeou com a mão e passou através deles, saindo pelo outro lado e correu para a escada, seu rabo-de-cavalo fez um último brilho antes que se fosse.
Fiquei imóvel como uma pedra. Soltei um suspiro que havia estado inconscientemente prendendo. Era o mesmo homem que me seguiu antes? Deve ser. Ele poderia ser um perseguidor, mas pensei que fosse da agência, mantendo um olho em mim. Poderia falar amanhã com J. Houve um rugido quando o trem R chegou na estação. Eu apenas esperei que se abrissem as portas, antes de entrar e me deixei cair no assento. De repente, me senti cansada até os ossos. E não pude conseguir tirar o homem da plataforma de minha mente.

Capítulo 3
Comerciante da morte


Meu objetivo tinha um nome curto, algo assim como Cher. Seu codinome era Boaventura. Um resumo de seu dossiê estava no CD:
Boaventura, de trinta e três anos, nasceu em Moscou e entrou na Força Aérea da Rússia. Segundo a Interpol possui cinco passaportes internacionais com os nomes de Johnny Danza, Juan Duarte, Juan Bono, John Best, Juan Bueno. Seu apelido era "O cachorro raivoso". Um estudo recente da ONU o chama, o comerciante líder no mundo da morte, sendo o principal fornecedor de aviões e sistemas de armas da Europa do Leste, sub-administrador dos insurgentes da África e dos grupos terroristas como o Hamás, Hezbolá e Al Qaeda.
Nos últimos sessenta dias, Boaventura havia comprado em excesso, 16 milhões de dólares em armas antiaéreas propulsadas por canhões de 122 mm, foguetes antitanque, mísseis antiaéreos e bombas de morteiros procedentes da Bulgária. As vendas se registraram em certificados de usuário final realizados no Estado africano do Togo. O informe da ONU também identifica Boaventura como a aranha que tece a rede de traficantes de armas à sombra, os corretores de diamantes e outros operativos. É dono de uma rede de empresas, de uma companhia de reparos de aviões nos Emirados Árabes Unidos e de uma companhia de voos charter em Miami, Flórida. Como um dos proprietários da Feira Aérea da Libéria (registrada na Guiné Equatorial, com sede em Sharjah, Emirados Árabes Unidos), tem uma das maiores frotas de aviões privados do mundo. Leva a cabo sua atividade, principalmente no estado do Golfo de Sharjah, que faz parte dos Emirados Árabes Unidos.
Boaventura se encontra atualmente nos Estados Unidos, supostamente para comprar peças para sua coleção de arte tribal da Nova Guiné. Boaventura disse manter uma residência principal nos Bálcãs com sua esposa, Alicia e seu pai. Segundo o informe da ONU, em algum momento ocupou um alto cargo na KGB, inclusive, tão alto como um vice-presidente. Persistem os rumores de que ele está se separando de sua esposa e que solicitou o divórcio, mas não pode chegar a um acordo sobre as propriedades. Isso não foi confirmado. Sua fortuna pessoal se estima em milhares de milhões de dólares. Ademais, em seu complexo em Sharjah, Emirados Árabes Unidos, Boaventura mantém um escritório em um pequeno aeroporto no mesmo país. Também tem uma cobertura em Manhattan em Upper East Side. Além de sua paixão pela arte aborígine, - que se aproxima de uma obsessão (veja-se a nota ao pé da página trinta e três, por um agente do FBI, explicando a esta unidade a vontade fanática a recolher máscaras desenhadas para proteger ao proprietário da magia negra e estátuas de homens com pênis enormes), ele é um devoto do sushi japonês.
Imprimi uma cópia do arquivo, de duzentas páginas, que incluía o relatório da ONU sobre Boaventura, um artigo do Washington Post em função da investigação e um informe do MI6 Britânico sobre as suas atividades com os talibãs no Afeganistão. Junto com o arquivo, o CD incluía uma imagem que parecia ter sido obtida com uma teleobjetiva. Mostrava um homem corpulento, de meia estatura, em pé junto a um motor de um avião a hélice da Air Damal. Boaventura estava vestido com uma calça caqui e seu rosto estava oculto por um chapéu camuflado, uma barba escura e óculos de sol espelhados de aviador.
Que grande maldita ajuda, se tivesse que encontrá-lo em uma multidão. Pensei que se parecia com um sapo malévolo, que havia beijado uma centena de mulheres bonitas, que não puderam convertê-lo em um príncipe. O arquivo não dizia nada sobre o porquê de Boaventura ser meu objetivo ou o que devia fazer. Supus que seria informada na noite seguinte por J. Tinha o suficiente para enfrentar no momento... minha mãe.
Eu estava estudando o material quando Marozia Urbano, conhecida pelos seus amigos como Mar-Mar se apresentou no meu apartamento e isso às 2 da madrugada. Não estou segura sobre a imagem que a maioria das pessoas tinha de uma mulher que havia sido amante de um Papa e mãe de outro (meu meio irmão, o Papa João XI, que se foi deste mundo há muito tempo). Alguns livros de história da igreja acusam a minha mãe de sedução e intriga. Eu posso imaginar seus sonhos de organizar planos, mas essa imagem de mulher fatal era pura ficção. Na vida real, minha mãe era uma bola de mil megawatts de energia de uns 5 pés de altura, morava em Birken, e com uma camisa tingida. Parecia ter uns dezoito anos de idade. Um signo da paz ao redor de seu pescoço dava testemunho desse fato incrível de que Mar-Mar tinha amado a década de 1960, abraçando o "Faça amor e não a guerra" como uma vingança e decidiu que tinha encontrado uma declaração da maneira que queria seguir fazendo. Concentre-se, preste atenção para não abandonar os estudos.
Durante esses dias quando o ar cheirava a maconha e a rua se enchia de gritos de "Diabos, não, não vamos," Mar-Mar, com todas suas "excentricidades" da inesquecível noite, dormindo em um caixão e evitando todos os alimentos com o alho, tinha sido aceita, sem dúvida, pela primeira vez em sua vida. Como resultado disso, em sua mente e em seu estilo de vida, hospedava-se nesse momento, justo aí. A vergonha que me fez passar durante a década de 80... todavia recordo de me fazer ruborizar, inesgotável, indomável e decidida a meter-se em minha vida, no amor (ou na falta dele), ela é minha cruz...
A campainha tocou lá embaixo e Mar-Mar gritou através do inter-comunicador:
- Teletransporte-me, Scotty! – Tive tempo apenas de esconder o arquivo, antes que ela estivesse em minha porta. Abri e ela entrou na sala. – Olá Docinho, como vai? – ela riu. Ela deixou cair um cesto grande cheio de vegetais orgânicos em uma cadeira e me deu um abraço de quebrar os ossos.
A parte superior da cabeça se aproximou de meu rosto. Encolhi-me e suavemente me coloquei fora de seu alcance.
- Estou bem, mamãe, - disse-lhe – Como estás?
- Tudo excelente. Não se importa se eu fumar? – disse. Irritava-me, mas só lhe entreguei um cinzeiro. Ela procurou em sua BIC e acendeu um cigarro que havia tirado de uma carteira de Camel de aspecto inocente. – Oh, mamãe, não vai fumar isso, - eu lhe disse com consternação.
Ela riu e em meio à profundidade arrastada do odor penetrante da maconha, ela começou a cantar, "Eu não brilhava o sol quando já não estás". Ela nunca se havia resignado a deixar-me em meu próprio lugar e já fazia assim por uns duzentos anos. Ela ainda tenta controlar a minha vida cada vez que pode. E nesse momento vi como ela olhou a correspondência que deixei na mesa de jantar. Ela casualmente passou pelo meu lado para ter uma posição mais perto da pilha de cartas para ler os nomes. Inclusive, passou a mão, por acidente, com certeza, através da pilha para dar uma olhada nos elementos da parte inferior. Ela é incorrigível. Eu não disse nada sobre a sua bisbilhotice, mas não podia passar por alto a erva ruim que estava fumando.
- Sabes que odeio ver-te doidona. – eu disse.
- Sim, é francamente irritante, não? Escuta querida, me relaxa e é mais saudável que o álcool. Não é que oponho a isso tampouco. O doce é bom, mas o licor é mais rápido, - disse, e me sorriu. Era impossível. Dava-me por vencida e me preparei para o que vinha.- Assim, você conheceu a alguém ultimamente?
- Não, mamãe.
- Sabe, - ela disse - minha amiga Zoe tem um filho. É solteiro e...
- E ele é um vampiro - terminei por ela. Lembrei-me de outras vezes que me tinha fixado com alguém e imaginei uma pálida criatura decadente, que ainda vivia com sua mãe.
- Sim, é obvio que é um vampiro. Sabe como me sinto a respeito de sair com alguém fora da família. É uma receita para romper o coração. Quem mais pode não trair a sua confiança, à exceção de um dos teus? Quem pode saber quem e o que é e ainda te aceitar? A confiança é a base de qualquer relação vitoriosa. Vivendo uma vida dupla com um amante é o beijo da morte e não é nenhum jogo de palavras.
- Assim, por que não segue o seu próprio conselho? – Respondi com sarcasmo em minha voz. Ainda amo a minha mãe, ela empurra os meus botões e eu quase sempre termino dizendo algo que lamento mais tarde.
- Oh, querida, - disse com uma voz entrecortada e a tristeza se arrastou nela. – Houve outras considerações na hora de escolher a Giamo. Teu pai era um simples mortal, quando nos conhecemos, mas era um homem maravilhoso. Houve uma exceção com ele e, bem, ele necessitava de mim. Tinha planos, tinha sonhos. E nunca lhe menti. Ao menos depois da primeira vez que lhe mordi, nunca lhe menti. Ele me amava ainda mais depois que se aproximou de nós. Éramos uma equipe tão incrível, até que foi traído e... – Seus olhos começaram chorar. – Eu nunca vou deixar de ter saudades dele. Éramos almas gêmeas. E ele me deu você. As lágrimas começaram a rolar pelas suas faces. Eu nunca aprendo. Qualquer menção ao meu pai, Giambattista Castagna e é o início das obras hidráulicas. Nunca aprendi muito sobre ele com ela. Ela me criou sozinha e estivemos clandestinas grande parte desse tempo. Se me atrevesse a perguntar-lhe o aconteceu com meu pai e por que não estava conosco, ela simplesmente começava a chorar. Eu creio que suas lágrimas são genuínas, mas são uma maneira eficaz de por fim à conversa. Quando lhe perguntei sobre sua vida antes do meu nascimento, só disse algo como: "Devemos viver o presente. Concentra-te no agora, querida. O passado é passado". Irrita-me muito que ela esconda muito de mim. Tudo o que realmente sabemos com certeza é que ela nasceu na Itália no século X. Nunca me mencionou a minha avó, ou qualquer de seus maridos, em primeiro lugar. Descobri que se havia casado muitas vezes (com muitos, aliás) antes que ela conhecesse o meu pai, por investigações que fiz em bibliotecas de todo o mundo. Tudo o que li só aprofundou o mistério ao seu redor.
- Estou começando um novo trabalho amanhã. – disse, com a esperança de distraí-la antes que realmente começasse a berrar. Ela respirou fundo e as lágrimas se foram.
- Ah, sim? Isso é maravilhoso, querida. Para quem você estará trabalhando? Que estará fazendo? – Eu sabia de memória minha identidade, mas a verdadeira prova seria se ela iria acreditar.
- Estou trabalhando na catalogação e restauração de objetos do século XIX de teatro. Para o Serviço de Parques Nacionais. – Um olhar de... suspeita? Cruzou o rosto de minha mãe.
- Como é isso? – Perguntou.
- Um golpe de sorte, - disse, e fui para a cozinha para tomar algo. – Queres um copo de água mineral? – Ela assentiu. – Frizzante o naturale? – Lhe perguntei, em italiano. Se ela queria a água com gás ou não.
- Frizzante, com uma rodela de limão se não for demasiado problema, - disse, atrás de mim. – Que tipo de golpe de sorte?
- Te recordas de Cormac O'Reilly? – Abri a garrafa de Pellegrino, peguei uma rodela de limão em um copo de gelo e entreguei para Mar-Mar. Ela pegou e me disse:
- Te referes ao bailarino? Aquele que estava em Chorus Line há vinte anos atrás? Pensei que os dois não se falavam.
- Bom, não, mas me encontrei com ele faz pouco tempo e nos reconciliamos. Ele está trabalhando neste projeto histórico de teatro e pensei que podia ser boa nisso também. É definitivamente uma janela quando já se viu os elementos realmente em uso. – Me sorriu. – O NPS continua me contratando, esta é só uma ocupação temporária, assim tomei o trabalho. Creio que é interessante. Tenho estado aborrecida ultimamente.
- Mãos ociosas são os instrumentos do diabo, - Mar-Mar murmurou. – Sabes que sempre podes trabalhar para o Greenpeace.
- Alguém mais vai ter que salvar as baleias, mamãe, - eu disse. – Este trabalho é suficiente para mim. Eu posso trabalhar à noite.
- Desde que você esteja contente, - disse com um suspiro que significava que ela não estava e voltou ao assunto de sua vida. – Sabes, não seria nada demais você sair pelo menos uma vez com o filho de Zoe. Você poderia pelo menos tentar. Parece ser um bom garoto.
- Eu não acredito mamãe.
- A mim sim. Faça-o por mim. Olhe, não quero que tenha um encontro real. Venha à minha casa no próximo sábado. Vou convidar Zoe e Louis para tomar algo.
- Louis? – eu disse.
- É francês, da Louisiania. É um ramo da família, já sabes, mas é bastante agradável.
Eu realmente não sabia nada desse ramo da família, exceto alguns rumores desagradáveis. Apesar de que não se preocupava com a linhagem de Louis, estava segura de que não seria como ele. Não me atraem a maioria dos homens vampiros. Em qualquer caso, eu sabia que minha mãe não se daria por vencida até que estivesse de acordo.
- Está certo mamãe. Beber vai estar bem – Uma risada iluminou o rosto de minha mãe. Sua missão estava cumprida, acabou rapidamente sua água mineral e anunciou que ia reunir-se com amigos em East Village. Depois de dar-me um rápido beijo nas duas bochechas, no estilo europeu, ela saiu. Devo admitir que minha casa ficou vazia quando ela saiu.
Depois de algumas horas de meditação e de escutar as Variações Goldberg de Bach, caí em um sono profundo até ao amanhecer. Quando finalmente ouvi o alarme. Devo ter tocado o botão de repetição de cinco ou seis vezes sem recuperar a consciência plena, enquanto o crepúsculo caía. Tinha menos de uma hora para vestir-me e para andar por vinte ruas. Coloquei um suéter e um par de calças jeans. Não me importo de ser pressionada.
Onde uma vez havia estado uma dor surda em meu coração, agora me sentia ligeira e mareada pela adrenalina do otimismo. Podia ser uma espiã muito boa eu sabia, Qualquer coisa que J quisesse que eu fizesse me sentia confiada de poder manejá-lo. Não passou muito tempo antes de dar-me conta de como estava enganando a mim mesma nesse momento. Mas a ignorância é uma felicidade e eu nunca me senti tão feliz como me sentia nesse dia. Nunca mais dormi tão profundamente e por tanto tempo.
J estava me esperando na sala de conferências. Um sorriso em meu rosto, meus passos rápidos e me achei diante da porta. Ao ver seu rosto sombrio me senti como que golpeada contra um muro de tijolos.
- Sente-se, senhorita Urbano, - disse categoricamente. Eu sentei-me. – Temos muito material para repassar. Você encontrará seu objetivo amanhã, então não tem muito tempo para preparar-se. – Ele evitou os meus olhos. Busquei os seus, mas não pude fazer contato, então olhei a sua forte mandíbula, notei a sombra de uma barba que começava a surgir, olhei o movimento de sua boca.
Comecei a imaginar como me sentiria com esses lábios traçando pelo centro de meus ombros desnudos. Uma sensação quente e arrepiante corria acima e abaixo de minha espinha dorsal, onde seus lábios me deixavam beijos...
- Srta. Urbano, quando se comunicar conosco, - disse acabando com meus doces sonhos, - você deve utilizar seu nome de código, Hermes.
- Ah! O deus grego. O mensageiro. E qual é o seu?
- Anel mestre.
- Assim é quem manda.
– O que seja. Não escolho os nomes, senhorita Urbano, - disse ele. – Agora, continuando com isto. Você representa um colecionador privado de arte aborígine. O colecionador é real. A arte é real. Boaventura sabe da coleção e quer muitíssimo comprar artigos dela. O colecionador está resistindo em ter contato direto com ele. Boaventura tem tentado. Foi rechaçado. Por último, o colecionador se comprometeu a trabalhar através de um intermediário, você. Isto lhe dá um prato cheio no apartamento de Boaventura. Você tem uma entrevista para amanhã às 07h30min da tarde.
- Qual é o endereço?
- Está neste arquivo. – Pegou uma pasta sobre a mesa de nove por doze de cor marrom e me entregou. – É tudo o que terá que olhar agora sobre o colecionador e a arte que vai vender. Leia-o, memorize-o e logo depois o destrua. E por destruir, me refiro a queimá-lo. – Coloquei o arquivo dentro de minha bolsa Louis Vuitton. – Tem que entrar na vida de Boaventura. Aí é onde pode por em prática sua beleza e seu encanto.
Finalmente pude olhá-lo nos olhos. Seus olhos se encontraram com os meus por um breve momento, logo desviou deliberadamente. Foi o suficiente. A química estava ali. Ele sabia e eu sabia. Coloquei a minha atenção para minha tarefa.
- O que vou fazer, exatamente? – perguntei-lhe.
- Sua primeira tarefa é plantar alguns dispositivos de áudio no apartamento de Boaventura. Não temos sido capazes de reconhecer muito do exterior do edifício. Pensamos que é uma interferência em nossos microfones direcionais.
J me deu uma pequena caixa.
- Os dispositivos e as instruções sobre onde colocar e como estão aqui. Uma vez mais, memorizar suas instruções e logo destruir o papel e esta caixa. Transporte os microfones em seus bolsos. Parecem moedas de dez centavos. Os dispositivos dentro da caixa são muito menores. – Me entregou o pacote pequeno. O coloquei na bolsa.
- Agora, seu segundo objetivo. Necessitamos obter informação sobre os beneficiários da próxima entrega de grandes armas de Boaventura. Já sabemos que pertencem a uma célula terrorista que opera neste âmbito em algum lugar perto de Nova York. E sabemos que eles pagaram em diamantes...
- Ah! A conexão Benny Polycarp - eu disse.
- Pensa muito rápido, Srta. Urbano. Sim, assim é como seus companheiros estarão conectados a esta missão. Ela será chamada para avaliar e valorar o pagamento. Trabalhamos muito ajustando esta operação. Você é a peça chave que mantém tudo junto. Vai ser nosso meio para identificar aos terroristas e detê-los.
– O que quer dizer "detê-los"? – disse – Tenho que matar a alguém?
- Provavelmente não. Você não está ali para pôr fim a ninguém, só para nos dar informações. A partilha da arte dá a Boaventura a necessidade de um efetivo importante, rápido. Você poderia olhar o seu papel como transportador de conhecimento. Você planta o dispositivo de escuta. Você recolhe a informação sobre quem traz o dinheiro efetivo a Boaventura, quem consegue as armas e quando a troca ocorrerá. Algo, além disto, será um bônus. Outros membros de nossa agência impedirão os terroristas de conseguirem as armas e os deterão. Talvez sejam capazes de trazer um deles para o nosso lado e o faremos um agente duplo. Não temos tido muito êxito em infiltração nesses grupos. Mas este não é o seu trabalho. Seu trabalho é assegurar-se de que teremos bastantes dados para interromper a troca e conhecer os compradores. E quanto a Boaventura, sempre haverá mercadores da morte como ele. Francamente, é mais útil para nós vivo do que morto. Conhecemos as suas fraquezas e, através de você, esperamos ser capazes de controlá-lo.
- E quais são as suas debilidades?
- A avareza, por exemplo. Uma personalidade obsessiva, outra. Ele é um colecionador e usará medidas extraordinárias para obter um artigo que ele queira. Não faça nada demasiado fácil para ele. A busca é parte do que lhe dá prazer. A coleção de arte que você representa tem peças que ele deseja desesperadamente adquirir. Alguns deles foram utilizados em novos rituais de bruxaria na Guine. A maioria das pessoas o acharia repugnante, mas Boaventura gosta desse tipo de coisa. Também gosta de mulheres bonitas e que é outra debilidade que devemos aproveitar.
- Tenho que dormir com ele? – Disse endurecendo a voz.
- Tem que fazer tudo que for necessário para obter a informação. – J disse e me olhou como se fosse medir a minha reação.
- Bom, não vou ter sexo com ele - eu disse, olhando-o. – Eu não sou uma puta.
- Nunca disse que você o era, senhorita Urbano - disse mais suavemente, quase amavelmente. – O que você faz no transcurso da missão, o que qualquer um de nós fazemos, é com o fim de cumprir a missão. Creio que fará o for necessário. Mas, como ganhar a confiança de Boaventura, como capturar sua confiança e o meio como fará, já que ele nunca confiou em ninguém, será decisão sua.
Ele ainda me olhava e um vento quente pareceu mover meu sangue. Sentia-me atraída por J, como se um arame de ouro chegasse a sair de sua alma ferida e ao redor de meu coração, cambaleante. Tais sentimentos só podiam conduzir ao dano e a dor, sabia disso. Mas nesse momento não pensei em nada, a não ser em ter sua boca sobre minha boca. Eu não estava pensando com claridade. Não, isso não é verdade: eu não estava pensando absolutamente.
Inclinei-me para J. E ele não se foi para trás.
- Em outras palavras, o sexo é uma arma que eu posso escolher para usar. Ou não.
Podia sentir seu fôlego tocando em minha cara. Sabia que seu desejo era levantar-se para responder ao meu. Esperei que ele me beijasse... Em seu lugar um brilho de algo assim como surpresa cruzou seu rosto. Retirou-se como se tivesse sido queimado. Seu olhar mudou, convertendo-se em irritação.
- Deixe-me esclarecer algo, Srta. Urbano. Estaremos trabalhando em estreita colaboração, mas minha relação com todos os membros da equipe Darkwing é a mesma. Profissional. Eu sou seu chefe de equipe. Nada menos e desde já nada mais.
Mentiroso, eu disse para mim mesma. Sei que você sente o mesmo que eu.
Levantou-se e empurrou a sua cadeira para trás.
- Ademais, eu não vou repetir isto de novo - cuspiu as palavras - o que você é me desgosta. Uma puta seria mais moral. Você é um monstro, não uma mulher. Sei sobre o magnetismo dos vampiros e o encanto mágico que atraem aos seres humanos para que possam satisfazer sua sede de sangue. Depravados. Todos vocês não são mais que bestas. E não importa seus poderes, nunca, me ouviu? Eu nunca vou tocar em você.
Algo se rompeu dentro de mim. Uma porta emocional se abriu e um branco quente verteu através da ira. Ele me havia rejeitado como mulher e, mais que isso, havia demonizado minha carreira inteira. Sua arrogância e sua crença na superioridade humana me empurrou pela borda. Devolvi suas palavras com as minhas, duras como diamante.
- Tem razão, J. Tem tanta, mas tanta razão. Eu não sou humana. Eu sou um monstro. – Fiz uma pausa por um momento. – Eu sou um vampiro - sussurrei-lhe. – Necessitas saber exatamente o que isso significa.
Para sua surpresa e assombro, tirei o pulôver e baixei meus jeans mais rápido do que qualquer outro artista o faria. E então, depois de tê-lo feito eu mesma sabia o que ia acontecer, deixei a transformação em minha forma de morcego começar...
Um véu escuro começou a girar ao meu redor, apagando o ar. Senti-me flutuar entre dois mundos antes que uma sacudida de energia aumentasse através de meu sangue. Subi mais alto, vi minhas unhas alongarem-se e se converterem-se em garras, sentia brotar asas em minhas costas com um ruído como um estertor de morte do infinito. Minha pele branca se transformou em uma pele escura e suave. Senti-me imensamente forte, aumentou o poder através de minhas veias como um rio escapado a minha garganta. Levantei-me então, por cima do chão, suspensa no ar, uma criatura mais bela que um pássaro, mais aterradora que um morcego, elegante e brilhante, uma fantasmagórica figura escura, brilhante, com cores do arco íris que estalou de meias luas de prata, pregado como gotas de água em minha pele. Um resplendor me rodeava com elevação. Minha cabeça aproximou-se do teto. Como já havia ampliado minhas magníficas asas de morcego, que chegaram de parede a parede. Quando falei, eu sabia que J podia ver as minhas presas.
- Olhe e tenha medo de mim, humano - disse com voz de seda e de chamas.
J se havia distanciado, suas costas estavam contra a parede frontal da sala. Seu rosto tinha uma mescla de temor e terror. A seu crédito, ele não tremeu ou desmaiou. Muitos o faziam. Muitos haviam chorado e haviam suplicado. Muitos haviam aliviado seus intestinos enquanto se colocavam de joelhos. J, diferente deles, me olhou com algo parecido com admiração.
- Eu não sabia - sussurrou. – Eu havia ouvido, mas eu não sabia. Te pareces... te vês... não como um vampiro, senão como... um anjo.
- Um anjo negro, - disse com uma voz sedosa e fascinante. – Eu sou a realidade dos mitos e dos pesadelos. Antigos deuses que vieram a aparecer em sua vida.
E com isso, enquanto estava fascinado e incapaz de mover-se, voei mais para perto dele. Cheguei rápida ao chão diante dele. Seus olhos se fecharam e logo se abriram de um golpe e olhou nos meus, que estavam escuros e sem fundo, cheios de melancolia. Inclinei-me para frente. Meus lábios roçaram seus lábios. Ele gemeu. O homem que havia jurado nunca tocar-me devorou meus lábios com uma fome inequívoca. Rompi o beijo e movi meus lábios para a sua mandíbula. Seus olhos se fecharam quando abaixei e toquei seu pescoço, suavemente, suavemente com meus dentes. O mordi, mas não o mordi forte. Ele se pôs tenso, mas não opôs resistência. Com a rendição total, ainda a submissão, ele me ofereceu isso. Nenhum humano pode resistir à sedução de um vampiro.
Naquele momento, entretanto, retirei-me e ri com uma risada forte e cruel. Ele esteve de pé ali como se estivesse congelado. Ele tinha coragem; direi em seu favor. E agora ele entendeu nas fibras de seu ser o que eu tinha: poder.
Basta dizer que agarrei minha roupa em minhas garras e consegui chegar por mim mesma através da porta do escritório e fora no vestíbulo em frente aos elevadores. Estava muito longe de uma saída graciosa. Enorme em minha forma de morcego, eu tive que me espremer pela porta, e uma asa ficou presa em uma dobradiça. Tirei apressadamente, livremente, jurando todo o momento. Ao menos não me deixei cair sobre minha cara. Assim que saí, de repente, a porta fechou detrás de mim, mudei para a forma humana em uma rajada de luz, vesti-me rapidamente, desci as escadas, não o elevador, e cheguei precipitadamente ao primeiro andar. Quando me encontrei no vestíbulo e empurrei as portas de vidro para a rua, meu esgotamento e ansiedade se abateram sobre mim. Havia cometido um erro. Eu havia demonstrado a mim mesma, revelando meu verdadeiro ser e deixei J viver. Eu o odiava. Sim? Sentia-me confusa sobre isso.
Mas o que estava feito, feito estava. Com certeza, havia me exposto demais. Não estava segura de que haveria repercussão quando J informasse isto. A agência pensaria que sou instável e uma ameaça para eles? Sim, J comunicaria que eu havia ameaçado mordê-lo, provavelmente terminaria com a mesma deliberação fria com que os funcionários do controle animal disparavam contra um cachorro raivoso.
Ainda assim, em termos práticos, a agência provavelmente não me eliminaria até depois que esta urgente missão tivesse terminado. Se eu era o elemento central, então não podiam substituir-me durante a noite. Ao menos tinha tempo para ver o que fazer. Agora mesmo estava tão irritada, que tinha que fazer algo para acalmar-me.
Era muito tarde para fazer compras, mas eu tinha o endereço onde Benny conseguiu seu Pula V Glo de pele. Chamei um taxi. O condutor do Oriente Médio saiu como um coelho. Enquanto ele corria pelo tráfego, seguiu com uma conversa ruidosa em seu celular. Ele falava Pashto, uma língua usada por algumas tribos do Afeganistão do Norte. Eu havia conhecido Ahmad Shah Abdali de Kandahar, fundador do clã Durrani e invasor da índia no século XVIII, e havia aprendido uma grande lição de astucia com ele. Não era uma recordação agradável.
O condutor fez comentários a respeito de mim no telefone celular, dizendo basicamente:
Deverias ver a menina que acabo de recolher, ela é definitivamente fodível.
Sim, claro, em seus sonhos, pensei. Eu lhe dei um susto quando saí. Dei-lhe um conselho e disse, em pashto, algo assim como:
Fede como um camelo e meus tios que desfrutariam de sua pequena parte privada como um coquetel de salsicha.
Ficou pálido e se saiu para o tráfego tão rapidamente que quase bateu em um ônibus.
Entrei no salão e com muita sorte consegui um horário. Uma hora mais tarde, saí como uma nova mulher com um bronzeado! A noite era jovem e me senti bem de novo. Fodido J. Eu era uma idiota por me permitir sentir algo por ele. Apenas havia passado muito tempo desde que estive envolvida com um homem. Os sinos do inferno, fazia anos que não tinha um encontro. A solidão, e não digamos a rigidez da solidão, me fazia vulnerável. O que precisava era algo agradável, sem as ataduras do sexo, só para tirar vantagem.
Infelizmente, não tinha nenhum "quente prospecto". O filho de Zoe, Louis ou Cormac não eram ainda dignos de um pensamento de um segundo. Eu certamente não ia a um bar e tratar de ser levantada. Não era meu estilo. Tive que recuperar o controle e encontrar algo que me mantivesse ocupada. A primeira coisa que veio em minha cabeça era de tomar um táxi para o endereço de Boaventura na Park Avenue e a Rua Setenta e quatro e reconhecer o terreno, por assim dizê-lo. Isto seria uma ideia malditamente boa de averiguar no que eu trabalharia amanhã.
O lugar de Boaventura se pareceu como todos os outros edifícios de apartamentos da Park Avenue, sólido, de pedra cujos toldos castanhos e porteiros de uniformes gritavam dinheiro. Saí do táxi e andei pelo edifício de Boaventura passando sem parar. Eu vi bastante com um olhar rápido. O edifício era estreito e calculei que continha um apartamento por andar. Dando uma olhada pelas portas, pude ver um pequeno vestíbulo, brilhante com muitas luminárias de luzes douradas e de cristal. Havia uma mesa Louis XIV cheia de graça, que sustentava um telefone. No lado longínquo da sala havia um só elevador. Perto da porta da rua estava um porteiro em um uniforme cinzento de fantasia. Um velho homem estava ocupado com um telefone celular. Não quis chamar a atenção, então rapidamente andei para a esquina e cruzei a avenida. Vaguei por um quarteirão ao oeste da Madison, esperando encontrar a loja de frios coreanos. Sobretudo tive sede, não estava particularmente faminta, necessitava uma garrafa de água. Também já era tempo de ir para casa.
Igual a muitas outras mulheres, tenho o costume de olhar às escondidas a meu reflexo nos vidros, enquanto estou caminhando. Não é um conto de fada muito verdadeiro o de que um vampiro não tem reflexo. Isso é desinformação. Os fantasmas sim não refletem, por ser só ectoplasma e espírito. Sem corpo, Sem a reflexão. Nós os vampiros, pelo contrário, somos sólidos como a carne e o sangue. Somos de carne e osso. Teria tido um inferno de tempo me pôr a maquiagem nos últimos quinhentos anos se não pudesse ver-me. Necessito um espelho quando arrumo o meu cabelo e a maquiagem. E mais que o fator vaidade, certamente teria sido parecido, ou mais exatamente, estacada, faz muito tempo se passasse por um espelho e não refletisse nada.
Contudo, aplaudo a ideia de que a maioria das pessoas – até os chamados especialistas – creem que os vampiros são tão sem substância ou tão mágicos, que não podem ser vistos em um espelho. Isso salvou meu traseiro mais de uma vez. E neste momento, estava encantada com meu bronzeado, estava positivamente arranjada enquanto caminhava pela Madison.
Sempre havia um espelho em uma vitrine e me dava uma clara visão de mim mesma, que era um anjo. Detive-me em frente a uma joalheria com um comprimento total atrás da vitrine. Eu não podia me sentir melhor, saudável, a palidez perpétua tinha sumido. Eu já não encaixava as linhas de Sir John Sucklig
Por que tão pálido e emaciado, amante, diga-me? Por que tão pálido?
Eu irradiava como uma desportista com boa saúde. Não havia dúvida, eu estava tão preocupada e não me dei conta do homem que vinha atrás de mim, até que foi demasiado tarde.


Capítulo 4
O que parece uma oferta atrativa pode não ser.
A fortuna está no biscoito da sorte.


O cano de uma pistola foi apertado fortemente em minhas costas. Fiquei gelada. Uma mão forte agarrou no meu braço e me apertou contra um duro corpo musculoso. A centímetros de meu ouvido ele me disse em voz baixa:
- Afaste-se de Boaventura. É meu.
Eu fiquei rígida e imóvel. Meu coração disparou. Tratei de manter minha voz trêmula.
- Não sei do que você está falando.
- Sim, você sabe. Tenho estado seguindo-lhe. Você é uma das do J.
A adrenalina estava golpeando através de minhas veias. Sentia cada centímetro do peito do homem contra minhas costas e de repente me dei conta que não tinha medo. O que senti foi emoção. Este não era um ladrão. Pensei que era outro espião, talvez de outro país ou de uma agência rival. De repente, me senti esquisitamente viva, todas as minhas percepções se elevaram. Olhei meu reflexo na vitrine da joalheria e reconheci o homem da pistola... gorro negro, rabo de cavalo louro! Era ele que me seguia na plataforma do metrô. O olhei com arrogância através do vidro e disse sem temor em minha voz:
- Se sou uma das pessoas de J, quem é você?
- Não sou um agente de J. Vamos deixar assim. – respondeu o homem. Olhou através de meu reflexo.
De repente, todo o assunto me pareceu absurdo. Eu não era uma espiã de carreira. Sim, eu era algo assim, era uma espiã novata que havia feito uma bagunça no meu primeiro dia de trabalho. Talvez me arriscasse a fugir e mudar de identidade de novo. Apesar da advertência do recrutador, aposto que podia. Por outro lado, talvez, só talvez, pudesse redimir-me de minha gafe anterior. Poderia ser divertido ver se eu conseguiria ser uma espiã real, descobrindo o que o rabo de cavalo loiro era na realidade.
Diferente de mim, entretanto, este tipo era sério e estava realmente seguro de si mesmo. Soava como um filme ruim. Mas, sem dúvida era bonito e seu musculoso corpo era como o aço. Ondas de antecipação começaram a descer por meu ventre. O Rabo-de-cavalo loiro tinha estado brincando comigo. Agora ia brincar com ele, embora eu ainda não tivesse ideia do tipo de brincadeira que poderia ser.
- Bom, - disse, com uma ligeira mudança de tom, - você é a linha de levante mais original que jamais tinha escutado. – Olhamo-nos um ao outro através do reflexo da vitrine. Inesperadamente o homem começou a rir.
O duro metal em minhas costas desapareceu, todavia ele ainda segurava o meu braço com firmeza, ao ponto de doer, enquanto me fazia girar de frente para ele. Na proximidade íntima, eu podia vê-lo claramente na luz da loja. Ele me sorriu. Se Brad Pitt fosse alto, este tipo poderia ser seu dublê. Meu coração deu uma volta. Eu supus que ele estava com uns trinta anos, com o rosto sem rugas, com exceção de umas poucas linhas sobre o alto de sua testa. Seus olhos eram olhos de um encapuzado de alcova, eu assim o chamaria. Suas sobrancelhas eram escuras e retas. Mas, foi sua boca que me pareceu mais sexy. O lábio inferior era cheio. Quanto mais olhava, mais meus pensamentos paravam. Este sujeito estava quente. Dei-me uma palmada mental. E ele poderia ser perigoso, minha mente racional disse. Ele te seguiu. Ele te assustou. Investiga quem ele é e deixa de pensar como uma prostituta.
Enquanto isso, minha mente consciente estava sendo sabotada pelo odor de couro e sabonete, de seu cabelo recém lavado. E o subjacente aroma de almíscar, era um animal, um odor que era inequivocamente masculino. Todavia levava sua calça de couro e jeans que ajustava-se a ele como uma segunda pele. Apostaria muito dinheiro que não estava usando roupa íntima. Seu cabelo longo e louro estava recolhido, em um rabo de cavalo, mas o gorro tinha sumido. Não era prudente, mas me senti atraída por sua aparência física. Agora que estava razoavelmente segura de que era um "colega" de algum tipo, eu deixei completamente meus antigos medos.
Enquanto o olhava, ele me olhava como se pudesse comer-me como um melado, uma lambida por vez. O ar zumbia bastante, com a atração instantânea entre nós dois. Devia ser a adrenalina eu e meu estado de vulnerabilidade. Uma buzina soou na Avenida Madison. O sinal mudou e o tráfego rugia. Mas, de repente, tudo pareceu deter-se para mim. Ele me olhou nos olhos. Antes que eu soubesse o que estava ocorrendo, aproximou-se mais e me beijou, enquanto estávamos ali, na calçada.
Seus lábios eram suaves, mas exigentes, sentia-me tão bem quando se moviam. O mundo se inclinou, a minha cabeça dava voltas, o desejo disparou até minha coluna vertebral. Mas quando me recuperei da surpresa, afastei-me e lhe disse:
-Hei! Seguiste-me, apontaste-me uma arma nas costas e me ameaçou. Se você queria ver-me, poderia ter tentado, me perguntando meu número de telefone. Quer se apresentar? E então poderia me dizer que demônio está acontecendo?
- Darius, - disse. – Pode me chamar de Darius. Talvez.
- Quer dizer que atuar como um perseguidor ou um ladrão não é a melhor maneira de conhecer uma mulher?
- Olhe, temos que conversar. Vamos para algum lugar. – Não me perguntou, só me disse. Isso me irritou.
- Por que devo falar contigo? Por que tens uma arma, ou por que me beijou? – Me nego a mover-me um centímetro.
Darius me deu um olhar de exasperação.
- Olhe, sinto muito. De acordo? Sei de um restaurante chinês aberto a noite toda perto daqui. Eu gostaria de sair da rua e ir para um lugar mais privado.
Antes de contestar, apertou meu braço e me acompanhou.
- Que diabos você acredita que está fazendo? – Disse e comecei a empurrar para ir para trás, quando ele pôs sua boca perto de meu ouvido e sussurrou:
- Por favor. Preciso sair daqui, Você também. Não é seguro, Vamos e depressa.
Depois disso me levou sem contestação. Nunca soltou o meu braço, mas seu toque era suave. Caminhamos umas poucas quadras para leste e sul para Pekin Won King. Entramos em uma sala iluminada e me colocou em uma mesa. Éramos os únicos clientes do lugar. Darius se sentou na minha frente, em uma posição para poder ver a porta. O garçom se aproximou. Darius pediu uma xícara de chá verde.
- Hora de falar. – Disse.
- Eu? Você queria falar, assim, adiante-se, fale. Diga-me por que não deveria levantar-me e sair daqui agora mesmo - lhe disse, minha voz era firme e controlada, mas meu interior estava dando voltas.
Vendo-se como um professor de secundário, cujo aluno acabava de falar fora de ordem em classe, Darius abriu a boca para responder, depois se deteve, como se estivesse pensando no que dizer. Por um momento me olhava sem pestanejar.
- Está bem, tem razão. É minha vez - disse por fim. - Permita-me te dizer o que sei e o que penso.
- Duas vezes te segui quando estava vendo quem J contratava. A experiência me diz que ele vai atrás de Boaventura. Bom, Boaventura é meu. E, além disso, há rumores de que manipula com vampiros.
Meu coração deu um puxão, como ia assegurar-me de manter uma cara de paisagem e conter minha inquietação interior. Revirei os olhos como para dizer que ele estava com um parafuso frouxo e eu disse:
- Vampiros? Você está brincando. Os vampiros não são reais.
Darius tirou uma mecha de cabelo do rosto enquanto olhava para longe de mim, rememorando seus pensamentos. Logo voltou a olhar-me e em voz baixa, como se ele não quisesse ser ouvido ainda que não tivesse ninguém ao redor, nem sequer o garçom, disse:
- Olhe, talvez você não acredite neles, mas permita-me dizer-lhe, os vampiros existem. São reais e estão aqui em Nova York. Caminham pelas mesmas ruas que você e eu. Sentam-se junto conosco no metrô. E na escuridão da noite, matam gente inocente para satisfazer sua necessidade de sangue. Se J está começando a usá-los, quero sabê-lo, necessito sabê-lo.
- Então você pensou que eu era um vampiro? – Tratei de fazer um som, ridicularizando o absurdo de suas palavras.
- Sim. Não, me refiro que pensei, mas não estava seguro. – Darius parecia frustrado. – Sabe, eu pensei que poderias sê-lo, na primeira vez que lhe vi. Você se classifica por sua aparência. Eu não pude averiguar muito sobre você com seus vizinhos, além de seu nome e alguns deles nem isso sabem.
- Você me investigou com meus vizinhos? Que diabos, você é um maldito descarado. Está louco? Sabe, creio que será melhor sairmos daqui. – Coloquei-me de pé e comecei a sair. Sua mão caiu sobre meu braço como uma garra. Ele me olhou e eu a ele. – Deixe-me ir ou eu vou começar a gritar – eu disse.
- Espera. Eu explico. Dê-me a oportunidade para terminar. Certo? – Sua voz era suplicante, seu rosto aberto e sincero. Eu não me movi.
- Por que deveria? – disse.
- Eu poderia saber coisas que deverias saber sobre Boaventura. Sobre o seu chefe. Sobre onde você está se metendo.
Olhou-me nos olhos, que parecia ver direto em minha mente. Eram uns olhos agradáveis, em um formoso rosto. A mão em meu braço se manteve firme, mas estava tomando cuidado de não me fazer nenhum dano. De fato, sua mão estava quente e me sentia bem. Por fim, sentei-me de novo.
- Você tem só uma oportunidade mais para me convencer de que não é um lunático. – disse-lhe.
- Escuta, a respeito da coisa dos vampiros, - disse. Digo-te que são reais, e por um par de razões eu não estava seguro ao seu respeito. Então você foi a esse SPA. Você saiu de lá como se tivesse chegado do Caribe. Os Vampiros não podem suportar a luz das camas de bronzeado. Se converteriam em pó. Isso me convenceu. Estou convencido de que não é um deles.
Maldito seja, este tipo é maluco, pensei. Nunca ouviu falar de autobronzeamento? Por onde tem andado? Eu apostaria que não tem andado com mulheres por algum tempo, com certeza. Obrigado, Benny, pensei. Você acabou de salvar meu traseiro. Então eu disse em um tom desagradável:
- Olhe, obrigado pelo voto de confiança. Por certo você tem vivido fora dos Estados Unidos?
Ele me olhou com receio.
- Quem te disse isso? Por que queres saber?
- Curiosidade - eu disse. – Digamos que você é um pouco rude no trato social.
Isso o fez rir sem alegria e disse:
- Sim, onde eu estava não havia muita conversa educada. – Uma certa escuridão passou pelo seu rosto e senti uma profunda tristeza que emanava dele.
Fez-se um silêncio entre nós. Eu brincava com o guardanapo. Olhei para baixo da mesa. Ele suspirou e seguiu falando com dor audível em sua voz.
- Olhe, Daphne Urbano, eu a vi sair do escritório de J. Passei o dia de hoje investigando você. Você é uma mulher bastante misteriosa. Uma vez mais, esta noite, você estava de novo no Edifício Flatiron, assim eu supus que você se reuniu com J de novo. Eu segui você quando saiu. Então você foi até o endereço de Boaventura. É lógico que está trabalhando para J e para a agência e esta está conectada com os planos de Boaventura. Sabe, está brincando com o maior traficante de armas do mundo. – Sua voz subiu um pouco. – E senhora, está pisando nos meus pés. Deixe-me dar-lhe uma advertência amistosa. O pessoal de J não tem nem cérebro nem coragem para fazer frente a Boaventura. E uma mulher, certo como o inferno, não pode cortar neste negócio. –Grunhiu o último comentário.
Eu não gostei do tom de sua voz e minha voz foi igualmente hostil quando disse:
- Olhe, homem de Neanderthal. Não sei quem é, mas acha que sabe quem sou. Não, e tem uns dez segundos para me dizer por que esta aqui. Depois disso eu vou embora. E o digo a sério.
Ele começou a falar rápido.
- Olhe, Daphne, J e eu nos conhecemos há muito tempo. O quanto você o conhece? Você sabe, ele tem o costume de utilizar às pessoas e não se importar se os matam ou não.
- Que tão bem conhece J? –Perguntei-lhe, usando o que eu chamo "a defesa judia" de responder a uma pergunta com uma pergunta. Tive uma professora muito boa em Kiev faz muito tempo.
- Então você admite que o conhece – respondeu Darius.
- Concedido. Apesar de que, conhecer é uma palavra muito forte.
- Está bem, está trabalhando para ele, então.
- Bom, para quem exatamente, você está trabalhando? E o que realmente você quer de mim?
Olhou-me por um momento difícil. De repente, senti um arrepio sexual que elevou as apostas. Darius claramente me avaliava. Algo estava acontecendo por baixo da superfície desta conversa. O ar estava carregado com eletricidade. Era como o zumbido de uma lâmpada fluorescente sobre minha cabeça. Darius começou a falar novamente.
- Creio que devemos deixar de dançar. Eu trabalho para uma agência de inteligência dos EEUU., mas não a mesma que J. E ele não vai arruinar minha operação de novo.
- E qual é a operação?
- Boaventura.
- Bom, Houston, temos um problema – eu disse.
Nesse momento o garçom apareceu com o chá e perguntou se podia anotar os pedidos. Eu não tinha fome, mas seria inteligente comer algo. Outro velho conto, "os vampiros só bebem sangue". Necessito comer verduras como qualquer outra pessoa. Sem fibra estaria muito perto de alcançar, perdoem meu jogo de palavras: o Buddha's Delight, disse:
- Camarões ao vapor e verduras.
- Quer sopa? – ele perguntou.
- Não, obrigada – disse. - Isso é tudo. – Ele disse ao garçom.
O garçom repetiu de novo nosso pedido, sem escrever nada, recolheu nossos menus e se foi.
- É vegetariana? – Darius me perguntou.
Eu estava bebendo um pouco de água e me afoguei.
- Sinto muito, entrou pelo conduto errado. – Arrumei-me para tirar as palavras entre tosses. Quando pude falar de novo com normalidade, disse – Devo evitar comer qualquer coisa com uma cara. – Morder qualquer pessoa com uma cara é uma história completamente diferente, pensei. – E você? Alguma aberração de dieta?
- Trato de comer bem, já que estou trabalhando. – Isso explica o corpo duro, mentalmente assinalei. – Mas eu confesso ter uma debilidade pelos sorvetes do Uma e Jerry's. Meu sabor favorito é Cherry García.
- Estou com você no sorvete, – disse. – Meu favorito no Uma & Jerry's é Phish Food. Eu gosto de qualquer coisa com marshmallow derretido e chocolate e caramelo. – Pensei que seria melhor averiguar sobre o passado deste tipo. – Por certo, é um cabeça de morto? Já sabe, Cherry Garcia e tudo o mais, - lhe perguntei.
- Não. – Ele riu. – Eles eram um pouco anteriores ao meu tempo. Eu gosto de sorvete. Quando se trata de música da minha juventude desperdiçada, eu estava com o Nirvana e os grunges. Mas, isso faz muito tempo e é muito distante. Como lhe disse, onde estava não havia muita oportunidade de escutar musica pop. Quando eu tinha sorte, podia encontrar um pouco de clássica no rádio. Creio que Nirvana foi o último grupo que gostei o suficiente para comprar todos os CDs que gravaram.
- E quanto ao Nirvana, eu também gosto, - concordei. – Sempre tive atração pelo tipo de condenados, os tipos atormentados com alma de poeta. Quando Kurt Cobain se suicidou, me senti como se houvesse visto tudo isto antes, - lhe disse como meus pensamentos se dirigiram ao passado. Controle-se, garota, me disse. Estás em trabalho aqui. Há conversa educada e você vê o que pode encontrar. Assim continuei: - Eu também tenho escutado Emmy Lou Harris durante anos. Annie Lennox, também e Johnette Napolitano, você sabe, seu grupo Concrete Blonde. Oh, sim, por muito tempo nos anos noventa eu estive louca por um grupo chamado October Project.
- Está brincando - disse, seu rosto se iluminou e ficou muito mais jovem. – Eu também. Canção favorita?
- Ariel. Foste a algum de seus concertos? Fizeram um giro pelo noroeste no meio dos anos noventa. Johnette também fez um concerto com os Talking Heads aqui em Nova York, creio que foi em 1996 ou 1997. Estavas na cidade?
- Não. – Foi tudo o que disse.
- Onde vivias? – Pressionei.
- Aqui e lá. Viajo muito - respondeu vagamente. Logo me olhou de novo, me sustentando com seu olhar. O estômago me deu um apertão. – Sabe, é uma mulher formosa. Todos os contrastes combinam com seu rosto, seu cabelo, seus olhos. Têm os olhos mais surpreendentes - disse. – Importa-se que lhe pergunte se está em uma relação?
Ser repelida por J, tinha-me ferido mais do que queria admitir. Agora as palavras do Darius se verteram sobre mim, como mel. Poderia ter estado me dando uma linha, mas se sentia bem de todos os modos.
- Por agora não, eu não estou vendo ninguém especial ultimamente. Todavia, estou em uma ruptura ruim. E você? Casado?
- Não. Sou solteiro. Não estou com ninguém. Meu trabalho me mantém ocupado muito tempo e não sobra nenhum para uma relação.
- E qual é exatamente o seu trabalho?
- Classificado - respondeu ele e me deu um sorriso torcido. – Igual a você.
- Então estamos os dois, digamos, no ramo da espionagem?
- Algumas pessoas podem dizer isso.
Tentei uma tática diferente. Olhei para baixo e a toalha de papel do restaurante era uma carta de astrologia chinesa.
- Em que ano você nasceu? – lhe perguntei.
- Mil novecentos e setenta e quatro - falou e me perguntei se isso era verdade.
- Assim, quantos anos você tem? – perguntei rapidamente.
- Bastante velho – disse.
Eu não estava indo a qualquer lugar. Encontrei 1974 na toalha de papel.
- Ah, é Tigre. – Li em voz alta - O Tigre é muito apreciado na China, com seus poderes quase mágicos para manter os ladrões e fantasmas na baia. O Tigre é uma pessoa nascida para mandar e não para obedecer. Os Tigres são carismáticos e dinâmicos. São valentes e respeitados, inclusive, por aqueles que se opõem a eles. Os Tigres são combatentes e defendem o que acreditam ser correto. Melhores companheiros: cavalo, cachorro e dragão. Cuidado com o macaco.
- E você, em que ano nasceu? – Darius perguntou, começou a ler o papel, também.
- Um cavalheiro não pergunta a uma dama seu peso e sua idade - lhe disse, enquanto recorria rapidamente ao papel.
Tratei de recordar quantos anos tinha em minha última carteira de identidade. Eu estava a ponto de escolher o ano do Dragão. Enquanto isso, eu sabia exatamente que animal seria, se usasse meu aniversário real. Sem lugar para dúvidas, eu era macaco. Se acreditasse nos signos, isso seria um alarme. Felizmente, o garçom voltou a aparecer em silêncio e, sem palavras, colocou uma tigela para Darius.
Salvos pela sopa. Pensei.
- Voltemos para J - disse.
- Por quê? – Perguntei-lhe.
- Acredito que tenha caído em alguma armadilha. – disse.
- Por que diz isso? – Perguntei-lhe, me sentindo um pouco nervosa. É certo que tinha sentimentos diferentes a respeito de J. Talvez estivesse sendo jogada aos lobos. Disse que odiava aos vampiros. Atuava como um filho da puta também. Ou igual a todas as mulheres desprezadas, eu estava pronta para atirá-lo à distância. – Você conhece bem ao J?
_ Eu não diria que bem. Mas, já topei com o chefe SOB mais de uma vez.
- Você não parece gostar dele.
- Eu não sou seu fã. Por que você quer saber?
As regras eram que não iria falar sobre meu trabalho com ninguém. Mas talvez eu devesse sair dessa bagunça, enquanto eu pudesse. Mais informações sobre o que estava acontecendo, na realidade, poderia realmente ajudar. Darius poderia ser uma fonte de informação importante para mim. Eu tinha a intenção de sobreviver, e Darius era a luz, eu não sabia se poderia confiar em J. Eu não sabia se podia confiar em Darius, de qualquer maneira, mas ele não estava ameaçando me matar se eu não trabalhasse para ele. Havia ainda o ressentimento pela coerção que a agência usara para me contratar. Então, eu decidi responder mais com a verdade.
- Eu trabalho para o J. E para ser honesta, eu tive um encontro com ele. Você acredita que ele tem um problema em trabalhar com mulheres?
-Eu não sei nada sobre isso. Eu sei que é ex-militar. Forças Especiais. Ele tem a reputação de seguir o que diz o livro, é este tipo de pessoa. Para citar Churchill: Ele tem todas as virtudes que eu não gosto e nenhum dos vícios que admiro. – Darius olhou para mim estudando as minhas reações. – Não tem nenhum sentido de humor, mas não é um tipo mau, assim ouvi dizer. Justo. A menos que se cruze em seu caminho. Então, você está cruzou com ele?
Oh, oh, eu pensei.
- Em uma maneira de falar - eu disse.
-Bom, pelo que ouvi, não há segundas oportunidades, se alguém colocar a pata. Ao menos, essa é sua reputação. É muito duro. Nunca gostei desse tipo. Nada pessoal. Algumas pessoas que foram meus amigos terminaram mortas. Eu sei o que estou falando, Daphne. Parte do problema não é J em si mesmo. Oficialmente nossas agências não se comunicam. O resultado é que duplicam os esforços e se metem no caminho um do outro, como nesta coisa de Boaventura.
- Sim, o Boaventura. Olhe, Darius. Não posso sair desta tarefa. Mas talvez possa te esfregar as costas, se você esfregar as minhas. – As palavras saíram de minha boca antes que pudesse detê-las. Tudo o que queria dizer era que eu era uma novata e poderia utilizar toda a ajuda que pudesse obter. As insinuações sexuais tinham deixado um sorriso na cara de Darius.
- Você sabe, isso pode ser uma boa ideia. O que tem em mente? – Senti que seu pé tocava o meu por debaixo da mesa. Poderia ter levantado e terminado com isso. Em seu lugar, pus o bico de minha bota detrás da dele e esfreguei a sua panturrilha. Nossos olhares se encontraram. As coisas estavam começando a esquentar e eu deveria ter mantido minha mente nos negócios.
- Bom, o que você sabe sobre o porquê de Boaventura estar em Nova York?
- Daphne, sem ofensa, mas você está fora de sua liga. Boaventura é um tipo muito mau. Ele não tem consciência. Vai vender armas para qualquer pessoa que tenha dinheiro, não importa o que pensam em fazer com elas. E é um russo. Não estou desmerecendo o povo russo, mas Boaventura é do estilo soviético russo. Desapiedado. Elimina qualquer pessoa que se interponha em seu caminho. Ama o dinheiro acima de todas as coisas. Um verdadeiro ABM.
- ABM?
Darius riu sem humor.
- Um homem muito mau.
- Isso é muito lindo, Darius. Mas, qual é o seu interesse nele?
- Lamento, Daphne, assunto classificado, também. E você?
- Idem.
- Muito bem - disse Darius enquanto tomava a sopa, - assumindo que ambos estamos na mesma coisa, como pode cada um de nós lograr alcançar o que queremos? – De novo foi um duplo sentido. Deixou a colher, estendeu a mão e tomou a minha. Começou a tocá-la com os dedos. Uma sensação corria por minha pele e formigava meu braço. Tirei minha mão.
- Por que eu deveria confiar em ti, Darius? Por que queres trabalhar comigo e por que vou sair disso? E agora mesmo, pode provar-me que estamos trabalhando do mesmo lado?
- Provas? Daphne, neste negócio não há nenhuma prova, exceto uma história compartilhada: as pessoas que nos treinaram e as pessoas que viram suas costas quando precisamos. Quando não tem um passado comum, tem que levar aos outros o seu valor nominal e terá que confiar em seus instintos. Esse é um risco, mas como você sabe, este negócio é tudo a respeito dos riscos. Encontrará os informantes. Recebe a informação. Utiliza seu instinto para pesar se é confiável ou não, quando não se pode verificar por outra fonte. Estou seguindo meus instintos contigo. Mas aqui... – Ele colocou a mão em um bolso de sua jaqueta. Tirou uma carteira e a abriu. Atirou sobre a mesa diante de mim. – Esta é minha carteira de identidade. Não, não diz, Darío Bella Chi, espião. O que diz Daphne?
Peguei a carteira aberta. De um lado da carteira vi uma carteira de motorista. Uma direção do Queens. O aniversário de Darius era em 8 de fevereiro, 1974. Maldito seja, estava dizendo a verdade a respeito disso. No outro lado da carteira estava um cartão de identificação do governo. A agência era o Departamento Interior. Sua posição era especialista de exibição. Merda, isso me parecia familiar. Essa era minha cobertura. Os burocratas não têm absolutamente nenhuma imaginação.
- Já vi um montão de documentos de identidade falsos, Darius. Isto não significa nada - lhe disse.
- Esse é o ponto. São reais? – Pegou a carteira e a guardou no bolso. – Tudo se reduz ao instinto, Daphne. E risco. Pense. Olhe. O que queres fazer? Pode sair daqui agora. Eu não te deteria. Mas creio que podemos ajudar-nos mutuamente. Confia em J? O que dizem seus instintos a respeito dele? O que dizem seus instintos a meu respeito?
Suas palavras vieram rápido, não deixou nunca de olhar-me. Seu rosto se via honesto, completamente sincero. Se estivesse mentindo, seria um mestre na arte de mentir. Examinei meus sentimentos e deixei que minha antena recolhesse todas as vibrações que estava enviando. Ele não me havia dito muito. Havia sido evasivo. Mas, não registrava nada. Eu acreditei nele. E sentia que estávamos em um ponto de inflexão. Poderíamos ser aliados ou inimigos...
Tomei minha decisão.
- Olhe, Darius. Tenho uma reunião amanhã à noite com Boaventura. Você quer me encontrar depois? Vou estar em uma melhor posição para ver se pode haver uma colaboração entre nós, depois de saber mais.
Enquanto isso olhava para Darius, meu pulso disparou. Perdia o controle de meus desejos. Minhas necessidades físicas se haviam convertido em uma maré pulsando através de meu sangue. Eu estava correndo para o lado escuro. Por muito tempo eu resisti a tentação de intimidade com um desconhecido, o desejo de apoderar-me dele e beber dele começou a afogar a razão. Neste momento a única posição que eu gostaria de estar com Darius era debaixo dele. Ou encima dele. Desfrutaria dele de qualquer maneira.
Ele me olhava com desejo sexual franco. A compreensão passou entre nós. Ele me queria também. Nossos sentimentos ultrapassavam as palavras. Não era uma coisa incomum. Homens e mulheres se encontram em bares, tomam uns goles e vão juntos a casa para uma noite de prazer, sem cordas, sem compromisso. Isto acontece todo o tempo. Realmente não tinha nada que perder, exceto minha crescente frustração sexual. Certamente não tinha nada que temer.
Nesse momento o garçom apareceu com nosso pedido e nos interrompeu o contato visual. Passamos o resto do jantar conversando sobre a comida. Comparamos as cozinhas a China e japonesa. Falou um pouco sobre os restaurantes na Tailândia. Reconheci que passou um tempo em Kioto. Todo o tempo meu pé subia por detrás de sua perna. Ele me perguntou se queria um pouco de sua comida. Eu assenti. Ele me pediu os pauzinhos de comer e se aproximou de mim. Com delicadeza recolheu um camarão e o levou aos meus lábios. Ele estabilizou a mão com a minha quando o tomei em minha boca. As sensações falaram alto quando nos tocamos.
- Estou pronto para ir - disse. – E você?
- Estou pronta também. – O significado atrás de minhas palavras não podia ser mais claro.
Darius insistiu em chamar um taxi e me levou para casa. Não discuti. Insisti para que ficasse para dormir. Ele não discutiu. Logo que entramos no elevador e as portas se fecharam, me voltei para ele, envolvendo meus braços ao redor de seu pescoço. Ele me apoiou contra a parede do elevador, seus lábios baixando duro nos meus. Todos os pensamentos se detiveram, minha mente se fechou em uma obscuridade acolhedora, com a pura sensação quando nossos corpos se chocaram. Sua mão foi por baixo de minha blusa, até encontrar o mamilo, e acariciar com seu polegar. Gemi.
Poderíamos ter deslizado pela parede e caído no chão do elevador, mas eu vivia no décimo andar. O elevador se deteve e as portas se abriram. Abri os olhos, pisquei, tomei sua mão e o puxei para o corredor. Chegamos a porta de meu apartamento, sem deixar de nos beijarmos. Enquanto isso, eu procurava a chave em minha bolsa. Darius estava atrás de mim, apertando seu corpo no meu, seu pênis contra o meu traseiro. Me afastei para abrir a porta e quase caímos juntos na sala escura.
Não acendi a luz. Darius levantou o pulôver e perdia beijos por meu peito, a barba de suas bochechas era áspera contra meu peito. Minha cabeça ficou contra a parede e eu dei um suave e feliz gemido. Seus lábios me tocaram o estômago por cima da cintura dos jeans. Tinha as mãos ao redor de minha cintura e logo me levantou. Ele abriu seus braços. A sala celebrou a suave iluminação das luzes da cidade, o suficiente para mostrar a Darius o sofá.
Ele me colocou ali. Pôs-me suavemente. Eu meio me incorporei e tirou de meu casaco, arrancou meu suéter e o jogou no chão. Darius se deslizou fora de sua jaqueta de couro, com os olhos fixos em mim. Com minha aguda visão noturna, pude ver com claridade. Tomei cada centímetro tentador, quando ele tirou uma apertada camiseta ajustada. Abriu seu jeans e saiu dele. Sem roupa interior. Eu tinha adivinhado com antecedência e não me decepcionei ao descobrir que eu tinha razão. Definitivamente não estava decepcionada com Darius. Não podia esperar para tocá-lo.
Ele se ajoelhou ao lado do sofá e tirou as botas. Logo desabotoou o botão de meus jeans e cuidadosamente os baixou. Eles se foram para o monte de roupas. Minhas roupas íntimas se uniram a elas em um instante.
- Você está cômoda? – perguntou. Eu estava meio recostada com as costas apoiadas em uma almofada do sofá, olhando o seu rosto.
- Não podia estar melhor - murmurei, e era sério.
- Sim, poderias, - disse e separou meus músculos com as mãos.
Logo a seguir senti a sua língua, estava correndo sobre mim, degustando-me e fazendo-me um nó em meu estomago e minha respiração ficou entrecortada. As sensações chegavam ao meu cérebro, como as borbulhas de champanhe, uma maré doce me levou em espiral de círculos para cima. Ele dava pequenas mordidas e lambia e eu quase perdi minha mente. Não podia esperar mais. A excitação e o desejo frustrado de todos aqueles anos exigiam que se completasse agora.
- Por favor, foda-me - gemi e me retorcia debaixo dele.
- Quero que você goze primeiro - disse.
- Não, por favor, preciso de você em mim agora - lhe supliquei.
Ele se pôs de pé, pegou a sua calça e sacou uma camisinha de seu bolso. Colocou e então encontrou o meu ponto doce e com a ponta de seu pênis, brincando comigo por um momento, roçou o meu clitóris antes de entrar em mim.
- Oh! – Disse, quando a dor e o prazer se combinavam, agora me recordava o que se sentia quando estava com um homem.
- Ohhhh, - disse. – Esta tão quente, tão boa, - sussurrou. Inclinou-se e beijou-me quando se enterrou profundo dentro de mim.
Poderia provar a mim mesma em seus lábios. Eu estava correndo a frente, a esquecimento, a um não pensar, onde tudo era sensação. Tive que me refrear um pouco. Senão eu me perderia por completo, podia mordê-lo antes de me dar conta do que tinha feito. Entretanto, curiosamente, até agora com Darius não sentia vontade de beber o sangue dele. Não havia luz da lua iluminando seu pescoço. Nada, o escuro me afligia. Sentia-me consumida pela alegria deste bonito homem ansioso, que me leva com toda sua força ao topo da montanha e mais alto, para as estrelas.
Agora tinha os olhos abertos e via o êxtase em seu rosto quando nos movemos juntos em um ritmo perfeito. Apertei-me contra ele até que se afundou dentro de mim uma e outra vez. Foi positivamente incandescente, brilhando com a paixão. Ele parou.
- Que foi? – comecei a dizer.
- Shh, - disse, cortando-me.
Suas poderosas mãos foram para atrás de meus joelhos e me puxou mais para ele. O movimento me abriu mais, expondo minhas partes íntimas para o seu olhar fixo. Ele se inclinou para a frente e roçou meu clitóris com a língua. Gemi.
- Oh. Minha impaciente menina, - disse quando se levantou de novo. Tenho mais prazer na loja para você.
Pouco a pouco, tentadoramente empurrou o seu pênis dentro de mim, mais e mais devagar. Com meus joelhos levantados, foi capaz de ir muito mais fundo, seu pênis palpitante enterrado dentro de mim. Meu prazer disparou. Eu estava chegando ao clímax rapidamente.
- Agora - disse. – Vamos.
Ele aumentou seu ritmo, golpeou seu corpo contra o meu e gozei como se faíscas de uma furiosa chuva de fogo saísse de minha alma. Quando ele gozou, saiu satisfeito com um gemido profundo e nesse momento nos unimos em uma dança eterna. Nossos seres unidos. Fomos juntos a algum lugar, distante do lugar que havia começado.
Logo a realidade, - a sala escura, o ar frio – regressou. Estava suado encima de mim, mas teve a precaução de manter a maior parte de seu peso apoiado sobre seu braço musculoso para não me esmagar. Com a outra mão, com os fortes dedos suaves, empurrou o cabelo úmido por parte de minha bochecha e disse:
- Você é tão bonita. – Beijou-me meigamente na bochecha e com isso disse - Obrigado.
- Obrigada para você também, querido. – disse.
De repente, meus olhos brilhavam com lágrimas na penumbra. Transbordou e correu por minha bochecha. Eu tinha estado sozinha durante tantos anos e nenhum homem que me dizia que era formosa e sem possibilidade de liberação saudável para todas as paixões encerradas dentro de mim. No mais profundo de meu coração em segredo, temia que nunca mais pudesse sentir-me excitada por um homem de novo ou ter outro amante.
- Já se passou um longo, longo tempo - disse para Darius.
- Imaginei que poderia ser isso - disse e se inclinou para beijar minha lágrima.
Ele poderia ter adivinhado que eu não tinha feito amor por um longo tempo, mas, nem em seus sonhos mais selvagens poderia calcular quanto tempo. Um total de décadas e durante esses anos de celibato, que haviam sido quase dois séculos. E o que pensaria se soubesse que George Gordon, Lord Byron, havia sido meu último amante? George, selvagem, George imoderado, foi um ato difícil de superar. George havia sido de todos os ângulos, a dureza de suas pernas, seus dedos longos e fortes que machucavam e acariciavam até me fazer gritar. Delgado ao ponto de emagrecido, ele estava longe de ser musculoso, seu peito estreito atravessado por terríveis cicatrizes de uma prisão. Nunca me esquecerei da urgência de seu amor. Apesar de que me levou, parecia com pressa, como se seu tempo estivesse acabando. E assim foi.
Às vezes ele era difícil. De propósito, me machucava um pouco, só para aumentar meu desejo. Entretanto, sempre um cavalheiro, Byron insistia em que completar com suas mãos depois que gozou primeiro. Nunca havíamos culminado juntos. A simultaneidade é um dom raro e Darius o havia dado para mim. Eu estava satisfeita. Eu estava contida por um momento.
Darius sentou-se e inclinou a cabeça para trás, fechando os olhos. Eu fiquei ali escutando a sua respiração, nenhum dos dois disse uma palavra, até que Darius falou:
- Talvez não devêssemos ter feito isso.
Senti como se água fria tivesse sido jogada em mim.
- O que queres dizer? – Havia estado pensando que deveríamos fazer "isto" de novo, preferivelmente, tão rápido como fosse possível.
– Podemos complicar as coisas se estamos planejando trabalhar juntos. Distrai-nos. Boaventura é perigoso. Se começar a me preocupar porque te machuque...
Eu o interrompi.
- Eu posso cuidar de mim mesma.
- Sim, claro, - disse com um sarcasmo que gotejava de suas palavras. – Olhe, você é uma mulher, e...
Minhas palavras explodiram de mim.
- Olhe Darius. Você não me conhece, não sabe nada a respeito de mim. Sou uma mulher, está bem e posso me cuidar muito bem. Tenho quase qui... – Detive-me bem a tempo - ...muitos anos. Se não pudesse, J não me teria enviado a esta missão. – Aproximei-me do monte de roupa e encontrei meu suéter. Vesti com raiva. Cheguei até minha roupa interior, quando Darius foi pegar sua camiseta. Nossas mãos se tocaram. Apertou-me os dedos brandamente, logo os soltou.
- Não tinha a intenção de rebaixar-te. Lamento - disse. – E eu não quero arruinar esta noite. – Pegou a camisa e a colocou sobre a cabeça. Inclinou-se para trás, nu da cintura para baixo. – E você tem razão. Eu não tenho base para dizer o que disse. – Olhei para seu abdome musculoso, músculos duros, e ele sabia que eu estava olhando. Começou a falar de novo e me olhava. Falava suave e baixo.
- Simplesmente, tenho dúvidas sobre se devemos seguir fazendo isto enquanto estamos nesta missão. Desejando fazer amor com você o tempo todo, será difícil de concentrar-me. E Daphne, se for sempre tão bom, eu vou querer fazer amor com você cada oportunidade que tiver – disse com um sorriso em sua voz. De repente, já não estava tudo mal. Eu me sentia feliz e muito travessa.
- Darius, deixa-me mostrar-lhe o bom que sempre será. – Me aproximei dele e toquei suavemente seu pênis, o que o fez mover-se debaixo de minha mão. Darius gemeu.
- Daphne, eu não a deixei satisfeita? – perguntou.
- Sim. – disse. Inclinei-me e coloquei a língua em sua orelha. – Mas, a noite ainda é uma criança, e como você notou, eu tenho esperado durante muito tempo pelo que acabo de fazer. Assim, estou sendo uma menina gulosa e pedindo mais.
- E quanto queres mais? – disse, tomando-me em seus braços.
- Quando você pode começar? – disse e nossos lábios se tocaram.
- Em trinta minutos? – murmurou.
- Deixa-me ver se posso convencê-lo para que seja em quinze. – sussurrei em tom de brincadeira, então me inclinei para beijar o seu ventre e escutei o seu gemido quando comecei a baixar minha boca para o seu pênis.
- Então será quinze. – suspirou.
Foi ao amanhecer, quando fizemos o amor pela terceira vez. Depois de que Darius bocejou e disse que seria melhor se fosse. Deixou seu número de celular e me disse que chamasse depois de ter terminado com Boaventura de noite. Decidimos nos encontrar na esquina do Museu Metropolitano, que estava a pouca distância do endereço de Boaventura.
Eu estava dolorida, mas satisfeita.
Depois de que Darius se foi, fui a uma prateleira alta da parede, abri uma porta secreta e entrei em um pequeno quarto de madeira. Não subi para meu caixão. Nesses momentos havia caído nesse mundo de sonhos onde me encontrava ao outro lado da fronteira entre a existência e a morte. Eu vi um vaga-lume carregado por um vento azul. Vi Byron caminhar ao longe, subindo uma colina verde. Parecia tão jovem e pueril. Deteve-se e deu uma volta, levantou a mão para mim, sorrindo e enquanto dormia, estou bastante segura de que estava sorrindo para mim.


