domingo, 17 de outubro de 2010 By: Fred

[livros-loureiro] Carlos Drummond de Andrade - Contos de Aprendiz

PDL Apresenta: Carlos Drummond de Andrade - Contos de Aprendiz








Contos de Aprendiz
Carlos Drummond de Andrade

Nas histórias que ele nos contava, quan¬do meninos, o que me prendia a atenção. a ponto de fascinar-me, não era o enre¬do, o desfecho, a moralidade; e sim um aspecto particular da narrativa, a resposta de uma personagem, o mistério de um incidente, a cor de um chapéu ...

A SALVAÇÃO DA ALMA
BRIGA de irmãos... Nós éramos cinco e brigávamos muito, recordou Augusto, olhos perdidos num ponto X, quase sorrindo. Isto não quer dizer nos detestássemos. Pelo contrário. A gente gostava bastante uns dos outros e não podia viver na separação. Se um de nós ia para o colégio (era longe o colégio, a viagem se fazia a cavalo, dez léguas na estrada lamacenta, que o governo não conservava), os outros ficavam tristes uma semana. Depois esqueciam, mas a saudade do mano muitas vezes estragava o nosso banho no poço, irritava ainda mais o malogro da caça de passarinho: "Se Miguel estivesse aqui, garanto que você não deixava o tiziu fugir", gritava Édison. "Você assustou ele falando alto ... Miguel te quebrava a cara." Miguel era o mais velho, e fora fazer o seu ginásio. Não se sabe bem por que sua presença teria impedido a fuga do pássaro, nem ainda por que o tapa no rosto de Tito, com o tiziu já longínquo, teria remediado o acontecimento. Mas o fato é que a figura de Miguel, evocada naquele instante, embalava nosso desapontamento e de certo modo participava dele, ajudando-nos a voltar para casa de mãos vazias e a enfrentar o risinho malévolo dos Guimarães: "O que é que vocês pegaram hoje?" "Nada." Miguel era deste tamanho, impunha-se. Além disso, sabia palavras difíceis, inclusive xingamentos, que nos deixavam de boca aberta, ao explodirem na discussão, e que decorávamos para aplicar na primeira oportunidade, em nossas brigas particulares com os meninos da rua. Realmente, Miguel fazia muita falta, embora cada um de nós trouxesse na pele a marca de sua autoridade. E pensávamos com ânsia no seu regresso, um pouco para gozar de....sua companhia, outro pouco para aprender nomes feios, e bastante para descontar os socos que ele nos dera, o miserável.
Vocês, criados em cidade grande, não se espantem com esse jeito de nossa infância do interior. Ah, no interior se briga muito. Até mesmo no meu estado, símbolo de ordem e moderação, terra de bois pacíficos e de políticos suaves e bem comportados ... Há uma força acumulada querendo expandir-se, uma energia que sobrou do tempo da luta com os emboabas, não sei ... Olhem: na minha terra damos grande apreço à cultura intelectual. Mas confiamos pouco em seus efeitos. O delegado de polícia, um bacharel gordo e de bigodes fornidos, lia Spinoza, tomava a boa pinga de januária e não gostava de amolações; se as amolações apareciam, chamava o comandante do destacamento e mandava rachar a lenha. Com o pau cantando, ele voltava ao seu Spinoza. De resto, nas relações civis, em meio semi-rural, o tapa, o murro, o pescoção e o cacete são recursos limpos de ... polêmica. Só o punhal e a garrucha são proibidos; mas, em casos extremos, é lícito empregá-los. O povo não gosta de assassinos, embora inveje os valentes. Ai de quem apanha sem reagir, e isto nós sabíamos de sobra, porque papai o pregava ao almoço e ao jantar, ele que tinha uma vida agitada, no transporte de tropas para o Espírito Santo, negócio perigoso e de lucro incerto, por causa dos rios sem ponte, dos ladrões de estrada, dos camaradas bêbados, das febres, do crédito a doze meses, dos compradores que fincavam pé no mundo e nunca mais davam as caras ... O velho nos contava mais de uma história de noite dormida ao relento, em que ele e seu pessoal acordavam com os animais soltos no campo, aos relinchos, o fogo apagado, e vultos escuros remexendo os alforjes num canto ... Pois em nenhuma dessas ocasiões precisou liquidar ninguém, nem permitiu que o fizessem. Tudo acabava com os ladrões amarrados e conduzidos à vila mais próxima, às vezes com algumas costelas quebradas, mas que r diabo! o lombo carece sofrer um bocadinho. Por isso mesmo um dia ou outro nós nos surrávamos a frio, sem qualquer motivo, porque o lombo carece sofrer, e há um certo prazer em curar ferida.
Assim crescíamos nós cinco, e a vida não era má. Um apenas participava pouco das aventuras arriscadas, e era a meiga Ester, que mesmo assim figurava a miúdo nas brigas, ora como causadora, ora como anjo da paz. Na paz, Ester era nossa cliente; vendíamos-lhe estampas de decalcomania, pastilhas de hortelã e chocolate, caixas vazias de sabonete. Tinha um fraco pelas caixinhas, que eram utilizadas em laboriosas arrumações de pentes, dedais, laços de fita, caramelos, conchas, roupas de boneca, bolas de gude, lápis de cor e outras maravilhas. Explorávamos sordidamente sua boa-fé e, mais do que isso, sua facilidade em arranjar dinheiro com papai. Duzentos réis por uma caixinha de sabonete inglês era preço mais do que razoável, mas eu pedia quinhentos; e Ester, ignorando o valor das coisas, ou dando-lhes um valor especial, que nos escapava, estendia os quinhentos réis. Às vezes eu praticava uma torpe manobra: sob um pretexto qualquer, confiscava o objeto vendido; eram lágrimas e queixas, e afinal entrávamos em acordo; eu restituiria o objeto, mediante um suplemento de trezentos réis ... Se Tito estivesse ali, a injusta combinação malograria. Porque Tito era contra a injustiça. Discutiria comigo, o sangue me subiria à cabeça, e eu acabaria perdendo ... Eu perdia sempre.
Não tenho vergonha de confessar que perdia sempre, porque Tito era mais velho do que eu um ano, e tinha muito mais peito. Minha criação com leite esterilizados, meus resfriados contínuos, minha a inapetência, tudo isso me condenava a um papel inferior nas lutas da família; mas tudo isso me fornecia também


raiva suficiente para morder, unhar, cuspir, gritar, sempre que vergava a força do braço ... Eu vivia em guerra com todos, precisamente porque era o mais raro, e não raro essa fraqueza triunfava por um expediente de audácia extrema, ou apenas porque o mais forte, cônscio de seu poder, abandonara o campo ao desesperado. Se eu percebesse que era por esta última razão, ficaria profundamente humilhado; mas a cegueira da vitória não me permitia verificá-lo.
De todos, Tito era que mais me batia; desvantagem de ser caçula ... Éramos os mais próximos pela idade, e os outros dois, Miguel e Édison, sentiam vergonha de "sujar as mãos em mim". Tito dizia sentir também essa vergonha, mas era mentira dele. Ao menor pretexto, estávamos no chão, embolados. Direi em seu louvor que nunca foi desleal. Combatia com aviso prévio, fazendo a necessária provocação e dando-me tempo suficiente para correr; mas eu não corria, e ele caía-me em cima. Por minha vez, eu gostava de provocá-lo tinha esperança de que, um dia, chegaria a vencê-lo. Estudava seu estilo de luta, comparava - o com estilos, treinava, sozinho no quarto, diante do espelho, pedia a Miguel e a Édison que me ensinassem a maneira de desvencilhar-me do adversário deitado sobre mim no chão. Inútil. Ele desmoralizava todas as táticas. Era mais duro, mais ágil, mais controlado.
Eu tinha nove anos e estava farto de apanhar. Nenhuma perspectiva de mudança, entretanto. Tito me defendia contra os assaltos dos meninos no grupo escolar, mas às vezes, depois desses choques, ao chegar em casa voltava-se contra mim, acusando-me de haver provocado barulho sem ter força para sustentá-lo. O orgulho dos Novais repontava nessa recriminação, porque um Novais não podia apanhar, e se não fosse ele, Tito, eu, Augusto Novais Júnior; apanharia em público, para gozo dos Teixeira, dos Andrada, dos Guimarães e de outros clãs rivais. Insubmisso, mas desesperançado, ia-me deixando crescer. Quando tivesse vinte anos, nossos tóraces seriam iguais, e eu derrubaria Tito, mas era longe, vinte anos. Criança tem pressa de viver, e não lhe prometam uma compensação no futuro, a necessidade é urgente, o bálsamo que venha já, amanhã será tarde demais ...
Eu estava nessa melancolia quando Ester veio dizer que tinham chegado uns padres e que iam começar as "missões". A família sentara-se nos bancos da sala de jantar, à luz do lampião. Papai lia jornal, mamãe cerzia meias.
- Chegaram em boa hora, só assim eu consigo que esses hereges se confessem - comentou mamãe, placidamente.
- Hmmm - resmungou papai, e continuou a ler as notícias do mundo.
A idéia de missões não era particularmente festiva, mas sempre importava em reuniões no adro da igreja, leilão em beneficio do altar novo, muito foguete, liberdade de chegar tarde em casa, e outros prazeres. Era bom. Nenhum de nós se manifestou contra a idéia de confissão. "Herege", na linguagem local, significava cristão displicente, de pouca reza e nenhuma prática, fugindo aos deveres do culto e limitando-se a vagas promessas mentais de oferecer um tostão às almas, diante de algum aperto. Nós quatro éramos hereges declarados, e somente Ester mantinha o equilíbrio entre sentimento e ação, amando Jesus e procurando segui-lo. Os outros iam à missa por obrigação penosa, se a manhã era clara e havia jogo de bola no campo da Fábrica. Renovamos sem fervor e bocejávamos diante dos apelos dominicais do padre. Com grande mágoa de mamãe, que considerava sagrada a pessoa do padre, e de ouro as palavras de sua boca.
- Esses meninos não sabem uma palavra de catecismo. Louvado seja Deus! Quando crescerem, não sei o que será deles. Quem não está bem com Deus tem mau fim.
Papai resmungava, concordando. Mas nosso progresso em doutrina cristã era mínimo.
Novas notícias chegaram sobre os missionários. Eram estrangeiros - de que país mesmo, .ninguém sabia, tão atrapalhado o português que falavam -, muito vermelhos, e estavam dispostos a fazer uma boa colheita de almas para Deus , no dizer da piedosa D. Antonina. E pregavam, pregavam. Todos os dias, e hora em hora, a partir das duas da tarde, um deles subia ao púlpito e narrava os horrores do Inferno, os jardins do Paraíso, a miséria da alma em pecado mortal, a traição de Judas, a aflição dos ricos no juízo final, a doçura de sofrer e ser humilhado, o perigo de casar somente no civil, a necessidade de contribuir para as obras pias, a loucura de lidar com maçons e espíritas... Nós escutávamos, pensando em outra coisa, com exceção Tito, absorto, de olhos baixos.
Enquanto um pregava, os outros padres ouviam em confissão. Veio primeiro a gente dos distritos, que morava longe e carecia ser despachada depressa. Depois as pessoas gradas do lugar, autoridades, comerciantes, suas famílias. Em seguida os operários. E só no fim as crianças, que, já trabalhadas, ardiam no desejo de ajoelhar-se e contar suas faltas, tão contagioso é o exemplo das pessoas grandes, e porque, afinal, seria uma vergonha não ter pecados quando toda gente os tinha e vinha confiá-los ao padre vermelho.
Entramos os cinco, em fila, na sacristia escura. Mentiria se dissesse que não estávamos compenetrados - o tom era de respeito -, mas somente Ester se mostrava perfeitamente natural e apta para o misterioso colóquio com a divindade. Por isso mesmo, fizéramos questão de que ela fosse conosco, deixando de lado o grupo das meninas, para que de certo modo suprisse nossa insuficiência e desse ao céu garantia satisfatória de nossas almas tão sujas.

Um a um, murmuramos nossos erros e recebemos nossas penitências. Os erros dos quatro homenzinhos eram comuns, e o preço do resgate não podia variar. Cinco padre-nossos e cinco ave-marias para cada um; e fé, perseverança e humildade para evitar nova queda nos pecados de ira, gula, cobiça e luxúria, em que nos refocilávamos. Ester certamente apresentou carga mais leve de erros, pois só teve três padre-nossos e três ave-marias, e não lhe foi feita a recomendação subsidiária.
Voltávamos para casa, quando Tito me puxou pelo braço, chamando-me a um canto. A tarde caía.
- Vamos dar uma volta?
- Pra quê?
- À toa. Amanhã não tem aula. A gente pode andar um bocadinho.
Sem motivo para recusar, concordei. Fomos andando. De uma só rua era feita nossa cidade, mas que variada! Essa rua tomava todas as direções, partia-se, recompunha-se; um pedaço subia o morro, outro margeava o córrego. E havia trechos de estrada sem casas nem chafariz, havia hortas, ranchos, palmeiras fora d,1 linha, elas que são o próprio alinhamento, mil coisas que podiam interessar uma criança disposta a viver. Mas a confissão infiltrara em nós seu óleo espesso e triste, e um desejo de nos purificarmos, de atingirmos a bondade e a compreensão, nos tornava indiferentes à matéria cotidiana.
Foi Tito quem rompeu o silêncio.
- Escuta uma coisa ... Estou com vontade de mudar de vida.
- Eu também - secundei num abandono confiante.
- Acabar com certas coisas, sabe? Mudar mesmo de vida Olha: de hoje em diante não brigo mais com você. Apesar de contrito, mostrei-me incrédulo.
- Ora. Você diz isso à toa. Amanhã você implica outra vez comigo e me bate.
- Não bato mais não, pode acreditar. Juro por Deus.
- Você sabe que a gente não deve jurar, como é isso?
- Quando jura por bem, é diferente. Estou jurando por bem.
Você não acredita?
Seria feio não acreditar. Mas que garantia me dava ele de sua firmeza em cumprir o juramento? Calei-me.
- Bem, se você não acredita, paciência. Não fico zangado por isso. Mas você vai ver. De hoje em diante a gente não briga mais. Está feito? Toque.
Toquei. Paz em nossos corações, paz na montanha onde a cidade era um sulco insignificante, e as cabras e as galinhas já dormiam. Ao aperto de mão, uma confiança absoluta nos propósitos pacifistas de Tito me invadiu, e vi à minha frente um futuro de honra e lealdade. Mas Tito queria ir mais longe, marcar com um acontecimento aquela mudança da alma.
- Escuta uma coisa ... - (A voz engasgava-se, de emoção e falta de costume.) - Vou provar a você que sou seu amigo e não quero mais abusar de minha força. Diz uma coisa que eu possa fazer, mas uma coisa dificil, ruim mesmo, pra me humilhar diante de você ... O que você quiser eu faço. Juro que faço.
- Tito, não estou te conhecendo hoje. Por que você diz isso?
-Já disse a você que quero mudar de vida ... viver bem com
os irmãos, ser um sujeito decente. Diz depressa uma coisa, quero mostrar que sou sincero, não estou enganando não. Você quer me dar um tapa na cara?
-Não.
- Quer me sujar a cara de barro?
-Não.
- Quer me entornar uma bacia de água suja na cabeça?
-Não.
- Quer rasgar minha coleção de Júlio Verne?
-Não.
- Então você não quer se vingar de mim de jeito nenhum?
, - Não, Tito, de jeito nenhum. Eu acredito em você e basta. E melhor assim.
Mas Tito não se conformava. Como iniciar um novo rumo de vida sem expiar os erros antigos? Chegou a impacientar-se, embora de leve.
- Também você não ajuda, bolas!
- Ajudo sim, ora essa. Mas eu também não quero humilhar você.
Tito levantou a cabeça, encarou-me:
- Mas eu quero ser humilhado, tá ouvindo?
Trinta anos se passaram, e seu olhar e sua voz estão ainda intatos em mim, revelando a convicção profunda e ardente, de que se fazem os santos, os mártires políticos ...
Ou seria ainda orgulho, orgulho de pisar o orgulho, que levava Tito a essa espantosa declaração?
Compreendi subitamente que era preciso atendê-lo, contribuindo para a purificação de sua alma. E embora eu, também ungido de suave arrependimento, não quisesse praticar nenhum ato mau, decidi-me a humilhar meu irmão. Chegávamos à parte inclinada da rua, de subida difícil, agravada pelo mau calçamento.
- Bem, se você quer mesmo isso ... Eu não pedi nada, você sabe ... Então vamos fazer uma coisa. Eu subo nas suas costas e você me leva até em casa, como um animal. Tá certo?
Ele não podia dizer que não. A idéia de ser montado - e por mim - não era das mais aprazíveis. Pensara em tapa no rosto, por ser a imagem costumeira entre nós, embora a mais cruel; mas servir de burro a alguém, e ir de passo pela rua onde havia outros meninos, gente que vinha da igreja ... Era duro. Aceitou.
Exigi mais - e nisto acho que não foi simplesmente para atendê-lo, e sim por um começo de pecaminosa deleitação que de cinqüenta em cinqüenta passos ele se detivesse, gritando:
"Sou burro e quero capim! Sou burro e quero capim! Sou burro e quero capim!" Depois do que, a marcha recomeçaria, até chegarmos em casa.
Tito pôs-se de quatro, eu montei-o, segurando nos ombros, e lá fomos rua acima, ele salvando a sua alma, e eu - sem querer - tirando a minha desforra. Ai, anos de humilhação e derrota, de gengivas sangrando e de braços roxos na poeira! Já não me pesava no peito aquele joelho de chumbo, epílogo de nossas batalhas; nem escutava aquela boca implacável, exigindo a confissão da derrota: "Diz que apanhou! Diz!" "Apanhei ... " Eu montava em meu irmão como num burro manso, e era ele quem sujava as mãos na terra de esterco, que mãos? As patas que me levavam, na minha doce, gloriosa e pacífica reabilitação; e triunfando sem malícia e sem ódio, eu cumpria um desígnio de Deus. Passando-lhe a mão no pescoço, eu o acariciava, ao meu bom, meu querido Tito ...
Mas, pouco a pouco, a idéia da facilidade desse triunfo começou a aborrece-me. Antes de tudo, a posição do cavalheiro era cômoda, como havia suposto. Tito fazia o possível para conduzir-me bem, mas os pés suplementares careciam de prática. E a cada momento, seus longos cabelos lhe caíam na testa, obrigando-o a afastá-los. Ele andava, andava, já estava suando ...
- Sou burro e quero capim! Sou burro e quero capim! Sou burro e quero capim!
Gostei ouvir estas palavras, foi talvez a melhor sensação de tudo; mas a marcha, em si, não tinha as delícias imaginadas. E se eu estimulasse o animal? Talvez se ele apressasse a andadura mesmo que para isso fosse preciso levantar-se, e então eu me agarraria mais ao pescoço, colocando-me às suas costas e enlaçando-Ihe os rins com as pernas - sim, talvez assim fosse melhor ... mas eu não tinha esporas nem freios. Para estimular Tito recorri a um golpe duplo de calcanhares; não calculei bem a intensidade do movimento, e fui atingir meu irmão na virilha.
Ele soltou um berro fulgurante, que exprimia a dor acima de todas as boas intenções e de todas as virtudes do coração. Senti que a noite, com suas escassas estrelas, se virava sobre nós. Rolou no chão e eu rolei com ele. Formamos um bolo confuso e agitado, pernas, braços, cabelos, areia, roupas e pedras. Sempre tão seguro no ataque, Tito parecia cego de dor, pois nem me atingia cheio nem me dominava, e eu fugia dele como um peixe, sentindo a violência de sua cólera e a vergonha do meu abuso. Mas no escuro, na confusão e na raiva, seus dedos afinal prenderam minha carne e me castigaram, esquecidos de toda bem aventurança.
- Toma, desgraçado! Toma, cachorro! Toma! Era assim que você queria ajudar a salvar minha alma? Toma, bandido!
Não pudemos comungar no dia seguinte.

O sorvete

Quando chegamos ao colégio, em 1916, a cidade teria apenas cinqüenta mil habitantes, com uma confeitaria na rua principal, outra na avenida que cortava essa rua. Alguns cafés completavam o equipamento urbano em matéria de casas públicas de consumação e conversa, não falando no espantoso número de botequins, consolo de pobre. As ruas do centro eram ocupadas pelo comércio de armarinho, ainda na forma tradicional do salto dividido em dois: fregueses de um lado, dono e caixeiros do outro; alfaiates, joalherias de uma só porta, agências de loteria que eram ao mesmo tempo pontos de venda de jornais do Rio ostentavam cadeiras de engraxate. Um comércio miúdo, para a clientela de funcionários estaduais, estudantes, gente do interior que vinha visitar a capital e com pouco se deslumbrava. O centro da aglomeração social, concentrando todos os prestígios, impondo-se pelas seduções que emanavam de cartazes coloridos, que nos pareciam rutilantes e gigantescos, e beneficiando-se à noite (contavam-nos) com a irradiação dos focos luminosos dispostos em fieira na fachada, era o cinema. Para ele convergiam, nas matinês de domingo, rapazes e moças de boa família, facilmente reconhecíveis pelo apuro do vestuário como pela distinção e superioridade naturais da atitude. A um simples olhar de meninos do interior, como éramos nós, identificava-se a substância particular de que se teciam as suas vidas, roupas, hábitos, e, se não fosse muita imaginação, o seu próprio enchimento físico. Tanto é certo que o homem da cidade oferece à admiração desarmada do morador da roça, que, entretanto a repele por instinto, a receia e a inveja, a expressão de um modelo ideal inatingível, em que se somam todas as perfeições possíveis, síntese que é de refinamento produzido pela cultura, pelo asfalto, pela eletricidade, pelo Governo e por tantas outras entidades poderosas.
Quanto ao aspecto no turno do cinema, abstenho -me referi-lo diretamente, porque o colégio não nos permitia sair à noite, e só alguns anos depois pude fazer a experiência da sua freqüentação, de certo com olhos já influídos por uma penetração maior de outras visões da cidade, e abolida em parte a virgindade áspera das minhas sensações de quase aldeão. Alunos internos, dispúnhamos apenas dos domingo para os nossos passeios isentos da censura colegial, no espaço de tempo que se confinava entre - a conclusão da missa das oito e o toque de sineta para o estudo das seis da tarde. Abria-se pois à nossa frente, se o nosso comportamento se houvesse mantido em nível tolerável durante a semana, um dia de solou de chuva, e visitas tediosas a parentes ou de prazeres insuspeitados, de bom ou mau emprego, mas inexoravelmente limitado na sua parte final: o atraso na volta constituía infração punida com reclusão no domingo seguinte, e apenas era tão grave que não nos animávamos a enfrentá-la. Ficava assim, no centro de nossa fuga- hebdomadária, o maravilhoso cinema, em sua sessão das duas horas da tarde, suas fitas americanas ainda destituídas de sofisticação, seus vendedores sibilantes de balas e de amendoim torrado, a hipótese algo desconcertante de um palco extra com bailarinas, tudo pela quantia assaz considerável de mil e cem réis. Considerável, dada a exigüidade do nosso orçamento infantil, que a munificência paterna jamais ousaria transpor, à vista do que expressamente regiam os estatutos: "Os senhores pais não deverão de modo algum fornecer dinheiro aos educandos, salvo o destinado a pequenas despesas, o qual ficará sob a guarda do estabelecimento"; e esse dinheiro, aí de nós ainda era menor do que nossas mesquinhas despesas.
Eu tinha onze anos, Joel, treze, o que, além do tamanho, lhe bastava para se atribuir definitiva autoridade sobre mim. Na realidade, Joel era meu comandante. Já exercia o comando na cidade, minha onde crescêramos amigos inseparáveis; diante do espelho da "cidade grande", minha timidez xucra apoiava-se na capacidade de resolver, dirimir e providenciar, atributos que sempre me faleceram. Quando meu pai se decidira a internar-me naquele colégio distante, o pai de Joel considerou que devia dizer o mesmo com seu filho. O prazer que isso me causou não vinha somente de que eu teria a meu lado o amigo mais agradável e com quem me entendia melhor; era ainda como se eu vagamente considerasse Joel um protetor, um guia cômodo, e pressentisse nele o escudo contra os perigos ainda nebulosos da vida no internato e na capital, e, porque nebulosos, maiores.
Eis-nos pois, eu e Joel, num domingo de março, nosso mofino dinheiro no bolso, à cata de sensações amáveis cuja recordação nos servisse para povoar o terreno baldio da semana seguinte; por que, tanto quanto posso certificar-me do meu espírito infantil de trinta anos atrás, e do de meu companheiro, o que buscávamos era menos um prazer concreto a possibilidade de armazená-lo, de prendê-lo numa espécie de vaso transparente onde se tornasse definitivamente objeto de contemplação e referência; era em suma!.. como afinal para tanta gente de espírito infantil ou adulto, matéria para recordação, que compensasse as horas de ócio, desânimo. Ou trabalho, quando não simplesmente que se pudesse exibir a colegas menos afortunado porque passaram presos o domingo: "Eu fiz isto, e você não; fui ao circo, e você não; e até - vantagem dramática - machuquei uma perna, e você não!"
Mas a própria aventura exige um roteiro, nós o sabíamos por intuição; e o nosso fora pacientemente concebido nas conversas de recreio e através de bilhetes silenciosos passados entre as carteiras, na sala de estudo. Em síntese, nosso domingo se comporia de: ida a pé para a cidade, a fim de acumular recursos, e fazer um pouco de exercício; passeio no parque, com inspeção dos bichos ainda não conhecidos e exame mais minucioso de um gavião-de-penacho não suficientemente apreciado da primeira vez; almoço em casa de meu tio; jogos no quintal com os primos; matinê de cinema; gulodices compradas a um doceiro de rua e comidas num banco de jardim; passeio pela cidade, talvez uma excursão de bonde ao subúrbio; e volta. Esse programa não era suscetível de variar muito nos domingos subseqüentes, mas pareceu-nos de uma sublime originalidade, e enquanto batíamos a pé pela rua plantada de mangueiras, íamos prelibando o gozo que sua execução nos proporcionaria.
Sim, nenhuma das operações de que se compunha o programa parecia por si mesma extraordinária, mas, à medida que se iam consumando, ficavam registradas em nós como outros tantos episódios memoráveis, cujo esplendor atravessaria as horas mornas, projetando-se para além da mediocridade de nossos destinos. Não distinguíamos bem os elementos da paisagem, nas ruas arborizadas que palmilhávamos, mas esses elementos se inseriam automaticamente em nós, e nos sentíamos capazes de fornecer aos colegas uma descrição abundante de tudo quanto passara despercebido à nossa visão imediata; visto de perto, o gavião-de-penacho não tinha o porte real que lhe atribuíramos, mas, já recuado no espaço e na percepção comum, recuperava a majestade; o almoço em casa de tio Lucas era talvez um bom almoço, mas, porque em estado de reminiscência, enchia-se de pratos e temperos que nele não figuravam de fato; e o cinema ...
A caminho do cinema, a dois passos dele, na rua principal, está a confeitaria, a cuja porta é grato a gente deter-se, ante as formas caprichosas e coloridas que ali se dirigem simultaneamente a vários sentidos. Certos bolos e cremes, antes de serem degustados pela boca ávida, o são pelo nariz e pelos olhos, e, se no-lo permitissem, o seriam pelas mãos, que amariam verificar a maciez, a doçura e a delicadeza da pasta. Único sentido não beneficiado, o ouvido permaneceria alheio a essa fruição geral, se não chegassem até ele os ruídos normais numa casa onde se comem, choque de louça no mármore, de metais na louça, pequenos rumores familiares a que se ligam imemorialmente as sensações do paladar, e que tanto contribuem para a composição desse extraordinário prazer de comer.
Estávamos absortos na contemplação ritual, misto de atenção a formas simbólicas, e de sonho em torno de idéias complexas que elas sugeriam - ali, diante daqueles pudins e daqueles roxos, amarelos, solferinos, verdes e róseos montículos de açúcar, geléia, ovo, frutas cristalizadas e invisível manteiga, quando um objeto vulgar, mas insólito no lugar onde se achava, me captou o interesse. Encostado a uma das três portas da confeitaria, do lado da calçada, um quadro-negro propunha-nos os seguintes dizeres em giz branco:
HOJE
Delicioso sorvete de ABACAXI
Especialidade da casa HOJE!

