Corações Perdidos do Texas 01
Do Jeito que Você É
Título Original: Just the way you are
Disponibilização: Gisa
Tradução: Gisa
Equipe de Revisão: Iluska, Ady Miranda, Anelise, Romilda, Maria Betania
Revisão Final: Iluska
Formatação: Serenah
Série Corações Perdidos do Texas
01 – Just Lost Way You Are
02 – Almost Like Being in Love
03 – Close to You
Argumento:
Christina Dodd, assídua nas listas de livros mais vendidos do New York Times é uma das mais aclamadas autoras de novela romântica histórica, ela faz uma deslumbrante incursão na ficção contemporânea nesta intrigante e sensual novela sobre uma trabalhadora jovem que, presa de um engano, apaixona-se pelo solteiro mais rico de Boston.
Com o desaparecimento de seus pais, a vida de adolescente livre de preocupações de Hope Prescott se esfumou para sempre. Ela e seus três irmãos foram separados e enviados a diferentes famílias adotivas. Agora, sete anos depois, Hope continua buscando-os. Para manter-se, trabalha para um serviço de secretária eletrônica e se preocupa com seus clientes como se fossem seus familiares. Quando Zachariah Givens, um rico empresário, contrata os serviços do Hope, esta o confunde com seu mordomo. Cansado de ver-se sempre adulado por seu dinheiro, Zack fica cativado pela candura de Hope, assim como por sua voz sexy, e segue adiante com a mentira. Conforme sua amizade vai transformando-se em amor, Zack toma a decisão de fazê-la sua. Mas quando Hope descobre seu engano, Zack compreende que tem que resolver o mistério que se abate sobre o passado da mulher a quem ama para convencê-la de que os caminhos de ambos estão destinados a unirem-se.
Prólogo
Hobart, Texas
Uma cálida tarde de junho
Hope Prescott, uma jovem de dezesseis anos, achava-se de cócoras no pátio em frente à casa do pároco, apoiada contra a parede. Em seus braços dormia profundamente a pequena Caitlin, esgotada de chorar chamando a sua mãe.
Contra seu ombro, com a cabeça inclinada, se aconchegava Pepper, de oito anos, que tampava os ouvidos com as mãos, em uma tentativa desesperada de se isolar do mundo. O irmão de Hope, Gabriel, que tinha quatorze anos, encontrava-se de pé em um rincão próximo a elas, com as mãos nos quadris e o rosto voltado para o pátio traseiro, tentando manter-se mais afastado possível da porta de cristal aberta, embora sem deixar a Hope de tudo a só frente a aquela dura prova.
Mas nada do que faziam conseguia sossegar as vozes, aquelas vozes horríveis, implacáveis, que provinham do interior da sala de estar. A sala de estar de Hope, da casa em que tinha passado a maior parte de sua vida.
Já se tinha olhado o interior, e tinha visto o senhor Oberlin, de pé junto à chaminé, dirigindo a reunião.
- Pelo visto, levam anos roubando na igreja, ajustando um pouco a cada vez para poder ir pagando as faturas.
- Que faturas? - A voz da senhora Cunningham ressonou com um timbre agudo que fez Hope estremecer-se.
- Que faturas podem ter um pregador e sua esposa que não possam pagar com seu salário? Um salário muito bom, além disso. Queria marcar bem esse ponto. Esta congregação não é pobre, e fomos mais que generosos com essas... Essas... Víboras!
- Basta, Glória - Era o Dr. Cunningham, sempre a voz da razão.
- Não quero que te altere, já sabe que não é bom para os nervos.
- E tampouco é correto falar mal dos mortos - Repreendeu o senhor Oberlin.
Hope custava em acreditar. Custava-lhe acreditar que seus pais estivessem mortos.
E aquelas pessoas estavam dizendo que papai e mamãe eram ladrões.
Pepper choramingou e se apertou mais contra Hope. Esta trocou de posição o bebê em seus braços doloridos para poder abraçar a Pepper e dirigiu um olhar de desespero a Gabriel, que seguia imóvel, mas o moço não se voltou para ajudá-la; isolava-se da família, pensou Hope, já estava preparando-se para a separação que considerava inevitável.
- Não me importa. Não me importa absolutamente - Replicou a senhora Cunningham, irritada.
- Proporcionamos-lhes a casa. Acolhemo-los. Virtualmente, eram parte da família. Ajudamos a criar a seus filhos...
- Bom bom. - Falou de novo o doutor Cunningham, só que esta vez a sua não parecia a voz da razão, mas sim mas bem uma choramingação, pois estava muito assustado com sua mulher para pôr freio a seu rancor.
- Isto não nos leva a nenhuma parte – Cortou a senhora Blackthorn, sulcando a umidade do ambiente com seu suave acento do Texas - Já estabelecemos, fora de toda dúvida, que o reverendo e a senhora Prescott eram uns estelionatários.
- O que faziam com todo esse dinheiro? - Inquiriu à senhora Cunningham.
- Não sabemos. Provavelmente não saberemos nunca. O senhor Oberlin lançou um forte suspiro - Sinto-me culpado disto.
- Não seja tolo. George, querido. Todos nós estávamos cegos. - A senhora Oberlin não estava acostumado a falar muito, mas quando o fazia sempre era para consolar a seu marido.
Mamãe dizia que a senhora Oberlin precisava mostrar um pouco mais de valor. Mamãe dizia que...
Hope respirou estremecida, procurando conter a angústia que lhe encolhia o estômago e que ameaçava lhe rasgando as vísceras.
- Sabemos com segurança que partiram daqui para não voltar - Continuou, implacável, a senhora Blackthorn, como decorosa presidenta do conselho paroquial - Sabemos que foram muito depressa e que se mataram pouco antes de cruzar a fronteira com o México.
Um mosquito zumbiu junto ao ouvido de Hope. No ar vespertino flutuava o canto reconfortante das cigarras. Tudo parecia muito normal, mas nada já voltaria a ser.
A senhora Blackthorn prosseguiu:
- Estamos aqui para procurar uma solução aos problemas que ocasionamos ao confiarmos em excesso. Como vamos substituir a nosso pregador quando já havemos realizado uma campanha de arrecadação de fundos para construir uma sala de aula nova e o dinheiro desapareceu?
- Não posso acreditar. Ainda me custa acreditar... - Disse o senhor Oberlin - Que tenham nos enganado assim, por completo. Eram boas pessoas.
-Sim, eram - Sussurrou Hope - Assim é.
Pepper levantou o olhar para sua irmã, em voz baixa, algo impróprio nela, sempre tão exultante, perguntou-lhe:
- Por que são tão maus?
- Chist - Advertiu-a Hope. Não desejava chamar a atenção do conselho paroquial, pois precisava saber o que estavam dizendo.
- E o que vamos fazer com esses meninos? - O tom da senhora Cunningham era de desprezo. A menina de oito anos não é muito atraente.
Por fim, Gabriel deu a volta e as olhou de frente. Sempre tinha sido o herói do Pepper e estendeu os braços a sua irmã. Esta se pôs a correr para ele. Ele a abraçou e olhou a Hope. Inclusive com o tênue resplendor que lhes chegava através da porta, Hope viu que seus olhos verdes tinham uma expressão vazia, que seu cabelo escuro estava murcho, e aquele semblante sombrio lhe destroçou o coração.
- Hope é muito presumida, na equipe de voleibol e no quadro de honra, e sempre alardeando ser primeira no concurso de bandas - Melissa, a filha de dezesseis anos da senhora Cunningham, nunca era tão boa como Hope em nada que fizesse; entretanto, a senhora Cunningham jamais se queixou, quando o pregador era o pai de Hope.
Hope se esforçou para ouvir alguém, fora quem fora, que a defendesse. Mas em troca se fez um terrível silêncio.
Então falou de novo aquela voz horrenda:
- O menino adotado pode retornar a um orfanato ou em qualquer lugar que levem esses meninos.
Hope se sobressaltou. Já o tinha advertido Gabriel: disse-lhe que isso era o que fariam. Mas ela não tinha acreditado. Olhou a seu irmão, ao moço que três anos antes se incorporou a sua família tão a contragosto e que fazia muito pouco, tinha decidido considerar-se um deles. Como podia estar ocorrendo algo assim?
- Nunca me pareceu bem que os Prescott o adotassem. Ou seja, que classe de pais tinha o menino. Drogados, certamente. - A senhora Cunningham suspirou - Suponho que o bebê não será nenhum problema. Sempre há gente disposta a adotar a uma menina pequena.
Hope escutava com muita atenção. Esperava que alguém dissesse que fosse se encarregar de que a família permanecesse unida, que oferecessem um refúgio para ela, suas duas irmãs e seu irmão adotivo.
Mas em lugar disso, aquela gente enriquecida, aquelas pessoas que tinham fingido ser amigas de seus pais, não disseram nada. Nada absolutamente.
Começaram a lhe tremer os braços. Começou a tremer ela toda. Levantou-se e depositou a Caitlin sobre o divã.
Gabriel se aproximou.
- Hope, não. Não servirá de nada.
- Tenho que fazer. Não o vê? Tenho que fazer.
Hope lutou para abrir a porta de um puxão e entrou como uma tromba na sala de estar. Todos aqueles adultos, aqueles hipócritas, voltaram-se para ela com os olhos e a boca muito abertos.
Ela olhou-os fixamente. A muito magra senhora Blackthorn, o mais próximo a uma aristocrata que havia naquela pequena localidade. Ao doutor Cunningham, o bondoso médico rural que jamais olhava a ninguém nos olhos. À senhora Cunningham, agradavelmente (gordinha?), diziam dela. Ao senhor Oberlin, o membro mais jovem do conselho, sempre tão afável, e a sua esposa, a senhora Oberlin, alta e de ombros arredondados, que observava o mundo com olhos assustados.
Todos eles, cruéis até não poder mais.
- Como se atrevem? Como se atrevem? Senhora Oberlin, minha mãe esteve junto a você quando deu a luz. Doutor Cunningham, meu pai ajudou a Melissa a procurar universidade. - Deixou escapar um suspiro estremecido - Meus pais eram boas pessoas. Não roubaram nada, eram incapazes de fazer algo assim. - Pela primeira vez desde funeral, deixou escapar um leve lamento, dobrou-se sobre si, tratando de reprimir a dor, e enxugou as lágrimas que lhe escorregavam pelas bochechas. – Vocês estão mentindo. Todos estão mentindo.
A senhora Blackthorn foi a primeira em recuperar o controle.
-Tirem essa menina daqui.
O doutor Cunningham se levantou e se dirigiu para Hope. Esta, tragando ar, retrocedeu. Devia acalmar-se, tinha algo a dizer.
- Estão dispostos a nos separar? Pensam em levar à pequena? Enviar ao Gabriel a um orfanato? Querem fazer magoar a Pepper e a mim porque... Porque acreditam que meus pais... Mas não é verdade, e embora o fosse como podem fazer algo assim? Imediatamente, desfez-se em pranto.
O doutor Cunningham a abraçou pelos os ombros.
-Vamos, vamos - Murmurou tão inoportuno como de costume.
Hope tentou escapar dele, mas o médico a apertou com mais força, arrastando-a em direção à escada, resistiu, esperneou e gritou ao pequeno grupo de caras que a olhavam com expressão de assombro e auto-suficiência:
- Antes nos tratavam bem, e agora não querem nos ajudar? Quem é que está obrando o mau? Quem?
Capítulo 1
Boston, Massachusetts
Um frio dia de fevereiro,
Sete anos depois
Meredith Spencer refletiu e chegou à conclusão de que uma mulher de cinqüenta e sete anos não deveria ter que levar meias, manter os seus três netos nem reincorporar-se ao mercado de trabalho como secretária temporária. E, entretanto ali estava de novo, apoiada contra a parede do escritório do último andar do edifício de Zachariah Givens, presidente e diretor geral do Givens Enterprises, escutando a Gerald Sabrinski.
- É um desalmado filho da puta, e um dia espero ver como lhe darão o que merece.
O senhor Sabrinski, calvo e de rosto congestionado, estava inclinado sobre a mesa do senhor Givens, olhando-o com toda a fúria de um poderoso adversário.
Um poderoso adversário... Derrotado.
O senhor Givens respondeu com um aristocrático acento de Boston, mas totalmente carente de inflexões.
- Sabrinski Electronics se debilitou por causa da recessão, e esse crédito que concedeu a seu filho foi o que terminou de anfunda-la.
O rosto avermelhado do senhor Sabrinski ficou ainda mais colorido:
- Meu filho necessitava o dinheiro.
- Não duvido. - O senhor Givens torceu o lábio em um gesto extremamente depreciativo.
Constance Farrell, antiga amiga de Meredith, achava-se junto a ela e ia informando em voz baixa:
- O senhor Givens conhece filho do senhor Sabrinski há anos. Ronnie tem o costume de procurar seu pai quando necessita dinheiro.
- Entendo. - Meredith apertou contra seu peito o caderno e a caneta, com a vista fixa na cena cada vez mais violenta que se desenvolvia frente a ela.
Ainda em voz baixa, Constance aconselhou:
- O senhor Givens se está impacientando. Tenho certeza que em questão de minutos nos pedirá que acompanhemos Sabrinski à saída.
Meredith observou fixamente ao senhor Givens, sentado em sua poltrona de executivo de couro negro, e se perguntou como Constance podia adivinhar que estava impaciente, quando ela mal podia acreditar que aquele homem tivesse demonstrado uma emoção, de qualquer tipo.
- O senhor Urbano nos ajudará - Murmurou Constance - Antes era jogador de hóquei, de modo que ninguém lhe causa problemas.
Meredith dirigiu um olhar fugaz a Jason Urbano, o conselheiro legal da Givens Enterprises. Era um indivíduo corpulento e atraente; provavelmente teria trinta e poucos anos, como o senhor Givens. Em outras circunstâncias, aquele ex-jogador de hóquei teria atraído para si o olhar de qualquer mulher, mas sentado ao lado do senhor Givens ficava praticamente invisível.
Era o senhor Givens o que atraía todos os olhares. Com certeza, era o homem mais bonito que Meredith tinha visto em pessoa. Tinha o cabelo negro, liso e vigoroso. Seus olhos eram tão escuros que também pareciam negros. Sua pele bronzeada cobria uma estrutura óssea que desenhava linhas muito marcadas: mandíbula firme, nariz aristocrático, maçãs do rosto altas, frente limpa. E seu corpo... Enfim, que ela tivesse cinqüenta e sete anos e fosse viúva não significava que estivesse morta ou cega, e aquele homem possuía uma estatura e um corpo que captavam a atenção de qualquer mulher quando se achava presente na mesma habitação.
Aquele físico tão irresistível causava uma primeira impressão realmente magnífica. Logo, Meredith o olhou nos olhos e... Não viu nada. Ele não sentia o menor interesse para ela, nem por isso Meredith pôde deduzir, por ninguém, movia-se como um tubarão na água, com elegância e suavidade, irradiando um ar de ameaça que resultava evidente e fazia que as pessoas se apartassem. Era frio, desapaixonado, distante.
Durante toda a manhã e parte da tarde, Meredith tinha estado observando a maneira de trabalhar no escritório, tomando notas, preparando-se para ocupar o posto de Constance enquanto esta desfrutava de umas férias. Durante esse tempo, o senhor Givens tinha adquirido a empresa do senhor Sabrinski, em uma operação meteórica e agora lhe escutava destrambelhar contra ele. Em nenhum momento viu Meredith que o senhor Givens sorrisse, franzisse o cenho ou mostrasse o mínimo sinal de alegria, curiosidade ou tédio.
Com seus olhos escuros cravados no senhor Sabrinski, o senhor Givens disse:
- Se tivesse podido recuperar parte do efetivo que entregou a seu filho, isso teria ajudado um pouco, mas seu crédito debilitou a companhia e a deixou em uma situação ideal para ser comprada.
Sabrinski empalideceu e lhe formou um círculo azulado ao redor da boca.
O senhor Givens prosseguiu, implacável:
- Não pode se queixar de como te tratei. Quando se faça pública a notícia da compra, suas ações aumentarão de valor, poderá se retirar e viver muito bem.
Sabrinski recuperou a cor e a voz.
- Não quero me retirar. Quero dirigir minha empresa.
- Não pode - Replicou o senhor Givens fazendo uma pausa entre cada palavra para causar o máximo impacto - Já não tem o controle.
Meredith sussurrou:
- Não pode deixar que o senhor Sabrinski a dirija?
Constance a olhou com incredulidade.
- Certamente que não. O senhor Givens não pensa conservar ao homem que perdeu a empresa por causa de sua negligência. Que exemplo seria esse?
«Um exemplo de bondade?», pensou. Mas era uma idéia estúpida, tratava-se de negócios, Meredith o entendia muito bem. O que não entendia era por que o senhor Givens tinha que ser tão insensível.
- Eu levantei essa empresa partindo do zero, suei sangue por ela, vivi para ela. E você quer que me retire? - Sabrinski foi elevando o tom ao falar, e ao final terminou gritando.
Em contraste, a voz do senhor Givens era cada vez mais grave e serena.
- Não vejo que tenha alternativa, ofereci o posto de diretor geral ao Matt Murdoch, um dos meus vice-presidentes executivos. Desempenhará o cargo de forma competente.
- OH, Meu deus. O senhor Givens está zangado de verdade. - O olhar de Constance não se separava da cena. - Bem. Já se levanta o senhor Urbano. - Apressou-se a intervir - Senhor Sabrinski, embora esta operação possa lhe parecer difícil neste momento, estou segura de que sua esposa se alegrará de poder ficar mais tempo com você. - Fez um gesto com a cabeça ao senhor Urbano, que se colocou ao lado do senhor Sabrinski.
- Minha esposa já está fazendo as malas para ir-se. - Sabrinski apontou com um dedo tremente ao senhor Givens. - Como bem sabe ele.
Meredith se surpreendeu ante aquela acusação. Mas mais que isso lhe impressionou perceber um gesto de emoção no semblante do senhor Givens.
Parecia surpreso.
- Não estará me acusando de ter algo a ver com isso. Logo que conheço sua mulher... E menos ainda tenho interesse por ela.
- Janelle me queria por uma única razão. - O peito do senhor Sabrinski se agitou ao tentar tomar ar. - Por minha influência. Por minha posição social. E por sua culpa, Givens, agora já não tenho nada. O que opina?
Com uma sinceridade que roçava a crueldade, o senhor Givens respondeu:
- Que deveria ter ficado com sua primeira esposa. Que está pagando um alto preço pela sua crise da meia idade.
Sabrinski soprou:
- Se você tivesse esposa...
- Mas não a tenho.
Nem tinha tido nunca. Isso sim sabia Meredith. Apesar de ser freqüentemente fotografado com uma mulher encantadora no braço, apesar dos mexericos que circulavam sobre suas ligações sexuais, nunca tinha havido rumores de que tivesse uma relação séria. Constance não fofocava a respeito de seu chefe, mas tinha mencionado que era muito exigente e com tendência a ser crítico.
O senhor Givens se levantou de sua poltrona, dando a entender que tinha chegado o momento de acompanhar o Sabrinski até a porta. - Esta conversação chegou a seu fim. Tenho que retornar ao trabalho. Já transferimos o dinheiro a seu banco, Sabrinski. Não é necessário que volte para seu escritório.
- O que quer dizer é que, se o tentar, serei detido no vestíbulo? - De novo o rosto de Sabrinski se tingiu de uma cor vermelha que lhe subiu do pescoço da camisa e lhe salpicou as bochechas. O senhor Givens inclinou a cabeça.
- Seus pertences pessoais foram enviados a sua casa. Desejo-lhe a melhor das sortes no futuro, e não se preocupe, seu negócio está em mãos muito competentes.
- Em mãos muito competentes? Filho da puta! Não vale mais que... - Sabrinski se equilibrou sobre ele.
Mas o senhor Urbano o agarrou pelo braço. Sabrinski tentou em vão escapar dele.
-Te aparte de mim, maldito gorila. Demandar-te-ei por me pôr suas mãos sujas em cima.
Constance tentou pegar o outro braço do senhor Sabrinski. - Por favor, senhor Sabrinski, terminou, e isto não vai servir de nada.
Toda aquela raiva e violência fizeram Meredith estremecer.
Mas o senhor Givens contemplava a cena sem emoção alguma.
- Sabrinski, está comportando-se como um idiota.
- Um idiota! - Sabrinski tinha a cabeça inteira vermelho vivo, como um forno.
- Você se atreve a me chamar... - Ficou sem ar. Seu rosto perdeu por completo a cor e adquiriu um estranho tom cinzento. - Você, um miserável inseto, atreve-se a me chamar... –Sua fronte se cubriu de suor e as gotas começaram a descender por suas bochechas.
- Senhor Sabrinski, encontra-se bem? - Constance lhe tocou o ombro.
Naquele momento, o senhor Sabrinski se desabou e caiu pesadamente no chão.
- Santo Deus - Ouviu dizer Meredith e pensou que talvez tivesse sido sua própria voz.
O senhor Givens rodeou seu escritório e se plantou ao lado do Sabrinski em só um passo longo.
- Senhora Farrell, chame a emergência.
Constance correu ao escritório e ligou rapidamente.
O senhor Givens deu a volta ao senhor Sabrinski.
Meredith pegou as costas contra a parede. O senhor Sabrinski estava pálido como a cal e tinha os olhos em branco.
O senhor Givens lhe buscou o pulso e em seguida tirou sua jaqueta Armani.
- Jason, me ajude a reanimá-lo.
- Filho da puta! - O senhor Urbano tirou a jaqueta a toda pressa e se ajoelhou.
- Maldito seja, Zack, tudo isto é tua culpa!
Pela segunda vez em escassos minutos, o senhor Givens manifestou uma emoção.
Novamente, parecia surpreso.
Continuando, os dois homens ficaram mãos à obra, um no peito, o outro insuflando ar nos pulmões, alternando-se como se estivessem acostumado a salvar aos homens que sofriam uma síncope no escritório do senhor Givens em um arrebatamento de fúria.
Quando chegaram os médicos, o senhor Sabrinski já respirava sozinho, e disseram com toda claridade ao senhor Givens que sua pronta atuação tinha salvado a vida daquele homem.
Seus elogios deixaram impassível ao senhor Givens, que limpou as mãos com seu lenço branco como a neve enquanto levavam de maca Sabrinski para fora do escritório.
-Terminamos já com os dramas por hoje?
- Espero que sim. - O senhor Urbano também secou as mãos, mas Meredith se fixou em comotremiam seus dedos. - Juro Por Deus, Zack, que ultimamente você gosta muito desta parte do trabalho, provocaste um ataque cardíaco no velho Sabrinski!
Meredith ficou gelada.
Constance deu um grito afogado.
O senhor Givens elevou as sobrancelhas exatamente com a mesma emoção que demonstrava o senhor Spock, do Star Trek, ante um dos arrebatamentos do doutor McCoy.
- Sabrinski, ele sozinho provocou o ataque. Estava chiando.
- Naturalmente que estava chiando! Tem carinho por sua empresa, e foi arrebatada por um homem a quem não lhe importa um cominho, sentiria-se melhor se você estivesse babando de contente, em lugar de te mostrar como sempre, como o homem de gelo.
O senhor Givens observou ao senhor Urbano com expressão um tanto estranha enquanto colocava a jaqueta.
- Não sei o que quer dizer.
O senhor Urbano passou a mão pela cara e falou com claridade:
- Quero dizer que ele tem razão. Converteste-se em um bode sem sentimentos. Estou seguro de que não é capaz de agüentar uma semana sem fazer chorar a alguém, ou sem se despedir de alguém, ou sem ser antipático com tudo o que tropeça.
Meredith ouviu que Constance dizia «Sim» com um fio de voz, mas não podia apartar a vista da cena que tinha diante o tempo suficiente para olhar a sua amiga.
A expressão do senhor Givens se tornou mais distante.
- Sou agradável... Com as pessoas que o merecem.
- Todo mundo merece um pouco de cortesia. Você economiza suas frases amáveis como se fosse ouro, e as reparte com verdadeira mesquinharia: a seus familiares, a seus amigos... Por certo, convidamos você para ver a partida de hóquei, um dia destes, a partir do domingo que vem na nova tela gigante de televisão que...
- Obrigado, mas não posso. Trabalho.
- Talvez seja essa a razão pela que é um chato. Passa todo o tempo trabalhando. - O senhor Urbano apoiou as mãos nos quadris. – Tudo bem, você liga para a minha mulher e diga que vai faltar... Outra vez. Irá fazê-la ela chorar, igual faz com todo mundo.
- Se não me convidasse, não choraria - Burlou-se o senhor Givens.
- Está grávida! Chora até com os anúncios da Kodak na televisão!
Com uma profunda sensação de alívio, Meredith se deu conta de que o senhor Urbano e o senhor Givens eram amigos, amigos íntimos.
O senhor Givens tomou assento detrás de seu escritório.
- Se sou tão desagradável, não sei por que quer que vá a sua casa.
- Porque sou teu amigo, embora neste preciso instante não recorde porque.
Meredith lançou um olhar furtivo a Constance. Esta observava a conversação com franca curiosidade. Então Meredith olhou ao senhor Givens e compreendeu a razão: ao senhor Givens não lhe importava que as duas mulheres estivessem escutando, naquele momento as secretárias não eram necessárias e, no que a ele dizia respeito, era como se não se encontrassem presentes no escritório. Meredith apertou os lábios com força. Certamente, o senhor Givens era insofrível.
- Não entendo por que tenho que me preocupar de que alguém chore, nem por que tem que me importar que uma pessoa incompetente fique sem trabalho.
- É obvio que não! A isso me refiro. Nem sequer entende por que deve se importar que alguém quase morra no chão de seu escritório de um ataque cardíaco.
- Está vivo. Assisti-lhe - Assinalou o senhor Givens.
- De acordo, então estava exagerando. - O senhor Urbano se aproximou devagar do escritório. - Importaria se tivesse morrido, mas certamente porque não quer que ninguém te danifique o tapete.
O senhor Givens piscou ante a veemência do senhor Urbano. - É um tapete muito caro.
E o era. O escritório inteiro, com aqueles vitrôs do chão até o teto, sofás de couro negro, suas obras de arte na parede que de perto pareciam manchas de cor vermelha e azul e de longe eram quadros de flores, e sua escrivanhia de mogno, tão grande e tão belamente acabada que deveria estar honrando um museu.
- Sabe qual é seu problema? - Perguntou-lhe o senhor Urbano. - Que sempre se sai com a tua.
- E por que é um problema? - Ao ver que o senhor Urbano lançava um bufido, esteve a ponto de... Quase... Sorrir. – Jason, tenho uma vida perfeita, não está poluída por esperanças enganosas ou falsas amizades.
- Morrerá sendo um homem desgraçado, triste e sozinho.
- Esteve falando com minha tia Cecily.
Jason deixou escapar um grunhido.
O senhor Givens escolheu suas palavras com supremo cuidado.
- Embora algumas vezes me sinta sozinho ao despertar... Bom, tenho amigos casados que dizem lhes ocorrer o mesmo e está claro que é melhor sentir-se só quando se está sozinho que sentir-se só quando se está atado a uma esposa.
A reflexão do senhor Givens deixou Meredith perplexa; mas claro, era um homem muito inteligente.
- Eu não me sinto sozinho. - O senhor Urbano exibiu um sorriso lupino. - Com a Selena, não.
- Já está casada, não pode ser minha - Brincou o senhor Givens.
- Ela não iria querer você. Há-me dito isso. - O senhor Urbano se inclinou sobre a mesa para o senhor Givens - Aposto com você cem dólares... Não, um dólar, que não é capaz de te mostrar simpático, não fazer que ninguém chore e nem saia despedido até que venha para casa a ver a partida.
- Um dólar ou cem dólares?
- Não importa. Para ti é o mesmo, mas é capaz de fazer algo para ganhar uma aposta.
- Então, que sejam cem dólares. Feito. - Os olhos do senhor Givens relampejaram um instante. - A condição é que não inclua o Baxter na lista de pessoas com as que tenho que ser «simpático».
-Tudo bem, a esse posso excluir.
- Bem. A empresa do Colin Baxter é a seguinte a comprar, mas os preparativos ainda durarão algumas semanas. - O senhor Givens mostrou sua primeira emoção autêntica, profunda: uma espera selvagem.
Meredith experimentou uma grande solidariedade para o desconhecido Colin Baxter e para todas as empresas nas quais o senhor Givens punha o olho.
O olhar do senhor Givens se desviou brevemente para Constance.
- Destronaremos o Baxter antes que você retorne senhora Farrell.
Constance surpreendeu a Meredith respondendo:
- Não queria perder isso por nada no mundo, senhor.
A seguir ele posou seus frios olhos em Meredith.
- Será uma boa experiência para você, senhora Spencer. - Meredith não acreditava que chegasse a sê-lo, se era como a que acabava de ter, mas disse:
- Sim, senhor Givens, ocuparei-me de tudo, como você diz.
Em seus tempos tinha sido uma boa auxiliar administrativa e talvez não gostasse daquele tipo, mas sabia dirigi-lo. Tinha que fazê-lo.
O senhor Urbano esfregou as mãos.
-Vão ser os cem dólares mais facilmente ganhos de toda minha vida.
-Por que diz isso? - Replicou o senhor Givens. Eu nunca pretendi outra coisa que ser tratado como me trata o resto do mundo.
O senhor Urbano riu, e logo ficou sério.
-Tome cuidado com o que pede. Poderia consegui-lo.
O senhor Givens pareceu vagamente confuso.
- Não sei o que quer dizer.
- Não, claro que não sabe. Isso é o triste. -Voltando para seu tom desenvolto, o senhor Urbano disse: - Enfim! Verei você em sua casa dentro de uma semana, a partir do domingo que vem.
O senhor Givens elevou a cabeça e o olhou carrancudo.
Constance puxou Meredith pela manga e ambas saíram do escritório discretamente. Constance tinha na área da recepção sua mesa, seu computador e seus arquivos, tudo em um fabuloso entorno de grossas maquetes, novelo verdes e desenho de bom gosto. As secretárias encaixavam bem em seu entorno, pensou Meredith: duas mulheres mais velhas com sapatos baixos e discretos trajes de lã de saia à altura dos joelhos.
- Não me ocorre nada mais para te dizer. - Constance olhou a Meredith por cima de seus óculos. – Exceto que o senhor Urbano e o senhor Givens são amigos desde a universidade. O senhor Urbano jogou hóquei como profissional até que terminou seus estudos na faculdade de direito, suas chamadas sempre têm prioridade.
Meredith abriu seu caderno e tomou nota, mas não ia esquecer.
Constance mostrava uma ligeira mancha escura na pele ao longo da linha de crescimento do cabelo; tingiu as raízes cinza para sua viagem ao Hawai, e Meredith sentiu uma profunda inveja por sua amiga, pelo posto seguro que tinha. Depois voltou o olhar para o escritório do senhor Givens. Mas que preço pagava Constance por aquela segurança! Trabalhar para um homem como aquele, um dia atrás do outro.
- Quanto ao Colin Baxter... - Constance vacilou. - É um caso especial. Fez uma sacanagem com o senhor Givens, e este... Jurou...
Meredith riu nervosa.
- Como faria qualquer.
- Já, mas se supunha que Baxter era amigo dele. Olhe, o dinheiro do senhor Givens o converte em alvo para fraudes. Ele valora a amizade por cima de tudo.
- Mais que a eficiência? - Inquiriu-lhe Meredith com certa acidez.
Constance franziu o cenho.
- Sim. Já sei que você não gosta do senhor Givens, mas vais ter que fazer algo mais que pôr cara de pôquer. É muito perspicaz, dá-se conta de tudo, e viu o espantada que você ficou lá dentro.
- Provocou um ataque cardíaco a um homem!
- Podemos lhe absolver de havê-lo fato de forma deliberada.
- Foi muito cortante.
- O senhor Givens não acredita que tem que adoçar nada. - Constance pôs ênfase na palavra <nada> - Eu trabalhei vinte anos para seu pai e nove para ele. Seu pai era da velha escola, duro e desumano, mas seu filho certamente o superará. Não zangue o senhor Givens. Necessita este trabalho e, além disso... Eu te recomendei.
Horrorizada, Meredith perguntou:
- Se fizer mal, lhe despedirão?
- Não, claro que não. - Mas Constance continuou ordenando os arquivos sobre sua mesa sem olhar Meredith nos olhos. - Entretanto, você tem caráter.
- Pode partir tranqüila - Assegurou Meredith. - Tenho que manter a meus netos, desde que sua mãe os largou, isso garante que já é um incentivo para que controle meu caráter.
Naquele momento saiu o senhor Urbano do escritório do senhor Givens.
- Aproveite sua viagem ao Havaí, Farrell - Disse em tom festivo. - Quando volta?
Constance lhe sorriu.
- Dentro de três semanas.
- Estupendo. - Em tom mais baixo, acrescentou: - Senhora Spencer, se Zack lhe der problemas, diga-me isso. Fizemos uma aposta. - Fez-lhe sinal com os polegares acima e desapareceu pela porta.
-Vamos. - Constance conduziu Meredith de volta ao escritório do senhor Givens.
- O senhor Givens odeia a tecnologia, assim se responsabilizará por tudo que for referente ao fax, a fotocopiadora e o computador.
Meredith tomou nota.
- Já contava com isso.
- É obvio. Mas ele nem sequer toca o computador, assim terá que imprimir todos os e-mails e entregar-lhe. Constance deu uns leves golpes na porta. - Senhor Givens, é um bom momento?
Ele levantou a vista de seu trabalho, o mesmo olhar sereno e escuro, que provocou a Meredith um calafrio ao longo da coluna vertebral.
- Claro, senhora Farrell. Estará desejando ir.
- Sim senhor, mas ficará aqui a senhora Spencer para fazer o trabalho.
- Sim. - Estudou a Meredith, e pareceu saber o que ela tinha comentado a respeito dele, o que opinava a respeito dele.
A senhora Farrell se aproximou do escritório, com Meredith atrás.
- Já sei que odeia as secretárias eletrônicas, assim lhe procurei um serviço de secretária eletrônica.
- Um serviço de secretária eletrônica? - Elevou as sobrancelhas. - Não fala a sério.
- Trata-se do serviço de secretária eletrônica do Madam Nainci, o único que fica em Boston. Leva quarenta anos funcionando.
- Um serviço de secretária eletrônica. - O senhor Givens franziu o cenho. - Que interessante. Como conseguiram sobreviver?
- Empregam a pessoas que desejam falar com outras, a pequenos negócios que querem dar a impressão de ter uma secretária e a tecnófobos como você. - Constance tocou o singelo telefone de duas linhas que repousava sobre a mesa. - A única tecnologia que terá que usar é esta, programei o número do serviço da secretária eletrônica depois dos seus pais e atrás do número de emergências. O único que tem que fazer é apertar a tecla com o número dois e esperar. - Constance lhe fez uma demonstração.
Ouviram pelo alto-falante do telefone o tom de marcar e o teclado do número, e por fim uma voz de mulher.
- Serviço de secretária eletrônica - Disse a mulher, com uma entonação que fez que a Meredith caísse bem imediatamente.
- Olá, Hope, sou a senhora Farrell.
- Senhora Farrell, ainda não se foi?
Meredith captou um ligeiro acento sulino na voz do Hope, ou talvez devesse ao fato de que falava devagar, como se desfrutasse da conversação.
- Estou ensinando ao senhor Givens como acessar as suas mensagens - Respondeu Constance.
- Muito bem. - A voz de Hope se voltou vivaz e eficiente. - Ainda não há mensagens. Há algo mais que possa fazer por você ou pelo senhor Givens?
- Também está aqui a senhora Spencer - Disse Constance. - É a auxiliar administrativa temporária do senhor Givens. Também tratará com ela.
- Olá, senhora Spencer. - De novo soou o tom quente e amável de Hope. - Estou desejando que conversemos.
Meredith surpreendeu a si mesma sorrindo ao telefone.
- Estarei encantada.
- Com certeza que sim - Disse Constance.
- Que tenha uma feliz viagem, senhora Farrell e traga-nos um pouco desse tempo ensolarado. - Disse Hope - Prometa.
- Prometo. - Constance cortou a comunicação, também sorridente.
O senhor Givens não sorria. Olhava fixamente o telefone com aquela enigmática calma que produzia calafrios a Meredith.
- Já vê quão fácil é, senhor Givens. - Disse Constance - Disse a Griswald que programe o mesmo botão no telefone de sua casa.
- É muito seca - Disse o senhor Givens. - Tomou a decisão de que não gosta sem nem falar comigo antes.
- Pelo geral sim, esperam um pouco mais - Disse Constance em tom acre. - Hope é encantadora e muito atraente. - Fez uma pausa. - É eficiente. Estará contente com ela. Chame-a esta noite quando chegar em casa.
- Farei. - Assentiu com a cabeça. - Hope.
Capítulo 2
Zack jogou seu casaco no fundo do assento traseiro de sua Mercedes.
- Olá, Coldfell, que tal lhe foi o dia?
- Muito bem, senhor. - A chofer lhe sustentou a porta. - Obrigado, senhor.
Zack se deu conta de que Coldfell se mostrava rígida com ele, como se apenas o conhecesse, quando de fato levava dez anos sendo sua chofer e então voltaram para sua cabeça às palavras de Jason para lhe atormentar: «Converteste em um bode sem sentimentos.» Teria arquivado aquela emoção sob a etiqueta mental de «improcedente», se não fosse porque se tratava do Jason. Os dois se conheciam dede a universidade, Jason era tão sério e formal... E haviam feito uma aposta, estúpida, mas uma aposta de todos os modos.
Pois muito bem. Coldfell ia ser a primeira prova de que ele não era um desalmado, de que podia ser agradável com outras pessoas. Ao entrar no carro advertiu que havia uns livros no assento dianteiro.
-O que está lendo, Coldfell?
A chofer o olhou como se lhe tivesse falado em outro idioma.
- Senhor?
- O que lê?
- Os homens de verdade e por que temem o compromisso, senhor.
Coldfell fechou a porta e foi até o assento do condutor. O certo é que não tinha aspecto de chofer com seus quarenta anos de idade, baixa e magra como era e de herança chinês-mexicana. Em realidade não parecia absolutamente uma guarda-costas, mas era isso exatamente, estava treinada para conduzir, para proteger a seu passageiro e para disparar e matar se fosse necessário.
Zack se sentia plenamente cômodo com ela. Baixou o guichê que separava o assento do condutor do dele.
- Acreditava que estava casada. Não lhe enviei um presente de bodas?
- Estive. Obrigada, a molheira era preciosa. Mas isso foi há oito anos. Agora estou divorciada.
-Quando ocorreu isso?
No espelho retrovisor, Coldfell lhe dirigiu um sorriso tão aberto e intenso que Zack ficou desconcertado.
-Faz treze meses e cinco dias.
-Lamento - Disse. E era verdade. Gostava de Coldfell, quando se fixava nela. - Lê enquanto me espera?
Coldfell pareceu vagamente surpreendida pela pergunta, como se seu chefe nunca tivesse travado uma conversação com ela. O que sim, tinha feito em várias ocasiões. Ao tempo que colocava a marcha atrás e retrocedia, respondeu:
- Sim, senhor. Resulta aborrecido estar aqui embaixo.
A quente garagem situada sob os setenta e sete andares do Edifício Givens, no centro de Boston, parecia-se com qualquer outra garagem do mundo: vigas de concreto cinza, colunas de concreto cinza, chão de concreto cinza. Por razões de segurança, ele tinha uma parte da garagem para seu próprio uso, abriu-se a porta automática e saíram à rua. Caía uma neve branda que depositava seus grandes flocos sobre o pára-brisa e cobria a cidade com um manto de silêncio.
- Suponho que deve ser aborrecido, aprendeu algo desse livro?
- Sim. - Coldfell afirmou tristemente com a cabeça. - Que os homens são um desastre.
Aquilo o sobressaltou.
- Um desastre?
- Os homens não querem comprometer-se em uma relação porque são covardes.
- Eu não sou covarde.
Ele era precavido. Existia uma grande diferencia entre a precaução e a covardia. A mulher que se casasse com ele o faria por seu dinheiro. Tinha assumido. Mas não pensava casar-se até haver se certificado de que a mulher escolhida fosse um adorno para seu braço, uma anfitriã de incomparável talento e uma mãe adequada para seus filhos.
Além disso, não devia ser infiel jamais. Sua fidelidade e seus deveres ficariam assegurados por um contrato pré-nupcial fechado e que teria em conta qualquer eventualidade. Qualquer eventualidade.
- Como você diz senhor. - O tom de Coldfell indicava que duvidava dele.
Zack aguardou até que se detiveram em um semáforo vermelho.
-Talvez devêssemos ter uma relação você e eu.
Teve o prazer de ver como a Coldfell lhe desprendia a mandíbula.
Alguém tocou a buzina detrás deles. Coldfell soltou uma maldição ao ver a luz verde e atravessou o cruzamento de ruas a toda velocidade, trocou de mão e tomou o caminho em direção a casa. Quando já tinham deixado atrás o pior do tráfico, disse:
- Isso é justo o que necessito. Divorciei-me de um homem imaturo que não era capaz de levar fechado o ziper da calça, por que ia atar-me com um homem emocionalmente distante?
Emocionalmente distante? Que diabos queria dizer aquilo?
- Com seus livros, poderia me curar.
- Nem pensar. - Esta vez, foi Coldfell quem subiu o guichê.
Zack sorriu, sentindo-se como se tivesse demonstrado que Jason se equivocava. Sim que conversava com as pessoas, acabara de conversar com Coldfell, agora estava a par de sua vida. Já era suficiente intimidade por um dia.
Começou a tirar trabalho de sua maleta e trabalhou ajeitado no assento da limusine enquanto Coldfell conduzia pelas complicadas ruas em direção à casa familiar de Beacon Hill.
O lar de Zack, uma mansão branca de estilo federal a proporções impressionantes, era exatamente o tipo de casa que admiravam seus antepassados, erguia-se em quatro andares sobre um porão que albergava a cozinha remodelada, em que havia uma cozinheira e um ajudante. As janelas estavam alinhadas em sentido horizontal e vertical. O telhado plano exibia uma balaustrada com o passar do bordo. As chaminés eram altas e estreitas, e apanhavam a neve que caía em redemoinhos do céu cinza. O caminho de entrada descendia em costa riscando ligeiras curvas até o muro que havia ao final, onde um pórtico bem proporcionado protegia tanto a entrada como a porta de serviço que se abria à altura do porão. Coldfell deteve o carro sob a proteção do pórtico, desceu e abriu a portinhola.
A um e outro lado da impressionante entrada principal se via duas escadarias em curva que conduziam ao alpendre que abrangia todo o comprimento da casa. Um mordomo abriu a larga porta de mogno rodeada de vidro jateado.
- Entre senhor, vai pegar frio.
Zack não o entendia. Dirigia uma empresa multinacional, obtinha benefícios, satisfazia aos acionistas e viajava por todo mundo. Tinha elevado o nível econômico de sua família o bastante para que sua irmã pudesse organizar uma campanha para o Senado e arrecadar dinheiro suficiente para ganhar com facilidade, entretanto seu mordomo ainda acreditava incapaz de sobreviver sem ele e sua chofer opinava que era emocionalmente distante.
Mais provável era que fora Griswald o que agarrasse frio. Teria, facilmente, uns setenta e cinco anos, umas sobrancelhas tão entupidas como as da senhora Farrell e uma calva que brilhava como uma envernizada bola de bilhar. Embora levasse quarenta anos vivendo e trabalhando para a família Givens, sua formal voz de barítono conservava à perfeição o acento britânico.
Zack se apressou a entrar na casa e começou a tirar o chapéu, o casaco e as luvas para deixá-los nas capazes mãos de Griswald. O vestíbulo se elevava dois pisos por cima dele, uma entrada deslumbrante cor grafite e nata com toques de safira. O tapete era da China e antigo, em tons nata, pêssego e safira. Uma escada curva de madeira maciça subia por volta do segundo andar. Aquela casa tinha sido desenhada para as festas, algo que sua família fazia bem e freqüentemente.
- Deseja tomar uma taça antes de jantar? - Inquiriu Griswald.
- Sim, mas eu preparo isso. - A porta de seu escritório dava ao vestíbulo e Zack se deteve na soleira da mesma. - Tenho que comprovar se tenho alguma mensagem em meu novo serviço de secretária eletrônica.
- Sim, senhor. - Uma das sobrancelhas de Griswald se agitou igual à cauda de um cão. - Programei a discagem automática entre o número de urgências e o de seus pais.
- Obrigado, Griswald. Já sei, Griswald - Disse Zack com impressionante paciência.
Deixou a maleta sobre o sofá de couro marrom e pensou que sempre se controlava. Nunca tinha perdido o domínio de si mesmo, desde os quatorzes anos. Apenas recordava o que era perder os nervos, chiar de alegria ou de raiva, não ser outro a não ser Zachariah Givens. E se alegrava disso. Não tinha tido a oportunidade de abandonar-se à loucura da juventude, e desde aquele verão tinha amadurecido estupendamente. Embora sua vida parecesse um constante pagar impostos, fazer limpezas dentais, ir a academia, responder a informe de negócios e tomar café... Enfim, todo mundo chegava ocasiões de um certo estado de aborrecimento. Aquilo era melhor que a alternativa: uma vida cheia de desastres ao azar, sem a segurança que dá o dinheiro e infestada de emoções escandalosas.
Depois de servir um uísque com gelo, foi com calma até o telefone que descansava sobre sua mesa de madeira. Bebeu um gole para pensar no seguinte movimento. Que raro, desejava encontrar-se a sós quando escutasse de novo a voz daquela mulher.
A voz de Hope. Aquela tarde, ao ouvi-la, pensou que soava cálida e apaixonada, como as fragrantes noites de uma ilha tropical, como pérolas brilhantes em um pescoço suave, de pele clara…, como uma mulher tomada pelo desejo. Para ouvir aquela voz, um calafrio lhe percorreu as costas, e...
Aquilo era uma estupidez. Estava tecendo fantasias a respeito de uma pessoa que trabalhava em um serviço de secretária eletrônica. Necessitava uma mulher. Essa mesma noite chamaria a Robyn Bennett. Robyn era melosa, polida, formosa, fácil e obviamente, se havia ficado com uma voz ao telefone, necessitava uma mulher fácil. Sim, chamaria a Robyn... Mas antes... Inclinou-se e marcou o número do serviço de secretária eletrônica.
- Sou Hope, do serviço de secretária eletrônica Madam Nainci. Chamou para ouvir as mensagens do senhor Givens?
Que voz! Amável, grave e muito sexy. Respirou fundo para aquietar a súbita aceleração que experimentou seu coração. Divertido consigo mesmo, por haver-se enamorado por uma mulher desconhecida, construiu uma imagem dela em sua mente. Hope seria mais ou menos da idade da senhora Farrell. Cheiraria a tabaco por ser fumante empedernida e teria uns quadris largos, capazes, de matrona. Teria o cabelo comprido e branco, recolhido em um coque, e quando não respondia o telefone certamente cozinharia espaguete para seu marido e sua legião de netos.
Quase gostou do retrato que fez de Hope; contribuía uma dose de prudência a algo que, por outra parte, não era mais que uma absurda obsessão.
- Em efeito, desejo ouvir as mensagens do senhor Givens.
- Um momento, por favor. Estou chamando à senhora Monnahan, mas não responde. Temo-me que tenha saído a tirar a neve da porta de sua casa. - A voz do Hope se tornou séria, como se ele devesse saber do que lhe falava e devesse poder ou querer fazer algo a respeito.
Zack se deixou cair em sua poltrona de couro com a dúzia de ajustes necessários para aliviar a tensão muscular.
Tudo o que continha aquela habitação tinha sido desenhado para aliviar sua tensão muscular. A habitação em si mesmo era uma estadia passada de moda. A parede que tinha a suas costas estava forrada de estantes de madeira castanho que se elevavam até o do teto, a mais de três metros de altura, e que requeriam uma escada para alcançar a última estropia. Uns complicados marcos de madeira decoravam os altos vitrais, e o chão de madeira rangia ao pisá-lo. Mas as cortinas de franjas, marrom e nata eram de seda selvagem. O sofá marrom e a poltrona a jogo eram macios e cômodos, com alto encosto e almofadas de cor azul metálica. Os desenhos geométricos dos tapetes lhe alegravam a vista, e quando se encontrava ali dentro, se sentia depravado como nunca.
-A única coisa que preciso são minhas mensagens - Disse.
-Um momento, por favor.
Em um instante, Hope desapareceu. Nem sequer lhe puseram música, tão somente o assobio ocasional que lhe indicava que se encontrava em espera. Tomou um lápis e começou a dar uns golpezinhos de impaciência.
Já não se sentia tão enamorado por aquela mulher.
De fato, sentia-se incômodo. Tinha tido um dia de cão. Tinha sofrido aquela confrontação com o Sabrinski, que não tinha ido tão bem como esperava. A senhora Farrell se foi de férias e o tinha deixado com Meredith, que mostrava uma expressão de surpresa e horror ante cada coisa que ocorria.
Esperava que aquela mulher não fosse uma afetada, porque seu trabalho consistia em ter confrontos como aquele diariamente. Ele necessitava uma secretária que intimidasse, não que se sentisse intimidada.
Logo havia Jason e o que lhe disse, aquelas palavras que iam a ele uma e outra vez como se já as tivesse rechaçado em muitas ocasiões. Jason lhe tinha chamado bode sem sentimentos, havia-lhe dito que estava sozinho e que Selena, sua bela, boa e alegre esposa, não iria querer tê-lo por marido. Naturalmente, Zack compreendia que talvez houvesse mulheres que não se interessavam por ele por uma ou outra razão, mas não Selena, a mulher que o tinha recebido em sua casa com tanta naturalidade.
E logo estava aquela estúpida aposta. Quase se arrependia de havê-la aceito. Diabos, sim, porque agora se encontrava entupido, sem nenhum recurso à mão.
Naquele momento Hope retornou à linha.
- Não está.
- Estou eu - Anunciou Zack em tom significativo.
- Sim, mas você não tem nenhum problema de verdade. A senhora Monahan sim os tem.
Zack se ergueu em seu assento e olhou fixamente o telefone negro.
- E como você sabe que eu não tenho problemas?
- Encontra-se a salvo, quente, tem um trabalho e sabe de onde vai vir sua próxima comida. - Hope fez uma pausa para deixar que suas palavras impregnassem. - Não é assim?
- Sim.
- Então se encontra bem, não?
Quem era ela para fazer semelhantes julgamentos?
- A vida é algo mais que as coisas básicas.
- Tem boa saúde?
Zack começava a sentir-se vexado.
- Sim.
- Pois a senhora Monahan, não.
Zack não se importava que problemas tinha a senhora Monahan e além disso estava bastante seguro de que ele não pagava o serviço de secretária eletrônica para que desse um tratamento preferencial a outro cliente. Certamente, não a uma tal senhora Monahan.
Hope continuou:
- Necessita uma prótese de quadril. Não pode pagar e insiste em fazer umas coisas que me têm aterrorizado.
Zack titubeou. Não lhe importava. Não lhe importava um cominho, uma anciã cujo único vínculo com ele era uma mulher dotada de um sentido da responsabilidade excessivamente desenvolvido para os anciões. Mas, igual a uma picada, a aposta que havia feito com Jason o obrigou a mostrar-se cortês:
- Uma prótese de quadril?
- Pela artrite, já sabe. - A voz do outro lado da linha adquiriu um tom de preocupação, e Hope lhe falou como se fossem parentes. - Caminha com dificuldade com ajuda de uma bengala. Necessita um andador, mas não deixa que eu lhe dê um. Estou segura de que poderia achar um de segunda mão por quase nada.
- Sei. - Zack esclareceu a garganta. O que sabia ele de andadores de segunda mão? - E seus familiares? Não deveriam se preocupar com isso para que você pudesse me entregar minhas mensagens?
- Não tem família. Há muita gente que não tem.
Aquela era já uma situação que não tinha podido imaginar. Sua mãe lhe tinha dado conselhos, que ele não queria, sobre como levar o negócio. Seu pai também lhe tinha dado conselhos, que ele não desejava, sobre como procurar uma esposa. Sua irmã era uma chata e sempre tinha sido. Tia Cecily insistia em que se detivesse para cheirar as rosas antes que ficasse velho e lhe falhasse o olfato. Mas eram sua família, sempre estavam dispostos a lhe ajudar... Desejasse ou não.
- Conheço uma senhora que operou o quadril faz dois meses. - Zack se referia a sua tia favorita, a irmã mais nova de seu pai. Estava tendo uma conversa com a mulher do serviço de secretária eletrônica a respeito de sua tia Cecily. Jason ia sentir-se muito orgulhoso.
A voz de Hope soou mais preocupada ainda.
- E que tal se encontra?
De modo que Hope era compassiva, não só com as pessoas às que servia, mas também com qualquer um de quem lhe falassem.
Aquele serviço de secretária eletrônica era um desastre. Se tivesse uma secretária eletrônica, já teria recuperado suas mensagens.
Óbvio, todos os aparelhos elétricos se avariavam quando se aproximava ele.
- Ainda tem dificuldades para mover-se. É sua segunda prótese de quadril - Disse, obrigando a si mesmo a ser paciente e educado.
- OH, céus. Não funcionou a primeira?
- Não, quero dizer... Tem-na no outro quadril. Padece de artrite reumatóide. Salvo pela artrite, é um autêntico esbanjamento de vitalidade. Uma mulher excepcional. - Por que lhe estava contando tantas coisas a aquela pessoa, uma desconhecida? Adotou um tom mais austero para dizer: - Passe-me já essas mensagens.
Hope reagiu tal como devia... Por fim.
- É obvio senhor... Aguarde um minuto! Aqui, tenho.
Zack se viu novamente em posição de espera, escutando aquele odioso assobio, e se perguntou se a senhora Farrell não se teria tornado louca. A mulher do serviço de secretária eletrônica, ele não gostava precisamente. Era a mais ineficaz, trabalhando sem nenhum sentido do decoro e sem entender quão importante era ele.
De repente voltou a estar em linha. A voz de Hope soou aliviada quando lhe informou:
- A senhora Monahan se encontra bem, mas eu estava certa: estava tirando a neve de frente de casa. Diz que a sua artrite não vai melhorar se ficar sentada, mas lhe expliquei que se caísse, teria sorte se estivesse dentro do hospital, mas em caso contrário morreria de frio.
Zack se sentiu um tanto desconcertado ante a franqueza com a que falava aquela mulher.
- É você Teresa de Calcuta.
- Alguém tem que lhe falar claro. É uma anciã encantadora, a ela nunca lhe ocorrem estas coisas. Pelo amor de Deus, tem oitenta anos.
«Pelo amor de Deus?» Fazia anos que não ouvia ninguém utilizar essa expressão. De modo que Hope era em efeito uma mulher mais velha e não a jovenzinha sensual que sugeria sua voz, sentiu-se aliviado. Estava-o seriamente.
- Esses são muitos anos. Minha avó tem setenta e oito, e minha mãe cinqüenta e nove. - Habilmente, perguntou-lhe: - Que idade tem sua mãe?
- É você, o senhor Griswald? - Quis saber Hope.
- Como?
- O senhor Griswald. Você é o mordomo do senhor Givens, não? - Sua voz se voltou mais cálida. - Tem que ser. Não acredito que o velho tenha um secretário varão em sua casa.
Sua imagem de Hope como cozinheira e dona-de-casa se esfumou para ser substituída pela de uma alta amazona. Uma amazona que não respondia perguntas pessoais e que fazia observações descaradas.
Hope prosseguiu:
- Imagino que, cada vez que lhe apresenta uma oportunidade, o senhor Givens se rodeia de mulheres de pernas largas e saias curtas.
- Você não falou com a senhora Farrell? - Obviamente, ela não tinha visto a senhora Farrell.
- Falei com ela, mas por telefone. Tenho certeza que usa unhas postiças e saltos de agulha. Equivoco-me?
Zack esteve a ponto de engasgar-se. A senhora Farrell tinha umas sobrancelhas muito cheias, um ligeiro bigode e uma língua afiada como uma faca, mas seu instinto travesso lhe fez responder:
- Pois não, não se equivoca.
- Tenho muita intuição com as pessoas - Assegurou-lhe Hope em tom de satisfação. - OH, aqui tenho ao senhor Chelo. Não desligue, por favor.
O senhor Chelo?
Retornou quase imediatamente.
- Aguarda notícias de sua bolsa de estudos, e às vezes necessita que lhe dêem ânimos. Está dotado de um talento tremendo, mas não tem um centavo. Seu pai não aprova suas aspirações, e se não obter bolsas e créditos, terá que esperar outro semestre sem poder fazer nada.
Zack jurou que só tinha entendido uma de cada duas palavras que pronunciou aquela mulher.
- Chama-se Chelo?
- Não, esse é o instrumento que toca. - O tom de Hope transmitia uma alegria impossível. - Ponho apelidos em meus clientes. Aqui está à senhora Siamesa.
- Isso é politicamente incorreto.
- Se estivesse falando de uma mulher, sim. Mas me refiro a seu gato, que não deixa de miar todo o tempo enquanto sua proprietária está ao telefone.
- OH. - Politicamente incorreto? Aquilo era horroroso. Seu trabalho não consistia em saber tanto de seus clientes e, certamente, não consistia em lhe falar com ele deles, embora não tivesse mencionado nenhum nome. Além disso, em nenhum caso, em nenhum, devia lhes emprestar tanta atenção.
- Logo está à pobre senhora Xadrez. Tem um menino pequeno, seu marido foi embora, e ela vive graças à assistência social, porque se procurar um trabalho não poderá pagar a alguém que cuide do bebê e sobreviver.
Zack tentou, mas não conseguia entender.
- Por que chama senhora Xadrez?
- Ela e eu jogamos xadrez por telefone. Está muito sozinha. - A voz do Hope soou triste, como se a que estava sozinha fosse ela. - Assim se entretém.
Zack não saía de seu assombro.
- E como faz o pagamento do serviço de secretária eletrônica?
- Cobramos mais a pessoas como o senhor Givens para compensar com pessoas como ela.
- Isso é ilegal - Falou ele, cortante.
- É ilegal aceitar um caso de beneficência? Não acredito senhor Griswald. - O tom que empregou Hope era tão cortante como o de Zack e muito mais exemplar.
- É ilegal cobrar a uma pessoa mais que a outra pelos serviços que recebe.
- O senhor Givens recebe mais serviços. Eu levo um registro permanente de todas chamadas que recebe e a julgar pelas que recebeu desde que saiu do escritório, são muitas... Para passar-lhe à senhora Farrell quando voltar. Além disso, tenho que levar em conta os compromissos do senhor Givens e lhe recordar amavelmente o encontro que tem com o dentista na terça-feira em uma semana. A senhora Farrell está segura de que ele vai tentar esquecer-se dela de propósito. E também tenho que lhe recordar o concerto de música de câmara ao que vai assistir com sua família na quinta-feira que vem. Logo está o...
Zack fechou os olhos.
- Não é necessário que continue.
Com evidente prazer, Hope disse:
- Além disso, tenho que enviar flores e jóias conforme me ordene o senhor Givens, se lhe surgir a necessidade de seduzir a alguém.
- Deus santo. - A senhora Farrell lhe tinha dado instruções para que fizesse aquilo?
- Alguém tem que se encarregar dos romances desse homem tão importante. Não se pode esperar que os organize sozinho. - Hope estava se burlando dele, de Zack Givens, em suas palavras e em seu tom.
Mas por quê?
- Pelo visto, não tem você muito boa opinião do senhor Givens. Fez algo a você?
- Nada. - Hope soltou uma risada. - É que é rico de nascimento e por educação. Essa classe de pessoas nunca vale muito. No que se referem ao leite da bondade humana, eles são como uma vaca seca.
Zack nunca tinha ouvido ninguém lhe descrever como uma vaca seca e permaneceu mudo durante um longo instante. Então surpreendeu a si mesmo ao perguntar:
- Você é do Texas? - Imediatamente se deu conta de que era o tipo de pergunta que um patrão não pode formular a um empregado. - Sinto muito – Disse. - Foi uma rabugice por minha parte, é obvio não tem por que responder... A menos que deseje fazê-lo.
- Não me importa. - Contudo, Hope parecia precavida, como se mostrasse precavida em revelar muita informação pessoal. - Sim, fui do Texas... Faz muito tempo. Como adivinhou? Pelo acento?
- Não tem muito acento texano, é mais pela falta de acento de Boston. - De algum jeito, alegrou-lhe saber algo pessoal dela. - Isso, e que aqui não falamos de vacas na conversação do dia a dia.
- Tomarei nota.
Zack estava seguro de que assim faria. Suspeitava que Hope evita confiar-se a seus clientes e lhe pareceu extremamente correto. Exceto... Exceto que queria saber mais dela.
Hope decidiu abreviar a conversação.
- Já lhe aborreci o bastante.
Deus, não.
- Não me aborreceu absolutamente.
- Que encantador é você! Leva muito tempo sendo mordomo?
Zack duvidou. Devia lhe dizer a verdade? Hope se sentiria violenta e possivelmente temesse perder seu trabalho.
E aprenderia uma valiosa lição.
A voz do Hope trocou.
- OH, céus. Esse homem o vai esfolar vivo por demorar tanto em recolher suas mensagens e você é muito educado para me dizer que deixe de tagarelar. Espere um momento, tenho-os todos aqui. Posso dar-lhe a você ou lhe enviar uma cópia por fax de todas as conversações, se isso for mais cômodo.
- Não. - Uma cópia por fax? Não, o que Zack desejava era falar todo o tempo possível, e além disso, aquele maldito fax sempre comia o papel. - Não! Dê-me isso .
- Muito bem e se o senhor Givens lhe der bronca, diga-lhe que me chame, e eu deixarei bem claro que a culpa é minha por lhe haver entretido.
- Não. De verdade. Não se importará. - Zack procurou retificar. - Em realidade é um chefe estupendo.
- Você é um empregado muito leal - Respondeu ela afetuosamente. - Bom, vou passar as mensagens.
Zack se rendeu. Se Hope insistia em pensar que era um velho miserável, quem era ele para corrigi-la?
- Já tenho papel e lápis.
Utilizando o tom profissional do princípio da conversação Hope leu:
- Tia Cecily recorda ao senhor Givens que é um pirralho ingrato e quer que vá jantar com ela amanhã de noite. E que leve o martelo: sua tia necessita que pendure um quadro.
- OH, não. - Os quadros de tia Cecily eram sempre enormes, com o pontos complicados e requeriam vários tentativas antes de ficar pendurados a sua inteira satisfação. - Vai ter que contratar a alguém.
- Para que vá jantar com ela? - Hope não aguardou a resposta. - Chamou sua irmã Joanna de Washington para dizer que o congressista Nottingham lhe atirou as telhas, o qual a converte oficialmente em parte do Senado.
- Você quis dizer se tem se obsecado com ele?
Hope riu, foi uma risada larga, grave e ofegante, que fez com que arrepiasse o pêlo da nuca e se sentisse o tipo mais engenhoso de toda Boston.
- Não, não disse. - Teria feito?
- Esta noite comprovarei os dados - Repôs ele.
- Robyn Bennet tem dito que todas suas amigas opinam que ela e o senhor Givens fazem um casal de sonho, e que estaria encantada de convidá-lo para jantar em sua casa logo que possível.
- Comprará comida para levar e fingirá que foi feito por ela - Comentou Zack cinicamente.
- Fez o convite entre ofegos. Acredito que isso indica desejo... Ou que é uma imitadora da Marilyn Monroe.
Zack sorriu. Robyn sempre falava como se estivesse experimentando um orgasmo.
- Colin Baxter quer saber por que chegou a notícia de que seus acionistas foram chamados para lhes dizer como devem votar, filho de puta e que melhor será que o senhor Givens o chame em seguida.
Zack elevou as sobrancelhas ao escutar recitar em um tom tão direto o insulto do Baxter e esperou que Hope pudesse agüentar algum outro, porque não tinha a menor intenção de devolver a chamada ao Baxter. Já era muito tarde.
Hope leu outra meia dúzia de mensagens, nenhum deles de particular importância, mas parecia estar segura de todos seus dados e Zack perguntou se não teria se precipitado ao julgá-la. Ao fim e ao cabo, sim parecia uma pessoa eficiente. E a conversa, embora lhe exaspere, não tinha modificado sua opinião a respeito de sua voz. De verdade, era voz de mulher mais sexy que tinha ouvido.
- Já não há mais mensagens, senhor Griswald - Terminou Hope arrastando as palavras, lambendo cada sílaba como se esta fosse um caramelo.
Zack fechou os olhos escutando, e imaginou a sensação que lhe produziria aquela língua deslizando-se ao longo de seu pênis... De repente abriu os olhos.
Isso era... Tornou-se louco. Estava imaginando sexo oral com uma mulher a que não conhecia e que provavelmente lhe dobrava a idade, triplicava-lhe o peso e lhe quadruplicava o pêlo facial.
- Obrigado pelas mensagens. - Tomou nota de chamar o Robyn e marcar um encontro para o dia seguinte. Não, um momento, o dia seguinte tinha que pendurar um quadro. Mas a noite seguinte a essa, sem dúvida. Estava claro que necessitava um alívio - Isto... Hope.
- Sim?
Acomodou o auricular entre a orelha e o ombro.
- Quando trabalha manhã?
- Das doze às nove.
- Chamarei-a nesse intervalo.
Ela titubeou como se não estivesse segura de como reagir. Por fim, disse timidamente:
- Estarei lhe esperando.
Capítulo 3
O senhor Griswald desligou e Hope ficou sentada em frente a central telefônica ultrapassada com suas luzes e seus pinos, com uma sensação de assombro. Gostava daquele homem, e muito. Com sua seca entonação de Boston e sua lealdade para com seu chefe, parecia ser um homem atraente. Sem dar-se conta, perguntou-se que idade teria e como seria fisicamente.
Mas em seguida repreendeu a si mesma, porque na realidade não importava. Entre as aulas, os estudos e o trabalho apenas sobravam tempo para respirar e muito menos podia envolver-se com alguém... Para grande desgosto de Madame Nainci. Mesmo assim, era agradável falar com um homem que não tinha contado imediatamente todos os seus problemas.
Fez uma careta e ajustou o fone.
Todo mundo lhe contava seus problemas. Era evidente que tinha algum defeito em seu caráter.
Naquele momento entrou Madame Nainci acompanhada de uma rajada de ar frio e perguntou:
- Quem era? - Arrastando franjas a seu passo e deixando atrás de si o ratro de um entristecedor aroma de perfume Giorgio, Madame Nainci roçou sua bochecha com a de Hope e seguiu falando sem esperar resposta. - Está nevando, está lindo aí fora, deveria faltar às aulas e ficar para jantar, é uma loucura sair com a neve que está caindo.
Madame Nainci era a proprietária do serviço de secretária eletrônica, sempre tinha sido a proprietária e vivia com ele dia e noite em seu apartamento-escritório situado em um porão da Jamaica Plain, um bairro miscigenado do centro da cidade, formado por gente de raças e orientações sexuais diversas. Seu marcado acento do leste europeu a fazia parecer uma espiã russa dos desenhos animados e, embora se negasse a reconhecer sua idade, Hope achava que ela devia ter uns sessenta. Tinha sessenta e lutava rigidamente para parecer uma mulher de trinta. Ia envolta em uma capa de imitação de pele e brilhava sobre os ombros um lenço de seda com desenhos dourados e negros. Levava unhas postiças decoradas com motivos parecidos com teclas de piano, pássaros ou montanhas diminutas, e brincos nas orelhas em forma de moedas pendentes.
Hope a adorava.
- Esta tarde não posso faltar à aula - Disse Hope. - Surgiu um problema com os gráficos e necessito que Shelley Drawater me ajude.
Madame Nainci tirou o caríssimo chapéu de cor rosa forte, foi até o espelho e arrumou o cabelo loiro, de mechas recém pintadas.
- É sua professora?
- É uma das alunas. O professor não é precisamente bom nos gráficos.
Aquele era o problema de estudar em um centro de educação terciária. Os professores não só não eram peritos, mas também, freqüentemente nem sequer eram professores de verdade. Os equipamentos eram antiquados e os horários eram impossíveis. Mas os sonhos de juventude de Hope tinham morrido em uma solitária estrada do Texas no verão em que completou dezesseis anos e, em sua dor e seu atordoamento, tinha passado de ser a garota mais inteligente e mais popular da escola a sofrer um solitário exílio em uma cidade desconhecida. Agora lutava por dar a si mesma as oportunidades que em outro tempo, tinha acreditado ter tão seguras, e às vezes, só às vezes, parecia-lhe que possivelmente teria êxito em seu empenho.
Madame Nainci a tinha ajudado, lhe proporcionando um trabalho quando carecia de experiência e carinho maternal quando seu mundo se voltou muito duro e solitário.
Madame Nainci apoiou as mãos nos quadris e disse:
- A neve se está acumulando nas ruas, os carros patinam, os ônibus ficam bloqueados. Pode ser que em sua escola as aulas sejam suspensas. Você já pensou nisso?
- Em tal caso, ficarei aqui - replicou Hope, concordando.
Madame Nainci odiava a aula que Hope ia na sexta-feira e procurava sabotá-la, embora Hope fizesse todo o possível para agradar a sua chefa, naquele ponto era inflexível. Não pensava em perder as aulas que lhe permitiriam entrar na Universidade de Boston. Obteria um certificado em ciências informáticas. Conseguiria um trabalho muito bem pago, nesse campo tão rentável. E se até agora ainda seguia sem saber nada de sua família... Bem, nesse caso poderia permitir-se contratar a um detetive particular que a procurasse. Em algum lugar se encontravam suas irmãs: Pepper, agora, já adolescente; Caitlin, de oito anos, e seu irmão adotivo, Gabriel. Já eram sete longos anos separados. Nenhum dos telefonemas aos serviços de assistência à família tinha resultado em alguma informação, e seus antigos vizinhos desligavam o telefone. E embora a dor de ter perdido seus irmãos tenha diminuído, sua determinação em encontrá-los não, havia de fato aumentado. Não se permitia titubear; aquilo era o que ia fazer e as aulas requeriam toda sua concentração, toda sua inteligência e consumiam quase todo o seu tempo.
- Liga. Liga para a escola! - Madame Nainci a empurrou para o telefone.
Mas naquele momento soou o telefone. Hope observou a identificação de quem chamava e respondeu imediatamente.
- Como está, doutora Curtis?
A Dra. Curtis e seu carro tinham derrapado e batido contra um montão de neve... Outra vez. Hope procurou o número do guincho e lhe disse que voltasse a chamá-la quando tivesse chegado a casa.
O serviço de secretária eletrônica tinha quarenta e sete assinantes e parecia que todos tinham sofrido algum percalço relacionado com a nevada. O padre Becket tinha duas dúzias de refugiados que necessitavam mantas no centro de acolhida episcopal. Hope encontrou perto dali umas lojas de departamentos que se mostraram dispostas a doar as mantas, e arrumou tudo para que fossem entregues ao padre Becket... Com a esperança de que pudessem chegar. O senhor Shepard estava preso no escritório, sua esposa se encontrava sozinha em casa esperando a chegada de um bebê a qualquer momento. Hope conseguiu que uma vizinha fosse ficar com ela e prometeu chamar todos os dias para ver como estava até que nascesse o bebê. E quanto à senhora Monahan, não desconectou até saber que se achava a salvo no interior de seu domicílio.
Ouviu um estrondo de panelas, sinal da confusão de Madame Nainci em sua minúscula cozinha, em menos de quinze minutos começou a flutuar no ar um aroma de cordeiro com alho.
A cozinha estava fora de moda, tanto como o posto telefônico, com uma fila de acendedores de gás que tinham uns cinqüenta anos, mas que se negavam a perecer, uma geladeira de sessenta anos com a superfície superior inclinada e um congelador muito pequeno, uma pia branca descascada e a bancada de fórmica cor laranja. No pequeno banheiro não se desperdiçou nem um só centímetro quadrado, pois nele se apinhavam uma privada, uma pia e uma banheira, no espaço que ocuparia um armário.
