POUL ANDERSON
A GUERRA DOS HOMENS
ALADOS
Tradução de:
AFFONSO BLACHEYRE
HEMUS — LIVRARIA EDITORA LTDA.
1
O Grande Almirante Syranax hyr Urnan, Comandante-em-
Chefe hereditário da Frota de Drak'ho, Pescador do Mares
Ocidentais, Chefe do Sacrificio do Oráculo da Estrela Polar,
abriu as asas e voltou a fechá-las, em um trovão de espanto.
Por momentos aquilo fez os papéis na escrivaninha revoar.
— Não! Impossível! Houve algum engano.
— Como quiser o meu Almirante — disse o Oficial
Executivo Delp hyr Orikan, com mesura sarcástica. — Os
batedores nada viram.
A expressão de raiva perpassou o rosto do Capitão T'heonax
hyr Urnan, filho do Grande Almirante e seu herdeiro. Seu
lábio superior ergueu-se, fazendo os colmilhos caninos
aparecer em relance branco contra o focinho escuro.
— Não dispomos de tempo para gastar com sua insolência,
Executivo Delp — disse, friamente. — Eu aconselharia meu
pai a dispensar o oficial que não demonstrar mais respeito.
Sob as correias bordadas que lhe indicavam o cargo, o
corpanzil de Delp retesou-se. O Capitão T'heonax deu um
passo em sua direção. As caudas se curvaram e as asas se
abriram, em presteza para a luta, até que o aposento
estivesse cheio de seus corpos e seu ódio. Em movimento
calculado, que parecia ocasional, T'heonax baixou a mão para
o ancinho de obsidiana que trazia à cinta. Os olhos amarelos
de Delp reluziam, os dedos se fechavam em sua própria
machadinha.
A cauda do Almirante Syranax bateu no chão. Era como
uma bomba explodindo ali mesmo. Os dois jovens nobres
sobressaltaram-se, lembraram-se de onde estavam e devagar,
músculo após músculo voltando ao repouso, por baixo da
pelagem castanha luzidia, afrouxaram os corpos.
— Basta! — disse o Almirante, com brusquidão.
— Delp, sua língua ainda haverá de metê-lo em encrencas.
T'heonax, já me aborreci com seu despeito. Você terá a
oportunidade de lidar com os inimigos pessoais, quando eu
for comida de peixes. Enquanto isso, poupe-me os poucos
oficiais competentes que tenho!
Era o discurso mais firme que alguém já o ouvira pronunciar
por bastante tempo. Seu filho e o subordinado relembravam-
se agora de que aquela criatura grisalha, de olhos embaçados,
acossada pelo reumatismo, já fora o vencedor da Armada
Maion (mil asas de chefes inimigos haviam sido
dependuradas, em espetáculo sinistro, nos mastros da Frota).
E ainda era o chefe deles, na guerra contra a Revoada.
Tomaram a posição de respeito, de quatro, esperando que
ele prosseguisse.
— Não me interprete de modo tão liberal, Delp - disse o
Almirante, em tom mais suave. Estendeu a mão para a
prateleira acima da mesa e tirou dali um cachimbo de cabo
comprido; começou a encher-lhe a panela com algas
marítimas secas, extraídas da bolsa à cinta. Entrementes, seu
corpo velho e endurecido acomodava-se melhor no banco
de madeira e couro.
— Foi surpresa para mim, naturalmente, mas supus que
nossos batedores sabiam ainda usar um telescópio. Descreva-
me outra vez, com exatidão, o que ocorreu.
— Uma patrulha efetuava reconhecimento rotineiro a cerca
de trinta obdisai, a norte-noroeste daqui — explicou Delp,
com cautela. — Isso seria na faixa geral da ilha chamada...
não consigo pronunciar aquele nome selvagem, senhor; ele
significa Bandeiras Desfraldadas.
— Sim, sim — assentiu Syranax. — De vez em quando eu
consulto os mapas, sabia?
Theonax sorriu. Delp não era criatura da corte, daí sua
deficiência. O avô fora simples Fabricante de Velas e o pai
nunca atingira mais do que o posto de Capitão de uma só
jangada. Tal ocorrera após a família ter sido enobrecida, por
serviços heróicos prestados na batalha de Xarifha,
naturalmente. Mas não tinham sido destacados pares do
reino, eram uma corja de mãos sujas, pouco acima dos
próprios subordinados.
Syranax, que corporificava a resposta dada pela Frota àqueles
dias sombrios de fome e debandada, havia escolhido os
oficiais na base de capacidade comprovada e nada mais.
Assim aquele simplório Delp hyr Orilcan se vira em pouco
tempo guindado ao segundo posto mais elevado em Drak'ho.
Sua ascensão, todavia, não aparara as arestas de educação,
nem lhe ensinara a lidar com verdadeiros nobres.
Se Delp era querido pelos marinheiros comuns, tanto mais
desagradava a muitos aristocratas. Aos olhos destes era ainda
um parvenu, um cacete, e tivera a coragem de casar-se com
uma Axollon! Após se fecharem na morte as asas protetoras
do velho Almirante
Theonax saboreava antecipadamente o que sucederia, então,
a Delp hyr Orikan. Seria muito fácil descobrir alguma
acusação nominal.
O Executivo engoliu em seco.
— Desculpe, senhor — murmurou. — Eu não pretendia..
ainda somos muitos novos em todo este setor do mar. Os
batedores viram o objeto à deriva.
Não se parecia a coisa alguma que conhecessem. Dois deles
voltaram para dar parte e pedir orientação. Fui pessoalmente
examinar o caso. Senhor, é verdade!
— Um objeto flutuante, seis vezes mais comprido que nossa
maior canoa, semelhante a gelo, mas diferente — e o
Almirante balançava a cabeça de pelos grisalhos. Devagar,
pôs isca seca na panela do cachimbo, mas foi com violência
desnecessária que enfiou a vareta naquele cilindro de
madeira. Retirando a vareta, acendeu o fogo e puxou
tragadas profundas.
— O cristal de rocha que receber o melhor polimento
possível poderia parecer-se um pouco àquilo, senhor —
sugeriu Delp. — Mas não brilharia tanto. Não teria o
bruxuleio.
— E existem animais correndo em volta dele?
— Três, senhor. Têm perto de nosso tamanho, são um
pouco maiores, mas sem asas e sem cauda. Ainda assim, não
são apenas animais... ao que creio. Parecem usar roupas e
eu... não creio que a coisa brilhante fosse feita para ser um
barco. Navega de modo abominável e parece estar
afundando.
— Se não é barco e não é uma tora de madeira largada de
alguma praia — disse Theonax — nesse caso, rogo que diga
de onde vem. Das profundezas?
— Dificilmente, Capitão — respondeu Delp, tomado de
irritação. — Se assim fosse, as criaturas em cima seriam
peixes, ou mamíferos do mar, ou.. . bem, estariam adaptados
à natação, e não ocorre isso. Parecem-se a formas terrestres
típicas, sem capacidade de voar, a não ser pelo fato de que
têm quatro membros.
— Devem ter caído do céu, então, ao que presumo —
zombou Theonax.
— Para mim não seria surpresa — retorquiu Delp, em voz
baixíssima. — Não existe qualquer outra direção que reste.
Theonax sentou-se sobre as ancas e se punha boquiaberto,
mas o pai apenas assentiu.
— Ótimo — murmurou Syranax. — Estou satisfeito por ver
alguém dotado de um pouco de imaginação, entre nós.
— Mas de onde eles voaram? — explodia Theonax.
— Talvez nossos inimigos de Lannach possam explicar —
propôs o Almirante. — Eles podem cobrir uma parte maior
do mundo, a cada ano, do que nós em muitas gerações; e
encontram uma centena de outras Revoadas bárbaras, nos
trópicos, trocam notícias com eles.
— E fêmeas — observou Theonax, falando naquela mistura
de desaprovação e afetação com que toda a Frota encarava os
hábitos dos migrantes.
— É deixar isso para lá — retorquiu Delp, com aspereza.
Theonax eriçou-se.
— Seu cachorrinho esfregador de convés, como se atreve...
— Cale a boca! — estrugiu Syranax e, após uma pausa,
prosseguiu: — Mandarei fazer indagações entre nossos
prisioneiros. Enquanto isso, é melhor mandar uma canoa
rápida para recolher esses seres, antes que o objeto onde
estão flutuando afunde de uma vez.
— Eles podem ser perigosos — advertiu Theonax.
— De pleno acordo — concordou o pai. — Se forem, é
melhor que estejam em nossas mãos do que, digamos, dos
Lannach'honai, que podem encontrá-los e fazer uma
aliança. Delp, tome Neninis com boa tripulação, e ponha
bastante vela. E traga aquele camarada de Lannach que
capturamos, como é que se chama? O lingüista
profissional...?
— Tolk? — e o Executivo encontrara dificuldades para
pronunciar aquele nome estranho.
— Sim. Talvez ele possa falar com as criaturas. Mande
batedores de volta para me informar, mas fique bem longe
da frota principal, até termos certeza de que as criaturas são
inofensivas a nós. Da mesma forma, até que eu tenha
reduzido quaisquer medos supersticiosos a respeito de
demônios do mar, existentes nas classes mais baixas. Seja
educado se puder, use a força caso seja necessário. Sempre
poderemos pedir desculpas mais tarde.. ou jogar os corpos
na água. Agora, pule!
Delp pulou.
2
Sentia-se como se a desolação o encerrasse entre quatro
muralhas. Mesmo em cima daquele casco baixo, que oscilava
para todos os lados, o resto do cruzador espacial abatido, Eric
Wace podia ver uma imensidão de horizonte. Achava que o
simples tamanho daquele anel imenso, onde o sol
empalidecido pela geada encontrava-se com o cinzento que
eram as nuvens, a espuma da tempestade e grandes ondas,
bastava para apavorar um homem. A probabilidade da morte
fora enfrentada antes, na Terra, por muitos de seus
ancestrais, mas o horizonte da Terra não era distante assim.
Que ficasse de lado o fato de que se encontrava a cerca de
cem anos-luz de seu próprio Sol. Distâncias assim eram
grandes demais para serem compreendidas; tornavam-se
simples números, não assustavam alguém que levava em
conta a pseudo-velocidade de espaço-nave em impulso
secundário, em parsecs por semana.
Mesmo os 10.000 quilômetros de oceano aberto à
colonização humana solitária naquele mundo, o posto
comercial, constituía apenas mais um número. Mais tarde, se
tivesse vida, Wace passaria momentos agoniantes,
imaginando como enviar uma mensagem que varasse o
espaço vazio, mas no momento estava ocupado demais em
manter-se vivo.
A largura do planeta, entretanto, era algo que ele podia ver.
Ela o impressionara antes, em sua estada de dezoito meses;
mas ele estivera isolado, tanto psicológica quanto
fisicamente, por uma tecnologia de máquinas invencível.
Agora, estava sozinho em nave que afundava e era dupla a
distância que tinha de percorrer com o olhar, por cima de
ondas geladas, até a orla do mundo, em comparação ao que
sucederia na Terra.
O cruzador de espaço sacudiu-se, recebendo impacto
selvagem das ondas. Wace perdeu o equilíbrio e escorregou
por placas metálicas lisas. Frenético, agarrou-se ao cabo de
luz, que prendia as caixas com alimentos à torre de
navegação. Caiu para o outro lado, as botas e roupas
serviriam para fazê-lo afundar como se fosse pedra. Agarrou-
o a tempo e, assim, conseguiu parar. Desapontada, a onda
esbofeteou-lhe a cara com a mão salgado e úmida.
Estremecendo de frio, Wace acabou de enfiar a última caixa
no lugar e arrastou-se para a escotilha de entrada. Era uma
porta de emergência, pequenina e horrível, mas o convés de
passeio, com sua superfície luzidia e por baixo, onde os
passageiros haviam passeado enquanto os raios de gravidade
do cruzador tinham mantido a sustentação pelo céu, estava
submerso e o mesmo ocorria a seu portal ornamentado e
feito de bronze.
A água enchera o compartimento de motores, destruído na
queda, quando haviam caído. Desde então aquilo estivera
vazando por tabiques retorcidos e chapas de casco
violentadas, até que tudo estivesse prestes a efetuar um
último mergulho profundo ao leito do mar.
O vento passava dedos muito finos por seus cabelos
encharcados e tentava manter aberta a escotilha, quando ele
quis fechá-la, após ter entrado. Teve de travar luta com a
tormenta. Tormenta? Com os diabos, não! Tinha apenas a
velocidade de uma brisa mais forte, porém com seis vezes
mais pressão atmosférica do que a Terra, caso em que tal
brisa se parecia a uma tempestade terrestre. Que se
desgraçasse PLC 2987165 II! Que se danasse o próprio PL e
que se danasse Nicholas van Rijn, e de modo ainda mais
especial que se condenasse Eric Wace, por ser imbecil o bas-
tante para trabalhar na Companhia!
De modo rápido, enquanto lutava com a escotilha, Wace
olhou por cima da espuma, como a procurar socorro. Viu de
relance apenas o sol avermelhado e grandes nuvens,
carregadas de tempestade escura ao norte e alguns pontinhos
que eram provavelmente os nativos. Que o demônio fritasse
aqueles nativos em grelha lenta, por não virem ajudar! Ou,
ao menos, que se afastassem decentemente enquanto os
seres humanos se afogavam, em vez de adejarem no ar,
gozando a cena!
— Tudo em ordem?
Wace fechou a escotilha, trancou-a bem e desceu a escada.
Ao pé da mesma, teve de segurar-se por causa das oscilações
fortes. Ainda ouvia as ondas batendo no casco e o vento
gemendo.
— Sim, minha senhora. Em ordem tão boa quanto antes.
— O que não é grande coisa, não? — e a Dama Sandra
Tamarin iluminou-o com a lanterna. Ao lado daquela fonte
de luz ela não passava de outra sombra, na escuridão da
nave. — Mas você se parece a um pinto molhado, meu
amigo. Venha. Temos, ao menos, roupas secas para você.
Wace assentiu e despiu a jaqueta encharcada, e com
pontapés no ar livrou-se das botas. Teria regelado lá fora,
sem elas — não podia estar a mais de cinco graus C — mas
pareciam ter absorvido metade da água do oceano. Os dentes
estralejavam tiritando, enquanto a acompanhava pelo
corredor.
Ele era um jovem alto, de raça norte-americana, cabelos
avermelhados e olhos azuis, traços audaciosamente
marcados e o corpo musculoso. Começara como aprendiz de
armazém, aos doze anos de idade, na Terra, e agora ocupava
o cargo de agente da Companhia Solar de Temperos &
Bebidas para todo o planeta conhecido pelo nome de
Diomedes. Não se tratava de carreira das mais meteóricas —
a política adotada por Nicholas van Rijn era a de promover o
subordinado de acordo com os resultados obtidos, e isso
significava que os elementos dotados de espírito rápido,
arma ligeira e olho cravado na oportunidade maior se viam
favorecidos. Mas fora uma carreira boa e estável, tendo por
futuro cargos em lugares menos isolados e desagradáveis e,
finalmente, uma posição qualquer de executivo na central,
mas de que adiantava, se águas alienígenas iriam tragá-lo em
questão de horas?
Ao final do salão, onde a torre de navegação se erguia,
voltava a ver aquela luz de sol raivosa e cor de cobre, bem
baixa no céu coberto de nuvens e fumaça, ao sul do Oeste,
ao cair do dia. A Dama Sandra apagou a lanterna e apontou
para o macacão estendido na mesa. Ao lado da peça de roupa
havia os complementos externos, acolchoados, enluvados e
protegidos, de que ele necessitaria antes de voltar a arriscar-
se naquela primavera equinocial.
— Vista tudo — disse ela. — Quando o barco começar a
afundar, teremos de abandoná-lo na maior pressa possível.
— Onde está o Libero van Rijn — indagou Wace.
— Fazendo alguns trabalhos de última hora na jangada.
Aquele homem é habilidoso com as ferramentas, não? Mas
acontece que já foi tripulante comum.
Wace deu de ombros e esperou que ela saísse. — Mude de
roupa, já disse — insistiu ela.
— Mas...
— Ah — e leve sorriso surgiu-lhe aos lábios. — Não sabia
que existe um tabu de nudez na Terra.
— Bem... não é exatamente assim, mas, afinal de contas, a
senhora é de nascimento nobre, eu apenas um
comerciante...
— É de planetas republicanos como a Terra que vêm os
maiores pretensiosos de todos — foi o que ela disse. —
Aqui, somos todos seres humanos. Depressa, mude de
roupa. Voltarei às costas, se o deseja.
Wace tratou de envergar o traje o mais depressa possível. A
hilaridade da Dama Sandra tinha sido um reconforto
inesperado. Ele pensou que a sorte sempre parecia proteger
aquele bode velho e barrigudo, van Rijn.
Não estava certo! Os colonos de Hermes tinham sido, em
sua maior parte, gente grande e clara e os descendentes
haviam saído fiéis — especialmente os aristocratas — depois
de Hermes ter-se instalado como Grão Ducado autônomo,
durante o Rompimento. A Dama Sandra Tamarin era quase
tão alta quanto ele e a informe roupa de inverno não lhe
escondia de todo a feminilidade flexível e completa. Tinha
rosto forte demais para ser belo: testa ampla, boca larga,
nariz arrebitado, malares salientes, mas os olhos verdes e
grandes, de cílios cinzentos, encimados por sobrancelhas
grossas e escuras, eram os mais belos que Wace vira até
então. O cabelo era comprido, liso, louro-acinzentado, preso
em nó naquele instante, mas ele já o vira solto e flutuando,
sob uma coroa ducal, à luz das velas.
— Terminou, Libero Wace?
— Oh... sinto muito, minha senhora. Estava pensando. Um
momento, apenas — e ele envergou a túnica acolchoada,
mas deixou aberto o fecho corredio.
Ainda havia algum calor humano no casco do cruzador. —
Sim. Peço que me perdoe.
— Não foi nada — disse ela, e se voltou. No reduzido
espaço de que dispunham, seus corpos se roçaram. Ela
ergueu o olhar para o céu. — Aqueles nativos continuam lá
por cima?
— Imagino que sim, minha senhora. Estavam altos demais
para que eu pudesse ter certeza, mas são capazes de subir
alguns quilômetros sem qualquer dificuldade.
— Estive pensando, Comerciante, mas não tive a
oportunidade de perguntar. Achei que não podia existir
animal voador do porte de um homem, mas ainda assim
esses diomedanos têm envergadura de asas de morcego que
vai a seis metros. Como pode ser?
— E pergunta, em ocasião como esta?
Ela sorriu.
— Temos, apenas, de esperar o Libero van Rijn. O que mais
podemos fazer, senão comentar o que é curioso?
— Nós... o ajudamos a terminar aquela jangada, ou logo
estaremos naufragados!
— Ele me disse que só tem baterias para um maçarico
cortante, de modo que qualquer pessoa por lá atrapalha, em
vez de ajudar. Por favor, continue falando. Os que nasceram
na nobreza de Hermes também têm seus costumes e tabus, e
isso inclui o modo correto de morrer. O que mais é o
homem, senão um conjunto de costumes e tabus? — e sua
voz forte denotava despreocupação, ela sorria um pouco,
mas Wace pensava em que parte de tudo aquilo era
representação.
Ao inferno com a farsa de "sorria-que-isso-não-é-nada"! Foi
o que Wace quis dizer. Estamos no oceano de um planeta
cuja vida é puro veneno para nós.
Existe uma ilha a centenas de quilômetros daqui, mas
sabemos apenas vagamente em que direção se acha.
Podemos completar ou não uma jangada a tempo, jangada
feita de tambores vazios de combustível; e podemos carregá-
la ou não com nossas rações de tipo humano, se houver
tempo; e pode ser que, com ela, agüentemos ou não o
tempo que se forma em tempestade para o norte. Eram
nativos, os que voavam baixo sobre nós, poucas horas antes,
mas desde então passaram a nos ignorar... ou vigiar... tudo,
menos oferecer ajuda.
Alguém que te odeia ou ao velho van Rijn, foi o que teve
vontade de dizer. A mim não, não sou tão importante que
alguém me odeie. Mas van Rijn é a Companhia Solar de
Temperos & Bebidas, que constitui grande poder na Liga
Polosotécnica, que é a grande força na galáxia conhecida. E
tu és a Dama Sandra Tamarin, herdeira do trono de todo um
planeta — se viveres para tanto — que rejeitou muitas
ofertas de casamento feitas por homens de tua aristocracia
decadente e endógena, preferindo de modo público pro-
curar em outro lugar o pai de teus filhos, de modo que o
próximo Grão Duque de Hermes seja um homem, e não um
cabide risonho de roupas. E muitos cortesãos devem sentir
pavor a teu acesso ao trono.
Oh, sim, queria dizer, existem muitas pessoas que sairiam
ganhando, se Nicholas van Rijn ou Sandra Tamarin
deixassem de voltar. Fora atitude cavalheiresca e calculada,
para que ele te oferecesse transporte na nave particular, em
Antares onde os dois conheceram, de volta à Terra, com
paradas em pontos interessantes pelo caminho. Quando
nada, ele pode procurar concessões comerciais no teu
Ducado. Na melhor hipótese... não, dificilmente uma aliança
oficial; existe nele uma força infernal demasiada. Tu mesma
(que és tão forte, linda e inocente) jamais o deixarias
implantar o traseiro rotundo no Alto Trono de teus pais. Mas
uma brincadeira na palha, um adeus berrado de longe e uma
cunha enfiada em teu reino, para que ele possa explorar...
não, tu és boa demais para isso!
Mas estou a me afastar do assunto, minha cara, quis dizer
Wace. E o assunto é que alguém, na tripulação da
espaçonave, foi subornado. O plano foi bem preparado. Esse
alguém aguardou a oportunidade e ela veio quando tu
pousaste em Diomedes para ver, de verdade, como é um
planeta novo e ainda bruto, planeta onde até mesmo os
esboços continentais principais não foram cartografados, nos
cinco ralos anos em que um punhado de homens esteve
aqui. A oportunidade chegou quando me disseram para
levar-te e a meu patrão velho e mau àquelas montanhas
lindas que ficam no meio deste mundo e que tinham sido
observadas como cenário espetacular. Uma bomba no
gerador principal... a tripulação liquidada, os engenheiros e
camareiros desaparecidos na explosão, o crânio de meu co-
piloto esfacelado quando batemos no mar, o rádio
estraçalhado. E os últimos destroços vão afundar, não tarda
muito, antes que comecem a preocupar-se no Pouso de
Quinta-Feira, e venham à nossa procura. E na suposição de
que sobrevivamos, existe a possibilidade, por menor que
seja, de que algumas naves pequenas, percorrendo um
mundo quase ainda não cartografado e duas vezes maior que
a Terra, consiga ver três pequeninos seres humanos sobre o
aceano?
Assim sendo, era o que tinha vontade de dizer, como todos
os nossos planos e atitudes serviram apenas para nos trazer a
isto, seria ótimo esquecê-los no pouco tempo que resta e vir
beijar-me.
Mas a garganta obstruiu-se e ele nada disse do que pensava.
— E então? — o tom de impaciência surgira na voz dela. —
Está muito calado, Libero Wace.
— Sinto muito, minha senhora — murmurou ele.
— Acho que não sei manter a conversa sob... bem, sob
estas circunstâncias.
— E eu lamento dizer que não tenho capacidade para lhe
oferecer o consolo da religião — retorquiu ela, o olhar
desdenhoso a magoá-lo.
Uma onda de arrastão, comprida e acinzentada na orla,
passou sobre o convés lá fora e subiu à torre. Eles sentiram
que o aço e o plástico tremiam sob o golpe. Por momentos,
enquanto a água se espalhava, ali ficaram em escuridão cega
e cheia de trovões.
E então, ao passar aquilo e Wace ver o quanto mais tinham
afundado, pondo-se a pensar como poderiam tirar a jangada
de van Rijn pela escotilha de carga submersa, surgiu algo
branco, que lhe chamou a atenção. Do início não acreditou,
e depois não acreditava porque não tinha a coragem de crer,
e logo não podia mais duvidar.
— Senhora Sandra — ele falou, com cuidado imenso, pois
não devia gritar-lhe a notícia, como se fosse um Terrestre de
baixo nascimento.
— Sim? — e ela não arredou o olhar da contemplação
soturna do horizonte setentrional, vazio de tudo, a não ser
por nuvens e relâmpagos.
— Ali, minha senhora. Um pouco para o sudeste, acho.
Velas, batendo no vento.
— O quê? — tinha sido um grito dado por ela. De algum
modo, isso levou Wace a dar uma risada alta.
— É embarcação de algum tipo — apontou, para que visse.
— E vem para cá.
— Eu não sabia que os nativos são marinheiros
— retorquiu ela, com voz muito baixa.
— E não são, minha senhora... em volta do Pouso de
Quinta-Feira — explicou Wace. — Mas este planeta é
grande, tem quase quatro vezes a superfície da Terra, e só
conhecemos pequena parte de um dos continentes.
— Nesse caso, você não sabe como eles são, esses
marinheiros?
— Minha senhora, não faço a menor idéia.
3
Nicholas van Rijn veio bufando pela passarela, quando eles
gritaram a chamá-lo.
— Morte e inferno! — estrugia. — Um barco, é o que
dizem? Melhor ser um tubarão, se estiverem enganados.
Com os diabos!
Seus passos fortes levaram-no à torre, de onde espiou pelo
plástico incrustado de sal. A luz diminuía, à medida que o
sol se punha e as nuvens de tempestade que se aproximavam
varriam-lhe o rosto vermelho.
— Então, onde está ele, esse barco pestilencial?
— Ali, senhor, Aquela escuna — indicou Wace.
— Escuna! Schnork! Raios e trovões, seu cabeça de
cimento, aquilo é vela de chalupa... não, espere, com os
diabos, há uma vela quadrada aberta no mastro principal,
também... e, sim, um outrigger. Sim, do modo como vem,
deve ter leme bom. Bons santos nos ajudem, é uma canoa de
árvore, um troço condenado por todos os demônios!
— E o que mais espera em planeta que não tem seres
mortais? — retrucou Wace, os nervos já esgotados em
demasia para se lembrar do respeito devido a um príncipe
comerciante.
— Humm... barquinhos de couro, parece, ou jangadas, ou
catamarãs. Depressa, roupas secas! Faz frio demais neste
macacão.
Wace apercebeu-se de que van Rijn estava em pé no centro
de uma poça e que a água frígida do mar escorria de sua
cintura e pernas. O depósito onde van Rijn estivera
trabalhando devia achar-se inundado por — santo Deus,
desde horas atrás!
— Sei onde estão, Nicholas — e Sandra partiu célere pelo
corredor que se inclinava de modo ameaçador, mais e mais a
cada minuto, enquanto o mar entrava pela proa arruinada.
Wace auxiliou o chefe a despir o macacão encharcado. Nu,
van Rijn dava a idéia de um gorila, com dois metros de
altura, peludo e barriga enorme, ombros fortes como
armazém feito de tijolos, berrando indignado contra o frio, a
umidade e a lentidão dos ajudantes. Mas nos dedos grossos
brilhavam anéis, braceletes nos pulsos, e uma pequena
medalha de São Dismas pendente no pescoço. Diversamente
de Wace, que achava mais práticos o cabelo cortado à
escovinha e rosto barbeado, van Rijn deixava as madeixas
oleadas e negras encaracoladas e compridas, perfumava-se
de acordo com a última moda, exibia a barbicha no queixo
triplo e bigodes cerrados e assustadores, por baixo do grande
nariz adunco.
Ele vasculhou o armário do navegador, arfando, até achar
uma garrafa de rum.
— Ahh!... Eu sabia que esta porcaria estava guardada em
algum lugar — disse, levando o gargalo à boca de sapo e
sorvendo diversos goles seguidos. — Ótimo. Muito bom!
Agora talvez a gente possa começar a se parecer de novo a
seres humanos, com amor próprio.
Voltou-se, majestoso e redondo como um planeta, quando
Sandra regressou. As únicas roupas que encontrara e que
serviam para van Rijn eram as suas próprias, um vestido à la
pavão, camisa de renda, colete bordado, culotes e meias de
seda luzidia, sapatos dourados, chapéu de plumas e
desintegrador no coldre.
— Obrigado — disse ele, secamente. — Agora, Wace,
enquanto me visto, apanhe no salão uma caixa de Perfectos
e uma garrafinha de aguardente de maçã. Vá depressa e
depois saia para receber nossos salvadores.
— São Pedro, Rei dos Santos! — gritou Wace. — O salão
está debaixo de água!
— Ah? e van Rijn suspirou, desalentado. — Nesse caso,
precisa apenas apanhar a aguardente de maçã. Vá depressa!
— e ele estalava os dedos.
Wace apressou-se a dizer.
— Não há tempo, senhor. Ainda tenho de preparar nossa
última munição. Esses nativos podem ser hostis.
— Se já ouviram falar de nós, é possível — concordou van
Rijn, e começou a envergar a roupa de baixo, feita de seda
natural. — Brrrr! Cinco mil velas, é o que eu dava para voltar
a meu gabinete em Amster-dam!
— A que santo você faz a oferta? — indagou a Dama Sandra.
— São Nicholas, natural! Meu xará, patrono dos viajantes
e...
— É melhor que São Nicholas mande oferecer por escrito
— observou ela.
Van Rijn se pôs rubro, mas não se retruca à herdeira de uma
nação que tem importantes concessões comerciais a
oferecer. Desforrou-se, berrando desaforos para Wace, que
se afastava.
Passou algum tempo até que estivessem lá fora. Van Rijn
ficou entalado na escotilha de emergência e foi preciso
puxá-lo, enquanto seus palavrões angustiados, em voz de
baixo profundo, faziam-se mais altos que o trovão a se
aproximar. O período de rotação de Diomedes era de apenas
doze e meia horas e aquela latitude, trinta graus ao norte,
ainda se achava no lado hibernal do equinócio. Assim o sol
se punha com velocidade temível. Eles se agarraram às
amarrações e deixaram que o vento os mordesse, que as
ondas caíssem sobre seus corpos. Nada mais podiam fazer.
— Não é lugar para um pobre homem velho e gordo —
queixava-se van Rijn, com voz fanhosa. A ventania
arrancava-lhe as palavras, jogava em frangalhos, por cima do
mar agitado. Suas madeixas, que iam até o ombro, batiam
como se fossem galhardetes abandonados. — Eu fazia
melhor se ficasse em casa na Holanda, onde há calor, sem
perder meus últimos e pobres anos de vida por aqui.
Wace esforçou os olhos, fitando a penumbra. A canoa se
aproximara. Até um marinheiro de água doce como ele
podia apreciar a habilidade da tripulação, e van Rijn ergueu
louvores em voz alta.
— Eu o nomeio para o Sunda Yacht Club, com os diabos!
Sim e registro o camarada na próxima regata; vou ganhar
muito dinheiro apostando nele!
Era uma embarcação grande, com mais de trinta metros de
comprimento e pé de mastro bem feito, mas diminuída pela
extensão fantástica das velas tingidas de azul. Tendo ou não
balancim, Wace contava vê-la virar de borco a qualquer
momento. Era claro que uma espécie voadora tinha menos
com que se preocupar, caso tal ocorresse, do que. ..
— Os Diomedanos — e o tom de voz de Sandra era calmo,
sob o vento estridente e as águas em rugido. — Você lida
com eles há ano e meio, não? O que podemos esperar deles?
Wace deu de ombros.
— O que poderíamos esperar de qualquer tribo de seres
humanos ainda na Idade da Pedra? Podem ser poetas,
canibais ou as duas coisas. Conheço apenas a Revoada
tyrlaniana, que são caçadores migratórios. Ainda se atêm à
sua lei escrita; não são muito escrupulosos quanto ao espírito
dessa lei, está claro, mas de modo geral formam uma tribo
decente .
— Você fala a língua deles?
— Tão bem quanto o meu palato humano e a cultura tecno-
terrestre permitem, minha senhora. Não me estendo a dizer
que compreendo todos os conceitos deles, mas nós nos
damos.
O casco partido deu uma guinada. Ele ouviu que alguma
parede interna, muito forçada, acabara de ceder de uma vez,
a entrada de mais água do mar, sentiu a lentidão aumentar
por baixo dos pés. Sandra cambaleou, esbarrando nele. Wace
percebeu que o borrifo de água congelava-se nas
sobrancelhas dela.
— Isso não quer dizer que vou compreender a língua daqui
— completou. — Estamos mais longe de Tyrlan do que a
Europa da China.
A canoa quase encostara. E era tempo: os destroços que
tinham flutuado até então iam mergulhar a qualquer
instante. A canoa veio, de velas abaixadas, a porta marítima
foi jogada e braços fortes enfiavam remos na água. Com
rapidez, em seguida, um diomedano veio voando, com a
corda. Dois outros pairavam por perto e eram, do modo mais
evidente, guardas a proteger o primeiro. Este pousou,
fitando os seres humanos.