Capítulo 5

Por que eu gosto da chuva de beijos em meus lábios e pálpebras pálidas.
A Serenata Índia – Percy Bysshe Shelley


Quando eu despertei era minha manhã, o início de uma noite de inverno prematuro para todos outros. Sentei-me languidamente, tirando o cabelo de meu rosto. Uma estranha inquietação se apoderou de mim. Senti-me como se tivesse terminado ou como se acabasse de começar um capítulo de minha vida. Eu não sabia como diferenciar. Não pode ser um princípio sem fim. Meu celibato auto-imposto tinha terminado. Guardaria em seu lugar, minhas memórias de velho amor em alguma parte se separada de minha mente como flores embutidas entre as páginas de um livro? O que tinha começado em minha vida? Tinha encontrado simplesmente uma noite de desejo, agora?
Sobre um nível esperei que não. Meus sentidos, agora despertados de novo, quiseram mais dele. Sobre outro nível, eu tinha desejado para um lançamento sem emoções profundas ou compromissos atados. Em minhas circunstâncias, tanto como um vampiro como uma espiã, uma relação íntima com o Darius seria perigosa para os dois.
A resposta chegou à minha mente. Devia simplesmente não pensar nisso. Meu encontro com Boaventura seria daqui a poucas horas. Reuni a informação que tinha recolhido de J no dia anterior na mesa de jantar e me sentei com uma fumegante taça de café preto.
Tive que me familiarizar com os dispositivos de espionagem que J havia me dado. Isso não tomaria muito tempo. Mais difícil foi a internalização da informação sobre a coleção de arte e de seu proprietário. Minha mente começou a frisar-se ao redor dos problemas diante como uma serpente ao redor de um pau. Como poderia não só representar a um colecionador de arte que nunca tinha conhecido, mas logo negociar a venda de arte que alguma vez tinha visto?
Não pensei muito no que J chamava plano. Suas instruções pareciam soltas e descuidadas, apressadas e artificiais. Suponho que se a informação de inteligência sobre a venda de armas era recente e muito urgente, não lhe teria dado J, ou quem ideou este sistema, o luxo do tempo.
Em meus papéis estava escrito que o nome do colecionador era Douglas Schneibel. Um endereço no Soho e um número de telefone também foram catalogados. J disse que o homem era verdadeiro. Disse que os artigos que Boaventura desejava adquirir também eram genuínos. Avaliei o me pôr em contato com Schneibel durante dois minutos antes que pegasse o telefone e fizesse a chamada.
Calculei que já tinha quebrado um inferno de regras. Tinha-as quebrado; na cena com J, em minhas indiscrições com o Darius, então eu também poderia romper umas quantas mais. Um homem respondeu com voz leva um forte acento alemão.
-Olá?
- Sr. Schneibel? – perguntei.
- Sim, quem fala? – contestou ele.
- Meu nome é Daphne Urbano. Trabalho com... Uh... com J. Ele... bom, me pediu para que atue como sua agente na venda de uma parte de sua coleção da Nova Guiné. Vou fazer contato esta noite. Seria possível eu me encontrar com você primeiro para que possa ver as peças que o comprador deseja adquirir?
Houve um longo silêncio. Pensei que o homem havia desligado. Logo disse lentamente.
- Suponho que deveria. – Suas palavras pareciam ser um apito. - Eu deveria ter sido avisado de que você gostaria de examinar a coleção. Quando você quer vir?
Eu não tinha muito tempo antes de minha reunião com Boaventura. Ir para o centro da cidade no metrô seria mais rápido que em um taxi, mas, todavia, levaria mais ou menos uma meia hora para chegar lá. Calculei rapidamente.
- Lá pelas 6:00 PM estará bem? – Isto nos daria uma hora juntos, antes que eu me encaminhasse.
- Como você quiser. Suponho que tenha o endereço. Estou no terceiro andar. Não toque a campainha. Eu posso vê-la. Pare na frente da porta de entrada e olhe para cima.
- Muito bem. Lá pelas seis, então.
-Sssim, - disse entre os dentes e então o telefone ficou em silencio.
Minha seguinte ligação foi para Boaventura, para confirmar nossa entrevista. Ele não respondeu, é obvio. Alguém, uma mulher, supõe que uma empregada, o fez. Sotaque russo. Disse-me que esperava às sete e meia da noite. O porteiro a anunciará, disse e desligou abruptamente.
Sempre confirmo minhas entrevistas. Aprendi esta regra elementar em meu primeiro século de vida, depois de que apareci um número excessivo de vezes em uma loja para descobrir que o comerciante havia ido embora, ou só para saber que já tinha vendido o objeto de minha missão. Se me enganar uma vez, a culpa é tua. Se me enganar duas vezes, a vergonha é minha.
Minhas botas da Prada com seus saltos de quatro polegadas não foram feitas para caminhar. Entretanto, supunha-se que devia ser um agente de arte sofisticada, as sapatilhas estavam fora. Usava uma saia de camurça longa em Loden verde e um pulôver branco de caxemira, acentuados por um cinto preto fino. Completei com um casaco de lã de Davos feito na Áustria que tinha ordenado do catálogo do Gorsuch. Meu cabelo estava recolhido em um coque; coloquei brincos de ouro de bom gosto, acentuados por lágrimas de diamantes. Coloquei meu anel favorito, com certeza. Peguei uma pequena bolsa Bosca embaixo do braço e também levava uma maleta preta Bosca, que deveriam me deixar devidamente impressionante, já que foram feitas à mão em couro de alta qualidade Premium italiano.
Creio que o traje era essencial em uma parte da jogada. A maior parte de minha vida eu tive que fingir ser alguém diferente de quem eu era: Eu era a viúva jovem de um comerciante na Florência medieval, me fiz passar por filha de um comerciante de Amsterdam no século XVII, uma herborista suíça, no século XVIII, uma dama de companhia na corte da Imperatriz Josefina. Eu era a grega de Byron, meio século mais tarde, então, no levante da Páscoa em 1916, eu era uma revolucionária ardente irlandesa, em Dublin e uma amiga de W. B. Yeats. Eu havia sido uma buscadora espiritual na Índia; mais tarde me transformei em uma bruxa andarilha – pelas Montanhas do Cáucaso e no Afeganistão. Eu tinha tantas outras identidades, também. Nunca "morri"; somente desapareci e reapareci em outra parte como alguém mais. Venha para pensar como ele. Com todas as identidades que eu tinha e toda a mentira que eu dito, eu havia tentando ser espiã há várias centenas de anos. Devia ser malditamente boa nisso.
Apenas quarenta e cinco minutos mais tarde, cheguei aonde me havia indicado Douglas Schneibel. Olhei para cima com meus olhos treinados para o terceiro andar, até que uma mão estendida por uma janela do terceiro andar e deixou cair uma chave dentro de uma caixa de pílulas.
- Hey! – Gritei quando esteve a ponto de cair sobre minha cabeça, e saltei de lado e a chave caiu no chão. Peguei e abri a porta.
Um elevador de carga aguardava aberto, do tipo que uma polia abre acima e abaixo. A área estava duramente iluminada por uma lâmpada nua pendurada. Entrei no elevador, onde poderiam caber vinte pessoas, fechei a porta e pressionei o botão para o número três. O elevador subiu lentamente, com rangidos e gemidos, passando por uma série de portas de ferro com sacudidas cada vez que acontecia.
Enquanto estava parada ali, as portas de ferro se separaram e um homem rechonchudo, pequeno, com lentes bifocais esperava para me saudar. Eu podia ver o rosado de seu couro cabeludo pelo ralo cabelo branco. Abri as portas de elevador, dei um passo pelas portas de ferro e me encontrei em um espaço cavernoso. Um rato branco estava sentado sobre o ombro do ancião. Isto chiou em mim. Eu gosto dos roedores. Os ratos são bons mascotes que recebem mais de um prejuízo injustificado da cultura. São inteligentes e carinhosos. Este se pôs de pé, alarmado, me olhava com seus olhos cor de rosa. Seu nariz tremia com entusiasmo. O homem se aproximou e o agarrou com suavidade.
- Venha, Gunther, está em sua casa. – disse enquanto retirava o rato de seu ombro e o depositava no bolso do casaco velho que usava. O rato se assomava para a parte superior do bolso, montado como um passageiro de primeira classe.
- Sr. Schneibel? Sou Daphne Urbano. – Eu estendi a mão, mas ele já havia me dado as costas.
- Por aqui, - comentou, com seu modo de andar pesado e lento à medida que avançava na galeria.
- Se trata de seu espaço de exposição, vive aqui, senhor Schneidel? – Lhe perguntei ao entrar em um salão com pouca luz.
- Uma galeria privada. Para minha coleção somente. – Comentou sua voz trêmula e seu discurso um pouco confuso. Se deteve e pressionou um interruptor de luz e luzes brilhantes deixaram algumas zonas inundadas de luz e outras zonas na penumbra. Nós estávamos de pé em um grande espaço aberto, cheio de paredes isoladas que formavam um octógono. No centro da sala uma enorme rosquinha em forma de assento cor vermelha sangue. Obras de arte estavam suspensas desde o teto, penduradas nas paredes ou telas ou estavam em pedestais diante deles.
Quanto mais olhava mais sentia. Já havia me encontrado com tais criações malévolas só uma vez antes, no norte da África, na casa de um médico bruxo. Eram iguais aos objetos que vi ali, se tratava de peças totem, primitivas, criadas para lançar feitiços e matar os opositores. Eram como armas tanto como uma metralhadora.
Eu poderia sentir o mal que irradiava dos objetos isolados ordinários de madeira, figuras esculpidas de pedra com caras horríveis, e muito velhas máscaras cerimoniais com enormes olhos que olham fixamente. Havia alguns outros artigos também, cabeças pálidas e estátuas protuberantes que pareciam ser feitas de ossos e plumas, paus e couro... ou quem sabe com a pele humana. Eu não chamaria a nenhuma delas de formosas, embora algumas máscaras fossem feitas esquisitamente. Elas estavam fora de lugar sem dúvidas, totens ou artigos mágicos e, a seu próprio modo, fascinantes.
- Por favor, sente-se. Srta. Urbano. – O Sr. Schneibel fez um gesto para o assento de cor carmesim no centro da sala. Ficou de pé nas sombras. – Minha coleção é bem conhecida entre os conhecedores de arte aborígine. Posso mostrar só uma pequena parte, mas estas são algumas das peças mais desejáveis. Ao menos, são desejáveis para certas pessoas, que sabem o que são e têm um sabor... ou digamos, uma afinidade com elas.
- O que são? – Disse enquanto me sentava. O lugar estava na penumbra, toda a luz da sala se concentrava na arte, como um cenário de teatro.
- São amuletos rituais e totens. As tribos da Nova Guiné são canibais. Você estava consciente disso?
- Sim, - lhe contestei. Falando de canibalismo, me fazia sentir incômoda, uma variação de minha própria prática de beber sangue e a absorção da energia de vida de outro.
O Sr. Schneibel parecia perdido na memória quando adicionou:
- Algumas dessas peças, incluem os cabelos das vítimas e os ossos. Levam uma poderosa magia. Os de falos enormes são para conferir a fertilidade. Outros para transmitir poderes mágicos e uma força sobre-humana. As máscaras foram usadas em bailes, festas, cerimônias de cura... ou, pelo contrário, nos rituais de morte e de enfermidade dos inimigos.
- E funcionava? – Interrompi, perguntando-me se ele tinha verdadeiras provas que estes poderes eram mais que o poder da sugestão.
- Sim, senhorita Urbano, o fazem. Não por sua conta, por certo. Se um médico bruxo tribal utiliza nos antigos, os meios tradicionais, ele pode afetar o comportamento de uma pessoa e sua saúde. Ele pode inclusive trazer a morte. Não é só psicológico, se é isso o que está pensando. Eles têm uma força que se aplica tanto se o objetivo é consciente dele ou não. Sem um bruxo, ou alguém mais capacitado na magia, seu poder não é tão preciso. Entretanto, todavia está ali. Você pode senti-lo?
Tremi, mas baixei meus escudos emocionais e me deixei totalmente para perceber as energias que se lançava ao redor da sala, como piranhas em um tanque. As ondas escuras do mal se precipitaram por diante e ao redor de mim em busca de vulnerabilidade e quase chupando o meu fôlego de meus pulmões. Disse entrecortadamente minha resposta.
-Sim. Sinto bem. Isto se parece com a presença da morte.
Ele disse:
- Pensei que poderia. Nem todo mundo pode, ao menos conscientemente. – Ficou de pé em frente a mim então, como me oferecendo o amparo de sua presença. Perguntava-me se tinha algo para proteger-se da negatividade de estar perto destes objetos. – A maioria das pessoas que vêm estas peças, de repente, se sentem doentes ou ansiosas.
- Que encantador!
- Encantador? Não. Mas tal como as religiões Ocidentais usam a arte para inspirar o temor ou fazer ao espectador sentir-se pequeno e impotente na presença de um Deus poderoso, estes artigos tinham um propósito espiritual. Inspiraram o medo e o respeito PELOS xamãs da tribo. Ajudaram-lhes a exercer o controle sobre a tribo.
- São os artigos que Boaventura quer? – Disse e olhei o rosto do ancião.
- Sim - respondeu ele, e fechou os olhos, quase como se uma pontada de dor se apoderasse dele. – Ele quer o mal. Está a ponto da obsessão, de um homem louco. – Abriu os olhos e me olhou com um olhar penetrante. – E, senhorita Urbano, estive de acordo em deixar que sua gente fizesse Boaventura pensar que ele pode conseguir. Mas nunca deve estar em posse deles, entende?
Ouvi a urgência em suas palavras e disse:
- Poderia ajudar se você me explicasse.
- Boaventura, e seu nome leva com ele uma ironia terrível, já que este quer dizer que é uma boa sorte, quer seu poder. Ele é um homem que gosta de ser um instrumento da morte, embora ele prefira deixar a matança para outros.
- Eu conheci outros que gostam como ele. – Lhe disse e pensei, para minha vergonha, eu inclusive.
- Sim, Srta. Urbano, a história tem sido testemunha de um número incalculável de tiranos e monstros. Boaventura é um de muitos. Mas, não vou ajudar e apoiá-lo. Destruirei as peças antes de permitir que ele as tenha. – Sua voz era forte e o tremor havia sumido. Uma vontade de ferro estava em seu tom. Peguei uma visão do jovem que uma vez havia sido. Ele quase se sacudiu com fúria.
- Sr. Schneibel, - perguntei, - como adquiriu estas coisas?
Ele fez uma pausa por um momento, como recordando. Com uma voz mais tranquila ele disse:
- É uma história longa, demasiado longa, muito para o tempo que dispomos. Estaria bem para você, saber um pouco dela, só um pouco. – Seu arrebatamento, mais cedo, pareceu havê-lo esgotado. Ele se sentou pesadamente, perto de mim, para dizer sua história. Eu poderia ouvir o rato que chiava em seu bolso. Schneibel cheirava a uísque escocês. – Nunca fui um soldado, a não ser um secretário de um dos oficiais de Rommel na África. Odiava aos nazistas, mas dificilmente podia dizê-lo. Para meu grande alívio, fui tomado prisioneiro pelos americanos e, no curso de meu internamento, conheci um soldado que tinha estado previamente no Pacífico, em Nova Guiné. Fizemos amizade. Falou-me das coisas que tinha visto. Venho de uma família proprietária de muitas galerias de arte na Alemanha antes que os nazistas tomassem o poder. Tivemos uma grande coleção de arte africana, que foi muito popular na Europa no inicio do século. Picasso, Matisse, o fauvismo, todos eles foram influenciados pela arte que mostram. Nosso negócio não demorou em acabar, uma vez que começou a guerra. A elite nazista simplesmente tomou o que queria para suas coleções privadas e ninguém tinha dinheiro para luxos. Alguns de minha família se mudaram para Suíça. Assim tive a experiência que vê. Quando ouvi falar da arte do Pacífico Ocidental, pensei corretamente como se viu depois, que a arte aborígene também se converteria em algo imensamente popular.
- Depois da guerra, fiz meu caminho para as ilhas e comecei a transportar a arte natal para Nova York. Figuras rituais. Casa de encantos. Escudos, máscaras tecidas, máscaras de madeira. Eles são sumamente formosos e interessantes. Travei amizade com vários líderes tribais. Aproximei-me de todos os caçadores de cabeças de Papua.
Inclusive, eles gostavam de mim e permitiram-me ir e vir livremente, isto era uma coisa perigosa de se fazer. Tive muitas chamadas de cerca. Michael Rockefeller, filho de Nelson Rockefeller, desaparecido, já sabes. Estava visitando a tribo Asmat. A notícia oficial foi de que ele se afogou. Era mais fácil para a família crer nisso. Mas estes são contos para outra vez.
Schneibel suspirou fundo. Tirou um paninho do interior de seu casaco e secou sua testa, logo limpou o nariz ruidosamente. Pouco a pouco, o devolveu ao seu bolso e seguiu adiante.
- Tive a possibilidade de instalar-me aqui em Nova York. Converti-me em um cidadão. Devido à experiência que eu tive com o que poderíamos chamar uma associação com o pessoal da inteligência dos Estados Unidos. No princípio tive que lidar com a OSS. Então tudo ficou mais complicado, com tantas agências, cada uma delas com seu pessoal. No entanto, durante anos fui capaz de servir de ajuda ao seu governo. Recentemente, meus contatos na Malásia e Filipinas têm tido informações e me passaram. Mas eu estou velho e cansado. Não posso fazer frente a Boaventura. Ele é demasiado escorregadio. E ele é russo. Eu sou alemão. Já existe um antagonismo ali. E eu tenho tido sonhos recentemente... Não importa. Ele se calou durante um momento.
- Sinto que o fim chega para mim. Mas, e então? Poucos me quiseram bem, exceto meu pequeno amigo Gunther. E a morte é inevitável. Todo mundo morre, Senhorita Urbano.
Não respondi, mas pensei: Nem todo mundo, Sr. Schneibel.
Cheguei a Boaventura às sete e trinta, por pouco não cheguei atrasada. Decidi tomar um táxi da galeria. Meus pés já estavam doloridos pelas botas. O pensamento de ficar subindo e descendo as escadas do metrô me fez arriscar a chamar um táxi e meter-me de cheio em Manhattan com seu tráfego imprevisível. Durante o passeio fiz meus exercícios de respiração, com a tentativa de me fechar para fora e dar sacudidas ao táxi. Preparei-me para o que viria. Não pensei que meu ser físico estaria no perigo, mas realmente temi ser incapaz de ter sucesso com minha missão ou, de ser descoberta, ou que eu deveria matar. Não seria uma coisa boa.
Meu carma está bastante prejudicado. Se alguma vez passo ao outro lado e logo volto para a terra, sem dúvida teria uma vida desgraçada de penitência e sofrimento para esperar com impaciência.
Quando cheguei à Rua 74, fui acompanhada pelo vestíbulo à jaula para pássaros de cobre que era o elevador pelo porteiro de luvas brancas. Ele com respeito o manteve aberto para mim, empurrou o botão para o apartamento de cobertura e permitiu à porta fechar-se. Enquanto devagar se elevava, minhas emoções se mesclaram, o entusiasmo com uma corrente submarina de ansiedade. Eu entrava no desconhecido, onde eu poderia influir, mas não controlar acontecimentos.
O controle tem uma importância enorme sobre mim, em muitos níveis e o paradoxo de minha vida é que quando sou mais poderosa é na forma de vampiro. Também estou mais fora de controle, no fio da navalha entre a razão e o desejo cego. Essa compreensão me fez tremer. Minhas mãos estavam como gelo. Silenciosamente repeti uma afirmação que frequentemente me ajudava a sustentar minha confiança: eu tenho a vontade e a disciplina para fazer algo que desejo. Eu tinha repetido isto como um mantra dez vezes no tempo que o elevador se deteve.
Ao abrir a porta, apresentei-me como uma mulher segura de si mesma, profissional, de maneira imperiosa e diretamente adotei uma postura que confirmava a arrogância. Uma empregada esperava. Tratei-a como tão empregada ela era, lhe dando meu casaco antes que ela perguntasse. Ela pegou e indicou que a seguisse. Duas portas abertas no pequeno espaço onde estivemos de pé. Um monótono verde sobre a parede esquerda, era claramente uma entrada de serviço. Um elevador de serviço paralelo ao que eu acabava de utilizar. A outra porta era parte de um óleo de trempe pintado de um povo medieval que cobria toda a parede.
Pensei que reconhecia a rua empedrada que conduzia a São Gimignano, na Toscana. O efeito total era muito inteligente. A porta, grafite na pedra falsa, abriu-se ao luxuoso apartamento de Boaventura, seu chamativo interior era luminoso ao extremo. A última vez que vi tanto dourado e raso estava no apartamento de Donald Trump. Obviamente, a mensagem que se emitiu foi:
Tenho tanto dinheiro que não sei o que fazer com ele.
A criada era de meia idade. Seus tornozelos grossos, envoltos em meias de suporte, apareciam por debaixo da saia de seu uniforme negro de servente. Ela me levou através do apartamento e em um quarto atrás, evidentemente, uma biblioteca. Os livros pareciam puramente decorativos, a mesa de conferências era uma imitação de um estilo francês, branco e dourado. As cadeiras eram também de cor branca e dourada, com assentos de cetim rosa.
Não era do meu gosto, mas definitivamente caro. A empregada bruscamente me disse que "o mestre" chegaria em breve. Puxou uma cadeira para que me sentasse à mesa de conferências. Logo que se foi, abri a bolsa e peguei um lápis labial e um espelho compacto onde ocultei o dispositivo de áudio. Abri o compacto e escorreguei dois dos dispositivos em minha mão enquanto me aplicava o lápis de lábios. Então, tendo praticado minhas habilidades oxidadas de jogo de mãos, coloquei um dispositivo de áudio sob o bordo da mesa ao mesmo tempo em que guardava o compacto.
Inclusive se eu estivesse sendo observada por via eletrônica, e pensei que o estava, o que tinha feito era imperceptível a menos que alguém reproduzisse a fita de gravação em câmara lenta. Debaixo de uma mesa não era o lugar mais original para um microfone, mas as únicas instruções que tinha, era evitar que o pequeno aparelho estivesse perto de uma fonte de calor.
Abri minha maleta e peguei uma pasta que continha fotografias da coleção de Schneibel. Fingi divisar um livro de interesse e me levantei para caminhar casualmente pela biblioteca. Ao chegar aos livros, minha outra mão agarrou a beirada de uma prateleira e fui capaz de colocar outro dispositivo de áudio. Peguei o livro que parecia nunca tivesse sido aberto. Era A Vida dos Santos de Alban Butler. Enquanto estava ali, e o segurava em minha mão, abriu-se a porta e entrou Boaventura com dois homens que o acompanhavam. Um deles era Caucasiano, volumoso, grande em tamanho, com cabelo gorduroso, engomado e cara pintada de sinais de varíolas, olhou-me com interesse sincero. O outro era um africano, calvo, de pele morena. Óculos de sol cobriam seus olhos, mas eles não ocultavam o olhar de ódio puro que eles enviavam em minha direção. Tivemos aversão mútua à primeira vista. Boaventura, um sapo em um smoking, deu-me um sorriso amplo e com dentes.
- Senhorita Urbano, é um prazer. Vamos, Sente-se! – Seu aspecto tinha mudado consideravelmente da figura que tinha visto na foto. Havia feito a barba e ganhou um pouco de peso, lhe dando uma pança. Estendeu o braço expansivo e puxou minha cadeira esperando que eu cruzasse a sala. Seus dois companheiros tomaram seus lugares um a cada lado da sala de observação.
A toda pressa tendo substituído o livro e com a irradiação de meu melhor sorriso, disse-lhe:
- Igualmente, Sr. Boaventura. Pode isto ser tão agradável como proveitoso para nós dois.
- Só Boaventura, Srta. Urbano. Posso lhe conseguir uma bebida? Tenho vodka, com certeza! - Soltou uma gargalhada a plenos pulmões.
Com isso, quase magicamente, a empregada abriu a porta e pôs uma bandeja que tinha uns copos bonitos de cristal gravado, garrafas de água mineral, rodelas de limão e um vaso cheio de um líquido claro que assumi que era vodka. Como a jóia da coroa, um prato de pequenas torradas que rodeavam uma montanha de caviar negro ocupava o centro da bandeja. A nata ácida e o caviar vermelho também estavam sobre pratos de porcelana delicados. A bandeja era de prata, adornada e estava muito polida.
- A água mineral seria muito agradável. – Disse. A empregada serviu um grande copo de vodka e outro de água mineral em frente a Boaventura. Que estava sentado na cabeceira da mesa. Então ela me serviu um copo de água, colocando uma rodela de limão e colocou diante de mim. Fez caso omisso dos guarda-costas, como se não estivessem ali.
- Alguma coisa mais, senhora? – disse. Olhou-me interrogativa.
Eu lhe disse:
- Assim está bem.
- Bem, isso é tudo, Tanya. – E ela saiu da sala em silêncio.
O cabelo atrás de meu pescoço se arrepiou. Cada um de meus sentidos animais estavam hiper-alertas. Os homens fediam a sangue e eu suspeitava que tinham assassinado recentemente. Seus olhos brilhavam com cada movimento, estavam nervosos, tensos, e ambos me olhavam como gato cercando um pássaro. Exteriormente me assegurei de que parecesse encantada com minha companhia. O suor não me traiu, nem o cheiro de medo. No entanto, era tão grande a minha percepção de perigo, que tive que lutar contra o instinto de transformação. Com graça, com os movimentos estudados, adquiridos nas cortes dos reis, voltei-me para Boaventura e disse:
- O Senhor Schneibel envia suas saudações.
- Ah! Schneibel. Ouvi dizer que não está muito bem nos últimos tempos. Como você o encontra? – Ele tomou um gole comprido de vodca. Os vapores de álcool eram visíveis quando eles chegaram acima de seu cristal. Diplomaticamente disse:
- Ele está como sua idade avançada. Mas bem, obrigada. Continua jovem na mente e não no corpo. Um grande cavalheiro.
- Devemos beber a sua saúde então. – Boaventura riu outra vez e tomou um gole. Ele bebia do modo que um bebedor contumaz bebia, saturando-se com o álcool para funcionar. – E você. Senhorita Urbano, trabalha para ele há muito tempo? – Ele estendeu a mão e pegou uma torrada com o caviar. Ele comeu ruidosamente, parecendo com um porco. Algo se deslizou pelo queixo. Ele me fez sinais em direção ao prato.
- Não, obrigada - disse. – Ele usa meus serviços quando os necessita. – Fazendo caso omisso de minha negativa, Boaventura tomou um prato de caviar. Com seus dedos grossos, ele acrescentou umas quantas torradas. Empurrou por cima da mesa para mim.
- Não deve negar. É o melhor. Extraordinário. Um raro prazer. Insisto. E seu encontro comigo significa que está disposto a, finalmente, vender?
Peguei o prato que ele deu para mim. Havia sempre um jogo de poder com homens como este. Pus uma pequena quantidade de caviar sobre a torrada e comi. Os ovos passaram por minha boca, sabendo salgado e complexo.
- Excelente. Você teve razão em insistir - disse com cuidado. – E sim, eu trouxe uma carteira dos trabalhos que ele pensa que você deseja adquirir.
- Eu preferiria ver sua coleção em pessoa.
- Claro. Mas como você sabe, o Sr. Schneibel raras vezes deixa alguém ver as peças, se não forem conservadores de museus ou investigadores e mesmo assim em uma base bem limitada. Nenhuma de suas peças alguma vez saiu para o mercado aberto.
- Mas ele vendeu alguns.
- Concordamos. E isso é tudo o que estou em liberdade de discutir com respeito a isso. Seus compradores são privados e anônimos, como você sabe.
- Sim, Srta. Urbano. Assim é como me inteirei do Sr. Schneibel. Vi uma grande estátua na posse de um sócio. Me levaram com ele. Era muito mais além do que tinha e minha própria coleção é bem ampla. Meu associado se mostrou relutante a dizer-me onde a havia adquirido, mas, finalmente, o fez. E, finalmente, vendeu para mim. Posso ser bastante persuasivo, Srta. Urbano - disse de uma maneira aduladora. Olhou-me, para cada um de meus traços, de maneira aberta e grosseira.
Olhei para trás, o olhar sem pestanejar, enquanto ele olhava diretamente com sua cor amarelada, seus olhos demoníacos. Um olhar de algo... reconhecimento? – Passou por seu rosto. Meu coração se apertou em meu peito. Perguntava-me o que viu em meus olhos. Eu sabia o que viu em sua besta, algo similar e desumano, meio doido por uma energia escura que parece originar-se nas profundidades do inferno. Soube então que Boaventura tinha abraçado o mal como seu prato preferido e o tinha tragado inteiro.
O caviar que tinha comido, de repente, me deixou um sabor amargo na boca. Tomei um gole de água mineral, logo empurrei a pasta de fotografias para Boaventura. É hora de cortar à perseguição.
-Estes são os elementos que o Sr. Schneibel consideraria vender. Você tem até a segunda-feira para considerar se está interessado em algum ou todos eles. Escreva sua oferta na parte posterior da fotografia de qualquer peça que deseje adquirir. A quantidade, entretanto, não pode ser inferior a um milhão de dólares por artigo. O Sr. Schneibel não está disposto a vender, como você sabe. Se deseja ser persuasivo, por favor, tenha isso em conta.
- Eu preferiria se Schneibel simplesmente pusesse seu preço.
- Essa não é a sua preferência, entretanto. – lhe disse.
- Eu também quero ver a coleção antes de fazer uma oferta. Estamos falando de uma grande quantidade de dinheiro, Senhorita Urbano. – Ele passava as fotos, fazendo uma parada de vez em quando. – Há, o quê, umas quinze fotos aqui?
- Dezesseis. E, por certo, muito poucas pessoas podem permitir-se o luxo de comprar esses artigos. Você, entre outros poucos, conhece seu valor. Peças como estas, simplesmente não existem em outras partes, nem sequer em Nova Guiné, não pelos últimos quarenta anos. Assim que esta é a oferta do Sr. Schneibel. Leve-o ou deixe-o. Você pode ver as peças depois de comprá-las.
- Mas isso é inusitado.
- Inusitado, sim, mas acontece às vezes. – Disse de maneira uniforme. – Assim é como o Sr. Schneibel faz negócios. Ele garante que as peças são autênticas, genuínas, como se pode ver pelas fotos. Você conhece a sua reputação neste campo. Por, favor, não o insulte no futuro.
Um pequeno rubor havia manchado o pescoço de Boaventura. Não estava acostumado a que outra pessoa tivesse a última palavra, ou que ele não tivesse o controle. Especialmente não uma mulher. Antes que desse uma resposta rápida, houve uma batida na porta. Tanya passou a cabeça pela porta.
- Mestre, desculpe-me, por favor, mas há um problema com... – E a porta se abriu golpeando-se contra a parede.
- Eu posso falar por mim mesma, Tanya.
Uma mulher pequena e bonita com uma camisola de cetim ficou sustentando um gato branco. O cabelo comprido que caía sobre suas costas era amarelo como o milho amadurecido. Era magra, até o ponto da fragilidade e teria sido mais bonita, mas seu rímel manchava de negro os olhos e seu lápis de lábios de cor vermelha brilhante corria em um zigue-zague louco pelos lábios. Estava, também, mais que obviamente bêbada. O gato me olhou, vaiou, arqueou o lombo e ficou nos braços da mulher. Ela gritou:
- Princesa! – As garras do gato deixaram arranhões no braço. Eu não podia deixar de ver o sangue brilhante que apareceu sobre sua pele leitosa. – Tanya! Agarre-a!
A criada se arrastou em sua perseguição. Logo, a loira se virou para Boaventura. Ela estava à beira da histeria. Todo seu corpo tremia e seus olhos eram selvagens.
- Oh! Eu sabia! Sempre uma mulher! Não me amas! Nunca me amou. – E começou a soluçar.
Usei esta distração para abrir minha bolsa e extrair meu pó compacto. O abri e dei uma olhada rápida no espelho e pretendi arrumar meus brincos e resvalei outro dispositivo de áudio em minhas mãos. Boaventura se havia levantado rapidamente, chegou perto da mulher chorando em um passo, pôs seus braços ao redor dela enquanto ela desmoronava. Com mais doçura do que imaginava que ele fosse capaz, disse:
- Quieta, Catalina, não se sente bem, verdade, querida? Esta é uma reunião de negócios. Só negócios. – Apesar de suas palavras suaves, pude ver que a tinha de uma forma que não podia escapar. Ele me olhou. – Senhorita Urbano, por favor, perdoe-nos. Segunda-feira, às 7:30 – PM, seria conveniente? Bom, eu a verei então. Bom, Bockerie, venha comigo. Issa, acompanhe a Srta. Urbano até a saída.
O negro me lançou um olhar venenoso, deixou seu posto, e seguiu a Boaventura e a mulher pelo corredor. Houve uma grande arrogância e falta de medo nele. O outro homem, Issa, veio e parou ao meu lado como um guarda de prisão, enquanto fechava a maleta e me levantava. Esperei até que Issa se virasse para a porta antes de recolher a maleta e minha bolsa que estava na cadeira.
Eu tinha a esperança de plantar um dispositivo de áudio mais no vestíbulo de entrada perto do telefone. Isto ia tomar tanto sorte como uma atuação magnífica para levá-lo a cabo. Issa ficou perto, invadindo meu espaço privado quando andamos pelo apartamento. Com uma risada coquete, disse:
- Está com Boaventura há muito tempo?
- Tempo suficiente. – disse.
- Sim ele necessita músculos, você certamente enche as especificações do trabalho. – sorri com afetação. Uma frase guia, como as Vallery Girls uma vez disseram.
E dobrou um bíceps, então, mostrando seus dentes torcidos, sorrindo abertamente para mim.
- Eu era um levantador de pesos. Competi na equipe Olímpica por meu país. Em 1984.
- E seu país é... Deixe-me adivinhar... Bulgária?
- Você é muito inteligente. Tão inteligente como bela. Sim, Bulgária. – Estava tão contente que se pavoneava.
E nesse momento, estávamos no vestíbulo perto da porta principal.
- Eu viajei para lá. É um belo país. – Nesse momento a Tanya impassível vinha correndo com meu abrigo.
- Aqui, - disse, Issa o tomou e ela se saiu fora sem dizer uma palavra, talvez, estivesse ocupada com o drama de Catalina.
Me detive e como um cavalheiro Issa me ajudou com meu abrigo. Agora era o momento perfeito para olhar ao redor e abaixo, dando um olhar de confusão.
- Oh, minha bolsa! A deixei sobre a cadeira, creio. Tenho que voltar para pegá-la.
- Não, eu vou trazer para você. Espere. Não vou demorar. Vou depressa. – Issa se afastou pesadamente como um urso.
Sozinha no vestíbulo, fingi ter um problema com minha bota, levantei um pé e alcancei a parede para estabilizar-me. Minha mão deslizou e roçou o espelho adornado em cima da mesa do telefone. O dispositivo foi depositado. Perfeitamente. Eu estive terrivelmente bem, disse para mim mesma. Finalmente minha mão descansava sobre a mesa como se, todavia, estivesse buscando equilibrar-me sobre minha perna e examinei o salto de minha outra bota. Aparentemente satisfeita, coloquei meu pé no chão com cuidado, como provando o salto quando Issa voltou com a bolsa.
- Muito obrigada - lhe disse. Ele sorriu, olhando mudo e satisfeito de si mesmo.
Meu cavalheiro de brilhante armadura. Abriu a porta e se inclinou para mim, mas me deslizei através dela antes que pudesse aproximar-se muito. O elevador diminuto estava aberto e rapidamente entrei, me assegurando de que Issa dava um até logo alegre com uma mão. Apesar de ter agarrado a bolsa, afastei-me para apertar o botão do vestíbulo. Segui com o meu personagem todo o caminho. Olhando com impaciência o relógio, olhando fixamente para frente, mantendo uma cara de paisagem. Estava segura de que havia câmaras por todas as partes e estava muito segura de que não havia nada incomum a respeito de mim. Nada absolutamente.

Capítulo 6

Abaixo pelo vale cultivei um horto, meu amor e realmente me encontrei.
Guillermo Butler Yeats




Indisposta a andar mais do que o necessário com saltos de quatro polegadas, pedi ao porteiro um táxi. O taxista deu um suspiro de impaciência quando lhe disse que me levasse ao Museu Metropolitano. A poucas quadras, deixaram uma tarifa que apenas paga o tempo. Mas atuou mal, lhe teria dado uma gorjeta melhor, se ele houvesse sido mais amável. Peguei meu telefone celular e chamei Darius. Ele respondeu ao primeiro toque.
- Estou a caminho - disse.
- Eu estarei esperando - respondeu. – Tchau.
Agora que eu havia completado a missão com perfeição, a adrenalina estava bombeando em minhas veias e meu coração batia em um ritmo acelerado. A adrenalina é tão aditiva como a heroína, essa é a verdade. A pressa é uma onda de entusiasmo empurrando para cima os sentimentos. E para mim, tais paixões desenfreadas são perigosas. A máscara pode começar a cair e a fome dentro de mim é uma ameaça a surgir. Tive que acalmar-me e apoderar-me de minhas emoções antes de me perder em uma luxúria de sangue, que me deixaria imprudente e descuidada, as consequências seriam uma mordida... até ser demasiado tarde.
O táxi se deteve diante do museu. As luzes iluminavam a fachada de pedra, fazendo com que parecesse tão grande como o Templo de Luxor, o Partenon. As escadas de pedra mostravam majestosamente as altas colunas estriadas, na frente das portas dianteiras enormes. A poucos passos Darius esperava, virou para a rua, a princípio não me viu. Dei um grito afogado quando o vi. Havia passado dos jeans e couro. Estava elegante com um casaco longo e sapatos italianos. Um lenço de seda estava pendurado em seu pescoço.
Estava grandioso, com letras maiúsculas. De repente, o edifício parecia insignificante. Somente podia ver Darius. As antecipações do sexo misturado com a adrenalina e, junto com meu desejo físico, despertaram os sonhos que tinha suprimido faz muito tempo. Se fosse honesta comigo mesma, devia reconhecer que queria a alguém especial em minha vida, que me importasse e eu queria ser amada. Não importava que acabasse de conhecer Darius e que ele fosse um enigma. Eu não sabia quase nada a respeito dele e o que sabia poderia ser mentira. Entretanto, a noite que tínhamos passado juntos foi doce e satisfatória. Elevou minha sexualidade à flor da pele depois de décadas de inatividade. E na verdade, Darius – misterioso, perigoso, inteligente e impulsivo - incorporava a todos os homens que tinha amado e perdido. Eu não sabia quem era, mas meu coração sabia que eu queria que fosse. Lancei um pouco de dinheiro ao taxista e saí do táxi.
Darius se voltou e me viu, seu rosto brilhava. O resto do mundo se perdeu em cinza enquanto me enchia de alegria. Não me lembro de caminhar os poucos passos ao seu lado, mas, de repente, me encontrava em seus braços e me beijava. O afrodisíaco da adrenalina me arrebatou. Sentia-me tão bem e esquisitamente viva. Seus braços eram fortes ao meu redor, seus lábios suaves. Seu toque contra mim acendeu fogos de artifício de 4 de julho em meu cérebro e as luzes brilhantes explodiram ao meu redor. Quando interrompeu o beijo, Darius me olhou nos olhos e perguntou:
- Você está bem?
- Agora estou – disse.
- Quero saber tudo sobre a sua noite. Mas, primeiro, você comeu?
- Não.
- Tem fome?
Não de comida, de repente, me dei conta. Estava sedenta de sangue. Mantive este pensamento à distância.
- Sim. – Disse.
- Bem. Podemos ir pela rua até o Stanhope.
- Perfeito. – Disse.
O restaurante do Hotel Stanhope é excelente e a clientela é chique. Eu podia ver John Kennedy Jr., ali, antes de seu desgraçado casamento e morte antes do tempo. O Stanhope era um lugar sério, tranquilo e de bom gosto, é meu hotel favorito em Nova York. Outro favorito é o Waldorf Astoria, cujo excelente serviço nunca deixa de estar à altura de sua reputação, a diferença do Plaza, que está sobre valorizado e é uma armadilha para turistas. Entretanto, enquanto Darius me segurava pela mão e atravessávamos a Quinta Avenida com a rangente noite clara como a água fresca que nos rodeava, poderia ter comido serragem e teria pensado que era uma ideia divina.
Quando Darius caminhava, recordou-me seu signo chinês, Tigre. Alto e ágil, transladou-se com o poder de um gato, um caçador à espreita. Expressava autoridade, desde o casaco negro que ele vestia até a digna forma como olhava para os outros homens nos olhos, com a atitude de um macho alfa, o líder da manada. Não era arrogante, mas seguro de si mesmo, ele era intimidante, transmitindo força e mando. Darius nem bem entrava em um lugar se apoderava dele.
Quando entramos no restaurante do hotel, o maitre se apressou, chamando-o Senhor, tomou meu casaco e nos conduziu ao nosso lugar. Um garçom se apresentou a nossa mesa para nosso pedido de bebida. Darius pediu um uísque de malte. Perto de perder o controle quando estava sóbria e fria, fiquei com a água mineral. Evito o álcool na maioria do tempo, porque me dá medo de baixar minhas inibições. Esta noite especial estava tomando toda a minha força de vontade para resistir aos meus pensamentos que me davam desejo de beber sangue. Dar rédea solta aos meus rasgos de vampiro com Darius, no melhor dos casos, era colocar tudo a perder. E no pior... eu não queria ter em conta o que de pior poderia acontecer. Havia jurado que nunca iria nessa rota de novo.
Concentrei-me no ambiente agradável da sala, todo o resplendor de velas e brocados, me acomodei em meu assento e me senti num lugar quente e seguro. Darius pegou a minha mão através da pequena mesa, esfregando os polegares de forma ausente. Seu tato era como ser escovada com um cabo elétrico que enviava pequenas descargas em meu braço. Ele me sorriu de novo antes de soltar a minha mão e parecia estar esperando que eu dissesse algo. Eu supus que estava ansioso por falar do que havia sucedido com Boaventura, mas eu não estava pronta para os negócios. Assim, eu fiquei em silêncio e ele também.
A falta de conversa logo se tornou incomoda e irritante. Senti-me aliviada quando as bebidas chegaram e o garçom perguntou por nossos pedidos. Impulsivamente pedi um filé, com a esperança de ficar fora do crescente gosto de sangue. Era algo fora do comum. Darius levantou uma sobrancelha.
- Pensei que você não comesse carne. – disse.
- Uma exceção por essa noite - eu disse. – Estou morrendo de fome, e creio que necessito das vitaminas do complexo B. – Eu estava morrendo de fome, por ele. Eu desejava sua boca, sua voz, seu cabelo. Tinha vontade de lamber e mordiscar seu rosto, seus ombros. Queria mordê-lo e chupá-lo com sua alma, fome de profundidade. Parafraseando ao poeta Neruda, eu estava dando voltas, farejando o crepúsculo, a caça de seu coração quente.
Darius, em troca, parecia concentrar-se em dizer ao garçom que queria um salmão assado e verduras ao vapor. Pensei que ele estava alheio aos meus desejos, entretanto, quando finalmente levantou os olhos e para encontrar-se com meus, seu desejo esteve nu... por um segundo. Logo, uma porta se fechou detrás de seu olhar e ele exigiu, mais que ao perguntar:
- Fale-me de Boaventura.
A ira passou por mim, junto com a suspeita de que eu não era importante para este homem. Nesse momento senti que as palavras doces, o sexo quente e agora o elegante jantar, eram só a manteiga para obter informação de mim.
- Eu gostaria de comer antes de falar de negócios - lhe disse, bem zangada.
- Daphne, - disse e tomou minha mão. – Eu só pensava em você. Uma vez que tiremos isso de cima de nós, podemos relaxar-nos, e poderemos desfrutar o resto da noite juntos.
- Oh, por favor! – eu contestei. – Eu não creio nisso. Não piore as coisas sendo tolo.
- Mulheres! – disse e soltou a minha mão. Parecia estar lutando para controlar seu temperamento. Tomou um gole de uísque e pensou um momento. Logo me olhou e me disse com cuidado. – Daphne, desculpe. Realmente acredito. Pensei que seria melhor fazer-lhe algumas perguntas sobre o que você viu e ouviu, enquanto tudo esteja fresco em tua mente. Pensei que realmente faria a cena mais apetitosa com os temas de terrorismo, as armas fora do caminho. Mas, quando queres falar de Boaventura?
Olhei para trás e eu disse a ele algo que pensava. Eu odiava reconhecer que ele tinha razão, mas eu fiz.
- Você colocando dessa forma, posso ver o seu ponto de vista. Bom, vamos começar de novo. O que queres saber? Sim, creio que posso disser, sem comprometer minha missão. Mas tem que ser ida e volta. É necessário compartilhar a informação comigo também. Estamos de acordo?
- Nunca pensei que poderia ser de outra maneira, - disse.
Não estava segura de haver acreditado nisso, mas lhe disse:
- Adiante, qual é sua primeira pergunta?
- Qual era o estado de animo e a atitude de Boaventura?
- Bêbado, mas controlado.
- Quem estava com ele?
- Dois guarda-costas, um africano, outro da Europa Oriental. Você sabe quem são eles? – Eu disse isto lenta e deliberadamente. Eu queria ver quanto Darius estava realmente disposto a compartilhar.
Sem vacilar, respondeu.
- O africano é Sam Bockerie, também conhecido como General Mosquito porque ele chupa a vida a seus inimigos. Ele é de Serra Leoa e é mais que um guarda-costas de Boaventura. É um intermediário no intercâmbio de diamantes por armas. É perigoso, desumano, vicioso, sem consciência.
- Não lhe caí nada bem. Por quê? – Perguntei-lhe.
- Duvido que tenha algo contra ti, - disse Darius. – Ao Bockerie ninguém cai bem. É como uma besta louca que grunhe no vento. Tem fama de ser bruxo, protegido pelos encantos e feitiços, ou inclusive transformado por eles, em uma espécie de criatura sobrenatural. Provavelmente isso é um rumor para assustar aos demais fazendo o que pede. Inclusive a menção de seu nome dá medo na selva, na mina de diamantes de sangue da África. Cuida de tuas costas ao seu redor.
Eu concordei. Essa descrição se encaixa com o homem que vi.
- E o que sabes do outro guarda-costas?
- Esse seria Issa Mingo, um homem forte que conhece Boaventura da Rússia. Eles estão juntos há anos. Ele não é tão tonto como parece.
- Pode estar enganando-me. – lhe disse com um sorriso.
- Bom, ele gosta de mulheres bonitas e ele pensa em si mesmo como um mulherengo. – disse Darius, sua voz era baixa e grave.
- Dei-me conta disso, por mim mesma. – comentei.
- Bom, não te ponha em uma posição onde ele possa mostrar que gosta das mulheres. É tão cruel como é cru. Viste alguém mais?
- Os únicos outros que eu vi ali no apartamento, eram: a criada de nome Tanya e uma jovem, também bêbada e em mal estado. Boaventura a chamou de Catalina.
Darius assentiu.
- Ela é a amante de Boaventura. Por todas as contas ela é praticamente uma prisioneira. Você viu alguma câmara de segurança?
Sacudi minha cabeça.
- Eu não vi nada. Assumo que há vigilância de câmaras, mas embaixo só tem um porteiro para receber aos visitantes. Nada de armas, mas os dois guarda-costas as tinham, estou certa disso. Por que você quer saber?
Darius não respondeu a minha pergunta. Em seu lugar, perguntou:
- Quando você vai voltar?
- Segunda-feira. Na mesma hora de hoje, - disse, e, irritada, lhe perguntei de novo. – Por que você quer saber? Darius, não brinque, eu não vou aceitar.
- Você poderia ajudar-me a entrar nessa noite. Deixe-me pensar nisso. – disse ele com desdém.
- Não, deixe-me pensar nisso. Por que deveria te ajudar a entrar? O que planejas? O que você sabe que eu não sei? Disse-lhe que isto tem que ser um intercâmbio recíproco, ou tudo termina aqui.
Darius não respondeu imediatamente. Eu sabia que estava me usando para seus próprios fins quando se tratava de Boaventura. Mas então eu estava usando-o. Sentia-me como se J me tivesse atirado aos lobos. Eu não tinha nenhuma salvaguarda. Minhas instruções eram incompletas no melhor dos casos. Se fosse desta vida e se pudesse ajudar a deter este ataque terrorista potencial, seria por meu próprio engenho e astúcia. Até agora Darius pareceu ter a melhor informação. Os expedientes de J não incluíram nada sobre os guarda-costas de Boaventura. Eu começava a confiar em Darius mais que em meu próprio chefe. Realmente quis ver o quanto ele me diria.
Darius se inclinou para frente, mais perto e disse muito silenciosamente.
- Temos tido Boaventura sob vigilância desde que chegou a Nova York. Ele estabeleceu uma venda de armas com homens que acreditamos serem terroristas.
- Diga-me algo que eu não saiba. – lhe sussurrei.
- A compra está além do ordinário. Esperamos que ela seja completada no princípio da próxima semana. Pensamos que Boaventura já trouxe as armas para este país. Pensamos que sabemos. Temos que saber exatamente onde as armas estão e quem as compra. Temos que tomar posição de onde Boaventura vende, e temos que capturar aos homens que as querem.
Senti-me decepcionada. Sentei-me com as costas reta e olhei para Darius. Talvez eu estivesse cometendo um erro na criação deste "acordo paralelo" com um agente rival. Sacudi a cabeça.
- Até agora, Darius, as informações são antigas. J me disse a mesma coisa. O que tens que ele não saiba? Sei que há algo mais em jogo aqui. Vamos, convença-me que devo te ajudar. Como podes me ajudar?
Darius sentou reto em sua cadeira também, focando seu olhar no seu copo de uísque escocês. Ele pegou-o e ficou rodando com ele. Finalmente, ele olhou para cima.
- Bem, aqui está o essencial. J, digamos, está com o tema da inteligência. Ele quer capturar as pessoas com vida. Sua agência quer converter estes terroristas em agentes duplos, ou, simplesmente, tirar-lhes todas as informações úteis. Minha agência não está de acordo. Eles querem caçar e matar estas pessoas. Poderia dizer que estou num processo de limpeza. Certas pessoas são meus objetivos especiais. Algumas pessoas que minha agência está convencida que não deveriam continuar com vida.
- Quem? Por quê?
- Olhe Daphne. Há coisas que é melhor que não saiba. Isto não te concerne. – Ele vacilou. – Ou você e eu. Sim, é totalmente sabido que cada agência de inteligência tem suas próprias coisas. Já sei. E se não sabe, deve. Um dos benefícios que você e eu podemos tirar da coordenação de nossos esforços, é que não vamos ter que nos matar entre nós. E agora pode me ajudar com êxito. Pode ser o bilhete no apartamento de Boaventura.
- Não vejo como.
- Não preocupe a sua cabeça sobre isso. Vou configurar tudo.
Um tom condescendente se introduziu em sua voz. Isso é algo que empurra a raiva em mim. Meu tom se voltou mais na zona vermelha no medidor de moléstia.
- Sabe Darius, está me deixando fora de mim. Esta bela cabeça tem um cérebro dentro. E me diz que deseja chamar os tiros. Isso não vai acontecer. Ou atuamos bem e como companheiros, ou termino este copo de água e vou chamar um táxi.
Darius se recuperou.
- Eu pensei que você sabia o que estava fazendo. Tem alguma ideia de como essa gente é brutal? Se eles suspeitarem que você é espiã, eles não apenas lhe matariam. Eles se assegurariam de divertir-se lhe matando. – Darius mantinha a sua voz baixa, mas que podia ver os seus músculos ficarem tensos e ele cuspia suas palavras como balas de uma metralhadora.
- Eu lhe disse, Darius, que eu posso manejá-lo. Por que é tão difícil de acreditar? É por que sou uma mulher?
- Maldita seja! Daphne, sim, isso é parte disso. Mais que isso, estou começando a sentir algo por você. Talvez você pense que apenas nos conhecemos um ao outro. Bom, há coisas que se sabe a respeito de alguém por instinto e por fazer sexo três vezes em uma noite. Olhe, acredito que há uma boa possibilidade de que um de nós dois termine assassinado. Quero tratar de conseguir que ambos saiamos dessa com vida.
Eu fiquei surpreendida com suas palavras. Estivemos muito bem juntos, mas nosso sexo não tinha nenhum tipo de condições. Éramos praticamente desconhecidos quando caímos na cama juntos. Não fizemos promessas um ao outro. Eu apenas havia admitido para mim mesma que poderia terminar enamorada de Darius, mas nunca esperei que ele falasse de sentimentos.
- Bom, eu não quero que lhe matem tampouco. Mas ajudar-lhe a entrar nesse apartamento, provavelmente será um risco de enormes proporções. Até agora não tenho nenhuma razão para fazê-lo.
- Eu acredito que sim. Daphne, eu vou entrar no apartamento com ou sem você. Eu vou fazer o que me mandaram fazer. Se não trabalharmos juntos, nós poderíamos entrar um no caminho do outro. Pior, poderia terminar como uma refém. Não sei o que poderia ocorrer se seguirmos uns aos outros na escuridão. Mas se trabalharmos juntos, sei que estaremos mais seguros. É de sentido comum coordenar as duas operações. E há muito em jogo. E como havia dito, conheço o J. Abandonar-te-á ali, se tiver que escolher entre te salvar e o salvar sua operação. Ele é um bastardo insensível. Daphne. Eu não o sou. Prometo-te isso.
Muito do que dizia tinha sentido. Eu, todavia, ainda tinha dúvidas, por isso lhe disse:
- Me deixe pensar.
- Não há nada que pensar e sabe.
Meus olhos se abriram mais. Eu estava pronta para jogar a minha água nele e que fosse para o inferno, quando eu vi que sorria abertamente para mim.
- Te peguei. Ele disse quando o garçom trouxe nossos pedidos.
Agarrei meu prato e devorei o filé rapidamente, tão rápido como pude e vi Darius olhando-me.
- Que foi? – Disse antes que tomasse outra garfada se filé sangrento na boca.
- Você não estava brincando quando disse que estava morta de fome. – disse.
- Quero dizer o que disse. – lhe respondi.
- Estou começando a acreditar que o faz. – disse.
O garçom levou nossos pratos. Embaixo da mesa meu pé havia terminado em sua perna outra vez. O contato era bom, atrativo, e começava a sentir-me familiar. Eu gostava disso muito mais do que estava pronta para admitir.
- Vamos tomar um café e a sobremesa. – Darius disse com um sorriso arrogante e chamou o garçom. Logo olhou para mim.
Ele começou a me arranhar com os dedos dos pés e isso se dirigiu diretamente para meu estomago, isso me empurrou um pouco. Não eram muitos os homens que me haviam dado esta sensação. A química entre nós dois era explosiva e definitivamente não era necessário pensar nisso.
- E agora? – disse, com minha voz cheia de significados.
- Então podemos subir, se o desejar. Não estou supondo nada, mas eu gostaria de passar mais tempo contigo. Eu gostaria de estar contigo. As suítes aqui são muito bonitas.
- Isso seria extravagante.
- Você é digna de extravagância, Daphne. É extraordinária, fogosa e forte, doce e encantadora. E a sedução de uma mulher sofisticada requer um ambiente seguro. E supus que você gostaria do Stanhope.
- Você supôs corretamente. Mas é que tem a intenção de me seduzir? – As brincadeiras entre nós me haviam excitado. Meu fôlego vinha mais rápido. Eu começava a querê-lo mais.
Seus olhos brilharam.
- Sim, Daphne Urbano, eu tenho a intenção de lhe seduzir e lhe amar como certas coisas escuras devem ser gostadas, entre a sombra e a alma. Quero encontrar os lugares ocultos dentro de você, como um viajante depois de torcer caminhos pelas montanhas que conduzem mais alto e mais alto, antes que elas desapareçam entre as nuvens.
Eu fico meio tonta com os homens com uma imaginação poética e uma língua de prata. Minhas pernas estavam débeis. Eu não sabia se podia pôr-me de pé para sair do restaurante. Eu não era tão ingênua para pensar que ele não havia usado aquelas palavras antes, mas gostei de ouvir. Mostrou-me uma parte de Darius que me atraía muito. Eu queria fazer sexo com este homem, tanto como ele, obviamente, queria ter sexo comigo. Éramos dois adultos fazendo uma coisa de adultos e tinha a intenção de desfrutar a fundo.
Por sorte, para minha reputação, o garçom me trouxe um creme brulée com chocolate branco e framboesas acompanhadas de uma taça de café descafeinado. Eu estava pecaminosamente bem. Darius tinha uma torta de queijo e café. Ele comeu como um caminhoneiro, com entusiasmo e ninguém respeitou as calorias. Eu lhe perguntei sobre sua família. Ele disse que ele era de uma família grande do norte da Itália que se instalou no Brooklyn. Seu pai e tios controlavam uma padaria.
- E como você acabou sendo um espião? – perguntei.
Deu um grande sorriso e deixou o garfo.
- Eu estava no exército, era um SEAL naval. Naquele momento eu só queria cumprir meu tempo e sair. Sentia que estávamos combatendo em guerras inúteis e perdendo vidas bobamente. Logo depois assassinaram meu irmão mais novo. Eu fiquei mal. Toda minha família estava em dor, mas estava se queimando de dentro para fora. Só queria pegar o filho da puta que fez isso. E uma pessoa se aproximou de mim me oferecendo para fazer exatamente isso. Isso mudou tudo.
- Você vingou seu irmão? – perguntei.
- Sim. – A voz de Darius golpeou cada palavra como um prego de ferro. Logo pressionou seus dedos contra seus olhos e se deteve um minuto antes de continuar. – Sim. Fiz. E logo me deram outra atribuição pela pessoa que primeiro se aproximou de mim. Ele era um recrutador, provavelmente como o que deve lhe haver recrutado. Mesma merda, dia diferente. Mas minha vida de repente tinha o objetivo. – Darius soltou um suspiro. – Parece como tudo, história antiga. –Ele me olhou. – Final de história. – Ele encolheu de ombros.
- Agradeço que me diga isso, Darius. Realmente. – Aproximei-me e toquei suavemente seu rosto. Tomou minha mão e a levou aos lábios, beijando minha mão. Então ele disse:
- Se estiver preparada, vamos subir. – Ele empurrou sua cadeira, logo veio e sustentou a minha. O garçom se precipitou com a conta. Darius riu quando assinou.
- Não tem que ir reservar um quarto? – Perguntei-lhe.
- Fiz esta tarde. – disse.
- Você o quê? – Explodi.
Ele me levou e sussurrou-me:
- Só para o caso de você dizer sim. E eu estava esperando que o fizesse.
- Você é incorrigível. – Eu ri. E eu disse sim, não? – sussurrei em seu ouvido.
- Bem, saiamos daqui. – ele sorriu.
Eu esta muito pronta para ir e me alegrei da pressa de Darius, me salvou da necessidade de falar de mim. Meu passado, minha família, como me envolvi com a espionagem, porque qualquer coisa que lhe dissesse, seria um montão de mentiras. No princípio pensei que era por que o Stanhope é uma dama antiga o porquê de não nos beijarmos no elevador subindo para nosso quarto, ainda mais que eu estava ardendo de desejo. Darius estava bastante longe assim que não o toquei e ele não me olhou, apesar de que estava sorrindo.
Eu não me dei conta que tocar era a intensificação da expectativa e Darius estava jogando algo. Queria ver o quê. Deu-me um beijo fora da porta do quarto do hotel. Quando entramos não nos tocamos. Uma sala de estar estava a nossa esquerda. O quarto estava à direita. Meu casaco já estava guardado no armário por algum membro eficaz do pessoal do hotel.
Darius andou na minha frente para o dormitório e acendeu a luz ao lado da cama. A cama, opulenta, com uma coberta de brocado e enormes almofadas suaves, era bastante alta para necessitar de um pequeno tamborete para ajudar a uma pessoa a subir nela. Eu estava em pé na entrada. Darius cruzou o quarto e se sentou em uma cadeira perto das janelas. Ele obviamente sabia bem a disposição, e cruzou por minha mente que ele devia de ter trazido outras mulheres aqui antes. Ele esticou as suas longas pernas diante de si, as cruzou, e cruzou suas mãos através de seu estômago. Olhou-me com olhos sensuais.
- Tira a roupa para mim? – disse.
- Sim, - disse em voz baixa, pronta para ir aonde esta situação nos levasse.
– Retire-as lentamente – disse.
- Sim. – respondi e o fiz.
Quando eu estava nua, olhou-me dos pés a cabeça. Meus mamilos estavam duros. O ar era quente e acariciante. Eu lhe devolvi o olhar. Levantou-se e se aproximou de mim. Quando me tocou, minha vida se deteve. O tempo foi suspenso. Os meus braços encerrados dentro de seu abraço, notando-os aos flancos. Beijou-me profundamente. A lã da jaqueta se esfregou contra meus peitos. A suavidade de seu suéter me tocou o estômago. Ele disse:
- Seu corpo é tão suave como o mármore, tão suave como pedras na água.
- Sim. – disse, em busca de seus lábios.
Empurrou-me para a cama e encostou meu corpo sobre a colcha, minhas pernas ficaram fora da cama. Colocou-se de pé entre elas, suas mãos acariciavam embaixo, através de meu estomago e meus músculos, seu toque estava deixando uma esteira de admiração. Darius tinha problemas para respirar. Ele tomou seus polegares e me separou. Esfregando e dando voltas, com minha respiração contida e fez pequenos arquejos. Então ele parou. Eu o senti mais do vi desabotoar suas calças e logo compreendi que ele não se despiu. Apoiei-me em meus cotovelos para ver o que estava fazendo. Ele estava completamente vestido, enquanto eu esperava totalmente nua. Vi como deslizou seu pênis de suas calças e o sustentou com a mão. Esfregou-se contra mim, e pude sentir sua dureza.
Eu estava arqueada e expectante. Mas não esperava a força com a qual ele se empurrou para dentro de mim ou a profundidade que ele penetrou. Gemi forte, meio tonta. Seus braços aos lados de minha cintura sustentavam seu corpo acima de mim. Levantei os olhos para seu rosto enquanto se golpeava contra mim. Ele me olhou enquanto fazia. Ele empurrou com força. Empurrou profundamente. Eu vi seu rosto começar a mudar do conhecimento a um transe embelezado. Depois disto, duvidei se ele realmente me via. Ele só empurrou em mim uma e outra vez. Isto continuou durante longos minutos, um movimento rítmico que hipnotizou e despertou-nos, ambos, em um êxtase Tântrico.
Utilizando as técnicas que aprendera há muito tempo na corte da imperatriz, me apertei e me pus em liberdade ao redor de seu pênis com os músculos pélvicos, igualando o ritmo de seu movimento. Eu era muito forte. – Gemeu, pelo prazer. – Mas ele era muito forte. Ele se equilibrou em um braço enquanto ele alcançou abaixo de sua mão e aumentou as sensações que me balançavam. Alguém com muita prática na arte do amor devia lhe haver ensinado como prolongar o prazer de uma mulher, já que ele fez coisas com seus dedos e seus lábios, que me mantinha ofegando. Comecei a gemer e logo me revolver, até que ele se inclinou e com uma mão agarrou meu cabelo. Ele me sujeitou e me sustentou ainda, enquanto ele me conduziu à loucura do êxtase.
- Você não gosta Daphne? Diga-me como se sente quando lhe coloco isso, - sussurrou ele. – Sente-se bem?
- Sim. – Ofeguei. – Sinto-me tão bem, Darius. Quente e difícil. Duro como uma pedra.
Darius cobriu minha boca com a sua, beijava-me duro igual a como quando me penetrava. A cama se balançava e eu vinha. Meio consciente, fui perdendo-me na sensação. Quis gritar, mas sua boca amorteceu meus gemidos. Eu perdia o controle; Eu estava crescendo e em voo. Levantei minha mão e me aproximei de seu pescoço. Comecei a puxá-lo para minha boca. Eu queria beber o seu sangue e sentir o êxtase que era maior que o orgasmo, como correntes de luz correndo por minhas veias. Algo dentro de mim tentou frear, mas era demasiado tarde. Vi sua veia jugular azul abaixo de sua pele e não pude resistir, minhas presas estavam cada vez maiores, me inclinei para sua carne e morder, mas não o fiz. Darius se afastou, arqueando as costas quando explodiu dentro de mim, com o pescoço muito longe de meu alcance. E me rompeu plenamente consciente, o medo correndo por mim que quase havia chegado a levá-lo para o reino dos mortos viventes.
Seguiu bombeando dentro de mim um pouco mais, então eu cheguei ao clímax de novo com os dedos. Gritei, sei que o fiz. Só quando ele se havia retirado e me levantou as pernas sobre a cama, me virou e pôs minha cabeça em uma almofada, me dei conta de que não havia usado camisinha. Sou imune a enfermidades, é certo, mas os vampiros podem conceber. As condições devem ser exatamente corretas pela raridade de ocorrer e eu duvidava que ocorresse, mas me perguntava por que Darius havia se arriscado.
A única razão que me ocorreu, era que ele acreditava que esta missão era a que um não terminaria vivo. Ele subiu na cama e logo estava ao lado de meu corpo nu, todavia ele estava totalmente vestido. Foi emocionante sentir sua roupa contra minha carne, mas também desconcertante. Voltei a cabeça para ele e ele me beijou. Na penumbra, ele recitava. Soava como algo vagamente como Charles Swinburne poderia escrever.
"Teus olhos me cegam, me queimam tuas tranças. Eu comeria seus peitos como o mel, e beberia o sangue de seu próximo como vinho. Seus suspiros dividem minha carne e espírito com o som suave... que de cara aos pés, seu corpo fica abolido e se consome, e em minha mesma carne de sua carne muito enterrado".
Inclinou-se e beijou cada seio, então, quando o poema terminou, passou-se a mão sem fazer nada sobre eles antes que seus dedos se aproximaram para acariciar meu rosto. Suspirei e outra vez me perguntei se ele havia dito essas palavras a outras mulheres que levava para a cama. Ele era ou um jogador ou um verdadeiro romântico. Eu não o conhecia o suficiente para decidir o que era.
- O que está pensando? – perguntou.
- Perguntava-me onde aprendeu a recitar poesia. Na universidade?
– Em um cárcere a China. – disse com amargura e se afastou.
Eu e minha boca grande, pensei. Mudei de lado.
- Sinto muito. Sinto-o pelo que foi... Não importa onde você aprendeu as linhas, são bonitas. – Eu estava em silêncio por um momento e logo disse: - Posso pedir que faça algo por mim?
- O quê? – disse, com o estado de animo roto e uma crescente tensão em seu corpo.
- Você poderia tirar a roupa?
Ele o fez e ambos ficamos embaixo dos lençóis. Em poucos minutos ele havia dormido profundamente. Eu fiquei quieta por um tempo, olhando-o, escutando o seu ressonar. Eu não tinha sono. Não podia passar a noite. Tinha que estar de volta ao meu ataúde antes da primeira luz da manhã. Saí da cama e fui ao banheiro, vesti-me, e entrei tranquilamente no quarto. Olhei para Darius estendido ali, o lençol enredado ao redor de sua cintura, uma perna forte exposta. Até no sono tinha os punhos cerrados, com a mandíbula tensa e o cenho franzido. Seguia batalhando com os espíritos em seu sono. Ele dormia, mas não descansava. Eu esperava não estar cometendo um grave erro ao confiar nele e, depois dessa noite, pensei, verdadeiramente cuidar dele. Sabia que era um homem decidido e eu não era sua prioridade.
É diferente para mim. Nunca tive uma urgência para completar nada. Havia sempre tempo para sonhar e acreditar, tempo para todas as noites de trabalho e dias de ócio, tempo para uma centena de visões e revisões. Tive a eternidade antes para fazer o que queria. Para Darius, o tic-tac do relógio, se lançou para frente, a toda velocidade, com seus demônios privados como companheiros inseparáveis. A finalidade da morte se aproximava dele como uma sombra ao seu lado. Olhei-o uma vez mais.
Meu coração não queria ir-se. Peguei meu casaco no armário do vestíbulo e saí, tomando cuidado de não fechar a porta. Através dos séculos, eu também memorizei a poesia e as palavras de meu amigo irlandês, Billy Yeats, perseguia-me quando o deixei:
Em um campo ao lado do rio meu amor e o fiz de pé. E em meu ombro apoiado pôs a mão branca de neve. Ela manda que eu tome a vida fácil, como a erva cresce nas presas, mas eu era jovem e tola e agora estou cheio de lágrimas.
Tinha a esperança de que as palavras não fossem proféticas, mas o frio passou através de mim quando dava um passo na calçada da Quinta Avenida. Com o ar frio rompi em uma consciência diáfana, eu estava segura de que o eram.