Em seu dormitório e sala de estar, Madame Nainci tinha decorado tudo com um excesso de franjas, empregando guardanapos com franjas arroxeadas e ouro para cobrir os lugares mais desgastados do sofá e da poltrona, cobrindo o linóleo com um grande tapete de flores e franjas, adornando as altas janelas que davam para a calçada com cortinas de franjas douradas. A mesa de fundo, acompanhada de um abajur de pé ficaria bem em uma loja de antiguidades, e o tabuleiro de xadrez se encontrava em cima da mesinha de centro. A mesa onde estava instalado o posto telefônico era de cartão, recoberta de fórmica. A mesa de jantar se encontrava entre a cozinha e o posto telefônico, para que Madame Nainci pudesse levantar-se de um salto quando o telefone tocasse durante as refeições, como indevidamente ocorria.
Em troca, apesar de toda a sua pequenez e ar boêmio, aquele lugar tinha absorvido a personalidade de Madame Nainci e exalava calor e bondade, e ali Hope se sentia em casa, coisa que jamais lhe ocorria em seu deserto apartamento.
Depois de fazer um par de chamadas mais e de inteirar-se de que as aulas, com efeito, foram suspensas, foi até a cozinha e separou de lado a cortina de flores rosa.
- Sarah não pode trabalhar hoje. Ficou presa na casa de seu namorado.
Madame Nainci estalou a língua.
- E o que está fazendo lá? Faz bem o serviço de secretária eletrônica, não tão bem como você, mas bem de todos os modos, e passa o tempo fazendo o que com esse inútil fruteiro?
Hope não desejava meter-se em um debate sobre a moralidade de Sarah. Sarah era uma boa amiga, só dois anos mais velha que ela, e tinha um saudável apetite pelos homens. Levava muito a sério suas responsabilidades por ser a mais velha. Sob a tutela de Sarah, Hope comprava em lojas de segunda mão roupa barata e bonita, e aprendeu que um pingo de extrato de baunilha funcionava como substituto do perfume. Sarah dedicava algum tempo para ir com Hope de vez em quando ver filmes de um dólar, e falava com assombrosa franqueza dos homens, do sexo e das relações. E como boa amiga que era não lhe importava trabalhar em um horário diferente para adaptar-se às aulas de Hope.
- Se ficar, eu terei que estudar depois de jantar.
- Sim! É obvio. - Madame Nainci lhe beliscou a bochecha. - Só desejo o melhor para ti, Hope.
«E seu divórcio é definitivo, e está sozinha», pensou a jovem. - Já sei.
Era o segundo divórcio de Madame Nainci desde que Hope tinha começado a trabalhar para ela três anos antes, o sexto que ela reconhecia.
- Você terminou o trabalho que te encomendaram? - Perguntou-lhe Madame Nainci.
- Sim, criei uma nova página na Web para a tinturaria, e já me pagaram. - Hope sorriu com afeto para a sua chefa, que estava acostumada a lhe trazer trabalhos, cada vez que podia em seu tempo livre, trabalhos que contribuíam com uns apreciados dólares extras. - Obrigado por me falar deles. Ganhei um bom dinheiro.
- Já te encontrarei outro trabalho. Nada muito difícil, mas que resulte em um bom dinheirinho.
- Seria estupendo.
Madame Nainci não queria que Hope se desse conta, mas a observava atentamente enquanto agarrava os pratos e os colocava sobre a mesa. Hope era uma boa garota, uma garota agradável, e alguém a tinha educado para ser servil sempre que pudesse. E Hope era servil. Ajudava a todo mundo. Todos os assinantes a adoravam e se alguma vez chegassem a vê-la a adorariam ainda mais.
Porque Hope era bonita, quase mais bonita do que tinha sido Madame Nainci em sua juventude e Madame Nainci tinha sido de tirar o fôlego. Mas Hope... O primeiro que se notava eram seus olhos. Grandes e azuis como duas turquesas polidas, dominavam todo seu rosto. Um rosto notável, na verdade: magro, com o queixo apontado, bochechas suaves, nariz arrebitado e lábios bonitos. Um pouco grandes, mas bem formados. Se alguma vez usasse lápis labial!
Madame Nainci se aproximou da mesa com gesto de mau humor e ficou, com as mãos nos quadris, olhando como Hope ia dobrando os guardanapos e colocando os pratos com primor.
- Por que não quer usar maquiagem? Como espera encontrar um homem se não faz nenhum esforço para te pôr bonita para ele?
Hope pousou aqueles grandes olhos azuis em Madame Nainci, uns olhos que faiscavam divertidos.
- O homem adequado para mim verá além de minha roupa puída e minha cara lavada, e me quererá por minha inteligência.
Madame Nainci soltou um suspiro.
- Existe uma razão para que os homens gostem mais das garotas bonitas do que das inteligentes. Os homens vêem melhor do que pensam. - Voltou com ar ofendido para sua panela, removeu o cordeiro e retornou à mesa. - E também o seu cabelo. Sempre o leva em um rabo de cavalo. E usa sempre estas presilhas. Você mesma corta as pontas, e com isso o deixa desigual.
Hope deu de ombros. - Minhas tesouras não são as melhores.
- Se você deixasse o cabelo solto, veria que é comprido e ondulado, e de uma cor muito bonita. Os homens gostariam.
- É castanho - Replicou Hope em tom prosaico. - E quando o levo solto, me incomoda no rosto. Há algo para fazer salada? Eu preparo.
- Na geladeira.
Mesmo sem maquiagem e com o cabelo preso na nuca, Hope era atraente para as pessoas de um modo que, fazia com que as mulheres desejassem falar com ela, e os homens, a levar para cama.
Hope falava com todo mundo. Não tinha ido para cama com ninguém... E, na opinião de Madame Nainci, não havia feito nunca.
Hope estava muito magra. Madame Nainci sempre tentava fazê-la engordar, mas que se podia esperar dela, quando passava todo o tempo inclinada sobre seus livros, estudando como se sua vida dependesse disso? Todo o dinheiro que ganhava destinava a pagar as aulas e mais aulas, e em troca vivia em um apartamento de um só quarto, cheio de baratas no Mission Hill. Madame Nainci se estremecia ao imaginá-la caminhando pelas ruas à noite, depois das aulas. Tinha tentado convencê-la a se mudar e a viver em seu porão, mas Hope se negou totalmente. Disse que não queria interferir na vida dela. Disse que nunca ninguém a tinha incomodado na rua.
E era certo. Era quase como se cuidassem dela os próprios anjos. Deus sabia que todas as noites Madame Nainci rezava ao Todo-poderoso para que não deixasse de vigiá-la.
Madame Nainci opinava que Hope tinha levantado um muro entre ela e o mundo, e que não permitia que ninguém o transpassasse. Com efeito, jamais compartilhava alguma informação sobre sua infância, por mais habilidosa que fosse Madame Nainci em seus interrogatórios. A única coisa que sabia de seu passado era que seus pais tinham morrido e que tinha vivido um tempo em um orfanato situado não muito longe dali. E nas contadas ocasiões em que Hope se viu retida pela neve e ficou para dormir com ela, despertou gritando por causa de um pesadelo.
Sim, em alguma parte, em algum momento, tinha acontecido algo terrível com Hope.
Madame Nainci acrescentou ao guisado cogumelos com generosidade e a seguir jogou também uma lata de creme de aipo.
Em Hope, Madame Nainci via um espírito relacionado com o dela, porque a expressão de seus belos olhos era de velhice, tristeza e solidão. Ela era uma exilada de sua terra e de algum modo adivinhava que Hope também era.
Então comentou:
- Hoje conheci a um jovem muito agradável.
Hope voltou o rosto para a cozinha com expressão satisfeita.
- Estupendo! Deveria voltar a sair.
- Não, para ti!
Hope respondeu com um grunhido abafado. Madame Nainci sempre andava a busca de homens para ela, e cada vez que encontrava um, Hope tinha garantidos uns quantos minutos temíveis.
- Sou capaz de encontrar homens, sozinha - Disse.
- Mas não o faz. - Madame Nainci cravou nela seus olhos cinza, ligeiramente saltados. - Deveria pensar em seu futuro.
- Eu já penso em meu futuro. E nele não necessito um homem.
- Não sabe o que significa a solidão.
«Sim, eu sei.» Mas Hope não disse nada e se limitou a escorrer o macarrão.
- Pelo menos você não é uma dessas que... Já sabe... Fazem-no com um homem antes de casar-se.
Hope sabia, com efeito, e lhe custou um pouco reprimir um largo sorriso.
- Todas as minhas amigas têm feito... Já sabe o que... E dizem que não merece a pena o esforço.
Madame Nainci endireitou seus largos ombros e declarou:
- Então é que não estão fazendo com a pessoa adequada!
Hope pôs-se a rir.
Ofendida, Madame Nainci adicionou:
- Dado que não tem família, deveria confiar em mim. Digo estas coisas, sinceramente, para seu bem.
Depois de várias tentativas inúteis, Hope conseguiu dominar a risada.
- Sim, Madame Nainci.
- É o matrimônio que converte isso... Já sabe o que... Em uma experiência maravilhosa. Quando se está casada, não é uma experiência precipitada, de <<aqui te pego, aqui te mato>>.
Hope soltou outra gargalhada.
Madame Nainci se apoiou na pia e aguardou que Hope deixasse de rir.
- Recorda o que eu sempre digo. - Agitou um dedo de grossos nódulos e acrescentou: - Primeiro o anel, logo o resto. Você é uma garota virtuosa. Já sabe.
- Sou uma garota cansada. Não tenho tempo para me entreter com o anel nem com o resto.
- O que me leva ao senhor Jones.
Hope falou devagar e claro:
- Não tenho tempo para sair com ninguém; o último homem que me apresentou tinha sessenta e dois anos e era tão largo como alto.
- Não lhe sobravam tantos quilos.
- Exato. - E ele chegava ao queixo de Hope.
Madame Nainci examinou a figura desengonçada de Hope.
- Você é alta.
- Já sabia antes de combinar o encontro.
- E tem as pernas longas. - Madame Nainci repartiu o macarrão em duas porções e derrubou sobre elas o guisado.
- Uma dificuldade na hora de comprar jeans.
- Mas tem a cintura fina. E bons peitos. Deveria aumentá-los mais.
Hope levou os pratos fumegantes até a mesa.
- Meu limite está em dois.
Madame Nainci franziu o cenho esforçando-se para entendê-la e depois o franziu ainda mais.
- Você ri, mas este encontro é com um homem jovem. - Tomou assento e esperou que Hope atendesse ao telefone.
Era a senhora Xadrez, que disse:
- Cavalo ao bispo seis.
- Muito bem. Já voltarei para chamá-la.
Hope foi até o tabuleiro de xadrez, efetuou o movimento, e continuando, retornou à mesa de jantar.
Madame Nainci continuou como se nada as tivesse interrompido.
- Tem trabalho. Tem casa. Tem um gato.
- Não.
A maçã que Hope tinha comido como café da manhã tinha desaparecido fazia tempo, e a comida estava estupenda.
- O que? A menos que não tenha onde viver ou esteja desesperado, não quer lhe dar uma oportunidade? - Madame Nainci assinalou o posto telefônico agitando a mão. – O único que têm de fazer todos os nossos assinantes é te contar seus problemas, e você se interessa por eles. E todos têm problemas.
- Não me importa. Não tenho tempo para encontros.
Madame Nainci se pôs a comer com vontade.
- Deveria sair com o Jake. Jake Jones. É muito bonito, cabelo escuro, pele azeitonada, um pouco mais jovem que você talvez, e tem um negócio próprio: fabrica coisas para as companhias navais.
- Coisas?
Madame Nainci deu de ombros com gesto expressivo, ao tempo que terminava seu jantar.
- Explicou-me isso, mas não entendi. De todos os modos, penso insistir até que concorde em sair com ele.
Hope deixou cair a colher sobre sua tigela vazia, subitamente assaltada por uma inspiração.
- De acordo! Vou dizer lhe a verdade. Tenho um encontro para o sábado que vem. - Procurou no mais recôndito de seu cérebro e triunfante, deu com um nome que Madame Nainci não conhecia. - Vou sair com o senhor Griswald.
- O senhor Griswald? - Madame Nainci se mostrou claramente suspicaz. - Quem é o senhor Griswald?
- O mordomo do senhor Givens. Hoje estive falando com ele, e parece tão... -Levantou-se e retirou os pratos da mesa. - É gracioso, sabe? Um pouco sério a princípio, mas acredito que talvez pudesse me ajudar a procurar um andador de segunda mão para a senhora Monahan.
Madame Nainci a seguiu até a cozinha.
- Esse tal senhor Griswald, lhe propôs um encontro na primeira vez que falou contigo?
- Assim é. - Hope teve muito cuidado de não olhar a sua chefa aos olhos.
- E você aceitou?
- Eu gostei - Respondeu Hope simplesmente.
Algo devia haver em seu sorriso que convenceu Madame Nainci.
- Não viu esse homem. Poderia ser um monstro.
- Ou um demônio com rabo, mas o aspecto físico não tem importância. - Hope encheu a pia de água e sabão e começou a lavar os pratos. - Em um mundo perfeito.
Sempre insistente, Madame Nainci disse:
- Então, se ele for horroroso, sairá com meu senhor Jones?
Hope se rendeu por fim.
- Se ele for horroroso, sairei com seu senhor Jones.
Mas não seria horroroso, porque não tinha tempo para um encontro de verdade, porque nunca chegaria a conhecer senhor Griswald e porque inventaria uma descrição dele que deixasse satisfeita até Madame Nainci. Embora na realidade, não gostasse muito de mentir, já que, fosse onde fosse e fizesse o que fizesse, sempre tinha sido e seria eternamente a filha do pregador.
Capítulo 4
Na noite seguinte, Zack se separou da mesa de jantar e acariciou o estômago cheio.
- Um jantar maravilhoso, como sempre, tia Cecily. Como está o quadril?
Tia Cecily zombou dele com um sorriso irônico.
- O quadril está muito bem. Como está a Gladys?
Era a resposta que ele esperava. Tia Cecily não falava de sua saúde e detestava as pessoas que tentavam lhe surrupiar detalhes. Ele o fazia para satisfazer o pedido de sua mãe - «já sabe que Cecily só quer o melhor para você, querido, vá ver como ela está » - Que no final, resultou um tanto difícil.
- Mamãe está bem – Ele respondeu.
Mas com a tia Cecily tudo se fazia complicado. A não ser que você se fixasse em seus dedos, magros e curvados, ou em seu eterno andador, não se daria conta de que se encontrava na reta final dos cinqüenta e sofria de artrite reumatóide desde os trinta e um anos. Seu cabelo, de um branco desafiante, apresentava um corte com as pontas para fora que lhe dava o aspecto de um pássaro inquisitivo e com crista. Havia feito uns retoques, graças à cirurgia plástica, que tinham ressaltado a expressão travessa de seus olhos, tal como ela dizia: «Já que iam me deixar fora de combate para substituir uma articulação importante de meu corpo, bem poderiam me reconstruir a cara ao mesmo tempo». Usava roupa da moda para vestir sua esbelta figura, a qual mantinha assim graças a um religioso regime de exercícios.
Tocou a campainha situada junto a seu prato, e o Adonis de trinta anos que era seu treinador pessoal, mordomo, cozinheiro e lacaio, apareceu na porta e permaneceu ali em silêncio, aguardando suas instruções,
- Sven, estava tudo delicioso. Meu sobrinho acaba de me dizer o muito que gostou. Você se importaria de levar os pratos, por favor? E nos traga uma taça de vinho do porto.
Sven afirmou com a cabeça e retirou a mesa.
Zack observou como desaparecia pela porta de vaivém no interior da cozinha.
- Ele fala alguma vez?
- Todo o tempo. Sempre que faço exercício na máquina de subir escadas. - Adotou um tom mais grave e utilizou um acento sueco para lhe imitar: - «Você pode, Cecily. Você é forte, Cecily. "Só cinco minutos mais, Cecily.» Odeio-o. Odeio a ele.
Zack assentiu. Já tinha ouvido isso antes.
- Despeça-o.
- Jamais poderia encontrar outro treinador que cozinhe como ele. - Naquele momento Sven retornou e ela o contemplou com ar melancólico. - E, além disso, tem um traseiro estupendo.
Sven não fez caso do comentário enquanto servia o vinho do porto.
- Ah. De maneira que você se vale de seu traseiro como um incentivo. - Zack aceitou a taça com uma palavra de cortesia. - Além disso, sei perfeitamente bem que você não é capaz de relaxar nem um só dia.
- O exercício é o único que me mantém em movimento. - Os olhos do Cecily apresentaram um brilho resistente. - O dia que o deixar de fazer, será o dia de minha morte.
- Eu acredito - Respondeu Zack. Bem, como podia fazer para lhe surrupiar informação a respeito de sua saúde? - De repente, teve uma inspiração. - O certo é que conheço uma pessoa que necessita um quadril novo e queria me inteirar um pouco a respeito.
- Você conhece uma pessoa? E daí? Porque você se importa?
- Não pode pagar uma prótese...
- Você conhece uma pessoa que não pode pagar algo?
Zack tentou ser paciente.
- Não é que a conheça na realidade. Falaram-me dela. Através de meu serviço de secretária eletrônica.
Tia Cecily se recostou em sua poltrona do estilo espanhol de Frank Lloyd Wright e sorriu de orelha a orelha.
- Não estranho nada que você tenha um serviço de secretária eletrônica. Mas ainda não ficou claro como é que conhece, através desse serviço, a uma pessoa que não pode pagar uma operação de quadril.
- A mulher que responde ao meu telefone também responde ao da mulher que necessita da operação de quadril, e foi ela quem me falou dessa pessoa.
Aquilo resultava incrivelmente difícil de seguir, mas, é obvio, tia Cecily atacou diretamente ao ponto que ele menos desejava ressaltar.
- Há uma moça no serviço de secretária eletrônica.
- Não sei se é jovem, mas em efeito é uma mulher e pelo visto quer que eu a ajude a procurar um andador de segunda mão.
Os olhos de tia Cecily, tão escuros e enigmáticos como os seus, se entrecerraram.
- Está fazendo um favor a uma mulher que jamais viu?
Sua incredulidade irritou Zack.
- Eu não disse que estava fazendo um favor a ninguém. Disse que quero saber como está seu quadril, para assim poder tranqüilizá-la em relação à operação.
- A jovem do serviço de secretária eletrônica ou a sua cliente?
Tia Cecily estava tomada por um alto grau de suspeita.
- As duas.
Tia Cecily deve ter captado algo em sua expressão que a satisfez, porque disse a seguir:
- Acabo de comprar um andador novo. O velho ainda está em bom estado, poderia ser usado por essa paciente. Diga-me onde, e eu mesma o farei chegar.
Zack não se inteirou de nada absolutamente em relação à saúde de sua tia.
- Ao serviço de secretária eletrônica de Madame Nainci.
Tia Cecily começou a sorrir de novo. Aquela noite estava muito jovial.
- Então você se apaixonou por uma tal Madame Nainci?
O que era o que havia dito Jason? «Peneire suas frases amáveis como se fosse ouro, e terá a verdadeira mesquinharia.» Contudo, estava divertindo a sua tia, isso era bom, porque ela formava parte da família.
- Não estou apaixonado por ninguém - Respondeu com suavidade.
- Pois é uma lástima. A pessoa que seja capaz de conseguir que você se interesse por seu próximo, é justamente a classe de mulher que quero para ti. Não como essa Robyn Bennett, que é tão superficial que se afogaria em uma piscina para bebês. Deveria fazer mais obras de caridade.
Zack já a tinha ouvido antes.
- Como quais?
- Como essas das que ninguém se inteira e das que a única coisa que se recebe em troca é sentir-se bem.
- Eu faço muitíssimas obras de caridade.
- Doar um cheque com uma grande soma de dinheiro a uma opulenta instituição de arrecadação de fundos, não é fazer uma obra de caridade, é uma maneira de sossegar sua consciência e ao mesmo tempo deduzir impostos. Não chegará a compreender o que é uma necessidade real a menos que saia às ruas para sentir como cheira a vida.
- Eu já sinto o cheiro da vida quando cruzo a rua para evitar aos bêbados.
- Fala igualzinho ao seu pai. E como o meu.
- Meu pai era um bom homem. O avô era... - Zack se esforçou por procurar algo positivo que dizer a respeito daquele ancião de rosto severo que pouco recordava, e acrescentou: - Um triunfador.
Tia Cecily não fez conta.
- Também os bêbados necessitam ajuda. Se sua sensibilidade é muito delicada para eles, há pessoas que trabalham em um supermercado, têm dois filhos e não ganham o suficiente para sobreviver, mas sim o bastante para não ter direito à ajuda do Estado. Muitas vezes são mulheres. Não te faria nenhum dano ser cavalheiresco de vez em quando.
Zack ficou olhando para sua tia com os olhos apertados.
- Sabe?Para uma velhinha, você é mais irritante que um grão no traseiro.
- Alguém tem que ser um grão no traseiro para você. Está tão cheio de si mesmo que resulta quase repulsivo.
- Não estou cheio de mim mesmo. - Pelo menos, Jason não o tinha acusado daquilo.
- Tem razão, não é a palavra correta. Independente o é. A mulher que se case contigo terá que contentar-se em estar casada com um homem encerrado em uma carapaça tão dura que jamais poderá espionar o que há em seu interior. - Tia Cecily lhe acariciou o braço. – E isso, querido, de vez em quando dá o que pensar.
- A mulher que se case comigo ficará contente, e ponto.
- Hum. Sim, isso eu ouvi.
Em um tom suave que não pressagiava nada bom, Zack inquiriu:
- E se pode saber de onde você ouviu?
- Nos banheiros públicos.
Com aquilo ele decidiu fazer uma limpeza em sua agenda e eliminar a todos os fofoqueiros.
- Estava escrito na parede?
- Fofocas femininas. E bem, me fale dessa jovem do serviço de secretária eletrônica.
Tia Cecily era igual a um cão com um osso. Não pensava deixá-lo em paz.
- Já lhe disse que não a conheço pessoalmente, não sei se é jovem ou velha. Só falei com ela três vezes.
- Três vezes, e já está informado de quais são seus outros clientes? - Tia Cecily franziu o cenho. - Não gosto de gente que acredita que pode aproveitar-se de você porque é Zachariah Givens.
- Ela não é assim.
Tia Cecily sacudiu a cabeça em um gesto negativo, como se não pudesse acreditar o que estava ouvindo.
- É obvio que sim. Tem que sê-lo.
- Ela não sabe que eu sou Zachariah Givens, acredita que sou Griswald. - Zack desfrutou de um momento glorioso vendo sua tia sem fala e Sven pareceu divertido.
Mas foi um momento breve.
- Griswald? - Elevou o tom de voz. - Por que ela acredita que é Griswald?
- Porque ela pensa que Zack Givens é muito esnobe para chamar e recolher ele mesmo suas mensagens. - Sorriu para sua taça de vinho do porto com expressão de desagrado. - Não tem muito boa opinião dos ricos.
- Nem eu tampouco. Em conjunto, somos uma turma de brutos mal educados e insensíveis, mas você... Você não é um esnobe. - Sven pôs perto de sua mão uma bola pequena e macia. Ela a observou com aprovação e começou a espremê-la. - Você trata a todo mundo com a mesma indiferença.
Na mente do Zack ressonou a acusação de Jason. «Bode sem sentimentos.» Inclinou-se sobre a mesa, tomou à mão livre de tia Cecily, separou-lhe os retorcidos dedos e começou a massageá-los.
- Sou assim de verdade?
- Bom, comigo não - Ela admitiu - Mas daria um montão de dinheiro para vê-lo totalmente caído por uma mulher.
- E eu daria o mesmo para ver-te totalmente penetrada por um homem. - Tia Cecily esboçou um sorriso.
Esse gesto, e o silêncio, incitaram a Zack, perguntar:
- O que acontece, tia Cecily, você tem um romance?
- Na minha idade? E no meu estado? Que tolice. - Escapou da mão de seu sobrinho e começou a fazer girar o pé de sua taça. - Não sabia que ainda funcionassem os serviços de secretária eletrônica.
Estava claro que o deixaria com a curiosidade.
- Deve ser o único que sobra. A jovem que responde ao telefone se chama Hope¹.
- Um nome muito adequado. Acreditava que você não soubesse se ela era uma moça.
Se ela sabia ser enigmática, ele também.
- E não sei. - Levantou-se do seu assento. - Onde está o quadro que você quer que eu pendure?
- No salão. Por que não perguntou que idade tem?
- Porque as mulheres de certa idade sentem aversão a revelar essa informação. -Inclinou-se para olhar a sua tia nos olhos. - Não é isso, tia Cecily?
- Descarado. – Deu-lhe um soco na testa, o bastante forte para lhe deixar uma marca. - Pode dizer a sua mãe que a reabilitação foi um inferno, mas que o quadril novo é muito melhor que o velho.
Mais agradecido agora, Zack disse:
- Obrigado.
Tia Cecily colocou o andador em frente a si e se levantou lentamente.
Zack aguardou, pois sabia muito bem que ela preferia arrumar-se só e lhe repreenderia se ele se oferecesse para ajudá-la.
Quando já estava em posição e começou a andar em direção ao salão, tia Cecily comentou:
- Em realidade, são dois quadros.
Zack ficou ao seu lado.
- Dois quadros muito grandes?
- Não, querido, desta vez são pequenos. Vêm, vou te mostrar onde quero pôr.
- O senhor Givens imaginava que dois quadros pequenos fossem mais fáceis de colocar que um grande, mas sua tia teve que ir provando por todas as paredes da sala até terminar decidindo-se pela primeira delas. Por fim, ele teve que fazer sete buracos até ela ficar satisfeita com o lugar eleito.
Hope riu divertida. Griswald tinha tal maneira de contar as coisas, que lhe dava vontade de desconectar a todos outros assinantes e escutá-lo. Só a ele. Além disso, sua voz era bonita, muito de Boston, mas ao mesmo tempo profunda e modulada, tal como devia tê-la um mordomo. Imaginava-o anunciando aos convidados: "O Sr. Mel Gibson - diria. - O honorabilíssimo duque de Earl.» Também imaginou como seria fisicamente: baixo e de pele clara, com uma franja de cabelo branco ao redor de suas grandes orelhas e um nariz tão longo e adunco que seria capaz de intimidar a qualquer um com apenas um olhar. A primeira vez que falou com ele, tinha tentado intimidá-la, mas ela não era fácil de intimidar, e ao cabo de três dias já se abrandou muito.
- O que disse a mãe do senhor Givens sobre o romance de tia Cecily? - Quis saber Hope.
- Disse que não tinha ouvido nada, absolutamente, sobre nenhum tipo de aventura, e que se eu, ou o senhor Givens, descobríssemos que era verdade, o comunicássemos imediatamente. Realmente, não cabia em si pela emoção.
«Não cabia em si.» Hope riu em silêncio. Nunca tinha ouvido ninguém empregar aquela expressão em uma frase, e em troca ele a tinha pronunciado com toda naturalidade. Não se parecia com nenhum de seus assinantes...
- Tem problemas de algum tipo? - Inquiriu.
Um longo silêncio seguiu aquela pergunta e depois uma resposta suave, mas reservada:
- Alguns. Mas nenhum que deseje carregar sobre os ombros de uma operadora telefônica mal paga e com excesso de trabalho.
- Você é muito amável. - Mas não disse a sério. Pela forma com que ele falou, ela teve a sensação de que pensava que era uma parva por preocupar-se. - Não me custa nada escutar.
- E quanto lhe custa preocupar-se? - Replicou Zack com um ligeiro excesso de astúcia.
- Entre o trabalho e as aulas, as acerto para encaixar tudo - Respondeu ela com serenidade.
Naquele momento se abriu a porta da rua e penetrou uma rajada de ar frio que varreu a sala.
- Olá, querida, olhe o que lhe trago - Cantarolou Madame Nainci.
- Desculpe-me - Disse Hope. - Tenho companhia.
- Quem é? - Exigiu Griswald como se tivesse direito de perguntar.
- Minha chefa
E com uma boa dose de prazer, Hope extraiu a cavilha e se voltou para a porta, onde Madame Nainci e um desconhecido estavam tirando os casacos.
Se aquele era o namorado que lhe tinha encontrado Madame Nainci, Hope não queria ter nada que ver com ele. O cocuruto dele chegava à altura do nariz de Hope. Seu elegante traje de cor azul se adaptava como uma luva a sua magra figura. Seu cabelo castanho tinha uma cor escura, sem uma só bolinha de variação no tom, e tinha um bigode da mesma cor que lhe sepultava o lábio superior; estava claro que aquele tipo tomava muito a sério os anúncios da televisão de tinturas para o cabelo. De todos os modos, sobressaíam-lhe as sobrancelhas, algumas ninharias cinza que se retorciam visivelmente por diante de seus olhos cor azul claras.
- Hope, vinha com a esperança de que estivesse aqui. - Madame Nainci assinalou ao homem com um grande gesto empolado. - Este é Stanford Wealaworth. É contador.
O cavalheiro deu um passo a frente e estendeu a mão.
- Então esta é a jovem de quem me falou tão bem. – O senhor Wealaworth tinha uma voz suave e sincera, sem uma gota da magia que tingia a do senhor Griswald. - Você deve ser Hope.
- Encantada de conhecê-lo, senhor Wealaworth. - Hope lhe estreitou a mão e elevou as sobrancelhas em direção à Madame Nainci com expressão interrogante.
- Vai ser um contador muito importante - Afirmou Madame Nainci-. Trabalha para homens muito poderosos, mas aqui no centro os aluguéis estão muito caros, assim vai alugar este espaço do canto para que lhe sirva de escritório. - Assinalou com a mão o canto em sombras onde se erguia orgulhoso o abajur de pé. - E tem uma proposta que te fazer.
- Hope... - O senhor Wealaworth arqueou aquelas sobrancelhas tão espessas. - Posso chamá-la Hope?
Ela afirmou com a cabeça.
- Hope, tal como Madame Nainci indicou tão amavelmente, sou um contador que conseguiu atrair a certo número de clientes importantes. A um em especial, o senhor Janek. Gostaria de tirar partido de meu êxito, mas ainda não disponho do dinheiro necessário para abrir um escritório. - Sentou-se na beira de uma das cadeiras da mesa de jantar de Madame Nainci e se inclinou para frente, com os cotovelos apoiados nos joelhos. – Você compreende?
Hope se perguntou por que um homem de sua idade não tinha alcançado ainda o êxito.
- Deseja ser importante, mas não tem o dinheiro suficiente para parecer importante.
Ele se inclinou para trás.
- Exato! E no mundo da contabilidade, como em todas as partes, a aparência é tudo. De maneira que Madame Nainci vai proporcionar-me... Bom, não, melhor dizendo, vai permitir-me alugar um espaço em seu posto telefônico. - Dedicou um sorriso à aludida.
- Vou preparar o jantar - Anunciou Madame Nainci, e se encaminhou para a cozinha.
- É você muito boa com um homem sozinho - Disse em voz alta o senhor Wealaworth, e logo, em um tom mais baixo, dirigiu-se a Hope: - É uma mulher extraordinária, verdade? Tão bondosa e generosa. Não soube o que fazer quando me chegou um cliente tão importante como o de agora, e ela se apiedou de minha angústia e me acolheu sob sua asa.
Hope sentia simpatia.
- Ela é assim. Sempre adota às almas perdidas. - Então, ao dar-se conta de que possivelmente ele não apreciasse aquela descrição, adicionou apressadamente: - Como eu.
Sem um pingo de mau humor, ele respondeu:
- E como eu. Enfim, como ia dizendo, tendo este lugar como sede para o meu trabalho e o posto telefônico para dar a impressão de que tenho uma secretária, estou imensamente melhor que antes. Mas o que me sugeriu Madame Nainci, e que eu gostaria, é talvez ter uma pessoa que pudesse apresentar como sócia. Se parecesse que tenho um sócio, então sim que todos acreditariam que tenho um negócio grande, e poderia atrair mais clientes, e contratar a outros contadores... Enfim, estou certo que você já captou a idéia.
- Sim... - Hope estudou-o, nada convencida. - Suponho que sim. E onde vai encontrar um sócio?
- Madame Nainci sugeriu que você seja.
A idéia deixou ao Hope deslocada.
- Eu? Eu não sei absolutamente nada de contabilidade.
- Não é necessário que saiba. Necessito uma pessoa que assine contratos e que referende algum outro documento. Você seria uma sócia na sombra.
Parecia muito bonito para ser verdade, e segundo a experiência de Hope, isso queria dizer que em efeito o era.
- E por que a madame Nainci não oferece? Ela mesma faz sua contabilidade, e suponho que entenda disso.
- Já o sugeri, mas me disse para pedir a você. Porque desejo pagar um salário a meu sócio na sombra.
- Um salário. - Hope ficou com a língua travada naquela palavra. - De quanto?
- Quinhentos ao mês.
A avareza fez com que Hope cortasse a respiração.
O senhor Wealaworth levantou uma mão para lhe impedir de dizer algo.
- Já sei que não é muito, mas é tudo o que posso me permitir neste preciso momento. Possivelmente mais adiante possa aumentar a cifra, mas antes tenho que contar com esses outros clientes.
Quinhentos dólares ao mês? Aquilo era mais do que ela se atrevia a sonhar. Com quinhentos dólares ao mês poderia economizar para comprar o último modelo de computador portátil em só quatro meses, e ainda lhe sobraria dinheiro para instalar uma conexão a Internet por cabo em seu apartamento. Com aquilo poderia procurar a sua família cada vez que tivesse um momento livre, em lugar de ter que ir à biblioteca e utilizar seus computadores antiquados. Para o final de ano, talvez tivesse conseguido. Possivelmente os tivesse encontrado a todos. E então, pela primeira vez em sete anos, poderia relaxar-se.
Mas uma precaução duramente adquirida a fez dizer:
- Terei que pensar.
- É claro, é claro. Quererá ver minhas referências. Oxalá as tivesse anteriores aos cinco últimos anos, mas é que não obtive o diploma até que completei os quarenta. Foi uma dura batalha, embora ao final, valeu a pena.
- Eu estou tirando um certificado.
O senhor Wealaworth se fixou nos livros de texto de Hope como se os visse pela primeira vez.
- Cursa estudos superiores? Mas é você muito jovem. Claro, mesmo assim é difícil, verdade?
- Muito difícil. - Hope duvidou um instante e depois explicou: - Penso me especializar em ciências informáticas. Se desejar, eu posso me encarregar da manutenção de seu programa de contabilidade...
- Não! - Em seguida recuperou a compostura. - Quero dizer que não, obrigado. É uma pequena paranóia minha. Não confio em ninguém para introduzir os dados. – Apenas eu. - Ele sorriu. - Trabalhei muito para cometer um engano agora. Estou seguro de que me compreende.
- Claro. - Hope compreendia muito bem suas precauções, e por fim tomou uma decisão. - O agradeço. Aceito o trabalho.
Capítulo 5
A voz de Colin Baxter ressonou no ouvido de Zack.
- Convido-lhe para comprar ações de minha empresa para que possa obter uns quantos lucros a mais, embora Deus saiba que não os necessita absolutamente, e este é o pagamento que recebo? E você está com meus próprios acionistas!
Zack pensou que oxalá soubesse como passar Baxter para o viva-voz, assim a conversa seria menos dolorosa para seu ouvido, se não para sua pressão sangüínea.
- Adquiri as ações de sua empresa me apoiando em supostos falsos. - Falou em tom frio, com voz clara, sem a menor inflexão, igual a cada vez que estava furioso igual ao que fazia sempre que descobria que o tinham traído. - Mentiu em seu relatório anual. Fez com que parecesse que a empresa tinha lucro.
- E assim era.
- Maquiou os resultados.
Zack esfregou a testa. Estava resfriado. Doía-lhe a cabeça e também a garganta. E por que estava escutando a gritaria de Baxter? Tinha deixado mais que claro a Meredith que não pensava atender aquela chamada.
- Vá para o inferno. - Baxter soprava pesadamente ao telefone. - Todo mundo maqueia os resultados.
- Eu, não. – Zack tinha um montão de defeitos, ao menos segundo sua irmã, mas a falta de honradez não era um deles.
- Ah, você não. O maldito santarrão do Zachariah Givens não maquia os resultados. Consegue lucros sem levantar um dedo. Sua empresa é estável e sempre dispõe de efetivo. - O sarcasmo deu passo às choramingações - Bom, nem todos temos uma fortuna que nos cubra as costas, e...
Zack odiava as choramingações.
- Baxter, nós crescemos juntos, recorda? Você nasceu com todo o faqueiro de prata metido na boca.
A voz do Baxter trazia um tom mal-humorado.
- Mas você é mais rico.
Aí residia o problema, como sempre. Dado que um de seus antepassados foi um ladrão no século XIX, todos os Givens que lhe seguiram tinham sido hábeis para ganhar dinheiro. Gente que começava na vida com uma fortuna e a conservava. Todos os amigos que tinha, sabia quão rico ele era e, salvo uns quantos benditos, a maioria deles terminava abandonando-o. As mulheres que conhecia queriam-no pela mesma razão. Qualquer traição era correta. E tudo porque um, Zack, era rico.
Baxter e sua empresa tinham demonstrado isso uma vez mais. A credulidade de Zack e também sua prudência. Talvez tivesse investido na empresa de Baxter apoiando-se na recomendação deste, mas assim que achou uma discrepância no relatório anual, levou a cabo em pessoa uma análise. O bastante para salvar a empresa com uma antiquada absorção que ia deixar Baxter fora do poder.
Era uma lástima que tivesse perdido um pouco mais de fé no gênero humano.
- Ninguém me faz de idiota, Baxter. Não sei por que você acreditou que poderia fazê-lo. - Desligou o telefone e separou os dedos do fone muito devagar. A seguir apertou o botão do intercomunicador para dizer: Meredith venha aqui, por favor.
Meredith apareceu na porta com tanta rapidez que Zack compreendeu que estava esperando que a chamasse. Tremia visivelmente, tinha empalidecido devido à ansiedade.
Zack produzia aquele efeito nas secretárias.
- Não lhe disse que não me passasse chamadas de Colin Baxter?
- Sim, senhor, mas é que ele disse que...
- Não me importa o que disse. Você trabalha para mim.
Meredith continuou a tremer:
- Chamou duas vezes nos três últimos dias.
Ainda irritado pela chamada de Baxter e por sua própria credulidade, Zack respondeu muito sério:
- Não entendo como a senhora Farrell pôde escolhê-la para substituí-la.
Fazendo uso de seu primeiro arranque de caráter, Meredith replicou:
- Senhor Givens, eu sei fazer meu trabalho, e você está sendo...
- Fui pouco claro em minhas instruções?
- Não. - Ela se ergueu e disse com voz fria e clara: - Ia dizer que é teimoso como uma mula. - Plantou sua agenda eletrônica sobre a escrivaninha dele com um sonoro golpe e continuou: - Paga bem, mas não o suficiente para que eu agüente toda esta merda. É você é mal educado, exigente, impaciente, e duvido que nem sequer com instruções passo a passo, você fosse capaz de aprender a servir-se só uma taça de café.
Falando com os dentes apertados, Zack respondeu:
- Não é uma merda esperar que você cumpra corretamente com seu trabalho.
Mas estragou o efeito daquelas palavras ao espirrar três vezes contra seu lenço.
Meredith o contemplou sem um pingo de compaixão.
- Que esteja doente não significa que tenha que descarregar seu mau humor em mim.
Vá, para ser um ratinho tremente, quando perdia os nervos montava uma cena das mais impressionantes.
- Não estou de mau humor porque esteja doente, mas sim por que... - Zack espirrou outra vez, o que estragou de novo o efeito de seu protesto.
- Já sei por que está de mau humor. O senhor Urbano tem razão: você é um malcriado. Procure outra secretária, se puder. Agarre a alguma pobrezinha das auxiliares e torture-a. Eu abandono!
E, elevando a cabeça em um gesto gracioso, Meredith saiu como uma tromba do escritório. Através da porta entreaberta, Zack a viu agarrar seu casaco, vestir o cachecol e pendurar a bolsa.
Recostou-se na poltrona e apoiou a cabeça dolorida na mão. A senhora Farrell não ia estar muito contente com ele.
Extraiu um lenço de papel da caixa que havia sobre a mesa e limpou o nariz. Mas, na realidade, o que esperava ao deixá-lo só com aquela imbecil? Tinha tido uma conversa muito desagradável com Baxter, e se supunha que sua secretária devia lhe proteger das coisas desagradáveis.
Naturalmente a porta exterior de seu escritório se fechou de repente, com tanta força que seus dentes bateram. Agora já não tinha nenhuma secretária. E necessitava algum medicamento para o catarro... Onde os guardaria a senhora Farrell? Odiava estar doente. Nunca ficava doente. Agora tinha um resfriado horroroso, o homem que uma vez considerou um amigo o tinha enganado e já nada lhe importava o mínimo.
De repente, se ergueu em seu assento. Diabos, Jason estaria exultante, porque ele tinha perdido aquela maldita aposta. A não ser que... Tamborilou com os dedos sobre a mesa.
Agarrou o telefone e chamou a recepcionista de plantão. Empregando um tom paciente, disse-lhe:
- Me envie imediatamente uma das auxiliares. - Escutou a pergunta da recepcionista e soltou: - Naturalmente que sou o senhor Givens, quem mais ia usar este telefone? – Desligou o telefone de repente e ficou olhando o ofensivo aparelho com cara de poucos amigos.
Aquilo lhe deixava uma só pessoa a quem chamar. Voltou a marcar de novo.
Respondeu uma inexpressiva voz de mulher.
- Serviço de secretária eletrônica de Madame Nainci. Sou Hope. Como posso lhe ajudar senhor Givens?
- Empregando uma voz real- Grunhiu Zack.
- Griswald? -Tal como ele tinha solicitado, o tom de voz de Hope se tornou doce e quente.
Ao ouvi-la, Zack experimentou aquela sensação de formigamento na nuca, que foi descendo pelas costas até chegar ao lugar onde mais prazer lhe produzia. Hope estava perdendo tempo trabalhando em um serviço de secretária eletrônica; deveria trabalhar em um telefone erótico por vinte e cinco dólares o minuto. E Deus sabia que ele o pagaria com gosto. Embora jamais o fosse sugerir: queria-a toda para ele.
Para ele somente, e para os cinqüenta e tantos assinantes do serviço de secretária eletrônica de Madame Nainci.
Era patético que ele sentisse aquele desejo sexual por Hope, uma mulher que nunca tinha visto e que devia ter uns trinta anos. Ia ter que rebuscar entre seus números de telefone e chamar Robyn, não sabia por que não fazia já.
Hope lhe perguntou:
- O que está fazendo no escritório do senhor Givens?
A função de identificação da chamada lhe tinha indicado onde se encontrava ele. Assim devia lhe dizer a verdade. «Diga-lhe a verdade.» Em um tom coquete, Hope lhe disse:
- O velho quer que você atenda a porta de seu escritório?
Sua audácia o deixou mudo. Dizer-lhe a verdade? Diabos, o melhor era despedi-la.
Ela deve ter notado algo em sua forma de conter a respiração, porque disse:
- Sinto muito, sou uma mal educada. Você é muito leal ao senhor Givens e eu não deveria pôr a prova essa lealdade. Quer as mensagens do senhor Givens?
Tristemente, Zack se deu conta de que não podia despedi-la. Naquele preciso momento, era a única amiga que tinha.
- Não.
- Então, o que posso fazer por você?
Em tom lastimoso, Zack confessou:
- Estou resfriado.
- Pobrezinho. - Na voz de Hope havia um matiz de diversão, mas por debaixo dele brilhava uma grande dose de amizade.
Zack se deixou impregnar por aquele calor.
- Minha secretária acaba de me abandonar.
- Tem uma secretária?
A surpresa de Hope lhe fez recordar a situação. Ela acreditava que se tratava de Griswald, assim decidiu improvisar.
- O posto de mordomo suporta muita responsabilidade.
- Já vejo. - Hope parecia impressionada. - E por que o abandonou?
- Era ineficiente. - Sua voz mostrou de novo um tom de grunhido.
- Hum... Pelo visto tem sido malcriado.
- Naturalmente que tenho sido malcriado! - Imediatamente se deu conta de que aquela palavra se utilizava para os bebês.
Hope estava rindo dele.
- Quando dou uma ordem, espero que seja cumprida. - Maldição, aquela mulher o irritava. - Ser secretária não é tão difícil. Responder umas quantas chamadas, ordenar uns quantos arquivos, organizar uns quantos encontros...
Com certa energia no tom de voz, Hope replicou:
- Decepciona-me, senhor Griswald. Precisamente você, que sabe o pouco valorizado que estão e quão importantes são os serviços! Sua secretária é importante, do contrário não precisaria tê-la. Se desta vez houve de fato algo mal, bom, pode ser devido ao esgotamento e as circunstâncias.
- Não me importam as circunstâncias. Pago para que faça um trabalho e espero que o realize.
Hope fez caso omisso de seu estalo, como se fosse um menino pequeno malcriado. Em tom razoável, perguntou-lhe:
- Explicou-lhe com claridade o que queria? Era nova e estava aprendendo? Tem filhos cujas necessidades possam distraí-la?
- Tem netos, e eles não são minha responsabilidade.
- De tal chefe, tal mordomo. - A voz de Hope cobrou intensidade. - Você sabia que Givens Corporation é uma das empresas que têm menos em conta os seus empregados? Não paga seguro maternidade, não proporciona creches, contrata a muito poucos deficientes e pessoas das minorias, e sempre está diante de uma questão judicial porque não promove às mulheres para os postos de direção.
- As mulheres ficam grávidas. -Zack piscou atônito para ouvir aquelas palavras de sua própria boca. Era seu pai quem dizia coisas assim.
Hope se recreou no sarcasmo.
- Brilhante Sherlock. Não se preocupe, poderá contratar a outra secretária. As mulheres sempre estão desesperadas para conseguir empregos de salário baixo.
- Minha secretária não tem um salário baixo!
- Claro. O mero fato de que o senhor Givens seja mais rico que Rockefeller não implica que seja generoso quanto aos salários. Não é assim? Vamos, diga, não é assim?
- Paga pelo que obtém. - Outra vez seu pai. Em que momento ele deu procuração a este para seu corpo?
- Exato. - Na voz de Hope vibrou a satisfação. Então trocou de tática e o enrolou: - Suspeito que você foi um pouco duro com sua secretária, certo?
- Pois... Sim... Pode ser. - Sentia-se um tanto aborrecido. - Mas é que este catarro é horrível.
Hope suavizou o tom de voz.
- Você é um homem de certa importância. Quantas pessoas você tem a seu cargo?
- Não sei. -Tentou recordar quantos serventes tinha visto ir e vir.
- Nem sequer sabe quantos empregados tem? - Hope parecia sinceramente surpreendida.
«Milhares». Pensou. Zack se apressou a fazer um cálculo:
- Oito.
- Griswald, não pode desafogar seu mau humor com seus empregados. Isso não é justo para eles... Nem para você.
- Sim me parece isso - Murmurou Zack.
- Já sabe que se começar a descarregar seus estados de ânimo com seus empregados, se desgostarão e não trabalharão bem para você. Ninguém se esforça quando se sente desprezado. Você é um homem inteligente e sabe.
Ele pôs os olhos em branco.
- Já terminou o sermão?
Hope parecia divertida.
- Sim. Sua secretária era tão ineficiente?
Tinha que admiti-lo, mas talvez Meredith fosse a secretária temporária mais eficiente que jamais lhe tinha proporcionado a senhora Farrell.
- Era uma boa secretária.
- Então lhe dê um dia para tranqüilizar-se, chame-a para lhe pedir desculpas...
Toda sua indignação aflorou à superfície.
- Não penso fazer isso!
- As conseqüências do desemprego podem ser muito duras. - Hope voltou a soar severa.
- Você tem um coração de ouro.
A maioria das pessoas que ele conhecia, sem dúvida, negaria aquilo horrorizada, mas Hope não.
- Pois sim - Reconheceu sem pestanejar.
- Onde aprendeu a manipular assim as pessoas? - Perguntou Zack.
Ela se pôs a rir.
- Refere-se a explicar a maneira correta de atuar?
- O que seja - Respondeu ele.
Hope guardou silêncio durante tanto tempo que Zack compreendeu que estava a ponto de revelar algo de si mesma e que, apesar de alguma outra sondagem por sua parte, nunca havia feito tal coisa.
Seu tom de voz se tornou grave e quase inaudível.
- Meu pai era pregador.
Alerta de repente, Zack inquiriu:
- Era? Por que deixou de sê-lo?
Em um tom direto, sem floreados nem paliativos, Hope respondeu:
- Está morto. Meus pais estão mortos.
- OH... Sinto muito. - Palavras inadequadas para uma perda tão grande.
- Obrigada. - Logo, em um tom mais normal, acrescentou: - Seu próprio pastor lhe diria o mesmo que eu disse.
Zack disse para si mesmo que seu próprio pastor não sonharia sequer fazer cambalear o navio e arriscar-se a perder a pessoa que mais contribuía na sua congregação.
- Não quererá converter-se em um homem como o senhor Givens. Não faz idéia do dano que causa ao não preocupar-se com ninguém, nem do bem que faria com um pouco de bondade. Enfim, vá deitar-se. Amanhã se encontrará melhor.
Zack ouviu ao fundo o timbre de um telefone, e procurou com desespero a maneira de retê-la.
- Tenho tosse. - E tossiu um par de vezes para causar efeito.
- Tome um xarope para a tosse. Tenho outra chamada. Adeus.
E com aquele cruel conselho, Hope desligou o telefone, na cara dele, Zachariah Givens IV e o deixou contemplando o aparelho com expressão de assombro. Como assim, «adeus»? Acreditava que aquela despedida estava reservada para os meninos e as aeromoças. E Hope era autenticamente generosa quanto a expressões. Tinha que afastar-se todo o possível dela ou, caso contrário, terminaria convencendo-o para que pensasse como ela e como tia Cecily. Já imaginava a expressão da cara de seu pai se começasse a soltar coisas como: "um empregado feliz é um empregado leal" e... Naquele momento soou o telefone que tinha na mão. Ele ficou apertando botões.
- Diga? Diga? - Por fim apertou o que tinha a luz acesa. - Diga! - Em seu ouvido soou com claridade a voz de Hope. - Tenho que ir a aula, mas queria lhe dizer que...
- A aula?
- Ok, escola superior, mas é que queria lhe dizer...
- A escola superior? Por quê?
O sarcasmo de Hope esteve a ponto de chamuscar o telefone.
- Porque a ambição de toda a vida de ser telefonista já se cumpriu. Quer fazer o favor de calar-se? - Zack obedeceu, e ela aspirou profundamente. - Queria lhe dizer que é possível que fale com dureza de seus empregados, mas que no fundo você é um homem bom.
Agora sim, deveria lhe dizer a verdade. Quem era.
- Hope...
- Sim?
De novo ouviu aquele maldito timbre, que significava que Hope tinha que responder ao telefone.
- Hope... - Procurou uma forma de dizê-lo.
- Já sei. Sente-se envergonhado. Mas na verdade é um homem bom. Tenho que ir. Esta noite falarei com você. – E voltou a desligar.
Duas vezes em menos de dez minutos. Tinha que tratar-se de alguma espécie de recorde para um membro da família Givens. Lentamente, Zack devolveu o aparelho ao seu lugar.
A filha de um pregador. Aquilo explicava muitas coisas. Mas ao mesmo tempo, por que se mostrava tão reservada a respeito de si mesma? Aquela mulher era um enigma, um que ele ansiava decifrar. Não devia ser muito velha como acreditou a princípio, porque freqüentava a uma escola superior. Assim, certamente, não era casada nem tinha filhos.
E ele tinha perdido o julgamento, porque sabia perfeitamente bem que aquela telefonista era uma mulher maternal das que usam sapatos planos. Tinha que deixar de tecer fantasias a respeito dela. Não pensava render-se e tentar vê-la. Chamaria Robyn para lhe pedir um encontro. Logo que melhorasse daquele resfriado... E tinha que fazer algo para recuperar-se de seu fracasso, antes que Jason se inteirasse disso e lhe exigisse o dinheiro da aposta.
- Tenho até a partida de hóquei - Disse em voz alta, ao tempo que marcava o número do edifício central.
- Recursos humanos, Cheryl falando - Respondeu uma voz jovial. - Com quem deseja falar?
Esta vez Zack não se incomodou em modular o tom de voz, mas sim soltou sem mais:
- Sou o senhor Givens. Temos creche neste edifício?
A sua pergunta seguiu uma pausa, e por fim Cheryl disse:
- Não senhor, não tem.
- Quem é o chefe de baixo?
- O senhor Lewis, senhor.
- O senhor Lewis fez algum estudo de viabilidade sobre a criação de uma creche neste edifício? Cheryl lançou um débil suspiro.
- Sim, claro. Quem está falando, realmente? Mark é você? Porque não tenho tempo para joguinhos. Estou muito ocupada em decidir se ponho ou não, o velhote do Lewis numa demanda por perseguição sexual para escutar suas piadas.
Por mais que Zack odiasse reconhecê-lo, Hope tinha razão. Sua empresa não tinha em conta a seus empregados, e ele ia ter que fazer algo a respeito.
Capítulo 6
- Senhor, chegou muito cedo hoje. - Griswald se apressou a pegar a jaqueta e tirou as luvas, deixou seu casaco de inverno nos braços de Griswald e foi para seu escritório.
- Tome a noite livre.
- Senhor? - Griswald parecia desconcertado.
Zack se deteve.
- Por favor, Griswald, tome a noite livre.
- Mas, senhor...
- Verá... - Zack se voltou, olhou de frente a seu mordomo e acrescentou - Vim mais cedo para casa, estou muito resfriado e tenho algumas coisas em que pensar. Não o necessito esta noite, além disso, desejo estar sozinho.
Griswald se ergueu para adotar sua postura mais digna.
- Asseguro-lhe, senhor, que se deseja estar a sós, posso me manter afastado sem ter que sair de casa.
- Por Deus, alguma vez você teve vontade de desabotoar esse colete e sair por aí e dançar, ou algo assim?
Griswald pareceu ter sido ferido em sua dignidade.
- Senhor! Tenho duas noites livres por semana, e as passo ocupado em atividades muito mais valiosas.
Uma vez mais, Zack ia demonstrar ao seu ausente amigo Jason que era um ser humano amável e considerado.
- Sério? Quais?
- A Sociedade Genealógica de Boston, depende em grande medida de minha ajuda.
- Pois vá. Trato de ser atento. Deixe me respirar um pouco.
- Como quiser senhor. Deixarei a casa em seguida, senhor. O senhor vai querer que um subordinado lhe sirva o jantar...?
- Senhor. - Zack terminou a frase por ele. - Já procurarei algo por aí eu sozinho. De verdade, Griswald, não preciso de nada.
Griswald examinou o seu chefe como se estivesse vendo algo que o surpreendesse, e por fim fez um digno gesto de afirmação com a cabeça.
- Esta noite se encontram na residência o sub-mordomo, um criado da casa e uma donzela. Se precisar alguma coisa ou troque de opinião em relação ao jantar, eles terão muito gosto em lhe servir.
Aquilo recordou uma coisa a Zack.
- Quanto empregado de serviço tem aqui trabalhando?
- Dois criados e duas donzelas o dia todo, uma cozinheira, um serviço de limpeza que vem todos os dias e eu mesmo.
- Assim não acertei - Refletiu Zack em voz alta - E o que?
- Senhor?
- Nada. Até manhã.
Zack entrou em seu escritório e fechou a porta detrás de si. Enquanto se tirava o paletó do traje e se afrouxava a gravata, olhou fixamente o telefone, como o desafiando. O que pensava Hope, que ia alterar sua vida? Que ia aguilhoar sua consciência? Construiu uma vida muito boa. Era um dos capitães do mundo financeiro, tal como o tinha sido seu pai antes dele, seu avô antes que seu pai, seu bisavô antes que... Hope não tinha nenhum direito a lhe enviar ao departamento de recursos humanos a tempo de ver o pássaro do Lewis atirando os discos a Meredith quando esta tentava recolher o cheque de seu último pagamento.
Diabos. Teria que despedir Lewis, dizer a Meredith que retornasse amanhã e ordenar ao ajudante do diretor de recursos humanos - Uma mulher que sofria uma evidente hostilidade por ele - Que iniciasse uma investigação para averiguar o custo de instalar uma creche no edifício. Supunha que também teria que lhe dar o lugar de Lewis, embora estivesse em idade de ter filhos e provavelmente a mulher ficasse grávida e fosse amamentar.
Foi até o telefone, agarrou-o e apertou o botão de rediscagem para conectar com o serviço de secretária eletrônica de madame Nainci.
Atendeu uma mulher desconhecida. Com um acento tirado de um filme do James Bond, a mulher perguntou:
- O que posso fazer por você, senhor Givens?
Zack estreitou os olhos. Que truque era aquele?
- Onde está Hope?
- Esta é sua noite livre. Eu sou Madam Nainci. Estarei encantada de lhe entregar suas mensagens.
- Não! - Zack pendurou o telefone de um golpe. Logo voltou a marcar, e quando respondeu Madam Nainci, perguntou-: Quando voltará Hope?
- Amanhã de noite.
Madam Nainci também tinha uma voz encantadora, uma voz jovem, mas naquele momento estava chateada com ele.
A Zack importou um cominho.
- Onde está?
- Vai à aula, mas esta noite não. Hoje tem a noite livre. Convidei-a que ficasse, mas me respondeu que não, que tinha outra coisa que fazer. Perguntei-lhe o que era o que tinha que fazer, mas não me disse nada. Não descansa nunca, assim é possível que esteja descansando.
Zack começou a gostar de Madame Nainci.
- Parece que você seja uma mulher sensata. Sabe o perigoso que podem ser esses subúrbios onde estão as salas de aula do ensino médio?
- Já disse isso, mas não quer me escutar. É muito teimosa, e está empenhada em conseguir essa graduação e ganhar muito dinheiro.
- Quer dinheiro? -A Zack era difícil reconciliar a imagem de uma avara com a Hope que ele conhecia.
- Mais que nenhuma outra coisa.
- Por quê?
- Não me disse o porquê. Guarda muito bem seus motivos. - Madame Nainci parecia estar divertindo-se - Em troca, têm apaixonados a todos os assinantes, não é?
A Zack doeu ver-se incluído no grupo de quem se apoiavam tanto na caridade do Hope.
- Eu não estou apaixonado. Estou aborrecido.
- Com a Hope? - A voz do Madam Nainci se voltou de profissional - Por favor, senhor, sou a proprietária deste negócio. Diga-me, o que foi feito para lhe desgostar?
-É muito inteligente para seu próprio bem.
E desligou novamente. Começou a tamborilar com os dedos sobre a mesa. Hope não tinha tido uma só noite livre desde que ele começou a ligar. Tinha assumido que ia estar sempre ali. E o que ia fazer agora, sem sua voz aveludada e tentadora? Como se supunha que ia sobreviver toda uma noite sentindo-se doente e desgraçado?
Então soou o timbre da porta da rua. Zack não fez caso, seguro que alguém abriria. Depois de tudo, sempre alguém abria. Mas o timbre soou outra vez, e outra, até que se lembrou de que havia dito a Griswald que saísse. Mesmo assim, deveria um dos criados deveria atender. Ao quarto toque, Zack se levantou e saiu lentamente de seu escritório.
O vestíbulo estava deserto, ali não havia nenhum criado, assim Zack fez o impensável. Abriu ele mesmo a porta da rua.
E se encontrou com uma mulher.
Por volta de um metro setenta, envolta em um gasto casaco e provida de cachecol e luvas de lã, com um recipiente de plástico nas mãos como se formasse parte do comitê de boas-vindas da vizinhança. O cachecol lhe cobria a cabeça e lhe enrolava ao redor do pescoço deixando tão somente seu rosto ao descoberto. E que rosto. Maçãs do rosto altas, queixo saliente, boca de lábios carnudos, sorridente, sensual. Tinha as sobrancelhas arqueadas e os olhos... Eram os maiores, mais azuis e mais expressivos que Zack tinha visto em toda sua vida.
- Sim? - A voz lhe saiu rouca, e se esclareceu a garganta - O que posso fazer por você?
- Griswald? - Disse ela, insegura - É você?
Aquela voz. Cálida, grave, melodiosa. Ele a conhecia.
Aquela mulher era Hope, e com uma súbita sacudida, pela primeira vez em muito tempo, Zack experimentou um sentimento de profundo desejo.
Capítulo 7
Griswald ficou olhando a Hope como se não pudesse acreditar em seus olhos. Uns olhos que sob a luz da varanda tinham se escurecido até o ponto de parecerem negros.
Mas se ele estava atônito, ela tinha ficado chocada. Aquele homem era tão... Tão... Não parecia um mordomo. Não era como Griswald. Ela tinha uma imagem muito clara do Griswald em sua mente: velho, calvo e engomado em todas suas roupas e atitudes.
Mas aquele homem era... Incrível. Era um príncipe azul, embora sem o ridículo uniforme principesco. Era Ben Affleck com personalidade. Era a realização de seus sonhos de adolescente.
Percebeu o tom de incredulidade em sua própria voz quando inquiriu:
- Senhor Griswald?
- Hope?
Reconheceu aquela voz. Soava tão incrédula como a sua e o impacto que lhe produziu, combinado com o pacote físico, acelerou-lhe sensivelmente o coração.
- Sou eu. Bom... Enfim - Respondeu, embora pensou: "Sou uma idiota."
- Hope. Não imaginava que fosse tão... Bonita.
Pelo visto, ele não estava processando eficazmente o impacto visual dela, do contrário não haveria dito algo tão pouco típico de um mordomo.
Ela fingiu que os joelhos não lhe tremiam como um pudim de gelatina em um dia de julho e jogou mão de seu sorriso mais impertinente.
- Esse é um elogio completo para qualquer garota.
Ele não respondeu. Aparentemente não tinha percebido que havia dito asneira, e ela estava disposta a apostar a que isso não acontecia freqüentemente. Tinha a formalidade que ela esperava em um mordomo, mas o que não esperava era que fosse tão alto, por volta de um metro oitenta e cinco, e jovem, não teria mais de trinta e cinco, e também... Bonito, pelo menos em conjunto. Um tanto austero para seu gosto, com aquelas maçãs do rosto oblíquo e aquela mandíbula larga e, além disso, debaixo do risco escuro de suas sobrancelhas, não tinha uns olhos amáveis. Parecia mas bem como se tivessem visto muito na vida e tivessem encontrado poucas coisas de seu agrado.
Mas não importava que estivesse vivendo uma realidade alterada. Tinha frio, de pé na varanda do senhor Givens com seu casaco de segunda mão, de modo que fez um gesto de dar um passo adiante.
- Posso entrar?
- Entrar? - Ele se sobressaltou como se acabasse de dar-se conta de que estava de pé frente à porta como os Monty Python guardando o Santo Grial - OH, sim, claro. Entre. – E recuou um passo para o lado com uma antiquada reverência.
Hope esboçou de repente um amplo sorriso e atravessou a soleira.
- Agora sim que vejo: você é um mordomo.
- O que quer dizer? - Sua maravilhosa voz, profunda e grave, soou igual ao que parecia um sorvete com chocolate quente.
-Tem esse ar tão resolvido formal... Parece inato em você.
Ele pareceu ofendido e isso fez que Hope tivesse vontade de rir. Exceto à luz do vestíbulo era ainda mais arrumado que nas sombras da varanda. Seus olhos pareciam negros, sem um só traço de cor castanha, rodeados por cílios tão espessos que dariam inveja a qualquer mulher. Certamente, era o caso dela. Seu cabelo também era de um negro brilhante e liso, e o tinha cortado em um estilo discreto, de homem de negócios. Aquele cabelo, junto com o bronzeado da pele, os olhos e as maçãs do rosto, fizeram-na pensar se não correria por suas veias alguma gota de sangue dos nativos americanos. Ou talvez fosse descendente de eslavos ou possivelmente... Não soube o que pensar. O único do que estava segura, era de que desprendia um senso de domínio que não lhe deveria consentir desprender de nenhum homem.
Em troca, seu cabelo dava a sensação de que passou a mão por ele, sua ampla testa se via enrugada em um cenho franzido que parecia gravado no pé, seu nariz reto, forte e aristocrático estava vermelho e dolorido, e seu rosto tinha perdido a cor.
- Pobre Griswald. - Hope elevou a mão e a passou por sua bochecha áspera por causa de uma barba incipiente. - Tem aspecto de encontrar-se mau.
Ele deu um passo atrás.
- Veio até aqui para dizer isso?
Ainda estava mal-humorado, mas isso não surpreendeu a Hope. Não parecia ser a classe de homem que aceita a debilidade com resignação.
- Não, vim para lhe trazer isto. – Colocou e suas mãos o recipiente de plástico. - É sopa de frango. - Enquanto ele ficava olhando, como se jamais em sua vida tivesse visto um recipiente semelhante, ela tirou as luvas e o cachecol - Onde posso deixar isto?
O olhar atônito dele se elevou para encontrar-se com o seu.
- Trouxe-me sopa de frango?
- É muito bom para o resfriado. Não me deixe esquecer de levar o recipiente, necessito para o almoço de amanhã.
Viu os cabides para os casacos e pendurou nele o cachecol. Logo introduziu as luvas nos bolsos, desabotoou o casaco e o pendurou também, pensando para si mesma que aquele elegante vestíbulo certamente não tinha visto nunca um objeto tão puído.
- É uma bela casa. Tem sorte de trabalhar aqui.
O olhar dele parecia ter ficado preso em seu pulôver.
O objeto não era de segunda mão, tinha sido confeccionado por Madame Nainci, e esta fazia ponto bem. A lã era uma mescla de malmequer, castanho e vermelho, umas cores que obravam maravilhas ao combinar-se com os tons do prosaico marrom do cabelo do Hope.
Griswald não parecia estar fixando-se nisso. Quando um homem ficava olhando fixamente seu pulôver como se estivessem admirando as cores do mesmo, ela sabia perfeitamente que o que olhava eram seus seios, os quais, embora estava mal que o dissesse ela, moldavam agradavelmente o pulôver. Não que preocupasse muito a opinião de Griswald a respeito dela, mas... Deixou escapar um suspiro em silêncio.
Aquilo era mentira. Sim que lhe preocupava a opinião de Griswald a respeito dela. Até antes de chegar ali, e agora... Enfim. Era possível que o rosto dele não mostrasse indício algum de interesse, mas ela sim que tinha toda sua atenção presa daquele corpo.
Era alto, e dotado de uma força fibrosa que a atraía. Que atraía a qualquer mulher. Seus ombros eram largos, o justo para que uma mulher pudesse apoiar-se neles, se fosse dada a fazer algo assim, o qual não era o caso de Hope. Levava uma camisa de um branco gelo, com uma gravata vermelha e negra no pescoço, e umas calças negras que tinham o aspecto de ser muito caros. E provavelmente eram. Com certeza o senhor Givens não desejava saber nada das dificuldades do mundo real que havia fora do esbanjamento de sua casa. Mas Hope tinha que reconhecer que, naquele caso, gostava da insistência do senhor Givens. Ninguém poderia fazer mais justiça àquelas calças que Griswald.
- Onde deixou a jaqueta do traje? - Quis saber.
- O que?
Hope tirou as botas e as depositou, com todo cuidado junto ao tapete. As meias três-quartos que usava eram brancas, de prático algodão, nada glamoroso, mas tampouco tinham buracos nos dedos. Soube sem necessidade de olhar; preocupou-se especialmente de colocar o par que tinha mais novo.
- Acreditava que o senhor Givens insistiria em que seu mordomo vestisse traje com jaqueta.
- OH. Deu-me a noite livre. - Griswald posou nela seu olhar escuro, e de repente Hope sentiu um calor mais intenso que se estivessem no mês de agosto. - Por causa de meu resfriado.
- É que tem medo de que espirre em seu rosto?
Hope introduziu os polegares em seus bolsos traseiros, balançou-se sobre os calcanhares e sorriu.
Não lhe devolveu o sorriso. Se acaso, seu austero rosto se alargou, seus olhos brilharam de forma distinta.
Hope, sobressaltada, compreendeu que não lhe convinha ter aquele homem como inimigo. A Griswald teria que tratá-lo com a maior seriedade.
- Não é tão mau como você o imaginou. - O tom cortante do Griswald não convidava a discrepar absolutamente.
- Se você gosta, eu também.
Deliberadamente, ignorou sua carranca, coisa nada fácil, pois ele era dono e senhor de seu ambiente, e olhou a seu redor.
-Onde está a cozinha? Vou esquentar a sopa.
Ele a estudou um longo momento, o tempo suficiente para que tivesse vontade de mover-se. Agora Zack estava olhando mais à frente do pulôver. Normalmente, naquela época do ano Hope levava meias-calças debaixo de seu desbotado jeans; mas aquela noite havia se sentido muito... Muito vaidosa, tinha que admitir, para usar outra coisa que não fossem seu jeans de verão, que lhe apegava ao traseiro como uma segunda mão. Por mais que tenha convencido a si mesma de que Griswald era um velho mordomo, ainda ouvia em sua cabeça o eco de sua voz de barítono e esta lhe recordou o calor, o lar, as largas noites de verão cheias de umidade e adornadas pelos vaga-lumes. Não sabia por que. Provavelmente fora porque ambos pareciam ter muito em comum.
Com a imensa franqueza de um homem ao que a vida lhe sorri, ele se permitiu dar uma boa olhada a seu corpo antes de voltar a olhar seu rosto.
Teria encontrado algum defeito grave nela? Geralmente, não estava acostumado a perguntar-se aquilo; a dura escola da vida tinha ensinado a ter auto-estima, e achou que era insensível às críticas, mas Griswald não parecia amistoso. Parecia... Chocado. E... Com um interesse agressivo. Para ela.
Os homens não a notam.
De acordo, Sarah dizia que sim se fixavam, mas ela não tinha notado nunca que assim fosse; além disso, antes que transcorresse muito tempo, terminavam por desanimar-se e partir.
Entretanto, estava muito claro que Griswald estava olhando para ela, e ela se estava fixando em que ele se fixava, e por muito que o tentasse não podia ignorar aquela atenção, como sim faria com quaisquer outros homens. Nem tampouco podia imaginar ao Griswald desanimar-se por... Nada. Se ele tomava a decisão de ir por ela, nada lhe impediria de obter seu objetivo.
Mas não ia fazer tal coisa. Griswald era elegante, educado, obviamente culto e maior que ela. Provavelmente, as mulheres iam ate ele.
Assim sua única alternativa era comportar-se com normalidade, como se ele não a afetasse de uma forma nem de outra. O qual não era verdade. Não era absolutamente.
Disse-lhe:
- Posso esquentar a sopa, a não ser que você tenha alguma outra coisa que fazer.
- O que? - Ele pareceu surpreso de que Hope tivesse interrompido sua inspeção visual. – Oh, não, não tenho nada.
Aquele homem tinha uma atitude tensa, faminta, parecia observá-la como se ela fosse uma peça de carne esperando em sua bandeja pessoal de prata para que ele a devorasse.
- Possivelmente não devia ter vindo. - Hope fez um movimento em direção a porta de entrada.
Mas ele a segurou pelo pulso e, em um tom de voz que lhe provocou uma sensação de calor ao longo da coluna vertebral, disse:
- Esta é a coisa mais agradável que alguém já fez por mim.
Hope sentiu pulsar do pulso sob a mão dele. Incômoda com aquela sensação tentou escapar, mas como se ele soubesse, seus dedos se apertaram mais; não o suficiente para lhe fazer dano, mas sim para retê-la junto a seu lado. A reação mais segura era tomar a situação na brincadeira, assim comentou:
- Jamais?
- Sem esperar nada em troca.
- Mas eu sim quero algo em troca.