Tyrlan, estando mais ao norte, seus habitantes ainda não
haviam regressado das zonas tropicais, e era aquele o
primeiro diomedano que Sandra vira. Ela estava, entretanto,
molhada, resfriada e cansada demais para admirar e graça
sobre-humana de seus movimentos, mas olhou-o
atentamente. Talvez tivesse de viver com aquela raça por
muito tempo, se não a matassem.
Ele era do tamanho de um homem de estatura pequena
tendo, além disso, cauda grossa, de um metro de
comprimento, terminando em leme carnudo e as
formidáveis asas quirópteras, dobradas ao comprido das
costas. Os braços encaixavam-se por baixo das asas, perto do
meio de um corpo luzidio e parecido ao de uma lontra, e
assemelhava-se surpreendentemente a um ser humano, até
as mãos musculosas e de cinco dedos. As pernas eram de
forma menos conhecida, inclinadas para trás, com pés de
quatro esporas, que podiam ser os de uma ave de rapina. A
cabeça, encimando pescoço que teria sido duas vezes mais
comprido do que o humano, era redondo, com testa alta,
olhos amarelos, membranas nictitantes por baixo de orlas de
sobrancelhas grossas, a cara de nariz negro e focinho
comprido, com bigodes de gato, boca grande e dentes ursi-
nos de um comedor de carne que se tornara onívoro. Não
exibia ouvidos externos, mas uma elevação muscular na
cabeça ajudava a controlar o vôo. Pelos curtos, castanhos e
macios o cobriam. Era, de modo evidente, um mamífero do
sexo masculino.
Tinha duas correias em volta dos "ombros", uma terceira em
torno da cintura e um par de bolsas de couro volumosas. Um
punhal de obsidiana, o machado fino com ponta de sílex e o
conjunto de bolandeiras estavam à vista, dependurados na
correia. Em meio ao crepúsculo que se espessava, era difícil
perceber o que seus camaradas utilizavam como armas —
alguma coisa comprida e fina, mas, com certeza, não era
uma carabina, naquele planeta que não dispunha de cobre
ou ferro.
Wace inclinou-se à frente e obrigou a língua a formar as
sílabas grunhidas do tyrlaniano:
— Nós. .. somos.... amigos. Vocês... me... compreendem?
Um jato de palavras inteiramente estranhas, eis o que obteve
em resposta. Deu de ombros, pesaroso, abrindo as mãos com
desânimo. O diomedano movimentou-se pelo casco, bípede,
o corpo inclinado à frente para equilibrar asas e cauda, e
encontrou o pino a que se achavam presas as amarrações dos
seres humanos. Com rapidez, atou sua própria corda naquele
lugar.
— Um nó direito — observou van Rijn, e sua voz era quase
sossegada. — Isso me dá saudades de casa.
Na outra extremidade da corda, começavam a puxar a canoa
para mais perto. O diomedano caminhou para Wace e
apontou sua embarcação. Wace assentiu, compreendeu que
o gesto provavelmente não tinha significado e deu um passo
cauteloso naquela direção. O diomedano apanhou outra
corda que os companheiros lhe haviam atirado, apontou
para ela e para os seres humanos, fez gestos.
— Compreendo — disse van Rijn. — Mais perto que isso
eles não se atrevem. Com facilidade o barco deles bate no
nosso e quebra. Temos de passar essa corda no corpo e eles
vão puxar de lá. Meu bom São Cristóvão, que coisa precisa
fazer um pobre velho, de ossos doloridos!
— Mas existe nossa comida — observou Wace. O cruzador
celeste saltava e afundava cada vez
mais. O diomedano saltitava, tomado de nervosismo.
— Não! Não! — berrou van Rijn, que parecia ter a
impressão de que apenas berrando bastante poderia
atravessar a barreira lingüística. Seus braços pareciam um
moinho de vento a se movimentar. — Nunca!
Compreendeu, seu miolo de farinha? É melhor afogar neste
oceano dos infernos que tentar comer o que vocês comem.
Nós morremos! Dor de barriga! Suicídio! — e ele apontava a
boca, batia no abdómen, fazia gestos na direção das rações.
Sombrio, Wace refletia que a evolução era algo
miseravelmente flexível. Ali estava um planeta com
oxigênio, nitrogênio, hidrogênio, carbono, enxofre, uma
bioquímica de proteínas que formava genes, cromossomas,
células, tecidos — protoplasma, a julgar por qualquer
definição razoável — e o ser humano que tentasse comer
alguma fruta ou carne de Diomedes morreria em dez
minutos, tendo sofrido mais de cinqüenta reações alérgicas
mortíferas. As proteínas não eram do tipo certo. Na
verdade, apenas doses de imunização impediam que os
homens contraíssem febre de pólen crônica, asma e
urticária, só por respirarem o ar ou beberem a água dali.
Passara muitas horas frias daquele dia, amontoando os
abastecimentos alimentícios do cruzador ali fora, para que
fossem transferidos depois à jangada. Aquela nave
atmosférica de luxo fora levada na espaçonave de van Rijn,
pronta para piqueniques de duração extensa, quando lhe
desse na telha. Havia bastante pão de centeio, manteiga,
queijo, lox, peru defumado, picles, conservas de frutas,
chocolate, pudim de ameixa, cerveja, vinho e só Deus sabia
que mais, para manter três pessoas vivas durante meses. O
diomedano estendeu as asas, batendo-as para poder
equilibrar-se naquele chão incerto. À luz fraca e tem-
pestuosa, os polegares transformados em garra, na beira da
frente, pareciam desfilar diante do rosto bicudo de van Rijn,
como se fosse u'a máquina segadeira operada por alguma
Morte modernista. O comerciante plantou-se em espera
estóica, de vez em quando apontava o dedo para as caixas
empilhadas. Afinal o diomedano entendeu, ou simplesmente
desistiu. Restava pouquíssimo tempo. Ele partiu para a
canoa, em vôo que riscou o ar com assobio. Um enxame de
seus camaradas aproximou-se então, desatou as amarrações e
começou a transportar as caixas.
Wace ajudou Sandra a amarrar a corda em volta do corpo.
— Receio que vai ser um arrastão molhado, minha senhora
— e tentou sorrir.
Ela espirrou.
— Aqui temos, então, o corajoso trabalho dos pioneiros,
entre as estrelas! Vou trocar uma ou duas palavras da corte,
quando voltar para casa... se voltar.
Após ter atravessado e a corda voltado, van Rijn fez sinal
para que Wace seguisse em frente. Achava-se ele próprio
ocupado em discutir com o chefe diomedano. Como aquilo
se efetuava, sem que uma só palavra de idioma verdadeiro
pudesse ser entendida por ambos, Wace não sabia, mas
haviam alcançado o ponto em que, indignados, os dois
berravam um com o outro. No exato instante em que Wace
cerrou os dentes e se jogou na água van Rijn, em atitude de
rebeldia, sentou-se.
Quando o homem mais jovem fez sua chegada à canoa,
inteiramente encharcado, tornou-se evidente que o
comerciante saíra vencendo. Um diomedano podia
suspender no ar cerca de cinqüenta quilos, por distâncias
curtas. Três deles improvisaram uma cadeirinha e
carregaram van Rijn ali, por cima da água.
O comerciante ainda não chegara à canoa, quando o
cruzador afundou.
A canoa agüentava cerca de cem nativos, todos eles
armados, alguns com capacetes e peitorais de couro
laminado e endurecido. Uma catapulta, que na escuridão mal
dava para ser vista, achava-se montada na proa. A popa
ostentava uma cabine, feita de troncos novos, amarrados
com sargaços, que tinha quase a altura de um castelo em
caravela medieval. Em cima do teto, dois timoneiros
lutavam com o leme comprido.
— É fácil ver que encontramos um navio da Armada —
resmungou van Rijn. — Não é tão bom. Com comerciantes
eu sei falar. Com algum oficial dos infernos, de tranças
douradas no cérebro, só dá para gritar.
Ele ergueu os olhos pequenos, cinzentos e próximos um do
outro, vendo o céu noturno onde o relâmpago se
desencadeara.
— Eu sou um pobre e velho pecador — berrou. — Mas isso,
não mereci! Está me ouvindo?
Após algum tempo os seres humanos foram levados, em
meio a corpos demoníacos e ágeis, na direção da cabine. A
canoa começara a correr diante do temporal, usando duas
velas maiores e outra menor. A oscilação e o sobe-desce, o
estrondo das ondas, vento e trovão, haviam esmaecido na
consciência de Wace. Ele só queria descobrir um lugar seco,
tirar as roupas e jogar-se em alguma cama, dormir por cem
anos a fio.
A cabine era pequena. Três seres humanos e dois
diomedanos quase não deixavam mais espaço para sentar.
Mas estava quente, e uma lâmpada de pedra pendia do teto,
fazendo iluminação fraca, cheia de sombras que se moviam
de modo grotesco.
Ali encontraram o nativo que fora primeiramente a seu
encontro. Empunhava a adaga de vidro vulcânico,
desembainhada, e estava acocorado como um leão à espreita;
mas metade de sua atenção parecia dedicada ao outro, que
era mais magro e mais velho, com faixas grisalhas no pelo e
se achava atado a um poste, por laço de couro cru.
Sandra estreitou os olhos. O desintegrador que van Rijn lhe
dera deslizou discretamente para seu regaço, enquanto se
sentava. O diomedano com punhal relanceou o olhar pela
arma e van Rijn praguejou:
— Cabeça de vento, deixou que ele visse a arma?
O primeiro autóctone disse algo ao que estava amarrado.
Este último emitiu uma resposta com grunhido, depois
voltou-se para os seres humanos. Quando falou, não parecia
a mesma "língua.
— Ah, intérprete! — observou van Rijn. — Você falar angli,
hem? Ah-ha! — e batia nas coxas, satisfeito.
— Não, espere. Vale a pena tentar — interveio Wace e
passou para o tyrlaniano. — Compreendeu? Só nesta língua
podemos nos entender.
O cativo ergueu a crista da cabeça, sentou-se sobre as mãos e
ancas. Quando respondeu, era quase inteligível.
— Fale devagar, por favor — pediu Wace, e sentiu que a
sonolência o abandonava por completo.
O significado, ainda que espesso, foi percebido.
— Você não usa uma versão do Carnoi que eu tenha ouvido
antes.
— Carnoi?... — sim, espere um pouco, certo tyrlaniano se
referira a uma confederação de tribos muito ao sul, com
nome assim. — Estou usando a língua da gente de Tyrlan.
— Não conheço essa raça. Eles não hibernam em nossas
terras. Nem os Carnoi, de modo costumeiro, mas de vez em
quando, quando estamos todos na Zona tropical, um deles
passa por perto, de modo que... — e a coisa se tornava
ininteligível.
O diomedano com punhal disse algo, levado por
impaciência, obteve resposta sucinta. O intérprete voltou a
Wace.
— Eu sou Tolk, um moohra de Lannachska.
— Um quê, de o quê? — indagou Wace.
Não é fácil, até mesmo para dois seres humanos,
conversarem quando têm de fazê-lo no dialeto diferente de
uma língua que não é a materna de ambos. Os sotaques
condensados, impostos pelas cordas vocais humanas e
ouvidos diomedamos — eles ouviam mais além no sub-
sônico, mas não iam tão alto em intensidade — e a curva de
resposta máxima era diferente — tornavam aquilo um
recurso penoso e lento. Wace levou uma hora para obter
algumas frases com informações.
Tolk era especialista em línguas da Grande Revoada de
Lannach. Cabia-lhe aprender todas as línguas que chegassem
ao alcance da tribo, e eram muitas. Talvez seu título pudesse
ser designado como o de Arauto, pois entre as obrigações
que lhe cabiam achava-se incluída boa soma de declarações
cerimoniosas, e presidia um corpo de mensageiros. A
Revoada achava-se em guerra com os Drak'honai, e Tolk
fora capturado em refrega recente. O outro diomedano pre-
sente chamava-se Delp, e era oficial de elevada patente dos
Drak'honai.
Wace adiou maiores declarações a respeito de si próprio,
menos pelo desejo de ser sigiloso do que por perceber como
seria difícil a empreitada. Mas pediu a Tolk para advertir
Delp no sentido de que os alimentos vindos do cruzador,
embora fossem assenciais aos seres vindos da Terra,
matariam um diomedano.
— E por que haveria eu de dizer-lhe isso? — perguntou
Tolk, com sorriso humanamente desagradável.
— Se não disser, poderá ter dificuldades, quando souberem
que não o fez — observou Wace.
— É verdade — e Tolk falou com Delp, e o oficial emitiu
uma resposta rápida.
— Ele diz que não serão maltratados, a menos que o tornem
necessário — explicou Tolk. — Ele diz que você deve
aprender a língua deles, para que possam falar um com o
outro.
— O que foi isso? — interrompeu van Rijn. Wace o pôs a
par e van Rijn explodiu.
— O quê? O que diz ele? Ficar aqui até... ora, mil parafusos!
Pelo santo demônio! Eu falo com esse sapo imundo!
Ato contínuo, ergueu-se um pouco, ia ficar em pé. As asas
de Delp estralejaram juntas, ele exibiu os dentes. A porta foi
escancarada e dois guardas olharam para o interior. Um deles
empunhava machadinha, o outro estava com um ancinho de
madeira, as pontas em fragmentos de pederneira.
Van Rijn levou a mão à arma, a voz de Delp se fez ouvir
estridentemente. Tolk traduziu:
— Ele disse para haver calma.
Após mais conversas e mediante grande esforço e
adivinhação da parte de Wace:
— Ele não quer o mal de vocês, mas tem que pensar em seu
próprio povo. Vocês são uma novidade. Talvez possam
ajudá-lo, talvez sejam tão maléficos que não se atreve a
soltá-los. Precisa de tempo para verificar. Vocês vão tirar
todas as roupas e objetos e deixar aos cuidados dele.
Receberão outra roupa, porque parece que não têm pelo.
Após Wace ter interpretado para van Rijn, o comerciante
disse, surpreendentemente calmo:
— Acho que não temos outra coisa a fazer, neste momento.
Eu posso derrubar muitos deles. Talvez possamos tomar todo
o barco, mas não podemos navegar até voltar para casa.
Morreríamos a caminho. Se eu fosse mais jovem, sim, pelo
bom São Jorge, lutaria por questão de princípios gerais.
Sozinho eu o arrebentaria e faria um xilofone nas costelas do
sujeito, era capaz de obrigar toda sua raça a me ajudar. Mas
estou velho, gordo e cansado. É difícil ser velho, meu
rapaz...
Enrugou a testa e assentiu, com ar sábio:
— Mas, pelo diabo, onde existem inimigos a lançar um
contra o outro, é onde o comerciante honesto tem
oportunidade de ganhar um dinheirinho! — aduziu.
— Em primeiro lugar, você precisa compreender
— disse Wace — que o mundo tem a forma de uma bola.
— Nossos filósofos já sabiam, faz muito tempo
— disse Delp, sem se perturbar. — Até bárbaros como os
Lannach'honai têm uma noção da verdade. Afinal, eles
cobrem milhares de obdisai todos os anos, nas migrações.
Nós não fazemos tanta movimentação, mas tivemos que
formar uma astronomia, antes de podermos navegar a
grandes distâncias.
Wace duvidava de que os Drak'honai pudessem localizar-se
com grande precisão. Era espantoso o que sua tecnologia
neolítica obtivera, não apenas em pedra, porém, em vidro e
cerâmica; haviam até modelado algumas resinas sintéticas.
Possuíam telescópios, uma espécie de astrolábio e tabelas de
navegação baseadas no sol, nas estrelas e nas duas pequenas
luas. A bússola e o cronômetro, entretanto, requerem ferro,
que simplesmente não existia em quantidade perceptível em
Diomedes.
De maneira automática, observou ali um rico mercado em
potencial. Os tyrlanianos primitivos eram ávidos de
ferramentas e armas simples, feitas de metal, e pagavam
exorbitantemente em peles, jóias e extratos de utilidade
farmacêutica, o que tornava o planeta merecedor de atenção
da Liga Polosotécnica. Os Drak'honai podiam usar coisas
mais avançadas, de relógios a réguas de cálculo e motores
Diesel, e poderiam pagar preços proporcionalmente mais
elevados.
Recordou-se, então, de onde estava: a jangada Gerunis,
quartel-general do Oficial Executivo Chefe da Frota; e
lembrou-se, também, da criatura amável que se achava
sentada no convés superior, conversando com ele e que, na
verdade, era o seu captor.
Quanto tempo decorrera, desde a queda? Quinze dias
diomedanos? Seria mais de uma semana, no cômputo
terrestre. Uma porcentagem da comida terrestre já fora
gasta.
Ele se lançara a aprender a língua dos Drak'ho, usando para
isso o colega de prisão, Tolk. Era uma sorte que, por
necessidade, a Liga houvesse aperfeiçoado muito antes os
princípios pelos quais a instrução podia ser transmitida
dentro de tempo mínimo. Quando se vê adequadamente
focalizada, a mente treinada só precisa ouvir algo uma vez.
Tolk utilizava sistema quase idêntico; podia nunca ter visto o
metal, mas o Arauto era semanticamente avançado.
— Pois bem — disse Wace, ainda com hesitações e lacunas
no vocabulário, mas de modo adequado para o fito em mira.
— Você sabe que esse mundo-bola gira em volta do Sol?
— Bom número, entre os filósofos, acredita nisso — disse
Delp. — Eu sou criatura prática, nunca me importei muito
se fosse assim ou assado.
— O movimento de seu mundo é incomum. Na verdade,
por muitos aspectos este lugar é invulgar. O seu sol é mais
frio e vermelho do que o nosso, de modo que seu lar tem
menos calor. O sol tem uma massa... como dizer?... oh,
vamos chamar de peso. .. não muito menor que o nosso; e
se acha a quase a mesma distância. Assim, Diomedes, como
chamamos o seu mundo, tem o ano um pouco maior que o
nosso, na
Terra. Setecentos e oitenta e dois dias diomedanos, não é?
Diomedes tem o dobro do diâmetro da Terra, mas faltam-lhe
as substâncias pesadas que são achadas na maioria dos
mundos. Daí esta gravidade. Assim é que eu peso apenas um
décimo a mais, neste planeta, do que pesaria na Terra.
— Não compreendo — declarou Delp.
— Ora, bem, deixe para lá — exclamou Wace, desalentado.
— O que é tão incomum no movimento de Ikt'ha-nis? —
perguntou Delp. Era o nome que davam àquele planeta, e
não significava "terra", mas em língua onde os nomes
fossem comparados, poderia ser traduzido por "Oceanesta",
e era feminino.
Wace precisou de tempo para responder, pois os detalhes
técnicos ultrapassavam-lhe o vocabulário.
A questão era simples. A inclinação axial de Diomedes
alcançava quase noventa graus, de modo que os pólos se
encontravam virtualmente no plano da eclíptica. Mas esse
fato, conjugado ao sol fraco, frio e ultravioleta, criara aquele
tipo de vida.
Em qualquer dos pólos quase metade do ano era passada em
noite total. A luz diurna sem fim, da outra metade, não
servia de compensação, na verdade; havia espécies solares,
mas eram hibernantes sem importância. Mesmo à latitude de
quarenta e cinco graus, uma quarta parte do ano era
escuridão, em inverno mais rigoroso do que a Terra
conhecera em qualquer época. Era até essa extensão do
norte ou sul que qualquer diomedano inteligente conseguia
viver: a migração anual gastava parte demasiada de seu
tempo e energia, e assim recaíam em luta estagnante pela
existência, em nível paleolítico. Ali, a trinta graus ao norte,
o Inverno Absoluto durava uma sexta parte do ano, pouco
mais de dois meses terrestres — e o vôo até o terreno equa-
torial de procriação e a volta durante essa época durava
apenas algumas semanas. Desse modo, os Lannachska eram
criaturas de algum cultivo e conhecimento. Os Drak'honai
tinham-se originado de distância ainda mais ao sul.
Não se podia ir além de certo ponto, entretanto, faltando
metais. Diomedes, naturalmente, dispunha de magnésio,
berílio e alumínio em abundância, mas de que adiantavam,
se era preciso aperfeiçoar, antes, a tecnologia eletrolítica,
que necessitava de cobre ou prata?
Delp inclinou a cabeça.
— Está dizendo que é sempre equinócio, em sua Terra?
— Não é bem assim. Mas coisa bem próxima, comparada a
seus padrões!
— Aí está o motivo para sua falta de asas. A Estrela Polar
não lhes deu asas, porque não precisam delas.
— Sim, talvez. De nada nos valeriam, aliás. O ar da Terra é
rarefeito demais para que alguém de seu tamanho ou do meu
pudesse voar por força própria.
— O que quer dizer, rarefeito? O ar. .. é ar.
— Este ar é tão denso, que se tivesse quantidades
proporcionais de oxigênio, ou mesmo de nitrogênio, eu
estaria envenenado. Por sorte, a atmosfera diomedana tem
79% de néon. O oxigênio e nitrogênio são participantes
menores, as pressões parciais deles não alcançam muito mais
do que na Terra. Da mesma forma, o gás carbônico e o vapor
de água.
Após momentos, Wace prosseguiu:
— Vamos falar a nosso respeito. Você entende que as
estrelas são outros sóis, como o seu, porém muito mais
distantes; e que a Terra é um mundo em estrela assim?
— Entendo. Ouvi quando nossos filósofos falavam. Acredito
em você.
— E compreende qual é nosso poder, para atravessar o
espaço entre as estrelas? Sabe como podemos recompensá-
los por sua ajuda e nos devolver, como nossos amigos
podem puni-los, se nos mantiverem aqui?
Por momentos Delp abriu as asas, o pelo eriçou-se nas costas
e os olhos se tornaram frinchas amarelas. Ele pertencia a
uma raça altiva.
Não tardou, porém, a afrouxar o corpo. Por cima do abismo
das raças o ser humano podia perceber como Delp se achava
perturbado.
— Você próprio contou, Terra'ska, que atravessaram o
oceano vindos do oeste, e em milhares de obdisai não viram
uma só ilha. Isso confirma nossas explorações por lá. Não
poderíamos voar tão longe, levando vocês ou, mesmo, uma
mensagem a seus amigos, se não temos onde parar e
descansar às vezes.
Wace assentiu, devagar, com cuidado.
— Percebo. E não poderiam levar-nos em canoa rápida
antes que nossa comida acabasse.
— Receio que não. Mesmo com vento a favor por todo o
caminho, um barco é muito mais lento que as asas.
Levaríamos meio ano, ou mais ainda, para ir de barco pela
distância de que você fala...
— Mas deve haver algum modo...
— Talvez. Mas estamos travando uma guerra dura, lembre-
se. Não podemos desperdiçar muito esforço ou
trabalhadores, por causa de vocês. Não creio que o
Almirantado pense, sequer, em fazer a tentativa.
Ao sul ficava Lannach, ilha do tamanho da Bretanha. Dali
Holmenach, um arquipélago, curvava-se em direção ao
norte por algumas centenas de quilômetros, indo a regiões
ainda mergulhadas no inverno. Desse modo as ilhas agiam
como fronteira e escudo, definindo o Mar de Achan,
protegendo-o das grandes correntes frias de O Oceano.
Era onde estavam os Drak'honai.
Nicholas van Rijn, em pé no convés principal do Gerunis,
fitava a parte principal da Frota, os olhos fuzilantes. O casaco
e calças de tecido grosseiro, feitos às carreiras por um
fabricante de velas, irritavam a pele que desde muito se
acostumara a tecidos mais caros. Estava farto de presunto ao
açúcar e pêssegos com conhaque, ainda que, terminada essa
alimentação, começasse a fome que levaria à morte. A noção
de ser prisioneiro, cujos desejos ninguém precisava
consultar, causava-lhe a mais completa angústia. A reflexão
que o fazia imaginar quanto dinheiro a Companhia devia
estar perdendo, por falta de sua supervisão pessoal, causava
mal quase idêntico.
— Bah! — trovejou. — Se eles quisessem levar a gente de
volta, seria possível.
Sandra dedicou-lhe um olhar de fastio.
— O que estarão fazendo os Lannacha, enquanto os
Drak'honai juntam esforços para nos levarem de volta? —
retorquiu. — Ainda está bem renhida, a guerra, deles.
Drak'ho poderia perder, não?
— Mas que absurdo dos infernos! — e ele brandia o punho
peludo e cerrado no ar. — Enquanto eles ficam nessas
briguinhas, por causa de territórios sem pé nem cabeça, a
Temperos & Bebidas está perdendo um milhão de créditos
por dia!
— Para ambos os lados a guerra é questão de vida ou morte
— observou ela.
— Para nós também — e ele esgaravatou o bolso,
procurando o cachimbo, lembrou-se de que os meers-chaums
estavam no fundo do mar, gemeu. — Quando eu descobrir
quem colocou a bomba em meu cruzador... — não lhe
ocorria a idéia de apresentar desculpas a ela, por tê-la metido
em tal situação. Mas, afinal, talvez fosse ela a causa indireta
da dificuldade. — Bem, é verdade que temos de resolver a
questão aqui, ao que vejo — prosseguiu, com mais calma. —
Terminar a guerra para eles, de modo que possam fazer
coisas importantes, como levar-me para casa.
Sandra fez carranca, do outro lado das águas que cintilavam
com a luz do sol.
— Você se refere a ajudar os Drak'honai? A mim não
agrada. Eles são os agressores. Mas, também, estavam com as
mulheres e os pequeninos passando fome... — ela teve um
suspiro. — É difícil desemaranhar a coisa toda. Que seja
assim, então.
— Oh, não! — e van Rijn cofiava a barbicha: — Nós vamos
ajudar o outro lado. Os Lannachska.
— O quê! — e ela recuou da amurada, o queixo caiu. —
Mas... mas...!
— A questão — explicou,van Rijn — é que preciso de uns
negocinhos na política. É necessário ao comerciante
honesto, que procura apurar um pouco de lucro, com muito
esforço, ou estão algum político do diabo vem e arranca o
dinheiro deles, para alguma escola idiota ou pensão de
velhice. A política aqui não é muito diferente do que temos
pela galáxia. É uma cultura de aristocratas poderosos, esta
Frota, mas o equilíbrio do poder está no trono... o
Almirantado. Pois bem, o Almirante ficou velho e o filho, o
príncipe da coroa, tem mais força do que devia ter. Eu fico
de ouvidos em pé para os mexericos, eles esquecem como a
gente escuta melhor que eles nessa atmosfera densa que
parece sopa de ervilha com salsichas. Eu sei. Aquele é durão,
o T'heonax.
— Nós, então, ajudamos os Drak'honai a ganharem da
Revoada. E daí? Eles já estão vencendo. A Revoada só
consegue fazer guerrilhas, por enquanto, nas partes
selvagens de Lannach. Continuam poderosos, mas a Frota
está por cima e só precisa manter o status quo para vencer. De
qualquer modo, o que podemos nós, a quem o bom Deus
não ofereceu asas, fazer em guerrilhas? Vamos mostrar a
T'heonax como usar um desintegrador? Bem, como
mostramos a ele o modo de achar alguém em quem usar? —
prosseguia van Rijn.
— Hmm... sim — e ela assentiu, hirta. — Você quer dizer
que nada temos para oferecer aos Drak'honai senão o
comércio e tratado mais tarde, se nos levarem de volta.
— Exato. E que pressa pode existir da parte deles, em fazer
parte da Liga? Eles têm cautela natural contra desconhecidos
como nós, que viemos da Terra. Preferem consolidar-se na
nova conquista, antes de lidarem com estranhos poderosos.
Eu escuto os mexericos, fique sabendo. Sei qual é a corrente
de pensamento em torno de nós. Talvez T'heonax nos deixe
morrer de fome, ou corte nossas goelas. Talvez jogue nossa
comida ao mar e mais tarde diga que nunca ouviu falar da
gente. Ou, mesmo, quando um barco da Liga finalmente o
achar, ele diz: Já, tiramos alguns seres humanos do mar e
fomos bons para eles, mas não deu para levar de volta a
tempo.
— Mas eles poderiam... mesmo... quer dizer, Libero van
Rijn, como é que você nos levaria de volta para casa, sem
qualquer espécie de ajuda diomedana?
— Bah! Detalhes! Não sou engenheiro. Engenheiros, eu
contrato. A mim não cabe fazer o impossível, cabe mandar
os outros fazerem para mim. Mas como posso organizar as
coisas, quando sou mais da metade prisioneiro de um rei que
não se interessa em conhecer o meu povo? E essa, responda!
— Enquanto que a tribo Lannach está apertada, e deixará
você, como diz, fazer alguma coisa. Sim — e Sandra ria, com
forte dose de bom-humor genuíno. — Ótimo, meu amigo.
Agora, só uma pergunta: como é que chegamos aos
Lannacha?
Ela acenava com a mão, mostrando o terreno em volta. Era
visão das menos animadoras.
A Gerunis era jangada típica, estrutura grande, de troncos
leves e duros, parecidos à balsa, amarrados entre si com
espaço bastante e flexibilidade para se movimentarem diante
do mar. Uma parede de pontaletes, atravessados nas toras
transversais, formava espaço fechado e volumoso, apoiando
um convés principal, de pranchas penosamente ajustadas
umas às outras. Popa e castelo dianteiro erguiam-se em
ambas as extremidades, os telhados lisos sustentando a
artilharia e, no caso do primeiro, o timão desproporcional.
Entre eles havia cabines com teto de sargaço, para arma-
zenamento, oficinas e habitação. As dimensões gerais eram
de cerca de sessenta metros por quinze, afinan-do-se na
direção de uma proa falsa, que proporcionava uma
plataforma de catapulta e algum aquadinamismo.
O mastro dianteiro e o principal ostentavam, cada qual, três
grandes velas quadradas. Uma mezena de tipo latino
apresentava-se logo à frente da popa. Com vento favorável
— lembrando-se da força dos ventos no planeta — aquela
embarcação que parecia pesadona e desajeitada alcançava
diversos nós de velocidade e, mesmo em par parado, podia
ser movida a remos. Sustentava cerca de cem diomedanos e
mais as mulheres e filhos. Deles, dez casais eram aristocratas,
com apartamentos particulares na popa; vinte eram marujos
de patente, com habilidades especiais e direito a um apo-
sento por família, nas cabines do convés principal. Os
demais eram marujos comuns, alojados no castelo da frente.
Não muito distante deles flutuava o resto do esquadrão.
Havia jangadas de diversos tipos, algumas principalmente
unidades habitacionais como a Gerunis, outras de convés
tripla para carga, algumas exibindo compridos telheiros em
que peixes e sargaços eram trabalhados. Muitas vezes
juntavam-se diversas ao mesmo tempo, a fim de formarem
uma pequena ilha temporária. Amarradas a elas, ou
patrulhando entre elas, viam-se as canoas com flutuante
lateral. No céu, viam-se asas em movimento, onde os
destacamentos aéreos mantinham vigilância contra o
inimigo: eram guerreiros profissionais de tempo
integralmente dedicado à guerra, formando o cerne da força
militar de Drak'ho.
Além desse esquadrão mais distanciado, as outras divisões da
Frota escureciam a água, até onde os olhos humanos
alcançavam. A maioria se empenhava em pesca. Era trabalho
brutalmente difícil e pesado, onde as redes compridas se
viam arrastadas por força muscular. Quase toda a vida de um
Drak'ho parecia devotada a essa tarefa esgotante. Mas,
daqueles campos fluidos, estavam retirando uma colheita
que saltava e luzia.
— Precisam trabalhar como escravos — observou van Rijn,
dando um tapa na amurada firme. — Isto é madeira dura,
mesmo quando verde, e eles a derrubam e trabalham, com
ferramentas de pedra e vidro! Eu gostaria de contratar alguns
desses camaradas, se os sindicalistas não se metessem no
meio!
Sandra bateu com o pé. Não se queixara do perigo de morte,
frio e desconforto, nem da amolação que eram as lições de
língua, dadas por Tolk e passadas por Wace. Mas há limites.
— Ou você fala direito, Libero, ou irei para outro lugar! Eu
perguntei como vamos sair daqui.
— Vamos ser salvos pelos Lannachska, naturalmente —
disse van Rijn. — Ou melhor, eles vêm roubar a gente. Sim,
desse modo é melhor. E então, se eles não conseguirem,
nosso amigo Delp não pode dizer que foi nossa culpa sermos
tão desejados por ambas as partes.
O corpo dela retesou-se.
— De que está falando? Como vão eles saber que estamos
aqui?
— Talvez Tolk conte a eles.
— Mas Tolk está mais preso ainda do que nós, não?
— É. Mas... — e van Rijn esfregava as mãos. — Nós
fizemos um planozinho. Ele tem boa cabeça, esse camarada.
