segunda-feira, 11 de outubro de 2010 By: Fred

[livros-loureiro] [livro] Victor Hugo - Os trabalhadores do mar

OS TRABALHADORES DO MAR
VICTOR HUGO

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OS TRABALHADORES DO MAR

VICTOR HUGO

Tradução de Machado de Assis


Dedico Este livro ao rochedo de hospitalidade e de liberdade,
a este canto da velha Normandia onde vive o nobre e pequeno
povo do mar, à ilha de Guernesey, severa e branda, meu atual
asilo, meu provável túmulo.

V.H.

A religião, a sociedade, a natureza: tais são as três lutas do
homem. Estas três lutas são ao mesmo tempo as suas três
necessidades; precisa crer, daí o tempo; precisa criar, daí a
cidade; precisa viver, daí a charrua e o navio. Mas há três
guerras nestas três soluções. Sai de todas a misteriosa
dificuldade da vida. 0 homem tem de lutar com o obstáculo sob
a forma superstição, sob a forma preconceito e sob a forma
elemento. Tríplice ananke pesa sobre nós, o ananke dos dogmas,
o ananke das leis, o ananke das coisas. Na Notre-Dame de
Paris, o autor denunciou o primeiro; nos Miseráveis, mostrou o
segundo; neste livro indica o terceiro.
A estas três fatalidades que envolvem o homem, junta-se a
fatalidade interior, o ananke supremo, o coração humano.

Hauteville-House, março de 1866.


PRIMEIRA PARTE
0 SR. CLUBIN
LIVRO PRIMEIROELEMENTOS DE UMA MÁ REPUTAÇÃOPALAVRA ESCRITA EM
UMA PÁGINA BRANCA
0 Christmas (Natal) de 1822... foi notável em Guernesey. Caiu
neve naquele dia. Nas ilhas da Mancha, inverno em que há neve
é memorável; a neve é um acontecimento.
Naquela manhã de Christmas a estrada que orla o mar de
Saint-Pierre-Port ao Vale assemelhava-se a um lençol branco:
nevara desde a meia-noite até o romper do dia.
Pelas 9 horas, pouco depois de nascer o sol, como não era
ainda ocasião de os anglicanos irem à Igreja de SaintSampson e
os wesleyanos à Capela Eldad, o caminho estava quase deserto.
Na parte da estrada compreendida entre a primeira volta e a
segunda havia apenas três viandantes, um menino, um homem e
uma mulher.
Estes três viandantes, caminhando separados uns dos outros,
não tinham visivelmente relação alguma entre si. 0 menino, de
cerca de oito anos, parara e olhava para a neve com
curiosidade. 0 homem, seguindo atrás da mulher, uns cem
passos, dirigia-se, como ela, para o lado de SaintSampson.
Era ele moço ainda e parecia ser operário ou marinheiro.
Vestia as roupas ordinárias, isto é, uma grossa camisa de pano
escuro e uma calça de pernas alcatroadas, o que parecia
indicar que, apesar da festa, não iria à igreja. Os grosso
sapatos de couro cru e solas tacheadas de ferro deixavam sobre
a neve uma marca, que mais se assemelhava a uma fechadura de
prisão que ao pé de um homem.
A viandante, essa evidentemente trajava roupa de ir à igreja;
envolvia-se em uma comprida manta acolchoada de estofo de seda
preta, debaixo da qual apertava-lhe faceiramente o corpo um
vestido de fazenda da Irlanda com listras brancas e
cor-de-rosa, e, se não fossem as meias vermelhas, tomá-la-iam
por uma parisiense. Caminhava com desembaraço e viveza; ç pelo
andar, que mostrava não lhe ter ainda pesado a vida,
conhecia-se que era moça. Tinha aquela graça fugitiva que
indica a mais delicada transição, a adolescência, a mistura
dos dois crepúsculos, o princípio de uma mulher e o fim de uma
menina.
0 homem não reparava nela.
De súbito, perto de uma moita de azinheiras, que forma o
ângulo de uma horta rústica, no lugar denominado Basses
Maisons, voltou-se a moça, e esse movimento chamou a atenção
do homem.
Parou, pareceu reparar nele um instante, abaixou-se, e o homem
julgou vê-la escrever com o dedo alguma coisa na neve.
Levantou-se e pôs-se a caminho com passo mais apressado,
voltou-se ainda, mas desta vez rindo, e desapareceu pela
esquerda, seguindo o carreiro guarnecido de sebes, que leva ao
Castelo de Lierre. 0 homem, quando ela se voltou pela segunda
vez, reconheceu Déruchette, linda mocinha do lugar. Mas não
sentia necessidade alguma de apressar o passo.

Alguns instantes depois estava junto à moita de azinheiras no
ângulo da horta. Já não pensava na passageira, e é provável
que, se nessa ocasião pulasse um golfinho no mar ou um cardeal
nos arbustos, passaria com o olhar fixo no cardeal ou no
golfinho. Casualmente, tinha os olhos baixos, e assim os levou
maquinalmente ao lugar em que parara a menina. Dois pèzinhos
aí estavam impressos e ao lado deles a palavra escrita por
ela: Gilliatt.
Era Este o nome dele.
Chamava-se Gilliatt.
Ficou por muito tempo imóvel, contemplando o nome, os
pèzinhos, a neve; e depois continuou pensativo o seu caminho.


0 TUTU DA RUA

Gilliatt residia na paróquia de SaintSampson, onde não era
estimado, e havia razões para isso.
Em primeiro lugar, morava em uma casa mal-assombrada.
Acontece algumas vezes em Jersey e Guernesey, no campo e até
na cidade, que, ao passar por um lugar deserto ou por uma rua
muito habitada, vê-se uma casa cuja enúada está obstruída. 0
azevinho cresce à porta, as janelas do rés do chão estão
fechadas por feios emplastros de tábuas pregadas; as dos
andares superiores estão fechadas e abertas ao mesmo tempo: há
ferrolhos, mas não há vidros. No pátio, se o há, alastra-se a
erva e caem os muros; se há jardim, nascem a urtiga, o
espinheiro, a cicuta; raros insetos esvoaçam. Racham-se as
chaminés, o teto se abate; o que se ve dos quartos está
arruinado, a madeira podre, a pedra carcomida; cai o papel das
paredes. Podem-se estudar aí os antigos gostos do papel
pintado, os grifos do Império, as sanefas em forma de
crescente do Diretório, os balaústres e cipos de Luis XVI. A
espessura das teias de aranha, cheias de moscas, indica a
profunda tranqüilidade em que vivem aqueles insetos. Algumas
vezes vê-se um púcaro quebrado sobre uma tábua.
E uma casa mal-assombrada. 0 diabo aparece lá durante a noite.
A casa, como o homem, pode tornar-se cadáver; basta que uma
superstição a mate. Então é terrível.
Essas casas mortas não são raras nas ilhas da Mancha.
As populações campesinas e marítimas não vivem tranqüilas a
respeito do diabo. As da Mancha, arquipélago inglês e litoral
francês, tem a respeito dele noções muito precisas. 0 diabo
possui delegados por todo o mundo. É certo que Belphégor é
embaixador do inferno na França, Hutgin na Itália, Belial na
Turquia, Thamuz na Espanha, Martinet na Suíça e Mammon na
Inglaterra. Satanás é um imperador, como um outro qualquer.
Satanás César. A casa dele é muito bem servida: Dagon é o
saquetário; Succor Benoth, chefe dos eunticos; Asmodeu,
banqueiro dos jogos; Kobal, diretor de teatro; Verdelet,
grão-mestre de cerimônias e Nybbas, bObo. Wierus, homem de
ciencia, bom estrigólogo e demonógrafo distinto, chama Nybbas
- o grande parodista.
Os pescadores normandos da Mancha precisam aprecatar-se quando
andam no mar, por causa das artes do diabo. Por muito tempo
acreditou-se que São Maclou habitava o grande rochedo quadrado
Ortach, situado ao largo entre Aurigny e Casquets, e muitos
velhos marinheiros de outros tempos afirmavam tê-lo visto não
poucas vezes sentado e lendo um livro. Por isso os marítimos,
quando passavam, ajoelhavam-se muitas vezes diante do rochedo
Ortach, até que um dia dissipou-se a fábula e esclareceu-se a
verdade. Descobriu-se e sabe-se hoje que quem habita aquele
rochedo não é um santo, mas sim um diabo, chamado Jochinus,
que por muitos séculos teve a malícia de fazer-se passar por
São Maclou. Demais, a própria Igreja cai em tais enganos. Os
diabos Raguliel, Oribel. e Tobiel foram santos, até que em 745
o Papa Zacarias, tendo-lhes tomado o faro, deitou-os fora.
Para fazer tais expulsões, que são muito úteis, é necessário
ser muito conhecedor de diabos.
Conta a gente velha da terra, mas Estes casos pertencem ao
século passado, que a população católica do arquipélago
normando estivera outrora, bem a seu pesar, mais em
comunicação com o diabo do que a população huguenote.
Ignoramos a razão, mas a verdade é que a minoria católica
andou outrora muito incomodada por ele.
Afeiçoara-se aos católicos e procurava freqüentá-los, o que
leva a crer que o diabo é antes católico que protestante.
Uma de suas mais insuportáveis liberdades era visitar à noite
os leitos conjugais católicos, quando os maridos dormiam de
todo, e as mulheres, a meio. Disto resultavam equívocos.
Patouillet pensava que Voltaire nascera assim. Não é
inverossímil. É caso perfeitamente conhecido e descrito nos
formulários de exorcismo sob o título de erroribus nocturnis
et de semine diabolorum.
0 diabo fez violências destas especialmente em SaintHélier, em
fins do século passado: é provável que para punição dos crimes
da revolução. As conseqüências dos
excessos revolucionários são incalculáveis. Fosse como fosse,
essa aparição possível do demônio durante a noite, quando
reina a escuridão e todos dormem, inquietava muitas mulheres
ortodoxas. Dar nascimento a um Voltaire não é coisa agradável.
Uma delas, assustada, foi consultar o confessor sobre a
maneira de desfazer-se em tempo o qüiproquó.
0 confessor respondeu: - Para saber se está com o diabo ou com
seu marido, apalpe-lhe a cabeça e, se encontrar pontas, pode
estar certa. - De que? - perguntou a mulher.
A casa em que morava Gilliatt tinha sido mal-assombrada e já
não era; portanto, tornava-se mais suspeita; é sabido que,
quando um feiticeiro vem habitar uma casa visitada pelo diabo,
Este, julgando-a bem guardada, tem a delicadeza de não voltar,
salvo o caso de ser chamado, como médico.
Chamava-se a casa 0 Tutu. da Rua. Era situada na ponta de uma
língua de terra, ou antes, de rochedo que formava uma pequena
angra de bastante profundidade na enseada de Houmet Paradis. A
casa estava sozinha nessa ponta, quase fora da ilha, tendo
apenas a terra suficiente para um pequeno jardim, às vezes
inundado por ocasião das marés altas.
Entre o porto de Saint-Sampson e a enseada de Houmet Paradis
há uma grande colina, sobre a qual levanta-se um amontoado de
torres e de hera chamado o Castelo do Vale ou do Arcanjo, de
sorte que de Saint-Sampson não se via 0 Tutu da Rua.
Não são raros os feiticeiros em Guernesey. Exercem a procissão
em certas paróquias, apesar de vivermos no século XIX.
Praticam ações verdadeiramente criminosas. Fazem ferver ouro.
Colhem ervas à meia-noite. Olham de través para o gado.
Consultam-nos; eles mandam buscar em garrafas A água dos
doentes, e dizem em voz baixa: a água parece bem triste.
Afirmou um feiticeiro, em março de 1857, que na água de um
doente havia sete diabos. São temidos e temíveis. Há pouco
tempo um deles enfeitiçou um padeiro e mais o forno. Outro tem
a perversidade de fechar e lacrar uma porção de sobrecartas,
sem haver nada dentro. Outro chega ao ponto de ter em casa, em
cima de uma tábua, três garrafas com um B em cada uma. Estes
fatos monstruosos são conhecidos. Alguns feiticeiros são
complacentes e, por 2 ou 3 guinéus, incumbem-se de sofrer as
nossas moléstias. Rolam e gritam em cima da cama. Enquanto
eles se estorcem, diz o doente: "E esta! já estou bom!" Outros
curam todas as moléstias amarrando um lenço ao redor do corpo
do doente. É um remédio tão simples que admira não se ter
ainda ninguém lembrado dele.
No século passado o tribunal real de - Guernesey colocava-os
sobre uma porção de achas de lenha e queimava-os vivos.
Presentemente condena-os a oito semanas de prisão, quatro a
pão e água e quatro no segredo, alternando. Amant alterna
catenoe.
A última queima de feiticeiros em Guemesey foi em 1747, sendo
- teatro do espetáculo a praça de Bordage, que, de 1565 a
1700, viu queimarem-se onze feiticeiros. Em geral esses
culpados confessavam seus crimes: eram para isso ajudados pela
tortura.
A praça Bordage prestou serviços à sociedade e à religião.
Queimaram-se aí os heréticos. No tempo de Maria Tudor, entre
outros huguenotes, queimou-se uma mãe e duas filhas: a mãe
chamava-se Perrotine Massy. Uma das filhas estava grávida e
teve o sucesso sobre o braseiro.
A crônica diz: "Arrebentou-lhe o ventre". Saiu desse ventre um
menino vivo; o recém-nascido rolou na fogueira, um tal House
apanhou-o.,0 bailio, Hélier Grosselin, bom católico, mandou
atirar a criança ao fogo.


PARA TUA MULHER, QUANDO TE CASARES

Voltemos a Gilliatt.
Contava-se na terra que uma mulher, tendo consigo um menino,
viera em fins da revolução habitar Guernesey. Era inglêsa, ou
talvez francêsa, 0 nome dela, qualquer que rosse, a pronúncia
guernesiana e a ortografia dos camponeses transformaram em
Giffiatt. Vivia sozinha com o menino, que, diziam uns, era seu
sobrinho, outros, filho, outros, neto, e outros, coisa
nenhuma. Possuía um dinheirinho, de que vivia pobremente.
Comprara um pedaço de terra na Sergentée e outro em
Roque-Crespel, perto de Rocquaine. A casa Tutu 24 da Rua
estava nesse tempo mal-assombrada. Havia mais de trinta anos
que ninguém. morava nela. Caía aos pedaços. 0 jardim, sempre
inundado pelo mar, já nada produzia.
Além dos ruídos noturnos e das luzes, a casa era
particularmente aterradora por isto: se à noite se deixava
sobre a lareira um novelo de lã, agulhas e um prato cheio de
sopa, no dia seguinte de manhã encontrava-se a sopa comida, o
prato vazio e um par de luvas feito. Pôs-se à venda aquele
pardieiro com o diabo que estava dentro, por algumas libras
esterlinas. Aquela mulher comprou-o, evidentemente tentada
pelo diabo. Ou pela barateza.
Fez mais do que comprá-lo, foi morar lá com o filho, e desde
então a casa sossegou. "Esta casa achou o que queria", dizia a
gente da terra. Cessaram as aparições. Já se não
ouviam gritos ao romper do dia. Já não havia outra luz além do
sebo acendido à noite pela boa mulher. Vela de feiticeira vale
a tocha do diabo.
Esta explicação satisfez o público.
A mulher utilizava o quarto de jeira de terra que possuía.
Tinha uma boa vaca, de cujo leite fazia manteiga. Colhia
frutas e batatas Golden Drops. Vendia, como qualquer outra
pessoa, ervas, cebolas e favas. Não costumava ir ao mercado
vender a sua colheita; mandava-a por Guilbert Falliot. 0
registro de Falliot mostra que ele vendeu para ela, uma vez,
12 alqueires de batatas chamadas de três meses, das mais
temporãs. Fizeram-se na casa apenas os reparos necessários
para se poder habitar nela. Só chovia nos quartos quando fazia
muito mau tempo. Compunha-se de dois pavimentos, um
rés-de-chão e um celeiro. No térreo havia três salas;
dormia-se em duas, comia-se na terceira. Subia-se ao celeiro
Por uma escada. A mulher cozinhava e ensinava a ler ao
filho. Nunca ia à igreja, e isto, depois de muito considerado,
serviu para que a declarassem francesa. Não ir aparte alguma é
coisa grave.
Em suma, era gente que nada inculcava.
É provável que fosse francesa. Os vulcões arrojam pedras, as
revoluções homens. Espalham-se famílias a grandes distâncias,
deslocam-se os destinos, separam-se os grupos dispersos às
migalhas; cai gente das nuvens, uns na Alemanha, outros na
Inglaterra, outros na América. Pasmam os naturais dos países.
Donde vem Estes desconhecidos? Foi aquele Vesilvio, que fumega
além, que os expeliu de si. Dão-se nomes a esses aerolitos, a
esses indivíduos expulsos e perdidos, a esses eliminados da
sorte: chamam-nos emigrados, refugiados, aventureiros. Se
ficam, toleram-nos: alegram-se quando eles vão embora. Algumas
vezes são entes 'absolutamente inofensivos, estranhos, as
mulheres ao menos, aos acontecimentos que os proscreveram, não
tendo rancores nem cólera, projéteis contra a vontade,
espantadíssimos de o serem. Enraízam-se como podem. Não fazem
mal a ninguém e não compreendem o que lhes acontece. Vi um dia
uma pobre moita de ervas atirada aos ares pela explosão de uma
mina. A Revolução Francesa, mais do que nenhuma, explosão, fez
desses jatos longínquos.
A mulher, que em Guernesey era conhecida por Gilliatt, foi
talvez aquela moita de erva.
Envelheceu a mulher. Cresceu o menino. Viviam ambos sós; todos
fugiam deles, mas eles bastavam-se a si próprios. Loba e
filhote lambem-se mutuamente. Foi esta uma das fórmulas que
lhes aplicou a benevolência da vizinhança.

0 menino tornou-se adolescente, o adolescente homem, e então,
devendo caírem sempre as velhas crostas da vida, a mãe veio a
falecer. Constava a herança das terras de Sergentée e da
Roque-Crespel, da casa mal-assombrada, e mais, diz o
inventário oficial, de 100 guinéus de ouro, dentro de um pé de
meia. A casa estava mobiliada com duas arcas de carvalho, duas
camas, seis cadeiras, uma mesa e os utensílios necessários.
Havia em cima de uma tábua uns poucos de livros e, a um canto,
uma canastra, que nada tinha de misteriosa, e que devia ser
aberta na ocasião do inventário. A canastra era de couro
ruivo, cheia de arabescos de pregos de cobre e estrelas de
estanho, e continha um enxoval de mulher, novo e completo, de
excelente linho de Dunquerque, camisa e saia, cortes de
vestidos de seda e em cima de tudo um papel escrito pela
finada: "Para tua mulher, quando te casares".
A morte da mãe acabrunhou o filho. Era rústico, tornou-se
feroz. Completou-se-lhe o deserto. Era isolamento, tornou-se
vácuo. Quando há duas criaturas, a vida é possível. Havendo
.uma só, parece que nem se pode arrastá-la. Renuncia-se a ela.

É a primeira forma de desespero. Mais tarde compreende-se que
o dever é uma série de aceites. Contempla-se a morte,
contempla-se a vida, consente-se na última. Mas é um
consentimento que sangra.
Gilliatt era moço, a ferida cicatrizou. Naquela idade as
carnes do coração tornam a unir-se. A tristeza,
dissipando-se-lhe a pouco e pouco, misturou-se à natureza em
redor dele, tornou-se uma espécie de encanto, atraiu-o para
perto das coisas e longe dos homens, e amalgamou cada vez mais
aquela alma e a solidão.


IMPOPULARIDADE

Já o dissemos. Gilliatt não era estimado na paróquia.
Antipatia natural. Sobravam motivos. 0 primeiro, acabamos de
explicá-lo, era a casa em que morava. Depois a origem dele.
Quem era aquela mulher? E Este menino? A gente não gosta de
enigmas a respeito de estrangeiros. Depois, trajava uma roupa
de operário, tendo aliás com que viver, embora não fosse rico.
Depois, o jardim, que ele conseguia cultivar e donde colhia
batatas, apesar dos ventos de equinócio. Depois, os
alfarrábios que ele lia.
Outras razões, ainda.
Por que motivo vivia solitário? A casa mal-assombrada era uma
espécie de lazareto; conservavam Gilliatt em quarentena; deste
modo, era muito simples que o seu isolamento causasse espanto,
e o responsabilizassem pela solidão em que o deixavam.
Nunca ia à Igreja. Saia muitas vezes à noite. Falava aos
feiticeiros. Uma vez viram-no sentado sobre a relva com ar
espantado. Freqüentava o dólmen de Ancresse e às pedras
fatídicas que existem espalhadas pelo campo. Havia quase
certeza de terem-no visto cumprimentar polidamente a Rocha que
Canta. Comprava todos os pássaros que lhe levavam, e
soltava-os. Era civil para com as pessoas das ruas de
Saint-Sampson, mas preferia dar uma volta para não passar por
lá. Pescava muitas vezes e sempre apanhava peixe.

Trabalhava no jardim aos domingos. Tinha um bagpipe
(gaita-de-foles), que comprara a uns soldados escoceses, ao
passarem por Guernesey, e tocava nele sobre os rochedos, à
beira do mar, ao cair da noite. Gesticulava como um semeador.
Que virá a ser uma terra com um homem destes?
Quanto aos livros que haviam pertencido à mulher finada, esses
eram assustadores. Quando o Reverendo Jaquemin Herodes, cura
de Saint-Sampson, entrou na casa para encomendar a mulher, leu
no lombo desses livros os títulos seguintes: Dicionário de
Rosier, Cândido, por Voltaire; Aviso ao Povo acerca da Sua
Satíde, por Tissot. Dissera um fidalgo francês emigrado,
retirado em Saint-Sarnpson, que "aquele Tissot devia ser o que
carregou a cabeça da Princesa de Lamballe".
0 reverendo notou, num dos livros, Este título verdadeiramente
extravagante e ameaçador: De Ruibarbaro.
Cumpre observar que, sendo a obra escrita em latim, como
indica o título, era duvidoso que Gilliatt, que não sabia
latim, lesse aquela obra.
Mas são exatamente os livros que a gente não lê os que mais
condenam. A Inquisição da Espanha julgou esse caso, e po-lo
fora de dúvida.
Demais, o livro era o tratado do Doutor Tilingius Sobre o
Ruibarbo, publicado na Alemanha em 1679.
Não havia certeza de que Gilliatt não fizesse bruxarias,
filtros e sortilégios. Tinha frascos em casa.
Por que motivo ia ele passear, às vezes até a meia-noite, nos
penhascos da costa? Era evidentemente para conversar com a
gente maligna que anda à noite nas praias no meio das
exalações.
Ajudou ele uma vez a feiticeira de Torteval a desatolar a
carroça. Era uma velha, por nome Moutonne Gahy.
Tendo-se feito um recenseamento na ilha, perguntou-se-lhe a
profissão, e ele respondeu: "Pescador, quando há peixe". Vejam
lá se a gente da ilha podia gostar de tais respostas.
Pobreza e riqueza são relativas. Gilliatt tinha terras e uma
casa, e, comparado aos que não possuem coisa nenhuma, não era
pobre. Um dia, para experimentá-lo, e talvez para inculcar-se,
porque há mulheres que estariam prontas a desposar o diabo
rico, disse uma rapariga a Gilliatt: "Quando se casa?"

A resposta dele foi: "Casar-me-ei quando se casar a Rocha que
Canta".
A Rocha que Canta era uma grande pedra colocada a pique numa
horta rústica perto do Senhor Lemezurier de Fry. Esta pedra
inspira desconfiança. Não se sabe o que ela faz ali. Ouve-se
cantar um galo invisível, coisa extremamente desagradável.
Verificou-se que a pedra foi posta ali por uns fantasmas.
De noite, quando troveja, se aparecem homens a voar entre as
nuvens avermelhadas, são os tais fantasmas. Há uma mulher que
mora no Grande Mielles e que os conhece. Uma noite, em que
havia fantasmas numa encruzilhada, essa mulher, vendo um
carroceiro que não sabia por onde seguir, gritou-lhe:
"Pergunte-lhes o caminho; é gente. benéfica, e bem educada,
com quem se pode conversar"- Aquela mulher é com certeza
feiticeira.
0 judicioso e sábio Rei Jacques I mandava ferver ainda vivas
as mulheres dessa espécie, provava o caldo e, pelo gosto,
dizia: "É feiticeira", ou: "Não é feiticeira".
É para lamentar que os reis hoje não tenham daqueles talentos,
que faziam compreender a utilidade da instituição.
Gilliatt, não sem motivos sérios, tinha faina de feiticeiro.
Num temporal, à meia-noite, estando Gilliatt sozinho, dentro
de uma lancha, do lado da Someilleuse, ouviram-no perguntar:
- Há lugar para passar?
Respondeu-lhe uma voz de cima dos penhascos:
- Pois não! ânimo.
A quem falaria ele senão a alguém que lhe respondia?
Parece-nos que isto é uma prova.
Outra noite de temporal, tão negro que nada se via pertinho da
Catiau-Roque, que é uma dupla fileira de rochedos onde os
feiticeiros e as cabras vão dançar à sexta-feira, houve quem
reconhecesse a voz de Gilliatt no meio deste terrível diálogo:
- Como está Vésin Brovard? (Era um pedreiro que tinha caído de
um telhado.)
- Vai sarando.
- Deveras! pois caiu de um lugar tão alto como aquela estaca.
Admira não ficar despedaçado.
- Bom tempo foi a semana passada para a colheita das praias.
- Melhor do que hoje.
- Decerto! não haverá muito peixe no mercado.
- 0 vento é rijo.
- Não se podem deitar as redes.
- Como vai a Catarina?
- Está embruxada.
A Catarina era evidentemente alguma feiticeira.
Gilliatt, ao que parecia, trabalhava de noite. Ao menos,
ninguém duvidava disso.
Viam-no, algumas vezes, espalhar pelo chão a água de um
púcaro. Ora, a água espalhada pelo chão traça a forma dos
diabos.
Existem na estrada de Saint-Sampson tres pedras dispostas em
forma de escada. Na plataforma houve em outro tempo uma cruz,
e, se não foi cruz, era forca. Aquelas pedras são malignas.
Muita gente esperta, e digna de crédito, afirmava ter visto,
perto dessas pedras, Gilliatt conversando com um sapo. Ora,
não há sapos em Guemesey; Guernesey tem todas as cobras, e
Jersey todos os sapos. Aquele sapo veio naturalmente de
Jersey, a nado, para falar a Gilliatt. A conversa era
amigável.
Todos Estes fatos estavam averiguados; e a prova disso é que
as tres pedras lá estão. Quem duvidar pode ir vê-las, e mesmo
a alguma distância há uma casa em cuja esquina lê-se isto:
"Mercador de gato morto e vivo, cordas velhas, ferros, ossos e
fumo de mascar; é pronto na paga e na atenção".
Só de má fé se pode contestar a existência daquelas pedras e
daquela casa. Tudo isso fazia mal a Gilliatt.
Só os ignorantes não sabem que o maior perigo dos mares da
Mancha é o que se chama Rei dos Auxcriniers. Não há personagem
marítimo mais temível. Quem o ve naufraga logo entre uma e
outra Saint-Michel. É pequeno e surdo, por ser anão e rei.
Sabe o nome de quantos morreram no mar, e em que lugar estão.
Conhece a fundo o cemitério Oceano. Cabeça larga embaixo e
estreita em cima, corpo cheio, barriga viscosa e disforme,
nodosidades no crânio, pernas curtas, braços compridos,
barbatanas em vez de pés, garras em vez de mãos, cara larga e
verde, tal é aquele rei. As garras são achatadas, as
barbatanas tem unhas. Imaginem um peixe com cara de homem e
forma de espectro. Para vence-lo é preciso exorcismá-lo ou
pescá-lo. Fora disso, é sinistro. Vê-lo é perigoso.
Descobrem-se acima das ondas e do marulho, através da
espessura do nevoeiro, umas feições de gente; testa curta,
nariz esborrachado, orelhas chatas, boca imensa e sem dentes,
beiços esverdeados, sobrancelhas angulosas, olhos vivos e
grandes. 0 rei toma-se vermelho quando o relâmpago é lívido,
descorado quando o relâmpago é vermelho. Tem barba gotejante e
rígida, cortada em quadro, que lhe cai sobre uma membrana em
forma de mantéu de peregrino; o mantéu é adornado de catorze
conchas, sete na frente, sete nas costas. As conchas são
extraordinárias para os que conhecem conchas. 0 rei só é
visível no mar violento. E o dançarino lúgubre da tempestade.
Vê-se a forma dele esboçada no nevoeiro e na chuva. 0 umbigo é
hediondo. Uma casca de escamas guarda-lhe os quadris à
semelhança de colete. 0 rei levanta-se de pé, sobre as vagas
que irrompem à pressão dos ventos e vão rolar-se como os
cavacos que saem do rabote do marceneiro. Conserva-se todo
fora da espuma, e, quando avista ao longe os navios em perigo,
entra a bailar, descorado na sombra, com a face iluminada por
um vago sorriso, feio e demente no aspecto. Mau encontro esse.
Na época em que Gilliatt era uma das preocupações de
Saint-Sampson, as últimas pessoas que tinham visto o rei da
Mancha declaravam que já não havia no mantéu mais de treze
conchas. Treze; era mais perigoso ainda. Mas onde foi parar a
outra concha? Deu-a a alguém? A quem seria? Ninguém podia
dizê-lo, todos se limitavam às conjeturas. 0 que é certo é que
o Sr. Lupin Matier, do lugar de Godaines, homem de posição,
proprietário taxado em catorze bairros, estava pronto a jurar
que vira uma vez, nas mãos de Gilliatt, uma concha muito
esquisita.
. Não raras vezes se ouviam os campônios conversarem entre si:
- Vizinho, não é verdade que Este boi é magnífico?
- Inchado, vizinho.
- Homem, é verdade.
- Tem mais sebo do que carne.
- Deveras!
- Estais certo de que Gilliatt não lhe pós os olhos em cima?
Gilliatt parava nos campos, ao pé dos lavradores, e nos
jardins, ao pé dos jardineiros, e dizia-lhes palavras
misteriosas:
- Quando florescer a escabiosa, semeia o centeio.
- 0 freixo enfolha, acaba-se a neve.
- Sostício de verão, cardo em flor.
- Se não chover em junho, o trigo há de espigar. Tomem cuidado
com as plantas nocivas.
- A cerejeira está dando frutos, desconfia da lua cheia.
- Se o tempo, no sexto dia da lua, conservar-se como no quarto
dia ou como no quinto, há de ser o mesmo em toda a lua, nove
vezes em doze no primeiro caso, e onze vezes em doze rio
segundo.
- Vigia o teu vizinho com quem. andas em processo. Cautela com
as espertezas. Porco que bebe leite quente estoura. Vaca que
leva alho nos dentes não come.
- 0 peixe está gerando, guarda-te das febres.
- As rãs aparecem, semeia os melões.
- A aneniona enflora, semeia a cevada.
- A tília enflora, ceifa os campos.
- 0 choupo enflora, fecha as estufas,
E, coisa terrível, quem seguisse os seus conselhos achá-lo-ia
muito bons.
Uma noite de junho, em que ele tocava o bagpipe, sobre os
cabedelos da praia, do lado da Damie de Fontenelle não se pode
pescar uma só cavala.
Outra noite, vazando a maré, aconteceu tombar na praia, em
frente da casa mal-assombrada, uma carreta cheia de sargaço.
Gilliatt receou naturalmente ser chamado à justiça, pois
atirou-se a levantar a carreta, pondo-lhe outra vez toda a
carga que se espalhara no chão.
Uma menina da vizinhança tinha muitos piolhos; Gilliatt foi a
Saint-Pierre-Port, trouxe de lá um ungüento e o esfregou à
cabeça da pequena; tirou-lhe os piolhos, o que prova que foi
ele quem lhos deitou.
Sabe toda a gente que há feitiço para fazer criar piolhos na
cabeça dos outros.
Dizia-se que Gilliatt olhava para os poços, o que é perigoso
quando é mau-olhado; e o caso é que um dia, nos Arculons, a
água de um poço tornou-se doentia. A dona do poço disse a
Gilliatt: "Veja esta água". E apresentou-lhe um copo cheio.
Gilliatt confessou: "A água está grossa" disse ele; "é exato".
A boa mulher, que desconfiava, disse-lhe: "Pois cure-a.
Gilliatt perguntou-lhe se ela tinha algum curral, se o curral
tinha esgoto, e se o rego do esgoto passava perto do poço. A
boa mulher disse que sim. Gilliatt entrou no curral, desviou o
rego do esgoto, e a água do poço ficou boa. Ora, pensava a
gente da terra, nenhum poço fica insalubre, nem é curado
depois, sem motivo; a doença do poço não é natural; é difícil
não acreditar que Gilliatt tenha enguiçado a água.
De uma vez, tendo ido a Jersey, foi alojar-se em São Clemente,
em uma rua cujo nome quer dizer almas do outro mundo.
Nas aldeias, colhem-se os indícios, comparam-se: o total faz a
reputação de um homem.
Aconteceu um dia que Gilliatt foi surpreendido a deitar sangue
pelo nariz. Coisa grave. Um patrão de lancha, grande viajante,
que fez quase a volta do mundo, afirmou que havia uma terra,
onde todos os feiticeiros deitam sangue pelo nariz. Quando um
homem deita sangue pelo nariz, já toda a gente sabe como se
haver com ele. Todavia, algumas pessoas de juízo observaram
que aquilo que caracteriza os feiticeiros em uma terra pode
não caracterizá-los em outra.
Nos arredores de Saint-Michel, viu-se Gilliatt parado em uma
horta dos Huriaux, ao pé da estrada real de Videclins.
Gilliatt assobiou, e pouco depois veio um corvo, e depois uma
pega. 0 fato foi atestado por um homem notável que pertenceu
depois a uma comissão encarregada de fazer um novo livro de
medidas.
No Hamel, há mulheres velhas que diziam estar certas de ter
ouvido, ao romper da manhã, umas andorinhas chamando por
Gilliatt.
A isto deve acrescentar-se que Gilliatt não era bom.
Um dia um pobre homem batia num asno, que tinha empacado.
Deu-lhe algumas tamancadas na barriga, o animal caiu. Gilliatt
correu para levantá-lo, estava morto. Gilliatt esbofeteou o
pobre homem.
Noutra ocasião, vendo um rapaz descer de uma árvore com um
ninho de passarinhos ainda implumes, Gilliatt tirou o ninho do
rapaz, e levou a crueldade ao ponto de restituí-lo ao seu
lugar na árvore.
Uns viandantes censuraram-no por isto: Gilliatt não fez mais
do que apontar para o pai e a mãe dos passarinhos, que
guinchavam por cima da árvore e voltavam para o ninho. Tinha
queda pelos pássaros. É um sinal Este que faz conhecer
geralmente os bruxos.
Os rapazes gostam de tirar os ninhos de cotovias e goelandos
no penedio das costas. Trazem consigo grande porção de ovos
azuis, amarelos e verdes, para armar com eles a frente das
lareiras. Como os penedos estão a pique, aconteceu-lhes às
vezes escorregarem, caírem e morrerem. Nada mais lindo que uma
varanda adornada com ovos de pássaros do mar.. Gilliatt já não
sabia que inventar para fazer mal aos rapazes. Trepava, com
risco de vida, ao cimo das rochas marinhas, e pendurava aí
molhos de feno, com chapéus velhos em cima e tudo quanto
pudesse servir de espantalho, para arredar os pássaros e, por
conseqüência, as crianças.
Por tudo isto Gilliatt ia sendo a pouco e pouco odiado por
todos. Não precisava tanto para sê-lo.


0UTROS PONTOS AMBÍGUOS DE GILLIATT

Não estava fixa a opinião acerca de Gilliatt.
Geralmente era tido por marcou. Outros acreditavam mesmo que
rosse filho do diabo.
Quando uma mulher tem, do mesmo homem, sete filhos machos
consecutivos, o sétimo é marcou. Mas, para isso, é necessário
que nenhuma filha venha interromper a série dos rapazes.
0 marcou tem uma flor-de-lis impressa em uma parte do corpo,
donde resulta que aproveita tanto aos escrofulosos como aos
reis da França. Na França há marcous em toda parte,
especialmente na província de Orléans. Cada aldeia do Gatinais
tem o seu marcou. Para curar os doentes basta que o marcou
sopre nas chagas ou lhes faça tocar a flor-de-lis. 0 remédio é
eficaz, principalmente quando aplicado na noite de sexta-feira
maior. Há uma dezena de anos, o marcou d'Ormes, no Gatinais,
apelidado o Formoso Marcou, e consultado por toda a Beauce,
era um tanoeiro, chamado Foulon, que tinha cavalo e carruagem.
Para por cobro aos seus milagres foi preciso intervir a
polícia. Tinha ele a flor-de-lis embaixo do peito esquerdo.
Outros marcous tem-na em lugar diverso.
Há marcous em Jersey, em Aurigny e em Guemesey. Parece que
isto procede dos direitos que tem a França sobre o ducado da
Normandia. A não ser assim, por que haveria ali a flor-de-lis?
Como há também nas ilhas da Mancha muitos escrofulosos, os
marcous são necessários.
Em um dia, estando Gilliatt a banhar-se no mar diante de
algumas pessoas, julgaram estas ter-lhe visto no corpo a
florde-lis. Interrogado a esse respeito, por única resposta
pôs-se a rir. Gilliatt ria às vezes como os outros homens. Mas
desde esse dia nunca mais o viram tomar banho. Começou então a
banhar-se em lugares solitários e perigosos. Provavelmente à
noite, e em noites de luar; o que, hão de convir, é coisa um
tanto suspeita.
Os que se obstinavam em cre-lo filho do diabo (cambiou)
enganavam-se, evidentemente. Deviam saber que só os há na
Alemanha. Mas o Vale e Saint-Sampson eram há cinqüenta anos
países ignorantes.
Acreditar em Guernesey que alguém é filho do diabo, por força
que há nisso exageração.
Por isso mesmo que Gilliatt inquietava o populacho, era muito
consultado. Os campônios, aterrorizados, iam conversar com ele
acerca dos seus achaques. Aquele terror equivalia a meia
confiança, e no campo, quanto mais suspeito é o médico, mais
eficaz é o remédio que ele dá. Gilliatt tinha medicamentos
propriamente seus, herdados da finada velha. Dava-os a quem
lhos pedia, e não recebia dinheiro. Curava os panarícios com
aplicações de ervas; o líquido de um dos seus frascos cortava
a febre; o químico de Saint-Sampson, que chamaríamos
farmacêutico na França, pensava que era uma decocção de quina.
Os menos benévolos convinham em que Gilliatt era excelente
diabo para os doentes, quando se tratava de seus remédios
ordinários; mas, como marcou, não queria ouvir nada: se algum
escrofuloso pedia-lhe para tocar a flor-de-lis, a resposta de
Gilliatt era fechar-lhe a porta na cara; recusava fazer
milagres, coisa ridícula em um feiticeiro. Não sejas
feiticeiro, mas, se o és, faze o teu oficio.
Havia uma ou duas exceções nesta antipatia universal. 0 Sr.
Landoys do Clos-Landés, era escrivão da paróquia de
Saint-Pierre-Port, encarregado das escrituras e guarda dos
registros dos nascimentos, casamentos e óbitos. Jactava-se o
escrivão de descender do tesoureiro da Bretanha, Pedro
Landoys, enforcado em 1485.
Estando uma vez a banhar-se, o Sr. Landoys afastou-se da
praia, e quase se afogou; Gilliatt atirou-se à água, afogou-se
quase, mas salvou Landoys. Desde esse dia Landoys não falou
mal de Gilliatt. Aos que se admiravam disso, respondia ele:
"Como hei de aborrecer um homem que não me faz mal, e até me
prestou um serviço?" 0 escrivão chegou mesmo a ser amigo de
Gilliátt. Não era homem de preconceitos. Não acreditava em
feiticeiros. Mofava dos que acreditavam em almas do outro
mundo.
Tinha uma canoa, pescava nas horas de descanso para
divertir-se, e nunca viu coisa alguma extraordinária, a não
ser em certa noite de luar, um vulto branco de mulher, que
pulava na água, e ainda assim não estava muito certo. Moutonne
Gahy, feiticeira de Torteval, dera-lhe um saquinho para atar
debaixo da gravata, a fim de afugentar os espíritos; Landoys
zombava do saco, e não sabia o que havia dentro; mas sempre
andava com ele, e sentia-se assim mais seguro.
Algumas pessoas audazes, acompanhando o Sr. Landoys,
arriscaram-se a reconhecer em Gilliatt certas circunstâncias
atenuantes, algumas aparencias de qualidades, a sobriedade, a
abstinência do gim e do tabaco, e chegavam às vezes a fazer
dele Este belo elogio: "Não bebe, não fuma, nem masca".
Mas a sobriedade é uma qualidade quando o indivíduo possui
outras.
Gilliatt inspirava a aversão pública.
Fosse o que fosse, como marcou, Gilliatt podia prestar
serviços. Em uma sexta-feira maior, à meia-noite, dia e hora
usados para esses curativos, todos os escrofulosos da ilha,
por inspiração, ou combinação, foram em massa à casa
mal-assombrada, e, com as mãos postas, pediram a Gilliatt que
os curasse. Gilliatt recusou. Reconheceu-se nisto a sua
perversidade.


A PANÇA

Tal era Gilliatt.
As raparigas achavam-no feio. Gilliatt não era feio .. Era
talvez bonito. Tinha um perfil semelhante ao do bárbaro
antigo. Quieto, parecia um Dácio da coluna trajana. As orelhas
eram pequenas, delicadas, lisas, de uma admirável forma
acústica. Tinha entre os olhos a soberba ruga vertical do
homem audacioso e perseverante. Caíam-lhe os dois cantos da
boca; a testa era de uma curva nobre e serena; o olhar
saía-lhe firme de dentro da pálpebra franca, posto que ele
tivesse aquele piscar de olhos que os
pescadores adquirem com a reverberação das vagas. 0 riso era
pueril e delicioso. Não havia marfim mais alvo que os seus
dentes. Entretanto, Gilliatt, tisnado pelo sol, era quase
negro. Não se afronta impunemente o oceano, a tempestade e a
noite; aos trinta anos, mostrava 45. Tinha a sombria más cara
do vento e do mar.
Puseram-lhe a alcunha de Finório.
Diz uma fábula da índia: "Um dia Brama perguntou à Força:
'Quem é mais forte que tu?' A Força respondeu: 'É a Astúcia`.
Diz um provérbio chinês: "Quanto não poderia o leão, se fosse
macaco?"
Gilliatt não era nem leão nem macaco; mas as coisas que ele
fazia apoiavam o provérbio chinês e a fábula indiana. De
estatura comum e força ordinária, Gilliatt, tão inventiva e
poderosa era a sua destreza, conseguia levantar fardos de
gigante e realizar prodígios de atleta.
Era um pouco ginasta; servia-se tanto da mão direita como da
esquerda.
Não caçava, pescava. Poupava os pássaros, não os peixes. Ai
dos que são mudos.
Era nadador excelente.

A solidão faz homens de talento ou idiotas. Gilliatt tinha os
dois aspectos. Às vezes mostrava o ar espantado, de que
falamos, e dissera-se um bruto. Outras vezes mostrava uma
certa profundidade no olhar. A antiga Caldéia teve homens
assim: a certas horas, a opacidade do pastor tomava-se
transparente e deixava ver o mago.
Em suma, era apenas um pobre homem sabendo ler e escrever. É
provável que estivesse no limite que separa o sonhador do
pensador. 0 pensador impõe, o sonhador obedece. A solidão
domina os ânimos símplices, complica-os, enche-os de horror
sagrado. A sombra em que entrava o espírito de Gilliatt
compunha-se, em partes quase iguais, de dois elementos,
obscuros ambos, mas diferentes; dentro dele, a ignorância -
enfermidade; fora dele, o mistério - imensidade.
À força de trepar aos rochedos, de escalar os declives, de
navegar no arquipélago, qualquer que fosse o tempo, de
manobrar a primeira embarcação que aparecesse, de arriscar-se
dia e noite nos canais mais difíceis, tomou-se, sem tirar
lucro disso, e só por fantasia e satisfação, um admirável
homem do mar.
Nasceu piloto. 0 verdadeiro piloto é o marinheiro que navega
mais no fundo que na superfície. A vaga é um problema
exterior, continuamente complicado pela configuração submarina
dos lugares em que sulca o navio. Parecia, ao ver Gilliatt
vogar nos baixios e através dos arrecifes do arquipélago
normando, que ele tinha debaixo da abóbada do crânio um mapa
do fundo do mar. Sabia tudo e afrontava tudo.
Conhecia as balizas melhor do que os corvos-marinhos que lá se
vão empoleirar. As diferenças imperceptíveis. que distinguem
as quatro balizas do Creux, do Alligande, de Tremies e da
Sardrette eram perfeitamente claras para ele, ainda no meio de
nevoeiro. Não hesitava sobre a estaca de cabeça oval, de
Anfré, nem sobre o chuço tridente, de Rousse, nem a bola
branca, de Corbette, nem a bola preta, de LonguePierre, e não
havia temer que confundisse a cruz de Gubeau com a espada
fincada no chão, de Platte, nem a baliza-martelo, de Barbées,
com a baliza cauda de andorinha, de Moulinet.

Mostrou singularmente a sua rara ciência de marítimo num dia
em que houve em Guernesey uma dessas justas que se chamam
regatas.
A questão era esta: ir só em uma embarcação de quatro velas;
leva-la de Saint-Sampson à ilha de Herin, distante 1 légua, e
traze-la de novo de Herin a Saint-Sampson. Manobrar sozinho um
barco de quatro velas, não há pescador que o não faça, e a
diferença não é grande; mas eis o que agravava o caso:
primeiramente, a embarcação era uma dessas chalupas de outro
tempo, com grande bojo, à moda de Roterdã, que os marinheiros
do século passado apelidavam panças holandesas. Acha-se ainda
algumas vezes no mar essa velha construção da Holanda, bojuda
e chata, tendo a bombordo e a estibordo duas asas que se vão
abatendo alternadamente, conforme o vento, e suprem a quilha.
A segunda dificuldade era a volta de Herin, volta complicada
por um pesado lastro de pedras.
0 prêmio da justa era a chalupa. De antemão estava dada ao
vencedor. A pança servira de barco-piloto; o piloto que
navegara nela durante vinte anos era o mais robusto marinheiro
da Mancha; quando morreu não houve ninguém que quisesse
governar o barco e decidiram fazer dele um prêmio de regata. A
pança, embora não tivesse coberta, tinha qualidades boas e
podia tentar um manobrista. Era mastreada na frente, o que
aumentava a força de tração do velame. Outra vantagem, o
mastro não impedia a carga. Era uma concha sólida; pesada, mas
vasta, e suportando bem o mar. Houve empenho em disputá-la; a
luta era rude, mas o prêmio era magnífico. Apresentaram-se
sete ou oito pescadores, os mais vigorosos da ilha. Tentaram
um por um; nenhum deles pode ir a Herm. 0 último que lutou era
conhecido por ter passado a remos, com tempo mau, o terrível
redemoinho que há entre Serk e Brecq-Hou. Escorrendo em suor,
trouxe ele a pança e disse: - É impossível. - Foi então que
Gilliatt entrou no barco; empunhou primeiramente o remo, e
depois a grande escota, e reze ao largo. Depois, sem atar a
escota, o que seria imprudência, e sem largá-la, o que lhe
dava o domínio da vela grande, deixando a escota rolar à
feição do vento sem descair, segurou com a mão esquerda a cana
do leme. Dentro de tres quartos de hora estava em Herin. Tres
horas depois, posto que soprasse então um forte vento do sul,
atravessando a barra, a pança, governada por Gilliatt, entrava
em SaintSampson, com o carregamento de pedras. Gilliatt
trouxe, por luxo e bravata, além do carregamento, um pequeno
canhão de bronze de Herm, com que à gente da ilha salvava
todos os anos, a 5 de novembro, em regozijo pela morte de Guy
Fawkes.
Guy Fawkes, digamo-lo de passagem, morreu há 260 anos; foi uma
grande satisfação.
Gilliatt, assim carregado e estafado, embora trouxesse o
canhão na barca, e o vento sul na vela, voltou a SaintSampson.
Vendo isto, Mess Lethierry exclamou: - Ora, aqui está um
marinheiro atrevido!
E estendeu a mão a Gilliatt.
Tomaremos a falar de Mess Lethierry.
A pança foi entregue a Gilliatt.
Esta aventura não lhe destruiu a alcunha de Finório.
Algumas pessoas declararam que a coisa não era para admirar,
visto que Gilliatt escondera no barco um galho de nespereira
silvestre. Mas ninguém pode provar isso.
Desde esse dia Gilliatt não teve outra embarcação. Naquela
pesada chalupa é que ele ia à pesca. Amarrava-a no excelente
ancoradourozinho que tinha só para seu uso, debaixo do muro da
casa mal-assombrada. Ao cair da noite, atirava a rede às
costas, atravessava o jardim, galgava o parapeito de pedras
secas, rolava de rochedo em rochedo, e saltava na barca. Daí
fazia-se ao mar.
Pescava muito peixe, mas afirmava-se que o galho de nespereira
estava sempre atado à chalupa. Ninguém o viu nunca, mas toda a
gente acreditava.
Não vendia, dava o peixe que lhe sobrava.
Os pobres aceitavam o peixe, sem deixarem de lhe querer mal
por causa do ramo embruxado. Não se deve trapacear com o mar.
Era pescador, mas não era só isso. Tinha aprendido, por
instinto ou para distrair-se, tres ou quatro ofícios. Era
marceneiro, ferreiro, fabricante de carros, calafate, e até um
pouco mecânico. Ninguém consertava uma roda como ele.
Fabricava, de um modo especial, todos os seus instrumentos de
pesca. Tinha em um canto da casa uma pequena forja e uma
bigorna, e, não tendo a chalupa mais que uma âncora, reze-lhe
outra, ele só. Excelente âncora era essa; a argola tinha a
força requerida, e Gilliatt, sem que ninguém lho ensinasse,
achou a dimensão exata que devia ter o cepo da âncora para que
ela não voltasse.
Substituiu com toda a paciência os pregos das bordas por
cavilhas, tornando assim impossível a ferrugem.
Deste modo aumentou muito as boas qualidades da pança.
Aproveitava-se dela para ir de quando em quando passar um ou
dois meses em alguma ilhota solitária como Chousey ou
Casquets. Dizia-se então: "Olhem, Gilliatt está fora. Ninguém
se incomodava por isso".


CASA EMBRUXADA, MORADOR VISIONÁRIO

Gilliatt era o homem do sonho. Vinham daí as suas audácias e
as suas hesitações. Tinha idéias propriamente suas.
Havia talvez nele a ligação do alucinado e do iluminado. A
alucinação entra na cabeça de um campônio como Martin, do
mesmo modo que na cabeça de um rei como Henrique IV. 0
Desconhecido faz surpresas ao espírito do homem. Rasga-te
bruscamente a sombra, deixa ver o invisível; depois fechasse.
Tais visões são às vezes transfiguradoras; de um condutor de
camelos faz Maomé, de uma cabreira faz Joana d'Arc. A solidão
desprende uma certa quantidade de desvario sublime. É o fumo
da sarça ardente. Resulta daí um misterioso estremecer de
idéias: o doutor dilata-se até o vidente, o poeta até o
profeta; resulta Horeb, Cédron, Ombos, a embriaguez do louro
mastigado da Castália, as revelações do mês Busion; resulta
Peléia em Dodona, Femonoe em Delfos, TrofOnio em Lebadéia,
Ezequiel no Kebar, Jeronimo na Tebaida. Na maior parte dos
casos o estado visionário abate o homem, e o embrutece. 0
embrutecimento sagrado existe. 0 faquir carrega a sua visão,
como o habitante alpino a sua papeira. Lutero falando aos
diabos no celeiro de Wurtemberg, Pascal tapando o inferno com
o biombo de seu gabinete, o obi negro dialogando com o deus
branco chamado Bossum, é o mesmo fenômeno diversamente
produzido, segundo a força e a dimensão de cada cérebro.
Lutero e Pascal são e ficam sendo grandes; o obi negro é
imbecil.
Gilliatt não era tanto, nem tão pouco. Era um pensativo. Nada
mais.
Contemplava a natureza de um modo singular.
Tinha visto algumas vezes, na água do mar, completamente
límpida, animais inesperados, de grandes dimensões, de formas
diversas, os quais, fora da água, assemelhavam-se a cristal
mole, e, tomados à água, confundiam-se com ela, pela
identidade de transparência e de cor; disto concluía ele que,
se a água era habitada por transparências vivas, bem podia ser
que o ar fosse habitado por transparências igualmente vivas.
Os pássaros não são os habitantes, são os anfíbios do ar.
Gilliatt não acreditava no ar deserto. Dizia ele: se o mar
está cheio de criaturas, por que motivo a atmosfera será
vazia? Criaturas cor do ar podem escapar aos nossos olhos por
causa da luz; quem nos prova que essas criaturas não existem?
A analogia indica que o ar deve ter os seus peixes, como o
mar; os peixes do ar serão talvez diáfanos, beneficio da
providencia criadora, tanto a nosso favor, como a favor deles;
deixando passar a luz através da sua forma, e não fazendo
sombra, ficam ignorados de nós, e nada poderemos saber.
Gilliatt imaginava que, se pudesse esvaziar a atmosfera,
pescando-se no ar como num tanque, achar-se-ia uma porção de
criaturas surpreendentes. E, acrescentava ele, na sua cisma,
muitas coisas se explicariam.
A cisma, que é o pensamento no estado nebuloso, confina com o
sono e preocupa-se a respeito dele, como de sua própria
fronteira. 0 ar habitado por transparências vivas seria o
começo do Desconhecido; além abre-se a vasta porta do
possível. Outros seres e outros fatos. Nada sobrenatural; mas
a continuação oculta da natureza infinita. Gilliatt, no ócio
laborioso que compunha a sua existência, era um observador
estranho e fantástico. Chegava a observar o sono. 0 sono está
em contato com o possível, que também chamamos o inverossímil.
0 mundo noturno é um mundo. A noite é um universo. 0 organismo
material humano, sobre o qual pesa uma coluna- atmosférica de
15 léguas de altura, chega à noite, cai de fraqueza, deita-se,
repousa; fecham-se os olhos da carne; então, naquela cabeça
adormecida, menos do que se crê, abrem- se outros olhos,
aparece o Desconhecido. As coisas sombrias do mundo ignorado
tomam-se vizinhas do homem, ou porque haja verdadeira
comunicação, ou porque as distâncias do abismo tenham
crescimento visionário; parece que as criaturas invisíveis do
espaço vem contemplar-nos curiosas a respeito da criatura da
terra; uma criação fantasma sobe ou desce para nós, no meio de
um crepúsculo; ante a nossa contemplação espectral, uma vida
que não é a nossa agrega-se e dissolve-se, composta de nós
mesmos e de um elemento estranho; e aquele que dorme, nem
completo vidente, nem completo inconsciente, entreve as
animalidades estranhas, as vegetações extraordinárias, as
cores lívidas, terríveis ou risonhas, as larvas, as máscaras,
os rostos, as hidras, as confusões, os luares sem lua, as
obscuras decomposições do prodígio, o crescer e o decrescer no
meio da espessura turvada, a flutuação de formas nas trevas,
todo esse mistério que chamamos sonho, e que não é mais do que
a aproximação de uma realidade invisível. 0 sonho é o aquário
da noite.
Assim sonhava Gilliatt.


A CADEIRA GILD-HOLM- UR

Quem procurasse hoje a casa de Gilliatt não a encontraria, nem
o jardim, nem a enseada onde ele guardava a chalupa. A casa
mal assombrada já não existe. A península onde essa casa
estava edificada caiu à picareta dos demolidores, e foi
conduzida, às carradas, para os navios dos alborcadores de
rochedos e comerciantes de granito. A península reze-se cais,
igreja e palácios na capital. Toda aquela crista de rochedos
Partiu há muito para Londres.
Aqueles prolongamentos de rochas no mar, com aberturas c
recortes, são verdadeiras cadeias de pequenas montanhas;
recebe-se a mesma impressão que teria um gigante contemplando
as cordilheiras. 0 idioma local chama-os bancos. Há-os de
diversas figuras. Uns assemelham-se a uma espinha dorsal, cada
rochedo é uma vértebra; outros a uma espinha de peixe; outros
a um crocodilo bebendo água.
Na extremidade da península da casa mal-assombrada havia uma
grande rocha, que os pescadores do Hommet chamavam Come de Ia
Bete. Essa rocha, espécie de pirâmide, assemelhava-se, posto
que menos elevada, ao Pináculo de Jersey. Nas marés cheias, o
mar separava-a da península e a Come de Ia Bete ficava
isolada. Nas vazantes ia-se até lá por um istmo de rochas
praticáveis. A curiosidade do rochedo era, do lado mar, uma
espécie de cadeira natural cavada pelas águas e polida pela
chuva. Era pérfida a tá cadeira. A gente ia insensivelmente
arrastada até ali pela beleza da vista; parava por amor da
perspectiva, como se diz em Guernesey; o encanto dos grandes
horizontes retinha lá o observador curioso.
A cadeira oferecia-se logo aos olhos dele; era uma espécie de
nicho na fachada a pique do rochedo; trepar àquele nicho era
coisa fácil; o mar que o talhara tinha feito embaixo uma
espécie de escada de pedras chatas, comodamente dispostas; o
abismo tem destas atenções, desconfia sempre da sua cortesia;
a cadeira tentava, a gente subia e assentava-se; sentia-se a
gosto; tinha por assento o granito gasto e arredondado pela
escuma, e por braços duas anfractuosidades que pareciam feitas
de propósito; por encosto toda a alta muralha vertical do
rochedo que a gente admirava sem pensar na impossibilidade de
escalá-la; era simples esquecer-se sentado naquela poltrona;
descobria-se todo o mar, viam-se ao longe os navios entrar e
sair, podia-se acompanhar com os olhos uma vela até
mergulhar-se além dos Casquets, sobre a rotundidade do oceano;
pasmava-se, olhava-se, gozava-se; sentia-se o afago da brisa e
do mar; há em Caiena um vespertínio, que adormece a gente na
sombra com um suave e tenebroso agitar de asas; o vento é esse
morcego invisível; quando não devasta, faz adormecer.
Contemplava-se o mar; ouvia-se o vento, até que vinha o
letargo do êxtase. Quando os olhos se enchem de um excesso de
beleza e de luz, fechá-los é voluptuosidade. Acordava-se de
súbito. Era tarde. A maré crescera a pouco e pouco. A água
cingia o rochedo.
Estava-se perdido.
Tremendo bloqueio é o mar que sobe!
A maré cresce insensivelmente ao princípio, depois com
violência. Chegando às rochas, encoleriza-se, escuma. Nem
Sempre se pode nadar junto aos cachopos. Excelentes nadadores
morreram afogados naquele lugar.
Em certos pontos, a certas horas, contemplar o mar é sorver um
veneno. É o que acontece, às vezes, olhando para uma mulher.
Os antiquíssimos habitantes de Guernesey chamavam outrora
àquele nicho talhado na rocha pela vaga a Cadeira Gild-MIm- Ur
ou Kidormur. Palavra céltica, dizem, não entendida pelos que
sabem céltico, e entendida pelos que sabem francês.
Quem-dorme-morre. (Qui-dort-meurt) Tal é a tradução rústica.
Pode-se escolher entre esta tradução Quemdorme-morre e a
tradução dada em 1819, creio eu, no Armoricano, por Mr.
Athenas. Segundo Este conhecedor da língua céltica, Gild-Holm-
Ur quer dizer Alta-dos-bandos-de-pássaros.
Há em Aurigny outra cadeira deste gênero que se chama Cadeira
do Frade, também arranjada pelo mar, e com uma saliência de
pedra ajustada tão a propósito que se pode dizer que o mar
teve a complacência de por um tamborete debaixo dos nossos
pés.
Nas marés cheias, não se podia ver a Cadeira Gild-Holm'Ur. A
água cobria-a inteiramente.
A Cadeira Gild-Holm-'Ur era vizinha da casa mal-assombrada.
Gilliatt ia lá sentar-se muitas vezes. Meditava? Não. Já o
dissemos, Gilliatt sonhava. Não se deixava surpreender pela
maré.



LIVRO SEGUNDO
MESS LETHIERRY



VIDA, AGITADA E CONSCIÊNCIA TRANQÜILA

Mess Lethierry, o homem notável de Saint-Sampson, era um
marinheiro terrível. Tinha navegado muito. Foi grumete,
gajeiro, timoneiro, contramestre, mestre de equipagem, piloto,
arrais. Agora era armador. Ninguém conhecia o mar como ele.
Era intrépido para salvar gente. Quando havia temporal, Mess
Lethierry ia passear à praia, com os olhos no horizonte. Que é
aquilo lá ao longe? E alguém que está em perigo. É um barco de
Weymouth, ou de Aurigny, ou de Courseulle, é o iate de um
lorde, um inglês, um francês, um pobre, um rico, é o diabo,
fosse quem fosse, ele saltava dentro da lancha, chamava dois
ou tres homens valentes, dispensava-os quando não tinha,
equipava ele só, desatava a amarra, travava dó remo, fazia-se
ao largo, subia e descia nas cavas das ondas, mergulhava no
furacão, ia ao perigo. Viam-no assim de longe, no meio das
lufadas do vento, de pé sobre a embarcação, gotejante de
chuva, confundido com os relâmpagos, face de leão e juba de
espuma. Passava assim às vezes um dia inteiro no perigo, e nas
vagas à saraiva e ao vento, costeando os navios que
soçobravam, salvando homens, salvando cargas, disputando com a
tempestade. Voltava à noite para casa, e tecia um par de
meias.
Passou esta vida cinqüenta anos, desde os dez até os sessenta,
enquanto foi moço. Aos sessenta anos, viu que já não Podia
levantar com um braço a bigorna da forja de Varclin; pesava
aquela bigorna 300 libras; foi atacado repentinamente de
reumatismo. Teve de deixar o mar. Passou da idade heróica à
idade patriarcal. Já não era mais que um bonachão.
Mess Lethierry alcançou a um tempo o reumatismo e a abastança.
Estes dois produtos do trabalho acompanhavam-se
voluntariamente. Quem chega a ser rico, fica inutilizado. É a
coroa da vida.
Diz-se então: vamos gozar agora.
Nas ilhas como Guemesey, a população é composta de homens que
passaram a vida a andar à roda do campo, e de homens que
passaram a vida a viajar à roda do mundo. São duas espécies de
lavradores, uns da terra, outros do mar. Mess Lethierry era
dos últimos. Conhecia, porém, a terra. Tinha trabalhado muito.
Viajara no continente. Foi algum tempo carpinteiro de navio em
Rochefort, depois em Cette.
Falamos nas viagens à roda do mundo; Mess Lethierry viajou a
França toda como carpinteiro. Trabalhou nos aparelhos para
esgoto das salinas de Franche-Comté. Aquele honrado homem teve
uma vida de aventureiro. Na França aprendeu a ler, a pensar, a
querer. Fez tudo, e de quanto fez extraiu a probidade. 0 fundo
da sua natureza era o marinheiro. A água lhe pertencia. "Os
peixes estão em minha casa", dizia ele. Em suma, toda a sua
existência, com exceção de dois ou tres anos, foi consagrada
ao oceano; "atirada à água", dizia ele. Navegara nos grandes
mares, no Atlântico e no Pacífico; mas preferia a Mancha.
"Aquele é que é rude", exclamava ele com amor. Nasceu ali, ali
queria morrer. Depois de ter feito duas ou tres vezes a volta
do mundo, e sabendo o que devia escolher, voltou a Guernesey,
e não se mexeu dali. As suas viagens, então, eram dranville e
Saint-Malo.
Mess Lethierry era guemesiano, isto é, normando, inglês,
francês. Tinha essa pátria quádrupla, imersa e como que
afogada na sua grande pátria, o oceano. Durante a sua vida, e
em toda parte, conservou os costumes de pescador normando.

Isso, porém, não tolhia que ele abrisse de quando em quando um
alfarrábio, gostasse de ler um livro, de saber os nomes dos
filósofos e poetas, e taramelar em vasconço um pouquinho de
cada língua.


UMA PREFERENCIA DE MESS LETHIERR Y

Gilliatt era um selvagem. Mess Lethierry era outro.
Este, porém, era um selvagem elegante.
Era exigente a respeito de mãos de mulheres.
Ainda moço, quase menino, estando entre marinheiro e grumete,
ouviu dizer ao bailio de Suffren: "Bonita rapariga, mas que
grandes mãos vermelhas que ela tem!" Um dito de almirante
impõe, em qualquer assunto que seja. Acima de um oráculo está
uma senha. A exclamação do bailio de Suffren fez com que Mess
Lethierry se tomasse delicado e exigente acerca de mãos alvas.
A dele era uma larga espátula, escura na cor; na agilidade era
uma clava, nas carícias uma torques; quebrava um seixo com um
soco.
Não era casado. Não quis ou não encontrou mulher.
Naturalmente, o marinheiro queria mãos de duquesa. Não se
encontram mãos dessas nas pescadoras de Port-Bail.
Conta-se entretanto que em Rochefort (Charente) achou ele um
dia uma grisette que realizava o seu ideal Linda moça e lindas
mãos. Detraía e arranhava. Afrontá-la era perigoso. As suas
unhas, extremamente asseadas, tornavam-se garras destemidas,
quando era necessário. Tão belas unhas encantaram Mess
Lethierry; mas depois, receando que viesse a perder a
autoridade sobre a amante, resolveu não levar aquele namorico
à presença do senhor matre.
De outra feita, em Aurigny, gostou de uma rapariga. Já cuidava
dos esponsais, quando um residente do lugar lhe disse:
"Dou-lhe os meus parabéns. Leva uma boa esterqueira".
Lethierry pediu explicações deste elogio. Em Aurigny há uma
moda. Apanha-se esterco de vaca e deita-se às paredes. Depois
de seco, cai o esterco e serve para aquecer a gente. Ninguém
casa com uma rapariga, senão quando é boa esterqueira. Esta
habilidade afugentou Mess Lethierry.
Demais, em assunto de amor ou namoro, tinha ele uma boa
filosofia rústica, uma ciência de marinheiro: apanhado sempre,
encadeado nunca. Lethierry gabava-se de ter-se deixado vencer
sempre pela vasquinha, no tempo da sua mocidade. 0 que hoje se
chama crinolina chamava-se, então, vasquinha. Significa mais e
menos que unia mulher.
Os rudes marinheiros do arquipélago normando são inteligentes.
Quase todos sabem ler. Vêem-se, aos domingos, rapazitos de
oito anos, assentados em um grande novelo de cabos, com um
livro na mão. Os marinheiros normandos foram sempre
sardonicos, e sabem dizer coisas chistosas. Foi um deles, o
atrevido piloto Queripel, quem atirou a Montgomery, refugiado
em Jersey depois da funesta lançada contra Henrique II, esta
apóstrofe: "Cabeça doida feriu a cabeça vazia". Outro
marinheiro, por nome Touzeau, arrais em Saint-Brelade, fez o
trocadilho filosófico atribuído ao Bispo Camus: "Aprés Ia mort
les papes deviennent papillons et les sires deviennent cirons
" (Depois da morte tornam-se os papas borboletas, e os reis.)


A VELHA LINGUADO MAR

Os marinheiros das Channel-Islands são puros gauleses. Estas
ilhas, que se vão fazendo inglêsas, conservaram-se muito tempo
autóctones. 0 camponês de Serk fala a língua de Luís XIV.-
Há quarenta anos, achava-se ainda na boca dos marinheiros de
Jersey e de Aurigny o idioma marítimo clássico. Fazia crer que
estávamos em plena marinha do século XVII. Um arqueólogo
especialista poderia ir estudar ali a antiga linguagem de
manobra e de batalha esbravejada por Jean Bart naquele
porta-voz que aterrava o Almirante Hidde.
0 vocabulário marítimo dos nossos pais, quase inteiramente
renovado hoje, era ainda usado em Guemesey, em 1820. 0 navio
que suporta o vento era bom boulinier (bom de bolina);
dizia-se do navio que se afeiçoa ao vento, por si mesmo,
apesar das velas de proa e do leme, vaisseau ardent (navio que
se aguça); entrar em movimento era prendre aire (tomar o
vento); pôr-se à capa era capeyer (capear); apanhar o vento
por cima eràfaire chapelle (tocar em vento); agüentar bem
sâbjre a amarra erafaire teste; estar em confusão a bordo era
etre en pantenne; ter o vento nas velas era porter-plain
(levar em cheio).
Hoje nada disto se diz. Diz-se hoje louvoyer (bolinar);
dizia-se leauvoyer, diz-se naviguer (navegar), dizia-se nager;
diz-se virer vent devant (virar por d'avante), dizia-se
vidonner vent devant; diz-se aller de ávant (seguir avante),
dizia-se taMer de 1 ávant, diz-se tirer d áccord (alar à uma),
dizia-se haller d áccord, diz-se déraper (arrancar o ferro),
dizia-se déplanter; diz-se embraquer (tesar), dizia-se
abraquer, diz-se taquets (cunhas), dizia-se billons; diz-se
burins (passadores), dizia-se tappes; diz-se balancines
(amantilhos), dizia-se valancines; diz-se tribord (estibordo),
dizia-se stribord, diz-se les hommes de quart à Mbord (homens
de quarto a bombordo), dizia-se les basbourdis.
Tourville escrevia a Hocquincourt: Nous avons single
(singramos). Em vez de Ia-rafale (a lufada), le raqffal; em
vez de bossoir (turcos), boussoir; em vez de drosse (bossa),
drousse; em vez de loffer (arribar), faire une olofée; em vez
de elonger (alongar), alonger, em vez deforte brise (vento
fresco), survent, em vez de sout (paiol),fosse; em vez
dejouail (cepo de âncora), jas; tal era, no começo deste
século, a língua de bordo nas ilhas da Mancha. Ouvindo falar
um marinheiro de Jersey, Ango ficaria abalado. Enquanto no
resto do mundo as velasfaseyaint (panejavam), barbeyaient nas
ilhas da Mancha. Saute-de-vent (cambar o vento) era
folle-vente. Só ali se empregavam os dois modos góticos de
amarração, a valturre e a portuguesa. Só ali se davam ordens
destas: Tour-et-choque! - Bosse et Bitte! - Já um marinheiro
de Granville dizia le clan (o gorne); e ainda o marinheiro de
Saint-Aubin ou de Saint-Sampson dizia lè canal de pouliot. 0
que era bout-dálonge (postura) em Saint-Malo, era em
Saint-Hélier oreille dâne. Mess Lethierry, como o duque de
Vivonne, chamava o tosado de convés Ia tonture.
Foi com Este idioma extravagante que Duquesne bateu Ruyter,
que Duguay Trouin bateu Wasnaer, e Tourville em 1681
atravessou em pleno dia a primeira galera que bombardeou
Argel. Hoje é língua morta. A gíria do mar é outra. Duperré
não poderia entender Suffren.
Não menos se transformou a língua dos sinais; e há grande
distância entre as flâmulas encarnada, branca, azul e amarela
de Labourquedonnaye e os dezoito pavilhões de hoje, arvorados
dois a dois, tres a tres e quatro a quatro, dão para as
necessidades da combinação distante, 70 000 combinações,
suprem tudo, e, por assim dizer, prevêem o imprevisto.


VULNERABILIDADE POR AMOR

Mess Lethierry tinha o coração nas mãos; mãos largas e coração
grande. 0 defeito dele era a admirável qualidade da confiança.
Tinha uma maneira especial de contrair uma obrigação; era
solene: "Dou a minha palavra de honra a Deus". Dito isto,
cumpria a promessa. Acreditava em Deus, e nada mais. Ia poucas
vezes à igreja, e isso mesmo, por cortesia. No mar, era
supersticioso.
Nunca houve, porém, tempestade que o fizesse recuar; é que ele
era pouco acessível à contradição. Não a tolerava, nem num
homem, nem no oceano. Queria ser obedecido; tanto pior para o
mar se resistia; tinha de lutar com ele. Mess Lethierry não
cedia nunca. Vaga que se empinasse, vizinho que contendesse,
nada lhe detinha a mão. 0 que dizia estava dito, o que
planeava estava feito. Não se curvava, nem diante de uma
objeção, nem diante de uma tempestade. Não, para ele, era
palavra que não existia, nem na boca de um homem, nem no
ribombo de uma nuvem. Passava adiante. Não consentia que se
lhe recusasse nada. Daí vinha a sua pertinácia na vida e a sua
intrepidez no oceano.
Era ele próprio quem temperava a sua sopa de peixe; sabia que
porção de sal, pimenta e ervas era preciso, e gostava tanto de
fazê-la como de come-la.
Criatura que um riso transfigura, e um casaco embrutece,
assemelhando-se, com os cabelos soltos, a Jean Bart, e, com o
chapéu redondo, a Jocrisse, acanhado na cidade, estranho e
temível no mar, espádua de carregador, sem imprecações, quase
sem cólera, voz doce e meiga que o porta-voz transforma em
trovão, campônio que leu a Enciclopédia, guernesiano que viu a
revolução, ignorante instruído, ermo de carolice, dado às
visões, mais fé na Dama Branca que na Santa Virgem, lógica de
ventoinha, vontade de Cristóvão Colombo, um tanto de touro e
um tanto de criança, nariz quase rombo, faces grossas, boca
com todos os dentes, rosto enrugado, cara que parece ter sido
feita pelo mar, beijada pelos ventos durante quarenta anos, ar
de tempestade na fronte, carnação de rocha em pleno mar; põe
agora um olhar* bom neste rosto agreste, e terás Mess
Lethierry.
Mess Lethierry tinha dois amores: Durande e Déruchette.


LIVRO TERCEIRO

DURANDE E DÉRUCHETTE


GARRULICE E EFLÚVIOS

0 corpo humano é talvez uma simples aparência, escondendo a
nossa realidade, e condensando-se sobre a nossa luz ou sobre a
nossa sombra. A realidade é a alma. A bem dizer, o rosto é uma
máscara. 0 verdadeiro homem é o que está debaixo do homem.
Mais de uma surpresa haveria se pudesse vê-lo agachado e
escondido debaixo da ilusão que se chama carne. 0 erro comum é
ver no ente exterior um ente real. Tal criaturinha, por
exemplo, se pudéssemos ve-la como realmente é, em vez de moça,
mostrar-se-ia pássaro.
Pássaro com forma de moça, que há aí de mais delicado? Imagina
que a tens em casa. Supõe que é Déruchette. Deliciosa
criatura! Dá vontade de dizer: "Bom dia, mademoiselle
alvéloa". Não se lhe vêem as asas, mas ouve-se-lhe o gorjeio.
Canta às vezes. Na tagarelice está abaixo do homem; no canto,
está acima dele. Tem mistérios aquele canto; uma virgem é o
invólucro de um anjo. Feita a mulher, desaparece o anjo;
volta, porém, depois trazendo uma alma de criança à mãe.
Esperando a vida, aquela que há de ser mãe algum dia,
conserva-se muito tempo criança, a menina persiste na moça; é
uma calhandra. Pensa-se, ao vê-la: que boa que ela é em não
bater as asas para ir-se embora!
A meiga e familiar criatura acomoda-se em casa, de ramo em
ramo, isto é, de quarto em quarto, entra, sai, acerca-se,
afasta-se, alisa as penas, ou penteia os cabelos, faz toda
espécie de rumores delicados, murmura um não sei que de
inefável aos teus ouvidos. Quando ela interroga,
responde-se-lhe; interrogada, gorjeia. Tagarela-se com ela. A
tagarelice serve para descansar de falar. Há uma porção
celeste nessa menina. É um pensamento azul misturado ao teu
pensamento negro. Alegras-te por vê-la tão esquiva, tão
ligeira, tão fugitiva; agradeces-lhe a bondade de não ser
invisível, ela, que poderia, creio eu, ser impalpável. Neste
mundo o lindo é o necessário. Há mui poucas funções tão
importantes como esta de ser encantadora. Que desespero na
floresta se não houvesse o colibri! Exalar alegrias, irradiar
venturas, possuir no meio das coisas sombrias uma transmudação
de luz, ser o dourado do destino, a harmonia, a gentileza,* a
graça, é favorecer-te. A beleza basta ser bela para fazer bem.
Há criatura que tem consigo a magia de fascinar tudo quanto a
rodeia; às vezes nem ela mesmo o sabe, e é quando o prestígio
é mais poderoso; a sua presença ilumina, o seu contato aquece;
se ela passa, ficas contente; se papa, és feliz; contemplá-la
é viver; é a aurora com figura humana; não faz nada, nada que
não seja estar presente, e é quanto basta para edenizar o lar
doméstico; de todos os poros sai-lhe um paraíso; é um êxtase
que ela distribui aos outros, sem mais trabalho que o de
respirar ao pé deles. Ter um sorriso que - ninguém sabe a
razão - diminui o peso da cadeia enorme arrastada em comum por
todos os viventes, que queres que te diga? é divino.
Déruchette tinha esse sorriso. Mais ainda, era o próprio
sorriso. Há alguma coisa mais parecida que o nosso rosto, é a
nossa fisionomia; e outra mais parecida que a nossa
fisionomia, é o nosso sorriso. Déruchette, risonha, era
Déruchette.
É particularmente sedutor o sangue de Jersey e de Guernesey.
As mulheres, as raparigas, sobretudo, tem uma beleza florida e
cândida. É a combinação da alvura saxonia com a frescura
normanda. Faces rosadas e olhos azuis. Falta-lhes brilho nos
olhos. A educação inglêsa amortece-os. Serão irresistíveis
aqueles olhos límpidos no dia em que tiverem a profundeza do
olhar parisiense. A parisiense ainda não se fez inglêsa,
felizmente. Déruchette não era parisiense, mas também não era
guernesiana. Nascera em Saint-Pierre-Port, mas Mess Lethierry
foi quem a educou. Educou-a para ser mimosa, a menina o era.

Déruchette tinha o olhar indolente e agressivo, sem que o
soubesse. Não conhecia talvez o sentido da palavra amor e
fazia com que a gente se apaixonasse por ela. Mas era sem má
intenção. Déruchette nem pensava em casamento. 0 velho fidalgo
emigrado que fora residir em Sait-Sampson dizia: "Esta
rapariga seduz a matar".
Déruchette tinha as mais lindas mãozinhas deste mundo, e pés
iguais às mãos, quatro "pèzinhos de mosca", dizia Mess
Lethierry. Tinha em si a bondade e a doçura; o tio Lethierry
era toda a sua família e riqueza; o trabalho dela era
deixar-se viver; tinha por talento algumas canções, por
ciência a beleza, por espírito a inocência, por coração a
ignorância; tinha a graciosa indolência crioula, mesclada de
travessura e de viveza, a jovialidade traquinas da infância
com um pendor à melancolia, vestuários um pouco insulares,
elegantes, mas incorretos, chapéus de flores todo o ano,
fronte ingênua, pescoço flexível e tentador, cabelos
castanhos, pele branca com alguns toques arruivados no verão,
boca grande e sã, e nessa boca o adorável e perigoso esplendor
do sorriso. Eis o que .era Déruchette.
Algumas vezes, à noite, após o por do sol, no momento em que a
noite se mistura com o mar, à hora em que o crepúsculo dá uma
espécie de terror às vagas, via-se entrar na barra de
Saint-Sampson, ao tumulto sinistro das ondas, uma certa massa
informe, uma coisa monstruosa que silvava e cuspia, que
roncava como uma besta e fumegava como um vulcão, uma espécie
de hidra babando espuma e arrastando um nevoeiro, atilando-se
sobre a cidade com um horrível movimento de barbatanas e uma
goela donde as chamas irrompiam. Era Durande.


A ETERNA HISTÓRIA DA UTOPIA

Era uma prodigiosa novidade o aparecimento de um navio a vapor
nas águas da Mancha em 1822 ... Toda a costa normanda esteve
por muito tempo assombrada. Hoje dez ou doze vapores cruzam-se
em sentido inverso no horizonte do mar, sem atrair os olhos de
ninguém. Quando muito, algum observador especialista
distingue, pela cor da fumaça, se o carvão que consome o navio
é de Gales ou de Newcastle. Passam; é quanto basta. Se partem:
"Boa viagem!"; se chegam: "Welcome!"
Não era tão grande a calma a respeito de tais invenções no
primeiro quarto do nosso século, e estas máquinas fumegantes
eram particularmente suspeitas entre os insulares da Mancha.
Neste arquipélago puritano onde a rainha da Inglaterra foi
censurada por violar a Bíblia narcotizando-se para dar à luz,
o navio a vapor teve como primeiro cumprimento o ser batizado
com Este nome: Devil Boat - Navio-Diabo.
A esses bons pescadores de então, outrora católicos, agora
calvinistas, e sempre beatos, pareceu-lhes aquilo o inferno
flutuante. Um pregador da terra tratou da questão: "Temos nós
o direito de fazer trabalhar juntos o fogo e a água que Deus
separou?" Aquele animal de ferro e fogo não era a imagem de
Leviatã? Não era isso refazer o homem, a seu modo, o primitivo
caos? Não é a primeira vez que acontece qualificar a ascensão
do progresso de retrogradação ao caos.
"Idéia louca, erro grosseiro, absurdo": tal foi o veredicto da
Academia das Ciências consultada por Napoleão no começo deste
século, acerca do vapor. Os pescadores de SaintSampson tem
desculpa, em matéria científica, ao nível dos geômetras de
Paris; e, em matéria religiosa, uma pequena ilha como
Guernesey não tem obrigação de ser mais ilustrada que um
grande continente como a América. Em 1807, quando o primeiro
navio de Fulton, patrocinado por Livingston, provido da
máquina de Watt mandada da Inglaterra, e tripulado, além da
equipagem, por dois francêses, somente, André Michaux e outro,
fez a sua primeira viagem de Nova York a Albany, deu-se o caso
de acontecer isso no dia 17 de agosto. Esta coincidência deu
origem a que o metodismo tomasse a palavra, e em todas as
capelas os pregadores amaldiçoaram a máquina, declarando que o
número dezessete era o total das dez antenas e das sete
cabeças da besta do Apocalipse. Na América invocava-se contra
o vapor a besta do Apocalipse; na Europa a besta do Gênesis.
Nisto consistia toda a diferença.
Os sábios haviam rejeitado o vapor como impossível; os padres,
a seu turno, rejeitavam-no como ímpio. Fulton era uma variante
de Lúcifer. Os habitantes simplórios das costas e dos campos
aderiam à reprovação pelo incomodo que lhes causava a
novidade. Na presença do vapor, o ponto de vista religioso era
Este: a água e o fogo são um divórcio. Este divórcio é
ordenado por Deus. Não se deve desunir o que Deus uniu, nem
unir o que ele desuniu. 0 ponto de vista do camponês era: isto
mete-me medo.
Para cometer, naquela época remota, a empresa de uma navegação
a vapor entre Guernesey e Saint-Malo, nada menos era preciso
que um homem como Mess Lethierry. Só ele podia concebe-la na
qualidade de livre pensador, e realizá-la na qualidade de
marinheiro atrevido. 0 seu eu francês concebeu a idéia; o seu
eu inglês executou-a.
Em que ocasião? Digamo-lo.

III

RANTAINE

Quarenta anos antes da época em que se passam os fatos que
narramos, havia em um arrabalde de Paris, entre a
Fosse-aux-Loups e a Tombe Issoire, um albergue suspeito. Era
uma casinha isolada e baixa. Morava ai, com a mulher e o
filho, uma espécie de burguês bandido, antigo escrevente de
tabelião no Châtelet, e ao depois ladrão descarado. Já havia
figurado no tribunal criminal. 0 apelido da família era
Rantaine. No referido pardieiro, em cima de uma cômoda de
mogno, viam-se duas xícaras de porcelana pintada: em uma delas
lia-se em letras douradas o seguinte dístico: "Lembrança de
Amizade' na outra: "Sinal de Estima " A criança vivia ali na
lama de parceria com o crime. Como o pai e a mãe pertenciam à
burguesia mediana, o menino aprendia a ler: educavam-no. A
mãe, pálida, quase esfarrapada, dava maquinalmente educação a
seu filho: ensinava-o a soletrar; e interrompia o trabalho,
ora para ajudar o marido em alguma emboscada, ora para
entregar-se ao primeiro viandante. Durante esse tempo a Cruz
de Jesus, aberta no lugar em que a deixavam, ficava sobre a
mesa, e ao pé do livro o menino pensativo.
0 pai e a mãe, presos em algum flagrante delito, desapareceram
na noite penal. A criança desapareceu também. Lethierry, em
suas excursões, encontrou um aventureiro como ele, livrou-o,
não se sabe de que aperto, prestou-lhe serviços,
afeiçoou-se-lhe, chamou-o a si, levou-o para Guernesey,
achou-o inteligente para a navegação costeira, e deu-lhe
sociedade. Era o pequeno Rantaine feito homem.
Rantaine, como Lethierry, tinha uma cabeça robusta, espáduas
largas e possantes e quadris de Hércules Farnese. Lethierry e
ele tinham o mesmo ar e a mesma aparência; Rantaine era mais
alto. Quem os via, pelas costas, passear ao lado um do outro,
dizia: lá estão os dois irmãos. De frente, o caso era diverso.
Havia tanto de franco em Lethierry, como de reservado em
Rantaine. Rantaine era circunspecto. Rantaine era esgrimista,
tocava harmônica, espevitava uma vela com uma bala a vinte
passos. dava um soco magnífico, recitava versos da Hemíada, e
adivinhava sonhos. Sabia de cor os Êmulos de São Denis, por
Treneuil; dizia ter tido amizade com o sultão de Calicut a
quem os portugueses chamam Camorim. Se pudesse folhear a
carteira de lembranças que andava sempre no bolso dele,
ter-se-iam encontrado, entre outras notas, algumas do gênero
desta: "Em Lião, numa das frestas da parede do calabouço de
São José, há uma lima escondida". Falava com uma lentidão
discreta. Dizia-se filho de um cavalheiro de São Luís. A sua
roupa era toda misturada e marcada com iniciais diferentes.
Ninguém mais suscetível em coisas de honra. Batia-se e matava.
A força servindo de invólucro à astúcia, tal era Rantaine.
A beleza de um soco aplicado por ele numa feira, sobre uma
cabeça de moro, conquistara-lhe outrora a simpatia de
Lethierry.
Suas aventuras eram completamente ignoradas em Guernesey.
Variavam muito. Se os destinos tem um traje, o destino de
Rantaine vestia a moda de arlequim. Tinha visto o mundo: tinha
trabalhado muito. Era um circunavegador. Te-vê inumeráveis
ofícios. Foi cozinheiro em Madagascar, criador de pássaros em
Sumatra, general em Honolulu, jornalista religioso nas ilhas
de Galápagos, poeta em Oomrawuttee e pedreiro-livre no Haiti.
Neste último emprego pronunciara no Grande Goave uma oração
fúnebre de que os jornais locais conservaram Este fragmento:
"Adeus, pois, bela alma! na abóbada azulada dos céus onde
agora desferes o vôo, encontrarás sem dúvida o bom Padre
Leandro Crameau do Pequeno Goave. Dize-lhe que, graças a dez
anos de esforços gloriosos, terminasse a Igreja de
Anse-à-Veau. Adeus! gênio transcendente, modelo!" A máscara de
pedreiro-livre não lhe impedia, como se vê, trazer o nariz
católico. A primeira conciliava-o com os homens do progresso;
o segundo com os homens da ordem. Apregoava-se branco de raça
pura, odiava os negros: apesar disso teria admirado a Soluque.
Em Bordeaux, em 1815, foi ele verdete. Naquela época a fumaça
de seu realismo saía-lhe pela cabeça fora, na forma de um
imenso penacho branco. Passava a vida a fazer eclipses,
aparecendo, desaparecendo e tornando a aparecer. Era um
velhaco a girar como uma rodinha de fogo. Sabia o turco: em
vez de guilhotinado, dizia neboissé. Fora escravo em Trípoli,
na casa de um thaleb, e aí aprendera o turco à força de
bengaladas; tinha por obrigação ir à noite à porta das
mesquitas ler em alta voz diante dos fiéis o Alcorão, escrito
em pranchas de madeira ou em omoplatas de camelo.
Provavelmente era renegado.
Era capaz de tudo e mais alguma coisa.
Ria a gargalhadas e enrugava as sobrancelhas, a um tempo.
Dizia: "Em política, só estimo as pessoas inacessíveis às
influencias". Dizia: "Sou pelos costumes". Dizia: "É preciso
repor a pirâmide na base". Era mais alegre e cordial que outra
coisa. A forma da boca desmentia-lhe o sentido das palavras.
As suas narinas eram antes ventas de animal. Tinha no canto
dos olhos uma encruzilhada de rugas onde toda a sorte de
pensamentos obscuros davam entrevista. Aí é que se podia
decifrar o segredo da fisionomia dele. Assemelhavam-se as tais
rugas a uma garra de abutre. 0 crânio era chato em cima e
largo nas têmporas. Á orelha disforme e embrenhada de cabelos
parecia dizer: "Não fales ao animal que está aqui neste
antro".
Rantaine desapareceu um dia de Guernesey.
0 sócio de Lethierry raspou-se, deixando vazia a caixa da
sociedade.
Havia dinheiro dele na caixa, é certo; mas havia também 50 000
francos de Lethierry.
Lethierry ganhara uns 100 000 francos em quarenta anos .de.
indústria e de probidade, no seu oficio de navegador costeiro
e carpinteiro de navio; Rantaine levou-lhe metade.
Lethierry, meio arruinado, não cedeu, e tratou imediatamente
de levantar-se. Aos homens de boa tempera arruina-se a
fortuna, não a coragem. Começava-se então a falar do vapor.
Lethierry teve a idéia de tentar a máquina de Fulton, tão
contestada, e ligar por meio de um vapor o arquipélago
normando à França. Jogou tudo nessa idéia. Aplicou-lhe os
restos da fortuna. Seis meses depois da fuga de Rantaine a
gente de Saint-Sampson viu estupefata sair daquele porto um
navio deitando fumo, e produzindo o efeito de um incêndio no
mar: foi o primeiro vapor que sulcou as águas da Mancha.
Aquele navio, alcunhado Galeota de Lethierry, pelo desdém e
ódio de todos, foi anunciado para fazer a carreira de
Guernesey a Saint-Malo.

CONTINUA ÇÃO DA HISTÓRIA DA UTOPIA

Compreende-se que a coisa fosse muito mal recebida. Todos os
proprietários de navios ide carreira entre a ilha guernesiana
e a costa francesa clamaram imediatamente. Denunciaram aquele
atentado feito às Santas Escrituras e ao monopólio. Alguns
templos fulminaram. Um reverendo, por nome Elihu, chamou ao
vapor uma libertinagem. 0 barco a vela foi declarado ortodoxo.
Viu-se distintamente que eram pontas do diabo as pontas dos
bois que o vapor trazia e desembarcava. Durou o protesto um
bom par de dias. Mas a pouco e pouco foram vendo que os tais
bois chegavam menos estafados, e vendiam-se melhor, por ser a
carne mais tenra;, que também para os homens eram menores os
riscos do mar; que a passagem, menos dispendiosa, era segura e
mais curta; que eram fixas as horas da saída e da chegada; que
o peixe, viajando mais depressa, chegava mais fresco, e que se
podia levar aos mercados franceses as sobras das grandes
pescas, tão freqüentes em Guernesey; que a manteiga das
admiráveis vacas de Guernesey fazia mais rapidamente o trajeto
no Devil Boat que nas chalupas à vela, e não perdia na
qualidade, de maneira que afluíam as encomendas de Dinan, de
SaintBrieuc e de Rennes; finalmente que, graças ao que se
chamava Galeota de Lethierry, havia segurança de viagem,
regularidade de comunicação, tráfego fácil e pronto, aumento
de circulação, multiplicação de mercados, extensão de
comércio; em suma, que era preciso aproveitar o Devil-Boat que
violava a Bíblia e enriquecia a ilha. Alguns espíritos fortes
arriscaram-se a aprovar o vapor com certa precaução. 0 Sr.
Landoys, o escrevente, votou ao navio a sua estima. Era
imparcialidade, porque ele não gostava de Lethierry: primeiro,
porque Lethierry era Mess, e Landoys era apenas senhor; depois
porque, embora escrevente em Saint-Pierre-Port, Landoys era
paroquiano de Saint-Sampson; ora, na paróquia, só havia dois
homens sem preconceitos, Lethierry e Landoys; o menos que
podia acontecer era que um detestasse o outro. A bordo do
mesmo navio distanciam-se duas criaturas.
Contudo, o Sr. Landoys teve o cavalheirismo de aprovar o
vapor. Outras pessoas o imitaram. Insensivelmente, o fato foi
subindo; os fatos são como as marés; e, com o tempo, com o
sucesso continuado e crescente, com a evidencia do serviço
prestado, o aumento da comodidade pública, lá veio um dia em
que, à exceção de alguns homens de juízo, toda a gente admirou
a Galeota de Lethierry.
Hoje seria menos admirada. Aquele vapor de há quarenta anos
faria sorrir os nossos atuais construtores. Era uma maravilha
disforme, um prodígio raquítico.
Entre os nossos grandes paquetes transatlânticos de hoje e o
navio de rodas e fogo que Dionísio Papin fez manobrar na Fulde
em 1707, não há menor distância que entre a nau Montebello, de
200 pés de comprimento, 50 de largura, com lima verga de 115
pés, arqueando 2 000 toneladas, levando 1 100 homens, 120
peças, 10 000 balas e 160 volumes de metralha, deitando 3 300
litros de ferro por banda e desenrolando ao vento em viagem 5
600 metros de lona, e o dromon dinamarquês do II século, que
se achou cheio de pedras, arcos e clavas, nos atoleiros de
Wester-Satrup, e depositado na municipalidade de Flensburgo.
Cem anos justos, 1707-1807, separam o primeiro barco de Papin
do primeiro navio de Fulton. A Galeota de Lethierry era
decerto um progresso sobre aqueles dois esboços, mas era
esboço também. Nem por isso deixava de ser uma obra-prima.
Todo embrião de ciência tem Este duplo aspecto: monstro, como
feto; maravilha, como germe.