Ele a olhou com frieza.
Estava claro que o senhor Griswald não era um homem fácil de tratar e Hope experimentou uma pontada de lástima por seus subordinados, Não era de estranhar que tivesse sido abandonado por sua secretária! Apoiou uma mão em seu braço e lhe disse:
- Não tenho suficientes amigos. Assim que eu gostaria de considerar você um amigo.
Embora nada alterasse seu semblante, Hope percebeu um relaxamento infinitesimal sob a palma da mão, e também se relaxou. Por um momento acreditou que... Bom, não soube o que acreditou. Que ele ia agarrar a pelo pescoço e arrojá-la porta fora.
Mas em lugar disso, tomou a mão, deu-lhe a volta e examinou a estreita palma e os dedos largos e esbeltos dela. Logo deslizou um dedo por aquela palma ao tempo que observava seu rosto, como se estivesse sopesando sua reação.
O calor que irradiava a queimou. Hope abrigou a esperança de que ele não se desse conta de que o ritmo acelerado de seu coração lhe tinha colorido as bochechas, nem de que ela parecia ter o olhar cravado em seus olhos.
Reconheceu perfeitamente aquela reação. Talvez carecesse de experiência, talvez precisasse de interesse, mas tinha lido romances de amor e tinha visto filmes, e bem sabia Deus que as outras garotas lhe tinham falado bastante disso. Aquela sensação de angústia no estômago era atração sexual. O qual constituía uma prova de que ela era normal, supôs, mas de todos os modos resultava algo novo e inquietante. Oxalá ele deixasse de olhar até que conseguisse dominar-se de novo.
Porque conseguiria dominar-se de novo, verdade?
Em um tom grave, modulado para que só ela pudesse ouvir, Griswald disse:
- A julgar pelo que conta em seu serviço de secretária eletrônica, eu diria que tem você um número excessivo de amigos.
Resultava assombroso o modo em que utilizava sua voz para criar uma sensação de intimidade. Foi quase como se as paredes do vestíbulo se aproximassem um pouco. Ele estava absorvendo quase todo o ar, e ela se asfixiava. Contudo, respondeu-lhe da mesma maneira, como se tivesse medo de que pudesse ouvi-los alguém.
- Nunca se podem ter muitos amigos.
- Você sim pode. Aproveitam-se de você.
Magoada, Hope liberou a mão de um puxão.
- Ninguém se aproveita de mim!
- De verdade? - Ele não se apartou, mas sim se serviu de sua estatura para olhá-la carrancudo - Você faz tudo por eles e eles não fazem nada por você.
- Não me falta nada.
Griswald olhou seu jeans, suas botas de três temporadas atrás, e arqueou uma sobrancelha.
- Seu "nada" é muito diferente do meu.
Picada de novo, Hope replicou:
- Pode ser que o meu "nada" é o certo e o seu é errado.
- Pode ser. - Estava claro que não o tinha convencido - A cozinha é por aqui. Mas aguarde um minuto. - Voltou a lhe deixar o recipiente da sopa nas mãos - Quero me certificar de que não há ninguém. - E desapareceu por uma porta.
Bem. Griswald levava uma vida distinta da que levava ela, mas tinha acreditado que sua posição de subordinado lhe tivesse subtraído um pouco dessa arrogância. Pelo visto, equivocou-se. O que deveria fazer era deixar a sopa, colocar o casaco e sair rápido dali... Mas estava o assunto de que Griswald tinha febre. Notou-lhe a mão muito quente quando tomou a sua. Precisava tomar a sopa e uma aspirina e meter-se na cama, naquela ordem, a não ser que ela o convencesse com mímicas, ele não ia fazer por si só. Afinal era um homem, e sua mãe sempre lhe havia dito que os homens eram mais teimosos que uma mula de seis patas.
Fazendo o menor ruído possível, deslizou-se para um lado até poder espionar um pouco a elegante habitação pela que tinha desaparecido Griswald. Descobriu-o de pé junto a um imenso escritório falando por telefone. Naquela casa tudo era formoso, caro e escolhido com esmero. Inclusive havia um quadro de Monet na escada e apostaria que era autêntico. Aquela grandiosidade a fez sentir-se como uma camponesa que tivesse ido visitar um rei e não gostou daquela sensação.
Quando Griswald retornou, disse-lhe:
- Vamos. Estarei muito mais cômoda na cozinha.
Ele voltou a pegar a sopa e lhe indicou que caminhasse, por um corredor escuro.
- Por quê? - Perguntou Zack.
- Porque este lugar é como um museu. - Voltou-se para olhá-lo. Era curioso, mas tinha a sensação de que a levava para uma jaula, como se ele fosse um leão enorme que a perseguia de perto para assegurar-se de que não tentasse fugir ou... Tenho medo de quebrar algo.
Ele deu de ombros.
- Tudo pode substituir-se.
- Sério? Então não há aqui nenhuma obra de arte autêntica? - Começou a caminhar para trás, para poder olhá-lo de frente e sacudir aquela estranha sensação de ser perseguida.
- Umas quantas.
Mas o fato de caminhar para trás não atenuou seu nervosismo. - E se quebrar uma antigüidade, não me veria esfregando pratos durante o resto de minha vida para poder pagar a conta?
- Isto não é um restaurante. Aqui não cobramos de nossos convidados quando quebram algo. – Pegou seu braço e a atraiu para ele. - Mas se tanto lhe preocupa, melhor será que olhe por onde pisa.
Guiou-a para se esquivar de uma mesa pequena e redonda coroada por um grande vaso de cristal soprado. Segurou-a contra seu lado, rodeando a cintura com o braço.
- Não vou bater em nada - Assegurou-lhe ela.
- Já sei.
- Não preciso que me segure.
Ele a olhou com as pálpebras entreabertas.
- Eu gosto de abraçá-la.
- OH.
Meu Deus, aquilo era um problema, porque também gostava. Pelas conversações telefônicas que tinham tido, sabia que era um homem decidido e enérgico. Agora que o tinha visto, agora que ele a havia tocado, provocou nela um desejo que a atraía e ao mesmo tempo a fazia desejar sair a toda pressa tão longe e tão rápido como fosse possível.
Se fosse inteligente, poria-se a correr.
Mas era óbvio que tinha perdido todo rastro de sua inteligência. E também se esfumou sua capacidade de conversar, porque não lhe ocorria nenhuma só palavra para dizer enquanto caminhavam, tão perto um do outro como se fossem amantes.
Por um segundo, Hope fechou os olhos. Não podia pensar aquelas coisas, sobre tudo de um homem ao que acabava de conhecer, um homem que... Que obviamente estava doente.
Não pôde evitar dar-se conta do calor do corpo dele enquanto caminhava a seu lado.
-Tem febre.
- Não, nunca tenho febre.
- Pois agora sim, tem. - Hope se deteve - Deixe que tocar sua testa.
Ele se deteve e se inclinou para ela. Ela levantou uma mão.
Ele retrocedeu.
- Minha mãe diz sempre que não se pode distinguir se alguém tem febre a menos que se usem os lábios - Indicou Zack.
Maldição. A mãe dela sempre dizia o mesmo. Esforçando-se para parecer despreocupada, Hope disse:
- Muito bem.
Hope deslizou uma mão ao redor do pescoço, aproximou-o e apoiou os lábios na testa.
Frio. Surpreendida, provou em outro ponto, e logo em outro. Efetivamente, não tinha febre. Passou-lhe a mão por um lado da cara, massageou-lhe o ombro, percorreu-lhe o braço.
- Mas está muito quente!
- E cada vez mais. - Sorriu; foi um gesto lento que estirou seus lábios,
Seu primeiro sorriso. Possivelmente o primeiro de sua vida, se ela era alguém indicado para julgar. E aquele sorriso a fez perceber que... Estava-o acariciando. Acariciava-o como se ele fosse um enorme felino e ela uma domadora de feras, e de sobra sabia que não era absolutamente.
Ainda mais com um leão como aquele. Com um homem como aquele.
Capítulo 8
Zack se sentiu bem de ver a expressão de assombro nos grandes olhos azuis de Hope. Bem. Ali havia desejo. Ela tinha fingido que não, mas se via perfeitamente às claras.
Hope baixou a mão e disse em tom resolvido:
- Pois não. Não tem febre.
Em seguida deu meia volta e pôs-se a andar corredor adiante.
Hipnotizado pelo rebolado daquele compacto traseiro, Zack se apressou a pegar-se a seus calcanhares.
As mulheres sempre diziam que irradiava calor. Encolhiam-se contra ele na cama, agradecidas. Um par de amantes afirmou que, quando o tinham dentro, esquentava-lhes todo o corpo.
Um elogio agradável, talvez, mas do qual Hope descobriria a verdade. Porque quando ela o tocou, sentiu-se arder a sério.
A jovem devia sentir-se incômoda, sabendo que ele caminhava justo as suas costas, porque fez a tentativa de distraí-lo.
- Pediu desculpas a sua secretária?
Zack apertou os lábios ao recordar como tinha reagido Meredith quando lhe pediu que continuasse trabalhando em seu escritório. O primeiro arrebatamento de fúria se dissipou. Tinha compreendido que tinha feito pedaços à única lista de nomes que entrava em casa. Rompeu a chorar de agradecimento e pediu desculpas a ele.
Aquela emoção desatada era suficiente para que um homem jamais cedesse a um impulso decente.
- Tornei a lhe oferecer o emprego.
Maldição, uma parte do trabalho de sua secretária consistia em manter sobre controle suas emoções. Não lhe importava que chorasse, sempre que o fizesse longe dele e depois limpasse os rastros.
Mas aquela noite não tinha necessidade de pensar na confusão do escritório. Aquela noite tinha a Hope.
- Terá que descer a escada - Instruiu, desfrutando da visão do movimento de vaivém do rabo de cavalo de Hope conforme esta descia para a cozinha. As mulheres que conhecia usavam o cabelo curto, ou penteado na moda e sujeito em seu lugar mediante laços e fixador, cada cacho de cabelo primorosamente colocado. Não permitiam que seu cabelo castanho se movesse a seu desejo fazendo ressaltar sutilmente seu brilho natural. – Aqui estamos.
A escada terminava na cozinha, muito iluminada e recentemente "limpa" por ordem dele. A televisão ainda estava acesa, e o ronrono monótono de um apresentador de jornal proporcionava um aborrecido ruído de fundo.
Assim que dispôs de espaço, Hope se apressou a separar-se de Zack.
Ele não a perseguiu. Não podiam fazer amor na cozinha: possivelmente se apresentasse de repente um dos criados; além disso, Zack não ia permitir que Hope se sentisse envergonhada. Já estava nervosa, embora as arrumasse para dissimulá-lo, e ele... Bom, ele a alterava sem dúvida alguma, e isso não podia ocultar.
Ensinar-lhe-ia a relaxar, a aceitar sua presença e reagir ao seu contato. E logo... Ah, logo desfrutaria dela de todas as maneiras em que um homem desfruta de uma mulher.
Hope passeou a vista a seu redor com gesto apreciativo.
- Esta cozinha é fabulosa. Deve estar encantado de trabalhar aqui.
Igual acontecia com toda e qualquer moradia dos Givens, a cozinha era perfeita. Era grandes, com uma mesa redonda no centro, armários de madeira castanha feitos sob medida e todos os eletrodomésticos de última geração. Zack apenas se dava conta disso; agora lançou um olhar fugaz ao recinto e reconheceu que a cozinha era um lugar agradável.
- Não passo muito tempo aqui.
-Sim, suponho que não. O mordomo passa a maior parte do tempo apresentando convidados, não é assim?
O mordomo... Que faz o mordomo?
- O mordomo fiscaliza a casa. Antes tínhamos uma governanta, mas quando se aposentou, Griswald se fez cargo de umas quantas responsabilidades mais.
Hope dirigiu a Zack um sorriso fácil.
- Eu adoro como emprega o «nós» majestaticamente e fala de si mesmo na terceira pessoa.
Teria que prestar atenção a aquilo.
- Sente-se, eu lhe prepararei o jantar.
Zack se deixou cair em uma cadeira junto à mesa e ficou a observar como ela percorria a cozinha lançando exclamações ao ver o tamanho do forno, procurando panelas, averiguando como funcionava tudo.
Sem dar-se conta do que tinha feito, aquela mulher se introduziu na guarida do lobo... E ele se encontrava faminto. Morto de fome, mas bem, embora não tinha reparado nisso até que Hope se apresentou na porta de sua casa.
Robyn teria que arrumasse sem sua companhia, ao menos no momento.
Desabotoou o botão superior da camisa, desfrutando da atração. Porque Hope não era seu tipo. Tinha um nariz com um altinho pouco atrativo no meio, como se o tivesse quebrado. Estava muito magra. Levava umas meias três-quarto brancas e baratas, sem elástico suficiente para sustentar-se à altura dos tornozelos. Era terrivelmente pobre, nisso ela não se andava com rodeios e de uma bondade angelical.
Mas sua boca empurrava um homem a pensar em prazeres pecaminosos. Gostaria muito saborear aqueles lábios. De fato, ia fazê-lo. E antes que tivesse terminado, aquela boca ia saborear a dele.
Sorriu.
- Quando sorri, parece um tubarão a ponto de lançar-se a devorar febrilmente a sua presa - Observou Hope.
- De verdade? Não vejo por que.
Ninguém lhe havia dito algo tão direto, e aquilo formava parte da atração que ela exercia. Hope o tratava como se ele não fosse ninguém especial e ao mesmo tempo como se fosse o homem mais importante do mundo. Era como ela mesma havia dito, uma amiga e talvez não tivesse intenção de ser nenhuma outra coisa.
Mas nas relações, como nos negócios, o que importava era a intenção que tinha ele, e ele queria tudo. Toda aquela franqueza, toda aquela alegria. Tudo para si. Com a mesma precisão que empregava em tudo o que fazia, beijaria a Hope, vestiria e lhe faria a vida fácil e quando tivesse terminado com ela, a jovem não teria nada que lamentar.
- Aqui tem. - Hope colocou a sopa diante dele, como se fosse um menino pequeno, pôs uma colher na sua mão - Limpará a sua cabeça e esta noite poderá dormir.
- Dormirei de todos os modos. - Zack sempre dormia bem quando tinha uma meta. Agora sua meta era ela - Preparou-a você mesma?
- Sim, mas não se deixe impressionar. É fácil.
Hope serviu um prato para ela e sentou a um braço de distância dele.
Assim não queria sentar-se muito perto. Aquilo supunha uma mudança em relação à despreocupada familiaridade que tinha mostrado no vestíbulo.
- Alguma sobra de frango assado, um pouco de caldo, as verduras que tenho por aí e um pouco de macarrão. Joga tudo na panela e transforma em sopa de frango. - Desdobrou seu guardanapo. - Precisamos de pão torrado. Onde o guarda?
Zack sacudiu negativamente a cabeça, aturdido.
- A verdade é que vai ter que delegar a alguém, se nem sequer sabe organizar-se na cozinha. - Hope se levantou, entrou na despensa e saiu agitando uma caixa verde, uma amarela e uma vermelha-o Isto é genial. Tem uma para cada coisa.
Zack observou seus magros pulsos e suas mãos estreitas enquanto ela punha o pão torrado em um prato.
- Leve todas as caixas que queira – Ofereceu - Há mais no lugar de onde procedem a essas.
-Vá, você sim que não regateia com a despensa do amo. - Hope voltou a sentar-se.
Daquilo Zack deduziu que Hope comeria umas quantas fatias de pão, mas que não levaria nenhuma. Era uma criatura um tanto estranha, das que já quase não existiam mais. Os empregados roubavam lápis... E de vez em quando mais coisas. Os criados saqueavam a despensa... E de vez em quando algo mais. Não lhe importava; preocupar-se suporia perder tempo. Mas quando se encontrava com alguém que rechaçava a menor oferta porque se tratava de algo que não era dele... Hope era diferente. Fascinante. Única.
De repente viu que tinha fome. O aroma da sopa lhe fez água na boca, de modo que tomou um gole, com cuidado; depois de tudo, estava acostumado a ter um chef em sua cozinha. Mas, para sua surpresa, a sopa tinha um sabor extraordinário, intenso, com uma essência que não conseguiu identificar.
- O que leva isto? - Removeu o caldo e a olhou fixamente como se assim fosse lhe revelar seu segredo-. O que é este... Picante? Parece como a... Terra, O...
- A ervas? - Hope se pôs a rir.
Zack saboreou o som profundo daquela risada mais que o calor e o gosto da sopa.
- Provavelmente será a salsinha. Eu gosto de salsinha, assim ponho muito. - Hope comeu com apetite - Madame Nainci me deu a metade de um molho, de modo que é fresco. Esta noite vai sair com o contador, logo não pensa em cozinhar muito, o qual é uma lástima, porque é uma cozinheira estupenda.
Zack não desejava falar de Madame Nainci: desejava falar de Hope, de si mesmo e da sopa.
- A sopa está realmente boa.
- Mas não vai lhe encher-lhe muito – Comentou - Quer que lhe sirva mais um pouco?
Zack adoraria tomar um pouco mais, mas ela o necessitava mais ainda. Apoiou a cabeça na mão fingindo esgotamento e respondeu:
- Não, adiante, termine. Tenho pouco apetite.
- A sopa não é para mim, sabe? - Hope o estudou com expressão severa - Não estará fingindo para não ter que comer, não?
Tomou a mão, aproximou-a para si e lhe beijou os dedos a modo de extravagante comemoração.
- Absolutamente. É a melhor sopa que tomei em minha vida. Em toda minha vida! Eu adoro sua sopa. De fato, eu gosto tanto que me sinto culpado e queria que me permitisse convidá-la para jantar. Amanhã de noite. Amanhã já estarei melhor.
Hope não lhe deu atenção. Tinha o olhar cravado no televisor.
Zack não estava acostumado a ser ignorado por nada, e muito menos em relação a um jornal.
- Que esta olhando?
Girou-se em sua cadeira e viu como o locutor do informativo local terminava o programa com a história de uma família, separada pelo divórcio e o abandono, que agora voltava a unir-se ao cabo de trinta anos.
As imagens que piscavam na tela mostravam umas pessoas de cinqüenta anos, irmãos que levavam quarenta anos separados, abraçando-se e chorando.
Hope, em um gesto de impaciência, levantou-se e soltou sua mão da de Zack. Logo se aproximou do televisor e o desligou.
- Quanta bobagem.
Zack, com expressão surpreendida, contemplou-a enquanto ela retornava à mesa. Suas bochechas e sua frente apareciam tintas de um intenso rubor, e sua generosa boca mostrava um gesto tenso, amargo.
- Seguro que não é bobagem, ao menos para essa família.
- Supostamente, a agência de adoções os ajudou a encontrarem-se. Essa é a tolice.
- Mas é verdade que ocorrem histórias como essa.
- Em um mundo perfeito. - Hope cuspia as palavras.
Por tratar-se de uma mulher tão suave e tenra, seu comportamento resultava... Estranho.
- É que não vê nunca coisas assim nos jornais?
- Não tenho televisão. - Recolheu seu prato e o levou a pia - Eu gostaria de ficar um pouco mais, mas esta noite tenho que estudar, e me prometi que por muito que eu gostasse de você quando o visse em pessoa... - Sorriu-lhe; só um ápice de tensão se desenhou nas pálidas rugas que rodeavam sua boca antes de acrescentar - Prometi que iria para casa para brigar com esses malditos problemas de física.
Zack desejou detê-la, obrigá-la a lhe explicar aquela súbita hostilidade.
Mas ela continuava falando, um pouco depressa, com um sorriso um tanto exagerado, disposta a sair voando pela porta a menor provocação.
- Haverá gente que goste da física? – Perguntou - E se a há, quais são e de que planeta procede?
Zack não entendia o que tinha acontecido, mas soube que tinha que agir com cautela. Aquela era uma classe de criatura nova para ele; carinhosa, generosa, mas cheia de segredos e curvas escondidas. Parecia uma pessoa muito realista e, entretanto, tinha um pingo de mistério de outro mundo que lhe fez tomar a decisão de lhe tirar o papel igual a se faz com um presente, de tocar seu corpo e conhecer seu segredo.
De forma enigmática, aquela conjunção de músculos esbeltos e pele suave que tinha Hope o intrigavam como não o tinha intrigado em outra mulher. Antes que se fosse, prometeu a si mesmo plantar-se com tal firmeza em sua mente, que ela não pudesse sonhar com nenhuma outra coisa durante toda a noite, e que ele fosse seu primeiro pensamento quando despertasse à manhã seguinte.
Ficou em pé. Pela primeira vez em sua própria casa, recolheu ele mesmo o prato e o levou a pia, movendo-se devagar para não atemorizar a aquela mulher subitamente assustadiça.
- Eu gosto de física. O que tem de mau?
- Que gosta de física? Que o que tem de mau? Não fala a sério. A física é difícil, dá-me dor de cabeça.
Parecia tão aliviada, que Zack soube que tinha tomado a decisão acertada. Logo, adotando um tom de voz quente e amistoso, perguntou-lhe:
- E para que está estudando?
- Necessito-a para obter o título em ciências informáticas.
- Ciências informáticas? - Zack se apoiou contra a bancada e estirou suas largas pernas, colocando-se deliberadamente de modo que ela pudesse vê-lo bem - Eu odeio os computadores. Por que ciências informáticas?
- Porque quando obtiver o título, ganharei muito dinheiro. - Percorreu a Zack rapidamente com o olhar, logo voltou a olhar se removeu inquieta. Mesmo assim, tratou de olhar aos olhos - Poderei escolher o emprego que queira e trabalhar onde mais me convenha.
Aquela inocente não se dava conta de que ele a estava espreitando sem mover sequer um dedo.
- Que classe de emprego?
- Que me faça ganhar mais dinheiro. - Hope o observou com o olhar sereno de um avaro consumado.
- Tão importante é para você o dinheiro? - Já o havia dito Madame Nainci; mas não o tinha acreditado de tudo até que teve a prova diante de seus próprios olhos.
- O dinheiro é o mais importante do mundo. Você o tem, por isso não se dá conta de que sem ele não é mais que escória. Sem dinheiro, a gente depende da compaixão de outros, e disso não há muito neste mundo.
O que lhe teria ocorrido para ter tão pouca fé na bondade humana?
- Essa é uma visão tremendamente cética para uma mulher que se preocupa com uma anciã que necessita uma prótese de quadril.
- Se a senhora Monahan tivesse dinheiro, não necessitaria essa operação, já a teria. -Hope passou os dedos pelos cachos, e o cabelo, que já estava talhado em uma linha torcida sobre a frente, agora se via desigual e além revolto - De verdade que tenho que ir. Tenho que estudar.
Mas no momento em que fez o gesto de começar a subir pela escada. Zack a agarrou pelo braço.
Ela ficou olhando sua mão como se estivesse debatendo a possibilidade de se separada de um golpe.
Zack a observou e esperou para ver o que fazia. Aquilo sim trocaria sensivelmente o rumo de sua relação.
- Eu posso ajudada com a física.
Hope respirou fundo e se converteu na mulher que Zack reconheceu uma vez mais.
- Diz a sério? Dá-se bem com a física?
- Aprovei na universidade com um sobressalente.
Hope o estudou com maior interesse. E com precaução.
- Assim lhe dá bem a física. E estaria disposto A... Ensinar-me?
- Insisto. - Zack nunca tinha pensado que cortejasse a uma mulher e em troca ela se mostrasse desejosa de afastar-se dele. Nunca. Certamente, jamais se tinha servido da física como incentivo para conservar a uma mulher ao seu lado. - Antes a levarei a jantar...
-Um momento, não podia levá-la a um restaurante; a gente... Os maítres, os clientes, reconheceriam-lhe como Zack Givens.
Hope já estava dizendo que não com a cabeça.
- Seguro que não está se referindo a um lugar de comida rápida e não tenho nada que vestir.
- Nesse caso, posso lhe preparar um jantar aqui. - Podia fazer um pedido. - E lhe ensinar física. Que tal isso?
- Bem, mas... - Hope esfregou o pé contra o pé da mesa - Eu não gosto de aceitar esmolas. - Olhou-o à cara- Você não sabe mexer com um computador, verdade?
Zack apercebeu a armadilha em seguida, mas não pôde evitá-la.
- Não preciso ter um. Não o quero para nada.
Ela pôs as mãos no quadril e deu um sorriso irônico.
- Se você me ensinar física, eu lhe ensinarei informática.
- Eu não gosto de informática. - Viu que ela não o escutava, de modo que espaçou suas palavras com cuidado e empregou seu tom autoritário - Eu não gosto da tecnologia.
Hope sabia que o tinha contra as cordas.
- E eu não gosto de física.
- Mas você necessita a física para tirar o título.
- E você tem computadores por toda a casa. - Assinalou com um gesto o monitor instalado debaixo dos armários da cozinha.
Era verdade. Griswald tinha automatizado tudo o que havia na casa. Zack tinha dado seu consentimento ao custo; diabo não lhe importava que o fizessem outras pessoas, quão único queria era não tocar sequer um daqueles teclados.
- Fazem que me sinta um inepto.
- Compreendo-o perfeitamente - Repôs Hope com significativa ênfase - Pois esse é o trato: eu lhe ensino informática e você me ensina física.
- Não. - Não queria aquele trato, e Zack Givens nunca fazia nada que não quisesse.
- É por seu chefe? Teme que ele se oponha? - Ante seus olhos, ele se converteu na personificação do mordomo ultrajado.
- Não, não se oporia. Não se opõe a que alguém deseje superar-se. O senhor Givens é um chefe bom e generoso.
- Então, parece. Virei aqui o... Vamos ver... - Repassou seu horário - Na terça-feira de noite, e ensinaremos um ao outro. De acordo? - Griswald parecia estar a ponto de protestar de novo e Hope suspeitou que pudesse ser enérgico. Melhor dizendo, mais enérgico ainda. Mas é que ela necessitava alguém que a ajudasse e não podia lhe permitir que o fizesse sem receber nada em troca. Assim que lhe pôs uma mão na base do pescoço, onde a união das clavículas. - Deveria colocar uma toalha quente ao redor do pescoço.
Aquele contato produziu a distração que Hope pretendia... E mais. Zack capturou sua mão antes que ela pudesse retirá-la. Reteve-a assim, sentindo como seus dedos lhe acariciavam a pele, e ato seguido se incorporou E se aproximou mais para que Hope pudesse cheirar o intenso aroma de sua colônia e deliberadamente, ergue-se sobre ela. Como o fez? Como as arrumou para passar instantaneamente de mordomo irritado e formal a homem sensual cujo único pensamento era ela? Suas carícias. Seu corpo.
- Uma toalha quente? Para aliviar a congestão?
- Não, para que eu possa utilizar como torniquete.
Aquela ameaça emprestou a seus olhos um brilho sinistro, divertido. Retirou lentamente a mão e disse:
- Pois claro que para aliviar a congestão.
Assustaria-se aquele homem alguma vez? É que sempre conseguia o que queria? Era muito espantoso, muito corpulento e musculoso. Respirava segurança em si mesmo, e todo aquele aprumo a fazia mostrar-se prudente. De algum jeito intuiu que aquele homem sempre tinha vivido pondo ele as condições; nunca tinha sofrido a crueldade nem a bondade da sociedade. Aquele homem não sabia como comprometer-se, e quando a observou daquela forma, como se ela fosse um pedaço de carne que lhe oferecesse para seu deleite, compreendeu o perigo que corria.
Deveria anular a sessão de estudo naquele mesmo momento. Não deveria voltar a vê-lo nunca. E, entretanto... Já estava meio enamorada dele e não podia dar marcha atrás.
- Sabe quanto tempo fazia que não via uma mulher com uma destas coisas? - Acabava de lhe tocar a rabo-de-cavalo.
- Como se me importasse. - Ela o olhou com os olhos entreabertos - Quanto?
- Do recreio de quarto ano. - Zack enredou os dedos nas pontas- Como se chama? Cauda de burro?
- Rabo-de-cavalo - Corrigiu ela.
- Cauda de burro - Insistiu ele em voz baixa, sorrindo com todo o encanto de um amante.
Aquela não era uma cena para perder muito tempo pensando nela.
- Neste dueto, o burro não sou eu.
Zack inclinou a cabeça para trás e pôs-se a rir.
Ela o contemplou, desfrutando da visão de seu forte pescoço da sombra de cabelo que obscurecia seu queixo, da camisa aberta e o bordo de um peito liso e musculoso, visível por debaixo do segundo botão.
Tragou saliva e baixou os olhos. Era um homem sexy de verdade e seu corpo, tanto tempo ignorado, reagiu ao reconhecê-lo. Com uns poucos contatos no pulso, no cabelo, ele tinha arrumado para remover antigos sonhos e gerar novos desejos. O mero feito de vê-lo e ouvi-lo rir esquentaram seu sangue nas veias, e ao estar de pé tão perto dele, percebendo seu calor e respirando seu aroma, não houve outra coisa que desejasse mais que levantar-se e beija-lo.
Ao olhar aquele homem sentiu os peitos doloridos. Obviamente, tinha perdido o julgamento.
Quando percebeu que ele tinha deixado de rir, levantou a vista, alarmada. Não teria notado o que estava pensando, não?
Ele tinha os dedos ainda enredados em seu cabelo, e então disse:
- Oxalá pudesse beijá-la.
Maldição. Sim que tinha notado o que estava pensando. E...
- Acaso beijar não forma parte do credo de um mordomo? - Disse-lhe impulsivamente.
Zack moveu a base da mão, deslizou-a até o pescoço dela, e com uma lenta pressão começou a massagear os tensos músculos.
- Quando o mordomo está resfriado, não. Seria muito pouco cavalheiresco por minha parte passar para você meus gérmes quando foi tão amável de me trazer sopa de frango.
- Claro. O resfriado.
Hope não chegou a dar uma palmada na frente, mas desejou fazê-lo. Virtualmente havia dito a aquele homem que queria que a beijasse. Isso sim que era fazer-se de difícil.
Isso sim que era jogar. E ela não tinha tempo para tais coisas, tinha uma carreira que construir, tinha uma família que procurar. Devia permanecer centrada, ou renunciar a todos os sonhos que a tinham sustentado em pé ao longo daqueles sete terríveis anos.
- Enfim, tenho que ir.
Ele soltou com suavidade seu rabo-de-cavalo e a fez cair em seus braços. Atraiu-a contra seu peito para que pudesse ouvir os batimentos de seu coração e a seguir, apoiando a bochecha em sua cabeça, disse-lhe:
- Pode estar segura de que nunca estou doente muito tempo - Sua voz se transformou no sussurro de um predador - Sobre tudo quando tenho uma razão tão boa para ficar bom.
Capítulo 9
Já era um sonho antigo, familiar e Hope o tinha tido muitas vezes. Encontrava-se em sua casa em Hobart, Texas, sentada à mesa da cozinha dando de comer a Caitlin cereais de uma caixa. A pequena aplaudia o tabuleiro de sua mesa alta com a mão, abria a boca e fechava os olhos como uma ave. Hope ouviu uma voz cálida e divertida que dizia: "Essa menina adora os cereais."
Hope se voltou para a cozinha.
A mãe olhou para ela sorrindo. Tão alta como era gorda, como um bom travesseiro. Muito bom. Tudo o que queria era para ela para se aconchegar em seus braços e dizer-lhe que tudo ficaria bem.
Mas Caitlin gritou: - Mais! - E sua mãe respondeu - Oxalá tivesse aprendido outra palavra. O jantar está quase preparado. - Assinalou com um gesto as panelas que ferviam ao fogo - Vou chamar seu pai. - E se foi em direção ao escritório.
Hope desejou lhe gritar; equivocou-se de direção. Papai estava fora, em sua oficina, e mamãe precisava ficar em casa. Não poderiam estar todos juntos a não ser que mamãe ficasse. Mas Hope ficou presa daquela peculiar paralisia dos sonhos e não pôde pronunciar uma só palavra enquanto sua mãe desaparecia pela porta.
Em lugar disso, pôs um punhado de cereais no prato e contemplou como Caitlin, com seu cabelo negro e encaracolado e seus grandes olhos azuis, agarrava um deles com supremo cuidado com ajuda de seus dedos gordinhos.
Então ela viu Pepper, oito anos de idade, em pé na porta, com um curativo no joelho e cabelos preto curto encaracolado e torcido na altura da testa. Mamãe queria deixá-lo crescer, porque era muito bonito, mas cada vez que eu tentei, Pepper pegava a tesoura e cortarva as pontas. Olhava fixamente ao saco de cereais, disse: - Eu também tenho fome. Por que não me deixa comer?
- Poderemos comer quando papai chegar. - Agora Hope já podia falar, mas havia uma profunda frustração que a corroia: não podia levantar-se de seu assento, mover-se pela casa nem reunir a sua família. Sabia, com a impecável lógica dos sonhos, que se todos viessem a sentar-se para jantar juntos a dor da separação teria passado no fim. – Fique. - Implorou a Pepper.
Mas Pepper lançou uma gargalhada e se foi.
Naquele momento, papai abriu a porta de tela. Trazia o cabelo, espaçado e castanho, assanhado, como se tivesse estado revolvendo-o com as mãos e nas sobrancelhas levava ainda pó de serragem. Tinha estado de novo em sua oficina, fabricando algum objeto de madeira. Nunca chegaram a vê-lo, nunca souberam do que se tratava, mas mamãe havia dito que tinha pouco tempo para fazer o que gostava assim os meninos não deviam rir dele.
Mas o fizeram de todos os modos.
- De acordo, princesa?- Sorriu a sua filha como lhe sorria sempre, como se o só fato de vê-la o fizesse feliz.
- O jantar está preparado - Disse-lhe ela.
- Mas onde está a pequena? - Quis saber ele.
A cadeira pequena do bebê estava vazia. Caitlin tinha desaparecido.
E depois desapareceu seu pai.
- Isto não está nada bem. - Gabriel se apoiou contra a bancada da cozinha e falou naquele tom grave e vibrante que empregava quando tentava convencer-la de algo. -desapareceram todos. - Mas se nem sequer tenho uma foto. - Respondeu Hope alarmada.
O som de uma campanhia lhe fez levantar de repente a cabeça da mesa. Viu que o telefone piscava.
Sim, ela tinha uma foto. Era sua posse mais bonita, colocada em um porta-retrato de prata junto a sua cama. Olhava-a todas as noites e todas as manhãs: mamãe e papai, abraçados, rodeados por seus quatro filhos.
No entanto, nunca olhou sem sofrer, a perda de sua família e às vezes, quando trabalhava muito e sua dor era muito grande eles vinham visitá-la em seu subconsciente.
O timbre do quadro soou de novo.
Passou uma mão pelos olhos, ajustou o fone e respondeu.
- Wealaworth e Associados, com quem deseja falar?
Do outro lado trovejou a desagradável voz do senhor King Janek.
- Ouça, quero falar com o Wealaworth.
- Está fora do escritório até manhã - Disse, mas pensou: "Afinal, são sete da noite e a maioria dos escritórios fecha às cinco."
Mediu o tamanho do escritório do senhor Wealaworth, situado na esquina e que parecia proceder da seção de móveis de algum supermercado, e logo contemplou com admiração seu computador, que era o menor que havia. Com a caneta preparada, perguntou:
- Quer lhe deixar uma mensagem?
- O que é que esse sócio que tem um cabeçalho das cartas? Chama-se Prescott? Está no escritório?
Com surpresa, Hope compreendeu que o senhor Janek estava falando dela. Ela não havia feito mais que assinar umas quantas entregas, e agora o principal cliente do senhor Wealaworth acreditava que era sócia.
- A senhora Prescott tampouco vai voltar hoje. - Permitiu-se um pequeno sorriso. Resultava divertido que perguntassem por uma pessoa importante.
- Merda, quer dizer que o sócio do Wealaworth é uma mulher? - Grunhiu Janek - Tenho que falar com esse tipo. Dentro de pouco quererá assinar os cheques e quando dá permissão a uma mulher para que faça isso, acredita-se que é ela que manda.
- É que ela é a que manda senhor Janek - Replicou Hope em tom cortante - É a sócia do Wealaworth e Associados,
- Que seja. - Outra mudança no tom de voz, voltou-se mais amistoso - E você? Por que está aí ainda?
-Tenho trabalho que terminar.
Eram deveres de casa, e além disso, estava ocupando-se dos telefones até que chegasse Sarah às dez. Madame Nainci tinha saído para ir a um encontro, e Deus sabia quando retornaria a casa. No serviço de secretária eletrônica reinava o silêncio, um lugar perfeito para estudar.
- Que conscienciosa! - Exclamou Janek - Não me viria mal alguém como você em minha organização. O que lhe parece?
Hope se debateu entre a diversão e a ofensa. Janek tinha deixado claro que estava falando de outras tarefas que não eram responder ao telefone, mas tinha sido tão direto ao dizer isso que não lhe deu tempo a desenvolver nenhum ressentimento, de modo que lhe respondeu em tom afetado:
- Estou totalmente satisfeita onde estou, mas obrigada.
- Que lástima. Uma mulher com uma voz como a sua poderia chegar longe.
Hope não quis saber o que tinha querido dizer com aquilo.
- Deseja algo mais, senhor Janek?
Para alívio dela, o outro disse que não e desligou. O qual deixou o telefone mudo. Hope cravou a vista no livro de ciências informáticas, mas por mais que o tentasse, sua mente não deixava de voltar uma vez e outra vez a Griswald. Tinha-lhe levado sopa de frango. Não era grande coisa, já havia feito isso mesmo por outras pessoas. E se havia sentido um pouco culpada por tê-lo envergonhado, doente como estava. Aquele sentimento de culpa a tinha levado até a grande mansão do Beacon Hill.
A culpa... E a curiosidade. Queria saber como era fisicamente. Necessitava de um rosto para pôr aquela voz. Tinha o ouvido falar com ela em sonhos, e o consolo que achava naquela voz profunda a ajudou a despertar com uma sensação de renovado otimismo. Segundo sua experiência, o otimismo era uma emoção perigosa, que indevidamente conduzia à decepção e o sofrimento. De maneira que pensou que se exorcizasse aquela voz e a conseguisse tirar de sua mente, se demonstrasse a si mesma que Griswald era tão velho e enrugado como ela o tinha imaginado, conseguiria superar aquele amor. Voltaria a concentrar-se em sua família.
Em um desenvolvimento normal dos acontecimentos, esse tinha sido um plano sólido. Mas por desgraça, o próprio Griswald não tinha colaborado; em vez disso, resultou que era... Bastante bonito. Muito bonito.
Fabuloso, verdadeiramente espantoso.
Com um gemido, apoiou a cabeça entre as mãos. Não tinha deixado de sonhar com Griswald. De fato, o que tinha sonhado a noite anterior passou de branco e negro ao Tecnicolor, de quente e reconfortante a acelerado e ardente. Para ser uma mulher que não tinha nenhuma relação pessoal com o sexo, seu subconsciente tinha arrumado para imaginar várias possibilidades extremamente interessantes.
Tudo aquilo era culpa dele. Hope poderia ter resistido algo exceto aquele abraço. Levou uma mão ao estômago. Quando ele a tocou, experimentou uma sensação parecida com a de encontrar-se no alto de uma montanha russa e cair de uma vez a toda velocidade. Era algo que dava medo, que resultava horrível e maravilhoso, tudo de uma vez. Depois de tanto tempo, o fato de ser tocada, de ser abraçada... Teria se dado conta ele do muito que significava para ela?
Não, é obvio que não, como ia dar-se conta?
Mas ninguém a tinha estreitado com força entre seus braços desde a última vez que viu Pepper, e Pepper gritou enquanto a levavam para longe.
Oxalá soubesse onde estavam agora, Pepper, Gabriel e a pequena... A mão que tinha apoiada no estômago se fechou em um punho. Desejou que todos estivessem bem, que fossem felizes. Tragou saliva, mas as lágrimas que lhe ardiam nos olhos não quiseram cair. Já fazia anos que tinha chorado todas.
Mas se ao menos soubesse onde estavam seus irmãos, como estavam...
Naquele momento zumbiu uma linha. Levantou a cabeça de repente E ficou olhando a luz piscava. Era a linha do senhor Givens. Griswald... Sim, melhor pensar no Griswald que em sua família. Em seu fracasso.
Mas ao pensar lhe veio à memória o sonho da noite passada, recordou aquela cozinha cálida e luminosa, repleta de risadas. E depois carinhos. E mais carinhos...
Saberia Griswald? Claro que não. Estava lhe atribuindo uns poderes que não podia ter nenhum homem. Griswald não tinha nem idéia de que ela albergava as mesmas fantasias tórridas que um adolescente.
Com movimentos rápidos e precisos, próprios de uma operadora eficiente, conectou - Tinha que deixar de pensar naquelas coisas!- E se apressou a dizer:
- No que posso lhe servir senhor?
A voz do Griswald, cálida, profunda e sem pressa, encheu seu cérebro e a deixou sem força nos dedos.
- Hope. Hope, como vai tudo?
- Muito bem. – Ficou a retorcer as bordas de seu caderno - Chamou o senhor Chelo. Crê ter encontrado um terno.
- Bem. Alegro-me por ele. Mas eu me referia A... Como está você?
- Eu? - Hope olhou a si mesma, os habituais jeans descoloridos e a camiseta desgraciosa - Estou bem.
- Maravilhoso. - Sua voz grave dava a impressão de que seu bem-estar fosse de uma importância primitiva para ele - Fiquei preocupado, pensando em que fosse sozinha para casa.
- Não sei por que. Você insistiu em me levar de carro até a parada do ônibus.
- Deveria ter te levado até sua casa. - Esta vez soou severo.
- Não era necessário.
Nem em um milhão de anos ia permitir que a levasse até seu bairro em um dos Mercedes do senhor Givens. O teriam roubado antes que tivesse pisado no freio.
A voz dele adotou de novo aquele tom quente e persuasivo.
- Me esqueci de te perguntar... Onde vive?
Hope se pôs a rir. Ou o tentou. O que lhe saiu foi, mas uma risada nervosa. Como se dissesse a ele onde vivia. Sentiu-se muito orgulhosa de seu tom profissional ao replicar:
- Sinto senhor, mas essa informação é privilegiada e não posso facilitar-lhe
- Vamos, Hope, você sabe que eu sou legal. - Mas me pareceu um pouco surpreso, como se nunca ninguém tivesse questionado a sua integridade.
Não era que ela estivesse fazendo semelhante coisa, mas sim sabia quando devia ficar firme.
- Madame Nainci é muito restrita a esse respeito e eu não penso zangá-la por isso.
Em um tom que ainda não tinha ouvido dele, um que devia empregar com os criados incorrigíveis, Griswald respondeu:
- Hope, já basta. Desejo saber onde vive. E vai me dizer isso - Está bem, eu direi.
Hope se endireitou em seu assento, sobressaltada. Vá, a arrogância daquele tipo! Mas seu tom de voz foi submisso quando disse:
- Está bem, direi.
- Isso está melhor.
Talvez fosse um homem impressionante, mas merecia que lhe parassem os pés. Deixou-o esperar um comprido instante.
- Pense no lugar onde vive você. Agora imagine o contrario. Aí é onde vivo eu. - E antes que ele pudesse responder, puxou a ficha e saiu do quadro - Trague essa, senhor Griswald.
Um leve golpe na porta a fez girar a cabeça. Era inverno, estavam em Boston, era de noite, e aquele bairro, embora fosse melhor que o seu tampouco era muito bom.
Sarah tinha chave. Madame Nainci, também. Então quem era que batia na porta a àquelas horas?
Hope se levantou de seu assento, foi até a entrada e espiou pelo olho mágico... Esteve a ponto de cair de costas.
Do lado de fora havia uma senhora de cabelos brancos, com um corte de cabelo extravagante e os olhos mais perspicazes que Hope tinha visto em toda sua vida... E um homem alto e musculoso que a sustentava em seus braços.
Arriscando-se, Hope gesticulou nervosa com a chave e abriu a porta de par em par, deixando entrar uma rajada de ar frio e aos dois desconhecidos.
- Posso lhes ajudar em algo?
- Sim, obrigada. Faz um frio verdadeiramente tremendo. - A senhora se amassou um pouco mais contra o amplo peito do jovem - Não posso descer a escada sozinha, assim ele tem que me carregar nos braços.
Pela primeira vez, Hope se fixou nos dedos entrevados da anciã e no modo em que sustentava a cabeça, ligeiramente inclinada para um lado como se não fosse capaz de mantê-la erguida.
- Naturalmente! - Naquele momento soou a linha do Griswald, mas Hope fez caso omisso - Já sabia.
A anciã pôs cara de sentir-se decepcionada, e repôs:
- De fato, abrigava a esperança de que você pensasse que é meu amante.
- É obvio que sim.
A mulher explodiu em uma sonora gargalhada que lhe percorreu todo o corpo. Quando se acalmou sua risada e essa não era mais que um ligeiro ofego, perguntou:
-Você é Hope?
Ao ver que ela afirmava com a cabeça, levantou os olhos ao céu durante um instante comovedor e Hope, que tinha visto rezar a muita gente, teria jurado que estava falando com Deus.
O qual a irritou, pois não entendeu por que.
- Eu sou tia Cecily. - Em seus lábios ainda se desenhava um débil sorriso - Acaso Zack te advertiu a respeito de mim?
- Zack? - Hope fingiu desconcerto - OH, o senhor Givens. Não, ainda não tive o privilégio de falar com seu sobrinho.
Tia Cecily moveu a cabeça em um gesto negativo e murmurou:
- Que idiota.
Hope não se ofendeu. Era evidente que tia Cecily se referia a seu sobrinho.
- Não quer sentar-se?
- Eu adoraria. - O silencioso forçudo depositou a tia Cecily em uma cadeira. Apoiou-lhe uma mão no braço com carinho e disse - Este é Sven
- Não fala a sério. - Hope não pôde evitar que lhe escapasse.
- Alguém tem que levar o nome de Sven. - Tia Cecily se voltou para o aludido - Vá procurar o andador, estou bem acompanhada.
Com um cortês gesto de cabeça dirigido a Hope, Sven partiu.
Hope o contemplou enquanto partia. Até envolto em um grosso casaco, transbordava masculinidade por toda parte, uma extraordinária exibição de virilidade, e Hope não podia olhar para longe dele.
- Certamente - Disse tia Cecily como se Hope tivesse falado, e seus olhos castanhos lançaram um brilho de diversão - Eu lhe digo que continua a servir-me porque cozinha.
- E ele acredita?
- Não acredito, mas não saberia te dizer. Não fala muito.
- O homem perfeito não tem necessidade de falar muito.
- Exatamente. - Tia Cecily tirou as luvas e afrouxou o cachecol que levava no pescoço - Zack me pediu para doar meu velho andador a seu cliente, assim me ocorreu trazer isso pessoalmente.
- Um andador? Para a senhora Monahan? - Hope não esperava resultado algum de seus menos que sutis insinuações, e juntou as mãos para dizer - É muito amável por sua parte.
- Foi idéia do Zack.
- Sim, bom.
- Idéia do Griswald, suponho.
Tia Cecily tomou ar para dizer algo. Logo tomou ar outra vez. E o soltou muito devagar.
- Meu sobrinho é um tipo estupendo.
Naquele momento soou a linha da senhora Shepard.
- Desculpe-me - Murmurou Hope.
Enquanto escutava a senhora Shepard queixar-se de que ainda não estava em trabalho de parto, de que tinha os tornozelos inchados e de que aquele menino não ia chegar nunca, ouviu dizer à tia Cecily:
- Olhe onde. Salvei o sino.
Aquilo deixou surpreendida a Hope. Porque tia Cecily queria falar com ela do senhor Givens? Não o conhecia, nem tinha vontades de conhecê-lo. Ao tempo que pendurava a chamada, tia Cecily disse:
- Por que não te agrada meu sobrinho?
- Não me desagrada. - Mas Hope sabia que havia sido rígida - Nunca falei com ele.
- Se for por seu dinheiro, tenho que confessar que eu também tenho dinheiro.
- Já sei.
A tia Cecily tinha aquela resolvida entonação de Boston que soava igual a um maço de bilhetes novos ao dobrar-se.
- De modo que também me odeia?
- Eu não odeio a ninguém.
Mas Hope desviou o rosto. Sabia que não podia odiar, estava convencida daquela verdade com todo seu coração. Mas quando se recordava do que haviam feito a sua família... Quando se recordava da dor da separação e da solidão de não pertencer já... E do jornal da noite anterior, aquelas pessoas cinquentonas que voltavam a encontrar-se... E se ela fracassasse? E se ela não encontrasse seus irmãos até que todos tivessem cinqüenta anos? E se não os encontrasse alguma vez?
Tinha tentado perdoar aquelas pessoas de Hobart e em ocasiões acreditava tê-la perdoado já. Mas logo, na escuridão da noite, suas dúvidas voltavam a perturbá-la, e perdoar lhe resultava impossível. Simplesmente impossível.
Dois anos atrás, ainda não tinham procurado Melissa Cunningham e encontrou-a em um colégio exclusivo para mulheres na Geórgia. Enviou um e-mail, mas nenhuma resposta foi obtida. Então gastou alguns preciosos dólares no telefone. Na primeira, Melissa disse que não conversava com criminosos, mais tarde, quando Hope implorou, porque não ficava envergonhada quando se tratava de sua família, Melissa disse-lhe para não chamar nunca mais. Finalmente, ela sussurrou, "Esqueça Hobart. Esqueça a sua família. Não faça perguntas. Não mexa mais uma vez nesse ninho de vespas".
E em seguida pendurou o telefone e se negou a falar de novo com Hope.
Quando Hope se recordava das pessoas que lhe tinham arrancado dos braços a suas irmãs e a seu irmão e a tinham convertido em uma marginal naquele mundo chamado Boston, recordava que eram pessoas enriquecidas, pessoas que fingiam bondade, amor fraternal e que estavam vazias por dentro. Pessoas como Melissa e seus pais.
Também tinham conseguido que Hope se sentisse vazia por dentro. Vazia, angustiada e... Ah, muito empenhada em obter seu objetivo.
De novo se abriu a porta e, acompanhado de outra rajada de ar frio, entrou Sven. Com a sensibilidade que têm os homens muito corpulentos com os objetos delicados, abriu o andador e o colocou no chão.
- OH. - Hope examinou o aparelho, admirando o brilho cromado, a cestinha, as rodas - É perfeito. - Foi até onde estava à tia Cecily e tomou as mãos - O agradeço muito.
- Foi idéia do Zack - Repetiu tia Cecily.
Hope assentiu com um gesto, sem acreditar em nenhuma palavra, mas compreendendo que às vezes os parentes afetuosos tinham que pensar bem dos membros de sua família.
Zumbiu outra vez o telefone. Hope identificou ao que chamava com um olhar. Tratava-se da senhora Xadrez. Conectou-a e lhe disse:
- Rainha a d-4. - E desconectou.
Ao dar volta, viu que a tia Cecily a observava com expressão estranha, e por fim se recordou de suas maneiras.
- Gostaria de tomar um chá, ou um café?
- Eu adoraria querida. Logo poderia te falar de meu sobrinho.
- Maravilhoso. - Hope gemeu para si.
Mas possivelmente, tão somente possivelmente, pudesse lhe surrupiar um pouco de informação à tia Cecily... Sobre o arrogante, enlouquecedor e sempre sexy Griswald.
Capítulo 10
- Minha querida menina, arrumei um encontro para você com meu senhor Jones.
Hope girou sobre seus calcanhares e soltou o lápis. A afiada ponta se rompeu ao se chocar contra o chão, mas ela apenas se deu conta.
- Como diz?
Madame Nainci saiu apressadamente de seu pequeno dormitório terminando de colocar os brincos nas orelhas.
- Prometeu-me que ia sair com meu senhor Jones, e agora...
- O que prometi foi que sairia com ele se eu não gostasse do senhor Griswald. - Hope permitiu que aparecesse em seus lábios um sorriso do mais autêntico - E acontece que eu gostei. Eu gostei muito.
- Mas... Mas o conheceste em pessoa? - O acento de Madame Nainci se fez mais pronunciado devido à surpresa e à incredulidade - E não é um velho?
- Não, não! É muito bonito.
- Jovem?
- Não muito,
- É velho.
- Trinta e poucos, suponho.
Aquele dia Hope trocou a camisa de flanela branca que tinha ganhado de Natal de um dos clientes do serviço de secretária eletrônica, e limpou uma imaginária mancha na manga. Junto com a camiseta sem mangas que usava debaixo, dava-lhe calor e, quando a colocava dentro dos jeans e a ajustava com um cinturão, ficava muito bem. Olhou-se um longo tempo no espelho para certificar-se disso.
- É o mordomo do senhor Givens, não se acorda? Não é mau trabalho. E é um homem agradável. Em realidade é... É agradável.
- Não está mentindo? - Inquiriu Madame Nainci em tom suspicaz.
- Madame Nainci! - Hope fingiu surpresa - Como se eu fosse fazer uma coisa dessas.
- Sim que faria, mas eu também saberia distinguir se estava mentindo, porque o faz muito mal. Mas... - Madame Nainci tomou o queixo de Hope entre suas unhas postiças pintadas e logo estudou seu rosto antes de acrescentar - Acredito que está me dizendo a verdade.
Hope escapou e começou a colocar livros em sua mochila.
-Vou vê-lo esta noite, depois da aula.
- Esta noite? Ele não virá aqui te pegar? - Madame Nainci deixou aberta sua boca pintada de vermelho - É que não entende o respeito que deve mostrar a uma jovem de sua categoria? Você lhe honra com sua presença.
- Não vamos sair. Vai ajudar-me com os exercícios de física.
- Não se trata de um encontro!
Hope conteve a respiração e esperou a que Madame Nainci fizesse sua declaração.
- Isso... Isso é melhor que um encontro. Diz que vai ajudar com física? Sim, é um autêntico sacrifício. Muito bem! - Madame Nainci levantou as mãos no ar em um gesto exagerado de abraçá-la - Vou dizer a meu senhor Jones que já é muito tarde... No momento. Mas se tiver algum problema com seu romance, deverá me explicar isso Eu tenho muita experiência em romances e posso te ajudar.
- Sim, Madame Nainci. - Hope não fez comentário algum sobre o fato de que a experiência de Madame Nainci se referia, toda, a romances fracassados - Também vai sair esta noite?
- Pois sim, hoje permiti ao Stanford que me leve a algum lugar.
Hope contemplou a sua chefa, animada e extrovertida e depois pensou no senhor Wealaworth, mais jovem, mais magro e calado, igual a uma foto descolorida.
-Vai a sério com ele?
- Absolutamente! Sair comigo lhe faz feliz e eu gosto do restaurante grego que me sugeriu. Mas é muito... Qual é a palavra... Muito nervoso para mim. Sempre está preocupado. - Naquele momento se ouviu uma portada e penetrou uma rajada de vento frio - E aqui está nossa Sarah, para se encarregar do telefone. - Madame Nainci franziu o cenho. E chega tarde!
Com a pressa que a caracterizava, Sarah jogou seu casaco ao chão.
- Chego tarde porque sai para procurar isto. - Como uma pequena bola de energia, seus olhos castanhos cintilaram ao tempo que, com a cerimônia de um diretor de circo, extraiu um comprido lenço de pescoço de sua bolsa
- O que é precioso?
Realmente era. Um estampado de flores turquesa sobre um fundo marrom escuro de seda, com uma brilhante franja de cor nata nos extremos.
- Uma maravilha! - Hope tocou o suave tecido - Onde o encontrou?
- É de uma artesã que Joe conhece que faz coisas como esta a um preço muito razoável - Explicou Sarah.
- Joe lhe deu isso de presente? - Hope sentiu que a inveja a comia.
- Não, tola, trouxe-o para ti. - Obrigou ao Hope a ficar de pé e lhe colocou o lenço ao redor do pescoço.
- OH... - Hope passou as mãos pelo luxuoso objeto - Não posso aceitar. É tão...
- Não pode dizer que não - Interveio Madame Nainci - Sarah se sentiria insultada. Não é, Sarah?
- Sim - Respondeu a moça em tom jocoso - Vai colocar ele enquanto aprende... Física. - Ao pronunciar a última palavra, deu a Hope uma piscada bem visível.
Madame Nainci se ergueu como se desse por ofendida.
- Estava inteirada sobre esse mordomo?
- Não queria me contar nada, mas ontem à noite a convenci para que ficasse um momento e estivemos jantando e falando - Falou Sarah – Obriguei-a dizer tudo.
- Estão dando excessiva importância ao fato desta noite - Disse Hope, mas se ruborizou ao mesmo tempo em que falava, e as duas mulheres deixaram escapar umas risadas.
- Já vejo Hope - Disse Madame Nainci - Está em volta de tudo. - Naquele instante soou o timbre da porta e correu para abrir, com o comprido lenço que tinha atado aos quadris ondulando em um redemoinho âmbar e escarlate - Entre, senhor Wealaworth. Que tal foi o almoço?
- Bem. - Chapéu em mão, o homem entrou e ficou de pé, incômodo entre as mulheres - Olá, senhoritas. - Voltou-se para Hope - Confio que tudo começa bem em nosso pequeno negócio.
– Muito bem.
Hope observou o senhor Wealaworth enquanto este ia para seu escritório e começava a trabalhar. Gostava daquele homem; parecia muito meticuloso. Solicitava a assinatura dela para os envios; logo punha o nome de Hope nos cabeçalhos das cartas. Em certa ocasião em que assinou um relatório conjuntamente com ele, Wealaworth lhe explicou os números. Foi tão paciente e claro, que Hope acreditou ter entendido a maior parte do que lhe disse, e com isso ficou contente. Ao fim, ela não queria ser contadora, mas algum dia necessitaria que se ocupasse de administrar seu dinheiro, e com a ajuda do senhor Wealaworth ela já contaria com certa experiência.
Experiência da que tinha carecido seu pai. Porque, embora ela não entendesse de contabilidade, sim entendia que se faltava dinheiro dos recursos da igreja de Hobart era porque alguém tinha roubado e esse alguém não tinha sido o reverendo Prescott. Hope soube na época então e jamais tinha trocado de idéia.
Recordou aquela cena de novo, de pé no pátio, ouvindo os paroquianos enlouquecerem contra seus pais, sem compreender como podiam estar tão equivocados e serem tão cruéis. Desejou ser implacável e às vezes era, efetivamente, mas quando as circunstâncias pareciam mais desoladoras que nunca, voltava a ouvir em sua mente a voz de seu pai: "Hope, tenha fé em Deus, porque Ele sempre te tem na palma de sua mão". Devia acreditar naquilo; sua fé era o único que tinha ficado de seu pai.
Conforme foi fazendo-se maior e expondo-se à mais equívocos e mais crueldade, chegou a ter a certeza de que uma daquelas pessoas tinha sido o culpado do desfalque... E de assassinato. Do assassinato de seus pais. Mas não sabia de quem se tratava e tinha tido que escolher entre procurar que se fizesse justiça a seu pai e a sua mãe e procurar a suas irmãs e seu irmão. Escolheu procurar o Gabriel, Pepper e Caitlin e assim faria.
Até esse dia, só tinha a suas amigas, que eram na verdade muito boas.
- Obrigado pelo lenço, Sarah. E a você, Madame Nainci, por estar sempre ao meu lado quando preciso. Não sei dizer isto com freqüência, mas as duas têm feito com que minha vida seja muito melhor. Todos os dias, sinto agradecida de... - De modo inesperado, a Hope falhou a voz e lhe encheram os olhos de lágrimas.
- OH Hope, nós sentimos o mesmo por ti. - Sarah a rodeou com um braço e logo o outro esticou à Madame Nainci - Vamos nos dar um abraço.
E se abraçaram as três, desfrutando daquele momento de proximidade.
Madame Nainci lhes beliscou o queixo, de uma depois da outra, com suas unhas postiças.
- São boas meninas. Muito boas meninas. Vão passar coisas estupendas às duas, estou segura. - Fez um gesto com a cabeça ao senhor Wealaworth, que se encontrava trabalhando sentado em sua mesa com os ombros encurvados enquanto trabalhava em excesso para evitar aquele desdobramento feminino de sentimentalismo - Assim começou ganhando quinhentos dólares mensais, né, Hope?
- OH, sim - Respondeu Hope com entusiasmo.
Naquele momento zumbiu o telefone.
Madame Nainci voltou o olhar para a luz lhe pisquem.
- É a senhora Monahan.
- Bem! Queria falar com ela antes de partir para a aula. - Com um sorriso afetuoso, Hope se separou de suas duas amigas e atendeu ao telefone - Olá, senhora Monahan, como se encontra em um dia tão estupendo como hoje?
Realmente, era um dia lindo, com sol e céu azul em quantidade suficiente para fazer pensar a qualquer um que faria calor. Mas, como ocorria com tanta freqüência em Boston, aquilo não era mais que uma quimera. A temperatura no exterior chegava a zero grau, e se supunha que a noite devia descer bem mais. Para Hope, que recordava com carinho os suaves invernos do Texas, aquilo era indecente.
Com seu encantador acento irlandês e sua voz de idosa, a senhora Monahan respondeu:
- Ah, querida, encontro-me muito bem. Queria te dizer que o andador funciona às mil maravilhas. Hoje fui ao mercado e na cestinha coloquei tudo o que necessitava.
- Foi à loja? - Hope imaginou a aquela pequena idosa de cabelo cinza, com seu penteado permanentado e os ombros encurvados, caminhando com dificuldade pelos corredores do supermercado - Mas faz muito frio!
A senhora Monahan riu indulgente.
- Assim é, mas eu já estou muito curtida.
- Se me permitisse chamar o assistente social.
- Não, não desejo incomodar a ninguém! - Quando queria, a senhora Monahan empregava um tom de voz que parecia o estalar de um chicote - Bem, querida, sinto curiosidade por saber como saiu no exame de física. - Uma vez mais voltou a falar como a amável idosa que Hope acreditava que era.
Hope lançou um sonoro suspiro.
-Tirei oitenta e oito. Até agora, minha media está por um fio, mas pelos cabelos e não posso colocar a perna em outro exame - Mordeu-se o lábio interior - Tenho que terminar os estudos na escola de ensino médio com quatro pontos completos.
Com voz doce, a senhora Monahan disse:
- Parece-me que essas ciências que está estudando não são o teu forte.
- O meu? - Hope se relaxou com um sorriso.
- Parece-me que deveria estudar psicologia, ou história, ou arte. Algo que seja um pouco mais suave, que combine mais com sua personalidade.
Hope fechou os olhos e, durante um instante de intenso prazer, recordou o muito que tinha desfrutado de suas aulas de arte. Sua mãe a levava todas as terças-feiras à aula de uma hora que lhe dava a professora de arte do instituto. A senhora Campbell era difícil e exigente, e em ocasiões lhe dedicava um elogio que a fazia ficar radiante durante dias. Tinha ouvido isso de sua mãe que possuía um verdadeiro talento. Mantinham conversas a respeito de quais eram as universidades de artes liberais mais adequadas. A vida era agradável naquela época e fácil, e Hope tinha o mundo em suas mãos.
Replicou à senhora Monahan:
- Com a arte não se ganha dinheiro.
- O dinheiro não é tudo, querida.
Hope se perguntou como alguém como à senhora Monahan, tão acossada pela pobreza, podia pensar assim.
- Mas não ter dinheiro é o pior do mundo.
- O pior do mundo é não ter liberdade - Corrigiu-a sua interlocutora.
- Pois não ter dinheiro lhe segue muito de perto. Eu penso me esforçar por tirar uma nota alta em física. - Aquela era a única razão pela que ia receber aulas do Griswald.
- Sim, claro.
- Quanto mais pode se esforçar? Já não tem tempo para você mesma.
- Terei tempo para mim quando me graduar.
Nem sequer aquilo era estritamente certo. Quando se graduasse, iria a uma universidade. Quando obtivesse o diploma em ciências, procuraria o trabalho melhor pago que houvesse e passaria os momentos livres navegando pela internet, atrás de algum vestígio de seus irmãos. Agora, em cada momento livre que tinha, investigava nos decrépitos livros da biblioteca, e ali não havia nada, nem um só indício.
- Bom, querida, não se preocupe. Será aprovada em física com destaque e irá à universidade que queira. Acenderei uma vela por você. Cuide-se carinho, ao andar a pé por esta cruel cidade.
- Assim farei. - Hope aguardou até que a senhora Monahan desligou e desconectou a linha.
Ficou olhando seu livro. Ciências informáticas. Tinha que estudar ciências informáticas. Apesar do que dissesse a senhora Monahan, não podia revoltar-se e resolver de repente estudar a arte. Se o fizesse, não poderia começar a procurar a sua família.
E não se atrevia a pensar em Griswald. Não lhe convinha concentrar-se em nada que não fossem suas aulas. E, certamente, não lhe convinha imaginar um futuro entre ela e um mordomo só porque ele era bonito e inteligente e parecesse interessado por ela.
Tinha que se recordar do que tinha acontecido a última vez que tinha falado a alguém de seus pais e de seus irmãos.
Riu em voz alta e ela mesma se assustou pela hostilidade de seu tom de voz.
Madame Nainci apareceu à cabeça pela cozinha.
- Ocorre algo, Hope?
-Nada absolutamente - Respondeu Hope.
Madame Nainci desapareceu outra vez e a deixou a sós com sua repreensão interior.
A última vez? O que acontece, todas às vezes. Não se podia dizer que era precisamente uma pessoa que aprendesse depressa. Mas agora sabia. Jamais falaria com ninguém de seu passado, ou do contrário, toda a amizade e intimidade terminaria em amargura e humilhação.
Griswald não era mais que um obstáculo em seu caminho.
Capítulo 11
O obstáculo em seu caminho estava em seu escritório, muito sério, colocando fim aos detalhes para fechar a empresa de Colin Baxter e falar, pela última vez, com o homem que em outro tempo tinha sido seu amigo.
- Maldito seja, afrouxe um pouco. - Agora Baxter estava assustado, e tentava com palavras lisonjeadoras escapar do retiro em que ele mesmo se colocou - Somos amigos.
- Não, não somos.
Zack considerava Baxter um bode desumano. Mas o problema não parava aí. No final, segundo Jason, todas as manhãs o próprio Zack barbeava a cara de outro bode desumano. O problema consistia que Baxter era um egoísta que acreditava que podia fazer o que lhe viesse à cabeça e com independência das reprimendas de seu conselho de administração e de seus deveres com os acionistas.
- Eram só negócios - Alegou Baxter.
- Não, não eram só negócios. Foi estupidez. - E não havia nada que ofendesse a Zack tanto como aquilo.
Baxter perdeu os nervos. O que não era nada surpreendente. Quando alguém lhe contrariava, perdia o controle.
- Isto é vingança. Vingança porque não superei alguma espécie de prova de lealdade para o grande, o excelso Zacharias Givens. Deixa que te diga uma coisa, Zack; ninguém superará jamais essa prova a sua inteira satisfação. Todo mundo pensa em si mesmo e você faria bem em deixar de procurar essa relação "autentica", porque não vais gostar de ninguém tanto como gosta de si mesmo.
- Já basta - Disse Zack em tom cortante.
- Eu ouvia se queixar de que todo mundo lhe tratava de maneira distinta porque foi rico e pensava: "A quem diabos lhe importam isso?" Mas de todos os modos lhe escutava, assentia e fingia sentir interesse...
- Adeus, Baxter.
- Não desligue o telefone!
Em silêncio, Zack depositou em seu lugar o fone. Continuando, aproximou-se de seu bar e molhou o rosto com um pouco de água. Ao voltar-se, viu Meredith na porta.
- O que ocorre? - Perguntou em tom desanimado.
A ela não pareceu importar. Já não. Com uma calma nascida de já ter visto muitos outros temporais de seu chefe, disse-lhe:
- Está no telefone sua tia Cecily. Diz que ou a atende ou irá comprar mais quadros para que você os pendure.
- De acordo, falarei com ela. - Foi até o telefone e se dispôs a responder, não sem antes chegar a Meredith - Antes que parta, necessito que me dê um conselho.
Meredith abriu a boca para lhe perguntar "Que", mas imediatamente a fechou, afirmou com a cabeça e foi fechando a porta detrás de si.
Zack levantou o fone e começou:
- O que, tia Cecily?
- Assim é que se fala com a sua tia envelhecida e artrítica? - Soava muito jovial.
Zack se mostrou suspicaz ao momento e respondeu em um tom falsamente solícito:
- Alegro-me saber de você, tia Cecily. Que tal se encontra seu envelhecido e artrítico corpo?
Ela riu.
- Estupendamente bem, ou pelo menos assim será dentro de três semanas, quando for ao Caribe e me sentar em uma cálida praia debaixo de uma sombrinha.
Tinha conseguido chamar sua atenção.
- Vai de férias? Você sozinha?
- É igual de sutileza como uma enxada. Mas de fato sim, vou de férias e não, não vou sozinha. Responde isso a todas suas entremetidas perguntas?
- Não de todo. - Sua mãe estava certa: a tia Cecily devia ter uma aventura.
- É uma lástima, porque é tudo o que vais arrancar-me. – Jocosamente, trocou de tema e lhe perguntou - Adivinha o que fiz ontem à noite?
Zack, sentado em sua poltrona de executivo, recostou-se contra o respaldo.
- Se não pensa em responder às minhas perguntas, por que teria eu de responder às tuas?
- Que antipático. Não resulta nada atrativo em um homem de sua importância. Fui contratar um serviço de secretária eletrônica.
Aquilo sim que não esperava. Incorporou-se imediatamente e exigiu:
- O da Madame Nainci? Procurou a Madame Nainci?
- Quantos serviços de secretária eletrônica há em Boston? Naturalmente que fui ao da Madame Nainci.
Zack se afundou em sua poltrona e ficou olhando fixamente o telefone, como se por obra de algum milagre pudesse ver a cara de sua tia.
- Viu-a? Conheceu Hope?
A tia Cecily soltou uma risada.
- Sim.
Zack rompeu a suar.
- Meu Deus e o que lhe disse de mim?
- A verdade.
- Não. -Tia Cecily o tinha traído?
- Sim. Disse que Zack Givens era meu sobrinho. - Deixou que Zack se retorcesse de angústia por espaço de uns segundos e logo acrescentou em tom sarcástico - Mas Hope não tinha nenhum interesse, Zack Givens. Quem a interessava era seu mordomo, Griswald.
- Ah. - Zack relaxou em seu assento - É minha tia favorita.
- A adulação não vai servir-te de nada para sair do atoleiro esta vez. Diga a verdade a essa moça.
- Sim. Deveria fazê-lo. - Mas gostava do modo em que Hope o tratava: como se fosse um homem igual a qualquer outro e não como um cartão de crédito com pernas.
- Não sei muito de seus assuntos amorosos, querido, e não quero saber nada, mas me corrija se me equivocar: essa garota não te pertence para que faça com ela o que queira.
- Ainda não.
- Zacharias Givens, o que está pensando? - A voz de tia Cecily se quebrou ao alcançar uma aguda nota de indignação - Acredita que pode agarrar a uma jovem realmente encantadora que sofreu infinidade desgraças na vida e levá-la...?
Zack ficou em estado de alerta total.
- Que classe de desgraças?
- Não me disse isso, mas é órfã e pobre. Vai arrastá-la até sua cama para logo dizer "A propósito, não sou quem disse ser."
Zack se relaxou.
- Não é precisamente uma menina, não?
- É uma jovem encantadora e você está evitando a pergunta.
- Responderei a sua pergunta se você responder à minha. Com quem vai ao Caribe?
Tia Cecily o ignorou olimpicamente.
- Não só Hope representa muitos mais problemas dos que você está acostumado a encontrar, é que, além disso, é muito mais agradável que essas mulheres com as que revista dormir. Deixa-a em paz.
Deixar em paz a Hope? Antes disso abandonaria suas obrigações para com a Givens Enterprises. Givens formava parte dele, e Hope... Enfim, ela não formava parte dele. Nenhuma mulher. Mas certamente Hope tinha captado seu interesse e com isso bastava.