A inscrição emocionou-me intensamente, e dei conta a Joel de minha perturbação.
- Você está vendo?
Aparentemente, Joel não se deixara invadir pelo sortilégio das palavras. Sua superioridade!
- "Delicioso sorvete de abacaxi ... " Nunca tomei disso.
- Eu também não - respondeu o fortíssimo Joel. - Deve ser porcaria.
Eu sabia que Joel falava da boca para fora, e que a idéia de sorvete, exposta de maneira tão súbita, e tão estranha a ele quanto a mim próprio, não lhe podia ser indiferente, e muito menos repugnante. Maliciosamente, procurava cativá-lo no interesse de uma profunda alteração de nosso programa. A saber: cancelaríamos a sessão de cinema, e com os fundos disponíveis atacaríamos o sorvete de abacaxi.
Notei que outra coisa não desejava Joel, mas é da psicologia do chefe, que muitas vezes prefere conceder por magnanimidade o que contava fazer de vontade própria. Na realidade, o chefe não concede nunca, mas parece estar sempre se dobrando; e assim cultiva ilusões úteis. Meu desejo de trocar o cinema pelo sorvete era porém tão evidente, que Joel receou talvez satisfazer o seu de um modo que parecesse capitulação real a um subordinado. Estas coisas imagino hoje, porque então não achei sentido na firmeza com que ele comandou:
- A gente já tinha resolvido ir ao cinema, agora o jeito é ir. a sorvete fica para domingo que vem.
Sem Joel, eu não me arriscaria à aventura do sorvete. Entre duas privações, a do sorvete e a de Joel, resignei-me àquela. E a campainha da porta do cinema, como cigarra, zinia. Pois vamos!
Mas, quem disse que o desenho animado, com Mutt e Jeff engatinhando as primeiras tentativas de fixação da personagem ideal, em preto e branco, lograva prender-nos? Quem disse que a comédia de Carlito ... ? A mais simples comparação de dois prazeres deteriora o que estamos desfrutando, e oferece o risco de corromper o segundo, se chegamos a atingi-lo, pela indisposição em que nos deixou a frustração do primeiro. No escuro, eu procurava encontrar no rosto de Joel a tristeza do sorvete frustrado, e se tal sentimento não se manifestava de maneira irrecusável, a verdade é que pelo menos tivera suficiente poder para eliminar todo indício de satisfação ante as proezas espetaculares que William Farnum desenvolvia na tela, salvando Louise Lovely - ou seria talvez outro astro, outra estrela.
Arrependimento da proibição imposta a si mesmo e a um amigo, insatisfação, espírito de aventura, volubilidade da alma humana, ou qualquer outro móvel não esclarecido, o certo é Joel, catucando-me o braço, murmurou:
- Vamos lá, vamos?
Eu sabia que "lá" era a confeitaria, pois o sorvete de abacaxi entrara comigo no cinema, sentara-se na minha cadeira e embora o soubesse frio, queimava-me. Fomos à confeitaria, templo misterioso onde se ocultava, na parte dos fundos, vedada por uma portinha de vidro opaco, a essência imanente à coisa ou palavra sorvete, e que meus pobres sentidos se aguçavam para interpretar.
O garçom depositou cuidadosamente sobre a toalhinha alva dois copos cheios de água, dois guardanapos de papel, com florezinhas pálidas, e duas tacinhas de vidro, contendo, cada uma delas, meia esfera de uma substância alva e brilhante. Crianças de cinco desprezarão minha narrativa; e já ouço um leitor maduro, que me interrompe: "Afinal este sujeito quer transformar o ato de tomar sorvete numa cena histórica?" Leitor irritado, não é bem isso. Peço apenas que te debruces sobre esta mesa a cuja roda há dois meninos do mais longe sertão. Eles nunca haviam sentido na boca o frio de uma pedra de gelo, e, como todos os meninos de todos os países, se travavam conhecimento com uma coisa de que só conhecessem antes a representação gráfica ou oral, dela se aproximavam não raro atribuindo-lhe um valor mágico, às vezes divino, às vezes cruel, em desproporção com a realidade e mesmo fora dela; um valor independente da coisa e diretamente ligado a sugestões de som, cor, forma, calor, densidade, que as palavras despertam em nosso espírito maleável. Como posso reconstituir agora tudo o que nós criáramos, para nosso próprio uso, em torno da palavra sorvete, representativa de uma espécie rara de refresco, que às pequenas. cidades não era dado conhecer; e cruzada bruscamente com a nossa velha e querida palavra abacaxi, ambas como que envoltas, por uma astúcia do gerente da confeitaria, na seda fina e macia da palavra "delicioso"?
A carga de simpatia e sensualidade com que me atirei - nos atiramos - às meias esferas trazia talvez em si o germe da decepção que logo nos assaltou. O sorvete era detestável, de um frio doloroso, do qual se excluía toda lembrança de abacaxi, para só ficar a idéia de uma coisa ao mesmo tempo pétrea e frágil, agressiva aos dentes, e, mais para além deles, a uma região íntima do ser em que está o núcleo da personalidade, sua mais profunda capacidade de gozar e sofrer. Era uma dor universal o que ele espalhava, e tão rápida e difundida como se invadisse no mesmo segundo, por mil filamentos, toda a rede nervosa ... Lágrimas subiram-me aos olhos. No rosto de Joel, também o sofrimento se desenhava.
Evidentemente, era impossível continuar com aquilo, e tínhamos de resolver no espaço de alguns instantes, perante o olhar talvez malicioso dos freqüentadores, do garçom, do caixa, o problema de liquidar com o sorvete sem ser por via de ingestão, ao lado de outro problema, oh, tão mais penoso, o da transformação imediata do nosso lírico conceito de sorvete numa triste noção experimental, erma de toda satisfação física ou estética ... Mas como fazer desaparecer um objeto de difícil transporte e conservação, num lugar público? Pergunta que os assassinos devem formular-se, fechados no quarto com o cadáver; os mais sinistros e engenhosos expedientes têm malogrado. Em certo sentido, nós nos sabíamos criminosos, porque, insisto, o homem do campo, a sós com as complicações /da cidade, é sempre débil; éramos debilíssimos. E nada mais triste do que reparar na tranqüilidade esmagadora que os da cidade assistem à nossa angústia insolvável. "Por que pediu sorvete? Se não ia gostar?! E por que não gostou? É admissível que alguém não goste de sorvete? Logo de abacaxi! Especialidade da casa!" O caixa saíra do trono para dizer-me isso com a mão direita coçando o queixo e o bigode ... Olhava-me com desdém e reprovação. Não, não saiu nem disse nada. Mas eu ouvia dentro de mim suas palavras, a vergonha que elas fariam derramar sobre minha família - o filho do Coronel Juca não gosta de sorvete de abacaxi: ele teve coragem de ir a uma confeitaria elegante, pedir um sorvete e estragá-lo: e minha boca doía com a lembrança daquele gelo ardente e cáustico.
Então reatacamos o sorvete, mas ele continuava intragável. A verdade é que, sem noção alguma de como ingeri-lo, nós pretendíamos absorvê-lo a dentadas, em grandes porções que levavam consigo o pânico de um motor de dentista. O céu da boca era um teto fulgurante de dor: e o pior é que, eu bem o sentia, essa dor era ridícula.
Renunciei antes de Joel à empreitada de amor-próprio; que o garçom e o caixa me matassem, mas não "comeria" mais aquilo. Olhei firme para meu amigo, que, por ser de ânimo mais rude do que eu, ou por haver descoberto instintivamente a técnica de tomar sorvete sem dor, ou finalmente por temperamento de chefe, continuava levando a colher à boca, a meia bola de neve já solapada.
Joel percebeu meu desconforto sem apoiá-lo, e com um olhar peremptório baixou-me esta ordem, entre dentes:
- Acabe com isso se não quer ficar desmoralizado.
Era um pensamento, uma noção dos Mendonça, formada na educação burguesa de várias gerações, que ele ministrava a um membro de outra família não menos rica de princípios respeitáveis, os Caldeira Lemos. Uma reputação pode perder-se com à menor prova de fraqueza. Há um orgulho de família, de pessoa, que o indivíduo recebe no berço e tem que sustentar. Joel tirava seu comportamento, numa situação assim imprevista, do corpo de doutrina dos Mendonça, e me lembrava que eu devia fazer o mesmo.
Sucede que aquilo que nos é penoso fazer, por iniciativa própria, mas sabemos necessário, se torna fácil de executar quando um poder estranho no-lo determina. Todo o encanto do sorvete estava perdido. Mas restava um dever do sorvete a cumprir, um dever miserável. Refreando as lágrimas, o desapontamento, a dor que um filho de boa família não pode sentir em público, mastiguei as últimas porções daquela matéria atroz.
Joel olhou-me de novo, já agora aprobativo e cordial. Ele também sofrera bastante, mas a vida é um combate. O garçom aproximou-se. Joel pôs a mão no bolso, perguntou quanto era. O dinheiro não chegava.

A doida
A DOIDA habitava um chalé no centro do jardim maltratado. E a rua descia para o córrego, onde os meninos costumavam banhar-se. Era só aquele chalezinho, à esquerda, entre o barranco e um chão abandonado; à direita, o muro de um grande quintal. E na rua, tornada maior pelo silêncio, o burro que pastava. Rua cheia de capim, pedras soltas, num declive áspero. Onde estava o fiscal, que não mandava capiná-la?
Os três garotos desceram manhã cedo, para o banho e a pega de passarinho. Só com essa intenção. Mas era bom passar pela doida e provocá-la. As mães dizia .....o contrário: que era horroroso, poucos pecados seriam maiores. Dos doidos devemos ter piedade, porque eles não gozam dos benefícios com que nós, os sãos, fomos aquinhoados. Não explicavam bem quais fossem esses beneficias, ou explicavam demais, e restava a impressão de que eram to os privilégios de gente adulta, como fazer visitas, receber cartas, entrar para irmandades. E isso não comovia ninguém. A loucura parecia antes erro do que seria miséria. E os três sentiam-se inclinados a lapidar a doida, isolada e agreste no seu jardim.
Como era mesmo a cara da doida, poucos poderiam dizê-lo.
Não aparecia de frente e de corpo inteiro, como as outras pessoas, conversando na calma. Só o busto, recortado numa das janelas da frente, as mãos magras, ameaçando. Os cabelos, brancos e desgrenhados. E a boca inflamada, soltando xingamentos, pragas, numa voz rouca. Eram palavras da Bíblia misturadas a termos populares, dos quais alguns pareciam escabrosos, e todos fortíssimos na sua cólera.

Falta um pedaço

do meio vibrou um golpe na primeira janela. Bam! Tinha atingido uma lata, e a onda de som propagou-se lá dentro; o menino sentiu-se recompensado. Esperaram um pouco, para ouvir os gritos. As paredes descascadas, sob as trepadeiras e a hera da grade, as janelas abertas e vazias, o jardim de cravo e mato, era tudo a mesma paz.
Aí o terceiro do grupo, em seus onze anos, sentiu-se cheio de coragem e resolveu invadir o jardim. Não só podia atirar mais de perto na outra janela, como até praticar outras e maiores façanhas. Os companheiros, desapontados com a falta do espetáculo cotidiano, não queriam segui-lo. E o chefe, fazendo valer sua autoridade, tinha pressa em chegar ao campo.
O garoto empurrou o portão: abriu- e. Então, não vivia trancado? .. E ninguém ainda fizera a experiência. Era o primeiro a penetrar no jardim, e pisava firme, posto que cauteloso Os amigos chamavam-no, impacientes. Mas entrar em terreno proibido é tão excitante que o apelo perdia toda a significação. Pisar o chão pela primeira vez; chão inimigo. Curioso o jardim se parecia com qualquer um; apenas era selvagem, e o melão-de-são-caetano se enredava entre as violetas, as roseiras pediam poda, o canteiro de cravinas afogava-se em erva. Lá estava, quentando sol, a mesma lagartixa de todos os jardins, cabecinha móbil e suspicaz. O menino pensou primeiro em matar a lagartixa e depois em atacar a janela. Chegou perto do animal, que correu. Na perseguição, foi para rente do chalé, junto à cancelinha azul (tinha sido azul) que fechava a varanda da frente. Era um ponto que não se via da rua, coberto como estava pela massa de folhagem. A cancela apodrecera, o soalho da varanda tinha buracos, a parede, outrora pintada de rosa e azul, abria-se em reboco, e no chão uma farinha de caliça denunciava o estrago das pedras, que a louca desistira de reparar.
A lagartixa salvara-se, metida em recantos só dela sabidos, e o garoto galgou os dois degraus, empurrou a cancela, entrou. Tinha a pedra na mão, já não era necessária; jogou-a fora. Tudo tão fácil, que até ia perdendo o senso da precaução. Recuou um pouco e olhou para a rua: os companheiros tinham sumido. Ou estavam mesmo com muita pressa, ou queriam ver até onde iria a coragem dele, sozinho em casa da doida. Tomar café com a doida. Jantar em casa da doida. Mas onde estaria a doida?
A princípio não distinguiu bem, debruçado à janela, a matéria confusa do interior. Os olhos estavam cheios de claridade, mas afinal se acomodaram, e viu a sala, completamente vazia e esburacada, com um corredorzinho no fundo, e no fundo do corredorzinho uma caçarola no chão, e a pedra que o companheiro jogara.
Passou a outra janela e viu o mesmo abandono, a mesma nudez. Mas aquele quarto dava para outro cômodo, com a porta cerrada. Atrás da porta devia pois estar a doida, que inexplicavelmente não se mexia, para enfrentar o inimigo. E o menino saltou o peitoril, pisou indagado r no soalho gretado, que cedia.
A porta dos fundos cedeu igualmente à pressão leve, entreabrindo-se numa faixa estreita que mal dava passagem a um corpo magro.
No outro cômodo a penumbra era mais espessa e parecia muito povoada. Difícil identificar imediatamente as formas que ali se acumulavam. O tato descobriu uma coisa redonda e lisa, a curva de uma cantoneira. O fio de luz coado do jardim acusou a presença de vidros e espelhos. Seguramente cadeiras. Sobre uma mesa grande pairavam um amplo guarda-comida, uma mesinha de toalete, mais algumas cadeiras empilhadas, um abajur de renda e várias caixas de papelão. Encostado à mesa, um piano também soterrado sob a pilha de embrulhos e caixas. Seguia-se um guarda-roupa de proporções majestosas, tendo ao alto dois quadros virados para a parede, um baú e mais pacotes. Junto à única janela, olhando para o morro, e tapando pela metade a cortina que a obscurecia, outro armário. Os móveis enganchavam-se uns nos outros, subiam ao teto. A casa tinha se espremido ali, fugindo à perseguição de quarenta anos.
O menino foi abrindo caminho entre pernas e braços de móveis, contorna aqui, esbarra mais adiante. O quarto era pequeno e cabia tanta coisa.
Atrás da massa do piano, encurralada a um canto, estava a cama. E nela, busto soerguido, a doida esticava o rosto para a frente, na investigação do rumor insólito.
Não adiantava ao menino querer fugir ou esconder-se. E ele estava determinado a conhecer tudo daquela casa. De resto, a doida não deu nenhum sinal de guerra. Apenas levantou as mãos à altura dos olhos, como para protegê-los de uma pedrada.
Ele encarava-a, com interesse, E simplesmente uma velha, jogada no catre preto de solteiro atrás da barricada de móveis. E que pequenininha! O corpo sob a coberta formava uma elevação minúscula. Miúda, escura, desse sujo que o tempo deposita na pele, manchando-a. E parecia ter medo.
Mas os dedos desceram um pouco, e os pequenos olhos amarelados encararam por sua vez o intruso com atenção voraz, desceram às suas mãos vazias, tornaram a subir ao rosto infantil.
A criança sorriu, de desaponto, sem saber o que fizesse. Então a doida ergueu-se um pouco mais, firmando-se nos cotovelos. A boca remexeu, deixou passar um som vago e tímido.
Como a criança não se movesse, o som indistinto se esboçou outra vez.
Ele teve a impressão de que não era xingamento, parecia antes um chamado. Sentiu-se atraído para a doida, e todo desejo de maltratá-la se dissipou. Era um apelo, sim, e os dedos, movendo-se canhestramente, o confirmavam.
O menino aproximou-se, e o mesmo jeito da boca insistia em soltar a mesma palavra curta, que entretanto não tomava forma. Ou seria um bater automático de queixo, produzindo um som sem qualquer significação?
Talvez pedisse água. A moringa estava no criado-mudo, entre vidros e papéis. Ele encheu o copo pela metade, estendeu-o. A doida parecia aprovar com a cabeça, e suas mãos queriam segurar sozinhas, mas foi preciso que o menino a ajudasse a beber.
Fazia tudo naturalmente, e nem se lembrava mais por que entrara ali, nem conservava qualquer espécie de aversão pela doida. A própria idéia de doida desaparecera. Havia no quarto uma vela que talvez estivesse morrendo.
Nunca vira ninguém morrer, os pais o afastada em casa um agonizante. Mas deve ser assim que as pessoas morrem.
Um sentimento de responsabilidade apoderou-se dele. Desajeitadamente procurou fazer com que a cabeça repousasse sobre o travesseiro. Os músculos rígidos da mulher não o ajudavam. Teve que abraçar-lhe os ombros - com repugnância - e conseguiu, afinal, deitá-la em posição suave.
Mas a boca deixava passar ainda o mesmo ruído obscuro, que fazia crescer as veias do pescoço, inutilmente. Água não podia ser, talvez remédio ...
Passou-lhe um a um, diante dos olhos, os frasquinhos do criado-mudo. Sem receber qualquer sinal de aquiescência. Ficou perplexo, irresoluto. Seria caso talvez de chamar alguém, avisar o farmacêutico mais próximo, ou ir à procura do médico, que morava longe. Mas hesitava em deixar a mulher sozinha na casa aberta e exposta a pedradas. E tinha medo de que ela morresse em completo abandono, como ninguém no mundo deve morrer, e isso ele sabia não apenas porque sua mãe o repetisse sempre, senão também porque muitas vezes, acordando no escuro, ficara gelado por não sentir o calor do corpo do irmão e seu bafo protetor.
Foi tropeçando nos móveis, arrastou com esforço o pesado armário da janela, desembaraçou a cortina, e a luz invadiu o depósito onde a mulher morria. Com o ar fino veio uma decisão. Não deixaria a mulher para chamar ninguém. Sabia que não poderia fazer nada para ajudá-la, a não ser sentar-se à beira da cama, pegar-lhe nas mãos e esperar o que ia acontecer.
Presépio

Dasdores assim se chamavam as moças naquele tempo) sentia-se dividida entre a missa-do-galo e o presépio. Se fosse à Igreja, o presépio não ficaria armado antes de meia-noite e se se dedicasse ao segundo não veria o namorado.
É difícil ver namorado na rua, pois moça não deve sair de casa, salvo para rezar ou visitar parentes. Festas são raras. O cinema ainda não foi inventado, ou, se o foi, não chegou a esta nossa cidade, que é antes uma fazenda crescida. Cabras passeiam nas ruas, um cincerro tilinta: é a tropa. E viúvas espiam de janelas, que se diriam jaulas.
Dasdores e suas numerosas obrigações: cuidar dos irmãos, velar pelos doces de calda, pelas conservas, manejar agulha e bilro, escrever as cartas de todos. Os pais exigem-lhe o máximo, não porque a casa seja pobre, mas porque o primeiro mandamento da educação feminina é: trabalharás dia e noite. Se não trabalhar sempre, se não ocupar todos os minutos quem sabe de que será capaz a mulher? Quem pode vigiar sonhos de moça? Eles são confusos e perigosos. Portanto, é impedir que se formem. A total ocupação varre o espírito. Dasdores nunca tem tempo para nada. Seu nome, alegre à força de repetido, ressoa pela casa toda. "Dasdores, as dálias já foram regadas hoje?" "Você viu, Dasdores, quem deixou o diabo desse gato furtar a carne?" "Ah, Dasdores, eu bem, prega esse botão para sua mãezinha." Dasdores multiplica-se, corre, delibera e providencia mil coisas. Mas é um engano supor que se deixou aprisionar por obrigações enfadonhas. Em seu coração e a voa para o sobrado da outra rua em que, fumando ou alisando o cabelo com brilhantina, está Abelardo.



Das mil maneiras de amar, ó pais, a secreta é a mais ardilosa, e eis ã que ocorre na espécie. Dasdores sente-se livre em meio às tarefas, e até mesmo extrai delas algum prazer. (Dir-se-ia que as mulheres foram feitas para o trabalho ... Alguma coisa mais do que resignação sustenta as donas de casa.) Dasdores sabe combinar o movimento dos braços com a atividade interior - é uma conspiradora - e sempre acha folga para pensar em Abelardo. Esta véspera de Natal, porém, veio encontrá-la completamente desprevenida. O presépio está por armar, a noite caminha, lenta como costuma fazê-lo no interior, mas Dasdores é íntima do relógio grande da sala de jantar, que não perdoa, e mesmo no mais calmo povoado o tempo dá um salto repentino, desafia o incauto:
"Agarra-me!" Sucede que ninguém mais, salvo esta moça, pode dispor o presépio, arte comunicada por uma tia já morta. E só Dasdores conhece o lugar de cada peça, determinado há quase dois mil anos, porque cada bicho, cada musgo tem seu papel no nascimento do Menino, e ai do presépio que cede a novidades.
As caixas estão depositadas no chão ou sobre a mesa, e desembrulhá-las é a primeira satisfação entre as que estão infusas na prática ritual da armação do presépio. Todos os irmãos querem colaborar, mas antes atrapalham, e Dasdores prefere ver-se morta a ceder-lhes a responsabilidade plena da direção. Jamais lhes será dado tocar, por exemplo, no Menino Jesus, na Virgem e em São José. Nos pastores, sim, e nas grutas subsidiárias. O melhor seria que não amolassem, e Dasdores passaria o dia inteiro compondo sozinha a paisagem de água e pedras, relva, cães e pinheiros, que há de circundar a manjedoura. Nem todos os animais estão perfeitos; este carneirinho tem uma perna quebrada, que se poderia consertar, mas parece a Dasdores que, assim mutilado e dolorido, o Menino deve querer-lhe mais. Os camelos, bastante miúdos, não guardam proporção com os cameleiros que os tangem; mas são presente da tia morta, e participam da natureza dos animais domésticos, a qual por sua vez participa obscuramente da natureza da família. Através de um sentimento nebuloso, afigura-se-Ihe que tudo é uma coisa só, e não há limites para o humano. Dasdores passa os dedos, com ternura, pelos camelinhos; sente neles a macieza da mão de Abelardo.
Alguém bate palmas na escada; ô de casa! amigas que vêm combinar a hora de ir para a igreja. Entram e acham o presépio desarranjado, na sala em desordem. Esta visita come mais tempo, matéria preciosa ("Agarra-me! Agarra-me!"). Quando alguém dispõe apenas de uns poucos minutos para fazer algo de muito importante e que exige não somente largo espaço de tempo mas também uma calma dominadora - algo de muito importante e que não pode absolutamente ser adiado - se esse alguém é nervoso, sua vontade se concentra, numa excitação aguda, e o trabalho começa a surgir, perfeito, de circunstâncias adversas. Dasdores não pertence a essa raça torturada e criadora; figura no ramo também delicado, mas impotente, dos fantasistas. Vão-se as amigas, para voltar duas horas depois, e Dasdores, interrogando o relógio, nele vê apenas o rosto de Abelardo, como também percebe esse rosto de bigode, e a cabeleira lustrosa, e os olhos acesos, dissimulados nas ramagens do papel da parede, e um pouco por toda parte.
A mão continua tocando maquinalmente nas figuras do presépio, dispondo-as onde convém. Nada fará com que erre; do passado a tia repete sua lição profunda. Entretanto, o prazer de distribuir as figuras, de fixar a estrela, de espalhar no lago de viIra os patinhos de celulóide, está alterado, ou subtrai-se. Dasdores não o saboreia por inteiro. Ou nele se insinuou o prazer da missa? Ou o medo de que o primeiro, prolongando-se, viesse a impedir o segundo? Ou um sentimento de culpa, ao misturar o sagrado ao profano, dando, talvez! preferência a este último, pois no fundo da caminha de palha suas mãos acariciavam o Menino, mas o que a pele queria sentir - sentia, Deus me perdoe - era um calor humano, já sabeis de quem.
Aqui desejaria, porque o mundo é cruel e as histórias também costumam sê-lo, acelerar o ritmo da narrativa, prover Dasdores com os muitos braços de que ela carece para cumprir com sua obrigação, vestir-se violentamente, sair com as amigas depressa, depressa -, ir correndo ladeira acima, encontrar a igreja vazia, o adro já quase deserto, e nenhum Abelardo. Mas seria preciso atribuir-lhe, não braços e pernas suplementares, e sim outra natureza, diferente da que lhe coube, e é pura placidez. Correi, sôfregos, correi ladeira acima, e chegai sempre ou muito tarde ou muito cedo, mas continuai a correr, a matar-vos, sem perspectiva de paz ou conciliação. Não assim os serenos, aqueles que, mesmo sensuais, se policiam. O dono desta noite, depois do Menino, é o relógio, e este vai mastigando seus minutos, seus cinco, seus quinze minuto. Se nos esquecermos dele, talvez pule meia hora, como um prestidigitador furta um ovo, mas, se nos pusermos a contemplá-lo, os números gelam, o ponteiro imobiliza-se, a vida parou rigorosamente. Saber que a vida parou seria reconfortante para Dasdores, que assim lograria folga para localizar condignamente os três reis na estrada, levantar os muros de Belém. Começa a fazê-lo, e o tempo dispara de novo. "Agarra-me! Agarra-me!" Nas cabeças que espiam pela porta entreaberta, no estouvamento dos irmãos, que querem se debruçar sobre o caminho de areia antes que essa esteja espalhada, na muda interrogação da mãe, no sentimento de que a vida é variada demais para caber em instantes tão curtos, no calor que começa a fazer apesar das janelas escancaradas há uma previsão de malogro iminente. Pronto, este ano não haverá Natal. Nem namorado. E a noite se fundirá num largo pranto sobre o travesseiro.
Dasdores continua, calma e preocupada, cismarenta e repartida, Juntando na imaginação os dois deuses, colocando os pastores na posição devia e peculiar à adoração, decifrando os olhos de Abelardo, as mãos de Abelardo, o mistério prestigioso do ser de Abelardo, a auréola que os caminhantes descobriram em torno dos cabelos macios de Abelardo, a pele morena de Jesus, e aquele cigarro - quem botou! - ardendo na areia do presépio, e que Abelardo fumava na outra rua.

