DEIXE-ME VIVER
Luiz Sérgio
NOSSA CAPA: A capa foi escolhida entre as inúmeras obras do grande
mestre Renoir. Por quê? alguns indagarão. Para nós, os espíritos, esta
tela representa a vida e nada é mais belo do que ver o filho sendo
amamentado por sua mãe e esta lhe oferecendo não só o alimento, porém o
mais importante: o amor. Mostra a tela também a fragilidade do
recém-nascido, o quanto necessita de cuidados. É, também, um louvor à
mulher que, esquecendo-se de si mesma, luta pela vida do seu filho,
dando-lhe o alimento mais completo: o leite materno. Enquanto algumas
mulheres matam, outras lutam pelos seus filhos. Este é o quadro que Deus
gostaria fosse plasmado em cada coração humano, para que ninguém
atentasse contra a vida de um ser tão indefeso. O quadro de Renoir dá à
mulher a coroa de rainha; só ela tem poderes para alojar no seu ventre
um pequeno ser, alimentá-lo, dar-lhe vida e, depois do seu nascimento,
oferecer-lhe o seio, fazendo com que ele se sinta amado e protegido. A
mulher tem o poder de deixar viver ou morrer, mas todas as crianças que
estão para nascer gritam: "deixem-nos viver!"
Francisca Theresa
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DEIXE-ME VIVER
Luiz Sérgio
Psicografía: Irene Pacheco Machado
SUMÁRIO:
Prefácio 07
Mensagem ao Leitor. 11
Capítulo I
OS REJEITADOS ATRAVÉS DO ABORTO 13
Capítulo II
O DIREITO À VIDA 21
Capítulo III
MARINA CONSTRÓI O SEU UMBRAL 29
Capítulo IV
YURA - SEQÜELAS DA INSENSATEZ 35
Capítulo V
NOVA INCURSÃO DE JONAS 39
Capítulo VI
UMA AULA DE PUERICULTURA 47
Capítulo VII
CONIVÊNCIA DOS PAIS 57
Capítulo VIII
SUSTO RECOMPENSADO 65
Capítulo IX
O IMPORTANTE TRABALHO DA DESOBSESSÃO 73
Capítulo X
MÉDIUNS - OBREIROS DE JESUS 81
Capítulo XI
NOVA OPORTUNIDADE 87
Capítulo XII
BANHO DE LUZES
A MÁQUINA HUMANA 97
Capítulo XIII
A MENSAGEM DE DEUS AOS DUROS DE CORAÇÃO 105
Capítulo XIV
VÍTIMAS INOCENTES 121
Capítulo XV
YVES, MAIS UMA VÍTIMA DO MATERIALISMO 131
Capítulo XVI
"NÃOMATARÁS" 137
Capítulo XVII
A INFLUÊNELA DE FABRÍCIO SOBRE A MÃE 145
Capítulo XVIII
A SÚPLICA DOS ABORTADOS 155
Capítulo XIX
REENCARNES PARA A RENOVAÇÃO DA TERRA 161
Capítulo XX
NO ASTRAL INFERIOR
O VALE DA REVOLTA 165
Capítulo XXI
O RESGATE DE EUGÊNIA 175
Capítulo XXII
UM PONTO DE LUZ NAS TREVAS 183
Capítulo XXIII
COLÔNIA AZUL: CIDADE-ESCOLA DOS NASCIDOS MORTOS 191
Capítulo XXIV
NO POUSO DA ESPERANÇA 201
Capítulo XXV
LAÇOS FAMILIARES INTERROMPIDOS 211
Capítulo XXVI
INSEMINAÇÃO: OS NOVOS TEMPOS 221
Capítulo XXVII
A OPORTUNIDADE DA VIDA ENCARNADA 229
Capítulo XXVIII
A SEMENTE HUMANA DEVE CONTINUAR A GERMINAR 241
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PREFÁCIO.
O Paráclito prometido por Jesus veio de forma a não escandalizar
as pessoas. Kardec apresentou, intermediando os espíritos,
as verdades que podiam ser ditas no século passado. Foram depois
aparecendo espíritos acrescentando novas verdades,
sem desfazer o que ficou dito pelo Codificador e seus assistentes
espirituais. Assim, sucessivamente, vêm sendo acrescentadas
à Doutrina minudênelas sobre a Lei de Causa e Efeito, à proporção que
as mentes possam entender. Muitos não as aceitam,
mas a vanguarda espiritual do Paráclito entende e parte para novas
aquisições do saber. Seguindo essa linha de conduta, Luiz Sérgio veio,
desde seu primeiro livro, "dosando a pílula". Cada livro seu traz
novidades
compatíveis com o entendimento de seus leitores e de acordo com as
necessidades dos espíritos irrequietos da modernidade. Conquistou os
jovens leitores de tal forma que pode agora trazer "alimentos"
proporcionalmente mais fortes a cada livro que apresenta. E, assim, veio
este "Deixe-me viver". Como diz o Evangelho,
"...discurso duro de ouvir", mas necessário, em face dos desmandos da
humanidade atual para atender ao preceito de Jesus "conhecereis a
verdade e a verdade vos libertará". É trágico, mas lógico!
Quando assistimos às sessões de "tratamento orgânico", ou seja, àquelas
em que os espíritos usam de médiuns de efeito físico para curar o físico
dos enfermos, vê-se, às vezes, espíritos que são trazidos para
tratamento orgânico, isto é, recomposição do perispírito dilacerado ou
defeituoso. Tínhamos vaga idéia de que havia alguma coisa sobre
desencarnados por acidente. Mas aparecem também espíritos na forma
infantil e achávamos que eram pelos mesmos motivos traumáticos, mas já
em vias de reencarnação.
Lógico que, se isso fosse, estariam na forma embrionária,
microscópica. Agora veio a explicação por este livro que temos a grata
satisfação, e até um certo orgulho, de prefaelar. Luiz Sérgio nos traz
detalhadamente o sofrimento dos espíritos
ao serem abortados e que, pela perplexidade e incompreensão da falta de
amor dos pais, cristalizaram a forma fetal. Quem já assistiu a uma
curetagem uterina para retirada de restos de embrião ou feto mais ou
menos desenvolvido vê a sangueira e os fragmentos dilacerados do
concepto e não imagina
que ali está uma alma atormentada, aterrorizada. Nos prontos-socorros
obstétricos do Rio de Janeiro, até a década de cinqüenta,
eram comuns os atendimentos de aborto inevitável. Geralmente
a paciente dizia: "foi um susto que levei e por isso abortei", mas
muitas vezes o obstetra encontrava fragmentos de madeira, talo de
mamoneira etc. dilatando o colo do útero, ocasionalmente
útero perfurado por algum instrumento usado às ocultas. Eram casos
constrangedores, mas levados à conta da ignorância. Notava-se,
entretanto, que esses abortos provocados
apresentavam aspecto mais grave que os espontâneos, acontecendo,
às vezes, até o chamado "útero de Couvelaire", cujo sangramento
incontrolável leva à morte, evitada somente com a retirada do útero.
Estes detalhes Luiz Sérgio mostra com toda a crueza.
Este livro até que poderia chamar-se "O martírio dos abortados", tão
vivamente mostra o sofrimento dos "rejeitados". Mas não fica só nisso...
Traz ensinamentos aos pais, aos jovens e faz lembrar aos mesmos que
"sexo não é parque de diversões" e que a mocidade está confundindo
inquietação sexual
com amor, vindo, daí, a raiz dos descasamentos fáceis. A mulher que era
atavicamente reprimida viu-se liberada, mas saiu de um extremo e caiu no
outro; confundiu liberdade com libertinagem.
Segundo Luiz Sérgio, essa liberalidade, do ponto de vista espiritual,
foi a decadênela da mulher: "o homem tomou-se ganancioso
e a mulher decaiu". Os quadros de obsessões, de desentendimentos
entre os casais, segundo Luiz Sérgio, têm origem
no desejo de "gozar a vida" e levar vantagem sem importar-se
com os demais, num egoísmo atroz. Traz também o livro orientação para
as Casas Espíritas, de modo a nos fazer lembrar os dizeres de Paulo de
Tarso: "importa
que pratiqueis a sã Doutrina", para o caso de novatos na Doutrina
misturando credos e religiões sem tratar da melhoria interior.
Leitor amigo, deleite-se com estas verdades de Luiz Sérgio,
mas prepare-se para "retificar as veredas do Senhor", porque,
senão, haverá "choro e ranger de dentes".
Luiz Sérgio, aquele abraço do tio, amigo e admirador, Júlio Capilé.
Brasília, 09 de outubro de 1992.
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MÃE, NÃO ME MATE, DEIXE-ME VIVER ....
MENSAGEM AO LEITOR.
Deixai vir a mim os pequeninos e não os
embaraceis (Marcos, X: 14). Quem atrapalha a evolução de uma criança é
muito culpado
e indigno de alcançar o Reino de Deus. Hoje a sociedade comenta,
apavorada, os seqüestros, os assassinatos, os estupros, os furtos, as
drogas, mas se cala diante do frio e cruel assassinato
de inocentes: o aborto. Em vários países o aborto cresce, até mesmo
protegido por lei; todavia, ninguém se detém para pensar
que esses crimes são praticados contra milhares de inocentes e
indefesos seres. A vítima não tem voz para suplicar: "deixe-me
viver, não me mate", nem braços fortes para se defender. Essas crianças
estão sendo esquartejadas friamente, sem piedade,
por mentes gananciosas e sem Deus. Quase ninguém se importa;
poucas campanhas se levantam em prol da vida desses pequeninos, vida
esta tão importante como a de cada um de nós. Quem interrompe uma
gravidez está rasgando a passagem de alguém para a escola da evolução.
Não esqueçamos que o feto só está alojado no útero porque obedeceu a um
planejamento de Deus. Por que o homem não respeita semelhante obra?
Sabemos que muitas mulheres se julgam donas do seu corpo
e com orgulho levantam bandeiras, dizendo: "eu me pertenço,
faço do meu corpo o que desejo, do meu ventre disponho como quero". E
assim vão matando sonhos, esperanças e causando
dores. É certo, companheiros? Será que não nos conscientizamos ainda de
que desde a concepção já há vida no ovo e de que a mulher é terra
fértil, destinada a alimentar a semente
divina? Mas muitas fogem dessa responsabilidade, desejando
apenas ser fêmeas; mães, jamais. E matam cruelmente, de várias e
estranhas maneiras. Que é o corpo da mulher? Um santuário, onde órgãos
férteis
mantêm com vida um embrião. Nenhum cientista é capaz de criar um corpo
de mulher, e muitas não se respeitam, fazendo de si um objeto de desejo
e de consumo. Até quando os defensores dos direitos humanos irão ignorar
esses bárbaros crimes que são praticados diante de uma sociedade
estática? Que a mulher se libere, mas respeite os seus sentimentos de
mãe e lute pela vida dos seus filhos. A mulher que aborta é uma
fracassada; ela não tem coragem de compartilhar sua vida com outra vida,
que dela tanto necessita. Por tudo isso, fui chamado à Universidade
Maria de Nazaré para um novo trabalho e, quando soube do assunto, meus
olhos marejaram de lágrimas. Nada é mais triste do que a revolta de um
espírito no momento do seu assassinato - o aborto. Por isso aqui me
encontro, unindo minha voz à de milhões de almas indefesas que neste
momento sussurram em pungente apelo: "Mãe, deixe-me viver, não me
mate!"
Luiz Sérgio.
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Capítulo I
Os REJEITADOS ATRAVÉS DO ABORTO
Depois do meu último trabalho, passei uns dias de folga e
aproveitei para estudar um pouco mais. Um dia, estando eu na
biblioteca, tirando algumas dúvidas sobre fluidos, reencontrei
Conrad. Contentes pelo reencontro, ali ficamos conversando,
até que fui informado por Saturnino, outro querido amigo, que
estava sendo aguardado no Departamento do Trabalho. Tão logo
terminamos o assunto, despedi-me de Conrad e fui com Saturnino
até o local onde frei Luiz e irmã Loreta nos aguardavam. Foime,
então, comunicado:
- Sérgio, estamos muito apreensivos, pois vem aumentando,
em escala surpreendente, o número de abortos praticados
friamente e, com isso, ocorrendo um desequilíbrio no planejamento
divino, pois muitos que precisam reencarnar sofrem a
rejeição dos pais, principalmente a da mãe, árvore que tem por
função dar frutos. O aborto, irmão Luiz, será o tema do seu próximo
trabalho.
- Algo contra, Luiz Sérgio? inquiriu Loreta.
- Não, irmã, nem imaginava que o assunto fosse tão
preocupante.
- Não só você o ignora como também as autoridades, os
religiosos, a sociedade, enfim. Por isso aumentam cada vez mais
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esses pavorosos crimes.
- Estou ao inteiro dispor do Departamento e espero que a
equipe que trabalha comigo no plano físico esteja apta a colaborar,
para que tudo ocorra de acordo com a vontade divina.
- Sabemos disso. Agora, vamos aguardar o dia do início
do socorro; até lá, desfrute as nossas alamedas e se prepare para
mais uma árdua tarefa.
Obrigado, irmãos. Que Deus nos ampare.
Retirei-me. Contemplando a bela universidade, sorri para
os imensos jardins e pensei: "como é possível um espírito desejar
ficar ao lado dos encarnados, quando temos este céu de amor!"
Aproveitei bastante o tempo em que ali fiquei para inteirar-me
da minha nova tarefa. Finalmente, chegou o dia esperado. Encontrava-me
no meu alojamento, quando um jovem chamado
Manhuaçu foi-me avisar que me estavam aguardando para o início
dos trabalhos. Saí conversando com aquele jovem muito
educado e grande conhecedor do magnetismo das matas, até alcançarmos
a sala oito, onde a equipe já se encontrava. Os irmãos
Luiz e Loreta fizeram a apresentação:
- Luiz Sérgio, aí estão os irmãos que irão trabalhar com você.
Meu coração se apertou ao procurar, em vão, os Raiozinhos
de Sol, pois todos ali me eram desconhecidos: irmão Misael médico,
irmão Zeus - médico, irmão Aloísio, irmão Amintas,
doutora Kelly e Hápila. Cumprimentei-os, meio sem graça. O
doutor Zeus falou:
- Muito prazer, Luiz Sérgio, esperamos que todos possamos
cooperar com o Cristo.
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Notei que eram espíritos muito bonitos, de soberba linhagem.
- Sérgio, temos a certeza de que o trabalho de vocês será
benéfico para o Departamento da Reencarnação, falou-me frei
Luiz. Assim espero, amigo.
Fomos saindo e não é preciso contar a vocês que o papai
aqui, sem Enoque, Sadu e os outros, fica que nem peixe fora
d'água. Mas, que fazer? O jeito é ir levando. O médico Misael
instruiu o grupo:
- Primeiro, vamos conversar com Rafaela, conhecê-la.
Já tentou duas vezes mergulhar na carne e não a deixaram. Neste
instante, ela se prepara para voltar mais uma vez, depois do
tratamento a que se submeteu após ter sido abortada.
Chegamos à Colônia dos Rejeitados que, apesar de bela,
possui uma aura triste. Olhei ao meu redor e senti certa melancolia
até nas flores, apesar de as fontes de águas cristalinas emitirem
suave fragrânela de jasmim.
- Que lugar tristonho! As árvores parecem soluçar, observou
Hápila.
- É mesmo, amigo.
Ali estava, à minha frente, um departamento da Colônia,
ou melhor, o grande hospital. Fomos entrando. Paramos. Inúmeros
espíritos avistamos, metade homem, metade criança; homem
com fisionomia de bebê e bebê com fisionomia de homem.
Diante daquela cena insólita, nunca por mim divisada, indaguei,
perplexo:
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- O que é isso, irmão Misael?!... ! !;
- São os abortados.
"Quê?
- Sim, Luiz Sérgio, estão aqui em tratamento até
retornarem à carne.
- Irão assim, deformados? , (
- Não. Só depois de curados. Ficaram assim pelo choque;
mesmo socorridos, a casa mental foi atingida.
Na enfermaria três - Enfermaria de Jesus, vários espíritos
recebiam da irmã Paulina uma aula de amor. Ela os tratava
como crianças, cantava e orava, enquanto eles brincavam como
se realmente o fossem. Ali da porta, ficamos a observar.
- Até quando ficarão assim? perguntou Hápila.
- A volta ao normal é um trabalho demorado, o abortado
se sente extremamente infeliz.
Seguíamos devagar, quando nos defrontamos com Rafaela,
uma bela mocinha, acompanhada de uma irmã, chamada Maria,
que fez a nossa apresentação:
- Rafaela, estes são nossos amigos, estão aqui em estudo.
Sorriu com carinho. Meu coração recebeu seu sorriso com
ternura e também lhe sorri. A irmã elucidou:
- Rafaela inicia amanhã o regresso à carne. Sendo um
trabalho de risco, ela parte para outro departamento e hoje estamos
nos despedindo.
- Que bom, você vai reencarnar. Gosta de seus pais? indaguei-lhe.
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- Nem sei se vou conseguir reencarnar, minha mãe não
me aceita, já me abortou...
- Já? admirou-se Amintas
- Sim, e temo passar outra vez por semelhante situação.
- Não, isso não vai ocorrer. Se Deus quiser, você será
recebida com amor.
- Deus o ouça. Às vezes sinto-me tão cansada...
Ali ficamos conversando, enquanto os médicos da equipe
visitavam outros departamentos. Percebemos o quanto aquela
criança precisava reencarnar. Amintas, comovendo-se, disse-lhe:
- Rafaela, desejo a você muita luz.
- Obrigada, irmão.
Despedimo-nos. Aloísio nos convidou a observar outros
lugares. Notamos que os cuidados eram imensos para com aqueles
desprezados. Quando nos dirigimos a um desses locais, encontramos
irmã Severina.
- Cuidado, não se aproximem muito de Paulinho, ele está
furioso - alertou-nos.
- Quem é Paulinho? perguntei.
- É um espírito que já foi rejeitado oito vezes, respondeu-me
Aloísio.
- Oito vezes? E por que ainda tenta?
- Por ser necessário. A mãe de Paulinho deve-lhe essa
oportunidade. Desta vez será a última. Se ela o rejeitar, ele renascerá
no útero de uma santa mulher que, mesmo não tendo
ligação com ele, irá recebê-lo. Ele será como um adotado.
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- Adotado? Explique-me.
- Sim. Existem mulheres que, quando consultadas pelo
departamento reencarnatório, aceitam ser mães de um rejeitado
e engravidam. Quantas vezes indagamos como um certo casal
pode possuir um filho tão diferente dele!
- Obrigado, irmão, tomaremos cuidado. Até já.
Aproximamo-nos de Paulinho e vimos que se encontrava
como se enjaulado. Seu quarto era amplo, nove por nove, talvez,
mas dentro dele havia outro, com grades magnéticas. Ele
chorava e gritava: "assassina, assassina! Eu te mato! Mãe dos infernos!"
Recitei uma oração que fiz para minha mãe. As palavras
foram ditas com tanto fervor, que ele se foi acalmando.
- Que fé, hem, Luiz Sérgio? Parece-me que vai dormir,
disse Hápila.
- Graças a Deus, falei. "''!*-*> <
O quarto possuía somente uma cama. A parede sonora lhe
ofertava a companhia dos grandes mestres da música clássica.
Hápila falou-me com ternura:
- Irmão, repita a sua prece. Achei-a linda.
Cerrei meus olhos e orei:
- Bendito és, meu Pai, por me teres ofertado uma mãe,
mulher que deixou desabrochar em seu ventre o meu espírito e
me amparou em criança. Foi o guia dos meus dias, o anjo das
minhas noites, a mãe das horas difíceis, a amiga dos momentos
alegres, conciliadora nas minhas contendas, baluarte do meu
caráter. Mãe, pronuncio o teu nome, bem baixinho para os outros,
mas para o meu coração uma sinfonia de amor. És também
bendita, toda minha. Só tu, mãe, me conheces como sou e me
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amas mesmo assim. Flor do meu caminho, alicerce do meu lar,
brisa da minha vida. Mãe querida, que Deus te abençoe, és meu
anjo protetor.
Minha oração adormeceu Paulinho, o que nos permitiu analisálo.
Pareceu-me doente, muito doente. Jamais supus a existência de
tantas enfermidades nos rejeitados. Paulinho era uma das vítimas
do aborto. Como é possível o profissional que recebeu um diploma
para salvar vidas ser um exterminador? Aquele garoto trazia no corpo
as marcas das torturas físicas e na mente a chaga da rejeição.
Dava-nos vontade de agasalhá-lo em nossos braços, ao vê-lo deitado,
na posição fetal. Paulinho sofria terrivelmente pelos pavorosos
abortos praticados contra ele. Em sua casa mental pudemos reencontrar
todos os aparelhos possíveis, usados nas clínicas da dor.
Ficamos, por bom tempo, orando por ele. Depois, voltamos
ao grande jardim florido da Colônia. Eles precisam muito
daquele belo lugar, ninguém mais do que eles carecem de Jesus.
Os médicos juntaram-se a nós.
- Ficaremos no "chalé amor-perfeito", comunicou-nos a
doutora Kelly.
- Não vamos agora ao plano físico salvar as crianças?
perguntei.
- Ainda não. Conheceremos antes cada caso, para tentar
ajudá-los.
- Desculpe, irmã, mas os Raiozinhos não podem trabalhar
com a gente?
- Não, Luiz, no momento eles tentam salvar também outras
crianças de Jesus.
- Espero que você goste de nós, falou Zeus.
- Desculpe-me, sou meio "lelé da cuca".
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- Conhecemos você muito bem e sabemos que o irmão é
possuidor de um imenso coração, que também nos abrigará.
- É isso, amigos, eu amo vocês.
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Capítulo II
O DIREITO À VIDA
Passeava meus olhos por toda a Colônia, enquanto pensava:
"meu Deus, como é possível entender que uma mulher seja
capaz de assassinar o próprio filho?" Nisso, fui chamado pela
minha nova equipe de trabalho:
- Luiz Sérgio, vamos prosseguir com a visita aos doentes.
Assim o fizemos e chegamos a uma enfermaria. Os bebês
eram metade bebê, metade adulto, como me referi antes. Uns
urravam, outros choravam, e ainda outros proferiam palavrões;
todos muito revoltados. O encarregado daquela enfermaria permitiu
que somente os médicos entrassem e estes, quando o fizeram,
foram cercados pelas vítimas do aborto. A doutora Kelly indagou:
- Quando eles voltarão à carne?
- Não sabemos. Antes terão de sofrer algumas cirurgias
perispirituais e receber tratamento psicológico. Se os irmãos desejarem,
podem assistir à luta dos psicólogos espirituais para
tratar essas mentes, pois muitos deles relutam em sarar.
Zeus aproximou-se de Mário e lhe perguntou:
- Que deseja o irmãozinho?
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- Quero mamãe, quero papai - respondeu, com voz infantil.
Zeus alisou sua cabecinha, dizendo, carinhosamente:
- Recorde, Mário, que Deus, nosso verdadeiro Pai, jamais
nos abandonou. Procure tomar-se filho dele e jamais será
abandonado.
Mário começou a babar, com a mão dentro da boca. Jogou-se
ao chão, retorcendo-se e gritando: "mamãe, papai, mamãe,
papai..." Da porta, eu e os outros companheiros observávamos
a triste cena. Eu fazia força para parecer durão, mas o
meu espírito chorava de tristeza por verificar que, enquanto as
clínicas abortivas se alastram no Brasil e no mundo, o plano
espiritual colhe os lírios e os cura das violências de que são
vítimas no plano físico. Ninguém pode imaginar o trabalho da
espiritualidade nas colônias que funcionam como verdadeiras
clínicas de recuperação. E tudo isso porque o homem e a mulher
julgam-se no direito de matar.
Observávamos o martírio dos rejeitados, quando vimos Solange,
uma garotinha, ou melhor, um bebê, toda deformada, que
gemia baixinho. A médica de serviço, chegando bem perto, envolveu-a
com a luz azul, enquanto ela, suplicante, olhava para todos.
- Hoje vamos submetê-la a mais uma cirurgia. Logo estará
curada - falou a doutora para Solange.
O nenê nada disse, mas seu olhar queria indagar: "para
quê? Para voltar ao plano físico e ser novamente violentada através
do aborto?" A médica pareceu compreender Solange.
- Se agora tiver de voltar, será através de uma mulher
que mesmo não tendo ligação espiritual com você, irá recebê-la
como filhinha querida. Existem, Solange, criaturas boas e mulheres
divinas; não tema os encarnados. Existem criaturas maravilhosas,
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que tudo fazem pelos outros. Poucos são os maus.
Solange submetera-se a longo tratamento perispiritual. Fora
sugada pelo aborto, retirada do útero materno aos pedaços e já sofrera,
até aquele momento, oito operações, porém recusava-se a
apagar de sua casa mental os minutos cruéis do seu assassinato.
- Que mãe, hem?
- Vamos assistir ao filme de Solange, Luiz Sérgio.
Acionado, o projetor nos ofereceu a imagem de um casal
em sua vida social: barzinhos, festas, cinemas, teatros, enfim,
"aproveitando a vida", até que surgiu uma gravidez inesperada.
E justamente quando planejavam uma viagem para a Europa. O
que fazer com a criança? Não pensaram duas vezes: abortar.
Assim, a mãe de Solange deu entrada numa clínica de aborto,
pagando alta quantia para se livrar dela. Nem achou caro. Não
sabia ela o quanto este dinheiro iria render-lhe de débito. Quantas
lágrimas teria de verter para pagar este hediondo crime! Queira
Deus que Solange um dia cruze o seu caminho e possa perdoarlhe.
Jamais supusera existissem casais que por um nada matassem
seu próprio filho. Acompanhamos, em seguida, o suplício
de Solange, recebendo as pancadas de um médico aborteiro.
Ninguém pode imaginar esse horror. Só não sofre mais o espírito
do abortado, porque Maria de Nazaré e Sua falange de abnegados
espíritos divinos fazem guarda nessas clínicas, para socorrer
essas vítimas indefesas. No momento em que o espírito
está lutando para permanecer no útero, a equipe de Maria tenta
retirá-lo, antes do crime, mas muitos deles reagem, por julgar
que a mãe ainda vai desistir do seu intento.
Fiquei louco de dó. Solange acreditava que a mãe fosse
salvá-la. Corria do aparelho, apavorada, rejeitando o socorro da
equipe de Maria.
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Enquanto o homem mata, Deus cria e perdoa os que não
respeitam a vida, mas ai daqueles que brincam com as obras de
Deus. A maternidade bendita é luz a clarear a Terra.
Solange foi esquartejada e jogada em uma lata de lixo.
Seu perispírito, todavia, foi socorrido pelos médicos divinos.
Ninguém conseguia apagar da mente de Solange a violência
sofrida.
- E ainda vão mandá-la de volta a tão sangrento casal?
perguntei ao meu colega.
- Não. Solange sofreu muito e agora entrará em uma outra
família. Será adotada no plano espiritual.
- Quê? Explique para mim, não estou compreendendo.
- Mas é fácil compreender: há muito esta criança espera
a boa vontade dos pais, e eles sempre relutando em recebê-la.
As voltas dolorosas maltrataram Solange demais. Será selecionado
um lar, mesmo sem que ela tenha qualquer vínculo com o
casal escolhido, ou seja, dívidas pretéritas. Queira Deus ela ame
como merecem aqueles que, por bondade, irão abrigá-la. O casal
em questão não tem filhos e há muito deixou de se preocupar
com essa possibilidade; agora vai receber Solange, uma criança
marcada pela ignorânciado homem, mas rediviva pela bondade
de Deus. Sabemos que os espíritos, unidos pelos sentimentos,
formam no espaço grupos e famílias. Solange não pertence ao
grupamento espiritual da família que irá abrigá-la. Os que seriam
seus pais longe se encontram de Deus. Sabe que Solange foi
mãe do homem que hoje pagou para matá-la? Veja o que faz a
matéria, entorpece os sentimentos, e se o homem não se espiritualizar,
cada vez mais se distanelará de Deus.
- O que pode acontecer aos pais que a renegaram?
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- Não sabemos. Mas um dia chorarão de remorsos.
Outro caso lamentável foi o de Fernando. Da cintura para
baixo possuía a forma de um bebê e da cintura para cima o formato
de um homem. Seu olhar cintilava de ódio. O médico lhe
perguntou:
- Você é o Fernando? ele assentiu, com leve movimento
de cabeça. - Deseja conversar hoje?
- Não, nada quero, somente morrer de vez.
- Sabe que isso é impossível. E depois, o plano de Deus
espera por você. Terá de voltar à terra e prosseguir viagem.
- Vocês são loucos e sanguinários. Vejam o meu estado!
Obedecendo à Espiritualidade Maior, freqüentei todos os cursos
para o mergulho em novo corpo e hoje, o que restou de mim?
Uma deformação odiosa, pela rejeição de alguém que prometeu
acolher-me em seu ventre. Tudo mentira! Nada quero, não acredito
em mais nada. O mundo é feito de ódio.
- Fernando, por favor, vamos buscar sua antiga forma,
ela está na sua mente, vamos correr para os braços de Jesus e
verá que é capaz de fazê-lo. Nada pode tolher seus movimentos,
eles lhe pertencem, portanto, a saúde está em você, busque-a
agora, queira-a, meu irmão!
Fernando gritava:
não posso, não vê que tenho um aleijão? Sou homem e bebê.Não, você não
é um bebê. Você é que insiste em recordar
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tão triste fato. Esqueça-o, irmão querido, e busque em sua
alma a forma verdadeira do seu corpo de homem. Agora vamos
imaginar cada órgão seu e verá surgir o verdadeiro Fernando.
- Não posso, eles me matam! A mesa... os aparelhos... as
seringas... a dor, a dor, a dor queima, queima, queima!... Não,
não me mate, mãe! Nada lhe fiz de mal, peço-lhe somente: deixe-me nascer!
- Fernando, o seu corpo, o seu corpo, Fernando! Moldeo
novamente! Molde-o novamente como você era antes!
- Não posso! O líquido me queima, estou sendo assassinado
friamente! O que fiz pra vocês, assassinos? Reduzem-me
a feto e, agora, covardemente, abusam da minha pequenez e me
matam! Por favor, deixe-me nascer, não os perturbarei jamais.
Abandonem-me depois para que outros me criem, mas não me
matem, covardes. Eu não tenho armas para me defender. Um
dia terão de pagar por isso e o meu ódio será eterno. Como posso
chamá-la de mãe, quando assassina um filho inocente e indefeso?
Nem o animal pratica tão cruel assassinato. Bandidos,
bandidos cruéis!
Dizendo isto, desmaiou.
; - Luiz Sérgio, todos os dias tentamos trazer Fernando de
novo à realidade, mas ele não esquece o aborto covarde que
sofreu.
Fernando foi retirado dali, mas os seus gritos ainda ressoam
em meu espírito: "como vocês são cruéis, eu não posso me
defender, sou tão pequeno!... Vejam, o que lhes posso fazer de
mal? Apenas deixem-me nascer, não me matem, covardes."
- Meu Deus, que desespero!
- Tem razão, Luiz, esta Colônia é regada pelas lágrimas.
26
Ao virar-me para ver quem me falava, vi irmã Rosália, a
querida irmã das flores, o rouxinol de Deus. Encostei a cabeça
em seu ombro e chorei como uma criança. Ela me consolou, carinhosamente:
- Querido Sérgio, fique calmo, o trabalho vai exigir-lhe
muito equilíbrio, não se esqueça de que, enquanto o homem
despreza, a Espiritualidade Maior socorre e ampara. Todos recebem
de Maria e de Jesus as bênçãos da eternidade.
- Irmã, será que o homem nunca se conscientizará de que
o seu corpo é frágil e um dia terá de guardá-lo numa vala de
terra para que os vermes se alimentem dele? Será que a mulher
não aprende com Maria a amar o seu filho como uma obra das
suas entranhas? Até quando a mulher que aborta vai ser um objeto
sem coração?
- Meu filho, não julgue. Elas são tão infelizes! O ser que
não respeita não é respeitado. Nada é mais triste que isso.
Os médicos ainda permaneceram ali, mas nós seguimos
irmã Rosália até o refeitório, onde outros rejeitados se encontravam.
Irmã Rosália foi cantando:
- Mãe, deixa-me nascer, , •
Preciso muito de ti
Eu quero descer
À terra e crescer.
Deixa-me, mãe, ,., > >
Não me mates, não.
Se tu podes viver,
Por que me matar?
Não me mates, não.
27
O refeitório estava repleto. Aquelas crianças deformadas
pareciam filhos de uma guerra.
- Por que ainda estão assim?
- Cada um guarda na lembrança o cruel momento do aborto.
E ainda por muito tempo eles irão sofrer o trauma dolorido
da maldade humana. Luiz Sérgio, hoje, no mundo inteiro, o aborto
é praticado. São milhões de almas que voltam para o plano
espiritual em estado desesperador. Fala-se muito em direitos
humanos, mas ninguém levanta a voz para defender a vida de
um feto. Eles são ainda tratados, por alguns homens, como uma
bola sem vida, desconhecendo que no zigoto já existe vida. Enquanto
na Terra existir uma clínica de aborto, nela existirão lágrimas
e desespero. O homem que defender esse covarde crime
sentirá o ranger dos dentes. Ninguém, nenhum ser encarnado
possui o corpo físico imortal, e queira Deus não estejam ao lado
do túmulo os espinhos plantados pelo seu coração repleto de
egoísmo, no dia em que depositar esse corpo na sepultura. Ninguém
tem o direito de infringir as leis da Natureza e nesta Colônia
defrontamos com milhares de espíritos que não puderam reencarnar,
porque a ganância de alguns profissionais e o egoísmo
de algumas mulheres não o permitiram.
Fitando aqueles espíritos, agradecemos a Deus pelo Seu
amor e perdão. Prometemos a Ele lutar pelo direito da vida, pelo
direito da mulher com Deus e orar por todos os que, fria e covardemente,
assassinam seus próprios filhos.
28
Capítulo III
MARINA CONSTRÓI o SEU UMBRAL
Os rejeitados olhavam para irmã Rosália com muito amor,
pois eram tratados com carinho e respeito. Terminada a refeição,
ela e mais duas irmãs saíram para o jardim, onde inúmeras
brincadeiras levavam aqueles espíritos a esquecer, por breves
momentos, o ódio de algumas pessoas por eles. Aproximei-me
de Aquiles, um garoto com aparência de oito anos, olhar tristonho,
mas muito bonito.
- Gosta de brincar de pique-esconde?
- Sim, gosto muito, mas gosto mais é de ouvir histórias
da tia Rosália. Quer ouvir uma que julgo seja da minha própria
vida?
- É mesmo? E você pode contar-me?
Sorriu, iniciando a narração:
- Vivia um casal de meia-idade em um palacete muito
belo na capital paulista. Eles não tiveram filhos, mas apegaram-se
à filha da empregada, que cresceu cercada de todo conforto e
amor. O casal adorava Marina e ela, já moça, "aproveitava a
vida". Preocupados, davam-lhe muitos conselhos que, geralmente,
não eram obedecidos. Pouco parava em casa. Era modelo
fotográfico. com o passar dos meses, tomou-se famosa, escolhida
como capa de quase todas as revistas brasileiras. Um dia
29
Marina foi levada, através do sono, até o Departamento da Reencarnação,
pois relutava em aceitar um espírito muito devedor
que precisava reencarnar. Implorou, chegou até a chorar, justificando
que não podia ter filhos. O Departamento concedeu-lhe
um prazo, salientando que por nada retardaria mais a volta do
irmão à carne. Marina prometeu que, tão logo estivesse em condições
de ser mãe, tudo faria para conceber o filho. Foi mostrado
que esse filho era um irmão do passado que ela, Marina,
lesara, tanto na herança quanto no carinho. Ela precisava receber
o irmão, para que o planejamento espiritual fosse cumprido.
Marina sentia pavor de engravidar. Os filhos, no seu entender,
só serviam para atrapalhar e ela não tinha tempo, o sucesso era a
sua meta. Os pais adotivos a adoravam e almejavam um neto. O
tempo foi passando. Sua mãe verdadeira desencarnou, deixando
Marina só com os velhos pais adotivos. Seguiram-se viagens
e compromissos. Um dia, a "sineta do amor"(1) ressoou no Departamento
da Reencarnação e Marina se viu grávida. Horror,
desespero, lágrimas. Os pais prometeram ajudá-la; ficariam com
a criança. Mas, e o seu corpo escultural? O que seria dela, gorda
e preocupada com um filho? Se a vaidade gritava "mata", o coração
de mulher dizia baixinho "eu preciso ter um filho".
- Aquela tarde de setembro - continuou Aquiles - encontrou
Marina sentada na sala de espera, aguardando o momento
de se livrar do feto. Já o sentia crescendo no seu ventre
de mulher. Não queria pensar, nem havia contado sobre a gravidez
para o homem com o qual vivia um louco e atormentado
amor. Celso lhe cobrava uma dedicação absoluta, morria de ciúmes
dela, era apaixonadíssimo e desejava casar-se o mais depressa
Para melhor compreensão desta passagem, consultar o livro Lírios
Colhidos,
12° volume da Série Luiz Sérgio, Capítulo IV - Gravidez.
30
possível. Se ele tomasse ciência da gravidez, obrigá-la-ia a ter o
filho. Marina meditava. Enquanto se encontrava pensativa, os
socorristas daquela clínica abortiva tudo faziam para que ela desistisse
do crime. Os seus pensamentos estavam embaralhados. De
repente, surgia uma criança linda, pedindo-lhe: "deixe-me viver!
Não me mate!" Mas, se os socorristas lhe chamavam pelo coração,
outros espíritos lhe aguçavam a vaidade. Era a luta entre o bem e o
mal. Na hora em que Marina deu entrada na sala médica, o olhar
dos socorristas foi de desespero. Mais um crime seria ali praticado,
num matadouro de homens. O médico, Roberto, usando dos mais
sofisticados métodos, em alguns minutos destruiu o trabalho de anos
da espiritualidade. No momento da sucção, Marina sentiu seu coração
doer. Era o filho que se desligava do seu corpo. Olhou os pedaços
de carne atirados no lixo e pensou: "ainda bem que não tem
vida". Ela, porém, não assistiu, do lado espiritual, a uma equipe
médica entrar em ação e tentar, desesperadamente, impedir que o
feto sofresse demais. Contudo, mesmo recebendo boa assistência
do departamento encarnatório, o espírito não conseguia livrar-se da
dor da rejeição e se contraiu de tal maneira, que o seu perispírito
sofreu uma sobrecarga energética e continuou criança. Uns conseguem
crescer aqui na Colônia, outros se vêem ora criança, ora adulto.
Não é raro voltarem totalmente alucinados pela forma violenta
do aborto. Esses são confiados a excelentes psicanalistas ou psiquiatras,
tal o trauma que sofrem. Marina jogou o corpo do filho numa
lata de lixo, corpo este que ela, com seu parceiro, compuseram num
ato de amor. Marina deixou, naquela clínica, um pedaço do seu
corpo e levou consigo um débito enorme. O grupo de socorristas
sentia-se desolado; por mais que prestasse auxílio à criança, ela,
bastante perturbada, retorela-se nos braços dos enfermeiros e
gritava sem parar.
31
'- Quando Marina chegou à sua casa, foi repousar; sentia-se
vazia e triste. Algo acontecera com ela. Mas isso durou
pouco tempo, pois estava novamente aproveitando a vida. Os
pais adotivos viveram pouco mais, vindo a falecer. Ela ficou
milionária, e aí, viajando muito, largou o homem que dizia amar,
iniciando outro romance, agora com um político. Pobre Marina,
outra vez chamada ao compromisso, aceitou sem vacilar; era
fácil livrar-se de uma gravidez, porquanto existem clínicas com
excelente aparelhagem, completo tratamento e ela bem as conhecia.
Volta o Departamento trazendo a mesma criança, só que
agora, se ela nascesse, iria dar um pouco mais de trabalho. O
perispírito havia sofrido com o último aborto e o espírito ainda
estava perturbado. Quando Marina soube da gravidez, nem se
preocupou. Marcou uma hora e lá, mais uma vez, extraiu o feto,
não sabendo ela que nesse segundo aborto o filho designado
para ela sofreu ainda mais. Foi dramático. Não só ele sofreu,
como também Marina, porque perdeu muito sangue, sentindo-se
muito mal. Mas, outra vez olhou o depósito de lixo e pensou:
"nem estava formado ainda". Se ela fosse espiritualizada, teria
visto a expressão de horror e muitas lágrimas naqueles pequenos
olhos. Marina logo estava recuperada e voltou a aproveitar
a vida. Os parceiros eram trocados conforme o momento vivido.
Agora se dizia apaixonada por um jovem, cerca de cinco
anos mais novo, que sonhava ser pai. Marina não engravidava.
Passou por vários tratamentos, até que um dia anunciou ao homem
amado a gravidez. Quanta felicidade! A espera não foi fácil,
sofreu, mas com um repouso absoluto até o parto, a criança
nasceu. Só que ao sofrer tanta violência, aquele espírito voltou à
terra com algumas deficiências. Marina não se conformava, e os
amigos diziam: "coitada!", não sabendo que foi Marina a culpada
32
daquelas lesões no filho. O marido queria um filho perfeito;
ao sabê-lo deficiente, não o aceitou e Marina se viu sozinha.
Revoltada, criava o filho, ou melhor, sustentava-o materialmente,
pois era criado por Elza, uma velha babá. Ela continuava na
mesma rotina e nunca mais foi mãe. Às vezes olhava o filho
doente e uma lágrima molhava o seu rosto. Remorso? Não sei.
Acho mesmo que de revolta. A rica, cobiçada e linda mulher
tinha um filho doente. Era demais para ela. Nunca Marina perdoou
a Deus, a injustiça de Deus, como ela sempre dizia.
- E o garoto, o que foi feito dele? perguntei a Aquiles.
- Para felicidade de Marina, desencarnou com doze anos.
Teve uma parada cardíaca. Os remédios que tomava eram tão
fortes que o coração não agüentou. Mas quando isso aconteceu,
o menino já tinha estudado e aprendido muito no corpo físico.
- Para que hospital ele foi quando desencarnou?
- Veio para cá. Não se esqueça de que é um rejeitado.
- E Marina? O que foi feito dela?
- Desencarnou. Um dos seus amores, com imenso ciúme,
lhe tirou a oportunidade de pagar os seus débitos na carne.
Hoje sofre nos umbrais, grita por clemênela, mas ninguém pode
aproximar-se dela. Plantou a dor e está colhendo o desespero.
- E por que você não vai até lá buscá-la?
- Simplesmente porque até ontem eu era um doente. Somente
hoje, depois de muito tratamento, vejo-me quase refeito
da violênciaterráquea. Vou pedir permissão para ajudar minha
mãe e queira Deus ela agora me aceite - falou, com os olhos
rasos de lágrimas.
Não só ele chorava, eu chorava muito mais e pensei: "como
é triste desejar aproveitar a vida, esquecendo-se de respeitar as
33
outras vidas!" Que Deus perdoe aqueles que matam os sonhos
alheios.
Abri as Escrituras: Sabedoria, Capítulo VII, versículos 1 a 6:
Salomão era apenas um homem.
Também eu sou um homem mortal, igual a todos, filho
do primeiro que a terra modelou, feito de carne, no
seio de uma mãe, onde, por dez meses (lunares), no sangue
me solidifiquei, de viril semente e do prazer, companheiro
do sono. Ao nascer, também eu respirei o ar comum.
E, ao cair na terra que a todos recebe igualmente,
estreei minha voz chorando, igual a todos. Criaram-me
com mimo, entre cueiros. Nenhum rei começou de outra
maneira. Idêntica é a entrada de todos na vida, e a saída.
34
Capítulo IV
YURA^- SEQÜELAS DA INSENSATEZ
A medida que me inteirava das histórias daqueles espíritos,
mais me comovia. Como pode o homem ignorar o mundo
espiritual, se aqui e ali um adoece, outro desencarna? Mesmo
assim, a Humanidade está cada vez mais materialista e é esse
materialismo que hoje faz aumentarem as clínicas do aborto.
Muitos fingem ignorá-las, mas elas funcionam e até em lugares
respeitados pela sociedade.
Aqui, na Colônia dos Rejeitados, estamos vivendo ao lado
das vítimas da liberdade sexual. Na nossa frente, os rejeitados,
os filhos assassinados por mulheres que não aprenderam a respeitar
a si mesmas.
A enfermeira Loreta, indicando uma garota de dois anos,
Yura, que cantava junto à irmã Rosália, disse-me:
- Veja, Sérgio, aquela menina: no momento do desencarne,
ou melhor, na hora do aborto, plasmou esse corpo de uma
criança de dois anos e aqui se encontra há quatro anos. Por mais
que receba tratamento, teima em não crescer e encarnar de novo.
Vamos até lá, quero que a conheça.
Ao nos aproximarmos, ela buscou o colo da irmã Rosália,
encolhendo-se toda, trêmula de medo e choramingando, assustada.
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- Não fique assim, querida, o titio já vai embora, disse-lhe eu.
Alisei seu cabelo e me retirei. Loreta me acompanhou, pedindo
desculpas.
- Sabe, Sérgio, vou-lhe contar a vida e a luta de Yura para
nascer. Dizem que é da sua última encarnação o nome que hoje
usa. Foi mulher lindíssima quando viveu no plano físico. Desencarnou,
mas precisou retornar ao seio da sua antiga família.
Aí, iniciou-se a sua tortura. Após longo aprendizado, chegou o
momento da volta à carne e com apenas dois meses de vida
uterina recebeu violenta carga negativa de repulsa e ódio. Por
mais que implorasse que a deixassem viver, sentiu a violência
do homem encarnado, infligindo-lhe um dos mais cruéis métodos
abortivos: aquele no qual sentiu sobre a sua frágil pele a
queimação. Desesperada, viu-se tragada por uma água fervente
e, para não sofrer demais, plasmou em sua mente que era uma
linda menina de dois anos de idade. O corpo foi jogado fora,
mas sua alma foi amparada pela mão sublime de Maria de Nazaré.
Outras tentativas reencarnatórias se fizeram e o mesmo fato ocorreu.
Abrigada por espíritos abnegados, Yura reluta em voltar à
carne e até hoje não se reequilibrou.
- Meu Deus, julgava eu que a droga fosse a pior coisa do
mundo, a assassina cruel dos sonhos e da dignidade humana,
mas diante de tantas clínicas abortivas, cheguei à conclusão de
que o aborto, diante da droga, é um mal assustador. Ninguém
pode imaginar quantos fetos são assassinados diariamente por
profissionais inescrupulosos, vidas interrompidas por pessoas
gananciosas. Assim como Yura, vários e vários espíritos estão
sendo arrancados do útero materno com selvageria e nada se
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diz, nada se faz; quando se faz é para pedir a liberação desse ato
covarde em nossa Pátria. O aborto não só interfere no plano
divino como também faz muito mal à mulher e muitas delas já
bem cedo sofrem as suas conseqüências. Hoje estamos vendo
até adolescentes praticando esse ato tão cruel e desumano: o
aborto.
- Você tem razão, Luiz Sérgio, a mulher que interrompe
covardemente uma gravidez um dia sofrerá não só com os remorsos,
como também por ter violentado o próprio corpo.
Sem deixar de fitar Yura, agradeci a Deus por todas as grandes
almas que cooperam com o seu próximo. Orei também por
todos aqueles que egoisticamente só pensam em si mesmos.
Encontrava-me cansado. Fui saindo, contando os meus
passos. Meu coração chorava baixinho em imaginar o compromisso
de um aborteiro, o seu desespero ao transpor a porta da
espiritualidade, quando o dinheiro ganho facilmente não lhe servirá
para nada e a consciência culpada pelo remorso será um
fardo pesado de carregar. Querendo fugir dali, passei por Hápila
sem vê-lo. Era demais para mim conviver na espiritualidade com
as conseqüências daqueles erros humanos. Os aborteiros não
podem aquilatar quantos pais, mães, filhos e parentes queridos
desencarnados foram por eles impedidos de renascer, atrapalhando
assim todo o trabalho do Departamento da ReencarnaÇão.
- Luiz Sérgio!... - chamou-me Hápila.
- Sim, irmão. O que deseja?
- Apenas convidá-lo a descermos, hoje vanjos integrar,a
equipe das encarnações difíceis.
- Difíceis, amigo?
37
- Sim, dos prováveis rejeitados, pois comumente o abortado
é um espírito muito ligado à mãe ou ao pai que hoje o despreza.
O grupo nos espera no anfiteatro oito; dirijo-me para lá,
se o irmão desejar ficar aqui, lá o esperaremos.
Olhei o meu novo companheiro, analisando-o: alto, porte
atlético e muito educado. Sorri-lhe, agradecido, mas ainda fiquei
na pracinha algum tempo, onde as flores me sorriam, encorajando-me
a prosseguir na minha luta evolutiva junto a todos
os que sofrem. Quando cheguei, a turma orava para iniciar o
trabalho na crosta da Terra. Acomodei-me no final do anfiteatro
e me senti aliviado com as preces ali proferidas, como se uma
nova energia me banhasse o corpo e o espírito. O ambiente era
de uma paz tão grande, que pensei: "isto é um pedaço do Céu".
Muitos oravam sentidas preces, cada qual mais bela que a outra,
levando-nos às lágrimas. Era o departamento reencarnatório que
pedia a todas as mães encarnadas: "deixe-os viver!"
38
Capítulo V
NOVA INCURSÃO DE JONAS
Ao sairmos dali, caminhamos até a sala da doutora Ísis.
Ela nos recebeu muito sorridente.
- Luiz Sérgio, já conheceu a Colônia?
- Só alguns departamentos, que me deixaram bastante
triste. O encarnado nem imagina, ao praticar o aborto, o mal que
está fazendo, destruindo o trabalho de tantas pessoas em apenas
alguns momentos. E o pior: o aborto não só maltrata o feto,
como leva o seu espírito a um terrível desequilíbrio.
- Hoje, Luiz Sérgio, pratica-se o aborto com uma facilidade
enorme; mesmo no Brasil, onde é considerado crime, até
em hospitais ele é praticado sem piedade. Alguns ginecologistas
dizem que a paciente vai fazer uma cauterização e realizam o
aborto.
- Verdade, irmã?
- Luiz Sérgio, no Brasil são bem corriqueiros estes fatos.
- Irmã, por que matam tanto?
- Porque acham que os filhos dão trabalho e muitas mulheres
não possuem amor suficiente para a renúncia que a maternidade
exige. Trabalhando junto às crianças encarnadas, constato
o desleixo em que muitas são criadas. Inúmeras pessoas
39
julgam desnecessários certos cuidados com o bebê e este, muito
frágil, logo sofre as conseqüências da falta de higiene.
- Mas já ouvi dizer que o excesso de cuidados é prejudicial
a uma criança.
- O exagero, sim, mas uma criança necessita de ambiente
limpo, roupas confortáveis e mãe amorosa. Os sacrifícios
despendidos nos primeiros meses serão compensados pela saúde
futura do bebê. O leite materno ainda é o melhor alimento e
feliz da mãe que tudo faz para amamentar seu filho. Não sendo
isso possível, a alimentação artifielal tem de ser feita com todo
critério. Muitas mães, por comodismo, não esterilizam a mamadeira;
enquanto a criança precisar usá-la, deve ser esterilizada.
Gostaria que as mães compreendessem o quanto são benéficos
para seu filho certos pequenos cuidados.
- Dizem que é prejudicial muito cuidado com a criança.
Por exemplo, se cair a chupeta ao chão, não procurar lavá-la,
porque a criança precisa imunizar-se. E verdade?
- Muitas pessoas, sem conhecimento de higiene, também
não lavam o que cai no chão. A defesa imunológica é adquirida
através do fortalecimento da própria criança. Sujeira não é defesa,
ao contrário, é a inimiga número um da criança. Hoje, Sérgio,
defrontamo-nos com muitas crianças das classes baixa,
média e alta, enfim, de todas as classes, carentes de amor e cuidados,
criança que o odor forte a acompanha, por falta de asseio.
A criança que regurgita demais, isto é, vomita muito, deve
ser limpa a cada vômito. A mãe cuidadosa lava o rosto e o pescoço
a cada regurgito do seu bebê. Precisamos cuidar bem de
um bebê, do contrário ele carregará pela vida afora doenças causadas
pelo desleixo. Está vendo, Luiz Sérgio, por que muitas
mulheres preferem matar do que criar? Um bebê não dá trabalho
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quando é tratado com amor, e gostaríamos que todas as mulheres
despertassem para a maternidade, tudo fazendo para alimentar
a sua criança, tomando suas vidas um cântico de esperança.
- Existe criança que sofre, não é mesmo?
- E como, Luiz Sérgio! Infelizmente, poucos renunelam
em prol de um bebê. A criança, para muitos casais, é um fardo
difícil de carregar. Feliz do ser que recebe de Deus um espírito
para cuidar e consegue cumprir satisfatoriamente sua tarefa. Os
minutos, as horas dedicados a um bebê serão benéficos para o
seu equilíbrio. Os dois primeiros anos de um reencarnante são
importantíssimos.
- Irmã, gostaria que a senhora escrevesse um livro. Já
tenho até o título: "Como cuidar do seu bebê".
Ela sorriu, dizendo:
- Vou pensar. Mas, Luiz Sérgio, deixemos este assunto
para mais tarde e vamos juntar-nos ao grupo. Neste momento
está sendo preparada a reencarnação de Jonas. Será de grande
proveito para todos nós.
Segui ao lado da doutora ísis, pediatra tão amada de todos
nós, que trabalha não só pelas crianças espirituais, como está
sempre ao lado das mães encarnadas ajudando-as a cuidar com
dignidade dos seus filhos. Ao chegarmos ao departamento, já se
encontravam lá os doutores Misael, Zeus e Kelly. Aguardamos a
chegada de Amintas, Hápila e Fabiana. Todos reunidos, o doutor
Zeus nos comunicou:
- Vocês acompanharão Jonas até o lar que precisa recebêlo;
eu e Misael aqui ficaremos torcendo pela vitória de todos,
ísis, a nossa irmã pediatra, junta-se ao grupo por conhecer muito
bem esse lado do mundo físico. Desejamos-lhes muita paz e
41
amor e que Deus guie todos vocês.
Como já conhecia ísis, procurei ficar ao seu lado. Hápila
logo também tomou-se um grande amigo meu.
Dali, fomos até a casa-lar, onde Jonas morava. Fomos recebidos
por Cipriano e Januário. Jonas demorou a aparecer na
sala e quando o fez me pareceu pálido e tristonho.
- Boa-tarde, amigos, sejam bem-vindos à minha casa.
Kelly falou:
- Jonas, hoje à noite precisamos estar junto aos seus futuros
pais para acertar a sua volta.
- Doutora Kelly, conhece a minha relutânela em retornar
ao físico, pois já sofri muito e gostaria de aqui ficar para sempre.
- Bem sabe que é impossível, mas esperamos que agora
tudo corra bem.
Endereçou-nos um olhar tão tristonho que eu fiquei morrendo
de pena. Abraçou Cipriano e Januário com um carinho
imenso. E, assim, daquela casa nos retiramos, levando Jonas
conosco. Chegamos ao plano físico. Chovia muito, na cidade
onde paramos, bastante encoberta pelo nevoeiro.
- Parece até o meu coração chorando, não de tristeza,
mas de saudade, disse Jonas. >; ;;
Acerquei-me dele e falei:
- Irmão, eu amo você, conte comigo.
- Obrigado, Luiz Sérgio. Não se preocupe comigo, sou
mesmo muito emotivo e sempre que venho morro de saudade da
Colônia.
Logo adentrávamos a casa de Rebeca, um luxuoso apartamento.
Jonas emocionou-se ao vê-la e seus olhos marejaram de
42
lágrimas. Rebeca foi ao telefone, falou, falou e depois desligou,
zangada. Enquanto estava ali sentada, Kelly colocou Jonas bem
perto dela e ele, com um olhar muito triste, a fitava com carinho.
Em seguida deitou no seu colo e ela sentiu algo estranho,
pensando: "não sei por que, só fico achando que engravidei.
Veja se pode! Fernando anda tão estranho comigo, e depois, quem
vai cuidar do bebê quando nascer? Deixa pra lá, nem quero mais
pensar". Jonas lhe acariciou o rosto; logo após, ela se levantou
para esperar Fernando, o namorado. Mal este chegou, formaram
uma briga feia de ciúme e nós nos retiramos, só voltando quando
já estavam mais calmos. Fernando foi para perto dela, mas
foi repelido. Ele franziu a testa e falou:
- Querida, vou-me embora, não estou bem.
- Não, não vai. Estou louca para ficar com você - disse,
mudando o comportamento.
E assim Rebeca foi acalmando Fernando. Nós nos retiramos,
respeitando a intimidade do casal. O apartamento, muito
bem decorado, era o lar de Rebeca. Há muito morava sozinha e
naquele momento os encarregados do reencarne esperavam a
hora de atuar. Jonas seria o filho de Fernando e Rebeca, e aguardava
o momento. Passei a notar que Jonas parecia diferente de
nós; agora andava e falava com dificuldade. Perguntei a Isis:
- Por que Jonas está tão estranho?
- Há um mês ele está em processo de ligação fluídica
direta com os pais. Gradativamente vem ele perdendo os pontos
de contato com o plano espiritual e os seus centros de força
mudando de rotação para que seu organismo perispiritual possa
ganhar plasticidade, necessária à vida como encarnado.
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- E o espírito sofre com esse processo?
- Ao ser escolhido para reencarnar, é necessário despojar-se
de certos elementos que foram incorporados ao seu perispírito
quando ele desencarnou e foi viver no mundo espiritual.
É uma nova vida que vai iniciar-se e para isso tem de estar preparado.
- Coitado do Jonas, quanto trabalho dá uma volta ao corpo
carnal!
Nisso, entraram no apartamento outros irmãos que compreendi
pertencerem ao Departamento da Reencarnação. Um
deles, Filogônio, disse a Jonas:
- Sente-se aqui.
Ele nos olhou com o mais tristonho olhar de despedida.
Sentado, Jonas orou e Filogônio, segurando sua cabeça, falou:
- Pense que você vai tomando a forma pré-infantil.
E aquele homem foi diminuindo diante de nós. Mas o olhar
continuava sendo o mesmo: de medo da despedida. Rodeado de
todos os técnicos, recebia deles uma energia azulada. A forma
perispiritual de Jonas foi gradativamente tomando-se pequena.
Aqueles espíritos eram coração e mente; a força que emitiam
dava a Jonas uma nova forma diminuta. Acerquei-me de Kelly e
perguntei num sussurro:
- Nem todas as reencarnações são idênticas, não é mesmo?
- Sim, às vezes o espírito tem o corpo perispiritual reduzido
em colônias espeelais. Cada caso é um caso.
Esperei o momento da ligação de Jonas. E, logo após, isso
aconteceu. Ele foi colocado no ventre perispiritual de Rebeca,
que recebeu uma luz radiante do Alto. Como os órgãos femininos
44
são abençoados por Deus! Naquele momento, capacitados
médicos espirituais colocaram um ser com o seu corpo reduzido
para que esse mesmo ser, junto com a valiosa máquina física da
mulher, pouco a pouco fosse confeccionando uma outra veste,
que permitiria ao espírito de Jonas viver no plano físico. O organismo
maternal é que fornecia o alimento para o novo corpo
de Jonas. Aquele corpo reduzido, mínimo mesmo, também atuaria,
ajudado pelo organismo materno, para confeccionar o seu
futuro corpo carnal. Rebeca carregava agora no seu ventre um
espírito que precisava do corpo materno para ressurgir revestido
de um corpo de carne.
O organismo feminino foi criado para procriar. Nele são
encontrados os elementos necessários ao retomo da vida espiritual
para a vida física. A mulher, como já disse em outro livro, é
considerada uma incubadora divina e deve ser respeitada por
todos os que defendem a Natureza. Sem a mulher-mãe o mundo
estaria no fim. ísis segurou-me o ombro e dali saímos.
- E Rebeca, como vai receber Jonas? indaguei.
- Esperamos que ela se conscientize da sua tarefa de mãe.
Os outros também saíram em busca de um local para descansar.
Logo estávamos em um Centro Espírita, sendo recebidos
por Laerte, que nos alojou. Eu não conseguia esquecer-me
de Jonas nem de Rebeca. Será que Fernando iria aceitar o filho?
Assim fiquei muitas horas pensando, até levantar-me e buscar
no Evangelho a luz para o meu espírito. Abri na Epístola aos
Hebreus, Cap. XIII, v. 18:
Orai por nós. Estamos persuadidos de que temos a
consciência em paz, pois estamos decididos a proceder
condignamente em todas as coisas.
45
Capítulo VI
UMA AULA DE PUERICULTURA
A equipe do reencarne abrigou-se em um Centro Espírita.
Naquela Casa, participamos de vários trabalhos. Poucos compreendem
o funcionamento espiritual de uma Casa Espírita, a
qual podemos chamar de hospital de Deus, tal a sua função. A
cada instante é trazido para o Centro um espírito recém-desencarnado
em perturbação, ou aqueles que muitas vezes relutam
em sair do plano físico. O mais comum, o que mais se vê,
são os recém-desencarnados, principalmente por acidentes. Os
freqüentadores das Casas Espíritas muitas vezes nem imaginam
o quanto são úteis ao plano espiritual, até mesmo nas reuniões
públicas. Existem nessas reuniões espíritos capacitados que fazem
a colheita dos fluidos necessários ao socorro dos doentes.
A parte espiritual não pára. O movimento é tão intenso que chega
a assustar, tantas são, hoje em dia, as mortes violentas.
- Por que, mesmo desencarnando em outro país, muitos
são socorridos no Brasil? indaguei à doutora Kelly.
- Lembre-se, Sérgio, de que o Brasil foi escolhido para
ser a Pátria do Evangelho e nela está a ponte que liga os dois
planos. Por isso, as Casas Espíritas precisam conscientizar-se
desse trabalho; uma mesa mediúnica presta auxílio tanto aos
médiuns quanto às equipes de socorro, não sendo necessário ao
47
espírito que se apresenta narrar o seu sofrimento; ele simplesmente
recebe do medianeiro as energias que lhe faltam. Esses
grupos são mínimos, mas de grande valia; neles são realizadas
muitas cirurgias perispirituais, verdadeiras cirurgias plásticas,
com o auxílio de modestos médiuns, que, conscientes do trabalho,
emprestam o seu corpo para outrem que se viu de repente
longe do corpo físico.
Naquela Casa, assistimos às atividades de um grupo de
cura perispiritual. Constatamos, com alegria, que o dirigente
encarnado, com seus fluidos puros, caráter reto, possuidor de
elevada moral, ajudava cada médium no momento que dele se
aproximava. Na sala, silêncio completo. Quando o dirigente
passava por trás do médium, ele o ligava com o desencarnado,
que projetava o pensamento no cérebro do médium. Nesta fusão,
os dois se tomavam um, benefielando o doente. As rodas
energéticas do médium davam ao paciente o calor que ele sentia
faltar. Mesmo sem se manifestar, o desencarnado benefielavase
com os fluidos do médium.
Nesse tipo de trabalho de socorro, o médium está muito
mais ligado ao espírito manifestante do que lhe emprestando as
cordas vocais. Naquele recinto, presentes vinte e cinco médiuns,
uns sessenta doentes desencarnados foram socorridos sem um
ruído sequer. Os trabalhadores anônimos tinham consciência do
valor da mediunidade com Jesus. Eles estavam praticando a
mediunidade humilde, mas gloriosa. O silêncio era sua prece,
demonstrando-nos que Deus não habita no tumulto.
- Um dia, em todos os Centros, encontraremos grupos
como este, de auxilio àqueles que estão partindo, às vezes de
maneira violenta, comentei com Hápila.
- Luiz Sérgio, você gosta de escrever sobre mediunidade,
não é mesmo? indagou Amintas.
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- Sim, procuro elucidar aqueles que muitas vezes se encontram
perdidos, achando que não são médiuns e que não servem
para coisa alguma. Procuro dizer a todos os que chegam a
uma Casa Espírita: a mediunidade é linda, mas o mais belo dom
é o dom de servir e todos nós podemos fazer algo pelo nosso
próximo. Feliz hoje em dia daquele que tem fé. Quem procura
uma Casa Espírita está buscando espiritualizar-se e queira Deus
seja bem orientado. Temo, irmão, pelas pessoas que sentem uma
vontade louca de incorporar espíritos; elas podem jogar a rede
da mediunidade e pescar tristeza e ridículo em vez de peixes.
Certas pessoas, abusando da boa-fé dos que as consultam, não
tem hesitado em profanar nomes respeitados e tomarem suspeitas
uma ciência e uma doutrina que vieram para salvar e regenerar
o homem. Mediunidades desequilibradas têm afastado muitas
pessoas do estudo sério do Espiritismo. Por isso, todos nós,
que assumimos uma obrigação com os livros espíritas, recebemos
a incumbênela de falar aos espíritas: "cuidado, não brinquem
com as dores alheias, querendo passar-se, a troco de pequenas
gentilezas, por quem precisa ser respeitado: o
desencarnado".
Amintas ainda me falou:
- Tem razão, existem muitos médiuns bons, ou melhor,
ótimos, mas o perigo é que mediunidade não é doutrina; todos
são médiuns, uns com maior poder energético que outros, e, em
vez de amar e se instruir, a maioria deseja apenas ser medianeira.
Tenho pelos verdadeiros médiuns imenso respeito. São os novos
apóstolos de Jesus, que terão ainda por muito tempo de sofrer
pela verdade. Serão difamados, acusados e mesmo assim
terão de trabalhar no silêncio do seu santuário mediúnico. Terão
uma vida de renúncia, o corpo exausto, mas a consciência firme
na luta pela verdade. Bela tarefa, ainda que, freqüentes vezes,
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dolorosa. O médium com Jesus recebe muito pouco no plano
físico. Em compensação, tem de cumprir imperiosos deveres,
sem esquecer que suas faculdades não lhe são outorgadas para
uso próprio. Para bem desempenhar seus compromissos, deve o
médium aceitar as provas, saber perdoar as ofensas, que não são
poucas, e esquecer as injúrias. Sua trajetória não será talvez das
mais fáceis, mas, à medida que crescer em humildade, a glória
do dever cumprido atapetará o seu caminho com as flores do
amor e da paz. Feliz daquele que ao chegar do outro lado pode
olhar de frente os seus mentores e dizer: "eu venci o mundo, e o
mundo não venceu a minha fé em Deus". A história do Espiritismo
está repleta de grandes médiuns e não é mais digno nós os
respeitarmos do que desejar igualar-nos a eles? Se somos bons
médiuns, só o tempo irá nos responder. Até lá, seguremos bem
forte o Evangelho e os livros doutrinários e peçamos a Deus
forças para nos tomarmos defensores das verdades divinas, lutando
por uma mediunidade repleta da glória de uma consciência
em paz.
Amintas foi interrompido pelo chamado da doutora ísis, a
querida pediatra. Uma criança ia ser atendida por ela. O mal:
infecção intestinal.
- Irmã, por que a criança está no Centro para tomar passe?
- É natural, Sérgio. Os pais são espíritas e a trouxeram
para ver se nós, os espíritos, fazemos alguma coisa.
Calei-me, pensando: "o melhor era a mãe levá-la a um hospital".
A menina queimava de febre; o passista, ao ministrar o
passe, intuído pela doutora Isis, falou:
- Leve a garota ao hospital, ela precisa tomar soro, já está
desidratada.
- É preciso mesmo?
50
- Sim, irmão. Ela precisa de um bom médico.
O casal saiu do Centro em busca de socorro médico. Perguntei
à doutora Isis:
- A irmã não poderia ter ajudado a garotinha?
- Sim, Luiz, poderia ter atuado sobre o duplo etérico e
energizado o órgão doente, mas nós, os médicos espirituais, temos de
respeitar o mundo físico, onde existem os médicos encarnados.
Nem tudo podemos fazer. E depois, esta garota está
sempre acometida de problemas digestivos. É comum os pais,
quando o bebê é pequeno, desejar alimentá-lo demais e com
dois meses já lhe oferecem frutas; se estas, entretanto, não forem
sadias, trarão à criança sérias conseqüências. Outras vezes
os adultos estão se alimentando e o bebê deseja comer. Por graça,
dão do próprio prato o alimento que não foi feito para ele.
Como oferecer a uma criança de dois meses um alimento que
ela não tem condição ainda de mastigar? Um bebê precisa é do
seio materno. É necessário conscientizar as mulheres de que não
existe leite fraco, existe é falta de vontade de amamentar. O leite
materno é completo. Ele dá condição dos órgãos prematuros desenvolverem
suas importantes funções. Por isso não é aconselhável
forçar a máquina infantil com alimentos fortes da nossa
mesa, não apropriados para esse delicado organismo. Os pais
acham lindo o bebê se alimentar da comida dos adultos, mas
este fato poderá levar a criança a contrair doenças futuras. É
comum, mesmo nas classes média e rica, o descaso para com as
crianças. Vemos mães limpando a boquinha do bebê com as fraldas.
O certo é tratar as crianças como somos tratados. Nenhum
adulto utiliza suas roupas íntimas para fazer a limpeza do seu
rosto ou da sua boca; existem toalhas apropriadas e os guardanapos.
Por que, sendo o bebê bem mais frágil que nós, não é
respeitado? É bem comum ver as criancinhas carregando ao pescoço,
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como suporte das suas chupetas, as suas fraldinhas ou as
arrastando pelo chão. Uma criança bem cuidada - e isto é um
dever da família - dificilmente terá problemas intestinais. A
teoria de que não devemos cercar as crianças desses cuidados,
porque ela não adquire defesas imunológicas, é conversa de quem
não as ama. Elas vão adquirindo as defesas à medida que entram
em contato com outras crianças ou com os adultos.
A doutora ísis fez uma pausa, depois continuou:
- O que não se deve fazer é trancafiar um bebê em casa;
o primeiro contato com pessoas estranhas ele sentirá. Se se colocar
chupeta suja na sua boquinha, não se mantiver suas mãos
limpas, roupas cuidadas, higienizá-lo no momento de mudar as
fraldas, dificilmente esta criança terá saúde. O trabalho para com
a criança de hoje gera a tranqüilidade no adulto do futuro. Há
dias, Sérgio, estamos cuidando de uma garotinha com séria infecção
urinaria, porque a mãe não fazia o asseio ao trocar suas
fraldas, apenas a limpava com a própria fralda e assim as bactérias
atingiram a uretra. O trabalho com uma criança doente é
muito maior que os cuidados normais que se deve ter com um
bebê. Se a criança aprender a ser limpa, dificilmente colocará as
mãos sujas na boca. Criança mal cuidada é reflexo do desleixo
dos pais. As infecções intestinais comumente são causadas pela
falta de cuidado com os utensílios do bebê. Enquanto o bebê
mamar em mamadeira, esta precisa ser fervida, porque o leite
penetra no bico e este fica impregnado de bactérias. Muitas crianças
adquirem até micose labial por causa disso.
- Mas existem médicos que dizem que os cuidados exagerados
prejudicam o bebê, irmã ísis.
- Exagerados, sim. Mas estamos tratando dos cuidados
normais. Se o adulto não gosta de sujeira, por que o bebê tem de
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conviver com ela? Uma boa mãe, aquela que renuncia a tudo
nos três primeiros anos do seu filho, será recompensada pelo
que fez, pois terá um filho saudável na adolescência e na idade
adulta.
- Irmã, é tão comum as mães limparem a boca do bebê
com as fraldas... E é prejudicial mesmo?
- Não só é prejudicial como desagradável e, creio eu, se
o bebê pudesse protestar, ele o faria, principalmente quando carrega
ao pescoço uma peça íntima. Os pais, quando o bebê vai
crescendo, costumam deixá-lo sujo para adquirir a famosa defesa,
aí começa a caída do bebê: doenças e mais doenças. O exagero
é prejudicial, mas é muito fácil constatar se estamos agindo
certo ou errado.
- Irmã ísis, sei que você sempre diz que a doença se inicia
pelos pés.
Ela sorriu.
- É mesmo, meus pais já me diziam isso. E no trato com
as crianças, constatei que elas sentem por demais ao exporem
seus pés no chão, principalmente nas lajotas que são frias.
- Irmã, é certo dar para um bebê um bom bife para ele
chupar?
- Imagine que há adultos que dão até feijoada para seus
bebês!... Acho isso comodismo. É mais fácil dar o que está feito
do que fazer uma boa sopinha ou outro alimento, de acordo com
a delicadeza de seus prematuros órgãos. Não possuindo dentes,
toma-se mais difícil a digestão do bife, podendo até engasgarse.
E depois, o bebê fica muito tempo deitado. Se um velho ou
um doente não suporta alimentação forte, por que a criança teria
de suportá-la?
- Essa criança doente que atendeu vai ter de receber um
53
tratamento forte com antibióticos e outros remédios, pois está
com infecção intestinal, não é mesmo?
-Acredito que o pediatra oriente a mãe e queira Deus ela
respeite o seu filho, dando-lhe os cuidados que ele merece.
- Vamos acompanhá-los?
- Infelizmente não podemos, outros serviços pedem nossa
presença. Mas em outro momento darei uma chegada até a
casa da pequena doente.
""'; -POSSO ir?
- Sim, meu amigo, pode sim. ; ?
Assim, chegamos até a sala de projeção, onde o aborto era
o tema do dia. com pesar, constatou-se que é dele a maior incidência
de morte no plano físico. No Brasil, sua prática é enorme,
ninguém pode imaginar quanto.
Naquele momento, foi projetada a prática de abortos em
uma clínica caseira. Um médico, em sua própria casa, praticava
os abortos e recebia por eles alta soma. Esse dinheiro vai parecer
uma pesada corrente em seus pés na hora do desencarne;
não vale a pena o conforto do mundo físico quando nos esperam
terríveis sofrimentos. Naquele vídeo, vimos o homem que estuda
para salvar vidas roubar de espíritos frágeis o direito de viver.
Naquele dia em que foi realizado o filme de estudo, trinta
fetos foram jogados fora, com toda frieza, só naquela clínica.. E,
como Pilatos, o médico apenas lavava as mãos. Todavia, no seu
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pcrispírito, o sangue dos inocentes deixou as marcas da dor e do
desespero até o dia do julgamento.
Ficamos discutindo sobre o assunto e, mais uma vez, constatamos
que se mata muitas crianças no mundo, sem piedade, e
no Brasil ainda pedem a liberação do aborto!... Muitos reclamam
justiça, falando de direitos humanos, no entanto, ao nosso
lado, em nossos lares mesmo, negamos a um ser o direito de vir
ao mundo para continuar sua evolução espiritual. Até quando,
meu Deus, o homem vai matar o seu próximo, sem piedade?
Apagado o vídeo, todos se levantaram e orei:
"Senhor, tem piedade de quem pratica o aborto, mas tem
piedade maior daqueles que podem evitar esse assassinato e permanecem
indiferentes, por julgarem que em um feto não existe
vida. Os aborteiros, pelo dinheiro fácil, estão violentando as leis
da Natureza. Senhor, por caridade, faze descer sobre todo o Planeta
a luz do esclarecimento, para que os homens deixem nascer
aqueles que se submetem a toda uma trajetória de reencarne e
depois são assassinados a sangue frio por seres sem fé e sem
amor. Apieda-Te de todos nós e faze de cada homem um instrumento
da Tua paz."
55
Capítulo VII
CONIVÊNCIA DOS PAIS
Terminada a exibição dos vídeos, ainda ficamos algumas
horas tecendo comentários sobre o assunto, quando um dos encarregados
do socorro pediu nossa ajuda para uma jovem de
dezesseis anos que naquele dia ia revelar ao namorado sua gravidez.
Kelly e Hápila logo se prontificaram a auxiliar e dali saímos
em busca de Rosalinda. Encontramo-la diante do namorado
e este, assombrado, dizia:
- Eu não posso assumir essa responsabilidade, vamos dar
um jeito nisso.
- Mas eu quero o meu filho!
- Então, minha querida, se vire sozinha, não conte comigo.
Estou comprando um imóvel e depois Vou para a Europa
fazer mestrado. Meus pais enlouquecem se eu falar da sua gravidez,
Rosalinda. O que eu posso fazer é conseguir a grana para
você se desfazer da coisa.
Olhei os meus amigos, principalmente uma nova
caravaneira que se juntara a nós: Glessi. Ela, com a expressão
de surpresa, era a imagem da preocupação. Aproximou-se do
rapaz, que nada tinha de bom no coração, e este, apesar de intuído
por nós, continuava no firme propósito de assassinar o próprio
filho. Encontrava-se tranqüilo com a sua decisão.
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Glessi então chegou perto da garota, mas ela, sentindo-se
sozinha, retrucou ao namorado:
- Arrume então a grana. Tenho uma colega que já abortou;
pedirei a ela o endereço do médico hoje mesmo. A que horas
você me entrega o dinheiro?
- Às duas da tarde, está bem?
Aqueles dois nem pareciam já ter desfrutado algumas horas
de carinho, pois conversavam com a maior frieza.
-A que ponto chega um relacionamento carnal sem amor
e sem respeito, comentou Amintas.
Seguimos a mocinha e tudo fizemos para que tivesse força
suficiente para enfrentar sua gravidez. Mas ela não concebia ter
um filho sem a presença paterna e ali, estirada na cama do seu
belo quarto, chorava desesperadamente. A mãe entrou e lhe perguntou:
- Por que chora, querida?
- Estou grávida e abandonada por Leandro - disse-lhe,
intuída por nós.
A mãe sentou-se, tamanha a surpresa. .;,•,...
- O quê? Abandonada? Você é que pensa! Ele é obrigado
a se casar com você. Vou chamar o Máximo.
- Mamãe, por favor, não o quero à força. Se ele não me
ama, como posso casar-me com ele? '
A mãe xingou tanto, fez tanto escândalo até a chegada do
marido, que Rosalinda estava decidida a fugir de casa. Pensamos:
"com o marido as coisas melhoram". Mas que nada! Máximo
apenas não gritou, pediu para a filha e a mulher se sentarem
diante dele e ponderou:
- Nada de desespero, aconteceu, aconteceu. Eu sempre
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achei, filha, que você estava abusando da liberdade. Mas quero
que fique bem claro: eu não suporto um escândalo em minha
carreira pública. A política não permite esses fatos tão desagradáveis.
Precisamos, juntos, encontrar uma solução que não atrapalhe
minha candidatura. Estou preparado para as próximas eleições
e não é você, minha única filha, que vai prejudicar-me.
Mesmo que Leandro desejasse casar-se, não estamos em condições
de fazer uma festa à altura da nossa posição social. E, como
vocês duas estão dizendo que ele não deseja se casar, forçá-lo
seria desastroso. Isso nunca. Tenho alguns amigos médicos que
podem fazer caridosamente a interrupção desta gravidez. Irei
procurá-los e logo estaremos livres deste fato tão desagradável.
Posteriormente, vocês duas partem para a Europa e Rosalinda
ficará estudando lá.
! - Quer se ver livre de mim também?
- Pense como quiser, filha. Ninguém vai atrapalhar minha
projeção política.
A mãe acariciava os longos e belos cabelos da filha. Esta
chorava, por sentir o quanto estava sozinha. Nós fizemos de tudo,
mas Máximo e a esposa não queriam envolver-se em escândalo
e Rosalinda estava grávida de alguém que não a queria por esposa.
Era demais para aquele orgulhoso pai. Perguntei a Kelly:
- E vamos deixar que realizem o aborto?
- O que fazer, Luiz Sérgio? O livre-arbítrio pertence ao
homem e ninguém pode roubar-lhe esse direito.
Um dos amigos influentes de Máximo preparou em sua
clínica o aborto de Rosalinda. Na sala de espera, o olhar de ansiedade
de todos nós. Quando ela deu entrada na sala abortiva,
pareceu-me que aquelas paredes choravam; era um lugar de desespero.
Existem muitas clínicas espíritas da Falange de Maria
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de Nazaré que fazem plantão de socorro para salvar almas. Porém
ali, diante de nós, um médico que recebeu de Deus o dom
de curar estava preparando-se para matar um indefeso ser. Presenciamos
o desespero do feto; ele se debatia apavorado ao pressentir
sua morte. Rápido, muito rápido, o ato cruel. O médico
tinha muita prática. Pena que ele, ao interromper a gravidez de
Rosalinda, não pôde perceber as lágrimas nos olhos daquela forma
fetal e o seu martírio. Era uma linda menina, e como gritava
apavorada. A doutora ísis amparou o espírito que cruelmente
fora rejeitado pelos pais; envolveu-a em seus braços e dali saiu,
levando-a com carinho. Olhei Rosalinda: apenas uma criança e
tão marcada pela vida. Pensei: "será que ela vai parar por aqui
ou vai ainda assassinar muitos outros filhos?"
Saímos atrás de ísis, que tudo fazia para acalmar o espírito
que sofrera a rejeição; mas ele apenas gemia, o corpo todo queimado,
sentindo a cruel realidade de um aborto. Enquanto isso,
Rosalinda era cuidada pelo médico amigo de seu pai. Ela nem
imaginava que sua filha agora também recebia cuidados médicos
e, como todos os abortados, sofria a pior das dores: a da
rejeição, ísis, ajudada pelos socorristas, encaminhou-se para um
Centro Espírita e lá, com a ajuda de outros médicos, foi a criança
levada a um trabalho espiritual, recebendo fluidos tranqüilizantes
que aliviaram a queimação que sentia em seu corpo. Perguntei
ao médico do Centro até quando a criança iria ficar ali.
- Logo será levada para um hospital da erraticidade, onde
aguardará nova oportunidade.
- Meu Deus, quem pratica o aborto não imagina como
está infringindo as leis de Deus! Soube que nessas clínicas fazem
de trinta a quarenta abortos por dia.
- É mesmo, Luiz Sérgio, essas intervenções estão aumentando
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de tal maneira, que ninguém é capaz de avaliar seu crescimento.
Em nosso Centro já contamos com uma enfermaria exclusivamente
para socorrer os abortados. Em um Centro Espírita
deve também existir a prece para os rejeitados. Para você ter
uma idéia, atendemos mais abortados do que suicidas. Hoje o
aborto é praticado sem piedade no mundo inteiro.
Virei-me para a garotinha e falei a Kelly:
- Gostaria de ver como se processou a sua encarnação.
O doutor Salles nos convidou a acompanhá-lo e foi passando
o filme sobre Rosalinda, seu namorado Leandro e o contato
dos dois com o espírito que acabaram por rejeitar.
- Quem é a velhinha? perguntei ao doutor Salles.
- A mãe de Máximo, avó de Rosalinda.
- A mãe dele?
- Sim. Ela adora a neta, por isso se propôs a voltar como
sua filha. Ela criou Rosalinda até os seis anos.
Vimos Leandro e Rosalinda sendo levados à espiritualidade
e ela adorando o contato com a vó. "Que bom que a senhora vai
voltar, e ainda mais como minha filha. Lutarei pela sua felicidade".
Tudo muito certinho, os dois prontos para receberem a filha.
O contato entre eles era de muita paz. Assistimos à
comovente despedida da avó com seu esposo, ele ainda ficaria
alguns anos no mundo espiritual, entretanto ali na enfermaria
dos abortados jazia um corpo de criança, todo dolorido. Mais
machucado ainda se encontrava o seu espírito por saber-se desprezado
pelo filho e pela neta que adorava. Como será o último
capitulo desta história? Não sabemos quanto tempo permanecerá
no corpo de criança e se Rosalinda um dia vai conseguir ter
filhos.
- Como é complicado o nascimento, muito mais que a
61
"morte.
- Muito mais, Luiz. No reencarne nós precisamos dos
encarnados e muitos desrespeitam as leis de Deus. No desencarne
são os espíritos que esperam e ajudam os desencarnantes.
- Um dia o homem vai respeitar o feto como um ser vivente,
doutor Salles?
- Não sei, não, irmão. Hoje em dia o que mais se vê é
mulher abortando, mas esperamos que haja um ponto final nestes
atos tão tristes.
Pedimos permissão para ir até a casa de Rosalinda.
Encontramo-la desolada, dizendo ao pai que na hora do aborto
viu sua avó virar criança e depois ficar velhinha; que ouviu sua
voz implorando: "Rosalinda, deixe-me viver!" O pai deixou cair
uma lágrima. Se de remorso, eu não sei, talvez de vergonha, por
ser tão covarde, um escravo da posição social que ocupa, servo
do orgulho.
- Rosalinda ainda vai aprontar, faltam-lhe amor e Deus
em sua vida.
- Hoje em dia, Luiz, as jovens comportam-se
despudoradamente diante dos homens, com roupas sumárias,
desde as roupas de banho, até as de passeio; e depois, ao sofrerem
as conseqüências de atos impensados não possuem coragem
suficiente para enfrentar a mesma sociedade que tentam
agredir com seus gestos de revolta.
Muitas Rosalindas existem por aí, talvez a sua própria filha,
que você, leitora, acha linda por mostrar o corpo quase nu,
expondo-o ao público que não tem piedade. É, minha gente, a
liberdade excessiva está matando a pureza e, o que é mais grave,
interrompendo a viagem de muitos espíritos para o plano
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físico. É preciso que se façam, urgentemente, campanhas de alerta
aos jovens. Um dia eles também envelhecerão e feliz do velho
que, ao trazer à lembrança o seu tempo de jovem, não tenha
apenas remorso para recordar.
63
Capítulo VIII
SUSTO RECOMPENSADO
- Vocês conseguem socorrer todos os espíritos dos abortados?
perguntei, impressionado, à enfermeira espiritual, Salette,
que trabalhava como socorrista na clínica do aborto.
- Nem todos, meu amigo. Alguns espíritos, ao sofrerem a
violênciado aborto, colam-se no centro de força básico de sua
mãe e, por mais que façamos para retirá-lo dali, ele reluta em
abandoná-la.
- E qual a conseqüência dessa situação?
- A mulher se vê repleta de remorsos, vive chorando e às
vezes contrai doenças de difícil diagnóstico. Tudo fazemos, até
a retirada do rejeitado, pois é ele quem mais precisa da nossa
ajuda.
- Não me diga, Salette, que existem estes casos.
- E não são poucos, Luiz. Quem busca uma clínica de
aborto, na maioria das vezes, encontra sofrimento e lágrima. Já
imaginou se no Brasil for liberado este frio assassinato? Se a lei
proíbe o aborto e os homens pouco a respeitam, matam sem
piedade, se for liberado então...
- Irmã, percebi que o médico jogava os fetos no lixo; e
depois, qual é o fim dado a esses pobres corpinhos? "<
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- Uns os enterram, outros os queimam. Mas isso nada
representa comparado ao que fazem ao espírito.
Despedi-me daquela abnegada mulher e, em recolhimento,
abri as Escrituras. Caiu no Capítulo XIV, do Eclesiástico:
Bem aventurado o homem que não deslizou pelas palavras
da sua boca e que não foi torturado pelos remorsos do
pecado.
Cada homem dará contas de sua vida, isto é, de tudo o que
fez de bom ou de mau, diante do tribunal de Deus. Será que
quem interrompe uma vida não se detém um minuto para pensar
no mal que está fazendo aos planos de Deus? Ninguém imagina
o trabalho das equipes da reencarnação, nem o tempo que levam
para preparar a volta de um espírito à carne. E aí, algumas pessoas
duras de coração cortam o laço fluídico da maneira mais
covarde, interrompendo a viagem de uma alma que precisa descer
ao educandário da vida para prestar exame. Recordei o cuidado
dos técnicos examinando os mapas cromossômicos, a geografia
dos genes nas estrias cromossômicas. É um trabalho delicado,
que o homem encarnado, por ignorânciae orgulho, destrói
sem piedade. Ninguém renasce por acaso, tudo obedece às
leis da Natureza e, com o nascimento, descobre-se que essas leis
são ricas e delicadas. A hereditariedade dos genes, distribuída
nos cromossomos, requer dos técnicos um trabalho de amor que
o encarnado não tem o direito de interromper. A doutora Isis me
chamou à realidade:
- Luiz, fomos chamados com urgência, algo terrível está
para acontecer. O Jonas está em vista de ser mais um rejeitado.
Não me diga, Ísis!
- É verdade, Sérgio.
66
- Meu Deus, como é possível? Por que Rebeca não quer
o filho?
- Simplesmente, porque Fernando está noivo de outra.
- E o que faremos?
- O doutor Filogônio já está ao lado de Rebeca, tentando
auxiliá-la.
- Queira Deus ele consiga.
Diante disso, voltamos rapidamente ao apartamento de
Rebeca. Filogônio aplicava-lhe passes; ela chorava desesperadamente
ao telefone, conversando com Fernando e este lhe dizia:
- É tão fácil se livrar de uma gravidez, e você fazendo
drama!...
- Fernando, eu estou esperando um filho seu, e vai mandar-me
matá-lo?
- Vocês, garotas, são engraçadas: liberadas até certo ponto,
no momento que "pinta" um filho, precisam do homem para
criá-lo. Vire-se, minha filha! Fiquei noivo de Juliana e não quero
que me procure mais. Acabou, Rebeca. Foi bom, enquanto
durou. Para a criança só posso dar um bom médico que tome
menos cruel a interrupção da sua vida.
- Você é um monstro, Fernando! Eu o odeio!
Desligou o telefone e chorava muito. Filogônio, com carinho,
fez com que ela adormecesse e, com amor imenso, mostrou-lhe
Jonas, o seu filho que, alojado, já vivia em seu ventre.
Rebeca decidiu-se:
- Não Vou abortar, preciso ter o meu filho, ele será só meu.
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Saímos, aliviados. Só ísis não se alegrou.
- Não está contente? indaguei-lhe.
- Não. Temo pela vida de Jonas. Rebeca, ao lado de
Filogônio, está recebendo dele os fluidos da maternidade, mas o
que acontecerá quando Filogônio voltar para o Departamento,
onde o esperam inúmeros trabalhos?
- É mesmo, irmã, não havia pensado nisso. Então, por
que não ficamos no pé de Rebeca?
- É o que vamos fazer.
..,,,;. Filogônio, ao despedir-se, recomendou:
- Cuidado, amigos, o caso é delicado.
Passaram-se vários dias. Rebeca encontrava-se desesperada
com a separação de Fernando e este, por sua vez, nem se
lembrava mais da sua existência. Jonas já estava com três meses
de vida fetal e nós não podíamos mais ficar ao seu lado. Oramos,
ao despedir-nos da mãe e do filho, e confesso que chorei
de emoção ao ouvir esta prece:
- Jesus Cristo, filho de Deus, irmão querido, amparai
aqueles que desencarnam, mas ajudai muito mais aqueles que
retomam ao corpo físico para reiniciar a caminhada. Ajudai,
Senhor, todos nós, principalmente as mulheres que, sozinhas,
precisam cuidar dos seus filhos. Dai a todas, Senhor, a certeza
da Vossa ajuda, fazendo-as perceber o quanto são importantes
para Deus na sua missão silenciosa de mães. Amparai aquelas
que muitas vezes precisam de forças para não sucumbir diante
do abandono a que são relegadas. Que todas as mulheres compreendam
o quanto são protegidas por Deus e que nenhuma delas
ouça o lamento de um espírito lhe implorando: "mãe, deixe-me viver!"
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Retiramo-nos da casa de Rebeca; mas não demorou uma
semana, recebemos novo pedido de socorro. Encontramos
Rebeca já na sala de espera de uma clínica maldita. Tentávamos
demovê-la de sua intenção, mas ela, olhar perdido no tempo,
estava no duro propósito de não deixar Jonas nascer. Quando
tudo nos parecia perdido, sentei-me ao lado de Rebeca e me fiz
visível. Ao deparar comigo, assustou-se um pouco:
- Nem vi o senhor entrar!... Sua namorada está lá dentro?
- Não, não está. Jamais traria uma mulher a este inferno.
Todas as mulheres precisam de um jardim de flores, um altar e
um coração para serem resguardadas de qualquer adversidade.
- Não estou entendendo. Então, o que o senhor faz aqui?
- Simplesmente estou aqui em nome de Deus lhe implorando:
deixe o seu filho nascer, ele é um pedaço do seu ser.
Nisso, a megera da enfermeira anunciou:
- Senhora Rebeca... - olhou espantada para os lados,
depois indagou:
- Está falando sozinha?
Assustada, Rebeca me buscou. Não me vendo, perguntou
à enfermeira:
- Não viu um moço conversando comigo?
- Está enganada, aqui não há ninguém.
Quando Rebeca olhou para a porta, mais uma vez me fiz
visível, e lhe disse:
- Não mate, por favor!
Ela desmaiou. O médico e a enfermeira, assustados, não
69
quiseram mais atendê-la naquele dia. Quando me juntei ao grupo,
envergonhado da minha atitude, pedi perdão a Kelly. Ela me
advertiu:
- Hoje você pôde fazer isso, mas que seja a última vez.
Os espíritos não podem expor-se a tanto.
Rebeca voltou para casa, mas ficou muitos dias apavorada,
tinha medo até do vento. Sentindo-se sem coragem para
abortar, buscou a proteção da mãe e esta, com carinho, iniciou o
belo enxoval de Jonas. Só que eu, por infringir a lei do livrearbítrio,
me vi diante de um grupo de irmãos, não para ser julgado,
mas para me fazer entender que um espírito não pode assustar
um encarnado. Rebeca só não abortou Jonas, porque morreu
de medo da minha aparição. Prometi a Filogônio jamais usar a
força; mas que foi bom, isso foi! Principalmente quando Rebeca,
meses mais tarde, deu o seio para que o belo filho lhe sugasse o
leite. Os pais lhe deram a maior assistência. Mais tarde, receberam
Fernando, que fora ver o filho e desejava registrá-lo. Rebeca,
demonstrando seu amor materno diante do antigo namorado,
fez com que Fernando a amasse novamente e até a pedisse em
casamento. Final feliz!
Dali saí, cantarolando, e encontrei ísis.
- Doutora, estou me sentindo um verdadeiro cupido;
flechei a felicidade para Rebeca, não é mesmo?
- Não só a felicidade, mas você, Luiz, vai fazer com que
Rebeca busque na Doutrina Espírita a explicação para o que
aconteceu naquela clínica.
- Sabe, irmã ísis, eu queria era fazer isso para o médico.
Pena é que só Rebeca me viu.
- Pare, Luiz, com essas brincadeiras, assim vai se tomar
um duende!
70
- Salve-me, irmã! Leve-me até o Hospital de Jesus, quero
ser curado!
- Vamos trabalhar, irmão, outros casos nos esperam.
71
Capítulo IX
O IMPORTANTE TRABALHO DA DESOBSESSÃO
Demos mais uma chegada ao Centro Espírita e lá, no vaivém
dos muitos freqüentadores, percebemos como a Doutrina
Espírita é o Consolador prometido por Jesus. com emoção, Presenciamos
o tratamento das obsessões, onde legiões de espíritos
inferiores eram esclarecidas pelos evangelizadores espirituais.
Chegavam vampirizando os doentes, denotando-se nestes o olhar
vazio, sem sonhos e realidades. Na observação cuidadosa de um
subjugado é que se nota a que ponto chega uma influenciação.
Os corpos saem do nível e os trevosos buscam as rodas
energéticas e se alimentam através delas. O espírito encarnado
vai perdendo as forças e ficando à mercê dos vampiros. Observei
os médiuns em trabalho: muito bonita a tarefa desses irmãos.
Eles talvez nem imaginem como são protegidos. Notei que os
trevosos não conseguiam divisar os médiuns, para segurança
dos tarefeiros de Jesus.
Deu entrada no salão o jovem Clarindo, que era levado ao
consumo de litros e litros de bebida alcoólica; foi iniciado o
tratamento doutrinário, muito mais para os acompanhantes indesejáveis
do que para o jovem. Tentavam eles continuar na
mesma vida que levavam antes de desencarnar e, para saciar
seus vícios, juntaram-se a Clarindo condenando-o, sem piedade,
à destruição.
73
Relutaram em entrar na câmara de passes, mas já no salão,
recebendo fluidos magnéticos tranqüilizadores, meio apatetados,
foram-se aproximando dos encarregados do trabalho. Estes não
perderam tempo: ligaram um aparelho no cérebro deles e numa
rotação bem alta começaram a aplicar choques energéticos. Um
deles, que vamos chamar de Tarcílio, relutou enquanto pôde para
não ser tratado, mas com um conhecimento muito grande daquele
trabalho, os encarregados foram levando-o até um dos
médiuns. Quando Tarcílio tocou nas auras do médium, estas,
como se fossem uma garra, o abraçaram e ele foi ficando
anestesiado, sendo logo socorrido. Falei a Hápila:
- Fácil este tratamento, não é mesmo?
; - Sabe quantos passes esses acompanhantes já tomaram?
; - Quantos?
- Vinte. Só agora serão encaminhados para os postos de
socorro.
- É mesmo? Isto me faz lembrar de alguém que deseja
pegar passarinho: joga a comida dentro da gaiola e deixa aberta
a portinha, até que ele resolva entrar.
É um trabalho repleto de paciência.
O jovem, de cabeça baixa, orava, sentindo-se outro homem,
e queira Deus ele também ajude a espiritualidade, porque
casa mental limpa, corpo são.
- Sérgio, repare bem as fisionomias das pessoas, disse
Amintas. O contato com as entidades trevosas vai, pouco a pouco,
fazendo-as adquirir as feições desses desencarnados e até
assumir suas atitudes.
74
Nisso, entrou no salão uma senhora gritando estridentemente,
segurada por alguns irmãos, não só encarnados, como
desencarnados; ela urrava, mais parecendo bicho. Por mais que
buscássemos os seus acompanhantes, não os víamos. Até que
conseguiram levá-la à cabine e o encarregado espiritual, utilizando-se
de um aparelho, foi localizando no duplo etérico
fisionomias retorcidas. Confesso que me assustei. Vou tentar
narrar para vocês o que Presenciamos.
Em cada roda energética surgiam minúsculas figuras e estas
iam-se alongando, deformadas, como quando jogamos uma
tinta num papel e esta se espalha. Na roda energética víamos as
fisionomias nas ilações, uma gosma que se espalhava disforme.
Cada roda energética possui sua cor característica, mas quando
subjugada pelos trevosos elas se misturam, e naquela irmã todas
as rodas estavam subjugadas. A fisionomia da irmã era de terror.
Os passistas usaram o mesmo tratamento. A espiritualidade não
dispunha de uma sala especial para atendimento desses casos
mais graves. Sugiro aqui que uma Casa que trabalhe com
desobsessão tenha uma cabine especial, composta de alguns
médiuns videntes respeitados. Quando chegassem irmãos em
tal estado de alucinação, deveriam ser encaminhados para esses
departamentos, onde a espiritualidade montaria a cabine com
aparelhos apropriados, capazes de operar melhor em semelhantes
casos. Mesmo assim, aqueles abnegados médiuns deram uma
ajuda enorme àquela irmã e ela se acalmou. Perguntei ao encarregado
daquele passe:
-Vocês conseguiram tirar alguns daqueles subjugadores?
-Ainda não, estes casos são mais demorados. Breve teremos
salas especiaise a resposta ao atendimento será mais rápida.
75
- Que bom. Acredito que quando forem criadas essas cabines
especiaisos espíritos encarregados da desobsessão terão
melhores recursos para curar os doentes.
Gostaria de desenhar no papel a irmã e os seus acompanhantes,
bem como o que estava ocorrendo diante dos nossos
olhos espirituais. Vou tentar desenhá-la com os seus algozes:
Espero que vocês compreendam o desenho. Na verdade,
este caso deixou-me muito preocupado. Por isso, perguntei à
encarregada do trabalho por que a irmã adquiriu tais companhias.
- Luiz Sérgio, ela violou as leis de Deus e, sem piedade,
tirou o direito de nascer desses que hoje pedem justiça, colados
ao seu corpo.
76
- O quê, irmã? Esses verdugos são os rejeitados que hoje
se vingam da aborteira?
- Sim, Luiz. Ela já está sofrendo antes de desencarnar.
O que é muita sorte, pois no corpo físico toma-se mais fácil a cura.
- E nesses casos os socorristas não conseguem dar abrigo
aos espíritos rejeitados?
- Não. Muitas vezes os espíritos rejeitam a ajuda e colam-se
aos seus assassinos para cobrar deles o direito de viver.
Não se esqueça, Luiz Sérgio, de que nem todos os espíritos
são bons, também os maus reencarnam. Naquele caso de
Marina, o espírito era familiar, de boa índole, e jamais seria
um verdugo. Mas os que vimos agora, estes não se conformam
de terem sido retirados sem piedade do ventre materno.
- Meu Deus, por isso a necessidade de uma sala especial
para esse trabalho.
- Veja só, irmão, aqui estava eu observando cada caso e
nem imaginava que estivesse em trabalho, defrontando com antigos
abortados que hoje se vingam.
- A irmã alcançará a cura e queira Deus ela tenha guardado
na mente os gritos de ódio das suas vítimas.
- Vimos sete irmãos, não é mesmo?
- Não, ali estava alojada uma legião de sofridos.
Observei ainda mais a irmã, que agora conversava, e busquei
as fisionomias nas suas rodas energéticas. Elas, que antes
estavam assim, ,
77
agora se encontravam assim:
Os corpos gelatinosos tinham desaparecido e os espíritos
pareciam dormir.
- Mas eles não podem ser retirados?
- Não, ainda é cedo. A irmã só tem quatro meses de tratamento,
esperamos que ela se conscientize dos seus erros e ela
mesma limpe as suas rodas energéticas.
- Mas como, irmã?
78
-Através de sua reforma íntima. Se a irmã pegar o Evangelho
de Jesus e buscar com humildade a renovação interior,
ajudada pelos mentores da Casa, terá a cura.
- Se ela não melhorar, também não se livrará dos seus
inimigos?
- O amor vence o ódio. No dia em que a irmã descobrir o
verdadeiro amor e dedicar sua vida a Deus e ao próximo, tudo
se modificará e ela será novamente alguém útil à sociedade. Até
lá, sentirá o "ranger dos dentes". O Centro Espírita fará mil coisas
para auxiliar a irmã, entretanto, compete a ela curar sua alma
auxiliando os espíritos enleados nas sombras da vingança. Ela
terá de cultivar o amor, ter compaixão para com todos, enfim,
sofrer uma transformação divina.
Queira Deus ela se salve e que os seus algozes encontrem
o caminho da paz. Observei outros casos, mas nenhum me deixou
tão impressionado.
Quando ia saindo, parei, pois os meus amigos acompanhavam
o tratamento em um jovem viciado. Encantado fiquei quando
o médico espiritual tocou o cérebro do irmão; a sede do complicado
departamento mental pareceu-me também um complicado
aparelho eletrônico. Observava-se uma substância cinzenta alojada
ali. O cérebro ainda é um mundo quase desconhecido do
homem e nós, diante daquele jovem, descobrimos sua ligação
com outro cérebro, o de um jovem também, mas desencarnado.
Pareciam dois cérebros idênticos. O encarnado estava tão ligado
com o desencarnado que dava a impressão de um só espírito.
Buscamos as três regiões do cérebro e nelas os espíritos encarregados
da cura operaram com choques magnéticos através dos
passes e ali mesmo foi feita a separação mental daqueles dois
espíritos. No momento dessa separação, o jovem encarnado jogou-se
79
ao chão, retorcendo-se como num ataque histérico. Seu
cérebro recebera energia purificada, quando acostumado estava
com a ligação trevosa. Agora o cérebro do jovem Caio trabalhava
por conta própria, não mais ligado com o outro cérebro. Pudemos
observar os neurônios recebendo as sensações exteriores
dos passistas e também do seu interior, da consciência. A mente
de Caio orientava todo o seu universo molecular e dela partia
agora o comando. Acreditávamos que bem depressa o equilíbrio
voltaria ao espírito de Caio. A massa cinzenta do cérebro do
irmão ia paulatinamente voltando ao normal; já não me pareceu
mais doente. Perguntei a Hápila:
- Será que ficou curado?
- Acho que ainda vai precisar de alguns passes até voltar
a comandar a si mesmo.
- E o irmão que o levava ao vício? ,
- Será tratado, mas não se esqueça, Sérgio, de que Caio
não foi levado ao vício pelo doente espiritual. O doente é que se
ligou a ele por afinidade.
Sempre na Terra existe alguém que carrega algo que irmãos
desencarnados desejam para ficar mais tempo no mundo
físico. Se o encarnado procurar ser digno, esses irmãos não desejarão
tanto viver na crosta da Terra. Quem procurar viver em
espírito não sofrerá a tortura da obsessão, doença tão material.
com o correr do tempo, o homem se verá longe dela.
Diz Francisca Theresa: "Quem se toma um operário do
Senhor, fiel às Suas obras, jamais conhecerá a lágrima da obsessão."
80
Capítulo X
MÉDIUNS - OBREIROS DE JESUS
Recordei-me de Nari, Jacó e Onor, louvando a Casa Espírita
que dedica um dia da semana para o tratamento da
desobsessão. O que se deve evitar é grupo de estudo mediúnico
fazendo trabalho desobsessivo com dirigentes sem preparo. O
estudo mediúnico é necessário ao médium, pois este tem de conhecer
o mundo dos espíritos. Os espíritos que são trazidos até
os grupos mediúnicos não são obsessores; a espiritualidade não
coloca espíritos por demais cruéis diante de um aprendiz. Engana-se
quem imagina que receber obsessor desenvolve médium.
Há nas escolas de médiuns equipes preparadas para atuar nesses
grupos. Doentes são levados, sim, mas obedecendo a uma disciplina
espiritual. Tais grupos podem socorrer suicidas recém-desencarnados,
espíritos perturbados, que não são obsessores.
Para tais casos existe um dia da semana dedicado à cura desses
irmãos, que não pode ser realizado com médiuns iniciantes. Volto
a frisar: doente não é obsessor, espírito sofredor não é espírito
trevoso. Aconselho a quem dirige um grupo mediúnico tomar
certos cuidados; o espírito que está atuando sobre o médium
iniciante já passou pela portaria da Casa e se ali está é porque se
encontra internado no pronto socorro de Jesus.
Se a sua Casa possui um trabalho de desobsessão semanal,
os encarregados espirituais não vão se servir de isolados grupos
81
com pessoas sem preparo. Cuidados devem ser tomados: não é
justo um médium gritar e se retorcer, dizendo-se incorporado
com um obsessor, e um doutrinador usar palavras duras para
com um espírito doente que ali está buscando a cura para as suas
chagas. Na mediunidade do futuro não mais veremos tais tristes
fatos. Os dirigentes se conscientizarão da responsabilidade de
elucidar alguém que está chegando à Doutrina.
Como sabemos, são muito poucos os médiuns inconscientes;
sendo consciente o médium, ele tem de ter certeza que parte
de outra inteligência a manifestação que se opera nele. O que
mais se vê hoje em dia é médium buscando os fenômenos e não
o conhecimento. Ao invés de trabalhar mediunicamente sem
segurança, é muito melhor conscientizar o médium a não ter
pressa. O homem de caráter serve de várias maneiras e numa
Casa Espírita serviço é o que não falta.
Vamos cooperar com os trabalhos da Casa, principalmente
no tratamento da obsessão, onde milhares de pessoas buscam
socorro. No dia reservado a esse trabalho, um vidente pode observar
os pátios repletos de espíritos sofredores ali levados pelos
encarregados; nesses dias a Casa muda de aspecto, toda ela é
preparada. Dos departamentos de socorro, chegam abnegados
espíritos trazendo o seu amor e as suas experiências. Toda a
Casa se transforma num hospital de doentes mentais, as paredes
ganham filtros poderosos e chapas energéticas que protegem os
doentes, os enfermeiros, enfim, todos os que ali se encontram.
Por isso, foi escolhido pela Espiritualidade Maior um dia para
tal socorro, que merece de todos os espíritos superiores respeito
e carinho. É muito necessário esse trabalho, e feliz da Casa que
bem o realiza.
bom seria se todos os Centros Espíritas tirassem os
82
doutrinadores dos grupos de desenvolvimento e concentrassem
em um único dia o trabalho destinado à desobsessão. Sabemos
nós que a Casa, possuindo um dia especial para esse tipo de
assistência, contará sempre com espíritos capacitados, verdadeiros
técnicos no assunto.
Os que gostam de doutrinar espíritos sofredores devem ser
aproveitados para elucidar e doutrinar encarnados que buscam a
Casa Espírita e precisam reformular o seu interior, porque o obsessor
busca aquele que pensa igual a ele. Terminado o tratamento, o doente
deve ser conduzido a uma escola de evangelização, onde
doutrinadores, que antes trabalhavam nos grupos tentando doutrinar
obsessores, agora terão a tarefa de ajudar o homem a melhorarse.
Tentar doutrinar obsessores é louvável. No entanto, quando levados
aos trabalhos de desobsessão, onde o médium não tem uma
ligação direta com eles, são doutrinados por espíritos acostumados
a este trabalho, espíritos estes de elevada condição moral. O encarnado
está mais sujeito aos deslizes da vida física e o obsessor, via de
regra bastante inteligente, ao descobrir falhas no doutrinador encarnado,
procura vingar-se dele, acompanhando-o até seu lar, levandoo
à desarmonia.
Hoje, na Universidade Maria de Nazaré, encontramos dirigentes
de Centros Espíritas em desdobramento através do sono. São
eles orientados para o perigo que vem ocorrendo com determinados
grupos que invocam obsessores, para desenvolver a mediunidade
daqueles que estão chegando aos Centros, muitas vezes julgando
que a dor de cabeça, as doenças, as desavenças familiares são decorrentes
da falta de desenvolvimento mediúnico.
Os grupos de educação mediúnica terão espíritos de escol
para treinar os médiuns, e todos esses grupos darão socorro aos
recém-desencarnados, tal a procura dos socorristas por grupos
83
disciplinados. Podem ser tentadas a psicografia, a psicofonia, a
vidência, mas acima de tudo é imprescindível conscientizar o
médium de que ele é um operário da obra de Jesus, com a obrigação
de respeitar as verdades divinas e dar a mão ao seu semelhante.
O bom médium não é aquele que possui vários dons
mediúnicos, mas o que não brinca com o Espírito Santo. Se o
médium apresentar uma faixa moral respeitável e o dirigente o
conhecer muito bem, depositando nele real confiança, será aproveitado
na Casa. Os conhecedores das obras básicas formarão
um grupo semanal onde se estudará e buscará instrução dos espíritos
orientadores da Doutrina Espírita no Brasil.
Os dirigentes de um Centro Espírita não podem se "aposentar",
precisam freqüentar grupos semanais onde se faz a ligação
com o Alto e onde os orientadores espirituais da Casa os
manterão cientes do que se passa em todo o Centro. Nesses grupos,
o estudo da Doutrina é sublime, e os dirigentes podem também
aproveitar para analisar as recentes obras psicografadas,
para bem orientar os freqüentadores da Casa, evitando o que
vem ocorrendo: um iniciante espírita misturando as religiões,
lendo de tudo e tirando conclusões erradas, fazendo uma verdadeira
salada, onde o tempero é um vinagre chamado ridículo.
Temos compromisso para com aqueles que batem à porta
da Casa Espírita, portanto, devemos criar departamentos com
pessoas humildes, aptas a apresentar, aos que chegam, Deus,
Cristo e Caridade - que vêm a ser os mandamentos das leis de
Deus, a evangelização dos espíritos e a Doutrina Espírita,
reformulando o homem para viver como encarnado, mas consciente
da vida espiritual.
84
Sem Deus não existe respeito, sem Cristo não existe humildade,
sem Caridade não existe salvação.
Portanto, espíritas, não vamos matar os profetas, expulsálos
ou ignorá-los. Vamos tentar compreender o que o Evangelho
nos narra e diante de qualquer dúvida abraçar Jesus e compreender
Kardec.
O Espiritismo é o farol a apontar o caminho.
A Doutrina é a raiz; o espírito, a árvore; os frutos, os exemplos
da caridade. A Doutrina é Jesus em ação. Sem Doutrina
Espírita o médium é um pote sem água. A Doutrina esclarece ao
homem a razão da vida e por que devemos respeitá-la. Um homem
que brinca com a Doutrina Espírita longe se encontra de si
mesmo.
Bendita luz que deu vida aos meus olhos espirituais. Eu,
ao recordar os amigos, me vi na obrigação de louvar a Deus, por
ter um dia deixado Jesus vir à Terra e Ele nos ter prometido o
Consolador, que hoje seca as lágrimas e leva a criatura a Deus.
Bendito Allan Kardec, que fez adormecer em si o homem
letrado e famoso e fez surgir o homem verdadeiramente
espiritualizado, que não temeu a crítica nem a pobreza. Tomou-se
um digno filho de Deus, trabalhador da Espiritualidade Superior
na Terra. Toda a Espiritualidade louva o Codificador, porque
devido à sua inteligência, hoje o homem tem consciência de
que é preciso esforçar-se para se ver livre da ignorânciado materialismo.
Graças às suas obras, os médiuns não são mais chamados
de feiticeiros, mas, sim, de obreiros de Jesus.
Enquanto tiver permissão, tocarei nesse assunto tão sério
- mediunidade - esperando que através dos meus livros possa
eu fazer alguém feliz. E nada infelicita mais um médium do
que a insegurança.
85
Capítulo XI
NOVA OPORTUNIDADE
Voltando ao plano espiritual, buscamos novamente a Colônia
dos Rejeitados e, desta vez, fomos levados até a ala dos
recém-chegados. Antes de entrar na enfermaria, recebemos passes
reequilibrantes e vestimos uma roupa especial. Olhando aqueles
fetos, formas diminutas, meu coração chorou; que triste quadro!...
Alguns se encontravam protegidos por mínimas incubadoras,
até do tamanho de uma caixa de fósforos, recebendo luz.
Trancafiados em um perispírito reduzido, víamos espíritos quase
dementados, porque seus pais os rejeitaram, mandando-os de
volta. É como se fizéssemos um pedido pelo reembolso postal e
ao chegar a encomenda nós a devolvêssemos. Para remetê-la,
foi preciso embalá-la muito bem. E agora, era isso o que abnegados
espíritos estavam tentando fazer: desempacotar o filho
rejeitado. Uns, ao receberem os primeiros socorros, recuperam-se;
outros julgam que permanecendo diminutos terão uma nova
oportunidade. Enquanto isso, os pais e os médicos irresponsáveis
estão em outra... Mas a vítima geme de revolta nas inúmeras
incubadoras das maternidades espirituais.