- Meredith está dizendo que tenho outra chamada. - Não era verdade, mas não desejava seguir falando de Hope com a tia Cecily - Explicarei a mamãe que vai ao Caribe. Com um homem. De modo que pode esperar um interrogatório.
E desligou deixando-a com o protesto na boca. Ato seguido marcou o número de seu médico e em umas poucas frases breves. A maioria das quais tinham que ver com o número de seu cartão de crédito, deu as instruções necessárias para que a senhora Monahan tivesse sua operação de quadril.
Já estava. Aquilo eliminaria todo vestígio de culpabilidade que tivesse conseguido suscitar tia Cecily.
Continuando, chamou a sua casa.
- Residência Givens - Respondeu Griswald como se fosse um arauto da realeza.
Zack decidiu que tinha que soar mais majestático quando falasse com Hope.
- Griswald, vou dar-lhe umas férias.
- Senhor... Givens? - A voz do Griswald revelava desconcerto - É você? Encontra-se bem?
Irritado, Zack replicou:
- É obvio que me encontro bem. Atua você como se nunca pudesse sair de férias.
- Naturalmente que sim, senhor. Mas você não gosta. Você não gosta das mudanças de nenhuma classe.
Zack lhe dirigiu um sorriso odioso ao telefone.
- Pois estou mudando.
Griswald provou outra vez.
- Terei que deixar Leonard no comando, e já sabe que não gosta de Leonard.
Zack fez uma careta, era verdade. Nunca tinha chegado a combinar com aquele submordomo nervoso e senil que jamais olhava nos olhos.
- Sobreviverei. Vai a alguma parte. Faça uma investigação genealógica, ou o que seja… Vá esta noite.
- Esta noite! - Indignado e ofendido, Griswald exclamou - Senhor, isto é ultrajante.
- Pagarei suas férias.
- Quanto tempo? - Perguntou o mordomo com cautela.
- Duas semanas bastará. - No prazo de duas semanas teria Hope em sua casa, em sua cama, diria a ela a verdade e ela o teria perdoado.
Griswald suspirou.
- Deixarei o número de meu celular, e quando se recuperar deste caprichoso arrebatamento, pode me chamar para que retorne.
- Boa idéia. Obrigado, Griswald. Verei-lhe quando voltar.
- Sim, senhor. E... Senhor, a senhorita Hope chamou - Perguntando por... Mim. -Griswald espaçou as palavras para dar a entender sua total desaprovação - Hei-lhe dito que não me encontrava em casa.
- Ah. - Que Griswald descobrisse o que estava fazendo era exatamente o que Zack tinha esperado evitar. Mas não ia indagar como tinha descoberto Griswald o engano. Os criados sempre sabiam tudo e Griswald sabia ainda mais. Pior ainda, Griswald estava tanto tempo com Zack que era capaz de lhe jogar uma reprimenda a menor provocação e Zack não estava de humor para ouvir o idiota que era. De modo que disse em tom de não dar importância à coisa - Obrigado, Griswald. Já a chamarei.
E desligou antes que Griswald pudesse fazer outro comentário. Tomou uns instantes para deixar escapar um suspiro de alívio. Depois, lápis em mão, riscou o Griswald da lista. A seguinte era... Meredith. Chamou-a pelo interfone.
A secretária de traje conservador se apresentou em seguida, caderno em mão, e tomou assento na cadeira situada diante da mesa, atenta para o que ele pudesse lhe lançar.
- Esta noite vou preparar um jantar - Disse Zack - Para uma mulher.
Meredith inclinou a cabeça em um gesto de incredulidade.
- Está bem. Comprarei a comida e esconderei depois as vasilhas.
- Isso a enlouquecerá.
Se não fosse porque necessitava a ajuda de Meredith, despediria-a de novo. Mas faltavam só dez dias para que voltasse a senhora Farell e não pensava ensinar agora a outra secretária nova. Além disso, Hope diria que devia alegrar-se de que Meredith relaxou o bastante para fazer comentários sarcásticos.
-Vou fazer... - Corrigiu-se - Vou comprar lasanha e quero servir vinho tinto. Não um vinho ruim, mas sim um mais econômico do que os que vão a minha mesa. Esperava que você pudesse me ajudar.
Ela sorriu.
- Poderia. Um vinho tinto que esteja bem? Quanto deseja gastar?
Zack tentou acordar-se do que tinha em suas adegas e quanto se gastou.
- Eu diria que não mais de cinqüenta dólares a garrafa. - Aguardou pacientemente que Meredith terminasse já com aquela risada. Quando se acalmou o suficiente para secar os olhos, perguntou-lhe - O que sugere você como preço modesto?
- Há vinhos estupendos por menos de dez dólares a garrafa. - Divagou como se temesse dizer algo mais.
- Continue - Animou-a ele.
- Para ser sincera, quando posso me permitir beber vinho, escolho Citra. É vinho tinto de mesa, vendem-no no supermercado e está bastante bem.
- Citra. - Zack anotou o nome.
Meredith se removeu incômoda em seu assento.
- Verá, senhor Givens, não é muito boa idéia. Vamos provar com outro vinho.
- E por que não Citra?
Meredith adotou uma expressão... Não culpada, a não ser violenta.
-Vem em garrafas grandes.
- Como de grandes? De quatro litros?
- Não, algo menos. E custa... - Fez uma careta e acrescentou - Sete dólares a garrafa.
- Mas você gosta. Muito bem. Obrigado. - Citra ia ser. Estudou o cardápio que tinha escrito - Tenho salada e pão integral com azeite e, além disso, uma nata de feijões verdes. Ocorre-lhe algo mais que possa necessitar?
- Uma sobremesa?
- Zabaglione com framboesas. - Esperou a que Meredith lançasse uma exclamação de entusiasmo.
Mas em troca ela ficou olhando como se jamais tivesse ouvido falar aquilo.
- Já sabe. Ovos, açúcar, queijo Marsala, batido tudo junto e congelado... - Meredith parecia sinceramente desconcertada, e Zack enrugou a sobrancelha - O que serviria você?
- Senhor, espero que me perdoe, mas já agarrei o ritmo deste escritório e falei com essa pobre moça do serviço de secretária eletrônica, acredito saber com quem está confundido você e penso que não deveria fazer isto, mas se for comportar-se como um estúpido, sirva chocolate a essa pobre garota.
Zack não conseguiu decidir se reagir à crítica a sua dobra ou à crítica de como tinha planejado o jantar.
Meredith não esperou a averiguá-lo.
- Quero dizer que adiante com seu zabaglione. Há mulheres que não gostam do chocolate, mas a maioria de nós o adora.
- Que classe de chocolate?
- Mousse de chocolate, bolo de chocolate, pudins de chocolate... - Meredith entrecerrou os olhos como se estivesse em êxtase - Quando eu saía com meu marido, me levou a um jantar muito agradável que tinha como sobremesa um bolo de chocolate com mousse de chocolate com recheio e uma cobertura de chocolate polido. Acreditei morrer de prazer. - Ficou de pé - E não se esqueça das flores.
- Sim, as flores. - Zack o apontou - O que acontece às mulheres e as flores?
- Que a maioria de nós não tem suficiente beleza em nossas vidas. Bem. Algo mais?
- Acredito que já está tudo. - Fez gesto de agarrar o telefone e ao fazê-lo ouviu em seu cérebro a reprimenda de Hope com tanta claridade que esteve a ponto de olhar a seu redor se por acaso estava ali presente. Não estava, mas Zack obedeceu de todos os modos- Obrigado por sua ajuda. Meredith.
- De nada, mas... Sigo pensando que é você um mal nascido por não dizer a verdade a essa garota.
Zack lhe dirigiu um olhar do mais significativo e disse:
-Meredith!
Ela lançou uma exclamação afogada e fugiu do escritório.
Zack ficou olhando o lugar por onde tinha desaparecido. Sabia que era um mal nascido por não dizer a verdade a Hope e quanto mais tempo demorasse a dizer-lhe, mais difícil lhe resultaria a confissão. Mas tinha o momento planejado. De verdade. Ia esperar até tê-la nua entre seus braços. O fato de dizer-lhe nesse instante, quando ela estivesse maleável e relaxada depois de que lhe houvesse feito amor, garantiria-lhe que ela o perdoasse sem duvidar. Já quase imaginava agora...
- Né, colega! - Jason Urbano deu um golpe no marco da porta e entrou no escritório - Provocaste ultimamente algum outro ataque cardíaco?
Zack deu um coice e ficou olhando, ainda aturdido por seu devaneio e desconcertado por seu brusco final. E de repente um tanto envergonhado, convencido de que seus lascivos pensamentos deviam estar refletidos em seu rosto.
- O que? Não!
- Então no que estava pensando? Tem pinta de estar se sentindo culpado de algo.
- Não é nada. Só estava pensando. - Zack revolveu os papéis e franziu intensamente o cenho.
O qual não serviu para enganar a ninguém, porque Jason se instalou na cadeira que havia justo diante da mesa de Zack e se acomodando para ficar a vontade.
- Talvez estivesse pensando no de... Esta noite - Disse cantarolando - Possivelmente pensava... No amor. - Arrastou a palavra para alargá-la e sorriu de uma forma tão maliciosa que Zack soube que o tinha pilhado.
- Estava pensando no trabalho - Respondeu com desdém.
- Claro. - Jason se inclinou sobre a mesa - Quando apostei que não fosse ser capaz de se mostrar amável durante mais de dez dias, não imaginei que fosse tomar isso tão a sério para iniciar um romance com uma tia bonita do serviço de secretária eletrônica.
- Não é uma tia bonita. Quero dizer, sim que é bonita, mas... - Zack ficou em branco na hora de descrever Hope para seu sorridente companheiro. Ao final disse de mau humor - Meredith tem muito a responder.
- Disso, nada. Estava escutando junto à porta. - Em voz de falsete, Jason imitou ao Meredith - E não se esqueça das flores.
O formato do cabelo do Jason apagou da mente de Zack todo rastro de sinceridade.
-Vai ter que me pagar cem dólares, "colega".
Jason sorriu satisfeito.
- Permita-me duvidar. Inteirei-me que faz um par de dias, despediu a senhora Spencer.
- Mas voltei a contratá-la - Replicou Zack com altivez.
- Foi mesquinho. Ganhei.
Zack jogou mão do ás que guardava na manga.
- Pedi-lhe desculpas.
Jason lançou uma exclamação de exagerado assombro e levou uma mão ao coração.
- Você? Você lhe pediu desculpas? Isso resulta quase aterrador. Realmente, é capaz de fazer o que for para ganhar uma aposta. Muito bem. Deixarei que saia vitorioso por uma vez. Mas uma somente, porque o confrontemos, tem até a partida de hóquei do domingo, o qual deve ver, lembre-se, para sair do passo sem destroçar a vida de ninguém - Sorriu satisfeito uma vez mais - Não vai conseguir.
- Conseguirei.
- Não tem a menor possibilidade.
- Conseguirei - Repetiu Zack. Enquanto estivesse com Hope, nada podia sair mal.
Capítulo 12
Hope se encontrava em frente à larga porta da mansão Givens, ajustou o cachecol. Agora que tinha aceitado aquele trabalho do senhor Wealaworth, poderia comprar um pouco de roupa nova...
Com firmeza, à porta.
Tinha que deixar de pensar em coisas tão frívolas. Necessitava o dinheiro para procurar a sua família; seu aspecto exterior era algo que carecia de importância.
Além disso... Naquele momento Griswald abriu a porta e a olhou com apreciação, pareceu gostar dela exatamente como era.
Seu silêncio lhe deu a bem-vinda com tanta eficácia como a saudação de outro homem, porque seus olhos relampejaram e se esboçou um sorriso na severa linha que formavam seus lábios.
Aquela noite tinha trocado a formalidade das calças e a camisa engomada por um jeans confortável e uma camiseta de cor branca. Em algum recôndito lugar de seu confuso cérebro, Hope se perguntou se os teria posto para que ela, com suas desgastadas roupas, se sentisse mais cômoda. Se for assim, não servia de nada, porque a camiseta escondia os músculos de seu peito com a mesma sutileza que um brilhante papel de presente. As mangas curtas lhe chegavam justo ao centro dos bíceps, os quais, quando tomou a mão para conduzi-la ao interior da casa, flexionaram-se e ondularam sob a pele igual à lava. Sim. Decididamente, Griswald tinha presença.
E aqueles jeans... Não se tinha dado conta de que tinha as pernas tão largas. Deveria havê-lo notado. Eram tão largas como a vez anterior que tinha estado ali. Mas tinha algo, aquele tecido de lona de cor azul descolorida que a fez subir o olhar dos sapatos de couro até o vulto da braguilha.
Pernas largas. Vulto comprido.
Fechou os olhos, confiando em que ele a guiasse e procurou recuperar o controle de suas errantes idéias.
- Que acontece? - Perguntou ele.
Era rápido para dar-se conta das coisas. Um defeito com o que ela devia mostrar cautela.
- Sou filha de um pregador.
- Sim, já me disse isso. – Tirou-lhe as luvas de lã e massageou as pontas dos dedos, que estavam congeladas. - Sabe que essa é a única informação pessoal que me proporcionou de maneira espontânea?
Hope tratou de concentrar-se, mas não na força dos dedos dele contra os seus, nem tampouco no prazer quase doloroso que lhe produzia o fato de que lhe esquentasse as mãos o contato de um homem. Para surpresa dela, aquele gesto serviçal lhe causou certa ardência de lágrimas nos olhos.
Rapidamente, a fim de ocultar seu lapso de estoicismo, disse:
- Pois se segure, porque estou a ponto de te dar outra informação pessoal. Tomei conscientemente a decisão de não complicar minha vida com um homem.
Se ele se sentiu desanimado, dissimulou-o muito bem.
- Soa a solidão.
- Não. É sensatez.
- Nada de homens. - Zack afirmou com a cabeça, - É para sempre?
- Até que obtenha meu diploma.
- Bem. - Estendeu-se por seu semblante aquele sorriso cativante. - Temia que queria se fazer monja.
- Não sou católica. - Hope fez uma pausa. – E o que faria você se quisesse me fazer monja?
-Tudo o que estivesse em minha mão para tirar essa idéia de sua cabeça.
- Isso é o que tinha pensado. - Começava a conhecer seu caráter. Aquele homem não permitia que nada ficasse entre ele e seu objetivo.
Sim, conhecia seu caráter e isso estava ruim também. Não queria saber nada do seu caráter e certamente não queria saber quais eram seus objetivos, sobre tudo desde que suspeitava que um deles tinha que ver com sua pessoa.
- É filha de um pregador e... - Animo-a continuar.
Hope se deu conta de que levava um longo tempo olhando-o fixamente.
- OH! Sim. E decidi não complicar minha vida com um homem.
- Os homens requerem coisas como atenção e sexo, e ainda ficam... - Tragou saliva antes de seguir. - Quatro anos para terminar os estudos; isso se tudo for bem. De modo que eu gostaria que você se comportasse de forma responsável e me ajudasse.
Zack teve o bom senso de por uma expressão de surpresa.
- Só estou esfregando suas mãos.
- E os jeans que leva?
Zack a olhou sem pestanejar, como se o fato de lhe examinar o rosto fosse ajudá-lo a entender seus processos mentais.
- Quer que tire?
- Muito gracioso. - Mas lhe ardeu a pele do peito ao pensar naquela possibilidade.
- O que quero é que ponha algo menos... - Agitou a mão assinalando o corpo dele, de cima abaixo.
Zack se olhou.
- Um pouco menos...?
- Sim. E essa camiseta. A quem tenta enganar? Não é um tipo dos que usam camiseta.
Zack teve a têmpera de parecer ofendido.
- Sim. Sou quando não estou trabalhando.
- Pólos. Estou segura de que usa pólos, dos que têm pescoço e o crocodilo no bolso. São objetos frouxos e, embora sejam de cor branca, a malha é o bastante grossa para não pegar-se como... - Agitou a mão de novo. - A castidade não resulta nada fácil, mas tenho descoberto que se me mantenho ocupada, se não pensar nela e me afasto das tentações, não me custa tanto. Agradeceria sua colaboração. - Pronto. Havia dito. E o tinha advertido.
O vestíbulo a envolveu com seu calor, e esta vez olhou a seu redor com menos reverencia e mais aprovação.
- Gosto desta casa. Resulta acolhedora. Não é absolutamente o que parece da rua. -Começou a tirar o cachecol.
Zack lhe apartou as mãos para ele mesmo tirar o cachecol.
-Alegro-me de que goste.
Uma vez mais Hope notou que lhe formavam lágrimas nos olhos. A ternura daquele gesto, de ter uma pessoa que por um momento se preocupasse dela, podia fazê-la mandar ao inferno todos aqueles anos nos que tinha aprendido a ser auto-suficiente.
Griswald era um homem perigoso. Um homem muito perigoso.
Sorveu pelo nariz.
Zack introduziu uma mão no bolso de seu jeans. Ela se sentiu envergonhada de reconhecer que observou muito de perto aquele movimento. E, finalmente, ele extraiu um suave lenço branco.
Hope o agarrou murmurando obrigado e se limpou com ele.
-Vir de um ambiente frio faz que me goteje o nariz. - A qual era uma explicação totalmente desnecessária, mas era melhor que lhe deixar acreditar que estava chorando.
- Não tenho nenhum pólo - Disse Zack.
Dirigiu-lhe um olhar de incredulidade.
Mas ele parecia absolutamente sincero.
Muito bem, gostava das camisetas. Assim que ela teria que suportar que as levasse.
Levantou a vista para o enorme lustre de cristal e depois se fixou nos brilhantes spots da parede e os ornamentos de cristal esculpido.
- Não sei por que, mas esperava ver criados por todos os rincões da casa do senhor Givens.
Abriu-lhe o casaco e franziu o sobrecenho ao ver os botões diferentes.
- Dei-lhes a noite livre.
- Também a deste ao senhor Givens?
Griswald a olhou fixamente, como se pensasse o que ia dizer.
- Sou um homem muito poderoso.
Hope esfregou o braço e efetuou sua melhor imitação de uma coquete participante de um concurso de beleza: fez beicinho e agitou as pestanas.
- O poder me excita.
Acreditou ter acertado em cheio para aliviar o ambiente.
Zack não sorriu. Em lugar disso, lhe tirou o casaco e o pendurou; depois pendurou o cachecol, as luvas e o gorro.
Hope se sentiu arrasada ao ver sua reação tão séria, como um cômico de teatro que expulsaram do cenário com vaias. Sentiu como fluía o sangue a suas bochechas e orelhas, uma sensação quase dolorosa, de tão intensa que foi. Teria espantado-o com sua advertência? Estava sendo Griswald amável só pela possibilidade de meter-se entre suas calcinhas? Estava acostumada a agradar às pessoas por si mesma, mas entre essas pessoas não havia homens bonitos.
Bonitos e poderosos.
E embora fosse consciente disso, se a única razão pela que Griswald desejava estar com ela era o sexo, estaria melhor sem ele... Voltou a sorver pelo nariz e se limpou.
Mas é que gostava de Griswald. Gostava de falar com ele. Gostava de estar com ele. Gostava... Olhá-lo. Inclusive vestido de maneira informal, gostava de lhe olhar. Griswald fazia com que acelerasse o sangue nas veias, que seu cérebro faiscasse de emoção. Dava vida a sua imaginação, e sim, a maior parte do que imaginava estava bem oculto no mais profundo de sua consciência e jamais permitiria que saísse à luz, mas estava ali e ela sabia. Com Griswald, a vida recuperava seu sabor e ela odiava renunciar a isso.
Griswald se voltou para ela, tomou sua mão na sua e lhe disse:
- Graças a sua sopa de frango... Meu resfriado desapareceu.
Seu resfriado tinha desaparecido, os criados estavam de licença... - Não lhe custou muito deduzir que ele tentava lhe dizer que queria beijá-la.
- OH. - Seus lábios formaram a palavra, mas não chegaram a emitir som algum.
De modo que não o tinha desanimado de tudo. Seguia gostando dela.
O coração disparou de maneira alarmante. Natural, porque durante sete largos anos seu pobre coração não tinha sido posto a prova mais que com a angústia.
- Isto é muito bonito. - Griswald tocou o lenço novo, mas olhava para ela. – Parecia como se estivesse a ponto de desmaiar.
- Bom, até agora só beijei um menino, quando tinha quinze anos. - Tomou ar. - Em realidade, Sketer Braxton era um menino mais velho, estava na faculdade e eu estava no inicio do colegial; ele jogava futebol americano. No Texas o futebol é muito importante, de modo que ele era um bom partido e eu ficava a gaguejar de emoção cada vez que me dava um pouco de atenção. - Fez uma pausa para respirar. - Algo que, conforme parece, não trocou.
Zack escutava atentamente.
- Nunca joguei futebol. Sempre me dei melhor com beisebol.
- Isso é muito importante no Texas. - Não conseguia recordar do rosto do menino de Hobart, tendo a vista cravada em Griswald. Então lhe ocorreu uma idéia horrível. - Ao dizer que seu resfriado tinha desaparecido, o que queria dizer é que tem vontade de me beijar, verdade?
Griswald levou os dedos dela aos lábios e a seguir os apoiou no peito, sobre o coração. Depois deslizou as mãos ao redor da cintura de Hope e a atraiu para si.
- Isso é exatamente o que quis dizer.
Igual à vez anterior, Hope se sentiu envolta em seu calor, esquentada até os ossos. Percebeu o aroma de sabão que desprendia da pele de Griswald e se deliciou nos sutis aromas de bagos e especiarias.
Quase podia saboreá-lo... E ruborizou ante aquela idéia. Seus lábios, a pele de seu rosto, a carne de seu corpo.
Era muito. Ele era muito.
- Hope, me olhe.
Sua voz grave e profunda convidava e enrolava.
Mas o acanhamento tinha pegado Hope. Ela, que caminhava sozinha pelas ruas de Boston, que fazia amigos em todas as partes, que tinha tomado as rédeas de sua vida e lhe tinha dado forma a seu desejo, ela... Sentia-se tímida com aquele homem.
Desejava lhe beijar. E o único que era capaz de fazer era olhar fixamente o pescoço e aferrar-se a seus braços.
Acariciou-lhe o queixo com a palma da mão, elevou-a levemente e, por último, Hope se encontrou olhando-o cara a cara. Acreditava que o encontraria sorrindo, divertido pela atitude coibida dela.
Mas Griswald não sorria. Tinha os olhos cravados nela, como se precisasse ver... Algo. Seus sentimentos? Poderia vê-los? E se assim fosse, quais eram? Nem ela mesma sabia.
Hope fixou o olhar em seus rasgos fortes e afiados, maravilhou-se naquela mescla de austeridade monacal e turva sexualidade. Melhor que desejar beijá-la; talvez desejasse algo mais que isso, mas sua disciplina o obrigava a seguir o passo que lhe resultasse cômodo. Não pensava obrigá-la a ir mais depressa do que pudesse.
Hope relaxou contra ele e deslizou as mãos por seus braços, até chegar aos ombros.
-Eu gostaria que me beijasse.
Viu como se agitavam as aletas de seu nariz e por espaço de um segundo, antes que ele fechasse os olhos, viu uma intenção desumana que quase a fez reconsiderar seu proceder tão direto.
Mas foi só um segundo e quando os lábios dele se encontraram com os seus, ela mesma fechou os olhos, consolou-se com a idéia de que estava equivocada.
Porque Griswald a beijou docemente, procurando os contornos de sua boca com a dele, acariciando-a apenas com cada tenro contato. E, entretanto, ela tinha uma vivida consciência dele; seus lábios se lançaram, mergulharam-se, seguiram o movimento daquela boca, tentando obter o que prometiam suas esquivas carícias.
Permitiu-lhe adaptar-se a seu ritmo e aumentou a pressão de seus lábios. Seus lábios... Seu contato era tão maravilhoso como seu aspecto prometia e resplandeciam igual ao veludo. O calor que alagava todo seu corpo se irradiava desde seus lábios e selava a fogo as bocas de ambos. Hope pensou se é que aquele torvelinho desordenado podia chamar-se pensar, que podia ficar ali de pé para sempre, beijando a Griswald.
Mas ele, igual ao diabo, ofereceu-lhe novas tentações. Pouco a pouco, enquanto Hope estava distraída no ato de beijá-lo, abriu seus lábios sobre os dela e ela o seguiu.
Tudo era maravilhoso. Hope sentia seu corpo ronronar de prazer. Sim, era evidente que em algum momento do beijo, ela tinha crescido de estatura, porque notava a pele estirada e magra. Seus seios estavam cheios, tensos, e a única maneira de aliviar aquela pressão era apertá-los contra o peito dele. De repente se apoderaram dela a juventude e a saúde sabotaram-na, arrastaram-na com toda sua força em um insuspeitado redemoinho de hormônios. Sentiu umidade entre as pernas e pela primeira vez em muito tempo, possivelmente pela primeira vez em sua vida, entendeu a glória de ser mulher.
Em meio ao prazer e o assombro, uma idéia brotou em sua mente; Griswald absorveu seu fôlego e o substituiu pelo seu próprio, tomando posse de seu corpo de um modo que ela jamais tinha imaginado.
Então, liberou-se daquele beijo de um puxão e ficou olhando-o fixamente.
Griswald a olhou a sua vez, acalmado e concentrado. Não lhe perguntou por que tinha interrompido o beijo; já parecia sabê-lo.
Assim voltou a atraí-la para si e a beijou de novo.
O segundo beijo fez Hope perceber o quanto Griswald se conteve no primeiro. Esta vez lhe demonstrou seu desejo com o movimento de sua língua na boca dela, um movimento lento, firme e constante, que sugava sua própria língua com a intenção de levar-lhe a sua boca.
Hope resistiu... Durante um instante, o tempo que ele demorou para apropriar-se dela e arrastá-la a seu escuro mundo de paixão e posse. Não sabia aonde foram, mas com os lábios apertados contra os seus, e seu corpo inteiro rodeando-a, o vestíbulo, Boston, o mundo inteiro desapareceu e só ficou Griswald e aquele desejo que consumia tudo.
Quando começou a sentir-se arder de febre, quando seu corpo já se ondulava contra o de Griswald e a emoção do prazer vindouro martelava em suas veias... Ele se separou. Sem rudeza. Sem brutalidade. Mas firmemente. Primeiro fechou a boca; logo, enquanto a beijava com doçura com os lábios fechados, afrouxou a pressão sobre seu corpo.
Hope respirava pesadamente, tratando de voltar para mundo real, aquele em que a noite era fria e ela sobrevivia sozinha, sem a ajuda de ninguém.
Mas voltar se fazia difícil, quando estava abraçada estreitamente e seu corpo irradiava tanta paixão como calor.
Em um único movimento fluido, como de dança, Griswald a fez voltar-se de modo que ficou quadril contra quadril, frente à porta que conduzia à cozinha.
Na mente de Hope até reinava a desordem, em sua tentativa de acostumar-se à realidade. Ambos tinham compartilhado um beijo. Só um beijo. Nem sequer de adolescente, quando beijou a Sketer Braxton, tinha posto tanto em um único beijo, e isso que naquele tempo que era uma jovenzinha inexperiente.
Pior ainda, Griswald estava levando muito melhor que ela a separação entre ambos, com uma calma que certamente a fazia sentir-se inexperiente e ingênua. Teve o impulso de lhe perguntar:
-Você... Gostou?
-Te beijar?
Griswald baixou o olhar para ela e seus olhos reluziram com um ardor que resultava difícil de confundir. Agarrou-lhe a mão e a apertou contra a braguilha de seu jeans.
Ela a apartou em seguida, mas não antes de apalpar aquele vulto grande e duro, e ao recordar que tinha pensado que seu corpo desprendia calor, agora compreendeu onde estava a origem do mesmo.
Griswald a desejava. Ia por ela. Não estava a salvo.
Como se não houvesse feito a coisa mais escandalosa que ela tinha experimentado, Griswald comentou:
- Preparei o jantar eu mesmo. Venha, vivamos perigosamente... Vamos comer algo.
Capítulo 13
Zack encheu de novo a taça de vinho de Hope.
- Decididamente, tia Cecily está tendo uma aventura.
- E por que tem que ser uma aventura? - Com os cotovelos apoiados na mesa, Hope pôs o queixo entre as mãos e olhou a Zack com ar desafiante. - Por que não pode tratar-se de um romance?
Estava tão relaxada, em total abandono, que Zack suspeitou que talvez estivesse um tanto alta. No dia seguinte aumentaria o salário de Meredith.
- E que diferença há?
- Uma aventura implica partes do corpo. Um romance envolve a cabeça e o coração.
- A cabeça e o coração são estupendos, mas não há nada que possa comparar-se com o bom sexo, uma boa noite entre lençóis enrugados.
Hope se ruborizou.
Maldição se tinha ruborizado! Igual a uma menina que nunca tivesse ouvido pronunciar a palavra sexo em voz alta, igual a uma virgem...
Zack aproximou sua cadeira a dela e a olhou aos olhos.
- Sabe o que é o sexo?
Hope separou-se, como se sua proximidade a tivesse alarmado.
- Sim, claro que sei. Mas neste mundo existe o romance, e também o amor verdadeiro, se tia Cecily quer ter um romance, deixa-a em paz e não a incomode com suas obscenas observações.
- Obscenas observações? Fala como se estivesse em um musical dos anos sessenta.
Hope falava como uma virgem. Tinha beijado a uma virgem, examinou o rosto espaçoso, calmo, ruborizado; provavelmente era virgem.
- Tia Cecily é uma pessoa agradável e merece seu respeito. Teve a amabilidade de me trazer em pessoa o andador para a senhora Monahan, o qual, por certo, fez muito feliz a uma pobre anciã. Obrigado.
Uma virgem. Zack nem sequer sabia que as fabricassem ainda e menos ainda da idade de Hope. Fez caso omisso de seu agradecimento; tinha a mente ocupada naquela idéia nova e surpreendente.
Isso trocou por completo sua maneira de enfocar a situação. Teria que empregar um pouco mais de astúcia e dose maiores de paciência. E, levando em conta o que havia dito Meredith...
- Gostaria de um pouco mais de mousse de chocolate?
- Gostaria que tivesse lugar onde colocá-la. - Hope tocou o liso estômago. – Deveria ter me dito que havia mousse de chocolate antes que comesse a lasanha. E a salada, e o pão. – Agitou a mão diante da boca. – Uf! O azeite levava muitíssimo alho.
Zack baixou a voz até convertê-la em um sussurro rouco e carregado de significado:
- Não importa. Eu também o comi.
Ela ficou olhando como hipnotizada, seu peito subia e baixava apenas. Então se sacudiu de seu feitiço.
- E... Quanto tempo levou para comprar... Humm... Fazer a lasanha?
- Maldição! - Zack golpeou a mesa com a palma da mão, o bastante forte para fazer cambalear o vaso de cravos brancos e vermelhos. - Como o soube?
- Tome cuidado! - Hope sustentou o vaso e farejou as flores. - Como soube que não preparou o jantar? Nem sequer soube onde guardava o pão torrado. Imaginei que a lasanha é comprada, ou quem preparou fosse a cozinheira, mas fazer que a preparasse a cozinheira parecia um pouco... Não sei... Óbvio. - Beliscou-lhe o queixo com regozijo. - Confronta-o, a mim não pode mentir. Sou muito esperta para você.
Era uma tonta da mais crédula.
- É verdade.
- Diz como se fosse uma pergunta. - Hope sorriu de orelha a orelha e se inclinou para ele. - É todo um tipo.
- A última vez que comprovei, era. - Era um tipo em zelo. Um tipo que tinha toda a intenção de esquentar a sua presa.
- Meu pai e meu irmão me advertiram a respeito dos homens e minha mãe foi tão franca que chegou a me dar medo. Para que me sentisse envergonhada com seus conselhos e suas advertências, mas insistia em que eu a escutasse e agora me alegro de havê-lo feito. Houve um par de vezes em que eu...
Talvez se desse conta do quão significativas eram as frases que saíam impulsivamente de sua boca; talvez se precaveu da imobilidade com que ele se esforçava por captar todos as matizes, como ia recolhendo e guardando cada informação sobre o passado dela. Mas o certo é que fechou a boca definitivamente.
Zack se perguntou que classe de segredos esconderia Hope para mostrar-se tão cautelosa com os detalhes de sua vida. Levantou-se, rodeou a mesa e se situou detrás dela. Hope tentou voltar-se; mas lhe pôs as mãos nos ombros e a reteve em seu lugar.
Ela permaneceu rígida e erguida.
- O que está fazendo?
- Trabalha muito. Isso é o que diz Madam Nainci e eu estou de acordo. - Apoiou os dedos polegares contra os tensos músculos da base do pescoço de Hope. - Sei dar uma massagem maravilhosa, relaxe e deixa que... Trabalhe em você um pouco.
Ela tomou fôlego de forma acelerada.
Sob o contato de suas mãos, Zack percebeu que Hope estava se preparando para protestar. Assim, no tom de voz mais neutro que pôde encontrar, disse-lhe:
- Descobriu-me com a lasanha. Mas eu mesmo a comprei.
- E também exagerei no vinho. - Hope soava quase normal.
Zack moveu os dedos tal como recordava que o fazia seu massagista, pressionando e percorrendo cada músculo que achava em tensão, trabalhando-o até que se dissolviam os nós.
A voz de Hope soou um tanto difusa.
-Tudo foi maravilhoso.
- Inclusive o vinho, se incline para diante. Apóia a cabeça na mesa. - Ao ver que ela vacilava, brincou - Dentro de cinco minutos, as leis da física seguirão sendo as mesmas.
Hope repetiu a palavra «física» com um grunhido e pôs os braços sobre a mesa e a cabeça em cima deles.
É óbvio, Zack sabia que ela não ia resistir porque tivesse pressa para que lhe ensinassem. Não, se resistia era porque se deu conta de quão relaxada começava a sentir-se com ele e porque suspeitava que se relaxasse mais ainda poderia aproveitar-se dela.
Era uma jovem esperta, certamente que tinha pensado em aproveitar-se dela. Mas Hope subestimava sua sutileza. Cada vez que ela retrocedia, o permitia, para logo atraí-la ainda mais perto que antes.
Naquele preciso momento ela estava estirada, permitindo que a esfregasse, acariciasse, acostumando-se ao seu contato e não imaginava o muito que desejava levantar o pulôver e ver a pele suave e aveludada que havia debaixo, os montinhos que marcavam sua coluna vertebral, a esbelteza da cintura. Desejava estreitá-la entre seus braços e saboreá-la, e ela não o suspeitou em nenhum momento.
Era um milagre de inocência. Zack apreciou aquela raridade, entesourou aquele milagre. Além disso, a inocência dela estava fazendo que lhe resultasse muito mais fácil seduzi-la.
Quando Hope relaxou até o ponto de ficar quase dormindo, Zack se aproximou do seu ouvido.
- Carinho...
Ela agitou as pestanas e um tímido sorriso curvou seus lábios.
- Mmnn?
Zack lhe apartou o cabelo do rosto e lhe sussurrou:
- É hora de despertar.
Ela abriu os olhos de repente e o olhou fixamente.
- Tenho que tirar a mesa. - Zack a beijou. - Temos que estudar.
Hope pareceu ressentida... E confusa.
Era exatamente o que ele queria. Que Hope se sentisse desorientada, insegura de seu próximo movimento, que o observasse todo o tempo, que pensasse todo o momento nele. Quanto mais tempo passava com Hope, mais queria penetrar por debaixo daquela carapaça, descobrir por que estavam mortos seus pais, aonde se tinham ido seus irmãos... Por que se encontrava tão implacavelmente só no mundo. Hope era um mistério que ele tinha intenção de resolver.
- E bem, me fale de sua família.
Acreditou ter empregado um tom informal, interessado sem parecer preocupado; entretanto, sem trocar de postura nem de expressão, Hope o rechaçou.
- Temos que nos pôr a trabalhar.
Já descobriria por que se mostrava tão tenaz, tão desconfiada e tão pouco disposta a aceitar ajuda.
- Gostaria de outra taça de vinho?
- Se tiver que estudar física, não. E você tampouco pode beber mais. Tem que estudar informática.
- Não gosto de informática - Declarou com cuidado.
Com o mesmo cuidado, Hope replicou:
- Esta atuando como um homem que nunca teve que fazer algo que não gosta.
- Rara vez.
Era melhor não dizer nada mais. Ele também tinha um segredo que proteger. Embora o proteger daquela menina perdida estava resultando mais fácil do que o previsto.
Começou a empilhar os pratos, mas os restos do primeiro estavam ainda debaixo do segundo e ambos os pratos cambalearam perigosamente.
- Faz isso muito mal. - Hope tirou os restos para que os pratos pudessem empilhar-se bem. - Pronto. Leva-os para a pia. Eu me ocupo das taças.
Zack a afastou lhe pondo uma mão no ombro.
- Fui eu quem te convidou para jantar. Eu me encarrego de recolher.
Pensou em pôr as taças em cima dos pratos, mas depois raciocinou que poderiam rodar facilmente e cair no chão de ladrilhos italianos. Assim que as deixou na mesa.
Hope observou como brigava com aquela tarefa a que não estava acostumado.
- Não teve que receber algumas aulas de trabalhos de cozinha para ser mordomo?
- Não. Passei diretamente do berço à escola de mordomos, e logo vim trabalhar aqui. -Estava descrevendo a vida de Griswald, tal como ele a conhecia.
Zack retornou para pegar os pratos de sobremesa.
- Vai ter que guardar as sobras na geladeira - Disse-lhe ela.
- Sim... – E se supunha que devia os envolver com algo, não? Nervoso, entrou na despensa.
- O celofane esta aqui fora - Informou Hope. - Em uma gaveta. Vi no outro dia, quando procurava os cobertos.
Zack saiu da despensa e encontrou a Hope sustentando uma caixa alargada de cor amarela.
- Obrigado. - O problema era que levava anos sem trabalhar na cozinha, e não tinha sido naquela cozinha. - O senhor Givens tem mais experiência que eu nestas coisas. Aos quatorze anos foi a um acampamento dos escoteiros em Montana. - Enquanto tampava a comida e ia guardando, fornecia conscientemente a Hope informação sobre si mesmo. - Houve certa confusão a respeito de seu nome e ninguém soube quem era em realidade.
- Rapidamente ele deve ter se ocupado em esclarecer as coisas.
- Não. Bom, a princípio tentou, mas em seguida se deu conta de que em Montana ninguém tinha ouvido falar da Givens Enterprises e que de todas as formas não importava. - Conseguiu deixar os pratos na pia sem que acontecesse nada e voltou pelas taças. - Foi um verão estupendo. Pela primeira vez em toda sua vida, ninguém sabia quem era nem a ninguém importava. Teve que nadar uma milha em um lago gelado para obter a insígnia de aptidão em natação, navegar em uma canoa até o outro e usar um machado para cortar lenha. Em certa ocasião se encontrava no bosque com um menino... John Bingham, ainda lembro-me dele, no exercício de orientação com bússola. John era o mais desajeitado do mundo, se algo tinha que ocorrer, ocorria a ele. Pisou em uma toca de coelhos e quebrou a perna.
Hope lançou uma exclamação de horror.
- Sim - Concordou Zack. - Foi terrível. A perna de John doía tanto que o senhor Givens teve que lhe entalar a perna antes de ir procurar ajuda. O chefe do acampamento disse que o senhor Givens havia feito um bom trabalho. O senhor Givens recebeu uma condecoração. -A qual Zack conservava no piso de cima, em seu cofre. Uma estupidez. A aquela alturas já deveria ter-se desfeito dela, mas não se atrevia a fazê-lo. - Esse foi o melhor verão de sua vida, e todo esse tempo que passou sendo nada mais que um do grupo lhe demonstrou o pouco freqüente que é a verdadeira amizade. - Hope estava presa de cada uma de suas palavras .- Quando se é rico.
- Você é amigo do senhor Givens.
- Parece surpreendida.
- Se você gosta... Enfim, melhorarei a opinião que tenho dele.
Acompanho-o até a pia e limpou os pratos com água.
Resultava agradável havê-la impressionado mentindo.
- Quando retornou a Boston, acreditou que poderia praticar tudo o que tinha aprendido sobre amizade. Naquela época o senhor Givens estava um pouco verde e tinha vindo de Montana imbuído dos princípios dos escoteiros. Se quiser um amigo, você tem que ser um amigo. Não são as aparências externas as que contam, a não ser sua beleza interior. Todas essas bobagens.
Hope lhe dirigiu um olhar de relance.
- De modo que foi a faculdade.
- Uma faculdade muito exclusiva.
- É óbvio. E começou a ser amistoso, aberto e generoso quando menos esperava, adivinha o que aconteceu?
- Que lhe deram uma surra?
- Não. Em nossos exclusivos centros educativos de Boston não damos surras nas pessoas.
- Só nos públicos.
- Sim, suponho que sim. - Ao telefone, Hope lhe tinha colocado na espera; agora, em pessoa, interrompeu-o, duas coisas que ninguém, exceto os membros de sua família, atrevia-se a fazer, um pouco incomodado, perguntou - Quer que te conte esta história ou não?
- OH, sim, sim! - Mas Hope lhe sorria abertamente, imperturbável ante a exasperação dele.
Aquilo era o que havia dito que queria reações sinceras que não tivessem em conta sua importância nem seu dinheiro. E agora que o estava obtendo, não sabia se estava gostando. O que foi o que disse Jason? «Tome cuidado com o que pede, poderia consegui-lo.»
Zack esteve a ponto de não continuar. Ia contra tudo o que tinha aprendido confiar em Hope o bastante para deixar que soubesse o que ele pensava. Mas é que queria que ela o conhecesse nas coisas pequenas para que mais adiante, quando lhe tivesse revelado sua identidade, quando já fossem amantes, quando chegasse o momento da separação, ela o entendesse.
- Continua - Animou Hope enlaçando um braço no dele. - Não foi mais que uma brincadeira. O que fez depois o senhor Givens?
- Não é o que fez, a não ser o que fizeram a ele. Houve uma garota, dois anos maior que ele, que descobriu que se sentia atraída por seus encantos.
- Ooh. - Hope enrugou a cara. - Que momento.
- Sim, mas ele tinha crescido muito no verão, assim acreditou que...
- Não está bem jogar com o ego de um moço. - Hope parecia enojada de verdade. - Em minha escola havia uma garota que... Sinto muito! Estava-me contando do senhor Givens.
Zack queria saber coisas da escola de Hope, queria saber tudo o que ela estivesse disposta a contar de si mesma.
E a Hope só interessava o que estava dizendo ele.
- E que fez essa garota, lhe pedir dinheiro emprestado?
Cada coisa a seu tempo.
- E utilizar o apartamento dele para dedicar-se em vender droga - Acrescentou ele.
- Que asco.
- Isso eu também pensei... - Zack se interrompeu um segundo e prosseguiu - Quando me contou isso o senhor Givens. Até que o chofer a pilhou com as mãos na massa, o senhor Givens não se deu conta de até que ponto o tinha utilizado. Que momento de incrível humilhação... Deve ter sido.
Ainda se recordava de como lhe ardia o rosto, de como Megan Michaels o insultou, mofou-se dele, fez migalhas seu ego adolescente.
Mais ainda, recordava-se do terrível que era compreender que seu pai tinha razão. Um Givens tinha que escolher com grande prudência os seus amigos e nunca, nunca, baixar o guarda.
- Passar de acreditar que alguém é o centro do mundo a descobrir que não é nem sequer um de seus satélites... - Hope retirou mechas de cabelo da frente - Sim, imagino quão humilhante tem que ser isso.
- Por sorte, o senhor Givens tinha aprendido a confiar nas pessoas naquele mesmo verão e não lhe custou muito desaprender essa lição. Sua personalidade não ficou traumatizada, só sua vaidade.
- E por isso aprendeu a manter a raia a todo mundo? E você pensa que sua personalidade não ficou traumatizada? - O tom de voz de Hope ia tingido de uma nota de incredulidade. - Pois eu diria que sim. Não está casado, verdade?
- Não.
- E se casou alguma vez?
- Não.
- Ama a alguém? Amou alguma vez com todo seu coração, toda sua mente e toda sua alma?
- Não. Jamais. - Nem tinha pensado fazê-lo.
- Porque tem medo.
Hope o condenava com toda facilidade e naturalidade.
Por essa razão lhe tinha contado a história, e não gostou do giro que ela estava dando ao que para ele era prudência.
- Pode ser que não tenha encontrado à mulher adequada.
- Pode ser. Ou pode que a tenha encontrado, mas estava tão ocupado em certificar-se de que ela não se aproveitasse dele que não a reconheceu.
Zack, fervendo por dentro, exigiu:
- Tão aberta e confiada é você para se atrever a criticar ao senhor Givens?
- OH, eu me atrevo a criticar a todo mundo. – Colocou os pratos na lava-louça - Que tenha direito de fazê-lo é outra história.
Zack gostou daquela franqueza, aquela sincera auto-recriminação... Embora não lhe havia dito nada de si mesma. Esperou, pois sabia que as mulheres estavam acostumadas a terminar falando de si mesmas se o silêncio se prolongava, mas Hope não parecia sentir-se perturbada pela falta de conversação e Zack não teve valor para deixar que aquela quietude durasse muito tempo. Se o fizesse, talvez Hope começasse a perguntar-se porque o mordomo sabia tanto do senhor Givens, e por que tinha contado tanto a ela.
E a razão era singela: se tinha lhe contado tanto era porque quando a seduzisse, quando a levasse a cama e a fizesse dele, não queria que ela tivesse a sensação de haver-se entregue a um desconhecido; queria que Hope soubesse mais que nenhuma mulher do mundo, porque era a única mulher que sabia que podia confiar.
Não deixava de resultar interessante que também fosse a única mulher a que desejava impressionar. Por isso lhe disse:
- Por causa daquele verão, o senhor Givens dá apóio aos escoteiros.
- Faz doações, quer dizer? - Hope fez uma eloqüente careta de desprezo e Zack compreendeu que ia ter que investir mais tempo para conseguir impressioná-la - Os que necessitam de verdade são as bandeirantes.
- Direi-lhe. Enviará um cheque. - Amanhã faria.
- Vá. Deve ser muito agradável ter tanto dinheiro.
- Muito agradável. Mas não. O dinheiro do senhor Givens sempre faz que todos troquem sua maneira de vê-lo. Seu dinheiro o converte em um objeto para exaurir, seduzir ou adular. E nenhuma dessas atividades resulta prazerosa. - Apoiou na bancada. - Bom, salvo as seduções.
Hope riu, mas tinha uma expressão pensativa, como se ele estivesse dizendo coisas que a ela não tinha ocorrido nunca.
- Entendo que o senhor Givens tenha que ser um tanto precavido com as pessoas.
- Um pouco, Sim.
- Griswald, sabe que eu gostaria? - Sorriu com grande encanto. - Eu gostaria que me contasse coisas sobre ti.
- Sim, e também eu gostaria de saber coisas de ti.
De repente Hope ficou a trabalhar febrilmente, colocando a louça na lava-louça.
- Justo o que pensava - Comento Zack. Pois Hope não ia obter informação a menos que ela revelasse alguma - Não pode ficar de pé e deixar que eu arrume a cozinha, né? É porque sou um homem, ou porque não pode suportar ver as pessoas fazerem as coisas de modo ruim?
Ela pôs os olhos em branco.
- É por ser filha de um pregador.
- Sempre você que tinha que limpar?
- Sempre. Nos lanches do verão, nos jantares de Natal para os pobres, nas arrecadações de fundos para a igreja. Estou treinada para ajudar. Sempre serei a filha de um pregador, igual a você sempre será... - Deteve-se a ponto de perguntar a ele, a Griswald o mordomo, por sua família e sua educação.
Mas Zack a viu mudar de idéia. Porque, se houvesse feito isso, então ele teria direito de perguntar também, de modo que guardou para si.
Os moradores de Boston, como Deus manda, passariam por cima daquela atitude, mas ele não. Ele queria de algum modo olhar no interior da mente de Hope e ver quem era em realidade.
Não, um momento. Aquela idéia não resultava satisfatória. Desejava que lhe dissesse quem era em realidade, que lhe confiasse seus pensamentos mais íntimos, seus medos, suas esperanças.
Hope Prescott estava se convertendo rapidamente em uma obsessão, em aspectos que não era só o sexual.
- Enfim, vamos a meu quarto estudar física,
Mas Zack podia ter, e de fato tinha, mais planos que explorar a mente de Hope. O lenço que ela levava ao redor do pescoço era de seda, e sua intensa cor marrom dava a sua cútis uma calidez que ele desejava possuir. Igual a Hope, as flores cor turquesa apareciam descaradas e desafiando ao frio de inverno que reinava lá fora, e Zack desejou tocá-las. Tocar a ela. De modo que agarrou os extremos do lenço, atraiu Hope para si e se inclinou para beijá-la.
Mas ela retrocedeu.
- Poderíamos estudar física aqui mesmo, na cozinha.
Zack se afastou e a olhou nos olhos. Ela piscou rapidamente, seus lábios cheios tremeram apenas. Punha-a nervosa entrar em seu dormitório e ficar a sós com ele.
Como devia ser.
- Não quer me ensinar a utilizar o computador? - Perguntou Zack.
- Sim, claro que quero.
- Pois o computador está em minha sala de estar.
Sem saída. Hope não tinha mais remédio que meter-se com ele em seu escritório particular e, o que era pior, gostou de ver-se sem saída. Gostou que ele a levasse pelo braço e a conduzisse para a escada de serviço e não tinha por que preocupar-se pelas questões morais, porque não ficava alternativa. Gostou de sentir-se apanhada... E ao mesmo tempo estava mortificada. Era ele quem lhe dava medo... Excitava-a até fazê-la perder o julgamento.
Perguntou-se que, se Griswald estaria cansado dela mostrar-se tão cautelosa em aceitar sua amizade. Não parecia aborrecido... Olhou-o de soslaio. Não, mas bem parecia concentradas, com suas escuras sobrancelhas franzidas e o gesto de firmeza de sua mandíbula.
Inclusive agora resultava estranho meter-se no dormitório de um homem, sobre tudo daquele homem. Ao fim e, ao cabo, apesar do tempo que se afastou de Hobart, seguia sendo a filha de um pregador.
Entrou noquarto. Aquilo não era o lugar mobiliado somente com o básico que ela esperava dos aposentos dos criados. De fato, não constava só de um dormitório. Os aposentos de Griswald eram maiores que o seu próprio apartamento. Muito maior. Ali mesmo, na planta baixa da residência Givens, dispunha de uma sala de estar com um sofá, uma poltrona e um pequeno local para comer. A iluminação era suave, e as cortinas em cores dourada e marrom eram bastante grossas para isolar do frio e da noite.
Zack anunciou com um gesto empolado:
- Minha sala de estar.
Hope girou lentamente ao seu redor. Sobre a mesa havia um enorme arranjo de lírios e florzinhas rosa. A impressão do conjunto denotava elegância, mas de todos os modos a Hope lhe arrepio o pêlo das costas. Aquela noite tinha beijado aquele homem pela primeira vez e agora, tinha tentado pouco a pouco até fazê-la entrar em seu quarto.
De acordo, não a tinha tentado. Griswald tinha um motivo completamente lógico para estar ali. Mas Hope espionou pela porta aberta que dava ao dormitório e viu a cama descomunal que dominava tudo... E, mais que nada, dominava sua mente.
Sentiu que os dedos dos pés se encolhiam dentro das meias três - Quartos.
Griswald, e ela, e uma cama. Ouviu em seu interior a voz de sua mãe: «Esta é uma receita segura para o desastre.»
O problema era que o corpo de Hope estava em sintonia com o de Griswald, o qual exudava uma total segurança em si mesmo. Aquilo, sozinho, já era um estímulo.
Comentou com certa confusão:
- Isto é muito bonito.
Surpreendeu-a o estilo da mobília, formal até o ponto de resultar brega. Não era absolutamente o que esperava de Griswald.
Ele a conduziu através da porta aberta.
- Este é meu dormitório. Essa porta dá no banheiro, se quiser te refrescar.
- Obrigada.
Além da cama, aquela ampla habitação tinha também um assento junto à janela, uma mesa grande e de elaborado desenho com um abajur, um livro de física, um caderno de espiral, um pequeno ramo de rosas amarelas... E um Pentium de alta velocidade com um monitor de tela plana de vinte polegadas e teclado dividido. Hope passeou a seu redor e se arrumou para que não caísse a baba sobre o elegante negro mate do computador. Logo se voltou para Zack com gesto acusador.
- Disse-me que não entendia de computadores.
- E assim é. - Zack falou com segurança suficiente para convencê-la - Este é para o serviço, se por acaso querem usá-lo. - Aproximou-lhe o livro de física. - Eu entendo de física.
Hope ignorou a física com a mesma determinação com que ele ignorou a tecnologia.
- Não seria mais cômodo colocar o computador em outro lugar?
- Sim, mas então não poderia controlar o tempo que os criados passam conectados na internet.
- OH. - Hope lhe dirigiu um olhar fugaz - Parece lógico. - Não muito, mas sim o suficiente.
Griswald não era o que ela esperava. Não era absolutamente. Quando não era mais que uma voz ao telefone, seu aspecto físico carecia de importância. Que fosse um homem alto ou baixo, bonito ou feio como um demônio, nada disso a teria surpreendido. Mas em todo caso, tinha pensado que um mordomo teria aspecto de mordomo: serviçal, mas digno, contido, mas desejoso de agradar. Um mordomo não devia desprender um ar de autoridade, de competência, de uma arrogância próxima a frieza. Entretanto, aqueles términos definiam ao Griswald... E ela gostava.
Com toda pressa, meteu-se no banheiro, com suas toalhas de cor verde musgo e sua concha de gardênias flutuantes, e fechou a porta. Então se apoiou no lavabo e olhou fixamente seu rosto, suas bochechas muito coradas e aquele brilho de excitação que mostravam seus olhos. Jogou água na cara com a intenção de esfriar um pouco a pele e recuperar a sensatez na medida do possível.
A seguir se secou e voltou a olhar-se no espelho.
Não tinha mudado nada. Estava exatamente igual à antes, e seguia desejando a Griswald. Não com a doce devoção que seus pais mostraram um pelo outro, a não ser com violência, com desespero, sem pensar por um instante no amor, o decoro ou o futuro. Simplesmente... Era um desejo carnal. E tinha que pôr fim.
Separou-se do espelho e se «refrescou». Sim, tinha que pôr fim a aquele desejo carnal. Oxalá soubesse como.
Com todos os sentidos alerta, retornou ao dormitório.
Griswald seguia estando ali, entristecedor, muito corpulento, muito alto, muito tudo, igual a um Rolls-Royce em meio de um campo de couves.
De fato, se aquele era o mordomo do senhor Givens... Então disse impulsivamente:
- Como é o senhor Givens?
- Mmnn?
O escuro olhar de Griswald a percorreu de cima a baixo, lhe dando arrepios. Não respondeu a sua pergunta, mas sim se limitou a contemplá-la fixamente, como se quisesse intimidá-la.
Pensaria que ela era uma caça fortuna? Aquela idéia a incitou a lhe perguntar de novo: - Como é o senhor Givens?
- Bonito como um demônio. - Griswald não chegou a sorrir, mas pareceu remotamente divertido.
E aquilo a irritou ainda mais.
- Mas um demônio de todas as formas?
Griswald a observou com calma, até que por fim se moveu como se tivesse tomado uma decisão.
- De que forma é um homem um demônio? O senhor Givens leva uma vida exemplar. Toma uma taça só de vez em quando, não fuma, sai com mulheres de sua classe e é moderado em suas façanhas de dormitório.
- Moderado em suas façanhas de dormitório? - Os lábios de Hope tremeram na tentativa de reprimir um sorriso - Os bostonianos têm uma maneira muito interessante de expressar as coisas.
- Como o expressaria você? - Replicou ele com suavidade.
- Que não se deita com todas. - Hope falou com franqueza, mas se ruborizou.
Zack permitiu que seu olhar se demorase um pouco, para comunicar a Hope que se precaveu com todo detalhe daquela ascensão de cor.
- Possivelmente não seja isso o que quis dizer. Possivelmente quis dizer que não é um homem que goste de perversões.
Hope ficou paralisada. Ficou de queixo caído, ficou tal como estava, absurda, com o olhar cravado em Griswald, perguntando-se que capricho a haveria de fato acreditar que poderia enfrentar-se cara a cara com aquele homem calmo, tranqüilo, que tinha conhecido a tantos homens e mulheres importantes do mundo, e sair vitoriosa.
- Não é absolutamente um pervertido. Gosta das mulheres e estas dizem que é bastante bom na cama. - Zack fez uma pausa, como se esperasse que ela dissesse algo.
Mas Hope não podia dizer nada. Não podia mover-se.
Griswald continuou:
- O senhor Givens é um homem que, quando faz algo, gosta de fazê-lo bem. Chegou à conclusão de que fazer amor bem tinha grandes vantagens, de modo que, quando descobriu as garotas à idade de dezesseis anos, dedicou-se com esforço a ler livros sobre a resposta sexual feminina.
Hope fechou a boca de repente e depois, com voz rouca, perguntou:
- Proporcionou-lhe seu pai a donzela do andar de cima para que praticasse?
-Tem lido muitas novelas.
Griswald não a tinha convencido. Não a tinha convencido absolutamente.
- Mas o fez?
- Sim. - Antes que ela pudesse protestar, Zack elevou uma mão - Embora não foi a donzela da planta de acima, a não ser uma experimentada dama da noite que estava do mais disposto a ensinar a um jovenzinho ansioso os detalhes mais finos, por assim dizê-lo, da arte de fazer amor.
Hope se sentia muito envergonhada para olhá-lo nos olhos.
- Você me perguntou isso - Recordou-lhe Zack com suavidade.
- Bem, agora já estou mais bem inteirada. - Jamais voltaria a perguntar algo tão íntimo. Deu uma palmada no ar para dissipar o feitiço e diss e- Primeiro, o computador.
- Primeiro, a física.
Hope negou com a cabeça.
- Nem pensar. Tenho que aprender física, assim estou segura de que isso o faremos. Mas não penso permitir que você escape do nosso acordo, e no que se refere à informática, está verdadeiramente em fraldas.
Essa noite. Seduziria-a essa mesma noite. Quando tivesse Hope em uma cama, quando ela se encontrasse apaixonada e quente depois de que lhe houvesse feito amor, terminaria aquele fingimento entre ambos. Diria-lhe quem era. E ela o perdoaria. E ele lhe mudaria a vida para melhor.
Mas não cometeu o engano de tentar seduzi-la antes da aula. Isso não teria tido êxito... E ele não fracassava nunca.
Combinaram dedicar meia hora à informática e outra meia hora à física e, quando Hope retirou sua cadeira e se espreguiçou, parecia satisfeita e aliviada.
- Obrigada. Meu professor é muito bom, mas é muito mais fácil entender com você.
Tirou o elástico que segurava o cabelo, e ao fazê-lo sua juba lisa e de cor castanha se derramou ao redor de seus ombros. Penteou as mechas com os dedos e a seguir começou a recolhê-los para trás em um rabo-de-cavalo.
Zack também retirou sua cadeira, apoderou-se do elástico e a guardou no bolso.
-Por que comigo é mais fácil de entender?
Gostou de ver aquela suave cabeleira castanha ao redor dos ombros e a luz dos abajures arrancando brilhantes reflexos dourados.
Hope olhou o bolso dele e depois o olhou, e decidiu não forçar a situação.
- É da Romênia, e só lhe entendo uma de cada duas palavras que pronuncia.
- Então virá de novo a ver-me na próxima semana?
Hope cheirava bem, a baunilha e sabão, e a calor de mulher, e levava duas horas respirando-a.
- Se me prometer praticar com o computador pelo menos uma vez ao dia.
- De acordo - Apressou-se a responder Zack. Mas mentia.
- E a me escrever um e-mail para demonstrar que tem feito.
- Sabia que havia armadilha.
Aquela noite tinha aprendido muito sobre Hope. Era inteligente, rápida e atenta. E também decidida, mas isso já sabia. Desejável... Tinha ficado com calor e tirou a camisa de flanela, e pela primeira vez em sua vida Zack começou a suar ao ver uma mulher vestida com uma camiseta branca sem mangas. Os músculos de seus braços eram alargados e esbeltos, não como se levantasse pesos, mas sim como se fosse a toda parte carregando seus livros. Notou o rastro do sutiã por debaixo do magro tecido, e nunca em sua vida tinha invejado um sutiã branco barato.
- Lembra-se do que ensinei? - Perguntou Hope. Zack repassou suas notas.
- Sim.
- Muito bem.
Sorriu e ficou passeando pelo quarto, observando a coleção de tabaqueiras que Griswald conservava em uma vitrine, assim como as inestimáveis esculturas de cerâmica que eram exibidas no armário.
- Por outro lado, por que esperar até a semana que vem? - Sem mover-se da cadeira, Zack disse - Volte amanhã de noite.
Ela não levantou a vista. Não se sentiu impressionada por aquela régia ordem.
- Não posso. Tenho que estudar.
- Pode estudar aqui.
A primeira vez que a viu, acreditou que não era seu tipo, mas seu sorriso e sua maravilhosa voz foram atraindo-o para o desejo. Agora que já tinha passado um tempo com ela, seu tipo de mulher tinha mudado, porque tudo o que rodeava a Hope o estimulava profundamente. Lamentou suas roupas puídas, mas só porque cobriam o corpo que ansiava ver. A figura magra e alargada de Hope se movia com uma graça e uma fluidez que tinham começado a obcecá-lo.
- Não só física. Também ciências informáticas, sociologia, espanhol.
- Eu falo espanhol. E lhe prepararei o jantar
- Não.
Maldição. Hope tinha captado o aroma de sua ereção, e estava fugindo espavorida. Não podia permitir que acontecesse tal coisa; desejava-a, e a teria.
Sim. Aquela era à noite. Ficou em pé e se dirigiu para Hope, encurralando-a em direção à cama.
Ela foi evitando, até terminar junto à mesinha de noite. Ali se deteve e tocou o ramo de rosas vermelhas com delicadeza.
- Quantas flores há em sua casa. São preciosas.
Zack se aproximou um pouco mais.
- É uma amostra de minha sensibilidade.
Ela começou a rir.
- Com certeza!
Zack não a acompanhou naquela gargalhada, mas sim, em lugar disso, usava sua voz e seu tom para convencê-la.
- Sou um homem sensível. Sou sensível a você. Nunca olhei a uma mulher como olho a você. Penso em você todas as horas do dia. Inclusive me distrai quando estou trabalhando.
- Hum... Bom, não posso voltar amanhã de noite. - Hope fingiu não se dar conta de que ele ia se aproximando, mas Zack se fixou em que esticava ligeiramente as costas e lhe tinha acelerado a respiração - Trabalho, e logo me espera uma sessão de maratona de estudo em meu apartamento, onde ninguém possa me incomodar.
Zack ficou atrás dela e passou os dedos sobre seus braços nus.
- Eu não iria te incomodar.
- Sim me incomodará.
- Por que diz isso?
- Sempre me perturba. - Hope mordeu o lábio, lamentando ter sido tão sincera.
Zack apenas, um gesto de satisfação que tocou ligeiramente seus lábios.
- Nesse caso, estamos em paz.
Deslizou as mãos pelos braços dela, subindo, até chegar a seu rosto. Então se inclinou e pousou sua boca sobre a dela.
Hope estava tão tensa que Zack acreditou que ia romper-se. Ela se separou e lhe disse:
- Não posso te beijar.
- Antes me beijou. - Seus lábios vagaram pela suave pele de suas bochechas e por detrás da orelha - Por que agora não?
- Porque este é seu dormitório. E eu não posso estar em seu dormitório. - Tentou liberar-se - Tenho que ir.
Mas Zack a reteve.
- Um beijo somente. Depois, se quiser, pode partir.
Hope o olhou com os olhos entreabertos, como suspeitando de algum truque; e o havia, mas aquele cordeirinho não tinha nem idéia do poder que tinha a paixão quando a esgrimia as mãos apropriadas.
- De acordo.
Zack pegou suas mãos e as pôs ao redor de seu próprio pescoço.
- Se for ter somente um beijo - Disse-lhe em um tom de voz cuidadosamente normal - Quero que me abrace. Quero todo o acompanhamento como é devido.
Ela relaxou um pouco e se apoiou no corpo dele.
-Um beijo somente.
Zack a rodeou com seus braços, elevou-a nas pontas dos pés e desfrutou da sensação do roce de seus seios contra seu peito. E então a beijou.
Imediatamente, Hope demonstrou quanto lhe tinha enganado. Não era consciente da atração que havia entre ambos, porque seus lábios se abriram com toda facilidade para os dele. Zack saboreou-a, deu-se um banquete com ela como se fosse um homem a ponto de morrer de inanição.
Aquilo era mais que um beijo; aquilo era o jogo prévio, só que ela não sabia. Aquele beijo era o primeiro de muitos.
Hope demonstrou que se recordava do que ele havia lhe ensinado nesse mesmo dia. E acrescentou uma novidade de própria marca: apanhar sua língua entre os lábios e sugá-la habilmente. Emitiu um ronrono ao fazê-lo, e aquele ruidinho de satisfação esteve a ponto de ser a perdição de Zack.
Uma sedução lenta? Se ela não tomasse cuidado, ele perderia o controle... E aquele não era o momento adequado.
Em vez disso, deslizou as mãos pelas costas de Hope. Elevou a cabeça, olhou-a e lhe disse em tom persuasivo:
- Mais um.
Ela abriu os olhos muito devagar. Tinha as pupilas dilatadas pela paixão.
- Sim, por favor.
Zack não lhe permitiu ver seu triunfo, deixou-se cair sobre a cama, arrastando Hope consigo, e a beijou novamente. Não cometeu o engano de mover-se com muita pressa, mas sim, permaneceu ali sentado, abraçado a Hope, desfrutando daquele encontro de lábios, dente e línguas. E de fato... Ele estava gostando muito.
Com quase todas as mulheres, beijar era um mal necessário, uma preliminar que requeria habilidade, mas não atenção. Em troca, com Hope desfrutou do prazer de saboreá-la, de seu modo de tremer e de sua surpresa ante aquela experiência nova e maravilhosa. Lentamente, à medida que o beijo seguinte ia dando passo a outro, e a outro, foi deitando-a sobre o colchão, trocando de postura com destreza e colocando Hope debaixo dele.
Ela não pareceu dar-se conta. Tal como o tinha previsto, estava apanhada no inevitável espiral do prazer.
O corpo dela sob o seu era leve e torneado, por isso se manteve um pouco à parte, temeroso de esmagá-la... Desejando esmagá-la, de tomá-la, de lhe dar prazer e recebê-lo também.
Apertou seus quadris contra os de Hope e se esfregou contra ela, tentando de maneira instintiva aliviar a tensão de sua ereção.
Ela ficou assustada, surpreendida. Qualquer outra mulher o teria rodeado com as pernas e o teria utilizado para dar-se prazer.
Mas Hope, não. Hope lutou para soltar os pulsos de sua garra de aço.
Zack a soltou imediatamente, seguro de que ela o empurraria para separá-lo, sabendo que teria que permitir-lhe. Logo teria que tranqüilizá-la, lhe falar e começar outra vez desde o zero aquele insuportavelmente prolongado cortejo.
Uma virgem? De verdade se havia sentido encantado de que Hope fosse virgem? Devia estar louco, porque as virgens requeriam tempo e paciência, e ele era Zachariah Givens... Contemplou-a, estendida na cama e em uma excitante pose. Ele era Zachariah Givens, e demoraria o tempo que Hope necessitasse para converter aquilo em uma lembrança que ela conservasse com carinho, porque naquele preciso momento não podia imaginar o fato de não desejá-la, e queria que ela sempre desejasse a ele.
Então Hope lhe tocou a bochecha com os dedos. Rodeou-lhe o pescoço com um braço. Atraiu-o para si.
Com a vista fixa em seus olhos, Zack advertiu uma ilusão sem reservas e uma confiança que o aniquilou.
Hope desejava beijá-lo outra vez.
Zack teve vontade de levantar a cabeça e lançar um primitivo uivo de triunfo. As coisas que dava por certo em outras mulheres, no caso de Hope, tinha que as conseguir com mímicas e adulações, e amou cada momento de inocência e despertar que ia descobrindo nela. Ardia de desejo por tê-la. Hope não notava o calor, mas existia de todos os modos.
Enredou os dedos em seu cabelo e a beijou lhe massageando a cabeça e os músculos do pescoço, absorvendo seus suaves gemidos e devolvendo-lhe em forma de fôlego. A massagem teve o efeito que ele esperava, afrouxou as reservas de Hope, até que ao fim ela separou as coxas e deslizou entre suas pernas.
Ele ia a possuí-la aquela noite, ia tê-la para si...
Zack percorreu todo o pescoço com a boca aberta, saboreando aquela suave pele. Cheirava a baunilha e tinha sabor de glória.
Hope se agitou contra ele, tentando aproximar-se mais. Tinha os olhos fechados e a cabeça obedientemente girada para um lado para lhe permitir um melhor acesso. Seus lábios carnudos se viam úmidos e entreabertos, e respirava de maneira entrecortada. Uma formosa vermelhidão lhe iluminava as bochechas e lhe dava o aspecto de uma mulher a ponto de sucumbir ao orgasmo.
E isso que nem sequer estava perto. Carecia de experiência.
Com surpresa, Zack descobriu que nele mesmo tremiam os dedos. Aquela singela sedução significava muito para ele, quase muito. Mas não podia voltar atrás. Introduziu as mãos por debaixo da camiseta de Hope e começou a acariciá-la, ao mesmo tempo em que se deslocava inexoravelmente para cima, com o fim de chegar aos seios. Para lhe mostrar o intenso prazer que podia desatar um simples contato neles.
Seu contato sobre a pele de Hope fez que esta se movesse inquieta, que agitasse as pernas ao redor de seus quadris, e Zack fez uma pausa para apertar-se contra ela, para acrescentar seu desejo. Para aliviar sua própria angústia.
Hope afundou os dedos nos ombros do Zack e respondeu a seu movimento.
A seguir ele tomou seus peitos e se deleitou sentindo seu peso, sua forma... Ódiou a barreira que era o magro sutiã. Então, seu dedo polegar encontrou o mamilo, duro e erguido, e começou a riscar círculos a seu redor, e também por cima.
Esperava que Hope exalasse um forte gemido.
Mas em troca ela abriu os olhos de repente e ficou olhando como se não o tivesse visto nunca. Aspirou ar com força e exclamou em tom áspero, sobressaltado:
- Não faça isso!
Zack tinha ido muito depressa. Mais devagar do que teria atuado com qualquer outra mulher, mas muito depressa para Hope. Sua intenção tinha sido a de acariciá-la, aproximá-la um pouco mais nas profundidades do prazer.
Mas não tinha feito de maneira correta. Teria que voltar ao começo de novo.
Hope lhe empurrou a mão e tentou afastar-se dele.
- Basta!
- Está bem. - Gradualmente, temendo alarmá-la até mais, Zack retirou a mão debaixo da camiseta - Carinho...
- Não! - Hope já estava escapulindo dele, com tal pânico que quase se fez mal - Tenho que ir a casa.
Pela primeira vez, Zack compreendeu que talvez não ganhasse. Ainda. Aquela noite, não.
Deixou-a livre e se incorporar sobre a cama.
–Hope, me escute, isto foi...
Ela saiu imediatamente da cama.
- Já sei o que foi, e não posso fazê-lo. - Recolheu sua camisa e introduziu as mãos nas mangas. Logo colocou a toda pressa seus papéis e seu livro de texto na bolsa - Sou filha de um pregador. Não tenho tempo para estas coisas. - Dirigiu-lhe um olhar angustiado - Para você.
Maldicão! Aquilo nunca tinha lhe acontecido.
Mas aquela noite, sim.
Não podia acreditar. Aquilo tinha que ser um obstáculo eventual. Se dissesse algo apropriado, se fizesse o correto, poderia atrair de novo Hope.
Fingindo aceitar a derrota com elegância, ficou em pé... E desejou que sua ereção fosse um pouco menos evidente.