Câmara e cadeia

- AFINADOR de piano, em excursão, vinte e cinco mil-réis.
- Quanto?
- Vinte e cinco mil.
- É exagero. Às vezes o afinador não ganha isso durante a viagem. O Juca Silveira me contou. A principal fonte de renda dele é a criação• de perus. E já paga imposto de indústria e profissão ...
- Bem, se nós formos indagar dos contribuintes quanto é que eles querem pagar, a tesouraria fica sem recursos para comprar um maço de velas quando faltar luz. Seria preferível que eles mesmos fizessem o lançamento.
A Câmara Municipal discutia o orçamento para 1920, os dois vereadores ponderavam ponto por ponto cada título da receita. O município é pobre, arrecada 72 contos por ano. Houve praga na lavoura; deu peste no gado; o empréstimo para instalação de luz elétrica vence juros penosos. Para atender ao serviço de estradas, à instrução, às eleições, ao funcionalismo, a tanto compromisso, torna-se imperioso lançar novos impostos, criar taxas inéditas, como essa de afinador. Mas piano quantos pianos terá o município? Quinze, no máximo; dos quais apenas uns cinco nos distritos: a taxa talvez não produza cinqüenta mil-réis. Uma ninharia, meu caro!
No calor da sala, os vereadores tentam reerguer as finanças públicas. Salão muito quente, com efeito. Dá pra frente da praça, que recolhe o sol da tarde, ao passo que a outra sala, olhando para a montanha e o vale profundo, recebe uma doce brisa, em que narinas mais apuradas distinguem o perfume de árvores distantes, e os caçadores chegam a identificar um cheiro de anta.
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cheio de serviço, defendia realmente os interesses da comunidade, e não os de classe? A batalha contra o comércio, representado por João Batista, era contínua e deixava-o exausto. O povo precisava de escolas, de uma enfermaria nova no hospital em ruínas - mas João Batista não admitia que se cobrasse mais dos bilhares e das fábricas de aguardente. Ele, Valdemar, ficava com o papel odioso. Ora bolas!
Valdemar levantou-se, atravessou a sala, foi até os fundos do prédio para respirar um ar menos oficial. Os funcionários tinham saído. Da janela, a paisagem oferecia-se como um repouso. A cidade, tão seca, tão estrangulada de morros, perdia ali suas limitações. A rampa verde conduzia ao fundo do vale, onde serpeava uma água tímida, mas reconfortante para a vista. E do outro lado do córrego, a rua subia, caprichosa e determinada, até o sopé da serra, que barrava o horizonte. Contornando a rua, árvores esparsas ou em bosque, pastagens, moitas de arbustos, caminhos que se interrompiam na verdura para surgir mais além. Poucos sinais de homem, e entre eles a boca da mina, lá longe, pequena mancha preta no dorso cinza-roxo da montanha. Do alto do casarão, o vereador sentiu o prazer de existir dentro da natureza, e olvidou por momentos o déficit municipal.
Dois andares da fachada principal, três na dos fundos - a casa estava assentada sobre uma ladeira, e aquele era um dos pontos de vista mais altos da cidade. Baixou os olhos até a ladeira gramada. Galinhas ciscavam - eram do fiscal da Câmara, não adiantava reclamar. Ciscavam minuciosamente junto às paredes da casa, chegando até as grades - pois lá embaixo, ao nível do chão, era a cadeia, onde os presos se distraíam jogando-lhe sobras de comida ou pequeninas coisas que as assustavam.
Valdemar nascera na cidade e desde menino se habituara ao espetáculo dos presos. Faziam objetos de taquara, madeira, desenhos de areia colorida sobre vidro. Com as mãos nas grades, contemplavam os escassos transeuntes que desciam a ladeira. Viam eternamente as mesmas árvores, fitavam a mesma serra. E cantavam. Não era proibido conversar com eles, através dos ferros. Pareciam alegres quando alguém parava para dar uma prosa. Sempre houve presos. Os meninos achavam aquilo natural. Mas agora, já homem, Valdemar via-os de maneira diferente. Sabia da miséria deles, e achava estranho, ou quando menos desagradável, estar ali fruindo a paisagem e o ventinho, quando debaixo de seus pés homens humilhados se amontoavam confusamente, na semi-escuridão, na umidade.
- Como fazer leis e cobrar impostos pisando sobre presos?
- perguntava a si mesmo. - A cadeia é a parte condenada da
Câmara. Ao entrar, a gente não olha para a enxovia. Tem constrangimento, ou talvez medo, de perceber o que se passa lá dentro, naquela imundície. É certo que tudo corre por conta do Governo do Estado, que não pensa em construir uma cadeia decente. Mas podemos concordar com essa vergonha?
E já não tinha gosto para sorver o ar da serra nem perder os olhos na mata. Uma simples tábua o separava de meia dúzia de criaturas embrutecidas, pisadas, que comiam, dormiam e faziam necessidade juntas, sobre o chão atijolado que não se lavava nunca. O ar pareceu-lhe empestado, como se de repente subisse até as alturas da Câmara o cheiro de mofo e de urina que pairava na parte baixa do edifício.
Um rumor fê-lo voltar-se. Vinha da sala de sessões, onde vozes alteradas se cruzavam Valdemar deixou a sacada, foi correndo ver o que havia.
A sala perdera subitamente a fisionomia grave e sonolenta. Os vereadores estavam de pé, tinham recuado para trás da mesa da presidência. O farmacêutico brandia uma cadeira, em atitude de ameaça e defesa. Major Ponciano estendia os braços, com as mãos espalmadas, como para fazer sustar o avanço de um inimigo afoito. João Batista media com os olhos a distância que o separava do corredor dos fundos, das sacadas da frente, de todos os pontos de saída ou refúgio; mas não se resolvia. E o Coronel Lindolfo abria e fechava a boca, tentando articular uma palavra enérgica, porém a voz lhe faltava. Quatro rostos brancos. Em frente deles, a três metros de distância, estava um homem de pé no chão, em manga de camisa, calça de pano riscado, barba por fazer, olhos brilhantes.
- Retire-se! - exclamou afinal o presidente da Câmara, num esforço que lhe fazia tremer a barba. - Ou antes, não se retire, fique preso aí mesmo. O senhor está preso, ouviu? Está preso em nome da lei!
O intruso não se mostra intimidado, mas indeciso. Olha um pouco espantados para aqueles homens que se encolhiam, e quase sorri; talvez lhe agrade aumentar o susto dos vereadores. Tinha esperado, por certo, ser atacado e subjugado depois de muita luta; não podia crer que o poder público, tão majestoso, se refugiasse atrás de uma mesa. Foi quando percebeu a chegada de Valdemar. O primeiro impulso deste foi atirar-se ao desconhecido. O movimento, assim claro, determinou outro, de precaução, da parte contrária. Os dois fitaram-se, Valdemar deteve-se. Mesclando-se à curiosidade, uma brusca simpatia paralisou-lhe os gestos, ao verificar, pela roupa do homem, que ele devia ser um dos presos da cadeia.
Meireles fazia-lhe sinais desesperados, alertando-o: e como fossem inúteis, advertiu:
- Não chegue perto dele, professor! É um criminoso perigosíssimo! Daquela morte das Duas Pontes!
Do grupo atemorizado partiam exclamações, murmúrios.
_ Onde está o diabo desse destacamento que não aparece? _ Que fim levou o cabo? Com certeza jogando nalgum botequim. Não faz outra coisa.
- Os soldados devem estar bêbedos!
_ Quem sabe se ele não matou o carcereiro? Não compreendo como pôde sair de lá!
- Precisamos providenciar!
O Coronel procurava impor-se:
_ O senhor está preso, repito! Vamos, renda-se à autoridade! _ Preso? - disse o criminoso. - Preso eu já estou há dois anos. O senhor não pode me prender outra vez, Coronel. Afinal eu não fugi, apenas subi a escada ...
A objeção deixou perplexo o agente executivo, mas o farmacêutico acudiu a seu favor:
- Como não fugiu? Pois se ousa até desacatar a Câmara, interrompendo os nossos trabalhos! Volte já para a enxovia, depressa! Se não quer que usemos de violência ...
- Calma - retrucou o detento. - Não vim fazer mal a ninguém. Estou descansando. Podem me revistar: não tenho um canivete.
- Como foi que chegou até aqui? - perguntou Valdemar, em tom sereno.
- A porta estava aberta, ou por outra, eu abri a porta. Lá embaixo fazia muito calor ...
- E os outros?
- Os outros ficaram - respondeu calmamente o preso. A maioria está doente por causa da comida (é uma lavagem de porcos) e por falta de exercício. Não quiseram me acompanhar. E eu não teimei com eles.
Os vereadores sentiam-se mais confortados. Afinal, um assassino não é tão perigoso como se pinta. Aquele era moço - rosto de vinte e cinco anos, apenas envelhecido pela barba e pela magreza. Não seria um rústico. Fisionomia até simpática. Ou estaria engabelando os presentes para depois puxar da faca e sangrá-los? À queda de tensão sucede nova tensão. O medo reúne os homens, faz de quatro deles, na sala, um bolo só. Nessa expectativa escoam-se momentos preciosos para os vereadores e para o preso. Mas o tempo trabalha a favor da Câmara. É impossível que não apareça algum soldado, mesmo ébrio. O secretário, o amanuense, o fiscal-geral surgirão a qualquer instante, ou, se também andarem escondidos nalgum canto, hão de pedir socorro. E a cidade libertará seus representantes.
-Vamos sentar um pouco - disse Valdemar, aproximando-se e batendo de leve no ombro do preso.
Sentaram-se, em meio ao espanto dos outros.
Engraçado, tem dois anos que eu não sei o que é cadeira.
- Macio, hem?
Apalpava com agrado a palhinha do assento, mas sentara somente na ponta. No seu abandono, parecia disposto a saltar, ao menor gesto suspeito do outro. Que delícia, estar ali em cima (sempre cismava no que costumariam fazer aqueles velhotes que pisavam duro sobre sua cabeça), interrompendo a sessão da Câmara, calmamente pousando numa boa cadeira de braços, livre do bodum e da tristeza dos companheiros.
- Agora me diga uma coisa - continuou Valdemar sabe que não é direito isso que você fez?
O outro riu, sacudindo os ombros.
- Ah, moço, se o senhor vivesse naquele chiqueiro ... Não é só porcaria. É uma porção de coisas. Por mais que a gente trabalhe, o tempo não passa. Então de noite, no escuro, nem avalia. Só isso de não ficar um minuto sozinho. Já pensou em viver dez, vinte anos numa sala, sempre com as mesmas pessoas? Desculpe a confiança, mas mesmo sendo com sua família o senhor suportava? Se ao menos dessem uma cela para cada um de nós, como fazem com as doidas e as mulheres da vida. Não. É tudo embolado. Roupa, suor, pé, barriga. Então parece que até as faltas se misturam, e eu já nem sei mais os erros que carrego nas minhas costas ... Além do meu, é claro.
Os vereadores vinham se aproximando, entre curiosos e prudentes.
- Mas afinal você saiu para fazer o quê?
- Eu? - (ficou algum tempo hesitando, à procura de palavras). - Nada. Saí porque não agüentava mais e dei um jeito na fechadura ...
- E já que você saiu, que é que vai fazer agora?
O homem passou a mão na testa, encarou Valdemar: - Moço, o senhor está perguntando demais.
E depois de uma pausa:
- Então o senhor não sabe o que vai fazer um cristão quando fica livre da grade? Que faz um passarinho fora da gaiola? - Às vezes não sabe mais voar, e é pego de novo - responder deu filosoficamente Valdemar.
O outro voltou a rir.
- É, pode ser. Mas sempre é bom experimentar, não acha? Olhe, se eu não experimentasse o cadeado ...
- Valdemar percebia que um jogo estava se desenvolvendo, de resultado incerto. Não podia prolongar indefinidamente a conversa com o preso. Sentia-o pronto a aproveitar o menor descuido para evadir-se. A maneira compreensiva como o tratara tinha-o cativado talvez, mas o encanto se romperia a qualquer momento, se é que havia encanto, e não simplesmente cálculo. De resto, a cena parecia regida pelo acaso, e haveria no preso a tendência de se confiar aos vaivéns desse acaso. Antes de fugir, queria ele, quem sabe? Zombar daqueles homens importantes.
- Escute. Se você, em vez de subir, tivesse saído pela porta da rua, eu não iria atrás para pegá-lo. Não é meu oficio. Mas você veio cá em cima e confessou ter escapado por um jeito que deu na fechadura. Sinto muito, meu filho, mas eu vou levar você de novo lá para baixo. E é já.
- Não me encoste! - gritou o preso, dando um pulo e tirando do bolso alguma coisa que apertava na mão. - Essa carinha limpa não me engana. Tudo é igual! E chega de conversa! Adeus, minha gente ...
Foi saindo de costas, muito ágil, mão erguida e fechada, e sumiu, literalmente sumiu, como evaporado no calor. Valdemar ainda quis persegui-lo, num gesto mais formal do que instintivo, mas o farmacêutico travou-lhe o braço: - Está doido?! - e daí, ele simpatizara tanto com o preso, a cadeia lá embaixo era tão repugnante ... A polícia que se arranjasse. Chegando à sacada viu ainda o homem, que desaparecia no beco.

Beira - Rio

.\ OESTE ficavam os terrenos da Companhia, onde tinham começado os obras para insta1ação da grande indústria. A leste improvisara-se uma cidade, residência de diretores técnicos e operários, chamada Capitão Borges, em honrado desbravador daquele sertão. No meio ficava o rio, que se atravessava de balsa.
Sete da manhã, e o trabalho principiando no campo. O apontador chegava ainda com escuro, porque não conseguia dormir na casinha de pau-a-pique onde ele, mulher e filhos viviam como que em depósito, à espera de vaga na vila proletária. Os mosquitos resistiam a tudo, e o fio de som que emitiam no vôo lento, indo e vindo, tecia sobre a cama uma espécie de cortinado. A mão, levantando-se, dilacerava a trama, que contudo logo se recompunha, e tão constante no seu dom de irritar que, se por acaso cessasse um momento, o silêncio feria por sua vez, de inesperado. Então o apontador ia acordar o balseiro, e os dois, cortando o rio, presenciavam calados o nascimento do sol, que do campo em ruínas, na outra margem, ia tirando pouco a pouco uma usina em construção.
O dia de trabalho espichava-se por oito horas legais e mais duas e prorrogação, sem pagamento;. A Companhia tinha pressa na execução do programa. Como não restassem trabalhadores a recrutar, na região,-exigia-se de todos um esforço maior. Quanto à remuneração desse suplemento de serviço, falava-se que iria formando um bolo para o operário receber, acabada a obra, ou quando se retirasse. Falava-se. Mas ninguém sabia nada ao certo.
E fiscal do Ministério do Trabalho, naquelas brenhas ... você viu?
Na barranca do rio, do lado de Capitão, caboclos macilentos, meio curvados, esperam a balsa. Ela voga a manhã inteira, transportando material e gente. Os homens parecem cansados antes de começar a lida. Os técnicos chegam mais tarde, e é como se para eles não houvesse mosquitos; americanos louros e bem dormidos, que construíram suas casas entre jardins, ou que saem do hotel com ar tranqüilo.
Curiosa vila de Capitão, onde há dez refrigeradores e não há esgotos; muitos meninos, e nenhuma escola; um cinema; uma capela novinha, um posto policial, e o imenso armazém; o mais são casas esparsas, cães à procura de ossos; estrumeira de animais marcando a direção dos caminhos; e o cemitério, já com doze corpos.
O hotel é da Companhia; o cinema é da Companhia; o armazém é da Companhia. O posto policial foi 1nstalaao expensas da Companhia, e a capela e o cemitério constituem doações amáveis da Companhia. Mas o único negócio da Companhia é realmente a usina, e se a administração consente em explorar ramos subsidiários, isto se deve a seu espírito benevolente, a seu desejo de servir. - Essas miudezas só dão amolação - explica o subdiretor, que é brasileiro, mas adquiriu sotaque norte-americano.
Em vão procuraríamos um botequim. Não há. É proibido beber. A proibição não está nas leis de um estado onde se bebe tanto, e mesmo onde se destila cachaça tão fina, sob cinqüenta nomes diferentes, e que é fonte considerável de receita pública. Proibição tácita, estabelecida pela Companhia, no interesse dos seus servidores ... bem, e no interesse do serviço. O álcool foi rigorosamente proscrito como o jogo. Verdade seja que há abundância de baralhos e de uísque no grande armazém quadrado. Mas esta é uma seção reservada aos técnicos e à alta administração, que quanto mais bebem e jogam - é admirável - mais trabalham.
O resto - gêneros do país, tecidos, objetos de uso - o trabalhador encontra no armazém, ao alcance da bolsa. Por um processo muito simples, que consiste em pedir vale ao escritório, trocá-lo no armazém pelo artigo desejado, e no fim do mês receber ao escritório um extrato de conta, datilografado. Por esse extrato ele verifica não ter saldo.
Apesar de tudo, dinheiro sempre aparece, é maravilhoso. Um trabalhador, admitido ontem, trouxe consigo oitenta cruzeiros; mulheres há que conseguiram economizar alguma coisa, plantando horta ou lavando roupa; e até mesmo homens acorrentados ao armazém logram de quando em quando, à força de abstenções, receber do pagador da Companhia, atônitos, uma cédula de CEM CRUZEIROS.
Esse dinheiro, surgido assim quase clandestinamente, como água que furou cano, mexe-se inquieto na algibeira, quer sair, transformar-se em coisas boas da vida. Não as há em Capitão, fora o cinema, que de resto vive fechado, com enguiço no motor. Então...não podendo usufruir as coisas boas da vida os trabalhadores contentam-se em obter algo que as represente. A bebida não é coisa boa em si, mas o poder e imaginação e, ao mesmo tempo, de frustrar-se à tirania dessa imaginação. Novo desaponto: em Capitão também não há bebida. Não há nada. Os homens tomam a balsa, desiludidos.
O apontador veio de uma cidade onde há um bar em cada esquina, o álcool, por assim dizer, esguicha das ruas, Mas lá se tantas outras coisas para distrair o espírito e movimentar os sentidos~ que só raramente lhe ocorria beber.
Em Capitão é diferente. A necessidade avança com o dia e não esmorece, antes prossegue ativa noite adentro. Então, organiza-se o comércio subterrâneo das garrafas, e no serviço os trabalhadores aparecem bêbedos, há turmas desfalcadas. Bebe-se para esquecer, para lembrar, para fazer de conta, para cortar doença, para agüentar o repuxo, para zombar da administração. O subdiretor fareja cachaça no ar, dá ordens ríspidas.
_ Quem beber será expulso no sufragante. E quem vender bebida come cadeia - avisam os chefes de turma.
O apontador dobra como um cobertor sua insônia habitual, sai, bate à porta do balseiro - faz frio, a névoa mistura a noite e as águas na mesma indeterminação - e os dois, chegando a margem do rio, percebem com espanto uma sombra movendo-se. Uma sombra com um cigarro, deslocando-se em meio a volumes vagos. A brasa minúscula mostra o queixo e um negro.
_ Eh, irmão, quê que há? - pergunta o balseiro.
_ É de paz, irmão. Simplício da Costa, vosso criado, que veio de Pirapora para vos servir.
O balseiro acende o cigarro no pito do outro. O apontador faz o mesmo. Estão amigos.
Então Simplício da Costa, vosso criado, explica suas atividades pré-matutinas. Vai montar ali, à beira-rio, bem em frente da balsa um varejo de cigarro, pastéis e aguardente. Mas aguardente da legítima, não essa água-benta que até menino enjeita.
_ Acho bom tu tomar cuidado - previne o balseiro. - A Companhia não é brinquedo, enjeriza logo contigo.
O negro riu:
- A Companhia manda do lado de lá do rio. Do lado de. comanda Simplício da Costa, com a autoridade do Governo. Tirei licença do Governo para negociar. Paguei estampilha na coletoria de Guapó. A Companhia não se meta comigo, que eu racho ela, irmãozinho!
Os dois homens estavam fascinados. Na friúra da madrugada, a idéia da cachaça, trazida de longe por um negro de Pirapora, reconciliava-os com a vida. Já não lhes pesava a solidão no mato, a luta noturna contra os mosquitos, a dureza do trabalho pago com salário injusto, o vazio de Capitão. O negro ofereceu-lhes uma "prova", que ele andava sempre provido de uma garrafinha. E a cachaça chegou mais perto, penetrou neles, aqueceu-os. A manhã nascia, hesitante, mas vinha encontrá-los restaurados e ágeis, como se tivessem menos dez anos.
Começam a chegar os trabalhadores da usina, e travam conhecimento com Simplício da Costa. O negro estende no chão, forrando-os com jornal, os objetos de seu comércio. Ali vai surgir uma tenda sumária, com algumas ripas e folhas-de-f1andres, onde os operários encontrarão a única coisa de que realmente precisam, porque dá o esquecimento de todas.
Em algumas horas o negócio de Vosso Criado conquista a confiança pública. Os homens param ali o tempo de se reconfortar, de trocar duas palavras - nas obras, tinham esquecido a conversa - e vão descendo para o rio. Hoje a balsa leva homens menos curvados.
Os grandes da Companhia chegam por sua vez ao ponto de embarque, na grama há cascas de frutas e pontas de cigarro. Um negro quenta sol, montando guarda a uma bitácula. Dentro, no balcão de pinho, pratos vazios e alguns maços de cigarro. Na inspeção rápida, os olhos não vêem a coisa proibida. O negro é tranqüilo como uma árvore, contemplando a corrente.
O trabalho no campo, esse dia, tem outro rendimento. Que se passou com os homens? Alguns cantam, e poucas vezes aqueles ares terão ouvido canto de gente. A administração está desconfiada, como se o mais certo lhe parecesse mesmo uma produção mesquinha, regular, isenta de efusões melódicas.
Mas os vigias da Companhia participam a infração. Um negro, vindo do Norte, sob pretexto de negociar com cigarros e coisas de comer, na realidade está é vendendo uma cachaça perturbadora. De sorte que toda essa boa disposição para vem simplesmente do álcool.
O subdiretor chama dois homens de confiança. Eles têm a missão de policiar disfarçadamente os colegas e, quando preciso, descer-lhes a lenha sem dar impressão de que é por ordem superior. Recebem instruções para entender-se com o negro e convidá-lo a remover sua tralha da beira do rio.
Mas às primeiras palavras dos espoletas, Vosso Criado mostra uma pistola carregada, e diz simplesmente:
- Tirei licença do Governo. Está tudo legal. E quem não gostar não carece beber, minha gente.
- Os homens entreolham-se, cautelosos. Não é justo se expor assim por amor da Companhia. E vão mais tarde contar ao subdiretor uma história atrapalhada, tanto mais esquisita quanto suas palavras saem num bafo de cachaça.
O subdiretor exprobra-Ihes a fragilidade: Que vergonha para a Companhia! Então não há por aí dois homens capazes de conversar com um negro ordinário? Não havia.
À noite, em Capitão, o subdiretor manda chamar o comandante do destacamento policial, para uma conferência no hotel. O comandante é simpático, e aceita uma cervejinha - sem exemplo - para molhar a conversa.
No dia seguinte, antes de amanhecer, Vosso Criado fazia café quando seis praças cercam a vendinha, e o comandante lhe diz, com uma pressão leve no braço:
- Vai dando o fora de mansinho que esta venda acabou.
O negro quer saltar, mas sente no peito uma forma dura, fria.
Prefere discutir:
- Eh, compadre, deixa de caçoada. Licença do Governo está aqui ...
- Ora, negro, tu acredita em licença? Licença é isto - e fez um sinal às praças.
Dois soldados amarraram Vosso Criado. Outros dois ficaram de sentinela para obstar a intervenção de algum paisano. E os restantes, entrando na vendinha, começaram a tirar de lá os maços de cigarros, as latas e os pratos de pastéis e de doces, as garrafas escuras, sem rótulo.
- Tua venda acabou, negro ... Eu não te disse? - falou o comandante para Vosso Criado, que se mantinha digno.
Recuando o braço para tomar impulso, os soldados lançavam no ar cada objeto, cada garrafa cheia. O volume ia cair no rio, deslizava um momento, depois a água avermelhada engolia a coisa preciosa. O negro, firme.
- Olha negro, tua cachaça acabou.
Mas ele não olhava, e parecia crescer, peito estofado, indiferente à destruição do seu estabelecimento.
- Vamos obrigar esse negro a olhar para o rio, seu comal1dante?
- Deixa ele. Tanto faz. Mas andem depressa com esse serviço.
E as garrafas rolando na correnteza, a venda sumindo. Sumiram as latas, os pacotes de fósforos, um rolo de fumo, que trescalava. A caixa de charuto, abrindo-se no ar, deixou cair uma chuva de níqueis que também soverteu nas águas.
- Ô diacho! E a gente precisando tanto de cobre, hem, Marcolino!
- Agora vamos tacar fogo - ordenou o comandante.
As tábuas de pinho começam a arder. As chamas antecipam a manhã que está a chegar. Daí a pouco não há mais nada de pé. - Solta esse negro, gente.
Vosso Criado, já livre, sacode-se, tira desdenhosamente da camisa uma folha queimada, trazida pelo vento, e que se desfaz em Cinza.
- Agora, negro, finca o pé na estrada e vai olhando sempre para a frente. Se não ...
Empurram-no, mas Vosso Criado não quer correr. Caminha natural num passo pesado, de pés chatos, sem pressa.
- Eta negro safado, até parece que ele tem costume ...
Para assustá-lo, os soldados atiram a esmo. Detidos a distância pelas sentinelas, apontador e balseiro contemplam as ruínas.


