Marisa Villardefrancos
Digitalização e Revisão: JoSlavic Genius
Formatação: Cris Skau
Parceria de grupos:
Sinopse:
O jovem Endrey Eiger é um rapaz sonhador, de coração impulsivo e forte, que nutre por sua tia Irma, dez anos mais velha que ele, um amor proibido, que tanto ele quanto ela sabem que não poderia se realizar.
Marysia Nalewska é uma bailarina, amiga de Irma, e refugiando-se na fazenda dos Eiger, tenta se recuperar de um problema de saúde. Conhecendo Endrey, ela começa a sentir-se melhor, renasce em seu coração muitas esperanças e o pedido inusitado de casamento, feito por Endrey, a enche de alegria. Mas algum tempo depois ela descobre a verdade.
Poderiam Endrey e Marysia, superar a dor de um amor não correspondido e consolar-se, mutuamente?
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Todos os personagens e entidades privadas que aparecem nesta novela, bem como as situações da mesma, são frutos exclusivos da imaginação do autor. Qualquer semelhança com personagens, entidades ou fatos passados ou atuais será mera coincidência.
@ MARISA VILLARDEFRANCOS
Tradução de Déa Rodrigues
Editorial Bruguera
CAPÍTULO I
M
inha terra é deliciosa e risonha para aqueles que pensam nela unicamente como turistas. Mas ela também tem paisagens sinistras e lugares que parecem amaldiçoados por Deus. É, entretanto, de uma beleza sobre-humana que emociona.
A aldeia parece perdida entre aqueles cimos agrestes. E quando a gente se afasta dela, logo se encontra perto do Reuss, em sua parte mais selvagem. Deixando atrás uma cruz gigantesca, esculpida na rocha que domina todo o vale — a cruz de Soudvarof — toma-se um caminho que, de repente, se rompe na Ponte do Diabo. A garganta ali é tão estreita que a estrada se acaba contra as imensas lajes de uma escarpa que parecem talhadas na rocha viva pela espada de um gigante. Foi preciso levantar a ponte como que retorcida, atormentada, no lugar mais árido e escabroso.
A antiga ponte fora destroçada pela fúria demoníaca do Reuss. Às vezes, eu ia com meu avô contemplar o torvelinho de espumas e águas revoltas que desce como uma trança enlouquecida por entre os paredões de pedras verdes e vermelhas.
Quando o Reuss penetra na garganta vem rodando com fúria, saltando e ricocheteando entre as pedras, formando pequenas cascatas turbulentas. Ergue-se como um repuxo e dissolve-se no ar, como uma névoa impalpável. Parece, então, aureolado por uma luz azulada. As ladeiras da montanha jorram água em finíssimas gotas que imitam brilhantes. E a louca torrente precipita-se no abismo, rugindo, como um pesadelo a ferver numa imensa caldeira de bruxas. Lá em baixo as rochas avançam umas contra as outras, o frio se estreita retorcendo-se como uma serpente.
Foi sobre esse lugar, estreito, tétrico qual um canto do inferno, que o arquiteto estendeu a ponte.
Quando meu avô e eu passávamos por ali, ele me contava que antes, o caminho era fechado por uma rocha que caía a prumo sobre ele e era preciso dar-se a volta por um passadiço de sessenta metros, preso por correntes acima das águas. Até que haviam perfurado a rocha em Trou d'Uri.
— Essa ponte, segundo a lenda, foi construída pelo diabo. O arquiteto tinha dificuldades. Como atrever-se a levantar uma obra assim, num lugar que recorda o Averno e não pode ser pisado por homens? O demônio apareceu e pactuou com ele. O homem prometeu que entregaria a primeira criatura que passasse pela ponte depois de terminada, mas pôs a correr por ela um cachorrinho. O diabo, enganado, enfureceu-se. Por isso dizem que foi o demônio quem atirou as rochas que se acham espalhadas nos arredores sobre a obra para destruí-la.
Meu avô sabia histórias de todos os lugares, e eu gostava de segui-lo em suas excursões. Íamos por aquele caminho infernal até que, de repente, desembocávamos no lago de Urseren, tranqüilo, aprazível, cheio de luz, parecendo-nos um país de fadas, depois dos lugares que havíamos atravessado. Em meio à planície, aparecia Andermatt, uma pequena cidade com cervejarias reluzentes. Os jovens oficiais do exército suíço — Andermatt era centro de instrução — iam ali beber em grandes jarros, enquanto uma orquestra executava Brahms ou Mozart.
Meu avô ficava ali, bebendo a pequenos sorvos, fumando seu longo cachimbo de camponês e ouvindo a música religiosamente. Ao entardecer, voltávamos por nosso caminho, entre a bruma que se levantava do Reuss, até que novamente aparecia nossa casa, quase voltada sobre o precipício, terrorífica por um lado e por outro sorridente e luminosa. Havia árvores lindíssimas em sua entrada e um pátio cercado por uma parede baixa de pedras, onde as moças da aldeia costumavam sentar-se quando vinham da fonte, para conversar com meu irmão Endrey que, segundo dizia minha mãe, era o moço mais bonito da região.
Quase todos em nossa família eram bonitos. Minha avó era uma mulher alta, majestosa e altiva como uma rainha de lenda. Quando a viam caminhar pela calçada principal do povoado, com seus longos vestidos e seu passo cheio de harmonia, os homens paravam para contemplá-la e cumprimentá-la respeitosamente. Os mais velhos diziam-me:
— Não houve no país moça mais bela que sua avó, Fritz.
Muitos a amaram, mas ela escolhera para casar um homenzinho sério e bondoso chamado Klaus Eiger, filósofo por natureza, a quem os vizinhos procuravam para aconselhar-se. Era a bondade e a retidão personificadas e jamais cansava de ajudar seus semelhantes. Ao vê-lo muito assediado, minha avó dizia:
— Creio que são suficientes para resolver seus problemas, amigos. Deixem-me tranqüila com meu marido, do contrário serei a única a não poder contar-lhe as minhas dificuldades.
Meu avô agradecia essa intervenção mas, como dizia meu primo Hans, quando ficavam tranqüilos não era para que minha avó Margareth lhe contasse nenhum dos problemas caseiros, mas para que meu avô pudesse pegar a rede e a vara e ir pescar no remanso do rio que passava por trás de nossa casa.
Eu era o predileto de minha avó. Nossa família era extremamente aventureira e quase toda partira para terras distantes. Minha avó recebera educação requintada, mas não vacilara em casar com um homem de condição social infinitamente inferior. Eram, entretanto, muito felizes, pois meu avô tinha um talento natural pouco comum: uma tranqüila filosofia da vida, superior a tudo o que se podia estudar nos livros e uma bondade sem limites para tudo saber sacrificar pela felicidade dos seus. Minha mãe Edelgard não era como minha avó Margareth. Era de uma beleza muito diferente. Magra, pequena, pálida e branca como um lírio e tão frágil como cristal. Sua própria brancura parecia iluminar a paisagem. Gostava de vestir-se de branco. Meu avô costumava dizer, pensativo:
Não sei o que há com sua mãe, Fritz. Quando a vejo, dá-me a sensação de que dentro dela há uma chama acessa que a traspassa como se fosse uma lâmpada.
Em nossa família havia um pequeno segredo: a vida de minha tia Irma.
Um dia minha mãe anunciou que Irma viria nos visitar. Tia Gretchen franziu as sobrancelhas:
— O povo vai murmurar, se ela voltar.
Minha mãe levantou-se, o rosto em fogo, tão bonita como uma rosa silvestre e gritou:
— Gretchen! Esquece-se de que é sua irmã?
— Tia Gretchen, alta, seca, puritana, não parecia em absoluto irmã de mamãe e de Irma. Dava a impressão de proceder de outra raça, de ser completamente afastada de nossa família. Parecia ter herdado a dureza, a altivez e o orgulho próprios da suíça puritana. Nascera em Genebra e era sumamente orgulhosa disso. Mostrava-se tão dura e granítica como seus monumentos. Minha tia era tão fanática e intransigente como o mais severo reformador.
Minha tia Irma sentira em sua vida a chamada da Arte. Naquela época era difícil que uma moça de família tão séria como os Eiger deixasse seu lar e fosse aonde a chama artística a impelisse. Mas meu avô costumava dizer, sentenciosamente:
— Quando uma pessoa nasce com uma chama dentro de si, não deve deixar que se cubra de cinza e se apague.
Irma era assim: uma chama alta que não permitira que ninguém lhe arrojasse pás de cinza. Era alta, branca e transparente como minha mãe, mas muito mais esbelta e espigada do que ela. Suas longas pernas denunciavam a profissão que um dia adotaria. Quisera ser bailarina. E apesar da oposição de sua irmã mais velha e do escândalo das velhas faladeiras do país, abandonara sua terra natal e deixara-se levar por sua arte.
Eu tinha um irmão mais velho: Endrey. Era uma rapaz sério, calado, mas quando falava parecia-se com nosso avô. Alto, rijo, aparentava mais idade. Eu o olhava com certo respeito e ele me professava absoluta ternura. Gostava de sair com ele quando ia ao pomar, que era todo o seu amor. Encantava-me ver como se movia entre os diversos canteiros e como podava as fruteiras, que na primavera pareciam massas brancas e rosadas de flores a contrastar maravilhosamente com as frondosas copas.
Endrey amava ternamente nossa mãe e ela lhe correspondia, mas tratava-o como se entre eles não houvesse necessidade de muitas palavras. Eu era diferente. Precisava que minha mãe me dissesse milhares de vezes que me queria para eu não me sentir desgraçado. Endrey sorria ao ouvir nossas conversas e minha mãe perguntava-lhe docemente :
— Que pensa fazer, Endrey?
— Eu pertenço à terra, mãe — respondia invariavelmente.
Meu irmão distinguira-se na escola por uma inteligência claríssima e uma aplicação incomum. Minha mãe queria incliná-lo para a carreira de engenheiro.
— Se você ama a terra viva para ela, mas num posto mais elevado.
— Gosto de apalpá-la com minhas mãos e viver humildemente como ela vive.
Por fim, minha mãe deixou-o e ele fazia todo o trabalho da granja, suprindo as forças já gastas de meu avô Klaus.
Quando eu tinha dezessete anos, tia Irma voltou outra vez à nossa aldeia. Quase todos os anos evadia-se da cidade, dizendo que nossa casa dava-lhe novo vigor para recomeçar. Parecia sempre a mesma. Era poucos anos mais velha que Endrey. Eu não sabia quantos, porque tia Irma ocultava zelosamente sua idade e minha mãe, com um sorriso, a ajudava em amistosa cumplicidade. Continuava extraordinàriamente bela e jovem, de andar harmonioso como se dançasse. Usava sempre vestidos perfeitamente cortados e de sedas pesadas, que realçavam maravilhosamente sua figura.
Encantava-me dar-lhe a mão e irmos correr pelo bosque. Às vezes, deixava-se cair sufocada na relva entre os narcisos amarelos que brotavam por todo o lado e ria, dizendo:
— Oh, Fritz! Você faz com que eu me sinta como uma verdadeira menina.
— Quantos anos você tem, Tia Irma?
Ela ria outra vez, os cabelos despenteados, as faces rosadas.
— Isso não se pergunta, querido. É uma terrível indiscrição.
— Por quê?
— Porque as mulheres gostariam de possuir o dom da eterna juventude. Gostaríamos de fazer um pacto perpétuo com a primavera.
Olhava a seu redor e arrancava os narcisos amarelos, cobrindo o regaço com eles. Certa vez, disse:
— Vê? Os poetas dizem que há analogia entre nós e as flores. Mas elas murcham tão cedo... Têm um destino triste. Nós também murchamos como as flores. Veja aquela rosa caída. Era vermelha como fogo ontem pela manhã. Alguém a cortou e deixou aqui. O orvalho da noite refrescou-a um pouco, mas suas pétalas começam a arroxear-se. O perfume ainda continua nela... e morrerá depois dela.
Olhava-me intensamente.
— Com as mulheres acontece o mesmo, Fritz. As dores e desenganos são como a mão cruel que cortou essa rosa. O tempo e as provas nos vão murchando, mas nós levamos a juventude em nosso coração. É nosso perfume muito escondido. Agarra-se ao nosso íntimo e nos diz: «Não quero abandoná-la, não quero desaparecer de você!» E nós ouvimos esse grito, amparamos sua ilusão com pequenas mentiras, cuidamos de nosso rosto, de nosso corpo. Mas os anos passam e só resta nossa mentira como uma doce máscara sobre a triste realidade de nossa beleza emurchecida.
Dando um profundo suspiro, continuou:
— Mentimos também para os homens. A eles interessa muito que a sua flor se mantenha louçã ao longo da vida. E temos de dizer-lhes que ainda nos restam muitos anos de frescura e beleza para que a ilusão não desapareça e possam nos amar.
— Não a compreendo muito bem, tia Irma, mas sei que isso é muito triste e muito bonito ao mesmo tempo.
— Oh, você tem coração de poeta! Como eu. Nunca se perguntou se somos uma família de poetas? Seu avô é! Endrey também parece ser, só que leva sua poesia muito enterrada na alma. É como um remanso quieto, cuja profundidade não se pode medir. Como esses lugares do rio sempre na penumbra, porque os ramos dos salgueiros obscurecem suas águas. Mas se a gente se aventurasse valentemente pelo rio, não mergulharia profundidade insuspeitada? Pois assim me parece ser com Endrey. Creio que lá, muito no recôndito, não existe a penumbra do remanso sombrio, mas o palácio encantado das Nereidas. Seria maravilhoso descer até o fundo de sua alma e visitá-la.
CAPÍTULO II
Numa das vezes em que saíramos a passeio pelo bosque, ela parou, respirando forte, e exclamou, contemplando as verdes colinas, as montanhas, os bosques centenários e a superfície límpida como um espelho do lago de Urseren.
— Que maravilha! Olhe, isto é o verdadeiro!
De súbito, Endrey apareceu perto de nós. Não o sentíramos chegar porque caminhava como as feras do bosque, com passos suaves e seguros, sem quebrar o menor ramo. Irma voltou-se surpresa, e comentou:
— Olá, Endrey! Estava dizendo a seu irmão que vocês vivem no verdadeiro.
Ele a contemplou e a tudo que nos rodeava. Era uma hora magnífica. Começava o pôr do sol, toda a paisagem tinha a maciez do veludo, de um tapete novo saindo do tear.
— A terra nos circunda? — perguntou lentamente.
— Sim.
Ele tornou a fitá-la e então recordei o que minha tia dissera das águas misteriosas e profundas. Os olhos de meu irmão naquele momento eram assim. Iguais aos lagos em cuja profundidade não se saberia jamais o que se encontrava.
— Por que não fica aqui, então?
— Não sei — respondeu perturbada.