Chegamos perto de um lindo e forte bebê; o aborto fora
realizado estando ele com cinco meses de vida fetal. Este espírito
foi muito machucado. Juntamente com ele desencarnou a mãe,
mas ela não se encontrava ali. Por mais que os médicos tentassem
87
despertar-lhe a consciência, ele relutava. Encontrava-se na
posição fetal, quase imobilizado; ficava horas e horas chupando
o dedo. Triste caso. A mãe, uma jovem de dezesseis anos, gemia
com a dor do remorso. Interrompeu não uma vida, mas, várias;
com seu ato impensado, rasgou inúmeras folhas do planejamento
divino. E o pior é que isto está acontecendo a cada minuto.
Fitávamos, condoídos, aquelas formas humanas resguardadas
da fúria do homem, mas em cada um daqueles corações
encontrava-se plasmado um rosto de mulher que, por falta de
amor, os havia rejeitado.
Fui saindo devagar. No meu coração estava uma coroa de
espinhos de tristeza por tantos absurdos praticados por pessoas
sem fé e sem caridade. Os jovens estão cada vez mais livres,
mas, à medida que se soltam em libertinagem, vão ficando presos
de remorsos e dores. Se o homem apalpasse o seu corpo e
buscasse nos seus antepassados a verdade da vida, veria que
não somos, quando encarnados, mais que um amontoado de ossos
cobertos de albumina e fibrina; a carne que aloja a nossa
alma um dia terá de se decompor; por mais seja ela embelezada
e tratada, não suportará o passar do tempo; a sua composição de
oxigênio, hidrogênio, nitrogênio e carbono nada é diante do
Espírito criado por Deus, composição divina retirada do Universo.
Se o homem se auto-analisasse, não bateria tanto a cara
na porta do sofrer. É ele quem planta o seu próprio infortúnio.
Em recolhimento no jardim, ainda conservava gravada em
minha mente cada cena daquela enfermaria: dementes criaturas
recebendo cuidados especiaisdos espíritos abnegados, enquanto
os seus algozes já se preparavam para novos crimes, sempre
interferindo no plano de Deus; o materialismo nem por um momento
permite sejam tocadas as suas consciências. A doutora
88
Isis aproximou-se de mim e eu indaguei:
- Será que não existe um modo de gritar para o povo: "pare!
Não ultrapasse a risca divina; poucos terão outra oportunidade"?
- Não fique assim, Sérgio, tudo terá fim um dia, principalmente
a falta de respeito às leis de Deus.
Os outros companheiros ligaram-se a nós e dali rumamos
ao anfiteatro, onde um irmão, que comandava uma falange de
socorristas, discorria sobre o aborto. Nas clínicas aborteiras as
suas equipes trabalhavam sem cessar, estudando o porquê de os
homens ainda possuírem a coragem de matar um inocente feto.
Alojado em minha cadeira, pensava: "já imaginou se todas
as mulheres tivessem a idéia de abortar? Triste fim da Humanidade..."
A seguir, entrou o médico encarregado do socorro aos rejeitados.
Cumprimentou a platéia e esta se iluminou com a luz
da sua bondade. Esse espírito trabalha sem parar em prol daqueles
que tiveram a viagem interrompida. Olhei-o com amor e pensei:
"que bom seria se todos fossem iguais a você". Infelizmente,
há Homens e homens. Iniciou a preleção:
- Irmãos em Cristo. Deus, na Sua plenitude de bondade,
cria incessantemente e povoa o Universo. O homem ganhou de
Deus a vida e por ela terá de lutar. A vida é eterna, indestrutível,
por ser obra divina, mas ela é dividida em etapas. Primeiro, passamos
por vários estágios e ganhamos o paraíso, que é o Universo.
Em cada reino, o espírito adquire tendências que não podemos
ainda chamar de experiências. Depois, levado é até o
esclarecimento. Continua a escalada, sempre amparado por Deus,
através dos Seus ministros. Ao sair do reino animal, alguns homens
não se despojam de alguns elementos desse reino. Mas
não se justifica, já no mundo hominal, o homem alimentar as
89
reações de um irracional ou proceder como se ainda o fosse.
Não mais se justificam suas atitudes grosseiras. Ao passar de
um reino para outro, o homem conheceu o Paraíso e recebeu de
Deus esclarecimentos sobre a perfeição. Portanto, quando erra,
erra por vontade própria, não por ignorância. Deus matematicamente
planejou a vida do ser nas suas escaladas evolutivas. Culpar
Deus pelos fracassos é fácil; o difícil é assumir que somos
seres sem conhecimento, sem Deus, fracos, covardes e inseguros,
que precisam bater por medo de apanhar. A covardia do
homem o leva a temer os fatos da vida sem enfrentá-los. Ao
primeiro fracasso, vira as costas para as verdades e se cobre dos
andrajos da incompetênciae vai assassinando os sonhos e as
esperanças dos seus companheiros, não se importando com as
conseqüências, que são terríveis quando abusamos do livre-arbítrio.
Por que o homem tira a vida de seu semelhante? Porque
dentro dele a morte fez morada. Por si só ele é um morto, quando
nada espera da vida após vida por julgar a vida espiritual
apenas um linguajar dos religiosos. Parece que é um ser privilegiado.
Vai sempre obtendo vantagens e se inflando de orgulho,
egoísmo e vaidade, até que a combinação de oxigênio, hidrogênio,
nitrogênio, carbono e outros componentes, chamada carne,
volta ao pó e ele se vê nu e perdido em um mundo que fez de
tudo para ignorar. Assim mesmo será orientado, mas a sua casa
mental registrou episódios marcantes pela dor que ele multiplicou
sobre o Planeta. O "ranger de dentes" será terrível. O grito
de socorro será abafado pelos fluidos do seu próprio espírito,
fluidos estes pesados de egoísmo e de maldade. Deus é mau?
pergunto. Claro que não. Temos asas e as cortamos, preferimos
os pés chumbados na matéria do egoísmo e da vaidade, e nada
fazemos pelo nosso crescimento.
90
- Agora, que fazer? continuou o orador. Chorar pelas oportunidades
relegadas pelo nosso orgulho? Será mais fácil ouvir a
Deus e andar certo. Ele nos ofertou o Decálogo, que nos pede: não
mate, não roube, e quem pratica o aborto não só mata covardemente,
como rouba o direito de um espírito viver na carne, direito que
todos os falidos têm. Ninguém vem ao corpo físico fazer turismo.
Cada ser vem ao plano material em busca do remédio da evolução
para o seu espírito. Por que lhe negar o direito da vida uterina,
primeira
infância, adolescência, idade adulta? Por quê? Apenas porque
queremos matá-lo, vermo-nos livres dele? Não, meus irmãos,
mil vezes, não! Ninguém pode tirar a escada da evolução dos pés de
um espírito falido; quando ele tomba, nós tombamos juntos, e queira
Deus que o homem pare, mas pare mesmo, com esta idéia de
matar uma criança, que implora para nascer. A criança não vem à
terra somente para enfeitá-la, ela traz para cada homem uma estrela
de luz e esperança e ninguém tem o direito de apagar esta chama de
vida. Se em vários países a mulher tem o direito de matar, possui
também o de arcar com as conseqüências desse ato. bom trabalho.
Terminadas as palestras, voltamos à Colônia dos Rejeitados.
Procurei irmã Rosália e junto a ela percorri os belos jardins
floridos, não sem antes notar que seus imensos olhos azuis estavam
mais belos, combinando com o seu camisolão, também azul.
Suas lindas tranças, cor-de-mel, davam-lhe um ar divino. Sentindo-se
analisada, falou:
- Obrigada, Luiz Sérgio, pelo olhar de carinho.
- Irmã, parece uma santa, é muito bonita.
- Bondade sua. A beleza que julga ver em mim está no
91
seu coração. Mas, por que o irmãozinho está tão triste?
- O aborto, irmã, é um crime cruel, e como os homens o
ignoram!
- É verdade, Luiz Sérgio. As autoridades fingem ignorálo.
É mais fácil. Venha comigo, Vou levá-lo a conhecer uma bela
criança: Mariana.
Caminhamos até o chalé oito, onde as tias cuidavam de
Mariana, que estava em preparo reencarnatório. Ao ver Rosália,
correu a lhe abraçar e as duas conversaram muito. Rosália tentava
convencer Mariana a reencarnar, mas esta dizia:
- Para que, senhora, se os meus pais não me querem? Já
tentei duas vezes...
- Mas agora será bem recebida, acredito eu.
- Espero, irmã Rosália.
Mariana nos deixou, tinha de submeter-se a tratamentos
necessários ao seu retomo à carne.
- Posso ficar aqui para acompanhar a volta de Mariana?
- Sim, irmão. Teremos prazer em tê-lo conosco.
Ali mesmo, no chalé, iniciou-se a preparação da descida
de Mariana. A noite, durante o sono, seus pais, Roberto e Tatiana,
eram elucidados sobre o compromisso encarnatório. E Mariana,
todas as vezes que tinha de abraçar os pais, recordava os dois
momentos cruéis, quando o aborto lhe negou a vida física. Por
isso, relutava em abraçar os futuros pais, chegando a perguntar:
- Por que me querem agora, se antes tanto mal me fizeram?
Tatiana respondeu:
92
- Antes não podíamos ter filhos, estávamos estudando.
Agora temos estabilidade financeira para recebê-la.
Mas Mariana não acreditava nos futuros pais. Temia sofrer
novamente. E assim a nossa equipe acompanhava a luta
daqueles espíritos. Mariana ia retornar ao corpo físico e seus
pais a aguardavam ansiosos.
Enfim, chegou o dia. Tudo certo. Nós éramos só emoção, principalmente
quando Mariana foi ligada pelos construtores divinos
ao útero de Tatiana. Este grande guardião a acolheu com tal carinho,
que até os encarregados deste belo trabalho sentiram-se intrusos.
Agora era o corpo físico de Tatiana que iria abrigar o corpo
perispiritual de Mariana e, junto a ele, iniciar a criação de um novo
corpo físico. A forma reduzida de Mariana já interpenetrava o perispírito
de Tatiana. Iniciara-se a grande jornada.
Todo este trabalho era seguido de perto por excelentes técnicos
da reencarnação. Mariana alojara-se no útero materno e
seria alimentada por Tatiana. A forma diminuta de Mariana era
o modelo para o seu futuro corpo carnal.
A máquina física da mulher possui elementos tão valiosos
que ela deveria sentir-se uma deusa, a deusa da reprodução. Infelizmente,
muitas mulheres não se conhecem, julgam que os
órgãos genitais são os órgãos do prazer, somente. Um dia a mulher
vai-se conhecer melhor e se fazer respeitada.
Voltamos a olhar o corpo reduzido de Mariana no interior
do valioso útero materno; ele guardava com carinho a minúscula
forma e desde o momento que esta se alojou nele, foi recebendo
as energias necessárias para o seu crescimento intrauterino.
Observando a parte física, Presenciamos o molde começando
a tomar consistência - era o físico que estava sendo
formado, graças ao poder do Criador. Na volta de Mariana,
93
compreendemos a bondade de Deus: ali, naquele pequeno corpo,
encontrava-se uma chama de vida e graças a ela logo estaria em
condição de recomeçar. O espírito não retroage, mas a forma
física, sim, e Mariana voltou a ser infinitamente pequena para
galgar a glória do renascimento.
- Meu Deus, que maravilha! exclamei, extasiado, diante
do milagre da vida.
Desde o instante do ligamento, o corpo de Tatiana fornecia
os elementos necessários ao corpo e ao espírito de Mariana.
E o embrião, todo iluminado, iniciava uma longa caminhada.
Realizada a sublime ligação pelos técnicos divinos, nada
mais nos prendia ali. Retiramo-nos.
- Posso acompanhar esta gravidez? Será que Tatiana não
vai abortar novamente? perguntei à doutora ísis.
- Acho que não. Ela e o marido esperam ansiosos a chegada
de um filho.
- Mas ela já praticou o aborto.
- Sim, mas agora é diferente, pois aguardam ansiosamente
essa gravidez.
- Irmã, como o ser encarnado desconhece o transtomo
que ele causa à espiritualidade quando pratica o aborto!
- É mesmo. Poucos possuem sensibilidade para compreender
o valor da vida.
Deixamos a casa de Tatiana e aproveitamos para prestar
auxílio nas casas abortivas, que são verdadeiros matadouros.
94
Quem pratica o aborto terá de pagar ceitil por ceitil. Estávamos
trabalhando, quando chamados fomos até a
espiritualidade. Na Colônia dos Rejeitados, a doutora Isis nos
esclareceu:
- Luiz Sérgio, precisamos prestar auxílio a Tatiana, pois
ela está em vias de abortar.
- Ela não quer a criança? interroguei, apreensivo. * {
- Não é isso, irmão. Devido à violênciados dois abortos
anteriores, o cordão umbilical está apresentando um quadro que
pode dificultar o andamento da gestação. Iremos em auxílio a
Tatiana e recordei que a sua equipe de estudos talvez desejasse
estar presente. ""
- Obrigado, irmã, serei eternamente grato.
E assim fomos para a casa de Tatiana, onde a encontramos
muito bem, com sua gravidez no quinto mês. Quando Tatiana se
deitou, os médicos aproveitaram para prestar socorro, e qual não
foi a minha surpresa ao constatarem que no cordão umbilical
havia um nó, impedindo a circulação do sangue, portanto, prejudicando
o desenvolvimento da gestação. com grande conhecimento
e habilidade, foi o cordão afrouxado pelos médicos,
voltando ao normal. Mas a doutora Ellen falou a ísis:
- Agora impedimos, mas o cordão umbilical de Mariana
foi atingido nos abortos anteriores, sendo esta a causa deste nó
cego. O cordão umbilical está dilatado, bastante flexível, e quando
o feto se movimenta, pode ocorrer o nó.
- Explique-me, doutora, solicitei à irmã Ellen.
- No momento do aborto o feto se debate, desesperado, e
nessa luta o cordão tenta protegê-lo e se dilata. Numa nova gravidez,
ele apresenta esta anomalia, que põe em risco a gestação.
Mas também pode ocorrer com mulheres que não praticaram o
95
aborto. São crianças que não desejam reencarnar, e no esforço
para se desprenderem do físico, afrouxam o cordão e este pode
sofrer os chamados nós cegos, muito raros de acontecer naquelas
que nunca abortaram, porém com certa freqüênciaem mulheres
que já passaram por essa experiência.
Olhei Mariana no útero de Tatiana e fiquei contente por
Ellen ter desfeito o nó umbilical que poderia interromper a gestação.
- Será que não ocorrerá novamente?
- Esperamos que não, e se acontecer, queira Deus cheguemos
a tempo.
Dali saímos e, com o coração repleto de preocupação, pedi
a Deus por Tatiana e Mariana: "desejo, Senhor, vê-las unidas
como mãe e filha".
As lágrimas acariciavam meu rosto, mas o meu Espírito
confiava no poder de Deus.
Capítulo XII '
BANHO DE LUZES
A MÁQUINA HUMANA
Se o encarnado buscasse as verdades espirituais, não viveria
nas trevas da ignorância. Quem conhece as conseqüências de um
aborto jamais o comete. Por falta de esclarecimento muitos males
acontecem na Terra-o aborto, um deles. Quantos casais planejam
a chegada do bebê, entretanto, quando a criança não está nos seus
planos, é expulsa de maneira cruel através do assassinato.
Já de volta à Colônia dos Rejeitados, fui com meu grupo
até o auditório onde uma platéia muito estranha ouvia atentamente
uma preleção de Olavo. Olhei aqueles corpos, sem encontrar
palavras para descrevê-los. Alguns espíritos, bem deformados,
possuíam rosto de criança e corpo de adulto; outros, corpo
de criança com braços e pernas de adulto.
Olavo tecia comentários sobre o porquê de o homem se
dizer dono de si mesmo, sempre pronto a rebelar-se contra a
sociedade, dizendo-se livre, porém, na hora da verdade, tudo
fazendo para não assumir os fatos:
- O desejo está em oposição às tendências morais. A
mulher só pratica o aborto quando se sente incapaz de assumir
uma vida, sendo esta a causa de muitas buscarem ajuda nas
97
clínicas abortivas. Mas os abortados precisam conscientizar-se de
que o aborto é um ato físico e o espírito não deve ficar reavivando
os fatos tristes que enfrentou. Sei que carrega no corpo a chaga
da rejeição, mas nem por isso deve considerar-se rejeitado. Cada
cérebro é uma casa, um mundo, enfim, um universo, e somente
seu dono pode arrumá-la. Se ficarmos ornamentando nossa casa,
nosso mundo, com os enfeites da revolta, da vingança, do ódio,
teremos um cérebro perturbado e uma casa mental em desalinho,
fugindo do universo de Deus. Sabemos que no momento
do violento aborto o cérebro, defendendo-se, deseja, em alguns
segundos apenas, dar outra vez nova modelagem ao corpo. Nesse
desespero ocorrem as anomalias da forma perispiritual. Não
esqueçamos que, para chegar à condição de feto, tivemos de
aprender a nos concentrar de tal modo que, por vontade própria,
déssemos ao corpo perispiritual a forma diminuta.
Olavo mudou o tom da voz, falando suave e pausadamente:
- Agora, neste auditório, vamos olhar as lâmpadas que se
encontram no teto e vamos dar um novo colorido à nossa casa
mental. Vamos, ainda, buscar no inconsciente o apagador e, depois
de ter retirado da nossa mente os fatos cruéis já vividos,
vamos fazer crescer a vontade da cura e plasmar com amor um
corpo perfeito para nós. Vamos fixar as lâmpadas e agora, como
se fôssemos pintores, tocar cada parte do nosso corpo, dando-lhe
as formas das quais ele precisa.
Estabeleceu-se completo silêncio. As luzes ganharam uma
nova irradiação e todos aqueles espíritos, de olhos bem abertos,
fixavam as lâmpadas para depois cerrarem os olhos e pouco a
pouco foram moldando, cada qual, um novo corpo. Quando olhei
novamente aqueles corpos, antes tão deformados, pude
98
constatar que agora voltavam a possuir uma forma mais equilibrada.
Olavo parabenizou-os:
- Conseguiram! De hoje em diante todos sabem que a
chave da felicidade se encontra dentro de nós e que, para viver
em paz, precisamos amar a Deus e ao próximo.
Muitos não conseguiram conter o pranto, tal a emoção que
os dominava, ao perceberem que a cura havia-se operado. Terminada
a sessão de terapia, vários enfermeiros foram retirando
os irmãos. Não eram mais crianças, eram espíritos que haviam
retomado à sua antiga roupagem perispiritual. Acerquei-me de
Hápila e indaguei:
- Será que o ódio acabou?
- Acho que não, ainda terão de buscar novos tratamentos.
- Irmão, até que foi fácil o retomo à forma antiga...
- Sim, Sérgio. Pode ter-nos parecido fácil, mas não sabemos
quantas sessões de terapia eles tiveram com Olavo.
Enquanto nós dois conversávamos, Olavo aproximou-se.
- Como passam, garotos?
- Graças a Deus, muito bem.
- Por que a visita, desejam algo?
- Estamos aqui em estudo e ficamos boquiabertos com o
que ocorreu neste recinto.
- De quantas sessões eles precisaram?
- Não sei, foram tantas, que perderia meu precioso tempo
se fosse contá-las. O importante é que cada qual buscou no
interior da alma os elementos psíquicos adquiridos ao longo da
vida uterina, procurando descobrir quais foram os acontecimentos
que mais o marcaram, se a redução da forma física ou,
99
principalmente, a violênciada hora do aborto.
- O que faz para ganhar a confiança desses doentes, irmão?
- Acho, Luiz Sérgio, que eles enxergam em mim um defensor
da verdade e notam a minha inquebrantável fé na razão.
Além do mais, sempre gostei de crianças. Durante vários anos,
quando encarnado, trabalhei numa clínica neurológica para crianças.
Hoje usei o sono hipnótico, fazendo-os recordar as circunstâncias
que deram origem às suas deformações perispirituais.
Só isso foi feito, meu amigo.
- Eles voltarão a reencarnar através da mesma mãe?
- Penso que não, nem acho prudente recolocarmos alguém
que já sofreu tanto ao lado dos seus algozes. Pode parecer
benéfico para ambas as partes, mas, como estudioso do inconsciente,
acho injusto tal procedimento. Foi gratificante observar
a felicidade daqueles espíritos antes tão deformados. A violência
na Terra, a cada instante, faz tombar uma vítima. Os anos
passam, mas o mundo interior de cada homem não muda, talvez
porque em cada ser exista um universo ainda com regiões desconhecidas
da própria ciência.
- Sabemos que o irmão sofreu muito quando encarnado e
o seu país vivia momentos difíceis. Como conseguia manter seu
equilíbrio?
- Convivendo com desequilibrados, sentia-me um rei,
mesmo com todas as dores por que passei, não só com os bisturis
e os médicos, como também em ver o meu país dominado. A
doença cruel, que ia corroendo-me pouco a pouco, era a companhia
diária. Mas tudo teve um fim. Entretanto, a separação da
pátria amada foi o pior. Sou um homem que sempre acreditou
no ser humano e luta para que todos sejam felizes. Quando o
100
inimigo batia à minha porta, eu via nele a outra face, aquela oculta
dele mesmo. Graças a Deus, de ninguém guardei mágoas.
- Irmão, por que a mulher pratica o aborto?
- Ela é levada pelos preconceitos internos.
- Pode explicar melhor?
- Sim, meu amigo. Por mais que a mulher se diga dona
do seu corpo, ela ainda não o conhece, e por não conhecê-lo,
dele abusa. Quando percebe que não pode controlar a natalidade,
a não ser através de métodos anticoncepcionais, vê-se incapacitada.
Por mais que pretenda, não consegue ser sexualmente
igual ao homem. Para dominar seu corpo, terá de lhe amortecer
as funções. Ela me recorda os obesos: querem emagrecer sem
parar de comer. No dia em que a mulher enriquecer sua mente,
será dona de seu corpo. Diz-se liberada, mas é prisioneira dos
preconceitos. Arraigada aos preconceitos do passado, continua
a ser um objeto usado e descartado. A mulher inteligente obtém
primeiro sua liberdade intelectual, depois a profissional, para
depois fazer a escolha do que deseja realmente na sua condição
de fêmea. Acredito mesmo que uma mulher inteligente e realizada
profissionalmente jamais praticará o aborto. Quem o pratica
hoje em dia são as mais jovens, por temerem as conseqüências
dos seus atos. Dizem-se liberadas, mas as de hoje são mais retrógradas
do que as de ontem, pois fazem e não assumem. Antigamente
os jovens não cometiam tantos erros, pois as vezes que eram
imprudentes assumiam o que faziam. Hoje, não. A juventude liberada
está por demais medrosa. Também praticam o aborto as
domésticas, que vivem para servir, mas não vivem felizes, e para
elas um filho a mais é trabalho aumentado. Há também as mulheres
de baixa renda que temem a gravidez, porque não vêem
meios de criar um filho. Portanto, encaramos o aborto como um
101
fato social. A mulher só o pratica porque ainda se julga um ser pequeno.
A mulher superior, equilibrada, não mata, busca nas fibras
do seu organismo físico os elementos que poderão ajudar a sua alma
no instante em que terá de viver este momento novo, porque o seu
organismo está recebendo outra vida: um filho. Se esta mulher já
está realizada intelectual e profissionalmente, acredito que jamais
pensará em matar. Porém, a mulher-objeto, que só serve de forma
de prazer ao macho, esta mulher não lhe quer bem, é ser perigoso,
porque perigosos são todos os seres pequenos que rastejam sob os
pés dos homens, e ela, na primeira oportunidade, usará o ferrão.
Ela, a mulher-objeto, não possui ainda a base do equilíbrio. Portanto,
Luiz, todas as mulheres que abortam precisam fazer análise; ainda
não se descobriram, algumas nem sabem o que é ser mulher. As
verdadeiras mulheres possuem o instinto materno, elas são os grandes
vultos da Humanidade.
- Mas, Olavo, hoje, em alguns países, pratica-se mais o
aborto do que nascem crianças.
- Tem razão. Nunca se viu tanta mulher sem comportamento;
despem-se, drogam-se, prostituem-se, sem vacilar. Elas ainda
julgam que a igualdade de direitos está no sexo e esquecem que as
grandes mulheres e os grandes homens fizeram a História através
da inteligência e do sentimento. Hoje a menina deita-se com o companheiro
porque está na moda, e não por se completar nele. Resultado:
homens e mulheres repletos de neuroses.
- Estou abismado, Olavo, sempre o julguei um defensor
das livres atitudes, achando que o homem, para ser feliz, tem de
fazer tudo que julga certo.
- Pelo visto, conhece-me pouco. Sou a favor da liberdade
da alma. Não acho certo, para livrar-se de algo, ficarmos prisioneiros
de outra coisa. Isto é transferência de responsabilidade.
102
Só devemos dar o passo se a perna estiver firme. Não sou
adepto dos tombos, acho que o homem precisa ficar forte para
saber andar, ou pular. Um bom psicólogo tem de ajudar o homem
a se libertar das amarras, das neuroses, e não descartar
uma, adquirindo outras. O sexo hoje é cantado em versos; fala-se
de sexo como se ele estivesse exposto em uma vitrine, e não
como se deve falar: de algo puro e natural, cujo respeito o homem
ainda não lhe dá.
- O senhor é contra a nudez?
- Jamais serei contra a nudez. Se ela fosse pecaminosa,
nós não viríamos ao mundo nus. Só não é bom para a mente
humana usarmos o nu como se fosse um aperitivo para ser tomado
antes de qualquer banquete. O nu é uma das expressões
mais singelas da nossa alma; quando a veste de seda ou linho se
desfaz, surgindo o corpo, fica defronte dos nossos olhos a máquina
física, comandada por uma inteligência chamada espírito.
Se nós, envergonhados, cobrimos as partes íntimas, é a nossa
alma que não deseja se mostrar. Mas se caminhamos livremente,
sem nos envergonharmos, é a nossa alma que já se despiu
dos preconceitos e também confia nos olhos que a vêem. Está
vendo, Sérgio, não somos contra a nudez, somos contra as fantasias
que o homem carrega na alma e que a fazem por demais
maldosa. Mas chegará o dia em que na Terra todos os homens
irão se respeitar. Dizem os livros espirituais que o homem encontrará
a fonte e, ao se banhar, conhecerá a sua verdadeira personalidade;
aí, sim, a Terra será composta de verdadeiros homens,
os que já passaram por ela e souberam viver em espírito.
O "papo" estava ótimo, mas Josef veio buscar Olavo; em
outra ala sua presença era requisitada. Despediu-se, dizendo-me:
103
- Sérgio, fite bem o seu corpo, nele estão marcadas as
partes importantes, e através delas é que nós paramos ou prosseguimos.
O corpo é máquina, o espírito também, pois quando
uma pára, a outra comanda, portanto, ninguém deve sentir-se
incapaz. Deus ofertou-nos a inteligência para que não deixemos
as nossas máquinas pararem por incompetência. Até mais.
104
Capítulo XIII
A MENSAGEM DE DEUS AOS DUROS DE CORAÇÃO
Terminada a palestra de Olavo, fez-se pequeno intervalo,
que aproveitamos para colocar o pensamento em dia. Estávamos
fixando na tela mental os assuntos que gostaríamos de saber,
se tivéssemos oportunidade de perguntar ao próximo orador,
quando soou o sinal característico do reinício das aulas.
Deu entrada no recinto um simpático senhor, aparentando
meia-idade; a luz que dele partia era tranqüilizante. Ao fitá-lo,
nossos espíritos sentiam-se reconfortados. Sua voz suave ressoava
na platéia, elevando-nos até o Pai:
- Que Deus, Criador incriado de todo o Universo, derrame
sobre Seus filhos as energias mais puras, para um crescimento
espiritual que lhes trará paz. O homem, apesar dos chamados
divinos, ainda reluta em abraçar Deus e o seu próximo,
por isso a dor e o desespero lhe fazem companhia. Mas como
fazer para levar aos duros de coração a mensagem de Deus,
mesmo sabendo que só ela nos pode curar? Quantos irmãos padecem
de doenças terrenas, muitas contraídas por eles mesmos,
devido à falta de conhecimento das coisas de Deus? Quantas
criaturas dementadas buscam fugir da realidade, porque esta não
lhes apresenta condições de uma vida fácil? A Terra vive momentos
difíceis, a loucura apossa-se das mentes fracas e vazias
105
e a ociosidade leva o homem a fugir da sociedade, que cobra de
cada um uma atitude digna. Hoje a sociedade sofre ao ver as
famílias lutando para salvar seus filhos e estes se prostituindo,
praticando delitos, dominados pelo alcoolismo e pelo tóxico.
Mesmo assim, os pais ainda temem aproximar-se de uma fonte
de esclarecimento e luz: a Doutrina Espírita. Encontramos o ébrio
tombado na sarjeta, a menina se prostituindo, o viciado trancado
nas celas de uma prisão.
- Quem pode salvar o homem - continuou o orador - é
a família e esta tem de encontrar nas Casas Espíritas a verdade e
o amor. Hoje, no ano de 1989, ainda notamos falhas no Direito
Penal, porque cada cidadão carrega, dentro de si, um universo
de glórias ou de fracassos. Cada delinqüente precisa de tratamento
médico, principalmente de um bom psiquiatra. Julga-se o
homem, mas esquece-se de curar sua alma, e é esta que se encontra
doente. com pesar, visitamos os cárceres, superlotados
de criaturas que mais parecem feras, mas, como nós, filhos de
Deus, ansiosos por momentos de felicidade. Não existem bandidos,
existem, sim, banidos da sociedade, que não necessitam
de grades, mas de bons médicos, psicólogos, sociólogos e juristas.
Enquanto o homem prender e maltratar outro homem, a violência
dominará a Terra. O criminoso é um doente - absurdo
será maltratá-lo. Ele deve receber adequado tratamento e ser posto
simplesmente na impossibilidade de causar dano, mas não como
estão fazendo hoje: superlotando prisões, nada fazendo pela alma
doente. O pior criminoso tem uma luz de bondade, pois também
é filho de Deus. Precisam, as autoridades do mundo físico, unir
a ciência médica à ciência penal, só assim conseguirão fazer
cessar as violências. No dia em que se conhecer melhor o homem,
a justiça reinará na Terra. A Doutrina Espírita tem tudo
106
para ajudar o ser, ela é o Consolador prometido por Jesus. A
Doutrina Espírita nos ensina a virar pelo avesso a nossa alma e
tentar limpá-la. Ela dá ao homem o conhecimento de si mesmo;
ela não critica o próximo, mas nos toma severos conosco mesmos.
Quem tiver a felicidade de descobri-la e colocá-la no coração
espantará os monstros da imperfeição. Quem está encarnado
está sujeito a praticar delitos, por isso disse Jesus: orai e
vigiai. O homem pouco conhece de si mesmo, mas a Doutrina
Espírita ensina-o a descobrir-se. No dia em que ela dominar a
Terra, não teremos mais prisões, cada um cuidará de aperfeiçoar-se
na bondade. Enquanto a Terra não se tomar espírita, cada
casa, cada núcleo familiar tem por dever caminhar junto à ciência.
Não podemos, de maneira alguma, cair nos erros das antigas instituições
que, julgando-se donas da verdade, atacavam quem não as
compreendessem e pecavam pelo fanatismo. Hoje, os espíritas, mais
que nunca, necessitam pregar a verdade, não apegados ao
mediunismo, mas dando a Deus o que é de Deus e a César o que é
de César. Os espíritas precisam conviver com os dramas da sociedade.
A Casa Espírita tem de ser transformada em um hospital de
Deus. A Doutrina não perecerá se os seus adeptos forem fiéis aos
ensinamentos do Cristo e da Codificação. Preciso é que não fiquemos
para trás, horrorizados com os fatos que hoje ocorrem. Devemos
enfrentá-los, usando os esclarecimentos evangélicos como escudo,
sem jamais nos julgar sábios, ou santos. O espírita moderno
precisa conviver junto aos sofredores, refletindo a bondade divina
nos seus atos. Ele não precisa vestir-se de preto nem ter aparência
fúnebre; só precisa adorar a verdade e lutar por ela.
'- Hoje aqui me encontro enlaçando, com todos os presentes,
o meu coração, em prol da Humanidade, principalmente
com todos os jovens que hoje fogem dos compromissos e buscam
os vícios. Não os condeno, apenas peço aos encarregados
107
que os assistam, educadores ou pais - médicos ou juristas, que
recordem que em cada homem existe uma alma que sofre e sonha,
e que não é totalmente má, somente precisa de tratamento e
amor. O jovem, ao se drogar, está em busca de algo; a mulher,
ao abortar, julga livrar-se de algo que a atrapalha. Ambos são
doentes precisando de amor e esclarecimentos, mas nem por isso
devem receber de um espírita uma crítica sequer; eles precisam
de nós e as Casas Espíritas precisam urgentemente esquecer um
pouco os espíritos e dirigir-se aos encarnados. Eles estão necessitados
demais. O Centro Espírita que fica prestando ajuda apenas
aos espíritos sofredores e nada faz pelo encarnado está longe da sua
tarefa. Precisamos auxiliar o encarnado para que ele não dê trabalho
quando desencarnar. Os espíritos ajudam os homens a conquistar
a paz do seu próximo e os homens cooperam com os espíritos
com suas preces e com seu trabalho em prol dos espíritos doentes.
Para o tratamento das obsessões, dia especial, com médiuns preparados;
para estudo mediúnico, contato com espíritos escolhidos pelos
mentores da Casa, quando os recém-desencarnados são levados
para as Casas transitórias. Ninguém deve colocar um médium
iniciante para auxiliar um obsessor. Não devemos confundir obsessor
com espírito doente. A Casa que desejar acompanhar o avanço do
mundo moderno tem de lutar pela reforma íntima de cada um, porque
as doenças mentais crescem à medida que o homem vai correndo
atrás dos bens temporais e se apega à avareza. O espírita precisa
jogar fora a veste corroída de orgulho e vaidade, pegar a charrua do
trabalho e do desprendimento e cantar a canção do amor. O espírita
precisa conscientizar-se do real valor do espírito, para não cair nos
erros das outras religiões, que se perderam e caducaram por ter desejado
ultrapassar a privacidade do homem, tolhendo a sua liberdade.
Deus, perfeito como é, dá a cada filho o livre-arbítrio. Condenar,
amedrontar, castigar, tudo isso não passa de pobreza de
108
sentimentos. O bom espirita não atira pedras e, sim, flores, por conhecer
a lei do retomo. Uma Casa Espírita precisa de pessoas capazes de
lidar com os mais sérios problemas e atender a todos com solicitude,
respeito, prudência e sigilo. Cada caso é um caso; as dores são
dores, não importa como estão sendo suportadas. Ao termos contato
com um doente, devemos demonstrar-lhe amor e carinho e, com
cuidado, oferecer-lhe ocupação. Nada melhor que a terapia do trabalho
para uma alma enferma. Não esquecer de incentivar no
iniciante o estudo da Doutrina, porque só ela pode nele incutir, para
sempre, o extremado amor à verdade. Para um bom espírita não
existem pessoas totalmente perversas, todos somos gênios do bem
ou do mal, mas todos saídos da inteligência do Todo-Poderoso. O
Espiritismo é tão velho quanto a Terra, mas graças a Jesus ele se
consolidou nas Suas pegadas de fé, amor e caridade. Jesus, o Médium
de Deus, deixou-nos o exemplo de como se deve tratar os
coxos, cegos e dementados, e também como se deve portar um
médium evangelizado: é só voltarmos as folhas da História e nos
defrontarmos com os fatos mediúnicos marcados nos Evangelhos,
todos eles repletos de equilíbrio e disciplina. Depois, o Codificador
lapidou o Espiritismo e entregou ao mundo a Doutrina Espírita,
diamante da verdade e da paz. Ninguém mais nega os fenômenos
espirituais; podem discordar deles, mas sabem, e como sabem! que
eles existem. Muitos comparam as Casas Espíritas aos cemitérios:
sabem que eles existem mas não gostam de visitá-los; é, para suas
almas materialistas, verdade muito dura.
'- Estou aqui, neste anfiteatro, junto a vocês, pedindo a
Deus por todos e tentando oferecer a cada trabalhador do mundo
físico um pouco das minhas experiências, desejando que a
Terra cresça em direção a Deus, e que em cada estação divina Casa
Espírita - existam criaturas sabendo orientar aqueles que
longe se encontram das verdades espirituais. O Espiritismo tem
109
de acompanhar o avanço da ciência e hoje, com o progresso da
tecnologia, não se concebe os espíritas estáticos somente sentados
em mesas mediúnicas, desejando doutrinar espíritos
desencarnados, enquanto a cada segundo desencarnam pessoas
de maneira cruel, e muitas sem qualquer preparo espiritual. Devemos
amparar a criança, o jovem, enfim, o ser humano, apresentar-lhes
Cristo, não de maneira autoritária, nem fanática, mas
vivendo cada espírita de um modo diferente da vida que vivem
os homens apegados à matéria, longe da avareza, da bebida, do
fumo e dos desvios sexuais. O espírita tem por obrigação tomar-se
um ser evangelizado em casa, na rua e no trabalho, não
usando as palavras para doutrinar, mas sendo um exemplo de
vida para todos os que dele se aproximam. O espírita que só vai
ao Centro no dia de reunião de seu grupo está na Doutrina, mas
ela ainda não entrou no seu coração. Os "mortos" precisam dos
"vivos", mas hoje os "vivos" precisam uns dos outros para não
morrerem de dor e solidão. Quem só freqüenta os grupos
mediúnicos precisa perguntar, na Casa, onde ela está necessitando
de ajuda e, nesta, devem existir grupos de trabalhos manuais,
artesanato, pintura, teatro, biblioteca. O serviço social deve
receber de todos os freqüentadores um carinho especial. Casa
sem caridade é Casa sem alicerce. Médiuns espíritas: lutem por
uma vida doutrinária e tenham a certeza de que o Cristo está
onde a mão ampara, cura e levanta. Que Deus nos abençoe, hoje
e sempre. César.
Aquela voz ficou por muito tempo em meus ouvidos. Quanta
sabedoria! Só me retirei quando Hápila voltou-me à realidade:
110
; Sérgio, na enfermaria oito teremos uma aula sobre aborto.
- Obrigado, amigo.
Levantei-me e, juntos, dirigimo-nos até o local. Enquanto
não chegávamos, trocamos idéias, e foi o meu amigo quem falou
primeiro:
- O irmão César, com conhecimento, mostra-nos a obrigação
que temos com o nosso espírito, que não podemos
negligenciá-lo. No caminho da evolução não existem atalhos,
todos temos de lutar pela perfeição e todos estão propensos aos
erros, sendo esta a causa por que nunca devemos censurar alguém.
Recordo o irmão Jacó: "Na longa estrada das reencarnações,
posso ter errado no passado, podendo errar no presente e
no futuro. Por isso, a ninguém devo condenar". Pela palestra
sentimos que em cada homem está um pouco de bondade e de
imperfeição, mas todos precisamos do farol divino: a fé, a esperança
e a caridade, para não nos perdermos nesta imensa estrada
da vida. Devemos buscar no próximo a bondade latente em cada
espírito, e tudo fazer para compreendê-lo, como sempre procuramos
compreender e nos perdoar. Quando defronto com confrades
espiritas tão duros no julgamento de irmãos, recordo que Jesus, perfeição
divina, disse aos apóstolos: não vim para julgar e, sim, esclarecer.
No dia em que os espíritas falarem menos e exemplificarem
mais, veremos nos Centros Espíritas almas renovadas. A Terceira
Revelação é a arca de Noé que veio à Terra esclarecer o homem
sobre a morte e ensinar que todos temos por obrigação atingir o
estágio do amor duplo - a Deus e ao próximo.
Assim, chegamos. Os outros já nos esperavam na enfermaria.
Havia vários espíritos. Algumas crianças estavam sentadas
nas camas, outras pareciam dormir. Encontramos a doutora
ísis, que mostrou algo que vira anteriormente e muito me
111
marcara: alguns tinham o tronco de criança e a outra parte de adulto;
outros, a mão direita de adulto, a esquerda de criança. Corpos
mutilados, tudo isso por causa do aborto. Os médicos davam
passes e aplicavam sonoterapia nos doentes, mas eles continuavam
indiferentes, olhavam ao redor, mas distantes se encontravam.
A médica aproximou-se de Gustavo, que tinha a face adulta
e o corpo de criança.
- Como vai, Gustavo?
- Ótimo, irmã Isis. Estou querendo voltar para minha Colônia,
onde deixei muitos amigos.
- Isso depende unicamente de você, irmão. Vamos ao exercício.
Se conseguir voltar à forma adulta, logo estará na sua colônia
de origem.
- Só com uma promessa: não quero mais saber de reencarnação;
se vocês teimarem em me levar de volta ao plano físico,
fico assim mesmo como estou. Odeio Andréa e Paulo, que
vocês escolheram para serem meus pais.
Nisso, Jacó adentrou o recinto e foi-se aproximando, dizendo:
- Não quero acreditar que o meu amigo diga tão feia palavra
- ódio - que um dia será retirada do dicionário.
Todos nós o cumprimentamos em coro:
- Como vai, irmão Jacó?
-Muito bem, irmãozinhos. Só não estou melhor porque
o meu amigo Gustavo está alimentando ódio em seu coração.
- Irmão Jacó, sabe o que fizeram os meus futuros pais?
Assassinaram o corpo que ia me servir na terra e ainda me perturbaram
o espírito.
- Sei disso, mas é o irmão que irá ajudá-los. Nada melhor
112
que um filho para dar aos pais lições que nem a vida apaga.
- Gosto muito do senhor, irmão Jacó, mas já decidi: não
quero mais saber de Andréa e Paulo!
- Só vim visitar você, não pertenço a este departamento.
Vivo no plano físico lutando pela não-violência e, sendo o aborto
uma violênciacontra os projetos divinos da procriação, sempre
oro por todos os que o praticam.
- Então o senhor tem piedade de quem pratica o aborto e
não das suas vítimas?
- Gustavo, oro pela união de todos os filhos de Deus,
principalmente os mais pecadores. E aquele que pratica o aborto
é um ser que em nada crê, nem em Deus, portanto, é muito
infeliz.
Aproximei-me de Jacó e falei:
- Irmão, gosto demais do senhor e fico feliz em vê-lo
aqui, não sabia que estava trabalhando nesta Colônia.
- Sérgio, estou em todos os lugares onde o espinho implacável
do ódio deseja ferir a alma, e nesta Colônia os rejeitados
fermentam o ódio nos corações. Os que praticam o aborto
não amam nem a si mesmos, portanto, irmão, é ódio gerando
ódio. Aqui venho sempre ajudar Camila, faço muito pouco, mas
faço com o coração repleto de amor ao meu próximo.
Contemplei aquela figura linda e inesquecível. Para cada
ser da Humanidade Jacó é uma bandeira branca de luz e paz;
onde chega, o perfume do amor invade todos os corações.
A nossa turma ficou só observando o diálogo entre ele e
Gustavo, digno de ser narrado, mas infelizmente não tive permissão,
somente quando Gustavo, em lágrimas, abraçou o querido
velho, dizendo:
113
- Está bem, ajude-me a voltar à forma antiga.
E Jacó, em posição de lótus, à frente de Gustavo na mesma
posição, iniciou o trabalho mental. Jacó, de mãos juntas sobre o
peito, cabeça baixa, orava em silêncio. Gustavo, também na
mesma posição, tentava entrar em sintonia. Começou Jacó a falar,
num tom de voz dulcíssimo. Sua voz era tão suave que receei
também entrar em estado hipnótico.
- Gustavo, a roseira perdoa a mão do jardineiro que lhe
furta a rosa perfumada; a terra não reclama paternidade quando
o agricultor a abandona, levando os cereais; os pais não amaldiçoam
os filhos quando saem de casa para construir um novo lar.
A vida só tem valor se a colorimos de perdão. Neste instante,
vamos buscar, na nossa casa mental, o médico que ganhou de
Deus o diploma da vida e optou pela morte; que ele possa ser
tocado na sua consciência e compreenda o mal que pratica contra
inocentes criaturas; que os aborteiros recebam de nós uma
chuva de amor e perdão; que nas suas consciências brote a semente
do amor. Vamos buscar Paulo e Andréa e dizer-lhes que
nada se compara à missão dos pais; que, interrompendo uma
gravidez, eles estão retardando o momento glorioso de apertar
um filho nos braços.
Observava Gustavo, enquanto Jacó prosseguia. Seus olhos
pareciam divisar os momentos dramáticos do seu contato com o
corpo de sua mãe. O olhar foi ficando duro. Jacó só falava em
perdão. À medida que foi falando, Gustavo foi também relaxando
e adquirindo um novo olhar, menos vago e mais lúcido. Eu
estava emocionadíssimo, mas tinha de fazer muita força para
não atrapalhar o trabalho. Jacó acrescentou:
- Mantenha o pensamento em Deus, firme nele os seus
propósitos e busque recordar-se do seu corpo na forma adulta,
114
sem deformação; busque o Gustavo homem ou o Gustavo criança,
irmão.
Em poucos segundos Gustavo se nos apresentou um belo jovem
de seus vinte e sete anos; não saíra da posição inicial, apenas
crescera ali na frente de Jacó, recebendo farta carga magnética não
só do irmão-paz, como de todos nós que ali estávamos. A operação
foi longa e me pareceu complicada, tanto que para realizá-la contamos
com Jacó, que na última encarnação foi um líder hindu, conhecedor
do magnetismo humano. Gustavo, de tanto esforço, caiu desmaiado,
sendo socorrido pelos enfermeiros da casa. Afastamo-nos.
Olhei para o irmão Jacó, que parecia estático, nem um músculo
mexia, mesmo com o rebuliço do momento: nós saindo e Gustavo
sendo socorrido. Desejava muito falar com ele, mas a porta fechouse
e nós tivemos de seguir os nossos instrutores. Assombrado com o
que presenciara, perguntei:
- Ele sempre faz esse trabalho?
- Não, só quando os médicos não conseguem curar o abortado,
aí mandamos buscá-lo. Como os encarnados nada conhecem
do plano espiritual, não sabem o trabalho que dão ao praticarem
atos contrários às leis de Deus. Querem aproveitar a vida,
coitados! Um dia terão de pagar ceitil por ceitil.
- Gustavo volta logo? perguntei, ainda.
- Não. Sofreu duas reduções perispirituais, muito perto
uma da outra, não sendo bom para o seu espírito. Terá de esperar
um bom tempo para retornar.
- Mas há abortado que retorna em seguida. <
- Sim, quando ele mesmo não reluta, o que não foi o caso
de Gustavo.
Calei-me, emocionado, ao recordar o nosso Jacó rompendo
a barreira do ódio e mais uma vez saindo vitorioso. Ainda
115
bem que na Terra existem homens como ele, que passam pelo
plano físico e só deixam lembranças de hombridade.
As lágrimas corriam em meu rosto; elas eram gotas do coração,
repleto de alegria pelo mundo que encontrei e que hoje
tanto me ensina sobre o amor. Isis, vendo-me emocionado, teceu
algumas considerações sobre o ocorrido, comentando o mau
uso de um diploma e o que terá de pagar quem abusou do seu dom.
- Irmã, objetei por minha vez, o sofrimento não será maior
que a maldade que ele pratica.
- Engana-se, Luiz, o remorso de uma alma é o pior inferno,
e um dia eles o sentirão.
Chegamos diante da porta de entrada do auditório, onde
grande número de companheiros ali se encontravam. Isis cumprimentou
alguns deles e entrou, ficando junto aos instrutores.
Fomos também entrando devagar. Era um belo anfiteatro, dos
mais modernos. Encontrava-me um pouco triste, não tirando da
lembrança a cena de Gustavo e Jacó. Irmã Carmelita iniciou a
prece, que parecia dirigida a mim. Senti-me bem mais equilibrado,
podendo ouvir o médico designado para a palestra:
- Irmãos, nobres instituições prestam serviço aos necessitados,
aos tristes, aos sofridos, mas precisamos dos encarnados
para trazermos o doente até as colônias de socorro, sendo
este o motivo de organizarmos equipes para atuarem junto aos
grupos espíritas, levando os recém-desencarnados a fim de serem
encaminhados ao devido tratamento. Necessitamos dos
ambientes evangelizados para os primeiros socorros, elucidando
as Casas Espíritas que esse tipo de atendimento precisa contar
com a bondade de cada médium humilde. Poderemos não buscar
a participação deles, mas os desencarnados por acidente ou
116
outra maneira violenta pedem trabalho especializado dos médiuns
encarnados. É uma transfusão de energia. Os trabalhos
mediúnicos devem obedecer a uma disciplina de amor e os obreiros
ser esclarecidos sobre o grande valor que eles têm. Não se
concebe uma mentalidade dogmática ou mística para os espíritas.
Todos os que efetuarem um trabalho no mundo físico devem
orientar seus companheiros sobre o real valor dos trabalhos
mediúnicos e estes, no momento, precisam ser de ajuda aos recém-
desencarnados
O homem está desencarnando mal, sendo
esta a causa dos nossos cursos. ;
Ele parou, para logo depois continuar:
- Muitos julgam que somos contra a psicofonia, incorporação,
enfim, a manifestação dos espíritos. Não é isso, não. O
que os departamentos de socorro pedem às Casas Espíritas é
auxílio aos recém-desencarnados. Quanto aos grupos mediúnicos
onde o estudo da mediunidade se efetua, jamais irão terminar.
Fiquei quietinho na minha cadeira, louco para fazer perguntas.
Mas ele continuou:
- As caravanas de socorro descem à Crosta a todo momento
e esperam que cada Casa Espírita crie pelo menos um
grupo de socorro, para se tornar um hospital de Deus. Precisamos
orientar bem os freqüentadores dos Centros Espíritas que
desejam desenvolver as percepções mediúnicas, mas somente
aguardam expressões fenomênicas, supondo erroneamente que
as forças espirituais permaneçam circunscritas ao puro mecanismo
de forças cegas e fatais, sem qualquer preparação, disciplina
e construtividade; que desejam a clarividência, a
clariaudiência, enfim, todos os dons mediúnicos, mas ainda não
dominam todos os impulsos inferiores. Por isso, o caminho da
mediunidade é longo e requer do caminhante muitas renúncias e
117
muito aprendizado. Se no plano físico temos de respeitar leis
que traçam linhas de controle aos incapazes, por que o plano
espiritual estaria à mercê de criaturas sem preparo? Para que o
homem não caia no ridículo, a Casa Espírita precisa orientá-lo
na verdade kardequiana; caso contrário, não teremos médiuns
com Jesus e, sim, mediunismo. O estudo da Doutrina evangeliza
o homem e este, à medida que se aprofunda na vida do Cristo,
vai procurando mudar, matar o homem materialista, e tornando-se
um verdadeiro espírita. Porque, se desejarmos apenas o fenômeno,
ele nada vai acrescentar de útil à nossa evolução. O desenvolvimento
desequilibrado dos fenômenos pode ser tão destruidor
para o espírito, como o tóxico que mata os centros da
vida física. Nada melhor do que caminhar em terreno conhecido;
para que isso aconteça, não vamos correr atrás da mediunidade,
ela é fato natural, é uma expressão do espírito imortal,
mas exercê-la com Jesus requer que tenhamos condições sadias,
que tudo façamos para nos melhorar, deixando os planos inferiores
da vaidade, da avareza, do ódio etc., buscando a reforma
íntima para que o céu brilhe em nossa alma. Essa a razão de
lutarmos pelos grupos de socorro, onde o estudo e a ajuda aos
desencarnados vai pouco a pouco mudando o comportamento
do homem. Colocar um médium iniciante em contato com a
espiritualidade inferior é falta de respeito aos dois; o encarnado
necessita ser doutrinado para doutrinar. O melhor é colocá-lo
junto aos recém-desencarnados, para que tenha condição de ajudar
e ser ajudado. E este método não provoca o desenvolvimento
prematuro, ele aprimora os sentimentos, equilibra e abre a
porta dos novos conhecimentos. Não queira um médium iniciante
transformar o próximo; ele primeiro terá de se transformar em
um operário de Jesus, afastando de si o egoísmo e a vaidade.
Um bom espírita deve afastar o verbalismo sem obras e lutar
118
pela reforma íntima, vivendo em Cristo na paciência, na renúncia
de cada dia, na prática da caridade, no perdão às ofensas.
Ninguém serve de intermediário com a alma repleta de egoísmo,
principalmente se deseja tornar-se médium com Jesus. Os
espíritos superiores não podem manifestar-se por um aparelho
repleto de defeitos, que são as imperfeições dos médiuns. Todos
devem buscar uma Casa Espírita quando pressentem possuir dons
mediúnicos que precisam ser educados. Sozinhos, nos lares, os
médiuns são mais facilmente iludidos, e depois, só convivendo
em comunidade somos testados na paciência e na perseverança
e saberemos o quanto ainda somos imperfeitos. Devemos
conscientizarmos de que os fenômenos são fenômenos, mas o
espírito é tudo e precisa ser respeitado. Todos somos médiuns,
mas pouquíssimos os escolhidos para tarefas missionárias.
E, num gesto expressivo, acentuou:
- Os espíritos que trabalham na Crosta devem esforçarse
para levar aos encarnados as verdades divinas. Graças à Doutrina
Espírita, tudo se torna mais fácil. Ela ensina o homem a
não praticar atos contrários às leis de Deus, por isso os seus
operários, os espíritas, precisam saber distinguir o doente espiritual
do obsessor cruel; precisamos de muita atenção, prudência
e carinho. É fácil diferençar um do outro: o doente
perispiritual não é mau, é somente sofredor; o obsessor está ligado
ao obsidiado às vezes por anos e anos a fio, e para separálos
necessitamos de muito amor e conhecimento. É uma cura
demorada, porque, em geral, quase todos os casos de obsessão
que ocorrem no plano físico constituem problemas dolorosos e
difíceis de serem curados. Esta a causa de merecer da Casa Espírita
uma assistência fraterna e paciente, porque a obsessão não
se trata somente em uma sessão mediúnica. Leva tempo para
conseguirmos separar, sem violentar, e ainda mais evangelizar
119
obsessor e obsidiado. Não sendo assim, é como dor de dente: se
não tratar o dente, a dor volta. É um trabalho de amor a ser
realizado em clima de perseverança serena, equilibrada, de modo
a que o tempo não conte. Em trabalho de desobsessão na Doutrina
Espírita não existe milagre de transformações repentinas;
o grupo recebe uma terra repleta de detritos e, com paciência,
vai trabalhando até o momento do plantio. Tarefa difícil, mas
dignos são os seus trabalhadores. Futuramente, todos os Centros
Espíritas terão somente um dia da semana para o tratamento
da desobsessão. Em grupos mediúnicos ficarão somente os atendimentos
espirituais aos recém-desencarnados ou alguns doentes
espirituais, como ovóides, abortados, suicidas.
'- Desejamos a todos muito equilíbrio no trabalho que
realizarão no plano físico e que cada um recorde que feliz é
aquele que ouve o chamado do Pai, levanta e anda em direção
aos que precisam. Que Deus nos abençoe e que Jesus esteja ao
nosso lado em todos os nossos momentos, principalmente nas
horas mais difíceis. João Nascimento.
120
Capítulo XIV
VÍTIMAS INOCENTES
Aquela palestra me tocou o coração. Nascimento, quando
encarnado, foi um digno representante da Doutrina Espírita e
hoje luta pelos grupos mediúnicos com Jesus. Ofereceu-nos grandes
lições de amor e ninguém melhor que ele para transmiti-las.
Ao deixarmos o auditório, eu como ninguém desejava falar,
queria ficar sozinho para anotar o que ouvira e formular algumas
perguntas para a próxima aula.
Isso feito, voltei ao trabalho.
Entramos em uma enfermaria, onde os abortados recebiam
tratamento. Um bebê tinha sido socorrido naquelas horas e
apresentava em seu corpo perispiritual uma chaga viva de sofrimentos.
Abnegados espíritos procuravam tratar aqueles farrapos
humanos, vítimas de uma sociedade sem Deus. Vários assuntos
ali foram abordados sobre as vítimas indefesas do aborto.
Sim, indefesas, porque se fala tanto em direitos humanos e
ninguém levanta a voz contra os carrascos aborteiros. Sabemos
que muitos deles se escondem em luxuosas clínicas e hospitais
bem aparelhados. Estes locais são pontos negros na nossa sociedade
e não existe, no vocabulário, palavra para classificar os
matadores de esperanças, que se esquecem de que hospital é
sinônimo de socorro e amor. ;
121
Fui o primeiro a me retirar, ísis, aproximando-se de mim,
falou:
- Luiz, agora vamos até outro departamento. Lá receberemos
outras aulas.
Olhei-a com carinho, acompanhando-a em silêncio. Quando
adentramos o Departamento Um - cuja arquitetura lembra
o Teatro Municipal do Rio de Janeiro, tal a sua beleza e cuidado
- a curiosidade já se alojara em meu espírito e, com certa impaciência,
a tudo examinava. No auditório deu entrada um espírito
cujo perfume tomou conta do recinto. Fez uma bela prece e
em seguida passou a exibir filmes sobre os últimos acontecimentos
no plano físico: a promiscuidade do sexo, a má situação
dos domínios carcerários, o aumento assustador, em certa cidade
do País, do homossexualismo, da droga e do álcool, dos seqüestros
e do tema deste livro: o aborto, que foi o principal assunto,
pois o irmão nos mostrou seu crescimento nos últimos
anos, sendo o Brasil recordista mundial desse covarde crime.
No mundo, a cada momento, tombam várias vítimas do aborto.
No Brasil, quatro a cinco milhões de brasileiros praticam, por
ano, esse terrível crime, onde o número de interrupções de gravidez
é maior do que a taxa anual de nascimento, sendo esta a
causa da espiritualidade se encontrar sobremaneira preocupada.
Grande parte do trabalho do Departamento da Reencarnação,
ultimamente, vem sendo desfeito pela falta de amor que reina
no mundo, onde estão sendo praticados, anualmente, cinqüenta
milhões de abortos. Não só interrompem a gravidez, como muitas
vezes inutilizam as mulheres, que desencarnam ou ficam com
seqüelas, como tumores ou perda de fertilidade. As grandes vítimas
do aborto são a criança e a mãe. Foi registrado o número de
desencarnes que se dá por mês, por dia, por hora e por minuto, e
mais as formas usadas. Vários filmes foram projetados e a
122
plateia, em silêncio, a tudo assistia. Como pode um médico esquecer-se
da sua missão de salvar vidas e se propor a interrompê-las
sem piedade? Essas criaturas não crêem em Deus nem em si
próprias, porque se parassem para pensar, veriam que nada compensa
ir contra as leis de Deus. É, irmãos, ninguém sacrifica
tantas vidas quanto uma aborteira ou um aborteiro. São crimes
dos quais a imprensa não fala e pouquíssimos chegam ao conhecimento
da justiça terrena. No entanto, a cada crime praticado,
apaga-se uma estrela de bênção no caminho daqueles que
matam por desamor.
Hoje, com a liberação do sexo, os casais não se juntam por
amor e sim por divertimento. Mas sexo não é esporte nem diversão,
sexo é a plenitude do relacionamento homem-mulher; é o momento
em que eles chegam ao máximo na troca de energias. O que vemos
hoje: casais iniciando um namoro através da relação sexual, sem
conhecer um ao outro. Por isso o Brasil de hoje carrega um troféu
tão deprimente: "campeão mundial do aborto" e ainda a probabilidade
de contar com futura esterilidade dos casais, quando sabemos
que toda a natureza brasileira é rica de fluidos magnéticos, fluidos
estes preparados por Jesus para maior oxigenação do País, principalmente
quando o mundo sofrer as conseqüências da própria violência
do homem. Algumas guerras se aproximam, e quem irá sofrer
mais essa violência? A Natureza(1). Para nós, a mulher é uma
obra importante da ecologia, porque é através dela que se faz o
transporte plano espiritual - plano físico.
Gritos se ouvem em defesa da ecologia e dos direitos humanos,
e Presenciamos a mulher sendo violentada pelos meios
(1) À época do recebimento deste livro - 1989 - ainda não havia ocorrido
a Guerra
do Golfo Pérsico, que violentou brutalmente a Natureza.
123
de comunicação, onde ela é apenas um objeto, nada além disso.
Porém não falam em direitos humanos, quando se mata sem piedade
um inocente ser: o abortado. Disso tudo, o mais triste é
que os pais, por vaidade, também cooperam com esses assassinatos.
Para socorrer um desses casos, convidados fomos pela
equipe a descermos ao plano físico. Uma jovem necessitava de
auxílio.
Pela manhã, cedinho, adentramos a casa de Esmeralda, um
desses ricos palacetes, todo adornado de obras de arte. Na suíte
da jovem nada faltava: televisão, vídeo, aparelho de som, computador,
teclado eletrônico, violão, vídeo game, enfim, o quarto
de uma abastada jovem moderna. Quase de tudo possuía, mas o
mais importante faltava: Cristo. O conforto é merecido, mas o
jovem precisa de muito mais que conforto, ele precisa de Deus,
de fé, para não deixar perder a oportunidade da vida. Esmeralda
chorava baixinho, desesperada. Alisei seu cabelo. Estava pensando
naquele dia em contar à mãe que estava grávida de cinco
meses, e pedia coragem, muita coragem. Ficamos orando por
ela, quando resolveu enfrentar os pais. Acompanhamo-la até o
quarto de sua progenitora, que ainda dormia, apesar da hora:
meio-dia e meia. Mesmo assim, foi despertada pela filha. À
medida que Esmeralda expunha sua situação, a mãe empalidecia.
- Como pôde fazer isso comigo, que sempre lhe dei tudo
o que queria? O que lhe falta, menina?
Esmeralda suplicou:
- Por favor, mãe, compreenda, estou esperando um filho,
preciso de ajuda. ;
124
- Você fala isso como se fosse fácil aceitar. Esquece a
nossa posição social? Ora, Esmeralda, como podemos receber
essa criança, cujo pai é um pobretão?
- Mãe, por favor, me ajude!
- Claro que Vou ajudá-la, Vou telefonar para alguns amigos.
Eles me indicarão uma boa clínica e logo você estará livre.
Esmeralda dali saiu, batendo a porta e partindo à procura
de Célio, o namorado. A mãe pegou o telefone e iniciou a busca
de uma "boa" clínica, ajudada por influentes amigos.
Esmeralda buscou em Célio um apoio, mas este lhe perguntou:
- Tem certeza de que o filho é meu? Você sempre teve
vários namorados, por que só eu posso ser o pai?
- Célio, há seis meses só estou com você, como pode
fazer tal pergunta?
- Desculpe, mas custo a acreditar que me foi fiel, quando
sei o quanto você é solicitada pela turma.
Esmeralda, coitada, apavorada com as palavras duras do
namorado, voltou correndo para os braços da mãe. Esta a esperava,
acompanhada do marido. com argumentos fortes de "moral",
levaram a jovem a famosa clínica de aborto, e nós, por
mais que fizéssemos, não conseguíamos mudar a mente daquelas
pessoas tão envolvidas e obcecadas pelas aparências sociais..
Esmeralda, nas mãos de capacitado médico, devolvia aquele
espírito ao Departamento da Reencarnação, não sabendo o mal
que estava praticando à criança e a ela própria.
Muitas lágrimas rolaram daqueles olhinhos. Por dinheiro,
um profissional rasgava o seu diploma de médico, ou melhor,
apodrecia-o, com um gesto tão cruel e mercenário.
125
De repente, aconteceu o inesperado: o coração de Esmeralda
estava falhando. Ela era portadora de uma isquemia silenciosa,
vindo a desencarnar junto ao filho. Houve correria, desespero,
e nós ali, tentando também fazer alguma coisa. Não foi
possível.
O abortado era do sexo masculino e com o choque do aborto
desfaleceu; mesmo sendo retirado pelos técnicos, não dava sinal
de vida, tal a sua perturbação. E Esmeralda, completamente
aturdida, não conseguia deixar o corpo físico. A morte, para aquela
menina, era mais que morte, era o fim.
Longe de se preocupar com a filha, a mãe pedia ao médico:
- Pelo amor de Deus, doutor, evitemos o escândalo! Ninguém
pode saber que ela morreu de aborto!
Era exatamente isso o que o médico queria.
- Pois não! Vamos transportá-la para um dos quartos da
clínica e o registro dirá que ela deu entrada com problemas cardíacos.
A mãe respirou, aliviada, principalmente quando viu a criança
ser atirada na cesta de lixo.
- Não acredito - falei - que esta mulher vá esquecer
esta cena: a filha desencarnada, tendo no semblante refletida a
dor do abandono, e o neto jogado fora, todo sujo de sangue,
junto com gazes e algodões. Meu Deus, quanta maldade!... Como
é possível os pais darem tanto conforto a um filho e quando este
mais precisa, eles falharem?
Doutor Leocádio, médico da nossa equipe, com carinho
apoiou-se em meu ombro, dizendo:
126
Vamos bem ora. Pouco fizemos, mas tentamos, não é
Verdade?
- E Esmeralda, vai ficar aí, debatendo-se dessa maneira?
- Não somos técnicos de desencarne, logo irão chegar e
verão o que podem fazer.
Queira Deus Esmeralda se recupere, é boa menina, só mal educada.
- É, irmão, as Escrituras nos dizem que a transição está
próxima e com ela chegarão mais sofrimentos e inquietações.
Por isso os mensageiros pedem aos encarnados a formação de
núcleos espiritistas sérios, para que as verdades divinas permaneçam,
e que resistam às guerras destruidoras e à confusão que
vai reinar no coração dos homens. Enquanto as criaturas ficarem
longe do Cristo, vamos assistir ao que está acontecendo:
jovens se suicidando, o tóxico tomando conta das criaturas. É
com pesar que defrontamos com pais e filhos drogando-se, embriagando-se,
dizendo aproveitar a vida.
- Até quando o homem matará o próprio homem?
O médico me respondeu:
- Até entender que a moeda de César não compra a paz
das consciências.
Virei para trás; o corpinho do feto apresentava-se muito
machucado mas o seu espírito estava sendo levado nos braços
da doutora Mariane, em completa inconsciência.
Detive-me a olhar a bela e grã-fina clínica deste meu Brasil,
que coopera para que ele seja, vergonhosamente, o campeão
mundial do aborto. Que Deus tenha piedade de todos.
127
Despedíamo-nos da equipe médica espiritual, quando doutor
Márcio Bittencourt chegou acompanhado de Lélis, uma bela
jovem de vinte anos, que nos foi apresentada.
- Seja bem-vinda! saudei-a.
Ela me sorriu com simpatia.
- Estou aqui porque necessito trabalhar, adoro crianças!
- É mesmo? Estou às suas ordens, falei, aproximando-me de olhos fechados.
Carinhosamente, beijou-me a testa, dizendo:
,.;.... -Eu amo você.
Confesso que fiquei sem graça. Pensava assustá-la, mas foi
ela quem me deixou encabulado.
- Desculpe, irmã, sou muito brincalhão.
- Não sei por que você me pede desculpa. O Cristo não
nos ensinou o amor e o respeito? Ao abraçá-lo, só um pouco,
pude lhe demonstrar o quanto lhe quero.
- Que bom que você chegou, vamo-nos tornar ótimos amigos.
Nisso, Hápila nos chamou:
- Vamos até uma Casa Espírita, onde estamos sendo esperados.
E assim deixamos para trás o matadouro cruel e aportamos
no local indicado por Hápila. Fomos recebidos pelo chefe da
segurança, que nos encaminhou à sala de recuperação, uma sala
circular, com bancos azuis. Ao sentarmos, uma brisa perfumada
deu-nos as boas-vindas.
128
Fui ficando sonolento. Pareceu-me que dali partimos para
longe, mas ao acordar tudo estava normal como antes. Lélis demorou
a abrir os olhos. Eu, mais curioso, a tudo examinava. O
som de uma campainha quebrou o silêncio e nos levantamos.
Senti-me mais tranqüilo também. Dali nos dirigimos a um grupo
daquela Casa, onde iríamos trabalhar na parte da tarde. Chegado
o momento, analisamos os médiuns; estes, muito bem equilibrados,
aguardavam o início do trabalho. Alguns abortados iriam
ser socorridos. Na hora determinada, vi entrar os espíritos,
corpos de crianças, cabeças de homens, e homens enfurecidos
que desejavam jogar os médiuns no chão. Mas, imperturbáveis,
nem sequer a respiração destes tomou-se ofegante. Era a mediunidade
com Jesus em ação. À medida que os espíritos daquela
Casa trabalhavam, os abortados iam ficando calmos e muitos
deles foram levados para as colônias de origem. Alguns, porém,
nem ouviam as preleções, tão grande o ódio que guardavam dentro
de si.
- Para onde esses vão?
- Para junto das famílias que os "mataram".
- Mas eles já não foram socorridos?
- Sim, mas depende da vontade deles serem levados para
as colônias socorristas ou ficarem junto aos seus algozes,
atormentando-os.
- Até quando?
- Até o dia em que desejarem deixar suas vítimas. Por
isso existem grupos como este, para auxiliá-los a voltar ao mundo
espiritual e preparar o retorno à carne.
- Para serem novamente abortados?
O dirigente olhou-me, meio assustado.
129
- Irmão, temos de confiar no amanhã. Se hoje as mulheres
entregam-se à volúpia do sexo, queremos crer que no futuro
elas cumprirão com o dever de fêmeas. Terão consciência de
que o amor é muito mais forte que o prazer e que a criatura só é
feliz se unir o prazer ao amor. Esse dia surgirá nas consciências
das criaturas, filhas de Deus, como um clarão divino, e todos
serão salvos sobrepujando a matéria.
- Assim esperamos, dissemos todos, despedindo-nos.
130
Capítulo XV
YVES, MAIS UMA VÍTIMA DO MATERIALISMO
. Daquela sala fomos levados a outra, onde alguns irmãos
nos esperavam.
A doutora Kelly iniciou a explanação sobre um filme feito
pela espiritualidade, retratando o mais recente método abortivo.
Doutor Misael acrescentou alguns fatos novos.
Presenciávamos os mais terríveis meios de se interromper
uma gravidez.
Ouvíamos, boquiabertos, chegando à conclusão de que o
homem aprimora-se cada vez mais para matar sem piedade.
Terminada a reunião, ganhamos a rua e nos dirigimos a
uma recém-inaugurada clínica abortiva, equipada com os mais
modernos aparelhos. Na sala de espera estava uma jovem, que
acabara de chegar. Olhei-a. Deveria ter uns dezesseis anos. Jovem,
muito jovem. Parecia muito nervosa. Aproximei-me, tentando
entrar em sua casa mental e lhe pedi: "pelo amor de Deus,
não mate seu filho, ele é um pedaço do seu corpo físico e o
prolongamento do seu espírito". Ela começou a chorar, pensando
mesmo em sair dali e voltar para casa. Nisso, entrou o namorado:
um senhor de seus quarenta e cinco anos que, carinhosamente,
ficou ao seu lado.
131
- Querido, estou pensando seriamente: será que não seria
melhor deixar a criança nascer?
- Está louca, menina? Esquece que tenho família e posição
social? E seus pais, como aceitariam um filho nosso, sendo
eu um membro da família? Sua irmã não suportaria o golpe.
- Mas nós nos amamos!... falou a menina.
- É, querida, mas o amor não é tudo, principalmente quando
temos muitas adversidades para ultrapassar.
Eu continuava intuindo a garota, mas os argumentos do
seu namorado foram mais fortes do que os meus. Ele era o príncipe
encantado de Isabelle e, aqui, o Luiz Sérgio, apenas um
trabalhador do Senhor.
Chegou a vez da garota. com que discrição as coisas ocorriam!...
A que estava lá dentro saiu por outra porta e só chegou
na ante-sala outra paciente após Isabelle ter entrado. Uma clínica
muito sigilosa.
Quando a nossa menina adentrou a sala cirúrgica, o doutor
Zeus e a doutora Kelly tentaram ainda sensibilizar o coração do
médico, mas ele, materialista ferrenho, só pensava na quantia
que iria receber. O ser humano nada representava para aquele
homem, que um dia prestou juramento a Deus pela grandeza da
sua profissão. Era ali um assassino cruel, muito mais cruel e
perigoso que um salteador. Todos nós orávamos quando ele, com
sua auxiliar, iniciou o trabalho. Tentamos de tudo, mas as drogas
e os aparelhos utilizados pelo clínico, com seu coração repleto
de indiferença, foram mais fortes. Pesarosos, assistimos a
mais uma tocante cena. O feto se encolhia todo, chegando a
chorar. Doutora Kelly, com seu conhecimento, tentava protegêlo,
mas o espírito que habitava aquele corpo de criança sofria
uma transformação - do medo que sentia, no início do aborto,
132
passou a alimentar um ódio terrível. Por mais que os técnicos
tentassem, não conseguiam retirar o reencarnante. O corpo físico
foi jogado fora, mas, colado ao útero de Isabelle, permanecia
o espírito do abortado. Um processo hemorrágico teve início e
dava trabalho, muito trabalho. Como não conseguíramos salvar
a criança, tentávamos salvar a jovem. Ela estava muito mal.
Outros médicos da clínica deram entrada na sala, mas quem
a salvou foram Kelly, Misael e Zeus. O cunhado mau caráter
encontrava-se desesperado, não pela menina, mas temeroso de
um escândalo. Sentia-me nervoso, muito nervoso, só me acalmando
quando vi Isabelle fora de perigo. Ela ainda ficou ali
algumas horas. Quanto ao espírito, recusava-se a ser reconduzido
para a espiritualidade. Era uma inteligência adulta num corpo
fetal. Perguntei a Zeus:
; - O que vai acontecer com os dois?
-A garota vai ficar muito doente, pois o nosso irmãozinho
reluta em abandoná-la, respondeu.
- Mas não podemos forçá-lo?
- Não, não podemos. O que nos é permitido fazer é dar
uma assistência aos dois por um período mais longo. Não deixaremos
Isabelle, iremos acompanhá-la, tentando retirar o
irmãozinho do seu útero.
- Que espírito boboca, desejar ficar colado em quem não
lhe quer!...
- É muito fácil, Luiz, julgar alguém; o difícil é viver uma
situação desta.
- Deus me livre!
A menina ainda sangrava, mas foi considerada fora de perigo
e levada para casa. Eu, Lélis e Misael fomos designados a
lhe prestar auxílio e, quando chegamos à bela casa, percebemos
133
que não seria difícil para Isabelle ficar em repouso por vários
dias: os pais encontravam-se viajando para a Europa e ela mais
dois irmãos estavam sozinhos com os empregados. O querido
cunhado lhe prestaria as devidas atenções e tudo bem. Tendo
colada a seu corpo uma mente perturbada, Isabelle começou a
apresentar desequilíbrio emocional, chorando, quebrando tudo,
acusando o cunhado. Não esqueçamos que ela só tinha dezesseis
anos. Médicos foram chamados, exames pedidos, resultado:
um pouco de anemia e cansaço mental. Mas Isabelle piorava
cada vez mais. Ouvia a voz do filho lhe dizendo: assassina! assassina!
Ela nem mais dormia. Nós três orávamos, enquanto Zeus
cuidava do perispírito do abortado e da saúde de Isabelle, mas,
no estado em que se encontrava, o tratamento pouco êxito alcançava.
Já se passara uma semana, quando me propus a intervir da
minha maneira. Encostei-me no abortado, que aqui chamarei de
Yves, e lhe falei:
- Companheiro, não vê que está perdendo tempo colado
em uma matéria que lhe rejeita, quando no mundo espiritual será
tratado, amado e resguardado? Não percebe que está perdendo
precioso tempo? Nós, hoje, vamos embora e você ficará lutando
com esse corpo fetal para permanecer ao lado de sua mãe, quando
ela não lhe quer. Dia mais, dia menos, será retirado daí e
chorará pelo tempo perdido.
- Não sairei, Vou matá-la, como fez comigo!
- Deixe disso, Yves, você é o único prejudicado. Hoje
Isabelle está doente, mas logo vai receber tratamento físico e
espiritual e ficará boa. Quanto a você, já perdeu um bom tempo.
- Engana-se, ninguém conseguirá tirar-me daqui, Vou
sugá-la até o último fluido. Sei de vários casos como o meu, em
que a mulher nunca mais foi feliz.
134
- É justo fazer isso? Um crime não justifica outro. Deixe
Isabelle e vamos voltar à colônia divina.
Quando dei por encerrado o diálogo, Yves parecia uma
bola, de tão encolhido, e em Isabelle ocorreu outra hemorragia,
sendo levada às pressas ao hospital e, mais uma vez, o poder do
cunhado abafou o escândalo.
Ficou vários dias internada e nós tentando ajudá-la, bem
como ao Yves. Mas os dois relutavam em receber ajuda. O ódio
pelo cunhado era tanto que Isabelle só desejava morrer, dificultando
o nosso trabalho. Zeus muito fez por aqueles dois sofridos
espíritos. Isabelle morria a cada dia e os mais capacitados
médicos não compreendiam o que estava acontecendo. Foi então
que Lélis, aproximando-se do útero de Isabelle, começou a
fundir-se nele. De pronto percebemos que Yves já não se encontrava
no útero de Isabelle e, sim, no útero de Lélis. Zeus aproveitou
esse momento para adormecê-lo e, num átimo, Lélis partiu
com Zeus, ficando somente eu e Misael, que dava passe em
Isabelle. Aquela garota, menina ainda, já vivia tão triste realidade.
Misael cuidava de Isabelle, quando o médico encarnado entrou.
Que surpresa! A menina estava bem, muito bem. Convidado
fui a me retirar. Lá fora, perguntei ao médico Misael:
- O que será dessa menina? Queira Deus não pratique
outro aborto.
- Não acontecerá. Jamais ela terá outro filho, ficou estéril.
- Quê? Você está falando sério?
Ele não me respondeu, só me enlaçou os ombros e ganhamos
a rua, deixando para trás um fato comum que atualmente
enfrenta a sociedade, mas que, por comodismo, ignora; um fato
doloroso de liberdade sexual, quando as jovens nem percebem
135
que estão sendo usadas e jogadas fora. Nunca a mulher foi tão
ultrajada como hoje, nem no tempo de Moisés. Mas muitas jovens
acham que estão "abafando", vivendo a vida. O que fazer?
Apresentar Cristo para a família, fazendo com que ela descubra
as verdades espirituais. Nos nossos dias o que os pais mais fazem
é levar seus filhos para o caminho do materialismo. Se eles
não mudarem urgentemente o seu relacionamento com os filhos,
teremos sempre casos como este para narrar. Os jovens
ficam sem rumo quando os pais deixam de ser os seus heróis.
Capítulo XVI
"NÃO MATARÁS"
- Por que a preocupação? interrogou-me Misael, vendo-me
pensativo.
-Amigo, estava pensando como os encarnados são injustos.
Vivem dizendo que não são ajudados, enquanto a
espiritualidade tanto se esforça pela felicidade deles. Veja a Lélis
o que fez por Isabelle.
Misael nada mais falou, apenas tocou suavemente em meus
ombros.
- E agora, aonde iremos?
- Juntar-nos aos outros no auditório da Casa Espírita.
Confesso que me achava muito triste. Não me conformo
dessas meninas dormirem hoje com um, amanhã com outro, sem
temer as conseqüências. A sorte é que a mocidade passa rápido,
mas enquanto isso irão semeando espinhos nas suas estradas.
Ao chegarmos, lá estavam os outros irmãos: Aloísio,
Amintas, Hápila e doutora Kelly. Sentei-me ao lado de Aloísio.
- Luiz, parece que você viu um fantasma!.., disse-me,
sorrindo.
- E vi. O fantasma do ódio e da inconseqüência.
137
O auditório estava lotado. Todos respeitosos e sérios junto
aos abortados. Sem demora entrou o palestrante: doutor Antero.
A platéia, silenciosa, embevecia-se com as palavras do querido
Espírito:
- Deus, Criador incriado de todo o Universo, um dia criou
o homem. Todo cuidado foi tomado, e com que carinho o Pai
plantou a semente da vida! Recordemos esta bela parábola, em
Mateus, Capítulo 21, v.33:
Havia um proprietário, que plantou uma vinha, circundou-a
com uma paliçada, cavou nela um lagar e
edificou uma torre, e entregou-a a uns lavradores e saiu do país.
Estas palavras de Jesus levam-nos a buscar em Isaías, Capítulo
5, V. 1-2:
Cantarei ao meu bem amado o cântico do meu parente sobre a sua vinha. O
meu amado adquiriu uma vinha,
plantada numa colina fertilíssima. Cercou-a duma
sebe e tirou dela as pedras, plantou-a de cepas escolhidas,
edificou uma torre no meio, construiu na mesma torre
um lagar; esperava que desse boas uvas, mas produziu
,; ,( labruscas.
Vejam como as Escrituras precisam ser analisadas, só assim
a Doutrina Espírita será compreendida. No Livro dos Espíritos
encontramos, nos Prolegômenos:
Porás no cabeçalho do livro a cepa que te desenhamos,
porque é o emblema do trabalho do Criador.
Aí se acham reunidos todos os principais elementos que
melhor podem representar o corpo e o espírito. O corpo é a cepa;
o espírito, o licor; a matéria, o bago. Juntando esses preceitos,
percebemos que em todos eles encontramos uma só verdade: os
138
cuidados tomados pelo Criador com Sua grande obra: o Ser. Só
mudam os nomes dados ao corpo e ao espírito, mas a verdade é
uma só: Deus, ao criar o espírito, providenciou as defesas "tomado
de cuidados". O lagar consistia numa pedra com inclinação,
cavando-se num plano mais baixo, local por onde escorria
o vinho. Em O Livro dos Espíritos a cepa é o corpo - matéria;
o espírito é o vinho. Isaías tenta nos mostrar o início da evolução.
O lagar é uma pedra, mas nela está o vinho, o espírito; é
cercado pela torre (aí está o Planeta), construído para habitação
dos vinhateiros (as criaturas). Como podemos perceber, Deus
tomou mil cuidados ao criar o ser. O espírito, formado da quintessência
dos fluidos existentes no Universo, percorre o reino
mineral - quando a chama eterna dorme na pedra o sono preparatório
para uma longa caminhada. Depois, no reino vegetal
- entre folhas, flores e frutos, ela ainda sonha, já se sente útil,
doando ao mundo o que tem de bom. No reino animal, o ser
criado já se prepara para rastejar, andar, saltar, voar. Nesse reino
a chama eterna se prepara para ser homem; desenvolvendo a
capacidade de equilíbrio, o movimento muscular, tenta libertarse
da força da gravidade. Aprende a rastejar, andar, nadar e voar.
Depois chega ao reino hominal onde, após muito aprender, recebe
o diploma do livre-arbítrio. Como vêem, quantos cuidados
tomou Deus para com as Suas criaturas! Por isso Jesus pronunciou
esta bela parábola: Olhai as aves do céu. Mateus, Capítulo
VI, w. 25 a 27:
Não andeis cuidadosos da vossa vida, quanto ao que
haveis de comer, nem para o vosso corpo, o que vestireis.
Não é mais a alma do que a comida, e o corpo do que o
vestido? Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem
segam, nem fazem provimentos nos celeiros, e contudo
139
vosso Pai celestial as sustenta. Porventura não sois mais
do que elas? E qual de vós, com as suas preocupações,
pode acrescentar um côvado à sua estatura?
Aqui, Jesus é muito explícito, quando mostra aos homens o
quanto ele é importante para Deus, pois já possui inteligência e a
ave ainda está aprendendo a voar e a andar. O homem, que já passou
pelos diversos reinos, ainda reluta em embelezar sua alma; embora
já possuindo inteligência, ainda é inculto em sabedoria e por
isso não pode acrescentar um côvado à sua estatura, principalmente
a espiritual. O crescimento espiritual é feito de renúncias e muito
amor. Hoje o homem mata os seus primeiros sonhos, quando não
respeita Deus nem as Suas criaturas. Precisamos valorizar o homem,
dizer-lhe o quanto é importante para Deus e que não pode,
por isso mesmo, jogar fora as oportunidades.
- Hoje - continuou o nosso irmão palestrante - inconseqüentes
médicos, que recebem a tarefa de salvar vidas, fundam
clínicas da morte, apenas por míseras moedas; mulheres,
que um dia foram escolhidas por Deus para fecundar no seu
corpo outros corpos, matam sem compaixão. A mulher tem a
tarefa de transportar os espíritos que precisam reencarnar e ai
daquelas que jogam fora essa oportunidade! O trabalho dos departamentos
espirituais tem de ser respeitado. Estamos aqui para
que os espíritos psicógrafos digam aos seus leitores: lutem contra
o assassinato desumano que ocorre todos os dias, bem junto
a vocês. O corpo do homem é também importante, ele foi preparado
para vestir o espírito que retoma à terra. Por que destruílo?
Será que os médicos aborteiros ou as curiosas conhecem a
beleza dos corpos humanos? Será que eles sabem que um feto
tem vários corpos? E o trabalho que dá ajuntá-los para uma longa
viagem? O corpo material é o corpo orgânico, sujeito à morte.
O corpo espiritual é semimaterial, com energias e fluidos,
140
destinado a ligar o espírito ao corpo, mas que se transforma após
a morte. Este corpo, chamado perispírito, pode ficar deformado
pelos abusos do espírito; também pode sofrer modificações
exigidas por futuras encarnações, para adaptar-se às novas formas
e às novas determinações genéticas e hereditárias. É no perispírito
que se encontram os centros de força que organizam o
corpo material. O perispírito é uma usina energética; é dele que
partem os fluidos espirituais. Destruir esses corpos, separando-os
através do aborto, é violentar um trabalho divino, é rasgar
inúmeras páginas do livro da vida. Se o homem buscar as verdades
espirituais, tornar-se-á menos inconseqüente. O que se vê,
hoje em dia, é difícil de acreditar: muitos homens matam, roubam,
traem, apenas para servirem a si mesmos. Será que eles
ignoram que um dia terão de prestar contas? E ai daqueles que
não aproveitarem bem a encarnação! O Senhor tornará à terra
para levar Consigo os que tiverem permanecido fiéis às leis divinas,
e uma delas é: "não matarás". com a liberação do sexo,
está-se tornando mais difícil a reencarnação Os casais, distanciados
do amor, apenas se juntam para satisfazer o desejo, desejo
este muitas vezes forjado por estimulantes. Como preparar a
descida de um espírito em vasos tão infectados pela falta de
moral e de amor? Como fazer germinar em um ventre materno
uma semente divina, quando esse ventre está bem longe de ser a
manjedoura de Deus? Precisamos orientar as Casas Espíritas,
pedindo aos seus dirigentes que promovam campanhas
esclarecedoras sobre o aborto.
- Queríamos que os encarnados soubessem - prosseguiu
- que a conjugação entre os corpos espiritual e físico não
se faz ao acaso, depende de um trabalho imenso, ainda desconhecido
pelos homens. Não adianta algumas mulheres gritarem
que são donas do seu corpo. Nenhum espírito é ligado a uma
141
mulher sem uma atração específica. Não podemos esquecer que
o espírito reencarnante sofre várias alterações, não somente na
sua organização perispiritual, como no seu espírito. Para retornar
o espírito à carne, seu corpo perispiritual sofre um processo
de redução, de concentração, para um perfeito encolhimento.
Isso tudo ocorre não por acaso, mas obedecendo a leis. O ser
formado jamais estaria alojado no ventre materno em conseqüência
de um acaso biológico, e muito menos o seu pólo sexual.
O espírito é o soberano que precisa reinar no útero nove meses,
onde aproveita os potenciais genéticos dos pais, porém ele é o
grande rei. Por isso mesmo o espírito, sendo expulso pela mãe
através do aborto, poderá ficar colado ao perispírito materno,
levando a mãe ao desequilíbrio. O aborto é um crime perverso
que deixa gravada na consciência de quem o pratica uma tarja
negra de remorsos. Queira Deus os homens lutem pela paz, principalmente
a paz da consciência. O sexo não é pecaminoso; condenável
é o excesso, o abuso, a falta de respeito às leis morais
estabelecidas por Deus. O sexo é necessário para que se opere a
renovação dos seres que desencarnam, mas brincar com ele é como
colocar uma arma em mãos infantis: sérias conseqüências advirão.
Oramos para que o homem, principalmente a laboriosa classe médica,
se levante em defesa dos inocentes, para que seus corpos não
mais enfeitem as cestas de lixo. Ninguém recebe uma tarefa para
jogá-la fora, lembremo-nos disso. Que Deus nos ampare nesta missão
de amor e luta. Felicidades.
Meus olhos percorreram o recinto. Fitei meus companheiros
e pensei: "como deve ser triste ser assassinado pelos próprios pais!"
É difícil imaginar que Deus criou um ser simples e inocente e ele se
perdeu, inebriado, no mar infinito do materialismo.
- É, Luiz Sérgio - falou o jovem Aloísio, interrompendo
meus pensamentos. Hoje o que mais se vê são homens duros
142
e maus, que parecem inclinados só a matar. Às vezes observo o
trânsito: as pessoas, como se enlouquecidas ao volante, não dirigem
o carro, este é que as domina; manobram perigosamente,
xingam, ultrapassam no momento errado, enfim, ninguém é irmão
no trânsito, é a lei da vantagem e do grito.
Concordei com o que dizia e depois indaguei:
- Como foi o seu desencarne?
Ele sorriu.
- Não foi no trânsito, não. Desencarnei em um desastre
de avião.
Calei-me. Entendi que não desejava recordar e, para mim,
amigo é um relicário, cuja chave se chama respeito. Compreendendo
meu silêncio, Hápila falou:
- Ainda bem que sou seu amigo. Mas o que achou da
palestra, Luiz Sérgio?
- Muito boa, boa até demais, não mereço tanto.
- Olhe a falta de humildade!... Dizem sempre os mentores:
aquele que proclama humildade é porque o orgulho mora no seu
coração.
Sorrimos. Amintas aduziu, com grande propriedade:
- Comovemo-nos diante de grandes tragédias, assassinatos,
conflitos, assaltos, seqüestros, todavia um crime desumano
existe: o aborto, porque é praticado no silêncio de um lar; no
mais das vezes, é de dentro dele que parte a idéia do crime a
inocentes seres cujos braços frágeis não podem defender-se. Eles
ainda não falam, não gritam, apenas sofrem, ainda mais porque
quem os mata são sempre os que deveriam amá-los: seus pais,
sua família.
143
f
É mesmo, amigo. Onde andam os defensores dos direitos
humanos? O Brasil logo será reconhecido como campeão
mundial do aborto. E quem vai levantar a taça covarde e suja de
sangue?
- O povo brasileiro - respondeu doutora Kelly.
144:
Capítulo XVII
A INFLUÊNCIA DE FABRÍCIO SOBRE A MÃE
Saí, cabisbaixo, não me conformando com o descaso do
povo brasileiro, referente à matança dos fetos, embriões divinos
que precisam voltar ao mundo físico para completar o ciclo da
vida. Por que tamanha indiferença, quando tanto se fala em preservação
da Natureza? Defendem a ecologia, os direitos humanos,
os direitos sindicais, os direitos do consumidor, mas poucos
levantam a voz em defesa do feto, da criança do amanhã. As
aborteiras quase não existem mais. Hoje os abortos estão sendo
efetuados em clínicas bem instaladas e por médicos que um dia
juraram salvar vidas. Não me conformo com a ganância do homem
e com a decadência da mulher, quando elas nasceram com
a responsabilidade de fazer dos seus filhos homens de bem e
não o que estamos presenciando. Fatos tristes, muito tristes: a
mulher mata sem piedade quem dela tanto precisa. Quando Deus
lhe ofertou o mérito da maternidade, foi por desejar uma cooperadora,
por isso ela conta com o auxílio divino. As mães têm a missão de
gravar na alma humana a bondade de Deus. A mulher que aborta
está fracassando em sua tarefa divina. Assassinando o próprio filho,
ela está matando as esperanças de Deus.
Aloísio chamou-me à realidade:
- Luiz, por que a tristeza? ,;??«
145
Olhei-o com carinho e apenas sacudi a cabeça. Não queria
falar, sentia uma vontade muito grande de chorar.
Doutora Kelly convidou-nos a retornar ao Departamento
da Reencarnação, onde Fabrício se preparava para retornar à
carne. Chegamos logo, sendo recebidos por Constança, uma simpática
irmã, cujo perfume sentimos ao nos aproximar:
- Sejam bem-vindos!
- Muito trabalho, irmã? perguntou doutora Kelly.
- Sim, ainda mais porque hoje o ser humano encarnado
não deseja assumir responsabilidades e um filho é mais que uma
responsabilidade, é a renúncia da própria vida e poucos pensam
nos outros. Mas sei que vieram acompanhar o irmão Fabrício no
difícil caminhar da reencarnação. Vamos até ele?
Seguimos a irmã, que levitava, assemelhando-se a um anjo
das histórias religiosas. Não me contive, acercando-me dela:
, - Sabe, irmã, que é linda demais?
, - Os seus olhos é que plasmam beleza em mim. Sou-lhe
grata por isso.
Continuou andando. O sorriso era a moldura do seu lindo
rosto. Encontramos Fabrício reclinado em uma cadeira. Levantou-se,
cumprimentando-nos. Doutora Kelly falou-lhe:
- Estamos prontos a acompanhá-lo. O Luiz Sérgio precisa
escrever um livro esclarecedor e achamos prudente narrar o
seu reencarne.
- Irmã, não desejo reencarnar, já avisei os irmãos do Departamento
que a família escolhida para me abrigar não me deseja,
é inútil insistir.
- Não temos autoridade para julgar o seu caso, aqui estamos
como aprendizes, respondeu Misael.
146
Nisso, Constança, acercando-se dele, falou:
- Hoje, irmãozinho, teremos outro encontro com seus
futuros pais. Lembre-se de tudo o que aprendeu aqui.
Inclinando-se, em total respeito, respondeu:
- Mesmo contrariado, estarei na sala dez, esperando-os.
- Agradecemos, Fabrício, e lhe desejamos muita paz.
Constança afastou-se e nós a acompanhamos. Confesso
que me encontrava já impaciente, não vendo a hora do tal encontro.
Mas ainda tivemos de assistir a várias aulas até o esperado
momento.
Ao chegarmos à sala dez, uma música suave energizava o
ambiente, assim como a luz verde-água. Fabrício já aguardava
os futuros pais. Em determinado momento, vimo-los entrar, meio
assustados, em desdobramento perispiritual. Percebemos o olhar
de amor de Fabrício para Marina, a jovem de dezoito anos, que
estava diante dele. O jovem que a acompanhava, Rogério, olhouo
com indiferença.
Constança interveio:
- Queridos Rogério e Marina, qualquer relação sexual
tem por fim um compromisso e o de vocês é receber Fabrício
como filho.
Rogério gritou:
, - Filho? Nem pensem nisso! Estamos é aproveitando a
vida.
- Muito certo. São jovens, podem aproveitar a vida, mas
o sexo não é parque de diversões. Sexo é um elemento precioso
na máquina da vida. Podemos mesmo dizer que é um órgão
divino, muito respeitado por Deus, por ser através do seu trabalho
147
que se fazem as ligações entre o plano espiritual e o plano físico.
O sexo não é só o prazer, é luz que, projetada equilibradamente,
forma um caminho para os espíritos prosseguirem viagem.
- Já estivemos muitas vezes aqui e vocês não desistem,
não é mesmo? falou Marina.
- Como desistir, se todos estão ligados pelos fios dos compromissos
pretéritos? Não somos nós nem Deus que desejamos
o seu reencontro. Fabrício pertence à família de vocês, por isso
estamos aqui, apenas para aproximá-los. Há muito vocês estão
tentando acertar. Na última encarnação ele foi seu pai, Marina.
Na penúltima o irmão de Rogério. Por que agora o rejeitam?
indagou Constança.
- Simplesmente, porque não queremos filhos - respondeu
Rogério que, olhando para Fabrício, perguntou-lhe:
- E tu, queres ser nosso filho?
- Não. Prefiro ficar aqui, onde tenho amigos.
- Está vendo, senhora? Nem ele deseja reencarnar.
Estávamos assistindo à entrevista daqueles seres que precisavam
estar unidos pelos laços familiares. Sei que depois de
muitos minutos Constança convenceu o casal a receber Fabrício
e ficou acertada a volta do irmão pelo ventre de Marina. Falei
para Aloísio:
- Isso não vai dar certo, outro abortado...
- Oh, Luiz, nem pense nisso!
Encontros como este existiram muitos e sempre Rogério e
Marina relutavam em receber Fabrício, mesmo dizendo sim a
Constança.
Chegado o grande dia, Presenciamos a luta do espírito
148
desencarnado para se despojar de certos fluidos do mundo espiritual
e assimilar outros do plano físico. Um trabalho imenso da
espiritualidade. Tudo preparado: o mapa da vida física de Fabrício
e o adormecimento da sua mente, depois a redução
perispiritual. Os construtores, com os técnicos, entregaram Fabrício,
mais uma vez, à equipe da reencarnação. Ele agora era
um ovo, desenvolvendo-se no útero de Marina. Alojado naquele
ventre jovem, iniciava a sua vida fetal.
Como toda gravidez inesperada, ocorreram comentários,
assombro, revolta e o desejo de impedi-la. Mas, graças a Deus,
Marina e Rogério resolveram aceitar Fabrício como filho e ele
ali estava protegido pelo sentimento da mãe.
íamos agora para outro trabalho, quando doutora ísis foi
chamada para prestar socorro à Marina. Encontramo-la deitada,
pálida, ou melhor, cadavérica. Perguntei a Constança, que ali já
havia chegado:
- O que aconteceu?
- A irmã está com suspeita de hepatite.
Misael aplicou-lhe passes magnéticos, detendo-se, particularmente,
na região do fígado.
- Como contraiu tal enfermidade? indaguei.
Doutora Kelly respondeu:
- A mulher grávida, além de abrigar o corpo orgânico do
espírito reencarnante, dele recebe também as vibrações mentais.
A mulher se funde com o espírito do filho. Recordemo-nos
das árvores enxertadas, é caso semelhante. Nos nove meses de
gestação, a mulher grávida quase perde a personalidade. Muitas
vezes os pensamentos são do ser que ela abriga em seu ventre.
- E ela, não influenela o feto? perguntei.
149
- Sim, é uma permuta de sentimentos. Assim como Marina
atua na formação do corpo físico de Fabrício, ele também atua
no dela e a doença de Marina é proveniente da hepatite de Fabrício,
que foi impressa na mente de Marina. Não só os corpos
estão ligados; as mentes de ambos também.
A partir desse instante, Isis iniciou a dispersão mental, para
aliviar a doença de Marina. Eu prestava muita atenção ao quadro
clínico, quando foi projetada, sobre a mente de Fabrício, a
cura da doença que motivou o seu desencarne: a hepatite.
Os pais de Marina, já gostando do neto, tudo faziam pela
recuperação da filha. Tanto que, mesmo sendo orgulhosos, e um
tanto inconformados de a filha casar-se grávida, agora só queriam
a saúde de Marina.
Testemunhamos a cura de uma doença espiritual. A hepatite
de Marina era, na verdade, a projeção da mente de Fabrício.
E o médico do mundo físico estudou muitas horas o fenômeno
vivido pela paciente Marina que, de uma hora para outra, ficou
curada, não encontrando explicação para o "milagre".
Pude, então, perceber por que muitas mulheres mudam tanto
no período da gravidez. É como se elas adquirissem uma dupla
personalidade. E feliz da mulher que abrigar em seu ventre
uma criança portadora de bons sentimentos!
Ficamos mais uns dias observando o caso e Presenciamos
a alegria de Marina à espera do filho. Rogério desejou casar-se,
mas os pais fizeram ver-lhe que o importante em um relacionamento
é o amor e o respeito. Forçar dois jovens a iniciar uma
vida a dois somente para prestar contas à sociedade é ser mais
hipócrita do que essa sociedade, que cobra santidade, quando
assiste com indiferença aos mais baixos atos de maldade, como
150
seqüestros, assassinatos, exploração de menores, prostituição,
aborto, criança abandonada, velhos carentes de amor, corrupção.
Aqueles pais eram gente com "G" maiúsculo, respeitadores da sagrada
família aqui na terra. com pais como esses, Marina e Rogério
um dia iriam ter um lar alicerçado no amor e no respeito, como
foram criados. Muitas vezes os pais obrigam as crianças a se casar,
quando elas, de há muito, "mantêm" o casamento.
Saímos daquela casa, desejando que Fabrício fosse um bom
filho e Marina, uma digna mãe.
- ísis, já falei sobre as gestantes que enjoam em outro
livro meu. Queria que você nos elucidasse a respeito desse desconforto
orgânico.
ísis, sorrindo, respondeu:
- Isso ocorre possivelmente de um desequilíbrio espiritual.
Quando mãe e filho estão vivendo em sintonia, isso não
acontece. Mas se o filho não desejar comer mamão, por exemplo,
e a mãe sim, aí vem o enjôo. É mais um fator mental. Os
dois precisam viver em harmonia. Se o espírito do reencarnante
jogar emanações desequilibradas sobre o organismo materno,
este, ao absorvê-lo, se desequilibra e vêm as náuseas. A mulher
que não enjoa, ou tem um domínio maior sobre o reencarnante
ou vivem os dois num mar de harmonia; mesmo quando o
reencarnante deseja comer jiló, que ela detesta, ela come para
que o filho se sinta feliz e vice-versa. Um completa o outro.
Conheci um caso em que os dois não combinavam quanto à
alimentação mas, mesmo assim, a gravidez foi tranqüila, os dois
eram espíritos amigos.
- Complicado, não, ísis?
- Luiz, para tudo se faz curso, para ter um filho, não.
Muitas mulheres recebem um filho sem preparo algum. Só na
151
espiritualidade existe essa preocupação. As casas religiosas e as
autoridades deveriam tomar rotineiros os cursos para casamento
e recebimento de filhos, quando o jovem e a jovem completassem
idade para isso.
- Por quê, Isis?
-Simplesmente, porque estão brincando com o casamento
e com a maternidade. O que mais se vê, hoje em dia, é casamento
desfeito e criança abandonada, mesmo em casas confortáveis.
Muitos pais não querem sacrificar-se pelos filhos e mais
tarde colherão lágrimas e desespero. Fico muito triste quando
vejo bebês mal cuidados. Como sofrem pelas fraldas sujas e
molhadas, pela preguiça dos pais! Não esterilizando os utensílios
do bebê, sucedem-se as diarréias que levam à desidratação;
os bebês são entregues a serviçais sem preparo, porque as mães
desejam viver comodamente e nada fazem pelo bem dos filhos.
As assaduras são constantes, porque as mães não sabem que
têm de lavar os órgãos genitais após a urina e a defecação. As
sopas das crianças são compradas em supermercados ou mal
feitas, sem o mínimo capricho, porque perfeição é tempo e muitas
mulheres não têm tempo para os filhos. As crianças sofrem e
nós junto a elas.
- Pode dizer-nos, ísis, o que torna uma criança feliz?
- Vou dizer, contrariamente, o que faz um filho infeliz e o
leva à marginalidade: faça-o sentir-se rejeitado, inferior e desprezado;
bata em seu filho a qualquer momento, mostrando que
você é o chefe; não mantenha disciplina; não lhe dê ocupação;
minta para ele; briguem, pai e mãe, diante do filho; critique o
vizinho, os sogros, os amigos; vá contra o professor por tentar
educar seu filho; deixe-o à frente da televisão, diante de filmes
violentos e com cenas de sexo; deixe-o longe da religião; não
152
procure saber quem são os amigos do seu filho; deixe-o ficar na
rua até altas horas da noite; consinta que trate mal os empregados;
furte alguma coisa diante dele; seja áspero com as pessoas;
não dê amor e compreensão ao seu filho; não o leve a passeios,
ao cinema, ao teatro, aos concertos, não o ensine a amar a música
e a Natureza. Presenteie-o com brinquedos violentos, mande-o
revidar as ofensas e quando brigar, aplauda-o, principalmente
quando bater nos amigos; diga-lhe que precisa pisar nos
outros para vencer na vida; não o apresente ao Cristo; deixe-o
fazer o que deseja, mesmo ferindo os outros; xingue-o com palavrões;
seja avaro com o alimento que ele come; cobre dele
tudo o que você faz ou fez por ele, enfim, Luiz, tudo isso leva
uma criança à marginalidade. Aí, coitada, os pais falharam na
sua educação!
- ísis, você luta pelo direito da criança, não é mesmo?
- Lutamos pela felicidade do ser e ninguém pode ser feliz
ao lado da marginalidade. A criança mal-educada hoje será o
desajustado de amanhã. Precisamos criar cursos em colégios,
faculdades, Centros Espíritas, centros comunitários e outras entidades
sobre o casamento e a criação de filhos, porque se continuarmos
assim como estamos o mundo vai chorar mais ainda do
que está chorando agora.
153
Capítulo XVIII
A SÚPLICA DOS ABORTADOS
Após breve pausa, continuei a conversa com doutora ísis:
- Desculpe-me, mas é certo forçar os filhos a adotar uma
religião?
- Forçar, não. Entretanto, está constatado que os delinqüentes
vieram de lares sem o Cristo. A família tem de dar ao filho exemplos
cristãos. De nada adianta obrigá-los a ir à missa, aos cultos, às
reuniões espíritas, se em casa falamos palavrões, tratamos mal os
serviçais, não gostamos dos sogros, somos avaros, enfim, vivemos
longe dos ensinamentos cristãos. A família tem por obrigação colocar
no coração das crianças os reais valores da vida. Um casal que
não lesa a sociedade e respeita as leis dificilmente terá um filho
delinqüente. Pequenas mentiras maternas deixam marcas terríveis
na personalidade de uma criança. Somente os nobres exemplos familiares
poderão cultivar nos filhos os valores morais que levam o
homem à vitória. É obrigação dos pais ajudar os filhos a desenvolver
um caráter elevado e nobre, que permanecerá para a vida eterna.
Por isso, Luiz Sérgio, poucos possuem a coragem de educar um
filho, achando mais fácil interromper uma vida, buscando o aborto
como solução.
- Como pediatra, a irmã deve presenciar tristes casos,
não é verdade?
155
- Sim, meu amigo. Por isso estou-lhe dizendo que são de
grande proveito cursos preparatórios para o casamento e para o
recebimento de um filho.
- Por que as Casas Espíritas não iniciam tais cursos? Não
deixa de ser um tipo de evangelização.
- Tem razão. Esperamos que parta da Casa Espírita esse
trabalho tão útil à felicidade do ser humano.
Interrompemos a conversa, porque fomos chamados por
Antônia, que no departamento dezesseis nos aguardava. Para lá
nos dirigimos e qual não foi a nossa surpresa quando reencontramos
os que, junto a outros médicos, prestavam auxílio a Lélis,
que me pareceu adormecida.
- O que aconteceu? Ela está doente? perguntei ao doutor Zeus.
- Sim. Ao decidir desligar o abortado de sua mãe, Lélis
sofreu um choque.
- Choque? Então por que fez isso? Imaginei que ela tivesse
conhecimento desse método socorrista...
- E tem. Lélis juntou-se a nós para efetuar tal trabalho.
Confesso que não entendi, mas me calei. Lélis ressonava
e, com espanto, percebemos que o abortado ainda estava ligado
a ela; o feto abrigava-se no ventre de Lélis em busca de proteção.
Aí, os médicos iniciaram a separação, aplicando passes em
Lélis e em Yves, o abortado. Ele adormeceu e foi sendo afastado
carinhosamente. Era uma operação de amor, não uma cesariana.
Yves foi retirado de Lélis. Ele, que estivera no ventre de Isabelle
durante três meses, tinha uns oito centímetros e pesava menos
de meio quilo, isto é, quando ligado ao físico.
Foi projetado um filme sobre o aborto de Yves e percebemos
que ele ja estava engordando, e um dos trabalhos dos médicos
156
foi apagar esta programação da mente de Yves. Na redução
perispiritual é feita uma preparação para o espírito, que fica gravada
na sua casa mental, principalmente a hora do parto. No
momento do aborto, quando a mulher inicia as contrações, a
mente do reencarnante julga que está na hora de buscar as membranas
que rodeiam o colo do útero materno, através do qual ele
terá de passar, e tenta ganhar o espaço existente, da pélvis da
mãe. Quando ele transpõe as frágeis membranas, percebe que
ainda não possui forças para vencer todos os obstáculos e se
desespera, gritando por socorro. Enquanto isso, o colo do útero
se encurta e se dilata, porque é forçado e, não, natural. Contrai-se
mais fortemente o fundo do que o colo permite, de tal forma
que chega a maltratar o feto. Tudo isso leva o abortado ao desespero.
Agora os médicos espirituais tentavam apagar tais cenas
da tela mental de Yves.
Enquanto se trava uma luta imensa para ajudar um espírito
rejeitado, a mulher muitas vezes já está no segundo ou terceiro
aborto.
Senti por Lélis um grande amor. Bendito o espírito que
trabalha unicamente para ajudar o seu próximo! Yves foi levado
para um departamento de recuperação e Lélis ali ainda permaneceria
algumas horas. Retiramo-nos.
Saí na frente do grupo. Queria respirar. Pensava: "um
aborteiro não imagina o que o espera no mundo espiritual". Ninguém
deve atrapalhar as programações reencarnatórias, e o nascimento
de uma criança é, para a espiritualidade, um momento
de amor e respeito. ;
157
- Pobre Yves, quanta luta para renascer! Por quanto tempo ainda ficará
perturbado? pensei em voz alta.
- Esperamos que muito breve esteja apto a retornar, respondeu-me Kelly.
- Vocês vão mandá-lo de volta àquela casa de loucos?
- Luiz, Yves precisa de Isabelle e ela dele. Queira Deus
desta vez ela encontre um parceiro digno, que a ampare e ame.
' í Nada retruquei. Quando alcancei o jardim, um grupo de
abortados cantava esta canção:
"Não me mate, não,
Não me mate, não.
Preciso viver,
Preciso viver.
Dê-me sua mão,
Mãezinha.
Por que não me querer?
Sou tão pequeno...
Preciso tanto
Do seu ventre de mulher...
Não me mate, não, ;
Deixe-me viver, ; ;
Sou um pedaço do seu ser.
Tudo me parece noite,
Não me faça sofrer.
Por que me quer maltratar?
Só quero nascer
Venha me ajudar.
Estou cansado
De chamar o seu nome.
Só quero ficar ao seu lado,
ãezinha.
Minha estrela polar,
ilumine o meu cajado,
Na bondade do seu olhar.
Não deixe ninguém me matar,
Me abrigue em seu lar,
Mãezinha."
Espíritos deformados pelo aborto cantavam esta súplica e
toda a nossa equipe deixou cair lágrimas de tristeza por um
mundo tão materialista, que ainda mata sem piedade os sonhos
do próximo.
159
Capítulo XIX
REENCARNES PARA A RENOVAÇÃO DA TERRA
- Um aborteiro sequer imagina o mal que está fazendo ao
seu próximo e a si mesmo. Bastava lembrar que, se sua mãe o
tivesse abortado, não estaria vivendo a oportunidade da
encarnação.
Aloísio, ao falar estas palavras, pareceu-me bastante triste.
Toquei em seu ombro:
- Querido irmão, não esqueçamos que todos nós teremos
de prestar contas dos nossos atos e a um aborteiro muito será
cobrado, principalmente se ele um dia jurou perante Deus
defender
a vida. Mas até lá ele causará muitas dores.
Enquanto conversávamos, Misael informou-nos que iríamos
a outra colônia reencarnacionista. Nem sei o que senti, mas
se isso ocorresse antes eu iria gritar de alegria; mas no momento
sentia-me muito preocupado com o rumo que os seres encarnados
estão dando à própria vida.
Não demoramos a chegar. A Colônia era muito bonita, florida,
clara, muito luminosa mesmo. Fomos levados ao departamento
onde Antero e Anita nos aguardavam. Muito gentis, levaram-nos
até o auditório, que já se encontrava quase lotado. Uma
melodia lindíssima imantava o ambiente.
161
Fizemos uma prece e no palco um irmão iniciou a palestra:
- Deus seja louvado, irmãos. Feliz do homem digno que
é chamado filho do Senhor, Bondade suprema que nos criou
simples e inocentes e ainda nos ofertou a liberdade, liberdade
esta que ainda não sabemos desfrutar sem cometer injustiças, e
uma das mais terríveis é o assassinato. O homem participa das
coisas de Deus, mas não é Deus, por ser Ele uno, indivisível,
eternamente justo, força e luz do Universo. Mas, como filho de
Deus, precisa buscar a Sua semelhança e isso só ocorre com a
perfeição, que se distanela do homem rude, mau, egoísta, avaro
e orgulhoso. Todavia Deus crê em nós, por isso manda os Seus
mensageiros nos ensinarem o Caminho, a Verdade e a Vida. O
maior deles foi o nosso irmão Jesus. Quantos ensinamentos!..,
contudo ainda não os assimilamos. Vivemos atrás de fenômenos
e gurus, quando o Filho de Deus, que Se fez homem, ensinou-nos
o amor duplo. Mesmo assim ainda falhamos, ainda ignoramos
o Evangelho divino e os erros se acumulam em nossas
fichas cármicas. Dentre as maiores violências contra a lei de
Deus está o assassinato, e o mais frio e o mais covarde tem o
nome de aborto, visto que o renascimento na matéria é de vital
importância para o rápido crescimento espiritual. Em razão de
ser o corpo de carne um dos mais valorosos vínculos no caminho
longo da evolução, a encarnação é valiosa dádiva aos espíritos
aflitos e desesperados. Eles necessitam da escola física e
buscam o corpo material para resgatar suas faltas pregressas.
- Preocupados - continuou - com as rejeições que vêm
ocorrendo em relação à gravidez, o Plano mais Alto buscou um
meio de amenizar a violênciapraticada contra esses espíritos
que precisam de um corpo carnal. Portanto, hoje, no ano de 1989,
não se concebe que uma mulher engravide quando não deseja, a
não ser quando estuprada. Vários métodos de limitação de filhos
162
foram descobertos. A ciência deu à mulher meios de evitar
a gravidez. Uns alegam razões econômicas, outros, deficiências
educativas ou doenças físicas. Muito justo. Deus conhece a limitação
dos Seus filhos. Porém, diante de tantos métodos anticoncepcionais,
como admitir a mulher engravidar, para depois
recusar a criança, buscando soluções violentas para interromper
uma gravidez? Não compreendemos essas atitudes, principalmente
partindo das mães, mulheres escolhidas por Deus para
serem o vínculo desse transporte abençoado, pois graças a ele a
Terra se renova. Aniquilar a mulher é como matar as sementes,
dificultar o florescimento da Terra, quando sabemos que no plano
espiritual existem espíritos que necessitam reencarnar com
certa urgência, espíritos por demais carentes de um corpo físico.