0 NAVIO-DIAB0

A Galeota de Lethierry não era mastreada no ponto vélico, e
não era isso defeito, porque é uma das leis da construção
naval; demais, sendo o fogo o propulsor do navio, o velame era
simplesmente acessório; um navio de rodas é quase insensível
ao velame que se lhe põe. A Galeota era demasiado curta e
arredondada; grande bochecha e largos quadris; Lethierry não
teve a ousadia de fazê-la mais ligeira. A Galeota tinha alguns
dos inconvenientes e das qualidades da pança: arfava pouco,
mas rangia muito. A caixa das rodas era muito alta. A viga da
coberta era maior do que comportava o comprimento. A máquina,
que era massuda, atravancava o navio, e, para torná-lo capaz
de um grande carregamento, foi preciso levantar muito a
amurada, o que deu à Galeota, mais ou menos, o defeito das
naus de 74, que só arrasando-as podem navegar e combater.
Sendo curta, devia girar depressa, visto que o tempo empregado
em uma evolução está na razão do comprimento do navio; mas o
peso tirava-lhe a vantagem que lhe provinha de ser curta. 0
pontal era muito largo, o que lhe atrasava a marcha, porque a
resistência da água é proporcional à maior seção imergida e à
velocidade do navio. A proa era vertical, o que não seria
defeito hoje, mas naquele tempo era uso incliná-la uns 45
graus. Todas as curvas do casco estavam bem emparelhadas, mas
não eram suficientemente longas para a obliqüidade e
paralelismo com o lume da água, que deve ser rechaçada
lateralmente. No mau tempo, calava muita água, ora na proa,
ora na popa, o que mostrava ter vício de construção no centro
de gravidade. Não estando o carregamento no lugar próprio, por
causa do peso da máquina, acontecia que o centro de gravidade
passava às vezes para trás do mastro grande, e então era
preciso contar só com o vapor, e desconfiar da vela grande,
porque o efeito da vela grande nesses casos fazia antes
arribar que sustentar o vento. 0 recurso era, ao aproximar-se
do vento, soltar a grande escota; deste modo o vento fixava-se
na proa, pela amurada, e a vela grande fazia o efeito de uma
vela de popa. A manobra era difícil. 0 leme era o leme antigo,
não de roda como hoje, mas de cana,- voltando sobre os eixos
firmados no cadaste, e movido por uma trave horizontal que
passava por cima da cava da culatra.
Tinha duas faluas suspensas. 0 navio era de quatro âncoras, a
âncora grande, a segunda âncora, que é a que trabalha,
workinganchor, e duas âncoras de amarra. Essas quatro âncoras,
atadas por correntes, eram manobradas, segundo as ocasiões,
pelo grande cabrestante da popa e o pequeno cabrestante da
proa. Tendo apenas duas âncoras de amarra, uma a estibordo,
outra a bombordo, o navio não podia ancorar em cruz, o que o
desarmava quando sopravam certos ventos. Mas neste caso podia
usar da segunda âncora. As bóias eram normais, e construídas
de maneira a suportar um cabo da âncora, ficando sempre à flor
da água. A chalupa tinha as dimensões úteis. A novidade do
navio é que era, em parte, aparelhado com correntes; o que não
lhe diminuía a mobilidade nem a tenção das manobras.
A mastreação, posto que secundária, não era incorreta; era
fácil o manejo dos ovéns. As peças de madeira eram sólidas,
mas grosseiras, pois que o vapor não exige madeiras tão
delicadas como exigem as velas. Tinha aquele navio uma
velocidade de 2 léguas por hora. Quando panejava, afeiçoava-se
bem ao vento. A Galeota de Lethieny suportava bem o mar, mas
não tinha boa quilha para dividir o líquido, nem se podia
dizer que fosse airosa. Via-se que, em ocasião de perigo,
cachopo ou tromba, não poderia ser bem manobrada. Tinha o
ranger de uma coisa informe. Fazia na água o ruído que fazem
as solas novas.
Era navio de comércio e não de guerra, e por isso mais
exclusivamente disposto para a arrumação das cargas. Admitia
poucos passageiros. 0 transporte do gado tomava difícil e
especial a arrumação das cargas. Punham-se os bois no porão, o
que complicava muito. Hoje os bois ficam no convés. As caixas
das rodas do Devil Boat Lethierry eram pintadas de branco, o
casco até o lume da água de vermelho, e o resto de preto,
segundo o uso assaz feio deste século.
Vazio, calava 7 pés; carregado, 14.
Quanto à máquina, era poderosa. Tinha a força de um cavalo por
3 toneladas, o que é quase a força de um rebocador. As rodas
estavam bem colocadas, um pouco adiante do centro de gravidade
do navio. A máquina tinha a pressão máxima de 2 atmosferas.
Gastava muito carvão. 0 ponto de apoio era instável, mas
remediava-se, como ainda hoje se faz, por meio de um duplo
aparelho alternado de duas manivelas fixas nas extremidades da
árvore de rotação, e dispostas de maneira que uma estivesse no
ponto forte quando a outra estava no ponto inerte. Toda a
máquina repousava em uma só placa fundida; de modo que, mesmo
em caso de grande avaria, nenhum lanço do mar lhe tirava o
equilíbrio, e o casco disforme não podia deslocar a máquina.
Para torná-la ainda mais sólida, puseram a redouça principal
perto do cilindro, o que transportava do meio à extremidade o
centro de oscilação do pêndulo. Inventaram-se depois os
cilindros oscilantes que suprimem a redouça antiga; mas
naquele tempo parecia que o sistema usado era a última palavra
da mecânica.
A caldeira era dividida, e tinha a bomba competente. As rodas
eram grandes, o que diminuía a perda de força, e o cano alto,
o que aumentava a extração da fornalha; mas o tamanho das
rodas dava aso às vagas, e a altura do cano dava aso ao vento.
Raios de pau, fateixas de ferro, cubos de metal; eis o que
eram as rodas bem construídas (o que admira) podendo ser
desmontadas. Havia sempre tres rodízios mergulhados; a
velocidade do centro da roda não passava de um sexto da
velocidade do navio; era esse o defeito. Além disso, a trave
da manivela era muito comprida, e o vapor era distribuído no
cilindro com demasiado atrito. Naquele tempo a máquina parecia
e era admirável.
Foi ela feita na França, nas forjas de Bercy. Mess Lethierry
delineou-a; o maquinista que a construiu morreu; de modo que
aquela máquina era única e impossível de ser substituída.
Existia o desenhista, mas faltava o construtor.
Custou a máquina 40 000 francos.
Lethierry construiu a Galeota na grande estiva coberta que
rica ao lado da primeira torre entre Saint-Pierre-Port e
SaintSampson. Empregou nessa construção tudo o que sabia em
carpintaria do mar, e mostrou os seus talentos na construção
do costado, cujas costuras eram estreitas e iguais, untadas de
sarangousti, betume da índia, melhor que alcatrão. 0 forro
estava bem pregado. Para remediar a rotundidade do casco,
ajustou ele um botalós ao gurupés, o que lhe permitia
acrescentar à cevadeira uma cevadeira falsa. No dia do
lançamento ao mar, disse Lethierry: "Estou na água!" E
realmente a Galeota foi bem sucedida.
Por acaso ou de propósito, a Galeota caiu ao mar no dia 14 de
julho. Nesse dia Lethierry, de pé sobre o convés, entre as
duas caixas das rodas, olhou fixamente para o mar e exclamou:
"Agora tu! Os parisienses tomaram a Bastilha; agora tomamo-te
nós!"
A Galeota de Lethierry fazia, uma vez por semana, a viagem de
Guernesey a Saint-Malo. Partia na quinta-feira e voltava na
sexta à tarde, véspera do mercado, que era no sábado. Era uma
massa de madeira mais volumosa que as maiores chalupas
costeiras do arquipélago, e, sendo a sua capacidade na razão
das dimensões, uma só das suas viagens valia por quatro
viagens de um cúter ordinário. Tirava por isso grandes lucros.
A reputação de um navio depende da sua arrumação de cargas, e
Lethierry era admirável neste mister. Quando ficou
impossibilitado de trabalhar no mar, ensinou um marinheiro
para substituí-lo. No fim de dois anos, o vapor dava líquidas
umas 705 libras esterlinas por ano. A libra esterlina de
Guernesey vale 24 francos, a da Inglaterra 25, e a de Jersey
26. Estas fantasmagorias são menos fantasmagóricas do que
parecem; os bancos é que lucram com elas.


LETHIERR Y ENTRA NA GLÓRIA

Prosperava a Galeota, Mess Lethierry via chegar o dia em que
ele seria gentleman. Em Guernesey não se pode ser gentleman da
noite para o dia. Há uma escala entre o homem e o gentleman; o
primeiro degrau é o nome simplesmente, Pedro, suponhamos;
depois, vizinho Pedro; terceiro degrau, pai Pedro; quarto
degrau,, Senhor (Síeur) Pedro; quinto degrau, Mess Pedro;
último degrau, gentleman (Monsieur) Pedro.
Esta escada, que sai da terra, interna-se pelo céu acima.
Entra nela toda a hierarquia inglêsa. Eis os degraus mais
luminosos; acima de senhor (gentleman) há esq. (escudeiro),
acima de esq., o cavalheiro (sir vitalício), depois o baronete
(sir hereditário), depois o lorde (7aird na Escócia), depois o
barão, depois o visconde, depois o conde (earl na Inglaterra,
jarl na Noruega), depois o marques, depois o duque, depois o
par da Inglaterra, depois o príncipe de sangue real, depois o
rei. Esta escada sobe do povo à burguesia, da burguesia ao
baronato. do baronato ao variato, do pariato à realeza.
Graças aos seus triunfos, ao vapor, ao Navio-diabo, Mess
Lethierry já era alguém. Para construir a Galeota teve de
pedir dinheiro emprestado; endividou-se em Bremen e em
SaintMalo, mas ia amortizando a dívida todos os anos.
Lethierry comprou* fiado, na entrada do porto de SaintSampson,
uma linda casa de pedra e cal, novazinha, entre o mar e o
jardim; no ângulo estava Este nome: Bravees. A casa, cuja
frente fazia parte da muralha do porto, era notável por duas
fileiras de janelas, ao norte, do lado de um cercado cheio de
flores, ao sul, do lado do mar; de modo que era uma casa com
duas fachadas, dando uma para as tempestades, outra para as
rosas.
As fachadas pareciam feitas para os dois moradores: Mess
Lethierry e Miss Déruchette.
Era popular a casa de Lethierry, porque ele próprio acabou
sendo popular. A popularidade nascia em parte da bondade, da
educação e da coragem dele, parte dos homens que ele salvara
de perigos iminentes, em grande parte do bom êxito da Galeota,
e também por ter dado ao porto de SaintSampson o privilégio
das partidas e chegadas do vapor. Vendo que decididamente o
Devil Boat era um bom negócio, Saint-Pierre, capital, reclamou
o vapor para si, mas Lethierry conservou-o para Saint-Sampson.
Era a sua cidade natal. "Daqui é que eu fui lançado ao mar",
dizia ele. Tinha por isso grande popularidade local.
A qualidade de proprietário e contribuinte fazia dele o que em
Guernesey se chama um unhabitant. Deram-lhe um cargo. 0 pobre
marinheiro galgou cinco degraus, dos seis que tem a ordem
social guernesiana; era mess; estava quase gendeman, e quem
sabe mesmo se não passaria daí? Quem sabe se algum dia não se
havia de ler no almanaque de Guernesey, no capítulo Gentry and
Nobility, esta inscrição inaudita e soberba: Lethieny esq.
Mess Lethierry, porém, desdenhava, ou antes, ignorava o que
era a vaidade das coisas. Sentia-se útil, era a satisfação
dele; ser popular comovia-o menos que ser necessário. Já o
dissemos, tinha dois amores, e, por conseqüencia, duas
ambições: Durande e Déruchette.
Fosse como rosse, Lethierry arriscou-se na loteria do mar, e
tirou a sorte grande.
A sorte grande era Durande navegando.


0 MESMO PADRINHO EA MESMA PADROEIRA

Depois de criar o vapor, Lethierry batizou-o, deu-lhe o nome
de Durande. Não lhe daremos daqui em diante senão Este nome.
Seja-nos lícito igualmente, qualquer que seja o uso
tipográfico, escrever Durande sem ser em grifo,
conformando-nos nisto ao pensamento de Mess Lethierry, para
quem Durande era quase uma pessoa.
Durande e Déruchette é o mesmo nome. Déruchette é o
diminutivo. É muito usado esse diminutivo no oeste da França.
No campo, os santos tem muitas vezes o seu nome com todos os
diminutivos e aumentativos. Parece que há muitas pessoas e é
só uma. Esta identidade de padroeiros e padroeiras

com diferentes nomes não é rara; Lise, Lisette, Lisa, Elisa,
Isabel, Lisbeth, Betsy, tudo isto é Elisabeth. É provável que
Mahout, Machut, Malo e Magloire sejam o mesmo santo.
Mas não fazemos cabedal disso.
1 Santa Durande é uma santa de Angournois e da CharenteSerá
correto? Isso é lá com os bolandistas. Correto ou não, Sta
santa tem muitas igrejas. Estando em Rochefort, e sendo ainda
rapaz, Lethierry tomou conhecimento com aquela santa,
provàvelmente na pessoa de alguma formosa charentesa, talvez a
rapariga das unhas bonitas. Restou-lhe recordação bastante
para dar aquele nome às duas coisas que ele amava; Durande à
Galeota, Déruchette à menina.
Lethierry era pai de uma e tio da outra.
Déruchette era filha de um irmão que ele teve. Morreramlhe os
pais. Lethierry adotou a criança e substituiu o pai e a mãe.
Déruchette não era somente sobrinha, era também afilhada de
Lethierry. Foi ele quem a levou à pia, dando-lhe por padroeira
Santa Durande, e por nome Déruchette.
Déruchette, já o dissemos, nasceu em Saint-Pierre-Port. Estava
inscrita no registro da paróquia.
Enquanto a sobrinha foi criança e o tio pobre, ninguém se
importou com o nome Déruchette; mas, quando a mocinha chegou a
miss e o marinheiro a gentIeman, Déruchette começou a
desagradar a todos. Perguntavam a Mess Lethierry:
Por que lhe dá esse nome?
É um nome assim - respondia ele.
Tentaram mudar-lhe o nome. Lethierry não quis. Uma senhora da
alta sociedade de Saint-Sampson, mulher de um ferreiro
abastado, e que já não trabalhava, disse um dia a Mess
Lethierry:
- Daqui em diante chamarei Nancy à sua filha.
- Por que não lhe chamará Lons-le-Saulnier? - disse ele.
A bela senhora não desistiu e, no dia seguinte, disse-lhe:
- Decididamente, não queremos que ela se chame Déruchette.
Achei um lindo nome: Marianne.
- Lindo nome, realmente - disse Mess Lethierry-, mas composto
de dois animais bem ruins, um mari (marido) e um âne (asno).
Lethierry manteve o nome de Déruchette.
Enganar-se-ia aquele que concluísse pelas últimas palavras de
Lethierry que ele não queria casar a sobrinha. Queria casá-la,
decerto, mas ao seu modo. Queria um marido da sua tempera,
muito trabalhador, de maneira que Déruchette não fizesse nada.
Gostava das mãos tostadas do homem e das mãos alvas da mulher.
Para que Déruchette não estragasse as lindas mãos que tinha,
dava-lhe ocupações elegantes, mestre de música, piano,
biblioteca, e bem assim alguma linha e agulhas em uma cestinha
de costura.
Déruchette lia mais do que cosia, cantava e tocava mais do que
lia. Mess Lethierry queria isso mesmo. Não lhe pedia nada mais
que o encanto e a fascinação. Educou-a mais para ser flor do
que para ser mulher. Quem tiver estudado os marinheiros há de
compreender isto. As rudezas amam as delicadezas. Para que a
sobrinha realizasse o ideal do tio, era preciso que fosse
opulenta. Era isso o que Mess Lethierry compreendia
perfeitamente. A máquina do mar trabalhava com esse fim.
Durande devia dotar Dértichette.


A MELODIA BONNY DUNDEE

Déruchette ocupava o mais lindo quarto da casa, com duas
janelas, mobília de mogno, cama de cortinas riscadas de verde
e branco, tendo vista para o jardim e para a colina onde está
o castelo do Vale. Do outro lado desta colina é que estava o
Tutu da Rua.
Déruchette tinha no quarto a música e o piano. Acompanhava-se
ao piano cantando a canção de sua preferencia, a melancólica
melodia escocesa Bonny Dundee; a noite encerra-se toda naquela
ária, a aurora encerrava-se toda naquela voz; isto produzia
insólito contraste. Dizia-se: "Miss Déruchette está ao piano";
e os que passavam ao sopé da colina paravam algumas vezes
diante do muro do jardim para ouvir aquele canto tão fresco e
aquela canção tão triste.
Déruchette era a alegria perpassando a casa toda, e fazendo
ali uma eterna primavera. Era formosa, porém, mais linda que
formosa, e mais gentil que linda. Fazia lembrar aos velhos
pilotos amigos de Mess Lethierry aquela princesa de uIna
canção de soldados e marujos, tão bela "que passava por tal no
regimento".
- Déruchette tem um cabo de cabelos - dizia Mess Lethierry.
Era lindíssima desde a irírancia. Receou-se por muito tempo
que o nariz rosse disforme, mas a pequena, provavelmente
disposta a ficar bonita, manteve-se de modo que não adquiriu
defeito algum até tornar-se moça; o nariz nem ficou comprido
nem curto; e, chegando à juventude, Déruchette conservou-se
encantadora.
Dava o nome de pai ao tio.
Mess Lethierry concedia-lhe algumas funções de jardineira e
mesmo de dona de casa. A moça regava os canteiros de
malvaísco, de verbasco, de flox e erva-benta; cultivava
oxálida rosada; utilizava o clima da ilha de Guernesey, tão
hospitaleira às flOres. Tinha, como toda a gente, aloés
plantado no chão, e, o que é mais difícil, fazia pegar a
potentilha de Nepaul. Tinha uma horta habilmente arranjada;
plantava espinafres, rabanetes e ervilhas; sabia semear a
couve-flor da Holanda e a couve-de-bruxelas; transplantava-as
em julho; nabos para agosto, chicória para setembro, pastinaca
para o outono, e rapúncio para o inverno. Mess Lethierry
consentia em tudo isso, contanto que não trabalhasse muito com
a pá e o ancinho, e sobretudo que não fosse ela própria quem
estrumasse a terra. Deu-lhe duas criadas. uma chamada Graça, e
a outra Doce, nomes usados em Guernesey. Graça e Doce faziam o
serviço da casa e do jardim, e tinham o direito de andar com
as mãos vermelhas.
0 quarto de Mess Lethierry era retirado, dava para o porto e
era contíguo à sala grande do rés-do-chão, onde havia a porta
de entrada e onde iam ter as diversas escadas da casa. A
mobília do quarto compunha-se de uma maca de marujo, um
cronometro, uma mesa, uma cadeira e um cachimbo. 0 teto,
construído com vigas, era caiado, bem como as paredes; à
direita da porta estava pregado o arquipélago da Mancha, bela
carta marítima, onde se lia a seguinte inscrição: "W. Faden,
5, Charing Cross, Geographer to His Majesty"; e à esquerda
estava pendurado um desses grandes lenços de algodão que
trazem figurados os sinais de todas as marinhas do globo,
tendo nos quatro cantos os estandartes da França, da RÜssia,
da Espanha e dos Estados Unidos da América, e no centro a
Union Jack da Inglaterra.
Doce e Graça eram duas criaturas ordinárias, devendo tomar-se
esta palavra à boa parte. Doce não era má e Graça não era
feia. Não lhes ficavam mal tão perigosos nomes. Doce, que era
solteira, tinha um amante. Nas ilhas da Mancha usa-se tanto a
palavra como a coisa. As duas criadas faziam o serviço com uma
espécie de lentidão própria à domesticidade normanda no
arquipélago. Graça, faceira e bonita, contemplava
constantemente o horizonte com uma inquietação de gato. Era
porque, tendo também o seu amante, tinha, de mais a mais,
dizia-se, marido marinheiro, cuja volta receava. Mas nós não
temos nada com isto. A diferença entre Graça e Doce é que,
numa casa menos austera e menos inocente, Doce ficaria criada
de servir e Graça subiria à posição de criada grave. Os
talentos possíveis de Graça eram nulos para uma moça cândida
como Déruchette. Demais, os amores de Doce e Graça eram
latentes. Nada chegava aos ouvidos de Mess Lethierry, nada
salpicava sobre Déruchette.
A sala baixa do rés-do-chão, com chaminé, e rodeada de bancos
e mesas, servira no século passado para as reuniões de um
conventículo de refugiados francêses protestantes. A parede de
pedra nua não tinha ornamento algum a não ser um quadro de
madeira preta com um cartaz de pergaminho ornado das proezas
de Benigno Bossuet, bispo de Meaux. Alguns pobres diocesanos
daquele genio, perseguidos por ele na ocasião da revocação do
Edito de Nantes, e abrigados em Guernesey, penduraram aquele
quadro na parede como um testemunho.
Quem podia decifrar a letra tosca e a tinta amarelada lia
naquele cartaz os seguintes fatos pouco conhecidos: "A 29 de
outubro de 1685, demolição dos templos de Morcef` e de
Nanteuil, requerida ao rei pelo Sr. Bispo de Meaux." "A 2 de
abril de 1686, prisão de Cochard pai e filho por motivo de
religião, a requerimento do Sr. Bispo de Meaux. Foramsoltos
Por terem abjurado." "A 28 de outubro de 1699 o Sr. Bispo de
Meaux envia ao Sr. de Pontchartrain uma memória expondo a
necessidade de transportar as Sras. de Chalandes e de
Netiville, donzelas da religião reformada, para a casa das
Novas-Católicas de Paris." "A 7 de julho de 1703 executou-se a
ordem pedida ao rei pelo Sr. Bispo de Meaux de encerrar no
hospital um tal Beaudoin e sua mulher, maus católicos, de
Fliblaines."
No fundo da sala, ao pé da porta do quarto de Mess Lethierry,
havia uma pequena divisão de tábuas, que tinha sido tribuna
huguenote, e era então, graças a uma grade arranjada, o office
do vapor, isto é, escritório da Durande ocupado por Mess
Lethierry em pessoa. Na velha estante de carvalho um registro
com as páginas cotadas. Deve e Há de Haver, substituía a
Bíblia,


0 HOMEM QUEADIFINHOU QUEMERA RANTAINE

Mess Lethierry governou a Durande enquanto pode navegar, e
nunca teve outro piloto nem outro capitão; mas lá chegou um
dia em que ele foi obrigado a deixar o mar. Escolheu para
substituí-lo o Sr. Clubin, de Torteval, homem silencioso. 0
Sr. Clubin tinha, em toda a costa, fama de severa probidade.
Era o alter ego e o vigário de Mess Lethierry.
0 Sr. Clubin, embora desse mais ares de tabelião que de
marinheiro, era um marítimo capaz e raro. Tinha todos os
talentos que exige o perigo perpetuamente transformado. Era
arrumador hábil, gajeiro meticuloso, contramestre desvelado e
perito, timoneiro robusto, piloto instruído e atrevido
capitão. Era prudente e algumas vezes levava a prudencia ao
ponto de ousar, o que é uma grande qualidade na vida marítima.
Tinha o receio do provável temperado pelo instinto do
possível. Era um desses marinheiros que afrontam o perigo em
uma proporção conhecida deles, sabendo triunfar em todas as
aventuras. Toda a certeza que o mar pode deixar a um homem,
ele a tinha. Era, afém. disso, nadador de fama; pertencia a
essa raça de homens exercitados na ginástica da vaga, que se
conservam na água o tempo que se quer, e que, partindo de
Havre-des-Pas, dobram a Colette, fazem a volta de Ermitage e a
do Castelo Elisabeth e voltam ao cabo de duas horas ao ponto
de partida. Era de Torteval e dizia-se que fizera muitas vezes
a nado o temível trajeto desde Manois até a ponta de
Plaintmont.
Uma das coisas que mais recomendaram o Sr. Clubin a Mess
Lethierry foi que, conhecendo ou penetrando Rantaine,
assinalou a Mess Lethierry a improbidade daquele homem, e
disse-lhe: "Rantaine há de roubá-lo". Verificou-se a profecia.
Mais de uma vez, em negócios pouco importantes, é verdade,
Mess Lethierry experimentou a escrupulosa honestidade do Sr.
Clubin, e descansava nele. Mess Lethierry dizia: "Consciência
quer confiança".


NARRA TIVAS DE VIAGENS DE LONGO CURSO

Mess Lethierry, que se não acomodava de outro modo, vestia
sempre a sua roupa de bordo, preferindo mesmo a japona de
marinheiro à japona de piloto. Déruchette torcia o núiz por
isso. Nada é tão belo como uma caretazinha da formosura em
cólera. Déruchette ralhava e ria: "Bom paizinho", dizia ela,
"está cheirando a alcatrio". - E dava uma palmadinha na larga
espádua do marinheiro.
Aquele velho herói do mar trouxe das suas viagens narrativas
maravilhosas. Viu em Madagáscar plumas de pássaro das quais
bastavam tres para cobrir uma casa. Viu na índia hastes de
azedinhas de 9 pés de altura. Viu na Nova Holanda bandos de
perus e de patos dirigidos e guardados por um cão de pastor,
que naquela terra é um pássaro e chama-se galinha-silvestre.
Viu cemitérios de elefantes. Viu na África uma espécie de
homens-tigres de 7 pés de altura. Conhecia os costumes de
todos os macacos, desde o macaco bravo até o macaco barbado.
No Chile viu uma bugia comover os caçadores apresentando-lhes
o filho.
Viu na Califórnia um tronco de árvore oco, no interior do qual
um homem a cavalo podia andar 150 passos. Viu em Marrocos os
mozabitas e os biskris baterem-se com matrah e barras de
ferro, os biskris por terem sido tratados de kelb, que quer
dizer cães, e os mozabitas por terem sido tratados de khamsi,
que quer dizer gente da quinta seita. Viu na China cortarem em
pedacinhos o pirata Chanh-thong-quan-harhQuoi, por ter
assassinado o âp de uma aldeia. Em ThudanInot, viu um leão
arrebatar uma mulher velha do meio do mercado da cidade.
Assistiu à chegada da grande cobra mandada de Cantão a Saigon,
para celebrar, no Pagode de ChoCen, a festa de Quan-riam,
deusa dos navegantes. Contemplou na terra o grande Quan-Su.
No Rio de Janeiro, viu as senhoras brasileiras colocarem nos
cabelos pequenas bolas de gaze contendo cada uma delas um
vagalume, o que lhes fazia uma coifa de estrelas. Destruiu no
Uruguai os formigueiros, e no Paraguai um certo bichinho, que
ocupa com as patas um diâmetro de um terço de vara, e ataca o
homem. por meio dos próprios pelos, que lhe atira em cima, e
que se cravam na carne, produzindo pústulas. No rio Arinos,
afluente do Tocantins, nas matas virgens do norte da
Diamantina, verificou a existência do terrível povomorcego, os
murcilagos, homens que nascem com os cabelos brancos e os
olhos vermelhos, habitam os bosques sombrios, dorrúem de dia,
acordam de noite e pescam e caçam nas trevas, vendo melhor de
que quando há lua.
Perto de Beirute no acampamento de uma expedição de que fazia
parte, foi roubado de uma tenda um pluviometro; então um
feiticeiro vestido de duas ou tres faixas de couro,
assemelhando-se a um homem vestido com os próprios
suspensórios, agitou tão furiosamente uma campainha na ponta
de um chifre que apareceu logo uma hiena trazendo o
pluviometro. A hiena é que o tinha roubado.
Estas histórias verdadeiras assemelhavam-se tanto a histórias
da carochinha que divertiam Déruchette.
A boneca de Durande era o elo entre o vapor e a moça. Chama-se
boneca nas ilhas normandas a figura talhada na proa, estátua
de madeira mais ou menos esculpida. Daí vem que, para dizer
navegar, a gente das ilhas usa desta locução: estar entre popa
e boneca (poupe etpoupée).
A boneca de Durande tinha as predileções de Mess Lethierry.
Ele encomendara ao carpinteiro que a fizesse parecida com
Déruchette. Parecia-se como obra feita a machado. Era uma acha
de lenha esforçando-se por ser moça bonita.
Mas a coisa, embora disforme, iludia Mess Lethierry.
Contemplava-a como um crente. Estava de boa fé diante daquela
figura. Reconhecia nela a imagem de Déruchette. É mais ou
menos assim que o dogma se parece com a verdade, e o ídolo com
Deus
Mess Lethierry tinha duas grandes alegrias por semana; uma na
terça-feira e outra na sexta. Primeira alegria, ver partir
Durande; segunda alegria, vê-la chegar. Encostava-se à janela,
contemplava a sua obra, era feliz. Há alguma coisa assim no
Genesis: Et vidit quod esset bonum.
Na sexta-feira, a presença de Mess Lethierry na janela era um
sinal. Quem o via chegar à janela da casa de Bravees, acender
o cachimbo, dizia logo: "Ali! o vapor está a chegar". Uma
fumaça anunciava a outra.
A Durande, - entrando no porto, atava amarra debaixo das
janelas de Mess Lethierry, numa grande argola de ferro. Nessas
noites Lethierry gozava um admirável sono na sua maca,
sentindo de um lado Déruchette adormecida, do outro Durande
amarrada.
0 ancoradouro de Durande era perto do porto. Diante da casa de
Lethierry havia um pequeno cais.
0 cais, a casa, o jardim, as marinhas, orladas de sebes, a
maior parte das casas vizinhas, nada existe hoje. A exploração
do granito de Guernesey fez vender os terrenos todos. Aquele
lugar está hoje ocupado por estâncias de quebradores de pedra.


LANCE DE OLHOS AOS MARIDOS EVENTUAIS

Déruchette ia crescendo e não se casava.
Mess Lethierry ve-la uma moça de mãozinhas alvas, mas tornou-a
exigente. Educações daquelas voltam-se sempre contra os pais.
Ele próprio era mais exigente ainda que a filha. Imaginava um
marido para Déruchette que rosse também marido de Durande.
Queria de um lance prover as duas filhas. Queria que o
companheiro de uma rosse o piloto da outra. Que é um marido? É
o capitão de uma viagem. Por que motivo não dar uni só capitão
ao navio e à filha? 0 casal obedece às marés. Quem sabe guiar
uma barca sabe guiar uma mulher. Ambas são sujeitas à lua e ao
vento. 0 Sr. Clubin, tendo apenas quinze anos menos que Mess
Lethierry, não podia ser para Durande senão um capitão
provisório; era preciso um piloto moço, um capitão definitivo,
um verdadeiro sucessor do inventor, do criador. 0 piloto de
Durande seria o genro de Mess Lethierry. Por que motivo não
fundir os dois genros em um só?
Lethierry afagava esta idéia. Via aparecer-lhe em sonhos um
noivo. Um gajeiro possante e tostado, um atleta do mar, eis o
seu ideal. Não era esse o ideal de Déruchette, o sonho da moça
era mais cor-de-rosa.
Fosse como fosse, o tio e a sobrinha pareciam estar de acordo
em não ter pressa. Quando viram Déruchette torna-se herdeira
provável, apresentaram-se pedidos aos centos. Estas
solicitudes nem sempre são de boa qualidade. Mess Lethierry
sentia isso, e dizia entre dentes: "Moça de ouro, noivo de
cobre". E despedia os pretendentes. Esperava. Ela também.
Coisa singular, Lethierry não fazia cabedal da aristocracia.
Por esse lado era um inglês inverossímil. Difícilmente se
acreditará que ele chegou a recusar um Ganduel, de Jersey, e
um Bugnet-Necolin, de Serk. Houve mesmo quem ousasse afirmar,
mas nós não acreditamos, que ele recusou uma proposta da
aristocracia de Aurigny, indeferindo o pedido de um membro da
família Edou, que evidentemente descende de Edouard, o
Confessor.


EXCEÇÃ 0 NO CARÁTER DE LETHIERRY

Mess Lethierry tinha um defeito, e grande. Odiava, não uma
pessoa, mas uma coisa, o padre. Lendo um dia, em Voltaire -
costumava ler e lia Voltaire -, estas palavras: "os padres são
gatos", Mess Lethierry pos o ' livro de parte, e ouviram-no
murmurar baixinho: -'sinto-me cão.
Cumpre não esquecer que os padres luteranos, calvinistas e
católicos atacaram-no vivamente e perseiuirwn-no docemente,
por causa da construção do Devil Boat local. Ser
revolucionário em navegação, tentar introduzir um progresso no
arquipélago normando, impor à pobre ilha de Guernesey os
esboços de uma invenção nova era, conforme dissemos, uma
temeridade condenável' Lethierry não escapou a uma certa
condenação. Não se esqueçam que falamos do clero antigo,
diferente do cléro atual, que, em quase todas as igrejas
locais, tem uma tendência liberal para o progresso. Pearam-no
de todos os modos; opuseram-lhe toda a soma de obstáculos que
pode haver nas prédicas e nos sermões. Odiado pelos homens da
igreja, Lethierry aborrecia-os também.
ódio dos outros era a circunstância atenuante do ódio dele.
Mas a sua aversão pelos padres era idiossincrática. Para
odiá-los não precisava ser odiado. Como ele próprio dizia, era
o cão daqueles gatos. Era contra eles pela idéia, e, o que é
mais irredutível, pelo instinto. Sentia as garras latentes dos
patires, e mostrava-lhes os dentes. A torto e a direito, e nem
sempre a propósito. É erro não distinguir. Não são bons os
ódios absolutos. Nem mesmo o vigário saboiano mereceria as
simpatias de Lethierry. Não é certo que para ele houvesse um
bom padre. À força de filosofar, ia perdendo a circunspecção.
Existe a intolerância dos tolerantes, como existe o furor dos
moderados. Mas Lethierry era tio boa alma que não podia ser
odiento. Antes repelia que atacava. Fugia dos homens da
Igreja. Tinham-lhe feito mal, Lethierry limitava-se a não
querer-lhes bem. A diferença entre o ódio dos outros e o dele
é que o dos outros era animosidade, e o dele antipatia.
Guernesey, apesar de ilha pequena, tem lugar para duas
religiões. Existem nela a religião católica e a religião
protestante. Devemos acrescentar que aí não entram as duas
religiões na mesma igreja. Cada culto tem a sua capela ou o
seu templo. Na Alemanha, em Heidelberg, por exemplo, a coisa
arranja-se menos escrupulosamente; divide-se uma igreja;
metade para São Pedro, metade para Calvino; entre as duas há
um tabique para prevenir os murros e pescoções; partes iguais;
os católicos tem tres altares; os huguenotes tem tres altares;
como as horas do oficio são sempre as mesmas, o sino comum
chama na mesma ocasião para os dois serviços. Convoca a um
tempo os fiéis para Deus e para o diabo. Simplificação.
A fleuma alemã acomoda-se com estas iniquidades. Mas, em
Guernesey, cada religião tem casa própria. Há uma ortodoxa e
paróquia herética. Pode-se escolher. Nem uma nem outra foi a
escolha de Mess Lethierry.
. Aquele marinheiro, aquele operário, aquele filósofo, aquele
povo do trabalho, simples na aparência, não o era em
substância. Tinha lá as suas contradições e pertinácias. Era
inabalável a respeito do padre. Daria quinaus a Montlosier.

Costumava dizer chufas muito descabidas. Tinha expressões
próprias dele, extravagantes, mas sem deixar de ter um
sentido. Ir confessar-se era para ele pentear a consciência.
Os poucos estudos que tinha, pouquíssimos, feitos aqui e ali,
entre duas borrascas, complicavam-se com erros de ortografia.
Tinha também erros de pronúncia, nem sempre ingênuos. Quando
se fez a paz entre a França de Luís XVIII e a Inglaterra de
Wellington, Mess Lethierry disse: "Bourmont foi o traitre
dIunion traidor' por 'traço') entre os dois campos". Lethierry
escreveu uma vez a palavra papado (papauté) do seguinte modo :
pape oté (papa arrancado). Não acreditamos que ele fizesse
isto de propósito.
Este anti-papismo não o conciliava com os anglicanos. Os
presbíteros protestantes não o estimavam mais que os curas
católicos. Ante os mais graves dogmas, ostentava-se quase sem
reservas a irreligião de Lethierry. Deu-se o acaso de ser
levado a ouvir um sermão acerca do inferno, pregado pelo
Reverendo Jaquemin Herodes, sermão magnífico, empachado de
textos sagrados, que provavam as penas eternas, os suplícios,
os tormentos, as condenações, os castigos inexoráveis, os
fogaréus sem fim, as maldições inextinguíveis, as cóleras do
Onipotente, os furores celestes, as vinganças divinas, coisas
incontestáveis; Lethierry ouviou o sermão e, ao sair com um
dos fiéis, disse-lhe baixinho: "Ora, quer ver? Eu cá tenho uma
idéia ratona. Suponho que Deus é bom".
Adquiriu Este germe de ateísmo quando residiu na França.
Posto que fosse guernesiano, e de raça pura, chamavam-no na
ilha o francês, por causa de seu espírito impróprio. Nem ele o
ocultava; estava impregnado de idéias subversivas. A sanha de
fazer o vapor, o Devil Boat, provava bem isto.
Lethierry costumava dizer: "Eu mamei o leite 89". Mau leite.
E que despropósitos fazia! É difícil viver intato nos lugares
pequenos. Na França, guardar as aparencias, na Inglaterra, ser
respeitável é quanto basta para passar a vida tranqüilo. Ser
respeitável é coisa que implica uma imensidade de
observâncias, desde o domingo bem santificado até a gravata
bem atada.
"Não te faças apontar com dedo", eis uma lei terrível. Ser
apontado é o diminutivo de anátema. As pequenas cidades,
charcos de mexeriqueiros, são exímias nesta malignidade
isoladora, que é a maldição vista ao invés do óculo. Os mais
intrépidos arreceiam-se disto. Afronta-se a metralha,
afrontasse o furacão, recua-se diante da malignidade. Mess
Lethierry era mais tenaz que lógico. Mas debaixo dessa pressão
dobrava-se-lhe a tenacidade. Deitava água no vinho, locução
prenhe de concessões latentes e às vezes inconfessáveis.
Afastava-se dos homens do clero, mas não lhes fechava
resolutamente a porta. Nas ocasiões oficiais e nas épocas das
visitas pastorais, recebia atenciosamente tanto o presbítero
luterano como o capelão papista. Acontecia-lhe de quando em
quando acompanhar à paróquia anglicana a menina Déruchette,
que, aliás, só ia lá nas quatro grandes festas do ano.
Em resumo, esses compromissos, que lhe custavam muito,
irritavam-no, e, longe de incliná-lo para os homens da Igreja,
aumentavam o seu pendor interno. Aquela criatura sem azedume
era acrimoniosa apenas nesse ponto. Não havia meio de
emendá-la.
De fato, e sem remissão, era esse o temperamento de Lethierry.
Aborrecia todos os cleros. Tinha a irreverencia
revolucionária. Distinguia pouco entre duas formas de culto.
Nem mesmo fazia justiça a Este grande progresso: não acreditar
na presença real. A sua miopia nestas coisas chegava ao ponto
de não ver a diferença entre um ministro e um sacerdote.
Confundia um reverendo doutor com um reverendo padre. "Wesley
não vale mais que Loyola", dizia ele. Quando via passar um
pastor protestante de braço com a mulher, desviava os olhos.
"Padre casado!", dizia ele, com o acento absurdo que essas
duas palavras tinham na França naquela época. Contava que na
viagem à Inglaterra tinha visto a "bispa de Londres". A sua
revolta contra essas uniões ia até a Cólera. "Vestido não casa
com vestido!", exclamava ele. 0 sacerdote fazia-lhe efeito de
um sexo. Não teria dúvida em dizer: "Nem homem nem mulher:
padre". Aplicava com mau 96sto tanto ao clero anglicano como
ao papista os mesmos desdenhosos; enrolava as duas sotainas na
mesma fraseologia; e não se dava ao trabalho de variar, a
propósito de padres, quaisquer que fossem, católicos e
luteranos, as mesmas soldadescas usadas naquele tempo.
- Casa-te com quem quiseres - dizia ele a Déruchette -,
contanto que não seja com algum padreco.


0 DESLEIXO FAZ PARTE DA GRAÇA

Dita uma coisa, Mess Lethierry não a esquecia mais; de uma
coisa, Miss Déruchette esquecia-a logo. Esta era a diferença
entre o tio e a sobrinha.
Déruchette, educada como os leitores viram, acostumou-se a
pouca responsabilidade. Há mais um perigo latente numa
educação tomada muito a sério. Querer tornar felizes os
filhos, antes do tempo, é talvez uma imprudência.
Déruchette acreditava que, estando ela contente, tudo o mais
ia muito bem. Via o tio alegre quando ela estava alegre. As
suas idéias eram pouco mais ou menos as mesmas de Mess
Lethierry. Satisfazia os sentimentos religiosos indo à
paróquia quatro vezes por ano. Já a encontramos vestida para a
festa do Natal. Da vida humana não sabia coisa alguma. Tinha
disposições para amar um dia loucamente. Enquanto não chegava
esse dia, era menina folgazã.
Déruchette cantava ao acaso, tagarelava ao acaso, vivia sem
esforço, soltava uma palavra e passava, fazia um gesto e
fugia, era encantadora. Ajunte-se a isto a liberdade inglêsa.
Na Inglaterra as crianças andam sós, as meninas são senhoras
de si, a adolescencia vai à rédia solta. Tais são os costumes.
Mais tarde, as moças livres fazem-se mulheres escravas. Tomem
à boa parte estas duas expressões: livres no crescimento,
escravas no dever.
Déruchette acordava todos os dias com a inconsciência das suas
ações da véspera. Bem embaraçado ficaria quem lhe perguntasse
o que ela havia feito na semana anterior. Isto, porém, não
impedia que ela tivesse, em certas horas turvas, uma
indisposição misteriosa, e sentisse uma tal ou qual passagem
do sombrio da vida no seu desabrochamento e na sua
jovialidade.
Há nuvens dessas nos céus como aquele; mas passavam depressa.
Déruchette voltava a si com uma gargalhada, sem saber nem por
que estivera triste, nem por que estava serena.

Brincava com tudo. De travessa que era, bulia com quem
passava. Caçoava com os rapazes. Não escaparia o próprio
diabo, se o encontrasse em caminho. Era gentil, e ao mesmo
tempo tão inocente que abusava de si própria. Dava um sorriso
como um gatinho dá um bofete. Tanto pior para quem ficasse
arranhado. Nem pensava mais nisso. 0 dia de ontem não existia
para ela; vivia na plenitude do dia de hoje. Eis o que é a
excessiva felicidade. Naquela moça a lembrança dissipava-se
como neve que se funde.

LIVRO QUARTO

0 "BAGPIPE"


PRIMEIROS RUBORES DE AURORA OUDEINCENDIO

Gilliatt não trocara nunca uma palavra com Déruchette.
Conhecia-a por te-la visto de longe, como se conhece a estrela
da manhã.
Na época em que Déruchette encontrou Gilliatt, no caminho de
Saint-Pierre-Port ao Vale, e reze-lhe a surpresa de traçar na
neve o nome dele, tinha dezesseis anos. Exatamente na véspera
Mess Lethierry disse-lhe as seguintes palavras:
- Deixa-te de seres travessa; estás moça feita.
0 nome Gilliatt, escrito por aquela menina, caiu em uma
profundidade desconhecida.
Que eram as mulheres para Gilliatt? Nem mesmo ele poderia
dize-lo. Quando encontrava alguma, causava-lhe medo e
cobrava-lhe medo. Só na última extremidade falava às mulheres.
Nunca foi amante de nenhuma camponesa. Quando se achava só em
um caminho e avistava alguma mulher ao longe, Gilliatt galgava
um cercado, ou metia-se em uma moita e ia-se embora. Até das
velhas fugia. Só tinha visto uma parisiense. Parisiense de
arribação, estranho acontecimento em Guernesey naqueles tempos
idos. E Gilliatt ouvira a parisiense contar nestes termos os
seus infortúnios: "Estou muito maçada, caíram-me uns chuviscos
no chapéu, esta cor é muito sujeita a ficar manchada".
Tendo encontrado, tempo depois, entre as rolhas de um livro
uma antiga gravura de modas representando uma dama da calçada
de Antin em grande toalete, pregou-a na parede como lembrança
dessa aparição. Nas noites de estio, escondia-se atrás das
rochas de Houmet-Paradis para ver as camponesas banharem-se no
mar. Um dia, através de uma cerca, viu a feiticeira de
Torteval atar a liga que lhe tinha caído. Provavelmente
Gilliatt era virgem.
Naquela manhã de Natal em que Déruchette escrevera rindo o
nome dele, Gilliatt voltou para casa não sabendo já por que
motivo tinha saído. Não dormiu de noite. Pensou em mil coisas:
de que faria bem se cultivasse rabanetes no jardim; que não
tinha visto passar o navio de Serk e talvez lhe houvesse
acontecido alguma coisa; que tinha visto erva-pinheira em
flor, coisa rara naquela estação.
Gilliatt nunca soubera com certeza que parentesco havia entre
ele e a velha que morrera em casa; disse consigo que devia ser
sua mãe e pensou nela com redobrada ternura. Lembrou-se do
enxoval de mulher que estava na mala de couro. Pensou que o
Reverendo Jaquemin Herodes seria provavelmente nomeado decano
de Saint-Pierre-Port, e que a paróquia de Saint-Sampson
ficaria vaga. Pensou que o dia seguinte ao de Natal, seria o
27.1 dia de lua, e que por conseqüencia a maré enchente seria
às 3 horas e 21 minutos, a média às 7 horas e 15 minutos, a
vazante às 9 horas e 36 minutos. Recordou até nas menores
particularidades, o vestuário de highIander que lhe vendera o
bagpipe, boné enfeitado com um cardo à claymore, a casaca de
abas curtas ,e quadradas, o saiote, o scilt or philaberg,
adornado com uma bolsa e uma boceta de chifre, o alfinete
feito de uma pedra escocesa, os dois cintos, as sashwises, o
belts, a espada, o swond, o sabre, o dirk e o skene dhu, faca
preta de cabo preto ornada de dois cairgorums, e os joelhos
nus do soldado, as meias, as polainas riscadas e os sapatos de
borlas. Tudo aquilo tornou-se espectro, perseguiu-o, deu-lhe
febre até que ele adormeceu.
Gilliatt acordou quando o sol já ia alto e o seu primeiro
pensamento foi Déruchette.
Adormeceu no dia seguinte e sonhou toda a noite com o soldado
escoces. Sonhou também com o velho cura Jaquemin Herodes.
Quando acordou pensou outra vez em Déruchette e teve contra
ela uma violenta cólera; lamentou não ser criança para ir
atirar pedras nas vidraças da moça.
Depois lembrou-se de que, se fosse criança, teria ainda sua
mãe, e entrou a chorar.
Projetou ir passar uns esses meses em Chausey ou em Minquiers,
mas não partiu.
Não tornou a por os pés na estrada de Saint-Pierre-Port ao
Vale. Imaginava que o seu nome ficara gravado na terra e que
todos os viandantes deviam olhar para ele.


GILLIA77 VAI ENTRANDO PASSO A PASSO NO
DESCONHECIDO

Gilliatt ia todos os dias ver a casa de Lethierry. Não o fazia
de propósito, mas encaminhava-se para esse lado. Acontecia
então passar sempre pelo caminho que costeava o muro do jardim
de Déruchette.
Estando um dia naquele caminho, ouviu a uma mulher do mercado,
que falava a outra, e vinha da casa de Lethierry: "Miss
Lethierry gosta muito de sea kales ".
Gilliatt fez no jardim da casa mal-assombrada uma fossa de sea
kales. 0 sea kale é uma couve que tem o sabor de aspargo.
0 mu~o do jardim da casa de Déruchette era baixinho; podia-se
pular fácilmente. Esta idéia pareceu terrível a Gilliatt. Mas
quem passava não podia deixar de ouvir as vozes das pessoas
que falavam nos quartos ou no jardim. Gilliatt. não escutava,
mas ouvia. De uma vez ouviu disputar as duas criadas, Graça e
Doce. Como o rumor vinha daquela casa, soou-lhe como se rosse
música.
De outra vez, distinguiu uma voz que não era como as outras, e
que lhe pareceu ser a voz de Déruchette. Deitou a correr.
As palavras que ouviu à moça ficaram para sempre gravadas no
seu pensamento. Repetia-as a cada instante. Essas palavras
eram: "Faz favor de me dar a vassoura?"
Gilliatt foi ousando a pouco e pouco. Já se atrevia a ficar
parado. Aconteceu uma vez que Déruchette, que não podia ser
vista de fora, embora tivesse a janela aberta, estava ao piano
e cantava. Cantava a canção Bonny Dundee. Gilliatt
empalideceu, mas levou a firmeza até ouvir a canção toda.
Chegou a primavera. Gilliatt teve uma visão: abriu-se o céu.
Gilliatt viu Déruchette regando uns pés de alface.
Dai a pouco já ele fazia mais do que parar. Observava os
hábitos da moça, notava as horas em que ela aparecia, e
esperava.
Tinha cuidado de não ser visto por ela.
A pouco e pouco, ao tempo em que as noites se enchem de
borboletas e de rosas, imóvel e mudo horas inteiras sem ser
visto por ninguém, retendo a respiração, Gilliatt
acosturnou-se a ver Déruchette andar pelo jardim. É fácil
acostumar-se ao veneno.
Do lugar em que se escondia, Gilliatt ouvia Déruchette
conversar com Mess Lethierry, debaixo de um espesso
caramanchão feito de caniço, dentro do qual havia um banco. As
palavras chegavam-lhe distintamente aos ouvidos.
Quanto já não tinha andado! Chegou até a espiar e prestar
ouvido. Ali! o coração humano é um velho espião!
Havia outro banco visível e próximo, no fim de uma alameda.
Déruchette assentava-se ali algumas vezes.
Pelas flores que ele via Déruchette colher e cheirar,
adivinhou as preferencias da moça a respeito de perfumes.
A moça preferia antes de tudo a campânula, depois o cravo,
depois a madressilva, depois o jasmim. A rosa estava em quinto
lugar. Quanto aos lírios, olhava para eles, mas não os
cheirava. A vista da escolha dos perfumes, Gilliatt compunha-a
no seu pensamento. Cada cheiro significava para ele uma
perfeição. Só a idéia de falar a Déruchetie fazia-lhe arrepiar
os cabelos. Uma boa velha que mascateava, e por esse motivo ia
algumas vezes à rua que costeava o muro do jardim de
Déruchette, veio a notar confusamente a assiduidade de
Gilliatt junto daquele muro e a sua devoção por aquele lugar
deserto. Ligaria ela a presença daquele homem à possibilidade
de uma mulher que estivesse atrás do muro? Descobriria esse
vago fio invisível? Restava-lhe acaso, na sua decrepitute
mendicante, um pouco de mocidade para lembrar-se de alguma
coisa dos belos tempos, e saberia ela, já no inverno e na
noite, que coisa é o alvor da madrugada? Ignoramo-lo, mas
parece que, passando uma vez perto de Gilliatt, que estava de
sentinela, dirigiu para o lado dele toda a quantidade de
sorriso de que ainda era capaz e murmurou entre as gengivas:
"Aquece, aquece!"
Gilliatt ouviu a palavra, que lhe fez impressão, e murmurou
com um ponto de interrogação interior: "Aquece? Que quer dizer
a velha?"
Repetiu maquinalmente a palavra durante todo o dia, mas não
chegou a compreende-la.
Estando um dia à janela da casa mal-assombrada, cinco ou seis
raparigas de Ancresse foram banhar-se por pagode na angra de
Houmet-Paradis. Brincavam ingenuamente na água, a cem passos
dele. Gilliatt fechou violentamente a janela. Reparou então
que uma mulher nua causava-lhe horror.


A CA NÇÃO "B ONNY D UNDEE " A CHA UM ECO NA
COLINA

Atrás do muro do jardim, em um ângulo do muro coberto de
azevinho e hera, empachado de urtigas, com um pé de malva
silvestre arborescente e um grande verbasco do mato que
brotava do granito, passou Gilliatt quase todo o verão. Ficava
ali inexprimivelmente pensativo. As lagartixas, que se iam
acostumando a Gilliatt, aqueciam-se ao sol nas mesmas pedras.
0 verão foi luminoso e suave. Gilliatt tinha sobre a cabeça as
nuvens que perpassavam no céu. Assentava-se na relva. Tudo
estava cheio de um rumorejar de pássaros. Punha a cabeça nas
mãos e perguntava a si próprio: "Mas por que escreveu ela o
meu nome na neve?"
0 vento do mar soprava ao longe grandes lufadas. De quando em
quando, nas pedreiras longínquas de Vaudue, troava bruscamente
a trombeta dos pedreiros, advertindo os passantes de que ia
rebentar uma mina. Não se via o porto de Saint-Sampson; mas
via-se a ponta dos mastros por cima das árvores. As gaivotas
voavam esparsas. Gilliatt ouvira dizer a sua mãe que as
mulheres podem amar os homens, e que isso acontecia algumas
vezes. Lembrava-se, e respondia a si mesmo: "É isso.
Compreendo. Déruchette ama-me". Sentia-se profundamente
triste. Dizia ele: "Mas também ela pensa em mim; faz bem".
Pensava em que Déruchette era rica, e ele pobre. Pensava que o
vapor era uma invenção execrável. Não podia lembrar nunca em
que dia do mês estava. Contemplava vagamente os grandes
zangões negros, de lombo amarelo e asas curtas, que penetram
zumbindo nos buracos das paredes.
Déruchette recolhia-se uma noite ao quarto. Aproximou-se da
janela para fechá-la. A noite estava escura. De repente,
Déruchette aplicou o ouvido. Havia uma música no meio daquela
noite profunda. Alguém que provavelmente estava na vertente da
colina, ou ao pé das torres do castelo do Vale, ou talvez mais
longe, executava uma canção num instrumento. Déruchette
reconheceu a sua melodia favorita Bonny Dundee tocada em
bagpipe. Não compreendeu nada.
Desde então, ouviu ela muitas vezes a mesma coisa, à mesma
hora, especialmente nas noites escuras.
Déruchette não gostava muito daquilo.
Passaram-se quatro anos.
Déruchette aproximava-se dos 21 anos e conservava-se solteira.
Já alguém escreveu algures: "Uma idéia fixa é uma verruma.
Vai-se enterrando de ano para ano. Para extirpá-la no primeiro
ano é preciso arrancar os cabelos; no segundo rasga-se a pele;
no terceiro ano quebra o osso; no quarto saem os miolos".
Gilliatt estava no quarto ano.
Não tinha trocado uma só palavra com Déruchette. Pensava nela;
era tudo.
Aconteceu-lhe uma vez, estando por acaso em SaintSampson, ver
Déruchette conversando com Mess Lethierry diante da porta da
casa que dava para a calçada do porto. Gilliatt arriscou-se a
aproximar-se dela. Cuidava estar certo de que sorrira quando
ele passou. Não era coisa impossível.
Também Mess Lethierry ouvia o bagpipe e notou a persistencia
desta música perto da janela de Déruchette. Música terna,
circunstância agravante. Não lhe agradavam namorados noturnos.
Queria casar Déruchette com dia claro, quando ela e ele
quisessem e simplesmente, sem romance e sem música.
Exasperado, procurou descobrir o amador e pareceu-lhe entrever
Gilliatt. Meteu as unhas na barba em sinal de cólera e disse:
"Por que motivo vem aquele animal sanfonear-me à porta? Ama
Déruchette, é claro. Perde o tempo. Quem quiser Déruchette
deve vir falar-me, e sem música".
Previsto desde muito, veio a realizar-se um acontecimento
importante. Anunciou-se que o Reverendo Jaquemin Herodes fora
nomeado delegado do bispo de Winchester, decano da ilha e cura
de Saint-Pierre-Port, e que partiria de SaintSampson logo
depois de instalar o seu sucessor.
Estava a chegar o novo cura. Era ele gentleman de origem
normanda, e chamava-se Joe Ebenezer Caudray.
A respeito dele havia circunstâncias que a benevolencia e a
malevolencia comentavam em sentido inverso. Diziam que era
moço e pobre, mas a mocidade era temperada por muita doutrina,
e a pobreza por muita esperança. Na língua especial criada
para a herança e a riqueza, a morte chama-se esperança. Era
sobrinho e herdeiro do velho e opulento decano de Saint-Asaph.
Morto Este, ficava o outro rico. 0 Sr. Ebenezer Caudray era
bem aparentado; tinha quase direito à qualidade de honorable.
Quanto à sua doutrina, era julgada diversamente. Era
anglicano, mas, segundo a expressão do Bispo Tilleston, era
muito libertino, isto é, muito severo.

Repudiava o farisaísmo; ligava-se antes ao presbitério que ao
episcopado. Sonhava com a Igreja primitiva, onde Adão tinha o
direito de escolher Eva, e Frumentanus, bispo de Hierópolis,
raptava uma moça para ser mulher déle, dizendo aos pais: "Ela
quer e eu quero, já não sois nem pai nem mãe, eu sou o anjo de
Hierópolis, e esta é minha esposa. 0 pai é Deus". A dar
crédito aos boatos, o Sr. Ebenezer Caudray subordinava o texto
: "Honrai pai e mãe" ao texto, segundo ele, superior: "A
mulher é a carne do homem. A mulher deixará pai e mãe para
acompanhar o marido". Mas, afinal de contas, esta tendencia
para circunscrever a autoridade paternal e favorecer
religiosamente todos os modos -de formar o vínculo conjugal é
própria a todo o protestantismo, particularmente na Inglaterra
e singularmente na América.


JUSTA VITÓRIA É SEMPRE MALQUISTA

Eis o balanço de Mess Lethierry, no tempo em que ocorria isto.
Durande cumpriu o que prometera. Mess Lethierry pagou as
dívidas, reparou os prejuízos, satisfez as letras de Bremen,
fez face aos vencimentos de Saint-Malo. Exonerou a casa em que
morava das hipotecas, comprou todas as rendas locais inscritas
sobre a casa. Era possuidor de um grande capital produtivo, a
Durande. 0 rendimento líquido do navio era então de 1000
libras esterlinas e ia crescendo. A bem dizer, Durande era
toda a fortuna dele. Era também a fortuna da terra. 0
transporte dos bois era dos que davam mais lucro; assim, para
melhorar a arrumação a . bordo, e facilitar a entrada e saída
do gado, suprimiram-se as malas e as faluas. Foi talvez
imprudencia. A Durande veio a ter apenas a chalupa. É verdade
que a chalupa era excelente.
Já havia dez anos que Rantaine tinha roubado Mess Lethierry.
A prosperidade de Durande tinha um lado fraco, é que não
inspirava confiança; acreditava-se que era puro acaso. A
situação de Mess Lethierry era aceita como exceção. Dizia-se
que ele fizera uma loucura feliz. Quis alguém fazer o mesmo em
Cowes, na ilha de Wight, e teve mau exito na tentativa. A
tentativa arruinou os acionistas. Dizia Lethierry: "É que a
máquina foi mal construída". Mas os outros abanavam a testa.
As novidades tem contra si, o ódio de todos; o menor erro
compromete-as.
Consultado acerca de um negócio de vapores, disse o banqueiro
Jauge, de Paris, um dos oráculos comerciais do arquipélago
normando: "É uma conversão o que me propondes. Conversão de
dinheiro em fumo". Os capitães teimavam em estar do lado da
lona contra a caldeira.. Em Guernesey a Durande era um fato,
mas o vapor não era um princípio. Tal era a pertinácia da
navegação diante do progresso. Dizia-se de Lethierry: "Fez
coisa boa, mas não há de meter-se em outra". Longe de animar,
o exemplo dele causava medo. Ninguém ousaria arriscar segunda
Durande.


FORTUNA DOS NÁUFRAGOS ENCONTRANDO A CHALUPA

Cedo anuncia-se o equinócio na Mancha. É um mar estreito,
tolhe o vento e irrita-o. Desde fevereiro começam ali os
ventos do oeste sacudindo as águas em todos os sentidos. A
navegação torna-se inquieta; a gente da costa contempla o
mastro de sinal; a todos preocupam os navios que podem estar
em perigo. 0 mar aparece como uma emboscada; invisível clarim
troa para uma estranha guerra. Longas e furiosas lufadas
abalam o horizonte; é terrível o vento. A sombra silva e
sopra. Na profundeza das nuvens o rosto negro da tempestade
entumece as bochechas.
0 vento é um perigo; o nevoeiro outro.
Os nevoeiros causam sempre medo aos navegadores. Há nevoeiros
que trazem suspensos prismas microscópicos de gelo, aos quais
Mariotti atribui as auréolas, os parélios e os paraselenes. Os
nevoeiros tempestuosos são compósitos; vapOres diversos de
peso específico desigual combinam-se com o vapor da água e
surperpõem-se em uma ordem que divide a bruma em zonas e faz
do nevoeiro uma verdadeira formação.
Embaixo fica o iodo, acima do iodo o enxofre, acima do enxofre
o bromo, acima do bromo o fósforo.
Isto, em certa proporção, deduzindo a tensão elétrica e
magnética, explica muitos fenomenos, o santelmo de Colombo e
de Magalhães, as estrelas volantes de que fala Seneca, as duas
chamas, Castor e Pólux, de que fala Plutarco, a legião romana
que a César pareceu ver arderem os dardos, a lança do castelo
do Duino no Frioul, que a sentinela acendia tocando com o
ferro da sua lança, e talvez mesmo as fulgurações que os
antigos chamavam relâmpagos terrestres de Satumo.
No equador, imensa bruma permanente parece cingir o globo, é o
Cloud-ring, anel de nuvens.
0 Cloud-ring resfria o trópico, do mesmo modo que o Gulf
Stream aquece o pólo. Debaixo do Cloud-ring o nevoeiro é
fatal. São essas as latitudes dos cavalos, Horse latitude; os
navegadores dos últimos séculos, quando passavam ali, atiravam
os cavalos ao mar, em ocasião de temporal para alijar o navio,
em tempo de calma para economizar a água.
Dizia Colombo: "Nube abajo és muerte". (Nuvem baixa, morte
certa.) Os etruscos, que são para a meteorologia o que os
caldeus são para a astronomia, tinham dois pontificados - o
pontificado do trovão e o pontificado da nuvem: uns observavam
o relâmpago, outros o nevoeiro. 0 colégio dos átigures de
Tarqüínia era consultado pelos tírios, fenícios e pelágicos, e
de todos os navegadores primitivos do antigo Marinterno. 0
modo de geração das tempestades era entrevisto; ligava-se
intimamente ao modo de geração dos nevoeiros, e, a bem dizer,
é o mesmo fenomeno. Existem no mesmo oceano tres regiões de
brumas, uma equatorial, duas polares; os marinheiros dão-lhe
um só nome - le pot au noir.
Em todas as paragens, e sobretudo na Mancha, os nevoeiros de
equinócio são mui perigosos. Fazem anoitecer de súbito. Um dos
perigos do nevoeiro, mesmo quando não é muito cerrado, é
impedir que se reconheça a mudança de fundo pela mudança da
cor da água; resulta daqui ficarem dissimulados os cachopos e
parcéis- 0 navegador aproxima-se de um escolho sem ser
advertido.

Muitas vezes os nevoeiros não deixam ao navio em marcha outro
recurso que não seja por-se à capa ou ancorar. Há tantos
naufrágios causados pelo nevoeiro como pelo vento.
Entretanto, após uma violentíssima borrasca que sucedeu a um
dia de nevoeiro, a chalupa Caere chegou perfeitamente da
Inglaterra. Entrou em Saint-Pierre-Port aos primeiros raios do
dia, no momento em que o Castelo Comet salvava o sol com um
tiro. Iluminava-se o horizonte. A chalupa Caere era esperada
como devendo trazer o novo cura de Saint-Sampson. Pouco depois
de chegar a chalupa, espalhouse o boato de que encontrara à
noite no mar outra chalUpa com uma equipagem. naufragada.


BOA FORTUNA DE APARECER A TEMPO


Naquela noite, Gilliatt, quando o vento amainou, saiu a
pescar, sem afastar-se muito da costa.
Na volta, estando a maré a encher, pelas 2 horas da tarde, e
fazendo uni sol esplendido, quando Gilliatt passou por diante
da Corne de Ia Bete para entrar na angra em que ficava a
pança, pareceu-lhe ver na projeção da Cadeira Gild Holm-'Ur
uma sombra que não era a do rochedo. Deixou a pança chegar até
ali e reconheceu que um homem estava assentado na Cadeira
Gild-Holm-'Ur. 0 mar já estava alto, a
rocha estava cercada pela água, não era possível ao homem
voltar para terra. Gilliatt gesticulou para o homem, o homem
ficou imóvel. Gilliatt aproximou-se. 0 homem estava
adormecido.
Tinha ele vestuário preto. "Parece padre", pensou Gilliatt.
Aproximou-se ainda mais e viu um rosto de adolescente.
Não conheceu quem era.
A rocha felizmente era a pique; havia muito fundo; Gilliatt
Costeou a muralha. A maré levantava a barca quanto bastava
Para que Gilliatt, pondo-se de pé sobre a pança, pudesse tocar
os pés do homem. Gilliatt levantou-se sobre a borda e ergueu
os braços. Se caísse naquele momento, é duvidoso que tornasse
a aparecer. A vaga batia entre a pança e o rochedo, era
inevitável ser esmagado.
Gilliatt puxou o pé do homem adormecido.
- Olá, que faz aí?
0 homem acordou.
- Estou olhando - disse ele.
Depois, acordando de todo, continuou:
- Cheguei há pouco à terra, vim passear aqui; passei a noite
no mar, achei a vista bonita, estava cansado, adormeci.
- Dez minutos mais, afogar-se-ia - disse Gilliatt.
- Ah!
- Salte para a barca.
Gilliatt susteve a barca com o pé, pos uma das mãos no rochedo
e estendeu a outra ao homem, que pulou lentamente na barca.
Era um bonito rapaz.
Gilliatt tomou o leme; em dois minutos, a pança chegou à angra
da casa mal-assombrada.
0 moço tinha chapéu redondo e gravata branca. Trazia abotoada
até o pescoço a comprida sobrecasaca preta. Tinha cabelos
loiros, rosto feminino, olhar puro, ar grave.
Entretanto a pança tocou em terra. Gilliatt passou o cabo na
argola da amarra, depois voltou-se, e viu a mão do moço que
lhe apresentou um soberano de ouro.
Gilliatt repeliu docemente a mão.
Houve um silencio. 0 moço falou:
- Salvou-me a vida - disse ele.
- Talvez - respondeu Gilliatt.
A pança estava amarrada. Saíram da barca.
O moço continuou:
- Devo-lhe a vida, senhor.
- Que importa isso?
Essa resposta de Gilliatt foi acompanhada de novo silencio. É
desta paróquia o senhor? - perguntou o mancebo. Não -
respondeu Gilliatt. De que paróquia é então?
Gilliatt levantou a mão direita, mostrou o céu e disse:
- Daquela.
0 moço cumprimentou e foi caminhando.
Depois de alguns passos, voltou, meteu a mão no bolso, tirou
um livro e voltou-se para Gilliatt.
- Consinta que lhe ofereça isto.
Gilliatt tomou o livro.
Era uma Bíblia.
Instantes depois, Gilliatt, encostado ao parapeito, olhava
para o moço, que voltava o ângulo do caminho que, ia ter a
Saint-Sampson.
A pouco e pouco abateu a cabeça, esqueceu o mancebo, não soube
mais se existía a Cadeira Gild-Holm-'Ur, e tudo desapareceu,
na imersão sem fundo do cismar. Gilliatt tinha um abismo,
Déruchette. Tirou-o daquele abismo uma voz que lhe gritou:
- Olá, Gilliatt!
Reconheceu a voz e ergueu os olhos.
- Que há, Sr. Landoys?
Era com efeito o Sr. Landoys, que passava na estrada a cem
passos da casa, no seu fàéton, com um pequeno cavalo. Parou a
fim de chamar Gilliatt à fala, mas parecia atarefado e
apressado:
- Há novidade, Gilliatt.
- Onde?
- Na casa de Mess Lethierry.
- 0 que há?
- Estou longe para lhe contar o caso.
Gilliatt estremeceu.
- Casa-se Miss Déruchette?
- Não. Mas
- Que quer dizer?
- Vá lá à casa dele, que há de saber.
E o Sr. Landoys chicoteou o cavalo.



LIVRO QUINTO

0 REVÓLVER


A PALESTRA NA POUSADA JOÃO

0 Sr. Clubin era o homem que espera a ocasião.
Era baixo e amarelo, com a força de um touro. 0 mar não podia
com ele. Tinha uma carne que parecia cera. Era da cor de uma
tocha e tinha nos olhos uma luz discreta. A sua memória tinha
um que de imperturbável e especial. Ver um homem uma vez era
conservá-lo como se fosse uma nota em um registro 0 olhar
laconico apunhalava. A pálpebra tirava a prova de um rosto, e
conservava-o; não importava que o rosto envelhecesse depois, o
Sr. Clubin não deixava de reconhece-lo. Era impossível fugir
àquela memória tenaz. 0 Sr. Clubin era breve, sóbrio e frio;
não fazia gesto algum. Tinha uns ares de candura que prendiam
logo. Muitas pessoas acreditavam-no simplório; trazia no rosto
uma certa ruga que indicava uma espantosa estupidez. Não havia
melhor' marinheiro do que ele. Não havia reputação de
religiosidade e integridade maior que a sua. Quem o
suspeitasse é que era suspeito. Travara amizade com o Sr.
Rebuchet, cambista em Saint-Malo, Rua de São Vicente, ao lado
do armeiro, e o Sr. Rebuchet costumava dizer que confiaria a
sua fábrica a 0ubin. 0 Sr. Clubin era viúvo. A mulher foi tão
honesta como ele. Morreu com a fama de uma virtude invencível.
Se o bailio lhe fizesse uma declaração ela iria contá-lo ao
rei, e se Nosso Senhor se apaixonasse por ela iria contá-lo ao
padre vigário. 0 casal Clubin realizou em Torteval o ideal do
epíteto inglês respectable. A Sra. Clubin era o cisne; o Sr.

Clubin era o arminho. Morreria se lhe pusessem uma nódoa.
Nunca achou um alfinete que não fosse logo à cata do
proprietário. Era capaz de por em almoeda uma caixa de
fósforos, se acaso a tivesse achado na rua. Entrou uma vez em
uma taberna em Saint-Servan e disse ao taberneiro: "Almocei
aqui há tres anos e voce enganou-se na conta". E, dizendo
isto, restituiu ao taberneiro 75 centimos. Era uma grande
probidade, mordendo atentamente os beiços.
Parecia estar sempre à espera. De quem? Provilvelmente dos
velhacos.
Todas as terças-feiras levava a Durande de Guernesey a
Saint-Malo. Chegava a Saint-Malo na terça-feira à noite,
demorava-se dois dias para fazer o carregamento e voltava a
Guernesey na sexta-feira de manhã. Havia então em SaintMalo
uma pequena hospedaria, situada no porto, que se chamava a
Pousada João.
A construção do cais atual fez demolir a pousada. Naquela
época vinha o mar até a porta de Saint-Vincent e a porta de
Dinan; Saint-Malo e Saint-Servan comunicavam-se nas marés
baixas por meio de carrinhos que rolavam e circulavam entre os
navios em seco, evitando as bóias, as âncoras e os maçames, e
arriscando-se às vezes a rasgar a coberta de couro em alguma
verga baixa. No intervalo de duas marés, os cocheiros
fustigavam os cavalos naquela mesma areia, onde, seis horas
depois, vinha o vento chicotear as vagas. Na mesma praia
andavam outrora os 24 cães, porteiros de SaintMalo, que
devoraram um oficial de marinha em 1770. Tamanho zelo fez
suprimir os cães. Já não se ouvem agora os latidos noturnos
entre o pequeno e o grande Tallard.
0 Sr.Clubin ia à Pousada João. Era ali o escritório francês da
Durande. Os guardas da alfândega e os guardas da costa iam
comer e beber na Pousada João. Faziam rancho à parte. Os
guardas da alfândega de Binic encontravam-se, vantajosamente
para o serviço, com os guardas da alfândega de SaintMalo.
Também lá iam os mestres de navio, mas comiam em outra mesa.
0 Sr. Clubin assentava-se ora numa, ora noutra, mas preferia a
dos guardas à dos mestres. Era bem recebido em ambas.

As mesas eram bem servidas. Havia as mais apuradas bebidas
estrangeiras para os marítimos expatriados. Um marinheiro
gamenho de Bilbau acharia ali um copo de helada. Bebia-se
stout como em Greenwich, e gueuse como em Antuérpia.
Capitães de longo curso e armadores tomavam às vezes lugar na
mesa dos mestres de navio. Trocavam-se aí notícias:
- Como vai o açúcar?
- Pequenos lotes. Vende-se bem o açúcar bruto; 3 000 sacas de
Bombaim e quinhentas barricas de Sagua.
- Há de ver, o partido da direita ainda derruba o ministério
Villele.
- E o anil?
- Venderam-se apenas uns sete surrões da Guatemala.
- A NanineJulie ancorou. Lindo navio da Bretanha.
- As duas cidades do rio da Prata estão outra vez desavindas.
- Quando Montevidéu engorda, Buenos Aires emagrece.
- Foi preciso deitar ao mar a carga do Regina Coeli, condenado
em Calhao.
- 0 cacau vai andando; os sacos Caracas são cotados a 234, e
os sacos Trindade a 73.
- Parece que na revista do Campo de Marte ouviu-se gritar:
abaixo os ministros.
- Os couros salgados, Saladeros, vendem-se o dos bois a 60
francos e o das vacas a
- Já passaram o Balkan? 0 que faz Diebitsch9
- Em San Francisco há falta de anisete. 0 azeite Plagniol está
calmo. 0 queijo de Gruyère está a 32 francos o quintal.
- Com que então, Leão XII morreu?
- Etc., etc., etc.
Todas estas coisas eram ditas e comentadas no meio de grande
barulho. À mesa dos guardas da alfândega e dos guardas da
costa falava-se menos.
A polícia das costas e dos portos quer menos sonoridade e
menos clareza no diálogo.
A mesa dos mestres de navio era presidida por um velho capitão
de longo curso, o Sr. Gertrais-Gaboureau. Não era homem, era
um baremetro. Os hábitos do mar deram-lhe uma espantosa
infalibilidade de prognóstico. Ele decretava o
tempo que devia haver no dia seguinte; auscultava o vento;
tomava o pulso à maré. Dizia à nuvem: mostra-me a tua língua.
A língua era o relâmpago. Era o doutor da vaga, da brisa e da
lufada. 0 oceano era o seu doente; fez uma viagem à roda do
mundo como quem faz uma clínica, examinando todos os climas na
sua boa e má saúde; sabia a fundo a patologia das estações.
Enunciava fatos como Este: o barometro desceu uma vez em 1796
a tres linhas abaixo da tempestade. Era marinheiro por amor.
Odiava a Inglaterra tanto quanto estimava o mar. Estudou
cuidadosamente a marinha inglêsa para conhecer os seus lados
fracos. Explicava em que ponto o Sovereign de 1637 diferia do
Royal William de 1670 e do Victory de 1755. Comparava os
castelos de pOpa. Lamentava as tOrres no tombadilho e os
cestos de gávea afimilados do Great Harry de 15 14,
provàvelmente no ponto de vista da bala francêsa que se
aninhava perfeitamente naquelas superficies. Para ele as
nações só existiam por suas instituições marítimas; fazia
sinonimos extravagantes. Chamava a Inglaterra Trinity House, a
Escócia Northern Commissioners, e a Irlanda Ballast Board.
Abundava de informações; era alfabeto. e almanaque. Sabia de
cor a portagem dos faróis, principalmente inglêses; penny por
tonelada ao passar diante dEste, farthing ao passar diante
daquele. Dizia: o Farol de Smalt Rock, que consumia apenas 200
galões de azeite, consome agora 500. Achando-se muito doente
um dia, a bordo, a tripulação, que já o tinha por defunto,
estava à roda de sua maca, quando ele interrompeu os soluços
da agonia para dar ao mestre carpinteiro uma ordem relativa a
um conserto do navio.
Era raro que o assunto de conversa fosse sempre o mesmo na
mesa dos capitães e na mesa dos guardag. Apresentou-se, porém,
o seguinte caso nos primeiros dias do mes de fevereit ro, em
que se passam os fatos que estamos contando. A galera
Tamaulipas, Capitão Zuela, vinda do Chile, e prestes a voltar,
chamava a atenção das duas mesas. Na mesa dos mestres falou-se
do carregamento, e na mesa dos guardas falou-se dos ares
suspeitos do navio.
0 Capitão Zuela, de Copiapo, era chileno, um pouco colombiano;
tinha feito com independencia as guerras da independencia,
acompanhando ora Bolívar, ora Morillo, com enorme os lucros,
enriquecido obsequiando a toda a gente. Não havia homem mais
bourbOnico, mais bonapartista, mais absolutista, mais liberal,
mais ateu e mais católico. Ele pertencia a Este grande partido
que se pode chamar o Partido Lucrativo. De tempos a tempos
fazia aparições comerciais na França; e, a acreditar-se nos
boatos, dava passagem a bordo aos fugitivos, bancarroteiros ou
proscritos políticos, fossem quem fossem, contanto que
pagassem. 0 meio de embarcá-los era simples. 0 fugitivo
esperava num ponto deserto da costa, e, no momento de
aparelhar, Zuela destacava um escaler, que ia buscá-lo. Foi
deste modo que na sua precedente viagem fez evadir um homem
implicado no processo Berthon, e desta vez contava levar
pessoas comprometidas na questão da Bidassoa. A polícia, já
avisada, estava com o Olho nele.
Era um tempo de fugas aquele. A restauração era uma reação;
ora, as revoluções trazem emigrações, e as restaurações
arrastam proscrições. Durante os sete ou oito primeiros anos,
depois da entrada dos Bourbons, espalhou-se o terror em tudo,
nas finanças, na indústria, no comércio, que sentiam tremer a
terra e viam multiplicar-se as falencias. Havia um salve-se
quem puder na política. Lavalette fugira. Lefebvre Desnouettes
fugira; Delon fugira. Os tribunais de exceção trabalhavam;
depois veio Trestaillon. Fugia-se à ponte de Saumur, à
esplanada de Reole, ao muro do observatório de Paris, à tOrre
de Taurias d'Avignon, tudo isso que se conserva de pé na
história, vestígios da reação, aonde se distingue ainda a sua
mão sanguinolenta.
Em Londres, o processo Thistlewood, ramificado na França, em
Paris o processo Trogoff, ramificado na Bélgica, na Suíça e na
Itália, multiplicaram os motivos da inquietação e
desaparecimento, e aumentaram essa profunda derrota
subterrânea, que deixava vazios os mais altos lugares da ordem
social de então. Por-se em segurança era a preocupação
universal. 0 espírito dos tribunais prebostais sobrevivera à
instituição. As condenações eram feitas por complacencia.
Fugiam para o Texas, para o Peru, para o México. Os homens da
Loire, salteadores então, paladinos hoje, tinham fundado o
campo de Asilo. Dizia uma canção de Beranger:

Sauvages, nous sommesftançais;
Prenez pítié de notre gloire.

Expatriar-se era o recurso; porém nada menos simples que
fugir; Este monossílabo encerra abismos. Tudo é obstáculo para
quem se esquiva. Fugir é disfarçar-se. Pessoas importantes, e
até ilustres, viram-se reduzidas aos expedientes dos
malfeitores. E ainda assim saíam-se mal. Eram inverossímeis.
Os seus hábitos de franqueza tornavam-lhes difícil resvalar
pelas malhas da evasão. Um gatuno fugitivo mostrava-se mais
correto aos olhos da polícia do que um general. Imaginem a
inocencia constrangida a disfarçar-se, a virtude contrafazendo
a voz, a glória mascarando o rosto. Algum indivíduo que
passasse com ar suspeito, era uma reputação à cata de um
passaporte falso. 0 ar embaraçado de um fugitivo não provava
que ele deixasse de ser um herói. Traços fugazes e
característicos dos tempos, que a história regular esquece,
mas que o verdadeiro pintor de um século deve rememorar. Atrás
dos homens honestos, fugiam os tratantes, menos vigiados,
menos suspeitos. Um tratante obrigado a eclipsarse
aproveitava-se da confusão, fazia parte dos proscritos, e
muitas vezes, graças a unia arte apurada, parecia naquele
crepúsculo mais honesto que o honesto. Que há aí mais acanhado
que a probidade diante da justiça? Nada entende, nada finge.
Um falsário escapa-se mais facilmente que um convencional.
Coisa estranha! Especialmente em relação aos tratantes, quase
se pode dizer que a evasão fazia subir o indivíduo. A
quantidade de civilização que um velhaco levava de Paris ou de
Londres valia-lhe por dote nos países primitivos ou bárbaros,
recomendava-o e fazia dele um iniciador. Era fácil que um
aventureiro, escapando ao código, chegasse depois ao
sacerdócio. Havia fantasmagoria na desaparição, e mais de uma
evasão tinha os resultados de um sonho. Uma fuga deste gênero
levava ao desconhecido e ao quimérico. Tal bancarroteiro saía
da Europa e aparecia mais tarde grão-vizir em Mogol ou rei na
Tasmânia.
Ajudar as evasões era uma indústria, e visto a freqüencia do
fato, uma indústria lucrativa. Esta especulação completava
certos gêneros de comércio. Quem queria fugir para a
Inglaterra dirigia-se aos contrabandistas; quem queria fugir
para a América dirigia-se aos trapaceiros de longo curso, tais
como Zuela.


CLUBINDESCOBREALGUEM

Zucla ia comer, algumas vezes, à Pousada João. 0 Sr. Clubin
conhecia-o de vista.
E o Sr. Clubin não era soberbo; não se desprezava de conhecer
de vista um tratante. Às vezes chegava mesmo a conhece-los de
fato, dando-lhes a mão em plena rua. Falava inglês com o
smogler e engrolava o espanhol corri o contrabandista.
A Este respeito tinha ele as seguintes máximas:
- Pode-se adquirir o bem pelo conhecimento do mal.
0 monteiro conversa proveitosamente com o ladrão de caça. - 0
piloto deve sondar o pirata; o pirata é um escolho. - Trata de
provar um velhaco como o médico prova o veneno.
Não tinha réplica. Todos davam razão ao Capitão Clubin. Era
aprovado por não ter escrúpulos tolos. Quem ousaria dizer mal
dele? Tudo quanto fazia era para bem do serviço. Nele tudo era
simples. Nada podia compromete-lo. 0 cristal querendo
manchar-se não pode. Esta confiança era a justa recompensa de
uma longa honestidade e é essa a excelencia das reputações
firmes. Fizesse o que fizesse o Sr. Clubin, to~ dos lhe viam
malícia no sentido da virtude; tinha adquirido a
impecabilidade; e de mais a mais dizia-se que era muito
esperto; deste ou daquele encontro que com outra pessoa seria
suspeito, a sua probidade saía sempre com um relevo de
habilidade. A fama de habilidade combinava-se harmoniosamente
com a fama de ingenuidade, sem contradição alguma. Ingenuo
hábil é coisa que existe. É uma das variedades do homem
honesto e das mais apreciadas. 0 Sr. Clubin era desses homens
que, encontrados em conversa íntima com um larápio ou um
bandido, são recebidos, compreendidos, e mais respeitados, e
tem ainda por si o piscar de olhos satisfeitos da estima
pública.
0 Tamaufipas tinha completado o carregamento. Estava próximo a
partir e ia aparelhar.
Em uma terça-feira à tarde, ainda com sol, chegou a Durande a
Saint-Malo. 0 Sr. Clubin, de pé no passadiço e dirigindo a
manobra da entrada, descobriu perto de Petit Bey, na praia,
entre dois rochedos, em um lugar muito solitário, dois homens
conversando. Deitou-lhes o óculo e reconheceu. um dos homens.
Era o Capitão Zuela. Parece que reconheceu também o outro.
0 outro era alto, um pouco grisalho. Trazia o chapéu largo e o
vestuário grave dos Amigos. Era provavelmente um quaker.
Baixava os olhos com modéstia.
Chegando à Pousada João, o Sr-Clubin soube que o Tamaufipas ia
aparelhar dentro de dez dias.
Soube-se depois que ele tomara outras informações.
À noite, entrou em casa do armeiro da Rua de São Vicente, e
disse-lhe:
- Sabe o que é um revólver?
- Sei - respondeu ele -. , é americano. É uma pistola que
renova sempre a conversação. Na verdade, ela tem pergunta e
resposta. E replica. É justo, Sr.Clubin. 0 cano é girante. E
cinco ou seis balas.
0 armeiro levantou o cantinho do beiço e Rez ouvir aquele
estalo de língua, que, acompanhado de um movimento de cabeça,
exprime a admiração.
- A arma é boa, Sr. Clubin. Creia que há de vir a ser
universal.
- Eu queria um revólver de seis tiros.
- Não tenho desses.
- Pois que, o senhor não é armeir09
- Mas ainda não tenho desse. Bem ve que é coisa nova. Na
França só se fazem pistolas.
- Diabo!
- É coisa que ainda não está no comércio.
- Diabo!
- Tenho pistolas excelentes.
- Quero um revólver.
Convenho que é melhor. Mas espere, Sr.Clubin
- 0 que é?
- Creio que há um em Saint-Malo.
- Revólver?
- Sim.
- Para vender?
- Sim.
- Onde?
- Creio que sei. Hei de informar-me.
- Quando me dá a resposta?
- 0 revólver é bom.
- Quando devo voltar?
- Se eu lhe arranjo um revólver, é porque é bom.
- Quando me dá a resposta?
- Na sua primeira viagem.
- Não diga que é para mim.


CLUBIN LEVA UNS OBJETOS E NÃO OS TRAZ

0 Sr. Clubin fez o carregamento da Durande, embarcou o e
alguns passageiros, e, como de costume, saiu de Saint-Malo
para Guernesey na sexta-feira de manhã. Nesse mesmo dia,
quando o navio já estava ao largo, o que permite ao capitão
ausentar-se do tombadilho alguns momentos, Clubin entrou no
seu camarote, fechou-se, pegou um saco de viagem que tinha,
meteu alguma roupa no compartimento elástico, biscoitos, latas
de conserva, algumas de cacau, um cronometro e um óculo no
compartimento sólido, e passou pelas argolas uma maroma
preparada para içá-lo se fosse preciso. Depois desceu ao
porão, entrou no depósito dos cabos e viram-no subir com uma
dessas cordas armadas de um gancho que servem aos calafates no
mar ladrões em terra. Essas cordas facilitam a escalada.
Chegando a Guernesey, Clubin foi a Torteval. Passou aí 36
horas. Levou o saco e a corda, mas não voltou com eles.
Uma vez por todas, o Guernesey de que se trata neste livro é o
antigo Guernesey que já não existe e seria impossível achá-lo
hoje, a não ser no campo. É aí que ele existe vivo, mas nas
cidades morreu. A observação que fazemos a respeito de
Guernesey deve ser feita a respeito de Jersey. Saint-Hélier
vale Dieppe; Saint-Pierre-Port vale Lorient. Graças ao
progresso, graças ao admirável espírito de iniciativa daquele
valente povo insular, transformou-se tudo em quarenta anos no
arquipélago da Mancha. Onde havia sombra há luz. Dito isto,
continuemos. Naqueles tempos que, pelo afastado, já são
históricos, o contrabando ativava-se no mar da Mancha.
Abundavam os navios trapaceiros, principalmente na costa de
oeste de Guernesey. As pessoas demasiado informadas e que
sabem em todas as minúcias o que se passava há quase meio
século chegam a citar os nomes de muitos desses navios quase
todos asturianos. 0 que é fora de dúvida é que não se passava
semana, sem que aparecesse um ou dois, ora na baía dos Santos,
ora em Plainmont. Parecia um serviço regular. Havia uma cava
de mar em Serk que se chamava e ainda se chama a loja, porque
era nessa gruta que a gente da terra'ia comprar aos
contrabandistas as suas mercadorias de importação. Para as
necessidades desse comércio falav'a-se na Mancha uma espécie
de língua contrabandista, esquecida hoje, e que estava para o
espanhol como o levantino para o italiano.
Em muitos pontos do litoral inglês e francês o contrabando
estava em boa harmonia com o negócio lícito. Entrava na casa
de mais de um financeiro de alta classe, às escondidas, e'
verdade; e dilatava-se subterrâneamente na circulação
comercial e por todas as vias de indústria. Negociante em
público, contrabandista às escondidas, eis a história de
muitas fortunas. Seguindo, dizia isto de Bourguin. Bourguin
dizia isto de Seguin. Não garantimos o dito de ambos. Talvez
se caluniassem um ao outro. Fosse como fosse, o contrabando
perseguido pela lei estava, sem contestação, muito aparentado
no comércio. Carteava-se com a germa da sociedade. A caverna
onde Maudrin acotovelava outrora o Conde de Charolais era
honesta exteriormente e tinha uma fachada irrepreensível para
o lado da sociedade.
Daqui resultaram muitas conveniencias necessàriamente
mascaradas. Tais mistérios exigiam sombra impenetrável.
Um contrabandista sabia de muitas coisas e devia guardar
segredo; a sua lei era uma fé inviolável e rígida. A primeira
qualidade de um trapaceiro era a lealdade. Sem discrição não
há contrabando. Havia o segredo da fraude como há o segredo da
confissão.
Esse segredo era imperturbavelmene guardado. 0 contrabandista
jurava não dizer nada e mantinha a sua palavra. Ninguém
inspirava mais confiança do que um contrabandista. 0 juiz
alcaide de Oyarzun apanhou um dia um contrabandista e pos-lhe
a questão para obrigá-lo a declarar quem era o seu caixa de
fundos. 0 contrabandista não confessou quem era o caixa de
fundos. 0 caixa de fundos era o juiz alcaide. Dos dois
cúmplices, juiz e contrabandista, o primeiro devia, para
cumprir a lei aos olhos de todos, ordenar a tortura, à qual o
segundo resistia para cumprir o juramento.
Os dois mais famosos contrabandistas que andavam em Plainmont
naquela época, eram Blasco e Blasquito. Eram tocaios.
Parentesco espanhol e católico que consiste em ter o mesmo
patrão no paraíso, coisa não menos digna de consideração que
ter o mesmo pai na terra.
Quem estava pouco mais ou menos ao fato do furtivo itinerário
do contrabando e queria falar a esses homens, era isso a coisa
mais fácil e mais difícil. Bastava não ter preconceitos
noturnos, ir a Plainmont e afrontar o misterioso ponto de
interrogação que ali se levanta.


PLAINMONT

Plainmont, perto de Torteval, é um dos tres ângulos de
Guernesey. Há, na extremidade do cabo, uma coroa de relva que
domina o mar. 0 cume é deserto. Tanto mais deserto quanto há
ali uma casa. Aquela casa aumenta o horror da solidão. Dizem
que é mal-assombrada. Assombrada ou não, o aspecto é medonho.
É feita de granito, tem um só andar e está no meio da relva.
Não tem aspecto de ruína. É perfeitamente habitável. As
paredes são grossas e o teto sólido. Não falta uma só pedra às
paredes, nem uma só telha ao telhado. Tem uma chaminé de
tijolo. A casa está de costas para o mar. A fachada do lado do
mar é apenas uma parede. Examinando bem essa parede ve-se uma
janela murada. Há tres trapeiras, uma a leste, duas a oeste,
muradas todas. A frente da casa tem uma só porta e janelas. A
porta é murada e as duas janelas de baixo também. No primeiro
andar, e é isso que espanta logo ao princípio, há duas janelas
abertas; mas as janelas tapadas são menos assustadoras que as
janelas abertas. Por estarem abertas, aparecem negras em pleno
dia. Não tem vidros nem caixilhos. Abrem para as trevas do
interior. Dir-se-ia umas órbitas vazias de olhos arrancados.
Nada há naquela casa. Ve-se pelas janelas abertas o descalabro
de dentro. Nem retábulos, nem entalhos de madeira, pedra nua.
Parece um sepulcro com janelas para deixar que os espectros
olhem para fora. As chuvas aluem os alicerces do lado do mar.
Algumas urtigas agitadas pelo vento beijam a barra das
paredes. No horizonte, nenhuma habitação humana. Aquela casa é
uma coisa vazia e silenciosa. Mas quem pára e põe o ouvido à
parede ouve confusamente um bater de asas assustadas.
Por cima da porta tapada, na pedra que faz a arquitrave, estão
gravadas estas letras: ELM - PBILG, e esta-data: 1780.
De noite o luar lúgubre penetra na casa.
Todo o mar está em roda da casa. A situação é magnífica, e,
por conseqüencia, sinistra. A beleza do lugar torna-se um
enigma. Por que motivo aquela casa não é habitada por nenhuma
família humana? 0 lugar é bonito, a casa é boa. Donde procede
esse abandono? As perguntas da razão ajuntam-se as perguntas
da superstição. 0 campo é cultivável, por que motivo está
inculto? Não há dono. A porta, murada. Que tem, pois, esse
lugar? Por que foge o homem? Que se faz aqui? Se não há nada
por que é que não há ninguém? Quando todos dormem há alguém
acordado? A lufada tenebrosa, o vento, as aves de rapina, os
animais escondidos, os entes ignorados, aparecem ao pensamento
e misturam-se àquela casa. A que passageiros serve ela de
hospedaria? A gente imagina trevas de granizo e de chuva
metendo-se pela janela dentro. Há na parte interior uns vagos
sinais de chuva. Os quartos fechados e abertos são visitados.
Conter-se-ia algum crime ali? Parece que aquela casa, à noite,
entregue às trevas, deve chamar por socorro. Será muda? Saem
vozes de dentro? Que faz ela na solidão? 0 mistério das horas
negras existe ali facilmente. A casa assusta ao meio-dia; que
será ela à meia-noite? Contemplando-a, contempla-se um
segredo. Pergunta-se - porque a superstição tem a sua lógica e
o possível a sua inclinação - o que será aquela casa entre o
crepúsculo da noite e o crepúsculo da manhã. A imensa
dispersão da vida extra-humana tem acaso naquele cume deserto
um vínculo em que ela pára, e que a obriga a fazer-se visível
e a descer? 0 espaço vai redemoinhar ali? 0 impalpável vai ali
condensar-se? Enigmas. Sai daquelas pedras o horror sagrado. A
treva que está nesses quartos defesos é mais do que treva; é o
desconhecido. Depois do sol posto voltam barcos de pescadores
para terra, calam-se os pássaros, o cabreiro que está atrás do
rochedo vai-se com as suas cabras, as fendas das pedras darão
passagem aos répteis mais animados, as estrelas começarão a
olhar, soprará o vento, far-se-á plena escuridão, as duas
janelas estarão ali escancaradas. Abrem-se para o sonho; e é
por aparições, larvas, fantasmas mal distintos, sombras
cobrindo luzes, misteriosos tumultos de almas e espectros, que
a crença popular estúpida e profunda, traduz as sombrias
intimidades daquela casa com a noite.
A casa é mal-assombrada, esta palavra explica tudo.
Os espíritos crédulos dão a sua explicação; mas os espíritos
positivos dão outra. Nada mais simples do que essa casa, dizem
eles. É um antigo posto de observação, do tempo das guerras da
revolução e do império e dos contrabandos. Foi construída para
isso. Acabada a guerra, foi abandonado o Posto. Não se demoliu
a casa porque pode tornar-se útil. Taparam-se a porta e as
janelas do rés-do-chão contra os Catercorários humanos, e para
que ninguém pudesse entrar; taparam-se as janelas do lado do
mar, por causa do vento do sul e do vento do oeste. Eis tudo.
Os ignorantes e os crédulos insistem. Em primeiro lugar a casa
não foi construída no tempo das guerras da revolução. Traz a
data de 1780, anterior à revolução. Depois, não foi construída
para ser posto; tem as letras ELM - PBILG, que são o duplo
monograma de duas famílias, e que indicam, segundo o uso, que
a casa foi construída para algum jovem casal. Portanto foi
habitada. Por que não o é agora? Se tapou a porta e as janelas
para que ninguém entrasse, por que motivo deixaram-se abertas
duas janelas? Deviam tapar tudo ou nada. Por que não há
vidros, nem caixilhos, nem postigos? Por que fechá-las de um
lado, sem fechá-las de outro? A chuva não entra pelo sul, mas
entra pelo norte.
Os crédulos não tem razão, é certo; mas os positivos tambem
não a tem. 0 problema persiste. 0 que é certo é que dizem ter
sido a casa mais útil que nociva aos contrabandistas. Quando o
medo cresce, os fatos perdem a verdadeira proporção. Não há
dúvida que muitos fenomenos noturnos, entre aqueles de que a
pouco e pouco se compôs o assombramento da casa, poderia
explicar-se por presenças fugitivas e obscuras, curtas
estações de homens logo embarcados, já pelas precauções, já
pela ousadia de certos comerciantes suspeitos, escondendo-se
para fazer mal, e deixando-se entrever para causar medo.
Naquela época já remota, muitas audácias eram possíveis. A
polícia, sobretudo, nos lugares pequenos, não era o que é
hoje.
Ajunte-se a isto que se a casa era comoda aos contrabandistas,
as suas entrevistas ali deviam ser francas, exatamente porque
a casa era mal vista. 0 ser mal vista impedia que fósse
denunciada. Ninguém pede à policia socorro contra os
espectros. Os supersticiosos persignam-se,, mas não fazem
processo. Veem ou acreditam ver, fogem e calam. Existe uma
conivencia tácita involuntária, mas real, entre os que fazem
medo e os que tem medo. Os assustados sentem que fizeram mal
em se assustarem, imaginam ter surpreendido um segredo,
receiam agravar a posição misteriosa para eles, e enfadar as
aparições. Isto fá-los discretos. E ainda, fora deste cálculo,
o instinto dos crédulos é o silencio; o medo é mudo; os
aterrorizados falam pouco; parece que o horror diz: silencio.
Devem recordar-se que isto remonta à época em que os
camponeses guernesianos acreditavam que o mistério do presépio
era repetido todos os anos pelos bois e pelos asnos; época em
que ninguém, na noite de Natal, ousaria penetrar em uma
estrebaria com receio de encontrar os animais ajoelhados.
Se se deve acreditar nas legendas locais e narrativas dos
camponeses, a superstição chegou a suspender nas paredes da
casa de Plainmont, em pregos de que ainda existem vestígios,
ratos sem pés, morcegos sem asas, arcabouços de animais
mortos, sapos esmagados entre as páginas de uma Bíblia, febras
de tremoços amarelos, estranhos ex-votos pendurados por
viandantes imprudentes que acreditavam ver alguma coisa, e por
meio desses presentes contavam obter perdão e conjurar o mau
humor das estriges, das larvas e dos duendes. Houve sempre
quem acreditasse em congressos de feitiçaria, e alguns desses
crédulos altamente colocados. César consultava Sagana, e
Napoleão Mademoiselle Lenormand. Há consciências tão inquietas
que chegam a procurar indulgencias do diabo. "Faça-o Deus, mas
não o desfaça Satanás", era uma das orações de Carlos V.
Há espiritos mais timoratos ainda. Esses chegam a persuadir-se
de que o mal pode ter razão contra eles. Ser irrepreensível
para com o demônio é uma das suas preocupações. Daí vem as
práticas religiosas voltadas para a imensa malícia obscura. E
uma carolice como qualquer outra. Os crimes contra o demônio
existem em certas imaginações doentias; violar a lei do
inimigo é uma coisa que faz sofrer os estranhos casuístas da
ignorância; há escrúpulos para com as regiões das trevas. Crer
na eficácia da devoção aos mistérios do Brocken e de Armuyr,
imaginar que se peca contra o inferno recorrendo a penitencias
quiméricas por infrações quiméricas, confessar a verdade ao
espírito da mentira; fazer o mea culpa diante do pai da Culpa,
confessar-se em sentido inverso, tudo isto existe ou existiu.
Os processos de magia provam-no em cada uma de suas páginas.
Vai até esse ponto o sonho humano. Quando o homem começa a
assustar-se, não pára mais. Sonha culpas imaginárias, sonha
purificações iniaginárias, e faz limpar a sua consciência com
a vassoura das feiticeiras.

