*CRÍTICA*
*O DNA da língua*
*Com todos os seus erros, grosserias e belezas*
*RESUMO*
Dois dicionários recém-lançados -um etimológico e outro de expressões
populares- recuperam expressões idiomáticas e palavras (como "baderna" e
"zupar na bisca") que, além de testemunharem as mudanças da língua
portuguesa e da cultura brasileira, podem ser fonte de grande prazer para os
amantes da leitura.
*RUY CASTRO*
*QUEM CONHECEU A CASA DE TOM JOBIM* no alto do Jardim Botânico, no Rio, não
conseguia deixar de se surpreender. Na estante de sua sala, poucos livros
sobre música. Mas, ocupando as prateleiras, tomando a tampa do piano e
empilhando-se sobre poltronas, alguns livros de poesia -e muitos
dicionários. Dezenas deles, em várias línguas e de todos os gêneros:
analógico, de sinônimos, tupi-guarani, de gíria brasileira e americana, de
folclore, de pássaros.
Fazia sentido. As notas musicais, que Tom usava para trabalhar, já estavam
todas na cabeça. Mas as palavras, sua grande paixão, não podiam ficar soltas
pela casa. Seu lugar era dentro dos livros, em forma de poema, ou dos
dicionários, como exércitos de reserva, de plantão para o combate, para a
esgrima das ideias. Elas dominavam também boa parte das conversas de Tom em
mesa de bar. E não importava muito o interlocutor. Na verdade, era como se
ele dialogasse com elas, mais do que com a pessoa à sua frente. Uma de suas
fixações eram as palavras que começavam com "al", denotando a presença árabe
na península Ibérica e, daí, entre nós. "Alarido, alaúde, alazão, albornoz,
Albuquerque, alcachofra, alcaçuz, alcaide, alcaparra, alcateia,
alcatifa...", ele as ia desfiando, até que algum engraçadinho -o que era
invariável- o interrompesse, citando o gângster Al Capone. Acho que ele
desfiava o rosário de "als" para provocar a menção a Al Capone -e, se era
assim, não fui o único a morder a isca.
Tom não cairia na armadilha de confundi-las com outras palavras em "al", mas
não de origem árabe, como "albatroz", do francês "albatros", por intermédio
do inglês "albatross", o qual, incrível, vem do português "alcatraz", uma
espécie de pelicano -e esta, sim, talvez proveniente do árabe "al-gattás".
Ou as latinas "alegria", "alegoria" e "aleluia", a francesa "alergia", as
hispânicas "almofada" e "alpiste", a inglesa "alumínio". Tom não cometeria
esse erro porque gostava de estudar, fazia a lição de casa e, claro, devia
ter mais de um dicionário etimológico -entre os quais o ótimo *"Dicionário
Etimológico da Língua Portuguesa"*, do filólogo carioca Antônio Geraldo da
Cunha, publicado originalmente em 1982 e que está saindo em nova e
enriquecida edição [*Lexikon/Faperj, 744 págs., R$ 74,90]*.
A etimologia -"ciência que investiga as origens próximas e remotas das
palavras e sua evolução histórica", segundo o próprio dicionário- é uma
espécie de genealogia da língua. E um dicionário do gênero é o seu, digamos,
DNA. Para quem gosta das palavras, a leitura de um dicionário etimológico
pode ser tão emocionante quanto a de um romance de capa e espada. Aliás, os
quiproquós não são muito diferentes: a língua também comporta a luta de
classes, a sobrevivência das espécies, manobras econômicas, trocas
comerciais, invasões estrangeiras, correrias, perseguições, fugas -a
diferença é que, em vez de damas de peruca empoada e heróis mascarados, os
protagonistas são as palavras. Há palavras que entram na língua disfarçadas
e pela janela; outras que desaparecem e são esquecidas, e, um dia, são
encontradas mortas num sebo de livros; e ainda outras que surgem de repente,
brilham por um momento nos salões, e também acabam abandonadas. Um
dicionário etimológico conta, em pílulas, tudo o que aconteceu na língua.
Ele nos ensina também sobre a nossa própria índole. Quem diria, por exemplo,
que palavras como "botequim", "malandro" e "baderna" -três vocábulos que, às
vezes, andam juntos até altas horas- não vieram do carioquês castiço ou de
uma remota raiz africana, mas do... italiano? Sendo que "baderna" (desordem,
confusão) nasceu de uma dançarina italiana, Maria Baderna, que atuou no Rio
em 1851 e deixou os estudantes brasileiros em polvorosa.