— Eu sei. Você pertence ao ar. Você quer se elevar sobre esta terra e não pode pertencer-nos.
Houve uma grande pausa, depois da qual tia Irma disse com uma voz doce e fraca, como se atrás dela houvesse o tremor de lágrimas escondidas:
— Quisera pertencer-lhes.
Sentou-se na ribanceira, em meio aos narcisos amarelos e pensei que tinha vontade de chorar. Apertou contra si a braçada de flores que cortara e exclamou lentamente:
— Não me elevei, Endrey. Ninguém pode elevar-se no ambiente pesado do teatro.
— Mas você sim, quando dança.
— Sim, isso sim. Mas, e depois? Vejo minha irmã. Apesar de ter ficado sem marido, é feliz com vocês. Tem sua vida feita de minúsculos afazeres que lhe parecem importantes e realmente o são... Eu, em troca, cruzo pela vida, levando sempre um vazio dentro de mim.
Ficaram em silêncio. Ouvia-se o suave murmúrio do rio.
— Acha que pode encher o vazio com esta terra?
— Não sei, Endrey. Não sei como encher esse vazio.
Fitei meu irmão e desconheci seu rosto. Uma estranha emoção o transfigurava. Perguntou com voz tão trêmula quanto a dela:
— E com um homem da terra?
Ela respondeu com amargura:
— Os demais são de barro.
No grande silêncio, Endrey inclinou-se sobre ela. Então pensei que seus olhos não eram tão misteriosos como me havia parecido e que a eles assomava uma luz nobre e sincera, pela qual se pode conhecer quando um homem se encontra diante do ser que lhe é mais querido em toda a criação.
— Irma... se você quiser...
Ela o contemplou e teve um sobressalto. Ele estendeu a mão como se tentasse tranqüilizá-la. Estava de pé e, sem mover-se, disse:
— O parentesco que nos une não é suficiente para erguer uma barreira entre nós...
— Cale-se, não diga essas coisas — ela estremeceu.
— Por quê? Você viu muitas vezes como eu a olhava e as mulheres sempre sabem qualificar os olhares de um homem. Sim, antes que eu dissesse você já sabia.
— Sou mais velha que você! — disse, nervosa. — E sou sua tia!
— Não me importam os anos. Neste momento, somos apenas um homem e uma mulher.
Pegou a mão dela. Mas com veneração tão intensa como se tocasse uma imagem.
— Fui curtido por esta terra. Olhe minhas mãos, Irma. Parecem a casca de um pinheiro, e meu rosto também. A meu lado, você é de cristal.
Realmente. A mão dela, entre as de Endrey, parecia um lírio.
— Endrey, você está apenas desejando amar. Eu vim de longe e apareço a seus olhos como aquela que você esperava. Mas você tem razão, não me arraigaria aqui. Não ame o fugitivo, a ilusão.
Pelo rosto de meu irmão, passou uma expressão atormentada.
— Ama-se o que se teme perder — disse num sussurro.
— Não, isso não é amor. Deve-se amar o estável e seguro. Aquilo que não nos pode falhar nunca.
— E você? Não deseja algo seguro e estável?
— Eu sou minha dança — disse suavemente, e pouco a pouco ia retomando sua firmeza. — Não se engane a meu respeito, Endrey. Amarei e voltarei a amar, mas como um redemoinho de ar que brinca entre as folhas do bosque, sem se deter nem descansar. Minha verdadeira paixão é minha arte. Só ela e o carinho que tenho a vocês contam. — Olhou meu irmão com ternura: — Quantos anos tem agora, Endrey?
— Dezenove — respondeu, baixando a cabeça.
— Vê? Ainda é um menino. Você parece um homem, mas é impossível que sua alma tenha amadurecido o bastante para que saiba de verdade o que quer. Agora corre como se tentasse alcançar o outro extremo do arco-íris. Essa é uma ilusão, uma miragem dos primeiros anos. Tem toda a vida diante de si.
— Aqui a vida não marcha — murmurou ele. — Estaciona-se.
— Tanto melhor.
— Não. Tanto melhor, não! Olhe a seu redor. Tudo parece paralisado ao entardecer. É como se o bosque estivesse encantado, os prados, também. E as montanhas são sempre as mesmas, eternas. Só o rio passa, mas como suas águas são sempre iguais dir-se-ia que este remanso é o mesmo de há alguns anos. Nesta paz também os sentimentos se cristalizam dentro de uma pessoa como as rochas na profundidade da terra. Sou capaz de pensar em você a vida inteira. Não há, na povoação, muitas mulheres que atraiam meus olhos.
— Há muitas camponesas lindas por aqui...
— Mas são camponesas. Eu também sou um aldeão. Escolhi este caminho, mas li demasiado para saber ser completamente como a terra que nos circunda. Não. Eu não poderei deixar de tentar alcançar o outro extremo do arco-íris.
— Sinto muito, mas sei que não seria a mulher que poderia fazê-lo feliz.
— Como você sabe?
— Já lhe disse. O ar passa por entre as árvores mas não se detém em nenhuma.
No dia seguinte, minha tia voltou para Berna. Durante longa temporada, Endrey sofreu profundamente. Mas nada dizia a ninguém. Essa pena era íntima demais para ser exposta. Nem seu humor sofreu a menor transformação. Entretanto passava muito mais tempo no campo e quando eu ia buscá-lo, encontrava-o sentado no mesmo lugar onde estivera conversando com a mulher amada, contemplando os narcisos amarelos ou o Reuss em seu opressivo cárcere de pedra.
Eu me sentava a seu lado e perguntava-lhe:
— Endrey, pensa em tia Irma?
— Por que diz isso? — sobressaltou-se quando lhe fiz a pergunta pela primeira vez.
— Ouvi o que lhe disse. Seria maravilhoso que ela ficasse aqui para sempre. Mas ela é como os pássaros, Endrey, entende?
— Sim, como os pássaros. Nem sequer se parece com as andorinhas que voltam a formar seus ninhos nos beirais de nosso telhado.
— Gostaria de vê-la dançar um dia. E você?
— Já a vi várias vezes. Um dia o acompanharei, mas espere um pouco, sim?
Compreendi que meu irmão lutava consigo mesmo e queria acalmar-se antes de voltar a vê-la. Nas férias seguintes, ela não veio à nossa casa. Escreveu-nos dizendo que faria uma viagem pelo continente e descansaria na Irlanda. Depois, enviou-nos de lá maravilhosos postais.
— Acha que essa terra é mais bonita que a nossa, Endrey?
— Para nós, não, Fritz. Aqui está preso o nosso coração.
Meu irmão vencera sua crise e parecia outro homem. Tornara-se talvez mais reservado, mas seus olhos estavam novamente calmos, como as águas do remanso obscurecido pelas folhagens dos salgueiros.
Entretanto, meu avô começara a sondar meus desejos infantis.
— Vamos ver, Fritz. Não pode andar por aí como um animalzinho selvagem. Foi o primeiro de sua classe, deve ir pensando no que gostaria de ser.
Respondi-lhe que não sabia, mas, na tarde seguinte, conversei com Endrey, que me aconselhou :
— Mantenha seu espírito alerta, que sua vocação aparecerá.
Apareceu naquela mesma tarde.
Ia caminhando junto ao rio quando ouvi gritos de socorro que partiam de uma depressão do terreno. Corri para lá e vi um homem caído num barranco. A seu lado havia uma escopeta. Ele respirava com dificuldade e estava muito pálido.
— Aproxime-se, por favor — murmurou. — Estou muito ferido.
Vi sua camisa manchada de sangue e, no mesmo instante, desapareceu todo o meu medo. Ajoelhei-me a seu lado, perguntando-lhe o que devia fazer.
Apesar da dor que sofria, o homem sorriu.
— Você é muito decidido e valente. É necessário vendar essa ferida, já perdi muito sangue.
Começou a explicar como devia proceder com palavras quase técnicas. Fiz o melhor que pude. Depois, lavei-lhe o rosto e dei-lhe água.
— Agora, a perna. Tenho outra ferida de bala.
Esse ferimento também sangrava muito. Aquele homem devia ter a resistência de um touro para não ter desmaiado cem vezes. O homem sorria e aprovava meu procedimento afavelmente.
— Tem uns dedos excelentes. Com o tempo, poderá ser um bom cirurgião. Agora, vá pedir auxílio.
Ao levantar-me e mover a cabeça, tive um estremecimento. Atrás de uns arbustos havia outro homem caído. Olhei para o ferido e vi seu rosto tomar uma expressão amarga.
— Quis matar-me. Disparou duas vezes antes que eu pudesse responder.
Corri para o outro e notei que ainda respirava. Abri sua camisa e deparei com um ferimento infinitamente mais grave que o do homem que eu acabava de atender. Este perguntou:
— Que há? Está vivo?
— Sim, vou cuidar dele!
— Não! — gritou selvagemente. — Merece a morte, é um miserável. Deixe-o e vá pedir socorro.
— Primeiro vou tratar dele!
— Não merece. Deixe-o, já disse. Se o salvar eu irei matá-lo!
— Já tratei do senhor. Agora, vou tratar deste homem!
— Digo-lhe que vá buscar socorro! — gritou, irritadíssimo.
Ficamos a nos fitar com ar de desafio e me inclinei novamente sobre o homem desacordado. Sübitamente, ouvi um grito e vi que o primeiro ferido me apontava a escopeta.
— Se não deixar esse homem, mato você também!
Por um momento fiquei paralisado. Mas só por um momento. Eu não sentia medo, só raiva, uma raiva intensa e fria que ia-me tomando aos poucos. Repeti:
— Tratei do senhor e vou tratar deste homem!
Ajoelhei-me novamente e comecei a tentar estancar o sangue que brotava do ferimento. Contudo não estava sossegado. Olhei disfarçadamente para o outro para saber se ainda me apontava a arma. E vi que a deixara de lado e me fitava com um sorriso.
— Você é um rapaz valente — disse, quando o olhei de frente. — Claro que não penso matá-lo, mas o seu trabalho é inútil. Este homem é um assassino. Devia deixá-lo morrer.
— Se é um assassino, que o prendam. Mas eu não posso abandoná-lo.
Terminado o curativo, voltei ao caminho e pus-me a correr. Encontrei Endrey, a quem contei o sucedido. Mandou-me ir para casa pedir auxílio. Enquanto isso ele iria ver os feridos.
Chegando em casa, contei tudo a vovô. Este saiu imediatamente, reuniu alguns vizinhos e tomando um carro dirigiram-se ao barranco. Endrey já arrastara o primeiro ferido para junto do caminho e assim puderam carregá-lo. Depois voltaram para buscar o segundo; mas pensavam que certamente ele morreria antes de chegar ao povoado. E realmente foi assim.
Dias depois, o primeiro ferido apresentou-se em nossa casa e perguntou por mim. Quando entrei na cozinha, vovô estava conversando com ele.
— Eis aqui nosso médico improvisado! — exclamou. — Você deu provas de uma coragem extraordinária. Imagine — disse, voltando-se para meu avô — cheguei a ameaçá-lo com a escopeta, mas fez o que considerou seu dever. Sou muito violento, não? Sim, violento demais para a profissão que exerço. — Fez uma pausa e explicou. — Sou médico. O homem que morreu era um mineiro a quem declarei incapaz para o serviço por ser meio louco e brutal como ninguém. Esperou-me com uma escopeta e me acertou dois tiros. Eu estou de férias e vim caçar por estes lados. Felizmente sou melhor atirador que ele. Felizmente, também, este futuro cirurgião passou pelo caminho.
Olhou-me fixamente e perguntou a queima- roupa :
— Por que não se torna médico, como eu? Não gostaria?
Fiquei pensativo como se diante de meus olhos se rasgasse um véu. Olhei para meu avô, que nos contemplava a ambos e respondi:
— Sim, gostaria.
CAPÍTULO III
Certo dia, Endrey aproximou-se de mim com ar misterioso e disse:
— Vou a Friburgo. Quer ir comigo?
Compreendi que não esquecera sua promessa.
— Vai me levar para ver tia Irma?
— Sim. Acabo de saber pelos jornais que está tendo um grande êxito em Friburgo.
Tinham se passado quatro anos desde a declaração de Endrey à minha tia e ele parecia muito mais homem do que antes. O ar, o sol, o haviam tornado rijo e forte como um pinheiro das montanhas. Seus traços pareciam talhados a cinzel de modo perfeito. Suas mãos, grandes e hábeis para o trabalho, eram, entretanto, belas e perfeitas.
Descendo o vale do Sarno chegamos a Friburgo. Nos arrabaldes da cidade viam-se restos de antigas fortificações. Velhas muralhas, lances de pedra e poesia com torres intercaladas de nomes graciosos: a Torre Encarnada, a Torre dos Gatos...
Perguntei a Endrey seu significado. Ele encolheu os ombros.
— Lamento, Fritz. Não sou o vovô. Não sei histórias.
Não. Ele só sabia a história de seu amor desdenhado.
Deambulamos pela cidade como fantasmas. Descobrimos pracinhas de inesperado encanto, sempre irregulares, sobre ruas estreitas, tortuosas, sempre belas. Uma chamou-me a atenção por uma tília centenária; originária, dizia-se, da rama trazida à cidade por um soldado para anunciar a vitória do Morat. Deixei Endrey diante de um jarro de cerveja e fui visitar a Catedral, ouvir os famosos órgãos de Aloys Mooser, os melhores da Europa pela pureza de seu som.
Meu irmão não quisera visitar Irma no hotel. Mas eu fui, e disseram-me que ela não estava. Comecei a perambular pela margem do Sarino.
Foi lá que descobri um homem e uma mulher parados em frente à torrente, conversando com vivacidade. Era um homem que mais tarde soube ser o empresário de minha tia e Irma. Suas vozes flutuavam no úmido silêncio da verde catedral das árvores.
— Não, não... É melhor que nos deixemos, Sandro.
Ele protestou em tom mais baixo e abraçou-a. Dei graças a Deus por Endrey não me haver seguido. Minha tia soltou-se.
— Se voltar às suas antigas impetuosidades, não poderemos passear — disse Irma com voz nítida e tranqüila. — Vamos, a obrigação nos espera.
— Não me atrevi a me aproximar. O casal passou perto das árvores onde eu me encontrava. Ele ia em silêncio. Ela falava de coisas sem importância.
À noite, eu a vi de novo. Endrey estava a meu lado, taciturno, silencioso, como resignado a padecer na contemplação de um paraíso do qual fora expulso.
Quando as cortinas se descerraram e descobri minha tia transformada em maravilhosa "Papillon" compreendi que realmente Irma pertencia ao ar e parecia ter perdido todos os liames com a terra que nós pisávamos. Seu corpo e suas pernas eram mágicos. Não tive mais olhos que para tia Irma e aquela vida estranha e fascinante de ave que alçou suas asas acima do sonho me foi revelada pela primeira vez.