Fosse como rosse, se aquela casa teve aventuras, é coisa que
lá ficou; pondo de parte alguns acasos e algumas exceções,
ninguém subiu a ver o que era; a casa ficou só; ninguém gosta
de arriscar-se aos encontros infernais.
Graças ao terror que a cerca e afasta dali todo aquele que
pudesse observar e testemunhar, fácil foi em todos os tempos
entrar de noite naquela casa por meio de uma escada de corda
ou simplesmente por meio da primeira tranqueira que se achasse
nas hortas vizinhas. Levava-se um rancho de víveres, o que
dava lugar a esperar ali com toda segurança a eventualidade de
um embarque furtivo. Conta a tradição que há quarenta anos um
fugitivo, dizem uns que da política outros que do comércio, lá
esteve algum tempo escondido, e dali embarcou num barco de
pesca para a Inglaterra. Da Inglaterra é fácil passar à
América.
A mesma tradição afirma que as provisões depositadas naquele
albergue lá se conservam sem que ninguém as toque, visto como
Lúcifer e os contrabandistas tem interesse em que a pessoa que
lá as põe vá buscá-las.
Do lugar em que existe aquela casa, ve-se ao sudoeste, a 1
milha da costa, o escolho de Hanois.
É célebre aquele escolho. Fez todas as más ações que um
rochedo pode fazer. Era um dos mais temíveis assassinos do
mar. Esperava perfidamente os navios à noite. Entulhou os
cemitérios de Torteval e de Rocquaine.
Em 1862 pos-se ali um farol.
Hoje o escolho de Hanois alumia a navegação que ele próprio
extraviava outrora; a emboscada traz agora um archoté na mão.
Procura-se hoje como profetor e guia o rochedo do qual
fugia-se outrora como de um malfeitor. 0 escolho tranqüiliza
aqueles vastos espaços noturnos onde outrora inspirava o medo.
Assemelha-se a um salteador feito soldado de policia.
Há tres Hanois: o grande Hanois, o pequeno Hanois e a Mative.
No pequeno Hanois é que existe hoje o Red Light. Faz parte de
um grupo de picos, uns submarinos, outros acima da água.
Domina-os. Como se rora uma fortaleza, tem baterias avançadas;
do lado do mar alto, um cordão de treze rochas; ao norte, dois
cachopos, Hautes-Fourquies e

Aiguillons e um banco de areia, Heronée; ao sul tres rochedos,
Cat-Rock, Persée e Roque-Herpin; depois a South Boue e a Boue
Mouet, e além disso em frente de Plainmont, à flor da água o
Tas-de-Pois-d'Aval.
Atravessar a nado o estreito de Hanois a Plainmont é coisa
incOnioda, mas não impossível. 0 leitor lembra-se de que' era
essa uma das proezas do Sr. Clubin. 0 nadador que conhece os
baixios tem duas estações em que pode descansar, a Roque
redonda, e, mais longe, obliquando um pouco à esquerda, a
Roque vermelha.


OS FURTA -NINHOS

Pouco mais ou menos naquele dia de sábado em que o Sr. Clubin
esteve em Torteval, deu-se um fato singular, pouco assoalhado
em principio e que só transpirou muito depois. Como dissemos,
há muitas coisas que ficam desconhecidas, mesmo por causa do
medo que inspiram às suas próprias testemunhas.
Na noite de sábado ao domingo (precisamos o dia e cremo-lo
exato), tres meninos escalaram o rochedo de Plainmont.
Voltavam à vila. Vinham do mar. Eram o que, na língua local,
chamam deniquoiseaux: leia-se deniche-oiseaux (furta-ninhos).
Onde quer que haja penhascos na praia e fendas de rochedos
acima do mar há furta-ninhos em abundância. Já falamos deles.
0 leitor lembra-se de que Gilliatt preocupava-se com isto, por
causa dos pássaros e por causa das crianças.
Os furta-ninhos são espécies de gaiatos do oceano, pouco
tímidos.
A noite era escura. Espessas superposições de nuvens escondiam
o zenite. Tres horas da manhã soavam no sino de Torteval, que
é redondo e pontudo, semelhante a um chapéu de mágico.
Por que voltavam tão tarde aqueles pequenos? Nada mais
simples. Tinham ido à caça dos ninhos de cotovias no
Tasde-Pois-d'Aval. Como a estação tinha sido amena, começaram
cedo os amores dos pássaros. Os pequenos espreitando os machos
e as fêmeas à roda dos ninhos, e distraídos pela tenacidade da
empresa tinham esquecido as horas. Foram cercados pela maré.
Não puderam voltar a tempo para a canoa e tiveram que esperar
que o mar se retirasse, assentados em uma das pontas de
Tasde-Pois. Tal foi o motivo da volta noturna. Estas voltas
são esperadas sempre pela febril inquietação das mães que, uma
vez tranqüilas, manifestam a alegria por meio da cólera, e
lacrimosas dissipam o terror a cachações. Por isso os pequenos
apressavam-se, mas iam assustados. Apressavam-se, mas de boa
vontade se demorariam, era um certo desejo de não chegar
nunca. Tinham em perspectiva um beijo complicado de sopapo.
Só um dos meninos nada receava; era um órfão. Era francês e ia
bem contente de não ter naquele dia nem pai nem mãe. Não tendo
ninguém que se interessasse por ele, escapava à bordoada. Os
outros dois eram guernesianos e da paróquia de Torteval.
Escaladas as rochas, os tres furta-ninhos chegaram à planura
onde estava a casa mal-assombrada.
Começaram por ter medo, dever de todo o viandante, sobretudo
crianças, àquela hora e naquele lugar.
Quiseram fugir e quiseram parar a fim de contemplar a casa.
Pararam.
Contemplaram a casa.
Era negra e formidável.
Era, naquele deserto, um montão escuro, uma excrescencia
siffietrica e hedionda, uma alta massa quadrada de ângulos
retilíneos, uma coisa semelhante a um enorme altar de trevas.
0 primeiro pensamento dos meninos tinha sido fugir; o segundo
foi aproximar-se. Nunca tinham visto aquela casa àquela hora.
A curiosidade de ter medo existe. Havia entre eles um francês,
donde resultou que os pequenos aproximaram-se da casa.
É sabido que os franceses não acreditam em coisa alguma.
Demais, quando são muitos, todos se tranqüilizam; o medo
dividido por tres dá animação.
E depois, eram curiosos; eram crianças, somada a idade dos
tres não dava trinta anos; era a idade de perscrutar, de
escavar, esquadrinhar as coisas ocultas; deve-se acaso parar
no meio? Mete-se a cabeça neste buraco, porque não mete-la no
outro? A caça arrasta; andar em uma descoberta é o mesmo que
meter-se em um moinho. Ter olhado para o ninho dos pássaros dá
vontade de olhar um pouco para o ninho dos espectros.
Investigar o inferno, por que não?
De caça em caça, chega-se ao demônio. Depois dos pardais os
diabretes. Há vontade de saber o que é esse medo inspirado
pelos pais. Andar na pista dos contos da carocha é o que há
mais resvaladiço. Saber tanto como as contadeiras de histórias
é coisa que tenta.
Todo Este amálgama de idéias no estado de confusão e instinto,
na cabeça dos rapazes, deu em resultado a temeridade deles.
Caminharam para a casa.
Demais, o pequeno que lhes servia depois nesta bravura, era
digno disso. Era um rapaz resoluto, aprendiz de calafate, uma
dessas crianças que já são homens, dormindo no estaleiro em
cama de palha, ganhando a vida, tendo uma voz grossa, trepando
às árvores e às paredes sem escrúpulos a respeito das frutas
que encontrava, tendo trabalhado em consertos de navios de
guerra, filho do acaso e do bambúrrio, órfão alegre, nascido
na França, sem saber em que ponto, duas razões para ser
atrevido, dando sem reparar aos pobres, muito mau, muito bom,
loiro rastejando a ruivo, tendo já falado aos parisienses.
Agora ganhava 1 xelim por dia calafetando os barcos dos
pescadores. Dando-lhe a veneta punha-se em férias e ia tirar
os ninhos dos pássaros. Tal era o francês.
A solidão do lugar tinha um não sei que de fânebre. Sentiase a
inviolabilidade ameaçadora. Era medonho. Aquela pla.nura
silenciosa e nua escondia no precipício a sua curva em
declive. Embaixo calava-se o mar. Não havia vento. As ervas
não se mexiam.
Os furta-ninhos avançavam devagar, com o francês à frente,
contemplando a casa.
Um deles, contando depois o fato, ou o pouco que lhe restava
na memória, acrescentava: "A casa não dizia nada".
Aproximavam-se retendo a respiração, como quem se aproxima de
um animal feroz.

Tinham subido o cômoro que fica atrás da casa, e que vai ter a
um pequeno istmo de rochedos pouco praticável; estavam perto
da casa; mas viam apenas a fachada do sul, que é toda murada;
não tinham ousado voltar à esquerda, o que os teria exposto a
ver a outra fachada em que há apenas duas janelas, o que é
terrível. Entretanto atreveram-se, porque o aprendiz de
calafate disse-lhes baixinho, "Viremos de bombordo; daquele
lado é que é bonito; é preciso ver as duas janelas negras".
Viraram de bombordo e chegaram ao outro lado da casa.
As duas janelas estavam iluminadas.
Os meninos fugiram.
Quando estavam longe, voltou-se o francês.
- Olhem - disse ele - já não há luz.
Com efeito, não havia luz nas janelas. A casa desenhava-se na
lividez difusa do céu.
0 medo não se foi, mas a curiosidade voltou. Os furta-ninhos
aproximaram-se.
De repente apareceram as luzes outra vez.
Os dois rapazes de Torteval tornaram a por sebo às canelas. 0
pequeno Satanás francês, não avançou, mas não recuou. Ficou
imóvel em frente da casa olhando para ela.
Extinguiu-se a luz, depois brilhou de novo. Nada mais
horrível. 0 reflexo fazia um vago rastilho de fogo na relva
úmida pelo orvalho. Em certo momento o clarão desenhou na
parede interior da casa grandes perfis negros que se mexiam e
sombras de cabeças enormes.
Demais a casa não tinha teto nem tabiques, e, tendo apenas as
quatro paredes e o telhado, uma janela não pode ser iluminada
sem que a outra o seja.
Vendo que o aprendiz de calafate ficava, os outros dois
voltaram tremulos, curiosos. 0 aprendiz de calafate disse-lhes
baixinho: "Há almas do outro mundo na casa. Vi o nariz de uma
delas". Os dois pequenos agruparam-se atrás do francês, e
levantando-se sobre a ponta dos pés, por cima do ombro,
abrigados por ele, fazendo dele um escudo, opondo-o à casa,
tranqüilizados por te-lo entre si e a visão, olharam também.
A casa a seu turno parecia olhar para eles. Tinha, naquela
vasta obscuridade muda, duas órbitas vermelhas. Eram as
janelas. A luz eclipsava-se, reaparecia, eclipsava-se ainda,
como essas luzes costumam fazer. Estas intermitencias
sinistras representavam provavelmente as alternativas do
inferno. - Abre-se, fecha-se. 0 respiradouro do sepulcro tem
efeitos de lanterna surda.
De repente uma escuridão opaca com forma humana levantou-se em
uma das janelas, como se viesse de fora, depois mergulhou no
interior da casa. Parece que alguém chegava.
Entrar pela janela era o hábito dos visitantes.
0 clarão apareceu um momento mais vivo, depois apagou-se e não
reapareceu mais. A casa tornou-se escura. Então ouviram-se
rumores. Esses rumores pareciam vozes. É sempre assim. Quando
se ve, não se ouve; quando não se ve, ouve-se.
0 mar tem à noite, uma taciturnidade particular. 0 silencio da
sombra é aí mais profundo que em qualquer outra parte. Quando
não há nem vento nem marulho, naquela agitada extensão de
águas, onde de ordinário não se ouvem as águias voar,
ouvir-se-ia voar uma niásca. Aquela paz sepulcral dava um
relevo lúgubre aos rumores que saíam da casa.
- Vejamos - disse o francês.
E deu um passo para a casa.
Os outros dois tinham tal medo que decidiram-se a
acompanhá-lo. Não ousavam fugir sós. Acabavam de passar um
grande montão de lenha que, sem que o saibamos, os animava
naquela solidão, quando de uma moita voou uma coruja. As
corujas tem uns vãos tortos, de assustadora obliqüidade.
Aquela passou de través pelos rapazes, fixando neles os olhos
claros no meio da treva.
Houve um certo estremecimento no grupo atrás do francês.
0 francês clamou contra a coruja.
- Tarde vens, coruja. Já não é tempo. Quero ver.
E avançou.
0 ranger dos seus sapatos grossés e ferrados não lhes impedia
ouvir os rumOres da casa que se elevavam e baixavam, com a
acentuação calma e a continuidade de um diálogo.
Momentos depois acrescentou o francês:
- Demais, só os tolos podem crer em almas do outro mundo.
A insolencia no perigo reúne os retardados e impele-os para a
frente.
Os dois rapazes de Torteval puseram-se a caminho atrás do
aprendiz de calafate.
A casa mal-assombrada fazia-lhes o efeito de crescer
desmesuradamente. Nesta ilusão de óptica do medo, havia
realidade. A casa crescia realmente porque eles aproximavam-se
dela.
Entretanto, as vozes que estavam na casa tornavam-se mais
distintas. Os rapazes paravam, ouviam. 0 ouvido tem os seus
aumentos. Não era murmúrio, era mais que um cochichar, menos
que um alarido. De quando em quando destacava-se uma ou duas
palavras claramente articuladas. Essas palavras, impossíveis
de compreender, soavam estranhamente. Os rapazes, paravam,
ouviam e depois continuavam a andar.
- É a conversa das almas do outro mundo, mas eu não creio em
almas do outro mundo - disse o aprendiz de calafate.
Os pequenos de Torteval tinham vontade de esconder-se atrás da
lenha; mas já estavam longe, e o amigo francês continuava a
andar para a casa. Temiam ir com ele, e não ousavam deixá-lo.
Acompanhavam-no, a passo e passo e perplexos.
0 aprendiz de calafate voltou-se para eles e disse-lhes:
- Bem sabem que não é verdade. Não existe nenhuma.
A casa tornava-se cada vez mais alta.
Aproximavam-se.
Aproximando-se, reconheciam que havia na casa uma luz abafada.
Era um clarão vago, um desses efeitos de lanterna surda,
indicados há pouco, e que abundam na iluminação das
feitiçarias.
Quando se acharam ao pé da casa, pararam de todo.
Um dos rapazes de Torteval arriscou esta observação:
- Não são almas do outro mundo, são fantasmas.
- Que é aquilo que pende ali à janela? - perguntou o outro.
- Parece uma corda.
- É uma serpente.
- É corda de enforcado - disse o francês com autoridade. -
Serve-lhes. Mas eu não creio.
E mais em tres pulos que em tres passos o francês estava ao pé
da parede da casa. Havia febre naquele atrevimento. Os outros,
tremulos, imitaram-no, e foram colocar-se ao pé dele,
encostando-se um à direita, outro à esquerda. Os rapazes
aplicaram o ouvido à parede. Continuava-se a falar dentro da
casa. Eis o que diziam os fantasmas: - Assim pois, está
entendido? - Entendido. - Dito? - Dito. - Aqui esperará um
homem e partirá depois para a América com Blasquitó? -
Pagando? - Pagando.
Blasquito tomará o homem na barca. - Sem indagar de que terra
ele é? - Não temos nada com isso. - Sem lhe perguntar o nome?
- Não se pede o nome, pede-se a bolsa. - Bem. 0 homem esperará
nesta casa. - Tendo o que comer. - Terá. - Onde?
Neste saco que trago.
Muito bem.
- Posso deixar o saco aqui?
- Os contrabandistas não são ladrões.
- E os senhores quando vão?
- Amanhã de manhã. Se o seu homem está pronto poderá vir
conosco.
- Não está pronto.
- É lá com ele.
- Quantos dias esperará aqui?
- Dois, tres, quatro dias. Mais ou menos.
- É certo que Blasquito virá?
- Certo.
- Aqui, a Plainmont?
- A Plainmont.
- E agora vou-me embora. - Pois sim. - Diga-me cá, homem. Se o
passageiro quiser que Blasquito vá a outro lugar que não
Portland ou Tor Bay?
- Em que semana?
- Na próxima.
- Em que dia?
- Sexta, sábado ou domingo.
- Não pode faltar?
- É meu tocaio.
- Virá com qualquer tempo?
- Qualquer. Não tem medo. Eu sou Blasco, ele é Blasqui-
- Assim não deixará de ir a Guernesey?
- Eu venho num mes, ele virá noutro.
- Entendo.
- A contar de sábado próximo, de hoje a oito dias não se
passarão cinco dias sem que venha Blasquito.
- Mas se o mar estiver muito mau?
- Mau tempo?
- Sim.
- Não virá tão depressa, mas virá.
- Donde virá?
- De Bilbao.
- Para onde irá?
- Para Portland.
- Bem.
- Ou para Tor Bay.
- Melhor.
- 0 seu homem pode ficar tranqüilo.
- Blasquito não será traidor?
- Os covardes são traidores. Somos valentes. 0 mar é a
igreja do inverno. A traição é a igreja do inferno.
Ninguém nos ouve?
É impossível ouvir-nos ou ver-nos. 0 medo faz isto deserto. -
Sei. - Quem se atreveria a escutar? - E verdade. - Mesmo que
escutassem não poderiam entender. Falamos uma língua que
niguém conhece. Desde que voce a sabe, é dos nossos. - Eu vim
para arranjarmos os negócios. - Bem.

Traga onças. Blasquito fará o que o homem quiser? Blasquito
fará o que as onças quiserem. É preciso muito tempo para ir a
Tor Bay? Depende do vento. Oito horas? Mais ou menos.
- Blasquito obedecerá ao passageiro?
- Se o mar obedecer a Blasquito.
- Há de ser bem pago.
- Ouro é ouro. Vento é vento.
- É justo.
- 0 homem faz o que pode com o ouro. Deus com o vento faz o
que quer.
- 0 homem que quer ir com Blasquito aqui virá sextafeira.
- Bem.
- A que horas chega Blasquito?
- À noite. Chega-se à noite, sai-se à noite. Temos uma mulher
que se chama água salgada, e uma irmã que se. chama noite. A
mulher pode enganar, a irmã nunca.
- Está dito tudo. Adeus, homens.
- Boas tardes. Um gole de aguardente?
- Obrigado.
- É. melhor que xarope.
- Tenho a sua palavra.
- 0 meu nome é Pundonor.
- Deus seja convosco.
- Se é fidalgo, eu sou cavalheiro.
Era claro que só diabos podiam falar assim. Os rapazes não
ouviram mais, e desta vez fugiram deveras, até o francês, que
convencido então, corria mais depressa que os outros.
Na seguinte terça-feira, o Sr. Clubin estava de volta a
Saint-Malo trazendo a Durande.
0 Tamaufipas continuava ancorado.
0 Sr. Clubin, entre duas baforadas de fumo, perguntou ao dono
da Pousada João:
- Então, quando sai o Tarnaulipas?
- Depois de amanhã, quinta-feira - respondeu o estalajadeiro.
Nessa noite, Clubin ceou à mesa dos guardas das costas, e,
contra o costume, saiu logo depois de cear. Resultou desta
saída que não pode estar presente no escritório da Durande, e
faltou ao carregamento. Foi isto reparado por ser ele um homem
tão exato.
Parece que ele conversou alguns instantes com o seu amigo
cambista.
Voltou duas horas depois que Noguette tocou a recolher. 0 sino
brasileiro soa às 10 horas. Era, pois, meia-noite.


A JACRESSARDE

Há quarenta anos Saint-Malo possuía uma viela chamada viela
Coutanchez. Essa viela já não existe: foi compreendida nos
melhoramentos da cidade.
Era uma dupla fileira de casas de pau inclinadas umas para as
outras, e deixando no centro lugar suficiente para correr um
rego que se chamava rua. Andava-se ali com as pernas abertas
dos dois lados da água lamacenta, abalroando com a cabeça e o
cotovelo as casas da direita e da esquerda. As velhas
choupanas da idade média normanda tem perfis quase humanos. De
albergue a feiticeiro a distância não é grande. Os andares
entrantes, as paredes inclinadas, os alpendres circunflexos e
o embrenhado de ferros velhos simulam lábios, queixos, nariz e
sobrancelhas. A trapeira é o Olho, zarolho. A face é a parede
rugosa e herpética. Tocam-se as paredes como se conspirassem
uma ação iníqua. Todos Estes nomes da antiga civilização,
quebra-cabeças e quebra-ventas, prendemse àquela arquitetura.
Uma das casas da viela Coutanchez, a maior, a mais famosa ou a
mais afamada, chamava-se a Jacressarde.
A Jacressarde era a habitação daqueles que não tem habitação-
Em todas as cidades, e especialmente nos portos de mar, há,
abaixo da população, um resíduo. Vagabundos, aventureiros,
vivendo de expedientes, químicos de espécie larápio, pondo
sempre a vida no alambique, todas as formas do andrajo e todas
as maneiras de vesti-lo, os jubilados da improbidade, as
existências em bancarrota, as consciências que já fizeram
balanço, os que abortaram no assalto e no arrombamento de
portas (porque os ladrões trabalham por baixo e por cima), os
operários e as operárias do mal, os velhaquetes e as
velhaquinhas, os escrúpulos rasgados e os cotovelos rotos, os
tratantes chegados à indigencia, os malévolos mal
recompensados, os vencidos do duelo social, os famintos que
foram devorados, os ganha-pouco do crime, os miseráveis, na
dupla e lamentável acepção da palavra, tal é o pessoal. Ali é
bestial a inteligencia humana. E o montão de imundícies das
almas. Ajunta-se tudo aquilo a um canto, onde passa de quando
em quando a vassoura policial. Em Saint-Malo esse canto era a
Jacressarde.
0 que se encontra nessas espeluncas não são os grandes
criminosos, os bandidos, os grandes produtos da ignorância e
da indigencia. Se o assassino é representado ali, é por algum
bebado brutal; ali o roubo não vai além da ratonice. É antes o
escarro que o vomito da sociedade. 0 vagabundo sim, o
salteador não. Todavia não há que fiar. Aquele último degrau
dos boemios pode ter extremidades malvadas. Um dia, lançando a
rede no Epi-Scié, que era em Paris o que a Jacressarde é em
Saint-Malo, a polícia apanhou Lacenaire.
Tudo entra naqueles albergues. A queda é um nivelamento. Às
vezes a honestidade esfarrapada escoa-se por ali. A virtude e
a probidade tem aventuras. Não se deve, à primeira vista,
estimar os Louvres nem condenar as galés. 0 respeito público e
a reprovação universal devem ser descascados. Quantas;
surpresas não se dão! Um anjo no lupanar, uma pérola no
monturo - não é impossível Este sombrio e deslumbrante achado.
A Jacressarde era mais pátio que casa, e mais poço que pátio.
Não tinha andares para a rua. A fachada era uma alta parede
com uma porta baixa. Levantava-se o férrOlho, empuff ava-se a
porta, entrava-se em um pátio.
No meio desse pátio havia um buraco redondo, cercado de uma
orla de pedra, ao nível do chão. Era um poço. 0 pátio era
pequeno, e o poço era grande. Em roda do bocal do poço o chão
era mal calçado.
0 pátio, quadrado, tinha construções por tres lados. Do lado
da rua, nada; mas diante da porta, à direita e à esquerda,
havia aposentos.
Quem, à noite, entrasse ali, um pouco arriscadamente, ouviria
como que um rumor de respirações juntas, e se houvesse
bastante luar ou estrelas, para dar forma aos lineamentos
obscuros, eis o que veria:
0 pátio. 0 poço. Em roda do pátio, em frente à porta, uma
palhoça figurando uma espécie de ferradura quadrada, galeria
carunchosa, toda aberta, com teto de vigas, sustentada por
pilares de pedra desigualmente espaçados; no centro, o poço; à
roda do poço, em uma liteira de palha, e fazendo como que um
rosário circular, viam-se solas de sapato umas direitas,
outras acalcanhadas, dedos aparecendo pelos buracos dos
sapatos, e muitos tornozelos pus, pés de homem, pés de mulher,
pés de criança. Todos esses pés dormiam.
Depois desses pés, penetrando o olhar na penumbra da palhoça,
distinguiam-se corpos, formas, cabeças adormecidas,
prolongamentos inertes, farrapos de ambos os sexos, uma
promiscuidade no monturo, um sinistro jazido humano. Era um
quarto de dormir para todos. Pagavam-se 2 soldos por semana.
Os pés tocavam no poço. Nas noites de tempestade, chovia sobre
os pés; nas noites de inverno, caía neve sobre os corpos.
Quem eram aquelas criaturas? Os desconhecidos. Iam ali de
noite e saíam de manhã. A ordem social anda misturada com
aquelas larvas. Alguns esgueiravam-se ali de noite e não
pagavam. A maior parte entrava em jejum. Todos os vícios,
todas as abjeções, todas as suposições, todas as misérias, o
mesmo sono de prostração no mesmo leito do lodo. Os sonhos de
todas essas almas faziam boa vizinhança. Fúnebre entrevista em
que se remexiam e se amalgamavam no mesmo miasma os cansaços,
os desfalecimentos, as borracheiras incubadas, as marchas e
contramarchas de um dia sem um pedaço de pão e sem um bom
pensamento, as noites lividas e sonolentas, remorsos, cobiças,
cabelos imundos, rostos com o olhar da morte, beijos, talvez,
das bOcas da treva. A podridão humana fermentava naquela tina.
Eram atiradas àquele albergue pela fatalidade, pela viagem,
pelo navio chegado na véspera, por uma saída de prisão, pelo
acaso, pela noite. 0 destino vazava ali, todos os dias, a sua
alcofa. Entrava quem queria, dormia quem podia, falava quem
ousava. Era próprio para cochichar. Todos se apressavam em
misturar-se. Tratavam de esquecer-se no sono, visto que não
podiam perder-se na sombra. Tiravam à morte aquilo que podiam.
Fechavam os olhos naquela agonia confusa que todas as noites
começava. Donde saíam? Da sociedade, porque eram a miséria; da
vaga, porque eram a espuma.
Nem todos tinham palha. Mais de uma nudez estava ali no chão;
deitavam-se estafados; erguiam-se anquilosados. 0 poço sem
parapeito e sem tampa, sempre aberto, tinha 30 pés de
profundidade. Caía ali a chuva, escorriam as imundícies,
filtravam todos os escoamentos do pátio. A caçamba para tirar
água ficava a um lado. Quem tinha sede bebia. Quem estava
aborrecido afogava-se. Do sono do monturo passava-se ao sono
do poço. Em 1819 tirou-se dali um menino de catorze anos.
Para não correr risco naquela casa era preciso ser da laia. Os
estranhos eram mal vistos.
Conheciam-se acaso entre si aquelas criaturas? Não;
farejavam-se.
A dona da casa era uma mulher moça, assaz bonita, trazendo um
barrete ornado de fitas, lavada às vezes com água do poço e
tendo uma perna de pau.
Desde madrugada esvaziava-se o pátio; iam-se embora os
fregueses.
Havia no pátio um galo e algumas galinhas, que esgaravatavam
no esterco durante o dia. 0 pátio era atravessado por um
barrote horizontal, colocado sobre postes, figura de forca,
que não estava ali em terra estranha. Via-se às vezes
estendido no barrote, no dia seguinte às noites chuvosas, um
vestido de seda molhado e enlameado, pertencente à mulher da
perna de pau.
Acima da palhoça e circulando o pátio havia um andar superior
e acima do andar um celeiro. Subia-se até lá por uma escada de
madeira podre que furava o teto; escada vacilante por onde
subia com estrépito a mulher coxa.
Os locatários de arribação, por semana ou por noite, moravam
no pátio; os locatários residentes moravam na casa.

Janelas, nem um caixilho; portas, nem uma ombreira; lareiras,
nem um fogão; era a casa. Passava-se de um quarto a outro
indiferentemente por um buraco quadrado e comprido que fora
porta, ou por uma fresta triangular que ficava entre duas
pilastras do tabique. A caliça caída cobria o assoalho. Não se
sabia como aquela casa estava em pé. 0 vento não a abalava.
Mal se podia subir pela escada gasta e escorregadia. Tudo
estava aberto. 0 inverno entrava na casa como água em esponja.
A abundância das aranhas tranqüilizava os moradores contra o
desmoronamento imediato. Mobília nenhuma. Dois ou tres
enxergões nos cantos, rotos no centro, deixando ver mais cinza
que palha, aqui e ali uma bilha e um alguidar, servindo para
diversos usos. Cheiro insípido e hediondo.
As janelas davam sobre o pátio. De cima o pátio assemelhava-se
a um carro de lama. As coisas, sem contar os homens que ali
apodreciam e enferrujavam-se, eram indescritíveis. Os
destroços fraternizavam: catam paredes, caíam criaturas. Os
trapos semeavam entulhos.
Além da população flutuante alojada no pátio, a Jacressarde
tinha tres inquilinos, um carvoeiro, um trapeiro e um
fabricante de ouro. 0 carvoeiro e o trapeiro ocupavam dois
enxergões no primeiro andar; o fabricante de ouro, químico,
morava nas águas-furtadas, que também se chamavam sótão. Não
se sabia em que lugar dormia a mulher. 0 fabricante de ouro
era um tanto poeta. Habitava debaixo das telhas, num quarto em
que havia uma trapeira estreita e uma grande chaminé de pedra,
gglfão onde ia rugir o vento. A trapeira não tinha caixilhos;
o fabricante de ouro pregou em cima um pedaço de ferro em
folha, proveniente de um rasgão de navio. A 'tolha deixava
passar pouca luz e muito frio. 0 carvoeiro pagava a casa com
um saco de carvão de quando em quando; o trapeiro pagava com
um cestário de grãos para as galinhas, cada semana; o
fabricante de ouro não pagava nada. Entretanto, ia queimando a
casa. Já tinha arrancado a pouca madeira, e a cada instante
tirava da parede, ou do teto, uma ripa para aquecer a caldeira
do ouro. No tabique acima do grabato do trapeiro viam-se em
duas colunas algarismos feitos com greda, escritos pelo
trapeiro todas as semanas, uma coluna de tres e uma coluna de
cinco, conforme o cestário de grão custasse 3 liardes ou 5
centimos. A caldeira do químico era uma velha bomba quebrada
promovida por ele ao cargo de caldeira, e que lhe servia para
combinar os ingredientes. A transmutação absorvia-o. Algumas
vezes falava nisso aos maltrapilhos do pátio, que deitavam a
rir. Dizia ele: "Aquela gente está cheia de preconceitos".
Estava resolvido a não morrer sem atirar a pedra filosofal às
vidraças da ciencia. 0 forno com que trabalhava comia muita
lenha. Já o patamar da escada tinha desaparecido. Ia-se toda a
casa paulatinamente. Dizia a hoteleira: "Neste andar só me
fica o casco". 0 químico abrandava-lhe a cólera fazendo-lhe
versos.
Tal era a Jacressarde.
0 criado da casa era um menino, talvez anão, contando doze
anos ou sessenta de idade, cheio de borbulhas, e trazendo
sempre uma vassoura na mão.
Os freqüentadores entravam pela porta do pátio; o público
entrava pela porta da loja. 0 que era a loja?
A alta parede que dava para a rua tinha à direita da entrada
do pátio uma abertura feita em esquadria, que era a um tempo
porta e janela, tendo postigo e caixilhos; o postigo era o
único da casa que tinha eixos e fechaduras, o caixilho era o
único que tinha vidros. Por trás da janela que abria sobre a
rua havia um pequeno quarto que tomava uma parte do telheiro
de dormir. Lia-se na porta da rua Este dístico feito com
carvão: "Aqui encontram-se as curiosidades". A palavra já
corria mundo. Sobre tres tábuas que fingiam prateleiras
colocadas por trás de vidraças, viam-se alguns potes de
porcelana falsa, sem asa, um chapéu de sol chines feito de
pergaminho delgado, ornado de figuras, furado em diversos
pontos, impossível de abrir e fechar, cadinhos de ferro, louça
informe, chapéus de homem e mulher estragados, tres ou quatro
conchas, alguns embrulhos de botões de osso e de cobre já
velhos, uma boceta com o retrato de Maria Antonieta, e um
volume truncado da álgebra de Boisbertrand.
Tal era a loja. Aquele sortimento era a curiosidade. A loja
comunicava por uma porta do fundo com o pátio onde estava o
poço. Tinha uma mesa e um escabelo. A mulher da perna de pau
era a moça do balcão.


COMPRADORES NOTURNOS E VENDEDOR TENEBROSO

Clubin não foi à Pousada João, nem na noite de terça-feira,
nem na noite de quarta-feira. Nesta noite, ao escurecer, dois
homens entraram Coutanchez; pararam diante da Jacressarde. Um
deles bateu na vidraça. Abriu-se a porta da loja. Entraram
ambos. A mulher da perna de pau deu-lhes o sorriso reservado
aos burgueses. Havia urna vela sobre uma mesa.
Os dois homens eram efetivamente burgueses. 0 homem que tinha
batido na vidraça disse:
- Boa noite, mulher. Venho por aquilo.
A mulher da perna de pau sorriu segunda vez e saiu pela porta
que dava para o pátio. Minutos depois abriu-se de novo a
porta, e apareceu um homem pela fresta, trazendo boné e blusa,
debaixo da qual havia uni objeto volumoso. Tinha uns fios de
palha nas dobras da blusa e pelos olhos via-se que acabava de
acordar.
0 homem avançou. Olharam-se todos. 0 homem da blusa tinha um
ar turvado e esperto.
- 0 senhor é o armeiro? - disse ele.
0 homem que tinha batido respondeu:
- Sim. 0 senhor é o Parisiense?
- Chamado Reaurouge. Sim.
- Deixe ver.
- Aqui está.
0 homem tirou debaixo da blusa um instrumento muito raro na
Europa naquela época, um revólver.
0 revólver era novo e brilhante. Os dois burgueses
examinaram-no. 0 que pareceu conhecer a casa e a quem o homem
da blusa chamou armeiro fez mover o mecanismo. Entregou depois
a arma ao outro burgues, que parecia não ser morador na
cidade, e que se conservava com as costas voltadas para a luz.
0 armeiro perguntou:
- Quanto custa?
0 homem da blusa respondeu:
- Venho da América. Há pessoas que trazem macacos, papagaios,
animais, como se os franceses fossem selvagens. Eu. trouxe
isto. É uma invenção útil.
- Quanto custa? - perguntou de novo o armeiro.
- É uma pistola que faz molinete.
- Quanto custa?
- Paf. Primeiro tiro. Paf. Segundo tiro. Paf... é uma
saraivada! Isto faz obra.
- Quanto custa?
- Tem seis canos.
- Mas quanto custa?
- Seis canos são 6 luíses.
- Quer 5 luíses?
- Impossível. Um luís por cada bala. É o preço.
- Quer fazer negócio, seja razoável.
- Já disse o preço. Examine-me esta obra, senhor arcabuzeiro.
- Já examinei.
- 0 molinete anda de roda como o Sr. Talleyrand. Podiam por
Este molinete no dicionário das ventoinhas. É uma jóia.
- Já vi.
- Os canos são de fábrica espanhola.
- Já reparei.
- São lavrados. A coisa arranja-se assim. Deita-se na forja
uma alcofá de ferros velhos, cravos, ferraduras quebradas ...
- E velhas lâminas de foices.
- Ia dize-lo, senhor armeiro. Depois deita-se em cima uma boa
porção de fogo, e sai disto tudo um magnífico instrumento de
ferro.
- Sim, mas pode ter gretas e buraquinhos; pode sair esconço.
- Sim. Mas tudo se arranja.
- 0 senhor é do oficio?
- Tenho todos os oficios.
- Os canos são brancos.
- É beleza, senhor armeiro. Faz-se isto com bOrra de
antimônio.
- Dizíamos nós que isto custa 5 luíses.
- Tomo a liberdade de observar que eu tive a honra de dizer 6
luíses.
0 armeiro abaixou a voz.
- Ouça, Parisiense. Aproveite a ocasião. Desfaça-se disto.
isto para vocês não vale nada. Chama a atenção.
- Na verdade - disse Parisiense -, é um tanto vistoso. É
melhor para um burgues.
- Quer 5 luíses?
- Não, 6. Um por cada buraco.
- Pois bem, 6 napoleões.
- Quero 6 luíses.
- Não é bonapartista. Prefere um luís a um napoleão?
Parisiense sorriu.
- Napoleão é melhor - disse ele -, mas luís vale mais.
-Seis napoleões.
- Seis luíses. É para mim uma diferença de 80 francos.
- Então não fazemos nada.
- Pois sim. Guardo o revólver.
- Guarde.
- Abater o preço! pois não! não se dirá que eu me desfiz sem
mais nem menos de uma invenção destas! Então, boa noite. É um
progresso sobre a pistola, que os indios chesapeakes chamam
Nortay-u-Hoh.
- Cinco luíses a vista, é ouro.
- Nortay-u-Hoh quer dizer espingarda pequena Muitas pessoas
ignoram isto.
- Quer 5 luíses e mais 1 escudo?
- Eu já disse que custa 6.
0 homem que estava de costas para a luz e que ainda não tinha
falado, fazia mover o mecanismo. Aproximou-se do armeiro e
disse-lhe ao ouvido:
- A arma é boa?
- Excelente.
- Eu dou os 6 luíses.
Cinco minutos depois, enquanto Parisiense apertava em um
buraco feito na manga da blusa os 6 luises de ouro que acabava
de receber, o armeiro e o comprador, levando no bolso da calça
o revólver, saíram da viela Coutanchez.


CARAMBOLA DA BOLA VERMELHA E DA BOLA PRETA

No dia seguinte, que era quinta-feira, a pouca distância de
Saint-Malo, perto da ponta do Decollé, num lugar em que as
rochas das praias são altas, e o mar profundo, passou-se uma
coisa trágica.
Nada mais freqüente na arquitetura do mar que uma língua de
rochedos em forma de lança, que se prende à terra por um istmo
estreito, prolonga-se na água e acaba-se aí bruscamente em
forma de rochedo a pique. Para chegar ao alto desse rochedo,
indo da praia, segue-se um plano inclinado cuja subida é às
vezes assaz difícil,
No alto de um rochedo desse gênero, achava-se em pé; pelas 4
horas da tarde, um homem embrulhado em uma larga capa de
uniforme, e provàvelmente armado, o que era fácil de
reconhecer por certas dobras retas e angulosas do manto. 0
sítio em que estava esse homem era uma plataforma assaz vasta
semeada de cubos à semelhança de seixos imensos, deixando
entre si estreita passagem. Esta plataforma onde brotava uma
ervazinha estreita e curta terminava do lado do mar por um
espaço livre, que ia dar a um despenhadeiro, de uns 60 pés de
altura, acima do mar, e parecia talhado com um prumo.
Entretanto, o ângulo da esquerda ia-se arruinando e oferecia
uma dessas escadas naturais próprias aos granitos marinhos,
cujos degraus pouco cOniodos exigem às vezes pernas de gigante
ou pulos de clowns. Descia perpendicularmente ao mar e
mergulhava nas águas. Era um quebra-costas. Podia-se, contudo,
a rigor, ir por ali embarcar na muralha da língua de rochas.
Soprava uma brisa. 0 homem, apertado na capa, firme nas
pernas, com o cotovelo direito na mão esquerda, piscava um
Olho e aplicava ao outro um óculo. Parecia absorto em uma
atenção séria. Aproximou-se da borda do rochedo, e ali estava
imóvel com o olhar imperturbávelmente fito no horizonte. A
maré estava cheia. A vaga batia por baixo dele no sopé do
rochedo.

0 que o homem observava era um navio ao largo que fazia
manobras singulares.
Esse navio, que apenas uma hora antes saíra de SaintMalo,
tinha parado por trás dos Banquetiers. Era uma galera. Não
tinha deitado âncora, talvez porque o fundo não lho
permitisse, e porque o navio teria prendido a âncora debaixo
do gurupés. Limitou-se a por-se à capa.
0 homem, que era guarda-costa, como o uniforme indicava,
espiava todas as manobras do navio e parecia tomar nota
mentalmente. 0 navio tinha atravessado: era o que indicava a
vela ré alada a barlavento, e as de proa largas por mão; tinha
braceado o pano de ré o mais que lhe foi possível, de forma
que neutralizava a força dos de proa. Deste modo, caindo a
sotavento, não perdia mais de milha e meia por hora.
0 dia ainda estava claro, sobretudo em pleno mar e no alto das
rochas. Mas ao pé das costas começava a escurecer.
0 guarda-costa, entregue ao seu trabalho, e espionando
conscienciosamente ao largo, não tinha pensado em examinar o
rochedo ao lado e embaixo. Dava as costas para a escada pouco
praticável que punha em comunicação a plataforma com o mar.
Não reparou que alguma coisa andava ali em movimento. Havia
nessa escada, por trás da anfratuosidade, alguma pessoa, um
homem escondido ali, segundo parecia, antes da chegada do
guarda-costa. De tempos a tempos na sombra, aparecia uma
cabeça por baixo da rocha, olhava para cima e espiava o
espião. Essa cabeça coberta por um largo chapéu americano, era
a cabeça do quaker, que, uns dez dias antes falara nas pedras
do Petit Bey ao Capitão ZueIa.

De repente pareceu redobrar a atenção do guarda-costa.
Limpou rápidamente com a manga o vidro do óculo e firmou-o com
energia sobre o navio.
Destacara-se um ponto negro.
0 ponto negro, semelhante a uma formiga no mar, era uma
barcaça.
A barcaça parecia querer ganhar a terra. Era tripulada por
alguns marinheiros que remavam vigorosamente.
Já obliquava a pouco e pouco e dirigia-se para a ponta do
Decollé.
A espreita do guarda-costa chegou ao seu maior grau de
fixidez. Ele não perdia nenhum dos movimentos da barcaça.
Aproximou-se mais ainda da borda do rochedo.
Neste momento um homem de alta estatura, o quaker, surgiu por
trás do guarda-costa, no alto da escada. 0 espião não viu o
quaker.
Parou Este alguns instantes, com os braços caídos e os punhos
crispados, e, com o olhar do caçador que aponta, olhou para as
costas do espião.
Quatro passos apenas o separavam do guarda-costa; adiantou um
pé, depois parou; deu outro passo e parou outra vez; o único
movimento que fazia era andar, o resto do corpo era estátua; o
pé firmava-se na relva sem rumor; deu terceiro passo e parou;
estava quase tocando o guarda-costa, sempre imóvel, com o
óoulo fixo. 0 homem ajuntou as duas mãos fechadas na altura
das suas clavículas, depois, bruscamente, abateram-se os
antebraços, e os dois punhos, como que soltos por uma mola,
bateram nos ombros do guarda-costa. 0 choque foi sinistro. 0
guarda-costa nem teve tempo de soltar um ai. Caiu de cabeça no
mar. Viram-se-lhe os pés durante o tempo de um relâmpago. Foi
uma pedra na água. A água cerrou-se depois, descrevendo dois
ou tres grandes círculos.
Ficou apenas o óculo escapo às mãos do guarda-costa e caído no
chão.
0 quaker inclinou-se à borda das rochas, viu acalmar-se a
água, esperou alguns minutos, depois endireitou-se, cantando
entre os dentes:

Monsicur de la police est mort En perdant la vie.

Inclinou-se outra vez. Nada reapareceu. Sórnente no lugar onde
o guarda-costa tinha caído, formou-se na superficie da água
uma espécie de espessura negra, que se alargava no movimento
da vaga. Era provável que o guarda-costa tivesse quebrado o
crânio em alguma rocha submarina. 0 sangue subira e fazia
aquela mancha na espuma.
0 quaker, contemplando aquela mancha, continuou:



Un quart dheure avant sa mort,
II était encore...

Não acabou.
Ouviu atrás de si uma voz doce que lhe dizia:
- Ora viva, Rantaine. Acaba o senhèr de matar um homem. Ele
voltou-se, e viu a quinze passos, no intervalo de dois
rochedos, um homem baixo que tinha um revólver na mão.
Respondeu:
- Como ve. Bom dia, Sr. Clubin.
0 homem baixo estremeceu.
- Reconheceu-me?
- Não me reconheceu o senhor? - disse Rantaine.
Entretanto, ouviu-se um rumor de remos no mar. Era a barcaça
observada pelo guarda-costa que se aproximava.
0 Sr. Clubin disse a meia voz como se falasse consigo:
- A coisa foi rápida.
- Em que precisa de mim? - perguntou Rantaine.
- Pouca coisa. Há quase dez anos que nos não vemos.
0 senhor há de ter feito bons negócios. Como está de saúde?
- Bem - disse Rantaine. - E o senhor?
- Perfeitamente - respondeu Clubin.
Rantaine deu um passo para o Sr. Clubin.
Um pequeno som chegou aos seus ouvidos. Era o Sr. Clubin. que
armava o revólver.
- Rantaine, estamos a quinze passos. É uma boa distância.
Fique onde está.
- Ali! Mas o que quer o senhor de mim?
- Venho conversar.
Rantaine não se mexeu. 0 Sr. Clubin continuou:
- 0 senhor matou agora mesmo um guarda-costa.
Rantaine levantou a aba do chapéu e respondeu:
- Já me fez a honra de dize-lo.
- Em termos menos precisos. Disse há pouco: um homem; agora
digo: um guarda-costa. 0 guarda-costa tinha o número 619. Era
um pai de família. Deixa mulher e cinco filhos.
- Deve ser assim - disse Rantaine.
Houve um imperceptível tempo de silencio.
- São homens escolhidos esses guarda-costas - disse Clubin.
Quase todos antigos marítimos.
- Notei que em geral deixam mulher e cinco filhos.
Clubin continuou:
- Adivinhe quanto me custou Este revólver.
- É um lindo instrumento - respondeu Rantaine.
- Quanto vale?
- Vale muito.
- Custou-me 144 francos.
- Comprou naturalmente na loja de armas da Rua Coutanchez.
Clubin continuou.
- 0 guarda-costa nem gritou. A queda corta a voz.
- Sr. Clubin, há de ventar esta noite.
- Eu sou o único que sei do segredo.
- Continua a morar na Pousada João?
- Sim. Vive-se bem ali.
Já lá comi muito boa couve fermentada.
Rantaine, o senhor deve ser excessivamente forte. Tem cada
espádua! Não seria eu quem lhe levariaum piparote. Era tão
raquítico quando vim ao mundo, que nem se sabia se me poderiam
criar.
- Felizmente criou-se.
- Sim, e continuo a morar na Pousada João.
- Sabe por que motivo eu o reconheci, Sr. Clubin? Porque o
senhor me tinha reconhecido. Disse comigo: só Clubin pode
reconhecer-me.
E adiantou um passo.
- Fique onde estava, Rantaine.
Rantaine recuou e disse à parte:
- A gente torna-se criança diante destes instrumentos.
0 Sr. Clubin continuou.
- Situação. Temos aqui à direita, do lado de Saint-Enogat, a
trezentos passos, outro guarda-costa, número 618, que está
vivo, e à esquerda, do lado de Saint-Lunaire, um posto de
alfândega. Sete homens armados que podem estar aqui dentro de
cinco minutos. 0 rochedo ficará cercado. 0 desfiladeiro ficará
guardado. Impossível fugir. Há um cadáver ao pé da rocha.
Rantaine deitou um olhar oblíquo ao revólver.
- Como diz, Rantaine. É um lindo instrumento. Talvez esteja
carregado com pólvora seca. Mas que importa? Basta um tiro
para fazer correr a força armada. Tenho seis tiros.
0 choque alternativo dos remos tornava-se mais distinto. A
barcaça não estava longe.
0 homem alto olhava estranhamente para o homem baixo. Sr.
Clubin falava com um ar cada vez mais tranqüilo e doce.
- Rantaine, os homens da barcaça que vai chegar, sabendo o que
fez há pouco, ajudar-me-iam a prende-lo. 0 senhor paga 10 000
francos de passagem ao Capitão Zuela. Entre parentesis, a
passagem ficaria mais barata se tratasse com os
contrabandistas de Plainmont, mas Estes só o levariam para
Inglaterra, e demais o senhor não pode arriscar-se a ir a
Guernesey, onde há quem tenha a honra de conhece-lo. Volto à
situação. Se eu disparar, prendem-no. Nesse caso pagará a
Zuela 10 000 francos de fuga. Já lhe deu 5 000 francos; ZueIa
guardará esses 5 000 francos e vai-se embora. É isto,
Rantaine, acho-o bem rebuçado. Esse chapéu, esse casaco e
essas polainas disfarçam-no. Esqueceram-lhe os óculos. Fez bem
em deixar crescer as suíças.
Rantaine sorriu como quem range os dentes. Clubin continuou:
- Rantaine, o senhor tem uma calça americana com duas
algibeiras. Numa delas tem o seu relógio. Guarde-o.
- Obrigado, Sr. Clubin.
- Na outra há uma caixinha de ferro batido, que abre e fecha
por molas. É uma velha boceta de marinheiro. Tire-a do bolso e
atire-a para cá.
- Mas isto é um roubo!
- Pode chamar a guarda.
E Clubin fixou os olhos em Rantaine.
- Olhe, Mess Clubin. .. - disse Rantaine dando um passo Q
estendendo a mão aberta.
Mess era uma lisonja.
- Fique onde está, Rantaine.
- Mess Clubin, arranjemos as coisas. Ofereço-lhe metade.
Clubin executou um cruzar de braços, mostrando a boca do
revólver.
- Rantaine, que pensa que eu sou? Sou um homem honrado. E
acrescentou, depois de uma pausa:
- Quero tudo.
Rantaine disse entre dentes:
- É temível Este.
Entretanto, acenderam-se os olhos de Clubin. A voz tornou-se
cortante como o aço. Disse ele:
- Creio que se engana. 0 seu nome é que é Roubo, o meu é
Restituição. Ouça, Rantaine. Há dez anos saiu o senhor de
Guernesey à noite, tomando da caixa de uma sociedade 50 000
francos que lhe pertenciam e esquecendo de lá deixar 50 000
francos que pertenciam a outro. Esses 50 000 francos roubados
ao seu sócio, o excelente e digno Mess Lethierry, fazem hoje,
com os juros acumulados de dez anos, 80 666 francos e 66
centimos. 0 senhor entrou ontem na casa de um cambista.
Reluchet chama-se ele, Rua de São Vicente. Deulhe 76 000
francos em bilhetes de banco francêses e em troca deu-lhe ele
tres bank-notes da Inglaterra de 1000 libras esterlinas cada
uma, e mais uns trocos. 0 senhor pOs essas banknotes na boceta
de ferro e a boceta de ferro na algibeira direita. As 3 000
libras esterlinas fazem 75 000 francos. Em nome de Mess
Lethierry contento-me com isso. Parto amanhã para Guernesey, e
vou levar-lhos. Rantaine, a galera que ali está à capa é o
Tarnaulipas. 0 senhor embarcou ali esta noite as malas
misturadas com os sacos e canastras da equipagem. Quer sair da
França. Tem suas razões para isso. Vai a Arequipa. A barcaça
vem buscá-lo. Está à espera dela. Ela aí vem. Já a estamos
ouvindo. Depende de mim deixá-lo partir ou obrigá-lo a ficar.
Basta de palavras. Atire cá a boceta de ferro.
Rantaine abriu a bolsa, tirou uma caixinha de ferro e atirou-a
a Clubin. A caixinha foi rolar aos pés de Clubin.
Clubin inclinou-se sem abaixar a cabeça, e apanhou a boceta,
tendo dirigidos contra Rantaine os dois olhos e os canos do
revólver.
Depois disse:
- Meu amigo, volte as costas.
Rantaine voltou as costas.
0 Sr. Clubin pos o revólver debaixo do braço e apertou a mola
da caixinha. A caixinha abriu-se.
Havia dentro quatro bank-notes, tres de 1000 libras, e uma de
10 libras.
Clubin dobrou as tres notas de 1000 libras, po-las outra vez
na caixinha, fechou-a e meteu-a no bolso.
Depois apanhou no chão uma pedra. Embrulhou a pedra no bilhete
de 10 libras e disse:
- Volte para cá.
Rantaine voltou-se.
0 Sr. Clubin continuou:
- Disse-lhe que me contentava com as 3 000 libras. Aqui vão as
10.libras.
E atirou a Rantaine o bilhete e mais o lastro de pedra.
Rantaine, com um pontapé, deitou o bilhete e a pedra ao mar.
- Como queira - disse Clubin. - Vamos lá, o senhor há de estar
rico. Estou tranqüilo.
0 rumor dos remos que se tinha aproximado durante o diálogo
cessou. Indicava isto que a barcaça estava ao pé das rochas.
- Está embaixo o seu carro. Pode ir, Rantaine.
Rantaine dirigia-se para a escada e desceu.
Clubin foi com precaução até a borda do rochedo e adiantando a
cabeça, viu descer Rantaine.
A barcaça tinha parado ao pé do último degrau do rochedo, no
mesmo lugar em que tinha caído o guarda-costa.
Vendo descer Rantaine, Clubin murmurou:
- Bom número 619! Pensava que estava só. Rantaine pensava que
eram apenas dois. Só eu sabia que éramos tres.
Clubin viu no chão o óculo do guarda-costa; apanhou-o.
Começou o ruído dos remos. Rantaine acabou de pular na barcaça
e esta tomava o largo.
Quando Rantaine achou-se na barca, indo-se já afastando dos
rochedos, levantou-se bruscamente, a face tornou-se-lhe
monstruosa; mostrou o punho e gritou:
- Ah! o próprio diabo é um canalha!
Instantes depois, Clubin do alto das rochas e fixando o óculo
na barcaça, ouviu distintamente estas palavras, articuladas
por uma voz grossa, no meio do rumor do mar:
- 0 Sr. Clubin é um homem honrado, mas consinta que eu escreva
a Lethierry para participar-lhe o fato, e aqui vai nesta
barcaça um marinheiro de Guernesey que é da equipagem do
Tamaufipas, que se chama Ahier Tortevin, e que há de voltar a
Saint-Malo, na próxima viagem de Zuela, e que será testemunha
de que eu lhe entreguei para Mess Lethierry a soma de 3 000
libras esterlinas.
Era a voz de Rantaine.
Clubin era o homem das coisas bem feitas. Imóvel como estivera
o guarda-costa, e no mesmo lugar, com o óculo no olho, não
perdeu de vista a barcaça. Viu diminuirem-se os remos,
desaparecer, reaparecer, aproximar-se a barcaça do navio; e
pode reconhecer a alta corpulencia de Rantaine no tombadilho
do Tamaulipas.
Quando a barcaça foi içada, o Tamaulipas entrou a preparar-se.
A brisa soprava de terra, o navio abriu as velas todas, o
óculo de Clubin continuava fixo no lineamento cada vez mais
simplificado e, meia hora depois, o Tamaulipas era apenas um
ponto negro que ia a diminuir-se, a diminuir-se, a diminuir-se
no céu amarelo do crepúsculo.


INFORMAÇÃO ÚTIL ÀS PESSOAS QUE ESPERAM OU RECEIAM CARTAS DE
ALEM-MAR

Nessa noite, o Sr. Clubin recolheu-se tarde.
Uma das causas da sua demora é que antes de recolher-se foi
ele até a porta Dinan, onde havia tavernas. Tinha comprado em
uma dessas tavernas, onde não era conhecido, uma garrafa de
aguardente que pos em uma larga algibeira da japona como se
quisesse esconde-la; depois, devendo a Durande sair no dia
seguinte de manhã, foi a bordo para ver se tudo estava em
ordem.
Quando o Sr. Clubin entrou na Pousada João, já não havia na
sala baixa senão o velho capitão de longo curso,
GertraisGaboureau, bebendo e fumando cachimbo.

0 Capitão Gertrais-Gaboureau cumprimentou o Sr. Clubin entre
um gole e uma baforada.
- Good-bye, Capitão Clubin.
- Boa noite, Capitão Gertrais.
- Com que então, lá se foi o Tamaufipas.
- Ah! - disse Clubin -, não reparei.
0 Capitão Gertrais-Gaboureau cuspiu e disse:
- Raspou-se o Zuela.
- Quando?
- Esta noite.
- Onde vai?
- Vai ao diabo.
- Sim, mas onde?
- A Arequipa.
- Não sabia - disse Clubin.
Acrescentou:
- Vou dormir.
Acendeu a vela, caminhou para a porta e voltou.
- Já foi a Arequipa, Capitão Gertrais?
- Sim. Há anos.
- Onde se costuma a arribar?
- Em diversos portos. Mas o Tamaulipas não arribará em parte
alguma.
0 Sr. Gertrais-Gaboureau deitou na borda de um prato a cinza
do cachimbo e continuou:
- Conhece o Cheval-de-Troie e o Trentemousin, que foram a
Cardiff. Não opinei a favor da partida por causa do tempo.
Voltaram em belo estado. Chevai-de-Troie levava terebintina e
abriu água, e fazendo trabalhar as bombas perdeu no meio da
água todo o carregamento. Quanto ao Trentemousin, ficou bem
estragado; quebrou-se-lhe o cepo da âncora, o botalós, ovéns;
não sofreu o mastro de mesena, mas teve um forte abalo. Caiu o
ferro do gurupés, que aliás não só ficou machucado, mas
completamente nu. Veja o que resulta de não ouvir conselhos.
Clubin tinha pOsto a vela na mesa, e pos-se a pregar de novo
uma porção de alf inetes que tinha na japona.
Disse:
- Não dizia, capitão, que o Tamaufipas não arriba em porto
algum?
- Não. Vai direito ao Chile.
- Neste caso não pode mandar notícia alguma em caminho-
- Perdão, Capitão Clubin. Primeiramente pode entregar
despachos a todos os navios que encontrar em caminho para a
Euro a.
- Fiusto.
- Depois, tem a caixa de cartas do mar.
- A que chama o senhor caixa de cartas do mar?
- Não sabe, Capitão Clubin?
- Não.
- É quando se passa pelo estreito de Magalhães.
- Que há então?
- Neva em toda a parte, temporal sempre, ruins ventos, mar de
trezentos diabos.
- Depois?
- Quando se dobra o cabo Monmouth.
- Bem. Depois?
- Depois, dobra-se o cabo Valentin.
- E depois?
- Depois dobra-se o cabo Isidoro.
- E depois?
- Dobra-se a ponta Ana.
- Bem. Mas o que é que chama caixa das cartas do mar?
- Chegamos à caixa. Montanhas à direita, montanhas à esquerda.
De todos os lados aves marinhas. Terrível sítio! Ah! com um
milhão de diabos! que clitisma e que matinada! A borrasca ali
não precisa de auxílio. Toca a vigiar a cinta da pOpa! toca a
diminuir as velas! Da vela grande passava ao juanete! Lufada
sobre lufada! Quatro, cinco, seis dias de capa. Quantas vezes
de um velame novinho em rolha não nos fica senão o fio. Que
dança! furacões capazes de fazer saltar uma galera como fosse
uma pulga. Já vi num brigue inglês, o True Blue, um grumete
ocupado com o pau da giba ser levado por um milheiro de
ventos, com pau e tudo. Anda-se no ar como borboletas! Vi o
contramestre da Revenue ser arrancado do navio e morrer: A
cinta do meu navio quebrou-se, e todas as peças de madeira do
convés ficaram despedaçadas. A gente sai dali com as velas
comidas, até fragatas de cinqüenta fazem água como se rossem
cestos. E a endiabrada costa! É o que há de mais danado.
Rochedos retalhados como por criancice. Aproxima-se a gente de
Porto Fome. Aí é pior que pior. São as lâminas mais agudas que
tenho visto. Paragens do inferno. De repente veem-se estas
duas palavras escritas com tinta vermelha: Pos~ice.
- Que quer dizer, Capitão Gertrais?
- Quero dizer, Capitão Clubin, que logo depois de dobrar o
cabo Ana ve-se em uma pedra de 100 pés de altura um grande
pau. É um poste com uma barrica no alto. Essa barrica é a
caixa das cartas. Os inglêses escreveram em cima:
Post-Office.Por que se meteram eles nisto? Aquilo é o correio
do oceano; não pertence a esse honrado gentieman, o rei da
Inglaterra. A caixa das cartas é comum. Pertence a todas as
bandeiras. Post-Office, há nada mais chines! Parece uma xícara
de chá que o diabo oferece em pleno oceano. Eis como se faz o
serviço. Todos os navios que passam expedem ao poste um
escaler com os seus despachos. 0 navio que vem do Atlântico
envia cartas para a Europa, e o navio que vem do Pacífico
manda cartas para a América. 0 oficial que comanda o escaler
põe na barrica o maço de cartas e tira o maço que lá encontra.
Toma-se conta dessas à espera que o próximo navio tome conta
das cartas que se deixam. Como se navega em sentido contrário,
o continente donde o senhor vem é aquele para onde eu vou.
Levo as suas cartas, o senhor leva as minhas. A barrica está
presa ao poste por uma corrente de ferro. E chove! E neva! Mar
dos diabos! 0 Tamaulipas ficará aí. A barrica tem uma tampa
mas sem fechadura nem cadeado. Bem ve que se pode escrever aos
amigos. As cartas chegam ao seu destino.
- É esquisito - murmurou Clubin, pensativo.
0 Capitão Gertrais-Gaboureau voltou-se para a bebida.
- Suponhamos que o brejeiro do Zuela me escreva, meta as suas
garatujas na barrica de Magalhães, e dentro de quatro meses
tenho as cartas do patife. Diga-me lá, Capitão Clubin, sai
amanhã?
Clubin, absorto em uma espécie de sonambulismo, não ouviu. 0 C
apitão Gertrais repetiu a pergunta.
Clubin despertou.
- Sem dúvida, Capitão Gertrais. É o dia marcado. Devo sair
amanhã de manhã.
- Pois olhe, eu não saía. Capitão Clubin, os cães tem o pelo
molhado. As aves marinhas andam há duas noites à roda do
farol. Mau sinal. Estamos no segundo quarto da lua; é o máximo
da umidade. Vi há pouco pimpinelas que fechavam as rolhas e um
campo de trevo cujas hastes estavam retesadas. Os vermes saem
do chão, as moscas mordem, as abelhas não se afastam dos
cortiços, os pardais consultam-se. Ouve-se o som dos sinos de
longe. Eu ouvi hoje o sino de Saint-Lunaire dar avemarias. E
ao por do sol havia muitas nuvens no horizonte. Amanhã há de
haver grande nevoeiro. Não lhe digo que parta. Receio mais o
nevoeiro que o furacão. Grande sonso o nevoeiro.


LIVRO SEXTO

0 TIMONEIRO ÉBRIO E 0 CAPITÃO SÓBRIO


OS ROCHEDOS DOUPRES

Cerca de 5 léguas, em pleno mar, ao sul de Guernesey, em face
da ponta de Plaínmont, entre as ilhas da Mancha e Saint-Malo,
há um grupo de cabeços chamados rochedos Douvres. Funesto
lugar esse.
Esta denominação Douvre (Dover) pertence a muitos cachopos e
rochedos. Há especialmente perto das costas do norte uma rocha
Douvre na qual se constrói agora mesmo um farol, escolho
perigoso, mas que não deve ser confundido com Este.
0 ponto da França mais próximo do rochedo Douvres é o cabo
Brehant. 0 rochedo Douvres é um pouco mais longe da costa da
França que a primeira ilha do arquipélago normando. A
distância desse escolho a Jersey mede-se pouco mais ou menos
pela grande diagonal de Jersey. Se a ilha de Jersey se
voltasse sobre a Corbière: como sobre um eixo, a ponta de
Santa Catarina iria quase bater nos Douvres. É uma distância
de quase 4 léguas.
Nesses mares da civilização os rochedos mais selvagens são
raramente desertos. Encontram-se contrabandistas em Hagot,
guardas da alfândega em Binic, cultivadores de ostras em
Cancale, caçadores de coelhos em Césambre, ilha de César,
apanhadores de caranguejos em Brecq-Hou, pescadores de rede em
Minquiers e Ecré-Hou. Nos rochedos Douvres, ninguém.
As aves marinhas estão ali em sua casa.

Não há pior encontro. Os Casquets, onde dizem que se perdeu a
Blanche Nef, o banco Calvados, as pontas da ilha de Wight, a
Ronesse que faz a costa de Beaulieu tão perigosa, os baixios
de Préel que tornam tão angustiosa a entrada de Merquel e que
obrigam a deitar a umas 20 * braças a baliza vermelha, as
proximidades pérfidas de Étables e de Plouha, as duas druidas
de granito do sul de Guernesey, o velho Anderlo e o pequeno
Anderlo, a Corbière, os Hanois, a ilha de Ras, recomendada ao
medo por Este provérbio: "Quando passares o Ras, se não
morreres, tremerás"; as Mortes Femmes, a passagem do Boue e de
Frouquie, a Deroute entre Guernesey e Jersey, a Hardent entre
os Minquiers e Chausey, o Mativais-Cheval entre o Boulay-Bay e
Berneville, são mal afamados. Vale mais afrontar todos os
cachopos do que o Douvres uma só vez.
Em todo o perigoso mar da Mancha que é o mar Egeu do Ocidente,
o rochedo Douvres só tem um rochedo igual no terror que
inspira, é o escolho Pater Noster entre Guernesey e Serk.
E ainda no Pater Noster pode-se fazer um sinal; quem está ali
em perigo pode ser socorrido. Ve-se ao norte a ponta Dicard ou
de Icaro, ao sul, Gros-Nez. Do rochedo Douvres não se ve nada.
0 vento, a água, a nuvem, o ilimitado, o inabitado.
Só se passa ali perdido. Os granitos são de uma estatura
brutal e hedionda. Avultam as rochas escarpadas. Severa
inospitalidade do abismo.
É mar alto. A água é profunda. Um escolho absolutamente
isolado, como o rochedo Douvres, atrai e abriga os animais que
precisam afastar-se dos homens. É uma espécie de vasta
madrépora submarina. É um labirinto afogàdo. Há ali, em
profundezas que difícilmente alcançam os mergulhadores,
antros, cavas, cavernas, cruzamentos de ruas tenebrosas.
Pululam as espécies monstruosas. Devoram-se umas às outras. Os
caranguejos comem os peixes, e são devorados também. Formas
medonhas, feitas para não serem vistas por olhos humanos,
andam vivas naquela obscuridade. Vagos lineamentos de goelas,
antenas, tentáculos, barbatanas, bOcas abértas, escamas,
garras, unhas flutuam, tremem, engrossam, decompõem-se e
desfazem-se na transparencia sinistra.

Tremendos nadadores andam ali na labutação. É uma colmeia de
hidras.
Ali o horrível é ideal.
Imagina, se podes, um formigueiro de holotúrias.
Ver o interior do mar é ver a imaginação do Ignoto. É veIa do
lado terrível. 0 golfão é análogo à noite. Também aí há sono,
sono aparente ao menos, da consciência da criação. Cometem-se
ali em plena segurança os crimes da irresponsabilidade. Os
esboços da vida, fantasmas quase, completos demônios, vagam
ali, em medonha paz, nas sombrias ocupações da sombra.
Há quarenta anos, duas rochas de forma extraordinária
assinalavam de longe o escolho Douvres aos viandantes do
oceano. Eram duas pontas verticais e recurvadas, tocando-se
quase no cume. Parecia ver-se irrompendo do mar dois dentes de
um elefante engolido. Mas eram dentes de tamanhos de torres
que só poderiam pertencer a elefantes do tamanho de uma
montanha. Essas duas tórres naturais da obscura cidade dos
monstros não deixavam entre si mais que uma passagem estreita
onde a vaga se atirava. Essa passagem, tortuosa e de alguns
cOvados de comprimento, parecia um pedaço de rua entre duas
paredes. A essas duas rochas gemeas charnavamse as duas
Dotivres. Havia a grande Douvre e a pequena Douvre; uma tinha
60 pés de altura, a outra 40. 0 vaivém das ondas fez na base
dessas torres um aspecto de serra, e o violento furacão do
equinócio de 26 de outubro de 1859 derrubou uma delas. A que
ficou, a pequena, está mutilada e gasta.
Um dos mais estranhos rochedos do grupo Dotivres chama-se o
Homem. Esse ainda existe. No século passado alguns pescadores,
perdidos naqueles cachopos, acharam um cadáver. Ao pé do
cadáver havia uma porção de conchas vazias. Tinha naufragado
ali um homem, refugiou-se naqueles rochedos, alimentou-se
algum tempo de conchas, até que morreu. Veio dai chamar-se
Homem ao rochedo.
São singulares as solidões da água. É o tumulto e o silencio.
0 que aí se faz já nada tem com o gênero humano. É a utilidade
desconhecida. Tal é o isolamento do rochedo Douvres. Em
derredor, a perder de vista, o imenso tormento das vagas.


CONHAQUE INESPERADO

Na sexta-feira de manhã, um dia depois da partida do
Ta7naulipas, a Durande partiu para Guernesey.
Deixou Saint-Malo às 9 horas.
Claro estava o tempo, não havia nevoeiro; parece que o velho
Capitão Gertrais-Gaboureau tinha delirado.
As preocupações do Sr. Clubin fizeram com que embarcasse pouco
carregamento. Apenas meteu a bordo alguns fardos de Paris para
as lojas de Saint-Pierre-Port, tres caixas para o hospital de
Guernesey, uma de sabão amarelo, outra de velas e a terceira
de couro de sola e cordavão fino. Levava também, da precedente
viagem, uma caixa de açúcar crushed e tres caixas de chá
conjou, que a alrandega francêsa não quis receber. 0 Sr.
Clubin embarcou pouco gado; alguns bois apenas. Os bois foram
postos no porão e bem mal arranjados.
Havia a bordo seis passageiros: um guernesiano, dois
inaloenses vendedores de animais, um turista, como já se dizia
nesse tempo, um parisiense meio burgues, provàvelmente turista
do comércio, e um americano distribuidor de Bíblias.
A Durande, sem contar com Clubin, tinha sete homens de
tripulação; um timoneiro, um carvoeiro, um marinheiro
carpinteiro, um cozinheiro, manobrista quando era preciso,
dois trabalhadores da máquina e um grumete. Um dos penúltimos
era também mecânico. Era um valente e inteligente negro
holandes, evadido das fábricas de açúcar do Surimame;
chamava-se Imbrancani. 0 negro Imbrancam compreendia e servia
admiràvelmente a máquina. Nos primeiros tempos, contribuiu ele
não pouco, quando aparecia na fornalha, para dar um ar
diabólico à Durande.
0 timoneiro, jerseiano de nascimento, originário da costa,
chamava-se Tangrouille. Tangrouille era de alta nobreza.
É verdade isto. As ilhas da Mancha são, como a Inglaterra,
países hierárquicos. Ainda existem castas nessas ilhas. As
castas tem as suas idéias, que são os seus dentes. Essas
idéias são as mesmas em toda a parte, na índia, como na
Alemanha. A nobreza conquista-se pela espada e perde-se pelo
trabalho. Conserva-se pela ociosidade. Não fazer coisa alguma
é viver fidalgamente; quem não trabalha e reverenciado. Oficio
faz decair. Na França de outrora só se excetuavam os operários
de vidro. Sendo glória para os fidalgos esvaziar garrafas,
faze-las não era desonra alguma.
Nas ilhas da Mancha, assim como na Grã-Bretanha, quem quiser
ser nobre deve conservar-se opulento. Um workman não pode ser
gentleman. Ainda que o tenha sido, já não o é mais. Tal marujo
descende de cavalheiros e é apenas marujo. Há trinta anos, em
Aurigny, um Georges autentico, que ao que parece tinha
direitos à senhoria de Georges confiscada por Filipe Augusto,
apanhava sargaço com os pés nus. Há em Serk um Carteret que é
carreiro. Existe em Jersey um mercador de panos, e em
Guernesey um sapateiro, que tem o nome de Gruchy, que se
declaram Grouchy e primos do marechal de Waterloo. Os antigos
registros do bispado de Coutances mencionam uma senhoria de
Tangroville, parenta evidente de Tancarville no Baixo-Sena,
que é Montmorency. No século XV Johan de Heroudeville,
besteiro e afim do Sr. de Tangroville, levava sempre consigo
justilhos e arneses. Em maio de 13 7 1, em Pontorson, o Sr.
Tangroville fez o seu dever como cavalheiro. Nas ilhas
normandas quem cai em pobreza é logo eliminado da fidalguia.
Basta uma mudança de nome. De Tangroville faz Tangrouille, e
tudo se arranja.
Foi o que aconteceu ao timoneiro da Durande.
Há em Saint-Pierre-Port, no Bordage, um mercador de ferros
chamado Ingrouille, que é provàvelmente Ingroville. No reinado
de Luís, o Gordo, os Ingroville possuíam tres paróquias em
Valognes. Fez um padre Trigan a História Eclesiástica da
Normandia. Este cronista Trigan era cura de Digoville. 0 Sr.
de Digoville, se caísse no populacho, chamar-se-ia Digouille.
Tangrouille, Tancarville provável e Montmorency possível,
tinha esta antiga qualidade de fidalgo, defeito grave num
timoneiro: embriagava-se.
0 Sr. Clubin teimava em conservá-lo. Respondia por ele a Mess
Lethierry.
0 timoneiro Tangrouille não saía nunca do navio e dormia a
bordo.
Na véspera da partida, quando o Sr. Clubin foi, já a horas
mortas, visitar o navio, Tangrouille estava na sua maca e
dormia. Acordou de noite. Era-lhe isso costume antigo. Quando
o bebado não é senhor de si tem um esconderijo. Tangrouille
tinha o seu, a que chamava despensa. A despensa secreta de
Tangrouille era no porão onde se guardava a água. Po-la aí
para torná-la inverossímil. Estava certo de que só ele
conhecia aquele esconderijo. 0 Capitão C.Iubin era severo,
porque era sóbrio. 0 pouco rum e gim, que o timoneiro podia
subtrair à vigilância do capitão, punha de reserva naquele
misterioso cantinho, no fundo de uma selha de sonda, e quase
todas as noites tinha entrevista amorosa com aquela despensa.
Era rigorosa a vigilância, pobre devia ser a orgia, e de
ordinário os excessos noturnos de Tangrouille limitavam-se a
dois ou tres goles furtivamente bebidos. Muitas vezes a
despensa estava vazia. Nessa noite Tangrouille achou lá uma
garrafa de aguardente inesperada. Alegrou-se muito, e
espantou-se ainda mais. De que céus lhe caiu aquela garrafa?
Não pOde lembrar-se nem quando nem como levou-a para o navio.
Bebeu-a imediatamente. Em parte fe-lo por prudencia; tinha
medo que a aguardente fOsse descoberta e confiscada. Atirou a
garrafa ao mar. No dia seguinte, quando tomou a cana do leme,
Tangrouille tinha certa oscilação.
Todavia governou o barco quase como nos outros dias.
Quanto a Clubin, sabe-se que voltou a dormir na Pousada João.
Clubin trazia sempre debaixo da camisa um cinto de couro, de
viagem, onde guardava uns 20 guinéus, e que só tirava à noite.
No interior do cinto estava escrito o nome dele, escrito por
ele mesmo no couro bruto com tinta litográfica, que é
indelével.
Ao levantar, antes de partir, pos no cinto a caixinha de ferro
contendo 75 000 francos em notas de banco, depois atou o cinto
como costumava, à roda do corpo.


PALESTRA INTERROMPIDA

Fui alegre a partida. Os passageiros, apenas arranjadas as
malas por baixo e em cima dos bancos, passaram, ao navio, essa
revista que nunca falta, e que parece obrigatória, tal é o
costume. Dois passageiros, o turista e o parisiense, nunca
tinham visto vapores, e, desde os primeiros movimentos da
roda, contemplaram a espuma, depois o fumo. Examinaram peça
por peça, e quase fio por fio, na cobertura e entre ponte,
todos os aparelhos marítimos, argolas, ganchos, fateixas,
cilindros, que, à força de precisão e justeza, são uma espécie
de colossal ourivesaria; ourivesaria de ferro dourado com
ferrugem pela tempestade. Circularam o pequeno canhão de
rebate atado na coberta, "com uma corrente de cão de
sentinela", observou o turista, e "coberto com blusa de linho
alcatroado para impedir as constipações", acrescentou o
parisiense. Afastando-se de terra, trocaram-se as observações
do costume acerca da perspectiva de Saint-Malo; um passageiro
emitiu o axioma de que as perspectivas do mar iludem, e que, a
1 légua da costa, nada se parece mais com Ostende como
Dunquerque, Completou-se o que havia a dizer de Dunquerque,
observando-se que os seus navios de vigia, pintados de
vermelho, chamam-se um ~tingue e o outro Mardyck.
Saint-Malo foi diminuindo até que desvaneceu-se de todo.
0 aspecto do mar era o vasto calmo. 0 rasto do navio fazia no
oceano uma rua franjada de espuma que se prolongava quase sem
torção a perder de vista.
Guernesey está no centro de uma linha reta tirada de
Saint-Malo na França, e Exeter na Inglaterra. A linha reta no
mar nem sempre é a linha lógica. Entretanto, os vapores tem,
até certo ponto, o poder de seguir a linha reta que não podem
seguir os navios de vela.
0 mar e o vento formam um composto de forças. 0 navio é um
composto de máquinas. As forças são máquinas infinitas, as
máquings são forças limitadas. Entre os dois organismos, um
inesgotável, outro inteligente, trava-se o combate que se
chama navegação.
Uma vontade no mecanismo faz contrapeso ao infinito. Também o
infinito encerra um mecanismo. Os elementos sabem o que fazem
e para onde vão. Não há força cega. Cabe ao homem espreitar as
forças e descobrir-lhes o itinerário.
Enquanto se não descobre a lei, prossegue a luta, e nessa luta
a navegação a vapor é uma espécie de vitória perpétua que o
genio humano vai ganhando a todas as horas do dia em todos os
pontos do mar. A navegação a vapor é admirável porque
disciplina o navio. Diminui a obediencia ao vento e aumenta a
obediencia ao homem.
Nunca a Durande trabalhou no mar como naquele dia, Andava
maravilhosamente.
Pelas 11 horas, soprando uma fresca brisa de nor-nordeste,
achou-se a Durande do lado de Mínquiers, trabalhando com pouco
vapor, navegando a oeste e conchegada ao vento. Claro e belo
estava o céu. Todavia iam voltando para terra todos os
pescadores.
A pouco e pouco, como se todos pensassem em ancorar nos
portos, ia-se o mar limpando de navios.
Não se podia dizer que a Durande estivesse no caminho do
costume. A tripulação não se preocupava com isso, era absoluta
a confiança no capitão; entretanto, talvez por culpa do
timoneiro, havia algum desvio. A Durande parecia antes ir para
Jersey que para Guernesey. Pouco depois das 11 horas, o
capitão retificou a direção e aproou para o lado de Guernesey.
Perdeu-se algum tempo. Nos dias curtos o tempo perdido tem
inconvenientes. Fazia um belo sol de fevereiro.
Tangrouille, no estado em que estava, já não tinha nem pés nem
braços firmes. Resultava daí que o bravo timoneiro desviava-se
da costa e atrasava a marcha.
O vento ia amainando.
O passageiro guernesiano, que tinha um óculo na mão, firmava-o
de tempos a tempos para um floco de espuma coada pelo vento no
extremo horizonte de oeste, assemelhando-se a um pouco de
algodão, empoeirado em roda.
0 Capitão Clubin tinha o aspecto puritano do costume. Parecia
redobrar de atenção.
Tudo estava calmo e quase risonho a bordo da Durande; os
passageiros conversavam.
Fechando os olhos, no meio de uma viagem, pode-se avaliar do
estado do mar pelo tremulo da conversa. A plena liberdade de
espírito dos passageiros corresponde à perfeita tranqüilidade
da água.
É impossível, por exemplo, que houvesse uma conversa, como
esta que se segue, em mar que não fosse calmo.
- Perdeu-se no mar e descansa no navio.
- As moscas não se cansam muito.
- Pudera! São tão leves. Carrega-as o próprio vento.
- Já se pesou 1 onça de moscas e, contadas depois, viu-se que
eram 6 268.
0 guernesiano do óculo tinha-se chegado aos maioenses
mercadores de gado, e a conversa deles era pouco mais ou menos
esta:
- 0 boi de Aubrac tem o tronco redondo e bojudo, as pernas
curtas, o pelo amarelo. É demorado no trabalho por causa da
pequenez das pernas.
Neste ponto, o Salers vale mais que o Aubrac.
Vi dois magníficos bois em minha vida. 0 primeiro tinha as
pernas curtas, o joelho espesso, alcatra grossa, as nádegas
largas, bom comprimento da nuca à garupa, boa altura no
garrote, manejo fácil, pele boa de arrancar-se. 0 segundo
apresentava todos os sinais de um engordamento judicioso,
tronco reforçado, pescoço robusto, pernas leves, pele branca e
vermelha, alcatra caída.
- Isso é raça da costa.
- Sim, mas com certa semelhança com o touro Angus ou o touro
Suffolk.
Acredite se quer, no meio-dia há concurso de bestas.
- De bestas?
- De bestas. Como tenho a honra de lhe dizer. E as feias é que
são bonitas.
- Então são como as jumentas. As feias é que são boas.
- Justamente. A jumenta deve ter barriga grossa e pernas
grossas.
- A melhor jumenta deste mundo é uma barrica sobre quatro
estacas.
- A beleza dos animais não é como a beleza dos homens.
- E sobretudo das mulheres.
- Justo.
- Eu cá, quero que a mulher seja bonita.
- Prefiro-a bem trajada.
- Sim, limpa, asseada, esticadinha.
- Ares de mocidade. Urna rapariga deve parecer que sai do
joalheiro.
- Volto aos bois. Vi vender os tais bois no mercado de
Thouars.
- Conheço o mercado. Os Bonneau de Ia Rochelle, e os Baliu, os
mercadores de trigo de Marans, não sei se ouviu falar deles,
devem ter ido a esse mercado.
0 turista e o parisiense conversavam com o americano das
Bíblias; a conversação aí era como nos outros grupos.
Dizia o turista:
- Eis a tonelagem flutuante do mundo civilizado: França, 716
000 toneladas; Alemanha 1 milhão; Estados Unidos, 5 milhões;
Inglaterra, 5 milhões e meio. Acrescente-se o contingente das
pequenas bandeiras. Total: 12 904 000 toneladas distribuídas
por 145 000 navios na água do globo.
0 americano interrompeu:
- Os Estados Unidos é que tem 5 milhões e meio.
- Convenho - disse o turista. - 0 senhor é americano?
- Sim, senhor.
Houve um silencio; o americano missionário perguntou a si
mesmo se era ocasião de oferecer uma Bíblia.
- Será verdade - continuou o turista - que os senhores I à na
América gostam tanto das alcunhas a ponto de as por em todos
os homens célebres? Será verdade que chamaram ao famoso
banqueiro do Missouri, Thomas Benton, "a velha barra de ouro"?
- Do mesmo modo que chamamos ao Zacharias Taylor "o velho
Zach"?
- E o General Harrison, o "velho Tip"? E o General Jackson, o
"velho Hickory"?
- Sim, porque Jackson é duro como pau hickory e Harrison bateu
os peles-vermelhas em Tippecanoe.
É um costume bizantino esse.
É costume nosso. Chamamos Van Buren "o feiticeirinho"; Seward,
que mandou fazer bilhetes miúdos do banco, "o bilhete miúdo";
e Dotiglas, o senador democrata do Illinois, que tem 4 pés de
altura e uma grande eloqüencia, "o gigantinho". Percorra do
Texas ao Maine, não encontrará ninguém que diga esse nome:
Cass; todos dizem: "o grande Michigantier"; nem Este nome:
Clay; dizem todos: "o rapaz do moinho acutitado". Clay é filho
de um moleiro.
- Eu prefiro Clay ou Cass - observou o parisiense -, é mais
curto.
Pois estaria fora do uso. Nós chamamos Corwin, que é
secretário do Tesouro, "o rapaz da carreta". Daniel Webster é
o negro Dan". Quanto a Winfield Scott, como a sua primeira
ida, depois de bater os inglêses em Chippeway, foi assentar-se
à mesa, chama-mo-lo "Dá-cá-um-prato-de-sopa-depressa".
Tinha se agigantado o floco de neve. Ocupava no horizonte um
segmento de cerca de 15 graus. Dissera-se uma nuvem arrastada
à flor da água por falta de vento. Não havia um sopro de brisa
sequer. Embora fosse apenas meio-dia, o sol ia empalidecendo.
Alumiava, mas já não aquecia.
- Creio - disse o turista - que o tempo vai mudar.
- Talvez haja chuva - disse o parisiense.
- Ou nevoeiro - disse o americano.
- Na Itália - continuou o turista - o lugar em que cai menos
chuva é Molfetta, e onde cai mais 6 em Tolmezzo.
Ao meio-dia, segundo o uso do arquipélago, tocou a sineta para
jantar. Jantou quem quis. Alguns passageiros levavam comida
consigo e comeram no convés. Clubin não jantou.
Ao jantar, a palestra continuou.
0 guernesiano, tendo o faro das Bíblias, aproximou-se do
americano. 0 americano disse-lhe:
- Conhece Este mar?
- Sem dúvida, sou filho dele.
- E também eu .
0 guernesiano aderiu com um cumprimento, e continuou:
- Agora estarnos ao largo mas não me agradava nada ter
nevoeiro enquanto estávamos ao pé dos Minquiers.
0 americano disse ao maloense:
- Os insulares são mais homens do mar que a gente da costa.
- É exato, nós, os filhos da costa, temos apenas metade do
mar.
- Que coisa é essa dos Minquiers? - continuou o americano.
0 inaloense respondeu:
- São umas pedras ruins.
- Há também os Grelets - disse o guernesiano.
- Ora! - disse o maloense.
- E os Chouas - acrescentou o guernesiano.
0 inaloense deu uma gargalhada.
- Dessa forma - disse ele -, temos também os Sauva
ges.
- E os Maine - observou o guernesiano.
- E o Canard, - disse o maloense.
- 0 senhor tem resposta para tudo - disse o guernesiano com
rapidez.
- Maloense, malicioso.
Dando esta resposta, o maloense piscou o olho.
0 turista interpos uma pergunta:
- Dar-se-á o caso que vamos atravessar toda essa pedraria de
que os senhores falam?
- Qual! Deixamo-la a sudoeste. Já ficou atrás de nós.
E o guernesiano continuou:
- Entre grandes e pequenos os Grelets tem 57 pontas de
rocha.
- E os Minquiers 48 - disse o maloense.
Aqui o diálogo concentrou-se entre o maloense e o guernesiano.
- Parece-me, senhor de Saint-Malo, que há tres rochedos que o
senhor deixou de contar.
- Contei tudo.
- A Derée da Maitre-Ile?
- Sim.
- E Maisons também?
- Que são sete rochas no meio dos Minquiers. Sim.
- Já vejo que conhece os cachopos.
- Quem não os conhece não é de Saint-Maio.
- Causa gosto ouvir o raciocínio dos francêses.
0 maloense cumprimentou, e disse:
- Sativages são tres rochedos.
- E Maines são dois.
- Canard é um.
- Basta dizer Canard; já se sabe que é um.
- Não, porque a Suarde são quatro rochedos.
- Que é a Suarde? - perguntou o guernesiano.
- Chamamos Suarde ao que o senhor chama Chouas.
- Não é bom passar entre Chouas e Canard.
- Só os pássairos podem passar aí.
- E os peixes.
- Nem sempre. Quando há mau tempo, os peixes esbarram-se nas
rochas.
- Há areia em Minquiers.
- A roda de Maisons.
- Veem-se oito rochedos de Jersey.
- Da praia de Azette, é justo. Não são oito, são sete.
- Nas vazantes pode-se passear entre os Minquiers.
- Sem dúvida, há espaço.
- E Dirouilles?
- Dirouilles não tem nada com Minquiers.
- Quero dizer que é perigoso.
- É do lado de Granville.
- Ve-se que, como nós, os senhores de Saint-Malo gostam de
navegar nestes mares.
- Sim - disse o maloense -, com a diferença de que nós
dizemos: estamos acostumados, e os senhores dizem:
gostamos.
- São bons marinheiros os senhores.
- Eu sou mercador de gado.
- Quem é que foi também de Saint-Malo?
- Surcouf.
- Não, outro.
- Duguay-Trouin.
Aqui o viajante parisiense interrompeu.
- Duguay-Trouin? Foi apanhado pelos inglêses. Era tão amável
quão valente. Agradou a uma jovem inglêsa. Foi ela quem lhe
quebrou os ferros.
Neste momento uma voz tremenda gritou:
- Estás bebado!