Capítulo 7

A crueldade tem um coração humano, e os ciúmes um rosto humano.
William Blake





Cheguei em casa, meu corpo satisfeito, meu humor pensativo, minha alma preocupada. E sabendo muito bem que a pessoa que me chama mais frequentemente era minha mãe, sabia que a luz que piscava uma mensagem na secretária eletrônica não pressagiava nada bom. Era pior do que pensava. Primeira mensagem, o cigarro e a voz de uísque de mamãe:
- Olá, querida, eu não sabia que ia sair. Está vendo alguém? Que não se esqueça: Bebidas amanhã de noite. Não há desculpas. Às sete. Espero que esteja bonita. Amo-te. E lute contra a pessoa má.
Depois, totalmente de improviso, era Cormac:
- Então, não está em casa em uma tarde de sexta-feira, assim, pretensiosa. Ao menos um de nós parece ter algo interessante para fazer. E seguro que não sou eu o peralta. Foste chutada na bunda? Está capturando aos maus do jogo Mata Hari?
- Não pergunte o que estive fazendo. Sou somente uma pessoa pretensiosa. Entregas de limpeza a seco. OH, Meu deus, não acreditaria quantas vezes em uma tarde me chamam... "Irmão Johnson, seus objetos de pura e sem mancha se encontram na recepção" E sem parar, toda a noite, que os tubos nos cantos gregorianos... Em latim. Tive suficiente disso na Idade Média, obrigado, juro-o, eu só podia gritar. Estive usando os fones de ouvidos para poder escutar a Madonna. Mas aqui estou, falando sobre mim. Chamei para te dizer que vi hoje nosso amigo comum, e é áspero, antissocial e áspero. Não sei o que fez com ele, mas, Oh, está em sua lista negra. Terá que me dar todos os detalhes suculentos o quanto antes possível. Não me chame, eu te chamo. Beijo, beijo.
Terceira mensagem:
- Eh! Alô, amiga, é Benny. Somente tenho que te dizer o que estou sendo enviada para fazer. Estou tão nervosa como um gato de rabo comprido em um salão cheio de cadeiras de balanço. Ligue-me! Até então, ate um nó grande em sua corda de agarrar. Bem, eu estaria melhor se recuperassem o meu rato morto, isso é habilidade para ter cuidado no negócio. Ligue-me!
Tive que sorrir. Claro, J, mamãe a palavra cifrão. Não vamos discutir uma coisa sobre esta operação de espionagem secreta. Correto. E logo a mensagem número quatro:
- Hermes. É o anel mestre. Traz seu traseiro aqui. Agora.
Já tinha sido ordenado o suficiente para uma noite.
- Em seus sonhos. – gritei-lhe à máquina.
Bom, suponho que estava com sérios problemas. Seria por causa de Boaventura? Teria sido por mi... vamos chamar a indiscrição, quando o deixei a última vez? O que tinha marcado fora dele. Eu não estava a ponto de saltar e correr.
Em troca, um esquema se formou em minha mente e chamei Benny. Ela respondeu ao segundo toque. Disse-lhe que eu tinha só um minuto para falar, mas ela era livre manhã de noite e não lhe importaria visitar minha mãe para coquetéis? Ela disse que gostaria. Disse-lhe que eu passaria por sua casa por volta 06h30min para pegá-la e que ela deveria vestir-se atrativa para o caso de que quiséssemos ir ao clube depois. Ela disse que iria pelo porco inteiro. Seu bom humor implacável quase me fez esquecer que tinha que confrontar a J antes da alvorada. Mas eu não ia a nenhuma parte, até que tomasse banho e me trocasse. Além disso. De repente me senti muito cansada e esperava que a água me desse uma bofetada de um pouco de vida dentro de mim. Um copo grande e bonito de sangue não estaria mal tampouco.
Pensei em Darius. Ah, sim. Era um fio de fumaça filtrada através de minha mente, a sombra, tudo com a ideia de que o que tinha feito com ele tinha complicado minha vida e me enredava nos cordões que nunca poderia ser capaz de romper. Entretanto, eu não podia esperar para vê-lo de novo.
Apresentei-me no escritório um pouco antes das quatro da manhã. Tinha-me esfregado com uma esponja, lavei-me o cabelo e tirado as calças jeans apertadas. Tirei um par de UGGs quentes em meus pés e escolhi uma jaqueta da II Guerra Mundial da marinha americana. A rua estava vazia, tanto pelo tráfego e como pela gente quando saí de meu edifício de apartamentos. Tive que caminhar pela quadra até a Broadway para encontrar um táxi. Nova York é uma cidade que nunca dorme, mas no Alto lado Leste, no meio da noite, dorme um pouco. O resplendor das luzes, mas os sons estão silenciados, como se estivessem usando pantufas.
A temperatura tinha começado a cair de novo. Estremeci-me e coloquei minhas mãos profundamente nos bolsos, infeliz de que tivesse que estar na rua de novo. Com o céu manchado de tinta negra em cima, impulsos antigos cantarolavam dentro de mim, me tentando a esquivar em uma entrada vaga e me transformar e uma vez transformada voar, descendo em voo rasante ao longo, em busca de outro caminhante solitário, derrubá-lo, abraçá-lo e beber.
Odiava me sentir assim. Odiava o monstro dentro de mim. Eu não escolhi ser o que era. Não importava quão bonita era, ou em espécie, ou bem, não havia diferença. Eu era um vampiro. Essa era uma razão suficiente para que a gente me odiasse e a toda minha raça.
Não tinha os mesmos sentidos, os afetos e paixões que qualquer outra mulher? Não sinto o calor do mesmo sol, o frio do inverno do mesmo modo também? Não choro quando dói? Não me rompeu o coração quando meu amor me deixou? Igual a qualquer mulher? Não deseja a compreensão e a aceitação, pela ternura e a compaixão, como qualquer mulher? E se me ofendiam, não deseja a vingança, igual a qualquer mulher?
Um táxi com sua luz sobre a direita, finalmente se deteve. Entrei e disse ao chofer que me levasse até o edifício Flatiron. Os taxistas de Nova York não fazem perguntas e se perguntasse que diabos estava fazendo na rua há essa hora, não o diria. Tão indiferente como a cidade mesma, provavelmente não lhe importava. Quando cheguei ao edifício, o vigilante abriu a porta e a manteve aberta para mim, como se estivesse esperando que chegasse.
Acima, J levantava nuvens de tormenta quando passeava, pela forma em que seus lábios estavam apertados e seu cenho franzido era muito claro, sem dizer uma palavra de que era realmente antiquado. Olhou-me friamente, sem compaixão. Não deixei que sua fúria me incomodasse. Pensei que J era um homem com problemas de ira. É provável que explodisse duas ou três vezes ao dia. Não pensei que ia jogar comigo, assim:
Do que mais tenho que me preocupar? De que me despedisse? Não.
Estava passeando o olhar por seu rosto com uma atitude que realmente alimentava seu fogo interno. Sua fúria parecia esquentar o ar que o rodeava.
- Sente-se, - disse, e avançou para a mesa de conferências. – Tenho que falar contigo.
Deixei-me cair em uma cadeira e joguei a mochila abaixo com um golpe no chão.
- Boa noite para você também. E antes de começar, estou sedenta. Necessito algo para beber. Há uma máquina da Coca-cola neste lugar?
- Não, não há nenhuma máquina da Coca-cola. – disse. Parecia estar falando com os dentes apertados. – Sabe, isto não é uma brincadeira.
- Eu não acreditava que fosse. – disse-lhe enquanto encolhia os ombros dentro minha jaqueta. Seu cenho franzido se aprofundou. Sacudiu-me. – Importa-se se eu pegar a garrafa de água por ali? Está provavelmente quente, mas isso está bem.
Fiquei de pé e me aproximei de uma mesa. Peguei a garrafa com lentidão, abri a tampa e tomei um gole longo. Limpei-me a boca com minha mão antes de voltar para meu assento.
- Assim está melhor. Então J, o que é tão importante que não podia esperar até amanhã? Trata-se de minha visita a Schneibel? – Disse, com os olhos muito abertos e inocentes.
- Não, eu esperava que se pusesse em contato com Schneibel. Ajusta-se ao seu perfil. O que não esperava era isto. – Tirou uma foto e a deixou sobre a mesa diante de mim.
A foto me mostrava beijando Darius sobre as escadas do Museu Metropolitano de Arte. Nós estávamos em um grande abraço. Surpreendeu-me de que houvesse me seguido e eu não soubesse. Meu estomago começou a se apertar, mas eu segui com minha voz despreocupada.
- Sou eu e o cara que estou vendo. E?
- E? E? Estás vendo Darius Bella Chi. Há quanto tempo isto está ocorrendo? – J apertava a mandíbula tão forte que pensei que ia partir seus molares.
- Algum tempo. Qual é o problema? – disse. Minha irritação estava crescendo para coincidir com a sua.
- Não me conte bobagens. – bramou ele. – Isto deve ter começado depois de que foram recrutados. Ele é um agente e você sabe muito bem. Ele a escolheu para conseguir informações através de você. O que lhe disse?
- Nada, absolutamente nada. E como sabe que me escolheu? Talvez eu tenha chegado a ele. Encontramo-nos, tivemos uma grande química. Não tem nada a ver com os negócios. Fim da história.
Mas o que disse J havia posto palavras nas minhas suspeitas. Minha desconfiança em Darius voltou com toda a força e, entretanto, já não acreditava em J também. Senti-me manipulada por ambas as partes e conseguiu me zangar mais nesse momento. Como se tivesse lido minha mente, J disse:
- Não pode acreditar isso. Sabemos que mantém Boaventura sob vigilância. Sua gente não fala com minha gente. Preciso saber o que disse.
Decidi nesse momento que não diria a J o que eu fazia, até que averiguasse quem estava ao meu lado, se houvesse alguém.
- Nada. Ele não me disse nada. Eu não lhe disse nada. Como pode ver na foto, nós não tivemos muita conversa.
- Deixa de te fazer de tola. Ele está te usando. Até onde foi com este sujeito? Você está se deitando com ele?
Senti-me como se fosse um criminoso sendo interrogado. Levantei- me, agarrando minha jaqueta e mochila. Eu havia tido bastante e ia embora.
- Isso não é assunto seu – disse. Abri a porta, mas antes que eu sequer saísse J estava diante de mim, fazendo-me retroceder para a sala e fechando a porta de um golpe outra vez.
- Você sabe muito bem que é meu assunto, - gritou em minha cara, - se está lhe utilizando para chegar ao nosso objetivo e estou seguro de que está. Responde-me, maldita seja. Necessito saber.
Isto estava me escapulindo das mãos e antes de chegar a um empurrar e gritar com J decidi retroceder. Tomando a estridência de minha própria voz, retrocedi uns passos e disse com calma:
- Olhe, nos conhecemos. Beijamo-nos. Temos passado daí. Era bom para ele como foi para mim. É sexo, não é amor. Não se preocupe com ele. Darius me disse que era um agente que estava mantendo a vigilância em Boaventura. Foi totalmente sincero comigo. Ele tem o seu assunto, nós temos o nosso e não há problema.
J sacudiu a cabeça, sua ira foi desinflando como uma bola de soprar. Disse com desgosto:
- Se você dormiu com ele, já comprometeu toda a unidade.
Meus sentimentos se revolviam, ainda que eu usasse toda a minha vontade para controlá-los. Tratavam-me como se eu fosse uma idiota, com nenhum grama de inteligência. Apesar de meus esforços para acalmar-me, comecei a gritar de novo.
- Como pode dizer isso? Disse a você que não lhe disse nada. E só temos uma coisa física. Um bom sexo, mais nada mais. Sem ligações.
De repente, J ficou como um vulcão a ponto de explodir.
- É uma mulher corajosa. Para uma mulher sexo sempre há ligações. Sempre significa algo para ti. Pelo aspecto desta imagem, você já se apaixonou por ele. Não pode saber o que está fazendo. – J agora era o Vesúvio a ponto de estalar. – Idiota! Não entende? Darius não é só um agente.
Estava tremendo de fúria. Atirei minha jaqueta na mesa, minhas mãos nos quadris como se fosse enfrentar J. Pensei que este tipo de merda machista saiu da década dos anos 80. Eu estava a ponto de dar a J uma verdadeira obra de minha mente quando o último que disse se registrou. Detive-me em seco.
- O que quer dizer, com que Darius não é só um agente?
J me olhou.
- Darius Bela Chi é um canhão solto. Imprevisível. Inclusive seu treinador não pode controlá-lo. Ele tem sua própria agenda. E maldita seja, Daphne, não me digas que não sabe, ele é um assassino de vampiros.
Senti o sangue correr por meu rosto. Minhas mãos se converteram em gelo. A sala começou a girar. Pensei que ia desmaiar. De algum modo consegui impedir a minha voz de trair-me.
- Não posso acreditar nisso. Como você sabe disso? Onde está a sua prova? – cuspi as palavras.
J me olhou. Parecia estar lutando com o que ia me dizer. Por fim, disse:
- Não tenho nenhuma prova. Mas é mais que um rumor. É o que as pessoas que estão em condições de saber opinam. Tem um problema pessoal contra os vampiros. Não podemos correr o risco de que seja verdadeiro. Pode ser que já tenha posto em perigo a toda a equipe. Pode utilizar-lhe para encontrar a todos eles. Você tem que permanecer longe dele.
Minha mente estava em carreiras, revisando internamente tudo o que Darius havia dito e feito, a busca de pistas que poderia haver perdido. Havia bandeiras vermelhas de me descobriram, entretanto, uma pequena voz em meu interior estava advertindo-me que não podia confiar no que J dizia. Era exatamente o que ia fazer até fazer-me dano, para conseguir minha transformação.
- Não acredito que ele seja um assassino de vampiros. Apostaria minha vida que não é. Repito, o que acontece entre Darius e eu não é do seu maldito negócio! Teu negócio é meu encontro com Boaventura. E no caminho digitei um informe. Aqui. – Tomei minha mochila e peguei uma pasta. Atirei sobre a mesa. – Isso é exatamente o que ouvi de Boaventura, o que eu ouvi e o que disse ali. Está previsto para nos reunirmos de novo na noite de segunda. Os dispositivos estão no seu lugar. – O que mais queres que eu faça? – Sentei-me e cruzei os braços sobre o peito.
J agarrou a pasta e se estancou na leitura de meu relatório. Ele disse:
- Já recolhemos alguns dados dos microfones. As coisas se movem rápido, vou ter instruções para o domingo. Não esteja fora de contato. – Olhou-me. – E não veja o Darius Bela Chi outra vez. – ordenou.
Meus olhos se iluminaram e estava para lhe dizer que se fosse a dar um salto no oceano, quando, já não estava gritando mais, adicionou em um tom suave.
- É um risco muito grande. Falo sério, Daphne. Se ele se inteira do que você é, não duvidará. Vai pôr uma estaca em seu coração. – Quase acreditava que estava verdadeiramente preocupado por mim, por perto de um segundo.
- Vá à merda, J. – disse. Levantei-me lentamente, vesti a jaqueta, e pus a minha mochila em meu ombro. – Estou cansada. Vou para casa dormir. Se precisar entre em contato comigo em um apuro, ligue para meu telefone celular como outros. Estou segura de que tem o número. Mas se estiver desligado, significa que estou ocupada. Ou na cama... Com quem me der vontade.
Coloquei minha mochila no ombro e parti. J estava de pé, olhando atrás de mim. Não sei no que estava pensando, mas pelo jeito que olhava não era um bonito pensamento. Quanto ao Darius, eu não sabia o que acreditar. Mas eu gosto de estar atenta. O ver-me na dúvida já estava escavando profundamente o coração.

Capítulo 8

O cocktail




No sábado à noite, Benny tinha aparecido às nove. Usava um conjunto Betsey Johnson fúcsia com uma abertura na lateral, que percorria todo o caminho para Honolulu. Ela havia aplicado maquiagem brilhante em seu corpo e adicionando brilho ao seu cabelo de ouro. Os saltos eram tão altos que eu não sabia como conseguia caminhar. Havia colocado um abrigo completo de pele de raposa branca. Ela não era sutil, mas estava bem. Refletindo o meu humor sombrio, vesti calças de couro marrom e uma blusa de Dublin marrom embaixo de uma jaqueta de motocicleta Harley. Eu usava sapatos de ponta quadrada Frye e não arrumei muito o meu cabelo. Eu me via como um pardal ao lado de um pavão real.
Ao chegar na casa de minha mãe, que vivia em Scarsdale apesar de suas inclinações contraculturais, Benny e eu fomos recebidas na porta por uma menina com o rosto cheio de espinhas com uma miniblusa e botas de vaqueiro. Ela segurava um copo de Martini que continha um líquido transparente adornado com azeitonas, sem gelo.
- Acabo de consegui-lo. Quer um? Martini vodka. Ou gin? – Ofereceu.
- Nenhum, Não, obrigada. Não para mim. E quanto a Benny? – disse.
- Não me importaria, querida - disse Benny. – Só para chegar ao limite.
- Gin Stolior?
- Stolior gin?
- Stoli.
- Algo nele?
- Azeitonas. Você simplesmente lava o copo com vermute e mel, se não te importa. Mas primeiro creio que gostaria de tirar o casaco.
- Não há problema. – Disse a garota. – Deixe na cadeira e vou colocar para você. Espero que seja de pele falsa. Já sabe que é cruel e desumano matar os animais pelas suas peles.
- O que tem seu sangue? Pensei. O que foi:
- Por certo, quem é você?
- Sou Sage Thyme. Estou com sua mãe no intuito de salvar às árvores: Deter o Grupo de desmatamento.
- Eu não sabia que o bosque primitivo continuava no Westchester. Corte e os desmontes? O que é o que estão construindo, outro centro comercial?
- Você é tola. – Disse Sage Thyme enquanto bebia de sua taça. – É justo como sua mãe disse que seria. Muito cortante. Penso que é satírica. O registro é no norte do estado de Adirondack. É terrível, mas estou segura de que sabia. Queria arrumar o cabelo, não? Você sabe, é tão afortunada. Sua mãe é realmente algo importante. Tanta energia. – Sage me olhou desconcertada e acrescentou: - Ela se vê menor que você. – Então se encolheu de ombros e bebeu o resto de sua bebida antes de dizer: - Bom, ela é vegetariana e depois de tudo era uma mãe adolescente nos subúrbios. Ela nos contou tudo a respeito de como não era mais que uma menina quando a teve e como teve que escavar a sua maneira de sair da pobreza e seu começo com carências culturais. Ela tem tanto valor. Que exemplo maravilhoso para nós todos seguirmos! – Sage me dedicou um sorriso sinuoso e se foi correndo para fora da cozinha e tudo o que eu podia fazer era rodar os meus olhos.
- Oh, ela é um modelo a seguir, justo. – Murmurei para mim mesma, - se alguém necessita de um mentor para a confissão de grandes mentiras.
A verdadeira história é que minha mãe tinha mais de seiscentos anos quando me teve. Vivia em um palácio ducal perto de Roma e nesse tempo já havia amealhado suficiente ouro e joias para fazer dela uma das mulheres mais ricas do mundo. Aparte de "escavar" talvez seja exata, entretanto.
E, nesse momento, minha mãe deslizou para o corredor vestida com um vestido que ia até o chão, de um preto escuro que tinha laços e uma faixa de couro na frente. Pensei que poderia funcionar como vestido de noiva para a noiva de Frankenstein. O decote do vestido estava envolto em um grande capuz pendurado na parte de trás e ia até quase o chão. No pescoço trazia o signo da paz. Estava positivamente gótica. Tenho sorte que não estava com um anel no nariz. Deu uma palmada em nossas costas e disse com voz ensurdecedora.
- Daphy, você está... você está muito bem. E trouxe uma amiga!
- Sim. Mar-Mar, ela é Benny Polycarp, uma colega de meu novo trabalho. – E sub-repticiamente dei a Benny um olhar para lembrá-la que minha mãe não sabia a respeito de nosso trabalho de verdade. Eu havia ensaiado o que deveria dizer aqui e esperava que ela não esquecesse. – Benny, apresento-lhe Marozia Urbano, minha mãe.
- Me alegro muito em conhecer-lhe. – Benny arrastava as palavras. – É um sentimento tão acolhedor, visitar uma família de novo. Estar sozinha em Nova York me põe nervosa como uma puta na igreja, essa é a verdade.
Pelo bem das aparências Mar-Mar tinha trocado sua erva habitual para o mais respeitável e elevado álcool. Entretanto, mesmo com um pé na terra feliz, ela entreabriu os olhos para Benny em uma análise exaustiva e lhe dando um olhar de cima a baixo, uma vez mais.
- De onde é?
- Branson. Branson, Missouri. É um grande lugar ali. Não como aqui. Tem uma casa preciosa, Marozia. Quando vínhamos para cá vi que tem um Starbucks e Barnes & Nobre e todas as lojas de departamentos são boas. Vê-se como o céu. Na minha terra, minha casa estava tão longe que tinham à luz diurna perto. Não é que eu quisesse a luz do dia depois de que me transformei. – Mar-Mar me deu um olhar inquisitivo.
- Sim, ela é um vampiro. – sussurrei-lhe.
- Oh, excelente! – Mar-Mar gritou. Ela pôs seu braço sobre o ombro de Benny e a conduziu para a sala de estar. – Mas como no mundo foram chegar os vampiros a Branson? – perguntou, em voz baixa, com uma voz cúmplice.
Perto delas podia ouvir Benny começar a falar de um intérprete de banjo bluegrass, que ela conheceu na década de 1920 e era tão doce falando, e quando se deu conta ele estava mostrando suas coisas... por quê? Nunca sonhou que alguém fizesse isso... e uma coisa levou a outra, e acaba que saiu da mão, e se seu pai tivesse descoberto, ele a teria matado, mas não descobriu, por certo...
Eu havia sintonizado a conversa, entretanto, havia visto um jovem lânguido atirado sobre o sofá. Tinha que ser Louis. Quase ri quando percebi o seu conjunto. Nenhum homem hetero usava uma camisa assim, de seda cor lavanda com punhos franceses desfeitos e pendurados sobre as mãos. Tinha um anel em cada dedo, e nunca pude lidar com o fato de sair com um rapaz que usava mais joias que eu. Mas foi sua palidez e os olhos verdes brilhantes, que eram quase incandescentes, o que quase me fizeram latejar. Deu-se conta de que eu o olhava fixamente e me olhou.
O pelo dos meus braços se eriçaram e eu sentia que algo havia caminhado sobre minha tumba. Jurei que me senti chamuscada pelo seu olhar. Sacudiu a cabeça e cachos escuros caíram sobre a sua testa. Eu não podia decidir-me se ele se parecia mais com um jovem Keith Richards ou com RuPaul. Suas calças de couro estavam apertadas, era óbvio que seu "pacote" ou estava recheado com uma meia ou era muito impressionante. Esta era a escolha de minha mãe de um companheiro para mim? Tinha que estar brincando. Se o homem não fosse gay, era pelo menos bissexual.
Louis se levantou e fez uma pequena reverência para nós três. Era muito alto. Ele me sorriu e me deu calafrios. Mas com a minha sorte, não tinha com que me preocupar. Deu um longo olhar para Benny e nunca voltou a olhar para outro lugar. Estendeu uma mão branca e a agarrou, levou a dela aos lábios e lhe beijou os dedos um de cada vez. Tinha a boca muito vermelha.
- Eu sou Louis. – disse, pronunciando o francês, como Looey.

- Seu sotaque? – Disse Benny.
- Luisiana. E você?
- O Estado Mostre-me querido, - ronronou ela. – Missouri. Somos praticamente parentes.
Seus olhares se cruzaram e travaram. Sentaram-se no sofá, apertados um contra o outro, rindo e falando como se nada mais existisse. Mar-Mar olhou desconcertada. Seus planos traçados com cuidado tinham ido para a breca com certeza. Eu não podia estar mais feliz.
Dando-se por vencida sem lutar, Mar-Mar me arrastou com o objetivo de satisfazer a Zoe, mãe de Louis. Zoe era uma harpia óssea, que devia ter setenta quando foi transformada, porque a juventude eterna a iludiu. Um vampiro jovem rebaixando-se em seu enrugado pescoço queria dizer o que estava pensando. Usava um traje Chanel quadriculado, uma piteira entre os dedos e fedia a gin. Balançando-se enquanto se levantava de sua cadeira, me deu um amplo sorriso.
- Você é exatamente igual a sua mãe.
Reprimi o riso, mas por pouco. Minha mãe e eu éramos como Mutt e Jeff, nem sequer parecíamos da mesma família. A mulher estava "mais pra lá do que pra cá" e, provavelmente, não podia ver bem. Sage se aproximou com sua bandeja.
- Não é outra dessas misturas horríveis! – Zoe chiou. – Traga-me um Martini feito com Bombay Sapphire, menina. Que é o que um verdadeiro bebedor de Martini prefere. E como Mar-Mar pode dizer-te, sou uma verdadeira bebedora de Martini.
Mar-Mar riu e disse:
- Adiante! Agora, Zoe, conte-nos essa história outra vez, é a minha favorita, a de estar em cima de uma árvore do marajá. A história dos tigres.
- Você perdeu completamente o ponto, Marozia. – Sorriu com um sorriso nublado. – Não houve tigres. Esse era o ponto. – Zoe se voltou para mim, esfaqueando ar com seu cigarro e tratou de enfocar seu olhar em minha direção. – Daphne, Louis e eu tínhamos ido à Índia... oh, foi antes da guerra. – Deteve-se e ficou por um momento.

- Qual era a guerra? Acredito que foi a primeira. Foi a primeira, Mar-Mar? Bom, qualquer que fosse, o marajá, o diabo velho, só tinha uma coisa em sua mente...
A tarde caiu costa abaixo. Aguentei uma hora antes que sugerisse a Benny que nos dirigíssemos de novo à cidade. Poderíamos ir dançar se quiséssemos. Ela me disse ao ouvido que esperava que Louis pudesse vir também. Via-se tão feliz que não podia dizer que não. Chamei um serviço de carros e nos despedimos. Mar-Mar beijou o ar junto a minha orelha e fez alguns sons inalando enquanto murmurava algo a respeito de machucar a pessoa que amas. Salvei-me de uma viagem de culpabilidade mais, quando seu CD do John Lennon começou a pular e ela correu a resgatá-lo. O som de Enya cantando "Only Teme" logo encheu a casa.
Falando de machucar a pessoa que amas. Sage gritou da cozinha que outros membros da organização "Salvar as árvores" acabavam de chamá-la e estavam esperando. Queriam escutar a história do moço que podia ouvir a chamada dos morcegos. Seguia misturando mais bebidas? Onde estava a bolsa dos Piratas?
Com tudo isto não acreditava que Mar-Mar sentisse minha falta. Benny, Louis e eu saímos sem ter provocado lágrimas.
Um verdadeiro clube de vampiros existe na Cidade de Nova York, mas de modo geral eu o evito como uma praga. Somente porque eles são vampiros não significa que eu tenha algo em comum com os homens que andam ali, além da coisa da sede de sangue. Eles são quase todos em parte animais, embebedando-se ou drogando-se e competindo pelas mulheres mais bonitas. Nunca encontrei, ainda, a um que quisesse falar de livros ou um passeio por um museu. Sua ideia de cultura eram filmes e televisão, as últimas bebidas e os novos carros mais rápidos – e estando à espreita, no fundo, é sempre a busca de sua seguinte mordida. Isto era exatamente do que não queria estar ao redor. E para falar a verdade, não era ainda nove horas e eu me sentia totalmente mal, sentindo falta de Darius.
Não tinha terminado de subir no Lincoln Town Car, para nos levar de retorno à cidade, quando pensei em chamá-lo. Ligar para o seu celular. Eu sabia que não era prudente, depois de ter lido o best-seller, As Regras, faz um tempo, para ver se algo tinha mudado em duzentos anos. Não o tinha feito: Os homens ainda queriam às mulheres que eram difíceis de conseguir. O pior que uma mulher podia fazer era atuar como uma necessitada, prepotente, agressiva, no controle, franca ou honesta. E eu estava a ponto de romper uma das dez melhores regras:
Não o chame e raramente retorne suas chamadas.
Durante todo o dia meus pensamentos a respeito de minha relação com o Darius tinha estado indo e voltando em meu cérebro como uma bola do Ping-pong: Não perguntou o que faria na noite de sábado. Por um lado, estava dormido quando o deixei na noite anterior. Por outro lado, poderia ter chamado. Não, comprovei tanto em minhas mensagens no celular e também as mensagens de telefone em casa a cada hora. Pelo contrário, tinha o fator de que ele era um espião, em meio de uma perigosa missão. Talvez ele não tivesse tempo para as chamadas sociais.
Infelizmente o resultado final era inevitável: Se ele se preocupasse comigo, haveria de querer saber se eu havia chegado bem em casa, se foi tão bom para mim como tinha sido para ele e se eu estava livre para voltar a vê-lo. Não foi um bom sinal saber que ele não telefonou no momento em ele acordou.
Mas, o problema no fundo, entretanto, era que eu tinha sido celibatária por quase duzentos anos. Agora meus hormônios estavam fora da razão. Minha razão para fazer o telefonema, não que realmente importasse, era que Darius e eu tínhamos que falar de nosso próximo movimento com Boaventura. Voltei-me para Benny e Louis.
- Incomodaria a vocês se eu chamar mais alguém? – disse. – Para ver se pode reunir-se conosco? – Lhes disse.
- Por que nos incomodaria, docinho? – Benny perguntou.
- Ele não é um de nós. – disse. – Ele não sabe nada de nós. Se isso vai ser um problema, deixem-me saber.
Benny olhou para Louis.
- A mim não incomoda. – disse.
- Ligue Daphy. Ficaríamos encantados em conhecê-lo. – disse ela, quando Louis pôs seu braço ao redor dela e lhe deu um apertão.
Eu lhe estava dando um inferno de oportunidades. Se Darius fosse um assassino de vampiros, poderia estar pondo em perigo nossas vidas. Mas meu pensamento estava em curto-circuito por meu desejo sexual. Por estar sozinha em uma noite de encontros, pelo que ele fez na noite anterior, meus desejos cresceram. Uma vez mais, eu temia que os antigos desejos dentro de mim voltassem a castigar a minha alma. Pondo as minhas determinações magnânimas em guerra com meus instintos básicos, conduzindo-me a essa fome que se originou muito atrás no tempo brumoso, quando os lobos uivavam nas estepes da Rússia e os ciganos se transladavam sem descanso por todo o país, viajando para o sul, aos climas mais quentes e acampavam fora de nossa cidade, nas planícies romanas.
Sentei-me no assento dobradiço do Lincoln com o telefone celular na mão, preparada para realizar a chamada. Em lugar disso olhei pela janela na escuridão e recordei como começou tudo para mim.
Fazia séculos, com a bruma da terra girando ao redor dos tornozelos magros, a lua cheia, recebi essa mordida fatídica nos braços de um rei cigano. Pobre Mar-Mar, que tinha tratado de me proteger durante tanto tempo. Talvez se essa caravana não tivesse acampado perto de nosso palácio, se não estivesse simplesmente com meus dezoito hormônios enfurecidos, e se eu não tivesse visto o Florín com a camisa aberta até a cintura e um lenço ao redor do pescoço, de pé nas sombras sustentando as rédeas de seu cavalo cinza, talvez não tivesse acontecido nada.
Eu estava colhendo flores ali, na borda do bosque. Meus braços estavam cheios de flores. Fiquei mais tarde que o prudente. Na verdade, eu o tinha visto antes e tinha ido buscá-lo. Do momento em que colocou-se no prado eu sabia que ele estava ali, esperando, e me movi com acanhamento. Abaixei-me e as margaridas no meio de meu vestido se converteram em umidade na dobra. A saia levantada contra minhas pernas, me movi, resumindo meu corpo jovem. Mantive a flexão e arrancava as flores enquanto o crepúsculo caía.
Não senti nenhum medo absolutamente. Todo o tempo que estive juntando as flores, sorria enquanto me olhava e quando finalmente me endireitei e lhe devolvi o olhar, fez-me gestos para que eu fosse. Eu, tola, tão curiosa e tão atraída pelos escuros olhos do diabo, entrei nas sombras. Ele tomou minha mão e me impulsionou para acima sobre a parte posterior de seu cavalo. Logo me transformou.
Minhas flores foram esmagadas debaixo de mim na cama de minha condenação. Muitas vezes pensei que se eu tivesse elegido outro caminho esse dia, possivelmente minha vida tivesse sido diferente. Ou talvez essa reunião tivesse sido meu destino inevitável, escrito em algum lugar de minha alma por uma mão fantasma.
Débil e pálida depois dessa longa noite, quase morta, pela perda de sangue, despertei em minha cama, Mar-Mar chorando em uma cadeira próxima. Ela chamou os médicos e fez coro cada conjuro que ela conhecia. Eles aplicaram cataplasmas e emplastros. Meus sonhos febris eram horríveis, fantásticos e eróticos. As lembranças ainda estão presentes. E me recordo gritando uma e outra vez a meu amante, gritando seu nome até que minha voz era um grasnido rouco e simples. Chamei-o, inclusive quando não saiu nenhum som de meus lábios exangues.
Florin voltou por mim nessa noite, aterrissou em minha janela e silvou para Mar-Mar, que sabia que era já muito tarde. Meus olhos afundados o buscavam como se fosse um deus. Elevei-me da cama, minha camisola branca ondeando detrás de mim como asas de uma fada e fui apesar dos rogos desesperados de Mar-Mar. Ele me recolheu em seus braços e se foi voando a um vagão de neblina, até ficarmos sentados sob as árvores. Muito em breve meu vestido branco estava manchado de vermelho e a ação foi realizada de maneira irrevogável.
Saí de meus sonhos, olhei o telefone celular de novo e marquei o número de Darius. Ele respondeu no primeiro toque.
- Darius? – lhe disse, - é Daphne.
- Oi. – disse, sua voz era suave e baixa.
- Oi para você também. Ocupado?
- Não, acabo de terminar. Contarei para você mais tarde. Ia te ligar.
- Sim, claro que ias.
- Não, é sério. Não podia deixar de pensar em você.
Sentia-me irritada porque ele pensava que eu havia acreditado nele tão facilmente. Se ele tivesse pensado em mim como dizia, ele teria ligado.
- Como queiras. – lhe disse, com um desgosto claro em minha voz. Estive a ponto de desligar nesse momento, mas minha libido me impediu de apertar o botão de desconexão. Ele devia ter-me ouvido alto e claro, porque foi quase suplicante quando disse:
- Daphne, honestamente, estava em um lugar onde não tinha recepção no meu celular, desde o amanhecer desta manhã. Tinha muita vontade de falar contigo. Podemos estar juntos esta noite? Tenho algumas coisas para ti.
- Por isso eu te liguei, - lhe disse. – Penso que temos que conseguir nossos projetos diretamente. – Eu sabia que estava mentindo. Uma reunião de negócios não era em absoluto o que eu tinha em mente para um sábado com Darius. Eu segui falando: - Estou com uns amigos em direção a cidade de Westchester. Quer nos encontrar? Espera um minuto – apertei o botão "mudo" e interrompi Benny e a conversa de Louis sobre filmes estrangeiros, expressamente se as Noites de Cabiria de Fellini era melhor que Truffaut. – Olhe, um clube de vampiro é muito para mim hoje, lhes disse. – Vocês se Importariam de passar no bar da Biblioteca no Hotel Hudson? Está na rua 58 ao oeste.
Benny disse:
- O que você quiser, está bem para nós.
Disse ao Darius e aproximadamente o momento em que chegaríamos ali e logo desliguei.
- Não acredita que o gosto de uma pessoa no cinema se divide de acordo com as linhas do gênero? – Louis me perguntou. – Há filmes de frango e filmes de homens.
- Pessoalmente acredito que se divide de acordo com os pontos de coeficiente intelectual. Os filmes que exigem um cérebro e os que não. – disse-lhe, não lhe dando uma maldita boa informação sobre o debate. Louis não fez caso de minha indiferença.
- Deixe-me adivinhar. Também gosta de Fellini, mas prefere a Julieta dos Espíritos.
Suspirei. Louis e Benny estavam tão compenetrados, não se deram conta que não queria tomar parte no debate sobre filmes. Eu não quero ser uma desmancha-prazeres, assim lhe disse:
- Está bem, Fellini.
Benny agregou:
- Qual seu filme favorito?
Eu ri de sua pergunta. Meu gosto passa pelo raro e original, justamente em aproximadamente tudo.
- O Cam Diário, - contestei.
Louis levantou as sobrancelhas e olhou para Benny. Ela encolheu os ombros e ele disse:
- Nunca ouvi falar dele.
- Eu também. – Disse Benny. – Quem é o diretor? – Me dei conta de que eles estavam de mãos dadas.
- Nanni Moretti. – lhe respondi.
- O comunista italiano? – chiou Louis. Encolhi-me interiormente com o tom metálico de sua voz, mas coloquei um sorriso em meu rosto.
- Sim, suponho que Moretti era um comunista. Mas não é sua política que me importa. É divertido e eu prefiro as comédias, isso é tudo. Inclusive às escuras.
- Vamos, Daphy, o nome de outro. Vamos ver se conhecemos, - Benny suplicou.
- "An Everlasting Piece, dirigido por Barry Levinson. – disse.
- Me pegou de novo. – disse Louis. – Suas opções são muito raras, se não se importa que lhe diga. Por que gosta desse filme?
- É irlandês, contextuado em Belfast, durante o conflito, - disse. – É bastante recente e não é dark. Tem uma grande trilha sonora. Está cheio de ironia e é muito divertido. A vida tem suficientes lágrimas. Não necessito mais no cinema.
Benny e Louis se olharam. Louis pôs os olhos em branco. Benny riu.
- Por certo, - disse Louis, - estive admirando o seu anel a noite toda. Posso vê-lo?
- Claro que sim. É florentino. Do Renascimento. – Tirei o anel de cabeça de pantera e o entreguei a ele.
Louis se voltou para uma das luzes interiores do carro e o sustentou perto dela.
- Delicioso, - disse. – Tenho uma coisa com os anéis, como você provavelmente sabe, - disse e levantou uma mão cheia de joias. – O desenho deste anel é muito incomum. Posso ver que há um selo de fábrica.
- Posso ver? – Benny perguntou e Louis o entregou.
Benny examinou o anel de um jeito que só um joalheiro faria. Pude ver a admiração em seu rosto.
- É precioso. Vi anéis do Renascimento só em museus, nunca tão perto. Depois de tudo, Daphy, eu sou muito mais jovem que você. – ela disse e me deu um sorriso malicioso.
Respondi-lhe com muita maturidade mostrando-lhe a língua. Quando deixamos de rir, ela voltou a olhar o anel e disse:
- Daphy, querida, sabe que um dos olhos da pantera de esmeralda está solto no centro?
- Não. Vamos ver. – Ela me devolveu. Não podia ver bem, mas eu podia sentir que estava.
- Se você não se importar, posso levá-lo a um dos meus joalheiros quando for trabalhar na segunda. Não se preocupe, não o vou deixar fora de minha vista. Posso devolvê-lo na noite de segunda.
- Isso seria terrível. – lhe disse. – Não gostaria de perder uma pedra. Estas esmeraldas estão tão perto da perfeição como é possível. – Lhe entreguei o anel e Benny o colocou em sua bolsa pequena, que estava bem preso ao cinto de seu vestido por uma corrente de ouro.
Ela pode ter um aspecto frívolo e despreocupado, mas isso era só uma parte de sua fachada "loura burra". Eu já havia visto o suficiente dela para saber que Benny Polycarp era inteligente, meticulosa e sagaz.
- Obrigada, Benny. Agradeço-lhe isso. Não quero trocar de tema. –Disse, - mas queria falar e esta pode ser a única oportunidade que temos. – Eu não estava preocupada por falar diante de Louis. Vampiros têm êxito na traição fora da família de vampiros. Dentro de nossa raça seguimos as regras não escritas. Uma delas é não deixar entrar em nossos assuntos a nenhum ser humano. Fechamos filas e fechamos filas para nos proteger mutuamente.
Perseguidos ao longo dos séculos, nós sabemos que nossa sobrevivência dependia das associações de familiares.
Há um nós e há um deles. À diferença de muitas outras minorias, não podemos fazer parte da cultura de massas. Podemos converter a outros para nossa raça, mas não podemos nos assimilar aos seus.
- Oh, sim. Daphy, eu não sei se tenho os nervos para a espionagem, realmente não sei. Recrutaram-me em parte porque tenho uma licenciatura em gemologia. Assim se supõe que devo estar trabalhando para uma firma de intercâmbio de diamantes. O lugar está destinado à intriga, já te digo. E isso tem a ver com quem é científico. Eles tratam com Boaventura há anos, desde que ele insistiu que alguns compradores fizessem o pagamento com diamantes brutos. Minha empresa avalia periodicamente as entregas para assegurar-se de que estão fazendo o que prometeram. O chefe de minha empresa foi "convencido", eles o chamam de colaborador com a inteligência dos Estados Unidos. Estou sendo enviada na noite de segunda a Boaventura para certificar um grande pagamento de diamantes africanos de Serra Leoa, os diamantes de sangue como chamam...
- Benny - a interrompi. – Estava me perguntando sobre como o intercâmbio de armas por diamantes funciona. Você sabe? – lhe perguntei.
- Bom, como eu o entendo, - começou Benny, - como se faz em um balcão. Você sabe, de maneira ilegal. Os terroristas contrabandeiam os diamantes para o país, o que não é difícil de fazer. Eles o entregam a Boaventura como pagamento pelas armas. Na verdade, conseguem uma chave ou algo parecido para ter acesso às armas. E sim, ele sempre está em movimento, mas Boaventura não se arrisca a qualquer risco físico. Os terroristas assumem todos os riscos e ele mantém as mãos limpas.
- Deve ser muito astuto e cauteloso, - lhe disse, cheia de inquietação sobre o esquema da agência. – Suspeito de qualquer coisa que pareça anormal. Espero que J saiba o que está fazendo.
- Você e eu também. – disse Bennye estremeceu.
- Então, como Boaventura converte os diamantes em efetivo sem que os bancos avisem ao governo dos Estados Unidos? – Perguntei-me em voz alta.
- É bastante simples, na realidade, Daphy. Meu chefe é quem converte os diamantes em dinheiro, com desconto muito agradável, que é digno de seu tempo. O dinheiro está na forma de um cheque de caixa liberado contra uma conta numerada na Suíça. O suíço não dá a ninguém, nem sequer aos organismos de inteligência dos EUA, acesso à identidade dos titulares das contas, nem revelam as transações bancárias.
- Assim Boaventura se senta em uma fortuna e não há maneira de rastrear como o conseguiu? – soando surpreendida. Eu estava sendo pouco sincera com Benny agora, tinha uma conta na Suíça, igual a minha mãe. Tivemos muito que ocultar durante séculos e os governos podem seguir um rastro de papel, assim tomamos as precauções para não deixar um. Os suíços foram sempre muito cooperativos, já que minha mãe é uma mulher muito rica.
Benny estava falando a mil por hora agora.
- Bom, Daphy, por isso eu estou ficando sem fôlego. Suponho que tenho que aparecer na segunda-feira e avaliar os diamantes, continuando, dar a Boaventura dois cheques de caixa, em nome do efetivo, por um total de duzentos e cinquenta milhões de dólares. Então transporto os diamantes de novo para minha empresa. Agora, docinho, não há um serviço de mensageiro mais seguro na terra que um vampiro, assim, eu não estou preocupada em ser assaltada ou algo assim. – Deteve-se para respirar, logo seguiu adiante. – Estou preocupada com Boaventura olhando um pouco. Uma nova pessoa será enviada para este importante acordo... quero dizer, se supõe que o chefe da empresa é quem deve manejar este tipo de intercâmbio, não um loira de Branson, Missouri. Eu tenho que estar ali quando os diamantes forem realmente entregues. Boaventura não os aceitará a menos que sejam certificados. Assim, J me quer fotografando estes sujeitos às escondidas e assegurando-me de recolher os microfones que você plantou durante a transação.
Estava pensando no plano de J e que estava cheio de buracos.
- Benny, - perguntei – está segura de que este intercâmbio será feito no apartamento de Boaventura?
- Sim. Ele não vai aos seus clientes. Eles vêm a ele.
- Tenho uma entrevista com ele na noite de segunda. Gostaria de saber como está pondo tudo isso junto.
- Eu devo chegar às 8:30 PM, - Benny esclareceu.
- Depois de mim. – Olhei pela janela em silêncio durante uns minutos.
Benny olhava para Louis, que havia escutado sem interromper.
- Benny, eu creio que você está em um mundo de problemas. – disse.
- Bem, o que lhe parece, Daphy? Podemos conseguir isto?
- Talvez. – disse. – Aqui está a maneira como vejo as coisas. Boaventura vai sair da cidade de Nova York o mais rápido possível, depois que os terroristas consigam as armas. Mas também quer a arte de meu cliente. Se não está planejando nada catastrófico para a cidade, não esperará a oportunidade de ser destruído, por isso quererá tomar posse das peças o quanto antes, depois do intercâmbio dos diamantes. Minha conjetura é que vai apresentar uma oferta sobre a arte e a ter preparada para mim na noite da segunda-feira. Vai me fazer confirmar com o Sr. Schneibel, o colecionador, enquanto eu ainda estiver aí no apartamento. Se Schneibel estiver de acordo com a venda, Boaventura vai me pagar no ato, por isso há dois controles e logo fazer acertos para recolher a arte, tudo dentro das próximas setenta e duas horas. Talvez a pressão do tempo o faça menos cauteloso que de costume e mais vulnerável ao plano do J. Por desgraça, não acredito que possamos contar com isso.
- De verdade você acredita que os terroristas estão planejando outro ataque a Nova York?
- Não sei. Espero que não. Mas se estes meninos conseguirem a chave, ou o que seja que possam conseguir, nós os deteremos antes que tomem posse das armas, poderemos assegurar-nos de que não o façam.
Louis interrompeu:
- Vamos ver se eu entendi bem. A segurança de milhões de pessoas e da maior cidade do mundo descansa sobre duas mulheres vampiro. Perdão, por dizer isto, mas estamos fodidos.
- Louis! – Benny disse. – Isso não é lindo! Ademais, teremos um montão de gente de respaldo, não é assim, Daphy?
- Oh, claro que teremos. – lhe disse sarcasticamente. – Salvo que nunca conheci nenhum deles, a não ser o J. Não sabemos quem são ou quantos deles estão ali. Montões de respaldo? Uh-uh. Benny, eu creio que estamos fodidas. Eu estou começando a acreditar que somos prescindíveis aos olhos de J. Já plantei os dispositivos de escuta, assim qualquer coisa que aconteça é, provavelmente, um bônus. Uma vez que os terroristas apareçam com os diamantes de Boaventura, o pessoal de J pode começar a segui-los de perto. Você é uma Cabra de Judas. Os garotos malvados, com certeza, aparecerão antes das oito e meia, porque os diamantes têm que estar com Boaventura antes de você chegar com o dinheiro. J, seguramente, terá o apartamento de Boaventura sob vigilância e ele vai ter suas próprias condenadas fotos. Aposto que o tipo dos diamantes, também estava assustado de fazer este acordo, por isso J necessitava de você.
- Ele esteve soprando fumaça em nossos traseiros, Benny. E do que se tem visto das operações de sua agência, não penso que ele tenha a oportunidade de atrapalhar estes terroristas antes que seja muito tarde. Penso que seria melhor se fizéssemos um plano melhor Para nossa salvaguarda. – Senti-me em uma armadilha, traída e condenadamente louca. Eu não ia aguentar mais, pensei.
- Podemos manejá-lo? – Benny disse, com evidente dúvida e seus olhos grandes como pratos.
- Nos transformando em vampiros, talvez possamos. – disse-lhe, como descobrindo minha carta de triunfo.
- Oh, merda! – disseram ela e Louis em uníssono.
- Bom, sim, é uma ideia radical, vampiros ao resgate da humanidade. – Meus punhos estavam apertados e minha voz era forte. Quis dizer cada palavra. – Maldita seja Benny, se não pudermos fazer isto, ninguém pode.
- Espera um minuto. – Disse Louis. – Provavelmente vou lamentar dizer isto, mas podem contar comigo.
Benny, uma garota de povoado na grande cidade, foi todo o caminho com uma cara sonhadora até o alto da escada empinada, que se elevava desde a rua ao vestíbulo do Hotel Hudson. Na parte superior da escada ficou de boca aberta, olhando para a luminária enorme e eu tive que arrastá-la até a discoteca do bar enorme, com seu piso iluminado e uma fila de solteiros jovens esperando para entrar no Hotel. A sala principal se encontrava em uma penumbra acolhedora, com paredes e tetos pintados de negro e a iluminação era muito tênue. Era perfeito para encontros ilícitos e para a intriga.
Meu alto nível de conforto com este lugar, sem dúvida, se relacionava com seu ambiente cavernoso. O bar era tranquilo e com classe, estava na parte traseira do Hotel e à direita dos elevadores. Entramos e vi Darius esperando por nós. Ele havia requisitado o sofá junto à lareira e, posto que o lugar estava cheio, pensei que havia dado uma boa propina para o garçom, um homem alto, magro, com dreadlocks Rasta.
- Ohhh, delicioso. – disse Benny quando ela o viu saudando-nos. – Se parece com Brad Pitt. Não se preocupe Daphy, Louis e eu só tomaremos um trago, - me sussurrou enquanto caminhávamos. – Logo nos separaremos. Você e eu falaremos de novo esta noite.
- Claro, Benny, por que não passa por minha casa? – Lhe respondi sussurrando.
- Legal. Ligarei para você quando estiver a caminho. – Disse em voz baixa, logo quando se dirigiu a Darius, seu sotaque, gotejante de mel, ao dizer: - Docinho, é tão lindo conhecer um amigo de Daphne. Sou Benny de Branson, Missouri, e ele é Louis. Ele é de N'awlins. Somos dois forasteiros na cidade grande e má.
Darius lhe sorriu e o peguei olhando o seu decote. Foi difícil passar por alto. Benny não reagiu e pensei que provavelmente estava acostumada a isso.
- O prazer é meu, estou seguro. – disse Darius e estreitou a mão de ambos. Levantou seu copo. Parecia escocês. – O que vão beber?
- Martini Stoli. – disse Louis.
- O mesmo. – coincidiu Benny.
- E você? – perguntou-me.
- Pellegrino, sem gelo, uma rodela de limão. Obrigada. – Eu era fiel a minha norma de não-álcool, especialmente em torno de Darius. Meu controle se deslizava perigosamente cada vez que estava perto de mim. Na noite anterior quase o tinha mordido e sentia uma pontada de medo cada vez que recordava isso.
Darius desapareceu em direção ao bar e os três vampiros se sentaram frente ao fogo. Darius voltou mais rápido do que esperava. Sentou-se no braço do sofá ao meu lado e uma garçonete apareceu pouco depois com as bebidas.
- Estão na cidade de férias? – Darius perguntou a Benny e Louis.
Ocorreu-me que não havia nem uma pessoa aqui, que poderia responder nada sobre si mesmo com a verdade. O intercâmbio social normal entre estranhos seria um invento criado da mentira e desinformação. Louis disse que estava visitando sua mãe, o que era quase verdade, já que de acordo com Mar-Mar, agora vivia com ela em Scarsdale. Benny disse que estava em Nova York para uma entrevista de trabalho e lhe disse que os três éramos amigos há muito tempo. Darius lhes disse que estava no negócio de importação e exportação de artefatos de eletrônica da China. Sofremos esta farsa durante uns dez minutos, até que disse:
- Benny, sei que você e Louis realmente querem voltar ao salão principal do Hudson, com a música e o baile. Tenho que falar com Darius, assim que está tudo bem, de verdade.
A ajuda foi evidente no rosto de ambos. Tomaram seus casacos e nos deram adeus. Darius se sentou no extremo oposto do sofá e ficou olhando o fogo durante uns minutos. Eu brincava com o limão em minha água mineral, ele se serviu de mais uísque. Com Darius aqui junto de mim, voltei a pensar na acusação de J, de que era um caçador de vampiros, uma acusação que vinha do rancor e talvez dos ciúmes. Entretanto, me senti cautelosa e fechada. Meditando cada palavra que ia dizer.
- Então, como te sente? – Lhe perguntei com frieza.
- Estou bem, um pouco cansado. Foi um dia comprido. Como está? –Disse.
- Estou bem. – Olhei-o, me perguntando o que estava passando em sua cabeça. Como se lesse meus pensamentos, disse:
- Olhe Daphy, eu ia telefonar esta manhã, na realidade, mas fui mandado a uma conferência antes.
Olhei-o sem reagir e perguntei rotundamente:
- Está bem, não tem que explicar. Mas tenho que ser honesta, pensei que era uma merda que não tivesse me ligado.
- Olhe, sinto muito, realmente. Todo este dia foi de loucos. –aproximou-se mais, assim não seríamos escutados. Em uma voz baixa perto de meu ouvido, disse: - Há muito bate-papo de inteligência para ser recolhido, as coisas se estão movendo muito rapidamente. Estamos convencidos de que as armas de Boaventura se encontram em Porto Newark. Em um casco de navio porta contêineres. Mas há dúzias de navios e milhares de contêineres. Localizamos o correto, mas não o suficientemente rápido. Temos necessidade de detectar aos terroristas quando eles forem recolhê-los. É a única maneira segura. Suponho que a gente de J tem a mesma informação e um plano similar.
Meu coração batia forte, em parte, pelo que me dizia Darius e em parte porque sua respiração estava acariciando meu ouvido enquanto falava e estava me excitando. Tratei de bloquear meu crescente desejo e concentrei-me na operação de espionagem. Disse com toda a sinceridade:
- Eu não sei quais são os planos de J, mas soa como se pudéssemos duplicar esforços.
Darius assentiu com a cabeça.
- Sim, mas desta vez é uma boa ideia. Isto significa que pelo menos uma equipe deve ter êxito.
Voltei o rosto para olhá-lo. Nossos lábios estavam muito perto. Nenhum dos dois pode resistir e ele me beijou suavemente antes que lhe dissesse:
- De que maneira esta nova informação afeta seus planos?
- É urgente entrar no apartamento de Boaventura, na segunda à noite.
- Darius, se eu vou ajudá-lo a entrar, quero saber o que está planejando uma vez que entre.
Ele se afastou de mim e olhou para o fogo enquanto dizia.
- Tenho algo para cuidar.
Inclinei-me para ele e ele voltou seu rosto para mim.
- Darius, eu quero saber. O que vai acontecer?
Tomou minha mão entre as suas e me olhou fixamente.
- Daphne, eu lamento, mas já te disse antes: é mais seguro se não te digo nada. O que não sabe, não pode ser obrigada a dizer. Acredite-me nisto. Tudo o que necessito que faça é abrir a porta da entrada de serviço. Do interior. - Deixei minha mão entre as suas e se transladou para mais perto de meu corpo até que nos tocamos.
- É isso? Por que me necessita depois de tudo? Acreditei que sua gente sabia como abrir fechaduras.
- Sabemos. – respondeu ele, pondo seus lábios sobre meu cabelo e agitando os incêndios dentro de mim.
- Por desgraça, a porta de serviço é a única outra forma de entrar no apartamento, além da porta principal e tem uma dessas barras de segurança que se veem nos velhos apartamentos, os que se engancham no chão, depois a alavanca contra a porta. Não há maneira de entrar sem utilizar um machado e eu não acredito que isso fosse suficientemente silencioso.
Pus minha cabeça em seu ombro. Senti-me muito cômoda e contida. Refleti que o que estávamos falando, podia esperar um par de horas. Talvez Darius e eu pudéssemos reservar um quarto aqui e subir as escadas. Eu havia perdido o interesse em espionar por um momento.
- Darius, - lhe disse, - talvez nós possamos encontrar um lugar mais privado para levar a cabo esta conversa.
Para minha consternação, Darius disse:
- Pode sentar-se? Quero mostrar-lhe algo.
Suspirei e me apertei nele. A probabilidade de qualquer sexo nessa noite quente, desvaneceu-se rapidamente. O ambiente estava torto e eu estava começando a sentir-me frustrada e nervosa.
- Te trouxe uma foto. – disse enquanto tomava um pedaço de papel dobrado do bolso, abriu-o e colocou-o sobre a mesa de café, diante de nós.
Era um desenho do apartamento. Perguntei-me por que J não me havia proporcionado isso. Suponho que não o tinha. Perguntei-me para que agência trabalhava Darius. Certamente tinha excelentes recursos. Decidi então que eu necessitava saber. Começando por perguntar por J e descartei essa ideia no fundo de minha mente.
- Aqui é onde você entra, - disse, tomando uma de minhas mãos entre as suas, enquanto assinalava com a outra. Tocou-me como se fosse em algo natural para ele e eu gostei. Ele me mostrou o mapa. – O salão é reto; a sala de jantar está à esquerda.
Assinalei a biblioteca.
- Aqui é onde tivemos nossa reunião. – disse-lhe.
- Muito bem. Pode-se ir para a parte trás da moradia, onde está a cozinha e a alguns outros quartos. A cozinha está aqui, mais perto da entrada principal, do outro lado da sala de jantar. Detrás da cozinha está o quarto da criada com seu banheiro. Há outro pequeno quarto de madeira no outro lado do banheiro, que é basicamente um corredor entre os quartos. E aqui, - disse assinalando a um corredor que estava marcado em vermelho, - é uma sala com um corredor à cozinha e à entrada de serviço. Seu maior problema vai ser a criada. Assegure-se de que esteja ocupada em outra parte. Se alguém te vir na cozinha ou nas dependências de serviço, sempre pode dizer que se perdeu no caminho de volta do banheiro ou que queria tomar um gole de água no caminho de volta do banheiro.
- O que acontece com as câmaras? Tem alguma ideia de como posso evitar ser detectada?
- Eu me encarrego disso. Essas câmaras vão ter dificuldades técnicas por um momento nessa noite. Não se preocupe com elas.
Movi-me e puxei a minha mão.
- Bom, eu estou preocupada com elas e como vou sacar isso depois. Olhe Darius, não posso arruinar meu trato com Boaventura. Não estou entusiasmada para fazer isso. Digamos que tenha êxito. Como saberá sequer se a porta está aberta?
- Só tenho que confiar em ti, - disse e me olhou nos olhos. Sua sinceridade se via forçada quando adicionou, - confio em ti. Conto contigo, Daphne. Não creio que me vá faltar.
- Não compro nada do que acaba de dizer, Darius, - disse, olhando-o no rosto. – Eu não lhe conheço bem, mas creio que lhe conheço melhor que isso. Você não deixa muito ao azar. Ponha-se em meu lugar. Como sabe que vou ter uma oportunidade para abrir essa porta?
Ele duvidou por um momento e logo disse:
- Devido a sua amiga Benny, que me acaba de apresentar, ela vai aparecer às 8:30 para avaliar os diamantes e ninguém estará prestando muita atenção.
Fiquei de boca aberta. Surpreendeu-me por completo.
- Como sabe disso? – lhe perguntei.
- Isso é classificado. – disse bruscamente.
- Não, isso é mentira. – Repliquei. – Como sei que não me está espiando? Como posso saber que não plantou um dispositivo de escuta em minha casa na outra noite? Advirto-lhe, Darius, estou pronta para deixá-lo neste momento.
Levantei-me das almofadas do sofá, não com graça, mas mais rápido do que Darius pudesse deter-me. Eu estava irritada, estava pronta para partir e não olhar para atrás e tinha a intenção de chegar em casa e assegurar-me de que meu apartamento não estava grampeado. Darius se levantou atrás de mim e pegou por um braço, puxando-me para ele.
-Daphne, espera, - disse. – Eu não grampeei seu apartamento, juro-lhe isso. Pensa nisso. Eu não sabia que ia terminar indo em sua casa, não? Que tão provável é que estaria levando tecnologia assim, comigo?
Eu estava fumegante. -Tire seu braço de cima de mim.
- Muito bem. E diga-me, como sabia de Benny? E não minta, porque lhe juro Darius, se lhe pegar em outra mentira, acabou-se. Você e eu. E qualquer oportunidade de trabalharmos juntos.
- Grampeamos os escritórios do comerciante de diamantes para quem trabalha. – Isso é tudo? – Disse-lhe com um pouco de cepticismo e um grande alívio.
- Isso é tudo. E essa é a verdade. E J os espiona também, só que o fez com o conhecimento do proprietário. Você deve advertir a sua amiga.
- Eu o farei, obrigada. Mas, maldito seja, deveria haver me dito desde o princípio, - lhe disse. – Alguma vez você vai me dizer tudo, Darius?
Ele estava ao meu lado e me olhou nos olhos.
- Daphne, você tem que entender que eu não posso dizer-lhe tudo. Seria trair a confiança dos demais, seria perigoso para você e para mim. O único que posso prometer é que vou dizer-lhe tudo o que se refere a você diretamente. Aceita? E você pode fazer o mesmo por mim. De acordo?
Pensei nisso. Estendeu a mão e tocou-me o rosto. Estava começando a sentir que estávamos vinculados, de uma forma que ia além do sexo que havíamos compartilhado. O que me ofereceu para dizer foi mais do que tinha direito de esperar. Éramos agentes secretos, depois de tudo. Eu sabia que ele me via como menos do que igual, pois num jogo de espiões eu era a novata e ele um veterano. Tive que dar um pouco, já que não tinha forma de saber sobre meus poderes. Era mais inteligente que lhe permitisse pensar que era superior, ao menos por agora.
- Eu preciso de você, Daphne... – começou e meu coração deu uma volta antes que terminasse a frase, - para que abras a porta para mim às oito e meia. Sinto muito pedir-lhe que faça isto, mas é importante.
Neguei com a cabeça.
- Darius, eu estarei no apartamento, os homens que farão o intercâmbio vão aparecer, os guarda-costas estarão ali, Benny será demasiado e quem sabe quantos mais. O apartamento será um enxame de pessoas. Não vejo como se pode lograr qualquer coisa.
Darius não duvidou em contestar-me.
- Eu estarei neste quarto de hospedes antes de fazer qualquer movimento. Você já terá ido quando eu entrar em ação. E Benny também já terá ido antes que tudo comece. Vou me assegurar disso.
Decidi ver se sabia algo mais.
- Darius, sabe quem vai trazer os diamantes? – lhe perguntei.
- Não, mas não é provável que sejam os terroristas. Provavelmente um intermediário. E, Daphne, isso é tudo o que sei.
Minha mente estava disparando. Tive que decidir o que fazer depois que me reunisse com Boaventura. Tinha a esperança que Benny não tivesse ressaca para pensar nela demasiado. Voltei minha atenção para Darius. Senti-me um pouco culpada por haver mentido em muitos níveis quando estava fazendo uma manha de criança porque estava me mentindo. Uma tristeza se apoderou de mim. Ele estava me olhando.
- O quê? – eu disse.
- Daphne, eu... bem, quero que você saiba que realmente me preocupo por você. E Deus sabe que lhe quero. Só de estar em pé perto de você está me desesperando.
Olhei para baixo e vi o vulto na parte dianteira de suas calças.
- Se poderia dizer isso. – Sorri.
- Exatamente, não posso ocultar-lhe. – Ele sorriu abertamente. – Mas seriamente, pelo seguinte par de dias, penso que temos que manter distância, exceto se houver algo concernente a Boaventura. Temos que nos focar nesta missão e deter aos terroristas. E sendo realista, não teremos tempo para estar juntos. Mas quando tudo isto acabar, quero vê-la de novo, se você estiver disposta.
Eu sabia que o que ele disse tinha sentido e eu lamentava sentir-me tão decepcionada.
- Assumindo que ainda estejamos vivos quando tudo isso terminar. – Disse com amargura. – Você sabe que há outra maneira de ver isto, que devemos aproveitar cada momento, já que um ou ambos podemos estar mortos quando tudo isto acabar.
- Daphne, eu tive muito tempo de treinamento e aprendi a permanecer com vida. Estive em situações perigosas antes. Não posso dizer que não te preocupes. Estaria melhor se não o fizesse, no entanto. A preocupação não leva a nada. Vou fazer todo o possível para ter êxito. Posso dizer que muito. Também queria dizer-lhe que creio que tem muita garra.
- Obrigada, Darius, esse é precisamente o tipo de comentário que uma garota gosta de escutar. – lhe disse, suavizando minhas palavras com um sorriso.
Sorriu olhando-me e ao meu coração deu um pouco de desordem.
- Poderia lhe dar um montão de outras lisonjas, mas poderia terminar na recepção, com a esperança de que tenham um quarto. Não posso correr o risco.
- Eu gostaria de correr o risco, mas estou recebendo a mensagem. – disse-lhe. – Assim que, se os dois estiverem vivos e em uma só peça depois desta tarde, então, o que tem em mente?
- Longas caminhadas junto ao rio. Pôr de sol na praia. Um filme divertido para ver de noite. Vamos dar um passo de cada vez.
Surpreendeu-me o panorama cor de rosa que Darius pintava de nós como casal. Nossas paixões estalavam logo que nos tocávamos, mas quem sabia se tínhamos bastante em comum, além de uma aventura? Tínhamos tanto contra nós, ele era um espião e eu era um vampiro, só para começar. Mas não era essa a razão de minhas dúvidas. Não haveria tempo para fazer frente a esses problemas depois que parássemos os terroristas. E suspeitei que, apesar de suas palavras, Darius pensava que havia uma possibilidade boa, de que ele fosse assassinado. Pelo que tinha passado na outra noite, quando ele não usou uma camisinha, fique convencida de que ele não pensava em um futuro e, no melhor dos casos, ele se enganava que poderia haver "um nós". No pior dos casos ele me dava uma linha para segurar. Essa constatação enviou uma pontada de dor através de mim.
- Darius, eu não sei o que dizer. – Respondi com honestidade.
- Daphne, - disse, tomando-me em seus braços, - não diga nada, pensa nisso. Podemos estar bem juntos.
O fogo era quente, o quarto estava escuro, eu estava nos braços de um homem bonito e me senti bem no momento, por que não sonhar? Eu sabia que, na realidade, uma relação entre nós seria difícil, talvez impossível. Eu o vi sorrindo para mim e não pude devolver-lhe o sorriso.
- Está bem, - lhe disse, - vamos ver o que acontece. Então eu estou disposta a dar um passo de cada vez.
- Isso é tudo o que estou pedindo, Daphne. – Soava um pouco decepcionado. Apertou-me mais a ele e recordei a razão principal de estar aqui, em primeiro lugar: virei-me para Darius.
- Não trate de sair por aí deixando que o matem, de acordo? – Eu disse e coloquei minha cabeça contra seu peito e escutei as batidas de seu coração. Agora mesmo Darius estava vivo. Tudo o que tinha era o momento e eu o queria esta noite, não amanhã ou no dia seguinte. Podia sentir seu pênis pressionando sobre mim. Ele se queixou.
- Daphne, me está matando. – Cortou nosso agarre, se separou e se sentou no sofá, saindo do meu lado. – Necessito um trago. – Começou a rir. Era obvio que não ia ser capaz de seduzi-lo, assim que também ri e disse:
- Darius, se nós vamos começar a sair, posso fazer-lhe uma pergunta pessoal?
Olhou-me com cautela.
- O que quer saber?
- Qual é seu filme estrangeiro favorito? – Deu-me um olhar em branco. O que Darius pensava que ia pedir, não era isso. – Realmente, Darius, eu quero saber. Não é uma típica pergunta de encontro?
- Sim, suponho que sim. Quer dizer um filme estrangeiro ou um clássico? Quando se trata de filmes, sou um fã mais ocidental.
- Do longínquo Oeste? Quer dizer John Wayne? Meninos passeando para o entardecer depois de que ele escolhe o seu cavalo por cima da garota?
- Sim, mas mais como Alan Ladd em Raízes Profundas.
Pensei para mim mesma, O pistoleiro tratando de começar de novo e ter uma nova vida. Isso foi interessante. Eu acabava de saber algo que estava bastante segura de que era verdade a respeito do Darius. Decidi fazer outra pergunta.
- Muito bem, então, qual é seu filme favorito de todos os tempos?
- Um clássico animado de Disney, Bambi.
O deixei ali. Admito, eu não sabia o que dizer depois disso. Sentamo-nos um pouquinho juntos entre o fogo que crepitava e espirrava. Eventualmente, a maioria das pessoas abandonou o bar e a sala estava em silêncio, exceto por um tinido ocasional de um cristal quando o garçom chegava com solicitude. Darius e eu sussurrávamos em vez de falar. Perto de seu corpo estava quente e bom. Tomamos as mãos e ele me acariciou os dedos.
Falamos de amanheceres que havíamos visto e os lugares que havíamos ido. Compartilhamos uma preferência, de vagar pelas ruelas antigas, nas tranquilas cidades italianas, parando nas barracas aonde os turistas não iam nunca. Tinha alcaçuz comprado em Veneza, ele encontrou uma barraca de oliva em Roma. Os dois haviam subido em vulcões ativos e se maravilhado de seu poder, sentado com reverência nos lugares de ruínas de anfiteatros de mármore romanos e se sentido a presença de todos os que haviam estado ali séculos antes de nós. Não falou sobre os detalhes de sua vida e tampouco o fiz acerca dos meus. Pareceu-me que cada um de nós ocultava uma grande quantidade de coisas, entretanto, éramos similares em muitos aspectos, exceto pelo crucial que escondia dele: ele era um ser humano e eu era um vampiro. E eu nunca poderia mudar.
Finalmente, ambos soubemos que era hora de partir. Darius me conduziu para fora e chamou um táxi. Ele me deu um beijo persistente sobre os lábios que terminou demasiado rápido.
- Sobreviva, - disse com todo meu coração.
- Você também, - sussurrou ele quando estendeu a mão e ternamente tocou minha bochecha antes que fechasse a porta do táxi. Olhei para trás e o fiquei olhando até que o táxi girou pela esquina. Esperava que esta não fosse a última vez que eu o via.