Meu companheiro
Dei cinco mil-réis pelo cachorrinho; o homem sorriu. Como a cada ninhada era de seis, ele faria uma bela féria se os vende a todos por aquele preço. Talvez esperasse apenas dois ou três mil-réis filhote de cão, no interior, não vale nada. É verdade que aqueles eram realmente bonitos, e não se podia dizer que fossem meros vira-latas - alguma coisa de raça insinuava-se na forma curta do focinho, na lisura do pêlo. Que raça? A cidade não dispunha de animais finos; o único que por lá andou foi um fox terrier, na casa do médico, e morrera há anos. Que raça, pois?... Não sei, não se podia saber, talvez fosse apenas dos meus olhos; mas o diabo do cachorrinho mal acabara de nascer e já me fitava com jeitão carinhoso que seria impossível abandoná-lo; comprei-o imediatamente. É com vergonha que uso esta palavra comprar, ao referir-me a um amigo, mas em nossa absurda sociedade capitalista os valores mais puros são objeto de mercancia; o afeto e um animal é adquirido como antes a força de trabalho de um negro, ou como ainda hoje...paremos com esse socialismo. Fiz pois o negócio e, de volta para casa, ia pensando na necessidade de conquistar para o cãozinho a amizade de Margarida.
Pois não foi difícil consegui-la. As pessoas mais intransigentes um dia acordam abertas à tolerância; e Margarida nem era intransigente. Seu ponto de vista contrário à existência de animais domésticos em nossa casa - pelo que dizia - baseava-se exclusivamente no zelo pela saúde das crianças e no amor à limpeza. Ouvira falar de uma criança mordida de cão hidrófobo; detestava pulgas; e queria que o chão e os móveis do nosso interior tão modesto fossem limpos como sua consciência. Um gato que apareceu por lá, vindo não se apurou de onde, desapareceu dois dias depois, Deus sabe de que maneira; Margarida não quis olhá-lo, talvez para não simpatizar com ele, por essa força de atração que têm os gatos mais desdenhosos. Cães nunca tivemos, e quanto a passarinhos eu concordava que não valia a pena possuí-los em gaiola. Meus filhos iam pois brincar com os animais da vizinhança. Imaginem a alegria que tiveram com a chegada de Pirolito.
Este nome de Pirolito impôs-se porque na casa vizinha a moça cantava "Pirolito que bate bate". O rabinho do cachorro que eu trazia ao colo também batia de prazer, como logo me pareceu, de sorte que achei adequado aproveitar a inspiração do momento e não criar o difícil problema doméstico de escolher nome. Pirolito foi acolhido com simpatia ruidosa pelos meninos, e minha mulher, embora querendo simular descontentamento, não pôde deixar de sorrir diante da sem-cerimônia com que ele, subitamente, tomou conta da casa e de todos.
Logo se colocou a questão da propriedade - sempre a propriedade! - e foi preciso dá-lo a Juquinha o caçula, que por sua vez era uma espécie de propriedade dos irmãos mais velhos, e com isso contornei o dissídio que fatalmente se estabeleceria entre estes. Pirolito passou a existir como parte integrante da família. Margarida tentava furtar-se a seu encantamento, mas também ela se deixava surpreender brincando com o animalzinho, fazendo-lhe cócegas, alisando-lhe o pêlo, ensinando-lhe pequenas habilidades. Ele não aprendia nada. Ou antes: só aprendia por esforço próprio, e não pelos processos educativos que aplicávamos. Assim, para subir a escada: os movimentos que o obrigávamos a fazer não se repetiam espontaneamente, e a paciência se esgotava sem que fosse registrado o menor progresso. Um dia, sem aviso prévio, e para assombro de nós todos, Pirolito ergueu as patinhas dianteiras, deu um salto elástico e subiu gloriosamente os degraus da escada. Depois, desceu com a mesma ufania e tornou a repetir a façanha, muito excitado. Na terceira vez, cansou-se no meio do trajeto, deitou-se e dormiu.
Está claro que acontecimento dessa natureza abalou profundamente a família, e quase que dissipou as reservas de Margarida. Novas manifestações de seu humor fantasista vieram consolidar a situação de prestígio absoluto que ele desfrutava entre nós. Não irei contar as mil e uma coisas engraçadas que costuma praticar um cachorrinho novo. Parece que todos os cachorrinhos o iguais, em que pese à vaidade ou à ternura cega dos donos: não posso, porém, acostumar-me à idéia de que Pirolito realizasse atos em série, herdados do primeiro. Pelo menos e os realizava com uma nota pessoal, um humour selvagem que era sua contribuição própria para a renovação dos gestos padrões a espécie. vou citar apenas dois exemplos. Todo cão tem seus instantes de ale ria louca, geralmente depois do banho, quando se põe a correr pela casa afora, sem nenhum objetivo de caça, e desafiando nossa agilidade em persegui-lo; é no mais puro sentido da palavra, um esporte. Percorre invariavelmente os mesmos lugares, passa chispando à nossa frente, e afinal dá por findo o exercício, já arquejante de cansaço. Pirolito confirmava a regra, mas, ao passar pela sala de visitas, detinha-se sempre diante do enorme retrato de meu avô, estendendo o focinho como para fareja o mistério de suas barbas negras - e prosseguia na corrida maluca. A parada em frente do retrato às vezes lhe era fatal, porque algum dos meninos - ou eu mesmo - aproveitava a ocasião para pegá-lo, ao que ele reagia sempre de má-vontade. Solto um momento depois, já não recomeçava a correria. Mas, quando lhe ocorresse fazê-la de novo era certa a estação em frente das barbas de meu avô, por um motivo jamais suspeitado dos ignorantes que nós somos. Talvez seja falta de respeito, conjeturou minha mulher - e rimos. .
Também é próprio da generalidade dos cães uma atitude graciosa de espreguiçamento, que consiste em esticar o pescoço, dobrando as pernas da frente e mantendo levantada a parte posterior do corpo, escancarar a boca, fechá-la, cerra os olhos e assim fazer uma espécie de reverência, focinho baixo, ao amigo ou amiga (não creio que o façam quando sozinhos ou entre si). Esta atitude de Pirolito, eu a chamava de "fazer Fragonard", porque tínhamos na parede da copa uma oleogravura reproduzindo a tela de Fragonard em que um cão toma essa postura diante de uma dama; era uma folhinha, brinde da padaria. Quando Pirolito "fazia Fragonard", nós nos dispúnhamos a considerá-lo o mais distinto exemplar da raça canina em todos os tempos, mas a galanteria século XVIII de sua atitude era logo comprometida por um jeito pouco versalhesco de piscar o olho esquerdo – e sim piscava o olho esquerdo! - e com essa particularidade parecia exprimir desdém não somente pelo acervo de ato mecânicos recebidos de seus ancestrais, como também pela interpretação pequeno-burguesa que atribuíamos a seu espreguiçamento, com base num flagrante da vida aristocrática francesa ... Margarida dava de ombros. E daí, trabalho não lhe faltava em casa, para que ela perdesse tempo com um cachorrinho.
Adquiri logo o hábito de conversar com Pirolito. Conversávamos horas e horas, à sua e à minha maneira. Abanar o rabo, lamber, levantar ou descer as orelhas, contemplar-me de boca aberta, resfolegando - eram outras tantas maneiras de exprimir seus conceitos sobre as coisas do tempo, que eu traduzia para a limitada linguagem humana, como se fosse necessário comunicá-los a outro homem que só compreendesse português. Geralmente ele me tratava por esse diminutivo com que na cidade todos me conheciam: Motinha, e o fazia sempre na terceira pessoa: "Motinha está pensando que vai ganhar na loteria? Que esperança! Trate de dar suas aulas no ginásio, se não quer tirar o leite dos garotos." Era assim, sarcástico e positivo. Se me percebia derivando para o sonho, experimentava as armas do realismo. Não deixava, entretanto de sugerir-me um caminho menos suave, toda vez que me via disposto a qualquer grande transigência com os poderes materiais, representados pelo prefeito e sua camarilha. "Estou com pena de Motinha", dizia-me o focinho úmido; "ele quer vender a alma ao Coronel Dutra. Para chegar talvez a diretor do ginásio ... Se fizer isso, não conte mais comigo. E o projeto de ir para a Capital? Começa bajulando o prefeito e acaba enterrado nestes cafundós, como o Dr. Macedo ... o Dr. Laurindo ... Hoje não estou satisfeito com Motinha, não."
Já estão percebendo que o cão falava comigo tudo que eu queria, mas acrescento: tudo que não queria, também. Verdades desagradáveis, difíceis de dizer ou de pensar, ele as pensava por mim. Servia-me de consciência, então? Talvez - e isso é comum aos tímidos e aos preguiçosos, que se socorrem de uma força exterior para se orientarem. No caso, porém, Pirolito desempenhava papel menos conseqüente, porque às vezes me conduzia à prática não direi do mal, mas do erro. Assim, no dia em que me aconselhou, por um certo modo de olhar, a esconder-me de uma visita cacete mas importante, que sabia que eu estava em casa, e ficou indignada ao ouvir lá dentro os latidos do cachorrinho e meus apelos para que se calasse. Denunciava-me com o alarido, forçando-me a recomendar-lhe silêncio, quando antes me prendera pela calça ao perceber minha intenção de suportar a visita. Quem pode? .. Também me induziu à prática de pequenos furtos de doces e bolos, no armário, inconvenientes a nós ambos, a mim por causa do diabete, a ele devido aos vermes, e com prejuízo para as visitas de minha mulher. Como resistir-lhe, porém? Escravizo-me demais aos seres que amo, e o olhar dele encerrava um' desejo tão profundo e natural de comer coisas açucaradas, e isso repercutia em mim de tal jeito que sua saúde e a minha se tornavam odiosas desde que preservadas à custa desse desejo. Dir-se-á então que ao lado da função moral, de consciência, Pirolito exercia com relação a mim um papel de recuperação da infância, autorizando-me a praticar aqueles gestos que minha condição de adulto já não comportava. Também é possível, mas tive infância normal, e não me sobraram, que eu saiba, dessas vontades de menino, abafadas por pais rigorosos, e que a vida toda continuam como botões de flor fechados, para afinal apodrecer sem exposição à luz. Não, Pirolito não me restituía nada de perdido ou frustrado, apenas me divertia- e aquela cidade era tão triste, com suas caras sem surpresa, sua farmácia política, seu cinema dominical! Sabia-o meu amigo. Não só porque era a meus pés que gostava de dormir, como porque me preferia a todos, sem exceção de Juquinha, ao qual legalmente pertencia, e de quem mais o aproximaria o instinto. Os garotos, às vezes, mostravam-se enciumados, diziam: "Esse cachorro é muito burro. Só gosta de velho." Margarida nada dizia. Em verdade, julguei esclarecer o motivo dessa afeição recíproca atribuindo-a à identidade de temperamentos. Sim, eu me entendia bem com Pirolito. Também gosto mais de descobrir do que de aprender e às vezes me surpreendo alterando a linha de um gesto tradicional por um movimento pessoal e desconcertante. Combino o espírito prático, desenganado e realista, a um sentimento de fuga, meio utópico e furioso. Não sou bastante forte para me libertar, nem suficientemente dócil para me submeter. No fundo, um cachorrinho como Pirolito. Ele era imaginoso em sua prisão doméstica; parece que eu reproduzo essa qualidade.
Nada aconteceu com Pirolito que valesse a pena de contar com ênfase. Direi apenas que um dia não vimos mais nosso amigo. Pesquisas minuciosas certificaram-me de que não morrera envenenado - de bola - como é freqüente no interior, onde há sempre uma criatura ruim ou mal acostumada, que mistura arsênico à bóia dos cachorros. Procuramos por toda a parte, por baixo da casa e na vizinhança, nada. Prometi dinheiro a quem o encontrasse. Teria sido furtado? Seria absurdo supô-lo, pois era um cão comum, apenas um pouco macio de pêlo, de focinho um pouco redondo. Como ele, havia dezenas em qualquer rua: furtar, para quê? Pirolito só era interessante mesmo para nós, e principalmente para mim, que tinha nele um companheiro, um confidente, um crítico e um cúmplice. Não preciso dizer como lhe senti a falta. De resto, não sou amigo de expansões, e receio mesmo que se Pirolito pudesse me escutar, havia de dizer: "Olha Motinha como está ficando besta. Acreditou mesmo que eu era um cachorro diferente ... " E não era? Vulgar para os outros, diferente para mim, porque nos entendíamos, e cada homem que se entende com um animal firma com ele um pacto de mútua comiseração e uma aliança. Fico imaginando que Pirolito tivesse fugido. É o absurdo dos absurdos, pois cachorro feliz não foge. Mas Pirolito, como já disse, não era sempre lógico ou mecânico - em suas ações. O certo é que sumiu sem deixar rastro. Há muito tempo. Hoje, fatalmente, estará morto. A evasão será, pois, algo mais do que uma doença dos homens, um impulso comum a todo ser vivo? ... Aqui me vem uma suspeita miserável, que eu repilo. O gato apareceu e sumiu dois dias depois; Pirolito durou mais tempo, mas também desapareceu. Margarida tão boa, tão afetuosa - não gosto de animais, por causa dos meninos, segundo dizia. Ciúme de mim nunca teve. Seria possível? Não. Muitas pessoas também somem de repente, sem a menor explicação, e nunca se sabe.
Telefone, moça, flor
Não, Não é conto. Sou apenas um sujeito que escuta algumas vezes, que outras não escuta vai passando. Naquele dia escutei, certamente porque era a amiga quem falava, e é doce ouvir os amigos, ainda quando não falem, porque amigo tem o dom de se fazer compreender até sem sinais. Até sem olhos.
Falava-se de cemitérios? De telefones? Não me lembro. De qualquer modo, a amiga - bom, agora me recordo que a conversa sobre flores - ficou subitamente grave, sua voz murchou um pouquinho.
- Sei de um caso de flor que é tão triste!
E sorrindo:
- Mas você não vai acreditar, juro.
Quem sabe? Tudo depende da pessoa que conta, como do jeito de contar. Há dias em que não depende nem disso: estamos possuídos de universal credulidade. E daí, argumento máximo, a amiga asseverou que a história era verdadeira.
- Era uma moça que morava na Rua General Polidoro - começou ela. - Perto do cemitério São João Batista. Você sabe, quem mora por ali, queira ou não queira, tem de tomar conhecimento da morte. Toda hora está passando enterro, e a gente acaba por se interessar. Não é tão empolgante como navios ou casamentos, ou carruagem de rei, mas sempre merece ser olhado.
A moça, naturalmente, gostava mais de ver passar enterro do que não ver nada . E se fosse ficar triste diante de tanto corpo desfilando, havia de estar bem arranjada.
Se o enterro era mesmo muito importante, desses de bispo general, a moça costumava ficar no portão do cemitério, para dar uma espiada. Você já notou como coroa impressiona a gente? Demais. E há a curiosidade de ler o que está escrito nelas. Morto que dá pena é aquele que chega desacompanhado de flores por disposição de família ou falta de recursos, tanto faz. As coroas não prestigiam apenas o defunto, mas até o embalam.
Às vezes ela chegava a entrar no cemitério e a acompanhar o préstito até o lugar do sepultamento. Deve tão assim que adquiriu o costume de passear lá por dentro. Meu Deus, com tanto lugar para passear no Rio! E no caso da moça, quando estivesse mais amolada, bastava tomar um bonde em direção à praia, descer no Mourisco, debruçar-se na amurada. Tinha o mar à sua disposição, a cinco minutos de casa. O mar, as viagens, as ilhas de coral, tudo grátis. Mas por preguiça, pela curiosidade dos enterros, sei lá por quê, deu para andar em São João Batista, contemplando túmulo. Coitada!
- No interior isso não é raro ...
- Mas a moça era de Botafogo.
- Ela trabalhava?
- Em casa. Não me interrompa. Você não vai me pedir a certidão de idade da moça, nem sua descrição física. Para o caso que estou contando, isso não interessa. O certo é que de tarde costumava passear - ou melhor, "deslizar" pelas ruinhas brancas do cemitério, mergulhada em cisma. Olhava uma inscrição, ou não olhava, descobria uma figura de anjinho, uma coluna partida, uma águia, comparava as covas ricas às covas pobres, fazia cálculos de idade dos defuntos, considerava retratos em medalhões - sim, há de ser isso que ela fazia por lá, pois que mais poderia fazer? Talvez mesmo subisse ao morro, onde está a parte nova do cemitério, com as covas mais modestas. E deve ter sido lá que, uma tarde, ela apanhou a flor.
- Que flor?
- Uma flor qualquer. Margarida, por exemplo. Ou cravo. Para mim foi margarida, mas é puro palpite, nunca apurei. Apanhou com esse gesto vago e maquinal que a gente tem diante de um pé de flor. Apanha, leva ao nariz - não tem cheiro, como inconscientemente já se esperava -, depois amassa a flor, joga para um canto. Não se pensa mais nisso.
Se a moça jogou a margarida no chão do cemitério ou no chão da rua, quando voltou para casa, também ignoro. Ela mesma se esforçou mais tarde por esclarecer esse ponto, mas foi incapaz. O certo é que já tinha voltado, estava em casa bem quietinha havia poucos minutos, quando o telefone tocou, ela atendeu.
- Aloooô ...
- Quedê a flor que você tirou de minha sepultura?
A voz era longínqua, pausada, surda. Mas a moça riu. E, meio sem compreender:
-O quê?
Desligou. Voltou para o quarto, para as suas obrigações. Cinco minutos depois, o telefone chamava de novo.
-Alô.
- Quedê a for que você tirou de minha sepultura?
Cinco minutos dão para a pessoa mais sem imaginação sustentar um trote. A moça riu de novo, mas preparada.
- Está aqui comigo, vem buscar.
No mesmo tom lento, severo, triste, a voz respondeu:
- Quero a flor que você me furtou. Me dá minha florzinha. Era homem, era mulher? Tão distante, a voz fazia-se entender, mas não se identificava. A moça topou a conversa:
- Vem buscar, estou te dizendo.
- Você bem sabe que eu não posso buscar coisa nenhuma, minha filha. Quero minha flor, você tem obrigação de devolver.

Falta pagina 80 e 81
o rapaz começou a tocar para todos os telefones da Rua General Polidoro, depois para todos os telefones das ruas transversais, depois para todos os telefones na linha dois-meia ... Discava, ouvia o alô, conferia a voz - não -, desligava Trabalho inútil, pois a pessoa da voz devia estar ali por perto - o tempo de sair do cemitério e tocar para a moça - e bem escondida estava ela, que só se fazia ouvir quando queria, isto é, a certa hora da tarde. Essa questão de hora também inspirou à família algumas diligências. Mas infrutíferas.
Claro que a moça deixou de atender telefone. Não falava mais nem para as amigas. Então a "voz", que não deixava de pedir, se outra pessoa estava no aparelho, não dizia mais "você me dá minha flor", mas "quero minha flor", "quem furtou minha flor tem de restituir" etc. Diálogo com essas pessoas a "voz" não mantinha. Sua conversa era com a moça. E a "voz" não dava explicações.
Isso durante quinze dias, um mês, acaba por desesperar um santo. A família não queria escândalos, mas teve de queixar-se à polícia. Ou a polícia estava muito ocupada em prender comunista, ou investigações telefônicas não eram sua especialidade o fato é que não se apurou nada. O pai correu à Companhia Telefônica. Foi recebido por um cavalheiro amabilíssimo, que coçou o queixo, aludiu a.fatores de ordem técnica ...
- Mas é a tranqüilidade de um lar que eu venho pedir ao senhor! É o sossego de minha filha, de minha casa. Serei obrigado a me privar de telefone?
- Não faça isso, meu caro senhor. Seria uma loucura. Aí é que não se apura mesmo nada. Hoje em dia é impossível viver sem telefone, rádio e refrigerador. Dou-lhe um conselho de amigo. Volte para sua casa, tranqüilize a família e aguarde os acontecimentos. Vamos fazer o possível.
Bem, você já está percebendo que não adiantou. A voz sempre mendigando a flor. A moça perdendo o apetite e a coragem. Andava pálida, sem ânimo para sair à rua ou para trabalhar. Quem disse que ela queria mais ver enterro passando? Sentia-se miserável, escravizada a uma voz, a uma flor, a um vago defunto que nem sequer conhecia. Porque - já disse que era distraída - nem mesmo se lembrava da cova de onde arrancara aquela maldita flor. Se ao menos soubesse ...
O irmão voltou do São João Batista dizendo que, do lado por onde a moça passeara aquela tarde, havia cinco sepulturas plantadas. A mãe não disse coisa aI uma, desceu, entrou numa casa de flor da vizinhança, comprou cinco ramalhetes colossais,atravessou a rua como um jardim vivo e foi derramá-los votivamente sobre cinco carneiros. Voltou para casa e ficou à espera da hora insuportável. Seu coração lhe dizia que aquele gesto propiciatório havia de aplacar a mágoa do enterrado - se é que os mortos sofrem, e aos vivos é dado consolá-los, depois de os haver afligido.
Mas a"voz " não se deixou consolar ou subornar. Nenhuma outra flor lhe convinha senão aquela, miúda, amarrotada, esquecida, que ficara rolando no pó e já não existia mais. As outras vinham de outra terra, não brotavam de seu estrume – Isso não dizia a voz, era como se disse. E a mãe desistiu de novas oferendas, que já estavam no seu propósito. Flores, missas, que adiantava?
O pai jogou a última cartada: espiritismo. Descobriu um médium fortíssimo, a quem expôs longamente o caso, e pediu-lhe que estabelecesse contato com a alma despojada de sua flor. Compareceu a inúmeras sessões, e grande era sua fé de emergência, mas os poderes sobrenaturais se recusaram a cooperar, ou eles mesmos são impotentes, quando alguém quer alguma coisa até sua última fibra, e a voz continuou, surda, infeliz, metódica. Se era mesmo de vivo (como às vezes a família ainda conjeturava, embora se apegasse cada dia mais a uma explicação desanimadora, que era a falta de qualquer explicação lógica para aquilo,seria de alguém que houvesse perdido toda noção de misericórdia; e se era de morto, como julgar, como vencer os mortos? De qualquer modo, havia no apelo uma tristeza úmida, uma infelicidade tamanha que fazia esquecer o seu sentido cruel, e refletir: até a maldade pode ser triste. Não era possível compreender mais do que isso. Alguém pede continuamente uma certa flor, e essa flor não existe mais para e ser dada. Você não ac a inteiramente sem esperança?
- Mas, e a moça?-
- Carlos, eu preveni que meu caso de flor era muito triste. A moça morreu no fim de alguns meses, exausta. Mas sossegue, para tudo há esperança: a voz nunca mais pediu.


A Baronesa

SENADOR abriu a porta e, branco no robe de chambre vinho-tinto, disse com voz alterada, embora conservasse o tom parlamentar:
- Luís, avise a Renato que a baronesa faleceu.
Luís, hóspede da casa, estava de costas, debruçado sobre xícaras e pratos. Apenas voltou a cabeça. - Visp'rou, senador?
- Como, visp 'rou?
- Quer dizer, bateu o 31, esticou ...
O senador olhou-o sem reprovação Seu rosto exprimia antes esforço por penetrar naquelas palavras tão alheias a seu vocabulário.
O primeiro movimento do ra12az foi no sentido de ir ver o corpo. Mas refletiu: era avisar Renato. Onde estaria Renato? Como um eco de seu pensamento, o senador exclamou: - Onde estará Renato?
- Ah, isso é difícil. A esta hora ... Talvez esteja em Ipanema (pensando: com a Déia Cartaxo), ou então no Flamengo (idem: com a lituana). Vou dar uma espiada. Como é que foi hem?
O senador sentou-se, com evidente intenção de não narrar pormenores. De resto os ignorava. Ao entrar no quarto da tia, bem cedo, para a clássica pergunta de como passara a noite, notou o mesmo silêncio de sempre, mas dentro do silêncio um cheiro ou ausência de cheiro, um sinal só perceptível aos velhos, que logo reconheceu. A baronesa era antiqüíssima, e à noite, sem qualquer incômodo para os da casa, tinha-se finado.
Ana Clementina de Soromenho Pinheiro Lobo e Figueiredo Moutinho ... Dos Figueiredo Moutinho, de Baependi. Viúva de um barão com grandeza, cujo patrimônio sobrevivera à corte, por meio de alguns milhares de títulos em bancos e companhias sólidas. Boa senhora, D. Clementina, se bem que completamente surda e ausente. Luís vira-a no máximo quatro vezes, e estava há um mês em casa do senador, onde ela vivia há anos. A baronesa mal saía do quarto, firmada em pernas impróprias Sua perna mais hábil era a bengala cujo rumor se perdia nos tapetes do apartamento.
(Estranho apartamento, se juntarmos em sua representação os modernos aos objetos remotos, o duco ao bolor (invisível, mas eterno) que envolve as caixas de madrepérola onde se guardam fitas e broches de antigamente. O living - aquela maravilha de claridade, sobre a baía. Mas, no fundo do corredor, a porta do quarto da baronesa marcava o limite de uma região de sombra, rapé, reumatismo, pigarro, bolinhas de cânfora, gorgorão de seda, pentes de monograma, conversa de bailes idos. Tudo presidido pelo ceticismo do senador que vinha dos velhos tempos e não se integrava nos novos, porém derramava sobre todas as épocas, raças, religiões e costumes, uma indulgência plenária, . não isenta de desprezo .
- Veja se traz Renato ainda pela manhã. Já mandei avisar aos outros parentes. Renato fica por sua conta. O João Barbosa tomará todas as providências ...
A essa voz de que os parentes já estariam informados Luis engoliu o pão com geléia como se fosse o último alimento sobre a terra, e sua salvação dependesse de tê-lo ingerido. Saiu voando, precipitou-se para fora e apertou com a mão aberta os três botões do elevador, o de descer, o de subir e o de alarme.
Voando apanhou um táxi e mandou tocar para Ipanema, pois não acreditava muito em lituanas.
Renato era homem de quinze mulheres, mas com Déia é que ele devia estar. Déia, anterior a todas, continuava resistindo à deterioração do hábito. Vamos a Ipanema.
Renato custou a acordar, percebia-se que a noite fora também de álcool intenso. Nesse mês estava em moda a cachacinha de Catrambi, e faziam-se apostas de duzentos paus sobre o número de cálices dessa especialidade que cada um seria capaz de enxugar.
- Renato, a baronesa visp'rou!
-Ah o quê!
- Sério, se você não chegar depressa a turma limpa ela sozinha!
Renato - naquele estado - precisava era de sono, sal de frutas, chuveiro. A morte de sua tia-avó vinha completamente fora de propósito. Teve um rasgo sublime.
- Rumo à baronesa!
- Rumo à baronesa! - secundou Luís. - Limpa essa cara, veste aí qualquer trapo, e chispamos.
No caminho, preocupados com a lerdeza do táxi (os sinais verdes apagavam-se por encanto, e nunca houve tanto caminhão nas ruas do Rio), os dois consideravam:
- Se Etelvino já tiver chegado, estamos fritos. Ele rapa tudo.
- Qual. Aqui o e um boboca. Você deve abrir o olho é com Clarita. Ela estava com sentido nos brincos e na pulseira grande. Presta atenção também no Cícero, ouviu? Aquele camarada é capaz de esconder o cadáver.
- Luís, você é meu amigo?
- Dai, então.
-Luís, deixa de safadeza e me conta: a que horas tia Clementina morreu?Você já entrou no quarto?