MOSTRAM-SE TODAS AS QUALIDADES DO CAPITÃO CLUBIN

Voltaram-se todos.
Era o Capitão Clubin que interpelava o timoneiro.
0 Sr.,Clubin não tratava ninguém por tu. Para que ele atirasse
a Tangrouille semelhante apóstrofe era preciso que estivesse
colérico ou quisesse mostrar-se assim.
Uma expressão de cólera, vindo a propósito, demite a
responsabilidade, e algumas vezes deita-a para as costas de
outrem.
0 capitão, de pé no lugar de comando, entre as caixas das
rodas, olhava fixamente para o timoneiro. Repetiu entre
dentes: "Beberrão!" 0 honesto Tangrouille abaixou a cabeça.
Desenvolvia-se o nevoeiro. Já ocupava metade do horizonte.
Avançava em todos os sentidos ao mesmo tempo; o nevoeiro
parece-se com a gota de óleo. A bruma alargava-se
insensivelmente. 0 vento soprava-a. sem pressa e sem rumor. A
pouco e pouco ia ele apoderando-se do oceano. Vinha de
nordeste e o navio estava com ela pela proa. Era um vasto
penedio movediço e vago. Cortava-se no mar como se rosse uma
muralha. Havia um ponto preciso em que a água imensa entrava
por baixo do nevoeiro e desaparecia.
Este ponto de entrada no nevoeiro estava ainda a meia légua de
distância. Se o vento mudasse, podia-se evitar a imersão na
bruma; mas era preciso que mudasse logo. A meia légua de
intervalo enchia-se e diminuía a olhos vistos; a Durande
caminhava, o nevoeiro também. 0 nevoeiro ia para o navio, o
navio para o nevoeiro.
Clubin mandou aumentar o vapor e obliquar a leste.
Deste modo costeou-se algum tempo o nevoeiro, mas ele avançava
sempre. Todavia o navio continuava a andar em pleno sol.
Perdia-se o tempo naquelas manobras que difícilmente podiam
dar bom resultado. Anoitece cedo em fevereiro.
0 guernesiano contemplava a bruma. Disse aos maloenses:
- É atrevido Este nevoeiro.
- Desasseio do mar - observou um dos maloenses.
0 outro acrescentou:
- Isto atrasa a viagem.
0 guernesiano aproximou-se de Clubin.
- Capitão Clubin, receio que sejamos envolvidos pelo nevoeiro.
Clubin respondeu:
- Eu queria ficar em Saint-Malo, mas aconselharam-me que
partisse.
- Quem?
- Veteranos do mar.
- Fez bem em partir - continuou o guernesiano. -Quem sabe se
não haverá tempestade amanhã. Nesta estação espera-se o pior.
Alguns minutos depois a Durande entrava no nevoeiro.
Foi singular esse momento. Toda a gente que estava na popa
ficou de repente sem ver a gente que ia na proa. Tenue
-tabique cinzento cortou o navio ao meio.
Depois, todo o navio mergulhou na bruma. 0 sol parecia uma
lua. Súbito todos começaram a tiritar. Os passageiros vestiram
as capas, e os marinheiros as japonas. 0 mar, quase sem uma
dobra, tinha a fria ameaça da tranqüilidade. Parece que há
coriluio neste excesso de calma. Tudo estava pálido e enfiado.
0 negro cano e a fumaça negra lutavam contra a lividez que
cercava o navio.
A derivação a leste já não tinha razão de ser. 0 capitão
aproou de novo sobre Guernesey e aumentou o vapor.
0 passageiro guernesiano, andando à roda da máquina, ouviu o
negro Imbrancarn que falava a um dos companheiros. 0
passageiro prestou ouvidos. Dizia o negro:
- Quando havia sol, íamos devagar; agora que há nevoeiro vamos
depressa.
0 guernesiano foi ter com o Sr. Clubin.
- Capitão Clubin, não há cuidado; mas não acha que vamos
depressa demais?
- Que quer, senhor? É preciso ganhar o tempo perdido por culpa
daquele bebado.
- É verdade, Capitão Clubin.
E Clubin acrescentou:
- Quero chegar quanto antes. Já basta o nevoeiro; com a noite
ficaríamos asseados.
0 guernesiano foi ter com os maioenses e disse-lhes:
- Temos um excelente capitão.
De quando em quando ondas grandes de bruma, que pareciam
cardadas, passavam e escondiam o sol. Depois o sol reapareceu
mais pálido e como que enfermo. 0 pouco céu que se via
assemelhava-se às faixas de ar sujas e manchadas de uma velha
decoração de teatro.
A Durande passou junto de um cúter que tinha ancorado por
prudencia. Era o Shealtiel, de Guernesey. 0 patrão do cúter
notou a rapidez com que ia a Durande. Pareceu-lhe que não
estava no caminho exato; afigurou-se-lhe que obliquava a
oeste. Vendo aquele navio, andando a todo vapor no meio do
nevoeiro, o homem pasmou.
Pelas 2 horas a bruma era tão espessa, que o capitão foi
obrigado a deixar o lugar do costume, e a aproximar-se do
timoneiro. 0 sol desmaiara, tudo era nevoeiro. Havia na
Durande uma espécie de escuridão branca. Navegava-se na
palidez difusa. Já se não via nem o céu nem o mar.
Não ventava.
A ancoreta da terebintina suspensa em uma argola ao pé da
caixa das rodas já não tinha oscilação.
Os passageiros tornaram-se silenciosos.
Contudo o parisiense cantarolava entre dentes a canção de
Béranger Un Jour lè Bon Dieti s Eveiliant.
Um dos maloenses dirigiu-lhe a palavra:
- 0 senhor vem de Paris?
- Sim, senhor. II mit Ia tete à lafenetre.
- Que se faz por lá?
- Leurplanète apéripeut-etre. Lá em Paris tudo anda mal.
- Então é tanto lá em terra como aqui no mar.
- Realmente, Este nevoeiro é o diabo.
- E pode causar desgraças.
0 parisiense exclamou:
Mas por que desgraças? A propósito de que? De que servem
desgraças? É o caso do incendio do Odeon 1 Ficou uma porção de
famílias reduzidas à miséria! É justo isto? Olhe cá, eu não
sei qual é a sua religião, mas digo-lhe que não estou
contente.
- Nem.eu - disse o maloense.
- Tudo o que se passa neste mundo - ebritinuou o parisiense -
parece um desconcerto. Creio que Deus não entra nisto.
0 maloense coçou o alto da cabeça, como quem procura
compreender. 0 parisiense continuou:
- Deus está ausente. Devia-se lavrar um decreto para obrigá-lo
a residir aqui. Anda lá na sua casa de campo e não se importa
conosco. E tudo vai torto e mal encaminhado. É evidente, meu
bom senhor, que Deus já não está no governo, está em férias, e
é o vigário, algum anjo seminarista, algum beócio com asas de
pardal, quem dirige os negócios.
0 Capitão Clubin, que se aproximara, pos a mão no ombro do
parisiense.
- Silencio - disse ele. - Cuidado nas palavras. Estamos no
mar.
Ninguém mais falou.
No fim de cinco minutos o guernesiano, que tudo ouvira,
murmurou aos ouvintes:
- É um capitão religioso.
Não chovia e todos estavam molhados. Só se reparava no caminho
que o navio descrevia por uma espécie de mal-estar. Parecia
que se entrava na tristeza. 0 nevoeiro emudece o oceano,
adormenta a vaga e sopita o vento. Naquele silencio, o rumor
da Durande tinha um não sei que de inquieto e lamentoso.
Já se não encontravam navios. Só ao longe, quer do lado de
Guernesey, quer do lado de Saint-Malo, alguns navios estavam
no mar, fora do nevoeiro; para esses a Durande, submergida na
bruma, não era visível, e a sua longa fumaça, presa a coisa
nenhuma, parecia-lhes um cometa negro no céu branco.
De repente Clubin exclamou:
- Com seiscentos! Estás dirigindo mal. Olha que me avarias o
barco. Mereces bem que te ponha a ferros. Vai-te, bebado!
E tomou a cana do leme.
0 timoneiro humilhado refugiou-se na cordoalha da proa.
Disse o guernesiano:
- Estamos salvos.
A marcha continuou rápida.
- Pelas 3 horas, a orla inferior do nevoeiro começou a
levantar-se e viu-se o mar.
- Mau! - disse o guernesiano.
Só o sol ou o vento deve levantar a bruma. Quando é o sol, é
bom sinal; quando é o vento, não é tão bom sinal. Era tarde já
para ser o sol. Às 3 horas, em fevereiro, o sol está fraco.
Não era coisa desejável a volta do vento naquela situação
crítica. Muitas vezes anuncia o furacão.
Verdade seja que se havia brisa, mal se sentia.
Clubin, com o olhar na bitácula, governando o leme, mastigava
algumas palavras que chegavam aos passageiros; era isto mais
ou menos:
- Não há tempo a perder. Aquele bebado demorou a viagem.
O seu rosto, porém, não tinha expressão alguma.
O mar estava menos adormecido. Já se enxergavam algumas vagas.
Luzes geladas flutuavam na água. Essas placas de clarão nas
ondas preocupam os marinheiros. Indicam que o vento faz
buracos por cima do nevoeiro. A bruma levantavase e tornava a
cair mais densa. Às vezes a opacidade era completa. 0 navio
estava numa verdadeira montanha de nevoeiro. De quando em
quando aquele círculo tremendo abria-se como uma tenaz,
deixava ver o horizonte, e fechavase depois.
0 guernesiano, armado de um óculo, estava como uma vedeta, na
frente do navio.
Clareou, depois escureceu outra vez.
0 guernesiano voltou-se assustado:
- Capitão Clubin!
- Que é?
- Vamos direto aos cachopos de Hanois.
- É engano - disse Clubin friamente.
0 guernesiano insistiu:
- Estou certo.
- Impossível.
- Vi uma pedra no horizonte.
- Onde?
- Ali!
- É ao largo. Impossível.
E Clubin continuou a por o navio no ponto indicado pelo
passageiro.
0 guernesiano travou do óculo.
Minutos depois correu para o capitão.
- Capitão!
- Que é?
- Vire- de bordo.
- Por que?
- Vi uma rocha muito alta e muito perto. É o grande
Hanois.
- Há de ser algum nevoeiro mais escuro
- É o grande Hanois. Vire de bordo, em nome do céu!
Clubin deu uma volta à cana do leme.


CLUBIN LEVA A ADMIRAÇÃ0 A0 CÚMUL0

Ouviu-se um estalo. 0 rasgamento do flanco de um navio, em um
cachopo, em mar alto, é um dos sons mais lúgubres que se pode
imaginar. A Durande parou.
Com o choque muitos passageiros caíram e rolaram no
tombadilho.
0 guernesiano levantou as mãos para o céu.
- Nos Hanois! Eu bem dizia!
Longo grito soou no navio.
- Estamos perdidos!
A voz de Clubin, seca e breve, dominou o grito.
- Ninguém está perdido! E silencio!
0 corpo negro de Imbrancam, nu até a cintura, saiu do espaço
da máquina.
0 negro disse com calma:
- Capitão, a água está entrando. A máquina vai apagar-se.
Terrível foi o momento.
0 choque assemelhava-se a um suicídio. Se fosse de propósito,
não seria mais terrível. A Durande atirou-se como se atacasse
o rochedo. Uma ponta da rocha penetrou no navio como um prego.
Mais de 1 toesa quadrada de vergas rebentou, rompeu-se a roda
de proa, fracassou a quilha, Partiu-se o gurupés, o casco
aberto bebia água aos borbotões. Era uma chaga por onde
entrava o naufrágio. A reação foi tão violenta que quebrou na
popa a caixa do leme, que ficou solto e oscilante. 0 cachopo
arrancara o fundo e à roda do navio não se via nada, além do
nevoeiro espesso e compacto e agora quase negro. Chegava a
noite.
A Durande mergulhava pela proa. Era o cavalo que tem nas
entranhas a ponta do touro. Estava morta.
Sentia-se no mar a hora da maré.
Tangrouille estava desperto da embriaguez; ninguém fica bebado
em um naufrágio; desceu abaixo, subiu e disse:
- Capitão, a água enche o porão. Dentro de dez minutos está
nos embornais.
Os passageiros corriam no tombadilho fora de si, torcendo os
braços, inclinando-se na amurada, olhando para a máquina,
fazendo todos os movimentos inúteis do terror. 0 turista
desmaiou.
Clubin fez um sinal com a mão, calaram-se todos. Interrogou
Imbrancarn:
- Quanto tempo pode a máquina trabalhar ainda?
- Cinco ou seis minutos.
Depois interrogou o passageiro guernesiario:
- Eu estava ao leme. 0 senhor observou o rochedo. Em qual dos
Hanois estamos nós?
- Na Mative. Reconheci ainda agora, com um pouco de claridade.
- Sendo a Mative - continuou Clubin - temos o grande Hanois a
bombordo e o pequeno Hanois a estibordo. Estamos a 1 milha de
terra.
A equipagem e os passageiros escutavam, tremulos de ansiedade
e de atenção, com os olhos fixos no capitão.
Alijar o navio era inútil e, demais, impossivel. Para pOr a
carga ao mar, era preciso abrir às portinholas e aumentar as
probabilidades de entrar água. Atirar a âncora era inútil;
estavam pregados. Demais podia ficar presa. Não estava
avariada a máquina, e continuando à disposição do navio
enquanto o fogo não estava apagado, isto é, por alguns
minutos, podia-se, à força de rodas e de vapor, recuar e
arrancar o navio do escolho. Nesse caso iria ao fundo
imediatamente. 0 rochedo, até certo ponto, tapava o rombo e
tolhia a passagem da água. Servia de obstáculo. Desobstruída a
abertura, seria impossivel impedir a entrada da água. Quem
retira o punhal de uma ferida no coração, mata logo o ferido.
Sair do cachopo era ir ao fundo. Clubin ordenou: Os bois,
atacados pela água, começavam a mugir. - A chalupa ao mar.
Imbrancam e Tangrouille precipitaram-se e desataram as
amarras. 0 resto da tripulação olhava petrificado. - Todos à
obra - gritou Clubin. Desta vez obedeceram todos. iv
Clubin, impássi el, continuou a dar ordens, naquela velha
língua do mar, que os marinheiros de hoje não compreenderiam.
A chalupa estava no mar.
No mesmo instante, as rodas da Durande pararam, cessou o fumo,
a fornalha estava cheia de água.
Os passageiros, resvalando ao longo da escada ou pendurando-se
nas enxárcias, deixavam-se antes cair que descer na chalupa.
Imbraricam. apanhou o turista desmaiado, levou-o para a
chalupa, depois subiu ao navio.
Os marinheiros atiravam-se após os passageiros. 0 grumete
rolou; eles pisavam o rapaz. Imbrancam barrou a passagem:
- Ninguém antes do moço - disse ele.
Afastou com os braços negros os marinheiros, aparili ou o
grumete, e estendeu-o ao passageiro guernesiano, que, de pé na
chalupa, recebeu o rapaz.
0 grumete salvo, Imbrancarn deu caminho e disse: Passem.
Entretanto, o Sr. Clubin foi ao seu camarote e fez um embrulho
dos papéis de bordo e dos instrumentos. Tirou a bússola da
bitácula. Entregou os papéis e os instrumentos a Imbrancam. e
a bússola a Tangrouille, e disse-lhes:
- Desçam à chalupa.
Eles desceram. A tripulação tinha-os precedido. A chalupa
estava cheia. Estava quase rasa.
- Agora - disse Clubin - vão embora.
- E o senhor, capitão?
- Fico.
As pessoas que naufragam tem pouco tempo de deliberar e ainda
menos de enternecer-se. Entretanto, os que estavam na Chalupa,
e relativamente em segurança, tiveram uma comoção que não era
por eles. Todas as vozes insistiram ao mesmo tempo:
- Venha conosco, capitão.
- Fico.
0 guernesiano, que conhecia o mar, replicou:
- Ouça, capitão. 0 senhor naufragou nos Hanois. A nado há
apenas 1 milha até Plainmont. Mas na chalupa só se pode
abordar na Rocquaine, e são 2 milhas. Há cachopos e nevoeiro.
Esta chalupa não chega à Rocquaine antes de 2 horas. Não tarda
a anoitecer. Enchendo a maré, refresca o vento. Está próxima a
borrasca. É nosso desejo vir buscá-lo depois, mas se romper o
temporal, não será possível. Se fica está perdido. Venha.
0 parisiense interveio:
- A chalupa está cheia, e cheia demais, é verdade, e um homem
de mais seria ainda pior. Mas nós somos treze, é mau número
para a barca, e é melhor sobrecarregá-la de um homem que de
algarismo.
Tangrouille acrescentou:
- A culpa é minha, não é sua. Não é justo que o senhor fique.
- Fico - disse Clubin. - 0 navio será despedaçado pela
tempestade hoje de noite. Não o deixarei. Quando o navio se
perde, morre o capitão. Dir-se-á de mim que eu cumpri o meu
dever. Perdoo-te, Tangrouille.
E cruzando os braços, gritou:
- Atenção às ordens. Larguem a banda da amarra. Partam !
Abalou-se a chalupa. Imbrancam tomou o leme. Todas as mãos que
não remavam voltaram-se para o capitão. Todas as bocas
gritaram: "Hurrah para o Capitão Clubin!"
- Eis um homem admirável - disse o americano.
- É o mais honrado homem do mar - respondeu o guernesiano.
Tangrouille chorava.
- Eu devia ter ficado com ele.
A chalupa internou-se por entre o nevoeiro, e desapareceu.
Não se viu mais nada.
0 rumor dos remos diminuiu e perdeu-se.
Clubin estava só.


ALUMIA -SE 0 INTERIOR DE UM ABISMO

Quando aquele homem achou-se naquele rochedo debaixo daquela
nuvem, no meio daquela água, longe do contato humano, deixado
por morto, sozinho entre o mar que subia e a noite que descia,
teve profundo júbilo.
Alcançara o que queria.
Realizara-se-lhe o sonho. Estava paga a letra de longo prazo
que ele sacou sobre o destino.
Para ele, ficar abandonado, era ficar livre. Estava no Hanois,
a 1 milha de terra; tinha 75 000 francos. Nunca se realizou
mais acertado naufrágio. Nada falhou; é verdade que tudo
estava previsto. Desde a juventude, Clubin teve uma idéia;
fazer da honestidade uma parada no jogo da roleta da vida,
passar por homem probo, e partir daí, esperando que a sorte
corresse; não apalpar, segurar; fazer um lance, mas só um,
agarrar tudo, e deixar atrás os papalvos. Assentava que devia
alcançar de uma vez aquilo que os larápios tolos deixam de
agarrar vinte vezes, e, enquanto Estes vão ter à fórca, ele
iria à fortuna. 0 encontro de Rantaine foi o raio de luz.
Construiu imediatamente o plano: obrigar Rantaine à
restituição; quanto às suas revelações possiveis, anulá-las
desaparecendo; passar por morto, que é a melhor desaparição do
mundo; para isso fazer naufragar a Durande. 0 naufrágio era
necessário. Além de tudo, ir-se embora deixando boa fama, era
fazer da sua existência uma obra-prima. Quem pudesse ver
Clubin naquele naufrágio acreditaria ver um demônio feliz.
Viveu toda a sua vida naquele minuto.
Toda a sua pessoa exprimia esta palavra: enfim! Tremenda
serenidade empalideceu aquela fronte obscura. Os olhos
embaciados, no fundo dos quais parecia haver um tabique,
tornaram-se profundos e terríveis. 0 abrasamento interno
daquela alma reverberou-se neles.
0 foro íntimo, como a natureza externa, tem a sua tensão
elástica. Uma idéia é um meteoro; no momento do triunfo,
entreabrem-se as meditações acumuladas que o preparam, e jorra
uma faísca; ter em si uma garra do mal, e sentir nela uma
presa, ventura é esta que tem a sua irradiação; mau pensamento
que triunfa e ilumina o rosto daquele que o concebeu; certas
combinações triunfantes, certos desejos realizados, certas
felicidades ferozes fazem aparecer e desaparecer nos olhos dos
homens lúgubres e luminosas dilatações. É a tempestade
jubilosa, é a aurora ameaçadora. Tudo isso sai da consciência,
que se faz sombria e enevoada.
Foi esse fulgor que iluminou aqueles olhos.
Relâmpago que não se parecia com coisa alguma do que se pode
ver no céu e na terra.
0 velhaco comprimido que havia em Clubin fez explosão.
Clubin fitou a imensa obscuridade, e não pode reter uma
gargalhada baixa e sinistra.
Estava livre! Estava rico!
Achara a incógnita. Resolvera o problema.
Clubin tinha tempo de cuidar de si. A maré enchia e por
conseguinte sustentava a Durande e afinal devia pâ-la a nado.
Mas o navio aderia solidamente ao rochedo; não havia perigo de
soçobrar. Além disso, era preciso deixar à chalupa o tempo de
afastar-se, perder-se talvez; Clubin contava com isso.
De pé sobre a Durande naufragada, cruzou os braços, saboreando
aquele abandono nas trevas.
A hipocrisia pesou àquele homem durante trinta anos. Era o
mal, e consorciou-se com a probidade. Odiava a virtude com um
ódio de mal casado. Teve sempre uma premeditação malvada;
desde que se fizera homem, trazia aquela armadura rígida, a
aparencia. Era monstro internamente; vivia em uma pele de
homem de bem, com um coração de bandido. Era o pirata ameno.
Era prisioneiro da honestidade, estava fechado naquele caixão
de múmia, a inocencia; tinha nas costas asas de anjo,
esmagadoras para um velhaco. Pesava-lhe demais a estima
pública. Passar por homem honrado é duro! Manter constante
equilíbrio, pensar mal e falar bem, que labutação 1 Clubin era
o fantasma da retidão, sendo o espectro do crime. Este
contrasenso foi o destino dele. Era-lhe preciso mostrar ares
apresentáveis, escumar por baixo do nível, sorrir em vez de
ranger. A virtude, para ele, era coisa que esmagava. Passou a
vida a ter vontade de morder aquela mão que lhe tapava a boca.
E querendo morde-la foi obrigado a beijá-la.

Ter mentido é ter sofrido. 0 hipócrita é um paciente na dupla
acepção da palavra; calcula um triunfo e sofre um suplício. A
premeditação indefinida de uma ação ruim, acompanhada por
doses de austeridade, a infâmia interior temperada de
excelente reputação, enganar continuadamente, não ser jamais
quem é, fazer ilusão, é uma fadiga. Compor a candura com todos
os elementos negros que trabalham no cérebro, querer devorar
os que o veneram, acariciar, reter-se, reprimir-se, estar
sempre alerta, espiar constantemente, compor o rosto do crime
latente, fazer da disformidade uma beleza, fabricar uma
perfeição com a perversidade, fazer cócegas com o punhal, por
açúcar no veneno, velar na franqueza do gesto e na música da
voz, não ter o próprio olhar, nada mais difícil, nada mais
doloroso. 0 odioso da hipocrisia começa obscuramente no
hipócrita. Causa náuseas beber perpétuamente a impostura. A
meiguice com que a astúcia disfarça a malvadez repugna ao
malvado, continuamente obrigado a trazer essa mistura na boca,
e há momentos de enjoo em que o hipócrita vomita quase o seu
pensamento. Engolir essa saliva é coisa horrível. Ajuntai a
isto o profundo orgulho. Existem horas estranhas em que o
hipócrita se estima. Há um eu desmedido no impostor. 0 verme
resvala como o dragão e como ele retesa-se e levanta-se. 0
traidor não é mais que um déspota tolhido que não pode fazer a
sua vontade senão resignando-se ao segundo papel. É a
mesquinhez capaz da enormidade. 0 hipócrita é um titã-anão.
Clubin imaginava de boa fé que tinha sido oprimido. Por que
razão não nascera rico? 0 que ele queria era que os pais lhe
houvessem deixado 100 000 libras de renda. Por que não as
tinha? Não era culpa dele. Por que motivo, não lhe dando todos
os gozos da vida, forçaram-no a trabalhar, isto é, a enganar,
a trair, a destruir? Por que motivo condenaram-no assim a essa
tortura de adular, de rastejar, de comprazer, de fazer-se amar
e respeitar, e trazer dia e noite no rosto um rosto que não
era dele? Dissimular é uma violência imposta. Odeia-se diante
de quem se mente. Soara enfim a hora. Clubin vingava-se.
De quem? De todos e de tudo.
Lethierry não lhe fez senão bem: queixava-se demais;
vingava-se de Lethierry. Vingava-se de todos aqueles ante quem
foi obrigado a constranger-se. Desforrava-se. Quem quer que
pensasse bem dele, era seu inimigo, porque ele foi cativo
desse homem.
Clubin achava-se livre. Realizava-se a fuga. Estava fora dos
homens. 0 que se tinha por morte, era vida; ele ia começar
agora. 0 verdadeiro Clubin despojava-se do falso Clubin. De um
lance dissolveu tudo. Empurrou, com o pé, Rantaine ao espaço,
Lethierry à ruína, a justiça humana às trevas, a opinião ao
erro, a humanidade inteira para longe de si. Tinha eliminado o
mundo.
Quanto a Deus, Clubin curava pouco dessa palavra de quatro
letras.
Passou como religioso. Que importa?
Há cavernas no hipócrita ou, antes, o hipócrita é uma caverna.
Quando Clubin ficou só, abriu-se-lhe o antro. Teve um instante
de delícias; arejou a alma.
Respirou largamente o seu crime.
0 fundo do mal tornou-se visível naquele rosto. Clubin
abriu-se. Nesse momento o olhar de Rantaine ao pé daqueles
olhos pareceria um olhar de recém-nato.
Arrancar a máscara, que livramento! A consciência de Clubin
alegrou-se por ver-se hediondamente nua, e por tomar
livremente um banho ignóbil no mal. 0 constrangimento de um
longo respeito humano acaba por inspirar um gesto violento à
impudencia. Chega-se a uma certa lascívia na perversidade.
Existe nessas tremendas profundezas morais tão pouco sondadas
uma não sei que ostentação atroz e agradável, que é a
obscenidade do crime. A insipidez da falsa reputação dá
apetite de vergonha. Desdenham-se os homens a ponto tal que se
deseja o desprezo deles. Ser estimado aborrece. Admira-se a
franqueza da degradação. Olha-se cobiçosamente a torpeza que
se mostra tão a seu gesto na ignomínia. Os olhos obrigados a
baixar-se tem muitas vezes destes olhares oblíquos. Nada se
aproxima tanto de Messalina como Maria Alacoque. Vede Cadière
e a religiosa de Louviers.
Clubin vivera debaixo do véu. 0 descaramento foi sempre a sua
ambição. Invejava a mulher pública e a fronte de bronze do
opróbrio aceito; sentia-se mais mulher pública do que ela e
tinha desgosto em passar por virgem. Foi o Tântalo do cinismo.
Enfim, naquela solidão, podia ser franco; era-o. Que volúpia
não é sentir-se sinceramente abominável! Todos os extases
possíveis no inferno teve-os Clubin naquele momento; foram-lhe
pagos todos os atrasados da dissimulação; a hipocrisia é um
adiantamento; Satanás embolsou-o, Clubin embriagou-se de
desfaçamento, pois que os homens tinham desaparecido e apenas
ficara o céu. Disse consigo: "Sou um pícaro!" E ficou
satisfeito.
Jamais houve coisa igual em uma consciência humana.
Erupção de um hipócrita, não há rompimento de cratera igual a
esse.
Achava-se feliz por não haver ali ninguém, e não desgostaria
que alguém o visse. Teria prazer em ser medonho à vista de uma
testemunha.
Teria prazer em dizer ao gênero humano: és idiota!
A ausência de homens assegurava-lhe o triunfo, mas diminuía-o.
Só ele era o espectador da sua glória.
Há certo encanto em estar de golilha. Toda a gente ve que és
infame.
Obrigar a multidão a examinar-te é reconhecer a tua força. Um
galé sobre um estrado, com uma coleira de ferro ao pescoço, é
o déspota de todos os olhares que ele obriga a voltarem-se
para si. Aquele cadafalso é ao mesmo tempo pedestal. Que mais
belo triunfo do que esse de ficar no centro de convergência
para a atenção geral? Obrigar o olhar público é uma das formas
de supremacia. Os que tem o mal por ideal acham no opróbrio
uma auréola. Domina-se daí. Olha-se de cima de alguma coisa.
Mostra-se com soberania. Um poste, à vista de todo o universo,
tem alguma analogia com um trono.
Estar exposto é ser contemplado.
Um mau reinado tem evidentemente júbilos do pelourinho. Nero
incendiando Roma, Luis XIV tomando traiçoeiramente o
Palatinado, o Regente Jorge matando lentamente Napoleio,
Nicolau assassinando a Polonia em face da civilização, deviam
sentir um pouco daquela volúpia sonhada por Clubin. A
imensidade do desprezo parece grandeza ao desprezado.
Ser desmascarado é uma derrota, mas desmascarar-se é uma
vitória. É a ebriedade, é a imprudenciaInsolente e satisfeita,
é uma nudez transportada que insulta tudo diante de si.
Suprema felicidade.
Estas idéias em um hipócrita parecem contradição, e não são.
Toda a infâmia é conseqüente. 0 mel é fel. Escobar confina no
Marques de Sade. Prova: Léotade. 0 hipócrita, sendo perverso
completo, tem em si os dois pólos da perversidade. De um lado
é padre, do outro cortesão. 0 seu sexo de demônio é duplo. 0
hipócrita é o horrível hermafrodita do mal. Fecunda-se a si
próprio; gera-se, transforma-se. Queres ve-lo formoso? Olha-o.
Queres ve-lo horrível? Vira-o.
Clubin tinha em si toda esta sombra de idéias confusas. Pouco
as percebia, mas gozava-as muito.
Uma porção de faíscas do inferno, atravessando a noite, era a
sucessão dos pensamentos naquela alma.
Clubin conservou-se pensativo algum tempo; olhava para a sua
honestidade com o ar com que a serpente contempla a pele que
despiu.
Toda a gente acreditou naquela honestidade, ele próprio
acreditou um bocadinho nela.
Deu segunda gargalhada.
Iam pensar que ele estava morto, e estava vivo.
Pensavam que estava perdido, e estava salvo. Que boa caçoada à
tolice universal!
E nessa tolice universal contava-se Rantaine. Clubin pensava
em Rantaine com um desdém sem limites. Desdém da fuinha para
com um tigre. Tinha conseguido o que falhara a Rantaine.
Rantaine retirara-se enfiado, e Clubin triunfante. Tomou o
lugar de Rantaine no leito da sua má ação, e foi ele quem teve
a boa fortuna.
Quanto ao futuro, Clubin não tinha plano. Possuía os bilhetes
do banco na boceta de ferro atada à cintura; bastava-lhe esta
certeza. Mudaria de nome. Há países onde 60 000 francos valem
600 000. Não seria má solução ir para um desses lugares viver
honestamente com o dinheiro apanhado ao ladrão Rantaine.
Especular, entrar em um grande negócio, engrossar o capital,
tornar-se seriamente milionário também não era mau.
Por exemplo, em Costa Rica, como era o começo do grande
comércio do café, podia ganhar tonéis de ouro. Veria isso.
Demais, pouco importava. Clubin tinha tempo de pensar nessas
coisas. 0 mais difícil estava feito. Despojar Rantaine,
desaparecer com a Durande era o mais importante. Estava feito.
0 resto era simples. Não havia obstáculo possível. Nada a
temer. Não podia acontecer nada. Nadaria para a costa,
abordaria a Plainmont, de noite, galgaria as rochas da praia,
iria à casa mal-assombrada, entraria facilmente por meio da
corda de nós escondida de antemão no buraco do rochedo;
acharia na casa a mala contendo roupa e víveres, dentro de
oito dias lá estavam os contrabandistas da Espanha, Blasquito
provavelmente; por alguns guinéus, far-se-ia transportar, não
a Tor Bay, como disse a Blasco para iludir, mas a Pasages ou a
Bilbao. Daí iria a Vera Cruz ou a Nova Orleans. Já era tempo
de atirar-se ao mar, a chalupa estava longe, uma hora a nado
era coisa nenhuma para Clubin, só 1 milha o separava da terra,
pois que estava no Hanois.
Neste ponto dos seus cálculos, rasgou-se uma fresta do
nevoeiro. 0 formidável rochedo Douvres surgiu aos seus olhos.


INTERVÉM 0 INESPERADO

Clubin olhou espantado.
Era o medonho escolho isolado.
Não era possível a ilusão a respeito daquela configuração
disforme. As duas Douvres gêmeas campeavam horríveis deixando
ver entre si, como uma armadilha, a garganta de que falamos.
Dissera-se um quebra-costas do oceano.
Estavam perto dele as rochas Douvres; o nevoeiro, como
cúmplice, escondera-as.
Clubin errara o caminho por causa do nevoeiro. Apesar de toda
a atenção, aconteceu-lhe o mesmo que a dois grandes
navegadores, a González, que descobriu o cabo Branco, e a
Fernandez, que descobriu o cabo Verde. A bruma
desencaminhou-o. Pareceu-lhe excelente para a execução do
projeto, mas tinha os seus perigos. Clubin desviou-se para o
oeste e enganou-se. 0 passageiro guernesiano, acreditando ver
o Hanois, determinou o movimento do leme final; Clubin cuidou
que se atirava ao Hanois.


A Durande, arrombada por um dos bancos do escolho, estava
separada das Dotivres apenas por algumas centenas de braças.
A 200 braças mais longe via-se um maciço cubo de granito.
Descobriam-se nas faces escarpadas desta rocha algumas estrias
e relevos apropriados para galgá-la.
Os cantos retilíneos dessas rudes muralhas de ângulo reto
faziam pressentir no cume uma planura.
Era o Homem.
A rocha Homem era mais alta ainda que as Dotivres. A sua
plataforma dominava as pontas inacessíveis das duas rochas.
Essa plataforma, abatendo-se pelas bordas, tinha uma cimalha e
mostrava uma certa regularidade arquitetural. Não se podia
imaginar nada mais triste e funesto. As vagas iam dobrar as
suas tranqüilas toalhas nas faces quadradas daquele enorme
rochedo negro, espécie de pedestal para os espectros imensos
do mar e da noite.
Tudo aquilo estava mudo e morto. Havia apenas um sopro no ar e
uma ruga nas ondas. Debaixo daquela superfície muda da água
adivinhava-se a vasta vida afogada das profundezas.
Clubin vira muitas vezes de longe o escolho Dotivres.
Convenceu-se bem que eram ali as Dotivres.
Não podia duvidar.
Súbita e terrível mudança. As Douvres em vez de Hanois. Em vez
de 1 milha, 5 léguas do mar! 0 impossível. A rocha Dotivres,
para o náufrago solitário, é a presença visível e palpável dos
últimos momentos. É impossível chegar à terra.
Clubin estremeceu. Tinha se metido na goela da sombra. Não
lhavia outro refúgio além do rochedo Homem. Era provável que a
tempestade sobreviesse de noite, e que a chalupa da Durande,
sobrecarregada, soçobrasse. Nenhum aviso do naufrágio chegaria
à terra. Não se saberia mesmo que Clubin ficara no rochedo
Douvres. Não havia outra perspectiva senão a morte por frio e
fome. Os seus 75 000 francos nem mesmo lhe davam um bocado de
pão. Tudo quanto ele construíra deu em resultado aquela
cilada; foi ele próprio o arquiteto laborioso de sua
emboscada. Nenhum recurso. Nenhuma solução possível. 0 triunfo
fazia-se precipício. Em vez da liberdade, a captura. Em vez de
um futuro próspero e longo, a agonia. De um relance
esboroou-se-lhe o edifício. 0 paraíso sonhado por aquele
demônio retomou a sua verdadeira figura: o sepulcro.
Entretanto, soprava o vento. 0 nevoeiro, sacudido, furado,
repuxado, desfazia-se no horizonte em grandes lanhos informes.
Reapareceu o mar.
Os bois, cada vez mais invadidos pela água, continuavam a
berrar no porão.
Aproximava-se a noite; provavelmente a tempestade.
A Durande, a pouco e pouco levantada pelo mar, oscilava da
direita para a esquerda, depois da esquerda para a direita, .e
começava a girar sobre o escolho como sobre um eixo.
Podia-se pressentir o momento em que uma vaga arrancaria o
navio e o levaria água abaixo.
Havia menos obscuridade do que no momento do naufrágio. Apesar
da hora ser já avançada, estava mais claro. 0 nevoeiro levou
consigo uma parte da escuridão. 0 oeste limpou-se de nuvens. 0
crepúsculo é um vasto céu branco. Essa vasta claridade
alumiava o mar.
A Durande naufragara em plano inclinado de popa a proa. Clubin
trepou à proa que estava quase fora da água. Fitou no
horizonte os olhos.
É próprio da hipocrisia ater-se à esperança. 0 hipócrita é
• homem que espera. A hipocrisia é uma esperança horrível:
- O fundo dessa mentira é feito desta virtude, tornada vicio.
Coisa estranha de dizer, há confiança na hipocrisia. 0
hipócrita confia-se a certa indiferença do desconhecido, que
consente no mal.
Clubin olhava para a extensão.
A situação era desesperada: aquela alma sinistra não
desesperou.
Dizia consigo que depois daquele longo nevoeiro os navios
conservados na bruma, à capa ou ancorados, iam continuar
viagem' "e algum passaria no horizonte.
E, com efeito, apareceu uma vela.
Vinha de leste e ia para oeste.
Aproximando-se, desenhava-se o navio; tinha apenas um mastro,
e estava armado em goleta. 0 gurupés era quase horizontal.
Antes de meia hora devia passar por perto do escolho Dotivres.
Clubin disse consigo: "Estou salvo".
Em momentos semelhantes, pensa-se primeiro na vida.
0 cúter era quase estrangeiro. Quem sabe se não era um dos
contrabandistas que iam a Plainmont? Quem sabe se não era
Blasquito? Nesse caso, não sómente salvava a vida como a
fortuna; e o encontro do rochedo Douvres, apressando a
conclusão, suprimindo a espera na casa mal-assombrada, dando
desfecho à aventura em pleno mar, seria um incidente feliz.
Toda a certeza do bom êxito entrou freneticamente naquele
espírito sombrio.
Estranha coisa é ver com que facilidade os tratantes acreditam
que devem ser bem sucedidos.
Cumpria fazer apenas uma coisa.
A Durande, metida nos rochedos, misturava a sua configuração à
deles, confundia-se com os seus recortes, sobre os quais
parecia apenas um lineamento, ficava indistinta e perdida, e
não bastava, com o pouco dia que havia, para atrair a atenção
da embarcação que ia passar.
Mas uma figura humana, desenhando-se na alvura crepuscular, de
pé na planura do rochedo Homem, e fazendo sinais de perigo,
seria vista, sem dúvida alguma. Mandariam um escaler para
recolher o náufrago.
0 rochedo Homem ficava a 200 braças. Era simples atingi-lo a
nado, fácil trepar por ele.
Não havia tempo a perder.
Estando a proa da Durande-sobre a rocha, era do alto da popa e
do ponto em que estava que Clubin devia atirar-se ao mar.
Começou por deitar uma sonda, e reconheceu que havia ao pé da
popa muito fundo. As conchas microscópicas de foraminíferos e
de policistináceos que à sonda trouxe consigo estavam intatas,
o que indicava que havia ali profundas cavas de rocha, onde a
água, qualquer que fosse a agitação da superfície, era sempre
tranqüila.
Despiu-se, deixando as roupas no tombadilho. Acharia roupa no
cúter.
Conservou apenas o cinto de couro.
Depois de despir-se, levou a mão ao cinto, apertou-o bem,
apalpou a caixinha de ferro, estudou rapidamente com o olhar a
direção que devia seguir no meio dos parcéis e das vagas para
alcançar o rochedo Homem; depois, precipitou-se de cabeça para
baixo.
Como caiu de alto, mergulhou muito.
Chegou ao fundo do mar, tocou-o. Costeou alguns instantes as
rochas submarinas, depois fez um movimento para subir à
superfície.
Nesse momento sentiu-se agarrado pelo pé.



LIVRO SÉTIMO

IMPRUDENCIA DE INTERROGAR UM LIVR0



A PÉROLA NO FUNDO DO PRECIPÍCIO

Minutos depois do curto colóquio com o Sr. Landoys, Gilliatt
estava em Saint-Sampson.
Gilliatt ia inquieto até à ansiedade. Que teria acontecido?
Saint-Sampson tinha um rumor de colmeia assustada. Toda a
gente estava às portas. As mulheres exclamavam. Muitas pessoas
contavam alguma coisa fazendo gestos; as outras agrupavam-se à
roda dessas. Ouviam-se estas palavras: "Que desgraça!". Alguns
sorriam. Gilliatt não interrogou ninguém. *Não era próprio
dele fazer perguntas. Demais ia demasiado comovido para falar
a indiferentes. Desconfiava das narrações, preferia saber logo
tudo; foi à casa de Lethierry.
A sua ansiedade era tal que nem mesmo teve medo de entrar
naquela casa.
Demais, a porta da sala baixa estava escancarada. Na soleira
havia um formigueiro de homens e mulheres. Todos entravam; ele
entrou.
Entrando, achou encostado à porta o Sr. Landoys, que lhe disse
a meia voz:
- Então, já sabe do sucesso?
- Não.
- Eu não quis dizer-lho há pouco do meio da rua. Pareceria
correio de desgraças.
- Que foi então?
- Perdeu-se a Durande.
Havia muita gente na sala.
Os grupos falavam baixo, como no quarto de um doente.
Os assistentes, que eram os vizinhos, os viandantes, os
curiosos, estavam amontoados ao pé da porta, com uma espécie
de receio, e deixavam vazio o fundo da sala onde estava, ao
lado de Déruchette lacrimosa e assentada, Mess Lethierry de
pé.
Lethierry estava encostado ao tabique do fundo. 0 boné de
marujo caía-lhe nas sobrancelhas; uma mecha de cabelos
grisalhos prendia-se-lhe na face. Não dizia nada. Os braços
não tinham movimento, a boca parecia não ter alento. Parecia
uma coisa encostada à parede.
Ao ve-lo, sentia-se um homem dentro de quem se extinguira a
vida. Deixando de existir a Durande, Lethierry já não tinha
razão de ser. Tinha uma alma no mar, e essa alma acabava de
perecer. Que faria ele agora? Levantar-se de manhã, deitar-se
de noite. Já não podia esperar a Durande, nem vê-la partir nem
voltar. 0 que é um resto de existência sem objeto? Beber,
comer, e depois? Aquele homem tinha coroado os seus trabalhos
com uma obra-prima, e as dedicações com um progresso.
Abolira-se-lhe o progresso, morrera-lhe a obra prima. Para que
viver ainda alguns anos vazios? Não tinha mais nada que fazer.
Naquela idade não é possível recomeçar; de mais a mais estava
arruinado. Pobre velho!
Déruchette, assentada ao pé dele e chorando, tinha entre as
suas duas mãos a mão de Mess Lethierry. As dela estavam
postas, a de Lethierry apertada. Via-se nisso a diferença
daqueles dois abatimentos. As mãos postas ainda tem,
esperança; a apertada nenhuma.
Mess Lethierry abandonava-lhe o braço sem resistência. Estava
passivo. Tinha em si apenas aquela porção de vida que pode
haver depois do raio.
Há certas descidas ao fundo do abismo que retiram um homem do
meio dos vivos. As pessoas que andam em roda são confusas e
indistintas; acotovelam--no e não lhe chegam. De parte a parte
ficam inacessíveis. A ventura e o desespero não são os mesmos
centros respiráveis; o desesperado assiste à vida dos outros,
mas de muito longe; ignora quase a sua presença; perde o
sentimento da própria existência; que importa ser de carne e
osso, o desesperado já se não sente real; já não é ele
próprio, é apenas um sonho.
Mess Lethierry tinha o olhar dessa situação.
Cochichavam os grupos.
Cada qual dizia o que sabia.
Eis as notícias:
A Durande perdera-se na véspera nos rochedos Dotivres, com o
nevoeiro, uma hora antes do por do sol. À exceção do capitão,
que não quis deixar o navio, toda a gente salvou-se na
chalupa. Uma borrasca, vinda do sudoeste, depois do nevoeiro,
quase fez naufragar a chalupa, e carregou-a para o mar largo,
além de Guernesey. De noite tiveram os náufragos a boa fortuna
de encontrar o Caere, que os recolheu e levou a
Saint-Pierre-Port. 0 culpado de tudo foi o timoneiro
Tangrouille, que já estava preso. Clubin mostrou-se magnânimo.
Os pilotos que abundavam nos grupos pronunciavam estas
palavras "escolho Douvres" de um modo particular. "Má
hospedaria aquela!", dizia um deles.
Viam-se na mesa uma bússola e um maço de registros e notas;
eram sem dúvida a bússola da Durande e os papéis de bordo
entregues por Clubin a Imbrancam e a Tangrouille no momento de
partir a chalupa; magnífica abnegação desse homem, salvando
até os papéis no momento em que ia morrer; minuciazinha cheia
de grandeza, esquecimento sublime de si próprio.
Todos eram unânimes em admirar Clubin, e igualmente unânimes
em julgá-lo salvo. 0 cúter Shealtiel chegara poucas horas
depois do Caere, e esse cúter trazia as últimas informações.
Esteve 24 horas nas mesmas águas da Durande. Parou e bordejou
durante o nevoeiro e a tempestade. 0 patrão do Shealtiei
estava também na sala de Lethíerry.
No momento em que Gilliatt entrou, acabava ele de fazer a sua
narração a Mess Lethierry. Era um verdadeiro relatório. De
manhã, tendo cessado a borrasca e acalmado o vento, o patrão
do Shealtiel ouviu mugido de bois em pleno mar. Este rumor
próprio das campinas, ouvido ali nas vagas, surpreendeu o
patrão. Descobriu a Durande nos rochedos 195


Dotivres. A calma era suficiente para que ele pudesse
acercar-se dos rochedos. Chamou o navio à fala. Só lhe
respondeu o mugido dos bois que se afogavam no porão. 0 patrão
do Shealtiel estava certo de que não havia ninguém a bordo da
Durande. 0 casco estava completamente preso; e por mais
violenta que fosse a borrasca, devia ter passado a noite de
bordo. Não era homem de desanimar facilmente. Não estava de
bordo, logo estava salvo.
Muitos sloops e lugres de Granville e Saint-Malo,
desprendendo-se do nevoeiro, era fora de dúvida que deviam ter
costeado as Dotivres. Evidentemente algum deles recolheu o
Capitão Clubin. Devem lembrar-se que a chalupa da Durande
estava cheia ao deixar o navio, ia correr perigos, mais um
homem poderia fazê-la soçobrar, e foi isso sobretudo o que
resolveu Clubin a ficar na Durande; mas, cumprido esse dever,
se aparecesse um navio salvador, Clubin não teria dificuldade
de aproveitar-se dele. Deve-se ser herói, não se deve ser
pascácio. Um suicídio seria tanto mais absurdo quanto que
Clubin portara-se com dignidade. 0 culpado era Tangrouille,
não Clubin. Tudo isto era conseqüente; o patrão do Shealtiel
tinha razão e toda a gente esperava ver Clubin de um momento
para outro. Premeditava-se recebe-lo em triunfo.
Da narração do mestre resultavam duas certezas: Clubin salvo e
a Durande perdida.
Quanto à Durande, estava decidido que a catástrofe era
irremediável. 0 patrão do Shealtiel assistira à última fase do
naufrágio. 0 grandíssimo rochedo em que naufragara a Durande
resistira ao choque da tempestade, como se quisesse guardar
consigo o navio; mas de manhã, no momento em que o Shealtiel,
verificando que não havia ninguém para salvar, afastava-se da
Durande, houve um desses movimentos de mar que são como os
últimos arrancos da cólera das tempestades. Essa onda levantou
furiosamente a Durande, arrancou-a do cachopo, e com a rapidez
e a retidão de uma flecha disparada, atirou-a entre as duas
rochas Douvres. Ouviu-se um estalo "diabólico", dizia o
patrão. A Durande, levada pela vaga a uma certa altura,
meteu-se entre as rochas. Estava outra vez pregada, mas desta
vez mais solidamente que no escolho submarino. Ficou aí
deploravelmente suspensa, exposta a todo o vento e a todo mar.
A Durande, no dizer da equipagem do Shealtiel, já estava quase
toda despedaçada. Teria soçobrado, com certeza, de noite, se o
cachopo não estivesse. 0 patrão do Shealtiel com o seu óculo,
estudou o casco. Descreveu o desastre com precisão marítima; o
lado de estibordo estava roto; os mastros truncados, o velame
sem tralhas, as correntes dos ovéns quase todas cortadas, as
sangadilhas cortadas o mais rente possível desde o meio do
mastro até acima; o lugar dos viveres arrombado, os cavaletes
da chalupa destruídos, a árvore do leme rota, os cabos
despregados, os paveses arrasados, as abitas levadas pelo
vento, a antena do mesmo modo, o cadaste quebrado. Era a
devastação frenética da tempestade. Quanto ao guindaste do
carregamento, preso ao mastro de proa, já não existia, não
havia notícia dele, completamente limpo, levaram-no os diabos,
com todas as roldanas, polés e correntes. A Durande estava
deslocada; a água começava agora a despedaçá-la. Dentro de
alguns dias nada mais restaria dela.
E contudo a máquina, coisa notável, e que provava a sua
perfeição, sofreu pouco com a tempestade. 0 patrão do
Shealtiel afirmava que a manivela não teve avaria grave. Os
mastros do navio cederam, mas o cano da máquina resistiu. Os
baluartes de ferro do lugar do comando estavam apenas
torcidos; as caixas das rodas sofreram, mas as rodas pareciam
não ter um só raio de menos. A máquina estava intata. Era a
convicção do patrão do Shealtiel. 0 maquinista Imbrancam, que
estava entre os grupos, partilhava esta convicção. Aquele
negro, mais inteligente que muitos brancos, era o admirador da
máquina. Levantava os braços abrindo os dez dedos das suas
mãos negras, e dizia a Lethierry mudo: "Meu amo, a máquina
está viva".
0 salvamento de Clubin parecia coisa segura, o casco da
Durande estava sacrificado; a conversação dos grupos recaiu
sobre a máquina. Interessavam-se por ela, como se fosse uma
Pessoa. Todos admiravam o bom procedimento da máquina. "Sólida
comadre aquela", dizia um marinheiro francês. "É, fica!",
exclamava um pescador guernesiano. "Deve ter sido muito
astuciosa", acrescentava o patrão, "para escapar apenas com
alguns arranhões."
A pouco e pouco tornou-se a máquina a preocupação única.
Animou as opiniões pró e contra. Tinha amigos e inimigos. Mais
de um, que tinha algum velho cúter de vela, e esperava apanhar
a freguesia da Durande, alegrou-se por ver o escolho Douvres
fazer justiça à nova invenção. 0 cochicho tomou-se algazarra.
Discutia-se com barulho. Era contudo um rumor discreto, que de
quando em quando se calava sob a pressão do silencio sepulcral
de Lethierry.
Do colóquio havido em todos os pontos resultava isto:
A máquina era o essencial. Refazer o navio era possível, não a
máquina. Era única. Para fabricar outra faltavam o dinheiro e
o fabricante. Lembram-se de que o construtor tinha morrido.
Custou 40 00ó francos. Ninguém arriscaria agora aquele capital
naquela eventualidade; tanto mais quanto acabava de provar-se
que os e vapores naufragam como navios de vela; o acidente
atual da Durande metia a pique o seu passado sucedimento. E
era doloroso pensar que naquele momento a máquina ainda estava
em bom estado, e que, antes de cinco ou seis dias, ficaria
despedaçada como o navio. Enquanto existia a máquina, podia
dizer-se que não havia naufrágio. Só a perda da máquina era
irremediável. Salvar a máquina era reparar o desastre.
Salvar a máquina é fácil dizê-lo. Mas quem ousaria? Era acaso
possível? Dizer e executar são coisas diferentes, e a prova é
que é fácil formular uma aspiração e difícil. Executá-la. Ora,
se houve jamais um sonho impraticável e insensato era Este:
salvar a máquina encalhada nas Dotivres. Mandar trabalhar
naquelas rochas um navio e uma equipagem. seria absurdo; não
se devia pensar nisso. Era a estação dos temporais: ao
primeiro que houvesse, rasgavam-se as correntes das amarras
nas pontas submarinas e o navio despedaçava-se. Era mandar um
naufrágio em socorro do primeiro. Na espécie de buraco da
planura superior onde se abrigara o náufrago legendário morto
de fome, mal havia lugar para um homem. Era preciso, pois,
que, para salvar essa máquina, fosse um homem aos rochedos
Dotivres, e que rosse sozinho, só naquele mar, só naquele
deserto, só a 5 léguas da costa, naquele medo, só durante
semanas inteira. Diante do previsto e do imprevisto, sem
angústias da privação, sem socorro nos incidentes d desgraça,
sem outro vestígio humano que o do antigo náufrago morto ali,
sem outro companheiro além daquele finado.
1 E como salvaria ele a máquina? Era preciso que rosse, nã
somente marujo, senão também ferreiro. E quantas dificuldades!
0 homem que o tentasse seria mais que um herói. Seria um
louco. Porquanto, em certos cometimentos despropósito nados,
onde parece necessário o sobre-humano, a bravura tem acima de
si a demência. E, com efeito, sacrificar-se porem iria um
pouco de ferro não era extravagante? Não, aos rochedos
Dotivres. Devia-se renunciar à máquina do mesmo modo que 4o
navio. 0 salvador que era preciso não aparecia. Onde encontrar
esse homem?
Isto, dito de outro modo, era o fundo das conversas murmuradas
daquela multidão.
0 patrão do Shealtiel, que era um antigo piloto, resumiu o
pensamento de todos exclamando em alta voz:
- Não! Está acabado. Não existe um homem capaz de ir buscar a
máquina!
- Se eu não vou - disse Imbrancam - é que é impossível ir.
0 patrão do Shealtiel sacudiu a mão esquerda com aquele
arrebatamento que exprime a convicção do impossível, e
repetiu:
- Se existisse. .
Déruchette voltou a cabeça.
- Casava-me com ele.
Houve um silencio.
Um homem pálido saiu do meio dos grupos e disse:
- A senhora casava-se com ele, Miss Déruchette?
Era Gilliatt.
Entretanto, todos levantaram os olhos. Mess Lethierry
endireítou-se. Tinha nos olhos uma luz estranha.
Tirou o boné e lançou ao chão, depois olhou solenemente
para frente sem ver pessoa alguma e disse:
- Déruchette casava-se com esse homem. Dou a minha Palavra de
honra a Deus.


GRANDE ESPANTO NA COSTA OESTE

A noite desse dia, das 10 horas em diante, devia ser noite de
luar. Todavia, qualquer que fosse a boa aparencia da noite, do
vento e do mar, nenhum pescador estava disposto a sair nem de
Hougue Ia Perre, nem de Bordeaux, nem de Houmet Benet, nem de
Platon, nem de Port-Grat, nem da baía Vason, nem de Perelle:
Bay, nem de Pezeris, nem de Tielles, nem da baia dos Santos,
nem de Petit BO, nem de nenhum outro porto ou angra de
Guernesey. E isso por uma razão simples: o galo tinha cantado
ao meio-dia.
Quando o galo canta a uma hora extraordinária, não há peixe.
Nesse dia, pois, ao cair da tarde, um pescador que voltava a
Omptolle teve uma surpresa. Na altura de Houmet Paradis, além
de Brayes e Grunes, tendo à esquerda a baliza de Plattes
Fougéres, que representa um funil virado, e à direita a baliza
de Saint-Sampson, que representa uma figura de homem, o
pescador acreditou ver uma terceira baliza. Que baliza era
essa? Quando foi posta ali? Que banco indicava ela? A baliza
respondeu logo a estas interrogações; mexeu-se; era um mastro.
Não diminuiu o espanto do pescador. Baliza era para admirar;
mastro ainda mais. Não havia pesca possível. Quando todos
voltavam, porque saía aquele? Quem era? Por que?
Dez minutos depois, o mastro, caminhando lentamente, chegou a
pouca distância do pescador de Omptolle. Este não pOde
reconhecer o barco. Ouviu remar. 0 ruído era de dois remos.
Provavelmente era um homem só. 0 vento era norte; o homem
navegava evidentemente para ir tomar o vento além da ponta
Fontenelle. Aí era natural que abrisse a vela. Contava pois
dobrar o Ancresse e o monte Crevel. Que queria dizer aquilo?
0 mastro passou; o pescador foi para terra.
Nessa mesma noite, na costa oeste de Guernesey, observadores
de ocasião disseminados e isolados fizeram alguns reparos a
horas diversas e em diversos pontos.
0 pescador de Omptolle acabava de amarrar o barco, quando um
condutor de sargaço, a meia milha distante, chicoteando os
animais na estrada deserta de Clotures, perto do Cromleche,
nos arredores dos martelos 6 e 7, viu no mar, um tanto longe,
em lugar pouco freqüentado, porque é preciso conhece-lo bem,
do lado da Roque-Nord e da Sablonneuse, um barco içando uma
vela. Deu pouca atenção, pois que era homem de carro e não de
barco.
Meia hora depois, um estucador que voltava da cidade e
contornava a lagoa de Pelée achou-se repentinamente quase em
face de um barco que penetrara audaciosamente entre as rochas
do Quenon, da Rousse de Mer, e da Gripe de Rousse. A noite era
negra, mas o mar estava claro, efeito que se produz muitas
vezes, e podia-se distinguir ao largo os navegantes. Só havia
no mar aquele barco.
Mais abaixo e mais tarde, um pescador de lagostas, dispondo as
suas tendas no areal que separa o Port Soif do Port Enfer, não
compreendeu o que faria um barco que passava entre a Boue
Comeille e a Moulrette. Era preciso ser bom piléto e ter
pressa de chegar a algum lugar para arriscar-se a passar ali.
Sendo 8 horas no Catel, o tavemeiro de Cobo Bay observou, com
algum espanto, uma vela além da Boue do Jardim e das
Grunettes, mui perto da Suzanne e dos Grunes do Oeste.
Não longe do Cobo Bay, na ponta solitária do Houmet da baía
Vason, estavam dois namorados a despedir-se e a reterse um ao
outro; foram distraídos do último beijo por um vasto barco que
passou por perto déles e dirigia-se para as Menellettes.
0 Sr. Le Peyre des Norgiots, morador em Catellon Pipet, estava
examinando, às 9 horas da noite, um buraco feito por larápios
na cerca da sua horta, e ao mesmo tempo que averiguava os
estragos, não pode deixar de observar um barco dobrando
temeràriamente o Croce-Point àquela hora.
No dia seguinte ao de uma tempestade, com o resto de agitação
que sempre fica no mar, aquele itinerário era pouco seguro, a
menos que se não saiba de cor todos os passos. As 9 horas e
meia, no Equerrier, um pescador levando a rede, parou algum
tempo para ver entre Colombelle e Soufleresse alguma coisa que
devia ser um barco e que se expunha muito ao tempo. Há ventos
perigosos nesse lugar. A rocha Soufleresse é assim chamada
porque sopra constantemente os barcos que passam.
Ao levantar da lua, estando a maré cheia, e havendo pleno mar
no estreito de Li-Hou, o guarda solitário da ilha de LiHou
assustou-se ao ver passar entre a lua e ele uma longa forma
negra. Esta forma ia resvalando lentamente por cima das
espécies de paredes que formam os bancos da rocha. 0 guarda de
Li-Hou pensou ver a Dama Negra.
A Dama Branca habita o Tau de Pez d'Amont, a Dama Cinzenta
habita o Tau de Pez d'Aval, a Dama Vermelha habita a Lilleuse
ao norte do Baric-Marquis, e a Dama Negra habita o
Grand-Etacré ao este de Li-Houmet. Ao clarão da lua todas
essas damas saem e encontram-se às vezes.
Rigorosamente essa forma negra podia ser uma vela. As longas
fileiras de rochas sobre as quais parecia que a vela andava,
podiam com efeito esconder o casco de um barco vogando atrás
de si, deixando ver apenas a vela. Mas o guarda perguntou a si
próprio que barco ousaria arriscar-se àquelas horas entre
Li-Hou e a Pecheresse, e as Angullières e Lerée-Point. E com
que fim? Pareceu-lhe mais provável que rosse a Dama Negra.
Estando a lua já acima da tOrre de Saint-Pierre-du-Bois, o
sargento de Rocquaine levantou metade da escada da ponte
levadiça e distinguiu na foz da baía, mais perto que a
Sambule, um barco a vela que parecia descer de norte a sul.
Existe na costa sul de Guernesey, atrás do Plaininont, no
fundo de uma baía, toda precipícios e muralhas, cortado a
pique na onda, um pOrto singular que um francês, residente na
ilha desde 1844, talvez o mesmo que escreve agora estas
linhas, batizou com o nome de "porto do quarto andar", nome
geralmente adotado hoje. Esse porto que então se chamava a
Moie, é uma planura de rocha meio natural, meio talhada, de 40
pés de altura acima da água, e comunicando com as vagas por
duas grandes pranchas em plano inclinado. Os barcos içados à
força de braços por correntes e roldanas, saem ao mar e descem
ao longo dessas pranchas que são dois trilhos. Para os homens
há uma escada. Esse porto era então muito freqüentado pelos
contrabandistas. Sendo pouco praticável, era-lhes cômodo.
Pelas 11 horas, alguns trapaceiros, talvez os mesmos com quem
Clubin contava, estavam com os seus fardos na Moie. Quem
trapaceia, espia; eles espiavam. Admiraram-se de ver uma vela
desembocando repentinamente além das linhas negras do cabo
Plainmont. 0 luar estava claro. Os contrabandistas espreitavam
a vela, receando que fosse algum guarda-costa colocar-se de
emboscada atrás do grande Hanois, mas a vela passou os Hanois,
deixou atrás de si a noroeste a Boue Blondil, e mergulhou-se
ao largo nas brumas lívidas do horizonte.
- Aonde diabo vai aquela barca? - disseram os contrabandistas.
Na mesma noite, pouco depois de por o sol, ouviu-se alguém
bater na porta da casa mal-assombrada em que morava Gilliatt.
Era um rapaz vestido de escuro, com meias amarelas, o que
indicava ser sacristão. A casa estava fechada, porta e
postigos. Uma velha pescadora de frutos do mar, passeando pelo
banco, com uma lanterna na mão, chamou o rapaz, e trocaram-se
estas palavras entre eles:
- Que quer voce?
- 0 hhhhhhooomem daqui.
- Não está aqui.
- Onde está?
- Não sei.
- Virá amanhã?
- Não sei.
- Foi-se embora daqui?
Não sei.
É que o novo cura da paróquia, o Reverendo Ebenezer Caudray,
queria fazer-lhe uma visita.
- Não sei.
- 0 reverendo mandou-me saber se o homem estava em casa amanhã
de manhã.
- Não sei.


NÃO TENTEIS A BÍBLIA

Nas 24 horas que se seguiram, Mess Lethierry não dormiu nem
comeu, nem bebeu, beijou a testa de Déruchette, informou-se de
Clubin, do qual ainda não havia notícias, assinou um papel
declarando que não pretendia dar queixa, e fez soltar
Tangrouille.
Ficou, todo o dia 'seguinte, meio encostado à mesa do
escritório da Durande, nem assentado nem de pé, respondendo
com brandura a quem lhe falava. Demais, estando satisfeita a
curiosidade, ficou solitária a casa de Lethierry. Há muitos
desejos de observar na solicitude de lamentar. Fechara-se a
porta; deixava-se Lethierry com Déruchette. 0 relâmpago que
passara nos olhos de Lethierry estava extinto; voltara-lhe o
olhar lúgubre do começo da catástrofe.
Déruchette, assustada, foi caladinha, conselho de Graça e
Doce, colocar ao lado dele, na mesa, um par de meias que
Lethierry tecia quando a triste notícia chegou.
Lethierry sorriu amargamente e disse:
- Então pensam que não tenho juízo?
Depois de um quarto de hora de silencio, acrescentou:
- Estas manias são boas quando a gente é feliz.
Déruchette tirou o par de meias, e aproveitou a ocasião para
tirar também a bússola e os papéis de bordo, que Mess
Lethierry contemplava demasiadamente.
De tarde, um pouco antes da hora do chá, a porta abriu-se e
entraram dois homens, vestidos de preto, um velho, e outro
moço.
0 moço já foi visto no curso desta narração.
Tinham ambos um ar grave, mas de gravidade diferente; o velho
tinha aquilo que se pode chamar gravidade de profissão; o
mancebo tinha a gravidade da natureza. A primeira vem do
hábito, a segunda nasce do pensamento.
Eram, como indicava o traje, dois padres, pertencendo ambos à
religião estabelecida.
0 que se notava desde logo no mancebo era que a gravidade,
profunda no olhar, e resultando do espírito, não nascia
absolutamente da pessoa. A gravidade admite a paixão, exala-a,
purificando-a, mas aquele mancebo era, antes de tudo, lindo.
Sendo padre, devia ter ao menos 25 anos; parecia ter dezoito.
Apresentava uma harmonia e um contraste, isto é, tinha uma
alma que parecia feita para a paixão e um corpo que parecia
feito para o amor. Era loiro, rosado, fresco, delicado e
flexível, apesar do vestuário severo, com faces de donzela e
mãos delicadas; embora reprimido, tinha o gesto vivo e
natural. Tudo nele era encanto, elegância e quase volúpia. A
beleza de seu olhar corrigia esse excesso de graça. 0 sorriso
sincero, que deixava ver uns dentes de criança, era pensativo
e religioso. Era a gentileza de um pajem e a dignidade de um
bispo.
Debaixo dos espessos cabelos loiros, tão dourados que pareciam
garridos, tinha ele um crânio elevado, cândido e bem feito.
Uma leve ruga de inflexão dupla, entre as duas sobrancelhas,
despertava confusamente a idéia da ave do pensamento pairando,
com as asas abertas, no meio daquela fronte.
Sentia-se, ao ve-lo, uma dessas criaturas benévolas, inocentes
e puras, que progridem em sentido inverso da humanidade
vulgar, a quem a ilusão toma sábias e a experiencia
entusiastas.
A mocidade transparente deixava ver a maturidade interior.
Comparado ao padre de cabelos grisalhos que o acompanhava, à
primeira vista, parecia filho, reparando-se bem, parecia pai.
Era Este o Dr. Jaquernin Herodes. 0 Dr. Jaquernin Herodes
pertencia à alta Igreja, que é pouco mais ou menos um papismo
sem papa. 0 anglicanismo nessa época era agitado pelas
tendencias que depois se afirmaram e condensaram no puseismo.
0 Dr. Jaquemin Herodes era desse matiz anglicano, que é quase
uma variação romana. Era alto, correto, delgado e superior. 0
raio visual interior mal se distinguia de fora. 0 seu espírito
era cingir-se à letra. De mais a mais era altivo. Enchia com a
sua pessoa o lugar que ocupava. Parecia menos um reverendo que
um monsenhor. A casaca era talhada à moda de sotaina. Em Roma
é que ele estaria bem. Nascera para ser prelado da Câmara.
Parecia ter sido criado expressamente para ser ornamento do
papa, e ir atrás da cadeira gestatória, com toda a corte
pontifficia, in abito paonazzo. 0 acidente de ter nascido
inglês e uma educação teológica mais voltada para o Antigo
Testamento que para o NOvo fizeram com que lhe falhasse esse
destino. Todos os seus esplendores resumiram-se nisto: ser
cura de Saint-PierrePort, decano da ilha de Guernesey e
subrogado do bispo de Winchester. Não há dúvida que era glória
tudo isso.
Essa glória não impedia que o Sr. Jaquemin Herodes fosse um
bom homem.
Como teólogo, dispunha da estima dos conhecedores e fazia
quase autoridade em Arches, que é a Sorbonne da Inglaterra.
Tinha um ar douto, um piscar de olhos apto e exagerado,
narinas cabeludas, dentes visiveis, o lábio inferior fino e o
lábio superior espesso, muitos diplomas, uma gorda prebenda,
amigos barões, a confiança do bispo, e continuamente trazia
uma Bíblia na algibeira.
Mess Lethierry estava tão completamente absorto, que tudo
quanto pode produzir nele a entrada dos dois padres, foi um
imperceptível enrugar de sobrancelhas.
0 Sr. Jaquemin Herodes aproximou-se, cumprimentou, recordou em
poucas palavras, sóbriamente altivas, a sua recente promoção e
disse que vinha, segundo o uso, apresentar aos notáveis, e a
Mess Lethierry especialmente, o seu sucessor na paróquia, o
novo cura de Saint-Sampson, o Reverendo Joe Ebenezer Caudray
que daí em diante seria o pastor de Mess Lethierry.
Déruchette levantou-se.
0 padre moço, que era o Reverendo Ebenezer, inclinou-se.
Mess Lethierry olhou para o.Sr. Ebenezer Caudray, e mastigou
entre dentes estas palavras: "Mau marinheiro".
Graça apresentou cadeiras. Os dois reverendos assentaram-se
perto da mesa.
0 Dr. Herodes começou um speech. Tinha sabido de um
acontecimento. Naufragara a Durande. Vinha, como pastor,
trazer consolação e conselho. 0 naufrágio era uma desgraça,
mas era também uma felicidade. Sondemo-nos; não nos inchava a
prosperidade? As águas da felicidade são perigosas. Não se
deve tomar as desgraças à má parte. Os caminhos do Senhor são
desconhecidos. Mess Lethierry estava arruinado. Pois ser
opulento é estar em perigo. Aparecem amigos falsos. A pobreza
afasta-os. Fica-se isolado. Solus eris. A Durande dizem que
dava 1000 libras esterlinas por ano. Era demais para um
filósofo. Fujamos às tentações, desdenhemos o ouro. Aceitemos
com reconhecimento a ruína e o abandono. 0 isolamento dá
frutos. Ganha-se nele as graças do Senhor. Foi na solidão que
Aia achou as águas quentes conduzindo os asnos de Sebeão, seu
pai. Não nos revoltemos contra os impenetráveis decretos da
Providencia. 0 santo homem Jó, depois da sua miséria, cresceu
em riquezas. Quem sabe se a perda da Durande não teria
compensações, mesmo temporais? Também ele, Herodes, empregara
capitais em uma magnífica operação que se realizava em
Shefilield; se Mess Lethierry, com os fundos que lhe restavam,
quisesse entrar nesse negócio, podia refazer a fortuna; era um
grande fornecimento de armas ao czar para reprimir a Polonia.
Ganharia 300 por cento.
A palavra czar pareceu despertar Lethierry, que interrompeu o
Dr. Herodes:
- Não quero nada com o czar.
0 Reverendo Herodes respondeu:
- Mess Lethierry, os príncipes são aceitos por Deus. Deus
escreveu: "Dai a César o que é de César". 0 czar é César.
Lethierry, meio absorto na cisma, murmurou:
- Quem é César? Não conheço.
0 Reverendo Herodes continuou a exortação. Não insistiu por
Shefilield. Não aceitar César era ser republicano. 0 reverendo
compreendia que um homem fosse republicano. Nesse caso,
compreendia que Mess Lethierry se voltasse para uma república.
Mess Lethierry podia estabelecer a fortuna nos Estados Unidos;
melhor do que na Inglaterra. Se quisesse decuplicar o que lhe
restava, bastava-lhe tomar ações na grande companhia de
exploração das plantações do Texas, que empregava mais de 20
000 negros.
- Não quero nada com a escravidão, disse Lethierry.
- A escravidão - replicou o Reverendo Herodes - é de
instituição sagrada. Está escrito: "Se o senhor bater o
escravo, nada lhe será feito, porque bate o seu dinheiro".
Graça e Doce, na soleira da porta, ouviam com uma espécie de
extase as palavras do reverendo doutor.

0 reverendo continuou. Era, em suma, como dissemos, um bom
homem; e quaisquer que pudessem ser os seus sentimentos de
casta ou de pessoa com Mess Lethierry, vinha-lhe sinceramente
dar o auxílio espiritual, e mesmo temporal, de que dispunha.
Se Mess Lethierry estava arruinado ao ponto de não poder
cooperar, com fruto, numa especulação qualquer, russa ou
americana, por que não entrava no governo e nas funções
assalariadas? São nobres empregos esses, e o reverendo estava
pronto a introduzir Mess Lethierry. Vagara em Jersey o lugar
de deputado-visconde. Mess Lethíerry era amado e estimado, e o
Reverendo Herodes, decano de Guernesey, podia obter para Mess
Lethierry o emprego de deputado-visconde de Jersey. 0
deputado-visconde é um funcionário considerável, assiste,
corno representante de Sua Majestade, aos atos jurídicos, aos
debates da plebe e às execuções de sentenças.
Lethierry fixou os olhos no Dr. Herodes.
- Não gosto de enforcamentos - disse ele.
0 Dr. Herodes, que até então pronunciara todas as palavras com
a mesma inflexão, teve um acento de severidade e uma inflexão
nova:
- Mess Lethierry, a pena de morte é ordenada por Deus, Deus
entregou a espada ao homem. Está escrito: "olho por olho,
dente por dente".
0 Reverendo Ebenezer aproximou imperceptivelmente a sua
cadeira da cadeira do Reverendo Jaquemin, e disse-lhe de modo
que não fosse ouvido senão por ele:
- 0 que Este homem diz é-lhe ditado.
- Por quem? - perguntou no mesmo tom o Reverendo Herodes.
- Pela consciência.
0 Reverendo Herodes meteu a mão no bolso, tirou um grosso
volume em 18.11, encadernado com fechos, po-lo na mesa e disse
em voz alta:
- A consciência é isto.
0 livro era a Bíblia.
Depois foi-se abrandando o Dr. Jaquemín. 0 seu desejo era ser
útil a Mess Lethierry, que considerava ser um homem forte.
Como pastor, tinha ele direito e dever de aconselhar; todavia
Mess Lethierry tinha a liberdade de aceitar ou recusar o
conselho.
Mess Lethierry, caindo outra vez na absorção e no abatimento,
já não ouvia. Déruchette, assentada ao pé dele, e pensativa
também, não levantava os olhos, e dava àquela prática pouco
animada a porção de acanhamento que resulta de uma presença
silenciosa. Uma testemunha que não diz palavra é uma espécie
de peso indefinível. Mas o Dr. Herodes não parecia senti-lo.
Como Lethierry não respondia, o Dr. Herodes deu largas à
palavra. 0 conselho vem do homem, a inspiração vem de Deus. Há
inspiração no conselho do padre. E bom aceitar os conselhos e
perigoso rejeitá-los. Schoth foi agarrado por onze diabos por
ter desdenhado das exortações de Nataniel. Tiburiano foi
atacado de lepra por ter posto fora de casa o apóstolo André.
Barjesus, apesar de mágico, ficou cego por ter zombado das
palavras de São Paulo. Elxai e suas irmãs Marta e Martena
estão no inferno a esta hora por terem desprezado as
advertencias de Valencianus, que lhes provava, claro como o
dia, que o Jesus Cristo deles, de 38 léguas de comprimento,
era um demónio. Oolibama, que também se chama Judíte, obedecia
aos conselhos. Rubem e Feniel ouviam os conselhos do céu;
bastam os nomes deles para indicá-los; Rubem significa filho
da visão, e Feniel significaface de Deus.
Mess Lethierry deu um soco na mesa.
- Mas a culpa é minha!
- Que que dizer? - perguntou Jaquemin Herodes.
- Digo que a culpa é minha.
- Culpa de que?
- Por ter mandado vir a Durande à sexta-feira.
0 Sr. Jaquemin Herodes murmurou ao ouvido do Sr. Ebenezer C
audray:
- Este homem é supersticioso.
Continuou depois, e em tom de mestre:
- Mess Lethierry, é pueril acreditar na sexta-feira. Não se
deve acreditar em fábula. A sexta-feira é um dia como qualquer
outro. Às vezes é data feliz. Melendez fundou a cidade de
Santo Agostinho em sexta-feira; foi numa sexta-feira que
Henrique VII deu a sua comissão a John Cabot; os peregrinos do
Mayflower chegaram a Province-Town em sexta-feira. Washington
nasceu na sexta-feira, 22 de fevereiro de 1732; Cristóvão
Colombo descobriu a América na sexta-feira, 12 de outubro de
1492.
Dizendo isto levantou-se.
Ebenezer, que tinha ido com ele, levantou-se também.
Graça e Doce, adivinhando que os reverendos iam despedir-se,
abriram as portas.
Mess Lethierry não via nem ouvia nada.
0 Sr. Jaquemin Herodes disse em aparte ao Sr. Ebenezer
Caudray:
- Nem nos cumprimenta. Não é tristeza, é embrutecimento.
Devemos crer que ele está doido.
Entretanto, pegou na Bíblia e colocou-a entre as mãos abertas,
como quem segura um pássaro com receio que fuja. Esta atitude
criou entre os personagens presentes uma certa espera. Graça e
Doce esticaram a cabeça.
A voz de Herodes fez quanto pOde para ser majestosa.
- Mess Lethierry, não nos separemos sem ler uma página do
livro santo. As situações da vida são esclarecidas pelos
livros; os profanos tem as sortes virgilianas, os crentes tem
as advertencias bíblicas. 0 primeiro livro, apanhado ao acaso,
aberto ao acaso, dá um conselho; a Bíblia, aberta ao acaso,
faz uma revelação. É sobretudo boa para os aflitos. 0 que a
Santa Escritura respira indubitàvelmente é um lenitivo às
dores. Diante dos aflitos deve-se consultar o santo livro sem
escolher o lugar, e ler com candura o passo encontrado. 0 que
o homem não escolhe, escolhe-o Deus. Deus sabe o que
precisamos. 0 seu dedo invisível aponta o passo inesperado que
nós lemos. Qualquer que seja a página, rebenta-lhe luz. Não
busquemos outro. É a palavra do céu. 0 nosso destino é
revelado misteriosamente no texto evocado com confiança e
respeito. Ouçamos e obedeçamos. Mess Lethierry, o senhor tem
uma aflição, Este é o livro da consolação; está enfermo. Este
é o livro da saúde.
0 Reverendo Jaquemin Herodes abriu a mola do fecho, meteu o
dedo ao acaso entre duas páginas, pos a mão no livro aberto, e
concentrou-se; depois, abaixando os olhos com autoridade, leu
em alta voz.
Eis o que leu :
"Isaac passeava no caminho que vai ter ao poço chamado Poço
daquele que vive e ve.
"Rebeca, vendo Isaac, disse: 'Quem é Este homem que vem
andando para mim.
"Então Isaac fe-la entrar na sua tenda, e tornou-a por mulher,
e grande foi o amor que lhe teve".
Ebenezer e Déruchette olharam um para o outro.


SEGUNDA PARTE

0 ENGENHEIRO GILLIATT


LIVRO PRIMEIRO

0 ESCOLHO


A INCOMÔDA CHEGADA, DIFÍCIL SAÍDA

Já os leitores terão adivinhado que o barco, visto em muitos
pontos da costa de Guernesey, na noite anterior, em horas
diversas, era a pança. Gilliatt escolheu ao longo da costa o
canal que se abre entre os rochedos; era a rota perigosa, mas
era o caminho direto. Tomar o mais curto foi o cuidado dele.
Os náufragos não esperam. 0 mar é coisa urgente, uma hora de
demora podia ser irreparável. Queria chegar depressa para
socorrer a máquina.
Saindo de Guernesey, uma das preocupações de Gilliatt era não
despertar a atenção. Tinha ares de pessoa que se esconde.
Evitou a costa de leste como se achasse inútil passar à vista
de Saint-Sampson e Saint-Pierre-Port; resvalou silenciosamente
ao longo da costa oposta, que é relativamente inabitada. Nos
bancos teve de remar; mas Gilliatt manejava o remo segundo a
lei hidráulica: tomar a água sem choque e impeli-la devagar;
desse modo pode nadar na obscuridade com a maior força e o
menor rumor possíveis. Parecia que ia cometer uma ação feia.
A verdade é que, atirando-se de olhos fechados a um
Cometimento que parecia impossível, e arriscando a vida com
todas as probabilidades contra ele, receava a concorrencia.
Como o dia começava a despontar, os olhos ignotos que estão
talvez abertos no espaço puderam ver no meio do mar, num ponto
em que há mais solidão e ameaça, duas coisas entre as quais ia
diminuindo o intervalo, sendo que uma aproximava-se da outra.
Uma, quase imperceptível no largo movimento das vagas, era um
barco de vela; nessa barca havia um homem; era a pança levando
Gilliatt, A outra, imóvel, colossal, negra, tinha, sobranceira
às vagas, uma surpreendente figura. Dois altos pilares
amparavam acima da água, no vácuo, uma espécie de travessão
horizontal, que era como que uma ponte entre as duas cumeadas.
0 travessão, tão informe de longe que seria impossível
adivinhar o que era, fazia corpo com os dois pilares. Parecia
uma porta. Por que haveria uma porta naquela abertura de todos
os lados do mar? Dissera-se um dólmen titânico plantado ali,
em pleno oceano, por uma fantasia magistral, e construído por
mãos que tem o hábito de apropriar ao abismo as suas
construções. Aquela medonha forma levantava-se na claridade do
céu.
A luz da manhã ia crescendo a leste; a alvura do horizonte
aumentava a negridão do mar. Do lado oposto, declinava a lua.
Os dois pilares eram as Dotivres. A espécie de massa apertada
entre eles como uma arquitrave era a Durande.
Apertando assim a sua vítima, e deixando-a ver, o escolho era
horrível. A atitude daqueles rochedos era uma espécie de
repto. Parecia esperar.
Nada mais altivo e arrogante como tudo aquilo; o navio
vencido, o abismo vitorioso. Os dois rochedos, ainda
gotejantes da tempestade da véspera, pareciam dois combatentes
em suor. Tinha acalmado o vento, o mar dobrava-se
plàcidamente; adivinhava-se que havia à flor da água alguns
bancos onde os penachos de escuma caíam com graça; de longe
vinha um murmúrio selhante ao zumbido das abelhas. Tudo era um
nível, menos as duas Dotivres, levantadas e tesas como duas
colunas negras. Os flancos escarpados tinham reflexos de
armaduras. Pareciam prestes a encetar de novo a luta.
Compreendia-se que elas nasciam de montanhas submarinas. Havia
em tudo aquilo uma espécie de onipotencia trágica.
De ordinário, o mar oculta os seus lances. Conserva-se
voluntàriamente obscuro. A incomensurável sombra guarde tudo
para ele. É raro que o mistério renuncie ao segredo. M um que
de monstro na catástrofe, mas em quantidade ignota. 0 mar é
patente e secreto; esconde-se, não quer divulgar as suas
ações. Produz um naufrágio e abafa-o; engolir é o seu pudor. A
vaga é hipócrita; mata, rouba, sonega, ignora e sorri. Ruge,
depois abranda-se.
Nada semelhante nas Dotivres. Os dois rochedos, levantando
acima das ondas o cadáver da Durande, tinham um ar de triunfo.
Dissera-se dois braços saindo do golfão, e mostrando às
tempestades o cadáver daquele navio. Era uma coisa igual ao
assassino que se vangloria do crime.
A isto acrescentava-se o horror sagrado da hora. A madrugada
tem uma grandeza misteriosa que se compõe de um resto de sonho
e de um começo de pensamento. Nesse momento turvado, como que
flutua ainda um pouco de espectro. A espécie de imenso H
maiúsculo formado pelas duas Douvres com a Durande no centro
aparecia no horizonte no meio de uma certa majestade
crespuscular.
Gilliatt vestia a roupa do mar, camisa de lã, meias de lã,
sapatos tacheados, japona de lã, calça de pano grosso mal
tecido, com bolsos, e na cabeça um daqueles barretes de lã
vermelha usados então na marinha, e que se chamavam, no século
passado, galériennes.
Reconheceu o escolho e avançou.
A Durande estava ao contrário de um navio deitado a pique; era
um navio pendurado no ar.
Não havia mais estranho cometimento que o de salvar a máquina
daquele navio.
Era dia claro quando Gilliatt chegou às águas do escolho.
Como dissemos, havia pouco mar. A água tinha apenas a
quantidade de agitação que lhe dava a estreiteza entre os
rochedos. Há sempre marulho nos espaços de água como aquele,
quer sejam grandes, quer pequenos. 0 interior de um estreito
espuma sempre.
Gilliatt não abordou ao Dotivres sem precaução.
Deitou a sonda muitas vezes.
Gilliatt tinha de fazer um pequeno desembarque de Matalotagem.

Afeito às ausencias, tinha sempre pronta em casa a
matolotagem. Era um saco de biscoito, um saco de farinha de
centeio, uma cesta de stocigrísh e de carne fumada, um grande
pichel de água doce, uma caixa norueguense com ramagens
pintadas, contendo algumas camisas de lã, grevas alcatroadas e
uma pele de carneiro que ele punha de noite em cima da japona.
Tinha posto tudo isso, às carreiras, na pança e mais um bocado
de pão fresco. Com a pressa não levou outra ferramenta mais
que o martelo da forja, o machado e a picareta, uma serra e
uma corda de nós armada de fateixa. Com uma escada desta ordem
e a maneira de servir dela, as subidas escabrosas tornam-se
raticáveis nos mais rudes declives.
Pode-se ver na ilha de Serk a vantagem que os pescadores do
Havre Gosselin tiram de semelhante corda.
As redes e as linhas e todo o arsenal de pescaria estavam na
barca. Po-los dentro por costume, e maquinalmente, porquanto,
tendo de tentar até o último esrorço, talvez se demorasse
algum tempo no arquipélago de cachopos, e o aparelho da
pescaria é inútil em tais sitios.
No momento em que Gilliatt abordou o escolho o mar baixava,
circunstância favorável. As vagas decrescentes descobriram, ao
pé da pequena Douvre, algumas pedras chatas ou pouco
inclinadas, à semelhança de harpéus carregando um pavimento.
Essas superficies, umas estreitas, outras largas, encadeando e
elevando-se, com espaços desiguais, ao longo do monolito
vertical, prolongava-se até debaixo da Durande, que abarcava o
espaço entre os dois rochedos. Estava apertada ali como um
tomilho.
Eram comodas aquelas plataformas para desembarcar e observar.
Podia-se desembarcar ali, provisóriamente, o carregamento da
pança. Mas era preciso apressar-se, porque elas estariam fora
da água pouco tempo. Quando a maré enchesse, ficariam outra
vez cobertas.
Foi para essas rochas, umas chatas, outras declives, que
Gilliatt impeliu e fez parar a pança.
Uma espessura de sargaço, úmida e escorregadia, cobria essas
rochas, e a obliqüidade de algumas. delas mais escorregadias
as tornava.
Gilliatt descalçou-se, saltou sobre o limo e amarrou a pança
em uma ponta do rochedo.
Depois aproximou-se o mais devagar que pode sobre a estreita
comija de granito, chegou debaixo da Durande, levantou os
olhos e contemplou-a.
A Durande estava presa, suspensa, e como que ajustada entre os
dois penedos, 20 pés acima das vagas. Era preciso que rosse
atirada ali por uma furiosa violência do mar.
Tão impetuoso empurrão não faz pasmar a gente do mar. Para
citar apenas um exemplo, a 25 de janeiro de 1840, no golfo de
Stora, uma tempestade, já expirante, fez saltar um brigue, de
um só pulo, por cima do casco naufragado da corveta La Mame e
incrustou-o, com o gurupés à frente, entre dois penedos.
Demais, nas Douvres apenas havia um resto da Durande.
0 navio arrancado às vagas foi de algum modo desenraizado da
água pelo furacão. 0 turbilhão do vento tinha-o torcido, o
turbilhão do mar tinha-o preso, e o navio, seguro em sentido
inverso pelas duas mãos da tempestade, quebrou-se como se rora
uma ripa. 0 pedaço da popa, com a máquina e as rodas,
arrebatado das águas e impelido por toda a fúria do Ciclone
para a garganta das Dotivres, lá ficou. 0 vento foi acertado;
para meter aquele casco entre os dois rochedos, o furacão
transformou-se em maça. A proa, levada e rolada pelo vento,
deslocou-se nos bancos de pedra.
0 porão, que estava arrombado, esvaziara no mar os bois,
mortos.
Um grande pedaço da amurada da proa ainda estava preso ao
casco, mas pendurado nas caixas das rodas por algumas lascas,
fáceis de quebrar com um machado.
Viam-se aqui e ali nas longínquas do escolho, barrotes,
tábuas, pedaços de vela, pedaços de correntes, todos os
destroços, tranqüilos nos rochedos.
Gilliatt contemplava com atenção a Durande. A quilha era o
teto que lhe ficava sobre a cabeça.
0 horizonte, onde a água iluminada apenas se mexia, estava
sereno. 0 sol saía esplendidamente daquela vasta massa azul.
De tempos a tempos uma gota de água destacava-se do navio e
caia no mar.


AS PERFEIÇOES DO DESASTRE

As Dotivres eram diferentes de forma como de altura.
Na pequena Douvre, recurvada e aguda, viam-se ramificar-se, da
base ao cimo, longas veias de uma rocha cor de tijolo
relativamente tenra, que fechava com as suas lâminas o
interior do granito. Nessas lâminas avermelhadas havia, de
espaço a espaço, fendas próprias para subir. Uma dessas
fendas, um pouco acima do navio, foi tão bem trabalhada pelos
arremessos do mar, que tornou-se uma espécie de nicho, onde
podia guardar-se uma estátua. 0 granito da pequena Douvre era
arredondado na superfície e macio como pedra de toque, o que
não lhe tirava a dureza que tinha. A pequena Douvre terminava
em ponta como um chifre. A grande Douvre, polida, unida, lisa,
perpendicular, e feita como por desenho, era de um só jato e
parecia feita de marfim preto. Nem um buraquinho, nem um
relevo. Trepar por ela era impossível; não podia servir nem à
fuga de um criminoso, nem ao ninho de um pássaro. No cume
havia, como no rochedo Homem, uma plataforma; era, porém,
inacessível.
Podia-se trepar pela pequena Douvre, mas não ficar lá,
podia-se ficar na grande Douvre, mas não se podia subir.
Gilliatt, depois de lançar os olhos por tudo aquilo, voltou à
pança, descarregou-a na mais larga das comijas à flor da água,
fez de todo o carregamento, aliás pequeno, uma espécie de
pacote, atou-o num pano alcatroado, depois içou-o por meio de
um cabo até um ponto da rocha onde o mar não podia chegar;
feito isto, abraçou-se à pequena Douvre e, com pés e mãos, de
fenda em fenda, trepou por ela até a Durande, que estava no
ar.
Chegando à altura das caixas das rodas, saltou dentro.
Durande apresentava todos os vestígios de um arrombamento
medonho., Era a violação tremenda da tempestade. A tempestade
comporta-se como um pirata. Nada assemelha-se mais a um
atentado que um naufrágio. Nuvens, trovão, chuva, vagas,
tufões, rochedos, horrível multidão de cúmplices é esta.

No meio daqueles destroços, pensava-se em alguma coisa
semelhante ao tripúdio furioso dos espíritos do mar. Tudo eram
vestígios de raiva. As torções estranhas de certos ferros
indicavam a ação impetuosa dos ventos. 0 convés assemelhava-se
à célula de um louco; tudo estava despedaçado.
Nenhum animal estrangula uma pedra como o ar. A água regurgita
das garras. 0 vento morde, o mar devora, a vaga é um queixo. É
um socar e um esmigalhar ao mesmo tempo. 0 oceano tem um golpe
igual à pata do leão.
0 descalabro da Durande apresentava esta particularidade: era
minucioso. Era uma espécie de terrível descascamento. Muitas
coisas pareciam feitas de propósito. Que maldade!, podia
dizer-se. As fraturas das amuradas eram feitas com arte. Este
gênero de destruição é próprio do ciclone. Retalhar e
adelgaçar tal é o capricho desse devastador enorme. 0 ciclone
usa das averiguações do carrasco. Os seus desastres parecem
suplícios. Dissera-se que algum rancor o anima; é requintado
como um selvagem. Disseca examinando. Tortura o naufrágio,
vinga-se, diverte-se; é mesquinhamente cruel.
Raros são os ciclones em nossos climas, e tanto mais terríveis
quanto que são inesperados. Um rochedo encontrado pode fazer
andar à roda a tempestade. É provável que a borrasca tivesse
feito espiral sobre as Dotivres, voltando-se súbitamente em
tromba ao choque do escolho, o que explicava o salto do navio
a tamanha altura naquelas rochas. Quando o ciclone sopra, um
navio pesa tanto como a pedra de uma funda.
A Durande tinha a chaga que fica ao homem cortado pelo meio;
era um tronco aberto deixando ver um molho de destroços
semelhante a entranhas. 0 cordoame flutuava e estremecia; as
correntes balaçavam e tiritavam; as fibras e os nervos do
navio estavam nus e pendiam no ar. 0 que não estava quebrado
estava desarticulado; a pregadura do casco assemelhava-se a
uma almofada eriçada de pregos; em tudo havia a forma de
ruína; uma barra de pé-de-cabra não era menos que um simples
pedaço de ferro; uma sonda era apenas um pedaço de chumbo; uma
driça era apenas uma ponta de cânhamo; uma talha era apenas um
fio de debrum; por toda a parte a inutilidade lamentável da
destruição; havia que não estivesse despregado, desenganchado,
rachado, roído, recurvado, aniquilado; nenhuma adesão naquele
feio montão de destroços; em tudo o deslocamento e a futura,
esse aspecto de inconsistente e líquido que caracteriza todas
as confusões, desde as refregas dos homens, que se chamam
batalhas, até as refregas dos elementos, que se chamam caos.
Tudo caía, e uma torrente de tábuas, de lonas, de ferro, de
cabos e de vigas tinha parado na grande fratura da quilha,
donde o menor choque podia precipitar tudo ao mar. 0 que
restava daquela poderosa carena tão triunfante outrora, toda
aquela parte suspensa entre as duas Douvres e talvez prestes a
cair, tudo estava roto e dilacerado,
deixando ver pelos buracos o interior sombrio do navio.
Debaixo cuspia a espuma sobre: aquela coisa miserável.


SÃ, MAS NÃO SALVA

Gilliatt não esperava achar somente metade do navio. Nas
indicações, aliás tão precisas, do capitão do Shealtiel, nada
fazia pressentir aquela divisão pelo meio. Foi talvez na
ocasião em que o navio partiu-se, debaixo da imensa espessura
da espuma, que houve aquele "estalo diabólico" ouvido pelo
capitão do Shealtiel. 0 capitão afastava-se sem dúvida no
momento do último sopro do vento, e não viu que era uma tromba
que impelia o navio. Mais tarde, aproximando-se para observar
o desastre, viu apenas a parte anterior do casco, ficando-lhe
escondido pelo rochedo o lado fraturado donde se rompera
metade do navio.
Exceto isto, o capitão do Shealtiel disse tudo exato. 0 casco
estava perdido, a máquina estava intata.
São freqüentes Estes acasos nos naufrágios como nos incendios.
Não se pode compreender a lógica do desastre.
Os mastros quebrados tinham caído; o cano nem mesmo envergou;
a grande placa de ferro que amparava o mecanismo manteve-o
intato e completo. 0 revestimento de tábuas das rodas estava
destruído como as lâminas de uma persiana; mas através das
fendas viam-se as rodas em bom estado. Apenas faltavam alguns
raios.
Além da máquina, tinha resistido o grande cabrestante da popa.
Tinha ainda a corrente, e graças ao seu robusto encaixe em um
quadro de tabuões, ainda podia prestar serviços, uma vez que
se não rompesse a prancha. 0 pedaço do casco metido entre as
Douvres estava firme, já o dissemos, e parecia sólido.
A conservação da máquina tinha um que de irrisório e
acrescentava a ironia à catástrofe. A sombria malícia do
desconhecido mostra-se, às vezes, nessas espécies de zombarias
amargas. A. máquina estava salva, o que não impedia que
estivesse perdida. 0 oceano guardava-a para demoli-la aos
poucos. Divertimento de gato.
A máquina ia agonizar e desfazer-se peça por peça. Ia diminuir
dia a dia e, por assim dizer, derreter-se. Ia servir de brinco
às selvajarias de espuma. Que fazer? Que aquele pesado montão
de mecanismos e encaixes, maciço e delicado a um tempo,
condenado à imobilidade por seu peso, entregue na solidão às
forças demolidoras, pOsto pelo cachopo à discrição do vento e
do mar, pudesse, sob a pressão daquele lugar implacável,
escapar à destruição lenta era até loucura imaginá-lo.
A Durande estava prisioneira das Dotivres.
Como tirá-la dali? Como libertá-la?
A evasão de um homem é difícil; mas que problema não é Este: a
evasão de uma máquina!