Ficamos em Friburgo cinco dias e íamos vê-la dançar todas as noites. Então comecei a reparar nas outras dançarinas e vi que Endrey também reparava. Havia uma jovem de rosto muito doce e bonito que parecia recortado numa pétala de camélia. Seu cabelo era castanho com umas pinceladas de ouro. Os olhos cinzentos, amendoados, abriam-se naquele rosto suave e seu corpo era todo harmonia.
Tia Irma disse que a moça era de origem eslava e estava completamente só no mundo. Certa noite, observamos que no fim do espetáculo apareceram todas, menos a moça de rosto de camélia que eu e meu irmão havíamos admirado. Penetrando no corredor para ir saudar minha tia, notamos grande agitação e soubemos que a moça havia desmaiado.
— Que houve? — perguntou Endrey, enquanto Irma vestia-se atrás do biombo de seu camarim.
— O médico nos disse que ela está muito doente, Endrey. Tem uma lesão no coração e não deverá voltar a dançar.
— Como ela recebeu o diagnóstico?
— Ainda não sabe. Pobrezinha! Além de sua grande vocação, tem necessidade de trabalhar. Não tem amigos nem parentes que cuidem dela.
— Você a estima muito, Irma?
— Muitíssimo — respondeu com os olhos brilhantes. — Está muito só e indefesa, Endrey... e... é uma mocinha totalmente pura. Ainda não foi contaminada por quanto nos rodeia — e sua voz era amarga.
Pensei que minha tia via naquela jovem uma parte de si mesma. Aquela que havia sido e de quem sentia saudades. Calei-me e evoquei o par das margens do Sarino.
— Endrey, poderia mandá-la para a aldeia? Penso que passou por muitas povoações. Veio fugindo da guerra através da Europa. Custou-lhe muito introduzir-se no nosso balé. Agora começava a triunfar... Talvez, se descansasse algum tempo em nossas queridas montanhas, seu coração se fortalecesse...
— Sim, mande-a.
— Que dirá o vovô? E vovó?
— Já os viu serem mesquinhos alguma vez? Como se chama essa moça?
— Marysia Nalewska.
— Se for uma boa moça como você diz, não será necessária outra recomendação.
Voltamos ao nosso Reuss e ao nosso Schõllenon, mas parecia que tia Irma havia esquecido o assunto. Eu me sentia nervoso, ansioso pela vinda da jovem. Endrey, entretanto, parecia também ter esquecido tudo e seguia seu trabalho. Assim, passou-se parte do inverno e chegou a primavera.
***
Um dia eu estava sentado à porta de casa com meu avô quando vimos chegar uma jovenzinha de rosto pálido e vestida com um traje negro.
— Caramba! Quem será essa forasteira? — indagou meu avô.
De repente a reconheci. Sim, reconheci seu rostinho de camélia, os grandes olhos rasgados e cinzentos. Parou diante de nós e disse com voz cheia de timidez:
— É esta a casa dos Eiger?
— Sim — respondeu vovô, pondo-se de pé.
— Irma Keeler me enviou — explicou com voz trêmula. — Ela falou de mim ao Senhor Endrey e seu irmão menor.
— Eu sou Fritz. Sim, tia Irma nos falou da senhorita. Já a esperávamos.
— A quem esperavam? — quis saber vovô, olhando-me surpreso.
— A esta senhorita. É amiga de tia Irma e não está bem de saúde. Seu coração é muito delicado.
Mordi os lábios, pensando se não havia cometido uma indiscrição, mas Marysia assentiu com um triste sorriso.
— Sim, estou um pouco mal do coração. Mandaram-me descansar.
Meu avô entendera e, inclinando-se bondosamente, falou:
— Então está perfeito. Mas esses malandros não me haviam dito nada. Entre, senhorita, está em seu lar. Para um descanso não existe na terra lugar mais belo, tranqüilo e sadio que este.
Ela sorria, recobrara a tranqüilidade e seu sorriso foi tão doce que imediatamente cativou o coração de meu avô.
Entrei e fui prevenir minha mãe e vovó.
— O que está dizendo?
— O que ouve, vovó. Aí fora está uma dançarina chamada Marysia Nalewska, amiga de tia Irma. Uma noite desmaiou e tia Irma disse que a enviaria para uma temporada conosco, a moça precisa descansar. Pensávamos que titia escreveria...
— Sua tia não escreve. Diz «Aí vai...» E nos joga com a coisa em cima.
— Ela não é uma «coisa»! — repliquei ofendido. — É uma senhorita muito bonita. Vai ver!
— Sim, já vi.
Estranhei o acento desdenhoso da vovó. Eu ainda não percebera como todas as pessoas de sua idade se sentiam diante de gente do teatro. Apesar de minha tia pertencer a ele, vovó conservava uma instintiva desconfiança.
Vovó entrou na cozinha onde meu avô conversava com a recém-chegada. Ao ver entrar a figura alta e majestosa de minha avó, Marysia pôs-se de pé cheia de timidez. Notei como a anciã se detinha um pouco surpresa e um como amplo e bondoso sorriso estendia-se por seu rosto. As mulheres costumam ser muito mais instintivas que os homens para se conhecerem entre si. Vovó simpatizara com Marysia Nalewska.
Aproximou-se amavelmente e tomando a mão da moça, disse afetuosa:
— Seja bem-vinda, minha filha. Foi Irma quem a mandou?
— Sim, senhora.
— Então não há mais o que falar. Fritz, que faz aí com a boca aberta como um pateta? Vá dizer à sua mãe que venha receber a visita.
— Eu não quero ser uma visita — murmurou Marysia, e minha avó sorriu.
Cheguei à grande sala onde minha mãe se ocupava em remendar a roupa de toda a família. Sempre a recordo assim. Sentada ao lado de imensas cestas de roupa, cerzindo e remendando, com mãos diligentes como abelhas. Depois, colocava a roupa costurada e passada em grandes arcas e espalhava raminhos perfumados entre elas. Eu lhe trazia essas braças do monte e isto lhe causava grande satisfação. Dizia-me:
— Escolhe alecrim, filho. Alecrim, alfazema e hortelã.
Parei diante de minha mãe, dizendo:
— Chegou a moça que tia Irma nos manda.
— Quem é? — indagou, surpresa.
Contei-lhe tudo e minha mãe exclamou:
— Louvado seja Deus!
Desceu ràpidamente as escadas, Avançou com as mãos estendidas para a moça e esta arrojou-se em seus braços.
— Muito obrigada! — disse, com os olhos rasos de lágrimas. — Muito obrigada, não esperava que me recebessem assim. Afinal, sou uma estranha — concluiu, separando-se de minha mãe.
— Em nossa terra, ninguém é estranho a ninguém! — disse meu avô. — Deixamo-nos guiar pelo coração e não por fórmulas sociais.
CAPÍTULO IV
Minha mãe levou Marysia a seu dormitório para lavar-se e repousar. Entretanto, minha avó ficou pensativa.
— O assunto é um pouco difícil, Fritz. Que quarto lhe daremos?
Tia Irma, quando vinha, compartilhava do quarto de avó Margaret, mas a recém-chegada, naturalmente, devia ter um aposento só para si.
— Se quiser pode ficar no meu quarto.
— Tem razão — aprovou vovó. — Quer dormir com Endrey?
— Não quero dormir com ninguém. Prefiro ficar no celeiro.
— Tem razão — aprovou novamente. — Em cima dos feixes de feno, você se sentirá como um rei.
Concordei. Dormir no celeiro sempre fora meu desejo secreto.
— Mas tenha muito juízo e não saia a vagabundear por aí à noite — e levantou o dedo em sinal de advertência.
Aquilo freou um pouco meu entusiasmo, já que, efetivamente, estava pensando de um modo delicioso naqueles passeios. O celeiro elevava-se do outro lado do grande pátio. Por suas janelinhas gradeadas via-se a casa e, pela parte dos fundos, uma pequena porta dava sobre o Reuss e o bosque livre. Era um lugar magnífico para um passeio solitário.
Debaixo do celeiro havia um pequeno quarto onde Endrey fazia trabalhos de carpintaria e ferraria. Tinha uma pequena forja e sua bigorna. Ali ferrava todos os cavalos e forjava pequenos objetos que meus avós lhe pediam. Tinha mãos tão hábeis que causava admiração ver como trabalhava em diferentes ofícios com tanta perfeição como se fosse um profissional. Algumas vezes dizia, rindo, que se tivesse nascido na Idade Média, teria forjado sua própria espada.
— Não sairia bem — disse vovó uma vez.
Para convencê-la, fez-lhe um bonito facão com o punho completamente lavrado. Minha avó tinha especial orgulho dele e não permitia que ninguém o tocasse.
Eu disse à minha mãe o que havia sido resolvido quanto ao dormitório de Marysia. A idéia pareceu-lhe boa e apressou-se a ir arrumar o quarto do melhor modo possível.
Quando Marysia entrou no quarto, este se encontrava limpo, cheirava a flores e do leito desprendia-se um aroma de limpeza, sol e alfazema.
— Os hotéis são frios e inóspitos. Aqui uma pessoa se sente como em seu próprio lar. E faz muito tempo que não sei o que é um lar — disse com tristeza.
Minha mãe aproximou-se dela e rodeou sua cintura.
— Pois agora encontrou um. Cuide-se bem e verá como logo se restabelecerá.
Ao anoitecer, quando Endrey estava para chegar do trabalho, senti-me muito contente pela surpresa que ele ia ter. Minha avó estava cuidando do curral. Vovô havia saído e minha mãe continuava a arrumar a roupa limpa. Marysia e eu estávamos na vasta cozinha, pairando como dois velhos amigos.
— Estou muito feliz — dizia-me. — Todos são muito bons em sua casa, Fritz. Quando desci do trem, tinha muito medo. E quando tomei o caminho da aldeia, estive a ponto de voltar para Berna. Mas sabia que sua tia iria ralhar comigo. Ela também é extraordinàriamente bondosa. Quando lhe perguntei porque não escrevia participando minha chegada, pôs a rir e disse: «Você será a minha carta. Em minha família não é preciso avisar que os amigos vão chegar. Eles chegam e só!» Mas aquilo parecia-me irregular e tive medo. Quando vi seu avô, tomei novo ânimo. Seu rosto parecia-me tão bondoso, tinha um aspecto tão agradável que me deu coragem para aproximar-me.
Levantou-se e, olhando ao redor, exclamou: Agradam-me muitíssimo essas velhas casas e essas cozinhas patriarcais. Diga-me, por favor, como distribuem os lugares à mesa.
Aqui ó vovô, ali é vovó. Além, Endrey, minha mãe o eu. Esta é a cadeira de tia Irma, quando vem.
— Qual será a minha?
— Certamente a de tia Irma, mas isso vovó dirá.
Cheguei à porta e vi que meu irmão regressava, com seu passo tranqüilo de sempre, sem imaginar a surpresa que o aguardava. Escondi-me, então, sentando-me no alto da escada. Queria ver, sem que eles notassem, como Endrey a abordaria.
Ele entrou na cozinha com seu ar habitual e eu ri baixinho, do lugar escuro que havia escolhido na escada. Endrey encontrava-se diante de Marysia Nalewska e a impressão do momento deixou-o sem saber, ao menos, como cumprimentá-la.
Ela se levantara, também muito tímida e nervosa. Disse com voz ligeiramente trêmula:
— Não se recorda de mim?
Ele esteve a ponto de dizer que não. E não era de estranhar. Marysia, vista assim, com suas roupas comuns, parecia completamente diferente da maravilhosa fada que dançava sob o feitiço da música de Tchaikovsky.
— Não se recorda de mim? — repetiu. — Sou Marysia Nalewska. Irma Keeler falou-lhe de mim. Recorda-se agora?
— Oh, claro que sim! — os olhos de Endrey se iluminaram. — Ela me disse que você viria descansar em nossa casa.
— Sim — murmurou — e realmente vim.
— Sente-se, então — meu irmão estreitava-lhe as mãos carinhosamente. — Os meus avós já a receberam ?
— E receberam-me muito bem. Não esperava tanto.
— Por que não? Gosta de nossa casa ou acha-a humilde demais?
— É um verdadeiro lar. Seus parentes são muito amáveis e carinhosos.
— Sim. Já viu meu irmão?
Desci da escada e entrei na cozinha com ar indiferente.
— Fritz! Esta foi uma verdadeira surpresa.
— Verdade? É muito bonita, mas diferente de quando dança, não acha, Endrey?
As faces de Marysia ficaram da cor das rosas que cresciam na cerca.
— Oh! os trajes e a maquiagem sempre nos modificam — murmurou.
— Sim — respondi. — Em cena tinha os olhos pintados e parecia uma ondina do Urseren. Agora é uma moça linda, mas igual a nós.
— Igual? — indagou Endrey, rindo.
— Sabe o que quero dizer. Quando estão em cena, não parecem mulheres de carne e osso. Não é verdade, Endrey?
— Sim...
— Mas, aqui, percebemos que é como as demais, embora muito mais linda e fina. Se eu tivesse sua idade, Endrey, posso garantir que me apaixonaria por ela.
Os dois começaram a rir. As faces de Marysia continuavam cor de púrpura e isso a fazia parecer mais encantadora.
— Tem razão, rapazinho, e estou quase adotando sua opinião — disse Endrey.
A moça voltou vivamente a cabeça e saiu para o pátio. Endrey apresentou um semblante confuso o compreendi que temia tê-la ofendido.
A noite, quando nos reunimos para jantar, eu esperava que designassem a Marysia a cadeira de fuso de tia Ima, mas meu irmão não quis. Trouxe ele mesmo uma outra e, colocando-a entre a minha e a dele disse:
— Creio, vovó, que o lugar de tia Irma deve ser conservado e que devemos destinar outro a Marysia, senão parecerá que veio substituir outra pessoa e não ser ela mesma.
— Sim concordou vovô. — Ela não vem substituir ninguém. Ela é ela dentro de nossa casa.
Realmente não se podia confundi-la com tia Irma, nem com minha mãe, nem com a avó quando era jovem e os rapazes da aldeia estavam enamorados dela e pretendiam declarar-lhe seu amor.
Às vezes eu me perguntava se Endrey não deveria fixar-se naquela carinha de camélia e naqueles cabelos que brilhavam ao sol como as folhas secas de setembro.
O médico veio e examinou-a minuciosamente. Logo, minha família ficou a sós com ele e eu fiquei também. Dirigindo-se a todos nós e tomando cuidado para que Marysia não ouvisse, falou:
— É verdade que não poderá mais dançar. Se voltar a dedicar-se à dança, morrerá. Sua doença não será tão grave se levar uma vida tranqüila, sem sobressaltos, entretanto o balé é muito fatigante. Repito, se voltar a dançar, morrerá.