- Juro que não - respondeu Luís, solenemente. - Com certeza morreu dormindo. A tropa é capaz de não ter aparecido ainda. Acorda tarde ... Espia: chegaram!
Três automóveis, à porta do edifício, denunciavam a ofensiva dos parentes. . .
Renato olhou para Luís, e, com acento muito particular:
-Fomos.
- Fomos - respondeu o outro, compungido.
Subiram sem dizer palavra. Os parentes espalhavam-se pelo apartamento. O senador repousava no quarto de dormir, com enxaqueca. A empresa funerária ainda não viera. No dia claro, meio quente, nada lembrava a presença da morte - salvo aquele quarto no fundo, que permanecia fechado.
Renato abriu lentamente a porta. Seu amigo ficou esperando no corredor. Quarto escuro ... Não, a persiana fora levantada, e aquele feixe de coisas veneráveis e ridículas aparecia quase que pela primeira vez à luz natural e aos olhos de Renato. Ali estava, pois, o corpo de sua tia-avó, eco de São Cristóvão, reduzIdo ao mínimo, algo caprichoso e desconcertante como objeto supra-realista ou materialização espírita. Boa velha que teimava em contar casos do Império e explicar a genealogia dos Figueredo Moutinho, da qual excluía o ramo espúrio dos Figueiredo Chaves, gente intrigante e muito ordinária, brigada com D. Pedro. Por absurdo que pareça, tinha na cômoda um saquinho de balas de mel, que oferecia a todos, como proteção para os brônquios. Boa velha, um pouco chata ...
Mas que jóias!
Era o sonho da família, essas jóias de um século morto, que poderiam ser convertidas em bom dinheiro, caso não se preferisse transformá-las em alguma coisa de moderno. As Jóias escorriam da baronesa. Seus vestidos oficiais já se tinham desvanecido há muito, mas deles restava a lembrança de corpetes bordados a ouro e "guarnecidos com brilhantes fingindo gotas de orvalho". Jóias de cabeça e pescoço, de busto, cintura e braço, de dedo e orelha; jóias de sapato, e quem sabe até se outras jóias ... Algumas já tinham sido distribuídas por ela como presentes de casamento e batizado; outras (inexplicavelmente) desapareceram. Com a memória fraca, Ana Clementina era incapaz de dar relaçâo de tudo, e às vezes se encontrava um anel rolando no chão; além do que, famílias de trato em geral desconfiam de arrumadeiras.
A velha estava ainda na posição em que fora encontrada; a cabeça um pouco erguida sobre o travesseiro; apenas as mãos esticadas. Esperava-se a chegada de uma prima especialista em cuidados fúnebres, que tardava. Ela comporia o corpo - ninguém mais mexesse - e o entregaria aos carregadores da empresa, para o laborioso transporte pelo elevador, e a exposição na capela de Santa Teresinha. Impossível conceber enterro saindo de um edifício de apartamentos, onde os mortos são intrusos. Mas, que ninguém mexesse.
Renato aproxima-se da cama, e seu passo não é seguro como o passo de rua. Quer analisar objetivamente aquela massa inerte, mas divide-se entre sentimento e análise. Afinal era sua tia-avó, um segredo de sangue circulava entre eles ... Mas não havia sangue, só ossos, não havia carne, só ossos, um maço de ossos por cima do sommier azul-celeste. Na extrema aderência da pele, a caveirinha apresentava-se perfeita, e apenas o lábio superior, como casca enrugada de fruta, selava a boca e parecia querer esconder o queixo, onde um ou outro fio de cabelo se enroscava, nevado. Os braços estavam nus, os dedos vazios. Tinham chegado antes.
Lentamente Renato entendeu as mãos (era sua tia-avó), passou-as pelo rosto miúdo, descarnado, numa carícia errante. Depois, as mãos se afundaram nos cabelos ralos, de leve, passearam pelo couro cinza, desceram à nuca - feito cócega - voltaram um pouco tatearam. Entre as pelancas retorcidas do que fora o mais belo par de orelhas de 1880, os dedos tiveram trabalho em descobrir algo, em fixá-lo, puxá-lo. Mas, fosse o que fosse, não cedia, e na luta para arrancá-lo, a cabeça veio para a frente, alteou-se, o corpo ficou sentado com rigidez. Os dedos puxando, puxando, o corpo-quase se levantava ... Súbito: plic. A defunta teve um movimento para trás e desabou na cama, caindo de costas. Renato apertou as mãos, num calor de todo o corpo, cerrou os olhos, esbarrou na banqueta, na penteadeira, e correu para fora, onde o fiel Luís o esperava.
- A esquerda é minha - sussurrou Luís, vendo os punhos fechados.
Em apartamento, mesmo grande como aquele, é difícil a gente se isolar para uma conversa mais íntima. Foram ao banheiro. O ventinho de fora batia nas toalhas, refrescando a pele.
- Como é, e a safra?
Renato não respondia, mãos lacradas.
- Parece que você ficou meio frouxo depois de espiar a velha ... Coitado. Achou o colar?
O outro, com a cabeça, fez que não.
- Pois olha, meu velho, pra mim ela morreu foi do colar.
Também ele não saía do pescoço nem na hora do banho. Você se lembra de que ele dava três voltas folgadas? Cada vez que um da turma precisava de grana, chegava perto da velha, no sono, e arrancava uma conta. O colar foi diminuindo, diminuindo. Na última vez que eu vi a baronesa, ele dava só uma volta, e olhe lá.
Com certeza o Cícero perdeu ontem na Urca e veio aqui hoje cedinho ... A velha foi estrangulada.
- Deixa de besteira, Luís. Ela deu o colar a tia Matilde, em Poços.
- Pode ser ... Mas abre logo essa mão e passa minha parte. O outro abriu, mostrou os brincos. E miudezas.
- Só isso?
A partilha foi honesta. Conversaram ainda por algum tempo, e Renato derramou loção no cabelo.
- Esta loção de papai é uma droga. Vamos dar o fora? Preciso telefonar à lituana.
Assim acabou o Segundo Reinado.

O gerente

Perguntou-lhe Pilatos: Que é a verdade?
São João, XVIII, 38
ERA um homem que comia dedos de senhoras; não de senhoritas. Isso era pelo menos o que se dizia dele, por aquela época. Mas, apresentemo-lo antes. Viera do Norte, morava em Laranjeiras, Chegara a gerente de banco. Distinguia-se pela correção de maneiras e pelo corte a um tempo simples e elegante da roupa. Ou melhor, não se distinguia, pois o homem bem vestido e de maneiras discretas passa mais ou menos despercebido nos dias que correm, entre moças e rapazes americanizados, de gestos soltos, roupas vistosas. As pessoas mais velhas certamente o prezavam por isso, e recebiam-no com simpatia especial; porém, mesmo entre essas pessoas penetrara já a moda das meias curtas, chamadas soquetes, a que Samuel jamais aderiu, e dos paletós esportivos, soltos como camisolas, para ir ao bar ou passear na praia, e que Samuel nunca chegaria a vestir. Tudo isso está no passado porque ele morreu há um ano, de uremia.
Sua entra a em sociedade e se fez sem esforço, e a cada promoção no banco novos salões se lhe foram abrindo. Chegando a gerente, Samuel era um homem quase gordo e de pouco cabelo, tinha seu clube, sua roda, seu cavalo de corrida. Não se casara. Daria excelente marido, era evidente. Primas do Norte fizeram a viagem de vapor para conquistá-lo. Moças do Rio desafiaram- no; e é difícil resistir à batalha dos telefones, dos cinemas, dos chás. Samuel não se furtou a pequenos romances, e um caderno de apontamentos, que perdera em mudança, tinha mesmo anotações como estas:

1925 - 13 de setembro. À saída da missa das dez, no Largo do Machado, uma senhorita vestida de azul, com um grande chapéu de palha enfeitado de frutinhas e flores, olhou-me longamente. Eu ia tomar o bonde, mas resolvi esperar. Com a ponta da sombrinha, ela fazia desenhos imaginários na calçada. Olhava-me, depois baixava os olhos e sorria. Não pude deixar de perceber que era eu o objeto do seu sorriso por assim dizer convidativo. Pensei em aproximar-me, dizer-lhe algumas banalidades à guisa de introdução. Mas não foi necessário; passando o bonde "Águas Férreas", ela o tomou e assim pude voltar para casa a seu lado, com prazer e economia de tempo.
Afastando-se ela para que eu me sentasse na ponta do banco, senti-me no dever indeclinável de agradecer-lhe essa cortesia, e tanto bastou para que entabulássemos ligeira mas deleitosa conversação. Fiquei sabendo que tratava com uma professora pública, minha vizinha, grande admiradora de Verdi (como eu: que coincidência) e da natureza. Acompanhei-a até a porta de sua casa e ao nos despedirmos ouvi de seus lábios estas palavras: "Até breve; simpatizei muito com o seu tipo, logo à primeira vista."
No domingo a levarei à matinê do Odeon.
7 de outubro. Passeio na ilha de Paquetá. Passamos um dia agradabilíssimo, e voltamos à noite, enlevados, com o luar prateando as águas da baía.
20 de dezembro. Cláudia escreveu-me queixando-se de que não a procurei mais desde a sua mudança para o Leme. Respondi-lhe, num bilhete, que ando muito atarefado com o balanço. Na realidade, não pretendo mais procurá-la. Sinto que as pretensões de Cláudia vão além de simples amizade, e eu não descubro em mim vocação para o matrimônio, aliás instituição digna do maior respeito.
Casos. dessa natureza eram registrados pelo caderno, nas páginas seguintes, sem entusiasmo. E à proporção que os dias iam passando, os registros eram cada vez mais sucintos. De 1932 para cá, nenhuma indicação. O caderno falava apenas de negócios bem ou malsucedidos, compromissos sociais, morte de um tio, encontros com o pessoal do Norte. O elemento sentimental desapareceu de todo dos apontamentos, que de resto não eram diários nem regulares. Samuel não tinha preocupações literárias.
Que preocupações teria Samuel? Aparentemente, nenhuma.
Homem moderado afável,sabia agradar, sem tornar-se ridículo. Ambição de riqueza é possível que tivesse; mas disfarçada. Gostava de conforto, embora não fosse desses capazes de matar o pai para obtê-lo. Se se dava bem em roda de homens de negócios, apreciava igualmente seu futebol, e tinha opiniões sobre as artistas de .cinema, tanto do ponto de vista da arte como da plástica e da simpatia pessoal, sobretudo desta última.
Em religião, suponho que se prendesse a raízes católicas, mas tornado indiferente pela omissão do culto e pelas contingências do trabalho, tão duro para' quem principia a lutar na atmosfera dos bancos. Viera novo e inexperiente de Sergipe, trazendo carta de apresentação para um deputado federal; o emprego obtido era. modesto, e obrigava-o a um esforço enorme para estudar à noite, com o corpo moído. O curso de contador exigiu sacrifício Tendo de lutar para obter melhoria de situação, foi-se esquecendo dos deveres religiosos. A igreja da Candelária, tão majestosa entre os redutos da alta finança, às vezes parecia convidá-lo para entrar um pouco. Samuel tirava-lhe respeitosamente o chapéu; e o respeito era maior por ver a casa de Deus postada entre as casas do dinheiro estas como que submissas ao poder espiritual, e dele tirando energia para suas delicadas operações. Era tudo quanto subsistia de religião em sua alma. Política, Samuel não discutia. Respeitava o Governo, mas sem freqüentá-lo. Suas relações com os diretores gerais e até ministros se faziam nos salões. Não era homem de gabinetes, embora estivesse profissionalmente atento às reformas que saem deles e tanto interessam ao crédito. Os diretores do banco punham-no a par de conversações sigilosas com os dirigentes das finanças nacionais; não precisava matar-se para ficar sabendo de tudo, e agir em conseqüência. À tarde, saindo do serviço, indo a pé até a Avenida Rio Branco, era outro homem, livre das letras de câmbio, dos saques, das promissórias protestadas. Apenas como cidadão bem-posto, que se interessava por futebol, cinema, corridas, jantares, recepções - ia muito a recepções, ultimamente.
Aquele inverno foi cheio de recepções no Rio. Samuel podia comparecer a duas ou três por dia, sem se molestar. O trabalho no banco dava-lhe tempo para passar em casa, lavar-se, pentear-se, de sorte que, entrando no salão do casal Boanerges, assim lépidoe limpo, ninguém descobriria nele quem pela manhã liquidara a tragédia do lavrador de Campos, que tinha hipotecado o último pé de cana para financiar a safra.
Possuía o dom da conversa de sociedade, cujo repertório abrange desde as considerações gerais sobre o tempo, passando pelas impressões dos sucessos teatrais, cinematográficos e musicais, até o julgamento benévolo das condições físicas do interlocutor. Nesse último terreno, Samuel era realmente incomparável: sabia dizer de tal modo a uma senhora idosa que a achava cada vez mais jovem, que a senhora subitamente remoçava, e a mentira de Samuel se resolvia em verdade, verdade de banqueiro, com garantia na praça.
Foi dito que Samuel tinha maneiras discretas, mas seriam antes maneiras suaves ... Sim, fazia tudo suavemente. Não apenas seus sapatos não rangiam, mesmo antes da adoção dos solados de borracha (solados que Samuel se recusou a adotar), como até não emitiam qualquer espécie de ruído, eram silenciosos, flexíveis, suavíssimos. Samuel pisava em lã, ele próprio tinha pés de lã. As pernas moviam-se calmas e leves; o tronco deslocava-se com espontânea leveza; os braços não comprometiam esse movimento. Era agradável contemplar Samuel movendo-se suavemente - vale insistir no advérbio - para saudar uma senhora, o antebraço estender-se, a cabeça inclinar-se levemente, o sorriso levemente esboçar-se ... Da boca à mão o espaço era grande, e ninguém reparou como ele foi transposto. O certo é que Samuel beija - está beijando a mão enluvada, e não há na sua galanteria nada de ancien régime, de afetado. Samuel, embora infringindo a etiqueta, beija a mão da dama com uma elegância perfeita. E a boca recua, como avançara sem pressa, a cabeça volta à sua posição, a sobra imperceptível na gravata se desfaz, e eis outra vez Samuel firme no centro da sala.
Mas sucede uma coisa desagradável, que aborrece muito Samuel; o rosto da senhoora, que também sorria, contrai-se um instante, seus dentes se apertam. Ela baixa os olhos, enquanto sua mão enluvada se ergue. O tecido rendado súbito se tinge em um dos dedos. A senhora olha atônita para a mancha que se alastra. Instintivamente a mão se fecha, procurando ocultar o dedo indiscreto, que escolheu para sangrar logo este momento, à vista de todos. Samuel a princípio não compreende, mas a realidade se lhe oferece, evidente.
- Feriu-se? Mas que horror; sua mão está ensopada de sangue! Como foi que aconteceu? Espere aí, vou arranjar um pouco de iodo, algodão ...
A senhora está pálida, mas sorri de novo:
_ Não foi nada, não se incomode ... Deve ter sido um alfinete, foi com certeza. Passei a mão no vestido, e ele me picou. Não precisa procurar nada, com um lencinho faço parar o sangue.
Samuel está desolado.
- Lamento muito o acidente, muito mesmo. Mas onde estará esse maldito alfinete? Merece o maior castigo: ser expulso desse lindo vestido. É indigno de figurar aí. Os alfinetes são ingratos e sem imaginação.
Ela não pôde deixar de sorrir.
_ Oh, Sr. Samuel, sempre lisonjeiro ... Deixe o pobre alfinete, ele fere menos que certos homens ... Não falo do senhor, é claro.
E afastou-se. Samuel não a viu mais na sala. Sumira pela porta q e conduzia ao quarto de toalete dos Boanerges.
No caderno de apontamentos de Samuel, lê-se com data desse dia:
Na recepção em casa dos Boanerges, tive o pesar de ver Madama Sousa, que tem lindas mãos, ferir-se em um dedo, com um alfinete, logo depois de nos cumprimentar-mos. Ela manifestou grande presença de espírito, recusando o curativo que me ofereci para fazer-lhe, e disfarçando com um sorriso a dor da picada, que deve ter sido forte.

Logo em seguida:
A recepção esteve muito cacete e o Dr. Martiniano Lopes me pegou no terraço para ler um longo discurso que vai pronunciar na Ordem dos Economistas; martírio esse que durou uma hora de relógio.

Um domingo mais tarde, Samuel assistia às corridas do Jockey Club, ao lado de seu amigo Tancredo, corretor de títulos, e da senhora deste, D. Guiomar. Os dois homens tinham uma amizade de vinte anos. Tancredo convidara-o para padrinho de um filho, que já fizera três anos, e ainda não fora batizado. Mas era impossível batizar Luisinho. Marcava-se dia, ele adoecia; marcava-se outro, e Tancredo tinha de resolver um negócio em Porto Alegre; terceira marca, e D. Guiomar recebia notícia de doença do avô, no Paraná.
- Luisinho viverá cem anos pagão - dizia Samuel, rindo.
- Está escrito no livro do destino.
- Não diga isso, Samuel - atalhava D. Guiomar. - Deus é muito grande. Você é que não tem vocação para padrinho.
Estavam calmamente na arquibancada, a tarde caía. O cavalo de Samuel correra e ganhara. Tancredo e D. Guiomar tinham apostado nele, e estavam excitadíssimos com a vitória.
No atropelo da saída, ao se despedirem (o casal morava em Ipanema), quando Samuel se inclinava para beijar a mão da futura comadre, passou por eles, em velocidade de navalha, um rapaz de roupa xadrez, sem chapéu, com um papel na mão. Houve um esbarro. A mão de Samuel recuou, a de D. Guiomar também; mas essa última, num movimento convulsivo, ao mesmo tempo que um grito de espanto, mais que de dor, escapou dos lábios da jovem senhora.
Samuel e Tancredo precipitaram-se. Na mão carnuda e morena de D. Guiomar, o indicador gotejava. Faltava a ponta do dedo.
- Meu Deus, que é isto! Foi aquele sujeito que passou de raspão. Vou pegá-lo
- Espera, Tancredo. Fica tomando conta dela enquanto eu procuro o sujeito. Chama um táxi e manda tocar para a Assistência.
Juntou gente. D. Guiomar gemia, o rosto lavado de lágrimas.
A dor era insuportável. Levaram-na para o bar, até que viesse o carro. Sentada, o dedo doendo, ela sacudia o braço, soprava o ponto ferido. O lenço em que envolvera o dedo estava ensopado.
Samuel voltou sem ter descoberto o tipo. Lembrava-se perfeitamente de sua roupa, não de seus traços. O sujeito tinha um papel na mão, talvez o programa das corridas.
- Mas seria só o papel? Com certeza escondia navalha, uma lâmina, sei lá.
Impossível averiguar qualquer coisa, os guardas que chegavam não tinham indicações suficientes para apanhar o criminoso. E Tancredo, acabrunhado, preferia não fazer barulho. Passava a mão na mão intacta da mulher, alisando-a com meiguice, como se a desgraça da outra aumentasse o valor da sã.
Samuel aproximou-se para avisar que o táxi tinha chegado.
Abriu caminho para a passagem da moça, protegendo-a contra o aperto. Com doçura especial sustinha a mão mutilada. Os três entraram, mas Tancredo preferiu - e Samuel aprovou em vez de ir à Assistência, passar em casa do médico da família, apanhá-lo e seguir para a sua própria casa, onde tratariam do ferimento.
O pranto de D. Guiomar diminuíra. A compreensão detivera o fluxo de sangue. Mas a emoção do golpe, tão brusco - ela nem percebeu como foi - e a tristeza de saber-se mutilada enchiam-lhe a alma.
Samuel não sofria menos que Tancredo, e consolava a ambos.
- Ora, não é caso para vocês ficarem assim. Um cortezinho à-toa. Saiu muito sangue, é verdade. Mas basta uma arteriazinha rompida para causar todo esse fluxo. Não há lesão grave. Coisa de uma semana, e ela está boa. Tancredo ficou tão abatido que até parece que foi ele quem cortou o dedo ... Coragem, rapaz. Sua mulherzinha ainda há de fiscalizá-lo por muitos anos, forte e bonita como sempre.
No caderno:
A mulher de Tancredo foi vítima de um atentado inexplicável, à saída do Jockey. Alguém, passando rapidamente, feriu-a no indicador da mão direita. Não pudemos pegar o agressor. Receio que o dedo fique aleijado, sem ponta. Procurei consolá-los o mais possível. Amanhã cedo vou propor ao Tancredo o negócio das ações do Cotonificio, que é ótimo.
O triste é que D. Guimar ficou mesmo aleijada, e nunca se apanhou o rapaz vestido de xadrez.
Samuel, sempre trabalhando no duro e se divertindo. Passou a avistar-se com personalidades do corpo diplomático. O Ministro da China mandou-lhe uma bata de seda azul-celeste com aplicações de ouro, representando árvores e pássaros. Samuel tornou-se íntimo da legação da China, tratava os interesses chineses como seus, e ofereceu à senhora do Ministro uma coleção de borboletas brasileiras, organizada durante dez anos por um especialista.
No baile da legação, apresentaram-lhe a Senhora Figueiroa, esposa de um encarregado de negócios da América Central. Criatura magnífica, talvez um pouco ampla de busto; olhos pestanudos, que brilhavam, e uma voz quente, parecendo queimar as palavras _
A esplêndida senhora mal teve tempo de desviar-se da bandeja de refrescos, empunhada por um garçon , à porta do buffet. Samuel mal tivera tempo de beijar-lhe a mão. O garçon voltou- se espantado. Um ai! escapou da boca da Senhora Figueiroa; a careta de dor deformava-lhe o rosto. O vestido branco estava manchado. As gotas vermelhas caíam da mão contrária, enquanto a outra deixava tombar o leque. Samuel apanhou-o, e permitiu-se amparar a pobre senhora, que desmaiava. O garçom, após um momento de indecisão, desapareceu.
- É incrível, mal posso acreditar no que vejo ... Vossa Excelência feriu-se? Como foi isso? Na bandeja, talvez alguma pontinha de vidro?
Os diplomatas sabem dominar dificuldades; e as mulheres dos diplomatas educam-se no mesmo espírito. A Senhora Figueiroa achou jeito de esconder a mão ferida - um horrível ferimento - por trás do leque, depois por trás do lenço, finalmente dentro da saída de arminho, e retirou-se com o marido, que não compreendia nada, e apesar de diplomata queria chamar a polícia, queria prender o criado, queria protestar.
Esse caso foi mais sério. A Senhora Figueiroa hospitalizou-se. Perdeu a falangeta, e os médicos declararam: dentada humana.
Mas seria possível? Um cavalheiro tão distinto como Samuel pairava acima de qualquer suspeita. O próprio encarregado de negócios não queria acreditar; era-lhe forçoso convir, entretanto, que alguém mordera sua esposa, lhe secionara um dedo; e como as duas únicas pessoas próximas eram Samuel e o garçom, e o garçom não se inclinara para beijá-la, o que seria absurdo - ela se lembrava mesmo que nenhum gesto especial fora feito pelo servidor, a não ser o de aproximar-se com a bandeja -, era evidente que o bote partira de Samuel.
Fizeram-se investigações policiais discretas, o garçom não adiantou nada. Samuel foi convidado a ir à polícia. O delegado recebeu-o com delicadeza, mas sem tirar os olhos de sua boca, de seus dentes. Eram perfeitos. Nem uma falha, exceção de certo pivô conseqüente a uma queda de cavalo.
Samuel percebeu isso, tirou a carteira - o senhor fuma, doutor? Então, com licença - e deixou o cigarro dependurado na boca, exalando fumaça. tênue.
- O senhor não está sendo acusado de nada. Apenas solicitamos? seu comparecimento para obter algumas informações entende: Quando palestrava com a Senhora Figueiroa, alguém se aproximou dela e curvou-se?
- Ninguém, doutor. Pelo menos que eu visse apenas passou o garçon, com uma bandeja. E só parou ao escutar o grito.
- Pois não. O senhor acredita que esse garçom tenha ... dissimuladamente mordido a Senhora Figueiroa?
- Ah, não acredito. Ele não faria isso E por que havia de fazer?
- Então, como explica o fato?
- Acho que a Senhora Figueiroa se feriu na bandeja num copo, numa ponta de vidro.
- Meu caro, o dedo dela foi arrancado a dente. Alguém deu uma dentada nela.
,- É um absurdo, doutor. Então o senhor acredita que alguém, num baile de legação, fosse cair de dentada sobre uma dama?
Era o primeiro caso assim: o delegado também achou absurdo. Os médicos tinham dito uma besteira.
Samuel não foi mais incomodado. Os jornais nada publicaram.
Mas alguma coisa do último incidente transpirou nos salões. Nunca se sabe de onde vem o rumor; espalha-se como pó fino sobre os móveis. As mulheres, ao serem cumprimentadas por Samuel, de instinto recuavam os dedos. Alguma evitaram-no. Ele não parecia perceber. Sua cortesia era, como sempre, impecável. Na confeitaria da Rua da Carioca então ainda muito freqüentada por gente fina, encontrou, num sábado, pessoas amigas. O Dr. Tabuada, diretor de uma casa de saúde no Rio Comprido, sua mulher, e um rapaz louro, primo dela. O médico vivia muito fora da vida, mas a esposa dançava em todo baile elegante, e o rapaz também cultivava festas.
- Olá, seu Samuel, há quantos anos, hem? Já sei que é dono de toda a Rua 10 de Março. Acabará na City, como os Rothschild ... - e bateu-lhe no ventre, amistoso.
Não sendo homem de intimidades, Samuel correspondeu com um sorriso formal, e voltou-se para a senhora, que o olhava atemorizada, de braço encolhido. Ele forçou o aperto de mão. D. Regina teve que estabelecer contato, enfrentar o risco. Mas Samuel apenas tocou-lhe a mão, deitando-lhe um beijo levíssimo - um sopro -, como se fosse uma porcelana que ele não quisesse trincar.
Ela sorriu, aliviada. O primo, que acompanhara a cena com preocupação, abriu na gargalhada.
- Que é isso, rapaz? - disse o médico. - Está maluco?
D. Regina ria também. Samuel resolveu rir, por sua vez. Uns olhavam para os outros, e cada qual achava mais divertido ... o quê? O Dr. Tabuada não adivinhava.
Ao se levantarem, a senhora fez questão do beijo samuelino.
Estava confiante, e a boca do alto funcionário do banco outra vez roçou-a de leve, com indiferença.
Mas Samuel resolveu ficar, porque numa das mesas da esquerda estava outra pessoa conhecida. Era a viúva Mendes Gualberto, fresca e agradável, que lhe sorria. Ela devia a Samuel algumas finezas; ações arroladas em inventários, e retidas no banco, foram liberadas antes do alvará do juiz; e outras coisinhas. D. Deolinda Gualberto sorriu-lhe.
- Há quanto tempo não o vejo, Sr. Samuel. É verdade que desde a morte de meu marido não ponho pé em salões. E o senhor sempre mundano, não é assim?
- Oh, minha senhora, nem tanto. Dou meu giro pelas casas de alguns velhos amigos, apenas. Não se pode viver sempre entre papéis, afundado na escrivaninha, não acha? Quanto prazer em vê-la. Se não fosse reavivar recordações que lhe são penosas, eu gabaria essa leveza de luto do costume lilá ... Fica-lhe tão bem. Já reparou que combina admiravelmente com a tarde?
- Ah, Sr. Samuel, não sabia que os banqueiros entendessem de moda ...
- Pois fique sabendo. Entendemos de tudo.
Falaram do inventário, afinal concluído. Dona Deolinda pensava em fugir do calor. Samuel aconselhou-lhe Friburgo, mais calmo que Petrópolis, e até mais barato. Indicou-lhe um hotel, de que a viúva tomou nota num caderninho.
- Bem, vou indo. O senhor não imagina como fiquei contente em vê-lo. Até qualquer dia.
- O melhor aparelho de barba e a melhor gilete. Use, cavalheiro, este dispositivo. Opera-se assim. Com licença ...
Era um propagandista que metera o nariz na mesa, entre as taças de sorvete vazias. D. Deolinda estava justamente estendendo a mão a Samuel; e este se dispunha a beijá-la ... O gesto do vendedor atrapalhou tudo.
- Oh, desculpe!
- Ai, ai - gemeu a senhora.
- Imprudente! Atrevido! - exclamou Samuel, segurando o vendedor pelo braço, com a boca torcida.
O homem lutava por escapar, balbuciando: - Mas eu não fiz nada. Eu ... eu ...
Garçons acudiram, o gerente com eles. Alguns fregueses aproximaram-se. Fez-se o bolo. D. Deolinda estava sem um pedaço do dedo mindinho.
A confusão era infernal, e no meio dela Samuel consegue chegar perto do camelô, para dizer-lhe alguma coisa ou agarrá-lo? Mas o rapaz afundou no mar de peitos, abriu caminho entre as pernas agitadas e ganhou a rua. Sumiu. O Rio tem perto de dois milhões de habitantes.
Quando a polícia chegou, procurou em vão o sujeito das giletes. A toalha da mesa de D. Deolinda parecia ter vinho entornado. Samuel tinha saído com a viúva, e levara-a para casa.
Bem, as coisas ficaram difíceis para Samuel. Já não era possível esconder o fato de que ele gostava de morder senhoras, que era um sádico, um monstro. Um vespertino, revelando as iniciais de Samuel, noticiou em tipo grande: O VAMPIRO DOS SALÕES - ESTRANHA SÉRIE DE AVENTURAS DE CONHECIDO ELEMENTO DO NOSSO MUNDO BANCÁRIO.
Moças que costumavam percorrer o comércio levando listas de subscrição em favor dos flagelados, dos órfãos de guerras balcânicas e de outras vítimas, procuraram inocentá-lo. Não se deu crédito ao testemunho das virgens, pois não é de bom-tom beijar-lhes a mão.
O presidente do banco chamou-o para uma conversa penosa. - Meu caro Samuel, a Noite de ontem ...
-Já sei. Isto é uma infâmia, Sr. Morais. Escrevi uma carta à redação, protestando contra as insinuações. Deve sair hoje na edição final.
- Você não anda um pouco fatigado pelo excesso de trabalho? Gostaria de consultar o médico?
- Estou me sentindo perfeitamente bem. Nunca me senti tão bem como agora. Por que o senhor falou em médico?
- Nada. Falei à toa. Em todo caso, saiba que resolvemos conceder-lhe uma licença de três meses, e recomendar-lhe que a goze na Argentina, no Uruguai, por aí assim. Isso lhe fará bem, na certa.
Samuel perturbou-se.
- Mas eu não estou precisando de repouso. Estou forte, posso trabalhar. Ainda no começo do ano fui a Caxambu. Quem sabe se o banco está querendo me afastar?
O presidente não respondeu.
- Devo interpretar seu silêncio como ... uma afirmativa, é? O presidente, calado.
Aquele instante foi longo, e Samuel pôde acompanhar o movimento de uma formiga que, ninguém sabe como, se introduzira no gabinete e marchava sobre o tapete da presidência.
- Agora estou percebendo. O banco deseja minha saída, depois de vinte anos de dedicação a seus interesses. Depois de todo o meu esforço para que ele progredisse.
O presidente olhava para uma estatueta, constrangido. Representava uma mulher de túnica, em bronze, segurando um facho. Mesmo de metal, era bom reparar naquelas formas calipígias.
- Sabe de uma coisa, Sr. Morais. Eu não peço demissão. O banco que me demita, se quiser. Não posso ter decaído da confiança da diretoria. Tenho direito a uma explicação. Isso é que é.