PRÉVIO EXAME LOCAL

Gilliatt estava cercado de urgencias. 0 mais urgente era achar
ancoradouro para a pança, e depois abrigo para si.
A Durande estava mais carregada a bombordo, que a estibordo,
e, por isso, a roda direita ficava mais elevada que a da
esquerda.
Gilliatt subiu à caixa das rodas da direita. Daí dominava a
parte baixa dos bancos, e embora a rede de rochas alinhadas em
ângulos por trás das Dotivres fizesse muitos cotovelos,
Gilliatt pode estudar o plano geométrico do escolho.
Começou por aí.

As Douvres, como indicamos, eram duas altas pilastras marcando
a entrada estreita de uma viela de penedos perpendiculares na
frente. Não é raro achar nas formações submarinas primitivas
esses corredores singulares feitos como que a machado.
Aquele, que era tortuoso, nunca estava a seco, mesmo nas marés
baixas. Uma corrente agitada atravessava-o sempre. A
impetuosidade do redemoinho era boa ou má, segundo o rumo do
vento reinante; ora quebrava a onda, e fazia-a cair; ora
exasperava-a. Este último caso era o mais freqüente; o
obstáculo encoleriza a vaga e leva-a aos excessos; a espuma é
a exageração da vaga.
0 vento da tempestade, naqueles estrangulamentos entre duas
rochas, sofre a mesma compressão e adquire a mesma
malignidade. 0 sopro imenso fica imenso, mas faz-se agudo. É
ao mesmo tempo maça e dardo. Fura e esmaga. Imaginai o furacão
fazendo-se vento coado.
As duas cadeias de rochedos, deixando entre si essa espécie de
rua do mar, terminavam em degraus mais baixos que as Dotivres,
gradualmente decrescentes, e mergulhavam juntas no mar a uma
certa distância. Havia aí outra foz menos elevada que as das
Dotivres, porém mais estreita ainda e que era a entrada, a
leste, daquela garganta. Adivinhava-se que o duplo
prolongamento das duas arestas de rocha continuava a rua
debaixo da água até o rochedo Homem, colocado como uma
cidadela quadrada na outra extremidade do escolho.
Nas marés baixas, e era nessa ocasião que Gilliatt observava,
as duas fileiras de bancos mostravam os seus dorsos, alguns a
seco, todos visíveis, e coordenando-se sem interrupção.
0 Homem limitava e resguardava no levante a massa inteira do
escolho, que era limitado, ao poente, pelas duas Douvres.
Todo o escolho, visto a voo de pássaro, apresentava um rosário
recurvado de rochedos, tendo em uma ponta as Douvres e na
outra o Homem.
0 escolho Dotivres, visto em seu conjunto, era apenas a
imersão de duas gigantescas lâminas de granito tocando-se
quase e caindo verticalmente, como uma crista de montes que
estão no fundo do oceano. Há, fora do abismo, essas
esfoliações imensas. A lufada e a onda tinham recortado essa
crista como uma serra. Via-se apenas o cimo, era o escolho. 0
que a onda escondia devia ser enorme. A viela onde a
tempestade tinha atirado a Durande era o centro dessas duas
lâminas colossais.
Essa viela, em ziguezague como o relâmpago, tinha quase em
todos os pontos a mesma largura. 0 oceano fe-la assim. 0
eterno tumulto produz suas regularidades estranhas. Sobe da
água uma geometria.
De um cabo a outro da garganta, as duas muralhas da rocha
faziam-se face paralelamente a urna distância que a Durande
media quase com exatidão entre as duas Dotivres; o esvazamento
da pequena Douvre, recurvada e voltada, dera lugar às caixas
das rodas. Em qualquer outro lugar as caixas ficariam
quebradas.
A dupla fachada interna do escolho era hedionda. Quando na
exploração do deserto de água chamado Oceano chega-se às
coisas ignotas do mar, torna-se tudo surpreendente e disforme.
Aquilo que Gilliatt, do alto do casco, podia ver na garganta
fazia horror. Há muitas vezes nas gargantas graníticas do
oceano uma estranha imagem permanente do naufrágio. A garganta
das rochas Douvres tinha a sua, que era assustadora. Os óxidos
da rocha davam-lhe aqui e ali umas vermelhidões imitando
placas de sangue coalhado. Era uma espécie de transudação
sangrenta de um matadouro. Havia um ar de açougue naqueles
parcéis. A rude pedra marinha, diversamente colorida, aqui
pela decomposição dos amálgamas metálicos misturados à rocha,
ali pelo bolor, ostentava vermelhidões hediondas,
esverdeamentos suspeitos, despertando uma idéia de morte e de
extermínio. Acreditava-se ver uma parede ainda não enxuta do
quarto de um assassinato. Dissera-se que eram aqueles os
vestígios de um despedento de homens; a rocha íngreme tinha um
cunho de agonias acumuladas. Em certos lugares a carnagem
parecia escorrer ainda, a muralha estava molhada e parecia
impossível apoiar o dedo sem tirá-lo sangrento. Por toda a
parte aparecia uma ferrugem de morticínio. Ao pé do duplo
declive paralelo, esparso à flor da água ou debaixo da vaga,
ou a seco nas escavações, monstruosos seixos redondos, uns
escarlates, outros negros ou roxos, tinham semelhanças de
vísceras; acreditava-se ver pulmões frescos ou fígados
pútridos. Dissera-se que ali se tinham esvaziado ventres de
gigantes. Longos fios vermelhos, que se poderiam tomar por
destilaves fúnebres, riscavam o granito de alto a baixo.
Esses aspectos são freqüentes nas cavernas do mar.


UMA PALA VRA A RESPEITO DAS COLABORAÇOES SECRETAS DOS
ELEMENTOS

A forma de um escolho não é coisa indiferente para os que, nos
riscos das viagens, podem ser condenados à habitação
temporária de um escolho no oceano.
Há o escolho pirâmide, um cimo fora da água; há o escolho
círculo, coisa semelhante a uma roda de pedras grandes; há o
escolho corredor. 0 escolho corredor é o pior de todos. Não
somente por causa da angústia das ondas entre as rochas e do
tumulto das águas apertadas, mas também por causa das
propriedades meteorológicas que parecem desprender-se do
paralelismo das duas rochas em pleno mar. As duas paredes
retas são um verdadeiro aparelho de Volta.
Orienta-se o escolho corredor, e isso é importante. Resulta
daí uma primeira ação sobre o ar e a água. 0 escolho corredor
atua na água e no vento mecânicamente, pela forma,
galvânicamente, pela atração diversa dos seus planos
verticais, massas sobrepostas e contrariadas umas pelas
outras.
Esta espécie de escolhos atrai todas as forças furiosas
esparsas no furacão, e tem sobre a borrasca uma singular força
de concentração.
Donde resulta que nas paragens desses cachopos há uma certa
acentuação da tempestade.
Cumpre saber que o vento é compósito. Acredita-se que o vento
é simples; engano. Essa força não é somente dinâmica, é
química; não é somente química, é magnética. Tem alguma coisa
que é inexplicável.
0 vento é tão elétrico como aéreo. Certos ventos coincidem com
auroras boreais. 0 vento do banco das Arguilles rola vagas de
100 pés de altura, espanto de Dumont d'Urville. "A corveta",
disse ele, "não sabia a quem havia de atender.
Debaixo das lufadas austrais, verdadeiros tumores doentios
sopram no oceano, e o mar torna-se tão horrível que os
selvagens fogem para não ve-lo.
As lufadas boreais são outras; misturam-se de pontas de gelo e
esses furacões irrespiráveis impelem para a neve os trenós dos
esquimós. Outros ventos queimam. É o simuni da África, é o
turão da China e o samiel da índia. Simuni, Tufão, Samiel;
parece que são demônios Estes nomes. Fundem o cimo das
montanhas; uma tempestade vitrificou o vulcão de Toluca. Este
vento quente, turbilhão cor de tinta atirando-se sobre as
nuvens encarnadas, fez dizer aos vedas: "Eis aí o Deus negro
que vem roubar as vacas encarnadas". Sente-se em tudo isto a
pressão do mistério elétrico.
0 vento é cheio desse mistério. Do mesmo modo o mar. Também
ele é complicado; debaixo das suas vagas de águas, que se
veem, há outras vagas de forças, que se não veem. Compõem-se
de tudo. De todas as misturas, a do oceano é a mais invisível
e a mais profunda.
Tentai conhecer esse caos, tão enorme que vai ter ao nada. É o
recipiente universal, reservatório para as fecundações,
cadinho para as transformações. Amassa, depois dispersa;
acumula, depois semeia; devora, depois produz. Recebe todos os
esgotos da terra, e aferrolha-os. E sólido no banco, líquido
na água, fluido no eflúvio. Como matéria é massa, e como força
é abstração. Iguala e consorcia os fenomenos. Simplifica-se no
infinito pela combinação. É a fOrça da mescla e da turvação
que chega à transparencia. A diversidade solúvel prende-se na
sua unidade. Tem tantos elementos diversos que é identico. Uma
das suas gâtas é todo ele. Como é cheio de tempestades,
torna-se equilíbrio. Platão via dançar esferas; coisa
estranha, mas real na colossal evolução terrestre à roda do
Sol, o oceano, com o seu fluxo e refluxo, é o pendulo do
globo.
No fenomeno do mar, todos os fenomenos estão presentes. 0 mar
é aspirado pelo turbilhão como um sifão; uma tempestade é um
corpo de bomba; o raio vem da água como do ar; nos navios
sentem-se abalos surdos, depois um cheiro de enxofre sai do
poço das correntes. 0 oceano ferve. "0 diabe pos o mar na sua
caldeira% dizia Ruyter.
Em certas tempestades que caracterizam os movimentos das
estações e as /entradas em equilíbrio das forças genesíacas,
os navios batidos de escuma parecem evaporar uma luz, e flamas
de fósforo correm pelo cordoame, tão misturadas aos cabos que
os marinheiros estendem a mão e procuram apanhar esses
pássaros de fogo. Depois do terremoto de Lisboa, um hálito de
fornalha impeliu para a cidade uma vaga de 60 pés de altura. A
oscilação oceânica liga-se ao estremecimento terrestre.
Essas energias incomensuráveis tornam possíveis todos os
cataclismos.
No fim de 1864, a 100 léguas das costas de Malabar, soçobrou
uma ilha, como se fosse um navio. Os pescadores que tinham
saído de manhã voltaram à noite e não acharam nada; apenas
puderam ver as suas aldeias debaixo da água; e desta vez foram
os barcos que assistiram ao naufrágio das casas.

Na Europa, onde parece que natureza sente-se constrangida em
respeito à civili2:ação, tais acontecimentos são raros até à
impossibilidade presuinivel.
Todavia Jersey e Guernesey fizeram parte da Gália; e, no
momento em que escrevemos, um vento equinócio acaba de demolir
na fronteira da Inglaterra e da Escócia o penedio da praia
chamado Primeiro dos Quatro, First of the Fourth.
Em parte alguma essas rorças pânicas aparecem mais
formidàvelmente amalgamadas do que no surpreendente estreito
boreal. chamado Lyse-Fiord. 0 Lyse-Fiord é o mais temível dos
escolhos-bocais do oceano. Aí a demonstração é completa. É o
mar da Noruega, a viziniliança do tremendo gOlfo Stavanger, o
59.0 grau de latitude. A água é pesada e negra com uma febre
de tempestade intermitente.
Nessa água, no meio da solidão, há uma grande rua sombria. Não
é rua para pessoa alguma. Ninguém passa ali; nenhum navio se
arrisca nesse lugar. Um corredor de 10 léguas de comprido,
entre duas muralhas de 3 000 pés de altura: eis a entrada.
Esse estreito tem cotovelos e ângulos como todas as ruas do
mar, que nunca são retas, pois que são feitas pela torção da
vaga.

No Lyse-Fiord, a vaga é quase sempre tranqüila; o céu é
sereno; lugar terrível. Onde está o vento? Não está em cima.
Onde está o trovão? Não está no céu. 0 vento está debaixo do
mar; o trovão está debaixo da rocha.
De tempos a tempos há um estremecimento debaixo da água. Em
certas horas, sem que haja uma nuvem sequer no ar, no meio da
altura do penedio vertical, a 1000 ou 1500 pés acima das
vagas, mais do lado do sul que do norte, o rochedo reboa
súbitamente, rompe daí um relâmpago, que fende o ar, e
recolhe-se logo, como esses brinquedos que se alongam e
contraem nas mãos das crianças; tem contrações e ampliações
esse relâmpago, fere a rocha oposta, entra outra vez, torna a
aparecer, recomeça, multiplica as suas cabeças e as suas
línguas, eriça-se, fere onde pode, recomeça ainda, até que se
apaga sinistramente. Fogem os bandos de pássaros. Nada é tão
misterioso como essa artilharia saindo do invisível. Um
rochedo ataca outro. Fulminain entre si os cachopos. É uma
guerra que nada tem com os homens. ódio de dois penedos no
golfào.
No Lyse-Fiord o vento torna-se eflúvio, a rochá desempenha as
funções de nuvem, e o trovão tem arrojos de vulcão. É uma
pilha aquele estranho estreito; tem por elementos as suas duas
filas de rochas.


CAVALARIÇA PARA O CAVAL0

Gilliatt era sabedor de cachopos e não tomava as Douvres ao
sério. Antes de tudo, já o dissemos, tratou ele de por a pança
em segurança.
A dupia fileira de arrecifes que se prolongava sinuosamente
por trás das Douvres fazia grupo com os outros rochedos, e
adivinhavam-se cavas e sacos saindo da viela, e prendendo-se à
garganta principal como ramos a um tronco.
A parte inferior dos escolhos estava tapetada de sargaço e a
parte superior de líquen. 0 nível uniforme do sargaço em todas
as rochas marcava a linha da flutuação da maré cheia.
As pontas que a água não atingia tinham o prateado e o dourado
que dá aos granitos marinhos o líquen branco e o líquen
amarelo.

Cobria a rocha em certos pontos uma lepra de conchas
corroídas.
Em outros pontos, nos ângulos reentrantes, onde se acumulara
uma areia fina, ondeada na superfície antes pelo vento que
pela vaga, havia tufas de cardo azul.
Nos redentes pouco batidos pela espuma, reconheciam-se as
pequenas covas furadas pelos ursos do mar. Este urso-concha,
que anda, bola viva, rolando-se nas pontas, e cuja couraça
compõe-se de mais de 10 000 peças artisticamente ajustadas e
soldadas, o urso-marinho, cuja bOca se chama, ninguém sabe por
que, lanterna de A ristóteles, cava o granito com os cinco
dentes que tem e aloja-se nos buracos. Nessas alvéolas é que
os pescadores de frutos do mar dão com ele. Cortam-no em
quatro partes e comem-no cru como ostra. Alguns metem o pão
naquela carne mole. Daí o nome de ovo do mar.
As cumeadas dos bancos descobertas pela maré que vazava iam
ter mesmo debaixo do rochedo Homem a uma espécie de angra
murada quase por todos os lados. Havia ali evidentemente um
ancoradouro possível. Gilliatt observou a angra. Tinha a forma
de uma ferradura e abria-se de um só lado, ao vento leste, que
é o menos mau daquelas paragens. 0 vento ali estava preso e
quase adormecido. Era segura aquela baiazinha. Nem Gilliatt
tinha muito onde escolher.
Se Gilliatt quisesse aproveitar a maré vazante, devia
apressar-se.
0 tempo continuava a ser magnífico. Estava de bom humor aquele
insolente mar.
Gilliatt tomou a descer, calçou os sapatos, desatou a amarra,
entrou na barca e navegou para fora. Costeava com o remo e
parte externa do cachopo.
Chegando perto do Homem, examinou a entrada da angra.
Um certo ondeado na mobilidade da água, ruga imperceptível a
qualquer que não fosse marinheiro, desenhava aquele passo.
Gilliatt estudou alguns instantes a curva, lineamento quase
indistinto na vaga, depois tomou ao largo, a fim de virar a
gosto, e entrar bem, e vivamente, de um só movimento de remo,
entrou na angra.
Sondou.

Era excelente o ancoradouro.
A pança estaria protegida ali quase contra todas as
eventualidades da estação.
Os mais temíveis arrecifes tem desses recantos traqüilos. Os
portos que se-acham nos escolhos assemelham-se à hospitalidade
do beduírio; são honestos e seguros.
Gilliatt arranjou a pança o mais perto do Homem que lhe foi
possível, em ponto que não pudesse perder-se, e pos ao mar as
duas âncoras.
Feito isto, cruzou os braços e refletiu.
A pança estava abrigada; era um problema resolvido; mas
apresentava-se o segundo. Onde abrigar-se Gílliatt?
Ofereciam-se dois pontos; o primeiro era a própria pança, com
o seu camarote mais ou menos habitável; o segundo era o cimo
do rochedo Homem, fácil de escalar.
De qualquer de!ftes dois ângulos podia-se ir a pé nas
vazantes, saltando-se de rocha em rocha, até Dotivres, onde
estava a Durande.
Mas a vazante dura apenas um momento, e no resto do tempo
ficava ele separado, ou do asilo ou da Durande, por umas 200
braças. Nadar no mar de um escolho a outro é difícil; com
qualquer -agitação é impossível.
Era preciso desistir da pança e do Homem.
Nenhuma estação possível nos rochedos vizinhos.
Os cimos inferiores desaparecem duas vezes por dia debaixo da
enchente da maré.
Os cimos superiores eram constantemente cuspidos pelos saltos
da espuma. Inóspita lavagem.
Restava o casco da Durande.
Podia-se viver ali?
Gilliatt teve essa esperança.


QUARTOPARA 0 VIAJANTE

Meia hora depois, Gilliatt, de volta à Durande, subia e descia
no interior do tombadilho ao porão, aprofundando o exame
sumário de sua pequena visita.
Com auxílio do cabrestante, tinha ele içado à Durande o pacote
que fez do carregamento da pança. 0 cabrestante
comportara-setem. Não faltava onde meter o carregamento.
Gilliatt tinha, no meio daqueles destroços, muito onde
esco1her.
Achou entre as ruinas um escopro caído sem dúvida da selha de
carpinteiro e com o qual aumentou ele a férramenta.
Além disso, como tudo serve onde não há abundância, tinha
consigo a faca.
Gilliatt trabalhou o dia no casco, limpando, consolidando,
sinIplificando.
A tardinha se conheceu isto:
Todo o casco tiritava ao vento, tremia a cada passo de
Gilliatt. Só era estável e firme a parte do casco metida entre
os rochedos, que continha a máquina e ficava poderosamente
presa ao granito.
Instalar-se na Durande era imprudente. Era sobreposse; e,
longe de dar peso ao navio, cumpria torná-lo mais leve.
Carregar sobre o casco era o contrário do que cumpria fazer.
Aquela ruína queria melhores tratos. Era uma espécie de doente
que expira. Havia bastante vento para maltratá-la.
Já era mau ter de trabalhar nela. A porção de trabalho que o
casco devia suportar naturalmente talvez o fatigasse mais do
que comportavam as suas forças.
Além disso, se sobreviesse algum acidente noturno durante o
sono de Gilliatt, estar no navio era soçobrar com ele. Nenhum
auxílio possível; tudo ficava perdido. Para socorrer o navio,
era preciso estar fora dele.
Fora dele e junto dele, tal era o problema.
Complicava-se a dificuldade.
Onde achar um abrigo em tais condições?
Gilliatt pensou.
Só restavam as duas Dotivres. Pareciam pouco habitáveis.
Via-se, debaixo, no platO superior da grande Douvre, uma
espécie de excrescencia.
As rochas em pé, com a parte superior chata, como a grande
Douvre e o Homem, são penedos decapitados, abundam nas
montanhas e no oceano. Certos rochedos, principalmente os que
se encontram em mar largo, tem entranhas como se foram árvores
golpeadas. Parecem ter recebido um golpe de machado. Com
efeito, essas rochas andam sujeitas ao vaivém do furacão, que
é o lenhador do mar.
Existem outras causas de cataclismo mais profundas ainda. Daí
vem que há tantas feridas em todos esses velhos granitos.
Alguns desses colossos tem a cabeça cortada.
Às vezes a cabeça, sem que se possa explicar, não cai e fica
mutilada, no cume do rochedo. Não é rara essa singularidade. A
Roque-au-Diable, em Guernesey, e a Table, no vale de
Annweiler, apresentam nas mais surpreendentes condições esse
estranho enigma geológico.
Provilvelmente tinha acontecido à grande Douvre alguma coisa
semelhante.
Se a intumescencia que havia no plato não era natural, era
necessàriamente algum fragmento que ficara da decapitação.
Talvez houvesse alguma escavação nesse pedaço de rocha.
Buraco para meter-se um homem; era o que Gilliatt queria.
Mas como chegar até lá? Como trepar por aquela coluna
vertical, densa e polida como um seixo, meio coberta de uns
filamentos viscosos, tendo o aspecto escorregadio de uma
superfície ensaboada?
Gilliatt tirou da caixa da ferramenta a corda de nós,
prendeu-a à cintura e pos-se a escalar a pequena Dotivre. À
proporção que ia subindo, tornava-se mais difícil a ascensão.
Esquecera-se de tirar os sapatos, o que aumentava a
dificuldade. Não sem custo chegou à ponta. Chegando à ponta,
posse de pé sobre ela. Havia apenas lugar para os pés. Fazer
disso um lugar para descansar e dormir era difícil. Um
estilita contentara-se; Gilliatt, mais exigente, queria coisa
melhor.
A pequena Dotivre curvava-se para a grande, e de longe parecia
cumprimentazla, e o intervalo das duas Dotivres, que era de
uns 20 pés embaixo, era apenas de 8 ou 10 pés em cima.
Da ponta, onde trepara, Gilliatt viu mais distintamente a
intumescencia que cobria a plaforma da grande Douvre.
Essa plataforma elevava-se urnas 3 toesas acima da cabeça
dele.
Separava-o dela um precipício.
0 declive da pequena Douvre desaparecia debaixo dele.
Gilliatt desprendeu da cintura a corda de nós, tomou
rapidamente com o olhar as dimensões e atirou a ponta da corda
sobre a plataforma.
0 gancho arranhou a rocha e resvalou. A corda de nós que tinha
o gancho na extremidade caiu aos pés de Gilliatt ao longo da
pequena Dotivre.
Gilliatt recomeçou, lançando a corda mais longe e visando a
protuberância granítica onde via buracos.
0 lanço foi tão destro e tão firme que o gancho segurou.
Gilliatt puxou.
Desprendeu-se a corda, e veio bater na coluna abaixo de
Gilliatt.
Gilliatt lançou a corda pela terceira vez.
Desta vez não caiu.
Gilliatt puxou a corda. A corda resistiu. 0 gancho estava
seguro.
Ficara seguro em alguma anfratuosidade da plataforma que
Gilliatt não podia ver.
Tratava-se de confiar a vida àquela desconhecida prisão do
gancho.
Gilliatt não hesitou.
Urgia tudo. Era preciso ir quanto antes.
Além de que, descer ao tombadilho da Durande para procurar
qualquer outro meio era coisa impossível. 0 resvalamento era
provável e a queda quase certa. Sobe-se, não se desce.
Tinha Gilliatt, como todos os bons marinheiros, movimento de
previsão. Nunca perdia força. Vinham daí os prodígios de vigor
que ele executava com muáculos ordinários; tinha as forças
comuns, mas uma grande coragem. Ao lado da força, que é
física, tinha a energia, que é moral.
Devia praticar ali um ato tremendo.
Galgar, suspenso àquele fio, o intervalo das duas Dotivres;
tal era a questão.
São freqüentes nos atos de dedicação ou de dever esses pontos
de interrogação que parecem postos pela morte.
Farás isto?, diz a sombra.
Gilliatt executou uma segunda tração de ensaio sObre: o
gancho; o gancho resistiu.
Gilliatt embrulhou a mão esquerda no lenço, apertou a corda
com a mão direita coberta pela mão esquerda, depois tendo um
pé adiante, e empurrando com o outro pé a rocha a fim de que o
vigor do impulso impedisse a rotação da corda, precipitou-se
do alto da pequena Douvre sobre a coluna da grande.
Duro foi o choque.
Apesar da precaução tomada por Gilliatt a corda volteou, e foi
o ombro dele que bateu no rochedo.
Por sua vez os punhos bateram na rocha. Desatara-se o lenço.
As mãos ficaram arranhadas; admirou que não ficassem
esmagadas.
Gilliatt conservou-se algum tempo aturdido e suspenso.
Mas ainda assim, bastante senhor de si para não largar a
corda.
Decorreu algum tempo em oscilação e sobressaltos antes que
pudesse agarrar a corda com os pés, mas conseguiu afinal.
Voltando a si e conservando a corda entre as mãos, Gilliatt
olhou para baixo.
Não se assustava a respeito do comprimento da corda que mais
de uma vez lhe servira a maiores alturas. A corda, com efeito,
arrastava na Durande.
Gilliatt, certo de poder descer, começou a trepar.
Em poucos momentos chegou ao cume.
Ninguém, a não ser os pássaros, tinha pOsto ali o pé. A
plataforma estava coberta de esterco de pássaros. Era um
trapézio irregular, lasca daquele colossal granito chamado
grande Douvre. No meio havia uma cava como uma bacia. Trabalho
das chuvas.
Gilliatt conjeturara com exatidão. Via-se no ângulo meridional
do trapézio uma superposição de rochedos, destroços prováveis
do descalabro do cimo. Esses rochedos, espécie de monte de
pedras desmedidas, deixavam lugar a um animal feroz que ali
tivesse trepado para passar. Equilibravam-se no meio da
confusão; tinham os interstícios de um montão de grabatos. Não
havia grota nem antro, mas buracos como uma esponja. Um desses
podia admitir Gilliatt.
0 fundo desse buraco era de relva e musgo. Gilliatt estaria
ali como se fosse em casa.
A alcova na entrada tinha 2 pés de altura. Estreitava-se para
o fundo. Há túmulos de pedra que tem essa forma. 0 monte de
rochedos estava encostado ao sudoeste, de modo que a casinhola
de Gilliatt ficava garantida das águas, mas aberta ao vento do
norte.
Gilliatt achou que isso era bom.
Os dois problemas estavam resolvidos, a pança tinha um porto,
ele tinha casa.
A excelencia da casa era ficar perto da Durande.
O gancho da corda tinha caído entre dois pedaços de rocha e
ficou sólidamente preso. Güliatt imobilizou-o pondo em cima
uma grossa pedra.
Depois entrou imediatamente em livre prática com a Durande.
Já estava em casa.
A grande Douvre era a casa, e Durande era a oficina.
Ir e vir, subir e descer, nada mais simples.
Atirou-se vivamente pela corda abaixo até o tombadilho.
0 dia foi bom, a coisa começava bem, Gilliatt estava
satisfeito, reparou que tinha fome.
Desatou o cesto de provisões, abriu a faca, cortou um pedaço
de carne fumada, trincou o pão de rala, bebeu um gole do
pichel de água doce e ceou admiràvelmente.
Trabalhar bem e comer bem são duas alegrias. 0 estomago cheio
assemelha-se a uma consciência satisfeita.
Acabada a ceia, ainda havia sol. Gilliatt aproveitou a
claridade para começar a aliviar o navio, que era urgente.
Tinha passado uma parte do dia a separar os destroços. Pos de
lado, no compartimento sólido, onde estava a máquina, tudo o
que podia servir, madeira, ferro, cordoame, velame. 0 que era
inútil deitou ao mar.
0 carregamento da pança, içado pelo cabrestante até o
tombadilho, era, embora sumário, um estorvo. Gilliatt viu a
espécie de nicho cavado na pequena Dotivre, a uma altura que
ele podia tocar com a mão. Veem-se muitas vezes nos rochedos
esses armários naturais, não fechados, é verdade. Pensou que
era possível confiar o depósito àquele nicho. POs no fundo as
duas caixas, a da ferramenta e a do vestuário, os dois sacos,
o centeio e o biscoito, e na frente, demasiado chegado à
borda, por não haver mais lugar, o cesto das provisões.

Teve cuidado de retirar da caixa das roupas a pele de
carneiro, a japona e as grevas alcatroadas.
Para impedir que o vento desse na corda de nós, prendeu a
ponta em uma porca da Durande.
A porca era muito curva e prendia a corda tão bem como se
fosse uma mão fechada.
Restava a parte superior da corda. Prender a extremidade de
baixo era fácil, mas no cimo da coluna, no lugar onde a corda
encontrava a borda da plataforma, era de esperar que fosse a
pouco e pouco gasta pelo ângulo do rochedo.
Gilliatt investigou o montão de destroços que reservara,
apanhou alguns pedaços de lona e alguns fios de carreta
achados entre os cabos, e meteu tudo nas algibeiras.
Qualquer marujo adivinhava logo que ele ia forrar com a lona e
os fios o pedaço da corda na altura do ângulo do rochedo, de
modo a preveni-lo de qualquer avaria.
Feita a provisão dos trapos, pos as grevas; nas pernas, vestiu
a japona, prendeu ao pescoço a pele de carneiro, e assim
vestido, com essa panóplia completa, agarrou a corda,
robustamente presa ao flanco da grande Douvre, e subiu por
aquela sombria torre do mar.
Gilliatt, apesar de ter as mãos arranhadas, chegou rápidamente
à plataforma.
Os últimos clarões do poente iam-se apagando. Fazia noite no
mar. 0 alto da Douvre conservava alguma claridade.
Gilliatt aproveitou o resto da claridade para forrar a corda.
Aplicou no cotovelo que ela fazia no rochedo uma ligadura de
muitos pedaços de vela, fortemente atada em cada pedaço. Era
pouco mais ou menos o forro que costumam por nos joelhos as
atrizes para as agonias e súplicas do 5." ato.
Terminado o forro, Gilliatt levantou-se.
Desde alguns instantes, enquanto esteve forrando a corda,
ouvia ele confusamente no ar um estremecimento singular.
Assemelhava-se, no silencio da noite, ao rumot que fizesse o
bater das asas de um morcego.
Gilliatt levantou os olhos.
Um grande círculo negro volteava-lhe por cima da cabeça no céu
profundo e alvo do crepúsculo.
Costuma-se ver, nos velhos quadros, círculos iguais sobre a
cabeça dos santos. A diferença é que são de ouro em fundo
sombrio; Este era tenebroso em fundo claro. Nada mais
estranho. Dissera-se a auréola noturna da grande Douvre.
0 círculo abaixava-se e levantava-se; estreitava-se e
alargava-se.
Eram gaivotas, goelanos, corvos, cotovias, uma nuvem de
pássaros do mar, espantados.
É provável que a grande Douvre fosse a hospedaria déles, e que
eles rossem buscar ai o repouso. Gilliatt tinha-lhes tomado um
quarto. Assustou-os o inesperado inquilino.
Nunca tinham visto esse homem ali.
Durou algum tempo aquele voar assustado.
Os pássaros pareciam esperar que Gilliatt se rosse embora.
Gilliatt, vagamente pensativo, acompanhava-os com os olhos.
0 turbilhão volante acabou por tomar uma resolução, o círculo
desfez-se em espiral, e a nuvem de pássaros foi cair do outro
lado do escolho, no rochedo Homem.
Aí pareceram consultar e deliberar. Gilliatt, estendendo-se no
seu buraco de granito, e pondo debaixo da cabeça uma pedra
como travesseiro, ouviu por muito tempo a conversa dos
pássaros, que guinchavam cada um por sua vez.
Depois calaram-se, e tudo dormiu, os pássaros em uma rocha e
Gilliatt em outra.


IMPORTUNAEQUE VOLUCRES

Gilliatt dormiu bem. Mas sentiu frio, e por isso acordou
várias vezes. Tinha naturalmente os pés colocados no fundo do
buraco, e a cabeça à borda. Não teve o cuidado de tirar
daquele leito uma porção de seixos agudos que não lhe davam
melhor sono.
De quando em quando entreabria os olhos.
Ouvia em certos instantes detonações profundas. Era o mar que
enchia e entrava nas cavas do escolho com um ruído de canhão.
Tudo ali em roda apresentava o extraordinário da visão;
Gilliatt tinha a quimera à roda de si. 0 meio espanto da noite
contribuía para que ele se visse mergulhado no impossível.
Gilliatt dizia consigo: "Estou sonhando".
Depois tornava a dormir e, sonhando então, achava-se na casa
dele, na de Lethierry, em Saint-Sampson; ouvia cantar
Déruchette; estava no real. Enquanto dormia acreditava estar
acordado e viver; quando acordava, pensava dormir.
Com efeito, era um sonho aquilo.
Lá pelo meio da noite, ouviu-se um vasto rumor no céu.
Gilliatt teve confusamente consciência disso através do sono.
Era provável que rosse o vento.
De uma vez que ele acordou, com um estremecimento de frio,
abriu as pálpebras mais do que até então. Havia largas nuvens
no zenite; a lua fugia e uma grande estrela ia atrás dela.
Gilliatt tinha o espirito cheio da difusão dos sonhos, e esse
crescimento do sonho complicava as medonhas paisagens da
noite.
De madrugada estava gelado e dormia profundamente.
A aurora tirou-o daquele sono talvez perigoso. A alcova de
Gilliatt estava em frente ao sol nascente.
Gilliatt bocejou, espreguiçou-se e levantou-se do buraco.
Dormira tão bem que não compreendeu nada.
A pouco e pouco foi-lhe voltando o sentimento da realidade, e
ele exclamou: "Almocemos!"
0 tempo estava calmo, o céu estava frio e sereno, não havia
nuvens, a vassoura da noite limpara o horizonte, o sol
levantava-se bem. Era um segundo dia bonito que começava.
Gilliatt sentiu-se alegre.
Tirou a japona, envolveu-a na pele de carneiro, atou tudo e
meteu o embrulho no fundo do buraco ao abrigo de alguma chuva
eventual. -
Depois fez a cama, isto é, pos fora os seixos agudos.
Feita a cama, deixou-se rolar ao longo da corda sobre o
tombadilho da Durande, e correu para o nicho onde pusera o
cesto de provisões.
Não achou o cesto; como estava muito à beira, o vento da noite
atirou-o ao mar.
Isto anunciava uma intenção de luta.
Era preciso que houvesse no vento uma certa vontade e inalfia
para ir buscar o cesto.

Era um começo de hostilidades. Gilliatt compreendeu isso. É
difícil, quando se vive em familiaridade com o mar, não ver no
vento e nas rochas criaturas e personagens.
Só restava a Gilliatt, além do biscoito e da farinha de
centeio, o recurso das conchas com que se alimentou o náufrago
morto de fome no rochedo Homem.
A pesca era impossível. 0 peixe, inimigo dos choques, evita os
escolhos; as redes perdem o seu tempo nos recifes; as pontas
da rocha só servem para rasgar as redes.
Gilliatt almoçou alguns mariscos que arrancou da pedra com
dificuldade, escapando-se-lhe de quebrar a faca; feito éste
guapo lanche, ouviu um estranho tumulto no mar. Olhou.
Era o bando de goelanos e gaivotas que caía sobre uma das
rochas baixas, batendo as asas, empurrando-se, gritando.
Formigavam no mesmo ponto. Aquela horda de bicos e unhas
saqueava alguma coisa.
Essa coisa era o cesto de Gilliatt.
0 cesto, lançado sobre um banco pelo vento, rasgou-se. Os
pássaros correram logo. Levaram no bico toda a espécie de
pedaços de comida. Gilliatt reconheceu de longe a sua carne
fumada e o seu stockfish.
Era a vez de entrarem também em luta os pássaros. Faziam
represálias. Gilliatt tomara-lhes a casa; eles tomavam-lhe a
comida.


0 ESCOLHO E A MANEIRA DE SE SER VIR DELE

Passou-se uma semana.
Embora fosse a estação das chuvas, não chovia, o que alegrava
Gilliatt.
Mas o que ele empreendia estava acima da força humana, em
aparencia ao menos, 0 sucesso era de tal modo inverossímil que
a tentativa parecia louca.
As operações encaradas de perto mostram os seus empecilhos e
perigos. Basta começar para ver como é difícil concluir. Todo
começo resiste. 0 primeiro passo que se dá é um revelador
inexorável. A dificuldade que se toca fere como um espinho.
Gilliatt teve logo de contar com o obstaculo.

Para salvar a máquina da Durande, para tentar com alguma
probabilidade um tal salvamento naquele lugar e naquela
estação, parecia que seria necessário uma grande porção de
homens. Gilliatt era só; precisava ter uma ferramenta completa
de carpinteiro e maquinista, e Gilliatt apenas tinha uma
serra, um machado, uma faca e um martelo; precisavá ter uma
boa oficina e um bom telheiro; Gilliatt não tinha nada disso;
precisava ter provisões e víveres. Gilliatt não tinha pão.
Alguém que, durante essa primeira semana, visse Gilliatt
trabalhando no escolho, não saberia o que pretendia ele.
Parecia não pensar nem na Durande nem nas Dotivres. Estava
ocupado com o que havia nos bancos; parecia absorto no
salvamento dos pequenos destroços do naufrágio. Aproveitava as
marés baixas, para limpar os recifes de tudo o que o naufrágio
lhes tinha dado. Andou de rocha em rocha apanhando o que o mar
aí depusera. pedaços de velam~, pedaços de corda, pedaços de
ferro, tábuas rasgadas, vergas destruídas, aqui um barrete,
ali uma corrente, além uma roldana.
Ao mesmo tempo estudava todas as anfratuosidades do escolho.
Nenhum deles era habitável, com grande decepçãó de Gilliatt,
que sentia frio denoite no buraco arranjado na grande Dotivre,
e desejaria achar melhor pousada.
Duas dessas anfratuosidades eram assaz espaçosas, posto que o
chão de rocha natural fosse quase geralmente oblíquo e
desigual, podia-se andar ali de pé. A chuva e o vento entravam
ali a gOsto, mas as altas marés não lhes chegavam. Eram
vizinhas da pequena Douvre e fáceis de trepar a qualquer hora.
Gilliatt decidiu que uma seria um depósito e a outra uma
forja.
Com todos os cabos que pode recolher fez pacotes dos restos do
naufrágio, ligando os destroços em molhos e as lonas em
embrulhos. Apertou tudo cuidadosamente. À proporção que a maré
enchente batia nesses pacotes, Gilliatt arrastavaos através
dos recifes até o depósito. Achou na cava'de uma rocha um cabo
de guindar, por meio do qual podia levantar mesmo os grossos
pedaços de madeira. Do mesmo modo arrancou ao mar os numerosos
pedaços de corrente esparsos nos escolhos.



Gilliatt era tenaz e admirável nesse trabalho. Fazia quanto
queria. Nada resiste a um encarniçamento de formiga.
No fim da semana, Gilliatt tinha nesse depósito de granito
todo o arsenal de objetos destruídos pela tempestade. Havia o
lugar dos cabos e o das escotas; as bolinas não estavam
misturadas com as driças; as bigotas estavam arranjadas
conforme a quantidade de buracos que tinham; as roldanas
estavam classificadas separadamente; as cavilhas do papa-figo,
as machadinhas, os cabos e mil outros objetos ocupavam, uma
vez que não estivessem completamente desfigurados pela avaria,
compartimentos diferentes; tudo quanto era de carpintaria
estava à parte; de cada vez que era possível, as tábuas dos
fragmentos do casco eram ajustadas umas às outras; não havia
confusão de rises com viradores, nem pateraces com enxárcias,
nem amuradas com precintas; um dos recantos era reservado à
tabuiga da Durande que apoiava os ovéns do cesto de gávea e as
gabundonas. Cada destrOço tinha o seu lugar. Todo o naufrágio
estava ali classificado e com o rótulo competente. Era uma
coisa semelhante ao caos armazenado.
Uma vela de estais, presa por pedras, cobria, aliás rOta, o
que a chuva podia estragar.
Por mais quebrada que estivesse a proa da Durande, Gilliatt
conseguiu salvar os dois cepos da âncora, com as tres rodas de
polé.
Achou o gurupes, e teve muito trabalho em desvencilhá-lo das
cordas; estavam seguras, e foram postas em tempo seco.
Gilliatt, porém, tirou-as porque o maçame podia ser-lhe útil.
Recolheu igualmente a pequena âncora que ficara pendurada em
uma cava do banco onde o mar a encalhara.
Achou no que rora camarote de Tangrouilie um pedaço de giz e
guardou-o cuidadosamente. Podia ter necessidade de fazer
algumas marcas.
Uma selha de couro para incendio e algumas tinas em bom estado
completavam a ferramenta de trabalho.
0 resto de carvão que havia na Durande foi levado para o
armazém.
Em oito dias o salvamento dos destroços estava acabado; o
escolho estava limpo e a Durande aliviada. No casco só restava
a máquina.

0 pedaço da amurada que ainda aderia ao resto não fatigava o
casco. Pendia sem peso, pois que era sustentada embaixo por
uma saliencia de pedra; demais era largo e vasto, e pesado, e
não podia ficar no armazém. Parecia uma jangada aquele pedaço
de madeira. Gilliatt deixou-o onde estava.
Gilliatt, profundamente pensativo neste labor, procurou em vão
a boneca da Durande. Era uma dessas coisas que a onda tinha
levado para sempre, Gilliatt para achá-la daria os seus dois
braços, se não precisasse tanto deles.
Na entrada do armazém, e fora, viam-se dois montes de
rebotalho, um de ferro, para fundir, outro de pau para
queimar.
Gilliatt trabalhava desde a mudrugada. Fora do tempo do sono,
não descansava nunca.
Os corvos-marinhos, voando aqui e ali, contemplavam-no a
trabalhar.


A FORJA

Feito o depósito, Gilliatt fez a forja.
A segunda anfratuosidade escolhida por Gilliatt oferecia um
reflágio, espécie de garganta, assaz profunda. Gilliatt teve a
principio a idéia de dormir aí, mas o vento, renovando-se
constantemente, era tão contínuo e teimoso nesse corredor que
ele teve de renunciar à morada. 0 vento deu-lhe idéia de fazer
a forja. Se a caverna não podia ser quarto, podia ser oficina.
Utilizar o obstáculo é um grande passo para o triunfo. 0 vento
era o inimigo de Gilliatt, Gilliatt resolveu fazer dele o seu
lacaio.
0 que se diz de certos homens: próprios para tudo, bons para
nada, pode-se dizer das cavas de rochedo. Não dão o que
oferecem. Tal cava de rochedo é uma banheira, mas deixa
escapar a água; outra é um leito de musgo, porém molhado;
outra é uma cadeira, mas de pedra.
A forja que Gilliatt queria estabelecer estava esboçada pela
natureza; mas domar esse esboço, até torná-lo apropriado, e
transformar a caverna em laboratório, nada mais áspero e
difícil. Com tres ou quatro rochas largas, abertas como funil,
e abrindo para uma fenda estreita, o acaso fizera ali um vasto
fole informe, muito melhor que os antigos foles de 14 pés de
comprimento, que davam, por cada vez, 98 000 polegadas de ar.
Aquilo era outra coisa. As proporções de operação não se
calculam.
0 excesso de força era incomodo; era difícil regularizar
aquele sopro.
A caverna tinha dois inconvenientes; o ar e a água
atravessavam de um lado para o outro.
Não era a onda, era um pequeno esgoto perpétuo, mais
semelhante a uma destilação que a uma torrente.
A espuma, continuamente lançada pela ressaca sobre o escOlho,
algumas vezes a mais de 100 pés no ar, acabara por encher de
água do mar uma bacia natural situada nas altas rochas que
dominavam a escavação. A abundância de água nesse reservatório
fazia, um pouco atrás, no declive, uma pequena queda-d'água,
de cerca de 1 polegada, caindo de 4 a 5 toesas. Ajuntava-se a
isso um contingente de chuva. De tempos a tempos uma nuvem de
passagem derramava algumas gotas naquele reservatório
inesgotável e sempre transbordando.
A água era salobra, não potável, mas limpida, embora salgada.
A queda escorria graciosamente nas extremidades dos filamentos
verdes como nas pontas de uma cabeleira.
Gilliatt pensou em servir-se dessa água para disciplinar o
vento. Por meio de um funil de dois ou tres tubos de tábuas,
arranjados à pressa, sendo um de torneira, e de uma larga tina
disposta como reservatório inferior, sem contrapeso, Gilliatt,
que era, como dissemos, um pouco ferreiro e um pouco mecânico,
conseguiu compor, para substituir o fole da forja, que não
tinha, uni aparelho menos perfeito do que aquele que se chama
hoje cagniardelle, porém menos rudimentar do que o que se
chamava outrora nos Pirineus uma trompa.
Tinha farinha de centeio, fez cola, tinha corda branca, fez
estopa. Com essa estOpa e essa cola e alguns pedacinhos de
pau, tapou ele todas as fendas do rochedo, deixando apenas um
bico, feito com um pedaço de espoleta que achou na Durande e
que servira à pedra de sinal. 0 bico ficava horizontalmente
dirigido contra uma larga pedra onde Gilliatt pos a lareira da
forja. Gilliatt fez uma rOlha para tapar o bico quando fosse
preciso.
Depois disto, Gilliatt ajuntou carvão e lenha na lareira,
arranjou a pedra de ferir fogo no próprio rochedo, fez cair a
faísca em um punhado de estopa, com a estopa acesa acendeu a
lenha e o carvão.
Experimentou o fole. Era admirável.
Gilliatt sentiu essa altivez de ciclope, senhor do ar, da água
e do fogo.
Senhor do ar, deu ao vento uma espécie de pulmão, criou no
granito um aparelho respiratório, e fez um fole; senhor da
água, da pequena caséata fez um tubo; senhor do fogo, tirou a
flama daquele rochedo inundado.
Estando a escavação quaàe toda aberta, o fumo saía livremente,
enegrecendo o rochedo. Aquele rochedo, que parecia feito para
a espuma, conheceu a ferrugem.
Gilliatt tomou por bigorna um seixo multicor oferecendo a
forma e as dimensões que se quisesse. Era uma perigosa base
para bater, e podia acontecer que rebentasse. Uma das
extremidades do seixo, arredondada, e acabando em ponta, podia
a rigor figurar de bigorna conóide, mas faltava a bigorna
piramidal. Era a antiga bigorna de pedra dos trogloditas. A
superficie polida pela água tinha a rigidez do aço.
Gilliatt lastimava não ter trazido a sua bigorna. Como
ignorava que a Durande estivesse partida pelo meio, esperava
achar toda a ferramenta de carpintaria, ordinàriamente
colocada no porão da proa. Ora, era exatamente a proa que
faltava.
As duas escavações, conquistadas no escolho por Gilliatt, eram
vizinhas uma da outra. 0 depósito e a forja comunicavam-se.
Todas as noites, acabado o trabalho, Gilliatt ceava um pedaço
de biscoito molhado em água, um ursozinho da água, ou algumas
castanhas do mar, caça única daquele rochedo, e, tiritando
como a corda, trepava para ir dormir na grande Dotivre.
A espécie de abstração em que Gilliatt vivia aumentava-se pela
materialidade das suas ocupações. A realidade era em alta
dose. 0 trabalho corporal com os seus pormenores inumeráveis
não diminuía a estupefação que sentia de acharse ali, e de
fazer o que estava fazendo. Ordiriàriamente o cansaço material
é um fio que puxa para terra; mas a própria singularidade do
trabalho empreendido por Gilliatt mantinha-o em um trabalho de
região ideal e crepuscular. Parecia-lhe às vezes estar dando
marteladas nas nuvens. Outras vezes parecia-lhe que as suas
ferramentas eram armas. Tinha o singular sentimento de um
ataque latente que ele repelia ou prevenia. Tecer maçame,
desfiar uma vela, escorar duas pranchas, era fabricar máquinas
de guerra. Os mil cuidados minuciosos deste salvamento
acabavam por assernelhar~se a precauções contra as agressões
inteligentes, mui pouco dissimuladas e muito transparentes.
Gilliatt não sabia as palavras que exprimem as idéias, mas
percebia as idéias. Sentia-se cada vez menos operário e cada
vez mais pelejador.
Entrou ali como um domador. Compreendia isso quase. Estranha
ampliação para o seu espírito.
Além disso, tinha à roda de si, a perder de vista, o imenso
sonho do trabalho perdido. Nada mais perturbador do que ver
manobrar a difusão das forças no insondável e no ilimitado.
Procuram-se os fins. 0 espaço sempre em movimento, a água
infatigável, as nuvens que parecem afadigadas, o vasto esforço
obscuro, toda essa convulsão é um problema. Que faz Este
perpétuo tremor? Que constroem Estes ventos? Que levantam
Estes abalos? Em que se ocupam os choques, os soluços, os
gritos? Que faz todo esse tumulto? 0 fluxo e refluxo dessas
questões é eternoromo a maré. Gilliatt sabia o que fazia; mas
a agitação da extensão era um enigma que o aturdia
confusamente. Sem querer, mecânicàmente, imperiosamente, por
pressão e penetração, sem outro resultado mais que uma
fascinação inconsciente e quase feroz, Gilliatt pensativo
ajuntava, ao seu trabalho, o prodigioso trabalho inútil do
mar. Na verdade, como não impressionar-se e sondar, ali à
vista, o mistério da tremenda vaga laboriosa? Como não
meditar; na proporção da meditação que se tem, a oscilação da
onda, a impetuosidade da espuma, a usura imperceptível do
rochedo, o esfalfâmento insensato dos quatro ventos? Que
terror para o pensamento não é o recomeçar perpétuo, o oceano
poço, as nuvens Danaides, todo esse trabalho para coisa
nenhuma!
Para coisa nenhuma, não; só o Ignoto o sabe!


DESCOBERTA

Um escolho próximo da costa é algumas vezes visitado pelos
homens; um escolho em mar largo, nunca. Que se iria buscar aí?
Não é uma ilha. Não se pode contar com vitualha~, nem árvores
com fruta, nem pastos, nem animais, nem fontes de água
potável. É uma nudeza numa solidão. É uma rocha, com declives
fora da água e pontas debaixo da água. Nada se encontra aí -a
não ser o naufrágio.
Essa espécie de escolhos, que a velha língua marinha chama os
Isolados, são, como dissemos, lugares estranhos. Só há o mar.
0 mar faz ali o que lhe parece. Nenhuma aparição terrestre o
perturba. 0 homem assusta o mar; o mar desconfia dele;
esconde-lhe o que é e o que faz. No escolho está seguro; lá
não vai o homem. Não será perturbado o monólogo da onda. A
água trabalha no escolho, repara-lhe as avarias, aguça-lhe as
pontas, eriça-o, conserta-o. Empreende a abertura do rochedo,
desconjunta a pedra mole, desnuda a pedra dura, tira a carne,
deixa o osso, remexe, fura, esburaca, canaliza, põe os
intestinos em comunicação, enche o escolho de células, imita a
esponja em grande, cava o interior, esculpe o exterior.
Nessa montanha, que lhe pertence, o mar faz para si antros,
santuários, palácios; tem uma vegetação hedionda e esplendida;
compõe-se de ervas flutuantes que mordem e monstros que se
enraízam-, mete na sombra da água essa horrível
magnificiencia. No escolho isolado, ninguém o espreita, nem o
incomoda; o mar desenvolve aí a gosto o seu lado misterioso e
inacessível ao homem. Depõe aí as secreções vivas e horríveis.
Acha-se ali todo o ignorado do mar.
Os promontórios, os cabos, os cachopos, os arrecifes, são
verdadeiras construções. A formação geológica é pouca coisa
comparada à formação oceânica. Os escolhos, casas de vaga,
pirâmides da espuma, pertencem à arte misteriosa que o autor
deste livro chamou algures a Arte da Natureza, e tem uma
espécie de estilo enorme. Ali o fortuito parece intencional.
Essas construções são multiformes. Tem o embaraçado do pólipo,
a sublimidade da catedral, a extravagância do pagode, a
amplidão da montanha, a delicadeza da jóia, o horror do
sepulcro. Tem alvéolos como uma colméia, latíbulos como um
pátio de bichos, túneis como um combro de toupeiras, cárceres
como uma bastilha, emboscadas como um campo. Tem portas, mas
tapadas colunas, mas truncadas, tOrres, mas inclinadas,
pontes, mas despedaçadas. Os seus compartimentos são
inextrincáveis; isto é só para os pássaros; aquilo é só para
os peixes. Não se passa. A figura arquitetural transforma-se,
desconcerta-se, afirma e nega a estática, quebra-se, detém-se,
começa em arquivolta, acaba em arquitrave; seixo sobre seixo.
Encélado é o pedreiro. Uma dinâmica extraordinária ostenta ali
os seus problemas resolvidos. Terríveis abóbadas pendentes
ameaçam cair, mas não caem. Ninguém sabe como se seguram Estes
edificios vertiginosos. Declives, lacunas, suspensões
insensatas; desconhecese a lei desse babelismo. 0 Ignoto,
imenso arquiteto, nada calcula e tudo consegue; os rochedos,
construídos confusamente, compõem um monumento monstro;
nenhuma lógica, um vasto equilíbrio. É mais do que a solidez,
é a eternidade. É a desordem ao mesmo tempo. 0 tumulto da vaga
parece ter passado no granito. Um escolho é a tempestade
petrificada. Nada mais impressível para o espírito do que essa
medonha arquitetura, sempre esboroante, sempre de pé. Tudo ali
se ajuda e se contraria. É um combate de linhas donde resulta
um edifício. Reconhece-se a colaboração dessas duas querelas,
o oceano e o furacão.
Arquitetura que tem terríveis obras-primas. 0 escolho Douvres
era uma delas.
Esse foi construído e aperfeiçoado pelo mar com um amor
formidável. Lambia-o a água rabugenta. Era hediondo, pérfido,
obscuro; cheio de cavas.
Tinha um sistema de veias que eram fendas submarinas,
ramificando-se em profundezas insondáveis. Muitos orifícios
desse rasgão inextrincável ficavam a seco nas vazantes.

Podia-se entrar, então, com risco.
Gilliatt, pela necessidade do trabalho, teve de explorar todas
essas grotas. Nenhuma delas deixava de ser ternível. Em todas
as cavas, reproduzia-se, com as dimensões exageradas do
oceano, aquele aspecto de matadouro e açougue estranhamente
imitado do centro das Dotivres. Quem não viu as escavações
desse gênero, na parede do eterno granito, esses horríveis
frescos da natureza, não pode fazer uma idéia do que é.
Eram dissimuladas essas grotas ferozes, era inconveniente
demorar-se nelas. A maré enchente invadia-as até o teto.
Abundavam os mariscos e os frutos do mar.
Estavam cheias de seixos rolados e amontoados no fundo. Muitos
pesavam mais de 1 tonelada. Eram de todas as proporções e de
todas as cores, a maior parte pareciam ensangüentados, alguns,
cobertos de filamentos peludos e viscosos, pareciam grossas
toupeiras verdes focinhando no rochedo.
Muitas dessas cavas terminavam como um forno. Outras, artérias
de uma circulação misteriosa, prolongavam-se no rochedo em
fendas tortuosas e negras. Eram as ruas do golfão. Essas
fendas estreitavam-se constantemente de modo a não deixar
passar um homem. Um brandão aceso deixava ver obscuridades
gotejantes.
Gilliatt aventurou-se uma vez numa dessas fendas. A hora da
maré prestava-sé a isso. Era um belo dia de calma e de sol.
Não havia que temer nenhum acidente do mar que pudesse
complicar o perigo.
Duas necessidades, como dissemos, levavam Gilliatt a essas
explorações: procurar os destroços úteis e achar lagostas para
comer. Já lhe faltavam conchas nas Douvres.
A fenda era estreita e a passagem quase impossível. Gilliatt
via claridade do outro lado. Fez esforço, espremeu-se como
pode e entrou até onde lhe foi possível.
Achou-se, sem pensar, no interior do rochedo da ponta do qual
Clubin atirara-se da Durande. Gilliatt estava debaixo dessa
ponta. 0 rochedo abrupto exteriormente, e inacessível, era
vazio no interior. Tinha galerias, poços e quartos como o
túmulo de um rei do Egito. Aquele dédalo era dos mais
complicados, trabalho da água, infatigável solapa do mar. As
divisões daquele subterrâneo submarino comunicavam
provàvelmente com a água imensa do exterior por mais de uma
saída, umas abertas ao nível da água, outras profundos funis
invisíveis. Perto dali, Gilliatt nem o sabia, foi que Clubin.
atirou-se ao mar.
Gilliatt, naquela fisga de crocodilos, onde na verdade não
havia medo de achá-los, serpenteava, arrastava-se, esbarrava,
curvava-se, levantava-se, perdia o pé, encontrava o chão,
avançava penosamente. A pouco e pouco alargou-se o bocal,
apareceu uma meia luz, e de repente Gilliatt entrou em uma
caverna extraordinária.


0 INTERIOR DE UM EDIFÍCIO DEBAIXO DO MAR

A luz vinha a propósito.
Um passo mais, Gilliatt estaria em uma água talvez sem fundo.
As águas das cavas tem um tal resfriamento e uma paralisia tão
súbita, que lá ficam muitas vezes os mais fortes nadadores.
Demais, não havia meio de subir e agarrar às rochas entre as
quais ficaria preso. Gilliatt parou.
A grota, donde ele saíra, ia ter a mesma saliencia estreita e
viscosa, espécie de vulcão na muralha a pique. Gilliatt
encostou-se à muralha e olhou.
Estava numa grande cava. Tinha acima de si alguma coisa
semelhante ao interior de um crânio dissecado. E parecia
dissecado de fresco. As nervuras gotejantes das estrias do
rochedo imitavam na abóbada as fibras dentadas de uma bola.
Por teto, a pedra; por assoalho, o mar; as ondas apertadas
entre as quatro paredes da grota pareciam vastos ladrilhos
flutuantes. A grota estava fechada por todos os lados. Nenhuma
trapeira, nenhum respiradouro, nenhuma fenda na parede. A luz
vinha de baixo, através da água. Era um resplendor tenebroso.
Gilliatt, cujas pupilas se dilataram durante o trajeto obscuro
do corredor, distinguia tudo naquele crepúsculo.
Conhecia, por lá ter ido mais de uma vez, as cavas de
Pleinmont em Jersey, o Croux-Maillé em Guernesey, as Boutiques
ein Jerk, assim chamadas por causa dos contrabandistas que ali
depunham as suas mercadorias; nenhum desses maravilhosos
antros era comparável ao quarto subterrâneo e submarino onde
penetrara.
Gilliatt via diante dele, debaixo da vaga, uma espécie de
arcada afogada. Essa arcada, ogiva natural, trabalhada pela
onda, era brilhante entre as suas duas colunas profundas e
negras. Era por aquele pórtico submergido que entrava na
caverna a claridade do alto-mar. Luz estranha que vinha por um
buraco na água.
Essa claridade esvazava-se debaixo da água como um largo leque
e repercutia no rochedo. Os raios retilíneos, cortados em
longas fitas negras, sobre a opacidade do fundo, clareando ou
escurecendo de uma anfratuosidade a outra, imitavam
interposições de lâminas de vidro. Havia luz, mas luz
desconhecida. Já não era a nossa luz. Podia-se crer que se
estava em outro planeta. A luz era um enigma; dissera-se o
verde clarão da pupila de uma esfinge. A cava figurava o
interior de uma cabeça enorme; a esplendida abóbada era o
crânio, e a arcada era a boca; não havia buracos dos olhos. A
boca engolindo e vomitando o fluxo e o refluxo, aberta em
pleno meio-dia exterior, bebia a luz e vomitava o amargor.
Certos entes, inteligentes e maus, assemelham-se a isto. 0
raio do sol, atravessando aquele pórtico obstruído de uma
espessura vidrenta da água do mar, tornava-se verde como um
raio de Aldebarã. A água, cheia dessa luz molhada, parecia
esmeralda em fusão. Um reflexo de água-marinha de incrível
delicadeza tingia brandamente toda a caverna.
A abóbada, com os seus lóbulos quase cerebrais e as suas
ramificações semelhantes a nervos, tinha um fraco reflexo de
crisópraso. 0 chamalote da onda, reverberado no teto,
decompunha-se e recompunha-se constantemente, alargando e
estreitando as suas rodas de ouro com um movimento de dança
misteriosa. Saia dali uma impressão espectral; o espírito
podia perguntar que presa ou que espera era aquela que fazia
tão alegremente aquele magnífico filete de fogo vivo. Nos
relevos da abóbada e nas asperidades da rocha pendiam longas e
finas vegetações banhando provàvelmente as raízes através do
granito em alguma toalha de água superior, e desbagando, nas
pontas, uma gota de água, uma pérola. Essas pérolas caíam no
golfão com um pequeno rumor. Todo esse conjunto era
inexprimível. Não se podia imaginar nada mais lindo nem mais
lúgubre. Era ali o palácio da Morte, alegre.


0 QUE SE VE E 0 QUE SE ENTREVE

Sombra que deslumbra, tal era aquele sítio surpreendente.
A palpitação do mar fazia-se sentir naquela cava. A oscilação
externa inchava e deprimia a toalha de água interior com a
regularidade de uma respiração. Cuidava-se ver uma alma
misteriosa naquele grande diafragma verde elevando-se e
abaixando-se em silencio.
A água era màgicamente límpida, e Gilliatt distinguia, em
profundezas diversas, estações imersas, superficies de rochas
de um verde carregado a mais e mais. Certas cavas obscuras
eram provàvelmente insondáveis.
Dos dois lados do pórtico submarino esboços de címbrios
abatidos, cheios de trevas, indicavam pequenas cavas laterais,
pontos inferiores da caverna central, acessíveis talvez na
época das marés extremamente baixas.
Essas anfratuosidades tinham tetos em plano inclinado, em
ângulos mais ou menos abertos. Pequenas plagas, descobertas
pelas escavações do mar, mergulhavam-se e perdiamse debaixo
dessas obliquidades.
Longas ervas espessas, de mais de 1 toesa, ondulavam debaixo
da água como um balancear de cabelos ao vento. Entreviam-se
florestas de sargaço.
Fora da água, e dentro da água, toda a muralha da cava, de
alto a baixo, desde a abóbada até ao desaparecimento no
invisível, era tapetada dessas prodigiosas florescencias do
oceano, tão raramente visíveis ao olho humano, que os velhos
navegadores espanhóis chamaram praderias del mar. Espesso
musgo, com todos os matizes da azeitona, escondia e ampliava
as exostoses de granito. De todos os declives rompiam os
delgados loros lavrados do sargaço com que os pescadores fazem
barometros. 0 hálito obscuro da caverna agitava essas correias
luzentes.
Debaixo dessas vegetações escondiam-se e mostravam-se ao mesmo
tempo as mais raras jóias do escrínio do oceano, os marfins,
as mitras, os elmos, as púrpuras, os búzios, os
estrutiolários, as conchas univalves. As campanas de lapas,
semelhantes a barracas microscópicas, aderiam ao rochedo e
grupavam-se em aldeias em cujas ruas rolavam as multivalves,
esses escarabeus da vaga. Não podendo os seixos de mariscos
entrar facilmente nessa grota, aí se refugiavam as conchas. As
conchas são grandes fidalgos que, bordados e paramentados,
evitam o rude e incivil contato do populacho das pedras. A
fúlgida reunião das conchas fazia debaixo da água, em certos
lugares, inefáveis irradiações através das quais entrevia-se
um grupo de azuis e vermelhos, e todos os reflexos da água.
Na parede da caverna, um pouco acima da linha de flutuação da
maré, uma planta magnífica e singular prendiase como um debrum
à tapeçaria do sargaço, continuava-o e terminava-o. Essa
planta, fibrosa, vasta, inextrincàvelmente dobrada, e 'quase
negra, oferecia ao olhar largas toalhas embaraçadas e
obscuras, ornadas em toda a extensão de numerosas florinhas
cOr de lápis-lazúli. Na água parecia que essas fiOres
acendiam-se, e cuidava-se ver brasas azuis. Fora da água eram
fiores, dentro da água eram safiras, de modo que a onda,
subindo e inundando o esvazamento da grota, revestia essas
plantas e cobria o rochedo de carbúriculos.
A cada enchimento da vaga túmida como um pulmão, essas ffires
banhadas resplandeciam, a cada abaixamento apagavam-se;
melancólica semelhança com o destino. Era a aspiração, que é a
vida; era a expiração, que é a morte.
Uma das maravilhas daquela caverna era a rocha. Essa rocha,
ora muralha, ora címbrio, ora pilastra, era em alguns lugares
bruta e nua, em outros trabalhada pelos mais delicados lavores
naturais. Um não sei que, aliás de espírito, misturava-se à
estupidez maciça da pedra. Que artista não é o abismo! Tal
pedaço de parede, cortado em quadro, e cheio de altos e baixos
representando atitudes, figurava um vago baixorelevo; ante
essa escultura, em que havia um tanto de nuvem, podia-se
sonhar com Prometeu esboçando para Miguel Angelo. Parecia que
com alguns toques de cinzel o genio poderia acabar o que o
gigante começara. Em outros lugares a rocha era embutida como
um broquel sarraceno ou traçada como uma florentina. Tinha
almofadas que pareciam bronze de Corinto, arabescos como uma
porta de mesquita; como uma pedra rúnica tinha sinais de unha
obscuros e improváveis. Plantas com ramos torcidos em forma de
verruma, cruzando-se no dourado do musgo, cobriam-na de
filigranas. Era um antro e um alhambra. Era o encontro da
selvaJaria e da ourivesaria na augusta e disforme arquitetura
do acaso.
0 magnífico bolor do mar aveludava os ângulos de granito. As
pedras estavam adornadas de lianas grandefloras, tão destras
que não caíam, e pareciam inteligentes tão bem adornavam elas.
Parietárias com estranhos ramalhetes mostravam os seus tufos a
propósito e com gesto. Havia aí a casquilhice possivel. numa
caverna. A surpreendente luz edenica que vinha de baixo da
água, a um tempo penumbra marinha e radiação paradislaca,
esfumava todos os lineamentos em uma espécie de difusão
visionária. Cada vaga era um prisma. 0 contorno das coisas
debaixo desses ondeamentos iriados tinha o cromatismo das
lentes de óptica demasiado convexas; espectros solares
flutuavam debaixo da água.
Acredítar-se-ia ver torcer-se nessa diafaneidade auroreal
pedaços de arco-íris afogados. Em outros lugares havia na água
um certo luar. Todos os esplendores pareciam amalgamados ali
para fazer um que de cego e de noturno. Nada mais impossível e
enigmático do que aquele fasto naquela cava. 0 que dominava
ali era o encanto. A vegetação fantástica e a estratificação
informe acordavam-se e compunham uma harmonia. Era de belo
efeito aquele consórcio de coisas medonhas. Penduravam-se as
ramificações parecendo apenas tocar de leve. Era profundo o
afago da rocha selvagem e da flor ruiva.
Pilares maciços tinham, por capitéis e por ligaduras, frágeis
e tremulas grinaldas; parecia ver-se dedos de fada fazendo
cócegas nas patas de um hipopótamo, e o rochedo sustentava a
planta e a planta abraçava o rochedo com uma graça monstruosa.
Resultava dessa deformidade misteriosamente ajustada uma
beleza soberana. As obras da natureza, não menos supremas que
as obras do genio, contem o absoluto e impõem-se. 0 inesperado
delas faz-se obedecer imperiosamente pelo espírito; sente-se
uma premeditação que fica fora do homem, e elas não são mais
surpreendentes do que quando fazem súbitamente sair o delicado
do terrível.
Aquela grota estava, por assim dizer, e se tal expressão é
admissível, sideralizada. Sentia-se ali o imprevisto do
espanto. 0 que enchia aquela cripta era luz do apocalipse. Não
havia*certeza de que aquilo existisse. Tinha-se diante dos
olhos uma realidade cheia de impossivel. Olhava-se isto,
tocava-se, presenciava-se; mas era difícil crer.
Era luz aquilo que jorrava daquela janela debaixo da água? Era
água aquilo que tremia naquela bacia obscura? Aqueles címbrios
e pórticos não eram nuvem celeste imitando uma caverna? Que
pedra era aquela que se pisava? Aquele apoio não ia
desconjuntar-se e tornar-se fumo? Que joalheria de conchas era
aquela que se entrevia? Que distância havia dali à vida, à
terra, aos homens? Que encanto era aquele misturado àquelas
trevas? Comoção inaudita, quase sagrada, à qual misturava-se a
doce inquietação das ervas no fundo da água.
Na extrernidadadè da cava, que era oblonga, debaixo de uma
arquivolta ciclópica singularmente correta, em um buraco quase
indistinto, espécie de antro no antro, espécie de tabernáculo
no santuário, atrás de uma toalha de luz verde, interposta
como um véu de templo, descobria-se fora da água uma pedra de
ângulos cortados em quadro com urna parecença de altar. A água
circundava essa pedra. Parecia que uma deusa tinha descido
dali. Era impossível deixar de pensar, debaixo daquela cripta,
em cima daquele altar, em alguma nudeza celeste eternamente
pensativa, que a entrada de um homem tinha feito fugir. Era
dirícil conceber aquela célula augusta sem uma visão dentro
dela; a aparição, evocada pelo devaneio, recompunha-se por si;
um rorejar de casta luz sobre espáduas apenas entrevistas, uma
fronte banhada de alvores, um oval de rosto olímpico, uns
misteriosos seios arredondados, uns braços pudicos, uma coma
esparsa em uma aurora, uns quadris inefáveis, modelados em luz
pálida, no meio da sagrada bruma, umas formas de ninfa, um
olhar de virgem, uma Venus saindo do mar, uma Eva saindo do
caos; tal era o sonho que forçosamente assaltava a imaginação.
Era inverossímil que não estivesse antes um fantasma naquele
lugar. Uma mulher nua, com um astro em si, devia provàvelmente
ter ocupado aquele altar. Sobre aquele pedestal, donde emanava
um extase inexprimível, imaginavase uma alvura, viva e de pé.
0 espírito criava, no meio da adoração muda daquela caverna,
uma Anfitrite; uma Tétis, alguma Diana que pudesse amar,
estátua do ideal formada de um raio e contemplando a sombra
com meiguice. Foi ela quem, ao esquivar-se, deixou na caverna
aquela claridade, espécie de perfume-luz saído daquele
corpo-estrela. A fasci~ nação daquele fantasma já não estava
ali; já se não via a figura, feita para ser vista sórnente
pelo invisível, mas sentiase; recebia-se aquele estremecimento
que é uma volúpia. A deusa estava ausente, mas a divindade
estava presente.
A beleza do antro parecia feita para aquela presença. Era por
causa dessa deidade, dessa fada dos nácares, dessa rainha das
brisas, dessa graça nascida das vagas, era por causa dela, ao
menos supunha-se isto, que o subterrâneo estava religiosamente
murado, a fim de que nada perturbasse nunca, em derredor
daquele divino fantasma, a obscuridade que é um respeito, o
silencio que é uma majestade.
Gilliatt, que era uma espécie de vidente da natureza, cismava,
confusamente comovido.
De súbito, alguns palmos abaixo dele, na transparencia
encantadora daquela água, que eram pedras preciosas
dissolvidas, Gilliatt viu alguma coisa inexpremível. Uma
espécie de longo andrajo movia-se na oscilação das vagas. Esse
andrajo não flutuava, vogava; tinha a forma de um cetro de
truão com pontas; essas pontas tinham reflexos; parecia que
uma poeira impossível de molhar-se cobria aquele todo. Era
mais que horrível, era nojento. Tinha um que de quimérico; era
um ente, a menos que não fosse uma aparencia. Parecia
dirigir-se para o obscuro da cava e mergulhava-se ali. As
espessuras da água tornaram-se sombrias sobre aquela coisa que
resvalou e desapareceu, sinistra.


LIVRO SEGUNDO

O TRABALHO



OS RECURSOS DAQUELE QUE NÃO
TEM RECURSOS

A cava não soltava facilmente quem lá ia. A entrada era pouco
comoda, a saída foi ainda pior. Gilliatt entretanto safou-se,
mas não voltou lá. Nada encontrou do que procurava, e não
tinha tempo para ser curioso.
Pos imediatamente a forja em atividade. Faltava ferramenta,
Gilliatt fábricou-a.
Tinha por combustível os destroços, a água por motor, o vento
por fole, uma pedra por bigorna, por arte o instinto, por
força a vontade.
Gilliatt entrou ardentemente nesse trabalho sombrio.
0 tempo mostrava-se complacente. Continuava belo, e o menos
equinocial possível. Chegara o mes de março, mas
tranqüilamente. Os dias tornavam-se compridos. 0 azul do céu,
a vasta doçura dos movimentos da extensão, a serenidade do
meio-dia, pareciam excluir qualquer intenção má. Alegrava-se o
mar debaixo do sol. Um afago prévio tempera as traições. A
água marinha não é avara desses afagos. Com aquela mulher é
preciso desconfiar do sorriso.
Havia pouco vento; a hidráulica soprava bem. 0 excesso do
vento tolheria em vez de ajudar.
Gilliatt tinha uma serra; fabricou uma lima; com a serra
atacou a madeira, com a lima, o metal; depois ajuntou as duas
mãos do ferreiro, uma tenaz e uma pinça: a tenaz agarra, a
pinça maneja; uma trabalha como a mão, a outra como o dedo. A
ferramenta é um organismo. A pouco e pouco Gilliatt arranjava
auxiliares, e construía as suas armaduras. Com um pedaço de
ferro em folha fez uma antepara na forja.
Um dos seus primeiros cuidados foi a separação e a reparação
das roldanas. Consertou as caixas e as rodas das polés. Cortou
a esfoliação de todos os barrotes quebrados e aplainou as
extremidades; como dissemos, tinha para as necessidades da
carpintaria grande cópia de peças de madeira armazenadas, e
aparelhadas, segundo as formas, as dimensões e as essencias, o
carvalho de um lado, o pinheiro de outro, as peças curvas,
como as porcas, separadas das peças direitas, como as que
ligam as escotilhas. Era uma reserva de pontos de apoio e
alavancas, de que podia precisar em um momento dado.
Quem quer construir um guindaste deve munir-se de traves e
polés, mas não basta isso, é preciso corda. Gilliatt restaurou
os cabos e as cordas. Estendeu as velas rasgadas, e conseguiu
extrair excelente fio com que compos uma sarja, e cerziu o
cordoame. Mas essas costuras eram sujeitas a apodrecer, era
preciso empregar as cordas e os cabos, Gilliatt apenas pode
fazer o massame sem ter alcatrão.
Consertou as cordas, consertou as correntes.
Pode, graças à ponta lateral da bigorna, fazer anéis
grosseíros, mas sólidos; com esses anéis, prendeu uns aos
outros os pedaços de correntes quebrados, e fez correntes
compridas.
Forjar só e sem auxílio é mais do que incomodo. Contudo,
Gilliatt conseguiu faze-lo. É certo que só teve de trabalhar
na forja peças de pequeno volume; podia meneá-las com uma mão
e martelar com a outra.
Cortou em pedaços as barras de ferro redondas do lugar do
comando; forjou nas duas extremidades de cada pedaço, de um
lado uma ponta, do outro uma larga cabeç~ chata, e desse modo
fez grandes pregos de palmo e meio. Esses pregos, muito usados
em trabalhos marítimos, são úteis para fixar os paus nas
pedras.
Por que motivo Gilliatt tomava todo Este trabalho? Teve de
refazer muitas vezes o fio da machadinha e os dentes da serra.
Para a serra fabricou uma lima triangular.
Servia-se também do cabrestante da Durande. Quebrou-se a
fateixa da corrente. Gilliatt fez outra.
Com ajuda da pinça e da tenaz e servindo-se da faca como de um
virador empreendeu desmontar as duas rodas do navio;
conseguiu. É preciso não esquecer que isso era exeqüível; essa
era a particularidade da construção das rodas. As caixas que
as tinham coberto serviram-lhes de capas; com as tábuas das
caixas, Gilliatt arranjou dois caixotes onde meteu peça por
peça, as duas rodas, cuidadosamente numeradas.
0 pedaço de giz serviu-lhe para essa numeração.
Arranjou os dois caixotes na parte mais sólida do convés da
Durande.
Terminados Estes preliminares, Gilliatt achou-se diante da
dificuldade suprema. Surgiu a questão da máquina.
Desmontar as rodas foi possível; desmontar a máquina, não.
Primeiramente, Gilliatt conhecia mal aquele mecanismo.
Trabalhando ao acaso, podia produzir algum desconserto
irreparável. Depois, mesmo para tentar desmontá-la peça por
peça, se tivesse esta imprudencia, eram-lhe precisas outras
ferramentas do que as que ele podia fazer numa caverna por
oficina, com o vento por fole, e uma pedra por bigorna.
Tentando desmontar a máquina arriscava-se a despedaçá-la.
Aqui podia-se crer que estava diante do impraticável.
Afigurou-se-lhe que estava ao pé deste muro: o impossível.
Que fazer?


DE QUE MODO SHAKESPEARE PODE ENCOSTRAR-SE COM ÉSQUILO

Gilliatt tinha uma idéia.
Desde aquele carpinteiro de Salbris que, no VI século, na
infância da ciencia, muito antes que Amontons tivesse achado a
primeira fricção, Lahire a segunda, e Coulomb a terceira, sem
conselho, sem guia, sem mais auxiliar que um menino, filho
dele, com uma ferramenta informe resolveu em massa, arriando o
grande relógio da igreja de Charité-surLoire, cinco ou seis
problemas de estática e de dinâmica, todos juntos, como as
rodas de carros embaraçados; desde esse trabalhador
extravagante que achou meio de, sem quebrar um fio de latão e
sem desfazer um encaixe, arriar de uma só vez, por uma
simplificação prodigiosa, do segundo -andar da torre ao
primeiro, aquela maciça gaiola de horas, toda de ferro e
cobre, grande como uma guarita, com o seu movimento,
cilindros, tambores, ganchos, mostrador, pendulo horizontal,
âncoras de escapamento, meada de corda, pesos de pedra dos
quais um pesava 500 libras, tímpano, carrilhão; desde esse
homem que fez esse milagre, e cujo nome já se não sabe, jamais
houve nada igual à empresa que Gilliatt cometia.
A operação de Gilliatt era talvez pior, isto é, mais bela
ainda que a outra.
0 peso, a delicadeza, o conjunto das dificuldades, não eram
menores na máquina da Durande que no relógio de
Charité-sur-Loire.
0 carpinteiro gótico tinha um auxiliar, o filho; Gilliatt era
só.
Havia uma população vinda de Menug-sur-Loire, de Nevers, e
mesmo de Orleans, a qual podia, em caso de necessidade, ajudar
o carpinteiro de Salbris, e animá-lo com os seus rumores
benévolos; Gilliatt só tinha à roda de si o rumor do vento e a
multidão das ondas.
Nada se compara à timidez da ignorância, a não ser a sua
temeridade. Quando a ignorância começa a ousar é que tem uma
bússola consigo. Essa bússola é a intuição da verdade, mais
clara às vezes num espírito simples que num espírito
complicado.

Tais casos, digarnO-Io de passagem, são a exceção, e tudo isto
não tira nada à ciencia, que fica sendo a regra. 0 ignorante
pode achar, só o sábio inventa.
A pança continuava a estar ancorada na angra do Homem, onde o
mar a deixava tranqüila. Gilliatt, como se sabe, arranjou tudo
de modo a ficar em livre prática com a barca. Foi ali e
mediu-a em diversos pontos. Depois voltou à Durande e mediu o
grande diâmetro da máquina. 0 grande
diâmetro, sem as rodas, bem entendido, era mais curto 2 pés
que o espaço da pança. Portanto, a máquina podia entrar na
barca. Mas como mete-la aí?



A OBRA -PRIMA DÉ GILLIA TT AJUDA A OBRA-PRIMA DE LETHIERRY

Alguns dias depois, o pescador que fosse assaz tonto para ir
peflustrar aquelas paragens, em semelhante estação, teria pago
a sua ousadia com a visão de uma coisa singular entre as
Douvres. Veria isto o pescador: quatro robustas pranchas com
espaços iguais entre si, indo de uma Douvre a outra, e como
que forçadas entre os rochedos o que é a melhor solidez dEste
mundo. Do lado da pequena Dotivre, as suas extremidades
pousavam e fincavam-se nas fendas da rocha; do lado da grande
Dotivre, essas extremidades deviam ter sido violenta mente
espetadas na coluna com um martelo por um robusto trabalhador
trepado na própria prancha. Essas pranchau eram um pouco mais
longas que o intervalo das Dotivres; daí. a segurança e o
plano inclinado em que estavam for Ignorar convida a tentar. A
ignorância é um devaneio e o mando uma ladeira. Tocavam a
grande Douvre em ângulo devaneio curioso é uma fOrça. Saber,
desconcerta às vezes, e agudo e a pequena em ângulo obtuso.
Era suave o declive, desaconselha muitas. Se Vasco da Gama
soubesse, recuaria irias desigual, o que se tornava defeito. A
essas quatro ante o cabo das Tormentas. Se Cristóvão Colombo
fosse pranchas prendiam-se quatro polés guarnecidas todas de
bom cosmógrafo, não teria descoberto a América.
A essas prendiam-se cabos que de longe pareciam fios, e por
baixo desse aparelho aéreo de guindastes e tábuas, o maciço
casco da Durande parecia suspenso a esses fios.
Ainda não estava suspensa. Perpendicularmente por baixo das
pranchas, oito aberturas foram praticadas no casco, quatro a
bombordo e quatro a estibordo da máquina, e mais oito debaixo
dessas, na carena. Os cabos desciam verticalmente, entravam no
convés, depois saíam pela carena, pelas aberturas de
estibordo, passavam por baixo da quilha e da máquina, entravam
outra vez no navio pelas aberturas de bombordo e, subindo,
atravessando o convés, voltavam a prender-se nos quatro
guindastes das pranchas, onde um guincho prendia-os e fazia um
rolo de um cabo único podendo ser dirigido por um só braço. Um
gancho e um carretel por cujo centro passava e dividia-se o
cabo único completavam o aparelho, e em caso de necessidade,
continham-no. Esta combinação obrigava as quatro polés a
trabalharem juntas, e, verdadeiro freio de forças pendentes,
leme de dinâmica na mão do pilOto da operação, mantinha a
manobra em equilíbrio. 0 ajustamento engenhoso do guincho
tinha alguma das qualidades simplificadoras do guindaste Weson
de hoje, e do antigo polipastono de Vitrúvio. Gilliatt
descobriu isso, sem conhecer Vitrúvio, quejá não existe, nem
Weson, que não existia ainda. 0 comprimento dos cabos variava
segundo o desigual declive das pranchas e corrigia um pouco a
desigualdade. As cordas eram perigosas, o massame branco podia
quebrar; era melhor empregar correntes, finas as correntes não
poderiam passar com facilidade nas polés.
Tudo isso, cheio de defeitos, mas feito por um só homem, era
surpreendente.
Demais, abreviemos a explicação. Compreender-se~á que omitimos
muitos pormenores que tornariam a coisa clara para as pessoas
do oficio, e obscura para as outras.
0 cimo do cano da máquina passava por entre as duas pranchas
do meio.
Gilliatt, sem dar por isso, plagiário inconsciente do
desconhecido, refez, a tres séculos de distância, o mecanismo
do carpinteiro de Salbris, mecanismo rudimentar e incorreto,
assustador para quem ousasse manobrá-lo.
Digamos aqui que os defeitos mais grosseiros não impedem que
um mecanismo funcione. 0 obelisco da praça de São Pedro de
Roma foi levantado contra todas as regras da estática. 0 coche
do Czar Pedro era construído de tal modo que parecia tombar a
cada passo; entretanto, andava. Quantas deformidades na
máquina de Marly. Tudo ali era mal feito. Nem por isso deixou
de dar de beber a Luís XIV.
FOsse como fosse, Gilliatt tinha confiança. Contava até com o
sucesso ao ponto de fixar na borda da pança, no dia em que lá
foi, dois pares de argolas de ferro, diante um do outro, nos
dois lados da barca, nos mesmos espaços que as quatro argolas
da Durande às quais se prendiam as quatro correntes do cano.
Gilliatt tinha evidentemente um plano muito completo e
definitivo. Tendo contra si todas as probabilidades, queria
por todas as precauções do seu lado.
Fazia coisas que pareciam inúteis, sinal de uma premeditação
atenta.
A sua maneira de proceder desafiava um observador, e mesmo um
conhecedor.
Uma pessoa que o visse, por exemplo, com esforços inauditos e
em risco de quebrar o pescoço, pregar com um martelo oito ou
dez grandes pregos que ele forjou, no esvazamento das duas
Douvres, na entrada da garganta do escolho, compreenderia
difícilmente o motivo desses pregos, e perguntaria
provàvelmente por que razão fazia todo aquele trabalho.
Se visse Gilliatt medir o pedaço da amurada da proa que ficara
pendurada, depois prender uma forte corda na borda superior
desta peça, cortar com um machado as madeiras descoladas que a
retinham, arrastá-las fora da garganta, com auxílio da maré
que descia, e enfim prender laboriosamente com a corda essa
pesada massa de tábuas e vigas, mais larga que a entrada da
garganta, aos pregos metidos na base da pequena Douvre, o
observador compreenderia menos ainda, e diria que se Gilliatt
quisesse, para facilidade da manobra, desimpedir o intervalo
das Douvres, bastava deixar cair aquele pedaço de tábuas na
maré que o levaria à flor da água. Gilliatt provàvelmente
tinha lá as suas razões.
Gilliatt, para fixar os pregos na base das Dotivres, tirava
partido de todas as fendas do granito, alargava-as quando era
preciso, e metia ao princípio tocos de paus, nos quais
introduzia depois os pregos. Emboçou a mesma preparação nas
duas rochas que se levantavam noutra extremidade do escolho,
do lado de leste; guarneceu de cavilhas de pau todos os
buracos, como se as quisesse ter prontas para receber ganchos;
mas isso pareceu ser uma simples reserva, porque Gilliatt não
meteu pregos nessas fendas. Compreende-se que, por prudencia
na sua penúria, ele não podia gastar materiais senão à
proporção que tivesse necessidade, e no momento em que a
necessidade se manifestasse. Era mais uma complicação no meio
de tantas dificuldades.
Acabado um primeiro trabalho, surgia um segundo. Gilliatt
passava sem hesitar de um a outro e dava resolutamente esse
pulo de gigante.


SUBRE

0 homem que fazia estas coisas tornara-se medonho.
Gilliatt, naquele trabalho múltiplo, gastava todas as suas
forças; difícilmente as refazia.
, Privações de uma parte, cansaço de outra. Gilliatt tinha
emagrecido. Cresceram-lhe as barbas e cabelos. Exceto uma
camisa, todas as mais estavam em frangalhos. Tinha os pés nus,
porque o vento levara-lhe um sapato, e o mar o outro. Pedaços
da bigorna rudimentar, e mui perigosa, de que se servia,
tinham-lhe feito nas mãos e nos braços pequenas chagas,
salpicos de trabalho. Essas chagas, mais esfoladuras que
feridas, eram superficiais, mas irritadas pelo ar vivo e pela
água salgada.
Tinha fome, tinha sede, tinha frio.
0 pichel de água doce estava vazio. A farinha de centeio fora
já comida ou empregada no trabalho. Restava-lhe um pouco de
biscoito.
Não tendo água para molhá-lo, Gilliatt quebrava-o com os
dentes.
Dia a dia iam-lhe escasseando as forças.
Aquele temível rochedo esgotava-lhe a vida.
Beber era uma questão; comer era uma questão; dormir era uma
questão.
Gilliatt comia quando apanhava algum marisco ou outro bichinho
do mar; bebia quando via um pássaro descer a alguma ponta da
rocha. Trepava então e achava numa cava um pouco de água doce.
Bebia depois do pássaro, às vezes ao mesmo tempo; porque as
gaivotas já estavam acostumadas a ele, e não fugiam quando ele
se aproximava. Gilliatt, mesmo na maior fome, não lhes fazia
mal. Sabemos que ele tinha a superstição dos pássaros. Os
pássaros, como os cabelos de Gilliatt estivessem eriçados e
horríveis, e a barba longa, já lhe não cobravam medo; a
mudança do aspecto tranqüilizava-os; já não viam naquilo um
homem, acreditavam-no bicho.
Os pássaros e Gilliatt eram agora bons amigos. Todos aqueles
pobres ajudavam-se uns aos outros. Enquanto Gilliatt teve
centeio, deu-lhes algumas migalhas dos bolos que fazia; agora
os pássaros indicavam-lhe em que lugar havia água.
Comia as conchas cruas; as conchas, em certa proporção, são
refrigerantes. Quanto aos caranguejos, cozia-os; não tendo
vasilha própria, cozia-os entre duas pedras abrasadas ao fogo,
como os selvagens das ilhas Feroe.
Declarou-se, entretanto, um pouco de equinócio; veio a chuva;
mas chuva hostil. Nem ondas, nem aguaceiros, mas longos
chuviscos, finos, gelados, que atravessavam-lhe a roupa até a
pele, e a pele até os ossos. Era chuva que dava pouco de beber
e molhava muito.
Avara de auxílio, pródiga de miséria, tal era aquela chuva,
indigna do céu. Gilliatt apanhou-a toda, durante uma semana,
de noite e de dia. Era uma má ação lá de cima.
De noite, no seu buraco do rochedo, só dormia por cansaço. Os
grandes mosquitos do mar iam morde-lo. Acordava coberto de
pústulas.
Tinha febre, que o sustentava; a febre é um amparo, que mata.
Mastigava, por instinto, o musgo, ou chupava as folhas de
cocleária selvagem, magras produções das fendas secas do
rochedo. Mas ocupava-se bem pouco com o sofrimento. Não tinha
tempo de distrair-se do trabalho para cuidar de si. A máquina
da Durande estava de saúde. Era o que bastava.
A cada momento, Para as necessidades do trabalho, Gilliatt
atirava-se ao mar, depois tomava pé. Entrava na água e saía,
como se passa de um quarto a outro.
As roupas já lhe não secavam. Estavam embebidas da água da
chuva que não parava, e da água do mar que não seca nunca.
Gilliatt vivia molhado.
Viver molhado é um hábito que se adquire. Os pobres grupos
irlandeses, velhos, mães, raparigas, quase nuas, crianças, que
passam o inverno debaixo de aguaceiros e neve, apertados uns
contra os outros nos ângulos das casas nas ruas de Londres,
vivem e morrem molhados.
Estar molhado e ter sede; Gilliatt suportava essa tortura
estranha. De quando em quando mordia a manga da japona.
0 fogo que ele acendia não o aquecia; o fogo no meio de um
grande espaço arejado é um meio socorro; seca-se de um lado,
umedece-se de outro.
Gfiliatt suava e tiritava.
Tudo lhe resistia em roda dele numa espécie de silencio
terrível. Ele sentia o inimigo.
As coisas tem um soinbrio Non possumus.
A inércia delas é uma lúgubre advertencia.
Imensa má vontade cercava Gilliatt. Estava cheio de
queimaduras e tinha arrepios de frio. Queimava-o o fogo,
gelavao a água, a sede causava-lhe febre, o vento rasgava-lhe
a roupa, a fome minava-lhe o estomago. Ele suportava a
opressão em um conjunto fatigante.-O obstáculo, tranqüilo,
vasto, tendo a irresponsabil idade aparente da fatalidade, mas
cheio de uma unanimidade feroz, convergia de todas as partes
sobre Gilliatt. Gilliatt sentia-o apoiado inexoràvelmente
sobre ele. Nenhum meio de escapar-lhe. Era quase uma entidade.
Gilliatt tinha a consciência de um desprezo sombrio e de um
ódio que fazia esforço por diminuí-lo. Dependia dele fugir,
mas, pois que ficava, tinha de lutar com hostilidade
impenetrável. Não -podendo po-lo fora dali, punham-no debaixo
dos pés. Quem? 0 Ignoto. Apertavam-no, comprimiam-no,
tiravam-lhe lugar e alento. Estava abatido pelo invisível.
Cada dia, a misteriosa verruma entrava um
pedaço.
A situação de Gilliatt naquele medonho lugar assemelhava-se a
um duelo equívoco com um traidor.
Cercava-o a coalizão das forças obscuras. Ele sentia uma
resolução de alguém para expulsá-lo dali. É assim que a
geleira expele a massa errática.
Quase sem parecer que o tocava, essa coalizão latente punha-o
em farrapos, cheio de sangue, falho de recursos, e, por assim
dizer, fora de combate antes do combate. Nem- por isso deixava
ele de trabalhar, e sem cessar, mas, à proporção que a obra se
fazia, ia-se desfazendo o operário. Dissera-se que aquela
feroz natureza, receando a.alma, resolvera-se a extenuar o
homem. Gilliatt afrontava, e esperava. 0 abismo começava por
cansá-lo. Que faria depois o abismo? ,
A dupla Dotivres, dragão de granito e emboscado em pleno mar,
admitira Gilliatt. Deixou-o entrar e trabalhar. A admissão
assemelhava-se à hospitalidade de um sorvedouro aberto.
0 deserto, a extensão, o espaço onde há para o homem tantos
recursos, a inclemencia muda dos fenomenos seguindo o seu
curso, a grande lei geral implacável e passiva, o fluxo e o
refluxo, o escolho, pleiada negra onde cada ponto é uma
estrela de turbilhões, centro de uma irradiação de correntes,
a conspiração da indiferença das coisas contra a tenacidade de
um ente, o inverno, as nuvens, o mar sitiante, cercavam
Gilliatt, apertavam-no lentamente, fechavam-se sobre ele, e o
separavam dos vivos, como um cárcere que fosse subindo à roda
de um homem. Tudo contra ele, nada a favor dele; estava
isolado, abandonado, minado, esquecido.
Gilliatt- tinha esgotado as provisões, as ferramentas já
estavam usadas, a sede e a fome de dia, o frio de noite,
feridas e andrajos, vestidos rotos cobrindo supurações,
buracos nas roupas e na carne, mãos dilaceradas, pés
sangrentos, membros magros, rosto lívido, uma flama nos olhos.
Flama soberba essa, era a vontade visível. 0 Olho do homem é
feito de modo que se lhe ve por ele a virtude. A nossa pupila
diz que quantidade de homens há dentro de nós. Afirmamo-nos
pela luz que fica debaixo da sobrancelha. As pequenas
consciências piscam o Olho, as grandes lançam raios. Se não há
nada que brilhe debaixo da pálpebra, é que nada há que pense
no cérebro, é que nada há que ame no coração. Quem ama quer, e
aquele que quer relampeja e cintila. A resolução enche os
olhos de fogo; admirável fogo que se compõe da combustão de
pensamentos tímidos.
Os teimosos são os sublimes. Quem é apenas bravo tem só um
assomo, quem é apenas valente tem só um temperamento, quem é
apenas corajoso tem só uma virtude; o obstinado na verdade tem
a grandeza. Quase todo o segredo dos grandes corações está
nesta palavra: perseverando. A perseverança está para a
coragem corno a roda para a alavanca; é a renovação perpétua
do ponto de apoio. Esteja na terra ou no céu o alvo da
vontade, a questão é ir a esse alvo; no primeiro caso, é
Colombo, no segundo caso, é Jesus. Insensata é a cruz; vem daí
a sua glória. Não deixar discutir a consciência, nem desarmar
a vontade, é assim que se obtem o sofrimento e o triunfo. Na
ordem dos fatos morais o cair não exclui o pairar. Da queda
sai a ascensão. Os medíocres deixam-se perder pelo obstáculo
especioso; não assim os fortes. Parecer é o talvez dos fortes,
conquistar é a certeza deles. Podes dar a Estevão todas as
boas razões para que ele não se faça apedrejar. 0 desdém das
objeções razoáveis cria a sublime vitória vencida que se chama
o martírio.
Todos os esforços de Gilliatt pareciam agarrados ao
impossível, o exito era mesquinho ou lento, e cumpria gastar
muito para obter pouco; isso é que o fazia magnânimo, isso é
que o fazia patético.
Que para fazer um andaime de quatro pranchas acima de um navio
naufragado, para cortar nesse navio a parte que se podia
salvar, para ajustar a esse resto dos restos quatro guindastes
com os seus cabos, fossem precisos tantos preparativos, tantos
trabalhos, tantas apalpadelas, tantas noites mal dormidas,
tantos dias afadigados, essa era a miséria do trabalho
solitário. Fatalidade na causa, necessidade no efeito.
Gilliatt fez mais do que aceitar essa miséria; qui-la. Temendo
um concorrente, porque um concorrente poderia ser um rival,
não procurou auxiliar. A esmagadora empresa, o risco, o
perigo, o trabalho multiplicado por si mesmo, o engolímento
possível do salvador no salvamento, a fome, a febre, a nudez,
o abandono, tudo isso tomou éle para si só. Teve Este egoísmo.
Gilliatt estava debaixo de uma espécie de máquina pneumática.
A vitalidade ia-se retirando dele a pouco e pouco. E ele mal o
sentia.
A perda das forças não esgota a vontade. Crer é apenas a
segunda potencia; a primeira é querer; as montanhas
proverbiais que a fé transporta nada valem ao lado do que a
vonta de produz. 0 que Gilliatt perdia em vigor reavia em
tenacidade. A diminuição do homem fisico debaixo da ação
repelente daquela natureza selvagem produzia o engrandecimento
do homem moral.
Gilliatt não sentia a fadiga, ou, para melhor dizer, não
consentia nela. 0 consentimento da alma recusado ao
desfalecimento do corpo é uma rorça imensa.
Gilliatt via os progressos do trabalho, e não via nada mais.
Era miserável sem sabe-lo. 0 seu alvo, que ele tocava quase,
alucinava-o, sofria todos os sofrimentos sem ter outra idéia
que não fosse esta: Avante! A sua obra subia-lhe à cabeça.
Vontade embriagada. 0 homem pode embriagar-se corri a própria
alma. Essa embriaguez chama-se heroismo.
Gilliatt era uma espécie de Jó do Oceano.
Mas um Jó que lutava, um Jó que combatia e afrontava os
flagelos, um Jó que conquistava, e se tais palavras não são
demasiado grandes para um pobre marinheiro pescador de
caranguejos e de lagostas, um Jó Prometeu.