Aquelas palavras caíram sobre nós de maneira alarmante.
— E se ela se restabelecer? — perguntou minha mãe.
— Perderá a saúde novamente. Não há remédio — com essas palavras pegou seu chapéu e deixou-nos.
A presença de Marysia deu novo colorido às nossas vidas. Sabia coisas lindas, histórias estranhas de países exóticos e cantava com um delicioso fio de voz estranhas canções.
Às vezes, Endrey entrava na cozinha e ficava a ouvi-la cantar. Saía de sua pequena oficina, debaixo do celeiro e sentava-se nos degraus que davam para o pátio, imerso na penumbra e eu via como seus olhos se fixavam na moça.
Ela também me visitava em meu cantinho. Sentávamo-nos rindo em cima dos feixes de feno e ela me dizia:
— Gostaria de viver num lugar assim...
— Trocá-lo-ia por seu quarto?
— Sim, mas não para sempre.
— É verdade, no inverno faz muito frio.
— Oh! Se faz frio, como vai você dormir aí ?
— No inverno, irei para o quarto de Endrey. Mas agora, no verão, prefiro meu palácio de erva.
— Seu palácio de erva! Gosto muito daqui!
Logo me perguntava:
— Que estuda? Quantos anos tem? Que vai ser?
— Quantas perguntas! Estudo no colégio que há no povoado vizinho, já fiz dezessete anos e quero ser médico. Minha avó Margaret diz que serei um bom médico.
— Então, aprenda logo, para curar-me.
— Para você, bastarão esses ares — dizia-lhe eu, com o coração opresso, lembrando-me do terrível diagnóstico.
Ela ia adquirindo saúde, suas faces arredondavam-se e os lábios iam se tornando cada dia mais rosados.
— Logo estarei boa e voltarei a dançar! — exclamava de vez em quando, cheia de alegria.
Todos nós cruzávamos um olhar silencioso e sentíamos uma viva pena recordando as palavras do médico, que ela ainda ignorava.
Certa vez, passeando com Endrey pela margem do rio, ela lhe disse:
— Quando chegar o outono, já não estarei aqui.
— Verdade? Para onde irá?
— Para onde hei de ir? — perguntou, rindo. — Para o balé.
Endrey guardava silêncio.
— Não posso permanecer aqui toda a vida...
Olhando o rio, meu irmão respondeu:
— O outono parece-me próximo demais. Terá de consolidar sua cura.
— Não se cansam de mim ?
— De você ninguém cansa!
Passou-se outro mês. O outono começava a amarelecer as folhas e saíamos para ver como o campo se tornava cor de ouro e púrpura. Ela olhava em torno, encantada, e dizia:
— Sentirei falta de tudo isto, mas já estou muito melhor. Certamente curei-me de todo e devo voltar ao trabalho.
Endrey a ouvia e fitava-me. Eu também o fitava, mas permanecíamos calados. Minha avó afinal a convenceu de que deveria permanecer em nossa casa todo o inverno.
Eu continuava dormindo no celeiro. É verdade que a brisa começava a tornar-se gelada, mas eu gostava tanto daquela solidão que continuei ali. Pedi à minha avó uma manta grossa e me envolvia com ela dos pés à cabeça. Assim não sentia frio.
Uma vez, Marysia me perguntou se não gostaria eu de vê-la dançar. Temi que aquilo pudesse prejudicá-la, mas não me atrevi a dizer-lhe que não para não desiludi-la.
Ela correu a seu quarto e trouxe o traje de malha negra com que as bailarinas costumam ensaiar. Vestiu-se atrás da roupa pendurada para secar e quando voltou pareceu-me que sua figura era a coisa mais bonita e deliciosa de se ver. Não parecia uma mulher, mas uma fada, uma boneca finíssima talhada por um artista. Perguntou-me o que eu preferia que dançasse.
— Sou um ignorante. Dance o que você mais gosta.
— Então dançarei A Morte do Cisne.
Dançou para mim e eu quase não me atrevia
a respirar. Era bom estar no teatro, numa confortável poltrona, vendo o que se passava no palco, mas aquilo estava muito longe, a dança fazia-se irreal. Poder-se-ia pensar que aquelas mulheres não eram de carne e osso, e sim movidas par fios invisíveis. Mas, assim, tão perto, percebia que Marysia era verdadeiramente linda e sua arte requintada. Suas faces haviam se ruborizado com o esforço, quando terminou estava sufocada. Uma voz brusca disse atrás de nós:
— Como foi que consentiu nisso?
Era Endrey. Seus olhos estavam cheios de admiração fixos na jovem, mas havia uma certa sombra de inquietude neles.
— Oh, Endrey! Foi maravilhoso. Você viu?
Marysia parecia envergonhada e correu a refugiar-se atrás dos lençóis estendidos e compreendi que ela não gostara que Endrey a visse assim, tão de perto.
Uma tarde, ela disse, quando estávamos na cozinha:
— Fritz, noto reticências em seus familiares quando falo em voltar ao trabalho. Vou ao médico para que me diga a verdade.
— A verdade? Que verdade?
— Que me diga sinceramente o que tenho. Se meu coração está curado ou não. Se estiver, devo voltar. Não compreende? Aqui não faço nada... Sou uma inútil!
Colocou seu grosso casaco e o capuz que a transformavam numa menina e saiu sob a primeira nevada.
Endrey entrou e perguntou-me por ela.
— Foi na casa do médico.
— Por quê? Ela estava se sentindo mal?
— Não. Acha que já está curada e quer que ele confirme!
— Não devia deixá-la sair, Fritz!
— Eu não tenho nenhum ascendente sobre ela, como você!
— Acha que ele dirá?
— Se ela o exigir, naturalmente que dirá. Mas será horrível, não lhe parece?
— Sim, será horrível — assentiu meu irmão, com um ar de absoluta infelicidade no rosto.
— Como pensa que reagirá?
— Não sei. Talvez pense que se renunciar à dança, não poderá viver. Talvez, apesar de tudo, volte a dançar.
Ficamos a esperá-la tensos de preocupação e ansiedade.. Meus avós e minha mãe haviam ido ao povoado vizinho. Por fim, Endrey levantou-se e disse que ia buscá-la. Não resistia mais.
Entretanto, ele saiu por um caminho e Marysia voltou por outro. Ao entrar em casa, seus olhos estavam muito abertos e cercados de profundas olheiras.
— Viu o doutor, Marysia?
— Sim... — sua voz quebrou-se.
— Que lhe disse ele?
— Quase nada.
Calei-me. Compreendi que mentia. Ouvi os passos de meu irmão e refugiei-me no esconderijo da escada.
Ela não o ouvira chegar. Pensando que havia ficado só, sentou-se em frente ao fogo. Seus olhos estavam obstinadamente fixos nas chamas. As lágrimas começaram a correr por seu rostinho pálido de camélia, soluçava alto como uma criancinha. Não ouviu que a porta se abriu suavemente e Endrey parava a seu lado.
— Que lhe disse o médico?
Levantou o rosto e pareceu revoltada.
— Por que me pergunta, se todos já sabiam? Todos, menos eu!
Falara com profunda amargura. Meu irmão assentiu lentamente.
— Sim, todos sabíamos — inclinou-se e tomou-lhe as mãos: — Marysia, vai voltar ao balé?
— Como poderei deixar de voltar? É a minha vida! Meu trabalho!
— Não encontraria outra vida melhor?
— Onde?
— Aqui.
Sentou-se a seu lado, mas não lhe soltou as mãos e continuou a contemplá-la.
— Fique aqui para sempre, Marysia — pediu com acento profundo, mas suave.
— Com que direito? Sabe que sou uma estranha.
— Pode adquirir esse direito, casando-se comigo.
O rosto de camélia tornou-se de rosa. Os olhos brilharam, os lábios tiveram um tremor repentino.
— Diga-me, quer ser minha esposa? — insistiu ele.
— Mas... eu não serviria para viver sua vida — murmurou, afastando os olhos.
— Mas a viveria com gosto?
— Sim — voltou a murmurar com esforço.
Meu irmão atraiu-a suavemente contra seu ombro e acariciou seus cabelos castanhos como as folhas do outono. Enquanto ela soluçava baixinho ele murmurou ao seu ouvido:
— Não tenho muito a oferecer-lhe, mas seremos donos da primavera e das flores, do inverno e de suas nevadas. Não lhe faltará jamais um pedaço de pão, nem o carinho e proteção de que necessita.
Marysia deixara de chorar. Endrey continuou:
— Agora, alegre esses olhos. Quero que seja como tem sido até aqui. Quero ouvir outra vez suas canções. Vamos, Marysia, por que chora?
— Eu o amo, eu o amo! — murmurou em tom apaixonado.
Meu irmão a apertou nos braços e assim permaneceram por alguns momentos. Por fim, murmurou suavemente:
— Quando chegar a primavera, você será minha esposa.
CAPÍTULO V
À noite, todos haviam regressado e sentamo-nos para jantar. O rosto de Endrey estava sério. Em dado momento meu irmão levantou a cabeça e, fitando todos os presentes, falou:
— Quero que saibam que Marysia e eu vamos nos casar.
Meu avô deixou cair seu talher e ficou a olhá-lo fixamente. Os olhos de minha avó e minha mãe cintilavam de alegria.
— Filho — quis saber meu avô — pensa que ela não sentirá algum dia a chamada do teatro?
— Creio que a sentirá muitas vezes, mas será mais forte a chamada que a reterá neste lar.
Marysia Nalewska levantou seus belos olhos.
— Sim — murmurou. — Atenderei sempre à chamada do amor.
Endrey a fitava sem se mover e pareceu-me que a beijava com os olhos.
— Bem — disse vovó, levantando-se da mesa. — Isto deve ser comemorado.
Foi buscar nosso melhor vinho. Estivemos bebendo e rindo como se toda a felicidade do mundo se houvesse derramado sobre nossa casa. Marysia parecia viver num outro mundo, estava completamente transfigurada. Endrey a fitava com olhos reflexivos. Estava tão concentrado que dificilmente se saberia o que pensava ou o que sentia.
Nos meses que se seguiram, Marysia, orientada por minha avó e minha mãe, dedicou-se a fazer seu enxoval. Isto era para ela um labor novo e doce. Quando Endrey regressava, inclinava-se sobre o seu trabalho, perguntando:
— Que está fazendo?
Penso que gostava de ver como as mãos dela apertavam inconscientemente contra o peito o trabalho que fazia.
Ele afagava com ternura seus cabelos e se afastava, deixando-a trabalhar.
Pouco a pouco, o inverno foi terminando. As relações entre Marysia e Endrey eram muito simples. Os homens e as mulheres ainda não se haviam contagiado com a desenfreada liberdade que viria depois. Bastava um olhar insistente. Um suave e compenetrado roçar de mãos. Endrey era valente, decidido, seguro de si, mas toda aquela audácia para o trabalho ou uma peleja com outros homens desaparecia diante da fragilidade de Marysia, fazendo-a sentir-se envolta numa atmosfera de respeito e solicitude.
Entretanto, por vezes, Endrey sentava-se sozinho nas escadas frente ao bosque e eu via seu olhar perdido em não sei que longínquas lembranças.
Quando o tempo começou a melhorar e Endrey pôde sair a cortar lenha no bosque, certa vez fui encontrá-lo junto ao remanso onde se declarara a tia Irma. A relva estava coalhada de flocos de neve e os narcisos ainda não haviam aparecido. Uma sombra estranha e melancólica flutuava por seu rosto. Sem que me dissesse, compreendi que pensava nela.
Teria que dizer a ela e escreveu-lhe. Irma respondeu numa carta em que o felicitava e prometia assistir ao casamento.
Marysia também ia ao bosque e ficava contemplando a relva. Eu compreendia o que pensava e no dia em que vi apontar o primeiro narciso amarelo, colhi-o delicadamente e levei-o para casa. Todos estavam ao redor do fogo, tomando chá. Coloquei a flor no prato de meu irmão, dizendo simplesmente:
— Já floresceram, Endrey!
Ele assentiu com a cabeça enquanto Marysia ruborizava-se.
Minha mãe e vovó começaram a sugerir datas. Este número trazia sorte, aquele não. Meu irmão sorria um pouco irônico e, quando por fim todos concordaram com uma data, voltou-se para a moça que, sentada a seu lado, contemplava fascinada o narciso.
— Está de acordo?
— Sim — disse com voz trêmula. — Parece-me bem.
Quando todos se levantaram, ela pegou furtivamente a corola amarela e guardou-a junto ao seio. Compreendi que para ela era a jóia mais apreciada, o arauto de sua próxima felicidade.
A primavera, em nossa região, é algo tão belo que duvido que possa ser igual em outro país do mundo. Por entre a relva macia como um veludo, brotavam jacintos, narcisos e toda uma gama de flores silvestres, infinitamente mais delicadas, mais trabalhadas e finas que as rosas pomposas dos jardins, cultivadas pela vaidade dos homens. Uma flor de jardim está sempre consciente de sua formosura e se balança no extremo do ramo, atraindo nossos olhos com sua beleza. Uma flor silvestre, entretanto, distingue-se por sua simplicidade, pela delicadeza de seu desenho, por sua cor e humildade.
— Jamais esquecerei isto, Fritz — disse-me Marysia ao contemplar tudo aquilo com olhos encantados.
Sentou-se na margem do rio e ficou a me olhar pensativa. Depois comentou:
— Há algo estranho em seu irmão, não acha?
— Por quê?
— Você pode penetrar no fundo do coração dele?
— Não — respondi, depois de pensar um pouco. — Tia Irma disse uma vez que ele é como esse remanso obscurecido pelos salgueiros. Ali, embora a água seja límpida, não se vê o fundo, nem o que se acha nele.
— É por isso que tenho medo.
— Medo? Medo de quê?
Depois de um longo silêncio, respondeu:
— Tenho medo de não penetrar sua alma. Quando isto nos sucede é como se nos encontrássemos nos braços de um desconhecido. É necessário que os corações estejam muito unidos e não exista entre eles nenhuma barreira, nenhuma sombra, para que se possa abandonar toda a reserva e timidez nas mãos do homem que vai ser nosso dono.
Regressamos do campo com um grande ramo de flores. Marysia foi adornando todos os quartos. Estava terminando de arranjar o de Endrey quando ele entrou.
— Que está fazendo?
Ela se voltou um pouco ruborizada e sorriu ternamente. Meu irmão segurou suas mãos. Marysia...
— Dentro de poucos dias, será rainha aqui.
Olhou para as flores e acrescentou:
— Adornou meu quarto com suas flores, dentro em pouco o adornará com sua presença.
Beijou sua mão e Marysia saiu. Então o olhar de Endrey retomou aquela distância, aquele escurecimento estranho. Ele parecia amar a noiva ternamente, mas ela havia visto com muita sutileza o abismo misterioso que os separava.