Quase tão boa quanto a minha.
Sandra o fitava, cheia de fúria.
— E você se digna a me contar como planejou com Tolk,
sob vigilância do inimigo, quando nem mesmo consegue
falar Drakho?
— Ora, eu falo Drakho muito bem — declarou van Rijn,
sem se afobar, descansadamente. — Não acabou de ouvir
quando eu contava que escuto todo o palavrório a bordo?
Você acha que só porque eu crio tantos problemas, e fico
sentado muitas horas todos os dias, recebendo instruções
especiais de Tolk, é porque eu sou um burro velho que não
aprende com facilidade? Conversa fiada? Na metade do
tempo nós murmuramos juntos, e ele me ensina sua própria
língua de Lannach. Ninguém nesta jangada conhece a língua
deles, de modo que quando nós fazemos barulhos engra-
çados falando, eles pensam que talvez Tolk esteja
aprendendo palavras da Terra, viu? Eles acham que ele
desistiu de me ensinar por meio de Wace e está fazendo
força para eu aprender algum Drak'ho. Ora, ora... são uns
bobocas, com os diabos! Ainda ontem contei a Tolk uma
piada forte em Lannachamael, ele ficou muito chateado. Aí
está a prova de que o pobre e velho van Rijn não tem a
cabeça cheia de banha. Não estamos falando do resto de
minha anotomia, é claro.
Sandra permaneceu calada por algum tempo, procurando
entender o que significava aprender duas línguas não-
humanas simultaneamente, uma delas proibida.
— Não sei porque o Tolk parece chateado. A piada é boa.
Escute só: havia um vendedor que viajava por um desses
planetas coloniais, e...
— Dá para adivinhar o motivo — interveio Sandra, mais do
que depressa. — Quer dizer, o motivo pelo qual Tolk não
achou engraçado. É que... Libero Wace estava explicando,
um destes dias. Aqui em Diomedes eles não têm o traço
de... digamos.. . sexualidade constante. Eles reproduzem
apenas uma vez por ano, nas zonas tropicais. Não existem
famílias, em nosso sentido da palavra. Eles não considera-
riam nosso... — e ela corou — nosso interesse por todo o
ano, nessas questões, como coisa muito normal ou educada.
Van Rijn assentiu.
— Sei de tudo isso. Mas Tolk viu alguma coisa da Frota; e,
na Frota, eles têm casamento, nascem em qualquer altura do
ano, como os seres humanos.
— Fiquei com essa impressão — foi a resposta dada por
Sandra, lentamente — e isso me intriga. O Libero Wace diz
que o ciclo de reprodução estava na hereditariedade deles.
Instituto, glândulas, ou o que se chame agora. Como é
possivel a Frota viver diversamente do que as glândulas
ordenam?
— O fato é que vivem — e van Rijn sacudiu os ombros
fortes. — Talvez a gente vá deixar algum cientista pensar no
assunto para escrever uma tese mais tarde, hem?
De repente ela lhe agarrou o braço e ele sentiu. O olhar dela
era um incêndio verde.
— Mas você não disse... o que vai acontecer. Como vai Tolk
levar notícias nossas a Lannacha? O que vamos fazer?
— Não faço a menor idéia — respondeu ele,
despreocupadamente. — Eu toco de ouvido.
Inclinou, então, a cabeça, para olhar o céu pálido e
avermelhado. A diversos quilômetros de distância, com
enorme quantidade de madeira, sustentando o que era quase
um castelo inteiro, flutuava o capitanea de todos os Drak'ho.
Uma revoada em asas de morcego erguia-se de lá, vinha em
torrente na direção do Geru-nis. Baixinho, no céu, ouvia-se o
som de uma concha em que alguém soprava.
— Mas acho que talvez vamos saber logo — terminou van
Rijn — porque essa majestade reumática vem aí, para decidir
a nosso respeito.
4
Os soldados da guarda pessoal do Almirante, cem guerreiros
em tempo integral de vigilância, pousaram com louvável
precisão e levaram as armas à posição correta. A pedra
polida, o couro bem oleado, refletiam a luz embotada do dia,
em relances. O vento das asas estendia-se pelo convés. Uma
bandeira de cor púrpura, ornamentada em escarlate,
desfraldava-se ali e a tripulação do Gerunis, respeitosamente
reunida em volta do cordoame e sobre o teto do castelo
dianteiro, saiu-se com uma roufenha aclamação ritual.
Delphyr Orikan adiantou-se da popa e acocorou-se diante do
soberano. Sua esposa, a bela Rodonis Axollon e os dois
filhinhos, vieram por trás, de barrigas no convés e asas
encobrindo os olhos. Todos usavam as faixas escarlates e
braceletes de jóias que eram a vestimenta oficial.
Os três seres humanos apresentaram-se ao lado de Delp. Van
Rijn vetara qualquer sugestão de que também se abaixassem.
— Não está certo para um membro da Liga Polosotécnica,
ficar de joelhos e cotovelos. De qualquer modo, meu corpo
não dá para isso — explicara.
Tolk de Lannach sentava-se, altivo, ao lado. de van Rijn.
Tinha as asas enfiadas em uma rede e o laço no pescoço era
seguro por um marinheiro forte. Tinha os olhos embaçados
cravados no Almirante, como se fossem os de uma cobra.
— E os guerreiros que formavam a guarda de honra para
Delp, seu comandante, exibiam alguma parte da mesma
frieza, na aparência — não para Syranax, mas para o filho, o
herdeiro em quem o Almirante se apoiava. Suas lanças,
ancinhos, machadinhos, e zarabatanas com baionetas de
madeira estavam empunhados em gesto de respeito total,
mas, ainda assim, empunhados.
A Wace pareceu que o nariz desproporcional de van Rijn
devia ter inclinação anormal à dissensão. Só agora percebia a
tensão com que seu chefe, de modo evidente, estivera
contando.
Syrariax pigarreou, piscou e apontou o focinho para os seres
humanos.
— Qual de vocês é o capitão? — perguntou. A voz ainda era
forte, mas não vinha do fundo dos pulmões e havia, nela,
um arfar mucoso.
Waee deu um passo à frente. Sua resposta foi a que van Rijn,
apressadamente e sem se dar ao trabalho de explicar,
ordenou que desse.
— O outro é nosso chefe, senhor. Mas ainda não sabe falar
bem a língua daqui. Eu mesmo tenho dificuldades e por isso
precisamos usar este prisioneiro Lannach'ho como
intérprete.
Theonax fez careta.
— E como haveria ele de saber o que vocês querem dos
dizer?
— Ele nos tem ensinado a língua daqui — explicou Wace.
— Como sabe, senhor, as línguas estrangeiras são a ocupação
principal dele. Devido a essa habilidade natural, e a
experiência que tem conosco, muitas vezes poderá adivinhar
o que queremos dizer, enquanto nós procuramos a palavra
certa.
— Parece razoável — assentiu Syranax, meneando a cabeça
grisalha. — Está certo.
— Será, mesmo? — duvidou Theonax, dedicando a Delp um
olhar de punhalada, que foi retribuído à altura.
— Então! Com os diabos, agora falar eu — e van Rijn se
adiantou. — Meu bom amigo... quer dizer... bem... pokker...
qual ser a palavra? Meu Almirante, nós... querer dizer, a
gente falar como bons irmãos.. . bons irmãos ser o que eu
falar, estar certo, Tolk?
Wace estremecia. A despeito do que Sandra lhe cochichara,
quando levados à presença das visitas, achava difícil crer que
sotaque e prosódia tão ridículos pudessem ser fingidos.
E para que? Syranax remexeu-se, impaciente.
— Talvez seja melhor falarmos por meio de seu
companheiro — sugeriu.
— Tripas de foca! — berrou van Rijn. — Ele? Não, não, nós
falar, eu falar sozinho. Direto, de uma vez, eu falar, qual ser
mesmo seu título? Nós falar como irmão, hem?
Syranax suspirou, mas não lhe passou a idéia de contrariar o
ser humano. Um aristocrata alienígena continuava sendo
aristocrata, aos olhos daquela sociedade dominada por castas
e como tal podia, com certeza, exigir o direito de falar por
conta própria.
— Eu os teria visitado antes — disse o Almirante — mas
vocês não estavam em condições de conversar comigo e
havia muito que fazer. Quando se tornam mais
desesperados, os Lannach'honai ficam mais perigosos nas
incursões e emboscadas. É difícil passar-se um dia sem
travar, pelo menos, uma batalha das menores.
— Hem? — e van Rijn contava as declinações nos dedos. —
Xammagatai... deixe ver, xammagan, xammagai... oh, sim. Uma
briguinha. Eu não fazer lutas, velho Almirante... quer
dizer, honrado Almirante. ..
Theonax se eriçava.
— Veja como fala, Terreno! — rosnou, cheio de raiva. Com
freqüência ele estivera na jangada Gerunis, para olhar e
examinar os prisioneiros, os objetos retirados a eles estavam
em seu poder. Não demonstrava grande respeito, mas, como
Wace achara, Theonax não era capaz de admitir que alguém
pudesse ser-lhe superior, de modo algum.
Syranax deixou-se no convés, em posse de leão em repouso.
Theonax permaneceu em pé, hirto, na presença de Delp.
— Tenho recebido informações sobre você, é claro —
prosseguiu o Almirante. — Elas são... digamos... notáveis.
Sim, notáveis. Foi alegado que vocês vêm das estrelas.
— Estrelas, sim! — e van Rijn sacudia a cabeça, em assomo
de imbecil aflição. — Nós, das estralas. Muito, muito longe.
— É também verdade que sua gente instalou um posto na
outra margem de O Oceano?
Van Rijn entrou em confabulação com Tolk. O Lannacha
apresentou a pergunta em palavras infantis. Depois de
diversas explicações, o rosto de van Rijn iluminou-se.
— Sim, sim, nós do outro lado do Oceano. Muito, muito
longe.
— E seus amigos não virão à sua procura?
— Eles procurar, sim, eles procurar muita coisa. Pela barba
de Papai Noel, procurar tudinho. Vocês tratar a gente bem,
ou nossos amigos descobrir e — van Rijn se interrompeu,
parecendo confuso, voltou a confabular com Tolk.
— Acredito que o Terreno quer pedir desculpas por falta de
tato — explicou secamente o Arauto.
— Pode ser um tipo verdadeiro de falta de tato
— observou Tyranax. — Se os amigos dele podem
realmente encontrá-lo, enquanto estiver vivo, muita coisa
dependerá do tipo de tratamento que receber de nós, hem?
A questão é saber se podem encontrá-lo a tempo. O que me
diz dessa, Terreno? — e empurrou a última pergunta como
se fosse uma javelina.
Van Rijn recuou, erguendo as mãos como a defender-se de
um golpe.
— Socorro! — choramingou. — Você ajudar nós, levar nós
para casa, velho Almirante... honrado Almirante. .. nós ir
para casa e pagar muito, muito peixe.
T'heonax murmurava ao ouvido paterno:
— A verdade aparece... embora eu já tivesse suspeitado. Os
amigos dele não têm qualquer meio de encontrá-lo aqui,
antes que morra de fome. Se tivessem, ele não estaria
suplicando nossa ajuda, mas exigindo o que lhe desse na
veneta.
— Eu teria feito o mesmo, em qualquer hipótese
— respondeu o Almirante. — Nosso amigo não tem grande
experiência nessas questões, hem? Muito bem, é bom saber
com que facilidade se pode arrancar a verdade dele.
— Assim sendo — disse Theonax, cheio de desdém, sem se
dar ao trabalho de falar baixo —, o único problema está em
arrancar algum valor desses animais, antes que morram.
Sandra arquejou, Wace agarrou-lhe o braço e abriu a boca,
percebeu o murmúrio apressado de van Rijn:
— Cale a boca! Não diga nada, seu cabeça de balde! — e o
mercador retomou o sorriso tímido, a atitude de
perplexidade aflita.
— Não está certo! — explodiu Delp. — Pela Estrela Polar,
senhor, estes são hóspedes, e não inimigos. Não podemos
apenas usá-los!
— E que mais faria você? — perguntou Theo-nax, dando de
ombros.
Seu pai piscava e murmurava, como o sopesar a
argumentação de ambos os lados. Alguma coisa como uma
faisca saltava entre Delp e Theonax. Ela percorria as fileiras
dos tripulantes da Gerunis e também os guardas pessoais do
Almirante, como um retesamento imperceptível,
ondulações mínimas dos músculos, oscilações de armas um
pouco à frente.
Van. Rijn pareceu perceber imediatamente tudo aquilo.
Recuou de modo teatral, encobriu os olhos com as mãos e se
pós de joelhos diante de Delp.
— Não! Não! berrava. — Você levar nós pra casa, você
ajudar nós, nós ajudar você!
— O que é isso? — fora pergunta feita no rosnado de animal
selvagem, vinda de Theonax. Ele se lançou à frente. —
Vocês estiveram com entendimento, não foi?
— O que quer dizer? — e os dentes do Executivo estalaram,
a centímetros do nariz de Theonax, os esporões nas asas
erguiam-se como facas.
— Que tipo de ajuda essas criaturas iam oferecer-lhe?
— O que acha? — rebateu Delp, e lançou a luva ao ar,
acocorou-se à espera.
Theonax não recolheu a luva lançada.
— Alguns poderiam supor que você estava com a idéia de
livrar-se de rivais dentro da Frota — observou, muito
satisfeito.
No silêncio que se formou sobre a jangada, Wace ouvia
como as formas de dragão, no cordoame, respiravam com
mais rapidez. Dava para ouvir, também, o estalar da madeira
e dos cabos, o bater das ondas e o murmúrio baixo e úmido
do vento. Quase ouvia os punhais de obsidiana serem
desembainhados.
Se um príncipe antipático encontra desculpa para prender o
subordinado que merece a confiança dos comandados,
torna-se provável que surjam homens dispostos a lutar. Não
acontecia de outra maneira, ali em Diomedes.
Foi Syranax quem rompeu o silêncio explosivo.
— Houve algum tipo de mal-entendido — disse, com a voz
bem alta. — Ninguém vai acusar ninguém de coisa alguma,
na base da tagarelice dessa criatura sem asas. O que está
havendo por aqui? Afinal de contas, o que poderia ele fazer
por qualquer um de nós?
— É o que resta a ver — respondeu Theonax. — Mas uma
raça que sabe voar sobre O Oceano em menos de um dia
equinocial deve conhecer algumas artes bem úteis.
Ele rodopiou, voltando-se para van Rijn, que tremia da
cabeça aos pés. No deleite do inquisidor cujo suspeito cedeu,
ele disse sucintamente:
— Talvez possamos levá-los de algum modo para casa, se
nos ajudar. Não temos certeza de como levá-los para lá.
Talvez suas coisas possam nos ajudar. Mostre-nos como usa
suas coisas.
— Oh, sim! — disse van Rijn, entrelaçando as mãos,
sacudindo a cabeça. — Oh, sim, bom senhor, eu querer
mostrar.
Theonax deu ordem, um Drak'ho deslizou pelo convés,
trazendo uma caixa grande.
— Tenho guardado estas coisas — explicou o herdeiro. —
Não mexi em nada, a não ser algumas facas feitas dessa
substância que brilha.
Por momentos seus olhos fulguraram, em assomo de sincero
entusiasmo.
— Você nunca viu facas assim, Pai. Elas não cortam nem
serram, elas chegam a tirar fatias! Podem trabalhar a madeira
dura!
Abriu, então, a caixa. Os oficiais de mais patente esqueceram
toda a formalidade e dignidade, cercaram-no, para ver o
interior. Theonax, com um gesto, fê-los recuar.
— Vamos dar a esse monte de banha o espaço para a
demonstração. Arqueiros, dardeiros — ordenou
— fiquem atentos. Visem de todos os lados. Disparem, se for
necessário.
— Está pensando em abrir caminho lutando? — sibilou
Wace. — Não pode!
Dito isso, tentou colocar-se entre Sandra e a ameaça das
armas que, de súbito, os tinham rodeado.
— Vão encher-nos de flechas, antes que...
— Eu sei, eu sei — resmungou van Rijn, sotto voce. —
Quando é que vocês, meninos orgulhosos, vão aprender que
o patrão, só por ser velho e sozinho, ainda não está com
teias de aranha no cérebro? Fique para trás, rapaz, e quando
a bagunça começar, vá para o convés e cave um buraco.
— O quê? Mas...
Van Rijn voltou-lhe as costas largas e disse, em Drak'ho
horroroso, no tom de servil aflição:
— Aqui tem... como chamar isto. .. uma coisa. Fazer
fogo. Fazer buracos. Poder crer!
— Um lança-chamas portátil... pequeno assim? —
perguntou T'heonax e, por momentos, o terror aguçou-lhe a
voz.
— Eu já disse — interveio Delp — que podemos ganhar
mais, lidando honrosamente com eles. Pela Estrela Polar,
acho que podemos levá-los a seu lar, se fizermos um
esforço!
— Você poderia esperar até que eu estivesse morto, antes
de ficar com o Almirantado.
Se pretendera gracejar, as palavras explodiram como uma
bomba. Os marinheiros mais próximos, que as ouviram,
ficaram paralisados, arquejantes. Os guerreiros da guarda do
Almirante puseram as mãos nos arcos e zarabatanas. Rodonis
Axollon abriu as asas sobre os filhos, e rosnou. As mulheres
que trabalhavam no convés, amontoadas no castelo da
frente, emitiram choraminga de medo, calculando o que se
seguiria.
Foi Delp quem salvou a situação.
— Quietos! — berrou. — Calma, por aí! Muita calma! Por
todos os demônios nas Estrelas da Chuva, essas criaturas
levaram-nos à loucura?
— Olhar aqui — prosseguia van Rijn, tagarelando. — Ver o
desintegrador. Nós chamar de desintegrador. .. puxar aqui...
O feixe de íons, projetado, alcançou o mastro principal. Van
Rijn o arredou no mesmo instante, mas já fizera buraco com
centímetros de profundidade, na madeira duríssima. Sua
chama entre azul e branca lambeu o convés, queimou um
cabo enrolado, transformando-o em fumaça, e arrancou uma
parte de amurada, até que soltasse o gatilho.
Os Drak'honai explodiram em gritos.
Passaram-se minutos até que houvessem voltado às posições
de antes. Os que tinham sido levados pela curiosidade, nas
embarcações próximas, ainda salpicavam o céu, em vôo de
um para outro lado. Eram, entretanto, tecnologicamente
avançados, a seu modo. Estavam mais agitados do que
assustados.
— Deixe ver isso! exclamou T'heonax, e estendeu a mão
para a arma.
— Esperar, esperar meu bom senhor — e van Rijn abria a
câmara, em movimentos encobertos pelas mãos grossas,
tirava a carga. — Tornar seguro, primeiro. Tomar, agora.
T'heonax revirava o desintegrador nas mãos.
— Que arma! — suspirava. — Que arma!
Em pé, coberto por suor gelado, esperando que van Rijn se
saísse com a variedade de inferno que estivera preparando
até então, ainda assim Wace refletia que o Drak'honai
superestimava o valor da arma. Natural, porém. Arma desse
tipo só teria efeito sério na tática de luta terrestre e o velho
safardana ia desarmando calmamente todos os
desintegradores. Diomedano algum, sem saber lidar com
eles, ia obter resultado com os desintegradores.
— Tornar seguro — burborejava van Rijn. — Um, dois,
três, quatro, cinco eu tornar seguro... Quatro? Cinco? Seis?
Começava a revirar as roupas amontoadas, bem como
cobertores, aquecedores, fogão portátil e outras peças do
equipamento.
— Onde estar outros três desintegradores? — perguntou,
afinal, parecendo perplexo.
— Que outros três? — contrapôs T'heonax, fitando-o
fixamente.
— Ter seis — respondeu van Rijn, contando
cuidadosamente nos dedos. — Ja, seis. Eu dar todos eles ao
bom senhor Delp.
— o quê?
Delp saltou na direção do ser humano, praguejando e
furioso.
— É mentira! Havia apenas três, e estão todos aqui, agora!
— Socorro! — berrou van Rijn e correu para perto de
Theonax. O corpo de Delp, na perseguição, chocou-se com
o filho do Almirante e os dois Drak'honai rolaram, em
barafunda de asas e caudas.
— Ele está tramando um motim! — berrou Theonax.
Wace jogou Sandra ao convés, pondo-se por cima dela,
enquanto o ar escurecia de projéteis.
Van Rijn voltava-se agora, pesadamente, a fim de arredar o
marinheiro que montava guarda a Tolk, mas esse já se
afastara, tomando a defesa de Delp. Van Rijn precisou
apenas tirar a rede que prendia o intérprete.
— Agora, ir buscar um exército para nos tirar daqui —
ordenou, e falava Lannachamael quase à perfeição. —
Depressa, antes que alguém perceber.
O Arauto assentiu, sacudiu as asas e ergueu-se aos céus.
Van Rijn inclinou-se sobre Wace e Sandra.
— Por aqui — dizia arquejando, em meio ao barulho. Uma
pancada ocasional, desferida com a cauda por um
marinheiro em luta contra dois guardas, fez com que ele
berrasse. — Tripa de gato! Miseráveis! — e punha Sandra em
pé à força, empurrava-a para o abrigo relativo do castelo na
proa.
Lá dentro, fechada a porta, entre as mulheres e filhotes
apavorados a fitarem a luta, ele disse:
— Uma pena que Delp seja vencido. Não tem possibilidade
de vencer. É um sujeito decente, talvez pudéssemos ter feito
negócios.
— Por todos os santos nos céus! — exclamou Wace, quase
engasgando. — O senhor desencadeou uma guerra civil, só
para que seu mensageiro pudesse fugir?
— E você conhece algum método melhor? — contrapôs
van Rijn.
Quando o Comandante Krakna tombou em batalha contra os
invasores, o Conselho Geral da Revoada escolheu certo
Trolwen para seu lugar. Eles eram os mais velhos, e haviam
escolhido criatura relativamente jovem, mas os Lannachska
achavam natural que fossem comandados por jovens. Um
Comandante precisava ter o vigor físico de dois, para
conduzi-los em migração dura e perigosa todos os anos; era
raro que o Comandante chegasse a ponto de enfraquecer,
ainda vivo. Quaisquer impulsos temerários de sua idade eram
controlados pelo próprio Conselho Geral, os chefes de clã
que se haviam tornado velhos demais para voarem à cabeça
dos esquadrões, mas não tão velhos e fracos que ficassem
para trás, em alguma jornada hibernal.
A mãe de Trolwen pertencia ao grupo Trekkan, uma
linhagem distinta, com ricas propriedades em Lannak; ela
própria aumentara essa fortuna, mediante negócios astutos.
Supunha que o pai do filho fosse Tornak dos Wendru; e não
que se importasse muito, mas Trolwen parecia-se
notavelmente àquele grande guerreiro. Fora a própria fama
de Trolwen como oficial eleito pelo clã, na batalha, nas
tempestades e nas negociações, bem como na rotina diária,
entretanto, o que levara o Conselho a escolhê-lo como
chefe de todos os clãs. Nos dez dias seguintes, ele fora o
chefe de uma facção que perdia, mas, possivelmente, sua
gente fora levada à força para as terras altas mais devagar do
que teria acontecido sem ele.
Agora, desempenhava papel principal na força de luta da
Revoada, contra a própria Frota.
O equinócio vernal mal acabara, mas já os dias se
encompridavam, passos de gigante. A cada manhã o sol se
erguia mais para o norte e um ar mais suave derretia as
neves, até que os vales e baixadas de Lan-nak se tornassem
um rodopio em água. Haviam-se passado apenas 130 dias do
equinócio ao Último Amanhecer; dali em diante, por toda a
noite infinita do Grande Verão, nada haveria, senão chuva
ou nevoeiro para encobrir um ataque.
E se os Drakska não fossem derrotados até o outono, refletia
Trolwen, sombriamente, de nada adiantaria tentar mais; a
Revoada estaria finda.
Suas asas batiam com firmeza no céu, na cadência fácil e
resistente de criatura nascida para voar. Tinha sob o vôo um
mistério branco e interrupto de nuvem, com o mar bem
distante por baixo, a fitar por ali com brilho, como vidro
polido; por cima havia o teto azul-violeta claro, a noite e as
estrelas. Ambas as luas haviam subido, a apressada Flichtan,
que ia de um horizonte a outro em dia e meio, e Nua, tão
baixa que suas rodas se moviam com mais rapidez do que ela
própria. Ele aspirou a escuridão fria e flutuante nos pulmões,
sentiu o impulso nos músculos e a ondulação no pelo, mas
sem o desfrute sensual de um vôo comum.
Pensava acendradamente em matar.
Um Comandante não devia demonstrar indecisão, mas ele
era jovem e o grisalho Tolk, o Arauto, compreenderia.
— Como vamos saber se esses seres se encontram na mesma
jangada, como quando você partiu? — perguntara, falando
no ritmo medido, que conservava o controle um vôo longo.
O vento murmurava por baixo de suas palavras.
— Não podemos ter certeza, é claro, chefe da Revoada —
respondeu Tolk. — Mas o gordo também pensou na
possibilidade. Disse que daria um jeito de estar no convés,
bem à vista, todos os dias, ao amanhecer. E depois ele
gemeu, queixou-se de horas horrorosas para sair da cama. É
uma criatura estranha.
— Talvez, no entanto — e Trolwen estava preocupado — as
autoridades Draka o terão trancado, desconfiando que o
ajudou na sua fuga.
— O que ele fez provavelmente não foi observado naquela
agitação — retorquiu Tolk. — Eles, com certeza, acham que
eu aproveitei a oportunidade para me soltar de algum modo.
Se houve alguma coisa desagradável para eles, bem, o gordo
já teve alguns dias durante os quais pode convencer os
Drakska do contrário.
— E talvez não nos possa ajudar, afinal de contas — disse
Trolwen, estremecendo. O Conselho usara palavras fortes
contra aquela incursão: risco e baixas em demasia. Os clãs
turbulentos haviam manifestado sua desaprovação
calorosamente. Ele tivera dificuldades para convencê-los a
todos.
E se fosse verificado que estava desperdiçando vidas em algo
tão grotesco quanto aquilo, sem servir a qualquer objetivo.
.. Trolwen era tão patriota quanto qualquer jovem cujo
povo houvesse sofrido ataques cruéis, mas não deixara de
preocupar-se quanto a seu próprio futuro. No passado,
acontecera que Comandantes que haviam fracassado de
modo fragoroso tinham sido expulsos para sempre da
Revoada, como se fossem ladrões ou assassinos comuns.
Ele continuou voando.
Uma luz rala e fria estivera a se esgueirar no chão por algum
tempo. Agora as nuvens mais altas começavam a tornar-se
avermelhadas e um brilho perpassou a metade oculta do
mar. Era de importância crucial alcançar a Frota exatamente
nesse momento, quando se tinha luz bastante para saber o
que se fazia e, ao mesmo tempo, era insuficiente para
proporcionar ampla advertência ao inimigo.
Um Assobiador, com a estrutura esguia e asas
desproporcionais da adolescência, surgiu, vindo do nevoeiro
onde se escondera. As notas estridentes dos lábios iam
longe, agudas. Tolk, que como Arauto Chefe encabeçava a
educação desses batedores-mensageiros, inclinou a cabeça e
assentiu.
— Adivinhamos muito bem — disse, com calma. — As
jangadas estão a apenas cinco buaska à frente.
— É o que entendi — respondeu Trolwen, a voz denotando
a tensão. — E agora, aquele Terreno dos infernos, ou seja lá
como se chama, terá indicado...?
Interrompeu-se no que dizia. Um número maior dos jovens
subia o vento, punha-se à mostra, mais depressa do que um
adulto saberia voar. Seus assobios entrelaçavam-se em
exuberante música de luta. Trolwen leu o código como se
fosse sua própria língua, fechou as mandíbulas e acenou para
seu porta-estandarte. Foi quando mergulhou.
Ao irromper pelas nuvens, viu a imensa Frota espalhada,
bem atrás ainda, porém cobrindo as águas, partindo das ilhas
chamadas os Filhotes, rumo aos bancos orientais, cheios de
algas. Conveses e mais conveses se ajuntavam em calma
cinzento-apurpurada, os mastros se estendiam para cima
como se fossem dentes, a luz da aurora alcançava o castelo
flutuante do Almirante, incendiava-lhe a bandeira. Houve
uma explosão em direção ao céu, vinda das jangadas e
canoas, quando os Drak'honai ouviram os gritos de seus
próprios sentinelas, e tomaram armas.
Trolwen dobrou as asas e inclinou-se. Atrás dele, em uma
cunha de esquadrões de clã, gritavam três mil lutadores
Lannacha. Já quando caía, olhou procurando — onde
estaria aquele desgraçado monstro da Terra — ali! A visão de
animal voador, que devorava distâncias, assinalou as três
formas horrendas no convés de uma jangada, acenando e
dando pulos.
Trolwen estendeu as asas para frenar.
— Aqui! — gritou. O porta-estandarte fez parada, adejou e
desenrolou a bandeira vermelha do Comando. Os
esquadrões transformaram-se, passando de cunha à
formação de batalha, desdobraram-se e mergulharam para a
jangada. Ao passar cada um deles, um jovem guerreiro forte,
escolhido para a guarda, abandonava o esquadrão, até que
Trolwen estivesse flutuando em uma esfera frouxa de
defensores.
Os Drakska formavam suas próprias fileiras, com velocidade
e disciplina apavorantes.
— Deuses que tragam fumaça! — gemeu Trolwen. — Se
pudéssemos ter usado apenas um esquadão... numa batida
rápida... e não em batalha completa. ..
— Um esquadrão isolado dificilmente poderia trazer os
Terra'ska vivos de volta, Chefe da Revoada
— observou Tolk. — Não, quando se encontram bem no
meio do inimigo. Temos que dar a impressão de que eles não
valem a pena.. . e manter o encontro, quando nos
retirarmos.
— Eles sabem muitíssimo bem para que viemos!
— retorquiu Trolwen. — Olhem só, como voam para aquela
jangada!
Os soldados da Revoada haviam atravessado uma linha fina
de patrulhas Draka, alcançando a superfície da água. Um
destacamento atacou a embarcação visada, pousou em
círculo em volta dos seres humanos, e depois partiu para
tomar conta de toda a jangada. Os demais ficaram no ar, a
fim de repelir o contra-ataque inimigo.
A luta, no convés, foi simples e desajeitada. Ambos os lados
se achavam equipados de modo semelhante: a tecnologia de
armamentos parece espalhar-se com mais rapidez do que
qualquer outra. Espadas de madeira, com pontas de sílex,
lanças endurecidas no fogo, bastões, punhais, machadinhas,
batiam em pequenos escudos de vime e couraça. Caudas
desferiam golpes, esporões rasgavam, asas esmurravam e
cortavam com os esporões córneos, dentes cerravam-se nas
gargantas, punhos esmurravam a carne. Em má situação, o
guerreiro podia ascender em vôo; era pouca a tentativa para
manter ordens nas fileiras, tratava-se de uma refrega
generalizada. Trolwen não tinha interesse algum por essa
fase da batalha; tendo pousado em números superiores, sabia
que podia apoderar-se da jangada se, ao menos, os
esquadrões aéreos soubessem manter os demais Drakska à
distância.
Pensou — de modo convencional, como fariam milhares de
bardos — como se parece à dança, uma batalha travada no
ar: intricada, bela e pavorosa. Coordenar os esforços de mil
ou mais guerreiros era algo que atingia os pontos
culminantes da arte.
O esteio dessa força eram os arqueiros. Cada qual segurava
um arco tão comprido quanto ele próprio, com as garras dos
pés, puxava a corda com ambas as mãos e soltava o projétil,
apanhava nova flecha no carcaz posto no estômago, com os
dentes, e já a tinha pronta para voar, antes que o arco se
retesasse. Um corpo assim, treinado quase desde o
nascimento, podia fazer uma cortina de flechas que
ninguém atravessaria vivo. Mas após terem sido gastas as
flechas que assobiavam, e isso logo ocorria, eles precisavam
voltar para buscar mais flechas com os portadores das
mesmas. Era o aspecto mais vulnerável de seu trabalho, e o
resto do exército existia para assegurá-lo.
Alguns atiravam bolandeiras, outros o bumerangue pesado e
aguçado, alguns a rede com pesos, em que o inimigo com as
asas emaranhadas podia, sendo apanhado em vôo, mergulhar
e morrer. As zarabatanas eram inovação recente, observada
entre tribos estrangeiras, nos pontos de encontro nas zonas
tropicais. Aqui os Drakska estavam à frente, pois suas armas
tinham um mecanismo repetidor acionado por ferrolho,
eram endurecidas pelo fogo, tinham baionetas de madeira.