- Acompanharei-lhe ao andar de cima.
Hope o olhou e, é obvio, imediatamente seus olhos se cravaram em sua ereção.
- Não! Posso arrumar isso sozinha.
Zack deu um passo para ela.
Ela retrocedeu. Em um tom menos frenético, disse-lhe:
- Não. De verdade. É que... Não.
Capítulo 15
- Parabéns! - Hope sorria para o telefone como se pudesse ver ali a cara do senhor Chelo - Sabia que conseguiria uma bolsa! Agora poderá terminar os estudos e converter-se em um violoncelista famoso.
-Vou dedicar a você minha primeira atuação no Carnegie Hall. A Hope, que sempre teve fé em mim. - A voz do senhor Chelo tremeu por um instante. - Quando pensei em abandonar, foi você quem me ajudou a seguir adiante.
Ela levou uma mão ao coração. Certamente era uma grande satisfação que apreciassem os esforços de alguém.
- E que vai fazer para celebrar?
- Vou sair com meus amigos. - Hope captou um murmúrio de vozes ao fundo, que aclamavam o êxito do senhor Chelo - De fato, estão aqui neste momento. Mas é que tinha que lhe comunicar isso. Huy! - O telefone se chocou contra algo; ele o tinha deixado cair no chão, e quando o recolheu outra vez estava rindo - Não me deixam. Chamo você mais tarde!
- De acordo - Respondeu Hope, mas a linha já tinha ficado muda.
Bem. Aquilo era genial. O senhor Chelo tinha já sua bolsa de estudos. Um ponto para os bons.
Madame Nainci se achava andando ruidosamente em seu dormitório, mas naquele momento abriu a porta e saiu à sala de estar. Vestida com umas calças de cor azul elétrica, uma jaqueta de quadros azuis e franjas e um lenço de pescoço cor carmesim, fez com que Hope piscasse deslumbrada.
- Esta manhã me levantei tarde. - Mas estava sorridente e cantarolava uma melodia.
Dava gosto ver tão contente Madame Nainci.
- Saiu com o senhor Wealaworth?
- Não, querida, ontem à noite foi ao baile com o Gregor.
- Gregor? - Quem era Gregor? O que teria acontecido com o senhor Wealaworth? Hope olhou para a mesa vazia - O que teria ocorrido ao senhor Wealaworth? Passou todo o dia sem aparecer.
- Ontem me encontrei com o Gregor na mercearia. - Madame Nainci foi apressadamente até a cômoda e deu inicio ao comprido processo de envolver-se em seu casaco de frio. - É um homem bonito, muito educado, convidou-me para tomar um chá na Casa de chá Grega, e também baklava, que estava muito boa, e depois fomos ao clube dançar.
- Soa bem. - Hope se sentia confusa - Mas que aconteceu com o senhor Wealaworth?
- Também é muito bonito. - Madame Nainci deu de ombros - Não está mau. Se contarmos com dois homens, é mais fácil conseguirmos um convite para sair.
Hope riu. Não cabia nenhuma dúvida de que Madame Nainci sabia encontrar o modo de ser feliz.
- Bom, tenho que ir a mercearia! - Com gestos teatrais, colocou ao redor do pescoço seu cachecol de franjas roxas e se voltou para a porta.
- Acreditava que já tinha ido ontem.
- Mas esqueci de comprar.
Hope riu de novo enquanto Madame Nainci saía pela porta com ar majestoso, soberana de todos seus domínios, e voltou a concentrar-se na física. Agora entendia os problemas, mas cada um era mais difícil que o anterior, até que, ao chegar ao final da página se deteve e massageou os tensos músculos do pescoço. Oxalá estivesse ali Griswald para ajudá-la.
É óbvio, tendo em conta que tinha ficado chateado a noite anterior, talvez não quisesse lhe dar sua ajuda.
Em um movimento automático, soltou seu rabo-de-cavalo, passou os dedos pelo cabelo e o preparou para recolhê-lo outra vez.
Em troca, lembrou-se do modo em que a olhou Griswald quando liberou a juba sobre os ombros e deixou o cabelo solto.
Griswald tinha desejado algo mais que lhe ver o cabelo solto, naturalmente. Era uma inocente, mas não tola. Tinham estado em sua cama, ela tinha relaxado com seus beijos... E pouco a pouco se deu conta de que ele desejava algo mais que beijá-la. Tinha-lhe acariciado cada centímetro de pele nua, os braços, o pescoço. Depois, antes que ela pudesse esperar algo assim, colocou a mão por debaixo da camiseta e lhe acariciou o peito.
Foi então que se deu conta. Tinha que partir. Sair dali antes que fosse muito tarde.
Não foi nada fácil. Zack não queria parar e ela, que Deus a ajudasse, não queria que parasse.
Agora, ao pensar nisso, colocou as mãos nos braços e os esfregou como se ainda pudesse sentir o contato do Griswald. Ele estava muito seguro de si mesmo, ela era muito vulnerável, e se não tivesse cuidado terminaria na cama do Griswald. Seria sua amante.
Mas não tinha tempo para aquelas coisas. Repetiu a si mesma a frase como um mantra. Tinha trabalho que fazer aquela noite, e mais trabalho no dia seguinte, e para sempre. Se Griswald fosse seu amante, a obrigaria a observar um horário regular de comidas, um horário regular para dormir, iria querer que dedicasse tempo a ele. Não era um homem que fosse deixá-la trabalhar como vinha fazendo até agora.
Não! Não tinha tempo para aquilo.
E em troca, OH, que perto tinham estado. O calor que irradiava o corpo de Griswald enchia os espaços frios e vazios de sua alma, e desejou...
Naquele momento soou telefone. Hope o olhou esperançada... e deixou escapar um suspiro. Não era Griswald. Griswald não tinha chamado todo o dia. Era a senhora Siamesa, que queria suas mensagens. Hope as deu, com o ruído de fundo dos miados do gato.
Tinha sido um daqueles dias. Acontecia de vez em quando. Todo mundo chamava para receber suas mensagens, para conversar, ou para pedir um favor. Não era que Hope se incomodasse de ocupar-se daquelas coisas, mas é que por fim entendia a física e queria fazer todos os problemas dos exemplos antes que aqueles conhecimentos desaparecessem de seu cérebro revestido de teflon.
E inclusive quando tinha tempo para trabalhar, tinha sido difícil concentrar-se, porque cada vez que pensava na física lhe vinha à cabeça Griswald. Por que não teria chamado? Era muito diferente de todos os homens que tinha conhecido. Ganhava a vida com seu trabalho, sim, mas nunca se viu apanhado pelas circunstâncias. Sempre tinha tomado em suas mãos as rédeas de sua vida e a tinha modificado a seu desejo. Nas circunstâncias apropriadas, aquele homem, aquele mordomo, poderia havê-la convencido de que dirigia um banco ou uma grande empresa.
Depois que ela o parou na noite anterior, ele tinha tentado de novo convencê-la de que iria vê-lo esta noite, e não aceitou com muito gosto sua negativa. De fato, mostrou-se rígido e zangado, e se ela tivesse sido uma criada, faria valer seus privilégios de chefe. Mas ela não era uma criada e ele carecia de privilégios, e menos mal, porque ela tinha muito trabalho que fazer.
Hope ajustou os fones de ouvido, tomou o lápis... E naquele momento o telefone voltou a tocar.
Tampouco era Griswald esta vez. Mas adotou um tom alegre e disse:
- Olá, senhora Monahan. Como se encontra neste brilhante...?
Mas a senhora Monahan a cortou antes que pudesse terminar sua saudação habitual.
- Hope, eu lhe disse que não contasse a ninguém sobre minha operação.
- Sua operação? - A senhora Monahan nunca tinha falado naquele tom com ela. Era como se fosse menos uma doce anciã e mais uma professora de escola provida de uma rígida vara de castigo - Sua operação de quadril? Eu não...
- Não minta. Acaba de me chamar por telefone um tal doutor O'Donnell. Tenho hora amanhã para uma consulta. - Em um tom que indicava claramente que aquilo supunha o maior dos ultrajes, a senhora Monahan informou - Vão enviar um carro.
Hope se debateu entre negar ter tido parte no fato ou alegrar-se de que, por obra de algum milagre, a senhora Monahan iria a fazer por fim sua operação.
- Eu não fiz nada. Eu juro! - Ouviu a respiração da senhora Monahan no telefone, como se estivesse dominada pela cólera - Senhora Monahan, eu não tive nada a ver com isto. Eu juro por... Pela tumba de minha mãe.
A senhora Monahan soltou um suspiro.
- Esta bem, querida. Não acreditava que você fosse fazer algo assim às minhas costas, mas não sei quem pôde ser o responsável. - Seu tom de voz se tornou mais razoável
- Certamente, o governo não foi. É fácil de deduzir por causa do carro.
Hope procurou uma explicação em sua cabeça.
- Eu comentei com várias pessoas. O assunto pode ter se espalhado e todos terminaram contribuindo... Ou algo assim. - Até a ela soou pouco convincente.
- Pois teriam que ter contribuído o bastante - Comentou a senhora Monahan em tom irônico - A operação custa mais de vinte mil dólares.
- Eu sei. Vai operar certo?
- Ah, se alguém se deu ao trabalho de ajudar, seria muito ingrato por minha parte não permitir.
Era um milagre, uma prova de que ainda existia gente boa no mundo, e aquela notícia aliviou o dolorido coração de Hope.
- Acredito que sei quem organizou isto. Creio que foi Griswald.
- Quem?
- O mordomo do senhor Givens. Já sabe da Givens Enterprises.
- O mesmo que me conseguiu o andador?
- Exato. É um tipo estupendo, é certo que sabe com quem teria que falar em casos como este...
- Querida, odeio ter que te cortar, mas é que acabam de chegar às garotas para a partida de bridge. Quero lhes explicar aonde vou amanhã. Quero-te, carinho.
-Eu também, senhora Monahan.
Hope desligou com um nó na garganta. Aquele era um dia repleto de boas notícias.
Sentia-se tão contente pela senhora Monahan que esteve a ponto de chamar o Griswald para perguntar o que sabia ele da operação em questão. Mas ele não a tinha chamado. Em geral chamava varias vezes ao dia, de modo que talvez aquilo significasse que estava zangado com ela. Ou talvez que... não tinha gostado de seus beijos.
Provavelmente estivesse ocupado.
Mas e se... Não; provavelmente estava ocupado.
Mas e se o chamava e ele insistia em ir a sua casa outra vez? Não acreditava ter a necessária força interior para negar-lhe e também negar a si mesma, de novo. E se o visse aquela noite, talvez lhe desse o que ele obviamente desejava dela.
Não podia fazer semelhante coisa. Simplesmente, não podia. O que lhe tinha ensinado seu pai pesava muito, tanto como a lembrança dos conselhos de sua mãe.
E, além disso, não podia esquecer que Griswald tinha sido muito bom... Esfregou os lábios, recordando o modo em que ele a tinha acariciado, o que lhe tinha ensinado...
Talvez uma pequena chamada. Podia pensar antes no que ia dizer, e logo... Naquele momento tocou o telefone.
Dirigiu-lhe um olhar de poucos amigos e compreendia que Griswald tinha causado um efeito prejudicial sobre ela. Antes se alegrava de ter notícias de seus assinantes: agora o que faziam era interrompê-la quando estava pensando nele.
Era o senhor Janek.
- Em que posso lhe servir? - Perguntou.
A voz dele explodiu no ouvido.
- Onde diabo está esse bode do Wealaworth?
Surpreendida por aquela linguagem e pela virulência que transmitia seu tom. Hope respondeu:
- Sinto muito, senhor Janek, não se encontra aqui
- Isso já imaginava. - Hope o ouviu lançar uma risada zombadora - E essa esperta que trabalha com ele? Essa tal Prescott?
- A senhorita Prescott? - Hope tremeu ao ouvir pronunciar seu nome com tanto desprezo - Ela tampouco está.
- Pois faça o favor de transmitir a esses dois enrolados uma mensagem de minha parte. -O senhor Janek gritava - Diga-lhes que é melhor que entrem em contato comigo e me digam que diabos está acontecendo, ou do contrário eu mesmo me encarregarei de que se arrependam.
- Senhor Janek, se houver algo que eu possa fazer para...
Mas seu interlocutor desligou o telefone de repente antes que pudesse terminar a frase.
Hope esfregou a frente e voltou à vista para a mesa vazia do senhor Wealaworth. Onde estaria? O que estava acontecendo? Tinha que tentar falar com ele, lhe informar da ameaça do senhor Janek.
Levantou-se com a intenção de aproximar-se do rincão do contador, quando de repente soou novamente o telefone.
Aquela vez tampouco era Griswald.
No painel de identificação de chamada apareceu o número da senhora Shepard. Era cedo para que chamasse, mas já tinha saído de licença. Possivelmente... Oxalá estivesse em trabalho de parto.
- Senhora Shepard, que tal se encontra neste brilhante...?
Foi o senhor Shepard quem lhe gritou ao ouvido:
- Hope, Shelley está a ponto de ter o bebê!
Empregando seu tom mais tranqüilizador, Hope respondeu:
- Isso é estupendo. Já sabia que tinha que ocorrer cedo ou tarde.
- Não. Agora! Vai dar a luz em casa! Acaba de romper a bolsa e começou a ter contrações. - Ofegava ao falar - E agora... Agora...
Hope ficou alerta. Tirou a toda pressa a os números de emergências que tinha Madame Nainci em uma estante que tinha a suas costas, e atirou ao chão todos outros livros que encontrou em seu caminho.
- Chamou o 911?
- Não está doente, vai ter um menino!
E o senhor Shepard necessitava que lhe dessem uma mão.
- Agüente. Vou chamar o 911. Enviarão uma ambulância. Não ocupe a linha, agora mesmo vou ajudá-lo, mas tem que conservar a calma pela Shelley.
- De acordo. - Reagiu bem às ordens de Hope, a seu tom de voz - De acordo.
Hope passou a informação ao centro de emergências e depois retornou à ligação.
- Senhor Shepard, tenho aqui um livro.
- Um livro. Boa idéia. - Calou uns instantes, e logo exclamou exasperado - Estou aqui com uma mulher que está dando a luz a um menino! Não estou de humor para ler!
Hope fez um gesto de paciência.
- O livro explica que temos que fazer nesta situação. Em primeiro lugar, onde está a senhora Shepard?
- Sobre a cama.
- Bem. Olhe entre suas pernas, vê a cabeça do bebê? - Hope cruzou os dedos.
- Não. - O homem parecia menos apavorado e mais assustado.
Hope soltou um suspiro de alívio.
- Maravilhoso! Isso quer dizer que temos tempo até que chegue a ajuda médica. Agora, quero que ponha uns lençóis limpos debaixo da senhora Shepard.
- Mas é que saem coisas de seu corpo.
Aquilo não ia ser fácil. Hope começou a suar.
- Senhor Shepard, você viu o filme sobre como nascem os meninos?
- OH. Sim,oh.
- Necessitamos lençóis limpos. Enquanto vai buscá-los, ponha água para ferver e deixe aberta a porta da rua para que possam entrar os paramédicos.
- Lençóis. Água. Abrir. Bem.
- Deixe-me falar com a senhora Shepard.
Ele lançou o telefone para sua esposa, e Hope o ouviu dizer:
- Quer falar com você.
- Está bem. - A senhora Shepard falou em um tom surpreendentemente calmo. Pareceu esperar até que seu marido saísse do dormitório, ou do contrário estava tendo uma contração, porque transcorreu um minuto sem que dissesse nada.
Depois falou - Olá, Hope. Lamento te incomodar, mas não vamos poder chegar ao hospital. As contrações vêm cada uma a menos de... Um... Minuto.
Hope ouviu ofegar à senhora Shepard, e se apressou em ler a informação que tinha a sua frente. O coração dele se afundou; segundo o que lia ali, não tinham muito tempo. Quando a senhora Shepard voltou a falar ao telefone, Hope lhe disse:
- Não penso deixá-la só até que estejam ai os paramédicos.
- Obri...gada.
Hope percorreu as páginas com a vista.
- Está empurrando?
- O menino vem... Já. Sim, estou empurrando! - A senhora Shepard parecia estar irritável.
Isso estava bem, estava em seu direito. E Hope tinha que ajudar a seu aterrorizado marido a trazer aquele menino ao mundo.
A senhora Shepard lhe disse:
- Aqui vem Mike... Com o lençol. Esta bem, querido? Está... Pálido.
- O coloque de novo ao telefone - Ordenou Hope. Quando o teve na linha, disse-lhe em tom severo - Escute, Mike. Você não pode entrar em pânico. Eu não posso trazer esse menino ao mundo por telefone. Você vai ter que fazer isto.
- Já sei. - Até a sua voz parecia estar sem cor.
- Não entre em pânico. Ponha o lençol debaixo dos quadris de sua mulher. Está com os pés apoiados na banqueta?
- De acordo. E... Sim. Isto... Hope.
Hope estava lendo o mais rápido que podia.
- Que?
- Agora vejo algo, e acredito que é a cabeça do bebê.
- Isso espero. - Porque se eram as nádegas, todos iriam ter problemas. Disse-lhe em tom alentador - Isto esta indo realmente muito rápido, hein, senhor Shepard? Mas você conseguirá.
- Shelley não esta contente.
Hope ouvia os grunhidos da Shelley.
- Ela esta fazendo muito bem. - Hope rezou para que estivesse fazendo bem - O menino deve sair com o rosto voltado para baixo.
- Sim. Assim é.
A Hope o coração pulsava com tanta força que teve que ficar de pé.
- Agarre-o na mão e sustente-o com suavidade. E então...
- Espere!
Ao fundo se ouviu um enorme agito.
O senhor Shepard exclamou excitado:
- Os paramédicos acabam de chegar!
- É uma boa notícia, mas não deixe de sustentar ao bebê. E...
Muito tarde. O senhor Shepard tinha soltado o telefone, embora Hope esperava que estivesse sustentando ao menino. Ouviu-o gritar algo, depois outras pessoas que respondiam, e agarrou com força o bordo da mesa enquanto tentava seguir os acontecimentos que escapavam a seu controle, inclusive a sua vista.
- Já esta, senhora Shepard - Ouviu que dizia uma voz de mulher - Já quase deu a luz a este menino. Tudo esta perfeitamente. Você fez sozinha a pior parte. Só um empurrão mais...
Naquele momento se ouviu o gemido de um bebê, e durante uns instantes todo mundo ficou em silêncio. Na continuação, o senhor Shepard soltou um chiado de prazer, os enfermeiros gritaram umas instruções e por último, fracamente, Hope ouviu a senhora Shepard falar em tom feliz e arrulhado. Só conseguiu discernir umas quantas palavras enquanto aquele frenesi prosseguiu durante talvez dois minutos... E então, de repente, desapareceu a cacofonia. Quão único ouviu a seguir foram as vozes de pessoas que conversavam entre si e se afastavam, o menino que estava chorando, e compreendeu que estavam partindo. Até que ao final se foram.
E ninguém se lembrou de dizer ela se tinha sido menino a menina. Agora que a crise tinha passado, Hope tinha as palmas das mãos úmidas, o coração ainda acelerado e os joelhos trêmulos. Deixou-se cair de novo em sua cadeira e exclamou:
- Espere! O que é isso?
Não respondeu ninguém.
Com mais desespero ainda, gritou:
- Alguém apagou o fogo da cozinha?
Hope desembarcou do ônibus e começou a percorrer penosamente a rua em direção a seu apartamento. Nos cantos dos portais afundados se acumulava a neve suja. A pintura dos batentes das janelas se via descascada. Os edifícios, de mais de seis pisos, pareciam inclinar-se sobre a rua, e as paredes de tijolos estavam desmoronando.
Em comparação com a casa de Beacon Hill, aquela vizinhança estava pouco menos que em ruínas, e Hope descobriu que lhe tremia a mão ao limpar das bochechas uma gota congelada de emoção. Não era que estivesse deprimida, não tinha tempo para deprimir-se; mas aquele dia tinha ajudado a nascer um menino, já que a ninguém tinha ocorrido dizer a ela o que tinha sido. Menino a menina, não tinha importância enquanto estivesse sã... Mas queria saber! Tinha ouvido o pranto do recém-nascido, tinha sido uma parte importante daquele nascimento, mas ao final esqueceram-se dela. Era uma tolice sentir-se magoada, mas não podia evitá-lo.
Tinha chamado ao 911, mas não lhe disseram nada, nem sequer a que hospital tinham ido os Shepard, de modo que lhes sugeriu que mandassem a alguém à casa para apagar o fogo da cozinha e depois desligou.
- Hei, senhora.
Um adolescente abatido e com uma barba crescendo saltou de um dos altos alpendres e se coloco diante do Hope.
Hope se deteve e retrocedeu ligeiramente. Começou a lhe pulsar com força o coração. Deus santo, era um ladrão, um estrupador. Começaram a lhe suar as mãos debaixo das luvas.
O menino a seguiu, com a boina sobre a testa e um grande sorriso na cara.
- Hein, senhora, o que faz? Hein?
- Vou a minha casa. - Hope manteve um tom de voz sereno, mas amaldiçoou por dentro.
A primeira vez que percorreu aquela rua andando esteve em guarda todo o tempo. Mas nunca lhe tinha acontecido nada, nunca nos dois últimos anos tinha perdido aquela atitude de vigilância que a tinha ajudado a seguir viva. E agora enfrentava a um moço novo, alto, fraco, um que não reconhecia entre os vândalos de sempre que se apinhavam em pequenos grupos nas esquinas, brigando, vendendo droga ou consumindo-a.
- Senhora, esteve chorando? - O menino aproximou uma mão de seu rosto.
Hope se girou para um lado e procurou lembrar-se das lições que tinha aprendido no instituto. A respeito das brigas e a defesa pessoal. Por desgraça, a regra mais importante que recordava era a de «não meter-se em problemas», e essa a havia descumprido.
- Não quer que te toque? Sou muito carinhoso. - Tinha os olhos brilhantes de um consumidor de crack - Poderia me dar o que leva na mochila.
- São livros.
- Eu gosto dos livros. - Agarrou a correia da mochila com uma mão envolvida em uma luva sem dedos - Leva dinheiro também? Eu gosto do dinheiro.
Seus livros de texto, de segunda mão, haviam lhe custado uma semana de salário. Sabia que ia ter que dá-los ao menino; não merecia perder a vida por eles. Mas aquele tinha sido um dia horrível de uma vida horrível. E ela estava zangada e chateada, não estava de humor para que outra pessoa mais se aproveitasse dela.
Deixou cair a mochila com todo seu peso sobre o braço do menino, e quando este cambaleou, ela agarrou a outra correia. Então passou ao outro lado e lhe deu com todos os livros em um lado do rosto.
Ele caiu de joelhos.
Hope saiu em disparada e pôs-se a correr com todas suas forças em, direção a seu apartamento, com a mochila na mão.
Quase imediatamente ouviu o menino à suas costas. Ia ganhando terreno.
Acelerou ao máximo, subiu a saltos os degraus da entrada, quase tinha conseguido...
E então o menino a alcançou.
Sentiu que escorregavam os seus pés e foi aterrissar na terra sobre suas costas no estreito portal. O rosto de fúria do menino invadiu seu campo visual.
Seu assaltante tinha uma faca. Sustentava-a na mão direita, com a ponta voltada para cima, como um perito. Hope não via nada mais que a folha, reluzente sob a meia luz do crepúsculo. Não percebia nenhum outro aroma além do que emanava do corpo do menino um leve cheiro doce a erva. Não ouvia outra coisa que a voz do menino ameaçador:
- Cadela estúpida. Vai se arrepender por isso.
Hope já estava se arrependendo. Não queria morrer assim, naquele momento, naquele lugar.
Fracamente, ao fundo... Do outro lado da rua? No outro quarteirão? Ouviu alguém gritar.
Mas a faca não se moveu. O menino a aproximou de seu rosto e apoiou a ponta contra a têmpora esquerda, junto ao olho. Hope o olhou fixamente, viu sua própria morte naquele olhar.
Outro grito, esta vez mais perto. Ao pé das escadas.
- Hei idiota, esta tia está sob o amparo do MA.
Seu atacante dirigiu um olhar rápido, enfurecido, ao lado.
- Importa-me uma merda.
- Se importará quando MA te corte os ovos e os pregue na porta de sua casa. - Uns pés subiram as escadas. Outro moço, tão sujo e fedorento como o primeiro, uniu-se a eles- Estou te dizendo que esta tia está sob o amparo do MA. Se manda daqui antes que o MA se inteire disto.
Pela extremidade do olho Hope viu aquela mão suja tremer pela necessidade de matá-la... E seria muito fácil.
Devagar, levantou o pé. Pensava em desferir um chute no joelho... Se é que tinha a possibilidade de fazê-lo.
Então a mão se retirou de repente. A faca desapareceu na manga do menino. Os dois baixaram correndo os degraus e se perderam na penumbra.
Hope ficou ali sentada, aturdida.
Tinha estado a ponto de morrer. Tivesse ou não um mau dia. Tivesse ou não uma má vida. Não queria abandoná-la daquela forma.
Por fim, a lama que estava grudada ao traseiro começou a derreter e filtrar-se através dos jeans e da lingerie, o que a devolveu a realidade. Pouco a pouco, conseguiu incorporar-se, sacudiu o pó, examinou as mãos e as pernas, e também o traseiro, em busca de possíveis feridas.
Estava bem. Exceto pelo tremor de mãos e a sensação de mal-estar na boca do estômago. E exceto pelo fato de que podia ter sangrado até a morte na porta de sua casa, nas mãos de um drogado por uns livros que acabaram sendo ignorados, e ninguém teria se importado muito.
Uma vez tomada a decisão, agarrou a mochila, baixou a toda pressa os degraus e desceu a rua em direção à parada de ônibus.
Capítulo 16
- Senhor, há uma jovem que deseja ver o senhor Griswald - Informou Leonard, o submordomo, de pé na porta do estúdio de Zack.
- Uma jovem? - Zack levantou a vista dos papéis. Sua mente voou imediatamente a Hope, mas ela tinha dito que tinha que estudar. Teria se sentido dominada pelo desejo por ele?
Não. Hope, não. Era tão cabeça dura como todas as mulheres de sua própria família. Gostaria de saber por que tinha caído sobre ele semelhante maldição.
Leonard trocou o peso de um pé a outro. Era um homem alto e magro, como um cadáver, com uma pele intensamente pálida, olhos protuberantes e umas maneiras inquietas que irritavam a Zack.
- Senhor, não quis me dar seu nome, mas pensei que... Acredito que é a jovem que convidou a semana passada.
Então era Hope... E quando tinha conseguido vê-la Leonard?
Mais importante ainda, por que estava ali depois de ter insistido de maneira inflexível que não ia retornar?
Zack se levantou no momento e se encaminhou para a porta.
- Obrigado, Leonard. O chamarei se tiver necessidade.
Bem a tempo, Leonard se separou de seu caminho.
Zack esperava encontrar-se com a sorridente e radiante Hope de sempre, mas em troca a viu de pé no vestíbulo, com ar de menina abandonada, com o casaco, o gorro e as luvas ainda postos, a cabeça encurvada e os braços ao redor do corpo. Parecia ter esgotado todas suas reservas de energia para chegar até ali, e era como se já não pudesse mover um só centímetro mais.
Zack correu para ela.
- Que aconteceu?
Ela não se alterou.
- Hope, que aconteceu? - Zack se inclinou sobre ela e lhe estudou o rosto.
Ela pareceu perceber a presença de Zack, porque levantou a cabeça, abriu seus grandes olhos azuis e esboçou um sorriso doce e comovedor com seus lábios pálidos.
- Griswald? Tive um dia horroroso de verdade.
Tinha uma mancha vermelha na bochecha e Zack a seguiu com o dedo até um lugar que ficava debaixo do gorro da jovem. Tirou-lhe o gorro com delicadeza e ali, na têmpora, apareceu um corte. Não era profundo, mas tinha ao menos dois centímetros de comprimento e sangrava.
Aquele corte não tinha sido acidental. Tinha sido causado por uma faca afiada, ou possivelmente uma navalha. Sentiu uma fúria gélida que lhe subia das vísceras até o cérebro.
Alguém tinha ferido deliberadamente a Hope. Deixou cair o gorro no chão, acariciou-lhe a bochecha e perguntou em tom suave, em forte contraste com a cólera que o invadia:
- Quem te fez isto?
- Que?
Hope tinha a pele fria e suada.
- Esse corte.
Ela desviou o olhar.
- Não me fiz nenhum corte – Murmurou - Foi um estúpido mal-entendido. E agora sei que não devo passear por meu bairro sem prestar atenção. - Deu de ombros e depois cambaleou ligeiramente para um lado, como se tivesse perdido o equilíbrio. Como se lhe falhasse o corpo.
Era o choque. Tinha recebido uma forte impressão. Zack deveria ter reconhecido os sintomas imediatamente. Tomou-a nos braços e se dirigiu com ela à escada.
- Aonde vamos? - Hope se aferrou a seus braços - Não pode me levar para cima!
- Não seja absurda. Posso te levar aonde desejar. Não há nada que não possa fazer.
Hope reclinou a cabeça sobre seu ombro e lhe sorriu.
- Meu herói.
Estava tentando ser normal, brincar com ele, mas sua voz débil e sua expressão dolorida quase conseguiram romper o coração de Zack.
Estava gelada, com aquele magro casaco e os jeans desgastados E notou a umidade de suas calças através da camisa. Ao cruzar o corredor que conduzia à cozinha, vislumbro por um instante a Leonard, que se tinha detido ali, sem dúvida, para conseguir alguma fofoca. Bom, pois ia lhe dar mais do que esperava. Empregando um tom de ordem cortante, disse-lhe:
-Traga uma bandeja como a que leva a minha mãe quando vem de visita.
Leonard, que estava a ponto de sair fugindo, afirmou com a cabeça e engoliu saliva.
- Sim, senhor. Em seguida, senhor.
- E flores. Traga muitas flores.
- Sim, senhor!
Zack tomou nota mentalmente de falar com o Griswald a respeito do Leonard, mas não demorou em esquecer aquele assunto. Subiu com firmeza os degraus da escada e se encaminhou para seu dormitório. Ao percorrer aquele corredor de tetos com painéis e retratos iluminados, utilizou seu tom mais calmo.
- Hope, em primeiro lugar tem que se aquecer.
- Você me dá calor. - Ela se arrumou um pouco mais entre seus braços, estremecendo por um súbito calafrio.
Zack suavizou até mais o tom para lhe perguntar:
- Agora, me diga: Você foi violentada? Devo chamar à polícia?
- O que? Não! - Hope se mostrou indignada, como se Zack estivesse louco - Esse menino só tentou me roubar.
- Só.
A porta do quarto de Zack estava aberta; entrou como um furacão e as luzes das mesinhas de noite se acenderam de forma automática.
- Como não quis lhe dar meus livros, perseguiu-me e me ameaçou.
- Com uma faca.
Hope não se deu conta de que tinha um corte.
- Bom... Sim. - Elevou uma mão para tocar a têmpora, e a baixou no mesmo momento - Mas logo o outro menino lhe disse que eu estava sob o amparo do MA, e os dois puseram-se a correr. O que acredita que significa isso?
- Significa que já não pode ficar em seu apartamento.
- Não seja ridículo, Onde vou ficar, então? – Olhou a seu redor, percorrendo com a vista a enorme habitação, com sua cama gigantesca e seu elegante mobiliário - Aqui?
- É uma boa idéia.
- Não deveríamos estar aqui.
Zack não lhe fez caso e passou ao banheiro. Ali também se acenderam as luzes, e acionou o interruptor do aquecedor com o cotovelo.
- Tampouco deveríamos estar aqui - Disse Hope,
- É obvio que sim. - Depositou-a de pé no chão, mas segurando-a junto a seu corpo. Não estava seguro de que Hope fosse capaz de sustentar-se sozinha, e muito bem sabia que não poderia suportar soltá-la - Esta é a maior banheira de toda a casa.
Era a sua, de mármore negro e com um sistema de hidromassagem, uma dúzia de bicos de ducha e uma arte em trilho de cristal que a rodeava por três de seus lados, Pôs o plugue, abriu a torneira e pulverizou uma pequena quantidade de sais de banho na água. Quando começou a elevar o vapor, com aroma de limão, disse a Hope:
- Precisa deitar e aquecer-se. – Ele tirou o casaco e jogou aquele patético farrapo para a porta. Ao diabo com seu amor próprio. Já não voltaria a usá-lo jamais. O pulôver era bastante grosso, mas com umas listras muito feias e cheias das típicas bolinhas que eram o resultado de muitas lavadas-. Levanta os braços.
Ela obedeceu e Zack lhe tirou o pulôver pela cabeça. Que também foi reunir-se com o casaco.
Hope esclareceu a garganta.
- Hum, acredito que não deveria me despir.
Zack se fixou na camiseta que usava: de manga comprida, desgastada até o ponto de voltar-se quase invisível... E sem sutiã.
- Não tem forças para despir-se sozinha.
Seus seios eram pequenos, firmes, belamente moldados, e seus mamilos ressaltavam sob o tecido.
Zack começou a suar.
- Bem, e você pode despir-se sozinha?
- Quero dizer... Não deveria me despir diante de você. - A cor alagou suas bochechas - Eu não...
De forma selvagem, porque a vergonha dela lhe dava vontade de xingar, Zack respondeu:
- Não me importa o que você quer. Atacaram-lhe. Sofreu uma forte impressão. Veio aqui para que a ajude, e isso é o que vou fazer.
Desabotoou-lhe os jeans e de um puxão os deslizou pelos quadris.
A roupa interior dela, toda, baixou junto com as calças. Zack tinha pensado lhe dar tempo para que se acostumasse a sua nudez, mas enfim, não funcionou, e Hope se cobriu com as mãos ao mesmo tempo em que deixava escapar um gemido de protesto.
- Não sou homem de ficar excitado com uma mulher assustada e doente. -Entretanto, era um homem que iria ao inferno por mentir - Mas não penso permitir que adoeça ainda mais por culpa do recato. - Hope era dele e pensava protegê-la gostasse ela ou não - Tire as botas.
Hope obedeceu.
- Não estou doente.
- Pois então pode deixar de preocupar-se.
Zack tentou não olhar, mas foi incapaz de evitar. Devido ao muito que andava, Hope tinha os flancos alargados e musculosos de um cavalo puro sangue. Os quadris estreitos, o ventre plano e o pêlo entre a virilha encaracolado e de cor castanha escura. Zack se sentiu como um bruto repugnante, mas não havia nada que desejasse mais que ajoelhar-se frente a ela, lhe abrir as pernas e empregar sua boca até que ela gritasse de excitação.
Levantou a vista para seu rosto, e ali estava Hope, de pé com os olhos fechados, balançando-se levemente como se fosse desmaiar. Assim Zack dominou sua luxúria, ajoelhou-se frente a ela e a ajudou a manter o equilíbrio enquanto lhe tirava o jeans primeiro de um pé, logo do outro.
A banheira despedia grande quantidade de vapor, e a superfície da água estava coberta de borbulhas que ascendiam e formavam uma capa de espuma.
Zack tirou os sapatos, pegou Hope nos braços e entrou com ela na banheira.
- Sua roupa! - Exclamou ela.
- Ao diabo com minha roupa. - Afundou-se na água com ela até o peito - Vamos fazer com que se aqueça.
Ligou as torneiras e depositou a Hope no fundo, com as costas contra seu próprio peito, e se afundou na água quente até o queixo. Apoiou os pés contra o segundo degrau da banheira, com os pés do Hope em cima dos seus, para lhe levantar as pernas.
- Está muito quente? - Inquiriu.
- Esta perfeita. - Ainda falava com voz esvaída, mas Zack pensou que era devido mais à surpresa que a nenhuma outra coisa - Isto é muito agradável.
Zack a sustentou contra si, servindo-se da temperatura de seu corpo para dar calor a Hope, e da água para acalmá-la.
Transcorreram alguns minutos. Então ela perguntou:
- Está seguro de que não vai ter nenhum problema com o senhor Givens?
- Muito seguro. - Zack posou o dedo sobre a artéria carótida de Hope. Notou o pulso rápido e débil, mas enquanto esperava começou a se acalmar - Pode relaxar. Não vou permitir que se afogue.
- Já sei. Vim aqui porque queria te ver. - Fez uma profunda inspiração - Você faz com que me sinta segura.
Quando Hope dizia coisas assim, Zack tinha vontade de golpear o peito e gritar ao estilo do Tarzan. Ao lembrar de que lhe tinham machucado, de que alguém de seu bairro lhe havia feito um corte com uma faca, desejou ir procurar aquele indivíduo e matá-lo. Sem piedade; o bastardo não a merecia. Tinha aterrorizado à mulher de Zack e por isso era justo que morresse.
No dia seguinte interrogaria a Hope. Iria inteirar-se dos fatos concretos. Caçaria ao atacante. Mas de momento...
- Está com vontade de vomitar?
- Sabe Griswald, falar me fez realmente bem.
Olhou-lhe o cocuruto da cabeça, que se balançava a um lado e ao outro sobre seu peito.
- E bem, tem vontade?
- Não. Em realidade já me sinto melhor. Só estou cansada. - Em tom sereno, adicionou - Estou começando a acreditar que seu senhor Givens não existe.
- Sério? - Maldição - Por quê?
Embora tivesse sido melhor para ambos que ela tenha dado conta da verdade.
Ou melhor já sabia todo o tempo...
Zack a olhou. Possivelmente tinha sabido que... Mas não. Hope não mentia. E por muitas coisas que necessitasse jamais se aproveitaria dele.
- Nunca o vi, e ao que parece você faz tudo o que deseja. - Emitiu uma breve risada - Mas suponho que esta casa e esse grande Edifício Givens do centro da cidade constituem uma prova suficiente de sua existência.
Apesar de todas as certezas que tinha Zack sobre o caráter de Hope, surpreendeu a si mesmo suspirando de alívio e estreitando-a com mais força.
- Sim ele existe, de acordo, mas não nos incomodará.
Que Hope pensasse o que quisesse aquela noite. Já chegaria o dia seguinte para fazer confidências. Aquela noite a tinha entre seus braços. Não levava quase nada em cima. E ele estava preocupado pela ferida que tinha na cabeça.
Bem. Preocupado sobre tudo pela ferida da cabeça. Hope parecia não ter reparado na ereção que empurrava contra seu traseiro, e possivelmente fora assim certamente. Depois de tudo, era a filha de um pregador.
Ao mesmo tempo, será que alguma vez tinha lido a Cosmopolitan?
Zack riu de si mesmo por sua própria incoerência. Estava encantado com a inocência de Hope e, ao mesmo tempo, desejava que tivesse consciência dele. De seu corpo. De sua ereção, do incrível tamanho e dureza de seu membro.
Seu corpo não se mostrava sempre tão exigente. Certamente, com outras mulheres não. É obvio que não. Hope desatava o animal que havia em Zack e ele se sentia orgulhoso daquela fabulosa ereção.
E também que dominava a situação.
Maldita seja.
Sim, aquela noite ele estava no controle... Como tinha acontecido na noite anterior.
Com extremo cuidado, Zack separou Hope de seu peito e a inundou na água. Pela primeira vez desde que a tinha levado até ali, pôde lhe ver o rosto. Sua cor havia voltado ao normal, tinha os olhos sonolentos e sua mandíbula já não estava tensa por causa do pânico e do frio. Hope confiava nele, e Zack experimentou uma pontada de satisfação. Antes de terminar sua relação, lhe daria tudo, toda sua confiança, toda sua bondade... Todo seu amor.
E se surpreendeu ao descobrir que ele desejava tudo dela. Em suas relações normais com mulheres, só lhe interessava uma parte concreta do corpo delas. Mas com Hope desejava seu corpo, Sim, mas também ansiava possuir sua mente.
- Está sorrindo - Disse Hope tirando uma mão da água para lhe tocar o lábio inferior - Por quê?
Zack sentiu a suave carícia das borbulhas ao deslizar-se por seu queixo.
- Pensava que... Em toda minha vida nunca tinha banhado a uma mulher.
- Isso me faz muito feliz.
Notava-se às claras que Hope não tinha nem idéia de por onde foram os pensamentos de Zack, nem do efeito que tinha sobre ele aquela afirmação.
De novo disse a si mesmo que não era o momento de mostrar-lhe, mas ele não era um homem acostumado a se reprimir. Quando desejava uma mulher, esta ficava ao seu dispor. Odiava ter limitações. E odiava ainda mais ser ele quem as estabelecesse.
Estendeu a mão para agarrar o xampu.
- Não pode ser tão difícil. - Hope se esforçou por incorporar-se um pouco, mas Zack voltou a inundá-la na água.
- Deixe-me.
Sustentou-lhe a cabeça no oco do cotovelo e a meteu na água até que só ficou descoberto seu rosto. Molhou o cabelo, e depois a levantou o suficiente para poder aplicar o xampu. Ao princípio Hope resistiu ao prazer que lhe provocaram os dedos dele no couro cabeludo; logo entrecerrou as pálpebras e relaxou de novo.
- Cheira muito bem – Murmurou - É de tangerina?
- Sim, acredito que sim.
Muito próprio de uma mulher fixar-se em algo assim naquele preciso momento, quando a tinha entre seus braços e quão único tinha posto era uma maldita camiseta molhada que teria que desaparecer para que ele pudesse lavá-la.
Em seu cérebro ouviu uma voz carregada de sentido comum que lhe dizia que não tinha por que lavá-la, que podia tirá-la da água, envolvê-la em uma de suas camisas e colocá-la na cama sem lhe esfregar todo o corpo com as mãos e um sabonete.
Mas fez caso omisso da voz. Toda sua vida tinha vivido regendo-se pelas normas do sentido comum, e já estava mais que farto.
Tinha Hope ali. Era dele. Necessitava que alguém a atendesse, ele desejava tocá-la. Não podia lhe fazer amor naquele momento, depois de que a tivessem agredido e que tivesse sofrido um forte trauma. Mas podia fazer com que ela estivesse mais cômoda e ele se sentisse mais contente, ele o faria.
Voltou a abrir o a torneira e utilizou a mangueira da ducha para lhe enxaguar o xampu do cabelo. Logo lhe aplicou um pouco de condicionador e o retirou também. Serviu-se de um pano para lhe lavar o rosto, pondo especial cuidado ao redor do corte da têmpora.
E aquela irritante sensação de frustração foi fazendo-se cada vez mais insistente.
- Precisa mudar de casa. Venha viver aqui.
Hope soltou uma risada e abriu ligeiramente os olhos.
- Embora o senhor Givens seja tão bom como você diz, parece-me que se oporia a que admitisse convidados. Vivi dois anos em meu bairro sem que me ocorresse nada. E tudo voltará a ser assim.
Zack procurou ajustar o jato de água, mas terminou salpicando-lhe os olhos.
Hope cuspiu e removeu a água o acusando:
- Fez isto de propósito.
Não era verdade; era mais incompetência que outra coisa, mas Zack respondeu em tom de ironia:
- E para que ia fazer de propósito? Direi-lhe isso: porque você não quer escutar a voz do sentido comum. Se não deseja se mudar para cá, então procure outro apartamento, um que fique em um lugar seguro.
Hope não respondeu sequer aquela sugestão, mas a ignorou com o desdém de um membro da realeza britânica.
- Necessitava uma chamada de advertência. Agora já a recebi.
- É a mulher mais teimosa que conheci.
Além disso, não sabia como manipulá-la. Não tinha nenhuma cenoura que lhe pôr diante, nada que ela queria conseguir.
- Não é a mim a que falta sentido comum.
Languidamente, embalada pelo calor da água, Hope trocou de posição e mergulhou um pouco mais. As borbulhas da superfície se dissiparam e agora Zack podia ver as pernas em sua totalidade. A camiseta tinha subido, e seus quadris, seu ventre e sua cintura ficavam à vista para que os inspecionasse.
Zack sentiu que seu membro ereto pressionava contra a braguilha, tão inchado e duro que até o toque da cueca resultava doloroso. Desejava arrancar sua roupa... Assim se incorporou e a tirou de Hope.
Hope abriu os olhos de par em par quando lhe tirou a camiseta pela cabeça e a deixou nua salvo pela leve capa de borbulhas.
- Não... Não deveria... - Hope agarrou a camiseta.
- É um pouco tarde para me dizer o que não deveria fazer.
Com um gesto brusco, Zack tirou o plugue da banheira. Conforme a água ia escapando pelo ralo, fechou os biombos de cristal transparente da banheira e abriu a ducha. Uma fina neblina encheu o ar e converteu o recinto em um bosque tropical.
Entretanto, de maneira inexorável, o nível da água ia descendendo. Hope tentou sem êxito esconder-se sob a superfície e ao ver que isso não funcionava, procurou cobrir-se com o pano.
Tentava ocultar-se de Zack. Acaso não sabia que agora ele tinha poder sobre todo seu corpo?
- Também é um pouco tarde para isso. Não é a primeira mulher nua que tenho o privilégio de ver.
Hope recuperou sua acre insolência e respondeu:
- Pois você é o primeiro homem que tem o privilégio de observar o meu!
Claro. Hope tinha confirmado todas suas suspeitas. Sua ereção cresceu até alcançar proporções descomunais, tanto que quase a ouvia exigir alívio a gritos. Desabotoou os botões da camisa molhada e ato seguido arrojou esta a um lado.
Hope o observou com crescente alarme.
- Não tenho o menor desejo de te ver nu.
- Não? - Zack a olhou aos olhos - De verdade que não tem?
Ela voltou o rosto. E não respondeu.
Zack se sentiu cheio de satisfação. Hope em efeito o desejava, não podia negá-lo.
- Deveríamos... - Balbuciou ela - Deveria partir.
- Esqueça. - Zack tirou as meias três-quartos - Está a salvo. Não vou fazer amor com você... Agora mesmo. Teria que ser um canalha para pensar sequer nisso, e o que estou pensando demonstra que sou um canalha. Mas também demonstra que tenho a mesma capacidade de me conter que um monge budista.
Seu cinto... Enfim, tinha outros cintos de couro. Não se atreveu a tirar aquele por medo que as calças caíssem devido ao peso da água. Sua cueca iria com eles, e embora estivesse em condições de garantir que com toda segurança ficariam enganchados pouco mais abaixo da cintura, também sabia que Hope não estava preparada para a impressão que ia causar lhe ver um palmo mais de sua pele nua. Já tinha ficado estupefata em só lhe ver o peito.
Inclinou-se e levantou Hope até pô-la de pé. Apoiou-lhe as mãos nos ombros e a olhou aos olhos.
- Cheira a medo e a suor.
Pela extremidade do olho Zack viu que ela inchava o peito em uma rápida inalação. O fato de saber que tinha tão perto aqueles seios aveludados, coroados por uns mamilos que apontavam para cima, quase o arrastou ao bordo da loucura.
De fato, a loucura explicava tudo: sua obsessão com Hope, com sua voz, com sua segurança, com sua pessoa. E a mentira que ele tinha criado. Não devia a mentira. Sim, Hope o estava voltando louco.
Com tudo, sem alterar-se apenas, assegurou-lhe:
- Mas juro que não vou fazer-lhe nenhum mal.
Viu como ela trocava de atitude; elevou uma das comissuras dos lábios em um gesto zombador e disse impulsivamente:
- Isto não tem que ver com a confiança, a não ser com a nudez.
- Nem de perto.
- Pois não sei como poderia eu estar mais... - Então esboçou um amplo sorriso, esse gesto tão aberto e alegre que sempre o tinha comovido - Refiro-me a sua nudez.
Percorreu-lhe o corpo com o olhar uma vez, duas vezes - Para mim já está bastante nu.
- Isso terá que se discutir.
Hope lhe pôs uma mão no peito e notou o rápido batimento de seu coração.
- Sabe por que vim aqui?
- Porque lhe agrediram?
- Porque estava sozinha. Todas as pessoas que conheço têm a alguém. Todos os assinantes do serviço de secretária eletrônica estavam felizes. Chamaram-me e compartilharam suas vidas comigo. - Não pôde evitar rir - Hoje ajudei a trazer um bebê ao mundo, mas quando chegaram os paramédicos ninguém mais lembrou de mim.
Zack não tinha as palavras necessárias para consolá-la. Amaldiçoando sua estupidez, disse-lhe:
- Mas todos lhe querem.
- Não sei. Acredito que sim. A sua maneira. Mas eu não formo parte de suas vidas. Em troca, contigo... - Acariciou o arbusto de pêlo escuro do peito do Zack e prosseguiu
- Contigo sim tenho essa sensação.
Havia dito exatamente o correto. Tinha admitido que Zack formasse parte de sua vida.
Com o contato de Hope, o peito dele subia e baixava, no afã de recuperar o fôlego, sentia-se alterado, furioso. Todas aquelas pessoas às que Hope ajudava, com as que falavam, tinham deixado que fosse para casa sozinha. Para que a agredissem pelo caminho.
E ele não era melhor que elas. Ele tinha outras coisas em mente. A fusão de empresas. Sua tia. E, além disso, o que estava tramando contra Hope. Sabia que ela carecia de experiência e, entretanto, estava valendo-se de toda sua sexualidade, de toda sua astúcia, para seduzi-la. Não a tinha chamado porque sabia que Hope estaria perguntando-se por ele, se teria gostado daqueles beijos, se estaria zangado por ela não ter querido ter relações sexuais a noite passada.
A água os estava ensopando. Zack ensabôo as mãos e as introduziu por debaixo do cabelo de Hope, junto a sua nuca.
- Esta noite não penso te deixar sozinha.
- Isso é tudo o que quero.
Tudo o que queria?
- Quer muito pouco.
Deveria querer o que queriam todas as mulheres: ser sua esposa ao fim e ao cabo, talvez acreditasse que ele era um mordomo, mas Zack sabia sem indício de vaidade que era muito bonito. Hope tinha que saber que possuía dinheiro, ou pelo menos mais dinheiro que ela. Por que não queria tê-lo para sempre?
Zack pensou que possivelmente sim, que... Talvez Hope pudesse o ter. O ter para sempre.
Capítulo 17
Pela primeira vez em toda sua vida, pensou Hope, um homem estava olhando seu corpo nu... Com o cenho franzido. Hope não sabia muito dos homens e de seu modo de comportar-se naquelas situações, mas suspeitava que aquilo não era bom.
- É que você...? Acaso eu sou...?
- Que - Soltou-lhe Griswald.
Hope já tinha a certeza de que aquilo não era nada bom. Mostrando também ela um pingo de impaciência, disse:
- Olhe, sei me lavar sozinha.
Ele deu um suspiro.
- Céu, pode ser que você careça de experiência, mas prometo que quando terminar os dois ficaremos contentes.
- Está atuando igual a um asno. - Parecia curioso que ao zangar-se se sentisse melhor.
Zack a olhou fixamente ao rosto, e sua expressão severa desapareceu.
- É que sou um asno. - Não estava franzindo o cenho por tua culpa.
- Poderia haver me enganado - Murmurou Hope. Mas de fato aquele cenho foi mais de confusão que de desgosto. Teria alguma parte do corpo disforme? Baixou a vista. Tudo lhe pareceu normal
- É que estava... Pensando - Repôs Zack.
- E eu estou pensando que se você pensa quando olha a uma mulher nua, é que viu muitas mulheres nuas em sua vida. - O olhou com os olhos entreabertos.
- Nenhuma delas foi importante... Até que apareceu você.
Hope inclinou a cabeça.
- Segue falando.
- Desde que te conheci, todas as noites imaginei você sem um centímetro de tecido em cima. Diabos, inclusive antes. Sua voz ao telefone já me excitava.
Hope se ruborizou.
- Minha voz sempre soa rouca.
- Grave - Corrigiu-a ele - Tem a voz grave, como se tivesse passado a noite gemendo em meus braços.
Hope decidiu não voltar a lhe falar nunca mais.
- A primeira vez que te vi, já imaginei que estava muito magra, com as clavículas muito marcadas, as costelas visíveis sob a pele e o ventre fundo.
Ia lavando aquelas partes do corpo ao tempo que falava delas, e a sensação que produziam seus dedos sobre sua pele tenra e quente fez que Hope estivesse a ponto de ruborizar-se da cabeça aos pés. E ao mesmo tempo estava desfrutando disso. Estava desfrutando muito, porque sentiu que lhe acelerava o sangue nas veias e que sua respiração se voltava agitada.
- Já sabia que tinha os seios pequenos, e suspeitava que fossem perfeitos.
Ela o olhou nos olhos com expressão interrogativa.
Zack a olhou a sua vez, e lhe esfregou os seios com as mãos ensaboadas.
- Eles são de verdade.
Em um ato de audácia, Hope pôs suas mãos sobre as dele e lhe mostrou o que gostava. Os círculos pequenos. As carícias largas. Aquilo era melhor que a amizade; aquilo era a felicidade em um pacote de um metro oitenta e cinco.
Fascinada, contemplou como ele a olhava, e as expressões de paixão e prazer que cruzaram seu semblante lhe provocaram o desejo de esfregar todo seu corpo contra ele. Zack a olhava fixamente como se ela fosse um milagre, e Hope que era muito menos, deleitou-se com aquela atenção por sua parte.
Zack retirou as mãos. Durante um breve instante, a espuma branca protegeu o pudor do Hope, mas em seguida a água que caía levou todo o sabão.
Zack deu a volta e ficou a lhe esfregar as costas.
-Tem a pele mais pura e perfeita que jamais vi, tem uma cor e uma textura como de nata, e quero...
Hope conteve a respiração, aguardando ouvir o que queria Griswald.
Seu tom de voz se endureceu.
- Mas não posso ter. Feriram-lhe e sofreu um forte choque. - Logo acrescentou em tom reflexivo - Embora agora tenha muito melhor aspecto.
Em cima dos dois lavabos havia um espelho gigantesco. Hope se olhou através dos biombos de cristal embaçados e se encolheu um pouco. Se aquilo era ter melhor aspecto, não queria nem pensar no aspecto que tinha antes.
O cabelo pendurado em mechas molhadas ao redor do rosto, suas bochechas fundas e marcadas pelo frio, e tinha as pálpebras caídas.
- Encontro-me bem.
- Certamente que está. - Zack lhe esfregou os globos que formavam seus glúteos com as mãos nuas.
Hope sabia que se ele deslizasse os dedos para baixo, entre as pernas, sentiria-se no paraíso. Só o fato de pensar nisso já lhe causou essa sensação. Balançou-se brandamente para trás, para ele, e lhe sussurrou:
- Griswald.
Aquilo devolveu a prudência a Zack. Hope lhe tinha chamado Griswald. Ele não era Griswald, não era um mordomo, e Hope não se encontrava em boa forma para descobrir outra coisa. Ela precisava ir dormir, e ele não precisava de uma esposa, sobre tudo uma que requeria que a cuidassem e não reconhecia.
Ater-se-ia a seu primeiro plano. Seduzi-la, conservá-la ao seu lado até que ambos se cansassem um do outro, e quando se separassem, Hope teria tudo que ele pudesse lhe dar.
Mas pela primeira vez se perguntou... Tomaria ela o que lhe oferecesse e se mostraria satisfeita?
Ajoelhou-se diante dela e lavou as pernas e os pés.
Ele era um homem ocupado que tinha muitas responsabilidades. Necessitava uma mulher que entendesse qual era seu lugar, como anfitriã dele, como um apoio para ele. Necessitava uma mulher que fosse um acessório, igual a um alfinete de gravata, um computador portátil ou um bom par de sapatos. Não uma mulher que tivesse meta na vida e uma agenda própria.
Não estava disposto a adaptar sua vida para facilitar a de sua esposa. Devia repensar sobre seu plano. Devia estudar a possibilidade de abandonar Hope de uma vez.
Mas é que a queria para si. E Zack Givens sempre conseguia o que queria.
Ficou de pé, atraiu Hope contra ele, as costas dela contra seu peito, e a rodeou com seus braços. Só ficava um lugar que lavar.
Percebeu o tom de pânico na voz do Hope.
- Eu me encarrego disso.
- Nem pensar. - Zack ensaboou as mãos outra vez - Eu fiz todo o resto, agora não vai me negar o melhor.
Hope reuniu forças, como se esperasse um assalto.
Arrogante, podia ser. Inepto, não. Com movimentos breves e lentos, Zack foi lavando o triângulo de pêlo curto e encaracolado que tinha Hope sob o ventre.
Ela relaxou um pouco, mas ainda mantinha as pernas fortemente fechadas. Zack localizou com um dedo a fenda e abriu caminho ao interior da mesma.
Hope ficou tensa, mas ele a apaziguou com um lento:
- Chist. Confia em mim. – E a seguir afundou o dedo mais dentro, encontrou o clitóris e, mais que ouvir, sentiu que ela aspirava ar. Falando devagar e em voz baixa ao ouvido, ordenou-lhe - Separa um pouco as pernas para mim, carinho.
Hope titubeou, mas fez o que lhe indicava.
- Só estou te lavando.
Dito e feito. Lavou-a. Não penetrou nela, embora tivesse gostado de fazê-lo. Limitou-se a lavá-la, toda inteira, enquanto escutava os gemidos entrecortados que emitia ela. A que eram devidos? À vergonha? Sem dúvida. Ao desejo? OH, sim. Hope moveu os quadris quando a tocou, adotou um ritmo espontâneo. Zack a beijou no pescoço para animá-la, e quando tinha terminado de lavá-la rodeou a cintura com um braço e acariciou sem pressas aquela parte tão sensível do corpo.
Hope estremeceu, logo se esticou contra ele em uma tentativa de soltar-se, mas Zack a segurou com força. Sabia que não podia tomá-la ainda. Talvez houvesse tornado a ser a mesma de antes, mas ainda estava frágil, e ele... Ele se aproveitaria daquela fragilidade para acostumar Hope a suas carícias.
Ainda no mesmo tom tranqüilizador, disse-lhe:
- Não passa nada, carinho. Está a salvo comigo. Eu cuidarei de ti... Se deixe levar.
Hope estremeceu sob suas carícias e lutou para não render-se à novidade que supunha aquele prazer, mas todo esforço era em vão frente à Zack: ele sabia perfeitamente o que fazia. Seus dedos aplicaram a pressão exata, encontraram cada terminação nervosa, e Hope carecia de forças para resistir.
Com um gemido de impotência, deixou-se invadir por uma onda de espasmos entre os braços do Zack, e se apertou contra a mão dele ao tempo que seus quadris se elevavam e o buscavam.
Deu-lhe o que necessitava, incentivou quando ela preferiu resistir, e quando terminou, por fim, tomou-a em seus braços e embalou. Hope era difícil e impertinente, e tão sensível que desejava tê-la para ele e lhe ensinar todas as coisas. Todas as delícias do mundo da sensualidade.
- Não posso acreditar que... - Hope escondeu a cara no peito do Zack, tremendo entre seus braços - Não posso acreditar que eu fiz isto.
Zack replicou ao tempo que saía da banheira:
- Você não fez. Nós fizemos de fato juntos.
Hope levantou a cabeça e o olhou com os olhos muito abertos.
- Os dois?
Zack riu; foi uma risada breve e áspera, alimentada pela frustração.
- Eu não encontrei alívio, se for isso o que está pensando. Quero dizer que... Que te ajudei. Não alcançou o clímax sozinha.
- OH. - Hope se deixou cair e de novo se coloriram suas bochechas.
Com mais suavidade, Zack lhe disse:
- Gosto de te abraçar, te proporcionar satisfação. Se não tivesse sido assim, não o teria feito. - E acrescentou em tom lisonjeador - Também gostou, não?
- Gostei. - O sorriso do Hope desapareceu. Não quis olhá-lo, mas voltou o rosto para um lado, mais envergonhada por aquelas palavras que por nenhuma outra coisa que ele tivesse feito nem pelo modo em que tinha reagido ela. Disse em um sussurro - Eu gosto de tudo o que tem que ver contigo. Com tudo o que tem feito... Esteve maravilhoso, e eu... Agradeço-lhe isso.
Zack não respondeu. Permaneceu imóvel como uma rocha junto à bancada de mármore, e por fim Hope reuniu coragem suficiente para olhá-lo.
Sua confissão, seu agradecimento, não lhe tinha agradado; viu-o no cenho franzido de suas povoadas sobrancelhas, na linha tensa de sua generosa boca, na força com que a estreitaram seus braços.
- Eu não fiz nada.
- Sim, você fez. Tem...
Zack falou justo por cima da cabeça dela.
- Pode se manter em pé?
- Claro que sim!
Era evidente que Griswald não gostava que lhe agradecessem.
- Não parece que possa. Sofreu um choque, mal pode se sustentar.
A segurou com uma mão nas costas, à altura da cintura. Quando esteve seguro de que ela se encontrava bem, agarrou um grosso penhoar branco do cabide da porta e a envolveu nele.
O penhoar era enorme, cobria-a por completo e lhe chegava até o chão. Hope apalpou a lapela.
- Isto é do senhor Givens?
- É meu - Respondeu Griswald cortante - Deixa de preocupar-se. Tudo é meu.
Aquilo não tinha sentido absolutamente. Mas estava muito cansada para discutir com ele. Agora que estava de pé, descobriu uma debilidade nos joelhos e notou que a cabeça dava voltas.
Zack se aproximou do armário, tomou uma braçada de toalhas e retornou para Hope.
- Quanto tempo faz que não come?
- Desde o almoço.
- Natural. - Zack lhe envolveu o cabelo em uma toalha - Não se cuida como deve.
- Sim me cuido. - A toalha estava morna e suspirou ante o luxo que supunha dispor de toalhas quentes; logo ficou séria para discutir com ele - Dirigia-me para meu apartamento, onde pensava jantar.
- Sopa de tomate? - Zack a sentou sobre a bancada de mármore e ficou a mexer em uma gaveta.
- É muito nutritiva.
- Tem sabor de demônios.
Zack girou a cabeça de Hope para lhe ver o lado do rosto. Jogou sobre os ombros uma toalha grande, a qual ocultava boa parte de pele nua. Deveria estar contente, mas não estava. Distraída, comentou:
- Eu gosto da sopa de tomate. O que está fazendo?
O que estava fazendo era lhe tocar a têmpora, e aquilo lhe doeu um pouco.
- Trato de ver se necessita de pontos.
- Pontos? - Hope também tocou a têmpora - É um corte de verdade?
Fixou-se no gesto da mandíbula do Griswald e advertiu que estava exasperado.
- Não é profundo. Basta apenas um curativo.
Em seguida pegou um pouco de pomada no dedo e cortou um curativo.
- Onde aprendeu a fazer isso? - Inquiriu Hope - Na escola para mordomos?
- Obtive minha insígnia ao mérito em primeiros socorros no acampamento dos Boys Scouts. - Sua boca se torceu em um meio sorriso de diversão.
Terminou de lhe colocar o curativo e, enquanto Hope o observava, desabotoou-o cinto e deixou cair suas calças ensopadas até os tornozelos.
Hope exclamou:
- Aaah!
Disse como nos desenhos animados, e a ponto esteve de tampar os olhos.
Zack segurou a cueca, que se deslocou junto com as calças, e a colocou ao redor da cintura. Assegurou-se de que Hope estivesse bem envolvida no penhoar, tomou-a em seus braços outra vez! E a levou até o dormitório.
Não fez um só comentário a respeito da ereção cuja forma ela tinha visto com tanta claridade através do tecido escuro e molhado. Não sentia nenhuma vergonha. Tampouco se pavoneou. Em vez disso tinha como objetivo colocá-la na cama, o restante não tinha importância.
É óbvio que Hope se deu conta de sua excitação enquanto a tinha abraçado dentro da banheira. Tinha notado a pressão de seu sexo contra as nádegas, acossando-a com sua presença e com sua própria e tola incompetência na hora de fazer frente a semelhante situação. De modo que fingiu não haver-se precavido de nada, e agora lançava um chiado ao ver pela primeira vez uma ereção de verdade. Não compreendia por que um homem com tanto conhecimento e tão distinto se incomodava com uma provinciana como ela.
No dormitório fazia calor, muito calor, e estava brandamente iluminado pelos dois abajures gêmeos das mesinhas de noite. O tapete persa era enorme, com um desenho de rosas e flores cor azul escuro sobre um fundo negro intenso. A madeira do chão reluzia ao redor dos borde do tapete, com o mesmo brilho que tinham os esbeltos móveis de pau-rosa. A cama estava aberta, os lençóis brancos resplandeciam com um brilho especial que denotava sua qualidade, e o fofo edredom que descansava ao pé era de veludo de um intenso azul escuro. As cortinas a jogo estavam baixadas para isolar o ambiente do gélido ar noturno. Em todas as superfícies se viam vasos de flores: cravos vermelhos, lírios amarelos e flores silvestres brancas. Alguém tinha entrado ali enquanto eles estavam no banheiro e tinha depositado uma bandeja sobre a mesa que havia junto à janela, repleta de pequenos sanduíches e bolachas. Também havia um bule de onde se elevava uma coluna de vapor fumegante.
Aquela habitação era a antítese de seu dormitório frio e deserto, e aquela habitação, e os cuidados que lhe dispensava Griswald, recordaram-lhe o que tinha perdido tantos anos atrás.
Zack a depositou sobre a cama aberta e lhe pôs vários travesseiros detrás das costas. Logo lhe retirou a toalha da cabeça e a usou para lhe secar as pontas do cabelo. A seguir lhe envolveu os pés no penhoar de felpa. Depois se separou da cama e se dedicou à tarefa de secar-se, e Hope descobriu que aquilo resultava muito mais interessante que nenhuma das coisas que havia feito a ela.
Zack secou o rosto e esfregou com cuidado o cabelo, e ao fazê-lo seus bíceps se agitaram e se moveram por debaixo daquela maravilhosa pele lisa e bronzeada. A seguir agarrou a toalha com ambas as mãos e procedeu a secar suas costas, fazendo ressaltar os músculos do peito. Aqueles abdominais tinham visto muito exercício duro, porque formavam a clássica distribuição em seis zonas avultadas, e a cada lado, justo por cima do cós da cueca, criavam uma pequena fenda que pedia a gritos que a acariciassem com os lábios.
Hope piscou. De onde lhe nascia aquela idéia? Griswald devia estar hipnotizando-a com algum antigo ritual de... Secagem.
Ele se inclinou para secar com a toalha a água da cueca tomando cuidado com sua ereção, que ainda formava uma notável protuberância, e depois passou às pernas, umas pernas muito bem formadas. Logo deixou a toalha no chão e pisou sobre ela para secar os pés.
Já está. Com isto basta.
Seu olhar se elevou e captou o de Hope antes que esta pudesse desviá-lo. Griswald parecia saber exatamente o que ela estava pensando, porque curvou a boca para esboçar o mais leve dos sorrisos e apoiou um joelho sobre o colchão. Seu peso fez que Hope caísse para ele.
Então pôs as mãos a um e outro flanco da jovem e se abateu sobre ela de maneira entristecedora, impressionante.
-Vê algo que goste?
Teria sido muito desagradável de sua parte responder que não, quando ele tinha sido tão generoso em elogios para com sua pequena figura, assim Hope tragou saliva para umedecer a boca, repentinamente seca, e disse:
- Eu gosto de seus braços.
- Meus braços. - Griswald a agarrou pelas lapelas do penhoar e baixou devagar as mãos em direção ao nó do cinturão, que mantinha fechado - Isso é tudo?
- Também gosto de você... - Como Griswald tinha a vista cravada no nó do penhoar, Hope pôde observar seu rosto, e a força daquele olhar a deixou estupefata. Sabia que aquele homem era inteligente e matreiro, entretanto, naquele momento seu corpo, sua pessoa ao completo, monopolizavam toda sua atenção. Resultava adulador e ao mesmo tempo inquietante.
Sua hesitação captou a atenção do Griswald, porque a olhou nos olhos. Em uma mudança que provocou a ela certo enjôo, perguntou-lhe:
- Tem fome?
Confusa, Hope negou com a cabeça.
- O que?
Como se não a tivesse olhado de forma tão penetrante, Griswald foi até onde se achava a bandeja e lhe preparou um prato de sanduíches sem casca, bolachas e uma xícara de chocolate quente com pequenos bombons. E Hope, que tinha acreditado que não ia poder tirar da cabeça o mal-estar causado pela agressão sofrida, descobriu que seu estômago se pôs a grunhir de forma tão ruidosa que até o Griswald poderia ouvir.
- Muito elegante - Comentou ao tempo que levava a mão em direção ao prato.
Mas Griswald não lhe permitiu agarrá-lo, mas sim lhe aproximou um daqueles minúsculos sanduíches à boca. Resultava muito estranho lhe permitir que lhe desse de comer, mas ele a olhou sem pestanejar, com autoridade, e, além disso... Ela não podia negar-se cortesmente. De modo que, com certa agitação, Hope deu uma dentada ao magro sanduíche de presunto e queijo suíço, e quase se deprimiu agradada ao sentir aqueles sutis sabores estenderem-se por sua língua. Abriu a boca disposta a dar a segunda dentada, e Griswald fez uma careta e retirou rapidamente os dedos, fingindo que ela os tinha mordido.
Hope não se importou. Podia ser todo um palhaço que quisesse, enquanto lhe desse outro sanduíche.
Esta vez foi um de bacon, alface e tomate com maionese de manjericão. Aí sim que esteve a ponto de morder os dedos.
Enquanto lhe dava de comer, Griswald sorria como se desfrutasse contemplando seu apetite, e Hope se lembrou de seus comentários a respeito de que estava muito magra. Bom, talvez estivesse, mas esta noite estava jantando com uma fome que não tinha a muitos anos. Seguiram mais dois sanduiches em rápida sucessão, logo Griswald deixou de lado o prato e lhe pôs nas mãos a xícara de chocolate. Ela o farejou longamente, cheirou o aroma intenso do chocolate quente e, imediatamente, vieram a sua memória todas as lembranças de sua infância.
O leite era denso e cremoso, com muito chocolate, e os bombons se derretiam em uma suave espuma que lhe cobriu o lábio superior. Começou a tirar com a língua, mas Griswald lhe disse:
- Não.
Retirou a xícara das mãos e, com sua própria boca, começou a lamber e chupar os lábios dela.
Hope o apartou dizendo:
- Já não fica nada.
Mas ele a obrigou a aceitar um beijo.
- Não era isso o que me levou a fazer.
Hope já sabia, mas mesmo assim ficou pasma por sua falta de fingimento.
- Estou...
- Cansada. - Griswald lhe tocou na frente - Estou vendo. Quer algo mais?
- Água. - Viu como ele ia procurar uma garrafa, e pensou que não custaria nada acostumar-se a que a servissem - E uma bolacha.
Griswald tirou o lacre e entregou a garrafa a Hope, e quando ela já tinha tomado um gole, partiu um pedaço de uma bolacha e a pôs nos lábios.
Canela e baunilha. Hope aceitou o bocado com avidez, mastigou e tragou, ficou saciada. Já não estava esgotada e chorosa como quando chegou, a não ser agradavelmente fatigada e com uma sensação de segurança que não tinha experimentado nos cinco últimos anos.
Outro gole de água, e Griswald retirou os travesseiros extras. Os olhos escuros dele eram um enigma em seu rosto bronzeado, seus lábios estavam apenas entreabertos. Sentou-se ao lado de Hope, com o quadril apoiado contra ela. A julgar por sua expressão perspicaz, ia dizer algo, iria lhe dar alguma sensata instrução a respeito de seu descuido ou sua falta de sentido comum. Decidiu ouvi-lo a final de contas mostrou-se muito escrupuloso nos cuidados que lhe tinha dispensado. Além disso, naquele preciso momento não era capaz de indignar-se por nada.
Mas com suas mãos e seu quadril, Griswald a empurrou um pouco mais para o centro da cama. Em seguida, sem disfarces, sem pedir permissão nem sequer informar suas intenções, despojou-a do penhoar.
Ela tentou freneticamente agarrar os borde do objeto.
Mas ele retirou suas mãos.
- Já te vi, não lembra?