Capítulo 9


Os melhores planos de ratos e homens, por vezes se arruínam deixando-nos imersos em tristeza e dor, em lugar da prometida alegria!

Robert Burns




As horas entre a meia-noite e a alvorada provocam a melancolia e o pesar que não encontram nenhuma saída natural, nenhum alívio. Estas são as horas quando as criaturas da noite saem para caçar, trazendo uma rápida morte à criaturas inocentes em seus refúgios e camas. E estas são as horas dos vampiros que, desde o começo dos tempos, evocam os medos mais profundos das pessoas, os desejos mais secretos do delicioso beijo de um vampiro e o presente da imortalidade, uma vez que os seres humanos sempre se sentiram atraídos pelo proibido que os estimula e tenta. Jung descreveu este lado escuro como a sombra do ser. Nega-o se quiser; Você o tem. Eu vivo com isso.
Entretanto, enquanto esperava em meu apartamento que Benny terminasse sua noite com o Louis e me ligasse, minhas aventuras da noite se limitaram ao território íntimo entre minha sala de estar e o dormitório. Limpei sob o sofá e reorganizei minha gaveta das meias. Para mim, levar a cabo estas tarefas sem sentido recorda Sísifo empurrando sua grande pedra montanha acima, só para que ela torne a rodar para baixo, numa repetição sem fim.
Os trabalhos domésticos adormecem a mente e as emoções e eu os odiava e os amava igualmente. Esta noite todos meus pensamentos giravam em torno de Darius. Quase. Quando terminei de passar o aspirador, pus um antigo cd do October Project no reprodutor de CD. Escutando as poesias líricas, canção do mestre, fez-me sentar e olhar à parede, pensando em Darius. Lembrei-me de como seus olhos se viam quando sorria, suaves, quentes e cheios de risada. Nunca sustentaram a dureza e o frio do J. Recordei como ele tinha estendido a mão para tomar a minha e tinha olhado minha palma como se segurasse uma jóia sem preço; como ele a tinha levantado até seus lábios e a tinha beijado. Recordei que ele pôs sua bochecha junto à minha e me sussurrou ao ouvido poesia. Disse-me que eu era formosa, que brilhava como a lua em seu céu secreto. As coisas que me havia dito no início desta noite sugeriram que seus sentimentos para mim estavam crescendo.
Quanto aos meus, tinha medo da intensidade de minhas emoções quando eu estava com ele. Eu não queria reconhecer a força com que cuidava dele. Esta relação se estava convertendo em muito mais que sexo e eu sabia. Estava segura de que também ele sabia.
Um pouco depois das 02:00 a.m. Benny ligou e pouco depois chegou a minha porta sem o Louis. Ela entrou, toda cobre e o brilho, trazendo ar fresco e energia fresca com ela. Fomos à cozinha, onde fiz uma taça de chá de ervas. Quando nos sentamos na mesa de café da manhã, ela me perguntou o que eu pensava de Louis. Diplomaticamente não disse que pensei que ele poderia ser bissexual e que havia algo realmente estranho sobre seus olhos. Não quis expressar que por alguma razão ele me fez querer comprovar se minha carteira estava em minha bolsa. Depois de tudo, ele realmente se ofereceu para ajudar-nos, então disse:
- Ele parece agradável.
- Tive um tempo agradável com ele, - disse ela, bebendo o chá e soprando com os delicados lábios vermelhos para que esfriasse. – Não há vampiros com quem eu possa sair em Branson. Eu sou a única, e creia-me, isso é algo que sei com certeza. Às vezes, os vampiros vêm à cidade para tocar em um concerto em um dos teatros. E sabe o que isso significa? Que no geral, são estrelas rockabilly não pergunte, não posso falar de filmes estrangeiros com eles. A única coisa que estas bestas falam é de Nascar, o muito que estão fazendo, quanto dinheiro eles estão ganhando e quanto de cerveja podem beber sem perder a consciência. Um cara que saí também mostrou como podia arrotar e peidar ao mesmo tempo. Pensou que estava me impressionando. É um deserto aí fora, docinho. Teu Darius é um bombom, ainda...

- Não é vampiro, - disse com tristeza em minha voz. – Assim que, onde me deixa isso? Em nenhum lugar. Eu não posso levá-lo para casa para conhecer a minha mãe. Como iria explicar?
- Muitas mães são jovens, Daphy. Talvez pudesse contar a história que ela foi uma mãe adolescente.
Girei os olhos para ela.
- Ele não é estúpido, Benny. Uma vez que ela comece a falar de sair com Abbie Hoffman e como a América era linda, quando menina e como os agentes do FBI foram horríveis com os Panteras Negras. Ela ainda não parece bastante velha para ter vivido aquela época. Ele pensaria que ela é uma louca ou saber que algo não encaixa.
Benny riu e disse:
- Louca não seria tão terrível. Poderia lhe dizer que ela tem problemas mentais.
Pensei no que faria Mar-Mar se alguma vez se inteirasse. Não era uma ideia bonita.
- Eu não acredito.
- Bom Daphy, - disse, olhando a sua taça de chá e sem me olhar, - se terminasse realmente por amar ao tipo não necessariamente significa que... Com o Darius poderia... Poderia, você sabe...
- Transformá-lo? Fazer-lhe um vampiro? Jurei que nunca faria isso. Além disso, não funciona em uma relação. As pessoas ficam muito traumatizadas. Eu lhe teria tirado sua identidade e não lhe teria pedido permissão. Ainda poderia me amar com parte de seu coração, mas seu ressentimento pelo que teria feito... transformaria seus sentimentos a cinzas, cedo ou tarde. Geralmente, mais cedo.
- Sim, é verdade, - disse, olhando ainda concentrada para a xícara, como se estivesse fazendo uma leitura de suas folhas de chá. Logo disse em voz tão baixa que mal pude ouvi-la: - Mas e se você lhe perguntasse primeiro? E se ele te ama tanto que está disposto a converter-se para ficar com você?
- Benny, você é uma romântica, - lhe disse. – Pensa nele. Em primeiro lugar teria que saber o que sou e que me aceite. Isso é um esforço de imaginação por si mesmo. Logo teria que optar por converter-se em um monstro, um pária da sociedade, um caçador de sangue... e uma criatura acossada por si mesmo, tudo ao mesmo tempo. Não creio que isso realmente aconteça, alguma vez.
Benny suspirou e terminou seu chá. Então ela me olhou com uma tristeza terrível escrita no rosto.
- Provavelmente você tem razão, docinho. Às vezes penso nisso. Nossa única opção é encontrar outro vampiro, como Louis. E Daphy, eu sei que ele é... bom, defeituoso, mas é inteligente e bastante divertido. E não tem um mau aspecto.
Pensei, não está mal se você gosta de alguém que parece tocar guitarra para os Rolling Stones, toma heroína como passatempo, e nunca teve um trabalho na vida e Louis por certo não teve. Mas disse:
- Ele realmente tem olhos bonitos e tão verdes.
- Exatamente! – disse Benny. – Ele quer ver-me outra vez amanhã. Então não pensas que estou me enganando? Eu gosto muito dele.
- O tempo dirá Benny. Enquanto se sentir bem, o que há de mal? Somente não perca seu coração muito cedo. – eu ri. – E tenho que tomar meu próprio conselho. Mas Benny, deixando os homens de lado, como nós vamos fazer manhã? Pensou em nós atuando por nossa conta e esquecendo tudo o que J pode ou não estar fazendo?
- Sim, pensei-o e tive várias ideias com respeito ao Louis. Está bem?
Pensei que como de costume, Benny tinha jogado nosso voto de segredo ao vento, mas neste caso eu não podia ver como era um problema.
- Claro. – respondi-lhe. – Talvez possa ser de grande ajuda. Está disposto a transformar-se?
- Disse-me que o faria. Não acredito que lhe importe converter-se em um morcego, tanto como alguns de nós. Deu-me a impressão que gosta. – disse alegremente.
- Horripilante. Uma conversão em série! – disse-lhe com um sorriso.
Benny fez uma careta.
- Daphy, não fale com desprezo. Só disse que tomaria a forma de vampiro, se fosse necessário fazê-lo. Pensei que era realmente amável de sua parte. – disse em tom agitado.
Imaginei que seria melhor manter-me calada sobre Louis. Eu não queria irritar Benny. Poderíamos usar os músculos e não podia permiti-se ao luxo de dar entrevistas de trabalho.
- Eu pensei que há alguma coisa estranha ai. Não sabemos se J ou qualquer outra pessoa estará por perto. Supõe-se que ele estará escutando, se Boaventura não encontrou os microfones. Mas que distância estará ele e sua equipe? Quem sabe? Creio que teremos áreas de concentração. Em primeiro lugar teremos que vigiar Boaventura e assegurar-nos de que não ponha as mãos sobre a arte que deseja tanto.
- Por quê?
- É uma longa história, Benny. A versão curta é que são mágicas, e me preocupa que dê poderes sobrenaturais que nenhum ser humano deveria tê-los.
- Ooooohhh, - disse ela, seus grandes olhos ficaram maiores. – Muito bem, então teremos que manter o olho em Boaventura.
Eu segui com minhas ideias.
- E alguém tem que seguir com a posse dos diamantes e recolher a chave. Creio que podemos contar com que mais de uma pessoa realizará a entrega.
Benny, com sua experiência de vida, sabia, estava segura, que quando se trata de grandes somas de dinheiro, na maioria dos seres humanos, não se podia confiar. Noventa e nove em cem vezes, uma pessoa quando se via só com $250 milhões de dólares em diamantes, nunca se mostraria para Boaventura. Ele tomaria o dinheiro e abriria uma conta bancária própria na Suíça e escolheria um chalé na Ilha de Capri. Inclusive se ele temesse ser perseguido, tanto dinheiro poderia comprar muita proteção. Então eu sabia que nós poderíamos contar com duas, provavelmente três pessoas para fazer a entrega.
- Estou de acordo, - disse ela. – E depois, o que você disse sobre J, nós não sabemos nada sobre nenhum respaldo, não quero correr o risco de que estes tipos escapem. Penso que temos que segui-los nós mesmas e averiguarmos com quem eles trabalham. Talvez possamos descobrir se eles sabem quando as armas serão recolhidas. Isto não tomará horas ou dias de interrogatório. – Ela sorriu abertamente.
- Bem, então. Está disposta a seguir aos mensageiros? – Disse, conseguindo me excitar porque as coisas estavam tomando seu lugar.
- É obvio, - conveio Benny. – Louis me ajudará. Disse-lhe que ficaria pronto, esperando minha chamada.
- Bem. Vou ver Boaventura. E Benny, há outra coisa que devo mencionar.
- O que é? Disse.
- Quando estava no apartamento, descobri que esta mulher, Catalina, está com ele. Ela está enamorada dele, creio. Também tenho este palpite, de que é uma espécie de prisioneira dele. Não é relevante para nossa missão, mas me irrita. Simplesmente, não gostaria de ver a qualquer mulher escrava de um homem, seja física ou emocionalmente. Se alguma vez me pedir ajuda, eu darei. Só queria alertar você da situação. De todos os modos, enquanto você vai atrás dos camaradas dos diamantes, encontrarei uma maneira de ver quando Boaventura saia, a seguir, ir atrás dele. J disse que não se supõe que tenhamos de detê-lo. Mas, Benny, eu não posso deixar que ponha as mãos nos artefatos de arte.
- Daphy, se tiver que cortar o cara em pedaços, faça. – Disse Benny, sua doçura havia sumido e a força oculta dentro dela transpareceu em sua voz. – Não se arrisque. Você e eu sabemos que a maldade deve ser eliminada. Tanto sofrimento e ódio neste mundo. Este tipo é um parasita. Faça.
Um mau pressentimento se apoderou de mim. Havia trabalhado durante décadas para comprometer-me com a não violência e resistir aos meus apetites de sangue. Agora eu estava elegendo, converter-me em um guerreiro, um soldado, e talvez em uma assassina. Ocultei minha inquietude recitando o velho refrão que diz:
- Mas Benny, matar alguém porque esse matou alguém, é mau...
- Ah, Daphy, não te ponhas filosófica, - contestou Benny. Ela havia tomado uma decisão e minha indecisão parecia irritá-la. Ela olhou-me de frente, olhou-me nos olhos e disse: - O que você pensa? Se alguém é um predador de inocentes, vamos convertê-lo em hambúrguer e podemos fazê-lo.
- Benny, menina, você me surpreende – disse-lhe. "Provavelmente tem razão, e provavelmente não terei uma eleição". Ah, uma coisa mais. Quando chegar ao edifício de Boaventura, pode manter à empregada, Tanya, ocupada durante aproximadamente três ou quatro minutos, longe da cozinha. Pode fazê-lo?
- E o papa é católico? – disse.
Fui dormir pouco depois de Benny ter ido embora, finalmente despertei no domingo pela tarde. Despertaram-me, meus sonhos por estarem cheios de pesadelos de esqueletos que me perseguiam e as máscaras de Nova Guiné, rindo, enquanto eu gritava. A noite de domingo passou com uma lentidão interminável. Olhei o telefone. A única vez que soou, era Benny.
- Como estão seus nervos? – Perguntou-me.
- Mal. E os seus?
Houve uma pequena pausa antes de contestar.
- Para ser honesta, - disse. – Sinto-me toda viva, os mortos não tem direito de sentirem-se assim. Agora que sei o que vai acontecer, não posso esperar para entrar em ação. Tem sido muitas vezes tão chato. Agora me sinto emocionada e na expectativa.
- Você é um caso, amiga, - lhe disse. – Até amanhã à noite.
- Tchauuu, minha melhor amiga no mundo inteiro. – Disse arrastando as palavras e desligou.
É obvio que Darius não me ligou. Vi velhos filmes e comerciais a noite toda. Dormi profundamente o dia todo de segunda-feira, outra vez sacudindo-me e revirando-me. Esta vez estava correndo por corredores intermináveis para algum destino distante, que nunca chegava. Na verdade, eu não havia nascido para a morte, mas para um incessante perambular, sem fim e comecei a soluçar em meu sonho.
De repente, em meus sonhos, um rouxinol cantou a mesma canção talvez a mesma canção ouvida pela nostálgica Ruth quando ela estava chorando no meio dos campos exóticos de Judá. A canção me chamou com suas notas mágicas, uma campainha de prata, me tirou dos pensamentos tristes, me lembrou a beleza, a paz e a esperança. Tanto quanto pude, virei outra curva da estrada, o que me esperava poderia ser uma aposta de dados, tive a força para seguir adiante. A dor e a perda poderiam estar esperando, mas também poderia ter uma alegria inefável.
Nunca tema o desconhecido. Pule em uma balsa no rio do tempo e se deixe levar para longe, a água branca e rochas perigosas fazem parte da aventura. Não se pode deter o fluxo. Melhor, muito melhor, ser arrastado com sua rapidez para o grande mar agitado da vida, aconteça o que acontecer. Quando despertei, ao entardecer, senti-me pronta e forte. O telefone tocou antes que eu saísse. Era o Anel Mestre, chamando por Hermes. Senti uma pontada de raiva e desconfiança.
- Tudo está em seu lugar. – disse.
- Como posso saber isso? – lhe disse.
Ele fez silêncio por um momento.
- Porque eu estou dizendo que está. – disse. Você está pronta?
- Sim, mas tenho algumas perguntas sobre detalhes que parece que você passou por alto. – eu disse, minha voz era espinhosa como arame farpado. – Número um, como faço o arranjo... da entrega da arte?
- Não. – respondeu J rapidamente. – Diga a Boaventura que lhe será entregue no dia seguinte.
- O que acontece se ele não aceitar, J? Você considerou a possibilidade de que se ele pagar, talvez queira a entrega imediata?
A voz de J rompeu contra o meu ouvido.
- Use seu cérebro. Diga que seja razoável. As peças têm que ser adequadamente embaladas para o seu envio.
- Não, J, use o seu! – As palavras saíram antes que pudesse detê-las – Não posso dizer a Boaventura o que fazer e ele pensaria que algo está errado se eu tentasse. A arte realmente vai estar ali para que ele consiga? Schneibel disse que nunca deixaria Boaventura ter as peças. – Minha mão estava apertando tanto o telefone que chegava a doer. J falava muito devagar deliberadamente.
- Queira Schneibel ou não, não é seu assunto. Não se preocupe, se Boaventura comprar a arte terá a arte. E podemos usar isto como oportunidade para plantar dispositivos de vigilância nessas peças.
Senti como se J simplesmente não entendesse.
- Não entende, - eu disse, minha voz cada vez era mais alta e mais agitada. – Boaventura não deve por as mãos nessas coisas.
J soltou um suspiro.
- Não pode crer nessas coisas de magia negra de que fala Schneibel.
- Sim. E você também deveria. – Eu estava quase gritando.
Teve a ousadia de rir.
- Olhe Daphne, os fantasmas que me preocupam são os de um dispositivo de detonação. E isso é tudo com que deveria estar preocupada. E não tenha ilusões de ser heroína. Você não tem todos os fatos. – Não lhe respondi. – Quero dizer que... – Ele disse, sua voz era severa. – Nossa gente está em seu lugar. Só faça a sua parte e não mais que isso. Essa é uma ordem direta.
- Sim, sim, senhor. – disse.
- Vou estar em contato com vocês. – disse. Ele fez silêncio de novo. Inclusive o som de sua voz me incomodava. – E Hermes, - disse com uma voz mais suave que das que eu lhe tinha ouvido falar.
- Sim.
- Tudo vai bem em parte devido aos dispositivos que plantou. Você fez isso muito bem. Cuide-se esta noite.
Eu estava vestida de maneira informal para esta noite, com uma calça de cor negra, com uma blusa caxemira azul de gola olímpica . Botas Jimmy Choo de cano longo com saltos altos ímpios e um casaco de lã negro bordado com flores. Eu gostaria de estar calçando um bom par de tênis Nike, mas não combinava com minha imagem. Se me transformasse logo, não importava o calçado que tinha de todos os modos.
Havia deixado o apartamento quando as sombras caíram sobre Manhattan. Caminhei sem rumo pelas ruas, para terminar na rua setenta da Broadway, com seus restaurantes e farmácias com vitrines iluminadas por luzes de neon. Nenhum pensamento. Meu enfoque se encontrava nos carros atrás de carros anônimos. Não tive muito êxito. Minha mente vagava para meu conflito em torno se deveria ou não matar esta noite. Eu considerava qualquer vida, em qualquer forma, sagrada. Tenho a habilidade de matar tão facilmente como os seres humanos matam insetos. No entanto, o poder não quer dizer que está bem. Inclusive, tinha problemas, se poderia dizer, com o tratamento insensível dos humanos para com os animais. Estou de acordo com minha mãe nisso. Seu ódio irracional contra os morcegos encabeçava minha lista de abusos.
Finalmente, fiz sinal para um táxi. O apartamento de Boaventura estava no outro lado do Central Park e foi uma viagem rápida com poucos semáforos. Eu cheguei a tempo e não vi nenhum sinal de J e sua equipe – nenhum furgão comercial estacionado na área, nada disfarçado como um trabalhador de Com Ed que desenterra a rua. Talvez alguém estivesse em um apartamento através da avenida. Adivinhei que eu não deveria ser capaz de descobrir um sistema de vigilância profissional. Eu meio que esperava que Louis estivesse apoiado contra uma placa de Não Estacionar escondendo o rosto detrás de um exemplar de Daily News. Talvez viesse com Benny.
O porteiro me anunciou e me enviou para o elevador. Tanya me saudou uma vez mais. Trazendo consigo umas maletas para a sala quando entrei no apartamento de Boaventura.
- Alguém vai a alguma parte? – Perguntei – sorrindo a Tanya.
- O mestre está esperando. – disse e não respondeu a minha pergunta.
Boaventura estava na biblioteca, a agitação ou excitação era evidente na tensão de seus movimentos. Não levava smoking, mas ainda se via impressionante em calças de montar e botas altas. Saudou-me com um sorriso de dentes brancos, como um lobo esperando a Chapeuzinho Vermelho. Nem Issa nem o odioso Bockerie estavam presentes, o que me incomodava. Perguntei-me onde estariam.
- Senhorita Urbano, Entre! Sente-se! Temos muitos negócios para resolver, minhas desculpas, nós não temos muito tempo.
- Está de viagem esta noite? – Perguntei-lhe.
- Sim, sim. Para minha casa de campo. Pode ser que tenha que discutir isso com você mais tarde. Mas primeiro aqui estão minhas ofertas.
Ele deu-me o arquivo de fotos. Revisei suas ofertas no dorso de cada uma. Como eu esperava, ele queria todas. Fiquei levemente surpreendida com a quantidade que ele ofereceu. Ele não se arriscava a que Schneibel, se pudesse ser tentado com dinheiro, rejeitasse a oferta. O total para as dezesseis peças era de $50 milhões de dólares.
- Pode confirmar a aceitação do senhor Schneibel de imediato? A oferta será mantida só até as 9:00 da noite de hoje. Depois será retirada. – disse Boaventura.
- Ele está esperando minha ligação. – lhe disse, sabendo muito bem que esta operação estava nas mãos do governo dos EE.UU., não de Schneibel. Eu supus que o haviam instruído para ficar disponível esta noite. Peguei o telefone celular. O ícone de "Sem serviço" apareceu. Desafortunadamente, meu telefone celular não tem recepção. – disse.
- Peço desculpas, senhorita Urbano, mas meus dispositivos de segurança interferem com a transmissão de telefonia celular. Você pode usar um telefone da casa. Deixe que Tanya a acompanhe a um que possa usar com intimidade.
- Obrigada. Isso seria perfeito. – lhe disse.
Tanya me levou ao que supus era o escritório de Boaventura. Tinha uma mesa moderna que não era mais que uma lousa em forma de rim de vidro, sobre um pilar de aço inoxidável sem gavetas, uma máquina de fax, um computador e um banco com o telefone. As paredes estavam cobertas com grandes fotografias da Croácia e Ucrânia de um fotógrafo chamado Wilton Tifft. As imagens me transportavam aos lugares, imagens de mineiros e sacerdotes, igrejas, casas rústicas, colinas brumosas, ícones e os cemitérios, elas eram tão comovedoras como bonitas. Elas não deixaram nenhuma dúvida de que o coração de Boaventura se mantinha no leste da Europa.
A sala não oferecia a oportunidade de bisbilhotar: Os únicos arquivos, se tivessem existido, encontravam-se com a equipe. À exceção de um bloco de papel de notas em branco com uma caneta ao lado, nem sequer uma folha de papel estava perdida em qualquer lugar da sala. Qualquer um diria que Boaventura era um maníaco pela ordem ou que tinha desinfetado o lugar antes da minha chegada. Liguei o número de Schneibel.
O velho alemão respondeu.
- Sim?
- Aqui quem fala é Daphne Urbano. O Senhor Boaventura teve a amabilidade de dizer que se quisesse poderia utilizar um telefone de seu apartamento.
- Sssí. – disse.
- Ele fez uma oferta. Por todos os elementos, cinquenta milhões de dólares. Você me havia dito que necessita algum tempo para considerá-lo. Lamentavelmente, o Sr. Boaventura exige uma resposta rápida. Posso chamá-lo de novo, digamos, em uma hora?
- Sssi. – disse.
- Obrigado, senhor Schneibel. – disse. Ele não respondeu, mas desligou o telefone.
Admirei o seu profissionalismo. Necessitava uma desculpa para estar no apartamento, até que Benny chegasse, para que eu pudesse abrir a porta de serviço para Darius. Sem saber sobre meu plano, Schneibel contribuiu. Jogou o Grande Jogo muito bem: Nossa conversa foi, com toda certeza, monitorada por Boaventura. Schneibel não ia me entregar, ou a ele mesmo. Eu informei a Boaventura.
- Isso é muito satisfatório. – disse. – Tenho outros assuntos esta tarde também. Estará bem na sala de estar? Sinta-se livre para escolher algo para ler, ou pode ver televisão também. – Sentei-me nas almofadas de um sofá branco, diante da televisão onde passava uma comedia e sub-repticiamente me mantive olhando meu relógio. Tanya transportava bebidas e comida dentro e fora da cozinha. Em um momento me pareceu ouvir a uma mulher chorando. Eu não tive a oportunidade de ir à área de serviço e abrir a porta.
Em pouco tempo Tanya correu para a porta principal e deixou que entrassem três homens. Usavam ternos mal ajustados e sapatos baratos da Europa do Leste. A cor de suas peles era morena e via que eram do Oriente Médio, mas poderiam ser de qualquer lugar entre Grécia e Islândia. Um deles levava uma maleta que parecia uma bolsa de médico. Eles me olharam, com os rostos preocupados e tensos. Tanya não realizou nenhuma apresentação e se apressou a conduzi-los à biblioteca, onde Boaventura estava esperando. Inclusive através das grossas paredes pude ouvir uma voz excitada dizer em voz muito alta:
- No porto de Newark?
Logo Boaventura disse algo que os silenciou aos dois. Não ouvi mais. A seguinte na porta era Benny. Via-se formosa com um traje vermelho, com classe, mas o suficientemente sexy para fazer girar a cabeça, inclusive a um homem morto. Evitou olhar em minha direção ao entrar, toda nervosa e agitada, uma loira boba em uma triagem.
- Ai, querida, - disse para Tanya. – Eu não gosto de ser incômoda, mas estou quase à beira do desespero. Eu sei que deve ter dirigido desastres íntimos piores que o meu, mas estou quase frenética. A parte traseira de meu sutiã arrebentou. Estou a ponto de ficar toda ao ar livre. Não gostaria de ver o senhor Boaventura assim. Poderíamos ir você e eu ao banheiro, e talvez colocar um alfinete ou dar uma costurada rápida nele? – disse, toda inocente e infantil.
Inclusive para uma velha astuta como Tanya, a doçura de Benny foi um encanto.
- Sim, não se preocupe, posso solucionar de forma rápida. Venha.
E desapareceu pelo corredor.
Meu coração batia como um martelo, eu corri para a cozinha. Detive-me por um momento e abri a geladeira com se eu não pudesse esperar nem um segundo para tomar algo. Fechei suavemente a porta da geladeira e tirei as botas, rezando para que Darius tivesse sido capaz de inutilizar as câmaras de vigilância. Sem fazer barulho fui pela cozinha, com seu piso de cerâmica italiana escorregadio e pelo pequeno corredor. Era um pouco depois das 8:30 PM.
Encontrei a porta de serviço sem incidentes e abri o ferrolho, liberando a barra de ferro de seu nicho. Eu dei uma volta e corri como um coelho para a cozinha. Havia estado prendendo a respiração todo o tempo e a soltei com um zumbido. Recolhi minhas botas e as coloquei de novo. Depois caminhei casualmente de novo para a sala e me sentei. Se as câmaras nesta parte do apartamento estavam funcionando, eu esperava que não tivessem visto nada de especial. Mas se estavam trabalhando, aposto que se destinavam para Benny no banheiro. Sorri com pesar.
Os minutos avançaram lentamente e meu pulso se reduziu ao normal quando se evaporou a adrenalina. Finalmente Tanya se aproximou de mim.
- O mestre lhe pergunta se faria sua chamada telefônica neste momento. Levantei-me e a segui ao escritório de Boaventura. Disquei o telefone de Schneibel novo.
- Senhor Schneibel?
- Sim.
- Vai aceitar a oferta de Boaventura?
- O acordo está em suas mãos. O que deve ser feito está nas minhas. – respondeu com uma voz como se tivesse quebrado um vidro, quebrado à emoção e a dor.
- Vou arrumar a entrega, então.
- Sim. Como você quiser. Finalize-a. – E desligou telefone.
Tanya se apresentou como um sinal na porta.
- O mestre a verá agora.
Quando entrei na biblioteca, Boaventura estava sentado ali com Benny. A maleta grande estava aberta no chão. Parecia vazia. Sobre a mesa branca, duas pilhas de diamantes brutos, em panos de veludo azul. Pareciam pequenos seixos para mim, mas ali estava o resgate de um rei.
- Srta. Urbano, esta é a Srta. Polycarp, uma representante de meu agente da bolsa de diamantes, que lamentavelmente teve uma emergência no exterior. Foi pura sorte que a Srta. Polycarp estivesse disponível para gerir as minhas necessidades esta noite. – Ele olhou desconfiadamente para Banny quando explicou a ela, - a Srta. Urbano é a agente do cavalheiro, cuja coleção de arte eu estou comprando com isto. – Fez um gesto para o monte um pouco menor. Fiquei confusa.
- Quer dizer que está pagando o Sr. Schneibel em diamantes?
Boaventura começou a rir.
- Não, em absoluto. Estes diamantes agora pertencem aos corretores de joias em Nova York. A Srta. Polycarp trouxe, a pedido meu, um cheque de caixa no valor de cinquenta milhões de dólares, que será entregue a senhorita, se o Sr. Schneibel aceitar a minha oferta.
- Ele já o fez.
- Srta. Polycarp, o cheque.
Benny abriu a pasta, deslizou o cheque e me passou. Eu, uma vez que o tive, o dobrei e o guardei no bolso de minha calça. Então ela espertamente agarrou um montão de diamantes e pôs em um saquinho de veludo, colocou os pequenos pacotes na maleta e fechou-a.
- Obrigado, senhorita Polycarp, - disse Boaventura. – Como tenho seu outro cheque aqui, - ele disse e acariciou o bolso de sua jaqueta, - nosso negócio está concluído. Agora, com pesar, devo lhe pedir para partir. Em outras circunstâncias, eu gostaria de convidá-la para tomar algo. Peço perdão pela pressa. – Ele a comeu com os olhos abertamente. Ela pareceu torrar-se na luz de sua atenção. Homens maiores que Boaventura haviam tomado a isca e foram enrolados. Quando voltar a Nova York, espero que você aceite meu convite para uma conversa mais longa e possivelmente um jantar.
- Ohh, docinho, isso é um encanto. Agora se assegure de que realmente ocorra. Vou esperar que meu telefone toque, com a esperança de ouvir sua voz encantadora na linha. Certamente foi um prazer. – Ela estendeu a mão para despedir-se.
Ele a tomou e a levou aos lábios. Esse devia ser um ato reflexo dos homens com Benny. Se alguém tivesse sido coquete comigo da maneira que Benny havia feito, seguramente, estaria respirando com dificuldade. Benny se desfez em elogios como resposta.
- Querida, você é uma coisa doce. – Recolheu a valise e a passou para Benny. Ela disse: - Obrigada, docinho. – E tomou posse de mais de $250 milhões de dólares em gemas.
Ela levava aos comerciantes de diamantes, enormes somas de dinheiro todo o tempo e quem visse Benny, pensaria que ela estava levando nada mais valioso do que um saco de comida chinesa a domicílio. Como que convocada por uma campainha oculta, como era provavelmente, Tanya apareceu na porta, mantendo-a aberta. Sabia que Benny tinha que apressar-se para pôr-se no encalço dos três homens que trouxeram os diamantes que haviam desaparecido, enquanto eu estava ligando para Schneibel, mas se foi languidamente e inclusive deu uma piscada final a La Benny. Imediatamente depois que Tanya fechou a porta atrás de Benny, Boaventura se voltou para mim.
- Quero aproveitar esta noite para tomar posse da coleção de arte.
Eu lhe respondi:
- O Sr. Schneibel necessita tempo para guardar as mercadorias. Ele disse que você pode recebê-los amanhã às nove.
- Não. – Sua voz era dura. – Estou saindo da cidade esta noite. Vou para meu país de origem. Não podemos adiar. Vou trazer meus homens e vamos carregar os elementos nós mesmos. Chame Schneibel ao telefone. Pelo telefone que está às suas costas e diga-lhe que estamos chegando.
Novamente protestei. Boaventura tirou as luvas de veludo e pôs um tom de voz forte. Finalmente lhe disse que faria a chamada. Segui com as instruções, dizendo a Schneibel que Boaventura chegaria antes das onze. Tinha a esperança que passasse a mensagem ao J. Schneibel respondia com monossílabos de novo, sem dar mais resistência, mas senti um pressentimento terrível quando desliguei o telefone.
Respirei fundo e comecei a girar, mas nunca cheguei a fazê-lo de todo. Meu pescoço foi tomado violentamente por trás. Joguei minhas mãos cima e arranhei, mas não pude chegar à cara de quem estava detrás de mim. Luvas de couro suave, os dedos nelas eram muito fortes, escavado em ambos os lados de meu pescoço, justo em cima da clavícula, no ramo das artérias carótidas para cima. A pressão me bloqueava o fluxo sanguíneo ao cérebro.
Não havia uma oportunidade de me transformar. Tive tempo de só dois pensamentos. Um deles era que algo terrível ia acontecer. A outra era, com raiva, que Boaventura havia ganhado. Então caí em um espiral para baixo na escuridão e um lugar onde não há sonhos.

Capítulo 10


Childe Roland à Torre Negra Chegou
Robert Browning



Recuperei a consciência com a estranha ideia de que estava chovendo. Lentamente abri meus olhos e tratei de dar sentido ao que estava vendo. Era uma máquina de ginástica Nautilus, o tipo com quatro estações em pontos cardeais. Eu devia estar no ginásio de Boaventura em algum lugar do apartamento. Eu estava atada por uma fita adesiva enquanto estava sentada montada no banco da máquina. Minhas mãos se estendiam por cima de minha cabeça, e quando levantei a vista, vi que elas estavam atadas por uma fita adesiva a barra lateral extensível.
Não me dei conta de tudo isso em um minuto de grande reflexão, senão bem depois de um lento vaguear através da confusão. Minha garganta estava ferida e eu tinha uma terrível dor de cabeça. Seguia olhando a barra, tratando de averiguar o que aconteceu, quando ping, uma gota caiu em minha bochecha. Ping, ping. Uma delas alcançou o meu pescoço. Outra me golpeou na testa. Franzi o cenho. Sacudi a cabeça. Olhei de novo para minhas mãos, que se sentiam dormentes e os dedos como mortos. Com essa gota, algo novo golpeou minha bochecha. Voltei a cabeça para o lado em direção para onde parecia que a chuva vinha. Benny Polycarp estava enrolada em torno de uma escada rolante, sua roupa vermelha estava torcida. Ela estava toda enrugada de cima a baixo. Estava a ponto de cuspir-me.
- Que diabos! – lhe disse. – Benny, pare de cuspir-me.
- Shhh! Não faças barulho. Eu só estava tratando de acordá-la, - disse com um risinho. – Não podia pensar em outra maneira de chamar a sua atenção.


- Por diabos não acaba de se transformar e me solte? – lhe disse. Doíam-me os braços, me doía a cabeça e eu não estava numa situação para ser educada.
- Agora, não se irrite comigo. De onde venho, sempre dizemos, Não se irrite. Simplesmente, arranha o seu traseiro e fique feliz. – Ela riu de mim outra vez. – Pense nisso, Daphy. Se eu me transformo e se me adianto e libero a mim mesma, todavia serias humana. Se alguém voltar, me veria, e você não estaria pronta para lutar ao meu lado. Inclusive, se eu pudesse manejá-los, poderia sair ferida. Além disso, eu não queria começar a partida sem você, durante uns minutos de todos os modos.
- Suponho, - disse, me dando conta que devia sentir-me agradecida pela ajuda de Benny e pensando que eu realmente queria atar alguns fios soltos. Quanto tempo estive inconsciente? – sussurrei.
- Não sei. Você se encontrava inconsciente quando me trouxeram aqui. Só estive atada durante cinco minutos mais ou menos e o filho da puta que me pegou, ainda poderia estar no apartamento.
- Bom, vamos sair daqui. – disse-lhe.
Haviam retirado o passador da pilha de peças, deixando um peso total de mais de trezentos quilos. Quem quer que tenha me amarrado, não devia ter calculado que nenhuma mulher – ainda que com superdoses de esteroides – tivesse músculos para aquela quantidade de peso. Mas, em forma humana ou como morcego, qualquer vampiro poderia fazer. Então baixei a barra e rompi a fita com facilidade.
- Idiotas, - disse, enquanto tirava a fita de meus pulsos. – Esta merda dói. Perdi minha circulação também. Onde diabos está minha bolsa? – lhe disse mal-humorada.
- Está no chão, Daphy. Deve estar no chão da sala. – disse Benny.
- Bom, isso é um bônus. – lhe disse quando comecei a vasculhar o lugar e encontrei um pacote de toalhinhas limpadoras.
Limpei-me, então eu tirei a roupa. Não posso dizer quantos de meus conjuntos favoritos eu tive que abandonar durante os anos. Uma vez que eu fiquei nua comecei a transformar-me. Meu eu humano se afastou e o vampiro surgiu dentro de mim, minhas presas Se alongaram, minhas unhas se converteram em garras, minhas asas estalaram de minhas costas com um forte clic misturado com um zumbido profundo, como a corda de um arco quando uma flecha é disparada. Cada vez que ouço esse grande despregar, meu coração pula. Ele expulsa a dor e a tristeza do dia, como um ladrão escapa da pena na noite cinza.
Enquanto mudava, as cores ao meu redor palpitavam e se intensificavam, dando voltas como um caleidoscópio. A luz no teto da sala converteu-se em um pequeno sol, prejudicando-me os olhos. Era muito brilhante, demasiado brilhante. Eu ansiava pela escuridão. Sentia-me forte e viva e com muito poder.
- Maldito seja ao inferno, Daphy. Agora quebrei uma unha. – disse Benny enquanto tirava as amarras. Despiu-se também. Uma brisa me golpeou quando suas asas se desdobraram com um zumbido. À medida que se estendiam para fora, tremendo, pude ver que estavam escuras, mas seu corpo era esbelto de pele dourada, toda brilhante e luminosa. Ela era uma loira natural, depois de tudo.
Nós duas ficamos ali um momento, nos ajustando à mudança.
- Sabe o quê? – Benny disse. – Louis, suponho, vai me ligar. Tenho meu telefone.
- Boa ideia. – disse-lhe. - Eu também. Pode pegar nossas roupas? Talvez tenhamos que nos trocar de novo. – A bolsa de Benny tinha o estilo bandoleira que se usava atravessada no tronco. Eu estava começando a pensar que a mulher pensava em tudo.
Benny olhou para mim.
- Minha bolsa é muito grande. Só posso levar o essencial. Mas, estamos em Nova York. Eu não creio que ninguém sequer se dê conta se andarmos nuas pela rua, na Broadway.
- Benny, você com certeza, seria notada. – lhe disse. Manobrei a alça de minha bolsa Louis Vuitton, até que descobri como fazer para que se ajustasse comodamente acima de meu ombro. Quando eu comecei a enchê-la de roupa, lhe perguntei: - Como você chegou até aqui? Quem te atacou?
Benny estava pulando para cima e para baixo nos dedos dos pés e batendo suas assas um pouco. Eu supus que não se transformava há algum tempo. Ela estava examinando através de suas asas, enquanto me falava.
- Logo que saí do apartamento, tocou o celular. Era Louis e estava em um táxi atrás dos entregadores dos diamantes. Disse que me chamava de volta ao chegar ao seu destino e que poderia ficar por perto para assegurar-se de que tudo saísse bem. A seguir, uma limusine se deteve. Boaventura e uma jovem e pálida mulher – ela se via como você havia descrito – se foram com uma tonelada de malas. Pensei que era estranho que não houvesse saído em primeiro lugar. Eu não sabia o que havia acontecido com você.
Fiz-lhe um gesto para a janela. Estava presa e eu lutei para conseguir abrir. Ela seguiu com o seu relato enquanto trabalhava.
Tão logo se afastaram e eu me convenci de que o porteiro ia me deixar sair. Tanya abriu a porta, mas não cheguei além de um metro no apartamento quando alguém me golpeou na cabeça. Quem quer que fosse, simplesmente, não sabe nada de cabelo comprido e spray para o cabelo. Eu na realidade não sei o que aconteceu, mas fingi muito rápido. Alguns homens musculosos me trouxeram aqui, ataram-me e se foram. Ele pegou os diamantes, por certo. O que quer apostar que o Senhor J vai fazer uma birra de criança por isso? Esta é minha sorte. Como minha mamãe sempre dizia: Se chovesse sopa, teria um garfo. De todos os modos, você já estava aqui. Apesar de que estava fria, eu estava muito contente de ver você. Então tratei de despertar-lhe. – Ela fez uma pausa e disse: - Sabe Daphy, acredito que será melhor que saltitando.
Dava-lhe um olhar exasperado.
- Por que acha que estou tratando de abrir a janela?
- Bom, deveria me haver pedido que lhe dê uma mão.
Ela me ajudou a dar um empurrão e se deslizou para cima.
- Depois de você. – lhe disse. Arrastou-se para o peitoril e olhou para baixo. Havia um longo caminho até a rua.
- Para onde? – perguntou ela enquanto saltava.
Coloquei a cabeça pela janela e lhe gritei:
- Creio que devemos chegar ao apartamento de Schneibel tão rápido quanto possível. Estou bastante segura de que é para onde Boaventura se dirigirá. Tenho um mau pressentimento sobre o que está ocorrendo ali.
Ela flutuava fora do edifício, enquanto eu saltava sobre o parapeito. O ar frio da noite correu por mim, agitando as cortinas. A meia lua amarela era grande e baixa. Saltei para fora com uma onda de alegria e me joguei no mar do céu escuro sobre a cidade. Benny estava um segundo atrás de mim.
Começamos um voo silencioso ao redor das torres de Manhattan, atravessamos o céu quando as torres das catedrais se divisaram. Navegamos por cima das avenidas, roçando nos telhados e roçando os edifícios. Em uma janela, com o brilho azul de um fósforo acesso, vislumbrei o rosto de uma mulher fumando sozinha no escuro. Ela olhou pela janela com tristeza em seus olhos, fumava o cigarro e me olhava com nenhuma emoção em absoluto. Em outra janela um menino pequeno sentou-se no peitoril, com os olhos cada vez mais abertos, a ponta de minhas asas quase tocavam ao painel diante dele. Ambos me recordariam no mais profundo de seus sonhos por tantos anos como a soma de todos os medos, ou como um anjo da noite? O sino de uma igreja bateu a hora com notas longas, tristes, dez vezes. Soprava um vento do leste.
E então soou meu celular.
- Maldito seja! – disse enquanto o procurava em minha bolsa.
Não podia abrir muito a maldita bolsa senão o conteúdo cairia na rua. Agarrei o celular com minha garra, não foi nada fácil tampouco.
- Alô? – disse.
- Hei, Daphne, é Darius. Está bem?
- Estou bem. E você? Tratei de soar normal, como se eu não estivesse a ponto saltar a uma haste de uma bandeira que me sobressaía dos pisos superiores de umas lojas de departamentos.
- O que foi isso? – Benny gritou.
- Disse algo, Daphne? Acredito que temos muito má recepção. Onde estás? – Darius perguntou.
- No centro. – Lhe gritei no telefone.
- Não posso ouvi-la muito bem, - disse Darius. – Está em um táxi? Está com a janela aberta? Há um montão de ruídos.
- Uh,huh. O taxista tem as janelas abertas. Sinto muito. – Que diabos eu lhe iria dizer? Eu estou voando vinte andares acima da Quinta Avenida. - Onde você está?
- Em uma reunião de negócios, já sabe, - disse e foi precisamente o tipo de resposta que me irritou.
- Quero dizer, você entrou no apartamento? Deixei a porta aberta. Tudo bem? – lhe perguntei.
- Sim, Obrigado. O que você fez foi perfeito. Hey, Daphy, eu... – Ele disse algo em voz baixa e eu não pude entender suas palavras no vento forte.
- Quê? Não pude ouvir. – gritei.
- Não é importante. – Disse em voz mais alta. – Eu só queria ouvir a sua voz. Saber se você está bem.
- Eu estou bem. – Lhe disse.
- Tenho que ir. Só queria que você soubesse que estou pensando em você.
- Estou pensando em você também. – Bom, eu estava neste momento, de modo que não era uma mentira.
- Tenha cuidado. Lembre-se que temos um encontro. – disse com uma gargalhada.
- Não vou esquecer. Tome cuidado também. – adicionei enquanto desviava de um andaime, que um limpador de janelas havia deixado suspenso na parede de um edifício.
- Adeus, minha linda. – disse e me pareceu ouvir o som de um beijo quando desligou, mas era difícil dizer com o vento. Benny estava me olhando, sorrindo como um gato de Cheshire .
- Que foi? – disse para ela.
- Isso foi Darius? Acredito que gosta de você, - gritou-me. – Realmente gosta.
- Cale-se. – Disse-lhe, enquanto pensava em Darius, em provar seus lábios, recordava o tato de suas mãos em meus peitos e senti a antiga sede de sangue que me devora. Queria beber dele profundamente, plenamente, até que me enchesse de sua vida. Empurrei esse pensamento a distância, mas meu coração estava dançando e eu estava quase rindo enquanto voávamos.
Ao final da rua Canal, o túnel de Holland se abria como uma goela aberta nas vísceras da terra, levando um fluxo de automóveis para o oeste à terra estéril e fedorenta das pradarias de Nova Jersey. Perto do túnel, o armazém de Schneibel se mostrava como uma caixa forte. Aterrissamos no peitoril da janela onde uma vez ele estendeu a mão para fora para me jogar a chave. A grande janela, de malha de arame não estava fechada. Abri-a. E desde o começo eu pude cheirar o sangue. Entramos pela janela e nos deixamos cair. As luzes estavam ligadas e a galeria iluminada numa cena espantosa. As máscaras cobriam o chão. Algumas das estátuas feitas de ossos, cabelos, e madeira foram derrubadas de seus pedestais e cortadas em pedaços por um louco furioso. Um jorro de sangue através de um arco da parede, pontos vermelhos contra os brancos, como uma pintura de Pollock. E estendido com um machado enterrado no fundo do peito, o Sr. Schneibel, com o cabelo molhado de sangue, jazia, com os olhos sem vida, olhando para o teto. Era tarde demais, Schneibel tentou destruir sua coleção, mas não foi suficientemente rápido. A maioria das peças havia ido. Quem as possuía, agora teria poderes que nenhum ser humano deveria ter. Estes elementos provinham da morte e deles brotavam sombras escuras para difundir-se por toda a terra.
- Quem fez isto? – Benny disse.
- Boaventura, eu creio. – disse.
- É mau. – disse.
- Você não tem ideia do quanto.
Benny estava caminhando ao redor do perímetro da sala, tendo o cuidado de não pisar no sangue.
- Daphy, vem aqui. – disse.
Reuni-me com ela no outro lado do sótão, perto da porta. As peças de embalagem Excelsior estavam espalhadas ao redor. Deveríamos haver feito um plano antes de nos mover em silêncio, voando pelo estreito espaço. Caímos em um pátio traseiro cheio de ervas daninhas. Mas não falamos entre nós em tudo antes de ir, só posso me culpar a mim mesmo pelo que aconteceu.
Os mesmos três homens que tinham entregado os diamantes a Boaventura se sentaram na cozinha, onde uma rádio tocava música árabe e uma caixa de pizza estava aberta sobre a mesa rodeada de latas de Coca Cola. Tudo isto se registrou claramente, enquanto se desenvolveu a cena em câmara lenta.
Gritando, os homens se separaram da mesa. Uma pessoa tirou uma arma e disparou indiscriminadamente, a bala bateu contra a geladeira e ricocheteou e subiu à porta. Louis estava sobre ele imediatamente, suas garras abriram uma terrível ferida pelas costas do homem, suas presas se afundaram no pescoço do homem. Não podia frear Louis e, além disso, eu tinha meu próprio oponente para tratar. Houve gritos incoerentes, o homem de baixa estatura, moreno diante de mim agarrou uma faca na mesa e cortou o ar, passando por mim por pouco.
- Tonto! – lhe disse e bloqueei seus golpes com um braço, enviando a faca para longe, enquanto meu outro punho se estrelou contra a ponte de seu nariz.
Uma torrente de sangue saiu de seu nariz, mas eu não sentia fome, só a raiva vermelho vivo da batalha. Ele caiu de joelhos. Dei-lhe um soco debaixo da mandíbula e a cabeça caiu para trás. Caiu como caem os bolos.
Enquanto isso, Benny esticou seu longo braço em direção ao monte de humanidade acovardado em frente a ela. Não havia tratado de lutar, ficou paralisado pelo terror. Ela lhe apertou o pescoço como uma expert, como alguém havia apertado antes o meu. Os olhos do homem se voltaram e ele deslizou para o chão inconsciente. Ela pegou e jogou o rádio na parede e arrancou o cabo. Ela atou os pulsos do homem para trás no aquecedor da cozinha. Ela tomou alguns pedaços de pizza da caixa e os enfiou na boca do homem. Logo seus olhos se encontraram com os meus em uma mensagem silenciosa. Nós sabíamos o que Louis tinha feito e era demasiado tarde para intervir.
O corpo do terceiro homem jazia inerte nos braços do vampiro. Ele o deixou cair sem vida ao chão com um ruído surdo e doente. Louis se voltou para nós, suas presas pingando sangue. Seus olhos verdes estavam luminosos e aterradores; suas pálpebras caídas. Parecia bêbado e cruel. Seu rosto refletia uma combinação de desejo diabólico e alegria infernal.
- Estão mortos? – Falou para nós. – Tenho o estomago cheio, mas posso beber mais.
- Não! Atrás! Louis. Volte. Nada mais de sangre. – Gritei, me pondo entre o corpo inconsciente em meus pés e o vampiro. – Necessitamos destes homens com vida. Têm que ser interrogados. Não os deve tocar.
- Lástima, - disse. – É uma lástima. – ficou ali, lançando seus flancos, com a cabeça pendurada como um cavalo de raça, sem fôlego depois de uma carreira.
Tive que tomar uma decisão nesse momento a respeito do que fazer e a quem chamar. Eu não poderia dirigir isto por mim mesma. Por fim, abri meu telefone celular e chamei o J. Estava na secretária eletrônica e lhe deixei uma mensagem que especificava o endereço da casa de Jersey City. Disse-lhe que viesse rápido. Eu não lhe disse que um homem estava morto.
Olhei para Benny. Sua atenção estava fixa em Louis e ele estava olhando-a. Era como se um imã unisse um ao outro. Recordei-me dos desejos gerados pela batalha, pela morte, pelo aumento de adrenalina do poder. Queria sair dali.
- Benny, - lhe disse. – Estes homens não podem morrer. Entende? – Tive dúvidas reais de que fosse seguro deixá-los sozinhos.
- Sim. – sussurrou. – Daphy, só tem que ir. – sussurrou.
Deslizei-me pela porta, desprendendo minhas asas, meus pés prontos para deixar os laços com a terra. Olhei para trás e vi Benny ir para os braços de Louis e ele empurrando-a contra a parede, a luxuria inconfundível como se estivesse a ponto de possuí-la ali e suponho que fosse. Não fiquei para averiguar, disparei para a noite.
A escuridão me abraçou ao subir, desejava que o ar me limpasse, tinha vontade de esquecer a expressão de horror na cara do homem antes de Louis matá-lo, queria esquecer a louca paixão de Louis empurrando Benny contra a parede. O distante litoral de Nova Jersey parecia distanciar-se e eu não sabia se era o vento, o vento estava me montando. Vaguei por cima das águas, suspensa entre o céu e a terra como o passar do tempo. Uma lua brilhava em tons cor de limão no rio. Naveguei com as correntes de ar.
E pensei em Darius. Nunca havia sentido esta dor dentro do meu coração, nunca a conheci. A noite se alongou até a madrugada quando decidi voltar ao apartamento de Boaventura. Talvez pudesse averiguar o que Dario fazia ali, ou se nada mais, talvez pudesse encontrar a localização da casa de campo de Boaventura.
Voltei a entrar no apartamento de Boaventura da mesma maneira que saí, aterrissei em silêncio no batente da janela e me deslizei com o passar do parapeito. Eu não via nenhuma razão para continuar na minha forma de morcego e caí de quatro enquanto a energia me drenava. Em menos tempo do que se demora em contá-lo, converti-me em humana uma vez mais. Com cuidado, movendo a pistola para seu lugar, peguei minha roupa em minha bolsa e me vesti rapidamente. O cheque de caixa pelo $ 50 milhões ainda estava no bolso. Então saí da sala, temerosa do que pudesse encontrar, mas não achei nada. Logo que saí da sala de exercícios, meus temores resultaram válidos. O aroma de sangre fresco impregnava o apartamento. Segui o aroma e entrei na sala de estar. Nada havia, sem sujeira, sem sinais de luta. Entrei na cozinha. O aroma era mais forte. Entrei na habitação da empregada. Uma mala meio cheia estava aberta sobre a cama. A cara séria de Tanya jazia de barriga para baixo no chão, como uma boneca de trapo enrugada. Sangrava por debaixo da cabeça e tingia o chão de madeira como um vinho de cor vermelha escura. Tomando cuidado de não pisá-la, aproximei-me e abaixei agarrando-a pelos ombros, e suavemente lhe desvirei. Seus olhos estavam em branco olhando para cima, a garganta, tinha sido cortada. Foi feito com esmero, a forma em que um comando eliminaria uma sentinela inimiga em pé. Algo apertou em meu coração. Poderia Darius ter feito isto? Suavemente e com voz baixa rezei uma oração e pus Tanya de volta como eu a tinha encontrado.
Decidi-me a entrar no hall de entrada e procurei perto do telefone por alguma informação sobre o lugar onde Boaventura foi. Talvez J já conhecesse a informação. Mas não tinha sido muito impressionada com a qualidade de seus expedientes. E talvez Darius soubesse. Entretanto, averiguar por minha conta não só seria profundamente satisfatório, mas também me permitiria seguir adiante por minha conta. Eu tenho meu próprio lema para a vida: É muito melhor pedir perdão que pedir permissão.
Retornei através da cozinha e entrei na sala de jantar com suas cadeiras douradas e uma enorme e ostentosa estátua de um mouro, sua mão estendida com uma bandeja, de pé a um lado. Parecia me sorrir de uma maneira desconcertante. Tropecei e quase caí. Devia estar enjoada, cansada da comprida viagem, ou mais profundamente afetada do que eu queria admitir, pela matança de Louis e pela morte de Tanya. Agarrei-me à parte posterior de uma cadeira para não perder o equilíbrio. O aroma doce, enjoativo de sangue ainda enchia meu nariz e não era o que vinha do quarto de Tanya.
Tomei algumas respirações profundas. Sou uma pessoa muito forte, tanto emocional como fisicamente. Estava segura de que nenhuma debilidade me tinha vencido. Não, estava segura de que o mal tinha estado aqui. O mal tinha deixado seu rastro aqui. Dirigi-me para o vestíbulo, me preparando para o que me esperava.
Perto da porta de entrada estava Issa. Escancarado, degolado com a eficácia militar, igual a Tanya tinha sido. Sua boca estava aberta em uma careta, mostrando os dentes torcidos. Não me aproximei disso, eu não o toquei. Fiquei imóvel e tratei de raciocinar o que tinha ocorrido aqui esta noite. Estava razoavelmente segura de que Issa tinha sido o homem musculoso que golpeou Benny. Cruzou-se por minha mente que Benny podia ter inventado sua captura, depois de matar a estes dois se queria os diamantes para ela. Eu tinha riqueza, mas Benny não. Os vampiros são ambiciosos em todos os sentidos: hedonistas, levados pelo prazer e com um código moral fraco ou inexistente. Eu realmente não suspeitava de Benny, mas tinha que considerar pelo menos uma suspeita. E Benny tinha um conjunto vermelho, que poderia ter oculto qualquer salpicado de sangue. Por outra parte, teria sido difícil atar-se à fita de correr e eu não tinha motivos para acreditar que teria matado desta maneira. Nenhum vampiro teria desperdiçado tanto sangue. Um vampiro teria feito as feridas agudas clássicas, a menos que, é obvio, cortassem a garganta para dissimular. Neguei com a cabeça. Este tipo de pensamento era muito oculto. Outro de meus lemas é: todo mundo é de confiança, mas sempre embaralhe os naipes primeiro. Mas eu conhecia e eu gostava de Benny. Embora não confiasse completamente nela, meus instintos raramente se equivocam. Estive tentado a dizer "nunca se equivocam", mas nunca diga nunca.
Segui decifrando qual tinha sido o cenário mais provável. Quando Issa e Tanya morreram, Boaventura e Catalina já haviam saído. Benny estava atada a mim na sala de exercícios. Isso deixava só duas pessoas que poderiam ter cometido os assassinatos: o negro da Serra Leoa, Bockerie, ou Darius. Bockerie esteve aqui toda a noite? Eu não o tinha visto no apartamento. Tinha estado fora e voltou? Veio pelo Issa e os diamantes? É obvio, eu não tinha visto bem Issa, e evidentemente tinha estado ali todo o tempo. E ainda não sabia com que propósito Darius estava no apartamento. Estava procurado algo? Ou tinha entrado para pôr fim a estes dois? Incomodava-me se ele tivesse matado, especialmente no caso de Tanya. Ela pôde ter sido um assistente servil às necessidades de Boaventura, é possível que personificasse o temperamento de eslavo escuro, mas ela não tinha cometido nenhum delito que eu soubesse. Por que a mataram?
Logo meus pensamentos voltaram para os diamantes novamente. Foram-se. Alguém os tinha. Boaventura não os tinha tomado. Minha conjetura era que Issa tinha golpeado a Benny e pegou a mala, de forma impulsiva, sem pensar. Logo entrou em pânico. Talvez se oferecesse a compartilhá-los com a Tanya. Talvez decidissem pegar o dinheiro e correr. Então alguém os deteve e eu apostaria que parou quanto teve os diamantes. Era um poderoso motivo para desfazer-se de Issa e para silenciar Tanya.
Suspirei. Tinha muitas coisas em minha cabeça. Bockerie. Eu colocaria minhas apostas no cruel, amoral General Mosquito, como o que assassinou a estas duas pessoas sem duvidá-lo. Esperava poder prová-lo. Matar as feridas da alma. Adormecia-me o coração. Eu sabia muito bem que Darius queria ser um bom tipo, um cavalheiro branco e eu esperava que minha conclusão fosse não só bons desejos. Seria muito mais singelo para assumir que suas ordens eram de "terminar com o prejuízo extremo."
Detive-me pensando nesse momento e comecei a passar pela gaveta da mesa do telefone. Ali não havia nada exceto um guia Telefônico de Manhattan, um pad e algumas canetas. Tirei a caderneta e comecei a escrever os números de discagem rápida programados no telefone. As primeiras foram em Manhattan. Eu as copiei, pensando em comprová-las mais tarde, mas não era o que eu estava procurando. Golpeei os botões e até que mudou para uns poucos dos estrangeiros e bingo, um número com o código da área 570, que soava como um possível. Anotei-o e rapidamente acabei com o resto das entradas.
Logo me desloquei para trás através do identificador de chamadas para ver quem tinha chamado recentemente. A única chamada nas últimas vinte e quatro horas era um número local, que tinha sido também na marcação rápida. Fiz uma aposta comigo mesma, que se tratava de um serviço de carros para uma coleta. Talvez Issa ou Tanya a tivesse feito, mas eu gostaria de saber quem tinha tomado a viagem e aonde tinha ido.
Encontrei o armário do vestíbulo e recuperei o casaco bordado negro. Senti-me feliz pela primeira vez nessa noite. Eu adorava este casaco e eu o tinha descartado como perdido para sempre quando Benny e eu saltamos pela janela. Logo voltei para a sala de exercícios peguei minha bolsa. Encontrei ao rato ali. O pobre se amontoou e dormia profundamente. Não sei muito ou entendia o que tinha acontecido a Schneibel, mas os animais têm uma inteligência maior que os humanos acreditam. Gun sabia sobre o medo, a dor, o sofrimento e a morte. Ele conhecia o amor. Também sabia da perda e não tinha nenhuma dúvida de que estava triste. No reino animal a morte violenta é um lugar comum. Tomando o tempo para arrumar minha maquiagem, arrumar minha roupa e ajustar minha atitude, saí do apartamento pela porta principal. Tive muito cuidado de não caminhar através de qualquer sangue quando ia. Eu não ia deixar evidência para trás ou arruinar meu Jimmy Choo. Eu não estava preocupada com os rastros digitais, já que tinha estado ali legitimamente essa noite. Preocupava-me que fossem mais das 05:00 AM, precisava chegar em casa antes do amanhecer.
Saí do elevador no pequeno vestíbulo no nível da rua, tomando cuidado de não me apressar. Um porteiro diferente se encontrava de guarda, um jovem espanhol que tinha seus pés sobre uma mesa enquanto olhava um canal em espanhol em um televisor portátil e um sorvia uma garrafa de Snapple. Pedi-lhe que me chamasse um táxi. Deu-me um amplo sorriso e um olhar de cumplicidade.
- Oh, este Issa, - disse, - sabe como escolher. – Ele que pensasse o que quisesse. A polícia não teria motivos para buscar-me, com certeza. Seria melhor informar ao J e ver se poderia manobrar o controle de danos.
Logo que o táxi começou a andar, eu liguei para o escritório de J. J respondeu.
- Anel Mestre. Onde você está Hermes?
Inesperadamente me senti muito feliz por ouvir a voz de J. Estava tão confusa sobre em quem acreditar e em quem confiar. Agora me sentia como se me oferecessem um porto seguro. Comecei a pensar que podia contar com ele. Tinha esperança de que eu tivesse razão.
- Em um táxi, lhe disse.
- Não diga nada, - disse. – Reporte-se ao escritório o mais rápido possível esta noite.
- Certo, - lhe disse. Isto não pode esperar. Há um reparo de manutenção na casa de Boaventura. Danos estruturais. Necessitas obter uma equipe de limpeza rapidamente. Utiliza o serviço de entrada. Você tem?
- Eu tenho. Quantas peças se romperam? – perguntou com a emoção de alguém que falava de janelas quebradas e não pessoas.
- Duas respondi, - e minha voz se quebrou quando o disse.
- Isso é, deixe ao meu cargo, - disse, e outra vez sua voz me tranquilizou. – Agora vá dormir, Hermes. – me disse. Antes que pudesse desligar, soltei:
- Oh! Uma coisa mais. O que acontece na cidade de Jersey?
- Feito, - disse J e logo acrescentou: - Vou interrogar-lhe esta noite.
- De acordo. – Eu respondi, incapaz de pensar em uma forma de perguntar-lhe quem estava ainda vivo quando chegou ali.
- Hermes, - disse, com voz áspera irrompendo em meus pensamentos.
- O quê?
- Cuidado com suas costas. – E desligou.
Tropecei através da porta de meu apartamento, totalmente fatigada. Tirei a roupa, deixando-as em um rastro pelo chão. Fui à cozinha e pus água em um recipiente para Gun. Tirei-o de meu bolso e o pus sobre a bancada. Seus olhos vermelhos piscaram na luz. Procurei algo para lhe dar de comer e encontrei bolachas digestivas McVities. Recebi isso da Inglaterra há um mês. Ofereci-lhe um pedaço da bolacha. Ele tomou em seus dedos diminutos de rato com cuidado e mordiscava como se fora uma dama de sociedade. Enquanto Gun terminou de comer e bebeu um gole de sua taça, peguei uma garrafa de Pellegrino. A efervescência me fez arrotar. Próprio de uma dama real, Daphy, pensei. Abri a geladeira e olhei o conteúdo. Tinha um lombo picado, na gaveta de carne. Isso me tiraria do apuro. Estava demasiado cansada para uma comida. Comi um hambúrguer, e logo recolhi Gun para levá-lo acima.
Quando os primeiros raios do amanhecer tingiram o céu de rosa, peguei o New York Times com uma mão e minha nova mascote com a outra, e subi para o meu ataúde. Disse para Gun usar o jornal se necessitasse fazer xixi e depois fechei meu ataúde forrado de cetim. Lembro vagamente de Gunther acomodando-se no meu ombro, antes de embarcar em um mundo de sonhos onde meu auto-fantasma levantou voo e embarcou em uma lua cor de limão.