Também as unidades militares separadas na Frota eram mais
cerradamente organizadas.
Por outro lado, ainda contavam com um conjunto canhestro
de chamadas por buzinas, a fim de integrarem o exército.
Infinitamente mais flexível, o corpo de Assobiadores passava
de um chefe a outro, entretecendo a Revoada em um só
organismo enorme e possante.
A batalha subia e descia, enquanto o sol se erguia e as
nuvens abriam caminho, o mar se tingia de sangue. Trolwen
deu ordens sucintas: Hunlu ia reforçar o flanco superior
direito, Torcha faria uma finta para a jangada do Almirante,
enquanto Srygen acossava a ala oposta. Certa vez, com
satisfação, ele próprio se empenhou em combate, quando
um esquadrão da Draka alcançou o lugar onde adejava. À
machadinha ele derrubou pessoalmente um deles, observou
aquela forma de asas partidas tombar nas águas por baixo.
Assim terminavam as batalhas, de modo tradicional. Quando
os projéteis haviam sido todos atirados, se nenhum dos lados
rompera as linhas, seria questão de machado, bastão,
ancinho e lança, guerreiro contra guerreiro em corpo a
corpo. Às vezes o caos era tamanho que ambos os exércitos
se desintegravam.
Mas a Frota estava aqui, pensava Trolwen desalentado, com
todos os seus arsenais, mais projéteis do que seus voadores,
já em inferioridade numérica, poderiam carregar em
qualquer época. Se aquela luta não se interrompesse logo...
A jangada com os Terra'ska fora tomada. Canoas Drakas
aproximavam-se, para reconquistá-la. Uma delas disparou
armas de fogo: era o óleo em chamas, temível e irresistível,
de que a Frota dispunha, bombeado por um cano de
cerâmica; catapultas que atiravam vasos da substância, que
explodia em clarões de chamas, ao impacto. Eram as armas
que tinham aniquilado os barcos da Revoada, tomando-lhe
as cidades costeiras. Trolwen lançou imprecação, com
angústia, ao ver aquilo.
Mas os Terra'ska já tinham deixado a jangada, seis
carregadores fortes levavam cada um deles em rede
especialmente preparada. Mudando os carregadores com
freqüência, aquelas cargas poderiam ser levadas ao bastião da
Revoada, nas montanhas. As caixas de alimentação,
apressadamente arrancadas do porão, eram menos difíceis.
Um Assobiador gorjetou o sinal de êxito.
— Vamos embora! — e as ordens partiram de Trolwen, os
mensageiros seguiram rumo aos esquadrões a serem
informados. — Hunlu e Srygen, cerrem fileiras em volta dos
carregadores; Dwarn, voe por cima com metade de seu
comando; a outra metade proteja o lado esquerdo.
Retaguarda...
A manhã já se estendera bastante, quando eles conseguiram
interromper a luta, batendo em retirada. O seu pavor fora o
de que as forças maiores da Frota movessem perseguição.
Uma batalha travada por todo o caminho de volta à casa
podia quebrar a espinha de seu exército. Mas assim que se
tornou claro estarem batendo em retirada, o inimigo
encerrou o contato, voltou para os conveses.
— Como você predisse, Tolk — e Trolwen arquejava.
— Bem, Chefe da Revoada — disse o Arauto, na calma
costumeira. — Eles próprios não estavam com grande desejo
de luta. Estenderia por demais o vôo, as jangadas ficariam
virtualmente sem defesa. Pelo que eles sabem, nossa idéia
foi a de atraí-los a tanto. Por isso, resolveram que os
Terra'ska não valem tanto trabalho e risco, opinião que os
próprios Terra'ska devem ter cultivado neles, com
empenho.
— Vamos esperar que não seja uma crença justificada. Mas
quaisquer que sejam os decretos dos Deuses, Tolk, você
previu este desfecho. Talvez devesse ser o Comandante.
— Oh, não. Eu, não. Foi o Terra'ska gordo quem predisse
tudo em detalhes.
Trolwen deu uma risada.
— Talvez, então, ele devesse comandar.
— Talvez — disse Tolk, imerso em pensamentos. — Talvez
comande.
5
A costa setentrional de Lannach inclinava-se em vales largos
até o Mar de Achan. Ali, em florestas cheias de caça e
extensões relvadas, haviam surgido aquelas aldeias em que
habitavam, de modo costumeiro, os clãs da Revoada. Onde a
Baía Sagna entrava fundo na terra, muitas dessas aldeias
haviam-se reunido, formando unidades maiores. Assim
surgiam as cidades, Ulwen e Mannenach, onde abundava a
pederneira, e Yo, dos Carpinteiros.
Suas portas, entretanto, estavam quebradas, os telhados
haviam desaparecido em incêndios; canoas Drak'ho eram
vistas nas praias de Sagna, grupos armados de Drak'ho
tinham-se apoderado de Ulwen e patrulhavam a Floresta
Anch, arrebanhavam as manadas cornudas que vinham do
sono hibernal em Duna Brae.
As embarcações afundadas, as casas tomadas, os campos de
caça e pescaria invadidos, a Revoada se retirara para as terras
altas. Nas encostas trêmulas de lava do Monte Oborch, ou
nos canyons frios das Montanhas de Neblina, havia alguns
poucos agrupamentos, onde tinham vivido os clãs mais
pobres. As mulheres, os muito idosos e os muito jovens,
podiam ser alojados ali; barracas eram levantadas, as
cavernas ocupadas. Mas varrendo aquele país desnudo,
desde a Charneca do Grito até o Promontório, e muitas
vezes passando fome, a Revoada só conseguiria sustentar-se
por pouco tempo.
O coração de Lannach, no entanto, era a costa setentrional,
que os Drak'honai ha dam agora tomado. Sem ela, a Revoada
não passava de uma tribo desnutrida de selvagens, até chegar
o outono, quando a Hora de Nascer os reduziria à completa
indefensabilidade.
— Não está tudo bem — disse Trolwen, compreendendo a
situação.
Seguiu por trilha estreita, na direção da aldeia. Como se
chamava ela, agora? — Salmenbrok — e se encarapitava na
crista pontuda acima. Além, rocha vulcânica escura, ainda
entremeada de campos de neve, ascendia estonteantemente
até uma cratera oculta por seus próprios vapores. O chão
estremecia, só um pouco, e van Rijn ouviu o trovejar as
entranhas do planeta.
Não era lugar para um homem de sua idade e peso. Devia
estar em casa, em sua própria poltrona tão confortável, na
boca um charuto, e uma bela pequena, um copo cheio de
bebida e os canais de Amsterdam fluindo serenamente em
volta. Por momentos, a recordação da Terra foi tão aguda
que ele fungou, em assomo de piedade por si próprio. Era
doloroso deixar os ossos naquela terra de pesadelo, quando
ela contara agasalhar-se na relva verde e macia da Terra,
assim dando repouso ao corpo cansado... Duro, cruel. Sim, e
a cada dia a Companhia devia estar endividando-se cada vez
mais, sem sua supervisão! Isso o fez voltar às coisas práticas.
— Quero entender a coisa direito — solicitou. Achava-se
muito mais à vontade falando Lannachamael do que
estivera, mesmo sem fingir, na língua dos Drak'ho. Ali, por
casualidade, a construção gramatical e os ruídos guturais não
eram muito diferentes de aqueles em sua língua materna. Já
falava quase fluentemente.
— Vocês voltaram de sua migração e descobriram que o
inimigo os esperava aqui? — prosseguiu.
Trolwen sacudiu a cabeça, em gesto áspero e penoso.
— Sim. Até então nós só sabíamos vagamente da existência
dele. As regiões navais deles ficam muito ao sudoeste da
nossa. Sabíamos que tinham sido obrigados a sair porque, de
repente, o trech... o peixe que é o prato principal deles... de
repente o trech alterara os hábitos, passando das águas Draka
para Achan. Mas não fazíamos idéia de que a Frota vinha
para nossa terra.
Os cabelos compridos de van Rijn sibilaram, compridos e
negros de gordura, as madeixas cuidadosamente tratadas
haviam desaparecido por completo, enquanto ele assentia.
— Foi como lá em casa. Na Idade Média na Terra, quando o
arenque mudava de lugar, por algum motivo estúpido
qualquer, a história dos países marítimos mudava também.
Caíam reis, com os diabos, e travavam-se guerras, por causa
das novas águas da pescaria.
— Nunca foi de grande importância para nós — disse
Trolwen. — Alguns clãs na região de Sagna têm.. . tiveram
pequenas canoas, e apanhavam grande parte da comida com
anzol e linha. Não era nada desse trabalho de animais que
fazem os Drakska, arrastando aquelas redes, mesmo que com
isso apanhem mais peixes! Mas para nossa gente, de um
modo geral, era coisa de menor importância. Está claro que
ficamos satisfeitos, faz alguns anos, quando o trech apareceu
em grande número no Mar de Achan. Ele é grande e
saboroso, seu óleo e ossos têm muita utilidade. Mas não foi
coisa que causasse tanta alegria quanto se. .. oh, como se
esses animais cornudos e selvagens houvessem dobrado de
número, da noite para o dia.
Seus dedos fecharam-se de modo convulsivo, no punho da
machadinha. Afinal de contas, era muito jovem.
— Agora vejo que os deuses mandaram o trech para nós —
prosseguiu — com raiva e zombaria, porque a Frota veio
atrás dos peixes.
Van Rijn fez uma pausa na trilha que seguia, resfolegando
até abafar com esse ruído os murmúrios distantes da lava.
— Bolas! Calma, por aí! Não falar assim, como se Deus
houvesse abandonado a coisa, por favor... Ah. Se os peixes
não ser coisa boa para vocês, por que não deixar a Frota ficar
com as águas de Achan?
Ele sabia que não estava fazendo uma pergunta verdadeira
— apenas um estímulo. Trolwen deu vazão a diversos
palavrões explosivos, antes de responder.
— Eles nos atacaram, no momento que voltamos para casa,
na primavera. Já tinha ocupado nossa terra costeira! E
mesmo que não tivessem ocupado, você deixaria uma horda
forte de... estrangeiros... cujos próprios hábitos são
diferentes e maus... você deixaria que eles morassem diante
de sua porta? Por quanto tempo uma coisa assim iria durar?
Van Rijn voltou a assentir. Bastava supor que uma nação de
governo tirânico e vida pessoal imunda pedisse a Lua,
afirmando que precisava dela, e que de nada servia para a
Terra.
Pessoalmente, podia dar-se ao luxo de ser tolerante. De
muitos modos, os Drak'honai estavam mais próximos da
norma humana do que os Lannachska. Sua cultura de
senhor-e-servo era conseqüência natural da economia:
dotados apenas de ferramentas neolíticas, uma jangada com
dimensões para sustentar diversas famílias representava um
investimento capital enorme. Não era possível, pura e
simplesmente, que indivíduos insatisfeitos partissem por
conta própria; achavam-se à mercê do Estado. Em casos
assim, o poder sempre se concentrava nas mãos dos
guerreiros aristocráticos e sacerdotes intelectuais; entre os
Drak'honai, essas duas classes haviam-se fundido em um só.
Os Lannachska, por outro lado — criaturas mais típicas de
Diomedes —, eram primordialmente caçadores. Possuíam
pouquíssimos artesãos da alta especialização; cada um deles
sobrevivia utilizando ferramentas feitas por si próprio. O
fator regional de baixa caloria de uma economia de caça fazia
com que se espalhassem bastante sobre uma região grande,
cada grupo pequeno quase independente dos demais.
Esforçavam-se em impulsos espasmódicos, durante a caça,
por exemplo, mas não precisavam esforça-se dia após dia, até
estarem quase caindo de cansados, como o homem comum
que remava, usava rede ou trabalhava nas jangadas, na Frota;
daí não haver justificativa econômica, em Lannach, para
uma classe de chefes e supervisores.
Desse modo, sua unidade política natural era o pequeno clã
matrilinear. Tais grupos sangüíneos semi--oficiais, quase
livres de qualquer espécie de governo, achavam-se
organizados de modo bastante frouxo na Grande Revoada. E
a razão de ser da Revoada — exceto alguns negócios
menores no lar — era simplesmente a de aumentar a
segurança de cada um, quando todos os Diomedanos em
Lannach voavam no inverno para o sul.
Ou quando voltavam ao lar, para a guerra!
— Interessante — murmurou van Rijn, metade em ânglico.
— Entre nossos povos, como na maioria dos planetas, só a
gente da agricultura se civilizar.
Aqui, eles não cultivar fazendas, em absoluto, as manadas
semi-selvagens e animais cornudos ser o que existe de mais
próximo, nie? Vocês caçar, colher amoras, fazer a colheita
dos cereais selvagens, pescar um pouquinho; ainda assim,
conhecer a escrita e fazer livros. Percebo, também, que ter
máquinas e casas, e tecer. Ser que o estímulo de encontrar
estrangeiros, nas zonas tropicais, todos os anos, dar idéias a
vocês?
— O quê? — perguntou Trolwen, de modo vago.
— Nada. Estar só querendo saber por que, como a vida aqui
ser fácil, de modo que vocês ter tempo para construir uma
civilização, não cultivar comida bastante. Vocês comer toda
a caça e derrubar toda a mata. É o que a gente chamar de
Civilização vitoriosa, lá na Terra... quando haver bastante
para comer.
— Não aumentamos depressa nossos números — explicou
Trolwen. — Há cerca de trezentos anos, uma Revoada
separada e menor foi formada, mas mudou--se para outro
lugar. Perdemos tantos nas migrações, com tempestades,
esgotamento, doença, ataque dos bárbaros, animais
selvagens, às vezes o frio ou a fome... — e ele juntou as asas,
no que era o equivalente dio-medano a dar de ombros.
— Ah-ha! Seleção natural. Ser ótimo, se a natureza escolher
vocês para sobrevivência. De outro jeito, criar muita
barafunda e tragédia — e van Rijn cofiava a barbicha. Os
queixos, por baixo da mesma, estavam-se tornando eriçados,
já que sua última aplicação do enzima anti-barba terminara.
— Então. Isso dar uma noção do que levar sua raça a
conseguir cérebros. É hibernar ou migrar! E se migrar,
precisar de inteligência bastante para enfrentar todos os
tipos de perigo, com os diabos!
Retomou a caminhada ruidosa pela trilha, prosseguindo:
— Mas nós ter nossos problemas para pensar,
principalmente porque ser também os problemas de
Nicholas van Rijn... e que não poder durar muito tempo.
Bolas! Bem, contar mais alguma coisa. Eu achar que a Frota
dar uma boa coça em vocês, mandar todos para cá, onde só
o mapa ser seu plano. Vocês querer ir outra vez para as
terras baixas. Também querer livrar-se da Frota.
— Nós soubemos lutar com bravura — retorquiu Trolwen,
rígido. — Ainda podemos. .. e lutaremos, pelo fantasma de
minha avó! Houve motivos pelos quais fomos derrotados
desse modo. Viemos cansados e com fome, depois de dez
dias de vôo. Sempre se está fraco, no final da jornada
primaveril de volta à casa. Nossos fortes já tinham sido
ocupados. Os lança-chamas Drakska puseram fogo nas outras
defesas que fizemos, e tornaram impossível a nós enfrentá-
los por cima da água, onde está a verdadeira força deles.
Seus dentes estalavam, em reflexo de carnívoro.
— E temos de vencê-los logo! Se não vencermos, estamos
liquidados. E eles sabem disso!
— Eu ainda não ter certeza — reconheceu van Rijn. — A
pressa ser que todos os seus filhos nascer no mesmo tempo,
nie?
— Sim — e Trolwen chegou ao cimo, esperou por baixo das
muralhas de Salmenbrok, para que o hóspede arquejante ali
o alcançasse.
Como todos os agrupamentos Lannachska, aquele era
fortificado contra inimigos, animais ou dotados de
inteligência. Não havia estacada — que de nada adiantaria,
onde todas as formas de vida superiores dispunham de asas.
A construção comum era, aproximadamente, na forma de
um antigo fortim terrestre. O pavimento térreo não tinha
portas, dispunha de simples frinchas como janelas; a entrada
era pelo pavimento superior, ou alçapão no teto coberto de
colmo. Uma aldeia era fortificada não por muralhas externas,
mas por se achar entrelaçada de pontes cobertas e passagens
subterrâneas.
Lá em cima, sobre o madeirame, as casas eram de pedra nua,
postas em lugar com argamassa, em vez de serem usados os
troncos, mais comuns junto aos clãs do vale. Mas aquela
aldeia era feita solidamente, dotada de certo grau de
conforto a indicar a fartura reinante nas terras baixas.
Van Rijn levou tempo, admirando coisas como fechaduras
de madeira, construídas como quebra-cabeças chineses, um
conjunto de torno de madeira com ponta cortante feita de
diamante, partido com imenso esforço, e uma serra de
madeira cujos dentes eram de vidro vulcânico ranovável.
Um moinho de vento, propriedade de todos, moía nozes e
cereais silvestres, bem como acionava numerosas outras
máquinas menores. Incluía a bomba que enchia de água uma
grande bacia de pedra no penhasco por cima, e a água podia
ser solta para cair novamente e manter o moinho
funcionando, quando não havia vento. Viu até a pequena
estrada de ferro, acionada a velas com carrinhos de rodas de
madeira e feitos de vime, correndo sobre trilhos de madeira,
mas com a dureza de ferro. Servia para carregar sílex e
obsidiana das jazidas locais, madeira das florestas, peixe seco
vindo da costa, peles e ervas das terras baixas, artesanatos de
toda a ilha. Van Rijn pareceu deliciar-se.
— Então! — exclamou. — Começo! Vocês ser
fundamentalmente capitalistas. Ah, com os diabos, acho que
logo nós fazer negócios!
Trolwen deu de ombros.
— Existe quase sempre um vento forte soprando aqui em
cima. Por que não haveríamos de deixá-lo carregar nossos
pesos? Na verdade, toda a aparelhagem que está vendo levou
muito tempo para ser completada; não somos como aqueles
Drakska, que se esbofam com o trabalho.
A população temporal de Salmenbrok amontoava-se em
volta do ser humano, murmurando, pipilando e batendo
asas, os filhotes a abraçarem as pernas de van Rijn, as mães
gritando com eles para que saíssem dali.
— Dez mil demônios vermelhos! — e ele sufocava. — Estar
pensando que eu ser um político, para sair por aí, a beijar os
filhotes, ser?
— Venha por aqui — disse Trolwen. — Venha para o
Templo dos Homens. As mulheres e as crianças não podem
seguir-nos; eles têm seu próprio templo.
Seguir à frente por outra trilha, fazendo saudação complexa
ao pequeno ídolo instalado em nicho do caminho. A julgar
pela crueza de preparação, aquilo fora esculpido séculos
antes. A Revoada parecia ter apenas um politeísmo bastante
incoerente, em lugar de religião, e não o levava muito a
sério naqueles dias; mas era tão rigorosa no que tocava à
tradição e ritual quanto qualquer regimento inglês clássico
com o qual, de muitos modos, se parecia.
Van Rijn seguiu penosamente em seu encalço, lançando o
olhar para trás. As mulheres do local pareciam pouco
diferentes das que vira na Frota: um pouco menores e mais
esguias que os homens, as asas maiores, porém sem esporões
inteiramente desenvolvidos. Na verdade, os dois povos
pareciam racialmente idênticos.
Ainda assim, se tudo quanto os agentes da Companhia
haviam aprendido acerca de Diomedes não era pura tolice,
os Drak'honai representavam uma monstruosidade
biológica. Uma impossibilidade!
Trolwen acompanhou com o olhar a inspeção curiosa feita
pelo homem e suspirou.
— Já dá para perceber nas tetas delas — murmurou. —
Perto de metade de nossas mulheres em condição de
procriação já esperam o próximo filhote.
— Hm. Ja, aí estar o seu problema. Deixar ver se entender
direito. Os seus filhos nascer todos no equinócio do outono.
— Sim. Em questão de poucos dias, uns dos outros; as
exceções são desprezíveis.
— Mas não ser muito tempo depois que precisar partir rumo
ao sul. É claro que um filhote novo não poder voar.
— Claro que não. Ele se prende à mãe por todo o caminho;
nasce com braços capazes de segurar-se bem. Não existe
filhote do ano anterior; a mulher que amamenta não
engravida. O filho, com dois anos de idade, tem força
bastante para voar essa distância, com períodos de descanso
em que monta nas costas de alguém. É o grupo de idade em
que sofremos as maiores baixas. Os que têm três anos de
idade ou mais precisam, apenas, ser guiados e guardados, já
têm asas adequadas.
— Mas isto criar problemas para a mãe, não?
— Ela é auxiliada pelos membros do clã já um pouco
crescidos, ou pelas mulheres velhas, que já não mais podem
ter filhos, mas que agüentam a jornada. E os homens,
naturalmente, fazem toda a caça, exploração, luta, e assim
por diante.
— Pois então. Vocês vir para o sul. Ouvir dizer que ser fácil
viver por lá, com castanhas, frutas e peixes a tirar da água.
Por que não voltam?
— Este é o nosso lar — explicou Trolwen, com
simplicidade.
E após alguns momentos, aduziu:
— Naturalmente, as ilhas tropicais jamais poderiam
sustentar os muitos milhares que se reúnem por lá no meio
do inverno... duas vezes por ano, na verdade. Quando os
migrantes estão prontos para partir, já comeram tudo que
havia.
— Entender. Bem, prosseguir. No sul, na época do solstício,
ser quando vocês ter o cio.
— Sim. O desejo vem, mas você sabe o quero dizer.
— Estar claro — concordou van Rijn, com suavidade. Não
tinha intenção alguma de explicar como o padrão
reprodutivo dos seres humanos se parecia ao da Frota. Se
Trolwen quisesse imaginar van Rijn soltando berros e
escavando a terra com a pata, uma vez por ano, tinha plena
liberdade de fazê-lo.
— E existem os festivais, e o comércio com as outras tribos
— prosseguiu o Lannacha, suspirando. — Suficiente. Pouco
depois do solstício, regressamos e chegamos aqui antes do
equinócio, quando os animais grandes, de que dependemos
principalmente, acordaram do sono hibernal e engordam
um pouco. Aí tem o tipo de vida que levamos, Terreno.
— Ser divertido, se eu não estar muito velho e gordo —
asseverou van Rijn, assoando o nariz de modo lúgubre. —
Não envelhecer, Trolwen. A gente ficar tão sozinho! Você
ter sorte, morrer na migração, quando ficar fraco, e não
perder o fôlego, e nem ficar indefeso, só com recordações
queridas, como eu.
— Não vai dar para envelhecer, do jeito como as coisas se
apresentam — retorquiu Trolwen.
— Eu entender como o outono, portanto, ser ocasião de
nada mais, senão trabalhos obstétricos. Se vocês não ter
comida e abrigo, coisas assim, bem prontinhas, a maior parte
dos filhotes morrer.
— Eles são substituíveis — disse Trolwen, e seu grau de
despreocupação revelava que, afinal de contas, ele não era
apenas um homem dotado de asas e cauda. Seu tom de voz
aguçou-se. — Mas as mulheres que têm filhos são mais
importantes para nossa força. Aquela que acabou de ter filho
precisa ser alimentada e descansar, entende? Ou então
nunca chegará ao sul. E pense só em quantas, no meio de
nossos números totais, vão tornar-se mães. É uma questão
de sobrevivência da Revoada como nação! E aqueles
Drakskas imundos, procriando durante todo o ano, como se
fossem... como peixes. Não!
— Não, decerto — concordou van Rijn. — Ser melhor nós
pensar em alguma coisa depressa, ou eu também ficar com
muita fome.
— Gastei vidas para salvar vocês — observou Trolwen —,
porque todos esperamos que você pense em alguma solução.
— Muito bem — disse van Rijn. — O problema ser mandar
aviso à minha gente no Pouso de Quinta-feira. E então eles
vir aqui, com os diabos, e eu dizer a eles para acabar com a
Frota.
Trolwen sorriu. — Mesmo com o desconto dado à forma
não-humana de sua boca, era sorriso sem qualquer calor ou
bom-humor.
— Não, não — atalhou. — Não vai ser tão fácil assim, para
vocês. Eu não me atrevo a mandar minha gente, nem a
gastar o tempo e esforço em qualquer tentativa doida de
atravessar O Oceano... não faço isso, enquanto os Drak'ho
nos estiverem acossando. Perdoe-me, também, mas como
vou saber que você estará interessado em nos ajudar, depois
de conseguir voltar para casa?
Arredou o olhar, deixando de fitar van Rijn, na direção da
caverna com pórtico que era o Templo dos
Homens. Dali saía vapor, ouvia-se o chiado de um gêiser lá
dentro.
— Eu mesmo podia ter decidido de outra maneira — aduziu
de modo abrupto e voz muito baixa. — Mas tenho apenas
poderes limitados. O Conselho desconfia de três monstros
sem asas. Ele pensa... sabemos tão pouco a seu respeito....
que nosso único modo de agarrá-los é o seu próprio
desespero. O Conselho não admitirá que seja procurado
auxílio para vocês, até que a guerra tenha terminado.
Van Rijn ergueu os ombros, abriu as mãos em gesto
característico.
— Confidencial, aqui entre nós, Trolwen, meu rapaz, no
lugar deles eu fazer o mesmo.
6
A escuridão esmaecia agora. Logo viriam as luzes noturnas,
quando o sol pairasse acima do mar e o céu fosse como
flores brancas. Ambas as luas já tinham sido vistas em fase
cheia após o pôr do sol. Quando Rodonis saiu da cabine, o
rápido Sk'huanax alçava-se ao horizonte e se alinhava entre
as muitas estrelas, na direção da lenta e paciente Lykaris.
Entre eles, Aquela-Que-Espera e Aquela-Que-Persegue
lançavam uma ponte dupla e trêmula por cima da amplidão
das águas.
Rodonis nascera na velha nobreza e havia aprendido a sorrir
da adoração às Luas. Servia para os marinheiros comuns
que» de outra forma, voltariam aos sacrifícios primitivos,
derramando sangue à Aeak'ha-nas-Profundezas mas, na
verdade, uma pessoa educada sabia que existia apenas a
Estrela Polar. Ainda assim, Rodonis desceu ao convés,
envolta nas asas e murmurou seus problemas à brilhante
mãe Lykaris.
— Prometo-te uma canção, uma canção só para ti, a ser feita
pelos melhores poetas da Frota e cantada em tua honra,
quando celebrares teu próximo casamento com Aquele-
Que-Te-Persegue. Não precisarás casar-te novamente com
Ele, por mais de um ano, ao que me dizem os astrólogos;
haverá tempo bastante para fazer uma canção para ti, canção
que viverá enquanto a Frota estiver no mar, Ó Lykaris, mas
tu me pouparás o meu Delp.
Ela não se dirigia a Sk'huanax o Guerreiro, assim como um
Drak'ho jamais teria pensado em fazer pedidos à Mãe. Mas
ela disse a Lykaris, mentalmente, que não podia haver mal
em chamar à atenção d'Ele o fato de que Delp era criatura
corajosa, que jamais se omitira nas oferendas adequadas.
As luas tornavam-se mais brilhantes. Uma nuvem no oeste
cresceu como montanhas regeladas. Bem ao longe
apresentava-se a tessitura esfarrapada de uma ilha. Ela ouvia
o gelo duro tossir ao norte. Uma paisagem grande e
estranha, aquilo não era a Água do Sul, verde e querida, da
qual a fome expulsara a Frota, e Rodonis imaginava se os
deuses de Achan jamais permitiriam que os Drak'honai o
chamassem de lar.
A batida das ondas, madeiras que estalavam, cordas que
cantavam enquanto o orvalho as retesava, o murmúrio do
vento nos cabos, uma vela que estalava, o lamento distante
de uma flauta e os ruídos domésticos mais próximos, vindos
do próprio castelo daquela jangada, roncos e choraminga de
filhotes, o grunhido satisfeito de algum casal — tudo isso
compunha o reconforto firme e forte, naquele vazio gelado
chamado Mar de Achan. Pensou em seus próprios filhotes,
duas formas peludas e pequenas em leito ricamente
atapetado, e isso lhe conferiu o resto de vigor de que pre-
cisava. Ela abriu as asas e subiu pelo ar.
De cima, a Frota à noite era um amontoado de sombra, com
o brilho raro de fogos, onde alguma tripulação trabalhava até
tarde. A maior parte desde muito se deitara, esgotada por um
dia de arrastar redes, manobrando os instrumentos de
cabrestantes, limpando, saltando e escolhendo os peixes,
abrindo e fechando as velas pesadas das jangadas, colhendo
sargaços e frutas marinhas, derrubando árvores e modelando
a madeira com ferramentas de pedra. O membro comum de
tripulação, homem ou mulher, auferia pouco da vida, exceto
o duro trabalho braçal. Seus divertimentos eram quase tão
grosseiros e violentos quanto aquilo; as danças, os torneios
atléticos, fazer o amor sem parar, as canções indecentes,
entoadas a plenos pulmões por cima do barril de cerveja
feita de cereal marítimo.
Por momentos, ao lhe perpassarem a mente tais
pensamentos, Rodonis sentiu orgulho de sua gente. Para o
nobre comum, o subordinado era um animal doméstico, de
maus modos, analfabeto, não chegava a ser decente, mas
devia ser mantido em seu lugar pelo chicote e gancho, pelo
seu próprio bem. Voando por cima da grande fera
adormecida que era uma frota, entretanto, Rodonis
percebeu-lhe o vigor, enrodilhado como uma serpente, lá
embaixo. Aqueles eram os senhores do mar, e as bandeiras
altivas dos Drak'ho estavam erguidas sobre as costas dos
tripulantes ávidos de Drak'ho.
Talvez fosse mais simples, se os ancestrais do marido
houvessem vindo do castelo dianteiro, não muitas gerações
antes. Ela o vira ajudar a tripulação muitas vezes,
trabalhando lado a lado com eles na tempestade ou na
corrida ao peixe. Ela aprendera que não era vergonha jogar
uma rede ou preparar um tear para si própria.
Se o trabalho era agradável à Estrela Polar, como diziam os
livros santos, nesse caso por qual motivo deveriam os nobres
Drakho considerá-lo desagradável? Havia algo anêmico
acerca das antigas famílias, algo que não era de todo sadio.
Elas morriam, eram substituídas por gente vinda de baixo,
século após século. Sabia-se bem que os tripulantes comuns
tinham a prole mais numerosa, os artesãos hábeis e
guerreiros muito menos, os oficiais hereditários menos de
todos. Ora, o Almirante Syranax, em vida extensa, gerara
apenas um filho e duas filhas. Ela, Rodonis, já tinha dois
filhos, e apenas quatro anos de casamento haviam decorrido.
Isso não sugeria que a Alta Estrela Polar favorecia a pessoa
sincera, trabalhando com mãos honestas?
Mas não, aqueles Lannak'honai tinham filhos ano sim, ano
não, como máquinas, embora muitos morressem na
migração. E os Lannak'honai não trabalhavam, não
trabalhavam de verdade; caçavam, pastoreavam, pescavam
com anzóis afeminados. Eram bastante vigorosos, mas nunca
ficavam em um trabalho horas e dias seguidos, como o
marinheiro Drak'ho. E, naturalmente, seus hábitos eram dos
mais revoltantes. Animais! Concupiscência indiscriminada,
era tudo. Por todo o resto da vida, o pai do filhote não
passava de outro homem, a seus olhos — não que você
soubesse quem ele era, afinal! Sua ordinária! E no lar não
havia qualquer modéstia entre os sexos; nem mesmo grande
distinção nos hábitos cotidianos, porque não havia mais
desejo. Que horror!
Ainda assim, aqueles Lannach'honai imundos haviam
crescido, e talvez a Estrela Polar não se importasse. Não, era
pensamento por demais gelado, naquele vento noturno, sob
a páli-Sk'huanax. A Estrela Polar, por certo, designara a Frota
como instrumento para destruir aquelas feras Linnach e
tomar a terra que haviam conspurcado.
As asas de Rodonis bateram um pouco mais depressa. O
capitânea estava próximo, agora, as torres parecendo-se a
picos montanhosos na escuridão. Havia muitas lâmpadas
acesas no convés ou nos quartos de persianas. Havia
guerreiros a andar sem parar, por cima e em volta. A flâmula
do Almirante continuava no mastro, de modo que ele ainda
não morrera; mas a vigília da morte aumentava a cada hora
transcorrida.
Como aves de carniça esperando, pensou Rodonis,
estremecendo.
Um dos sentinelas assobiou para que pairasse e veio ver de
perto. O luar reluzia em sua lança polida.
— Pare! Quem é você?
Ela viera preparada para isso mas, por momentos, a língua
paralisou-se na boca. Era apenas uma mulher, e um monstro
rondava por baixo.