Chegou por fim o dia do casamento. Marysia era católica e quis casar pela manhã, muito cedo, na mais estrita intimidade. Mais tarde seria celebrado o ritual protestante e, então, sim, seria ocasião de festejar.
— Desejo casar-me em minha religião — disse com voz muito doce e trêmula.
— Será como deseja — disse Endrey.
— Lembre-se de que teremos que educar nossos filhos na religião católica — disse um pouco mais baixo.
— Já concordei.
Minha mãe e minha avó não disseram urna palavra de protesto. Eram protestantes porque a família toda havia sido, mas nada tinham a objetar quanto à religião de Marysia.
Quase ao amanhecer, levantaram-se todos.
— Não é necessário que venham — disse Endrey. — Irei só com ela.
— Fritz os acompanhará — respondeu vovó.
Assim fui o pajem de honra daquele ritual que se me afigurava fechado e misterioso.
Foi belíssimo. Marysia vestia-se à moda de seu país, usando um xale azul que a convertia num pedaço de céu.
Dos olhos de meu irmão havia desaparecido a penumbra estranha e um débil raio de sol brincava neles.
Fomos até a capela, muito pobre e austera e durante toda a cerimônia estive vendo a emoção de Marysia e o rosto pensativo de Endrey.
Ao pronunciar as palavras rituais "Sim, aceito", não pôde terminá-las e começou a chorar, imensamente comovida.
Quando regressávamos, o rostinho de camélia parecia animado por uma nova luz. Seus olhos eram maiores e mais lindos que nunca. Suas faces haviam tomado o delicado tom das rosas e sorria sonhadoramente ao ar cálido da primavera.
Depois de cruzar a pontezinha desconjuntada, encontramos o remanso dos narcisos amarelos e notei que os olhos de Endrey pareciam obscurecer-se. Voltou-se para mim, dizendo:
— Vá adiante e diga aos demais que já chegaremos.
Compreendi que desejava matar as recordações naquele mesmo lugar onde tia Irma lhe havia dito que era como o ar. Comecei a andar e voltei a cabeça para trás. Vi que Endrey abraçava fortemente sua mulher, seus lábios estavam muito unidos num beijo tão apaixonado e veemente que o mundo exterior parecia haver desaparecido para eles.
Cheguei em casa e dei o recado de meu irmão.
— Parece-me que não devemos nos apressar — disse minha avó com inflexão significativa. — Sente-se, Fritz, e coma um pedaço de torta. Eles não têm tanta fome quanto você.
Realmente os dois tardaram um pouco e, quando apareceram, o semblante dela estava tinto de púrpura e os olhos de Endrey brilhavam. Parecia já não haver nenhum muro entre eles.
— É preciso ir buscar Irma na estação. O trem deve estar a ponto de chegar. Que cabeça a minha!
— Eu irei — ofereceu-se meu irmão. — Quer vir, Fritz?
— Claro! Não vai levar Marysia?
— Marysia não pode cansar-se tanto — disse minha mãe. — Além disso, deve aprontar-se para a segunda cerimônia.
Tia Irma desejara chegar na véspera, mas seu trabalho a prendera. Subimos ao carrinho e durante todo o trajeto, Endrey não descerrou os lábios.
— Endrey, não é feliz? — perguntei-lhe.
— Como não vou ser feliz? — sorria. — Tenho uma noiva cheia de excelentes qualidades. É bela, é fina, é boa. Sua inteligência é superior à de todas as jovens que vivem aqui. Não duvido que dará conta de seus deveres de dona de casa e você sabe como aqui todos a estimam.
Não respondi, mas pensei que não era aquilo o que desejara ouvir.
Pouco tivemos que esperar. Quando a locomotiva entrou resfolegando na estação os olhos agudos de Endrey logo descobriram tia Irma. Aproximou-se, estendendo-lhe a mão forte.
Tia Irma parecia transfigurada e ria quando nos gritou:
— Como estão bonitos! Mudaram muito, quase não o conhecia, Fritz! E você também, Endrey.
Pegamos sua bagagem e a colocamos no carro. Ela sentou-se ao nosso lado e assim empreendemos a volta.
Ela conversava alegremente, como um pássaro embriagado pela primavera. Endrey ouvia silencioso.
— Que alegria você me deu, Endrey, quando disse que ia casar com Marysia!
Com voz profunda e baixa, Endrey perguntou ao fim de um momento:
— Não era esse o seu desejo?
Depois de breve silêncio, ela assentiu:
— Sim, era meu desejo. É a criatura que lhe convém. Ela o fará feliz e você a ela.
— Tentarei — disse ele de modo obscuro e, levantando o chicote, incitou o cavalo a terminar de subir a encosta.
Estavam todos esperando e Marysia foi a primeira a se aproximar. Endrey levantou-a nos braços e colocou-a junto à tia Irma. Os risos e lágrimas de ambas fundiram-se num abraço. Compreendi que minha tia amava Marysia maternalmente e a jovem lhe correspondia com todas as forças do seu coração.
A palavra maternalmente não era apropriada. Tia Irma parecia não sentir o tempo passar. Acreditei que ela conseguira o segredo maravilhoso do pacto com a eterna primavera, como me havia dito uma vez. Sua silhueta continuava jovem e harmoniosa, seu rosto resplandecia suave como a porcelana e seus olhos eram duas safiras. Acariciou os cabelos de Marysia e perguntou-lhe:
— É feliz?
— Sim, e devo-o a você.
***
A igreja protestante estava repleta de convidados. Depois da cerimônia voltamos para casa, onde vovó preparara tudo: as mesas cobertas com toalhas branquíssimas, perfumadas a alfazema, a melhor louça, a porcelana pintada de rosinhas azuis, a comida admirável. Os homens e mulheres comiam e bebiam até fartar. Dançava-se; os rapazes diziam coisas ternas às moças e elas riam.
Endrey ia se contagiando com aquela atmosfera e seus olhos buscavam constantemente os de Marysia, mas ela os tinha baixos e parecia deliciosamente confusa e tímida.
O baile prolongou-se até muito tarde. Nas sombras do pátio, vários casais se beijavam.
— É sempre num casamento que se iniciam os próximos — dizia vovô.
Tia Irmã era o centro das atenções dos rapazes do lugar. Todos a disputavam como uma rainha. Endrey estava sempre perto da noiva, mas de vez em quando seus olhos a buscavam entre a multidão.
Em dado momento as duas mulheres pararam perto de mim e ouvi Marysia perguntar a tia Irma:
— Acha que saberei fazê-lo feliz?
— Por que me pergunta?
— Você o conhece melhor que eu...
Tia Irma fez o gesto de persignar-se, cheia de divertido escândalo,
— Que está dizendo? Ninguém pode conhecê-lo melhor que a mulher que acaba de casar com ele!
— Talvez eu seja muito inexperiente.
Irma sorriu, olhando-a com ternura.
— Sim. Deve ser. Ouça, Marysia, não queira adivinhar o que Endrey guarda em si mesmo.
Comparta unicamente o pedaço de alma que ele decidir entregar-lhe.
— Mas eu lhe entreguei minha alma inteira, gostaria que ele fizesse o mesmo.
— Não. Há homens que não sabem. Não é que não queiram, mas viverem sós toda a vida a entrega terá de ser feita pouco a pouco. Não se preocupe. Verá que um dia o conquistará completamente, se é que já não o fez.
— Não. Acho que não...
— Bem — sorriu tia Irma. — Estas não são palavras de uma noiva no dia do casamento. Não se atormente pensando. Em questões de carinho, é melhor deixar-se levar pelo coração e não buscar razões complicadas para os sentimentos dos outros.
— Seguirei seu conselho — disse Marysia reconfortada.
Endrey aproximou-se e perguntou:
— Quer dançar?
Marysia mal havia dançado, para não se fatigar demais. Entretanto, Endrey compreendeu que para ela era difícil ver os pares dançando e manter-se sentada num canto, como que excluída de alegria geral. Marysia aceitou risonha.
Dançaram enquanto os convidados abriam alas. Formavam um par tão belo que todos prorromperam em aplausos.
Tia Irma disse-me de repente.
— Fritz, vamos sair, aqui faz um calor insuportável.
* * *
Saímos pelo caminho iluminado pelas estrelas e inconscientemente nos fomos afastando da casa.
Quando percebi, estávamos no remanso dos narcisos. Tia Irma olhou a seu redor e sentou-se.
— Oh! — murmurou. — Aqui se respira. Os casamentos são sempre cansativos, não acha?
Fiquei a olhá-la e pensei, com uma estranha opressão no coração, que ela não havia esquecido as palavras de meu irmão ditas quando os narcisos brotavam por entre a relva.
— Tia Irma, o que quis Endrey dizer quando afirmou que era seu desejo que ele se casasse com Marysia?
Levantou a cabeça vivamente e fitou-me.
— Era meu desejo! — disse taxativa. — Fritz, eu lhe disse um dia que as mulheres gostariam de fazer um pacto com a eterna juventude. Mas, no fundo, devo ser honesta e olhar a felicidade dos outros antes da minha própria.
— Tia Irma! Você amava meu irmão?
— Olhem que desavergonhado e importuno! — sorriu. — Perguntar uma coisa dessas no dia de hoje!
— Não é possível, então?
— Sim, é possível — assentiu tristemente. — Eu costumo ter meus amores firmemente arraigados. Eu os quero a todos como se fosse algo muito entranhado em mim.
Olhava o remanso sonhadoramente. Depois continuou:
— Sim, eu quero bem demais a Endrey para uni-lo a quem não o merece. Sou mais velha que ele e mais experiente... Já cruzei a Ponte do Diabo...
Riu com amargura até que lhe saltaram as lágrimas.
— Eu a cruzei com meus próprios pés e Endrey ainda pertence à outra margem... como Marysia. Entende? Essa união é leal e adequada. Ela está faminta de amor... como eu, antes de cruzar esta ponte maldita. Por outro lado, tenho minha arte, um coração forte. Para ela não restaria nada se continuasse no balé. Você não sabe a tristeza que isso representa. Eu tenho muitas coisas e posso renunciar a Endrey, mas para Marysia ele é tudo. Então, esqueci minha felicidade e coloquei nessa menina todo o meu coração. E pensava: "Ela será uma segunda Irma". Quando sorrir, será como se eu sorrisse, quando Endrey a amar, como a felicidade de ambos é a minha, será como se me tocasse também um pouco desse amor.
Escondeu o rosto entre as mãos e pôs-se a chorar docemente. Esteve assim alguns momentos enquanto se ouvia o murmúrio do rio. Eu sentia o coração apertado. Por fim, ela levantou a cabeça e sorriu por entre as lágrimas.
— Ora, não me embriaguei com o vinho da festa, mas creio que o fiz com a luz das estréias e o aroma dos narcisos. Devo dar adeus para sempre a este lugar.
Inclinou-se, arrancou uma flor e continuou:
— Este é um grande dia para mim, Fritz. Dei aos dois o que não tenho. O que nunca terei. Mas não estou arrependida.
Retornamos lentamente à casa. Não vi Marysia e perguntou por ela à minha mãe.
— Estava cansada e foi para o quarto. E deixe de fazer perguntas indiscretas.
Calei-me e subi a escada, mas ao passar diante do quarto dos noivos ouvi soluços fortes, inesperados. Não refleti, empurrei a porta e vi Marysia sentada numa cadeira, o rosto oculto entre as mãos c um papel caído a seus pés.
— Marysia! — disse aterrado. — Está doente!? Vou chamar Endrey.
— Não! — exclamou cheia de terror e segurou-me por um braço. — Não, ele menos que ninguém! Fique você aqui, logo me acalmarei.
Peguei o papel do chão. Estava escrito com a letra de meu irmão. Era uma carta começada, uma dessas cartas que começamos a escrever e pelo de temor de que sejam muito íntimas, deixamos pela metade. Marysia estivera pondo em ordem o quando e, certamente, ao abrir a gaveta da escrivaninha a encontrara.
Dizia: «Minha Irma: segui em tudo os seus desejos. É verdade que esta pequena Marysia merece ser feliz. Vou me casar com ela, já que sou obrigado a renunciar a você. Vou dar a ela toda a minha ternura, minha solicitude e meus cuidados, mas meu amor pertence a você eternamente e não creio que nunca...»
A carta se interrompia aí. Endrey talvez não tivesse julgado honesto nem oportuno prosseguir. Olhei para Marysia, seus olhos estavam secos, febris, fixos em mim.
— Fritz! — murmurou. — Vigia as escadas. Não quero que me surpreendam enquanto vou embora desta casa.
— Mas... que vai fazer?
— Não posso ficar aqui, não compreende? Não posso aceitar a compaixão de Endrey! Eu amo e devo ser amada. Voltarei a Londres e reingressarei no balé.
— Mas sabe o que disse o médico. Você morrerá!
— E se eu lhe disser que é este o meu desejo? — disse amargamente e começou a se arrumar para a partida.
— Não pode fazer isso. — desesperei-me. — Não deve decepcionar Endrey: verdade que ele amava tia Irma há muito tempo, mas ela é muito velha para ele e os doía compreenderam isso. Mamãe e vovó sempre dizem que nenhum homem se casa sem antes ter amado outras mulheres, mas a que ganha é sempre a última. Por que estragar tudo? Logo verá como Endrey a ama! Ê bom e quer fazê-la feliz. Cale-se e deixe coisas como estão. Não desgoste tia Irma com sua partida.
— Fala como um filósofo, Fritz, Mas se eu ficar... que poderei fazer?
— Ora... conquistar meu irmão! — disse, aturdidamente.
— Não posso, porque o meu amor também morreu em mim. Agora só gostaria de lazer com que sofresse.
— Mas, de qualquer forma, fique! Fique, Marysia, deve jogar o jogo até o final.
Levantou-se, meditando em minhas palavras.
— Devo jogar o jogo até o final - repetiu.
Seus olhos fixaram-se nos meus. Pegou a carta e a amassou. Depois disse:
— Queime-a, sem que percebam, Fritz. E por favor, não diga a ninguém o que acaba de passar-se aqui.
— Pode ficar descansada — murmurei.
E naquele instante a estimava mais que à tia Irma. E maldizia intimamente a tolice de meu irmão em abandonar assim aquele papel.
Dei meia volta e ao sair pela porta esbarrei com Endrey que chegava.
— Onde está Marysia?
Mas a viu antes que eu descesse as escadas. Voltei a cabeça e notei que parecia outro homem. Naquele momento não se recordava absolutamente de tia Irma.
Acabei de descer a escada, entrei na cozinha e joguei o papel entre as chamas. Minha avó perguntou :
— Que está queimando?
— Nada.