'- Quão selvagem e indigno é aquele que, sem piedade,
diz não a um desses irmãos! O homem precisa conscientizar-se
de que a sua vida física é transitória, que logo estará na pátria
espiritual e terá de colocar a sua consciência no altar de Deus e
bem-aventurado será ele, se ela estiver em paz. Que os casais
busquem os métodos de limitação de filhos, mas que, urgentemente,
cesse o fogo ardente e injusto do aborto. O homem en-,
carnado precisa saber que, ao consentir no aborto, está plantando
um campo de dor e desespero, seja no plano físico, seja no
mundo espiritual. Muitos espíritos conseguem ter assistência,
mas existe também o Vale do Aborto, onde organizações das
trevas manipulam esses espíritos revoltados. Dominados pelo
ódio, acercam-se dos pais que os repudiaram no plano físico,
que os eliminaram dos lares terrenos, para torturá-los, seja quando
encarnados, seja quando desencarnados. As mulheres, principalmente,
que expulsam através do aborto um filho, ignoram o
pavoroso inferno de sofrimento que as espera quando, após a
desencarnação, esses espíritos aos quais negaram um corpo vêm
163
cobrar-lhes o prometido. Essas organizações contam com a participação
de mentes ligadas a perversões sexuais. Elas são cruéis;
espíritos tenebrosos acercam-se das mulheres, provocando
dolorosas enfermidades. Muitas vezes alguns se arrependem e
buscam os núcleos reencarnatórios para voltar a esses lares, onde
foram rejeitados, em condições desumanas: deformados e retardados
mentais. Por que muitos casais hoje matam? Porque dizem
que não está na época de receberem esses filhos. Mas quando
acham que já é tempo, a semente se encontra deformada.
'- Prestem atenção: em certos casos, o espírito pode levar
anos a fio para conseguir reencarnar, mas quando isso ocorrer,
os pais poderão ter filhos problemáticos. Serão sementes
que plantaram nesta ou em encarnações passadas e que terão de
vê-las germinar. O sexo não é divertimento, é compromisso, e
queira Deus todos adquiram consciência desse fato. O aborto é
o mais covarde crime que hoje se pratica no mundo físico e,
com pesar, sabemos que aumenta a cada instante. Precisamos
alertar toda a Humanidade que ela está na Terra para exaltar a
lei do amor e ninguém merece mais ser amado do que aquele
que implora um corpo de carne para cumprir suas tarefas
reencarnatórias. Vamos, meus amigos, ajudar uns aos outros!
A platéia, estática, ouviu o irmão Lucindo. Ele se retirou e
nós ali ainda ficamos, pensativos, sobre tudo o que ouvimos.
164
Capítulo XX
No ASTRAL INFERIOR
O VALE DA REVOLTA
- Sérgio, agora vamos dar uma chegada ao Vale da Revolta,
convidou-nos Isis.
Agradeci e a acompanhei em silêncio. Juntamo-nos aos
outros e ganhamos estrada. À medida que nos aproximávamos
do Vale, a vibração ia caindo. Era sufocante. Andávamos com
dificuldade. Uma neblina enfeava a paisagem. O ruído do vento
pareceu-me propício para abafar os gritos estridentes. À certa
altura, dentro da neblina, apareceu um ponto luminoso. Destacou-se,
então, uma pequena cabana, onde frei Quirino nos aguardava.
Ele e outros espíritos eram os guardiães do lugar. A pequena
casa, toda iluminada, era como uma estrelinha em noite
tormentosa. Ficamos por algumas horas e nos retiramos com
suas bênçãos de paz.
- Os trevosos não os molestam? indaguei a Kelly.
- Não, ao contrário, respeitam-nos. Muitos, cansados de
sofrer, aqui vêm pedir ajuda. Esta casa é um pequeno hospital.
Andamos ainda mais um pouco, enfrentando uma atmosfera
asfixiante. De longe avistamos o Vale. Casas corroídas pelo
tempo e praças sem jardins davam a impressão de uma cidade
fantasma ou bombardeada.
165
Chegamos a passos lentos e só então compreendi por que
na casa de frei Quirino recebemos um tratamento de luz, que
revestia os nossos perispíritos de uma matéria grosseira, capaz
de nos proteger na tarefa que íamos desempenhar. Até os outros
companheiros me pareceram estranhos.
Entramos na cidade, ou melhor, na vila. Pelas ruas encontramos
mulheres correndo como loucas, com os cabelos em desalinho.
Estavam grávidas e víamos o feto como se galopasse
dentro dos seus ventres. O mau cheiro era terrível e o nosso
caminhar, muito penoso. Era como se estivéssemos atolados na
lama. Aquela cidade parecia gelatinosa.
- Como surgiu este lugar? indaguei. Não creio que tenha
sido obra de Deus!
- Claro que não. Esta cidade é composta de emanações
inferiores, portanto, de acordo com os espíritos culposos que
aqui se encontram. Saiba, Sérgio, que eles não foram trazidos
para cá e, sim, atraídos pela vibração perispiritual de cada um.
"Que lugar tenebroso", pensei. Encontramos um senhor
de seus quarenta anos, com o perispírito todo deformado. Mais
parecia um cabide de espíritos, tamanha a quantidade de irmãos
que nele se grudaram. Completamente dementado, gritava:
- Eu sou o doutor ..., deixem-me em paz, seus vampiros sujos!
Assim era aquela vila: morada de mentes perturbadas, cujos
perispíritos eram compostos de toxinas, formando uma crosta
ácida e viscosa, que os alucinava. Passávamos por eles, mas não
éramos percebidos.
Nossa equipe orava em silêncio. Quando pude falar, perguntei:
166
- Este vale é composto só de aborteiros? •>'
- Sim, e de algumas mulheres e homens que, sem piedade,
abusaram do direito de possuir um corpo físico.
- Mas é terrível este lugar! Igual a este só o Vale dos
Suicidas.
- Tem razão, Sérgio, são os mais tenebrosos lugares do
astral inferior, decorrentes dos crimes contra a vida. Os aborteiros
são os piores inimigos da vida, cruéis exterminadores dos sonhos
daqueles que aspiram a reencarnar.
Calei-me. Meu coração sofria ao presenciar o horror em
que vive um aborteiro no mundo espiritual. Bem perto de nós,
debatia-se, envolto por dez espíritos obsessores, um aborteiro,
que chamarei de Célio. Tentamos ajudá-lo, mas sua forma, que
não podemos dizer humana, tal a deformação perispiritual, toda
gelatinosa, arrastava-se pelo solo negro e viscoso, movendo-se
com dificuldade, ainda mais por carregar junto a si seus verdugos,
também muitos deles ainda na forma fetal, no ponto da
interrupção da gravidez. Em Célio só havia a fisionomia sofredora,
o resto do seu corpo não mais possuía forma humana. Destacava-se
nele o semblante sofredor. Mais parecia um verme,
lutando para se livrar dos seus verdugos, que lhe sugavam sem
piedade. Célio me pareceu um enorme feto, tendo a cabeça humana
deformada, e, colado nele, as suas vítimas. Assim como
Célio, ali estavam vários outros aborteiros que contribuíram não
só para retardar o plano de Deus para a reencarnação, como também
prejudicaram seus próprios corpos.
- Quem diria que o grande e famoso médico do passado
hoje é uma massa gelatinosa de emanações repugnantes! O seu
perispírito deformado é tão indefeso quanto ontem eram as suas
vítimas! - murmurei, perplexo.
167
Assim, fomos varando aquelas ruas, onde os seres se arrastavam
no solo escuro e escorregadio, muitos ainda levando
as suas vítimas que não os perdoavam. Olhei para o solo e dei
graças a Deus por volitar. Nossos pés não tocavam aquela massa
infecta do astral inferior. Perguntei a Misael:
- E aquelas mulheres? Não estão deformadas...
- Elas também foram vítimas, mesmo assim estão sofrendo
muito.
"Que lugar estranho, muito estranho. Aqui é pior que o
inferno", pensei.
- Eles serão socorridos?
- Quando se reequilibrarem mentalmente. Só eles mesmos
poderão nutrir positivamente os seus perispíritos. Não se
esqueça de que a aura espiritual é que capta a luz do mais alto e
uma mente ligada ao ódio não se alimenta de luz, e sim de vibrações
baixas. É como se suas rodas energéticas estivessem queimadas,
pois eles apenas se alimentam da violênciado astral inferior.
O perispírito vai ficando necrosado pelo desequilíbrio do
espírito e a veste, que nos espíritos bons é luminosa, nesses verdugos
é ácida, viscosa e informe.
Enquanto conversávamos, uma ave horrível passou sobre
nós, em vôo rasante.
- Que bicho é esse?!... perguntei, assustado.
Zeus respondeu:
- São as aves das zonas inferiores.
- Perdoe-me a pergunta, mas nessa ave existe um espírito
em evolução, como notamos nas várias espécies dos reinos da
Natureza?
168
- De Misael veio a resposta:
- Não, não existe. Deus seria injusto se colocasse uma
centelha de luz num ser tão horripilante.
- Mas elas são aves...
- Essas aves foram criadas pelas mentes humanas e têm
vida curta. Elas são formas-pensamento, mas que prestam um
real serviço a estes espíritos, pois são elas que, para sobreviverem,
necessitam absorver as sujeiras dos seus perispíritos. Estas
toxinas que causam dores e dificultam os seus movimentos alimentam
estas aves, como outras mais. Como vê, elas, mesmo
possuindo forma horrível, são úteis a este vale.
- Meu Deus, quanto sofrimento! Até parece o inferno.
- O inferno não existe. Aqui eles recebem auxílio, pois
não há penas eternas.
- Irmão, quanto tempo demoram neste sofrimento?
- Só o tempo de drenar os fluidos negativos que se aderiram
ao perispírito.
- E os nossos técnicos não podem fazer isso para aliviar
o sofrimento deles?
-Não. Os técnicos só podem ajudá-los na hora certa, quando
eles merecem.
- Coitados! E quando isso ocorrerá?
- Luiz, Deus é bom, tanto é que eles, os gananciosos,
cruéis verdugos de anjos, recebem auxílio do Pai, neste vale.
Por isso, Sérgio, estamos aqui, para tentar levar alguns para os
hospitais.
Fiquei meio sem jeito!
169
- Tem razão, Deus não desampara Seus filhos, nós é que
ainda não entendemos Seus desígnios. Notei amigo, que uns estão
piores que outros.
- Muitos chegam a um pior aspecto de deformação por
praticar maior número de abortos. Célio chegou a fazer cinqüenta
por dia.
- Quê? Cinqüenta? É matar demais!
* Nisso, avistamos Leocádio. Era uma larva humana e junto
a ele vários rostos deformados. Leocádio xingava demais. Era
bem visível em sua fisionomia as torturas que sofrerá, mas mesmo
assim não parava de esbravejar:
- Se preciso for, voltarei a matá-los, a todos, seus fetos
imundos! Deixem-me em paz, estou cansado de tê-los junto a
mim!
ísis, aproximando-se de Leocádio, foi chamando pelo nome
um por um dos abortados e eles foram desprendendo-se da massa
gelatinosa, como quando se joga inseticida numa planta e
caem os parasitas. Assim também foram caindo sobre o aparelho
que ísis tinha nas mãos. Ela conseguiu retirar de Leocádio
uns vinte espíritos, que fez adormecer com amor. Leocádio, com
voz orgulhosa, falou:
- Obrigado, colega. Agora, ajude-me a voltar a ter um corpo
humano. Não sei por que Deus permitiu que esses fetos imundos
me atormentassem tanto. Só fiz o que os pais me pediram, nada
mais. Sou um profissional, montei uma das melhores clínicas
abortivas, na Grande São Paulo, dando todo conforto à gestante.
Não acha mais nobre tirarmos as mulheres das mãos das curiosas
aborteiras? Na clínica, a mulher recebe toda assistência, o que não
acontece em casas de curiosas. Agora, não sei por quê, vejo-me
junto a esses fetos malcheirosos. Eu, o doutor Leocádio, eminente
médico brasileiro...
170
- Irmão, como médicos, temos por dever lutar pela vida e
o irmão, quando escolheu a sua profissão de médico, bem sabia
que teria de consagrar o seu trabalho à saúde e ao prolongamento
da vida física de seus pacientes. Interromper uma gravidez é
extinguir vida humana em sua fase embrionária, é tolher o plano
divino, que prepara as almas para cumprir sua etapa no mundo
físico.
- Pensei que fosse médica, mas pelo visto é mais uma
fanática religiosa.
- Engana-se, irmão, sou uma filha de Deus que se esforça
para servir a todos os que de mim precisam.
- Deixemos de conversa e me ajude. Quero só a forma
humana.
- Sobre isso nada posso fazer, o seu corpo está deformado
pelo ódio no seu coração, e ele é o seu cirurgião plástico. Por
enquanto, o irmão não tem condição de moldar um novo corpo
humano. Até lá, será prisioneiro dessas terríveis deformações
perispirituais. Não será Deus, nem seremos nós, os médicos
mensageiros, que iremos livrar-lhe dessas lesões perispirituais.
O seu corpo verdadeiro, o criado por Deus, está latente dentro
dessas deformações. Só depende do seu coração ressuscitá-lo.
- Mas eu não suporto mais este sofrimento...
- A quantos espíritos o irmão negou um corpo? Por isso
hoje o seu é esta massa gelatinosa, composta de fluidos repugnantes.
Se ficar livre do orgulho, os fluidos divinos logo o envolverão.
ísis afastou-se, levando consigo os espíritos que antes atormentavam
Leocádio para que frei Quirino pudesse ajudá-los até
171
a chegada de socorro. Assim, muitos espíritos foram separados
dos seus algozes, mas nem por isso se sentiram reconfortados.
Pensei que iríamos voltar, mas o grupo adentrou um pátio também
de feio aspecto. Fomos recebidos por Coral, uma estranha
mulher que ali prestava auxílio. Não era espírito evoluído, mas
se propusera a ajudar os outros. Recebeu-nos com respeito. Os
seus auxiliares eram todos mulheres que passaram por aquele
vale composto de aborteiros e mães assassinas. Coral nos contou
sua vida: fora enfermeira e, por dinheiro, praticara abortos.
Quando desencarnou foi para o vale, onde conheceu a verdadeira
dor. Ao se ver livre de algumas aderências espirituais, se propôs
a ajudar os outros e dali não mais saiu. Ela, com sua equipe, prestava
auxílio e, quando os sofrimentos aumentavam, pedia socorro.
Por isso ali estávamos. Coral caminhava com dificuldade e falava
com a língua enrolada, mesmo assim já estava trabalhando para
Deus. Levou-nos a um pavilhão, onde vários espíritos, completamente
deformados, gritavam e brigavam entre si.
Zeus, Misael e Kelly prestavam auxílio, retirando os fluidos
negativos daqueles perispíritos sem forma. Para se aproximarem
daqueles aborteiros, os nossos médicos se revestiram de um jaleco
da cor violeta. À medida que eram cuidados, eles vomitavam sobre
os médicos e estes, com carinho, iam-lhes aliviando os sofrimentos.
Nós, os não-médicos, orávamos em silêncio, juntamente
com Coral e seus auxiliares. Éramos almas irmanadas, lutando
para caminhar na estrada estreita de Jesus.
Mais tarde, fomos convidados a nos retirar, ficando somente
os médicos. Lá fora, não pude deixar de olhar aqueles
seres disformes, quase que rolando no charco infecto. Aquele
local mais parecia um pântano da dor: nada de flores nem frutos
nem água, só a dor e o desespero.
172
- Será que aqui tudo é sempre assim, nublado e sem sol,
Hápila?
- Dizem que sim.
Nesse momento, passou por nós uma revoada de aves gigantescas,
cujo ruído assustou os aborteiros. Levantei os olhos,
para melhor analisá-las.
Um dos trabalhadores daquele vale esclareceu-nos:
- Elas recolhem os miasmas pesados; são os sanitaristas
deste lugar. Os habitantes daiqui não são portadores de bons fluidos,
que fazem germinar as sementes e colorir os jardins de flores.
Precisamos destas aves para a limpeza mental de toda a área.
Acreditamos que um dia este vale será transformado em uma
colônia de socorro.
- O que é preciso para que isso aconteça? perguntei.
Logo veio a resposta:
- Que os encarnados se conscientizem de que ninguém
pode retardar o plano de Deus. É necessário abolir os abortos da
face da Terra. Só assim não teremos os vales de sofrimento.
- Estarei, irmão, orando para que Deus nos ajude a incendiar
com a chama do amor todos os lugares tenebrosos dos
mundos físico e espiritual.
Abri as Escrituras e caiu Miquéias, Cap. VI:
Caminho da Sahvação.
173
Capítulo XXI '
O RESGATE DE EUGÊNIA
Enquanto descansávamos um pouco, resolvemos ler o
Antigo Testamento, para acalmar o nosso espírito. E caiu Reis,
Capítulo XXII, versículos 19-23, quando Miquéias narra uma
visão que dá a entender como Deus permitira ao diabo falar por
intermédio dos profetas.
Ficamos tecendo comentários sobre o perigo de sermos
enganados e que isso somente acontece com as pessoas orgulhosas,
desejosas de receber elogios. Um ser humilde jamais será
vítima de espíritos embusteiros.
Abri, novamente, por acaso, e caiu no Apocalipse, Capítulo
XXI, versículo 9: Esplendor e riqueza da cidade santa:
Vem e eu te mostrarei a noiva, a esposa do Cordeiro.
Pela descrição de João surgiu em meu pensamento a cidade
de Brasília, apesar de as medidas serem simbólicas. As maiores
cidades do Oriente antigo eram quadradas, por exemplo:
Babilônia e Nínive. Quanto ao nome da pedra, jaspe, era para
nos dar uma pálida idéia da beleza da cidade prometida.
27: Não entrará nela coisa alguma contaminada.
No Capítulo XXII, versículo 15: , ?
175
Ficam fora os cães, os feiticeiros, os impuros, os homicidas,
os idolatras e todos os que amam e praticam as
injustiças.
Percebemos que da terra celeste serão afastados todos aqueles
que de alguma forma tiverem agido contra a lei divina, para
os quais não haverá prazeres ou gozo, mas serão lançados na
segunda morte; quer dizer que os espíritos que da Terra sairão
exilados retroagirão na forma perispiritual, de acordo com a vibração
do planeta para onde serão levados, e sofrerão a segunda
morte - a primeira morte é livrar-se do corpo físico e a segunda,
da forma humana do perispírito.
Chegou até nós o chamado para darmos outra incursão pela
cidade das trevas, a cidade dos aborteiros, dos espíritos condenados
pela própria maldade de extinguir vidas humanas ainda
embrionárias.
Saímos mais uma vez pela cidade, revendo aquele solo negro
e viscoso, onde seres rastejavam com seus corpos deformados, mais
parecendo larvas humanas. Senti-me meio tonto e segurei nos braços
de ísis, que me reconfortou. Fitei os irmãos sofredores e, à medida
que os olhava, dava-me a impressão de que aqueles espectros
lutavam para se livrar das deformações, mas elas estavam vivas
demais naquelas consciências. Esforçavam-se, muitos deles, para
se locomover com desenvoltura. Ao perceberem nossa presença,
tapavam os rostos ou cuspiam, dizendo desaforos.
Já havíamos caminhado um longo percurso e eis que uma
mulher, segurando as pernas de Hápila, implorou por socorro:
- Ajude-me, não suporto mais viver aqui, tire esses vermes
do meu corpo, almejo a liberdade. Nem sei o porquê de
aqui estar, junto a esses monstros! Fui, na terra, excelente
profissional.
Ajudei tantas pessoas...
176
Voltamos nossa atenção para aquele corpo perispiritual informe,
tendo coladas nele suas vítimas. Ninguém lhe dava ouvidos,
quando, chorando, pediu:
- Pelo amor de Deus, tire-me daqui! Estou arrependida
de ter feito inúmeros abortos. Mas eu não tinha religião alguma,
só valorizava as coisas materiais. Fui criada assim, sem Deus,
sem amor, sem humildade. Mas diga ao Cordeiro que já me arrependo
do que fiz, quero ser salva. Tire-me daqui!
Enquanto pronunciava essas palavras, ela já estava me segurando,
ou melhor, me afundando, porque, sentindo pena, desequilibrei-me.
Logo os outros nos socorreram e Misael providenciou
a maça onde Eugênia foi transportada, recebendo, antes,
um passe magnético.
Fomos deixando para trás aquele vale de sofrimentos, onde
o odor fétido era a prova do apodrecimento mental da criatura
humana, lugar sombrio, bem apropriado para abrigar almas sem
amor e sem fé. Conforme nos aproximávamos do portão, o lugar
tomava-se mais turbulento, com animais ferozes e muitas
aves que o sobrevoavam com alarido, a nos ameaçar. Silenciosamente,
só orávamos. Às vezes eu as procurava com o olhar;
queria compreender o porquê da existência delas. Porém, aquela
não era a hora propícia para perguntas. Aquele lugar pavoroso
era o inferno tão falado, só não possuía o fogo eterno. Quando
alcançamos o portão, despedimo-nos dos guardiães daquele
lugar, espíritos também culpados mas que, mesmo doentes, ajudavam
a Espiritualidade Maior. Olhei-os com carinho, pedindo
a Deus pela salvação de todos.
Recitei o Salmo CIII, bem alto, em louvor àquele lugar e
os guardiães baixaram a cabeça para me ouvir: , u
Bendize a minha alma, ó Senhor.
177
Este Salmo é um hino ao Criador do Universo. Em sete quadros, conta as
magnificências da Criação. Cantei cada um
deles e quando terminei todos choravam, principalmente os guardas
daquele lugar. Dessa forma, deixamos para trás aquelas almas
sofridas, encaminhando-nos de volta à casa de frei Quirino.
Depois do que vimos, ali pareceu-nos o céu; a paz era o
perfume do lugar. Sorridente, frei Quirino logo providenciou
socorro à mulher que trouxéramos. Aquela casa, que à primeira
vista mostrava-se pequena, agora percebia possuir uma confortável
enfermaria, onde Eugênia logo foi atendida. Primeiro tomou
um bom banho, depois uma saborosa sopa. Reencontramo-la
dois dias depois, já livre dos outros espíritos, os quais um dia
havia impedido de retornar à carne. Perguntei ao auxiliar de
Quirino:
- Vocês conseguiram livrá-la dos verdugos?
- Coitadinhos, eram tão sofridos que nem tivemos dificuldade
em separá-los!
- E onde estão?
- Já foram levados para os departamentos apropriados
para esses casos.
- Onde ficam esses departamentos?
« - Na Universidade Maria de Nazaré, mas aqui existe hospital
que também presta auxílio a esses casos. «
Ao nos aproximarmos de Eugênia, ela dormia tranqüilamente,
porém, para surpresa minha, seu corpo ainda estava deformado.
Livre dos verdugos, sua deformação apresentava-se
mais terrível. Seus olhos pareciam os de uma caveira. Aproximei-me,
vendo que despertava:
178
- Como vai, Eugênia?
- Estou ótima - disse friamente.
Depois, arrependendo-se, falou-me:
- Ah, foi você o moço que me ajudou?
- Eu, não - respondi. Quem a ajudou foram os médicos
do nosso grupo.
- Engana-se, Sérgio, falou Kelly, Eugênia tem razão.
Quando ela o tocou, seu coração a cobriu de bênçãos e só assim
ela teve condição de ser salva.
- Mas eu, logo eu?
- Sim. Os seus leitores o cobrem de fluidos bons e você,
carinhosamente, reparte-os com os outros.
Meio sem graça, alisei as mãos deformadas de Eugênia e
lhe beijei o rosto que, ao contato dos meus lábios, deu a impressão
de um bloco gelatinoso, muito gelado. Retirei-me, mas os
médicos ainda permaneceram junto à doente. Ao passar por outra
enfermaria, vi outros seres repousando. Ao perceber que eu
os observava, irmão Quirino me falou:
- Todos voltarão um dia a possuir a perfeição da veste
nupcial. Até lá, terão de sofrer o ranger de dentes.
Acompanhei-o até o jardim interno onde, sabendo de minha
admiração por orquídeas, presenteou-me com uma branca.
Beijei sua mão amiga, dizendo-lhe:
- Irmão, eu amo você!
Sorriu e se afastou. Fiquei esperando os outros, que não
demoraram a chegar. Ainda conhecemos outra ala da pequena
casa de frei Quirino, a ala da prece, onde bondosas almas protegiam,
através da oração, os espíritos sofredores ali socorridos.
179
Quando terminamos, perguntei a José, um dos companheiros de
frei Quirino:
- Os senhores não são molestados pelos trevosos?
- Graças a Jesus, nunca o fomos. Vivemos aqui há muito
tempo e ninguém nos vem assustar.
- Os senhores sempre vão ao Vale? !
- Às vezes, quando alguém grita por socorro.
! -E nós, por que fomos lá agora?
Quem me respondeu foi Aloísio:
- Sérgio, fui eu quem pediu ajuda para Eugênia, ela é
minha mãe.
- Sua mãe?
- Sim, Sérgio. Apesar de tudo, ela foi uma mãe razoável.
- É mesmo, Aloísio? ,
Kelly nos interrompeu, comunicando:
- Vamos partir, a terra nos espera.
- Irmã, eu só gostaria de saber por que lá no vale existem
tantas árvores feias e bichos peçonhentos.
- Graças a eles, naquele lugar ainda se respira. Eles são
os filtros das emanações ruins que partem das mentes humanas
e de todos os habitantes daquele lugar. Eles trituram os lixos
mentais da Humanidade.
- Sabe que estou surpreso com esses animais?
- Por quê? Nessas aves do umbral inferior não existe espírito
em evolução. Elas foram criados pelas imperfeições do
homem.
180
- Quer dizer que a mente perturbada cria e alimenta seres
monstruosos?
- Não é bem assim, Sérgio.
- Mas que o plano inferior vive das vibrações baixas dos
encarnados, isso vive.
- Sim, os motéis, por exemplo, possuem uma aura vermelha
que, imantada pela luxúria da perversão, fornece energia
aos espíritos que ainda desejam praticar sexo, mesmo já
desencarnados. É nesses lugares que eles buscam as forças sexuais
lá existentes, para suprir seus desejos desenfreados.
- Obrigado, amiga. Até outro dia, irmãos deste vale falei,
fazendo continência.
181
Capítulo XXII
UM PONTO DE LUZ NAS TREVAS
Na saída, reencontramos frei Quirino que, muito gentil,
desejou-nos boa viagem. Os médicos ficaram para trás, conversando
mais um pouquinho com ele. Eu, Aloísio e os outros fomos
ganhando estrada. Logo depois Zeus, Kelly, Isis e Misael
juntaram-se a nós. Não perguntei aonde iríamos, mas também
não precisava, o ar ia ficando deletério, denso e mórbido.
Aproximávamo-nos do umbral inferior. Se o solo era lodoso, o
céu era coberto de nuvens escuras, como se estivéssemos envoltos
por sombras tenebrosas. Hápila perguntou-me:
- Está com medo?
- Medo de quê, companheiro?
Ele nada mais falou, mas aos nossos ouvidos chegavam os
ruídos mais estranhos. Eu não via a hora de avistar algum ser
humano, mas o céu ficava cada vez mais turbulento. Orava tanto
a Deus que as lágrimas me faziam companhia. Nisso, um barulho
terrível, como se uma catástrofe fosse ocorrer, chegou aos
nossos ouvidos. Era como se um turbilhão se aproximasse.
Detivemo-nos, protegidos pela oração. Um grupo passou por
nós em desabalada correria. Logo, outro atrás dele. Era uma briga
entre bandos de trevosos. Os urros eram assustadores.
183
- Calma, muita calma, alertou Misael. Os irmãozinhos '
estão agitados, isto é comum entre eles. Aqui o ódio toma conta
dos espíritos.
Continuamos a caminhar até divisarmos aqueles seres endurecidos,
que pareciam concentrados nas imediações dos vales,
sem um lar que os abrigasse, somente árvores e rochas. Pareciam
mendigos, sem roupas decentes nem casas. Amintas pediu
que parássemos e olhássemos o vale que se estendia à nossa
frente. Ninguém pode calcular o horror desse lugar. Vários espíritos
sendo maltratados, verdadeiros escravos dos mais fortes,
torturados mesmo.
,, - Por que batem tanto nesses homens? perguntei a Amintas
- Porque estão vingando-se daqueles que outrora abusando
da autoridade, do poder do mando e também torturavam.
- E que mérito têm eles para se vingar assim?
- Nenhum, mas para mentes sem Deus a vingança é o
único meio encontrado como um ajuste de contas, por isso
vampirizam suas vítimas.
- E o que estamos fazendo aqui? Nosso trabalho não é
com os aborteiros?
- Sim, mas isso não nos impede de prestar auxílio aos
necessitados.
Nisso, avistamos um espírito que fazia outro de cavalo.
Montado nele, chicoteava-o, dizendo:
- Anda ligeiro, senão eu te mato.
E o coitado, com as mãos machucadas, ia correndo, de
quatro, enquanto o cavaleiro ria ruidosamente. Quando passaram
184
por nós, Hápila, com seu poder magnético, tirou-o de cima
da sua vítima e ele se desequilibrou, levando um tombinho. Como
esbravejou! Fiz tudo para conter o riso. Confesso que foi muito
engraçado.
Aproveitando o descuido do algoz, Aloísio retirou a vítima,
que aqui chamarei de Túlio, e o resguardou junto a nós. O
homem, assustado, só implorava:
- Salva-me, mensageiro de Deus, salva-me! Nem sei por
que estou aqui, jamais o maltratei, somente cumpri a lei.
Ninguém lhe dava atenção. Ele falava muito e só parou
quando Kelly lhe aplicou um passe.
O outro, ao se levantar do chão, gritava tanto, chamando a
guarda do lugar, que tivemos de nos abrigar mais uma vez na
prece. Quando percebemos, todo o vale estava em alerta. Diziam
eles: - «
- Os Filhos de Deus estão aqui!
Mas se a guarda trevosa ficou atenta, por outro lado as
vítimas daqueles espíritos tudo faziam para fugir e logo tínhamos,
ao nosso redor, muitos deles, em estado desesperador.
Ainda ficamos mais algumas horas. O nosso grupo já abrigava
uns quinze espíritos sofredores. Pensava: "como vamos
sair daqui? Será que algum de nós tem experiência com este
vale?" Amintas respondeu-me:
- Sempre trabalhei neste lugar. Não estamos saindo da
rota de trabalho, este vale também está repleto de aborteiros.
Muitos deles defenderam o aborto ou criaram leis favorecendo-o.
Eles são culpados pelo extermínio de várias e várias almas
que só pediam: "deixem-me viver, não me matem". Além de
criarem as leis e as defenderem, executaram-nas sem piedade.
185
Hoje moram aqui, junto aos torturadores, aos exterminadores,
enfim, àqueles que abusaram da autoridade.
O homem, quando encarnado, não imagina o que o espera
após a separação corpo físico-espírito e vai praticando atos selvagens.
Não seria mais fácil se todos os encarnados se tomassem
espiritualizados? Cessariam as violências e os homens não
sofreriam tanto nos umbrais.
No maior silêncio, fomos andando à procura de um meio
de sairmos dali. O lugar ficava cada vez mais tenebroso e os
gritos, mais horrorosos. Os irmãozinhos recebiam tratamento
especial e nos acompanhavam como se estivessem anestesiados,
íamos vencendo os empecilhos: ora um pântano lodoso, outras
vezes insetos dos mais peçonhentos. Quando já nos aproximávamos
da porta do vale, que parecia imensa rocha, uma mulher
nos barrou os passos, dizendo:
- Tirem-me daqui, não suporto mais os torturadores!
com muita piedade, ia socorrê-la, quando me seguraram
pelos braços.
- Não faça isso, deixe para os encarregados do socorro!
Amintas aproximou-se, quando ela soltou estrondosa gargalhada,
tentando abraçar o socorrista, que foi envolvendo-a com
fluidos de amor. Ela os recebia como se fossem chicotadas. Gritava:
- Vão para o inferno, filhos do diabo! Deixem-nos em paz!
Amintas nos deu sinal para passarmos e só respirei aliviado
quando ultrapassamos a gruta e nos vimos longe dali.
- Quem é ela? perguntei.
- E uma irmãzinha que sempre defendeu o aborto, gritando
para as mulheres o direito da defesa do seu corpo e de
186
dizer não à gravidez. Líder feminista, lutou pela liberação do
aborto em seu país e hoje vive neste vale, ainda mais revoltada,
coberta de ódio e maldade.
Assim, levamos alguns irmãozinhos conosco; em fila indiana,
nada falavam, mas tinham no olhar o desespero de uma
vida.
- Para onde iremos levá-los?
- Para o Hospital de Thérèse - informou-me Kelly. ;"
Caminhamos ainda algumas horas até alcançarmos o abrigo,
onde já nos aguardavam. O hospital, todo branquinho, era
um raio de luz que despontava na escuridão da dor e do desespero.
O Hospital de Thérèse abriu suas portas para receber os
nossos doentes e irmã Sofie nos alojou numa bela sala, florida e
perfumada, onde reequilibramos os nossos espíritos. Os doentes
foram levados para as enfermarias, onde primeiramente iriam
receber uma boa limpeza. Ouvindo música, procurei relaxar
e logo adormeci. Quando acordei, meio sem graça, Lélis sorria-me:
- O que lhe aconteceu, Sérgio?
Respondi:
- Eu é que lhe pergunto: por onde você andou?
Perguntas sem respostas. Eu não respondi à dela nem ela à
minha. Nesse momento, outra irmã viera chamar-nos. Estávamos
sendo esperados na sala de palestras. Irmã Maria, uma bela
senhora, sorriu-nos, desejando boas-vindas. Ela resplandecia
carinho e amor. Emocionado, beijei sua mão e a olhei com imenso
respeito. Maria José convidou-nos à oração:
- Pai, generoso e bom, apiedai-Vos dos Vossos filhos imaturos
e dai-lhes a oportunidade de ressarcir seus erros. Não os
deixeis perdidos nas estradas escuras do ódio. Clareai os seus
187
olhos para os campos do trabalho e dai-lhes coragem para plantar
as sementes da humildade, do amor e do perdão. O sofrimento
na Terra é imenso e ninguém existe que não esteja colhendo o
fruto dos seus erros passados. Mas Vós sois o Pai bondoso e
tendes o poder de aliviar todos os sofrimentos. Confiantes, portanto,
em Vosso amor, esperamos que, ao ouvirdes as nossas
preces, façais brotar nesses endurecidos corações o desejo de
paz e que eles venham a praticar o bem, a fim de, mais facilmente,
prosseguirem no caminho da evolução. Precisamos de forças,
alento e coragem para conseguir atingir o fim da jornada.
Tirai, Senhor, de nós, o véu que nos embaraça; purificai nossas
vidas para que sejamos dignos do Vosso amor, Pai amado. Assim
seja.
Terminada a prece, irmã Maria José levou-nos até a enfermaria,
onde nem reconhecemos os antigos maltrapilhos. Quase
todos dormiam.
- Eles ficarão aqui? perguntei.
- Não, meu irmãozinho. Terão de seguir para o grande
Hospital de Maria, onde receberão cuidados especiais. Nós somos
apenas uma pequena luz no caminho, aplicamos os primeiros
socorros.
- A irmã trabalha com muitos auxiliares?
- Trabalho com Sofie, Catherine, Magnólia, Paulina, doutor
Murillo e doutor José Pithar.
- Que Deus os abençoe, irmã querida.
Tivemos muitas elucidações e irmã Maria nos contou o
que se passa naquele vale. Eles também vão até lá prestar auxílio.
Quantos, no corpo físico, julgam que quem desencarna descansa!...
Esses espíritos lutam pelos que sofrem, dando-nos valorosas
lições de amor.
188
Irmã Maria projetou para nós um filme sobre o socorro,
onde a equipe de Thérèse prestava auxílio àqueles estranhos espíritos.
Nele víamos almas torturadas, debatendo-se em substância
viscosa. O lugar era impressionante. Um não se importava
com o outro, mas os anjos divinos tudo faziam para auxiliá-los.
A irmã explicava-nos que naquele vale estavam confinados
muitos espíritos esclarecidos intelectualmente, mas sem elevação
moral. A "morte" não foi encarada como um fato normal,
para eles foi um golpe terrível e fazem dos seus impulsos inferiores
a razão de vida do lugar. Oferecem, uns para os outros, suas
energias desequilibradas e se tornam um bando de espíritos sofridos.
Naquele filme mostrado por irmã Maria, divisamos os
lugares onde não nos foi possível chegar.
- Quem são eles? perguntei.
Ela me respondeu:
- Aqueles que só levam vantagem quando no corpo físico.
É, meus irmãos, o vale do sofrimento, composto de espíritos
esfarrapados, esqueléticos, era uma dolorosa realidade. Irmã
Sofie, aproximando-se de mim, disse:
- O homem tem tudo para ser feliz, mas nunca está contente
com o que possui, mas depois, terá de colher o que plantou.
Terminado o filme, despedimo-nos daqueles irmãos, levando
no coração o amor de agradecimento a Deus, por Ele um
dia ter-nos criado. É lamentável que o homem não reflita sobre
a vida e amontoe iniqüidades na sua bagagem, trazendo para o
mundo espiritual uma rede de ódio e egoísmo que o mantém
prisioneiro nesses vales de sofrimento. Enquanto o homem não
se tornar bom, existirão esses lugares tenebrosos.
189
Volto a repetir, as Casas Espíritas precisam conscientizarse
da educação doutrinária. De nada adianta reerguermos templos
e não curarmos almas. A Doutrina é a água viva que dá ao
homem encarnado o passaporte para a paz. Os Centros precisam
ressuscitar os mortos, dando a cada freqüentador a certeza de
que só a caridade salva; que enquanto buscarmos as Casas Espíritas
e continuarmos presos aos bens materiais, longe estaremos
ainda de amarmos a Doutrina Espírita, que é o Cristo esperando
por nós. Só existe obsessão porque o homem ainda não é bondoso.
Se a Doutrina nos ressuscitar, seremos libertados e a liberdade
se chama paz.
190
Capítulo XXIII
COLÔNIA AZUL - CIDADE-E ESCOLA DOS
NASCIDOS MORTOS
Não consigo ficar indiferente ao ver alguém sofrendo. Presenciar
as conseqüências do erro humano foi demais. Aquele
lugar mexera comigo. Pensava: "por que o ser não procura viver
bem, respeitando o espaço do seu próximo? Seria tudo mais fácil."
- Mas as pessoas gostam de sofrer, falou Lélis, novamente
junto a nós.
Aproximando-me de Zeus, perguntei:
- Irmão, observei no Vale que, mesmo sendo portador de
pesadas vibrações, alguns espíritos volitavam. Julgava eu que
só fosse possível volitar os espíritos bons.
- Luiz, a volição é conquista dos que desenvolveram o
poder mental, e mesmo aquele possuidor de fluidos pesados,
devido à sua baixa vibração, pode volitar seja desenvolveu sua
potência mental. Se o irmão prestou atenção, percebeu que
volitam com dificuldade, a imperfeição cortou suas asas. Mas
em um lugar onde muitos se arrastam, é uma glória dar um vôo,
mesmo que rasante.
191
- Sabe, Zeus, eu ainda sinto dificuldade em volitar, gostaria
que me desse uma aula para transmitir aos meus leitores.
-A volição se processa através da ação dinâmica da vontade,
é ela que atua sobre a energia mental. Para isso, precisamos
educar a mente. A disciplina fortalece a mente e esta,
energizada, pode alcançar os pontos desejados.
- Você aconselha o homem a desenvolver sua força mental?
- Não no sentido do que estamos falando. De nada vale
ao espírito sua força mental, se ela está desequilibrada. O bom
seria se o homem desenvolvesse a mente para o bem, aí sim,
quando liberto do corpo físico, transformar-se-ia em um pássaro
livre e feliz.
- Notei que aqueles que ali volitam sentem-se como reis.
Zeus sorriu.
- Por isso é bom todos estudarem e desenvolverem o coração;
só o amor dá ao homem a paz. Se conhecer o seu metabolismo,
o homem chegará ao ponto máximo de fortalecimento da
mente, que lhe vai ajudar muito ao libertar-se do corpo físico.
Entretanto, fortalecer a mente para escravizar alguém é como
cursar uma faculdade de Medicina e depois se tomar aborteiro.
Não tem valor algum.
- Recordo-me sempre da dificuldade que tive em volitar
e hoje percebi que muitos dos trevosos volitam...
- É, Luiz, eles volitam, mas não saem do lugar, são aves
de asas cortadas.
Nada mais falamos.
O vento soprava forte, quando Lélis, com sua voz
aveludada, cantou esta canção:
192
Maria, Maria, Mãe amada,
Não me deixes cair em tentação. :
; ,; Quero ser digna de Ti,
Acolhe-me em Teu grande coração,
; Livra-me do egoísmo, >
Da vaidade e da avareza. ; ;
Segura, Maria, minha mão
Leva-me pra longe da tristeza, <
Quero ficar ao lado de Jesus, irmão,
Maria, Maria.
Pareceu-me que todo o lugar se curvou, em respeito à Mãe
de Jesus.
À medida que Lélis cantava, uma ondulação colorida nos
envolveu. Aprontei-me para orar por todos os que precisam.
Quando reabri os olhos, notei que uma nova Colônia despontava:
era a Colônia Azul. Lélis, intrigada com a minha indiferença,
indagou:
- O que aconteceu, por que a tristeza?
--Nada, apenas me sinto cansado. Vou descansar um pouco.
Hápila intercedeu, dizendo:
-- Está bem, podes descansar, mas enquanto ficares descansando
deixarás de aprender.
Nada falei, porque já pedíamos abrigo à Colônia e seus
portões floridos abriam-se para nos acolher. Descortinou-se aos
nossos olhos um jardim em flor, onde os miosótis compunham,
junto às rosas, um buquê divino. A Colônia era pequena, mas
muito florida. Quem nos recebeu foi Carlito, levando-nos para a
ala nove, onde Francis nos esperava.
193
- Sejam bem-vindos à nossa Colônia. Espero que tenhamos
elevação para bem acolhê-los.
Examinava cada detalhe daquele belo lugar, curiosamente,
sendo advertido por Aloísio:
- Cuidado, muito cuidado, a curiosidade é um
desequilíbrio mental.
- Desculpe, é que a gente vem de um lugar tão triste, que
é difícil acreditar que aqui no umbral exista esse pedaço de céu.
Francis conversou com os médicos e pediu a Joaquina para
nos levar até o campo das violetas. Segui o grupo sem muito
entusiasmo, mas à proporção que nos aproximávamos, o perfume
ia-nos inebriando, sob a luz do Sol não muito intensa; passamos
por uma cascata, cujas águas cristalinas nos reconfortaram.
Todos estavam alegres, só eu não estava bem, a tristeza me corroía
o coração; permaneciam em minha casa mental as fisionomias
desesperadas do Vale. Misael me aplicou um passe e logo me vi
livre da tristeza. Chegando ao local das violetas azuis, fomos
bem recebidos por Constança, que nos dava explicações de tudo.
O salão era composto de muitos berços e carros de bebê. As
crianças eram bem pequenas, mas muito bem tratadas pelas enfermeiras.
Estava curioso para saber algo sobre elas, quando irmão
Lourenço esclareceu:
- Estes irmãos foram abortados inconscientemente pelas
mães por excesso de medicamentos, fraqueza uterina ou mesmo
câncer, ou a própria vontade dos bebês que não queriam voltar à
carne.
- E pode isso ocorrer?
- Sim, em muitas ocasiões a gravidez é efetuada, mas
não consegue atingir os nove meses. Este recanto fortalece os
fetos para nova descida à carne.
194
- Por que ocorrem estas rejeições?
- Como já disse, vários fatores as originam, porém o mais
comum refere-se aos bebês que não querem reencarnar. Muitos
por terem sido rejeitados.
Perguntei se podia pegar Lisandra no colo e, ao fazê-lo,
gritou tanto que quase saí correndo. É difícil de acreditar, mas
ali estava, no plano espiritual, uma colônia de crianças, uma das
maternidades divinas. Todo o grupo admirava o lugar, que nem
parecia estar alojado no umbral, tal a paz ali reinante. Depois de
visitarmos o pátio, fomos levados até a sala de estudos, onde se
preparava mais uma reencarnação. Comentei com Aloísio:
- O departamento é fogo, está em muitos lugares, por
isso a "negada" não pode bobear.
Todos fizeram força para não rir e confesso que fiquei envergonhado,
porque a irmã Joaquina acrescentou:
- Deus é bom, por isso Ele não cansa de nos chamar ao
trabalho.
A equipe passou a examinar os prontuários daqueles espíritos
que foram abortados por vários fatores. No desencarne,
como na reencarnação, o espírito passa por uma experiência
marcante. É como um salto bem alto de um plano para outro.
Assistimos aos filmes projetados e um deles relacionava-se com
Lisandra. Vimo-la em tamanho normal, uma senhora de seus
sessenta anos, sendo unida ao útero materno e este, composto
de fortes correntes eletromagnéticas, ia reduzindo-a. O espírito
de Lisandra, aconchegado ao seio materno, iniciava o trabalho
divino da formação do seu corpo carnal. Mas percebemos que o
espírito, mesmo com a veste perispiritual reduzida, enfrentava
195
momentos dramáticos: na sua mente, bem viva, encontrava-se
guardado o passado e o que ocorrera em encarnação anterior.
Notamos a indecisão daquele espírito: Vou ou não Vou, e na mente
de Lisandra surgiam fatos que a levaram a desistir da nova
encarnação. Então, tudo fez para retornar ao plano espiritual.
Assistimos naquele filme ao bloqueio mental de um espírito que
não desejava mais renascer. Ele, o espírito, é que aglutina sobre
a veste perispiritual os elementos que darão vida ao físico. Bloqueadas
as energias, o físico vai ficando doente e a mãe aborta.
- Que danadinha!...
- Isso mesmo, Luiz. O espírito não sabe o mal que está
fazendo a ele mesmo. Esta Colônia tenta ajudar estes irmãos.
Graças a Deus só estamos tendo vitórias.
- Irmã, todos eles foram inimigos dos pais?
- Não. Muitos destes espíritos sofreram no corpo físico
doenças cruéis, abandono ou mesmo aborto.
- Desculpe esta pergunta, mas se existem outros meios de
reencarnação, por que estes espíritos doentes voltam dessa maneira?
Já Presenciamos a redução perispiritual feita pelo próprio espírito,
o espírito comandando a sua redução e chegando ao ponto desejado.
Tudo isso pela força mental. E por que, sendo Lisandra um
espírito repleto de neuroses, não usaram tal método?
- Muito boa a sua pergunta, Luiz Sérgio, e fácil de ser
respondida, interveio ísis. Recorde que o espírito de Lisandra,
por estar perturbado, não possui força mental suficiente para
ajudar os técnicos na sua redução perispiritual. Não se esqueça
também de que, no seu livro Lírios Colhidos, você demonstrou
que cada caso de desencarne é um caso. O mesmo se dá no
reencarne. Em ambos há um choque biológico, mas devemos
dar graças a Deus por vivê-lo.
196
Ficamos ainda muito tempo na Colônia e antes de nos retirarmos
caminhamos para um jardim muito florido e perfumado,
deliciando-nos com a paisagem. Desejei rever Lisandra e ela me
sorriu como se me pedisse desculpa. Abracei-a com carinho,
demonstrando-lhe o quanto a queria. Outros contatos ainda tivemos
com os abortados. Despedi-me de Francis, beijando sua
mão.
- Irmã, quando eles voltarão ao plano físico? perguntei.
- Estão programadas duzentas reencarnações para este
mês.
- Tudo isso?
- Meu filho, isso é o mínimo que já tivemos. Esta Colônia
tem recebido mais irmãos do que os que encaminhamos para
o corpo físico. Os abortos violentos também têm atingido estes
seres.
- É mesmo, irmã, e eles precisam tanto de uma veste carnal.
Ela sorriu, perguntando-me:
- Irmão, vai embora só?
- Não - falei, olhando ao meu redor.
Só então percebi que estava sozinho. Pedi desculpas a
Francis e saí em busca dos outros. Mas o lugar era um convite ao
passeio. As casas pareciam colégios muito bonitos, todos eles
ornados pelas flores, onde predominavam as roxas, azuis e brancas.
Os lagos emolduravam aqueles edifícios-escolas. Parei para
apreciar as crianças que corriam a brincar. A luz era tão suave
que me recordei do outono em Brasília. Estava inebriado, feliz
da vida, quando ouvi meu nome:
- Sérgio.
Era Kelly que me chamava docemente. Ao me aproximar
dela, indaguei:
197
- Todas essas crianças são abortadas? <
- Sim. -
Mas elas me parecem tão belas, alegres e felizes; dão a
impressão de que amam este lugar!...
- Sim, amam tanto que relutam em voltar à terra.
- Irmã, estou meio confuso: estas crianças são as chamadas
"nascidas-mortas"; as que não chegaram ao término da gestação,
não é mesmo?
- Sim, Luiz.
- E por que elas me parecem diferentes? .:,
- Porque nesta Colônia-escola estão banhadas pela luz do Evangelho.
- Mas é crime a mãe abortar... não será crime também o
espírito interromper sua gestação?
-Aquele que pratica um aborto não é doente; estas crianças
são espíritos doentes que, ao terem contato com as verdades,
entram em estado de desespero; aqui estão sendo tratadas
para reencarnar bem e para isso estão sendo instruídas por excelentes
mestres. Note que não crescem, atingem apenas um certo
tamanho. Elas vêm para cá para aprender em primeiro lugar as
coisas espirituais, só depois é que receberão a educação terrena.
Quanto maior o aproveitamento da criança, mais depressa será
levada a nova reencarnação. Não se esqueça de que todas elas
são filhas da Terra e, mesmo recebendo no plano espiritual auxílio
com excelentes mestres, faltam-lhes experiências terráqueas
e terão de voltar para adquiri-las.
- Noto, Kelly, que aqui o livre-arbítrio funciona, não é mesmo?
198
- Sim, meu amigo. Agora vamos embora, o grupo nos
espera.
Assim, fomos deixando para trás aquelas alamedas floridas,
uma cidade-escola, onde as crianças recebiam de Jesus aulas
divinas. Mesmo sendo uma colônia dos "nascidos mortos",
mostrava-se bem viva; o vozerio alegre das crianças soava em
nossos ouvidos como um grito de liberdade. A Colônia Azul era
um pedaço do manto de Maria agasalhando aqueles espíritos
infantis, e a luz brilhante que pairava sobre o aconchegante lugar
partia, certamente, dos olhos iluminados de Jesus. As cascatas
que banhavam aqueles corpos diminutos só podiam vir das
águas da vida eterna. Um dia Jesus mostrou à Terra a importância
da água, banhando-Se no Jordão, oferecendo-nos a lição de
que precisamos dela para tirar as marcas encardidas da imperfeição.
Ele, Ser puro, mergulhou nas águas para nos ensinar que
precisamos mergulhar para renascer em novo ser.
Reencontramos os outros e logo as dificuldades surgiram,
porque já não estávamos na Colônia Azul e sim varando as barreiras
violentas dos umbrais.
Em certo momento paramos, e a voz de Zeus se fez sonora
aos nossos ouvidos, em prece comovente:
- Pai, amado Pai. Sé bendito, Senhor, porque criaste todas
as Tuas criaturas, concedendo-lhes o poder do conhecimento.
Abriste o cofre da sabedoria e entregaste a cada um dos Teus
filhos a chave. Perdoa-nos, se ainda não a usamos, se ainda os
199
nossos pés resvalam no lodo das nossas iniqüidades. Dá-nos,
Senhor, a coragem, a perseverança para andarmos em Tua direção,
mesmo lutando contra as adversidades. Não nos deixes cair
nas estradas da tentação. Dá-nos a proteção de Pai para que os
nossos espíritos possam galgar o monte da consciência tranqüila.
Se por acaso a vaidade cegar-nos, faze, Senhor, com que a
luz do teu coração retire este argueiro cruel que aprisiona e destrói
o ser. Deus de infinita sabedoria e bondade, dá-nos a serenidade,
o amor e a fé; que cada um de nós possa adquirir o poder
da humildade para decolar em Tua direção, levando na bagagem
os ensinamentos do Teu Filho muito amado, Jesus Cristo. Sabemos
que nos aguardas e que, como bom Pai que és, preparas
para todos nós um banquete repleto de bênçãos. Esperamos estar
bem vestidos, dignos das Tuas mãos abençoadas. Simples e
inocentes não poderemos mais ser, mas esperamos estar cobertos
com a luz da reforma íntima para que no momento em que
nos fitares sintas em nós um novo ser, como sempre desejaste.
Pai, faze de cada um dos Teus filhos uma estrela, pequenina que
seja, mas cujo brilho enfeite o Reino de amor e paz que criaste
para todos os seres, orgânicos e inorgânicos, filhos do teu coração.
Nós te amamos, Senhor.
200
Capítulo XXIV
No Pouso DA ESPERANÇA
A prece foi o remédio de que necessitávamos e, graças a
ela, nossos passos ficaram mais firmes, dando-nos condição de
lutar contra muitos obstáculos que enfrentaríamos. Enquanto
seguíamos, analisava meus companheiros e os admirei demais;
conceituados médicos e excelentes técnicos da Espiritualidade
Maior ali estavam, enfrentando, na maior simplicidade, vibrações
violentas das zonas umbralinas, ao passo que no mundo
físico basta a pessoa ter uma vida melhor para procurar as mordomias.
Zeus, vendo-me a fitá-los, sorriu, dizendo:
- Vamos recordar os Provérbios, Capitulo 28, versículos
18 e 19:
Aquele que anda em simplicidade será salvo; porém
o que anda por caminhos perversos cairá por sua vez.
Aquele que lavra a sua terra terá fartura de pão, mas o
que ama a ociosidade estará cheio de miséria.
Baixei os olhos e fui recitando alguns provérbios, que calavam
fundo em minh'alma.
Os minutos pareciam eternos. Nos caminhos que convergiam
para os umbrais, sempre encontrávamos caravanas de
trevosos e muitas vezes tivemos de "fugir" deles. Já estávamos
quase chegando à Estação das Águas, quando deparamos com
201
algumas mulheres, que davam boas gargalhadas. Eram dez. Examinei-as;
seus trajes eram muito parecidos com os de "certas
meninas": saias curtíssimas e blusas decotadas, brincos que iam
até quase a cintura, enfim, a aparência que o encarnado vê quando
cruza com jovens vulgarmente vestidas. Todos passavam por
elas de cabeça baixa, ignorando-as; eu, como as estava observando,
despertei a atenção e elas, brejeiras, foram aproximando-se
de mim, dizendo:
- Oi, garotão, como vai? É novato aqui?
Confesso que não sabia o que responder. Aloísio Socorreu:
- Não, ele trabalha para Zaíra. ; " ;
Ao ouvir este nome, recuaram.
- Perdoe-nos, não está mais aqui quem falou.
E foram andando de costas, olhando-nos assustadas.
pois que sumiram na estrada, perguntei a Aloísio:
- Quem é Zaíra?
- Antes de saber quem é, agradeça-me por tê-lo livrado delas. ;,
- Mas quem disse que eu queria me ver livre?
Todos riram e Misael retrucou:
- Por isso não, elas foram para o vale do prazer, se desejar,
nós lhe ensinamos o caminho.
- Desculpe, doutor - falei baixinho.
- Sabemos que está brincando.
Ainda indaguei, intrigado:
- Por que me enxergaram?
202
- Nós, Luiz, para penetrarmos nestas regiões inferiores,
tivemos de revestir os nossos perispíritos de fluidos densos, para
esconder nossa procedência, ocultando as aparências do plano
em que vivemos. O irmão, através da curiosidade, chamou a
atenção sobre si e se fez visível.
Nada mais desejei saber.
O lugar ia ficando terrível, o silêncio quebrado apenas por
brados, uivos e gargalhar sinistro. Já estávamos no "vale da dor". '
A vegetação, diferente, apresentava arvoredos com folhas vermelhas a
balançar agressivamente; algumas árvores lembravam
animais pré-históricos. Confesso que o papai aqui tremia mais
que aquelas furiosas árvores, ísis segurou minha mão, dizendo:
- Deus não desampara Seus filhos.
O aspecto era o de uma guerra, ora coberto de névoa, ora o
vento zunindo terrivelmente nos nossos ouvidos; outras vezes
parecia que ia acontecer um terremoto. Recordei-me de uma atração de
parque de diversões, a "casa do terror": a cada minuto
uma surpresa. E uma delas foi observar o contraste ali existente:
casas que nos assombravam, umas paupérrimas, outras luxuosas. Compreendi
que, além de governar aquele lugar, Zaíra controlava e administrava
algumas coletividades sombrias subjugando várias mentes encarnadas à
distância.
- Por que eles não estão deformados? perguntei.
- Se prestar atenção, vai notar que são diferentes.
Ao penetrarmos naquela cidade, podíamos perceber que o
sexo e os vícios dominavam, e infeliz daquele que para lá fosse
atraído, pois víamos que muitos eram escravizados, principalmente as
mulheres. Vamos imaginar que era uma cidade da prostituição
203
e que de lá partiam as caravanas de mulheres para perturbar
os encarnados.
- Vamos até Zaíra?
Misael respondeu: , ^ «
- Impossível. Estamos aqui apenas para retirar uma irmã
que abusou por demais do sexo e hoje, dominada pelos torturadores
de Zaíra, clama para ser socorrida.
- E onde ela está?
- Uma equipe de socorro já nos forneceu o local.
E assim fomos andando. Já nas proximidades do lugar indicado,
constatamos a pobreza e a falta de higiene, lembrando-me
certos lugares da terra. Em dado momento, vimos, deitada
no chão, uma mulher com os cabelos em desalinho. Ao fitar
seus olhos, quase morri de susto: era uma pessoa conhecida minha,
que não me reconheceu e gritou:
-- Não me maltrate! Não Vou à terra participar de orgias!
Eu quero esquecer o que fiz de errado, deixe-me em paz! falou,
tapando os olhos com a mão e permanecendo deitada no solo.
Senti vontade de abraçá-la, mas deixei que os outros a socorressem.
E assim foi feito. Envolvemo-la em fluidos
tranqüilizadores e nos retiramos. Pensei: "como vamos vencer
os guardas e os lacaios?" Mas a nossa caravana nem sequer era
notada pelo estranho povo daquele vale. Romilda, amparada por
mim e por Aloísio, parecia dopada.
- Levaremos só ela ou vamos a outras pocilgas prestar
socorro? inquiriu Kelly a Misael.
- Eu gostaria de tirar mais gente daqui, completei.
- É, Luiz, todos nós gostaríamos, mas é terrível a condição
de vida destes espíritos. Mesmo assim, subjugados, eles
204
resistem a serem levados para as colônias de luz. Daqui partem
muitos espíritos que se comprazem com o encarnado no sexo e
nos vícios. Para eles a desencarnação não ocorreu, adoram as
festinhas regadas a pó e a sexo. E muitas vezes desequilibram
famílias e fanáticos religiosos.
Romilda arrotava, como se estivesse bêbada. Olhei-a, intrigado,
obtendo a resposta: ela sempre se embriagava junto a
um encarnado e também gostava de comprimidos. Prometi a
mim mesmo voltar e conhecer Zaíra.
- Vai hospedar-se no seu rico palacete? indagou-me Aloísio.
- Está com ciúme, nego?
- Não, Luiz, pode reinar em paz.
Tudo era brincadeira, pois já principiávamos a respirar aliviados.
Quando chegamos a um certo local, Romilda foi alojada
em uma das maças. Até ali comportara-se como se fosse um
robô, sustentada mentalmente por Amintas. Também ele precisou
tomar um passe após tê-la acomodado.
- Ensine-me esse trabalho. ! !
- Como não, venha cá. ' <
Aproximei-me de Hápila. ;
- Como qualquer órgão, o cérebro é suscetível de educação
mediante exercícios persistentes, graduais e cuidadosos. É
um trabalho simples, mas para efetuar o que no começo parecerá
impossível, torna-se preciso muita dedicação. Ademais, há
um perigo: se não imperar a mais elevada pureza de pensamento,
palavras e atos, nada será efetuado. Para penetrarmos em
outra mente, antes temos de educar a nossa. Há necessidade de
colocar o paciente em transe e, para que isso ocorra, nós também
temos de alcançar outra dimensão.
205
- Obrigado, amigo, mas prefiro ser apenas um aprendiz
de Jesus. Um dia talvez eu chegue a ter uma grande força espiritual.
Ele alisou minha cabeça, num gesto amigo. Depois partimos
em busca de uma Casa de socorro. Logo avistamos o Pouso
da Esperança, que nos surgiu como se fosse uma bela nave espacial,
pois era todo redondo, assim como o seu belo jardim. O
que impressionava na sua base era que ele não estava fixado ao
solo, podendo mudar de local a qualquer momento.
- Por quê? indaguei.
Kelly me respondeu:
- Porque muitas vezes eles têm de fugir, tal a violência
dos ataques. ,
- DeZaíra? ^
- Não só dela, como de outros trevosos.
Assim, adentramos o Pouso da Esperança, onde fomos recebidos
pelo irmão Zeferino, que prontamente providenciou alojamento
para a nossa irmã. Eu o acompanhei e o primeiro socorro
foi um bom banho em uma pequena cascata. Percebi que aquelas
águas estavam repletas de energia e davam forças à doente,
que se encontrava muito fraca, sendo a água um excelente tônico.
Eu e Amintas ajudávamos o irmão, enquanto os outros eram
recebidos pelo dirigente daquele Pouso. Romilda foi muito bem
tratada. Logo se aconchegava em um leito limpinho, cujos lençóis
mais pareciam raios de luar, e dormiu, como se há muito
não o fizesse.
- Sérgio, na hora que ela acordar vai julgar-se no céu,
comentou Amintas.
206
- E não deixa de estar, graças a Jesus nós estamos aqui.
Ele é o caniço de Deus pescando as almas sofridas no mar da
dor. Eu adoro Jesus e não me canso de louvá-Lo.
Amintas sorriu, talvez me julgando infantil, mas nem liguei.
Saímos e cumprimentei o céu, dizendo:
- Mestre, eu O amo muito, sabia?
Ele me ouviu, porque uma folha de árvore beijou-me o
rosto.
- Luiz, és um grande sujeito.
Apalpei-me.
- Você acha, amigo? Ora, muitos me chamam de baixinho...
- És uma grande alma.
- Obrigado, respondi.
íamos caminhando, quando encontramos Kelly. Informou-nos ela que
estávamos sendo esperados no salão grená. Nós a acompanhamos. Não pude
deixar de admirar a beleza do auditório.
Não éramos os únicos ali sentados, outros caravaneiros também
lá estavam. O local, todo grená, era oval; do chão eram
projetadas luzes nas cores amarela e alaranjada, que davam ao
teto uma coloração diferente. O auditório era hermético. Uma
suave música completava a vibração do ambiente. Nisso, deu
entrada uma irmã de seus quarenta anos que, após bela prece,
iniciou a palestra.
- Que Deus seja louvado por todos os Seus filhos. Aqui
estamos para tratar de um assunto muito desagradável: o desrespeito
à vida. Hoje o que mais se faz na terra é matar. Mata-se,
sem piedade, o feto e o ser adulto, como se faz há muito com os
animais. Defrontamo-nos com inúmeras dificuldades,
207
por quanto o homem está retardando os planos de Deus, por isso, os Seus
trabalhadores precisam urgentemente orientar as criaturas, cultivando
o hábito do amor ao próximo. Quem ama não mata.
Nesses crimes, quem mais está sofrendo são as crianças, que
sofrem no ventre e, muitas vezes, violentadas são pelos próprios
pais. O que fazer para ajudá-las? Orientar o homem, conscientizálo
de que todos nós estamos no mesmo estágio de vida, um necessitando
do ombro do outro. Só assim teremos condição de
secar a torrente de lágrimas que está correndo sobre a Terra. A
maior responsabilidade recai sobre os que manipulam o fermento
da mediunidade. Precisam eles orientar as criaturas para a reforma
interior, para a necessidade da caridade; sem ela somos árvore
sem raiz, casa sem teto. Cada aprendiz do Evangelho tem
de apresentar Jesus ao seu próximo, principalmente se esse próximo
é jovem. Se nós não orientarmos a juventude, breve estará
caduca pelos remorsos. Hoje a mulher se entrega ao namorado
com tamanha naturalidade, que nos causa espanto. Ela não se
valoriza e se isso continuar, em futuro próximo, não mais teremos
crianças para alegrar nossas vidas. Os países precisam elaborar
um trabalho de assistência social, onde as pessoas sejam
alertadas para as grandezas de Deus. Nunca se viu tantas "mortes"
prematuras. O homem está abusando por demais da sua liberdade.
Ninguém, quando no corpo físico, se preocupa em arrmazenar amor; quase
todos pensam apenas em usufruir algo de
Deus e ainda zombam dele. Esperamos que os trabalhadores de
Deus possuam consciência do valor da vida e que tudo façam
para bem servir ao próximo. Contamos com o auxílio de todos.
Muito obrigada. Anne.
Logo depois, vieram as aulas. Uma delas sobre a força
mental, a necessidade dos dirigentes de instituições espíritas
orientarem seus freqüentadores sobre o real valor do
208
pensamento. O doutor João Vicente falou sobre o desdobramento mental.
Se um homem pensa fixamente que está presente em determinado
lugar, ele lá estará, não vestido de um de seus corpos - pois
o homem permanece no seu corpo físico - apenas a forma
mental que, ao ser projetada, não fica mais sob o seu domínio. E
esta forma-pensamento pode auxiliar muito, penetrando nos
hospitais, nos campos de guerra, nas prisões, enfim, ela é de
grande utilidade para os aprendizes de Jesus. Um Centro Espírita
pode ajudar muito a espiritualidade, desde que ele seja bem
orientado. O homem encarnado ainda não se conhece, mas ele é
um deus, que precisa da coroa da perfeição para realizar grandes
coisas. O palestrante ainda falou sobre a necessidade da disciplina
evangélica, a qual só se consegue através de um desempenho
sério na Casa Espírita.
Ainda recebemos muitas aulas. Ao término, veio o professor
José e junto a ele fizemos a prece de encerramento.
Na saída, observava ainda aquele estranho auditório.
- O que repara tanto, Luiz?
- Não entendi por que ele projetava aquela luz o tempo
todo.
- Não se esqueça de que este Pouso fica numa zona de
vibrações muito pesadas, e se eles não tomarem providências,
os vales trevosos captam as aulas aqui ministradas.
- Notei que as aulas não foram só para nós.
- Tem razão. Assistimo-las a convite dos irmãos daqui,
mas elas são destinadas aos trabalhadores deste Pouso.
Como nada podemos perder, lá estávamos nós.
209
Aprontávamo-nos para partir, desta vez para a Crosta. Todas
as vezes que me preparo para aterrissar no solo firme da
Terra minhas pernas tremem pelo receio de defrontar-me com
fatos muito tristes. No Pouso da Esperança conhecemos muitos
irmãos, mas gostei mesmo dos irmãos Zeferino e Alexandre.
Lembrei-me de que prometera a mim mesmo voltar e conhecer
Zaíra. Irmão Zeferino aconselhou-me, ao captar este pensamento:
- Irmão Luiz, não se preocupe com o dia de amanhã, Zaíra
terá o seu dia e não vai demorar muito.
Fiquei quietinho, orando em silêncio para Deus, o Ser mais
perfeito do Universo.
210
Capítulo XXV '
LAÇOS FAMILIARES INTERROMPIDOS
Despedimo-nos do Pouso da Esperança e logo estávamos
no plano físico visitando a Casa Espírita. com prazer, revimos
os queridos amigos, juntando-nos aos seus trabalhadores para
prestar auxílio a vários desencarnados, principalmente por acidente.
Os médicos João Vicente e José Murillo tudo faziam para
amenizar as dores, e à medida que prestavam auxílio, muitos
doentes eram encaminhados para os hospitais de Jesus, na
espiritualidade. Notei a quantidade de jovens e perguntei ao irmão
João Vicente:
- O que está acontecendo, por que os jovens estão
desencarnando cedo?
- Os jovens estão suicidando-se por falta de elucidação
evangélica. Os pais estão dando tudo para seus filhos, menos
educação divina, e as crianças estão se afundando no materialismo,
distanciando-se das coisas de Deus. No dia em que eles se
conscientizarem de que a juventude passa rapidamente por nossas
vidas, saberão plantar amor. Hoje a maioria dos jovens está
plantando desespero. A Aids, que aniquila o corpo e desespera a
alma, prolifera-se velozmente, e quantos jovens, por míseras
moedas, estão se prostituindo! O automóvel, que foi criado para
o conforto do homem, tomou-se arma perigosa aos imprudentes.
Ao entrar em um veículo, muitos perdem a noção do dever,
211
que é respeitar o seu próximo - correm sem disciplina, fazem
manobras violentas e, diante disso tudo, ainda se julgam os tais.
Um jovem cauteloso com as leis de Deus não abusa do seu direito
de cidadão. Hoje, Luiz Sérgio, muitos jovens pensam que
jamais irão envelhecer e, sem caráter, gastam o dinheiro dos
pais e ainda os envergonham.
- Mas, doutor, já vi muitos jovens espíritas também praticando
atos indignos de desrespeito ao próximo.
- Sinto contestá-lo. Espíritas não, jovens que conhecem
a Doutrina, mas ela não está nos seus corações. A Doutrina Espírita
é Cristo em ação, aquele que se diz espírita muitas vezes a
conhece mas não a pratica. O jovem espírita abraça o sacerdócio
da fé, da esperança e da caridade. Ele não fuma, não bebe,
não pratica atos obscenos, não violenta o seu próximo, apenas
luta para que a sociedade onde vive seja mais digna. Estamos
falando aqui de espírito que está em nova roupagem, porque,
para nós, não existem jovens nem velhos e sim espíritos que
precisam evoluir.
- Irmão, ali no quarto seis vimos muitas crianças que desencarnaram
com drogas. Todas são consideradas suicidas?
- Sim, qualquer "morte" provocada é suicídio. O irmão
fala da sala seis, mas quero mostrar-lhe a sala oito, que abriga
vários adolescentes de doze a dezesseis anos, todos eles
desencarnados pela droga, pelo aborto ou por acidente, levados
por uma sede imensa de liberdade. As moças, muitas, estão em
busca de algo que nós, os espíritos, não sabemos o que seja.
Olavo diz que a cruel repressão do passado foi gravada nas suas
mentes e hoje elas julgam que foi rompido o tabu e querem aproveitar
o máximo possível. Nessas orgias exacerbadas pela droga,
encontram a morte prematura, que tanto as faz gritar por
212
socorro. A jovem moderna, sem educação religiosa, está atropelando
o "destino", forçando os acontecimentos. Está-se tornando
mulher muito cedo e também chegando cedo aos sofrimentos.
Vamos até a sala oito.
Fiquei um pouco pensativo.
- Posso, doutor Zeus?
- Se o irmão desejar, mostrar-lhe-emos as doenças. Se
você, Luiz, assim o quiser, fazemos votos que a aula seja proveitosa.
Não pensei duas vezes, logo estava eu junto ao doutor João
Vicente, na sala oito, que vamos chamar de enfermaria, onde
várias meninas gritavam sem cessar. Todas elas, amarradas às
camas, recebiam um banho de luz azul. O ambiente recendia a
carne queimada, muito forte. Fitei aquelas faces, algumas
lindíssimas, outras deformadas pelo ódio que havia em seus
olhos. Nos órgãos sexuais de Eurinda, uma das assistidas, notava-se
uma cor escura. Perguntei ao médico o que acontecera
com ela.
- Prostituiu-se muito cedo. Era garota de programa e,
nesses encontros, contraiu uma doença terrível que nem a Medicina
soube explicar.
- Irmão, por que elas não exigem que seus parceiros usem
preservativos?
- Muitos homens não os aceitam, daí o aumento da Aids
e de outras doenças sexualmente transmissíveis.
- Mas isso é um crime, doutor!
- É, Luiz Sérgio, é crime desumano, que os sanitaristas
ignoram. A prostituição juvenil é terrível e aumenta a cada dia.
Olhei uma outra, Suzane, e ela pôs a língua de fora para
mim. Joguei-lhe um beijo de carinho; ela cerrou os olhos e vi
213
uma lágrima molhar seu rosto de menina-moça. Perguntei o que
fizera.
- Abortou dez crianças. ?
- Dez? Mas ela deve ter uns dezesseis anos!...
- Mesmo assim, já é portadora de uma ficha repleta de
faltas e de violação às leis de Deus.
- O que as leva a entrar nessa vida?
- Falta de orientação. Para elas, o dinheiro da prostituição
é seu único meio de sobrevivência. Mas muitas entraram na
droga por intermédio também do sexo; os namorados, traficantes
e viciados levaram-nas ao vício e depois à prostituição. Está
vendo aquela outra ali? É a Célia, desencarnou com Aids. Contraiu
a doença através de um colega do seu irmão. Namorou-o e,
como quase todos os namoros de hoje, o sexo estava incluído.
Não sabia ela que ele era bissexual e, numa das relações, a doença
alojou-se no seu organismo.
- Mas ela parece tão recatada...
- Sim, é uma boa menina, mas, como boa parte da sua
geração, praticava o sexo descontroladamente. Ela também desejou
entrar na onda de uma sociedade sem Deus.
- Sabe, doutor, os pais têm um pouco de culpa, não é mesmo?
- Temos a incumbência de curar, de amenizar, de encaminhar
os doentes, mas quem pode julgá-los são eles mesmos e
creio eu que cada um sofre por demais. Não é fácil sentir o apodrecimento
do seu próprio corpo e o desespero na alma.
- Daqui, para onde eles irão?
- Para os prontos-socorros da espiritualidade, até serem
transportados para algum dos inúmeros hospitais de Jesus.
214
- Ainda bem que os trevosos não os pegaram...
O doutor João Vicente atendeu o chamado de um dos médicos
que prestavam assistência àqueles doentes e, gentilmente,
me agradeceu a companhia, dando por encerrada nossa conversa.
Despedi-me:
- Um abraço, amigo, e seja sempre um operário de Jesus
em ação.
Fitou-me com uma bela expressão de carinho e aduziu:
- Seja também feliz, Luiz Sérgio.
Voltei para junto dos outros, pois teríamos trabalho numa
clínica aborteira, onde a especialidade do "doutor" era assassinar
fetos de quatro a seis meses de vida uterina. Para lá nos
dirigimos.
A clínica ficava num bairro de classe média alta. O "doutor",
muito conceituado pelos seus clientes, sentia-se um deus.
Tudo muito limpo. Quem a visitasse, nem poderia imaginar que
o "doutor" Argemiro praticava tais crimes levado pela ambição,
sem o menor constrangimento. Esperavam-nos vários espíritos,
médicos, irmãs de Maria, enfim, diversos trabalhadores do Senhor.
Uma bela senhora segurou as mãos de Misael, dizendo:
- Não deixe minha neta fazer o aborto, não deixe!
Misael lhe respondeu:
- Estamos aqui para trabalhar, ore a Deus para que a sua
neta tenha consciência do que vai fazer.
Aquela mulher estava transtornada. Era o avô da menina
que estava reencarnando e a avó sofria por presenciar o
desequilíbrio daquela que tanto amava. Quando a nossa equipe
215
entrou na sala cirúrgica, a neta da senhora já estava sendo preparada.
Zeus fez de tudo para o médico desistir. Provocou-lhe
tontura, ânsia de vômito, tremor nas mãos. Entretanto sua ganância
era bem maior e rapidamente foi feita a operação cesariana.
Sim, meus amigos, cesariana. O feto ainda nasceu vivo,
mexendo com os pezinhos. Mas, ao invés de ser acolhido em
incubadora, foi friamente assassinado por aqueles que ali estavam.
Mesmo jogado fora, permanecia com vida. Nossos médicos
tudo faziam para socorrê-lo, até poder retirá-lo do frágil corpo
físico. O tempo que aquele feto se debateu em busca de oxigênio
foi um dramático pedido de socorro. Aproximei-me de ísis e
indaguei:
- Por que não o separa logo do corpo físico?
- Esperamos que ocorra um milagre, que alguém se arrependa.
Mas, nada. O "médico" já costurava o pequeno corte da
cesariana. E a jovem logo estaria na onda da moda, pronta para
mais uma gravidez.
- Que tranqüilidade!.., falou para a enfermeira o "médico".
Não sabia ele que no plano espiritual nós tentávamos conter
a avó, que, abraçada ao corpo da frágil criança, gritava:
- Perdoe, querido, ela não sabia que era você! Perdoe!
Mas o feto urrava de ódio. Logo Presenciamos sua transformação,
que se operou parcialmente: de uma frágil criança
para um homem já idoso. Os médicos aguardavam, mas ele mal
podia sustentar a cabeça de homem no corpo de um feto de cinco
meses.
- Eu Vou matá-la! dizia Euzébio. Eu Vou matá-la!
A avó suplicava:
216
- Não, não! Ela não quis você, porque é muito jovem
ainda...
Tentou levantar-se, mas as pernas eram mínimas; ele olhava
a neta ainda sonolenta e gritava:
- Assassina! Assassina! Assassina!
Kelly o adormeceu, mas qual foi a nossa surpresa: a pacata
vovó aproximou-se do médico aborteiro e disse, com muita raiva:
- Você vai sofrer muito, eu vingarei o meu velho, você
nunca mais terá paz.
Eu não sabia se acalmava a senhora, ou assistia à retirada
do feto. Cheguei perto da vó e falei:
- Vamos embora. Eu gosto muito das vovós, tenho a mais
bela de todas. Não gostaria de vê-la sofrer. Venha comigo.
- Não, eu Vou obsidiá-lo até ele não agüentar mais. Vou
chamar todos os que ele fez sofrer, e não lhe darei mais sossego.
- Não faça isso. Vamos passear lá fora - falei, acariciando-lhe
os cabelos.
Ela aceitou o meu carinho, mas ao passar pela neta, gritou:
- Assassina, vai morrer seca e podre!
A menina captou aquele desespero e começou a gritar.
-Viu como é fácil levá-los à loucura? disse a avó. A consciência
deles é o passaporte para que todas as suas vítimas venham
obsidiá-los. O ódio que têm no coração é morada para os
espíritos vingativos.
- Mas você, vovó, não é um espírito vingativo, tenho fé
217
de que no seu coração o ódio não vai alojar-se. Ela me abraçou,
soluçando.
- Leve-me embora para a minha colônia, quero esquecer
que um dia eu tive uma família. Quero esquecer...
Abracei-a. Antes, lancei um olhar suplicante a Misael, indagando:
- O que faço?
Misael sacudiu a cabeça, em sinal de assentimento.
- Leve-a para a espiritualidade.
E assim, logo estávamos na Colônia das Rosas, onde a
querida vovó foi recebida por irmã Estefane. ; ,
- Querida, foste à terra mesmo sendo advertida das conseqüências,
e agora, que me dizes?
- Perdoa-me, irmã, não tive equilíbrio suficiente para presenciar
o ódio que fermenta no plano físico. Ao ver o meu velho
sofrer, esqueci tudo o que aqui aprendi e virei um bicho defendendo
a cria e a família. Esqueci, irmã Estefane, que todos somos
irmãos e que a nossa família é a Universal. Quero ir para a
ala de tratamento.
Virou-se para mim:
- Obrigada, Luiz Sérgio, jamais o esquecerei. Estarei sempre
orando por você, meu jovem, esperando que todos os seus
sonhos se concretizem. Jamais Vou esquecê-lo, só lhe peço que
não se esqueça de mim.
- Jamais, minha irmã, Vou esquecê-la. E lhe prometo que
tudo farei para que sua neta encontre o Cristo e se torne uma
218
mulher digna, para novamente merecer a confiança de Deus e
receber um filho, que dela necessitará para toda a vida.
Em seu olhar transparecia a dor que lhe ia na alma.
Ela parecia não acreditar nas minhas palavras, mas segurei
a minha Bíblia e me despedi da Colônia das Rosas, levando junto
a mim o perfume da esperança de que no amanhã as mulheres
não mais serão vítimas de si mesmas, para levarem até a presença
de alguns carniceiros o que carregam dentro de si, o tesouro
da continuação das espécies: um filho, o filho da sua carne e do
seu espírito; alguém que Deus lhe ofertou para que os seus dias
não fossem de tédio; alguém que volta para completar o aprendizado
da vida física, alguém que o seu corpo de mulher abrigou em nome do
Criador. >
Abençoada sejas tu, mulher, que lutas contra a fome, a
doença, o abandono e inúmeras dificuldades, para conceber um ,
filho no teu ventre. És uma embaixatriz de Deus na Terra e todos nós te
louvamos, agradecidos.
Abri o nosso livro querido e caiu esta bela passagem: Ecle- |L
siástico, Capítulo 38 - Médico terrestre e celeste:
1 - Honra o médico, porque é necessário; porque o
Altíssimo é quem o criou. 2 - Porque toda a medicina
vem de Deus, e receberá donativos do rei. 3 - A ciência
do médico exaltará a sua cabeça, e será louvado na presença
dos grandes (...)
219
Capítulo XXVI
INSEMINAÇÃO: os Novos TEMPOS
Voltei a reencontrar o grupo e mais uma vez estávamos
diante da crueldade do homem. A clínica médica mais parecia
um consultório comum; ninguém diria que era um matadouro.
Ficamos na sala de espera conversando com Samuel, um dos
socorristas dos abortados. Não me contive e perguntei:
- Irmão, vocês tentam impedir o aborto?
- Algumas vezes tentamos dissuadir as gestantes mas o
nosso trabalho não é esse e sim dar assistência aos espíritos violentados
pelos encarnados. O ato é sempre muito rápido e, além
do mais, repito, nós não fomos preparados para isso. Mas há
irmãos que estão prestando esse trabalho evangélico. Eles tentam
desesperadamente, e às vezes até o conseguem, tirar a mulher
da mesa cirúrgica.
- Verdade? Que beleza!
Enquanto obtínhamos esses informes, vimos chegar uma
menina aparentando quatorze anos, mascando chiclete, mais
parecendo um tique nervoso, acompanhada de uma bela mulher,
elegante mesmo, que fumava nervosamente. Dirigiram-se
à enfermeira, que as mandou esperar. Sentaram-se. A garota,
completamente alheia ao seu problema, continuava a mascar o
seu chiclete. Alguns espíritos socorristas aproximaram-se para
221
conversar com as duas. A mãe olhou a filha, dizendo:
- Está com medo?
A resposta veio somente por um sinal com a mão: mais ou
menos. O grupo doutrinava as duas. De repente, a garota deu
um pulo na cadeira.
- Sabe, estou frita de medo, Vou me mandar.
- Quê? e a mãe a puxou pela blusa. Está louca! Como
pretende ter um filho, quando nem sabe quem é o pai? Primeiro
você vai é se formar.
A garota não retrucou, continuou a mascar o chiclete, desejando
ir embora. A enfermeira ajudou a mãe, segurando Andréa
que, mesmo intuída pela equipe de socorro, não mais quis o
filho. Entrei em pânico. Tentei, com a mãe, o médico, a menina,
a enfermeira, por todos os meios, evitar o aborto, quando Zeus
me segurou o braço, dizendo:
- Luiz, acalme-se. A liberdade é um dom de Deus. O homem
não tem o direito de obrigar quem quer que seja a ser bom.
- Meu Deus, mas essa menina vai-se comprometer, estragar
sua saúde!...
- Irmão Luiz Sérgio, ela está com um clínico.
- Clínico? Para mim é um carniceiro!
Ele esboçou um sorriso e nós, orando, testemunhávamos
mais um assassinato frio e cruel. Tudo acontecia normalmente,
até notarmos que algo estava errado. Os nossos médicos correram
a ajudar Andréa, que em minutos respirava com dificuldade
e por mais que o aborteiro fizesse, ela foi separando-se do corpo
físico. O auxílio ao feto de três meses, entretanto, continuou,
222
mas sua mãe, na flor da idade, voltava ao mundo espiritual de
maneira trágica. Andréa ainda lutava para não abandonar seu
corpo físico, mas este, pouco a pouco, ia perdendo força. Sofrerá
uma parada cardíaca. Apesar dos esforços do médico para
reanimá-la, Andréa viu-se desligada e ligada, ao mesmo tempo.
- Por que aqui não permanece de plantão uma equipe do
desencarne? perguntei.
- Porque a espiritualidade não pode prever que
desencarnem todas as mulheres que aqui vêm para abortar. Existem
equipes para socorrer o feto.
- E Andréa, por que está tão ligada ao corpo físico? Ela é
suicida?
- Não é suicida. Ela sofreu um assassinato, só isso. E
nesses minutos só nos resta aguardar.
Mal terminou de falar, deu entrada a equipe de socorro,
para prestar assistência ao bebê e à mãe. Mesmo assim, demorou
um pouco o desligamento de Andréa. O médico tentou dar
explicações à mãe, mas esta ficou furiosa, desejando processálo.
Nós fomos saindo devagar, pois não tínhamos mais o que
fazer ali. Afastamo-nos, levando na lembrança a destruição de
um ser.
- Triste, Sérgio? indagou-me Misael, ao ver meu ar desolado.
Respondi:
- Arrasado. Será que o carniceiro vai ser preso?
- Creio que não. Esta clínica está muito bem protegida
pelas aparências sociais.
- E a mãe de Andréa, não vai dar parte do "médico"?
223
- Não, porque ela está muito comprometida e depois,
Andréa, para todos os efeitos, preparou-se para ser submetida a
uma operação nesta clínica, ninguém entra nela para abortar.
Uns vêm retirar pólipos, tumores, miomas, útero, ovários, enfim,
ninguém vem para matar filhos.
- Chique, hem? Muito chique. Queria só ver a cara desses
sabidos quando forem enfrentar a Consciência Maior. Ninguém
fica eternamente no corpo físico. Coitados!...
- Tem razão, Luiz. Infelizes daqueles que abusam do livre-arbítrio.
- Mas até lá eles continuarão aprontando e levando a dor
a muitos corações.
- Luiz, com Andréa estavam dois espíritos. Eram gêmeos.
- O quê? Então o médico "matou" três sonhos!...
- Sim, embaraçou o caminho dessas almas até Deus.
Coitado, vai virar gelatina!... Quem pratica o aborto visa
apenas o enriquecimento e, apegado ao ouro, não vê o tempo
passar. A cada segundo que deixamos de embelezar o espírito,
ele sofre a deformação, e coitado daquele que não armazenar
amor no seu celeiro!
Andréa foi levada ao mundo espiritual junto a um de seus
filhos, que relutava em sair do seu ventre. O fato me intrigou e
perguntei a Zeus:
- Como fica o caso do feto alojado no perispírito de
Andréa? Vai ser retirado à força?
- Não. Se ela desejar e se for bom para o seu crescimento
espiritual, ela terá o filho por mais seis meses alojado em seu
ventre e a criança nascerá na maternidade espiritual. Porém, se
224
ficar revoltada e não desejar a criança, teremos de separá-los.
Só a Andréa caberá a escolha.
- Então, se ela plasmar a criança no seu ventre, esta crescerá
no mundo espiritual?
- Como Deus é bom, se Andréa desejar, ela será mãe no |
plano espiritual.
Era muito para minha cabeça. Cheguei ao Centro Espírita
e fui descansar, mas nada me tirava da mente a cena do aborto.
Recordei a estatística colhida pelo Departamento de Reencarnação, quando
se constata que cerca de quatro a seis milhões de
brasileiras se submetem a um aborto a cada ano. Entre essas ||
mulheres, pelo menos um terço são adolescentes, com idades
variáveis de doze a vinte anos. Sabemos também que dez por cento das
mulheres que provocam o aborto morrem ou se tornam vítimas de graves
seqüelas, como peritonite e supuração
dos ovários. A esterilidade é freqüente em mulheres que sofreram
abortos mal realizados, principalmente quando as trompas
ficam obstruídas.
Eu pensava, pensava... Como pode a sociedade ficar impassível
a tantos assassinatos bárbaros, fingindo ignorá-los?
Aloísio convidou-me a orar e, como bom entendedor, compreendi que só a
prece acalma um espírito em desequilíbrio.
No outro dia, bem cedo, estava eu no auditório esperando
meus irmãos e, com prazer, os recebi, amando a cada um deles.
Depois de uma breve preleção sobre a vida, feita por Misael,
fomos informados de que iríamos a um determinado hospital,
onde um médico, com M maiúsculo, dava à mulher e à sociedade exemplos de
caráter e respeito ao sacerdócio da Medicina.
Enquanto alguns homens covardemente matam sem piedade,
outros lutam pela vida. À nossa frente surgiu um belo hospital,
225
belo no sentido das vibrações de amor e respeito que o circundavam.
Sim, meus irmãos, ali, uma equipe de alguns médicos
cooperava para a vinda de espíritos para o plano físico. Trabalhavam
com afinco para que houvesse a fecundação. O hospital
era modesto, mas possuía moderníssimos aparelhos que pareciam
ter vindo da Espiritualidade Maior.
Acompanhamos a consulta de Sabrina: entrevista, pedidos
de exames, enfim, várias etapas. Iniciado o tratamento, percebemos
que a ovulação da nossa irmã fora estimulada com doses
hormonais. Pelos exames fica-se ciente, com precisão, do momento
em que o óvulo fica maduro. Aí o médico faz a devida
colheita através da vagina, com o auxilio de ultra-sonografia.
Após a retirada dos óvulos, eles permanecem cerca de seis horas
numa estufa. Depois de coletado o sêmen, dá-se a inseminação
numa pequena cuba. Foi o que aconteceu com Sabrina.
Assistimos à fertilização, não esquecendo de dizer que no
local os construtores espirituais, atentos, ajudavam os encarnados,
tendo como dirigente o doutor Nagi. Esses construtores efetuaram
a escolha do espermatozóide e este, ajudado pelos técnicos,
recebia impulso extra através da força magnética de todos
os construtores. Olhares fixos no espermatozóide, eles o iluminavam
com tamanha força mental que quase não percebemos o
momento do encontro, tal a rapidez com que tudo acontecia.
O óvulo, iluminado por uma força superior, estava à espera
do veloz viajante - o espermatozóide.
Foi feita então a união dos gametas masculino e feminino,
formando agora uma só vida.
Nagi me pareceu um artista, tocando com suas mãos dadivosas
aquele facho de luz, como se desse ao ovo os últimos
retoques. Todos nós orávamos em silêncio, enquanto o ovo
226
fecundado era recolocado na estufa, cuja temperatura era controlada
por gases coloridos.
Durante algumas horas, a vida estaria fora do útero.
Técnicos divinos, encarnados e desencarnados, vibravam
numa só faixa, a do amor, para que aquele espírito pudesse voltar
à terra, ao contrário daqueles que impiedosamente aniquilam
embriões e fetos. Há Mulheres e mulheres; umas desejam ter
filhos, outras nem se tocam para a sublime missão de mãe.
Confesso que eu nem piscava; as lágrimas rolaram pelo
meu rosto no momento em que Sabrina, protegida por Jesus e
pelos médicos dos dois planos, recebeu o filho no seu ventre.
Nagi ajudava os médicos na transferência do embrião; aquela
relíquia - o embrião - era colocado amorosamente no útero
de Sabrina.
O trabalho não parava ali, as equipes encarnadas e
desencarnadas iam continuar vibrando para a gestação chegar
ao fim em completo êxito. Nagi é um dos médicos do departamento
da fertilidade e eu quis conhecer sua equipe: a irmã Salete
é andrologista; o doutor Alexandre, geneticista, e outros médicos
que não me foi dado acercar-me deles, pois outra inseminação
seria feita.
- E agora, ainda há perigo de um aborto, doutora Salete?
- Sim, pode ocorrer. Mas temos fé de que o organismo
material vá alimentar bem o nosso irmãozinho. Esperamos que
ele tenha força suficiente para atuar, mesmo encontrando-se em
forma reduzida, e que parta em busca dos elementos que o fortaleçam
no plano físico.
- Obrigado, irmã.
227
Assim, deixamos aqueles construtores da vida. com que
amor olhei a equipe encarnada e não me contive: beijei a mão
do chefe. Ele sentiu a vibração e se emocionou, mas ainda mais
o meu coração, por constatar que ao mesmo tempo em que péssimos
profissionais assassinam, os verdadeiros médicos lutam
pelo direito de se viver. Benditas as equipes que cooperam com
o departamento da fertilidade! Que Deus as abençoe!
228
Capítulo XXVII
A OPORTUNIDADE DA VIDA ENCARNADA
Aproveitando pequena pausa nos trabalhos, conversava
com o doutor Zeus: ;
- Enquanto alguns homens criam métodos de "mortes",
outros lutam pela vida. ||>
- Tem razão. A sociedade ainda desconhece o trabalho
científico dos bebês de proveta, concebidos in vitro
Fomos caminhando pelas ruas da movimentada cidade,
olhando os transeuntes. Observando um e outro, indagava para
mim mesmo como pode o homem não acreditar no mundo espiritual e viver tão
apegado à matéria. Será que algum ainda não
viveu o momento da despedida na estação da morte? Não creio.
Todos os seres deste Planeta já compareceram a um funeral.
Chegamos a um belo palacete onde Maria Rita chorava
desesperada: a filha, Telma, estava grávida e o jovem pai da
criança se encontrava internado numa clínica de recuperação de
toxicômanos. Maria Rita conversava com a filha:
- Por que, minha filha, você fez isso? Nós sempre lhe
demos tudo, você abusou da nossa confiança.
- Mamãe, estou com quinze anos e todas as colegas da
229
minha idade já possuem vida sexual intensa. Eu só tive o Paulo
José, dei azar, esqueci de tomar a pílula...
- E agora? O que posso fazer é levá-la até o doutor Lauro
e pedir-lhe um conselho. Vamos providenciar o aborto escondido
do seu pai, pois ele não irá compreender essa gravidez. Você
ainda é uma menina. Irá sofrer muito. Concorda comigo?
- Para mim tanto faz, só quero que o Paulo se recupere
logo.
Mãe e filha conversavam, mas ainda não sabiam que Paulo
José estava com os dias contados: contraíra Aids através das
picadas de cocaína. Cocei a cabeça, penalizado. Estaria aquela
menina condenada, assim como o seu bebê? A doutora Kelly
respondeu à minha indagação:
- Muitas vezes os técnicos acodem a tempo de isolar o
vírus, antes de ocorrer a fecundação.
- Mas com esta garota, eles conseguiram fazer algo?
- Sim. Nem a criança nem a mãe contraíram a doença,
mas tememos que venham a sofrer as conseqüências de um
mundo repleto de preconceitos.
Ficamos mais uns dias prestando assistência a Telma. Quando
Paulo José piorou, avisaram a namorada que ele estava à
morte. Ao receber a notícia, a garota entrou em pânico e chorou,
não pelo namorado, mas pelo pavor de ter contraído a doença.
Comentei com Hápila:
- Antes de qualquer alerta sobre a Aids, deveriam as autoridades
lançar uma campanha implorando àqueles que já estivessem
desconfiados de ser portadores da síndrome, de evitarem
a contaminação. Por que a Aids aumenta? Porque o portador
da doença nada faz para evitar a contaminação de terceiros.
Muitos parecem até sentir prazer em contaminar multidões.
230
- Eu também acho. Todos aqueles que pertencem a algum grupo de
comportamento de risco deveriam evitar um contato
mais íntimo. Vemos maridos, noivos, namorados passando
a doença sem piedade para esposas e filhos.
- Que carma para quem faz isso, hem?!...
- Carma? Mais que carma. Quem não respeita o próximo
sofrerá o "ranger de dentes".
Todos nós ali estávamos orando para que Maria Rita tivesse
um bom esclarecimento para não prejudicar a filha, que chorava em
desespero. Pensei: "esses jovens são gozados: aprontam e depois
correm para o colo dos pais quadrados. Poucos possuem força moral
para enfrentar as conseqüências de seus atos".
Telma e Maria Rita tinham procurado o doutor Lauro e "
este, quando soube que o pai da criança agonizava num hospital,
achou mais prudente o aborto. Telma fez o teste e, graças a
Deus, o resultado foi negativo. Mesmo assim, Maria Rita não
confiou no exame e levou a menina para abortar, como se, com
esse ato, pudesse apagar da lembrança Paulo José e a doença
que o consumia. Hoje Telma aborta; amanhã arranjará outra gravidez.
Está com quinze anos; até os trinta, quantos abortos fará?
Desta vez a doença não penetrara no seu organismo, mas com a
vida livre e desequilibrada que levava, não sei, não.
- Por que não evitamos este aborto, Kelly?
- Porque nada iria fazer Maria Rita e Telma receberem
uma criança que não fosse saudável. O homem, Sérgio, brinca
com o sexo, dele abusa sem o menor respeito e, nesse
desequilíbrio, vai semeando a dor.
Conhecera mais uma reencarnação violentada; ali, simplesmente descartado,
o diminuto corpo, como que fosse mero pedaço de carne, não uma vida, e os
enfermeiros divinos
231
prestando assistência a mais um rejeitado.
Mãe e filha voltaram para casa, como se nada houvesse
acontecido, todavia na alma de Telma estava gravado o crime
cruel que cometera.
Paulo José desencarnou e Telma foi estudar na Europa. O
espírito que seria seu filho voltou para a Pátria-Mãe, onde recebia
tratamento especial. Matam sem piedade e a Aids é mais
uma desculpa.
Fui alcançando a rua, querendo respirar, mas dentro de mim
sentia vontade de gritar aos jovens, pedindo, pelo amor de Deus,
que não façam loucura, mantenham a dignidade e sejam felizes.
Mas, que nada. As garotas andam quase nuas e cedo já são
freqüentadoras dos motéis da vida. Umas, por dinheiro, para
vencer na vida; outras, para aproveitá-la, todas morrendo a cada
minuto, pois quem perde a inocência morre pouco a pouco. Por
que as autoridades não elucidam as jovens sobre os perigos que
poderão correr? Os filmes, as novelas não ensinam o desrespeito
à família, a violência, o consumo de drogas e de álcool? As
meninas são as mais fáceis presas desse modismo. A verdadeira
mulher-irmã, mulher-mãe, mulher-filha está desaparecendo.
Hoje, a maioria está sendo fêmea, somente fêmea.
- Está amargo, Luiz.
- Estou, sim, muito amargo. Como posso ficar alegre
quando presencio pessoas que amo entrando nessa de sexo livre?
Vejo o desrespeito à família, ouço sussurros de dor e tristeza...
- Bem, agora vamos voltar ao mundo espiritual.
- Acabou o nosso trabalho aqui?
- Sim, só falta visitarmos as casas-lares e os hospitais
espirituais para ver como estão os rejeitados.
232
- Gostaria de visitar essa menina, filha de Paulo José.
Será que ela nasceria com o vírus?
- Não, ele foi isolado pelos construtores espirituais. Amanhã iremos até
lá, hoje, cada um está livre para visitar suas colônias e casas.
Nada falei, queria ficar quieto, longe de todo o mundo.
Sentia um vazio dentro de mim, era a dor de ver muitos homens
e mulheres jogando fora a grande oportunidade da vida encarnada e
desconhecendo Deus, que é bondade.
Assim, fui para minha casa. Que emoção senti ao chegar
ao meu chalé todo florido! A tia Ana e o vovô me receberam
com afetuosos abraços. Olhei tudo com admiração e agradecimento.
Enquanto esperava o tempo passar, para me refazer, peguei meu violão e
cantei esta canção:
Não corra, meu jovem,
Não corra, não.
Cuidado com a contramão
Hoje vejo você correndo
... E tudo querendo,
Sem meditar.
Cuidado, meu jovem,
A vida vai-lhe machucar.
Não corra, não corra, não.
Lá fora pode ser bonito
Mas o que está escrito
Está em nosso coração.
Não corra, não corra, não.
Lute para viver com Deus
Junto a cada um dos seus
Não corra, não corra, não.
Cuidado, não ande em contramão.
233
Depois do merecido descanso, voltei ao grupo de ajuda
aos rejeitados. com imensa preocupação ao presenciar tantos
assassinatos, esforçava-me para melhor compreender a alma
humana, principalmente quando presa da matéria. Antes de sairmos
à luta, fomos até a Praça da Luz e lá oramos e entoamos
hinos em louvor a Deus. O meu espírito viu-se reconfortado.
Entreguei-me de tal maneira à prece, desejando que ela me tirasse
todas as preocupações, que me encontrava estático.
- Sérgio, vamo-nos juntar ao grupo, despertou-me Lélis.
Nada disse, só a segui. O grupo preparava-se para descer
mais uma vez ao plano físico. Confesso que gostaria de ir mais
uma vez à Colônia dos Rejeitados, queria ver a luta dos enfermeiros
divinos com estas criaturas que os encarnados matam
sem piedade. Hápila, captando meus pensamentos, falou-me:
- Sérgio, hoje iremos até o plano físico tentar conscientizar
as autoridades a tomarem providências urgentes contra as
clínicas abortivas.
- Será, irmão, que vai surtir efeito?
- A falta de esclarecimento espiritual faz do homem um
ser sem coração. Se desde o berço ele fosse elucidado sobre a
vida e a morte, não veríamos tanto desrespeito à vida, mas muitas
religiões só sabem atacar o Espiritismo como se a Doutrina
fosse uma fábrica de fanáticos religiosos. Ela tem o caráter religioso
devido aos movimentos da caridade e o aspecto filosófico
para a reforma íntima do homem. É também científica, pois ensina
ao homem a fisiologia dos seus corpos para se conhecer e
se respeitar. Infelizmente, isso não se aprende na escola e em
poucos lares é chama viva. Se todos os encarnados recebessem
orientação segura do mundo espiritual, não cometeriam tantos
234
crimes. O homem finge ignorar que um dia terá de repousar em
um túmulo; não são os espíritos que criam os cemitérios ou as
enfermidades, todos estão sujeitos à doença e à "morte". Por
que culpam os espíritas, chamando-os de feiticeiros? Simplesmente,
porque a Doutrina apresenta verdades que preferem desconhecer.
É mais fácil abraçar o vício, do que a fé, que o coloca
em igualdade com os seus semelhantes. Se o jovem desde cedo
aprendesse a respeitar as leis de Deus, também respeitaria as
leis da sociedade. Muitas famílias só ensinam os filhos a amar a
Mamom e a lutar pelo seu próprio espaço, nem que para isso
tenham de plantar dores, lágrimas e tristezas. A filosofia de vida
que os espíritos nos ensinam torna-se de difícil aceitação quando
possuímos um espírito egoísta, avaro, orgulhoso e fraco.
Realmente, é mais fácil atacar a verdade do que vivê-la.
'- Quer um exemplo simples, Luiz Sérgio? O homem,
quando dirige um veículo, em geral, julga-se dono da situação:
ultrapassa, dá fechadas, grita, diz palavrões, faz gestos obscenos,
enfim, esquece que Deus ofereceu o conforto para tornar
menos dura a vida na terra, onde cada ser está de passagem,
cumprindo apenas uma tarefa encarnatória. Você conhece alguém
que tenha ultrapassado duzentos anos no corpo físico?
Portanto, por que fugir da verdade, ignorar que um dia teremos
de deixar o corpo de carne para trás e fazer a viagem de regresso
à espiritualidade? Por que zangarmos com quem está tentando
acertar através da Doutrina Espírita e não buscarmos os devidos
esclarecimentos? Não precisamos nos tornar espíritas, ou melhor,
conhecedores da Doutrina consoladora, o que precisamos
é nos melhorar e tornar a Terra um planeta de paz. Se não nos
interessa o que nos vai acontecer depois da "morte", que possamos
viver como encarnados com toda a dignidade. Se não
235
queremos respeitar as leis de Deus, ao menos respeitemos as leis
da sociedade que adoramos, porque, se existem seqüestros, assassinatos,
furtos, é porque o homem é egoísta. Se todos lutassem
pela fraternidade entre os seres, da Terra seria banida a dor.
A cada dia o homem mais se apega ao materialismo e julga-se
um rei, pisando, matando e traindo o seu próximo e a si mesmo.
Os hospitais estão lotados de seres com as mais variadas doenças,
que existem para que o homem se conscientize da fragilidade
do seu corpo físico e deixe um pouco de pensar na matéria,
buscando a vida espiritual, única vida eterna que possuímos. O
espírito existe, é só buscarmos em nós mesmos e indagarmos de
onde viemos e para onde iremos. Como pode a natureza ser tão
bela? Desde o nascimento até a morte, tudo tem uma razão de
existir e todos nós temos de obedecer ao plano de Deus. Ignorar
a morte e a importância da vida é ser demais covarde, pois ela
palpita em nós desde o útero materno. Se Jesus pedia ao homem
"busque a verdade e ela lhe salvará", por que fugimos das coisas
boas e buscamos cada vez mais a dor e o remorso?
- Um dia, Hápila, perguntei a Jacó o que ele achava das
guerras. Ele me respondeu: "por que matar, se a doença mata?"
Ele tem razão. Todos nós teremos de devolver à terra o corpo de
carne e queira Deus que nesse dia já estejamos libertos dele.
Sabemos que muitos materialistas, ao desencarnarem, apegam-se
ao seu corpo físico relutando em enfrentar a verdade. Às vezes,
amigo, sinto vontade de gritar para todos os maus, os avaros,
os orgulhosos, os egoístas: "parem, meditem, procurem o
esclarecimento sobre a verdadeira origem do homem e não errem
tanto! Busquem os depoimentos daqueles que venceram a
"morte"; livrem-se, enquanto é tempo, de tudo o que os distancia
de Deus. Os vales de sofrimento são terríveis e se no corpo
236
físico buscarmos as volúpias do sexo, dos vícios, da vaidade, do
ódio, da vingança, teremos por companheiros os piores espíritos
e eles virão nos buscar no túmulo para, com eles, desfrutarmos,
mesmo desencarnados, dos vícios de que éramos prisioneiros.
E aí inicia-se a tortura de uma consciência."
Silenciei, para em seguida acrescentar:
- Perdoe, amigo, mas hoje estou preocupado com os encarnados,
principalmente com os jovens que vivem somente
apegados à matéria. Muitos nada realizam de útil, só dizem que
estão aproveitando a vida. Pobres coitados! Um dia terão de
trabalhar para poderem parar de sofrer.
Hápila, sorrindo, respondeu-me:
- Tudo no Universo obedece a leis precisas que a tudo
comandam, para uma única finalidade: a evolução.
- Mas o homem gosta de viver em desarmonia, sem reparar
o que existe ao seu redor.
- É isso, amigo. Vamos em busca do homem.
No plano físico, íamos até um lugar onde os jovens se divertiam.
Não entendi. O nosso grupo era de socorro aos rejeitados...
agora, buscar os locais de consumo de drogas achava eu
que era tarefa dos Raiozinhos de Sol. Mas, que nada! Lá os
médicos olhavam aqueles meninos consumindo cigarro, maconha,
álcool, ácido e ela, a branquinha, com tanta tranqüilidade,
como se estivessem chupando pirulito.
- E as autoridades nada fazem?
- Acho que falta no Brasil um apelo popular, vindo das
mães, num grito de socorro.
A faixa etária era de quatorze anos para cima. Meninos,
garotas, jovens e senhores, todos eles consumindo tóxicos. Interpelei
Aloísio:
237
O Brasil deve também levantar o troféu do país da droga?
- Provavelmente, Luiz Sérgio. Adroga está tomando conta
do País. Se as autoridades não abrirem os olhos, logo será difícil
conter o seu domínio.
Bem ali, no centro daquela grande cidade, o tóxico era consumido
com a maior tranqüilidade. Meninos pobres disputavam
guimbas de maconha e também cheiravam cola de sapateiro.
Primícias de uma sociedade sem esperanças. Os médicos examinaram
seus corpos físicos e, pelo olhar desanimado que lançaram,
compreendi que dificilmente aqueles consumidores de
droga agüentariam muito tempo. De repente, uma menina começou
a passar mal. Corremos para perto dela e percebi que seu
ventre abrigava um feto de aproximadamente quatro meses. Aí
compreendi o porquê da nossa ida àquele local. A turma encarnada
demorava a prestar assistência à jovem, que já se debatia
em grande desespero, quando resolveram levá-la ao hospital mais
próximo.
Enquanto o corpo físico recebia o tratamento terráqueo, o
espírito de Liliane lutava contra os trevosos que, agarrados a
ele, disputavam as emanações da coca. Triste quadro. O mentor
espiritual da jovem tudo fazia para livrá-la dos vampiros, mas a
sua mente, impregnada de vibrações baixas, permitia que aqueles
espíritos inferiores a dominassem de tal maneira que nos
vimos quase impotentes diante deles. Como brigavam entre si!
Liliane, sentindo-se asfixiada pelos vampiros, gritou:
- Jesus, Jesus, me salve!
Nesse exato momento pudemos ajudá-la, nós e o seu mentor
espiritual. Os médicos encarnados não sabiam que junto a eles
uma equipe de Jesus esforçava-se para Liliane não desencarnar;
238
mas um trevoso quase a arrancara à força do corpo físico. A
gengiva de Liliane era o ponto preferido dos doidões
desencarnados. Quando ela voltou ao corpo, este logo reagiu,
graças à ajuda de Zeus, Kelly e Isis - esta última cuidava da '
criança, que foi isolada da overdose de coca e de álcool.
- Ela deseja o filho? perguntei.
- Ignora que está grávida, mas agora, depois do aperto,
dificilmente fará um aborto.
- Não sei, não. Elas esquecem cedo.
- Engana-se. Liliane jamais vai esquecer a disputa dos »
trevosos, lembrará sempre aquelas mãos lutando pela sua posse,
mas também o lado bom: Jesus e Seus mensageiros, dizendo:
"volte e salve a sua alma para viver em paz". (
Fui o primeiro a sair daquele local; os médicos ali ficaram. »,
Busquei o jardim do hospital, onde orei por todos os viciados:
- Deus, Vós criastes o Universo, com suas galáxias e planetas, tudo
obedecendo a uma disciplina. Tudo, Senhor, existe
graças a Vós. E o ser humano, Senhor, por que não disciplina a
sua mente para as coisas boas? Fazei, Senhor, com que o viciado se
conscientize do seu valor, se ame, correndo da destruição
dos tóxicos, que ele viva longe do vício, que mata sem piedade.
Onde estiver um viciado, fazei com que a Vossa luz o cubra,
ocultando-o dos traficantes. Se alguns deles chegarem ao plano
espiritual antes do tempo, não permitais que espíritos menos
esclarecidos os levem para as suas organizações. Ajudai, Senhor,
a todos, dando-lhes forças para dizer "não" antes que seja
tarde. Não os deixeis, Senhor, perdidos nos vales da sombra e
da morte; dai-lhes a razão, a luz e o amor, para que tenham
força para bem discernir e não se deixarem levar pelas ilusões
do momento. Amparai-os hoje e sempre, Senhor.
239
Capítulo XXVIII ; ;
A SEMENTE HUMANA DEVE CONTINUAR
Saímos dali levando no coração o agradecimento a Deus.
Sou muito grato a Ele por ter-me ofertado a vida.
- Sérgio - disse Zeus, agora vamos até a nossa Casa
Espírita para entregar um relatório à equipe de Nagi.
Como a conferência só se iniciaria à tarde, muitos aproveitaram
para descansar. Eu não; achei mais prudente visitar a
Casa e com que prazer reencontrei vários amigos, chamando-me
a atenção a enfermaria repleta de doentes. Ninguém pode
imaginar o que se passa do outro lado de um Centro Espírita.
Julgam que só a parte física funciona, não sabendo que na parte
espiritual o movimento é imenso, com seus departamentos Llotados.
No posto de emergência, encontravam-se três jovens
recém-desencarnados por acidente de moto. "Tão jovens!", pensei.
Fatalidade, alguns dirão; mas além da lei do carma existe a
imprudência, a sede de dominar a "máquina". Alisei a cabeça
daqueles meninos e orei por eles e seus familiares, que deveriam estar
sofrendo muito. Conversei com Mariette, Magnólia e
Priscilla, que prestavam ajuda aos recém-desencarnados, aguardando os
grupos de socorro, para encaminhá-los às casas transitórias.
241
- Irmã Magnólia, este posto vive lotado, não é mesmo?
- Sim, ultimamente os desastres coletivos requerem o
nosso socorro e esta Casa é de real ajuda aos desencarnados.
Participei da prece e me emocionei quando Priscilla abriu
o Novo Testamento e muito bem explanou os seguintes trechos:
- Bem-aventurados os que choram - isto não se refere
àqueles que vivem lamentando-se ou que andam irritados, de
mau humor. Isto se refere aos que sentem verdadeira tristeza
pelos erros cometidos e que suplicam a Deus o Seu perdão. O
Senhor também nos diz:
Tomarei o seu pranto em alegria, e os consolarei, e
os alegrarei na tristeza, em Jeremias, Capítulo XXXI, v. 13.
Bem-aventurados os mansos. Aprendei de mim, que
! sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso
para vossas almas, em Mateus, Capítulo XI, v. 29.
Ninguém melhor que o Mestre ofertou exemplos de amor
e humildade. Foi tão manso que não retribuiu as ofensas recebidas
dos Seus algozes. Se Cristo viveu as Escrituras, por que não
fazemos o mesmo? O manso, embora maltratado, não retribui
as ofensas recebidas. Bem-aventurados os misericordiosos. Ser
misericordioso é tratar os outros melhor do que merecem. Devemos
ter misericórdia para com os erros alheios, sem criticálos;
todos nós somos filhos de Deus. E Paulo foi muito feliz ao
nos ensinar em sua Epístola aos Efésios, Capítulo IV, v.32:
Sede uns para com os outros benignos, misericordiosos,
perdoai-vos uns aos outros, como também Deus nos
perdoou em Cristo.
242
Priscilla dava àqueles doentes lições divinas, e muitos deles
choravam ao encontrar-se com Deus. Felizes daqueles que
pregam o amor ao próximo, dando-lhes a oportunidade de conhecer
Jesus. O explanador do Evangelho tem de se conscientizar
de que o exemplo é a luz do espírito.