Uma lufada de vento fez com que as coisas secas
estralejassem em um lais de verga. Eram coisas de algum
marinheiro estúpido, que agora estava sentado, amarrado a
um remo ou mó, talvez ainda vivo. Rodonis pensou nas
costas de Delp, que ostentavam cotos avermelhados e sua
fúria irrompeu em um grito.
— Fala nesse tom a uma Axollon?
O guerreiro não a conhecia pessoalmente, em meio aos
milhares de cidadãos da Frota, mas reconheceu o xale da
classe de oficiais. Tornava-se perceptível que o trabalho
duro jamais levara a emagrecer aquele corpo de linhas
esguias.
— Desça para o convés, ralé! — gritou Rodonis. — Cubra os
olhos quando falar comigo!
— Eu. .. minha senhora — e ele gaguejava. — Eu não...
Ela mergulhou diretamente em sua direção. O guarda não
teve alternativa, senão afastar-se do caminho. A voz dela
estalava como chicote, enquanto passava:
— E isso, naturalmente, se seu mestre obteve permissão
para que você me falasse.
— Mas... mas... mas...
Outros guerreiros tinham aparecido, fazendo meia-volta
igualmente atarantados, no ar. Existiam leis assim, mas
ninguém as aplicara rigorosamente, por séculos seguidos.
Um oficial no convés principal enfrentou a situação, quando
Rodonis pousou.
— Minha senhora — disse, com a devida deferência —, não
é adequado que uma mulher sem acompanhante venha a
bordo, muito menos para visitar esta jangada coberta de
tristeza.
— É necessário — respondeu ela. — Tenho uma mensagem
para o Capitão T'heonax, que não pode esperar.
— O Capitão está ao lado do honrado pai, minha senhora.
Não me atrevo...
— Que sejam seus dentes que ele arranque, então, quando
souber que Rodonis Axollon poderia ter impedido outra
revolta!
Dito isso, adiantou-se pelo convés, foi inclinar-se na grade,
como a espalhar a raiva por cima do mar. O oficial arquejou,
engasgou. Era como se recebesse um golpe de cauda no
estômago.
— Minha senhora! Imediatamente... espere, espere aqui, só
um momentinho. Guarda! Guarda, você! Cuide de minha
senhora. Que não lhe falte nada — e ele partiu à toda.
Rodonis esperou. Vinha, agora, a prova verdadeira.
Até então não encontrara dificuldades. A Frota estava por
demais abalada; nenhum oficial, todos eles
preocupadíssimos, teria recusado fazer-lhe a vontade,
quando falara de uma segunda revolta.
A primeira fora atordoante. Tal horror — uma revolta
verdadeira, contra o próprio Oráculo da Estrela Polar — não
fora sabido por mais de cem anos.. . e com uma guerra a ser
travada, ao mesmo tempo! O impulso geral fora o de negar
que qualquer coisa séria houvesse ocorrido. Um mal-
entendido deplorável. Os subordinados de Delp,
equivocados, travando luta valente e desesperada, por
fidelidade ao Capitão. Afinal de contas, não se podia esperar
que marinheiros comuns compreendessem o princípio mais
moderno, o de que a Frota e seu Almirante transcendiam
qualquer jangada individual.
Asperamente, as lágrimas na época transformadas em
recordação já ressecada, Rodonis ensaiou a entrevista com
Syranax, dias antes.
— Sinto muito, minha dama — dissera ele. — Acredite em
mim, deploro o ocorrido. Seu marido foi provocado e tinha
mais justiça a seu lado do que Theo-nax. Na verdade, sei que
foi uma dessas lutas que acontecem, sem serem provocadas,
apenas uma faísca que acendeu ressentimentos antigos, e
meu filho teve a maior parte da culpa.
— Pois que ele sofra por ela! — gritara Rodonis. Aquele
crânio envelhecido e magro se inclinara
de um para o outro lado, implacável.
— Não. Ele pode não ser a melhor pessoa do mundo, mas é
meu filho. É também o herdeiro. Não tenho muito tempo de
vida e a guerra não é ocasião para nos arriscarmos a uma luta
pela sucessão. Pelo bem da Frota, Theonax deve tomar meu
lugar, sem oposição de qualquer parte; e, para isto, precisa
ter um assentamento oficialmente imaculado.
— Mas por que não deixa que Delp também fique isento?
— Pela Estrela Polar, se eu pudesse! Mas não posso. Tenho
de dar a qualquer um a anistia, sim, eu darei. Mas deverá
haver alguém, em quem despejar a culpa, alguém em quem
possamos dar vazão à dor de nossos sentimentos. Delp
precisa ser acusado de preparar a revolta e ser punido, de
modo que todos possam dizer: "Bem, lutamos um contra o
outro, mas foi tudo por culpa dele, de modo que agora
podemos novamente ser amigos".
O Almirante suspirou, era um alento fatigado, vindo de
pulmões encolhidos.
— Eu bem queria, pela Estrela Polar, não ter de fazê-lo. Eu
queria... Também gosto de você, minha senhora. Oxalá
pudéssemos voltar a ser amigos.
— Podemos — cochichara ela —, se libertar Delp.
O vencedor de Maion fitou-a, cansado, e disse:
— Não. E já ouvi o bastante. Ela se retirara de sua presença.
Os dias decorreram, houve o pesadelo que fora o julgamento
de Delp, o pesadelo da sentença a que se vira condenado, o
pesadelo de esperar sua execução. A incursão dos
Lannach'ho fora como o despertar momentâneo em sonhos
febris, por sua realidade e aspereza, e para os marinheiros o
companheiro já não era o inimigo de olhar furtivo, porém o
guerreiro que enfrentara o bárbaro nas nuvens e o mandara
de volta!
Três noites depois, o Almirante Syranax entrava em agonia.
Não houvesse adoecido e Delp seria agora um escravo
mutilado, sem as asas, porém naquela tensão e incerteza
renovada a sentença tão controvertida fora postergada,
naturalmente.
Uma vez que Theonax ocupasse o Almirantado, pensava
Rodonis, em recanto gelado do cérebro, não tardaria a
execução. A menos que...
— Minha senhora pode vir por aqui?
Mostravam-se obsequiosos, os oficiais que a levavam pelo
convés, rumando para a sombria pilha de toras. Criados
domésticos, seguindo de um para outro lado nos corredores
sem janelas à lua de lâmpadas, fitavam-na com uma espécie
de pavor. De algum modo, as coisas mais secretas eram
sempre sabidas da gente no castelo dianteiro e sabidas de
imediato, como se fossem farejadas.
Estava escuro ali, abafado, reinava o silêncio. Silêncio
completo. O mar jamais silencia. Só agora Rodonis
compreendia que, em toda a vida, nunca estivera afastada do
som das ondas, do madeirame e cordoalha. Retesou as asas,
teve vontade de subir voando, dando gritos.
Em vez disso, entrou.
Abriram uma porta para ela, passou, a porta fechou-se com
um som pesado e abafado. Viu um aposento pequeno
ricamente coberto de peles e tapetes, em que ardiam muitas
lâmpadas. O ar estava tão espesso que a estonteou. Theonax
deitara-se num sofá, a observá-la, brincando com uma das
facas do Terreno. Não se via mais pessoa alguma.
— Sente-se — disse ele.
Ela acocorou-se sobre a cauda, os olhos ardendo ao fitar os
dele, como se fossem iguais.
— O que queria dizer? — perguntou ele, sem entonação na
voz.
— O Almirante seu pai vive ainda? — contrapôs ela.
— Não será por muito tempo, ao que receio. Aeak'ha o
comerá, antes do meio-dia — e ele ergueu os olhos para a
tapeçaria, com expressão de medo. — Como a noite é
comprida!
Rodonis ficou à espera.
— E então? — peguntou ele, a cabeça trêmula voltando a
fitá-la. Havia um fio cortante em sua voz. — Você falou
alguma coisa sobre... outra revolta?
Rodonis sentou-se ereta sobre as ancas. O peito enrijou-se.
— Sim — respondeu, com voz hibernal. — A tripulação de
meu marido não o esqueceu.
— Talvez não — retorquiu Theonax. — Mas, a esta altura, já
aprenderam a ter mais fidelidade para com o Almirantado.
— Fidelidade ao Almirante Syranax, sim — contrapôs ela.
— Mas isso nunca faltou. Você sabe tão bem quanto eu, o
que ocorreu não foi revolta... apenas uma desordem, pelos
que estavam contra você. Eles sempre admiravam Syranax,
se não o amavam.
Uma curta pausa, e ela aduziu, as palavras bem claras:
— A revolta verdadeira será contra quem o matou.
Theonax deu um salto.
— De que está falando? — gritou. — Quem o matou?
— Você — respondeu Rodonis, entredentes. — Você
envenenou seu pai.
Ficou então à sspera, por um período que se estendeu a
ponto de não poder mais agüentar. Não tinha meios de saber
se aquele homem reconhecidamente violento, à sua frente,
não a mataria, por pronunciar tais palavras.
Ele quase o fez. Recuou, quando o punhal tocou o peito de
Rodonis. Seus maxilares voltaram a fechar-se, ele saltou para
o sofá e ali ficou, de quatro, as costas arqueadas, a cauda
rígida, as asas erguendo-se.
— Prossiga — sibilou ele. — Continue com as suas
mentiras. Eu sei muito bem como odeia toda a minha
família, por causa de seu marido, aquela criatura sem valor.
Toda a Frota sabe. Conta que eles acreditem em sua palavra?
— Nunca odiei seu pai — disse Rodonis, e o tom de voz não
era dos mais firmes, pois a morte passara muito perto. — Ele
condenou Delp, sei. Sei que agiu muito erradamente, mas
ele o fez pela Frota e eu... eu sou também da raça de
oficiais. Você se lembra, no dia após o ataque, pedi a ele que
viesse jantar comigo, como demonstração a todos de que os
Drak'honai precisam cerrar fileiras.
— Convidou, mesmo — zombou Theonax. — Foi um belo
gesto. Lembro-me de como todos os convidados disseram
que a comida estava muito temperada. E o presentinho que
você lhe deu, aquele disco brilhante, tirado dos bens do
Terreno. Comovente! Como se fosse seu, para dar. Tudo que
é deles pertence ao Almirantado.
— Bem, o Terreno gordo é que me deu aquilo,
pessoalmente — explicou Rodonis, que procurava deli-
beradamente levar a conversa a questões sem importância,
visando assim acalmá-los a ambos. — Ele disse que havia
tirado de sua bagagem. Chamava de moeda, um objeto de
comércio entre sua gente. Achou que eu poderia gostar
daquilo, para poder lembrá-lo. Isto foi logo depois da... da
desordem... e pouco antes que ele e os companheiros
fossem retirados da Gerunis para a outra jangada.
— Foi um presente de miserável — zombou Theonax. — O
disco estava gasto, sem forma. Bah! — e seus músculos
voltaram a retesar-se. — Vamos, faça mais acusações, se tem
coragem.
— Eu não fui uma imbecil completa — explicou Rodonis.
— Deixei cartas, a serem abertas por certos amigos, se não
regressar. Mas examine os fatos, Theonax. Você é homem
ambicioso, criatura de quem a maioria das pessoas está
pronta a pensar as piores coisas. A morte de seu pai o
tornará Almirante, praticamente o dono da Frota. Por
quanto tempo você deve ter esperado isso, impaciente! Seu
pai está morrendo, derrubado por moléstia diferente de
qualquer uma conhecida de nossos cirurgiões: nem mesmo
um veneno conhecido, porque o destrói com tanta rapidez.
Muitos sabem, agora, que os inimigos não conseguiram car-
regar toda a comida dos Terrenos; três pequenos pacotes
ficaram para trás. Os Terra'honai, com freqüência e de modo
público, avisaram-nos para não comer coisa alguma de suas
rações. E você ficou encarregado de todas as coisas deles!
Theonax abria a boca, pasmo.
— É mentira — e balbuciava. — Eu não sei... eu não...
nunca... E alguém vai acreditar que eu podia fazer coisa
como... envenenar... meu próprio pai?
— De você, acreditarão — proclamou Rodonis.
— Eu juro, pela Estrela Polar!
— A Estrela Polar não dará sorte a uma frota comandada
por um parricida. Basta esse motivo para criar a revolta,
Theonax.
Ela o fitava fixamente, tresloucado, ofegante.
— O que quer? — perguntou, com voz irreconhecível.
Rodonis fitou-o com o olhar mais frio que Theonax até
então recebera.
— Queimarei essas cartas — propôs — e ficarei calada para
sempre. Aos seus desmentidos, ajuntarei os meus, caso os
mesmos pensamentos ocorram a mais alguém. Mas Delp
precisa receber anistia imediata e total.
Theonax eriçava-se, rosnava para ela.
— Eu podia lutar com você — grunhiu. — Podia mandar
prendê-la, por palavras de traição, e matar qualquer um que
se atrevesse...
— Talvez — concordou Rodonis. — Mas valerá a pena?
Você poderia dividir a Frota e deixar-nos à mercê dos
Lannach'honai. Tudo que peço é a volta de meu marido.
— E para obter isso, ameaçaria arruinar a Frota?
— Sim — disse ela.
E, após momentos, aduziu:
— Você não compreende. Você, homens, fazem as nações,
as guerras, as canções e a ciência, todas as coisinhas.
Imaginam ser o sexo forte e prático. Mas a mulher passa
repetidas vezes sob a sombra da morte, para trazer nova vida
ao mundo. Nós somos as fortes. Temos de ser.
Theonax se acocorava, estremecendo.
— Sim — cochichou, afinal — sim, desgraçada,
amaldiçoada, sim, pode ficar com ele. Vou dar-lhe a ordem
agora, neste instante. Tire aqueles pés podres de minha
jangada, antes do amanhecer, está ouvindo? Mas eu não
evenenei meu pai.
Suas asas batiam, trovejando, até que ele se erguesse sob o
teto e ali se esbatesse, gritando, acuado.
— Eu não fiz isso!
Rodonis esperou. Logo recebia a ordem escrita e o deixava,
ia para a prisão, onde cortaram as cordas que prendiam Delp
hyr Orikan. Ele se jogou nos braços da esposa, soluçando.
— Vou ficar com minhas asas, vou ficar com minhas asas...
Rodonis Axollon afagou-lhe a crista, murmurou-lhe coisas,
cantou baixinho para ele, disse-lhe que tudo estaria bem,
que iam voltar para casa e chorou um pouquinho, porque o
amava.
Por dentro, acalentava uma recordação gelada, como o
velho van Rijn lhe dera a moeda, mas a advertir contra... o
que dissera ele?... envenenamento de metal pesado.
— Para vocês, o cobre, o estanho ser coisas desconhecidas.
Eu não ser químico; químico, eu contratar, quando ser
preciso quimicar; mas ser mais fácil eu comer uma pá de
arsênico do que um de seus filhotes tentar morder este
dinheiro, com os diabos!
E ela se lembrava de estar sentada no escuro, com uma pedra na
mão, moendo e moendo a moeda até que a quantidade fosse boa
para o jantar do Almirante inflexível.
Mais tarde, relembrou-se de que o Terreno não devia ter
tanto conhecimento de sua língua. Ocorria-lhe agora o
pensamento, com um tremor, que ele poderia muito bem
ter deixado aquele alimento mortífero de propósito, na
esperança de que viesse a causar problemas. Mas até que
ponto ele previra o acontecimento?
Guntra do Enklann entrou pela porta. Eric Wace ergueu o
olhar, cansado. A seu lado, com sombras imensas entre as
luzes, o moinho era um formigueiro de criaturas a trabalhar.
— Sim? — perguntou, em suspiro.
— Guntra estendeu um escudo largo, com dois metros de
comprimento, construção leve e forte feita de vime, sobre
estrutura de madeira. Por muitos dez-dias ela dirigira
centenas de mulheres e filhotes, reunidos para trabalhar,
secar os caniços, preparar a madeira, tecê-la, montar a
unidade. Não estivera tão cansada, desde que voltara para o
lar. Ainda assim, uma pequena vitória transparecia em sua
voz, ao dizer:
— Com este são quatro mil, Conselheiro.
Wace não tinha tal título, mas a mente Lannacha
dificilmente poderia imaginar alguém sem patente definida,
dentro da organização da Revoada. Levando em conta a
autoridade concedida às criaturas sem asas, era naturalíssimo
chamá-los de Conselheiros.
— Ótimo — e ele sopesou o objeto nas mãos que se haviam
tornado calosas. — Aí está um trabalho forte, bem feito.
Quatro mil são mais do que o bastante; sua tarefa está
cumprida, Guntra.
— Obrigada — e ela olhou em volta, levada pela
curiosidade, vendo o moinho transformado. Era difícil
lembrar que, não muito tempo antes, aquilo existira
principalmente para moer alimento.
Angrek dos Trekkans apresentou-se, com um bloco de
madeira na mão.
— Conselheiro — começou a dizer. — Eu... — e parou.
Seu olhar recaíra em Guntra, que estava ainda em seus anos
de madureza, e sempre fora considerada bela.
O olhar dela cruzou com o do recém-chegado. Uma espécie
de neblina acendeu-os. As asas dele se abriram, ele deu um
passo na direção de Guntra.
Com um arquejo, quase soluço, ela se voltou e fugiu. Angrek
ficou a fitá-la, depois jogou o bloco de madeira ao chão,
praguejando.
— Que diabo é isso? — interpelou Wace. Angrek
e&murrou a palma da mão com a outra.
— Fantasmas — murmurou. — Devem ser fantasmas...
espíritos sem descanso, de todos os malfeitores que já
viveram... possuindo os Drak'ska, e agora vieram
praguejar-nos!
Outros dois corpos escureceram a porta, que permanecia
aberta para a noite curta e pálida do verão inicial. Nicholas
van Rijn e Tolk, o Arauto, entraram por ela.
— Como ir a coisa, garoto? — estrondeou van Rijn, que
mordia uma cebola nitro-acondicionada; a magreza que
acometera Wace, até mesmo Sandra, não o alcançara. Mas,
observava Wace com amargura, esse velho balde de gordura
não trabalha. Tudo que faz é passear por aí, falar com os
chefes do lugar, queixar-se de que as coisas não marcham a
tempo.
— Devagar, senhor — e o jovem guardou para si palavras
que preferia ter sito. Seu sanguessuga inchado, acha que vai ser
levado de volta à casa por meu trabalho e meu cérebro, e me
pespegar outro lugar de agente, em algum planeta dos infernos?
— Ter de ser acelerado, então — contrapôs van Rijn. —
Nós não poder esperar tanto tempo, você e eu.
Tolk dedicou um olhar perspicaz a Angrek. O artesão
continuava tremendo, murmurando em cantos.
— O que se passa? — indagou.
— Há... uma influência — e Angrek recobriu os olhos. —
Arauto — gaguejou. — Guntra do Enklann esteve aqui
agora, e por momentos, nós. .. nós nos desejamos, um ao
outro.
Tolk permaneceu sério, mas falou sem qualquer repreensão:
— Aconteceu com muitos. Mantenha o seu controle.
— Mas, o que é isso, Arauto? Uma doença? Um julgamento?
O que fiz eu?
— Esses impulsos inaturais não são desconhecidos —
respondeu Tolk. — Eles aparecem na maioria das pessoas, de
vez em quando. Mas, está claro, não se fala sobre o assunto é
uma questão de abafar o fato, e fazer o melhor para esquecer
que aconteceu.
Dito isso, fez careta e emendou:
— Ultimamente tem havido mais dessas coisas do que o
costume. Não sei qual o motivo. Volte ao trabalho, evite as
mulheres.
Angrek respirou fundo, abalado, apanhou o pedaço de
madeira e cutucou Wace.
— Quero seu conselho; a forma, aqui, não me parece a
melhor para o fito.
Tolk olhou em volta. Acabara de chegar de jornada
prolongada, passando por cima de toda a terra natal, a fim de
levar notícias aos clãs por ali espalhados.
— Muito trabalho foi feito aqui — observou.
— Ja — assentiu van Rijn, em tom vaidoso. — Ele ser um
engenheiro talentoso, esse aí, meu jovem amigo. Mas
acontecer que o agente em planeta novo ter de ser bom
engenheiro, ou levar a breca.
— Não estou muito a par dos detalhes dos planos dele.
— Meus planos — corrigiu van Rijn, um tanto melindrado.
— Eu dizer a ele para fazer armas, e ele só ter de fazer.
— Só? — retorquiu Tolk, secamente, examinando uma
estrutura. — O que é isso?
— Um lançador de dardos de repetição... uma
metralhadora, é como chamar. Ver, esta viga marchante
fazer girar este volante com dentes. Os dardos ser postos na
roda por uma correia. .. assim. . . e jogados depressa, dois
ou três em um piscar de olhos, pelo menos. A roda ser
montada em giratória para apontar em todas as direções.
Uma idéia antiga, na verdade. Eu achar que Miller ou de
Camp, ou alguém, construir isso, faz muito tempo. Mas ser
um troço miserável, pra se enfrentar na batalha.
— Excelente — aprovou Tolk. — E aquilo ali?
— Chamar de balestra. Ser como as catapultas dos Drak'ho,
só que melhor. Essa jogar pedras grandes, para quebrar uma
parede ou afundar um barco. É aqui. .. já! — van Rijn
apanhava o escudo que Guntra acabara de trazer. — Isto não
ser das melhores peças, talvez, mas eu achar que tem mais
importância para nós do que as outras máquinas. Um
guerreiro no chão usar isto nas costas.
— Hmmm.. . sim, já vi onde a correia prende. Serve contra
as flechas vindas de cima, hem? Mas nosso guerreiro não
poderia voar, enquanto o usasse.
— Exatamente! — explodiu van Rijn. — Exatamente, pelas
tripas de Judas! Aí estar o problema com vocês, de
Diomedes. Grandes queijos redondos! Como contar lutar em
uma guerra de verdade, se ter só forças aéreas, hem? Aqui
em Salmenbrok, eu passar todos os dias a enfiar na cabeça
estúpida dos oficiais que a infantaria ser o que pegar e
sustentar uma posição, inferno! E depois os oficiais ter de
enfiar isso na cabeça dos soldados, treinar com eles. Judas
Iscariotes, nós não ter tempo bastante! Nestes poucos dez-
dias, eu ter de fazer o que precisar de anos!
Tolk assentia, de modo quase indiferente. Mesmo Trolwen
precisara de tempo, e discussão, antes de compreender a
idéia de uma força de combate cujo corpo principal era
deliberadamente preso às operações no chão. Tratava-se de
conceito por demais desconhecido. Mas o Arauto disse,
apenas:
— Sim. Entendo o seu raciocínio. São os pontos fortes o que
decide quem sustenta Lannach, as cidades fortificadas que
dominam o campo, de onde vem toda a comida. E para
retomar as cidades, vamos precisar cavar o caminho de
volta.
— Pensar com inteligência — aprovou van Rijn. — Na
história da Terra, alguns povos precisar de muito tempo para
aprender que não existir vitória para quem só contar com a
força aérea.
— Ainda existem as armas de fogo de Draka — observou
Tolk. — O que pensa fazer, no caso delas? Toda a minha
missão, nestes últimos dez dias foi, em grande parte,
convencer os grupos de fora a que se juntassem a nós. Dei a
eles sua palavra de que o fogo pode ser enfrentado, de que
teríamos até lança-chamas e bombas próprias. Seria melhor
que eu estivesse dizendo a eles a verdade. ..
Olhou em volta. O moinho, transformado em fábrica
primitiva, estava por demais cheio de trabalhadores alados
para que pudesse enxergar longe. Próxi mo, um torno
primitivo, aperfeiçoado em parte por Wace, produzia cabos
de lança e machadinha. Outra máquina, rebolo em giro, era
novidade para ele: dava forma a cabeças de machado e peças
semelhantes, não tão boas quanto aquelas feitas à mão, mas
saíam em quantidades por atacado. Um martelo de queda
extraía fragmentos de sílex e obsidiana, para as armas de
corte. Uma serra circular cortava partes de madeira; uma
máquina para retorcer cordas girava mais depressa do que o
olho a podia acompanhar. Tudo aquilo era acionado por
correias que vinham das grandes rodas do moinho. Tudo
aquilo ridiculamente improvisado e primário, mas estava
produzindo os artigos de guerra mais depressa do que
Lannach poderia usá-los, enchendo depósitos inteiros com
armamento de sobra.
— É notável — comentou Tolk. — E me assusta um pouco.
— Eu fazer um novo modo de viver aqui — proclamou van
Rijn, em tom expansivo. — Não ser esta máquina, ou aquela
ali, que já mudar o modo de vida de vocês, a história de
vocês não poder mais voltar atrás. Ser a idéia básica que eu
introduzir: a produção em massa.
— Mas o fogo.. .
— Wace começar também a fazer armas de fogo para nós.
Enxofre, apanhar no Monte Oborch e haver jazidas de
petróleo, de onde estar apanhando bons líquidos que pegar
fogo. A destilação, aí estar outra arte dos Drak'ho que vocês
não ter, mas agora nós fazer alguns coquetéis Molotov, para
usar.
E o ser humano fez careta, prosseguindo:
— Mas uma coisa ser verdade, meu amigo. Nós não ter
tempo para treinar seus guerreiros como devia ser para usar
esses materiais. Logo eu morrer de fome;
logo suas mulheres ficar grandes, a comida precisar guardar.
Emitiu um suspiro comovente, prosseguiu:
— Embora eu já estar morto desde muito tempo, até vocês
começar a sofrer de verdade.
— Não é assim — discordou Tolk. — Temos quase meio ano
até o Tempo de Nascer, mas estamos enfraquecidos pela
fome, frio e desespero. Já estamos deixando de realizar
muitas cerimônias...
— Com o inferno essas cerimônias — retorquiu van Rijn. —
Eu dizer que a cidade de Ulwen devemos tomar primeiro,
onde ela ficar tão bem, por cima de Duna Brae, e ser lá que
viver os animais cornudos. Se a gente tomar Ulwen, vocês
ter comida bastante e um ponto forte, fácil de defender. Mas
não, Trolwen e o Conselho dizer que ser preciso atacar
Mannenach, e deixar Ulwen nas mãos do inimigo, por trás,
e depois seguir até a Baía Sagna, onde as jangadas deles
poder pegar a gente. Para que? Para vocês poder fazer algum
rito sem pé, nem cabeça, por lá!
— Você não pode compreender — retorquiu Tolk, com
gentileza. — Nós somos diferentes em demasia. Mesmo eu,
que tenho por trabalho de minha vida lidar com povos
estranhos, não consigo entender sua atitude. Nossa vida é o
ciclo do ano. Não que levemos tão a sério os deuses antigos,
hoje em dia, mas seus rituais, a correção e a decência de
tudo, o pertencer...
Ergueu o olhar, vendo o teto oculto pelas sombras onde o
vento uivava e entrava, passando em meio às rodas do
moinho em movimento.
— Não — prosseguiu —, não creio que os fantasmas
ancestrais voem lá por fora. Mas acredito que quando eu
acolher o Verão Pleno de volta, no rito de Mannenach,
como todos os meus antecessores fizeram, por todo o tempo
de vida em que existiu uma Revoada... nesse caso, estarei
mantendo viva a Revoada, ela própria.
— Bah! — e van Rijn estendeu a mão coberta de sujeira para
coçar-se na barba emaranhada que lhe encobria o rosto. Não
podia barbear-se, nem lavar-se: mesmo recebendo injeções
anti-alérgicas, a pele humana não toleraria o sabão
diomedano. — Eu contar porque vocês ter todo esse ritual.
Em primeiro lugar, ser escravos das estações, ainda mais do
que qualquer agricultor na Terra, nos dias antigos. Em
segundo lugar, porque precisar voar tanto e deixar os lares
vazios por todo o tempo escuro por aqui, o ritual ser sua
posse mais preciosa. Ser só o que vocês ter e que não pesar
demais para levar a toda parte.
— Pode ser — concordou Tolk. — O fato continua em pé.
Se houver alguma possibilidade de cumprimentar o Dia
Pleno, nas Pedras Em Pé de Manne-nach, nós o faremos. As
vidas que custarem, por não ser essa a melhor estratégia,
serão oferecidas com satisfação.
— Se não custar toda esta guerra dos diabos— e van Rijn
soltou um ronco. — Miséria e porcaria! O meu capelão,
aquela cara sardenta, não ser tão enjoado quanto vocês,
sobre o que dever ser feito. Ora, aquele pobre camaradinha,
ainda há pouco, estar perto de se suicidar, só porque ficar
animado, por ver uma mulher, fora da estação adequada,
nie?
— É coisa que não se faz — retorquiu Tolk, com aspereza, e
se afastou da oficina. Depois de alguns momentos, van Rijn
o acompanhava.
Wace examinou a questão técnica com Angrek, verificou a
marcha dos trabalhos em outras partes, xingou um jovem
carregador de boa vontade, que guardava produtos
petrolíferos voláteis ao lado de fogo aceso, e saiu. Tinha os
pés pesados, era demais para um homem fazer tudo aquilo,
organizar, planejar, idealizar e desenhar, inspecionar e
resolver os problemas. Van Rijn parecia achar que fosse uma
questão de rotina, transformar caçadores neolíticos,
levando-os à idade da máquina em questão de semanas.
Devia ele próprio tentar! Talvez perdesse um pouco da
gordura!
As noites eram muito curtas, agora, apenas uma palidez
entre duas nuvens vermelhas em horizonte escarpado, tão
curtas que Wace já não mais dava atenção ao tempo.
Trabalhava até estar a ponto de cair de cansaço, dormia um
pouco e voltava a trabalhar. Às vezes tentava lembrar se já
estivera descansado, limpo, bem alimentado, sentindo-se
bem e sozinho, deixado em paz.
A manhã ardia levemente nas orlas setentrionais, onde uma
carreira de vulcões erguia-se raivosa e negra, ocultando o
sol. Ambas as luas se punham, cada qual um disco de cobre
dourado duas vezes maior que a Lua da Terra. O Monte
Oborch estremecia ao longo dos flancos gigantescos e cuspia
algumas pedras para o céu pálido. O vento veio forte, rijo
como barra de ferro nas costas de Wace, repentinamente
resfriadas. A aldeia de Salmenbrok era um amontoado de
sílex estéril, sob aquele impulso altissonante e rápido.
Havia alcançado a escada feita para ele, de modo que
pudesse chegar ao pequeno quarto elevado que usava,
quando Sandra veio, por trás da torre, ter com ele. Ela fez
pausa, uma das mãos indo ao rosto. Wace não pode ouvir o
que ela dissera, naquele ar turbulento.
Foi ter com ela. O cascalho rangia sob as botas de couro
improvisadas que um artesão Lannacha preparara.
— Disse alguma coisa, minha senhora?
— Oh... não foi nada. Libero Wace — e o olhar verde fitou
o dele, com firmeza e orgulho, mas Wace percebeu que
havia vermelhidão fugidia em suas faces. — Eu disse
apenas... bom dia.
— Igualmente — e ele esfregou os olhos onde as pálpebras
pesavam. — Faz tempo que não a vejo, minha senhora.
Como está?
— Inquieta — foi a resposta. — Infeliz. Você me leva a um
passeio, talvez?
Deixaram a aldeia para trás, seguiram por trilha que subia,
passando em meio a arbustos ásperos e baixos, que haviam
eclodido em flores purpúreas. Bem alto, acima deles,
giravam algumas sentinelas em vôo, mas não passavam de
coisas pequenas e impessoais, vistas contra o céu. Wace
achou que suas batidas do coração apressavam-se.
— O que esteve fazendo? — perguntou.
— Nada de grande valor. O que posso fazer? — e ela fitou as
mãos. — Tento, mas não tenho as habilidades, não tenho
como você, o engenheiro, ou o Libero van Rijn.
— Ele? — e Wace deu de ombros. Sem dúvida aquele
velhote dispusera de muitas oportunidades para se
vangloriar, enquanto passeava, criatura supérflua, pela aldeia
de Salmenbrok. — Basta... — e se deteve, procurando as
palavras — A mim basta contar com a presença de minha
senhora.
— Ora, Libero... — e ela riu, com prazer genuíno,
divertida e sem qualquer timidez. — Nunca imaginei que
fosse tão corajoso nas palavras.
— Nunca tive muita oportunidade de sê-lo — murmurou
Wace, cansado demais e esgotado de energias para saber
defender-se.
— Não? — contrapôs ela, dedicando-lhe olhar de lado. O
vento punha os dedos nos cabelos que arrumara em tranças,
desfraldando ali pequenas bandeiras. Ela ainda não passava
fome, mas os ossos do rosto apresentavam-se com mais
nitidez; havia pequena mancha na face e as roupas eram
farrapos desejeitados, arrumados por algum alfaiate que
nunca vira um corpo humano. De algum modo, despida
assim do porte de rainha, parecia-lhe mais bela do que
nunca. Talvez porque se achassem mais próximos? Porque a
pobreza dela dizia, com franqueza, que era apenas feita de
carne e osso, como ele próprio?