Sim, se lembrava, mas aquilo tinha sido diferente. Ela estava alterada e meio enlouquecida de medo. Agora se encontrava de novo em seu ser e em seu são julgamento. Completa e totalmente calma.
De novo quis cobrir-se, em uma tentativa fútil de fechar o penhoar sobre o corpo.
Griswald lhe agarrou os pulsos e os segurou aos flancos. E a estudou. Examinou cada centímetro de sua pele com uma intimidade que lhe fez arder às vísceras. Seus seios se esticaram e se incharam o estômago contraiu, e, sentindo o olhar do Griswald sobre ela, recordou muito bem quão consciencioso tinha sido ao lavá-la entre as pernas.
Mas o certo era que a tinha conduzido até o orgasmo. Ela, que durante anos tinha feito caso omisso de seu próprio corpo e de seus desejos até o ponto de não pensar em outra coisa a não ser no trabalho e nos estudos. E agora Griswald a estava contemplando, e seu corpo obedeceu a suas mudas ordens para preparar-se. As dobras de entre suas pernas desejaram dolorosamente seu contato; sentiu-se umedecer, e rezou para que ele não a tocasse ali ou do contrário saberia até onde alcançava seu poder... e já era bastante presunçoso.
Mas Griswald não a tocou. Com as mãos, não. Em troca, inclinou-se para seu peito e apoiou o ouvido contra seu acelerado coração.
Não estava jogando limpo. Aquele gesto a comoveu, a fez lutar para liberar as mãos, e quando ele as soltou, em vez de ter a sensatez de afastá-lo, começou a acariciar o seu cabelo. Aquele ato de comemoração despertou a ternura em seu interior e, no momento, seu coração se acalmou e se sentiu satisfeita.
Enquanto Griswald relaxava sobre ela, Hope tomou consciência do fôlego dele sobre sua pele, do leve jorro de ar que soprava sobre seu mamilo. Meio corpo de Griswald descansava sobre o seu, desprendendo um calor potente e irresistível.
Seus dedos se recrearam no cabelo curto dele, descenderam por seu pescoço e massagearam os músculos de seus ombros. Estava viva, e ele se encontrava ali, e por fim o mundo era perfeito.
Quando Zack teve a segurança de que Hope estava profundamente adormecida, separou-se dela e foi até o telefone. Deu uma olhada ao relógio. Só eram nove horas, mas em realidade não importava o quão tarde era; ele era Zachariah Givens e já era hora de fazer valer sua importância.
Tomou o fone e pediu à telefonista que ligasse a alguém.
O prefeito em pessoa, é obvio, respondeu ao telefone, e Zack se alegrou de perceber uma ligeira indicação de nervosismo na voz suave daquele homem.
- Senhor Givens, é um prazer ouvi-lo!
Zack foi até o extremo mais afastado do dormitório. Não queria que sua conversação despertasse a Hope. Empregando seu tom mais frio, disse:
- Chegou-me pessoalmente a informação de que a zona do Mission Hill é insegura.
- Bom... Naturalmente... Quer dizer... - O prefeito gaguejava, sem saber muito bem que motivo real haveria por trás do protesto de Zack - A polícia sempre está vigilante, mas por desgraça essa parte da cidade pode ser problemática, sobre tudo quando a gente não tem a prudência de sair à rua sem tomar as precauções...
- E se viverem ali?
O prefeito compreendeu melhor por aonde ia Zack.
- Há algo que possa fazer por você, senhor Givens?
- De fato, sim, há.
Capítulo 18
Leonard se encontrava de pé, sozinho, no alpendre traseiro, fumando seu cigarro, como sempre, tremendo de frio. Odiava ter que sair, sobre tudo no inverno, mas o senhor Givens era inflexível quanto à ordem de não fumar dentro da casa, e naquele preciso instante se alegrou, porque desse modo camuflava suas verdadeiras intenções.
Extraiu de seu bolso o telefone celular, digitou um número e aguardou que aparecesse a secretária eletrônica.
Mas, em lugar disso, respondeu Colin Baxter, em pessoa.
- O que?
Aquele grande homem era um tanto brusco. Leonard supôs que estava em seu direito; Baxter ia perder sua empresa para as mãos do senhor Givens, e não havia nada no mundo que pudesse impedi-lo. Além disso, os jornais locais se inteiraram disso, e diziam que a Comissão de Valores e Divisas estava realizando uma investigação a respeito das práticas empresariais de Baxter.
Mas Baxter desejava cobrar uma pequena vingança, e Leonard se mostrou disposto a ajudá-lo. Embora já não o estivesse tanto; não estava seguro de que conseguisse levar a vultosa soma que tinha prometido Baxter; mas já tinha cobrado o cheque de incentivo, e sabia muito bem que Baxter quereria algo em troca; além disso, Baxter era desses homens que conseguem o que se propõem, de um modo ou outro.
Baixou o tom de voz para lhe dizer:
- Ontem à noite se apresentou outra vez essa garota, essa de que estão mexericando todos os criados. Perguntou por Griswald, e quando disse para o senhor Givens, levantou-se como uma flecha de sua poltrona, e correu para vê-la.
- Perguntou por Griswald? Por quê?
- Acredito que está convencida de que o senhor Givens é Griswald.
- Muito interessante. E o que queria o senhor Givens, para permitir que ela creia em algo assim? - Antes que Leonard pudesse aventurar a razão, Baxter deu uma risada zombeteira - Porque o pobre menino rico quer que o amem por si mesmo.
- Já o amam muito por sua fortuna. - Leonard invejou o senhor Givens, pelas mulheres tão seletas que atraía sempre.
- Importa-lhe muito a lealdade e todas essas bobagens - Bufou Baxter.
Leonard riu fracamente. Em efeito, o senhor Givens tinha a lealdade em grande estima, e se o pilhassem falando com Baxter, sua carreira como submordomo teria chegado ao fim. Mas Leonard estava cansado de esperar que Griswald se aposentasse, para poder obter a ascensão e o respeito que merecia e Baxter havia prometido um montão de dinheiro. Além disso, ninguém iria descobrir. Como poderiam? Estava tomando todas as precauções. Olhou para as janelas iluminadas da cozinha e baixou de novo a voz.
- O senhor Givens tem que estar transando com ela. Vinha toda chorosa, e ele a tomou em seus braços, e subiu com ela ao andar de cima. Logo me fez levar uma bandeja, e flores. Quando as levei, estavam juntos no quarto de banho. Estive escutando junto à porta, e acredito que ele a estava banhando. - O que tinham falado era o mais estranho, para Leonard.
Baxter deu um assobio.
- Banhando? Ele a estava banhando? Vou chamar o National Enquirer!
- Não pode fazer isso! - Leonard recuperou a compostura e acrescentou - Quer dizer... Não seria uma boa idéia, senhor Baxter. Se fizesse algo assim, o senhor Givens se daria conta de que fui eu que...
- Era uma brincadeira. - A voz do Baxter tinha um tom de enfado - É bonita?
- Merda, não. Ontem à noite parecia uma esfarrapada.
- Melhor. Como se chama?
- Ele a chamou de Hope, e trabalha no serviço de secretária eletrônica da Madam Nainci.
- Muito bem. - Leonard quase ouviu como Baxter esfregava as mãos - Isso me proporciona um bom lugar por onde começar.
- Quanto ao segundo pagamento...
- Sim, sim. Farei chegar isso a suas mãos, quando apanhar Givens.
E Baxter desligou.
Lentamente, Leonard apertou o botão de desconexão e voltou a guardar o celular no bolso. Acendeu outro cigarro, deu uma longa tragada para acalmar o tremor de suas mãos, e esperou não haver se equivocado ao se vender para Colin Baxter.
Hope despertou entre lençóis brancos e limpos. A cama era muito larga, estendiam-se metros e metros para ambos os lados. O abajur da mesinha de cabeceira estava aceso. Nenhuma luz se filtrava através das cortinas. Em meio daquele silêncio, ouviu a profundidade da meia-noite. E viu Griswald com os ombros nu junto a ela, apoiado sobre o cotovelo e olhando fixamente seu rosto. Tinha um braço debaixo da cabeça dela, e lhe acariciava com os dedos o cabelo da nuca. Seu penhoar tinha desaparecido.
Fariam amor.
Lia aquela intenção em seus olhos, no avultamento dos músculos de seus braços e seu peito.
Em troca sua voz soou lenta, profunda, paciente.
-Tem sede.
Assim era, mas não compreendeu como ele podia saber.
Griswald a colocou sobre o montão de travesseiros, como se fosse uma inválida, e estendeu a mão para a mesinha de cabeceira. A seguir, lhe aproximou uma garrafa de água aos lábios.
Ela tentou agarrá-la.
Mas ele a impediu, em silêncio, como se precisasse prestar-lhe aquele serviço. Assim, Hope permitiu. Griswald desejava cuidar dela, e por aquela noite deixaria fazê-lo. Bebeu com avidez, a água desceu pura e limpa; quando terminou, ele levantou a garrafa e bebeu o resto. Hope ficou olhando, estranhamente surpreendida ante o fato de que Griswald bebesse depois dela.
Quando ele se voltou, viu por que o tinha feito. Estava informando-a, mostrando quais eram suas intenções. Os dois iriam compartilhar... Tudo.
Uma vez mais, sua voz grave a acalmou e tranqüilizou:
- Há algo mais que necessite?
- Não.
O contraste entre tanta atenção e seus propósitos primitivos deixou Hope aturdida. Era muito estranho ser tratada como um objeto precioso e frágil e, ao mesmo tempo, saber com quão sem piedade Griswald planejava possuí-la. A dicotomia de sua personalidade a fascinava e aterrorizava, ao mesmo tempo.
Percorreu o luxuoso quarto com a vista e, em um tom de voz ajustado especialmente para proteger o tênue silêncio, perguntou:
- Está seguro de que podemos ficar aqui dentro?
- Estou seguro.
Griswald retirou um dos travesseiros de trás da cabeça de Hope.
O teto era esculpido, e as sombras obscureciam todas e cada uma de suas curvas.
- Que horas são?
- Não importa.
Não, deu-se conta de que não. Porque Griswald não ia esperar mais. Inclinou-se sobre ela e apoiou uma mão em sua bochecha. O resplendor do abajur arrancou formosos brilhos dourados de sua pele bronzeada. Seus músculos se agitaram sob sua carne. Em troca, seu cabelo escuro não captou um só reflexo de luz. Griswald apresentava um soberbo contraste de força e amabilidade, de luzes e sombras. Ela não o conhecia, mas a fazia sentir-se segura.
De modo que imitou seu gesto e apoiou uma mão na bochecha dele. Também tocou seu cabelo, porque desejava saber como era o contato físico com a escuridão.
Como se aquilo constituísse a permissão que estava esperando, Griswald se inclinou para ela, bloqueando a luz, e a beijou.
Foi um beijo totalmente distinto dos outros que tinham compartilhado. Aquele beijo a marcava como dele, como uma posse. A paciência que tinha mostrado até então se dissipou; abriu-lhe os lábios imediatamente, e invadiu a intimidade de sua boca com a língua. Apenas lhe deu oportunidade de reagir, e começou a acariciá-la, a explorá-la, a consumi-la.
Hope entendeu por que: ele a desejava e gostava, e tinham estado a ponto de matá-la.
Para aquilo tinha ido ali, depois de tudo, para descobrir o que não tinha experimentado nunca, para afirmar a vida, sua vida e a dele.
Sua mão se aferrou ao cabelo dele, e o desejo de Griswald a cegou por completo. Todas as células de seu corpo reagiram a seu domínio. Sua outra mão foi subindo pelo braço dele até chegar ao ombro, para aproximá-lo mais dela. O joelho de Griswald começou a pressionar entre suas pernas, a separá-las com um impulso lento e constante. Notou o pêlo de sua coxa áspera contra sua pele suave, e aquela sensação nova a deixou por um instante sem respiração. Ele sabia perfeitamente. Seus lábios se curvaram; elevou a cabeça e lhe sorriu. Seu silêncio era rico e intenso, estendia-se sobre ela, atraía-a a um lugar secreto em que se misturavam a paixão e a posse. Colocou uma mão em sua garganta, e pressionou com os dedos, suavemente, sobre a artéria, sentindo os batimentos de seu coração, fazendo-a consciente de sua vulnerabilidade.
- Está viva - Murmurou em voz grave e vibrante - Poderiam ter te matado, e atirado por aí seu cadáver, e possivelmente eu não saberia nunca o que tinha acontecido.
Acariciou-lhe a linha da mandíbula, os lábios, e seus olhos escuros cravaram nos dela, com toda a insistência de um homem apaixonado.
Apaixonado. Engoliu a saliva. Apaixonado. Griswald não estava apaixonado. Não devia permitir-se voltar a pensar semelhante coisa.
- Dá-se conta do que significa isso para um homem como eu? - Seu tom de voz baixou uma oitava - Ter encontrado uma mulher como você, uma mulher que diz o que pensa uma mulher sem artifícios, para depois compreender, de repente, que poderiam ter-me arrebatado isso.
Hope olhou-o fixamente. Fixou-se em seu cabelo, muito negro, em suas marcadas rugas, em sua generosa boca, em seus olhos escuros.
- Mas eu não pertencia a você.
Voltou a beijá-la, um daqueles beijos exigentes e desesperados, que minavam sua resistência.
Como se ficasse alguma fresta! Foi mais o orgulho que outra coisa, o que a fez separar-se. Empurrou Griswald, até que este lhe cedeu um mínimo de espaço, e disse:
- Eu também tive meus momentos. A princípio, eu gostei de sua voz. Sua prudência. Essa ridícula atitude de superioridade que usa como armadura. Então, conheci você em pessoa e... Não era o que esperava. Estendeu o cabelo sobre o travesseiro, pegando as mechas uma a uma e colocando-as com esmero.
- Ah, não?
- Absolutamente. Não queria desejar você. Não posso oferecer o tempo que você exigirá. Mas quando me senti aterrorizada, fui procurar você.
- Bem feito.
A mão de Griswald foi descendo por seu peito. Seus dedos percorreram de leve a parte inferior de um seio, e excitaram todas suas terminações nervosas.
Observou, com arrebatadora intensidade, como se erguia o mamilo, e se dedicou a rodear a auréola com o dedo polegar.
Hope desejava aquilo. Desejava o prazer, a afirmação da vida. Em troca, era tão novo, tão diferente de toda experiência anterior, que não pôde... Em realidade... Relaxar.
Ele sabia, naturalmente. Mas não lhe importou o mínimo.
Baixou a cabeça e tomou o mamilo na boca, e a intensa sensação de puro prazer fez Hope arquear as costas e fechar os olhos. Ele sugou com força e, ao fazê-lo, lançou-a além da vergonha, para transportá-la até o êxtase. As sensações que ela experimentava no seio provocaram uma descarga de eletricidade no ventre, e a zona interior de suas coxas se umedeceu de novo. Quanto mais ele a tocava, mais prontamente reagia seu corpo. Era como se ele a dominasse com seu contato, e ela não tivesse alternativa, a não ser obedecer.
Em algum lugar recôndito de sua mente, Hope estava consciente de que devia lutar. Tinha ido até ali em busca de consolo, de apoio... Dele. Não tinha ido obedecer.
Mas Griswald não lhe deixou alternativa. Sua boca, suas carícias despertaram nela uma criatura instintiva, condenada a seguir; não a segui-lo, mas aos ditames de seu corpo. Sua língua e seus lábios em seus seios fizeram-na suplicar, pela necessidade de esmagar-se contra ele, de lhe exigir coisas, de procurar satisfação para aquele persistente desejo e à eterna solidão.
Sua respiração se tornou ofegante, conforme ele ia lambendo e chupando primeiro um seio, depois o outro.
Sua boca desceu um pouco mais, mordiscando e lambendo o ventre, as coxas... Hope sentiu que suas pernas se moviam com vontade própria, e viu entre elas a cabeça do Griswald.
O coração pulsava com a mesma força de quando se pôs a correr para salvar sua vida, mas desta vez, a excitação produziu uma sensação agradável. Estava viva. Um homem fantástico a desejava. E ia fazê-la muito feliz. Tal como havia feito anteriormente, Griswald a tocou com suavidade, deslizando os dedos através do triângulo de pêlo encaracolado.
- Preciosa - Murmurou, e Hope ficou extasiada. Soprou docemente sobre ela, e a seguir lhe abriu as pernas.
Hope fechou os olhos e abandonou toda vergonha. Porque Griswald podia dizer que era preciosa, e ela podia acreditá-lo, mas jamais se atreveu a pensar que um homem, aquele homem, estivesse olhando seu... Olhando aquilo.
Então Griswald a possuiu com sua boca, e ela se esqueceu por completo do pudor. Esqueceu-se do futuro e do passado, só existia o agora, e o contato suave e ardente da língua de Griswald nela. Ensinou- a sentir prazer, e ela foi uma aluna aplicada. Estremeceu, à medida que aquela maravilhosa sensação ia aumentando paulatinamente, crescendo em intensidade, enquanto ele chupava e lambia. Todos os nervos de seu corpo deviam estar conectados entre si, porque seus seios estavam quase doloridos; sua pele adquiriu uma cor rosada e, no fundo de seu ventre, sentiu que lhe contraía o útero. Moveu-se para Griswald; os lençóis enrugaram sob seus pés e, por espaço de segundos intermináveis, perdeu a conexão com a realidade.
Mas a realidade irrompeu de novo nela, quando Griswald deslizou um dedo ao interior de seu corpo. A surpresa a fez abrir os olhos de repente, e emitiu um som apagado, de sobressalto.
- Você gosta? - Ronronou ele com voz suave.
Gostava? Não sabia. Aquela carícia era alheia, dentro de seu corpo, introduzindo-se lentamente, para sair a seguir, fazendo que cada um de seus músculos se contraísse como se quisesse expulsá-lo. Hope relaxou as mãos, e se esforçou por aceitar a idéia de ser tão vulnerável, depois de tantos anos cuidando de cada palavra, de cada sentimento.
O dedo a acariciou profundamente. Ato seguido, Griswald voltou a tomá-la com a boca, e sua inconsciente resistência veio abaixo. À medida que a gratificação ia substituindo à inocência, sentiu que se afogava no prazer. Experimentou certo desconforto quando Griswald lhe introduziu um segundo dedo. Os dedos dos pés se curvaram, enquanto seu corpo se esforçava por adaptar-se, e durante todo esse tempo Griswald continuou lambendo-a, chupando-a, até que ela não foi capaz de distinguir onde terminava o desconforto e onde começava a satisfação.
Com cada carícia, dentro e fora, foi aumentando a paixão, e Hope sentiu que um grande prazer se abatia sobre ela.
Com aquela voz dele, grave e cálida, Griswald lhe sussurrou no ouvido:
- O que é que quer Hope? Diga o que quer.
- Não sei. - Que ficasse quieto e continuasse lambendo-a.
- Diga-me isso.
- Não sei. - E não sabia!
Griswald retirou os dedos e permaneceu uns momentos acariciando toda a superfície dolorida. Afastou-se das pernas de Hope. Sua voz soou tomada de falsa recriminação.
- Não posso ajudar se não me disser o que é que você quer.
Ela abriu os olhos, e ficou olhando com uma expressão como de ódio.
- Como pode me exigir que diga algo a você? Nunca me deitei com um homem.
- Mas sabe o que quer.
Griswald se ergueu por cima dela, olhou-a nos olhos e a desafiou a expressar seu desejo, logo que ela foi capaz de falar.
Então lhe agarrou o pulso, rodeou-a com seus largos dedos e a levou aos lábios. Beijou o ponto onde pulsava o pulso e a seguir mordiscou a almofadinha do dedo polegar.
- Diga-me isso! Provocou-a.
Hope rodeou seus ombros com os braços e o atraiu para si. - Vou mostrar... .
Os olhos escuros de Griswald ficaram mais turvos. Seus ombros não deixavam passar a luz. Cheirava à criatura indômita, à liberdade e frenesi, e ela o recebeu em seus braços. Ele ficou em cima. Para Hope, seu peso parecia familiar, embora nunca tenha estado com um homem naquela postura, e se perguntou, em meio de uma neblina de excitação sexual, se não teria feito aquilo em uma vida anterior.
Griswald abriu caminho entre suas pernas, e abriu-as. Então, Oh, Deus, então os músculos daquelas costas se avolumaram sob a palma de suas mãos. Griswald se concentrou em tomá-la; seu dedo girou em torno da entrada do corpo dela e a seguir empurrou para dentro... Mas suas duas mãos a tinham agarrado pelos quadris.
Não era o dedo. Era muito grande...
Hope ficou tensa, à medida que o desconforto ia transformando-se em dor, e tentou separar-se de Griswald.
Este, com um murmúrio incoerente destinado a tranqüilizá-la, deslizou para fora dela. Começou a mover os quadris, em um movimento lento e sem pressa, acariciando a sua pélvis. A breve rebelião de Hope terminou em um soluço de desejo não correspondido. Ele se colocou de joelhos, e levantou suas coxas, para colocá-las ao redor de sua própria cintura.
- Aguenta – Ordenou - Vai ser maravilhoso. Prometo-lhe isso, carinho. Vou fazer você muito feliz.
Exsudava uma segurança própria, produto de seus muitos anos de experiência. Ao mesmo tempo, Hope sabia que possuía algo mais que segurança, possuía poder. Um poder que não provinha da prática, mas que formava uma pedra angular de sua personalidade.
Novamente, Griswald empurrou para o interior de seu corpo e, dessa vez, não retrocedeu. Flexionou os quadris, e se moveu para dentro de forma implacável. Ao mesmo tempo, afastou ainda mais as coxas de Hope.
Ela se encontrava impotente, sujeita sob o corpo dele, em absoluta tensão. E, entretanto... Griswald observava seu semblante, tomava nota de todos os matizes, de modo que ela não pensava em pedir-lhe que se detivesse, e nem queixar-se da dor.
Porque Griswald tremia sob suas mãos, e a julgar pelos dentes apertados e sua entrecortada respiração, desejava avançar, investir sem contemplações, sem freio. Ambos estavam sofrendo, e estava bem. Aquilo estava bem. E logo... Logo...
Mas, apesar de sua resolução, quando Griswald pressionou contra sua virgindade, Hope deixou escapar um gemido. Os olhos se encheram de lágrimas, e afundou as unhas na pele dele.
- Já está... Tranqüila. - Griswald enroscou as coxas de Hope ao redor de sua cintura. Suas mãos percorreram seu corpo lentamente, as costelas, os seios e os ombros, para ir descansar junto à cabeça - A partir de agora tudo irá melhorar.
- Não pode ser pior - Murmurou ela.
Griswald deu a impressão de querer sorrir, mas não conseguiu de todo. Foi impossível; os corpos de ambos estavam enlaçados no baile mais íntimo que existia. Inclinou-se para Hope tudo o que pôde, e aferrou com uma mão um de seus ombros, enquanto que, com a outra, tirava o cabelo de seu rosto. Como se a paixão não dominasse os dois, sem dar-se pressa, saiu de seu corpo.
Aquele movimento ainda ardia, mas a profunda dor ia dissipando-se pouco a pouco e Hope desejou... Não, melhor, necessitou voltar a sentir Griswald dentro de si. De modo que se agarrou a seus quadris e puxou-o. Ele foi para ela de bom grado, e Hope viu em seu rosto uma ferocidade que era algo mais que obsessão: era triunfo o que reluzia em seus olhos escuros.
Hope não se importou. Seu corpo tinha suas exigências, e só o que ela podia fazer era obedecer.
Desta vez, quando ele se retirou, o movimento foi mais fácil, e quando voltou a penetrá-la, ela se elevou para recebê-lo.
Griswald emitiu um grunhido, uma expressão gutural de paixão que encheu Hope de orgulho.
Então, ele iniciou um potente ritmo que apagou toda emoção conhecida de sua mente. Acariciou as partes internas de seu corpo, e seu calor prendeu chamas em seu interior. Hope tinha acariciado a si mesma, é obvio que sim, mas agora não podia pensar nisso. Não se reconhecia. Moveu-se, seguindo o ritmo primitivo que ele estava ensinando. Mal podia respirar; em troca, lançava enlouquecidos gemidos de desejo. Necessitava tudo o que ele pudesse lhe dar, e o temia ao mesmo tempo. Porque, sem dúvida, aquele prazer a arrastaria para longe dali, e não sabia se seria capaz de achar o caminho do mundo real.
A cama se sacudia, os lençóis se enrugavam, os travesseiros se pulverizavam pelo colchão. As luzes revelavam com total claridade a aterradora e selvagem determinação de Griswald. Estava queimando-a por dentro e aliviando-a por fora.
- Estou com você - Disse em um tom rouco, exigente - Quero que tenha tudo. Hope, antes, você confiou em mim; faz isso de novo.
Hope ouviu o que dizia, mais que isso, estava escutando aquela voz.
Aquele era o homem cuja voz ao telefone a havia feito imaginar um dia de sol radiante, um dia em que o mundo fosse um lugar acolhedor, em que ela fosse especial e tivesse alguém que a cuidasse, e era o homem que a havia feito acreditar naquela fantasia.
Aquele homem tinha proporcionado felicidade, e ela confiava nele. De maneira intuitiva, com todo o corpo e toda a mente.
Ao pensar aquilo, relaxou. Então, como um rio de águas bravas, a paixão a levantou em ondas e a afastou da costa, que era familiar. Gemeu, agitou-se de um lado para o outro, contra Griswald, sacudida por espasmos, atraindo-o ao interior de seu corpo, afligida pela necessidade de senti-lo dentro.
- Já está, carinho. - Sua voz grave a segurou... Não, forçou-a a prolongar o clímax - Vem, deixa que ajude você.
E começou a mover-se, de modo que tocou a parte mais profunda de seu útero, que a acariciou por dentro e por fora, até que Hope acreditou morrer de tanto excesso e tanto desejo.
As sensações foram acrescentando-se. No mais fundo de seu corpo, seus músculos esticaram com força, e foram esgotando as energias, até que se entregou.
Griswald lançou uma gargalhada selvagem e temerária de luxúria primitiva e, por fim, obteve o que queria. Suas feições se contorceram. Lançou um gemido, como se sofresse uma intensa dor. Moveu-se sobre Hope com força, empurrou com vigor, obrigou-a a aceitá-lo inteiro, sem pensar em sua própria comodidade.
E isso era o que ela queria. Hope queria vê-lo tão abandonado como ela havia se sentido. Abraçou-o, e se deleitou com sua falta de moderação. E quando, ao final, ele quis descansar, e se deixou cair sobre ela, esboçou um sorriso junto a seu ombro.
Estava dolorida, mas feliz.
Aquela adorável voz profunda murmurou ao seu ouvido:
- Machuquei você?
Hope negou com a cabeça. Ele virou-se, olhando-a.
Hope esteve a ponto de começar a rir. Estava muito sério, como um mestre de escola exigindo sinceridade, mas ela sabia a verdade. A partir daquela noite, saberia toda a verdade a respeito dele.
Não era tão duro como indicava sua imagem exterior. De fato, com ela era macio como manteiga.
Apoiou-lhe uma mão na bochecha e disse:
- Estou agradavelmente dolorida.
- Terá medo de fazer amor comigo, na próxima vez? A próxima vez. Hope não pôde evitar rir. Griswald já estava planejando uma próxima vez.
- Nunca terei medo de você.
Ele relaxou, com um suspiro, e sua expressão se suavizou.
- Bem, porque com você me sinto como um menino de dezesseis anos. É possível que você nunca volte a pôr uma roupa.
Antes que Hope pudesse discutir aquilo, e tinha intenção de fazê-lo, recordando o horário de suas aulas, no dia seguinte, ele se retirou com suavidade.
Ela se encolheu, apenas. Griswald viu, é obvio. Como não? Observava-a igual a um falcão. Agasalhou-a com os lençóis e lhe ordenou:
- Não se mova. Já volto.
E saiu da cama.
Hope colocou uma mão na bochecha e o contemplou, enquanto ele se dirigia ao banheiro. Seu corpo parecia claramente inspirador, um magnífico exemplo de virilidade americana, e se perguntou, divertida, se ficaria algum espaço livre no monte Rushmore. Estava em condições de garantir que, se esculpissem Griswald em pedra, a população feminina iria em massa para aquela paragem.
Griswald retornou com um pano molhado, e Hope soube que, ao possível escultor, seria difícil decidir esculpi-lo de costas ou de frente.
- Está muito séria. Não me diga que está pensando diferente.
- Absolutamente. - Embora tenha estado em sua cama uma vez, não tinha tido a oportunidade de pensar em nada.
Griswald ecoou sua opinião, ao dizer:
- Bem, porque não ia permitir isso
Ato seguido afastou os lençóis, obrigou-a a separar as pernas, e começou a lavá-la, com suavidade.
Hope deixou que a lavasse, não porque não se sentisse violada, que sim, se sentia, mas sim porque ele ia fazer o que tivesse decidido que era o correto. A água fresca a acalmou, e quando terminou, jogou de volta ao banheiro o pano, o qual se chocou contra a porta, e depois, sem dar atenção à ofensa, voltou a inclinar-se sobre Hope. Seu olhar passeou nela com interesse, sem constrangimento algum pelo que acabava de acontecer. A contra gosto, cobriu-a com o lençol até o estômago.
- Tem suficiente calor?
- Estou assada.
- Quer algo para comer? Ou beber? - Tocou-lhe a têmpora - Dói?
- Estou bem. - Gostou que se preocupasse com ela.
- Bem. - Griswald lhe acariciou um mamilo com a palma da mão e disse - Seus seios têm o tamanho perfeito... E, Deus, também a forma perfeita. - Riscou com um dedo o círculo na aréola - Passei noites acordado, imaginando situações nas que você e eu nos derrubávamos juntos na cama. Mas nunca imaginei que chegasse a ser tão maravilhoso.
Hope relaxou contra os travesseiros.
- Minha irmã me disse, uma vez, que meus seios parecem duas ervilhas em uma tábua de engomar.
Imediatamente reparou no engano que tinha cometido, e mordeu o lábio.
Tinha mencionado a sua irmã.
Griswald levantou o olhar e com calma, sem palavras, exigiu mais.
Mas Hope não pôde, não quis, dizer nada mais. Griswald já sabia de sua família mais que ninguém no mundo. Se descobrisse a verdade, jogaria-a de sua cômoda cama e, dessa vez, temia não sobreviver ao repúdio. Era muito fraca, sentia-se muito cansada, estava muito... Conteve a respiração. Estava muito apaixonada.
Capítulo 19
Hope o amava. Amava Griswald. Por isso tinha ido naquela casa, porque tinha estado muito perto da morte, e agora queria estar com ele.
Aquele descobrimento a marcou bem fundo, mas não se moveu, não pronunciou uma só palavra... E ele não pareceu dar-se conta de que todo seu mundo tinha girado ao redor daquele eixo.
- Fale-me de sua irmã - Murmurou Griswald, com voz aveludada e incitante.
Tinha que arriscar-se com ele. Tinha que acreditar que não a trairia nunca. De modo que tomou ar e disse:
- Tinha uma irmã... Duas irmãs. E um irmão.
Outro minúsculo retalho de informação a respeito de Hope. Era tão incomum que deixasse escapar algo, que Zack teve a impressão de estar procurando um tesouro, oculto e de incalculável valor.
Claramente incomodada, Hope olhava para toda parte, exceto para ele e, pouco a pouco, ele foi se afastando e lhe deixando espaço para respirar.
- Disse que tinha... Duas irmãs e um irmão. E seus pais... Morreram em um acidente de carro.
- Quando tinha dezesseis anos.
A expressão de Hope se debatia entre a dor que lhe produzia a lembrança e a raiva. Zack não entendeu essa raiva, e era justo o que desejava compreender.
- Isso deve ter sido muito duro. - A destruição de sua vida deveria ser a origem de sua incrível discrição - Seus irmãos não morreram?
- Não. Não estão mortos, que eu saiba. - Olhou-o fixamente, com os olhos entreabertos.
Zack sentiu que o estava medindo. Experimentou o impulso de saltar sobre Hope e exigir que lhe contasse tudo, imediatamente, que lhe permitisse penetrar no santuário de sua mente. Mas, em seu negócio, tinha aprendido o valor de esperar, de não trair nunca a impaciência.
Algo em sua atitude serena deve ter tranqüilizado Hope ou, talvez, tinha decidido a confiar nele. Quis pensar que assim tinha sido.
Hope examinou seu rosto ao dizer:
- Quando meus pais morreram, tinham deixado abandonadas as minhas duas irmãs e a mim e também o meu irmão adotivo, se dirigiam à fronteira com o México, levando o dinheiro de seus paroquianos.
Aguardou. O que aguardou? Uma reação de surpresa, de horror? Griswald reagiu de maneira instintiva.
- Que tolice!
A tensão de Hope se acentuou.
- Não é nenhuma tolice. Isso é o que dizem as autoridades do que ocorreu.
Zack a tinha escutado ao telefone muito antes de conhecê-la em pessoa, e tinha aprendido cada uma de suas sílabas e de sua entonação. Aquela simples declaração ocultava uma grande dor.
Estendeu uma mão para ela.
Hope retrocedeu levemente, como se esperasse um golpe.
Santo Deus, o que tinha acontecido àquela mulher? Mediu a distância que havia entre eles. Uns sessenta centímetros. Talvez, se deitasse a seu lado, na cama, se sua cabeça estivesse mais baixa que a dela, ela se sentisse confortável o bastante para lhe contar... Tudo. De modo que, com movimentos lentos, deitou a seu lado.
- E o que diz você do que ocorreu?
- Não sei. - Seu semblante seguia inexpressivo, mas seus dedos nervosos não deixavam de manusear uma mecha de cabelo - Não sei. O que sei, é que meus pais eram boas pessoas. Acreditavam na caridade, na honestidade, na fraternidade entre os seres humanos, e ensinaram a seus filhos a acreditar também. Meu pai era um pregador, e quando falava o fazia com o coração. Minha mãe cuidava da gente; trabalhou como voluntária nas escolas e nos bairros pobres. O dia em que fez quarenta anos veio gente de todas as partes... - Hope elevou o queixo - Não sei o que foi o que aconteceu.
- Mas as autoridades disseram que tinham roubado o dinheiro dos paroquianos e tinham abandonado seus filhos? Zack não teve nenhuma dúvida de que se cometeu um delito, mas contra quem? E por quê?
- Primeiro levaram a meu irmão adotivo. Enviaram-no a alguma parte e não nos disseram onde. Depois levaram o bebê. Caitlin era um encanto, já engatinhava, e seu rostinho se iluminava com risadas. - Hope massageou a têmpora com os dedos trementes - Pepper chiava como louca quando a levaram, gritava e se agarrava em mim. Tiveram que arrancá-la a força. - Por um instante, Hope perdeu o controle de sua voz. Quando o recuperou, tinha adquirido um tom mais grave, mais rouco, sinistro - Ajudei para que a levassem porque pensei que... Não acreditei que seria para sempre.
- Quem foi?
- Os membros da congregação de meu pai. Pessoas que nos conheciam, que tinham sido amigas de nossos pais.
Sim, estava claro que naquela pequena localidade do Texas tinha acontecido algo que cheirava mal.
- Existem leis para coisas assim. Não se pode separar os irmãos. Um enorme cansaço se abateu sobre Hope.
- Acredito que sim, porque nos separaram.
- Não. - Dava-se conta Hope de quão insólito era aquilo? - Essas coisas já não acontecem.
A indiferença que ela fingia estava rachando.
- Era incapaz de acreditar que alguém pudesse ser tão cruel conosco.
Ao captar o forte tom de desespero na voz de Hope, tentou de novo estender uma mão para ela para abraçá-la, para consolá-la. Mas ela o rejeitou.
- Não, não posso... Se me tocar, não poderei seguir falando. De modo que não me toque... Vou contar tudo. Deixa que o faça.
Zack desejava saber, em efeito, mas não se deu conta do muito que ia doer ver Hope sofrer. Nunca tinha ocorrido aquilo, ter uma vinculação tão estreita com alguém que sentisse como sua a dor dela. Não podia suportar vê-la lutar para conservar a serenidade. Deu-lhe vontade de despedir alguém, de brigar com alguém, até que tudo voltasse a estar em seu lugar. Mas não ia servir de nada; assim, se limitou a observar e sofrer. Quando lhe pareceu que Hope já era capaz de falar, perguntou-lhe:
- Assim que se encontrou sozinha... Para onde enviaram você?
- Boston. Mandaram-me o mais longe que puderam.
Se tivessem perguntado, Zack teria dito que carecia de imaginação. Mas agora compreendeu o que deve ter sido para Hope passar do lento ritmo de uma população pequena para a grande metrópole; passar do calor do sul ao tempo gélido do norte; sair de uma família para...
- Viveu com uma família adotiva?
- Em um orfanato. - A tristeza de seus olhos harmonizava com o frio da noite, do outro lado das janelas. Hope o olhou fixamente, com a cabeça inclinada, pronunciando cada palavra com desolação - Naquela época ainda era uma idiota. Acreditava, de verdade, que as pessoas eram boas. Isso dizia meus pais. Assim, quando uma das garotas do orfanato me perguntou por que estava ali, eu disse. Antes que terminasse o dia, a questão já era de domínio público.
- E?
- E... Não foram muito amáveis.
- Malditos sejam.
É obvio que não tinham sido amáveis. Uma desconhecida que tinha vindo viver com eles, vulnerável e desconcertada... E não existiam, sobre a face da Terra, criaturas mais cruéis que um montão de adolescentes, com uma vítima nova sobre quem descarregar seu ressentimento.
- Lançaram-me insultos que... Nem sequer sabia que existiam aquelas palavras. Riram de meu sotaque. Perguntaram-me se tinha deitado com meu irmão. Eu chorei... Todas as noites. Chorei até que me enrouqueceu a voz e quase não podia abrir os olhos, de inchados que estavam. Então, riram de mim porque achavam engraçado meu aspecto, porque era divertida minha forma de falar.
- Sua voz... Por isso sua voz soa assim. Como se levasse toda a vida fumando.
- Não fumei nunca.
- Estou seguro. - Era a inocência personificada - Houve alguém nesse orfanato que foi bom pra você?
- Não. Todo mundo se comportou muito mal, e todos enfrentavam quem podiam. Nem sequer quando fui ao instituto, melhoraram as coisas. Os professores se inteiraram logo de meu caso, e fechavam os escritórios com chave, quando eu andava perto. Ainda agora, Hope parecia vagamente perplexa - Não teria me importado, mas era um centro escolar de uma cidade de interior. Eu constituía o menor de seus problemas, mas era tão tola, tão inexperiente, que era fácil meter-se comigo.
- Quanto tempo esteve ali?
- Três anos. Graduei-me de secundária... Pelos cabelos. Perdi minhas ambições. Não via nenhuma razão para desperdiçar o tempo lutando contra um sistema conspirando contra mim. - Fechou os olhos e jogou a cabeça para trás. Bom, não é bem assim. A princípio, bem que tentei, mas não me serviu de nada. Estava na classe com meninos que não sabiam ler, e eu estava adiantada, porque estudara a Enciclopédia Britânica que tinha meu pai. Estava convencida de que era bom ter conhecimentos. E, em troca, vivia em um lugar em que os conhecimentos não eram nada. Menos que nada. O que importava era quem era cada um, e com quanta força podia golpear. Cada vez que alguém dava falta de algo, fosse um professor ou um aluno, acusavam-me. Então, me davam uma surra ou me encerravam.
Zack acreditava que nada podia surpreendê-lo, mas se equivocava.
- Uma… Surra?
- Não se compadeça - Replicou Hope em tom cortante - Saía muito bem ao devolvê-las. Olhou para o nariz, em que aparecia uma pequena cicatriz.
- Surras. Ficou com ganas de matar alguém ali mesmo.
- Tudo que ansiava era retornar ao Texas assim que terminasse os estudos. Saí ao mundo com a determinação de procurar a minha família. Assim, comecei do zero. Não tinha dinheiro, mas pensei que poderia arrumar isso para atravessar o país, que a firmeza me permitiria chegar até meu destino. Tão difícil seria ser garçonete? Ou trabalhar em um supermercado? - Lançou uma gargalhada breve, amarga - É muito duro. Ao final do dia já não quer permanecer de pé nem um minuto mais, e ao final do mês apenas tinha dinheiro suficiente para pagar o aluguel e a comida.
Se ficar doente, dispõe-se a morrer, porque não pode se permitir nem um xarope para a tosse. Deus sabe que o dinheiro não chega para pagar um médico, e não existe uma só pessoa no mundo a quem isso importe.
Assim, aquela era a razão pela qual Hope era tão reservada. Por isso falava com tanta autoridade sobre a pobreza. Agora era pobre, mas suas circunstâncias atuais não eram nada, em comparação com as passadas.
- Em um ano que passei trabalhando como pude, e viajando de ônibus, não consegui ir além de Cincinnati.
- Cincinnati? - Zack tratou de compreender o impulso e o desespero de Hope, mas não pôde. Em sua vida não havia nada que se pudesse comparar com aquilo. Nada - Isso está em Ohio.
- Muito bem. Aprovado em geografia. - Alisou os lençóis com a palma da mão e continuou falando com uma despreocupação artificial - A maioria das pessoas não sabe. Os americanos estão inseguros no que diz respeito a seu próprio país, e no que tem que ver com o mundo que se estende mais à frente, não têm nem idéia. É uma lástima, porque a situação mundial melhoraria muito se houvesse um pouco mais de compreensão.
- Estou plenamente de acordo. - Zack tomou a inquieta mão na sua e segurou-a, até obrigá-la a olhá-lo - Hope, como retornou a Boston?
- Tive um desses momentos ao estilo de Scarlett O' Hara. Só o que tinha sonhado em dois anos era voltar para o Texas. Em Cincinnati, conheci um homem que dirigia a estação de serviço em que eu trabalhava. Parecia uma pessoa agradável. Não parecia querer nada, ensinou-me a trabalhar com os carros, falava comigo... Cheguei a me sentir confortável. - Seus lábios se estiraram, em uma paródia de sorriso - Assim, uma vez mais, fui uma estúpida.
- Contou-lhe de seus pais.
- OH, sim. E disse que tinha que me deitar com ele ou, do contrário, me entregaria à polícia por lhe haver roubado.
Era justamente o que Zack estava temendo.
- Então o fiz cair de um burro, levantei o punho para o céu e jurei que algum dia chegaria a ser alguém. Conseguiria uma carreira, encontraria a minha família e jamais voltariam a nos separar.
- Seguro que dava medo.
- Suponho que sim. Ele fingiu estar inconsciente, enquanto eu abria o caixa e levava o dinheiro atrasado que me devia.
Zack soltou uma gargalhada.
- Lembre-me de ser um pouco mais cuidadoso, quando brigarmos.
- Terá que sê-lo. Odiava Boston, mas odiava ainda mais tudo o que havia acontecido; assim, subi num ônibus e retornei. Andei percorrendo as ruas, até que consegui um par de empregos limpando casas, que é um trabalho em que se ganha um bom dinheiro, e apresentei solicitação para a escola de educação terciária e para várias coisas, e ajudas. Conheci Madame Nainci na lavanderia, foi meu primeiro êxito. Ofereceu-me um emprego, e sempre foi muito boa comigo. Consegue-me, de vez em quando, pequenos trabalhos que vão ajudando. Ela me demonstrou que aqui existem pessoas boas, que só tinha que encontrá-las. Que Deus a conserve.
Zack nem sequer tinha pensado, mas... Como vivia Hope? Nunca tinha faltado seu motorista, e muito menos sua próxima comida. Hope estava sacudindo sua auto complacência... Sem pretender sequer.
- Com dois anos de créditos nesta escola, e uma qualificação média de quatro pontos, farei o exame de ingresso e entrarei em uma universidade, provavelmente a de Massachusetts, aqui em Boston.
- E por que não Harvard?
- Porque não me aceitariam. – Sentava-lhe muito bem o sarcasmo - Meus dois últimos cursos no instituto foram um desastre, e não tenho contatos.
«Bom, eu sim.»
- Mas Madame Nainci não pode pagar tanto. Inclusive com trabalhos esporádicos, como consegue viver?
- Gastando pouco. - Hope sorriu mais parecida com a Hope que ele conhecia - Não se preocupe comigo. Estou perfeitamente bem.
Mas a Hope que ele conhecia levava posta uma máscara. Por debaixo daquela aparente candura e aquela fachada de desenvoltura, havia uma mulher desesperada, que se esforçava por alcançar um objetivo quase inacessível. Desejava encontrar a sua família; mais que isso, desejava reuni-la de novo.
- Deveria limpar o nome de seus pais.
- Sim, mas isso não é tão importante como encontrar a minha família. Neste momento, a pequena terá já oito anos, quase nove. Encontra-se bem, tenho certeza de que se encontra bem. Como disse a senhora Cunningham... - A voz de Hope trocou, adquiriu um acento sulino, enjoativo e depreciativo antes de acrescentar - Sempre há gente disposta a adotar a um bebê. Caitlin não se lembra de nós, estou certa, nem de mamãe, nem de papai, nem de nossa família, mas não passa nada. De verdade. É melhor para ela que não recorde nada.
- Estou seguro de que tem razão.
Mas, embora Hope afirmasse que não lhe importava, era evidente que sim.
- Pepper sempre foi uma menina difícil. Metia-se em tudo, era muito revoltada, gritona. Minha mãe dizia que era capaz de fazer perder a paciência de um santo. Agora já uma adolescente, e estará vivendo com desconhecidos, ou em um orfanato. O que acontece, se alguém lhe faz mal? - Hope apertou a mão de Zack, e tentou esmagar os nódulos - Eu acreditava que, se fosse bastante boa, de algum modo poderia conservar a família unida. Mas Pepper era mais preparada, e demonstrou seu descontentamento da melhor maneira que soube. Só espero que não... Espero que não tenha aprendido que, por piores que seja, não deve se revoltar. As famílias adotivas nem sempre são amáveis.
- Não, eu... Entretanto, algumas sim, são. Talvez tenha tido sorte.
Hope sorriu de forma mecânica e concordou com a cabeça, aceitando o que ele dizia, e lhe concedendo a importância que merecia.
- Meu irmão... Acolhemos quando tinha doze anos. Por isso eu entendo de famílias adotivas e de quão más podem ser. Gabriel estava assustado e se mostrou desconfiado, e estava acostumado a esconder comida, porque não acreditava que fôssemos lhe dar de comer todo o tempo. Minha mãe dizia que era como um animal selvagem, e que nós o estávamos domesticando. Quando o levaram, já tinha aprendido a confiar em nós. Jamais esquecerei a expressão de seu rosto, ainda a vejo pelas noites. - Liberou sua mão da de Zack, e levou os punhos aos olhos, como se assim pudesse apagar as lembranças - Fracassei no que mais desejava na vida. Depois que morreram meus pais, eu era a responsável por manter unida à família.
- Não pode pensar isso! Era uma menina, não podia escolher.
- Não era uma menina. - Hope levantou a vista e o olhou, e então ele compreendeu a raiva que levava dentro e a força que a impulsionava. Estava furiosa consigo mesma, rasgada por um sentimento de culpa; lutava por endireitar algo que ela acreditava ter torcido - Tinha dezesseis anos. Deveria ter pegado a meus irmãos e fugir. Poderíamos ter chegado a Houston ou ao México. Teríamos conseguido sobreviver de um modo ou outro, mas não. Pensei que a sociedade se encarregaria de fazer o correto. Agora, olho ao meu redor e penso que a sociedade nunca faz o correto. Às vezes, as pessoas fazem, às vezes é uma só pessoa que representa a diferença. Mas a civilização tem regras e eu as aprendi muito bem: nunca estar necessitada, nunca estar doente, nunca ser pobre.
- Olhou além de Zack, como se visse algo que ele não podia imaginar - Por isso sou capaz de fazer algo por dinheiro. Vou conseguir poder, e vou reunir a minha família. Nada pode me deter.
Ela não sabia, mas tinha encontrado dinheiro, e tinha encontrado poder... Nele.
Ele ia encontrar seus irmãos. Diabos. Ia ter que comprar mantas para o Exército de Salvação e as repartir com suas próprias mãos. Para falar a verdade, seguiam sem se importar com os pobres, que não conhecia, mas Hope sim, se importava muito. Nunca em sua vida se preocupou tanto por uma mulher.
Hope era boa, alegre, generosa, atenta... Também sensual, direta, e possuía uma voz que incitava seus sentidos; além disso, o tinha aceitado no interior de seu corpo sem reservas... Mas não era nenhuma daquelas coisas o que o insistia a desejar... A desejar complicar a vida por ela.
Nunca complicava a vida pelas mulheres, mas Hope o estimulava mentalmente, e desejava que fosse feliz. Era uma sensação muito estranha, mas ele sempre conseguia o que queria; assim, Hope seria feliz, disso estava bem certo.
A mão de Hope tocou a sua. Aquele contato o arrancou de repente de seus pensamentos, e viu que ela deslizava a mão para seu braço, com o olhar fixo naquele movimento. Por um instante, Zack não compreendeu o que... Então, quando a mão chegou ao ombro, Hope o olhou nos olhos. E o compreendeu.
Hope o desejava. Desejava-o com intensidade, apaixonadamente, sem reservas. Desejava-o naquele preciso momento.
- Lembro-me deles, de meus pais, minhas irmãs, meu irmão, todo o tempo. Sonho com eles de noite. - Hope pronunciava cada palavra com supremo cuidado - Queria esquecer por uns minutos, só uns minutos. -Suas unhas acariciaram o pêlo do peito do Zack - Você pode me fazer esquecer.
E sem mais, Zack sentiu que seu corpo se erguia para fazer frente àquela provocação.
O olhar de Hope pousou na parte baixa de seu corpo, e voltou a fixar-se em seu rosto.
-Vê? - Moveu a mão em direção a suas virilhas - Sabia que você podia me fazer esquecer.
Zack a agarrou pelo pulso. Ardia por ela. Tal como se sentia naquele instante, sempre se sentiria assim por ela, e aquilo era algo que lhe dava muito medo.
Sempre. Para sempre.
Zack Givens se vangloriava de sua autodisciplina, da disciplina que mantinha sob controle suas emoções desenfreadas. Conhecia-se bem e, se permitia que suas paixões se descontrolassem, tomaria Hope sem nenhuma delicadeza, igual a um homem obcecado.
Com uma voz enrouquecida pela necessidade, disse-lhe:
- Em efeito, posso fazer você esquecer. Mas, para você, isto é novo. Irei devagar, com suavidade...
Entretanto, Hope apoiou os lábios em seu ombro e o mordeu. Com força.
Ele deu um coice e, só por um instante, a rígida disciplina que impunha a si mesmo desapareceu. Sentou Hope sobre seu colo, encostada nele de tal modo que seus seios se esmagaram contra seu peito, e suas pernas lhe rodearam as coxas.
- Tome. - Os dentes de Hope reluziram em um sorriso que esteve a ponto de acabar com o autocontrole de Zack - Eu... Desejo você.
E ele desejava estar dentro dela. Urgentemente.
Mas não podia. Fez uma profunda inspiração. Não podia fazer semelhante coisa. Hope não sabia o que estava pedindo; necessitava uma preparação a base de beijos e carícias.
Não podia tomá-la como se fosse um Viking em um saque. Ainda não. Ainda não.
- Devagar – Murmurou - Temos todo o tempo do mundo.
- Não, não o temos. Nunca há bastante tempo. Amanhã poderá ter desaparecido.
- Não penso em abandonar você.
Como poderia Hope pensar sequer uma coisa assim, naquele momento, quando seu sexo notava a umidade do dela, e era como se jamais houvessem feito amor.
- Nunca há bastante tempo - Repetiu ela.
Agarrou-lhe a cabeça com ambas as mãos e o beijou com audácia. Abriu a boca e o invadiu com a língua, como se quisesse devorá-lo.
E Zack se mostrou encantado. Jamais uma mulher lhe tinha exposto tais exigências. Sempre tinha sido mais intenso seu próprio ardor, sempre tinha tido que reprimir-se. Mas com Hope... Hope queria uma coisa e deixava bem claro o que era.
Dentro de pouco, um dia a tomaria depressa e com violência, mas esta noite não era a adequada, e pensar nisso não servia de nada. Entre as pernas de Hope, seu membro começou a endurecer, de forma já dolorosa.
Devolveu-lhe o beijo. Levou a cabo um duelo com sua língua. Tocou a superfície lisa de seus dentes. Sugou-lhe o lábio inferior.
Ela deixou escapar um grunhido, como o de um lobo em zelo, e o fato de ouvir aquele som animal, espontâneo, proveniente de Hope... Quase o fez perder o controle. Quase.
Hope era perigosa. Era explosiva.
E ele estava incomodando-se em recordar a definição de jogo prévio. A luxúria vibrava como uma névoa vermelha, que lhe bloqueava o cérebro.
Percorreu com as mãos a espinha dorsal de Hope, detendo-se em cada uma das vértebras, fascinado pela textura acetinada da pele. Até chegar às nádegas.
- Sim - Ofegou ela - Coloca os dedos.
- Assim? - Zack foi baixando os dedos, por detrás, e a achou aberta a suas carícias.
A respiração de Hope se fez mais agitada e entrecortada, e seus quadris se aproximaram para ele.
- Sim – Respondeu - Mais.
Mordiscou-lhe os lábios, passou os dedos por seu cabelo e o retorceu.
Zack apertou os dentes e recordou a si mesmo a relativa falta de experiência de Hope. Esta não se dava conta da besta que estava incitando com semelhante comportamento. Não podia imaginar que seu controle, no geral tão grande, se perdesse perigosamente por culpa do contato do corpo dela contra o seu, do leve aroma de tangerina que desprendia seu cabelo, da aspereza de sua voz no ouvido.
Zack rodeou a abertura de seu corpo tentando pô-la no ponto.
Hope rodeou suas orelhas com os dedos polegares, acariciando cada um daquelas sensíveis dobras.
Zack introduziu um dedo nela.
Hope conteve a respiração e se abraçou com as pernas à cintura dele. Separou sua boca da dele e o olhou, e naqueles olhos grandes e azuis brilhou o desespero.
- Por favor. Está-me deixando louca. – Quebrou-lhe a voz - Não sei quanto mais vou poder agüentar.
- Até que eu diga que está preparada.
Hope sentiu desejos de discutir. Zack a advertiu com seu olhar. Mas continuou acariciando-a com seu dedo polegar, insistindo para fazê-la alcançar o clímax, e ela não pôde seguir falando. Era sensível. Era tão sensível que cada carícia sua a fazia umedecer-se mais, ficava mais receptiva.
Graças a Deus. Porque, durante todo aquele tempo, seu membro permanecia tenso e exigente.
Hope afundou os dedos em seus ombros. Arqueou-se contra ele procurando, apertando-se contra seu corpo.
Outra fenda mais apareceu no muro da disciplina de Zack. Hope carecia de experiência... E, entretanto, era selvagem. Sabia o que queria e se deixava guiar pelo instinto.
Beijou-lhe a fronte, o queixo, a bochecha.
- Está muito quente - Sussurrou-lhe ao ouvido - Esquente a mim por dentro. - E lhe mordeu o lóbulo da orelha.
- A você!
Naquele instante se desintegrou sua tão falada disciplina. Entrou em ação de maneira explosiva, e levantou Hope em ondas. A seguir, passou as pernas sobre a borda da cama, apoiou-se contra o colchão, plantou os pés no chão com firmeza, e a penetrou. Hope era como um paraíso líquido.
Ela lançou um grito, mas não foi de dor, mas sim do clímax, imediato, irresistível. Jogou a cabeça para trás, e se abandonou às sacudidas dos espasmos em seus braços.
Zack, que entrava, devagar, com seu membro no interior de seu corpo, por aquele passadiço estreito que o acolhia, forçou-a uma e outra vez para o orgasmo.
- Parece bastante quente? - Desafiou-a.
- Ainda não - Replicou ela, apoiando os pés no colchão e elevando-se para fazê-lo sair... Quase tudo- Ainda não.
Zack a segurou pelos quadris, e a empurrou para baixo de novo. Ela gritou outra vez, e seu orgasmo o alagou, absorveu-o ainda mais fundo dentro de seu corpo. Sentiu-se perdido, rodeado por ela e sem desejos de sair nunca. Hope voltou a firmar-se com os pés e a levantar o corpo. E de novo ele a obrigou a baixá-lo.
A cama se sacudiu. Hope lutou com ele, cravou-lhe as unhas. Zack já tinha praticado sexo. Mas aquilo não era sexo; aquilo era uma luta por poder, e os dois estavam ganhando.
Hope tinha os olhos abertos, intensamente fixos nos dele, em uma atitude furiosa e exigente. Zack a contemplou, por sua vez, impassível, fazendo-a saber, por meio de seus movimentos, o que queria, obrigando-a a satisfazer suas demandas.
Sentiu que seus testículos se preparavam que a tensão era cada vez maior, conforme o movimento se ia fazendo mais frenético. Os dois suavam copiosamente, um suor que se mesclava sobre a pele de ambos, para dar forma ao aroma do desafio, da paixão, de Hope e Zack. Os gritos dela foram transformando-se em gemidos, à medida que se debilitava sua agressividade.
A respiração de Zack era cada vez mais rápida, à medida que agitava os quadris com mais velocidade. Fez uso de todas suas forças para levantar Hope; arrastou-a a seu ritmo e a obrigou a gozar uma e outra vez. Sentia as contrações de sua vagina. Suas pernas, enroscadas em sua cintura, tremiam pelo esforço. Tinha os dentes apertados e o rosto avermelhado, e os olhos começaram a fechar-se.
- Não. Olhe pra mim! - Ordenou ele. E ela abriu os olhos de repente - Diga-me -Disse Zack - Diga-me a verdade. Diga-me o que sente. - Hope liberava uma batalha. Zack a viu lutar contra o inevitável - Diga-me isso. Precisava ouvir o de seus lábios.
- Amo-o. - Voltou a ser invadida pelo orgasmo - Amo-o.
Zack experimentou uma onda de triunfo em todo o corpo. Sabia. Sabia que aquela mulher não teria se entregado a ele, a menos que o amasse. E assim devia ser.
- Sim. - De novo arremeteu contra ela, até o fundo, para prolongar seu prazer - Sim!
Naquele momento, o clímax o alagou, e perdeu todo controle. Gozou com tal força, que não soube se o que sentia era prazer ou dor. Só o que sabia era que desejava perder-se, por inteiro, dentro do corpo de Hope.
Nunca tinha desejado nada de forma tão feroz, nem tão insistente. Jamais deixaria de desejá-la. E Zack Givens sempre obtinha o que desejava.
Com o olhar fixo no corpo exausto e adormecido de Hope, Zack foi até o telefone, levantou-o e discou um número.
Respondeu a voz furiosa de Griswald.
-Sabe que horas são?
-A hora de esquecer-se de suas férias. Necessito que vá ao Texas para realizar umas averiguações.
Capítulo 20
Griswald se achava de pé, no centro do dormitório, no meio da amanhã, toda uma exibição de altivez e frustração masculina.
- Não quero que ande sozinha pela cidade.
Coberta por nada absolutamente, nem sequer por um pouco de confusão, Hope o olhou de frente, e uma vez mais respondeu com paciência:
- Tenho que ir trabalhar, depois tenho aula, e você deveria se mostrar sensato. Bem, onde está minha roupa?
- Deveria retê-la aqui como prisioneira, nua, até que recuperasse o sentido comum.
Aquilo teve graça, exceto por que... Ele mostrava um semblante sério.
Estava maravilhoso. Acordou antes dela, e vestiu-se com um daqueles trajes de gravata escuros que ela relacionava com os homens de negócios e com os encarregados das funerárias. Com seu cabelo escuro e suas feições angulosas, tinha uma expressão severa e inflexível, como um moderno pregador cheio de ardor religioso em uma missão especial. Era alto e de ombros muito largos, e ela sabia muito bem que aquele corpo não devia nada às ombreiras, e sim a uma constituição forte e a uma musculatura de impressão.
E agora estava valendo-se deliberadamente daquela roupagem e de sua corpulência para intimidá-la. Mas era muito tarde para isso. Se havia pretendido isso, não deveria tê-la escutado relatar sua história sem pestanejar, e depois ter permitido que o utilizasse, mordesse-o e o amasse com uma violência que era uma mescla de dor e paixão. De fato, foi unicamente a lembrança da noite passada, com suas intensas obsessões e seus maravilhosos prazeres, o que lhe permitiu responder com calma e de forma civilizada:
- Não acontece nada a meu sentido comum. Minha roupa interior, por favor. Meu jeans.
Olharam-se por um longo instante, os olhos escuros dele penetrando nos azuis e obstinados dela.
Por fim, sem pronunciar palavra, Griswald recolheu um sutiã e umas calcinhas da cadeira que havia em um canto e os entregou.
- Obrigado. - Hope tocou o delicado algodão e puxou o elástico da perna da calça- Isto não é meu. - Suas calcinhas quase não tinham elástico, nem na cintura.
- Agora, sim.
Griswald a observou, erguido sobre ela, como se Hope estivesse a ponto de lançar-se à rua e fazer alguma loucura, quando amá-lo tinha sido a única coisa boa que tinha cometido em anos, e isso só porque não pôde resistir.
O sutiã era novo e parecia justo de seu tamanho. Sustentou-o no alto e elevou as sobrancelhas.
- E onde está minha roupa?
- No lixo, debaixo dos sedimentos de café, e ali ficará. Se quiser se vestir, terá que escolher entre estes. -Assinalou com um gesto um montão de objetos.
Hope advertiu que todas elas levavam ainda a etiqueta do preço.
- De onde você tirou tudo isto?
- Encomendei-o na loja, esta manhã. Há três unidades de cada coisa. Se algo não ficar bem, encontrará outro tamanho.
Hope não podia imaginar sequer aquele nível de dinheiro, nem de poder. De verdade, os mordomos tinham tanta influência?
- Mas nada disto é meu.
- Agora, sim. - Ao ver que Hope fazia intenção de protestar, assinalou-a com um dedo - Contra minha opinião, vou deixar que vá. E sugiro que não discuta por umas quantas miseráveis calcinhas.
Hope ficou olhando aquele dedo. Então, olhou para ele. Foi até o montão de roupa, agarrou-o nos braços, meteu-se no banheiro e fechou a porta atrás de si com o pé. Deu uma boa batida.
Sabia que, em realidade, deveria zangar-se por aquela atitude despótica, mas... Era maravilhoso que alguém se preocupasse com ela. Além disso... Acariciou as calcinhas de seda... Além disso, era maravilhoso contar com um vestuário completo e novo pela primeira vez em sete anos. Com aquilo estaria quentinha, tanto como quando ele a tinha em seus braços e se introduzia em seu corpo.
Apoiou-se contra o lavabo e fechou os olhos, recordando o prazer que lhe tinha proporcionado. E ruborizou-se, ao recordar do que tinha lhe exigido. Santo céu. Tinha-o mordido. Tinha-lhe enfiado as unhas!
Amava-o.
Provavelmente era uma idiota por amá-lo, mas, naquele preciso momento, não tinha importância. Todo o afeto que tinha esbanjado com os abandonados, com Madame Nainci, com a senhora Monahan, não era nada, em comparação com a fabulosa, maravilhosa, entristecedora emoção, que deu procuração de seus sentidos. E tudo era por culpa de Griswald. Ele tinha liberado de seu interior uma criatura que ela não sabia que existia, uma criatura que reclamava paixão como se tivesse todo o direito de recebê-la.
Na verdade, não desejava partir; o que queria era meter-se de novo naquela enorme cama, atraí-lo para seu lado e saboreá-lo, acariciá-lo, fazê-lo penetrar em seu corpo e em sua alma.
De repente se ergueu. Não podia fazer tal coisa. O amor teria que esperar. Tinha trabalho e aulas para assistir.
E não lhe tinha escapado que não tinha respondido com a mesma atitude, não havia dito que a amava.
É que não a amava. Ainda não. Talvez não a amasse nunca. Aquele homem de olhos frios tinha reprimido tudo, salvo a paixão.
Em realidade, era melhor assim. Possivelmente ela o amasse, mas não dispunha de tempo para entreter-se com ele e com aquela relação, e sua mãe lhe havia dito que o verdadeiro amor requeria esforço e atenção. De modo que desfrutaria disso enquanto durasse. Não perguntaria sobre o amanhã.
Quando Hope saiu do banheiro vestida com sua roupa nova, Zack deixou escapar um silencioso suspiro de alívio.
Tinha posto o que tinha comprado, inclusive mostrava um amplo sorriso.
- Estou bem? - Hope girou sobre si mesma.
Era um bom estrategista. Tinha substituído e melhorado, mas só um pouco. Os jeans eram novos, de cor azul pálida e com aspecto de gastos, nem muito caros nem muito baratos. O pulôver era singelo, de pescoço alto e de algodão denso, azul escuro. Griswald a tinha obrigado a aceitar a roupa como um mal menor, sabedor de que, em seu foro interno, ela se sentiria emocionada com aqueles presentes que o fazia de todo coração... Frustrado, mas coração de todos os modos.
- Está preciosa.
Hope não havia tornado a dizer que o amava, e isso o incomodava um pouco. Outras mulheres o haviam dito também, e o repetiam na menor oportunidade. Outras mulheres lhe tinham mentido. Mas Hope não estava mentindo, e ele queria que se declarasse de novo. Precisava ouvi-la dizer outra vez.
- Obrigada. E obrigada também pela roupa. É muito bom comigo. Fez isto... -Destacou-se a si mesma e acrescentou - E ontem à noite cuidou de mim. Por isso... Digo-lhe obrigada.
Zack sentiu uma pontada de raiva. Raiva de que o pouco que havia feito deixasse Hope tão agradecida. Raiva de que a vida a tivesse tratado tão mal, que o fato de ver-se com um pouco de roupa nova a fizesse resplandecer. Aquela era a mulher que tinha atacado seu autocontrole até que este, feito em pedacinhos, desmoronou-se, e que se regozijou ante sua falta de ataduras, ante sua ânsia. Ela o exigiu todo e ele o deu sem restrições. Ao recordar a noite anterior, teve vontade de lhe arrancar aquela roupa e tomá-la uma vez mais; possuí-la, até que ela não pudesse pensar sequer em abandonar aquela casa. Por isso, por toda a paixão sincera que Hope esbanjou com ele, desejava lhe dar... tudo.
Desejava-a vestida com trajes de desenhistas. Mas tinha que contentar-se com uns jeans e um pulôver.
Mesmo assim, o azul do pulôver dava a seus olhos a cor da melhor jóia de lápis lázuli que havia na Tiffany. Seus olhos... Pela primeira vez não viu nenhuma sombra neles.
A noite passada a havia feito feliz. Na cama e, mais importante ainda, mostrando-se sensível às revelações que ela fez a respeito de sua família. À dura luz do dia, o acontecido na localidade de Hobart, Texas, parecia muito dramático para ser certo, mas na noite anterior, a tinha visto tão alterada que não quis pensar nisso; quão único desejou foi consolá-la.
Agora, com as mãos metidas nos bolsos, ofereceu-lhe um sorriso inclinado.
- É a mulher mais bonita do mundo.
Hope lançou uma risada de cascavel, e a Zack ocorreu que soava como um tinido de campainhas.
OH, tinha-lhe dado forte. Tinha-lhe dado bem forte, e nem sequer lhe importava.
-Vamos, levo-a de carro a casa de Madame Nainci. Hope ameaçou opor-se. Mas ele a olhou com as pálpebras entreabertas. Ela deixou escapar o ar.
- Está bem.
Quando saíam da habitação, Zack deu o seguinte passo em sua pretensão de fazer que Hope entrasse em sua vida:
- Até esta noite.
Hope nem sequer diminuiu o passo.
- Não force a sorte - Replicou.
Griswald deixou o automóvel estacionado na rua frente à casa de Madame Nainci, pôs um braço sobre o respaldo do assento de Hope e a atraiu contra si. Então, se inclinou sobre ela, até que os lábios de ambos quase se tocaram e lhe disse:
- Eu gostaria de entrar.
- Você perdeu o juízo? Está em fila dupla.
- Não me importa. - Roçou-lhe o pescoço com o nariz.
- Estacionado em fila dupla, diante de um carro da polícia. - Hope soltou uma risada e virou o rosto - Tenho que ir trabalhar e, apesar dessa sua informalidade, você também.
- Então até esta noite?
- Se encontrar uma cabine telefônica ligarei para você depois da aula.
- Não tem telefone? Não. Que idiota sou. Claro que não tem telefone. - Pinçou em seu bolso e extraiu um telefone celular.
Hope sacudiu a cabeça em um gesto negativo, mas ele pôs o telefone na mão e lhe fechou os dedos. Aquilo não era como a roupa; era um telefone, e mais caro do que ela poderia permitir-se. Constituía um cordão umbilical que a manteria unida a Griswald em todo momento.
Ele sustentou um instante o telefone e a mão dela e lhe disse:
- Por favor. Este telefone é meu e posso fazer com ele o que quiser, e o que quero é que você fique com ele. Pode me chamar se necessitar, a qualquer hora do dia ou da noite. Prometa que fará.
Seu olhar solene exigia, seu queixo era largo e firme, mas seus lábios... Estavam entreabertos e quase suplicantes. Hope não pôde negar-lhe. A contra gosto, guardou o telefone no bolso interior de seu casaco novo.
- Ligarei esta noite, quando chegar em casa.
- Sim.
Uma petição razoável, sobre tudo depois do acontecido na noite anterior, mas Hope sabia que cada vez que concordava com algo que lhe pedia, de algum jeito, perdia uma dose de liberdade. Griswald estava escavando sua independência e, se não andasse com cuidado, logo chegaria um dia em que estaria vivendo com ele, dormindo com ele, fazendo dele sua vida inteira... E isso não podia ser. Tinha outras responsabilidades.
Como se lhe tivesse lido a mente, ele disse:
- Não se preocupe. Encontraremos a sua família.
Hope ficou olhando, insegura do sentido de suas palavras.
- Quero dizer, carinho, que ontem à noite, por fim, me deixou entrar em sua vida. -Com muito cuidado, passou-lhe um dedo pelos lábios- Disse que me amava.
- Sim, mas não faz nem uma semana que nos conhecemos. Algo mais se tivermos em conta as conversas telefônicas.
- Então você não... Não me ama de verdade? Porque não nos conhecemos o bastante?
- Não, não refiro a isso. Mas que faça suas, minhas dificuldades, me conhecendo há tão pouco...
- Me ama então?
- Sim. Isso lhe disse.
Ele sorriu. Foi um de seus sorrisos pela metade, quase doloroso, por estar desacostumado.
- Nesse caso, seus problemas são meus. Possuo recursos que nem imagina. Vamos encontrar a sua família.
Hope não sabia o que pensar. Sentia-se agradecida, naturalmente; confiava nele, sim, mas... Confiar algo assim, o mais importante de sua vida...
- Está muito calada. - Acariciou-lhe o cabelo.
- É que não há nada que eu possa fazer por você. Não sei o que poderia fazer. -Franziu o cenho - Não sei nada de você.
Ele sorriu. Esta vez foi um sorriso lento e sexy, que quase fez Hope babar.
- Vêm ver-me esta noite, e lhe direi isso.
- Tenho que estudar...
- Contarei a você tudo sobre mim. - Baixou a voz até convertê-la em um sussurro - Todos meu segredos. Garanto que vai ficar estupefata.
- Isto é chantagem. - Mas disse quase rindo. Griswald sempre se saía com a sua.
- Isto é desespero. Tinha-a pego. Ela queria conhecer seus segredos.
- Está bem, você ganhou. Irei. - Recolheu do chão sua mochila e agarrou a maçaneta da porta- Tenho que ir, é tarde .
- Espera! Esqueceu de uma coisa.
Hope se voltou.
- Do que?
- Disto.