SUB UMBRA

Às vezes, alta noite, Gilliatt abria os olhos e olhava para a
sombra.
Sentia-se comovido. Olhar aberto sobre trevas. Situação
lúgubre; ansiedade.Existe a pressão da sombra.
Inexprinível teto de tenebras; alta obscuridade sem
mergulhador possível; luz mesclada à obscuridade, mas uma luz
vencida e sombria; claridade reduzida a pó; é semente? é
cinza? milhões de fachos, claridade nula; vasta ignição que
não diz o seu segredo, uma difusão de fogo em poeira que
parece um bando de faíscas paradas, a desordem do turbilhão e
a imobilidade do sepulcro, o problema oferecendo uma abertura
de precipício, o enigma desvendando e escondendo a sua face, o
infinito mascarado com a escuridão, eis a noite. Pesa no homem
esta superposição.
Esse amálgama de todos os mistérios a um tempo, do mistério
cósmico e do mistério fatal, abate a cabeça humana.
A pressão da sombra atua em sentido inverso nas diferentes
espécies de almas. 0 homem, diante da noite, reconhecesse
incompleto. Vê a obscuridade e sente a enfermidade. 0 céu
negro é o homem cego. Entretanto, com a noite, o homem
abate-se, ajoelha-se, prosterna-se, roja-se, arrasta-se para
um buraco, ou procura asas. Quase sempre quer fugir a essa
presença informe do desconhecido.
Pergunta o que é; treme, curva-se, ignora; às vezes quer ir
lá.
Aonde?
Lá.
Lá? 0 que é? Que há lá?
Essa curiosidade é evidentemente a das coisas defesas, porque
para aquele lado todas as pontes à roda do homem estão
cortadas. Mas o desejo atrai, porque é golfão. Onde não vai o
pé, vai o olhar, onde o olhar pára, pode continuar o espírito.
Não há homem que não tente, por mais fraco e insuficiente que
seja. 0 homem, segundo a sua natureza, investiga ou espera
diante da noite. Para uns é um rechaçamento, para outros é uma
dilatação. 0 espetáculo 8 sombrio. Mescla-se a ele o
indefinível.
Vai a noite serena? É um fundo de sombra. Vai tempestuosa? É
um fundo de fumaça. 0 ilimitado recusa-se e oferece-se ao
mesmo tempo, fechado à experiência, aberto à conjetura.
Infinitas picadas de luz tomam mais negra a obscuridade sem
fundo. Carbúnculos, cintilações, astros. Presenças verificadas
no Ignorado; tremendos reptos para ir tocar esses clarões. São
estacas da criação no absoluto; são marcos de distância lá
onde já não há distância; é uma espécie de numeração
impossível, e todavia real, do canal das profundezas. Um ponto
microscópico que fulge, depois outro, mais outro; mais outro;
é o imperceptível, é o enorme. Essa luz é um foco, esse foco é
uma estrela, essa estrela é um sol, esse sol é um universo,
esse universo é nada. Todo o número é zero diante do infinito.
Esses universos, que nada são, existem. Verificando-os,
sente-se a diferença que vai entre ser nada, e não ser.
0 inacessível ligado ao inexplicável, eis o céu.
Dessa contemplação solta-se um fenomeno sublime: o crescimento
da alma pelo assombro.
0 medo sagrado é próprio do homem; a besta ignora esse medo. A
inteligencia acha nesse terror augusto o seu eclipse e a sua
prova.
A sombra é una: vem daí o seu horror. É, ao mesmo tempo,
complexa: vem daí o terror. A sua unidade pesa no nosso
espírito e saca-lhe a vontade de resistir.
A complexidade faz com que se olhe para todos os lados; parece
que se devem recear assaltos súbitos. 0 homem rendese e
defende-se. Fica em presença de Tudo, daí vem a submissão, e
de Muitos, daí vem a desconfiança. A unidade da sombra contém
um múltiplo. Múltiplo misterioso, visível na matéria, sensível
no pensamento. Faz silencio, razão de mais para espreitar.
A noite - já o disse algures quem escreve estas linhas é o
estado próprio, normal da criação especial de que fazemos
parte. 0 dia, breve na duração como no espaço, é apenas uma
proximidade de estrela.
0 prodígio noturno universal não se realiza sem atritos, e os
atritos de uma tal máquina são as contusões da vida. Os
atritos da máquina, é o que chamamos o Mal. Sentimos nessa
obscuridade o mal, desmentido latente da ordem divina,
blasfemia implícita do fato rebelde ao ideal. 0 mal acrescenta
uma teratologia de mil cabeças ao vasto conjunto cósmico. 0
mal está presente em tudo para protestar. É furacão e
atormenta a marcha de um navio, é caos e entrava o desabrochar
de um mundo. 0 Bem tem a unidade, o Mal tem a ubiqüidade. 0
mal desconcerta a vida, que é uma lógica. Faz devorar a mosca
pelo pássaro, e o planeta pelo cometa. 0 mal é um borrão na
natureza.
A obscuridade noturna peja-se de uma vertigem. Quem a
aprofunda, submerge-se e debate-se. Não há lugar definitivo
para pousar o espírito. Pontos de partida sem ponto de
chegada. 0 cruzamento das soluções contraditórias, todos os
ramos da dúvida a um tempo, a ramificação dos fenomenos
esfoliando-se sem limite sob uma
impulsão indefinida, mistura de todas as leis, uma
promíscuidade insondável que faz com que a mineralização
vegete, com que a vegetação viva, com que o pensamento pese,
com que o amor irradie e a gravitação ame; a imensa frente de
ataque de todas as questões desenvolvendo-se na obscuridade
sem limites; o entrevisto esboçando o ignorado; a
simultaneidade cósmica em plena aparição, não para o olhar,
mas
para a inteligencia, no espaço indistinto; o invisível tornado
visão. É a sombra. 0 homem está embaixo. Não conhece os
pormenores, mas suporta, em qualidade proporcionada ao seu
espírito, o peso monstruoso do conjunto. Esta obsessão
impelia os pasáres caldeus à astronomia. Saem dos poros da
criação revelações involuntárias; faz-se por si mesma uma
transudaçào de cien`cia e invade o ignorante. Debaixo dessa
impregnação misteriosa toma-se o solitário, muitas vezes sem
ter consciência, um filósofo natural.
A obscuridade é indivisível. É habitada. Habitada sem
deslocação pelo absurdo; habitada também com deslocação.
Move-se ali dentro alguma coisa, o que é para assustar. Uma
formação sagrada desenvolve ali as suas fases. Premeditações,
potências, destinos intencionais laboram, aí em comum uma obra
desmedida. Vida terrível e horrível é o que existe ali dentro.
Há vastas evoluções de astros, a família estelar, a família
planetária, o pólen zodiacal, o Quid divinum das correntes,
dos eflúvios, das polarizações e das alterações; há o amplexo
e o antagonismo, um magnífico fluxo e refluxo da antítese
universal, o imponderável em liberdade no meio dos centros; há
a seiva nos globos, a luz fora dos globos, o átomo errante, o
germe esparso, curvas de fecundação, encontros de ajuntamento
e de combate, profusões inauditas, distâncias que parecem
sonhos, circulações vertiginosas, mergulhos de mundos no
incalculável, prodígios perseguindo-se nas trevas, um
maquinismo definitivo, sopro de esferas em fuga, rodas que se
sente andarem; é inexpugnável, fora de alcance. Fica-se
convencido até à opressão. Tem-se em si uma evidencia negra.
Nada se pode agarrar. Esmaga-nos o impalpável.
Por toda a parte o incompreensível: em parte alguma o
inteligível. E a tudo isto acrescentai a terrível questão:
esta Imanência é um Ser? Está-se debaixo da sombra. Olha-se.
Escuta-se. Entretanto a terra sombria caminha e rola, as
flores tem consciência desse movimento enorme; a silena
abre-se às 11 horas da noite e o hernerocale às 5 horas da
manhã. Impressível regularidade.
Em outras profundidades a gota de água faz-se mundo, o
infusório pulula, a fecundidade gigante sai do animálculo, o
imperceptível ostenta a sua grandeza, o sentido inverso da
imensidade manifesta-se; uma diatoméia produz em uma hora 1
milhar e 300 milhões de diatoméias.
Que proposição de todos os enigmas ao mesmo tempo! Está aí o
irredutível.
Constrange-se-nos à fé. Crer por força, eis o resultado. Mas
para estar tranqüilo não basta ter fé. A fé tem uma estranha
necessidade de forma. Daí vem as religiões. Nada é tão
opressivo como urna crença sem delineamento.
Qualquer que seja o pensamento e a vontade, qualquer que seja
a resistência interior, olhar a sombra não é olhar, é
contemplar.
Que fazer desses fenômenos? Como mover-se debaixo de sua
convergência? É impossível decompor esta pressão. Que devaneio
se deve ajuntar a todos esses confinantes misteriosos? Quantas
revelações abstrusas, simultâneas, obscurecendo-se em sua
própria multidão, espécie de balbuciar do verbo! A sombra é um
silencio; mas esse silencio diz tudo. Surge majestosamente um
resultado: Deus. Deus é a noção incompreensível. Essa noção
está no homem. Os silogismos, as querelas, as negações, os
sistemas, as religiões passam por cima sem diminuí-la. A
sombra inteira afirma aquela noção. Mas turva-se tudo o mais.
A inexprimível harmonia das forças manifesta-se pelo
equilíbrio dessa obscuridade. 0 universo pende; nada tomba.

0 deslocamento incessante e desmedido opera-se sem acidente e
sem fratura. 0 homem participa deste movimento de translação e
à quantidade de oscilação que suporta chama ele destino. Onde
começa o destino? Onde acaba a natureza? Que diferença há
entre um acontecimento e uma estação, entre um pesar e urna
chuva, entre uma virtude e uma estrela? -Uma hora não é uma
onda? Continua o movimento da roda, sem responder ao homem, em
sua revolução impassível. 0 céu estrelado é uma visão de
rodas, de pendulas e de contrapesos. É a contemplação suprema
forrada da suprema meditação. É toda a realidade e mais a
abstração. Nada além daí. 0 homem sente-se preso. Fica à
discrição da sombra. Não há evasão possível. Ve-se ele naquele
composto de rodas, é parte integrante de um Todo ignorado,
sente o desconhecido que está fora dele. Isto é o anúncio
sublime da morte. Que angústia e, ao mesmo tempo, que
fascinação! Aderir ao infinito e por essa aderência
atribuir-se uma imortalidade necessária, quem sabe? Uma
eternidade possível sentir na prodigiosa vaga desse silencio
universal a obstinação insubmersível do eu! Contemplar os
astros e dizer: Sou uma alma como vós!" Contemplar a
obscuridade e dizer: "Sou um abismo como tudo.
Essas enormidades são a noite. Tudo isso aumentado, pela
solidão, pesava em Gilliatt. Compreendia-o ele? Não. Sentia-o?
Sim.
Gilliatt era um grande espírito turvado e um grande coração
selvagem.


GILLIATT COLOCA A PANÇA EM POSIÇÃO

0 salvamento da máquina, meditado por Gilliatt, era, como
dissemos, uma verdadeira evasão e são conhecidas as pacientais
da evasão. Também se conhecem as suas indústrias. A indústria
chega ao milagre; a paciência atinge a agonia. Tal
prisioneiro, Thomas, por exemplo, no monte São Míguel, achou
meio de esconder metade de uma parede dentro da palha em que
dormia. Outro, em Tulle, em 1820, cortou chumbo na Plataforma
de passeio da prisão, não se sabe com que faca, fundiu-o não
se sabe com que fogo, vazou-o numa forma feita de migalhas de
pão; com esse chumbo e essa forma fez urna chave e com essa
chave abriu unia fechadura que ele apenas conhecia por ter-lhe
visto o buraco. Gilliatt tinha essas habilidades inauditas.
Era capaz de subir e descer o penedio Boisrosé. Era o Trenk de
um destroço e o Latude de uma máquina.
0 mar, que era o carcereiro, vigiava-o.
Demais, por ingrata e má que fosse a chuva, Gilliatt
aproveitou-a. Refez com ela a sua provisão de água doce; mas a
sede era inextinguível e Gilliatt esvaziava o pincel quase tão
ràpidamente como o enchia.
Um dia, o último de abril, creio, ou o 1? de maio, tudo estava
pronto. 0 assoalho da máquina estava como que meti-
do entre os oito cabos das polés, quatro de um lado, quatro de
outro. As dezesseis aberturas, por onde passavam esses cabos,
estavam ligadas ao tombadilho e à carena. A madeira foi
cortada com o machado, o ferro com a lima, o forro com a faca
e o resto com a serra. A parte da quilha onde estava a máquina
foi cortada em quadro e estava pronta para resvalar com a
máquina sustentando-a. Todo esse grupo assustador só estava
preso por urna corrente, a qual dependia só de um golpe de
lima. Tão perto do remate, a pressa era prudência.

A maré estava baixa, o momento era bom. Gilliatt tinha
conseguido desmontar a árvore das rodas, cujas extremidades
podiam fazer obstáculo e impedir aquele levantar de âncora.
Tinha conseguido amarrar verticalmente a pesada peça na
própria máquina.
Era tempo de acabar. Gilliatt, como dissemos, não estava
cansado porque não queria, mas as suas ferramentas estavam. A
forja tornava-se impossível a pouco e pouco. A pedra que
servia de bigorna tinha-se quebrado. 0 fole começava a
trabalhar mal. Corno a pequena queda hidráulica era de água
marinha, formaram-se depósitos salinos nas junturas do
aparelho e impediam-lhe o jogo. Gilliatt foi à angra do Homem,
passou revista à pança, assegurou-se de que tudo estava bom,
particularmente as quatro argolas pregadas a bombordo e
estibordo, levantou a âncora e remando voltou com a pança às
duas Dotivres.
0 intervalo das Douvres podia admitir a pança. Havia bastante
fundo e bastante largura. Gilliatt reconheceu, desde o
primeiro dia, que podia-se levar a pança até debaixo da
Durande.

A manobra era contudo excessiva, exigia uma precisão de
joalheiro e esta inserção do barco no escolho era tanto mais
delicada quanto que, para o que Gilliatt queria fazer, era
necessário entrar pela popa com o leme na proa. Era necessário
que o mastro e os aparelhos da pança ficassem aquém do casco
do vapor, do lado da entrada.
Este agravo na manobra tornou a operação difícil ao próprio
Gilliatt. Já não era, como na angra do Homem, uma questão de
movimento de leme; era preciso ao mesmo tempo entrar, puxar,
remar e sondar. Gilliatt empregou nisso nada menos de um
quarto de hora, mas conseguiu.
Em quinze ou vinte minutos a pança ficou colocada debaixo da
Durande. Ficou quase atravessada. Gilliatt, por meio de duas
âncoras, segurou a pança. A maior ficou colocada de modo a
trabalhar com o vento mais forte, que era o vento de
oeste, depois, por meio de uma alavanca e de um cabrestante,
Gilliatt passou para a pança as duas caixas, contendo as rodas
desmontadas, cujos cabos de guindar estavam prontos. As duas
caixas fizeram lastro.
Desembaraçado das duas caixas, Gilliatt prendeu ao gancho da
corrente do cabrestante o cabo regulador destinado a conter os
guindastes.
Para a obra de Gilliatt os defeitos da pança tornavam-se
qualidades; não tinha coberta, o carregamento achava mais
fundo e podia pousar no porão. Era mastreada na proa, muito na
proa talvez, o carregamento achava mais facilidade e,0 mastro
ficava fora da máquina, de modo que nada impedia a
saída; era uma espécie de concha, e nada mais estável e sóli~
do no mar como uma concha.
De repente Gilliatt viu que a maré enchia. Trarou de ver donde
soprava o vento.


SURGE UM PERIGO


Havia pouca brisa, mas vinha do oeste. É um mau costume do
vento no equinócio.
A maré enchente, conforme o vento que sopra, comportase
diversamente no escolho Douvres. Conforme o vento, a onda
entra naquele corredor ou por leste ou por oeste. Se o mar
entra por leste a água é boa e mole, se entra por oeste é
furiosa. A razão disto é que o vento de leste, vindo de terra,
tem pouco alento, enquanto que o vento de oeste, que atravessa
o Atlântico, traz consigo o sopro da imensidade. Mesmo quando
a brisa é fraca assusta quando vem do oeste. Rola largas ondas
da extensão"ilimitada e cospe grossas vagas no estreito.
A água que se engolfa é sempre terrível. A água é como a
multidão; uma multidão é um líquido; quando a quantidade que
pode entrar é menor que a quantidade que deseja entrar, a
multidão machuca-se e a* água convulsiona-se. Enquanto sopra o
vento do poente, ainda a mais fraca brisa, há nas Dotivres
Este assalto duas vezes por dia. A maré levanta-se, a rocha
resiste, a abertura é pequena, a onda entrando à força, salta
e ruge, e um marulho enraivecido bate as duas fachadas
internas da viela. De modo que as Dotivres, ao menor vento do
oeste, oferecem Este espetáculo singular: no mar, calma, no
escolho, tempestade. Esse tumulto local e circunscrito não é
uma tormenta; é apenas uma revolta de vagas, mas terrível.
Quanto aos ventos do norte e do sul, esses fazem pouca ressaca
na garganta do escolho. A entrada por leste, é preciso
lembrá-lo, confina com o rochedo Homem; a abertura temível do
oeste fica na extremidade oposta exatamente entre as duas
Dotivres.
Nessa abertura de oeste é que se achava Gilliatt com a Durande
naufragada e a pança ancorada.
Parecia inevitável uma catástrofe, esta catástrofe iminente
tinha embora pouco, o vento de que precisava.
Dentro de poucas horas o inchamento do mar que subia, ia
naturalmente entrar em grande luta, no estreito das Dotivres.
As primeiras vagas já começavam a rugir. Inchamento esse,
refluxo impetuoso de todo o Atlântico que teria atrás de si a
totalidade do mar. Nenhuma borrasca, nenhuma cólera; mas uma
simples onda soberana, contendo em si uma força de impulsão
que, partindo da América par a chegar à Europa, tinha 2 000
léguas de jato. Essa onda, barra gigantesca do oceano,
encontraria o hiato do escolho, e, apertada nas duas Dotivres,
tOrres de entrada, pilares do estreito, inchada pela maré,
inchada pelo obstáculo, repelida pelo rochedo, castigada pelo
vento, faria violência ao escolho, penetraria, com todas as
torções do obstáculo encontrado, e todos os frenesis da vaga
entravada, entre as duas muralhas, encontraria a pança e a
Durande, e as estrangularia.
Era preciso um broquel contra essa eventualidade. Gilliatt
tinha-o.
Cumpria impedir que a maré entrasse toda, impedir que
esbarrasse embora enchesse, tapar-lhe a passagem sem
recusar-lhe a entrada, resistir-lhe e ceder-lhe, prevenir a
compressão da onda na boca do rochedo, que era o perigo,
substituir a irrupção pela introdução, conter a raiva e a
brutalidade da vaga, obrigar aquela fúria a ser tranqüila. Era
preciso substituir ao obstáculo que irrita, o obstáculo que
aplaca.
Gilliatt, com a destreza que tinha, mais forte que a força,
executando uma manobra de cabrito-montes na montanha ou de
macaco na floresta, utilizando com saltos oscilantes e
vertiginosos a menor saliencia de pedra, pulando na água,
nadando nos redemoinhos, trepando ao rochedo, com uma corda
nos dentes, um martelo na mão, desatou o cabo que prendia à
pequena Douvre o pedaço da amurada de proa da Durande, fez com
as pontas da maroma uma espécie de gonzos prendendo aquele
pedaço de madeira aos grandes pregos metidos no granito, fez
voltar naqueles gonzos aquela armadura de tábuas semelhante ao
alçapão de um dique, expo-lo em flanco, como se faz com um
leme, à onda que impelia, e aplicou essa extremidade à grande
Dotivre, enquanto os gonzos de cordas retinham na pequena
Douvre a outra extremidade; operou na grande Dotivre, por meio
de pregos, postos de antemão, a mesma fixação que na pequena,
amarrou sólidamente essa vasta placa de madeira ao duplo pilar
da abertura, travou nessa barra uma corrente como um talabarte
numa couraça e, em menos de uma hora, levantou-se o obstáculo
contra a maré, e a viela do escolho ficou fechada como por uma
porta.
Este robusto tapamento, pesada massa de pranchas, que deitado
seria uma jangada, e de pé uma parede, foi, com auxílio da
vaga, trabalhado por Gilliatt com uma agilidade de
saltimbanco. Podía-se dizer quase que a coisa foi feita antes
que o mar se apercebesse disso.
Era um desses casos em que Jean Bart dizia o famoso dito que
ele dirigia à vaga do mar, cada vez que esquivava um
naufrágio: "Apanhei-te, inglês!" Sabe-se que Jean Bart quan~
do queria insultar o oceano chamava-o inglês.
Tapado o estreito, Gilliatt cuidou da pança. Dividiu o cabo
nas duas âncoras para que ela pudesse subir com a maré.
Operação análoga a que os antigos marítimos chamavam: mouiller
avec des embossures. *
Em tudo isso Gilliatt não foi surpreendido, o caso estava
previsto; um homem do oficio reconhece-lo-ia vendo as duas
roldanas de guindar metidas por trás da pança, nas quais
passavam dois pequenos cabos cujas pontas estavam presas às
argolas das duas âncoras.
Entretanto, crescia a maré; já subira a metade; é nesse
momento que os choques das ondas, mesmo plácidos, podem ser
rudes. 0 que Gilliatt combinara realizou-se. A onda rolava
violentamente para a porta, encontrava-a, inchava e passava
por cima. Fora era o marulho. Dentro a infiltração. Gilliatt
imaginou alguma coisa semelhante às forcas caudinas do mar. A
maré estava vencida.


MAIS PERIPÉCIA QUE DESENLACE

Chegara o tremendo instante.
Tratava-se agora de pOr a máquina na pança.
Gillíatt ficou pensativo alguns momentos, tendo o cotovelo do
braço esquerdo na mão direita, e a fronte na mão esquerda.
Depois subiu à Durande, cuja metade, que era a máquina, devia
sair e cujo casco devia ficar.
Cortou os quatro cabos que prendiam a estibordo e a bombordo
as quatro correntes do cano. Como era corda, bastoulhe a faca.
As quatro correntes, livres, ficaram pendentes ao longo do
cano.
Do navio subiu ele ao aparelho que construíra, bateu com o pé
em todas as pranchas, examinou as roldanas, viu as polés,
apalpou os cabos, verificou as emendas, assegurou-se de que o
massame não estava profundamente molhado, certificou-se de que
nada faltava, nem estava bambo, depois, pulando do alto das
peças sobre o tombadilho, tomou posição, ao pé do cabrestante,
na parte da Durande que devia ficar nas Dotivres. Era esse o
seu posto de trabalho.
Grave, sentindo sórnente a comoção útil, lançou um último
olhar ao aparelho, depois tomou uma lima e pos-se a cortar a
corrente que sustentava tudo.
Ouvia-se o ranger da lima no meio do murmúrio do mar.
A corrente do cabrestante, presa ao cabo regulador, ficava ao
alcance da mão de Gilliatt.
De repente, houve um estalo. A argola que a lima cortava, já
limada por metade, tinha-se quebrado; todo o aparelho estava
sOlto. Gilliatt teve apenas tempo de agarrar o grande cabo.
A corrente quebrada bateu no rochedo, os oito cabos
retesaram-se, toda a massa cerrada e cortada desprendeu-se do
navio, abriu-se o ventre da Durande, o assoalho de ferro da
máquina, pesando sobre os cabos, apareceu debaixo da quilha.
Se Gilliatt não tivesse chegado a tempo ao cabo regulador,
havia uma queda. Mas a sua mão terrível estava lá; foi apenas
uma descida.
Quando o irmão de Jean Bart, Pierre Bart, aquele bebado
possante e sagaz, aquele pobre pescador de Dunquerque que
tratava o grande almirante por tu, salvou a galera Langeron,
perdida na baía de Ambleteuse, quando, para tirar aquela
pesada massa flutuante dos cachopos da baía furiosa, amarrou a
vela grande com juncos marinhos, quando ele quis que os
juncos, quebrando-se por si, abrissem a vela ao vento, fiou-se
na rotura dos juncos, como Gilliatt na fratura da corrente,
foi a mesma estranha audácia coroada pela mesma vitória
surpreendente. A corda motora, segura por Gilliatt, operou
admiràvelmente. Devem lembrar-se de que essa corda tinha por
fim
diminuir as forças convertidas em uma só e reduzidas a um
movimento de conjunto. Aquela corda tinha alguma relação com
uma bolina; sómente em vez de orientar uma vela, equi librava
um maquinismo.
Gilliatt, de pé e com a mão no cabrestante, tinha por assim
dizer a mão no pulso do aparelho. Aqui a invenção de Gilliatt
manifestou-se toda. Produziu-se uma notável coincidencia de
forças. Enquanto a máquina da Durande separada em massa,
descia para a pança, a pança subia para a máquina. 0 navio
naufragado e o barco salvador, ajudando-se em sentido inverso,
iam encontrando-se. Poupava-se, deste modo, metade do
trabalho.
A maré, enchendo sem rumor entre as duas Douvres, levantava a
embarcação e aproximava-a da Durande. A maré estava mais que
vencida, estava domesticada. 0 oceano fazia parte do
maquinismo. A vaga subindo, levantava a pança sem choque,
brandamente, quase com precaução e como se ela fosse de
porcelana.
Gilliatt combinava e proporcionava os dois trabalhos, o da
água e do aparelho, e, imóvel, no cabrestante, espécie de
estátua temível, obedecida por todos os movimentos ao mesmo
tempo, regulava a lentidão da descida pela lentidão da subida.
Nenhum abalo na água, nenhum balanço nas pranchas. Era uma
estranha colaboração de todas as forças naturais dominadas. De
um lado a gravitação levava a máquina; do
outro a maré trazia o barco. A atração dos astros, que é o
fluxo, e a atração do globo, que é a gravidade, pareciam
harmonizar-se para servir a Gilliatt. A sua subordinação não
tinha hesitação nem parada, e, debaixo da pressão de uma alma,
aquelas duas potencias passivas tornavam-se ativas auxiliares.
A obra caminhava de minuto a minuto; o intervalo entre a pança
e a Durande diminuia insensivelmente. Fazia-se a aproximação
em silencio e com uma espécie de terror pelo homem que estava
ali. 0 elemento recebia uma ordem e executava-a.
Quase no momento em que a maré cessou de subir, os cabos
cessaram de correr súbitamente, mas sem comoção; as roldanas
pararam. A máquina, como se rosse colocada a mão, assentou-se
no fundo da pança. Estava direita, de pé, imóvel, sólida. A
placa que a sustentava apoiava-se com os seus quatro ângulos e
a prumo no porão.
Estava pronto.
Gilliatt olhou atonito.
A pobre criatura não tinha tido muitas alegrias em sua vida.
Sentiu o alquebramento de uma imensa felicidade.
Dobravam-se-lhe os membros; e diante do seu triunfo, ele que
não se pertubara até então, começou a tremer.
Contemplou a pança debaixo do navio e a máquina dentro da
pança. Parecia não acreditar. Dissera-se que ele não contava
com aquilo. Saíra-lhe um prodígio das mãos, e ele
conteiriplava-o com espanto.
Mas esse espanto durou pouco.
Gilliatt teve o movimento de um homem que desperta, travou da
serra, cortou os oito cabos, depois, separado agora da pança
apenas uns 10 pés, deu um salto, caiu dentro, pegou em um relo
de fio, fez quatro cabos, passou-os nas argolas preparadas de
antemão e prendeu-por ambos os lados da pança as quatro
correntes do cano que uma hora antes ainda estavam presas na
armirada da Durande.
Amarrada ao cano, Gilliatt desembaraçou a parte superior da
máquina. Um pedaço do tombadilho da Durande ainda ali estava
preso. Gilliatt despregou-o e limpou a pança daquela porção de
tábuas e vergas que atirou sobre os rochedos. útil alívio.
Demais, como é de prever, a pança sustentou com firmeza a
carga da máquina. Mergulhou muito pouca coisa. A máquina da
Durande, embora maciça, era menos pesada que o montão de
pedras e o canhão trazido outrora de Herin pela pança.
Tudo estava acabado. Só restava ir-se embora.

INTERROMPE-SE 0 EXITO

Nem tudo estava acabado.
Abrir a entrada das Dotivres, fechada pelo pedaço da armirada
da Durande, e levar imediatamente a pança para fora do
.escolho, nada mais claro do que isto.
No mar todos os minutos são urgentes. Pouco vento, apenas uma
ruga ao longe; a bela tarde prometia uma bela noite. 0 mar era
de rosas, mas o refluxo começava; excelente momento para
partir. Gilliatt teria a vazante para sair das Douvres, e a
enchente para entrar em Guernesey. Podia estar em
Saint-Sampson de madrugada.
Mas apresentou-se um obstáculo inesperado. Houve uma lacuna na
previdencia de Gilliatt.
A máquina estava livre, o cano estava preso.
A maré, aproximando a pança da Durande, tinha diminuído os
perigos da descida; mas essa diminuição do intervalo deixou a
parte superior do cano metida na espécie de quadro que
apresentava o bojo aberto da Durande. 0 cano estava preso como
entre quatro paredes.
0 serviço prestado pelo mar complicava-se com esta
dissimulação. Parece que o mar, obrigado a obedecer, teve uma
segunda tenção.
É verdade que aquilo que a enchente fizera ia desfaze-lo a
vazante.
0 cano, tendo mais de 3 toesas, de altura, tinha uns 8 pés
metidos na Durande; o nível da água aí baixaria 12 pés; o
cano, descendo com a pança, teria 4 pés de espaço acima de si,
e poderia sair.
Mas quanto tempo era preciso para isto? Seis horas.
Daí a seis horas seria meia-noite. Que meio tentaria Gilliatt
para sair àquela hora, que canal tomaria através daqueles
cachopos, já tão inextrincáveis de dia, e como arriscar-se no
meio da noite em semelhante emboscada de bancos de pedras?
Era rorça esperar até o dia seguinte. Aquelas seis horas
perdidas faziam perder ao menos doze horas.
Era mesmo necessário não adiantar trabalho abrindo a entrada
ao cachopo. 0 tapamento era preciso até a maré próxima.
Gilliatt devia repousar.
Cruzar os braços era a única coisa que ele não tinha feito
desde que estava no escolho Douvres.
Irritou-o, indignou-o quase, como se fosse culpa dele, aquele
descanso. Disse consigo: "Que pensaria de mim Déruchette se me
visse aqui sem fazer nada?"
Contudo, não lhe era inútil refazer as forças.
Estando a pança à sua disposição, Gilliatt resolveu passar a
noite a bordo.
Foi buscar a pele de carneiro no alto da grande Dotivre,
desceu, comeu algumas conchas e duas ou tres castanhas do mar,
bebeu por ter muita sede os últimos goles da água doce do
pichel quase vazio, embrulhou-se na pele cuja lã deu-lhe
prazer ao corpo, deitou-se como um cão de guarda ao pé da
máquina, abaixou o chapéu sobre os olhos e adormeceu.
Dormiu profundamente. Tem-se daqueles sonos depois das obras
acabadas.


AS ADVERTÊNCIAS DO MAR

No meio da noite, bruscamente, e como por mola, Gilliatt
acordou.
Abriu os olhos.
As Dotivres, acima da cabeça dele, estavam iluminadas como
pela reverberação de uma grande brasa branca. Havia em toda a
fachada negra do escolho um reflexo de fogo.
Donde vinha o fogo?
Da água.
0 mar estava extraordinário.
Parecia que a água incendiava-se. Onde os olhos alcançavam, no
escolho e fora do escolho, flamejava o oceano. Não era uma
flama vermelha; não se parecia com a grande flama viva das
crateras e das fornalhas. Nenhuma crepitação, nenhum ardor,
nenhum avermelhado, nenhum ruído. Rastilhos azulados imitavam
na água as dobras de uma mortalha. Um grande clarão lívido
estremecia na água. Não era incendio; era o espectro dele.
Era uma coisa semelhante ao abrasamento lívido do interior de
um sepulcro por uma chama ideal.
Imaginai trevas acesas.
A noite, a vasta noite turva e difusa, parecia ser um
combustível daquele fogo gelado. Era uma claridade feita de
cegueira. A sombra entrava como elemento naquela luz fantasma.
Os marinheiros da Mancha conhecem todas essas indescritíveis
fosforescencias, que advertem o navegante. Em parte alguma são
mais surpreendentes do que no Grande V, perto de Isigny.
Diante desta luz as coisas perdem a realidade. Uma penetração
fantástica torna-as como que transparentes. Os rochedos são
apenas lineamentos. Os cabos das âncoras parecem barras de
ferro ardentes. As redes dos pescadores parecem um crivo de
fogo debaixo da água. Metade do remo é de ébano, a outra
metade debaixo da água é de prata. Os pingos da água que caem
dos remos fazem estrelas no mar. Todos os barcos arrastam um
cometa. Os marinheiros molhados e luminosos parecem homens que
ardem. Mergulha-se a mão no mar e sai calçada de chama: é uma
chama morta, não se sente. 0 braço parece um tição aceso.
Veem-se as formas que estão no mar rolarem debaixo das vagas
alumiadas. A espuma cintila. Os peixes são línguas de fogo e
uns pedaços de relâmpago serpenteiam naquela pálida
profundidade.
Gílliatt acordou porque o clarão atravessou-lhe as pálpebras
fechadas.
Acordou a tempo.
A maré tinha descido; começava a encher de novo.
0 cano da máquina, solto durante o sono de Gilliatt, ficou
outra vez preso no casco do navio.
Subia lentamente.
Mais palmo e meio, e o cano estaria dentro da Durande.
Para isso ainda havia meia hora. Gilliatt, se quisesse
aproveitar a ocasião, tinha essa meia hora diante de si.
Levantou-se sobressaltado.
Por mais urgente que fosse a situação, ele não pode deixar de
ficar alguns instantes de pé, contemplando a fosforescencia e
meditando.
Gilliatt conhecia o mar a fundo. Embora tivesse sido muito
maltratado por ele, o mar era já de muito tempo companheiro de
Gilliatt. Aquele ente misterioso que se chama oceano não podia
ter nenhuma idéia que Gilliatt não a adivinhasse. Gilliatt, à
fOrça de observação, de cisma e de solidão, tornara-se um
vidente do tempo, aquilo que se chama, em inglês, um wheater
wise.
Gilliatt correu às amarras e guindou-as; depois, já não
estando retido pelas âncoras, travou do croque da pança e,
apoiando-se nas rochas, afastou-a para fora algumas braças
distante da Durande perto do tapamento de tábuas. Havia rang,
como dizem os marítimos de Guernesey. Em menos de dez minutos
a pança estava fora do casco. Já não havia receio de que o
cano pudesse ficar preso.
Entretanto, Gilliatt não se mostrava disposto a partir.
Contemplou ainda a fosforescencia e levantou as âncoras; mas
não era para navegar, era para ancorar de novo a pança, e
muito sólidamente; é verdade que o barco ficou junto da porta.
Até então só tinha usado das duas âncoras da pança, e não
tinha ainda empregado a pequena âncora da Durande, achada,
como se sabe, nos cachopos. Essa colocou-a ele, pronta para as
urgencias, num canto da pança entre maromas e polés, e
juntamente o cabo guarnecido de boças. Gilliatt deitou ao mar
essa terceira âncora, tendo cuidado de prender o cabo a outro
cabo pequeno, cuja ponta passava na argola da âncora, ficando
a outra ponta no ferro de guindar. Deste modo amarrou a pança
com tres âncoras, o que era mui forte. Indicava isto uma viva
preocupação e um redobrar de cautelas. Qualquer marinheiro
reconhece-ria, nessa operação, alguma coisa semelhante a um
deitar ferros obrigado, quando há a receiar uma corrente que
possa fazer garrar o navio.

A fósforescencia sobre a qual Gilliatt tinha os olhos fixos
ameaçava-o talvez, mas ao mesmo tempo, servia-o. Se não fOsse
ela, Gilliatt era prisioneiro do sono e vítima da morte. Ela
não só o despertou, senão que o alumiava também.
Havia no escolho uma luz opaca. Mas esse clarão, por mais
assustador que parecesse a Gilliatt, foi-lhe útil porque
tornou-lhe o perigo visível e a manobra possível.
Agora, quando Gilliatt quisesse abrir vela, a pança,
carregando a máquina, estava livre.
Sórnente, Gilliatt parecia pensar cada vez menos em partir.
Ancorada a pança, foi ele buscar a mais forte corrente que
tinha no depósito e prendeu-a nos pregos metidos nas duas
Dotivres, fortificou com ela o baluarte de vergas e barrotes
já protegido pelo lado de fora pela outra corrente. Longe de
abrir caminho, Gilliatt tapava-o.
A fósforescencia ainda iluminava, mas ia diminuindo. É verdade
que o dia começava a romper.
De repente, Gilliatt prestou ouvidos.


PARA UM BOM ENTENDEDOR, MEIA PALAVRA BASTA

Pareceu-lhe ouvir, imensamente longe, um que de fraco e
indistinto.
As profundezas, em certas horas, tem um certo rugido.
Gilliatt atentou pela segunda vez. 0 rumor longínquo
retomeçou. Gilliatt sacudiu a cabeça como quem sabia o que
era.
Momentos depois, estava ele na outra extremidade da viela do
escolho, na entrada de leste, livre até ali, e com grandes
marteladas meteu grossos pregos no granito dos portais daquela
abertura vizinha do rochedo Homem.
Os buracos desses rochedos estavam preparados e guarnecidos de
cavilhas de madeira, quase tudo carvalho. 0 escolho desse lado
estava escalavrado, tinha muitas fendas, e Gilliatt pode meter
aí mais pregos ainda que no esvazarriento das Dotivres.
Num momento dado, e como se lhe soprassem de cima, a
fósforescencia apagou-se; o crepúsculo, cada vez mais
luminoso, substituía-a.
Metidos os pregos, Gilliatt arrastou umas pranchas, depois
cordas, depois correntes, e, sem desviar os olhos do trabalho,
sem se distrair um momento, começou a construir na aber~ tura
do Homem, com tábuas fixadas horizontalmente e presas por
cabos, um desses tapamentos de clarabóia, que a cienciajá
adotou, e qualifica de quebra-mar.
Os que viram, por exemplo, na Rocquaine em Guernesey, ou no
Boury-d'eau na França, o efeito que fazem algumas estacas
pregadas no rochedo, compreendem a força desses trabalhos
símplices. 0 ~tiebra-mar é a combinação daquilo que na França
se chama épi e daquilo que na Inglaterra se chama dick. 0
quebra-mar são os cavalos de frisa das fortificações contra as
tempestades. Não se pode lutar contra o mar senão aproveitando
a divisibilidade dessa força.
Entretanto, levantara-se o sol, perfeitamente puro. 0 dia
estava claro, o mar calmo.
Gilliatt apressava o trabalho. Também ele estava calmo, mas na
sua pressa havia ansiedade.
Passava, em grandes pulos, de rocha em rocha, do tapamento ao
depósito e do depósito ao tapamento. Voltava puxando
apressadamente, ora um gancho, ora um cabo. Manifestou-se
então a necessidade daquele depósito de destroços. Era
evidente que Gilliatt estava diante de uma eventualidade
prevista.
Uma forte barra de ferro servia-lhe de alavanca para mover os
barrotes.
0 trabalho executava-se tão depressa que mais parecia um
crescimento que uma construção. Quem não viu trabalhar um
portageiro militar não pode fazer idéia daquela rapidez.
A abertura de leste era ainda mais estreita que a de oeste.
Tinha apenas 5 ou 6 pés de largura. A estreiteza ajudava
Gilliatt. Sendo estreito o espaço que tinha de fortificar e
fechar, a armadura seria mais sólida e podia ser mais simples.
Bastavam, pois, vigas horizontais; as peças verticais eram
inúteis.
Postos os primeiros travessões do quebra-mar, Gilliatt trepou
em cima e escutou.
0 rugido tornava-se expressivo.
Gilliatt continuou a construção. Acrescentou-lhe dois cepos da
Durande ligados às pontas das vigas com driças passadas nas
tres rodas das polés. Ligou tudo com correntes.
Essa construção era nada menos que uma espécie de grade
colossal; as pranchas eram as tenazes e as correntes eram os
vimes.

Parecia entrançado como parecia construido.
Gilliatt multiplicou os laços e pos mais pregos on preciso.
Tendo muito ferro redondo na Durande, pode faze grande
provisão desses pregos.
Ao mesmo tempo que trabalhava ia mastigando bi Tinha sede, mas
não podia beber, por já não ter água Esgotara o pichel na
noite anterior.
Acrescentou ainda quatro ou cinco tábuas, depois em cima de
tudo. Escutou.
Cessou o rumor ao longe e calava-se tudo.
0 mar estava manso e soberbo; merecia todos os
gais que lhe dirigem os burgueses quando estão cor com ele -um
espelho, um mar de rosas, um tanque, u de leite. 0 azul
profundo do céu correspondia ao verd fundo do oceano. Aquela
safira e aquela esmeralda p admirar-se ambas. Não tinham de
que exprobrar~se. P, ma nuvem em cima, nenhuma espuma embaixo.
No desse esplendor subia magnificamente o sol de abri
impossível ver mais belo dia.
No extremo horizonte uma fila negra de aves de arri
atravessava o céu. Iam depressa. Dirigiam-se para a Parecia
uma fuga.
Gilliatt continuou a levantar o quebra-mar.
Levantou-o o mais que pode, tão alto como lhe pern curvatura
dos rochedos.
Ao meio-dia, o sol pareceu-lhe mais quente do que estar.
Meio-dia é a hora crítica do dia. Gilliatt, de robusta
clarabóia que acabava de construir, entrou a co plar a
extensão.
0 mar estava mais que tranqüilo, estava estagnado. P via uma
vela. 0 céu estava límpido; sórnente o azul to se mais branco.
Era um branco singular. No horizonte, te, havia uma
manchazinha de aparencia ruim. Essa in estava imóvel, mas
crescia. Junto dos cachopos o mar tava brandamente.
Gilliatt fizera bem em construir o quebra-mar.
Aproximava-se uma tempestade.
0 abismo resolvera dar batalha.


LIVRO TERCEIRO

A LUTA



0 EXTREMO TOCA 0 EXTREMO E 0 CONTRÁRIO ANUNCIA 0 CONTRÁRIO

Nada tão ameaçador como o equinócio que retarda.
Há no mar um fenomeno medonho que se pode chamar a chegada dos
ventos do largo.
Em todas as estações, especialmente na época das sizígias, no
momento em que menos se espera, o mar apresenta uma súbita e
estranha tranqüilidade. Aplaca-se aquele prodigioso movimento
contínuo; cai em madorna e languidez; parece que vai
descansar; crer-se-ia que está fatigado. Todos os trapos
marinhos, desde as fiâmulas de pesca, até às insígnias de
guerra, pendem ao longo dos mastros. Os pavilhões almirantes,
reais, imperiais, dormem todos.
De repente esses panos começam a mexer-se discretamente.
É a hora, se há nuvens, de espreitar a formação dos cirros; se
o sol se põe, é a hora de examinar a cOr da tarde; se é de
noite e há luar, é a hora de estudar as auréolas planetárias.
Nessa hora, o capitão ou chefe de esquadra que tem a fortuna
de possuir um desses vidros de tempestade, cujo inventor não
se conhece, observa o vidro com o microscópio e toma as suas
precauções contra o vento do sul, se a mistura tem aspecto de
açúcar fundido; e contra o vento do norte, se a mistura se
esfolha em cristalizações semelhantes aos tufos de ervas ou
aos bosques de pinheiro. Nessa hora, depois de ter consultado
o gnomo misterioso gravado pelos romanos, ou pelos demônios,
numa dessas estreitas pedras enigmáticas que na Bretanha se
chamam menires, e na Irlanda cruachs, o pobre pescador
irlandes ou bretão retira a sua barca do mar.
Persiste entretanto a serenidade do céu e do oceano. A manhã
rompe radiosa e a aurora sorri, o que enchia de religioso
horror os antigos poetas e os antigos adivinhos, assustados de
que se pudesse crer na deslealdade'do sol. Solem quis
dicerefaisum audeat?
A sombria visão do possível latente é interceptada ao homem
pela opacidade fatal das coisas. 0 mais temível e o mais
pérfido aspecto é a máscara do abismo.
Diz-se: anguis in herba; devia dizer-se: borrasca na calma.
Assim se passam horas e, às vezes, dias. Os pilotos assestam
os seus óculos. 0 rosto dos velhos marinheiros tem um ar de
severidade que se prende à cólera secreta da expectação.
De súbito ouve-se um grande murmúrio confuso. Há uma espécie
de diálogo misterioso no ar.
Não se ve coisa alguma.
A extensão fica impassível.
Entretanto o rumor cresce, engrossa, eleva-se. Acentua-se o
diálogo.
Há alguém por trás do horizonte.
Pessoa terrível essa, é o vento.
0 vento, isto é, a população de titãs que' chamamos Tufões.
Imensa plebe da sombra.
A índia chamava-os Morouts, a Judéia Querubins, a Grécia
Aquilões. São os invisíveis pássaros ferozes do infinito.
Esses Bóreas precipitam-se.


OS VENTOS DO LARGO

Donde vem eles? Do incomensurável. Os seus grandes voos exigem
o diâmetro do golfão. As suas asas desmedidas precisam das
solidões indefinidas. 0 Atlântico, o Pacífico, essas vastas
aberturas azuis, eis o que lhes convém. Fazemnas sombrias.
Voam em bandos. 0 Comandante Page viu de uma vez, no mar alto,
sete trombas a um tempo. Aí são medonhas. Premeditam os
desastres. tem por trabalho deles, inturnescimento efernero e
eterno dos vagalhões. Ignora-se que eles podem, desconhece-se
o que eles querem. São a esfinges do abismo; e Vasco da Gama é
o seu Édipo. Faces de nuvens aparecem nessa obscuridade da
extensão sempre
em movimento. Quem descobre os seus lineamentos lívidos nessa
dispersão que é o horizonte do mar sente-se em presença da
força irredutivel. Dissera-se que a inteligencia hurnaria os
assusta, e eriçam-se contra ela. A inteligencia é invencível,
mas o elemento é indomável. Que fazer contra a ubiqüidade que
se não sujeita! 0 vento faz-se massa e torna ' - se vento
outra vez. Os ventos combatem esmagando e
defendem-se esvaindo-se. Quem depara com eles só pode lançar
mão de expedientes. Eles frustram-nos pelo assalto diverso e
repercutido. Tanto atacam como fogem. São os impalpáveis
tenazes. Como vence-los? A proa do navio Argo, esculpida em um
carvalho de Dodona, ao mesmo tempo proa e pilOto, costimava
falar-lhes. Eles maltratavam aquela proa deusa. Cristóvão
Colombo, vendo-os vir de encontro à Pinta, subiu ao tombadilho
e dirigiu-lhes os primeiros versículos do Evangelho de São
João. Surcouf insultava-os. "Aí vem a pandilha", dizia ele.
Napier descarre-
gava-lhes tiros em cima. Eles tem a ditadura do caos.
Tem o caos. Que fazem dele? Fazem uma coisa implacável. A cova
dos ventos é mais monstruosa que a cova dos leões. Quantos
cadáveres debaixo dessas dobras sem fundo! Os ventos empurram
sem piedade a grande massa obscura e amarga. A gente os ouve
sempre, mas eles não ouvem a ninguém. Cometem coisas que
parecem crimes. Não se sabe sobre quem atiram eles os punhados
brancos de espuma. Que ferocidade ímpia no naufrágio! Que
afronta à Providencia! Às vezes parecem que cospem em Deus.
São os tiranos dos lugares desconhecidos. "Luoghi spaventosi",
murmuravam os marinheiros de Veneza.
Os espaços tremulos suportam os seus ataques. É inexprimível o
que se passa nesses grandes abandonos. Mistura-se à sombra um
elemento eqüestre. 0 ar faz um rumor de floresta. Não se ve
nada, mas ouve-se um,ruído de cavalos. É meio-dia, de súbito
anoitece; passa um tornado; é meia-noite, de repente
esclarece, acende-se o eflúvio polar. Alternam em sentido
inverso os turbilhões, espécie de dança hedionda, tripúdio dos
fiagelos sobre o elemento. Quebra-se pelo meio uma pesada
nuvem, e os pedaços vão precipitar-se no mar. Outras nuvens,
purpureadas, iluminam e roncam, depois escurecem lúgubremente;
a nuvem, esvaziada de raio, é carvão apagado. Sacos de chuva
rompem-se em bruma. Fornalha em que chove, onda que vomita
luz. As nuvens do mar debaixo do aguaceiro iluminam
surpreendentes quadros; desfiguram-se espessuras onde se
reproduzem as semelhanças. Monstruoso umbigo vai rompendo as
nuvens. Volteiam os vapores, saracoteiam as vagas; rolam
embriagadas as nítiades; a perder de vista, o mar maciço e
mole move-se sempre sem jamais deslocar-se; tudo é lívido;
desesperados gritos sobem desse palor.
No fundo da obscuridade inacessível tremem grandes germes de
sombra. De quando em quando há paroxismo. 0 rumor torna-se
tumulto, do mesmo modo que a vaga se torna marulho. 0
horizonte, superposição confusa de vagas, oscilação sem fim,
murmura continuamente; ali arrebentam estranhamente uns
arremessos de fracasso; parece-se ouvir as hidras espirrando;
sopram hálitos frios, seguem-se hálitos quentes. A trepidação
do mar anuncia um medo que tudo espera. Inquietação. Angústia.
Terror profundo das águas. Súbitarnente, o furacão, como uma
besta, desce a beber no oceano; sOrvo inaudito, a água sobe
para a boca invisível, forma-se uma ventosa, incha o tumor; é
a tromba, o Prester dos antigos, estalactite em cima,
estalaginite embaixo, duplo cone inverso girante, uma ponta
equilibrada em cima de outra, beijo de duas montanhas, uma
montanha de espuma que se levanta, uma montanha de nuvem que
desce; coito medonho da vaga e da sombra. A tromba, como a
coluna da Bíblia, é tenebrosa de dia e luminosa de noite.
Diante da tromba cala-se o trovão. Parece que tem medo.
Há uma escala, na vasta turvação das solidões; temível
crescendo; a brisa, a lufada, a borrasca, o temporal, a
tormenta, a tempestade, a tromba; as sete cordas da lira do
vento, as sete notas do abismo. 0 céu é uma largura, o mar é
um arredondado; passa um vento, já não há nada disso, tudo é
fúria e confusão.

Tais são aqueles severos sítios.
Os ventos correm, voam, abatem-se, expiram, revivem, pairam,
assoviam, rugem, riem: frenéticos, lascivos, desvairados,
tomam conta da vaga irascível. Tem harmonia esses berradores.
Tornam sonoro todo o céu. Sopram nas nuvens corno num metal;
embocarri o espaço, e cantam no infinito, com todas as vozes
amalgamadas dos clarins, buzinas e trombetas, uma espécie de
tangeres prometeanos. Quem os ouve, ouve Pá. 0 que mais
assusta é ve-los assim. Tem uma colossal alegria composta de
sombra. Fazem nas solidões a batida dos navios. Sem tréguas,
noite e dia, em todas as estações, no trópico, corno no pólo,
tocando a trombeta delirante, vão eles, por meio do travamento
da nuvem e da vaga, fazendo a grande caça negra dos
naufrágios. São os donos
das matilhas. Divertem-se. Fazem ladrar as ondas, que são os
seus cães, contra as rochas. Combinam e desunem as nuvens.
Amassam, como se tivessem milhões de mãos, a flexibilidade da
água imensa. vel porque é incompressível. Resvala debai
A água do esforço. Apertada por um lado, escapa por outro. É
assim que a água se faz onda. A vaga é a sua liberdade.


EXPLICAÇÃO DO RUMOR OUVIDO POR GILLIATT

A grande aproximação dos ventos para a terra faz-se nos
equinócios. Nessas épocas o grande balanço do trópico e do
pólo e a colossal maré atmosférica derramam o seu fluxo em um
hemisfério, e o refluxo em outro. Há constelações que
significam esses fenomenos. Libra e Aquário. É a hora das
tempestades mar espera silencioso.
As vezes o céu tem feio aspecto. Fica baço, e como que coberto
por um grande pano obscuro; os marinheiros contemplam ansiosos
o ar oprimido de sombra.
Mas o que eles temem é o ar alegre. Céu risonho no equinócio é
a tempestade com pés de lã. Com céus desses, a Torre das
Carpideiras de Arristerdão enchia-se de mulheres que
examinavam o horizonte.

Quando se demora a tempestade invernal ou outonal é que está
ajuntando uma massa ainda maior. Entesoura para destruir.
Desconfia da acumulação de juros. Ango dizia: "0 mar é bom
pagador".
Quando a demora é demasiado longa, o mar trai a sua
impaciencia pela calma. Sórriente a tensão magnética se
manifesta naquilo que se pode chamar a inflamação da água.
Rompem clarões da vaga. Ar elétrico, água fosfórica. Os
marinheiros sentem-se estafados. É uma hora especialmente
perigosa para os encouraçados; o casco de ferro pode produzir
falsas indicações da bússola e perde-los. Assim pereceu o
paquete transatlântico Yowa.
Para os que estão familiarizados com o mar, o seu aspecto
nesses momentos é estranho; dissera-se que o mar deseja e
receia o ciclone. Certos himeneus, aliás impostos pela
natureza, são acolhidos assim. A leoa desejosa foge diante do
leão. Também a água tem o seu calor, e daí lhe vem o
estremecimento.
Vai realizar~se o imenso consórcio.
Este consórcio, como as núpcias dos antigos imperadores,
celebra-se com exterminações. É uma festa temperada de
desastres.
Atenção, aí vem o fato equinocial.
Conspira a tempestade. A velha mitologia entrevia essas
personalidades indistintas misturadas à grande natureza
difusã. Eolo harmoniza-se com Bóreas. 0 acOrdo do elemento com
o elemento é necessário. Distribuem entre si a tarefa. Há
impulsões para a vaga, para a nuvem, para o eflúvio; a noite é
um auxiliar; deve ser empregada. Há bússolas para desviar,
faróis para apagar, estrelas para esconder. É preciso que o
mar coopere. Todas as tempestades são precedidas de um
murmúrio. Por trás do horizonte há o cochicho prévio dos
furacões.
É o que se ouve, na obscuridade, ao longe, por cima do
silencio assustado do mar.
Gilliatt ouviu esse cochichar tremendo. A fósforescencia foi a
primeira advertencia; o rumor foi a segunda.
Se existe o demônio Legião, esse demônio é o Vento, com
certeza.
0 vento é múltiplo, mas o mar é um.
Daí esta conseqüencia: toda tempestade é mista. A unida de de
ar o exige.
Abismo implica tempestade. 0 oceano inteiro borrasca. A
totalidade das suas fOrças entra em linha e torna parte nela.
Uma vaga é o golfão de baixo; um tufão é o golfão de cima.
Lutar com urna tempestade é lutar com o mar inteíro e o céu
inteiro.
Messíer, o homem da marinha, o astronomo pensativo da choça de
Cluny, gizia: "0 vento de toda a parte está em todas as
partes". Ele não acreditava nos ventos presos, mesmo nos mares
fechados. Para ele não havia ventos mediterrâneos. Dizia que
os conhecia na passagem. Arirmava que em tal dia, a tal hora,
o Fohn do lago de Constança, o antigo Favonio de Lucrécio,
atravessara no horizonte de Paris; em outro dia era o Bora do
Adriático; em outro era o Noto giratório que se pretende estar
encerrado nas Cícladas. Especificava os eflúvios. Não pensava
que o vento que gira entre Malta e Túnis e o vento que gira
entre a Córsega e as Baleares estivessem na impossibilidade de
se libertarem. Não admitia os ventos, como ursos, fechados em
jaula. Dizia: "Todas as chuvas vem do trópico, e todos os
raios do pólo". 0 vento, com efeito, satura-se de eletricidade
na intercessão dos coluros, que marca as extremidades do eixo,
e da água no equador; traz-nos da linha o líquido e dos pólos
o fluido.
Ubiqüidade é o vento.
Não quer isto dizer que não existam as zonas dos ventos. Nada
mais demonstrado que as correntes contínuas, e dia virá em que
a navegação aérea, servida pelos navios do ar (air-navires)
que chamamos, por mania de grego, aeróscafos, utilizará as
linhas principais. A canalização do ar pelo vento é
incontestável: há rios de vento, ribeiros de vento, riachos de
vento; sórnente ao invés das ramificações da água, são os
riachos que saem dos ribeiros, e os ribeiros que saem dos
rios, em vez de serem afluentes: em vez de concentração,
dispersão.
Essa disposição é que faz a solidariedade dos ventos e a
unidade da atmosfera. Uma molécula deslocada desloca outra
molécula. Os ventos agitam todos juntos. A estas profundas
causas do arnálgarna, acrescentai o rilevo do globo, rasgando
a atmosfera com todas as suas montanhas, fazendo nós e torções
nas carreiras do vento e determinando em todos os sentidos as
contracorrentes. Irradiação ilimitada.
0 fenomeno do vento é a oscilação de dois oceanos um sobre
outro; o oceano do ar, sobreposto ao oceano de água, apóia-se
nessa fuga e vacila nessa vacilação.
0 indivisível não usa compartimentos. Não há tabique entre uma
onda e outra. As ilhas da Mancha sentem o empurrão do cabo da
Boa Esperança. A navegação universal faz frente a um monstro
único. Todo o mar é uma só hidra. As vagas cobrem o mar de uma
espécie de escama. Oceano é Ceto.
Nessa unidade abate-se o inumerável.


"TURBA, TURMA "

Para a bússola há 32 ventos, isto é, 32 direções; mas essas
direções podem subdividir-se indefinidamente. 0 vento,
classificado por direções, é o incalculável; classificado por.
espécie, é o infinito.
Homero recuaria ante esse recenseamento.
A corrente polar roça na corrente tropical. Eis o frio e o
calor combinados, o equilíbrio começa pelo choque, sai a onda
dos ventos, inchada, esparsa e toda dilacerada em jorros
medonhos. A dispersão dos tufões sacode nos quatro cantos do
horizonte o prodigioso esgadelhado do ar.
Aí estão todos os rumos; o vento da Gulf Stream, que despeja
tanta névoa na Terra Nova; o vento do Peru, região de céu mudo
onde jamais se ouviram trovoadas; o vento da Nova Escócia,
onde voa o grande Auk, Alca impennis, de bico riscado; os
turbilhões de Ferro dos mares da China; o vento de Moçambique
que maltrata os juncos; o vento elétrico do Japão denunciado
pelo gongo; o vento da África que habita entre a montanha da
Mesa e a montanha do Diabo, e que se desencadeia daí; o vento
do equador que passa por cima dos ventos regulares, e traça
uma parábola cujo cimo fica a oeste; o vento plutOnico que sai
das crateras e que é o temível sopro das chamas; o estranho
vento próprio do vulcão Awu que faz sempre surgir do norte uma
nuvem azeitonada; a monção de Java, contra a qual estão
construídas aquelas casaniatas charnadas casas do furacão; a
brisa ramif icada que os inglêses chamam busk, bebida; os
grãos arqueados do estreito de Malaca observados por
Horsburgh; o possante vento de sudoeste, chamado Pampeiro no
Chile, e Rebojo em Buenos Aires, que carrega o condor em pleno
mar e o salva da cova onde o esperava, debaixo de uma pele de
boi arrancada de fresco, o selvagem deitado de costas e
retesando o arco com os pés; o vento químico que, segundo
Lemery, faz nas nuvens pedras de trovoadas; o Harmattan dos
cafres; o sopra-nevespolar, que se prende aos eternos gelos e
os arrásta; o vento do golfo de Bengala, que vai até
Nijnii-Novogorod devastar o triângulo das barracas de pau onde
se faz a feira da Ásia; o vento das cordilheiras, agitador das
grandes vagas e das grandes florestas; o vento dos
arquipélagos da Austrália onde os caçadores de mel arrancam as
colmeias silvestres escondidas nos galhos do eucalipto
gigante; o siroco; o mistral; o hurricane; o vento de seca; os
ventos de inundação; os diluviahos; os tórridos; os que lançam
nas ruas de Genova a poeira das planícies do Brasil; os que
obedecem à rotação diurna; os que a contrariam e fazem dizer a
Herrera: "Malo viento torna contra el sol", os que vão aos
pares, para destruir, desfazendo um o que o outro faz; e
aqueles ventos antigos que assaltaram Colombo na costa de
Veraguas; e os que durante quarenta dias, desde 21 de outubro
a 28 de novembro de 1520, puseram em questão Magalhães
abordando O Pacífico, e os que desfizeram a Armada, e sopraram
sobre Filipe 11.
Outros ventos mais, e como achar-lhes o fim? Os ventos
carregadores de sapos e gafanhotos que sopram nuvens e bichos
por cima do oceano; os que operam o que se chama salto de
vento, e que tem por tarefa acabar com os náufragos; os que,
com um sopro único, deslocam a carga do navio e o obrigam a
continuar viagem todo inclinado; os ventos que constroem os
circum-cúmulos; os ventos que constroem os Circum-estratos;
pesados ventos cegos, túmidos de chuva; os ventos do granizo;
os ventos da febre; os ventos cuja aproximação faz ferver os
salsos e os solfatários da Calábria; os ventos que fazem
brilhar o pelo das panteras da África andando nos espinheiros
do cabo de Ferro; os que vem sacudindo fora da sua nuvem, como
uma língua trigonocéfala, o temível relâmpago de forquilha; os
que trazem neves negras. Tal é o exército.
0 escolho Dotivres, no momento em que Gilliatt construía o
quebra-mar, ouvia-lhes o galope longínquo.
Já o dissemos, o Vento compõe-se de todos os ventos.
Acercava-se toda aquela horda.
De um lado, essa legião.
Do outro, Gilliatt.


GILLIA TT PODE ESCOLHER

As misteriosas forças escolheram bem o momento.
0 acaso, se é que existe, é hábil.
Enquanto a pança esteve guardada na angra do Homem, enquanto a
máquina esteve metida no casco da Durande, Gilliatt foi
inexpugnável. A pança estava em segurança, a máquina estava
abrigada; as Dotivres, que sustentavam a máquina,
condenavam-na a uma destruição lenta, mas protegiam-na contra
uma surpresa. Em todos os casos, ficava a Gilliatt um recurso.
A máquina destruída não destruía a Gilliatt. Tinha a pança
para salvar-se.
Mas esperar que a pança estivesse fora do ancoradouro, onde
era inacessível, deixá-la por entre as Dotivres, esperar que
ela lá estivesse presa também pelo escolho, consentir que
Gilliatt operasse o salvamento e o transporte da máquina, não
impedir esse maravilhoso trabalho, consentir nesse triunfo,
esse era o laço. Via-se agora, como uma espécie de lineamento
sinistro, a sombria astúcia do abismo.
Agora, a máquina, a pança, Gilliatt, estavam todos reunidos na
viela dos rochedos. Eram apenas um. A pança esmigalhada no
escolho, a máquina metida a pique, Gilliatt, afogado, era
negócio de um esforço único num só ponto. Tudo podia ser
desfeito de uma vez, ao mesmo tempo, e sem dispersão; tudo
podia ser destruído de um lance.
Não há situação mais crítica do que a de Gilliatt.
A esfinge possível, que os sonhadores suspeitam estar no fundo
da sombra, parecia propor-lhe Este dilema.
Fica ou parte.
Partir era insensato, ficar era medonho.


0 COMBATE

Gilliatt trepou à grande Douvre.
Daí via todo o mar.
Era surpreendente o oeste. Saía dele uma muralha. Muralha de
nuvem, tapando a extensão, subia lentamente do horizonte para
o zenite. Essa muralha retilínea, vertical, sem um rombo no
alto, sem um rasgão na orla, parecia feita a esquadro, e
esticada a corda. Era a nuvem semelhante a granito. 0 declive
dessa nuvem, completamente perpendicular na extremidade sul,
dobrava-se um pouco para o norte, como dobra uma folha, e
oferecia o vago aspecto de um plano inclinado. Alargava e
crescia sem que a cimalha deixasse um instante de ser paralela
à linha do horizonte, quase indistinta na obscuridade que se
ia fazendo. Essa muralha do ar subia de uma só peça e
silenciosamente. Nenhuma ondulação, nenhuma dobra, nenhuma
saliencia. Era lúgubre aquela imobilidade em movimento. 0 sol,
lívido por trás de uma certa transparencia mórbida, alumiava
aquele lineamento de apocalipse. A nuvem invadia já quase
metade do espaço. Dissera-se o medonho talude do abismo. Era
um como que levantar de montanha de sombra entre a terra e o
céu.
Era, em pleno dia, a ascensão da noite.
Havia no ar um calor de fogão. Uma lixívia de estufa saía
daquele amontoado misterioso. 0 céu, que de azul tornara-se
branco, de branco tornou-se cinzento. Dissera-se uma grande
ardósia. Embaixo o mar escuro e de chumbo era outra ardósia
enorme. Nem um sopro, nem um rumor. Ao longe o mar deserto.
Nenhuma vela. Os pássaros tinham-se escondido. Sentia-se a
traição do infinito.
0 crescitnento de toda aquela sombra amplificava-se
insenálvelmente.

A montanha movediça de vapores que se dirigia para a Douvres
era uma dessas nuvens que se podem chama nuvens de combate.
Nuvens vesgas. Através daqueles amon toados escuros, estranho
estrabismo fita o homem.
Temível era a aproximação.
Gilliatt examinou firmemente a nuvem e murmurou entre dentes:
"Tenho sede, vais dar-me água".
Ficou alguns momentos imóvel com os olhos fitos na nuvem.
Parecia medir a tempestade.
Tinha o barrete no bolso, tirou-o e pO-Io na cabeça. Tirou do
buraco onde por tanto tempo dormira o fato de reserva, e
vestiu tudo, grevas e capotão, como um cavalheiro veste a
armadura para entrar em combate. Sabem que perdera os sapatos,
mas os pés descalços tinham-se endurecido nos rochedos.
Preparado o vestuário de guerra, contemplou ele o quebramar,
empunhou vivamente a corda de nós, desceu da plata~ forma das
Dotivres, tomou pé nas rochas de baixo, e correu ao depósito.
Instantes depois trabalhava. A vasta nuvem muda pOde ouvir-lhe
os sons do martelo. Que fazia Gilliatt? Com o resto dos
pregos, cordas e vigas, construía na abertura de leste uma
segunda porta de 10 a 12 pés por trás da primeira.
Profundo era o silencio. Os talos de erva nas fendas do
escolho nem mesmo tremiam.
Súbitamente, o sol desapareceu. Gilliatt levantou a cabeça.
A nuvem ascendente acabava de atingir o sol. Foi como que uma
extinção da luz substituída por uma reverberação mesclada e
pálida.
A muralha de nuvens mudara de aspecto. Já não tinha unidade.
Encrespara-se horizontalmente tocando o zenite, pendendo em
todo o resto do céu. Tinha agora divisões. A formação da
tempestade desenhava-se como uma seção divi~ dida.
Distinguiam-se as camadas da chuva e os jazigos do granizo.
Não havia relâmpago mas um horrível clarão espesso; porque a
idéia do horror pode ligar-se à idéia da luz.Ouvia-se o vago
respirar da tempestade. Aquele silencio palpitava
obscuramente. Gilliatt, também silencioso, via agruparem-se
por cima dele todos aqueles montões de bruma e compor-se a
deformidade das nuvens. No horizonte pesava e estendia-se uma
faixa de nevoeiro cOr de cinza, e no zenite uma faixa cor de
chumbo; lívidos farrapos pendiam das nuvens de cima sobre os
nevoeiros de baixo. 0 fundo, que era a parede de nuvens,
estava baço, leitoso, térreo, lívido, indescritível. Uma
delgada e alvacenta nuvem transversal, vinda não se sabe
donde, cortava obliquamente, de norte a sul, a alta muralha
sombria. Uma das extremidades dessa nuvem arrastava no mar. No
ponto em que tocava na compressão das nuvens, via-se na
obscuridade um abafamento de vapor vermelho. Por baixo da
longa nuvem pálida, pequenas nuvens, mui baixas e pretas,
voavam em sentido inverso umas das outras, como se não
soubessem para onde iriam. A possante nuvem do fundo crescia
de todas as partes a um tempo, aumentava o eclipse, e
continuava a sua interposição lúgubre. A leste, por trás de
Gilliatt, havia apenas um portal de céu claro que ia ser
fechado. Sem a menor impressão de vento, passou uma estranha
difusão de penugem cinzenta, esparsa em migalhas, como se
algum pássaro gigantesco acabasse de ser depenado por trás
daquele muro de tenebras. Formou-se um teto de negrume
compacto que, no extremo horizonte, tocava no mar e
misturava-se na noite. Sentia-se alguma coisa que se avançava.
Era vasta e pesada e medonha. A obscuridade tornava-se mais
espessa. De súbito, roncou imenso trovão.
Gilliatt sentiu o abalo. Há sonho no trovão. Essa realidade
brutal na região visionária tem alguma coisa de terrífico.
Acredita-se ouvir a queda de um móvel no aposento dos
gigantes.
Nenhum flamejar elétrico acompanhara o som. Foi um trovão
negro. Voltou o silencio. Houve uma espécie de intervalo como
quando se toma posição. Depois um após outro, e lentamente,
romperam-se informes relâmpagos. Eram todos mudos. Nem um
rugido. Cada relâmpago iluminava. A muralha de nuvens era
agora um antro. Havia nela abóbadas e arcarias. Viam-se
traços. Esboçavam-se mostruosas cabeças; distendiam-se
pescoços; entreviam-se e desapareciam elefantes carregados de
tOrres. Uma coluna de bruma, reta, redonda, negra, com uma
fumaça branca em cima, simulava o cimo de um vapor colossal,
engolido, bufando debaixo da vaga fumegante. Ondulavam toalhas
de nuvem.

Acreditava-se ver dobras de bandeiras. No centro, debaixo de
vermelhas espessuras, mergulhava-se, imóvel, um caroço de
nevoeiro denso, inerte, impenetrável às faíscas elétricas,
espécie de feto hediondo no ventre da tempestade.
Gilliatt sentiu súbitamente que um vento lhe agitou os
cabelos. Tres ou quatro largas aranhas de chuva
despedaçaram-se em roda dele na rocha. Depois houve um segundo
trovão. Começou o vento.
A espera da sombra chegara ao cúmulo; o primeiro trovão
agitara o mar, o segundo rachou a muralha de nuvens de alto a
baixo, abriu-se uma fenda, toda a bátega suspensa jorrou por
esse lado, o buraco tornou-se uma bOca aberta cheia de chuva,
e o vomito da tempestade começou. Tremendo foi o instante.
Aguaceiro, furacão, relâmpagos, raios, vagas até às nuvens,
espuma, detonações, torções frenéticas, gritos, roncos,
assovios, tudo a um tempo. Desencadear de monstros.
0 vento fulminava. A chuva não caía, desabava.
Para um pobre homem, metido, como Gilliatt, com um barco
carregado, num intervalo de dois rochedos, em pleno mar, não
há crise mais ameaçadora. 0 perigo da maré de que Gilliatt
triunfara, nada era ao pé do perigo da tempestade.
Eis a situação: Gilliatt, em volta de quem tudo era
precipício, descobriu no último momento, e diante do risco
supremo, uma estratégia engenhosa. Fez ponto de apoio no
próprio inimigo; associou-se ao escolho; o rochedo Dotivres,
outrora seu adversário, era agora o seu padrinho naquele
imenso duelo. Gilliatt tinha-o debaixo de si. Fez daquele
sepulcro uma fortaleza. Assestou-se naquele pardieiro
formidável do mar. Estava bloqueado, mas entrincheirado.
Estava, por assim dizer, agregado ao escolho, face a face com
o furacão. Por barricadas ao estreito, essa rua das vagas. Era
a única coisa que podia fazer. Parece que o oceano, que é um
déspota, pode ser também vencido pelas barricadas. A pança
podia ser considerada segura por tres lados. Estreitamente
apertada, entre as duas fachadas internas do escolho,
triplicemente ancorada, estava abrigada ao norte pela pequena
Douvre, ao sul pela grande, penedos selvagens, mais afeitos a
produzir naufrágios que a impedi-los. A oeste era protegida
pelo taparnento de barrotes atados e pregados aos rochedos,
tapamento já provado que vencera o rude fluxo do alto-mar,
verdadeira porta de cidadela tendo por ombreiras as próprias
colunas do escolho, as duas Dotivres. Nada havia que recear
por esse lado. 0 perigo estava a leste.
A leste havia apenas o quebra-mar. Um quebra-mar é um aparelho
de pulverização. Precisa ao menos duas lumieiras. Gilliatt
teve apenas tempo de fazer uma. Construía a segunda mesmo com
a tempestade.
Felizmente o vento chegava de nordeste. 0 mar tem descaídas.
Aquele vento, que era o galerno antigo, tinha pouco efeito nas
Dotivres. Assaltava o escolho de través, e não impelia a onda
nem sobre uma e nem sobre outra das aberturas da garganta, de
modo que em vez de entrar em uma rua esbarrava-se numa
muralha. A tempestade atacava mal.
Mas os ataques do vento são curvos, e devia esperar-se alguma
viravolta súbita. Se essa viravolta se fizesse a leste, antes
que a segunda clarabóia do quebra-mar estivesse construída, o
perigo seria grande. A invasão da viela de rochedos pela
tempestade realizava-se e tudo estava perdido.
Crescia a vertigem da tempestade. A tempestade é golpe sobre
golpe. Essa é a sua força, esse é o seu defeito. À força de
ser uma raiva, dá lugar à inteligencia, e o homem defende-se;
mas debaixo de que destruição! Nada mais monstruoso que isso.
Nenhuma dilação, nenhuma interrupção, nenhuma trégua, nenhum
descanso para tomar alento. Há um não sei que de covardia
nessa prodigalidade do inesgotável.
Toda a imensidade tumultuosa atirava-se sobre o escolho
Dotivres. Ouviam-se vozes sem número. Quem gritava assim?
Estava ali o antigo terror pânico. De quando em quando,
parecia que era alguém que falava, como se fizesse um comando.
Depois clamores, clarins, estranhas tremuras, e aquele grande
e majestoso urro que os marinheiros dizem ser a chamada do
oceano.
As espirais indefinidas e fugazes do vento assoviavam torcendo
a onda; as vagas, tornadas discos debaixo daqueles
torneamentos eram atiradas contra os parcéis como chapas
gigantescas por atletas invisíveis.
A enorme escuma eriçava todas as rochas. Torrentes em cima,
saliva embaixo. Depois redobravam os mugidos. Nenhum rumor
humano ou bestial poderia dar idéia dos fracassos misturados
àquelas deslocações do mar. A nuvem canhoneava, a saraiva
metralhava, o marulho escalava. Certos pontos pareciam
imóveis, em outros o vento fazia 20 toesas por segundo. 0 mar
ao longe estava todo branco; 10 léguas de água de sabão
enchiam o horizonte. Abriam-se portas de fogo. Algumas nuvens
pareciam queimadas por outras, e sobre montões de nuvens
vermelhas, semelhantes às brasas, assemelhavam-se essas ao
fumo.
Configurações flutuantes esbarravam-se e amalgarnavamse,
desfazendo-se umas por outras. Escorria uma água
incomensurável, ouviam-se fogos de pelotão no firmamento.
Havia no meio do teto de sombra uma espécie de vasta alcofa
virada, donde caíam em confusão a tromba, a chuva, as nuvens,
as cores rubras, os relâmpagos, a noite, a luz, os raios, tão
formidáveis são essas inclinações do golfâo!
Gilliatt parecia não atender a nada. Tinha a cabeça inclinada
no trabalho. A segunda clarabóia começava a levantarse. A cada
trovão respondia ele com uma martelada. Ouviase essa cadencia
naquele caos. Estava com a cabeça desco~ berta. Urna lufada
levou-lhe o chapéu.
Tinha uma sede ardente. Provàvelmente estava com febre.
Lagoinhas de chuva tinham-se formado à roda dele nas covas dos
rochedos. De quando em quando tirava água com a palma da mão e
bebia. Depois, sem examinar em que ia a tempestade, continuava
a obra.
Tudo podia depender de um instante. Sabia o que o esperava se
não terminasse a tempo o quebra-mar. Por que moti~ vo perder
um minuto para ver aproximar-se a face da morte?
A desordem em tOrno dele era como uma caldeira fervendo. Havia
fracasso e motim. Às vezes o raio parecia descer uma escada.
As percussões elétricas voltavam constantemente aos mesmos
pontos do rochedo. Havia pedras de chuva da grossura de uma
mão fechada. Gilliatt era obrigado a sacudir as dobras da
japona. Até as algibeiras tinham pedras.
0 temporal estava já no oeste, e batia o tapamento das duas
Douvre:sI mas Gilliatt tinha confiança nesse tapamento, e com
razão. Esse tapamento, feito do grande pedaço da proa da
Durande, recebia sem dureza o choque da onda; a elasticidade é
uma resistencia; os cálculos de Stevenson estabelecem que,
contra a vaga, por si própria elástica, uma reunião de paus,
com a dimensão desejada, ligada e amarrada de certo modo, faz
melhor obstáculo que um break water de madeira. 0 tapamento
das Douvres preenchia essas condições; era, além disso, tão
engenhosamente atado que a onda, batendo em cima, fazia como
um martelo que mete o prego, apoiava-o ao rochedo e
consolidava-o; para demoli-lo, era preciso derrubar as
Dotivres. A lufada apenas conseguiu atirar à pança, por cima
do obstáculo, alguns jorros de espuma. Por esse lado, graças
ao tapamento, a tempestade tornava-se cuspo. Gilliatt voltava
as costas a esse esforço. Sentia tranqüilamente atrás de si
essa raiva inútil.
Os flocos de espuma, saindo de todos os lados, assemelhavam-se
a lã. A água, vasta e irritada, afogava os rochedos, trepava
por eles, entrava dentro, penetrava na rede de fendas
internas, e saía das massas graníticas por fendas estreitas,
espécies de bOcas inesgotáveis que faziam naquele dilúvio
pequenas fontes plácidas. Filetes de águacaíam graciosamente
daqueles buracos no mar.
A clarabóia de refOrço do tapamento de leste estava quase
concluída. Mais umas voltas de cordas e correntes e
aproximava-se o momento de também lutar esse tapamento.
De súbito, fez-se um grande clarão, a chuva cessou, as nuvens
separaram-se, era o vento que mudava, uma espécie de janela
grande crepuscular abriu-se no zenite, e apagaram-
se os relâmpagos, pareceu que estava acabado. Era o começo. Os
marinheiros chamam a isso o vento de esboroar. 0 vento do sul
tem mais água, o vento do norte tem mais raios.
Vindo do nordeste, a agressão ia dirigir-se ao ponto fraco.
Desta vez Gilliatt parou o trabalho e olhou. Colocou-se de pé
sobre uma saliencia de rochedo inclinado por trás da segunda
clarabóia quase terminada. Se a primeira chapa do quebra-mar
fosse afundada, desabaria a segunda, ainda não consolidada, e
debaixo dessa demolição esmagaria Gilliatt. Gilliatt, no lugar
que escolhera, seria achatado antes de ver a pança e a máquina
e toda a sua obra abismar-se nó golfão.

Tal era a eventualidade. Gilliatt aceitou~a, e, terrível, ele
a queria.
Nesse naufrágio de todas as suas esperanças, morrer primeiro
convinha-lhe a ele; morret primeiro, porque a máquina
fazia-lhe o efeito de uma pessoa. Levantou com a mão esquerda
os cabelos colados nos olhos pela chuva, apertou o martelo,
inclinou-se para trás ameaçante, e esperou.
Não esperou muito.
Um ribombo deu o sinal, fechou~se a abertura pálida do zenite,
precipitou-se uma rajada de chuva, tudo tornou-se escuro, e
não houve outro facho mais que o relâmpago. Começava o sombrio
ataque.
Possante vagalhão, visível entre os relâmpagos, levantouse a
leste além do rochedo Homem. Parecia um grande rOlo de vidro.
Era verde e sem escuma nem ondas. Inchava aproximando-se; era
um largo cilindro de trevas rolando no oceano. A trovoada
roncava surdamente.
Esse vagalhão chegou ao rochedo Homem, partiu-se em dois e
continuou. Os dois pedaços juntos tornaram a ligar-se, e
fizeram uma grande montanha de água, e, de paralela que estava
ao quebra-mar, tornou-se perpendicular. Era uma vaga com a
forma de uma viga.
Atirou-se ao quebra-mar aquele aríete. Rugiu o choque. Tudo
desapareceu em espuma.
Não se pode imaginar o que são essas avalanchas de neve que o
mar ajunta, e debaixo das quais engole rochedos de mais de 100
pés de altura, tais, por exemplo, como o grande Anderlo, em
Guernesey, e o Pináculo, em Jersey. Em Santa Maria de
Madagáscar, saltam por cima da ponta de Tintingue.
Durante alguns instantes o rOlo de mar tapou tudo. Só ficou
visível um montão furioso, uma escuma imersa, a alvura de um
sudário flutuando no vento do sepulcro, uma mistura de ruído e
de tempestade debaixo da qual trabalhava o extermínio.

Dissipou-se a escuma. Gilliatt estava de pé.
0 tapamento resistira. Nem uma corrente arrebentou, nem um
prego saiu. 0 tapamento mostrou à prova as duas qualidades do
quebra-mar; foi flexível como um caniço e sólido como uma
parede. 0 vagalhão dissolveu-se em chuva.

A espuma escorrendo ao longo dos ziguezagues do estreito foi
morrer debaixo da pança.
0 homem que fizera aquele açamo ao oceano não repousou.
A tempestade divagou felizmente durante algum tempo. 0
encarniçamento das vagas voltou-se para as partes muradas do
escolho. Foi uma trégua. Gilliatt aproveitou-a para completar
a clarabóia de trás.
0 dia expirou nesse trabalho. A tormenta continuava as suas
violências no flanco do escolho com uma solenidade lúgubre. A
urna de água e a urna de fogo que existe nas nuvens
esvaziava-se sem esgotar nunca. As ondulações altas e baixas
do vento pareciam movimentos de um dragão.
Quando a noite chegou, já havia noite; não se pode reparar
nela.,
Mas não era obscuridade completa. As tempestades iluminadas e
cegas pelo relâmpago tem intermitencias de visível e
invisível. Tudo está claro, depois tudo fica escuro.
Assiste-se à saída das visões e à entrada das trevas.
Uma zona de fósforo, cor da aurora boreal, flutuava como um
farrapo de flama espectral. por trás das espessuras de nuvens.
Resultava uma vasta palidez. As chapas de chuva eram
luminosas.
E esses clarões ajudavam Gilliatt e o dirigiam. Ele voltouse
para o relâmpago e disse: "Segura-me a vela!"
Com o auxílio dessa claridade pOde ele levantar a clarabóia de
trás, ainda mais acima da da frente. 0 quebramar estava quase
completo. Quando Gilliatt amarrava ao ponto culminante um cabo
de refOrço, o vento soprou-lhe na cara em cheio. Isto fez-lhe
levantar a cabeça. 0 vento voltara bruscamente para nordeste.
0 assalto da abertura de leste recomeçava. Gilliatt olhou para
o mar. 0 quebra-mar ia ser atacado outra vez. Vinha um novo
vagalhão.
sse oi rudemente vibrado; depois veio outro, mais outro, mais
outro, cinco ou seis em tumulto, quase juntos; finalmente um
último e tremendo.
Este, que era um como que total de fOrças, tinha a figura de
uma coisa viva. Não era difícil imaginar, naquela
intumescencia e naquela transparencia, inauditos aspectos com
escamas. Achatou-se e partiu-se no quebra-mar. A sua forma
quase animada dilacerou-se num esguicho. Naquele montão de
rochedos e tábuas, foi uma espécie de esmagamento de hidra. A
onda morrendo devastava. Profundo tremor agitou o escolho.
Misturava~se a isso um grunhir de animal. A espuma
assemelhava-se à saliva de um leviatã.
A espuma que caía deixava ver uma devastação. 0 vagalhão fez
obra. Dessa vez o quebra-mar sofreu um pouco. Uma longa e
pesada viga, arrancada da clarabóia da frente, foi lançada por
cima do tapamento de trás, sobre a rocha inclinada, escolhida
por Gilliatt para o lugar do combate. Felizmente desta vez não
estava ele aí. Ficaria morto.
Houve na queda da viga uma singularidade que, impedindo
qualquer movimento da prancha, salvou Gilliatt de qualquer
sobressalto perigoso. Foi ainda útil por outro modo, como se
vai ver.
Entre a saliencia da rocha e o declive interno da garganta,
havia um intervalo, um grande hiato semelhante ao encaixe de
um machado ou à alvéola de um canto. Uma das extremidades da
prancha, atirada ao ar pela vaga, caiu no meio dessa abertura.
A abertura alargou-se.
Gilliatt teve uma idéia.
Pesar na outra extremidade.
A prancha, presa por uma ponta na fenda do rochedo que
alargara, saía daí como um braço estendido. Essa espécie de
braço alargava-se, paralelamente à faixa interna da garganta,
e a exremidade livre da prancha afastava-se desse ponto de
apoio cerca de 18 ou 20 polegadas. Boa distância para fazer o
esforço.
Gilliatt estreitou com os pés, os joelhos e os braços o
rochedo e meteu ombros à enorme viga. A viga era comprida, o
que aumentava a força do peso. A rocha já estava abalada.
Contudo, Gilliatt teve de tentar a coisa quatro vezes. Caíalhe
dos cabelos mais suor do que chuva. 0 quarto esforço foi
frenético. Houve um estalo na rocha, a abertura abriu-se como
uma boca e a pesada massa caiu no estreito intervalo com um
ruído terrível, réplica aos trovões.
Caiu direita, se esta expressão é possível, isto é, sem
quebrar-se. Imaginai um menir precipitado todo inteiro.

A viga acompanhou o rochedo, e Gilliatt, cedendo ao mesmo
tempo, escapou de cair também.
0 fundo estava muito atr'avancado, e tinha pouca água. 0
monolito, numa agitação de espuma, que foi respingar em
Gilliatt, deitou-se entre as duas grandes rochas paralelas da
garganta e fez uma parede transversal, espécie de linha de
união dos dois rochedos. Tocavam as duas pontas; era um pouco
mais longo, e o cume, que era de rocha macia, ficou
esmigalhado. Resultou dessa queda uma espécie de beco sem
saída que ainda hoje pode ser visto. A água, por detrás dessa
barra de pedra, é quase sempre tranqüila.
Era um baluarte aquele ainda mais invencível que a amurada da
Durande ajustada entre as duas Dotivres.
Esse taparnento interveio a propósito.
Os vagalhões tinham continuado. A vaga teima sempre contra o
obstáculo. A primeira clarabóia começava a desarticular-se. Um
malha de quebra-mar desfeita é uma grande avaria. É inevitável
o alargamento do buraco, e nenhum meio pode remediar logo. A
vaga carregaria o trabalhador.
Uma descarga elétrica, que iluminou o escolho, descobriu a
Gilliatt o estrago que se fazia no quebra-mar, as vigas
sOItas, as cordas e correntes começando a flutuar ao vento, um
rasgão no centro do aparelho. A segunda clarabóia estava
intata.
0 penedo, tão poderosamente lançado por Gilliatt no intervalo
das rochas, por trás do quebra-mar, era a mais sólida
barreira, mas tinha um defeito: era demasiado baixo. As vagas
não podiam rompe-lo, mas podiam galgá-lo.
Era impossível faze-lo crescer. Só massas da rocha podiam ser
ótilmente sobrepostas àquele tapamento de pedra; mas como
arrancar essas massas, como arrastá-las, como levantá-las,
como colocá-las, como fixá-las? Pregam-se tábuas, não se
pregam rochedos.
Gilliatt não era Encélado.
A pouca elevação daquele pequeno istmo de granito preocupava
Gilliatt.
Breve f èz-se sentir o defeito. Os ventos já não deixavam o
quebra-mar; já se não encarniçavam, parecia que se aplicavam.
Ouvia-se naquela construção abalada uma espécie de
escoiceamento regular.

De repente, um pedaço de peça de viga, destacado da
deslocação, pulou por cima da segunda clarabóia, voou por cima
da rocha transversal, e foi cair na garganta do rochedo, onde
a água a levou pelas sinuosidades da viela. É provável que
fosse esbarrar na pança. Felizmente, no interior do escolho, a
água, fechada por todos os lados, mal se ressentia da agitação
exterior. Havia pouco marulho, e o choque não devia ser forte.
Gilliatt nem teve tempo de ocupar-se com essa avaria, se
avaria houve; todos os perigos se erguiam a um tempo, a
tempestade concentrava-se no ponto vulnerável, a iminencia
estava diante dele.
Profunda foi, por alguns instantes, a escuridão, interrom~
peu-se o relâmpago, conivencia sinistra; a nuvem e a vaga eram
a mesma coisa; houve um golpe surdo.
Depois um fracasso.
Gilliatt adiantou a cabeça. A clarabóia que tapava a frente
estava deslocada. Viam-se as pontas de vigas saltar na vaga. 0
mar servia-se do primeiro quebra-mar para atacar o segundo.
Gilliatt sentiu o que sentiria um general vendo voltar a
vanguarda.
A segunda tapagem resistiu ao choque. A armadura de trás
estava fortemente ligada. Mas a clarabóia despedaçada era
pesada, estava à disposição das vagas que a atiravam e
tomavam, as ligaduras que lhe restavam impediam-na de
partir-se em pedaços e mantinham-lhe todo o volume, e as
qualidades que Gilliatt lhe dera como aparelho de defesa
faziam agora daquilo uma excelente ferramenta de destruição.
De broquel tornara~se maça. Além disso, as fraturas
eriçavam-na, saíam-lhe pontas em toda ela, cobriamna de dentes
e esporas. Nenhuma arma contundente mais temível e própria
para ser manejada pela tempestade do que aquela.
Era o projétil, e o mar a catapulta.
Sucediam~se os golpes com uma espécie de regularidade trágica.
Gilliatt, pensativo por trás daquela porta tapada por ele,
ouvia esse bater da morte querendo entrar.
Ele refletiu amargamente que, se não fosse o cano da Durande
tão fatalmente retido no casco, estaria àquela hora, e desde
manhã, em Guernesey, e no pOrto, com a pança abrigada e a
máquina salva.
Realizou-se o tremendo perigo. Fez-se a efração. Foi como uma
agonia de moribundo. Todo o madeiramento do quebramar, as duas
armaduras confundidas e despedaçadas juntas, foi numa
tromba-d'água rolar no tapamento de pedra, como um caos numa
montanha, e parou. Foi um travamento informe de paus
embrenhados, penetrável às vagas, mas pulverizando-as ainda.
Aquele baluarte vencido agonizava heróicamente. 0 mar
quebrou-o, ele quebrava o mar. Derrubado, ainda ficava um
pouco eficaz. A rocha que servia de tapagem, obstáculo sem
recurso possível, retinha-o pelo pé. A garganta, naquele
ponto, era muito estreita; a tempestade vitoriosa tinha
empurrado, misturado e empilhado todo o quebra-mar naquele
lugar angustioso; a violência da impulsão, misturando a massa,
e metendo as fraturas umas nas outras, fez daquela demolição
uma coisa sólida. Estava destruído e inabalável. Só algumas
peças de pau ficaram destacadas. Dispersou-as a vaga. Uma
passou no ar, perto de Gilliatt. Ele sentiu o ar agitado pela
tábua na fronte.
Mas algumas vagas, essas grossas vagas que nos temporais
voltam sempre, com uma periodicidade imperturbável, saltavam
por cima das ruínas do quebra-mar. Caíam na garganta, e, a
despeito dos cotovelos que a viela tinha, chegavam a levantar
a água. A onda do estreito começava a agitarse de um modo
feio. Acentuava-se o beijo obscuro das vagas nas rochas.
Como impedir agora que essa agitação se propagasse até a
pança?
Não precisava muito tempo para que toda a água interior
ficasse tempestuosa, e, com algumas ondas, a pança seria
estripada, e a máquina iria a pique.
Gilliatt cismava tremulo.
Mas não se desconcertou. Para aquela alma não havia derrota
possível.
0 furacão engolfava-se agora frenèticamente entre as duas
muralhas do estreito.
De súbito, ressoou e prolongou-se a alguma distância por trás
de Gilliatt um estalo mais assustador que tudo quanto Gilliatt
até então ouvira.