— Não — disse Wace, com os lábios rígidos.
— Não compreendi — observou ela.
— Peço o seu perdão, minha senhora. Estava pensando em
voz alta. É um mau hábito. Mas acontece, nestes mundos
distantes. Vemos as mesmas pessoas com tanta freqüência
que elas deixam de ser companhia; passamos a evitá-las. E,
naturalmente, estamos sempre com falta de pessoal, de
modo que é preciso executar os diversos trabalhos, talvez
por semanas seguidas. Por que estou dizendo tudo isto? Não
sei Meu Deus, como estou cansado!
Detiveram-se em uma elevação, tendo aos pés um penhasco
que se precipitava por centenas de metros até um rio branco
de espuma. De outro lado do canyon havia montanhas e
mais montanhas, cuja neve o sol tingia de vermelho. O
vento vinha subindo por ali, batia no rosto dos seres
humanos.
— Entendo. Sim, para mim é claro — e Sandra o fitou com
olhar grave. — Você sempre precisou trabalhar muito. Não
teve tempo para os prazeres, as maneiras refinadas e a
cultura. Não?
— Tempo nenhum, minha senhora — confirmou Wace. —
Nasci em favela, a um quilômetro das antigas Docas do
Tritão. Ninguém, a não ser os muitos pobres, vive perto de
um espaçoporto, por causa do tráfego, os fedores, o ruído de
terremoto; no entanto, dá para acostumar, até que se tornem
parte de nós, coisas incorporadas a nossos esqueletos.
Metade dos meninos que brincavam comigo está morta ou
presa, ao que suponho. A outra metade luta para conseguir o
trabalho ocasional semi-especializado, duro e sujo, o
trabalho que todos rejeitam. Mas não tenha pena de mim.
Eu tive sorte, tornei-me aprendiz de um atacadista de peles,
aos doze anos de idade. Depois de dois anos, tinha feito
contato bastante para arranjar eu mesmo um trabalho duro e
sujo... mas era em espaçonave, numa expedição para obter
peles em Rhiannor. Aprendi sozinho algumas coisas, nos
momentos de folga, e blefei no que mais era preciso saber,
obtive emprego melhor um pouco. E assim por diante, até
que me puseram na direção desta estação. ..
empreendimento muito pequeno, que com o tempo pode
tornar-se moderadamente proveitoso, mas nunca será
importante. Mas é um trampolim. E aqui estou, em cima de
uma montanha, tendo toda Diomedes por baixo, e o que
vem em seguida?
Sacudiu a cabeça com violência, imaginando o motivo pelo
qual sua reserva se esgotara. Estar tão exausto era como uma
embriaguez, mas havia mais do que isso... Não, ele não
estava pedindo compreensão e solidariedade... bem no
íntimo, estaria querendo saber se ela compreendia? Se podia
compreender?
— Você voltará — asseverou ela, tranqüilamente. — Você
é do tipo de homem que sempre sobrevive.
— Talvez.
— É heróico o que você fez — e ela desviou o olhar, fitando
as nuvens em movimento, em volta do pico de Oborch. —
Não tenho a certeza de que alguma coisa possa detê-lo. A
não ser você próprio.
— Eu? — e Wace começava a ficar embaraçado, queria falar
em outras coisas. Puxou os fios da barba vermelha e eriçada.
— Sim. Quem mais pode detê-lo? Você já alcançou tanta
distância, com tal rapidez... Mas por que não parar? Cedo,
talvez aqui nesta montanha, não chegará a ocasião de
perguntar a si mesmo se vale a pena ir muito além?
— Não sei. Tão longe quanto for possível, ao que suponho.
— Por que? É necessário tornar-se grande? Não basta ser
livre? Com seu talento e experiência, pode ganhar dinheiro
bastante em muitos planetas colonizados, onde os homens
estão mais em casa do que aqui. Como em Hermes, por
exemplo. Esse esforço por enriquecer e tornar-se poderoso,
não é apenas que você quer alimentar e abrigar o menino
que antes chorava, com fome, e dormia com fome, nas
Docas de Tristão? Mas aquele menino você jamais poderá
reconfortar, meu amigo. Faz muito que ele morreu.
— Bem... não sei... Suponho que um dia terei família.
Gostaria de dar à minha esposa mais do que apenas o viver;
gostaria de deixar para meus filhos e netos recursos bastante
para continuarem.. . para enfrentarem todo o mundo, se for
preciso.
— Sim. Pois é. Acho que, talvez. .. — ele viu, antes que ela
desviasse o olhar, como o sangue lhe subia ao rosto. —
Talvez os antigos Duques de Hermes, criaturas lutadoras,
fossem assim. Seria bom, se tivéssemos novamente uma
linhagem de homens como eles.
De repente, ela começou a descer a trilha, com grande
pressa.
— Basta — aduziu. — É melhor voltarmos, não?
Wace a acompanhou, e quase não percebia o chão onde
pisava.
7
Quando os Lannachska estavam prontos a lutar, foram
chamados a Salmenbrok pelos Assobiadores de Tolk, até o
céu escurecer-se com suas asas. Trolwen, então, partiu em
meio à multidão revolta de guerreiros, indo ter com van
Rijn.
— Os deuses, por certo, estão cansados de nós — comentou
com amargura. — Quase sempre, a esta altura do ano, há
ventos fortes para o sul — e fez um gesto para o céu, sem
uma só brisa. — Você conhece um sortilégio para levantar
brisas mortas?
O mercador ergueu o olhar, um tanto irritado. Achava-se
sentado a uma mesa, fora da cabana de varas e argila que
haviam construído para ele além da aldeia — pois recusava-
se a subir escada ou a dormir em caverna úmida — jogando
dados com o Capitão Srygen, pelas pedras preciosas
parecidas a berilios, que eram o dinheiro local. O número de
espécies na Galáxia que inventaram, de modo independente,
alguma espécie de golf africano, o jogo de dados, ultrapassa
qualquer cálculo.
— Bem — retorquiu ele — e por que você precisar sacudir
a cauda?. .. Ah, sete! Não, o sete aqui não ser número tão
bom. Muito bem, nós tentar outra vez.
Os três cubos estalaram em sua mão, rolaram pela mesa.
— Hum — prosseguiu —, sete de novo. — Aumentou
então a aposta. — Tudo ou nada?
— Que os comedores de fantasmas se esborrachem! —
Srygen se pôs em pé. — Você esteve vencendo vezes
demais, a meu ver.
Van Rijn se pôs subitamente em pé, como uma baleia no
espeto.
— Com os diabos, retirar essas palavras, ou...
— Eu nada disse de insultuoso — retorquiu Srygen, falando
friamente.
— Mas dar a entender. Estar insultado,, eu estar!
— Calma por aí — resmungou Trolwen. — Onde pensam
que estamos, num festival? Terra'ska, todas as forças de luta
de Lannach estão agora reunidas nestes morros. Não
podemos alimentá-las aqui por muito tempo. Ainda assim,
com as armas novas postas nos carros de trilhos, não nos
podemos mexer, até que tenha um vento do sul. O que
fazemos?
Van Rijn fitava Srygen, com olhar transfixante.
— Eu dizer que ser insultado. Não saber pensar muito bem,
quando ser insultado.
— Tenho a certeza de que o capitão pedirá desculpas por
qualquer ofensa que não foi intencional — disse Trolwen, o
olhar congestionado a fitá-los, a ambos.
— Sem dúvida — concordou Srygen, e falava como se lhe
estivessem arrancando algum dente.
— Pois então — e van Rijn afagou a barba. — E então, para
provar que você não duvidar de minhas honestidades, nós
jogar mais uma vez, nie? O dobro ou nada.
Srygen arrebatou os dados, jogou-os.
— Ah, você ter um seis — observou van Rijn. — Isso não
ser fácil de vencer. Eu estar com medo de ter perdido. Não
ser muito simples, ser um homem velho, cansado e com
fome, longe de casa e longe dos gatos siameses, tudo quanto
ele ter para amar, não ser só os dinheiros. Nós ver... Oito!
um dois, um três, um três! Ora, muito bem!
— O transporte — persistiu Trolwen, a paciência por um
fio. — As armas novas são pesadas para nossos carregadores.
Terão de ir pelo trilho. Sem vento, como as levamos até a
Baía Sagna?
— Simples — disse van Rijn, contando as pedras que
ganhara. — Até que chegar um bom vento, amarrar rodas
nos carros e todos esses mocinhos tão fortes puxar.
Srygen explodiu.
— Um homem de clã livre, puxar um carro como se fosse
um... camo um Draka? — e ele soube controlar-se, mas
engasgava: — Isso não se faz.
— Às vezes — observou van Rijn —, essas coisas precisar
ser feitas.
Recolheu as jóias, jogou-as em uma bolsa e foi ter a um
poço, aduzindo:
— Vocês, com certeza, ter algumas disciplinas, nesta
Revoada.
— Oh... sim. .. suponho que sim — e o olhar desarvorado
de Trolwen desceu a encosta, fitando a onda alada, que
gritava e brigava, tendo encoberto toda a aldeia. — Mas o
trabalho continuado como esse, sempre... muito antes que
os Drak'ska viessem. .. sempre foi considerado... coisa
pervertida, de certo modo. Não é proibido, por assim dizer,
mas ninguém o faz, sem ser tocado pela necessidade mais
rigorosa. Trabalhar em público... Não!
Van Rijn acionava o guincho do poço.
— Por que não? Os Drak'honai, eles, fazer todos os tipos de
sermão sobre a dignidade do trabalho. Para eles, ser
necessário; no modo de vida deles, ser preciso trabalhar com
esforço. E pra vocês? Por que alguém não dever trabalhar
com força em Lannacha?
— Não é certo — explicou Srygen, hirto. — Faz com que
nos pareçamos a algum tipo de animal.
Van Rijn puxou o balde para a tampa do poço, tirou de lá
uma garrafa de cerveja trazida da Terra.
— Ah, boa, bem fria... hm, ser possível que estar fria
demais, que se danar todos os lugares sem geladeira de
termostato!
Dito isso, abriu a garrafa na beira da pedra e provou.
— Servir — comentou. — Pois olhar, eu já viajar, e achar
que em toda a parte, os modos e o moral das gentes ter bom
motivo, no fundo. Talvez a raça ter esquecido a razão
porque foi feita a lei, logo de começo, mas se a lei não fazer
sentido, também não durar muitos séculos. Seguir daí que
vocês não gostar do trabalho pesado prolongado, a não ser,
estar claro, a migração, porque não fazer bem a vocês, por
algum motivo. Mas não fazer muito mal aos Drak'honai. Um
paradoxo!
— Que os demônios levem as suas divagações — rosnava
Trolwen. — Foi idéia sua, a de fazermos todas essas
aparelhagens novas, em vez de lutarmos como sempre
lutamos. Agora, como vamos levar isso para as terras baixas,
sem desmoralizar o exército?
— Oh, isso? — e van Rijn deu de ombros. — Vocês ter
esportes... torneios?
— É claro.
— Muito bem, explicar que esses carros precisar ser levados
com a gente, e mesmo sem ser preciso partir daqui
imediatamente...
— Mas é preciso! Morremos de fome, se não partirmos!
— Meu bom amigo — insistiu van Rijn, com paciência —,
eu ver muito bem que você ter de aprender política. Vocês,
Lannacha, não compreender uma mentira, talvez porque
não casar. Falar com os guerreiros, eu estar dizendo, que
podemos esperar um vento do sul, com certeza, mas vocês
ter certeza de que eles estar prontos a lutar com o inimigo e,
por esse motivo, ser convidados a um brinquedinho. Cada
clã puxar tantos carros e nós marcar o tempo que levar, dar
um prêmio aos que puxar melhor.
— Ora, que me condenem — exclamou Srygen.
Trolwen assentia, compreendendo.
— É o tipo de coisa de acordo com as tradições dos clãs.
— O negócio — explicava van Rijn — ser o que nós chamar
de semântica, na Terra. Eu ser velho, com pouco fôlego, por
isso poder olhar todas essas partidas de football e baseball,
corridas com sacos de batata, e saber que o jogo ser trabalho
duro, trabalho que ninguém obrigar a fazer.
Ele arrotou, abriu outra garrafa e tirou do bolso o salame que
começara a comer antes. Os mantimentos não iam durar
muito tempo.
8
Quando a expedição se encontrava a meio caminho,
descendo as Montanhas da Neblina, o vento que esperavam
se apresentou, vindo por trás. Cem guerreiros, amarrados a
cada carro, descansaram e ficaram à espera dos marcadores
de tempo, cujas ampulhetas indicariam a equipe vencedora.
— Mas eles não são tão fracos de entendimento, assim, com
certeza — observou Sandra.
— Oh, não — respondeu Wace. — Porém os que tiveram
inteligência bastante para perceber o plano do velho Nick
também tiveram inteligência de ver que era necessário, e
ficaram calados.
Encolheu-se em uma lufada mordente, que descia pelas
encostas alpinas até o verde nublado e distante de morros e
vales, observando os engenheiros em trabalho. Um trem
consistia de cerca de trinta pequenos carros amarrados por
corda, com uma "locomotiva" à frente e outra no meio. Estas
eram de construção um pouco mais forte, a fim de
agüentarem dois mastros altos, com velas quadradas. Tendo
madeira de dureza quase metálica, e mais uma gota de óleo
sobre as rodas, em lugar de rolamento, e mais o furacão
oferecido pelos ventos diomedanos, o sistema tornava-se
prático. Não se obtinha grande velocidade e era freqüente
ter de esperar o vento seguinte, mas aquilo não era uma
cultura dada a trabalhos por hora.
— Não é tarde demais para que volte, minha senhora —
disse Wace. — Posso arranjar-lhe companhia.
— Não — e ela estendeu a mão para o arco que lhe tinha
sido feito; não era brinquedo, uma arma mortífera de 25
quilos, como usara muitas vezes, caçando nas florestas de
sua terra. Erguia a cabeça, o cabelo pálido-prateado se
tornava avermelhado com a luz do sol, refletia algum brilho
naquela imensidão escura de penhascos e geleiras. — Aqui,
todos lutamos, ou morremos. Não seria correto, para quem
nasceu governante, ficar em casa.
Van Rijn interveio:
— O problema dos aristocratas — murmurou. — Nascem
para ter boa cara e coragem, mas não miolos. Pois eu
voltaria, se não fosse preciso aqui, para mostrar que tenho
confiança nos planos que fiz.
— E tem? — indagou Wace, em assomo de dúvida.
— Vamos deixar de bobagens — retorquiu van Rijn. —
Claro que não.
Dito isso, voltou para o carro de comando que fora
preparado para ele: tinha, ao menos, paredes, teto e uma
cama. — O vento gemia, descendo por canyons pedregosos,
e ele se inclinou ali, apoiando-se com todo o peso. Por cima
revoavam e erguiam-se aos céus os esquadrões de Lannach.
Wace e Sandra dispunham de carro particular, cada qual,
mas ela pedira que fosse em sua companhia.
— Perdoe-me, se pareço um pouco dramática, Eric, mas
talvez sejamos mortos, e é triste morrer sem ter a mão de
alguém para segurar — e ela riu, um pouco sem fôlego. —
Ou, pelo menos, poderemos falar.
— Eu receio... — e ele pigarreou fundo, a garganta estava
contraída. — Receio, minha senhora, que não possa
conversar tão bem quanto. .. Libero van Rijn.
— Oh — ela sorriu —, era o que eu queria dizer. Eu disse
que nós também podemos falar, não só ele.
Ainda assim, quando os trens foram postos em movimento,
tornou-se tão calada quanto ele.
Não tendo os relógios (Theonax, aquele cachorro, teria
descoberto para que serviam?), mal podiam adivinhar quanto
tempo a viagem durou. O Verão Pleno quase chegara a
Lannach. Uma vez em doze horas e meia, o sol raspava o
horizonte o norte do oeste, mas não havia mais luz
verdadeira. Wace observava os quilômetros que ficavam
para trás. Comia, dormia, falava desconexamente com
Sandra ou com o jovem Angrek, que servia como auxiliar
dela, e aquela grande terra se estendia em vales e florestas
onduladas, de árvores baixas, as folhas de franja, e o mar se
aproximava.
Repetidas vezes um mancai ou vento contrário retardava a
caravana. Havia inquietação nas fileiras dos guerreiros,
estavam acostumados a descerem de dia, das montanhas para
a costa, e não a se arrastarem sobre rodas, parecendo-se a
vermes, daquele modo. Os batedores Drak'honai os
espionavam de longe, era inevitável, e um destacamento de
jangadas seguia vagarosamente para a Baía de Sagna, levando
grandes reforços. Incursões aéreas sondavam os flancos dos
atacantes. Ainda assim, os trens se arrastavam.
A bem do fato, ocorreram oito revoluções diomedanas,
entre a partida de Salmenbrok e a Batalha de Mannenach.
A cidade portuária ficava na costa de Sagna, bem recuada do
mar aberto abrigada por elevações cobertas de florestas a
circundá-la. Era um complexo de aspecto sombrio e
desolado em torres de pedra, alinhavadas estreitamente
entre si com os túneis e pontes fechadas de costume,
falando nos tons ásperos de meia dúzia de grandes moinhos
de vento. Comandava um pequeno cais em que os
Drak'honai haviam trabalhado, aumentando-o. Mais além
escuras sobre as águas castanhas e encapeladas, balançavam-
se cerca de quarenta embarcações inimigas.
Quando seu trem parou, Wace saltou do carro de Sandra.
Não havia ainda em que atirar: Mannenach revelava apenas
alguns telhados agudos, alçando-se sobre a orla relvada
diante dele. Mesmo contra o vento, dava ouvir o trovejar de
asas, enquanto os Drak'honai se erguiam da cidade, subindo
em espirais, formando uma só massa negra, como uma
tempestade corporificada. Mas o céu estava espesso de
Lannachska, acima deles, e o inimigo não fez qualquer
ataque imediato.
Seu coração batia forte, disparava, e a boca estava seca
demais para que pudesse falar. Quase sem divulgar bem,
notou a presença de Sandra e seu lado. Uma guarda corporal
diomedana, comandada por Angrek, fechou-se em volta
dele, formando um círculo de lanças.
A jovem sorriu.
— É uma espécie de alívio — afirmou. — Chega de
estarmos sentados, preocupados, fazendo apenas o que
podemos, não?
— Não, sem dúvida! — bufou van Rijn, caminhando
pesadamente na direção deles. Como os outros seres
humanos, obtivera uma couraça e capacete, que não se
ajustavam bem ao corpo, feitos de couro laminado e duro,
acima das roupas nativas, soltas e malcheirosas. Mas usava
dois conjuntos de armadura, um por cima do outro, trazia
um escudo no braço esquerdo, nomeara dois jovens
guerreiros para sustentarem outro escudo por cima, como se
fosse dossel, empunhava machadinha e tinha o cinturão
cheio de punhais de pedra. — Não, se eu puder dar o fora,
com os diabos! Vocês vão em frente e lutem. Estarei atrás de
vocês... o mais atrás que os bons santos deixarem.
Wace recuperava a fala e disse, com malícia:
— Muitas vezes pensei que haveria menos guerras entre as
raças civilizadas, se voltassem a este costume primitivo, de
que os generais estejam presentes nas batalhas.
— Bah! Ridículo! Seria a mesma coisa, só usando os generais
com mais coragem do que miolo. Eu acho que covardes são
os melhores estrategistas, e dá para entender, com diabos!
Pois bem, vou ficar em meu carro — e ele se afastou,
resmungando.
O corpo de artilharia de campo de Trolwen, recém-formado,
entrava em atividade frenética, descarregando suas armas
pesadonas dos trens e montando-as, enquanto esquadrões e
patrulhas travavam luta leve por cima. Wace praguejou —
ali estava algo que podia fazer! — e correu para a confusão
mais próxima.
— Olá, vocês! Para trás! O que estão querendo fazer?
Aqui, você, você, você, entrem no carro e desamarrem a
peça principal.
Depois de algum tempo, quase perdera a consciência de luta
que se travava em torno.
A guarnição de Mannenach e os reforços que recebera do
mar haviam começado com sondagens cautelosas, alguns
esquadrões de uma vez, mergulhando para travarem luta
curta com algumas das tropas voadoras de Lannachska,
depois afastando-se novamente em direção da cidade. As
forças Drak'ho estavam ali inferiorizadas por boa margem
em número; Trolwen raciocinara corretamente que nenhum
Almirante se atreveria a deixar a Frota principal sem defesa
bem forte, enquanto Lannach continuasse sendo inimigo
formidável. Ademais, os marinheiros estavam intrigados,
com algum receio, diante da formação de ataque que não
tinha precedentes.
Metade dos Lannachska estavam enfileirada no chão,
coberta por escudos parecidos a telhados, que nem mesmo
os deixariam voar! Nunca, na história, se vira algo assim!
Por uma hora, as duas hordas se defrontaram de perto. Com
grande superioridade no ar, os Drak'honai passavam
repetidas vezes pelos voadores de Trolwen. Integrados pelo
corpo de Assobiadores, entretanto, os soldados aéreos
fechavam novamente a linha, mantendo-a fluida. E de
pouco adiantava atacar a infantaria Lannachska; aqueles
escudos desajeitados detinham os projéteis pontiagudos,
faziam saltar as pedras de volta, o assalto vindo de cima era
quase ignorado.
As flechas caíam numerosas, quando Wace montou sua
última peça de artilharia. Assentiu então para um
Assobiador, que rodopiou e subiu imediatamente para
informar Trolwen. Da posição do Comandante, onde ele se
valia de uma corrente ascencional termina, prorrompeu uma
explosão de mensageiros. Estandartes irromperam no chão,
gritos de guerra rasgaram o vento, era a ordem de avançar!
Cercado pelos guardas de Angrek, Wace continuava
demasiadamente ciente de que estava à frente de um
exército. Sandra juntou-se a ele. Por ambos os lados
estendiam-se linhas de lanceiros, de dragões a pé. Pareceu
decorrer muito tempo, até que houvessem subido a
elevação.
Um por um, os oficiais Drak'honai compreenderam... e
berraram, em seu espanto.
Aquelas tropas terrestres rijas, inatacáveis por cima, sem
oposição por baixo, estavam simplesmente enxameando
sobre as montanhas, indo ter às muralhas de Mannenach,
arrastando suas armas de assédio. Quando chegaram lá,
começaram a trabalhar.
Aquilo se tornou uma tempestade de asas e armas. Os
Drak'honai mergulhavam, usavam os machados e punhais na
infantaria de Trolwen, e eram a seu turno atacados de cima,
quando seus voadores, a quem tinham dispensado por
instantes, retomavam a formação. Entrementes, crunch,
crunch, crunch, aríetes batiam em Mannenach;
destacamentos a pé davam a volta à cidade, desciam para o
porto.
— Por lá! Atacá-los de novo! — e Wace ouviu que era ele
próprio gritando.
Alguma coisa irrompeu em meio ao caos por cima. Um
corpo cheio de flechas caiu à terra, com estrondo. Um corpo
vivo o acompanhava, era um guerreiro Drak'ho, com a
pistola de ar estalando sob as asas. Passou baixo, depressa.
Um dos comandados de Angrek atirou a espada nele, errou,
e teve os miolos arrebentados pela machadinha do
marinheiro.
Sem tempo para saber o que ocorrera, Wace viu a criatura
diante de si. Atacou, selvagemente, com seu próprio
machado de pedra. Um soco de asa derrubou-o ao chão. Ele
se pôs em pé, cuspindo sangue, enquanto o Draka se
aproximava e mergulhava de novo. Tinha as mãos vazias! De
repente, o Drak'ho gritou, agarrou-se a uma flecha que se
cravara em sua garganta, enfraqueceu e caiu.
Sandra colocou nova flecha no carcaz.
— Eu disse que teria alguma utilidade hoje, embora pequena
— fez ver.
— Eu... — e Wace rodopiou sobre os calcanhares, fitando-
a.
— Prossiga — disse ela. — Ajude-os a passar. Ficarei de
guarda.
Seu rosto estava ainda mais pálido do que antes, mas havia
nos olhos um verde que ardia.
Ele girou novamente, voltou a dirigir os sapadores. Tornava-
se evidente, agora, que os aríetes tinham sido um erro; não
iam passar pelas muralhas de pedra, senão no Dia do Juízo.
Tirou todos das máquinas, levou-os a ajudar os que cavavam.
Com pás de madeira em quantidade suficiente — ou mesmo
com as mãos — era certo que alcançariam logo um túnel.
De algum lugar próximo veio um clamor suficiente para
abafar toda a luta em volta. Wace saltou para a estrutura de
um aríete, olhou sobre as cabeças dos engenheiros.
Um grupo de Drak'honai recorrera à luta terrestre. Não
tinham qualquer treino nessa tática, mas também os
Lannachska haviam recebido o preparo mais superficial. E
graças à simples fúria continuada, os Drak'honai estavam
repelindo os adversários. Do ponto de vista aérea de
Trolwen, pensava Wace, devia perceber-se uma feia brecha
na linha.
Onde, com os demônios, estavam as metralhadoras?
Sim, ali vinha uma, saltitando no carrinho. Dois Lannachska
começaram a acionar a roda, um terceiro mirava e
alimentava a arma. Os dardos jorravam na direção dos
Drak'honai. Alguns caíam, outros voltaram a voar. Wace
abraçou Sandra, dançou com ela ali mesmo.
E foi quando o inferno explodiu, nos telhados por cima. Seu
pessoal imediato finalmente alcançara uma passagem
subterrânea e a transformava em entrada. Expulsando o
inimigo à frente, até os andares de cima e pondo-os para
fora, apoderaram-se dessa torre em um assomo.
— Angrek! — ofegava Wace. — Ponha-me lá em cima!
Alguém jogou uma corda e ele subiu, tendo Sandra bem
atrás. Em pé, lá em cima, olhou além de parapeitos de pedra,
rodas de moinhos que giravam, até a baía. As forças de
Trolwen haviam tomado o cais sem maiores dificuldades,
mas não passavam dali; uma torrente firme de fogo, bombas
de óleo, projéteis de catapultas, vindos das jangadas
ancoradas, mantinham-nos à distância. O armamento de que
dispunham era de alcance menor.
Sandra cerrou os olhos contra o vento, virou-se para o
norte, para que os olhos não lacrimejassem, fez ver:
— Eric, você reconhece aquela bandeira na embarcação
maior?
— Hmm... deixe ver... sim, conheço. Não é a bandeira
pessoal do nosso antigo amigo, Delp?
— É, sem dúvida. Não lamento que ele escapasse ao castigo
pela desordem que criamos. Mas preferiria muito fosse outro
a combater contra nós, seria mais seguro.
— Talvez — observou Wace. — Mas temos o que fazer.
Pusemos um pé na cidade. Agora, vamos ter que derrubar
portas e expulsar o inimigo, peça por peça. Você vai ficar
aqui!
— Não vou!
Wace ergueu o polegar para Angrek.
— Aponte um esquadrão para levar a senhora de volta aos
trens — ordenou.
— Não! — gritou Sandra.
— Chegou atrasada — e Wace sorria. — Eu combinei isso,
antes mesmo de sairmos de Salmenbrok.
Ela praguejou, xingou-o e, de repente, com suavidade,
inclinou-se mais e murmurou, por baixo do vento e dos
gritos de guerra:
— Volte vivo, meu amigo.
Ele partiu para a torre, encabeçando os guerreiros.
Depois disso, não teve qualquer recordação clara da luta. Foi
uma operação difícil e sangrenta, machado e punhal, dentes
e punhos, asa e cauda, em túneis estreitos e aposentos que se
pareciam a cavernas. Levava golpes e desferia-os; certa feita,
por diversos minutos ficou inconsciente, e de outra chefiou
uma irrupção triunfal, chegando a amplo salão de
assembléia. Não foi mordido, ou atingido com golpes de
cauda e asas, mas era mais pesado do que qualquer
diomedano, seus golpes raramente precisavam ser repetidos.
Os Lannachska tomaram Mannenach, porque haviam
recebido treinamento suficiente para serem lutadores no
chão ou, pelo menos, o conceito de batalha com asas
imobilizadas. Era algo tão revoltante aos instintos
diomedanos quanto a idéia de lutar só com os dentes, as
mãos atadas, seria para um ser humano. Apanhados de
surpresa, os Drak'honai estacavam e corriam como ratos
pelos túneis, à procura do céu aberto.
Horas depois, cambaleando de esgotamento, Wace subiu a
um telhado liso, na outra extremidade da cidade. Tolk lá
estava, sentado, à sua espera.
— Acho... que pegamos... toda a cidade. — disse o ser
humano, com falta de ar.
— Ainda assim, não foi bastante — retorquiu Tolk, agitado.
— Olhe a baía.
Wace agarrou-se ao parapeito, a fim de firmar o corpo.
Haviam desaparecido o caos, e os telhados por lá; tudo se
apresentava envolto por fumaça negra. Mas as jangadas e
canoas dos Drak'ho haviam-se infiltrado nas águas rasas,
formando uma ponte até a costa; e por ali os marinheiros
arrastavam catapultas e lança-chamas desmontados.
— O comandante deles é muito bom — observou Tolk. —
Compreendeu com rapidez a idéia de que nossos métodos
novos também têm pontos fracos.
— O que... Delp... vai fazer? — Wace murmurava.
— Fique para ver — sugeriu o Arauto. — Não há como
possamos impedir.
Os Drak'honai continuavam com superioridade no ar.
Olhando para cima, vendo-se o céu baixo e sombrio, nuvens
carregadas de chuva, que se estendiam sobre as água
raivosas, cor de metal, Wace viu que eles se movimentavam
para envolver a cobertura aérea dos Lannacha.
— A questão — prosseguiu Tolk — é que os voadores deles
não podem fazer grande coisa contra os nossos no chão, mas
o chefe inimigo já percebeu que o oposto também é
verdadeiro.
Trolwen era bom demais na tática para ser dividido dessa
maneira. Lutando e disputando cada palmo do terreno, seus
voadores batiam em retirada.
No chão, cobertos pelo bombardeio executado das jangadas,
os marinheiros montavam sua artilharia móvel. Tinham
maior quantidade dela do que os Lannachska, eram
melhores artilheiros. Algumas investidas de infantaria
terminaram em desastre sangrento.
— Nossas metralhadoras eles não têm, é claro — disse Tolk.
— Mas acontece que não dispomos de número suficiente
para causar grande diferença.
Wace rodopiou, voltando-se para Angrek, que viera ter com
eles.
— Não fique aí! — gritou. — Vamos descer e juntar nossa
gente. Precisamos tomar de assalto aquelas peças...! Dá para
fazer, estou dizendo!
— Teoricamente, sim — Tolk assentiu. — Dá para ver onde
uma pessoa no chão, tirando vantagem de todas as proteções
que existem, pode chegar até as catapultas e lança-chamas, e
derrubar os artilheiros com machadinhas. Na prática porém,
nós não temos tal habilidade.
— Nesse caso, o que faria? — e Wace formulou a pergunta
num gemido.
— Vamos, antes, pensar no que acontecerá com certeza —
retorquiu Tolk. — Perdemos os nossos trens; Se não forem
capturados, logo estarão em chamas. Assim, nossos
suprimentos desaparecem. Nossas forças foram divididas, os
voadores expulsos, e nós, do chão, deixados aqui. Trolwen
não pode vir até nós, lutando, com inferioridade numérica.
Nós, em Mannenach, somos mais numerosos do que os
adversários mais próximos, por boa diferença. Más não
podemos enfrentar a artilharia deles.
Fez uma pausa, prosseguiu:
— Assim sendo, para continuar a luta, temos que jogar fora
todos os nossos escudos grandes e outros artigos novos e
voltar à tática aérea comum. Mas esta infantaria não está
bem equipada para o combate normal: temos poucos
arqueiros, por exemplo. Delp só precisa abrigar-se nas
jangadas, disparar as armas de fogo, e a despeito de nossos
números maiores não conseguiremos tocá-lo. Enquanto isso,
ele nos manterá presos aqui, isolados do alimento e do
material de guerra. Todo esse material excedente que o seu
moinho produziu de nada vale, largado em Salmenbrok. E
certamente virão reforços grandes da Frota.
— Ao diabo com isso! — gritou Wace. — Temos a cidade,
não é? Podemos sustentá-la contra eles, até que apodreçam!
— E o que haveremos de comer, enquanto eles apodrecem?
— contrapôs Tolk. — Você é um bom artesão, Terreno, mas
não estudou a guerra. O fato é que Delp conseguiu dividir
nossas forças e, portanto, já venceu. O que proponho é
diminuir nossas baixas, batendo agora em retirada, enquanto
podemos.