E quem diria também que "bossa" (inchação, protuberância, mas também
aptidão, queda, vocação) vem do francês "bosse" e se usa em português desde
o século 18? Ou que Garrincha, o jogador, cujo nome derivou de um passarinho
chamado garricha, pode ter a ver com "garrir", do latim "garrire",
significando ressoar, tagarelar, chilrear? E não é interessante que
"moleque" (indivíduo sem palavra ou sem seriedade, canalha, velhaco, patife)
esteja regredindo em São Paulo a seu sentido original em quimbundo,
"mu'leke", menino, rapazote?
Antônio Geraldo da Cunha (1924-99) não viveu para ver verbos como "deletar",
"googlar" e "twittar" se intrometerem na língua do Brasil -com uma
facilidade que não encontram em outras terras. E seus continuadores
preferiram deixar esses estrupícios, por enquanto, de fora do dicionário.
Mas tais verbos têm uma boa chance de, um dia, encontrar abrigo no *"Dicionário
de Expressões Populares da Língua Portuguesa"*, do estudioso cearense João
Gomes da Silveira, que acaba de sair pela* WMF Martins Fontes [980 págs., R$
98]*.
Neste, que se subintitula "Riqueza idiomática das frases verbais; uma
hiperoficina de gírias e outros modismos luso-brasileiros", o critério é
mais liberal -basta que o povo adote uma expressão para que ela comece a
fazer parte da língua. De "abafar a banca" (ganhar no jogo todo o dinheiro
do banqueiro), gíria do Rio, à coimbrã "zupar na bisca" (sair habilmente de
qualquer embaraço), passam-se mais de 900 páginas de chulices menos ou mais
conhecidas, mas quase todas deliciosas.
Este é um livro que, apesar do peso, pode ser levado para e lido em qualquer
lugar, sozinho ou em grupo, com a garantia de gerar prazer. O prazer, por
exemplo, de descobrir as meiguices da língua: "acatitar os olhos" (arregalar
os olhos), "andar à esparavela" (andar nu), "armar-se em parvo" (fazer-se de
bobo), "bater com as dez" (morrer), "estar-se nas tintas" (não ligar, não
dar bola), "ladrar à lua" (falar sem ser ouvido); "lamber embira" (passar
miséria), "passar à espada" (namorar muitas mulheres) -a maioria, de origem
lusa, mas que podíamos aplicar aqui. Permite também fazer mau juízo de
expressões inocentes: "alçar a caganeta" (ir-se embora), "botar o cu na
goteira" (ficar prevenido), "comer escoteiro" (comer um único tipo de
alimento, sem acompanhamento), "melar a vara" (estragar um negócio), "meter
nos cornos" (decorar, fixar na memória), "tomar na cuia" (ser vencido,
perder uma questão).
É verdade que, em muitos casos, a expressão, além de suspeita, é mesmo
culpada. Pode-se, por exemplo, afogar o ganso, o grilo, o jegue e o Judas,
tudo com o mesmo sentido. No sentido contrário, dependendo da região do
Brasil ou de Portugal, pode-se dar a goiaba, a maricotinha, o boga, o
chicote, o disco, o fiofó, o frosquete, o furico, o oitão, o oiti, o tareco
e, mais universalmente, o rabo.
Aliás, quando se trata de inventar expressões para descrever o ato sexual,
brasileiros e portugueses são tão criativos que nem parecem religiosos -a
não ser que toda essa riqueza de chulices se refira exclusivamente ao sexo
para fins de reprodução.
O dicionário de Gomes da Silveira [leia entrevista em*folha.com/ilustrissima
*] pereniza expressões outrora comuns e hoje em risco de extinção, como
"abrir o bué" (chorar), "deixar a pão e laranja" (deixar passar fome), "ir à
garra" (perder o rumo, ficar à deriva) e tantas outras. De uma ou duas
décadas para cá, a língua parece estar sendo reduzida a um vocabulário
básico -a maioria das pessoas fala e escreve do mesmo jeito, niveladas,
creio, pela mediocridade da televisão. Com isso, livros como este dicionário
serão indispensáveis para o dia em que a língua for efetivamente restaurada,
com todos os seus erros, grosserias e belezas. Tom Jobim iria adorar.
*Quando se trata de inventar expressões para descrever o ato sexual,
brasileiros e portugueses são tão criativos que nem parecem religiosos -a
não ser que toda essa riqueza de chulices se refira exclusivamente ao sexo
para fins de reprodução *
*Para quem gosta das palavras, a leitura de um dicionário etimológico pode
ser tão emocionante quanto a de um romance de capa e espada*
(http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/il2811201004.htm)
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M. Loureiro
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