Despedi-me dos amigos e cheguei ao salão onde o doutor
Nagi ia receber o nosso relatório sobre o que fizéramos junto
aos rejeitados. Antes, assistimos a um filme do departamento,
algo sobre a fecundação, o momento em que o espermatozóide
e o óvulo formam o ovo, a corrida de milhões de espermatozóides
buscando uma única célula, e os outros, que não a atingiram,
formando o grupo protetor do ovo. Também assistimos a esses
fluidos se interpenetrarem, não pelo processo da ovulação, mas
fazendo parte da vida do ovo, espalhando-se por ele, formando
uma aura protetora, como se fosse um ovo quebrado, sendo a
gema, o ovo, e a clara, os espermatozóides mortos.
O filme mostrava o perigo de burlarmos as leis da Natureza.
Não agüentava de curiosidade e falei à doutora Kelly:
- Está certa a teoria: nada se perde, tudo se transforma.
Até mesmo os espermatozóides que não alcançam o óvulo são
aproveitados, a partir deles é que tem início a formação do duplo
etérico do reencarnante.
243
-ANatureza é sábia, Luiz Sérgio. Sabemos nós que quando
a ejaculação é fraca, a mulher tem dificuldade de engravidar.
- E esses caras matando sem piedade, apenas movidos
pela ganância!...
Nisso, Nagi entrou no auditório e nós, cabisbaixos, oramos
em silêncio, aguardando o seu pronunciamento.
- Deus seja louvado. Pedimos ao Criador amparo para as
Suas criaturas, para que o homem se liberte da ignorânciae desperte
para as verdades espirituais, somente assim cessará a violência na
Terra. Ela existe, porque o homem está cego de egoísmo, à espera
dos bens temporais. Ignora a fraqueza física, a destruição do corpo
físico e foge das verdades da alma; acha mais fácil lutar para construir
um mundo irreal, do que fortalecer o espírito para viver em
paz. Cada vez mais, busca o conforto, nem que para obtê-lo tenha
de destruir sonhos, violentar esperanças e matar sem piedade. Enquanto
isso o Senhor faz descer à Terra, de várias maneiras, os chamados;
e o homem, ainda que convivendo com a dor, a lágrima e o
desespero, não os escuta, continua apegado às coisas perecíveis,
sua única razão de viver. Como é possível o ser encarnado julgar-se
dono da Terra? A História narra a passagem de muitos homens que
se destacaram, mas tiveram de tudo aqui deixar quando partiram,
levando apenas o que fizeram de bom, ou de mal, registrado em
suas consciências. Mesmo assim, cuida o Senhor das Suas criaturas,
apesar de algumas só desejarem servir a Mamom, porque este
não nos pede candura, respeito, amor ao próximo e caridade. Mamõm
faz crescer em nós a vaidade, o egoísmo, o orgulho, a maledicência.
Ele é terrível. Coloca em nossos olhos a venda chamada ignorância,
que faz com que distantes fiquemos dos verdadeiros valores, os
valores espirituais. Posição social, fortuna, poder, beleza, nada é
eterno, tudo deixamos no plano físico, menos o que é de Deus: o
244
nosso espírito. Feliz daquele que se apresenta irradiante de valores
morais diante do Senhor. Se o homem desfruta as belezas terrenas,
bem ao seu lado, visíveis, palpáveis, estão os lugares de sofrimento:
os hospitais, os cemitérios, as ruelas das cidades com os viciados, a
prostituição, as crianças abandonadas, os mendigos, a fome, a dor e
o desespero. Fingir que não os percebe é egoísmo e queira Deus os
orgulhosos despertem, ainda no plano físico, para não sentirem na
alma o peso do remorso quando chegar sua vez de prestar contas ao
Senhor. Ninguém está preso ao invólucro carnal somente para se
divertir, para viver a vida; todos os encarnados têm de obedecer aos
planos de Deus. Vimos à terra para cursar a universidade da vida,
aprendermos a ser bons. Se aqui chegamos e faltamos às aulas, fugimos
do aprendizado, ignorando o maior dos mestres: Jesus Cristo.
Não tendo força para colocar os pés nas Suas pegadas, preferindo
o falso mundo da matéria, teremos pela frente longos dias e longas
noites longe do "paraíso", que representa a paz da consciência.
'- Somos pequenos obreiros do Senhor, sempre partindo em
busca de trabalho. Hoje estamos empenhados em segurar as mãos
dos aborteiros, dizendo a todos eles: "não matem, deixem viver os
pequeninos!" Não sabemos se seremos ouvidos, mas tudo faremos
para que as mulheres fujam desses monstros sanguinários que, por
dinheiro, tentam intervir nos planos divinos da reprodução dos seres.
Eles são cada vez mais numerosos, mas Deus, conhecendo-os
intimamente, porque também são Seus filhos, organiza equipes,
como a nossa, para prestar auxílio aos rejeitados. É um trabalho
banhado de dor e desespero, mas cada um do nosso grupo pode
dizer a si mesmo: 'graças Te dou, meu Deus, por tudo o que venho
recebendo'. À nossa frente, o interior do homem, reflexo das suas
deformações espirituais levadas pelo egoísmo e pela vaidade.
Defrontamo-nos com irmãos duros, cruéis, terrivelmente orgulhosos,
mas também acolhemos em nossos braços espíritos em forma
245
diminuta, indefesos, cobertos pela luz protetora do Senhor.
'- Foi-nos concedida a oportunidade de conhecer os construtores
divinos, os técnicos da reencarnação, as casas-lares, os médicos,
os cientistas, os abnegados enfermeiros, enfim, estivemos no
'céu' e no 'inferno' e chegamos à conclusão de que Deus sopra em
todos os lugares e o Seu hálito de amor perfuma desde o paraíso até
os charcos do ódio e da maldade. Deus é bondade e, graças a Ele,
nós todos formamos uma corrente de fé, lutando pelos retardatários
que teimam em ficar abraçados aos tesouros da terra, julgando que
o brilho das moedas de César é a verdadeira felicidade. Não sabem
eles que o homem, para voar, tem de estar livre dos apegos da matéria,
transformar-se em espírito e verdade; só assim ele voará, livremente,
como Deus o criou. Enquanto o ser humano adornar-se de
púrpura, de seda, de ouro, de pedras preciosas, apegar-se às moedas,
enfim, aos bens materiais, ficará preso à matéria e sujeito às
vicissitudes da vida. E sofrerá, porque, para ele, os bens temporais
são a única meta a ser atingida.
'- O mundo do Senhor é uma planície de esperanças, onde
as cascatas de luzes, as árvores floridas de bênçãos, os campos
verdejantes e perfumados de virtudes esperam o ser, dando-lhe a
verdadeira felicidade. É a volta do homem ao "paraíso" celeste,
onde não entra o adeus, a dor, a doença, a lágrima; no "paraíso", o
homem ressurge no seio paterno, amparado pela luz do amor, enfim,
é o filho pródigo de regresso ao lar, sendo comemorada a sua
volta com a festa da verdadeira alegria. É o dia esperado por
todos os espíritos Ministros de Deus; até lá, eles terão de requisitar
espíritos como nós, ainda repletos de imperfeições, mas
conscientes das verdades divinas, para compor os seus exércitos
de ajuda, que partem em direção aos sofridos, levando como
passagem a luz do Evangelho de Jesus.
246
'- Muitas horas estivemos diante de irmãos nossos que abusaram
da liberdade divina, o livre-arbítrio, e constatamos os seus
sofrimentos, as suas deformações perispirituais e, mesmo assim,
oramos por eles, pedindo um despertar mais rápido, porque o que
desejamos é ver a família de Deus toda reunida, só assim Ele reinará
no "paraíso" junto a todos os Seus filhos. Enquanto isso, Ele
mandará sempre os Seus emissários levarem as mensagens de alerta
a todos aqueles que cumprem pena no reformatório terráqueo.
Qual o pai que viverá feliz deixando para trás vários filhos nos vales
de sofrimento? Ninguém poderá ficar distante deste trabalho.
'- Estamos diante do abuso do aborto, constatando que muito
ainda se mata na Terra, principalmente espíritos indefesos que só
pedem: 'deixem-me viver'. Em qualquer trabalho que estejamos,
não esqueçamos de buscar os rejeitados para dar-lhes o nosso amor.
Eles são milhares em todo o mundo. Ignorá-los é um crime quase
tão cruel quanto praticar o aborto. Vamos, irmãozinhos, buscar sempre
no fundo da alma o remédio para esse câncer que está tomando
conta de todo o Planeta. Se cerrarmos os nossos olhos, veremos
pequeninas mãos no ventre materno pedindo socorro e por mais
que nos apressemos em socorrê-las, os carniceiros chegam antes e
as estraçalham com indiferença e ignorância. Sabemos nós que os
abortados são irmãos nossos pedindo vida uterina, vida física.
'- Foi muito bom trabalhar com todos, espero reencontrálos
sempre. Não deixem de recordar que em cada coração Deus
é presença; em alguns, Ele brilha através das virtudes, em outros,
Ele está encoberto pela névoa da imperfeição, mas em todos
os seres, orgânicos ou inorgânicos, Deus é presença. No
meu coração Ele canta uma canção de ninar para todos os espíritos
que têm de sofrer a redução perispiritual para poder nascer
de novo, pois o homem morre para nascer e nasce para crescer
em bondade e sabedoria. O ser humano é uma semente que a
247
ninguém é dado o direito de impedir de germinar. O ser é luz
que não se consegue apagar; pode-se evitar que ela irradie no
céu ou na terra, mas apagá-la, jamais. Felicidades, amigos. Nagi.
Ficamos alguns momentos de olhos cerrados, orando. No
palco, coberto de luz prateada, Nagi era um filho de Deus em
trabalho. A platéia, em total silêncio, agradecia a Deus a oportunidade
concedida, para, logo em seguida, entoar este hino no
qual as nossas vozes, em sublime harmonia, eram um cântico de
louvor a Deus:
Vida, vida, vida dada por Deus,
Vida, vida, vida dada por Deus. ||
Eu respiro, graças a Vós, ']
Eu respiro, graças a Vós.
O meu corpo é divino,
Coberto de luz, ';
Todo ele se movimenta.
Graças Vos dou, Senhor
Eu penso, eu sorrio, eu sou tão Vosso,
Meu Deus, '^
"' ' Sou gente, mas já fui uma flor
Que germinou do Vosso amor.
Meu Deus!
Enxergo, escuto e ando, graças a Vós,
> Meus Deus!
O meu corpo é um relicário, graças, Senhor.
Sede de minha alma imortal
Sei que voltarei ao Paraíso
Vestido do traje nupcial.
Abraçado por Vós serei,
Pai amado, Ser divinal. !
248
Em seguida, foi surgindo no palco o cortejo dos rejeitados,
cantando esta canção:
Não me mate, por favor
Eu preciso tanto de você
Sou filho do Senhor,
Matar, por quê? }
Só lhe imploro respeito,
Carinho e amor
Sou seu por direito, ?
Não me mate, por favor. ;
Sou tão pequenininho
Uma semente a germinar
Estou tão sozinho
Não pode me matar. ,
Deixe-me viver .»
No seu ventre de mulher,
Eu preciso nascer,
Diga que me quer.
Estou tão guardadinho
No seu ventre de mulher ()
Não mate, não.
Sou o pedacinho ;>
Do seu coraçãozinho
Me chame "filhinho"
Não me mate, não.
Deixe-me nascer ,
Sou o perdão
.;, Preciso crescer.
Uma chuva de rosas orvalhadas de luz banhava o ambiente,
enquanto as crianças cantavam. Na Casa de Maria, visivelmente
emocionados, ouvíamos os cânticos da vida.
249
- Por que os rejeitados se encontram aqui no Gfentro?
perguntei. ; , ,
- Eles irão reencarnar em breve, Sérgio. Esperamos que
ninguém os mate.
- Meu Deus, como poderemos fazer uma campanha ferrenha
contra o aborto?
- com as Casas Espíritas unindo-se em oração, apresentando,
uma vez por semana, um palestrante bem informado sobre
o aborto, divulgando as mensagens dos abortados. Enfim,
contribuindo para destruir o troféu de campeão mundial do aborto
que paira vergonhosamente sobre o Brasil.
- Se os espíritas não levantarem campanha acirrada contra
o aborto delituoso, logo teremos a liberação deste crime covarde
e cruel. Todos os médiuns irão receber mensagem dos
abortados pedindo socorro, e está nas mãos dos diretores dos
Centros a campanha contra o aborto.
- Tem razão, Sérgio, se as religiões não se unirem em um
grito de protesto, logo estaremos presenciando os crimes contra
a vida e nada mais podendo fazer - disse-me Anália, que nesse
momento adentrou o ambiente.
- Irmã, o aborto será liberado no Brasil?
- Liberação, não creio, porém mascaramento, sim.
- Como? Explique-me.
- O brasileiro é muito inteligente, vendo que não consegue
legalizar o aborto, irá procurar um meio de fazer a lei ser
aprovada pelo Congresso de modo a não chocar a população;
buscará termos científicos e aí será o fim, estaremos presenciando
os assassinatos em massa em nossa Pátria. O homem ainda
ignora a beleza que é viver. Se cada encarnado buscasse em si
mesmo a presença divina, encontraria a verdade da vida. N
250
ninguém conhece o seu interior, o corpo físico é máquina que nem
mesmo o dono conhece o seu funcionamento, portanto, existe
uma força maior que a criou. O desgaste dessa máquina, por
mais que dela se cuide, acontecerá um dia, porque ela não é
eterna. Eterno é o seu condutor, cujo nome é ESPIRITO. Entà3o,
por que o homem encarnado se considera dono da vida? Vive
praticando atos que ferem os preceitos divinos, e um dos mais
terríveis é o assassinato. Ninguém tem o direito de matar, pois
um dia todos terão de desvestir a indumentária carnal. A vida é o
maior dos direitos e a decisão sobre ela só pertence a Deus e
Ele, sendo bom, não mata. O aborto é um assassinato premeditado
e quem o pratica terá de prestar contas a Deus.
- Irmã, mas existem mulheres sem condições de criar seus
filhos...
- Existem sim, Sérgio, mas não são essas mulheres as
que mais abortam, mas as das classes média e rica. A sociedade
tem por obrigação criar condições para que as pessoas não façam
opção pelo aborto. A culpa de uma criança ser abandonada
é de uma sociedade sem Deus. Por isso nós, os espíritos
desencarnados, pedimos aos Centros Espíritas que pratiquem a
caridade, sem ela seremos túmulos caiados por fora, mas infectos
por dentro. O estudo leva o espírito a buscar o seu próximo,
porque quando reformulamos nossa vida encontramos Jesus. Ele
não está enfeitando os templos de pedra. Ele caminha até hoje
ao lado dos oprimidos, dos doentes, dos famintos, dos
desabrigados. Quem deseja servir o Cristo tem de vestir a túnica
da verdade e semear as sementes do amor por onde passar. Não
acreditemos naqueles que só querem dirigir o seu semelhante.
Tomemos o exemplo de Jesus, que não nos chamou de servos e,
sim, de amigos. Todas as Casas Espíritas deveriam sair à rua em
busca dos desvalidos e transformar os seus locais de trabalhos
251
espirituais em Casas do Senhor, onde ninguém sinta vergonha
de bater à porta. Sobre o aborto não encontramos justificativa
que o favoreça.
- E aqueles que são portadores de deformações?
- Os fetos com defeitos físicos ou mentais merecem também
viver e muitas vezes mais que os normais. Eles voltam, porque
precisam de amor para possuírem novamente corpos sadios. Para a
espiritualidade, vida é sempre vida, e ninguém, mesmo sob a proteção
de uma lei feita pelos homens, tem o direito de matar.
- E os estupros?
- Nem assim. Para a mulher verdadeira não importa de
que modo foi concebida a criança, importa que ela é sua e que
tudo deve fazer para que o seu filho cumpra a tarefa divina que
lhe foi destinada.
Quantas lições trazia-me Anália!
- Quando encarnada a irmã teve filhos?
- Tive sim, Sérgio, fui mãe de muitas crianças. Eu as amei
como se minhas fossem. Elas não nasceram do meu ventre, mas
do meu coração.
Despedimo-nos, mas o perfume do coração de Anália permaneceu
junto a nós. Esta grande mulher labutou na Doutrina, é muito
conhecida no meio espírita, em São Paulo, onde viveu o Evangelho
de Jesus, e em todo o Brasil. Uma grande mulher. Além de tudo,
uma das maiores educadoras de que se tem notícia.
Assim, voltamos para as colônias da espiritualidade. Antes,
fomos até o Departamento do Trabalho, onde reencontrei
252
Saturnino. com detalhes colocamos os irmãos a par do que vinha
ocorrendo no plano físico. Convidados fomos a comparecer
ao salão nobre "Bezerra de Menezes" e ali recebemos a visita de
frei Luiz e Loreta. Muito carinhosos, agradeceram-nos a ajuda,
e Zeus falou em nosso nome:
- Irmãos, ninguém pode imaginar o que vem ocorrendo
no plano físico. Se as autoridades não tomarem providências
urgentes, logo não mais existirão crianças encarnadas. Deparamos
com a violênciados pais, a indiferença das mães entregando
os filhos às babás e estes morrendo de carência afetiva. Presenciamos
na camada mais pobre da população os próprios pais
estuprando os filhos. E ainda algo mais grave: alguns países
servindo-se da ganância do homem, fazendo com que estes seres
sem Deus lhes entreguem pequenos seres para serem sacrificados,
em busca de seus órgãos. Os países pobres devem defender
as suas fronteiras, conscientizando-se de que a criança carente
também pode ser feliz e ninguém tem o direito de matálas.
As autoridades precisam urgentemente defender as crianças,
não só as já nascidas, como as que estão pedindo para reencarnar.
Muitos fatos ainda serão revelados.
Frei Luiz lamentou:
- É triste, muito triste, o que vem ocorrendo no plano
físico. Oramos diariamente pela paz de todos, mas ela fica distante
enquanto o homem não amar como Deus nos ensinou em
Jesus. Queridos irmãos, espero contar com todos neste trabalho
de socorro à criança; vocês, que presenciaram o desespero delas,
sei que jamais esquecerão de correr em seu auxílio.
- Frei Luiz - perguntou Lélis - por que as autoridades
não socorrem as crianças, oferecendo-lhes escola, hospital, enfim,
protegendo-as?
253
- Porque, minha irmã, criança para muitos é ser sem personalidade,
quase sem alma. Não sabem que na criança a sensibilidade
é mais apurada e que ela precisa de amor para crescer
em paz.
- O que me assustou foi a violênciamoral praticada contra
as crianças, aduziu Lélis.
- Logo, se Deus quiser, uniremos nossos sonhos fazendo
deles belas realidades, teremos uma infância feliz e uma juventude
sadia; até lá, vamos socorrê-las, não importa se numa mansão
ou num casebre. Elas necessitam de alguém que as defenda,
não com armas, ou violência, mas tratando-as como irmãs necessitadas
de amor e respeito.
- Frei Luiz, e o tráfico de crianças que está ocorrendo na
frente de toda a sociedade, e ninguém faz nada?
- Engana-se, Luiz Sérgio, logo explodirá um tremendo
escândalo e conheceremos quem está utilizando esses seres inocentes
para as suas ganâncias pessoais. Até lá, vamos orando;
nunca o mal venceu o bem. Agora preciso retirar-me, meus filhos,
desculpem - acrescentou, fitando-nos com aqueles olhos
que pareciam sorrir.
Ele e Loreta recolheram-se. Nós, o grupo composto de
Misael, Zeus, Aloísio, Amintas, Kelly, Hápila, Lélis e eu, ali
estávamos depois de mais um trabalho na Crosta da Terra.
Começamos a nos despedir uns dos outros. Quando abracei
Hápila e Aloísio, os meus olhos marejaram de lágrimas, éramos
amigos despedindo-se. Fiquei sozinho. Olhei para o alto
e me pareceu que o orvalho de Maria fazia-me companhia.
Analisei todo aquele local tão conhecido por mim. Quantas
vezes viera até ele em busca de trabalho!... Tudo me pareceu
254
muito familiar e recitei esta prece: *
- Senhor Jesus, por bondade, a pregação do Evangelho
foi confiada a homens falíveis e não aos anjos, para que compreendêssemos
que precisamos conviver com a dor, o erro e
o desespero, para sermos animados a crer que o poder é de
Deus e que só auxiliando o próximo poderemos auxiliar-nos
também; e que devemos compadecer-nos dos ignorantes e "_
daqueles que erram. Agradecemos, Senhor, aos Teus Benfeitores Espirituais
que nos oferecem trabalho, trabalho este de
Te apresentar às almas perplexas pela dúvida, opressas pelas
fraquezas, débeis na fé. Chegamos a elas como homens que
somos mas colaboradores dos anjos celestes, para levar até
os homens as verdades deste mundo onde vivemos. Eles se }
comprazem, Senhor, de poderem falar por meio de nossa voz,
pois sopraremos onde um livro nosso se fizer presente. Como
chamaste os pescadores da Galiléia, Senhor, chamas ainda os
trabalhadores de boa vontade, e feliz de quem Te ouvir.
Desejo, Senhor, que aqueles que me buscam possam compreender
as minhas palavras e que cada um seja aquinhoado com o
poder divino, e que Tu, Senhor Jesus, possas habitar em cada
coração, para que o homem se tome proficiente no bem. Não
me deixes sem trabalho, Senhor, quero sempre abraçar cada
companheiro, lembrando-lhes que quando Tu chamaste os
apóstolos, conhecias as limitações de cada um deles, mas no
dia-a-dia, contemplando a Tua ternura, aprenderam as lições
da humildade e da paciência. Abriram o coração e tornaram-se
não somente ouvintes, mas cumpridores das Tuas palavras.
Portanto, Mestre Amado, sei que não Te afastarás de nós por
causa das nossas fraquezas e dos nossos erros. Senhor, peçoTe
por toda a Humanidade, principalmente pelos mais
255
endurecidos, para que eles despertem; que as vendas do orgulho e
da ganância se desprendam de seus olhos e que Tu, Senhor,
surjas, mais uma vez, em busca de todos os Teus irmãos. Assim
seja. ,,,;,.„.
Saturnino me aguardava. Abracei-o e fomos saindo. Quando
chegamos ao pátio, ele me falou:
- Luiz Sérgio, se desejares um novo serviço, procura-me
daqui a quinze dias. Pedi a Maria que sejas porta-voz de um
novo livro.
Quase pulei de alegria, mas somente o enlacei, chorando
de felicidade por ter um dia encontrado Jesus e ter tido Ele paciência
com os meus erros, abrigando-me na Sua Seara.
- Até breve, irmão.
> Ele me respondeu:
- Até logo mais, quando as revelações voltarão a compor
um novo livro.
Fui saindo, acenando-lhe, quando dei um encontrão com o
querido Palário.
- Que é isso, menino! Ainda não aprendeu a andar devagar?
- Palário! Você continua meu amigo e protetor, hem?
Pegue-me em seus braços-asas e me conduza ao país dos sonhos.
256
- com todo prazer eu gostaria de te levar para o Paraíso,
mas antes temos de lavar a nossa veste no sangue do Cordeiro;
depois, só depois, é que chegaremos lá. Até então, vamos pegar
o bastão do trabalho e aplainar o caminho.
Assim, eu e o amigo Palário voltamos para nossa casa.
A você, leitor, que esteve comigo neste pequeno livro, agradecido
fico por tanto carinho e o convido para um novo aprendizado.
Até lá.
Fique com Deus.
Eu amo você. ;
Luiz Sérgio
257
Obras do Espírito Luiz Sérgio "
O mundo que eu encontrei - Psicografado por Alaíde de Assunção e Silva
Novas Mensagens - Psicografado por Alaíde de Assunção e Silva
Intercâmbio - Psicografado por Alaíde de A. e Silva e Lúcia M. S. Pinto
Na esperança de uma nova vida - Psicografado por Irene Pacheco Machado
Ninguém está sozinho - Psicografado por Irene Pacheco Machado
Os miosótis voltam a florir - Psicografado por Irene Pacheco Machado
O vôo mais alto - Psicografado por Irene Pacheco Machado
Um jardim de esperanças - Psicografado por Irene Pacheco Machado -
Mãos estendidas - Psicografado por Irene Pacheco Machado
Consciência - Psicografado por Irene Pacheco Machado
Chama eterna - Psicografado por Irene Pacheco Machado
Lírios colhidos - Psicografado por Irene Pacheco Machado ._
Driblando a dor - Psicografado por Irene Pacheco Machado
Deixe-me viver - Psicografado por Irene Pacheco Machado
Dois mundos tão meus - Psicografado por Irene Pacheco Machado
Cascata de luz - Psicografado por Irene Pacheco Machado
Na hora do adeus - Psicografado por Irene Pacheco Machado
Universo de amor - Psicografado por Irene Pacheco Machado
Amigo e Mestre - Psicografado por Irene Pacheco Machado .
Ensina-me a falar de amor - Psicografado por Irene Pacheco Machado
Mais além do meu olhar - Psicografado por Irene Pacheco Machado ^
Obras de autores diversos psicografadas por IRENE PACHECO MACHADO '
Diálogo com Jesus - Pelo Espírito Francisca Theresa
Reflexões de Jacó - Pelo Espírito Jacó
Nós amamos você - Por Espíritos diversos
Reflexões de Jacó II - Pelo Espírito Jacó ^
Por que as lágrimas? - Por Espíritos diversos
Alicerce da Fé - Pelos Espíritos Lázaro José e João Batista
Sonhos & Realidades - Pelo Espírito Jacó
Uma rosa em meu caminho - Pelo Espírito Rosália
Corações amigos - Por Espíritos diversos -
Cântico de paz - Pelo Espírito Jacó
As flores também choram - Pelo Espírito Jacó
O Gênesis - Pelo Espírito Cecília (Série A Bíblia na Linguagem Espírita -
Vol. 1)
Êxodo - Pelo Espírito Cecília (Série A Bíblia na Linguagem Espírita -
Vol. 2) ,
Levítico - Pelo Espírito Cecília (Série A Bíblia na Linguagem Espírita -
Vol. 3) , '
Números - Pelo Espírito Cecília (Série A Bíblia na Linguagem Espírita -
Vol. 4)
Deuteronômio - Pelo Espírito Cecília (Série A Bíblia na Linguagem
Espírita - Vol. 5)
Obras de autores diversos
O Barco de Maria - Maurício Maía Soutinho
Conquista do Reino - João J. Moutinho
A Longa Estrada - Jab Sousa Silveira e Maurício Maia Soutinho '
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259
Nesta 21a. obra, Luiz Sérgio traz importantes orientações para
a juventude, abordando temas que também muito interessarão pais e
educadores: evangelização infanto-juvenil, família, drogas, gravidez
precoce e muitos outros. Este livro é um grito de alerta para o homem
encarnado, pedindo-lhe que lute pela dignidade e para livrar-se do
apego às coisas materiais.
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260
Gênise
Primeiro volume da Série A Bíblia na Linguagem Espírita,
explica cada passagem do livro Gênesis sob a ótica espírita,
constatando que aquilo que os livros doutrinários nos ensinam se
encontra em cada uma das páginas do mais importante livro do Planeta-
a Bíblia.
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261
Quarto volume da Série A Bíblia na Linguagem Espírita,
explica cada versículo do quarto livro do pentateuco bíblico: Números.
Mais do que simples enumeração de algarismos, esta é uma obra
repleta de fatos espíritas, narrados nas obras básicas da Codificação.
Adquira também os demais volumes da Série A Bíblia na Linguagem
Espírita.
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262
Esta obra de Luiz Sérgio relata cada versículo do Sermão da
Montanha, o código moral da Humanidade, e tem como objetivo
mostrar ao leitor espírita a fidelidade do Cristo ao Antigo Testamento,
quando, no Sermão do Monte, disse aos escribas e fariseus: não
vim destuir a lei e os profetas, mas dar-lhes cumprimento (Mateus,
aP- > v- )• ATENDEMOS PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL
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263
MAURÍCIO MAIA SOUSA SILVEIRA
Este volume, de leitura valiosa para todos aqueles que
adentram a Doutrina Espírita, reúne histórias da profícua mediunidade
de Irene Pacheco Machado, suas experiências na longa estrada da
mediunidade e das coisas espirituais. É um livro repleto de lições das
mais pura moral evangélica, contendo profundos ensinamentos sobre
educação mediúnica.
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Esta obra relata capítulo por capítulo de O Evangelho Segundo
o Espiritismo, lições ministradas por dois Espíritos abnegados
a um grupo de almas que desconheciam o Cristo amigo. É um livro
para todos aqueles que gostam de estudar e compreender O Evangelho
Segundo o Espiritismo, caminho que nos conduz ao Mestre.
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265
Empolgante obra que narra a epopéia da construção de uma
Casa Espírita, tendo sido escolhida para esta tarefa a médium Irene
Pacheco Machado. Volume repleto de ensinamentos, que narra a luta
de Espíritos em ensinar praticamente tudo, lutando contra hábitos
viçosos, arraigados há séculos a almas carentes de evolução.
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266
Terceiro volume da Série A Bíblia na Linguagem Espírita,
explica cada versículo do Levítico sob a ótica espírita, constatando
que aquilo que os livros doutrinários espíritas nos ensinam se encontra
em cada página do mais importante livro do Planeta - a Bíblia.
Adquira também os demais volumes da Séria A Bíblia na Linguagem
Espírita.
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267
com o propósito de contribuir na seara espírita, o autor procurou
organizar este trabalho, num esforço inteiramente
despretencioso, dirigido àqueles que se dedicam ao estudo do Evangelho,
à luz da Codificação, por porporcionar-lhes novos prismas através
dos quais as lições de Jesus podem ser analisadas.
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268
Este livro relata as experiências de Rosália, um doce Espírito
encarregado de distribuir o amor na Terra. Suas histórias são repletas
de ensinamentos de caridade e fraternidade, mostrando como o
amor pode vencer barreiras e transformar corações endurecidos. Uma
rosa em meu caminho destina-se a todos aqueles que procuram uma
palavra amiga.
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269
Este é um livro no qual Jacó, seu autor, deixou fluir seus
pensamentos, que chegarão até o leitor num grito de socorro, pedindo
a cada um que o ler: lute pela não-violência. Através de frases que
expressam o amor, a paz e a serenidade, somos levados a procurar
viver em harmonia, amando a Deus e ao próximo como a nós mesmos,
caminho seguro para chegar até o Criador.
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270
Esta obra traz Luiz Sérgio em seu estilo inconfundível de
transmitir tudo o que aprende no mundo espiritual. Agora, brinda seus
leitores com explicações sobre a passagem do Espírito pelos reinos
da Natureza, palmilhando a rota do princípio espiritual. Vamos adentrar
esse universo e aprender mais sobre educação mediúnica, organização
e funcionamento de Casas Espíritas e muitos outros assuntos.
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271
Adquira, através do reembolso
postal, outros livros editados pela
Livraria e Editora Recanto:
Por que as lágrimas? psicografado
por Irene Pacheco Machado,
contém mensagens de desencarnados,
comprovando a sobrevivência
do Espírito frente à morte do
corpo de carne, através de detalhes e
particularidades inerentes a cada comunicante.
Um livro que deve ser
lido por todos aqueles que já tenham
dado adeus a um ente querido na
"estação da morte".
As flores também choram
psicografado por Irene Pacheco
Machado. Mais uma obra de Jacó,
com sua filosofia de vida, proporcionando
ao leitor momentos de
grande aprendizado, expressos em
cada pensamento.
Uma rosa em meu caminho
psicografado por Irene Pacheco
Machado. É o livro perfumado de
uma vida. Nele, irmã Rosália, antiga
religiosa, narra as suas experiências,
de grande proveito para todos.
Livraria e Editora Recanto
Caixa Postal 03732
70084-970 Brasília DF
e-mail: rema@rema.org.br
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Digitalizado e corrigido por:
Marcos Ricieri
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DEIXE-ME VIVER
Luiz Sérgio
11.ª Edição 2003
Todos os direitos de publicação e reprodução
desta obra estão reservados à
Casa Espírita Recanto de Maria - REMA
Esta edição: do 86.° ao 90.° milheiro.
Sérgio, Luiz (Espírito).
Deixe-me Viver / Luiz Sérgio ; psicografía:
Irene Pacheco Machado. - Brasília : Recanto,
2003.
272p. 21 em.
1. Espiritismo. 2. Aborto. 3. Reencarnação
Machado, Irene Pacheco. II. Título.
CDU 133.9
ISBN 85-86475-15-7
Capa e ilustrações: Maurício Maia Soutinho
(Renoir - "Amamentação" - Museum os Fine Arts)
1." edição- 1992
Ensina-me a falar de amor
Luiz Sérgio
Psicografia: Irene Pacheco Machado
Todos os direitos de publicação e reprodução desta obra estão reservados
à Casa Espírita Recanto de Maria - REMA
SÉRGIO, Luiz (Espírito)
Ensina-me a falar de amor; Luiz Sérgio!
psicografado por irene pacheco Machado.- 3ª
ed.- Brasília: Livraria e Editora Recanto, 2002
1. Espiritismo. 2. Comunicações mediúnicas.
I. Machado, Irene Pacheco. II. Título
CDD 133.9
ISBN 85-86475-32-7
Capa e ilustrações: Maurício Maia Soutinho
Este livro foi psicografado no ano de 1998
1ª Edição -2000 '.'• . *'
SUMÁRIO
Algumas palavras 7
Mensagem ao Leitor. 13
Capítulo I-Viveiro divino. A Rocha 17
Capitulo II-A busca da reforma interior. 31
Capítulo III-A evolução da essência espiritual 37
Capítulo IV-A renovação da Terra 45
Capítulo V- A beleza da Criação 57
Capítulo VI-A família espírita 65
Capítulo VII-O segundo estágio evolutivo 77
Capítulo VIII-Caridade: amor em ação 95
Capítulo IX-A tarefa da psicografia 105
Capítulo X-A imposição das mãos 117
Capítulo XI-A alma animal. As tendências do Espírito 127
Capítulo XII-O Espiritismo nas Escrituras 137
Capítulo XIII-Livre-arbítrio, diadema da razão 143
Capítulo XIV-As moradas da Casa do Pai 157
Capítulo XV-O respeito aos mais velhos 175
Capítulo XVI-O avanço da tuberculose 183
Capítulo XVII-Auto-estima: chave da felicidade 191
Capítulo XVIII-O flagelo das drogas 219
Capítulo XIX-A tarefa dos livros 235
Capítulo XX - Encontro consolador. 249
Capítulo XXI- Crescimento moral e intelectual 263
Capítulo XXII- A oportunidade do aprendizado 287
ALGUMAS PALAVRAS
Em uma fria manhã de junho de 1973, o telefone tocou em casa de
Zilda e Júlio, no Rio de Janeiro. Foi ela quem atendeu. Do outro lado da
linha, identificou-se ALAYDE DE ASSUNÇÃO E SILVA, sua prima, residente em
São Bernardo do Campo, São Paulo:
- Zilda, é Alayde quem fala. Não sei como você e o Júlio irão receber
o que eu tenho a lhes dizer. Recebi ontem à noite uma mensagem de Luiz
Sérgio. Na verdade, é uma longa mensagem.
O coração de Zilda bateu forte. Ela sabia que seu filho Luiz Sérgio,
desencarnado em 12 de fevereiro daquele ano, vítima de um acidente de
carro, estava procurando meios de se comunicar, mas não pensara que isso
iria acontecer tão rápido, e justamente através de uma pessoa tão próxima.
Pediu que Alayde lesse a mensagem, bem devagar.
Enquanto se desenrolava a leitura, Zilda acompanhava com a maior
atenção as palavras pronunciadas, que foram encerradas com um recado
muito tocante para Valquíria, com quem Luiz Sérgio iria firmar compromisso.
A saudosa mãe não pôde fazer qualquer comentário, pois as lágrimas corriam
por sua face. Parecia estar ouvindo seu filho falar, apenas a voz era diferente.
Meu Deus! - pensou ela, é uma carta enviada da Espiritualidade.
Identificava todo o linguajar, o modo de escrever, os trocadilhos que gostava
de fazer, a sua curiosidade despertada para pesquisar o que desconhecia.
Tudo denunciava Luiz Sérgio como o autor daquelas linhas.
Alayde lhe explicou que o inesperado havia surgido, quando, passado
algum tempo do desencarne de seu priminho, ele foi trazido até ela com a
intenção de lhe transmitir uma mensagem. Aceitou a incumbência e ali estava
o resultado.
Zilda confiou, porque sabia que Alayde fora levada ao Espiritismo a
uns vinte anos atrás, ao se deparar com o Espírito de sua mãe, desencarnada
no mesmo ano de sua aparição. Profundamente tocada por aquele fenômeno,
que desconhecia, resolveu esclarecer o fato e recorreu à Federação Espírita
do Estado de São Paulo. Ali iniciou os estudos da Doutrina Espírita,
preparando suamediunidade, entregando-se, particularmente, aos trabalhos
psicográficos. Professora de profissão, logo se interessou em prestar sua
colaboração ao Lar da Criança Emmanuel, de São Bernardo do Campo.
Expandiu esse trabalho, ao integrar o grupo de médiuns do Hospital Psiquiátrico
Bezerra de Menezes, como também do Centro Espírita Obreiros do
Senhor, de Rudge Ramos, São Bernardo do Campo. Dedicou-se inteiramente
à sua mediunidade, depois de sua aposentadoria, passando a psicografar
com diversos Espíritos, cujos trabalhos nunca vieram a público.
Após a primeira mensagem de Luiz Sérgio, começaram outras a chegar,
detalhando, pormenorizando o seu aprendizado espiritual, enviando recados
para a família, bem como palavras de agradecimento e incentivo a
todos os que acompanhavam sua trajetória. Esse foi o início das notícias, que
culminaram na idéia de ser publicado um volume que levasse a público aquelas
informações. Tudo foi passado pelo crivo da razão, examinado por vários
e eminentes espíritas, antes de serem apresentadas ao leitor. O livro O Mundo
Que Eu Encontrei foi a alavanca que o impulsionou, vindo, logo depois,
Novas Mensagens de Luiz Sérgio.
A saúde de Alayde, porém, começou a fraquejar. Um derrame cerebral
impossibilitou-a de continuar o trabalho psicográfico, ficando algumas
mensagens inéditas, que foram entregues à mãe de Luiz Sérgio. Após permanecer
em tratamento médico por muitos anos, desencarnou, em 15/11/1999,
aos oitenta anos de idade, tendo cumprido sua romagem terrena, com dignidade.
Sem Alayde, talvez não existisse hoje o "repórter" Luiz Sérgio.
8
Entretanto, depois de lançada a semenjte, era necessário que alguém
desse continuidade a esse trabalho. , ; ;*
Certo dia, Zilda foi convidada a assistir à abertura de um Culto Cristão
no Lar, por ter sido escolhido Luiz Sérgio como mentor espiritual do grupo.
Estava presente a médium psicógrafa LÚCIA MARIA SECRON PINTO. Ocorreu,
ao final, mensagem de Luiz Sérgio, incentivando os participantes ao trabalho
e agradecendo a homenagem, que dizia não merecer. Depois desse encontro,
várias mensagens de Luiz Sérgio foram trazidas pelo mesmo canal
mediúnico.
Lúcia, quando jovem, freqüentou a Mocidade do Centro Espírita
Elias, localizado em Realengo, na cidade do Rio de Janeiro, participando,
depois, de vários trabalhos mediúnicos no Centro Espírita Amaral
Ornelas, no bairro do Engenho de Dentro. Chamada ao Espiritismo por
sua mediunidade ostensiva, dedicou-se a este chamamento. Voltando,
mais tarde, ao Centro Espírita Elias, galgou vários postos na diretoria,
chegando a presidente por mais de uma vez. Dedica-se até hoje àquela Casa.
O livro Intercâmbio traz maiores informações sobre esse
entrosamento espiritual Lúcia/Luiz Sérgio, pois às mensagens remanescentes
de Alayde foram juntadas as de Lúcia, alternando-se o livro com
as duas médiuns e ainda os desenhos preparados pelo talento de Lúcia.
A simbiose foi perfeita. É uma leitura leve, com relatos ainda firmados
por Alayde e mensagens temáticas, obtidas pela psicografia de Lúcia.
Interessante observar que o prefácio do escritor espírita Luciano dos
Anjos prenunciava o trabalho de Luiz Sérgio, pois as circunstâncias posteriores
demonstraram o seu interesse em trazer ao plano físico informações
referentes ao mundo dos vícios, acentuadamente ao das drogas.
Lúcia não prosseguiu nessa tarefa, por motivos pessoais e de saúde.
Submetida a uma cirurgia, na ocasião, manteve-se afastada das tarefas
mediúnicas por longo tempo. Mas Luiz Sérgio tinha pressa. O "repórter" não
podiaparar.
9
E foi assim que surgiu IRENE PACHECO MACHADO em seu caminho, observando-se
um traço comum nas três médiuns: Irene, moradora de Brasília,
também foi levada ao Espiritismo por sua mediunidade. Um grupo de amigas
decidiram reunir-se com a intenção de fazerem trabalhos caritativos. Daí,
começaram as entidades espirituais, através de Irene, a se manifestar, indicando-lhe
a leitura de alguns livros. Eram obras de Allan Kardec, desconhecidas
inteiramente por ela. Procurou, então, a Comunhão Espírita de Brasília,
decidida a iniciar o aprendizado doutrinário, tendo como condutor de sua
mediunidade e disciphnador o Espírito Lázaro. Ali, durante muitos anos, participou
de grupos mediúnicos, onde sua mediunidade pôde ser minuciosamente
analisada, sem, contudo, deixar aquele primeiro grupo, que foi crescendo,
até que surgiu o Grupo Assistencial Recanto de Maria, hoje Casa
Espírita Recanto de Maria-Rema. Continua, ali, com assiduidade e intenso
labor, a assessorar os grupos mediúnicos, os de estudo e os de artesanato
para os bazares anuais.
Em 1979, Irene, que já conhecia o Espírito Luiz Sérgio, obteve dele a
informação de que levaria sua mãe, Zilda, à sua casa, durante a reunião, para
que Irene a conhecesse. E assim ocorreu, pois uma amiga, que freqüentava o
grupo inicial, apresentou-a a Irene. Fatos importantes ocorreram, então. Pela
mediunidade de Irene, detalhes da vida física de Luiz Sérgio foram trazidos,
roupas que ele estava usando eram descritas com precisão, objetos que lhe
haviam pertencido eram mencionados, e muitas outras questões familiares
foram confiadas a Irene e passadas a Zilda.
Não havia mais jeito, e se qualquer dúvida pairasse em relação à presença
de Luiz Sérgio, já havia desaparecido. Estava determinado pelo Mundo
Maior: Luiz Sérgio iria trabalhar com Irene.
E, assim, surgiu o quarto livro dele e primeiro psicografado por Irene
Pacheco Machado: Na Esperança de Uma Nova Vida. A seguir, vieram:
N.E. - Para saber mais sobre o início do trabalho de Luiz Sérgio com a médium Irene Pacheco
Machado, consultar a obra O Barco de Maria, Cap. XII - Luiz Sérgio, desta Editora, escrito por
Maurício Maia Soutinho.
10
ninguém Está Sozinho, Os Miosótis Voltam a Florir, O Vôo Mais Alto, Um
Jardim de Esperanças, Mãos Estendidas, Consciência, Chama Eterna, Lírios
Colhidos, Driblando a Dor, Deixe-me Viver, Dois Mundos Tão Meus,
Cascata de Luz, Na Hora do Adeus, Universo de Amor, Amigo e Mestre.
Além de conservar sua eterna curiosidade por tudo saber, Luiz Sérgio
apresenta, pela psicografia de Irene, sua personalidade alegre, divertida,
emotiva, descontraída, mas de uma responsabilidade que sempre caracterizou
tudo o que fazia, quando estava no plano material - estudo e trabalho.
Depois da abordagem de temas da maior importância, tais como: família,
drogas, aborto, suicídio, mediunidade, obsessão, tratamento psicológico
espiritual, desencarne, Casas Espíritas, estudo evangélico-doutrinário,
passes, puericultura, arte psicopictográfica, música, aparelhagem técnico-cirúrgica
espiritual e muitos outros, dentro da ótica do Espiritismo, apresentanos
agora, em seu vigésimo livro, o tema da criação e evolução do ser.
Convidamos o estimado leitor a conhecê-lo, para que possa compreender
os anseios de Luiz Sérgio, ao pedir: ensina-me a falar de amor.
Brasília, julho de 2000.
A EDITORA
'11
MENSAGEM AO LEITOR
Eclesiástico, Cap. XVI, v. 24-30:
Ouve-me, filho, e aprende a ciência. Aplica teu coração às minhas
palavras, com medidas exatas revelarei a instrução e com exatidão anunciarei
a ciência. Quando o Senhor criou suas obras, desde o princípio,
depois de havê-las feito, dispôs-lhes as funções. Estabeleceu uma ordem
eterna para suas obras e suas atribuições para as gerações futuras: não
sofrem fome nem fadiga nem interrompem tarefas. Nenhuma se chocou
contra as outras e nunca desobedeceram à sua palavra. A seguir, o Senhor
voltou os olhos à terra e cumulou-a de seus bens. Cobriu-lhe a
superfície com toda sorte de seres vivos que, por sua vez, voltarão à terra.
Querido leitor, transcrevi esta passagem do Eclesiástico pois gosto
muito de estudá-lo e hoje estou de volta, trazendo a você mais um livro
repleto de lições que aprendi na Universidade Maria de Nazaré. Cada livro
representa um curso que realizei, graças à bondade Divina. Sou ainda apenas
aprendiz, talvez por isso achem simples demais o meu vocabulário.
Quando escrevo, faço-o com o coração de aluno curioso e com a
sede de aprender, jamais querendo passar para você, leitor, a impressão de
que muito sei ou a de que já me tornei Espírito evoluído. Não é essa a minha
proposta, a minha tarefa. Quando chamado fui a levar até o plano físico as
minhas mensagens, bem sabia que ainda muito teria de aprender, e esse
13
aprendizado não cessou ainda, por mercê de Deus. Mas nem por isso deixei de ser
o Luiz Sérgio, filho da Zilda e do Júlio-o Luiz Sérgio ainda necessitado das
preces dos encarnados.
Nunca tive a pretensão de me tornar um nome conhecido na Doutrina
Espírita. Como aprendiz do Evangelho, coloquei os pés no caminho do Mestre,
pés estes ainda pesados pela imperfeição. Não é porque ditei livros que
já me considero um escritor ou um Espírito superior; não, pelo amor de Deus,
compreenda-me. Sou apenas um Espírito que busca desesperadamente aprender
e evoluir, e para que isso venha a acontecer preciso de seu respeito, de
sua amizade, leitor amigo.
Não me incomodam as críticas de que o vocabulário dos meus livros é
pobre e que sou às vezes irreverente. Sou o que sou e as pessoas que bem
de perto me conhecem, ao ler os meus escritos, logo certificam-se de que
estou vivo, bem vivo, por mercê de Deus. Entristece-me muito presenciar
médiuns que usam o meu nome em mensagens que longe estão de me pertencer.
Caso sejam levados a fazer isso por me querer bem, gostaria que gostassem
de mim de outra maneira: estudando a Doutrina e indo até os carentes,
porque muitas vezes deixam de colocar o nome de seus mentores e de
seus amigos espirituais nas mensagens, por eles ainda não serem conhecidos
no mundo espírita.
Escrevi este livro em poucos dias, porém, dado à severa fiscalização
do Departamento da Psicografia do mundo espiritual, ele ficou sendo revisado
pelos Espíritos amigos um bom tempo. Como você pode ver, leitor amigo,
as coisas do mundo espiritual não são levadas até o mundo físico sem
obedecerem ao plano Maior.
Quando iniciei o trabalho de psicografia pelas mãos amorosas da
Alayde, com O Mundo que eu Encontrei, eu era uma criança dando os
primeiros passos na estrada da psicografia, mas fui muito ajudado por ela e
por minha família e ainda mais por você, leitor amigo, e aí não parei mais de
escrever, porém sempre obedecendo à rígida disciplina do Departamento da Psicografia.
14
Os meus livros sempre procuram trazer uma mensagem de amor e
este, que hoje lhe entrego, chega até você molhado de lágrimas pelos fatos
desagradáveis que vêm ocorrendo, os quais, dado o nosso trabalho na Doutrina,
não nos cabe revelar. Mas gostaria de pedir-lhe, leitor amigo, que ficasse
mais atento com tudo o que lhe chegar às mãos. Analise; não são
palavras difíceis que mostram se o Espírito está evoluindo, e sim a mensagem
que ele transmite a você, leitor.
Hoje tenho a felicidade de convidá-lo a desfolhar este livro bem devagar
e tentar extrair do seu conteúdo aquilo que pedimos ao Senhor: ensiname
a falar de amor.
LUIZ SÉRGIO
15
Capítulo I
VIVEIRO DIVINO
A ROCHA
Ao terminar o livro Amigo e Mestre, quando ainda me encontrava
escrevendo sobre o último versículo do Sermão da Montanha, detive-me
no Evangelho de Mateus, Cap. VII, versículo 24:
Todo aquele, pois, que ouve estas palavras, e as observa, será
semelhante ao homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha.
Quem estuda a Doutrina Espírita bem conhece a escalada do Espírito
pelos três reinos. No Evangelho de Mateus encontramos, no Capítulo III,
v. 9:
(...) Deus pode fazer destas pedras filhos de Abraão.
Também no Antigo Testamento encontramos, em Isaías, Capítulo LI,
v. 1°.:
Ouvi-me, vós todos os que seguis a justiça, e buscai o Senhor;
considerai a rocha donde fostes criados e o manancial donde saístes.
Nesse instante, meus olhos divisaram a escalada do Espírito, a sua luta
pela evolução, e fiz este gráfico: ?
Os três reinos e o Seu Criador
Reino Mineral
Pedra | Alicerce
Rocha | Essência espiritual
Reino Vegetal
Planta | Sensibilidade
Reino Animal
Inteligência rudimentar
Animal
Perispírito em formação
Início da vontade
Reino Hominal
Homem
Perispírito
Consciência
Começo da razão
Inteligência
Livre-arbítrio
, Deus
Vida eterna
Inteligência Suprema
Céu
Plenitude
Começo e fim
Vida eterna
Fim dos sofrimentos
Vida Plena
* ! Aqui inicio este livro, que dedico a todas as pessoas que lutam para
transformar seus corações de pedra em corações de carne, porque mesmo
já na condição de homens, não conhecem o amor, o amor universal, onde
todos se respeitam, como irmãos que somos.
18
Este gráfico que fiz explica muitos fatos, um deles: a evolução do ser
criado simples e ignorante e sua escalada evolutiva.
Só mesmo a Doutrina Espírita dá respostas precisas a perguntas que
todos nós fazemos: por que as diferenças dos seres?
Ao pensar na evolução da espécie, senti-me feliz, porque fui criado
pela Inteligência Máxima do Universo: Deus. É Ele o nosso Pai, o nosso
criador e, sendo o nosso Pai, temos dentro de nós a sabedoria e a bondade,
como também está em nós a luta para desenvolver os nossos sentimentos.. Se
todos pensassem assim, iniciariam a luta pela perfeição, a grande renúncia.
Mas os homens param diante das coisas materiais e se esquecem de mergulhar
em seu "eu" em busca das coisas boas que há nele, porque, se fomos
criados simples e ignorantes e passamos por diversas fases da nossa existência,
algo ficou de bom e proveitoso. O importante é o homem descobrir-se;
só assim ele vai amar o seu semelhante, os seus irmãos que, como ele, têm de
lutar para evoluir.
Desde que o mundo é mundo, Deus manda os Seus emissários para
elucidar a Humanidade, mas esta, julgando não ter compromisso com Deus,
passa as existências indiferente aos chamados espirituais. É fato absurdo o
que dizem certos religiosos, que o Criador só forma a alma quando ela nasce
no mundo físico. Por isso alguns pais se julgam donos dos filhos, porque
também pensam que eles são almas criadas no instante do nascimento, conforme
as velhas afirmativas de algumas religiões.
Mas a Doutrina Espírita ensina ao homem tudo sobre a sua origem.
Agora, como fazer para saber de onde viemos e para onde iremos? Muito
fácil: é só jogar a preguiça fora e iniciar a jornada. O caminho é áspero e
repleto de sobressaltos, mas à medida que o conhecimento banha o nosso
ser, este vai libertando-se das amarras da ignorância e se aproximando do
Cristo, único caminho que nos leva a Deus. Todos os dias o Cristo bate à
nossa porta, mas muitos ainda relutam em seguir Suas pegadas, porque é
preciso renunciar. Ele, Jesus, é o nosso Amigo Mestre, o verbo de Deus.
Quem não O escuta não deseja evoluir.
i > Ali estava eu novamente, esperando a turma para uma nova jornada.
Voltei a olhar o gráfico, recordando o nosso livro Chama Eterna.
- Boa tarde, Luiz Sérgio. ,
Levantei a cabeça.
- Boa tarde.
- Estava desenhando?
- Sim, estava tentando grafar no papel a evolução do homem.
Palários sorriu.
2 N.E. - Consultar O Vôo mais Alto, sétimo livro da Série Luiz Sérgio, no qual o autor espiritual
apresenta seu mentor.
20
- Assunto difícil, porque o homem não deseja conhecer as suas
responsabilidades como espírito imortal que é. É muito mais fácil ignorar
os planos de Deus do que lutar por eles. A cada ser, Deus ofertou talentos,
feliz aquele que não os tenha enterrado no lodo da própria consciência
- Palário, foi muito bom encontrá-lo. Estou indo ao Departamento
do Trabalho, pois recebi um chamado para novas tarefas.
Palário abaixou a cabeça. Percebi que orava, uma lágrima umedeceu
os seus olhos. Levantei-me ligeiro, perguntando: ^
- O que aconteceu? Errei em alguma coisa?
- Não, Luiz, apenas recordava o irmão chegando ao mundo Espiritual,
assustado, muito assustado. E hoje, com alegria, percebo o quanto luta
para aprender e ser útil. Sentimo-nos felizes quando olhamos para trás e
vemos uma sementinha lutando desesperadamente para não deixar infértil a
terra que a envolve.
- Tem razão, Palário. A terra são todos os ensinamentos que venho
recebendo junto a abnegados irmãos, onde você é um dos mais queridos.
-Vamos, Luiz, vamos. Nunca devemos deixar alguém à nossa espera.
Envolvi o ombro do amigo e logo estávamos na sala de Anna. Esta
somente nos apresentou Marry que, muito sorridente, falou-me: ,
- Luiz, estamos aqui para inteirá-lo do nosso trabalho.
- Às suas ordens, irmã.
Ela sorriu. Dirigindo-se a Palário, disse:
- com certeza o Luiz vai gostar muito da nova tarefa. '
Abracei-me com Palário e as lágrimas caíram fortes. Anna, comovida,
confortou-me: ' •
- Benditas sejam todas as lágrimas de amor.
21
Palário desejou-nos êxito e dali saímos. Marry, muito simpática, tudo
fazia para me tranqüilizar, conversando sobre vários assuntos:
-Luiz, a Doutrina Espírita passa por dura prova. É o final do milênio,
e os homens encarregados da Terceira Revelação estão um pouco parados,
apenas à espera. E não pode ser assim. Temos de distribuir as águas da fonte
do conhecimento em todos os lugares.
- Não entendo, a irmã quer dizer que os espíritas têm de sair pelas
ruas em busca de seguidores?
-Não. O espírita deve ser espírita em todos os lugares que freqüenta,
ele tem de se tornar o Consolador prometido por Jesus.
- Aí é que as coisas ficam pretas.
- Não, Luiz. Quem é bom é bom mesmo, e não porque deseja que
os outros julguem-no bondoso.
- Irmã, no momento tenho visto acontecerem fatos tristes em algumas
Casas Espíritas.
- Por isso a nossa preocupação. Temos de levar a palavra de Deus
aos corações endurecidos. Fazê-los despertar para o amor. Milhões de pessoas
sentem-se sozinhas, perdidas e desanimadas, sem saber o que fazer. Na
Terra, o que está faltando é o amor. E as religiões, que deveriam unir as
pessoas em nome do amor, hoje o que fazem é separá-las. Não é só na
Irlanda que católicos e protestantes se odeiam, existe esse ódio também entre
um número cada vez maior de pessoas em outros países. Jamais na História
houve tanta falta de amor no mundo como agora. Por que está acontecendo
isso? Na Bíblia está a resposta: os últimos dias. Estamos vivendo o
período no qual, segundo os profetas bíblicos, as pessoas estariam sem afeição
natural. Jesus Cristo predisse que o amor da maioria se esfriaria.
Em // Timóteo, Capítulo III, v. 1 -5, encontramos:
Sabe, porém, que nos últimos dias sobrevirão tempos perigosos.
Porque haverá homens egoístas, avarentos, altivos, soberbos, blasfeninos,
desobedientes a seus pais, ingratos, malvados, sem afeição, sem
luz, caluniadores, incontentes, desumanos, sem benignidade, traidores,
imprudentes, orgulhosos e mais amigos dos prazeres do que de Deus,
lendo uma aparência de piedade, porém, não sendo a realidade.
- Irmã, como parece a Terra de hoje!
- Sim, Luiz, tudo foi previsto por Jesus. A atual falta de amor, portanto,
é parte da evidência de que vivemos os últimos dias deste mundo.
-Do fim do mundo, irmã?
- Não. Os últimos dias dos maus na Terra.
- Como? Pode explicar-me?
- Sim. Os homens têm de aproveitar o chamado, porque quem não
se tornar melhor será deportado para mundos onde terão de recomeçar uma
nova vida. Felizmente isso também significa que este mundo de pessoas ímpias
em breve será substituído por um novo, muito mais justo, governado pelo amor.
- Será, irmã, que podemos acreditar em tais mudanças? Será possível
que todos consigam amar uns aos outros e vivam juntos em paz?
- Sim, Luiz Sérgio. Para viver neste novo mundo deveremos seguir
Jesus. Ele nos ensinou que depois do amor a Deus nossa vida deve ser governada
pelo amor ao próximo, em Mateus, Capítulo XXII, v. 23-40:
No mesmo dia vieram alguns saduceus, que dizem não haver ressurreição,
e o interrogaram, dizendo: Mestre, Moisés disse: Se morrer
alguém, não tendo filhos, seu irmão casará com a mulher dele, e suscitará
descendência a seu irmão. Ora, havia entre nós sete irmãos: o primeiro,
tendo casado, morreu: e, não tendo descendência, deixou sua
mulher a seu irmão; da mesma sorte também o segundo, o terceiro, até
o sétimo. Depois de todos, morreu também a mulher. Portanto, na ressurreição,
de qual dos sete será ela esposa, pois todos a tiveram? Jesus,
porém, lhes respondeu: Errais, não compreendendo as Escrituras nem o
23
poder de Deus; pois na ressurreição nem se casam nem se dão em casamento;
mas serão como os anjos no céu. E, quanto à ressurreição dos
mortos, não lestes o que foi dito por Deus: Eu sou o Deus de Abraão, o
Deus de Isaque, e o Deus de Jacó? Ora, ele não é Deus de mortos, mas
de vivos. E as multidões, ouvindo isso, se maravilhavam da sua doutrina.
Os fariseus, quando souberam que ele fizera emudecer os saduceus,
reuniram-se todos; e um deles, doutor da lei, para o experimentar, interrogou-o,
dizendo: Mestre, qual é o grande mandamento na lei? Respondeu-lhe
Jesus: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de
toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro
mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás ao teu próximo
como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas..
- Irmã, torno a perguntar: será que isso virá a acontecer? Poucos,
muito poucos, são aqueles que amam o próximo. Acho mesmo que só os
primeiros cristãos. Eles, sim, eram conhecidos pelo amor que nutriam uns
pelos outros. É isso que nos pede Jesus, em João, Capítulo XIII, v. 34-35:
Eu vos dou um novo mandamento: Que vos ameis uns aos outros,
assim como eu vos amei, para que vós também mutuamente vos ameis.
Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros.
- As religiões são as primeiras a se odiarem. Veja o que fazem com
os espíritas, irmã!
- Tem razão, Luiz Sérgio. Por isso os espíritas têm de lutar pela sua
Doutrina. E esta luta deve ocorrer nas Casas Espíritas, onde os seus presidentes
devem unir as pessoas e transformá-las em irmãos. Existem Casas
Espíritas em que ninguém se conhece. A fraternidade deve reinar nos núcleos
espiritistas.
-Acho difícil, irmã, porque já vimos esse filme: os Espíritos convidarem
as pessoas para eventos, para um melhor entrosamento, e as pessoas
não comparecerem, sempre apresentando desculpas.
24
- Se duas ou três pessoas não vão, mesmo assim outras aprendem
a viver no grupo e formam nele uma nova família. ,
-Não sei, irmã, como já disse, já vi esse filme e não gostei do final. A
família carnal é mais forte e bem disse Jesus, em Lucas, Capítulo XII,
versículos 49-53: (...) De hoje em diante haverá, numa mesma casa, cinco
pessoas divididas, três contra duas e duas contra três. Estarão divididos
o pai contra o filho e o filho contra seu pai; a mãe contra afilha,
e afilha contra a mãe; a sogra contra a nora, e a nora contra a sogra.
Os inimigos do homem serão os seus mesmos domésticos.
- Mas o tempo, Luiz, é agora, temos de lutar para não deixar para
trás as nossas oportunidades. O tempo está-se esgotando, e infeliz aquele
que recebeu o talento e o jogou fora, principalmente porque não teve coragem
de lutar contra as adversidades da vida.
-Irmã, se a mãe de família, por exemplo, vai todos os dias à igreja ou
ao Centro Espírita, a família vai culpá-la por negligência familiar.. Que fazer?
- Se for uma mulher forte, vai impor a sua fé; não são duas horas
orando a Deus que irão abalar o alicerce de um lar. Muitas vezes essas mulheres
usam a desculpa da família para justificar as suas fraquezas. São elas
que, muitas vezes, querem ficar deitadas ou vendo televisão. , ,
-Algumas famílias são fogo, tudo é motivo de briga.
- Já imaginou, Luiz, se todas as mães do circo de Roma tivessem
desistido de ser cristãs? Hoje não teríamos exemplos a serem seguidos.. '
-Tem razão, mas os cristãos de hoje são tão fraquinhos...
-Falou muito bem: fracos, muito fracos. Temem amar a Deus e servir
o próximo. Não sabem eles o tempo que estão perdendo.
-Irmã Marry, convivendo com o cotidiano dos encarnados, percebo
< > quanto é difícil levar a eles as noções de responsabilidade com os trabalhos
do Cristo. Se dizemos que seus filhos estão passando dos limites, eles acham
que estamos falando para os dos outros, não para os filhos deles. Se pedimos
25
para fazerem caridade, eles julgam que é para o vizinho e não para eles..
Como vê, irmã, a cada dia o trabalho dos Espíritos está ficando mais difícil.
- Luiz, não podemos desistir. O Cristo até hoje espera por uma Humanidade
renovada e, lutando junto a Ele, também estaremos lutando pela
nossa melhoria. Agora, infelizes são todos aqueles que ouvem, lêem, têm
contato com os Espíritos, mas nada fazem para se tornar melhores. Acreditamos,
Luiz, que para usufruir as bênçãos sob o reino de Deus, é preciso que
comecemos a cultivar o amor em nossos corações e fazer do próximo um
irmão em Cristo. Sem essa mudança interior não existe paz em nossa consciência.
- Irmã Marry, sabemos que a Doutrina Espírita passa por uma fase
difícil, com desentendimento até entre federações. O que está acontecendo?
-Muito simples: falta de humildade. Os que reclamam desse ou daquele
irmão não têm uma alma humilde, porque só nos melindramos quando
alguém nos fere o amor próprio. Se andamos direito, se servimos o Cristo,
dificilmente encontramos tempo para as brigas.
-A irmã está por fora, temos visto cada cena em Casas Espíritas por
causa de posto na diretoria, que tirariam Allan Kardec do túmulo!... Porque
nessas Casas, a pureza doutrinária está bem longe.
-Nesses dias que ficaremos juntos, Luiz, teremos oportunidade de
estudar o comportamento de alguns ditos religiosos, aqueles que falam "Senhor,
Senhor", mas distante se encontram dele.
- De todas as religiões, ou só dos espíritas?
- Trataremos de estudar o comportamento dos filhos de Deus, das ovelhas de Jesus.
- Irmã, confesso que estou curioso.
* - Para começar, vamos a uma conhecida Casa Espírita. <
- Só nós dois? Cadê a turma?
- Que turma, Luiz?
- Sempre nos nossos trabalhos formávamos uma equipe.
- Por enquanto, estaremos, nós dois, analisando os comportamentos.
- Irmã, este livro vai ser proibido para menores de dezoito anos.
Ela sorriu: ;; ,
-Tem razão, ele irá mexer com muitas consciências.
Marry andava ligeiro e, por mais que eu desejasse alcançá-la, ia ficando
para trás. Em dado momento, parei, respirando forte. Ela se comunicou
telepaticamente comigo, alertando-me para a concentração. Não conseguia
alcançá-la, porque fiquei preocupado ao perceber que ela levitava, deslocando-se
com uma rapidez tremenda.
- Luiz, preste atenção na sua respiração e deixe sua mente livre;
movimente os braços e as pernas como se estivesse andando no ar. Cerre os
olhos por um momento e siga-me. Não se importe com os meus passos,
importe-se com a sua vontade de prosseguir viagem.
Agi conforme a orientação e confesso que foi a melhor experiência
que já tive. E veja só: embora já tenha feito o curso de levitação, nada se
compara ao que senti ao seguir Marry, que, mentalmente, disse-me:
- Parabéns! O sucesso do ser nasce da grande vontade de aprender.
Os fracos reclamam, choram e fogem, deixando sempre para trás tarefas
inacabadas. Os fortes são todos aqueles que sempre lutam pelas vitórias do
seu Espírito.
com a vontade de segui-la, nem percebi que chegamos a um lugar
estranho; parecia uma chácara, uma fazenda, ou melhor, um novo mundo,
composto de muitas árvores, fontes, cascatas, animais, flores e pedreira. Marry
pediu permissão para entrar e, quando o fizemos, julguei que estivesse no
"Éden", tal a maravilha do lugar. Parecia que ali estavam os cientistas do
plano físico; todos eles lembravam médicos, só que não estavam todos de
branco: uns vestiam jaleco azul, outros, verde, amarelo, prata, ouro, diversas
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cores. O lugar era lindíssimo, um paraíso, tamanha a sua beleza. Os animais pareciam irreais, tal a sua candura.
Nisso, Cristone levou-nos até uma área montanhosa, composta de
pedras das mais belas cores. Notei que estas pedras estavam ligadas a algumas
pedras do plano físico, como se unidas por uma força magnética. Enquanto
olhávamos aquelas pedras, minha retina espiritual se alongou até as
pedreiras, que eram vistas com um círculo de luz. A luz envolvia todas as
pedras que estavam ao nosso lado, que não eram iguais às do plano físico.
Era como se aquelas essências espirituais, de um momento para o outro, se
tornassem focos de luz. Vimos ainda as pedras perderem o magnetismo,
"morrerem". Difícil de explicar. Vamos desenhar:
Pedra "morta"
Por isso encerramos nosso livro Amigo e Mestre com a passagem da
pedra sobre a rocha, quando o Cristo disse ao homem que se ele não deixasse
a dureza do seu coração se transformar em amor, seria deportado para
outro planeta, porque este planeta Terra seria herdado pelos pobres de espírito
e pelos simples; que aquele que construisse a sua casa - corpo
perispiritual - sobre uma pedra, uma rocha firme, chegaria à perfeição.
Somente quem construir o reino de Deus no coração será considerado
homem prudente e beneficiado por sua transformação. As águas da dor não
irão derrubar a sua casa mental. Para que o homem melhorasse foi que Jesus
veio à Terra, e com que alegria recitou o Sermão do Monte, código moral de
conduta da a Humanidade!
Nem falava, de tão emocionado. Quando consegui me comunicar, só
o fiz mentalmente, perguntando para Marry:
- Aqui é o lugar onde as essências espirituais sofrem a metamorfose
para passar a um novo reino?
- Não. É um dos inúmeros locais para onde são levadas as essências.
Estamos na primeira estação, quando os técnicos, os Espíritos prepostos,
retiram a essência divina-aquela que passou pelas mãos do Criador-da
matéria chamada pedra.
- Irmã, o primeiro estágio do Espírito é num bloco de pedra?
- Deus, o Divino Escultor, primeiro trabalha a Sua peça, coloca o
Seu hálito, o Seu amor, e vai dando-lhe vida.
Olhava, paralisado, aquele ato do Criador: a essência da vida sendo
ali tratada por Espíritos capacitados, naqueles laboratórios espirituais. Olhei
ao redor e percebi o quanto era importante a nossa tarefa. Estávamos ali
diante da mais bonita transformação: um bloco frio, chamado pedra, caminhando
em direção à evolução.
- Para onde será levada a essência espiritual? perguntei.
- Será levada para outro laboratório, disse Marry.
29
- Podemos ir até lá?
-Não. Só nos é permitido atingir este primeiro estágio. E isto lhe foi
concedido porque a sua tarefa é muito grande: levar aos encarnados o chamado
à responsabilidade, como filhos de Deus que são. Os seus livros funcionam
como um anzol, pescando almas; eles são simples, porque simples são
as coisas de Deus.
Continuei olhando a essência espiritual da pedra e me emocionei. Quando
as lágrimas iam cair, a mão de um dos técnicos segurou bem forte a minha
e disse:
- O êxito do seu trabalho vai depender do seu equilíbrio. Busque na
oração a força do Alto, porque o caminho da evolução do homem estará
diante dos seus olhos somente se eles tiverem a humildade verdadeira para
divisá-lo nas coisas simples que estarão à sua frente. Jesus não quis revelar
aos doutores a Sua doutrina, e sim aos simples de coração. Por isso hoje
você aqui está, diante de um fato importante nas nossas vidas: a evolução do ser.
E continuou a fazer o seu trabalho. Marry me convidou a sair daquele
lugar maravilhoso, deslumbrante, onde a presença de Deus iluminava e fazia
ressoar em nossos ouvidos, pelos ventos daquele suave lugar, uma canção
de ninar que nunca tive a oportunidade de ouvir. Tentei abraçar Marry, mas
ela pediu que eu fosse esperá-la em um dos imensos jardins daquele lugar.
Capítulo II
A BUSCA DA REFORMA INTERIOR
Enquanto estava ali sentado, na hera, uma flor pareceu balançar, como
se estivesse dando-me bom-dia. Cerrei os olhos como para não enxergá-la,
mas que nada! Ela estava dentro de minha retina. Abri os olhos e ela,
galantemente, pareceu curvar-se. Cumprimentei-a, como fazia Francisco de Assis:
-Boa-tarde, irmã flor!
Ela continuou quietinha. Nisso, Marry, que havia se aproximado, aqueriu,
dizendo:
- Não espere, Luiz, que as flores daqui falem.
-Mas ela me cumprimentou...
-Irmão, esta flor é somente uma espécie vegetal que, no plano físico,
floresce na Ásia. Ela possui uma sensibilidade que a leva a se curvar diante
do magnetismo humano.
-Então a danadinha não se curva para os animais?
- Não, ela cumprimenta apenas os homens.
Levantei-me e lhe dei continência, dizendo: ,..,,,... ,
-Boa-tarde, linda flor dos meus sonhos.
Os outros irmãos que ali se encontravam sorriram, dizendo:
- Boa-tarde, Luiz Sérgio. Volte sempre, aqui estaremos ao inteiro
dispor daqueles que desejarem conhecer a escalada de um Espírito.
Marry nos apresentou:
- Luiz, este é Gerald, um dos encarregados deste viveiro divino.
Olhei os outros e eles fizeram reverência. Confesso que meu coração
batia bem forte, e à medida que eles nos falavam sobre a beleza da vida e a
grandeza de Deus, eu nem tinha condição de pedir explicação, mas Gerald
nos elucidou:
- No dia em que a Doutrina dos Espíritos for melhor compreendida,
os próprios espíritas procurarão a melhoria interior a cada minuto,
porque irão ter a certeza de que Deus não brinca com as Suas criaturas.
A partir do momento da sua Criação, cada ser tem de lutar para crescer
em moralidade e intelectualidade. Sem essa luta, de nada vale pertencer
a esta ou àquela religião. O querido Mestre Jesus Cristo, chamado carinhosamente
de Jesus de Nazaré, quando inquirido pelo mancebo rico
sobre que obras boas deveria fazer para alcançar a vida eterna, em
Mateus, Cap. XIX, v. 16-21, respondeu: Por que me perguntas tu o
que é bom? bom, só Deus o é. Se queres entrar na vida, guarda os
mandamentos. Perguntou-lhe, então, o jovem rico, quais eram eles. Jesus
respondeu: Não matarás; não adulterarás; não furtarás; não dirás
falso testemunho; honra a teu pai e a tua mãe; amarás o teu
próximo como a ti mesmo. O jovem lhe disse que tudo isso havia guardado;
que lhe faltaria ainda? Disse-lhe então Jesus: Se queres ser perfeito,
vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro
no céu; e vem, segue-me. E o jovem rico, assustado, virou as costas
aos ensinos do professor da Humanidade, o filho de Deus, o Seu verbo.
Como o jovem mancebo, muitos de nós viramos as costas aos
ensinamentos do Alto. Alguns, como o mancebo, até julgam que praticam
os mandamentos de Deus, mas quando convidados à reforma íntima,
fogem correndo, somente porque terão de amar o próximo.
32
-Dedicar-se ao próximo-continuou Gerald - torna-se uma cruz
pesada para ombros corroídos pelo orgulho, pelo egoísmo e pela vaidade.
Não existe outro caminho a não ser este, o da escalada do Espírito, e feliz
aquele que não se detém quando escuta o chamado e procura tornar-se melhor.
- Irmão, à medida que amadurece, o Espírito se sente mais feliz em
poder ser útil?
- Sim, e considera tudo o que seja inútil como ilusão e perda de
tempo. Amar e servir são as diretrizes do Espírito que já se conscientizou de
que não importa quando, mas que todos os Espíritos irão alcançar a perfeição.
Aqueles que, mesmo no corpo físico, dividem a sua felicidade com seus
companheiros de evolução terão sempre a ajuda dos mensageiros de Deus;
feito jatos de luz sobre seus passos, fortalecendo-os para a caminhada mais
corriigir nlpida. Irmão, só a Doutrina Espírita ensina que cada Espírito tem responsabilidades intransferíveis. Se ela não ensinasse que a morte no corpo físico
não
..santifica ninguém nem opera milagres, teria outro nome, e não Doutrina Espírita,
Doutrina dos Espíritos. Ela aí está, falando da vida física, como se deve
vivê-la, fazendo revelações sobre o que se passa na verdadeira pátria. A
doutrina tem explicação para tudo porque, ao codificar o Espiritismo, Kardec
recebeu a chave do túmulo e a entregou a todos aqueles que desejam estudar
o que ontem era mistério.
- Irmão, muitos que se dizem espíritas ainda nada sabem sobre os Espíritos.
-Tem razão, apenas se preocupam com as comunicações dos Espíritos.
A responsabilidade de um dirigente espírita é muito grande, porque
está em suas mãos o mapa do caminho evolutivo; se ele não ensinar bem este
caminho, muitos buscarão os atalhos e, nesses atalhos, o que encontrarão?
- Quando Allan Kardec codificou o Espiritismo, não imaginou quão
distante a Humanidade ainda estava de compreender a pureza doutrinária...
- Luiz Sérgio, o que está atrapalhando a Doutrina Espírita é a pressa
de alguns que nela adentram. Mal acabam de chegar à Casa Espírita, já
33
desejam ajudar os espíritos sofredores. Uma Casa mal dirigida não incentiva
o iniciante espírita à reforma íntima, a mudar o que antes para ele era certo.
Sem essa mudança, o iniciante vai tateando no escuro, sempre em busca dos
fantasmas dos mortos, enquanto no mundo físico a dor, o.desespero e a fome
moram, muitas vezes, ao seu lado.
-Irmão Gerald, há muito está neste lugar?
- Sim, há muito tempo. Mas aqui não só cuidamos das sementes da vida, como também damos aulas para várias turmas que nos buscam.
- Estou deveras encantado com o seu conhecimento do que hoje
vem ocorrendo nas Casas Espíritas.
-Há Espíritos que têm missões a cumprir. Uns realizam-nas no plano
espiritual, outros, quando estão no corpo físico. Não importa se temos missões
ou tarefas lá ou cá, importa é que estamos tirando as arestas deixadas
no ontem no nosso perispírito e a cada dia tentando lavá-lo no sangue do Cordeiro.
-Não sabemos por que muitos espiritas não desejam mudar, mesmo
possuindo bastante conhecimento. São aqueles que julgam que os bons conselhos
dos Espíritos não são para eles, sim para os outros.
- Luiz, existem Casa Espíritas que não aceitam os conselhos dos
Espíritos. Quando estes as alertam, dizem que os Espíritos nada entendem
do que se passa no mundo físico. Por que, então, essas Casas se dizem
espíritas? As Casas Espíritas são dos Espíritos, logo, lugares onde deveriam
ser respeitados. Ou será que os Espíritos podem se manifestar nas igrejas
católicas, protestantes e outras mais? Ou então devemos mudar o nome da
nossa Doutrina, porque não queremos nela os Espíritos...
- Irmão, e a previsão de Joel? E o Pentecostes?
- Luiz Sérgio, enquanto os espíritas expulsam os Espíritos de suas
Casas, as igrejas cada vez mais falam deles. Umas chamam os Espíritos superiores
de santos. Muitas Casas Espíritas dizem que Espíritos bons não se
comunicam, enquanto sabemos que os Espíritos purificados recebem as
34
ordens diretamente de Deus para transmiti-las a todo o Universo, velando pela
sua execução. Esses Espíritos são encarregados de dirigir, nos diversos setores
evolutivos do gênero humano, tarefas específicas cujo objetivo é contribuir
para o progresso da Humanidade. Não compreendemos quem se diz
espírita mas não gosta dos Espíritos. Torna-se preciso educar o homem para
que ele tenha sensibilidade para dar condição aos Espíritos de se manifestar.
Que se melhore a Casa Espírita, elucidando os seus freqüentadores, e virão
os Espíritos bons instruir os homens, ajudando-os no seu progresso. Assim,
as instruções espirituais resplandecerão disciplina e amor. Em toda Casa Espírita
bem assistida encontramos Espíritos e encarnados desempenhando tarefas de menor ou maior importância, mas todos sendo úteis.
- Como o irmão está certo!
- Luiz, conhece-se a árvore pelos frutos e árvore seca não é apedrejada;
os que atiram pedras são todos aqueles que não encontram tempo para
semear.
Marry, que até ali nos ouvia, falou:
-Está na hora de nos retirarmos. Logo aqui voltaremos.
-Irmão, vejo que aqui se encontram essências espirituais dos minerais
e de outros reinos também.
- Sim, mas aqui só tratamos do reino mineral.
- E por que há tantas flores?
- Seria muito árido o nosso viveiro se nele só existissem rochas. Em
todos os mundos a natureza se faz presente, mesmo nos mais primitivos.
Passamos a mão na testa, nada compreendendo. Os irmãos nos cumprimentaram
e foram se retirando, e nós também, em direção contrária.
35
Capítulo III
A EVOLUÇÃO DA ESSÊNCIA ESPIRITUAL
Vendo a preocupação no meu semblante, Marry, sorrindo, indagou-me:
- Deseja alguma explicação?
- Sim, estou meio apatetado, é muito para minha cabeça. Estamos
em um mundo onde a essência espiritual é preparada para o estado de espírito formado?
- Mais ou menos. Este é um lugar de onde são encaminhadas as
essências para outros reinos; mas é apenas uma estação, onde as essências
estão de passagem.
-Irmã Marry, é um cemitério do reino mineral?
Ela sorriu.
- Não, cemitério, não. Podemos chamá-lo de hospital das rochas.
- Irmã, quando a pedra é lascada, a essência parte para cá?
- Ela é trazida não somente para cá, pois lugares como este existen|
aos milhares pelo Universo.
-Podemos dizer que a pedra que ficou no plano físico "morreu"?
- A que se separou da pedreira, sim. A pedra separada da pedreira
é apenas pedra, sem essência espiritual. Quando a essência espiritual da pedra
é retirada, é levada aos laboratórios do mundo espiritual, como daqui
também partem as essências para materializarem-se no mineral, onde aguardam
o momento favorável para se desenvolverem. Mas isso só acontece
quando a pedreira já está preparada.
- O mesmo ocorre com as plantas?
- Sim, mas não com todas.
-Em quais?
- Por exemplo, nas árvores milenares.
- Não compreendi: como pode ocorrer a evolução da essência, se
umas ficam muito tempo e outras tempo diminuto?
-Tudo obedece a um tempo fixado por Deus.
-Explique-nos, irmã, para um melhor aproveitamento meu e do leitor.
- Cada essência tem o tempo certo de ficar no seu reino, nenhuma
sai antes do tempo.
- E se a pedra for lascada antes do tempo daquela essência permanecer
no reino mineral?
- Passa para outra em formação, assim como nos vegetais. Tudo
obedece ao mundo harmonioso de Deus, Ele é o regente desta bela orquestra
sinfônica, chamada vida.
- Irmã Marry, então só o homem morre antes do tempo?
- Vamos devagar. Estamos estudando o reino mineral, e o irmão já
deseja conhecer o reino nominal? JUÍM i uu •
- Desculpe.
A pressa é a minha pior inimiga.
Ela sorriu e a minha curiosidade aumentava cada vez mais.
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-Irmã, então nessas pedrinhas que encontramos no caminho do plano
físico não existem essências espirituais?
- Sim, você está certo.
- É difícil compreender a problemática dos três reinos.
- Tem razão, Luiz. É um assunto sério mas que todo estudioso da
Doutrina deve conhecer. Só assim lutará pela perfeição.
-Posso fazer mais uma pergunta? .; ,, , ; " ;
- Sim, estamos aqui para ajudá-lo.
-A essência espiritual, isto é, o espírito em formação, quando reside
no mineral é uma individualidade?
- Não do modo que você imagina.
- Sabe a irmã como imagino?
- Sim: que em cada pedreira só existe uma essência espiritual.
-Tem razão, é assim que penso. Pode dizer-me como funciona?
- Irmão, para fecundar um óvulo, existem vários espermatozóides,
mas só alguns chegam a se tornarem fetos. Hoje presenciamos a fecundação
de vários óvulos; vários espermatozóides chegam até o órgão feminino. Quando
há a fecundação, todos os fetos ficam ali alojados, convivendo, recebendo
da mãe o fluido da vida. Na pedreira, acontece o mesmo: várias essências
são ali colocadas. Umas "morrem" antes do tempo, outras prosseguem a caminhada.
- Essas que morrem perdem a oportunidade?
-Não. Lembre-se de que um dos fetos de uma gravidez múltipla que
não sobrevive não perde a encarnação; se isso acontecer, existe uma causa.
No reino mineral, a essência espiritual é assistida por Espíritos capacitados
que, atentos, dela cuidam. Morto o mineral, a essência espiritual é transportada
para vários pontos que existem no Universo, preparados para cooperar
com a marcha progressiva desses Espíritos em formação.
39
-Irmã, podemos comparar esses lugares como sendo viveiros capacitados
para manterem com vida as sementes divinas?
-Tem razão, a essência espiritual que se encontra no mineral é apenas
uma diminuta chama, mas muito resguardada por Deus, chama esta que
nos faz lembrar a célula-óvulo tornando-se feto. É o crescimento dos seres.
A essência espiritual que dorme no mineral ganhará no amanhã a sensação,
quando se materializar no reino vegetal.
- Irmã, gostaria de voltar novamente ao "paraíso", pois fui pego de
surpresa. Quando convidado a este trabalho, não julgava que trataríamos
desse assunto tão sério.
-Luiz Sérgio, voltaremos lá de outras vezes, mas agora temos de dar
prosseguimento aos nossos estudos.
-Cada essência é resguardada por um grupo de bons Espíritos, irmã?
- Você conheceu vários Espíritos abnegados que têm sob as suas
responsabilidades as essências que dormem no reino mineral. Esses irmãos
são Espíritos capacitados, grandes conhecedores dos fluidos magnéticos.
-Qualquer um pode trabalhar nesses lugares?
- Não. Foge ao nosso conhecimento a evolução desses irmãos. Só
Sabemos que são auxiliares de Deus.
-Pensando bem, Marry, não é tão difícil compreender a evolução do
Espírito. É igual à evolução do corpo humano. Primeiro somos ovo, depois
feto, depois bebê; nascemos, vamos crescendo até ficar adultos, depois envelhecemos
e desencarnamos. A essência espiritual, quando no mineral,
corresponde à célula-ovo que está no ventre da nossa mãe Natureza. Como
vegetal, está virando bebê. Quando nasce, torna-se criança, é o mesmo que
estar no reino animal: é princípio inteligente, mas criança ainda, sem responsabilidade
e ainda tateando nos caminhos da vida. O mundo hominal é a
responsabilidade, o saber, o crescimento moral e intelectual, enfim, o livrearbítrio.
Tudo igualzinho, irmã, e cada matéria que revestiu o Espírito em
formação torna-se em despojos utilizados pela humanidade. Retirada a
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essência espiritual, o princípio inteligente, ou o Espírito já formado, a matéria
que os revestiu continua cooperando com a harmonia do Universo. São aproveitados
para a marcha progressiva dos seres.
- Irmão Luiz Sérgio, Deus criou o Espírito para progredir. A Sua
bondade é tamanha que, mesmo possuindo o poder da plenitude, criou o
Hspírito simples e ignorante para que lutasse para progredir, mas continuou,
como Pai que é, cuidando de todos com desvelo. Se o homem parasse para
lhe auto-analisar, ele veria como é grande a sua responsabilidade para com
ele e o seu próximo. Sendo mais fácil não aceitar a verdade da existência
de Deus e a responsabilidade para com Suas leis, o homem se transviou
pelas encruzilhadas da vida na matéria.
- Irmã, acho que o que falta à Humanidade é o conhecimento da
morte. Falta aos homens o conhecimento de onde vêm e para onde vão,
que além do túmulo existe vida semelhante à que existe no plano físico.
- Não é só isso, Luiz, o que o homem precisa. Muitos não procuram
se harmonizar no amor. Mesmo conhecendo a pluralidade das vidas sucessivas,
continuam duros, avaros, maledicentes, enfim, bem distantes de um homem
de bem. Não basta só o conhecimento, precisamos da prática. A caridade
é o único caminho para a perfeição. E ela deve se tornar para cada ser
a companhia de todas as horas. Conhece-se o filho de Deus pelas suas atitudes.
Não basta bater no peito e falar mansinho as escrituras; o que torna bom
o homem é o conjunto das suas pequenas virtudes. Enquanto os ditos religiosos
só baterem no peito, trancafiados em seus templos, deixarão passar a
oportunidade de reencontrar Jesus, que está sempre nos lugares de sofrimento.
Portanto, Luiz, não basta conhecer a Doutrina Espírita, o que se torna
preciso é um grande conhecimento das próprias necessidades de reforma
interior. Sendo a alma imortal, precisa o homem se auto-educar. Enquanto
ele estiver preocupado com a evolução do seu próximo, estará deixando a
sua própria oportunidade de crescimento para trás.
- A irmã tem razão. Às vezes a pessoa é bondosa, é carinhosa, mas
é difícil, intransigente, dura e às vezes até injusta. Por quê? Simplesmente
41
porque não é humilde. O humilde é bondoso, é amigo, é desprendido.. *
- Luiz, o homem do final deste milênio precisa buscar as coisas de
Deus. Estamos próximos do final do século, e nunca se viu tantos religiosos
preocupados com a sua igreja, considerando-a a maior da Terra, enquanto a
família está sendo exterminada, os jovens morrendo de tristeza, as crianças
cada vez mais abandonadas pelos pais. Enquanto os religiosos brigam, sem
uma união cristã, os Espíritos das trevas alegram-se junto aos corações invigilantes.
- O que a irmã acha que se pode fazer para levar o homem a se autoeducar?
- É preciso descobrir o Cristo integralmente. No dia em que o homem
viver o código da moral cristã, que se encontra no Sermão da Montanha,
a Terra estará transformada.
- Irmã, quando estávamos recebendo as aulas sobre o Sermão do
Monte, eu ficava inebriado com a grandeza de Jesus, a Sua humildade em
transmitir aos Seus irmãos errados, que se encontram neste planeta de expiação
e provas, o valor do respeito às leis de Deus.
- Quando o Cristo pronunciou o Sermão do Monte, Ele apenas
estava explicando cada versículo do Decálogo. E com que simplicidade o
fez! O homem não precisa decorar todos os livros sobre conduta humana,
basta que respeite o Decálogo e procure ver o que nos ensina o Mestre
Jesus. Em Mateus, Capítulo V, versículo 17, encontramos: Não julgueis
que vim abolir a lei e os profetas; não os vim destruir, mas sim para os
cumprir. Que grandeza de palavras! O Cristo veio à Terra como Mestre do
amor para ensinar o homem a se tornar bondoso. É como se Ele, o Cristo, ao
descer ao plano físico, tivesse descido ao inferno. Mesmo assim, Ele chegou
até os pecadores e, com amor, tão bem pregou a Sua doutrina. Alguns se
tornaram mártires, outros, traidores, ainda assim Ele nos enviou o Consolador,
! N.E. -Este livro foi psicografado no ano de 1998.
42
que é a doutrina Espírita. Os bons Espíritos ensinam ao homem que Deus não quer
sacrifício, mas pede renúncia; que sem reforma interior não existe crescimento
espiritual e que cada ser está no corpo físico para evoluir. Caso contrário,
perde o sentido a necessidade das vidas sucessivas. O homem tem de evoluir,
porque essa é a lei. E para curar as almas doentes existem os mensageiros
de Deus, que são todos aqueles que se tornaram exemplos de caridade.
43
Capítulo IV
A RENOVAÇÃO DA TERRA
Após breve pausa, retomei minha conversa com Marry:
- Irmã, não posso deixar de lembrar o que aprendemos sobre o
mineral. Por isso a preocupação dos Espíritos mensageiros com a evolução
do homem, principalmente quando se aproxima o final do milênio?
- Sim, Luiz. A Terra se aproxima da regeneração, e ai dos preguiçosos,
dos que só pregam iniqüidades, esses serão levados aos mundos em
formação, onde verão o ranger dos dentes.
- Será que existe espírita que nada conhece sobre a deportação dos
pecadores para outro planeta?
- Se ainda não conhece esta verdade, precisa urgente buscá-la; e ela
não é mostrada somente nos livros espíritas, pois foi predita por Jesus no
Sermão do Monte, em Mateus, Capítulo V, versículo 4: Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra. E o tempo está chegando. Será que
ninguém já parou para pensar que o ano 2000 será o último ano do século e
que nenhum encarnado estará no corpo atual para ver a virada do próximo
milênio?
-Mas o Espírito pode estar com um outro corpo.
- Sim, se a Terra ainda for planeta de expiação e prova.
- Explique, por favor, irmã.
-Ninguém sabe quando ela passará para um novo estágio e quem
serão os seus herdeiros. Por isso é que os Espíritos pedem aos encarnados:
vamos mudar, vamos amar, vamos seguir o Cristo.
- Por isso sempre nas minhas orações, ao cerrar meus olhos, digo
baixinho, para que só Ele, o nosso Amigo e Mestre, me escute: Senhor,
ensina-me a viver de amor.
- Luiz, se todos lutassem para viver de amor, a perfeição tomaria
conta de seus espíritos. O reino que Jesus prega manifesta-se claramente aos
homens na palavra, nas obras e na pessoa do Cristo. Agora, para segui-Lo,
é necessário que nos tornemos humildes, bondosos, caridosos, irmãos uns
dos outros. Mesmo o homem espírita, muitas vezes é admirador da Doutrina,
e não um fiel seguidor do que ela nos ensina de bom. Muitos admiram a
coragem de Allan Kardec, mas não procuram transformar as suas Casas
Espíritas em cascatas de conhecimento para os seus freqüentadores, que
muitas vezes só recebem orientação sobre Espíritos sofridos. A finalidade
das Casas Espíritas é transformar o homem, fazer dele um ser distante da
imperfeição, porque só a Doutrina Espírita nos ensina que tudo o que se
planta se colhe. Deixem de culpar os Espíritos pelos desequilíbrios dos encarnados;
se existem Espíritos trevosos junto aos encarnados, é porque o
homem os alimenta de ódio e iniqüidades. No dia em que o homem tornar-se
bondoso, os Espíritos não irão mais perambular pelos canteiros do mundo
físico. Mudem os homens, e toda a atmosfera da Terra será mudada. Para
que isso venha a acontecer é que Jesus prometeu o Consolador. A Doutrina
Espírita não é mais uma religião para fazer fermentar a vaidade entre os homens
nem fortalecer sacerdotes. Ela veio para abrir os túmulos e ressuscitar
os mortos. E estes gritarão bem forte para seus irmãos e familiares: levantem-se
e andem, porque a morte não existe; aproveitem a atual encarnação para
se livrarem da carga pesada dos erros que carregam nas costas há milhares
de anos. A reencarnação é a mão de Deus afagando nossos espíritos,
46
dando-nos forças para novas jornadas, em uma nova vida. Só a Doutrina coloca
o homem diante de si mesmo, só ela nos mostra as nossas imperfeições. Se
os espíritas não entenderem a Doutrina como um remédio que cura as almas
doentes, muitos passarão por ela, porém será apenas mais um lugar onde se
fala sobre o Cristo, mas não se colocam ao lado dele. Enquanto levantarem
Centros Espíritas para educar Espíritos desencarnados, estarão longe da real
finalidade do Espiritismo, que é a de transformar os homens. Para isso, torna-se
preciso a orientação dos Espíritos desencarnados missionários, que
estão ao lado dos homens para ajudá-los. Sem esses orientadores, dificilmente
a Casa, dita Espírita, terá êxito, pois em Casa Espírita dirigida somente
pelos homens haverá briga, luta pelo poder, separações. Mas se for um
templo de Jesus, tendo Ele como dirigente e os Seus mensageiros como
colaboradores, a Casa Espírita terá boa orientação e disciplina. Hoje, alguns
espíritas só desejam levantar Centros Espíritas e a vaidade leva muitos ditos
espíritas a brigar pela presidência da Casa, ou a disputar cargos em sua diretoria.
- E o Cristo, onde está?
- Como o Espírito sopra onde quer, Ele, o Mestre, está ao lado de
uma ou duas pessoas que oram em Seu nome.
- Irmã, o espírita não deveria se expor a essas briguinhas de comadres;
elas acontecem por falta de amor a Deus e ao próximo, não acha?
- O que leva as pessoas a não se entenderem é a falta de trabalho. Se
todos, ao chegarem à Casa Espírita, se entregassem aos trabalhos de caridade,
não encontrariam tempo para melindres.
- Irmã Marry, isso acontece porque quem busca a Doutrina Espírita
quase nada faz para se melhorar. Se é avaro, continua avaro, se é criador de
caso, continua criando casos, e assim vai. Transformação, que é bom, nada.
E a finalidade da Doutrina é transformar o homem. Se este não se autoeducar,
jamais irá compreender a doutrina do Cristo, que foi muito claro
quando disse: E todo o que deixar, por amor do meu nome, a casa ou os
irmãos, ou as irmãs, ou o pai, ou a mãe, ou os filhos, ou as fazendas,
47
receba cento por um, e possua a vida eterna (Mateus, Capítulo XIX,
versículo 29). Aqui vemos que Pedro disse: Eis aqui estamos nós que deixamos
tudo e te seguimos. Jesus lhe respondeu: Em verdade vos digo
que ninguém há que uma vez que deixou pelo reino de Deus a casa ou os
pais, ou os irmãos, ou a mulher, ou os filhos, logo neste mundo não
receba muito mais, no século futuro a vida Eterna (Lucas, Capítulo XVIII,
v. 28-30). Parecem estranhas estas palavras pronunciadas por Jesus, que
em O Evangelho Segundo o Espiritismo Kardec colocou no Capítulo XIII,
com o nome de Moral Estranha. Porém, para os bons servidores não parecem estranhas essas palavras de Jesus, porque o bom servidor não fica olhando
para trás quando está diante do Mestre; ele sempre encontra tempo para
dedicar-se ao trabalho ao próximo. A criatura que se propõe a seguir Jesus
tem de multiplicar-se em amor ao próximo, que são seus pais, seus irmãos,
marido, mulher, enfim, os nossos domésticos.
- Jesus já previa que os Seus seguidores iriam ouvir queixas como
estas: "você é um fanático, está deixando a sua família sem a sua presença",
e os domésticos reclamando, reclamando, às vezes até com ódio dos irmãos
de fé. Mas se o seguidor do Cristo tiver fé raciocinada, ele vai recordar estas
palavras do Mestre: Vós cuidais que eu vim trazer a paz à Terra? Não
vos digo eu, mas separação, porque de hoje em diante haverá, numma
mesma casa, cinco pessoas divididas, três contra duas, e duas contra
três. Estarão divididos: o pai contra o filho, e o filho contra seu pai;
mãe contra afilha e afilha contra a mãe, e a sogra contra sua nora, e
nora contra sua sogra. E os inimigos do homem serão os seus mesmos
domésticos (Mateus, Capítulo X, versículos 34-36).
- O Cristo é o Cristo. Como é atual esta passagem! Como hoje
ainda defrontamos com mulheres repreendidas pelos filhos, pelos marido|B|
Elas podem ir para qualquer lugar, mas ai se buscarem uma Casa Espírita.
Os filhos reclamarão a sua presença, o marido ameaçará até se separar. Muitas
até lutam em prol do Cristo, mas, infelizmente, a maioria acha mais fácil ficar
em casa, à frente do fogão ou da televisão, sem lutar pelos seus direitos
direito este de trilhar o caminho da perfeição. Fica ainda sendo chamada
48
egoísta e ouvindo os gritos da sua tão bela e unida família. Assim também
vemos filhos que têm de lutar, e muito, contra mães e pais materialistas que,
ao verem os filhos estudando a Doutrina e carregando cestas básicas para os
pobres, sentem-se os mais infelizes dos pais, porque dizem que seus filhos
viraram fanáticos religiosos.
-Essas pessoas são a maioria, os chamados "mornos". Crêem, amam
Jesus, mas como colocar os pés nas Suas pegadas, se mãos mais fortes as
puxam para o chão e as impedem de evoluir? E essas criaturas, nervosas
porque não fazem o que gostariam, tornam-se azedas, não só em seus lares,
mesmo nas Casas religiosas por onde passam. Aquele que adentra a Doutrina
e a deixa entrar na sua vida, porém, este mete a mão no arado e procura só
olhar para frente, no longo e áspero caminho que nos leva à perfeição. O
centro Espírita existe para melhorar o homem, para que ele lute pela sua
liberdade com o Cristo. É na Doutrina que o homem levanta a lápide do
túmulo e adentra o mundo dos Espíritos, mesmo na condição de alma. Mas
para quem a Doutrina é apenas uma brisa que passa, estes estão
deixando passar a grande oportunidade de lutar pela própria melhoria.
- Irmã Marry, achamos que pouco se fala nas Casas Espíritas
sobre a responsabilidade daqueles que as buscam. Vemos várias pessoas
dizerem espíritas só porque vão ao Centro em busca de passes ou
ouvir palestras. Isto é Doutrina? E mais ainda, há aqueles que adoram
contatar o mundo dos Espíritos: são os caçadores de fantasmas, que
tem obsessão nas criaturas sofridas ou subjugadas pela imperfeição.
tem os que aparecem na Casa quando nas reuniões de diretoria.
Somente nessas ocasiões. Isso é Doutrina Espírita? Claro que não. O servidor
Centro trabalha não só nos lugares pobres, como no atendimento as
Pessoas sofridas que buscam a Casa desejando orientação. E não existe
melhor momento que este para se colocar as mãos nos livros da
codificação, para que aquele que deseje se tornar médium encontre a
disciplina para a sua tarefa. Se deixamos as orientações a cargo de pessoas sem caridade, sem humildade, sem disciplina, pouco podemos esperar das mudanças morais
nesse irmão. O trabalho de uma Casa
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espírita deve ser estafante, principalmente em se tratando daqueles que se dizem portadores de mediunidade, não concorda, irmã?
-Hoje, com pesar, vemos pessoas passando por momentos difíceis,
fatos mais que normais na época atual. Voltamos a repetir: estamos no fim do
milênio, não somente do século, portanto, os terríveis dias do Senhor aí estão
chegando. Agora, o que vem acontecendo é que a pessoa sofrida pede uma
orientação para seus males e fica orgulhosa ao recebê-la, pois o orientador
mal esclarecido diz àquela criatura sofrida, sem conhecimento da Doutrina,
que ela é portadora de uma gloriosa mediunidade, ou melhor, de todas as
mediunidades. E esta pessoa, que nada conhece de Espiritismo, resolve "desenvolver"
a mediunidade em casa ou em algum Centro, onde também não
existe estudo da Doutrina. Muitos ainda dizem: para que estudar? Tenho
todas as mediunidades... Pode ser até que tenha, mas a falta de disciplina,
que só o estudo sério oferece ao médium, vai levá-lo a tornar-se mais um
mau representante da Doutrina Espírita, porque ninguém irá perguntar a um
médium desequilibrado se ele conhece as obras básicas, o roteiro a ser seguido
na longa caminhada da evolução. Os ofensores apenas irão dizer: veja,
fulano é médium, é espírita. Enquanto ocorrem esses tristes fatos, os que
lutam por uma Doutrina cristalina, como nos foi entregue pelos Espíritos
codificadores, não devem ficar de braços cruzados.
- Mas o que fazer, Marry?
- Os jornais, os livros, todos precisam orientar os presidentes das
Casas Espíritas para a necessidade do conhecimento doutrinário. Caso contrário,
teremos nos Centros Espíritas crendices, imagens, batucadas, casamentos,
enfim, rituais de outras religiões. A Doutrina Espírita encontrar-se-á
apenas na fachada da Casa; por dentro, será uma salada indigesta.
- Irmã, tenho escrito tanto sobre isso! Dias atrás fui a uma Casa,
bastante conhecida naquela cidade, e fiquei assombrado com a falta de disciplina
no grupo mediúnico: a entrada dos médiuns ocorria mesmo depois de
iniciado o trabalho. Seus componentes podiam sair da sala a qualquer momento:
para ir ao banheiro, beber água, "numa boa".
50
- É inacreditável que em uma Casa, cujo presidente conhece O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns, ocorra tal fato.
• - Irmã, podemos dar uma chegadinha em alguns Centros Espíritas?
- Sim, temos tempo para isso.
-Irmã Marry, estou gostando muito da sua companhia. Posso fazerlhe
uma pergunta?
- Todas que desejar.
- Onde a irmã trabalha?
-Trabalhamos junto aos necessitados; eles nos chamam de mensageiras
de Maria. Mas gostaria de pedir ao irmão que só me chamasse de
Marry; sentimo-nos bem melhor.
- Obrigado, muito obrigado pela confiança em mim depositada.
Espero já ter adquirido maturidade suficiente para não lhe causar constrangimento.
- Não diga isso, Luiz, o irmão é uma bela criança de Jesus. Temos
algumas horas de folga, se desejar, podemos conhecer alguma Casa Espírita..
- Gostaria muito, pois sei que o leitor gosta quando o assunto é grupo
mediúnico.
! E, assim, logo estávamos em um Centro Espírita cuja finalidade era
estudar a Doutrina. Ao chegarmos, notamos que as pessoas conversavam e
riam, como se estivessem em um clube. Os trajes eram os mais sumários possíveis.
- Marry, o que a irmã acha das roupas sumárias nos Centros Espíritas?
- O homem deve trajar-se de acordo com as estações do ano.
No inverno, não podemos estar vestidos como se estivéssemos no verão.
Como podemos usar um sobretudo em pleno verão brasileiro? Assim
também não se concebe as pessoas buscarem os locais de oração
51
trajando roupas sumárias, apropriadas para clubes, praias e piscinas, ou
vestidas como se fossem a casamentos. As Casas Espíritas são hospitais
de almas. Devemos chegar a elas com trajes discretos e que não façam
desviar a atenção dos seus freqüentadores para a nossa pessoa. Freqüentamos
a Casa Espírita para ajudar a nós mesmos e aos Espíritos,
sejam eles bons ou menos evoluídos, e muitas vezes uma roupa por demais
sensual causa transtorno em alguns Espíritos sem evolução. Repetimos:
se não é prudente comparecermos a uma cerimônia com roupa de
banho, por que zangarmos com a diretoria de uma Casa Espírita, quando
esta nos pede roupas decentes?
- A irmã acha certo proibir os homens de adentrar as Casas Espíritas
de bermudas e permitir que as mulheres o façam de minissaia?
- As bermudas, como as ditas minissaias, não são trajes apropriados
para quem deseja orar.
Nisso, não pudemos conter o riso: uma jovem, trajando minúscula
minissaia e um "senhor" decote, ria gostosamente junto ao seu grupo e
alguns Espíritos menores deliciavam-se em tocá-la, o que levava a segurança
espiritual da Casa a um maior trabalho. Nós dois sorrimos, e Marry
comentou:
- Está vendo, Luiz? Os piores obsessores são os encarnados. Eles é
que muitas vezes atormentam os Espíritos que tanto necessitam encontrar
guarida no mundo espiritual.
E a mocinha, toda brejeira, sentindo-se admirada, mais ainda se retorcia
para chamar atenção sobre ela, não sabendo que Espíritos menores eram
também seus admiradores.
- Irmã, muitos acham que não deve haver preocupação com as roupas,
porque a Doutrina Espírita é uma doutrina de respeito ao livre-arbítrio.
- Respeitar o livre-arbítrio não quer dizer cooperar com a indisciplina..
Casa sem disciplina é pasto de obsessores e a conduta dos seus freqüentadores
muito coopera para a boa assistência ou para o desequilíbrio.
52
- Complicado, Marry.
- Tem razão. Todos os presidentes de Centros Espíritas devem
ocupar-se mais com a freqüência de suas Casas. Quantidade não é
qualidade. Muitas vezes, com a vontade de que o Espiritismo cresça, a
casa tudo faz para aumentar, sem critério, a freqüência do público, e não é esse o propósito da Doutrina. Tornamos a repetir: a Casa Espírita é um
hospital de almas; quem a busca deseja curar-se, nem que seja de um
pequeno mal. Para que isso ocorra, precisamos obedecer às normas da
Casa, que devem orientar para a reforma íntima. Se isso não ocorrer, os
freqüentadores da Casa levarão anos e anos somente tomando passes,
sem reforma interior, sem conhecimento e repletos de crendices. Uma
Casa bem orientada opera como um cirurgião plástico, embelezando o
corpo e a alma de seus freqüentadores.
- O corpo, irmã?
- Sim. A alma, estando bela, faz com que o corpo se enriqueça
de fluidos salutares. '
-Tem razão. Conheço um Centro Espírita onde as senhoras não têm
idade, são dinâmicas e lindas.
- A disciplina da alma reconforta o corpo físico. Infeliz do homem
que não se harmoniza. A mente é a condutora do magnetismo. Se ela não
está ligada ao Alto, como o seu dono pode captar o que vem do mundo espiritual?
- E tem neguinho que acha que devemos respeitar o livre-arbítrio e
deixar o Centro ao Deus-dará. Jesus muito bem alertou contra eles: são os
ditos cegos condutores de cegos.
Fomos convidados a adentrar um grupo cujos trabalhos seriam iniciados.
Leram rapidamente O Evangelho Segundo o Espiritismo, fizeram uma prece e
deram início ao trabalho. Um Espírito manifestou-se chorando. Nisso, um dos
médiuns saiu e foi para o banheiro. E assim decorreu o trabalho. Cada hora era
um médium que saía para fazer alguma coisa.
53
- É inaceitável, Sérgio, que isso aconteça em uma Casa que estuda
O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns - comentou Marry.
-E quem disse que eles lêem esses livros?
- Mas deveriam. Sem esses dois livros, nunca compreenderão a
maravilha da Codificação.
- É, Marry, o mal de alguns espíritas é a pressa. Quando alguém
chega à Casa Espírita logo julga que tem de receber Espíritos e
tudo faz para ser encaminhado a um grupo mediúnico. E assim muitos
são acolhidos nos grupos sem preparo, sem o mínimo conhecimento.
Essas pessoas também são fáceis de sair do Espiritismo, basta
alguém lhes falar algumas verdades e pronto, já saíram, e falando
mal.... e,
-Tem razão, são os que se melindram por qualquer coisa.
- Isso acontece porque nada conhecem da Doutrina, julgando
que Espiritismo é um fato sobrenatural. No dia em que todas as Casas
Espíritas adotarem o estudo como a condução da caminhada, não veremos
tantas pessoas perdidas no matagal da ignorância, sonhando sem ter
sonhado, vendo sem ser videntes, desdobrando-se sem nunca terem saído
do corpo. Enfim, os doentes, os falsos profetas. E são eles que tantos
danos causam ao Espiritismo, porque depois vão para as igrejas dizendo-se
espíritas que abandonaram o Espiritismo. Na verdade, nunca foram
espíritas, porque aquele que estuda, que deixa a Doutrina envolverlhe
a alma, jamais a renega. A Doutrina Espírita é o ar daquele que a ama,
é o solo firme por onde se caminha, é a mão amiga que lhe seca as lágrimas,
é o Consolador prometido por Jesus, sempre ao lado dos que precisam.
- E este grupo, o que será dele?
- Não vai demorar muito a acabar. Ele não está curando almas, está
fermentando vaidades e indisciplina.
Seguimos para outras Casas e nos deparamos com outros grupos
54
mediúnicos, mas para nosso pesar, muitos médiuns precisavam de tratamento
psiquiátrico, tanta a fantasia das suas revelações.
-A Doutrina é tão simples, por que o homem deseja complicar tudo?
- Porque muitos gostam das fantasias do sobrenatural.
Vimos tanta mistura nos ditos grupos mediúnicos de algumas Casas
Espíritas, que julguei que estivéssemos em outras seitas, tal a quantidade de crendices.
-Luiz, por hoje chega, certo?
- Sim, Marry, mas o que se pode fazer?
- Ser iniciada urgentemente uma campanha sobre a necessidade
do estudo e do respeito à pureza doutrinária. O Centro Espírita que deseja
conquistar adeptos de outras religiões deve pensar bem antes de
criar o seu estatuto. Achamos melhor dar outro nome ao seu templo,
porque a palavra espírita deve significar um riacho que corre para o mar,
que é Deus. As águas são os homens, que desejam purificar-se para chegar
ao Pai; mas para que isso aconteça, essas águas precisam da pureza
doutrinária, sem detritos, sem poluição, sem crendices. As Casas Espíritas
têm de primar pela fidelidade às obras doutrinárias. Elas ensinam a
simplicidade nas reuniões mediúnicas. Quem não tem critério aceita tudo,
adora amuletos, talismãs, fazem batizados e casamentos nos Centros,
vivem com medo de feitiçarias. Tal pessoa não conhece a Doutrina Espírita,
porque quem a conhece tem a fé tão raciocinada que sua alma eleva-se
acima da matéria.
-Marry, como deve ser a preparação para a tarefa mediúnica de um grupo?
- A preparação deve ser material e espiritual: cuidar da alimentação,
evitar carne de animais, vigiar atos, pensamentos e palavras e manter-se
equilibrado durante todo o dia que antecede a reunião. É aconselhável
chegar quinze minutos antes do início do grupo; se chegar atrasado,
não entrar na sala. Não sair do recinto após iniciados os trabalhos, a
55
não ser em emergência; prestar atenção nos estudos que antecedem a
reunião; evitar conversas, movimentos e ruídos; lutar pela humildade, nunca
desejar demonstrar uma mediunidade gloriosa; lutar pela verdade; estudar
com amor. Bem, Luiz, voltemos agora para os nossos estudos na
Universidade.
- Obrigado, Marry, sempre que puder venha dar uma olhada nas Casas Espíritas.
56
Capítulo V
A BELEZA DA CRIAÇÃO
Caminhando pelo mundo espiritual, logo estávamos em um belo jardim,
cujas flores pareciam-nos falar.
- Marry, isto é o paraíso?
-Parece com o paraíso, Luiz, mas é apenas o Campo da Esperança;
este campo antecede o mundo maravilhoso dos vegetais.
- Agora iremos até o reino vegetal?
- Não precisamente ao reino vegetal, mas ao mundo vegetal; ali ficam
algumas essências, quando desmaterializadas do mundo físico.
Calei-me, tão emocionado me encontrava. Ali ficamos muitas horas
conversando, até que chegou Jean, que nos elucidou sobre a beleza da caminhada
espiritual do ser. Nós o ouvimos, embevecidos:
- Devido à pouca evolução, o ser humano terráqueo ainda não tem
condição de conhecer o princípio das coisas. Mas à medida que progride,
purificando-se e estudando, entende melhor as leis da Natureza. E assim,
pouco a pouco, vai conhecendo tudo sobre a Criação e descobrindo o que
ontem era tido como dogma e como mistério. Na Doutrina Espírita, o homem
que não está preocupado com os fenômenos mediúnicos descobre,
embevecido, a beleza da Criação e a sua responsabilidade perante Deus,
57
na própria perfeição. Busca conhecer
o Universo, a infinidade de mundos que vê e os que não vê, todos os
seres, animados e inanimados, todos os astros que se movem no espaço e os
fluidos. Nessa busca, encontra o Espírito, ser inteligente da criação.. Encontra
também outro elemento de que o Espírito se serve e sobre o qual exerce
sua ação: a matéria, também chamada fluido cósmico universal. São-lhe ensinadas
as modificações e transformações desse fluido, que dão origem à
inumerável variedade de corpos da Natureza; compreende que os mundos
são formados pela condensação da matéria, disseminada no espaço universal,
mas não lhe é revelado quanto tempo os mundos levam para se formar
nem quando eles desaparecerão. A Doutrina nos ensina que Deus renova
estes mundos como renova os seres vivos. Como vemos, na Doutrina muito
há que se aprender, e só buscando os ensinamentos iremos dar valor a Deus
e a Jesus: Deus, por nos ter criado, e Jesus, o modelo de perfeição a ser
atingido. É bom saber que todos nós somos Espíritos, seres inteligentes, evoluindo
nesse Universo de Deus; que não teremos fim e que Deus cria sem
cessar e continua criando e criando, sempre. Deus é o Pai de tudo, Ele criou
os nossos Espíritos e este não é uma coisa qualquer; apesar do Espírito ser
incorpóreo, ele é alguma coisa, substância quintessenciada, sutil, etérea. Ninguém
pode dizer que não é nada. Todos os seres são importantes, porque
foram criados por Ele, Deus, o Pai do Universo. Ninguém pode destruir o
Espírito, porque ele é imortal. Por tudo isso, tem o homem de lutar pela
perfeição e somente a Doutrina Espírita explica o ranger de dentes; somente
ela esclarece que o plantio é livre; a colheita, porém, mais que obrigatória.