Ele se apoderou de seus lábios em um único beijo abrasador. Foi um beijo intenso, profundo, como se procurasse marcar a fogo seus sentidos, antes que o abandonasse; foi uma afirmação de todas as coisas que tinha reclamado com seu corpo na noite anterior. Sua boca se abriu sobre a dela e começou a saboreá-la com vontade. Abraçou-a e encheu sua satisfação. Ela se encantou na maravilha de ser sua amante, tranqüila na segurança de que ele a desejava e a necessitava, como não desejava nem necessitava a nenhuma outra pessoa
Apesar de toda aquela confiança em si mesmo, ele era um homem sozinho. Com o tempo Hope lhe ensinaria a estar com ela em todos os sentidos possíveis: a compartilhar seus pensamentos, seus medos, suas emoções, a confiar em que ela não o trairia jamais.
Mas, de momento, o abraçou com força e respondeu àquela língua que lhe explorava a boca, criando um torvelinho que afogava de prazer aos dois.
Quando ele, por fim, se separou, olhou-a fixamente e disse:
- É minha. Não esqueça nunca. Será minha para sempre.
- Para sempre. - Hope lhe tocou os lábios úmidos com as pontas dos dedos. Pelo visto, Griswald não se dava conta de que aquelas palavras representavam um desafio, mas sim pareceu surpreender-se quando o desafiou, por sua vez - E você será meu para sempre.
Ele a observou com os olhos entrecerrados, e a manteve abraçada, como se não quisesse soltá-la nunca... E não disse nada.
Hope acreditou sinceramente que, por uma vez, Griswald não sabia o que responder.
Piscou como se lutasse por recuperar o equilíbrio e a iniciativa.
- Céus, sim que é bom beijar.
Então ele foi soltando muito devagar.
Hope desceu do carro e saiu à silenciosa rua, com o desejo de afastar-se de Griswald, embora fosse durante uns minutos, justo o tempo suficiente para tentar compreender o que tinha ocorrido na noite anterior.
Ele a olhava como se entendesse sua inquietação... E logo fosse dissipá-la.
Enquanto o automóvel se afastava, Hope baixou os degraus que conduziam à casa de Madame Nainci. Aquele dia, o céu cinza de Boston parecia mais luminoso, o ar gélido resultava mais quente, e, se escutasse com suficiente atenção, quase podia ouvir o primeiro gorjeio dos pássaros da primavera.
Sim. Amava-o. Mais que isso, gostava. Pomposo, pretensioso, autoritário, despótico...
Naquele momento, se abriu de par em par a porta de Madame Nainci. Hope ouviu a sua chefa gritar:
- Corre Hope, corre! Vieram buscá-la!
- O que?
Hope ficou olhando o policial uniformizado que sustentava a porta.
- É senhorita Hope Prescott? - Inquiriu o homem.
De forma estúpida, a mente do Hope voou a seus irmãos. Aquele era um dia cheio de milagres. Alguém teria dado com eles? Cruzou a soleira com entusiasmo.
- Sim?
- Sou o oficial Aguilar - Disse o agente, e indicou à mulher policial que estava de pé, junto ao escritório aberto do senhor Wealaworth - Esta é a oficial O'Donnell. Senhorita Prescott, terá que me acompanhar à delegacia de polícia. Trouxe uma ordem de detenção contra você.
Capítulo 21
- Detida?
Hope olhava alternativamente a ambos os agentes, segura de que devia haver algum engano. Mas tinha pensado aquilo a última vez que se apresentaram agentes a sua porta, aquela horrível noite em que chegou a polícia estadual do Texas com a notícia da morte de seus pais.
Madame Nainci se encontrava de pé detrás do posto telefônico, com os fones postos, falando com o microfone e fazendo gestos desmesurados.
- Sim, exatamente. Estão detendo a Hope. Você é advogado, senhor Blodgett. Tem que conseguir que a soltem. Isto é um absurdo!
- Por que me detêm? – Hope se voltou para a oficial O'Donnell, uma mulher aproximadamente de sua mesma idade - Por quê?
A oficial O'Donnell lhe respondeu:
- Por ser suspeita de desfalque junto com seu sócio, o senhor Wealaworth.
Hope tratou de recuperar o fôlego. Tentou outra vez.
- Meu sócio? - Disse em um sussurro.
- É você a Hope Prescott que figura nos cabeçalhos? - Perguntou-lhe o oficial Aguilar.
Hope assentiu. As gavetas do escritório do senhor Wealaworth estavam abertas, e todos seus papéis metidos em caixas. O contador tinha desaparecido.
- Você assinava os envios? Assinou um balanço financeiro? - Recitou a oficial O'Donnell.
- Mas é que não era sua sócia de verdade.
Os dois policiais puseram cara de total desinteresse e completo cansaço.
- Vou ler seus direitos. - O oficial Aguilar reprimiu um bocejo.
- Eu não investi, nem fiz nada. - Hope tinha a sensação de estar dando paus à cega em areia movediça que já conhecia muito bem, acusada de algo que não tinha feito - O senhor Wealaworth queria dois nomes nos cabeçalhos para as cartas parecerem mais importantes.
O oficial Aguilar não dava atenção, mas sim se limitava a recitar aquelas palavras que a televisão tinha convertido tão familiares.
Dando por seguro que não esperava achar resistência, a mulher policial conduziu Hope para a parede.
- Tenho que registrá-la, senhora. - E rapidamente ficou a apalpar a Hope de cima abaixo.
Madame Nainci exclamou:
- Isto é um absurdo!
Hope se encolheu ao sentir aquele contato impessoal em seu corpo sensível, e quando a oficial O'Donnell encontrou o celular, a jovem ficou olhando como se jamais o tivesse visto.
-Vou ter que confiscar seu celular como prova - Disse a oficial O'Donnell.
-Não é meu - Replicou Hope.
A agente arqueou as sobrancelhas.
Com um sobressalto, Hope compreendeu que dava a impressão de havê-lo roubado.
- É do meu... - Como devia chamá-lo? - De meu noivo. -Uma palavra pouco explícita para um homem como Griswald.
- Mesmo assim tenho que confiscá-lo. - A polícia o jogou em uma das caixas.
- Mas é que prometi que ia chamá-lo. - Na cabeça de Hope bulia uma mescla de humilhação e medo.
- Quem é seu noivo? - Quis saber Madame Nainci.
- Griswald. - Ao pronunciar aquele nome, Hope se sentiu invadida por uma onda de calor - Griswald. Madame Nainci, chame o Griswald e lhe diga o que passou. Ele arrumará tudo.
O oficial Aguilar tirou umas algemas. A oficial O'Donnell começou a carregar caixas escada acima.
- A garota não fez nada. - Madame Nainci estava gritando tanto, que Hope fez uma careta de dor a favor do senhor Blodgett - Estou-lhe contando o que ocorreu. Por que não me escuta? Isto não é meu país natal, é os Estados Unidos, você não pode colocar a uma pessoa no cárcere sem um motivo.
O policial terminou de pôr as algemas a Hope e a empurrou contra a parede.
- Não se mova. - Depois se voltou para madame Nainci e lhe aconselhou - Fale com o advogado, senhora. Vai necessitar.
Em seguida, saiu com Hope à rua. Alguns dos vizinhos enfrentaram ao vento gelado para olhar como idiotas o carro da polícia estacionado em sua tranqüila rua. Outros se limitaram a apartar ligeiramente suas imundas cortinas para olhar.
Um menino disse:
- Hope, o que está fazendo?
Ela nem sequer tentou responder. Não podia. Tinha tido pesadelos como aquele, pesadelos nos que as pessoas olhavam como a detinham. Pesadelos nos quais tentava com todas suas forças pôr-se a correr seu pai e mãe enquanto uma figura sem definir a detinha e lhe impedia de fazê-lo. Mas isto era real. Tudo isso feria seu orgulho... E se a polícia fizesse com que aquela acusação prosperasse? Não tinha nenhuma fé no sistema judicial americano. Sua família tinha sido castigada por um delito que não tinha cometido. E se a metiam no cárcere? Nesse caso nunca poderia encontrar sua família.
OH, Deus.
- Por que a levam? - O senhor Sitiantes gostava de Hope; olhou aos policiais com o gesto carrancudo.
- Circulem.
Os policiais colocaram Hope no assento traseiro do carro de polícia e ela se afundou tudo o que pôde sem chegar até o ponto de se deitar no chão. As portinholas não tinham atiradores, e o respaldo do assento dianteiro estava provido de uma robusta carcaça que evitava que os delinqüentes atacassem aos oficiais.
Hope se sentiu culpada como uma criminosa. Culpada de estupidez. Agora entendia tudo. O senhor Wealaworth tinha enganado madame Nainci, e também a ela; tinha extorquido dinheiro e tinha deixado que a enviassem a prisão por um delito que tinha cometido ele.
Os policiais ocuparam o assento dianteiro, a oficial O'Donnell atrás do volante.
Hope devia ter um aspecto horrível, porque o oficial Aguilar deu uma olhada para o assento de atrás e disse:
- Se tiver vontades de vomitar, por favor, diga, senhorita Prescott.
Hope afirmou com a cabeça. Sem muitas esperanças, perguntou:
- Está o senhor Wealaworth sob custódia?
- Stanford? - O agente de mais idade lançou uma gargalhada - Ainda não, mas tenho a segurança de que se entregará ele mesmo em menos de vinte e quatro horas. Já tem experiência nesta classe de coisas, já sabe.
- Não, não sabia.
Que burra era, não sabia nada.
- Pois sim, passou a maior parte de seus e trinta anos no calabouço por uma coisa ou por outra, extorsão sobre tudo.
- Oh. Fraudes. - Hope foi se incorporando lentamente.
O oficial Aguilar a observou com um gesto de lástima.
- Sim, fraudes. Durante todo o tempo que permaneceu no cárcere se preparou para tirar um diploma em contabilidade. Desde que o obteve não parou, um fraude atrás da outra. Esta vez o pegamos.
- Como? - Como tinha chegado ela se envolvido naquilo?
- Um de seus clientes não gostou da pinta que tinham os números, de modo que solicitou uma auditoria. Então descobriu que Stanford tinha ajustado certas quantidades, e o denunciou.
- Entendo.
Hope fez um esforço consciente por apagar de sua cabeça as lições de contabilidade que lhe tinha dado o senhor Wealaworth.
- Stanford estará logo sob custódia - Assegurou a Hope a oficial O'Donnell - Uma coisa é extorquir a um punhado de negócios dirigidos por empresários honrados, mas é que fraudou ao King Janek, e King o descobriu. - Riu um instante - Tenho entendido que King está furioso.
- O senhor Janek? - Perguntou Hope não muito atenta. A oficial conduzia muito depressa e se passava os semáforos em vermelho. Talvez, se tivesse sorte, o carro batesse antes de chegar à delegacia de polícia. Abrigou a esperança de que Griswald lhe guardasse luto - Por que tem importância que esteja zangado o senhor Janek?
- Porque o senhor Janek é o mais parecido que há em Boston a um chefe local da máfia. Vive no Brooklin, tem a mão metida em todos os círculos de extorsão que existem na cidade, e jamais pudemos tocá-lo. - O oficial Aguilar lhe dirigiu um olhar amistoso - Não se preocupe senhorita Prescott. Você estará a salvo na cela. Ele possui influencia, mas não a suficiente para atacá-la enquanto você estiver sob custódia policial.
Hope contemplou à polícia com expressão de incredulidade. A noite anterior tinha sido agredida por um vândalo que lhe tirou uma faca. Hoje a tinham detido como se ela não fosse melhor. E agora lhe estavam dizendo que o lugar mais adequado para ela era o cárcere.
Com um gemido, deixou-se cair de lado no assento e apoiou a cabeça sobre o gretado vinil. Voltou à lembrança de Griswald, que viria a resgatar daquela injustiça.
Em nenhum momento lhe ocorreu pensar que não o fizesse.
- Bom dia, Meredith. Como se encontra nesta maravilhosa manhã?
Meredith lançou um olhar de estranheza a Zack, que atravessava com passo ligeiro a zona de recepção em direção a seu escritório.
- Bom dia, senhor Givens. - Levantou-se e foi atrás dele ao tempo que lia as mensagens cotadas em sua agenda - Sua irmã ligou. Quer saber o que vai fazer você respeito ao presente de Natal de seus pais.
- Não vá permitir que me apanhe. - Pendurou o casaco no cabide - Este ano é a vez dela pensar.
- Um dos membros do conselho da empresa do Baxter queria lhe advertir que Baxter está empenhado em criar problemas.
- Com certeza que sim.
- Chamou Coldfell. Está muito incomoda pelo falto de que tenha vindo ao trabalho conduzindo você mesmo. Encontra-se em sua casa, aguardando instruções.
Sim, seu chofer não estaria nada contente ao constatar tanta independência por sua parte, mas é que não podia utilizar seus serviços para levar Hope a seu trabalho. Sentou-se detrás de sua mesa.
- Jason Urbano deseja que vá à festa surpresa de aniversário que lhe organizou sua mulher, e não está disposto a aceitar uma negativa.
Zack sorriu.
- Sua mulher vai lhe dar uma festa surpresa e ele está informado?
- E há uma chamada em espera. Uma mulher muito alterada, essa Madame Nainci do serviço de secretária eletrônica...
Zack sentiu que se afogava de repente por causa do alarme, e se voltou para a Meredith.
- E o que disse? - Logo, sem esperar resposta, levantou o fone do telefone - Madame Nainci? Trata-se de Hope?
Em um tom de voz gritão que lhe perfurou o tímpano, Madame Nainci respondeu:
- Detiveram-na.
Zack apartou o telefone um pouco e depois voltou a aproximar-lhe com precaução.
- Desculpe. O que é o que disse?
- Que detiveram a minha pobre pequena. Disse que você a salvará. Quer que vá à delegacia de polícia tirá-la dali. Eu lhe disse que lhe enviaria ao senhor Blodgett...
- Quem é o senhor Blodgett?
-... Mas ela quer que você vá.
- Quem é o senhor Blodgett?
- Seu advogado. - A voz normalmente melodiosa da Madame Nainci resultava dissonante, e seu acento foi fazendo-se cada vez mais pronunciado até que Zack logo que conseguiu entender uma palavra - E você... Você é muito difícil de encontrar, senhor Griswald Givens. Os empregados que tem em casa, esse Leonard me disse que o senhor Griswald está de férias, mas eu sei que não. Eu já tinha falado com você. Assim, ao final me ocorreu chamar à secretária do senhor Givens, e ela me passou para você. Mas primeiro respondeu no telefone dizendo - Senhor Givens - O qual me deu o que pensar no que quis dizer. - A voz da Madame Nainci estava cheia de desconfiança.
Desconfiança.
- Por que detiveram Hope?
- Por desfalque, mas ela não fez.
Zack ficou tenso. Igual a Colin Baxter. Desfalque. Hope era capaz de fazer algo por dinheiro, considerava o dinheiro o mais importante do mundo. Queria dinheiro para procurar a seus irmãos... Aquilo era o que disse na noite anterior.
O ardor da paixão e a felicidade que o embargavam aquela manhã se esfriaram subitamente.
Então se recordou do modo em que Hope o olhou Hope e disse "Te quero." Sem dúvida, aquilo era razão suficiente para ter fé nela.
Ela não era como as demais mulheres.
Oxalá não soubesse com quanto desespero desejava Hope conseguir dinheiro... E por que.
- Não passa nada, Madame Nainci. Irei tirá-la de lá em seguida.
Com expressão sombria, Hope limpou a tinta dos dedos observou como o policial incluía suas digitais no recém aberto arquivo de Hope Prescott.
Ao seu redor, a delegacia de polícia fervia de atividade, de agentes que iam e vinham, de detentos que chegavam e se submetiam ao procedimento agora já conhecido para Hope. Havia-lhe tirado uma foto. Tinham-na revistado. Tinham-lhe devotado a possibilidade de fazer uma chamada telefônica, mas ela não sabia quem podia ajudá-la se Griswald falhasse e o senhor Blodgett, de maneira que declinou cortesmente o convite. Nas duas horas que levava ali, inclusive tinha visto o senhor Wealaworth entrar na delegacia de polícia e desaparecer nas curvas da mesma. Ele também a tinha visto, e se encolheu como se Hope fosse agredí-lo, mas a jovem não tinha forças para fazer provisão de energia nem de ira suficiente. Tinha sido uma burra no referente a ele e o seu trabalho, e os burros tinham que pagar um preço.
Mas que preço.
Tinha passado a maior parte do tempo esperando na zona do vestíbulo, não longe da recepção. Ninguém pareceu preocupar-se muito com ela. Quase chegou a pensar que poderia haver levantado de seu assento e sair pela porta... Exceto porque todos os agentes de polícia levavam pistola e de todas as portas penduravam uns grandes cadeados.
Onde estaria Griswald? Por que não estava ali? Tinha muitas vontades de vê-lo, e ao mesmo tempo... Logo que poderia suportar que ele a visse. Sim, na noite anterior ambos tinham estado tão perto que podiam estar duas pessoas, mas não fazia nenhuma semana que se conheciam. Talvez ele acreditasse que desejava tê-la em sua vida, mas ela se sentia humilhada por ver-se detida, como a vítima de um delito que joga a culpa a si mesmo. Não queria que Griswald a visse no calabouço, era muito cedo para pôr a prova seu afeto de um modo tão excessivo.
Fechou os olhos e tratou de ser sensata. Entenderia que ele não quisesse nada mais dela. O entenderia. Não seria uma rejeição como as que sofreu na escola; esta vez sim que parecia ser culpada. E pedir a Griswald que acreditasse nela...
Então se recordou dele, de seus olhos negros que a olhavam com uma paixão que sentia só por ela.
Griswald acreditaria em sua inocência. Hope o conhecia, conhecia-o com o coração e com a mente. Tudo nele proclamava a gritos sua integridade e sua honra. Griswald a tinha acreditado quando lhe falou de seus pais, de seu passado. Uma mera detenção policial não o faria trocar de opinião.
- Desculpe senhorita Prescott?
Hope abriu os olhos e viu de pé frente a ela um cavalheiro bem vestido que teria aproximadamente a idade do Griswald.
- É você o senhor Blodgett? - Hope não o tinha visto nunca. Não tinha chegado a ver a maioria dos abonados.
- Não, sou Colin Baxter. - Percorreu com o olhar a delegacia de polícia. Quem é o senhor Blodgett?
- Meu advogado. Quem é você?
- Colin Baxter. - Apresentou-se novamente, como se Hope devesse conhecer seu nome.
Mas não era assim. Hope não o conhecia, e tampouco conhecia ele, embora fosse bastante arrumado, o típico norte-americano de aspecto te sane, com cabelo loiro e olhos verdes.
Estendeu-lhe a mão.
Ela a estreitou educadamente.
- Há algo que possa fazer por você? - Aquilo resultava ridículo dado as circunstâncias, mas tinha que dizer algo.
- De fato, há uma coisa que posso fazer eu por você. - Assinalou um banco que havia ao lado - Importa-se que me sente?
- Absolutamente.
Embora em realidade sim que se importava. Aquele homem a fazia sentir-se incômoda, com seu pulôver tão caro e sua elegante jaqueta de couro. Não era como Griswald, que vestia com a mesma elegância; possivelmente a diferença estivesse em quem levava. No caso do Griswald, era ele quem levava a roupa.
Baxter tomou assento e ocupou um espaço realmente desproporcionado para um homem que não media mais de um e setenta e cinco.
Hope se deslizou para a ponta.
Ele a seguiu.
Hope teve vontade de levantar-se e sair fugindo, mas não podia fazer semelhante coisa. Haviam-lhe dito que ficasse ali sentada, e ela era uma pessoa que cumpria as normas.
Amargamente, passeou o olhar pela delegacia de polícia. Tinha que ver onde tinha terminado por cumprir as normas.
- Sou um amigo do Zack Givens. - O senhor Baxter aguardou como se esperasse uma exclamação.
De modo que Hope lhe ofereceu uma.
- OH. - E o que?
- Tenho entendido que você trabalha para o serviço de secretária eletrônica que recolhe suas mensagens.
Um tanto nervosa pelo interrogatório, Hope respondeu:
- Assim é.
- Fala com o Zack?
- Nunca falei com ele. Só com seu mordomo, Griswald.
Colin Baxter se recostou contra o assento.
- Incrível. - Logo voltou a inclinar-se para diante - Alguma vez viu ao Griswald?
- Sim, vi... Ontem à noite.
Aonde quereria ir parar com tudo aquilo o tal senhor Baxter? Não gostou daquele reluzente sorriso dele, com um toque de cinismo.
- E como é?
- Um e oitenta e cinco de estatura, cabelo negro, bronzeado, em boa forma... - De verdade que não gostava nada daquele homem- Por que me pergunta isso?
- Parece-se com este?
O senhor Baxter tirou um papel do bolso da jaqueta e o desdobrou. A seguir o mostrou a Hope sustentando-o alto.
Era um papel fino e brilhante, como uma página de revista. Tinha um texto escrito a três colunas, e na esquina direita figurava uma foto do Griswald vestido de smoking e acompanhado de uma bela mulher embelezada com um traje de noite.
Hope olhou fixamente a foto durante um comprido instante. Não precisou ver o rosto do Baxter para saber que ali estava passando algo grave, espantosamente grave.
- Sim, é ele.
Baxter apartou o dedo do texto do pé de foto e entregou o papel ao Hope.
Ela leu: "Zacharias Givens e seu acompanhante Robyn Bennett assistem ao baile anual a favor da Cura do Câncer de Mama..."
Hope soltou de repente o papel, como se este lhe tivesse chamuscado os dedos.
- Sim. Enganou-a bem, verdade? - Baxter falou em um tom obscenamente amistoso. Sem fazer nenhum caso da aflição que invadia a Hope naqueles momentos, jogou-lhe um braço sobre os ombros - Já vê que classe de tipo é. Disse-me que era meu amigo, investiu em minha empresa, e agora está a ponto de absorvê-la, justo diante de meus narizes...
Hope deixou de escutar. Não lhe importava nada a empresa do Baxter; só era algo material.
Mas Griswald, o homem ao que se entregou o homem ao que amava... Não era Griswald, a não ser um embusteiro rico e insensível que tinha aceitado sua oferenda de sopa de frango e sua néscia hipótese de que ele era o mordomo, e a tinha levado a horta. Tinha-a traído de tal modo que todas as demais traiam pareciam pequenas e pouco importantes.
Em tom meloso, Baxter prosseguiu:
- Enfim, quem ia imaginar? O grande homem vai ao cárcere para resgatar a sua garota.
Naquele momento apareceu um par de sapatos reluzentes que se plantaram diante do Hope.
Baxter ficou de pé muito devagar e a assinalou a ela.
- Ela também estava roubando, sabe? E você não pode perdoar que alguém te roube.
Hope se deu conta de que Baxter não estava falando com ela, mas sim, se dirigia aos sapatos.
- Mas ela dormiu contigo, de modo que por isso vieste até aqui. - Baxter abandonou sua fingida atitude amistosa - Suponho que deveria ter provado isso eu mesmo. É uma lástima que não me dê por aí. Teria sido melhor se tivesse sido mais benévolo com meus pecadinhos.
- Cale-se, Baxter.
Aquela era a voz do Griswald... Não, era a do senhor Givens. Uma voz profunda, despojada de toda calidez, de toda amabilidade. Sua voz autêntica.
O olhar de Hope subiu dos sapatos para o traje negro, logo à gravata vermelha, até dar-se com aqueles olhos escuros e de um brilho sinistro que a olhavam com gesto acusador. Os olhos de um desconhecido. Não eram os de Griswald, não eram os de seu amante, a não ser os do homem que lhe tinha mentido, que tinha dormido com ela a noite anterior e que agora a contemplava como se ela houvesse feito algo mau.
- De modo que todo o tempo soube que era eu. - Os lábios do senhor Givens apenas se moveram, e falou em um tom tão baixo que Hope teve que fazer um esforço para ouvi-lo - Jogou comigo como se fosse um pobre imbecil.
- Mas você... Mentiu. - Hope sentia os músculos do rosto congelados devido à impressão.
- Mas me trouxe sopa de frango, Por Deus! Deveria me haver dado conta naquele momento. - Enquanto a condenava, seu corpo, seu formoso corpo, permanecia em uma imobilidade sobrenatural - Olhou-me com esses grandes olhos azuis. Seduziu-me com sua compaixão e sua bondade. - Fazia que aquelas qualidades parecessem pecaminosas.
Baxter continuava falando, mas Hope não entendeu o que estava dizendo.
Não podia ouvir nada mais que a voz do senhor Givens, que a condenava com o gesto torcido de sua boca e o açoite de seu tom.
- Suponho que a senhora Monahan também forma parte deste engano. Ela e Madame Nainci. A querida idosa irlandesa e a estrangeira que dirige o antiquado serviço de secretária eletrônica.
- Não. Deixe-as - Disse Hope com desassossego - Elas não têm culpa de nada.
Ele a estava matando com cada palavra, estava fazendo migalhas de sua serenidade, suas ilusões, e não lhe estava deixando alternativa que fosse descoberta sua parte mais vulnerável.
- E o pior de tudo: fingiu ser virgem...
Hope fez uma rápida inspiração.
Tinha visto. É obvio que tinha visto. Observava-a com a mesma concentração de sempre, mas agora seus olhos escuros mostravam uma expressão desumana, a mais desumana que cabia imaginar.
- Ah, espera. Sim que foi virgem. Entregou-se para mim e, olhe encanto, foi estupendo. Merece um pequeno extra por sua virgindade. Quanto pensa me cobrar?
-Te cobrar... - Como se fosse uma prostituta? Aqueles insultos lhe doeram igual a se lhe aplicassem ferros quentes - Eu te queria.
- Sim, isso esteve muito bem. Mas acabo de me dar conta... Olhe, o dinheiro não vai servir de nada. Vai para o cárcere.
De repente, Hope recuperou o fôlego.
No final, já tinha passado exatamente por aquela mesma situação. Claro que sim. Na escola. Naquele posto de gasolina de Cincinnati. Cada vez que dizia a alguém quem era e de onde vinha. Em cada uma daquelas ocasiões, via-se recusada, maltratada e jogada na rua como se fosse lixo.
Esta vez era pior, mas lhe tinha mentido. Tinha-lhe mentido.
Bem, pois ela sabia como devia reagir. Sabia como machucar em sua vez.
Enfrentou seu olhar e lhe disse:
- Claro que sabia quem era na realidade, senhor Givens. Quando jogo, faço-o muito bem.
- Deus.
Baxter retrocedeu como se temesse ver salpicado sangue em seu horrível, mas muito caro pulôver.
Entretanto, Hope sabia que o senhor Givens não seria capaz de golpeá-la. Não era desses homens que cediam à violência física. Sua forma de mau trato era psicológica e era muito, muitíssimo pior. Manteve um tom frio e sereno para lhe dizer:
- Se não tivesse vindo a este lugar desgraçado de apreensão, teria sido capaz de te levar até o altar. Teria vivido em sua casa e comido a sua mesa, e você teria estado muito contente e jamais te teria informado de que durante todo o tempo estive a tua mercê. -Teve a fria e amarga satisfação de ver como o sangue abandonava o rosto do senhor Givens - Tem medo. É um covarde. Queixa-se de que não gosta de ninguém por outra razão que não seja seu dinheiro. Possivelmente seja porque você mesmo escolheu se valer de seu receio como uma espada e de suas riquezas a modo de escudo, e a reluzente ponta desse receio mantém a raia a todo mundo enquanto seu dinheiro protege essa coisa tão insignificante que você chama coração.
Naquele momento, Baxter virtualmente pôs-se a correr para o balcão de recepção.
Por fim, com uma voz clara e desprovida de todo sentimento, Hope terminou:
- Adeus, senhor Givens. Desfruta de sua vida. Desejo que consiga sempre o que merece.
Capítulo 22
Zack se afastou da delegacia de polícia e percorreu meia dúzia de ruas conduzindo a toda velocidade, e só lamentou que Baxter não estivesse diante do carro. Com supremo gosto o teria atropelado, teria dado marcha ré e teria estacionado em cima daquele mal agradecido.
Quando entrou a pé na delegacia de polícia e encontrou Baxter falando com Hope e com um braço sobre os ombros dela, como se fossem antigos amigos, invadiu-lhe uma fúria realmente selvagem, imensa, tenaz e funesta. Ao recordá-lo agora, agarrou o volante forrado de couro com tanta força que deixou marcas nele suas digitais.
Hope o tinha traído.
Por um momento soltou o volante e apertou a cabeça.
Não, era pior ainda. Hope se tinha comportado como todos os outros. Já desde o começo sabia perfeitamente quem era ele, e se fazia merecedora de um Oscar por sua atuação para fazer-se com ele e com sua fortuna. Ela mesma o havia dito. Justo quando ele abrigava a esperança de que o negasse tudo, Hope disse que tinha estado rindo dele. Rindo-se dele por querer ter amigos verdadeiros e de afeto autêntico. Atreveu-se a insinuar que era culpa dele que não pudesse encontrar o amor.
Como que insinuar! Diabos, tinha dito isso bem claro.
Derrapando, Zack deteve o automóvel em frente a uma casa, a de tia Cecily.
Estacionou na zona de estacionamento proibido e subiu como uma tromba os degraus, tocou a campainha e depois começou a bater à porta até que Sven a abriu de um puxão com um grunhido que soou, incrivelmente, a um juramento em algum idioma escandinavo.
- Onde está tia Cecily? - Quis saber Zack.
Sven o percorreu com o olhar da cabeça aos pés, e aquele homem pelo geral tranqüilo e silencioso pareceu fazer uma avaliação não precisamente aduladora para Zack.
Zack se lançou adiante, com os punhos fechados, esperando que Sven fizesse algum movimento para jogá-lo, porque Sven, com seus avantajados músculos e suas faculdades físicas, resultaria ser um digno oponente para uma interessante briga a murros.
E Zack, que nunca teve gosto de meter-se em uma boa refrega desde aquele acampamento dos Boys Scouts em Montana, tinha verdadeira necessidade de ter uma com alguém. Tinha estado a ponto de dar uma surra no imbecil do Baxter com aquele sorrisinho satisfeito, e só o deteve a presença ameaçadora de centenas de policiais.
Mas igual a tudo o que estava acontecendo aquele maldito dia, Sven se mostrou pouco colaborador. Deu um passo atrás, assinalou-lhe com um gesto a biblioteca e logo o seguiu.
Tinha medo. Maldita seja. Zack não tinha medo de briga. Como podia Hope havê-lo chamado de covarde?
"Seu dinheiro protege essa coisa tão insignificante que você chama coração." Pois pelo visto seu dinheiro não o tinha protegido o bastante, porque, à medida que foi passando a primeira impressão, o coração começou a lhe doer. Romper o coração. Que frase tão estúpida. Aquela sensação de angústia não podia dever-se a um coração quebrado; era cólera.
Zack irrompeu na biblioteca e anunciou:
- Hope é uma artista do engano, está no cárcere, e sabe o que me disse?
Não uma cabeça a não ser três se voltou para ele.
Lançou ao Sven um olhar assassino.
Sven sorriu e lhe fez uma reverência.
Se Zack fosse inteligente, sairia dali imediatamente. Mas já era muito tarde para optar por uma retirada. Em um tom menos que amável, disse:
- OH. Olá, pai. Olá, mãe. Alegro-me de ver vocês, como sempre.
- É um alívio comprovar que o dinheiro que gastamos em te ensinar maneiras serviu de algo.
Seu pai depositou sua taça de chá com um leve tinido. O progenitor de Zack tinha oitenta e um anos, era alto e magro e possuía a pele enrugada dos idosos e a mente aguda e a língua afiada de um jovem. Levara quarenta anos dirigindo com êxito a Givens Enterprises, e Zack sabia que não devia lhe falar com aquela falta de educação; papai lhe arrancaria a cabeça.
Em contraste, sua mãe era miúda, delicada e doce. Ainda não tinha completado os sessenta; a tinham educado para ser a esposa de um milionário e desempenhava tal papel de forma admirável. Aplaudiu a mão de seu marido e disse:
- Querido, já sabe que Zacharias está acostumado a ser muito cortês. Talvez devesse lhe perguntar se houve algo que o tenha alterado.
- Eu diria que há. Vem como se tivesse passado o cabelo por um escorredor. - Tia Cecily o examinou com olho crítico - E está apressado.
Furioso, Zack se voltou para ela.
- Não estou apressado. Hope soube todo o tempo quem era eu.
Sven deu um passo à frente, em gesto de proteger a tia Cecily. Mas tia Cecily lhe indicou com a mão que retornasse a seu posto junto à porta.
- Quem é Hope? - Inquiriu o pai de Zack.
- A jovem de que Cecily estava a ponto de nos falar - Respondeu a mãe.
- Se todo o tempo soube quem fui, eu diria que lhe tem isso como um castigo. -Tia Cecily não mostrou nenhum pingo de solidariedade para com seu enfurecido sobrinho- Jamais compreendi por que não disse imediatamente.
- Porque ela me explicou que não gostava de gente rica, e eu estava tão cego que não quis espantá-la. - Naquele momento lhe pareceu um bom motivo; agora, sob o olhar crítico de seus pais, pareceu-lhe estúpido. Foi até o móvel do bar e se serviu de um uísque escocês. - E não deixou de disser coisas muito duras sobre mim. - Aquilo lhe soou mais estúpido ainda.
- Eu digo coisas duras sobre você todo o tempo - Replicou com calma tia Cecily - A maioria delas, justificadas.
Zack tomou o copo de uísque inteiro de um só gole.
- Filho, mostra mais respeito! - O pai do Zack parecia estar horrorizado -.Esse uísque escocês tem cem anos.
Zack secou os olhos, que lhe lacrimejavam.
- Hope sabia quem eu era e fingiu ignorar, com o fim de me fazer baixar a guarda.
A família intercambiou olhadas eloqüentes.
- Com que propósito? - Perguntou o pai.
- Para que me casasse com ela.
Hope nunca tinha mencionado o matrimônio até que tirou a última peça de artilharia em meio da delegacia de polícia, mas disse que aquilo formava parte do plano. E seu plano tinha funcionado. Aquilo foi o que raspou as vísceras de Zack; não que lhe rompesse o coração, a não ser o fato de reconhecer que, nos lugares mais secretos e mais recônditos de sua mente, tinha pensado no matrimônio, que tinha pensado na necessidade de ter Hope, de possuí-la do modo que fosse.
- A garota do serviço de secretária eletrônica? - O pai do Zack franziu o cenho, e as ninharias indomáveis de suas brancas sobrancelhas ficaram de ponta igual a sinais de exclamação - É dela que estamos falando, não?
- Sim, querido - Respondeu sua esposa.
Papai Givens cruzou os dedos sobre seu plano estômago.
- Tal como o conta sua tia, mentiu dizendo que era o mordomo por razões que eu não consigo compreender. Essa jovem acreditou em você, trouxe-le sopa de frango. Você a cortejou. Conseguiu o que queria, suponho... Pelo geral acontece assim. E agora diz que, durante todo o tempo, ela soube quem era em realidade, mas que você não disse para que ela pudesse te fazer baixar o guarda, e que a detiveram por algo que...
- Por desfalque. - De repente surgiu ante ele a visão do rosto pálido de Hope. Inclusive antes que ela o tivesse visto de pé frente a sim, já dava a imagem de uma pessoa derrotada.
É obvio. Tinham-na detido e ia terminar no cárcere. E... Zack logo que pôde pronunciar as palavras:
- E Baxter estava com ela. Baxter é seu cúmplice.
Em lugar de reagir com o horror e a indignação que eram devidos, tia Cecily replicou:
- Zack, jamais vi você falar sem antes refletir. Esta vez não fez isto, verdade? Não estará acusando-a de ter-lhe traído se apoiando em argumentos muito pouco sólidos?
Zack começou a sentir desassossego. Talvez aquele uísque de cem anos estivesse vingando. Aproximou-se da bandeja de chá, agarrou três minúsculos sanduíches sem casca e colocou um na boca.
Tia Cecily não lhe tirou o olho de cima, sempre com olhar acusador.
Zack surpreendeu a si mesmo mastigando envergonhado.
- A mim tudo isto parece uma fileira de tolices, filho. Eu diria que lhe enganaram, de acordo, mas não foi essa tal Hope. Provavelmente tenha sido seu amigo Baxter. Nunca gostei desse moço. - O pai de Zack olhou sua taça com o cenho franzido e logo indicou a seu filho com um gesto - Traga-me um uísque.
A senhora Givens agitou as mãos, a modo de inútil negativa.
-Vamos querido, já sabe o que disse o médico.
- Sim, que se não beber, nem fumar, nem comer bem, viverei uma eternidade. Mas eu digo que assim, precisamente, vai parecer-me uma eternidade. – Em seguida, com um firme gesto de assentimento, repetiu - Filho me sirva um uísque.
Zack preparou para seu pai um copo curto e o entregou. Logo serviu outro para si.
Em tom preciso, tia Cecily declarou:
- Baxter é um mentiroso, um trapaceiro e um ladrão, e guarda um profundo rancor, Zack. Pensou que talvez fosse à delegacia de polícia para causar problemas?
- Sim, pensei! Mas como diabo sabia Baxter algo sobre Hope? Como podia saber sequer que ela se encontrava ali? - Zack ficou olhando o brilhante líquido.
Seu pai tamborilou na mesa com seus dedos ossudos.
- Essa é uma questão que deveria investigar. Está tirando conclusões precipitadas, Zacharias. Acreditava ter ensinado a se conduzir melhor - Disse-lhe.
- Sim. Se essa garota for importante para você, suponho que quem te sabotou é Colin Baxter. - Com voz suave, sua mãe acrescentou - Por não mencionar que você suspeita que todo mundo está contra você.
Zack se engasgou com uma parte de agrião do sanduíche que comia e tossiu. Sua própria mãe acabava de dizer que tinha medo. Que demônios estavam pensando?
A um gesto de tia Cecily, Sven acudiu e lhe deu uma palmada nas costas... Com força.
O pai de Zack se voltou para sua esposa.
- Como criamos um menino tão desconfiado?
- Querido, você sempre lhe dizia que um Givens tinha que escolher os seus amigos com cuidado e não confiar em ninguém. O que acreditava que ia ocorrer? - Repreendeu-lhe ela.
- Nunca me escutou em nenhuma outra coisa. Como eu ia saber que o fazia quando disse isso? - Respondeu impaciente o senhor Givens pai - Zack, uma parte do fato de ser um homem de negócios de êxito está em equilibrar a vida pessoal com a profissional, e você não está fazendo nada bem. Nada absolutamente.
- Quando você tinha sua idade, Edward, tampouco se dava tão bem. -Tia Cecily fez um gesto ao Sven para que se aproximasse e lhe disse algo ao ouvido.
Sven assentiu e saiu da habitação.
- Obrigado, tia Cecily - Respondeu Zack, e pensou para seus medos: "Só não consigo é receber débeis elogios".
O pai do Zack não gostou da interferência de tia Cecily.
- Está muito bem que diga isso, Cecily, mas a sua idade eu já tinha suado a gota gorda para engendrar dois filhos.
- Suado a gota gorda? - As bochechas gordinhas de sua esposa se tingiram de cor.
- Não quis dizer que resultasse desagradável fazer os meninos, mas sim... - Olhou de esguelha a sua irritada esposa e prosseguiu-: Digo que não tenho netos e...
A senhora Givens cruzou os braços sobre o peito.
Com um sorriso conciliador, o pai do Zack lhe ofereceu seu copo.
- Um pouco de uísque?
Tia Cecily agarrou sua onipresente bola de esponja e começou a espremê-la com a mão.
- Repensou sobre tudo isto, Zack? Eu conheço pessoalmente a Hope, e teria jurado que era honrada e boa e que a vida a tinha maltratado duramente. Investigou a respeito dela?
Zack pensou em Griswald, que se encontrava a caminho do Texas.
- Estou fazendo neste momento. - Não tinha ocorrido anular a missão do Griswald.
- Deu-me a impressão de que tinha uma história, e as histórias deixam provas a seu passo. -Tia Cecily parecia decepcionada, e Zack teve a incômoda sensação de que a tinha decepcionado - Vai deixar Hope no calabouço?
Zack olhou a seus pais, e logo a sua tia. Albergava certas suspeitas de por que tinham estado falando de Hope, e advertiu bem às claras o enorme interesse que mostravam. Queriam que ele resgatasse a aquela pícara.
- Ora! - O senhor Givens pai bebeu um gole de uísque - Tampouco esta quer.
- É obvio que não - Repôs Zack - Se o amor quer me apanhar, terá que passar por cima de meu cadáver.
Tia Cecily não lhe emprestou a mais mínima atenção.
- Pois eu acredito que está apaixonado por ela.
- Apaixonado! - Zack lançou uma gargalhada de ceticismo - Antes as rãs criarão cabelo.
- Perdeu os nervos com ela. -Tia Cecily falava como se Zack não se achasse presente.
- Quando foi à última vez que o viram fazer algo tão inadequado?
-Tem razão. - A mãe de Zack se reclinou em seu assento com um suspiro de satisfação - As rãs estão criando cabelo.
- Mãe, não estou apaixonado. É um estado confuso, doloroso e muito caro, cheio de desgostos e esforços...
Naquele instante sentiu como uma sacudida, uma parecida com as descargas que recebeu em pequeno quando tentava colocar as moedas de cobre nas tomadas. A sacudida o impediu a voltar-se de cara às janelas, e ficou olhando sem ver os ramos gelados da árvore que havia fora.
As conclusões precipitadas que tinha tirado não eram lógicas, e ele sempre era lógico.
A ira que tinha experiente ao ver Hope em companhia de Baxter... Tampouco era lógica. A dor que sentiu no peito... Era efetivamente dor de coração. Não cabia outra explicação. Estava apaixonado por Hope.
E a tinha afugentado.
- O que acontece? - Tia Cecily parecia divertida - Que mosca te ardeu?
- Bem poderia dizer-se algo assim. - Seu coração, seu insignificante coração, tinha começado a retumbar como se fosse muito grande para seu peito. Voltou-se de frente à habitação e anunciou - Tenho que ir. Tenho que ir agora mesmo.
- Boa idéia. -Tia Cecily o estudou com olhar crítico - Não tem muito bom aspecto, e bebeu uísque. Não pode conduzir. Ordenei ao Sven faz um momento que chamasse a Coldfell.
- Coma alguns sanduíches mais - Aconselhou-lhe seu pai - Se realmente se comportou como um burro, isto poderia levar bastante tempo, e os sanduíches são muito pequenos.
Zack agarrou outros três de queijo com pimenta.
-Se de verdade Hope não sabia quem eu era e em realidade não cometeu nenhum desfalque... Não irá querer voltar a falar comigo em sua vida.
-Pois se ajoelhe, moço - Replicou seu pai - As mulheres gostam de ver um homem de joelhos.
Sua mãe se voltou para o seu pai igual a uma serpente cascavel excitada.
- Edward, você merecia te pôr de joelhos!
Zack foi aproximando-se para a porta o mais depressa que foi possível.
- E me pus de joelhos, não? - Perguntou-lhe o senhor Givens à sua esposa.
- E após não deixou de se queixar - Replicou ela.
Tia Cecily seguiu Zack até o vestíbulo.
- Estarão assim durante um momento. Seu pai nunca sabe quando manter fechado o bico. Ao que parece, e em vista de como procedeste esta manhã, é um defeito de família. Mas somente se estiver apaixonado.
-Vá, o embrulho se formou. - Zack colocou o casaco e beijou a sua tia na bochecha que esta lhe oferecia.
- Um embrulho que você provocou. -Tia Cecily lhe pôs uma mão sobre o braço e lhe disse - Eu gosto dessa garota. Vá por ela.
- Claro. Vou por ela. Quero-a para mim. E sempre consigo o que quero.
Coldfell levava a limusine e mantinha aberta o guichê que havia entre a parte dianteira e a traseira, com a vista fixa no espelho retrovisor enquanto Zack fazia umas chamadas.
Zack não se importava em ter cuidado no que ela ouvisse ou pensasse; estava muito ocupado em tratar de decidir como proceder para recuperar o favor da única mulher que tinha gostado dele... Deus sabia por que.
Em primeiro lugar, chamou à delegacia de polícia para averiguar qual era a situação de Hope, e se surpreendeu ao inteirar-se de que já tinham pago a fiança. Não sabia onde vivia, de maneira que dirigiu Coldfell para a casa de Madame Nainci. Chamou a seu advogado pessoal e lhe atribuiu uma antecipação para que se encarregasse do caso de Hope, seguro de que se existia alguém capaz de pô-la em liberdade esse era Richard Roberts, o Gélido.
Logo tentou chamar a Griswald, e lhe deixou uma mensagem em seu telefone celular. O assunto de procurar o rastro dos irmãos de Hope tinha adquirido a categoria de máxima prioridade. Se tiver que ficar de joelhos, e estava seguro de que assim ia acontecer, sabia quais presentes oferecer em atitude de total contrição.
Suas irmãs. E seu irmão.
Porque agora que se dissipou aquela névoa de cólera que lhe embotava o cérebro, recordou-se do sorriso aberto de Hope, de suas brincadeiras, da forma em que o repreendia, de como se entregou a ele, sem reservas, com toda sua confiança e todo seu coração. Havia-lhe dito que o amava, e não lhe tinha respondido o mesmo.
Sim, ia ter que ficar de joelhos.
Ligou para sua casa e perguntou à donzela que atendeu ao telefone se tinha chamado alguém àquela manhã perguntando pelo Griswald. Ao receber uma resposta afirmativa, inquiriu sobre o nome, que resultou ser o da Madame Nainci, e pela pessoa com quem ela tinha falado: Leonard. Esta vez, quando pendurou o fone o fez com uma certeza cada vez maior.
Leonard. Leonard estava aguardando no corredor a noite anterior, observando enquanto ele levava Hope ao piso de cima. Leonard tinha levado a bandeja ao dormitório enquanto eles dois se encontravam na banheira. Leonard era o que estava em situação de dar um relatório exato ao Baxter, e Leonard gostava do dinheiro. Sim, merecia a pena dedicar um pouco de tempo a investigar Leonard para ver se aquele sub-mordomo tinha recebido uma forte soma de dinheiro de repente.
A limusine ficou apanhada em um dos muitos labirintos do tráfico de Boston, e naquele momento Coldfell rompeu o silêncio:
- E bem, senhor Givens. O que pensa fazer se descobrir que a garota é culpada?
- Culpada do que? - Não era que não soubesse. O uísque não havia fato mais que relaxar um pouco seus reflexos.
- De extorquir esse dinheiro. Sabia quem era você. Pôs-lhe uma manta sobre os olhos de todas as maneiras possíveis. Chegou a meus ouvidos o suficiente para saber o que está passando. - Coldfell parecia mais que interessada; parecia fascinada - O que vai fazer se ela for culpada de todo isso?
-Tinha que tirar você este assunto... - Amava a Hope? Ou não?
Não podia haver dúvida. Amava-a. Por isso desejava que fosse feliz. Por isso tirou conclusões precipitadas a respeito de sua sinceridade. Seu coração estava nas mãos de Hope, e aquilo o aterrorizava mortalmente.
Torceu o gesto ao encontrar-se com o olhar do Coldfell no espelho retrovisor.
-Não importa se for culpada ou não. Se tiver cometido um desfalque, me certificarei que tenha dinheiro suficiente para não voltar a fazê-lo. Se soubesse quem era eu, merecia algo que ela desejasse muito me fazer. Estava aliada a Baxter, enfim... Eu não posso ser feliz sem ela. Tenho que recuperá-la.
- Isso tem que ser fácil. Muitas vezes lhe ouvi dizer que sempre consegue o que quer.
- Mas nunca tive tantas desvantagens... E nunca foi tão importante como agora.
Os lábios do Coldfell se moveram apenas, como se estivesse tentando reprimir um sorriso.
-E por que quer fazer tudo isso por ela?
Um bom exemplo de pessoa emocionalmente distante.
-Porque a quero.
- Senhor Givens, bem-vindo à espécie humana. - Com um amplo sorriso, Coldfell avançou um pouco e passou a esquina contigua. Voltou a avançar de novo - Vou levá-lo a casa de Madame Nainci rapidamente.
Assim o fez, e também deu um jeito de encontrar um grande espaço para estacionar perto do domicílio de Madame Nainci, o qual serviu para demonstrar que os choferes tinham um método secreto para manobrar com os automóveis que careciam os seres humanos normais.
- Espere aqui.
Zack desembarcou de um salto e se encaminhou para os degraus que conduziam ao porão, debatendo-se entre a idéia de apresentar suas alegações ante Hope, gostasse ela ou não, e a de tomá-la em seus braços e estreitá-la com força. Só estreitá-la.
Abriu a porta, passou ao interior... E se deteve de repente.
Na sala de estar, decorado em cores púrpura e ouro e montões de franjas, havia uma dúzia de pessoas, sentadas ou de pé.
E nenhuma delas era Hope.
Todas pareceram decepcionadas ao vê-lo. Deus sabia que ele se sentia decepcionado de ver elas.
Uma mulher corpulenta e de vestimenta extravagante se apressou a aproximar-se a ele. Com um forte acento, disse-lhe:
-Eu sou Madame Nainci. Qual dos ricaços é você?
Madame Nainci. Claro, aquela tinha que ser Madame Nainci. Zack respirou fundo para tomar forças.
-Sou Zack Givens.
Uma loira miúda se aproximou e o observou por detrás do ombro da proprietária.
-Ah, o senhor Givens. - Madame Nainci lhe agarrou as mãos, e ao fazê-lo as unhas postiças se cravaram nas palmas dele - Agradeço-lhe muito que tenha vindo. Estamos esperando Hope. Nosso maravilhoso senhor Blodgett foi pagar a fiança. Tirá-la do calabouço.
A loira olhou ao redor de Zack e logo se fixou nele. - Onde está Griswald?
Zack retirou lentamente as mãos das de Madame Nainci. - Em realidade... Sou eu o que ela acredita ser Griswald.
A loira lançou uma exclamação afogada, escandalizada. Madame Nainci fez um gesto de assentimento e Zack se viu agredido por sucessivas ondas de perfume Giorgio.
- Cala Sarah. Já tinha começado a suspeitar algo assim.
Sarah apoiou os punhos nos quadris.
- E por que a enganou dessa forma?
- É uma história muito longa. - Que não tinha intenção de compartilhar com aquelas pessoas. Mas, pelo visto, ninguém além da Madame Nainci se interessou a respeito.
Um homem de cinqüenta anos vestido de sacerdote episcopal franziu o cenho e comentou:
- Eu gostaria de saber o que está atrasando Hope.
A senhora de cabelo cinza que dirigia o andarilho de tia Cecily estava sentada em uma das cadeiras da mesa , e respondeu:
- Sim, a pobrezinha teve um dia horrível, e queremos lhe dar a bem-vinda de volta em casa.
- E lhe demonstrar que estamos de seu lado.
Zack reconheceu com grande surpresa à doutora Curtis baixa, ruiva e gordinha, uma das mais destacadas cirurgiãs cardíacas de Boston.
- Saiu da delegacia de polícia faz mais de uma hora - Explicou Madame Nainci ao Zack - Pensávamos que já estaria de volta a estas horas.
- Minha esposa insistiu em que viesse aqui. - Quem tinha falado era um homem jovem, vestido com uma calça cáqui enrugada e um pulôver de lã marrom, que retorcia nas mãos - Shelley se encontra no hospital com o bebê, mas não gostou de pensar que Hope pudesse estar sozinha agora.
Zack assentiu. Era o senhor Shepard. Bem, recordaram-se de Hope.
Havia uma mulher de pé junto ao tabuleiro de xadrez, observando as peças em silêncio.
Naquele momento se ouviu o ruído de uns pés que subiam os degraus. Como obedecendo a um sinal todo mundo deixou de falar e se voltou para a porta com a emoção estampada no rosto.
Entrou um cavalheiro de meia idade.
Todo mundo lançou um suspiro de desilusão.
Sem ter em conta nenhum preliminar, o homem disse:
- Sou Blodgett. Paguei a fiança de Hope, mas quando saíamos da delegacia de polícia chegou uma caminhonete. Agarraram-na e a colocaram dentro.
Dos pressente se elevou um murmúrio de exclamações.
- Reconheci aos homens de King Janek. - O senhor Blodgett se ergueu em toda sua estatura - Senhores, nossa Hope tem graves problemas.
Capítulo 23
Zack permaneceu calmo enquanto ao seu redor reinava o caos.
- Chamem à polícia! - Exclamou a doutora Curtis com a autoridade divina de um cirurgião.
- Corri ao interior da delegacia de polícia e o contei - Informou o senhor Blodgett - King Janek vive fora dos limites da cidade e fora de sua jurisdição. Disseram-me que chamasse o Brooklin. E o fiz, mas nesse departamento de polícia puseram-se a rir quando tentei me explicar.
- King os tem comprados - Disse a senhora Monahan - É de domínio público.
- Isto é um ultraje!
- Chamem o FBI!
- Não, a CIA!
- Não...!
Zack escutava com as mãos quietas, o batimento do coração compassado e a mente limpa, estudando friamente a situação desde todos os ângulos.
Madame Nainci se derrubou sobre seu sofá e, balançando-se adiante e atrás, rompendo em soluços.
- É minha culpa. Eu lhe ofereci a possibilidade de trabalhar para esse descarado, esse Wealaworth. Enganou a esse tal King Janek, todo mundo sabe que é um gângster e agora tem em suas mãos a minha pobre Hope.
Sarah se sentou a seu lado e lhe acalentou as mãos.
- Não é culpa dela. Hope não iria querer que você pensasse tal coisa. - Zack sabia no mais fundo de seu cérebro que Hope estava prisioneira, retida por um gângster famoso por sua crueldade. Mas também sabia que o pânico não salvaria Hope. Alguém tinha que fazer-se controlado da situação, tomar as rédeas no momento. De modo que, com um amplo gesto que abrangeu toda a habitação, exclamou:
- Basta!
Ordenou silêncio absoluto. Todos os olhares se voltaram para ele.
- Deixem o jovem falar - Disse a senhora Monahan ao tempo que se incorporava, apoiava-se em seu andador e abria passo para o centro da sala. De ambos os flancos da cesta pendurava sua bolsa, um saco de forma alargada - Estou segura que tem um plano.
Zack tinha um plano, realmente, mas era absurdo, a típica idéia que dependia do valor e da sorte, e que podia acabar causando feridos e mortos. Percorreu com o olhar a dúzia de rostos que se giraram para ele com esperança.
-Vou chamar o prefeito de Boston. Colocarei alguma outra armadilha em andamento. Mas os canais oficiais levarão horas, e é possível que Hope não fique horas. De modo que posso ir ver o King Janek e decidir que Hope é minha e posso insistir em que me entregue.
- Está louco? - Perguntou com incredulidade o senhor Blodgett - Sabe quem é King?
- Sim. - Zack lhe sustentou o olhar - Sei.
O senhor Blodgett começou a balbuciar.
- Então... Então saberá que isso não vai dar resultado.
- Suspeito que não sirva de nada, efetivamente. Assim que talvez devesse... Ameaçar ao King com meu pessoal. - O olhar do Zack percorreu uma vez mais a habitação.
-Você não tem nenhum grupo de seguidores - Assinalou Sarah.
Madame Nainci aumentou com os soluços.
- Mas poderia ter.
Muito devagar, as pessoas que enchiam a pequena sala foram entendendo. Olharam-se umas a outras e depois avaliaram a Zack em silêncio.
O adicionou em voz firme:
- Será muito perigoso para todos que participem.
A senhora Monahan lançou uma gargalhada.
-Tem peito moço. Mas conte comigo. - Enfrentou-se a seu olhar de surpresa e sorriu friamente - Acredite. Necessita-me.
- E comigo - Disse a doutora Curtis.
O senhor Shepard endireitou seus estreitos ombros.
- E comigo também.
Naquele momento tocou o posto telefônico. Sarah correu para atender, mas lhe entristeceu o semblante ao comprovar que se tratava de uma chamada normal.
Então ouviram alguém subir os degraus.
Todos ficaram em tensão e cravaram os olhos na porta. Esta se abriu, e penetrou na habitação um homem de cor, alto e de aspecto duro, que carregava um estojo de violoncelo.
Com uma exclamação coletiva, o grupo deu um passo atrás.
A senhora Monahan apontou com um dedo tremente ao estojo do instrumento.
- O que leva aí dentro?
O jovem se mostrou desconcertado e assombrado pela hostilidade que encontrou.
- Um... Violoncelo. Que acreditavam? - Olhou em redor e se topou com os olhos entreabertos de Zack. Dirigindo-se a ele, explicou - Sou Keith Munday. Hope me chama de senhor Chelo. Sou um dos abonados. Vim porque me inteirei que estava presa e eu gostaria de servir de ajuda. Olhe... - Abriu o estojo e mostrou a todo mundo um formoso instrumento.
- OH. - O senhor Blodgett levou uma mão ao peito, como querendo acalmar seu coração.
- O que acreditavam que era? - Perguntou Keith.
-Nos velhos tempos, os gângsteres levavam suas armas em estojos de instrumentos. -Zack tirou seu celular. Não tinha tempo a perder- E acaba você de me dar outra idéia.
Hope se encontrava no escritório de King Janek, em frente ao King em pessoa.
-Deveria lhe cortar todos os dedos.
King era formoso e de estatura baixa, e soprava igual a um motor a vapor. Também vivia em uma casa grande, localizada em um bairro cheio de homens armados com pistolas.
Naquele preciso instante, Hope não se sentia impressionada. Mas se sentia raivosa. Apoiada sobre o escritório do gângster olhou fixamente a seus olhos grandes e marrons e lhe disse:
-Contratou a um contador que você sabia que já tinha estado preso por cometer várias fraudes para que lhe fizesse uma contabilidade forjada, e agora se surpreende de que lhe tenha roubado o dinheiro? Não é uma decisão muito inteligente digamos.
-Sabe, King, a garota tem razão.
Tanto o iludido como Hope se voltaram para olhar à senhora Janek, ou ao menos Hope pensou que dela se tratava. Era uma mulher alta e curvilínea, muito atraente. Estava sentada junto à janela, onde o sol arrancava brilhos a seu cabelo tingido de loiro e a seus dentes brancos como pérolas; lia uma revista e, de vez em quando, fazia algum comentário.
-Não te meta nisto, Bunny. -King vestia um traje cortado na cor azul com colete e camisa rosa e, quando assinalou a Hope com o dedo, a mão lhe tremeu por causa da fúria- Se Stanford tivesse sido mais preparado, não me teria roubado o dinheiro e, se você fosse mais preparada, não o teria ajudado, porque ninguém rouba a King Janek.
-Conforme parece, não dá você tanto medo como gostaria de acreditar, porque sim lhe roubou; mas eu não.
Para ser um dia que tinha começado tão bem, danificou-se muito rapidamente, e Hope já estava farta de tudo, de King, de tudo que lhe acontecia em sua miserável vida, e se tinha que mandar tudo ao inferno, que fosse bem feito.
- Wealaworth diz que é você o cérebro da operação.
- E eu digo que se fosse eu o cérebro da operação não nos teriam apanhado!
King passou a mão por sua espaçada cabeleira.
Hope cruzou os braços sobre o peito e o olhou com cara de poucos amigos. Achava-se no estado de um delinqüente, acusada de cometer um delito que não tinha cometido, e se enfrentava à morte completamente sozinha, sem um amigo à vista. Se aquela era sua recompensa por ser amável e cordial, bem podia converter-se em uma desumana Arpia. De modo que isso foi o que fez.
- Você acredita que o cérebro da operação sou eu, e por isso me seqüestrou? Vá, que inteligente. Fez com que me raptassem das ruas de Boston justo diante de uma delegacia de polícia, a plena luz do dia, uns homens foram reconhecidos por todo mundo...
King voltou a passar a mão pelo cabelo.
- E quando eu desaparecer, todo mundo saberá que foi você que me matou e o que arrojou meu cadáver ao rio!
- Não tinha pensado em matá-la - Murmurou King.
- Então qual é a finalidade deste exercício? - Hope estava gritando e, para surpresa dela, desfrutava disso - Porque me permita que lhe diga, eu estou estudando informática e necessito todos os dedos para teclar, e vivo no Mission Hill, assim necessito todos os dedos dos pés para correr, e se você pensa me cortar algo mais... - Não, agora não podia ficar sem fôlego - Seguirá sem lhe servir para recuperar seu dinheiro, porque não tenho.
- Claro que não tem! - King lhe respondeu também a gritos, e os olhos saíram das órbitas pelo esforço - Porque o gastou.
- No que?
- Leva roupa nova.
Hope ficou olhando, e de repente se perguntou se chegaria a vomitar sobre o tapete persa. Abrigou a esperança de fazê-lo.
King se tinha dado conta de que usava roupa nova, uma roupa que lhe tinha dado o agradável Griswald... Não, o senhor Givens.
Bunny deixou de lado sua revista.
- Céus. - Logo perguntou a Hope - Encontra-se bem? Porque tem a cara um pouco pálida.
A onda de náusea passou maldita seja, e Hope respondeu com um fio de voz:
- Estou bem. Consegui esta roupa por ter dormido com uma pessoa.
- Encanto, seguro que pode fazê-lo melhor - Disse Bunny. Essa roupa não vale tanto.
- Assim agora tenta me dizer que é uma prostituta? - King soltou um gemido - Venha já! Mas bem parece uma pregadora, das que falam da condenação e o fogo do inferno.
- OH, muito obrigado, senhor Janek.
Embora o pai de Hope não tivesse sido dos que falavam de condenação e fogo eterno, mesmo assim teria ficado impressionado por aquele elogio.
King apoiou as palmas das mãos sobre a mesa e separou os dedos gorduchos e repletos de anéis.
- Assim, diz onde esta o dinheiro que foi roubado por Stanford.
- Eu não digo nada. - Porque estava muito segura de que King tinha vontades de cortar algo de alguém.
King fechou o punho e o descarregou com força sobre a mesa.
- Quem vai pagar, então?
Hope golpeou a mesa com o punho ao lado de King.
- Você. Já pagou.
Durante uns instantes, Hope acreditou que ele ia lhe dar um murro, lhe enviar a de uma bordoada até o outro extremo da habitação.
Até a própria Bunny chiou:
- Calma, King, calma!
E naquele momento soou o interfone.
A cor roxa desapareceu do rosto do King. Tornou-se para trás sem apartar o olhar nem um segundo do rosto de Hope e pulsou o botão.
- O que?
- Há aqui umas pessoas que desejam vê-lo. - Parecia a voz do Frank, o mais jovem e sem dúvida o mais idiota dos seqüestradores de Hope. Agora estava falando muito devagar, como se medisse o terreno - Dizem que vieram buscar Hope Prescott.
Hope ouviu alguém dizer algo ao fundo.
- E ninguém quer problemas, eles menos que ninguém - Recitou Frank.
- Frankie. - King estava extremamente impaciente - Quais são?
- A banda do Givens.
Hope ficou rígida.
Os agudos olhos do King captaram sua reação, e deve ter gostado porque disse:
- Claro. Reviste e os fazem passar. - Ato seguido, se recostou em sua poltrona de executivo de couro e começou a balançar-se adiante e atrás – Você sabe algo dessa tal banda do Givens, senhorita Prescott?
- Não.
Nem tampouco era capaz de imaginar o que guardava na manga Zacharias Givens ao vir ali e exigir sua liberação.
A voz estridente de Bunny e sua expressão de boba deviam ter ocultos e afiados poderes de sedução, porque disse:
- OH, céu, talvez seja ele o tipo que lhe comprou a roupa nova.
Hope girou a cabeça e olhou furiosa a Bunny.
- Sim, pelo visto deste no prego. - King pareceu agradado consigo mesmo. Um brusco golpe na porta o fez gritar - Adiante!
A porta se abriu de repente.
Hope fez provisão de forças para enfrentar ao primeiro golpe de vista de Zack, mas nada poderia havê-la preparado para o aspecto que trazia este ao entrar no recinto. Ainda tinha posto seu traje negro, sua camisa branca e sua gravata vermelha, mas seu semblante carecia totalmente de expressão, penteou o cabelo com gel para trás e levava uns óculos de sol.
E não deu mostra alguma de ter reparado na presença de Hope.
Zack se deteve meio metro do escritório e adotou uma postura com os pés ligeiramente separados e as mãos entrelaçadas. Parecia ter sido esculpido em rocha, uma estátua a que nada poderia mover dali.
Cinco pessoas, todas vestidas com idênticos trajes negros, camisas brancas e óculos de sol, formavam uma fila detrás dele. Quatro delas lhe resultaram desconhecidas, uma mulher e três homens, todos carregando com estojos de instrumentos musicais. Para surpresa e horror de Hope, fechava a marcha, a senhora Monahan, fazendo chiar as rodas de seu andarilho em cuja cesta estralava sua enorme bolsa.
- Né, né! - King ficou em pé e levantou as mãos - Frank, o que é isto dos violinos?
Frank passou ao interior da habitação.
- Hum... Só há um violino. Também há um Chelo, um clarinete e um baixo. Vi. - A seguir fechou a porta depois dos visitantes e se postou logo que transpassado a soleira da mesma. Ao ver a expressão dúbia de King, adicionou - Há um violino, um Chelo, um clarinete e um baixo. De verdade!
King tirou o queixo em direção ao Zack.
- Está tentando me ameaçar?
- Vim tocar um pouco de música.
A voz de Zack era tão calma e monótona, que Hope sentiu que um calafrio lhe descia pela coluna vertebral. Nunca tinha visto Zack em seu papel de senhor Givens, o glacial pirata empresarial, mas suas maneiras, seus olhos, de um negro penetrante, ameaçavam sem necessidade de pronunciar uma palavra, sem fazer um só gesto.
Sua postura e sua imobilidade tinham eco igualmente em cada um dos membros de sua banda. Até a senhora Monahan tinha deixado de parecer uma anciã doce e débil; mas bem se tinha transformado em uma professora de rosto severo que tinha vindo cobrar vingança do insolente King.
Não parecia que King estivesse nervoso. Ao contrário, recostou-se em sua poltrona e efetuou um amplo gesto com as mãos.
- Sente-se. Quer Hope Prescott, não? Estou seguro de que poderemos chegar a um trato.
Zack não se moveu.
- Eu não faço acordos.
- É sua noiva, verdade? É você quem lhe comprou essa roupa boa, não é? Não é você Zack Givens, o peixe gordo da grande empresa? Pois já poderia ter algo mais agradável! Sente-se. Vamos conversar.
Zack seguiu sem mover-se. Tampouco o fez ninguém mais.
Hope reconheceu a tintura roxa que começou a subir pelo pescoço da camisa do King. Zack não estava levando bem aquele assunto, Estava convertendo-o em uma competição pessoal, quando King queria negociar, e este se estava pondo furioso. Alguém ia sair ferido, sem dúvida ela. Talvez a senhora Monahan.
De modo que, imitando a postura de Zack, anunciou:
- Não penso ir com ele a nenhuma parte.
Apontou com o dedo polegar a Zack e o disse com todo seu coração.
King descobriu uma saída segura para sua frustração. Descarregou de novo o punho sobre a mesa e chiou:
- Maldita seja, você irá aonde lhe diga!
Zack deu um passo à frente.
E também deu sua banda.
- O que acontece? - King abriu as mãos, com as palmas voltas para cima - Não quer que grite com esta mulher? E como diabo não fazer? É um verdadeiro chute no traseiro.
Se aquele gorducho filho de puta pusesse uma mão em cima de Hope, Zack estava disposto a matá-lo.
- Entregue-me ela – Olha o céu, se quer conhecer minha opinião, já saiba que vou te dar um chute no traseiro.
- E uma merda. Roubou-me o dinheiro.
King estava atirando um farol, disso estava seguro Zack, mas aquele era um momento perigoso nas negociações. King tinha seu orgulho, tinha um amor próprio que defender. E, além disso, procurava, para desespero de Zack, uma oportunidade de colocar os dedos na próspera empresa do Givens.
Aquilo não ia acontecer.
- Não foi ela. Seu dinheiro foi roubado por Stanford Wealaworth. Ela simplesmente foi muito parva para saber o que assinava.
Hope assinalou ao Zack e falou com o King.
-Vê por que não quero ir com ele? - Logo se voltou para a banda e ordenou - Vão para casa. Sairei disto sozinha. Estava-me arrumando isso perfeitamente quando vocês chegaram.
Pela primeira vez desde que entrou naquela habitação, a mulher sentada junto à janela falou de repente:
- Olhe céu, se quer conhecer minha opinião, já sabia que iriam te dar um chute no traseiro.
Hope e King saltaram ao uníssono:
- Fecha o bico, Bunny!
Bunny se deixou cair em seu assento, mas saudou com os dedos à senhora Monahan.
- Olá, MA, me alegro de vê-la agora.
MA?
O olhar de King se posou sobre a idosa. Sobre seu rosto, logo sobre sua bolsa, logo sobre seu rosto outra vez.
- Sim, MA, é um prazer ver que saiu antes de morrer. Disseram que leva uns anos muito tranqüila e caladinha.
- Só saio quando tenho que me ocupar de algo importante de verdade. - A senhora Monahan assinalou a Hope - Esta jovem é minha amiga, sabia?
- Pois não sabia.
King se tornou para trás em sua poltrona, a personificação do relaxamento, mas tamborilou com os dedos sobre o encosto.
Zack ouviu um ruído a suas costas. Voltou-se e viu a senhora Monahan fechando a zíper de sua bolsa. Por um extremo do mesmo aparecia uma boquilha de aço negro, ou, mas bem era... O canhão de uma pistola. Uma pistola alargada e de um aspecto do mais sério.
A idosa de cabelos cinza levantou a vista para Zack e disse em tom de desculpa:
- Sinto muito. Tinha saído da bolsa.
Zack não estava seguro de se a idosa os tinha salvado a todos ou os havia amaldiçoado, mas teve a suspeita de que sabia o que fazia muito melhor do que ele tinha suposto.
King explodiu de raiva:
- Merda, Frank, registrou os instrumentos, mas não olhou na bolsa da MA!
Frank retorceu o pescoço tentando ver algo.
- Não é mais que uma velha!
King fixou de novo sua atenção no Zack e lhe disse:
- Todos os de sua banda vêm do mesmo lugar que MA?
- Nós a chamamos senhora Monahan. - Zack deixou acontecer uns segundos para que aquelas palavras sortissem efeito - E sim, todos vieram do mesmo lugar.
Que lugar? Referia-se King A... A cadeia?
- Você, não. - Do crânio espaçado do King brotou uma gota de suor - Nunca ouvi isso de você.
- Possivelmente não esteja tão bem informado como devesse. - E, pelo visto, tampouco o estava Zack.
King percorreu a habitação com gesto carrancudo.
- Maldição, um homem faz tudo o que pode, procura não sujar as mãos, continua com seus negócios, alguma vez se mescla com a lei, e o que ocorre? Que terminam aproveitando-se de seu bom caráter, um vigarista de três ao quarto e sua garota. - Elevou o tom de voz - Depois, um homem tenta recuperar um pouco do que lhe pertence, e o que ocorre? Que irrompe em seu escritório um bando com um punhado de instrumentos musicais acompanhados de MA Monahan e fica a lhe ameaçar. - A água do copo que havia sobre o escritório estava vibrando - Vale, de acordo. Se tudo o que diz é certo, se de verdade esta Prescott não for a que me roubou o dinheiro, então pode ir. Tirem-na daqui de uma vez. Leve-lhe senhor Givens, e não volte nunca.
Zack não esperou um segundo mais. Antes que Hope pudesse pensar em protestar de novo, foi para ela, levantou-a do chão e a jogou sobre o ombro como se fosse um bombeiro ao resgate.
Logo, fazendo caso omisso de seus chiados, procedeu a sair da habitação.
Capítulo 24
Hope odiou tudo aquilo. Odiou a humilhação de ver-se jogada ao ombro de Zack igual a um saco. Odiou sentir o calor do corpo dele contra o seu. Odiou seu aroma, que subia ao nariz e lhe recordava, com muita nitidez, aquela noite em que o respirou até que sua essência passou a formar uma parte vital de seu cérebro, de tal modo que o único tinha que fazer era respirar de novo aquele aroma e desejar... Desejar a ele. Mas ele era igual a todos outros. Tinha acreditado o pior dela. Não, em realidade era inferior a outros. Tinha mentido.