E pensei que realmente era nada o que eu estava queimando. Naquele momento o amor de Endrey não era tia Irma, mas a jovem bela e frágil que aceitara como esposa.
CAPÍTULO VI
No dia seguinte, quando me levantei, tudo estava tranqüilo. Minha avó, como sempre preparava o café. Pensei que era o primeiro a levantar, mas qual não foi minha surpresa quando vi Endrey que se afastava a caminho do bosque.
— Não toma café? — perguntei, aproximando-me.
— Não tenho fome.
Eu havia pegado um pedaço de pão e, metendo-o no bolso disse:
— Eu também não. Vou com você.
Meu irmão tinha os olhos sombrios e parecia preocupado.
— Que há?
— Marysia chorava quando você subiu a escada ontem à noite?
Senti que seus olhos chegavam-me até o fundo da alma, porém não podia trair o segredo da minha amiga.
— Sim, creio que sim. Vovó diz que isso é muito comum às moças que se casam.
Sacudiu a cabeça.
— Todas as moças choram quando deixam a casa dos pais. Mas ela não tinha casa para deixar e dizia que o amor que lhe demonstrávamos enchia o vazio de sua vida.
Parou e olhou-me intensamente.
— Sabe o que me disse ontem à noite? Que não poderá viver comigo; compreende agora que a chamada do teatro é muito mais intensa que a do meu amor. Ao dizer tudo isto estava pálida e ria e chorava ao mesmo tempo. Não posso compreender, Fritz. Pensei que podia entender Marysia encontro-me diante de um mistério indecifrável.
Ficou olhando o rio e apoiou a mão no tronco de um velho carvalho.
— Não sei o que fazer. Disse a mim mesmo que não devia ser vencido e abracei-a à força. Mas era como se eu estivesse abraçando um corpo sem alma.
Apertou lentamente os punhos e repetiu:
— Não, não deixarei que fuja de mim! Por que arrepender-se quando já é tarde? Jamais deixarei que vá para Viena.
— Não deve deixá-la ir! — apoiei.
— Pensa conhecer Marysia?
— Creio que sim. Talvez ela tenha medo.
— Medo de quê? De mim?
— Medo de não ser feliz. E então quer fugir sem saber de quê!
— Não a deixarei partir!
Deu meia volta e voltou apressado para casa.
Quando entrou, Marysia estava ajudando minha avó a pôr a mesa. Sentamo-nos em silêncio. Meu irmão a devorava com os olhos o rosto pálido da esposa e ela evitava seu olhar. Ao sentar-se a seu lado, Endrey roçou-a com sua mão e vi como Marysia estremecia. Pensei que entre os dois havia uma guerra surda, mas seria a mulher quem venceria. Pensei comigo que ela era tola em se amargurar, porque Endrey não se lembrava em absoluto de tia Irma.
Por outro lado, senti em minha alma uma profunda melancolia ao pensar em tia Irma que voltava a Viena, levada nas asas de sua renúncia e deixando sua felicidade nas mãos daqueles dois, que jamais conheceriam toda a extensão de seu sacrifício.
Passaram-se os dias e a situação entre Endrey e Marysia não se modificava. Meu irmão ia e vinha do trabalho cabisbaixo, sombrio. As vezes os dois se olhavam desafiadoramente e ele perguntava em voz baixa:
— Ainda quer voltar para o balé?
— Não deixarei! Você é minha mulher e este é o seu lar!
— Quero ir!
E baixava a cabeça, chorando. Endrey praguejava baixinho e saía de casa.
Outras vezes Marysia corria loucamente pelo campo, eu a seguia, dizendo inquieto:
— Não corra assim, Endrey vai se aborrecer.
— Então devo ser uma morta-viva porque ele quer assim?
E corria e corria, até que o alento lhe faltava. Uma vez sofreu um desfalecimento. Meu irmão vinha voltando do trabalho e correu para ela. Lentamente, Marysia voltou a si. Seus olhos estavam sérios, mas não descerrou os lábios. Endrey, também silencioso, levantou-a nos braços levando a para casa.
O médico foi chamado e disse que ela havia piorado muito e devia ficar em repouso absoluto durante quinze dias.
— Assim será — disse meu irmão que o ouvia, muito sério.
Porém naquele mesmo dia Marysia resolveu dar um passeio pelo bosque. Nem minha mãe pôde detê-la. Eu a segui, temeroso. Quando chegávamos ao remanso dos narcisos Endrey apareceu. Parecia muito aborrecido e seus olhos desprendiam chispas. Marysia ficou desconcertada e ele, adiantando-se, tomou-a nos braços como se fosse uma menina e levou-a para o quarto.
— Não quero ficar encerrada aqui! — soluçou ela tristemente. — Quando fico sozinha, começo a pensar e se pensar acabarei enlouquecendo.
— Quer emprestar-lhe sua cama algumas horas durante o dia? — perguntou-me Endrey.
Durante o inverno minha avó arrumara minha cama num diminuto quartinho que dava para o pátio. Como durante o bom tempo, a família fazia sua vida ao ar livre. Marysia estaria em repouso, mas não sentiria só. Eu concordei e ele colocou-a em minha cama, dizendo secamente:
— Ficará aí. E, conforme disse o médico, descansará. Apesar de tudo, mesmo de seus caprichos.
Ela calou-se, mas seus olhos continuavam sombrios. Eu sabia que os atos de Marysia não eram caprichosos de menina mimada, como dizia Endrey, mas o desespero de alguém e que queria morrer.
— Fritz, quando eu não estiver, vigie-a, não deixe que se levante.
— Ela é muito teimosa e se levantará — respondi.
— Ser for preciso use a força!
Endrey foi para o galpão consertar uma ferramenta. Sentei-me ao lado de Marysia e vi que estava chorando.
— Marysia — perguntei baixinho — não é feliz em nossa casa?
— Não. Amo-o demais.
— Pois então, por que não deixa de discutir com ele?
— Não sei, Fritz — continuou chorando. — Meu coração está cheio de sentimentos complexos. Mas ele não deve saber que o adoro. Ele não me ama, casou-se comigo unicamente por compaixão.
— Está enganada! Sei que ele não pensa em mais ninguém além de você! Por que não lhe conta o que houve?
— De modo algum! Não diga uma só palavra ou fugirei daqui!
Tranqüilizei-a. Endrey voltou e perguntou:
— Como se sente?
Ela não respondeu.
— Estou perguntando como se sente — repetiu ele sem elevar a voz mas de uma forma que era impossível não responder.
— Bem — murmurou Marysia com os lábios trêmulos.
— Vou trabalhar, mas voltarei logo. Não se levante dessa cama, ouviu?
— Não tenho nada... O médico enganou-se.
Enganando-se ou não, você cumprirá as ordens dele.
— Não nasci para permanecer imóvel.
— Você vai obedecer!
Ao cabo de algumas horas, Marysia não podia mais e saltando da cama apesar de meus protestos, saiu. Contemplou o sol que dourava o bosque e de repente, como um pássaro que recobra a liberdade, começou a correr. Saiu do pátio e voando sobre a relva desapareceu entre as árvores. Segui-a e fui encontrá-la quase sufocada junto a um velho carvalho.
— Por que fez isso?
— Fritz, eu devo morrer! Que sou senão uma carga para Endrey?
— Então corre por isso?
— Corro porque quando o médico me condena a imobilidade, sinto um desespero tão violento que temo enlouquecer. Talvez meu coração possa curar-se, eu ficando imóvel. Não sei, mas prefiro morrer a perder a razão.
— Marysia, não seja tola. Endrey a ama!
Seus olhos encheram-se de lágrimas que correram lentamente por suas faces.
Nisto ouvi uma voz atrás de nós e compreendi que era meu irmão que regressara à casa e não nos vendo, fora nos procurar.
— De agora em diante não se afastará de mim! — disse duramente.
Pegou-a pelo pulso e obrigou-a a segui-lo.
— Você disse que entre as duas chamadas escolheria a minha!
— Dizem-se muitas coisas que não se cumprem...
— Eu a obrigarei a cumpri-las.
— Você não pode! — murmurou sufocada. Mas ele segurou-lhe a cabeça obrigando-a a fitá-lo.
— Eu a deixaria partir se lá a esperasse a vida. Não, você ficará aqui! Agora é como uma ferazinha que precisa ser domesticada, mas quando nascer nosso primeiro filho, brotará em você um novo sentimento que a manterá dentro do lar que criamos.
Uma tarde, fiquei surpreso vendo tia Irma subir o caminho que levava à nossa casa, com sua bolsa de viagem na mão e seu eterno sorriso nos lábios.
Penso que minha mãe havia-lhe escrito sobre as dificuldades de Endrey com a esposa. Sabia que Marysia era tão introvertida quanto ele e talvez a única pessoa a ter acesso à sua alma era Irma, a amiga com quem sempre havia contado.
— Olá, Fritz! Como está?
— Oh, tia Irma! — corri a abraçá-la. — Não a esperávamos antes do Natal.
— Às vezes uma fuga é necessária — sorriu. — Mas só poderei ficar até a noite. Como estão todos ?
— Bem.
— E Marysia e Endrey?
Contemplei-a um instante.
— Marysia esteve muito doente.
— Sim, já sei. Edelgard me escreveu.
— Além do mais, as coisas não vão bem entre ela e Endrey.
— Continua perspicaz e observador como antes, riu ela. — Pode-me contar tudo, Fritz?
— Não! Jurei não contar nada.
— Então não conte. O principal é saber cumprir a palavra empenhada.
Dirigiu-me um olhar perscrutador e perguntou, sorrindo:
— Eles se querem muito?
— Tudo está muito confuso, tia. Mas é lógico que Endrey a ama... Ela é tão bonita...
— A beleza não está nas coisas, Fritz, mas nos olhos dos que as vêem. É por isso que uma mulher feia pode ser muito amada. Quando saio ao palco e danço, penso que cada espectador tem um olhar diferente para mim e minha arte. Não é maravilhoso? Você, por exemplo, vê essa paisagem de uma forma e colorido e ninguém mais a vê assim.
Moveu a cabeça pensativamente e continuou:
— Por isso devemos esforçar-nos sempre em colocar sobre as coisas e as pessoas um véu de poesia. Não deter nossos olhares no feio que nos circunda. Então tocaremos o mundo com mãos mágicas que o transformarão para nosso coração. O Universo inteiro é uma espécie de intercâmbio de ódio ou de amor. Quando damos amor o Universo nos devolve parte dessa entrega, se lhe entregamos ódio, responde da mesma forma. Há em cada um de nós uma chamada e uma resposta.
Quis saber de Marysia e fui procurá-la em seus aposentos. Mamãe informou que ela havia ido ao rio.
— Quer que eu vá buscá-la, tia Irma?
— Não, prefiro ir ao seu encontro. Onde poderá estar?
— Certamente no remanso dos narcisos. É seu lugar favorito.
Os olhos de Irma escureceram-se novamente.
— Bem — disse, fazendo voltar a seu rosto aquela luz de generosidade — nisto temos o mesmo gosto. Vou procurá-la lá...
Apertou minha mão e se afastou.
CAPÍTULO VII
Minha avó disse que o jantar estaria pronto dentro em pouco. Endrey regressaria logo e eu teria de buscar Irma e Marysia tem de comer a horas certas.
Corri para o bosque sem esperar nova ordem.
A erva amortecia meus passos quando cheguei ao remanso dos narcisos amarelos. Instintivamente me detive ao ouvir vozes, notando a de Marysia bastante alterada. Não sabia se devia avançar ou retroceder. Vi as duas mulheres de pé, frente a frente. Tia Irma tinha uma expressão que nunca lhe vira. Altiva e desdenhosa, um sorriso irônico curvava seus lábios. Marysia parecia a ponto de chorar.
— Não! Não tenho lugar aqui! Não sou ninguém para Endrey! — sua voz tremia. — Ele ama você! Para mim, reservou a compaixão. E não posso aceitá-la, por isso, quero voltar a Viena. Ao balé!
Estranhei o rosto de minha tia. Toda a doçura e serenidade que costumavam aureolar seu semblante haviam desaparecido. Tinha as sobrancelhas arqueadas e seus olhos lançavam chispas.
— Não a aceitarão!
— Sim aceitarão! Eu era uma boa dançarina. Trabalharei intensamente e logo estarei em forma. A dança era a minha vida. Toda a minha vida! Só a dança pode-me fazer esquecer.
Sua voz quebrou-se num soluço. Sem se comover diante da súplica que parecia emanar da sua lisura, minha tia exclamou:
— A dança será sua morte!
— Não me importa! Custa mais viver que morrer!
— Não faça dramas. Não há motivo para isso.
— Não há motivo? — revoltou-se. — Irma, não quer me compreender? Sofri muito. Conhece minha história. Não tinha ninguém a quem amar. Aqui encontrei uma família, um lar. Comovia-me vendo o avô acender seu cachimbo e citar provérbios. A avó cuidando de tudo e a mãe de Endrey silenciosa e diligente como uma abelha. E Endrey com seu amor todo voltado para a terra. Eu queira pertencer a todos e minha dor secreta era não ser ninguém ali. Só uma estranha que um dia teria de partir. E comecei a estremecer quando Endrey se sentava a meu lado na mesa e sua mão roçava a minha ao passar-me o pão ou o sal.
Levantou os olhos e teve um meio sorriso.
— Um dia houve o milagre. Pediu-me para ser sua esposa. Jamais poderia imaginar coisa semelhante. Pus-me a chorar de felicidade, ele me apertou contra seu peito e eu senti que toda a solidão de minha vida desaparecia.
Enxugou as lágrimas e prosseguiu:
— Na noite do nosso casamento descobri uma carta dele para você. Por ela soube que se casava comigo, somente porque era seu desejo. Mas não me amava. Não me amara nunca. Tinha apenas compaixão.
Sua voz se quebrou. Soluçou por alguns momentos e prosseguiu:
— No primeiro momento quis fugir de tudo aquilo, mas logo me senti covarde para abandonar aquele lar. Endrey chegou e tomou-me nos braços. Mas era uma farsa. Eu me entregara a ele diante de um altar, em troca de amor, não de uma comédia de amor, e fui vítima de seu desejo, não de seu amor.
Lançando um olhar de suprema angústia à minha tia, exclamou, estendendo-lhe as mãos implorantes:
— Oh, Irma! Eu me havia reservado ao longo de minha vida para esse momento. Queria render-me ao amor verdadeiro. Onde estava ele naquela hora? Era uma noite vazia de tudo. Cheia de tudo quanto me enojara sempre. Na violência orgulhosa daquele homem estavam as ânsias de todos os que eu repelira. Não era o homem eleito que me beijava, mas um desconhecido surgido não sei de onde. Suas mãos não eram fortes, doces e protetoras e sim ásperas, brutais. Oh, Irma, que mal você me fez! Brincou com meus sentimentos e dispôs da minha vida como no balé quando me dizia: "Faça este passo assim", ou "coloque-se neste lugar".