Quem toma conhecimento dessas verdades tem de lutar para jogar fora as
amarras da imperfeição. Se a Doutrina coloca o homem defronte de um espelho
cristalino, espelho este que bem reflete suas imperfeições, por que não
lutar para viver no mundo, mas sem se tornar escravo dele?
Jean fez breve pausa, para logo continuar:
- Quantos se dizem espíritas, mas continuam maledicentes, maus colegas,
péssimos chefes de família, orgulhosos, avaros, enfim, tiveram acesso
à fonte da vida plena, mas não tiveram sede de renúncia. Ao espírita não é
58
dado o direito de pisar nas pérolas doutrinárias, principalmente aqueles que
pôs sobre seus ombros a cruz da responsabilidade de uma Casa Espírita,
e existe cada espírita!... Uns não aceitam nas suas Casas as orientações
espirituais; outros, ótimos oradores, combatem o fumo, mas na intimidade
fumam; combatem o álcool, mas nas festinhas familiares gostam de um
vinho ou de uma cerveja; falam sobre caridade, mas na realidade são
avaros. Vivem como se achassem que a vida fosse uma só - a corpórea
-, dando demasiada importância a tudo o que é material. Sabemos que
o avaro, o intransigente, não está plantando amor no seu jardim
encarnatório. Se como espírita reconhece que a vida corpórea é uma
bênção divina, o perdão de Deus, ele aproveita o aprendizado do resgate,
compreendendo que toda dor é temporária e que muito breve, como
Espírito que é, imortal, terá a felicidade plena. Como espíritas sabemos
que o bem que hoje praticamos nos preparará um futuro melhor, e como
a fé é a esperança de vitória, sentir-nos-emos animados e confortados
apesar das lutas, das renúncias e de algumas dores. Considerar-se privilegiado
apenas porque vive em uma Casa Espírita é falta de conhecimento
doutrinário. O espírita tira o melhor proveito das experiências que a
vida lhe dá, enfrentando com paciência e resignação tudo o que venha a
lhe ocorrer. Entretanto, basta cair uma telha da nossa casa e corremos
atrás das crendices, porque achamos que os Espíritos têm obrigação de
nos melhorar o dia-a-dia. Não se conhece nenhum espírita que não lute
pela própria melhoria, fazendo um grande esforço para se tornar bondoso,
caridoso, enfim, um verdadeiro espírita. Para isso, utilizemos nossas
forças, nossa fé, e busquemos conhecimentos, para benefício nosso e do
próximo.
- Jean, por que as Federações Espíritas não lançam uma campanha
de reforma íntima em todos os Centros Espíritas, falando que fora da
caridade não há salvação? Será que com esta campanha não diminuiria a
busca das cabines desobsessivas e dos passes? Essa campanha também
pediria a todos os presidentes dos Centros que lutassem pela pureza
doutrinária. ,,,>,
59
- Luiz, as federações não devem intervir nos Centros; se Deus nos
ofertou o livre-arbítrio, quem são os homens para não respeitá-lo? O que
podem fazer as federações é preparar pessoas com grande elevação moral
para visitar as Casas Espíritas e ensiná-las como viver de amor.
- Seria bom demais se isso acontecesse, mas me faz lembrar de
Francisca Theresa, quando diz: "sinto-me curvada de tanto sonhar".
-Tem razão, Luiz Sérgio-falou Marry. Esse Espírito sonha com a
união de todas as criaturas, sonha com um Espiritismo irmão e alegre, onde
um ombro ampara o outro. Mas o que temos visto? A incompreensão, porque
o caminho estreito se chama humildade. Francisca Theresa apenas pede
fidelidade à Doutrina.
-É, mas é muito mais fácil somente freqüentar as reuniões da Casa e nada fazer por ela.
- Sabe, Marry, acho muito difícil uma pessoa encarnada dedicar-se
de corpo e alma à causa do Cristo. Sempre existirá um empecilho. As coisas
materiais são muito fortes e a família cobra muito.
- O empecilho só existe quando a fé é fraca e o amor ao próximo,
mínimo. Quem veste a túnica da responsabilidade sabe bem aproveitar as vinte e
quatro horas de um dia. Agora, quando não queremos servir ao Cristo, inventamos
desculpas. E não serão as federações que irão nos fazer mudar de idéia.
- Então, não adianta criar grupos de oradores para ensinar os espíritas
a viver de amor?
- Se os freqüentadores de uma Casa forem sempre convidados à
mudança, ela ocorrerá, nem que seja um milímetro - acrescentou Jean.
- Luiz, você está tão desesperançado!... O que houve?
-Nada, Marry, nada. Apenas gostaria que os nossos livros não fossem
apenas umaglomerado de páginas; que o leitor, ao lê-los, viesse a encontrar
um mapa chamado Doutrina Espírita, que o conduzisse aos esclarecimentos
necessários a uma real mudança de pensar.
60
-Bem, amigos, até logo mais, precisamos continuar os nossos trabalhos.
- Não vai juntar-se a nós, Jean?
-Não, Luiz, temos outros afazeres. ;,
E, assim, Jean se despediu. Marry convidou-me à meditação e, cerrando
os olhos, prestei atenção à própria respiração e me vi voando, voando
em direção a Deus e Ele Se apresentou a mim não como um velhinho, mas
como um Pai amoroso que me apertou nos braços e disse baixinho: "não és
uma estrelinha, não és um pássaro, não és uma criança, és mais do que isso
tudo, és um Espírito."
Marry me olhava e percebeu uma lágrima em meus olhos. Acercou-se
de mim e me abraçou bem forte.
- Que Deus tenha piedade de todos os Seus filhos, principalmente os
mais rebeldes, aqueles que lutam para não O conhecer.
E assim fomos ganhando estrada. Num dado momento, pareceu-me
que estávamos saindo do planeta Terra, pois nos encontrávamos diante de
um mapa do Universo, mapa este que representava a distribuição de cerca
de quinze mil e quinhentas galáxias pelo espaço.
- Irmã, que lindo!
- Estamos apenas vendo um pequeno trecho de todo Universo. É
apenas uma ínfima fração de seu volume total. ;
- A Terra é apenas um grão de areia, não é mesmo, Marry?
- Sim, Luiz, a Terra é apenas uma das inúmeras moradas da Casa do Pai.
- Irmã, o Universo é composto de fluidos e também dessa matéria
escura. Como podemos chamá-la?
- Sãofluidos.
-Fluidos,irmã?
- É sim.
-E essas galáxias?
- As galáxias representam apenas uma pequena fração da massa do Universo.
- E a restante?
-Está no que se chama matéria escura. ,
-Entendi, são os fluidos não modificados.
- Sim. Podemos chamar essa massa escura de fluido cósmico
universal; as modificações e transformações desse fluido é que dão origem
à inumerável variedade dos corpos da Natureza. Utilizando-se das
formas mais sutis do fluido cósmico universal é que o Espírito consegue
agir sobre a matéria que conhecemos na Terra. Essa matéria escura, que
vemos ao redor das galáxias, são partículas de massas escuras que encontramos
no Universo. Nesta matéria escura é que os astrônomos desvendarão
os mistérios do Universo, entretanto, os Espíritos há muito a
conhecem. É ela que determina se o Universo continua a se expandir. Se
Deus cria os Espíritos a cada instante, no Universo também são criados
os mundos. A massa escura indica que o Universo se expande eternamente,
mas os pesquisadores, diante dela, tiram várias conclusões.
- Irmã, vemos a presença da massa escura e da matéria escura, são
a mesma coisa?
- A matéria escura é o fluido cósmico universal; a massa, o fluido
se modificando. Não se esqueça, Luiz, de que as galáxias representam
somente uma pequena fração da massa do Universo. A restante está no
que se chama matéria escura. Nas galáxias estão os fluidos se modificando.
-Irmã, estou flutuando...
- Se é assim, deixemos a visão do Universo e vamos para o nosso
mundo de expiação e provas.
62
- Marry, como pode o homem desconhecer a beleza das obras do
Criador?
-Tamanha é a sua insignificância em evolução, que ele se julga um
Deus, mas vive distante dele.
O planeta azul me pareceu abrigado nas abençoadas mãos de Jesus,
lendo um halo de luz a envolvê-lo. Concluí tratar-se da grande esperança
que o Cristo deposita em Seus irmãos.
- Marry, a Terra está cada vez mais violenta, o que está ocorrendo
com os homens?
- Devido à luta pela sobrevivência, o homem está repleto de neuroses
e, assim sendo, vive irritadiço, revoltado, colérico. Mas os Espíritos do
Senhor soprarão em todos os lugares, sempre levando as revelações divinas.
- Sempre foi assim, não é mesmo, irmã?
- No Livro de Jó encontramos, no Capítulo XXXIV, v. 21-23:
Porque os olhos de Deus estão sobre os caminhos dos homens, e ele
considera todos os seus passos. Não há trevas nem sombra de morte
onde possam esconder-se os que praticam a iniqüidade. Porque já não
está no poder do homem o deixar de comparecer em juízo diante de
Deus. Nesta página de Jó constatamos o que diz a Doutrina: Deus é que
governa o Universo; só Ele é soberano em justiça.
- Irmã, gosto também de Salmos, Capítulo XXXVI, versículo 29:
Os justos, porém, herdarão a terra, habitarão nela por todos os séculos,
e do Capítulo XXXVIII, versículo 7: Sim, o homem pás sã como sombra; é
em vão que se afadiga; entesoura e não sabe por que junta aquelas
coisas. Em Salmos, Capítulo CXVIII, versículo l, encontramos: Bem-aventurados
os que se conservam sem mácula no caminho, os que andam na
lei do Senhor. E o mundo hoje está por demais violento!
63
Capítulo VI
A FAMÍLIA ESPÍRITA
Continuamos a nossa conversa, só que agora estávamos no jardim da
Universidade. Nisso, quem passa por nós: Enoque.
- Como vai, Marry? E você, frade, novos aprendizados?
- Rayto, estou vivendo na lua, tantas e tantas as lições que venho
recebendo.
- Cuidado, Luiz, lute para não ir para o espaço e se perder nele.
- Engraçadinho... estou muito bem protegido pela Marry. E você,
Enoque, o que tem feito de bom?
- Temos estado muito pouco no plano físico, pois os jovens estão
morrendo. O que mais vem ocorrendo no exterior é o consumo de drogas
misturadas. Os drogados procuram cada vez mais drogas como spudballing,
que combina cocaína com heroína, e pode ser injetada ou inalada. No Brasil,
a turma acha mais fácil conseguir maconha misturada a substâncias como
doridrato de cocaína, que resulta no crack, e ainda na feniciclidina e codeína.
- Rayto, esses dias ouvi uma palestra sobre tóxico, e fiquei sabendo
que a heroína da América Latina é cada vez mais pura.
- Isso ocorre para favorecer a difusão do hábito de fumar a droga,
65
principalmente entre os jovens, e com isso vem aumentando o número de
mortes por overdose.
- Onde se fuma mais a maconha, Rayto?
- Em todo o planeta, mas a maconha é a droga mais consumida no
continente americano. Hoje, no Brasil, está aumentando o consumo de todas
as drogas. Os tranqüilizantes e as drogas sintéticas, como o ecstasy, estão
sendo muito consumidos no Brasil.
- Quais são os outros lugares onde o tóxico faz morada?
-Variam, Luiz. Os europeus são os principais consumidores de drogas
para reduzir o estresse, enquanto no continente americano o consumo
maior é de anti-estressantes.
-Enoque, o uso de anfetamina em tratamentos aumentou. Hoje, tudo
é depressão e estresse e as drogas estão sendo receitadas sem qualquer critério.
- É necessário que sejam feitas campanhas contra o uso de
anfetaminas. É preciso reduzir o perigo de diagnósticos equivocados, preocupações
excessivas e uso indevido das drogas.
-Conheço gente que adora tranqüilizantes.
- A cada dia um filho de Deus cai diante da maldita. Sim, maldita
destruidora, pois o viciado em drogas perde o direito de viver em sociedade..
E cada vez mais vai-se tornando um pária, um fracassado. Dificilmente encontramos
algum viciado, em qualquer droga, que viva muito tempo. A cada
dia o drogado tira um punhado de terra da sua sepultura.
-Tem razão, Enoque, qualquer vício leva o homem ao fracasso.
- Não se conhece nenhum viciado que não sofra por demais.
.. ; - Enoque, e o nosso Brasil?
- Luiz, quando iniciamos o nosso trabalho em prol dos jovens, os
seus livros foram atacados como anti-doutrinários. Até hoje não compreendemos
66
como pode ser anti-doutrinário um livro que alerta um pai para o
perigo dos tóxicos. Como pode ser anti-doutrinário um livro que pensa na
união da família? Ou os ofensores não têm filhos, ou ignoram os problemas
dos próprios filhos, porque o tóxico está aí, tirando muitas oportunidades
reencarnatórias. E é tão fácil saber se o nosso filho ou o nosso neto possui
tendências para se drogar.
- Que devem fazer os pais para resguardar seus filhos?
- Enfrentá-los sem medo. Hoje, o que mais se vê são pais e avós
morrerem de medo de perderem seus filhos, e por isso lhes fazerem todos os
gostos. Se a criança deseja colocar brinco, coloca; se deseja usar calças
rasgadas, usa; se quer raspar a cabeça, raspa; enfim, a criança é dona da sua vida.
- E não deve ser, Enoque?
-Não. Até as crianças atingirem a maioridade, os pais têm autoridade
para educá-las e estas têm de obedecê-los.
-Enoque, acho tão difícil os pais usarem de autoridade!...
- Sim, quando os filhos sentem fraqueza nos pais. Vemos pais
acovardados diante dos filhos e estes, sabendo que são mais fortes, fazem
tudo o que desejam: drogam-se, bebem e se prostituem. Luiz, veja o
que vem ocorrendo nas Casas Espíritas: muitos dos seus fundadores continuam
nas Casas, mas, e suas famílias, onde estão? Alguns dos filhos de
baluartes de Casa Espírita estão na cadeia, são traficantes, alcoólatras ou viciados.
-Enoque, a estatística é assombrosa.
-É mesmo, Luiz. Enquanto lutamos para atacar este ou aquele livro,
nada fazemos pela família espírita, que atravessa momentos difíceis. O que
leva um filho de espírita praticante a não seguir o Espiritismo? A fraqueza dos
pais. Quando os filhos dizem que não irão ao Centro, deixam que escolham. E eles escolhem o tóxico.
67
-Mas dizem que se deve respeitar o livre-arbítrio. Até que ponto ele
deve ser respeitado?
- Educar um filho para o Cristo não é forçá-lo a ter uma religião, é
levar até ele as pérolas do conhecimento. E não existe quem resista a uma
overdose de amor. Agora, se os pais jogarem palavras ao vento, palavras
estas sem conteúdo, dificilmente seus filhos entenderão a beleza da Doutrina.
Hoje o que se vê são muitos dos filhos dos espíritas longe, bem longe de
Deus, e isso acontece simplesmente porque eles não têm bons professores..
Marry, que a tudo ouvia, indagou:
- Enoque, os Raiozinhos de Sol julgam que os pais são os culpados
pela pouca fé dos filhos?
- Quase sempre. Em uma família harmoniosa todos lutam por um só
ideal: a felicidade. E ninguém é feliz se não se sentir em paz com a sua consciência.
Desde pequena, a criança percebe que ao seu redor não existe disciplina
e que os pais pouco se preocupam se ela está certa ou errada. E assim
ela vai levando a vida, sem muito exemplo a ser seguido. Ainda mais-não
cansamos de repetir - se os pais têm autoridade suficiente para levar os
filhos ao médico, ao dentista e à escola, e estes muitas vezes não desejam ir,
por que só para lhes apresentar Deus é que falta autoridade? Algo está errado.
- O certo - disse Marry - é criar na família o hábito da oração.
Desde criança os filhos têm de acompanhar os pais às casas religiosas, porque,
como o encarnado necessita de médico, dentista, escola, a criança precisa,
e muito, de Deus. E encontramos a cura da alma nas casas religiosas.
-Rayto, percebemos que pais, avós e tios têm medo de contrariar a
criança, como se com isso ela viesse a deixar de amá-los.
- Tem razão, Luiz. Hoje o que mais se vê são crianças mal
educadas, e os pais achando tudo natural. Ficamos admirados quando
presenciamos, em reuniões sociais, crianças sentadas confortavelmente,
enquanto senhores e senhoras estão em pé. Outro fato desagradável é
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vermos crianças correndo para se servir, antes dos adultos. E os pais
achando certo! Quando os filhos quebram e mexem nos adornos das
casas visitadas, os pais ainda acham graça! E aquelas outras crianças e
jovens que correm em busca dos petiscos, esquecendo que a boa educação
não nos permite transbordar os pratos e os copos? Devemos ter
cuidado em não encher os pratos, isto denota desequilíbrio. A comida
não tem pernas, ela pode esperar por nós.
- Tem gente que corre para se servir primeiro, e quando ainda tem
alguém para se servir, ele passa na frente, já repetindo o segundo, o terceiro
ou o quarto prato. Mas isso não só acontece com crianças e jovens, já vimos
adultos servindo a Deus e ao diabo.
- Luiz, pode nos explicar o que é servir a Deus e ao diabo?
- Desculpe, Marry, isso é meu modo de brincar.
Rayto completou:
- Servir a Deus é comer para viver e servir ao diabo é esquecer que
todos têm o direito de se alimentar e nós, muitas vezes, estamos comendo por gula.
-Estávamos falando da educação religiosa e já estamos tratando da
educação em geral - observei.
- A criatura, quando está com o Cristo, adquire a educação geral,
isto é, nunca ultrapassa a linha divisória entre ela e as outras criaturas. A cada
um basta a sua própria consciência. Como pode um ser se dizer cristão se
não tem comportamento cristão? A educação básica dos filhos tem de partir
de pais educados. Os evangelizadores infanto-juvenis sempre dizem: se os
pais não forem evangelizados, dificilmente seus filhos terão condição de assimilar
a doutrina do Cristo. O bom da Doutrina é que ela educa o ser, fazendo
dele um filho de Deus - acrescentou Marry.
- Desculpe-me, mas vemos cada espírita, que nos perdoe: educação
e disciplina passaram longe!...
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- Luiz Sérgio, não importa se isso ocorre, pois o propósito da Doutrina
é transformar o homem. Não sendo assim, ela perde a sua finalidade. A
Doutrina revela ao homem o que acontece com aquele que não vive de acordo
com a lei de Deus. É ela ainda que nos revela sobre as vidas sucessivas, e
se elas existem, é para que o ser fique livre dos seus erros. É também a
Doutrina que coloca o homem diante da morte, mostrando-lhe que ela existe,
porque o corpo físico não tem condição de viver eternamente, mas que o
Espírito é imortal, por isso o seu compromisso com a perfeição.
- Ainda acho, meus amigos, que todos os espíritas têm de
conscientizar-se de que não existe meio-espírita, que o propósito do Espiritismo
é tornar as almas erradas em espíritos libertos.
-Muito bem, Luiz. Queira Deus alguns espíritas pensem bem sobre isso.
-Marry, às vezes gosto de sentar em algumas salas de Centros Espíritas
e fico admirado com a falta de disciplina de alguns freqüentadores. Uns
desejam furar filas, outros riem e conversam sem parar. Quantos até comem
biscoitos, chupam balas; outros gritam com as crianças e até lhes aplicam
algumas palmadas. E as roupas das jovens e das senhoras? Cada qual mais
extravagante, próprias para festas e casamentos. Não que eu seja contra,
mas acho que tudo tem sua hora. Muitos também julgam que o passe vai
resolver todos os seus problemas, e não é assim. Quem estuda sabe do valor
do passe, mas ele não resolve problemas que o encarnado tem condição de resolver.
....,,.., Raytointerveio:
- Marry e Luiz, a família está morrendo, e em lugar da família está
surgindo um ajuntamento de almas em busca de valores perecíveis. Ninguém
tem tempo para ninguém. Talvez aí esteja a causa da violência na sociedade.
Os jovens e as crianças estão sem limites. Estão sendo preparados para lutar
pelos seus direitos, mas nunca para respeitar o direito alheio. E não existe
sucesso para o ser que fica sozinho, distante das responsabilidades da sociedade
onde vive. O Espiritismo tenta transformar o homem velho de ontem
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em um novo vaso de argila, cujo vinho, que é o fluido vital, não deve ser
derramado por falta de conhecimento. Por isso dizemos que aquele que chega
à Doutrina tem de lutar pela própria evolução, e ela só ocorre se ele se
tornar melhor. As Casas que fazem a evangelização infanto-juvenil têm de
procurar não somente apresentar Jesus, mas fazer com que a Doutrina Espírita
seja amada e praticada pelas crianças. Não se importem com a quantidade
de alunos; importem-se, ao contrário, com a educação cristã de cada um
deles. Se poucos se tornarem bons espíritas, demos graças a Deus. O sucesso
da evangelização só se torna possível se os educandos tornarem-se nobres
criaturas. Apenas conhecer o Cristo não demonstra que a criança foi
evangelizada. Na evangelização, precisamos incentivar a convivência de umas
crianças com as outras; esta convivência é que vai-lhes facilitar a elaboração
do conhecimento. Se apenas deixarmos a criança na Casa Espírita, sem participar
de qualquer encontro feito pela Casa, esta criança jamais será
evangelizada, porque vive isolada dos seus companheiros e, vivendo assim,
jamais irá gostar das outras crianças e da Casa que freqüenta. Eduquemos
jovens e crianças, mesmo que poucos venham a sofrer uma transformação
moral e intelectual para o seu crescimento encarnatório.
-Então, Rayto, não basta somente evangelizar as crianças, aplicando o programa?
- Não. Não basta apenas teoria. Todos precisam de um trabalho
prático; educar, educando-se, dando ao aluno a certeza de que é preciso
lutar pela perfeição. A criança e o jovem cansarão, se lhes for ministrada
apenas a teoria, e muitas vezes ficarão bem distantes da Doutrina. Jamais
esqueçamos que a família precisa conscientizar-se de que os filhos necessitam
do estímulo dela para assimilar os ensinos doutrinários. Sem a família, a
Casa jamais atingirá vitória.
- Rayto, o que a família precisa fazer para ajudar os filhos na evangelização?
-Conscientizar-se de que a evangelização infanto-juvenil é um remédio
preventivo contra as dores do século; acompanhar de perto todo o
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programa seguido por seu filho, ajudando-o a compreendê-lo; freqüentar os
grupos de estudo; participar junto à criança e o jovem, de tudo o que ocorre
na Casa Espírita referente à Caridade; tornar a ida de seus filhos ao Centro
um ato prazeroso, não reclamando por levá-los e não os fazendo faltar por
causa de festas, cinema, teatro ou outro acontecimento social. A criança
evangelizada dificilmente será adotada pelos traficantes. Voltamos a repetir:
evangelizá-los é transformá-los em verdadeiros cristãos. Só o conhecimento
do Evangelho e da Doutrina não irá livrá-los da tentação.
- Complicado, Rayto.
- Não, Sérgio, apenas torna-se complicado quando os evangelizadores
julgam que ao passarem para as crianças e os jovens os
ensinamentos, estão cumprindo com o seu dever. Não é só isso. Cada
evangelizador recebe dos pais uma semente, e fica a cargo do evangelizador
fazer germinar nessa semente o respeito às leis morais. E se esta semente for
bem cultivada, no amanhã, já árvore, somente bons frutos dará. Caso contrário,
pode tornar-se uma árvore seca e sem vida, ou passar a adolescência
dentro do Centro, tornar-se adulto, mas continuar egoísta, avaro, prepotente;
seria como a figueira estéril, da passagem evangélica. Estará repleto de conhecimento, mas será uma árvore sem frutos, sem exemplos de bondade.
- Mas já será alguma coisa.
- Será que vale a pena ser um falso profeta, Luiz?
- Mas, Rayto, em quase todas as religiões existem as figueiras estéreis..
- Isso é verdade. Mas a proposta da evangelização infanto-juvenil é
preparar os homens de amanhã. A sociedade pede socorro, e somente a
Doutrina Espírita tem condição de dar à criança e ao jovem o conhecimento
que num corpo jovem está um Espírito velho e necessitado de mudanças;
somente a Doutrina esclarece sobre a necessidade da evolução. Hoje, muitos
jovens têm verdadeiro pavor de pessoas idosas. Julgam que a sua mocidade
será eterna. Só o Espiritismo mostra a todos, jovens, crianças e idosos,
a responsabilidade para com a encarnação. Marry e Luiz, nós, que trabalhalhamos
72
com jovens, deparamos com fatos muito tristes. Crianças, ainda, varando
madrugadas, chegando em casa completamente drogadas, outras
embriagadas, e os pais não tendo força para impor limites.
- Por que as autoridades permitem a venda de bebidas alcoólicas a
jovens? Não somente o álcool, como as drogas?
- Também perguntamos: por quê? Tudo passa, e no dia de amanhã
todos terão de prestar contas a Deus. Infeliz aquele que jogou fora
os melhores anos da sua vida; aquele que, julgando aproveitar os momentos
de sua mocidade, tenha se suicidado aos poucos. Terá de pagar
ceitil por ceitil.
- Rayto, é assustador o comportamento de alguns adolescentes nos
lugares onde se reúnem.
- Tem razão. Se o pai deseja saber o que acontece nesses locais,
dê uma incerta, vá até lá, e veja com os próprios olhos garotas e garotos
de treze anos tomando bebidas alcoólicas nos gargalos das garrafas. Os
pais são autoritários quando a mulher espírita tenta levar os filhos para o
Centro: gritam, reclamam e proíbem. Mas perguntamos: que comportamento
tem um jovem que se dedica à causa espírita? Quando dizemos:
"se dedica", não estamos falando daqueles jovens que julgam que ser
espírita é somente participar de encontros e de Mocidades, não estudando,
não trabalhando, e o principal: não modificando o seu interior. Continuam
ingerindo álcool, fumando e vivendo em noitadas; esses jovens,
por favor, não são espíritas. O jovem espírita é manso, educado, estudioso,
trabalhador, e distante está de qualquer vício. Não se concebe um
jovem, que se diz espírita, sair da Mocidade, onde se falou de Evangelho,
de Doutrina, cantou, orou, e depois ir para as mesas dos barzinhos.
-Tem razão, Rayto, a Doutrina Espírita é uma doutrina que ensina ao
homem o caminho da evolução. Feliz aquele que, numa existência, consegue
ver-se livre das tentações dos vícios. ,
-Mas existem aqueles que só bebem socialmente? ,
73
- Sim, existem: são todos os que gostam do álcool. Todos os que
ingerem bebidas alcoólicas dizem que bebem socialmente e que não são alcoólatras.
Os grupos, na Espiritualidade, encarregados das Mocidades encontram-se
preocupados com algumas delas, onde o namoro e a falta de
conhecimentos doutrinários se fazem presentes.
-Muitos espiritas, Rayto, não gostam que os jovens cantem nas reuniões.
O que os Raiozinhos de Sol acham disso?
- A música são os acordes de Deus feitos para nos deliciar o Espírito..
Agora, viver com o violão debaixo do braço, e em todos os lugares onde
chegar cantar músicas espíritas, por favor, onde está o conhecimento da Doutrina?
-Em que momento os jovens devem cantar as suas canções, Rayto?
- Qualquer grupo de Mocidade tem de estudar as obras básicas
kardequianas ou fazer o Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita; cantar,
somente na abertura e no encerramento. O que o jovem precisa é
estudar e trabalhar, pois são portadores de juventude. Seus corpos estão
repletos de energias e de fluidos. Existe tanta gente no Centro Espírita
que daria tudo para ter um corpo jovem, tanto gostam de se dedicar à
Casa que freqüentam! A Mocidade deve ficar encarregada da limpeza
do Centro, formar grupos para lavar vidros, pintar paredes, fazer consertos,
enfim, oferecer à Casa o que tem de sobra: energia.
- E o artesanato?
- É muito necessário. Hoje, nesse mundo moderno, todos devem
aprender artesanato. E como você já disse em outros livros, o Centro Espírita
que não preparar os seus freqüentadores para um trabalho em prol da
Casa dificilmente terá condição de se manter. Diz o Evangelho: esfriará a
caridade, isto é, as doações em dinheiro. Os Centros devem encontrar um
meio de se manterem. Para isso, não precisam de rifas nem de bingos ou de
jantares regados a cerveja.
- Rayto, a Casa Espírita deve ter bazar permanente?
- Não. Casa Espírita não é shopping. O artesanato deve ser feito e
levado para algum lugar, longe do Centro, onde será exposto e comercializado.
- Colocaremos isso no livro, mas muitos não irão gostar.
- Luiz Sérgio, o bom seria se as Casas Espíritas não precisassem de
dinheiro. Mas no mundo atual elas enfrentam grandes dificuldades. Têm de
pagar luz, água, telefone, empregados. O certo seria todos os freqüentadores
se conscientizarem em prol do seu Centro Espírita.
- Sonho, Rayto, apenas sonho...
-É, Luiz, mas um dia as Casas Espíritas terão escrito nas suas fachadas:
Hospital de Almas.
- Rayto, onde você está trabalhando agora?
-Em todos os lugares onde um jovem precisa do nosso amor. Mas o
nosso maior trabalho é junto aos suicidas, dando aula na Universidade Maria
de Nazaré. : ;
- Como se conhece um jovem de Jesus?
- É aquele que luta para cumprir com seus deveres, que respeita a
família, amando os pais. No colégio, empenha-se para tirar boas notas. Não
se envolve em brigas. Respeita as pessoas mais velhas. É discreto no trajar,
está sempre pronto para ajudar o próximo. Não é dependente de qualquer
vício. É educado em casa e na rua. Não vive em turma. Não diz palavrão.
Não fala mal do próximo. Não menospreza companheiros. Não mente. Não
vive com brincadeiras desagradáveis. Não grita com os pais. Tem respeito
pelos empregados. Trata bem porteiros, balconistas, cobradores, motoristas,
enfim, tem atitudes cristãs. Não vive tomando emprestado dinheiro, e
quando o faz, procura pagar sempre. Trata bem avós, tios, enfim, a família.
Respeita as leis do trânsito, nunca excede o limite de velocidade. Enfim, procura
sempre lutar pela própria dignidade. Bem, agora devo ir embora. Até
outra vez.
- Até, Enoque, que Deus o cubra de bênçãos. ,.--,.
- Assimseja-e saiu radiante.
Olhei o querido amigo até que desaparecesse...
- Gosta muito dele, não é Luiz Sérgio? perguntou Marry.
- Sim, adoro o Rayto. Ele é o sol que sempre vem em nosso socorro
quando estamos necessitados.
Marry enlaçou meus ombros e foi-me levando até um belo auditório,
onde painéis eletrônicos expunham muitas frases sobre a evolução da espécie
humana. Em um deles, lia-se: "O Universo, na sua grandeza, parece desejar
compreender todas as criaturas de Deus." ,..,,,;. ,,
76
Capítulo VII
O SEGUNDO ESTÁGIO EVOLUTIVO
Ficamos observando os painéis e um deles mostrava o reino mineral:
as pedras, as essências espirituais sendo trasladadas dos pontos onde passarão
para novos reinos. Aqueles painéis nos ensinavam que Deus não criou
mundo do nada, como querem dizer algumas religiões. Mas o Espiritismo nos
ensina que "do uno partiu toda a criação" e que é a mesma essência a de
todas as criaturas. Por isso, todos os seres são regidos pelas leis divinas. Ali,
na nossa frente, aquelas imensas telas, em círculos, nos ofereciam muitos esclarecimentos.
Do reino mineral partia a essência da vida numa longa caminhada
evolutiva, e bom é saber que Ele, o Pai, sempre esteve junto a nós,
cuidando, orientando, dando-nos condição de alcançarmos a evolução. As
telas reproduziam em tamanho gigantesco a beleza do Universo e nos foi
mostrada a materialização da essência espiritual nos vegetais.
No livro Chama Eterna já tocamos nesse assunto, mas ali víamos a chama
eterna apenas como essência espiritual, agradecendo a Deus a bênção da
vida; o Espírito em formação buscando o útero da mãe Natureza para desabrochar.
Como torna-se importante o homem respeitar a natureza! Ao lado dele
existem bilhões de essências espirituais correndo em direção à evolução, por
isso a Natureza não aceita a violência do homem. Olhando aquelas essências
espirituais recebendo os cuidados do Criador através das mãos abençoadas de
Espíritos capacitados para esse trabalho, pensei: "como o homem ainda ignora a
77
grandeza de Deus!" Por mais que falemos nele, ainda não O conhecemos. O
estado de simplicidade e ignorância do Espírito é um período preparatório para
o grande momento quando ele, já formado, chega ao reino nominal. Mas ali, à
nossa frente, a tela gigantesca mostrava os reinos: mineral, vegetal e animal. Mas
o meu interesse direcionava-se às plantas e as diferentes espécies formavam um
belo quadro, pintado pelo maior artista: Deus.
-Luiz, vamos entrar? alertou-me Marry.
Nada falei, mas confesso que senti um abalo emocional, já imaginando
novos ensinamentos. Entramos e andamos, andamos, andamos... Ninguém
levitava, apenas andava por um lugar estranho, parecia um túnel, mas de luz
brilhante; uma música tocava baixinho. Nada perguntei. Só aí percebi que o
grupo que ali se encontrava era enorme. Nisso, Lontra, um Espírito amigo,
aproximando-se de nós, falou:
- -Comovai,Luiz?
- Muito bem. Onde você trabalha?
- Vivemos como você, em todos os lugares, pois somos alunos da
Universidade Maria de Nazaré.
* Nada mais falei, pois logo estávamos em um lugar lindíssimo, onde as
flores possuíam os mais variados matizes. Mas a temperatura foi ficando fria
e chegamos a um edifício quadrado, com jardineiras em todas as janelas. Por
dentro, a construção era mais ou menos assim:
78
Cada boxe, ou sala, era imenso e repleto de flores; no centro, uma
fonte de água cristalina. Marry nada falava e eu já estava curioso.
- Que lugar é este, Marry?
- É um dos departamentos da transição das essências do vegetal, Luiz.
- Como?
- Apesar deste local ser imenso, trata-se de um pequeno departamento
onde se opera a separação das essências espirituais do reino vegetal
para as espécies intermediárias, sendo depois levadas ao reino animal.
-Explique melhor, Marry.
-Este lugar colhe as essências espirituais do reino vegetal, quando o
vegetal morre no plano onde está evoluindo.
- Marry, como no mundo espiritual existem as colônias de socorro,
este lugar é, vamos dizer, uma colônia de socorro também?
- Quase isso. A diferença é que as plantas não têm consciência da
sua existência, não pensam, pois não têm vida inteligente.
-Mas nos parece que algumas sofrem. Quando foram afetadas pela
morte, sentiram alguma coisa?
- Possuindo vida, elas pereceram, mas não sentiram dor.
-Marry, explique novamente. ;
Nisso, um irmão apareceu, sorrindo:
- Boa Marry, Luiz Sérgio, Deus os abençoe. <
- Assimseja-respondemos.
- Marry, o Luiz está encontrando dificuldade para Compreender o maravilhoso mundo da evolução?
- Yair, quanto tempo esses vegetais permanecem aqui? Perguntou Marry.
79
- Morto o vegetal, foi retirada a essência espiritual e trazida para cá..
- Ela desencarna?
-Não, Luiz, ela se desmaterializa. Retirada a essência espiritual, ela
é trazida para este local; daqui será transportada para outro posto, depois de
haver passado, sempre em marcha progressiva, pelas necessárias incubadoras,
onde são tratadas por Espíritos capacitados.
- Depois de serem tratadas, elas voltam a materializar-se novamente
no reino vegetal, mas em um outro vegetal?
-Não, isso não acontece. Ela, a essência espiritual, Espírito em formação,
sob a direção e os cuidados dos Espíritos encarregados desse trabalho,
efetua o seu crescimento, sofrendo o progresso, que continuará em diversos
locais apropriados para o seu desenvolvimento.
Observei melhor aquele jardim de amor e fixei o olhar em uma orquídea
branca; fiz-lhe continência, dizendo:
- Ó, bela orquídea, que Deus guie a sua trajetória evolutiva.
Um dos encarregados daquele lugar, virando para nós, acrescentou:
-Em nome da nossa irmãzinha, que Deus também guie os passos do
irmão no longo e sofrido caminho da evolução.
- Um abraço, jardineiro de Deus - respondi. ,>"
Ele me corrigiu: ^ ;
- Operário de Jesus. O Jardineiro de Deus é Jesus.
Yair nos deixou, indo até outros alunos. Embevecido pela música
lindíssima que tocava, olhei aquele lugar onde a brisa chegava junto com o
orvalho e faziam companhia a todas as nossas irmãs do reino vegetal, que ali
se encontravam. E pensei: "Como Deus é onipresente junto a todas as Suas
criaturas!" ía passando por outro grupo e conclui que já aprendi bastante,
pois um irmão perguntava:
- A planta tem perispírito? ,'..,!,.... .'.,.,'
O instrutor respondeu:
-Não podemos chamar o seu envoltório de perispírito. Só podemos
chamar de perispírito quando ele, o envoltório do Espírito, atinge a forma
humana. Quando o homem recebe o livre-arbítrio, o diadema da razão, o ispírito fica totalmente vestido por seu envoltório fluídico chamado perispírito.
entretanto, no reino vegetal a essência espiritual tem de caminhar por muito
(empo ainda. Ela só está no segundo estágio evolutivo.
vou tentar representar graficamente a formação do Espírito:
Mundo Espiritual
Laboratórios, viveiros; Deus críando
Reino mineral
- Se o homem tivesse conhecimento da sua origem, não jogaria
fora as preciosas horas da sua vida, Luiz. Se ele conhecesse a sua
origem, o tempo que levou para crescer, amaria mais o Seu Criador,
mas certos homens julgam que o seu corpo é apenas um condensado
de matéria, não querendo descobrir em si o Espírito imortal.
- E hoje, Marry, o que mais se vê é o desrespeito à encarnação,
através das desencarnações violentas. É difícil imaginar o homem partindo
do reino mineral, da maneira que compreende o crescimento do feto
que vem do óvulo.
- A natureza não esconde do homem as leis que a regem. Se
todas as criaturas soubessem um pouco que fosse da origem da vida, já
seria muito bom. A Humanidade não se preocupa em descobrir as verdades da sua origem.
- Não se concebe o homem ignorar o mundo espiritual. Por
que será que ele não indaga para onde foram os seus antepassados?
Será que foram "esquecidos" por Deus? Ou a morte é tão terrível
que ninguém se propõe a estudá-la, ficando passivo até a hora do "extermínio"?
- Seria bem mais fácil, se isso fosse matéria obrigatória em todos os colégios.
- Ah, Marry, como seria bom se isso viesse a acontecer! Hoje,
mesmo em família que se diz espírita, os filhos passam longe do aprendizado
espiritual. São espíritas "de vez em quando", não querendo assumir
as responsabilidades daquele que, para servir, tem de lutar pela mudança interior.
- Irmão, não adianta. Quando a família não está a fim de se dedicar
ao Cristo, pode Ele próprio descer ao plano físico que não será ouvido.
Sabe por que, Luiz? Falta caridade nesses lares. São criaturas por
demais apegadas às coisas materiais.
82
- Marry, conhece-se o verdadeiro espírita, diz Kardec, pela sua
transformação moral. Como ele tem razão! Os que se dizem espíritas
mas têm por companhia a maledicência, o orgulho e o egoísmo, jamais se
integrarão em qualquer Casa, porque o orgulho os leva a buscar somente
elogios à sua pessoa.
Calei-me, para melhor apreciar o viveiro das essências espirituais.
E fiz continência a todo aquele reino que ali, naquele laboratório, recebia
do jardineiro de Deus, Jesus, o tratamento para prosseguir viagem no
longo caminho da evolução.
- Marry, temos condição de chegar até os mundos onde as essências
são preparadas para o estado de Espírito formado?
- Não, o acesso a tais mundos está restrito à primeira ordem dos
Espíritos - os puros Espíritos, que são preparados para essa missão..
-Deve ser maravilhoso penetrar nessas regiões.
- Luiz, a cada um Deus oferece oportunidades que não devem
ser negligenciadas apenas por desejarmos outras maiores.
- Não, Marry, estava apenas pensando na grandeza dos Espíritos
encarregados da evolução das essências divinas. Gostaria de conhecer
aqueles que de nós cuidaram na trajetória evolutiva.
Ela sorriu, o que me fez corar; era muito infantil o nosso desejo. Ali
ficamos por mais algum tempo. É difícil narrar para você, leitor, a beleza
do lugar; tinha a impressão de que estava no paraíso.
- Irmã, isto parece o Éden da Bíblia.
- Tem razão, é o paraíso do reino vegetal. Neste lugar as essências
espirituais estão recebendo os fluidos necessários para o longo caminho
da evolução. Aqui é um santuário de luz para as espécies do reino
vegetal.
Inebriado com tanta beleza, solei meu violão e cantei esta canção, feita
por uma querida poetisa brasileira: , ,})
83
Deus caminha pelos jardins
Deterrae jasmineiros
De flores e chuvas
De perfume e nuvens
leve brisa apenas
Anima o ramo
De seu perfume
Muitas seivas trazidas
Do jardim de Deus
No frágil ramo pousam
com a folha celeste
Tudo germinando
A rosa, o cipreste
Se o tempo parasse
Do ramo surgiria
Uma bela flor
Toda faceira
Também brejeira ,
Seu nome: amor '
- Romântico, Sérgio?
; -Deslumbrado com o poder de Deus. , ,, ?.
Ali permanecemos muito tempo, admirando aquele viveiro espiritual
cuidado por muitos Espíritos de grande evolução.
- Qualquer um pode trabalhar aqui? perguntei a Marry.
- Não, somente os técnicos de Deus. Esses irmãos são grandes
conhecedores do magnetismo. Foram preparados para essa tarefa.
-Percebi naqueles Espíritos o quanto eles amavam aquele lugar. Eram
os operários do jardineiro de Deus - Jesus. Aproximei-me de um deles e
perguntei:
84 :
- Michael, as plantas dos mundos superiores são mais evoluídas do que as do planeta Terra?
- Mais ou menos.
- Comoassim?
- Dado o campo fluídico dos mundos elevados, os reinos mineral,
vegetal e animal encontram-se em um estado mais adiantado do que os dos
mundos primitivos.
- Mas coitadas das essências espirituais dos mundos inferiores, que
culpa têm elas?
- Você não está nos entendendo, Luiz Sérgio. Deus cria o
Kspírito simples e ignorante, e nessa inocência ele chega à condição
de homem. O caminho que essas essências percorrem não conta para
a evolução delas. Não importa onde tenha germinado a essência da
flor, importa qual o caminho do Espírito quando ele atingiu a maioridade
- o reino humano.
- Explique-me, então, a questão 601 de O Livro dos Espíritos:
601. Os animais estão sujeitos, como o homem, a uma lei progressiva?
"Sim; e daí vem que, nos mundos superiores, onde os homens
são mais adiantados, os animais também o são, dispondo de meios
mais amplos de comunicação. São sempre, porém, inferiores ao homem
e se lhe acham submetidos, tendo neles o homem servidores inteligentes."
- Nesta resposta há um trecho que bem a esclarece: dispondo de
meios mais amplos de comunicação.
- Pode me esclarecer sobre essa "comunicação"?
- Sim. Nos mundos superiores os animais convivem com homens
evoluídos, que já conhecem o princípio inteligente do animal e
travam um relacionamento mais fraterno. O animal e as outras
85
essências dos mundos superiores detêm esse privilégio, mas os homens
não intervém na sua evolução.
- Qual o significado das palavras "tendo neles o homem servidores inteligentes"?
- Nos mundos superiores não existem animais selvagens; nesses
mundos os animais são, pois, servidores inteligentes.
- Servidores inteligentes como, Michael, se eles não têm total inteligência?
-Disse bem: total, mas neles existe um princípio e este princípio bem
direcionado por Espíritos superiores torna a sua vida bem melhor do que a
vida de um animal nos mundos inferiores.
- Quer dizer que os animais ferozes assim o são devido à atmosfera
do próprio planeta?
-Sim. A aura divina de um mundo superior é diferente da de um
atrasado. Os animais são o reflexo das atitudes dos homens. Em uma casa
onde só se maltrata os animais, eles jamais serão dóceis. Em um lar onde os
animais são tratados com carinho, eles são bem melhores.
-Então, Michael, aí está a superioridade dos animais que vivem nos
mundos superiores?
- Sim, eles são superiores, porque esses animais compõem a vida dos homens e não são ignorados por eles. Mas de nada vai adiantar
para o animal ter vivido em um mundo superior ou inferior. O
que conta são as suas tendências. Quando o princípio inteligente torna-se
inteligência plena, o Espírito esquece todo o seu passado. Ele
não tem história, pois nada escreveu no livro da vida. Entretanto,
quando se torna Espírito formado, conquistando o diadema da razão,
a consciência, lá estarão inscritas as leis naturais ou leis divinas..
Por isso, ninguém pode dizer não conhecê-las, todas as criaturas têm
guardado, na consciência, o Decálogo. Mas essa compreensão é proporcional
ao grau evolutivo do Espírito. Um dia todos os Espíritos as
86
compreenderão perfeitamente, pois serão impulsionados pela lei do progresso.
- Por isso - completou Marry -, de tempos em tempos foram
chegando as revelações, chamando os homens para a descoberta
da sua consciência, onde estão guardadas as leis divinas. Esse o
motivo de ser a Doutrina Espírita um educandário de almas, nela sempre
encontramos o esclarecimento sobre as leis morais. Os Espíritos
vem preparar o Reino anunciado por Jesus. Aqui, neste laboratório,
as essências espirituais são levadas para os mundos com a finalidade
de prepará-las para o estado de Espírito formado.
- Então esses vegetais, que aqui se encontram, já passaram pelas
espécies intermediárias?
- Sim, já passaram. As essências que aqui se encontram já passaram
por um filtro divino. Neste local elas estão recebendo um tratamento
especial, para, logo após, serem levadas para mundos apropriados a recebê-las.
Já tínhamos olhado a pedra sem a essência, no plano físico, somente o
condensado de matéria, e agora víamos a pedra iluminada, sofrendo a mutação no laboratório.
-E as espécies intermediárias, o que lhes acontece nesse vácuo?
- Ainda não temos condição de adentrar esses dois mundos - o
das espécies intermediárias e aqueles com a finalidade de preparar as
essências para o estado de Espíritos formados. Neles ficam os Espíritos
prepostos, grandes cientistas de Deus.
-Irmão, minha cabeça deu um nó. Dá para explicar melhor a escalada do Espírito?
-Sim,Luiz.
E mostrou o seguinte esquema:
Força inteligente que regula as atividades do Universe
Eterno
Imutável
Imaterial
Único
Todo-Poderoso
Soberanamente justo e bom
Criador incriado de tudo e de todos
Universo de Deus
Reino mineral
um conjunto de essências espirituais *
Reino vegetal
um conjunto de essências em alguns vegetais,
como grama, capim etc.
começa em alguns vegetais a individualidade
Reino animal
total individualidade
Reino nominal
individualidade, inteligência
Espírito livre
O bem e omal
Livre-arbítrio '
< Caminhada evolutiva
; Consciência
-Entendeu, Luiz?
- Mais ou menos. É um assunto sério e difícil. Pode nos explicar
melhor sobre o conjunto de essências?
- Sim. Em uma pedreira existe um conjunto de essências, ou seja, há
várias essências em uma pedreira. Em alguns vegetais também há um conjunto
de essências.
-Não desejo parecer inconveniente, mas será que pode responder a
mais uma pergunta? Tento colocar-me no lugar do leitor. A essência espiritual
está em cada muda de grama?
-Não. As essências estão em um todo, ou melhor, em um gramado.
Já a questão de quantas essências nele se encontram, isso não temos capacidade
para revelar. Só quem conhece esse campo são os operários do Jardineiro
Jesus, os Espíritos encarregados dessas essências.
-Michael, vamos supor a seguinte situação: faz de conta que eu goslo
de uma tal grama; retiro uma mudinha e a planto em meu jardim. Nela há
uma essência espiritual?
- Se você colher uma "grama-mãe" e os encarregados desejarem
que a essência seja transportada para o seu jardim, eles terão capacidade
para fazer uma tenra graminha germinar. Se não, você precisará de muitas e
muitas mudas.
- Que complicado!...
- Não é complicado, os Espíritos trabalhadores do Senhor
não perdem tempo. Às vezes, você deseja uma muda de grama, mas
não vai cuidar dela; já prevendo isso, os jardineiros não lhe dão gramas
com essência espiritual. Você leva para o seu jardim grama sem
essência espiritual, apenas composta de fluidos que logo se dissipam.
Luiz, é comum dizermos que existem pessoas de mãos boas,
que tudo que plantam germina, e alguns que podem plantar um jardim
inteiro e nada germinará.
- Compreendi, essas pessoas não caem nas graças dos jardineiros divinos..
Ele sorriu.
- Não é bem assim. Quem cuida das sementes sempre tem boa colheita.
-Obrigado, amigo, muito obrigado. Você me ajudou bastante. Não
sei se o leitor entendeu, mas eu o compreendi e gostaria que o leitor pensasse bem, antes de viver pedindo mudinhas de plantas e depois as deixando sem alimento,
sem água, sem sol.
-Luiz, você compreendeu tudo sobre as essências espirituais dos gramados?
-Achamos que sim, Marry.
-Ainda bem, porque vemos muitas pessoas indagarem: será que em cada muda de capim está um Espírito em foramção?
-Está ou não está, Marry? Perguntei.
-Não, não está. A essência espiritual, nos reinos mineral e vegetal, muitas vezes só se encontra em um conjunto de matéria.
-Como?
-Uma pedreira, conforme o seu tamanho, possui somente algumas essências. Em um gramado também encontramos algumas essências; elas não estão em cada muda de grama.
Existe a essência-mãe, dela enraízam-se as outras; se não pegamos a mãe, não existe essência, portanto, a muda não germina.
-Muitos chamam-nas de touceiras de grama ou capim.
-Certo. Em uma touceira estão as essências e os complementos - e expôs o seguinte esquema:
Grama-mãe, essência espiritual -apenas grama comum
Árvore na raiz, a essência.
Frutos, galhos e folhas (muitas vezes apenas fluidos)
-Mas existem galhos e sementes dos frutos que germinam.
-É, mas existem também aqueles que não germinam. Em certas árvores, os frutos e os galhos, ao serem transportados, levam a essência da vida, porque em certas árvores
estão várias essências.
-Irmã Marry, as espécies intermediárias se encontram nos mundos espirituais, não é mesmo?
-Em todos os planetas, isto é , mundos, há o plano físico e o plano espiritual; a matriz e a filial. E é nesses mundos espirituais que as essências passam por espécies
intermediárias.
-Volto ao O Livro dos Espíritos: então as plantas e os animais de um mundo superior são superiores aos de um mundo inferior?
-Não na parte evolutiva, e sim na parte física. Uma flor cultivada nos países do primeiro mundo ganha um tratamento melhor do que as plantas de
um Estado pobre, sem o progresso da agricultura. Leva vantagem na aparência,
e não na essência.
- Meu Deus, que coisa mais complicada! Quer dizer que um cachorro
de um mundo feliz é mais evoluído do que um cachorro da Terra?
- Evoluído não é a palavra certa. Ele é melhor cuidado, porque no
mundo feliz os homens são bons.
- Coitados dos cachorros dos mundos menos evoluídos...
- Esse mau trato em nada interfere na sua escalada evolutiva, que só
começa a contar ponto quando o Espírito já está formado. Na infância espiritual,
ele apenas está evoluindo.
- Irmã, gostaria que comentasse algo mais sobre a questão 601 de O
Livro dos Espíritos:
601. Os animais estão sujeitos, como o homem, a uma lei progressiva?
"Sim; e daí vem que nos mundos superiores, onde os homens são mais
adiantados, os animais também o são, dispondo de meios mais amplos de
comunicação.(...)"
-- Quais são esses meios de comunicação?
-- Lembremos o que Michel explicou. Os homens desses mundos,
Luiz, têm mais capacidade de compreender a pouca inteligência dos animais.
Sabem aproveitá-los e os animais tornam-se dóceis e amigos. Os homens
adiantados sabem como comunicar-se com os animais, portadores de um
princípio inteligente. Quantos domadores de animais ensinam-lhes tão bem,
que causam espanto aos leigos! Assim, os homens em um estado mais evoluído
tratam os seus animais de um modo especial. Isso não quer dizer que
esses animais são mais evoluídos do que os animais de um mundo inferior..
Em O Livro dos Espíritos, a questão 601 não diz da evolução dos animais,
e sim do adiantamento.
- Irmã, adiantamento não é sinônimo de evolução? '
-Nem sempre, Luiz. A evolução ocorre quando o Espírito já ganhou
alguns quilômetros em direção a Deus. O adiantamento quer dizer que o
ispírito tem mais conforto, é melhor tratado. Vamos colocar aqui os homens
do primeiro mundo e os que vivem no terceiro mundo.
- Então, todas as criaturas que moram no primeiro mundo são mais
evoluídas do que as que vivem no terceiro mundo, em seus países pobres e
sofridos?
- Claro que não. No primeiro mundo o homem tem mais conhecimento
de higiene, educação, limites; mas o coração, o crescimento moral, às
vezes é mínimo. Não é o homem e sim o país, que é adiantado, tem boas
escolas, boas casas, conforto. Lá respeitam-se mais as leis, portanto, é uma
civilização mais evoluída. Mas não são, necessariamente, Espíritos evoluídos.
-Marry, é difícil compreender.
- Luiz, o maior pacificador da Humanidade, Gandhi, vivia em um
país pobre, composto de miseráveis, e Hitler, Espírito violento e sanguinário,
vivia em um rico país. Um homem violento pode tornar o seu animal em um
animal violento e um bom homem pode transmitir ao seu animal a sua candura.
A maneira com que o homem trata o seu animal denota o seu adiantamento
moral. É ele quem está na berlinda, ele é o astro principal. O animal é
apenas coadjuvante. Por isso, Jesus nos ensinou, em Mateus, Capítulo VI,
vv. 26-27: Observai os pássaros no céu, não semeiam, não ceifam, não
guardam em celeiros; mas, vosso Pai celestial os alimenta. Não sois
muito mais do que eles? E qual, dentre vós, o que pode aumentar um
cavado à sua estatura? O pássaro, mesmo sendo amado por Deus, é inferior
ao homem; muito ainda precisa caminhar. O pássaro ainda se encontra
no terceiro estágio, no reino animal. Até ele atingir o estágio de Espírito formado,
será inferior ao homem, que tem condição de escolher o que deseja,
de governar o rumo da sua vida, sendo muito superior ao pássaro. O pássaro
tem apenas um princípio de inteligência, enquanto o homem, Espírito formado,
tem condição de buscar o bem ou o mal.
- Marry, todo o Espiritismo se encontra na Bíblia, no Antigo e no
Novo Testamentos. Os espíritas têm de estudá-la, ela só confirma os fatos espíritas.
- Irmão, podemos considerar os três reinos da natureza como estágios
de crescimento do Espírito. Muitos não os aceitam, outros não querem
entendê-los, mas o Pai, que tudo cria, cuida muito bem dos Seus filhos.
- Então, Marry, Deus cria o Espírito simples e ignorante; depois ele
continua crescendo, materializa-se nos reinos mineral e vegetal, encarna no
animal e depois entra no mundo hominal. Daí sai munido da carta da liberdade
e da responsabilidade. Até chegar a esse estágio, o Espírito é cuidado por
uma plêiade de Espíritos sublimados. Deus está sempre vigilante, não deixando
seus filhos órfãos, independentemente do seu estado evolutivo. Todos
são amados por Ele. Isso nos dá uma responsabilidade maior, ao saber o
quanto o Pai espera de cada um de nós. Marry, Deus cria a essência espiritual no plano espiritual ou no plano físico?
- Primeiro ela é colocada na condensação de matéria espiritual, depois
é trazida ao mundo físico.
- Quer dizer que tudo o que é criado por Deus começa no mundo
espiritual: a pedra, a flor, o animal, tudo parte do alto?
- Sim. Como o perispírito é a veste do Espírito e o corpo de carne é
o elemento de que o Espírito do homem dispõe para viver no plano físico,
assim também a essência espiritual, o princípio inteligente, tem início no mundo espiritual.
Parei um pouco para meditar sobre tudo o que havia aprendido.
94
Capítulo VIII
CARIDADE: AMOR EM AÇÃO
- Marry, no livro Amigo e Mestre terminamos as explicações do
Sermão do Monte sobre a casa construída sobre a rocha; no início deste
livro tratei também do assunto, e fizemos um gráfico da evolução do Espírito.
Como vemos, todos devem iniciar sobre uma firme base. Aquele que tem
alicerce alcança vitória. Deus, que é Deus, iniciou a Sua criação sobre a
rocha, por isso criou o Espírito simples e ignorante. Quanto valor tem um ser humano! Pena que muitos isso ignoram e jogam fora as oportunidades de
evolução. O homem, Marry, tem de buscar a sua origem para dar valor ao tempo.
- Isso mesmo. Se cada criatura, Luiz, parasse para pensar quanto
tempo já possui de vida, que foi criada por Deus e que jamais terá fim, talvez
lutasse mais pela perfeição.
-Marry, os amigos espirituais mais evoluídos sempre nos alertam sobre
isso: que ninguém tem o direito de reclamar orfandade, que todos fomos criados
para ser felizes e que está em nós a vitória. Só a Doutrina Espírita pode mudar o
homem através do conhecimento da origem da vida e da morte. Marry, no Salmo
XXVI, Confiança em Deus, versículo 6, encontramos: E agora a minha
cabeça ergue-se por cima dos inimigos que me cercam, e imolarei em seu
tabernáculo vítimas de júbilo. É um salmo lindo, de confiança em Deus. Pena
que muitos, diante da dor, julguem-se abandonados pelo Criador.
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-É, Luiz Sérgio, o mal do homem é que ele se julga o único necessitado,
nunca procurando olhar ao seu redor. Se o fizesse, veria que no planeta
Terra um rebanho de almas caminha para a evolução, e que os minutos de
cada vida devem ser aproveitados em prol da perfeição.
- Infelizmente, o homem encarnado, deslumbrado com as riquezas,
esquece muitas vezes até de Deus. E como, sobre a cabeça de cada pecador,
um dia chove a dor, muitos estão sem o guarda-chuva chamado fé, e
muitas vezes, molhados pelas lágrimas do sofrimento, ficam caídos no chão,
sem vontade alguma de levantar. Mesmo assim, o Senhor sempre está amparando
aqueles que necessitam de socorro. Acho, Marry, que o Espiritismo
precisa alertar mais os seus adeptos para a reforma íntima, porque sem ela
seremos o que Paulo diz em sua / Carta aos Coríntios, Capítulo XIII, v. 17,
13: Se eu falar as línguas dos homens, e dos anjos, e não tiver caridade,
serei como o metal que soa, ou como o sino que tine. E se eu tiver o
dom de profecia, e conhecer todos os mistérios, e quanto se pode saber:
e se tiver toda a fé, até o ponto de transportar montes, e não tiver caridade,
nada serei. E se eu distribuir todos os meus bens em o sustento dos
pobres, e se entregar o meu corpo para ser queimado, se todavia não
tiver caridade, nada disto me aproveitará. A caridade é paciente, é benigna;
a caridade não é invejosa, não obra temerária, não se
ensoberbece; não é ambiciosa, não busca os seus próprios interesses,
não se irrita, não suspeita mal; não folga com a injustiça, mas folga
com a verdade; tudo tolera, tudo crê, tudo espera, tudo sofre (...). Agora,
pois, permanecem a fé, a esperança, a caridade, estas três virtudes;
porém, a maior delas é a caridade.
-Tem razão, Luiz. De que vale o homem conhecer teologia e não ter
amor a Deus e ao próximo, com esquecimento de si próprio? De que vale o
homem ter o dom da profecia e conhecer todos os mistérios e quanto se
pode saber, ser admirado pelos fenômenos da mediunidade, se o coração
está repleto de vaidade? De que vale ser possuidor de toda fé, a ponto de
transportar montanhas, isto é, ajudar quem está em desespero, mas continuar
avaro, duro, maledicente, enfim, não ter humildade? De que vale? Tudo
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isso nada representa diante da própria consciência. Se o homem distribuir
todos os seus bens no sustento dos pobres, mas não tiver a caridade no
coração, nada disto se aproveita. E ainda se entregar o seu corpo para ser
queimado, querendo provar o seu amor a Deus, mas sem caridade, nem isto
O alegrará, porque faltará amor. Fanatismo não é caridade. E Paulo, Luiz
Sérgio, prossegue ensinando o que é caridade.
- E eu lhe pergunto, Marry: o que é a caridade?
- A caridade é paciente, é benigna. O caridoso o é no Centro, na
igreja, nos templos, no trabalho, na rua, no lar. O caridoso é benigno. A
caridade não é invejosa, não obra temerária nem precipitadamente. Portanto,
quem é caridoso aplaude os de outras crenças que praticam a caridade, a
ninguém condena, sempre tem uma atitude de amor e respeito ao próximo,
mesmo aquele de outras crenças. Não se ensoberbece dizendo: "faço isso",
"faço aquilo", "dou isso", "dou aquilo", nem diz: "os meus pobres". A soberba
está bem distante da caridade. A caridade não é ambiciosa, não busca os
próprios interesses. Ambiciosos são aqueles que, dizendo trabalhar em obras
de caridade, só pedem para as suas instituições e nada fazem pelas outras,
mais pobres, mais necessitadas; são aqueles que, dizendo-se caridosos,
avolumam moedas em seus cofres, não se lembrando de ajudar outras Casas
pobres. O caridoso não se irrita. Quem faz realmente a caridade não se
encoleriza por qualquer coisa. Ele trata o pobre com respeito, porque existem
aqueles que se acham com o direito de tratar os pobres assistidos com
autoridade, querendo impor-lhes condições, somente porque lhes ofertam
algumas coisas. A caridade não suspeita mal. O caridoso jamais será aquele
juiz implacável, que vive perguntando: será que esse é pobre mesmo, será
que ele não vive embriagado? A caridade não folga com a injustiça. O verdadeiro
caridoso é justo, é amigo, não julga, só ajuda; ele só folga com a verdade,
faz tudo para ser autêntico, é caridoso na alma. Tudo tolera, porque crê
no crescimento espiritual do próximo. O caridoso espera, pacientemente,
que o companheiro de evolução conquiste, a cada dia, uma vitória. Tudo
espera. O caridoso não acusa os retardatários, os que praticam iniqüidades;
ele aguarda, distribuindo exemplos de amor e paz. Tudo sofre: ingratidão,
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ataques, abandono, críticas e às vezes até agressões morais, mas continua
caridoso, porque a caridade é o ar que respira. Ele não é caridoso para ser
admirado, é caridoso porque a caridade lhe dá paz de consciência. A caridade
nunca, jamais, há de acabar, porque sempre existirão os caridosos; aqueles
que, esquecidos de si mesmos, lutam para levar a felicidade a quem está
só. Paulo é ainda mais taxativo quando diz: ou deixem de ter lugar as profecias,
isto é, cessem as comunicações do alto, calem-se os médiuns, e também:
ou cessem as línguas, isto é, as manifestações dos Espíritos, quer
dizer, seja abolida a comunicação. De que vale o conhecimento científico,
sem o crescimento do amor? De que valem as descobertas científicas, se elas
não servirem para o crescimento moral da Humanidade? O que é a ciência
sem Deus? Um vagão sem condutor. Para que a Humanidade evolua, o homem
precisa da fé, da esperança e da caridade. Mas a caridade, que é o
amor em ação, é o único caminho que nos leva ao Pai. Sem uma mudança
interior, o homem não alcançará a pureza. Só com renúncias e a luta contra
os próprios defeitos ele vencerá a si próprio e alcançará a perfeição. O Espiritismo
dá ao homem todas as ferramentas para abrir o estreito caminho que
nos levará a Deus: o dos conhecimentos doutrinários. Renegá-los é o mesmo
que pisar nas pérolas preciosas do conhecimento. Só o Espiritismo está preocupado
com a elevação moral e intelectual do ser humano, e feliz aquele
que, ao chegar ao Espiritismo, procurar se auto-educar, tudo fazendo para
tornar-se um verdadeiro espírita. O homem que conhece a Doutrina Espírita
e nada faz pela própria melhoria chegou à fonte do amor, mas não quis enxergála,
virando-lhe as costas.
-Marry, o espírita encontra inúmeras oportunidades de se auto-educar,
mas poucos lutam para vencer as suas imperfeições.
- Luiz, quem busca a Doutrina Espírita não pode, de modo algum,
ficar longe do aprendizado. Os fenômenos existem, mas só eles são insuficientes
para o crescimento moral do homem. A descoberta da Doutrina se dá
através do conhecimento.
Enquanto conversávamos, Ellen aproximou-se, dando-nos importantes informações:
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-Luiz e Marry, estamos preparando uma turma de futuros espíritas que voltarão à carne e irão compor a seara do Mestre.
- Ellen, esses Espíritos estão sendo preparados para reencarnar?
- Sim, estão sendo preparados para chegar à carne em lares bem equilibrados.
- Quanta responsabilidade desses futuros pais!
- Sem dúvida, Luiz. As famílias escolhidas irão precisar de muitas
renúncias. Esses Espíritos são seres especiais, eles voltarão ao plano físico
em missão.
- Será que não deixarão passar a oportunidade, inebriados com o
avanço tecnológico do planeta?
- Se existir alguma falha, ela será mínima. Acreditamos que esses
Espíritos, mesmo se os pais fracassarem, permanecerão fiéis ao Cristo..
Ellen nos recordou de Jesus, quando o Mestre andava por Nazaré, em
Mateus, Capítulo IX, vv. 35-38: Jesus percorreu as cidades e as aldeias
ensinando nas sinagogas, pregando o Evangelho do reino, curando males
e todas as enfermidades. E, vendo todas aquelas gentes, teve piedade
deles, pois estavam maltratados e jaziam por ali como ovelhas sem
pastor. Disse, então aos discípulos: A seara é verdadeiramente grande,
mas poucos os trabalhadores. Rogai, pois, ao dono da seara que mande
trabalhadores para ela.
- Sobre esta passagem do Evangelho encontramos, no Antigo Testamento,
no livro de Ezequiel, Capítulo XXXIV, vv. 1-2: Foi-me dirigida a
palavra do Senhor, a qual dizia: Filho do homem, profetiza acerca dos
pastores de Israel; profetiza e dize aos pastores: Isto diz o Senhor Deus:
Ai dos pastores de Israel, que se apascentam a si próprios! Porventura
são os rebanhos os que devem ser apascentados pelos pastores? Também
encontramos em Zacarias, Capítulo X, versículo 2: Porque os ídolos
deram respostas vãs, os adivinhos tiveram visões mentirosas, os sonhadores
falaram no ar; davam consolações falsas; por isso foram levados
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como um rebanho; foram afligidos, porque não tinham pastor. O planeta
está precisando de pastores, homens dignos, que através de exemplos ofereçam
ao povo sofrido a esperança.
- Por isso, Luiz, os espíritas não devem se preocupar apenas com os
fenômenos. O Espiritismo codificado por Kardec ensina ao homem a busca
da perfeição. Jesus ensinou os apóstolos a viverem no mundo, sem se tornarem
escravos dele. O bom pastor de alma tem de pregar com exemplos. De
nada serve ser portador de uma bela mediunidade, se o coração estiver repleto
de orgulho e de vaidade. Os bons pastores são aqueles que dão as
ovelhas o alimento espiritual, o pão da vida, que é o conhecimento da responsabilidade
de cada Espírito para com o Seu Criador: Deus. Enquanto os
ditos pastores não se respeitarem uns aos outros, existirão as brigas religiosas,
e esquecidos estarão todos: sacerdotes, pastores, espíritas, enfim, todos
os que se dizem trabalhadores do Cristo, da passagem bíblica da parábola
do Samaritano e de tantas outras que o Cristo de Deus tão bem ensinou à
Humanidade, falando que a verdadeira fé não separa irmãos. O espírita tem
mais responsabilidade do que os outros pregadores, porque foi-lhe concedido
desvendar tudo o que ontem era mistério. O espírita tem conhecimento de
que sem a caridade não há salvação; que o amor é que cobre a multidão de
pecados; que o homem está no corpo físico para crescer espiritualmente,
pagando as suas dívidas; que sem luta não existe crescimento espiritual.. O
Espiritismo lembra a cada ser que a reencarnação é o perdão de Deus e que
ninguém tem o direito de jogar fora a grande oportunidade, que é a vida
encarnada. Faltam, sim, verdadeiros pastores, porque quase todos os que
hoje aí estão não desejam aceitar o modo de pensar daquele que não pensa
como ele. Já imaginou se o Cristo desprezasse Moisés e todos os judeus?
Jesus caminhou sereno e amigo, e quando pediu água à samaritana, quis
deixar para a Humanidade a lição de que aquele que realmente crê em Deus
e é Seu real trabalhador não teme o seu próximo que pensa de modo diferente.
O Cristo, ao curar o servo do centurião, não indagou qual era o seu
credo, apenas cumpriu a Sua missão de pastor de almas. Mas os pobres de
amor tornaram-se os donos da verdade, apenas porque aprenderam a comentar
as passagens evangélicas. Bem sabemos que isso nada representa.
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Para transformar-se em pastor verdadeiro, o homem precisa tornar-se o
menor dos servos, porém rico em amor e respeito ao seu próximo. Os espíritas
devem ler e meditar estas passagem do evangelho de João, Capítulo IV,
v. 36-42: O que sega recebe recompensa e junta fruto para a vida eterna;
para que assim o que semeia, como o que sega, juntamente se regozijem.
Porque nisto se verifica o ditado: um é o que semeia e outro o que
sega. Que bênção para um espírito, ao receber de Deus o dom de guiar
outras pessoas, através do Evangelho, não fracassar na sua tarefa! Os dois
serão vencedores: Aquele que semeia e o que sega. Eu enviei-os a segar o
que vós não trabalhastes; outros trabalharam e vós entrastes nos seus
trabalhos. Como Jesus é sábio! Os cristãos de antigamente e os de hoje
encontraram a seara plantada com o sangue do Cristo e o dos apóstolos.
Outros trabalharam e vós entrastes nos seus trabalhos. Quanta verdade
há nestes versículos: alguns interpretam as passagens bíblicas, mas não seguem
os preceitos do Cristo. Muitos samaritanos daquela cidade creram
em Jesus, por causa da palavra daquela mulher, que dava este testemunho:
Ele me disse tudo o que tenho feito. Vindo, pois, ter com ele os
samaritanos, pediram-lhe que ficasse lá. E ficou lá dois dias. Muitos
mais creram nele em virtude da sua palavra. E diziam à mulher: Não é
já pela tua palavra que cremos nele, mas é porque nós mesmos o ouvimos,
e sabemos que ele é verdadeiramente o Salvador do mundo. Jesus
tem razão: a seara é verdadeiramente grande, mas poucos os trabalhadores.
Hoje vemos, Luiz Sérgio, os ataques religiosos: igreja contra igreja, e muitas
delas contra o Espiritismo. E o pior é que o Espiritismo - não bastassem os
ataques das ditas igrejas cristãs - também se encontra dividido. Os espíritas
não gostam deste ou daquele espírita. O Cristo tem razão, quando diz em
Mateus, Capítulo IX, versículo 38: Rogai, pois, ao dono da seara que mande
trabalhadores para ela. Isto é, que os trabalhadores da Seara estejam unidos
de sentimentos fraternos, do amor cristão, e saiam a pregar através da
palavra, mas sobretudo do exemplo, a moral que o Mestre dos mestres pregou
e tão bem exemplificou; que todos nós, não somente os espíritas, mas
todos os que pregam o Evangelho, sejamos uma carta do Senhor, chegando
em todos os lares, sempre levando um cântico de paz, mas nunca a divisão e
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a guerra, a crítica, a maledicência. Sejamos fiéis ao Senhor, a Terra está
precisando regenerar-se para a felicidade do seu povo. Também devemos
ler na II Carta aos Tessalonicenses, Capítulo In, vv. 1-2: Quanto ao mais,
irmãos, orai por nós, para que a palavra de Deus se propague e seja
glorificada, como é entre vós, e para que sejamos livres de homens importunos
e maus; porque a fé não é de todos.
-Ellen, como deve penar aquele que brinca com a ingenuidade dos
que nele acreditam!
- Ah, Luiz, como sofrem os que não respeitam os ensinos de Jesus!
Aqueles que, possuidores do dom da palavra, pregam a separação e brincam
com a ingenuidade dos que crêem. Mas temos a eternidade para acertar,
e feliz aquele que busca agora tornar-se um fiel trabalhador da seara.
-Irmã, como reconhecer os reais pastores, os que pregam pelo exemplo?
- Se ouvimos alguém falando ou escrevendo sobre caridade, mas
ainda possuindo fechados o coração e as mãos, ele não pode ser um trabalhador
do Cristo. Se freqüentamos uma Casa religiosa e o pregador critica
esta ou aquela religião, grita e esbraveja contra tudo e contra todos, achando-se
o único certo, não pode ser um real pastor. É fácil conhecer os falsos
trabalhadores: basta olhar o que eles fazem para amenizar as dores. O real
pastor, se estiver preocupado com o crescimento moral da Humanidade,
começará pelo seu próprio crescimento espiritual.
- Irmã, como existem falsos profetas; aqueles que só falam, sem jamais
se aproximar de um pobre!
- Conhecemos muitos que falam, falam e vivem na ociosidade. Hoje,
ainda existem aqueles que pregam a Doutrina, mas se dizem contra os trabalhos
beneméritos. E todos nós sabemos que sem caridade não há autoburilamento.
- Irmã, se desde o Velho Testamento o homem é alertado para a
caridade, por que ela se esfria cada vez mais?
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- Simplesmente, Luiz, porque hoje a vida física oferece um oceano
de prazeres, onde se gasta mais do que se ganha. Sendo assim, como lembrar-se
dos que têm fome? No livro Eclesiástico, Capítulo 11, vv. 28-29
lemos: Porque é fácil a Deus, no dia da morte, dar a cada um segundo as
suas obras. O mal presente faz esquecer grandes delícias, e no fim do
homem serão descobertas as suas obras.
- E ainda existem espíritas que não aceitam as obras sociais. Como
pode um ser humano chegar junto à cascata de luz, que é a Doutrina Espírita,
e não envolver o seu Espírito nesse banho de luz, que são os ensinos doutrinários?
- A cada dia, Luiz, a Humanidade fica mais materialista. Achamos
mesmo que, à medida que a Terra progride em tecnologia, o homem esfria o
sentimento. É a casa luxuosa, são as roupas de marca famosa, os carros
modernos, as jóias caras, enfim, é o conforto que o faz distanciar-se do amor a Deus.
- Irmã, mas o Evangelho nos diz que o homem pode desfrutar do
conforto e servir a Deus.
-E é verdade. Ninguém pede que o homem viva na miséria, mas que
cada um ame a Deus em Suas criaturas. Os materialistas acham que a fé
enfraquece o homem. Por isso, a cada dia, os Espíritos do Senhor sopram
em todas as partes e queira Deus os homens deixem de ser surdos.
-Ellen, temos de continuar a nossa peregrinação. Obrigada pela proveitosa
conversa-agradeceu Marry.
-Marry e Luiz Sérgio, que Deus os guie. Até outra vez.
103
Capítulo IX
A TAREFA DA PSICOGRAFIA
Dali saímos, e logo estávamos em um lugar onde uma bela casa parecia
uma ilha cercada de pântano. No início me assustei, mas logo fiquei serenos,
pois entrei em prece. Aproximamo-nos, sendo recebidos por Salatiel
que, sorridente, desejou-nos boas-vindas. Marry apresentou-me:
- Salatiel, estamos aqui em visita, pois o aluno Luiz Sérgio tem a
incumbência de levar ao plano físico o conhecimento que está adquirindo.
- Irmão Luiz Sérgio, seja bem-vindo e que o Mestre eterno esteja
sempre guiando suas mãos, para que possa tornar-se um arauto das boas informações.
E recitou, do livro Eclesiástico, o Capítulo XIV, vv. 16-21: Dá, e
recebe, e santifica a tua alma. Pratica a justiça antes da tua morte,
porque na sepultura não se encontram alimentos. Toda a carne envelhece
como ofeno, e como as folhas que crescem sobre as árvores verdes.
Umas folhas nascem, e outras caem; assim é a geração de carne e
de sangue: uma fenece, e outra nasce. Toda a obra corruptível virá enfim
a perecer, e aquele que afez irá com ela. Toda a obra excelente será
louvada, e o que a executa, nela será honrado.
- Irmão, poderia nos explicar estes versículos do Eclesiástico! -'
-Luiz Sérgio, a ignorância a respeito de uma retribuição ultraterrena
faz com que ainda se considere o tempo e os bens terrenos como a única
felicidade. Daí, a advertência de que o que é da terra só se aproveita em um
período mínimo de tempo, e disso não se pode esperar felicidade após a
morte do corpo, porque não enriquece o Espírito de boas obras. Os bens
temporais são para serem usados no plano físico e não levados pelo Espírito.
Virei-me para Marry e perguntei:
- O que vimos fazer aqui?
Ela sorriu.
- Conhecer esta bela e proveitosa faculdade.
- Faculdade? , , . . ,,
O irmão respondeu:
- Sim, estamos ainda na entrada da Faculdade da Sabedoria.
Desejei fazer umas perguntas, porém calei-me; o nosso irmão guiava-nos
em pleno silêncio. Depois que varamos os vários corredores daquela
casa, vimos um belo jardim e nele vários bangalôs. Sorri, quando divisei seus
nomes: fé, esperança, caridade, humildade, amor, paciência, mansuetude,
enfim, cada bangalô tinha um nome das principais virtudes. Pensei: "onde
vamos estudar?" O irmão chegou na varanda do bangalô do amor e nos
convidou a adentrá-lo. Uma irmã apareceu e também nos convidou. Marry,
agradecendo, apresentou-me: ,
-Este é o Luiz Sérgio.
Liana,sorrindo,cumprimentou-me.
-Sejabem-vindo, Sérgio.
Ali ficamos, conversando, até sermos levados à sala de aula. Cumprimentamos
a turma e lá aguardamos o início da aula, sentados em uma mesa
com os professores que iriam dar as aulas. Encontrava-me curioso, ou melhor,
ansioso, quando Marry falou:
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- Luiz, faça uma prece em silêncio pois a sua ansiedade pode atrapalhar
os doentes.
- Doentes, Marry?
- Sim, Luiz. Nesta sala de aula encontram-se os Espíritos que desejam
ir ao plano físico dar mensagem.
- Quê! É verdade, Marry?
-Daqui é que partem os Espíritos, muitos deles recém-desencarnados,
para dar mensagens a alguns médiuns.
-Alguns médiuns?
- Sim, Luiz, não é verdade que todos os médiuns podem receber
mensagens de desencarnados.
- E por quê?
-Muito simples: falta de vibração magnética.
* - Vibração magnética?
- Sim. Precisa existir afinidade entre o médium e o Espírito recém-desencarnado, para uma real sintonia.
,,.,-Os Espíritos aprendem a psicografar aqui?
- Sim. Muitos julgam que basta o Espírito desejar mandar mensagem
e já é capaz de o fazer.
- E não é assim?
- Não. Para mandar uma mensagem, ela precisa ser proveitosa não
só para a família, mas para todos os que a lerem, e para isso ele precisa
passar por essas pequenas faculdades.
Passei a observar melhor aquela turma tentando psicografar e perguntei:
- Os médiuns são encarnados?
107
- Não, são Espíritos preparados para este trabalho.
-Espíritos-médiuns?
- Sim, Espíritos-médiuns.
- Irmã, mas hoje o que mais se vê são Espíritos mandando mensagens.
- Luiz, o Espiritismo veio ao mundo físico para educar o homem,
para fazê-lo aproveitar a reencarnação. A Doutrina Espírita não precisa se
expor, não precisa de propaganda. Só poucos médiuns estão aptos a receber
mensagens daqueles que partiram.
-Mas essas mensagens não são a maior propaganda do Espiritismo?
- Não. O que torna o Espiritismo conhecido são as condutas dignas
dos verdadeiros espíritas. Essas mensagens consolam, mas muito poucas
famílias se tornam espíritas apenas por receberem mensagens. Ao contrário,
no início elas ficam deslumbradas, mas com o passar dos anos a saudade vai
diminuindo e elas fogem dos Centros Espíritas.
- Por que a Espiritualidade Maior não suspende as mensagens ?
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-Porque elas consolam. Mas os médiuns iniciantes têm de ser alertados
que, para receberem boas mensagens, precisam se educar. Só com a educação
doutrinária eles analisarão todas as mensagens recebidas e as passarão
pelo crivo da razão.
-Irmã, existem tantos médiuns recebendo mensagens, umas até boas,
mas outras difíceis de aceitar...
- Aí é que mora o perigo. Muitas vezes, o entusiasmo do médium
leva-o a desejar ajudar os que sofrem e, não colocando a Doutrina em primeiro
lugar, deixam sair mensagens que as famílias criticam, passando a atacar
o Espiritismo. Estas aulas dão aos Espíritos que desejam consolar os
seus familiares condição de escrever com segurança e sempre levando a
Doutrina como ensinamento.
Ali fiquei, olhando uma senhora de seus setenta anos, que chorava
muito, dizendo:
- Como escrever, se sou analfabeta?
A orientadora dizia:
-Tente, pois só na sua última encarnação a irmã não aprendeu a ler e a escrever.
Ela chorava muito, quando a nossa irmã Liana convidou-a a passar a
outra sala. Marry convidou-me a segui-las, e lá fomos nós. A recém-desencarnada
Júlia chorava, dizendo-se analfabeta. Liana a fez adormecer e
levou-a a outras existências onde ela conheceu as letras, teve cultura. Liana
dizia:
- Está vendo, Júlia, como você escreve com desenvoltura?
E vários quadros foram passando na sua lembrança. Quando acordou,
voltou à sala e bem devagar, ajudada pela orientadora e por Liana,
iniciou uma carta, escrevendo com muita dificuldade.
Pensei: "o Espírito faz um tremendo esforço, para depois a família dizer:
esta mensagem não é da minha mãe, ela não sabia escrever". Olhava
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aqueles sofridos Espíritos, ainda preocupados com as suas famílias; poderiam
estar desfrutando das maravilhas espirituais, mas não, estavam lutando
para dizer aos que ficaram: "estou vivo, preciso de preces. Não me chamem,
por favor, não posso ajudá-los, porque preciso ser ajudado". Mas o encarnado
não quer saber de buscar a verdade; basta o filho, o pai ou a mãe
desencarnar, para a família transformá-los em santos. E coitado do médium,
se disser que o filho está precisando de preces, porque quando encarnado
era dependente de drogas!...
Júlia sorria, pois já estava conseguindo escrever algumas palavras.
-Marry, logo Júlia irá até o médium encarnado e dará mensagens?
- Ainda não. Júlia fará muitos exercícios, e só quando estiver apta a
escrever é que irá até o médium.
- Irmã, como é complicado! Mesmo existindo esta Faculdade de
mensagens mediúnicas, ainda se praticam tantos absurdos. Já imaginou se ela
não existisse?
- Irmão, os encarnados julgam que no mundo espiritual tudo se resolve
num piscar de olhos. Eu quero, e acontece. Se assim fosse, a nossa
vida não teria sentido. Nós vivemos em nosso mundo, lutando para evoluir e
encontrando oportunidades mil de aprendizado. Poucos médiuns são capazes
de servir o plano espiritual nesta sublime tarefa de trazer para o plano
físico notícias daqueles que partiram.
-Irmã, e aquele médium que manda mensagem pelo correio?
Ela sorriu.
- A verdade, Luiz, é um sol, que as nuvens da mentira são muito
fracas para encobri-lo. A Doutrina Espírita luta pelo crescimento do homem
e não aspira que multidões a busquem por curiosidade. Nessa procura de
notícias, ainda encontramos médiuns que, sem critério, dizem estar recebendo
este ou aquele Espírito. Muitas vezes, o Espírito de gente famosa está em
dificuldade no plano espiritual, e o médium desequilibrado o está recebendo
e ele fazendo milagres.
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- Irmã, um Centro Espírita bem orientado não deixa seus médiuns
serem ridicularizados, não é mesmo?
- Na Doutrina, há tantas coisas a serem feitas, tarefas que um bom
médium pode realizar. Se ele for portador de uma boa vidência, pode informar
à família o estado em que se encontra o Espírito recém-desencarnado.
Mas essas informações só devem ser dadas se o Espírito estiver bem. Se
não, fale apenas para orarem por ele, por se encontrar ainda num hospital da
espiritualidade, em tratamento.
- Irmã, a mediunidade psicográfica é a que torna mais conhecido o
médium que a pratica.
-Tem razão, mas um bom médium não está procurando ser conhecido.
Um trabalhador de Jesus é como a pedra bruta do alicerce que sustenta
a casa e nunca é valorizada. E o poste que sustenta os fios e as lâmpadas,
sem ser louvado. É a raiz da árvore, que não é admirada. Desde que a criatura
deseje aplausos, está em lugar errado. A Doutrina Espírita não é um
palco de teatro, é um hospital de almas, é a seara do Mestre, necessitando
de reais trabalhadores.
Naquele local, víamos os Espíritos se esforçando, preparando-se para
logo estarem em condição de mandar notícias do mundo onde vivem.
- Marry, quão grande é a responsabilidade de um médium que se
aproxima de uma mãe, de uma esposa, esposo, para transmitir notícias daqueles
que partiram.
- Luiz, tudo na Doutrina requer bom senso. Os médiuns precisam
se conscientizar de que por qualquer falha deles, quem sofre os ataques é
o Espiritismo. Portanto, para não cair no ridículo, os médiuns precisam
estudar sempre. Insisto nesse assunto, porque existem aqueles que julgam
que, por terem vinte, trinta, quarenta anos de Doutrina, estão isentos
dos estudos. A Doutrina Espírita é progressiva e infeliz do médium que se
aposenta. Vemos, em algumas Casas Espíritas, médiuns antigos não desejarem
fazer o Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita, julgando que
tudo já sabem. Tais pessoas ocorrem em grande erro, pois o estudo dá
111
ao espírita um conhecimento maior, pois foi muito bem elaborado por
grandes estudiosos.
- Constatamos que em alguns Centros Espíritas, onde se estuda com
afinco, até os presidentes da Casa fazem o Estudo Sistematizado.
- Antigüidade, Luiz, é que não pode existir na Casa Espírita, pois se
o Espiritismo deve acompanhar o avanço da ciência, por que alguns espíritas
desejam ficar para trás?
-Marry, hoje constatamos muitas brigas em algumas Casas Espíritas.
A causa: pessoas jovens, não aceitando crendices da diretoria antiga,
que muitas vezes parou no tempo. Isso está acontecendo porque alguns espíritas
estão-se aposentando, por achar que já trabalharam muito na Doutrina,
e hoje só vão ao Centro de vez em quando, deixando-o sem disciplina.
Perguntamos: o que se deve fazer? É preciso que os diretores dos Centros
Espíritas não se tornem "caducos", mas que vivam sempre atentos à pureza
doutrinária da Casa, porque, quando menos esperarem, elas se verão sem
condição de acompanhar aqueles que estudam, aqueles que caminham lado
a lado com o progresso da ciência. Junto a O Livro dos Espíritos, constatamos
que a Doutrina está à frente da ciência, e que ninguém precisa ir atrás
deste ou daquele líder religioso que parece ter encontrado o "mapa da mina".
- A Casa Espírita não pode deixar as pessoas iniciantes lerem
este ou aquele livro, sem qualquer orientação. Por isso o Estudo Sistematizado
dá aos espíritas, nem vamos falar aos iniciantes, o que precisam
saber sobre Espiritismo. Criou-se, no meio espírita, o mito de que todos
os que freqüentam uma Casa Espírita têm de desenvolver a mediunidade.
E, sem nenhum conhecimento doutrinário, encontramos médiuns conversando
com Maria de Nazaré, recebendo Jesus ou todos aqueles Espíritos
conhecidos na Doutrina, que assim se tornaram através do trabalho
de médiuns conceituados. Um médium estudioso não cai no ridículo de
ficar recebendo mensagem com o nome deste ou daquele espírito "famoso".
Sim, porque quem está iniciando não deseja receber o José, o Manoel
ou o Antônio. Será que os espíritos de Sócrates, Bezerra, André Luiz ou
112
Emmanuel exercitam médiuns iniciantes? Isso acontece por falta de conhecimento doutrinário. ; .
- Irmã, nas outras religiões se comunicam os santos ou o próprio
Espírito Santo. Por que só no Espiritismo eles não podem se comunicar?
-Eles podem, mas não em qualquer lugar, ou com médiuns sem preparo,
iniciantes. Também alertamos para o perigo de alguns espíritas que
julgam que no Espiritismo só se comunicam obsessores, opinião esta que se
junta à dos inimigos da Doutrina, que dizem que no Espiritismo só há Espíritos
trevosos. Quando falamos sobre o perigo das mensagens assinadas por
nomes respeitáveis, é para resguardar os médiuns iniciantes do ridículo.
- Se todos aqueles que buscam a Casa Espírita encontrarem uma
boa orientação espiritual, conhecerão o longo caminho da mediunidade sem queda.
- Sempre falamos, Luiz, que a mediunidade é como um botão de rosa: tem o tempo certo de abrir. Se tivermos pressa e tentarmos abrir a rosa
a qualquer custo, ela se desfolhará. A fruta verde não tem sabor, o certo é
esperar a hora certa de colhê-la; quando madura, estará com o seu real
sabor. Os iniciantes não podem ter pressa.
Olhei mais uma vez aqueles Espíritos, que buscavam aprender a difícil
tarefa de se aproximar de um médium para mandar notícias da sua nova morada.
- Irmã, às vezes nos preocupamos muito com as mensagens dadas
aos familiares, ansiosos por notícias. Médiuns sem critério dizem que o filho
querido está sofrendo no umbral. Há também aqueles outros médiuns que,
para agradar, dizem que o filho está comandando falanges de trabalhadores,
e muitas vezes esses Espíritos, quando encarnados, não tinham uma vida digna.
- O melhor é o médium se calar, quando não tem condição de ajudar..
-Todos passam por esses cursos de psicografia?
113
- Quase todos. Só não passam os grandes Espíritos, de elevada evolução.
Mesmo assim, os censores nem tudo deixam ser revelado nas mensagens-
- Estas mensagens são proveitosas para o Espírito?
-Elas às vezes consolam, mas muito pouco fazem em prol da Doutrina
- Porquê?
- Como já falei anteriormente, quase todos os que buscam mensagem
só ficam na Casa enquanto existir uma grande saudade. Passando a
saudade, dão adeus e vão viver a vida da matéria. Poucos se tornam estudiosos
espíritas. Muitos, quando cessam as mensagens, costumam até fundar
nos lares grupos sem qualquer conhecimento, para receber o ente querido.
Outros recebem, no Culto do Evangelho no Lar, os seus familiares
desencarnados, enquanto um estudioso sabe que o culto cristão no lar é um
encontro com Jesus, e não uma sessão espírita.
-Irmã, e aqueles médiuns antigos que gostam de dizer para o iniciante:
"você é grande médium, possui dez mediunidades, basta desenvolvê-las?"
- Aí está o perigo. O iniciante julga-se dono dos Espíritos e inicia a
farsa: escreve, desenha, enxerga, materializa, e ai daquele que lhe disser que
ele não tem todas essas mediunidades.
-Por que esses médiuns fazem isso?
-Falta de estudo. Simplesmente falta de estudo e de trabalho. Quando
desencarnei, Marry, tive uma vontade imensa de dizer aos meus pais que
estava vivo. E só o consegui com o consentimento da espiritualidade, tudo
dentro de uma disciplina, conforme está no livro O mundo que eu encontrei..
Até a médium foi consultada para fazer o trabalho, vindo a aceitá-lo.
- Complicado, não?
- A pureza da Doutrina está na consciência de cada espírita. Se o
espírita não se conscientizar de que precisa dar exemplos nobres em qualquer
114
lugar que se encontre - no trânsito, no trabalho, divertindo-se, em
viagem, enfim, no seu dia-a-dia; se ele não tiver equilíbrio por onde passar,
causará mais danos à Doutrina do que os nossos detratores.
-Compreendi, Marry. Você se refere àqueles espíritas que falam dos
Espíritos em todos os lugares onde se encontram. Se está alguém fumando,
ele diz: "o fumo faz mal"; se alguém toma uma bebida, ele critica, enfim, joga
palavras fora.
- O maior doutrinador que já passou pelo mundo físico - Jesus Cristo-mais exemplificou do que falou. Ninguém vai entender a grandeza
da Doutrina Espírita, apenas nos ouvindo no local do nosso trabalho ou nas
reuniões sociais. É muito pouco o tempo para demonstrar a grandeza da
nossa Doutrina...
-É como aqueles, cujas famílias têm horror ao Espiritismo: no Centro
são respeitadas criaturas; no lar, tiranos domésticos.
- É verdade. A seara está precisando de verdadeiros trabalhadores,
cujo perfume interior de humildade tome conta dos lugares por onde passe.
- Sempre seremos minoria?
-Não somos minoria, existem até muitos espíritas. No entanto, verdadeiros
espíritas, trabalhadores de Jesus, são poucos. Mas as outras religiões
também são minoria. Os grandes e sérios cristãos são poucos, muito
poucos. O homem ainda não se conscientizou do valor de ser bom e digno.
Enquanto o homem se embaraçar com os laços da matéria, ele se distanciará
das coisas do Espírito. Aos espíritas será cobrado muito mais, porque as
lápides dos túmulos se levantaram e todos sabem que existe vida além da
vida e que nós teremos de responder pelos nossos atos. As outras religiões
não conhecem o tesouro contido nos livros da Codificação, verdadeiras jóias
literárias e ainda renegadas por muitos Centros Espíritas.
- Por que todos os grupos de estudo mediúnico não adotam O Livro
dos Médiuns e fazem dele um fiel livro amigo, um conselheiro, um mapa mediúnico?
115
- Porque muitos não querem estudar, convencidos de que são os
melhores médiuns do mundo. Só acreditam nos Espíritos que julgam seus
guias, somente deles aceitando orientações. É certo que ouçam os seus amigos
espirituais, mas o estudo torna-se necessário para saber identificá-los.
Deixando de estudar os livros doutrinários, ficam distantes das verdades espirituais.
Há até a corrida de alguns ditos espíritas atrás de cinzas milagrosas,
de doutrinas diferentes, enfim, buscam lá fora o que temos dentro da Casa
Espírita: conhecimento, equilíbrio, disciplina, paz e amor. Infelizmente, isso
está acontecendo.
- Por que, Marry ?
-A Doutrina Espírita, Luiz, nos ensina a reforma íntima, mas, infelizmente,
muitos não desejam mudar de comportamento. Se não se
conscientizarem de que os Centros Espíritas são hospitais de almas, de que
todos os encarnados são doentes que necessitam do médico Jesus e de que
precisam se educar, jamais compreenderão a beleza do Espiritismo. Muitos
ainda vão às Casas Espíritas em busca de milagres e eles não existem, é o
que nos ensina a verdade contida na Codificação.
Marry convidou-me a nos retirarmos, mas ainda dei uma olhada naqueles
Espíritos preparando-se para saber digitar as teclas de um telefone
chamado médium psicógrafo.
Fui saindo, pensativo, quando Marry me falou:
-Luiz, é muito triste o que estamos presenciando no mundo físico:
pessoas dignas deixando-se envolver pelo fanatismo religioso.
v - Irmã, tenho tratado nos livros desses infelizes casos e com pesar
vejo que eles estão aumentando.
116
Capítulo X
A IMPOSIÇÃO DAS MÃOS
Enquanto andávamos, encontramos Onor, o lanceiro de Maria; presta serviço em algumas Casas Espíritas, nas cabines de passes.
- Como vai, Luiz? Que Deus, nosso Pai de bondade, fortaleça^-
seus passos nas estradas da responsabilidade com os livros espíritas. ;
Abracei o querido amigo, demonstrando toda a minha admiração.
- Irmão, foi muito bom reencontrá-lo. Desejava mesmo fazer-lhe algumas perguntas. ''"
- Se estiverem ao meu alcance, responderei com todo prazer.
- Pode falar alguma coisa sobre o passe?
- Luiz, o céu, às vezes, nos parece muito distante, somente porque
desejamos voar. Mas como ele embeleza os nossos olhos, quando o fitamos
com amor e respeito a Deus! Assim é o passe. Ele é um simples ato de
imposição das mãos, mas algumas pessoas o complicam tanto, que o tornam
de difícil compreensão.
- O passe resolve tudo? ,
- Não entendi: tudo o quê?
117
-Doença, obsessão, febre, desequilíbrio, enfim, tudo.
- Luiz, o passe é uma transfusão de fluidos e de energias. Feliz do
homem que, chamado a dar passe, conscientize-se da sua simplicidade.
- Onor, o passista pode aplicar o passe coberto de jóias, brincos,
pulseiras, anéis?
- Poder ele pode, mas não deve. A simplicidade pede ao passista
que sejam retirados os óculos e tudo o que pode brilhar e chamar atenção
sobre si. Além disso, o brilho das jóias e o tilintar das pulseiras perturbam a
concentração de quem está recebendo o passe.
- A cabine de passe precisa ter muita vibração?
- Sim. O dirigente dos trabalhos tem de preparar o ambiente e bem
orientar os seus passistas, no sentido de não cumprimentarem quem entra na
cabine com abraços e beijinhos, afagar crianças ou brincar com elas. O passista
é um trabalhador, ou melhor, um enfermeiro de Jesus, numa sala fluídica,
junto a muitas criaturas doentes e necessitadas.<Se ele não tiver uma atitude
digna, poderá perturbar o ambiente.
-Foi o Espiritismo que inventou o passe, Onor?
- Claro que não. O Cristo foi o grande incentivador do ato de imposição
das mãos: o passe, que já existia desde o Antigo Testamento. Em Números,
Capítulo VIII, versículo 10, lemos: E quando os levitas estiverem
diante do Senhor, os filhos de Israel porão as suas mãos sobre eles. No
Capítulo XXVII, v. 18,23: (...) Toma Josué, filho de Num, homem no
qual reside o meu espírito e põe a tua mão sobre ele. E, impostas as
mãos sobre sua cabeça, declarou-lhe tudo o que o Senhor tinha mandado.
Deuteronômio, Capítulo XXXIV, versículo 9: Josué, filho de Num, foi
cheio do Espírito de sabedoria, porque Moisés lhe tinha imposto as suas
mãos. Notamos, em Deuteronômio, que Josué recebeu o Espírito com a
imposição das mãos de Moisés sobre ele.
- Onor, Jesus também usou o passe?
118
- Ninguém mais do que Jesus usou tão bem a imposição das mãos
para retirar obsessores. Agora, quem mais se utilizou da imposição das mãos
foram os apóstolos. Jesus impunha as mãos para curar, como em Lucas,
Capítulo IV, versículo 40: Ao pôr-do-sol, todos os que tinham enfermos de
diversas moléstias traziam-lhos. Ele, impondo as mãos sobre cada um
deles, sarava-os. Quão bela é a doutrina do Cristo Jesus! Ele não somente
curou as almas, como também ofertou a saúde aos doentes. Em Lucas, Capítulo
XIII, v. 10-13, vemos: Jesus estava ensinando numa sinagoga em
dia de Sábado. E eis que havia lá uma mulher que estava possessa de
um espírito que a tinha doente havia dezoito anos. Não entendemos por
que as outras religiões combatem o Espiritismo, dizendo que não existem
Espíritos. Aqui, nesta passagem, Jesus usa as Suas mãos para livrar da obsessão
uma mulher que sofria a influência dos Espíritos há dezoito anos. (....)
andava encurvada e não podia absolutamente levantar a cabeça. Jesus,
vendo-a, chamou-a e disse-lhe: Mulher, estás livre da tua enfermidade.
E impôs-lhe as mãos, e imediatamente ficou direita, e glorificava a Deus.
- Os apóstolos também usavam a imposição das mãos, Onor?
- Sim, e muito, como nas seguintes passagens: Atos, Capítulo VI,
versículo 6: Apresentaram-nos diante dos apóstolos, os quais, depois de
terem orado, impuseram-lhes as mãos. Atos, Capítulo VIII, v. 17-20:
Então impunha-lhes as mãos, e recebiam o Espírito Santo. Quando Simão
viu que se dava o Espírito Santo por meio da imposição das mãos
dos apóstolos, ofereceu-lhes dinheiro, dizendo: Dai-me também a mim
este poder, afim de que todo aquele a quem eu impuser as mãos receba
o Espírito Santo. Pedro, porém, disse-lhe: O teu dinheiro pereça contigo,
visto quejulgaste que o dom de Deus se pode adquirir com dinheiro.
Que lição! Só aqueles que tiverem o coração puro terão condição de transmitir
um bom passe. Atos, Capítulo XIX, versículo 6: E tendo-lhes Paulo
imposto as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo e falavam línguas e
profetizavam.
- Onor, os detratores do Espiritismo não estudam esses fatos?
119
-Quando desejamos acusar alguém, o fazemos porque somos imperfeitos,
e a imperfeição da alma não deixa que o bom senso se manifeste.
Eles nada analisam, Luiz, só desejam atacar o Espiritismo.
- O médium passista às vezes julga a sua tarefa tão pequena!...
-Aí é que se encontra a humildade. O verdadeiro servidor do Cristo
não recebe aplausos pelo seu trabalho. E um bom médium passista precisa
mostrar-se equilibrado para bem servir.
- O que você aconselha aos viciados em passe?
-Luiz, as Casas Espíritas precisam orientar os seus freqüentadores
no sentido de que não devem abusar dos passes magnéticos, pois nem para
tudo eles servem.
- O que quer dizer: "nem para tudo eles servem"?
-Por exemplo: o passe não cura falta de educação de criança, assim
como algumas dores, onde o doente tem de ser medicado, e vários outros casos.
- Entendi. Esse recado é para os papa-passes, não é mesmo?
- E para alguns médiuns que fazem os cursos de passe e sempre se
dizem imperfeitos e incapazes de aplicá-lo, mas adoram recebê-lo a toda hora.
- Onor, podemos considerar a cabine de passe um refúgio de amor?
- Sim, ela é uma câmara de recuperação de fluidos. O passe é benéfico,
muito benéfico.
- Quem é viciado em álcool e fumo pode dar passe?
- Não, as pessoas desequilibradas devem evitar impor as mãos sobre
outrem. É muita responsabilidade do passista, pois quem o busca confia muito nele.
- Onor, então poucos podem aplicar passes?
- Não, Luiz, não pensamos assim. Mas não se concebe um espírita
viciado em fumo e álcool, comida e tóxico. Portanto, quem chega à Doutrina
tem de jogar fora os adereços da sua fantasia materialista. O espírita está na
Doutrina para se tornar bom. Quem se diz espírita tem de sê-lo de fato.
Como podemos falar do Cristo e não seguir o Seu Evangelho? Como falar
em Doutrina e não estar preparando a nossa veste nupcial?
- Por isso há tão poucos trabalhadores em certas Casas Espíritas, Onor.
-A disciplina espírita deve ser seguida, mas ela espanta os falsos, os
fracos e os incapazes de lutar pela própria evolução.
- Onor, é certo ministrar o passe usando óculos, ou se deve retirálo?
Os óculos realmente atrapalham?
- Sim. Até para orar deveríamos retirá-los, porque sem eles ficamos
mais à vontade.
- Vemos muitos médiuns aplicando passes cobertos de jóias, óculos
e tudo o que têm direito
- Cada Casa segue uma orientação. Nós, os lanceiros de Maria,
gostamos de trabalhar com os passistas com mãos limpas, sem adornos, de
banho tomado, enfim, que não causem situação desagradável aos que se
aproximam deles.
- Muitos julgam que basta fazer o curso e já estão aptos a ministrar o passe.
- Quem deseja realmente servir deve se policiar, livrando-se de qualquer
vício e se preparando para o sublime trabalho da imposição das mãos.
- O que acontece quando o médium não está bem, irmão?
- Ao lado de cada passista, sempre se encontra um Espírito para
ajudá-lo. Se o médium não estiver bem, o seu amigo espiritual o socorrerá.
Dificilmente quem busca uma cabine de passe recebe fluidos perniciosos. Em
uma Casa bem orientada, os seus freqüentadores são sempre resguardados.
121
- Então pode alguém receber fluidos desequilibrantes ao buscar o passe?
- Sim, mas é tão difícil isso acontecer! Os encarregados da cabine de
passe estão sempre primando pela segurança dos encarnados.
- Que deve fazer um dirigente de uma Casa Espírita para que ela seja
bem protegida?
- Incentivar o estudo, o trabalho, a disciplina. Os freqüentadores de
uma Casa Espírita têm de primeiro conhecer as responsabilidades para com
a Doutrina Espírita. E como bem sabemos, para se tornar um bom espírita
torna-se preciso estudar, conhecer o mundo espiritual e os perigos de desconhecer
a escala evolutiva dos espíritos. com o Espiritismo não devemos brincar,
ele representa muita verdade para ser negligenciada pelo homem.
- Onor, mas muitos buscam o Espiritismo atrás dos fenômenos e dos
milagres; poucos são levados por desejarem conhecê-lo a fundo.
- Aí é que está a grande responsabilidade da Casa Espírita, da sua
diretoria, dos seus médiuns. Quem chega vem em busca de algo, e nada
melhor do que o conhecimento para ajudá-lo a compreender que, no Espiritismo,
o homem tem de se tornar nobre; que as Casas Espíritas bem dirigidas
são hospitais de almas; que o Espiritismo não veio ao plano físico para beneficiar
os encarnados com ganhos fáceis, sorteios, rifas, loterias, marido rico,
passar em vestibular, bons empregos, enfim, bens materiais. O Espiritismo é
o Consolador prometido por Jesus e, sendo Consolador, ele veio para consolar,
explicar o porquê da vida. O Espiritismo é o remédio para curar o
homem encarnado da lepra da imperfeição. Se ao chegar à Doutrina o homem
não se torna melhor, ele não está assimilando os ensinos doutrinários,
que nos alertam para a necessidade de uma vida de renúncia. Chegar à Doutrina
Espírita e continuar igualzinho como éramos: egoístas, avaros, orgulhosos,
maledicentes, violentos, demonstra que a conhecemos, mas ainda não
deixamos que ela, a Doutrina bendita, nos adentre o coração. Estar na Doutrina,
mas encontrar dificuldade em servir ao próximo, amá-lo, perdoá-lo,
francamente, é muito egoísmo, pois a Doutrina é como um abraço amigo,
122
que ao chegarmos nela nos aconchega com carinho e nos dá segurança.
Quantos se dizem espíritas, mas longe se encontram das verdades espirituais
! Mesmo pertencendo à diretoria de uma Casa Espírita, jamais prepararam
uma cesta básica para dar ao pobre; mesmo trabalhando nela há vários
anos, jamais se propuseram a visitar um barraco pobre e levar ajuda.
- Irmão, muitas vezes o iniciante ou o freqüentador de uma Casa
Espírita não é orientado para o valor da fé com obras; ele julga que "desenvolvendo"
a mediunidade já está fazendo caridade para os desencarnados.
- Também acho que os seus orientadores, Marry, não estão informando
que, na Doutrina Espírita, o lema é trabalho ao próximo.
-Você tem razão, Onor - continuou Marry. Isto preocupa muito a
Espiritualidade: os componentes de uma diretoria não segurarem o cajado
do trabalho. Pouco vão ao Centro Espírita; se vão, é uma vez ou outra. Não
freqüentam grupos mediúnicos, acham que não precisam. Passes, tomam
uma vez ou outra. Perguntamos: que fazem, então? São presidentes de entidades
espíritas ou antigos médiuns que hoje pensam tudo já saber, não lêem
mais, não trabalham mais, estão "aposentados". Veja bem, isto está ocorrendo,
e muito, nas Casas Espíritas. Aí, chegam os iniciantes; deslumbrados
com o Espiritismo, iniciam uma campanha contra os espíritas inertes, querendo
ocupar os seus "cargos". E muitas vezes conseguem retirar toda a antiga
diretoria. E por quê? Simplesmente, porque os antigos estão acomodados,
julgando-se cansados e velhos, por isso não vêem o que está ocorrendo,
pois não freqüentam as palestras públicas, não visitam os grupos mediúnicos.
Quantos deles, mesmo sendo de uma Casa que diz professar a Doutrina
Espírita, não passam de grupos de outras seitas, repletos de misticismo e
crendices. Esses senhores se assustam quando os mais jovens, levados apenas
pelo entusiasmo, se propõem a derrubá-los.
- Mas onde está a Doutrina nesses jovens? Isso não está certo repliquei.
- Claro que não. Mas eles estão dando o que recebem. O certo é a
diretoria estar todos os dias no Centro, olhando, observando cada grupo,
123
cada freqüentador, e já nos grupos de estudo sistematizado, alertar os iniciantes
para a necessidade do auto-burilamento e levá-los ao trabalho da caridade,
sempre atenta ao que ocorre nesses grupos. Uma Casa Espírita cuja diretoria
só comparece nos dias festivos, não exercendo uma fiel vigilância sobre
tudo o que se passa no Centro, jamais terá progresso, sempre se defrontará
com os descontentes.
- Onor, como pode existir, em uma Casa com bases kardequianas,
pessoas vaidosas a tal ponto de tudo fazerem para passar os outros para trás?
- Luiz, os espíritas não devem pensar em aposentar-se, como se
fosse possível a alma, o Espírito, envelhecer. Mesmo em um corpo carnal,
ele possui grande vitalidade, quando trabalha em prol do próximo.
- Tem razão, irmão. Mas muitos adoram ficar em casa diante do
televisor e sempre alegando velhice, cansaço, doença, enquanto Deus trabalha,
trabalha, e Jesus, como filho fiel, ensina a toda a Humanidade o valor do
amor. Quem ama procura ajudar o próximo, não se importando com idade,
cansaço ou doença.
- É, Onor, e quando notarem que não taparam a goteira, as águas já
entraram e aí o que adiantará dizer "Senhor, Senhor", se na época que tudo
tinham, julgavam que eram os donos do Centro Espírita? Isso não deveria
acontecer, principalmente quando estudamos as obras básicas.
Marry sorriu, acrescentando:
- Paulo, preocupado com a inércia dos seus colaboradores, sempre
os alertava para o perigo do comodismo, como em II Timóteo, Capítulo IV,
v. 5-8: Tu, porém, vigia sobre todas as coisas, suporta os trabalhos,
faze a obra de um evangelista, cumpre o teu ministério. Sé sóbrio: Quanto
a mim, estou já para ser oferecido em libação, e o tempo da minha
dissolução avizinha-se. Combati o bom combate, acabei a minha carreira,
guardei a fé. De resto me está reservada a coroa da justiça que o
Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia; não só a mim, mas também
àqueles que desejam a sua vinda.
124
- Luiz Sérgio - disse Onor-, feliz o homem cujos anos não lhe
atrapalham o trabalho para o Cristo. É deprimente as pessoas que sempre
arrumam desculpas para não servir a Deus: quando crianças, são crianças;
quando jovens, porque são jovens; quando na meia-idade, porque precisam
de dinheiro; quando velhos, porque estão cansados. Entretanto, aqueles cuja
alma jamais envelhece, mesmo com um corpo doente e fraco, lutam por seu
ideal. O que mais nos comove é quando constatamos, em algumas Casas
Espíritas, que os mais idosos são os que mais trabalham. Mas existem também
os Centros Espiritas onde os mais velhos nada querem com os trabalhos da Casa.
- Onor, adorei falar com você. Felicidades para o seu trabalho.
- Obrigado, Luiz, e que Deus o ampare. Estamos sempre orando
pelo seu crescimento espiritual. E quando se sentir cansado, imagine o Criador
agindo a cada instante, não Se importando com a própria idade. Um
pensador hindu sempre dizia: "Pode o ancião ter os passos cambaleantes,
mas se no seu coração Deus reinar, ele jamais irá cair." O trabalhador de
Deus não tem idade, tem responsabilidade. A velhice não existe, quando é o
Espírito quem domina a matéria. Quem vive reclamando da própria velhice
tem tempo para observar o envelhecimento. Os que trabalham não se lembram
que estão ficando idosos. Disse um jovem a um idoso: "Deve ser muito
triste ficar velho." O idoso respondeu: "Deve, sim, principalmente quando
somos jovens." Gostaria de dizer a todos os filhos de Deus: a disciplina do
trabalho é o elixir da longa juventude. Como existem idosos jovens e jovens
idosos! É uma questão de escolha. Desagradável é o homem de meia-idade
considerar-se incapaz de trabalhar porque se julga velho. Quanto mais trabalhar,
mais rejuvenescerá, pois o seu Espírito não terá tempo de lamentar as
rugas que surgirem. As rugas são demarcações dos fatos que ocorreram no
decorrer da nossa existência. Ser idoso é ter guardado no coração muitas
lembranças e experiências de vida. O idoso já andou muitas léguas, e feliz
aquele que deixou durante a caminhada para os mais jovens muitos belos
exemplos. O ancião e o jovem são filhos de Deus, lutando pela perfeição. A
mão enrugada do ancião afagou a mão do jovem e ambas cantaram uma
125
canção de respeito. O jovem que não respeita os mais velhos está caminhando
para o futuro sem bagagens. Quando jovem, perguntei ao meu pai: O que
faço para não envelhecer? Ele, sabiamente, respondeu-me: Deixe de viver os
momentos bons e maus que nos levam ao futuro. Gosto da minha velhice, ela
me oferece momentos de felicidade chamados lembranças.