- O senhor engana-se - retrucou vagaroso o presidente, já sem o tom afetuoso do princípio, e tentando libertar-se das curvas da estatueta. - Nós não temos explicações a dar. O senhor, sim, é que precisa explicar esse ... vício, esse não sei que diga.
- Ah - disse Samuel, com um sorriso amargo -, trata-se dessa miséria que ... Então o senhor deu crédito a essas torpezas? Pois olhe: não esperava isso do seu bom-senso. O que há - e fez uma pausa, limpou a garganta, repetiu: - o que há é uma série de coincidências perfeitamente lamentáveis sob todos os pontos de vista, mas de que não posso ser acusado ... Não, não posso ser acusado. Dirá o senhor: mas como foi que aconteceram? E eu lhe direi: sei lá. Aconteceram: eis aí. Tudo se passou à minha frente, diante de meus olhos, sem que eu pudesse intervir a tempo, eis aí. Garanto-lhe que foi assim mesmo. Isso tem me preocupado muito ultimamente, o senhor nem calcula. Não posso atinar com a razão desses ... acidentes; só sei que eles aconteceram na minha presença. Compreende?
- Não compreendo, não senhor.
_ Eu também não, mas que hei de fazer? Não posso me confessar autor dessas barbaridades. Isso lá, não.
- Sr. Samuel, vou convocar a diretoria para estudarmos o caso. Na quinta-feira tomaremos uma deliberação. Até lá, entregue a gerência ao Senhor Vasconcelos e fique em casa aguardando instruções. Passe/muito bem.
Ao chegar em casa, Samuel encontrou o investigador, que ia buscá-lo. O delegado recebeu-o sem nenhuma consideração, depois de uma hora de espera no corredor, entre pretas que queriam atestado de pobreza.
- Ah, é o senhor? Então repetiu-se a coisa, hem? Como o senhor explica isso?
- Doutor, eu não explico nada. A fatalidade ...
- Fatalidade coisa nenhuma, seu safado. Então um homem de posição, recebido na alta-roda, põe-se a comer dedos de senhoras e depois quer despistar? Não faltava mais nada. Mas que diabo de fome esquisita a sua, hem?
- Doutor, O senhor está me ofendendo com essas expressões. Peço licença para não responder.
_ Pois não responda - berrou o delegado. - Vai ver o que acontece a um camarada que quer bancar o antropófago numa cidade civilizada ...
E ria-se com a idéia de um antropófago à solta na capital do país.
- Desculpe, doutor, mas eu não sou um criminoso. Sou gerente de um banco, tenho direito a um pouco de consideração. Respeito as autoridades de meu país e acho que elas também precisam me respeitar. Se eu fosse ...
- Cale-se! Além de antropófago o senhor é um verborrágico, pelo que estou vendo. Não faltava nada mais.
Não houve mais jeito de se entender com o delegado. O inquérito foi intaurado. Samuel teve de submeter-se a longos interrogatórios. O garçom-que o servira na Rua da Carioca depôs contra ele. O gerente da confeitaria afirmou que, da caixa, vira o momento em que os dentes de Samuel, certeiros e inexoráveis, se cravaram no dedo da viúva. Mas o vendedor de aparelhos de barba, elemento importantíssimo para esclarecer o fato, não foi localizado. Quase dois milhões de habitantes!
O médico-Iegista examinou os lábios de Samuel, as presas ... Estudou os movimentos da boca, mandou-o morder uma banana, depois uma maçã. Samuel, a princípio com relutância, depois com fúria, finalmente com resignação, pôs-se a morder e a mastigar tudo: lápis, borrachas, pedacinhos de pau, gomos de cana-de-açúcar. Depois, deram-lhe uma mão de cera, comprida, de mulher.
- Isso, não. Estão abusando de minha paciência. Isso eu não mordo.
- É pra seu bem, ninguém quer lhe fazer mal, ora essa. Morde só um instantinho.
Ele mordeu. Cuspiu fora, com uma careta.
Coisa que impressionava o delegado é que em nenhum dos casos chegados ao seu conhecimento se sabia o que fora feito dos pedaços de dedos. Aquele malandro os teria engolido? Mas dizia-se que não fizera movimento nenhum de engolir; nem tinha sangue nos lábios ... Isto é, ninguém se lembrara de olhar para os lábios dele, na hora do susto. A mulher mordida atraía sempre a atenção. O gerente da confeitaria vira-o cravar os dentes no dedo da senhora, mas o próprio gerente não reparara depois na boca, nem podia dizer se ela tinha sangue.
A perplexidade aumentou com o depoimento da viúva, que inocentou completamente o acusado.
O inquérito foi arquivado. Não era possível denunciar o homem.
A diretoria do banco reunira-se, e não resolvera nada. Aquele não era um caso comercial; nenhum dos banqueiros tinha experiência de casos assim, e doía-Ihes, no escuro, condenar um antigo servidor, quase um colega. Resolveram aguardar o resultado do inquérito, com Samuel suspenso. Informada do arquivamento, a diretoria insistiu em dar férias a Samuel, que afinal aceitou.
Não foi para Buenos Aires. Foi para São Paulo.
Quando as férias acabaram, Samuel achou melhor ir ficando por lá. A filial do banco desenvolvia-se. Precisava de um gerente capaz. Os diretores acharam boa idéia designá-lo para o cargo. Em São Paulo ninguém sabia de nada, e ficava-se livre dele no Rio.
Samuel andou oito anos labutando por lá. Oito anos perfeitamente tranqüilos. Poucas relações. Não há notícias especiais desse período.
Tanto tempo sem ver o Rio despertou-lhe saudades. Havia um negócio e exportação, muito complicado, a resolver. Tomou o avião e veio conversar com o presidente.
Achou o presidente meio acabado, o cabelo ao lado das orelhas já branco. Os funcionários dos guichês também apresentavam sinais de ruína. E muitas caras novas, aqui e ali. O banco era o mesmo, na mesma rua; até a estatueta de bronze - mas sentia-se melancólico.
- Você está muito bem disposto, Samuel. Folgo em vê-lo assim em forma. São Paulo lhe fez bem. Acho-o apenas um pouco barrigudo. E a idade, não?
A essa familiaridade do presidente, Samuel encolheu-se.
- Também tenho prazer em vê-lo, Sr. Morais. Ao senhor e a todos os companheiros da casa. Oito anos sempre é alguma coisa. O senhor está a par do assunto que me trouxe ao Rio, não?
Durante uma hora debateram o negócio. Samuel estava suando. Dali voltou para o hotel, meteu-se no chuveiro, e foi deitar-se, de cuecas, com as janelas abertas sobre a baía.
Este calor do Rio! Há tanto não o sentia, que agora o achava insuportável. Podia telefonar à portaria, pedir um gelado, não adiantava. O ar estava parado. O céu, cinzento. Os automóveis lá embaixo eram besourinhos movendo-se sem ruído. Os objetos do quarto pareciam mais espessos. O telefone, sobre o catálogo de endereços, ali perto, era uma pIas ta negra. Telefone, aliás, inútil: há oito anos não conversava com ninguém no Rio, nenhuma de suas antigas relações fora conservada. Ainda se lembrariam dele? Seus amigos do clube, das embaixadas, aqueles homens e aquelas mulheres, alguém se lembraria dele? Oito anos sem uma carta uma explicação: era um bocado.
O telefone tocou. - Alô? Quem fala?
- Como? Com quem deseja falar?
- Quero falar com o Sr. Samuel Cardoso.
- E ele mesmo. Quem fala, por obséquio?
- Não se lembra mais de minha voz, seu Samuel? Faça um esforço.
- Lamento muito, minha senhora, mas não me lembro. Pode dizer-me de quem se trata?
- Pena que o senhor tenha se esquecido. Eu li o seu nome na lista dos passageiros da Vasp. Foi uma surpresa para mim, sabe? Telefonei logo para o banco e lá me deram seu endereço. Mas, deveras, não se lembra mais da gente?
- Não, minha senhora, confesso que não me lembro. Estou realmente pesaroso, mas se quisesse me dizer seu nome ... - Por enquanto, não. Vamos ver se adivinha.
- Não posso adivinhar, eu ...
- Pode. Procure em suas recordações.
-Já procurei. Infelizmente não acho nada.
A voz ficou pesarosa.
- Pois eu esperava que o senhor achasse. Não há tanto tempo assim ... Vamos, um pouquinho de boa-vontade.
Samuel, sinceramente, não se lembrava.
- Ainda continua muito entendido em vestidos?
- Como? Em vestidos? Mas ...
- Não se faça de esquecido. Uma vez o senhor disse que meu vestido combinava com a cor do céu, naquela hora. Lembra-se?
Havia tantos vestidos e tantos galanteios inócuos, sepultados na memória de Samuel, que ele não se lembrava de um, particularmente. Começava a ficar intrigado.
- É engraçado como o senhor sabe - sabia - dizer coisas tão bonitas, conservando a aparência de um homem de negócios ... Ou eu me enganei? Alô: é o Sr. Samuel quem fala?
-Eu mesmo.
- Samuel... Nome esquisito, esse. Assim meio triste, mas inspira uma simpatia, não sei. Escute uma coisa, Samuel, então você não se lembra mesmo de mim?
- Me deixa chamar você de Samuel, chamar de você, assim como se nós fôssemos íntimos. Ai, Samuel, aquela coisa que você fez foi horrível. A gente perdoa, mas não pode esquecer.
- Eu perdoei, isto é, acabei achando natural, porque vinha de você, e você me impressionou muito. Escuta uma coisa, Samuel, você se demora no Rio?
- Acho que não. Dois ou três dias, no máximo.
- Eu queria ver você, queria mostrar a você ...
- Mas ...
- Não me negue isso, Samuel, seja bonzinho. Escute uma coisa. Hoje à noite, está bem?
- Como? Se eu não sei de quem se trata ...
- Não tem importância. Depois fica sabendo.
- Mas não sei se terei tempo. Marquei encontro à noite com uns amigos ...
- Que mentira, Samuel, não tem encontro nenhum. Você nunca mais deu notícias a ninguém. Perguntei a amigos seus, fui ao banco. Não souberam ou não quiseram me dizer para onde você tinha ido. Descobri por acaso, no jornal. Você vai se encontrar comigo hoje, sabe? Eu estou lhe pedindo.
Ele cedeu, afinal. Ela não queria lugar ruidoso. Encontrar-se-iam às 9 horas da noite, no Passeio Público, perto do portão de Mestre Valentim. Ela o abordaria. Não faltasse.
Foi. A mulher alta destacou-se das árvores, trajando roupa escura. Tinha um casaco sobre os ombros, recobrindo o braço direito. A mão esquerda segurava a carteira, e com a ponta dos dedos tocava no braço de Samuel.
- Dona Deolinda ... Ela sorriu:
- Então não conheceu minha voz, hem? É verdade que nós não conversávamos muito. Mas pensei ...
Samuel estava encabulado. A vida em São Paulo transcorrera longe da sociedade. Faltavam-lhe palavras que, em outro tempo, ele teria para enfrentar a situação.
- Mas, D. Deolinda ...
- Não me chame de dona, está me achando tão velha assim?
Sentaram-se num banco, junto ao busto de Olegário Mariano. Assim solitários, naquele canto, o ar era de namorados.
- É engraçado como as coisas acontecem, Samuel. Sempre achei você um homem simpático. Gostava de suas maneiras tão finas. Quando fui ao banco pela primeira vez e o conheci, disse para mim mesma: Este homem é um encanto, e ninguém o descobre. Está escondido numa sala escura, no meio de máquinas. Se saísse à rua ... Depois, soube que você freqüentava muito a sociedade, e fiquei imaginando um encontro casual, fora do banco. Mas eu estava viúva de pouco tempo, não podia ir a festas. Você se lembra? Ora, se lembra nada. Depois, foi aquele encontro na confeitaria ...
- Do encontro eu me lembro - confessou ingenuamente Samuel.
O ombro esquerdo de Deolinda encostava-se no ombro direito de Samuel. Sem provocação. Era sinal de confiança, acompanhando as palavras. E a confidência, acentuando-se, juntava naturalmente os corpos.
- Pois foi naquele encontro que eu descobri isso ... Ou que isso nasceu, não estou bem certa. Pode achar ridículo, mas me lembro das menores coisas daquele tarde. O vestido lilá que eu usava, o sorvete que nós tomamos, era de caju, sabe? Me lembro que você me falou do Norte, contou coisas de sua meninice em Sergipe, na cidadezinha de Capela. Guardei esse nome: não foi em Capela que você nasceu?
-Foi.
- Pois é. Você me contou a história de um banho no rio de um cajueiro que havia à beira da água, de onde os meninos se atiravam à correnteza. Eu fechei os olhos para ver o rio, com os meninos saltando e nadando, fiz um esforço para imaginar você pequenino, se atirando da árvore. E ri muito quando você disse assim: quem sabe se esse caju não veio de Sergipe?
- Estou me lembrando que falamos do inventário - arriscou Samuel, agarrando-se ao lado profissional.
- É, mas foi no começo, depois do comentário sobre o vestido. Depois a conversa tomou outro rumo. Você falou do banho no rio, do cajueiro, começou a narrar a viagem complicada do caju, de Capela até a Rua da Carioca, e o caju espremido, o caldo entrando na sorveteira, esfriando, gelando, depois na taça, e a gente tomando na colherinha, sentindo na boca aquele gostinho frio de Sergipe ... Achei adorável.
A vaidade picou-o de leve. Teve uma vaga saudade do tempo em que conversava com senhoras, sobre coisas mínimas, e achavam-no brilhante.
Deolinda não pensava em afastar o corpo. A linha de calor humano pegava no ombro e ia até a perna.
- Sei que tudo isso é ridículo - suspirou ela. - Você me desculpa, sim.
- Por favor, continue - murmurou Samuel.
Deolinda tinha dificuldade em continuar. Queria lembrar a tarde inteira, a despedida, principalmente esta. Quando entrou aquele propagandista de aparelhos de barba ...
Samuel despregou um pouco o ombro. Olhava na direção da rua, onde os bondes passavam cheios. A que ponto ela queria chegar? Depois de tanto tempo, voltar a um assunto aborrecido. Mas o ombro de lá procurou o de cá, como se o contato fosse essencial à recordação.
- Tive uma surpresa medonha, uma dor e depois uma tristeza enorme - continuou ela, de cabeça baixa. - A dor talvez fosse menor do que a tristeza, foi sim. Eu não podia esperar que uma criatura como você, tão atenciosa, tão boa ... Uma criatura em que eu confiava tanto, meu Deus.
- Mas esperar o quê? Pois você achou ... ?
- Naturalmente. Então eu não vi? Não senti em minha carne?
- Mas você está louca. Então, por que disse ao delegado que eu não tinha culpa de nada?
A irritação crescia nele, com a suspeita de estar sendo caçado, encurralado.
- Meu bem, calma, não se zangue. Eu sou uma pobre mulher. Coitada de mim. Com certeza está me julgando mal, supondo que eu quero me vingar. Juro que não é isto, Samuel. Já disse que perdoei.
- Perdoou o quê? A mim não tinha nada que perdoar.
- Samuel, como você é forte, meu filho. Que força vem de você, eu fico até tonta, não sei. Quando senti aquelas pontas de dente no dedo, aquela coisa fulminante, medonha, pensei que ia morrer. E sua cabeça cheirava tão bem, sua mão era tão macia, que horror. Por que você fez isso, Samuel? Queria me marcar?
Ele levantou-se, mas sem a suavidade de costume. De repelão.
Ela quis retê-lo, ergueu-se também, o braço estendido para segurá-lo. Com o movimento o casaco tombou. Então apareceu a manga vazia, flutuante, um pouco abaixo do cotovelo. Deolinda rompeu em soluços.
Ele ficou pasmo, sem palavras. A mulher não parava de soluçar, tapando o rosto com a carteira.
Samuel tinha vontade de ajoelhar-se, pedir-lhe pelo amor de Deus que não continuasse. Ou que fosse para o inferno. Ao mesmo tempo, tinha vontade de sair correndo, sem chapéu, pela noite afora. Queria olhar o braço...ausente e não tinha coragem. Os soluços o corpo pendido para a frente e sacudido pelos soluços. O paletozinho no chão. Num gesto maquinal, agachou- se e apanhou-o levando-o aos ombros de Deolinda. Um homem passou, com uma lata.
- Você não tinha contado ...
- Eu ia Contar.
Agora parecia mais aliviada, não fora preciso revelar a verdade em palavras.
- Mas como foi que ... ?
- Infeccção. Não foi culpa do médico que fez os primeiros curativos. Já estava cicatrizando, quando esbarrei num jarro. Começou a sangrar de novo inflamou ( ela não dizia o que é que sangrara nem inflamara).Tive que me internar numa casa de saúde, e então foi preciso amputar.
Dissera tudo, finalmente. Uma espécie de sorriso tênue e desapontado, mas em todo caso orgulhoso, fazia-a levantar o rosto encarar SamueI.
- Agora que estou marcada para sempre, você sente horror de mim?
Samuel fez um esforço para dizer tudo que precisava, depressa:
- Escute, Deolinda. Você está completamente enganada O que se passou naquela tarde de fato foi uma coisa horrorosa . E isso que aconteceu depois foi pior ainda. Mas como você podia pensar um minuto apenas que eu...? É absurdo, veja bem. Seria preciso que eu fosse um indivíduo anormal, um desses casos de cinema, de romance. Eu admito que no momento a dor não lhe permitisse ver bem. Mas depois que tudo passou, diga, neste momento, agora, você acredita mesmo que eu ... ?
- Acredito (sua voz era indecisa, a certeza se diluía em angústia).
Depois, quase decepcionada: - Mas então você jura que ... ?
-Juro. Por minha mãe. Juro por Deus.
Ficaram algum tempo calados. Ela, de cabeça baixa: - Vamos andando.
Os dois seguiram, constrangidos. Deixaram o jardim, seguindo pela Cinelândia.
- Quer tomar alguma coisa.? - perguntou Samuel, por perguntar.
- Quero ... Naquela confeitaria, sabe?
- Está bem (secamente).
A pé, no calor, ele ia imaginando como acabaria aquilo, e aborrecia-se. Antes tivesse ficado em São Paulo, mergulhado nos negócios. As luzes da praça clareavam o corpo de Deolinda, ainda esbelto, o rosto puro, um pouco afilado, pálido.
A idéia de que viera de São Paulo para passear à noite, na Cinelândia, com uma mulher sem braço, doeu-lhe como um tapa.
A confeitaria tinha a mesma decoração art nouveau de seus tempos heróicos. Estava deserta. O tempo cristalizara-se nas mesinhas retorcidas, nos espelhos. Garçons bocejavam no fundo. Seriam os mesmos?
"Se pedir um sorvete de caju, enforco-a", pensou Samuel. Porém ela pediu gim-tônica, ele acompanhou-a.
Estavam na terceira dose, ela ria muito, ele recuperara a calma.
Contava-lhe histórias de São Paulo, fins de semana em Santos, bastante divertidos, e um caso meio confuso no qual entravam o Conde Matarazzo, um papagaio cearense e duas datilógrafas. Ela ria alto, e a rodela de limão afundava-se no copo. No quarto copo. No quinto. Samuel era forte, com ele o gim não podia.
- Meu bem, você é um número. Tão engraçadinho que ele é. Por que sumiu esse tempo todo, hem, levado? Ai, meu Deus, ele me mata de tanto rir. Chega, Samuel, assim é demais ...
Teve um soluço seco.
- Samuelito de mi corazón, soy tu esclava. Bésame! Bésame! Falava tão alto que Samuel, sem participar da excitação, sentiu a conveniência de tirá-la dali. Levou-a docemente para a rua, Deolinda entrou, rindo, no táxi, e desabou a cabeça no peito de Samuel. Assim como estava, o braço esquerdo enlaçado no pescoço do amigo, a coisa incompleta se oferecia ao olhar.
Samuel ficou tão perturbado que resolveu beber mais. Peregrinaram pelos bares de Copacabana, misturando uísque, vermute, cointreau, conhaque. Ele era de ferro. Deolinda ria e chorava. - Meu benzinho, monstro, tipo ordinário, meu coração ... Como acabaria aquilo? Sarpuel tinha a impressão de que venceria o perigo pelo álcool. Mas também podia ser que o álcool despertasse nela outras reações perigosas. Ou lhe desmascarasse algum propósito oculto.
- Manda tocar para a Avenida Niemeyer. Samuel, meu bem, preciso de ar frio, de vento ...
O carro seguiu.
Na chispada, sua voz vinha num bafo enjoativo, de bebidas incoerentes. Mais soluços, e ameaça de vômito.
- Samuel, adeus, vou me atirar na Gruta da Imprensa! Fez o gesto de abrir a porta do carro, Samuel agarrou-a.
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Nossa amiga
NÃo é bastante alta para chegar ao botão da campainha.
O peixeiro presta-lhe esse serviço, tocando. Alguém abre. - Foi a garota que pediu para chamar ...
Quando não é algum transeunte austero, senador ou ministro do Supremo, que atende à sua requisição.
Com pouco, a solução já não lhe satisfaz. Descobre na porta, a seu alcance, a abertura forrada de metal e coberta por uma tampa móvel, de matéria idêntica: por ali entram as cartas. Os dedos sacodem a tampa, desencadeando o necessário e aflitivo rumor. Antes de abrir, perguntam de dentro:
- Quem está aí? É de paz ou de guerra? De fora respondem:
- É Luci Machado da Silva.Abre que eu quero entrar.
Ante a intimação peremptória, franqueia-se o recinto. Entra uma coisinha morena, despenteada, às vezes descalça, às vezes comendo pão com cocada, mas sempre séria, ar extremamente maduro das meninas de três anos.
À força de entrar, sair, tornar a entrar minutos depois, tornar a sair, lanchar, dormir na primeira poltrona, praticar pequenos atos domésticos, dissolveu a noção de residência, se é que não a retificou para os dicionários do futuro.
-Qual é a sua casa? -Esta.
- E a outra de onde você veio?
-Também.
- Quantas casas você tem?
- Esta e aquela.
- De qual você gosta mais?
- Que é que você vai me dar?
-Nada.
- Gosto da outra.
- Tem aqui esta pessegada, esta bananinha ...
- Gosto desta casa! Gosto de você!
Não é gulodice nem interesse mesquinho. Será antes prazer de sentir-se cortejada, mimada. Esquece a merenda para ficar na sala, de mão na boca, olhando os pés estendidos, enquanto alguém lhe acarinha os cabelos.
Nem tudo são flores, no espaço entre as duas residências. Há Catarina e Pepino.
Catarina foi inventada à pressa, para frustrar certa depredação iminente. Os bichos de cristal na mesinha da sala de estar tentavam a mão viageira. Pressentia-se o momento em que as formas alongadas e frágeis se desfariam. Na parede, esquecida, preta, pousara uma bruxa.
- Não mexa nos bichinhos. Mexia.
- Não mexa, já disse ... Em vão.
- Você está vendo aquela bruxa ali? É Catarina.
- Que Catarina?
- Uma menina de sua idade, igualzinha a você, talvez até mais bonita. Muito mexedeira, mas tanto, tanto! Um dia foi brincar com o cachorrinho de vidro, a mãe não queria que ela brincasse. Catarina teimou, mexeu e quebrou o cachorrinho. Então, de castigo, Catarina virou aquela bruxinha preta, horrorosa. Para o resto da vida.
A mão imobiliza-se. A bruxa está presa tanto na parede como nos olhos fixos, grandes, pensativos. Entre os mitos do mundo (entre os seres reais?), existe mais um, alado, crepuscular, rebelde e decaído.
Pepino tem existência mais positiva. Circula na rua - a rua e o espaço entre as duas quadras, repleto de surpresas _ geralmente à tarde. Vem bêbado, curvado, expondo em frases incoerentes seus problemas Íntimos. Pegador de crianças.
- Vou embora para minha casa. Você vai me levar.
- Mas você mora tão pertinho ...
-E Pepino?
- Pepino não pega ninguém. Ele é camarada.
- Pega, sim. Eu sei.
- Pois eu vou dar uma festa para as crianças desta rua e convido Pepino. Você vai ver se ele pega.
- Eu não vou na festa.
-. Você é quem perde. vem Elsinha, Nesinha, Heloísa, Alice, Maria Helena, Lourdes, Barbara, Edison, Careca, João e Adão. Pepino vai dançar para as crianças. Você, como é uma boba, não toma parte.
-Até logo!
Sai voando, a porta fecha-se com estrondo. Da varanda, ainda se vê o pequeno vulto desgrenhado.
- Espere aí, você não tem medo do Pepino?
- Não
- Estou zangada com você.
Com a zanga, desaparece o temor. Seria realmente temor?
Gosta de ser acompanhada, para dizer à mãe, quando chega em casa:
- Espia quem me trouxe
Volta meia hora depois, penteada, calçada, vestido limpo.
- Espia minha roupa nova. Meu sapato branco.
- Mas que beleza! Onde você vai?
- Vou na festa.
Para tomar banho e trocar de vestido, é necessário que se anuncie sempre uma festa, jamais localizada ou realizada, mas que opera interiormente- sua fascinação. Não há pressa em ir para ela. A merenda, a conversa grave com pessoas grandes, estranhamente preferidas a quaisquer outras, o brinquedo personalíssimo com o primeiro encontro do dia - um carretel, a galinha que salta do carrinho de feira - fazem esquecer a festa, se não a constituem. E resta saber se o enganado não será o adulto, que sugere terrores ou recompensas fantasiosas. Nas campinas da imaginação, esse galope de formas - será a verdade?
Senta-se no corredor, e com uns panos velhos, lápis vermelho, pedrinha, qualquer elemento poetizável, representa para si só a imemorial história das mães.
- Comadre, seu filhinho como vai?
- Tá bom, comadre, e o seu?
- Tá com dedo machucado e dodói na barriga. Vai tomar injeção.
- Então vou dar no meu também.
Perguntas e respostas, recolhidas em conversas de adulto, saem da mesma boca inexperiente. O objeto que serve de filho é embalado com seriedade. A doença existe, existem os sustos maternais. Mas tudo se desfaz, se acaso um intruso vem surpreender a criação, tirada em partes iguais da vida e do sonho, e que os prolonga. Assim pudesse a mãe antiga tornar invisível seu filho, ante os soldados de Herodes.