Enquanto Marysia soluçava, passou pelo rosto de tia Irma uma luz terna que a transfigurava por inteiro. Entretanto, sua voz soou dura quando interrogou:
— É por isso que desobedece as ordens do médico?
— Sim. Quero voltar ao balé ou morrer. Não posso suportar Endrey, não posso!
— Já não o ama?
Marysia continuava chorando e respondeu entre soluços:
— Amo-o, essa é a minha tragédia. Amo-o mais que nunca. Quando me estreita em seus brados, sofro um inferno de dor e carinho. Penso que continua a farsa que você dirige de longe.
Levantou a cabeça, balançando-a tristemente.
— Quando no balé meu par fingia que me amava, era um doce arauto do amor verdadeiro, porque nem seus lábios nem suas mãos chegavam tocar-me. Lembra-se do Espectro da Rosa? Você insistiu para que eu a dançasse com o primeiro bailarino. Como cheguei a vivê-lo! O desejo impossível dos homens não me podia roçar. Estava simbolizado no Espectro e eu saía livre de todos. Livre, para entregar-me mais tarde pela moeda autêntica do amor. E agora pertenço a quem não me ama. Sou para ele... Que sei eu? Como pôde comportar-se assim comigo?
Tinha as mãos caídas ao longo do corpo, sua figura inspirava ternura a quem a fitasse, mas tia Irma replicou:
— Vou dizer-lhe: Certo dia Endrey declarou-se a mim. Foi aqui mesmo, mas que iria eu fazer com ele? A você agrada, sua alma é simples. Mas a mim sempre pareceu rude e ignorante. Não podia suportar ver suas mãos curtidas, sempre em contato com a terra. Pobre Endrey! O escaravelho atrás da libélula!
Seus lábios estavam curvados pela ironia quando continuou:
— Quando apareceu em Friburgo eu já estava farta. Nunca gostei desses amores simples, primitivos. E, no palco, você surgia radiosa de juventude no outono onde eu luto arduamente para conservar meu posto. Vi no diagnóstico do médico uma saída, mandei-a para cá. Então esse tolo, nas cartas que me escrevia, falava-me sempre de você e eu pensei que poderia fazer-lhes um bem que ao mesmo tempo me beneficiaria. Eram simples, bondosos, ingênuos...
Teve um risinho breve e continuou:
— Respondi-lhe: «Você fala muito em Marysia. Por que não verifica se é ela a mulher que lhe convém?» Ele pensou e respondeu simplesmente: «Sim.» Não tentei fazê-los dançar o Espectro. Tentei, sim, livrar-me do incômodo romantismo de Endrey. Livrar-me de seu olhar de cão fiel. Endrey é limpo como o campo e o ar. Mas se você o acha grosseiro, estúpido e vulgar, não a reprovo. Volte ao balé e...
O rosto de Marysia mudara de expressão. Primeiro foi o assombro diante da atitude de minha tia. Depois, uma dor mesclada de cólera e desilusão e por último, indignação.
— Eu não o acho grosseiro, nem estúpido, nem vulgar! — gritou.
— Você é uma boba, inexperiente. Endrey a amava, de um modo diferente do que a mim, por que eu sou para ele o inalcançável. Seria doce e delicado se você não o ferisse com seu desprezo, fazendo surgir o orgulho dos Eiger. Entretanto, você feria e ele sofria intensamente! A coisa tem a sua graça...
Marysia tremia dos pés à cabeça.
— Irma, não fale assim! Eu a odiava, contudo, queria partir para que você e ele...
— Oh! — tia Irma ria de um modo desagradável. — Queria ceder-me Endrey? Mas que eu faria com ele?
— Cale-se! Cale-se! — gritou Marysia. Não pensava que fosse assim. Cale-se, por favor!
— Menina boba! Endrey não zomba de sua ingenuidade?
— Não!
— Claro. Não pode, ele é igual a você...
— E você é a "deusa de gelo".
— Todos no teatro me chamam assim, porque rio da paixão dos homens, como rio do amor de Endrey. Você cansou-se dele, também, confesse! Se assim for, que se há de fazer? Terei de ajudá-la. Afinal, você ganhou! Endrey sofrerá com sua partida, mas terá de se acostumar. Bem... O maestro perguntou-me muitas vezes por você. Se não puder voltar a dançar, eu protegerei esses amores. Seu marido terá de consolar-se. O escaravelho não pode voar ao lado das libélulas.
Voltou a rir e seu riso soava de modo desagradável em nossos ouvidos, como se houvesse perdido aquela limpidez, aquele frescor com que costumava alegrar-nos. Era algo surdo e vazio, sem alegria alguma.
— Vamos, menina, não faça essa cara só porque joguei minha máscara ao chão. Jogue a sua também, e nos entenderemos melhor.
CAPÍTULO VIII
Houve um grande silêncio e compreendi ser aquela pausa o abismo onde caía e se destruía tudo que se levantara entre elas de gratidão, carinho e amizade. Marysia dirigiu-lhe um olhar estranho e de súbito, fugiu por entre as árvores. Corria quase sem tocar o solo, como se houvesse visto tudo quanto pode existir no mundo de desagradável e mesquinho. Como se houvesse chegado à beira de um precipício e tivesse de escapar ligeiro, horrorizada com o que descobrira.
Entretanto, eu permaneci um instante imóvel e vi como o rosto de tia Irma parecia cansado e melancólico. Uma névoa de amarga tristeza assomou a seus olhos e ficou contemplando as águas do remanso. Aproximei-me.
— Ah, Fritz! Estava aí?
— Sim, tia Irma — respondi, no mesmo tom suave com que ela me falara.
— Há muito tempo? — quis saber, olhando-me nos olhos.
— Sim. Vovó mandou-me buscá-las e não me atrevi a interrompê-las.
— Então, ouviu tudo?
— Tudo não, mas o bastante...
— Por Deus! Não foi muito edificante o que ouviu. Mas... que vamos fazer?
— Tia Irma, por que se tornou tão má, tão cruel?
Começou a rir e em seu riso havia uma nota de amargura. Mas logo serenou e respondeu:
— Você é o rapaz mais perspicaz do mundo. Por que fala assim?
— Você não ria de Endrey. Você o amava.
— É verdade... Não ri nem de Endrey, nem de ninguém. Todos são uns estúpidos, Fritz, mas essa estupidez se chama inocência. E eu não sou capaz de ver como tudo o que fiz por esses dois se perde e se trunca. Se houvesse confessado a verdade, aquela tola iria dançar e morrer para que eu e Endrey... Tive então de fazer-me de má, de rir dele. Agora ela terá pena de seu amor traído e sentirá compaixão de Endrey, em vez de pensar que ele casou-se com ela por compaixão. E não sabem que o verdadeiro amor é um pouco de piedade. Deus nos amou por piedade e quando um homem tenta fazer feliz uma mulher, por ternura e lástima de sua desdita, a ama mais que quando vê nela o cálice precioso onde beber o vinho de sua felicidade pessoal.
Depois de um longo silêncio, ela voltou a falar:
— Bem. Já estou cansada de tudo isto. O pano caiu e devo me retirar.
Seu rosto tornou-se sério e grave.
— Não — murmurou para si mesma. — Não quis manejá-los como marionetes. Só pensava que era mais importante a felicidade deles que a minha. Quis ser sensata, renunciando a algo que caberia melhor aos dois. Marysia é uma boa menina — e fitando-me de repente: — não é verdade, Fritz?
— Sim, e você também é muito boa.
— Oh, todos somos bons! Talvez eu seja muito vaidosa, mas vejo-os como se tivesse uma experiência de séculos e eles estivessem começando a viver agora.
— Vai embora logo, tia Irma?
— Hoje mesmo. Tenho minha dignidade. Não me agrada sentar-me à mesma mesa que Marysia, sabendo que ela agora me odeia.
— Tia Irma — rompi o silêncio. Quando ela voltou-se para mim, disse-lhe: — Gostaria de ser mais velho para casar com você!
— Não quer que me sinta só, não é verdade? – Ela disse, sorrindo tristemente.
Olhei seu rosto e pareceu-me que, realmente, tia Irma estava tão só no mundo como se aquele prado esmaltado de narcisos fosse um deserto.
— Não. Não quero que se sinta sozinha!
— Pois não me sentirei. Hei de me lembrar de suas palavras.
Cerrou os olhos e assim permaneceu uns segundos. Levantou-se, beijou-me e acrescentou suavemente:
— Não quero voltar à casa. Diga-lhes que ficou tarde e tive de ir pegar o trem.
E se afastou por entre as árvores e sua figura pareceu-me muita solitária e abatida. Era como se executasse uma dança estranha e trágica. Parecia-me que cruzava sozinha seu deserto e ninguém poderia ler em seu rosto nem o que pensava, nem o que sofria.
Quando entrei em casa, Marysia estava em seu quarto. Meu avô fumava seu cachimbo sentado no banco de pedra junto ao muro. Vovó andava pela cozinha e minha mãe, como sempre, estava junto ao cesto de roupa. Ao me ver, perguntou:
— Irma não vem?
Respondi-lhe um pouco confuso, desejando parecer o mais natural possível:
— Teve que ir embora para não perder o trem... Esperam-na hoje.
Tia Gretchen, que estava sentada num canto da cozinha, comentou altiva:
— Caprichosa e independente como sempre! Nem sequer a idade a faz mudar.
— Por que há de mudar? — indagou meu avô, lá de seu banco. — Se achou que devia ir, não vejo motivo para críticas. Nossa casa é o lar de todos, não um cárcere.
— Diga antes que é uma hospedaria! — contestou tia Gretchen. — Irma é como o judeu errante. Não se pode deter em lugar algum. Talvez a impeça o pecado que leva no coração.
— Todos temos no coração algum pecado -— comentou vovô.
Minha mãe levantara a cabeça de seu trabalho e indagou:
— Que quer insinuar, Gretchen?
— Oh! Bastou-me vê-la no dia do casamento de Marysia. Gosta de ser cobiçada, de despertar os desejos dos homens. Inclusive de Endrey.
— Gretchen! — escandalizou-se minha mãe.
— Sim. E Marysia também. Não sou tola como você, Edelgard. Endrey estava entre duas mulheres, mas desejava a mais experimentada e sábia nas debilidades dos homens. A beleza de Irma é uma beleza de pecado.
— Cale-se! — gritou minha mãe, pondo-se de pé. — Não consinto que fale assim de minha irmã e de meu filho!
— Oh, por mim, pode continuar com sua cegueira, Edelgard! Voltarei para minha casa e não descerrarei os lábios. Não entendo, nem quero entender dessas coisas!
— Pois me parece que entende bem demais! — replicou minha avó.
Titia enfureceu-se e se foi. Mamãe continuava trêmula de raiva e minha avó disse bondosamente:
— Não pense mais nisso, Edelgard. Gretchen é fantasista, vê o mal em tudo.
Notou minha presença e gritou-me:
— Que faz aí, Fritz? Santo Deus! Este menino sempre dá um jeito de ficar escutando nossas conversas.
— E que tem isto? Também faço parte da família!
— Já sabemos, sem precisar que o «sábio» diga!
CAPÍTULO IX
Depois de jantar, fui para o meu quarto mas não podia dormir. Entreabri a janela para poder respirar e ver as janelas iluminadas da cozinha, que deixavam cair sobre o pátio e o poço um pequeno retângulo de luz.
Endrey chegou do campo e foi guardar suas ferramentas. Marysia saiu de casa, os dois encontraram-se e ficaram parados, contemplando-se frente a frente. Ela parecia trêmula e agitada, sua cabeça não se levantava com a altivez de costume.
— Endrey! — murmurou com voz tão cristalina e musical, que foi como se enchesse o pátio de uma doce harmonia.
Ele sentiu o choque daquela inflexão, mas respondeu com a brusquidão do homem que não quer deixar-se vencer logo.
— Olá! Irma já foi?
— Sim. Endrey... .— voltou a murmurar.
— Que há? — perguntou, intrigado.
— Acabei por ver a verdade — seu tom ainda era doce e suave e caía como água de chuva na alma de meu irmão. — Eu... fui mesquinha com você. Devia... devia contentar-me com o que quisesse me dar... Decidi ficar aqui e não voltar ao balé.
— Marysia! — ele deu um passo para ela.
Mas ela continuava torcendo as mãos. Tinha mais o que dizer.
— Creio que... apesar de tudo, posso apreciar o quanto vale... Você merece que o amem. Procurarei fazê-lo...
— Você diz a verdade? — perguntou, ainda sem ousar tocá-la. — E permanecerá em nossa casa sem sentir saudade?
— Sempre recordarei minha dança, mas viverei feliz em seu lar.
Houve uma nova pausa e notei como a respiração de meu irmão se entrecortava de emoção.
— E já não me repelirá? Já não dirá que a aborreço com minha presença?
— Não. Eu mentia! — quase gritou. — Jamais me aborreceu, Endrey! Jamais!
Houve um grande silêncio. Observei que meu irmão estava desorientado, procurando a razão daquelas coisas que não compreendia. Por fim, respondeu com acento grave e brusco:
— Não compreendo... Que aconteceu para que mudasse assim?
— Vi a verdade — repetiu mansamente. — Antes não via mais que meu orgulho.
— De verdade, poderá viver sempre a meu lado? De verdade, não me dirá mais coisas cruéis quando me aproximar?
— De verdade — prometeu ela, com voz emocionada.
Ele a fitava, suas mãos continuavam caídas ao longo do corpo e não fez nenhum gesto para abraçá-la. Mas ordenou suavemente:
— Beije-me!
Ela levantou-se na ponta dos pés e rodeou seu pescoço com os braços, apoiando os lábios nos dele. Endrey estreitou-a fortemente e assim permaneceram momentos intermináveis. Depois levantou-a em seu braços fortes e desapareceram no interior da casa.
No dia seguinte, levantei-me muito cedo e saí. Chegando ao pátio vi Marysia que saía cautelosamente, para não despertar os demais.
— Fritz, quer me acompanhar à capela católica!
— Não vai tomar café antes?
— Não. Quero confessar e comungar.
A manhã era deliciosa e Marysia parecia uma mulher diferente. Caminhando pelo prado cheio de flores, parecia uma flor a mais. Ao contrário de tia Irma, que se afastara solitária por entre as árvores, ela levava consigo um mundo de ventura íntima, rica e maravilhosa, que a inundava por inteiro.
— Já está contente? — animei-me a perguntar-lhe.
— Sim.
— Endrey a ama?
Moveu a cabeça com suave e nostálgico sorriso.
— Não sei, Fritz. Mas agora não andarei meditando em mim mesma. Devia aceitar o que me davam e, em troca, dar tudo.
— Não partirá mais ?