- Onor, todos esses pensamentos são de Ocaj?
- Sim, Luiz. Ele é nosso pai, irmão, amigo, nosso sol, grande alma.
- Onor, você também é uma grande alma.
-Menino Luiz Sérgio, somos apenas um grão de areia que, dia após
dia, recebe de Deus a luz da vida.
Marry despediu-se de Onor e foi ganhando caminho. Cheguei bem
perto dele, reclinei a cabeça e disse:
- Benditos sejam os leais amigos, e você é um deles.
Já estávamos a caminho, quando olhamos para trás. Onôr continuava
nos acenando e junto a ele Nary, outro lanceiro de Maria.
-Obrigado, amigos, fiéis companheiros, com quem contamos sempre-
e acenei aos dois. , ,"
126
Capítuio XI
A ALMA ANIMAL
AS TENDÊNCIAS DO ESPÍRITO
Permanecemos calados por um bom tempo, até que Marry iniciou a
conversação. '
-Luiz, na Terra já tivemos grandes Espíritos encarnados.
-É que a humildade deles os manteve ocultos, não é mesmo?
-Tem razão, amigo. Graças a eles, a Terra caminha para a regeneração.
- Marry, este lugar é muito lindo, adoro sentir o perfume das flores,
das matas. Quando olho os três reinos da Criação, reverencio a Deus por
toda a Sua sabedoria. É muito difícil para um estudioso da Doutrina estudar
a escalada do Espírito. Já tratamos do assunto, mas olhando essas pedras
vem na minha mente a indagação: nelas estão Espíritos em formação, como
estão nas pedras do mundo físico?
- Não exatamente como no mundo físico. O Espírito em formação
necessita de uma matéria mais condensada. E aqui, no mundo espiritual, a
matéria é mais etérea. É no mundo espiritual que o Espírito em formação
passa por pouco tempo nas espécies intermediárias.
- Explique-me, Marry, por favor.
127
-Luiz, somente no mundo espiritual é que o Espírito, em formação,
passa por algumas espécies intermediárias.
- Irmã Marry, já foi explicado esse assunto tão sério, mas acho que
ainda não ficou bem claro. Pode elucidar melhor?
- Sim. Os Espíritos em formação são colocados no mineral, em qualquer
morada física da Casa do Pai. Todos os mundos habitados têm o mundo
físico e o espiritual. No mundo físico é colocada a essência espiritual. Daí,
quando ela se desmaterializa é retirada a essência espiritual e levada para o
mundo espiritual. Logo ela é levada ao laboratório, depois passa pelas espécies
intermédias, indo após para outro reino.
- As flores e os animais da espiritualidade têm uma vida espiritual
mínima?
- Se e nos basearmos na contagem das horas do mundo físico, as
essências demoram muito no mineral do mundo espiritual.
- Por que isso acontece?
- Deus não favorece somente os filhos já formados, Luiz. Ele tem
complacência pelos nossos irmãos menores.
-E por que só os Espíritos formados dos homens têm o direito de se
sentirem libertos da matéria física?
-Porque o homem tem a sua individualidade, Luiz. O animal, após o
seu desencarne, também possui a sua individualidade, só que não detém ainda
a consciência de si mesmo.
- Quer dizer, Marry, que há nos animais um princípio independente
da matéria?
- Sim, pois é exatamente isso o que nos esclarece O Livro dos Espíritos,
em sua questão 597:
597. Pois que os animais possuem uma inteligência que lhes faculta
certa liberdade de ação, haverá neles algum princípio independente
da matéria?
128
"Há e que sobrevive ao corpo."
-Compreendo. É este princípio que, trazido para o mundo espiritual,
são as pedras, os animais e as flores. Então aqui estão essas essências enfeitando
a natureza com seus perispíritos?
-Já foi explicado que não devemos chamar de perispírito. Na questão
597.a de O Livro dos Espíritos, narra Kardec:
a) - Será esse princípio uma alma semelhante à do homem? ,
"É também uma alma, se quiserdes, dependendo isto do sentido que
se der a esta palavra. É, porém, inferior à do homem. Há entre a alma dos
animais e a do homem distância equivalente à que medeia entre a alma do
homem e Deus."
- Marry, por favor, desde que comecei a estudar na Universidade,
fiquei sabendo que os animais, as pedras e os vegetais não têm perispírito e
que são formas que enfeitam os mundos espirituais.
- Eles têm perispíritos em formação, e não perispíritos iguais aos do
homem. Lembra-se, Luiz, de que no perispírito do homem existem os centros
de força, onde estão alojados os laços? Se o irmão olhar bem, verá que
nestas espécies não existe centro de forças e sim uma sombra sem brilho.
- Tem razão, é um perispírito em formação, bem primitivo. Sabe,
Marry, é como se fosse a sombra do encarnado quando projetada contra a
luz. Sombra, apenas sombra, e não perispírito.
- O Livro dos Espíritos explica muito bem: "É também uma alma, se
quiserdes, dependendo isto do sentido que se der a esta palavra. É, porém,
inferior à do homem. Há entre a alma dos animais e a do homem distância
equivalente à que medeia entre a alma do homem e Deus."
- Marry, quanto mais se estuda, mais se aprende. Kardec sempre
nos ensina que o Espírito encarnado é chamado alma. E agora, estudando
sobre as essências espirituais dos três reinos, constatamos que o perispírito
em formação também é chamado de alma, quando está vestido de um corpo
físico no reino animal. Os elementos que revestem as essências, não podemos
129
chamá-los de perispírito, porque ainda são perispírito em formação,
como também não podemos chamar de Espírito, o princípio inteligente dos
animais. O princípio inteligente dos animais, que sobrevive ao corpo, é inferior
ao Espírito do homem, e é o que os individualiza, como seres que são..
Só que os animais são Espíritos em formação, e os homens, Espíritos formados.
Fácil, Marry, muito fácil!
Apesar de ter brincado com Marry, pensava: "como é difícil compreender
a problemática da vida, isto é, a evolução das espécies". Ela, vendo-me
pensativo, indagou:
-Preocupado, irmão? Algo não compreendeu?
-Não se trata de preocupação, Marry, estou pensando na importância
da vida do homem. A ele não se concebe o erro, porque é importante
como obra de Deus. Quanto tempo a essência espiritual levou até chegar ao
estado de Espírito livre? Vimo-nos como animal, quando o nosso princípio
inteligente não gozava do livre-arbítrio para poder escolher a espécie a
encarnar. _^,
- Sim, porque essa escolha não existe. Os animais apenas acompanham
a lei do progresso. Eles caminham também em direção a Deus. Toda
evolução do animal decorre pela ordem natural das coisas. Não possuindo
ainda a consciência, o livre-arbítrio, não passa pelo processo expiatório, pois
ignora a existência de Deus.
-Marry, mesmo o animal vivendo num mundo superior, é igualzinho
aos da Terra?
-Claro; não importa onde vivem o animal, as flores ou as pedras. A
diferença, voltamos a dizer, é em relação aos homens que com eles convivem,
nos três reinos. O ser humano deve conscientizar-se da sua importância
como Espírito criado por Deus e buscar forças nele, pois o homem é superior
ao animal, porquanto já possui a intelectualidade e a moralidade, transmitidos
pelo Espírito. À medida que o Espírito vai-se espiritualizando, também
se distancia da matéria bruta e se eleva cada vez mais.
130
-Marry, podemos chamar de Espírito o princípio inteligente dos animais?
- Podemos, se assim o desejarmos, mas não é correto, pois no animal
se encontra um Espírito em formação.
- Entendemos. É como não poder chamar um bebê, de homem.
Conversava com Marry, sem notar que ela caminhava bem rápido; só
aí percebi que estávamos andando por umas alamedas floridas, onde alguns
pássaros cantavam alegremente. Fitei os reinos do mundo espiritual e reverenciei
a todos eles, pensando com meus botões: "logo todos os que aqui se
encontram de passagem estarão nos laboratórios e nos mundos afins, sempre
caminhando em busca da perfeição". Se a Humanidade se tornasse espírita,
não existiria mais a violência contra a natureza. O que faz o homem
destruir o que o cerca é a sua ignorância, e nada melhor do que a Doutrina
para elucidá-lo, fazendo-o compreender sua responsabilidade para com os
nossos irmãos menores.
A paisagem estava cada vez mais bonita. Deparamos com um belo
lugar, uma cidade toda de casinhas brancas, rodeada de campos e flores. Na
entrada da Colônia, fomos recebidos por Aramis, que nos cumprimentou
pelo trabalho, convidando-nos à oração. E com que fervor a fizemos! Ele
nos convidou para visitarmos a colônia. À medida que andávamos, ia ficando
mais deslumbrado, pois estávamos em um lugar que parecia um zoológico,
tantas e tantas espécies de animais. Permanecia calado, mas também assombrado
com tamanha beleza. Foi quando Marry me esclareceu:
- Sérgio, este lugar é um dos inúmeros laboratórios onde se prepara
o encaminhamento do princípio inteligente para outros laboratórios, de onde,
depois, serão levados aos mundos preparados para a transição de um reino a outro.
-Marry, aqui estamos vendo pedras, vegetais, animais e homens.
- Sim, seria muito triste se só existissem os animais. Nesta Colônia,
as pedras e os vegetais enfeitam a vida dos animais que aqui se encontram,
131
mesmo que por um tempo muito curto, pois eles não se demoram neste lugar,
são logo levados para outros locais, apropriados à sua elevação.
- Quer dizer, Marry, que as flores, as pedras e os homens aqui estão em missão?
- As pedras e os vegetais fazem parte da natureza, enfeitando a colônia,
e os homens são criaturas que amam os animais e aqui estão para
cuidar deles, ajudando os técnicos, enquanto eles precisarem ficar neste lugar.
É um "hospital transitório".
-E os animais das Colônias?
-Já falamos sobre isso, são animais que desencarnam no plano físico,
passam rapidamente pelo mundo espiritual, depois são trazidos para cá, de onde
são encaminhados para os laboratórios científicos, onde serão preparados para a
ascensão do seu princípio inteligente. Mas também existem aqueles que se preparam
para partir para o mundo físico. Não se esqueça de que é do mundo
espiritual que partem o Espírito em formação e o homem.
- Isso demora, Marry?
- O trajeto entre a desencarnação no plano físico e o mundo espiritual
é rápido; a passagem por esta Colônia também é rápida. Quanto ao resto,
não sabemos, mas acreditamos que deva ser muito demorado o tempo necessário
para o princípio inteligente ser portador do livre-arbítrio, na condição de homem.
- Quais são os Espíritos que têm acesso a esses laboratórios e mundos
onde a essência é preparada para o estado de Espírito formado?
- Somente os Espíritos sublimados, os prepostos de Deus.
- Os espíritos que atingiram a pureza após terem falido também podem
ajudar esses nossos irmãos?
- Não, não podem. Somente os espíritos sublimados, aqueles que
tornaram-se puros sem jamais terem falido.
- Marry, podemos nos aproximar de um dos trabalhadores desta
132
colônia, aquela irmã que ali se encontra por exemplo?
Sim, vamos até ela.
Quando nos aproximamos, a irmã Lúcia Terezinha nos sorriu, dizendo:
- Sejam bem-vindos.
- A irmã gosta muito de animais, não é mesmo? >
- Sempre adorei cuidar deles, e agora que Deus me ofertou este
trabalho, tudo faço para bem realizá-lo.
- Notei que a irmã conversa com eles e parece até que eles a compreendem.
- Compreendem de acordo com as suas possibilidades. O animal é
animal em qualquer mundo onde esteja vivendo. Conversamos com eles e
eles sentem que são amados por nós, mas não passa disso. Nesta colônia,
eles ouvem mais os homens, mas o princípio inteligente deles ainda continua
sendo de animal, de um Espirito em evolução.
-Pensei que os animais daqui entendessem melhor o homem.
- Irmão, eles só mudam de reino depois de uma longa caminhada.
Acreditamos que existem várias escalas e grandes mestres no trajeto da evolução
do Espírito, mas ainda desconhecemos esse trabalho divino, dada a
nossa imperfeição. Aqui eles chegam, mas logo partem em busca da consciência.
-É, irmã, e quantos homens, Espíritos formados, estão violentando a
consciência, um troféu que o Espírito lutou tanto para ganhar!
-Tem razão. Esses homens julgam que não pediram para nascer no
mundo físico, pois acreditam terem sido criados no momento da concepção.
Devido a essa ignorância não se respeitam e jogam a encarnação fora, não se
importando com a perfeição. Por julgarem que não têm responsabilidade
para com a vida, eles não buscam amar o Criador. Enquanto a Humanidade
desconhecer a escalada do Espírito, faltará amor na Terra. À medida que o
homem compreender o tempo que já levou o seu Espírito para chegar à
133
condição de homem, ele irá refletir e iniciar a luta para tornar-se melhor.
Uma bela cadela, chamada Flor, chamou-me a atenção, pois nela senti
uma vibração de amor.
- O que esse cão tem de diferente? - indagamos a Lúcia.
- O irmão notou o magnetismo da Flor? perguntou, sorrindo.
- Sim. Por que ela é portadora desse magnetismo?
- Muito simples, irmão: é que todos os dias o seu antigo dono ora e
ora pelo seu crescimento.
- O seu dono é espírita?
- Sim, e por isso implora a Deus que proteja sua Flor.
- Irmã, isso vai ajudá-la? !
-Deus seria injusto se só tivessem acesso à escalada evolutiva os animais
que foram amados quando encarnados. A vibração amorosa só ajuda Flor
a se sentir envolvida por fluidos salutares, que muito prazer lhe dão. Só isso.
-Irmã, então se nós vibrarmos em direção à Tulipa, a querida cadela que
tínhamos, quando encarnado, ela receberá a nossa vibração de amor e saudade,
não importa onde esteja?
- Luiz, o homem deve tudo fazer para não ser envolvido por vibração
negativa. Onde quer que estejamos, recebemos as vibrações a nós dirigidas,
e feliz aquele que só recebe fluidos positivos. Onde a sua Tulipa estiver, ela
sentirá as vibrações do seu amor e da sua saudade.
- Mesmo se ela já tiver passado de um reino para outro?
- Sim, não importa. A vibração de amor é um presente que os Espíritos
encarregados da nossa evolução sempre entregam ao verdadeiro dono.
- E as más?
-Estas, quando emitidas, atingem apenas aqueles cujo coração esteja
repleto de revolta. Se vivermos em paz com o nosso coração, não nos
134
atingem. No entanto, devemos tomar cuidado e não plantar intrigas no nosso caminho. , ,, ^ ..,
-Irmã, ninguém vibra contra um animal?
-Vibra, sim, aqueles, por exemplo, que possuem alguém da família vítima de um animal.
- E estas vibrações o atingem?
-Não, pois os Espíritos o isolam, mas esse animal também não recebe
as boas vibrações, pois foi violento.
- E isto os prejudica?
-Não. A vida nos três reinos é semelhante à vida das crianças: quando
atingem a maioridade está escrito no seu livro: "nada consta".
- Ainda bem, porque assim já existiria a cobrança desde cedo. Irmã,
é impressionante como existe animal violento e outros tão bonzinhos! Perdoe
a minha ignorância, mas sempre indago uma coisa: o princípio inteligente da
cobra poderá tornar-se um bom homem?
- Claro, Luiz. O fermento de um bolo não se torna imprestável se o
bolo solou ou queimou. O princípio espiritual caminhará, não importa que
indumentária vestir; importa, sim, quando atingir a maioridade e for levado ao
"paraíso", o momento do término de uma etapa de vida, onde receberá um
diploma chamado livre-arbítrio, ou consciência. A cobra de hoje pode tornar-se
o santo de amanhã. O pássaro de hoje poderá tornar-se o assassino
de amanhã. O perigo é quando ele ganha o poder e recebe a carta de alforria,
a sua liberdade, e sente-se igualzinho a um adolescente, que se deslumbra
com a liberdade e a vida. Aí é que mora o perigo: ele buscará as boas companhias
ou sairá em busca da vida, do orgulho ou do egoísmo? Aí é que tem
início o afloramento das tendências.
- Irmã, pode nos explicar melhor as tendências? Como as adquirimos?
- Muito simples: as tendências são do Espírito, que as cria na sua
135
consciência. É como se colocássemos várias crianças e lhes mostrássemos
várias coisas, e no final perguntássemos a cada uma delas do que mais gostaram.
Teríamos as mais variadas respostas. Algumas nem perceberiam o que acontece à sua volta. Isso ocorre, porque somos seres diferentes, temos a nossa individualidade.
Cada filho de Deus gosta de uma coisa e pensa
diferente. Se fôssemos criados sem liberdade, tornar-nos-íamos fantoches teleguiados. Mas a bondade de Deus é tamanha, que cada um de nós aprecia
de modo diferente as coisas do Universo. As tendências são conquistas do
Espírito, que podem ser boas ou más. Elas são os frutos da árvore do bem e
do mal; somos livres para escolher. O Pai não nos obriga a saborear o fruto
que Ele gostaria que nós escolhêssemos. É como os pais de família: quantos
gostariam que o filho escolhesse uma profissão e o filho escolhe outra, ou
nem estuda. Isso é liberdade de escolha. Cada um direciona a sua existência
de acordo com a bússola da sua consciência. E queira Deus, muito mais
Espíritos tenham descoberto as boas tendências, pois criou o homem para
ser feliz. Francisco de Assis tinha razão quando respeitava a natureza, porque
os Espíritos em formação precisam muito das nossas orações; eles ainda
irão caminhar muitas e muitas léguas, e Deus os ajuda a escolherem o fruto
da bondade. Quando Francisco orava para os animais, para que o lobo de
Gúbio fosse amansado, por exemplo, ele pedia para que a fera de hoje se
tornasse o santo de amanhã. Todos precisam da ajuda da oração, e aqui,
junto aos animais, oramos a mais bela oração ensinada por Jesus, a oração
do amor às criaturas de Deus, principalmente estes princípios inteligentes,
que tanto necessitam de cuidado.
Recitando o Pai-Nosso bem devagar, meus olhos foram ficando
marejados de lágrimas. Marry deixou-me por alguns instantes sozinho.
136
Capítulo XII
O ESPIRITISMO NAS ESCRITURAS
- Marry, este lugar é tão resguardado por Deus, que não sei como
um Espírito tão pequeno como o meu pôde aqui chegar.
- Luiz, você é um repórter do mundo espiritual e a um repórter são
abertas as fronteiras; o seu trabalho é passar informação, e é isto o que
estamos fazendo aqui. Muitos julgam tudo isso bobagem. Também existem
aqueles que não aceitam a evolução em linha reta do Espírito. Veja bem o
cuidado dos Espíritos evoluídos para com os Espíritos em evolução.. O respeito e o amor se fazem presentes em cada ato.
Olhamos aquele lugar e percebemos como o homem desconhece a
sua origem. Mesmo se dizendo espírita, ataca e fere, quando não aceita o
modo de pensar dos próprios companheiros da Doutrina, enquanto ela é
translúcida e bem explica a escalada do Espírito em formação e suas tendências.
-Este lugar, Luiz, é um viveiro de almas. Daqui, o princípio inteligente
é levado até os laboratórios, onde recebe tratamento, depois ainda passa
por algumas espécies intermediárias, até ser levado a lugares apropriados à
preparação para o grande mergulho na humanidade.
137
-Pena que poucos se conscientizam do valor do seu próprio Espírito,
julgando-se imperfeitos e nada fazendo para melhorar. No dia em que
todos os homens estudarem esta doutrina maravilhosa, que é a Doutrina Espírita,
irão compreender por que estão no corpo físico e verão que, mesmo
possuindo fortuna, nada têm, porque o que é da matéria na matéria ficará. O
espírita que estuda a Doutrina compreende que tem de se desapegar das
coisas perecíveis e, quando isso acontece, busca desesperadamente ajudar
seu próximo. O espírita não conhece milagre. Para conquistar a felicidade,
terá de lutar por ela. Na Doutrina, o homem não gozará de privilégios, somente
por ter chegado à Casa Espírita, porque o Deus que a Doutrina apresenta
ao homem é justo e bom. Se Ele é justo e bom, não castiga um filho
porque usou mal o livre-arbítrio presenteado por Ele. Por que não fortalecer
o rebanho, proporcionando-lhe conhecimento bíblico? No item 59 de O Livro
dos Espíritos, Kardec esclarece: Dever-se- á (...) concluir que a Bíblia
é um erro? Não; a conclusão a tirar-se é que os homens se equivocaram
ao interpretá-la. A Doutrina está anunciada, grafada, embelezada
no Antigo Testamento. Quem fica indo contra esse livro divino é porque não
deseja estudá-lo. Será que esses fariseus julgam que quem estuda a Bíblia
está traindo Allan Kardec, ou temem alguma proibição nela contida? Os
Espíritos superiores, que tão bem conhecem a Bíblia, recomendam a todos
os estudiosos da Doutrina, principalmente aos jovens, que leiam a Bíblia. Ela
contém as grandes revelações, é um livro espírita. Nela encontramos os profetas
e os apóstolos, que eram médiuns, as manifestações espíritas, a reencarnação,
as materializações, os passes. Por que não criarmos grupos para
estudá-la, principalmente as crianças e os jovens? Voltamos a repetir: são
eles, e não os mais idosos, que comporão as futuras diretorias, enfim, os
encarregados do Espiritismo em terras brasileiras. Os antigos viveram uma
época tranqüila, mas as crianças e os jovens deverão estar bem preparados
para os grandes ataques, quando ocorrerem. A Doutrina possui meios para
oferecer aos seus iniciantes material suficiente para bem elucidar os jovens e
as crianças. O livro Quem inventou o Espiritismo, do irmão João, dá ao
estudante da Doutrina elucidações sobre como se portar diante de falsos
profetas. Se cada Casa adotar um estudo do Antigo Testamento para crianças
138
e jovens, eles terão maior capacidade de entender o Espiritismo codificado
por Allan Kardec, pois a Bíblia é um cântico espírita. Os médiuns são
muito reais, na figura dos profetas, e as manifestações espíritas ocorrem em
todos os lugares. Mas o intuito deste livro não é elucidar o leitor espírita
sobre os livros bíblicos. Não tenho capacidade para tanto. No livro Amigo e
Mestre, tentei mostrar a beleza do Sermão do Monte, entrelaçado-o com
algumas páginas do Antigo Testamento. O livro do irmão João, sim, coloca o
espírita frente à verdade da filosofia espírita, tão velha quanto a própria Humanidade.
Os profetas maiores e menores eram verdadeiros médiuns, íntegros
e conhecedores da lei de Deus. E os espíritos sempre se manifestavam,
como na passagem de Daniel, quando todos viram uma mão materializada
escrever, e também no trecho da mula que falou com Balaão. Quanto aos
espíritos trevosos que se manifestavam no Antigo e no Novo testamentos,
Jesus muito bem os doutrinou. Se o espírita continuar sem ler e estudar a
Bíblia, vai ficar acuado, porque os tocadores de trombetas estão de casa em
casa, nas ruas e fundando igrejas, enquanto alguns Centros Espíritas estão
vazios. Sabem por quê? Porque o Espiritismo, codificado por Allan Kardec,
procura melhorar o homem, curá-lo das imperfeições, mas poucos desejam
realmente se curar. É mais fácil ir a uma igreja que diz operar milagres, fazendo
com que tenhamos carros, bens materiais, ótimos casamentos, do que à
Casa Espírita, que revela a verdade sobre as vidas sucessivas, dizendo que o
hoje representa a colheita do ontem e que temos de lutar pela perfeição; que
no mundo espiritual existe trabalho, responsabilidade, universidades, e que a
cada um é dado conforme as suas obras. Quem deseja conhecer estas verdades?
Muito poucos. Mas que esses poucos tenham conhecimento e abracem
a Doutrina que escolheram, porque o "maria-vai-com-as-outras" não
irá agüentar o peso da responsabilidade como Espírito. Portanto, vamos iniciar
hoje a elucidar a criança e o jovem sobre a grande responsabilidade de
se dizer espírita. Tornar-se espírita não é só admirar o Espiritismo; é sofrer
uma transformação moral, fazendo surgir, do materialista de ontem, um ser
renovado. Se cada espírita fugir da reforma interior e apenas freqüentar as
Casas Espíritas, perdoe-me por falar tão duro, mas os auditórios das Casas
Espíritas ficarão cada vez mais vazios.
139
- Luiz, o que você acha que está faltando nas Casas Espíritas?
- Não só nas Casas, mas o movimento espírita em geral está precisando
de humildade, fraternidade e trabalho. Como diz Lázaro José:
"não se atiram pedras nas árvores do vizinho, ainda mais nas do nosso
próprio quintal." Os cardeais de ontem, hoje reencarnados e militando
no meio espírita, só não mandam as pessoas para a fogueira porque não
podem, porém criticam sem piedade aqueles que eles julgam nada entender
de Doutrina Espírita. Enquanto os donos da verdade, os ditos defensores
da Doutrina Espírita, desentendem-se, os Centros estão ficando
vazios, porque muitos espíritas, desiludidos com os homens da Doutrina,
partem em busca de outras crenças. Mas, por mercê de Deus, a Doutrina
permanecerá através dos séculos, porque a Doutrina é de Deus, ninguém
pode destruí-la.
- Em vez dos espíritas atacarem uns aos outros, por que não atacam
os ofensores da Doutrina?
- Causa pena, Marry, assistir a esses ditos pregadores do Cristo na
televisão, onde os pobres Espíritos são os culpados por tudo de mau que
acontece no plano físico.
...-.,. -Os espíritas precisam se defender?
-Acho que não, Marry.
-Mas eles têm de se organizar, fortalecer, amar, unir, lutar pelo Espiritismo.
-Luiz, você tem razão. O homem, por ser imperfeito, busca o sobrenatural
e os fenômenos, os espetáculos. Uma Casa equilibrada, disciplinada,
só oferece a seus freqüentadores a paz. Mas eles, muitas vezes, desejam
mais, muito mais. E quando ouvem dizer que existem igrejas que irão levá-los
à riqueza, à felicidade, correm a buscá-las.
- Marry, há Centros Espíritas lotados, mas somente nos dias de trabalho
de cura ou de desobsessão.
140
- É verdade. Poucos buscam uma Casa para aprenderem a se portar
em sociedade. E sabemos que somente o estudo sério e a evangelização de
cada um leva à conquista da paz interior.
Conversávamos diante dos nossos irmãos animais. E pensei: "até quando
o homem irá fugir da verdade de sua existência? Será que pode ser feliz
na ignorância, julgando-se sem compromisso com Deus e com a vida? Será
que é feliz uma pessoa materialista? Pode sentir-se feliz alguém que nada
espera do amanhã?" Claro que não. O homem sem fé é um rio sem água. Só
mesmo aquele que deseja tornar-se melhor irá buscar o Centro Espírita, fazendo
dele uma universidade e um hospital de almas, entregando-se ao trabalho
e ao estudo. Mas sempre existirão aqueles que, sem fé raciocinada,
ligarão a televisão e deixarão que os pregadores, repletos de promessas,
adentrem seus lares, e neles acreditarão. Querido leitor, tenho certeza de que
você irá sorrir e mudar de canal, dizendo: o Luiz Sérgio tem razão, se posso
me banhar no conhecimento do ontem, do hoje e do amanhã, por que viver
de sonhos, do sobrenatural? E buscará O Livro dos Espíritos, esse mapa do
caminho evolutivo, procurando as respostas para todas as suas perguntas.
Depois de pensar, pedirá por eles: "perdão, Pai, eles não sabem o que fazem".
Marry enlaçou meus ombros e fomos saindo devagar. Nisso, uma flor
balançou em seu galho, como se estivesse despedindo-se de nós. Sorri e dei
graças ao Senhor por ter andado muitas léguas. Marry orou baixinho:
- "Senhor do Universo, benditas mãos que seguram as nossas.
Imaculado é o Teu conhecimento, que tão bem nos transmites. Perdoa, bom
Deus, os nossos erros, e fortalece-nos para que jamais nos sintamos ofendidos.
Seja feita a tua vontade e nunca a nossa, por sermos ainda ignorantes.
Dá-nos, Senhor, a paz, a esperança de um mundo melhor, e não nos deixes
perdidos na estrada da vida, longe do Teu coração de Pai, porque o Teu
reino de amor é glória prometida a todos aqueles que lutam pela perfeição."
141
Capítulo XIII
LIVRE-ARBÍTRIO, DIADEMA DA RAZÃO
Diante daqueles animais, pensei: "como é longo o caminho da evolução
e como precisamos uns dos outros!" Havíamos aprendido que, naquele
lugar, as espécies do reino animal encontravam abrigo numa passagem rápida.
- O que tanto olha? perguntou-me Marry.
- Irmã, os animais não desfrutam do livre-arbítrio, mas não são fantoches,
sua liberdade de ação é limitada pelas suas necessidades. Eles gozam
de uma liberdade restrita, enquanto o homem, ao atingir a maioridade, torna-se livre.
-Luiz, os animais têm uma inteligência que lhes dá certa liberdade de
ação; é o princípio inteligente que sobrevive ao corpo físico, porém o princípio
inteligente do animal está bem distante da inteligência do homem. O princípio
inteligente do animal, o Espírito em formação, é o que os individualiza,
como seres criados por Deus que são. No entanto, este princípio inteligente
não lhes dá a consciência de si mesmos.
- É, irmã, a escalada evolutiva é uma bênção divina. Hoje, vendo
esses animais, dou maior valor ao meu Espírito já formado, com sua
143
individualidade e a consciência de si mesmo. Que bênção, o livre-arbítrio: possuir o
poder de escolha!
-Luiz, mas existem muitos homens que procedem como animais.
- Como assim, Marry?
- São aqueles que ignoram a existência de Deus e, julgando-se sem
individualidade, não querem saber que têm o poder de escolher o corpo que
lhes dará o direito de reencarnar.
-É mesmo, Marry. Quanta ignorância!
- Alguns até julgam que os corpos estão guardados no túmulo para
serem ressuscitados por Deus e voltarem a ser como eram antes da morte.
-Fácil, não, Marry?
- Não, Luiz Sérgio, não acho fácil. Acho absurdo um homem, com
inteligência, não parar para pensar que além da vida existe vida, e que essa
vida é mais completa do que a que a alma vive quando encarnada. Como
retornar o Espírito a um corpo que foi cremado?
- É verdade, Marry, como pessoas cultas, inteligentes, não procuram
a verdade! Por motivos religiosos, afundam-se na ignorância e atacam aqueles
que já estão bem mais adiantados na estrada do conhecimento. Claro que
é mais fácil o pecador se julgar perdoado, apenas porque hoje carrega a
Bíblia na mão; é muito mais fácil comungar e se confessar, do que ouvir os
Espíritos dizerem que só nos livraremos das faltas cometidas praticando uma
boa ação; que cada criatura é o autor do livro da sua vida e que só com a
prisão na carne é que pagamos as nossas dívidas pretéritas. Se é mais fácil
ser perdoado pelos homens, por que iremos buscar o espelho que irá nos
mostrar as imperfeições da alma? É muito melhor bater no peito e pedir
perdão, do que o homem pecador de ontem renascer em Cristo, com o
propósito de jamais praticar erros. A Doutrina Espírita, codificada por Allan
Kardec, é uma universidade; quem a ela chega recebe vasto conhecimento
de onde veio, o que deve fazer no hoje e como se preparar para o amanhã.
Também na universidade do conhecimento, o homem aprende que o plantio
144
é livre, mas a colheita, mais que obrigatória; que não basta pedirmos perdão,
faz-se necessário buscar a perfeição, porque só nela está a completa felicidade;
que não existe homem algum, nem mesmo Jesus Cristo, com o poder
de dizer a um homem mau, violento, estuprador: "fique bom", e ele se transformar.
Se assim fosse, Deus não outorgaria o livre-arbítrio a cada ser. Não
haveria valor algum em ser bom. O que pode acontecer, e o que a Doutrina
nos ensina, é que poderemos mudar o nosso comportamento quando encontrarmos
o Homem que nos serve de exemplo das coisas de Deus, quando
descobrirmos o Cristo como irmão e dele nos tornarmos amigo, escutandoLhe
as palavras e tentando colocar os pés nas Suas pegadas. Maria Madalena
encontrou o Cristo, mas nem por isso virou santa de uma hora para outra. Se
lermos a história de sua vida, saberemos da luta desse Espírito para se livrar
das imperfeições. E pelo que vemos hoje, basta o assassino cruel, que tantas
vidas roubou, segurar a Bíblia e se dizer convertido e logo torna-se pastor de
almas, criatura considerada pura. Na Doutrina, aprendemos que isso é impossível.
Podemos, apesar das nossas imperfeições, pregar a palavra de Deus,
mas com a consciência de que teremos de pagar ceitil por ceitil. Depois de
conhecer as Suas palavras, seremos mais cobrados em nossos atos. Há muitos
que se dizem espíritas ou simpatizantes, agora, espírita verdadeiro, que,
como Jó, mesmo nas horas difíceis a fé se agiganta e permanece fiel à pureza
doutrinária, são poucos, muito poucos. Não adianta buscar o Espiritismo
para conquistar boa posição financeira, enfim, melhorar de vida. Ela não é
para isso. A Doutrina Espírita é um arco-íris, unindo as criaturas que desejam
alcançar a perfeição para ter a felicidade da vida plena ao lado de Deus. Será
que um dia, Marry, a Terra se tornará espírita?
- Sim, quando todos deixarem de lado as amarras da matéria e viverem
em espírito e em verdade. Diz O Livro dos Espíritos, em sua questão
591.a: "Há entre a alma dos animais e a do homem distância equivalente à
que medeia entre a alma do homem e Deus."
- Quanta verdade, Marry! Tenho a imensa alegria de olhar para trás,
ver o caminho percorrido, apalpar o meu corpo perispiritual e nele sentir os
centros de força, que só conquistamos quando recebemos de Deus o
145
diploma como Espírito formado, já munido de inteligência. É como a vitória do
estudioso, quando recebe o canudo de conclusão dos anos de faculdade. Ele
conquistou o diploma, mas ainda é primário na sua profissão, ainda precisa
da prática, pois só tem a teoria. É aí que o homem precisa fazer fluir a bondade
para não se perder no orgulho e na vaidade. O homem, ao receber o
livre-arbítrio, dele faz o que a sua consciência determinar, igual ao formando,
que vai usar o diploma para o bem ou para o mal. O médico pode salvar
vidas ou cortar a oportunidade de um Espírito reencarnar. O engenheiro, na
busca do poder, da riqueza, deixa caírem as casas e os edifícios que constrói,
por colocar material de má qualidade. A professora pode negligenciar o ensino
dos seus alunos, ou fazer de cada um deles filhos do seu coração. E
assim, cada um faz do seu diploma a mesma coisa que faz o homem quando
recebe o diadema da razão, o livre-arbítrio. Agora, que religião nos elucida
sobre isso? Somente a Doutrina Espírita. Feliz aquele que tem a oportunidade
de encontrá-la; no começo, ficará aturdido diante de tanta luz, mas se for
abrindo os olhos devagar, subindo degrau por degrau, irá bem compreendêla,
respeitá-la e amá-la, como o aluno inteligente faz com o seu diploma,
conseguido com muito sacrifício. Desejar conquistar ganhos fáceis, fazendo
mal ao próximo, pregar a mentira, desculpe, mas bateu em porta errada.
Após breve pausa, comentei:
- Sabe, Marry, olho este lugar, onde após a morte dos animais eles
para cá são trazidos, e cujo princípio inteligente é trasladado, pelos Espíritos
incumbidos dessa tarefa, quase imediatamente, para os laboratórios, e pergunto:
como os animais vêem os homens, principalmente estes Espíritos incumbidos dessa tarefa?
- Os animais vêem nos homens os seus amigos, os seus protetores,
os seus "chefes". Por isso não se concebe a um homem a busca dos ídolos..
Um portador de inteligência deve buscar a Deus, o Pai amado. No homem,
a inteligência também progride, assim como a vida moral, por isso ele tem de
lutar para livrar-se dos laços, que são inúmeros quando o homem é
embrutecido; estes laços é que o ligam à matéria. Podemos dizer que esses
laços nos acompanham durante a passagem pelo reino animal; eles são os
146
restos dos corpos que tivemos nos reinos da natureza. Os laços são os elementos
da matéria que, ao saírem do reino animal e adentrarem o reino nominal,
se encaixam no perispírito do homem, dos quais ele se livra somente quando
não mais deles precisa. À medida que o homem se depura, esses laços vãose
desmaterializando e ficando cada vez mais etéreos, fundindo-se ao
perispírito. Quando Jesus Se referiu a João Batista como o Espírito mais
perfeito dos nascidos de mulher, também ficamos sabendo que João Batista
não adormeceu na carne os nove meses, como acontece com os espíritos
ainda imperfeitos. Tanto João estava consciente, que saudou a Mãe de Jesus,
mesmo estando ligado ao útero de Isabel.
- Como ocorreu isso?
- Devido ao seu crescimento espiritual, João Batista quase não possuía
mais os laços que o prendiam ao corpo físico.
-Vivendo e aprendendo, Marry. Portanto, nada se perde na natureza,
não é mesmo?
- Sim, Luiz, os laços, que são a expansão do perispírito, foram os
elementos que compuseram a pedra, a flor e o animal. Esses laços existem,
mas no reino mineral são uma condensação de matéria, e assim vão-se depurando.
Então, ao se desmaterializar a essência espiritual da pedra, ela é retirada
e revestida dos elementos que depois se transformam em laços fluídicos;
quando o Espírito conquista o perispírito, são esses laços que o ligam ao
corpo físico.
- Marry, explique-me, por favor. Então os laços que hoje se encontram
no nosso perispírito, envolvendo os nossos centros de força, já nos
acompanham desde o mineral?
- Sim. Formaram a veste do Espírito em formação. E logo, mais
apurados, juntos se encontraram na veste do Espírito, o perispírito.
-Volto, então, à questão de a pedra, o vegetal e o animal não possuírem
perispírito.
- Não podemos dizer que possuem perispírito, porque são apenas
147
perispíritos em formação.
-E quando nos tornarmos Espíritos puros, o que será feito dos nossos laços?
-Eles se fundirão no perispírito. Não mais precisaremos deles, pois
são eles que nos amarram ao corpo físico. Não mais precisando reencarnar,
eles se fundem no corpo perispiritual.
-E os centros de força?
- Jamais serão destruídos.
- Mas os laços também não?
- Claro que não. No decorrer da escalada do Espírito, a matéria
perispiritual vai-se depurando. Para melhor conhecer os laços do perispírito,
busquemos as questões 155 e 157 de O Livro dos Espíritos:
155. Como se opera a separação da alma e do corpo? .,,, , ;
"Rotos os laços que a retinham, ela se desprende."
a) - A separação se dá instantaneamente por brusca transição?
Haverá alguma linha de demarcação nitidamente traçada entre a vida e
a morte?
"Não; a alma se desprende gradualmente, não se escapa como um
pássaro cativo a que se restitua subitamente a liberdade. Aqueles dois
estados se tocam e confundem, de sorte que o Espírito se solta pouco a
pouco dos laços que o prendiam. Estes laços se desatam, não se quebram."
157. No momento da morte, a alma sente, alguma vez, qualquer
aspiração ou êxtase que lhe faça entrever o mundo onde vai de novo
entrar?
"Muitas vezes a alma sente que se desfazem os laços que a prendem
ao corpo. Emprega então todos os esforços para desfazê-los inteiramente.
Já em parte desprendida da matéria, vê o futuro desdobrar-se diante de si e
goza, por antecipação, do estado de Espírito."
148
-Então, Marry, do perispírito parte uma fiação, chamada de laço. E
estes laços é que são "amarrados" no duplo etérico. É no duplo que se encontram
as rodas energéticas, que amortecem a luz do Espírito, bem como é
o corpo que interliga o perispírito ao corpo físico. Gostaria de desenhá-los,
para melhor compreensão:
Perispírito Duplo etérico Corpo físico
- Voltemos à questão 155: Como se opera a separação da alma e do corpo?
"Rotos os laços que a retinham, ela se desprende."
Durante a vida, o Espírito se acha preso ao corpo pelo seu envoltório
semimaterial ou perispírito.
- Marry, então os laços são a parte mais grosseira do perispírito?
- Sim, por isso, com a evolução do Espírito, sua veste vai ficando
mais etérea e os laços vão diminuindo até não mais o Espírito necessitar
deles, pois alcança a vida plena, sem precisar reencarnar.
149
- Podemos chamar os laços de escada, pois que eles nos permitem
chegar ao corpo físico?
Marry sorriu.
- Os laços são como a garra de platina que ornamenta um anel, que
é o perispírito; o brilhante é o Espírito imortal.
- Veja se entendi: o anel é o perispírito; a garra são os laços, extensão
do anel, e o brilhante é o Espírito
- Sim, Luiz, é uma forma alegórica para melhor compreensão do que
vêm a ser os laços.
-Marry, com a depuração do Espírito, as garras vão-se diminuindo,
até desaparecerem?
- Sim, elas vão ficando mais etéreas, à medida que o Espírito não
mais precisa delas. Podemos pensar que as tendências estão alojadas nos laços.
-Irmã Marry, quanto mais endurecido o Espírito, mais laços ele tem?
- Sim, a sua garra é mais forte. Num brilhante grande e valioso, ninguém
repara a garra; agora, quantos brilhantes minúsculos estão em anéis
enormes e muito trabalhados!...
- Pensando bem, Marry, não será justo não conservarmos nada do
corpo que nos serviu, nos reinos por que passamos.
- É, Luiz, a evolução é uma marcha constante e feliz o Espírito que
busca a verdade e compreende a razão da vida, ainda quando no corpo físico.
Olhei o lugar com muito respeito. Reverenciei, mais uma vez, aqueles
Espíritos em formação, lembrando-me da seguinte passagem evangélica, em
Mateus, Capítulo X, v. 28, 29, 31: Não temais os que matam o corpo,
mas não podem matar a alma(...). Não é verdade que dois pássaros se
vendem por um asse? Nada, portanto, temais; bem mais vales do que
muitos pássaros. Quanta verdade! O Espírito, quando recebe o diadema da
150
razão, o livre-arbítrio, atinge a maturidade, é já um Espírito formado. Se ele
olhar para trás, terá a alegria de perceber o quanto já evoluiu. Ciente disso,
tudo deve fazer para jogar fora o restante das imperfeições que se alojaram
no seu perispírito. Portanto, devemos tudo fazer para cumprir com a nossa
tarefa, nada temendo, adquirindo confiança em Deus à medida do caminho
percorrido. E aqui, onde acompanhei a evolução das espécies, senti-me feliz
por conhecer a escalada da essência espiritual.
Corri à frente de Marry com os braços estendidos, gritando: "Obrigado,
Pai, por nos ter ofertado a vida e o maior dos mestres para nos ensinar o
Caminho, a Verdade e a Vida. Obrigado, Pai, por um dia ter-nos criado
simples e ignorantes, mas também por nos ter matriculado na universidade da
vida para aprendermos a falar de amor."
Nesse estado de enlevamento, ainda pensava nos três reinos, ou melhor,
quatro, pois não podemos separar o homem dos nossos irmãos pedra,
planta e animais, quando perguntei a Marry:
- Estudando os reinos da Natureza, aprendemos que nem todas as
essências espirituais, princípios inteligentes, passam por outras espécies no
plano material onde se encontram. Eles vão para o plano espiritual e lá é que,
no viveiro do Universo, passa pelas espécies intermediárias. A irmã pode me
responder por que isso ocorre?
- Sim, isso se dá pelo fator tempo. Levaria muito tempo se as essências
espirituais ficassem, no mundo físico, pulando de espécie em espécie, e
isso ocorre quando se tornam necessárias as sucessivas materializações.
; - Será, Marry, que isto ocorre quando o homem violenta os reinos?
- Pode ser - respondeu, sorrindo.
- Como é linda a evolução do ser, a escalada do Espírito. No reino
mineral a essência espiritual está adormecida, quase da mesma maneira que
o espírito resguardado no ventre materno, quando o corpo físico é apenas
um ovo. Portanto, o reino mineral é o óvulo de onde se inicia o crescimento
do Espírito em formação. Depois, no reino vegetal, é uma nova etapa da sua
151
existência. É nessa fase que começa a ter a impressão do que acontece no
exterior, mas ainda sem consciência. No reino vegetal reina a vida, a beleza,
a utilidade. A essência espiritual está sendo preparada para a vida ativa. É a
semente que já está brotando, é a raiz que está tornando-se árvore. É a flor
que, bela e radiante, alimenta os pássaros. Enfim, é no reino vegetal que o
Espírito em formação já marca presença, entre a exuberância da natureza. O
princípio espiritual caminha e logo adquire uma inteligência relativa, porém
bem mais perto do homem. Os animais locomovem-se, portanto, já possuem
instinto. É outra fase, como a do feto que já se movimenta no útero materno.
O animal torna-se útil à função que lhe é atribuída, ao fim determinado na
natureza. Não possuindo ainda o livre-arbítrio, ele não é independente. Mesmo
não sendo independente, o princípio inteligente, que anima a matéria, já
lhe propicia uma marcha progressiva, de onde chega às formas de espécies
intermediárias, as quais já o aproximam do reino humano. É o feto que está
tornando-se ser e logo sairá do ventre materno, que é a Natureza, para soltar
o grito forte do homem, munido da inteligência e do livre-arbítrio.
-Luiz, o Espírito em formação passa por todas as transformações da
matéria e por todas as fases de desenvolvimento, até atingir a inteligência.
Quando cessa o instinto e ganha o livre-arbítrio, isto se dá, porque o Espírito
adentrou o reino humano, depois de ter sido preparado nos mundos para
esse fim e para essa finalidade. E nesse momento que o Espírito recebe a sua
veste composta de fluido magnético, a que chamamos perispírito. Portanto,
o perispírito é o instrumento outorgado por Deus para o Espírito realizar o
seu progresso. E nesse momento que o Espírito, já munido de inteligência,
tem de usá-la de acordo com a liberdade conquistada. Ele recebeu o
perispírito, ou melhor, ele, o Espírito, é que organizou a constituição fluídica
do seu perispírito, graças às suas tendências.
- Marry, nessa hora é que o perispírito é formado, de acordo com o
reservatório das tendências de cada Espírito? É muito complicado.
- Não, Luiz, não é complicado. Lembre-se de que o animal não tem
perispírito, pois é Espírito em formação; quando o princípio espiritual conquista
inteligência plena, o Espírito começa a organizar o seu perispírito. O
152
temperamento do Espírito é resultado das suas tendências boas e ruins..
- Marry, as tendências estão alojadas nos laços?
Ela sorriu.
- Querido amigo, o Espírito é o dono do seu plantio. Vemos o Espírito
em formação como a criança educada por nobres pais. As que nada
assimilaram de uma boa educação preferem juntar-se às turmas de mentes
perturbadas, com as quais seus fluidos perispirituais se assemelham.
- O perispírito modifica-se à medida que o Espírito evolui?
- Sim, mas ele modifica-se também, voluntariamente, quando o ser
atinge a perfeição. Como temos encontrado perispíritos completamente deformados,
dado a erros cometidos! Quando o Espírito atinge a perfeição, o
seu perispírito vai deixando de ser matéria, entrando no estado etéreo. Os
perispíritos deformados dos Espíritos imperfeitos não foram destruídos, e
sim deformaram-se. Sendo o perispírito matéria, vai-se tornando mais pesado
quando o Espírito é mau; depurando-se, quando praticam boas ações.
Por isso, os antigos, ao verem os Espíritos puros, julgavam-nos anjos, tal a
sua leveza. Os Espíritos puros levitam e a luz que os envolve dá-lhes a aparência
de anjos celestiais. Portanto, o que deforma o perispírito é a maldade
do Espírito. A sua vibração faz com que assimile os fluidos pesados, que se
alojam no seu perispírito, deformando-o; é como se essa deformação fosse
uma crosta de fluidos pesados.
- Compreendi. É como se um homem encarnado se cobrisse de piche
ou de lama. Quando ele toma um bom banho, volta a ter boa aparência.
- É isso mesmo. Se o Espírito cresce em moralidade, ele vai
embelezando o seu perispírito.
- Hoje, minha amiga querida, sinto-me muito mais bonito, graças à
sua explicação...
-Bravo, Luiz, ficamos felizes por isso!
- Sim, Marry, à medida que vamos compreendendo a grandeza das
153
leis de Deus, devemos empenhar-nos para pensar bem, viver bem e tentar
progredir cada vez mais.
- Luiz Sérgio, somos os autores da nossa história; cabe a nós a felicidade
ou o drama que nela escrevemos. Deus, como pai bondoso, a ninguém
criou para ser infeliz. Qual o pai que deseja a infelicidade do filho? Se
analisarmos a família de hoje, veremos os filhos abusando do livre-arbítrio,
vivendo sem limites e cada vez mais se comprometendo. A culpa é dos pais?
Claro que não. A cada um basta a sua consciência. Se o homem não desejar
multiplicar-se em amor, a cada dia mergulhará em si mesmo, no seu egoísmo,
esquecido de que a Humanidade é a nossa família.
- Querida amiga, muito venho aprendendo com a querida irmã. Lugares
fantásticos tenho conhecido, um aprendizado presenteado por Deus.
Nessa escalada de conhecimento, tive a oportunidade de conhecer o crescimento
do Espírito, as fases da sua evolução, e, diante de fatos tão naturais,
percebi que o que complica tudo é a nossa ignorância. Portanto, Marry, feliz
o homem que, ainda preso ao corpo físico, divisa o mundo maravilhoso do
Espírito e que tudo faz para tornar-se melhor, porque nada é tão concreto
como a separação alma e corpo. Que nesse momento o homem esteja preparado
para uma nova etapa de vida.
-Nossa preocupação, Luiz, vem a ser com aquele espírita que, mesmo
crendo, nada está fazendo para mudar seus hábitos milenares. Vive queixando-se,
melindrando-se, atacando, enfim, chega à Doutrina mas não tem
tempo para dedicar-se a ela. Quando criança, dizem os pais: "coitadinho, é
tão pequeno para ter encargos espirituais!" Se é jovem, os pais comentam:
"é muito novo para ter responsabilidades, está no auge da mocidade, tem
necessidade de aproveitar bem a vida." Se está com trinta, quarenta anos,
pensa: "como dedicar-me a Deus, se não encontro tempo? Trabalho demais
para acumular bens, e depois, também quero aproveitar a vida, viajar, sair à
noite, porque sou ainda jovem." Se estão velhos, dizem: "coitado de mim,
cansado, alquebrado, doente, como servir a Deus? Sair à noite? Nunca! E o
sono? Como velho sente sono!... Estou com o corpo cansado, as pernas
doentes, a vista fraca..." O verdadeiro trabalhador do Cristo não envelhece.
154
E assim, crianças, jovens e velhos caminham pela estrada da vida, mas não
encontram coragem para colocar os pés nas pegadas do Mestre Jesus, único
caminho onde o homem aprende a amar a Deus e ao próximo. Infelizmente,
muitos ainda não encontraram tempo, e as desculpas são sempre as mesmas:
falta de tempo e problemas familiares. Ao chegar o grande dia, quando chamados
a prestar exame dos anos que ficaram na universidade do plano físico,
quanta vergonha ao dizerem: "fiz tão pouco, ignorei a oportunidade ofertada
por Deus", ou "nada fiz de bom, apenas vivi no plano físico, preocupado
com os bens materiais, com a família e com os meus encargos sociais. Somente
isso. Comi, vesti-me, aproveitei a vida, viajei, enfim, gozei as férias
que tinha direito na matéria. Não sabia que vim ao plano físico para crescer
em moralidade e em inteligência..."
- Que cara de bobo a gente faz quando isso acontece! E o pior é que
isso ocorre com quase todos os encarnados.
- Luiz, o homem brinca com o amor de Deus. Quando o amor é
demais, o homem não lhe dá o real valor. Os Espíritos do Senhor vêm ao
plano físico, buscam os núcleos de oração e pregam as palavras de Deus.
- Mesmo assim, poucos são os que as ouvem e as praticam.
- As coisas materiais cegam os fracos e estes, distantes de Deus,
deixam de escrever uma bela história de suas vidas.
Aproveitei o momento para apreciar o lugar onde estávamos, que era
lindo, muito lindo.
155
Capítulo XIV , , . '
AS MORADAS DA CASA DO PAI
Enquanto apreciávamos o local, aproximaram-se de nós dois Espíritos:
Marie de Ia Trinité e Paul. Marry, com muito respeito, reverenciou-os.
-Trinité e Paul, este é Luiz Sérgio, um aluno da Universidade Maria
de Nazaré, que sempre leva para o plano físico as lições aqui recebidas.
Cumprimentei-os e a irmã Trinité sorriu, perguntando-me:
-Gostou dos nossos laboratórios?
- Irmã, agradecido sou a Deus pela beleza e bondade do Seu coração.
Foi muito bom acompanhar o crescimento do ser criado por Deus. Ao
estudar os reinos da natureza, curvei-me diante das pedras, pois Deus é tão
sublime que tirou das lascas das pedras os filhos de Abraão, conforme a
passagem bíblica.
- Sim, Luiz - disse Paul -, da pedra sai a luz e a luz caminha até a
eternidade. Por isso, as moradas do homem se iniciam pelo alicerce, porque
o homem começou do infinitamente pequeno, até atingir o topo, a plenitude da vida.
-Marry, aqui estamos para convidá-los a visitar nossas dependências,
onde teremos o prazer de recebê-los- falou Trinité.
157
Minhas pernas estavam trêmulas de emoção, diante daqueles Espíritos
tão iluminados. Eles flutuavam, pareciam pássaros, e nos olhos tinham a luz
da sabedoria. Marry, compreendendo a minha emoção, enlaçou meu ombro, dizendo:
- Luiz Sérgio, sabemos que Deus chama o obreiro quando ele está
pronto para o trabalho.
- Sempre foi assim, irmã-falou Trinité. Moisés foi preparado por
Deus, e levou anos para completar a obra para a qual foi chamado. João
Batista, que foi Elias, também teve um caminho longo de renúncias e de lutas.
Em nenhum momento, podemos imaginar o caminho dos homens escolhidos,
como fácil. Jesus levou trinta e três anos preparando-Se para a vida messiânica.
E Ele é o Governador da Terra... Paulo de Tarso primeiramente foi um fiel
seguidor das leis moisaicas, mas no dia em que Jesus o chamou, ele não ficou
dando desculpas: "eu não posso, sou um homem imperfeito para trabalhar ao
lado dos Seus leais apóstolos". Allan Kardec não era jovem, quando os
Espíritos do Senhor lhe apresentaram o belo trabalho da Codificação, nem
por isso sentiu-se incapaz.
-Luiz, na escolha de um missionário-falou Paul -, não se leva em
conta os anos que ele tem, mas sim se está apto a servir em nome do Pai.
Como Deus prepara os missionários por vários anos, também chama os mais
jovens ainda bem cedo. Foi o caso de João Evangelista, de Marcos, o amigo
de Pedro, do evangelista Lucas. Todos eram jovens. Antônio de Pádua, muito
jovem, iniciou o trabalho do Cristo. Joana d'Are, a grande médium francesa,
tão bem cumpriu sua tarefa. Vicente de Paulo, com vinte e poucos anos,
tornou-se um apóstolo da caridade. Teresa de Lisieux tornou-se uma serva
do Cristo, bem jovem, e como dignificou a sua missão! Francisco de Assis,
jovem milionário, tudo renunciou por Jesus. Na Doutrina Espírita, também
alguns jovens muito dignamente a serviram: as senhoritas Japhet, Julie e
Caroline Baudin, Elisabeth d'Espérance, que bem pequena falava com os
Espíritos e na juventude tornou-se uma das maiores médiuns de efeitos físicos
e de materialização, todas souberam cumprir com sua tarefa. Também a
médium de Katie King, Florence Cook, que teve notável participação na
158
história do Espiritismo. Igualmente a médium do Conde Rochester, Wera
Krijanowsky. Está vendo, Luiz Sérgio? O Espírito não tem idade, tem é responsabilidade,
e feliz aquele que, quando chamado, está pronto para prosseguir
viagem. Não somente esses nomes fizeram a história do Espiritismo.
Ainda jovem, o querido Léon Denis e Camille Flammarion foram chamados.
No Brasil, Zilda Gama, Francisco Cândido Xavier, Divaldo Franco, Ivonne
Pereira e o querido Leopoldo Cirne, que aos vinte e cinco anos de idade foi
eleito vice-presidente da Federação Espírita Brasileira e aos trinta anos, seu
presidente. E assim muitos outros que, mesmo vestindo uma indumentária
nova, não se furtaram a ouvir a voz do Cristo. Portanto, Luiz, quando você
ouvir o trovão das críticas ao seu trabalho, por ter sido jovem no mundo
físico, recorde que o trabalho só aparece quando o trabalhador está pronto.
Se existiu um Judas Iscariotes, que se ofereceu para ser apóstolo, mas não
estava preparado para isso, ele é apenas uma gota no oceano e serve de
lição para todos nós, que, em qualquer lugar, só devemos nos apresentar
quando chamados. Esta passagem lembra Jesus pregando sobre os últimos
lugares. Ninguém deve desejar aparecer se não foi chamado. Você, jovem,
há muito vem prestando trabalho ao seu próximo. Prossiga, e nunca deixe
que algo o atinja; por mais pesado que seja o tronco de madeira colocado
por mentes perturbadas em seu caminho, transforme-o, com paciência, em
uma cruz, como fez Jesus no Calvário. Carregue com coragem e dignidade a
sua cruz, sem jamais deixá-la à beira do caminho. Nada pode perturbar o
seu trabalho, muitos esperam por suas narrações. Hoje, quando presenciamos
uma juventude tão sem Deus, buscamos alguns jovens e vemos que eles
voltaram a ter esperanças, graças a alguns dos seus livros.
- Obrigado, muito obrigado. Fico feliz, porque tudo faço para não decepcionar
aqueles que em mim confiam. Entretanto, muitas vezes, chega o cansaço
e sinto que mais uma vez serei enterrado no túmulo da morte, tantas e tantas as
preocupações que às vezes me atingem. Mas, graças a Francisca Theresa, que
nos mostra um caminho estreito, onde o perdão é uma bela canção de esperança,
prossigo viagem, orando para que Jesus possa me amparar quando a minha
cruz pesar demais em meus ombros. Confesso que às vezes me sinto muito fraco
diante de fatos que ocorrem, que jamais podemos aceitar.
159
- Sabemos disso e oramos sempre a Deus por todos aqueles que se
propuseram a levar as palavras do amor ao plano físico.
Nessa altura, meus olhos não contiveram mais as lágrimas. E Marry,
carinhosamente, mais uma vez me envolveu com seus braços carinhosos.
- Marry - falou Paul -, a vida daqueles que lutam na estrada do
Cristo é repleta de surpresas, e feliz aquele que estiver sempre ligado com o
Alto. Pode chover granizo, podem surgir vários empecilhos, mas o trabalhador
do Senhor prossegue viagem.
- Vamos, agora, dar uma chegada a nossa faculdade, convidou-nos Trinité.
Logo divisamos um belo prédio azul bem claro, cujas portas brancas
ofereciam-nos uma bela passagem. Paul conversava com Marry. Trinité orava
baixinho e eu, confesso, estava por demais impaciente. Aquela faculdade
era muito singela, pois o branco sobressaía pela beleza das flores, as mais
belas que já havíamos visto. Fomos recebidos por Fani, que, sorridente, nos
cumprimentou. Trinité adentrou aquele lugar com tanta naturalidade, que cheguei
à conclusão de que ela ali morava. Eu tudo examinava. Os amplos salões
continham tantos aparelhos que me aguçaram a curiosidade. A ala de
circulação era toda decorada por belos quadros, e todos muito coloridos..
Reparando meu interesse, Paul me perguntou: ,, ; /",)", > <
- Gosta de arte?
- Adoro. E depois, estes quadros são tão coloridos, que me transportam
para dentro deles. Eles me parecem estar em terceira dimensão.
- Luiz, à medida que o homem vai descobrindo o mundo espiritual,
sua visão adquire maior nitidez, dando-lhe condição de enxergar melhor, disse-me Trinité.
Continuei admirando aqueles quadros e cada um deles me oferecia
uma história. Era como se fossem transformando-se em um filme.
-Porque, Marry, isso está acontecendo comigo?
-A irmã Trinité já lhe explicou: você está vendo além do quadro, a história de cada pintor.
Sorri.
- E por quê? Para que isto vai-me servir?
Pensei, naquele momento, que aqueles três Espíritos tiveram pena da
minha ignorância, pois somente abaixaram a cabeça.
Logo estávamos em um auditório, onde uma música suave invadia todo
o ambiente. Foram adentrando o local várias pessoas, que deviam ser alunos,
pois, como nós, a tudo examinavam. Um instrutor subiu ao palco, fez a
prece inicial e depois nos pôs a par do que iríamos ver:
- Irmãos, sejam bem-vindos à nossa faculdade. Estamos aqui para
conhecer as várias moradas da casa do Pai.
Nisso, ele apertou um botão e surgiu, em tela de proporções gigantescas,
o Universo em toda a sua grandeza. Na projeção ele nos mostrou as
condições diferentes dos mundos: uns, adiantados, outros, na inferioridade
dos seus habitantes. Alguns eram bem inferiores à Terra, física e moralmente.
As inúmeras casas do Pai, as moradas, pairavam no Universo, oferecendo-nos
uma paisagem lindíssima. E, como se transportados para cada uma delas,
íamos conhecendo a evolução do Espírito, a passagem pelos três reinos
e depois, bem nítido, vimos o homem, mal saindo da inocência, receber de
Deus a chave do "paraíso", o Universo. Nesse momento, o homem pode
deixar aflorar as suas tendências. Aí, torna-se obrigatória sua descida ao
mundo físico, para aprender nas escolas dos mundos materiais. O simbolismo
de Adão e Eva narra o início das vidas nos planos físicos, em planetas
mais inferiores do que a Terra, as encarnações na Terra e também em outros
mundos físicos.
Em dado momento, o instrutor parou para nos explicar o porquê da
exploração do paraíso, isto é, do Universo, após o Espírito ter adquirido o
livre-arbítrio: é que a viagem pelo Universo é o prêmio dado por Deus aos
Espíritos que concluíram o curso nos reinos da natureza. Quando estes
161
recebem o livre-arbítrio, isto é, a maioridade, ganham do Pai uma viagem para
que cada um conheça as belezas do Universo. Mas é aí que tudo começa: as
tendências de cada um podem aflorar e dar-se a queda. O homem escolheu
na árvore da vida a fruta da dor ou a da felicidade. Uns foram levados para
mundos melhores; outros, para o mundo que as suas tendências escolheram.
Vimos na tela os mundos primitivos e constatamos que todos os Espíritos
passam por eles. Só que, de acordo com as suas tendências, os mundos
se diferenciam. Uns vão para mundos mais afortunados, outros para mundos
onde ainda existem os sofrimentos. Nesse filme, ainda constatamos que todos
os Espíritos possuem a forma humana, não vimos nenhum ser anormal.
Parece que o instrutor captou meu pensamento, pois logo falou que se um
Espírito precisar se deslocar de um mundo físico para outro - preste atenção:
mundo físico e não espiritual -, se precisar deslocar-se de um mundo
físico para outro mundo, quem faz a viagem tem de ir equipado com vestes
apropriadas ao mundo que será visitado. Talvez por isso, alguns terráqueos
dizem que vêem extraterrestres. Se isso acontece, a forma deles tem de ser a
humana. Só que eles, ou nós do planeta Terra, se formos a outro planeta,
teremos de ir também equipados. Pensei: "já imaginaram se astronautas aparecerem
para um camponês, em pleno sertão do Brasil? Irá pensar que não
são homens, e contará histórias de que viu homens diferentes. E não estará
mentindo, pois aquela roupa dos astronautas, com o seu capacete, assusta
qualquer mortal..."
O instrutor nos falou, ainda, que as tendências são o passaporte para a
nossa morada. Fixei bem a tela e vimos as encarnações primitivas, nos mundos
bem primários. Também ficou bem claro que o Espírito não retroage,
mas que o perispírito pode deformar-se, porque em inúmeras moradas da
Casa do Pai, vimos Espíritos completamente perturbados, tanto nos mundos
físicos, quanto também nos mundos espirituais. Muitos desses Espíritos rolavam,
como se não tivessem um corpo, e isso só aconteceu porque o Espírito não buscou uma bela morada.
com que emoção divisamos o nosso planeta! Pareceu-me que o Cristo
pairava no ar, segurando o globo terrestre, e presenciei uma Humanidade
162
ainda endurecida, sem amor e sem fé. Mas também vimos a luta do Cristo
para salvar um maior número de pessoas.
O instrutor nos mostrou a escalada do Espírito em formação, quando
é colocada a essência espiritual na pedra. Depois, colocando no vegetal também
a essência espiritual e logo o Espírito ficando adulto, o princípio espiritual
adquirindo uma inteligência rudimentar. Depois, o homem recebendo a
consciência com as leis de Deus nela grafadas.
Quando Allan Kardec perguntou onde estavam as leis de Deus, os
Espíritos responderam, na questão 621 de O Livro dos Espíritos: "Na consciência."
Depois, ainda temos o complemento da questão:
a) Visto que o homem traz em sua consciência a lei de Deus, que
necessidade havia de lhe ser ela revelada?
"Ele a esquecera e desprezara. Quis então Deus lhe fosse lembrada".
E quem veio fazer esse trabalho? Jesus. Como o Mestre reavivou a
lembrança de cada uma delas, através dos Seus inúmeros exemplos de verdadeiro
filho de Deus!
Presenciamos, ainda, os seres vivos progredindo junto aos mundos
onde habitam. E com que alegria acompanhamos a evolução dos mundos e
dos seres vivos, desde o instante em que se aglomeraram os primeiros átomos
que serviram à sua constituição! Ali, ficava bem claro que tudo o que se
encontra no caminho da evolução segue paralelamente ao progresso do homem,
ao dos animais, ao dos vegetais, enfim, de tudo o que compõe o mundo
em que vivemos. Tudo progride: o homem e tudo o de que ele precisa.
Naquele recinto, o Universo, a Casa do Pai, descortinava-se diante dos nossos
olhos, deslumbrados com tanta luz e também pela bondade de Deus.
O instrutor nos falou sobre os três reinos da Natureza, sobre o homem,
criatura de Deus, criado para ser feliz, para desfrutar de todas as propriedades
do Senhor. Por sua ignorância, retarda sua volta ao "paraíso".
Quando livre da matéria pesada, entretanto, encontra a paz. A projeção ia-nos
revelando as moradas da Casa do Pai. Em dado momento, divisamos os
tribunais, para onde são levados os nossos livros da vida. Vimos, diante dos
163
nossos olhos, as moradas dos planos espirituais e constatamos que todos os
mundos espirituais foram criados antes dos mundos físicos. Portanto, leitor,
Júpiter tem o seu plano espiritual, morada de Espíritos errantes, sim, errantes,
porque ainda terão de adentrar a matéria para progredirem. Em cada
morada, seja em que planeta for, existe o firmamento, o mundo espiritual,
onde os Espíritos se preparam para o seu retorno à matéria.
O filme ainda estava diante dos nossos olhos, quando perguntei a mim
mesmos, em voz alta: "Em quantos mundos já vivemos?" Todos me olharam.
Sacudi a cabeça, dizendo: "Desculpem-me."
Marry sorriu, dizendo-me, baixinho.
- É mesmo, Luiz, quantas moradas já tivemos na Casa do Pai, mas ninguém pensa nisso. Só daremos valor à Sua bondade quando voltarmos para nossa real morada.
À nossa frente, divisávamos o Universo, a Casa do Pai. A imensa tela
mostrou as diversas moradas, desde os mundos primitivos, onde se elaboram
as essências espirituais, que ali são depositadas. Estes mundos elaboram
as essências, seja na parte espiritual ou na material; os dois mundos se fundem,
na grande responsabilidade como moradas da Casa do Pai. Nesses
mundos primitivos, as essências desenvolvem-se e progridem, até chegar a
época propícia ao aparecimento do homem, Espíritos que faliram. Como
todos os Espíritos, continuarão nesse planeta ou serão dele banidos, quando
essa morada passar a outro estágio. Só sabemos que até lá o planeta estará
servindo de morada para o princípio espiritual.
E ali tivemos mais uma aula referente à desmaterialização das essências
e sua passagem pelo mundo espiritual. Já tratei do assunto, não
será necessário repeti-lo. Os mundos onde se opera a preparação das
essências, dos princípios inteligentes, também foram-nos mostrados, assim
como outros mundos. Nos mundos felizes, vimos as pessoas respeitando
o seu próximo e exuberante natureza compondo aquela morada.
Todos são amigos; ali os homens não morrem, sofrem apenas uma transformação
ao passarem para outro estágio mais adiantado. O corpo
164
material, sendo menos compacto, goza de uma lucidez que lhe proporciona
quase total liberdade. Os Espíritos em mundos felizes lutam pela própria
melhoria e tudo fazem para livrar-se das imperfeições, e isto é o
que os diferencia dos mundos de expiação e provas, onde a violência
e a maldade, a cada dia, fazem vítimas. Nos mundos felizes, os
sentimentos de amor e de fraternidade unem todos os homens e os
mais fortes ajudam os mais fracos. As conquistas sociais são correspondentes
à inteligência de cada um; não existe miséria, pois ninguém
ali se encontra em expiação.
Na tela, surgiram os mundos fluídicos, destinados a Espíritos sublimados,
aqueles que nunca faliram. É destes mundos que partem os grandes
socorros aos outros, menos evoluídos; é neles que se encontram os Espíritos
prepostos, os auxiliares de Deus. Quando chega a estes mundos, o Espírito
já não sofre qualquer transformação. É o único mundo onde não existe a
parte material. Como presenciamos na tela, todos os outros mundos: felizes,
regeneradores, de expiação e provas, primitivos, têm o firmamento e a parte
material. De todos os mundos, somente os celestes e os fluídicos são compostos
de Espíritos que já atingiram a vida plena, os puros Espíritos.
O que me prendeu a atenção foram os mundos regeneradores, para
onde o nosso planeta caminha. Nesses mundos, o Espírito está-se libertando
de uma parte da matéria perecível; o corpo físico é um pouco mais
leve, sem, contudo, livrar-se da morte, da descida ao túmulo. É um mundo
a caminho da felicidade, mas ainda bem perto do mundo expiatório.
No mundo de regeneração, os homens ainda estão sujeitos às leis que
regem a matéria. E um mundo sem violência, os homens estão menos
orgulhosos, são mais dóceis e amorosos. Nos mundos regeneradores, os
homens já descobriram Deus, e Lhe rendem respeito, mas os homens
ainda são carnais e falíveis. O mal ainda pode dominá-los, o que pode
levá-los a cair novamente em mundos de expiação, quando sofrem terríveis
provas. Porisso, o Espírito sempre terá de lutar pela perfeição, isto
é, acompanhar o progresso, que é uma lei da natureza. Se podemos nos
tornar felizes, por que negligenciar o chamado de Deus?
165
O instrutor nos falou ainda que o Espiritismo ensina o homem a descobrir
Deus. Em outras religiões, o homem julga que Jesus é Deus e que basta
amá-Lo para salvar-se, basta arrepender-se para não pagar o que fez. Na
Doutrina Espírita, aprendemos que teremos de prestar contas a Deus por
tudo o que fizermos de bom ou de mau, e que não basta dizer "Senhor,
Senhor", para entrar no reino de Deus. Quando o homem torna-se espírita
de fato, ele encontra Deus, fica conhecendo as Suas leis e toma conhecimento
de que, se as desrespeitou, terá de pagar ceitil por ceitil. Portanto, quando
nos tornamos verdadeiros espíritas, renunciamos a muitas coisas e passamos
a ser mais caridosos, amigos, leais e repletos de misericórdia, não só para
com a família, como para com os amigos e também os que nos ofenderam.
Só a Doutrina esclarece sobre a nossa responsabilidade com a vida,
porque graças à reencarnação é que o Espírito pode pagar os delitos de suas
vidas passadas. O espírita que não procurar melhorar-se pode admirar a
Doutrina Espírita, mas não a compreende ou não a deseja como código de
vida. Ao espírita foi dado desvendar os mistérios da morte. Ele toma conhecimento
de onde veio e para onde vai; quais são as suas responsabilidades
para com o seu Criador; aprende que Jesus é um filho de Deus, como todos
nós; que esse Pai, que chamamos de Deus, tem o Universo como Casa; que
aqueles que estão encarnados neste planeta, chamado Terra, não são seus
únicos habitantes, pois em cada ponto do Universo há uma morada; que não
lhe é permitido brincar com os Espíritos, pois, conforme o Prefácio de O
Evangelho Segundo o Espiritismo, eles formam um imenso exército que
se movimenta ao receber as ordens do seu comando, espalham-se por
toda a superfície da Terra e, semelhantes a estrelas cadentes, vêm iluminar
os caminhos e abrir os olhos aos cegos.
Em dado momento, o instrutor indagou:
- Como pode uma pessoa chegar ao Espiritismo e continuar repleta
de egoísmo, seja ouviu as orientações dos Espíritos?
Em seguida, repetiu o que está escrito no Prefácio de O Evangelho
Segundo o Espiritismo:
166
As grandes vozes do Céu ressoam como sons de trombetas, e os
cânticos dos anjos se lhes associam. Nós vos convidamos, a vós homens,
para o divino concerto. Tomai da lira, fazei uníssonas vossas vozes,
e que, num hino sagrado, elas se estendam e repercutam de um
extremo a outro do Universo.
Homens, irmãos a quem amamos, aqui estamos junto de vós. Amaivos,
também, uns aos outros e dizei do fundo do coração, fazendo as
vontades do Pai, que está no Céu: Senhor! Senhor!... e podereis entrar
no reino dos Céus.
E continuou:
-O espírita que não reformular o seu modo de viver, que não jogar
fora toda a inútil bagagem de milênios, não vestiu a túnica da humildade.
Presenciamos alguns espíritas distantes da real proposta da Doutrina, que é
tornar o homem melhor, cada vez melhor. Uns dizem que são espíritas só
porque buscam os passes, outros, porque são médiuns, ainda outros, porque
pertencem à diretoria da Casa. Mas a Doutrina não é só isso: é mudança, é
tornar-se manso e pacífico, pobre de espírito, misericordioso, é tornar o seu
caminho um cântico de caridade. As moradas estão aí, à nossa espera, elas
são propriedades de Deus e, como filhos que somos dele, temos direito à
Sua herança, que é todo o Universo. Também temos a liberdade de escolher
onde iremos morar. Se renegarmos o nosso planeta Terra e partirmos para
um bem inferior, a escolha será nossa.
É dever de todos os Espíritos trabalhar pela reforma moral das criaturas.
Devemos dar o pão e o agasalho aos pobres, mas como? A caridade
começa em casa!... Está nas mãos dos espíritas a transformação de cada um
que bater às portas da Casa Espírita, pondo fim ao fanatismo, que já fez
muitas vítimas. Aos espíritas não é dado cair nos mesmos erros das antigas
religiões, porque nelas existem a idolatria e o temor a Deus. Na Doutrina,
existe o esclarecimento de que fomos criados simples e ignorantes, e caminhamos
para a evolução. À medida que o homem vai conhecendo a origem
da criação do Espírito, ele é apresentado a um Deus bom e justo. Longe do
167
Espiritismo, o homem julga que Jesus e Deus são o Espirito Santo, quando
quem estuda a Doutrina sabe que Deus é uno e indivisível, e que Jesus foi
criado simples e ignorante, como todos os Seus irmãos. Enquanto Ele atingiu
a perfeição plena, nós, os que ainda estamos no planeta Terra, teremos muito
ainda que aperfeiçoar o nosso Espirito, jogando fora todas as nossas imperfeições,
uma delas, o egoísmo.
'- O Deus que a Doutrina Espírita nos apresenta não castiga nem
perdoa, porque a Sua perfeição é infinita; Ele, ao outorgar aos Espíritos o
livre-arbítrio, procura não intervir nas decisões dos Seus filhos, mas nem por
isso nos deixa órfãos. O homem encontra a salvação no Mestre Jesus Cristo,
que veio até o plano físico para ensinar à Humanidade o caminho da perfeição.
Portanto, ao espírita não são permitidos julgamentos, absolvição ou
condenação, porque ele bem conhece a lei de ação e reação. Por isso se
pede tanto o estudo da Doutrina Espírita, porque, à medida que o homem a
compreende, vai fazendo as suas descobertas, e uma delas é amar a Deus
sobre todas as coisas. Se amamos os nossos defeitos e nos apegamos a eles,
distantes estamos do Pai. Se dizemos "Senhor, Senhor", e não procuramos
viver as leis de Deus, dentro dos preceitos cristãos, continuamos repletos de
defeitos e pronunciando o nome do Senhor em vão. Em outras religiões,
onde o Cristo é louvado, basta clamar perdão e se converter a esta ou àquela
religião para estar salvo; o passado cruel, as maldades pretéritas, tudo é
esquecido, e de um dia para outro o criminoso arrependido pode até tornarse
líder de muitas e muitas pessoas. Na Doutrina Espírita, a realidade é outra:
Jesus, o Cristo de Deus, é o Caminho, a Verdade e a Vida. No Seu caminho,
iniciamos a caridade ao próximo, que é o amor, a humildade, a paciência e o
respeito ao semelhante. A verdade é o Seu Evangelho de luz, de esperança,
que tanto ensina o homem a viver as leis de Deus. O Cristo de Deus não é
católico, crente ou espírita. O Cristo de Deus é o Mestre, irmão que veio ao
plano físico indicar o caminho para vivermos dentro dos preceitos divinos..
Ele nos ofereceu a lição, ao sair do túmulo, que ninguém fica inerte numa
campa, decompondo-se. O que fica é o corpo carnal, mas este é apenas
uma veste que se desfaz. Ao sair do túmulo, o Cristo nos ensinou que a morte
não existe, que a vida que Deus ofertou ao homem é eterna. Graças à
168
bondade de Deus, o homem tem a eternidade para se corrigir. Nem Deus nem
Jesus podem livrar o homem dos erros cometidos; logo, não basta dizer
"Senhor, Senhor", para ser salvo. A Doutrina Espírita assusta os fracos, porque,
ao chegar a ela, eles se defrontam com a verdade, que mostra a todos
nós as imperfeições da nossa alma. Muitos recuam, amedrontados; outros
vão seguindo a vida, enganando a si próprios, dizendo-se espíritas, nada
fazendo pela própria melhoria. Feliz o homem que ama o Cristo; que coloca os pés nas Suas pegadas e junto a Ele reverencia a Deus como Pai amado
que nos espera no fim do caminho para que, juntos, desfrutemos da vida plena.
'- A Doutrina Espírita ensina as verdades do Espírito. Apresenta-nos
a um Jesus manso, cordeiro, que não fundou religião alguma, porque a
Sua religião chama-se Amor. No dia em que o homem amar verdadeiramente,
ele pertencerá à religião do Cristo. Só aí compreenderá Deus, a Sua
bondade e a Sua misericórdia. Muitos julgam que Deus seja injusto, que
deixa o pobre ao relento e que dá aos poderosos conforto e alegria; um Deus
que mata a mãe, deixando o filho órfão, ou que tira o filho do colo materno;
um Deus que traz a doença, que tanto maltrata a criança e o velho. Bendita
Doutrina Espírita, que não só nos apresenta Jesus, o Cristo de Deus, como
nosso irmão mais velho, como nos apresenta a Deus, nosso Pai Todo-Poderoso,
que nos ama e nos permite estar sempre em busca do aperfeiçoamento
dos nossos Espíritos, através do perdão das encarnações sucessivas!
'- O espírita sabe que o Cristo é o filho de Deus. Não entendemos
por que algumas religiões aceitam que o Cristo seja uma fração de Deus, ou
melhor, o próprio Deus, se encontramos no Antigo Testamento, no Eclesiástico,
Capítulo LI, versículo 14: Invoquei o Senhor, pai do meu Senhor,
para que não abandone o dia da minha atribulação e durante o domínio
dos soberbos. Como é clara esta passagem do Eclesiástico. O Espiritismo
bem esclarece que Deus é o pai do Senhor Jesus. Mas é mais fácil jogar tudo
para o sobrenatural, do que buscar a verdade. Outra passagem do Eclesiástico,
Capítulo XV, diz: l4Deus criou o homem desde o princípio, e deixouo
na mão do seu próprio juízo. l5 Deu-lhe mais os seus mandamentos e os
169
seus preceitos.L 6Se quiserdes observar os mandamentos, e tu conservares
sempre a fidelidade que agrada. llEle pôs diante de ti a água e o
fogo; lança a tua mão ao que quiseres. Nenhuma religião prega tanto a
reforma íntima como a Doutrina Espírita, que faz com que o homem tome
conhecimento da sua grande responsabilidade com a atual encarnação. Quem,
na Doutrina Espírita, não sabe o que é o livre-arbítrio? Neste versículo 17,
do Capítulo XV do Eclesiástico: ele pôs diante de ti a água e o fogo;
lança a tua mão ao que quiseres, isso fica bem claro, confirmando o que
nos dizem os livros espirituais. Todos têm a liberdade de escolha, a cada um
basta a própria consciência. E sabemos que no íntimo da consciência, se
desejar, o homem descobre as leis de Deus que nela estão grafadas, lei que
não é ele a dá-la a si mesmo, mas à qual, ao invés, deve obedecer.. É a voz
que o chama sempre a amar, a fazer o bem e a fugir do mal quando necessário,
e que diz claramente aos ouvidos do seu coração: "faze isto, foge daquilo".
O homem tem realmente uma lei escrita por Deus na sua consciência;
obedecê-la depende do homem, e segundo sua consciência será julgado.
'- Os Espíritos do Senhor, através dos mensageiros, fazem aguçar as
lembranças adormecidas em nossos Espíritos imperfeitos, por isso dizemos
que nas outras religiões o homem ainda não conhece os atributos de Deus,
chegando até a temê-Lo, pois dizem que Ele castiga as nossas faltas. E o
Consolador, a Doutrina Espírita, coloca o homem diante dos atributos de
Deus e ninguém fica indiferente a tanta bondade e justiça. Mas se ficarmos
apegados à letra, iremos sentir medo dele, pois O julgaremos erradamente,
pois irermos pensar que Ele mata, castiga e manda para o inferno ou o purgatório.
Bendita Doutrina Espírita, que tão bem esclarece a quem deseja conhecer
as belezas do Universo, onde Deus, como Pai nosso, está atento à
nossa evolução.
'- O Cristo, como filho dileto do Senhor, nosso irmão mais velho,
pacientemente, a cada dia, nos repete as lições de amor a Deus e a todas as
Suas criaturas. Como pode alguém pregar a desunião, o ódio e atacar o
próximo, dizendo-se cristão, um soldado do Cristo? Quando Jesus esteve
no plano físico, disse aos Seus acusadores: O meu reino não é deste
170
mundo. Os reinos do plano físico precisam de exército para defendê-los. O reino
do Cristo é de amor e de fraternidade. Aquele que se diz Seu seguidor, mas
é duro com o próximo, critica e ataca outras religiões com palavras
caluniadoras, não pode, de maneira alguma, dizer-se um apóstolo do Senhor.
Bendita Doutrina Espírita, que educa o homem e cujos adeptos não
estão armados da crítica, dizendo-se defensores do Cristo. Desde o momento
em que tentamos defender algo, usando a violência, seja através de
palavras ou de atos, estamos ferindo os preceitos divinos.
- Aqui estamos, estudando as várias moradas da Casa do Pai, de
cuja existência só ficamos sabendo através da Doutrina Espírita. Por que perguntarão
- inserimos nesse estudo a educação do homem? Simplesmente,
porque o homem encarnado precisa conscientizar-se de que a vida
física é muito rápida. Em vez de se preocupar em só adquirir propriedades
no mundo terráqueo, ele deve preocupar-se com uma moeda sólida e luminosa
no mundo espiritual, sendo essa a tarefa da Doutrina Espírita: educar o homem.
'- Existem Centros Espíritas, nesse imenso país, cujos freqüentadores
jamais abriram O Livro dos Espíritos. Como pode alguém compreender a
problemática do Espírito, sem conhecimentos doutrinários? E ainda há quem
pense que os Espíritos é que necessitam dos encarnados para se tornarem
bons, como se todos os Espíritos fossem obsessores. Não é bem assim. Os
Espíritos vêm até o plano físico para elucidar o homem sobre a vida e a
morte. Para que isso aconteça, sugerem os livros doutrinários, onde O
Livro dos Espíritos é o mapa do caminho. Uma pessoa, para dizer-se
espírita, precisa conhecer os ensinos dos Espíritos. Mas há quem diga
que o livro é difícil, outros que o seu Centro é freqüentado por pessoas
humildes, sem capacidade para compreendê-lo. Se os espíritas são os
primeiros a fazer propaganda negativa do livro, como alguém irá lê-lo? A
finalidade desta nossa conversa é que levemos aos leitores do plano físico
o chamado, para que, ao se interessarem pelo Espiritismo, o façam
de uma maneira certa, buscando um Centro onde primeiro se estude,
para depois se educar a mediunidade. Porque hoje, vemos pessoas sem
171
qualquer conhecimento doutrinário ou mediúnico, sentadas diante de uma
mesa, dizendo "receber Espíritos". O mediunismo ocorreu antes do Cristo.
Depois, veio Kardec, que tão bem elucidou o homem sobre a morte.
Ainda ouvimos alguns espíritas dizerem que, ao "desenvolver" a
mediunidade, o encarnado está sendo caridoso para com os Espíritos.
Lenda, apenas lenda. A finalidade do Espiritismo é moralizar o homem, e
não os desencarnados. Ainda existem encarnados que julgam que Centro
Espírita é apenas para tratar dos obsessores. Não, não é só isso, não
pode ser só isso. O Centro Espírita é um colégio onde se deve estudar o
Espiritismo. E à medida que o compreende, vai-se modificando. Aquele
que está no Centro Espírita só procurando educar os Espíritos está perdendo
a oportunidade de se auto-educar. Todas as Casas Espíritas deveriam
ser chamadas de Instituto de Cultura Espírita, para que mudasse
o conceito equivocado que alguns têm sobre o Espiritismo, Ele existe
para fundir os dois planos num abraço respeitoso e amigo. Hoje, ainda
se vê Centros Espíritas que apenas fazem trabalhos de desobsessão e
"desenvolvimento mediúnico". É verdade, meus irmãos, desenvolvimento
mediúnico, nada mais que isso. Seus médiuns nunca leram O Livro
dos Médiuns. Para quê? - sempre dizem - eu trabalho tanto, ajudo os
Espíritos! Precisamos dizer aos espíritas que parem um pouco de caçar
fantasmas e vamos começar a ajudar o homem encarnado, que está muito
necessitado, por se encontrar avaro, egoísta, maledicente, repleto de
ódio. Vamos unir todos os que freqüentam os Centros, do presidente ao
freqüentador mais humilde, vamos estudar para conhecer as leis morais e
ver como elas se encontram tão bem explicadas em O Livro dos Espíritos.
Se o homem não se auto-educar, pode ter qualquer religião, que ela
jamais lhe apresentará Deus, porque não desejará conhecer a beleza das
leis morais. E para respeitar a Deus, o homem tem antes de aprender a
estudar o livro onde estão bem explicadas essas leis. Os espíritas têm O
Livro dos Espíritos; quanto às outras religiões, não sabemos. O Espiritismo
não é uma diversão, uma curiosidade feita para o homem, não! O
Espiritismo não é para os médiuns receberem aplausos, serem admirados,
não! O Espiritismo não é um pedido de socorro do mundo espiritual
172
para os encarnados, para que uma dúzia de pessoas eduquem os Espíritos
sofredores, não é isso! Os espíritas têm de compreender que a finalidade
da Doutrina é educar o homem. É tão fácil entender essa Doutrina
de luz, que veio ao plano físico para queimar a carne podre de egoísmo e
de vaidade. É essa a Doutrina, que tanto nos aguça a consciência, pedindo-nos
reforma, mudança de atitudes!
No decorrer da exposição, o instrutor citou a questão 624 de O Livro
dos Espíritos:
624. Qual o caráter do verdadeiro profeta?
"O verdadeiro profeta é um homem de bem, inspirado por Deus. Podeis
reconhecê-lo pelas suas palavras e pelos seus atos. Impossível é que Deus se
sirva da boca do mentiroso para ensinar a verdade."
- Portanto, qualquer pessoa que chegar à Casa Espírita precisa
se evangelizar, e evangelizar-se não é apenas ler O Evangelho
Segundo Espiritismo', não, não se trata disso. É preciso saber que
nunca se pode colocar médiuns desequilibrados em contato com os
Espíritos. Criou-se o mito de que os Espíritos fazem milagres, e muitos
vão à Casa Espírita atrás deles. Irão dizer: mas se convidamos as
pessoas a buscarem os estudos, elas fogem do Centro. É melhor
mesmo que se vão, porque disse Jesus: Ai daqueles que brincarem
com o Espírito Santo. O Espiritismo é uma porta que se abriu e
através dela o homem encarnado se defronta com o esclarecimento
do mundo espiritual. Um Centro Espírita não é um lugar qualquer, ele
deve constituir-se em um hospital de almas, uma clínica de cirurgia
plástica onde, ao estudar a Doutrina e colocá-la em nossas vidas,
vamos, pouco a pouco, ficando menos feios. Para que isso venha a
acontecer, é precisamos urgentemente munir seus adeptos de ferramentas
chamadas fé, humildade, perseverança e amor.
As moradas são inúmeras e passamos por algumas somente, mas
todos terão, um dia, uma bela morada na Casa do Pai. Comecemos hoje a
grande caminhada.
173
Após breve pausa, continuou o instrutor:
- Temos a certeza de que as Casas Espíritas do plano físico, transformadas
em pequenos hospitais-escolas, abrigarão sob seus tetos todos
aqueles que desejarem evoluir. O trabalho se avoluma, à medida que se aproxima
a grande transformação da Humanidade. A Casa do Pai é a imensidade do Universo.
174
Capítulo XV
O RESPEITO AOS MAIS VELHOS
Os mundos estavam bem presentes diante de nós, mas o meu coração
bateu forte quando vi a nossa Terra de expiação e provas. Olhei os outros
rostos, todos apresentavam uma expressão de amor, muito amor, pelo planeta
em que vivemos. Nesse momento, foi projetada a questão 625 de O
Livro dos Espíritos'.
625. Qual o tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem,
para lhe servir de guia e modelo?
"Jesus."
Para o homem, Jesus constitui o tipo da perfeição moral a que a
Humanidade pode aspirar na Terra. Deus no-lo oferece como o mais
perfeito modelo e a doutrina que ensinou é a expressão mais pura da lei
do Senhor, porque, sendo ele o mais puro de quantos têm aparecido na
Terra, o Espírito Divino o animava.
Quanto aos que, pretendendo instruir o homem na lei de Deus, o
têm transviado, ensinando-lhes falsos princípios, isso aconteceu por
haverem deixado que os dominassem sentimentos demasiado terrenos e
por terem confundido as leis que regulam as condições da vida da alma,
com as que regem a vida do corpo. Muitos hão apresentado como leis
divinas simples leis humanas estatuídas para servir às paixões e dominar os homens.
175
Meditando sobre a palestra, eu me indagava: por que querem transformar
a Doutrina em "templos" apenas, e não em hospitais de almas, cujo
médico, Jesus Cristo, veio à Terra para curar, se a finalidade da Doutrina
Espírita é educar o homem, levá-lo à perfeição? Essa é a causa de, na Doutrina,
não existirem pastores ou sacerdotes; existem irmãos, no mesmo nível
evolutivo, lutando para tornarem-se melhores. A Casa verdadeira ensina a
sua diretoria a sentar-se nos bancos de estudo e, junto aos aprendizes, também
aprender, porque ninguém é professor; Mestre, somente Ele, Jesus. Como
uma diretoria omissa pode bem conduzir os estudos doutrinários? Para que a
Casa seja um hospital de almas, deve possuir uma diretoria disciplinada,
cuja presença seja constante no Centro Espírita. Trabalho, estudo e disciplina
não fazem mal algum. A negligência, a falta de amor à Doutrina, sim,
acabam com qualquer Centro Espírita.
Interessante é que, enquanto ouvíamos a palestra, na tela eram exibidas
todas as Casas do Pai, como um convite à evolução.
O instrutor encerrou sua exposição com uma prece, mas nós ainda ali
permanecemos, assistindo a vários filmes sobre o Universo, sobre a necessidade
de o homem buscar a perfeição, e o grande remédio é a Doutrina Espírita.
Marry convidou-me a nos retirarmos e, mais uma vez, olhei aquele
lugar lindo, realmente maravilhoso, e agradeci a Deus pelo chamado.
- Marry, não entendi direito: fomos lá e tomamos conhecimento das
inúmeras moradas, mas depois foi feita uma pregação sobre Espiritismo.. Por quê?
- A grande tarefa dos Espíritos é melhorar o homem, para que ele
busque a felicidade. O Espiritismo é um assistente social que tem como tarefa
ensinar ao iniciante desde as primeiras coisas, para que ele venha, um dia, a
saber morar numa bela casa.
-Tem razão. Quem desejar ir para o "paraíso" tem de arrumar uma
bagagem de boas obras. " --
176
Marry sorriu, e dali fomos saindo. Como sempre, a tudo eu observava.
-Marry, por que o homem encarnado foge das verdades espirituais?
Elas os assustam?
- Cada ser tem lembrança, nem que seja vaga, dos seus compromissos
com Deus, e a Doutrina Espírita aguça essas lembranças. Sendo mais
fácil esquecer-se de tudo, para que recordar? É compromisso demais para ser assumido.
- Tem razão. Até nos meios espíritas encontramos pessoas que só
gostam de ouvir palestras, tomar passes e nada mais. Estão sempre alegando
falta de tempo e é esse tempo que, cada vez mais, torna-se nosso inimigo.
Logo estávamos em minha Colônia. Marry despediu-se, dando-me
dois dias de folga, o que me pegou de surpresa.
- O que farei nesses dois dias? logo perguntei. ^ , ;;,<.";;
Ela sorriu.
- Os dias lhe pertencem, são suas folgas, e bem merecidas. Luiz,
depois do seu descanso, voltaremos a nos encontrar na ala quarenta e dois
da Universidade. bom repouso.
- E quem disse que estou cansado? falei, já me deitando na relva.
Ali fiquei até o entardecer, quando ouvi uma voz melodiosa cantar um louvor a Maria.
Fui até meu lar, uma casa pequenina, onde vivo com minha avó. Vovó
Margarida, como sempre, recebeu-me sorridente e feliz. Quem a conheceu
bem sabe do seu temperamento humilde e bom.
- Luiz Sérgio, você não pára em casa!
- Tem razão, fofinha, hoje sou um soldado do Cristo.
Ela me abraçou bem forte, falando: , ,
177
-Precisamos orar, e muito.
Como vovó tem razão! Não se concebe um espírita sem oração. Não
existe espirita cristão se ele não orar e vigiar, medindo as palavras para não
deixar ruir a sua casa pelos remorsos. Falamos sobre vários assuntos e ninguém
melhor do que vovó Margarida para me animar a prosseguir o meu
trabalho. Ana, que mora conosco, aproximou-se e disse:
-Luiz, ninguém tem o direito de destruir os trilhos, principalmente
quando o trem necessita tanto deles.
- Ficar nas bordas do caminho e só apedrejar o próximo é falta de Evangelho.
-Vovó, esqueça isso, ninguém contém o vento e nós fazemos parte
desse imenso exército do Cristo.
Como é bom estar em casa! Muitas coisas fiz nesses dois dias, ajudando
minha avó a completar o seu trabalho. Ela, muito saltitante, logo estava
me paparicando, toda feliz. Presenciando a felicidade da vovó, recordei
os idosos que são rejeitados pelas famílias, sem compreenderem o comportamento
deles. Quão bonita é a família onde filhos e avós, se presentes,
entrosam-se harmoniosamente! Mas também queremos dizer que é preciso
saber envelhecer, e envelhecer bem significa auto-satisfação, sentir-se aceito
pela sociedade, porque existem pessoas que são complexadas, julgando que
a sociedade não gosta delas. Portanto, os idosos devem tudo fazer para não
se tornarem decrépitos. Existem muitos idosos que desejam passar por vítimas
e tudo fazem para serem chamados de coitadinhos. Ainda é na família
que o idoso encontra o seu bem-estar. A família deve ter respeito por eles,
porque eles sempre se sentem inseguros, temendo ser rejeitados. Vovó foi
sempre muito amada pela nossa família. Mas ela sempre foi doce e querida,
jamais se metendo onde não era convidada. O idoso deve respeitar a casa
onde mora, não dando palpite sobre a educação dos netos e bisnetos, pois
torna-se alguém desagradável.
Hoje, vemos vários aposentados afastados dos amigos e colegas, com
baixa renda, sentindo-se extremamente infelizes, amedrontados mesmo,
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diante da possibilidade de serem rejeitados pela família, principalmente se ela
passa por dificuldades. Aconselhamos a quem tem um idoso em casa a tratálo
com respeito. Lembre-se de que ele é como se fosse uma criança, necessitando
de estímulos para viver bem os anos que ainda lhe restam. As Casas
Espíritas deveriam iniciar um trabalho para idosos. Eles precisam do estímulo
e da confiança dos mais novos. É necessário fazer com que as famílias se
conscientizem de que o idoso só lhes pede respeito. Nada de risos quando
ele comete alguma falta. Se todos os componentes de uma família também
estão envelhecendo, desde o bebê, por que só o velho é discriminado? Apenas
porque viveu mais anos? As Casas Espíritas devem conscientizar os seus
freqüentadores de, que para o espírita, não existem jovens ou velhos, e sim
responsabilidade, oferecendo ao idoso trabalho de artesanato para que ele
se sinta útil. Em uma Casa Espírita bem organizada, como encontramos o
que fazer! Podemos cortar casaquinho, pregar botão, enfim, há sempre um
serviço para o idoso sentir-se útil.
Estava ali, junto à vovó Margarida, recordando-me dela ao lado da
mamãe, amada e respeitada por todos, sendo essa a causa da minha preocupação
com outros idosos, desrespeitados pela família. O Espiritismo nos
concede condições de atender aos idosos com amor e respeito. Muitas coisas
o idoso pode fazer: crochê para o bazar anual da Casa, sapatinhos para
os enxovais, confeccionar enxovais para as crianças pobres, aprender a pintar
quadros, cantar no coral, enfim, existem tantas coisas para se fazer na
Casa Espírita!... O homem não tem idade. Desde os quatro até os cem anos,
o ser humano deve ser tratado com confiança e respeito. No Brasil, há muito
preconceito com os idosos, e esse preconceito vem de dentro da própria
família. Em outros países os velhos vivem melhor assistidos, passeiam, amamse.
Agora, no Brasil, o velho é tratado como traste que não serve mais para
nada. Sabemos que Francisca Theresa sonha com uma creche, onde os idosos
irão cuidar das crianças. Eles terão preocupação com as crianças, que
encontrarão nos idosos o carinho de pais e de avós. Hoje uma jovem de
vinte e cinco anos já se considera velha, porque a mídia elege ninfetas de
treze e quatorze anos como símbolos sexuais. O que estamos presenciando é
o fim da família, a falta de respeito aos mais velhos. Hoje os jovens estão
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fantasiados de mendigos-calças com fimdilhos grandes, arrastando pelo chão,
com aparência de sujas, brincos epiercing em todos os lugares possíveis, mascando
chicletes e cuspindo pelo chão. É modismo. E o boné, virado para trás,
sujo ou contendo alguma propaganda, às vezes até da maconha? E a família,
como procede com estes filhos? Acham que irão mudar com a chegada dos
anos. Quanto ao caso do boné, causa-nos estranheza que até alguns jovens espíritas
adentram o Centro de boné, quando sabemos que a boa educação ensina o
homem a tirar o chapéu quando entrar em qualquer recinto. O mesmo deveria ser
feito quando adentramos um Centro Espírita. Também vemos jovens e senhores
sentados à mesa de refeição, de boné ou de chapéu. Será educado esse ato?
Perguntei à vovó o que ela achava do assunto.
- Luiz Sérgio, diante de Deus devemos ter uma postura digna, e Ele
sempre senta-se conosco à hora da refeição. Portanto, sentar-se à mesa sem
camisa ou de chapéu é falta de respeito, ou melhor, falta de educação.
Em nosso lar desfrutei de horas proveitosas e busquei na lembrança o
início do meu trabalho com os drogados, com o livro Na Esperança de uma
nova Vida, o quanto me assustava com o fato que até aí era desconhecido por
mim. Foi um livro importante em minha existência. Quanto aprendemos com ele!
Ao escrevê-lo, ficava horas estudando o Evangelho, querendo memorizar as
páginas desse livro amigo. Quanta lição de amor, de caridade! Ninguém pode
calcular. Antes, eu era um pássaro, deslumbrado com o sussurro dos ventos..
Quando me preparava para o trabalho com os Mensageiros de Maria, encontrei
um ninho onde abrigado fui por um imenso amor, e grandes lições de humildade
e caridade recebi. Mas esse livro também me trouxe algumas rejeições do mundo
espírita, alguns ataques. Muitos me julgavam prafrente, jovem inexperiente,
porque usava uma linguagem simples. Um dia estava tristonho, quando Ocaj, o
nosso querido amigo, aconselhou-me:
- Luiz, não desanime nunca, quaisquer que sejam as circunstâncias,
pois também nós, no plano físico, muitas vezes fomos atacados e caímos,
mas sempre nos erguemos, sempre nos levantamos. Quantas vezes fomos
criticados e ofendidos! Quantas vezes choramos por todos aqueles infelizes
que pregavam a violência, querendo mostrar-lhes a verdade! Muitos não
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entendiam, mas com fé em Deus e umgrande amor pela paz acabamos por
concluir nossa jornada reencarnatória, saindo vitoriosos. Lembre-se, Luiz,
de que em todos os caminhos que levam às vitórias encontramos ofensores e
desafetos, mãos ociosas que atiram pedras pontiagudas de calúnias e ódio.
Mas aquele que crê em Deus e em si próprio sempre chegará ao final da sua
jornada vitorioso. O importante, Luiz Sérgio, é não se sentir ofendido, orar
sempre por aqueles que caluniam, calar-se diante dos trovões das críticas e
voar além das calúnias.
Meus olhos marejaram de lágrimas ao recordar esse instante de paz com
Ocaj, quando escutei meu nome sendo pronunciado com imenso carinho:
- Luiz Sérgio...
Era vovó, que me chamava para participar do Culto do Evangelho no
Lar. Assim passei os meus dias de folga. Lemos muito, fizemos, cada qual,
uma boa avaliação de todas as nossas pegadas no mundo espiritual e percebemos
que já demos alguns passos para frente, graças a você, leitor amigo,
que sempre vibra em prol do nosso crescimento espiritual. Oramos por você,
garotão, cuja mãe o obriga a ler os meus livros. À mulher sozinha, que nos
pede que a ajudemos no problema do filho viciado, dizemos: "estamos ao
seu lado, pedindo a Maria de Nazaré que lhe dê forças." Suplicamos pela
mãe, que olha as estrelas no céu em busca do filho que voltou ao mundo
espiritual, cuja saudade lhe fere o coração partido pela dor. Estamos ao lado
do médium iniciante, que julga que ao estudar a mediunidade tudo vai ficar
mais fácil, não sabendo que a vida mediúnica é um sacerdócio repleto de
renúncias. Estamos ao lado do Centro Espírita que luta pela verdade, cuja
disciplina é a sua bandeira. Não somos uma estrela de real grandeza, mas
tentamos nos tornar uma brisa que refresca, que abraça e faz companhia ao
nosso próximo.
É isso aí, camarada, o papai aqui hoje está romântico, saudoso e enchendo
o pulmão de oxigênio para voar além das estrelas e galgar as moradas da Casa do Pai.
Assim passei meus dias de folga.
181
Capítulo XVI
O AVANÇO DA TUBERCULOSE
Saindo do devaneio, deixei nossa casinha e logo estava com a amiga Marry.
-Luiz, como foram aproveitados os seus dias?
- Muito bem. Coloquei as idéias em ordem e continuo do jeito que
sou: alegre e esperançoso. E como o vento que sopra, a chuva que cai, a
brisa que refresca, a semente que germina, o sol que beija o charco, assim
procuro me tornar. De hoje em diante, Marry, deixamos de ser uma areinha,
cujo brilho do sol impulsionava para frente, mas que o gato de botas a cada
dia oprimia com sua força e com sua maldade. Deixei de ser areia e, por
mercê de Deus, conscientizei-me de que sou Seu filho e de que estou sendo
levado até Ele pelas águas do mar da vida. Já não temo o trovão, as tempestades
ou as pedras pontiagudas. Nada detém os passos de um filho de Deus,
e sei que a Ele pertencem as nossas tarefas.
- Bravo! Ficamos felizes, assim é o menino que conhecemos: bom,
forte e criança.
- Marry, você não acha que devo amadurecer?
-Nós sempre amadurecemos, queiramos ou não. Agora, não gostaria
que você, Luiz, ficasse sisudo para ser agradável àqueles que julgam que
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o Espiritismo é lágrima, sofrimento e dor. Não, a sua alegria é o número da
sua identidade.
Abraçamos aquela amiga tão fortemente que ela falou:
- Calma, não exagere!
- Nós amamos você!
- Eu também te amo - respondeu Marry.
E assim fomos andando pela imensidade, o Universo, a Casa do Pai.
- Marry, para onde estamos indo?
Ela nada respondeu, mas logo vi que estávamos em uma colônia científica
do mundo espiritual. Era um lugar que nos lembrava uma estação de
águas, com várias pequenas faculdades circulando o grande edifício-sede,
com o seguinte aspecto:
Jardim
Edifício-Sede .
Jardim
(Faculdade) (Faculdade)
Acima existe um desenho com a descrição do local.
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O edifício-sede é composto de várias portas, que levam às pequenas
faculdades. A sede tem três andares. No edifício principal ficam os computadores,
no primeiro piso; os outros são auditórios onde os grandes cientistas
fazem as suas conferências.
A tudo olhava, deslumbrado. As flores eram orvalhadas de bênçãos,
lindas, lindas, lindas. Quando adentramos o edifício-sede, fomos
recebidos por Meg, uma bela senhora, que logo foi buscando os nossos
dados no computador de registro de presença. Entregou-me uma ficha.
com surpresa, vi que revelava a minha vida desde o útero materno, as
doenças de criança, as artes que fiz, enfim, um belo dossiê da vida do
Luiz Sérgio. Curioso, busquei o de Marry. Estava apenas escrito: Marry
Julien.
- Por que a diferença? indaguei.
Ela sorriu. ,
- Porque nós somos somente Marry.
- Sem genealogia? Você é um desses astronautas?
- Não, Luiz, sou uma filha de Deus em tarefa.
- Marry, o que há nos andares de cima? ,,
- Os auditórios e alguns laboratórios científicos/
- Podemos visitá-los?
- Agora não. Estamos apenas inscritos para que o irmão possa freqüentar
algumas das aulas das faculdades.
Enquanto Marry conversava com os encarregados daquele departamento
científico, aproximou-se de nós o doutor Ken, com o seu sorriso franco
e amigo. ,
-Como vai, Luiz? ,
- Oh!, doutor Ken, que bom vê-lo aqui!
185
-Estamos sempre aqui, buscando novos conhecimentos para o nosso
trabalho de cura no plano físico.
-Doutor Ken, sabemos que a sua área está ligada ao tratamento dos pulmões.
- Sim. Preocupamo-nos muito com os pulmões dos encarnados. A
cada minuto as vias respiratórias são agredidas cruelmente pelo homem, alheio
à bênção divina que vem a ser o simples ato de respirar.
Nisso, doutor Ken convidou-nos a visitar a faculdade onde ele trabalha.
Saímos do edifício-sede e percorremos uma rua florida e muito
ampla, até chegarmos à faculdade, onde o movimento era intenso. O doutor
Ken cumprimentava todos os que passavam, sempre sorrindo. Gentilmente,
convidou-nos a adentrar uma das salas de pesquisa, onde telas
imensas circulavam o ambiente, e nos apresentou à sua equipe. Um pulmão
imenso, parecendo inflável, enfeitava o centro do salão. Marry falou:
- Ken, o homem encarnado só se lembra de algum órgão seu quando
este fica doente. Veja o caso dos fumantes: a cada segundo agridem as vias respiratórias.
-Não somente os viciados em cigarro e nos tóxicos agridem os seus
pulmões, como também os que brincam com a temperatura ambiente.
-Como assim? Explique, doutor.
- Se temos as estações do ano, por quê, mesmo as conhecendo, não
as respeitamos? Quantos relutam em se agasalhar, alegando não sentir frio!
Essas criaturas não sabem o perigo que correm, pois as vias respiratórias
não gostam de ser agredidas. E o abuso ocorre principalmente com crianças,
jovens e idosos.
- O certo é usar agasalho?
- Sim, o certo é vestir-se de acordo com as estações do ano.
- Mas no Brasil há cidades que, em um dia, temos três estações.
186
- Conhecendo a cidade, vista-se de acordo com o seu clima, levando
sempre um leve agasalho. O encarnado respira mal. Muitos nem tomam
consciência que respiram, que precisam respirar.
Aproximando-se do projetar, doutor Ken ligou-o e ali, na nossa frente,
foi exposta a grande preocupação do mundo científico do Plano Maior
com os pulmões da Humanidade.
- Vejam bem estas cenas: quantas pessoas infectadas pelo
bacilo causador da tuberculose! E o pior é que a doença está fora de
controle na maior parte dos países pobres. Muitos nem tomam conhecimento
se estão infectados ou não. O Mycobaterium Tuberculosis
é uma das grandes preocupações do departamento científico da Espiritualidade.
- E os órgãos governamentais encarregados da saúde não estão cientes
desses fatos?
- Sim, Luiz, mas os países que não se preocupam com a saúde do
seu povo serão os mais afetados.
- No momento, quais os países mais atingidos?
- índia e China.
- Doutor Ken, sabemos que nesses países reina a miséria. Não será
essa a causa da tuberculose?
- Países com alto nível de vida correm menor risco, mas não estão
isentos, porque vários fatores levam à doença. Em muitos casos, as pessoas
estão infectadas, mas sem os sintomas da doença. Sendo ela contagiosa,
logo se alastra. Em países onde o sistema de saúde é precário, o aumento da
tuberculose será alarmante.
-Ela ataca somente os homens?
-Hoje existem muitas mulheres jovens infectadas pela doença.
-Ela causa morte fulminante?
187
- Não. A bactéria pode permanecer oculta durante anos e se manifestar
quando o sistema imunológico estiver enfraquecido.
- A tuberculose é tão preocupante quanto a Aids?
- Sim. Qualquer doença, quando se alastra, é preocupante. Ninguém
hoje se preocupa com a tuberculose; antes, dizia-se que era doença de boêmios
e poetas. Vejam bem: boêmios e poetas. Muitos, na boemia, se esquecem
de proteger o corpo e, expondo-se ao sereno e à friagem das madrugadas,
o corpo se enfraquece em noitadas. Os poetas alimentavam-se mal,
sendo muitas vezes essa a causa de aparecer a doença. Hoje, o jovem troca
o dia pela noite e se alimenta erradamente.
- Irmão, por que o encarnado não respeita o seu corpo? Veja o caso
dos viciados: picam-se, cheiram, enfim, violentam-se a cada instante...
- É verdade, hoje o homem está tão materialista que não pára um
segundo para pensar que existe alguém que a tudo comanda. No simples ato
de respirar, provamos o ar de uma usina divina. Se cada criatura tirasse uns
minutos para louvar a Deus através da respiração controlada, ela se sentiria mais feliz.
- Doutor Ken, hoje há uma luta para conter a Aids, mas o câncer
está matando mais do que a Aids. Qual é a causa?
- Luiz, acredito que a Marry irá levá-lo às outras faculdades, e lá
encontrará a resposta que deseja. Minha especialidade é a broncopneumologia,
entretanto quero dizer a vocês que a tuberculose é uma doença
perfeitamente curável, mas que atualmente está levando ao desencarne mais
ou menos três milhões de pessoas por ano, no mundo inteiro.
- Ken, também sabemos que a população carcerária é uma das suas
vítimas, devido às más condições sanitárias, ou seja, a miséria humana ainda
é a grande causadora das dores do homem. E o pior é que o próprio homem
não procura ajudar o seu próximo - disse Marry.
- Doutor Ken, quando fazemos um trabalho no plano físico, sempre
percebemos a falta de higiene em muitos lares, não só nas casas dos pobres,
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como nas das classes média e rica. Vemos sobras de comida serem guardadas
na geladeira em panelas de alumínio, sem tampa, sem os devidos cuidados.
Está provado que o alumínio faz mal à saúde. Vemos donas de casa
guardando as sobras de arroz por dias e dias; também aprendemos que os
fungos tomam conta do arroz em poucas horas depois de cozido. Quantas
vovós adoram guardar a clara de ovo para o suspirinho, e estas claras também
em poucas horas ficam contaminadas. Será que os órgãos governamentais
responsáveis pela saúde não deveriam levantar campanhas de esclarecimento?
Algumas entidades de assistência social poderiam criar cursos para
as domésticas, alertando-as sobre o perigo de alguns alimentos mal lavados
ou quando não são bem cozidos.
- É verdade, Luiz, toda essa preocupação existe neste departamento,
onde hoje vocês estão. A maioria das doenças são causadas pelo próprio
homem, pela invigilância de cada um.
- E aqueles que são escravos dos remédios?
- Neste departamento, vocês também serão alertados quanto a isso, Marry.
- Irmão, gostaria que passasse para o leitor alguns exercícios para o
fortalecimento dos pulmões.
-Luiz, as doenças respiratórias precisam de cuidados médicos; muitos
pacientes alérgicos acham mais fácil se auto-medicar do que consultar um
especialista. Aqueles que sofrem de bronquite, por exemplo, vivem em busca
de milagres; deveriam, sim, fazer um bom tratamento. Tudo tem alívio, é
só encontrar o remédio que o organismo aceite.
- Irmão, estamos preocupados com a tuberculose, não existe vacina
para contê-la?
- Há, sim. E logo no plano físico a vacina já estará ajudando os
médicos encarnados, Luiz. O paciente que sofre com problemas respiratórios
deve manter os pulmões livres das toxinas, procurar fazer exercício,
tomar muito sol nas costas, principalmente nas primeiras horas do dia; evitar
189
bebidas geladas e também, sempre que puder, fugir do sereno da noite, mantendo
a cabeça sempre protegida.