Capítulo 11


Os galhos caídos não estão indo para cortar o galho.
Refrão Zen



No começo do inverno, a neve é a flor da temporada. Saí de meu edifício de apartamentos enquanto o sistema de iluminação pública iluminava a escuridão mais profunda. Uma rajada repentina soprou flocos suaves contra meu rosto e enviou um forte vento de pó branco, que dançava através da avenida. Desci ao metrô. Havia certa ansiedade a respeito de me enfrentar cara a cara com J de novo. Nossos encontros sempre explodiam em fogos de artifício emocionais. Detrás de tudo estava a tensão sexual que ele negou que existisse e que eu queria esquecer. Por desgraça, negar ou ignorar a realidade não faz com que desapareça. Tinha-me vestido para a reunião com jeans e um par de botas Frye em uma turquesa funky com adornos vermelhos. Ainda não tinha recuperado meu anel de volta com Benny, e fiz uma nota mental para lhe perguntar a respeito.
Usava uma grande bolsa italiana de ouro, uma profunda pedra de coral vermelho da costa de Amalfi. O Coral representa a longa vida e boa sorte. Tive a primeira. Eu faria uso de alguma desta última. Eu completava meu traje com uma jaqueta de couro de cor amarela que comprei durante minha última viagem a Florença. Sim, a viagem foi neste século. Tirei umas férias na Itália em outubro passado no meu aniversário. Infelizmente todos meus velhos amigos tinham morrido fazia duzentos anos. O tempo passa. A gente que me importa envelhece e morre. Sigo sendo a mesma. Como já disse, essa é minha cruz.
Antes de sair do apartamento fiz uma gaiola para o Gunther de um aquário vazio e um pedaço de tela da janela. Coloquei uma blusa de seda velha, para que se acomode. Acrescentei um pequeno recipiente de água, e algumas sementes de girassol. Depois que despertei de meu sono, eu tinha elaborado e ordenei a casa roedora mais formosa que pude fazer, roupa de cama, mantimentos e super luxo. Só o melhor para meu pequeno indivíduo. Deixei que se sentasse em meu ombro enquanto eu trabalhava na equipe. Mas a diferença de Schneibel, eu não podia levá-lo à cidade comigo. Ter uma cabeça de rato, saindo por um bolso, provavelmente provocaria um pânico no metrô. Por outro lado, tratava-se de Nova York. Talvez ninguém se desse conta. De qualquer maneira, eu não me sentia inclinada a ser conhecida como a garota com o rato branco. Assim, lhe disse adeus, disse-lhe que fosse um bom menino enquanto não estava e saí do apartamento.
Mas não antes de fazer uma coisa mais. Peguei o cheque de caixa de $ 50 milhões de meu bolso da calça e o deixei na gaveta de minha mesa do computador. No centro da cidade, no metrô, passei em revista o que encontrei durante meu tempo em linha durante as horas antes do amanhecer. Fiz uma busca no diretório inverso dos números de telefone que eu tirei do de Boaventura. Os telefonemas eram de algum lugar na Geórgia, no sul da Rússia, não o Estado Peachtree. Pensei que esses números conectavam a base de Boaventura ou ao escritório. E tinha me equivocado a respeito dos números locais. Uma conexão a um serviço de limusine, sem dúvida quando Boaventura fez sua saída da cidade. Esse fato abriu uma lata de vermes. O que tinha feito? Tomou uma limusine para o loft de Schneibel e pediu ao condutor que esperasse enquanto jogava Lizzie Borden? Encontrou Sam Bockerie ali? O General Mosquito tinha matado Schneibel e passou pelo sangue para recolher a sua coleção de arte?
Decidi que teria que ver a Boaventura mesmo, para obter as respostas. E falando de ter sorte, o código 570 foi um golpe direto. O diretório me deu uma direção na Avenida Tunkhannock em Exeter, Pensilvânia. Bingo.
A chamada no identificador, resultou ser de um serviço de automóveis, provavelmente confirmando uma coleta regular. Eu ainda tinha que averiguar se alguém tinha tomado esse serviço depois de matar a Issa e Tanya... levando $ 250 milhões em diamantes brutos. Esperava que fosse Bockerie. Imaginei se a pessoa que agarrou não poderia ser Darius.
Ao subir às escadas do metrô ao lado do edifício Flatiron, a neve cobria minhas bochechas como suaves beijos, mas o vento era frio, suficiente para me fazer tremer. À medida que pressionava seus dedos de gelo ao redor de meu pescoço, recordei com toda claridade os dedos que tinham cavado cruelmente em minha carne a noite anterior.
Durante todo o caminho até aqui, tratei de tirar de minha cabeça essas coisas, assim como as coisas que precisava discutir com J e as coisas que tinha que manter para mim mesma. Devia lhe dizer a respeito dos números de telefone que copiei de um telefone de Boaventura? Conhecia Louis? Eu não ia delatar se Benny não o fez. Estaria zangado pelo homem morto? Provavelmente. Acreditava que Benny ou eu o tínhamos feito? Provavelmente. Parecia ter uma opinião muito baixa de nós, especialmente de mim. Poderia me dar alguma informação sobre quem matou Schneibel? Sabe inclusive que Schneibel estava morto? Sabe quem matou a Issa e Tanya? Seguia pensando (e eu prefiro não pensar nisso), tinha sido uma noite de quatro corpos. Um tremendo massacre. Não tinha visto tanto massacre desde a Páscoa de 1916, e que foi um conjunto totalmente diferente das circunstâncias. Maldito seja o Negro e o fogo. Não perdoo ou esqueço facilmente, e não troco minha lealdade. Nunca.
Estes pensamentos corriam por minha mente enquanto tomava o lento e antiquado elevador Flatiron a "meu" escritório, onde não tinha passado tanto como um minuto desde que começou toda esta tarefa. Quando entrei, J estava em frente à janela, igual à primeira vez que o vi. Sua postura era rígida como um pau, com a roupa impecavelmente limpa, com a camisa recém engomada, sua calça com dobras de grande nitidez, seus sapatos lustrados. Ninguém podia negar o fato de que ele era militar. Meu estômago cambaleou e cada músculo de meu corpo se esticou. Eu tinha estado furiosa com este homem e odiava a forma com que me tinha tratado. Tínhamos grunhido um com o outro como dois cães urinando na mesma árvore. Minha reação veio diretamente de meu plexo solar. Intelecto não tem nada que ver com o amor ou o ódio entre duas pessoas, essa é a verdade.
- Hermes, - disse e sua voz estava cansada, - tome assento. – Não parecia seu primeiro golpe. Bom, isso foi uma vantagem.
Tirei a jaqueta e a deslizei em uma cadeira. Eu não tinha escrito um relatório sobre a noite anterior. Perguntei-me se deveria havê-lo feito. Mas eu teria que mentir muito. J se aproximou e se sentou na beirada da mesa. Algo tinha mudado nele e eu podia ver na forma em que me olhou. A ira e a hostilidade estavam ausentes. Suas emoções estavam fechadas ainda abaixo e ele ainda tinha os olhos gelados. Mas agora recordava a um jovem Gregory Peck nesse velho filme Matar a um rouxinol: alto e magro, incorruptível, honesto. É obvio, ele poderia ser um gênio na manipulação, para jogar com minhas emoções como um titeriteiro.
Começou a falar, sua voz baixa e clássica.
- Antes de qualquer coisa, quero dizer que tanto como me opus à criação da equipe Darkwing, admito que, sem você, provavelmente não conheceríamos as informações que conhecemos agora. Para ser sincero, a agência não conseguira levar alguém a Boaventura antes da entrega ontem à noite. Supunha-se que iam estar ali. Comunicações sujas. Se você e Benny não tivessem seguido a pista desses homens a Jersey, teríamos falhado por completo.
- Ah, sinto-o a respeito da vítima, - disse-lhe. Não soava como se ele soubesse de Louis. Melhor assim. Se Benny queria lhe dizer, era seu negócio. Sua voz era tranquilizadora.
- Você fez o que tinha que fazer. Não estamos jogando pelas normas aqui. Estamos jogando para ganhar. Temos que ganhar. Não há alternativa. Contamos com os outros dois mensageiros de diamantes com vida e bem. Estão, sem dúvida, apavorados pelo que viram quando irromperam na casa. Nem sequer trataram de manter oculto o que sabem. Só nunca querem ver os demônios do inferno de novo. – J me deu um meio sorriso divertido, a metade careta quando ele disse isso. Tinha visto um demônio do inferno também. Eu me movi incômoda em meu assento. – Deram-nos nomes e direções dos membros da célula terrorista que estava atrás da operação com Boaventura. Sabíamos já há algum tempo que as armas vinham dentro de um contêiner no porto do Newark. Agora sabemos algo mais e sim, suspeitava-o desde o começo.
-O que é isso? – perguntei, minha voz soou com medo.
Levantou-se e voltou para a janela, olhando de noite.
- A arma é o que eles chamam de uma mala bomba nuclear e o relógio está em marcha, Srta. Urbano. – ficou em silêncio por um momento enquanto suas palavras se afundaram. Logo se voltou para mim de novo. – Nosso plano é seguir aos terroristas e a caminhonete. É um risco. É de tomar toda a operação até o último. Mas se os agarramos e não perdemos nenhum, poderíamos chegar e tomar a arma antes que saibam o que os atacou. Temos que nos assegurar de chegarmos ao contêiner ao mesmo tempo que eles. Nossa suspeita é que vão carregar a arma em um caminhão para sair do porto, transladá-lo em uma ambulância e em carro até Manhattan, ou permanecer no lado de Jersey se os túneis forem muito bem custodiados. Temos que detê-los quando chegarem ao contêiner. Não antes e, se Deus nos ajudar, não depois.
Meu pulso estava disparando e me senti como se fosse começar a suar.
- Estamos? – Perguntei-lhe com urgência-. A quem te refere com conosco? Você e a agência?
J me dirigiu um olhar largo e duro.
- Você e eu. E não só você, a senhorita Polycarp e o Senhor O'Reilly também. Toda a equipe Darkwing. Você provou. Tem minha total confiança. Obteve-a quando entregou os mensageiros, por assim dizê-lo. – Quase se pôs a rir, mas se deteve antes que realmente risse. Suponho que isso foi o mais perto que J chegou a uma brincadeira.
- Quando isto vai acontecer?
- Não sabemos com certeza. Talvez esta noite. Talvez amanhã. Recolhemos alguns comentários que os objetivos de amanhã, assim acredito que esse é o cenário mais provável, posso-lhes assegurar que nossa gente está em seu lugar. Todos os terroristas estão sendo vigiados 24 horas. Estamos vigiando sua casa de segurança no Englewood Cliffs, Nova Jersey. Logo que comecem a ir para o porto, nós podemos lhe dar. Senhorita Polycarp, e o Senhor O'Reilly em seu telefone celular. Necessitamos de você para chegar ao porto da forma mais rápida que possa. Têm que percorrer umas vinte e cinco milhas para chegar ao porto de Newark. Dependendo do tempo e do tráfego, lhes levará não menos de quarenta minutos. Tem um prazo máximo de trinta minutos para estar ali.
Interrompi-lhe:
- Sabe que a única maneira de chegar tão rápido de Manhattan é... É...
- Voando. Eu sei. Olhe, estamos seguros de que não podem arriscar-se a entrar no porto durante o dia. Nossa informação apontou que isto vai acontecer de noite. Temos um plano de segurança à luz do dia se nos equivocarmos. Mas se alguma vez necessitávamos uma operação da equipe Darwing, agora é o momento.
Levantou-se e se aproximou de uma apresentação no Power Point e se voltou para ele. Uma tela, que tinha sido criada no lado oposto da mesa, iluminada com um mapa marcando o porto do Newark Terminal de Contêineres. Tomou uma ponteira laser.
- Aqui. – Disse-, são os grandes de cor amarela, chamados "Portais". São dispositivos de sistema de detecção passiva que exploram em busca de explosivos, em particular os nucleares. Nenhum veículo pode sair do Terminal de Contêineres, sem passar por eles. No outro extremo de cada portal há um semáforo. Se o veículo estiver limpo, a luz é verde. Se tratar de cor vermelha, o veículo deve parar e esperar um funcionário da alfândega. – Obviamente, os terroristas não vão deter-se. Teremos homens estacionados em uma posição à prova de falhas, a equipe Darkwing deve ser capaz de deter os terroristas quando chegarem a seu contêiner. Mas nosso plano é que todos vocês, os três vampiros estejam esperando perto da entrada do porto, aqui. – Ele moveu o ponteiro laser. – Está na Rua Kellogg. – Fez clique em uma foto. – Isto é o que parece. Se forem capazes de reconhecer, que foram ótimas. Entretanto, neste momento que é muito arriscado. Informarei a você por telefone celular quando os terroristas estiverem em movimento. Temos dispositivos de localização plantados em todos seus veículos. Alguma pergunta?
A cabeça me dava voltas. Eu não sabia como chegar às perguntas com suficiente rapidez.
- Quer dizer que querem que deixemos que os terroristas cheguem efetivamente diante do armazém? Só estamos seguindo-os, verdade?
Assentiu com a cabeça e continuou:
- E o que quer que façamos quando os terroristas cheguem ao armazém?
- Nós tomaremos conta deles.
Senti uma grande ansiedade sobre mim. J me dizia que temos que matar a estes homens depois de que nos conduzissem à bomba? Depois de tudo, Darius disse que sua gente tinha a intenção de fazer precisamente isso. Eu não queria interpretar mal o seu significado, assim que lhe perguntei diretamente:
- Quer dizer pormos fim neles?
Elegeu cuidadosamente suas palavras.
- Essa será uma decisão sobre o terreno. Idealmente nós gostaríamos de interrogá-los. O que passe no encontro, entretanto, é imprevisível. Não devem ter a oportunidade de usar um dispositivo de detonação. Se estabelecermos uma emboscada com armas convencionais, poderiam pressionar o botão. Entretanto, se a Equipe Darkwing se abater sobre eles... bom, se fizerem algo antes morrer, deveria ser uma oração por sua alma imortal.
Todo meu corpo vibrava com tensão. Estava nervosa, com a mesma tensão de uma corda de piano.
- J, esta é uma tremenda responsabilidade, que está dando a três vampiros, que são conhecidos por não serem as criaturas mais confiáveis do mundo. Mais à frente desse feito, um dos três é um aspirante gay a bailarina da Broadway, uma é uma loira boba de Branson, Missouri, e a outra é... Bom, eu. Agora, me estás dizendo que as vidas de centenas de milhares de pessoas dependem de nós?
- Milhões provavelmente.
- Oh, isso é simplesmente genial. – disse-lhe, começando a enlouquecer. – E que... que... – Eu gaguejava. – O que acontece com Boaventura?
- O que tem? – J perguntou, como se ele não pudesse entender minha pergunta.
- Onde está? O que quer que faça com ele? – Eu estava começando a soar frenética.
- Boaventura deixou Manhattan. Quanto ao que vais fazer com ele, por agora, ao menos, nada. Está fora disto. – disse J com uma finalidade que indicava que esta parte da conversa tinha terminado.
- Mas... – espetei, - ele matou Schneibel. – Eu me pus de pé e realmente me retorci as mãos, foi muito exagerado.
- Srta. Urbano, controle-se, - disse. – Schneibel está morto, volte a sentar. Isso é tudo o que sabemos. Não sabemos quem o matou.
Sentei-me, mas não podia ficar quieta.
- Tem que ser Boaventura. Eu sei. E agora tem a coleção de Schneibel. J, por favor, isto é uma coisa muito má.
- Olhe, - disse, inclinando-se sobre a mesa com os nódulos e empurrando a mandíbula para mim. – Uma bomba nuclear é algo mau. Esqueça de Boaventura. Ele não é parte disto. Tudo do que deve preocupar-se neste momento é em deter os terroristas.
Eu não parecia ser capaz de deixar o que tinha passado com Boaventura ir. Talvez fosse mais fácil de tratar que o potencial de uma bomba destruindo a maior parte de Nova York.
- J mas, o que aconteceu a Issa e Tanya?, já sabe, empregados de Boaventura. J estava claramente irritado comigo.
- Não terá que preocupar-se com eles. – disse com brutalidade.
- Mas, quem os matou? – Perguntei-lhe.
- Srta. Urbano, pela última vez, não importa. Não tem nada que ver contigo. Deixe ir.
Eu ainda tinha perguntas, eu não estava disposta a deixá-lo ir. Eu havia passado por o inferno nas vinte e quatro horas anteriores e estava cansada de que J não prestasse atenção ao que eu pensava que era importante. Não mereço respostas? Eu não era suficientemente importante? Segui adiante com outra pergunta:
- Bom o que acontece com os diamantes? Não foi culpa de Benny, já sabe.
- Basta. O joalheiro está assegurado contra a perda, inclusive se Boaventura cobrar os 200 milhões de dólares. Você, certamente, pode retornar sua parte.
Tinha-me esquecido do cheque de caixa que Benny me deu. Tinha-o posto na gaveta da mesa do computador. Ontem à noite. Parecia ter ocorrido há cem anos. Meus velhos hábitos, de mentir e de enganar ressurgiram antes de pensar no que estava fazendo. Disse-lhe:
- Ah, temo que não possa devolvê-lo. Não o tenho. Eu estava inconsciente e atada. Quando despertei, o cheque tinha ido. Eu não sei quem pegou. – Nesse momento eu não podia explicar por que havia mentido, nem por que fiquei com o cheque. Talvez o fizesse porque J estava em controle de todo o resto e eu podia controlar isto. E talvez o fizesse porque sabia que podia com segurança levar os US $ 50 milhões. Até o momento, J não havia respondido a nenhuma de minhas perguntas. Estava tão frustrada, que poderia gritar. Mas agora lhe perguntei uma que eu sabia que a J não lhe ia gostar.
- O que você sabe de Darius Bela Chi? Tinha algo que ver com isto?
O rosto de J se esticou. "Seus olhos se endureceram e brilhavam com uma luz frágil."
- Sabe mais disso que eu, hoje, não? Seu noivo poderia ter matado o guarda-costas de Boaventura e a empregada, senhorita Urbano. É o que faz para ganhar a vida. É possível que tenha estado atrás das comunicações sujas, o que nos manteve longe de Boaventura para interceptar aos mensageiros. Alguém nos nutriu de informação falsa, que as armas se encontravam já no Porto de Newark e ordenou a toda a equipe para ir. Bela Chi tem sua própria agenda, senhorita Urbano. Disse-lhe isso. – J estava me gritando agora, com voz tremente. – E para seu bem, - gritou, - "pelo bem de todos, mantenha-se afastada dele". Agora pode ir. – Ele se voltou, foi para o escritório e fechou a porta.
Não consegui fazer minha última pergunta. Para quem trabalhava Darius?
A primeira coisa que fiz quando saí do Edifício Flatiron foi proteger-me do vento contra o edifício e verificar o correio de voz em meu telefone celular. Quando escutei a voz de Darius, meu coração deu um salto.
Ouça noiva, disse. Só comprovando para ver como o está. Chame-me o antes possível. Pensando em ti. Tchau.
Depois de escutar a mensagem de Darius, perguntei-me o que significava realmente suas palavras. Minha psicanalista mulher começaria com o noiva. Entenderá como uma maneira informal de referir-se a uma amiga, ou ele pensa em mim como sua noiva? Pensando em ti. Isso foi definitivamente uma frase carregada de carinho. Ficou a noiva na coluna da relação. Contudo, não era como se eu o tivesse chamado para lhe dizer te amo tampouco, mas não era um assunto qualquer. Que demônios? Pensei e imediatamente com velocidade disquei seu número. Darius respondeu de primeira.
- Olá. É Daphne. Acabo de receber sua mensagem. Está bem?
- Claro que sim. Como está?
- Bastante bem... agora. O que aconteceu?
- Quer dar um passeio a Pensilvânia?
- Boaventura? Como sabe?
- Quer ir?
- Quando?
- Agora.
Oh, merda, pensei. Agora? Não posso deixar Manhattan. O que acontece se J me chamar para dizer que os terroristas estão em movimento?
- Não posso. – disse-lhe com uma voz cheia de pesar.
- Sim, pode. Prometo-lhe isso J não te chamará antes de voltar.
Uma vez mais, minha mente cambaleou. Parecia que Darius tinha escutado o meu encontro com J. Bom, talvez o tivesse feito.
- Olhe Darius, estamos em um telefone celular. Não posso dizer muito. Você sabe que com certeza que não vou estar disponível esta noite? – Seria fantástico se pudesse ir. Tinha muita vontade de conseguir esses totens xamã e a arte negra de Boaventura. E eu realmente, realmente queria ver Darius.
- Não iria se esta noite fosse a noite. Posso jurá-lo. O que está em jogo é muito grande. E sim, Daphne, eu sei mais do que J sabe. E outra coisa que sei: Acabo de receber uma chamada de que nada vai acontecer até manhã à noite, como muito em breve. Se não me acredita, telefona – você mesma.
Fiquei na rua, o telefone celular na orelha, pensando o que deve ser. Eu acreditava Darius. Ao final lhe disse:
- Bom, vou. Encontramo-nos em algum lugar?
- Sim. Na Rua 23, caminha pela Rua Broadway à livraria Strand na 12. Espera na esquina. Estou conduzindo um Ford Taurus, cor azul. Quinze minutos.
- Como sabe onde estou? – disse, sentindo-me balançada.
- Só uma conjetura, Daphy. – pôs-se a rir.
- Vemo-nos logo. Será melhor começar a caminhar. – disse e desligou.
Peguei um táxi. Pensando em que lá pelas onze da noite as botas matariam aos meus pés. Os homens não pensam nessas coisas. Não têm nem ideia. Em realidade, creio que os sapatos devem fazer você sentir-se bem.
Parei-me na esquina da Rua Doze, abraçava-me contra o frio. A neve se converteu em uma ligeira garoa e as ruas estavam molhadas pela chuva. Eu estava em um estado de grande ansiedade e fique andando ao redor, batendo o pé e escaneando o tráfego. Tinha um montão de perguntas para fazer a Darius. Eu não sabia se seria, ou poderia, ou deveria, ou se haveria resposta se fizesse. Fazer uma pergunta a Darius era como arrojar areia contra o vento.
O vento soprou de volta outra vez. Um obscuro Taurus azul se deteve. Entrei sentei no banco do passageiro. Apesar de todas minhas suspeitas sobre ele, meus hormônios dominaram minha razão. Inclinei-me e ele me deu um rápido beijo nos lábios. Cheirava a madeira de sândalo e cítricos. Sua longa cabeleira estava limpa, com o rosto recém barbeado, seus musculosos braços e o peito definidos por um pulôver de Ralph Lauren em caxemira negra. Levava um pendente de nativo americano, no que pendurava uma garra de urso de uma cadeia curta e adornada com uma parte de turquesa. Tive que admitir que estava bonito. Não é de estranhar que meu cérebro não funcionava muito bem ao seu redor.
- Ouça, - disse. – É bom ver-te. – Saiu do tráfego e depois de algumas manobras para chegar a uma rua em direção ao oeste, dirigiu-se para o túnel Lincoln em Midtown.
- Hei, você também. – Disse-lhe, de repente sorrindo como uma idiota. Eu disse para mim mesma ser legal, respirei fundo e disse:
- Que tão longe está Exceter, Pensilvânia?
Pôs-se a rir.
- Imaginei que saberia onde foi Boaventura. Ele está só a três horas de distância, talvez menos. Estaremos ali às dez.
- Não deveríamos falar de algum tipo de plano antes que atire para cima da entrada e ir bater na porta principal? Quero dizer. Eu sei por que quero ir ali. Eu não sei por que você o faz.
- Por que quer ir? – perguntou, evitando minha pergunta.
- Acredito que ele matou e tomou a arte de bruxaria da Nova Guiné de Schneibel que lhe falei. Tenho a intenção de recuperá-los. E você?
- Tenho alguns assuntos pendentes com ele, - disse Darius, sua mandíbula ficou tensa e seus olhos se deslizaram para os meus e voltou a olhar à frente.
Obviamente não ia me dizer nada. Senti que não podia confiar nele de novo. Fiquei muito tranquila e ficamos dessa maneira através do túnel. Pouco depois que saiu de Nova Jersey, o horizonte iluminado de Manhattan se estendeu diante nós no outro lado do Hudson. Olhei para o lugar onde as Torres as Gêmeas uma vez estiveram. Lembrei-me de que Darius e eu estávamos trabalhando no mesmo lado para evitar outra tragédia como essa.
- Darius, - disse-lhe. – Tenho que lhe perguntar algo. Vai responder- me?
Enquanto nos dirigíamos através do tráfego pesado para a Rota 3, que nos levaria para o oeste, Darius manteve seus olhos na estrada quando respondeu.
- Tentarei, Daphne. Não posso te prometer nada. Depende. Mas de todos modos pergunta. – Sua voz era suave.
- Disse que chegou a ir ao apartamento de Boaventura ontem à noite, verdade?
- Sim, disse isso. E sim, entrei. – disse e me olhou.
- Disse que faria o que tivesse que fazer verdade?
- Sim, - disse Darius e não adicionou nada. Soava como se estivesse sendo interrogado em um estrado das testemunhas e eu era o promotor.
Respirei profundamente e perguntei:
- Matou a Issa e Tanya?
- Não, - disse. E isso foi tudo, simplesmente não. Era o que eu queria ouvir, mas era verdade? Segui:
- Estava ali quando foram assassinados?
Ele não respondeu rapidamente. Pôs o carro no controle de cruzeiro e brincou ao redor de um minuto. Então ele me olhou fixamente.
- Sim, eu estava ali. – Fiquei boquiaberta. – Mas não houve nada que pudesse fazer para salvá-los. – agregou.
Minha voz era mais forte, mais insistente, quando lhe perguntei:
- Sabe quem os matou?
- Sim. – disse com uma voz plana e monótona.
- Bom quem? Diga-me, Darius!
Ele se negou a olhar em minha direção, apesar de que me tinha aproximado dele e minha cara estava a poucos centímetros de distância. Ele disse:
-Não posso responder a isso. Pergunta seguinte.
Senti-me doente por dentro. Então lhe perguntei:
- Pegou os diamantes?
- Não, Daphne, não peguei nenhum diamante. E digo com toda honestidade que nunca vi um diamante, uma esmeralda, qualquer tipo de jóia que seja. Não me passa a prata tampouco.
Não parecia saber a respeito da valise que faltava. Segui:
- Pode me dizer agora por que precisava conseguir entrar no apartamento de Boaventura? – Eu esperava que me desse uma resposta que eu acreditasse.
Olhou-me então e de repente sorriu. Isso me deixou completamente despreparada.
- Por que sorri? – Disse-lhe.
- Noiva, de onde tiraste a direção de Boaventura?
Franzi o cenho. Por que me pergunta isso?
- De um diretório, identificando os números de telefone que encontrei em marcação rápida do telefone da sala de Boaventura.
- Bingo! Eu também.
Senti que tinha que conectar os pontos.
- Quer dizer que precisava entrar no apartamento para obter os números de telefone?
- Entre outras coisas.
Sim, pensei e não tinha intenção de me falar dessas outras coisas. Ele esperava que eu ficasse satisfeita com uma pequena parte da verdade. Senti-me ferida por todos os jogos de Darius, embora me dissesse que não devia deixar que eles fizessem um número sobre mim.
- Darius, não sou estúpida. Não terias que ir ali pelos números de telefone. E está me dizendo que nenhuma das agências de inteligência dos EE.UU., saberiam a direção de Boaventura no país?
- Isso é exatamente o que estou lhe dizendo. Daphne, minha agência não o sabia. Nem sequer sabia que tinha uma casa de campo nos EE.UU. até que o mencionei a ti e peguei a conversa com o dispositivo que você plantou. Isso não é tão louco como pensa. Ele poderia estar utilizando um lugar que pertence a outra pessoa. Poderia haver comprado com um advogado e uma empresa fictícia. Creia-me, Exeter, Pensilvânia, não é um povoado onde os traficantes de armas internacionais normalmente se escondem. Não sei o que está fazendo ali ou por que foi para lá. Mas sei que está ali. Isso é tudo o que me importa.
- Sabe me dizer se trouxe um caminhão ou um furgão? Sabe se ele poderia haver trazido uma coleção de arte com ele? – Pressionei.
- Não, não tive informação acerca disso. Lamento.
Fez um som desgostoso, algo assim como "bah". E disse:
- Você age como se soubesse de tudo.
Levantou as sobrancelhas e me olhou.
- Detecto uma certa hostilidade, senhorita Urbano? Como questão de fecho, só sei o que tenho que saber. Não me importa nada mais. E quanto a arte, não era só uma falsa oferta a configurar? E por que se preocupa tanto de que Boaventura a tenha?
- Em primeiro lugar, o acordo não era por uma falsificação, - disse com tristeza em minha voz. Expliquei a Darius sobre a coleção de Schneibel. Disse-lhe que Boaventura poderia utilizar as estátuas para dobrar a vontade de outros.
Boaventura poderia adoecer a outros se não fizessem o que ele queria, poderia, inclusive, matar sem mover um dedo. Que outra coisa poderia fazer? Eu não estava segura. Talvez algum tipo de hipnose de massas que poderia dar-lhe centos de seguidores, ou até milhões. Boaventura poderia ser o rei de um país, e isso não seria descabelado em absoluto. Saddam Hussein do Iraque controlava sem magia negra. Mas com as máscaras, Boaventura algum dia poderia conquistar o mundo. Quando terminei de falar, vi a reação de Darius. J não acreditava que essas estátuas e máscaras tivessem nenhum poder. Perguntava-me como ia reagir Darius.
- Bom, - disse, quando terminei meu relato, - tenho a intenção de destruir a arte, se puder. Quer me ajudar a fazê-lo? – Darius me havia escutado com muita atenção.
- Se estas coisas podem fazer o que diz que podem fazer...
- Elas podem Darius, podem fazê-lo. Eu acredito que não sabe, mas há poderes escuros, os quais existem, Darius. Isso eu sei.
- Não duvido do que diz Daphne. Como disse Shakespeare, Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a sua filosofia. Vi muito mal, para não acreditar que ao menos algo disso não seja humano. Sei que há poderes ocultos. Sei que há fantasmas. – deteve-se ali, e logo disse: - E eu sei que há vampiros.
Senti que tinha que responder com cuidado.
- Talvez os haja, Darius. Pelo menos vou manter uma mente aberta a respeito.
Impedi a minha voz de tremer, mas suas palavras eram tão cheias de ódio e o aborrecimento quando ele disse aquilo, isso enviou uma dor aguda que disparou em meu coração. Sim, ele odiava os vampiros, me odiava e a meus seres queridos. Não podia olhá-lo. Sentia lágrimas em meus olhos. Estava tentando manter a minha respiração. Mas depois que terminou de dizê-lo, ele se inclinou e tomou minha mão entre as suas.
- Você têm frio, - disse. – Vou aquecer você.
Manteve uma mão no volante, pôs o outro braço pelos meus ombros, puxando-me, aproximando-se de mim como fazem os adolescentes. Eu me aconcheguei contra ele e pus minha cabeça em seu ombro. Viajamos toda a noite, nossos corpos apertados e os dedos entrecruzados.

Capítulo 12

Geada à meia-noite



Conduzindo para o oeste, sentia-me mais feliz do que tinha estado durante um tempo muito longo, mas em meu gozo subjazia a ansiedade. Concentrei-me no momento, porque sabia que os bons sentimentos não podiam durar. Darius odiava aos vampiros. Eu era um vampiro.
Cedo ou tarde a força irresistível e o objeto imóvel se encontrariam. Meu coração ficaria em ruínas, isso eu sabia. Eu não sabia o quanto seria ruim a colisão. Depois de uma hora ou assim cruzou o rio na Pensilvânia e se dirigiu através da estação de pedágio na cerâmica Della Water Gap. Suspirei e me sentei.
- Temos que falar, - disse-lhe. – Como vamos fazer isto? Obviamente tenho que pensar no lugar e eliminar mais de uma dúzia de caixas de arte, que variam em tamanho de uma vintena a mais de cinquenta quilos cada uma. E talvez nem seja possível? E não sei quem mais está lá além de Boaventura e da Catalina. Tem alguma ideia?
- Sempre tenho ideias. – disse Darius, fazendo uma imitação do Groucho Marx movendo as sobrancelhas.
- Falo sério. – disse, lhe dando uma cotovelada brincalhona em suas costelas.
- Muito bem. Vou ser bom. Sim, tenho uma ideia, ou talvez duas, - disse enquanto nosso Taurus azul se deslizava pela noite profunda na Pensilvânia. Vi a saída do Stroudsburg. Ocorreu-me que eu poderia necessitar uma parada de descanso antes. Darius continuou falando: - Plano A. Em primeiro lugar temos o caso da articulação. – disse, usando um acento do Brooklyn muito ruim.
- Você sabe, eu não acredito que seja o suficientemente sério. – disse. – Muito bem, olhamos ao nosso redor e encontramos uma maneira de entrar. Logo eu vou nas pontas dos pés pelo interior em busca de uma grande pilha de caixas que contêm elementos de bruxaria. Quando as encontrar, eu vou fazer um ruído enorme ao levá-las até a janela e então, o quê? Necessitamos um caminhão ou uma caminhonete. Maldita seja, teria que ter pensado nisto antes de sairmos.
Sentia-me deprimida. Tinha me enfocado em meus sentimentos por Darius e foi um golpe total sobre o que deve ser o principal em meus pensamentos. Se esta expedição me trazia pena, seria por minhas más decisões, não má sorte.
- Daphy, não se preocupe, - disse Darius, olhando por cima de mim. – Fora da caixa. Se a arte estiver aí e não podemos sair, qual é a alternativa?
Sentia-me frustrada, e Darius "interrogando" tinha um pouco de condescendência. Comecei a me zangar.
- Por que não me diz isso simplesmente? Não estou de humor para as vinte perguntas.
- Hei, estou tratando de ser agradável, - disse. – A melhor maneira de desfazer-se de algo "in situ" é queimá-lo onde está.
- Merda. Isso é importante. E o que acontece com Boaventura? O que acontece com essa mulher que está com ele, Catalina? O que acontece se tem algum pessoal contratado? Ou mascotes? Catalina tem um gato.
Minhas preocupações nadaram através de minha mente e, para dizer a verdade, tenho um medo instintivo ao fogo em qualquer lugar, salvo em uma acolhedora lareira. É minha natureza animal. Todo o conceito da fixação de um raivoso inferno me dava o início de um ataque de pânico. Darius devia saber visto o medo na minha cara.
- Daphy, fiz isto antes. Posso dirigi-lo. Se a arte estiver aí, vamos atacar a todos fora da casa. Então vamos à tocha. Isso funciona para você?
Uma vez mais me senti como um espião que não sabia nada de meu ofício. Durante séculos tinha gravitado em um mundo boêmio. Sou uma perita em escritores ébrios, resgatando pintores suicidas ou reconfortando aos maus atores que eram criticados fortemente, mas além de alguns combates de ruas com os panteras, minha atividade criminal tinha sido em grande medida pelo tipo de colarinho branco. Odiava me sentir estúpida, e lhe disse com irritação:
- Ainda há grandes buracos neste plano para conduzir um caminhão através, mas posso ir junto com ele. Agora, Darius, cabe a você. E quanto a sua razão para vir aqui?
- Enquanto que está procurando a arte, eu me encarrego de meu negócio. Não se preocupe por isso.
- Pelo amor de Deus! – Explodi. – Se voltar a escutar não se preocupe por isso, outra vez, digo ao diabo com tudo. Olhe, vou estar naquela casa contigo. O que aconteceu com aquele discurso que me deu a respeito de cuidar um do outro de não entrar em fogo cruzado? Sobre o que tínhamos que compartilhar a informação para que possamos cooperar? Por que eu só dou e você só toma? – O vapor saía de meus ouvidos quando terminei.
- Whoa, Daphne. Sinto muito. Eu não sabia que era uma grande coisa para ti.
- Sim, é um negócio muito grande. E acredito que sabia. Agora seja correto comigo.
- Olhe, não é complexo. Minha agência está preocupada de que Boaventura sabe de algo que nós ignoramos e é a criação de outra base de operações para suas armas. Quero dizer ninguém imaginava Búfalo, Nova York, como sede de uma célula da Al Qaeda, mas o era. Voltar a princípios de 1970, os meteorologistas tinham casas de segurança na Pensilvânia, assim não é fora do reino da possibilidade. Ia plantar alguns dispositivos de áudio. Mas queimar sua casa me salvará de um montão de espionagem. Se Boaventura deixar a área depois, então não era mais que de férias. Se voltar para comandar, poderemos deduzir que ele tem razões para ficar. Qual é a razão? Por que foi para ali, em primeiro lugar? Não é um centro turístico. Não, algo mais está acontecendo, além de R e R.
Tudo o que Darius explicou soava acreditável. Por que, em meu foro interno, não acreditava? Meu instinto me disse que não estava me dizendo tudo e me perguntei o que estava deixando de lado.
- Assim é isso? – Disse-lhe com cepticismo. – É por isso você teve que correr para cá esta noite, quando temos uma situação de crise em Nova York?
- Há uma janela de oportunidade, isso é tudo. Temos até amanhã pelo menos, antes que haja ação na cidade. Daphy e, se por acaso você não adivinhou, eu tinha que ver você. – Tirou uma mão do volante e me acariciou mais uma vez. – Eu gosto de sentir quando me toca. Eu não posso ser capaz de manter-me afastado de ti. Assim, que me ocorreu uma maneira de passar um tempo juntos. – Colocou a mão no volante e olhou a estrada, e logo disse: - Agora, vamos completar os detalhes de nosso plano.
Eu queria que fosse verdade, que ele não podia ficar longe de mim, mas no fundo de minha memória uma luz de advertência piscava, me dizendo que Darius utilizava as palavras doces para me manipular. Entretanto, coincidia em que devíamos discutir a fundo os detalhes do que nos esperava, assim disse:
- E como vamos tirar às pessoas se queimarmos o lugar?
- Posso estabelecer um incêndio pequeno. Começa a gritar Fogo! Quando quem estiver na casa sair, me asseguro de que o resto se vá em fumaça de forma rápida, antes que os bombeiros possam chegar. Então não se arriscará a vida de ninguém.
- Parece muito fácil, - disse com uma grande quantidade de dúvidas.
- Nunca é fácil, - disse Darius. – Muitas coisas podem sair erradas. Mas eu sou bom no que faço. Vale a pena correr alguns riscos.
Tive que estar de acordo.
- Tem razão. – concordei. – Desfazer-se dos artefatos de Nova Guiné é algo digno de aproveitar a oportunidade, Darius. Sinto que é algo que tenho que fazer.
- Acredite Daphne, eu entendo. E faria quase qualquer coisa por você.
Olhei-o outra vez. Pensando quanto de seu carinho por mim era verdadeiro e quanto somente devia lhe ser útil? Desde o princípio ele tinha me usado de uma ou outra maneira. Nós tínhamos um sexo maravilhoso e não acho que ele tenha fingido o deleite. As coisas não eram tudo branco e preto com Darius, inclusive se ele pensasse que o eram. Então outra vez, que tão bem realmente o conhecia? Não bem, absolutamente.
Ele tirou seus olhos do caminho e me deu uma olhada.
- Aquele olhar que você me deu, não é uma boa. Daphne. Pensa que lhe dou uma linha, mas tenho sentimentos profundos por ti. Não fui capaz de te demonstrar que realmente me preocupo, mas talvez um dia possa. Depois de acabar com isto.
Olhei seu rosto nas luzes de piscadas dos carros que passavam. Ele estava triste e sério. Inclinei-me e beijei sua bochecha.
- Bem, e quanto ao plano B? O que acontece se não pudermos entrar? Ou que faremos se a arte não estiver ali e não conseguirmos queimar o lugar? Estava disposta a ajudar. Deveria ser mútuo.
Ele tocou meu cabelo.
- Bem, temos outra alternativa. Se não incendiarmos o lugar, colocarei os dispositivos de áudio e terei que fazer uma vigilância da disposição. E sei que seria mais seguro e mais fácil que o incêndio intencional. Será dentro e fora. Terá que distrair a Boaventura, farei minha parte e faremos um inferno ali. Soa bem?
- Soa muito bem. – Disse, mas muito dentro de mim não pensei que ia ser tão fácil.
Às vezes, um pequeno planejamento é melhor que nenhum planejamento. E essa noite Darius e eu não tínhamos um plano em absoluto para fazer frente aos fogos internos que começavam a acender-se furiosamente cada vez que nos tocávamos. Deveria ter recordado o mantra dos AA para manter-se distante dos desencadeadores que podem levar o alcoólatra a reincidir: A pessoas. Lugares. Deveria recordar que Darius e eu tínhamos decidido "parar" até que tudo isto acabasse. Sim, recordei-me de tudo isso antes que me metesse no mesmo carro com ele, fixava os olhos em seu corpo duro e cheirava o aroma tentador dele que ia diretamente ao cérebro antigo, límbico, que controla o desejo. Eu o faria, poderia, deveria. Mas não o fiz.
Fomos mais longe, no deserto, além de Stroudsburg e por cima da crista das montanhas dentadas que marca as zonas mais elevadas da Pensilvânia. A coxa de Darius estava pressionando minha coxa. O ar condicionado do automóvel foi um jato de ar quente, mas não estava gerando nem a décima parte do calor se acumulava dentro de mim.
Estávamos aconchegados na escuridão. O rádio estava sintonizado em músicas antigas. Ouvir John Cougar "Hurts So Good" fez-me pensar. Logo depois tocou Chicago com "Hard Habit to Break" e me empurrou mais perto dos pensamentos que estava tentando ignorar. Mas o argumento decisivo foi Estrangeiro com "I Wanna Know What Love Is" Quero que me ensine. Quero sentir o que é o amor, sei que pode me mostrar isso. No momento final crescendo, terminei, estava perdida. Olhei para Darius. Podia ler sua mente tão facilmente como ele podia ler a minha.
- Já sabe, - disse-lhe, - para chegar ao Boaventura às dez é muito em breve.
- Eu estava pensando o mesmo. – disse Darius.
- Sem dar lugar às dúvidas às dez horas todos na casa estarão acordados. Temos que chegar, por exemplo, à meia-noite. – Minha voz era tímida e lhe acariciava a coxa.
- Tem razão. Acredito que temos que esperar algumas horas. – respondeu.
- Tem alguma de suas ideias agora? – Disse-lhe e beijei sua bochecha.
- Podemos encontrar uma parada de caminhões e tomar uma xícara de café. – disse.
- Bom, viria bem um descanso, - respondi-lhe, logo ele vacilou.
- Ou podemos, - fez uma pausa dramática para o efeito, - procurar um Holiday Inn ou um Motel 6.
- Acredito que é uma ideia melhor. – disse-lhe em voz muito baixa. Olhei para ele e acariciei em seu regaço. Pude ver claramente que estava duro e preparado. – Acredito que quanto antes melhor.
Encontramos um Holiday Inn na seguinte saída. Darius parecia saber o assunto muito bem. Ele se deteve diante do escritório, entrou e logo estava de regresso com "a chave do quarto". Só se usam os cartões nestes dias, em menos de cinco minutos. Abrimos a porta, empurrou-me para o quarto e não se preocupou em acender a luz. Era suficiente a iluminação das lâmpadas no estacionamento que penetrava através das cortinas, jogando tudo em um resplendor suave e cinza. Darius deu duas voltas de chave na porta, e começamos a tirar a roupa. Isto quanto a nossa resolução comum de nos abster. Eu havia aguentado a fome de amor, durante tanto tempo que minha resistência era não só débil, mas também inexistente.
Nossa roupa foi com toda pressa para o chão aos nossos pés, ficamos nus, um frente ao outro. Tocamos um ao outro até que nossos corpos suavemente se reuniram com a sensação deliciosa de dois amantes se tocando o corpo inteiro, cara a cara, peito contra peito, ventre contra ventre, pele contra pele. Seus braços me atraíram mais a ele. Então, inesperadamente, um objeto de metal estava prensado dolorosamente em meu peito e me queimava a carne.
- Ouch, - gritei e o apartei. – Que diabos...
- Sinto muito. – disse Darius, e tirou um crucifixo de ouro grande, e o deixou sobre uma mesa. Tinha pedras preciosas, pelo menos três polegadas de comprimento, e pendia de uma corrente pesada, o crucifixo brilhava ainda na penumbra. Minha pele estava dolorosamente delicada onde me havia tocado.
Darius tomou-me outra vez em seus braços fortes, musculosos e me esqueci todo o resto, exceto o poder dele. Seus lábios tomaram os meus, sentindo-se duros e suaves ao mesmo tempo. Sua língua se esfregou contra meus dentes, empurrando e enchendo minha boca. Ele tinha sabor de hortelã e bosques de pinheiro. Beijou-me outra vez prolongado e acendeu o fogo latente em nosso interior. Darius me pegou e me levou para a cama mais próxima. Ele me deitou e me olhou enquanto descansava aí em minhas costas, meu negro cabelo espalhou-se pela cama.
- Você é tão formosa. – disse.
Ajoelhou-se junto à cama. Beijou meus peitos, beijou-me o estômago. Seus lábios se arrastaram até meu centro úmido, escuro e começaram a me fazer ofegar de prazer. Seus dedos jogavam com meus mamilos. Meus dedos estavam em seus cabelos suaves e mantinham a cabeça. Estava tonta com a sensação. Eu estava gemendo de prazer. Nunca queria pôr fim aos sentimentos.
Eu ofegava quando ele levantou a cabeça e se levantou, montou a cavalo sobre mim e meu corpo, com os joelhos na cama a ambos os lados das tíbias. Ele se sentou lentamente, tentadoramente. Fechei os olhos e esperei que seu pênis longo entrasse em mim. E assim o fez, quando Darius lançou um gemido longo e baixo. Fundiu-se profundamente a mim, unindo nossos corpos no beijo que somava nossas almas e fomos através dos céus, com o ritmo de nossos corpos nos movemos como um em uma dança eterna.
Chegamos ao clímax juntos, respirando com força e gritando de alegria e deleite. Logo se derrubou em cima de mim por um momento, antes de rodar e nos separamos, uma vez mais. Mas me sentia unida a ele ainda e apesar de todos meus raciocínios e dúvidas, tinha-me roubado o coração. Darius estava ali junto a mim, tocando nossos braços, sua mão sustentava a minha. Olhamo-nos em silêncio na penumbra do quarto. Logo disse:
- Nunca esperei isto. Eu nunca soube que poderia me sentir desta maneira. Ficamos em silêncio por um momento, logo Darius continuou:
- Daphne, eu não te prometo nada. Não porque não queira. Mas devido a que enquanto eu estou trabalhando é a minha prioridade, meu primeiro compromisso não pode ser para você. Não posso te pedir que entenda isso. Necessito que o aceite, porque neste momento não posso mudar.
- Darius, eu não sei se alguma vez poderei aceitar isso, mas não quero promessas vazias de ti. Alegro-me de que está sendo honesto comigo. – Mas por trás de minhas palavras se escondia a realidade de que eu não sabia se Darius poderia ser honesto comigo algum dia, e eu certamente não podia ser honesta com ele.
- Daphne, - Darius disse: - Sei que isto parece estúpido e talvez não acredite no amor a primeira vista, mas a primeira vez que te vi, caminhando pelo East Village, senti-me atraído por ti. Não tem sentido para mim. Eras uma estranha na rua, e, entretanto, acertou-me com uma força que não podia entender. Tratei de negá-lo e chamei a mim mesmo de louco. Depois eu não podia deixar de pensar em ti. Você para mim se converteu em uma obsessão, enchendo minhas fantasias, aparecendo em meus sonhos. Quando me aproximei diante da joalheria na Avenida Madison, eu não podia esperar para chegar perto de ti e te tocar. Você conhece o velho refrão, O coração tem razões que a razão desconhece. E eu acredito no destino e que estive te procurando toda minha vida. Pode seguir sendo um mistério por que estou destinado a estar contigo, mas eu vi muito nas esquinas destroçadas pela guerra deste mundo, para acreditar nos acidentes. Sobrevivi a coisas que deveriam me haver matado e foi quando todo mundo ao meu redor morreu. Tinha que haver uma razão e talvez fosse você.
Queria lhe dizer que tinha estado buscando-o toda minha vida também, mas não era certo. Ainda assim, eu também acreditava no destino e acordava com ele, que tudo o que nos uniu não foi um acidente. Há algum plano ideal para todas as coisas, uma mão divina dirigindo-o tudo e sim, vendo inclusive quando cai um pardal. Assim que lhe disse o que queria dizer do fundo de meu coração.
- Acredito que estávamos destinados a estar juntos, Darius Bela Chi. Talvez seja só por agora, só por esta noite, entretanto. Não posso dizer que será para sempre, porque sempre, sei, é muito tempo, muito tempo.
Voltou-se para mim e então me olhou. Eu lhe devolvi o olhar sem palavras, mas falamos um com outro com nossos olhos, sentindo a alegria em volta de nossos corpos, perto de nossos corações. As horas passaram em um abrir e fechar de olhos. Para chegar a Exeter antes da meia-noite, não podíamos nos demorar mais tempo. Nos vestimos, voltamos para carro e fomos, através da noite fria e indiferente.
Fern Hall, lia-se em uma placa em um pilar de pedra, não era nada como eu esperava. Encontrava-se muito longe no país, não tinha casas visíveis desde vários quilômetros ao redor. A névoa se levantava da paisagem pantanosa enquanto conduzíamos através de um túnel de engrossamento da noite. O limpador de para-brisa penteava para trás e para frente enquanto a névoa fechava até que só pudermos ver uns metros diante de nós. Então, sem aviso prévio, nossos faróis tinham iluminado o sinal de Fern Hall.
Darius e eu deixamos o carro estacionado ao lado da estrada. Descemos e Darius deu a volta até o porta-malas. Abriu-o e tirou uma mochila grande. Parecia que continha ferramentas, já que soavam quando o jogou sobre um ombro. Logo me entregou um suéter velho. Desde que o amarelo brilhante da jaqueta não era uma eleição de cor para os bons ladrões, deslizei o pulôver por cima de minha cabeça e era tão grande que me chegou na altura da coxa. Começamos pelo caminho de terra, sem falar e Darius me deu a mão, em uma compressão rápida e tranquilizadora. Nossos passos não faziam um som à medida que continuamos através da névoa pelo caminho sem pavimentar. Posso ver, inclusive no mais escuro, assim não tropecei. Darius, entretanto, amaldiçoou entre dentes quando seu pé tropeçou em uma pedra e quase caiu.
Depois de ter andado várias centenas de metros, a casa se elevava como um fantasma branco, umas poucas luzes, como velas acesas nas janelas do segundo piso. No centro da unidade a grama era alta, sem cortes e rígida. Agora rangia sob nossos pés, soava como bichinhos roendo ossos pequenos. O ar da noite cortava através de minhas roupas e me deixou com uma sensação de um medo frio, adormecido. Sob a névoa, nuvens cobriam a lua, dando uma difusão de pouca luz aos ramos de árvores nuas.
Estendi a mão e suavemente me agarrei no suéter escuro de Darius que vesti por cima de minha jaqueta como se o fossem atirar de mim por trás, como se a natureza estivesse dizendo: Não vá, não vá. A casa, quando chegamos o suficientemente perto para vê-la em sua totalidade, parecia velha e sem forças. A escuridão a cobria como uma mortalha. Uma grande praça rodeada pelas estátuas de ninfas era a fachada da casa, mas a maioria das esculturas rotas, convertendo-se em figuras estranhamente grotescas com os pontos que faltavam ou os braços. Em alguns lugares só um pedestal vazio de pé junto à praça descuidada. As ervas daninhas tinham crescido entre os paralelepípedos de terracota.
Tudo sobre Fern Hall estava silencioso e morto. O único que me deu uma pista sobre a vida no interior foi o multimilionário Mercedes elegante negro estacionado no centro da praça, sua cor era tão escura como as janelas do primeiro piso. Toda a cena estava empapada na escuridão e as sombras. Um gato cinza se deslizava ao longo da fundação e correu ao redor da esquina da casa, enquanto que um cão uivava em algum lugar muito longe e ouviu-se o pio de uma coruja. Comecei a tremer dos pés a cabeça. Um aroma de umidade e terra fresca se pegou a meu nariz. Era um aroma que captei na garganta e me recordou a um hotel diferente, um onde tinha estado faz muito tempo.
Entretanto, a casa tinha sido magnífica. Pude ver que era um desenho elegante, embora seu estuque estivesse caindo, e num balcão de ferro forjado faltavam algumas barras, e se afundou loucamente através da fachada do segundo piso. O teto inclinado de ardósia, era coroado por quatro enormes chaminés, uma em cada lado da casa. Pareciam cruéis dedos negros que queriam chegar até o céu escuro. As janelas eram altas e estreitas, com parte iluminada e magnífica... pelo menos supus que as janelas eram magníficas do tanto que pude ver delas detrás dos barrotes de ferro que cobriam cada uma do primeiro e segundo piso.
As barras pareciam novas e inquebráveis. Flanqueadas por pilares de pedra, a porta de entrada também era nova, de metal e não era das que caía a chutes. O Plano A era definitivamente impossível. Olhei para Darius. Ele me olhou.
- Plano B? – sussurrou.
Tirei o pulôver velho e o entreguei a Darius. Meteu-o na mochila. Alisei o cabelo, levantei o queixo e parti até a porta principal. Peguei a aldavra de bronze e bati. Tinha a forma da cabeça de um dragão. Enquanto tomava o anel de bronze, a porta se moveu, assustei-me. Estava só um pouco entreaberta. Isto quanto à segurança. Empurrei-a para abri-la. No interior, um amplo vestíbulo estava apagado, mas não estava completamente escuro. Pude ver escadas largas de um escuro bosque. Um assombroso vitral redondo formou uma cortina de fundo para quem subia as escadas para ascender, grandiosamente dividida em duas bandas opostas. Fiz gestos para Darius para chegar até a porta. Ele se uniu a mim.
- Vamos entrar. – sussurrei-lhe. Tive um mau pressentimento sobre tudo isto. Deu-me um pequeno empurrão. Não me movi. – Depois de você. – disse-lhe.
Darius empurrou a porta aberta e entrou na sala. Entrei atrás dele. O aroma de umidade e sujeira eram ainda mais forte dentro da casa. A nossa direita, portas chanfradas francesas duplas, havia um imenso salão formal. Contra a parede do fundo uma lâmpada de baixa potência queimada em um abajur da Tiffany na parte superior de um piano de cauda. Os móveis estofados de estilo vitoriano eram de cor vermelha escura e cômoda. Nada do que nos rodeava se moveu. Ninguém tinha estado aqui.
Entramos pelas portas francesas e cruzamos a sala de estar. Perto de um piano, uma porta estava aberta para revelar um curto corredor. Em seu extremo havia uma cozinha. Nossos pés emitiram um som de "clique" quando começamos a andar pelo corredor em um piso de madeira sem tapete. À exceção de nossos passos, toda a casa estava silenciosa como uma tumba. O teto da cozinha se levantava pelo menos dez pés por cima de nós. Uma das paredes da grande sala continha uma gigantesca lareira, seu aquecedor era negro e profundo, como uma boca aberta a espera de ser alimentada. Uma pia de granito dupla e balcões de granito se estendiam ao longo da parede exterior. A iluminação entrou pela janela horizontal sobre os contadores de uma lâmpada de segurança exterior. Pudemos ver suficientemente bem para caminhar através do espaço para uma porta ao outro extremo da cozinha.
A antiga porta de madeira de tábua estava fechada com cadeado. Não tinha por que não escrever um sinal que nos dissesse que era fora de limites. Pensei imediatamente que devia ser um armazém onde a arte da Nova Guiné foi escondida. Darius me olhou. Assenti com a cabeça.
Darius deixou a mochila e tirou um jogo de gazuas. A maioria dos cadeados eram fáceis de abrir e o abriu com tanta rapidez que escorregou e caiu ao chão com um ruído surdo.
- Merda! – sussurrou e olhou a seu redor atrás de mim, temeroso de que alguém o tivesse ouvido, apesar de que as paredes eram grossas e o primeiro piso da casa pareceu vazio.
Darius abriu a porta. Não havia nada atrás dela, só escuridão, proibindo o vazio no topo de uma íngreme escada que conduzia para a escuridão. A porta dava para o porão. Fluindo através da porta aberta, o aroma de sujeira me golpeou duro. Meu cérebro estava cheio, tratando de recordar onde me tinha cheirado esse particular aroma áspero, asfixiante antes. Darius guardou as gazuas em sua mochila, colocou-a de novo no ombro, e se moveu para frente como se estivesse disposto a descer pelas escadas.
- Espera! – Disse em voz baixa. – Não vai descer, certo?
- Sim. – disse.
- Não, não! Vamos voltar. Acredito que esta é uma péssima ideia. Sussurrei-lhe. Agarrei-lhe o braço, sustentando-o. – Vamos olhar lá em cima.
- Pode ficar aqui, se estiver com medo. – disse e suavemente me sacudiu.
Olhei ao redor da cozinha sombria com sua estufa, seis queimadores, panelas grandes e frigideiras penduradas em um rack no teto, a lareira, a caixa do relógio de luz com tampa preta. Todo o lugar me dava calafrios. Pareceu-me ouvir um gemido sobre minha cabeça. Todos meus instintos gritavam, Não faça isto! Mas eu lhe disse:
- Bom, irei contigo. – Eu não gostei de todo este esquema absolutamente. Tive que obrigar as minhas pernas a moverem-se através dessa porta maltratada, antiga e feia.
Darius começou a descer as escadas lentamente, pegou a parede, tratando de não fazer nenhum ruído. Eu estava atrás dele, minhas mãos sobre seus ombros. O ar estava tão úmido que mal se podia respirar. Estávamos na metade do caminho para baixo quando ouvi o chiado. Eu sabia o que era.
- Darius, espera! – Disse-lhe. – Ouvi os ratos! Há ratos por aqui. E não havia luz. – Inclusive meus olhos de morcego, não podiam ver na escuridão absoluta.
- Não se mova um minuto, - disse e colocou a mão em sua mochila.
Tirou uma lanterna Maglite, do tipo pesada e preta, com o eixo comprido que usavam os policiais, já que também pode ser uma arma. Acendeu-a e seguimos indo lentamente, um passo de cada vez, pelas escadas. O chiado era mais forte na parte inferior. Eu não gostei absolutamente. Em algum lugar afastado de meu cérebro uma lembrança estava tratando de emergir. O que era? Tinha que ver com os sons dos ratos, o aroma de sujeira, a pedra nas paredes. Justo nesse momento Darius iluminou o porão. Ali havia centenas de enormes ratos cinza-marrons que corriam da luz. A diferença do rato Gunther, lindo e pequeno de olhos rosados, tratava-se de ratos de rio, que são tão grandes como gatos e têm a boca cheia de dentes afiados de ratos para alimentar um apetite insaciável.
Darius iluminava. Empilhados contra a parede do fundo havia caixões de madeira. Não, não eram caixas pequenas que poderiam albergar a coleção de Nova Guiné. Elas eram inconfundíveis caixas largas retangulares: ataúdes. Dezenas de ataúdes estavam empilhadas até o teto. Então recordei o castelo da Transilvânia onde tinha visto tudo isto antes... Era a guarida de um vampiro.
- Darius, - sussurrei com urgência-, temos que sair daqui. – Peguei em seu braço.
Mas Darius tinha pego já uma barra de ferro de sua mochila e ia aproximando-se dos ataúdes, balançando sua lanterna de um lado a outro para afugentar aos ratos. Segui-o a contra gosto. Entregou-me a mochila e uma lanterna. Logo, utilizando ambas as mãos usou uma alavanca, deixamos um ataúde aberto. Gritei quando os ratos saíram de seu interior. Na parte inferior da caixa havia terra, úmida e argilosa. Darius abriu um pouco mais. À exceção dos ratos e a sujeira, estavam todos vazios. Queria sair daqui. Este era meu pesadelo pessoal vindo a me atormentar.
Darius, respirando pesadamente, com os ombros cansados, braços fortes aos flancos, voltou-se para mim. Sua longa cabeleira se soltou e soprou violentamente ao redor de sua cabeça enquanto um vento saiu de um nada e uivava a nosso redor. Darius fez girar sua cabeça da esquerda para a direita, os olhos arregalados à busca da fonte e deixou escapar um grito terrível em voz alta que nunca tinha ouvido dele antes.
- Ele está aqui! Ele está aqui! – tirou a mochila de minhas mãos e segurou a alavanca como uma arma com a outra.
Rapidamente me afastei quando eu gritei:
- Darius! – Olhou-me, mas seus olhos estavam desfocados e abertos, tudo o que pude ver, foi o branco ao seu redor. Ele não me via absolutamente. – Boaventura!
- Boaventura! – Uivou com essa voz estranha que se rompeu com algo parecido à loucura. Darius voltou freneticamente para um lado, logo para outro, como se estivesse procurando a fonte do vento estranho, terrível que atirou da roupa com a força do vendaval. O crucifixo ao redor do pescoço do Darius tinha saído do suéter e brilhava sobre o peito, que parecia possuir luz, pus-me a correr para a escada e logo que fui capaz de me manter por diante de Darius, que estava detrás de mim. Meu pensamento predominante era sair da casa. Eu não tinha medo por mim, eu estava aterrada pelo Darius, que parecia ter perdido a razão. Corri através da cozinha e o corredor, mas quando cheguei à porta da sala, detive-me e congelei. A lanterna se deslizou de minhas mãos e caiu ao chão com estrépito. Boaventura estava sentado no piano de cauda. Usava uma jaqueta de veludo preta e um lenço de seda branco. Catalina, com um vestido branco puro, estava pálida e flácida, no sofá vermelho, suas veias azuis se mostravam através de sua pele translúcida, seu cabelo dourado se estendia um ao redor de sua cara. Delicadas sapatilhas de balé de cetim cobriam seus pequenos pés.
Boaventura estava sentado ao piano, de costas a mim e não se voltou para minha presença. Em seu lugar os dedos se desabarem sobre as teclas, tocando os primeiros compassos da abertura da ópera Carmen de Bizet. As notas tocavam o tema Destino. Dá, dá, dá, dá, dum. Dum, dum. Repetiu-as várias vezes quando jogou a cabeça para trás e pôs-se a rir como louco. Depois parou de tocar bruscamente e fechou a tampa para baixo nas teclas. Voltou-se para me olhar.
- Bem-vindos à minha casa, - disse e cada sílaba ressonou com um pesado acento da Europa do Leste que ele tinha usado comigo antes. – Estou surpreso de lhe ver, minha querida senhorita Urbano. Pensei que foi... indisposta. Alegro-me de que não tenha se incomodado com um pouco do descanso na sala de exercícios. Peço desculpas, mas surgiu uma situação inesperada. Teria sido, além disso, inaceitável, inconveniente para você para presenciá-la. Todo o incidente foi lamentável, mas inevitável. – Ele sorriu com um sorriso horrível e atirou de sua capa ao seu redor, enquanto ele se agachou na banqueta do piano, parecendo-se mais que nunca a um sapo negro malévolo.
- Agora, apresente-me o seu amigo. – disse.
Darius saiu das sombras atrás de mim.
- Eu sou Darius Bela Chi. – anunciou em voz alta. Boaventura deu um salto ao ouvir estas palavras, derrubando a banqueta do piano. Darius continuou falando: - Mas acredito que você já sabe Boaventura.
-Sim, - sussurrou Boaventura, - sua reputação lhe precede. – E começou a transformar-se em vampiro tinha me dado conta, embora fosse muito tarde.
- Não! – Gritei quando Darius atirou a alavanca e tirou uma estaca e um malho de sua mochila. – Não, não o faça. – antes que pudesse detê-lo, Darius se atirou para Boaventura, pondo toda a força de sua fúria a seu cargo. Afundou a estaca no coração de Boaventura, e o vampiro caiu sobre o tapete oriental. Darius estava em cima dele em um instante, o malho na mão golpeando a estaca mais profundamente no peito de Boaventura. Boaventura gritava e gritava, e logo com um gemido sua forma começou a desmoronar-se e arder até que só um montão de pó se manteve no tapete.
Meu horror foi evidente. Minhas mãos tremiam. Estava respirando rápido. Estava tremendo dos pés a cabeça, tratando de não me deixar transformar. Darius me olhou, mas seu rosto era branco, seus olhos cegos.
Voltou-se então para a Catalina, que se tinha escondido nos almofadões, com os olhos arregalados pelo terror.
- Não, por favor, não. – exclamei.
-Tenho que fazê-lo, - disse Darius com uma voz que soou plana e desconectada de seu corpo. – Você, é sua criatura. Não são humanos.
- Não, Oh, por favor. – disse com sua voz de menina, suas mãos estendidas para Darius, como em uma prece.
- Não foi minha escolha. Ele me tirou de meu lar. Eu não quero morrer. Por favor, não.
Não podia suportar mais isto. Enquanto permanecia oculta atrás de Darius, arranquei a roupa e me deixei mudar. Cresci em tamanho enquanto ia me transformando na grande criatura alada de fantasia dentro de mim. O ar se precipitou em um torvelinho ao meu redor. O formigamento de energia elétrica aumentou através de mim. Minha pele brilhava e tirou a luz da sala e um aerossol de arco íris de cores dançavam nas paredes.
Darius deu a volta. Nunca esquecerei a expressão de sua cara. Foi uma combinação de choque absoluto, o horror com os olhos abertos e, o que me incomodou mais, uma expressão de dor dissimulada, como se eu o houvesse traído. Tinha-o feito, mas ele também tinha me traído.
- Não toque nela, humano, - sussurrei. Estendi a mão com uma asa poderosa e sem esforço o joguei ao outro lado da sala. Flutuou pelo ar e se estrelou contra a parede do fundo, deslizando-se por ela e sentando-se no chão aturdido. – Olhe-me, Darius! – Eu mandei-. Olhe-me! – Levantou a cabeça lentamente e me olhou. – Precisa saber o que sou. Eu sou um deles. Eu sou o que mais odeia e teme. Entretanto, beijava-me e acariciava. Entretanto, eu adorei. Eu sou o que sou. Mas você... J me advertiu que era um caçador de vampiros. Pior que isso, é um assassino sem sentido. Acha que está destruindo o mal, entretanto, está destruindo a vida, - sussurrei. – Boaventura era um criminoso, mas não era por ser um vampiro o que fazia sim. Teria que ter sido levado diante da justiça, mas não por ti. Não tinha direito de matá-lo. E não tens direito a matar a esta mulher. De matar a minha gente.
Voei para Catalina e recolhi seu corpo frágil em meus braços.
- Ela é uma inocente, - disse, girando meu olhar fixo sobre Darius e fixando-o à parede com meus olhos. – Não a terá; nunca a terá. Ou a mim! – Ultrapassei o piso e voei para a porta. Darius não me perseguiu. Fui abençoada nisto. Eu teria tido que lhe machucar se o tivesse feito. Possivelmente ele foi incapacitado pelo susto que levou. Em movimento, ele se deixou cair imóvel contra a parede. Olhei para trás, antes de sair ao céu da noite com Catalina. Isto pode ter sido minha imaginação, mas pensei ter visto lágrimas em seus olhos.