Era do lado da pança.
Passava-se ali alguma coisa funesta.
Gilliatt correu.
Do lado do leste, onde se achava, não podia ele ver a pança
por causa dos ziguezagues da viela. Na última volta parou e
esperou o relâmpago.
Rompeu o relâmpago e mostrou-lhe a situação.
À vaga da abertura de leste, correspondeu um tufão na abertura
de oeste. Esboçava-se um desastre.
A pança não tinha avaria visível; ancorada córno estava, dava
pouco flanco, mas o casco da Durande estava em risco de cair.
Aquela ruína, em semelhante tempestade, apresentava uma
vítima. Estava toda fora da água, no ar, oferecida ao
temporal. 0 buraco que Gilliatt praticara para extrair a
máquina enfraquecera o casco. 0 barrote da quilha estava
cortado. 0 esqueleto tinha a coluna vertebral despedaçada.
Soprara em cima o furacão.
Não precisou mais. A amurada dobrou-se como um livro que se
abre. Fez-se o desmembramento. Foi esse estalo que, no meio da
tempestade, chegara aos ouvidos de Gilliatt.
Dessa abertura fez o vento uma fratura. 0 corte transversal
separava em duas a Durande. A parte posterior, a que ficava em
frente de Gilliatt, vizinha da pança, ficara sólida nos
rochedos. A parte anterior, que fazia face a Gilliatt, estava
pendurada. Uma fratura é um gonzo. Aquela massa oscilava sobre
as suas fendas, e o vento balançava-a, com um tremendo rumor.
Felizmente a pança já não estava embaixo.
Mas o balanço abalava a outra metade do casco, ainda presa e
imóvel entre as duas Dotivres. Do abalo à queda, a distância
era pequena. Com a teima do vento, a parte deslocada podia
súbitamente arrastar a outra que tocava quase na pança, e
tudo, pança e máquina, ficaria engolido.
Gilliatt tinha isso diante dos olhos.
Era a catástrofe.
Como desviá-la?
Gilliatt era daqueles que tiram recurso do próprio perigo.
Refletiu um momento.
Depois, foi ao depósito e tirou o machado.
0 martelo trabalhara muito; era chegada a vez do machado.
Gilliatt subiu à Durande. Firmou-se na parte do navio, que
ainda estava segura, e, inclinado sobre o precipício do
intervalo das Douvres, pôs-se a cortar as tábuas quebradas e
tudo quanto ainda prendia o pedaço de casco pendente.
Consumar a separação dos dois pedaços do casco, libertar a
metade sólida, deitar ao mar aquilo que o vento destruíra, dar
o quinhão à tempestade, tal era a operação. Era mais perigosa
que difícil. A metade pendente do casco, empuxada pelo vento e
pelo peso, aderia apenas por alguns pontos. 0 conjunto do
casco assemelhava-se a um díptico, partido em dois pedaços, e
batendo ambos um no outro. Cinco ou seis peças, apenas,
vergadas e arrebatadas, mas não completamente soltas, ainda
sustentavam o casco. As fraturas guinchavam e alargavam-se a
cada sOpro do vento, e o machado apenas ajudava. Esta
circunstância, que tornava fácil o trabalho, tornava-o
arriscado também. Tudo podia esboroar ao mesmo tempo debaixo
de Gilliatt.
A tempestade atingiu o paroxismo. Até então fora terrível,
agora fez-se horrível. A convulsão do mar reproduziu-se no
céu.A nuvem até então fora soberana, parecia executar a sua
vontade, dava o impulso, derramava às vagas a loucura,
conservando sempre uma lucidez sinistra. Embaixo havia
demência, em cima cólera. 0 céu era o sopro, o oceano era
apenas a espuma. Daí vem a autoridade do vento. 0 furacão e
genio. Entretanto, a embriaguez de seu próprio horror tinha-o
perturbado. Agora era o turbilhão. Era a cegueira produzindo a
noite. Há nos temporais um momento insensato; é para o ceu uma
espécie de sangue que sobe à cabeça.
0 abismo já não sabe o que faz. Fulmina às apalpadelas.
Nada> mais horrendo. E a hora hedionda. Chegara ao cúmulo o
tremor do escolho. A tempestade tem um plano misterioso; mas
nesse instante perde-o. É a má hora da tempestade. Nesse
instante, "o vento", dizia Thomas Fuller, "é um doido
furioso". É nesse instante que as tempestades fazem essa
despesa contínua de eletricidade que Piddington chama a
"cascata de relâmpagos". É nesse instante que aparece nas
nuvens mais negras, não se sabe por que e como que para espiar
o terror universal, aquele círculo azul que os velhos
marinheiros espanhóis chamavam o olho da tempestade, "el ojo
de la tempestad" Esse olho lúgubre fitava Gilliatt.
Gilliatt, de seu lado, contemplava a nuvem. Levantou a cabeça.
Dava uma machadada e levantava-se altivo. Estava, ou parecia
estar demasiado perdido, para que não tivesse orgulho.
Desesperava? Não. Ante o supremo acesso de raiva do oceano,
Gilliatt era tão prudente quanto audaz. Em cima do casco, só
pisava o ponto sólido. Arriscava-se e preservava-se. Também
ele, chegara ao paroxismo. Decuplicou-se-lhe o vigor. Estava
desvairado de intrepidez. Os golpes de machado soavam como
desafios. Parecia ter ganho o que tinha perdido a tempestade.
Conflito patético. De um lado o inesgotável, do outro o
infatigável. Estavam a ver qual dos dois venceria. As nuvens
terríveis modelavam na imensidade máscaras de górgonas,
produzia-se toda a intimidação possível, a chuva surgia das
vagas, a espuma tombava das nuvens, curavam-se os fantasmas
dos ventos, faces de meteoro avermelhavam-se e eclipsavam-se,
e a obscuridade, após tantos desmaios, era mostruosa; havia um
só derramamento, vindo por todos os lados ao mesmo tempo; tudo
era ebulição; a sombra em massa transbordava; cúmulos
carregados de granizo, esfarelados, cOr de cinza, pareciam
andar num frenesi giratório, havia no ar um rumor de grãos
secos, sacudidos numa peneira, as eletricidades inversas
observadas por Volta faziam de nuvem em nuvem os fulminantes
disparos, *os prolongamentos do raio eram terríficos, os
relâmpagos aproximavam-se em tOrno de -Gilliatt. 0 abismo
parecia espantado. Gilliatt andava na Durande fazendo tremer o
tombadilho debaixo dos pés, batendo, cortando, rachando,
machado em punho, lívido diante dos relâmpagos, esguedelhado,
descalço, roto, com a face coberta dos escarros do mar, grande
naquela sentina de trovões.
Contra o delírio das forças, só a destreza pode lutar. A
destreza era o triunfo de Gilliatt. Ele queria uma queda de
todo o destrOço deslocado. Por isso enfraqueceu as fraturas
sem rompe-las completamente, deixando algumas fibras que
sustentavam o resto. Súbitamente, parou com o machado no ar, a
operação estava acabada. Todo o pedaço destacou~se. Essa
metade do casco rolou entre as duas Douvres abaixo de
Gilliatt, que ficou em pé noutra metade, inclinado e olhando;
mergulhou-se perpendicularmente, arrombou os rochedos e parou
na garganta antes de chegar ao fundo. Ficou uma parte fora da
água, tanto quanto era suficiente para dominar a onda mais de
12 pés; foi mais uma barricada entre as duas Douvres; bem como
a rocha atirada no estreito, deixava apenas filtrar um pouco
de espuma nas suas extremidades, e foi essa a quinta barricada
improvisada por Gilliatt, contra a tempestade, naquela rua do
mar.
0 furacão, cego, trabalhava a última.
Foi uma felicidade que o angustiado das paredes internas
impedisse de ir ao fundo aquela tapagem. Dava-lhe mais altura;
demais a água podia passar por baixo do obstáculo, o que
afetava a fOrça das ondas. Aquilo que passa por baixo não
salta por cima. É esse em parte o segredo de quebra-mar
flutuante.
Doravante, houvesse o que houvesse, já não havia que recear
nem quanto à pança, nem quanto à máquina. A água já não podia
agitar-se à roda delas. Entre a tapagem das Douvres que as
cobria a oeste e o navio, tapamento que as protegia a leste,
nenhuma onda, nenhum vento poderia atingiIas.
Gilliatt tirara da catástrofe a salvação. Ajudara-o a
tempestade.
Feito isto, apanhou um punhado de água da chuva, bebeu e disse
à nuvem: "Cântaro!"
É uma alegria irOnica para a inteligencia combatente atestar a
vasta estupidez das forças furiosas concluindo por prestar
serviços, e Gilliatt sentiu essa imernorial necessidade de
insultar o inimigo, que remonta aos heróis de Homero.
Gilliatt desceu à pança e aproveitou os relâmpagos para
examiná-la. Era tempo que a pobre barquinha fOsse socorrida;
tinha sido muito sacudida e começava a arquear. Gilliatt, com
aquele olhar sumário, não viu nenhuma avaria. Contudo, era
certo que ela devia ter recebido violentos choques. Acalmada a
água, endireitou o casco; as âncoras portaramse bem; quanto à
máquina, as quatro correntes mantiveramna admiràvelmente.

Quando Gilliatt acabava a revista, uma coisa branca passou por
ele e mergulhou na sombra. Era uma gaivota.
Não há melhor aparição nas tempestades. Quando os pássaros
chegam, é que a tempestade vai-se embora.
Outro sinal excelente: o trovão redobrava.
As supremas violências da tempestade desorganizavamna. Todos
os marinheiros o sabem, a última prova é rude mas curta. 0
excesso do raio anuncia-lhe o fim.
A chuva parou repentinamente. Depois houve apenas um ruído nas
nuvens. 0 temporal cessou como uma prancha que cai no chão.
Quebrou-se por assim dizer. Desfez-se a imensa máquina das
nuvens. Uma fenda de céu claro disjungiu as trevas. Gilliatt
ficou espantado; era dia claro.
A tempestade durara quase vinte horas.
0 vento que a trouxera levou-a. Um desabamento de escuridão
depressa encheu o horizonte. As brumas rotas e fugitivas
amontoaram-se em tumulto, houve de uma ponta à outra da linha
do horizonte um movimento de retirada, ouviu-se um longo rumor
decrescente, caíram algumas gotas últimas de chuva, e toda
aquela sombra cheia de trovões foi-se como uma turba de carros
terríveis.
Bruscamente, fèz-se azul o céu.
Gilliatt reparou que estava cansado. 0 sono abate-se sobre a
fadiga como uma ave de rapina. Gilliatt deixou-se cair na
barca sem escolher lugar e dormiu. Ficou assim algumas ho~ ras
inerte e estendido, pouco distinto das pranchas e barrotes
entre os quais adormecera.


TERCEIRA PARTE

DÉRUCHETTE

LIVRO PRIMEIRO

NOITE E LUA

0 SINO DO PORTO

0 Saint-Sampson de hoje é quase uma cidade; o SaintSampson de
há quarenta anos era quase uma aldeia.
Chegando a primavera, e acabadas as vigílias de inverno,
deitavam-se todos cedo. Saint-Sampson era uma antiga paróquia
de tocar a recolher, tendo conservado o hábito de apagar cedo
as luzes. Os habitantes deitavam-se e levantavam-se com o dia.
As velhas aldeias normandas são voluntàriamente galinheiros.
Digamos além disso que Saint-Sampson, à exceção de algumas
ricas famílias, é uma população de pedreiros e carpinteiros. 0
porto é um lugar de consertar navios. Durante o dia extraem-se
pedras ou trabalham-se pranchas: aqui a picareta, além o
martelo. Perpétuo meneio de pau e granito. A tarde tudo cai de
cansaço e dorme como chumbo. Os rudes trabalhos fazem os duros
sonos.
Uma noite dos princípios de maio, depois de ter por alguns
instantes contemplado o crescente da lua nas árvores e ouvido
o passo de Déruchette passeando sèzinha, ao fresco da noite,
no jardim de Bravées, Mess Lethierry entrou para seu quarto
situado sobre o pOrto e deitou-se. Doce e Graça estavam na
cama. Exceto Déruchette, tudo dormia na casa. Portas e
postigos estavam fechados. Ninguém andava nas ruas. Raras
luzes, semelhantes ao piscar de olhos, que vão fecharse,
brilhavam aqui e ali nas janelas dos sótãos, anúncio do deitar
dos criados. Já 9 horas tinham batido na velha torre romana,
coberta de hera, que partilha com a Igreja de SaíntBrelade de
Jersey, a singularidade de ter por data quatro uns: o que
significa mil cento e onze.

A popularidade de Mess Lethierry em Saint-Sampson vinha do bom
exito da Durande. Acabado Este, fez-se o vácuo. Parece que o
enguiço pega, e que as pessoas infelizes tem a peste consigo,
tão rápida é a quarentena em que as metem. Os lindos
filhos-famílias evitavam Déruchette. 0 isolamento em roda da
casa de Lethierry era tal que nem mesmo se soube aí o pequeno
grande acontecimento local que nesse dia agitou Saint-Sampson.
0 cura da paróquia, o Reverendo Joe Ebenezer Caudray, estava
rico. 0 tio dele, o magnífico decano de Saint-Asaph, morrera
em Londres. A notícia foi trazida pelo sloop de posta Caere,
chegado da Inglaterra nessa manhã, e cujo mastro via-se no
porto de Saint-Sampson. 0 Caere devia voltar para Southampton
no dia seguinte ao meio-dia, e dizia-se que devia levar o
reverendo cura, chamado à Inglaterra sem demora para a
abertura oficial do testamento, sem contar as outras urgencias
de uma grande herança para recolher. Durante o dia
Saint-Sampson dialogou confusamente. 0 Caere, o Reverendo
Ebenezer, o tio morto, a riqueza, a partida, as promoções
possíveis no futuro foram o fundo do burburinho. Só uma casa,
que nada sabia, ficara silenciosa, a de Lethierry.
Mess Lethierry atirou-se à maca vestido.
Depois da catástrofe da Durande, atirar-se à maca era o
recurso dele. Deitar-se no grabato é o recurso do prisioneiro,
e Mess Lethierry era prisioneiro da tristeza. Deitava-se; era
uma trégua, um descanso, uma suspensão de idéias. Dormia? Não.
Velava? Não. Própriamente falando, havia dois meses e meio -
já dois meses e meio -, Mess Lethierry estava em sonambulismo.
Não era ainda senhor de si. Andava nesse estado misto e difuso
que costumam ter os que sofreram grandes abatimentos. As suas
reflexões não eram pensamentos, o seu sono não era repouso. De
dia não era um homem acordado, de noite não era um homem
adormecido. Estava em pé, estava deitado, eis tudo. Quando
estava na maca, esquecia-se um pouco; a isso chamava ele
dormir; as quimeras flutuavam nele e por sobre ele, a nuvem
noturna, cheia de faces confusas, atravessava-lhe o cérebro; o
Imperador Napoleão ditava-lhe as suas memórias, havia muitas
Déruchettes, estranhos pássaros pousavam nas árvores, as ruas
de Lons-le-Saulnier tomavam-se serpentes. 0 pesadelo era o
descanso do desespero. Passava as noites a sonhar e os dias a
cismar.
Às vezes ficava uma tarde inteira, imóvel à janela do quarto
que dava para o porto, com a cabeça baixa, os cotovelos sobre
o peitoril de pedra, as orelhas nas mãos, as costas voltadas
para o mundo inteiro, o olhar fito na velha argola de ferro
pregada no muro da casa a alguns pés da janela, onde outrora
amarrava a Durande. Contemplava a ferrugem que invadia a
argola.
1 Mess Lethierry estava reduzido à função maquinal de viver.
Os homens mais valentes, privados da sua idéia realizável,
atingem a isto. É esse o efeito das existências esvaziadas. A
vida é a viagem, a idéia é o itinerário. Sem itinerário,
pára-se. Perdido o alvo, morre a força. A sorte é um obscuro
poder discricionário. Pode bater com as suas vergastas o nosso
ser moral. 0 desespero é quase a destituição da alma. Só os
grandes espíritos resistem. E ainda assim ...
Mess Lethierry meditava continuamente, se a absorção pode
chamar-se meditação, no fundo de uma espécie de precipício
turvo. Escapavam-lhe palavras desoladoras como estas: "Só me
resta pedir ao céu o meu bilhete de saída".
Notemos uma contradição nesta natureza, complexa como o mar,
de que Mess Lethierry era, por assim dizer, o produto; Mess
Lethierry não rezava.
Ser impotente é uma fOrça. Diante das nossas duas grandes
cegueiras, o destino e a natureza, é na sua impotencia que o
homem acha o ponto de apoio, a oração.
0 homem socorre-se do próprio medo; pede auxílio ao pavor; a
ansiedade aconselha o ajoelhar.
A oração, enorme força própria da alma, é da mesma espécie que
o mistério. A oração dirige-se à magnanimidade das trevas; a
oração contempla o mistério com os olhos da sombra, e, diante
da fixidez poderosa desse olhar súplice, sente-se um
desarmamento possível no ignoto.
Essa possibilidade entrevista é já uma consolação.
Mas Lethierry não orava.
No tempo em que era feliz, Deus existia para ele, pode
dizer-se em carne e osso; Lethierry falava-lhe, dava-lhe a sua
palavra, dava-lhe quase, de quando em quando, um aperto de
mão. Mas no infortúnio de Lethierry, fenomeno aliás freqüente,
Deus eclipsava-se. Isto acontece a quem imagina um Deus
bonachão.
Não havia para Lethierry, no estado a que chegara, mais que
uma visão pura, o sorriso de Déruchette. Fora desse sorriso,
tudo era negro.
Desde algum tempo, sem dúvida por causa da perda da Durande,
cujo choque ela sentia, tornou-se raro o delicioso riso de
Déruchette. Parecia preocupada. Extinguia-se-lhe a gentileza
de pássaro e de criança. Já ninguém a via, ao tiro de peça da
manhã, fazer uma cortesia e dizer ao sol: "Bon ... jour!...
queira entrar". Tinha às vezes um ar sério, coisa triste
naquela doce criatura. Entretanto fazia esforço para rir a
Mess Lethierry, e para distraí-lo, mas a sua alegria
apagava-se dia a dia, e cobria-se de poeira, como a asa de uma
borboleta que um alfinete atravessou. Acrescentemos que, seja
porque a tristeza do tio a fizesse triste, e há dores de
reflexo, seja por outras razões, ela parecia agora inclinar-se
muito para a religião. No tempo do antigo cura, Jaquemin
Herodes, ela ia apenas quatro vezes à igreja. Agora era muito
assídua. Não faltava a oficio algum, nem aos domingos, nem .às
quintas-feiras. As almas piedosas da paróquia viam com
satisfação esta emenda. Porquanto é uma grande ventura para
uma moça, que corre tantos perigos entre os homens, voltar-se
para Deus.
Ao menos isso faz com que os pais fiquem tranqüilos a respeito
de namoricos.
De noite, sempre que o tempo permitia, passeava no jardim, uma
ou duas horas. Andava quase tão pensativa como Mess Lethierry,
e sempre só Deruchette deitava-se por último. Mas isto não
impedia que Graça e Doce não a perdessem de vista, por Este
instinto de espionar que anda ligado à domesticidade; espionar
desenfada de servir.
Quanto a Mess Lethierry, no estado obscurecido em que se
achava o seu espírito, não percebia essas pequenas alterações
nos hábitos de Déruchette. Demais, ele não nascera aio. Nem
mesmo notava a pontualidade de Déruchette aos ofícios da
paróquia. Tenaz no seu preconceito contra as coisas e os
homens do clero, teria visto sem prazer essas freqüenciá à
igreja.


Não é que a sua situação moral não estivesse em caminho de
modificar-se. 0 pesar é nuvem e muda de forma.
As almas robustas, como dissemos, são às vezes, em certas
desgraças, destituídas quase, mas não de todo. Os caracteres
viris, tais como Lethierry, reagem num tempo dado. 0 desespero
tem graus ascendentes. Do acabrunhamento sobese ao abatimento,
do abatimento à aflição, da aflição à melancolia. A melancolia
é um crepúsculo. Aí o sofrimento funde-se em sombria alegria.
A melancolia é a ventura de ser triste.
Essas atenuações elegíacas não eram feitas para Lethierry; nem
a natureza do seu temperamento, nem o gênero da sua desgraça,
comportavam essas variações. Sórnente, no momento em que o
encontramos, a cisma do seu primeiro desespero tendia a
disàipar-se; sem estar menos triste, Lethierry estava menos
inerte; continuava a estar sombrio, mas já não estava
amortecido; voltava-lhe uma certa percepção dos fatos e dos
acontecimentos; e começava a sentir alguma coisa desse
fenomeno que se poderia chamar a entrada na realidade.
Assim que, de dia, na sala baixa, não escutava as palavras,
mas ouvia-as. Graça veio uma manhã, triunfante, dizer a
Déruchette que Mess Lethierry rasgara o invólucro do seu
jornal.
Esta meia aceitação da realidade é em si um bom sintoma, É a
convalescença. As grandes desgraças aturdem. Sai-se do
aturdimento por aquele modo. Mas essa melhora parece ao
princípio um agravo. 0 estado do sonho anterior embotava a
dor; antes via-se turvo, sentia-se pouco; agora a vista é
clara, não se escapa a coisa alguma, sangra-se por tudo.
Aviva-se a chaga. A dor acentua-se com todos os pormenores que
se veem. Reve-se tudo na memória. Achar tudo, é lamentar tudo.
Há nesta volta à realidade todas as provas amargas. Ficase
melhor e pior. É o que Lethierry sentia. Sofria mais
distintamente.
0 que trouxera Mess Lethierry ao sentimento da realidade foi
um abalo.
Digamos qual foi ele.
Uma tarde, a 15 ou 20 de abril, ouviu -se na porta da sala
baixa as duas pancadas que anunciavam o correio. Doce abriu a
porta. Era uma carta.
Vinha do mar a carta. Era dirigida a Mess Lethierry. Trazia o
selo de Lisboa.
Doce levou a carta a Mess Lethierry que estava fechado no
quarto. Ele pegou na carta, po-la maquinalmente na mesa, e nem
olhou.
A carta ficou ali uma boa semana sem ser aberta.
Aconteceu, porém, que uma manhã Doce disse a Mess Lethierry:
- Devo tirar a poeira de que está cheia a carta?
Lethierry pareceu acordar.
- Sim - disse ele.
E abriu a carta. Leu isto:
"No mar, 10 de março.
"Mess Lethierry, de Saint-Sampson.
"Receberá o senhor com prazer notícias minhas.
"Estou no Tamaufipas, em viagem para não voltar. Há na
equipagem um marujo Ahier-Tostevin, de Guernesey, que há de
voltar aí, e que lhe há de contar alguma coisa. Aproveito o
encontro do navio Hernan Cortez, com destino a Lisboa, para
mandar-lhe esta carta.
"Espante-se. Sou um homem honesto.
"Tão honesto como o Sr. Clubin.
"Devo crer que já sabe o que aconteceu; contudo, não será mal
que lhe lembre o caso.
"Ei-lo:
"Restituí-lhe os seus capitais.
"Tomei-lhes emprestados, um pouco incorretamente, 50 000
francos. Antes de deixar Saint-Maio, entreguei, para o senhor,
ao seu homem de confiança, o Sr. Clubin, tres notas do banco
de 1000 libras cada uma, o que faz 75 000 francos. Creto que
há de achar esse reembolso suficiente.
"0 Sr. Clubin tratou dos seus interesses, e recebeu o seu
dinheiro com energia. Parece-me um homem zeloso; é por isso
que o advirto.

"0 seu homem de confiança, "RANTAINE."

"Post scriptum. - 0 Sr. Clubin tinha um revólver, e foi por
isso que não tive recibo."
Tocai um torpedo, tocai uma garrafa de Leyde carregada, e
sentireis o mesmo que sentiu Mess Lethierry lendo estacarta.
Debaixo daquela sobrecarta, naquela folha de papel dobrada em
quatro, a que, no primeiro momento, dera pouca atenção, havia
uma comoção.
Lethierry reconheceu a letra, reconheceu a assinatura. Quanto
ao fato, nada compreendeu ao princípio.
A comoção foi tal que lhe pos, por assim dizer, o espírito em
pé.
0 fenomeno dos 75 000 francos que Rantaine confiara a Clubin,
era um enigma, e era por isso o lado útil do abalo, visto que
obrigava Lethierry a refletir. Fazer uma conjetura, é, para o
pensamento, uma ocupação sã. Acorda o raciocínio, convoca-se a
lógica.
Desde algum tempo, a opinião pública de Guernesey ocupava-se
em julgar Clubin, o honrado homem que por tantos anos foi
unânimemente admitido na circulação da estima. Interrogavam-se
uns aos outros, duvidava-se, apostava-se pró e contra.
Apareceram singulares esclarecimentos. Clubin começava a
aparecer em toda a luz, isto é, tornava-se negro.
Houve em Saint-Malo uma devassa judiciária para saber onde
parava o guarda-costa 619. A perspicácia legal enganara-se, o
que lhe acontece muitas vezes. Partia da suposição de que o
guarda~costa fora atraído por Zuela e embarcado no Tamaufipas
para o Chile. Esta hipótese engenhosa trouxe consigo muitas
aberrações. A miopia da justiça não chegou a ver Rantaine. Mas
no decurso da pesquisa os magistrados descobriram outros
rastos; complicara-se o negócio que já era obscuro. Clubin
entrava no enigma. Havia uma coincidencia, alguma relação
talvez, entre a partida do Tamaufipas e a perda da Durande. Na
taverna da porta Dinan, onde Clubin acreditava não ser
conhecido, foi conhecido; o taverneiro falou; Clubin tinha
comprado uma garrafa de aguardente. Para quem? 0 armeiro da
Rua SaintVincent também falou; Clubin comprara um revólver.
Contra quem? 0 dono da hospedaria João também falou: Clubin
costumava ter ausencias inexplicáveis. 0 Capitão Gertrais
Gaboureau também falou, Clubin quis partir, apesar de avisado
e sabendo que devia haver nevoeiro. A tripulação da Durande
também falou. 0 carregamento era falho e mal arranjado,
negligencia fácil de compreender, se o capitão quer perder o
navio. Também falou o passageiro guernesiano; Clubin cuidou
ter naufragado nos Hanois. Também falou a gente de Torteval;
Clubin foi ali alguns dias antes do naufrágio e dirigiu-se
para Plainmont, vizinho dos Hanois. Levava uma mala, e não
voltou com ela. Igualmente falaram os furta-ninhos; a história
deles parecia prender~se ao desaparecimento de Clubin,
contanto que, em vez de almas do outro mundo, fossem
contrabandistas. Finalmente a própria casa mal-assombrada de
Plainmont falou; algumas pessoas, resolvidas a se
esclarecerem, tinham-na escalado, e o que acharam dentro?
Exatamente a mala de Clubin.
Os magistrados de Torteval apreenderam a mala e abriram-na.
Continha provisões de boca, um óculo, um cronoMI-tro, roupas
de homem e roupa branca marcada com as iniciais de Clubin.
Tudo isso, nas conversas de Saint-Malo e Guernesey, ia-se
acumulando, e já roçava pela fraude. Comparavam-se sintomas
confusos; averiguavam-se o desdém singular pelos conselhos, a
afronta do nevoeiro, a negligencia na arrumação das cargas, a
garrafa de aguardente, o timoneiro ébrio, a substituição do
capitão ao timoneiro, o movimento do leme, ao menos
desastrado. 0 heroísmo em ficar no navio tornava-se
velhacaria. Demais, Clubin enganou-se no escolho. Admitida a
intenção de fraude, compreeendeu-se a escolha dos Hanois, a
facilidade de nadar para a costa, e a residencia na casa
mal-assombrada até chegar a ocasião de fugir. A mala acabava a
demonstração. Qual o elo que prendia esta aventura à do
guardacosta, ainda não se tinha descoberto. Adivinhava-se uma
correlação; nada mais. Entrevia-se, quanto a esse homem, o
guarda-costa 619, um drama trágico. Clubin talvez não
representasse nele, mas descobriam-no nos bastidores.
Nem tudo se explicava pela fraude. Havia um revólver sem
emprego. 0 revólver entrou talvez no caso do guarda.
0 faro do povo é fino e acertado. 0 instinto público é hábil
nestas restaurações da verdade feitas de pedaços soltos.
Sómente, nesses fatos, de que resultava uma fraude verossímil,
havia sérias incertezas.
Tudo concordava; mas não havia base.
Não se perde um navio pelo gOsto de perde-io. Não se correm os
riscos do nevoeiro, do escolho, do nadar, do refúgio e da
fuga, sem um interesse. Qual seria o interesse de Clubin?
Via-se o ato, não se via o motivo.
Daí vinha a dúvida a muitos espíritos. Onde não há motivo,
parece que não há ato.
A lacuna era grave.
Ora, a carta de Rantaine vinha preencher a lacuna.
A carta dava o motivo de Clubin. Queria roubar 75 000 francos.
Rantaine era o Deus ex machina. Descia das nuvens com uma vela
na mão.
A carta era o esclarecimento final.
Explicava tudo essa carta e, de mais a mais, anunciava uma
testemunha: Ahier-Tostevin.
Coisa decisiva, sabia-se agora o emprego do revólver. Rantaine
estava incontestilvelmente informado de tudo. A sua carta
fazia tocar tudo com o dedo.
Nenhuma atenuante possível na inalvadeza de Clubin.
Premeditara o naufrágio, e a prova era a mala levada para a
casa Plainmont. E supondo-o inocente, admitindo o naufrágio
fortuito, não devia ele, no último momento, decidido ao
sacrificio, entregar os 75 000 francos aos homens que se
salvaram na chalupa? Era evidente. Mas que era feito de
Clubin? Foi provàvelmente vítima do seu erro. Pereceu sem
dúvida no escolho Dotivres.
0 andaime de conjeturas, todas conformes, na realidade, ocupou
durante muitos dias o espírito de Mess Lethierry. A carta de
Rantaine teve a utilidade de obrigá-lo a pensar. Teve um
primeiro abalo de surpresa, depois fez esforço de refletir.
Fez outro esforço mais dirícil ainda para informar-se. Aceitou
e procurou mesmo as conversas. No fim de oito dias tornou-se
prático até certo ponto; o espírito fortaleceu-se e quase
ficou curado. Saiu do estado turvo.
A carta de Rantaine, admitindo que Mess Lethierry tivesse
algum dia a esperança do reembolso, fez desaparecer a última
probabilidade.
À catástrofe da Durande ajuntava-se o naufrágio dos 75 000
francos. A carta empossava-o do dinheiro tanto quanto lhe
bastava para sentir a perda. Mostrava-lhe o fundo da ruína.
Daí veio um sofrimento novo e agudíssimo, que já indicamos.
Começou, coisa que há dois meses não fazia, a preocupar-se com
a casa, do que havia, e que reformas devia fazer. Tédio
eriçado de mil pontas, quase pior que o desespero. Odiosa
coisa é suportar a desgraça por miúdo, disputar passo a passo
ao fato realizado o terreno que ele vem tomar. Aceita-se a
massa do infortúnio, a poeira não. 0 conjunto acabrunha, o
pormenor tortura. Há pouco a catástrofe fulminava, agora
mortifica.
Essa é a humilhação agravante do infortúnio. É uma segunda
anulação que vem ajuntar-se à primeira, e feia. Desce-se um
degrau do nada. Depois do sudário, o andrajo.
Nada mais triste do que pensar em decair.
Parece simples estar arruinado. Golpe violento; brutalidade da
sorte; é a catástrofe uma vez por todas. Seja. Aceitase. Tudo
está acabado. Fica-se arruinado. Está dito, morreu. Qual!
Vive-se. É o que no dia seguinte começa-se a sentir. Por que?
Por alfinetadas. Passa um homem sem tirar o chapéu, chovem as
contas das lojas, ri-se um inimigo. Ri-se talvez do último
trocadilho de Arnal, mas é o mesmo, o trocadilho pareceu-lhe
mais engraçado, exatamente porque estás pobre. Les a tua
decadencia até nos olhares indiferentes; as pessoas que
jantavam em tua casa acham demasiado os tres pratos da tua
mesa; os teus defeitos saltam aos olhos de todos; as
ingratidões, não tendo que esperar mais nada, tiram a máscara;
todos os imbecis predisseram o que te acontece; os maus
dilaceram-te, os piores lamentamte. E mais cem pormenores
mesquinhos. A náusea sucede às lágrimas. Bebias vinho, beberás
sidra. Duas criadas! Uma seria demais. Devia-se despedir esta,
sobrecarregar aquela. Há florès demais no jardim; planta antes
batatas. Davas fiores aos amigos, vende-as agora no mercado.
Quanto aos pobres, já não deves pensar neles; também não és
pobre? As toaletes, questão pungente. Diminuir uma fita a uina
mulher, que suplício! Recusar o enfeite, a quem te dá a
beleza! Ter ares de avarento! Talvez que ela te diga: "Pois
que! Tiraste as ffires do meu Jardim, e agora as tiras do meu
chapéu!"
Ai triste! Condená-la aos vestidos velhos! A mesa de família é
silenciosa. Parece-te que te querem mal. Os rostos amados
parecem preocupados. Eis o que é a decadencia.
Cumpre-te morrer todos os dias. Cair não é nada, é' a
fornalha. Decair é o fogo lento.
A queda é Waterloo; a decadencia é Santa Helena. A sorte,
encarnada em Wellington, tem ainda alguma dignidade; mas,
quando se faz Hudson Lowe, que vilania! 0 destino torna-se um
bigorrilhas. Ve-se o homem de Campoformio querelando por um
par de meias de seda. Agorentou-se a Inglaterra, agorentando
Napoleão.
Essas duas fases, Waterloo e Santa Helena, reduzidas às
proporções burguesas, todos as atravessam.
Na noite de que falamos e que era uma das primeiras noites de
maio, Lethierry, deixando Déruchette passear ao luar, no
jardim, deitou-se mais triste que nunca.
Rolavam-lhe no espírito todas essas minúcias mesquinhas e
desagradáveis, complicações de fortunas perdidas, todas essas
preocupações de terceira ordem, que começam por ser insípidas
e acabam lúgubres. Triste acumulação de misérias. Mess
Lethierry sentia a sua queda irremediável. Que devia fazer
agora? Que seria dele? Que sacrificios devia impor a
Déruchette? Quem devia despedir, Doce ou Graça? Venderia a
casa? Seria obrigado a abandonar a ilha? Não ser coisa alguma
onde se foi tudo é uma decadencia insuportável.
E pensar que estava acabado! Recordar as viagens da França ao
arquipélago, a partida às terças-feiras, a chegada às sextas,
a clitisma no cais, aqueles grandes carregamentos, aquela
indústria, aquela prosperidade, aquela navegação direta e
altiva, aquela máquina sujeita à vontade do homem, aquela
caldeira onipotente, aquele fumo, aquela realidade! 0 vapor é
a bússola completa; a bússola indica o caminho, o vapor segue
por ele. Uma propõe, a outra executa. Onde estava agora a sua
Durande, aquela magnífica e soberana Durande, aquela senhora
do mar, aquela rainha que o fazia rei? Ter sido o homem idéia,
o homem triunfo, o homem revolução! E renunciar! Abdicar! Não
existir! Fazer rir aos outros! Ser um saco onde já houve
alguma coisa! Ser o passado quem foi o futuro! Merecer a
compaixão altiva dos idiotas! Ver triunfar a rotina, a
obstinação, o ramerrão, o egoísmo, a ignorância! Ver começar
outra vez as viagens dos cúteres góticos sacudidos pela vaga!
Ver a antiqualha rejuvenescer! Perder a vida! Perder a luz e
sofrer o eclipse! Ah! Como era belo ver sobre as vagas aquele
cano orgulhoso, aquele prodigioso cilindro, aquele pilar de um
capitel de fumo, aquela coluna maior que a de Vendome, porque
havendo nesta apenas um homem, ostentava-se naquela o
progresso! 0 oceano está por baixo; era a certeza em pleno
mar. Viu-se aquilo, naquela pequena ilha, naquele pequeno
porto, naquele pequeno SaintSampson? Sim, viu-se! Pois que!
Viu-se e não se verá mais!
Toda esta obsessão da saudade mortificáva Lethierry. Há
soluços no pensamento. Talvez nunca sentisse mais amargamente
a sua perda. Depois de tais excessos agudos costuma vir um
entorpecimento. Debaixo desse peso de tristeza Lethierry
adormeceu.
Ficou cerca de duas horas com as p~pebras fechadas, dormindo
pouco, sonhando muito, febril. Esses torpores cobrem um
obscuro e fatigante trabalho do cérebro. Pela meia-noite, um
pouco antes, ou um pouco depois, Lethierry sacudiu o
adormecimento. Acordou, abriu os olhos, a janela estava em
frente à maca, -viu uma coisa extraordinária.
Havia uma forma diante da janela. Forma inaudita. 0 cano de um
vapor.
Era um tubo de máquina. Lethierry precipitou-se para fora da
maca, correu à janela, levantou a vidraça, inclinou-se e
reconheceu.
0 cano da Durande estava diante dele.
Estava no lugar do costume.
As quatro correntes prendiam o cano à borda de um barco dentro
do qual distinguia-se uma massa de forma complicada.
Lethierry recuou, voltou as costas à janela e caiu assentado
na maca.
Voltou-se outra vez e viu a mesma visão.
Um momento depois, apenas o espaço de um relâmpago, estava ele
no cais com uma lanterna na mão.
À velha argola onde se prendia a Durande estava amarrada uma
barca trazendo um pouco à ré um vulto maciço donde saia o cano
que ficava em frente à janela. A proa da barca prolongava-se
além do canto da parede da casa e encostada ao cais.
Não havia ninguém na barca.
A barca tinha uma forma especial, conhecida por todos em
Guernesey; era a pança.
Lethierry pulou dentro. Correu à massa que ficava além do
mastro. Era a máquina.
Era ela, inteira, completa, intata, sentada sobre o fundo de
metal; a caldeira estava com todas as peças; a árvore das
rodas estava arranjada e amarrada perto da caldeira; a bomba
estava no seu lugar; nada faltava.
Lethierry examinou a máquina.
A lanterna e a lua ajudaram-lhe o exame.
Passou em revista todo o mecanismo.
Viu as duas caixas que estavam ao pé. Olhou para a árvore das
rodas.
Foi ao camarote; estava vazio.
Voltou à máquina e apalpou-a. Meteu a cabeça na caldeira.
Ajoelhou-se para ver dentro.
Colocou na caldeira a lanterna que iluminava todo o mecanismo
e produzia o efeito de uma máquina acesa.
Depois deu uma gargalhada, e, levantando-se, com o olhar fixo
na máquina e os braços estendidos para o cano, gritou:
"Socorro!"
0 sino do pOrto ficava perto. Lethierry correu a ele, segurou
a corda, e começou a sacudir o sino impetuosamente.


AINDA 0 SINO DO POR TO

Gilliatt, com efeito, depois de uma travessia sem incidente,
mas um pouco demorada por causa do peso do carregamento,
chegou a Saint-Sampson de noite, mais perto das 10 horas que
das 9.
Gilliatt calculara a hora. A maré começava a encher. Havia luz
e água; podia-se entrar no porto.
0 porto estava adormecido. Havia alguns navios ancorados,
cascos sem vergas, cestos de gávea recolhidos e sem faróis.
Descobria-se no fundo alguns navios em conserto postos no
estaleiro. Grandes cascos desmastreados, levantando acima das
amuradas furadas as pontas curvas de seus membros desnudos,
semelhantes a escaravelhos mortos deitados de costas e com as
pernas para o ar.
Gilliatt, apenas entrou no porto, examinou o cais. Não havia
luz em parte alguma, nem na casa de Lethierry nem nas outras.
Não havia ninguém na rua, exceto talvez um homem que acabava
de entrar ou sair do presbitério. E ainda assim poderia ser
que não fosse uma pessoa, porque a noite esfuma tudo quanto
desenha e o luar faz tudo indeciso. A distância ajudava a
obscuridade. 0 presbitério de então era situado do outro lado
do pOrto, no lugar onde outrora havia uma estiva coberta.
Gilliatt encostou-se silenciosamente ao muro e amarrou a pança
na argola da Durande, debaixo da janela de Mess Lethierry.
Depois saltou para terra.
Gilliatt, deixando atrás de si a pança, rodeou a casa,
atravessou uma viela, depois outra, nem mesmo olhou para o
entroncamento do caminho que ia ter à casa dele, e no fim de
alguns minutos parou no recanto da parede onde havia um pé de
malva silvestre com flores cor-de-rosa em junho, azevinho,
hera e urtigas. Era daí que, escondido no espinheiro,
assentado na pedra, tantas vezes, nos dias de verão e durante
longas horas e meses inteiros, tinha ele contemplado, por cima
do muro, tão baixinho que tentava um pulo, o jardim de Bravées
e, através das árvores, duas janelas de um quarto da casa.
Achou a pedra, o espinheiro, o muro baixo, o ângulo obscuro,
e, como um animal que volta ao buraco, antes escorregando que
andando, Gilliatt agachou-se. Depois. de assentado não fez
movimento algum. Olhou. Tomou a ver o jardim, as alamedas, as
grutas, os canteiros, a casa, as duas janelas do quarto. A lua
mostrava-lhe aquefe sonho. Era-lhe horrível ter de respirar.
Gilliatt forcejava por conter a respiração.
Parecia-lhe ver um paraíso fantasma. Tinha medo que lhe voasse
tudo aquilo. Era quase impossível que aquelas coisas
estivessem diante dele; e se estavam, eram sem dúvida prestes
a esvair-se como acontece com as coisas divinas. Bastava um
sopro para desaparecer tudo. Gilliatt tremia por isso.
Perto dele, e em frente, no jardim, à beira de uma alameda,
havia um banco de pau pintado de verde. Os leitores lembram-se
desse banco.
Gilliatt contemplava as duas janelas. Pensava em alguém que
estivesse dormindo naquele quarto. Quisera não estar onde
estava. Preferia morrer a retirar-se. Pensava numa respiração
levantando um seio. Ela, aquela miragem, aquela alvura dentro
de uma nuvem, aquela obsessão de seu espírito, estava ali!
Gilliatt pensava no inacessível que dormia, e tão perto, e ao
alcance do seu extase; pensava na mulher impossível adormecida
e visitada também pelas quimeras; na criatura desejada,
remota, esvaecente, fechando os olhos com a fronte na mão; no
mistério do sono da criatura ideal; nos sonhos que pode ter um
sonho. Não ousava pensar além e pensava; arriscava-se nas
faltas de respeito do devaneio; perturbava-o a quantidade de
forma feminina que pode haver no anjo. A hora noturna faz com
que os olhos tímidos lancem furtivos olhares; censurava-se por
ir tão longe, receava profanar com a reflexão; a seu pesar,
constrangido, tremulo, Gilliatt olhava para o invisível.
Sentia a comoção e quase o sofrimento de imaginar uma saia
numa cadeira, um manto atirado ao tapete, um cinto
desenlaçado, um lenço de pescoço. Imaginava um colete, um
atacador arrastando no chão, meias, ligas. Tinha a alma nas
estrelas.
As estrilas são feitas tanto para o coração humano de um
pobre, como para o coração de um milionário. Em certo grau de
paixão todos os homens são sujeitos às fascinações profundas.
Se a natureza é áspera e primitiva, razão de mais. A condição
selvagem aumenta o sonho.
A fascinação é uma plenitude que transborda como todas. Ver as
janelas era quase demais para Gilliatt.
De repente, viu ele a própria moça.
Dentre os ramos de uma moita, já espessa pela primavera, saiu
com inefável lentidão, fantástica e celeste, uma figura, um
vestido, um rosto divino, quase um clarão no meio do luar.
Gilliatt sentiu-se desfalecer. Era Déruchette.
Déruchette aproximou-se. Parou. Deu alguns passos para
afastar-se, parou ainda, depois voltou e assentou-se no banco
de pau. A lua batia nas árvores, algumas nuvens erravam por
entre as estrélas pálidas, o mar falava às coisas da sombra, a
meia voz, a cidade dormia, do horizonte subia uma neblina, a
melancolia era profunda.
Déruchette inclinava a fronte com aquele olhar pensativo que
contempla atentamente o vácuo; estava sentada de perfil, com a
cabeça quase descoberta, tendo um barretinho desatado que lhe
deixava ver na nuca delicada a origem dos cabelos, enrolava
màquinalmente: nos dedos uma fita do barrete, a penumbra
modulava as suas mãos de estátua, o vestido era de uma dessas
cOres que de noite se fazem brancas, as árvores moviam-se como
se rossem suscetíveis ao encanto que ressumbrava dela, via-se
a pontinha de um de seus pés, havia nos seus cílios fechados
aquela vaga contração que anuncia uma lágrima represa ou um
pensamento repelido, os seus braços tinham a indecisão
fascinante de não achar onde encostar-se, misturava-se-lhe à
postura alguma coisa flutuante, era antes um clarão que uma
luz, antes uma graça que uma deusa, as dobras da barra da saia
eram delicadas, o seu admirável rosto meditava virginalmente.
Estava tão perto, que era terrível. Gilliatt ouvia-a respirar.
Havia ao longe um rouxinol que cantava. A passagem do vento
nos ramos punha em movimento o inefável silencio noturno.
Déruchette, gentil e sagrada, aparecia naquele crepúsculo como
o resultado daqueles raios e daqueles perfumes; o encanto
imenso e esparso ia ter misteriosamente a ela, nela
condensava-se, era a sua irradiação. Parecia a alma flor de
toda aquela sombra.
Toda aquela sombra, flutuante em Déruchette, pesava sobre
Gilliatt. Estava desvairado. 0 que ele sentia não cabe dize-lo
em palavras; a comoção é sempre nova e as palavras já serviram
muito; daí vem a impossibilidade de exprimir a comoção. Existe
o abatimento do encanto. Ver Déruchette, vê-la ela própria,
ver-lhe o vestido, ver-lhe o barrete, ver-lhe a fita que ela
enrolava nos dedos, pode-se acaso imaginar semelhante coisa?
Estar perto dela, era acaso possível? Ouvi-Ia respirar;
respirava pois! Então os astros respiram. Gilliatt estremecia.
Era o mais miserável e o mais inebriado dos homens. Não sabia
que fazer. 0 delírio de vê-la esmagava-o. Pois que! Era ela
quem ali estava, era ele quem estava ali! As suas idéias,
deslumbradas e fixas, paravam naquela criatura como se fora um
rubi. Contemplava aquela nuca e aqueles cabelos. Gilliatt
nem mesmo pensava que tudo aquilo lhe pertencia, que em pouco
tempo, talvez amanhã, ele teria o direito de tirar-lhe aquela
coifa e deslaçar aquela fita. Sonhar até esse ponto era um
excesso de audácia que ele não poderia conceber um momento.
Tocar com o pensamento e quase tocar com a mão. 0 amor era
para Gilliatt como mel para urso, o sonho exímio e delicado.
Pensava confusamente. Não sabia o que tinha. 0 rouxinol
cantava. Ele sentia-se expirar.
Levantar-se, galgar o muro, aproximar-se, dizer "sou eu",
falar a Déruchette, foi idéia que não teve. Se a tivesse,
fugiria. Se alguma coisa semelhante a um pensamento chegou a
despontar no seu espírito, era que Déruchette estava ali, que
ele não tinha necessidade de mais coisa alguma, e que a
eternidade começava.
Um rumor arrancou a ambos, ela do devaneio, ele do extase.
Andava alguém no jardim. Não se via por causa das árvores. Era
um passo de homem.
Déruchette levantou os olhos.
Os passos aproximaram-se e cessaram. Quem quer que era, parou.
Devia estar perto. 0 caminho onde estava o banco perdia-se
entre duas moitas. Era aí que estava essa pessoa, nesse
intervalo, a poucos passos do banco.
0 acaso tinha disposto a espessura dos ramos de tal modo, que
Déruchette via a pessoa, sem que Gilliatt a visse.
0 luar projetava no chão, fora das moitas, e até ao banco, uma
sombra.
Gilliatt viu essa sombra.
Olhou para Déruchette.
Ela estava pálida. A bOca, entreaberta, esboçava um grito de
surpresa. Levantou-se um pouco do banco, tornou a sentar-se;
havia na sua atitude uma mistura de fuga e de fascinação. 0
seu pasmo era um encanto cheio de receio. Tinha nos lábios
quase a irradiação do sorriso, e um reflexo de lágrimas nos
olhos. Estava como que transfigurada por aquela presença. Não
parecia que a criatura ali chegada rosse da terra. Havia no
olhar de Déruchette a reverberação de um anjo.
A pessoa, que era apenas uma sombra para Gilliatt, falou
enfim. Saiu das moitas uma voz, mais doce que uma voz de
mulher, e voz de homem, contudo. Gilliatt ouviu estas
palavras:
- Vejo-a todos os domingos e quintas-feiras; disseram-me que
outrora a senhora não ia lá tantas vezes. Fizeram Este reparo,
peço-lhe perdão. Nunca lhe falei, era o meu dever; falo-lhe
hoje, é meu dever. Antes de tudo devo dirigir-me à senhora. 0
Ca~ere parte amanhã; foi por isso que eu vim.
A senhora passeia todas as noites neste jardim. Eu fazia mal
em conhecer tantos os seus hábitos se não tivesse o pensamento
que tenho. A senhora é - pobre. Eu sou rico desde esta manhã.
Quer-me por seu marido?
Déruchette ajuntou as duas mãos como uma suplicante, e olhou
para aquele que falava, muda, olhar fixo, tremula da cabeça
aos pés.
A voz continuou:
- Amo-a, Deus não fez o coração do homem para que se cale. Se
ele promete a eternidade, é porque quer o consórcio. Há para
mim na terra uma mulher, é a senhora. Penso na senhora como
numa oração. A minha fé está em Deus, na senhora a minha
esperança. As asas que tenho é a senhora quem as traz. A
senhora é a minha vida, e já o meu céu.
- Senhor - disse Déruchette -, não há na casa ninguém para
responder-lhe.
A voz soou de novo:
- Tive Este lindo sonho. Deus não'proíbe os sonhos. A senhora
faz-me o efeito de uma glória. Amo-a apaixonadamente. A santa
inocencia é a senhora. Sei que esta é a hora em que todos
estão dorm ' indo, mas eu não tinha outra ocasião à minha
escolha. Lembra-se daquele passo da Bíblia que nos leram?
Genesis, capítulo 25. Muitas vezes pensei nele. Reli-o muitas
vezes. 0 Reverendo Herodes dizia-me: "É-lhe
preciso uma mulher rica". Eu respondi: "Não, preciso de uma
mulher pobre". Falo-lhe de longe, e recuarei mesmo se a
senhora não quiser que a minha sombra toque em seus pés. É a
senhora a soberana; virá a mim se quiser. Assim o espero.
A senhora é a forma viva da benção.
- Senhor - balbuciou Déruchette -, eu não sabia que reparavam
em mim aos domingos e quintas-feiras.
A voz continuou:
- Nada se pode contra as coisas angélicas. Toda a lei é amor.
0 casamento é Canaã. A senhora é a beleza prometida. Ave,
cheia de graça!
Déruchette respondeu:
- Eu pensava que não fazia mal indo como as outras pessoas à
igreja.
A voz continuou:
- Deus pOs as suas intenções nas fiores, na aurora, na
primavera, e ele quer que se ame. A senhora é bela nesta sacra
obscuridade da noite. Este jardim foi cultivado pela senhora,
e no perfume há alguma coisa de seu hálito. Os encontros das
almas não dependem delas. Não é culpa nossa. A senhora ia à
igreja, nada de mais; eu estava lá, nada de mais. Nada fiz
senão sentir que a amava. Algumas vezes os meus olhos
levantaram-se para a senhora. Fiz mal, mas como não? Foi
contemplando-a que eu fiquei assim. Não podia impedi-lo. Há
vontades misteriosas acima de nós. 0 primeiro templo é o
coração. Ter a sua alma em minha casa, tal é o paraíso
terrestre a que eu aspiro. Aceita? Enquanto fui pobre nada
disse. Eu sei a sua idade. Tem vinte anos, eu tenho 26. Parto
amanhã, se me recusa não voltarei. Quer ser minha noiva? Os
meus olhos já lhe fizeram esta pergunta mais de uma vez e a
meu pesar. Amo-a, responda-me. Falarei a seu tio quando ele
puder receber-me, mas em primeiro lugar à senhora. É a Rebeca
que se pede Rebeca. Só se me não ama.
Déruchette inclinou a fronte e murmurou:
- Oh! Eu o adoro!
Isto foi dito em voz tão baixa que só Gilliatt ouviu. Ela
abaixou a fronte, como se o rosto na sombra pusesse na sombra
o pensamento.
Houve uma pausa. As fOlhas das árvores não se mexiam. Era esse
momento severo e aprazível em que o sono das coisas ajunta-se
ao sono das criaturas e em que a noite parece escutar as
palpitações da natureza. Neste recolhimento elevava-se, como
uma harmonia que completa um silencio, o ruído imenso do mar.
A voz continuou:
- Senhora.
Déruchette estremeceu.
A voz continuou: Estou esperando. 0 que espera? A sua
resposta. Deus a ouviu - disse Déruchette.
Então a voz tornou-se quase sonora e ao mesmo tempo mais doce
que nunca. Estas palavras saíram da moita como de uma sarça
ardente.
- Tu és minha noiva. Levanta-te e vem. Que o teto azul, onde
estão os astros, assista a esta aceitação da minha alma pela
tua alma, e que o nosso primeiro beijo se misture ao
firmamento!
Déruchette levantou-se e ficou um instante imóvel e com o
olhar fixo diante de si, fitando, sem dúvida, outro olhar.
Depois, a passos lentos, com a cabeça erguida, os braços
pendentes e os dedos das mãos abertos, como quando se caminha
para um amparo desconhecido, ela dirigiu-se para a moita e
desapareceu.
Um instante depois, em vez de uma sombra na areia, havia duas,
confundiam-se ambas, e Gilliatt via a seus pés o abraço
daquelas duas sombras.
0 tempo corre de nós como de uma ampulheta, e nós não temos o
sentimento dessa fuga, sobretudo em certos instantes supremos.
De um lado aquele par, que ignorava a testemunha e não a via,
do outro aquela testemunha que não via os dois, mas que sabia
que eles ali estavam, quantos minutos ficaram assim nessa
misteriosa suspensão? Seria impossível dize-lo. De súbito
ecoou um ruído longínquo e uma voz gritou: "Socorro!" E o sino
do porto começou a soar. É provável que a felicidade ébria e
celeste não ouvisse o tumulto.
0 sino continuou a soar. Quem procurasse Gilliatt no ângulo do
muro já o não encontraria.


LIVRO SEGUNDO

RECONHECIMENTO EM PLENO DESPOTISMO


ALEGRIA CERCADA DEANGúSTIA

Mess Lethierry agitava o sino com sofreguidão. De súbito
parou. Viu um homem voltar a esquina do cais. Era Gilliatt.
Mess Lethierry correu a ele, ou, para melhor dizer, atirouse a
ele, tomou-lhe a mão entre as suas, e olhou-o fitamente em
silencio; um desses silencios de explosão, não sabendo por
onde irromper.
Depois, com violência, sacudindo, e puxando, e apertandoo nos
braços, fez entrar Gilliatt na sala baixa de Bravées, empurrou
a porta com o tacão, que ficou entreaberta, assentou-se ou
caiu, em uma cadeira ao lado de uma grande mesa iluminada pela
lua, cujo reflexo embranquecia vagamente o rosto de Gilliatt,
e, com uma voz onde havia gargalhadas e soluços misturados,
gritou:
- Ali! Meu filho! Homem do bagpipe! Gilliatt! Eu berr sabia
que eras tu! A pança! Que diabo! Conta-me isso! Pois foste! Há
cem anos queimavam-te. É feitiçaria. Não falta nada. Já
examinei, reconheci, apalpei. Adivinho que as rodas estão nas
duas caixas. Então chegaste. Fui procurar-te na pança. Toquei
o sino. Procurava-te. Eu dizia comigo: onde está ele? Quero
devorá-lo. É preciso convir que se passam coisas
extraordinárias. Aquele animal volta do escolho Douvres.
Traz-me a vida. Com os diabos! Tu és um anjo. Sim, sim, sim, é
a minha máquina. Ninguém acredita. Hão de vê-la e dizer: não
falta nem uma serpentina. 0 tubo de água não se deslocou. É
incrível que não houvesse avaria. Falta só pOr um pouco de
azeite. Mas como foi? E a Durande vai agora navegar! A árvore
das rodas está desmontada como se fosse feita por um ourives.
Dá-me a tua palavra de honra que eu não estou doido.
Levantou-se, respirou e prosseguiu:
- Jura-me. Que revolução! Dou beliscões em mim mesmo, vejo que
não sonho. Tu és meu filho, és meu rapaz, és Deus. Ah! Meu
filho. Ir buscar a minha pobre máquina! No mar alto! Naquela
emboscada do escolho! Tenho visto muita coisa espantosa em
minha vida. Nunca vi coisa assim. Vi os parisienses que são
uns satanases. Boas! Não faziam isto. É pior que a Bastilha.
Vi os gaúchos lavrarem nos pampas, tendo por charrua um galho
de árvore, do comprimento de 1 covado e por grade um feixe de
espinhos puxado por corda de couro; colhem, com isto, grãos de
trigo do tamanho de avelãs. Não valem dois caracóis ao pé de
ti. Fizeste um milagre, um verdadeiro milagre. Ah! Tratante!
Salta-me ao pescoço. Como vai rosnar a gente de Saint-Sampson!
Vou tratar já e já de fazer o navio. É admirável não ter
quebrado a vara da redouça. Meus senhores, ele foi às
Dotivres. Às Douvres! Um penedo que não tem rival. Já sabes,
está provado que a coisa foi feita de propósito. Clubin perdeu
a Durande para furtarme o dinheiro que devia trazer-me.
Embriagou Tangrouille. É longo, depois te contarei a pirataria
dele. Eu era um bruto, tinha conflança em Clubin. Mas o
malvado não pode naturalmente sair de lá. Há um Deus, canalha!
Olha, Gilliatt, quanto antes, ferro na forja, vamos
reconstruir a Durande. Darlhe-emos 20 pés mais. Agora fazem-se
os navios mais compridos. Hei de comprar madeira em Dantzig e
Bremen. Agora que tenho a máquina hão de emprestar-me
dinheiro. A confiança voltará.
Mess Lethierry deteve-se, levantou os olhos com aquele olhar
que ve o céu através do teto, disse entre dentes: "Há um
meio".
Depois pos o dedo médio da mão direita entre as sobrancelhas,
com a unha apoiada no alto do nariz, o que indica passagem de
um projeto no cérebro, e continuou:
- É o mesmo, para começar em grande escala, algum dinheiro
basta. Ah ! Se eu tivesse as minhas tres notas de banco que o
tratante de Rantaine me restituiu e que o tratante de Clubin
me roubou!
Gilliatt, em silencio, procurou na algibeira alguma coisa, que
colocou diante de si. Era o cinto de Clubin. Abriu e pOs na
mesa o cinto, no interior do qual a lua deixava ler a palavra:
Clubin; tirou da abertura uma caixinha, e da caixinha tres
pedaços de papel que desenrolou e estendeu a Mess Lethierry.
Mess Lethierry examinou os tres pedaços de papel. Havia
bastante claridade para que o número 1000 e a palavra thousand
fossem perfeitamente visíveis. Mess Lethierry pegou nos tres
bilhetes, pO-Ios na mesa um ao lado do outro, olhou para eles,
olhou para Gilliatt ficou um momento calado, depois foi como
que uma erupção depois de uma explosão.
- Também isto! Tu és prodigioso. As minhas notas do banco!
Todas tres! Mil cada uma! Os meus 75 000 francos! Então foste
ao inferno? É o cinto de Clubin. Por Deus: leiolhe o nojento
nome. Gilliatt traz a máquina e mais o dinheiro! Isto deve ser
contado nos diários públicos. Vou comprar madeira de primeirà
qualidade. Adivinho, achaste o esqueleto. Clubin apodreceu lá
em algum canto. Compraremos pinho em Dantzig e carvalho em
Bremen, faremos um bom casco, carvalho por dentro, pinho por
fora. Em outro tempo fabricavam-se navios menos perfeitos e
eles duravam mais; é que a madeira era mais seca porque não se
construía tanto. Faremos talvez a quilha de olmo. 0 olmo é bom
para estar sempre na água: andando ora molhado, ora seco,
apodrece: o olmo alimenta-se de água. Que bela Durande vamos
fazer! Não me hão de impor. Já não preciso crédito. Tenho
dinheiro. Já se viu coisa assim como Gilliatt? Eu estava
prostrado, abatido, morto. Chega ele põe-me de pé. E eu que
não pensava nele! Já nem me lembrava. Agora lembra-me tudo.
Pobre rapaz! Ah! Bem, sabes, tu casas com Déruchette.
Gilliatt encostou-se à parede como se vacilasse e baixinho,
mas distintamente, disse:
- Não.
Mess Lethierry teve um sobressalto.
- Como, não?
Gilliatt respondeu:
-Não a amo.
Mess Lethierry foi à janela, abriu-a e fechou-a, pegou nas
tres notas do banco, dobrou-as, pos a caixa em cima, coçou a
cabeça, pegou no cinto de Clubin, atirou-o violentamente
contra a parede e disse:
- Há alguma coisa!
Meteu as mãos nos bolsos, e continuou:
- Não amas Déruchette!.Era então por minha causa que tocavas
bagpipe?
Gilliatt, sempre encostado à parede, enIpalidecia como um
homem que está prestes a não respirar. A proporção que se
tomava pálido, Lethierry tomava-se vermelho.
- Vejam Este parvo! Não ama Déruchette! Pois trata de ainá-la,
porque ela não há de casar senão contigo. Que histórias são
essas? Cuidas que te acredito? Estás doente? Pois bem, manda
chamar um médico, mas não digas extravagâncias, é impossível
que tivesses tempo de brigar com ela e ficares arrufado. É
verdade que os namorados são uns tolos! Vamos, tens alguma
razão? Se tens, fala; ninguém é tolo sem ter razão. Demais, eu
tenho algodão nos ouvidos, talvez ouvisse mal, repete o que
disseste.
Gilliatt replicou:
- Disse que não.
- Disseste que não. E teima o bruto! Tens alguma coisa, é
claro. Disseste que não! É uma estupidez que passa os limites
do mundo conhecido. Por muito menos dão-se banhos medicinais a
uma criatura. Ali! Tu não amas Déruchette! Então foi por amor
do velhote que fizeste tudo isto! Foi pelos bonitos olhos do
papá que foste às Dotivres, que tiveste frio, que tiveste
calor, que tiveste fome e sede, que comeste bichos do rochedo,
que tiveste por quarto de dormir o nevoeiro, a chuva e o
vento, e que me trouxeste a máquina como se traz a uma mulher
bonita o canário que fugiu? E a tempestade de há tres dias! Se
tu imaginas que eu não faço idéia do que passaste! Estiveste
em boas! Foi então com o pensamento em mim que cortaste,
rachaste, viraste, arrastaste, limaste, serraste, inventaste,
e fizeste tantos milagres, tu só, mais que todos os santos do
paraíso? Ali! Idiota! Pois olha que me aborreceste com a tua
sanfona! Na Bretanha chama-se biniou. Sempre a mesma toada,
animal! Ah! Tu não amas Déruchette! Não sei o que tens.
Lembra-me agora, eu estava neste canto. Déruchette disse:
"Casava-me". E há de casar contigo. Ah! Não a amas! Feitas as
reflexões, eu não compreendo nada. Ou tu estás doido ou eu! E
não diz palavra! Não é lícito fazer o que fizeste e dizer no
fim: "Não amo Déruchette". Não se faz um obséquio à gente para
obrigá-la a ficar com raiva. Pois bem, se não te casas com
ela, Déruchette não se casa com pessoa alguma, fica para tia.
Em primeiro lugar, preciso de ti. Serás pilOto da Durande. Se
cuidas que vou deixar-te ir assim!Ta, ta, ta, nada, meu amigo,
já te não largo. És meu. Nem te quero ouvir. Onde há um
marinheiro como tu? És o meu homem. Mas fala, com os diabos!
0 sino tinha acordado a gente da casa e da vizinhança. Doce e
Graça tinham-se levantado e acabavam de entrar na sala baixa,
espantadas, sem dizer palavra. Graça trazia uma vela. Um grupo
de vizinhos, burgueses, marinheiros e aldeões, saídos à
pressa, estava fora no cais, contemplando com pasmo e susto o
cano da Durande na pança.
Alguns, ouvindo a voz de Lethierry na sala baixa, começavam a
entrar silenciosamente pela porta entreaberta. Entre duas
caras de comadres, passava a cabeça do Sr. Landoys, que por
acaso costumava sempre estar presente nos lugares onde
sentiria se não estivesse.
As grandes alegrias querem sempre um público. Agradalhes o
ponto de apoio um pouco esparso que oferece uma multidão;
partem daí. Mess Lethierry descobriu repentinamente que tinha
gente à roda de si. Aceitou logo o auditório.
^ - Ah! Voces estão aí? Que felicidade. Já sabem a notícia.
Este homem lá foi e de lá trouxe aquilo. Bom dia, Sr. Landoys.
Ainda há pouco quando acordei vi o cano. Estava debaixo da
minha janela. Não falta nem um prego. Fizeramse gravuras de
Napoleão; eu prefiro isto à batalha de Austerlitz. Sabem voces
da coisa. A Durande chegou enquanto dormiam. Enquanto se
metiam nos lençóis e apagavam as velas, há pessoas que são
heróis. Uns são covardes, vadios, aquecem os seus reumatismos;
felizmente isso não impede que haja espíritos fogosos. Esses
vão onde é preciso ir, fazem o que é preciso fazer. 0 homem da
casa mal-assombrada chegou do rochedo Dotivres. Pescou a
Durande do fundo do mar, pescou o dinheiro da algibeira de
Clubin, abismo mais profundo que o outro. Mas como fizeste
isso? Tinhas todos os diabos contra ti, o vento e a maré, a
maré e o vento. É verdade que tu és feiticeiro. Os que dizem
isto já não são tão pascácios. Voltou a Durande!Em vão se
enfurecem as tempestades, Este estrangula-as. Meus amigos,
anuncio-lhes que já não há naufrágios. Já examinei a máquina.
Está como nova, está completa! Movem-se os cilindros tão
filcilmente como dantes. Parecia novinha em folha. Sabem que a
água que sai é levada para fora do navio por um tubo colocado
em outro tubo por onde passa a água que entra para utilizar o
calor; pois bem, os dois tubos estão salvos. A máquina toda!
As rodas também!Ah! Hás de casar com ela!
- Com quem? Com a máquina? - perguntou o Sr. Landoys.
- Não, a pequena. Sim, a máquina. Ambas. Há de ser duas vezes
meu genro. Good-bye, Capitão Gilliatt. Vamos ter Durande!
Vamos fazer negócio, vai haver circulação e comércio, e
transporte de bois e carneiros! Não troco SaintSampson por
Londres. E aqui está o autor. Digo-lhes que é uma aventura. Há
de ler-se isto sábado na gazeta de Mauger. 0 engenhoso
Gilliatt é um finório. Que dinheiro é Este em ouro?
Mess Lethierry acabava de ver, pela fresta da tampa, que havia
ouro na caixinha posta sobre as notas de banco. Pegou nela,
abriu-a, esvaziou-a na palma da mão, pOs o punhado de guinéus
sobre a mesa.
- Para os pobres. Sr. Landoys, de Estes pounds da minha parte
ao condestável de Saint-Sampson. Sabe da carta de Rantaine?
Mostrei-lha outro dia; pois bem; aqui estão as notas do banco.
Com isto posso comprar carvalho e pinho, e fazer a
carpintaria. Veja. Lembra-se do tempo que houve há tres dias?
Que ataque de vento e de chuva! 0 céu disparava tiros de
canhão. Gilliatt recebeu tudo isso nas Dotivres, sem que lhe
obstasse o desaferrar o navio como eu tiro o meu relógio da
parede. Graças a Gilliatt, já sou alguém. A galeota do pai
Lethierry vai continuar o serviço, senhores e senhoras. Uma
casca de noz com duas rodas, e um tubo de cachimbo, foi sempre
a minha mania. Disse sempre comigo: "Hei de fazer uma máquina
destas!" Data de longe; foi uma idéia que tive em Paris, no
café que faz a esquina da Rua Cristina e da Rua Delfina, lendo
um jornal que falava do invento. Sabem que Gilliatt era capaz
de meter a máquina de Marly na algibeira e passear com ela?
Este homem é de ferro batido, é aço de tempera, é diamante, um
marujo de polpa, um ferreiro, um rapazola extraordinário, mais
espantoso que o Príncipe Hohenlohe. A isto chamo eu um homem
de engenho. Nós não valemos nada. Os lObos do mar somos nós; o
leão do mar é ele. Hurrah, Gilliatt! Não sei o que ele fez,
mas certamente fez o diabo, e como é que não lhe hei de dar
Déruchette!
Desde alguns instantes Déruchette entrara na sala. Não dissera
palavra, não fizera rumor. Entrou como uma sombra.
Assentara-se, quase despercebida, em uma cadeira por trás de
Mess Lethierry de pé, loquaz, tempestuoso,. alegre, abundante
de gestos, e falando em voz alta. Um pouco atrás dela veio
outra aparição muda. Um homem vestido de preto, de gravata
branca, com o chapéu na mão, parara na abertura da porta.
Havia agora muitas velas no grupo lentamente engrossado- As
luzes batiam de lado no homem vestido de preto; o seu perfil,
de alvura jovem e deliciosa, desenhava-se no fundo obscuro com
uma pureza de medalha; apoiava o cotovelo numa almofada da
porta, e tinha a fronte na mão esquerda, atitude que lhe era
graciosa, sem ser meditada, e que fazia valer a grandeza da
fronte na pequenez da mão. Havia uma ruga de angtiftia no
canto de seus lábios contraídos. Examinava e ouvia com atenção
profunda. Os assistentes, tendo reconhecido o reverendo
Ebenezer Caudray, cura da paróquia,tinham-se afastado para
deixá-lo passar, mas ele ficou na soleira. Havia hesitação na
sua postura e decisão no seu olhar. 0 olhar de quando em
quando encontrava o de Déruchette. Quanto a Gilliatt, ou por
acaso ou de propósito, estava na sombra, e mal se podia ve-lo.
Mess Lethierry não viu ao princípio o Sr. Ebenezer, mas viu
Déruchette. Foi a ela e beijou-a com toda a sofreguidão que
pode ter um beijo na fronte. Aó mesmo tempo estendia o braço
para o canto escuro onde estava Gilliatt.
- Déruchette - disse ele -, estás outra vez rica e o teu
marido é aquele.
Déruchette levantou a cabeça desvairada e olhou para a sombra.
Mess Lethierry continuou:
- Há de se fazer o casamento quanto antes, amanhã, se for
possível, há de haver dispensas, mas as formalidades são
simples, o decano faz o que quer, casa-se a gente antes de
gritar: guarda de baixo! Não é como na França, onde se
precisam banhos, publicações, dilações, um chuveiro de
formalidades e tu serás mulher de um homem valente e não há de
que dizer, é um marinheiro, sempre o pensei desde o dia em que
o vi voltar de Herm com a peça de artilharia. Agora volta das
Douvres com a tua fortuna, e a minha, e a fortuna da terra; é
um homem que há de dar o que falar; tu disseste: "Caso-me com
ele"; pois hás de casar; e hão de ter filhos, e eu serei avo,
e terás fortuna de ser a lady de um rapagão sério, que
trabalha, que é útil, que é surpreendente, que vale por cem,
que salva as invenções dos outros, que é uma providencia, e ao
menos não casarás, como todas as raparigas ricas deste lugar,
com um soldado ou um padre, isto é, o homem que mata e o homem
que mente. Mas que fazes aí metido no canto, Gilliatt? Ninguém
te ve. Doce! Graça! Todos! Luzes! Iluminem o meu genro a
giorno. Caso-os, meus filhos, e eis teu marido, e eis o meu
genro, o Gilliatt da casa mal-assombrada, o grande marinheiro,
e eu não terei outro genro, e não terás outro marido, torno a
dar a minha palavra de honra a Deus. Ali! Ali! E Vossa
Reverendíssima, senhor cura, há de casar-me Estes pequenos.
0 olhar de Mess Lethierry acabava de cair no Reverendo
Ebenezer.
Doce e Graça tinham obedecido. Duas velas postas na me~ sa
iluminavam Gilliatt da cabeça aos pés.
- Como está bonito! - gritou Lethierry.
Giliatt estava hediondo.
Estava tal qual saíra, naquela manhã, do escolho Dotivres, em
frangalhos, os cotovelos rotos, a barba longa, os cabelos
eriçados, os olhos queimados e vermelhos, a face esfolada, as
mãos sangrentas; tinha os pés descalços. Algumas das pústuIas
da pieuvre estavam visíveis nos braços cabeludos.
Lethierry contemplava-o.
É o meu verdadeiro genro. Como se bateu com o mar! Está em
frangalhos! Que ombros! Que pés! Como és belo!
Graça correu a Déruchette, amparou-lhe a cabeça. Déruchette
tinha desmaiado.


A MALA DE COURO

Desde madrugada Saint~Sampson estava de pé e Saint~
Pierre-Port começava a chegar. A ressurreição de Durande fazia
na ilha um rumor comparável ao que fez no meio-dia da França a
Salette. Havia multidão no cais para contemplar o cano que
saía da pança. Tinham vontade de ver e tocar na máquina, mas
Lethierry, depois de repetir, e à luz do dia, a inspeção
triunfante da mecânica, tinha posto na pança dois marinheiros
encarregados de impedir que ninguém se aproximasse. 0 cano,
porém, bastava à contemplação. A multidão pasmava. Só se
falava de Gilliatt. Comentava-se e aceitavase a alcunha de
engenhoso, a admiração acabava sempre por esta frase: "Nem
sempre é agradável ter na ilha gente capaz de fazer coisas
destas".
De fora via-se Mess Lethierry assentado à mesa diante da
janela e escrevendo, com um Olho no papel, e outro na máquina.
Estava de tal modo absorto que apenas uma vez interrompeu-se
para gritar: "Doce!" e para pedir notícias de Déruchette. Doce
respondeu: "A menina levantou-se e saiu". Mess Lethierry
disse: "Faz bem tomar ar. Esteve incomodada de noite por causa
do calor. Havia muita gente na sala. E depois a surpresa, a
alegria e as janelas fechadas. Vai ter um marido soberbo!" E
tornou a escrever. Já tinha escrito e fechado duas cartas
dirigidas aos mais notáveis construtores de Bremen. Acabava de
fechar a terceira.
0 rumor de uma roda no cais fez-lhe levantar a cabeça.
Inclinou-se à janela e viu desembocar do atalho que ia ter à
casa de Gilliatt um rapaz empurrando um carrinho de mão. 0
rapaz dirigia-se para o lado de Saint-Pierre-Port. Havia no
carrinho uma mala de couro amarela com pregos de cobre e
estanho.
Mess Lethierry falou ao rapaz:
- Onde vais?
0 rapaz parou, e respondeu:
- Ao Ca~ere.
- Para que?
- Levar esta mala.
- Pois bem, levarás também estas tres cartas.
Mess Lethierry abriu a gaveta da mesa, e pegou num pedaço de
barbante, enlaçou as tres cartas que acabava de escrever, e
atirou o embrulho ao rapaz que o recebeu no ar entre as duas
mãos.
- Dirás ao capitão do Ca~ere que sou eu quem escrevo, e que
ele tenha cuidado com elas. É para a Alemanha. Bremen via
Londres.
- Não falarei ao capitão, Mess Lethierry.
- Por que?
- 0 Caere não está no cais.
- Ah!
- Está na barra.
- É justo, por causa do mar.
- Só posso falar ao patrão do escaler.
- Recomenda~lhe as minhas cartas.
- Sim, Mess Lethierry.
- A que horas parte o Caere?
- Ao meio-dia.
- Ao meio-dia hoje, é a enchente da maré. Tem contra si a
maré.
- Mas tem vento de feição.
- Rapaz - disse Mess Lethierry pondo o dedo índex no cano da
máquina - ves isto? Isto zomba do vento e da maré.
0 rapaz pos as cartas na algibeira, pegou outra vez no
carrinho, e continuou a viagem para a cidade.
Mess Lethierry chamou:
- Doce! Graça!
Graça entreabriu a porta.
- Que há, Mess?
- Entra e espera.
Mess Lethierry pegou numa folha de papel e começou a escrever;
se Graça, de pé atrás dele, fosse curiosa e esticasse o
pescoço, poderia ler, por cima do ombro, isfo:
"Escrevo a Bremen para ver madeira. Tenho de falar durante o
dia aos carpinteiros para a avaliação. Vai ter à casa do
decano para arranjar as dispensas. Desejo que o casamento se
faça o mais cedo possível, e já, será melhor. Estou tratando
de Durande, trata tu de Déruchette."
Datou e assinou "Lethierry".
Não se deu ao trabalho de fechar a carta, dobrou-a
simplesmente em quatro e deu-a a Graça.
- Leva isto a Gilliatt.



LIVRO TERCEIRO

A PARTIDA DO "CASHMERE"



A ANGRAZINHA DA IGREJA

Saint-Sampson não pode estar apinhado de gente sem que
Saint-Pierre-Port fique deserto. Uma coisa curiosa num ponto
dado é uma bomba aspirante. As notícias correm depressa nas
terras pequenas; ir ver o cano da Durande debaixo da janela de
Mess Lethierry foi desde o romper do dia a grande ocupação de
Guernesey. Qualquer outro acontecimento desaparecia diante
desse. Eclipse da morte do decano de SaintAsaph; já ninguém
curava do Reverendo Ebenezer Caudray, nem da sua repentina
riqueza, nem da sua partida no Cashmere. A máquina da Durande,
trazida das Dotivres, estava na ordem do dia. Ninguém
acreditava. 0 naufrágio parecera extraordinário, mas o
salvamento parecia impossível.Todos queriam ver com os seus
próprios olhos. Todas as ocupações ficaram suspensas. Longas
fileiras de burgueses em família, desde o vesin até o mess,
homens, mulheres, gentlemen, mães com filhos e filhos com
bonecas, dirigiam-se por todas as estradas para ver a coisa,
em Bravées, e davam-se as costas a Saint-Pierre-Port. Muitas
lojas de Saint-Pierre-Port estavam fech adas; no Cominercial
Arcade, estagnação absoluta de venda e de negócio; toda a
atenção estava voltada para a Durande, nenhum mercador
estreou, exceto um ourives que se maravilhava de ter vendido
um anel de ouro para casamento - "a uma espécie de homem que
parecia muito apressado e que lhe perguntou onde morava o sr.
decano".

As lojas que ficaram abertas eram os lugares de conversa onde
se comentava ruidosamente o milagroso salvamento da máquina.
Ninguém passeava na Hyvreuse, que se chama hoje, não se sabe
por que, Cambridge-Park; ninguém em HighStreet, que se chamava
então a Rua Grande, nem em Smith Street, que se chamava a Rua
das Forjas; ninguém em Hauteville; a própria Esplanada estava
deserta. Dissera-se um domingo. Uma alteza real, que ali fosse
de visita, e passasse em revista a milícia de Ancresse, não
despovoaria melhor a cidade. Todo aquele abalo a propósito de
uma coisa à toa, como Gilliatt, fazia erguer os ombros aos
homens graves e às pessoas corretas.
A igreja de Saint-Pierre-Port, tríplice carreta sobreposta com
transepto e flecha, fica situada à beira da praia no fundo do
porto quase sobre o desembarque. Dá a saudação aos que chegam
e o adeus aos que saem. Aquela igreja é a maiúscula de uma
longa linha que faz a fachada da cidade sobre o oceano
~ ao mesmo tempo a paróquia de Saint~Pierre-Port e chefe de
toda a ilha. Tem por pároco o sub-rogado do bispo, clergyman*
com plenos poderes.
0 ancoradouro de Saint-Pierre-Port, hoje largo e magnífico
porto, era naquela época, e ainda há dez anos, menos
considerável que o ancoradouro de Saint-Sampson. Eram duas
grossas paredes ciclópicas, curvas, partindo da praia a
estibordo e bombordo e ligando-se quase na extremidade, onde
havia um farolzinho branco. Debaixo daquele farol uma
garganta, que ainda tinha as duas argolas da corrente que a
fechava na Idade Média, dava passagem aos navios. Imaginem uma
unha de lagosta aberta, era o ancoradouro de
Saint-Pierre-Port. Aquela tenaz tomava ao mar um pouco de água
que obrigava a ficar tranqüila. Mas, com vento de leste, havia
marulho na entrada, o porto ficava agitado, e era acertado não
penetrar lá. Foi o que flez nesse dia o Ca~ere, que ficou
fora.
Os navios, quando soprava o leste, faziam isso que, no fim das
contas, economizava as despesas do pOrto. Nesses casos, os
bateleiros da cidade, tribo valente de marinheiros que o novo
porto destituíra, iam tomar em seus barcos os viajantes, ou no
cais, ou nas estaçaões da praia, e os transportavam.
eles e às bagagens, muitas vezes com marés agitadas e sempre
sem acidentes, aos navios que deviam sair. 0 vento de leste é
um vento de flanco muito bom para ir à Inglaterra; o mar é
agitado sem que o navio estremeça.
Quando o navio ficava no porto, todos embarcavam no porto;
quando estava fora, podia-se escolher uma das costas vizinhas
do ancoradouro do navio. Achavam-se em todas as angras
bateleiros à vontade.
A Angrazinha era dessas. Aquele cais ficava próximo à cidade,
mas tão solitário, que parecia longe. Devia a solidão às duas
grandes penedias do forte de São Jorge que dominavam aquele
sítio discreto. Chegava-se à Angrazinha por caminhos diversos.
0 mais direto ia pela praia; tinha a vantagem de ir dar à
cidade e à igreja em cinco minutos, e o inconveniente de ser
coberto pela maré duas vezes por dia.
Outros caminhos, mais ou menos abruptos, mergulhavam nas
anfratuosidades dos rochedos. A Angrazinha, mesmo em pleno
dia, ficava numa penumbra. Grandes pedras amontoadas pendiam
de todos os lados. Havia espessuras de espinhos, fazendo uma
espécie de noite suave naquela desordem de rochas e vagas;
nada mais aprazível do que aquela angra em tempo calmo, nada
mais tumultuoso nas grossas águas. Havia pontas de galhos
perpètuamente molhados pela escuma. Na primavera ficava cheia
de ffires, ninhos, perfumes, aves, borboletas e abelhas.
Graças aos trabalhos recentes, essa selvaiaria já não existe;
foi substituída por belas linhas retas; há obras de pedreiro,
cais, jardins; tudo foi derrubado; o gOsto destruiu as
extravagância9 da montanha e a incorreção dos rochedos.


0 DESESPER0 DIANTE D0 DESESPÉR0

Era pouco menos de 10 horas da manhã: "o quarto de hora
antes", como se diz em Guernesey.
0 povo, segundo todas as aparencias, ia engrossando em
Saint-Sampson. A população, febricitante de curiosidade, ia
toda para o norte da ilha, de maneira que a Angrazinha, que
fica ao sul, estava mais deserta que nunca.
Contudo, viam-se aí um bote e um remador. No bote havia um
saco de viagem. 0 bateleiro parecia esperar.
Via-se ao largo o Caere ancorado, que, devendo partir lá para
o meio-dia, não fazia nenhum movimento de aparelho.
0 viandante que, de qualquer dos caminhos-escadas tivesse
prestado o ouvido, ouviria um murmúrio de palavras na
Angrazinha, e inclinando-se por cima, veria a alguma distância
do bote, num recanto de pedras e galhos onde não podia
penetrar o olhar do bateleiro, duas pessoas; um homem e uma
mulher, Ebenezer e Déruchette.
Esses asilos obscuros das praias, que tentam as banhistas não
são tão solitários como se pensa. Às vezes espreita-se e
ouve-se de fora. Os que se refugiam podem ser facilmente
acompanhados através das espessuras das vegetações, e graças à
multiplicidade e entravamento dos atalhos. Os granitos e
árvores que escondem o refugiado podem esconder também uma
testemunha.
Déruchette e Ebenezer estavam de pé diante um do outro, com o
olhar no olhar; tinham as mãos presas. Ebenezer estava calado.
Uma lágrima engrossada e presa entre os seus cílios hesitava
em cair, e não caía.
A desolação e a paixão estavam impressas na fronte religiosa
de Ebenezer. Havia também uma resignação pungente, hostil à fé
, embora derivasse dela. Naquele rosto, simplesmente angélico
até então, havia um começo de expressão fatal. Aquele que até
então só meditara sobre o dogma, entrava a meditar sobre a
sorte, meditação nociva ao padre. Nessa meditação decompõe-se
a fé. Nada perturba tanto o espírito como curvar-se ao peso do
ignoto. 0 homem é o paciente dos acontecimentos. A vida é um
perpétuo sucesso, imposto ao homem. 0 homem não sabe de que
lado virá a brusca descida do acaso. As catástrofes e as
felicidades entram e saem como personagens inesperadas. Tem a
sua fé, a sua órbita, a sua gravitação fora do homem. A
virtude não traz a felicidade, o crime não traz a desgraça; a
consciência tem uma lógica, a sorte tem outra; nenhuma
coincidencia. Nada pode ser previsto. Vivemos de atropelo. A
consciência é a linha reta, a vida é o turbilhão. 0 turbilhão
atira à cabeça do homem caos negros e céus azuis. A sorte não
tem a arte das transições. Às vezes a vida anda tão depressa
que o homem mal distingue o intervalo de uma peripécia a outra
e o laço de ontem -a hoje. Ebenezer era um crente mesclado de
raciocínio e um padre mesclado de paixão. As religiões
celibatárias sabem o que fazem. Nada desfaz tanto o padre como
amar uma mulher. Todas as espécies de nuvens ensombravam
Ebenezer.
Contemplava demasiado Déruchette.
Aquelas duas criaturas idolatravam-se.
Havia na pálpebra de Ebenezer a muda adoração do desespero.
Déruchette dizia:.
- Não há de partir. Não tenho fo~ça para ve-lo ir-se embora.
Eu acreditava poder despedir-me, e não posso. Ninguém é
obrigado a poder. Por que foi ontem ao jardim? Não devia ir,
se queria ir-se embora. Nunca lhe falei. Amava-o, mas não o
sabia. Sórnente, quando o Sr. Herodes leu a história de
Rebeca, e que os seus olhos encontraram os meus, senti as
faces em fogo, e disse comigo: "Oh! Como Rebeca devia ter
corado!" Ontem se me dissessem que eu amaria o cura, ria-me. É
o que há de terrível neste amor. Foi uma espécie de traição.
Não me acautelei. Ia à igreja, via-o, acreditei que todos eram
como eu. Não lhe faço censura alguma, nada fez para que eu o
ame, não se deu a nenhum trabalho, olhava-me, não é culpa sua
se olha para as outras pessoas, e o resultado é que eu o
adoro. Eu nem reparava. Quando as suas mãos pegavam num livro,
era uma luz; quando os outros pegavam nele, era apenas um
livro. Às vezes levantava os olhos para mim. Falava dos
arcanjos, e era o arcanjo. 0 que dizia, pensava-o eu logo.
Antes de ve-lo não sei se acreditava em Deus. Depois que o vi
tornei-me uma mulher qua faz as suas orações. Eu dizia a Doce:
"Veste-me depressa, nao quero faltar ao ofício". E corria à
igreja. Estar apai~ xonada por um homem é isto. Eu não o
sabia. Dizia comigo: "Como estou devota!" Depois de vè-lo é
que soube que eu não ia à igreja por causa de Deus. Ia ve~lo,
é verdade. É formoso, fala bem, quando levanta os braços para
o céu parece que tem o meu coração entre as suas duas mãos
brancas. Eu estava louca. Ignorava-o. Quer que lhe diga a sua
culpa? Foi entrar ontem no jardim e falar-me. Se nada me
dissesse, eu nada saberia. Partiria, eu ficava triste, mas
agora morrerei. Agora que eu sei que o amo não é possível que
se vá embora. Em que pensa? Parece que não me ouve. Ebenezer
respondeu:
- A senhora ouviu o que se disse ontem.
- Ai, sim!
- Que posso fazer?
Calaram-se um momento. Ebenezer continuou:
- Só uma coisa devo fazer agora. Partir.
- E eu morrer. Oh! Eu quisera que não houvesse mar e só
houvesse o céu! Parece-me que isto arranjaria tudo, e a nossa
partida seria a mesma. Não devia falar-me. Por que me falou?
Que será agora de mim? Digo-lhe que hei de morrer. Há de ter
ganho muito quando eu estiver no cemitério. OM Tenho o coração
despedaçado. Desventurada que sou! E meu tio não é mau,
contudo.
Era a primeira vez na sua vida que Déruchette dizia, falando
de Mess Lethierry, meu tio. Até então 'sempre dizia meu pai.
Ebenezer recuou um pouco e fez um sinal ao bateleíro. Ouviu-se
o ruído de um croque nas pedras e o passo de um homem no bote.
- Não! Não! - gritou Déruchette.
Ebenezer aproximou-se dela.
- É preciso, Déruchette.
- Não, nunca! Por uma máquina! Será possível? Viu ontem aquele
homem horrível? Não deve abandonar-me. Tem inteligencia, há de
achar um meio. Não é possível que me dissesse para vir aqui
hoje, com a idéia de partir. Não lhe fiz nada. Não tem motivos
de queixa de mim. É naquele navio que quer ir? Não quero. Não
me deixe. Não se abre o céu para torná-lo a fechar. Digo-lhe
que há de ficar. Demais, ainda não bateu a hora. Oh! Eu te
amo!
E unindo-se a ele, cruzou-lhe os dez dedos por trás do
pescoço, como para fazer com os seus braços enlaçados em
Ebenezer e com as suas mãos juntas uma oração a Deus.
Ele deslaçou aquela cadeia delicada, que resistiu enquanto
pode.
Déruchette caiu assentada numa ponta de rocha coberta de hera,
levantando com um gesto maquinal a manga do vestido até o
cotovelo, mostrando o seu delicioso braço nu, com uma luz
afogada e pálida nos olhos fixos. 0 bote aproximava-se.
Ebenezer segurou-lhe a cabeça nas mãos; aquela virgem tinha o
ar de uma viúva e aquele mancebo tinha o ar de um avO.
Tocou-lhe os cabelos com uma espécie de precaução religiosa;
fitou os olhos nela durante alguns instantes, depositou-lhe na
fronte um desses beijos debaixo dos quais parece que deveria
abrir uma estrela e, com uma voz que tremia na suprema
angústia e onde se sentia a dilaceração da alma, disse-lhe
esta palavra, a palavra das profundezas: "Adeus!"
Déruchette rompeu em soluços.
Neste momento ouviram uma voz lenta e grave que dizia:
- Por que motivo não se casam?
Ebenezer voltou a cabeça. Déruchette levantou os olhos.
Gilliatt estava diante deles.
Acabava de entrar por um atalho lateral.
Gilliatt já não era o mesmo homem da véspera. Tinha penteado
os cabelos, fez a barba, calçou os sapatos, vestiu camisa
branca de marinheiro com grandes colarinhos caídos, vestiu a
roupa de marinheiro mais nova. Via-se um anel de ouro no dedo
mínimo. Parecia profundamente calmo. Estava lívido.
Bronze que sofre, tal era aquele rosto.
Os dois olharam para ele estupefatos. Embora não se pudesse
reconhece-lo, Déruchette reconheceu-o. Quanto às palavras que
ele acabava de pronunciar, estavam tão longe do que eles
pensavam nesse momento, que resvalaram-lhe no espírito.
Gilliatt continuou:
- Que necessidade é essa de se dizerem adeus?
Casem-seEmbarquem depois.
Déruchette estremeceu da cabeça aos pés.
Gilliatt continuou:
- Miss Déruchette tem 21 anos. É senhora de sua vontade. Seu
tio é apenas seu tio. Amam-se ...
Déruchette interrompeu docemente:
- Como é que o senhor está aqui?
- Casem-se - continuou Gilliatt.

Déruchette começava a perceber o que lhe dizia aquele homem.
Murmurou:
- 0 meu pobre tio ...
- Recusaria se o casamento estivesse por fazer - disse
Gilliatt -, e consentirá quando o casamento estiver concluído.
Demais, vão embarcar ambos. Quando voltarem, ele os perdoará.
Gilliatt acrescentou com um tom amargo:
- E depois, ele já não pensa senão em construir o vapor. Isso
o distrairá durante a sua ausencia. Tem Durande para
consolá-lo.
- Eu não quisera balbuciou Déruchette num espanto misturado de
alegria não quisera deixar pesares indo-me embora...
- Não durarão muito tempo os pesares - disse Gilliatt.
Ebenezer e Déruchette tiveram uma espécie de deslumbramento.
Tranqüilizaram-se. Na sua decrescente perturbação, iam
entendendo as palavras de Gilliatt. Ainda havia alguma nuvem,
mas a obrigação deles dois não era resistir ao conselho. Quem
salva domina sempre. Fracas são as objeções, quando se trata
de voltar ao Éden. Havia na atitude de Déruchette,
imperceptivelmente apoiada em Ebenezer, alguma coisa que fazia
causa comum com o que dizia Gilliatt. Quanto ao enigma da
presença daquele homem e das suas palavras que, no espírito de
Déruchette em particular, produziam muitas espécies de
assombro, eram questões à parte. Aquele homem dizia-lhes:
"Casem-se". Era claro. Se houvesse uma responsabilidade, era
ele quem a tomava sobre si. Déruchette sentia confusamente
que, por diversas razões, ele tinha o direito de faze-lo. 0
que ele dizia de Mess Lethierry era verdade. Ebenezer,
pensativo, murmurou:
- Um tio não é um pai.
Ebenezer sentia a corrupção de uma peripécia súbita e feliz.
Os escrúpulos prováveis do padre fundiam-se e dissolviam-se
naquele pobre coração apaixonado.
A voz de Gilliatt tornou-se- breve e dura; sentia-se nela umas
pulsações de febre:
- Imediatamente. 0 Ca~ere parte daqui a duas horas. Tem tempo,
mas não de sobra; venham ambos.
Ebenezer examinava~o atentamente.
De súbito exclamou:
- Conheço-o. Foi o senhor quem me salvou a vida.
Gilliatt respondeu:
- Não creio.
- Lá adiante, na ponta dos Bancos.
- Não conheço esse lugar.
- No mesmo dia em que cheguei.
- Não percamos tempo - disse Gilliatt.
- E não me engano, o senhor é o homem de ontem à noite.
- Talvez.
- Como se chama?
Gilliatt alçou a voz:
- ó do bote, espere-nos. Já voltamos. Miss, a senhora
perguntou-me por que motivo estava eu aqui, é simples, eu
acompanhei-os. A senhora tem 21 anos. Nesta terra quem chega à
maioridade e depende de si casa-se em um quarto de hora.
Tomemos o caminho da praia. Está praticável, a maré há de
encher lá para o meio-dia. Mas vamos já. Venham comigo.
Déruchette e Ebenezer pareciam consultar-se com o olhar.
Estavam de pé, juntinhos, sem mexer-se; pareciam ébrios. Há
dessas tentações estranhas à beira desse abismo que se cha~
ma felicidade. Compre * endiam, sem compreender.
- Ele se chama Gilliatt - disse Déruchette baixinho a
Ebenezer.
Gilliatt continuou com uma espécie de autoridade:
- Que esperam? Já lhes disse que me acompanhassem.
- Aonde? - perguntou Ebenezer.
- Ali.
E Gilliatt mostrou com o dedo a tOrre da igreja. Os dois
acompanharam-no.
Gilliatt ia adiante. 0 seu passo era firme. Os dois vacilavam.
À proporção que se aproximavam da tOrre, via-se despontar
naqueles puros e belos rostos de Ebenezer e Déruchette alguma
coisa que seria dentro de pouco tempo o sorriso. A proximidade
da igreja iluminava-os. Nos olhos fundos de Gilliatt havia
trevas.
Dissera-se um espectro levando duas almas ao paraíso.