Muito ainda ouvimos do nosso doutor Ken, quando ficamos sabendo
que ele sempre presta socorro às vítimas de overdose. Despedimo-nos do
nosso amigo e visitamos outros centros científicos, onde Espíritos abnegados
estão preocupados com as doenças terráqueas.
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Capítulo XVII
AUTO-ESTIMA: CHAVE DA FELICIDADE
Marry levou-me a um outro Departamento, onde fomos recebidos por
Tanajá, psicólogo e psiquiatra. com seu carisma, logo nos colocou à vontade.
- Irmão, nesta faculdade trata-se da mente? ,
- Um pouco de cada coisa. Quase todas as doenças partem de um
só princípio: mente enferma.
-Tudo é"cuca"?
-Maisoumenos. > "
Tanajá convidou-nos a acompanhá-lo ao seu local de trabalho e ali
encontramos vários outros médicos. Cumprimentamo-los, mas ficamos poucos
minutos, pois Tanajá levou-nos a uma ampla sala com vários
retroprojetores - não como os do plano físico, porém os mais modernos
que se pode imaginar.
-Tanajá, há pouco, falamos com o doutor Ken e ficamos assustados
com o avanço da tuberculose; ela, que parecia doença do passado, agora
volta com mais força.
- Luiz, tudo é preocupante, mas o que também nos tem deixado
apreensivos por demais são as doenças psicossomáticas.
191
- Parece que ficar estressado é moda, Tanajá.
- A vida moderna leva o homem ao estresse, porque ele não busca
um momento para si.
- Como, Tanajá? Explique.
-Está provado cientificamente que a prece ajuda o homem. Quantas
pessoas oram? Muito poucas. Alguns acham que é ignorância orar.
- Quer dizer que a prece nos ajuda na manutenção do nosso cérebro?
- Luiz, a prece, a meditação, a dietoterapia energética, a nutrologia,
a medicina ortomolecular e a fitoterapia são também caminhos eficazes para
o homem proteger-se contra a danificação dos neurônios e a deficiência dos
neurotransmissores. com nutrientes adequados, poupamos o cérebro do
desgaste que ele teria, com todas as turbulências da vida moderna. É normal
o declínio da memória pela morte de um grande número de neurônios, devido
aos radicais livres e ao menor aporte de sangue e oxigênio ao cérebro.
- Tanajá, o que leva à ação desses radicais livres?
- O desequilíbrio, a insuficiência entre várias substâncias responsáveis
pela neurotransmissão, que são conseqüências dos desarranjos que o
homem causa ao cérebro com a sucessão de maus tratos e instabilidades.
;, -O estresse então leva a isso tudo?
- Em relação ao estresse, ocorre o excesso de secreção cortical, um
dos hormônios fabricados pelas glândulas supra-renais, que em excesso no
dia-a-dia, danifica e mata milhões de neurônios. O homem, por qualquer
coisa, se desespera, vendo-se acuado e amedrontado. E aí diminui-lhe a
auto-estima, vindo, ao mesmo tempo, a tristeza, pelo déficit de serotonina, e
a diminuição da libido, pela deficiência hormonal, porque corpo e mente estão desgastados.
- Então o homem deve evitar o estresse, que pode levar à depressão,
e esta causar danos ao cérebro, certo?
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-Luiz Sérgio, o homem suicida-se através da má alimentação e dos
maus pensamentos. Ele não deseja aprender a pensar bem; almeja, sim, viver
além das horas do relógio, e como o seu corpo também é uma máquina, que
precisa ser respeitada, quando é agredida, vem a falhar. O estresse afeta o
sistema imunológico, aumentando o risco também das infecções.
-Em um livro nosso falamos da fadiga crônica.
- Muitos remédios ajudam a reduzir os efeitos da fadiga crônica, ao
inibirem a liberação de cortisol, o hormônio do estresse, impedindo, desta
forma, que ele sobrecarregue o sistema imunológico.
- Então, Tanajá, a fé é que traz alegria ao coração, podendo fortalecer
a mente?
- Sim. O homem deve dar os passos de acordo com sua capacidade.
O mal da época moderna é que o homem está parecendo um animal:
corre, corre e corre, e muitas vezes esquece-se até de se alimentar. Vemos
pessoas cuja vida lhes proporcionou todo conforto, família equilibrada, mas
vivem estressadas e em depressão, tudo as aborrece. O que o homem necessita
é buscar Deus e fazer um acordo com Ele, para que o Criador possa
ouvi-lo todos os dias, através da meditação; só assim o homem vai parar um
pouco o fluxo do seu pensamento e procurar fortalecer o cérebro. Os orientais
costumam dizer que o coração rege a mente, e o que é bom para o
coração é bom para o cérebro. Hoje vemos que o homem está infeliz, porque
o seu coração está inquieto e vazio. E quando o coração está desocupado,
a mente entra em desalinho. Aí vem a falta de auto-estima e, sem motivação,
o homem se entristece. Quem pode viver sem sonhos? O sonho é a
esperança de alcançar a felicidade. Portanto, vamos, como disse o Mestre
Jesus, tornar-nos misericordiosos, principalmente conosco mesmos, respeitando-nos, amando-nos, porque só assim saberemos como é bom ser amado
e respeitado; e com isso vamos amar e respeitar o próximo. Ter o coração
N.E. - Consultar o livro Driblando a Dor, 13.° da Série Luiz Sérgio, Cap. VI - Caia Espírita:
Oficina de Deus. A Caridade cobre a Multidão de Pecados.
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vazio de sentimentos nobres faz com que coloquemos nele a tristeza e o
medo; e aí, como é o coração que rege a mente, esta morre de tristeza, como
dizem os orientais. O homem corre em busca do conforto, da projeção social,
dos divertimentos, sem recordar que o ar que respira é uma emanação
divina, sem se lembrar de agradecer a fonte de onde provém. O homem quer
ganhar o céu, mas não deseja colocar os pés na estrada do Mestre, preferindo
os caminhos asfaltados do mundo material. E ninguém vive bem, longe da
fonte da vida e do equilíbrio: Deus. Esta é a causa de presenciarmos, no
momento atual, tanto desequilíbrio, tais como incompreensão conjugai, desrespeito
à família, falta de força na educação dos filhos, enfim, o desconhecimento
total das leis de Deus. Muitos homens julgam que não possuem um
mandatário, que não têm um dono e que, estando no plano físico, a ninguém
devem satisfação de seus atos. Puro engano. Cada ser, por mais simples que
seja, obedece à hierarquia da vida, e seus atos estão sendo catalogados nos
computadores do Plano maior. Poucos se contentam com o que têm, ou
melhor, sabem aproveitar as horas de um dia. Alguns choram de saudades;
outros preocupam-se com o dia de amanhã. Por que não procuram viver as
horas do dia, como se elas fossem os doze meses do ano? Desde o amanhecer,
ao se espreguiçar na cama, deve o homem parar um pouco e perguntar:
quem é capaz de fazer um corpo tão perfeito como este que eu tenho? Procure
espreguiçar o máximo possível, bem devagar. Se prestar atenção no
fluxo da sua respiração, irá sentir que Deus está dentro de si, que o ar que
respiramos dele emana. Ao nos auto-analisáramos, adentramos o nosso
corpo físico e descobrimos que cada departamento seu merece respeito,
principalmente a nossa mente e o nosso coração. Por que sobrecarregá-los
com o lixo da saudade em desequilíbrio? Não bastam as muitas horas do dia
que devemos bem aproveitar no hoje, e ainda vamos buscar as que já passaram
ou as que ainda nem sabemos como serão: as do amanhã? "Morrer de
saudade", como dizem alguns, ou ficar irritado ao recordar os fatos tristes
que vivemos causados por alguém - tudo é lixo, e esses detritos poluem o
nosso cérebro e fazem mal para o nosso coração. O Cristo, como Mestre
que é, e grande conhecedor das almas, alertou a todos de que não se preocupassem
com o dia de amanhã, também falando: "deixai os mortos enterrarem
194
seus mortos". Aquele que não aproveita o dia que chega com o alvorecer,
e fica jogando lágrimas no jardim da saudade e da revolta é um "morto
que enterra morto", porque quem é "vivo" busca viver, e viver é aproveitar
bem as horas de um dia, plantando a cada segundo um jardim de esperançosas
realidades. Para que isso venha a acontecer, o homem tem de buscar a
auto-estima, nunca desanimar, nunca pensar negativamente, nunca sentir-se
a pior e a mais infeliz das criaturas. com a chegada da aurora, que é o amanhecer
de cada dia, o homem tem de buscar o néctar da vida e do amor, que
é Deus. Se não nos agarrarmos a Ele, não obteremos a força necessária para
superar a ociosidade da alma, muitas vezes comprometida com o ontem,
sendo esta a causa de hoje, mesmo vivendo uma nova existência, não desejarmos
lutar para obter a felicidade. A ignorância leva o homem a não observar
o que se passa ao seu redor e o desequilíbrio leva-o a desejar uma felicidade
fictícia. Muitas vezes, ao procurá-la, deixa lágrimas no seu caminho e,
em vez de felicidade, sente é remorsos. Uns dizem que a fé apalerma; outros,
que leva ao fanatismo; outros, ainda, que é coisa de gente ignorante. Queremos
dizer que a fé em Deus, o respeito à Sua constituição, que é imutável,
jamais conduz ao fanatismo. Muitas vezes são essas pessoas sem fé que se
tornam presa fácil dos ídolos de pedra, que são as seitas com homens desprovidos
do amor a Deus. Mas aquele que segue as leis divinas encontrará
força nele mesmo para se auto-educar, e quem se auto-educa tem autoestima..
- Tanajá, hoje parece que todo mundo sofre de depressão. Pode
dizer-me a causa?
- Luiz Sérgio, o que acabamos de falar é uma verdade. O homem
vive insatisfeito com tudo. Ele não agradece a Deus o que tem e, muitas
vezes, perde até o que considera pouco. Na vida física, Luiz Sérgio e Marry,
o homem está sempre estudando; desde que nasce ele reaprende a viver em
um corpo físico e, quando atinge a maioridade, começa a ter vida independente.
É o mesmo que já lhe aconteceu, quando era apenas uma criança
espiritual, vivendo no reino mineral. Portanto, o Espírito retorna à carne e é
recebido por uma família composta não de desconhecidos, mas de velhos
195
companheiros nos erros e nas conquistas. E esta família - como fazem os
Espíritos encarregados de velarem pelas essências quando elas estão adormecidas,
ou sonhando, ou despertando dos seus reinos - tem de ajudá-lo,
orientá-lo, guiá-lo, até o despertar da consciência, para que se veja livre e
tome o caminho do resgate das dívidas passadas. Por isso é importante o
fortalecimento da família, que tem um papel relevante no crescimento espiritual
de cada Espírito confiado a ela. Aos pais que abandonam os filhos, àqueles
que são indiferentes a eles, ou aos fracos, muito será cobrado.
-Então, o certo é a família preparar a criança para ter auto-estima,
só assim ela vai respeitar a si mesma e ao próximo?
- Sim, Luiz. Auto-estima é auto-equilíbrio. Sem equilíbrio, disciplina
e amor o homem não tem o que ofertar a outrem. A educação da criança
deve iniciar-se no ventre materno. O triste é muitos desconhecerem a responsabilidade
da procriação, julgando que o momento sexual é apenas um
momento de prazer-não deixa de ser, pois o sexo é prazeroso - mas ele,
assim como dá prazer, também traz conseqüências sérias se não for respeitado como deve ser.
-Tanajá, parece que atualmente é normal, para os jovens, ter inúmeros
parceiros. Por que isso está acontecendo?
- Porque a família está desequilibrada. Hoje os lares são apenas pousadas,
poucos chefes de família ainda sentam-se à mesa e exigem a presença
dos filhos. As crianças, os jovens e os adultos têm vida independente e muitas
vezes não se vêem, são estranhos uns dos outros, desconhecendo o que
está-se passando com aquele que foi escolhido por um e por outro para
viverem uma existência juntos. É essa indiferença familiar a causa de quase
todas as neuroses que hoje o homem carrega vida afora. Poucos podem
dizer: "eu tenho um lar onde os meus pais, os meus irmãos, preocupam-se comigo". ,
- Tanajá, essa é a causa da gravidez precoce?
- Luiz Sérgio, as meninas estão ficando adolescentes muito cedo,
e as adolescentes ficando mulheres ainda mais cedo. Sem preparo para
196
enfrentar a vida sozinha, a jovem inicia a bela época de uma vida, a adolescência,
com graves problemas, como: controlar a natalidade, esconder
relacionamentos dos pais, conciliar estudo e vida sexual, que às vezes
é intensa. Não acham que isso é demais para um coração e um cérebro
jovens? Nós achamos que é uma bomba poderosa, criando conflitos
de consciência que vão tornar fraca e insegura a jovem que tinha tudo
para ser feliz. São esses pais que amanhã entregarão à sociedade homens
e mulheres. Queira Deus a imaturidade não faça com que eles entreguem
ao convívio social doentes do corpo e da alma.
- Não há meios de segurar essa juventude?
- Sim, através da orientação da família. A mulher e o homem adultos
devem olhar ao redor e avistar bem junto de si almas que lhe foram confiadas
por Deus, e não bonecos de carne.
- O irmão acha que a mulher liberou-se demais?
- Não, Marry. A liberdade nunca é demais, ela é uma conquista
do homem, como são os conhecimentos. Entretanto, não podemos confundir
liberdade com irresponsabilidade. O que vemos agora não é uma
juventude vivendo com liberdade. Deparamo-nos com uma juventude sem
limites, dizendo-se livre, mas prisioneira dos vícios, matando sonhos,
destruindo lares, envergonhando os pais com seus atos indignos. Liberdade
total ninguém tem. Cada um de nós tem nas mãos algo sublime,
chamado livre-arbítrio, e quem conhece o valor desse tesouro respeita o
que chamamos liberdade. Quem não conhece o que vem a ser o livrearbítrio
julga que quem plantar irresponsabilidade vai colher felicidade.
Hoje, acreditam que têm liberdade para tudo fazerem: abortar, trair, furtar,
causar escândalo, matar sonhos e esperanças, causar dores, desenganos,
enfim, serem semeadores de desgraças. Isso é liberdade? Claro
que não. Liberdade é ser livre para pensar, e feliz aquele que só pensa
coisas boas e cujos pensamentos se concretizam em ações nobres. É
esta a liberdade que algumas grandes mulheres lutaram para conquistar,
em uma época em que a mulher era considerada apenas uma fêmea. A
197
emancipação conquistada pelas grandes mulheres deu-se graças à luta
para tornarem-se respeitadas, para terem direito à educação, ao trabalho,
à segurança, enfim, para deixarem de ser tratadas apenas como fêmeas
que serviam aos homens e tinham filhos. A liberdade que as grandes
mulheres do passado lutaram para obter não foi essa liberdade de
sexo que hoje algumas mulheres dizem ter conquistado. Ao contrário,
acreditamos que as grandes mulheres que lutaram pelos seus direitos devem
chorar de tristeza ao verem que, infelizmente, muitas não entenderam
a mensagem que elas gravaram com as letras da dignidade. Todos homens
e mulheres - desfrutam de relativa liberdade, porque, quando a
nossa liberdade vai contra a constituição divina, deixa de ser liberdade,
tornando-se irresponsabilidade. O que está faltando hoje é a busca do
fortalecimento espiritual; só assim iremos dar valor à passagem recebida
das mãos de Deus para retornarmos ao corpo físico, para continuar a
tarefa que deixamos inacabada, como diz Ocaj: a volta às oportunidades
perdidas no ontem.
-Tanajá, a auto-estima não pode levar o homem ao egoísmo?
- Não, Luiz, ao adquirir a auto-estima, o homem não é levado ao
egoísmo por ela, por que a auto-estima é a descoberta dos valores da alma.
Quem a descobre aprende a respeitar a alma do seu próximo. Ao conhecer
a própria alma, buscará não causar trauma na alma do próximo, enfim, respeitar,
somente respeitar.
- Tanajá, não é perigoso, ao procurar ajuda terapêutica, o homem
não entender bem o que é auto-estima e assumir uma posição dura em relação
ao seu próximo? indagou Marry.
- Irmã, não queremos acreditar que um psicólogo venha a causar
dano a um dos seus pacientes. Seria muito triste para a ciência se alguém que
cursa uma faculdade, tendo nas mãos a responsabilidade de adentrar a alma
de outro, abusasse dessa regalia. Quando um paciente abre a porta da sua
alma para o terapeuta, este tem de conscientizar-se de que, antes do diploma,
deve vir o seu próprio equilíbrio. ;
198
-Hoje, vemos um número cada vez maior de crianças sendo levadas
aos consultórios.
- Isso está acontecendo porque os pais não encontram tempo para
ouvir seus filhos.
- A meditação é tão importante quanto a prece, Tanajá?
- Sim. Está provado cientificamente que a prece acalma e traz esperança
à alma. A meditação proporciona paz interior e faz com que o homem
encontre o descanso por alguns momentos. Se ele imaginar que é amado, sentir-se-á mais feliz?
- Sim, Luiz, quando o homem imagina que é amado, sente que é
amado, isso aumenta a sua auto-estima. Quando se aproxima dos outros,
não tem medo de não ser aceito. Ele possui um reservatório magnético que
atrai as pessoas e o torna simpático. Agora, se o homem se julga um traste,
sem valor, feio, pavoroso, insignificante, ninguém vai julgar o contrário. Se
ele não gosta de si próprio, quem irá gostar dele? O homem de baixa estima
vive imaginando situações negativas, enxergando somente desentendimentos;
basta alguém não notar sua presença para sentir-se ofendido. Vive exagerando
os defeitos das outras pessoas e torna-se maledicente. E ninguém
suporta uma pessoa descontrolada, pois vive azeda e mal humorada, somente
porque enxerga feiúra ao redor, faltando-lhe amor no coração. São criaturas
infelizes, sem auto-estima. Todos os filhos de Deus foram criados para
serem felizes. E toda pessoa, por mais feia que seja, se possuir controle
mental, ou seja, se controlar sua imaginação de forma positiva, começará a
se sentir bonita e amada e logo muitos também assim pensarão. O homem
tem de se gostar, para direcionar o que tem dentro de si até os outros.
-Para você, Tanajá, não existem pessoas feias e insignificantes?
- Para mim não existem pessoas insignificantes nem feias, porque
todas são criaturas de Deus, e Ele não criou monstros, as criaturas é que se
entearam e se tornaram insignificantes. Portanto, nelas está a chave que pode
abrir o local lacrado pela falta de auto-estima. A beleza da criatura está
199
latente nela, basta conhecer a Deus e pensar que é uma escultura moldada pelo
Construtor do Universo. Ele, o Pai Todo-Poderoso, não criou ninguém feio,
pois tão bem embelezou o Universo. A Natureza é belíssima e o homem faz
parte dela, é um dos elementos necessários para o equilíbrio do Universo.
Ninguém é insignificante; desde o sábio até o tido como medíocre, todos são
criaturas de Deus e passaram pelas Suas mãos de artista do Universo. Se as
criaturas pensassem assim, não se auto-destruiriam nem se sentiriam incapazes
de fazer algo que desejam, porque veio o Mestre Jesus e disse: Pedi e
obtereis, batei e abrir-se-vos-á. Ele não disse: só bata aquele que é bonito,
inteligente e bom. Não. Ele disse a todas as criaturas de Deus que o Pai
espera a todos os Seus filhos. Para o Criador, todos são importantes. Se
existem, como em todas as boas famílias, criaturas difíceis e desequilibradas,
que estas não sejamos nós, que estamos tudo fazendo para adquirir a autoestima.
-Isso também serve para as pessoas negativas, que vivem pensando
o pior; aquelas que hoje já estão preocupadas com o amanhã?
- Sim, irmã. As pessoas negativas não imaginam que o pensamento
de algo negativo as prejudicará.
- Como assim, Tanajá?
- No cérebro de cada indivíduo, Luiz, existe um computador-vamos
falar assim para tornar mais fácil a compreensão. No pessimista, que
vive pensando mal, o seu computador vai programando esses pensamentos e
eles vão ficando impressos em sua aura; são as chamadas formas-pensamento,
que podem tornar-se realidade. Portanto, o homem pode programar
para melhor ou para pior os acontecimentos de sua vida. Tanto a meditação
quanto a prece ajudam o homem a manter-se equilibrado, e com isso ele
aprende a controlar sua imaginação e a sentir se pensou de forma negativa ou
positiva. Programe-se, tenha pensamentos positivos, e verá que os fatos normais
da vida diária deixarão de tomar proporções negativas, porque a sua
alma estará fortalecida. Na sua aura, ficarão impressos somente fluidos magnéticos
do otimismo. ..<,,, .-,.
200
- Acho difícil, Tanajá, passar vinte e quatro horas pensando
positivamente.
-Tudo é exercício na vida. O homem que é avaro tem de fazer a
caridade; hoje somos uma caixa de fósforo, amanhã, uma caixa de vela,outro dia, a luz elétrica. Tudo é uma questão de começar; é ligar computador
mental e programar coisas positivas, para que você seja o beneficiado e, ao se transformar, viver melhor, ser mais feliz. No entanto, se
viver agoniado, infeliz, com medo de perder o emprego, de não ter o que
vestir e o que comer amanhã, gritando e brigando com as pessoas perto de você, se se aborrecer quando faltar água em casa, se quebrou os
aparelhos elétricos, se quebrou a fruteira de cristal da Bavária, se a empregada não veio, se o filho não obteve boas notas, se não teve dinheiro para
comprar um belo terno, a vida vai ficar cada vez mais difícil. Você está programando na sua mente o que vai lançar na sua aura: um campo negativo, e
este campo vai levá-lo ao desespero.
-Amigo Tanajá, as religiões dão ao homem uma certa força, através
da fé. Muitas pessoas chegam às Casas religiosas em total desespero e, ao encontrarem irmãos equilibrados, que as aconselham, mudam sua vida e muitas
vezes julgam que isso ocorreu porque foi milagre de Deus. E todos nós sabemos
que, à medida que mudamos de comportamento, também as coisas ao
nosso redor, pouco a pouco, vão mudando.
- Marry, os Espíritos estão hoje levando até as Casas espíritas essas
orientações, para que cada freqüentador torne-se um membro da família do
Cristo, e não apenas mais um freqüentador da Casa. Um ajudando o outro,
ambos aprenderão a programar sua mente de forma positiva, e não somente
buscando as cabines de passe, julgando que são os Espíritos menores que os
levam a ter pensamentos maus.
- A irmã acha que devem terminar com os passes?
- Não, Luiz, os passes são importantíssimos, pois foram utilizados
até por Jesus Cristo. Não devemos é pensar que eles nos livram de tudo,
principalmente dos nossos defeitos. A Casa Espírita deve ensinar seus
freqüentadores a buscar na prece ou na meditação um modo de deixarem de
pensar em muitas coisas ao mesmo tempo. E também a se conscientizarem
de que mediunidade não significa sofrimento; que mediunidade é trabalho e
auto-melhoramento; que Doutrina Espírita não é apenas contato com Espíritos,
e sim a descoberta da verdade, que faz com que o homem se liberte.
- Liberte-se como, Marry?
- Descobrindo a verdade, que é jamais morrer e progredir sempre.
Assim, o homem começa a se desprender das coisas materiais, pois sabe
que os bens materiais são passageiros e passa a não temer a dor e a sentir-se
protegido por Deus, pois a Doutrina Espírita ensina ao homem que Deus é
onipresente; se Ele é onipresente, está sempre junto a nós. Se está junto a
nós, por que tanto medo dos Espíritos inferiores? Percebemos que temos é
de nos evangelizar, para nos tornarmos dignos da presença do Pai em nós.. A
Casa Espírita que amedronta os iniciantes não está apta a se tornar um templo
de amor, porque a Doutrina esclarece, e veio para burilar o homem. O
espírita tem conhecimento de que nada se leva de material do plano físico. É
com pesar, Tanajá, que ainda hoje presenciamos confrades levantando bandeiras
contra companheiros, querendo ser os donos do Espiritismo, levando
ao descrédito este ou aquele Espírito, armando os opositores da Doutrina. O
que está faltando no Espiritismo é a união. Em Mateus, Capítulo XII, vv. 24 27,
está escrito: Ele expulsa os demônios por Belzebu, príncipe dos demônios.
Jesus, conhecendo-lhes os pensamentos, disse: Todo reino que
se dividir contra si mesmo não subsistirá. Ora, se Satanás expulsa a
Satanás, está ele dividido contra si mesmo; como poderá então o seu
reino subsistir? Se é por Belzebu que expulso os demônios, por quem
expulsa vossos filhos ? Estes, por isso mesmo, é que serão os vossos
juizes. Achamos que todos os espíritas devem ler esta passagem, principalmente
aqueles que estão criando uma nova inquisição, caçando as bruxas
nos médiuns e nas Casas Espíritas. Quando Jesus diz: Se é por Belzebu que
expulso os demônios, por quem expulsam vossos filhos?, os filhos a que
Ele Se refere são os exorcistas que existiam nas sinagogas. Portanto, esses
exorcistas podiam expulsar os Espíritos, mas Jesus, não, porque não era um
202
deles. Estes, por isso mesmo, é que serão vossos juizes. Por que um pode
ser espírita, expulsar Espíritos, receber mensagem, e outros não? Dizem coisas
pesadas sobre médiuns, cuja vida espírita desconhecem, apenas dizendo-se
defensores da Doutrina, como fizeram outrora com Jesus. Em João,
Capítulo VIII, versículo 49, encontramos: Respondeu Jesus: Eu não tenho
demônio, ao contrário, honro o Pai e vós o desonrais. Não busco minha
glória. Há quem a busque e julgue. O Cristo honrou a palavra de Deus, e
O culparam. Será que hoje alguns espíritas não estão fazendo o mesmo? No
Capítulo VIII, ainda de João, versículo 52, lemos: Disseram os judeus:
Agora nos convencemos de que tens demônio. Abraão morreu, também
os profetas, e tu dizes: quem guardar minhas palavras nunca provará
morte. Hoje, esta passagem também se repete. São o médium ou a Casa
Espírita que tentam mudar as pessoas para melhor, guardando as palavras de
Deus, ensinando a viverem os Seus mandamentos, como fez Jesus. Esta passagem
deve ser lida para melhor compreensão da tarefa dos espíritas. Continuou
Jesus, nos versículos 56 e 57: Abraão, vosso pai, alegrou-se, porque
havia de ver meu dia. Viu e exultou. Os judeus retrucaram: Ainda não
tens cinqüenta anos e viste Abraão? O estudioso das Escrituras deve prestar
atenção para o aumento da idade, tão comum nos escritos bíblicos. Respondeu
Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão
fosse, eu sou. Apanharam pedras para atirar-lhe; mas Jesus se escondeu
e saiu. Tanajá, desculpe se estamos falando sobre esta passagem. O
que o irmão nos passou é necessário para o homem atual, principalmente os
espíritas, que precisam se auto-educar para tentar evangelizar os outros. Aqui,
o Cristo afirma: Antes que Abraão fosse, eu sou. Sim, Ele é Jesus, o Governador
do Planeta, e Abraão alegrou-se quando o Messias chegou até o plano
físico para viver as leis divinas. No Capítulo X, versículos 17-21, diz
Jesus: O Pai me ama, porque dou minha vida para de novo a retomar.
Ninguém a tira de mim. Sou eu mesmo que a dou. Espíritas, estudem estes
versículos, por favor, antes de atirar pedras. (...) Tenho o poder para dá-la
e para novamente retomá-la. Tal a ordem que recebi de meu Pai. Nós,
os Espíritos errantes, temos este poder? De novo originou-se desacordo
entre os judeus a propósito daquelas palavras. 20Muitos diziam: Ele está
203
possuído do demônio. Perdeu o juízo, porque o escutais? Outros diziam:
Estas palavras não são de quem está possuído de demônio. Por
acaso um demônio pode abrir os olhos aos cegos? Quantos médiuns estão
trabalhando em prol do próximo, abrindo os olhos aos cegos, não tendo
tempo para nada, a não ser para servir! Vamos ao livro Deuteronômio, Capítulo
I, versículo 17: Não deis atenção em vossos julgamentos à aparência
das pessoas. Ouvi tanto as pequenas como as grandes sem temor de
ninguém, porque a Deus pertence o juízo. Diz Jesus em Mateus, Capítulo
X, versículos 24-25: O discípulo não está acima do mestre nem o escravo
acima do patrão. Ao discípulo basta ser como o mestre e ao escravo
como o patrão. Se ao chefe de família chamaram de Belzebu, quanto
mais aos seus familiares. Ninguém defende o Cristo com pedras nas mãos.
Podemos defendê-Lo, tornando-nos um mensageiro da paz, da Doutrina
que dizemos professar. Se Ele, o Cristo, condenou a violência, como podem
os que se dizem Seus seguidores viverem armados de ódio contra esta ou
aquela doutrina, ou contra companheiros de fé?
- Não sabia, Marry, que a irmã tão bem conhecia as Escrituras.
- Luiz Sérgio, se os espíritas não a estudarem a fundo, tornar-se-á
difícil orarem em paz nas Casas Espíritas, porque, se atacaram o chefe da
família, imagine o que não farão com seus domésticos! Por isso, Tanajá,
achamos o seu trabalho junto à Casa Espírita muito valioso. O Centro Espírita
tem de preparar os seus médiuns, fortalecê-los, fazê-los obter auto-estima;
caso contrário, serão cegos guiando cegos. A orientação só deve ser
ministrada por pessoas equilibradas. Aquele que chega precisa ouvir palavras
que o farão mudar de comportamento. Aguçar o orgulho do iniciante,
dizendo que ele é portador de uma mediunidade gloriosa, leva-o ao caminho
mais tortuoso da Doutrina: a vaidade. Ao iniciante, deve-se oferecer conhecimento
da Doutrina dos Espíritos. Quando ele adentra uma Casa Espírita,
está transpondo a porta onde irá encontrar informação sobre a vida e a morte,
sobre como proceder bem no mundo físico para encontrar a paz na sua
consciência, que vai dar-lhe um passaporte para desencarnar bem. As pessoas
que se dizem espíritas, e que só pioram os acontecimentos nos seus
204
lares, não estão preparadas para enxergar a luz da Doutrina Espírita; estão
em busca apenas dos fenômenos e dos milagres.
- Marry, você também acha que o médium tem de fortalecer a sua
mente para servir não só aos Espíritos, como aos encarnados que o buscam?
- Sim, Tanajá. O Centro Espírita que não procurar educar os seus
freqüentadores, desde o maternal até os médiuns que trabalham na Casa,
não suportará os melindres daqueles que viverão criando celeuma e abandonando
a Casa, levando mágoas e partindo para as calúnias, como esses que
aparecem nas televisões. É preferível um Centro Espírita com poucos médiuns
equilibrados, do que muitos, que mais precisam de ajuda do que levar
a ajuda ao próximo. A Doutrina Espírita é o último chamado para que compareçamos ao festim das bodas, quando serão separados o joio do trigo. Ao
não preparar o homem para essas "bodas", as Casas Espíritas perdem sua
finalidade. Foi-se o tempo em que os espíritas estavam preocupados em
doutrinar os Espíritos. Hoje, para que o homem não sofra influenciação dos
Espíritos inferiores, ele tem de se auto-fortalecer, através da oração e da
meditação, procurando trabalhar em prol do próprio crescimento espiritual e
o do seu próximo. Do contrário, demonstrará que está apenas conhecendo a
Doutrina, mas não se tornando o trabalhador da última hora. O espírita não
pára de trabalhar. Como diz Francisca Theresa, Espírito não tem idade, sim
responsabilidade. E o Cristo disse: "Meu Pai trabalha sem cessar e eu também
trabalho". A sua tarefa, Tanajá, é meritória, e queira Deus chegue aos
espíritas, fazendo com que cada um busque a auto-estima. Irmão, a passagem
de Jesus, quando atacado pelos fariseus, mostra a grandeza do Seu
Espírito, pois Ele confirma que é o Filho de Deus, dizendo que o Pai é quem
tem o poder de conhecer e computar as obras dos Seus filhos e não Ele,
Jesus; Ele apenas procurou reavivar o que Deus Lhe deu, para ser trazido
aos Seus irmãos. O Mestre dá uma verdadeira aula de Doutrina Espírita,
neste Capítulo de Mateus, e o espírita que estuda tem em suas mãos, não a
defesa do Espiritismo, mas a confirmação que o Espiritismo é o Consolador
prometido por Jesus. O que tem de parar é a falta de conhecimento doutrinário.
O verdadeiro espírita chama a atenção para a sua pessoa quando tem
205
uma conduta cristã. Ao dizermo-nos espíritas, se não possuirmos uma conduta
espírita, faremos muito mal à Doutrina. O Cristo é o verbo de Deus,
nada que fez comprometeu a Sua missão, ao contrário, quando levado ao
Calvário, falou para o Pai: "Perdoa, Senhor, eles não sabem o que fazem".
com que piedade Ele recitou estas palavras, por conhecer bem os habitantes
do planeta que governa! Jesus não criticou nem foi juiz de ninguém, nem de
Judas ou de Pilatos. O que Ele nos ensinou, o Consolador confirma: o amor
a Deus e ao próximo como a si mesmo. O Consolador também não deu a
nenhum espírita o diploma de juiz ou o de acusador. É bom que cada um
comece a julgar as suas próprias obras, porque o Senhor não irá perguntar o
que fez o espírita que você está acusando, mas perguntará a cada um de nós
pelas nossas próprias obras. E se respondermos: ficamos armados de canetas
e de microfones para defender o Cristo e a Doutrina Espírita, e não tivemos
tempo para fazer boas obras, Ele dirá: apartai-vos de mim, vós que
praticaisiniqüidades.
Tanajá completou:
- Gostamos também, Marry, deste trecho de Isaías, Capítulo XLII,
versículo 1°., cujas palavras prenunciavam a presença do Cristo entre
nós: Eis o meu servo, a quem apoio; o meu eleito, no qual a minha
alma pôs a sua complacência; pus nele o meu espírito; ele levará o
direito aos povos. Temos aqui o primeiro poema do assim chamado servo
do Senhor. Quem diz que o Cristo é Deus não estuda a Bíblia. Nesta
linda passagem, o Cristo mostra o quanto é fiel à lei de Deus. Ele, o
Messias esperado, disse categoricamente que não veio condenar nem
julgar ninguém, Ele veio ao plano físico ensinar aos Seus irmãos o caminho
que leva à perfeição. Ninguém, a não ser Ele, Jesus, tem o Espírito
de Deus a guiá-Lo; acreditamos que somente Ele, no planeta Terra, tem
o poder de conversar com Deus. 2Não gritará, nem fará acepção de
pessoas, nem levantará a voz. Jesus é manso e pacífico. E não fará
ouvir sua voz pelas ruas. Será que os ofensores do Espiritismo lêem
mesmo a Bíblia e este trecho que dela tiraram? Jesus não saía gritando
pelas ruas, menosprezando e atacando os escribas e os fariseus. Ele
206
buscou os estropiados, o que deveriam fazer os espíritas, porque se também
erguerem a voz e partirem em campanha contra outras religiões ou contra
os próprios espíritas, estarão indo contra as palavras do Mestre, o Cristo,
cuja missão central foi levar o direito ou a verdadeira religião aos
povos - a religião do amor, da humildade, do respeito ao próximo. 3Não
quebrará a cana rachada, nem apagará a mecha que está morrendo.
A cana rachada é o homem que cumpre a lei da reencarnação, vestido
de um corpo carnal. Jesus veio ao plano físico para salvá-lo, mostrando
o caminho que leva ao Pai. Ele não veio mandar para o inferno, para
serem queimadas as canas rachadas de imperfeição. A mecha que está
morrendo; com fidelidade levará o direito. O homem, quando cessa o
seu fluido vital, deixa a morada carnal e leva com ele o que tem direito, o
que fez de bom ou de mau. 4Ele não esmorecerá nem se deixará abater,
até estabelecer na terra o direito, as ilhas aguardam sua doutrina.
O trecho refere-se à missão do Cristo: tornar o povo da Terra feliz,
quando esta se regenerar. Os outros versículos são lindos também, o que
o seu leitor, Luiz Sérgio, deve procurar ler. No Capítulo XLV, versículo
9, lemos: Ai daquele que reclama contra seu criador, quando é simples
vasilha de barro entre vasilhas de argila! Porventura a argila
dirá a quem a molda: O que está fazendo? Pobre do homem sem fé,
que culpa Deus pelas horas de sofrimento que ele mesmo plantou! Vasilha
de barro significa que os homens ainda estão sujeitos a provas e
expiação. Vasilha de argila, o homem que respeita a Deus e sabe o
quanto Ele é justo e bom. Só a Doutrina Espírita ensina o homem a tentar
livrar-se das imperfeições, e ser forte na hora do sofrimento. Todas essas
citações estão relacionadas com o momento em que o Cristo foi chamado
por curar um endemoninhado cego e mudo. Ele foi acusado de praticar
uma seita demoníaca. O mesmo está acontecendo com os espíritas:
quase todas as religiões que se dizem cristãs acusam os espíritas de serem
guiados pelos demônios. E foi nesse capítulo que o Mestre falou:
Por isso vos digo: todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens,
porém, a blasfêmia contra o Espírito Santo não será perdoada
(Mateus, Cap. XII, v. 31). O Cristo tem razão, acusar o homem é
207
errado, mas ele pode defender-se. Mas levantar campanha contra este ou
aquele Espírito é covardia, porque eles não podem defender-se. Principalmente,
quando as acusações beiram a loucura, tanto que ofendem os
Espíritos, merecedores de todo o respeito.
Intervi:
- Tanajá, hoje basta um Espírito escrever um livro e "lá vem paulada",
como se ele fosse destruir o edifício da fraternidade, construído por
Kardec e pelos filósofos do Espiritismo. Entre os discípulos dos fariseus,
haviam exorcistas aos quais os fariseus não atribuíam poderes de satanás.
Por que, então, atribuí-los a Jesus, que com Seu poder sobre o demônio
demonstra Sua autoridade de Mestre e de arauto do reino de Deus, que veio
se instalar no planeta Terra? Hoje, os detratores do Espiritismo, e também
alguns doutores da Doutrina, só aceitam os seus exorcistas, o que eles e os
seus discípulos realizam, os seus poderes não provêm de Satanás nem de
Espíritos inferiores. Por que então atribuí-los ao Espiritismo e a médiuns desconhecidos?
O estudo sério leva o homem a não praticar injustiça. Ainda em
Isaías, Capítulo LVII, versículo 11, lemos: De que tiveste tanto medo e
pavor para te tomares infiel? Não te lembraste de mim, nem te preocupaste
comigo. Sim, eu fiquei quieto e fechei os olhos de modo que não
me temeste. Quantos, acovardados quando lhes perguntam que religião é a
sua, respondem outra, com medo de se dizerem espíritas. l2Vou denunciar
tua justiça, e tua conduta não te trará proveito. Quantos saem das Casas
Espíritas pressionados por mãe, pai, filho, marido, enfim, pela família! Quando
ocorrer a separação do joio e do trigo, será que irão se salvar? ^Quando
grifares por socorro, que teus numerosos ídolos te libertem.(...} Quantas
criaturas fogem das tarefas, deixando para trás compromissos intransferíveis,
apenas porque se melindram, ou para agradar a família! ^Quando gritares
por socorro, que teus numerosos ídolos te libertem(...). Será que serão
capazes? Aí, não digam: "eu não sabia!..." (...) o vento os arrebatará a
todos sem exceção, uma simples brisa os levará; mas quem confia em
mim possuirá o país e terá como parte o meu santo monte. Pode existir
felicidade maior do que esta, de ficar no país, o planeta Terra, na hora em
208
que ele receber o prêmio da regeneração? Quem tiver a felicidade de ser
escolhido cantará louvores ao Senhor. Mas para que isso ocorra, não importa
a doutrina que professemos, e sim o que fizermos com a Doutrina do
Cristo, o que pregarmos em Seu nome; se perdoamos infinitamente ou se
apenas acusamos o nosso próximo. Será que fomos fiéis a Ele, que tanto nos
ensinou a humildade, ou tentamos fazer uma barreira entre nós e os pecadores,
com medo deles contaminarem a "nossa" Doutrina e o "nosso" Cristo? É
bom refletir enquanto há tempo, antes que o vento os arrebate a todos sem
exceção. Aquele que foi fiel à palavra, uma simples brisa o levará a possuir o
país, isto é, o Planeta. Este trecho lembra os estrangeiros ilegais em um país,
sem visto de permanência: não adianta argumentar, são presos e banidos do
país. Marry e Tanajá, nesta passagem, o Cristo é atacado por praticar o
Espiritismo, quando os detratores se levantaram contra Ele. Em Mateus foram
lembrados os trechos de Isaías que aqui citamos, mas o Capítulo LVIII
de Isaías também diz o que o Seu seguidor precisa para expulsar o demônio,
isto é, os Espíritos inferiores: oração e jejum. E vai mais além: dá a todos a
orientação sobre o que devemos fazer para obter autoridade com os Espíritos
inferiores, e qual é o jejum verdadeiro. Isaías, Capítulo LVIII, versículo
5: Acaso o jejum que eu aprecio consiste em um dia em que a pessoa se
mortifique? Acaso basta andar de rosto caído como junco, deitar-se em
saco de cinzas? Chamas isso de jejum, dia agradável ao Senhor? Não.
Não. Não. O jejum que aprecio é este: solta as algemas injustas, desata
as buchas da canga. O que conta para Deus, nesta passagem, não são os
ritos ou atitudes externas, vestir-se de mendigo, mas a atitude interior e, especialmente,
o espírito de solidariedade. 6Solta as algemas injustas, isto é,
solta os presos inocentes. 7Reparte o pão com o faminto, acolhe em casa
os pobres sem teto. Quando vires um homem sem roupa, veste-o. E não
receies a ajudar o próximo. *Então tua luz romperá com a aurora, e tua
ferida depressa ficará curada. Quem procede assim pode contar com o
auxílio de Deus. E a pessoa terá luz interior, que a ajudará a espantar as
trevas. Na parábola sobre o juízo final, Jesus acentuou ainda mais o valor da
caridade, e no Sermão da Montanha reprovou a caridade ostensiva.
- O irmão conhece bem os textos bíblicos? perguntou-me Tanajá.
209
- Só um pouco, não tenho muito tempo para estudá-los. Mas quando
posso, procuro um grande amigo e fico muitas horas estudando com ele.
Esse querido amigo, por quem tenho uma grande estima, sempre descobre
maravilhas nas Escrituras, de onde a Doutrina Espírita surge, majestosa. Hoje,
Tanajá, o espírita que não estuda a Bíblia pouco irá entender da Doutrina,
porque ela é o belo diamante que está nas garras lapidadas das páginas
bíblicas.
Mostrei, então, o seguinte desenho, que eu havia feito:
Marry elucidou:
- É também muito importante para o espírita este trecho de Isaías,
Capítulo LXV, versículo 17, quando é anunciado um novo Êxodo: Sim, vou
criar novo céu e nova terra. Já não haverá lembrança do que passou.
Nisto já não pensará. O homem, reencarnado no mundo de regeneração,
ainda estará sujeito às reencarnações sucessivas. l*Antes exultai e alegraivos
sem fim, por aquilo que eu crio: pois faço de Jerusalém uma cidade
de júbilo e de seus habitantes um povo alegre. Aqui Jesus falou, por intermédio
de Isaías, que Jerusalém será o centro do planeta renovado. 19(...)
Nela não haverá choros nem gritos de dor. 2üNão haverá crianças que
vivem apenas alguns dias, pessoas idosas que não levem a pleno termo
os seus dias. Pois será jovem quem morrer aos cem anos.(...) A Doutrina
Espírita aí está. Para melhor compreensão desses versículos, vamos até O
Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo III - Há muitas moradas
na Casa de meu Pai, item 17, Mundos regeneradores: (...)Nesses mundos,
todavia, ainda não existe a felicidade perfeita, mas a aurora da
felicidade. O homem lá é ainda de carne e, por isso, sujeito às vicissitudes
210
de que libertos só se acham os seres completamente desmaterializados.
Ainda tem de suportar provas, porém, sem as pungentes
angústias da expiação. Comparados à Terra, esses mundos são bastante
ditosos e muitos dentre vós se alegrariam de habitá-los, pois que eles
representam a calma após a tempestade, a convalescença após a moléstia
cruel. Contudo, menos absorvido pelas coisas materiais, o homem
divisa, melhor do que vós, o futuro; compreende a existência de outros
gozos prometidos pelo Senhor aos que deles se mostrem dignos, quando
a morte lhes houver de novo ceifado os corpos, afim de lhes outorgar a
verdadeira vida. Então, liberta, a alma pairará acima de todos os horizontes.
Não mais sentidos materiais e grosseiros; somente os sentidos de
um perispírito puro e celeste, a aspirar as emanações do próprio Deus,
nos aromas de amor e de caridade que do seu seio emanam.
Ainda em Isaías, Capítulo LXV, versículo 20, lemos: (...) e quem não
alcançar os cem anos passará por maldito. Aquele que não procurar tornar-se
bom será excluído do mundo regenerador. 21E edificarão casas, e
habitarão nelas; e plantarão vinhas, e comerão o seu fruto. 22Não lhes
sucederá edificarem eles casas, e ser outro quem as habite; nem plantarem
para que outro coma (o fruto); porque os dias do meu povo serão
como os dias das árvores (que duram muito), e as obras das suas mãos
envelhecerão. 23Os meus escolhidos não trabalharão debalde, nem gerarão
filhos para a turbação; porque serão uma estirpe de benditos do
Senhor, eles e os seus netos com eles. 24E acontecerá que, antes que eles
clamem, eu os ouvirei; estando eles ainda a falar, eu os atenderei. 25O
lobo e o cordeiro pastarão juntos, o leão e o boi comerão palha; e o pó
será para a serpente o seu alimento. Não haverá quem faça mal nem
cause mortes em todo o meu santo monte, diz o Senhor.
O interessante, amigo leitor, é que a nossa conversa iniciou-se com
Tanajá, falando da necessidade de os espíritas desenvolverem a auto-estima,
c que a Doutrina Espírita tem de tornar o homem bom e forte. Depois, Marry
Calou do perigo das brigas religiosas, que podem ocorrer onde não houver
humildade e fidelidade às palavras do Cristo.
211
Para encerrar este estudo, nada melhor do que lermos no
Apocalipse, Capítulo XXI, versículo 1°.: Vi um céu novo e uma terra
nova, porque o primeiro céu e a primeira terra haviam desaparecido
e o mar já não existia. 3(...) Eis o tabernáculo de Deus com os homens^..).
Os versículos 12, 14 e 22 falam que a nova Jerusalém não
possui templo. 12E tinha um muro grande e alto com doze portas, e
nas portas doze anjos, e uns nomes escritos, que são os nomes das
doze tribos dos filhos de Israel. 14£" o muro da cidade tinha doze fundamentos;
e neles os doze nomes dos doze Apóstolos do Cordeiro. 22E
não vi templo nela, porque o Senhor Deus onipotente e o Cordeiro
são o seu templo.
- Porque, no mundo regenerador, o templo de Deus estará erguido
no cérebro e no coração - falou Tanajá.
- Será que esse dia irá chegar?
; -Esse dia já está chegando, Luiz Sérgio.
- Tanajá, por que o homem se auto-desvaloriza?
- Porque com o passar dos anos ele acumula em sua psique as neuroses.
Mas, sendo o mundo físico uma escola redentora, todos devem buscar
a cura das suas fraquezas na consciência, onde se encontram as leis de
Deus, e nelas buscar a força para enfrentar as leis da carne, leis essas que
dominam o homem encarnado.
-Todos têm condição de cura?
- Sim, basta desejar. O mal é que a maioria dos homens não se
esforça para ser boa. Foge da cruz do Cristo e parte em busca das bolhas de
sabão, que são os prazeres da carne.
-Tanajá, a prece dá ao homem a esperança, mas volto a perguntar:
e a meditação?
- A meditação eleva o homem a Deus, colocando-o face a face com
o Senhor.
212
- Então, através da meditação enxergamos o Pai?
- Não, os nossos olhos ainda contêm impurezas. com a meditação,
sentimos o Pai em nós.
-Hoje em dia presenciamos ainda alguns médiuns vaidosos desejando
os primeiros lugares. O que acha disso, Tanajá?
-A mediunidade é faculdade orgânica, aperfeiçoá-la e torná-la gloriosa
é mérito do médium. Se ele tem conhecimento da Doutrina Espírita,
sentir-se-á como um veículo que só funciona se acionado pelos Espíritos.
Para possuir um bom relacionamento com os Espíritos, ele, o médium, precisa,
e muito, de humildade, porque sem ela o médium é apenas feiticeiro, ou mago. A humildade dá ao médium o direito de desfrutar das mais
seletas companhias.
Marry comentou:
- O grande mal do Espiritismo atual é a grande vontade de levantar
Centros Espíritas, e não é esse o propósito verdadeiro. Ele veio para educar
o homem, salvá-lo. Se olharmos o passado dos grandes espíritas, veremos o
rastro de luz e de fraternidade que eles deixaram por onde passaram. Os
vaidosos, os caluniadores, os fanáticos, estes escrevem, com letras negras
da falta de amor ao próximo, a sua história. Se lermos a história religiosa,
defrontar-nos-emos com esses irmãos levando o terror aos lares e queimando
sem piedade os seus irmãos.
-Tanajá, você tem razão. Tem neguinho aí que só sabe atirar pedras;
plantar, que é bom, nada. Como falar do Cristo, se não seguimos o Seu
exemplo? Quem viu o Cristo dizer ao gentio: "és um renegado do meu Pai"?
Quem viu o Cristo dizer: "os samaritanos são perigosos"? Ao contrário, Ele
lhes rendeu graças. Quem viu o Cristo negar a cura a uma mulher fenícia?
Quem viu o Cristo deixar sem auxílio o servo do centurião? Quem viu o
Cristo atacar Paulo de Tarso no caminho de Damasco? Ao contrário, disse a
ele: Saulo, Saulo, por que me persegues! Saulo, antes de encontrá-Lo,
também dizia que defendia as leis de Deus, e matava sem piedade, como fez
com Estêvão. Será que ainda não aprendemos a lei do amor e precisamos
213
ver sangue e lágrimas para provar a nossa fé? Achamos que não. A doutrina
do Cristo é a doutrina do amor e, sendo o Espiritismo a terceira revelação,
também tem de tornar-se a doutrina do amor. Os homens passam, perdem-se
no caminho da eternidade, mas aqueles que escreveram os seus nomes no
livro do Cordeiro serão sempre citados como exemplos a serem seguidos. E
a finalidade do Espiritismo é reformular o homem para levá-lo a Deus. Fenômenos
e fenômenos não são Doutrina. A Doutrina Espírita é a Doutrina dos
Espíritos, ela veio ao plano físico para elucidar os homens e levá-los a Deus.
Brincar com ela é ir contra o Espírito Santo, e Jesus foi implacável quando
disse: Os pecados serão perdoados, mas o quefizerdes contra o Espírito
Santo, isto não será perdoado. O Espírito Santo é a plêiade de Espíritos do
Senhor, trazendo o alerta a todos os encarnados, dizendo a cada um: "o
amor é que cobre a multidão de pecados".
Aproveitei para fazer mais um comentário:
- A valorização da vida só ocorre quando nos conscientizamos do
seu real valor. Só valorizaremos a Doutrina no dia em que dermos valor a nós
mesmos. Se gostamos de ser respeitado, devemos respeitar o nosso próximo.
-Fale-nos alguma coisa sobre meditação, Tanajá.
-Estudando a mente humana, Marry, chegamos à conclusão de que
ela necessita de descanso. A meditação é o descanso da mente porque, ao
iniciarmos a meditação, concentramos a mente unicamente em Deus; só assim
conseguimos a união total com Ele. É diferente de uma concentração
mental. A meditação é mais completa.
- A meditação não é uma prática esotérica? Na Doutrina pode-se
fazer meditação?
-Luiz Sérgio, médiuns brasileiros muito respeitados, leais trabalhadores
da Doutrina Espírita, usam a meditação para manterem-se equilibrados..
A meditação não pertence a este ou àquele credo, ela é necessária para
nos aproximarmos de Deus. Ela aquieta a alma para a prece, fazendo com
que o homem deixe o mundo dos cinco sentidos e adentre o mundo de
214
Deus. Quando estamos meditando, procuramos visualizar um mundo infinitamente
belo. Ao nos aquietarmos neste mundo, iniciamos o louvor a Deus e
vamos recebendo dele Sua infinita força.
- Então o irmão aconselha que todas as pessoas pratiquem meditação?
- Irmã Marry, nós sempre aconselhamos a meditação para o homem
domar o seu Espírito; ela dá à alma o frescor da paz. Entretanto, o
homem que pratica a meditação tem de levar em sua consciência uma
bagagem de reais valores, porque ela não é uma simples brincadeira.
Quando paramos para apreciar o fluxo da nossa respiração, encontramo-nos
com o Condutor da Vida: Deus, e diante dele agradecemos o trabalho
dos nossos órgãos. Mentalizando bem cada centro de força que os
comanda, levamos até eles as nossas vibrações de paz. O homem tem de
aprender também a jogar fora as suas preocupações. Para ser feliz, ele
precisa viver o hoje, esquecendo-se do ontem e não se preocupar com o
amanhã. Sempre dizemos ao nosso grupo: se todos os anos jogamos fora
o calendário antigo, por que não fazemos o mesmo com o que se passou
em nossas vidas? Mas existem muitas pessoas que adoram sofrer, recordando
o que passou. A meditação também nos ensina que só devemos
estar preocupados para viver o hoje, porque a nossa grande oportunidade
não é no amanhã, é hoje. Recordar é normal do homem, porém sentir
saudade ou revolta do que passou é um remédio amargo em nossa mente.
Para viver bem temos de caprichar no dia de hoje, porque, se não
apreciarmos cada segundo do dia, estaremos jogando fora a grande oportunidade
que a vida nos dá.
Marry agradeceu ao amigo. Nós o abraçamos com amor e respeito,
pedindo-lhe:
-Mande uma mensagem aos nossos leitores, Tanajá.
- Só podemos dizer: gostem-se muito, porque se nós não nos gostamos,
como vamos amar nosso semelhante? A auto-estima ajuda nos nossos
relacionamentos. Cada homem tem de lutar pela auto-estima, só assim
215
descobrirá o seu próximo. Quem não se ama também não ama o próximo.
-Tanajá, como o homem pode buscar a sua auto-estima, quando se
defronta com crise econômica, desemprego, violência, droga, prostituição
infantil?
-Luiz Sérgio, se cada ser humano harmonizar a sua alma, a sociedade
ganhará um pouco de paz. O mal do homem moderno é que ele pensa que
pode comprar tudo, fabricar tudo, criar tudo, até seres humanos.
- O que você acha certo? Como deve proceder o homem?
- O homem necessita de mais entusiasmo, mais otimismo, e tem de
conscientizar-se de que a felicidade total não existe. E nada melhor do que a
Doutrina Espírita para esclarecer sobre este assunto. Mas confundem felicidade
com consumismo, pensando que aquele que tudo tem é felizardo. com
o avanço da ciência, as pessoas acham que podem fazer tudo, comprar tudo,
fabricar tudo. A criança e o jovem não admitem que nem tudo podem ter.
Eles querem, cada vez mais, e os pais, sem amor, sem autoridade, vão fazendo
as suas vontades. Pobres famílias, até quando Jesus as verá sofrer? O
homem deve aprender a viver o presente e não deve passar as horas do dia
sonhando com a felicidade e ficando cada vez mais longe dela.
-Tanajá, como é possível um pai de família desempregado ter autoestima?
-Existem muitos que vivem infelizes, mesmo tendo bons empregos,
ótimas famílias, bons amigos; são infelizes por não serem belos, altos ou magros,
ou bem mais ricos do que são.
- Como pode um terapeuta curá-los? , ,
- Levando-os buscar a realidade da vida. Essas pessoas são pessimistas,
insatisfeitas, reclamam de tudo e tornam as suas vidas infelizes. Elas
precisam aprender a se colocarem como donas do seu destino. Elas têm de
ser chamadas à responsabilidade. O sonho pertence a cada ser, porque desejar
viver o sonho proposto por outrem é se anular e abdicar de seu próprio
desejo. Vemos os homens correrem atrás de uma felicidade fictícia, mas a
216
realidade é hoje, e o hoje tem de ser vivido. E para que ele seja mais bonito,
não podemos desejar mais do que o dia possa nos dar, porém, sempre com
o propósito de embelezar os nossos dias.
- Então, Tanajá, o homem deve correr atrás dos seus sonhos de
melhoria de vida, ou não?
- Sim, o homem tem o dever de batalhar para melhorar o seu conforto,
mas não sonhar demais, fugindo da realidade, deixando passar as oportunidades
que a vida lhe dá. Porque, se ficar esperando uma felicidade total,
jamais vai atingi-la, pois nunca se contentará com o que tem, não se sujeitando
sequer aos níveis mínimos de frustrações que a sociedade impõe às pessoas.
Ele precisa conscientizar-se de que os dias são preciosos em nossas
vidas e procurar não viver correndo atrás da felicidade, porque as horas
perdidas de um dia nos trarão muitos remorsos.
- Os psicólogos ensinam que o homem deve buscar ser feliz.
-Também afirmamos, Marry: o homem tem de viver a sua felicidade.
Se viver somente sonhando em ser feliz, deixará de viver as suas horas felizes.
-Tanajá, qual a causa de hoje vir aumentando a incidência das doenças nervosas?
- O medo. O homem está com medo, e quem melhor nos ensina a
nos livrarmos dele é a Doutrina Espírita. Quem a estuda descobre um universo
de conhecimentos, passando a melhor compreender as leis de Deus.
- Você tem razão, conheço pessoas que vivem cobertas de prevenções
contra o próximo, o que os outros fazem de errado, enquanto ele, o
"sábio", o belo, vive de sonhos.
- Jesus, o Sábio dos sábios, ensinou o homem a viver o hoje. Mas
tão poucos escutaram a Sua voz! observou Marry.
- A oração coloca o homem defronte de Deus, Tanajá?
- Feliz aquele que ora, Luiz Sérgio. O homem que ora encontra a
217
força em si mesmo.
Despedimo-nos do nosso querido amigo, que tão bem conhece os homens.
- Marry, querida, a cada dia encontramos em nossas vidas grandes
amigos e Tanajá é um deles. Conhecemos pessoas que, ajudadas por ele,
recuperaram a auto-estima.
-Luiz, muitos julgam que a felicidade se encontra nos bens materiais
e ignoram o seu dia-a-dia, quando muitas vezes ele está repleto de momentos felizes.
218
; , CapítuloXVIII
O FLAGELO DAS DROGAS
Acompanhando sempre a querida amiga Marry, prossegui viagem pelo
Educandário divino, onde tenho aprendido tanto. Parando para pensar, recordei-me
de quando iniciei a grande caminhada, a minha entrada na Universidade
Maria de Nazaré, e divisei seu pátio, onde grupos de estudantes,
como ocorre na Terra, todos com suas pastas sob o braço, discutiam as
teses da matéria daquele dia. Ainda escuto o tilintar da sineta. E sorri. Marry
percebeu o meu semblante.
- Em que está pensando, Luiz?
-Estou recordando-me de quando cheguei à Universidade Maria de
Nazaré. Quem diria que viria até aqui, onde hoje me encontro!...
- Tem razão. Foi um longo caminho já percorrido, e quantas informações
o irmão já levou ao plano físico! Se não obtivemos vitória, pelo
menos o seu grito de socorro no livro Na esperança de uma nova vida foi
valioso, quando, corajosamente, Luiz Sérgio, você segurou o cajado da responsabilidade e partiu em defesa dos jovens. Quantas revelações! Hoje,
quando o Brasil enfrenta o tráfico bem armado, lendo os seus primeiros livros,
vemos quantos alertas, quantas revelações, mas alguns espíritas não
gostaram de se defrontar com uma realidade dura e cruel: a droga. Mas ela aí
219
está, cada vez mais forte, e as autoridades sem meios de dar um basta. E
como o Espiritismo se preparou para elucidar seus jovens: proibindo seus
livros ou procurando estudá-los? Os jovens estão morrendo e a família junto
a eles, e nós, como nos fazermos ouvidos?
-Irmã, eu e meus companheiros já fizemos a nossa parte, já demos o
nosso recado. Quem ouviu, ouviu; quem não ouviu, foi porque não quis.
-Uma vez que estamos recordando seus primeiros trabalhos sobre o
assunto droga, vamos até o Departamento Científico número cinqüenta e nove. Lá, desenvolvem um estudo sobre o mundo dos drogados.
- É Marry, a minha tarefa com os drogados ainda não terminou ?
Ela sorriu.
- Se desejar, levamos você até eles.
- Eu adoraria, com certeza, só que este lugar fica tão longe..."
- Bem, Luiz, vamos ao departamento de pesquisas.
- Marry, a sociedade está brincando ao ignorar o terrível mal das drogas.
E assim fomos recebidos por Karachi. Marry apresentou-me e ele,
muito sorridente, perguntou:
- Há quanto tempo o irmão não trabalha com os Raiozinhos de Sol?
- Estou um pouco afastado. Apenas me junto a eles quando estou
em férias na Universidade.
-Irmão, no mundo físico o tráfico de drogas está terrível. O que está
fazendo este laboratório contra elas ? indagou Marry.
Ele nos fez entrar em uma sala de pesquisa e foi esclarecendo:
- As drogas químicas e especialmente as pastilhas de ecstasy,
identificadas como o mais perigoso inimigo da juventude mundial, queimam o
cérebro, levando o usuário à morte. O ecstasy não dá êxtase nem felicidade,
220
apenas mata. O perigo, Marry, é que as drogas químicas, por serem as mais
baratas, estão sendo mais consumidas e também matando mais também. O
ecstasy é uma droga perigosa, que tem lesado muitos jovens que correm
para ela. As pastilhas são produzidas pelos laboratórios holandeses, poloneses e alemães.
- O que ela acarreta aos usuários?
- Provoca o empobrecimento da medula óssea, a coagulação do
sangue, o aumento da pressão arterial e das pulsações cardíacas, hemorragia
de vasos do cérebro, ressecamento no nariz, boca e garganta, inapetência e
intoxicação do fígado.
- Só isso?... indaguei.
Ele sorriu.
- É, Luiz Sérgio, e os jovens enfrentam esses danos em busca de
alguns minutos de sensações fortes.
- Podemos saber que sensações são essas?
- Todos os viciados são fracos. Quando o jovem parte para os vícios,
ele está buscando auto-estima, euforia, rapidez de raciocínio e a tão falada
loquacidade, o desejo sexual e vários tipos de alucinações.
- Por que os colégios não levantam bandeiras contra as drogas?
- Boa pergunta, Luiz. Por que as escolas também não alertam os
jovens sobre o perigo do ecstasy? - acrescentou Marry. Irmão, achamos
fácil as autoridades conterem a juventude, basta efetuar visitas inesperadas
às discotecas, boates, bares noturnos, à procura de provas e flagrantes de
venda ou circulação de drogas químicas. Os estabelecimentos flagrados serão
considerados transgressores da lei e terão fechadas as suas portas. Muitos
jovens desencarnam intoxicados pelas pastilhas de ecstasy. Para nós, que
estudamos os males das drogas, o ecstasy é uma verdadeira bomba.
- Não compreendo como as autoridades não chegam aos traficantes.
É muito triste presenciar o aumento assustador de dependentes. Os
221
sistemas de disque-drogas são tão intensos no Brasil, que assustam. E esses
sistemas atendem geralmente a clientes vips.
- O Brasil, Luiz, ainda não se preparou para esta guerra e o que
presenciamos é o fortalecimento dos traficantes. Eles movimentam cerca de
três toneladas ou mais de cocaína por ano. As autoridades necessitam equipar
seus departamentos de investigações sobre narcotráfico.
- Olha que já escrevi sobre isso há quase quinze anos.
O nosso amigo projetou na tela os pontos chaves da droga. E presenciamos
que em cada região há um narcotraficante operando, dono do fornecimento.
Vários Estados recebem a droga de países ligados ao tráfico.
- Irmão, o que pode ser feito em defesa do jovem e da criança?
- Colocar a família bem informada; ela tem de tomar conta dos seus
jovens, orientá-los, guiá-los, defendê-los, etc...
- Como fazer?
-A família tem de conscientizar-se de que o tóxico é um mal mundial
e de que é uma corrida desigual do bem contra o mal. As autoridades não
têm o poder de educar a juventude, mas têm o dever de defendê-la. A família
deve, desde a tenra idade das crianças, alertá-las sobre o perigo das drogas.
-As campanhas de esclarecimento são válidas?
- Sim, mas é preciso muito mais. As autoridades precisam urgentemente
pedir ajuda às famílias, porque o foco parte delas.
- Como assim?
- A falta de educação, de limites, de amor à vida, de conhecimento
sobre a morte, a fragilidade do corpo físico, enfim, é na família, no lar, que
aprendemos os reais valores da vida. Está na hora de cada um buscar os
valores do Espírito. Não dá mais para esperar, porque o tempo é agora. A
cada dia a criança está mais sem educação e o jovem mais sem limites. com
o progresso do planeta, a ciência oferece muitas e muitas coisas bonitas e
úteis para o conforto do corpo físico, mas não vai criar algo que favoreça o
222
crescimento da alma. É preciso que cada ser lute por isso. E foi dada aos
pais a incumbência de prepararem as crianças e os jovens para crescerem
moral e intelectualmente. Muitos pais só desejam que as autoridades defendam
os seus filhos, quando é no afeto do lar que cada ser sente-se protegido,
temos piedade de alguns Espíritos que estão voltando ao corpo físico e encontrando
mães e pais irresponsáveis, sem tempo para abraçá-los e educálos,
porque, para educar alguém, temos de possuir educação. E muitos jovens
que brincam de sexo não possuem a mínima educação, vestem-se, procedem
e vivem longe de qualquer moral. E são eles, os pais, que recebem de
Deus os Espíritos para cumpririrem a lei reencarnatória. Aí é que reside a
fragilidade da sociedade. Como pode haver uma sociedade feliz, se dos lares
saem verdadeiras feras, sem conhecimento de Deus? É fácil atacar ou culpar
governo, polícia, enfim, o sistema governamental. Ninguém, porém, pára um
pouco e analisa o seu procedimento junto à família. No momento atual, as
crianças e os jovens estão sem heróis, os seus pais vivem nas festinhas, aproveitando
a vida, enquanto eles estão diante de um televisor ou de um computador,
sendo educados por eles. É dos lares que saem os traficantes, os
homicidas, os drogados. No dia em que a família se auto-educar, teremos
uma sociedade mais justa.
-É, irmão, é dos lares também que saem os chefes de governo.
- Tem razão. No dia em que o homem for educado para ser digno,
ele, ao chegar ao poder, não desejará tirar vantagens. Saberá, como
filho de Deus, ajudar os menos favorecidos e não veremos mais nas manchetes
dos jornais os escândalos administrativos. Cada homem ligado ao
poder governamental estará preocupado com o crescimento do seu país
com a felicidade do povo, sem estar apenas voltado para si mesmo,
porque o egoísmo e a ganância é que levam certas pessoas a se apoderarem
do que não é seu.
- Então, um mau presidente, um mau senador, um péssimo deputado,
um vereador e um prefeito corruptos assim o são porque não receberam
no lar uma educação correta?
223
- Cada homem leva consigo, guardados na consciência, os seus valores
e as suas imperfeições, chegando ao corpo de criança esquecido do ,
bem e do mal que o acompanha. Cabe aos pais acompanhar o seu despertar;
se tiver egoísmo, avareza, ódio, cobiça, vontade de se apropriar das coisas
alheias, instinto de destruição, maledicência, enfim, muitos outros defeitos,
cabe aos responsáveis tentarem mudar a sua índole. Para isso existem os
lares. Não vamos dizer que todos serão capazes, mas, mesmo assim, os pais
não estão isentos do dever de tornar digno um Espírito.
- Irmão, coitados desses menininhos e menininhas que estão brincando
de colocar Espírito no corpo físico!...
- Você está certo, Luiz, eles não sabem a grande responsabilidade
que estão assumindo.
-Tem razão, Karachi. Hoje, o que mais se vê são pobres avós cansados,
tentando criar os netos; jovens saindo à rua, trazendo os filhotes para
os lares dos pais e não tendo coragem de assumi-los. Quantos "filhinhos de
papai" têm um filho com uma jovem, com outra jovem, e assim vão indo; e
muitos pais julgam que eles é que são as vítimas das meninas. Mas não são
apenas os garotos que estão agindo assim, as meninas também, e acho que
em maior número. É um filho de um pai; é um filho de outro pai, e assim vão
indo. Quando isso ocorre e a mãe assume o filho como seu pedaço de alma,
ela luta para fazer dele um ser digno, não importando os parceiros, mas sim a
sua dignidade de mulher. Brincar de colocar criança no corpo físico e
abandoná-la para outro criá-la é dívida contraída. O que leva a juventude a
essa liberdade excessiva? A liberdade foi outorgada por Deus, no entanto,
como usá-la? Até que ponto ela nos prejudica? O que a juventude chama de
liberdade não será um veneno que mata sonhos, ilusões, dignidade, respeito,
amor?
- Luiz, Deus outorgou o livre-arbítrio e o Espírito, inebriado diante
do Universo que lhe pertence, como filho de Deus que é, julgou-se o dono
dele e se perdeu nas nuvens do erro e das culpas. Mesmo assim, o Pai amado
ofertou ao Espírito culpado o retorno às oportunidades perdidas. Por
224
isso, não pode jogá-las fora, e infeliz aquele que cooperar com a sua queda.
Muitas vezes nós, por omissão, deixamos as pessoas amadas se perderem
no vendaval dos pesadelos. A família tem de buscar em Deus a orientação;
ela não pode esquecer as suas responsabilidades e deixar uma criança crescer
sem educação e sem limites. A criança tem de aprender que a moralidade
é a brisa que dá paz à consciência.
Marry, que até aqui apenas ouvia, perguntou ao nosso amigo:
- Por que nem todas as religiões procuram educar o homem?
- As religiões existem para fazer reavivar no homem as leis morais
contidas na sua consciência. Elas não podem ir além, porque, a cada um,
Deus ofertou a própria consciência.
-Mas muitos homens nem parecem ter consciência!... - comentei.
Ele sorriu e Marry completou:
-Tem razão, é como o solo que esconde a semente e como o cascalho
que esconde o diamante. Para achá-lo, o garimpeiro precisa, antes, tirar
os cascalhos inúteis. Assim é o homem, as leis estão na consciência de cada
um. Cabe ao homem a luta para jogar fora o que está ofuscando a beleza
dela, a consciência.
- Marry, como o mundo seria melhor se o Espiritismo adentrasse
todos os lares, não como religião, e sim como o Consolador prometido por
Jesus, esclarecendo o homem sobre a vida após vida, dando-lhe informações
sobre o mundo aonde terá de retornar, informando sobre as suas responsabilidades
como ser eterno, o que deve fazer para não deixar passar em
vão o seu atual estágio reencarnatório! Por quê? Sem saber o quanto ela é
importante para cada Espírito, nem se pode conceber quantos jogam fora a
preciosa vida.
- O que está precisando, Luiz, é as Casas Espíritas evangelizarem os
seus freqüentadores e estes levarem o Cristo até seus lares. A Doutrina existe
para educar a alma, ela não é somente teoria, ela é o Cristo nos dizendo:
"se és meu fiel seguidor, vende tudo o que tens e segue-me".
225
- Marry, por que você está citando isso, se estamos tratando de
tóxico e de juventude?
- Logo chego ao assunto. Estamos preocupados com a família e a
família de alguns espíritas está muito mal. Muitos, que são excelentes oradores,
não são ouvidos em seus lares, pois ninguém da casa é espírita.
- Há alguma coisa errada?
-É disso que queremos falar. O Espiritismo só vai atingir plenamente
seus objetivos quando aqueles que se dizem conhecedores da Doutrina jogarem
fora a capa do orgulho e se tornarem reais mensageiros de amor nos
lares, porque nos causa apreensão perceber que os familiares de alguns homens,
respeitados como espíritas, têm verdadeiro horror ao Espiritismo. Algo
deve estar errado. A Doutrina é linda e bem esclarece a todos.
- Você tem razão, Marry, sempre escrevo sobre isso.
- Quantos oradores e presidentes de Casas Espíritas que pregam
contra a carne, o fumo, o álcool e dão festas em suas casas, onde o álcool e
o fumo estão presentes! Esses são os falsos profetas. Quem vai acreditar em
quem só fala e não exemplifica? Se o espírita diz que o álcool prejudica, ele
não pode ingerir bebida alcoólica, mesmo "socialmente". Ou gosta ou não
gosta. São esses absurdos que tentam prejudicar a Doutrina que tanto amamos.
Muitos desses "respeitáveis" senhores e senhoras, que são espíritas
apenas nas palavras e no Centro, quando casam um de seus filhos ou comemoram
algum aniversário, a bebida, o álcool e o fumo não fazem mal. Se
indagados por que consentem, respondem: "como posso ser contra meus
filhos? Tenho muitos amigos, não posso privá-los dos prazeres da vida."
Mas na tribuna ou como dirigentes de grupo mediúnico são implacáveis: "Cuidado!
Cuidado!" - é o que sempre dizem. O Espiritismo tem de atualizarse.
Alguns credos se perderam por tudo proibir e por seus sacerdotes não
darem exemplos. Não conhecemos nenhum médium respeitado pela
Espiritualidade que nas suas festas familiares a bebida e o fumo estejam presentes.
Ou somos espíritas ou não somos. Espírita morno só prejudica a
dignidade da Doutrina. E diz Kardec: Reconhece-se o verdadeiro espírita
226
pela sua transformação moral. Se nos dissermos espíritas, estudarmos a
Doutrina, pregarmos o Evangelho, mas não nos educarmos espiritualmente,
não teremos condição moral de transformar os nossos familiares em seres
espiritualizados. Somos espíritas, mas os nossos filhos, noras e netos odeiam
o Espiritismo. Por que isso ocorre? Respondemos: porque não nos tornamos
uma carta de carne da Doutrina. Não temos condição de transmitir, através
dos nossos atos, a beleza da Doutrina Espírita. Ainda mentimos em nome
dos Espíritos, ainda julgamos que somos os melhores, ainda somos egoístas,
ainda somos avaros, e a família, observando. Por que ela iria nos seguir, se
não vê em nós melhora alguma? Continuamos a mesma pessoa vaidosa, intransigente
ou omissa; aquela que a família faz tudo errado, mas nós queremos
ser os bonzinhos, ficando quietos e participando das suas loucuras.
-Marry, você está fogo, hem?...
- Luiz, é vergonhoso o que se vê em algumas Casas Espíritas: os
dirigentes brigando uns com os outros por cargos, todos querendo mandar.
E Doutrina, só nas palavras. Como pode um iniciante dessas Casas buscar
forças para as lutas da vida, se ele não encontra nos oradores, nos médiuns,
na diretoria, exemplos bons a serem seguidos? Doutrina não é emprego, é
trabalho, é luta, é igualdade, solidariedade.
- Marry, como você está com razão! Alguns estudiosos espíritas, à
medida que vão crescendo intelectualmente, iniciam um processo de indiferença
para com a evangelização. E sem ela, como o irmão João costuma
dizer, são homens sem coração. O conhecimento espiritual é o cérebro; o
Evangelho, o coração. Vemos muitos conhecedores de Doutrina que só sabem
proibir, quando a Doutrina nada proíbe; ela alerta sobre o que faz mal, o
que é nocivo à nossa evolução. Viver criticando os outros não é Doutrina, é
orgulho e preconceito. Toda Casa Espírita precisa preparar o homem para a
vida física e a vida espiritual. Apenas freqüentar uma Casa Espírita não vai
salvar ninguém; o mais importante é a reforma íntima, a melhoria da alma, é
banhar-se na cascata dos conhecimentos espirituais, mas também comer do
pão de Deus; é ele que vai amansar o Espírito, tornando-o digno do Cristo;
é ele que vai matar a vaidade, o orgulho, a avareza, a maledicência, a cólera
227
do nosso Espírito. E o pão de Deus, trazido pelo Consolador, é que vai-nos
tornar espíritas-cristãos, dignos do chamado. Dizer: sou espirita, conheço as
obras doutrinárias, tenho sessenta anos de Doutrina, faço parte desta ou
daquela Casa ou Federação, de nada adianta, pois o seu nome não estará
entre os fiéis servidores da Doutrina. Muitas vezes aquele humilde freqüentador
da Casa, que nunca foi a uma mesa mediúnica, nem a diretoria o conhece,
está entre os primeiros, porque assimilou os ensinamentos da Doutrina e os
levou ao seu lar, onde ocorreram transformações, todos largaram os vícios,
todos tornaram-se espíritas, todos tornaram-se mais cristãos; nestes, a Doutrina
entrou no coração. É assim que deve ser.
-O Espiritismo-falou Karachi-veio para mudar as almas, tornálas
melhores. E Espiritismo não é espetáculo para ser admirado, ele é o freio
trazido pelo Consolador, dizendo: basta de erros, agora é chegada a hora da
reforma íntima. Vamos jogar fora todas as nossas tendências negativas e buscar
na consciência as leis divinas, procurando resgatá-las. O chamado ocorreu
e nós fomos os privilegiados. Cabe a cada um de nós fazer a sua parte:
sair à procura das ovelhas perdidas que se encontram longe do Senhor. Mas
para isso acontecer, precisamos estar com o coração repleto de amor e caridade,
porque não gritaremos em praças públicas nem obrigaremos alguém
a seguir Jesus, apenas seremos uma pessoa diferente das outras, pelo olhar
de amor e paz que transmitiremos aos que cruzarem o nosso caminho. Importa
que mudemos para melhor; os outros mudarão, também, por estarem
ao nosso lado. Assim deve ser o espírita: um raio de luz na escuridão do
materialismo. O espírita, quando estuda, encontra Deus e sabe por que a
Doutrina nos revela a Sua bondade, o Seu amor infinito; só ela nos ensina
que Ele não castiga, que Ele é justo. Por isso, ao espírita é ensinado que
devemos proceder com os outros como queremos que os outros procedam
conosco. Como narra O Evangelho Segundo o Espiritismo, no Capítulo
11, item 7, devemos seguir os preceitos de Jesus, e um deles é aquele em que
o mestre condena todo prejuízo material e moral que se possa causar a outrem,
toda postergação de seus interesses. Este princípio prescreve o respeito
aos direitos de cada um, como cada um deseja que se respeitem os
seus. Estende-se mesmo aos deveres contraídos com a família, a sociedade,
228
autoridade, tanto quanto com os indivíduos em geral. O espírita não pode
alegar ignorância, pois todos os livros doutrinários ensinam como deve ele
proceder, como filho de Deus que é. Outras religiões dizem que basta pedir
perdão para ser perdoado, basta batizar-se para ser cristão, basta dizer "Senhor,
Senhor", e ganhar os céus. O Espiritismo é mais racional, pois coloca o
homem a par de todo o conhecimento da vida e da morte, e aquele que o
professa descobre Deus; não um Deus dividido em três pedaços, mas um
Deus uno, eternamente justo. Por que o espírita ainda duvida do poder de
Deus e das Suas leis? Porque não deseja segui-las. A Doutrina veio para
mudar o homem velho em um novo homem, renovado e justo. Se não for
assim, o Espiritismo para nada serve, a não ser para aumentar a loucura. E
essa não foi a finalidade do trabalho dos Espíritos Codificadores. Em qualquer
livro da Codificação, encontramos o convite para a reforma íntima, para
alcançar a perfeição. Se a Doutrina Espírita nada acrescentar de melhor na
vida do homem, perde sua finalidade, vira religião, e religião, muitas vezes,
mata, separando uns dos outros. O Espiritismo veio para congregar os filhos
de Deus num só rebanho, o do amor. Enquanto as religiões se dizem donas
da verdade, prometendo o céu às suas criaturas, o Espiritismo coloca um
espelho à frente de cada ser, para que sejam analisadas as suas imperfeições.
Por isso, a Doutrina não tem mestre, tem companheiros de evolução. Todas
as Casas Espiritas precisam orientar aqueles que chegam, e desejam "desenvolver"
a mediunidade, que a Doutrina é mais do que mediunidade, ela é a
mão de Jesus nos guiando pelo caminho da perfeição. Devemos dizer, àqueles
que julgam ter mil mediunidades, que o que importa são os seus bons
atos, e não o dom mediúnico. Eles é que irão formar a aura divina e esta,
como uma antena, captará as mensagens. Queira Deus que aquele que desejar
educar a sua mediunidade venha primeiro fortalecer a sua aura com conhecimentos
doutrinários e, evangelizando-se, tornar-se útil aos Espíritos do Senhor.
- Karachi, como você conhece Doutrina Espírita!...
- Luiz e Marry, se os espíritas levassem a Doutrina aos seus lares,
educando filhos e netos, teríamos menos drogados. Mas hoje encontramos
229
em muitos lares espíritas pessoas viciadas em fumo, em álcool e em drogas.
E, junto aos Raiozinhos de Sol, oramos para que os espiritas se conscientizem
de que a droga é uma besta que aleija e mata, e que a sua força aumenta
quando a família é omissa, mesmo tendo conhecimentos espirituais.
- Irmão, se todas as Casas Espíritas se preocupassem com crianças
e jovens, dando-lhes uma orientação segura para que eles fugissem dos vícios,
eu me daria por satisfeito. com pesar, constatei que vários espíritas não
aceitaram meus livros, porque alertavam para o perigo das drogas. Quando
escrevi Na Esperança de uma Nova Vida, recebi muitos açoites, pois muitos
julgaram que os Raiozinhos de Sol estivessem fantasiando. Falei em outros
livros que, se as autoridades não tomassem providência, o Brasil se
tornaria a rota das drogas. Também afirmei que o grande traficante não se
encontra nas favelas, nas ruas ou nos lugares pobres. Não era o Luiz Sérgio
falando, eram os Espíritos Superiores mandando suas orientações, através
daqueles humildes escritos, num linguajar simples, para que a leitura atingisse
crianças e jovens, pobres e ricos. E o que recebi? Críticas e mais críticas.
Mas no dia em que alguém disser que está escrevendo livro do Luiz Sérgio,
e este livro estiver repleto de palavras difíceis, tiradas do dicionário para
agradarem doutores da lei, pode crer, amigo, que o Luiz Sérgio se encontrará
bem longe desses falsos profetas. Ninguém muda de uma hora para outra;
quem me conheceu, quando encarnado, encontra-me na simplicidade dos
meus escritos.
- Luiz Sérgio, o Brasil antes apenas servia de corredor para o tráfico
de drogas, era usado para fazer o transporte da droga para a Europa ou
outros países. Esse corredor ainda existe, mas, com ele, desenvolveu-se uma
perigosa falange de trevosos desencarnados e encarnados, os narcotraficantes.
Eles crescem assustadoramente, porque o negócio envolve milhões de dólares.
E como o dinheiro abre quase todas as portas, eles montaram uma estrutura
fenomenal. Possuem as mais modernas armas, mísseis anti-aéreos, enfim,
um verdadeiro arsenal de guerra, e ainda contam com colaboradores
importantes, que ninguém imagina serem cooperadores dessas organizações.
- Só Deus tem o poder para combatê-los.
230
- Sim, Luiz, Deus vai dar um basta, mas até lá presenciaremos muitas
pessoas desencarnando de "parada cardíaca e problemas respiratórios"...
- Qual o país com mais consumidores da droga?
-Infelizmente, já é o Brasil. Antes, eram os Estados Unidos. com a
estrutura montada atualmente pela máfia da droga, a quantidade de drogas
vendidas no Brasil aumenta a cada minuto. Enquanto em outros países existem
as drogas conhecidas, os chefões do narcotráfico do Brasil estão criando
drogas novas, desde as mais baratas, o que leva os jovens a adquiri-las.
- Irmão Karachi, por quê, enquanto em outros países as organizações
estão-se enfraquecendo, no Brasil elas se expandem cada vez mais?
- Quem disse que elas estão-se enfraquecendo? Não, Luiz, as organizações
das drogas operam no mundo todo, mas logo, se Deus permitir, a
Terra, sendo fortalecida, expulsará daqui todos os que causam as dores. E
estas organizações serão destrutivas.
- Irmão, este lugar onde estamos parece ser um laboratório científico,
como ele funciona?
- Os Raiozinhos de Sol recebem daqui as informações sobre as quadrilhas
brasileiras que transportam as drogas, e também identificam os laboratórios
para a transformação da pasta de coca em cocaína.
- Agora me recordo. No livro Na esperança de uma nova vida
falei sobre esses laboratórios. Neles, trabalham químicos de vários países.
Fomos convidados a visitar o laboratório e, com espanto, vimos as
fotos de todos os chefões, os perigosos inimigos da sociedade.
- É a globalização do pó - comentou Marry. ;
-Tem razão, irmã, aí é que está o perigo.
- O que a Espiritualidade está esperando para dizer: basta?
- Luiz, a cada dia é descoberto um carregamento de drogas e Desmascarados muitos traficantes.
231
- Só que eles nos lembram os formigueiros: se destruímos um, surgem vinte...
- Isso mesmo, Luiz Sérgio, e o pior é que o negócio envolve muito
dinheiro e os chefões são milionários, tornando-se difícil chegar até eles. Cremos,
e muito, no poder de Deus, e chegará a hora para as vítimas e para os
algozes, e infeliz aquele que brincou com o plano de Deus.
Fomos andando por aquele lugar, em cujas paredes eram projetados
filmes de todas as organizações do narcotráfico em terras brasileiras.. Boquiabertos,
víamos as quantias exorbitantes de dinheiro que correm onde é intenso
o tráfico de drogas. Paramos diante de um monitor onde as vítimas da
droga, mais parecendo mortos vivos, injetavam o tóxico. Balancei. Tapei o
rosto com as mãos e chorei. Sim, chorei. É deprimente, muito triste! Que
dinheiro maldito o que leva um ser a destruir os sonhos do seu próximo!
Refiz-me, rapidamente, desculpando-me, e perguntei:
- Por que não se aumenta a repressão à droga, Karachi?
- O governo investe muito pouco nesse campo, Luiz. Acho que os
policiais que combatem o narcotráfico são heróis, pois lutam contra um poderoso
inimigo: dinheiro, dinheiro, muito dinheiro e poder. Ontem, o policial
corria atrás do pequeno traficante e do usuário. Hoje, ele não dispõe de
meios de chegar até eles. Para que isso aconteça, torna-se preciso um grande
investimento. Há pouco, falamos sobre a responsabilidade dos espíritas,
que não podem negligenciar a educação de uma criança ou de um jovem,
porque o espírita conhece as conseqüências de uma existência perdida. E só
a educação da família pode diminuir os consumidores de drogas.
Fomos olhando aquelas telas e vimos o quanto o homem é ignorante,
ele não pára para pensar que um dia terá de prestar contas a Deus. Naquele
departamento científico, a Espiritualidade acompanhava todos os movimentos
das operações da droga em solo brasileiro; até as redes bancárias das
pequenas cidades de fronteira estavam à nossa frente, sendo analisadas pelos
irmãos daquele departamento.
232
-E vocês fazem alguma coisa? perguntei, curioso.
- Sim, os nossos relatórios levam os Raiozinhos a intuírem as autoridades.
Compreendi o quanto os espíritos encarregados do combate às drogas
trabalham junto aos policiais, para que as descubram onde uma pessoa,
sem ajuda espiritual, jamais descobriria. E olhe que a droga é transportada em cada lugar!
- O que o irmão acha da liberação da droga? perguntou Marry.
- Representa simplesmente o suicídio coletivo dajuventude.
- Mas dizem que na Holanda deu certo!
- Em país nenhum a liberação dará certo. A praça de Amsterdã,
onde os viciados mais parecem mendigos, é o retrato cruel de que a liberação
é suicídio. O que não deve ocorrer é condenarmos o dependente, ele é
a maior vítima das organizações das drogas. O caso não é liberar ou não a
droga, o importante é tratar os dependentes e educar os sãos. E a Doutrina
Espírita tem tudo para educar os jovens, pois coloca o homem diante dos
esclarecimentos sobre a vida e a morte. Dá à criança e ao jovem elucidações
sobre o que ocorre com aquele que se suicida. E quem consome droga é um
suicida inconsciente.
Voltei a olhar aquele lugar, onde vários Espíritos, sob a orientação de
Karachi, vigiam as organizações da droga e prestam auxílio às autoridades.
- Esse inferno vai acabar, estou certo disso.
- Sim, Luiz Sérgio, logo, no Brasil, muitas coisas serão descobertas e
muitas pessoas ilustres serão denunciadas pelo envolvimento com o
narcotráfico.
- Será?
- Espere e verá. A Espiritualidade está sempre ao lado daqueles que
sofrem. E hoje muitas famílias choram pelo flagelo das drogas.
233
Despedimo-nos do amigo e enlacei o ombro de Marry, nossa companheira,
que, agradecendo a Karachi, disse:
- Esperamos, irmão, que amanhã seja um novo dia e que quando
voltarmos aqui, venhamos a divisar uma nova terra. E que estas criaturas sem
Deus já tenham recebido a volta do que plantaram. Que as lágrimas que
causaram a morte de esposas, de mães e pais, tenham-lhes tocado o coração,
para que um dia retornem ao caminho digno.
Meu Deus, como é triste o mundo dos dependentes! São mortos-vivos
em busca de esperança. Karachi despediu-se de nós e, dando continência
aos outros, dali partimos, em busca de mais conhecimentos, porque
em cada posto de trabalho aprendo a viver de amor. Em cada local visitado,
vejo florir na árvore da minha vida muitos frutos do esclarecimento.
- Luiz, agora vamos dar uma chegada à Universidade Maria de
Nazaré; a nossa visita aos laboratórios científicos será interrompida temporariamente.
- Por quê, Marry?
- Torna-se necessária a nossa ida até a Universidade, pois há dias
viajamos em busca de conhecimento.
- O papai aqui está às suas ordens, princesa.
Ela, carinhosamente, alisou meu rosto e, sorrindo, falou:
- Obrigada, amigo, obrigada, irmão, em um trabalho onde convivemos
com a dor, é muito bom encontrar pessoas como você, alegres e repletas de esperanças.
Dei-lhe um beijo, orvalhado de lágrimas de agradecimento. E, assim,
fomos em busca da nossa amada Universidade.
234
CapítuloXIX
A TAREFA DOS LIVROS
Chegando à Universidade Maria de Nazaré, detivemo-nos no seu
campus, para admirar a beleza da natureza. As flores pareciam falar conosco..
Cumprimentei-as, sorrindo:
- Oi, irmãs flores.
Marrysorriu.
- Luiz, veja que rosa enorme!
Quando a olhei até me assustei com o seu tamanho. ,. , ,
- Que linda, Marry! Creio que no plano físico ainda não existe essa espécie.
- Não podemos afirmar, pois com o progresso da engenharia genética
acreditamos que já exista.
Apreciando o belo jardim, voltou-me à lembrança o inferno da droga,
e pedi a Deus pelos encarnados.
- Luiz, aqui é o Éden, o paraíso, onde o Espírito aprende a ser bom..
Hoje, no plano físico, o homem corre em busca das coisas materiais.
235
- Marry, esta sua comparação recorda-me o Eclesiastes, Capítulo
IV, versículo 1°.: Voltei-me para outras coisas e vi as operações que se
fazem debaixo do sol, as lágrimas dos inocentes e que ninguém os consola,
nem eles podem resistir à violência, visto estarem abandonados de
todo socorro.
- É linda, Luiz, esta passagem do livro Eclesiastes. Gosto também
do versículo 17, desse mesmo Capítulo: Vê onde pões os pés. Vale dizer:
cuida de proceder de acordo com as instruções recebidas. De que adianta
ouvir e não obrar? Deus não aceita sacrifícios e sim renúncias. No versículos
14 e 15 do Capítulo V, encontramos: Do modo que ele saiu nu do ventre de
sua mãe, assim mesmo sairá desta vida, e não levará nada consigo do
seu trabalho. Isto é uma desdita inteiramente lamentável; do modo que
veio, assim voltará. Ainda encontramos, no Capítulo XII, versículo 14: E
(lembremo-nos que) Deus fará dar contas no seu juízo de todas as faltas
e de todo o bem e malfeito. E o homem encarnado briga, calunia, mistifica,
enfim, brinca com Deus, esquecendo que cada ser tem de prestar contas dos
seus atos.
Olhei o vaivém dos alunos e me recordei de quando aqui vim pela
primeira vez. Quantos anos já se passaram! Quanto aprendi! Quem acompanha
a minha trajetória deve perceber o quanto lutei para passar para os
leitores o aprendizado que fui alcançando. Agora, mesmo aprendendo muitas
coisas, ainda não perdi a minha personalidade. Sou o mesmo Luiz Sérgio
de ontem, irmão de todos e amigo daqueles que desejam encontrar na Doutrina
Espírita a verdade. Não tenho intenção de ser amado pelos leitores,
apenas uma grande preocupação: a de levar até eles tudo o que aprendo..
- Luiz, olhando este belo jardim e ouvindo o irmão falar dos seus
leitores, assusta-nos, e muito, o que vem ocorrendo no meio espiritista.
- Não entendi, Marry. ;
- Luiz, Allan Kardec, quando escolhido para codificar o Espiritismo,
o fez dentro de um critério divino. Ele não se envaideceu nem
desejou tornar-se conhecido. Ele apenas tentou, desesperadamente,
236
realizar um trabalho digno e verdadeiro. Aí está a beleza da Doutrina Espírita.
Ao ler os livros doutrinários, o homem não se preocupa com o nome
de quem os escreveu nem com quem recebeu as mensagens. E hoje não
é assim. Existe uma vaidade muito grande entre os médiuns; eles desejam,
logo que iniciam, escrever e se tornarem conhecidos. A Doutrina é a
Doutrina e a obrigação de qualquer médium é estudá-la. Se ele estuda,
não tem a preocupação de colocar nomes conhecidos nas suas mensagens.
- É verdade, Marry. Quantos médiuns já disseram que recebiam
André Luiz, Emmanuel, Joanna de Ângelis, Bezerra, e os seus livros se perderam
na brisa do esquecimento; perpetuaram-se apenas as obras dos seus
verdadeiros médiuns, escolhidos por eles para essa tarefa.
- E depois, Luiz, existem Espíritos preparados para transmitirem as
mensagens, mentores dos próprios médiuns. Ambos-Espíritos e médiuns
-, munidos de vaidade, despreparados, colocam em seus escritos nomes
respeitados e conhecidos.
-Marry, já falei tanto sobre isso que até cansei.
- A Universidade Maria de Nazaré existe para educar o Espírito, e
as Casas Espíritas, para evangelizar quem as busca. Portanto, elas têm por
dever orientar os seus médiuns sobre o perigo do deslumbramento.
-Deslumbramento?
- Sim, Luiz. Quase todos os médiuns, iniciantes ou não, podem cair
no ridículo de usar nomes conhecidos, para "sair do anonimato".
- Tarefa não é missão, tarefa é trabalho. Conhece-se o trabalhador
por suas obras. Quem recebeu de Deus uma tarefa tem de torná-la uma bela
obra divina.
- Aí está a diferença, Luiz. Nem todos os que se dizem obreiros do
Senhor realizam algo em Seu nome. Julgam-se tarefeiros, mas a vaidade e a
ganância lhes fazem companhia.
237
Estávamos apreciando o jardim da Universidade, e quem veio ao nosso
encontro ? Irmão João e Corina.
- Luiz Sérgio, que bom vê-lo de novo entre nós!
Corina abraçou Marry; João, respeitosamente, cumprimentou-a.
- Assim que pudermos o visitaremos, João - informou Marry.
Olhando-nos com aquele olhar tão querido, irmão João sorriu tristemente:
- Luiz Sérgio, cuidado. As aves têm ninhos e Deus ampara os quelutam pela verdade, mas abutres fazem tudo para atrapalhar o seu caminhar.
Marry comentou:
- João, no livro de Jeremias, Capítulo VI, versículos 10-11, encontramos:
A quem falarei eu? A quem conjurarei que me ouça? Os seus
ouvidos estão incircuncidados, não podem ouvir; a palavra do Senhor
tornou-se para eles um motivo de opróbrio, não a receberão. Por isso é
que eu estou cheio de furor do Senhor, estou cansado de sofrer.
João permaneceu calado e logo perguntei:
: - Alguém pode explicar esta passagem?
- Incircuncidados quer dizer insensíveis, incapazes de ouvir a lei de
Deus; e assim o profeta não sabe a quem falar - explicou-nos irmão João.
- Agora compreendi. Também, explicado pelo irmão!...
Ele sorriu e Corina nos cumprimentou pelo estudo do Evangelho. Logo
após, eles se despediram e Marry, olhando aqueles dois belos Espíritos se
afastarem, disse-me:
- Querido Luiz, basta de apreciarmos a natureza. Vamos até os nossos
irmãos que nos esperam, e saber o que eles têm para nós.
Estava tão curioso, que tive vontade de gritar:
- Nós amamos vocês!
238
Percebi, junto a nós, um canteiro de gramas formando a seguinte frase:
"Nós amamos você", que muito representa para mim, pois me coloca novamente
diante da Universidade Maria de Nazaré.
Este é um lugar aonde todos os Espíritos sonham chegar, mas poucos
renunciam o suficiente para receber esse prêmio. Em uma determinada sala,
encontramos Elvino e Hortência que, com carinho, nos receberam.
- Irmãos, este é o Luiz Sérgio, aluno da Universidade, que presta
serviço nos umbrais e leva até o plano físico as suas experiências.
Hortência me saudou:
- Que Deus nos ampare hoje e sempre. Feliz o Espírito que luta pela
perfeição, que não se detém diante das dificuldades. Acompanhamos o seu
trabalho e oramos para que o irmão continue ajudando seus irmãos.
com emoção, escutamos a nossa irmã, não só a nos dar as boasvindas,
como a nos alertar para os perigos que podem ocorrer com os
Espíritos que trabalham junto aos encarnados. Ela falou que nada deve
nos barrar os passos; que mesmo decepcionados, tristes e às vezes até
magoados, os tarefeiros têm de entregar o cajado da missão cumprida
nas mãos de Jesus; que os Espíritos que trabalham junto aos encarnados
têm de compreender que a vaidade e o egoísmo ainda são o grande mal
da Humanidade; que é mais fácil comprar uma casa pronta do que construí-la
desde o alicerce; que todos aqueles que fizeram alguma coisa para
o próximo encontraram muitas pedras de tropeço. E continuando sua
orientação, Hortência esclareceu:
- João Batista, por respeitar as palavras de Deus e procurar passálas
a Herodes, foi decapitado. O próprio Jesus Cristo, o Governador do
planeta, foi julgado por um Sinédrio relapso e sanguinário, que O pregou
em uma cruz. Imaginemos o homem pecador que deseja servir ao Cristo,
o que ele encontra no seu caminho: vaidade, vaidade, apenas vaidade,
porque é mais fácil comer a uva no pé, do que plantar a videira. É muito
mais fácil comer a maçã madura, do que plantar a macieira.
239
-Irmã Hortência, obrigado, muito obrigado, estava precisando ouvir
as suas palavras.
- Luiz, se o Cristo, ao ser crucificado, pedisse a Deus que O tirasse
do Seu posto de Governador da Terra, o que seria de nós, os Seus irmãos?
Quando Hortência parou, Elvino continuou:
-Luiz Sérgio, se hoje você parasse de escrever, poderia se considerar
um vitorioso, porque muitos jovens deixaram as drogas por sua causa e
muitas mulheres não fizeram aborto ao lerem o seu livro Deixe-me viver. As
tarefas são intransferíveis, mesmo as que nos parecem insignificantes. Consultamos
a sua ficha e com alegria vimos o alcance dos seus livros, não só
entre os jovens, mas também chegando às mãos de pessoas de todas as
idades. Quando foi lançado Na Esperança de uma Nova Vida, os espíritas
se assustaram com o seu linguajar simples. O seu jeito jocoso agradou aos
leitores. Agora, para a sua família e os seus amigos, era você que voltava ao
plano físico. Quem o conhecia não teve dúvida, era o mesmo Luiz que estava
de volta, como ele era: jovem, e às vezes até exagerado. Não é um livro, dois
ou três, escritos por você; hoje o irmão tem uma obra. E para que ela se
tornasse respeitada, precisou de firmes alicerces. Como todo edifício parte
de uma base sólida, só devemos nos preocupar com essa obra. As pinturas,
os adereços, o tempo vai provar se são ou não verdadeiros. O que está
faltando na Doutrina Espírita é a cura da alma. Enquanto o homem estiver
doente, os seus passos serão difíceis. Mas, para curar-se, a alma deve procurar
o Consolador e se esforçar para dissipar suas tendências malignas pela
brisa do Evangelho de Jesus. A caminhada é longa e repleta de atalhos e o
viajante atento deve estar sempre preparado. Nada deve pegá-lo desprevenido.
As obras do médium Francisco Cândido Xavier estão aí, e a cada dia
são mais e mais respeitadas e amadas. Onde estão os outros médiuns que
psicografam com os Espíritos missionários que escrevem com o Chico? As
obras de outros médiuns, escritas por Emmanuel, André Luiz, perderam-se
no esquecimento. A obra de André Luiz é um farol de luz na Doutrina Espírita.
Os livros de Emmanuel, psicografados através do Chico, formam um
alicerce de paz e conhecimento na biblioteca espírita. Luiz Sérgio, o Cristo
240
continuou sendo o Cristo, mesmo crucificado entre dois ladrões. Ele escreveu
no livro da Humanidade o Seu nome de glória. Hoje o chamamos aqui
para cumprimentá-lo e para lhe dizer que prossiga a sua tarefa, lembrando-lhe
para ler, no livro Eclesiástico, o Capítulo XXXVII, versículos 19-27:
Mas, sobretudo, pede ao Altíssimo que dirija o teu caminho em
verdade. Preceda todas as tuas obras a palavra verídica, e antes de
toda ação um conselho estável. Uma palavra má transtornará o coração:
dele nascem quatro coisas, o bem e o mal, a vida e a morte, e sobre
elas quem domina de contínuo é a língua. Há homem sagaz que ensina a
muitos, e para a sua alma é inútil. Um homem prudente instrui a muitos,
e para a sua alma é suave. Aquele que usa duma linguagem sofistica
é digno de que o aborreçam: este tal em toda a coisa ficará defraudado.
Não lhe foi dada pelo Senhor a graça: pois se acha destituído de toda a
sabedoria. É sábio o que é sábio para a sua alma: e o fruto da sua
sabedoria é louvável. O homem sábio instrui o seu povo e os frutos da
sua sabedoria são fiéis. O homem sábio cheio será de bênçãos, e louválo-ão
os que o virem.
Enquanto eles falavam, as lágrimas corriam pelo meu rosto e a nossa
instrutora Marry tudo fazia também para conter o pranto. Hortência continuou:
- Chamamos o irmão para prepará-lo para o futuro, porque muitos
acontecimentos desagradáveis surgirão no seu caminho.
- Obrigado, irmãos, espero contar sempre com a ajuda dos amigos;
e vocês, que sabemos velarem pelos Espíritos que labutam na Crosta da
Terra, orem por nós.
- Luiz, a palavra de Deus é semente fecunda. Em Isaías, Capítulo
LV, versículos 1-3, encontramos: Oh! vós todos que tendes sede, vinde às
águas! Mesmo que não tenhais dinheiro, vinde. O alimento gratuito e
confortante é a palavra de Deus, no versículo 11: assim acontece com a
palavra que sai de minha boca: não volta para mim chocha sem ter
realizado a minha vontade, sem ter cumprido a sua missão. Também em
241
Provérbios, Capítulo IX, versículos 4-6, lemos: quem for simples venha a
mim. Ao insensato ela diz: Vinde comer do meu pão e beber do vinho
que misturei. Deixai a insensatez e vivereis, segui o caminho da prudência.
Cumprimentamos aqueles dois irmãos e dali nos retiramos, calados.
Foi Marry quem quebrou o silêncio:
-Luiz, o irmão não deve estar compreendendo o porquê da orientação
dos nossos irmãos.
- Sim, Marry, estou até ficando preocupado.
- Queremos apenas que você se conscientize do valor do seu trabalho
e que seja fiel a tudo o que lhe é permitido transcrever, porque os livros
espíritas existem para orientar o homem e lhe curar a alma. Eles não existem
para envaidecer médiuns que os psicografam, pois não pertencem ao médium,
e sim aos Espíritos. Desejar apenas vender livros é brincar com o
Espírito Santo.
- Quanto a isso, irmã, fico descansado, pois a minha maior preocupação
é com os leitores. Luto para que tudo o que chegar às mãos
deles tenha saído do Departamento da Psicografia, sendo essa a causa
dos meus livros demorarem tanto a ser publicados: eles sofrem uma censura
severa dos mentores da Casa de Maria. Às vezes, ficamos impacientes
com a demora, mas Deus conhece as minhas limitações.
- Luiz, engana-se quem julga que basta desejar para psicografar.
- É isso mesmo. Tudo tem de obedecer a uma disciplina dura. A
médium com quem psicografo tem livros escritos há vinte anos, que ainda
não foram liberados. Ainda bem que é assim, porque Espírito não contrata
advogado nem pode fazer exame de DNA.
Marry sorriu:
- Você é demais, Luiz, brinca até com coisas sérias.
-É verdade, Marry, como pode o Espírito provar que o filho não é dele?
242
- Irmão, o leitor estudioso conhece o estilo da escrita e jamais será enganado.
- Não sei, não, Marry, quantos homens inteligentes julgam que um
filho é de alguém, quando não é.
- Não brinque, Luiz, o assunto é sério e necessita ser analisado. Não
é justo o que alguns médiuns vêm fazendo, colocando nomes de Espíritos
conhecidos nas mensagens que recebem.
- Irmã, até Jesus e Maria vêm psicografando.
- - Tem razão, são esses tristes fatos que desmoralizam a Doutrina. O
certo foi Allan Kardec, que ignorou quem segurava o lápis, só se interessando
pelos que elaboraram a Codificação.
-Infelizmente, os tempos mudaram.
Nisso, alguém aproximou-se de nós.
- Como vai, Luiz?
Abracei o amigo Carlos e ele, respeitosamente, beijou as mãos de Marry.
- O que faz aqui, Carlos?
-Estou trabalhando nos departamentos científicos. ""...','!."
- Então não tem acompanhado os Raiozinhos de Sol?
- Não. Hoje quem acompanha o Enoque são psicólogos, psiquiatras, psicoterapeutas, enfim, Espíritos que tratam de doentes da mente.
- Está certo, os dependentes são mesmo doidões. , ; >
- E você, amigo, como está? Sempre alegre e feliz?
Marry respondeu por mim:
- O Luiz continua o mesmo garoto querido e amigo, que busca desesperadamente
crescer; e para que isso ocorra, trabalha... trabalha... e trabalha.
243
- Quando desejar, dê uma chegada até o Departamento de Cura
para conversarmos.
- Obrigado, Carlos, mas estou fazendo muitos cursos e o tempo é
pouco para tanto trabalho.
Ainda conversamos muito com aquele grande amigo, médico querido
de muitos encarnados. Ele nos fez lembrar a Comunhão Espírita de Brasília,
onde trabalhava no grupo de cura. Acreditamos que quando terminar os seus
cursos ele voltará àquela querida Casa, onde sempre trabalhou. Agora ele
deve estar buscando novos recursos para melhorar a vida dos encarnados.
Quando Carlos se retirou, Marry segurou bem forte o meu braço, dizendo:
- Admiro o seu amor pelas pessoas que passam pela sua vida.
- Marry, adoro todos aqueles que me ajudaram e que ainda me ajudam
a escrever o livro da minha vida, livro esse que entregarei a Deus, um
dia. São criaturas que amo muito e a nenhuma delas poderei esquecer.
-Luiz, muitos perguntam por que o irmão deixou de escrever com a
médium Alayde.
- Alayde foi o farol, a mão amiga, o beijo suave, o amor irmão, o
riacho humilde que molhou meus lábios ressequidos de saudades, Marry. Foi
o primeiro porto seguro, o barco amigo que me socorreu naquelas horas de
torpor, que ocorrem com todos os que deixam o corpo físico, principalmente
como deixei o meu. Alayde foi a primeira amiga, a orquídea da minha vida
espiritual. Não deixei de psicografar com Alayde, a doença é que tirou Alayde
do meu caminho, impossibilitando-a de psicografar. Sabe, Marry, quando
Alayde parou, Irene já estava sendo preparada para fazer esse trabalho comigo.
No início, Irene relutou muito em contar para a sua família e também
para a nossa que recebia minhas mensagens.
- Achamos ótimo você esclarecer esse fato.
-Sei que vários leitores escrevem, perguntando por que deixei Alayde.
Tudo na Espiritualidade obedece a uma disciplina rígida, e a psicografia é
uma das mais duras. Sempre vou visitá-la e ela, sentindo a minha presença,
244
chora baixinho. Sabemos que logo ela estará deixando o corpo físico, (5) corpo
esse que muito a maltratou. Mas Deus me dará condição de estar ao seu lado
na hora suprema; quero abraçá-la bem forte e demonstrar-lhe o quanto a
amo. Alayde recebeu a tarefa de me guiar os primeiros passos no mundo
espiritual, e Irene recebeu a tarefa de, juntos, iniciarmos uma campanha contra
as drogas. E você bem conhece as dificuldades desse trabalho; quando o
iniciamos, nem o mundo espírita o aceitava. Era crítica de todos os lados.
Mas, tudo o que escrevi hoje tornou-se tão comum... Alertei que o Brasil
corria o perigo de se transformar na rota da droga, e hoje os traficantes
dominam e assustam a sociedade brasileira com seus atos de violência. E o
nosso país querido, que foi escolhido por Deus para tornar-se a Pátria do
Evangelho, está sofrendo por ver as suas crianças se prostituindo para comprar
drogas. No livro Driblando a Dor fiz novo alerta, mas alguns disseram
que tudo o que eu escrevera era pura fantasia.
- Sua tarefa não é fácil, Luiz. No mesmo momento em que você trata
de alertar a sociedade para o perigo das drogas, assiste a aulas na Universidade
e fala sobre Doutrina e mediunidade.
- Marry, procuro fazer um trabalho sério, mas para isso preciso de
ajuda e de oração. Às vezes, quando fatos desagradáveis acontecem, temo
ter de parar, e oportunidades não devemos deixar passar. Luto para bem
realizar o meu trabalho e hoje quero pedir ao leitor amigo que me ajude com
suas preces de carinho e respeito. Quando o vendaval me ameaça, leio o
livro de Ezequiel, Capítulo XII, v. 21-28: A palavra do Senhor me foi
dirigida nestes termos; que tendes na terra de Israel? Os dias vão passando
e todas as visões se desvanecerão. Por isso, dize-lhes: Assim diz o
Senhor Deus: Acabei com este ditado. Não mais o repetirão em Israel!
Ao contrário fala-lhes: Estão próximos os dias e o cumprimento de todas
as visões. Pois não haverá mais nenhuma visão ilusória, nem previsão
5 N.E. - Alayde de Assunção e Silva, médium do livro O Mundo que Encontrei, desencarnou em
15/11/1999, em São Bernardo do Campo, São Paulo, aos oitenta anos de idade.
245
enganadora dentro da casa de Israel. Porque eu, o Senhor, falo o
que eu quero e se cumprirá sem demora. Antes, é nos vossos dias,
corja de rebeldes, que eu cumprirei tudo que digo. A palavra do Senhor
me foi dirigida nestes termos. Filho do homem, olha, a casa de
Israel anda dizendo: As visões que este homem tem são para os dias
futuros. Por isso, dize-lhes: Assim diz o Senhor Deus: já não será
protelada nenhuma de minhas palavras. O que eu falar se cumprirá.
Estes versículos do livro de Ezequiel são lindos. Sempre os leio, têm
muito a ver com Espiritismo.
Continuamos a conversar, até que Marry retirou-se. Busquei o jardim,
olhando-o com carinho, e fiquei pensando em Alayde. Pegando o violão,
cantei esta canção, feita para a querida amiga:
Seu corpo forte
Que hoje o tempo maltrata
Foge da morte
A doença nunca mata "" '
Seu corpo amigo
Feito pedra, feito pó, feito fibra
Está sempre comigo '
com você meu coração vibra
Seu corpo cansado ,
Pede paz, pede carinho
E o Mestre amado
,; Sempre mostra o Seu caminho ,,
Seu corpo doente
A luz de Deus o ilumina
E você tão diferente, tão menina
Corre pra meus braços
Sorrindo tão contente
Sorrindo, sorrindo, tão contente.
246
Terminei com as lágrimas correndo pelo meu rosto e ali'fiquei, apreciando
a beleza da Universidade Maria de Nazaré, o seu movimento, e não
pude deixar de sorrir, lembrando que muitos encarnados julgam que não
terão de responder pelo que fizerem; que ao pedirem perdão ele virá, e esquecidos
serão os seus erros. Pobres coitados! Assustados, verão que a
justiça de Deus é verdadeira, e aquele que erra tem de corrigir todos os seus
erros. Como é fácil pensar que nada existe depois do túmulo, e deixar as águas rolarem, nada fazendo pela própria melhoria! As pessoas levam muito
susto quando se apalpam e sentem que a morte não ceifou sua alma, que é
eterna.
247
CapítuloXX '
ENCONTRO CONSOLADOR
Tudo apreciando, não percebi que alguém, muito querido, estava me
observando. Mas os bons Espíritos possuem intenso magnetismo no olhar, e
me senti observado. Busquei logo a dona daquele olhar. Ela me sorriu.
-Como vai, Luiz, aproveitando bem as lições junto a Marry ?
- Oh, irmã Francisca Theresa, perdoe-me o susto; é que estava pensando,
ou melhor, recordando quando aqui cheguei pela primeira vez, deslumbrado
com tantos ensinamentos. E muito devo à irmã, que me ensina a
cada dia.