E, de súbito, ele mudava de atitude, abaixava-se, encobria os
olhos com as asas. Wace notou que o Arauto havia
envelhecido.
9
Dançava-se nos conveses, cantos jubilantes estrugiam pela
Baía Sagna, até os morros além. Por toda a parte, pés e asas
se entrelaçavam, até que as madeiras estremecessem. Bem
alto na cordoalha, um flautista executava a melodia;
embaixo, um grande tambor, que marcava o ritmo dos
remos, ecoava agora o ritmo forte. Em círculo de corpos
com as asas dobradas, pelo luzidio de suor e olhos fuzilando,
um marinheiro fazia a mulher rodar, enquanto uma centena
de vozes entoava a canção:
Navegando, navegando,
Navegando o Mar de Cerveja,
Bela dama, abra as asas cheias de sol
E navegue comigo!"
Delp caminhou para a popa, olhou sua gente.
— Vão ser muitas as almas novas na Frota, dentro de
sessenta dez-dias — observou, com uma risada.
Rodonis segurava-lhe a mão, com força.
— Eu queria... — principiou a dizer.
— Sim?
— Às vezes... oh, não é nada... o par que dançava erguia-
se em vôo, outro par vinha tomar seu lugar, dançando no
convés. As pranchas gemiam, sob o peso de mais um
imenso barril de cerveja, trazido para comemorar a vitória.
— Às vezes desejo que podíamos ser como eles.
— E viver no castelo da frente? — perguntou Delp,
secamente.
— Bem, não, claro que não...
— Há um preço pelo apartamento, pelos criados, as roupas
boas, e o lazer — observou Delp, e seu olhar empalidecia. —
Estou a ponto de pagar um pouco mais por tudo isso.
Sua cauda afagou por instantes as costas dela, e bateu asas,
ergueu-se no ar. Uma dúzia de guerreiros armados o
acompanhou. Também o olhar de Rodonis o seguiu.
Sob as muralhas golpeadas de Mannenach, as jangadas
Drak'ho se amontoavam, a desordem da guerra ainda não
fora desfeita, na pressa por desfrutar a vitória ganha a duras
penas. Somente os guerreiros em serviço continuavam
alerta, embora ninguém mais precisasse de grande aviso,
caso viesse um ataque. O castelo dianteiro orgulhava-se de
que o marinheiro da Frota, embriagado, e com uma mulher
no joelho, sabia lutar mais do que três marinheiros sem
bebida.
Delp, batendo asas sobre águas calmas e céu diurno, sem
nuvens, avaliava o valor moral de tal orgulho, comparando-o
ao fato prático e duro de que um Lannach'ho sabia lutar
como dez demônios. Os Drak'honai haviam ganho daquela
feita.
Um grupo de canoas leves flutuava, sozinho, o estandarte do
Almirante pendia do mastro com guirlandas. T'heonax viera
a pedido urgente de Delp, em vez de fazê-lo ir à Frota
principal, o que podia significar que T'heonax estava pronto
a esquecer o antigo ódio. (Rodonis não contara ao marido
coisa alguma do que se passara entre eles e Delp não instara
a que o fizesse, mas era de todo óbvio que ela arrancara o
perdão do herdeiro, de algum modo.) Era muito mais
provável, todavia, que o Novo Almirante viera para ficar de
olho, naquele seu Capitão, em quem não confiava, e que
tanto atrapalhara as coisas, transformando a operação militar
de sustentação, que lhe tinha sido desdenhosamente orde-
nada, em vitória assinalada. Já acontecera que o Comandante
de prestígio igual erguesse a bandeira da rebelião e tentasse
ocupar o Almirantado.
Delp, que não tinha respeito algum por Theonax, porém
completa reverência pelo cargo, ressentia-se amargamente
da imputação.
Pousou onde era determinado e esperou até que a Buzina
das Boas-Vindas fosse soprada a bordo. Isso levou mais
tempo do que o necessário. Sofreando a raiva, Delp bateu
asas até a canoa, prostrou-se no chão da mesma.
— Levante-se — disse Theonax, com indiferença. —
Parabéns pelo êxito. Muito bem, deseja conferenciar
comigo? — e abafou um bocejo. — Pode fazê-lo.
Delp relanceou o olhar em volta, vendo os oficiais,
guerreiros e tripulantes.
— Em particular, com os assessores da maior confiança do
Almirante, se for de seu agrado — disse.
— Oh? Acha que é importante assim o que tem a dizer? — e
Theonax cutucou um jovem aristocrata à seu lado, piscando
o olho.
Delp abriu as asas, lembrou-se de onde estava, assentiu.
Enrijara a tal ponto os músculos do pescoço, que eles doíam.
— Sim, acho, senhor — conseguiu dizer.
— Muito bem — e Theonax caminhou lentamente para a
cabine.
Era compartimento com espaço bastante para quatro, mas
apenas os dois entraram, bem como o jovem favorito da
corte, que se deitou e fechou os olhos, entediado.
— O Almirante não deseja o conselho de seus assessores?
— perguntou Delp.
Theonax sorriu.
— Com que, então, você não me pretende dar esses
conselhos pessoalmente, Capitão?
Mentalmente, Delp contou até vinte, conseguiu abrir a boca
e dizer:
— Como for do agrado do Almirante. Estive pensando
sobre nossa estratégia fundamental, e a batalha aqui alarmou-
me bastante.
— Eu não sabia que você estava com medo.
— Almirante, eu... não tem importância! Olhe, senhor, o
inimigo esteve a dois anzóis de nos vencer. Eles tomaram a
cidade. Capturamos armas deles, iguais ou superiores às
nossas, incluindo alguns artefatos que nunca vi, nem tinha
conhecimento deles, em quantidades inacreditáveis, levando
em conta o pouco tempo de que dispuseram para fabricar.
Além disso, eles vieram com essas táticas novas e
abomináveis, a luta no chão. . . não como coisa que
acontece, como quando abordamos uma jangada inimiga,
mas como parte principal de seu esforço!
Fez uma pausa, prosseguiu:
— O único motivo pelo qual perderam foi a coordenação
insuficiente entre o chão e o ar, e a flexibilidade
insuficiente. Eles deviam estar prontos a jogar fora os
escudos e subirem ao ar, em esquadrões equipados, em
questão de momentos.
Observava o Almirante, concluiu:
— E não creio que deixarão de corrigir esse defeito, se lhes
dermos a oportunidade.
Theonax esfregou as unhas no braço peludo, encarava-as de
modo crítico.
— Os derrotistas não me agradam — declarou.
— Almirante, estou apenas tentando não subestimar o
inimigo. Tornou-se bem claro que eles receberam essas
idéias novas dos Terr'honai. O que mais os Terr'honai
sabem?
— Hum. Sim. — e T'heonax ergueu a cabeça. Por
momentos, a inquietação perpassou-lhe o olhar. — É
verdade. O que propõe?
— Eles estão fora do equilíbrio, neste momento —
prosseguiu Delp, com entusiasmo crescente. — Tenho a
certeza de que a decepção os desmoralizou. E perderam,
naturalmente, todo aquele equipamento pesado. Se nós os
atacarmos com força, poderemos dar um fim à guerra. O que
devemos fazer é infligir uma derrota decisiva a todo o
exército deles. Terão assim que, desistir, ceder esta terra a
nós, ou morrer como insetos, quando chegar sua ocasião de
nascimento...
— Sim — e Theonax sorriu, parecendo satisfeito. — Como
insetos. Como insetos imundos. Nós não vamos deixá-los
emigrar, Capitão.
— Eles merecem a oportunidade — protestou Delp.
— Aí temos uma questão de alta política, Capitão, que cabe
a mim decidir.
— Eu... peço desculpas, senhor — e, após momentos: —
Mas o Almirante designará, então, a maior parte das nossas
forças a... a algum oficial de confiança, com ordens para
perseguir os Lannach'honai?
— Você não sabe com exatidão onde eles se acham?
— Podem estar em qualquer lugar nas terras altas, senhor.
Isto é, temos prisioneiros que podemos obrigar a nos guiar e
dar algumas informações. Nossos elementos de informação
dizem que o quartel-general deles é um lugar chamado...
Bsalmenbrox. Mas está claro que eles podem desaparecer na
terra — e Delp teve um estremecimento. Para ele, cujo
mundo fora o de ilhas solitárias e um horizonte marinho
sem fim, as montanhas inclinadas causavam horror. — O
terreno, por lá, oferece uma cobertura infinita para escondê-
los. Não será campanha fácil.
— Como acha que deve ser feita, então? — perguntou
Theonax, com animosidade. Não lhe agradava que alguém
lembrasse, em cima de uma comemoração de vitória e após
bom jantar, que ainda havia muita morte à frente.
— Obrigando-os a nos enfrentar em um encontro
completo, senhor. Quero levar nossa força principal, e
alguns guias nativos obrigados a nos ajudar, e sair de cidade
em cidade por lá, arrasando de modo sistemático tudo que
encontrarmos, queimando as matas e abatendo a caça. Não
dar a eles oportunidades para pegarem a caça maior, de que
dependem para alimentar as mulheres e filhos. Mais cedo ou
mais tarde, e não deve levar muito tempo, terão de juntar
todos os guerreiros para nos enfrentar. Nessa ocasião eu os
liquido.
— Percebo — e Theonax assentia, aduzia com um sorriso:
— E se eles liquidarem você?
— Tal não acontecerá.
— Está escrito: "A Estrela Polar não brilha para uma só
nação".
— O Almirante sabe que sempre existe algum risco na
guerra. Mas estou convencido de que há menos perigo em
meu plano do que em ficar por aqui, esperando que os
Terr'honai aperfeiçoem nova invenção infernal.
T'heonax enristou o dedo para Delp, parecia apunhalá-lo.
— Ah-hah! Você esqueceu que a comida deles logo acabará?
Podemos esquecê-los.
— Será que...
— Cale-se! — gritou Theonax, a voz estridente. Após algum
tempo, prosseguiu:
— Não se esqueça, essa força expedicionária imensa de que
fala deixaria a Frota mal defendida. E sem a Frota, as
jangadas, nós próprios estaremos liquidados.
— Oh, não tenha medo de ataque, senhor... — começou
Delp a dizer, em voz entusiasmada.
— Medo! — e Theonax encheu o peito. — Capitão, é
traição dar a entender que o Almirante é um... não tem
competência completa.
— Eu não quis dizer...
— Não vou levar a questão à frente — disse Theonax, com
suavidade. — Você, entretanto, pode aviltar-se
completamente, suplicando meu perdão, ou retirar-se daqui.
Delp se pôs em pé. Os lábios ergueram-se, pondo as presas à
mostra, toda a memória racial de ancestrais animais que
tinham sido caçadores incitava-o a dilacerar a garganta do
outro. Theonax se acocorava, pronto a gritar por socorro.
Com grande lentidão, Delp soube controlar-se. Chegou a
voltar-se um pouco, para ir embora. Fez uma pausa, os
punhos cerrados, a membrana das asas inchada de sangue.
— E então? — perguntou Theonax, sorridente. Como
máquina desajeitada, Delp caiu sobre o estômago, no chão.
— Eu me avilto — murmurou. — Como os seus
excrementos. Declaro que meus pais foram escravos de seus
pais. Como um peixe na rede, suplico o seu perdão.
Theonax saboreava a oportunidade. O fato de que Delp fora
tão habilmente apanhado, preso entre o orgulho e o desejo
de servir à Frota, tornava aquilo ainda mais delicioso.
— Muito bem, Capitão — disse o Almirante, quando a
cerimônia estava finda. — Seja reconhecido pelo fato de que
não o obriguei a fazê-lo publicamente. Agora, diga o que
pensa. Acredito que estava falando alguma coisa sobre a
proteção de nossas jangadas.
— Sim... sim, senhor. Eu dizia.. . as jangadas não precisam
ter medo do inimigo.
— É mesmo? Na verdade, estão bem longe no mar, mas a
distância pode ser coberta em poucas horas. O que impediria
que o Exército da Revoada se ajuntasse, sem você saber, nas
montanhas, e depois atacasse as jangadas, antes que pudesse
vir ajudar-nos?
— Eu só poderia ter a esperança de que o fizessem, senhor
— e Delp recuperava um pouco de entusiasmo. — Mas
receio que os chefes deles não sejam tão estúpidos. Desde
quando... quero dizer. . . em nenhuma época da história
naval, senhor, uma força volante, sem apoio da água, pôde
vencer uma Frota. Quando muito, e custando-lhe caro, pode
capturar uma ou duas jangadas... por algum tempo, como
aconteceu na incursão, em que eles roubaram os Terr'honai.
Logo as outras embarcações se aproximam e os expulsam. A
questão, senhor, é que os voadores não podem usar os
artefatos de guerra: catapultas, lança-chamas, coisas assim, as
únicas que podem abater uma organização naval. E as
tripulações de jangadas podem agüentar, por baixo de
abrigos e fogo dirigido para cima, abatendo os voadores à
vontade.
— Está claro — assentiu Theonax. — Tudo isso é tão
evidente que a explicação se torna pura perda de meu
tempo. Mas sua idéia, ao que suponho, é de que um
pequeno número de guardas bastaria para manter à distância
um ataque Lannach'ho de qualquer dimensão.
— E, se tivermos sorte, manter o inimigo ocupado no mar,
até que eu pudesse chegar com nossas forças principais. Mas,
como disse, senhor, eles podem ter miolos bastante para não
tentá-lo.
— Está supondo muita coisa, meu Capitão — murmurou
Theonax. — Supõe não apenas que eu o deixarei ir às
montanhas, mas que lhe darei o comando.
Delp baixou a cabeça, encolheu as asas.
— Desculpas, senhor.
— Eu acho... sim, acho que seria melhor você ficar aqui, em
Mannenach, com sua flotilha.
— Como o Almirante desejar. Pensará em meu plano,
entretanto?
— Aeak'ha que o devore! — rosnou Theonax. — Não tenho
amor nenhum por você, Delp, como bem sabe; mas seu
plano é bom, e você o melhor para levá-lo a cabo. Eu o
nomearei.
Delp parecia ter levado um golpe de malho.
— Saia — disse Theonax. — Faremos uma conferência
oficial mais tarde.
— Agradeço ao meu senhor Almirante...
— Vá, já mandei!
Após a retirada de Delp, Theonax voltou-se para seu
favorito.
— Não fique tão preocupado. Sei em que você está
pensando — disse. — O camarada vencerá essa campanha,
vai tornar-se ainda mais querido e a alturas tais terá a idéia de
apoderar-se do Almirantado.
— Eu só estava pensando em como meu senhor pensa
impedi-lo — observou o cortesão.
— É muito simples — Theonax sorria. — Conheço o tipo
dele. — Enquanto a guerra durar, não há perigo de rebelião.
Assim sendo, que ele destrua os Lannach'honai, como
deseja. Vai perseguir até os últimos, para ter a certeza de que
deu conta do trabalho. E, nessa perseguição... uma flecha
perdida, vinda de algum lugar... coisa das mais deploráveis. E
muito fácil de conseguir. Sim.
A atmosfera transportava as partículas de poeira que são os
núcleos de condensação de água, levando-as a uma altitude
maior e, portanto, mais fria. Desse modo Diomedes tinha
mais nuvens e precipitação de chuvas de todos os tipos do
que a Terra. Em noite clara, viam-se estrelas em menor
número; em noite de nevoeiro, não eram vistas, em
absoluto.
A bruma subia por baixadas pedregosas, até que o Verão
Pleno, em começo, se tornasse um crepúsculo frio e
gotejante. As hordas rondando em volta de Salmenbrok
murmuravam em fome e desesperança; o próprio sol se
afastara delas.
Nenhuma fogueira brilhava, a madeira daquela região fora
toda queimada. E o interior fora vasculhado, não tinham
mais caça, os cereais selvagens não estavam maduros, até os
vermes e insetos tinham sido comidos por esses numerosos
guerreiros. Agora, em escuridão fantasmagórica e úmida,
apenas o vento e as águas glaciais em movimento
ostentavam vida. E o Monte Oberch, imponente,
profetizava, taciturno, imerso no solo.
Trolwen e Tolk deixavam o desespero de seus capitães,
passando por trilhas estreitas onde o nevoeiro fumegava e as
casas altas e finas pareciam irreais, até o moinho onde o
Terra'ska trabalhava.
Parecia que apenas ali se encontrava a vida. Os fogos
continuavam queimando, a água guardada descia por calhas
para fazer girar as rodas abandonadas pelo vento, o
movimento prosseguia sob velas tremelicantes, enquanto
tornos giravam, malhos batiam. De algum modo, de alguma
maneira impossível, Nicholas van Rijn fizera calar os
protestos amargos da turma de Angrek, e a fábrica
trabalhava.
Trabalhava para que? Pensava Trolwen, a mente tão
cinzenta quanto a neblina.
O próprio van Rijn veio recebê-lo à porta. Cruzou os braços
grossos sobre o peito cabeludo e disse:
— Como ir, meus amigos? Aqui a coisa andar bem, logo a
gente ter muitas peças de artilharia.
— E de que adiantarão? — retorquiu Trolwen. — Oh, sim,
temos bastante para tornar Salmenbrok inexpugnável. Quer
dizer que podemos ficar aqui e deixar que o inimigo nos
cerque, até que morramos de fome.
— Não falar comigo de fome — e van Rijn enfiou a mão no
bolso, tirou de lá um pedaço seco de queijo, fitou-o com
pesar. — Eu pensar que pouco tempo atrás isto aqui ser um
suíço delicioso. Agora, nem ratos querer. — Ato contínuo,
enfiou o queijo na boca, mastigou ruidosamente. — Meu
problema de encher a barriga ser pior do que o de vocês.
Imprimis, o alto ponto de fervura da água aqui, fazer isto um
mundo de péssimos cozinheiros, sem conhecimento das
temperaturas controladas. Secundas, os seus carregadores
trazer pelo ar, naquela viagem comprida e cheia de
solavancos desde Mannenach, para eu morrer de fome?
— Oxalá o tivéssemos deixado por lá! — explodiu Trolwen.
— Não — disse Tolk. — Ele e os amigos se esforçaram,
Chefe da Revoada.
— Perdoe-me — disse Trolwen, cheio de contrição. — É só
que... recebi as notícias... os Drakska acabaram de
destruir Eiseldrae.
— Uma cidade vazia, né?
— Uma cidade sagrada. E incendiaram a mata em volta —
prosseguiu Trolwen, arqueando as costas. — Isto não pode
prosseguir! Cedo, ainda que consigamos vencer, a terra
estará devastada demais para nos sustentar.
— Achar que vocês ainda ter algumas florestas — observou
van Rijn. — Esta terra não estar super-povoada.
— Olhe aqui — disse Trolwen, com a língua áspera —, eu o
agüentei, até agora. Reconheço que, no fundo, tem razão: e
que partir com todas as nossas forças para uma batalha
decisiva com o inimigo, em massa, é chamar a destruição
final. Mas ficar aqui sentado, sem fazer outra coisa, só
incursões de guerrilha nos postos avançados deles, enquanto
acabam com nossa nação... isto, com certeza, é chamar o
nosso fim.
— Precisar de tempo — comentou van Rijn. — Tempo para
mudar as outras peças de artilharia, compensar o que
perdemos em Mannenach.
— Por quê? Elas não são portáteis, sem trens. E Delp, aquela
criatura sem mãe, arrancou os trilhos.
— Ou, sim, eles ser portáteis. Meu jovem amigo Wace
andar fazendo mais alguns desenhos. Ele reduzir, com
mulheres e filhotes para ajudar, e todo mundo carregar uma
peça ou duas. A gente poder transportar uma bateria pesada
de armas, com os diabos!
— Eu sei. Você já explicou tudo isto. E repito: contra que
vamos usar essas armas? Se montamos em algum lugar, basta
aos Drak'honai evitar esse lugar. E não podemos ficar muito
tempo em ponto algum, porque nossa gente come tudo em
volta, e começa a passar fome.
Dito isso, Trolwen tomou alento e prosseguiu:
— Eu não vim discutir, terreno. Vim do Conselho Geral de
Lannach, para dizer que a comida de Salmenbrok acabou; e
acabou também a paciência do exército. Precisamos sair e
lutar!
— E ir sair! — berrou van Rijn. — Vir, eu falar com esses
Conselheiros cabeça de camarão.
Enfiou, então, a cabeça pela porta e disse:
— Wace, garoto, melhor começar arrumar o que a gente
ter. Logo ir transportar.
— Eu ouvi o que disseram — respondeu o mais jovem.
— ótimo. Você fazer o trabalho aqui, eu fazer a política, que
assim tudo correr certinho, né? — e van Rijn que esfregava
os punhos peludos, sorria amplamente, partiu em
companhia de Trolwen e Tolk.
Wace ficou a fitá-lo, naquela muralha formada pelo
nevoeiro.
— Sim — concordou. — Tem sido assim. Nós trabalhamos,
ele fala. Distribuição muito justa!
— O que quer dizer? — perguntou Sandra, da mesa onde se
achava sentada, marcando partes de armas com pequeno
pincel. Cerca de vinte mulheres trabalhavam a seu lado.
— Isso mesmo. Não sei por que não digo na cara dele. Não
tenho medo daquele parasita gordão, e não quero mais o
ordenado dos infernos que me paga — asseverou Wace,
acenando para o moinho e a confusão coberta de fuligem
que ali reinava. — Faça isso, faça aquilo, é o que ele diz, e
depois sai para passear outra vez. Quando penso como ele
tem devorado comida que manteria você viva. ..
— Mas não entende? — perguntou ela, fitando-o por
momentos. — Não, talvez você tenha andado muito
ocupado, todo o tempo aqui, para poder parar e pensar. E,
antes disso, você tinha um emprego pequeno, sem a arte de
governo, não?
— O que quer dizer? — foi a vez dele, fitando-a com olhos
cansados, refletindo a fadiga.
— Mais tarde, talvez. Agora, temos de andar depressa. Logo
deixaremos esta cidade, e tudo precisa estar pronto para a
partida.
Dessa feita, Sandra encontrara com que ocupar-se, nos dez
ou quinze dias da Terra, desde a luta em Mennenach. Van
Rijn exigira que tudo — incluindo o material de guerra em
excesso, que por sorte não pudera ser levado à batalha, por
falta de espaço, fosse tornado portátil, a ser transportado
pelo ar. Isso acarretava certa extensão de modificações, de
modo que as partes de madeira maiores pudessem ser
cortadas em unidades menores, sendo rematadas onde
necessário. Wace dera solução ao problema, mas seria um
caos completo, ao final da jornada, a menos que existisse um
sistema de identificar cada parte. Sandra imaginara as
marcas, e as pintava nas peças.
Nem ela, nem Wace, haviam parado para dormir grande
coisa. Nem mesmo haviam parado para ficar imaginando de
que adiantaria seu trabalho.
— O Velho Nick disse alguma coisa acerca de atacar a
própria Frota — resmungou Wace. — Terá enlouquecido?
Será que devemos pousar na água e montar as catapultas?
— Talvez — respondeu Sandra, com serenidade. — Já não
me preocupo mais. Logo teremos tudo decidido, porque só
nos resta comida para quatro semanas terrestres, ou menos.
— Podemos durar ainda dois meses, sem comer, em
absoluto, — informou Wace.
— Mas ficaremos fracos — disse ela, baixando o olhar. —
Eric...
— Sim? — e ele deixou a serra circular acionada pelo
moinho, com dentes de obsidiana, veio ficar à seu lado. A
luz embaçada destacava gotas de nevoeiro nos cabelos dela,
brilhavam ali como se fossem jóias minúsculas.
— Logo... não me importará o que faço... haverá trabalho
pesado, precisando de força e habilidades que não possuo...
talvez luta, onde eu sou apenas mais um arco, nem mesmo
dos mais fortes.
As unhas dos dedos esbranquiçavam-se, onde ela segurava o
pincel, mas prosseguiu:
— Se chegar a esse ponto, não comerei mais. Você e
Nicholas ficam com minha parte.
— Não seja idiota — retorquiu ele, com aspereza.
Ela sentou-se direito, voltou-se, dedicou-lhe um olhar
fuzilante. Suas faces pálidas coravam.
— Não seja você o idiota, Eric Wace — retorquiu.— Se eu
puder dar aos dois mais uma semana, em que permaneçam
fortes... e que a fome não venha impedir até os
pensamentos claros. .. serei eu própria a quem estarei
salvando, também. E se não for assim, perdi apenas uma ou
duas semanas sem valor. Agora, volte à sua máquina!
Ele a fitou por algum tempo, o coração disparou. Depois
assentiu e regressou ao trabalho.
Descendo a trilha a uma clareira de grama, onde o Conselho
se achava sentado na beira de um penhasco, van Rijn ia
praguejando.
Os mais idosos de Lannach apresentavam-se como esfinges,
contra um sol informe e cinzento, à sua espera. Trolwen foi
ter à cabeça da linha dupla, Tolk permaneceu ao lado do ser
humano.
— Em nome dos Sábios, estamos reunidos — disse o
Comandante, seguindo o ritual. — Que o sol e as luas
iluminem nossas mentes. Que os espíritos de nossos avós
nos tragam sua orientação. Que me seja dado não
envergonhar os que voaram antes de mim, nem os que virão
depois.
Dito isso, prosseguiu mais calmo:
— Bem, meus oficiais, foi decidido que não podemos ficar
aqui. Eu trouxe o Terreno para nos aconselhar. Podem
explicar a ele quais são as alternativas?
Um lannacha ancião, de olhar raivoso, magro, estreitou as
asas e cuspiu:
— Em primeiro lugar, Chefe da Revoada, por que está ele
aqui?
— Por convite do Comandante — respondeu Tolk, com
suavidade.
— Quer dizer... Arauto, não enrolemos as palavras. Você
sabe de que estou falando. A expedição a Mannenach foi
empreendida por instância dele. E veio custar-nos a maior
derrota em nossa história. Desde então, ele insistiu em que
nossas forças principais ficassem aqui, ociosas, enquanto o
inimigo devasta a terra indefesa. Não vejo o motivo pelo
qual devamos aceitar conselhos dele.
O olhar de Trolwen refletia perturbação.
— Existe mais alguém discordando? — perguntou, com voz
muito baixa.
Um murmúrio de indignação percorreu aquelas fileiras.
— Sim... sim. .. sim. .. que ele responda, se puder.
Van Rijn tornou-se rubro, começou a inchar como um sapo.
— O Terreno foi desafiado no Conselho — disse Trolwen.
— Ele deseja responder?
Sentou-se então, pondo-se à espera, como os demais.
Van Rijn explodiu:
— Demônios do céu e inferno! Quatro milhões de vermes
encasulados nas profundas! Por quanto tempo eu ter de
aturar estúpidos e ingratos? Quantos políticos e figurões,
Você-Lá-Em-Cima botar neste Universo, pra encher as
medidas? — e ele brandia os punhos no ar, berrava. —
Satanás e muito enxofre! Não dar para tolerar! Se estar com
tanta vontade de cometer suicídio, por que o pobre e velho
van Rijn ter de agarrar vocês pela cauda o tempo todo? Pular
seus protestantes dos infernos! Per bacco, parar de me
insultar ou eu enfiar tudo pelas goelas de vocês abaixo! — e
ele avançava, como se fosse uma montanha em movimento,
rugindo para eles. Os Conselheiros mais próximos se
encolhiam, afastavam-se.
— Terreno.. . senhor. .. oficial. .. por favor — cochichava
Trolwen.
Após tê-los encurralado o bastante, van Rijn disse, em tom
frio:
— Muito bem. Eu falar, com os diabos. Eu dar bons
conselhos, vocês embrulhar tudo e pôr a culpa em mim.
Mas eu ser só um homem velho e paciente, quando eu ser
novo e forte, cheio de tutano... não, eu receber isso com
humildade cristã, continuar dando bons conselhos a vocês.
Fez uma pausa, e logo prosseguia:
— Eu avisar vocês quantas vezes, não atacar Mannenach
primeiro! Eu dizer que as jangadas poder chegar até as
muralhas, e as jangadas ser a força da Frota. Eu ficar em cima
desses dois pobres joelhos velhos, pedir e suplicar pra vocês
pegar primeiro as terras altas, que ter mais importância, mas
não, vocês não escutar. E ainda assim nós conquistar
Mannenach, mas a vitória ser jogada fora por estupidez. Oh,
se eu ter as asas de anjo, chefiar vocês em pessoa! Ia estar
todo embandeirado, no mastro do Almirante, agora, pelas
tripas de Nicolau! Por isso vocês aceitar meus conselhos
com os diabos! Agora, aceitar minhas ordens! Não querer
mais discussões com vocês, ou lavar minhas mãos e cuidar
de ir sozinho pra minha casa. De agora em diante, se vocês
querer continuar vivos, quando van Rijn dizer sapo, vocês
pular. Compreender?
Fez uma pausa. Ele mesmo ouvia o seu resfolegar asmático e
o murmúrio de insatisfação que percorria o acampamento;
finalmente, ouvia apenas o pingo da água em rochas
alienígenas; e depois, nada mais.
Foi Trolwen quem, afinal, disse com voz fraca:
— Se... se o desafio é dado por respondido... retomaremos
nossas atividades.
Ninguém se manifestou.
— O Terreno quer falar? — perguntou Tolk, finalmente.
Apenas ele parecia senhor de si, no brilho crítico de alguém
que sabe apreciar a boa representação teatral.
— Já. Vou falar, saber que nós não poder ficar aqui muito
tempo. Vocês perguntar por que eu prender o exército e
deixar o Capitão Delp fazer o que quer.
Dito isso, van Rijn estalou os dedos.
— Imprimis, atacar Delp diretamente ser o que ele quer;
com certeza pode derrotar a gente, porque ter força maior,
não estar com tanta fome e falta de coragem Secundus, ele
não avançar para Salmenbrok enquanto a gente estar aqui,
porque poder levar uma surra; assim, por ficar aqui, o
exército me dar a oportunidade de preparar as peças de
artilharia. Tertius, eu ter a esperança que com essa demora,
enquanto o moinho rodar, nós já ganhar os meios para
vencer.
— O quê? — e a pergunta veio da garganta de um
Conselheiro, que se esquecera das formalidades.
— Ah — e van Rijn levou o dedo ao nariz imponente e
piscou o olho. — Nós ver. Quem sabe agora mesmo vocês
pensar que eu ser um homem velho cansado, que merecer
pena, que dever estar na cama com toddy e um bom
charuto, mas um mercador da Polossotécnica não ser coisa
de desprezar. E então? Bem, nós ver. Eu propor que todo
mundo ir embora daqui e tocar para o norte.
Irrompeu um tumulto de murmúrios, ele esperou
pacientemente para que terminasse.
— Silêncio! — gritou Trolwen. — Silêncio! — batia no solo
duro, com a cauda. — Silêncio, oficiais! Terreno, têm havido
boatos de abandonar Lannach por completo... cada vez
mais, na verdade, pois nossa gente perde o ânimo. Ainda
podíamos alcançar Kilnu Pantanoso a tempo de... de salvar
a maioria de nossas mulheres e filhotes na Época de
Nascimento. Mas isso seria abandonar nossas cidades,
campos e florestas, tudo que temos, tudo que nossos
ancestrais conquistaram trabalhando, por centenas de anos,
para mergulharmos de volta na selvageria em uma selva
escura, cheia de febre, tornando-nos o mesmo que nada. Eu
próprio morrerei em batalha, em vez de fazer tal escolha.
Tomou alento e afirmou:
— Mas Kilnu, pelo menos, fica ao sul. Ao norte de Achan,
ainda existe gelo!
— Exatamente — confirmou van Rijn.
— Você prefere que morramos de fome e frio nas geleiras
de Dawrnach? Não podemos pousar mais ao sul do que
Dawrnach; os batedores da Frota com certeza nos
localizariam em qualquer ponto de Holmenach. A menos
que você queira travar a última luta no arquipélago...?
— Não — corrigiu van Rijn. — Nós seguir de mansinho
para esse lugar Dawrnach. Poder levar um almoço e talvez
dez dias em comida e combustível, bem como armamento...
né?
— Bem... sim... mas mesmo assim, está sugerindo que
ataquemos a própria Frota, as jangadas, vindo do Norte?
Seria uma direção inesperada. Mas igualmente inútil, um
ataque sem esperanças.
— A surpresa, precisar para meu plano — insistiu van Rijn.
— Ja. Nós não poder contar ao exército. Um deles poder ser
capturado em luta e informar os Drak'honai. Ser melhor
talvez eu não falar nem com você.
— Basta! — exclamou Trolwen. Qual é o seu plano?
Muito tempo depois...
— Não vai dar certo. Oh, seria viável, do ponto de vista
técnico. Mas é uma impossibilidade política.
— Política! — resmungou van Rijn. — E agora, por que
política?