Capítulo 13


A maré de sangue desatou e em todas as partes.
A cerimônia da inocência se afoga;
Os melhores carecem de toda convicção,
enquanto que os piores estão cheios de apaixonada intensidade.
W. B. Yeats





Não voei muito longe com a Catalina. Aterrissei em uma árvore, e pendurei-me de barriga para baixo como os morcegos, esperei até que vi Darius sair da casa correndo por um caminho de entrada para o Taurus. Os morcegos não são aviadores de longa distância e, apesar de minha imensa força, voava levando uma mulher parecendo um gesso e isso diminuía minhas habilidades. Quando fiquei segura de que Darius havia ido embora, voei de retorno a Fern Hall. Chorando em voz baixa e sem falar, Catalina tinha se agarrado a mim com força todo o tempo.
Sentei-a com cuidado no vestíbulo. Voei à sala, rapidamente convertida de novo em forma humana e a toda pressa recolhi minhas roupas. Entre elas, estava no chão o suéter que Darius me tinha dado para cobrir minha jaqueta. Ele deve ter tirado da mochila antes de ir-se. Meu coração se afundou. Agarrei-o. Coloquei sobre meu rosto, e sentia o cheiro dele. Duvidei e logo o atei à cintura debaixo de minha jaqueta. Era tudo o que tinha dele. Não podia suportar a ideia de deixá-lo para atrás.
Catalina esperou pacientemente na sala até que ressurgi. Fechei as portas de atrás de mim. Eu não acreditava que ela deveria voltar ali, onde o pó do corpo de Boaventura estava seco e desolado no tapete. Tinha notado que a estaca que Darius lhe tinha cravado através do coração se foi.
- O que você gostaria de fazer? – Perguntei a Catalina tão suavemente como pude, ela me olhou com olhos chorosos.
- Quero ir para casa. – disse.
- Onde está sua casa?
- É longe. Em Dubrovnik, Croácia. Mas talvez por agora possa me levar de volta à Nova York? Para o apartamento?
- É obvio que posso. Pode recolher suas coisas rapidamente? Não tenho muito tempo até o amanhecer.
- Entendo, - disse ela. – Levarei só uns minutos. E tenho que encontrar a Princesa. Ela está trancada no quarto. Boaventura não gostava que ela subisse nos móveis. Não lhe permitiu descer.
Com isso se precipitou pela escada. Sentei-me em um banco do corredor e tratei de pensar e tratei de não pensar. Queria me sentar e chorar por meu coração, mas este não era o momento ou lugar. Tinha que me manter enfocada no que tinha que fazer a seguir. Agora tinha que conduzir Catalina de novo a cidade e chegar em casa antes das 06 da manhã. Já eram quase duas. Eu esperava que não recebesse uma multa por velocidade no caminho.
Quando Catalina voltou a descer, parecia-se menos com uma vítima frágil do que já a tinha visto. Vestiu um jeans. Levava uma jaqueta do jeans com uma gola preta. Seu cabelo comprido estava solto cuidadosamente para trás. Não parecia ter mais de dezesseis anos de idade. Tinha um gato em uma mão e uma pequena mala na outra.
- Catalina, - disse-lhe. – Tenho que te perguntar algo e necessito que me diga a verdade.
Ela me olhou com os olhos muito abertos.
- Salvou-me a vida. Devo-lhe isso tudo. Direi o que quiser. Estou muito agradecida. Muito agradecida.
- Onde estão às peças de arte do Sr. Schneibel?
- Não sei. Não os recebeu. Tentamos, mas tinham ido.
- O que quer dizer?
- Pegamos a limusine até a Rua do Canal. Boaventura tinha um pequeno caminhão para que nos encontrasse ali. Quando chegamos, não havia nenhum caminhão. Boaventura saiu da limusine e correu escada acima. Foi-se por só uns minutos. Quando retornou, enfureceu-se. Eu estava muito assustada então. Quando Boaventura estava zangado, eu tratava de me manter afastada dele, mas não havia aonde ir na limusine.
- O que disse? O que fez ele?
- Ele não me disse nada, mas ele fez uma chamada no telefone do automóvel. Acredito que foi para seu guarda-costas, Sam Bockerie. Bockerie se supunha que ia conduzir o caminhão. Ninguém respondeu, por isso deixou uma mensagem na secretária. Disse ao Bockerie que levasse a arte a Pensilvânia. Disse ao Bockerie que tinha 48 horas para entregar a arte. Se não o fizesse, nesse prazo, ia morrer. Foi muito arrepiante. Apenas que podia respirar enquanto ele falava. Foi terrível, como disse o que faria. Não posso descrevê-lo. Não foi uma advertência. Foi uma maldição. – Ela começou a tremer.
- Está bem, Catalina. Boaventura se foi. Foi-se para sempre. Sinto muito sobre o que passou esta noite.
- Não o sinta. Não foi sua culpa. Sentirei falta da Bonny, mas sou livre agora. Já não sou uma prisioneira. Posso ir para casa.
- Vamos sair daqui. – disse-lhe. Ela me entregou as chaves do Mercedes. – Obrigada. – Fomos rapidamente para o carro e fomos o mais rápido que pude.
Eu não queria ligar o rádio. Escutar canções de amor seria masoquismo puro, depois do acontecido esta noite. Eu queria chorar até que as lágrimas não pudessem vir mais, mas isso teria que esperar.
Tinha que dirigir e queria evitar a demolição do carro. Tinha sido uma noite terrível e, entretanto não tinha tido um final feliz. Durante uns minutos tinha tido tudo o que sempre quis: um homem para amar e que me amava. Continuando, em questão de horas tinha desaparecido tudo e eu fiquei com este grande vazio em meu interior.
Quando pensava em Darius, senti-me traída e decepcionada. Estava zangada comigo mesma por não acreditar em J e me odiava por que Darius tinha matado Boaventura, por ser um caçador de vampiros, por não ser o homem que eu queria que fosse. Para me distrair me voltei para Catalina, que estava chorando em silêncio no assento do passageiro, empapando Kleenex e mais Kleenex.
- Sente vontade de falar? – Disse-lhe. – Poderia ajudar se expressasse seus sentimentos e me poderia ajudar escutar.
- Suponho que de toda as pessoas, você o entenderia, - disse ela, seus olhos era uma piscina de lágrimas. – Quem mais pode, salvo alguém que sabe o que Boaventura era?
-É verdade. Só outro vampiro pode realmente entender o que a vida de um perseguidor da noite significa. Alguma vez se preocupou por ele ou foi forçada à relação?
Ela farejou na malha.
- Oh, não, eu o queria tanto. Quando nos conhecemos, eu era uma garçonete em um formoso restaurante do Dubrovnik, o Pjatanca Konoba. Está fora da Porta do Ploce Kilocepska Street. Do terraço se pode ver o antigo porto e as muralhas. – A voz de Catalina se converteu em um sonho, nostálgico. Eu estava ainda na escola, mas necessitava o dinheiro, sabe? Entrava com frequência e sempre se sentava em minha mesa. Pedia caviar, champanhe. O custo não significava nada para ele. Ele paquerava comigo. Era tão encantador. Finalmente, depois de entrar algumas vezes, ele me perguntou se queria sair com ele.
Catalina estava gemendo um pouco agora que ela se centrou em lembranças em lugar do presente.
- Estava tão encantada. Era uma pessoa muito importante. Uma noite tinha entrado com o Putin. Em outra ocasião foi com o primeiro-ministro francês. Qual é seu nome? Não me lembro. Mas todos o tratavam com respeito. E este homem importante, que jantou com chefes de Estado queria sair comigo, uma estudante, uma desconhecida.
Os caminhos estavam virtualmente vazios de tráfego, enquanto conduzia a Mercedes para a interestadual. O caminho estava bem marcado, e me sentia aliviada. O carro era grande e cômodo e ter que dirigir me impedia pensar. Manter Catalina falando ajudava também, assim que lhe perguntei:
- Que idade tinha?
- 17. Só 17, - disse e começou a chorar de novo. – Tão jovem e inocente. Eu nunca tinha estado inclusive com um homem.
Estiquei a mão e lhe dei um tapinha reconfortante.
- O que aconteceu quando saiu com ele?
- Levou-me a uma cafeteria para tomar um coquetel e depois caminhamos por uma antiga muralha da cidade. É tão bonito em Dubrovnik. Como um conto de fadas.
- Sim, sei. Eu estive ali. – E tinha estado antes e depois do bombardeio terrível em 1991 da Servia e Montenegro, durante o conflito dos Bálcãs. Após, as casas que a cidade pérola das calçadas de mármores, palácios, torre, fechada verde, tinham sido cuidadosamente restauradas. Dubrovnik tinha sido chamada a "Veneza do Adriático", embora seja muito maior que Veneza. É uma cidade impressionante e formosa.
Recordando o sentimento em meu coração, com o que Catalina estava descrevendo, detive-me, e logo voltou a dizer:
- Sim, caminhei ao longo da costa dálmata. Suas águas são tão claras que pode ver as escamas dos peixes de prata. Recorda-me o Mediterrâneo como estava acostumado a ser. A brisa era limpa e pura. As árvores de cipreste, rouxinóis cantando, e em todas as partes há flores silvestres. É um lugar muito bonito.
- Ah, - disse e deu umas palmadas. – Você o conhece! Entende, então o quanto que eu adoro. E compreenderá também o romance. Boaventura e eu caminhamos. Segurou-me as mãos. Parávamos e nos demos um beijo nos portais. Perguntou-me se eu gostaria de voltar para o quarto de hotel. Duvidei. Disse que íamos fazer só o que eu quisesse. Que ele me respeitava. Se tão somente queria que me esperasse, isso era tudo o faria. Eu confiava nele e lhe disse que sim.
- Mas é obvio confiar em alguns homens é uma péssima ideia. – disse com tristeza.
-Não sei, - disse Catalina-, sobre outros homens. Mas ao princípio, quando chegamos ali, manteve sua palavra. Eu estava aturdida por ter bebido no café. Eu estava muito enjoada, bêbada, de fato. Não conseguia pensar com claridade. Sentei-me em seu colo. Pus minha cabeça em seu ombro. Começou me acariciando. Eu não o detive; Deus me perdoe, eu não o detive. Ele perguntou se isso estava bem. Disse-lhe que sim, que podia fazer o que quisesse. Que eu queria também. Mas eu realmente não sabia o que isso significava. Colocou-me de pé e começou a desabotoar a blusa. Senti-me com um pouco de medo pelo que fazia. Antes que me desse conta do que estava acontecendo, tinha tirado toda minha roupa. Quando começou a se desfazer de suas calças, tive muito medo. Disse-lhe que não, tinha mudado de opinião. Mas já era muito tarde. Disse-me. Já era muito tarde. Agarrou meus braços e me empurrou para baixo ali no chão. Ficou sobre mim. Doeu-me. Eu gritei e ele me tampou a boca com a mão. Empurrou e empurrou. Por último tinha terminado. Ou pensava que tinha terminado. Foi então quando aconteceu.
- O que aconteceu?
- Desceu sua boca a meu pescoço e me mordeu. Ele começou a beber meu sangue. Não podia acreditar o que estava acontecendo. Tratei de escapar, mas ele continuou bebendo até que perdi os sentidos. Quando recuperei os sentidos, eu estava em uma cama grande. Eu ainda estava nua e me sentia muito débil. Boaventura entrou no quarto e me perguntou como estava. Disse-lhe que estava cansada. Veio para ver-me e me trouxe uma xícara de chá. Sentou-se na beira da cama enquanto o bebia. Depois de que terminei, comecei a me sentir muito estranha. Acredito que o chá estava drogado. Ele me levou de novo a seguir. Não me pude resistir. Ele foi duro comigo. E quando terminou, baixou sua boca ao meu pescoço uma vez mais e começou a beber. Não recordo muito depois disso. Pareceu passar dias. Não sei quanto tempo. Eu estava delirando. Recordo que veio para mim uma e outra vez. Fez coisas comigo. Não posso falar delas realmente. Disse-me que me estava ensinando sobre o amor. Às vezes, era suave comigo na cama. Às vezes me fazia mal, não muito, só um pouco. Foi tão estranho. O aumento da dor ao prazer e quando lhe disse isso ele riu e me disse que era uma boa aluna. E sempre bebia de mim. Ao fim, entretanto, sentia-me mais forte e diferente de algum jeito, potente e nova. E então, quando por fim me senti melhor, eu não queria deixá-lo. Dirigia-me a ele pelas coisas que tinha feito, por isso ele me tinha mostrado e pelo sangue que compartilhamos.
Meu coração se sentia como uma pedra enquanto a escutava. Senti lástima por ela. Mas eu não podia trocar o que tinha acontecido. Ela continuou, com voz mais contente agora, quase feliz na lembrança.
- Deu-me coisas preciosas e joias preciosas. Disse-me que estava casado, mas que me amava. Disse que tinha deixado a sua esposa e que ela tinha apresentado uma demanda de divórcio. Disse-me que íamos para América, onde eu estaria muito feliz e teria uma vida maravilhosa. Quando eu estava sozinha em suas ausências de trabalho, era tratada como uma princesa. Ele não era de todo mau. Podia ser bom e eu acredito que me amava a sua maneira. Seus servos o adoravam. Tanya o amava, parece-me. Todos eles se encontravam completamente leais e isso diz muito.
Sim, pensei, diz-se que o dinheiro pode comprar a lealdade.
- E Boaventura me estava dizendo a verdade. Tudo o que pedi, ele me deu. Mas eu não entendia o que era. Um dia me armei de coragem e lhe perguntei a respeito de beber meu sangue, por que tinha feito isso. Perguntei-lhe o que aconteceu comigo.
Ao escutar a história da Catalina me senti tão terrivelmente triste. Por ela. Por mim. Inclusive no caso de Boaventura, que dano, homem estúpido. Ele pensou que poderia obrigar a uma pessoa a amá-lo e que podia possuir o coração de Catalina por beber seu sangue. Não era o primeiro vampiro em cometer esse engano.
- E o que te disse? – perguntei-lhe.
- Disse que era um vampiro e que tinha sido um vampiro durante um tempo muito comprido. Disse que ao me morder, tinha-me dado um presente maravilhoso: que eu não podia morrer nunca, por meios naturais de todo modo. Também significava que podíamos estar juntos para sempre, literalmente para sempre. Disse que não havia nada mal com o que aconteceu entre nós e se desculpou por sua impaciência em me levar por força na primeira noite, mas que me adorava. Para fazer frente a uma eternidade sem mim seria tortura, isso é o que disse-me. Ele não me disse então, não de todos os modos, que tinha que beber sangue para viver e pagar com minha pobre alma o haver-me vendido a ele. Às vezes bebia muito e muitos morreram. Havia gente que lhe ajudou a enterrar os corpos. As famílias foram pagas. Ninguém se queixou nem o deteve. Na Croácia o chamavam de um grande homem. – Ela começou a tremer incontrolavelmente então.
- Catalina, - disse bruscamente, - acabou-se. Está segura. – Perguntava-me se deveria parar o carro e tratar de ajudá-la, mas se recuperou e tremia, mas um pouco menos, continuou.
- E ele não me disse que tinha que beber o sangue também. Mas logo fui conduzida a ela. Tratei de evitá-lo, mas a fome se apoderou de mim. Ele trouxe-me na sua maioria homens jovens. Eram muito doces, de verdade. Eles sabiam o que queria e me deixaram fazê-lo. Parecia-lhes excitar tanto. Eu não gosto de pensar nisso. Foi então quando comecei a beber vodca, a partir da manhã até que tudo estava opaco e formoso. Bebi para esquecer e tratei de me manter bêbada. O que vou fazer agora? Vou morrer? Terei que ir perambulando pelas ruas em busca de sangue? Eu não se o que fazer. – Ela começou a chorar de novo.
- Eu vou ajudar você Catalina. Há outras maneiras. Vou enviar você para minha mãe. Fica com ela até que possa voltar para casa. Ela te mostrará como viver sem matar. Pode confiar nela. Ajudou a outros antes.
- Não sei como te agradecer. Fez tanto por mim. Espero que não pense mal de mim por não odiar Boaventura. Eu sei que ele era um homem mau. Eu sei que ele fez sua fortuna da venda de armas. Eu sei que o que me fez estava errado. Mas eu o amava. Pelo menos, eu o amei uma vez.
Entendi mais do que nunca poderia reconhecer. A dor me golpeou como uma flecha através de meu coração. Quando lhe respondi: Eu estava lutando contra as lágrimas.
- Não amamos com nossa razão e inteligência, Catalina. Amamos com nossas almas. Nem sempre tem sentido. As mulheres amam aos homens maus e homens bons. Às vezes não podemos deixar de amar, inclusive quando sabemos que nos trará dor. Nós os adoramos, inclusive, quando sabemos que nos causarão dor.
Pensei em Darius então, as lembranças alagaram minha mente, lembrança que me dizia o muito que sentia por mim e logo recordei sua surpresa, quando viu quem era eu realmente. Lágrimas se derramavam sobre minhas pálpebras inferiores e rodaram por meu rosto. Eu nunca mais estaria em mãos dadas com ele. Acabou-se. E nunca deixaria de querer o que tinha perdido.
Antes de retornar a Manhattan, pedi para Catalina escrever o número do telefone de Mar-Mar. Minha mãe poderia te deixar louca, mas não há melhor pessoa para ter em sua vida quando a sorte estava lançada. Mar-Mar conhecia todo mundo de importância. Ela tem conexões que chegam às altas esferas dos governos de todo o mundo e ela sempre teve, desde quando ela vivia há centenas de anos atrás, contatos no Vaticano. Mar-Mar pode parecer uma louca, com sua roupa hippie e signos de paz, mas minha mãe é uma das pessoas mais ardilosas e manipuladoras que já conheci. Dirigiu grandes negócios, já nos grêmios mercantis da Europa medieval e os países, provavelmente também, embora não esteja acostumada a falar disso. Pelo que tenho descoberto a respeito dela, eu sei que sempre estava atrás da cena, movendo os fios e mais de uma vez me disse o que disse Margaret Mead : "Nunca se detenha diante um pequeno grupo de cidadãos reflexivos e comprometidos, pode mudar o mundo". De fato, é a única que pode fazê-lo. Eu não gostaria de ser sua inimiga, mas se eu não fosse sua filha, estaria orgulhosa de ser sua amiga.
Pensava dar uma ligada, explicando o que Catalina provavelmente não lhe diria, que esta mulher frágil necessitava um pouco de tempo de desintoxicação e o assessoramento por violação também. Quando Catalina estivesse bem, Mar-Mar a ajudaria a voltar para a Croácia e a deixaria em uma vila bonita. Os preços dispararam ali, mas o dinheiro não seria um problema para Catalina. Inclusive se ela se limitasse a vender todas as joias que lhe tinha dado Boaventura, que tinha fixado para a vida. E ela tinha confiado em mim, que se havia assegurado que havia caixas de segurança cheia de moedas de ouro e lingotes. Não pode ser que pense assim, mas que podia ser feliz. E Mar-Mar poderia ajudar a encontrar um propósito na vida também. Seu país necessita de reconstrução. Ela poderia converter-se em uma mulher importante ali, uma mulher respeitada. Quando lhe disse o que pensava, seus olhos já não estavam cheios de lágrimas.

Detivemo-nos na frente do apartamento da Park Avenue, e o porteiro saiu para abrir as portas do carro para nós. Catalina lhe disse que estacionasse a Mercedes na garagem, por isso deixou ligado enquanto ele chamava a alguém em seu telefone celular. Estava esgotada nesse momento. Não tinha muito tempo para chegar em casa antes das seis da manhã, mas Catalina disse que podia encontrar a direção de Bockerie e me deu um número de telefone. Assim tomei o elevador até o apartamento de cobertura com ela. Quando chegamos, ela passou à direita à mesa de telefone que eu tinha procurado ontem à noite. Eu não tinha encontrado nada mais que pastilhas em branca e canetas. Ela apertou um botão debaixo, e uma gaveta secreta apareceu. Ela copiou a informação e me entregou isso.
- Vêm comigo um minuto, - disse. – Quero te dar algo. Mas antes vou deixar a Princesa sair.
Ela se inclinou, abriu a gaiola do gato e Princesa saiu correndo pelo corredor. Então Catalina me levou pelo apartamento. Deteve-se na sala de jantar e abriu as portas de um armário embutido. Tirou uma caixa azul da Tiffany's e me entregou isso.
- Comprei isto, - disse. – Não foi Bonny. Pensei que era formosa e a queria.
Abri a caixa. Uma opala grande em uma configuração de platina filigrana pendurava de uma corrente de platina intrincada. Levantou os braços para cima e deslizou o colar por cima de minha cabeça.
- Por favor, - disse ela. – Aceite isto para que te lembre de mim. Uma menina cuja vida salvou. Uma garota que nunca, nunca se esquecerá.
- Obrigada. – disse-lhe. – É muito amável de sua parte. É magnífico.
Eu tinha aprendido faz muito tempo que a aceitação de um presente de graça é tão importante como dar um. Compreendi que Catalina sentiu que estava em dívida comigo, assim aceitei seu generoso obséquio com todo meu coração.
Abracei-a e seu corpo magro era tão delicado como um pássaro sob minhas mãos. Foi então quando me dei conta de que Princesa passeava diante da porta da biblioteca. Estava miando e fazendo muito ruído. A própria porta estava entreaberta e as luzes estavam acesas no interior. O apartamento tinha estado às escuras em todas as partes quando entramos. Perguntei-me por que este lugar estava iluminado. Um calafrio passou sobre mim. Tive um pressentimento terrível.
- Catalina, - lhe disse. – Fique aqui. Quero olhar a biblioteca.
- Tem alguma coisa errada? – disse com nervosismo.
- Provavelmente nada. Mas deixa-me olhar.
Fui para a biblioteca. Passei junto da mesa onde me havia sentado com Boaventura não faz muito tempo. Quando dava a volta na mesa o vi. Ali, em rosa pálido e branco da almofada chinesa estava uma estaca de madeira situada no meio de um montão de cinzas. Inspirei profundamente. Quem? Por quê?
Foi então que vi o brilho de ouro na cinza. Inclinei-me e o reconheci. Era o meu anel. Meu precioso e amado anel de pantera. Uma sensação horrível se apoderou de mim.
- Oh, Nãooooo, exclamei. – Benny, querida e doce Benny. – As lágrimas fluíam e a raiva encheu o meu coração. Neguei com o punho o destino que me havia traído até este ponto. – Darius! – Eu gritei. – Bastardo! O que você fez! O que você fez? – Arranquei seu suéter de onde havia atado ao redor de minha cintura e o joguei no chão da sala. Logo me sentei no chão, cobrindo o rosto com as mãos e chorando, chorando e jurando: - Você vai pagar por isso, Darius. Vou me assegurar de que pague por isto.

Capítulo 14

Se você pode examinar as sementes do tempo
E dizer que grão cultivará e que grão não vai,
Fale-me então...
Shakespeare



Eu dormia, mas não tinha descanso. O fato não podia desfazer-se. Eu dava voltas e sonhava sonhos caprichosos. Em uma estava chamando a Benny em meu telefone celular, mas o número estava fora de serviço, e o telefone se derretia em minha mão. Em outro ia de excursão por um atalho através de um espesso bosque e um pôster dizia BENNY. Mas quando segui a flecha, ela não estava ali. Em vez disso, ouvi a voz de Darius me chamando por meu nome. Corri para o som e o vi atacado por figuras escuras, lutando sozinho, gritando para eu lhe ajudar. Não pude chegar a ele. J não me deixava me mover. Eu só podia olhar com impotência enquanto ele era atingido uma e outra vez até que caiu. Foi um pesadelo terrível e despertei com o coração acelerado. Estava cheia de culpa pela morte de Benny, porque fui eu quem a apresentou a Darius. Minha dor se transformou em lágrimas de desamparo que alagaram meu ataúde de cetim. Ao cair da tarde me levantei, com muitas dúvidas golpeando contra minha mente consciente, como uma traça na janela. Se me tivesse negado a me converter em uma espiã? Seria melhor morrer no ato em vez de me submeter a esta dor? As palavras golpearam através de meu cérebro. O fato não pode desfazer-se. Mas nunca fui de deixar-me levar pela auto-compaixão. "Segue com ela," minha mãe sempre dizia. "Não ponha seu braço oscilante onde as costas devem estar".
Agora o que eu necessitava para sobreviver e fazer o que eu tinha começado a fazer, usar meus dons, minha força, minha inteligência para proteger a outros. Apeguei-me a essa ideia, com vontade de apagar o desejo de vingança que já estava começando a comer minha alma. Entretanto, a raiva cega tomou conta de mim ao pensar na estupidez e no desperdício da busca equivocada de Darius. E o desejo de vingança permaneceu em mim, penetrando fundo em meu coração.
Revisei minhas mensagens telefônicas. Como Darius havia predito, J tinha chamado na noite anterior para dizer que não haveria movimento essa noite. Soava muito zangado por não conseguir ficar em contato comigo. Eu não lhe devolvi a chamada. Minha mãe tinha chamado por telefone também, me perguntando onde estava e que ligasse para ela. Eu gostaria de chamá-la logo para saber sobre Catalina. Se Catalina não lhe falava, eu sabia com certeza que Mar-Mar se apresentaria no apartamento da Park Avenue com uma bolsa cheia de vegetais orgânicos e um montão de bons conselhos.
Liguei o número de Benny, contra toda esperança, esperava que tudo tivesse sido um terrível engano. Igual à em meu sonho, eu não podia alcançá-la. Estava na secretária eletrônica e seu telefone celular ia direto a secretária eletrônica. Lutei para conter as lágrimas. Perguntei-me se J sabia que estava morta. Eu não queria lhe dizer ou admitir que tivesse estado certo a respeito de Darius e perto de pôr em perigo toda a equipe. Eu deveria havê-lo escutado. Neste momento eu não podia suportar nenhum "disse-lhe isso"
As horas da noite se estendiam diante mim, como uma longa estrada para nenhuma parte. Poderia me sentar aqui esperando que soasse o telefone e me disse que já era hora de sair e pegar de alguns terroristas, ou podia fazer algo. Gunther saltou sobre meu ombro e chiava no ouvido. Pus Bach no reprodutor de CD. Sentei-me, peguei meu copo de água e jantei meu "sem vítimas" sangue do banco de sangue. Logo fui para o canto da sala onde tinha feito um espaço de meditação.
Um militar aposentado uma vez me disse que quando você, de repente, é atingido por uma crise e sente o impulso de entrar rápido e em ação, pare! O Sargento Harry DePew tinha olhado prazerosamente para mim com seus olhos escuros apenas visíveis sob as pálpebras entreabertas. Ele inclinou para trás em sua cadeira e cruzou as mãos cinzentas escuro sobre o ventre ainda em boa forma. Falava devagar e deliberadamente, tal como o fez tudo. "Não se preocupe, recorde o Titanic", disse. Continuou com seus conselhos. Você recebeu a chamada para acabar com todos os diabos soltos. O navio vai para baixo. Ou é o inimigo rodeando a fortaleza. O coração começa a fazer um sapateado. Deseja correr para os botes salva-vidas ou apoderar-se de sua arma e se conduzir para a porta. Não o faça, irmão. Em vez disso, sente-se. Ponha os pés sobre a mesa e pense. Inclusive se você só toma um minuto para fazer isto, e cinco minutos são ótimos se a situação o permitir, poderá tomar uma melhor decisão e, provavelmente, evitar um inferno de um engano. Isso foi o que me disse Harry. Fiz meu melhor esforço para seguir seu conselho.
Sem a crise iminente se abatendo sobre mim, tomei cinco minutos e quinze mais. Sentei-me na posição de lótus. Gunther se sentou junto ao meu joelho e começou a lavar cara com as mãos cor de rosa. Juntei o índice ao polegar no medra clássico. Abri minha mente, esvaziei-a de todo pensamento e deixei à orientação vir para mim.
Aceitei que tinha cometido enganos. Concentrei-me no conhecimento de que tinha duas tarefas que eu não podia arruinar. Número um, eu ainda tinha que encontrar a coleção de arte de Schneibel e destruí-la. Se estivesse em mãos de Sam Bockerie, seria uma coisa muito má. Boaventura era ambicioso e venal, mas Bockerie era um assassino psicótico, dos que não tinha nenhuma dúvida. E a segunda tarefa: como Benny se fora, eu tinha que estar ali para ajudar a interceptar os terroristas. Apenas dois de nós, estávamos de pé, e Cormac O'Reilly nunca poderia dirigir a situação por si só. Talvez uma resolução de aço se ocultasse debaixo de sua atitude de auto-absorção de mariposa. Eu esperava que sim, mas não podia permitir que as vidas de milhões de pessoas descansassem em suas asas oscilantes. Não, isto era um trabalho para Daphne Urbano, Vampiro espiã. Aproximei-me do reprodutor do CD e pus o disco de "A Abertura do Guillermo Tell". Perfeito. O Cavaleiro solitário cavalga de novo. Ou voa de novo, já que pode ser.
Sam Bockerie, também conhecido como General Mosquito, vivia no Brooklyn. Brooklyn, a terceira maior cidade dos Estados Unidos. Voltei ali agora. Tinha-me vestido para a comodidade, não para a moda. Vesti um velho de jeans preto, gola olímpica preta, jaqueta de couro preta. Terminei por pôr meu tênis Nike, luvas de couro e um chapéu com proteção para os ouvidos. Coloquei uma lata de Mace em minha bolsa. Isto era Nova Iorque à noite e eu prefiro usar uma defesa convencional se alguém tratar de me atacar. Arranhando os olhos a alguém sem dúvida chamaria a atenção não desejada. Saí de meu edifício e me dirigi para o metrô. Desci no Brooklyn na Rua 15 e a Quarta Avenida. Não havia um lugar mais solitário no mundo que uma estação de trens subterrâneos em Nova York, no meio da noite. Os sons de meus passos na plataforma de cimento sujo, ecoaram nas paredes de azulejos brancos. Sentia-me oprimida pelo aroma de urina, a luz amarela suja. Saí pela escada no bairro latino e comecei a caminhar tão rápido como pude, para Gowanus Bay, no litoral do Brooklyn.
Eu encontrei o endereço de Bockerie. O edifício da praça, na esquina, parecia uma fortaleza, com uma malha metálica que cobria os vidros de suas janelas pequenas de tipo de fábrica. Entrei no edifício. De acordo com uma etiqueta rabiscada com um rotulador na caixa de correio do vestíbulo, Bockerie estava no quarto andar. A porta de entrada estava segura, duro como o aço, e fechada com chave. Merda e merda em dobro. Não tive mais remédio. Tirei a roupa no hall pequeno e me transformei. Depois abri cautelosamente a porta e olhei para cima e para a rua abaixo. Silencioso como uma tumba. Saí e voei quase em linha reta até o quarto andar. Quando aterrissei no batente da janela e olhei através dos painéis de vidro sujo. Pude ver um espaço ao estilo do loft de Schneibel, mas este não tinha morrido. Os pedaços grandes das máquinas de trituração ainda ocupavam a maior parte do espaço. Sentei-me sob a tremulação da luz fluorescente e de fundição sobre o chão de linóleo cinza. Um dormitório improvisado foi estabelecido num canto, era pouco mais que um aparador maltratado e um colchão no chão. Qualquer um teria confundido o lugar com um dos quartos de um ocupante ilegal se não fosse por todo o arsenal de semi-automáticas que estavam apoiados contra uma parede e a mala perto deles. Era a que eu tinha visto no apartamento de Boaventura e eu sabia que tinha $ 250 milhões em diamantes. Filho da puta! Pensei. Bockerie tinha matado Issa e Tanya. O último pedaço de um quebra-cabeça se encaixou. Abati-me fora da janela. E o vi.
Sam Bockerie andava em minha linha de visão levando uma mala grande. Ele a lançou sobre o colchão, a abriu, e começou a encher de roupas, das gavetas do aparador, não o fazendo muito bem e definitivamente o não dobrando nada. Eu poderia ver o suor escorrendo sobre sua testa e o esgotamento em sua cara. Ele não se incomodou em secar o suor. Seu fôlego era como se aquilo fora uma atividade pesada. Ele se sentou de repente em uma cadeira, sacudindo sua cabeça, e pareceu resmungar algo. Seguiu olhando para a porta, que estava fora de minha vista, em algum lugar à esquerda da janela.
Não descobri as máscaras ou estátuas, mas eu literalmente poderia sentir sua presença. Não havia nenhuma razão na espera de outro segundo, então agarrei o tecido metálico e sem esforço lhe dei um puxão à janela, lhe deixando cair à rua vazia debaixo. Pequei meu pé e quebrei o vidro, logo se estrelou pelo marco vazio e entrei como um enorme demônio negro aproximadamente dez pés mais alto que Bockerie. A cabeça de Bockerie deu um puxão para cima com um som da rede sendo arrancada. Quando ele me viu invadir o quarto, eu poderia ver seus olhos assustar-se no choque. Abriu a boca para gritar, mas não saiu nenhum som. Em troca, aferrou-se a seu peito com a mão e caiu ao chão. Aterrissou duro e não se moveu.
Santo céu! Pensei. Vi todo tipo de reação dos seres humanos frente a minha vista. Eu os havia visto débeis com o terror muitas vezes. Mas a forma em que Bockerie me olhou no segundo antes que se derrubasse, não tinha sido um desmaio de homem. Tinha o homem morrido no ato. Voei para ele. Ajoelhei-me junto a ele e lhe busquei o pulso. Foi-se ao inferno..., eu esperava que mais à frente tivesse que enfrentar seus crimes e suas vítimas, onde realmente pagaria por seus pecados. No outro lado se enfrentaria a uma justiça mais terrível que qualquer homem podia levar com ele.
E embora a causa oficial de morte resultasse ser um ataque do coração, eu sabia o que lhe tinha acontecido. Olhei meu relógio. Faz dois dias, quase há esta hora, tinha traído o seu chefe. Roubou os diamantes e agarrou a coleção de Schneibel. Ele tinha que saber o que era Boaventura. Inclusive um psicopata megalômano temeria ao poder mortal de Boaventura, assim como suas habilidades imortais. Além disso, o vampiro lhe tinha amaldiçoado. Boaventura lhe tinha dado um ultimato e, se não o cumpria em 48 horas, Bockerie ia morrer na hora 49. Por isso estava olhando a porta. Bom, bem a tempo chegou à chamada da morte. Só que não chamou, mas sim veio voando pela janela.
Mas minhas mãos estavam limpas. Não me cabia dúvida, Bockerie se havia suicidado com o medo. A Maldição de Boaventura tinha chutado todas as superstições e medos dos africanos da herança tribal do Bockerie. Esperava a morte. Quando me viu vir para ele, seus temores tomaram forma física e o oprimiram. A mente é uma arma poderosa e ele o tinha girado sobre ele. A liberação boa ao lixo mau, digo.
Deixe o corpo jazer ali e voei através da água-furtada. Rapidamente encontrei as caixas que continham a coleção da Nova Guiné de Schneibel, ou ao menos a maior parte, as coisas que Schneibel não tinha sido capaz de destruir, antes que Bockerie chegasse. Não sei como Bockerie tolerava estar tão perto deles. Eles irradiavam maldade. Talvez sua própria crueldade retorcida se alimentasse de sua maldade. Schneibel acreditava ter sido protegido pela arte de magia negra, porque ele parecia afetado por seus poderes. Mas que diabos ia eu fazer com eles? Queimar este grande edifício seria inconcebível. A pessoas inocentes ou os bombeiros poderiam sair feridos ou mortos. Necessitava uma maneira de tirar estas caixas daqui e as levar a algum lugar, onde poder dispor delas. Eu não podia chamar o J. Ele iria querer levar para a agência, e eu temia que o governo desse mau uso de sua magia. Não me importa se formos os meninos com os chapéus brancos. O poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente. Para a avenida estava fora. Não podia movê-los, ao menos não no curto tempo que tinha disponível. J podia chamar em qualquer momento e estaria fora daqui. Assim fiz quão único pude fazer dadas as circunstâncias. Chamei a minha mãe.
Tendo aprendido o exemplo de Benny, que tinha começado a tomar minha bolsa e um telefone celular comigo quando me transformava. Portanto eu tinha o meu à mão. Não tive problemas para chamar Mar-Mar, ela estava em casa. Havia muito ruído no fundo, mas não pergunte quem estava ali acompanhando-a. Senti-me aliviada de que não fez nenhuma pergunta quando lhe disse que aparecesse no Brooklyn com uma caminhonete e uma troca de roupa para mim. Minha roupa estava em baixo, na pequena sala de espera frente à porta por dentro e eu não acreditava que fosse uma grande ideia correr o risco de sair nas pontas dos pés para as tomar. Qualquer um que caminhasse e visse minha jaqueta de couro negra abandonada a teria tomado. É Nova York, onde os buscadores são os guardiões, a maior parte do tempo. Minha mãe tinha ouvido o tom da urgência em minha voz e disse que ia estar aqui tão rápido como pudesse. Mesmo que se precipitasse, não deixaria de ter suas duas horas de Scarsdale, já que ela teria que estar viajando a toda velocidade. Enquanto isso me transformei de novo em forma humana, porque se tão grande é incômodo em qualquer espaço fechado, exceto talvez um castelo na Transilvânia. Isso me deixou saltando nua até que minha mãe se apresentasse. Decidi-me a ver o que estava no loft, o quarto de banho e me decepcionei ao encontrar só um posto de ducha, um lavabo inodoro e algumas toalhas sujas. Comandando a cortina de ducha de plástico não era atrativa, mas se verificou uma forte cortina de veludo verde sobre as janelas.
Rasguei-os, encontrei um alfinete de gancho no armário no estojo de primeiros socorros e me fiz uma toga. Senti-me bem. Lancei o bota de cano longo das cortinas de meus ombros como um xale, como me sentia gelada até os ossos. Tive que ficar descalça, entretanto e odiava a caminhar sobre o chão sujo. Meus pés já estavam sujos. Fiz uma nota mental para reservar uma pedicure quando tudo tivesse terminado e logo me ri de mim mesma. Inclusive em meio de tratar de deter um ataque terrorista, sou vaidosa.
Voltei para a zona central do flat, comecei uma busca metódica, começando com o corpo de Bockerie. Sempre é melhor obter os piores trabalhos da primeira forma. Ficou estendido sobre suas costas, seus olhos estavam muito abertos e olhando sem ver. Peguei os óculos de sol Ray-Ban que tinha guardado de Schneibel, em minha bolsa e os pus nele. Isso estava muito melhor. Com dois dedos lhe tirei com cuidado a carteira do bolso da calça e a abri. Junto com várias centenas de dólares americanos em efetivo, havia leoni, a moeda de seu país natal. Suponho que pensou que ia a casa, e suponho que de uma maneira ele tinha ido. Também havia um amarelo post-it, com R530 escrito nela. Deixei o dinheiro e pus a nota no bolso. Sua carteira também continha um cartão de crédito American Express, uma licença de conduzir de Nova York e um cartão de desconto de supermercado local. Isso era tudo: não havia fotos da família, sem prova de seguro de saúde.
Fiquei de pé e olhei ao redor. Atirei o conteúdo da mala sobre o colchão. Nada mais que roupa. Fui olhar sua cômoda. Estava virtualmente vazia. Tirei cada gaveta, olhando debaixo pela remota possibilidade de que, como minha mãe, Bockerie, escondesse coisas pregando-os com fita adesiva nas gavetas. Eis que, quando puxei a gaveta de baixo, apareceu um envelope de nove por doze. Tirei o lacre, abri-o, e peguei um número de páginas. Eram escaneadas e me dava conta, de que eram da Frente Revolucionária Unida, ou FRU, os registros dos diamantes que tinha confiscado nas minas de Serra Leoa de diamantes. Se houver um inferno na terra, é onde os "diamantes ensanguentados" são originários, da África.
Diamantes de sangue... O nome não faz referência a sua cor, mas a seu custo em vidas humanas, em particular, a dos meninos que são utilizados como mão de obra forçada. Estes diamantes- legitimamente enviados ou contrabandeados através dos Emirados Árabes Unidos, Dubai, em particular- podem comprar qualquer coisa e a transação é principalmente não registrada, anônima e eficaz. Os terroristas têm feito dos diamantes a moeda de sua eleição. Resulta irônico que algumas das joias mais belas do mundo financiam a morte. Entretanto, se voltar a pensar sobre a história, talvez sempre foi assim.
O envelope se sentia quente e pesado em minhas mãos. Ali estavam as atas secretas de milhões de dólares em transações de diamantes, incluídos os nomes dos compradores e as datas de compra. A maioria dos compradores eram árabes e inclusive me dava conta de alguns conhecidos membros da Al Qaeda. Eu daria estes papéis a J que poderia utilizar para identificar tanto aos terroristas como a seus financiadores. Se o dinheiro atrás do terrorismo pode ser detido - toda a cadeia da miséria humana, que começou com o sequestro dos meninos africanos para convertê-los em trabalhadores escravos - poderia romper-se. Junto com deter o roubo de Bockerie da arte de Nova Guiné, senti-me melhor que a violência e a morte dos últimos poucos dias. Pobre Benny, que descanse em paz. E silenciosamente, prometi ao seu espírito que me asseguraria de deter a ameaça de ataque nuclear também.
Em minha busca no resto do flat, apareceram algumas moedas de ouro em uma bolsa de plástico na parte inferior da caixa de descarga da privada no banheiro. Deixei-os. O gabinete de remédios tinha garrafas de analgésicos de receita, um relaxante muscular, e Prozac. Suponho que o General Mosquito sofria de umas más costas e se sentia um pouco deprimido. Recordou-me que a humanidade é frágil e seus monstros imorais não são completamente maus. Inclusive Hitler gostava de cães. Mas todo mundo toma decisões e aquelas pessoas que escolhem machucar a outros por cobiça ou os psicóticos são os piores seres humanos. O General Mosquito escolheu a crueldade e a guerra. Agora poucos, se os houver, chorariam sua morte.
Terminei minha busca, decidi me sentar e meditar até que Mar-Mar chegasse. Em qualquer lugar que ia, ali estava eu, especificamente me encontrava em um edifício de fábrica no Gowanus Bay com um homem morto a seis metros de distância. Enfrentei as grandes janelas do tipo de fábrica, sentei-me no chão com minha toga de veludo verde e esvaziei minha mente. O tempo passou despercebido até que uma comoção no corredor fora da porta principal se moveu desde meu zanzem. Mar-Mar tinha chegado e ela não tinha vindo sozinha. Alguém golpeou a porta. Abri um pouquinho e espiei. Minha mãe estava de pé ali, sustentando a roupa que tinha deixado embaixo, no vestíbulo e uma bolsa de papel. Atrás dela havia uma banda de seis velhos hippies, punks, e todos os gostos – os homens – que pareciam que tinham fugido dos anos setenta. Perguntei-me se ela tinha conduzido através do East Village e recolhido as pessoas na rua. Não, pensei que se tratava de Mar-Mar com os: Salvemos às árvores, sem dúvida.
- Mãe! – Sussurrei através da fresta da porta. – Tenho um corpo morto aqui.
- Mataste-o, querida? –perguntou ela, imperturbável.
- Não, ele teve um ataque do coração, acredito.
- Então, não é um problema. Gente! – gritou ela. – Não pisem no cadáver ao entrar.
- Muito bem, - gritaram em resposta.
- Querida, acredito que é necessário que nos abra a porta Não podemos causar danos na sala. – Disse em voz baixa, como se tivesse 5 anos.
Ampliei a porta e peguei a roupa de suas mãos.
- Vamos. Não toquem em nada! – Gritei às tropas. – Só esperem na porta. Tenho que falar com sua intrépida líder.
- Será tola, - disse Mar-Mar. – Nós somos uma hierarquia. Votamos em tudo.
- O que seja! Mãe preciso falar contigo. A sós. – sussurrei-lhe.
Mar-Mar e sua banda de seis entraram no desvão. Ficaram amontoados e olharam ao redor do espaço enorme.
- Bonito lugar, amiga. – uma cabeça de cabelos cinza com um rabo-de-cavalo, disse. – Amo o aspecto industrial.
- Não é meu. – Fulminei-o com o olhar. Pensei que me resultava vagamente familiar. Devo havê-lo conhecido em uma das visitas a "Mar-Mar." Ele era eminentemente esquecível. Tirei minha mãe para um lado.
Olhe mamãe, não posso explicar tudo neste momento, mas a versão curta é a seguinte. Este tipo estava na bruxaria. Tem algumas coisas realmente más, as máscaras e estátuas, estão em caixas escondidas aqui. Têm que ser enterrados ou queimados o quanto antes possível. Não podemos mantê-los. Não fiquem ao seu redor por muito tempo. Não as coloquem em qualquer lugar. Ninguém deve as ter em suas mãos nunca mais.
Mar-Mar foi novamente diplomática e sem questionamentos.
- Eu sei o que fazer querida. Não se preocupe por isso por um minuto. Vou encontrar algo melhor. Com temas de bruxaria, a queima é preferível, mas um fogo aberto sem permissão apresenta dificuldades. –Fez uma pausa por um momento, pensando. – Vamos ver, tenho um amigo diretor de uma funerária com acesso a um crematório. Bom, não se preocupe. Entendo. Contamos com um caminhão e estes moços fortes e agradáveis podem baixar as caixas. Queres que tomemos o corpo também?
- Não! Vou ligar para o 911, amanhã de amanhã. Morreu de morte natural. Só estou preocupada com a coleção de arte. E Mar-Mar, necessita que se encarregue delas. É muito importante.
- Dei-lhe o envelope marrom que contém documentos das minas de diamantes e a mala que continha os diamantes. Ela pôs o envelope em sua mochila e tomou a valise em uma mão e entregou sua bolsa de papel com a outra.
- Não acredito que necessite estes agora. –disse.
Olhei. A bolsa de compra continha a roupa que tinha escolhido para mim: uma LL Bean, de colarinho azul marinho, uma camisa de lã quadriculada Pendleton vermelho e preto, uma saia de veludo negro, camponesa, e um par de botas de neve velha que eu tinha deixado em sua casa fazia uma década. Eu esperava que nunca tivesse que levá-los. Graças a Deus ninguém havia pego a roupa que deixei abaixo.
- Obrigada, sim, mas tenho minha própria roupa para me pôr de novo. – entreguei-lhe a bolsa.
- Onde estão as caixas? – disse.
Assinalei para a parte traseira da água-furtada.
- Só terá que passar entre os tornos e a metralhadora. E não se podem perder! – disse-lhe.
Mar-Mar assentiu com a cabeça, atirou os ombros para trás e se voltou para seus ajudantes. Ela me recordou o velho filme da Sally Field, quando Norma Uma se levanta sobre uma mesa na fábrica para fazer frente aos trabalhadores em greve.
- Muito bem gente, escutem! – Mar-mar bramou. – Temos um montão de caixas para pôr no caminhão. Contêm mojo realmente mau, assim que o que trouxe os vasos mancha salvia, estejam preparados para sair. Coloque-os na parte traseira do caminhão enquanto estão carregando. E gente, estamos trabalhando no nível de amparo Alerta Vermelha. Quando tomarem as caixas até o caminhão, deixem uma pessoa para vigiar tudo. Digo-o a sério, isto é uma merda muito má. Temos que fazê-lo o mais rápido possível. Nosso contato com estas coisas deve ser breve. Vamos planejar uma sessão de cerimônia de purificação para amanhã. Antes de começar, alguém acredita que não deve tocá-los absolutamente?
Um tipo magro com uma capa de Drácula, as sobrancelhas e o lábio inferior perfurado, levantou a mão.
- Eu estou me tratando de hepatite C.
- Sim, Norman. Você faz a guarda e trata de permanecer pelo menos a 3 metros das caixas. Todos outros de acordo?
Todos assentiram e, com exceção do Norman, que desapareceu pela porta principal os 5 restantes seguiram a Mar-Mar até a parte traseira da água-furtada. O Senhor rabo-de-cavalo passou a meu lado e disse:
- Toga Bodacious. É uma discípula de Isis?
- Não, é uma coisa de Cabala. – Disse-lhe.
- Legal, - disse e seguiu a Mar-Mar na escuridão.
Saudou-me quando ia, e me dei conta que parte de seu dedo indicador faltava. Muito brevemente, tratei de recordar a alguém que tinha visto com a mesma deformidade recentemente, mas não parecia muito importante. A maior urgência era voltar para minha própria roupa, assim que me apressei ao banheiro para me trocar.
Não deveria sequer me haver incomodado. Tinha reaparecido do banheiro, feliz em minhas calças jeans de novo e com um pouco de batom para os lábios frescos e o rímel, quando soou meu celular. Os meninos já tinham obtido uma carga de caixas no corredor, e se foram pelas escadas fazendo ruído suficiente para despertar aos mortos, a um que toda via estava ali Bockerie como uma pedra. Dei-lhe as costas na porta e respondi a chamada.
- Olá? – e meu coração começou a acelerar-se. Sabia que tinha que ser J.
- Hermes? – disse rapidamente. – Anel Mestre aqui. Está em movimento?
- Sim. Por quê? – disse, com a incerteza normal em minha voz.
Fez-se o silêncio no outro extremo da linha. Podia-me imaginar a J tratando de não perder os estribos. Quando voltou a falar, sua voz era firme e controlada.
- Hermes? Há algum problema? Não duvidei e pigarreie um segundo antes de dizer impulsivamente a verdade:
- Um, bom, eu não estou exatamente segura de como chegar à Nova Jersey desde aqui.
Ele deu algo assim como um suspiro de exasperação.
- Onde está?
- Ah, Brooklyn. – confessei.
Outro suspiro chegou através do telefone.
- Não vou perguntar por quê. Olhe, voa para o extremo inferior de Manhattan. Verá uma estreita franja de água entre Manhattan e Staten Island, esse é o Kill Vão Kull. Segue para o oeste, até que se abre na Baía do Newark. Vou para o noroeste a esse ponto. Me chame se você se perder. Você vai lembrar de tudo isso? – Parecia muito mais irritado.
- Sim, claro.
- E Hermes, te mova! – chiou e desligou.
Merda, pensei, melhor que não foda isto. Tinha que encontrar a instalação de contêineres em um apuro, porque eu não tinha muita confiança de que meu velho amigo Cormac chegaria a tempo. Talvez me estivesse vendendo baixinho, mas ele havia chegado tarde a tudo, todo o tempo que lhe conheci e que foi durante mais de duzentos anos. Não estranharia que se perdesse em algum lugar de Nova Jersey. Este era um trabalho para o Super-man, todos os direitos. Ou deveria dizer Super - mulher?
Dava-me a volta. Minha mãe estava ali de pé me olhando. Perguntei-me se pode ouvir o que falei com J.
- Mãe. – disse. – Tenho uma emergência por aqui. Tenho que me transformar. Esperaria com os meninos na sala durante uns minutos?
Olhou gravemente como se tivesse câncer quando lhe disse isso, mas ela não me perguntou uma só coisa. Mar-Mar sempre esteve aí quando a necessitava, esta não era a primeira vez.
- Claro, querida, - disse. – Você segue adiante. Vou olhar pela porta antes que entrem. – Com isso, ela saiu ao corredor e fechou a porta atrás dela.
Despi-me de novo e deixei minha roupa cuidadosamente dobrada sobre a cadeira. Tinha a esperança de que Mar-Mar as recolhesse, ou eu poderia dizer também adeus a elas desta vez para sempre. Maldita seja, eu adorava essa jaqueta da motocicleta. Logo, com um zumbido e um brilho de luz, converti-me no vampiro que sou. Joguei-me a bolsa por cima de minha cabeça e me assegurei de que tinha meu telefone celular. Com isso, subi sobre a janela e saltei para o céu.