Miguel e seu furto

SABE-SE que nascemos proporcionados às nossas ações, e estas, quando deflagram, encontram sua medida em nosso ser. Em outras palavras, tudo dizia que Miguel nascera- fadado a grandes experimentos. Seu porte era varonil, seu rosto radioso, e toda a sua pessoa destilava confiança em si mesmo, e tranqüila identificação com o mundo.
A força das aptidões, Miguel não desenvolveu nenhuma, e a família verificou, certo dia, que ele nem aprendera oficio nem se incorporara profissão liberal nem descobrira qualquer técnica moderna de granjear sustento. A verificação não eliminou o pasmo deslumbrado que a pessoa de Miguel suscita à primeira vista; pode ser que o tenha acrescido. Miguel era Miguel: tamanho feixe de atributos dispensava exteriorização.
Sendo a admiração sentimento extenuante, os mais exaltados apologistas de Miguel foram pouco a pouco reduzindo o reconhecimento de seus talentos a uma consideração abstrata, que não carecia ser proclamada, e que, de resto, ninguém se lembrava de excogitar. E foi quando esses talentos luziram mais. Sem aplicação, sem proclamação, reduzidos a pura essência, ao mesmo tempo evidentes e invisíveis, os dotes de Miguel esparziam-se em desvanecimento sobre sua família, seu bairro, sua cidade e sua pátria.
Vivia dos favores de um tio enriquecido no contrabando, de um irmão jogador e, de um modo geral, da simpatia coletiva. Sucede que circunstâncias especiais interromperam as atividades lucrativas dos parentes, e o dom da simpatia humana murchou um pouco pelo mundo. Miguel viu-se sozinho, às duas horas da tarde, diante de um navio ancorado em frente à Praça Mauá,
sem dinheiro e sem programa. Não tinha almoçado, e era duvidoso que jantasse. Atingira aquele ponto em que as pessoas nervosas costumam pensar em suicídio.
Nos jornais estendi sobre a calçada, Miguel, passeando olhos vazios, inteirou-se das manchetes:
Por meio de vales, o caixa e o contador de uma companhia de aviação deram sumiço a vinte e cinco milhões de cruzeiros da empresa. Decretada a falência de um banco, estando o diretor desaparecido. Três fazendeiros recém-chegados ao Rio foram vítimas, respectivamente, do conto do bilhete premiado, do conto da televisão e do conto da francesa. No Norte, um sacristão carregou com as alfaias e com o dinheiro do templo. Apareceram libras falsas no mercado. Medicamentos falsificados. Generais do exército armênio envolvidos num caso de suborno. O netinho narcotizou a avó para roubá-la e comprar uma bicicleta americana. Desapareceu a estátua de Vênus, do Museu de Curitiba. O piano de cauda foi furtado no último andar do edifício, com auxílio de guindaste. E uma lancha da Polícia Marítima, das mais velozes, o mimo da repartição, estava sumida havia já um ano ... só tinham reparado agora.
Miguel fixou os olhos, tornou a ler: sim senhor, até a lancha, hem? E com sorriso veio-lhe a idéia. Idéia desprovida de valor moral, antes criminosa, mas que revelava subitamente toda a originalidade daquele espírito excepcionalmente bem-dotado.
Entre tantos furtos do ar, da terra e da água, Miguel percebeu que um não fora ainda tentado, e este bastaria para torná-lo, poderoso, grande. Aqui se evidencia a adequação de Miguel ao seu projeto, e a deste a Miguel.
Qual o projeto de Miguel?
Apropriar-se de algo considerável, imenso, esmagador, que por sua própria extensão fosse insuscetível de ser escondido, embora não de ser capturado. Alguma coisa absolutamente indispensável a vida humana, e cuja posse garantisse a seu titular o recebimento de devidos e pesados tributos.
Falando claro, Miguel resolveu chamar a si, não uma lancha apenas, ou todas as lanchas e embarcações, senão o próprio mar onde elas navegam. Deliberou o furto do mar, com suas costas, ilhas, barcos, faróis, bóias, algas, gaivotas, peixes, cetáceos, cascos afundados, carcaças, material miúdo e telégrafo submarino: E se assim o pensou, assim o fez, com a presteza que a idéia exigia. ( Idéia são fluídos, e Miguel poderia perder a sua em proveito de qualquer cidadão receptivo.)
Aproximou-se do cais, alongou a vista, com ar solerte e apropriativo e, estabelecendo mentalmente a raia do vasto objeto que dali se descortinava, furtou-o.
Furtar .é ato mental, como qualquer outro, em que a deliberação ou intenção prevalece sobre as medidas complementares de execução. O tesoureiro que furta de uma estrada de ferro não leva para casa trilhos e locomotivas, mas só uma sutileza socrática ou um materialismo rombudo, que afinal se equiparam, poderão sustentar que tais objetos não tenham sido furtados na essência, porque o não foram na aparência.
Esta distinção, de resto, ofereceu-se sem tardança ao espírito de Miguel, que cuidou de assegurar a receptação para o volumoso produto de seu furto. Neste sentido conversou alguns amigos mais íntimos, a quem pôs na confidência do fato, não logrando, contudo a solução desejada. Tecnicamente, ainda não era possível guardar o mar fora de seu leito; os armazéns da terra eram exíguos, embora os alargasse a imaginação de seus donos. Alguns cientistas pesquisavam o modo de reduzir uma quantidade astronômica a simples proporção da unha; mero sonho, até então. Miguel pensou em microfilmar o mar, podendo assim carregá-lo consigo, em rolo diminuto. Não era a mesma coisa.
(Os que repararam no pormenor de que Miguel, às quatorze horas, estava ainda sem almoço, estranharão que ele fosse cuidar desses problemas de organização sem antes forrar o estômago. Não se preocupem. Miguel sabia defender-se, e a partir do momento em que furtou o mar, não lhe faltaram utilidades.)
O mar continuou, pois, no mesmo lugar de sempre, se bem que furtado. Da consumação do furto, não restava a menor dúvida. Os jornais registraram como convinha. Nos vespertinos, o golpe de Miguel apareceu devidamente colorido com os excessos de imaginação da reportagem, porém os matutinos foram mais objetivos, e o jornal do Comércio apenas lhe dedicou quatro linhas nas "Ocorrências Policiais". Era um furto a mais, depois de tantos outros, teria pensado o velho órgão, que já os anotara aos milhões, em sua carreira centenária. (Escapou-lhe o caráter inédito da operação, seu modernismo insólito.) As autoridades policiais naturalmente tomaram conhecimento do ato de Miguel, e quem poderia escusar-se a tomá-lo?
Com efeito, sua primeira providência, uma vez assentado que o mar não deixaria seus cômodos, foi aumentar de vinte e cinco por cento as tarifas aduaneiras - em beneficio, explicou ele, das obras de remodelação do mar, que se tornavam indispensáveis, dado o uso milenar desse veículo de comunicação. Miguel prometeu novos peixes e novas pérolas aos pescadores, e às mulheres de suas relações, dele, estas em número avultadíssimo. Miguel deu trabalho a inúmeros operários, nas obras de remodelação. Enquanto as obras não tinham início, trabalhariam na estiva. E alegres e seminus, sob o sol e o peso, abençoavam Miguel, que lhes pagava um salário radioso: seu sorriso.
A fortuna pessoal de Miguel cobriu a fortuna da nação e do continente nunca mais que Miguel teve tempo para contar sua riqueza. Então passou a queimá-la cada semestre, a fim de não acumular multo. Mas a riqueza brota do fogo, da chuva, do asfalto, da neblina, de si mesma. Miguel era terrivelmente rico, em sua riqueza vinda do mar, e maior do que este.
Alguns pequeninos aborrecimentos não conseguiam turvar o cristal de sua beatitude. Miguel proibira as excursões de lanchas e iates de recreio, por amor à moralidade, que devia ser absoluta no mar. Surgiram reclamações, a que ele não se dignou a atender; em questões de decência era implacável. Abriu só uma exceçãozimha para casais de respeito, que se dispusessem a pagar a taxa secreta de moralidade marítima.
O banho de mar é que foi uma pena ... Nas manhãs estivais, em que a arrebentação tentava os afoitos, e as angras calmas, Junto aos posto de salvamento, pareciam chamar crianças e moças, tornou-se Impossível cair n'água, mesmo de calções compridos, mesmo de calça e paletó. Quando não era imoral, era perigoso, e Miguel velava pela existência de cada um.
Se alguém aludia vagamente à possibilidade de sair um domingo em pescaria, para espairecer - "seria bom, sair pelo mar ... , não faltava quem advertisse.
- Psiu! Foi furtado ...
E a algum viajante nato, à maneira clássica, em transe de exclamar' "Que bom viajar!" O ouvinte retrucava, prudente:
- E, mas só de avião ou por terra ...
Adeus, amanhecer no caíque, entre as ondas rítmicas! Adeus, poesia do largo! Reduziu-se o turismo, e os mentirosos passaram a contar menos histórias de tempestade na Marambaia.
Alguns bacharéis meio arreliados bateram às portas da justiça, e foi uma sucessão enfadonha de pleitos e conflitos de jurisdição e competência, acabando os juízes por averiguar que a_ espécie era totalmente inédita, fugia a todas as classificações do direito penal e do direito marítimo: era a primeira vez que se furtava o mar.
Aí começou o grande movimento nacional pela reforma da Constituição, para se introduzir nela um dispositivo que impedisse ou punisse com pena de morte o furto do mar, do céu, da atmosfera ou de qualquer estrela. Movimento que empolgou os espíritos e teve repercussão internacional. Em vão. Porque ~ princípio, se adotado, não podia ter efeito retroativo, conforme é da tradição liberal do nosso direito. A pena de morte, repugnando a nossa sensibilidade, jamais seria aplicada. E logo em Miguel, um cara tão simpático!
Porque Miguel permanecia indelevelmente sim ático, ao contrário das personagens de romance, que se vão tornando fisicamente sinistras à medida que nelas lavra a corrupção moral. Os próprios adversários reconheciam isto, e pediam-lhe desculpas ao tentarem sublevar as massas contra seu poderio econômico As massas, por sua vez, andavam extremamente preocupadas com a solução do conflito na China e a consolidação da democracia popular nos Bálcãs, de sorte que não tomaram conhecimento. "Queremos pão para a Grécia", bramiam as massas, pela voz de seus representantes.
Bem-aventurado Miguel, que praticaste um grande feito, e com ele deste a medida de tua personalidade. Teu reino seria eterno, se ...
Acontece que, infringindo todas as proibições miguelinas e todas as recomendações domésticas, passando por cima do conflito nos tribunais e da indagação nas casas do parlamento, um garoto de sete anos, morador em Ramos, fugiu certa manhã de casa, correu à praia próxima, e, despindo-se, atirou-se triunfalmente ao mar deserto e verde. Foi um reboliço. Um caminhão, que passava na rua, estacou. O motorista desceu e veio admirar, assombrado, aquele menino. Outros meninos se juntaram. E mulheres. E basbaques. E jornalistas. O garoto regalava-se ao banho imenso, que todo o mar lhe ofertava. E Miguel, paralisado num ponto qualquer da cidade, Miguel inoperante, impotente, nada podia fazer, nem impedir aquele menino de tomar banho no mar, nem ao mar de dar banho àquele menino, em mil flores de espuma, e contas de aljôfar, e nácar, e cintilações, e sereias, e cantos matutinos que vinham na luz, nas ondas, na revoada de pássaros.
Então outro menino criando também coragem, botou o dedão n'água, e outro menino também e depois outro e mais outro. Raparigas em flor, mulheres maduras, senhoras idosas que careciam de banhos medicinais de iodo acompanharam-nos. E um rapaz atlético empurrou o seu barco e lá se foi a arar as terras verdes do mar. E outro apareceu com seu batelão. E cada um providenciava uma vela, uma catraia, uma canoa, uma jangada, uma vigilenga, uma geringonça, que eram logo atiradas à flutuação. E armadores de navio deliberaram ali mesmo não pagar mais tributo algum a Miguel, e só à velha e abandonada alfândega. E recomeçou a alegria no litoral e sobre as águas. O mar estava livre. Vieram as autoridades e lavraram a recuperação.
Miguel inteirou-se de tudo, calma e decorosamente que era mais um de seus atributos depois de rico, ele que os possuía tantos. Ninguém cogitou prendê-lo, e como? E por quê? De alegria todos se davam as mãos, confraternizando. Miguel não se confessou derrotado. E não fora derrotado mesmo. Depositou em bancos sólidos boa parte de sua fortuna, e passou a dedicar-se à coleção de conchinhas, lembrança discreta e nostálgica de sua propriedade oceânica.
As conchinhas da praia, que apresentam
a cor das nuvens, quando nasce o dia.


Conversa do velho com criança
QUANDO O bonde ia pôr-se em movimento, o senhor idoso subiu, com a criança. Não havia lugar para os dois, e mesmo a menina só pôde acomodar-se em meu banco porque uma senhora magra aí consumia pouco espaço. A garota sentou-se a meu lado, o velho dependurou-se no estribo. O bonde seguiu.
Notei que a menina levava um pacote de balas, e que com o velho iam vários embrulhos; entre eles um guarda-chuva. Não sabendo que fazer dos acessórios, e desistindo de ordená-los, o velho resignou-se ao mínimo de desconforto na viagem. Tinha os movimentos tolhidos, e o condutor aproximava-se, a mão tilintando níqueis. Era de prever a dificuldade da operação a que se via obrigado: libertar dois dedos da mão direita, enfiá-los no bolso do colete, e extrair desse secreto lugar as moedas devidas.
Na linha em que viajávamos, a posição do pingente oferece perigo. O bonde segue paralelo e rente ao passeio, e os postes, no momento preciso em que passa o bonde, deslocam-se imperceptivelmente para mais perto dele. O deslocamento de alguns milímetros é, às vezes, mortal. Todos os que viajam de pé sabem disso. Os que morrem têm tempo de verificar o fenômeno, porém não de evitá-lo.
Imaginei que o velho se arriscava a morrer dessa maneira, e, na desordem de seus movimentos, havia base para a suposição. A vida, entretanto, vigiava-o com interesse, e o mais que aconteceu foi a moeda cair na rua, depois de penosamente sacada do bolso. Era de dez tostões, havia troco.
Como a linha, pouco adiante, deixasse de ser dupla, o bonde tinha de parar, à espera de outro que vinha. O condutor aproveitou o momento para pesquisar a pratinha entre os trilhos. Voltou instantes depois, sem ela.
- Não precisa; assim o prejuízo seria maior - explicou ao velho, que se dispunha, desta vez com facilidade, mas sem prazer, a tirar outra moeda. - O senhor não paga nada.
O velho agradeceu vagamente: sem dúvida, não precisava disso. A certeza de que não pagaria duas vezes e perderia apenas os níqueis do troco restituiu-lhe a serenidade e a compostura próprias dos caracteres firmes. Cabia-lhe não recusar nem aceitar: atitude ambígua, vazada naquele agradecimento impreciso, meio cortês, meio seco. O bonde seguiu.
Já então o velho estabelecera um modus vivendi com o veículo. Colocou o guarda-chuva no ferro do estribo, onde ele ficou balouçando de leve; dispôs os embrulhos sobre o braço esquerdo, e arrimou este junto ao peito; quanto à mão direita, assumiu automaticamente sua função preponderante; empunhou, com força, o balaústre e ficou responsável pela vida e segurança do homem.
O homem tinha 60,70 anos. No rosto vermelho, sulcado de rugas, o bigode branco era ralo e não parecia objeto de cuidados especiais. Os olhos eram a parte realmente sofredora do rosto, e neles se concentrava toda a expressão da fisionomia. As rugas entrecruzavam-se sabiamente em redor das pálpebras cansadas, e os olhos tristes, de uma tristeza particular e sem comunicação com o conjunto humano a que devia pertencer, abriam-se na paisagem de ruínas. São comuns as criaturas em que um só pequenino ponto parece existir realmente; as outras partes mergulham na sombra, nem são percebidas.
No corpo de mais de meio século, as vestes eram modestas e denunciavam o pequeno proprietário de subúrbio (talvez antigo funcionário público?). A casimira de cor neutra era talhada com fartura no paletó, com exigüidade nas calças. Gravata preta laço mais desajeitado que displicente. Um relógio - de ( para dar imagem do tempo - devia bater dentro do colete onde escorria uma gôndola grossa. O chapéu também era p de um preto que a sorrateira infiltração do pó tornava 1 doce, e falava dessas casas onde todas as pessoas são velhas resignam à poeira, não a expulsando mais dos móveis nem chapéus, porque não vale a pena.
- Ferreira, você quer uma bola?
Só então voltei a reparar na menina, que se sentara no n banco e era miudinha, morena. Sentara-se na ponta do banco corpo do velho e seus embrulhos protegiam-na, a ponto anulá-la. Mas a presença infantil ressurgia na voz, que era lépida e desejosa.
- Quero, sim. Me dê uma aí.
- Eu também quero uma. Abre pra mim, Ferreira.
O velho desprendeu a mão do estribo - sua vida ficou balouçando, como o guarda-chuva -, e, com o equilíbrio assegurado, desatou o embrulho de balas. A menina serviu-se primeiro. O oferecimento fora um ardil para que Ferreira consentisse na abertura do pacote. É possível que Ferreira houvesse compreendido, mas o certo é que chupou sua bala com uma simplicidade que excluía a menor suspeita de reflexão.
Avô e neta? Ou, simplesmente, amigo e amiga? O fato é que eram íntimos.
Enquanto chupava a bala, não carecia a menina de outra diversão, e deixou de pensar em Ferreira. As mãozinhas seguravam com firmeza o embrulho precioso. O bonde, para uma criança daquele tamanho, devia ser alguma coisa de monstruoso, incompreensível. Ou era apenas eu que não compreendia a maneira como a criança tomava conhecimento do bonde? Surpreendi- me a interrogá-la (e Deus sabe como me é difícil dirigir a palavra a um desconhecido, de qualquer idade, em qualquer situação):
- Me diga uma coisa, como e que você se c ama.
- Maria de Lourdes Guimarães Almeida Xavier.
A vivacidade indicava um largo treino. Havia também o gosto do nome comprido como trem de ferro, tão mais interessante do que Maria somente, ou Lourdinha.
Disse e sorriu para mim, com a bala dançando na língua.
- O nome é maior do que a pessoa - observei, bestamente.
Não fez caso.
- É. O nome é grande - repetiu o velho, com essa condescendência mole com que se gratifica o vizinho de bonde, e não envolve compromisso de relações.
_ Você tem quatro anos, aposto.
- Não, tenho cinco.
- E está no jardim-de-infância.
-Jardim de quê? Ah! (muxoxo) Estou não.
Evidentemente, eu não saberia interessá-la. Ondulou sobre nós, por instantes, um leve constrangimento. Quando encontrarás, Carlos, a chave de outra criatura? Ferreira continuava no estribo, sem ligar. A vida dele estava salva, os postes haviam recuado um metro.
O silêncio deu tempo a Maria de Lourdes para dizer esta frase estranha:
- Ferreira, você é o saci-pererê.
Ao que Ferreira respondeu, com tranqüilidade: _ É você. Você é que é o sacio
Por que o saci aparecera de súbito entre os dois? Certamente ele freqüentava a conversa de ambos. A imagem invocada fez rir Maria de Lourdes, que apontou o dedo para Ferreira e insistiu:
- É você! É você!
Ferreira sorriu o bastante para significar a Maria de Lourdes que não se importava em ser saci-pererê, mas também não queria ver sua identidade conhecida do grosso público. E depois, mais baixo, em tom confidencial:
- Ferreira perdeu o dinheiro do bonde. Você viu?
- Não. Onde você perdeu?
- Caiu da mão. Foi ali atrás, na curva. Era uma pratinha amarela. -Achou?
- Não - terminou Ferreira distraidamente. (Estava pensando em outra coisa.) Os dois calaram-se.
Seriam amigos? Os sobrenomes não coincidiam.
Eu preferia que fossem amigos, exclusivamente, e que nenhum vínculo de sangue forçasse aquela intimidade abandonada. A ausência de respeito era argumento contra o parentesco e favor da amizade. Mas os pais de hoje prescindem do respeito em beneficio da camaradagem. Os avós devem ter-se modernizado também. Seria Ferreira um avô moderno? De qualquer modo, a camaradagem consentida é menos estimável que a espontânea, de temperamentos que se ajustam. E imaginei Ferreira vizinho de Maria de Lourdes, afeiçoando-se à pequena, subornando-lhe o coração à custa de carinhos diários, roubando-a, enfim, para si. Amiga Maria de Lourdes, amigo Ferreira; os cinqüenta e cinco anos de diferença faziam o entendimento mais perfeito, já que pessoas da mesma idade dificilmente se entendem.
- Ferreira ... Chega aqui.
Ferreira inclinou-se, pôs a velha orelha, coberta de pêlos, junto à boca lambuzada. A menina, vermelha, baixou os olhos com infinito pudor. Num sussurro, o segredo grave passou de boca a orelham introduziu em Ferreira, ocupou-o inteiro. Ele disse apenas: " ah!..." Depois retirou do estribo o guarda-chuva e alçou-o à altura do cordão. O bonde parou. Ferreira, Maria de Lourdes, guarda-chuva e embrulhos desceram pausadamente, atravessaram a rua, entraram pela primeira porta aberta.
Meu pai dizia que os amigos são para as ocasiões.