Logo que Zack saiu à rua, disse:
- Já pode me deixar no chão, senhor Givens.
Mas Zack, sem lhe dar ouvido, mostrou-lhe uma bela visão panorâmica do conjunto formado pela gigantesca casa de King, as moradias dos criados e o alto muro de pedra coroado por pontas de ferro. Céus, que ela pudesse distinguir, aqueles ferros bicudos produziam descargas elétricas. Os vigiavam vários guardas das esquinas da casa e da grande grade eletrificada. No caminho de entrada circular tinha estacionada uma limusine negra, com as portinholas desviadas. O chofer, uma mulher, estava-os aguardando.
- Vamos, vamos - Insistiu Zack ao bando que o seguia, conduzindo-a em direção ao carro. King poderia trocar de idéia.
- OH. - Hope compreendeu. Claro. Ainda estavam em perigo. Zack e ela, e... Quais seriam aquelas pessoas às que Zack tinha encarregado que formassem seu bando? Já conhecia a senhora Monahan. A outra mulher e os homens lhe eram desconhecidos, mas tinham que ser os abonados de Madame Nainci. Sim, e amigos dela mesma também.
Sem nenhuma cerimônia, Zack colocou Hope sobre o assento traseiro da limusine.
- Hope, fique ai dentro. Coldfell vou ajudar à senhora Monahan. Você nos tire daqui.
Contente de não estar já nos braços de Zack, e com pressa para partir dos domínios de King Janek, Hope se apressou a ir sentar-se no assento dianteiro. Coldfell se sentou rapidamente atrás do volante. Os membros do bando de Givens jogaram os instrumentos ao interior da limusine e foram ocupando assentos como melhor puderam.
Quando Zack acomodou a senhora Monahan, seu andador e sua enorme pistola no assento mais afastado e entrou ele mesmo, e Hope o coração retumbava no peito e no interior do carro reinava um silêncio tenso.
Zack se agachou no chão equilibrando seu peso nas pontas dos pés. - Coldfell, arranque!
Coldfell colocou a marcha do potente automóvel e saiu como uma flecha.
Ninguém disse nenhuma palavra ao deixar para trás a grade de acesso.
Zack olhou pelo guichê traseiro, em busca de algum perseguidor. E viu que todos os olhos estavam fixos nele, o homem que tinha assumido o controle da situação como se tivesse nascido para isso. O qual admitiu Hope à contra gosto, era certo. Zack tinha nascido para assumir o controle. Tinha nascido para ser o homem que atraíra todas as olhadas. E lhe resultou muito amargo reconhecer que também tinha atraído a sua.
Depois de percorrer umas quantas quadras, Zack se voltou para sua banda e, com aquela voz serena e grave, anunciou:
- Já passou o perigo.
Os membros da banda Givens se olharam uns aos outros, com o medo pintado em seus rostos. Foram relaxando-se pausadamente, até que um homem lançou um assobio.
Como se aquela fosse o sinal, todo mundo rompeu a rir. Bateram palmas, estreitaram-se as mãos e tagarelaram sem parar.
- Viu...?
- Acreditei que ia deprimir-me...
- Que medo passei...
Zack tirou os óculos de sol e os observou com um débil sorriso e Hope o contemplou com atenção. Com o cabelo engomado e retirado do rosto e vestido com aquele traje de cor negra, parecia a personificação de um desumano homem de negócios. Perguntou-se como tinha podido ser tão burra para pensar outra coisa.
Ele captou seu olhar. Arqueou as sobrancelhas, falando sem palavras, lhe perguntando a sua vez o que estava pensando.
Hope desviou o rosto.
Se sua negativa em olhá-lo causou preocupação, certamente a dissimulou muito bem.
O violoncelista se voltou para Hope e lhe agarrou a mão.
- Sou Keith Munday, a que ajudou a conseguir essas roupas. Queria dizer obrigado em pessoa, mas não imaginei que ia ser desta maneira!
- Sou eu quem quer te mostrar meu agradecimento. - Hope a estreitou em um abraço. - A todos vocês. - Percorreu-os com os olhos Não sabia que tinha tão bons amigos.
- Ah, querida menina, era a você a quem queríamos dizer obrigado - Disse a senhora Monahan - É muito o que tem feito por nós.
O carro se encheu de murmúrios de assentimento. A Hope encheu os olhos de lágrimas. Primeiro na cela e logo na casa de King, havia se sentido muito sozinha. Mas tinha amigos, amigos de verdade, que estavam dispostos a arriscar a vida por ela.
- Foi muito valente. - A senhora Monahan sorriu com malvado prazer - Não sabia que tivesse tanto valor, pequena Hope!
- Não tinha tempo para ter medo. - Hope se maravilhou de si mesma, de sua temeridade.
- Tudo aconteceu muito rápido, e o senhor Janek me deixou furiosa.
- Este resgate foi quase tão emocionante como tocar um solo - Comentou Keith com os olhos brilhantes.
Hope observou Zack pelo canto do olho. Este não tentava aproximar-se dela. Certamente não esperaria sentar-se a seu lado, falar com ela como se não tivesse ocorrido nada. Ou, pior ainda, tentar explicar-se quando não era necessária nenhuma explicação. Agora Hope entendia tudo.
Um dos outros homens levantou uma mão.
- Eu sou Mike Shepard. Shelley e eu vamos pôr seu nome a nosso bebê.
- Senhor Shepard.
Era um indivíduo magro e nervoso, tal como o tinha imaginado ela, e ao lhe estreitar a mão notou uma sacudida de orgulho.
- Que? Vão colocar meu nome ao bebê? Isso é maravilhoso.
De modo que tinha sido menina... Uma menina que ela tinha ajudado a trazer para o mundo. Para alívio dela, Zack se acomodou no assento traseiro ao lado da senhora Monahan.
- Suponho que não deveria ter vindo, tendo uma recém-nascida, mas é que Shelley me disse que devia prestar minha ajuda, e, além disso, quando chegou ao hospital e se lembrou de que nem sequer lhe tínhamos dito obrigado, ficou como uma planta. - O senhor Shepard afirmou com a cabeça, com uma nova visão das coisas - Não terá que discutir nunca com uma mulher que acaba de dar a luz; tem em cima uma sobrecarga de hormônios.
- E com razão - Murmurou Hope.
Quase pior que ter Zack a seu lado era o ter em frente, ao outro extremo do luxuoso automóvel. Olhava-a sem pestanejar, desafiando-a que ela o olhasse uma vez, e, olhasse Hope onde olhasse, percebia-o em todo momento em cima dela.
- Sou a doutora Curtis. - A mulher de grandes olhos se aproximou tudo o que foi possível - Resgataste-me tantas vezes depois de escorregar na neve, que quis contribuir em seu resgate.
Hope esperava que a doutora Curtis fora alta, magra e um pouco mais velha, não aquela calma ruiva.
- Obrigada.
Em um tom mais profissional, a doutora Curtis adicionou:
- Além disso, se alguém tivesse saído ferido por um disparo teria estado muito bem contar com assistência médica imediata.
- Uma grande ideia - Repôs Hope.
- A não ser que você tivesse sido a ferida, doutora Curtis - Replicou o homem de mais idade com o cenho franzido - O que faria eu se ferissem você? Ia custar-me muito encontrar outro médico para o centro de apoio.
Hope reconheceu aquela voz imediatamente, e pensou com satisfação que pelo menos ele sim que tinha a imagem que ela esperava de um sacerdote: sério e de setenta anos.
- Padre Becket! Alegro-me muito de conhecê-lo.
- Eu também me alegro de te conhecer, pequena. - Estirou-se por cima dos instrumentos e agarrou as duas mãos do Hope - Foi uma luz enviada por Deus para meu pequeno asilo, procurando berços para os meninos, recolhendo mantimentos. Você nos trouxe a doutora Curtis. Quero que saiba quão agradecido estou, eu e todas as famílias que vão se refugiar do frio.
- Obrigado, padre Becket.
Hope estava começando a fazer uma idéia de como se organizou a missão. E também soube, sem a menor sombra de dúvida, que Zack tinha sido o chefe da mesma. O que não sabia era por que tinha vindo ele a resgatar. Teria chegado à conclusão de que era inocente, ou lhe teria parecido excessivo permitir que a assassinassem?
Dirigiu-lhe um olhar furtivo. E deparou-se com os olhos da senhora Monahan. A senhora Monahan, que sorriu como a maliciosa idosa que era. E quem seria em realidade?
- Senhora Monahan - Chamou Hope - Sempre carrega uma pistola?
- Ah. Não. Querida, isso violaria minha liberdade condicional.
Naquele momento cessaram as conversações. Todo mundo se voltou para a senhora Monahan.
O padre Becket sorriu com benignidade.
- MA Monahan faz parte do folclore desta cidade. Dirigiu o mundo dos negócios fraudulentos com mão de ferro, e quando por fim foi para a prisão em 1958, deixou um vazio que encheram os ladrões de pouca classe e os narcotraficantes.
- MA Monahan. MA... Você é a que esteve me protegendo. - Hope não entendia como não se deu conta- Em meu bairro, os ladrões a temem.
- Ainda conservo certa influência - Replicou à senhora Monahan com modéstia.
- Foi por você que King Janek nos deixou partir? - Quis saber a doutora Curtis.
- Como a modesta e antiga gângster que sou, tenho que admitir que talvez seja essa uma parte da razão. Mas foi nosso senhor Givens que escolheu os membros de sua banda. Sarah desejava vir, mas Madame Nainci se encontrava muito alterada e alguém tinha que atender ao telefone. E, além disso, o senhor Givens representou estupendamente seu papel de implacável chefe do bando. - Alargou uma mão e acariciou o cabelo de Zack com carinho.
Um murmúrio de aprovação percorreu o interior do veículo. Zack recebeu palmadas nas costas e leves golpes amistosos no ombro.
A doutora Curtis disse a Hope:
- Ele o organizou tudo: estes trajes negros, os instrumentos... Jamais vi um homem tão decidido.
Hope murmurou:
- Sim, quando está empenhado em algo, é impossível detê-lo.
Oxalá não tivesse que lhe dizer obrigado. Oxalá não tivesse que voltar a falar com ele em toda sua vida. Mas não ia ter essa sorte; Zack estava deixando-o muito claro com cada gesto, com cada olhar.
A Senhora Monahan continuou:
- Parece-me que foi nossa Hope e suas engenhosas palavras que fez com que King quisesse nos ver fora de sua casa o mais rapidamente possível.
- Ás vezes me pergunto se não lhe falta sentido comum - comentou Zack. Juntou as mãos e cravou o olhar no outro extremo do carro.
Hope, ligeiramente, olhou-o a sua vez.
- Eu às vezes me pergunto o mesmo, mas não pela mesma razão.
O padre Beckett se apressou a intervir:
- Hope é muito doce ao telefone. Jamais teria suspeitado que fosse ser capaz de enfrentar a nosso delinqüente local em sua própria casa.
- Eu sim. Não tem medo de nada.
A voz grave e ressonante de Zack provocou em Hope um estremecimento que lhe percorreu as costas. Sem dizer expressamente, estava recordando a noite passada, os prazeres que ambos tinham compartilhado... As coisas que ela havia dito.
E então recordou aquela noite, mas recordou com mais claridade ainda a cena vivida na delegacia de polícia, o humilhante descobrimento do engano de Zack… E as coisas que ele havia dito.
- Equivoca-se. A traição me dá medo. As mentiras me dão medo. Mas não me dá medo estar sozinha, já estou acostumada. Eu gosto.
O ambiente entre eles estava carregado de hostilidade... Por parte de Hope.
À medida que o carro foi diminuindo de velocidade. Keith começou a mexer-se nervoso.
- Bom, pois já estamos aqui, de volta à casa de Madame Nainci. Foi emocionante te conhecer, Hope. Chamarei você logo! E abrindo a porta da limusine, desembarcou dela quase antes que estacionasse.
Também desceu Coldfell, entregou o violoncelo a Keith e ficou com ar rígido junto à porta.
- Sim, encantado em te conhecer, Hope. Vem ao asilo quando puder, dar-lhe-emos de jantar. - O padre Beckett partiu sem olhar atrás.
- Tome cuidado, querida. Chamarei quando ficar caída de novo na neve. - A doutora Curtis lhe deu um abraço e se foi alegremente.
- Traremos o bebê para casa assim que Shelley se encontre melhor - Assegurou-lhe o senhor Shepard, e também se foi.
- Que alguém me ajude - Resmungou a senhora Monahan. Imediatamente apareceu uma legião de mãos que a tiraram do carro, enquanto ela murmurava - Somos como ratos abandonando um navio que se afunda. Zack lhe passou seu andador.
Hope tratou de deslocar-se para a parte dianteira da limusine para sair pela outra porta, mas Zack a impediu estendendo um braço através da saída como se fosse uma barra.
Ela olhou o braço, depois olhou a ele.
- Saia do meu caminho. - Zack retirou a mão.
- Não podemos ignorar o que aconteceu.
Hope o olhou fixamente. Contemplou seu rosto arrumado e implacável. Tinha-o considerado um bom homem, uma pessoa de bom coração, um homem ao que ela poderia amar um homem que ela poderia casar, e se a relação entre ambos não durasse para sempre, ao menos tinha tido a segurança de conservar as lembranças.
Em tom suave e persuasivo, Zack lhe disse:
- Quando te vi com Baxter, precipitei-me e tirei conclusões erradas.
Agora Hope compreendeu a verdade. Zack era um homem rico como qualquer outro. Queria a ela para um momento; a usaria para um momento. Depois partiria e a humilhação que ela sofreria não significaria nada para Zack, porque só se importava com seus próprios sentimentos, suas necessidades, seus desejos.
- Fui um idiota. Agora sei. - Zack estava pondo tudo em sua alegação por escrito: seus olhos grandes e escuros, sua voz sedutora e aveludada, sua humilde súplica de perdão.
Mas Hope não o necessitava. Já tinha sofrido o bastante.
- Quero que retorne comigo - Disse ele.
Ela começou a tremer. - Como se atreve? Como se atreve a imaginar que não me importo, que tenha mentido a respeito de quem é? Como se atreve a imaginar que eu vou escutar essa exigência em me jogar entre seus braços? Nunca estive com você, estava com um homem que se chamava Griswald. Estava com um homem que não existia.
- Era comigo com quem estava. Por Deus, Hope... - Zack fez gesto de tocá-la.
- Não, não, não! - Hope desceu do carro com toda pressa. Não lhe ocorria nenhuma outra palavra que dizer. Não a necessitava - Não.
Correu para o interior da casa de Madame Nainci abandonando Zack... Pela última vez.
Capítulo 25
Estimado senhor Givens:
Muito obrigada pelo computador novo, a impressora e o monitor. Embora talvez o correto fosse recusá-los, os aceito com toda gratidão, porque me permitirão avançar na busca de minha família. É obvio, já sabe o muito que agradeço a roupa nova que me deu de presente, mas desejo lhe dizer obrigado outra vez. E por último, mas não por isso menos importante, agradeço-lhe o incômodo de me resgatar do senhor Janek. Embora pense que eu estava dirigindo bem a situação, pode ser que com excesso de confiança, e valoro sinceramente seus esforços.
Atenciosamente,
HOPE PRESCOTT
P. D. Por favor, deixe de me enviar flores.
Zack ficou olhando aquelas frases artificiais escritas no interior de um cartão Hallmark, e em seguida, com um juramento raivoso, arrojou este ao cesto de papéis que havia junto a sua mesa.
Colocou-se em frente ao computador e se dispôs a escrever um email mais duro como resposta, com a esperança de que Hope se zangasse o suficiente para responder, e esta vez com verdadeira emoção em lugar daquela prosa inexpressiva e insultante.
- Senhor! - Meredith se deteve de repente na porta do escritório - O que está fazendo?
- O que lhe parece que estou fazendo? - Rugiu ele - Estou pondo em dia meus emails.
Para ser uma mulher que já estava acostumada a seu trabalho, naquele momento dava a impressão de encontrar-se bastante confusa.
- Mas se a você não gosta dos computadores.
- O email pode ser usado por qualquer idiota.
- Isso mesmo eu sempre lhe falei, senhor. Está aqui o senhor Urbano, senhor.
- OH, merda. - Justo o que necessitava Zack - Faça-o entrar.
É obvio, Jason vinha quase colado aos calcanhares da senhora Spencer.
- Que convite tão amável. Sinto-me especialmente bem-vindo.
- Sente-se. O que quer?
- Aqui tem os papéis que pediu para a absorção de Baxter. - Jason depositou a pasta em um extremo da mesa de Zack e sentou-se - Tudo está em ordem. Baxter está acabado, preparado para ir a prisão.
- Bem.
Se dependesse dele, Baxter estaria em um lugar mais quente e mais eterno, mas no momento teria que bastar com a prisão federal. Ao ver que Jason não fazia intenção de partir, Zack levantou a vista e reparou na risada de diversão que se adivinhava nos lábios de seu amigo. Como se não soubesse que aquilo ia acontecer.
- E?
- Só queria te dizer que gostamos muito de te ter em casa no domingo, tratando a todos com a atenção de seu mau humor. Não é uma partida de hóquei como Deus manda a menos que você esteja deprimido um pouco.
Zack esteve a um milímetro de responder furioso a Jason, mas ouviu a voz de Hope acusando-o de servir-se de seu dinheiro como escudo.
Aquilo o deteve. Sempre o detinha.
- Comportei-me como um chato?
- Não, como um chato não. Não exatamente. - Jason arranhou a nuca - Até o final da partida, quando perguntou a Selena como podia suportar ser uma mulher quando as mulheres eram criaturas empenhadas em destroçar o coração dos homens e espremendo até deixá-lo seco.
Zack fez uma careta de desgosto.
- Antes disso, estava só deprimente - Acrescentou Jason.
- Pode ser que tenha bebido muito - Disse Zack com prudência.
- Pode - Conveio Jason - Eu gostei em particular de obrigar a você que me entregasse em mão os cem dólares, porque foi um sovina toda sua vida e merecia perder a aposta.
- Pois agora já pode me devolver o dinheiro.
- O gastei enviando flores a Selena em seu nome. Conseguiu recuperar a sua garota?
- Quem?
- A que colocou-o de mau-humor, insuportável e bebendo em excesso.
Ao que parece Zack não tinha nada a dizer respeito de Hope. Tudo indicava que seu comportamento falava por si mesmo.
- Não.
- Vá. - Jason sacudiu a cabeça em um gesto negativo - Levo anos com a esperança que se apaixonasse por uma mulher que lhe desse uma lição, mas não tinha imaginado que fosse receber semelhante castigo.
- Alegra-me saber que sirvo de entretenimento a meus amigos.
- E me alegra que veja seus amigos para que possamos nos entreter. - Jason o contemplou com afeto - Sentimos sua falta, homem.
A contragosto, Zack reconheceu:
- Eu também senti sua falta. Não me tinha dado conta até que...
- Até que ela o deixou?
- Fui amável com ela só por você e por essa condenada aposta.
- De que maneira é minha culpa? Bem por mim. - Jason se levantou e se estirou um tipo alto e corpulento, um bode sabichão que era melhor amigo do que merecia Zack - Vai vir à minha festa de aniversário surpresa do domingo?
- Não perderia de ver você um ano mais velho.
- Traga um pouco de vinho. Fiquei sabendo que agora sua marca favorita é Citra. -Jason saiu correndo do escritório antes que Zack pudesse lhe jogar algo. Logo golpeou o marco da porta com sua enorme e carnuda mão e voltou a entrar - Não é próprio de você deixá-la escapar.
Jason estava falando outra vez de Hope.
- Não sei como fazer que volte.
- Consulta um perito. Já sabe, sua irmã ou sua mãe. Ou sua tia Cecily. As mulheres sabem estas coisas melhor que nós. Poderia falar com Selena, mas está bastante chateada pelo que disse, de que ela destroça o coração dos homens. - Jason sorriu de orelha a orelha, e seus dentes brancos cintilaram em contraste com sua tez morena - Tem que decidir o quanto esta desesperado. E desapareceu de novo.
Zack o ouviu despedir-se de Meredith, e durante todo esse tempo pensou: "É muito tarde." Não deixava de ouvir em sua cabeça, uma e outra vez, aquela frase. Já era muito tarde.
Deveria ter se justificado com Hope quando teve a oportunidade, não ter esperado que o mau caráter do Baxter se encarregasse de revelar a verdade. Baxter demoraria vários anos em sair da prisão, mas do que ia lhe servir a vingança? Seguia sem ter Hope.
Naquele momento Meredith o chamou pelo interfone.
- O senhor Griswald na linha dois.
- Bem.
Levava mais de quarenta e oito horas sem saber nada de seu mordomo. Desde que Griswald tinha chegado ao Texas.
Com seu correto acento britânico, o mordomo lhe anunciou:
- Senhor, já não me encontro em Hobart.
- Por que não?
- Porque fui convidado a partir.
Zack se endireitou em seu assento. - Por que motivo?
Com seu estilo meticuloso, Griswald se explicou:
- Em primeiro lugar, fui ao tribunal. É um tribunal novo, construído nos cinco últimos anos. O antigo se queimou. Não ficou nada dele, conforme me disseram, e todos os registros relativos à família Prescott foram destruídos.
- Também se queimaram os registros de todo o povo?
- Não, mas desapareceram os relativos à família Prescott. A secretária do tribunal nem sequer teve que olhar para saber. - Griswald fez uma pausa para permitir que Zack processasse a informação - Segundo ela, não havia dados em outro lugar nem cópia de segurança dos mesmos.
- Alguém os tem guardados.
- Ninguém quis me informar de nada. - O tom de voz do Griswald destilava ironia -Enquanto estive no tribunal, chamei a atenção do chefe de polícia, o qual me sugeriu que me ocupasse de meus assuntos. Eu me mostrei de acordo, em que era uma boa idéia, e abandonei o tribunal.
Zack quase imaginou um Griswald, educado e profundamente ofendido, e tão mais empenhado em descobrir a verdade.
- E o que ocorreu depois?
- Fui ao instituto em busca do histórico da senhorita Prescott. Não existia nenhum, mas falei com a professora de arte da senhorita Prescott, a senhorita Campbell. Ela me disse que tinha havido coisas muito estranhas na maneira de solucionar a situação da senhorita Prescott. Não compreendia o porquê de terem separado os meninos. Não gostou que os pais fossem sentenciados daquele delito de forma não oficial e sem levar até o fim um julgamento e sem haver nenhuma investigação. E não queria que a surpreendessem falando comigo.
- Merda.
- Sim, senhor. Disse-me que cuida de sua mãe idosa, e que não pode permitir-se perder seu emprego. - O tom grave e formal de Griswald não se alterou em nenhum momento, mas Zack sabia até onde alcançava seu grau de ofensa - Ao sair do instituto, o chefe da polícia, que me tinha seguido até ali, disse que estava criando problemas, e fui acompanhado até os limites do povo. Considerei prudente partir sem apresentar nenhuma queixa.
- Bem feito. Obrigado. Não tinha idéia do embrulho que ia causar com sua visita.
Estava claro que algo tinha acontecido em Hobart, algo horrível.
- Existe algum modo de averiguar aonde foram parar os outros meninos?
- E adiantando a sua petição, nestes momentos me encontro em Austin, Texas. Valendo-me de meu computador portátil e de meus dotes para a investigação adquiridos em minha afeição pela genealogia, localizei o lugar onde se encontra um dos meninos.
Zack ficou em pé com tanta energia que fez chocar a poltrona contra a parede.
- Qual?
- O filho adotivo. Deram-no de novo em adoção, e esses registros são públicos. Cresceu em Boston, alcançou o êxito muito depressa e trocou o nome para de Jake Jones.
- E onde está agora?
- Atualmente vive em... Boston.
- Boston!
- Acredito que é possível que tenha procurado à senhorita Prescott aqui. Estou convencido de que está tratando de encontrá-la.
Capítulo 26
Uma semana mais tarde, Madame Nainci se encontrava em sua casa, passeando nervosa para cima e para baixo, detendo-se a cada minuto em olhar pela janela, enquanto Sarah se achava sentada no sofá mordendo as unhas.
Por fim, Madame Nainci se ergueu igual a um cão que acaba de localizar a presa e anunciou:
- Aí fora há uma limusine.
Hope terminou de tomar uma mensagem para a senhora Siamesa e se voltou para Madame Nainci com expressão calma.
- Que interessante.
Sarah fez um gesto de assentimento.
- É muito interessante. Quem será?
Hope recortou suas palavras de forma cortante, igual a uma costureira com umas tesouras.
- Não me importa mais nada.
- Vá, essa atitude em uma pessoa tão jovem! - Madame Nainci apareceu de novo - Está chegando alguém. É a tia desse jovem tão bonito, a senhorita Cecily.
Hope fechou os olhos. Zack estava fazendo uso de toda a artilharia. Madame Nainci lançou um suspiro de melancolia.
- Que triste. Vir até aqui, mas está impedida de subir as escadas.
- A última vez seu chofer a trouxe nos braços.
- Hoje deve ter o dia livre - Comentou Sarah.
- Sim, claro.
Mas podia ser que tivesse. O mero fato de que Zack fosse um mentiroso e um animal não queria dizer que Hope tivesse que supor que sua tia também era.
- Já vou falar com ela - Declarou Madame Nainci - Direi-lhe que não deseja falar com ninguém. Isso é melhor que tê-la aí de pé na neve, tremendo, te esperando.
- Concordo. - Hope colocou no pescoço o pulôver. Devia ter encolhido ao lavá-lo - Parece-me bem.
Madame Nainci elevou suas sobrancelhas pintadas.
- Que veemência! Não permita que o sentimento de culpa mova você à compaixão.
Sarah se mostrou de acordo. -Tem seus princípios, e deve se lembrar deles.
- Irei. - Com um cuidado exagerado, Madame Nainci abriu a porta, saiu ao exterior e a fechou atrás de si.
A rajada de ar gelado golpeou a Hope no rosto. Cruzou os braços sobre o peito, fez caso omisso de Sarah e ficou olhando fixamente o computador portátil que tinha sido enviado por Zack, que se acendia com o rosto dele como fundo de tela e com sua voz grave e cálida que lhe dizia: "Quero-te, Hope, por favor se case comigo."
Hope era boa programando, mas não tinha averiguado como trocar o fundo nem eliminar aquela voz, e tinha tentado.
Madame Nainci retornou acompanhada de outra rajada de vento gélido e, em tom pesaroso, anunciou:
- A tia não entende nada. Diz que quer falar com você, que já encontrará alguém que a tome nos braços para subir as escadas.
- Tem que ter a alguém ao volante dessa limusine - Replicou Hope.
- Tem um substituto - Informou Madame Nainci - Mas com mau coração. Vou buscar alguém do bairro.
- Antes me deixe pulverizar um pouco de sal sobre o gelo, porque seria uma tragédia que o desajeitado que segura a senhorita Cecily nos braços escorregasse e levasse uma pancada. - Sarah se levantou de um salto e dirigiu a Hope um olhar avesso - Com sua artrite e suas duas próteses de quadril.
- Está bem! - Hope elevou os braços no ar - Vou falar com ela.
Sarah correu para adiantar-se. - Genial! Deixa que te ajude com o casaco.
- É um casaco novo precioso, que o senhor Givens lhe deu de presente! Muito bonito. Ponha o cachecol. Também é novo, outro favor do senhor Givens. Aqui tem as botas! -Madame Nainci e Sarah envolveram Hope em suas roupas novas com grande eficiência.
- Entendo que se negue a falar com esse homem horrível, embora seja rico, e com qualquer de sua família, mas esta pobre senhora me dá lástima.
Hope rangeu os dentes. Pelo visto, tinha estado fazendo isso freqüentemente ultimamente, inclusive em sonhos.
- Esse homem horrível e toda sua família são uma turma de chantagistas, e vocês duas não são melhores.
Sarah nem sequer tentou fingir. Limitou-se a sorrir de orelha a orelha.
- Eu? - Madame Nainci se esforçou por parecer ferida - Mas se eu estive do seu lado.
- Já, igual a Benedict Arnold apoiava a George Washington. - Hope jogou o cachecol ao redor do pescoço em um movimento empolado - Não se preocupem, voltarei para terminar meu turno.
- Estou segura - Repôs Madame Nainci. Hope se voltou para suas traiçoeiras amigas e as fulminou com o olhar.
Madame Nainci estendeu as mãos. - O que? Eu disse que estou segura!
- Eu vigiarei o posto telefônico! - Exclamou Sarah.
Hope abriu a porta e subiu correndo a escada, em que não havia nada de gelo. O vento açoitava a calçada, o qual a obrigou a fechar mais o casaco, e o céu estava coberto de nuvens cinza e compactas.
As janelas da larga limusine estavam fechadas, de modo que Hope não pôde ver o interior. Não via tia Cecily por nenhuma parte, mas a portinhola do veículo permanecia aberta e desatendida.
Hope, cética, perguntou se tia Cecily teria chegado a sair do carro ou se tudo aquilo teria sido um engano entre ela, Sarah e Madame Nainci. Mas não pensava ficar ali fora tremendo e fazendo conclusões, assim se acomodou no assento de couro e respirou o ar quente do interior da limusine. A luz era tênue, mas Hope distinguiu com claridade o contorno de duas figuras. Duas figuras femininas. Tia Cecily e… Quem mais?
- Fecha a porta, querida, faz frio - Indicou tia Cecily.
Hope fechou a porta de repente, as seguranças se ativaram e o carro saiu lentamente do meio-fio. Então tia Cecily acendeu a luz do teto e Hope viu duas damas de aproximadamente a mesma idade, uma totalmente diferente da outra salvo pelo modo em que olhavam a ela: percorrendo-a com os olhos como se fossem águias avaliando seu próximo jantar.
Tia Cecily sustentava uma bengala na mão.
- Hope, esta é a senhora Givens, a mãe de Zack.
- Pode me chamar Gladys - Disse-lhe a aludida. Levava o cabelo comprido e tingido de uma cor castanha clara, e recolhido em um coque na nuca. Ia perfeitamente maquiada, vestida com bom gosto, reluzia umas bochechas lisas e carnudas e um pescoço cheio de rugas. Irradiava dinheiro, dinheiro de toda a vida, e aquilo assustou muito ao Hope.
- Obrigada, senhora.
Esqueceu-se das duas mulheres enquanto desenrolava o cachecol. Elas a tinham levado ali.Que elas falassem.
Tia Cecily lançou a primeira surriada.
- Suponho que sabe que meu sobrinho tem o coração destroçado por você.
Hope lhe devolveu o golpe:
- Em seguida encontrará alguém que o arrume.
Tia Cecily desdobrou toda uma exibição de dentes brancos, mas sem mostrar o menor sinal de bom humor.
- Não seja insolente comigo, jovenzinha.
- Vamos, querida. - A senhora Givens aplaudiu a mão a tia Cecily - Não devemos assustar a jovem Hope. Estou segura de que não era sua intenção fazer que se apaixonasse perdidamente dela para logo abandoná-lo ao primeiro contratempo.
- Perdidamente? - Cuspiu Hope - Abandoná-lo? Apaixonado? - Amor? De onde teria saído tal coisa? - Ele mentiu. Mentiu sobre o componente mais importante de uma amizade. Mentiu a respeito de quem era.
- Está bem, bom - Disse-lhe a senhora Givens - tal como o entendo, não mentiu a respeito de quem era; você supôs que, como se mostrou amável ao telefone, não podia tratar-se de Zachariah Givens, e em um arrebatamento de amor próprio se permitiu que continuasse com isso. Não fez por mal da sua parte, mas tampouco sua crença esnobe de que os ricos são pessoas desagradáveis.
- Esnobe? Eu não sou esnobe, sou...
- Uma pessoa com mágoas, seria mais correto dizer - Interrompeu-a tia Cecily.
Aquele tom fez Hope se calar, mas não estava disposta a retroceder.
- Se tenho mágoas, é por boas razões.
- A maioria das mágoas se tem por alguém acreditar ter boas razões. -Tia Cecily deu um golpezinho com a bengala no chão - Eu tenho mágoas contra as pessoas que pretendem que por suas veias só corre bondade humana e depois me acusam e a minha família de crueldade porque temos o mal gosto de ser ricos. - Apoiou sua mão retorcida no ombro da senhora Givens e perguntou - Parece-lhe cruel esta mulher?
- As duas me resultam um tanto maquiavélicas - Murmurou Hope.
Tia Cecily se deixou cair contra o respaldo de seu assento e, embora a luz fosse débil, Hope teria jurado que ambas intercambiavam um sorriso.
Mas a senhora Givens não deu tempo a Hope para refletir.
- Porque me diz respeito, estou profundamente decepcionada com o Zacharias.
Hope lutou contra o claro desejo de rir. Zacharias? Seguro que lhe encantava.
A senhora Givens prosseguiu:
- Não deveria ter permitido que essa confusão a respeito de sua identidade durasse mais de um só segundo.
- Vamos, Gladys! - Exclamou tia Cecily - Se uma pessoa lhe chamasse e supusera sem razão alguma que você foi uma imbecil, não tentaria de se fazer passar por outra?
- Eu troquei as fraldas desse menino e, me acredite, ensinei a não cair na tentação a cada ocasião. - A senhora Givens parecia decepcionada e afligida - E quando penso até que ponto levou este engano! As duas mulheres posaram seus olhares interrogantes em Hope.
Esta esclareceu garganta e olhou as mãos.
- Hum. - Tia Cecily entreabriu os olhos sem apartar os de Hope - Gladys, tem razão, foi muito longe. Deveria ter infringido mais açoites quando era pequeno.
Hope tinha dormido com o homem a que aquelas duas mulheres tinham visto crescer, e não teve valor para olhá-las nos olhos.
- Ao primeiro sinal de problemas, deixou-me na mão. Chamei-o na delegacia, pensando que ele era meu cavalheiro de brilhante armadura, e ele deu por certo que eu era uma qualquer. Disse que eu sabia em todo momento quem era e que o tinha traído. Disse tudo o que podia me magoar e fez tudo o que não devia fazer.
- Já nos contou isso. Mas no final te resgatou - Assinalou a senhora Givens.
- Eu mesma me teria resgatado.
- Também nos contou isso - Conveio tia Cecily - Você quer que ele recorde de onde procede e que mesmo assim confie em você, mas tem que recordar de onde procede ele e possivelmente lhe conceder suas... Suas...
- Suas mágoas? - Ofereceu Hope.
Tia Cecily afirmou com a cabeça.
- Suas mágoas também merecem um pouco de respeito. Houve incidentes com pessoas que se aproveitaram dele. É um pouco suscetível com gente que supõe que é um menino rico e tolo que herdou o dinheiro de seu pai e nada lhe custa esforço. Zack é inteligente, trabalha muito e desenvolveu uma couraça protetora ao seu redor que ninguém pôde perfurar.
A senhora Givens se inclinou para diante e agarrou a mão do Hope.
- Até agora. Até que chegou você. Está muito apaixonado.
Hope experimentou uma pontada de desejo, que cedeu rapidamente.
- Apaixonado por mim? Não, você entendeu mal. Ele imaginava que ia poder me ter como amante.
Remotamente, Hope se precaveu de seu próprio sentimento de raiva. A primeira vez que entrou na grandiosa residência de Zack levando sua humilde sopa de frango, sentiu-se como uma camponesa levando um presente. Não foi uma sensação agradável para ela, mas a sacudiu. Afinal, a quem tinha ido visitar era ao mordomo. Era com ele com quem tinha travado amizade. E depois, foi ao mordomo a quem tomou como amante.
Todo o tempo, no fundo de sua mente, pensou que tinham uma relação apoiada na confiança mútua e no afeto.
E em troca descobriu que Zack a considerava como um projeto prioritário, via nela a uma pessoa a que podia tirar da miséria em que vivia, lhe dar presentes e, depois de recolher sua recompensa, jogar na rua.
- Quem se acredita que é? O príncipe Charles da Inglaterra?
- Garanto-lhe que é, mas bem autocrático - Concedeu a senhora Givens.
- Condescendente - Disse tia Cecily. A senhora Givens não fez conta.
- Tem uma alta opinião de si mesmo, mas deve recordar que seu pai o pôs para trabalhar no departamento de envios da empresa quando tinha dezesseis anos, e que quando se licenciou em direito...
Hope estava horrorizada. - É advogado? Isto por acaso pode piorar ainda mais?
- Quando se licenciou em direito, já tinha dirigido duas fusões de alto nível. Seu pai é bastante mais velho que eu, compreende, e desejava aposentar-se, Assim Zack ficou imbuído de responsabilidade em um sentido da...
- Arrogância - Atravessou tia Cecily. A senhora Givens se voltou para ela.
- Quer ficar quieta?
Tia Cecily se rendeu. - Perdão.
A senhora Givens recuperou o assunto que estava dizendo.
- Hope, a humildade que você lhe ensinou resulta encantadora. Eu tinha perdido todas as esperanças de que alguma vez permitisse a alguém penetrar em seu coração, e então aparece você. Fez muito feliz esta mãe.
Hope não queria que a senhora Givens lhe acariciasse a mão, nem que tia Cecily a olhasse com aqueles olhos suplicantes, nem tampouco queria pensar em todas as coisas que haviam dito e quanta razão tinham.
- Como esposa dela, pensa no muito que poderia fazer para os mais desfavorecidos com o respaldo do dinheiro de Zack - Disse a senhora Givens, persuasiva.
- Esta família é obscenamente rica, de verdade. Você é a primeira pessoa que despertou sua consciência social. -Viam-se às claras que tia Cecily estava encantada - Sabe que desde que te conheceu comprou um caminhão de mantas e as enviou ao Exército de Salvação?
A senhora Givens acrescentou:
- É obvio, não tinham onde as pôr todas, de modo que teve que ir levando ele mesmo a todos os centros de acolhida para indigentes de toda a cidade. O pobre está fazendo um grande esforço.
- Ele sim que representa um esforço - Replicou Hope em tom acre - Não penso me casar para fazer o bem. Estou segura de que o senhor Zacharias Givens não queira semelhante coisa.
- O senhor Zacharias Givens está disposto a te ter com as condições que você imponha - Respondeu tia Cecily – Ama você como é.
O carro se deteve brandamente sob o alpendre da casa de Zack. A senhora Givens colocou o chapéu sobre seu grisalho cabelo castanho.
- Deveria falar com o Zacharias, querida. Quer te pedir desculpas e, como mãe dele que sou, digo que deve fazê-lo.
- Pensa em quão doloroso vai ser para ele. - Tia Cecily deu uns leves golpes no cristal que separava ao condutor dos passageiros - Você gostará.
- Não o bastante para que valha a pena - Repôs Hope. O cristal se deslizou para baixo.
- Vamos entrar. - A senhora Givens abriu a portinhola e saiu - Hope, querida, fique aqui sentada e decide o que é o mais correto, e quando tiver decidido, ele estará esperando.
Tia Cecily adicionou:
- Se não querer falar com o Zack, é só falar à chofer e ela te levará de volta para casa de Madame Nainci, à sua solitária vida em um frio apartamento, com longas horas de trabalho e vozes ao telefone.
A senhora Givens agarrou a bengala de tia Cecily e a seguir lhe estendeu uma mão.
- Pode me dar um empurrão, Hope? - Pediu tia Cecily.
- Por que a chofer não ajuda?
Hope empurrou com cuidado do interior, a senhora Givens atirou do exterior e ambas conseguiram finalmente incorporar a tia Cecily.
Enquanto a senhora Givens fechava a porta da limusine, Sven saiu da casa a toda pressa, exclamando:
- Espera Cecily, deixa que te ajude.
Hope contemplou como aquele homem tomava meigamente a tia Cecily em seus braços. O semblante da idosa se iluminou ao vê-lo, talvez mantivessem a imagem externa de jovem treinador e ama aleijada, mas Hope estava disposta a apostar que quando se apagavam as luzes estavam juntos de todas as formas possíveis. Sven era o amante sobre o qual Zack tentava adivinhar. As diferenças entre o Sven e tia Cecily não podiam ser mais pronunciadas, e, entretanto o amor os unia. Era comovedor, maravilhoso, e Hope recordou o que poderia ter havido entre Zack e ela.
Naquele momento a vista nublou em uma estúpida cortina de lágrimas e, depois de secar aos olhos e levantar o olhar, viu que a chofer tirava a boina. Tinha o cabelo liso e de um negro azulado, um pouco comprido no pescoço. Seu perfil era austero, com maçãs do rosto salientes, mandíbula forte e sobrancelhas escuras sobre uns olhos que, quando se voltaram para posar-se nela, eram tão escuros que pareciam negros.
Em troca brilhavam com um fogo que a fez ruborizar-se ao recordar aquele calor... E deixaram um novo rastro de ardor a seu passo.
- Zack.
Capítulo 27
Zack estava bonito. Muito bonito. E, pela expressão de seu rosto, Hope soube que o quão único a fazer era chamá-lo com um gesto e o teria a seu lado.
Ele a olhou com um desejo tão intenso que foi como se tivesse vivido tão somente para esperar o momento em que ambos estivessem juntos de novo.
Pior ainda, Hope reagiu como se levassem anos separados. Nada importaram as recriminações nem os sermões da senhora Givens e da tia Cecily; seu próprio corpo a traía. Humilhada e zangada por ver-se manipulada por todo mundo, inclusive por ela mesma, fez um gesto em direção às duas mulheres, que já se afastavam.
- Suponho que escutou tudo.
- Minha mãe e tia Cecily não quiseram deixar. - Seu tom de voz era grave e profundo, e falou devagar, como se ela fosse um animal ao que queria domar - Disseram que há coisas que são sagradas entre as mulheres, e que uma delas era como atribuir culpas.
Hope lançou um rugido. - Pois lhes dá muito bem.
- Então funcionou?
- Ainda sigo no carro, não? - Embora Zack estivesse no assento do condutor e ela no último assento de atrás - E estou falando com você, não?
- Seu tom deixa algo a desejar.
- E? - Hope olhou as portas fechadas - Não posso sair daqui.
Zack apertou um interruptor e desbloqueou as saídas.
- É injusto - Murmurou ela. Não queria tomar a decisão se devia ficar ou não.
Zack disse em tom arrependido:
- Meu pai me advertiu que haveria dias como este, que me seria impossível ganhar, fizesse o que fizesse. - Zack acendeu todas as luzes do carro e estudou Hope, seu semblante grave, seu olhar pensativo - Ultimamente já sofri uma boa ração de dias assim.
- Sim, claro, sofreu muitíssimo - Replicou Hope com sarcasmo, desejando que não houvesse tanta luz. Era mais fácil mostrar-se indiferente quando não podia ver Zack nem recordar sua imagem abatendo-se sobre ela, iniciando-a nos prazeres da carne.
- Pois sofri - Disse Zack com simplicidade - Sofri a agonia do inferno pensando que nunca mais ia voltar a te abraçar por culpa de minha estupidez. - Girou todo o corpo para olhá-la de frente, com os braços apoiados no respaldo do assento.
- Se eu tivesse sabido quem era, não teria chegado a me abraçar nunca. -Tudo nele: seus generosos lábios, seus dentes brancos, o mistério de seus olhos escuros, distraiu-a da necessidade de dar a conhecer seus sentimentos, de escutar seus rogos de que o perdoasse, e depois afastar-se o mais possível daquele homem que lhe partia o coração - Pelo visto, sua mãe e sua tia opinam que estou sendo injusta por me negar a te escutar.
- E o é?
- Suponho. - Hope baixou a vista e se olhou as mãos - Suponho que merece isso.
- Assim é. - Zack apoiou o queixo sobre os punhos - Sabia que não estaria contente com o Griswald, e lhe ia dizer isso aquela noite.
Hope levantou a cabeça de repente.
- E o que acreditava que ia fazer eu? Dizer: Não importa que tenha mentido, é rico?
- Sim, isso é o que pensei. - Fez um gesto de abatimento ao recordar - Acreditei que seria razoável.
- Razoável! Você... - Deixou a frase sem terminar e procurou o bracelete da porta.
- Não. - Zack também agarrou o bracelete - Escute-me até o final!
Hope não podia acreditar. - Como? Não estou no carro com você, mas se saio vai me perseguir?
- Sim, e além do mais dentro do carro faz mais calor.
Sua lógica era impecável, e enfurecedora. Hope fechou os olhos com profundo desgosto e jogou a cabeça para trás, contra o respaldo do assento. Zack não sabia perder. Ele não sabia perder, e ela estava perdidamente apaixonada. Era uma combinação muito lamentável.
- Admito que tenha privilégios especiais porque sou rico. - A voz de Zack se ouvia agora muito mais perto.
Hope abriu os olhos, surpreendida.
Zack tinha saltado por cima do assento do condutor e estava abrindo passo com dificuldade para ela. Hope elevou uma mão em sinal de detê-lo.
Mas ele fez que não viu. Não se movia com rapidez, mas se movia, ia avançando pouco a pouco igual a um felino vestido com jeans negros e Pulôver negro.
- Não estou disposto a dar de presente todo o dinheiro que tenho para te fazer feliz. Isso me faria infeliz.
- De todos os modos, não funcionaria. - Tudo estava indo muito depressa, e não chegou a nada ainda - Está acostumado a ser rico. Voltaria a ganhar uma fortuna.
- Sim, assim é. - Conforme avançava seguia empregando aquele tom tranqüilizador - Mas não me dava conta de que não confiar em você ia te causar dano, e demonstrei que não te entendi absolutamente ao acreditar que você era como qualquer outra mulher e que estaria encantada de possuir um milionário para si.
- Eu não quero possuir a ninguém.
- Mas me tem.
- Tampouco quero tê-lo. Quer parar de se aproximar?
- Está bem. - Em um só movimento, rápido e decisivo, Zack ficou sentado ao lado dela. Atraiu-a em seus braços, apertou-lhe a cabeça contra seu peito e apoiou a bochecha nela. Logo suspirou e relaxou - Assim está melhor.
Hope tinha cometido um enorme engano estratégico. Com a cabeça apertada contra o peito dele, não podia pensar nas boas razões pelas quais deveria lhe odiar. Só podia pensar que cheirava muito bem. Sentia os batimentos de seu coração sob o ouvido. Zack a tinha envolta em seu calor, e teve a sensação de não ter tornado a sentir-se quente desde a última vez que o tinha visto.
Então se recordou da dor da semana passada, de como se abriu a ele e como Zack tinha aproveitado a primeira oportunidade para lhe ferir. Escapou dele empurrando-o.
- Não posso fazer isto. Não posso me arriscar com você.
Zack fez o gesto instintivo de recuperá-la, mas ficou quieto.
- Porque tenho lhe feito dano?
- Sim!
- Ou porque tem medo de que eu seja como essa gente de Hobart, que faz tanto tempo, e lhe é mais fácil permanecer entrincheirada em seu mundinho, com sua enviesada intolerância, em vez de se arriscar a me amar?
Cada uma de suas palavras foi como um murro, habilmente atirado, e Hope não tinha defesa alguma.
- Se for porque te tenho feito dano, entendo. Sinto muito, lamento profundamente, com toda a alma. Assumo a responsabilidade de meus atos e te prometo que farei tudo o que esteja em minha mão para que confie em mim de novo. Posso fazê-lo. - Encurralou-a em um canto do assento detrás - Mas se for pelo que te aconteceu no passado, então não é melhor que eu.
- O que? - De tudo o que esperava ouvir de Zack, aquilo era o último.
- Passei a vida inteira sem querer me abrir a ninguém porque uma vez tentei e me fizeram mal. Bom, pois você goste ou não, tenho-me aberto a ti e, quando te vi com o Baxter, voltei-me louco de medo. Tive medo de ter sido um estúpido. Tive medo de que se apaixonasse por mim. Tive medo de que me destroçasse o coração... - Sorriu com um gesto estranho, dolorido e prosseguiu - Medo de que me deixasse isso seco. E também de que já fosse muito tarde para mim. Fazia a impressionante tentativa de arruinar minha vida perseguindo à única mulher que podia me fazer feliz. - Abateu-se sobre Hope - Vai fazer você o mesmo? Não vais arriscar-se comigo porque alguém lhe fez dano antes e lhe poderia fazer isso agora?
- Outra vez!
Zack a estava rasgando por dentro, estava fazendo que ela mesma se visse não como uma mulher que construiu uma vida a partir das cinzas de seu passado, mas sim como uma covarde, temerosa de viver emoções avassaladoras e que existia só para evitar a dor que podiam lhe conduzir.
- Sim, outra vez, mas no futuro tem que acreditar que entre você e eu será diferente. Se casar-se comigo, brigaremos e em ocasiões nos faremos mal. Isso é o que acontece nos casamentos. Mas por debaixo de nossas brigas e nossos aborrecimentos, eu te amo. -Separou-se de Hope, para o outro canto do assento, privando-a de seu calor, de seu aroma, de seu ser - Disse-me que uso meu dinheiro como escudo. E tem razão, mas você tem parapeito atrás de seu passado.
Hope quis negar, mas tudo o que dizia Zack era certo. Amaldiçoou-o. Como podia ser desumano até o ponto de obrigá-la a enfrentar-se à crua realidade... A respeito de si mesma?
- Amo-a. Amarei-a sempre, mas não posso lhe forçar a acreditar. Não posso forçar que fique. - Aguardou no canto, como uma sombra escura... O homem que ela amava.
Aquilo era pior que quando ele desbloqueou as portas. Aquele era Zack, obrigando-a a tomar a decisão de sua vida. Escolhesse o que escolhesse, cometeria um engano, não ficaria nada mais que um punhado de infelicidade. E desejava algo mais que aquilo.
- Não sou uma covarde. O silêncio dele expressou dúvida.
- Tento fazer o que é mais inteligente, mas não é fácil saber o que é. Porque se você voltasse a me dizer que iria embora, minha vida se converteria em um lugar frio e estéril, e não sei se conseguiria sobreviver. - Hope pensou nas comidas que tinham compartilhado, nas conversas que tinham desfrutado no modo em que ele a olhava, como se fosse a única mulher do mundo... No fato de que quando sofreu aquela agressão na rua pensou tão somente em uma coisa: em ir a ele. - E se não fico contigo, sem dúvida serei desgraçada para o resto de meus dias. De modo que tudo se reduz à confiança. Diz que confia em mim, e eu... Eu não posso evitá-lo, também confio em ti. - Aguardou que Zack fizesse um movimento, a que a rodeasse com seus braços e lhe declarasse sua felicidade.
Mas Zack não se moveu. Hope se deu conta de que era muito ardiloso, porque aguardou que o seguinte movimento fosse feito por ela. Falar já era difícil, mas necessitou todo seu valor para fazer o gesto. Levantou-se, apoiou-se sobre as mãos e os joelhos e avançou pelo assento. Ao final, com as mãos sobre os ombros dele, olhou-o fixamente no rosto.
- Amo-o, Zacharias Givens. Não importa o que tenha acontecido em sua vida nem na minha, sempre te amarei.
Parece que havia falado o correto, porque Zack a recostou imediatamente sobre ele. O traseiro dela ficou comodamente encaixado em seu colo. Em seguida a atraiu sobre si e lhe apoiou a cabeça sobre seu ombro. Rodeou-a estreitamente com os braços e a beijou com toda a paixão do tempo que tinham acontecido separados, com toda a paixão dos anos de solidão.
Ela abriu a boca para ele sem vacilar, sabendo que por fim tinha conhecido a um homem no que podia confiar para sempre. Sentiu retumbar seu coração sob o ouvido; sentiu tremer seus dedos ao baixar brandamente por seu braço.
Zack se apartou só uns centímetros e murmurou:
- Tudo isto foi minha culpa. Levava muito tempo convencido de que o que fazia era correto. Convenci-me de que não se importaria que mentisse. Acreditei que seria sensata, como todas as demais mulheres que houve em minha vida, e que me perdoaria de qualquer coisa.
Hope abriu muito os olhos.
- Sensata?
Beijou-lhe as gemas dos dedos.
- É sensato querer ter uma vida cômoda, mas você... Você queria honra, e sinceridade, e todas essas virtudes que eu tinha esquecido. Graças a Deus que o perdão é também uma virtude, e uma virtude que você reconhece e pratica.
- Sou a filha de um pregador - Sussurrou Hope, antes de lhe rodear o pescoço com o braço e aproximar os lábios dele aos seus.
Perdoá-lo? Naturalmente que o perdoava. Sua educação assim o exigia, mas o mais importante era que morria de amor por ele. Todas as células de seu corpo vibraram de prazer quando o beijou com a mesma intensidade com que ele a tinha beijado. Aquilo era desejo, embriagador e emocionante. Sentiu dor nos seios, uma leve contração no útero. Seu beijo a tinha deixado desperta para ele.
Mas aquilo não era estritamente certo. Estava desperta para ele desde que viu o perfil de sua cabeça: aquele cabelo liso e negro, aquelas bochechas magras, aquele gesto da mandíbula. Tudo nele a atraiu quando ainda acreditava que era um mordomo. Tudo nele a atraía também agora.
Beijaram-se com desespero, com um ardor que foi crescendo cada vez mais. Hope afundou as mãos por debaixo do pulôver de Zack, e quando chegou à pele nua, os dois suspiraram como se não existisse um prazer maior.
Com gesto reverencial, Hope lhe acariciou os avultados músculos do estômago e depois subiu para os peitorais, recreando-se na pele lisa, no cheio arbusto de pêlo encaracolado, nos pequenos bicos dos seus peitos. Agarrou-lhe as mãos e as esmagou contra seu peito.
- Não devemos fazer isto. Aqui, não. No carro, não.
Ela apenas o escutava. Estava faminta e tinha um banquete diante de si... E também debaixo.
Ele era o banquete.
A ereção de Zack pressionava contra seu traseiro com insistência e vontade própria. Por muito que ele dissesse que não deviam fazer aquilo, o certo era que seu corpo manifestava com toda claridade suas exigências.
Hope alegrou-se imensamente. Não queria ser a única em sentir aquilo. Soltou-se, agarrou a mão de Zack e a introduziu por debaixo de seu próprio pulôver, até os seus seios.
Ele, com os olhos semicerrados, explorou os contornos, deslizou o dedo polegar ao redor do pronunciado mamilo e logo a acariciou durante um longo instante, o tempo suficiente para que lhe tirasse o pulôver negro e deixasse ao descoberto os músculos que tanto a fascinavam. Inclinou a cabeça para o pescoço do Zack e aspirou profundamente. Jamais esqueceria seu aroma, esquivo, intenso e completamente exclusivo dele. Uma só inspiração fez crescer o desejo dentro dela, como uma flor embaixo do sol de verão. Percorreu com os lábios a superfície daquele pescoço, saboreando sua pele, extasiada por aquele sabor a homem forte e esbelto.
Debaixo dela, percebia a batalha que liberava Zack por conservar o controle. Os aços de suas coxas, a contração de seu abdômen, converteram-se em elementos de sedução ainda mais poderosos. Começou a lamber seu pescoço com delicadeza, para depois baixar até o bico do peito e introduzir-lhe na boca. Mesmo assim, ele resistiu. De modo que lhe cravou os dentes.
Foi uma dentada leve, rápida, mas de todas as formas o efeito foi como uma descarga elétrica. Hope se encontrou no mesmo momento estendida de costas sobre o assento, com as pernas no ar e Zack entre elas.
Sentiu sua respiração difícil entre os lábios abertos. Tinha o rosto tenso, contraído pela paixão. Seus ombros eclipsaram totalmente o interior do automóvel e o mundo que havia fora. O aroma da tapeçaria de couro os envolvia em um ambiente de luxo, os vidros escuros os ocultavam dos possíveis olhares, e Zack apertava seus quadris contra ela em um movimento circular que a fez aferrar-se a seus ombros com desespero e gemer.
Aquilo era o que queria. Zack, selvagem e em total abandono, desejando-a com tanto desespero como desejava ela a ele. Elevou o corpo para ir ao encontro de sua investida, desesperada para liberar-se da roupa que se interpunha entre ambos, e, entretanto muito engolida por aquela onda de paixão para fazer outra coisa que seguir a ele.
- Só podemos tomar um aperitivo - Sussurrou Zack em voz baixa- Depois estaremos muito mais famintos... Esta noite.
Obstinado aos quadris de Hope, Zack a manteve imóvel enquanto ele se movia incrementando a intensidade muito devagar, avivando a chama que ardia dentro dela a cada delicado contato. Hope se retorceu embaixo ele, procurando achar satisfação, lhe agradar, fazer o que seu corpo, os corpos de ambos, exigia.
Era uma luta desigual. Zack era mais forte, mais decidido e conhecia melhor que ela seus pontos vulneráveis e como explorá-los. O desejo que sentia entre as pernas se transformou em uma espécie de dor, cada vez mais frenético devido ao desespero. Sua respiração se converteu em gemidos.
- Por favor. - Agarrou-se a seus ombros, afundando os dedos em seus músculos - Por favor.
Zack continuou movendo-se, exigindo sem piedade até que ao fim, depois de uma eternidade, todo seu interior se contraiu em um potente espasmo que a fez separar do assento.
Zack lhe soltou os quadris para que se agitasse contra ele, uma e outra vez, conforme seu clímax ia ganhando força, alimentado por si mesmo, por Zack, pelas largas e frias noites transcorridas desde a última vez que fizeram amor, por sua adoração por ele, e pelo alívio que experimentou ao saber que tinha deixado para trás as sombras do passado para sair à luz do sol. Hope se agitou e gemeu impotente em mãos da paixão, e Zack se agitou com ela, animando-a com seu abraço e com seus sussurros.
No final, o clímax começou a perder força, até que por fim terminou. Hope recuperou o fôlego e compreendeu que... Queria mais, e também queria que ele tivesse mais. Assim procurou o cinturão do Zack com as mãos.
- Não podemos. - Zack lhe agarrou as mãos e as reteve - Não podemos. Está todo mundo nos observando das janelas. Pensa Hope. Querem conhecer você... - Reprimiu-se visivelmente, mas prosseguiu-: Conhecer meu pai depois de que ele tenha visto este carro mover-se para cima e para baixo?
Hope lançou um grunhido e deixou cair a cabeça para trás. Logo, em tom aborrecido, respondeu:
- Espero que a voz do sentido comum não seja um de seus defeitos permanentes.
- Não. Prometo que não será. Deus, não. - Zack tinha o rosto rasgado pelo sofrimento - Mas, além disso, se ele acreditar que estou fazendo amor é capaz de me tirar do carro pelo pescoço e a rastros.
- Seu pai? - Hope elevou a voz, incrédula. Tinha entendido que seu pai era um ancião.
Zack emitiu uma risada tremente.
- Não. Há outras pessoas na casa. Pessoas importantes. - Hope não se importou.
- Pois eu estou desesperada – Advertiu - Não me responsabilizo do que possa fazer se não obter satisfação logo.
Zack se separou dela e a estudou durante uns instantes com seu olhar escuro e penetrante.
- Já explicarei a definição de estar desesperado. Alguma vez ouviu a expressão "bolas azuladas"? Pois assim as tenho agora.
Ela deixou escapar uma leve gargalhada.
- Humm. Sim.
Deitou-se sobre o assento e retirou o cabelo dos olhos. Tinha pensado que só em seus sonhos ia experimentar o sabor, o aroma, o prazer de Zack. Mas a realidade era muito melhor.
- Sinto ter sido um idiota, mas não o sou absolutamente quando se refere a isto. - Não soava humilde absolutamente - Quero-lhe, e vou fazer -lhe feliz para o resto de sua vida, é o melhor que me aconteceu na vida.
Hope sorriu... Era o primeiro sorriso da que desfrutava em vários dias.
- Alegro-me de que tenha se dado conta.
- Quer se casar comigo?
- Com todo meu coração.
Zack lhe beijou a mão.
- Obrigado. - Beijou-lhe a palma - Obrigado.
- Mas... - Hope tinha que dizer - Mas por muito que te queira, ainda tenho que encontrar a minha família, e haverá ocasiões nas que estarei distraída ou frustrada...
Zack a beijou de novo, esmagando aquelas palavras contra seus lábios. Tomou as bochechas entre as mãos e a olhou aos olhos.
- Carinho, tem que me escutar. Isto é muito importante. - Tinha o semblante sereno, quase severo - Não vão poder retê-lo na casa durante muito tempo.
- A quem?
- Encontrei um presente. Um presente muito especial. - Tomou pelos ombros e a empurrou.
Hope tragou saliva.
- O que esta acontecendo?
- Nada mal. Não se preocupe. Isto é bom. - Mas sua expressão seguia sendo séria. Muito séria.
Zack colocou o pulôver a toda pressa. Pegou seu celular, que Hope reconheceu que era o mesmo que lhe havia devolvido, realizou uma chamada e falou no microfone.
- Estamos preparados. Adiante.
A seguir abriu a porta do carro, ajudou Hope a sair e a voltou de frente à casa.
- De que se trata? - Quis saber ela - O que está ocorrendo? Com um braço ao redor de sua cintura, Zack lhe indicou o jovem que naquele momento baixava correndo as escadas para ela.
- Aí, Hope. Olhe.
O desconhecido era alto, muito bronzeado, com cabelo negro e os olhos mais verdes que Hope tinha visto. Uns olhos que estavam fixos nela.
Ela o olhou a sua vez e fez provisão de forças, embora sem saber por que.
- Quem é? Tenho a sensação de que deveria... - Então conteve a respiração e o coração começou a lhe pulsar mais depressa. Incrédula, perguntou-: Gabriel?
Zack a estreitou contra si para sustentá-la, pois os joelhos dela tinham dobrado.
- Sim, carinho, é ele.
- Gabriel! - Hope se sentiu alagada por uma imensa alegria - Gabriel, de verdade é você? -Terminou correndo para ele, gritando - Graças a Deus, é Gabriel! O jovem a abraçou pela cintura e a levantou no ar.
- Hope. Há muito tempo estou a sua procura... OH, Hope.
Ela tentou olhá-lo, ver sua cara, mas o via tudo impreciso através das lágrimas.
- Como...?
- Estava aqui, em Boston. Pensava que você vivia aqui, em alguma parte, mas não conseguia te encontrar. Estava a ponto de abandonar, quando de repente apareceu... O senhor Givens... Zack.
Hope viu Zack andar para eles, como se seu maior desejo tivesse sido feito realidade.
O desejo de Hope foi realizado. Por fim tinha seu irmão, e abrigava a esperança de encontrar também a suas irmãs. E tinha a Zack.
Escapou do abraço de Gabriel e saltou nos braços de Zack para beijá-lo em uma arrebatadora e exuberante demonstração de amor.
- Obrigado, carinho, meu amor, meu homem perfeito.
Logo rodeou com o braço a Gabriel e o uniu ao grupo. Os três permaneceram assim, abraçados e juntos, muito emocionados para poder falar.
No interior da casa, os pais de Zack, Griswald, tia Cecily e Sven se separaram das janelas.
- Deixem já de secar os olhos - Disse em tom anti-social o pai de Zack, antes de tirar seu lenço para assuar ruidosamente - Temos que fazer planos para um casamento.
Epílogo
Uma noite do verão. Sete anos depois
- Deixa de empurrar!
- Né, toca-me.
- Já lhe toquei antes.
- Mas é que antes o menino não dava tantos chutes.
Hope riu, vendo seus amigos e sua família reunidos ao redor de seu volumoso ventre, empurrando-se a cotoveladas um ao outro na tentativa de apalpar-lhe para ver como se movia o bebê. Sarah, Gabriel, Madame Nainci, tia Cecily, Sven, os pais de Zack, MA Monahan e todas as pessoas do serviço de secretária eletrônica, Jason e Selena Urbano... Tal como disse Zack, cada vez que convidavam aos seus parentes e amigos tinham uma festa íntima de quatrocentas pessoas. Tinha exagerado um pouco, mas não muito.
O grupo completo passeava pelo pátio da mansão Givens, bebendo, comendo, desfrutando do quente ar da tarde, celebrando a formatura em Harvard de Hope... E comemorando a chegada próxima de um novo Givens.
- Não têm por que discutir. - Hope pôs a mão em cima do pé que a estava empurrando de dentro - Todo mundo terá sua oportunidade. Este bebê não para nunca.
Zack lançou um suspiro de resignação.
- Sobre tudo de noite. Cada vez que Hope se encosta contra minhas costas, o pequeno descarado me tira da cama a chutes.
Hope sorriu a seu marido do outro extremo da mesa. Em público se queixava dos chutes; mas em privado mostrava uma intensa satisfação, como se ser pai fosse um presente raro e grandioso... O qual realmente era, conforme dizia.
Quando estavam a sós, massageava as costas de Hope, esfregava-lhe os pés e, à medida que ela foi aumentando de volume devido a gravidez, ele continuou desejando-a, apaixonadamente e sem descanso.
Agora a observava com essa classe de orgulho que fazia com que Hope enchesse os olhos de lágrimas.
É óbvio, com a batalha de hormônios que tinha lugar no interior de seu corpo, ultimamente chorava quase por tudo.
- Já não falta muito - Disse o pai de Zack apertando a mão da mãe - E por fim seremos avós.
- E eu serei tio - Declarou Gabriel sorrindo a Madame Nainci - Embora você tivesse desejado que Hope e eu fôssemos muito mais.
Elegantemente embelezada com um vestido de um verde chamativo e dourado, Madame Nainci bebeu.
- Ela nunca conseguia encontros por si só. Como ia eu saber que quando conseguisse um, por fim, ia ser o último?
- E o melhor - Disse Zack. Jason lançou, bufou. Selena e Sarah riram.
- Esperou muito para ficar grávida - Queixou-se tia Cecily.
- Sim, queridos, alguns já vão avançados em anos - Acrescentou MA Monahan.
- A espera a manteve viva - Burlou-se Sarah.
- Ah, possivelmente - Concedeu MA - Isso e a ameaça de uma prótese de quadril e outra de joelho. Tia Cecily lhe aplaudiu a mão.
- Eu tenho ainda mais operações que você, assim deixa de queixar-se.
Zack foi passando pratos de bolo de mousse de chocolate. - Hope queria obter primeiro seu diploma, e todos esses créditos em ciências informáticas não a ajudaram com a arte.
- Embora me ajudaram em te ensinar a carregar programas em um computador sem rompê-lo - Riu Hope.
- Oxalá este menino herde sua habilidade para a eletrônica - Desejou Zack fervorosamente.
Aquele era seu primeiro fruto, uma menina a que foram chamar Lana, como a mãe de Hope. Às vezes Hope pensava que deveriam lhe pôr o nome de Pepper porque, igual à própria Pepper, nunca estava quieta.
Mas quando encontrasse a Pepper, aquilo daria lugar a tal confusão que... Quando encontrassem por fim a Pepper.
Tinham passado tantos anos...
Zack se levantou e foi caminhando para Hope. Sempre sabia quando os fantasmas de sua família a perseguiam. Porque, apesar de seu dinheiro e de sua influência, não tinham conseguido descobrir quem tinha cometido os delitos que destruíram a seus pais. Não tinham conseguido o rastro de Pepper nem de Caitlin.
Ajoelhou-se junto à cadeira de Hope e lhe pôs uma mão na bochecha. Logo lhe disse em voz baixa:
- Para sua graduação, esperava lhe dar o presente que tanto desejas: uma irmã.
Hope pôde ver em seus olhos a frustração que sentia Zack, e pôs sua mão sobre a dele.
- Faz sete anos, eu já tinha perdido a esperança e você me deu de presente um irmão. - Estendeu a mão em direção a Gabriel - Não se desespere agora, já as encontraremos.
Gabriel se ajoelhou aliado a Zack. De vez em quando Gabriel desaparecia durante uma semana ou assim, mas inclusive ele com seu íntimo conhecimento de sistema de adoções, viu-se frustrado a cada ponto. Era como se algum poder superior os mantivessem a raia. Gabriel disse que seria melhor se ele não conhecesse ninguém, mas seu negócio tinha crescido com os anos, e quando o nomearam o solteiro mais cobiçado de Boston, seu anonimato recebeu o golpe de graça.
- Não entende – Disse - Griswald não passou estes dois últimos meses como uma ampliação de suas férias.
- Mas Zack afirmou que...
Os dois homens intercambiaram um olhar. Zack fez uma careta.
- Mentimos. Griswald esteve este tempo procurando a Pepper. Ele tem um físico e uma maneira de falar tão respeitáveis que consegue obter resultados inigualáveis.
Griswald estava de volta. Tinha retornado somente uns dias antes. Aquilo tinha que ser uma boa notícia. Zack continuou:
- Encontrou uma pista...
Hope sentiu um tombo no coração, e em seu ventre o menino saltou também.
- Está viva?
- Sim. Está viva. - Mas o olhar do Gabriel era sombrio.
Hope olhou fixamente ao Zack, com a boca seca.
- Griswald encontrou a Pepper? - Lançou um olhar frenético ao Gabriel - Onde? Como? Encontra-se bem? Está aqui?
Zack lhe massageou o ombro.
- Encontrou-a trabalhando em Washington D.C., mas antes que eu pudesse me pôr em contato com ela, desapareceu.
- Desapareceu?
Hope conhecia o sabor da frustração, já a tinha saboreado numerosas vezes. Mas ter estado tão perto... Aquilo não era possível.
- Faz oito dias, tomou um vôo a Denver - Disse Zack - Ali comprou um carro e partiu para as montanhas. Após, não há rastro dela. Inclusive agora, Griswald está tentando procurá-la pela internet. E eu contratei aos melhores homens que pude encontrar para que se ocupem do caso.
- Já estou preparado para partir - Anunciou Gabriel com um sério semblante de determinação - Vou seguir essa pista.
Naquele momento Griswald esclareceu a voz junto a eles.
Hope levantou a vista para ele. Deveria ter imaginado que estava tramando algo, porque não mostrava seu habitual aspecto asseado: trazia a jaqueta desabotoada e a gravata torcida, e seus olhos cansados estavam caídos como os de um cão basset. Tinha permitido que se ocupasse de organizar a festa de uma empresa e que os criados da casa servissem a comida.
Com tom de esgotamento, disse:
- Desculpem-me senhores, poderia falar com vocês em privado?
- Se tratar de Pepper pode falar com eles aqui mesmo - Disse Hope em tom cortante.
- Está a par de tudo - Assegurou-lhe Gabriel.
- Sobre o assunto da senhorita Pepper... - Griswald brigou com os punhos de sua camisa e acrescentou - Pediram-me que os informasse logo que descobrisse algo mais.
Muito devagar, Gabriel ficou de pé. Hope agarrou a mão de Zack. Este ordenou:
- Nos diga.
O acento do Griswald se voltava mais pronunciado quando se encontrava em uma situação de estresse, e naquele momento o alagou tudo:
- Parece-me que... Talvez tenha dado com uma pista em relação a seu paradeiro. Acredito que sei por onde começar nossa busca.
FIM
Corações Perdidos do Texas 01
Do Jeito que Você é
Christina Dodd

Disponibilização: Gisa
Tradução: Gisa
Equipe de Revisão: Iluska, Ady Miranda, Anelise, Romilda, Maria Betania
Revisão Final: Iluska
Formatação: Serenah
Série Corações Perdidos do Texas
01 – Do Jeito que Você é - distribuído
http://www.4shared.com/document/aHIG6mNi/Coracoes_Perdidos_do_Texas_01_.html
02 – Almost Like Being in Love
03 – Close to You
http://br.groups.yahoo.com/group/Amo_Romances_HOT
Link do Blog Pegasus Lançamentos
http://pegasuslancamentos.blogspot.com
Link da Lista de Revisão
https://spreadsheet s.google. com/ccc?key= 0AgtwrWSDY_ IedGhMVC 05ZHQybUNpSWo5dUpNU XpZX0 E&hl=pt_BR
Agradecimento especial à Raficha que tem nos ajudado na verificação das listas
http://br.group.yahoo.com/group/Pegasus_Lancamentos
Quem quiser ajudar com tradução, revisão, formatação ou banners, basta clicar no endereço acima.




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