Capítulo 15

Nada é real até que se experimente.
John Keats


Um vento de páscoa "soprava do Atlântico, fazendo o voo difícil e batendo a água abaixo de mim, em espumas zangadas e as ondas agitadas". Um frio, as chuvas torrenciais atrapalhavam meu progresso. O vento me empurrou para trás e para frente. Esta não era uma noite para voar, embora seja um vampiro com poderes sobre-humanos. Minha pele se manteve seca, mas o couro de minha bolsa se arruinou. Eu deveria ter tomado um táxi.
Estava me precipitando assim ao longo da Baía de Newark, quando me arrumei para pegar meu telefone celular e liguei para J. A chuva deslizava dentro de meus olhos. Dou-lhe crédito. A instalação era enorme e iluminada com lâmpadas de vapor de sódio, dando a todo o lugar um brilho como o fogo sob a queima. Caí dentro das instalações pela via de serviço que vai da Rua Kellogg. Havia câmaras de segurança em todas as partes. Supus que alguém me estava vendo vir.
Quando já tinha aterrissado, pude ver que era o único vampiro ali. O plano original era que os três vampiros da Equipe Darkwing se encontrassem nesta entrada do porto depois de conseguir o "visto", o sinal de J. Tinha a esperança de ver Cormac voar a qualquer momento, porque sabia que Benny não o ia fazer. J disse que seus homens se instalaram em toda a instalação junto com o contingente principal, perto do portal de saída. Deu-lhe um total do ETA o carro dos terroristas de uns dez minutos. A chuva caía muito forte. Escondi-me nas sombras e tratei de não escutar a minhas vísceras, que me estavam dizendo que se tratava de uma zona estava para ocorrer. Em algum lugar nas filas de milhares de contêineres estava uma arma de poder horrível. Se o medo fosse uma coisa viva, seria um verme abrindo seu caminho até minha garganta.
Minha atenção estava fixa na via de serviço. Estava chovendo forte e as gotas golpeavam o pavimento, emitindo um som de tambores, afogando tudo o que poderia alertar ao movimento ao redor de mim. Não escutei nada, quando uma coisa, algo grande e duro me golpeou por trás e me atirou algo em cima. Antes que pudesse subir para estar segura em meus pés, uma lona enorme se lançou sobre mim e eu estava envolta nela com tanta força que não podia me mover. Então senti algo rígido e metálico atado ao redor do exterior da lona. Não importava quão duro lutasse, não podia me liberar. Quem pensou que esta operação era impenetrável e que estava sob controle, estava completamente equivocado. Os terroristas que desciam do Englewood Cliffs deviam ter tido pessoas que esperavam seu encontro e segura como o inferno que os tinha conhecido.
Atada como um peru, eu senti-me levantada por dois ou três homens. Falavam em árabe e soavam assustados como merda. Perguntavam uns aos outros o que fazer comigo. Decidiram que me atirariam na água. Essa era uma alternativa que quereria apelar, contudo, mas me estavam levando adiante em um deslocamento. Intensifiquei meus esforços por escapar da lona e quase me liberei quando senti que caía em um comprido, comprido caminho. Aterrissei com um mergulho de cabeça nas águas frias e cheias de petróleo da Baía do Newark.
Afundei como uma pedra. A água estava gelada que fiquei sem fôlego. Senti-me como se tivesse caído em gelo líquido. Fui a baixo, descendo em um pesadelo. Toquei o fundo. A lona estava suficientemente frouxa, assim que eu não tinha que romper o envoltório rígido, que resultou ser uma corrente. Fui capaz de escapar. O esforço me deixou necessitando oxigênio e o meu corpo estava gritando por ele. Lutei por meus instintos para tomar uma respiração profunda. Tive que usar a força de vontade tremenda para evitar a inalação. Não vou entrar em todos os dados da imortalidade, mas enquanto possa me regenerar de uma lesão, bastante rápido, eu estaria fora de serviço enquanto o fazia. Dois pulmões cheios de água do mar, sujo e eu estaria fora do jogo para esta noite e possivelmente, para um grande número de noites.
Dando chutes na lona, caí ao longo com a corrente. Nadar para cima, disse-me e me elevei para a superfície. Quando finalmente abri passo na noite, a chuva caía com tanta força que mal podia respirar, inclusive por cima da água. Ao empurrar a cabeça para o alto, na medida do possível, traguei o ar e logo me deixei cair, tratando de me orientar. As ondas me golpearam o rosto quando fui arrastada lateralmente ao longo da costa. Dava-me conta de que não podia sair da água e minha única esperança era conseguir um lugar seguro em um cais de algum jeito.
Mas as correntes da Baía de Newark eram fortes e traiçoeiras e me levavam para longe do lugar onde tinha sido jogada, a um ritmo bastante bom. O petróleo e os escombros das dezenas de navios porta contêineres ancorados aqui faziam com que a água fosse fedorenta e viscosa e estava me fazendo arquejar e tossir. Por cima de mim, o cais estava iluminado pelo laranja rosado das luzes de vapor de sódio. Era alto, uns bons 15 pés sobre a superfície, e devia haver escadas de emergência em alguma parte. Depois de tudo, se houver um cais, a gente, cedo ou tarde as encontra. Concentrei-me em encontrar uma delas.
Tinha sobrevivido durante quinhentos anos por inteligência e sorte e eu esperava não ficar sem sorte esta noite. Minutos preciosos foram passando enquanto eu nadava em diagonal para a borda, com as ondas e consegui ser puxada de novo pela maré. Por último, uma língua de terra e um comprido cais se elevavam diante de mim. À medida que a corrente me varreu para debaixo do cais, estava sendo jogada contra os blocos de cimento até que finalmente fui capaz de me aferrar a um. Estava escorregadio com asfalto, e as cracas fortes e traiçoeiras sob a superfície. Não pude aguentar muito tempo sem cortar pedaços de mim mesma e, para piorar as coisas, o frio estava fazendo minhas mãos ficarem dormentes.
Logo a hipotermia foi avançando lentamente através de mim, me fazendo sentir enjoada e lenta de pensamento. Eu não sentia as mãos ou os pés. Comecei a me sentir como em um sonho e me perguntei se era assim que se sentia a morte, quando me golpeei contra outra pilastra de cimento. A dor aguda e a quebra da onda de adrenalina que se disparou através de mim, levaram-me de volta à deriva no esquecimento. Girando ao redor de minha cabeça podia ver os contornos de uma escada de mão estendendo-se para baixo, do cais de acima. Eram perto de vinte metros de distância. Coloquei nisso todas as minhas forças, dando pernadas poderosas com os pés e usando de minhas asas como remos grandes. Golpeei outro amontoamento e dei uma cambalhota. Se eu não fosse cuidadosa, seria varrida completamente pelo lado de baixo do cais e para fora na baía. Esta era minha última possibilidade de voltar à instalação de contêineres a tempo para pegar os terroristas.
Nadei para frente com toda a força que possuía. Estendi a mão e consegui me agarrar quando as ondas me jogaram. Senti a força de um puxão em meu ombro, mas apertei minhas garras ao redor do metal. Aproxime-me mais à escada e por fim, pus minha outra mão ao redor dos degraus. Comecei a me arrastar para cima.
Minha pele estava empapada e minhas asas pesadas. Não podia sentir meus pés absolutamente. Os degraus de metal eram escorregadios, e tinha frio até os ossos. Tomei fôlego profundamente. Não tinha mais remédio que me esforçar para chegar ao topo, que se elevava a uns 5 metros acima de mim. Não me atrevi a deixar escapar. Se voltasse a cair na água ficaria à deriva até o amanhecer. Eu não podia morrer, mas não estaria consciente da vida tampouco. Isto é, não podia falhar. Só podia imaginar o que poderia ter parecido, esta forma de morcego enorme, flutuando na água salgada, pouco a pouco subia pela escada metálica vertical, um passo de cada vez, um verdadeiro monstro das profundidades. Minha trajetória ascendente me pareceu como se tivesse durado horas, mas provavelmente não era mais que uns poucos minutos. Eu estava quase no topo, a dois degraus de distância da cobertura, quando meus pés quase congelados se escorregaram no metal liso, molhados. Caí para baixo com os pés balançando-se no ar, mas me aferrei à escada com uma mão. O puxão em meu braço enviou uma dor através de meu corpo. Gritei. Estava pendurada por uma mão, tratando de pôr os pés nos degraus, ricocheteando contra a escada e não pude conseguir um agarre com a outra mão. Nesse momento eu estava conversando em voz alta, fazendo assobiar ruídos, o que ocorria quando estava estressada.
Estava apertando os dentes e me agarrando com cada grama de força que tinha quando uma mão se abaixou e me agarrou pela parte traseira do meu pescoço. Logo outra mão agarrou debaixo de minha axila. Na subida tive a oportunidade de dar um impulso forte e me agarrar por um longo tempo na parte superior do cais, caindo ao lado de meu salvador. Fiquei ali caída, apenas capaz de voltar a cabeça para ver o bom samaritano que me havia suspendido.
Um ser humano em roupa militar já estava lutando para levantar-se, e quando levantei a cabeça para agradecer, meu salvador se voltou e me olhou.
Era minha mãe.
Pensei que estava delirando. Devo estar alucinando. Ela me seguiu? Por que estava aqui? Como chegou aqui? Não fazia nenhum sentido. Comecei a levantar sobre meus joelhos quando vi luzes cruzando o cais, e às vezes os homens gritavam:
- Onde você está? Você a encontrou?
Mar-Mar respondeu:
- Por aqui! – Ouvi um clic de uma lanterna, varrendo acima e abaixo como um sinal.
Antes que eu me desse conta, J estava encima de mim. Passando a luz de uma lanterna grande para frente e para trás sobre meu corpo.
- Hey, tira essa coisa de meus olhos, - gritei, e pus um braço sobre meu rosto.
- Você está bem? – minha mãe, me sussurrou no ouvido.
- Estou bem, mas...
- Nós conversaremos mais tarde, - sussurrou e se levantou.
- Pode assumir daqui, meu capitão? – disse secamente para J.
- Sim, Mar-Mar. – respondeu ele, e ficou duro como um pau.
Logo se despediu dela. Pensei que estava sonhando ou tendo um pesadelo. Tudo se apoderou de mim em um momento de padecimentos realizados. Estive sendo manipulada. Eu tinha sido enganada. Minha mãe tinha tramado tudo, minha contratação, a equipe Darkwing, o enfoque de vampiros espiões para salvar o mundo. Eu deveria ter sabido. Quanto tempo havia estado trabalhando para a inteligência dos EE.UU?, eu não sabia, mas sabia que ela sempre estava jogando com os meninos grandes. Minha mente girava em um redemoinho vertiginoso de pensamentos, e senti o início da mãe de todas as dores de cabeça.
- Continua, - ela disse a J, então passou um carro e escapou na noite com vários dos homens.
J se voltou para mim.
- Está ferida? É capaz de sustentar-se em pé?
- Estou bem, - enquanto me pus em pé. Sacudi-me como um cão o faz, enviando um spray de água em todas as direções. O calor começou a fluir novamente dentro de minhas veias. Minha respiração voltou para a normalidade. Em questão de segundos me sentia em perfeita ordem, por assim dizê-lo. – O que está acontecendo? – Perguntei ao J.
- Os terroristas estão nas instalações. Nossos homens têm um dispositivo de rastreamento em um carro que desceu de Englewood Cliffs e estão seguindo o sinal, mas há ao menos outros dois grupos de quatro ou cinco homens cada um com eles. Um grupo te atacou, e todos eles estão em algum lugar no porto. Acredito que se dirigem para o contêiner. Tem que estar no ar para ver se pode vê-los. Hei aqui têm um walkie-talkie para substituir seu telefone celular. Acredito que provavelmente está fora de serviço depois de ser submerso.
- De acordo, - e tomei o aparelho. O que acontece com os outros membros Darkwing?
- Cormac chegou atrasado é obvio, mas ele está aqui, - disse J, apontando havia acima. – Está voando em busca dos rebeldes não esperávamos. Não sei o que passa com Benny. Ela não chamou. Ela só pode aparecer.
- Espero com todo meu coração que ela o faça. – disse-lhe com tristeza, sabendo que não podia ser.
J começou a ligar com pressa.
- Bem. Vou reunir-me com minha equipe e ver que faz o seguimento dos carros. Você voa.
- O que quer que faça se encontrar alguém? – Perguntei-lhe rapidamente.
J já estava correndo para um jipe quando disse:
- Com o rádio me informe. Assegure-se de que ninguém tenha um detonador.
- Isso é tudo? – Disse-lhe com sarcasmo.
- Pode manejar isso, senhorita Urbano. – J disse e me sorriu.
- Certo, - disse-lhe enquanto voava para o céu com um grande salto, planando com graça, mais alto, em asas de morcego até que eu fosse uma silhueta enorme, escura, contra a cor laranja das lâmpadas de sódio.
Não era algo assim como assombro no rosto de J, quando olhei para atrás. Uma vez no ar, rapidamente, vi Cormac e voei para ele. Deu-me uma saudação brincalhona e gritou por cima do vento e da chuva.
- Hei, Daphy, quer me acompanhar acima?
- Boa ideia. – Está fazendo uma busca metódica? –Perguntei-lhe, pensando que Cormac descia em picado ao redor de um grau ou por força, deixando tudo para arriscar à sorte, como ele fazia pelo geral.
- Nunca pensei nisso. Vamos fazer um quadriculado. Dez filas, dez contêineres por cada fila. – Eu lhe gritava, meu grito soava como um assobio no vento.
- De acordo. – chiei-lhe de novo.
Começamos a descer em picada, em uma grade de cada vez como senti a urgência da situação que espremia meu cérebro. Trabalhando rapidamente e de maneira eficiente, enviamos sinais inaudíveis que saltaram atrás melhor que qualquer homem de radar alguma vez tinha criado. Um grupo foi assinalado dentro de uns trinta segundos. À medida que descendíamos os vi brigar com um soldado que estava recebendo o lixo, mas dando uma grande briga. Um dos terroristas caiu no chão, gemendo. Os outros quatro foram se aproximando na caça do solitário.
Descemos, e nossos corpos alados projetaram longas sombras nos homens. Os terroristas olharam e gritaram. Distraídos pelo nosso aspecto, esqueceram-se de seu oponente, que se moveu para atrás e cortou a garganta de um terrorista. O sangue escorreu pela camisa do homem. Quando se deslizou para o chão, o sangue escorria no asfalto, mesclando-se com a chuva.
O soldado estava vestido com uniforme de camuflagem, uma máscara de esquiar negra lhe cobria o rosto, uma faca de comando na mão, e um rifle semiautomático pendurado ao ombro. Agarrou outro terrorista pelo cabelo e gritou, perguntando-lhe que módulos continham a arma. Empurrando a cara do homem para o homem morto, o soldado estava gritando:
- Me dê o número! Dê-me o número de merda, bode miserável. Agora. Ou morre!
O terrorista o olhou com absoluto terror, mas não emitiu nenhum som. Ele meneou a cabeça. Ele, como seus irmãos, estavam preparados e dispostos a morrer por sua causa. Fiel a sua palavra, o soldado com frieza cortou a garganta do terrorista e arrojou o corpo ao chão. Logo olhou diretamente para mim. Ele tirou a máscara de esqui. Era Darius.
Sentimentos desencontrados surgiram de mim, amor, ódio, tristeza, irritação. O olhar que me deu foi mais fácil de ler. De ira raivosa. Darius era o arquétipo de um guerreiro no campo de batalha, que ao longo dos séculos se consumou sempre com a determinação de vencer ao inimigo ou morrer brigando.
Eu poderia ter conseguido minha vingança nesse momento, poderia derrubar e lhe fatiar a garganta com minhas garras, eu não necessitava uma faca. Queria fazê-lo pagar pela morte de Benny. Mas não queria vê-lo morto por minhas mãos. Eu seguia olhando-o, quando arrogantemente me deu as costas. Ele era um filho da puta. Estava sangrando pelas costas, mas tirou a faca de comando do cinto e colocou a máscara de esqui de novo. Logo se pôs a correr por uma fila de contêineres e desapareceu na noite.
Cormac e eu agarramos aos dois últimos homens de pé. Tremiam em nossas garras, caíram de joelhos e choravam a Deus pedindo a salvação. Falei pelo rádio com J, e em questão de segundos, figuras vestidas de negro deslizaram na vista e se encarregaram deles. Eu sabia que iam tratar de conseguir que falassem, mas não tinha muitas esperanças.
Cormac e eu voltamos para ar de novo e reatamos a busca pela rede. Segundos foram passando. Tínhamos milhares de contêineres para ver. Inclusive trabalhando rápido, tomaria horas cobrir toda a instalação. Necessitávamos sorte e a necessitávamos agora.
Não a tínhamos. Em troca, o som do fogo de um rifle automático começou um terrível estrondo perto, e uma bola de fogo ardia no céu noturno, seguido de uma grande explosão. A explosão não era a nuvem de cogumelo de uma arma nuclear, a não ser outra coisa. Nós dois, os vampiros, escaneamos o lugar. Um carro se via envolto em chamas.
Caí ao lado do J. Ficamos ali sob a chuva, o rosto iluminado pelo fogo. J estava molhado até os ossos. Seu rosto era tão rígido como o ferro, seu cenho franzido pela ansiedade, sua tensão como um arame estirado. Olhou-me com seus olhos azuis de ágata. Era um homem correndo contra o tempo. Pude ver claramente seus pensamentos, como se estivesse olhando na água clara.
- Que diabos aconteceu? – Perguntei-lhe.
Gritou por cima do ruído do carro em chamas,
- Eles trataram de fazer uma corrida mais à frente do portal. Começaram a disparar e devolvemos o fogo. Logo explodiram.
Olhei o esqueleto negro do veículo e podia ver as figuras dos homens calcinados no interior.
- É melhor eles que nós. – disse sem compaixão.
J assentiu com a cabeça.
- Sim, mas nós estamos ficando sem opções. Aqueles homens que capturaram não se comunicam. Talvez em algum momento, mas não rápido o suficiente. Olhe, volta ali e encontra o grupo restante. Segue-os até o contêiner. Não os detenha. É nossa última oportunidade.
Eu com minhas pernas flexionadas e estirei as asas, me preparando para despegar havia o aguaceiro.
- Farei meu melhor esforço. – disse-lhe com gravidade, e estava a ponto de separar quando J me tocou o ombro, detendo-me.
Ele se aproximou de mim e me disse ao ouvido:
- Srta. Urbano, seu amigo Darius Bela Chi está aqui.
Inclusive a menção do nome de Darius em mim, foi como uma lasca de vidro, o assenti com a cabeça e tratei de manter minha cara sem emoções quando J adicionou:
- Ele é um canhão solto. Cuide de suas costas.
- Obrigada. – e realmente o agradecia. Olhei para Cormac, e, se lia em seu rosto corretamente, era o melhor momento de sua vida. Fiz um sinal para que ele subisse e me disparei para cima uma vez mais.
Eu poderia fazer comentários zombadores sobre Cormac, mas ele tinha vivido mais tempo que eu. Comportava-se como um imbecil, era só isso: uma acusação. Tinha-o visto ser egoísta, narcisista e um diletante, mas acima de tudo, era um vampiro que formava parte de uma irmandade que nos unia com correntes inquebráveis. Também significava que ele tinha que ser inteligente, duro e com uma sorte maldita. Quando os jogos de dados eram lançados por qualquer um de nós, sempre saíam os sete da sorte. Juntos fazíamos uma equipe quase invencível e essa era a verdade.
Cormac me gritava, agora com grande emoção. Viu o grupo restante dos terroristas, estavam em movimento, correndo do princípio ao fim por uma fileira de contêineres. Tinham armas na mão. Ficamos detrás deles, seguindo-os em voo rasante. Ambos vimos o soldado solitário que descia uma rua transversal para eles, com seu rifle elaborado e preparado. Não sabia que os terroristas estavam ali. Não sabia que estava ali, mas em questão de segundos nos encontraríamos. Não haveria um tiroteio. No melhor dos casos – e era uma péssima opção - o corpo a corpo deixaria que chegassem ao contêiner, nunca poderia encontrá-lo. No pior, detonariam a arma e todos eles, os outros milhões de pessoas, lamentariam.
Antes que pudesse detê-lo, Cormac como um morcego do inferno, se lançou sobre o soldado. Com as garras de seus pés lhe agarrou Darius por trás, enviando-o através da aérea de navegação. Darius se chocou contra o chão duro e se deslizou sobre o asfalto até que o rifle na mão golpeou o lado de um contêiner.
O ruído era ensurdecedor. Lutando sobre seus pés, Darius deu a volta, para disparar em Cormac. Equilibrei-me e lhe rocei com minha asa, deixando-o de joelhos. Mas já era muito tarde. O bando de terroristas deviam ter ouvido os disparos e dobraram a esquina, disparando suas armas. Carregue-me contra eles com Cormac atirando de meu traseiro e voamos como as águias gritando aos homens.
Felizmente levavam só pistolas, semi-automáticas, e atirar em um objeto com uma arma de cano curto a uma distância foi pura casualidade e pelo geral um rebote. Nossa sorte fazia presença e nos perderam por uma milha, enquanto as balas tocavam os lados dos contêineres de metal. Os terroristas começaram a retirar-se, pelo corredor por onde haviam vindo. Gritei no rádio para J. Ele respondeu, e eu lhe gritei que viesse aqui rápido. Disse-lhe que ia ao ar onde pudesse ver-me. Ele disse:
- Me dê o número.
- O quê? – Eu não sabia o que queria dizer.
- A localização, maldita seja. Procura nos contêineres. Há um número pintado no asfalto, onde está estacionado. Rápido!
Olhei e lhe disse que era AB2021.
- Estamos a caminho. – ladrou.
Cormac e eu perseguimos os terroristas em fuga, a captura, foi fácil e batemos a seu redor com os pés e as asas. Os 5 deles caíram como boliches. Rastreie para a coberta detrás dos contêineres, alguns deles seguiam disparando, por isso tivemos que ir voando rapidamente. Outros foram correndo pela rua entre as filas. Ao igual a bombardeiros B-2, Cormac e eu voamos em círculos para nossa segunda carreira.
Nesse momento J e seu pelotão entraram chiando em um jipe. Saltaram a cabo com seus rifles, com J gritando aos terroristas para conseguir suas mãos em alto. Um terrorista abriu fogo. J se lançou fora do caminho e um pelotão de uns poucos membros rápidos, levaram o agressor para baixo. O sangue se mesclava com os atoleiros no asfalto, úmido e negro. Dois terroristas dispararam e caíram outros. Por último os dois últimos, que estavam escondidos detrás de um recipiente, atiraram suas pistolas e gritaram que se rendiam. Eles puseram suas mãos sobre suas cabeças e se dirigiram à luz. J e seus homens os agarraram e os algemaram.
Estavam de barriga para baixo na parte traseira do jipe antes de saber o que aconteceu, e o condutor ia à alta velocidade para fora. Foi então quando escutei os gemidos. Voei para Darius, que tinha ficado aturdido, perto de um contêiner. Jazia de barriga para cima, sob a chuva, o fuzil ainda apertado em sua mão. Não vi muito sangue, só uma entrada pequena e redonda ferida no peito.
Sentia-me como se um ferro abrasador marcava meus pulmões; cada respiração me fazia mal. Ao me dar conta do muito que minha forma de morcego lhe angustiava, aterrissei e me transformei rapidamente. Fiquei ali em uma chuva torrencial, nua à exceção de minha bolsa de couro empapado. Tirei-me isso pela minha cabeça e a deixei no chão.
Inclinei-me sobre Darius, pegando sua cabeça e sustentando-a em meus braços contra meu peito. Eu estava chorando. Meu pranto não deixava de vir. Ele me olhou, voltou a cabeça e fechou os olhos, não querendo ver até então, quando estava morrendo. Abaixei-me para tomar o pulso no pescoço. Ele fez uma careta para meu tato. Seu pulso era débil e uniforme. A ferida parecia perto de seu coração. Não me cabia dúvida que em poucos minutos deixaria de viver. Darius se tinha posto na batalha e ele ia morrer como um herói. Carma seria por-se ao dia com ele por outro lado, ou talvez já tivesse: uma vida por vida, por Benny. Então por que me sentia tão mal?
Uma sombra cruzou sobre nós. Imaginei que era Cormac retornando. Voltei-me para lhe dizer que procurasse a jaqueta de alguém para que me vestisse. Um morcego caiu ao lado de mim. Era loira, na escuridão. Era Benny.
- O que está fazendo aqui? Está morta! – Disse com assombro, e a olhei.
- Sou uma morta vivente, doce, mas eu certamente não estou morta ainda. Cheguei tarde. É uma longa história. Preocupa-se? – Disse ela, mas sua atenção estava fixa em Darius, cuja vida ia decaindo ante nossos olhos. – Querida, o que está acontecendo aqui? Esse é seu homem.
Assenti com a cabeça e afoguei um soluço.
- Mas o que faz aí sentada sem fazer nada? Salva-o!
Eu a olhava sem compreender.
- Morda-o! Não tem muito tempo. Não o deixe morrer!
Tratei de acoplar minha mente ao redor de suas palavras. Nunca me ocorreu convertê-lo em um vampiro. Teria se convertido no que ele mais odiava. Seria a vingança perfeita, mas seria uma coisa terrível. Comecei a explicá-lo, quando Benny interveio.
Você pensa malditamente demais. Como sabe o que quer? Segue a seu coração! Pelo amor de Deus, você o ama. Não o deixe morrer. Se não o morder, eu farei!
Deixei de pensar e comecei a sentir. Nua, ajoelhei-me no chão frio, duro e pus meus lábios em seu pescoço. Algo começou a arder em minha carne. Era seu crucifixo. Eu o separei e o joguei na medida que pude. Então me inclinei uma vez mais, com ternura, com suavidade encontrei sua artéria carótida com meus lábios. Então eu lhe mordi e comecei a beber o sangue de meu amado. Com suas últimas forças tratou de me afastar. Abracei-o com firmeza e segui bebendo. A sensação foi deliciosa. Eu estava cheia dele e o possuía, corpo e alma. Era melhor que sexo, era uma experiência que unia o humano e o imortal em uma união que era de uma vez maldita... e divina. Darius ficou inerte em meus braços, mas ele não morreu. Senti seu corpo com vida debaixo de minhas mãos. Rompi o beijo. Voltou à cara para mim e abriu lentamente os olhos.
Em uma voz apenas mais que um sussurro disse:
- Por quê? Odeia-me tanto? – olhei-o e nunca antes havia sentido tal mescla de tristeza e alegria.
Viveria agora, mas possivelmente nunca me perdoaria por convertê-lo no que ele mais odiava.
- Por favor, me acredite, eu não te odeio Darius. Eu te mordi porque Te amo. – Seu corpo era pesado contra o meu. Eu esperava que recordasse sempre o que sentia sob meus lábios. Deixei-o lentamente no chão e me levantei.
J chegou correndo pela rua. Mantinha os olhos nos meus, nunca olhou para meu corpo nu. Deu-me uma bolsa de papel e uma toalha seca.
- Toma, - disse. – O comandante disse que poderia necessitar isto. – Logo se foi gritando pelo rádio pedindo um médico.
Não acredito que ele viu o que fiz a Darius. Olhei dentro da bolsa. Merda. Tinha me levado a roupa que minha mãe levara ao Brooklyn. Pensei que ela o fez de propósito, realmente o fez. Enquanto um soldado se aproximou correndo para ele com um estojo de primeiro socorros médicos, afastei-me de Darius. Aproximei-me de um contêiner e rapidamente me limpei.
Peguei a roupa da bolsa, coloquei e me senti como uma refugiada de Woodstock. Minha mãe tinha posto inclusive um guarda-chuva dobrável na parte inferior da bolsa, tipo Mary Poppins. Abri-o e olhei para Benny. Ela se mordia os lábios de morcego, tratando de não rir de mim. Outro jipe se aproximou com seus pneus chiando. Os homens saltaram do carro e levantaram Darius pelas axilas e os pés. Puseram-no na parte traseira do jipe e se foram. Observei-o, sabendo que ia viver sem saber se estaria contente com o que fiz, ou se alguma vez voltaria a vê-lo. Fiquei com uma vontade louca de chorar. J se aproximou e gritou para Benny.
- Srta. Polycarp. Onde diabo esteve?
- Senhor, sinto muito. Eu estava em uma sauna. O telefone celular caiu em mal estado, tudo depende do calor, assim que me apressei para chegar a um lugar toda a noite para conseguir um novo, mas o número trocou absolutamente para sempre...
- Não importa! – J rugiu.
- Srta. Urbano, traga o seu traseiro aqui! O'Reilly! – gritou. Cormac veio descendo. Dois vampiros enormes, um capitão de saco cheio, e uma aspirante a Mary Poppins se acomodaram na chuva para uma conferência. – Olhe, temos uma situação desesperada aqui. Pegamos todos os terroristas, mas outros podem estar implicados. Podem saber onde está o contêiner, e a qualquer momento podem tirar o detonador da arma. Temos que encontrá-lo agora. O fechamento do porto custará milhões de ganhos perdidos e desbarate à economia. Daria aos terroristas uma vitória. Temos que encontrar essa arma o quanto antes possível. Alguma ideia? – Era evidente que estava agarrando a um prego ardendo. Como diabos nós íamos ter ideias se ele não as tinha? Nesse momento, uma figura pequena, magra apareceu a seu lado. Mar-Mar tinha chegado.
- Obrigada, capitão. – Disse ela, sua autoridade inconfundível, apesar de que parecia uma adolescente vestida para um concurso de pintura. – Deixe que me ocupe disto J.
- Daphne, - disse ela, me olhando. – Quando estava com Boaventura ou ontem à noite no apartamento de Bockerie, não encontrou nada que possa nos dar a localização do contêiner? Pensa! Houve algum papel com uma combinação de números e letras nele? Poderia não ter significado algo para ti. Havia algo?
- Sim! – Na carteira de Bockerie. Uma nota.
- Recorda o número? – perguntou-me.
- Claro que me lembro. – Corri para minha bolsa. – Mas, melhor que isto. Tenho a nota. – Corri ao grupo antes que tirassem minha carteira. – Aqui. – eu disse, entregando o papel a ela.
- R530, - leu-o em voz alta para que todos pudessem escutar. –Capitão, alerta da brigada de explosivo. Consiga-os já! Vá fazer-lhes rodar! – ela gritou.
Cormac e Benny tomaram o voo. Saltei a um jipe com J e Mar-Mar. Arrancamos temerários, para baixo às filas dos contêineres em busca do R530. À medida que nos detínhamos, dezenas de caminhões e jipes se reuniram na cena. Os homens correram à porta do contêiner e começaram a aplicar a detecção de dispositivos, em busca de uma maneira segura de entrar no espaço. Supus que o Trabalho Darkwing estava feito aqui.
Benny e Cormac tinham aterrissado atrás de um contêiner próximo, fora da vista. Quanto menos pessoas soubessem de sua existência, melhor. Mentiras caminhavam mais, Cormac disse:
- Amigas, vou daqui. Tenho um encontro me esperando, acreditem ou não e ele e um encanto. Está cozinhando o jantar para mim. Dar-lhes-ei uma chamada de meninos. Isto realmente foi uma explosão. Não posso recordar quando tive tanta diversão. Adeus. – gritou enquanto saltava para o céu da noite. Voltei-me para o Benny.
- Pensei que tinha morrido. Meu anel...
- Oh, doce! Seu anel. Não tive a oportunidade de te dizer. O miserável de Louis. Ele me roubou isso! Peço-te desculpas. Só sei que entende. Eu e ele somos história, doce, isso é tudo o que tenho que dizer. Quando um namorado começa roubando-lhe, é por que, simplesmente não há confiança. E sem confiança, não há relação, eu sempre o digo.
Eu tinha ouvido isso antes. Parecia como se tivesse estado falando com minha mãe.
- Depois desse pequeno incidente em Jersey... e querida, já sei que você não gosta, mas Oh! Sei que foi uma noite quente, admito que não seja uma dama em algumas coisas, eu me pus a pensar e Louis tinha realmente algo. Sabia que podia sair um pouco fora de controle, mas, ninguém é perfeito, sabe? Regressamos a minha casa, e eu realmente acreditava que ia se mudar. Tivemos uma noite incrível, já te contarei.
- Então, o que saiu mal?
- Foi enquanto estava dormindo! O cretino! Despertei com a cama vazia, o apartamento vazio, e Louis se foi. Também se foi seu anel. Tratei de encontrá-lo, realmente o fiz. Procurei toda a condenada noite de ontem. Inclusive sua mãe não ouviu falar dele. Que idiota! A única coisa que lhe importava era o dinheiro, você sabe. Seguiu falando da plantação que sua família tinha tido uma vez. E de algum vampiro chamado Lestat. Ele me perguntou a respeito dos diamantes de Boaventura e tudo. Se foi e sem dizer uma palavra. Ele nem sequer me disse o velho o sinto, você sabe, Sou eu, não você. Sinto muito, doce, realmente, a respeito de seu anel e tudo.
Decidi nesse momento não lhe dizer que Louis tinha sido estacado. Deixando-a tão irritada. Se eu lhe dissesse que estava morto, converteria-se em um mártir ou um herói. Provavelmente foi ao apartamento de Boaventura para conhecer o lugar, que estava vazio e estava procurando coisas para roubar. Segui pensando que foi Darius quem o fez. Mas talvez nunca saibamos o que realmente aconteceu. Dei-lhe um abraço.
- Benny, não se preocupe. Tenho meu anel. Devolveu-me.
- Fez? – disse assombrada. – O que há dito?
Cruzei os dedos atrás de minhas costas, porque estava a ponto de lhe dizer algumas mentiras incríveis.
- Não falamos. Simplesmente o deixou onde eu poderia encontrá-lo. – Bem, essa era a verdade, só que não toda a verdade.
Ela se pôs de pé reta e sua pelagem arrepiada.
- Isso me faz sentir um pouco melhor a respeito dele, mas não muito. Ele me abandonou uma vez, e ninguém pode me fazer isto duas vezes.
Assenti com a cabeça na comiseração, de uma vez que me mordi os lábios, intentando não lhe sorrir. Ela estava agitada, e desde que estava em forma de vampiro, batendo suas asas, as mantendo agitadas. Parecia muito divertido para mim.
-Tem razão, - disse-lhe, - acredito que se foi para sempre. Talvez simplesmente não estivesse preparado para um compromisso e não sabia como lhe dizer isso.
- O inferno com ele, doce. Eu não espero a ninguém. Sabe o que minha mãe sempre dizia? O peso é o que rompeu o carro para baixo. E sabe outra coisa? Os homens são...
Terminamos ao uníssono....
- Como os bondes. Outra virá em um minuto.
- É obvio, - disse e soltou uma risada. E com isso começou a transformar-se. E num abrir e fechar de olhos ficou de pé ao meu lado como um pássaro desnudo. Cristo, provocaria um motim quando saísse caminhando em busca da saída dessa maneira. Ela ficou sob o guarda-chuva comigo. – Vamos ver se podemos conseguir algo para me vestir, - disse. – Estou mais fria que o traseiro de uma escavadora.
Aparecemos do lado do contêiner para ver quem estava ali. Um jovem soldado estava com um jipe. Rápido através do vento e a chuva, corremos atrás dele. Deu-se a volta e nos deu um olhar atônito. Lindo como um inseto e jovem, de 20 ou 21 anos de idade, tinha o cabelo escuro, os mesmos redondos e olhos verdes que estavam a ponto de estalar fora da cabeça, quando, de repente, se encontraram frente a frente com duas jovens, uma delas pelada.
- Poderia fazer um favor a uma Dama? – Disse Benny arrastando as palavras.
- Sim, senhora. – disse, arrastando as palavras de volta, e tratou de não lhe olhar as 34 DDS.
- Teria uma manta ou uma jaqueta na parte traseira do jipe?
- Sim, senhoras, têm das duas, - disse, e imediatamente começou a rebuscar. Tirou um poncho verde militar e o entregou para ela.
Ela o pôs e a cobriu até os joelhos. Voltou-se para o jovem soldado ele dedicou um sorriso radiante.
- Obrigada por ser um cavalheiro. – disse.
- Em qualquer momento. – disse, e lhe devolveu o sorriso, mostrando os olhos e muito encantado.
- Agora, não posso deixar de notar que não é um ianque. – Ela disse e saltou no assento do jipe, sentou-se frente ao jovem GI e cruzou as pernas.
- Não senhora, não sou. – disse o soldado enquanto a observava. Então colocou a mão na parte posterior do jipe de novo e tirou uma manta. A abriu. – Posso colocar isto ao seu redor, senhora? Vê-se que tem frio.
- Você é um bom cavalheiro sulino. – Ela brilhava. – De onde é, moço rebelde?
- Campanário, Kentucky, - disse, olhando-a e esquecendo-se de que eu existia.
-Eu sou do Branson, Missouri. Agora não é tão somente uma coincidência? Qual seu nome, se não estou sendo muito audaz ao pedir? – Ela pôs a mão bem cuidada na sua manga.
- Larry D. Lee, - disse, tocando sua boina enquanto falava com ela.
-Qual é o significado de D? – disse descaradamente coquete.
- Maldito seja, respondeu-lhe com cara séria.
-Maldito seja? Por que isso? –ela disse, seus grandes olhos castanhos arregalados.
- É maldito seja porque cada vez que meu papai me chamava, dizia-me: Larry, maldito seja, veem aqui! Assim que minha mamãe disse que: maldito seja era meu segundo nome e o nome pegou. – Ele fez um trocadilho com duas sílabas.
Imaginei que eu era uma quinta roda e me desculpei. Estavam falando a mil por hora e nunca pareceram dar-se conta de que eu estava indo, me dirigi para J, sorrindo para mim mesma. Benny não ia sentar ao redor de uma fogueira por Louis. Não sei se Larry D. sabia no que estava se metendo, mas pude ver atrás desse ato inocente. Esses rapazes do país podem resolver. Benny havia encontrado um partido no céu... ao menos por um par de semanas. Agora tinha algumas coisas próprias para enfrentar.





Capítulo 16

Tudo está determinado, desde o princípio, assim como no fim, por forças sobre as quais não temos controle.
Determina-se para o inseto, assim como para a estrela. Os seres humanos, vegetais, o polvo cósmico, todos dançamos com uma melodia misteriosa, entoada na distância por um flautista invisível.
Albert Einstein


Cruzei o asfalto úmido, escuro, minhas velhas botas de neve chapinhavam nas poças de água, a saia longa de veludo estava empapada e se enredava ao redor de meus pés. Não havia visto Mar-Mar em qualquer lugar e pensei que estava fora, na prestação de informações ao Presidente ou algo assim. Todavia caminhava para AC, estava a ponto de desmaiar de cansaço. A cabeça batia com força, meus lábios tremiam e eu sabia que meu rosto devia estar azul de frio.
J pode ver que eu estava sacudida.
- Parece que deve tomar um café quente, Srta. Urbano. – disse.
Pegando meu braço, me levou para o Jeep, abriu a porta e tomou o guarda-chuva de minha mão. Ele o abaixou, sacudiu a água e o guardou atrás do assento. Então me ajudou a entrar e se meteu ao lado, no assento do condutor. Depois fechou a porta, pegou uma garrafa térmica de uma sacola no chão e colocou café em uma caneca de plástico vermelha, que vinha a ser a tampa da garrafa térmica. Eu tomei-o agradecida e o primeiro gole me disse que estava quente, cremoso e muito doce. Normalmente bebo meu café preto sem açúcar e fiz uma careta.
- O açúcar ajuda a impedir que entre em choque, - disse, adivinhando o que eu pensava. Ele estava me estudando com atenção.
- O quê? – lhe disse. Olhando-o sobre a caneca.
- Srta. Urbano, trabalhou bem. Trabalhou, realmente, bem. Só queria dizer isso. E eu queria dizer-lhe que estava enganado. Sobre um montão de coisas. Mas, sobre tudo, sobre você.
Eu não sabia o que dizer. Minhas emoções estavam todas revoltas no meu interior. Não sabia quão mal tinha ferrado, de muitas maneiras. Mas guardei silêncio. J apartou o olhar de mim então e ficou olhando o para-brisas, onde as gotas de chuva corriam pelos arroios, como as lágrimas que me faltava para derramar.
- Eu recebi uma ligação dos médicos, - disse. – Parece que Darius Bela Chi vai sobreviver. Não sei como está vivo. A bala mordeu seu coração. Perdeu muito sangue. Está na cirurgia, mas as perspectivas são otimistas. Acreditei que gostaria de saber.
- Sim, obrigada, eu agradeço por me dizer. Mas é mais entre ele e eu. Tinha razão, já sabe: é um caçador de vampiros. – disse-lhe, tratando de não chorar. Olhei-o e J me deu um sorriso matador. – As coisas terminaram mal conosco. E acredito que eu o odeio.
J ficou em silêncio por um momento antes de dizer:
- Esse não é meu assunto, senhorita Urbano, mas se tiver assuntos pendentes com ele, talvez tenha que ir falar com ele. Como disse Yogi Bear, não se acaba até que se terminou.
- Não acredito que queira me ver. Uma vez que se inteirou do que sou e me inteirei do que ele é, bom, estamos muito longe. E eu não posso aceitar que ele matou vampiros, exterminando-os por vingança pura, sem compaixão, sem saber o que estava fazendo em realidade.
- Srta. Urbano, - disse J com um som estranho em sua voz. – Eu não gosto de Darius Bela Chi, mas o respeito. É um bom soldado. Quanto a odiar aos vampiros, eu também. Se eu pude mudar de opinião, ele também pode. Depois do que vi... Bom, os vampiros, imagino, são só outro nível do ser, em algum lugar entre os humanos e os anjos, suponho. Eu não sabia antes... Antes que trocasse naquele dia...
- Oh, sinto por isso. – Deus, isto estava ficando embaraçoso. Recordei o beijo que lhe tinha dado. Lembrei-me de como ele inclinou a cabeça na apresentação e a forma em que poderia havê-lo levado nesse momento.
- Não, me deixe terminar. Não sou o tipo de homem dos que fala, assim não me corte. Quero tirar isto de meu peito, - disse, com as mãos apertadas em torno do volante e seus olhos evitando meus. – Antes que mudasse naquele dia eu não sabia de que demônios estavam falando. Não foi o que eu pensava, um monstro. E me demonstraste isso, é uma guerreira natural, incrível, de verdade. E, além disso, é... – deteve-se e tossiu, - uma boa pessoa. Sinceramente sinto se Darius Bela Chi te fez mal. Não o merecia. E se a rejeita porque é um vampiro, ele é um tolo.
- Obrigada por dizer isso. Isso ajuda. – Detive-me por um momento e decidi que não podia suportar a falar de Darius, ou punha-me a chorar. Assim que lhe disse em seu lugar, - Agora minha mãe...
Ele me cortou.
-Olhe, eu não estou em liberdade para falar de sua mãe, nem sequer contigo. Se tiver perguntas, precisa falar diretamente com ela. Sinto muito, mas tenho ordens.
De repente me senti como se tivesse que me deitar. Tudo o que tinha acontecido essa noite tinha esgotado minhas forças.
- Claro, J, entendo, - disse com voz cansada. – Pode me ajudar a chegar em casa agora? Como pode ver, não estou em condições de voar. – Dei-lhe um débil sorriso.
- Você vai estar bem? – disse me dando um olhar de preocupação. – Posso conseguir um médico por aqui.
Baixei a cabeça para ocultar as lágrimas que, de repente, me afligiram. Fiz um gesto com a mão que eu estava bem.
- Só preciso descansar. – Engasguei-me ao final.
- Vou encontrar a um soldado que te leve à cidade. – disse.
E começou a abrir a porta do jipe. Logo a fechou e se voltou para mim. Ele se inclinou e pôs sua mão debaixo de meu queixo, voltando meu rosto para o seu. Com grande delicadeza me limpou as lágrimas que corriam pelas minhas bochechas, com seus dedos. Antes que nenhum de nós desse conta do que estava passando me estava inclinado para ele. Nossos lábios se encontraram em um beijo breve. Era doce, ainda sentia um formigamento da nossa velha química, mas o mundo não se sacudiu. Logo se apartou e desceu do jipe. Antes de fechar a porta, J me olhou.
-Eu deveria ter feito isso no escritório, naquela mesma noite. Teria sido contra o regulamento, mas o que te disse foi muito pior que romper nenhuma regra. Peço desculpas. Quando estiver preparada, se alguma vez o puder, talvez possa fazê-lo, depende de ti. Mas é seu movimento. Srta. Urbano. – Me piscou o olho e, continuando, tipo Gary Cooper em Solo ante o perigo, se voltou e se afastou, alto, orgulhoso, e como um herói.
Eu não estava preparada para que J formasse parte de minha vida, mas o que disse tinha ajudado a minha cabeça. Meu coração estava além de ajudar neste momento: estava-se rompendo por causa de Darius. Não sabia o que faria a seguir. Mas me preocupava com o amanhã.
Quando por fim cheguei ao meu apartamento. Tirei a roupa ridícula e caí em meu ataúde. Então dormi o sono dos mortos, ou mortos viventes, já que pode ser. Levantei-me quando o crepúsculo púrpuro se desvanecia na noite. Meus pensamentos sobre Darius me fizeram sentir como o bater de um gato a uma traça atrás de uma persiana. Não podia deixar de pensar nele, mas eu não podia resolver nada.
Liguei para o hospital para ver como estava. Ainda estava na UCI (Unidade de Cuidados Intensivos), e só a sua família imediata poderia vê-lo.
- É sua esposa? – Perguntou a recepcionista.
- Não, - só uma amiga e desliguei.
Em seguida liguei para minha mãe.
- Mar-Mar, nós temos que conversar. – disse-lhe, em lugar de saudar.
- Você precisa discutir? – disse inocentemente.
- Pode chamá-lo assim. – disse entre dentes.
- Você se importaria de vir aqui, querida? Tenho uma reunião esta noite, assim não posso sair. Iria se pudesse. Se puder vir a Scarsdale, preparo-te algo de comer. – Falava com rapidez, sabendo que estava a ponto de desligar.
- Não se incomode em cozinhar para mim, - prevendo um sofrimento de tofú e as coisas que crescem sobre a casca das árvores. –Vou estar ali às sete. A que hora é a reunião?
- Muito mais tarde. Vêm, - disse. – Amo-te.
- Sim, eu também. – disse, embora não me sentia muito carinhosa. Senti-me traída, enganada, e irritada até o fundo.
Estava vestida simplesmente com um vestido comprido e reto com pescoço e um xale, e me pôs as botas baixas. Toda de marrom. Uma vez mais a cor sóbria se ajustava ao meu estado de ânimo. Mas antes de sair de casa lhe acrescentei um cinto de cor púrpura que tinha comprado em Positano que estava tacheado de bronze pedraria. Acrescentava um toque de fantasia e ligeireza, embora não me sentisse nada caprichosa. Tomei um serviço de carro e cheguei a Scarsdale às 7 em ponto.
Mar-Mar atendeu a porta com um de seus trajes de Janis Joplin: chapéu de aba larga, colete do México, blusa camponesa e calça boca de sino. Seus pequenos pés estavam nus, à exceção dos anéis do dedo do pé. Ficou de pé nas pontas dos pés e beijou o ar a ambos os lados das bochechas. Então ela me tomou do braço e me levou para dentro.
- Como está? – perguntou-me. – Tomou um bom mergulho frio ontem à noite. Acredito que você está aqui por algum motivo? Vou tomar uma xícara de chá de ervas, - disse enquanto se afastava de mim e ia para a cozinha.
Eu a segui.
- Mar-Mar, nós temos que resolver algumas questões.
- Sim, querida, estou totalmente de acordo, - disse de costas a mim.
- Meteu-se em minha vida. Uma vez mais. – Fiquei imóvel, tensa quando minha ira começou a construir-se.
Minha mãe se voltou e me olhou.
- Sim, - disse ela, - e já era hora de que o fizesse. – Entregou uma jarra de cerâmica feita a mão cheia da bebida fumegante.
Levou-a para a ilha da cozinha e se sentou, trabalhando um discurso inteiro a seu fustigar comigo. Não tinha tido uma verdadeira oportunidade. Mar-Mar já estava falando.
- E antes de dizer uma só coisa, quero que saiba, acredito que fez um trabalho esplêndido. Superaste com acréscimo as expectativas que tínhamos para seu desempenho. Exceto o de se envolver com essa pessoa..., dirigiu sua missão quase sem erros.
Ela tinha empurrado quase dez de meus botões e eu jogava faíscas.
- Um momento, vamos voltar aqui. Primeiro, quem somos nós?
- Isso é classificado. Digamos que é o governo dos EUA – respondeu ela com calma.
- Importaria de me dizer por que diabo você está metida nisto, tanto como meu certificado de segurança permite? – Disse-lhe com sarcasmo.
- Daphy, querida, por favor, não tome como algo pessoal, mas qualquer informação sobre meu papel na comunidade de inteligência está na necessidade de conhecer os níveis.
Isso me matou. Fiquei de pé e me inclinei para ela. Virtualmente cuspindo enquanto eu falava.
- Mãe! Se não quiser que saia daqui e para não voltar nunca mais, mais te vale que acalme minha necessidade de saber.
Ela suspirou, alcançou o bule e verteu um pouco mais de chá de ervas em sua xícara.
- Muito bem, querida. Posso te dizer um tanto. Eu tinha estado fora do circuito, por assim dizê-lo, umas quantas décadas. Oh, Mantive meus contatos, mas me tinha dedicado ao movimento de paz. Estava cansada do enfoque maquiavélico dos assuntos mundiais. Então em 11 de setembro passado, alguns velhos amigos se aproximaram e me pediram que voltasse para o que estamos acostumados a chamar O Grande Jogo.
- Assim que todo esse assunto da paz e amor, ou hippie, é só um disfarce, uma máscara? – Disse-lhe com voz desagradável. Não sei se eu alguma vez falei com ela nesse tom antes, nunca me atrevi, mas desta vez tinha superado tudo o que ela me tinha feito. Ela reagiu com veemência, sua voz cada vez mais forte.
- É obvio que não! Sinceramente, acredito que a guerra não é a resposta. A violência nunca resolve nada. Mas esta nação e nosso modo de vida estão sendo atacados. Até esta confusão pode ser resolvida diplomaticamente. Minha intenção é assegurar que uma tragédia como em 11 de setembro não volte a acontecer.
- Isso é o que queria fazer, - comecei a gritar. – Por que me arrastou nisto? – As palavras de irritação tinham sido derramadas como uma corrente de água.
Pude vê-la tirar as luvas de veludo. Algo dentro de mim se encolheu. O aço atrás das magnólias estava a ponto de cortar através de minha pele magra.
- Te colocar nisto? – ela quase grunhiu. – Já era hora de que fizesse algo contigo. Esteve ao redor muito tempo, vadiando... pelo poeta Byron durante quase duzentos anos. Quando foi para a Irlanda no princípio do século passado, eu pensei, bom, finalmente é minha filha, com seus dotes, faria algo de valor e pensar em algo maior que ela. Mas não, isso não durou. Você foi unir-se a esse louco do James Joyce em Paris e se perdeu no desenfreio da década de 1920. Uma vez mais, atuando frivolamente, gastaste seu tempo nos cafés e se entregou na moda e às modas. Inclusive a Segunda guerra mundial não a mudou. Apesar de que fez sua pequena parte como condutora de ambulâncias na Espanha, arrumou-lhe isso para te colocar com os gêneros literários e são tão... tão suscetíveis.
Minha mãe e eu éramos polos opostos em muitos sentidos. Ela era sempre uma pessoa extrovertida, tinha cabeça para os negócios e para a política. Isso não era eu, e eu sempre sentia que era um ato difícil de seguir. Agora estava jogando as coisas que tinha feito e a gente que tinha sido muito importante em minha vida. Isso absolutamente me enfureceu, mas seguia sendo minha mãe, assim que me abstive de expressar minha raiva, e em voz baixa disse.
- Mãe, não acredito que Ernest Hemingway fosse um tipo suscetível. Era perspicaz e bebia muito, mas ele não era suscetível.
- Não vou discutir isso contigo. –Disse com recato. – O ponto é, que perdeste seus presentes especiais durante séculos. Odeio dizer isto, querida, mas foi superficial, absorta em si mesma, e de nenhuma utilidade para ninguém. Te amo, mas não estive muito orgulhosa de você, e odeio lhe dizer isso.
Eu suspeitava que ela sempre houvesse sentido isso, mas ouvi-la dizê-lo, doía como o inferno, embora soubesse que ela tinha razão. Mar-Mar se levantou e retornou para a pia e começou a limpar. Ela sempre estava em movimento e nunca ficava quieta por muito tempo. De costas para mim, disse-me algumas outras coisas que não queria escutar:
- Daphne, parece acreditar que se encontrar a sua alma gêmea, o homem adequado, sua vida mudaria. Se alguma vez tratei de te ensinar algo, é que o amor não é a resposta. Ao menos não assim. Esta é uma história diferente.
Mas, como ia dizendo, meu ponto é, que gastaste sua vida centrada no amor perdido ou encontrar um novo amor, não é mais que egoísta e autodestrutiva. Meu amigo escocês Thomas Carlyle escreveu algo faz cem anos que sempre dormiu comigo. A gente não vai à busca da felicidade. É possível encontrá-la junto ao caminho, enquanto se está levando a cabo seus ideais e seus princípios. E isso se aplica ao amor também. Pode-se encontrar, mas não se pode ir buscá-lo.
Pus minha cabeça sobre meus braços cruzados, derrotada e deprimida.
- Assim que todo este trabalho de espionagem aconteceu porque você me queria? – Gemi.
Deu a volta e me olhou. Mentalmente podia ouvir as palavras que ela não estava dizendo: Sente-se com as costas retas, Daphne. Ponha um pouco de aço em sua espinha dorsal. Nunca deixe que os bastardos lhe coloquem para baixo. É um vampiro. É especial, e nunca tem que esquecê-lo. Como mantive os olhos bem fechados e a frente contra meu antebraço, o que ela disse foi:
- Daphne Urbano, eu te escolhi. Sabia que uma equipe de vampiros poderia ser uma arma tremendamente poderosa na luta contra o terrorismo. É mais pronta que os vampiros que conheço, salvou a missão atual, e tem outra qualidade que te faz especialmente valiosa.
Tenho que admitir, que me tinha enganchado com isso. Me levantei para ela e lhe perguntei:
- E o que é isso?
- Coragem. Irá atrás do que acredita que é correto, sem importar o custo. Eu vi isso em você, desde que era uma menina. Nasceu com valentia em seus ossos. Eu nunca a vi correr de uma luta. Não importa que tão assustada possa estar, seus medos nunca lhe detiveram.
Incorporei-me então. Puxei minha taça de chá de ervas mais perto de minhas mãos e fiz círculos ao redor dela, removendo as folhas de ida e volta na parte inferior. Nenhuma das duas disse nada durante um momento. Por último, falei-lhe.
- Olhe, você tem razão. Estou muito irritada por que utilizou o engano em lugar de ser aberta e honesta comigo. Como sabe que não me teria unido voluntariamente aos Darkwings se me tivesse perguntado?
Ela olhou as mãos, dobrou o pano de cozinha que havia estado utilizando. Ela guardou silêncio por um momento duro e logo se aproximou e colocou a mão suavemente sobre meu ombro.
- Equivoquei-me, - disse e beijou a parte superior de meu cabelo. – Estou tão acostumada a ser desonesta e ardilosa, com máscaras e jogando jogos da mente, que me comportei dessa maneira com minha própria filha, minha própria carne e sangue. Não devia ter feito isso, e espero que me perdoe. Tive o melhor dos motivos, mas o fim não justifica os meios. Nunca o fazem e eu deveria saber melhor. Mas a mudança é difícil. Eu só posso prometer que vou estar melhor no futuro. Espero que fique com a equipe Darkwing. Eles necessitam de você e este país também. E Daphy...
- Sim, mamãe, - ainda tratando de digerir o fato de que ela se havia desculpado comigo pela primeira vez em minha vida.
- Necessito de você.
Fiquei paralisada. As pessoas sempre dependeram de Mar-Mar e ela nunca havia admitido necessitar de ninguém, inclusive de meu pai. Voltei a cabeça e a olhei nos olhos. A antiga sabedoria de uma alma muito velha brilhava ali. Apesar de seu aspecto muito juvenil, tão em desacordo com seu ser interior, Mar-Mar era uma anciã, uma mulher sábia, uma incrível criatura que tinha ajudado a dirigir a história da civilização ocidental, por mais de mil anos. Eu só tinha uma vaga ideia do que tinha acontecido quando ela se misturava com reis e papas, mas estou bastante segura de que a necessitavam e não ao reverso. Tudo passou por minha mente em um instante. Então lhe disse:
- Sim, tenho a intenção de ficar com o Darkwings. Tinha razão sobre meu ser perdido, acredito que estou me encontrando por fim.
- E Darius Bela Chi? – disse com valentia, tirando a luva uma vez mais. Não se alterou.
- Há algumas coisas minha querida, que realmente não são de sua incumbência. – e disse. – Digamos que a informação é classificada.
Para minha surpresa, ela sorriu amplamente.
- Quid pro quo Eu merecia isso. Bom, não deixe que lhe rompa o coração. E se necessitas falar, posso escutar, já sabe. E sempre estou aqui para ti.
Eu lhe devolvi o sorriso.
- Eu sei mamãe.
- Agora, querida, uma coisa mais. – Franzi o cenho.
Que diabos ela ia dizer-me?
- Há uma reunião à meia-noite. Em seu escritório. Não chegue tarde, querida.
Eu realmente não sabia se poderia manejar que minha mãe fosse também meu chefe. Só o tempo diria. Mas nesse momento sua campainha soou. Ela se foi sem contestar. Sua "gente" de Salvemos o grupo de árvores. O hippie velho com o rabo de cavalo cinza estava entre eles. Sorriu quando me viu.
- Shalom! – ele disse.
E se lançou por um momento, até que me lembrei de que lhe disse que estava no movimento da Cabala.
- Shalom de novo para você, - respondi-lhe.
Parecia estranhamente familiar, e senti que o tinha visto em outro lugar, além do loft de Bockerie na outra noite.
- Mar-Mar, - disse a minha mãe. – Será melhor que eu me vá. Eu disse ao serviço de carros que me pegasse às 8.
Ela me deu um rápido abraço.
- Vai com Deus, Daphy, - disse.
Depois correu para seu reprodutor de CD e pôs um álbum da Lorena McKennitt. Fui com os agudos inquietantes e profundos de "The Mystic's Dream" atrás de mim pela porta. Ocorreu-me que toda esta aventura era um sonho da qual despertaria um dia. Uma sensação de frio passou sobre mim quando me fui.
Meia-noite. Nem um ruído no pavimento. Cheguei ao Edifício Flatiron pouco antes da hora das bruxas, depois de fazer uma parada no apartamento para dar uma comida e prestar atenção ao Gunther. Ele não estava contente de ficar para atrás cada vez que eu saia, mas c'est la vie Eu lhe dei um lanche e liguei a televisão em frente a sua gaiola. Não sei se realmente a olhava, mas ponho no Discovery Channel para ele. Tinha uma mensagem em minha secretária eletrônica de Benny, que me disse que me encontraria mais tarde no escritório.
Perguntei-me se à meia-noite, como hora da reunião, era a ideia do J de uma brincadeira. Imediatamente me veio a ideia já que, pelo que eu tinha visto, o senso de humor não era um dos atributos do J. Entrei na sala de reuniões, e estava vazia. Passei e abri a porta de minha pequena sala. Estava vazia e impessoal. Fiz uma nota mental para iluminar as paredes com umas fotos de casa e passar algum tempo aqui, talvez redigindo informes, como se eu tivesse um trabalho normal. Não era muito, mas era meu próprio escritório. Retornei à sala de reuniões e tomei assento à mesa. Benny chegou bocejando pela porta um minuto depois. Ela me deu um abraço grande de amiga, e sua presença me deixou alegre. Depois de que alguém acredita que perdeu a alguém para sempre, tê-lo de volta em sua vida é algo maravilhoso. Estava contente de vê-la, inclusive ao Cormac, quando ele chegou revoando como uma pulga.
- Oh, - disse enquanto puxava uma cadeira e se sentava. – Estou tão ansioso que poderia entrar em uma máquina de costurar com ela em marcha.
- Por que está tão ansioso? – Disse-lhe.
- Meu agente me ligou. Tenho uma audição. Para uma parte principal, em uma nova série da HBO. Esta poderia ser minha grande oportunidade. – Seu rosto estava iluminado como uma árvore de Natal.
- Isso é maravilhoso. Cormac. Querido. – Benny se derramou.
- Pensei que você seria um espião de tempo completo? – Disse-lhe secamente, depois de ter escutado a respeito das possíveis "excelentes oportunidades" de Cormac antes, como a vez que quase teve uma participação como o pajem em Birdcage, só para perdê-lo para um jovem ator porto-riquenho.
- "Mas se posso fazer um espanhol". – Havia se queixado com lástima.
- "Sim, e também de grego e..." – Eu lhe respondi, e ele não me dirigiu a palavra durante semanas.
Agora, disse,
- Daphy, sabe tão bem como eu: Nunca renuncie a seu trabalho do dia. É obvio, é um trabalho de noite neste caso, mas você sabe, eu não sou como você, independente economicamente. Poucos de nós o somos. – disse e foi um tanto pedante.
Antes que pudesse pensar em uma resposta rápida, a porta se abriu. Todos nós olhamos. Um homem que usava um grande chapéu dos Tratores John Diere, uma jaqueta de moleton e botas Timberland, cheia de barro encheu o espaço sem entrar. Tinha a cara vermelha. Tinha o pescoço vermelho. E tinha o início de uma barriga cervejeira que pendia sobre seus jeans. Parecia um operário da construção. Imaginei que ele estava com o pessoal de manutenção.
- Hei, todos vocês. – Ele trovejou, - é aqui onde estão reunidos os vampiros? Supõe-se que devo me apresentar. Sou novato! – Deu-nos um enorme sorriso.
Todos o olhamos boquiaberto, Benny, sempre uma dama, foi a primeira em recuperar-se.
- Pois sim, está no lugar correto. Só entra e sente-se. – Ela puxou uma cadeira para ele justamente ao lado dela. – Agora, como se chama?
- Bubba, - disse. – Isso é o que mais me chama a gente de todos os modos. E você deve ser a senhorita que Larry D. está vendo. Ele é meu primo duas vezes removido, e quero lhe agradecer por lhe falar de seu trabalho. Ele chamou a minha mamãe, e assim é como me enganchei com esta gente.
Benny ruborizou-se quando ele mencionou que ela havia dito ao Larry D. a respeito de nós. Guardar segredos, seguro que não era seu traje comprido. J deve ter estado super zangado quando ouviu falar dele... se ele tinha ouvido falar dele.
Pensei que já tinha ouvido tudo: um vampiro chamado Bubba.
- Bom, Bubba, - intervim, - se tiver deduzido corretamente você também provêm de Campanário, Kentucky?
- Senhora. Não estou muito seguro de por que o pergunta, mas o inferno, sim! Sou do Kentucky. Qualquer que não lhe diga que sou um pescoço vermelho, seguro é um cego e surdo ou morto... Ou bêbado! – disse, seu ventre se balanço da risada.
Com isso J entrou na sala.
- Vejo que conheceram ao novo membro do Darkwing. Bem-vindo a nossa equipe, Senhor Lee. Serei breve. É tarde. – Ele não me deu uma piscada ou um olhar duro. J era de novo um ser todo negócio.
- Nossa última missão foi cumprida. Embora o governo não possa dar, a algum de vós, o reconhecimento público, aprecia que Langley tenha tomado nota de seu valor. Vocês demonstraram que a Equipe Darkwing pode ser uma adição valiosa à segurança desta nação. Eu gostaria de poder dizer que seu trabalho terminou, mas em realidade, não fizemos mais que começar. O'Reilly, permanecerá no lugar no Opus Dei.
-Oh, meu Deus. Cantos gregorianos outra vez. Podem-me voltar louco, já lhe disse isso. – Cormac sempre foi uma rainha do drama, um trocadilho.
J continuou.
- Srta. Urbano e Srta. Polycarp, vocês receberão novas atribuições para o final do mês. Enquanto isso, agrada-nos lhes conceder uma permissão de duas semanas. Consegue alguns R & R. Srta. Policarpo, se desejar voltar para o Branson, podemos organizar o transporte militar. Só me dê uma ligada. E tem uma nota em seu arquivo que precisa ler. Senhor Lee, reunirei com você durante a semana que vem. Contamos com uma atribuição especial para você que poderia se adequar com a Senhorita Urbano e a Senhorita Polycarp. Acredito que vão trabalhar bem juntos.
Pensei: Tem que estar brincando.
- E agora quero distribuir aos membros da equipe original, seu primeiro salário e os estados de ganhos. Felicitações. – Com isso nos passou três envelopes brancos. – Já podem ir-se.
- Um momento! – Benny gritou. – O que aconteceu com os terroristas? O que aconteceu com Boaventura?
J me deu um olhar rápido e deslizou seu olhar.
- Os terroristas são submetidos a interrogatórios. Realizamos uma busca minuciosa de suas casas de segurança. A informação obtida nos ajudará a deter, qualquer futura atuação de terrorismo. E isso é em grande parte graças aos Darkwings. Quanto a Boaventura, está fora da fotografia, e isso é tudo o que estou em liberdade de dizer.
Benny não estava disposta a deixá-lo passar.
- O que aconteceu aos diamantes que me roubaram? Eu tão logo me perdi, que deixaram que lado as joias, embora minha mamãe me dissesse que nunca me perco, porque alguém sempre me diz aonde ir.
- Os diamantes não foram recuperados, - disse J. Quase me caí de meu assento quando disse isso, desde que os tinha posto nas mãos de Mar-Mar. – Mas como Boaventura nunca cobrou o cheque maior do corredor de diamantes, só 50 milhões de dólares continuam desaparecidos. Os terroristas foram os grandes perdedores na partilha, e não estão em posição de queixar-se. Quanto aos diamantes sem cortar eles mesmos, assumimos foram roubados por uma pessoa ou pessoas desconhecidas. Apesar de que convertemos o assunto em mãos da Secretaria de Fazenda, é pouco provável que alguma vez se encontre. Alguma outra pergunta?
Eu tinha uma, mas era algo pessoal. Esperaria até que os outros se fossem.
- Não? Uma coisa mais, Equipe Darkwing... – Todos o olhamos. – Estou orgulhoso de cada um de vocês. Fizeram um bom trabalho. Salvaram milhões de vidas, e a cidade de Nova York. Este país lhes tem uma grande dívida. Agora, os soldados, podem ir-se. – ladrou, e nos deu uma saudação.
Com isso, a equipe Darkwing se levantou para ir-se. Benny sussurrou que queria ficar ao dia comigo mais tarde. Cormac saiu lançando beijos e dizendo adeus. Bubba Lee inclinou seu chapéu e disse.
- Vemo-nos, - enquanto avançou pesadamente para trás, através da porta, e fiquei para atrás, precisava falar com o J.
- Sim. Srta. Urbano. – J disse, mantendo um tom totalmente profissional. Fiquei inquieta pelo que eu queria perguntar, mas me inundei. – Tenho uma petição. Não sei se pode ajudar, mas lhe agradeceria isso. – Ele assentiu com a cabeça para mim, assim fui. – Eu gostaria de entrar no hospital para ver Darius. Neste momento, suas visitas se limitam à família.
Não podia ver sua reação: seu rosto permaneceu inexpressivo totalmente, mas sua voz estava tensa quando respondeu.
- Verei o que posso fazer. Você sabe isso é tudo?
- Sim. Quero dizer que não, quero te perguntar uma coisa mais. –Disse-lhe. Ele arqueou as sobrancelhas, e senti o desejo de por fim a conversa. Eu mergulhei, dizendo: - Eu falei com minha mãe.
- E? – disse com impaciência clara.
- Espero reportar-me a você e não a ela. – disse-lhe, finalmente.
Suas palavras foram cortantes e breves.
- Estou no comando da Equipe Darkwing. É isso?
- Sim, obrigada. – lhe disse, e logo com olhada de gratidão estendi a mão e lhe toquei o braço com brevidade da chegada de uma mariposa, dizendo: - Obrigada. J, por tudo. Quero dizer com todo meu coração.
Recolhi minha mão, e ele respondeu com voz suave:
- Isto é bom, Senhorita Urbano. Descanse. Vou estar em contato pela visita ao hospital.
- Bem, muito bem, - disse, me apressei a recolher as minhas coisas e corri pela porta. Enquanto descia pelo elevador, abri o envelope que J me havia entregado anteriormente. Dentro havia um documento do governo dos Estados Unidos que indicava que $1.036 dólares em lucros líquidos haviam sido depositados em minha conta bancária, que havia acumulado um dia de férias e um dia por enfermidade, e que o governo havia iniciado um Plano de poupança e pensão para mim. De repente, me sentia condenadamente boa.