Ebenezer e Déruchette não compreendiam muito o que se estava
passando. A intervenção daquele homem era o ramo a que se
agarra o afogado. Eles acompanhavam Gilliatt com a docilidade
que o desespero tem para com a primeira pessoa que lhe
aparece. Quem se sente morrer não é difícil em aceitar os
incidentes. Déruchette, mais ignorante, era mais confiante.
Ebenezer pensava. Déruchette era maior. As formalidades do
casamento inglês são simplíssimaÂ, sobretudo nos países
autóctones onde os párocos tem quase um poder discricionário;
mas o decano celebraria o casamento sem saber se o tio
consentia? Havia uma questão nisto. Contudo, podia-se tentar.
Em todo o caso era uma delonga.
Mas quem era aquele homem? E se era ele quem, na véspera, foi
declarado genro de Mess Lethierry, como explicar o que estava
fazendo? Ele, que era o obstáculo, tornava-se a providencia.
Ebenezer prestava-se a tudo, mas dava ao que se estava
passando o consentimento tácito e rápido do homem que se sente
salvo.
0 caminho era desigual, às vezes molhado e difícil. Ebenezer,
absorto, não prestava atenção aos charcos de água e às pedras.
De quando em quando, Gilliatt voltava-se e dizia a Ebenezer:
"Cuidado com essas pedras, de-lhe a mão".


A PREVIDENCIA DA ABNEGA ÇÃO

Soavam 10 horas e meia quando eles entravam na igreja. Por
causa da hora, e também por causa da solidão da cidade naquele
dia, a igreja estava vazia.
No fundo, porém, perto da mesa que, nas igrejas reformadas,
substitui o altar, havia tres pessoas: eram o decano, o seu
evangelista, e mais o lançador dos registros. 0 decano, que
era o reverendo Jaquemin Herodes, estava assentado; o
evangelista e o lançador estavam de pé.
0 Livro, aberto, estava sobre a mesa.
Ao lado havia outro livro, era o registro da paróquia,
igualmente aberto, e no qual um olhar atento poderia notar uma
pagina escrita de fresco. Uma pena e um tinteiro ficavam ao
lado do registro.
Vendo entrar o Reverendo Ebenezer Caudray, o Reverendo
Jaquemin Herodes levantou-se.
- Esperava-o - disse ele. - Tudo está pronto.
0 decano, com efeito, estava com o hábito de oficiante.
Ebenezer olhou para Gilliatt.
0 Reverendo Herodes continuou:
- Estou às suas ordens, meu colega.
E féz-lhe uma cortesia.
A cortesia não foi nem para a esquerda nem para a direita. Era
evidente, pela direção do raio visual do decano, que, para
ele, só Ebenezer exi`stia. Ebenezer era clergyman e gentieman.
0 decano não compreendia no seu cumprimento nem Déruchette,
que estava ao seu lado, nem Gilliatt, que estava atrás. Havia
no seu olhar um parentese em que só Ebenezer era admitido. A
manutenção destas distinções faz parte da boa ordem e
consolida as sociedades.
0 decano continuou com uma amenidade graciosamente altiva:
- Meu colega, faço-lhe o meu duplo cumprimento. Morreu-lhe o
tio, e o senhor casa-se; fica rico por um lado e feliz por
outro. Demais, agora, graças a Este vapor que vai ser
restabelecido, Miss Lethierry também é rica, o que eu aprovo.
Miss Lethierry nasceu nesta paróquia, verifiquei a data do
nascimento no livro dos assentos. Miss Lethierry é maior e
dispõe de si. Depois, seu tio, que é toda a sua família,
consente. Querem casar-se já por causa da viagem, compreendo,
mas sendo Este casamento o do cura da paróquia, eu quisera
mais alguma solenidade. Abrevio para fazer-lhes o gosto. 0
essencial pode fazer-se no sumário. 0 ato já está escrito no
livro do registro que está aqui, e falta só por os nomes. Nos
termos da lei e do costume, o casamento pode ser celebrado
logo depois da inscrição. A declaração necessária para a
licença já foi feita. Tomo a responsabilidade de uma pequena
irregularidade, porque o pedido de licença devia ser
prèviarnente registrado sete dias antes; mas eu reconheço a
necessidade e a urgencia da partida. Seja. Vou casá-los. 0 meu
evangelista será a 'testemunha do esposo; quanto à esposa. .
0 decano voltou-se para Gilliatt.
Gilliatt fez um sinal de cabeça.
- Basta - disse o decano.
Ebenezer ficara imóvel. Déruchette era o extase petrificado.
0 decano continuou:
- Há, porém, um obstáculo.
Déruchette fez um movimento.
0 decano continuou:
- 0 enviado de Mess Lethierry, que aqui está presente, e pediu
a licença e assinou a declaração no registro - e com o polegar
da mão esquerda o decano indicou Gilliatt, o que o isentava de
articular nenhum nome - o enviado de Mess Lethierry disse-me
esta manhã que Mess Lethierry, por muito ocupado, não podia
vir, e desejava que o casamento se fizesse incontinenti. Esse
desejo, verbalmente expresso, não é suficiente. Não posso, por
causa das dispensas e da irregularidade que tomo sobre mim, ir
além disto sem informar-me de Mess Lethierry, a menos que me
mostrem a assinatura dele. Qualquer que seja a minha boa
vontade, não posso contentar-me com uma palavra que me
repetem. Preciso de um escrito.
- Não sirva isto de empecilho - disse Gilliatt.
E apresentou ao decano um papel.
0 decano pegou no papel, percorreu com um olhar, pareceu
passar algumas linhas, sem dúvida, inúteis, e leu alto:
". Vai ter à casa do decano para arranjar as dispensas. Desejo
que o casamento se faça o mais cedo possível, e já, será
melhor".
Pés o papel em cima da mesa e continuou:
- Assinado: "Lethierry". A coisa seria mais respeitosa se
fosse dirigida a mim. Mas, como se trata de um colega, não
exijo mais.
Ebenezer olhou de nOvo para Gilliatt. Há almas que se
entendem. Ebenezer sentia naquilo uma fraude; e não teve
força, não teve mesmo idéia de denunciá-lo. Ou fosse
obediencia a um heroísmo latente que ele antevia, ou fosse que
se lhe aturdisse a consciência pela ventura súbita, Ebenezer
não teve palavras.
0 decano tomou a pena e encheu, com o auxílio do lançador dos
assentos, os claros da página escrita no livro, depois
levantou-se, e com o gesto convidou Ebenezer e Déruchette a
aproximar-se da mesa.
Começou a cerimonia.
Ebenezer e Déruchette estavam aopé um do outro diante do
ministro. Quem tiver sonhado que se está casando saberá o que
eles sentiam.
Gilliatt estava a alguma distância na obscuridade dos pilares.
Déruchette, ao levantar-se da cama, desesperada, pensando no
túmulo e no sudário, vestira-se de branco. Esta idéia de morte
veio a propósito para as núpcias. 0 vestido branco fez dela
uma noiva. Também os túmulos são esponsais.
Déruchette irradiava. Nunca foi o que era naquele instante.
Déruchette tinha o defeito de ser demasiado linda e não
bastante formosa. A sua beleza pecava, se é pecar, por excesso
de graça. Déruchette em repouso, isto é, fora da paixão e da
dor, já o dissemos , era sobretudo gentil. A transfiguração da
moça encantadora é a virgem ideal. Déruchette, engrandecida
pelo amor e pelo sofrimento, tinha tido esse progresso, deixem
passar a palavra. Tinha a mesma candura, com mais dignidade, a
mesma frescura, com mais perfume. Era uma espécie de bonina
que se torna lírio.
Tinha no rosto sinais de lágrimas estanques. Havia ainda
talvez uma lágrima no canto do sorriso. As lágrimas estanques,
vagamente visíveis, são um sombrio e doce ornato da
felicidade.
0 decano, de pé perto da mesa, pos um dedo na Bíblia aberta e
perguntou em voz alta:
- Há oposição?
Ninguém respondeu.
- Amém - disse o decano.
Ebenezer e Déruchette deram um passo para o Reverendo Jaquemin
Herodes.
0 decano disse:
- Joe Ebenezer Caudray, queres esta mulher por tua esposa?
Ebenezer respondeu:
- Quero.
0 decano continuou:
- Durande Déruchette Lethierry, queres Este homem por teu
marido?
Déruchette, na agonia da alma demasiado feliz, como a da
lâmpada demasiado cheia de óleo, murmurou em vez de
pronunciar:
- Quero.
Então, segundo o belo rito do casamento anglicano, o decano
olhou em roda de si, e fez na sombra da igreja esta solene
pergunta:
- Quem dá esta mulher a Este homem?
- Eu - disse Gilliatt.
Houve um momento de silencio. Ebenezer e Déruchette sentiram
uma vaga opressão através da sua felicidade.
0 decano pos a mão direita de Déruchette na mão direita de
Ebenezer, e Ebenezer disse a Déruchette:
- Déruchette, tomo-te por minha mulher, quer sejas melhor ou
pior, mais rica ou mais pobre, doente ou com saúde, para
amar-te até à morte, e dou-te a minha fé.
0 decano pOs a mão direita de Ebenezer na mão direita de
Déruchette, e Déruchette disse a Ebenezer:
- Ebenezer, tomo-te por meu marido, quer sejas melhor ou pior,
mais rico ou mais pobre, doente ou com saúde, para amar-te e
obedecer-te até à morte, e dou-te a minha fé.
0 decano continuou: Onde está o anel?
Isto era o imprevisto. Ebenezer não tinha anel.
Gilliatt tirou o anel de ouro que tinha no dedo mínimo e
apresentou ao decano. Era provàvelmente o anel de casamento
comprado de manhã ao ourives de Commercial Arcade.
0 decano pOs o anel no livro, depois entregou-o a Ebenezer.
Ebenezer pegou na mãozinha esquetda, tremula, de Déruchette,
meteu o anel no quarto dedo e disse:
- Desposo-te com Este anel.
- Em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo disse o
decano.
- Assim seja - disse o evangelista.
0 decano alçou a voz:
- Estais casados.
- Assim seja - disse o evangelista.
0 decano continuou:
- Oremos.
Ebenezer e Déruchette voltaram-se para a mesa e ajoelharam-se.
Gilliatt, que estava de pé, inclinou a cabeça.
Eles ajoelhavam-se diante de Deus, Gilliatt curvava-se ao
destino.


"PARA TUA MULHER QUANDO TE CASARES"

Saindo da igreja viram o Caere que começava a aparelhar.
- Chegam a tempo - disse Gilliatt.
Seguiram pelo caminho da Angrazinha.
Os dois iam adiante, Gilliatt agora caminhava atrás.
Eram dois sonâmbulos. Mudara apenas o atordoamento. Não sabiam
nem onde estavam nem o que faziam; apressavam-se
maquinalmente, não se lembravam da existência de coisa alguma,
sentiam-se um outro, não podiam ligar duas idéias. Não pode
pensar quem está em extase como não pode nadar quem está numa
torrente. Pareciam ir penetrando num paraíso. Não se falavam,
conversavam com a alma. Déruchette apertava contra si o braço
de Ebenezer.
0 passo de Gilliatt atrás deles fazia-lhes ver que ele estava
presente. Iam profundamente comovidos mas sem dizer palavra; o
excesso da comoção transforma-se em estupefação. A deles era
deliciosa, mas acabrunhava. Estavam casados. Adiavam o resto,
esperavam voltar, o que Gilliatt fez era bem feito, eis tudo.
0 fundo desses dois corações agradecia-lhe ardente e
vagamente. Déruchette dizia consigo que havia alguma coisa
para deslindar, mais tarde. Entretanto, aceitavam o fato.
Sentiam-se à discrição daquele homem decisivo e súbito, que,
por autoridade, fazia a felicidade deles dois.

Fazer-lhe perguntas, conversar com ele, era impossível. Eram
de sobejo as impressões que se lhes precipitavam em cima ao
mesmo tempo. Estavam engolfados; era perdoável.
Os fatos são às vezes uma saraiva. Crivam a criatura.
Ensurdecem. A precipitação dos incidentes, caindo em
existências habitualmente calmas, tornam logo ininteligíveis
os acontecimentos aos que os sofrem ou deles se aproveitam.
Não se pode conhecer a sua própria ventura. Fica-se esmagado
sem adivinhar, venturoso sem compreender. Déruchette, em
particular, desde algumas horas recebera todas as comoções;
primeiramente a fascinação, Ebenezer no jardim; depois o
pesadelo, aquele monstro declarado seu marido; depois a
desolação, o anjo abrindo as asas e prestes a partir; agora
era a alegria, uma alegria inaudita, com um fundo
indecifrável; o monstro dava-lhe o anjo; o casamento saía da
agonia; o Gilliatt, catástrofe de ontem, salvação de hoje.
Déruchette não compreendia nada. Era evidente que, desde
manhã, Gilliatt não teve outra ocupação senão a de casá-los;
fez tudo; respondeu por Mess Lethierry, falou ao decano, pediu
licença, assinou a declaração necessária; eis aí como se
realizou o casamento. Mas Déruchette não compreendia nada;
demais, mesmo quando ela compreendesse o como, não
compreenderia o porque.
Fechar os olhos, agradecer, mentalmente, esquecer aterra, e a
vida, deixar-se levar para o céu por àquele bom demônio, eis o
que lhe cumpria fazer. Esclarecer seria longo, agradecer não
seria bastante. Déruchette calava-se naquele doce
embrutecimento da ventura.
Restava-lhe ainda algum pensamento, suficiente para guiáIa.
Debaixo da água há pedaços de esponja que ficam brancos. Eles
tinham a soma de lucidez necessária para distinguir o mar da
terra e o Ca~ere de qualquer outro navio.
Dentro de poucos minutos estavam eles na Angrazinha.
Ebenezer foi o primeiro a entrar no bote. No momento em que
Déruchette ia acompanhá-lo, sentiu a sua manga docemente
puxada. Era Gilliatt que tinha pOsto um dedo numa dobra do
vestido.
- Senhora - disse ele -, não esperava partir. Eu cuido que
naturalmente há de precisar de vestidos e roupa. Achará a
bordo do Ca~ere um caixotinho com objetos de mulher.
Foi minha mãe quem mo deu. Era destinado à mulher com quem eu
casasse. Consinta que lho ofereça.
Déruchette acordou a meio do sonho em que estava. Voltou-se
para Gilliatt, em voz baixa e que mal se ouvia, continuou:
- Agora, não é para dernorá-la, mas, olhe, eu creio que devo
explicar-lhe uma coisa. No dia em que houve aquela desgraça, a
senhora estava assentada na sala baixa, e disse umas palavras.
Não se lembra disso, é natural. Ninguém é obrigado a
lembrar-se das palavras que diz. Mess Lethierry sofria muito.
A verdade é que era um belo navio e prestimoso. 0 desastre
aconteceu; a terra estava alvoroçada e compungida, são coisas
que naturalmente se esquecem. Só havia aquele navio perdido na
costa. Não se pode pensar sempre em um acidente. Sórnente o
que eu queria dizer é que, como se dizia que ninguém era capaz
de lá ir, eu fui. Diziam eles que era impossível; não era
impossível aquilo. Agradeçolhe o prestar-me atenção por alguns
instantes. Compreende a senhora que se eu lá fui ao escolho,
não foi para ofende-la. Demais, a coisa data de longe. Eu sei
que está com pressa. Se houvesse tempo, falaríamos,
recordaríamos, mas isso de nada serve. A coisa data de um dia
em que caiu neve. E depois eu passei uma vez, e cuido te-la
visto sorrir. É assim que tudo se explica. Quanto ao que se
passou ontem, eu não tive tempo de ir a casa, acabava do
trabalho, estava todo rasgado, metilhe medo, a senhora
desmaiou, fiz mal, não se entra assim na casa dos outros,
peço-lhe que me perdoe. É isto mais ou menos o que eu queria
dizer-lhe. Vai partir. Tem um belo tempo. Acha justo que eu
lhe fale, não? É o último minuto.
- Penso na caixinha - respondeu Déruchette - Por que não há de
guardá-la para a sua mulher, quando se casar?
- Senhora - disse Gilliatt -, provàvelmente eu não me casarei
nunca.
- Pois é pena, porque é uma boa alma. Obrigada.
E Déruchette sorriu. Gilliatt retribuiu-lhe com outro sorriso.
Depois ajudou Déruchette a entrar no escaler.
Menos de um quarto de hora depois, o escaler onde i Ebenezer e
Déruchette atracava ao Caere.

A GRANDE TUMBA

Gilliatt seguiu pela praia, parou ràpidamente em
SaintPierre-Port, depois caminhou para Saint-Sampson ao longo
do mar, fugindo aos encontros, evitando as estradas cheias de
caminhantes, por culpa dele.
Desde muito tempo, como se sabe, Gilliatt tinha um modo de
atravessar a terra em todos os sentidos sem ser visto por
ninguém. Conhecia os atalhos, fez para si itinerários isolados
e em ziguezagues: tinha o hábito feroz do ente que não se
julga estimado; andava de longe. Ainda criança, vendo pouco
agasalho no rosto dos homens, tomou o costume, que depois
tornou-se-lhe instinto, de andar sempre afastado.
Passou a Esplanada, depois a Salerie. De tempos a tempos,
voltava-se e olhava para o Ca~ere na barra, que lhe ficava por
trás; e o Ca~ere abria as velas. Havia pouco vento, Gilliatt
ia mais depressa que o Ca~ere. Gilliatt caminhava nas rochas
extremas da praia, com a cabeça baixa. A maré começava a
subir.
Em certo momento parou e, voltando as costas para o mar,
contemplou durante alguns minutos, além dos rochedos que
escondiam a estrada do Vale, uma moita de carvalhos. Eram os
carvalhos do lugar chamado Basses Maisons. Foi ali, debaixo
daquelas árvores, que outrora o dedo de Déruchette escreveu o
nome Gilliatt na neve. Havia muito tempo que essa neve estava
desfeita.
Prosseguiu o caminho.
0 dia estava mais belo que nenhum outro naquele ano. A manhã
tinha um que de nupcial. Era um desses dias vernais em que
maio ostenta-se todo inteiro; a criação parecia não ter outro
fim que dar uma festa e fazer a própria felicidade. Sob todõs
aqueles rumores, da floresta como da aldeia, da vaga como da
atmosfera', sentiam-se uns sons de arrulho. As primeiras
borboletas pousavam nas primeiras rosas. Tudo era novo na
natureza, as ervas, os musgos, as rolhas, os perfumes, os
raios. Parecia que o sol nunca tinha servido. Os seixos
estavam lavados de fresco. A profunda canção das árvores era
cantada por aves nascidas na véspera. Era provável que a
casquinha do Ovo quebrada pelo biquinho dessas aves ainda
estivesse no ninho. Ensaios de asas rumorejavam nas folhas
tremulas. Cantavam o primeiro canto, davam o primeiro voo. Era
uma doce conversa de todos a um tempo, poupas, melharucos,
pintassilgos, barbirruivos, pardais. Os lilases, os lírios, as
dafries, as glicínias compunham nas moitas uma deliciosa
variedade de cOres. Uma linda lentilha aquática que há em
Guernesey cobria as lagoas de uma toalha de esmeralda.
Banhavam-se as alvéloas nas lagoas, onde costumam fazer tão
graciosos ninhos. Via-se o céu através de todas as falhas da
vegetação. Algumas nuvens lascivas perseguiam-se no ar
ondeando como ninfas. Como que se sentia a passagem de beijos
mandados por bOcas invisíveis. Nenhum velho muro deixava de
ter, como um noivo, o seu ramalhete de girófleas. Os
abrunheiros silvestres e os codeços estavam em flor; viam-se
aqueles montinhos brancos luzindo e aqueles montinhos amarelos
fulgurando através do cruzamento dos ramos.
A primavera atirava toda a sua prata e ouro no imenso cesto
rasgado dos bosques. Os pimpolhos novos eram verdes de fresco.
Ouvia-se no ar um grito de saudação. Estio hospitaleiro abria
a porta aos pássaros longínquos. Era a hora da chegada das
andorinhas. Os tirsos dos juncos orlavam os caminhos cavados,
esperando os tirsos dos púriteiros. 0 belo e o lindo faziam
boa vizinhança: o soberbo contemplava-se pelo gracioso; o
grande não tolhia o pequeno; não se perdia nenhuma nota do
concerto; as magnificencias microscópicas estavam em plano
próprio naquela vasta beleza universal; distinguia-se tudo
como numa água línipida. Por toda a parte uma divina plenitude
e um inturnescimento misterioso faziam adivinhar o esforço
pânico e sagrado da seiva em ação. 0 que brilhava, brilhava
mais; o que amava, amava melhor. Havia um hino na flor e uma
irradiação no ruído. Escutavase a grande harmonia difusa. 0
que começava a despontar procurava o que começava a surdir.
Uma turvação, que surgia de baixo, e vertia também de cima,
agitava vagamente os corações, corruptíveis à influencia
espessa e subterrânea dos germes. A flor prometia obscuramente
o fruto, todas as virgens cismavam, a reprodução dos seres,
premeditada pela imensa alma da sombra, esboçava-se na
irradiação das coisas. Era o universal noivado. A vida, que é
a esposa, abraçava o infinito, que é o esposo. 0 dia estava
claro, formoso e ardente; através das sebes, nas cercas,
viam-se rir as crianças. Algumas jogavam a palheta. As
macieiras, os pessegueiros, as cerejeiras, as pereiras cobriam
os vergéis com os seus grossos tufos pálidos ou vermelhos. Na
relva, as primaveras, as pervincas, as mil-rolhas, as
margaridas, os amarílis, os jacintos, as violetas e as
verOnicas. As borragens azuis, os íris amarelos pululavam, com
as belas estrelinhas cor-de-rosa que florescem sempre aos
bandos e que por esse motivo chamam-se as companheiras.
Animálculos dourados corriam por entre as pedras. 0 saião
florescente purpureava os tetos das cabanas. As operárias das
colmeias andavam por fora. A abelha trabalhava. A extensão
estava cheia do murmúrio dos mares e do zumbido das mOscas. A
natureza, permeável na primavera, estava úmida de
voluptuosidade.
Quando Gilliatt chegou a Saint-Sampson, ainda a maré não
enchera e ele pode atravessar a praia a pé seco, despercebido
por trás dos cascos de navios no estaleiro. Um. cordão de
pedras chatas, postas de espaço a espaço, auxiliava a
passagem.
Gilliatt não foi observado. 0 povo estava do outro lado do
pOrto, perto da saída, junto à casa de Lethierry. Aí andava o
nome dele de boca em boca. Falava-se tanto dele que o não
chegavam a ver. Gilliatt passou escondido de algum modo pelo
próprio rumor que causava.
Viu de longe a pança no lugar onde a amarrara, com o cano da
máquina entre as quatro correntes, com um movimento de
carpinteiros trabalhando, lineamentos confusos de pessoas que
iam e vinham de um para outro lado, e ouviu a voz tonante e
alegre de Mess Lethierry dando ordens.
Meteu-se pelas ruelas dentro.
Não havia ninguém por trás de Bravées, toda a curiosidade
convergia para a frente. Gilliatt tomou o atalho que costeava
o muro baixinho do jardim. Parou no ângulo onde estava a malva
silvestre; tornou a ver a pedra onde costumava sentarse;
tornou a ver o banco de Déruchette. Olhava para o chão da
alameda onde viu abraçarem-se as duas sombras, que tinham
desaparecido.
Foi a caminho. Galgou a colina do castelo do Vale, desceu-a, e
dirigiu-se para a casa mal-assombrada, onde morava.
0 Houmet Paradis estava solitário.
A casa estava tal qual ele a deixara de manhã depois de
vestir-se para ir a Saint-Pierre-Port.
Havia uma janela aberta. Via-se por ela o bagpipe pendurado em
um prego da parede.
Via-se na mesa a pequena Bíblia, dada em agradecimento a
Gilliatt por um desconhecido, que era Ebenezer.
A chave estava na porta. Gilliatt aproximou-se, pos a mão na
chave, fechou a porta com duas voltas, pOs a chave no bolso, e
afastou-se.
Afastou-se, não para o lado de terra, mas para o lado do mar.
Atravessou diagonalmente o jardim, pelo lado mais curto,
pisando os canteiros, mas tendo cuidado de poupar os sea kales
que plantara por serem do gesto de Déruchette.
Galgou o parapeito e desceu aos arrecifes.
Continuou a andar, indo sempre para a frente, pela longa e
estreita linha de cachopos que ligava a casa dele àquele
grande obelisco de granito de pé, no meio do mar, que se
chamava Corne de Ia Bete. Era ali que ficava a Cadeira
Gild-Holm'Ur.
Passava de um recife a outro como um gigante caminha nos
cabeços. Andar em uma crosta de recifes assemelha-se a andar
na borda de um telhado.
Uma pescadora de rede que andava com os pés descalços, nos
charcos que ficavam próximos, e voltava para a praia,
gritou-lhe: "Cuidado. A maré está enchendo".
Gilliatt continuou a andar. Chegando ao grande rochedo da
ponta, que formava um pináculo no mar, parou. Acabava a terra.
Era a extremidade do pequeno promontório.
Olhou.
Ao largo pescavam alguns barcos, com âncoras fora. Viase de
quando em quando naqueles barcos um gotejar de prata: eram as
redes que saíam da água. 0 Ca~ere ainda não estava na altura
de Saint-Sampson; desenrolara a mesena. Estava entre Herm e
Jethou.
Gilliatt torneou o rochedo. Chegou à beira da Cadeira
Gild-Holm-'Ur, ao pé dessa espécie de escada tosca que, menos
de tres meses antes, Ebenezer descera ajudado por ele.
Gilliatt subiu.
A maior parte dos degraus já estava debaixo da água. Apenas
dois ou tres estavam a seco. Gilliatt escalou-os.
Os degraus iam ter à Cadeira Gild-Holm-'Ur. Chegou à cadeira,
contemplou-a por um momento, apoiou a mão nos olhos e fe-la
passar de uma a outra sobrancelha, gesto com que parece que se
apaga o passado, depois assentou-se na ca~ vã da rocha, com o
grande declive por trás de si, e o oceano aos pés.
0 Ca~ere, nesse momento, passava pela grande tOrre arredondada
e imersa, defendida por um sargento e um canhão, e que marca
na baía a metade do caminho entre Herm e Saint-Pierre-Port.
Nas fendas do rochedo tremiam algumas ffires, por sobre a
cabeça de Gilliatt. A água estava toda azul. 0 vento era de
leste, havia pouca ressaca à roda de Serk, da qual em
Guernesey só se ve a costa ocidental. Via-se ao longe a França
corno uma bruma e a longa faixa amarela de areias de Carteret.
De quando em quando passava uma borboleta branca. As
borboletas gostam de passear sobre o mar.
Fraca era a brisa. Todo aquele azul, embaixo, e em cima'
estava imóvel. Nenhuma tremura agitava aquelas serpentes de um
azul mais claro ou mais carregado, que marcavam na superifície
do mar as torções latentes dos baixios.
0 Ca~ere, pouco impelido pelo vento, içou os cutelos para
apanhar alguma brisa. Cobriu-se todo de panos. Mas o vento era
de través, o efeito dos cutelos obrigava-o a costear de perto
Guernesey. Já tinha passado a baliza de SaintSampson. Atingia
a colina do castelo do Vale. Estava quase próximo ao
promontório da casa de Gilliatt.
Gilliatt via-o aproximar-se.
0 ar e o mar estavam como que adormecidos. A maré enchia, não
por meio de ondas, mas por inturnescimento. 0 .nível da água
ia-se levantando sem palpitação. 0 vento do largo mar,
extinto, assemelhava-se a um hálito de infante.
Ouviam-se na direção da porta de Saint-Sampson pequenos golpes
surdos, que eram marteladas. Provàvelmente eram os
carpinteiros que levantavam guindastes e pranchas para tirar a
máquina da pança. Esse rumor mal chegava a Gilliatt, por causa
da massa de granito a que ele estava encostado. 0 Ca~ere
aproximava-se com uma lentidão de fantasma.
Gilliatt esperava.
De súbito uma agitação da água e uma sensação de frio
obrigaram-no a olhar para baixo. A água tocava-lhe os pés.
Gilliatt abaixou os olhos e levantou-os.
Caere estava perto.
O rochedo onde as chuvas tinham cavado a Cadeira GildHolm-'Ur,
era tão vertical, e havia tanta água naquele sítio, que os
navios, podiam, em tempo de calma, passar ali a distância de
algumas braças.
0 Caere chegou. Surgiu, alçou-se. Parecia crescer sobre a
água. Foi como que um crescimento de sombra. Todo o aparelho
destacou-se como massa negra, no céu azul, e no magnífico
balanço do mar. As longas velas, por um instante sobrepostas
ao sol, tornavam-se quase cor-de-rosa e tiveram uma
transparencia inefável. As ondas tinham um murmúrio
indistinto. Nenhum rumor perturbava o resvalar majestoso
daquela massa. De terra via-se o que se passava a bordo como
se lá se estivesse.
Caere roçou quase pela rocha.
O timoneiro estava no leme, um grumete trepava aos ovéns,
alguns passageiros, encostados à amurada, contemplavam a
serenidade do tempo, o capitão fumava. Mas não era nada disso
o que Gilliatt contemplava.
Havia no tombadilho um lugar cheio de sol. Era para ali que
ele olhava. Ali estavam Ebenezer e Déruchette. Estavam
assentados debaixo daquela luz, ele juntinho dela.
Contraíam-se graciosamente ao lado um do outro, como dois
pássaros que se aquecem a um raio do meio dia, num desses
bancos cobertos de um assento alcatroado que os navios bem
preparados oferecem aos viajantes, e nos quais costuma lerse,
quando o navio é inglês: "For ladies only " . A cabeça de
Déruchette caía sobre o ombro de Ebenezer, o braço de Ebenezer
estava por trás da cintura de Déruchette, tinham as mãos
agarradas uma à outra e os dedos entrelaçados nos dedos. As
diferenças de um anjo a outro mostravam-se claramente naqueles
dois delicados rostos feitos de inocencia. Um era mais
virginal, o outro mais sideral. Era expressivo aquele casto
abraço, que encerrava o himeneu e o pudor. Aquele banco era já
uma alcova e quase um ninho. Ao mesmo tempo, era uma glória; a
doce glória do amor fugindo numa nuvem.
0 silencio era celeste.
0 olhar de Ebenezer agradecia e contemplava; moviam-se os
lábios de Déruchette; e nesse silencio delicioso, como o vento
vinha do lado oposto, no instante rápido em que o sloop
resvalou a algumas toesas da Cadeira Cwild-Holm-'Ur, Gilliatt
ouvia a voz tema e delicada de Déruchette que dizia:
- Olha! Parece que há um homem no rochedo.
Caere deixou a ponta do promontório atrás de si, e
mergulhou-se no franzido profundo das vagas. Em menos'de um
quarto de hora, mastros e velas assemelhavam-se a uma espécie
de obelisco branco diminuindo no horizonte. Gilliatt tinha
água afe os joelhos.
Via o sloop afastar-se.
A brisa refrescava ao longe. Gilliatt pode ver o Ca~ere içar
os cutelos baixos para aproveitar o aumento do vento. 0
Cashmere já estava fora das águas de Guemesey. Gilliatt não
tirava os olhos do navio.
A água chegava-lhe à cintura.
A maré levantava-se. 0 tempo corria.
As cotovias e os corvos marinhos esvoaçavam inquietos em roda
dele. Dissera-se que procuravam adverti-lo. Talvez houvesse
naqueles bandos alguma gaivota ainda das Douvres que o
reconhecia.
Decorreu uma hora.
0 vento do largo não soprava no porto, mas a diminuição do
Ca~ere era rápida. 0 sloop, segundo as aparencias, ia a toda a
força. Já estava quase na altura de Casquets.
Não havia espuma à roda do rochedo Gild-Holm-'Ur, nenhuma vaga
batia no granito. A água inchava vagarosamente. Já estava
quase na altura dos ombros de Gilliatt.
Decorreu outra hora.
0 Cashemere estava já além das águas de Aurigny. 0 rochedo
Ortach escondeu-o ~or um momento. Ocultou-se atrás desse
rochedo, e saiu depois, como de um eclipse. 0 sloop fugia para
o norte. Já entrava no mar alto. Era apenas um ponto, tendo,
por causa do sol, a cintilação de uma luz.
Os pássaros soltavam pios a Gilliatt.
Já não se via mais que a cabeça dele.
0 mar subia com uma brandura sinistra.
Gilliatt, imóvel, olhava para o Caere que se desvanecia. A
maré estava quase cheia. Caía a tarde. Por trás de Gilliatt,
no porto, alguns barcos de pesca voltavam paraterra.
Os olhos de Gilliatt, presos ao longe no sloop, estavam fixos.
Aqueles olhos fixos não se pareciam com coisa alguma que se
possa ver na terra. Havia o inexprimível naquela pálpebra
trágica e calma. 0 olhar continha toda a soma de tranqüilidade
que deixa o sonho abortado; era a aceitação lúgubre de outro
complemento. Uma fuga de estréla deve ser acompanhada por
olhares semelhantes. De quando em quando a obscuridade celeste
aparecia naquela pálpebra cujo raio visual estava fixo num
ponto do espaço. Ao mesmo tempo em que a água infinita subia à
roda do rochedo Gild-Holm'Ur, ia subindo a imensa
tranqüilidade da sombra nos olhos profundos de Gilliatt.
0 Caere, tornando-se imperceptível, era já uma mancha
misturada à bruma. Para distingui-lo era preciso saber onde
ele estava.
A pouco e pouco, aquela mancha, que já não era uma forma foi
empalidecendo.
Depois diminuiu.
Depois dissipou-se.
No momento em que o navio dissipava-se no horizonte, a cabeça
desaparecia debaixo da água. Tudo acabou; só restava o mar.



LIVRO QUARTO

0 FóRRO DO OBSTÁCULO


QUEM TEM FOME A CHAMAIS QUEM TENHA

Quando Gilliatt acordou, teve fome.
Acalmava-se o mar. Havia, porém, alguma agitação ao largo, que
impedia a partida imediata. Demais, o dia já estava adiantado.
Com o carregamento da pança, para chegar a Guernesey antes da
meia-noite, era preciso sair de manhã.
Embora a fome urgisse, Gilliatt começou por despir-se, único
meio de aquecer-se.
As roupas estavam molhadas da chuva, mas a água da chuva
lavara a água do mar, o que fez com que agora pudessem secar
as roupas.
Gilliatt apenas ficou com as calças, que arregaçou até os
joelhos.
Estendeu, com pesos em cima, nas saliencias do- rochedo, todo
o resto da roupa.
Depois pensou em comer.
Gilliatt recorreu à faca que teve o cuidado de afiar e te-la
em bom estado, e arrancou do granito alguns mariscos. Comeu-os
crus. Mas, depois de tantos trabalhos, fraca era a pitança. Já
não tinha biscoito. Quanto à água, não lhe faltava. Estava
mais que saciado, estava inundado.
Aproveitou a vazante para perlustrar os rochedos à cata de
lagostas. Já havia muita rocha descoberta; podia apanhar boa
caça.
Somente não refletia ele que já não podia cozer peixe algum.
Se tivesse de ir ao depósito, veria tudo derrubado pela chuva.
0 pau e o carvão estavam encharcados e da provisão de estopa
que lhe servia de isca, não tinha um fio que não estivesse
molhado. Não havia meio de sacar fogo.
De resto, o fole estava desorganizado; a tempestade
saqueou-lhe o laboratório. Com o resto da ferramenta,
Gilliatt, a rigor, podia ainda trabalhar de carpinteiro, não
de forja. Mas Gilliatt, naquele momento, não pensava na
oficina.
Empuxado pelo estOmago, sem mais reflexão, entrou a procurar
comida. Errava, não na garganta do escolho, mas fora, nas
dobras dos cachopos. Foi desse lado que a Durande, dez semanas
antes, esbarrara nas pedras.
Para a caça que Gilliatt fazia, o exterior da viela valia mais
que o interior. Os caranguejos, nas águas baixas, tem costume
de tomar ar. Aquecem-se ao sol. Amam o sol aqueles entes
disformes. É uma coisa estranha a saída deles em plena luz.
Quase indigna-se a gente com eles. Quando os vemos, com seu
aspecto oblíquo, subir pesadamente, um por um, os andares
inferiores dos rochedos como degraus de uma escada,
acreditamos por força que o oceano também tem os seus piolhos.
Desses piolhos vivia Gilliatt há dois meses.
Contudo nesse dia os caranguejos e as lagostas andavam
escondidos. A tempestade empurrara aqueles solitários para os
seus esconderijos, e ainda não se animavam a sair. Gilliatt
tinha na mão a faca aberta, e arrancava de quando em quando
uma concha debaixo do sargaço. Comia andando.
Não devia estar longe do lugar onde se perdera o Sr. Clubin.
..
Quando Gilliatt já se resignara aos ouriços e castanhas do
mar, fez-se um movimento a seus pés. Um grande caranguejo,
assustado com a presença dele, tinha- pulado na água. 0
caranguejo não mergulhou tanto que Gilliatt não o visse.
Gilliatt começou a correr atrás do caranguejo no esvazamento
da rocha. 0 caranguejo fugia.
De repente, não viu mais nada.
0 caranguejo metera-se por algum buraco debaixo do rochedo.

Gilliatt atracou-se aos relevos da pedra e esticou o pescoço
para ver se via alguma coisa.
Havia, com efeito, uma anfratuosidade. 0 caranguejo devia
ter-se refugiado aí.
Era mais que uma fenda, era um pórtico.
0 mar entrava por baixo desse pórtico, mas não era profundo.
Via-se o fundo coberto de pedrinhas. Essas pedrinhas eram
esverdeadas e revestidas de filarrientos, o que indicava que
nunca estavam a seco. Assemelhavam-se a cabeças de crianças
com cabelos verdes.
Gilliatt pos a faca nos dentes, desceu do alto da rocha e
saltou na água. Teve água quase até os ombros. Meteu-se pelo
pórtico. Achou-se num corredor gasto, com um esboço de abóbada
ogival por cima. As paredes eram polidas e lisas. Já não via o
caranguejo. Tomara pé. Caminhava e diminuía-se a luz. Começou
a não ver coisa alguma.
Depois de quinze passos, cessou a abóbada. Estava fora do
corredor. Havia mais espaço, e por consequencia mais luz; as
pupilas tinham-se-lhe dilatado; via bem. Teve uma surpresa.
Acabava de entrar naquela cava estranha visitada por ele um
mes antes.
Sórnente, desta vez entrou pelo mar.
Aquela arcaria que ele vira afogada era a mesma por onde agora
passou. Em certas marés baixas era praticável.
Os olhos iam-se acostumando ao lugar. Via cada vez melhor.
Estava estupefato. Tornava a achar aquele extraordinário
palácio da sombra, aquela abóbada, aqueles pilares, aqueles
rubros, aquela vegetação de pedras, e no fundo aquela cripta,
quase santuária, e aquela pedra, quase altar.
Não se lhe despertava muito os pormenores, mas tinha no
espírito a idéia do todo, e reconheceu.
Via diante dele, em certa altura, na rocha, o buraco por onde
penetrou a primeira vez, e que, do ponto onde estava agora,
parecia inacessível.
Tornara a ver, perto da arcaria ogival, as grotas baixas e
obscuras, espécie de cavas na cava, que já observara de longe.
A que ficava mais perto dele estava a seco e era fácil de se
lhe chegar.
Mais perto ainda que essa descobriu ele, ao alcance da mão,
uma fenda horizontal no granito. Provàvelmente estava ali o
caranguejo. Meteu a mão o mais que pode, e procurou às
apalpadelas naquele buraco de trevas.
De repente, sentiu que lhe agarravam no braço.
0 que ele experimentou, nesse momento, foi o horror
indescritível.
Urna coisa que era delgada, áspera, chata, gelada, pegajosa e
viva torcia-se na sombra à roda de seu braço nu, e subia-lhe
para o peito. Era a pressão de uma correia, e o impulso de uma
verruma. Em menos de um segundo, uma espécie de espiral
tinha-lhe invadido o punho e o cotovelo e tocava-lhe o ombro.
A ponta metia-se-lhe no sovaco.
Gilliatt atirou-se para trás, e mal pode faze-lo. Estava cómo
que pregado. Com a mão esquerda que ficava livre pegou na faca
que tinha entre os dentes, e com essa mão, que segurava a
faca, apoiou-se no rochedo com um esforço desesperado para
sacar o braço. Só conseguiu inquietar a ligadura, que se
apertou mais. Era flexível como o couro, sólida como o aço,
fria como a noite.
Outra correia, estreita e pontuda, saiu do buraco da rocha.
Era uma espécie de língua saindo de uma goela. Lambeu
medonhamente o corpo nu de Gilliatt, e, de repente,
esticando-se, desmedida e fina, aplicou-se-lhe na pele e
enrolou-se no corpo. Ao mesmo tempo um sofrimento inaudito,
sem comparação neste mundo, levantava os músculos de Gílliatt.
Sentia que lhe abriam a pele em muitos pontos, de um modo
horrível. Parecia-lhe que inúmeros lábios, pregados à carne,
procuravam beber-lhe o sangue.
Terceira correia saiu fora do rochedo, apalpou Gilliatt e
chicoteou-lhe os lados como uma corda. Afinal fixou-se como as
outras.
A angústia, no paroxismo, é muda. Gilliatt não soltou um
grito. Havia bastante luz para que ele pudesse ver as formas
repelentes aplicadas ao corpo dele.
Quarta ligadura, esta rápida como uma echa, saltou-lhe e roda
do ventre e enrolou-se-lhe.
Era impossível cortar e nem arrancar aquelas correias viscosas
que aderiam estreitamente ao corpo de Gilliatt e por
muitíssimos pontos. Cada um desses pontos era um fogo de
terrível e estranha dor. Era o que sentiria quem fosse
engolido ao mesmo tempo por uma porção de bocas pequeninas.
Quinta ligadura rompeu do tronco. Sobrepos-se às outras e foi
enroscar-se no diafragma de Gilliatt. A compressão ajuntava-se
à ansiedade. Gilliatt mal podia respirar.
Aquelas ligaduras, 'pontudas na extremidade iam alargando como
lâminas de espada para o punho. Todas cinco pertenciam
evidentemente ao mesmo centro. Caminhavam e arrastavam-se para
Gilliatt. Ele sentia deslocarem-se essas pressões obscuras que
lhe pareciam bocas.
Bruscamente uma larga viscosidade redonda e chata saiu de
dentro da rocha. Era o centro; as cinco ligaduras prendiam-se
a ele, como raios a um eixo; distinguiam-se do lado oposto
daquele disco imundo o começo 'de outros tres tentáculos,
presos no fundo do buraco. No meio dessa viscosidade havia
dois olhos.
Olhavam eles para Gilliatt.


0 MONSTR0

Para acreditar na pietivre é preciso te-la visto.
Comparadas à pietivre, as velhas hidras fazem sorrir.
Em certos momentos parece que o elemento fugitivo que flutua
em nossos sonhos encontra na realidade ímãs aos quais esses
lineamentos se prendem, e dessas obscuras ficções do sonho
surgem criaturas. 0 ignoto dispõe do prodígio e serve-se dele
para compor o monstro. Orfeu, Homero e Hesíodo só puderam
fazer a quimera; Deus fez a pietivre.
Quando Deus quer, excede no execrável. A razão desta vontade é
o medo do pensador religioso.
Admitidos todos os ideais, se o terror é um fim, a pietivre é
uma obra-prima.
A baleia é enorme, a pietivre é pequena; o hipopótamo tem uma
couraça, a pieuvre é nua; a jararaca tem um silvo, a pietivre
é muda; o rinoceronte tem um chifre, a pieuvre não tem chifre;
o escorpião tem um dardo, a pieuvre não tem dar
do; o macaco tem uma cauda, a pietivre não tem cauda; o
tubarão tem barbatanas cortantes, a pieuvre não tem
barbatanas; o vespertílio-vampiro tem asas com unhas, a
pietivre não tem asas; o porco-espinho tem espinhos, a
pietivre não tem espinho; o espadarte tem um gládio, a
pietivre não tem gládio; o torpedo tem um raio, a pieuvre não
tem raio; o sapo tem um vírus, a pieuvre não tem vírus; a
víbora tem veneno, a pietivre não tem veneno; o leão tem
garras, a pietivre não tem garras . ; o gipaeto tem um bico, a
pietivre não tem bico; o crocodilo tem uma goela, a pietivre
não tem dentes.
A pietivre não tem massa muscular, nem grito ameaçador, nem
couraça, nem chifre, nem dardo, nem cauda, nem barbatanas, nem
asas, nem espinhos, nem espada, nem descarga elétrica, nem
vírus, nem veneno, nem garras, nem bico, nem dentes. A
pietivre é, de todos os animais, o mais formidílvelmente
armado.
0 que é a pieuvre? É a ventosa.
Nos escolhos em pleno mar, onde a água mostra e esconde todos
os seus esplendores, nas cavas de rochedos não visitadas, nas
cavas desconhecidas onde abundam as vegetações, os crustáceos
e as conchas, debaixo dos profundos pórticos do oceano, o
nadador que se arrisca, arrastado pela beleza do lugar, corre
o risco de um encontro. Se tiveres esse encontro, não sejas
curioso, foge. Entra-se fascinado, sai-se apavorado.
Eis o que é esse encontro sempre possível nas rochas do mar
alto.
Uma forma cinzenta oscila na água, da grossura de 1 braça e de
meia vara de comprido; é um trapo; essa forma assemelha-se a
um guarda-chuva sem capa; a pouco e pouco o trapo caminha para
o homem. De repente abre-se, oito raios saem bruscamente da
roda de uma face que tem dois olhos; esses raios vivem;
flamejam ondeando; é uma espécie de roda desenrolada, tem 4 ou
5 pés de diâmetro. Desenrolamento medonho. Atira-se ao
infeliz.
A. hidra arpoa o homem.
Este animal aplica-se à suapresa, cobre-a, envolve-a com os
seus longos braços. Por baixo é amarelada, por cima é térrea;
nada pode imitar esse inexplicável matiz de poeira; dissera-se
um animal feito de cinza, e morando na água. É aracnídeo pela
forma, é cameleão pelo colorido. Irritada, torna-se roxa.
Coisa horrível, é flácida.

Os seus nós garroteiam; o seu contato paralisa.
Tem um aspecto de escorbuto e de gangrena. É a moléstia feita
monstruosidade.
Não se pode arrancá-la; agarra-se estreitamente à sua presa.
Como? Pelo vácuo.
As oito antenas, largas na origem, vão estreitando-se e
terminam como agulhas; debaixo de cada uma delas alongamse
paralelamente duas filas de pústulas decrescentes, as grossas
perto da cabeça, as pequenas na ponta, e cada fila tem 25. Há
cinqüenta pústulas em cada antena, e todo o animal tem
quatrocentas. Essas pústulas são ventosas.
As ventosas sao cartilagens cilíndricas e lívidas. Na grande
espécie vão diminuindo de diâmetro - desde uma moeda de 5
francos até a grossura de urna lentilha. Esses pedaços de
tubos saem e entram no animal. Podem meter-se no corpo de um
homem mais de 1 polegada.
Este aparelho de sucção tem a delicadeza de um teclado.
Levanta-se, esconde-se. Obedece à menor intenção do animal. As
sensibilidades mais delicadas não igualam à contratibilidade
dessas ventosas, sempre proporcionadas aos movimentos internos
do bicho e aos incidentes externos. Este drgão é uma
sensitiva.
Este monstro é aquele que os marinheiros chamam polvo, que a
ciencia chama cefalópode e a que a legenda chama kraken. Os
marinheiros inglêses chamam-no devil-fish, o peixediabo.
Chamam-no também blood-sucker, chupador de safigue. Nas ilhas
da Mancha chamam-na pietivre.
É muito rara em Guernesey, muito pequena em Jersey, muito
grande e freqüente em Serk. '
Uma estampa da edição de Buffon por Sonnini representa um
cefalópode estreitando uma fragata. Dionísio Montfort pensa
que na verdade o polvo das altas latitudes pode meter um navio
a pique. Bory Saint-Vincent nega-o, mas atesta que nas nossas
regiões o polvo ataca o homem. Quem ror a Serk verá perto de
Brecq-Hou, o buraco do rochedo onde uma pietivre há anos
agarrou, reteve e afogou um pescador de lagostas. Peron e
Lamarck enganam-se quando duvidam que o polvo, não tendo
barbatanas, possa nadar. Aquele que escreve estas linhas viu
com seus próprios olhos, em Serk, na cova das Lojas, uma
pietivre perseguir, a nado, um homem que tomava banho. Foi
morta e medida; tinha 4 pés inglêses de largura e pode-se
contar quatrocentos chupadores. 0 bicho agonizante atirava-os
para longe de si convulsamente.
Segundo Dionísio Moriffort, um desses observadores, cuja alta
intuição faz descer ou subir até o magismo, o polvo tem quase
as paixões do homem; o polvo odeia. E no absoluto ser hediondo
é odiar.
0 disforme debate-se debaixo de uma necessidade de eliminação
que o torna hostil.
A pietivre nadando conserva-se, por assim dizer, na bainha.
Nada com as antenas fechadas. Imaginem uma manga cosida com um
punho dentro. Esse punho, que é a cabeça, impele o líquido e
avança com um vago movimento ondulatório; os dois olhos,
embora grandes, são pouco distintos por serem da cor da água.
A pietivre, quando espreita a caça, esquiva-se; diminui-se,
condensa-se; reduz-se à mais simples expressão. Confunde-se
com a penumbra. Parece uma dobra de vaga. Assemelha-se a tudo,
exceto a coisa viva.
A pietivre é o hipócrita. Não se repara nela; repentinamente,
abre-se.
Que há aí de mais medonho que isso: uma viscosidade com uma
vontade! 0 viscoso amassado de ódio.
É no mais belo azul da água límpida que surge essa hedionda
estrela voraz do mar. 0 que é terrível é que não se sente de
longe. Quando a gente a ve, já está agarrada.
Contudo, à noite, e particularmenté na estação do desejo, a
pietivre é fosfórica; aquele pavor tem os seus amóres. Aguarda
o himeneu. Faz-se bela, ilumina-se, e, do alto de algum
rochedo, pode-se vê-la nas profundas trevas aberta numa
irradiação, sol espectro.
A pietivre anda; também nada. É um tanto peixe e um tanto
réptil. Arrasta-se no fundo do mar. Utiliza as suas oito
pernas. Roja-se como a lagarta.
Não tem osso, nem sangue e nem carne. É flácida. Não tem nada
dentro. É uma pele. Pode-se virar-lhe os tentáculos de dentro
para fora, como dedos de uma luva.
Tem um só orificio no centro dos oito raios.
É fria toda ela.
Repelente bicho, é um do mediterrâneo. É um contato hediondo,
essa gelatina animada que envolve o nadador, onde as mãos
mergulham, onde as unhas trabalham, bicho que se rasga sem
matar, e que se puxa sem tirar, espécie de criatura
resvaladiça e tenaz, que escorrega entre os dedos; mas nada
iguala a súbita aparição da pietivre, Medusa servida por oito
serpentes.
Não há aperto igual ao do cefalópode.
É uma máquina pneumática que ataca. Luta-se com o nada ornado
de patas. Nem unhas nem dentes; uma escarificação indizível.
Uma mordedura é temível; é menos ainda que uma sucção. A garra
não iguala a ventosa. A garra é o animal que entra na carne; a
ventosa é o homem que entra no bicho. Incham-se os músculos,
torcem-se as fibras, rebenta a pele, debaixo de um peso
imundo, jorra o sangue, e misturase horrivelmente à linfa do
molusco. 0 bicho sobrepõe-se ao homem por mil bOcas infames; a
hidra incorpora-se ao homem; o homem amalgama-se à hidra.
Ficam sendo um só. Pesa aquele sonho. 0 tigre pode antes
apenas devorar; o polvo (horror!) aspira. Puxa o homem a si e
em si, e, atado, enviscado., impotente, o homem sente-se
lentamente esvaziado naquele terrível saco, que é um monstro.
Além do terrível, que é ser comido vivo, há o inexprimível,
que é ser bebido vivo.
Essas estranhas animações são ao princípio rejeitadas pela
ciencia, segundo o hábito de sua excessiva prudencia; depois
estuda-as, descreve-as, classifica-as, inscreve-as, põe-lhes
rótulos, procura exemplares; expõe-nas em museus; elas entram
na nomenclatura; ela os qualifica moluscos, invertebrados,
raiados; verifica-lhes as fronteiras; um pouco além os
calamares, um pouco aquém os depiários; para estas hidras da
água salgada acham um análago na água doce, o argironete;
divide-as em grande, média e pequena espécie; admite mais
filcilmente a pequena espécie que a grande, o que é, em todas
as regiões, a tendencia da ciencia, a qual é mais microscópica
que telescópica; olha a sua construção e chama-os cefalópodes;
conta as suas antenas e chama-os octópodes. Feito isto,
deixa-os assim. Onde a ciencia os larga, a filosofia os
retoma.
A filosofia estuda por sua vez esses entes. Ela vai menos
longe e mais longe que a ciencia. Não os disseca, medita-os.

Onde o escaipelo trabalhou, imerge a hipótese. Procura a causa
final. Profurffio tormento de pensador. Essas criaturas o
inquietam quase sobre o criador. São as surpresas; hediondas.
São os perturbadores.do contemplativo. Ele as verífica
desvairado. São as formas intencionais do mal. Que fazer
diante dessas blasfemias da criação contra si própria? A quem
deve ele queixar-se?
0 possível é uma matriz formidável. 0 mistério concentrase em
monstros. Lanhos de sombra saem deste penedo - a iminencia -,
rasgam-se, destacam-se, rolam, flutuam, condensam-se,
enchem-se do negrume ambiente, recebem as polarizações
desconhecidas, tomam vida, compõem uma forma com obscuridade e
uma alma com o miasma, e vão-se, larvas através da vitalidade.
É alguma coisa semelhante às trevas feitas animais. Por que?
Para que? Volta a questão eterna.
Esses animais são fantasmas e monstros, a um tempo. São
provados e improváveis. Ser é o fato, não ser é o direito. São
os arifibios da morte. A sua inverossimilhança complica a sua
existência. Tocam a fionteíra humana e povoam o limite
quimérico. Negais o vampiro, aparece a pieuvre. É uma certeza
que desconcerta a nossa segurança. 0 otimismo, que é a
verdade, perde-se quase diante deles. São a extremidade
visível dos círculos negros. Marcam a transição da nossa
realidade a outra. Parecem pertencer a esse começo de entes
terríveis que o sonhádor entreve confusamente na noite.
Esses prolongamentos de monstros, no invisível ao princípio,
no possível depois, foram suspeitados, vistos talvez, pelo
extase severo, e pelo olhar fixo dos magos e dos filósofos.
Daí a conjetura de um inferno. 0 demônio é o tigre do
invísivel. A besta feroz das almas foi denunciada ao gênero
humano por dois visionários, um que se chama João, outro que
se chama Dante.
Se, com efeito, os círculos da sombra continuam
indefinidamente, se, depois de um anel há outro, se isto vai
em progressão ilimitada, se existe a cadeia, de que estarnos
resolvidos a duvidar, é certo que a pietivre numa extremidade
prova Satanás na outra.
É certo que o mau num limite prova a maldade no outro.
Todo animal feroz, como toda inteligencia perversa, é esfinge.
Esfinge terrível, propondo o enigma terrível. 0 enigma do mal.
Essa perfeição do mal é que faz inclinar às vezes os grandes
espíritos para a crença do Deus duplo, para o tremendo
bifronte dos maniqueus.
Uma rede chinesa, roubada na última guerra, no palácio do
império da China, representa o tubarão comendo o croçodilo, o
qual come a serpente, a qual come a águia, a qual come a
andorinha, a qual come a lagarta.
Toda a natureza devora ou é devorada. As presas mastigarri-se
umas às outras.
Entretanto os sábios que também são filósofos, e por
conseqüencia benévolos para a criação, acham ou acreditam
achar a explicação disto. 0 fim destas coisas aparece, entre
outros, a Bonnet de Genebra, aquele misterioro espírito -é
xato, que foi oposto a Buffon, como mais tarde Geoffroy
SaintHilaire o foi a Cuvier. A explicação dizem ser esta: a
morte exige a inumação. Esses vorazes são coveiros.
Todas as criaturas entram urnas nas outras. Podridão é
alimentação. Assustadora limpeza do globo. 0 homem, carnívoro,
também é coveiro. A nossa vida é feita de morte. Tal é a lei
terrífica. Somos sepulcros.
No nosso mundo crepuscular, esta fatalidade da ordem produz
monstros. Perguntais: por que? É por isto.
Será isto a explicação? Será esta a resposta? Mas então por
que não será outra a ordem? Reaparece a questão.
Vivamos, seja.
Mas façamos com que a morte nos seja progresso. Aspiremos aos
mundos menos tenebrosos.
Sigamos a consciência que nos leva para lá.
Porquanto, não o esqueçamos nunca, o preferível só é achado
pelo melhor.


OUTRA FORMA DE COMBA TE NO ABISMO

Tal era o animal a quem, desde alguns instantes, Gilliatt
pertencia.
Aquele monstro era' o habitante daquela grota. Era o medonho
genio do lugar. Espécie de sombrio demônio da água.
Todas essas magnificencias tinham por centro o horror.
Um mes antes, no dia que pela primeira vez Gilliatt penetrou
na caverna, a forma escura, entrevista por Este nas dobras da
água secreta, era aquela pieuvre.
Estava ela em sua casa.
Quando Gilliatt, entrando pela segunda vez na caverna, em
busca do caranguejo, viu o buraco onde pensou que o caraguejo
se tivesse refugiado, a pieuvre estava no seu buraco à
espreita.
Pode-se imaginar esta espera?
Nenhum pássaro ousaria chocar, nenhum Ovo ousaria abrir,
nenhuma flor ousaria desabrochar, nenhum seio ousaria aleitar,
nenhum coração ousaria amar, nenhum espírito ousaria voar, se
se pensasse nas sinistras emboscadas do abismo.
Gilliatt metera o braço no buraco; a pieuvre agarrou-o.
Gilliatt estava preso.
Era a mOsca daquela aranha.
Gilliatt tinha água até a cintura, os pés agarrados nos seixos
arredondados e resvaladiços, com o braço direito atado pelas
correias da pieuvre, e o tronco do corpo desaparecendo quase
debaixo das dobras e cruzamentos daquela atadura horrível.
Dos oitos braços da pieuvre, tres aderiam à rocha, cinco
aderiam a Gilliatt. Deste modo agarrados ao granito por um
lado e ao homem pelo outro, encadeavam Gílli ' att ao rochedo.
Gilliatt tinha em si 250 chupadores. Complicação de angústia e
de enjOo. Estava apertado dentro de uma grande mão, cujos
dedos elásticos e do comprimento de 1 metro, são inteiramente
cheios de pústulas vivas que lhe fuçavam na carne.
Já o dissemos, não se pode arrancar a píeuvre. Quem o tenta,
fica mais fortemente amarrado. Ela aperta-se mais. 0 seu
esforço cresce na razão do esfOrço do homem. Quanto maior é a
sacudidela, maior é a constrição.
Gilliatt só tinha um recurso, a faca.
Tinha a mão esquerda livre; é sabido que ele usava dela
poderosamente. Podia dizer-se que tinha duas mãos direitas.
Nessa mão tinha ele a faca aberta.
Não se cortam as antenas da pieuvre; é um couro impossível de
cortar, resvala debaixo da lâmina; demais, a superposição é
tal que um corte nessas correias iria até à carne.
0 polvo é formidável, há, contudo, uma maneira de vencelo. Os
pescadores de Serk o sabem; quem os viu executar no mar certos
movimentos bruscos, também o sabe. Os ouriços do mar também
conhecem esse modo; tem uma maneira de morder a siba que lhe
corta a cabeça. Daí vem que se encontram muitas sibas e
pieuvres sem cabeça no mar alto.
0 polvo, na verdade, só é vulnerável na cabeça.
Gilliatt não o ignorava.
Nunca tinha visto uma pieuvre daquele tamanho. Logo da
primeira vez, achava-se agarrado pela grande espécie. Qualquer
outro ter-se-ia perturbado.
Há um momento para vencer a pieuvre, como o touro; é o
instante em que o touro curva o pescoço, é o instante em que a
pieuvre estica a cabeça; instante rápido. Quem o deixa escapar
está perdido.
Tudo o que acabamos de dizer passou-se em alguns minutos.
Gilliatt sentia crescer a sucção das 250 ventosas.
A pieuvre é traidora. Procura apavorar a presa. Agarra e
espera o mais que pode.
Gilliatt tinha a faca na mão. As sucções aumentavam.
Ele olhava para a pieuvre, a pieuvre olhava para ele.
De repente, o bicho desprendeu do rochedo a sexta antcna e,
atirando-a sobre Gilliatt, procurou agarrar-lhe o braço
esquerdo.
Ao mesmo tempo esticou vivamente a cabeça. Mais um segundo e a
sua boca aplicar-se-ia sobre o peito de Gilliatt. Gilliatt,
sangrado no corpo e preso pelos braços, estaria morto.
Mas Gilliatt vigiava. Espreitado, espreitava.
Evitou a antena, e, no momento em que o bicho ia agarrarlhe o
peito, a sua mão armada abateu-se sobre o bicho.
Houve duas convulsões em sentido inverso: a da pieuvre e a de
Gilliatt.
Foi luta de dois relâmpagos.
Gilliatt mergulhou a ponta da faca na vistosidade chata e, com
um movimento giratório semelhante à torção de uma chicotada,
fazendo um círculo à roda dos dois olhos, arrancou a cabeça
como quem arranca um dente.
Estava acabado.
0 bicho caiu.
Parecia uma roupa que se desprende. Destruída a bomba
aspirante, desfez-se o vácuo. As quatrocentas ventosas
largaram ao mesmo tempo o rochedo e o homem. Aquele andrajo
foi ao fundo da água.
Gilliatt, ofegante da luta, pode ver a seus pés, em cima das
pedras do fundo, dois montes gelatinosos e informes, a cabeça
de um lado, o resto de outro. Dizemos resto, porque não se
poderia dizer corpo.
Gilliatt, contudo, receando algum ataque convulsivo da agonia,
colocou-se fora de alcance dos tentáculos.
Mas o animal estava bem morto. Gilliatt fechou a faca.


NADA SE ESCONDE, NADA SE PERDE

Era tempo de matar a pieuvre. Gilliatt estava quase sem
fOlego; tinha o braço direito e o corpo roxos; esboçavam-se
neles mais de duzentos tumores; alguns vertiam sangue. 0
remédio para essas lesões é a água salgada; Gilliatt mergulhou
na água. Ao mesmo tempo esfregava-se com a palma da mão e os
tumores desapareciam.
Recuando e mergulhando na água, achou-se ele próximo da
espécie de cava que ficava ao pé do buraco onde a pietivre o
agarrou.
A cava prolongava-se obliquamente, e a seco, debaixo das
grandes paredes da caverna. Os seixos que ali se tinham
ajuntado levantavam o fundo acima das marés ordinárias. Essa
anfratuosidade era um largo címbrio abatido, um homem podia
entrar curvando-se. A claridade verde da caverna penetrava ali
e iluminava-a fracamente.
Aconteceu que, esfregando a pele intumescida, Gilliatt
levantou maquinalmente os olhos. Olhou para dentro da cava.
Estremeceu.
Pareceu-lhe ver no fundo desse buraco, na sombra, uma espécie
de cara rindo.
Gilliatt ignorava a palavra alucinação, mas conhecia a coisa.
Os misteriosos encontros com o inverossímil, que chamamos
alucinações, existem na natureza. Ilusões ou realidades, as
visoes aparecem. Quem está presente ve-as passar. Gilliatt,
como dissemos, era um pensativo. Tinha a grandeza de ser às
vezes alucinado como um profeta. Não se é impunemente sonhador
dos lugares solitários.
Acreditou em uma dessas miragens das quais, homem noturno como
era, mais de uma vez teve. medo.
A anfratuosidade figurava exatamente um fomo de cal. Era um
nicho baixo, em forma de asa de cesto, cujas curvaturas
abruptas, iam estreitando-se até a extremidade da cripta onde
os seixos e a abóbada se juntavam e fechavam.
Gilliatt entrou e, inclinando a cabeça, dirigiu-se para o que
estava no fundo.
Era, com efeito, alguma coisa que ria.
Era uma caveira.
Não havia só a caveira, havia também o esqueleto.
Um esqueleto humano estava deitado na cava.
0 olhar de um homem audaz, em tais ocasiões, quer saber das
coisas a fundo.
Gilliatt olhou em roda de si.
Estava cercado de uma porção de caranguejos.
Não se mexiam eles. Era o aspecto de um formigueiro morto.
Todos os caranguejos estavam mortos. Estavam vazios.
Os grupos, semeados, faziam no chão de seixos que enchiam a
cava constelações disformes.
Gilliatt, com o olhar fito em outra parte, caminhara por cima
sem reparar.
Na extremidade da cripta onde chegara Gilliatt, havia maior
espessura. Era um montão imóvel de antenas, de patas e de
mandíbulas. Pinças abertas conservavam-se direitas, e já se
não fechavam. As caixas de ossos não se mexiam debaixo de sua
crosta de espinhos; algumas viradas mostravam o interior
lívido. Este amontoado parecia uma multidão de sitiantes e
tinha o entravamento de um espinheiro.
Debaixo desse montão estava o esqueleto.
Via-se, debaixo dessa porção de tentáculos e escamas, o crânio
com as estrias, as vértebras, os femures, as tíbias, os longos
dedos nodosos, com unhas. As costelas estavam cheias de
caranguejos. Tinha palpitado ali algum coração. Os buracos dos
olhos estavam atopetados de bolor marinho. Algumas conchas
tinham deixado a sua baba nas fossas nasais. Não havia nesse
recanto da caverna nem sargaços, nem ervas, nem sopro de ar.
Nenhum movimento. Os dentes riain.
0 lado assustador do riso é a imitação que faz dele uma
caveira.
Aquele maravilhoso palácio do abismo bordado e incrustado de
todas as pedrarias do mar revelava por fim o seu segredo. Era
um covil, a pieuvre morava aí; e era uma tumba, aí jazia um
homem.
A imobilidade espectral do esqueleto e dos moluscos oscilava
vagamente, por causa da reverberção das águas subterrâneas que
tremia naquela petrificação. Os caranguejos, mistura medonha,
pareciam ter acabado a sua refeição. Aquelas cascas pareciam
comer aquele esqueleto. Nada mais estranho do que aquela
bicharia morta, sobre aquele homem finado. Sombrias
continuações da morte.
Gilliatt tinha, diante de si, o armário da pieuvre.
Visão lúgubre, donde surgia o horror profundo das coisas. Os
caranguejos tinham -comido o homem, a pietivre tinha comido os
caranguejos.
Não havia nenhum resto de roupa ao pé do cadáver. 0 homem
devia ter sido agarrado nu.
Gilliatt, atento e examinando, começou a tirar os caranguejos
de cima do homem. Quem era esse homem? 0 cadáver estava
admiràvelmente dissecado. Dissera-se uma preparação de
anatomia; toda a carne estava eliminada; já não restava nenhum
músculo. Se Gilliatt fosse do oficio, reconheceria isso. Os
periósteos estavam brancos, polidos e como que lustrados. Sem
alguns filamentos verdes que apareciam aqui e ali, seria
marfim puro. As divisões cartilaginosas estavam delicadamente
afiladas. A tumba faz essas joalherias sinistras.
0 cadáver estava como que enterrado debaixo dos caranguejos
mortos. Gilliatt desenterrava-o.
De repente, inclinou-se vivamente.
Acabava de ver, à roda da coluna vertebral, uma espécie de
atilho. Era um cinto de couro, que evidentemente fora atado ao
ventre do homem antes de morrer.
0 couro estava cheio de mofo. A fivela estava enferrujada.
Gilliatt puxou o cinto; as vértebras resistiram, e Gilliatt
teve de quebrá-las, para tirar o cinto. 0 cinto estava intato.
Começava a formar-se nele uma crosta de conchas.
Gilliatt apalpou o cinto, e sentiu um objeto duro de forma
quadrada no interior. Não era possível abrir a fivela,
Gilliatt cortou o couro com a faca.
0 cinto continha uma caixinha de ferro e algumas moedas de
ouro. Gilliatt contou 20 guinétis.
A caixinha era uma velha boceta de marinheiro, abrindose por
mola. Estava muito enferrujada. A mola, completamente oxidada,
já não funcionava.
A faca veio em auxílio de Gilliatt. Com a ponta da lâmina, fez
ele pular a tampa da boceta.
A boceta abriu-se.
Só havia papel dentro dela.
Um macinho de folhas rinas, dobradas em quatro, estava no
fundo da boceta.'Estavam úmidas, mas não alteradas. A boceta,
hermèticamente fechada, preservou-as. Gilliatt abriuas.
Eram tres notas do banco de 1000 libras esterlinas cada uma,
formando uma soma de 75 000 francos.
Gilliatt dobrou-as, pO-Ias na caixinha, aproveitou o pouco
lugar que restava para deitar dentro os 20 guinétis, e fechou
a caixinha o melhor que pode.
Depois examinou o cinto.
0 couro, outrora envernizado pela parte de fora, não o era no
interior. Aí estavam traçadas algumas letras com tinta
gordurosa. Gilliatt decifrou as letras e leu: "Sr. Clubin".


HÁ LUGA R PA RA A L OJA R-SE A MOR TE NO INTERVALO
Q UE SEPA RA 6 POLEGA DA S DE 2 PÉS

Gilliatt meteu outra vez a caixinha no cinto, e pos o cinto na
algibeira da calça.
Deixou o esqueleto aos caranguejos com a pieuvre morta ao pé.
Enquanto Gilliatt esteve com a pietivre e o esqueleto, a maré
enchente tinha tapado o bocal da entrada. Gilliatt só pOde
sair mergulhando por baixo do* arco. Foi-lhe fácil; conhecia a
saída, e era mestre nessas ginásticas do mar.
Adivinhava-se o drama que se passara ali dez semanas antes. Um
monstro agarrara o outro. A pieuvre agarrara Clubin.
Foi isso, na sombra inexorável, o que se poderia chamar o
encontro das hipocrisias. Houve, no fundo do abismo, um embate
dessas duas existências feitas de emboscada e de trevas, e
uma, que era a besta, executou a outra, que era a alma.
Sinistras justiças.
0 caranguejo alimenta-se da carne morta, a pieuvre alimenta-se
de caranguejos. A pieuvre apanha um animal que nada, uma
lontra, um cão, um homem se pode, bebe-lhe o sangue, e deixa
no fundo da água o corpo morto. Os caranguejos são
escaravelhos necróforos do mar. Atrai-os a carne pútrida; eles
aproximam-se, comem o cadáver; a pieuvre os come depois. As
coisas mortas desaparecem no caranguejo, o caranguejo
desaparece na pietivre. Já indicamos esta lei.
Clubin foi o engodo da pietivre.
A pietivre reteve-o e afogou-o; os caranguejos o devoraram.
Alguma vaga o levou para aquela cava, no fundo da
anfratuosidade onde Gilliatt o achou.
Gilliatt voltou, procurando nos rochedos outra coisa que não
fosse caranguejos. Parecer-lhe-ia comer carne humana.
Demais, ele tratava de cear o melhor possível antes de partir.
Já nada o retinha no rochedo. As grandes tempestades são
sempre seguidas de uma calma que dura muitos dias às vezes.
Nenhum perigo havia ainda quanto ao mar. Gilliatt estava
resolvido a partir no dia seguinte de manhã. Era conveniente
conservar durante a noite, por causa da maré, o tapamento
ajustado entre as Douvres; mas Gilliatt contava desfazer de
madrugada essa tapagem, empurrar a pança para fora, e abrir
vela para Saint~Sampson. A brisa de calma que soprava, e que
era sudoeste, era exatamente o vento que lhe era preciso.
Entrava o primeiro quarto de lua de maio; os dias eram longos.
Quando Gilliatt, terminada a pesquisa dos rochedos e mais ou
menos satisfeito do estOmago, voltou para a garganta das
Dotivres, onde estava a pança, já o sol caíra no poente, e o
crespúsculo redobrava com aquele meio luar que se pode chamar
o luar do crescente; a maré,.que tinha enchido completamente,
começava a vazar. 0 cano da máquina, de pé acima da pança,
estava coberto pela espuma da tempestade de uma camada de sal
que a lua embranquecia.
Isto lembrou a Gilliatt que a tempestade deitara, dentro da
pança, muita água de chuva e do mar, e que, se quisesse partir
no dia seguinte, era preciso esvaziar a barca.
Tinha verificado, ao deixar a pança para ir procurar
caranguejos, que havia cerca de 6 polegadas de água no porão.
A pá de esgoto bastaria para deitar essa água fora.
Chegando à pança, Gilliatt teve um movimento de terror. Havia
na pança perto de 2 pés de água.
Incidente terrível, a pança fazia água.
Enchera-se pouco a pouco durante a ausência de Gilliatt.
Carregada como estava, 20 polegadas de água eram sobreposse.
Mais um pouco e a pança iria a pique. Se Gilliatt chegasse uma
hora mais tarde, só.acharia fora da água o casco e o mastro.
Não podia perder um minuto em deliberação.
Era preciso procurar o buraco, tapá-lo, depois esvaziar a
barca, ou ao menos aliviá-la. As bombas da Durande tinhamse
perdido no naufrágio; Gilliatt estava reduzido à pá de esgoto.
Procurar o buraco, antes de tudo. Era o mais urgente.
Gilliatt pos maos à obra, sem mesmo dar-se tempo de vestir, e
todo tremulo. Já não sentia fome, nem frio.
A pança continuava a encher. Felizmente não havia vento. 0
menor abalo da onda meteria a pança a pique.
A lua desaparecera.
Giiliatt, às apalpadelas, curvado, mergulhado mais de metade
na água, levou muito tempo na pesquisa. Afinal encontrou a
avaria.
Durante a tempestade, no momento crítico em que a pança se
arqueava, a robusta barca tinha batido violentamente contra o
rochedo. Um dos relevos da pequena Douvre fizera-lhe uma
fratura no casco, a estibordo.
Este buraco estava infelizmente, podia-se quase dizer
pèrfidamente, situado perto do ponto do encontro das duas
porcas, o que, junto ao aturdimento da tempestade, impedia
Gilliatt, na revista obscura e rápida que fizera, com o
temporal, de descobrir o estrago.
A fratura assustava porque era larga, e tranqüilizava porque,
embora imersa neste momento pela enchente interna da água,
ficava acima do lume da água.
No momento em que rompeu o buraco, a vaga era loucamente
sacudida no estreito, e já não havia nível de flutuação, a
onda penetrara pela efração na pança; a pança, com mais essa
carga, mergulhou algumas polegadas, e, mesmo depois do
apaziguamento das vagas, o peso do líquido filtrado, fazendo
levantar a linha de flutuação, manteve o buraco debaixo da
água. Daí vinha a iminencia do perigo. A cheia aumentara de 6
polegadas a 20. Mas, conseguindo tapar o buraco, podia-se
esvaziar a pança; esvaziada a pança, voltaria à flutuação
normal, a ' fratura sairia da água, e a seco, a reparação
seria fácil, ou ao menos possível. Gilliatt, como dissemos,
tinha ainda a ferramenta de carpintaria em bom estado.
Mas quantas incertezas antes de chegar a isso! Quantos
perigos! Quantas más probabilidades! Gilliatt ouviu a água
correr inexoràvelmente. Um empuxão e tudo iria a pique. Que
desgraça! Talvez já não fosse tempo.
Gilliatt acusou-se amargamente. Deveria ter visto a avaria. As
6 polegadas de água no porão deviam te-lo advertido. Foi
estupidez atribiur as 6 polegadas de água à chuva e à espuma.
Exprobrou-se o ter dormido e o ter comido; exprobrou-se a
fadiga, e quase também a tempestade e a noite. Tudo era culpa
dele.
Essas coisas duras, que ele dizia a si próprio, iam de
envol-ta com o vaivém do trabalho e não o impediam de
observar.
Achar o buraco era o primeiro passo; ta~á-lo era o segundo.
Não se podia mais agora. Não se faz carpintaria debaixo da
água.
Havia uma circunstância favorável, era que o buraco do casco
foi aberto no espaço compreendido entre as duas correntes que
prendiam a estibordo o cano da máquina. A estopa podia
prender-se a essas correntes.
Entretanto, a água subia. Já passava de 2 pés.
Gilliatt tinha água acima dos joelhos.


"DE PROFUNDIS AD ALTUM "

Gilliatt tinha à sua disposição, na reserva do aparelho da
pança um grande pano alcatroado com as competentes cordas
longas nas quatro pontas.
Pegou nesse pano, amarrou dois cantos pelos cabos às duas
argolas das correntes do cano do lado do buraco, e atirou o
pano por cima da borda. 0 pano caiu como uma toalha entre a
pequena Douvre e a barca, e mergulhou. A água, querendo entrar
na pança, aplicou o pario ao casco sobre o buraco. Quanto mais
a água batia, mais aderia o pano. Foi colocado pela vaga sobre
a fratura. A chaga da barca estava pensada.
A lona alcatroada interpunha-se entre o interior do porão e as
vagas de fora. Já não entrava nem gota de água sequer.
0 buraco estava tapado, mas não estopado.
Era uma espera.
Gilliatt começou a esvaziar a pança. Era tempo de aliviáIa. 0
trabalho aqueceu-o um pouco, mas extrema era a fadiga. Gílliat
confessava que não iria ao fim e não chegaria a estancar o
porão. Gillíatt comera muito pouco, e tinha a humilhação de
sentir-se extenuado,
Media o progresso dos trabalhos pela baixa do nível da água
nos seus joelhos. A descida era lenta.
Além disso a entrada da água estava apenas interrompida. 0 mal
estava paliado, mas não reparado. 0 pano, empurrado na fratura
pela vaga, começava a fazer um tumor pelo lado de dentro.
Parecia que havia uma mão fechada debaixo do pano, procurando
romper o buraco. A lona, sólida e alcatroada, resistia; mas o
inchamento e a tensão iam aumentando; não era certo que o pano
não cedesse, e, de um momento para outro, o tumor poderia
romper. Recomeçaria então a irrupção da água.
Em tal caso, as equipagens em perigo o sabem, não há outro
recurso mais que um batoque. Apanham-se trapos de toda a
espécie, o que se acha à mão, tudo quanto a língua especial
charnaffirro e mete-se o mais que se pode na fenda do tumor da
lona.
Desseforro Gilliatt não tinha nenhum. Todos os panos e estopas
armazenados foram empregados no trabalho ou dispersos pelo
vento.
Podia achar alguns restos no rochedo, quando muito. A pança já
estava bastante aliviada, e ele podia ausentar-se um quarto de
hora; mas como procurar sem luz? Completa era a escuridão. Já
não havia lua; apenas o sombrio céu estrelado. Gilliatt não
tinha fios secos para fazer uma mecha, nem sebo para fazer uma
vela, nem fogo para acende-la, nem lanterna para abrigá-la.
Tudo estava confuso e indistinto na barca e no escolho. Ouvia
a água rumorejar à roda do casco ferido, nem sequer podia ver
o buraco; foi com as mãos que Gilliatt pOde averiguar a tensão
crescente do pano. Era impossível fazer naquela obscuridade
uma pesquisa útil de pedaços de lona e massame esparços nos
cachopos. Como colher esses andrajos sem luz? Gilliatt
contemplava tristemente a noite. Todas as estrelas e nem uma
vela.
A massa líquida diminuíra na barca, a pressão externa
aumentara. Crescia o inchamento do pano. Intumescia-se cada
vez mais. Era um abscesso prestes a abrir. A situação, um
momento melhorada, tornava-se ameaçadora.
Era imperiosamente necessário um batoque.
Gilliatt apenas tinha as suas roupas.
Tinha-as posto a secar nas salienciàs do rochedo da pequena
Douvre.
Foi buscá-las, e depositou-as na borda da pança.
Pegou no capote alcatroado e, ajoelhando-se na água, meteu-o
no buraco, empurrando o tumor do pano para fora, e portanto
esvaziando-o. Depois meteu a pele de carneiro, depois a camisa
de lã, depois a japona. Tudo.
Tinha apenas uma roupa, tirou-a, e com a calça engrossou e
apertou o batoque. Estava pronto e não parecia insuficiente.
O batoque saía pelo buraco, tendo o pano por invólucro.
A água querendo entrar, apertava o obstáculo, alargava-o
útilmente na fratura, e consolidava-o. Era uma espécie de
compressa exterior.
Nó interior, tendo sido empurrado apenas o centro da lona,
ficava à roda do buraco e do batoque em rolete circular do
pano tanto mais aderente quanto que as desigualdades da
fratura o retinham. A via da água estava tapada.
Mas nada mais precário do que aquilo. Os relevos agudos da
fratura que fixavam o pano pe-diam furá-lo e, por esses
buracos, entraria a água. Gilliatt, na obscuridade, não
descobria isso. Era pouco provável que o batoque durasse até
de manhã. A ansiedade de Gilliatt mudou de forma, mas ele
sentia-a crescer ao mesmo tempo que sentia quebrarem-se-lhe as
forças.
Continuou a esvaziar o porão, mas os seus braços, no extremo
esforço apenas podiam levantar a pá da água. Estava nu e
tremia.
Gilliatt sentia a aproximação sinistra da extremidade. Talvez
houvesse uma vela ao largo, um pescador que por acaso passasse
nas águas de Douvres podia ajudá-lo. Era chegado o momento em
que se tornava necessário um colaborador. Um homem e uma
lanterna, e tudo estaria salvo. Sendo dois, esvaziava-se
facilmente a barca; uma vez estancada, sem aquela sobrecarga
líquida, voltaria ao nível de flutuação, o buraco sairia da
água, o reparo seria exequível, podia-se imediatamente
substituir o batoque por uma peça de madeira, e o aparelho
provisório por um conserto definitivo. Senão, era preciso
esperar até de manhã, esperar a noite toda! Funesta demora que
podia ser a perdição. Gilliatt tinha a febre da urgencia. Se
por acaso algum farol de navio estava à vista, Gilliatt
poderia fazer sinais do alto da grande Douvre. 0 tempo estava
calmo, não havia vento, não havia mar, um homem agitando-se no
fundo estrelado do céu tinha a possibilidade de ser visto. Um
capitão de navio, e mesmo um patrão de lancha, não anda de
noite nas águas das Douvres sem por o óculo no escolho; é a
precaução.
Gilliatt esperava que o vissem.
Escalou o casco da Durande, empunhou a corda e subiu à grande
Douvre.
Nenhuma vela no horizonte. Nenhum farol.
A água estava deserta a perder de vista.
Nenhuma assistencia possível e nenhuma resistencia possível.
Gilliatt, coisa que até então não sentira, sentiu-se
desarmado.
A fatalidade obscura assenhoreara-se dele. Ele, com a barca,
com a máquina da Durande, com o trabalho, com o bom exito, com
a coragem, tudo isso pertencia ao golfào. Já não tinha recurso
de luta; tornava-se passivo. Como impedir a maré e a noite? 0
batoque era o único ponto de apoio. Gilliatt exaurira-se em
compO-Io e completá-lo; fortificá-lo é que já não podia; o
batoque devia ficar assim e fatalmente tinha acabado todo o
esfOrço. 0 mar tinha à sua discrição aquele aparelho prematuro
aplicado ao buraco. Como resistiria aquele obstáculo inerte?
Chegara-lhe a vez de combater, depois de Gilliatt. Entrava o
trapo, retirava-se o espírito. 0 intumescimento de uma onda
bastava para abrir a fratura. Maior ou menor pressão, a
questão era essa.
0 desfecho ia nascer por uma luta maquinal entre duas
quantidades mecânicas. Gilliatt não podia, agora, nem ajudar o
auxiliar, nem impedir o inimigo. Era apenas o espectador da
sua vida ou da sua morte. Aquele Gilliatt que tinha sido uma
providencia foi substituído no supremo instante por uma
resistencia inconsciente.
Nenhuma das provas e dos pavores que Gilliatt atravessara era
igual a esta.
Chegando ao escolho Dotivres, viu-se cercado, como que
agarrado pela solidão. A solidão fazia mais que cercá-lo,
envolvia-o. A um tempo mais de mil ameaças o desaflavam. 0
vento estava ali, prestes a soprar; ali estava o mar, prestes
a rugir. Era impossível amordaçar a goela ao vento, era
impossível desarmar a boca do mar. E contudo tinha ele
combatido; homem, lutara corpo a corpo com o oceano,
engalfinhara-se com a tempestade.

Tinha afrontado outras ansiedades e necessidades. Pelejou
contra outros perigos. Foi-lhe preciso trabalhar sem
ferramenta, carregar fardos sem auxílio, resolver problemas
sem ciencia, comer e beber sem provisões, dormir sem leito e
sem teto.
Naquele rochedo, ecúleo trágico, puseram-lhe a questão as
diversas fatalidades iníquas da natureza, mãe quando quer,
algoz quando lhe apraz.
Venceu o isolamento, venceu a fome, venceu a sede, venceu o
frio, venceu a febre, venceu o trabalho, venceu o sono.
Encontrou no caminho os obstáculos coalizados. Depois da
nudez, o elemento; depois da maré, a tempestade; depois da
tempestade, a pietivre; depois do monstro, o espectro.
Lúgubre ironia final. Naquele escolho donde Gilliatt contava
sair triunfante, Clubin morto olhara rindo para ele.
Tinha razão o riso do espectro. Gilliatt via-se perdido. Viase
tão morto como Clubin.
0 inverno, a fome, a fadiga, o desaparelhar do casco, o
transporte da máquina, o equinócio, o vento, o trovão, a
pieuvre, tudo isso nada era ao pé do arrombamento da pança.
Podia-se ter, e Gilliatt os teve, contra o frio, o fogo;
contra a fome, as conchas; contra a sede, a chuva; contra as
dificuldades, a indústria e a energia; contra a maré e a
tempestade, o quebra-mar; contra a pietivre, a faca. Contra o
arrombamento, nada.
0 furacão deixava-lhe aquele adeus sinistro. última repetição,
pérfida estocada, ataque sorrateiro do vencido ao vencedor. A
tempestade fugitiva lançava-lhe aquela flecha. A derrota
olhava para trás e feria. Era o coup de Jarnac do abismo.
Combate-se a tempestade; mas como combater um esgoto?
Se o batoque cedesse, nada podia impedir que a pança rosse a
pique. Era a ligadura da artéria que se rompe. E apenas fosse
ao fundo da água, com a máquina dentro, não havia meio de
arrancá-la.
0 magnânimo esfo~ço de dois meses titânicos acabava por um
aniquilamento. Recomeçar era impossível. Gilliatt já não tinha
nem forja, nem materiais. Talvez tivesse ele de ver, ao romper
do dia, mergulhar-se lentamente. e irremediàvelmente toda a
sua obra no golfào.
Coisa assustadora é sentir debaixo de si a rorça sombria.
0 golfão atraía-o.
Engolida a barca, restava-lhe morrer de fome e de frio como o
náufrago do rochedo Homem.
Durante dois longos meses, as consciências e as providencias
que existem no invisível tinham assitido a isto: de um lado a
extensão, as vagas, os ventos, os relâmpagos, os meteoros, do
outro lado um homem; de um lado o mar, do outro uma alma; de
um lado o infinito, do outro um átomo.
E houve batalha.
E abortava talvez aquele prodígio.
Assim chegou à impotencia o inaudito heroísmo, acabavase pelo
desespero aquele formidável combate, aquela luta de Nada
contra Tudo, aquela Ilíada de um.
Gilliatt, desvairado, contemplava o espaço.
Nem mesmo tinha roupa, estava nu diante da imensidade.
Então, no acabrunhamento de toda aquela enormidade
desconhecida, não sabendo já o que queriam dele,
confrontando-se com a sombra, em presença daquela obscuridade
irredutível, no rumor das águas, das ondas, dos marulhos, das
espumas, das lufadas, debaixo das nuvens, debaixo dos ventos,
debaixo da vasta força esparsa, debaixo daquele misterioso
firmamento das asas, dos astros e das tumbas, debaixo da
intenção possível das coisas desmesuradas, tendo à roda de si
e em baixo de si o oceano, e acima as constelações, debaixo do
insondável, Gilliatt abateu-se, desistiu, deitou-se ao
comprido sobre a rocha, voltado para as estrelas, vencido, e
pondo as mãos diante da profundeza terrível, bradou ao
infinido: "Piedade!"
Abatido pela imensidade, Gilliatt implorou.
Estava só naquela noite, em cima daquele rochedo, no meio
daquele mar, caído de cansaço, semelhante a um fúlininado, nu
como o gladiador no circo, tendo em vez do circo o abismo, em
vez das feras as trevas, em vez dos olhos do povo o olhar do
ignoto, em vez das vestais as estrelas, em vez de César, Deus.
Pareceu-lhe que se dissolvia no frio, no cansaço, na
impotencia, na oraçaõ, na sombra e fecharam-se-lhe os. olhos.

HÁ UM OUVIDO NO IGNOTO

Correram algumas horas.
0 sol levantava-se deslumbrante.
0 seu primeiro raio iluminou na plataforma da grande Douvre
uma forma imóvel. Era Gilliatt.
Continuava estendido em cima do rochedo.
Já não estremecia aquela nudez gelada e endurecida. Estavam
lívidas as pálpebras fechadas. Era difícil dizer que não era
um cadáver.
0 sol parecia contemplá-lo.
Se aquele homem nu não estava morto, devia estar tão perto
disso que bastaria o menor vento frio para acabá-lo.
Começou a soprar o vento, tépido e vivificante; era o hálito
vernal de maio.
Entretanto, o sol subia no profundo céu azul; o seu raio menos
horizontal ia-se purpureando. A luz rez-se calor. Cingiu
Gilliatt.
Gilliatt não se mexia. Se respirava, era uma respiração quase
extinta que mal poderia embaciar um espelho.
0 sol continuava a sua ascensão cada vez menos oblíqua sobre
Gilliatt. 0 vento, que era tépido ao princípio, tornou-se
cálido.
Aquele corpo rígido e nu- continuava sem movimento; entretanto
a pele parecia menos lívida.
0 sol, acercando-se do zenite, caía a prumo sobre a plataforma
da Douvre. Vertia do alto do céu uma prodigalidade de luz;
juntava-se a ela a vasta reverberação do mar tranqüilo, o
rochedo começava a ficar tépido e aquecia o homem.
0 peito de Gilliatt levantou-se com um suspiro.
Vivia.
0 sol continuava as suas carícias, quase ardentes. 0 vento,
que já era o vento do meio-dia, e o vento de verão,
aproximava-se de Gilliatt como uma boca, soprando molemente.
Gilliatt fez um movimento.
Era inexprimível a tranqüilidade do mar, tinha um murmúrio de
ama ao pé do filho. As vagas pareciam embalar o escolho.
As aves marinhas que conheciam Gilliatt voavam inquietas por
sobre ele. Já não era o medo selvagem do princípio. Era um que
de terno e fraternal. Soltavam pequenos guinchos. Pareciam
chamá-lo; uma gaivota que o amava, sem dúvida, teve a
familiaridade de descer para junto dele. Começou a falar-lhe.
Ele não parecia ouvi-Ia.
Ela saltou-lhe sobre o ombro e começou a brincar docemente com
o bico nos seus lábios.
Gilliatt abriu os olhos.
Os pássaros, alegres e ariscos, voaram.
Gilliatt levantou-se e espreguiçou-se como o leão acordando,
correu a bordo da plataforma e olhou para o intervalo das
Douvres.
A pança estava intata. 0 batoque resistira; provàvelmente o
mar maltratara-o pouco.
Tudo estava salvo.
Gilliatt já não estava cansado. Refizeram-se~lhe as fOrças. 0
desmaio foi um sono.
Esvaziou a pança, pás a avaria fora da flutuação, vestiuse,
bebeu, comeu, tornou-se alegre.
0 buraco, examinado de dia, demandava mais trabalho do que
Gilliatt pensou. Era uma grande avaria. Gilliatt gastou o dia
inteiro em repará-lo.
No dia seguinte, de madrugada, depois de desfazer a tapagem e
abrir a saída do estreito, vestido com os andrajos que tinham
vencido a avaria, tendo consigo o cinto de Clubin e os 75 000
francos, em pé na pança consertada, ao lado da máquina salva,
com um vento de feição e mar admirável, Gilliatt: saiu do
escolho Douvres.
Aproou sobre Guernesey.
No momento em que se afastava do escolho, alguém que lá
estivesse te-lo-ia ouvido entoar a meia voz a canção Bonny
Dundee.

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Victor Hugo - Os trabalhadores do mar
?ui=2&view=att&th=125a456ea9f077dd&attid=0.1&disp=attd&realattid=ii_125a456ea9f077dd&zw
" Nesta obra, Victor Hugo mantém os elementos característicos da narrativa romântica, como a mulher idealizada, a tragédia, o herói pleno de virtudes, as descrições detalhadas... Porém, não é por meio desse universo idílico que cria empatia com seu leitor, mas, sim, pela abordagem das necessidades inerentes a todo ser humano, ilustradas na vida de um povo que vive na Ilha de Guernesay, na Normandia, no início do século XIX".
 
?ui=2&view=att&th=125a45b6003d0b0b&attid=0.1&disp=attd&realattid=ii_125a45b6003d0b0b&zw

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M. Loureiro

"Primeiro foi necessário civilizar o homem em relação ao próprio homem. Agora é necessário civilizar o homem em relação a natureza e aos animais."
(Victor Hugo)







 


 


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