EXTRAORDINÁRIA CONVERSA COM UMA SENHORA DE MINHAS RELAÇÕES

O ônibus repleto não convidava a entrar, mas urgia o tempo, que, aliás, não existe, e, daí, quase nunca o prazer se combina com a necessidade: animei-me pois a subir, sabe Deus para que penosas macerações.
O corredor exíguo fora, pelo planejamento, destinado à circulação, Exigências sociais converteram-no em veículo à parte, de capacidade maior que a ao outro, onde teoricamente há poltronas,ocupadas desde o começo dos séculos por seres privilegiados. Ali pois me plantei agarrado a uma argola, símbolo da modernaa escravidão urbana e deixei que as rodas rodassem.
Há um secreto rancor circulando entre o coração do homem que viaja em pé e o coração do que viaja sentado, e trazendo de volta para aquele um fluxo de indiferença e desdém. Assim é o homem: seu comportamento moral varia com a posição do corpo, e sentarmo-nos é, algumas vezes, oportunidade de cambiar de maus sentimentos.
Contudo, abrimos exceção para as pessoas de nossas relações, já aboletadas quando subimos, e que a polidez e outros freios nos inibem de expulsar dos encostos de onde nos sorriem.
Não me restava outra conduta senão a de sorrir também para a encantadora senhora que eu, de costas para o motorista, acabava de vislumbrar instalada na poltrona a poucos centímetros do meu cômodo mental. Embora não a reconhecesse. O sorriso é hoje dádiva tão excepcional que só o concebemos dirigido a pessoas muito de nossa estima. Sorrir para alguém que não conhecemos ou que é simplesmente nosso conhecido, significa uma sensibilidade de época remota, que cumpre pôr sob caução.
Não se desperdiçam sorrisos.
Sorria-me a encanta ora senhora, e, se a princípio não logrei identificá-la, ocorreu-me que seria pela posição do rosto, que eu via do alto para baixo, numa versão onde a cabeça assumiria demasiada saliência, e me era vedada a linha do queixo. Os rostos que conhecemos são a síntese de vários flagrantes sucessivos e superpostos, máscaras, perfis e ângulos não raro divergentes, mas que a convivência elabora num todo compatível. A mim me faltaria talvez o ângulo, quase vertical, em piquê, a desvendar-me agora o aspecto ainda incoerente, porque inassimilado, de uma fisionomia porventura já bastante revelada antes nas muitas seções do plano horizontal.
Era uma esplêndida senhora, como O atestavam a regularidade e a neve dos dentes, a úmida fita sangüínea dos lábios, e todo o partido que sabia tirar da capacidade de sorrir, entre gloriosa e discreta. Mas, como se chamaria?
O que não lograra decifrar a frágil memória visual, captou-o a memória auditiva, diante do "bom-dia" em que se dissolvera aquele sorriso. Voz que me era familiar, e que logo me colocava diante de uma gentil senhora de trato cerimonioso, mas cordial, a quem eram devidas todas as homenagens.
A vida, solicitando-nos a novos hábitos, impõe-nos igualmente nova técnica de cortesia, e há que ser gentil para com uma dama sentada, quando o nosso equilíbrio depende da fidelidade a uma argola suspensa no teto de um veículo em movimento célere. A calça num cabide solto no espaço teria o direito de ondular ao sabor da viração, como num quadro de Salvador Dali; mas o homem em condições similares deve manter compostura e mostrar-se afável e atento a uma senhora estabelecida em sua poltrona.
Eu ia resolver praticamente este pequeno problema de estática e de boas maneiras, quando a vista se me turbou e com uma fulguração radiosa, me acudiram os versos de Mallarmé:
Quelle soie aux baumes de temps
Ou la Chimerè s'exténue
Váut la torse et native nue
Que, hors de ton miroir, tu tends!

E não havia nada de estranho nesse alumbramento poético pois ele correspondia apenas a outro, carnal, que se oferecia a meus olhos naquele oprimido canto de ônibus em que rolávamos para a cidade. Minha distinta amiga usava um desses vestidos que, satisfazendo as obrigações mínimas da indumentária nos convocam ainda, a nós espectadores, a digressões de ordem estética possivelmente não isentas de sensualidade mas atingindo, em ondas mais espraiadas, o próprio mistério das coisas.
Estávamos pois ali, eu e aquela estimável senhora, a caminho de nossos respectivos destinos, que não deixariam jamais de ser paralelos, mas subitamente acumpliciados no cerne de um fenômeno artístico da maior transcendência, qual seja o da exposição e o da contemplação da beleza, tornado quase doloroso pela agravante de uma circunstância: o momento indébito.
Sim, porque a beleza tem suas horas, exige preparação, impõe um rito, e nada havia ali no cotidiano daquele ônibus que me prevenisse da Irrupção da beleza, e ainda mais, da beleza recôndita, porque era desta modalidade que se tratava e essa é a que via de regra, mais pasmo nos provoca,
Não serei indiscreto assinalando algo que logo se percebe. A beleza a que me refiro não se concentrava no rosto magnífico da senhora, embora nele tivesse origem; elegia caminhos de sua própria invenção, e perdia-se num mundo de idealidades e enigmas metafísicos, que o espetáculo de certas partes naturais, longe de afugentar, convoca, tão íntimos são os laços da perfeição, e tanto é esta abstrata como concreta, se a entendermos bem, em
seus arcanos.
Um simples vestido - ai, demasiado simples! – na dupla função de recolher e desvendar, pode ser ponto de partida de uma meditação infindável e celeste, para a qual não me sentia habilitado em circunstâncias tão mesquinhas, tanto mais quanto qualquer olhar de mais aguda prospecção, que me sentisse inclinado a emitir, podia muito bem ser tomado como impertinente pela digna senhora que ali estava, dona de todo o meu sincero respeito.
Descreve-nos o vestido - pedireis.
Faltam-me os dados técnicos desejáveis, mas afirmarei que não era desses onde uma alça em torno do pescoço se diria sustentar o equilíbrio das esferas, para usarmos de linguagem cosmológica, e no qual o panorama das espáduas é como o amplo cenário vazio, róseo e dourado na expectativa dos objetos e figuras com que o pintor o povoará, cenário onde apenas se desenvolve a presença da luz, iridescendo vaga penugem. De resto, na posição em que se achava, com as costas protegidas pela poltrona, de que préstimo artístico seriam as excelentes espáduas daquela senhora?
Não era também desses vestidos adolescentes em que a cabeça parece boiar como flor, a emergir da orla de tecido que, marginando todo o colo, prossegue. até os ombros - os ombros, cujo ápice está descoberto -, de sorte que os braços parecem destacar-se do conjunto, separados que ficam por uma fina e espumante linha artificial, e lá vão, os braços! viajores, autônomos, escultóricos e tépidos.
Era, em suma, um desses exemplares a que o homem da rua qualificou um dia de "presos sob palavra", pois aparentemente nada os retém, libertos que estão de mangas e alças, e no entanto como aderem à superfície carnuda sobre que pousaram! Vestidos são esses que começam (ou acabam) onde a dama quer, pois saliências e reentrâncias do corpo já não contam para o fim de armá-los. Se a interessada pretende prolongar o colo até onde lhe apraz, não há, a bem dizer, impossibilidade técnica para isso. (Sabe-se que leves armações de barbatana, e até mesmo coletes curtos de novo tipo os sustentam por dentro.) No caso vertente, acabava em bom lugar, justo no limite em que o humano olhar se arrisca à vertigem, e, com ela, se perde a alegria da casta fruição visual.
Sim, era o limite. Como, porém, haveria que disputar em torno do limite das coisas! Não há estatuto que o estabeleça, e com freqüência é uma simples reserva mental que no-lo impõe. Sorrindo, a elegante senhora dirigiu-me esta frase que não significa nada, nem mesmo pede resposta coerente:
- Como vai?
À qual não soube, ou não pude, responder. Eu ruminava o problema do limite, não menos delicado que o do sentido das coisas. Certo, há um limite que se não deve ultrapassar; mas, nesse caso, não seria mais prudente impedir a idéia de transpô-lo, com resguardar aquilo que melhor se defende pelo resguardo que pela mostra? Não - segredou em mim o moralista. Sem oportunidade não há responsabilidade. É preciso ver e não ver, sentir e não sentir, é preciso escolher, é preciso omitir. Só a mostra nos prova e nos avalia. E assim me prendia no círculo fechado dessas interrogações - sim, um círculo, doce linha sensível...
- Como vai? - repetiu, gentil, a companheira de viagem.
Então pronunciei estas palavras aparentemente fora de toda e qualquer conexão com o objeto da pergunta solícita:
O Courbes, méandre,
Secrets du menteur,
Est-il art plus tendre
Que cette lenteur?

A estimável senhora, que lera Paul Valéry, pegou-o no vôo: _ Está fazendo exercício de memória?
Ao que lhe retruquei:
_ Vou bem. E a senhora como vai?
A resposta meio alvar saíra atrasada, mas, de qualquer sorte, varara a penumbra de minhas lucubrações, e sempre era um começo de conversa, em que a saúde, o tempo, o cinema e os concertos no Municipal podem ir lentamente se aglomerando e constituindo base razoável para a travessia até a cidade.
Pareceu-me ouvi-la responder que não ia nada bem, porque um gatinho siamês de sua maior ternura, e um coquetel na embaixada da Bolívia e não sei que mais circunstâncias se haviam interpolado para torná-la muito preocupada; havia também na conversa um eletrocardiograma, de quem? Era meu dever perguntá-lo, mas estava eu, por minha vez, em condições de preocupar-me com as ondulações de um gráfico enigmático, que poderia mesmo ser, quem sabe, do coração de um gato?
O ônibus corria, o sorriso pairava ainda depois de desvanecido, e prosseguia a entrecortada meritação poética sobre curvas - o coletivo nos jogava ora para a direita ora para a esquerda - e o cristal dos versos se trincava entre hiato de molas rangentes.
A um solavanco mais forte, caíram-lhe ao chão a bolsa e as luvas. Inclinou-se, e também me inclinei para apanhá-las, sem maior risco, aliás, porque pequena era a área de manobra de que dIspunha. Mas ...
Dures grenades entr'ouvertes
Cédant à l'exces de vos graíns,
Je croís voír des fronts souveraíns
Éclatés de leurs découvertes!

Pensei ou disse a estrofe? Ficou entre a região mental e a palavra. Mas parecia evidente que as sugestões e antevisões que aquele momento me proporcionava iriam tomando o rumo da memória de poesia, em novas aplicações de versos antigos. Uma forma de arte pede outra, e todas se completam.
Seguia-se, na ordem natural de tais palestras, o comentário ao desconforto dos transportes urbanos, e alguma anedota breve, que não implicasse recordação de desastre, teria cabimento. Mas que na verdade que eu confesse: a acuidade lírica excluía toda aptidão para conversas de momento, e ela própria, a acuidade, mal podia perdurar em um transe que exigia de mim, ao mesmo tempo, equilíbrio físico, boa educação, vista discreta, capacidade de sublimação, alto controle emocional.
Já não me lembra mais o que me disse do bairro até o centro aquela fina, graciosa e respeitável senhora de minhas relações: nem o que lhe respondi; nem o que ficou pensando de mim (ter-me-á achado apenas idiota? Seria o juízo ideal, no caso). Mas confesso que esta me pareceu a conversa mais extraordinária de quantas, até o dia presente, hei tido com senhoras de minhas relações. Desculpai-me, se não a considerais sequer uma conversa.


Um escritor nasce e morre

Nasci numa tarde de julho, na pequena cidade onde havia uma cadeia, uma igreja e uma escola bem próximas umas das outras, e que se chamava Turmalinas. A cadeia era velha, descascada na parede dos fundos, Deus sabe como os presos lá dentro viviam e comiam, mas exercia sobre nós uma fascinação inelutável (era o lugar onde se fabricavam gaiolas, vassouras, flores de papel, bonecos de pau). A igreja também era velha, porém não tinha o mesmo prestígio. E a escola, nova de quatro ou cinco anos, era o lugar menos estimado de todos .... Foi aí que nasci: Nasci na sala do 3° ano, sendo professora D. Emerenciana Barbosa, que Deus tenha. Até então, era analfabeto e despretensioso. Lembro-me: nesse dia de julho, o sol que descia da serra era bravo e parado. A aula era de geografia, e a professora traçava no quadro-negro nomes de países distantes. As cidades vinham surgindo na ponte dos nomes, e Paris era uma torre ao lado de uma ponte e de um rio, a Inglaterra não se enxergava bem no nevoeiro, um esquimó, um condor surgiam misteriosamente, trazendo países inteiros. Então nasci. De repente nasci, isto é, senti necessidade de escrever. Nunca pensara no que podia sair do papel e do lápis, a não ser bonecos sem pescoço, com cinco riscos representando as mãos. Nesse momento, porém, minha mão avançou para a carteira à procura de um objeto, achou-o, apertou-o irresistivelmente, escreveu alguma coisa parecida com a narração de uma viagem de Turmalinas ao Pólo Norte.
É talvez a mais curta narração no gênero. Dez linhas, inclusive o naufrágio e a visita ao vulcão. Eu escrevia com o rosto ardendo e a mão veloz tropeçando sobre complicações ortográficas mas passava adiante. Isso durou talvez um quarto de hora, e valeu-me a interpelação de D. Emerenciana:
- Juquita, quê que você está fazendo? . . ... O rosto ficou mais quente, não respondi. Ela insistiu.
- Me dá esse papel aí ... Me dá aqui. .
Eu relutava, mas seus óculos eram imperiosos. sucumbindo, levantei-me, o braço duro segurando a ponta do papel, a c asse toda olhando, gozando já o espetáculo da humilhação. D. Emerenciana passou os óculos pelo papel e, com assombro para mim, declarou à classe:
- Vocês estão rindo do Juquita. Não façam isso. Ele fez uma descrição muito chique, mostrou que está aproveitando bem as aulas.
Uma pausa, e rematou: .
- Continue, Juquita. Você ainda será um grande escritor. .
A maioria, na sala, não avaliava o que fosse um grande escritor. Eu próprio não avaliava. Mas sabia que no Rio de Janeiro havia um homem pequenininho, de cabeça enorme, que fazia discursos muito compridos e era inteligentíssimo. Devia ser, e em meus nove anos achei com certeza, um grande escritor, e que a professora me comparava a Rui Barbosa.
A viagem ao Pólo foi cuidadosamente destacada do caderno onde se esboçara, e conduzida em triunfo para casa. Minha mãe, naturalmente inclinada à superestimação de meus talentos, Julgou-me predestinado. Meu pai, homem simples, de bom senso integral, abriu uma exceção para escutar os vagidos do escritorzinho. Ganhei uma ssinatura do Tico- Tico presente régio naqueles tempos e naquelas brenhas, e passei a escrever contos, dramas, romances, poesias e uma história da Guerra do Paraguai, abandonada no primeiro capítulo para alívio do Marechal Lopez.
II
ESCREVI. Escrevi. Deixei Turmalinas. No internato, fui redator da Aurora Ginasial, onde um padre introduziu criminosamente, em minha descrição da primavera, a expressão "tímidas cecéns", que me indignou. Cá fora, revistas literárias passaram a abrigar-me com assiduidade. Em uma delas meu retrato apareceu, com adjetivos. Não me pagavam nada, nem eu podia admitir que literatura se vendesse ou se comprasse. Quantas vezes meu coração bateu quando os dedos folheavam, trêmulos, o número de sábado, ainda cheirando a tinta de impressão! Publicou ... Não publicou ... E sempre a descoberta do meu trabalho, ainda em plena rua, despertava a sensação incômoda do homem que foi encontrado nu e não teve tempo de cobrir as partes pudendas. Eu escondia meu crime, orgulhoso de tê-lo cometido, fazendo da literatura um segredo de masturbação. Havia semanas em que o Fon-Fon, o Para Todos ... , a Careta e a Revista da Semana publicavam simultaneamente trabalhos de minha humilde lavra, todos ou quase todos poemas em prosa, em que me especializara. Nem sempre havia numerário suficiente para adquirir todas as revistas, e então o copo de leite quente, com pão e manteiga, à noite, antes de ir para a pensão, sacrificava-se com galanteria às belas-letras.
Escrevi muito, não me pejo de confessá-lo. Em Turmalinas, gozei de evidente notoriedade, a que faltou, entretanto, para duração, certo trabalho de jardinagem. É verdade que Turmalinas me compreendia pouco, e eu a compreendia menos. Meus requintes espasmódicos eram um pouco estranhos a uma terra em que a hematita calçava as ruas, dando às almas uma rigidez triste. Entretanto, meu nome em letra de forma comovia a pequena cidade, e dava esperança de que o meu talento viesse a resgataro melancólico abandono em que, anos a fio, ela se arrastava, com progresso a 50 quilômetros de distância e cabritos pastando na rua.
Não houve resgate, e a cidade esqueceu-me. Nunca mais voltei lá. De lá ninguém me escreveu, pedindo para fazer uma página sobre o Pico do Amor ou a Fonte das Sempre-Vivas. Meus parentes espalharam-se ou morreram. O escritor tornou- se urbano.
III
Publiquei três livros que foram extremamente louvados por meus companheiros de geração e de pensão, e que os críticos acadêmicos olharam com desprezo.Dois volumes de contos e um de poemas. Distribuí as edições entre jornais, amigos, pessoas que me pediram, e mulheres a quem eu desejava impressionar.
Sobretudo entre as últimas. Minha tática, de resto bem simples, consistia em jamais pronunciar ou sugerir a palavra literatura. Eu não era um literato que se anunciava, mas um homem que, no fundo, sofria por saber-se literato. Minha literatura assumia feição estranha, com alguma coisa de nativo e contrariado na origem, mas vegetando não obstante.
- O senhor escreve coisas lindíssimas, eu sei ...
- Calúnia de meus inimigos. Infelizmente, é impossível viver sem fazer inimigos. Eles é que espalham isso, não acredite ...
Meu sorriso gauche, de dentes não suficientemente íntegros (ganhei fama de irônico por causa do sorriso envergonhado), sublinhava a intenção discreta da negativa.
O sujeito afastava-se, impressionado. Muitas reputações nacionais não se estabelecem de outro modo. Eu escrevia.
IV
Escrevia realmente para quê, escrevia por quê? Autor, tipógrafo e público não saberiam responder. Eu não tinha projetos. Não tinha esperanças. A forma redonda ou quadrada do mundo me era indiferente. A maior ou menor gordura dos homens, sua maior ou menor fome não me preocupavam. Sabia que os homens existem, que viver não é fácil, que para mim próprio viver não era fácil, e nada disso contaminava meus escritos. Dessa incontaminação brotara, mesmo, certa vaidade. "Artista puro", murmurava dentro de mim a vozinha orgulhosa: ". ao traia o espírito", acrescentava outra voz interior (borborigmo, talvez). Como o espírito não protestasse, eu me atribuía essa dignidade exemplar, feita de gratuidade absoluta. E escrevia. Rente a meu ombro, outros rapazes faziam o mesmo. E não queríamos nada, não esperávamos nada. Éramos muito felizes embora não soubéssemos, como acontece geralmente.
O meu, o nosso individualismo fundamental proibia-nos o aconchego das igrejinhas. Éramos ferozmente solitários. Em cada estado do Brasil, uma academia de letras reunia os gregários, distribuía louros inofensivos. Esses louros repugnavam-me, e os acadêmicos, geralmente pessoas sem complexidade, eram a meus olhos monstros de intolerância, inveja, malícia e incompreensão intensamente misturadas. O fato de terem quase todos mais de 45 anos apenas adoçava esse sentimento de repulsa, para introduzir nele um grão de piedade triste. Em verdade, ter mais de 45 anos era não somente absurdo, como prova de extrema infelicidade. Até certo ponto, os acadêmicos mereciam simpatia. Como os dromedários, animais estranhos que não podem ser responsabilizados pelo gênero de vida que lhes impõe o vício de nascença.
Fugindo aos mais velhos, seria natural que nos ligássemos uns aos outros, os de 20 a 25 anos. Cultivávamos mais ou menos os mesmos preconceitos. As mesmas fobias em cada um de nós. Desgraçadamente, elas nos impunham o cauteloso afastamento recíproco, e nossas conversas de bar, noite afora, tinham traços de ferocidade e autoflagelação. Entretanto ...
Licurgo, que compusera comigo o "Poema do Cubo de Éter", descobriu certa noite o tomismo, e eu o expulsei de minha convivência. Mas sua voz continuou pregando os novos velhos tempos, perturbando almas sedentas de verdade e metafísica.
Aleixanor, tendo comprado num sebo as Cartas aos Operários Americanos, de Lenine, e começando a colaborar no Grito Proletário, sofreu de minha parte uma campanha de descrédito intelectual. Voltou-se para a ação política, fundou sindicatos, escreveu e distribuiu manifestos, e desfrutou de certa notoriedade até o golpe de 35, quando emudeceu.
A poetisa Laura Brioche fundou um Clube de Psicanálise, que procurei desmoralizar na primeira reunião, introduzindo sub-repticiamente entre os sócios, antes da votação dos estatutos, volumosa quantidade de uísque, genebra e gim. A sessão dissolveu-se em álcool, mas restaram aqui e ali grupos de bem- aventurados que se entretinham na interpretação onírica e confrontavam gravemente seus respectivos complexos, recalques e ambivalências.
Fundaram-se, sucessivamente, a Associação dos Amigos dos Livros de História, a Academia dos Gramáticos de Ouro Preto, um Curso de Alimentação Racional, a Sociedade de Aculturação Ário-Africana, o Grupo Deus-Pátria-Justiça-Ensino Profissional, o Clube Esperantista Limitado, o Instituto de Genética.
Todos, em redor de mim, se iam afirmando, fixando. Todo,s optavam. Nos jornais, passavam do suplemento de domingo a página editorial. Alguns recebiam manifestações de apreço, outros eram chamados a trabalhar em gabinetes de secretários de Estado. Vários compraram lotes, começaram a edifícios. Um deles, extraordinário, conquistou um cartório. A floração de filhos, vitoriosos em concursos de puericultura, afirmava o rumo seguro de minha geração.
Eu perseguia o mito literário, implacavelmente, mas sem fé.
Nunca meus poemas foram mais belos, meus contos e crônicas mais fascinantes do ,que nesse tempo de crescente solidão. Solidão, solidão ... Era só o que havia em torno de mim, dentro em mim. Era como se eu morasse numa cidade que, pouco a pouco, fosse ficando deserta. Algum tempo mais para regular os sinais luminosos nas esquinas, dar corda aos relógios, velocidade aos bondes, carne, pão e fruta às casas. De resto para que bondes, relógios? ... Já não via ninguém, todos se haviam mudado para as cidades em frente, ao norte, ao sul, e eu passeava lugubremente minha solidão nas ruas que ressoavam a meu passo, ruas que outrora me eram familiares, e agora pareciam escurecer: mudar de forma, de cheiro: de tal modo estavam ligadas a uma época, uma geração, um estado de espírito que se decompunham .... Tudo ia escurecendo ... escurecendo ... Mas eu andava,eu continuava, eu não queria acreditar ...
Risquei um fósforo, já sob a escuridão absoluta e na lâmpada que minhas mãos concha formavam, percebi que tinha feito 30 anos. Então morno Dou minha palavra de honra que morri estou morto, bem morto.
Carlos Drummond de Andrade - Contos de Aprendiz
http://www.4shared.com/document/cqz5tB8U/Carlos_Drummond_de_Andrade_-_C.html

Contos de Aprendiz.jpg

Contos de aprendiz foi publicado em 1951. Foi a estréia de Carlos Drummond de Andrade como contista. Nessa época já havia publicado seus livros mais importantes - Alguma Poesia e Sentimento do Mundo - que o consagraram como um dos maiores poetas brasileiros.

 

A obra reúne 15 contos da maior ternura, incluindo aquele que é um exemplo do limite do real com o fantástico: "Flor, telefone, moça". Drummond conta as histórias que acontecem ou podem acontecer, na medida em que o acaso ou outro poder as torna possíveis, com o auxílio da imaginação alerta. Drummond gosta de relatar aquilo que parece o mínimo porém está cheio de significado na memória de cada um, como a surpresa e a decepção do primeiro sorvete, ou uma briga de irmãos que transforma a penitência infantil em pecado. Ou senão, a simples troca de palavras entre um homem e uma mulher, no coletivo, em que o olhar perturbado entra com sua carga de sensualidade. E ainda o devaneio da moça que prepara as figuras do presépio, na véspera de Natal, com o pensamento não no que fazia, mas no namorado. Drummond escreve uma prosa limpa, evidentemente com prazer - o prazer de contar sem intenção de brilhar.


Boa leitura
Abraços

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M. Loureiro
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Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos.

Antoine de Saint-Exupéry




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