Capítulo 17

O fogo não espera o sol para estar quente,
Tampouco o vento espera a lua, para esfriar.
El Zenrin Kushu


O Natal estava tão somente a uns dias de distância, mas o espírito natalino estava me evitando este ano. Escurecida pela questão de ver a Darius outra vez. Chamava todos os dias para comprovar seu estado. Ontem me havia inteirado de que estava fora da UCI (Unidade de Cuidados Intensivos). Hoje, eu tinha descoberto que tinha sido transladado a um hospital diferente. Não me pergunte por que não sei onde. Se tivesse chegado a mim que queria ver-me, teria movido céu e terra para chegar até ali. Mas não o fez. Recordei com toda claridade, que com seu último fôlego, negou-se a ver-me. Isso ainda me dói, e me parece que sempre o fará.
Durante meus dias de R & R, fiz-me uma limpeza de cútis, pedicura, manicure e a esfoliação de Paris. Outro Pula V Glo tinha eliminado minha palidez. E eu fiz compras, que é a melhor terapia que uma mulher pode ter. Meu cartão de crédito Bloomingdale's estava saindo fumaça. Quando voltei para meu apartamento depois de gastar em excesso, olhei com tristeza minhas compras e me perguntava se alguma vez ia usar a maioria delas.
E ali estava um dos extremos mais soltos, e desejei não havê-lo feito. Chamei o número de chamadas ID de Boaventura, do lado Leste de carros. Identifiquei-me como agente de polícia, um engano que suponho, só será acrescentado em minha longa lista de pecados, e perguntei a respeito de um despachante de chamada.
-Sim, temos um registro deste serviço. – disse.
- Sabe quem na realidade fez a viagem? – Perguntei-lhe.
- Posso pedir ao condutor. Passou um tempo, mas talvez ele possa se recordar, sobre tudo se era um cliente habitual. Posso me comunicar com você a respeito?
- Sim, - disse-lhe, e lhe dava meu número de telefone celular. – Uma coisa mais, - disse, enquanto meu coração pulsava fortemente em meu peito. – Tem a direção de destino?
- Sim. É aqui mesmo. O destino foi a Estação do Parque Central.
Esse pedacinho de informação não me ajudou muito, senão, só me confundiu. Catalina me disse que tinha sido Bockerie quem conduzia uma caminhonete, por isso não foi ele quem tomou o carro. Quando o despachante me ligou, disse-me que o condutor esperou Boaventura, como estava acostumado a fazer, mas não foi ele quem desceu as escadas e se meteu no carro.
- Quem foi? –Perguntei-lhe.
- Dois meninos, jovens brancos. Um deles tinha um rabo-de-cavalo loiro. – disse.
Essa informação me deixou confusa de novo. Era evidente que Darius havia entrado no apartamento com um cúmplice, e tinha mantido oculta essa informação de mim. Apesar de que havia provas de que Bockerie tomou os diamantes e assumi que o assassinato de Issa e Tanya, poderia haver outro cenário: Darius tinha sido parte de um pelotão de execução e Bockerie havia chegado depois dos assassinatos e pegou os diamantes. Perguntei-me se alguma vez ia conhecer toda a verdade. Preocupante como era, sobretudo se havia contribuído às mortes abrindo a porta para Darius, a única opção era deixar que o problema desaparecesse por agora.
J chamou na tarde do dia 14, depois da carga da Brigada Vampiro, como Cormac tinha apelidado nossa aventura, quando chamou por telefone com a boa nova (que obteve o papel na série do HBO) e as más notícias (que o mataram no primeiro episódio). J me disse que Darius tinha sido enviado para um hospital privado em Staten Island. Depois de me dar a direção, disse-me que uma visita tinha sido agendada para mim nessa noite às 21h00min se fosse bom para mim. Sim, eu queria vê-lo, queria e agradeci. J murmurou algo assim como:
- Não me agradeça até que o veja. – e desligou.
Escolhi entre minhas compras recentes, vesti-me simplesmente com uma saia de lã longa e suéter de caxemira rosa. Meu casaco curto, na realidade uma jaqueta para a saia. Era um clássico Chanel. Queria um aspecto sofisticado, não sexy. Usei um perfume que correspondia a isso. Logo tomei um serviço de automóveis para Staten Island. Foi uma longa viagem até o fundo da Avenida Richmond, e o cruzamento da ponte Exterior. Tive muito tempo para pensar. Quando saí do carro na rua arborizada de um bloco maior, uma capa de neve cobria o chão, e as luzes de Natal nos alpendres próximos emitiam cores no branco.
O "hospital" parecia mais um edifício de escritórios que um centro de saúde. Não havia nenhuma placa lhe dando um nome. A porta principal tinha o número do edifício em ouro liso e nada mais. Era robusto como um cárcere e ficava bem apertado. Tive que tocar uma campainha para entrar. A porta se abriu em uma sala de espera que mantinha algumas cadeiras de plástico e uma mesa com umas revistas. Uma árvore de Natal artificial estava em um canto, olhando triste. Uma estação de guarda detrás de um vidro pesado enchia uma parede. Aproximei-me dele e falei através de um círculo de corte no vidro. Logo descobri quão difícil era a segurança deste lugar.
Os rifles automáticos eram ocupados por dois dos três guardas atrás do vidro, e o guarda desarmado estava agora fazendo um controle de meu nome em uma lista. Obviamente, ninguém colocou um sim de aprovação prévia e adequada autorização de segurança. Levaram-me a outra sala. Os dois guardas armados saíram, deixando o terceiro homem dentro da caixa de cristal frente à entrada. Tomaram minhas impressões digitais com rapidez, me fotografaram, deram-me uma etiqueta com meu nome, e me disseram aonde ir para encontrar Darius. Os guardas foram muito amáveis comigo, tenho que dizer isso. Devia parecer tensa e triste.
- Vai estar bem, senhorita, - o maior dos dois disse de uma maneira amável. – Os doutores dizem que é só uma questão de tempo. Vê-se muito pior do que é, dizem.
Isso não inspira muito otimismo em mim.
-Está consciente? – Perguntei-lhe.
- Agora mesmo? Não sei. Está muito acordado, às vezes. Principalmente a noite de todos os modos. Caminha pelo seu quarto, e tem o televisor. Dorme muito. Ele sempre dorme de dia. A luz parece lhe incomodar. Ele tem um monte de maus sonhos também. Sedaram-no, por que, sim, é real. Fique tranquila, não deixe que isso lhe preocupe. É normal, já sabe. Vai responder as perguntas, mas não parece querer qualquer conversa. Isso não é estranho com os soldados que retornam de uma zona de guerra. TEPT, assim o chamam. Estresse pós-traumático. Temos ajuda, e uma visita de uma bela senhorita como você, certamente vai levantar o seu ânimo.
Eu não conto com isso, pensei.
Abriu a porta interior para mim e me assinalou o caminho por um corredor na penumbra. Saí sentindo-me como uma prisioneira a caminho a minha perdição. Meus saltos faziam soar tap-tap sobre o linóleo verde. O lugar parecia vazio. Tudo estava pintado de verde institucional. Esta era uma unidade estritamente regida pelo governo, pensei, e devia ser uma casa de segurança para os agentes. A maioria das portas por onde passei estavam fechadas. Dobrei a esquina e vi que a porta do quarto de Darius estava entreaberta, mas não aberta. Ao me deter frente a ele, pude ver a luz piscante de um televisor ligado e sem o som. Meu coração estava disparando, e eu temia entrar.
Darius estava dormido, estava de lado, com a cara para a porta onde eu estava. Inclusive na penumbra sua pele era branca como papel, mas parecia como um anjo estendido ali, inocente e jovem.
Fiz uma oração silenciosa em agradecimento, de que ele estava dormido, porque faria o que tinha que fazer muito mais fácil. Por muito que quisesse falar com Darius, minha razão mais urgente para lhe ver, era mordê-lo de novo. Eu lhe tinha dado o beijo da vida, sob a chuva na instalação de contêineres. Mas se necessita mais que um bocado para garantir uma completa transformação de humano a vampiro. Seria verdadeiramente trágico se eu o deixasse em um estado de limbo, não humano e vampiro tampouco. Queria que tivesse as mesmas atribuições que eu, as asas para elevar-se sobre si mesmo, os mesmos dons. Tais capacidades fantásticas fariam mais fácil para ele aceitar o que era agora. E teria que aceitá-lo, porque não tinha outra opção. Tinha a esperança de que chegaria a realização mais cedo ou mais tarde.
Em algum momento teria que decidir se desejava ocultar sua transformação de seus empregadores ou escolher uma vida diferente. E vendo a bolsa vazia de plasma que penduravam de um bastidor IV no outro lado da cama, eu sabia que ainda recebia transfusões de sangue. Mais tarde, necessitaria ajuda para aprender o que fazer a respeito da alimentação, evitar a luz do dia, e todo um montão de coisas, que se vê obrigado um vampiro a fazer para sobreviver.
Tomei coragem, entrei no quarto e fechei a porta com força detrás de mim. Inclusive em meio de minhas ânsias, meu desejo aumentava a umidade que tinha começado entre minhas pernas. Minha respiração estava acelerada quando me deslizei com cuidado sobre a cama junto a Darius. Sentir seu corpo junto ao meu, fez com que meu coração parasse. Passei a mão por cima de seu ombro nu e peguei o seu pescoço enquanto me inclinava. Encontrei o ponto doce na garganta e um pouco antes, a partir daí bebi larga e profundamente. Logo me encontrei em êxtase, deprimida com as sensações que corriam por minhas veias, enquanto sua essência fluía em mim. Não me dava conta que tinha aberto os olhos até que tinha terminado e levantei a boca ensanguentada.
Antes de saber o que havia acontecido, seus lábios se aproximaram de meus em um beijo duro. Com uma força surpreendente me atirou na cama e conseguiu passar sua mão por debaixo de minha saia, baixando minhas calcinhas. Tão rápido que apenas conhecia o que estava passando, entrou em mim e começou a empurrar com força em mim outra vez e outra vez. Fiquei parada, mas não surpreendida. A mordida de um vampiro é tão excitante para a vítima como para o vampiro e sua luta pela liberação sexual teria sido devastadora. Eu gemia e lhe dava as boas-vindas. Darius empurrou dentro de mim uma e outra vez e outra vez. Eu fui aumentando até cumprir com sua emoção, querendo que ficasse comigo, em mim, para sempre. Abri os olhos uma só vez e o vi olhando para mim, com os olhos cheios de ira e dor, mas não amor. Fechei os meus, apertando-os e procurei sua boca, usando minha própria força para retê-lo com um beijo. Estrelou-se contra mim até que eu não podia parar e comecei a gozar, logo chegou a seu clímax e deixou de mover-se.
Ele saiu de mim então, me deixando vazia e triste. Não me abraçou. Seus olhos estavam muito abertos quando voltei a abrir meus.
- Darius?, - disse, com minha voz quebrada e as lágrimas brotavam de meus olhos.
- Conseguiu o que você procurava, minha alma? –perguntou com amargura.
- Por favor, me deixe te explicar. – roguei-lhe.
- Não há nada o que dizer. Aceito o que fez, mas nunca te perdoarei por havê-lo feito.
Ele se afastou de mim, voltou à cabeça e ficou olhando a televisão enquanto me falava.
Minha voz tremia e meu coração se rompia quando tratei de lhe dizer:
- Olhe, a mudança é difícil no princípio. Já sei, mas eu não podia deixar que você morresse. Fiz o que fiz porque Te amo.
- Não acredito que saiba o que é o amor. – disse. Não foi amor converter-me em um monstro igual a você.
Suas palavras foram como uma adaga metendo-se em meu peito. Quando eu, faz séculos, fui mordida, recordo que me confundi, mas com isso também, senti uma tremenda excitação por ter aumentado as sensações e a força magnífica da raça dos vampiros. É obvio, tinha sido diferente para mim, posto que eu não odiava vampiros, tendo nascido de um ventre. Agora, uma vez mais tratando de chegar a ele, gritei-lhe em voz baixa:
- Darius, por favor, trata de entender. É imortal agora.- Darius seguia sem me olhar. Ele ficou olhando para a tela do televisor enquanto ele disse pausadamente:
- Olhe só. Deixe-me em paz. Não quero ver-te. Não te dá conta? Não quero ter nada que ver contigo. Fora daqui! – Suas palavras eram duras e cruéis.
Toquei-lhe o ombro com a mão. Ele encolheu os ombros e se afastou. Agora lhe falei das últimas coisas que tinha que lhe dizer.
- Não quer escutar isto, mas há coisas que preciso te dizer. Escute-me: Não é necessário matar para conseguir sangue. Vou dar-lhe o número de minha mãe, está aqui. Sempre pode me chamar, mas em caso de não querer, por favor, chame a ela. Ela preparará as coisas para você. Pode confiar nela. Juro-lhe isso. Dei a volta na cama. Ainda não me olhava, mas tinha o olhar perdido no teto agora. Seu rosto era como uma máscara de madeira e imóvel, com os lábios em silêncio. Endireitei minha saia e deslizei-me pela porta. Quase corri pelo corredor, sem olhar para trás. Se o tivesse feito, teria visto que Darius estava chorando abertamente, e que tinha o lacinho negro de seda da minha roupa íntima fechado em uma mão.

Capítulo 18

A consciência determina a existência. Existo, logo, penso.
Descartes


Saí do hospital, com a desolação em todos meus passos. Ouvi o som solitário de uma castanha que caiu da árvore. Detive-me. O som chamou a atenção em minha alma. Despertar. Mudar.
De repente levantei meu queixo e endireitei minha espinha dorsal, ao me dar conta de toda minha força tão heroica na Equipe Darkwing. Fazíamos história e tínhamos salvado vidas, e eu mesma estava diferente, orgulhosa do que tinha feito. Fiz, nunca evitando uma provocação, nunca fugindo do perigo. Tinha a cabeça alta. Queria gritar aos carros que passavam: Um vampiro anda aqui! Ela é forte e boa. Ela passa por você na rua. Não a reconhece, mas ela está aqui. Vive!
A lua apareceu entre as nuvens de neve no céu noturno. Poderia me elevar para ele, se eu quisesse, como um pássaro, assim como os seres humanos quiseram fazer desde o começo dos tempos. Limite-se ao sonho de voar, mas não pude fazê-lo. Eu sou quem sou, e pela primeira vez em minha longa vida, não estava disposta a ser ninguém mais.
Não importava o que Darius me havia dito, com um revestimento duro como o diamante dentro de mim, eu sabia que tinha razão ao ter salvado sua vida. E tinha que ser assim. Agora era um imortal. Eu era sua conversão no caminho para Damasco. Eu o tinha transformado de perseguidor em perseguido, de um assassino em um vencedor que podia lutar e ganhar, e, entretanto nunca voltar a matar.
Eu acreditava, e eu o tinha presenciado uma e outra vez em todos meus anos neste mundo, que a vida nos dá nosso destino, não o escolhemos. Ser mordido por mim era o destino de Darius. Tudo o que tinha feito, tinha sido para levá-lo àquela noite sob a chuva, à bala que ricocheteou e o feriu, para o asfalto úmido e duro em que caiu, sua mortalidade fugisse dele. E tudo o que tinha feito me tinha levado ali para o seu lado, com Benny aparecendo como um anjo caindo do céu chorando, retornou de entre os mortos, ou isso me parecia. Chegou como um milagre, bem a tempo para vontade de mordê-lo. Os extremos tinham feito um círculo, atados cuidadosamente, com tudo junto. Conhecemo-nos. Nos adoramos. Eu lhe mordi. Nada é por acaso.
Agora, com um desejo profundo, - eu queria que Darius que me perdoasse e visse que o que lhe tinha acontecido era um começo, não um fim. Sua transformação significava que podíamos estar juntos agora, sem mentiras. Pode ser que eu seja estúpida, por ter esperança, mas se poderia ser um par mais, poderíamos estarmos juntos para sempre. Poderíamos andar na luz da lua e viajar pelo mundo. Me imaginava levando-o a minha amada Irlanda, onde tinha conhecido Yeats e levar com orgulho o verde, que percorrem a terra desde Dublin a Dingle, onde se encontra a baía tranquila sob as estrelas. E no calor de um pub irlandês, poderia pedir uma caneca de cerveja e cantar "canções rebeldes" ao bandolim e violões que desempenham os membros de bochechas de maçã das bandas locais.
Rapidamente, sem prévio aviso, a memória da primeira vez que Darius me tinha beijado, na Avenida Madison em frente da loja de joias, apoderou-se de mim. Se tivesse escutado com atenção, teria sabido que meu coração me dizia desde o começo que ele ia ser meu companheiro. Agora só podia esperar que seu coração encontrasse seu caminho de volta para mim, depois que as tormentas da ira tivessem passado. Então, como um vento frio, a realidade caiu sobre mim. Minha orgia se deteve com um pico de dor profunda e o conhecimento da verdade, provavelmente tinha perdido Darius para sempre. Enquanto um soluço escapou de meus lábios e a cor negra me ameaçou esmagar, olhei para cima e vi uma estrela de Natal iluminada sobre uma igreja. Pulsava branca e formosa, parecia brilhar para mim, me enviando uma mensagem ou uma promessa: que o amor conquista tudo. Bastava que eu tivesse fé.
E nesse momento, a neve começou a cair ligeiramente, fragmentando o resplendor da estrela de Natal em centenas de luzes de cores que brilhavam para mim ao redor. Eu tinha fé no amor. E também me sentia alegre de que os vampiros da Equipe Darkwing fossem protetores, não destruidores. Caminhava mais rápido agora, me sentindo forte e pronta para seguir meu caminho para casa, detive-me por um momento na igreja. As portas estavam abertas, e o interior estava cheio de fiéis. Uma luz rosada se derramou sobre a neve, e de dentro soou o som de um coro.
Enquanto estava ali, as palavras que cantavam estenderam a mão e me abraçaram: "Porque nos nasceu um filho, Porque um menino nos é dado." Uma visão da jovem Maria virgem, com seu filho cruzou por minha mente. Uma certeza se apoderou de mim que eu estava nesta terra com um propósito. Eu não podia prever o futuro, mas eu poderia lhe fazer frente com valentia. Com Darius ou sem ele, eu gostaria de lutar pelo que era correto e bom, e um dia ele poderia voltar para meus braços. Se não o fizesse, poderia chorar sua ausência cada dia e noite, mas eu gostaria de dar um passo de uma vez, e seguir adiante.
FIM...


Adiante a prévia do livro: Cônicas de Darkwing 2
Pasada Redencion


Introdução

Dizem, "Afortunada nas cartas, desafortunada no amor." Bom, devo ser uma jogadora de Poker incrível. Acidentalmente, matei o primeiro grande amor de minha vida, e quando outro rapaz estupendo apareceu (depois de duzentos anos), eu o mordi. É óbvio, foi uma mordida de amor, mas para um vampiro, uma mordida de amor é mais que um chupão. Quando supero o choque... bem, queres falar de uma ruptura realmente má. A única coisa que me ampara é minha carreira. E isso está bem, porque não só sou um vampiro. Sou espiã.








Capítulo 1
A queda

Inclusive antes que terminasse de me vestir, tive um mau pressentimento sobre a noite que estava por cair. O miserável tempo de Fevereiro se acrescentava as minhas ansiedades. A nevasca que começou faz uma hora soava como pregos sendo lançados contra o vidro da janela. O vento estava uivando pela esquina da parte superior oeste de meu edifício, como um lobo correndo atrás de sua presa. Todo meu apartamento estava inusitadamente, frio e vazio, oco por dentro como eu. Como vampiro, esfrio-me rápido, e agora com uma fria e trêmula mão, Coloquei as botas, peguei a jaqueta de couro de motociclista que faz jogo com minhas calças de couro, e me dirigi à porta.
Não queria sair, mas tinha sido convocada pelo meu chefe, que só conhecia como J. Se tivesse sido por minha conta, ainda estaria em meu pijama de algodão, aquele com jeans do Jackson Hole Traders1, meus pés embutidos em umas UGG2, e uma taça de chá de ervas em minha mão, enquanto o fungava e limpava minha sala de estar pensando em meu ex-noivo, Darius.
As coisas não foram como eu desejava. Ele se tinha ido, mas não esquecido. Para levantar minha miséria ao máximo, tinha estado escutando os velhos dourados CDs que me faziam chorar, como Foreigner's "I Want to Know What Love is" e tudo do October Project.
Mas J me chamou e me disse que era hora de voltar ao trabalho. Ser uma espiã contratada por uma agência ultra-secreta da inteligência Americana era como estar no exército. Os altos cargos dão ordens. Eu as sigo - inclusive se meus instintos me dizem que são horríveis. Nós não raciocinamos porque, nós só fazemos e morremos. Esta noite não tinha nem ideia de que misterioso complô ou plano secreto havia atrás das ordens de J de não ir a seu escritório, mas sim ir diretamente a um bar Irlandês no Hell's Kitchen.
1 – Loja de Departamentos que vende roupas femininas e masculinas.
2 – UGG – Um tipo de botas.
Eu já havia estado nesse bar antes. Se você gosta de comida de bar, servem umas batatas com queijo Cheddar, bacon e cebolas. Eu estaria melhor com comida que atraiam carnívoros como eu, algo quase cru e sangrento. Isso poderia subministrar-me uma necessária infusão de energia e inclusive otimismo. Mas a depressão depois da ruptura e a morte de meus sonhos românticos haviam matado meu apetite. Ainda assim, considerando os desejos de meu lado escuro de alimentar-me de sangue humano, uma falta de apetite não é absolutamente uma coisa ruim.
Um estranho desassossego sobre esta noite me golpeou desde o minuto que J me disse que me vestisse e aparecesse imediatamente no bar chamado Kevin St. James. Enquanto escutava suas instruções, uma mão gelada apertou meu coração. Deveria confiar em meus instintos. Eles me haviam mantido viva durante quase quinhentos anos. Deveria haver dito a J que estava doente. Deveria ter ficado em casa onde estava segura. Mas não o fiz. Segui as ordens.
Quando desci as escadas chegando ao vestíbulo do edifício de apartamentos, o porteiro chamou um taxi para mim, então abriu a porta traseira do carro enquanto eu sacudia a neve e me metia dentro. Fechei a porta, e com meus pálidos dedos retirei uma mecha de cabelo do meu rosto e coloquei atrás da orelha.
- Oitava Avenida, entre a 46 e 47, - lhe disse. – Lado oeste da avenida, no bar, Kevin Sr. James.
O condutor grunhiu um OK e rapidamente arrancou, me lançando para o respaldo do assento. Tinha um ambientador pendurado no espelho retrovisor. Supunha-se que devia dar um aroma de couro falso ao carro. Mas cheirava a vomito falso. Meu estomago começou a retorcer-se e girar. Justo o que necessitava. A ansiedade e excitação já me tinham feito enjoar. Obviamente, J tinha outro trabalho para mim e para os outros vampiros da Equipe Darkwing, e eu não estava mentalmente preparada. Tinha estado chafurdando na auto-compaixão.
Tudo por culpa de Darius, maldito. Um pouco de ação podia ser justo o que necessitava para me distrair.
As ruas da cidade estavam molhadas e escorregadias; o táxi estava indo muito depressa e o carro derrapava cada vez que freava em um semáforo vermelho. Neons amarelos e azuis se refletiam no pavimento gelado, e o mundo parecia romper-se em um caleidoscópio de amalucadas cores. Estava perturbada e apreensiva. Enquanto o carro corria através das ruas, senti o futuro acelerar para mim, e tive a clara premonição de que algo da magnitude de um trem de transporte vinha, e não podia detê-lo. Teria que montá-lo para onde quer que levasse.
Abri a porta do bar para uma onda de ar quente que cheirava a cerveja. Música alta fazia saltar as paredes de tijolo. Não tinha dado dois passos dentro do lugar quando ouvi uma voz que provinha do sul da linha Maxon-Dixon, chiando.
- Daphne! Querida! Aqui! - Minha colega e boa amiga Benny Polycarp, uma nativa de Branson, Missouri, estava de pé junto a uma mesa e estava me acenando freneticamente. Abri caminho entre a multidão para chegar a ela e imediatamente me esmagou em um abraço.
- Oh, me alegro tanto de ver-te, - disse Benny quando pôs seus lábios perto do meu ouvido que era a única forma de ouvi-la por cima de uma canção do Matchbox Twenty. Ela cheirava a laca e xampu, e aparentava vinte e cinco, embora venha sendo uma não morta há mais, de setenta anos.
- Me alegro de ver-te, - respondi-lhe e olhei por cima de seu ombro aos dois homens sentados na mesa. - Olá, Cormac, - disse-lhe, soando como Jerry Seinfeld saudando o Newman.
O ligeiramente robusto jovem logo que assentiu com a cabeça. Cormac sempre se via mal-humorado; algumas vezes sentia que ele era como um buraco negro que absorvia a energia de mim, com sua negatividade. Outras vezes me tirava do sério. Mas nos conhecemos há uns duzentos anos, e normalmente o vi em seus piores momentos e raramente em seus melhores. Então lancei um genuíno sorriso para Bubba com seu boné de basebol que se sentava ao lado de Cormac.
- E "olá" para você, Bubba Lee. Como está? - chiei por cima da música.
- Muito bem agora, senhorita. - respondeu-me me piscando um olho. A cara de Bubba estava colorida pelo álcool, assim deduzi que já havia tomado mais que umas quantas cervejas. - O que quer tomar? - perguntou-me Bubba levantando-se do assento. Bubba não era gordo, só barrigudo. Ele é grande e sólido, como uma sequoia.
- Guinness. -disse-lhe.
- Feito. - respondeu-me Bubba e começou a abrir caminho para o bar.
Eu raramente bebo, mas isto era um bar irlandês, e tinha Guinness como cerveja de barril. Seria um sacrilégio não aproveitar essa oportunidade. Além disso, Quem se embebeda com uma Guinness? Calculei que podia manter minha inteligência afinada e minha mente clara. Tirei a jaqueta e a atirei sobre o assento ao lado de Benny.
- O que está acontecendo? - Perguntei - Chamaram-nos?
- Sim, J me chamou. Embora eu não saiba o que está acontecendo. Cormac e Bubba já estavam aqui quando entrei. Eles não sabem mais que eu. Estivemos aqui sentados, isso é tudo.
Do outro lado da mesa, Cormac assentiu seu acordo com a cabeça.
-Tinha um encontro. Já sabe, é Sexta-feira de noite, - choramingou.
- E para quê? Ninguém sabe por que estamos aqui. Tinha planos. Quero dizer isto é um desgosto, - afundou-se mais em sua cadeira e se moveu para tirar a etiqueta de uma garrafa de Killian's Red.
- Acredita que J se reunirá conosco? - disse-lhe Benny.
- Uh-hu, não acredito. Quero dizer é impossível discutir algo neste lugar, mesmo se não fosse alto segredo. Apenas podemos nos ouvir uns aos outros. Deve ter algo em mente, Quem sabe? Mas ao inferno com isso, amiga, como está?
Encolhi os ombros.
- Já sabe, acima e abaixo. Meninos maus. Dias bons.
- Tem notícias de Darius? - perguntou-me, com seus grandes olhos quentes e cheios de preocupação.
- Não, nenhuma palavra. Inteirei-me que saiu do hospital, nada mais.
- Oh, céu, ele só precisa um pouco de tempo para pensar. Chamará quando se recompor. Eu sei. - disse Benny, apertando meu braço com simpatia.
- Sim, com certeza o fará, - disse com sarcasmo. - Ele me odeia, Benny. Mordi-lhe, e sabes... agora ele... agora ele é...
- Um vampiro - disse. - É imortal. Um super humano. Odiar-te? Deveria lhe agradecer amiga! É um idiota! - Então se encolheu, dizendo. - Todos os homens são idiotas, amiga minha. E você é muito bonita como para estar encerrada nesse apartamento. Vamos nos esquecer de Darius. Vamos nos esquecer de nosso chefe e de qualquer que seja seu plano para nós, e passemos um bom momento esta noite. - Ela examinou a sala, seus olhos brilhando com satisfação. - Olhe. Eu adoro este lugar! Bar grande, uma lareira, boa música. É sexta-feira de noite em Nova York, estamos solteiras, fora da cidade, e aqui está Bubba com sua bebida.
O homem pôs a escura bebida com espuma derramando-se pela borda em frente a mim. Assenti com a cabeça lhe dando um obrigado, e ele me assentiu e me piscou um olho.
- E trouxe esta bebida para você, Senhorita Benny - disse Bubba enquanto gentilmente colocava um cocktail na mesa em frente a ela. - Ia trazer um Cosmopolitan, mas Jennifer, a garçonete, disse-me que provasse uma fada verde ou Absolut Apeach. Não posso fazer ideia de beber algo chamado fada, assim, escolhi o Apeach para a senhorita mais formosa de toda a sala. - Sua cara cresceu com as linhas de um sorriso, e seus olhos se viam carinhosos quando sorriu para ela.
- Bem, obrigado, carinho. - lhe respondeu melodiosamente com seu profundo acento do sul.
Kevin St. James pode ser estranhamente Irlandês às vezes, com quase todos os bombeiros no bar e Kevin, o mal-humorado e tatuado dono, contando histórias e todo mundo rindo muito. Outras vezes, como esta noite, é um zoológico cheio de parede a parede com uma multidão jovem fazendo ruído, bebendo muito, e viciados. Acima no segundo andar um grupo chamado Beyond the Pale estava cantando canções de seu novo CD, Queen of Skye, segundo o que dizia uma notícia apontada no quadro. O primeiro grupo estava até às 10:00 PM. Enquanto que música pop explodia pelo sistema de som.
Agarrei minha Guinness e tomei um pouco da espuma. Cormac estava sentado brincando com a etiqueta de sua garrafa de cerveja enquanto fazia sua própria festa de compaixão. Benny e Bubba aproximaram suas cabeças e estavam falando uma milha por minuto: pareciam discutir receitas sobre qual é a melhor torta de milho. Peguei a parte sobre usar uma frigideira plana de ferro para assar o pão. Ninguém no bar estava prestando atenção em nós: Éramos quatro não mortos, bebedores de sangue, perigosos vampiros na grande cidade, mas nos víamos como qualquer um, e inclusive, menos estranhos que muitos nova-iorquinos.
Ali sentada e começando limpar-me graças a Guinness, decidi abrir meus sentidos ao que me rodeava. Eu acho que deveria estar olhando o lugar, observando-o. Depois de tudo, por que J nos queria aqui? A primeira vista não notei nada fora do normal. Justo no centro da sala algumas garotas com uma pequena camiseta expondo seus umbigos estavam atuando estupidamente e vendo-se confusas. Pensei que estavam bêbadas ou altas, ou as duas. Nada incomum nisso. Ninguém parecia uma bomba suicida planejando atacar os ônibus da cidade ou metrô, e isso era o que pensei que a equipe Darkwing teria que ocupar-se.
Enfoquei minha mente e observei uma pessoa cada vez, devagar, com cuidado. Pratico meditação Zen regularmente com alguma sessão ocasional de Tai Chi; minha filosofia é tomar sabedoria onde a encontre. Agora disse para mim mesma, seja como o imóvel gato escondido na erva, espreitando um crédulo pássaro.
Entre a multidão do bar, vi um grupo de jovens com trajes caros que pensei seriam banqueiros ou advogados. Energia negativa se agitava a seu redor, mas não sabia por quê. Minha cautela aumentou.
Duas mesas, justo debaixo do chamativo pôster que dizia KEVIN SAINT JAMES NYC se sentava um grupo de turistas com pacotes. Irradiando uma boa atitude do meio oeste, pareciam assustados e assombrados ao mesmo tempo. Minha vista passou para uma mesa de quatro homens e mulheres que estavam tomando cervejas e projetando um ar de desespero. Deduzi que seriam atores sem trabalho. Desloquei minha atenção a seguinte mesa onde duas mulheres com seus trinta, levavam óculos quase idênticos e periodicamente lançavam olhadas à porta. Supus que seriam editoras, terminando um dia depois de trabalhar ridiculamente longas horas em seus trabalhos na indústria de publicações, que ainda aglomera seus escritórios no centro de Manhattan.
Na parte traseira do bar, tão longe possível da porta e tão próximo quanto possível da TV, sentava-se uma dupla de rapazes normal e corrente. Pensei que seriam bombeiros fora do serviço. Falando com eles havia dois homens mais velhos que supus seriam policiais vestidos à paisana. Um era um tipo baixinho com olhos de cão vestido sob uma velha jaqueta da armada. O outro que era um musculoso homem negro vestido com uma jaqueta esportiva, cujos olhos iam e vinham e de repente, pousaram em mim. Centrei meu olhar em uma distância média sobre sua cabeça. Quando voltei a olhar, o policial negro e seu companheiro tinham tomado posição sobre a parede onde não bebiam, não sorriam, observando a multidão. Eram da narcóticos? Agora sim, sentia que algo ilegal havia por aqui esta noite. Perguntei-me o que, e outra vez, pensei que J tinha suas razões para nos enviar aqui.
Terminando minha observação da sala, estudei o resto das pessoas, pequenos grupos de garotas e garotos suburbanos vestidos com conjuntos de grife. Enquanto se moviam aproximando-se e afastando-se em um baile moderno, suas risadas chegaram de uma forma muito rápida e alta. Muitos, certamente, estavam convertendo este bar em sua primeira parada de uma larga noite, que certamente terminaria no Soho. Claramente, senti uma aura de energia discordante emanando deles, e era algo entre sexualidade frustrada e hormônios coléricos. Não estava segura do que era, exceto não era nada bom.
Então o mar de pessoas, momentaneamente, se separou da parte de trás da sala onde uma televisão de cinquenta e seis polegadas mostrava um jogo de futebol. Estava tomando um gole de Guinness e a ponto de engolir quando vi quem estava a não mais que uns 10 metros de distância de mim. Ali, tão grande como a fodida vida, estava Darius. O sangue escapou de meu rosto, minha mente fico intumescida, e eu fique sentada como morta.
Benny me escutou tossir e começou a me perguntar:
- Você está bem...? – quando viu minha cara, girou-se para a direção onde eu estava olhando, e gritou como se ela também houvesse visto Darius antes que a multidão se mexesse outra vez e ele desaparecesse de minha vista.
Sem pensar estava de pé e lançando-me para a multidão agrupada no bar, tentando chegar na parte traseira da longa sala, tão rápido como pudesse, tentando chegar a Darius. Era irracional, mas necessitava vê-lo, fazê-lo falar comigo, ocupar o mesmo espaço que ele neste planeta. Quatro garotos com camiseta de futebol segurando cervejas me bloquearam o caminho.
- Desculpem, necessito passar, - lhes disse enquanto me metia entre eles. – Desculpem, sinto muito, necessito passar – como uma grossa capa de xarope se afastaram lentamente, e corri durante o resto do caminho até que ver o cabelo loiro de Darius e o marrom de sua jaqueta de couro.
Esquivei-me do cotovelo de uma garoto alto e me encontrei a uns poucos metros de distância de Darius, Tão perto que podia esticar a mão e tocá-lo.
- Darius, - lhe disse o suficientemente alto para que me ouvisse por cima da música.
Meu coração estava disparado. Estava mais magro que quando nos conhecemos; sua pele tão branca como papel e suas bochechas mais angulares com a pele apertada sobre seus ossos. Mas permanecia alto, dominante, cheio de sua usual segurança. E estava belíssimo, condenadamente belíssimo.
Se virou para mim, e uma chama de emoções relampejou entre nós como um raio em uma tormenta de verão. Senti alívio. Então uma porta se fechou em sua cara, voltando seus rasgos como pedra. Seus olhos se tornaram duros. Sua boca se apertou
- Darius... - Comecei a dizer e dei um passo para ele, justo quando uma garota parecida com a Angelina Jolie com um Top negro e uns jeans apertados saiu de suas costas e pôs sua mão em seu braço. Ela o girou, aproximando-o dela, rindo enquanto se aproximava mais dele e lhe sussurrava algo no ouvido. Então levantou a vista e me olhou diretamente com um cruel e triunfante sorriso. Seus olhos brilhavam com ódio.
Minha reação a ela foi visceral; literalmente vi vermelho. Adrenalina se dispara através de mim, e meus sentidos se dispararam como um alarme de incêndios. Detive-me em seco. O que senti foi um pouco misturado entre ciúmes, fúria, e iminente perigo, como se tivesse encontrado um inimigo que queria morto. Enquanto Darius estava enfocado na mulher como se fosse a única pessoa que havia na sala, e eu não existisse. Voltou as costas para mim, e fiquei ali parada petrificada enquanto eles se afastavam agarrados braço com braço. Ele nunca voltou vista para atrás.
Pura angústia me atravessou o estômago e se lançou para minha garganta, levando consigo dor e lágrimas. Mas o seguinte que senti foi raiva, pura, fria e flamejante como prata líquida circulando por minhas veias. Meu corpo pareceu ser grande e forte. Uma chama de energia começou a viajar pela superfície de minha pele, e senti a urgência de trocar à forma de morcego. Queria voar para Darius, apanhá-lo, e lhe mandar a merda. Esse filho de puta. Quem ele acreditava que era? Não tomou muito tempo para encontrar alguém. Ele me disse que havia passado toda a vida me buscando. Que era seu destino. Sete semanas depois era como se nunca tivesse existido. Filho da puta! Só estava me jogando uma linha, ou o quê?
A voz de Benny chegou de perto.
- Daphy, você está bem? - Devia estar justo atrás de mim quando corri atravessando a sala, cobrindo minhas costas. Pôs sua mão em meu braço. Eu estava tremendo emocionada, mais zangada do que nunca estive. – Vamos ao banheiro das senhoras. - disse, me levando para o banheiro.
Estava vazio, ela me empurrou para o pequeno espaço e fechou a porta atrás de nós. Não estava muito limpo, e estávamos encolhidas o suficientemente perto para sermos umas gêmeas siamesas.
- Respira,- me ordenou.
- Aqui? Está louca? - Grunhi-lhe e estiquei a mão para a porta. Só me deixe sair. Quero matar o filho de puta...
- Espera um momento, querida. Toma uma pausa. Foi um choque, isso á tudo. E possivelmente essa fosse sua irmã...
Dei-lhe um olhar de tem que estar de brincadeira.
- Sim, claro. - disse-lhe.
- OK, não era sua irmã. Mas você não sabe se está em um encontro ou qual é a história. De todas as maneiras, deixa-o ir por agora. É muito boa para ele.
Daphy, vamos deixar claro. Você é caviar. Ele é um sanduíche de pescado do Long John Silver's. Você é Bloomingdale's. Ele é o melhor no Wal-Mart. Você é...
Olhei para Benny como se ela tivesse duas cabeças antes de me dar conta que estava dizendo coisas sem sentido, tentando me relaxar. Ela sabia que eu estava na borda de me perder, e quando um vampiro está na borda de perder-se, os resultados podiam ser perigosos. Seguro que minha cobertura iria para o espaço me transformando em um Morcego gigante diante de duzentas pessoas.
Esconder o que éramos era a regra numero um para todos os vampiros. Expor-nos vinha, normalmente, seguido de uma perseguição de caçadores de vampiros, uma desesperada fuga e escape, ou morte na ponta de uma estaca.
- Acredita que ele a tenha mordido? – lhe disse, desejando tirar o que estava em minha mente primeiro.
- Não! Ela não tinha nenhuma marca de mordida. – Benny soltou como resposta, me pegou pelos braços e sorriu. – E querida, essa pequena vagabunda estava mostrando tanta carne que se poderia ver um chupão a cem metros de distância.
Comecei a rir. Não podia evitá-lo. Todo este assunto era para loucos. Converti Darius em um vampiro quando em nossa última missão levou um tiro fatal, para salvar a sua vida. O que consegui dele? Gratidão? Não, consegui uma merda, isso foi o que consegui. Então por que seguia carregando uma chama por ele? OK, eu o amava. Ainda amo. Supere isso! Disse para mim mesma.
- Então acredita que J, tinha tudo isto planejado? – eu disse para Benny.
- Não. Não nos haveria trazido a todos nós para isso. É verdade que ele não gosta de Darius e há possibilidades de que tenha ciúmes dele também, mas creio que tropeçamos com Darius aqui por coincidência, isso é tudo.
Não disse nada durante um momento, então olhei a minha melhor amiga nos olhos e lhe disse com um tom firme na voz:
- Benny, não acredito em coincidências. Especialmente nesta...
Ela se manteve na sua palavra.
- Não sei de nada disso, Daphy, mas não creio que J tenha alguma coisa a ver com isso.
Alguém chamou na porta do banheiro.
- Vamos sair daqui, Benny. Estou bem, de verdade.
Abri a porta, e ao menos quatro garotas estavam esperando.
- Elas com certeza estavam cheirando coca. – sussurrou uma delas para sua amiga, uma pequena loira em jeans e uma jaqueta jeans com botões de diamantes falsos que certamente lhe haviam custado uns mil dólares. Então a pequena garota soltou um risinho.
- Nós temos algo melhor que coca. - disse e abriu sua mão para revelar uma ampola.
- Não deixe que ninguém veja isso - lhe sussurrou sua amiga e se colocou na frente dela.
Olhei para Benny, que encolheu os ombros e sacudiu a cabeça.
- Possivelmente é um popper. - disse em voz baixa.
- Não acredito. - disse. - Deve ser algo novo.
Então me esqueci das garotas e seu pó feliz, fosse o que fosse, enquanto me dirigia à mesa. Ainda de pé, estiquei o braço, agarrei minha Guinness, e tomei. Cormac e Bubba me olhavam com os olhos abertos. Como disse, normalmente não bebo.
- Quer outra? - perguntou-me Bubba.
- Irei eu mesma a procurá-la, obrigada. - respondi-lhe.
Um plano se formou em minha cabeça. Tinha visto este rapaz realmente bonito, um homem, não uma criança, sentado no bar enquanto Benny e eu voltávamos do banheiro. Quando passamos pelo seu lado, sorriu-me de uma forma que me indicava que estava interessado. Armada com um pouco de coragem, imaginei que podia ir falar um pouco com ele.
- Guinness, - disse à mulher que atendia no bar, enquanto estava entre um homem com cara de grande bebedor, de meia idade em um dos tamboretes e o rapaz que tinha visto antes.
A garçonete agarrou a Guinness e a deixou de pé para que conseguisse um pouco de espuma enquanto o rapaz a minha direita, como eu previa, começou a me falar.
- Guinness? Não é a bebida de uma senhorita. É Irlandesa? - me perguntou. Lancei um sorriso em sua direção.
- Não, mas obrigado pelo elogio. Simplesmente, prefiro uma bebida que tenha algo onde morder, e seja o suficientemente atrevido para chamar minha atenção.
- Não uma bebedora de Harp então? - disse-me, nomeando uma das cervejas irlandesas leves.
- Harp é para insípidas, - respondi-lhe e encostei meu quadril sobre o bar, o que me pôs o suficientemente perto do rapaz para sentir seu calor corporal. O bebedor que estava atrás de mim se moveu no assento para me deixar mais espaço de manobra.
- Deixe que me presente, - disse ele, - Eu sou Irlandês, segunda geração. St. Julien Fitzmaurice. - Deu-me a mão. Era quente, forte, firme. - Meus amigos me chamam Fitz.
- Prazer em conhecê-lo, Fitz. Sou Daphne Urbano. Em grande parte italiana com algo romeno muito longe, acredito. - disse-lhe.
Então o senhor que estava no outro lado de Fitz partiu, e com praticada precisão Fizt se levantou e o agarrou antes que alguém mais pudesse, me indicando que me sentasse em seu lugar anterior.
- Acompanha-me enquanto você bebe sua Guinness? - perguntou-me.
- Claro, - disse-lhe me sentando e lhe olhando.
- Trabalha em Nova Iorque ou só está de visita? - perguntou-me.
- Vivo na cidade. Também trabalho aqui. E você?
- Vivo na ilha. Trabalho na cidade.
A química entre nós era boa, ainda que não houvesse luzes brilhantes, mas estavam preparando-se. A Guinness que já tinha bebido me fez ver a sala imprecisa. A segunda baixou com mais facilidade, me produzindo um pequeno zumbido. Olhei um pouco mais de perto para Fitz, que levava uma camiseta azul do Brooks Brothers e uma jaqueta de lã irlandesa. Não se parecia em nada com Darius. O cabelo do Fitz era escuro, quase negro, com um corte puro. Sua cara era larga e aquilina, e julguei que teria ao redor de uns trinta. Isso estava bem. Eu só aparento 27 ou 28, inclusive se tinha nascido no século dezesseis. Cheirava bem, entre cítrico e picante. Quando se tinha levantado para trocar assentos, pude ver que era bastante grande, um metro noventa ou mais. Não tinha barriga, mas tampouco estava esquelético. Tinha um bronzeado em Janeiro. Era, inclusive, melhor de perto, e o único que não podia entender é como alguém como ele podia estar aqui sozinho. Esperava que não houvesse nenhum aspecto retorcido atrás dessa amistosa cara. Mas então, Quem era eu para falar de facetas ocultas?
Fitz não sabia, mas estava flertando com um vampiro. Nenhum dos dois estava dizendo nada e como se estivesse lendo minha mente, Fitz disse:
- Lamento se estiver um pouco silencioso. Tive uma má ruptura com minha noiva atual, minha prometida em realidade. Agora está, com o que eu pensava, era meu melhor amigo. Não me sinto com vontades de ir a casa, uma casa vazia, por isso estava gastando o tempo aqui depois do trabalho. Normalmente, aqui está tranquilo durante a semana. Os fins de semana, são outra história. E você? Casada, solteira, comprometida?
- Livre. E eu também. Uma má ruptura. Não poderia acreditar como de mal. Meus amigos me arrastaram até aqui esta noite. - Tomei um gole de minha Guinness.
Estava amarga. - Sabe, em algum momento, deve deixar o passado atrás e seguir adiante, - disse-lhe, dando uma versão saneada da verdade.
- Estou de acordo, - disse fazendo chocar sua bebida com a minha em um brinde. - Mas é mais fácil de dizer que de fazer, Daphne, minha garota. Para mim, é a traição o que é difícil de digerir. Durante meses estiveram se vendo nas minhas costas enquanto ela seguia comprando coisas para nossa casa e de comida com minha família. Não tinha nem ideia. Quer ouvir toda a história? - disse enquanto derramava o que parecia uísque ao redor do copo.
- Se você se sentir com vontades de me contar isso, estarei encantada de te escutar. - disse-lhe me aproximando dele enquanto mantinha seus olhos, tão cinzas como o mar irlandês, com meus.
- Bem, uma noite, sem razão em particular, decidi tirar meus tacos do porta-malas de meu carro. Seus tacos de golfe também estavam ali. Eu tinha ficado com uns colegas para fazer alguns buracos, e pensei se ela tinha algumas bolas de golfe novas, podia pegá-las, assim abri o bolso lateral da bolsa de golfe. Havia uma nota ali colocada. Até hoje não sei por que agarrei a nota, mas era como se minha mão fosse guiada para ela. Desdobrei o papel. Era uma carta de amor. Pensei que Jessica, esse é seu nome, Jessica, tinha-o escrito para mim. Meu aniversário estava chegando. Pensei que era algo muito doce. Fiquei parado e comecei a ler. A nota era um pouco sensível mas estava bem, sobre como era a luz do sol de sua vida e todo isso. Até que chegue à linha...
Sinto-me mal pelo Fitz, mas o que você e eu temos faz que meus sentimentos pelo ele pareçam como um inocente beijo comparado com uma caixa dos ricos, sensuais chocolates Godiva. É só uma criança, mas você é um homem de verdade. Oh Billy, quando poderemos estar juntos?
...Então todo meu mundo se deteve. Billy? Não recordo muito mais depois daquilo exceto me lançando para a casa como um touro enfurecido. Atirei a carta ao chão na frente dela, e ela confessou tudo. Desculpou-se e disse algo sobre que se sentia aliviada de que não tivesse que seguir vivendo uma mentira. Então usou o seu celular para chamar o Billy, meu melhor amigo desde Andover, e se foram com o pôr do sol em seu Alfa Romeo. Ela nem sequer voltou para buscar a sua roupa. Uma de suas amigas veio com um U-Haul, e meu anel, devolveu-me através de um menino do FedEx. Fui realmente estúpido, verdade?
- Não, a mim soa mais a que você é um tipo genial e ela uma raposa mentirosa, se não te importar que o diga, - disse me sentindo como uma hipócrita sobre a parte de "mentirosa" já que é uma das coisas que faço melhor.
Estiquei-me para agarrar a mão que estava sobre o bar e lhe dar um suave apertão. Minha mão estava fria como o gelo. A sua quente e viva. Ele gentilmente tomou meus dedos.
- Posso te sentir como se você estivesse congelando. - disse-me.
- Sangue-frio, - respondi-lhe sinceramente. - Não sou uma pessoa de inverno.
- Típica italiana, - disse-me dando um sorriso sincero. - Confesso que eu gosto da neve. Esquio sempre que tenho oportunidade. - Não deixou ir minha mão, assim que devagar a soltei, mas deixando-a perto da sua.
Estávamos jogando um jogo sutil de interessada, mas não fácil; disponível, mas não uma fresca. Olhe, não é que tenha deixado de sentir carinho pelo Darius. Eu só queria me distrair, me sentir atraente e desejável depois de ter sido jogada como um Klennex usado. Sentia-me um pouco culpada pelo fato de que deveria estar trabalhando, ou ao menos, pensava que se supunha que devia estar trabalhando. Não sabia em que estava trabalhando, mas tentar deixar-se ligar por um rapaz bonito não era provavelmente o que J tinha em mente. Fitz seguiu falando.
- Seu turno, soltei-me. Estou preparado para escutar se seu quiser falar.
- Não realmente. - Voltei a olhar o seu rosto com a minha tão impassível como a de um jogador de pôquer. - Não quero falar disso. Não ainda. Esta ferida é ainda recente.
- Quanto de recente? - perguntou Fitz.
- Antes do Natal. Não é assim como ocorre sempre? As férias são a pior época para estar sozinho.
- Você falou tudo. - Fitz soltou uma frágil risada e bebeu o resto de sua bebida. - Jennifer, - chamou a garçonete. - Outra, por favor.
- Feito. Jameson a caminho, - disse deixando ver que ele tinha estado ali mais de uma ou duas vezes e que lhe gostava. E muito.
Simplesmente me sentando ao lado de um homem jovem e são, me estava fazendo maravilhas. Podia cheirar o sutil aroma masculino de seu corpo. Estava tentado não olhar seu pescoço, que era forte e musculoso. Só tinha mordido a outro humano, - e esse era Darius - em quase duzentos anos, mas não posso evitar pensar nisso. A necessidade de morder é quase irresistível para um vampiro. É como sexo tântrico, só que mais intenso e prazeroso. E te enche de vida em uma incrível fusão de almas. Botei de lado esses pensamentos. A mordida é frequentemente fatal para os humanos implicados. Se não for assim, pode converter o humano em vampiro eventualmente, o que é normalmente mal recebido.
Converter-se em um monstro perseguido por caçadores de vampiros armados com estacas e balas de prata, ser sempre um excluído desprezado e temido por quase todo mundo, e sempre faminto de sangue faz pensar em um estilo de vida alternativo. Há benefícios, é obvio... como a eterna juventude, próxima à imortalidade, e força sobre-humana. Fitz interrompeu minhas reflexões.
- Assim, O que é o que você gosta de fazer em seu tempo livre, preciosa Senhorita Daphne Urbano?
- Oh, eu gosto da arte. Amo a música. Sair de noite. Comprar. Sou uma viciada em compras. E você?
- Navegar. Cavalos. Esquiar. Golfe. Basicamente um menino que gosta do ar livre, mas também posso ir a museus e concertos. Sou civilizado. Minha família tem uma casa de verão em Hampton e outra em Cape. Nós todos gostamos de navegar. Veraneia na cidade ou vai ao campo?
Menino não adequado, a não ser que goste dos cruzeiros a meia-noite e esquiar de noite, pensei para mim mesma. Não importava. Estava procurando um pouco de diversão, não uma relação. E o tema físico estava crescendo entre nós, de um zumbido a um assobio. Acariciei sua mão com meus dedos e a eletricidade subiu por todo meu braço. Genial!
- Hmmm, algo assim como um lugar de campo. É uma vila ao sul de Florença em uma pequena aldeia chamada Gigliola, perto da cidade do Montespertoli. Não vou muito, mas é uma casa suponho. - Não estava interessada em seguir falando. Estava pensando em lhe convidar para meu apartamento.
Fitz me olhou com uma intensidade mais profunda como se pudesse ler minha mente.
- Florença, huh? Estou planejando ir à Irlanda em Março, e possivelmente possa voar à Itália. Sempre quis ir. - Então foi ao grão. –Você se incomodaria se lhe escrevesse um email para que me ajudasse a planejar a viagem, se o fizer? - Agora estava sorrindo, e estávamos começando a nos afogar nos olhos um do outro.
- É obvio. - Disse-lhe, minha voz voltando-se mais baixa e convertendo-se em um convite, - estarei encantada de lhe ajudar...de qualquer maneira que me necessite.
Não tirou os olhos de cima enquanto alcançava do interior de sua jaqueta uma caderneta do bolso. Abriu-a, agarrou a caneta Montblanc do mesmo bolso, e me passou isso.
- Você se importaria de escrever seu endereço de correio? Realmente me encantaria escrever-lhe, se lhe parecer bem.
- Eu gostaria, - disse-lhe e queria que o fizesse.
Enquanto escrevia, ele bebeu sua Jameson rápido, sem uma só tosse, como um homem que sabe como beber e provavelmente o fazia muito. Bom, ele disse que era irlandês, pensei enquanto absorvia a informação. Os irlandeses bebem quando estão contentes e ainda mais quando estão tristes. E senti que atrás do sorriso fácil de Fitz havia um homem desesperadamente ferido por amor, seu coração quebrado como o meu. Também me tinha dado conta de que já tinha consumido umas quantas Jamesons, antes que me aproximasse e que pagaria por isso manhã. Como diz o provérbio, Is milis dêem ól É ach is searbh dêem íoc é. É doce beber, mas amargo pagar por isso.
Devolvi-lhe a caderneta e a caneta.
- Obrigado, Daphne, - disse-me devolvendo-o a seu bolso. Então Fitz voltou a agarrar meus dedos. - Esta sala está quente, mas suas mãos estão incrivelmente frias, - disse agarrando as duas mãos entre as suas, tentando esquentá-las. - Possivelmente necessite vitaminas?
Podia lhe haver dito que a única coisa que as podia esquentar era bebendo sangue, mas permaneci inteligentemente calada sobre o assunto. Gentilmente agarrando meus dedos, disse-me:
- Sua pele recorda um lírio. - Sua voz estava carregada de interrogação - e uísque. - É tão branca e suave, realmente preciosa.
Meu joelho de alguma forma se chocou com o de Fitz, e nós dois claramente estávamos desfrutando com o contato. Tudo seja dito, estava realmente saboreando o momento, começando a me sentir realmente quente e nociva, e tentando pensar como expor o "porque não vem a minha casa", quando uma das jovens subiu no bar e começou a dançar. Era a garota com a jaqueta de diamantes que tinha visto fora do banheiro. Realmente estava alta.
"All the way Home" de Springsteen, saía do sistema de som, enquanto que a garota estava cantando Coiote Ugly enquanto que seu namorado lhe suplicava, "Mackenzie, venha, desce daí." Ela o ignorou enquanto fazia movimentos oscilantes com a jaqueta e seguia o ritmo da música. Pela extremidade do olho pude ver como uma grande mancha se aproximava da barra, provavelmente o gorila residente, mas antes que chegasse a ela, a garota parou de dançar e começou a afogar-se. Parecia tentar apartar umas mãos invisíveis ao redor de seu pescoço, tentando respirar, mas não saiu som algum dela. Caiu virtualmente em frente a mim, com uma cara de absoluto terror, que se estava pondo de cor azul.
Alguém começou a gritar para chamar o 911!, e vi Jennifer, a garçonete, agarrar o telefone e marcar os números. O estranho era que o coração da garota pulsava tão forte que podia ouvi-lo. Tenho um ouvido excepcional, mas alguém desligou o sistema de som e no silêncio sabia que todos podiam ouvir os batimentos do coração, de seu coração. Soavam como alguém tocando um pequeno tambor Bongo. Tap tap tap tap tap tap tap. Cada vez mais e mais depressa, forte e mais forte. Então, deteve-se. Silêncio. Todos ainda permaneciam quietos em choque. Repentinamente, a garota começou a convulsionar-se no bar, e o homem negro que tinha etiquetado como um policial estava apartando a multidão.
Fitz já tinha saltado de sua cadeira, e agora se apartou para deixar o homem de negro com sua jaqueta checar o pulso da garota. Tentou apartar as mãos da garota de sua garganta. Parecia-me como se ela se estivesse estrangulando, mas não acredito que se pudesse fazer isso. O homem mais baixinho em sua jaqueta da armada, que eu também pensava ser um policial, tinha um celular na orelha. O escutei dizer:
- Temos outro. Kevin St. James. 7-4-1 – Oitava Avenida.
Estava parado na porta. Suponho que estava comprovando quem saia, e quando procurei o olhar de Fitz, não o pude encontrar. Isso é estranho, pensei, mas então minha atenção se voltou para o bar com a garota tombada nele. Pude sentir, e ver, que estava morta. O homem negro estava fazendo CPR, mas eu poderia lhe haver dito que não ia voltar. Seu rosto e inclusive seus braços e pernas estavam azuis. Ela uma vez foi bonita, mas agora seus traços estavam distorcidos em um gesto de terror, sua língua saindo de sua boca, seus olhos muito abertos, como se estivesse olhando fixamente algo realmente terrível.
Vi o gorila do clube falando com o namorado dela.
- Ela havia tomado algo? Qualquer merda, drogas, você sabe?
O menino estava morto de medo. Assentiu com a cabeça.
- Você sabe o que tomou? Anda homem, sabe o que ela tomou? Tenho que dizer para os EMS quando chegarem, Talvez haja alguma possibilidade de ajudá-la.
- Su-su-su-susto, - gaguejou o menino. – Sei que tomou essa coisa nova, chamada susto.

Continua...

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THE DARKWING

 

CHRONICLES 01

 

Beyond the Pale

 

Savannah Russe

 

 

 

Disponibilização em Espanhol: NovelVampire

Envio: Safira

TRADUÇÃO: Giselda/Safira

REVISÃO INICIAL: Ady Miranda

REVISÃO FINAL: Fabrícia

FORMATAÇÃO: Ady Miranda

 

 

 Argumento

A vampira Daphne Urbano escapou da morte, fazendo seu papel perfeito, como espiã para a Equipe Darkwing. Sua primeira missão é aproximar-se de um comerciante de armas inescrupuloso. Mas quando Darius, um sexy assassino de vampiros, começa a perseguí-la, ambos se debatem entre o desejo e o dever. Original. Mas sua ágil jovem presa é também sua última tentação...

Comentário da Revisora Fabrícia: A personagem principal de livro, apesar de ser uma vampira com mais de 500 anos, é uma mulher moderna, com todas as dúvidas e vícios dos nossos tempos,o mocinho, quando está com ela, é um cara meloso, romântico. Um livro com pouca ação uma vez que se trata de um livro de espiões...  

Comentário da Revisora Fabrícia: A personagem principal de livro, apesar de ser uma vampira com mais de 500 anos, é uma mulher moderna, com todas as dúvidas e vícios dos nossos tempos,o mocinho, quando está com ela, é um cara meloso, romântico. Um livro com pouca ação uma vez que se trata de um livro de espiões...

 

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