— Não.
Passamos pelo lugar onde ela havia sido beijada pelo marido na manhã do casamento, e o olhou sorrindo. Tudo parecia novo a seus olhos naquela manhã.
Afinal, numa curva do caminho, apareceu a capela. O padre Ludwig saiu ao nosso encontro. Ainda não chegara nenhum fiel e ao nos ver aparecer, sorriu.
— Madrugam como os pássaros — disse alegremente. — A missa da alvorada cai sobre o espírito como o orvalho sobre a relva.
— Padre, quero confessar — disse Marysia.
— Muito bem. Fique aqui, Fritz.
Sentei-me nas escadas de pedra do átrio. Um pardal saltava sobre a grama beliscando umas migalhas de pão que o padre costumava repartir entre os pássaros.
Enquanto Marysia estava lá dentro, Endrey apareceu pelo caminho. Nele também se havia operado uma grande transformação.
— Olá, Fritz. Marysia está aí?
— Sim, confessando. Sente-se aqui. Sabe o que é confessar, Endrey?
— Sei. Quando os católicos fazem errado, contam ao sacerdote. Pensam que Cristo deu-lhe o encargo de perdoar os pecadores em seu nome.
— Mas Marysia não é má! Não errou!
— Sei disso, mas talvez ela não pense assim...
— Por que nós não confessamos, Endrey?
— Não sei — disse, depois de meditar. — Talvez tenhamos orgulho demais. Talvez nos agradecesse ajoelharmo-nos diante de Cristo, não diante de um ser humano como nós.
Levantou-se e entrou na igreja e eu o segui.
Marysia já se confessara e estava ouvindo a missa. Meu irmão sentou-se a seu lado. Depois de comungar, Marysia pegou a mão de meu irmão, levou-a ao peito e depois beijou-a.
Os olhos de meu irmão brilharam.
— Que vai fazer esta manhã? — perguntou Endrey quando saíram.
— Acompanho-o ao pomar?
— Vai-se cansar...
— Não, não me cansarei.
— Deseja estar a meu lado?
— Sim — seus olhos estavam cheios de luz. — Sempre o amei, Endrey. Sempre. Inclusive... inclusive quando se zangava comigo...
— Oh, não me recorde isso! — suplicou. — Fui brutal. Quis dominá-la com minha força. Não soube tratar com sensibilidade as coisas delicadas... — tinha a cabeça baixa e pediu com sinceridade: — Perdão.
Marysia estremeceu de ternura e de amor. Jamais compreendi o complexo do homem que não quer reconhecer seus erros diante de uma mulher. O homem, ao tomar uma posição de humilde reconhecimento de seus defeitos, ascende até o cume onde a mulher o colocou.
— Não quero que se humilhe!
— Ninguém se humilha ao reconhecer a verdade!
Meu irmão segurou as mãos dela, apertou-as contra o peito e murmurou com sua voz profunda e grave:
— Eu a amo, querida... Você é tudo para mim!
Afastaram-se de mãos dadas, completamente esquecidos do mundo que os rodeava.
Um mês mais tarde, Marysia estava costurando sob a figueira.
— Por que será que tia Irma não escreve? — perguntei.
— Decidi não ocupar-me mais dela, Fritz!
— Por quê? Por que pensou que ela havia monopolizado o amor de Endrey?
Ela estremeceu.
— Não, não me refiro a isto. Eu tinha dela uma opinião diferente. Embora estivesse enciumada por sua beleza, sentia admiração por sua personalidade. Mas Irma tirou a máscara e conheço-a perfeitamente. Não quero, sequer, recordar o seu nome.
— Já sei — exclamei impetuoso. — Você a julga pela discussão que tiveram no remanso dos narcisos.
— Ouviu-nos?
— Vovó me mandou chamá-las. Eu cheguei por entre as árvores e as duas estavam tão distraídas que não me viram.
— E ouviu tudo quanto falamos?
— Claro! Mas eu sabia que tia Irma não era assim. Estava fingindo que era má apenas para que você tivesse pena de Endrey e se unisse a ele. Depois me explicou tudo. Disse que era muito mais importante a felicidade de vocês do que a dela.
Não dei importância à sua expressão de espanto e prossegui:
— Ela sabia o que fazia! É muito inteligente e bondosa. Você ficou irritada contra ela, teve compaixão de meu irmão e se reconciliaram. Agora você sabe que Endrey a ama, que tia Irma foi somente uma ilusão. Ela o sabia e por isso tratou de uni-los. Quando ela partiu, ia quase chorando, Marysia. Tinha os olhos rasos de lágrimas e sentia-se só e abatida. Essa é a tia Irma de verdade. Não a que se apresentou a você!
— Por que não me disse antes ? — sua voz era um fio.
— Ela não queria. Só desejava que você e Endrey fossem felizes. Mas não posso suportar que continue pensando mal dela.
Levantei-me e fui até a cozinha. Quando voltei, Marysia chorava.
No dia seguinte, enquanto todos estavam fora, Marysia começou a escrever uma carta. Para não perturbá-la, sentei-me nos degraus do pátio, lendo um livro que me haviam emprestado. Vi quando Endrey vinha do campo e tive vontade de avisar Marysia para que guardasse a carta, mas estava tão fascinado pela leitura que a idéia esfumou-se.
Em vez de atravessar o pátio, Endrey entrou pela outra porta da cozinha e pouco depois ouvi sua voz:
— Que está fazendo?
Sem dúvida Marysia sobressaltara-se com aquela entrada repentina e tentou ocultar o papel.
— Que está escrevendo? — tornou ele a perguntar.
— Uma carta — foi a resposta.
— Posso ver?
— Não! E não importa, é para outra mulher.
— Tudo o que é seu, me interessa.
— Mas não tem direito de lê-la.
— Então diz coisas que não devo saber?
— Sim, mas são coisas de mulheres.
— Mostre-me e não lerei mais que o primeiro parágrafo. Se forem realmente coisas de mulheres, deixarei.
Subi a escada e estive a ponto de dizer-lhes que deixassem de tolices, mas o rosto de meu irmão estava tão alterado que julguei mais prudente calar. Marysia tinha o rosto vermelho como uma cereja e esmagava o papel entre as mãos. Meu irmão inclinou-se e tomou-o enquanto dizia:
— Tudo que é seu me pertence. Quero ler essa carta.
E começou a ler em voz alta. «Querida Irma, escrevo-lhe para pedir perdão. Fui tão cega que não sei se poderá me perdoar. Já não me importa que Endrey a ame, porque você é melhor que eu..."
Meu irmão interrompeu a leitura e uma onda de púrpura ascendeu o seu rosto. Lançou um olhar faiscante a sua mulher, que tinha o rosto oculto entre as mãos e continuou lendo com voz um pouco mais insegura:
«Já não importa que se tenha casado por compaixão e aceitarei o que me der como uma dádiva maravilhosa. Como algo que é demais para uma criatura pequena e insignificante...»
Sua voz tornou a tremer e novamente olhou para a esposa, que continuava na mesma atitude. Continuou:
«Irma, sinto tanto tê-la julgado mal! Meu coração e meu orgulho estavam feridos desde que, na minha noite de casamento descobri aquela carta que Endrey lhe dirigia...»
— Como encontrou aquela carta?
— Estava arrumando uns papéis em sua escrivaninha. ..
— Foi essa a causa do seu estranho comportamento naquela noite?
— Sim.
Ele baixou a cabeça e continuou a leitura.
«Odiei-a porque pensei que havia brincado com meus sentimentos. Por isso lhe disse tantas coisas junto ao arroio. E você fingiu-se de má, para que eu, por minha vez, tivesse compaixão de Endrey e pusesse de lado o orgulho ferido. Irma, não sou digna de seu sacrifício, mas juro que amo Endrey com toda a alma, que jamais me queixarei...»
Não escrevera mais. Endrey depositou o papel sobre a mesa e permaneceram em silêncio. Pareciam não encontrar as palavras suficientes para dizer o que sentiam. Afinal, com voz rouca, meu irmão murmurou:
— Não sabia que duas mulheres tão admiráveis me amavam tanto! Sou eu quem devo dizer: «Não mereço tanto.» Oh, Marysia! Acredite no que lhe vou dizer agora! Juro que serei tão leal e sincero como se me encontrasse às portas da morte!
Marysia tinha as mãos abandonadas sobre o regaço e a cabeça inclinada, de modo que não pude ver seus olhos.
— É verdade que a princípio sentia compaixão por você, mas não deve ofender-se por isso. A compaixão é também amor e somente um tolo pode se sentir diminuído por essa espécie de carinho Você exaltava minha ternura, da mesma forma que Irma exaltara o primeiro momento de minha juventude quando as paixões são mais intensas e pujantes.
Seu olhar estava cheio de doçura.
— Você era completamente diferente. Entrava em minha alma suavemente e reclamava a parte mais nobre que há em mim. Talvez não tivesse sabido explicar esse sentimento estranho, se Irma, com sua carta, não me tivesse aberto os olhos. Então aprendi que o segundo amor jamais pode ser igual ao primeiro. Em Irma, eu amava o inalcançável, o fugitivo, como ela mesma dissera um dia. Anelava o que não podia conseguir. Em troca você estava perto e eu sabia que não precisava mais que estender a mão para tê-la comigo.
Inclinou-se e abraçou Marysia.
— Agradeço-lhe pelo que fez! Agradeço-lhe e estimo por isso, mas não pense que a amo menos do que amei Irma. Você é a minha pequena Marysia, aquela que arranquei à morte e ao desespero. Aquela que incorporei à minha vida e de quem espero a alegria de um filho.
Ela cobriu o rosto com as mãos e começou a chorar baixinho, não de tristeza, e sim de emoção; uma emoção muito doce e suave. Endrey afastou-lhe as mãos e beijou-lhe as faces, os olhos e a boca trêmula.
E dizia com voz apaixonada e terna:
— Minha querida! Minha querida! Se eu soubesse o que era que nos separava... Jamais perdoarei minha brutalidade... Jamais poderei compensar esses instantes por mais amor e ternura que lhe dedique...
Inclinou-se e beijou-a. E eu voltei a meu livro, feliz por eles terem chegado, afinal, a se entenderem.
* * *
No dia seguinte, Marysia entregou-me a carta para enviá-la.
— Não esqueça de selá-la direito.
— Não se preocupe que chegará à tia Irma.
— Esteve ouvindo, como sempre?
— Como sempre, não repararam em mim... Você sabia perfeitamente que eu estava na escada com meu livro.
Ela baixou a cabeça, mas o riso brotou de seus lábios. Contido a princípio, mas depois foi-se transformando numa gargalhada. Até que tive de rir com ela.
— Esquecera por completo, mas é que você é silencioso e discreto como uma sombra. Por favor, não diga nada a ninguém.
— Quando foi que traí um segredo? — repliquei.
— Traiu o de Irmã.
— Censura-me?
— Não. Fez muito bem! A essa indiscrição devo minha felicidade.
***
Depois de tudo isto, tive de ir estudar em Berna. Quando voltei, já era um homem. Estava enamorado de uma linda moça e pensava sèriamente em me casar.
Quando voltei e tive que cruzar a sombria Ponte do Diabo, lembrei-me de tia Irma e de suas confidências. Tinha vontade de saber dela. Por vezes eu ainda era assaltado pela lembrança de sua última despedida. Por isso minha alegria não teve limites quando, ao tomar o caminho que conduzia à casa, a vi descer a encosta com seu passo ágil e harmonioso de sempre. Corri para ela e a abracei.
— Você, aqui? Pensei que não quisesse mais nada com essa tribo de ingratos...
— Sim...? Pois tenho a intuição de que a culpa é sua; Marysia me estima mais do que nunca e faz-me sentir tão maternal que já me considero avó. Não sabe ainda? Serei a madrinha do filho deles. É um menino maravilhoso...
Tomamos o caminho empedrado, do qual se via a corrente turbulenta do Reuss e o prado esmaltado de narcisos. Ela seguiu meu olhar e sorriu.
— Pensei que nunca mais voltaria a esse lugar, Fritz. Tenho meu orgulho. Embora tenha feito todo o possível para que Marysia me odiasse, doía-me seu desprezo. Ela escreveu-me uma carta tão gentil, tão arrependida, que meu orgulho desvaneceu-se no ar.
— Não pensava em casar e assegurar seu futuro, tia?
— Oh. Sim, tive essa idéia, mas depois preferi prolongar minha liberdade e continuar voando como uma folha ao vento, aonde me levar a minha arte.
Olhou-me maliciosa.
— Em certa ocasião, um rapazinho me disse que gostaria de ser mais velho para casar-se comigo...
— E continuo querendo!
Pusemo-nos a rir e, de mãos dadas, dobramos a curva do caminho, vimos toda a aldeia aos nossos pés, o telhado pontudo da igreja protestante e mais além a humilde capela católica. Paramos no alto, contemplando a linda paisagem de um povoado no meio de um valezinho verde. Via-se a formigar seus habitantes a caminho de seus labores e as calçadas por entre cujas pedras crescia o mato.
Os telhados vermelhos brilhavam ao sol e as chaminés fumegavam. Sob aqueles telhados havia homens; homens pequenos, vulgares, insignificantes, que poderiam ser grandes e desprezavam sua própria grandeza por medo do esforço que teriam de fazer para chegar ao cume.
Voltei a mim de minha abstração. Minha tia refizera-se também e me contemplava com os olhos risonhos de sempre.
— Vamos voltar para casa, Fritz, não podemos continuar a olhar a paisagem e tecer fantasias até que o sol desapareça no horizonte.
E, segurando a minha mão, começou a correr, enquanto os narcisos rebentavam numa orgia de cores no prado verde às margens do Reuss.
Fim
Depois Daquela Noite
Marisa Villardefrancos
Digitalização e Revisão: JoSlavic Genius
Formatação: Cris Skau
Sinopse:
O jovem Endrey Eiger é um rapaz sonhador, de coração impulsivo e forte, que nutre por sua tia Irma, dez anos mais velha que ele, um amor proibido, que tanto ele quanto ela sabem que não poderia se realizar.
Marysia Nalewska é uma bailarina, amiga de Irma, e refugiando-se na fazenda dos Eiger, tenta se recuperar de um problema de saúde. Conhecendo Endrey, ela começa a sentir-se melhor, renasce em seu coração muitas esperanças e o pedido inusitado de casamento, feito por Endrey, a enche de alegria. Mas algum tempo depois ela descobre a verdade.
Poderiam Endrey e Marysia, superar a dor de um amor não correspondido e consolar-se, mutuamente?
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http://www.4shared.com/document/ngXpAPNq/Marisa_Villardefrancos_-_Depoi.html
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Link do Grupo
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Link da Lista de Revisão
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Agradecimento especial à Raficha que tem nos ajudado na verificação das listas
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