- Quando o irmão adentrou esta Casa de aprendizado, o seu Espírito
ouvia o grito de Jesus na cruz: Tenho sede! Estas palavras acendiam no irmão
um ardor desconhecido e muito vivo. Querendo dar de beber ao nosso
amado Mestre, o seu coração de bom menino sentiu-se devorado pela sede
dos sofredores e não relutou em entregar-se ao trabalho. Feliz, Luiz, o homem
que não corre das responsabilidades por covardia. Ninguém deve deixar
na beira do caminho a sua cruz. Quando chamados ao trabalho do Cristo,
devemos oferecer o nosso coração a Ele, a fim de que se realize em nós
a Sua vontade, sem que as criaturas jamais venham a colocar obstáculos; se
isso ocorrer, devemos lembrar que nossa união com Jesus não se realizou
entre trovões e relâmpagos, mas sob o sopro de uma suave brisa, semelhante
249
à que Elias ouviu no monte Horeb, em IIIReis, Capítulo XIX, versículos 1214:
Depois do terremoto houve fogo, mas o Senhor tampouco estava no
fogo. Finalmente, passado o fogo, percebeu-se uma brisa suave e amena.
Quando Elias apercebeu, encobriu o rosto com o manto e saiu, colocando-se
na entrada da caverna. Então uma voz lhe falou: O que estás
fazendo aqui, Elias? Ele respondeu: Estou zeloso pelo Senhor Deus todo
poderoso. É assim, Luiz, que temos de nos sentir quando o Cristo é nosso
amigo e mestre, se Ele nos chamou e nos concedeu uma tarefa, mesmo nos
sentindo fraca avezinha, apenas revestida de leve penugem. Não perguntemos:
por que nós fomos chamados; por que o Mestre não entregou tal tarefa
aos grandes Espíritos, às águias que planam nas alturas? O Cristo, Luiz, como
Mestre dos mestres, conhece a alma das criaturas e delas só espera amor,
amor e amor. Contente-se em não ser uma águia e lute para que, mesmo
sendo uma areinha do caminho de Jesus, o sol da verdade venha e projete a
sua luz sobre você. Não gostaríamos, Luiz, de sermos chamadas de águia,
sentimo-nos felizes em sermos chamadas de areinha, pois junto a milhões de
outras podemos formar um todo e muito fazer pelo trabalho do Senhor.
Emudecido pela emoção, ouvia Francisca Theresa, que com carinho
dava ao meu Espírito muito consolo. Ela prosseguiu:
- Devemos, Luiz, procurar agradar a Jesus e amá-Lo como jamais
foi amado. O nosso único desejo é fazer sempre a vontade dele, enxugando
as lágrimas que os pecadores O fazem derramar. Devemos esquecer-nos de
nós mesmos e procurarmos converter, curar todas as almas erradas da Terra,
estando elas no plano físico ou no mundo espiritual, não nos importa;
importa, sim, que cheguemos até elas. Quando o coração se entrega a Deus,
não perde sua ternura natural, pelo contrário, esta ternura cresce, tornando-se
mais pura e mais divina. Não pensemos que, por servir ao Senhor, estaremos
isentos dos obstáculos; é necessário que venhamos a compreender que
todas as dificuldades se desvanecem diante da nossa fé e da nossa lealdade
a Jesus. Nós, Luiz, quando nos oferecemos ao trabalho do Senhor, não calculávamos,
então, quanto seria preciso sofrer para chegar aonde chegamos.
Mas como valeu a pena não ter jogado a cruz na beira do caminho! Luiz, às
250
vezes o vemos cabisbaixo; não se entristeça com coisa alguma, o nosso amado
Jesus não tem necessidade que os Seus trabalhadores preguem com palavras
difíceis o Seu Evangelho, para demonstrarem cultura. Ele, Jesus, tem
as Suas legiões de Espíritos celestes, cuja ciência ultrapassa infinitamente a
dos maiores gênios da nossa triste Terra. Jesus, Luiz Sérgio, ama a simplicidade,
e o que fazemos só temos de prestar contas a Ele. E Ele, Jesus, oh! se
quisesse lançar por escrito tudo o que sabe, sublimes páginas teríamos para
ler. Mas não o fez. Ele deseja que cada um de nós torne-se uma carta viva
dos Seus ensinamentos. E depois, Luiz, cada um dos filhos de Deus recebeu
um talento, e ai daquele que impedir alguém de progredir! A oração não é,
por assim dizer, maior que a palavra? A nossa missão, como irmãos de Jesus,
trabalhadores da Sua Seara, é a de formar operários da Caridade, curar
almas doentes e transformá-las para o Senhor. Esse, Luiz, é o seu trabalho,
trabalho que ninguém pode impedir o irmão de realizar. A nossa tarefa não é
a de ir ceifar nos campos de trigos já maduros, mas é também sublime: ver os
corações vazios e enchê-los de fé, de humildade, de amor. Um só que venhamos
a salvar, o Cristo irá sorrir. Mesmo conhecendo as nossas capacidades
e sabendo que ainda não somos perfeitos, devemos lutar, e muito, para
levar as palavras de Jesus e plantar em terras infiéis a semente do amor.
Temos necessidade de realizar, por Jesus, todas as obras, principalmente
aquelas que testam em nós a humildade.
- Irmã, porque acontecem fatos tão desagradáveis, que tanto mal
causam a todos?
- A blasfêmia dos imperfeitos ressoa dolorosamente em nossos ouvidos.
Que fazer? Implorar ao Senhor a graça de trabalhar junto aos que
precisam, mesmo nos considerando pequenos demais para fazer grandes
coisas e jamais esperar aplausos, pois a alma pequena só deseja um olhar de
amor. E depois, só mesmo Deus conhece a fundo os corações. O Senhor
sempre Se serviu de Suas criaturas, como instrumentos para a execução de
Suas obras nas almas. Sem as obras, as mais elaboradas palavras nada são;
como o fariseu, assemelham-se aos que morrem de fome diante de bem
servida mesa, enquanto todos os seus convidados aí encontram abundante
251
nutrição e lançam, por vezes, um olhar de inveja ao possuidor de tantos bens.
Luiz, muito nos ensina a Doutrina Espírita. Como é bela a nossa Doutrina!
Em vez de tornar insensíveis os corações - como o mundo crê - ela o eleva e os torna capazes de amar, de amar com amor quase infinito, visto que
nos ensina que existe vida após a vida, que nos é dada para adquirirmos a
Pátria dos Céus, onde tornaremos a encontrar os seres queridos que tivermos
amado na Terra. Quem conhece a Doutrina não pode viver brincando
com os Espíritos, pois disse Jesus: ai dos que brincarem com o Espírito
Santo! Meu irmão Luiz Sérgio, como gostaríamos de derramar em seu coração
o bálsamo do consolo! Como nos sentiríamos felizes se o irmão tentasse
persuadir-se de que todos esses fatos desagradáveis, que vêm ocorrendo,
farão com que o irmão trabalhe mais na Seara do Cristo, e que Ele não o
deixará jamais, pois já marcou com o dedo aqueles cujo devotamento é
apenas aparente, aqueles que não respeitam os Espíritos e brincam usando
os seus nomes. Porém, àqueles que não recuaram diante das suas tarefas é
que Ele, Jesus, vai confiar as mais difíceis, pois agora é a hora em que todos
teremos de cooperar para a regeneração do planeta. Jesus mesmo nos orientou
para que fôssemos cautelosos, pois os falsos profetas tudo farão para
atrapalhar a marcha do Espiritismo. Acreditamos no irmão e colocamos sobre
os seus ombros a responsabilidade dos nossos trabalhos. O irmão tornou-se
querido por alguns leitores, mas o seu trabalho é muito maior do que
as pessoas julgam, a sua tarefa é transformar almas, salvá-las, orientá-las, e
não apenas vender livros. Pode unir-se intimamente a Deus um coração entregue
à vaidade e às coisas do mundo físico? É tão fácil conhecer os trabalhadores
do Senhor! A fascinação das bagatelas do mundo seduz até as
almas afastadas do mal, como vemos em Sabedoria, Capítulo IV, versículo
12: Porque a fascinação das rivalidades escurece o bem, e a inconstância da paixão transforma os espíritos inocentes.
- Irmã Francisca, não compreendo como pode alguém que já chegou
à Casa Espírita não respeitar os Espíritos.
- Irmão, em todas as religiões existem aqueles que acreditam em
Deus, mas a leve brisa, cujo murmúrio o profeta Elias ouviu no monte Horeb,
252
não lhes tocou o coração; dizem crer, mas nada fazem para serem dignos da
sua crença. O verdadeiro homem de fé recebe a força ao sofrer, pois no
caminho da perfeição o viajor não está isento de calúnias, das maledicências,
da traição, das mentiras. Para enfrentar o árduo caminho é que o CristoIrmão
coloca em nossos ombros a Sua iluminada cruz, para ir clareando o
nosso caminho e nos livrando dos obstáculos colocados para nos desviar da
estrada do Mestre. Nada deve atrapalhar a caminhada de um servidor fiel a
Ele. Deve valer-se das coisas pequenas, fazendo-as por amor, porque, se
desejar as grandes tarefas, deixará de realizar os pequenos gestos de amor.
Oh! como nos custa dar a Jesus o que Ele nos pede! Mas qual a felicidade
que não custa tanto? Que alegria inefável levar as nossas cruzes, sentindo
que a mão do Amigo e Mestre nos está ajudando.
- Irmã Francisca, sempre leio o Salmo L, versículos 11-14: Desvia
tua face de meus pecados e apaga todas as minhas faltas! Ó Deus, cria
em mim um coração puro e suscita em meu peito um espírito resoluto!
Não me rejeites de tua presença nem retires de mim teu santo espírito!
Concede-me o gozo de tua Salvação e um espírito generoso que me
ampare. E Ele sempre me ouve, pois todas as vezes que me encontro preocupado
a irmã vem em meu auxílio e muito me consola.
- Luiz Sérgio, esse Salmo didático é feito em forma judicial entre
Deus e Seu povo; destina-se a uma ocasião litúrgica e contém uma violenta
crítica contra o formalismo do culto judaico e à infração da lei divina. Deus
não atua como juiz, no sentido humano, mas como parceiro que persuade
seu povo a confrontar sua conduta com as exigências da aliança, tomando
por norma o Decálogo. O culto externo prestado a Deus só tem valor quando
acompanhado de sentimentos cristãos de fidelidade à lei divina em relação
aos direitos de Deus e do próximo. Desde que a nossa felicidade é
calcada na infelicidade do próximo, não somos criaturas de Deus. E depois,
Luiz Sérgio, não devemos ficar encontrando sofrimento em nós; pensando
no passado ou no futuro, perderemos a coragem e nos desesperaremos, e
muito teremos ainda de caminhar na senda estreita de Jesus. Antes de conhecer
o Mestre, adorávamos sofrer ou queixar-nos dos sofrimentos; depois
253
que O encontramos, dele fizemos a nossa alegria. O que nos deixa contentes
é unicamente a vontade do nosso Deus e Ele não criou o sofrimento nem
a tristeza. Cada um tem de carregar a sua cruz, mas se olharmos para o lado,
veremos que o Cristo está ao nosso lado, dando-nos força e coragem.
- Irmã, ajude-me no cumprimento da minha tarefa.
- Como Jesus disse certo dia a Pedro: apascenta meus cordeiros,
dizemos, Luiz Sérgio, não somente para apascentar os pedaços da minh' alma,
como também que o irmão procure estar junto deles, caminhando lado a
lado, sem deixar de ser criança, distribuindo sorriso e carinho, jamais querendo
crescer. Jesus não gosta das coisas grandes, Ele adora as areinhas do
Seu caminho. Gostamos do Luiz Sérgio alegre e menino, curioso e fiel à sua
fé. Que Deus o abençoe e que Jesus, o nosso Mestre amigo, sempre nos
ajude a carregar a nossa cruz. Felicidades no seu trabalho. A chuva, por mais
forte que seja, não estraga um telhado bem feito nem os ventos fortes derrubarn
uma casa com firme alicerce. Alguns respingos da chuva podem incomodar,
mas o sol da verdade, ninguém conseguirá ofuscá-lo. Deus o abençoe..
Abraçou-me com carinho. Apenas murmurei:
- Irmã Francisca, nós amamos você.
! - Nós o amamos muito mais. ^
Permaneci cabisbaixo. As lágrimas molhavam meu rosto e ela, cantando uma bela canção, foi-se retirando. Levantei a cabeça para olhar aquele
Espírito tão amigo de todos nós. Depois de passada a emoção, saí correndo,
dando pulos e socos no ar. Foi quando dei de encontrão com ele, o nosso Enoque.
- Que fúria, parece até que viu Jesus!
- Quem me dera! Mas conversei com alguém que já plasmou o Cristo
em seu coração.
- FranciscaTheresa!
254
-Adivinhou!... - falei, rindo. Mas, Rayto, que satisfação em vê-lo
mais uma vez! Como andam as aulas, sempre proveitosas?
- Sim, Luiz, as turmas estão enormes. Como os jovens estão suicidando-se!
- Qual vem a ser a causa?
- Falta de sonhos.
- Rayto, você tem ido até o plano físico?
- Muito pouco. O nosso trabalho aqui na Universidade não nos permite
ir até o plano físico. Só vamos até a crosta em ocasião especial, isto é,
quando os Raiozinhos precisam da nossa presença.
- Enoque, agradeço a Deus me ter permitido trabalhar ao seu lado.
Como aprendi com você e com os outros amigos!
- É Luiz, já naquela época nos preocupávamos com tudo isso que
está acontecendo, e iniciamos um trabalho espírita. com pesar, constatamos
que não fomos compreendidos. Muitos espiritas ortodoxos só souberam criticar,
dizendo que a médium era fantasiosa, que tudo o que você narrava nos
seus livros era mentira. Diziam, ainda, que o tóxico era assunto de polícia, e
não dos espíritas. E agora, o que estamos presenciando? Uma sociedade em
pânico com o avanço do tráfico.
- É, Enoque, felizmente, muitos aceitaram meus livros e nos ajudaram,
a mim e a Irene, através de suas preces.
- Luiz, os pais ou querem parecer ingênuos, ou não acompanham o
noticiário policial, julgando que os seus filhos ainda são santas crianças. O
que vem ocorrendo no Brasil é constrangedor. E ainda existem criaturas que
desejam ignorar os fatos...
- Sei que você trabalha na Universidade e por amor aos jovens também
faz esse trabalho de ajuda aos dependentes.
- Luiz, trabalhamos com os suicidas, e os dependentes são suicidas
inconscientes, você sabe disso.
255
- Você faz outro trabalho além desse?
-Não. O nosso trabalho é com jovens, e jovens suicidas. Não temos
tempo de ficar no plano físico ao lado de encarnados.
- Desculpe-me, Rayto, mas existem alguns médiuns que vêem você
em muitas Casas Espíritas, fazendo vários trabalhos, até no receituário e na psicografia.
- Enoque e Rayto são nomes que um médium pode dar ao Espírito
que com ele trabalha, sempre de acordo com a veracidade da sua
mediunidade. Portanto, que os leitores fiquem cientes de que o Enoque,
este seu amigo, não tem tempo para buscar médiuns no plano físico. O
nosso trabalho é o de socorrer Espíritos muito necessitados, e não o de
"desenvolver" mediunidade. Há muito, Luiz, você vem orientando os seus
leitores sobre o perigo dos falsos profetas. Luiz Sérgio, o Espiritismo é o
Consolador prometido, e quem trabalha na Doutrina tem de dignificá-la,
e não envergonhá-la. O trabalho de psicografia não é meu. O meu é com
os Raiozinhos, e para que você tome conhecimento do que vem ocorrendo
com os dependentes, convido-o a chegar até o nosso Departamento
de Trabalho. O irmão dispõe de tempo?
- Sim. Marry está em uma reunião com os instrutores e eu estava
passeando pelos jardins da Universidade.
- E por mercê de Deus, encontrou-se com Francisca Theresa...
- Sim, estava precisando do orvalho da esperança e do amor.
-Romântico, hem?
- Sempre fui. ,
Rayto segurou meus ombros e adentramos a Universidade. Logo estávamos
em um de seus departamentos, uma ala enorme, com várias salas de
aula e um pequeno auditório com uma sala de projeção. Sentamo-nos, e ele,
Rayto, conduziu a projeção dos filmes apenas com sua força mental. Na tela,
apareciam os fatos como se estivéssemos assistindo a um filme em três
256
dimensões. Os personagens quase chegavam até nós, de tão reais... Olhei para
o Rayto e ele, com seu belo sorriso, falou-nos:
-Logo, no plano físico, isto vai ser colocado em uso e o homem desfrutará
de mais um avanço da ciência. Aqui, no mundo espiritual, essas projeções
são como é a televisão, hoje em dia, no plano físico: coisa rotineira.
O filme mostrava uma turma de jovens: Áureo, Austin, Brites - uma
linda jovem, Carmelita e Catulo. Nisso, chegou Hostílio e ofereceu o tóxico.
Brites, a jovem alta, loura, de seus quinze anos, foi a primeira a pegar a droga.
- Ele está vendendo maconha? perguntei ao Enoque.
- Que maconha, que nada. Olhe bem e veja o que hoje está aumentando
o consumo entre os jovens.
Rayto fez com que no filme os jovens ficassem tão perto de nós, que
podíamos ver as bolinhas da droga.
O que é isso, alguma droga nova?
Marcador
- Essa droga é uma mistura de maconha com haxixe; as bolas são
menores do que uma bola de gude. Ali, bem próximo de nossos olhos, presenciamos aqueles jovens fumando
haxixe. E Brites, sentada no chão, pareceu-me estar consumindo LSD.
- Rayto, por que ela está assim, o haxixe causa essa reação?
- Luiz, o haxixe é tirado do sumo da Cannabis saliva e tem o the (delta-9-tetrahidrocanabinol, substância ativa da planta) muito mais forte. Ela
é uma droga perturbadora, que altera a percepção, atuando no sistema nervoso
central. Sua permanência no organismo é de aproximadamente quarenta
dias. Olhe bem as meninas. Vamos acelerar a fita.
Nisso, vimos Carmelita, que me pareceu drogada.
- Luiz, acredita-se que essa droga demore mais tempo para Sair do organismo das mulheres. ,
257
-E por que isso acontece, Enoque?
- Porque as mulheres têm mais células adiposas que os homens.
- Notei, Rayto, que Carmelita está aérea
- Sim, entre os malefícios do haxixe, estão a falta atenção, de
memória e a depressão.
> - Quem chega até essa droga pode livrar-se dela?
-Luiz Sérgio, a abstinência da droga no organismo causa irritabilidade,
insônia e falta de apetite. Aí é que mora o perigo: mulheres que não querem
engordar fumam o haxixe e param alguns dias, para perderem o apetite.
- Que loucura!
Olhava, assombrado, aqueles jovens que tinham tudo para serem felizes,
e estavam jogando fora as suas vidas.
- Enoque, o haxixe também é extraído da Cannabis satival
- Sim. O haxixe, como a maconha, é extraído do Cannabis saliva e
tem origem asiática; só que ele é muito mais forte que a maconha.
- E essa conversa de que a maconha não faz mal?
-Conversa de viciado e de traficante. Muitos viciados em maconha
dizem que ela e o haxixe não fazem mal, que são naturais. "Natureba é limpo.
-Agora, essa de misturar haxixe com maconha me assusta!...
- E o pior, Luiz, é que poucos se preocupam com a droga. Nos seus
livros, há muito, alertamos que um país não pode ter futuro, se a sua juventude
está doente.
- Será que alguém terá condição de sair dessa limpo?
- Duvidamos. A droga não só mancha a ficha do cidadão, como
destrói o seu corpo físico e danifica o seu perispírito. Todos os ex-viciados
gostariam de rasgar algumas páginas do seu livro da vida.
258
Afundado na poltrona, eu não perdia um só detalhe, abismado. O filme
continuava. Dali, aquele grupo saiu em disparada; o carro era dirigido por
loucos, loucos varridos.
- É por isso, Enoque, que nos fins-de-semana sempre encontramos
um carro abraçado a um poste.
A projeção era tão perfeita que me abaixava, pois parecia que o carro ia me atropelar. Saindo dali, aquela turma buscou as boates da cidade e foi misturando
tudo: álcool, droga e sexo. Enquanto isso, a sociedade dormia em paz.
Será que em paz? Não sei. Mas sei que os pais estão ignorando a vida de seus
filhos. Não é possível que uma mãe durma tranqüila, com sua filha de quatorze ou
quinze anos, até tarde da noite, na rua. Assim também os meninos. Como pode
um pai não se preocupar com seu filho? Um jovem de quinze anos é uma criança
e os barzinhos estão cheios deles. Pensando sobre tudo isso, indaguei:
- E a lei, Rayto, onde está?
-Guardada nas gavetas, Luiz. Se cada família construísse uma trincheira
contra as drogas, protegendo seus filhos, tudo seria mais fácil para a Espiritualidade.
Mas o que estamos vendo são poucas famílias os protegendo. Mesmo aqueles
que se dizem espíritas não estão preocupados em resguardar os seus filhos, que
estão nos bares, consumindo bebidas, fumo e drogas. Preferem seus filhos nos
bares do que nas Casas Espiritas, trabalhando para o próximo. Para nós, essas
pessoas não são espíritas, porque o espírita que não se preocupa com a elevação
moral dos seus filhos não conhece a Doutrina, pois ela coloca no jovem e no
velho o cajado da responsabilidade. E quem deseja se perder nas noitadas, dizendo
estar aproveitando a vida, não tem Deus no coração, pois não deseja a
perfeição. No Salmo LXX, versículos 17-18, encontramos: Ó Deus, tu me instruíste
desde a juventude, e até hoje proclamei teus prodígios. Agora na
velhice e de cabelos brancos, não me abandones, ó Deus, até eu anunciar
aos descendentes os feitos do teu braço, e às gerações vindouras teu poder!
Como é bom o jovem que luta para servir a Deus, que desde cedo conhece a
fragilidade de um corpo de carne e sabe quão grandes são as responsabilidades
do Espírito! E ainda mais felizes são os pais que levam seus filhos a Deus.
259
Rayto encerrou a projeção. Antes disso, ainda vimos aquela turma
aprontando bastante; as duas jovens, completamente drogadas, eram joguetes
nas mãos dos seus colegas.
-Luiz, a Terra é um planeta de criação divina; infeliz aquele que não
se tornar digno dela. Ela está progredindo, quem não acompanhá-la será
deportado e, em mundo inferior, aprenderá a lição amarga do remorso.
- Rayto, por que o homem é tão bobo? Todos os dias partem do
plano físico muitos encarnados, e eles não procuram saber para onde vão e
por que partem. Pensam que os seus corpos são eternos e ficam aprontando.
- Tem razão. E aqueles que lesam a Nação, que levam para seu
bolso aquilo que daria ao povo: educação, segurança e saúde? Será que
essas criaturas dormem em paz?
- Claro, Rayto. Na consciência deles não existe dignidade.
-Tem razão, Luiz. Como pode esperar o amanhã, ou buscar a Deus,
o homem cujas atitudes causam dores e sofrimentos?
-Essa gente é tal qual bicho: só no corpo físico, sem responsabilidade
espiritual. E o pior é que não são somente aqueles que não conhecem as
responsabilidades como Espíritos que são. Muitos que se dizem espíritas
brincam com os Espíritos, não os respeitam, e também não transmitem para
os filhos a moral espírita, os deveres daquele que foi apresentado a um Deus
bom e justo, a quem terá de apresentar a consciência, um dia.
-É mesmo. Como é triste defrontarmos com médiuns vaidosos, enganadores,
falsos profetas e espíritas que nada fazem de bom para a Doutrina;
fumam, bebem, são escravos do sexo e ainda se julgam donos da verdade.
Como os jovens podem crer, se não encontram exemplos nos pais? Rayto,
estou abobado. Como andam feias as coisas no plano físico! Depois desse
filme, gostaria de gritar bem alto: "segurem bem forte as mãos de seus filhos,
pais! Cuidado para não virem a chorar de vergonha!"
260
Rayto convidou-me a acompanhá-lo, pois estava sendo esperado no
auditório para dar uma aula a alguns suicidas recentes.
* - Podemos mesmo acompanhá-lo? Perguntamos.
- Sim. Dispõe de tempo?
-Marry disse que iria demorar.
Dirigimo-nos para o auditório. Como já narrei, tudo nas Colônias redentoras,
nas universidades e faculdades é limpo e bonito; a sujeira e a
indisciplina ficam nos umbrais. Cercado de plantas, o auditório, com sua
música melodiosa, dava a cada ummuita paz. Porém, nas fisionomias, muitos
olhares eram de desespero. Até crianças ali se encontravam. E pensei: "o
que leva uma criança a se suicidar?" Quase todos tinham a aparência de
desespero, o olhar vazio, pareciam dementados. Enquanto se acomodavam,
notei que eram banhados por fluidos magnéticos. Busquei de onde partiam
aqueles fluidos e pude ver que vinham de mãos abençoadas. Tentei ver os
rostos daqueles Espíritos, mas a pequenez do meu Espírito não me concedeu
tal glória. Cerrei os olhos para que também fosse beneficiado e, em silêncio, orei:
"Ó amado Jesus, manso e humilde coração, não pude divisar esses
Espíritos, mas eles podem abaixar-se e chegar mais perto de todos nós, que
aqui estamos, para nos ensinarem a humildade, para que possamos compreender
melhor o Vosso amor por nós. Desejo que eles me ensinem a colocarme
sempre nos últimos lugares e persuadir-me sinceramente de que este é o
meu devido lugar. Suplico-Vos, Jesus, dai-me a repreensão, cada vez que eu
procurar elevar-me acima das outras criaturas, porque tenho conhecimento
de que Deus dá a glória da eternidade àquele que só deseja servir. Queremos,
por isso, trabalhar sempre pela felicidade de todas as criaturas.
Conheceis, Jesus amigo, minha fraqueza. A cada manhã, tomo a resolução
de praticar a humildade, e à noite reconheço que cometi várias faltas por
orgulho. Quero, Jesus, fundamentar minhas esperanças em Vós somente,
porquanto sois o Filho de Deus. Fazei, Senhor, nascer no meu Espírito as
pequenas virtudes, uma das mais importantes: a Caridade. Para obter essa
261
graça da Vossa misericórdia, repito muitas vezes: Jesus, manso Cordeiro de
Deus, fazei o meu coração semelhante ao Vosso e dai-me coragem para
prosseguir sem mágoas, sempre fiel à tarefa que me foi concedida, ao buscar
trabalho, logo que desencarnei. Senhor, Amigo e Mestre, lembrei-me das
palavras que proferistes, quando Vos inclinastes para lavar os pés dos Vossos
apóstolos, ensinando a todos a praticar a humildade (João, Capítulo
XIII, v. 15): Dei-vos o exemplo, para que façais como eu fiz. O discípulo
não é maior do que o Mestre. Se cumprirdes estas coisas, sereis felizes
pondo-as em prática. Ajudai-me, quero colocá-las em prática, com o Vosso
auxílio. Como está difícil levar a minha tarefa até o fim! São tantos os
obstáculos que tentam me barrar os passos!... Ajudai minha mãe Zilda, a
quem muito amamos, assim como a meu pai e meu irmão; que eles lutem pela
fé e pelos conhecimentos. E que minha mãe sempre esteja ao meu lado,
cuidando dos nossos livros, porque são tão meus quanto dela e da médium
Irene, escolhida quando cessou nosso trabalho com Alayde. Obrigado, Jesus,
por me ouvir. E ajudai todos os Espíritos que vão até o plano físico com
a tarefa de salvar almas. Sede, Senhor, meu advogado junto a todos aqueles
que brincam com o Espírito Santo. Obrigado, Senhor."
Quando terminei minha oração, feita com todo o meu amor, Enoque
iniciou a preleção. E com que carinho me preparei para ouvi-lo! Ali, diante
de nós, estava aquele Espírito humilde e amigo. Muitos falam dele, mas poucos
o conhecem. Rayto é um amigo, é um irmão de cada um de nós. O seu
olhar de criança penetra o espírito e toca o pensamento, suavemente, daqueles
que dele precisam; e um dos mais necessitados sou eu mesmo, um dos
seus mais fiéis amigos. Rayto, ou Enoque, é meu professor, é a mão amiga
que quando preciso vem até mim e me abraça, dizendo: tome vergonha na
cara e me siga. Ele é o raiozinho de sol que clareia as noites escuras das
preocupações que às vezes nos atingem. Ele não é um Espírito qualquer, ele
é o astro-rei que me orienta, como jovem que sou na Espiritualidade.
Aquietei-me, para aguardar o início da preleção do Rayto.
262
Capítulo XXI
CRESCIMENTO MORAL E INTELECTUAL
Antes do Rayto iniciar sua preleção, observei aquele belo auditório,
onde o silêncio era divino. Mesmo em se tratando de uma assistência de
suicidas e alunos, a harmonia se impunha, e acredito que todos estavam sentindo
o bem-estar que me invadia o Espírito. Enoque não estava sozinho, um
grupo de jovens sentou-se em semi-círculo, enquanto ele se conservava entre
duas irmãs, cujos semblantes nos pareciam luminosos. Olhamos mais uma
vez a assistência e, mesmo tendo ao meu lado criaturas sofridas e preocupadas,
o silêncio não era quebrado; harmoniosa e tocante melodia oferecia
àquele lugar uma imensa paz. Ondas magnéticas reparadoras eram conduzidas
através de um painel que circulava o palco. A emanação sacudia o meu corpo;
era um momento inenarrável. Foi quando Enoque levantou-se e, com voz
melodiosa, falou:
- Provérbios, Capítulo I, versículos 1-7: Parábolas de Salomão,
filho de Davi, rei de Israel. Para se aprender a sabedoria e a disciplina;
para se entender as palavras da prudência: e receber a instrução da
doutrina, a justiça, e o juízo, e a eqüidade; afim de se dar aos pequeninos
habilidade, e ciência e entendimento ao mancebo. O sábio, ouvindo-as,
ficará mais sábio; e, entendendo-as, possuirá o leme. Atinará com as
parábolas, e sua interpretação, com as palavras dos sábios, e seus enigmas.
O temor do Senhor é o princípio da sabedoria. Os insensatos
263
desprezam a sabedoria, e a doutrina. Deus, bondade suprema, ampare a todos
nós, os Seus filhos, e não nos deixe perdidos no deserto da indiferença.
Que, através da prece, possamos chegar até o Pai, pois Ele jamais de nós se
separou. A prece é o nosso elo com o Criador Todo-Poderoso. Todos os
Seus filhos têm condição de dialogar com o Pai, é o nosso dever, só Ele
conhece-nos muito bem. Alguns estão aqui porque praticaram o suicídio;
fizeram-no porque não encontraram forças para se livrarem dos obstáculos
do mundo físico. Não conheceram o valor da prece; se a tivessem buscado,
não estariam aqui, alquebrados e machucados pelo remorso. Só a prece dá
ao homem condição de chegar a Deus e nele haurir forças para enfrentar as
mais árduas tarefas. Deus existe, e por mais que queiram desarrumar a Sua
Casa e destruir a Sua família, Ele resplandece bondade em todos os lugares,
basta que o ser deseje enxergar a luz. Todos aqui estão para colocarem as
consciências no altar de Deus e Lhe implorarem perdão pelas suas culpas, e
ao encontrá-Lo, sentirem-se livres das dores e dos remorsos. Não importa
de que tamanho são os erros cometidos, vamos deixá-los para trás. Agora
temos de aproveitar as novas oportunidades surgidas. Já que chegamos até
aqui, à Casa da Mãe de Jesus, cada um deve conscientizar-se de que é filho
de Deus e buscar a coragem para mergulhar nas profundezas do Espírito,
enfrentar a própria consciência e bater de frente com as lembranças, tudo
fazendo para amenizar os remorsos. O primeiro passo é aprender a orar,
pois somente a prece aplaca a dor e o desespero. E esta bendita Casa nos
oferece ensinos salutares para conversarmos com Deus. Portanto, antes de
qualquer coisa, vamos aprender a orar. Só aquele que ora coloca Deus no
coração.
Depois dessa explicação sobre Deus e a prece, Rayto orou junto a
todos nós que, inebriados de emoção, deixamos que as lágrimas molhassem
o nosso rosto. E prosseguiu:
- Irmãos, não estamos aqui como oradores nem como mestres, mas
como servos de Jesus e Maria, sem nenhuma intenção de julgá-los, porque
se o Cristo, o Espírito mais perfeito que viveu no plano físico, a ninguém
condenou, quem somos nós, pobres pecadores, para fazê-lo? Vimos aqui
264
para apresentar a cada um a nossa amizade, como trabalhadores da Seara
do Cristo, e dizer que não existe evolução sem renúncia. Podemos ter praticado
atos indignos, mas nem por isso devemos permanecer no erro. Deus
espera que cada filho atinja a perfeição, porque ela é a meta de cada um de
nós. O Pai não discrimina Seus filhos; o mesmo amor que nutre por Jesus,
Espírito perfeito, Ele tem pelo mais imperfeito dos homens e nele deposita
esperança de melhora. Se assim não fosse, Deus não seria o Pai sublime que
é. A Humanidade anseia pela paz e nós temos de acreditar que o Planeta
prepara-se para a aquisição de uma nova e elevada moral. Para que isso
ocorra, o homem tem de buscar a felicidade eterna, que só é conquistada
quando nos propomos a ser bons. Quem lhes fala ama a Deus sobre todas as
coisas e ao próximo como a si mesmo, porque essa é a lei, já tendo sido
apresentado ao Mestre e dele se fez servo. Ele nos ensinou que devemos
nos reerguer das sombras da impiedade, pois nos ofertou a verdade quando
caminhou nas sendas do mundo físico. Até quando não seremos cristãos, e
sim adversários do Cristo, ovelhas rebeldes que, em verdade, não conhecem
o Seu pastor? Até quando seguiremos outros mestres, o mestre do materialismo,
da ganância, da mentira e crucificaremos o nosso Irmão Maior, representante
de Deus, a Sua palavra? Até quando lutaremos contra nós mesmos,
porque não queremos servir ao Cristo? Não compreendemos o que espera a
Humanidade, ou melhor, o que pensam da vida alguns encarnados. O homem
não quer sofrer, e o pior é que ele nem sabe o que vem a ser a dor.
Muitos vivem choramingando, diante de fatos corriqueiros. Se, nesse instante,
buscarmos na memória o que nos levou ao suicídio, veremos que as preocupações
eram menores do que o remorso de hoje. E quem lhes fala também
já viveu no plano físico e também já sofreu.
Nesse momento, o nosso Rayto, o Espírito amigo de todos, que tem a
fisionomia de um garoto de dezoito anos, que luta desesperadamente pela
juventude sadia, ali, na nossa frente, junto àqueles outros Espíritos, projetava,
através de sua prodigiosa mente, as suas palavras, traduzidas em imagens
e cenas a se refletirem no palco. Era o que eu chamava, quando aqui cheguei,
de "teatro vivo". Como no teatro, vemos atores atuando junto ao público, e
essa foi a expressão que achei mais adequada, naquela época. Hoje, com
265
mais maturidade, posso dizer que o "teatro vivo" da Espiritualidade funciona
graças à força mental dos Espíritos com capacidade para tal trabalho. Ali, o
Enoque, auxiliado pelo seu grupo, projetava as cenas mais comoventes da
passagem de Jesus pela Palestina e as dificuldades que enfrentava. A platéia
soluçava, diante da projeção mental, ou "teatro vivo", como gosto de chamar.
Agora, prestando mais atenção, posso narrar ao leitor que o que assistíamos
era muito mais convincente do que as cenas teatrais que tanto nos
emocionavam quando chegamos à universidade; era a vida de Jesus em si
mesma, natural, vivida. Era o Mestre diante de nós, no Seu dia-a-dia. O
retrospecto do pensamento de Enoque era projetado no palco, auxiliado
pelos outros companheiros. A vida dos apóstolos e também a de João Batista
foram ali projetadas, até a festa de Herodes, Herodíades e Salomé desenrolou-se
diante dos nossos olhos, bem como o martírio dos apóstolos, a
morte de Estêvão, de Pedro, de Paulo.
Quando cessaram as dramáticas cenas, a platéia chorava copiosamente.As
pessoas, que se diziam cristãs, que imploravam ao Cristo
para não sofrerem qualquer arranhão, descobriram o martírio vivido pelos
seguidores de Jesus. Aquelas criaturas ainda possuíam no corpo
perispiritual as marcas do suicídio, suicídio este praticado, uns, porque
perderam a fortuna, outros, por separação de marido ou mulher, porque
brigaram com as namoradas, porque não passaram no vestibular, porque
perderam o emprego, por estarem deprimidos. Enfim, analisando os fatos,
percebemos que muitos sofriam realmente, mas nada justificava terem
atentado contra a própria vida, enquanto nos hospitais existem milhares
de criaturas tudo fazendo para permanecerem no corpo físico.
Assistindo ao "teatro vivo", ou à projeção mental, apaixonamo-nos por
João Evangelista. A sua dor, diante daqueles que voltavam para o mundo
espiritual, era por demais sentida.
Rayto ou Enoque, o nosso raiozinho de sol, terminou a sua conversa
conosco e retirou-se junto aos seus companheiros.
Fiquei ali sentado, observando a retirada dos doentes, conduzidos por
médicos e enfermeiros. Alguns alunos também saíram, enquanto eu olhava
266
aquele maravilhoso auditório, e continuo a dizer: são lindas as casas, os edifícios,
os jardins das Colônias redentoras. Só os umbrais são feios e sujos.
Depois, fui saindo devagar-o que não é hábito meu - mas aquele
lugar, com seu magnetismo, levava-me ao Alto. Quando já estava quase na
porta, o Rayto me enlaçou os ombros.
- Como vão os seus estudos?
- Ah! Rayto, nem lhe conto!...
- Já sei. Espere, e tudo vai serenar. * ; >
- Foi muito bom reencontrá-lo. Você, Enoque, é o meu barquinho,
quando estou em apuros, você surge como o sol depois do temporal.
- Luiz, Luiz, elogio é como agrotóxico: aumenta o tamanho do alimento,
mas lhe altera o sabor.
Rimos, os dois. "^ ^
- Sei, Rayto, que você é muito ocupado, mas gostaria de passar
para o leitor explicações de como se processa esse teatro, que sempre
falo em meus livros. Somente hoje prestei atenção que da sua mente e da
dos outros irmãos é que parte a projeção dos personagens. Não posso
dizer que é um filme, pois os personagens nos parecem vivos, eles transitam
à nossa frente, quase podemos tocá-los. O irmão tem permissão
para nos informar melhor sobre o assunto? Se não, pode ignorar a pergunta..
-Luiz, os fatos vividos e presenciados por cada filho de Deus jamais
lhe são retirados da casa mental. A mente fotografa e os pensamentos lhe
dão vida; as lembranças e recordações reproduzem-se tal qual se acham
arquivadas nos livros secretos do nosso Espírito.
- Rayto, eu também posso projetar os fatos por mim vividos?
- Sim, é claro. Mas para que isso venha a ocorrer, o irmão tem de
fazer os cursos, que não são poucos, e dedicar-se a eles.
267
- Então não é fácil, não é qualquer um que trabalha com essa projeção?
-É uma operação melindrosa, que exige do operador fluidos magnéticos
puros, necessários à corporificação das imagens. Luiz, não sei se o
irmão percebeu que acima de nós e dos nossos amigos chegavam também,
até o palco, ondas especiais, de um magnetismo superior, emitidas por Espíritos
superiores. O trabalho não é somente nosso.
- Tem razão, Rayto, tudo o que é para elevação do nosso Espírito
pede de cada um de nós muito estudo, amor e renúncia. Entristece-me quando
alguns encarnados julgam que não temos o que fazer e que vamos de
Centro em Centro, tentando desenvolver alguns médiuns. Não sabem eles
que, quando a gente deseja trabalhar para o Cristo, falta-nos até tempo,
tantos e tantos os cursos que temos de fazer.
-Luiz, a Doutrina Espírita precisa elucidar os seus adeptos sobre a
necessidade urgente do estudo, para que o homem não veja no Centro Espírita
apenas o mediunismo, pois a Doutrina Espírita é conhecimento e reforma
íntima.
- Sabemos que nem o nosso Jesus Cristo conseguiu convencer Seus
contemporâneos com os prodígios que operou, pois há pessoas que mesmo
presenciando os fatos, não crêem. Por que, Rayto?
- Porque é mais fácil não crer, principalmente quando o fato colocanos
diante da nossa consciência. E depois, Luiz Sérgio, Doutrina Espírita é o
reencontro do homem com Deus, e não espetáculo que precise de atores.
- De que forma o Espiritismo pode contribuir para o progresso do homem?
- Fornecendo-lhe a arma do conhecimento, que o ajudará a combater
em si próprio o materialismo, a vaidade, o orgulho, a avareza, a maledicência,
o egoísmo, fazendo com que ele conheça as responsabilidades, como
filho de Deus que é, como também o fato de que o seu próximo é seu irmão,
com os mesmos direitos, caminhando igualmente em direção ao Pai. Mas
268
para chegar a Ele é preciso que disperse para longe, bem longe de si, as
iniqüidades, maiores inimigas do homem.
- Rayto, analisando a História da Humanidade, vemos que os fatos
espíritas são tão velhos quanto ela.
-Luiz Sérgio, o Espiritismo reside na Natureza, muitos dos seus fenômenos
são provocados pelos Espíritos. Por isso não cansamos de recomendar
que o estudo da Doutrina torne-se obrigatório para quem chega ao
Espiritismo. Se não houver estudo, deparar-nos-emos com criaturas dizendo-se
médiuns e infernizando a vida do próximo, nada realizando de bom
para a Humanidade, apenas brincando de mediunismo. Se o progresso intelectual
é infinito, por que o homem que se diz médium não deseja progredir
intelectualmente?
- E se ele não tiver cultura? "-' '*
- Ele encontrará oportunidade de aprender. Para isso é que existe
Doutrina Espírita, e nela torna-se necessário o Estudo Sistematizado da Doutrina
Espírita.
- Rayto, hoje a Humanidade vive diante de tantos chamamentos ao
consumismo! Antigamente talvez fosse mais fácil, não existia carrão de luxo,
academia de ginástica, computador, internet, roupas de grife, enfim, tudo o
que a civilização oferece.
- O homem, filho de Deus, que respeita as Suas leis, agradece a Ele
o progresso da Terra e o conforto que ela lhe está proporcionando. Mas ai
dele, se não fizer jus ao muito que vem recebendo. O homem tem de
conscientizar-se de que Deus nele confia e deseja que conclua o curso, chamado
perfeição. Deus é um Pai que sonha com a felicidade do filho e ora por
ele. Qual o pai carnal que não sonha que o filho venha a cursar uma universidade
e se forme em algum curso ou em vários? Deus, como Pai perfeito que
é, deseja que os Seus filhos concluam o curso do amor e da perfeição.
-Os jovens, principalmente, acham difícil trilhar o caminho da perfeição, Rayto.
269
-Hoje a condição humana oferece ao homem muitos prazeres, principalmente
para os jovens. Antigamente o jovem chegava a casa antes das
vinte e três horas; hoje ele sai de casa a essa hora. Volto a dizer: os prazeres
são inúmeros. Será que alguém vai privar-se deles para servir a Deus? O Pai
não deseja que ninguém venha a repelir os prazeres que a condição humana
lhe oferece, mas o homem de moral elevada aproveita os prazeres que a
condição humana lhe permite, porém sem se contaminar com os vícios morais
da Humanidade. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo encontramos,
no Capítulo XVII - Sede Perfeitos - item 10, O homem no Mundo:
Não imagineis, portanto, que para viverdes em comunicação constante
conosco, para viverdes sob as vistas do Senhor, seja preciso vos cilicieis
e cubrir-vos de cinzas. Quem julga que para ser digno é necessário tornarse
ermitão não conhece a verdade. Quando desejamos servir a Deus, seguindo
o Evangelho de Jesus, pouco a pouco vamo-nos modificando. E essa
mudança é que assusta, às vezes, até os nossos familiares. com o estudo da
Doutrina Espírita, vamos aprendendo a ter um comportamento cristão, largamos
os vícios e os nossos lares transformam-se em verdadeiros lares, onde
mora o respeito e o amor. Podemos desfrutar do conforto que a vida nos
oferece, porém conscientes de que devemos agradecer a Deus por possuir tanto.
- Rayto, então você acredita que só o Espiritismo pode tornar a
Humanidade moralmente melhor?
-Tanto o Espiritismo, quanto outras religiões. O Espiritismo leva vantagem,
porque explica o que ontem era mistério. A Doutrina coloca o homem
diante de um espelho, para ele se auto-analisar e ver claramente as imperfeições
da sua alma. A Doutrina também ensina que a família difícil de hoje
pode ser o reencontro das oportunidades perdidas no ontem. Mas também
que, na mesma família, pode haver o parentesco corporal e o espiritual.
- Mas existe cada família, Rayto...
-Todos estamos no Planeta para progredir moral e intelectualmente.
- Qual dos dois é o mais difícil?
270
- O progresso moral é mais difícil, porque o homem não deseja a
reforma interior. E às vezes até luta contra Deus, principalmente porque não
deseja respeitar Suas leis.
-Muitos até julgam, Rayto, que Deus é mau, que castiga. Felizmente,
a Doutrina Espírita apresenta Deus ao homem, um Deus bom e justo, que
tem por cada filho um amor exigente; por isso, às vezes, Suas leis podem
parecer, para o homem, muito severas e exigentes.
-Tem razão, Luiz Sérgio, mas à medida que o homem conhece Deus,
ele também começa a entender por que tem de respeitar as leis, sejam as de
Deus ou as humanas. Uma sociedade violenta necessita de leis severas. À
medida que a sociedade for evoluindo, mais brandas serão suas leis. Assim
também é o homem, à medida que ele evolui, acha mais fácil respeitar as leis
de Deus e as leis humanas.
-Que maravilha, Rayto, quando o homem respeitar as leis do trânsito!
- Por que o irmão, de repente, lembrou-se das leis do trânsito?
- Porque é de estarrecer a violência no trânsito e a quantidade de
jovens que estão desencarnando por desrespeito a essas leis.
- No dia, Luiz, em que o homem respeitar e amar as leis de Deus,
não serão mais necessárias as leis humanas.
-É mesmo, Rayto. O homem não matará, não roubará, não levantará
falso testemunho, portanto, não mentirá, não cobiçará as coisas alheias,
não adulterará.
Aí, soltei uma gargalhada. Rayto me olhou firme.
- Qual a graça?
-Apenas lembrei-me de alguns políticos. E por falar neles, nos maus
políticos, para onde eles irão?
- Luiz Sérgio, estamos falando da Terra regenerada, da regeneração
da Humanidade, de uma sociedade mais justa, e não de políticos. Todos nós
271
temos de prestar contas a Deus, e ai daquele que não respeitar a Deus e ao próximo.
- Ainda bem, Rayto, que somente Deus detém o ápice da
intelectualidade e os Seus filhos sempre terão de buscar conhecimentos em
ciência universal.
-Luiz Sérgio, querido frade, o que têm Deus e o progresso intelectual
com os políticos?
-Muito, Rayto, já pensou um mau político, que já se julga um deus,
com o conhecimento igual ao dele? Coitada da Humanidade!...
- Luiz, quando a gente pensa que você está falando sério, vem com
uma das suas.
- Desculpe, Enoque, às vezes esqueço que devo e preciso aproveitar
os momentos do nosso reencontro.
Rayto deu aquele sorriso de menino amado, o sorriso dos justos, dos bons.
- Luiz, por isso sempre mandamos através dos seus livros um alerta
para os dirigentes espíritas, para que eles segurem a batuta do Espiritismo,
para que o fanatismo e a ignorância não venham a destruir a pureza doutrinária.
Que os falsos profetas não se aproveitem da ingenuidade dos leitores
com teorias novas, deixando de fortalecer o único caminho que nos leva a
Deus, e que Allan Kardec, como mensageiro do Alto, desbravou com as
ferramentas do conhecimento, entregando-o à sociedade, para que ela se
tornasse mais justa: a nossa Doutrina Espírita. com o seu bom senso, o
Codificador catalogou os ensinos dos Espíritos sem pressa, sendo um dos mais importantes ensinamentos por ele deixado, para os espíritas, o de que
tudo deve obedecer a um criterioso exame e não ser jogado nas mãos do
leitor, apenas para aguçar a vaidade de quem escreve. Quem desejar conhecer
o que ontem era mistério, basta estudar a Doutrina Espírita, não com o único
propósito que, infelizmente, alguns buscam nas Casas Espiritas: o mediunismo,
mas para aproveitar tudo de bom que a Doutrina Espírita oferece ao homem.
272
- Rayto, o que você acha da reencarnação? ;
- Para nós, que vivemos em um país que sempre acreditou nela, é
fácil estudá-la e aceitá-la. Contudo, para o materialista, a encarnação é uma
realidade perigosa que ele teme, e muito. Se não houvesse reencarnação,
cremos que a Terra seria a mesma de milhares de anos atrás.
-Pode explicar isso melhor, Rayto? ,
- Sem a reencarnação, Luiz Sérgio, os Espíritos que estão nascendo
hoje estariam sendo criados hoje, sem conhecimento algum anterior. Só a
reencarnação explica que esse progresso da Humanidade ocorreu justamente
com os Espíritos que o ajudaram, indo e voltando para captarem os seus
conhecimentos; e com essas idas e vindas, levaram para o plano físico o que
aprenderam e viram no mundo científico da Espiritualidade. Portanto, Sérgio,
o progresso da Humanidade pode ser explicado pela reencarnação. Sem
ela, torna-se difícil entender Deus como um Ser perfeito.
-Por que os espíritas, Rayto, não procuram convencer a sociedade,
por meio de palestras, nos meios de comunicação, enfim, os espíritas com
capacidade, apresentarem os seus conhecimentos, diante de pessoas que
julgam que Espiritismo é doutrina de fanáticos, feiticeiros e ignorantes?
- O leitor deve ler a questão 802 de O Livro dos Espíritos:
802. Visto que o Espiritismo tem que marcar um progresso da Humanidade,
por que não apressam os Espíritos esse progresso, por meio
de manifestações tão generalizadas e patentes, que a convicção penetre
até nos mais incrédulos?
"Desejaríeis milagres; mas Deus os espalha a mancheias diante dos
vossos passos e, no entanto, ainda há homens que o negam. Conseguiu,
porventura, o próprio Cristo convencer os seus contemporâneos, mediante
os prodígios que operou? Não conheceis presentemente alguns que negam
os fatos mais patentes, ocorridos às suas vistas? Não há os que dizem que
não acreditariam, mesmo que vissem? Não; não é por meio de prodígios que
Deus quer encaminhar os homens. Em Sua bondade, Ele lhes deixa o mérito
de se convencerem pela razão."
273
- E depois, Luiz Sérgio, fazer propaganda do Espiritismo deve ser
tarefa de todos os espíritas e não de algumas pessoas ou alguns médiuns.
Cada espírita leva consigo a responsabilidade de bem representar a Doutrina
Espírita. Através do exemplo de cada um, o Espiritismo se tornará conhecido.
E queira Deus os espiritas verdadeiros deixem um facho de luz por onde
passarem. A conquista da felicidade está nas mãos do homem, ele é que tem
de lutar por ela.
- Sendo o homem filho de Deus, por que ele demora tanto a crescer
moralmente?
- Porque, Luiz, ao invés de buscar a virtude, ele tem por companhia
o orgulho e o egoísmo. O progresso intelectual efetua-se mais rapidamente..
- Porquê,Rayto?
- O progresso intelectual efetua-se graças às idas e vindas do Espírito.
O Espírito sempre traz para a matéria o que aprendeu no mundo espiritual
e vice-versa.
- Entendemos. E ele esquece a moralidade, quando busca o gozo
dos bens terrenos e mergulha de corpo e alma na matéria, esquecendo-se de
tudo o que aprendeu. Desculpe-me, Rayto, mas alguns homens ainda estão
bem perto do reino animal. É carne, carne, somente carne.
Enoque sorriu gostoso.
- É bom o leitor estudar a resposta à questão 785 de O Livro dos Espíritos:
785. Qual o maior obstáculo ao progresso?
"O orgulho e o egoísmo. Refiro-me ao progresso moral, porquanto o
intelectual se efetua sempre. À primeira vista, parece mesmo que o progresso
intelectual reduplica a atividade daqueles vícios, desenvolvendo a ambição
e o gosto das riquezas, que, a seu turno, incitam o homem a empreender
pesquisas que lhe esclarecem o Espírito. Assim é que tudo se prende, no
mundo moral, como no mundo físico, e que do próprio mal pode nascer o
bem. Curta, porém, é a duração desse estado de coisas, que mudará à
274
proporção que o homem compreender melhor que, além da que o gozo dos
bens terrenos proporciona, uma felicidade existe maior e infinitamente mais
duradoura."
-O homem, Luiz Sérgio, tem de conscientizar-se de que é eterno, e por
ser eterno, ele não morre; se ele não morre, existe vida além vida e temos de
responder pelos nossos erros. Porque, se a moralidade não fosse necessária ao
Espirito, que valor teria o homem de ser bom? A Doutrina elucida muito bem este
assunto: que o homem tem de respeitar o plano de Deus, que é ver todos os Seus
filhos reunidos e felizes. E isso não é possível em razão de o homem ainda se
encontrar colado ao corpo de carne, sem vontade de respirar os ares da
Espiritualidade Maior. Enquanto só buscar os progressos do mundo físico, esquecendo-se
de Deus, ele poderá crescer intelectualmente, mas se encontrará,
moralmente, retardado. Hoje constatamos uma triste realidade: os pais nada estão
fazendo para que seus filhos cresçam moralmente.
- Essa é uma das inúmeras tarefas da Doutrina Espírita? ,
- Sim. A missão dos Espíritos do Senhor é levar, até o mundo físico,
as elucidações sobre a responsabilidade de cada um dos filhos de Deus. A
Casa Espírita que não mudar o homem para o bem perderá sua finalidade..
As Casas Espíritas existem para ensinar ao homem a ser bom, a crescer
moralmente e, se ele busca o conhecimento doutrinário, cresce também intelectualmente.
Muitas Casas vivem preocupadas em doutrinar Espíritos inferiores,
esquecendo-se de que eles se manifestam, no mundo físico, por encontrar
criaturas semelhantes a eles. No dia em que o homem crescer em
moralidade, terá melhores companheiros. A Casa Espírita tem de orientar os
seus freqüentadores a buscarem a verdade e, diante dela, lutarem para crescer
moralmente. O mal de alguns espíritas é julgar que as Casas Espíritas
existem somente para dar assistência aos desencarnados.
-Enoque, espere aí, explique melhor.
-Luiz, a Casa Espírita deve ser um instituto de cultura espírita.
-Também penso assim, Rayto, mas, pelo que entendi, na sua opinião
na Casa Espírita deve existir somente o estudo da Doutrina? "
275
- O estudo deve ser obrigatório. Não se concebe que um homem
que se diga espírita não seja espiritualizado, continuando materialista.. Portanto,
o estudo é necessário, e deve estar em primeiro lugar; julgar que os
Centros Espíritas só existam para ajudar os Espíritos sofredores é um grande
erro doutrinário, porque, sendo o plano espiritual organizado, nele não faltam
hospitais para os Espíritos doentes. A finalidade da Casa Espírita é ajudar o
encarnado para que ele se defenda das influenciações dos Espíritos inferiores.
Ao fazer o contrário, isto é, somente criar grupos mediúnicos com a
finalidade única de doutrinar Espíritos, longe estas Casas se encontrarão do
objetivo da Doutrina. Curemos a ferida para que os insetos não a busquem.
Quando a Casa tem por meta a cura da alma, pouco a pouco tudo se entrelaça:
estudo e trabalho. Ao desejar apenas criar grupos mediúnicos, grupos
estes compostos de médiuns desequilibrados e doentes, perderá a Casa a
grande oportunidade de ajudar a Espiritualidade Maior. Porque, tornamos a
dizer, a finalidade da Doutrina Espírita é levar almas até Deus; e sem a educação
doutrinária torna-se difícil.
- Entendi, Rayto.
- Não basta apenas levantar um templo nem construir altares, o que
a Espiritualidade Maior deseja é que cada um de nós tenha o Cristo plasmado
no coração e que nos tornemos um operário humilde da Sua vinha. Caso
contrário, se chegamos à Casa Espírita mas vivemos criando caso, brigando,
desejando nos tornar médiuns da Casa ou ocupar um lugar na diretoria, estamos
em lugar errado. A Casa Espírita deve ser um tabernáculo divino, onde devemos
estudar e viver as leis de Deus. No dia em que cada presidente de
uma Casa Espírita e sua diretoria entrelaçarem as suas mãos com as dos seus
freqüentadores, esquecendo que pertencem à diretoria e juntos trabalharem
em prol do próximo, tudo se tornará mais fácil. No entanto, se o presidente
ou a diretoria de uma instituição espírita não procederem consoante aos princípios
éticos doutrinários, continuaremos a presenciar fatos tristes, como os
que vêm ocorrendo: brigas e mais brigas nas diretorias das Casas Espíritas.
- Rayto, o que nos assusta é a vaidade. Existem espíritas que, por
possuírem vasto conhecimento, julgam que seus companheiros são
276
ignorantes, enquanto o Cristo Se disse servo dos Seus amigos e com humildade lhes
banhou e beijou os pés.
- Exatamente, Luiz. É constrangedor que muitos espíritas, importantes
para a Doutrina pelo grande conhecimento que possuem, vivam o seu
dia-a-dia vestidos com o manto da vaidade, do orgulho e do egoísmo, por se
julgarem com mais conhecimento doutrinário. E quanto mal estão causando
ao movimento espírita! Enquanto eles, como inquisidores, põem-se a julgar,
os falsos profetas proliferam, principalmente dentro da própria Doutrina.
- Como parar com isso?
- Outras filosofias religiosas se perderam, porque formaram um
colegiado e este se distanciou do povo. Infelizmente, é o que vem ocorrendo
no meio espírita. É a indiferença dos que pensam que muito sabem, para com
o movimento. Por esse Brasil afora, a mediunidade sem Jesus está levando
criaturas respeitáveis ao ridículo, julgando-se missionárias, quando são presas
de Espíritos mistificadores. Quantos Centros Espíritas pelo Brasil afora
não têm a preocupação de melhorar o homem! São verdadeiros caçadores
de fantasmas.. .E, para que isso ocorra, colocam pessoas dizendo-lhes serem
portadoras de mediunidade gloriosa, levando-as ao mediunismo desenfreado,
enquanto os doutores da lei estão brigando entre si e se julgando grandes
conhecedores do Espiritismo. Fazem até questão de dizer os anos que estão
na Doutrina, esquecendo-se de ler a passagem do Evangelho sobre os trabalhadores
da última hora. Na Doutrina, não existe antigüidade, devemos ter
responsabilidade e dignidade. Só isso. É preocupante vermos jovens completamente
fanáticos, falando mole e baixo, para aparentarem moralidade,
enquanto longe se encontram da reforma interior. Continuam com a mesma
vidinha: barzinhos, noitadas, enfim, são espíritas só na Casa Espírita. Enquanto
isso, nos meios de comunicação os ataques são inúmeros. E o pior é
que a vaidade de alguns espíritas é tanta, que eles julgam que nada devem
fazer, que devem, sim, continuar na sua vidinha materialista, sem compromisso
para com Deus e o próximo. Apenas estudando a Doutrina Espírita ele
terá conhecimento.
277
-Enoque, então para a Espiritualidade Maior o estudo da Doutrina é
mais que necessário?
- Sim, Luiz. Sem esse estudo o homem não compreende o porquê
da obrigatoriedade da reforma íntima em sua vida.
- Rayto, quando desencarna, o Espírito leva para a vida espiritual as
imperfeições recém-adquiridas, quando encarnado? As novas somam-se às antigas?
- Se o Espírito saísse da vida material pior do que nela entrou, ele
estaria retroagindo. O Espírito, Luiz Sérgio, leva para a vida espiritual as
perfeições conquistadas. Pode, entretanto, sair da vida material sem haver
efetuado qualquer progresso, permanecendo estacionário.
- Passou pela vida, Rayto, e não viveu, isto é, não progrediu?
- Sim. Se o Espírito não efetuou qualquer progresso, manteve-se
estacionário.
- Confesso que não entendi. Então esses traficantes, esses
estupradores, esses assassinos cruéis, eles não voltam para o plano espiritual
piores do que eram antes de reencarnar?
- Luiz, se o Espírito saísse da vida material pior do que nela entrou
ele estaria retroagindo, como expliquei, o que não pode acontecer, como sabemos.
- Desculpe, Rayto, mas na minha cabeça deu um nó. Esses Espíritos
cruéis sempre foram assim?
-É duro admitir, mas as nossas faltas de hoje são as conseqüências de
tudo o que já estávamos cansados de praticar em outras vidas, apenas repetimos
os fatos. O estuprador de hoje é o mesmo sexomaníaco de ontem; só que no
ontem, quando as mulheres eram submissas e ignoradas pela sociedade, o seu
ato cruel não era considerado crime. Hoje, na era moderna, a mulher pede socorro.
Por tudo isso, no hoje é que devemos procurar melhorar; e não existe
lugar melhor para crescer em moralidade do que nos ensinos de Jesus.
278
-- Rayto, fazendo menção aos ensinos de Jesus, o irmão quer nos
dizer que, em qualquer lugar onde se pregam as leis de Deus, o homem pode
modificar-se?
- Sim, os espíritas não podem julgar-se os únicos mensageiros do
Senhor, pois assim também cairão nos mesmos erros dos inquisidores. Todas
as religiões, que ensinam ao homem tornar-se bondoso, e lutam pela paz
entre as criaturas de Deus, são abençoadas. A Doutrina Espírita não deve
ser chamada de religião espírita, porque ela não é religião. As religiões brigam
entre si, todas desejam apoderar-se do Cristo. Para nós, religião é, sim,
a cruz infamante que o Cristo carrega até hoje nos Seus iluminados ombros..
Religião, muitas vezes, faz idólatras, fanáticos, místicos, supersticiosos,
charlatães, e torna os homens inimigos uns dos outros, por julgarem que a
sua crença é a única que salva.
- Então, o que é Doutrina Espírita?
- É uma filosofia de vida, é o encontro do homem com Deus. É o
Consolador prometido por Jesus. São os Espíritos soprando por toda a parte
o hino da caridade, que também pode ser chamado de hino do amor. A
Doutrina Espírita, ao apresentar o homem a Deus, faz com que o ser comece
a entender as diferenças sociais, o porquê da dor e dos sofrimentos e, à
medida que vai amando o Senhor, também vai aceitando melhor as vicissitudes
da vida material. E não fica tão enraizado à matéria, vive no corpo físico,
mas sua alma, quando precisa, corre em Espírito para os braços do Pai amado.
A Doutrina esclarece o homem, conscientizando-o de que tudo o que
existe de bom no plano físico é obra de Deus e foi feito para o conforto dos
encarnados, e que ele, o homem, pode desfrutar de todo avanço científico,
desde que não prejudique a si mesmo e ao próximo. Para servir a Deus e
crescer espiritualmente, o homem não precisa cobrir-se de andrajos. A Doutrina
Espírita, com sua vasta biblioteca, chama o homem para a realidade
espiritual, e este não pode, jamais, dizer-se ignorante. Aí está a diferença das
religiões com a Doutrina Espírita. Ela veio para mostrar que só existe um
caminho, chamado perfeição, e é obrigatório todos os filhos de Deus caminharem
por ele. Por isso, na Doutrina não se concebem ídolos, porque o
279
único ídolo que não decepciona o homem é Deus. Podemos dizer Jesus e
Deus. Mas Jesus, sendo um Espírito sublimado, disse: bom, só Deus o é.. E
Ele, sendo o nosso Mestre amado, que sempre está nos ensinando a humildade,
não gostaria que nós O transformássemos em nosso ídolo supremo e
brigássemos em nome dele, caluniando irmãos de crenças diferentes, como
se o nosso Cristo fosse melhor do que o deles. Por isso o Mundo Maior
sempre afirma que Jesus não criou religião alguma e que enquanto o homem
só buscar religião, ele vai-se esquecer de lutar pela própria perfeição. A
religião separa os homens, e o Cristo nos ensinou muito bem que o maior
mandamento é amar a Deus e ao próximo. Como pode um fanático religioso
amar alguém que não professa a mesma fé que ele?
-Enoque, então se os espíritas também ficassem brigando, por julgarem
que o Espiritismo é o único caminho da salvação, eles estariam errados?
- Mais do que errados. Eles chegaram à Doutrina, banharam-se na
fonte do conhecimento, mas nenhuma gota da água purificada da Doutrina
adentrou seu coração. A Doutrina Espírita não foi entregue a Allan Kardec
para criticar, separar ou julgar-se a melhor. Ela é a terceira carta de Deus
para os homens. A primeira, quem a recebeu foi Moisés; a segunda, Deus fez
com que Seu filho querido a trouxesse até os homens e a lesse para a Humanidade.
E com que autoridade divina o Cristo o fez! Ele foi explícito quando
apresentou o samaritano como exemplo, quando curou o servo do centurião,
quando curou a mulher fenícia. Quanto exemplo de bondade! O Cristo não
repudiou o samaritano nem o soldado romano ou a mulher fenícia, Ele mostrou
ao mundo físico que só o amor leva o homem a Deus, e não só a fé que
ele diz professar. A Doutrina Espírita é a terceira carta, trazida pelos Espíritos.
Para melhor compreender essa carta, vamos até João, Capítulo XIV,
versículos 15-16: Se me amais, guardai os meus mandamentos. E eu rogarei
ao Pai, e Ele vos enviará outro Paráclito, para que fique eternamente
convosco. E o Consolador aí está, ao lado dos encarnados, consolando,
explicando tudo o que ontem assustava. Hoje, quem estuda a Doutrina
sabe que os Espíritos estão em toda parte, e para que o homem tenha
280
boas companhias, tem de lutar pela perfeição. Na terminologia jurídica grega,
o termo paráclito significava o advogado chamado para defender a causa
de alguém. Em João, significa intercessor, consolador, que ajuda os discípulos
do Cristo, no vasto processo que o mundo materialista desenvolve
contra eles. Portanto, a Doutrina Espírita não é uma invenção de Allan Kardec
nem uma doutrina "kardecista". Ela é simplesmente mais uma carta de alerta
ao homem e, como tudo que é divino, o homem precisou de alguém para
explicá-la. A primeira, Moisés a recebeu; a segunda, Jesus a explicou, e a
terceira, os Espíritos do Senhor, ao lado dos homens de boa vontade, estão
tentando explicar à Humanidade. Sendo assim, como podem as Casas Espíritas
esquecerem-se da grande missão de melhorar a criatura humana?
- Tem razão, Rayto, é com pesar que, ao visitarmos alguns Centros
Espíritas, vemos que a grande preocupação deles é formar grupos mediúnicos
e de desobsessão, para auxiliarem os desencarnados, esquecendo que a Terra
vive momentos de dor e de desespero e que a finalidade da Doutrina é melhorar
os homens, e não os Espíritos. Se cada Casa Espírita conseguir mudar
a conduta de alguns dos seus freqüentadores, poderá considerar-se uma casa
do Senhor. Mas a Casa Espírita cujos freqüentadores não se preocupam
com a reforma íntima, e por onde passam deixam um rastro de falta de educação
doutrinária, essa Casa precisa reformular os seus ensinos. Doutrina
Espírita não é mediunismo, é trabalho ao Senhor. Enoque, acho ridículos
aqueles que se dizem espíritas, mas conforme o Centro que freqüentam mudam
até a voz, que fica cavernosa, falam baixinho, igual às almas do outro mundo.
Rayto riu gostosamente e prosseguiu:
-A Espiritualidade preocupa-se, e muito, com as Casas que pregam
o medo, assustando os freqüentadores com a lei de ação e reação, com os
umbrais, com os Espíritos menores, enfim, que transformam suas Casas em
hospícios, onde os freqüentadores morrem de medo dos Espíritos, o que
deveria ser o contrário. O encarnado, na Doutrina, deve aprender a respeitar
os desencarnados, porque sabe que, amanhã, também será um deles. Deve,
sim, ajudá-los com o trabalho de caridade, com amor, lutando sempre pela
281
própria melhoria. Essa é a finalidade de uma Casa Espírita verdadeira: que
todos se conscientizem de transformá-la em uma casa do Senhor.
- Perdoe-me, Enoque, mas isso vai demorar a acontecer; tenho conhecido
Centros Espiritas bons, mas basta alguns de seus médiuns apresentar
um livro psicografado por Espíritos conhecidos na Doutrina para o Centro
editá-lo, sem uma análise séria, apenas visando o lucro das vendas.
-Lui/ Sérgio, quantos médiuns já psicografaram Emmanuel, André
Luiz, Bezerra e muitos desses livros se perderam no esquecimento! Já a obra
de André Luiz, escrita pelo Chico, aí está, é uma jóia do Espiritismo. O
Emmanuel é um baluarte da Doutrina Espírita, um dos mais inteligentes Espíritos
mensageiros do Cristo.
- É isso, Rayto, o que me preocupa. Por que o Centro Espírita,
que deve ter um mentor que zela pela disciplina da Casa, aceita tais fatos,
colocando a público livros ditos escritos por Espíritos conhecidos na Doutrina,
sem critério? O erro não é só dos médiuns, mas das Casas Espíritas,
onde esses médiuns trabalham, porque se o médium deseja colocar
as suas psicografias nas mãos dos leitores, elas precisam ser analisadas
por pessoas estudiosas da Casa Espírita. Outro fato que precisa de orientação
dos responsáveis é referente às preces longas e cansativas e também
quanto aos seus oradores. No Antigo Testamento encontramos, no
Eclesiástico, Capítulo XXXII, versículo 6: Não desperdices palavras,
onde não há quem dê ouvidos a elas, e não queiras elevar-te fora de
tempo na tua sabedoria.
- Vaidade, sempre a vaidade. Luiz, o bom orador é aquele que
fala com o coração. Está-se tornando comum os oradores espíritas imitarem
os grandes tribunos, sempre contando uma história por eles narradas;
outras vezes, chegam ao cúmulo de decorar as palavras já gravadas
em fitas e, com a maior desfaçatez, passá-las como sendo idéias dele, o
orador. Quantos não dizem uma palavra sem citar um personagem famoso;
Sócrates já deve estar cansado de ouvir o seu nome. O que se deve
fazer para realizar uma boa palestra? Falar com o coração, preparar-se,
282
e não jogar palavras fora. O fato é que há falta de bons palestrantes..
Felizmente, já estão surgindo cursos destinados a prepará-los.
- E por que a carência de oradores?
-Porque não basta fazer o curso. Quem deseja falar em público tem
de colocar-se no lugar de quem ouve as palestras, do contrário tornar-se-á
mais um orador cansativo. Acreditamos que quase todos os Centros Espíritas
hoje ficam à procura de bons oradores.
-Desculpe-me, Rayto, mas existem também muitos espíritas que não
têm "desconfiômetro", sobem à tribuna e só falam abobrinhas, são verdadeiros soníferos.
-Concordo plenamente, Luiz. Aquele que se propõe a falar em nome
da Doutrina Espírita tem de se preparar. Falar em público exige técnica, não
basta somente boa vontade. Um mau palestrante expulsa da Casa Espírita
quem vem pela primeira vez.
- Rayto, todas as Casas Espíritas devem primar pelo estudo, ninguém
deve adentrá-la pelo telhado ou pela janela, para que não ocorra que a
Doutrina caia nas mãos de criaturas sem nenhum conhecimento, com idéias
próprias, distantes da pureza doutrinária. Infelizmente, essas criaturas existem
e orientam outras nas Casas Espíritas, quando a finalidade da Doutrina é
tornar humildes as criaturas. A orientação para que o iniciante busque a regressão
a vidas passadas não é recomendável. A Doutrina nos ensina que o
esquecimento do passado revela a ação providencial e sabedoria divinas.
Deus é sábio e bem conhece as Suas criaturas. A lembrança traria gravíssimos
inconvenientes; pode, em certos casos, humilhar ou então exaltar o orgulho,
e, assim, dificultar o livre-arbítrio. Tudo tem uma razão de ser, e não é o
homem que vai atrapalhar o plano de Deus. A Doutrina entrega a chave da
porta do conhecimento, porém, de posse dela, o homem não deve ultrapassar
a linha do bom senso, porque Doutrina Espírita é responsabilidade e
amor. E nem todos estão aptos a conhecer o que Deus tão bem guarda em
segredo. Rayto, o que está faltando aos espíritas é humildade. E espírita sem
humildade é como um rio sem água.
283
- Tem razão. Não se concebe aquele que se diz espírita coberto de
orgulho e vaidade, porque a ele foi concedida a chave do conhecimento dos
dois planos: físico e espiritual, e o Cristo recomendou: ai daquele que brincar
com o Espírito Santo, esse não será perdoado. Quem conversa com
os desencarnados precisa ter uma postura digna e verdadeira, onde a vaidade
e o orgulho não cheguem perto.
- Rayto, noto, nas obras básicas, a ausência dos nomes dos médiuns
que auxiliaram na sua feitura. Não seria bom se isso voltasse a acontecer?
- Allan Kardec, grande espírita, o bom senso encarnado, deixou de
citá-los, nem por isso a obra se perdeu, ao contrário, ninguém sequer pergunta
quais foram os médiuns da Codificação. E sabemos que isso ocorreu a
pedido dos próprios médiuns, porque os seus nomes valor algum acrescentariam
à obra dos Espíritos. Citar os nomes dos médiuns geraria, somente,
uma satisfação do amor próprio de cada um, pela qual os médiuns verdadeiramente
sérios não se interessam. O médium de Jesus jamais se envaidece
por um trabalho intelectual, a que prestam apenas o seu concurso mecânico,
sabendo muito bem que a obra não é dele. O médium vaidoso coloca o seu
nome, e a vaidade toma conta da sua alma, julgando que a obra é sua. Muitas
vezes o que diz que escreve, deste ou daquele Espírito, longe da verdade se
encontra. Nas páginas dos livros, o leitor só encontra fragmentos de algumas
obras espíritas e que o médium vaidoso diz pertencerem a este ou àquele
Espírito conhecido no meio espírita.
- Você é a favor de pseudônimo, Rayto?
- O pseudônimo, na época atual, não seria aceito pelo leitor, que já
se acostumou a buscar o nome dos médiuns. Os responsáveis pela Doutrina
é que deveriam ter continuado a não citar o nome dos médiuns.
- Será, Rayto, que não ia virar uma bagunça?
-Não. O leitor estudioso, fiel à Doutrina, busca o bom livro pelo seu
conteúdo. Fiscal vigilante, ele conhece o modo de escrever do Espírito e tem
o conhecimento de que ninguém retroage, principalmente o Espírito que já
possui uma obra respeitável.
284
- Mas existem médiuns que dizem que o Espírito mudou, porque evoluiu...
- Desculpe-me, Luiz, o Espírito não pode evoluir, retroagindo. Muitas
vezes deparamo-nos com livros, que se diz de Espírito conhecido, que
nos causam pesar, pois, em vez do Espírito ter progredido, ele andou para
trás. Só o médium vaidoso é que não percebe.
-Difícil, não, Rayto? ,;
- Não, não acho difícil. Está na mão do leitor analisar cada escrito
que chega às suas mãos, não aceitando tudo, apenas porque no livro está o
nome de um Espírito que ele aprecia.
- Você tem razão, Rayto. Há leitor que apenas coleciona as obras e
não as estuda. Basta um médium colocar o nome de André Luiz em um de
seus livros e o leitor compra a coleção. Aí nos faz lembrar do Márcio
Bittencourt, eminente médico da Casa de Maria. Ele sempre diz: "quem não
estuda come minhoca por caviar". Quantos médiuns hoje dizem que recebem
Jesus, Maria, enfim, Espíritos veneráveis! Há muito tempo venho pedindo
à minha mãe, Zildinha, que fique atenta, pois estou ciente de muitos fatos
desagradáveis que estão ocorrendo pelo Brasil afora. Toda teoria, em contradição
com o meu modo de escrever, deve ser rejeitada. Tudo partiu de um
grão de areia, e jamais irei contra um item de tudo o que até hoje escrevi. O
que me assusta é a insuficiência de conhecimento de certas pessoas e a tendência
de outros, de tomarem seu próprio juízo em relação à minha tarefa.
- Luiz, a Espiritualidade Maior exerce um controle universal, e esse
controle é uma garantia para a unidade futura do Espiritismo, que anulará
todas as comunicações opostas e contraditórias que ocorrem com este ou
com aquele Espírito por ela escolhido.
- Assim espero, porque os Espíritos não têm como se defender.
- Bem, querido amigo, até mais ver. Quando desejar nos encontrar,
busque-nos aqui, na universidade, porque ultimamente, devido a muitos jovens
estarem desencarnando por excesso de velocidade e overdose, quase
285
não estamos indo à Crosta da Terra. Mas tenha a certeza de que o querido
amigo e irmão será sempre bem recebido onde nós estivermos, porque o seu
trabalho, Luiz, nós o consideramos um pomar, onde o irmão depositou a
semente do amor; esta semente tornou-se árvore frondosa, cujos frutos alimentam
as almas famintas de amor. Continue regando com a água do Evangelho
o seu pomar. E se alguma ave daninha desejar bicar um dos seus frutos,
recorde-se de que o Cristo, mesmo sendo um Espírito sublimado, o Filho de
Deus, não Se viu livre dos açoites do caminho. Espere, que o nosso Pai
Todo-Poderoso, que faz cair a chuva sobre os justos e os injustos, estará
sempre ao lado do filho que se empenha em cumprir, com lealdade, a tarefa
de velar pelos seus irmãos sofredores.
Rayto me abraçou com carinho e saiu radiante. Ele é o jovem mensageiro
de Jesus, que tanto tem ajudado minhas tarefas. Dali, fui andando, ou
melhor, correndo, abraçando cada árvore e gritando:
- Obrigado, meu Deus, por tanto amor!
Parece que as árvores irmãs me compreenderam, porque muitas delas
me cobriram o corpo de flores.
286
Capítulo XXI
A OPORTUNIDADE DO APRENDIZADO
Caminhando pelo mundo espiritual, cheguei a uma cascata.
Entrei em suas águas cristalinas e fiquei meditando, pedindo
a Deus pela Humanidade, principalmente pelos espíritas; que
cada um se conscientize do seu trabalho e lute para bem servir
ao Cristo. A água nos acariciava o corpo e nela mergulhei como
se fosse o poço de Siloé; queria esquecer algumas coisas e colocar
na consciência o Cristo querido, nosso Amigo e Mestre.
Enquanto me mantinha mergulhado na água, senti-me muito
feliz por Deus ter-me criado, pois bem sei que Ele é nosso Pai
amado. Quando voltei à realidade, deparei-me com Marry, que sorria.
- O que aconteceu com você, Luiz Sérgio? Buscou as águas para
espantar o calor?
Saí ligeiro da água, envergonhado, dizendo:
- O calor não, mas ao adentrar nesta água desejei livrar-me de
certos fatos tristes que estão acontecendo.
com seu sorriso lindo, ela começou a cantar a música de Rosália,
para magnetização das águas:
287
Água que cai do céu
Água que compõe meu corpo
Água que molha as flores
Água que cura as dores
És tão bonita
Que vives a jorrar <
Água bendita
Vem me curar
Nos riachos, nos rios,
Nas cidades, nas matas
Nos lagos tão frios,
Nas lindas cascatas
Sempre estás, água amiga,
Estás a jorrar
Sempre estás, água amiga,
Estás a jorrar. '
Água que cai do céu
Água que compõe meu corpo
Água que molha as flores
Água que cura as dores
Nas casas tão lindas
Nos barracos pobrezinhos
És sempre bem-vinda
Nem que seja um pouquinho
Sempre estás, água amiga
Estás a jorrar
Sempre estás, água amiga,
Estás a jorrar
Vamosmagnetizar
Estas águas
Para curar
As dores e as mágoas
}
288
-Luiz Sérgio, ficamos contentes em reencontrá-lo mais alegre, notamos
que ultimamente o irmão anda tão compenetrado...
- Não é bem assim, Marry, é que não posso brincar quando estou
fazendo um trabalho sério. Quando passei para o papel o estudo que fiz
sobre o Sermão da Montanha, muitos estranharam o nosso modo de escrever.
Mas como poderíamos brincar diante de algo tão sublime, o Sermão do
Monte? Ele é para o homem o segundo chamado de Deus, é o Cristo explicando,
como Mestre que é, palavra por palavra, as leis de Deus.
- Sabemos disso, Luiz, e nesses dias de convívio que tivemos, pudemos
perceber o quanto você se esforça para não deixar passar em vão as
oportunidades de aprender.
-Marry, poucos Espíritos recém-desencarnados tiveram a oportunidade
que me foi concedida. E graças à ajuda de minha família carnal, dos
amigos, dos leitores, estou lutando para bem cumprir com a minha tarefa. Às
vezes, fico apreensivo, pois não gostaria que alguém usasse o meu nome
para desvirtuar a simplicidade de um trabalho, que está sendo feito com base
doutrinária, pois desde que o iniciei, tudo fiz para passar para o papel a
verdade, porque só ela pode ajudar o crescimento moral do nosso próximo..
- Luiz, está na hora de buscarmos o auditório, onde será realizada
uma palestra que muito nos interessa e, como sua instrutora, fazemos questão
que o irmão a escute e sempre a guarde na memória.
Enlacei o seu ombro amigo; antes, fitei os seus olhos com carinho,
enquanto os meus estavam marejados de lágrimas. Ela também se emocionou,
mas logo se refez.
- Menino, estaremos sempre orando pela sua obra e pedindo a Deus
que o trabalho possa ajudar a muitos.
Passamos por um caminho que eu desconhecia, na linda Universidade
Maria de Nazaré. Seu corredor refletia uma luz, cujos reflexos o ampliavam,
dando às paredes tonalidades diferentes; o teto nos chamava a atenção,
pois me pareceu que víamos nuvens, e o azul era tão belo que pensei:
289
"deve ser a cor do paraíso". A tudo ia observando, até chegarmos ao auditório.
Desde o primeiro livro, sempre procurei descrevemos a beleza do mundo
espiritual e fico intrigado, por que alguns espíritas julgam que os Centros
Espíritas têm de ser sujos e mal conservados, enquanto no mundo espiritual
as colônias redentoras são belas e floridas. Mas, deixa pra lá.
Sentamos naquelas poltronas, cujos recursos para levar a platéia a se
comunicar com o orador são dos mais modernos; cada braço da cadeira
tinha um painel repleto de botões. Algum leitor irá perguntar: "Mas no mundo
espiritual os Espíritos não se comunicam pelo pensamento?" Onde este Espírito,
ainda imperfeito, chamado Luiz Sérgio, trabalha, a comunicação entre
as criaturas ainda se parece muito com a do plano físico. As conversas telepáticas
ocorrem, mas somente entre Espíritos de mais alta hierarquia, quando
se faz preciso, nas ocasiões onde o Espírito, menos evoluído, precisa
receber orientação dos Espíritos superiores, em algum trabalho que realiza
em prol do próximo.
Reparei bem minha cadeira e me coloquei apto a fazer algumas perguntas.
Nisso, adentrou o auditório um Espírito, cujos raios de luz davam à
sua figura uma sublime leveza, como se estivesse flutuando. Cumprimentou a
todos e orou:
"Senhor, cujos olhos penetram o abismo da consciência humana, mesmo
que nela esteja oculto algo que não quer confessar. O homem pode esconder-se
de si mesmo, mas nunca poderá esconder-se de Vós, Senhor.
Agora, que a carcaça da carne ao pó retornou, nossos gemidos dão testemunho
do quanto desagradamos os Vossos olhos. Vós, Senhor, iluminastes a
Terra e aos seus habitantes com a luz do Vosso olhar, mandastes as Vossas
leis, e o homem preferiu o bezerro de ouro. Ainda acreditando na perfeição
dos Vossos filhos, mandastes à Terra o Vosso primogênito, o nosso amado
Jesus, Mestre e irmão da Humanidade. Mesmo assim, ainda não desejamos
conhecer-Vos, Senhor, mas Vós nos conheceis tal qual somos. Não adianta
confessarmos com palavras, com a voz da carne, os nosso erros; precisamos,
Senhor, usar as palavras da alma, com os gritos do pensamento, pois
que Vossos ouvidos já tão bem conhecem cada um dos Vossos filhos.
290
Também sabemos, Senhor, que como abençoais os justos, assim, ó nosso Deus,
desejamos que nos perdoeis os erros cometidos, por não obedecermos as
Vossas leis. Aqui nos encontramos para nos dirigirmos a esses nossos irmãos
que, como nós, um dia também desrespeitaram as Vossas leis e foram para a
cadeia da carne. Pedimos que, neste momento, em que vamos conversar
com os nossos irmãos, eles sintam que lhes declaro a verdade. Gostaríamos
que, para cada aluno desta Casa divina, pudéssemos provar que falamos a
verdade, e que eles nos ouçam; contudo, sabemos que àqueles a quem a
caridade já abriu os ouvidos irão acreditar em nós. Mas ainda, Senhor, pedimo-vos
misericórdia para todos os que foram chamados de Espíritos maus, que
ainda desconhecem o único caminho que nos conduz a Vós: a caridade.
Alguns, que aqui se encontram, nos conhecem, outros não; ou, então, simplesmente
ouviram falar de nós ou a nosso respeito alguma coisa, mas os
seus ouvidos não nos auscultaram o coração, onde somos o que somos no
nosso interior, para onde não podem lançar o olhar, o ouvido ou o espírito.
Querem, contudo, ouvir-nos, dispostos a acreditar que a caridade é que nos
torna justos, é ela que nos faz acreditar em Vós e em nós mesmos. O Espírito
que não busca a caridade está sujeito à morte, pois peregrina no mundo,
sempre em busca das coisas temporais, esquecendo que tudo o que há no
plano físico a Vós pertence. E quem já Vos foi apresentado, nosso Deus
amado, não pode viver apegado aos aplausos, à glória e às riquezas. Porque
o amigo Mestre, Jesus Cristo, ensinou que quem O seguisse no caminho da
vida, estes seriam os Vossos servos, os irmãos de Jesus. A Ele, Senhor
Deus, nos mandastes servir, se quiséssemos viver em Vós e convosco. E
Jesus, o Vosso Verbo, foi à frente com obras, atapetando o chão, antes repleto
de espinhos, com as rosas da Vossa bondade. Deus amado, que estais
em nós, ainda que não estejamos convosco, prometemos revelar a Vossa
bondade àqueles a quem nos mandais servir, mesmo que não nos acreditem,
como irmãos que somos. Eles podem até nos atirar pedras, caluniar-nos,
mas somente Vós, Senhor, podeis julgar, porque ninguém conhece o que se
passa no íntimo de cada um, a não ser o Espírito que nele reside e Vós, Deus
amado. E homem que somos, ainda não libertos das tentações, imploramo-vos
que nos ajudeis a curar-nos da imperfeição. Para isso, oferecemo-Vos o
291
que temos de melhor: ir até os confins do planeta para levar a Vossa mensagem de amor. Queremos ultrapassar a força que nos prende ao corpo
perispiritual e encher os nossos Espíritos de amor. Queremos, Senhor, transportar esta força do amor, subindo degrau por degraus até Vós, Deus, que nos criastes,
e esquecer o dia em que nos distanciamos de Vós, procurando
novamente ouvir a Vossa voz. Sabemos, Senhor, que não esquecemos as
dores passadas no corpo; não é de admirar, porque fomos durante muito
tempo apegados a ele. Hoje, queremos que o nosso Espírito esqueça as
tristezas passadas e busque na memória a alegria nela contida, de modo que
os nossos Espíritos se regozijem com a oportunidade que ainda nos ofereceis,
através do trabalho de levar até os encarnados os nossos conhecimentos.
Permiti, Senhor, que levemos mais além as nossas investigações, e que essas
tarefas jamais sejam perturbadas; que todos nós, aqui presentes, não venhamos a ser transformados em adivinhos ou feiticeiros. Ainda que narremos os
acontecimentos verídicos do passado, lembremos que vamos, até o plano
físico, ensinar ao encarnado a respeitar a vida e a não temer a morte do
corpo material, que nos foi confiada a tarefa de levar até os homens encarnados
o remédio para torná-los melhores, não para envaidecê-los. Não é nossa
tarefa predizer o futuro - que eqüivale ao fenômeno de se apresentar ao
Espírito as imagens das coisas que ainda não existem. De qualquer modo,
que saibamos evitar que esses fatos tenham lugar em nossos trabalhos. Ora,
o que já existe não é futuro, mas presente, e o presente, triste ou violento, é
o presente, e não é a finalidade das tarefas espíritas prever o futuro. Os
antigos profetas prediziam os acontecimentos, mas, aos espíritas, foi feito o
chamado, e cada um tem de tornar-se digno desse chamado, não deixando
para trás o momento sublime de suas vidas: o de servir. Recordemo-nos de
Mateus, que contava as suas moedas, quando o Cristo o chamou. Assim
somos nós: o Cristo nos chamou e Vós, Senhor Deus, nos esperais."
O orador fez breve pausa, para logo retornar:
"Senhor, aqui se encontram todos os Espíritos a quem foi dada uma
tarefa na Doutrina Espírita. E estamos, em Vosso nome, procurando transmitir a todos, o que Vós esperais das Vossas criaturas, de que modo ensinar as
292
almas a enfrentar os acontecimentos futuros, pois não podemos duvidar de
que, um dia, também, Senhor, Vós os revelastes aos Vossos profetas. Se
alguns fracassaram, não cabe a nós julgá-los. A Doutrina Espírita é a terceira
revelação divina e ninguém tem o direito de ultrajá-la. Os Espíritos vaidosos,
pseudo-sábios, que vêm ditando mensagens, apoderando-se de nomes respeitáveis,
esses sentirão o ranger dos dentes. Os escritos que são levados até
o plano físico obedecem a uma disciplina divina. Para que cheguem às mãos
dos leitores, passam pelo Departamento da Psicografia. Não se trata de brincadeira.
Essa operação está demasiado acima da nossa inteligência. O nosso
Espírito arde em ânsias de compreender este enigma tão complicado. Se
existem criaturas que brincam em nome dos Espíritos, logo receberão a conseqüência
dos seus atos levianos. Fazei, Senhor, com que nelas penetrem, e
lhes sejam claros, os Vossos ensinos da humildade. A quem devemos interrogar
sobi? estas questões ou a quem poderemos confirmar a nossa ignorância?
A Vós, Senhor, e à nossa consciência. Somente Vós nos ensinais a viver
de verdades. Cada um de nós deve sempre Vos pedir que nos livreis da
vaidade. Dai-nos, Pai, o que Vos pedimos, Vós, que verdadeiramente sabeis
presentear os Vossos filhos com dados valorosos, dai-nos o bom senso de
tudo analisar antes de levar até nossos irmãos encarnados. Pedimos para
Vós, Deus amado, que Jesus seja sempre o nosso Mestre de humildade, e
em nome dos Espíritos do Senhor, que ninguém nos perturbe o trabalho doutrinário.
Prometemos estar firmes na Vossa verdade; não toleraremos a vaidade,
a falta de conhecimento da Doutrina Espírita, devido ainda à enfermidade
das almas dos homens. Concedei-nos, Senhor, a graça de continuarmos
o nosso trabalho em prol do nosso próximo. Quão longe eles se encontram
de Vós, Senhor, esquecendo as conseqüências dos seus delitos. Sarai
nossos olhos, para nos alegrarmos com a Vossa luz. Entoai Vossos louvores
àquele que Vos compreende e à Doutrina Espírita; e quem não Vos compreender,
ainda, abrigai-o em Vossos braços também. Oh! quão sublime sois,
por levantardes os que caíram, mas não deixeis cair aqueles de quem sois o
Pai Todo-Poderoso. Graças a Vós, os humildes de coração possuem as
suas moradas e os seus trabalhos. Guardai, Senhor, a todos aqueles em quem
confiais. Assim seja."
293
Quando ele se calou, suave música tomou conta do ambiente. Só então
reparei os nossos companheiros e vi que todos os Espíritos ali presentes
estavam chorando de emoção, pois todos têm sobre seus ombros a tarefa de
ajudar os encarnados. Percebi que ali se encontravam Espíritos de todo o
Planeta, não só brasileiros, como de outros países. Marry me convidou a sair
e, quando o fizemos, observamos que o auditório tinha várias frisas; acreditamos
que cada uma delas era ocupada por Espíritos de graus evolutivos diferentes.
O auditório possuía o seguinte aspecto:
Os compartimentos pareciam camarotes. Os Espíritos que ali estavam
eram tarefeiros no plano físico, trabalhadores do Senhor.
294
- Marry, que lugar lindo! Pena que era tanta a minha emoção, que
não queria desgrudar os olhos do palestrante, mas quando pude perceber
aqueles andares repletos de irmãos atentos e emocionados, em algumas daquelas
frisas só via os lugares, pois meus olhos não tinham condição de divisar
os Espíritos ali presentes. ,
- Eles foram acomodados, Luiz, por grau evolutivo.
- Irmã, a Espiritualidade Maior está preocupada com o Espiritismo?
- Sim, Luiz, pela falta de estudo nas Casas Espíritas e pela paranóia
que toma conta de algumas pessoas, que se dizem médiuns missionários,
enquanto bem sabemos que o verdadeiro trabalhador espírita é aquele que
apenas serve em silêncio. A Espiritualidade Maior está criando grupos compostos
de Espíritos com imenso conhecimento doutrinário, para atuar em
muitas Casas, para que elas se conscientizem de que o homem, quando as
busca, é para aprender o que ontem era mistério.
-Marry, vou escrever um livro com o título: "Os embustes na Doutrina"...
-É tão fácil reconhecer um médium sério, Luiz!
295
- Marry, pode definir os atributos de um médium com Jesus?
- Luiz, não devemos procurá-lo entre os grandes, mas muito longe,
isto é, no nada. Ele está o mais distante possível de tudo o que brilha, ama a
pequenez, é pobre de espirito. Bem escondido por detrás dos seus trabalhos
de caridade, está trancafiado, em chaves de amor, o seu dom mediúnico,
esperando pelo dia em que, humildemente, apresentará a Jesus o seu cajado,
que durante a sua vida mediúnica não é florido, ao contrário, é pesado pelas
ingratidões. Na hora em que ele apresentá-lo ao Cristo, verá que o cajado,
pesado e espinhoso de ontem, estará leve, florido e perfumado, pois ele não
desvirtuou sua tarefa mediúnica. Através do Estudo Sistematizado da Doutrina
Espírita, aprendeu a ser um pobre grão de areia e não se importou em
ser desprezado, pois, estudando, ele aprendeu que as montanhas são compostas
de muitos grãozinhos de areia. O médium com Jesus procura não
sobressair aos olhos dos encarnados, mas luta para tornar-se grande diante
da Espiritualidade.
-Marry, mediunidade é um sacerdócio, não é mesmo?
-É muito mais. É lutar para ser esquecido, não somente das criaturas
que, às vezes, desejam glorificar sua mediunidade. É entregar a sua vida nos
braços de Jesus, sem volver a cabeça, unir-se a Ele e o resto lhe será dado
por acréscimo, como narra Mateus, Capítulo VI, versículo 33.
- Irmã Marry, por isso existem tão poucos médiuns de verdade!...
Ela sorriu.
- Mas foi o nosso Mestre quem advertiu: "ai daquele que brincar
com o Espírito Santo."
- E como tem neguinho aí pendurando melancia, abóbora, jaca etc.
no pescoço. Estes não estão brincando com o Espírito Santo, estão armando
um circo e tentando desmoralizar a Doutrina Espírita.
-Mas nós sabemos que a Doutrina é inatingível; passam os homens
e Ela permanece cada vez mais brilhante.
296
-Marry, gostaria que a irmã dissesse mais alguma coisa para conhecermos
um bom médium.
-Luiz, é tão fácil reconhecer um bom médium!... Ele não vive falando
de Espíritos em qualquer lugar.
-Está bem, Marry, isso já sei. Agora, por favor, algumas coisas mais para os médiuns.
Marry sorriu e me alisou a face. ! ,, ,
-Luiz Sérgio, a orientação de Francisca Theresa é a seguinte: "como
há diferença muito maior entre as almas do que entre as fisionomias, é impossível
agir com todos da mesma maneira. com certas criaturas, percebo que
tenho de diminuir, de não recear humilhar-me, revelando meus combates,
minhas derrotas. Ao verem que tenho as mesmas fraquezas que elas, as minhas
irmãs me confessam também, por sua vez, as faltas de que se recriminam,
e se alegram de que eu as compreenda. com outras, percebi que, para '
lhes fazer algum bem, preciso, ao contrário, usar de minha firmeza; abaixarme,
nestes casos, não seria humildade, mas fraqueza". Sendo assim, Luiz, um
bom médium é aquele que se julga igual aos outros, possuidor de qualidades
e de imperfeições; jamais se julga superior a ninguém ou pensa ser um missionário.
Quem não tem esse proceder jamais poderá dizer-se um trabalhador
do Cristo.
- Obrigado, Marry, nós amamos você.
- Obrigada, Luiz, você é um grande amigo. Mas agora, vamos ganhar
estrada, i:
- Oba, adoro viajar! Até pareço alguém que conheço: adora uma
estrada. Para onde vamos, Júpiter ou Vênus? Dizem que as mulheres venusianas
são lindas!
- Não, Luiz, não vamos a Vênus. Estamos contentes com este céu
que vemos e com esta Terra, que é o nosso planeta amado, donde tirei os
elementos que compõem meu perispírito. Recitemos o Salmo CXV: 16O mais
alto dos céus é para o Senhor, mas a terra, deu-a aos filhos do homem.
297
Apesar de não irmos a Vênus, devemos agradecer a Colônia que nos abriga,
os nossos amigos protetores, a nossa Universidade. Às vezes questionamos,
achando absurdo que cada um desses dois mundos - o espiritual e o físico
- compõem a Terra. Devemos dizer aos que estão presos na cadeia da
carne que a Terra é um presente de Deus, e foi confiada a Jesus para a
evolução dos Seus irmãos imperfeitos.
- Às vezes, Marry, julgo que onde estou trabalhando seja o céu, de
tanto gostar do que hoje faço. Quantos no mundo físico julgam que existe um
céu misterioso, que pertence a Deus e a todos os bonzinhos. Pobres coitados
! Um dia, terão consciência da verdade e, aí, sentirão o ranger dos dentes.
Naquele instante, recordei Jesus Cristo criando a Terra, formando
e diferenciando sua matéria informe. Antes, não existia cor, figura ou corpo,
somente os Espíritos sublimados, auxiliares de Jesus. Porém, não era
o nada abstrato, era, antes, uma massa informe, quando Ele, o nosso
Mestre amado, iniciou o Seu belo trabalho.
- Procuremos, Luiz, elevar os nossos sentimentos para atingir a
grandeza do trabalho de Jesus, quando preparava o nosso planeta. Quão
grande é o nosso amor pelo nosso Governador! Nossa inteligência cessa
de interrogar a imaginação e nosso coração canta hosanas ao Senhor,
agradecendo por tudo, por este belo Planeta que caminha para a maturidade.
Luiz Sérgio, em Isaías, Capítulo VI, v. 2-4, encontramos: Os
Serafins estavam sobre Ele: seis asas tinha um, e seis asas tinha outro:
com duas cobriam a sua face, e com duas cobriam os seus pés, e
com duas voavam e clamavam um para o outro, e diziam: Santo,
Santo, Santo, Senhor Deus dos exércitos, cheia está toda a terra da
sua glória. E estremeceram os umbrais com as couceiras à voz do
seu clamor, e a casa se encheu de fumaça. Esta passagem é a única em
que os serafins são mencionados nas Escrituras. A humildade deles manifesta
a grandeza divina, por isso, cobrem o rosto, porque sentem-se indignos
de fixarem o olhar em Deus. Nesta passagem, sentimos quão sublime
é a missão dos Espíritos chamados para trabalhar com Jesus. A fé
298
é conquista do Espírito, principalmente a fé raciocinada, como ensina o
Espiritismo. Bem, querido amigo, agora vamos retornar às nossas Colônias.
Gostamos muito de ter trabalhado ao seu lado.
- Masjá, Marry?
-Antes de terminar esse estudo, queremos dizer que foram dias muito proveitosos,
esperamos reencontrá-lo muitas vezes mais. , : ;
- A querida irmã sabe que não gosto de despedidas, elas deixam as
marcas da saudade em meu Espírito.
- Mas não será uma despedida e, sim, um até logo.
-Marry, com você aprendi que a alegria não se encontra nos objetos
que nos cercam nem nos lugares onde estamos; a alegria é muito mais do que
muitos imaginam.
Ela sorriu e fomos caminhando pelas alamedas da Universidade Maria
de Nazaré. Meus olhos, marejados de lágrimas, contemplavam toda a natureza
e, em louvor a Deus, fiz uma oração.
Logo estávamos na magnetosfera, zona em torno do planeta, controlada
pelo campo magnético da Terra. Observei que era uma espécie de escudo,
protegendo a superfície terrestre. Estava boquiaberto, pois percebi
que as vibrações pesadas dos homens ali chegavam como explosões solares.
Bem à nossa frente, notei o impacto das tempestades magnéticas nas comunicações.
Presenciávamos a interação do vento solar com a magnetosfera e
como este reage às tempestades magnéticas, pois as partículas carregadas
podem danificar os satélites e afetar usinas de energia elétrica, no solo. E a
espécie de escudo protetor da Terra era constituída não somente da
magnetosfera, como também do vento solar.
- Marry, como é grande a bondade e o poder de Deus! Neste momento,
como gostaria de gritar o quanto O amo! E os encarnados ainda
julgam que o planeta está na pior... O planeta está evoluindo! Entretanto,
muitos homens estão comprando a passagem para outro planeta, inferior à
Terra. Hoje, a sociedade moderna não sabe viver sem satélites, telefones
299
celulares e outros confortos. Mas está nas mãos de Deus, e não nas do
homem, esse conforto. Se a Humanidade não respeitar a Natureza, logo será
privada de todas essas conquistas.
- E os cientistas sabem disso, Luiz.
- Marry, como gostaríamos de ter o curso do Rayto para fotografar
toda essa beleza e depois projetar essas imagens mentalmente, para quem
não tem o privilégio de chegar até aqui.
Marry nada falou. Fixei o olhar nos buracos negros e nos choques das
galáxias. O que me impressionou foi o bombardeio dos prótons, que pareciam
guardiães mostrando o seu poder, como se desejando nos expulsar dali,
como se fôssemos intrusos ou espiões.
- Parece que estamos incomodando - comentei.
-Não, Luiz, a nossa presença em nada incomoda, pois também pertencemos
a este espaço.
- Por que o homem ainda duvida que exista vida em outros planetas, Marry?
- Ignorância e falta de conhecimento da grandeza de Deus. Caso
somente a Terra fosse habitada, Deus não seria o Ser mais inteligente do
Universo. É como se alguém construísse um país, dividisse em Estados, colocasse
as cidades e somente uma casinha fosse habitada. A vaidade do
homem é que o leva a imaginar que só existe ele no Universo. Bendita Doutrina
Espírita, que afirma que a Casa do Pai tem muitas moradas.
-Por que o nosso Planeta querido ainda é um lugar bem distante das
moradas celestes? Por que os cientistas ainda não descobriram vida em outros
planetas?
-Porque os elementos que resguardam esses planetas emitem raios
que não podem ser vistos pela faixa ótica dos terráqueos. Mesmo com o
avanço da ciência, os telescópios não são ainda capazes de enxergá-los.
Quando o povo estiver regenerado, os cientistas estarão aptos a divisar o
300
Universo. Até lá, o Pai estará esperando pela regeneração do nosso Planeta.
Ainda bem que a Casa do Pai é o Universo e nós somos herdeiros dele; e
ele, o Universo, nos pertence.
- Desculpe-me, Marry, mas me dá uma canseira pensar que temos
de lutar para voltar ao paraíso...
- É bom que se diga que o paraíso é o Universo e quando o Espírito
atinge a perfeição, não mais precisa reencarnar, ele conquista a vida plena.
Para quem saiu da pedra lascada e já passou pelo reino vegetal e animal, até
que já caminhamos muito.
- Devemos dar graças a Deus, Marry, por não nos encontrarmos
estacionados, porque o Espírito não retroage, mas o seu perispírito, sim. E
como tem neguinho com o perispírito completamente deformado!... esteja
tem passagem, visto e passaporte para o planeta que está se aproximando da
Terra, para buscá-lo.
Marry lutava para não rir e, carinhosamente, convidou-me a retornarmos
às nossas colônias. De braços abertos, buscamos os braços abertos de Jesus
Cristo, o Governador do nosso planeta, e me imaginei bem perto dele,
colocando o meu coração junto, bem junto ao Seu e, com muita humildade,
apenas sussurrei o Seu nome: "Amigo e Mestre, tenha piedade de nós, pois
às vezes nos sentimos um grão de areia sem valor algum. Mas quando O
buscamos, sentimo-nos um próton, e cheios de esperança colocamos os nossos
pés nas Suas pegadas e continuamos caminhando. bom Jesus, amigo
querido, guarde-nos no Seu manto de luz, que é o céu estrelado, e quando o
buraco negro da vaidade humana desejar nos sugar, projeta-nos, Senhor,
hoje e sempre."
Quando terminei a prece, já estávamos no jardim do Departamento
do Trabalho, onde me separaria de Marry. Notei sua emoção. E eu senti uma
paz imensa, como se o Cristo estivesse me abraçando bem forte. Sorri de
felicidade, pelo mundo que um dia encontrei.
-Luiz, quando desejar nos encontrar, procure-nos, porque aprendemos
a lhe querer muito. .
301
- Marry, muitos encarnado julgam que os Espíritos não têm o que
fazer. Enquanto estamos estudando e trabalhando no mundo espiritual, criaturas sem conhecimento doutrinário brincam com o nosso nome. !
- Irmão, esqueça isso, nada melhor do que as nossas obras, elas são
a nossa carteira de identidade.
- Gostei dessa comparação.
-É, Luiz, mas como o Espírito é uma individualidade, ele é eterno, e
as suas características ninguém consegue imitar.
-Isso mesmo, Marry. Não é o nome de um Espírito que valoriza ou
prova uma mensagem e sim o seu conteúdo.
- O Espírito, quando escolhido para uma tarefa no mundo físico, é
preparado junto àquele com quem exercerá uma missão. E, muitas vezes,
esses Espíritos incomodam as legiões trevosas; e a tarefa por ele efetuada, se
está sendo útil ao progresso dos encarnados, sofre o assédio dessas entidades.
- Irmã, mas estamos em pleno ano de 1998, e alguns médiuns ainda
se deixam enganar?
- Quando o pomar está repleto de frutos é que é cobiçado. Não
importa se estamos quase chegando ao ano 2000 e se os espíritas deveriam
ter mais conhecimento, o que importa, Luiz, é que realizemos o nosso trabalho
e peçamos a Deus ajuda para não interromper a nossa tarefa. E a sua é
levar a Doutrina àqueles que não são espíritas.
-Marry, obrigado. Muito obrigado.
- Foi gratificante ter trabalhado com você. Agora vamos adentrar
este departamento para prestarmos contas do trabalho realizado.
E assim fizemos, o que foi bem rápido. Despedi-me de Marry, com os
olhos rasos de lágrimas. Apertei bem forte aquela querida irmã em meus
braços, recordando da minha Zildinha; era como se, com aquele gesto, pedisse
proteção à minha mãe amada. Marry alisou meus cabelos e com seu
302
belo porte foi caminhando, devagar. Fitei-a até sumir. Aí, olhando tudo o que
nos rodeava, aproximou-se de mim um cachorro, saltitante, e parou à minha
frente. Sorri, pois ali estava mais um amigo que viera me cumprimentar. Acariciei-o;
como já narrei, logo ele estará dando o grande salto em direção a
Deus, quando, obedecendo às leis da Natureza, chegará à condição de homem.
Chamei-o de torn. Ele desapareceu, depois de me saudar, e continuei
a minha caminhada.
Recordei a questão 591 de O Livro dos Espíritos:
591. Nos mundos superiores, as plantas são de natureza mais perfeita,
como os outros seres?
"Tudo é mais perfeito. As plantas, porém, são sempre plantas, como
os animais, sempre animais, e os homens, sempre homens."
Como Deus é perfeito! Ele espera, como bom Pai, que todos nós
venhamos a nos tornar perfeitos. Recitei o Salmo XXVIII, versículo 7: O
Senhor é a minha força e meu escudo. Nele confia meu coração, e exulto,
pelo que meu coração salta de prazer, e com o meu canto o louvarei.
Sim, meu Deus, agradeço-Vos por ter-me ensinado a falar de amor,
único hino que devo cantar, agradecido. Obrigado, Deus amado, pelo Mestre
Amigo que tantos ensinamentos tem dado à Humanidade. Obrigado, Senhor,
por tudo o que tenho recebido, principalmente as lições preciosas da
Doutrina Espírita, que me colocam junto a cada leitor, para também transmitir-lhe
o que aprendo: falar de amor.
LUIZ SÉRGIO
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Obras do Espírito Luiz Sérgio
O mundo que eu encontrei - Psicografado por Alaíde de Assunção e Silva
Novas Mensagens - Psicografado por Alaíde de Assunção e Silva
Intercâmbio - Psicografado por Alaíde de A. e Silva e Lúcia M. S. Pinto
Na esperança de uma nova vida - Psicografado por Irene Pacheco Machado
Ninguém está sozinho - Psicografado por Irene Pacheco Machado
Os miosótis voltam a florir - Psicografado por Irene Pacheco Machado
O vôo mais alto - Psicografado por Irene Pacheco Machado
Um jardim de esperanças - Psicografado por Irene Pacheco Machado
Mãos estendidas - Psicografado por Irene Pacheco Machado
Consciência - Psicografado por Irene Pacheco Machado
Chama eterna - Psicografado por Irene Pacheco Machado
Lírios colhidos - Psicografado por Irene Pacheco Machado
Driblando a dor - Psicografado por Irene Pacheco Machado
Deixe-me viver - Psicografado por Irene Pacheco Machado
Dois mundos tão meus - Psicografado por Irene Pacheco Machado
Cascata de luz - Psicografado por Irene Pacheco Machado
Na hora do adeus - Psicografado por Irene Pacheco Machado
Universo de amor - Psicografado por Irene Pacheco Machado
Amigo e Mestre - Psicografado por Irene Pacheco Machado
Ensina-me a falar de amor - Psicografado por Irene Pacheco Machado
Mais além do meu olhar - Psicografado por Irene Pacheco Machado
Louvando a Natureza - CD com músicas psicografadas por Irene P. Machado
Obras de autores diversos psicografadas por IRENE PACHECO MACHADO
Diálogo com Jesus - Pelo Espírito Francisca Theresa
Reflexões de Jacó - Pelo Espírito Jacó
Nós amamos você - Por Espíritos diversos ...,.'
Reflexões de Jacó II - Pelo Espírito Jacó . , ! .
Por que as lágrimas? - Por Espíritos diversos
Alicerce da Fé - Pelos Espíritos Lázaro José e João Batista
Sonhos & Realidades - Pelo Espírito Jacó
Uma rosa em meu caminho - Pelo Espírito Rosália
Corações amigos - Por Espíritos diversos
Cântico de paz - Pelo Espírito Jacó
As flores também choram - Pelo Espírito Jacó
O Gênesis - Pelo Espírito Cecília (Série A Bíblia na Linguagem Espírita - Vol. 1)
Êxodo - Pelo Espírito Cecília (Série A Bíblia na Linguagem Espírita - Vol. 2)
Levítico - Pelo Espírito Cecília (Série A Bíblia na Linguagem Espírita - Vol. 3)
Números - Pelo Espírito Cecília (Série A Bíblia na Linguagem Espírita - Vol. 4)
Deuteronômio - Pelo Espírito Cecília (Série A Bíblia na Linguagem Espírita - Vol. 5)
Obras de autores diversos
O Barco de Maria - Maurício Maia Soutinho
Conquista do Reino - João J. Moutinho
A Longa Estrada - Jab Sousa Silveira e Maurício Maia Soutinho
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Sonhos & Realidades-psicografado
por Irene Pacheco Machado.
Neste livro, Jacó nos peimite uma
viagem ao seu mundo de sonhos e
realidades. E como é proveitosa para
o nosso Espírito!
Universo de amor - psicografado
por Irene Pacheco Machado. Nele, Luiz Sérgio narra o que
aprendeu no mundo espiritual, conduzindo-nos
a uma viagem através
do Universo criado por Deus.
Nós amamos você psicografado
por Irene Pacheco
Machado. Um coro de belas vozes,
cantando para todos os leitores uma
bela canção de amor. É um livro onde
as mensasgens chegam até o leitor
como gotas de luz.
Alicerce da Fé - psicografado
por Irene Pacheco Machado.
Lázaro José e João, dois Espíritos
evangelizadores, oferecem-nos os
esclarecimentos necessários para
bem compreendermos as parábolas
de Jesus, contadas em O Evangelho
Segundo o Espiritismo.
Louvando a Natureza - CD
com músicas do Espírito Luiz Sérgio,
psicografadas por Irene Pacheco
Machado.
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70084-970 Brasília DF
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Corações Amigos - Espíritos diversos, psicografado por Irene
Pacheco Machado. É um livro que mensagens chegam ao leitor
como gotas de luz, clareando os
nossos caminhos para os braços de
Deus.
Uma rosa em meu caminho
- pelo Espírito Rosália. Psicografado
por Irene Pacheco Machado.
É o livro perfumado de uma
vida. Nele, irmã Rosália, antiga religiosa,
narra as suas experiências.
Na hora do adeus -Psicografado
por Irene Pacheco Machado.
Luiz Sérgio nos ensina, neste livro,
a não temermos o desencarne.
É muito bom saber que Espíritos
treinados para o socorro de recém-desencarnados
imediatamente se
apresentam, acompanhando-os desde
o processo de desprendimento
até a sua total libertação do corpo físico.
Cântico de Paz - psicografado por Irene Pacheco Machado.
É Jacó, com sua filosofia de
vida, dando ao leitor um abraço
amigo. Neste livro, os pensamentos
de uma grande alma chegam até nós,
tentando nos despertar para uma
vida onde a paz é o único caminho de felicidade.
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70084-970 Brasília DF
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FIM DO LIVRO!
Digitalizado e corrigido por:
A, Marcos Ricieri
Olá, bons amigos:
Mais um livro espírita para todos.
Muita paz!
Bezerra
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