— Os guerreiros, e as mulheres também, e até os filhotes...
pois seria toda a nação indo para Dawrnach... eles teriam
que saber porque o fazemos. Ainda assim o plano, como
você reconhece, seria arruinado se uma só pessoa caísse em
mãos inimigas e dissesse o que sabe, sob tortura.
— Mas ele não precisar saber — contrapôs van Rijn. — Nós
só contar que passando algum tempo juntando comida e
lenha para viajar. Depois, nós arrumar as coisas e seguir para
outro lugar, ele ainda não saber onde, ou para quê.
— Nós não somos Drak'ska — retorquiu Trolwen, com
raiva. — Somos um povo livre. Eu não tenho o direito de
tomar decisão tão importante sem submetê-la à votação.
— Hmm... talvez vocês poder falar com eles — e van Rijn
puxava as pontas do bigode. — Fazer oração com eles.
Persuadir essa gente para deixar de lado o direito de saber e
ajudar a decisão. Convencer essa gente a acompanhar, sem
fazer perguntas.
— Não — disse Tolk. — Sou um especialista na arte de
persuasão, Terreno, e alcancei os limites dessa arte. Estamos
agora lidando menos com uma Revoada do que com uma
multidão, fria, com fome, sem esperanças, sem fé nos
dirigentes, pronta a desistir de tudo... ou a atirar-se a uma
batalha cega. Eles não têm o moral para acompanhar criatura
alguma em aventura desconhecida.
— O moral poder ser aumentado — disse van Rijn. — Eu
tentar.
— Você!
— Eu não ser tão ruim em orações, eu mesmo, quando ter
necessidade. Eu ir falar com eles.
— Eles... eles... — e Tolk o fitava fixamente, e logo ria,
com uma nota destoante de sarcasmo. — Deixe-o agir,
Chefe da Revoada. Ouçamos que palavras esse Terreno
encontra, que sejam melhores do que as nossas.
E uma hora depois, sentado num penhasco, seu povo
formando massa de sombras por baixo, ouvia a voz grossa de
van Rijn que rompia o nevoeiro como se fosse trovão:
— ... eu só dizer, vocês precisar pensar no que ter aqui, e
no que eles poder tirar de vocês:
"Este trono real dos reis, esta ilha coroada, Este solo majestoso, este
berço de Marte Este outro Céu, semiparaíso, Esta fortaleza que a
Natureza construir Contra a infecção e a mão da guerra, Esta raça
feliz..."
— Não compreendo todas essas palavras — cochichava
Tolk.
— Cale a boca! — respondeu Trolwen. — Deixe-me ouvir
— e estava com lágrimas nos olhos, estremecia.
"...este local abençoado, este solo, este reino, este Lannach!"
O exército batia as asas, soltava gritos.
Van Rijn continuou, com adaptações do discurso funeral de
Péricles, o "Scots Wha'Hae" dos escoceses, e o Discurso de
Gettysburg.
À altura em que terminara de discursar sobre o Dia de São
Crispim, poderia ter sido eleito Comandante, se o quisesse.
10
A ilha chamada Dawrnach ficava bem além do final do
arquipélago, a diversas centenas de quilômetros ao norte de
Lannach. Por mais rápido que fosse o vôo da Revoada, com
pausas para descansar em algum recife onde as aves
gritavam, foi uma questão de dias terrenos chegar até lá, e
um pesadelo físico para seres humanos, carregados em
redes. Em seguida a isso, as recordações de Wace, no que
tocava à viagem, esmaeciam-se.
Quando se viu em pé, uma praia que era a meta, as pernas
quase incapazes de sustentar-lhe o corpo, tal chegada lhe
trouxe pouco reconforto.
O Verão Pleno também chegara, e ainda assim, não estava
muito no norte, o ar continuava hibernal; e Tolk disse que
ninguém jamais tentara viver ali. As ilhas Holmenach
desviavam uma corrente fria de O Oceano, trazendo-a ao
Mar de Iceberg, e aquelas águas mordentes corriam em
torno de Dawrnach.
E agora a Revoada, asas, asas e mais asas descendo do céu,
até encobrirem aquela ondulação cinzenta, haviam chegado
à conclusão da jornada. Areias negras, lavadas por preamares
pesadas e escuras, subiam aclive acentuado, passado por
geleiras permanentes até a garganta inflamada de um vulcão.
Árvores finas e retas viam-se espalhadas pelas encostas mais
baixas, entre moitas que tremiam. Notava-se a presença de
algumas aves marinhas, que mergulhavam acima dos blocos
de gelo fora da costa; a não ser por isso, o sol oculto passava
sua luz de sangue coagulado sobre a terra estéril.
Sandra entremeceu. Wace, tomado de choque, percebeu o
quanto ela emagrecera. E agora que ali estavam, na última
fase do esforço, pretendia não mais comer.
Envolveu-se melhor na jaqueta fedorenta e bruta,
protegendo-se assim do vento, que fazia envoaçar feixes dos
cabelos pálidos, lançando-os em movimentos desorientados,
contra penhascos ígneos e negros. Em volta dela
acocoravam-se, caminhavam, estremeciam e batiam asas de
dez mil dragões alados. Assobios, e guturalidades da fala não-
humana, o estouro de canhão de asas em couro,
sobrepujavam a choraminga do vento vazio. Enquanto ela
esfregava os olhos, de modo comovente, como criança,
Wace percebeu que suas mãos estavam sangrando, onde se
haviam agarrado à rede, e que ela tremia de esgotamento.
Ele sentiu o coração contorcer-se, seguiu em sua direção.
Nicholas van Rijn chegou antes, volumoso e gordo, dando-
lhe um tapa na nádega, um berro para reconfortá-la.
— E então, com diabinhos e diabões, estamos aqui agora e
logo eu levo você pra casa, pra tomar um banho quente. São
Dismas, agora eu sinto seu cheiro a três quilômetros de
distância!
A Dama Sandra Tamarim, herdeira do Grã Ducado de
Hermes, dedicou-lhe um espectro de sorriso.
— Se eu pudesse descansar um pouquinho... —
cochichou.
— Ja, ja, veremos — e van Rijn enfiou dois dedos na boca,
emitiu um assobio capaz de romper os tímpanos. Com isso,
chamou a atenção de Trolwen. —
Você aí! Achar aqui uma caverna ou coisa assim pra ela se
esconder.
— Eu? — e Trolwen encrespou-se. — Tenho de cuidar da
Revoada!
— Você ouvir o que eu dizer. Cabeça de panela — e van
Rijn partiu, agarrou Wace. — Muito bem, agora. Você está
pronto para começar o trabalho? Prepare sua tripulação,
apanhe quantos forem precisos para começar.
— Eu... — e Wace recuou. — Olhe aqui, passaram não sei
quantas horas, desde nossa última parada e...
Van Rijn cuspiu.
— E quantas semanas, desde que eu não tenho nem um
charuto, ou um copinho de genebra, hem? Você não tem
considerações por outras pessoas — e apontou o nariz para o
céu, berrou: — Eu preciso fazer tudo? Por que Você-Lá-Em-
Cima enche a galáxia com vagabundos que não prestam pra
nada? Não posso agüentar!
Wace viu que Trolwen levava Sandra para um lugar onde ela
poderia dormir, esquecendo o frio, a dor e o solidão por
algumas horas. Esmurrou uma mão com a outra e disse:
— Certo! Mas o que você vai estar fazendo?
— Preciso organizar as coisas, com os diabos. Antes, falar
com Trolwen para uma turma cortar árvores, fazer mastros,
vergas, remos. Enquanto isso toda lona que nós trouxemos
precisa ser transformada em velas, de algum jeito; e tem a
cordoalha; também precisamos arrumar tudo para comer e
ter abrigo. Bah! Tudo isso é detalhe. Não estou certo em me
ocupar com essas coisas. Detalhes, eu contrato gente como
você pra cuidar.
— E a vida é outra coisa que não os detalhes? — retorquiu
Wace.
Olhos pequenos e cinzentos, van Rijn o examinou por
momentos.
— Então — trovejou o mercador — já é você também que
sabe responder, hem? Acha que só por eu ser velho, fraco,
não agüentar mais a dureza, como agüentava quando era
novo.. . talvez eu seja apenas um parasita de seu trabalho,
nie? Agora o tempo é pouco pra enfiar juízo na sua cabeça.
Talvez você aprenda sozinho — e ele estalou os dedos. —
Pula!
Wace partiu, xingando-se por não ter desferido um murro
no estômago daquele velho porco. Mas haveria de fazê-lo,
chegado o dia certo! Agora, não. Por infortúnio, van Rijn de
algum modo saltara a uma posição na qual os Lannachska o
procuravam.. . em vez de procurarem Wace, que realizava o
trabalho. Seria aquilo apenas um pensamento paranóide?
Não.
Era pensar na questão das embarcações, por exemplo. Van
Rijn fizera ver que uma ilha como Dawrnach, cheia de
banquisas de gelo e geleiras a se partirem proporcionava
muito material de construção. Formões de pedra
modelariam no gelo uma embarcação tão grande quanto
qualquer jangada na Frota, com algumas horas de trabalho. O
tipo mais primitivo de tocha, uma lâmpada de óleo com fole,
serviria para alisá-la. Um mastro e leme improvisados
podiam ser colocados em buracos abertos para isso; a água,
voltando a congelar-se daria solidez a tudo. A Revoada,
homens, mulheres, jovens e velhos, constituía imensa força
de trabalho para tal objetivo.
Isso, se um engenheiro calculasse o processo prático: com
que profundidade se afunda o mastro? É preciso lastro?
Como é que se corta bem um bloco irregular de gelo, com
centenas de metros de comprimento? E que tal alisar o
fundo, para aumentar a velocidade? O material era muito
friável, podia ser consideravelmente fortalecido, jogando-se
baldes cheios de serragem misturada à água do mar, por cima
do casco terminado, deixando que aquilo regelasse, servindo
como espécie de blindagem. Mas, em que proporções?
Não havia tempo de pôr essas coisas à prova. De algum
modo, graças a Deus e palpites, tendo todos os elementos
contra si, Eric Wace tinha de sair-se com a solução e o
resultado.
E van Rijn? Com que contribuía ele? A idéia essencial, que
lançara descuidadamente, parecendo basear-se na suposição
de que Wace era o gênio da Lâmpada de Aladim. Oh, fora
um clarão de inteligência e imaginação, ninguém poderia
negá-lo. Mas a imaginação é coisa barata, qualquer um pode
dizer: "Estamos precisando é de uma arma nova, e podemos
fazê-la de tais e quais materiais, que nunca foram usados".
Continuava sendo uma fantasia inútil, até que alguém
aparecesse, mostrando como levá-la a cabo.
E assim, tendo escravizado seu engenheiro, van Rijn saiu em
passeio, brincando com alguns da Revoada, empurrando
outros para que trabalhassem, e quando estavam todos
ocupados, esquentando as cabeças idiotas, enrolou-se em um
cobertor e foi dormir!
Wace estava em pé no convés do Rijstaffel, observava
enquanto o inimigo aparecia na orla do mundo visível.
Devagar, enfiou a mão na bolsa a tiracolo. Ela se fechou em
um pedaço de pão mofado e uma fatia de salsicha. Era o
último alimento terrestre que restava. Por diversos dias da
Terra, agora, ele vivera com ração ainda menor do que
antes, de modo que pudesse entrar naquela batalha tendo
algo no estômago.
Descobriu, então, que não queria comer coisa alguma.
Por surpreendente que fosse, era pouco o frio que vinha
daquele chão gelado. O ar quente sobre o Mar de Achan
afugentava a friagem no gelo. Ficou menos atônito por não
ter havido um derretimento apreciável do gelo, na semana
em que calculara que haviam rumado para o sul, pois
conhecia as propriedades térmicas da água.
Atrás dele, velas quadradas primitivas, presas a vergas de
madeira verde, sobre mastros de uma só peça e
sobrecarregados, enfunavam-se ao vento norte. Aqueles
navios de gelo eram vagarosos, porém muito menos do que
uma jangada Drak'ho; e com algum talento inacreditável
para a tirania, van Rijn fizera com que Lannachska
relutantes trabalhassem, por baixo da água frígida do mar,
cortando os fundos, dando-lhes forma vagamente
aquadinâmica. Agora, com a força de uma brisa diomedana,
a frota de guerra de Lannach irrompia pelas ondas de
Acham, desenvolvendo cerca de cinco nós de velocidade.
O momento mais difícil, entretanto, refletia Wace, não fora
enquanto trabalhavam feito loucos para aprontarem aquele
tipo de embarcação, viera depois, quando estavam quase
prontos a partir e os ventos sopraram ao contrário. Por um
período medido em dias Terrestres, milhares de Lannachska
se amontoaram desalentados, sob chuvas regelantes,
vasculhando o local, procurando peixes e filhotes de
pássaros, com que alimentar os filhos, que gritavam de fome.
Os conselheiros e chefes de clã haviam argumentado que
aquela era uma guerra contra o Destino, nada podiam fazer,
senão desistir e partirem para Kilnu Pantanoso. De algum
modo, suplicando, ameaçando, pedindo, prometendo— em
alguns casos subornando, com o que ele ganhara nos dados
— van Rijn os mantivera em Dawrnach.
Bem, aquilo acabara.
O mercador saiu da pequena cabana de pedra, caminhou
sobre o convés em que haviam espalhado saibro, passou por
engenhos de guerra ali acachapados, projéteis amontoados,
até alcançar a proa, onde Wace se achava.
— É melhor comer — disse. — Logo não vai haver
oportunidade.
— Não tenho fome — retorquiu Wace.
— Não tem, então? — e van Rijn arrancou-lhe o sanduíche
da mão. — Então, com os diabos, eu como! — e se pôs a
mastigá-lo.
Mais uma vez usava conjunto duplo de armadura, mas
escolhera apenas uma arma para a ocasião, um machado de
pedra desmesurada, o cabo de um metro de comprimento.
Wace trazia machadinha melhor e um escudo. Em volta dos
seres humanos, Lannacha armados se agitavam.
— Eles já se preparam para nos receber, sem dúvida —
observou Wace, cujo olhar procurava as canoas inimigas,
subindo contra o vento.
— Você espera um tapete enorme, como eles dizem na
América? Aposto que eles viram a gente do ar, faz muitas
horas. Agora, vão mandar mensageiros depressinha ao
exército em Lannach.
Van Rijn segurou o último fragmento de carne, beijou-o
com reverência e o comeu.
O olhar de Wace voltou-se para trás. Aquele era o capitânia,
escolhido ao se descobrir que era o mais rápido, e tinha a
posição dianteira em uma cunha prolongada. Dezenas de
naves cinzento-esbranquiçadas, de velas esfarrapadas, feitas
de qualquer modo, vinham em seguida. Eram menos
numerosas é tinham menos armas do que as jangadas
Drak'ho, naturalmente; era preciso contar que tal diferença
não fosse demasiada. A borda livre, muito mais baixa, não
importava em uma corrida alada, mas seria importante que
as tripulações não fossem compostas de marinheiros muito
hábeis.
Mas os Lannachska, pelo menos, eram lutadores. Tigres
alados agora, pensava Wace. A viagem rumo ao sul permitira
que repousassem, e a pesca de arrasto suprira o alimento
com que se haviam nutrido; e a vontade de lutar ressurgira.
Da mesma forma, embora contassem com marinha menor,
tinham provavelmente número superior de guerreiros,
mesmo levando em conta o exército de Delp, que não
estaria presente.
E podiam ser arrojados. As mulheres e filhos ainda estavam
em Dawrnach (com Sandra, que se tornara tão pálida e
quieta). Não haviam trazido qualquer tesouro com que se
preocupar. Como carga, traziam apenas as armas e o ódio.
Das nuvens onde revoavam, Tolk, o Arauto, desceu. Frenou
com as asas bem abertas, fez o pouso e curvou o pescoço
para trás, como fazem os cisnes, para fitar os seres humanos.
— Tudo anda bem por aqui? — perguntou.
— Bem à beça — respondeu van Rijn. — Nós ainda estar
rumando na direção dessa Frota dos diabos?
— Sim. Não faltam muitas buaska, agora. Pouco acima do
horizonte ao nível do mar, na verdade; logo a verão. Estão
usando velas e remos, tentando sair de nosso caminho, mas
não conseguirão, se continuarmos nesse vento e aquelas
canoas não nos atrasarem.
— Nenhum sinal do exército em Lannach?
— Ainda não. Acredito que. .. como se chama ele... o novo
Almirante de quem os prisioneiros falaram... tem
mensageiros varrendo as montanhas. Mas a terra por lá é
muito grande. Será preciso algum tempo até que o
encontrem — e Tolk manifestou desdém profissional, com
um rosnido. — Pois eu manteria ligação em vôo firme de
Assobiadores, nas duas direções.
— Ainda assim — observou van Rijn —, dever contar com
eles logo, e aí explodir a válvula de segurança do inferno.
— Você tem certeza de que podemos. . .
— Não ter certeza de nada. Agora, voltar para Trolwen e
vigiar.
Tolk anuiu, voltou a elevar-se no ar.
A água escura e apurpurada enrodilhava-se em penas
brancas, por baixo do céu onde as nuvens corriam como
montanhas brincalhonas, pintadas de róseo pelo sol. Não
muito longe dali, uma pequena ilha se erguia íngreme, vista
por telescópio, e nela Wace podia contar as faixas de flores
amarelas balançando-se por baixo de coníferas azuladas.
Dois jovens Assobiadores passaram em sobrevôo, dançando
como as bandeiras alegres do clã, desfraldadas no céu. Era
difícil compreender que as embarcações esguias e escavadas
no gelo, correndo tão perto, trouxessem fogo e pedras
aguçadas.
— Bem — disse van Rijn —, aqui começar nossa
brincadeira, mau Bom São Dismas, ficar comigo agora.
— Não acha que São Jorge seria mais adequado? —
perguntou Wace.
— Você pode pensar assim. Eu, sou velho, gordo e covarde
demais para chamar Miguel, Jorge ou Olavo ou qualquer
desses camaradinhas militares. Fico mais à vontade, eu, com
santos que não são tão desgraçados de energéticos, santos
como Dismas, ou o meu xará, que é tão bom para os
viajantes.
— E é também o patrono dos assaltantes — observou Wace,
desejando que a língua não ficasse tão grossa e seca. De
algum modo, sentia-se distante dali, o medo não surgira. ..
mas os joelhos estavam fracos e o Padre Nosso lhe parecia
oração pavorosamente desconhecida.
— Ah! — exclamou van Rijn. — Bons tiros, garoto!
A balestra à frente do Ríjstaffel, com um gemido e batida
seca, lançara pedra de meia tonelada na canoa mais próxima.
Essa embarcação se partira como um graveto, a tripulação
subiu em vôo, um esquadrão do comando aéreo de Trolwen
atacou; houve uma confusão assassina e momentânea e logo
os Drak'honai tinham deixado de existir.
Van Rijn agarrou o capitão da balestra, que ainda estava
espantado, segurou-os pelas mãos, dançou com ele pelo
convés, berrando a canção:
— Du bist mein Sonnenschein, mein einzig Sonncaschein, du
machst iiiir freulich. . .
Outra canoa deu a volta, aproximando-se bastante. Wace viu
que a tripulação do lança-chamas ocupava-se com a
máquina, jogou-se no chão, por baixo da parede de pouca
altura, que cercava o convés de gelo.
A torrente em fogo bateu nessa parede, espalhou-se de volta
no mar. Não podia aquecer a água gelada, nem derreter
grande parte dela. Protegidos no meio da nave, cem
arqueiros Lannacha dispararam uma chuva de flechas para
cima, flechas que subiam e caíam sobre a canoa.
Wace espiou cautelosamente sobre a muralha. O bombeador
do lança-chamas parecia morto, o encarregado da mangueira
estava preocupado com a asa que fora transpassada. Também
não havia timoneiro, o fundo da canoa panejou em arco sem
sentido, enquanto a tripulação se acotovelava.
— Bem em frente! — berrou. — Bater neles!
A nave Lannacha esmagou a canoa, passando por ela.
As canoas Drak'ho faziam voltas, como lobos em torno de
manadas de búfalos, usando sua velocidade e capacidade de
manobra. Diversas se atiraram entre naves de gelo, para
atacarem por trás; outras passaram pelas extremidades da
formação em cunha. Não se tratava de batalha unilateral,
porque flechas, lanços de catapultas, pedras atiradas, tudo
isso era despejado sobre os Lannachska.
Criaturas aladas, entretanto, usando alguns baldes, podiam
encharcar a lona que queimava. Durante toda essa fase da
refrega, apenas uma nave Lannacha perdeu inteiramente o
mastro e a tripulação limitou-se a abandoná-la, dividindo-se
entre as outras. Nada mais podia incendiar-se, a não ser a
carne viva, que sempre fora o artigo mais barato na guerra.
Diversas canoas, convergindo sobre uma só das naves,
tentaram a abordagem. Ainda assim, tinham inferioridade
numérica e pagaram pesadamente pelo atrevimento.
Enquanto isso Trolwen, dotado de controle absoluto do ar,
mergulhava, disparava flechas, golpeava.
As canoas dos Drak'hos quase não atrapalhavam o ataque.
Eram abalroadas, partidas, incendiadas, arredadas para o lado
pelo inimigo insubmersível.
Tendo sido a primeira, e havendo mais ou menos furado a
linha, a Ríjstaffel encontrou pouca oposição. A que se
apresentou foi desmanchada por catapultas, balestras, balas
de fogo e flechas. Atrás delas, o próprio mar que ardia e
fumegava; à frente, as grandes jangadas.
Quando essas velas e bandeiras estavam à vista, os
tripulantes dragões de Wace começaram a entoar a canção
de vitória da Revoada.
—Um pouco prematuros, não acha? — gritou ele, por cima
da barulhada.
— Ah — respondeu van Rijn, sossegado —, é deixar que se
divirtam agora. Muitos vão estar cegos, no meio dos peixes,
nie?
— Eu acho... — e depressa, como a recear o que fizera,
apenas para salvar a vida, Wace disse: — Essa melodia me
agrada, e a você? Parece-se muito a uma das canções
populares americanas, de antigamente. John Harry, digamos.
— Canções populares são coisa muito boa, para quem quer
cantar que é Gente, com letras maiúsculas — retorquiu van
Rijn, zombeteiro. — Eu fico com Mozart, com os diabos!
Olhou para a água, e a voz adquiria coloração curiosamente
sôfrega.
— Eu sempre desejei que, um dia, haveria de compreender
Bach, antes de morrer; o velho Johann Sebastian, que falava
com Deus em matemática. Mas não tenho miolos, em
minha cabeça velha e burra. Por isso, só peço mais uma
oportunidade de ouvir Eine Kleine Nachtmusik.
Na Frota, explodia o alarido. Devagar, pesadamente, batendo
no mar com remos que se pareciam a perna de aranhas, as
jangadas estavam desistindo da tentativa de evasão.
Entravam agora em formação de guerra.
Van Rijn acenou raivosamente para um Assobiador.
— Depressa! Ir lá em cima, feito relâmpago, e falar com
aquele Trolwen de cabeça vazia para não proteger mais a
gente contra as canoas. Mandar atacar as jangadas. Manter as
jangadas ocupadas, com os diabos! Não deixar mensageiros
de lá pra cá, entre os chefes inimigos, para poder organizar!
Enquanto o jovem Lannacha ascendia, o comerciante
puxava a barba — que se tornara endurecida de sujeira — e
rosnava:
— Tripas de gafanhoto! Por quanto tempo eu tenho que
pensar tudo? Meu bom São Nicolau, você me dá uns bons
oficiais, com miolo entre as orelhas, em vez de mingau de
aveia, e te construo uma catedral em Marte! Você ouviu?
— O Trolwen está lutando lá em cima — protestou Wace.
— Você não pode querer que ele pense em tudo.
— Talvez não — reconheceu van Rijn, em tom rabujento.
— Talvez eu seja o único em toda a Galáxia que não comete
erros.
Pavorosamente próximas, as jangadas em massa tornaram-se
uma tempestade, quando Trolwen acolheu a orientação.
Demônios com asas de morcego procuravam tirar-se
mutuamente a vida, em um caos vermelho. Wace achou que
a marcha de sua própria nave devia estar passando quase
despercebida naquela destruição em rodopios e gritos.
— Eles não estão se juntando! — disse, esmurrando a
parede. — Por Deus, não estão.
— Um Assobiador pousou, cuspindo sangue; em seu flanco
havia um ferimento monstruoso.
— Ali... Tolk, o Arauto, diz. .. ponto vazio.. . levar
cunha na Frota... — e o corpo esguio se arqueou, caiu
inerte no convés.
Wace abaixou-se, tomando o jovem não-humano nos
braços. Ouviu que o sangue gargarejava nos pulmões
atravessados pelas costelas partidas.
Logo morria.
Praguejando, van Rijn orientou a nave pesadona para uma
modificação no rumo — alguns graus, apenas, pois só isso
era possível. Mas à medida que as jangadas mais próximas
começavam a crescer, acima do convés de gelo, dava para
ver que havia uma brecha larga em sua formação. O ataque
de Trolwen, até então, impedira que aquele espaço fosse
fechado. A água vermelha de sangue, repleta de lanças e
arcos que haviam caído, parecia uma mão indicando o
castelo flutuante do Almirante.
— Ali! — berrou van Rijn. — Bater neles! Comer eles pra
matar a fome!
Um lanço de catapulta veio chiando sobre a parede, passou
por sua manga, espalhou fragmentos de gelo onde bateu. E
logo três torrentes de fogo líquido convergiam sobre a
Rijstaffel.
Dedos de chamas estendiam-se pelo convés. Um Lannacha
caiu gritando e queimando-se, onde o haviam alcançado. O
fogo seguiu para as velas. De nada adiantava derramar água,
desta feita: mastro, cordoame e lona, encharcados de óleo,
tornaram-se uma grande tocha.
Van Rijn deixou o timoneiro com quem estivera
praguejando e partiu pelo convés, escorregou onde parte do
mesmo derretera, deslizou sobre os próprios fundos, até
chegar a uma parede, arrastou-se e se pôs em pé, pedindo
que o fogo celeste acabasse com tudo. Capengou até os
farrapos de ré e seu machado de pedra começou a cortar a
cordoalha.
— Aqui! — berrava. — Depressa! Ajudar-me, seus molóides!
Depressa! Estar com a cabeça cheia de porcaria! Depressa,
antes que a gente passar à frente!
Wace, dirigindo a tripulação da balestra, que apedrejava uma
jangada próxima, só compreendeu de modo vago. Outros
foram mais rápidos que ele. Juntava-se a van Rijn, cortavam.
Ele próprio procurou as bombas de óleo e rompeu uma
delas, ao pé do mastro que ardia.
A base derreteu, segura apenas pelos cabos de madre, a
tocha enorme caiu para o lado, quando as linhas de
estibordo foram cortadas. Bateu na jangada que ali estava, as
chamas se estenderam, repelindo tripulantes Drak'ho
frenéticos, que queriam afastá-la de si. O cordoame pegou
fogo, as madeiras começaram a queimar. Enquanto o
Rijstaffel se afastava, a nave inimiga se transformava em
imensa pira.
A nave de gelo, agora, estava quase incontrolável, levada
pelo impulso e correntes marítimas cada vez mais para o
interior da Frota confusa. Mas pela lacuna que van Rijn tão
ardorosamente desejara, as demais naves Lannacha iam
seguindo. Chamas de guerra estralejavam entre os monstros
flutuantes, mas a madeira queima, o gelo não.
Em meio ao nevoeiro da fumaça, que se tornava cada vez
mais espesso, entre dardos, flechas, que estralejavam de
cima, no convés juncado de mortos e feridos, mas lotado
pelos que ainda estavam vivos e queriam vingança, Wace
seguiu até a tripulação da bomba mais próxima. Esta se
preparava para incendiar outra jangada, assim que o impulso
da nave a pusesse dentro do alcance.
— Não — disse.
— O quê? — o capitão voltou para ele o rosto enfumaçado,
a crista tombada de cansaço. — Mas, senhor, eles vão jogar
fogo em nós!
— Podemos agüentar — disse Wace. — Estamos bastante
protegidos pelas paredes. Não quero queimar aquela jangada.
Quero capturá-la!
Van Rijn passou por ali, brandindo o machado. Não podia
ter ouvido o que fora dito, mas trovejou:
— Ja. Eu ia mandar isso mesmo. Podemos usar um
transporte que tenha manobra.
A ordem percorreu a nave. Seu convés escorregadio
escureceu-se, de formas armadas à espera. Cada vez mais
perto, o bloco de gelo flutuante se aproximava da jangada
mais alta e mais imponente. Fogo, pedras, tudo vinha na
direção dos Lannachska. Eles o suportaram, firmes de
propósito. Wace enviou um Assobiador a Trolwen, pedindo
ajuda. Um destacamento volante silenciou a artilharia dos
Drak'ho com flechas. Trolwen ainda dispunha de
superioridade numérica esmagadora. Podia abafar o céu com
seus guerreiros, prendendo os Drak'honai nos conveses, a
fim de aguardarem o assalto pelo mar. Até então, pensava
Wace, os deuses paupérrimos de Diomedes haviam-lhes
sorrido. Não podia durar muito mais tempo.
Ele acompanhou a primeira onda de Lannacha, que voara
para abrir uma cabeça de ponte na jangada. Saltou do bloco
de gelo, quando o mesmo bateu e parou, agarrou-se a uma
madeira grossa, escalou aquilo de qualquer maneira.
Chegado ao alto e empunhando a machadinha e escudo,
encontrou-se em uma fileira de guerreiros. A fumaça dos
incêndios em outra parte ardia-lhe nos olhos; apenas de
modo indistinto viu os Drak'honai a se defenderem,
formando fileiras à frente e nos conveses superiores.
De repente, pareceu-lhe que redobravam os gritos e o
tumulto por cima.
Um dedo gordo o cutucou. Ele se voltou, lá estava a
expressão porcina de van Rijn.
— Puxa vida! Que subida foi essa! Era melhor eu ter ficado,
nie? Bem, garoto, estamos por conta própria, agora. Tolk
acabou de me avisar que toda a Força Expedicionária
Drak'ho está à vista, e vem para cá bem depressinha.
Ele ergueu a arma, os corpos esguios e alados em volta
eriçaram-se, assobiaram e deslizaram à frente.
Em sua maioria, eram guerreiros vindos da tentativa sobre
Mannenach; cada navio de gelo transportava bom número,
que havia aprendido os rudimentos da luta no chão. E por
toda a viagem rumo ao sul, a fim de encontrar a Frota, van
Rijn e os capitães Lannacha os haviam exortado:
— Não se reúnam às nossas forças aéreas. Fiquem no
convés, quando abordarmos uma jangada. Todo o plano que
temos depende de quantas jangadas pudermos tomar ou
destruir. Trolwen e seus esquadrões aéreos estarão lá apenas
para darem apoio a vocês.
As idéias entravam com relutância em qualquer cérebro
Diomedano. Wace não tinha a mínima certeza de que ela
não desapareceria, ali, em questão de uma hora, deixando-o
a ele e a van Rijn abandonados em madeiras hostis,
enquanto seus camaradas se erguiam para uma luta celeste
sem sentido. Mas não lhe cabia qualquer escolha, senão
confiar neles.
Prorrompeu em corrida, o grito que seus seguidores
emitiram quase lhe fazia estourar os tímpanos.
As asas batiam à sua frente. De modo instintivo, as linhas de
Drak'ho se rompiam. Ao correr de eras geológicas, a única
atitude lúcida para um Diomedano era ficar por cima do
atacante. Wace irrompeu onde eles haviam estado.
Os inimigos marinheiros se inclinavam para ver aqueles
adversários curiosos, que não voavam. Um Lannacha
esqueceu-se de onde estava, bateu asas, foi alcançado por
três corpos meteóricos. Caiu como um fantoche
desengonçado no mar. Os Drak'honai se lançaram para
baixo.
E encontraram lanças, que surgiam como uma cerca. Os
soldados terrestres de Lannach haviam recolhido os escudos
de vime, na última retirada, e estavam agora transformados
em tartarugas artificiais. Os demais defendiam-se do ataque
aéreo, os arqueiros se preparavam.
Wace ouviu o assobio sinistro erguer-se atrás de si, e notou
que cinqüenta Drak'honai tombavam.
Foi quando um dragão rugiu em seu rosto, atacando com um
ancinho com dentes afiados. Wace aparou o golpe no
escudo. Fez estremecer o braço esquerdo, entorpecendo os
músculos. Desferiu um pontapé com a bota pesada, acertou
no estômago duro, viu que o alento deixava o Drak'ho. A
machadinha ergueu-se e caiu, com o som abafado de corte.
O Diomedano conseguiu safar-se, passando a mão na asa
partida.
Wace prosseguiu, à toda. No ar, os Drak'honai rodopiavam
por cima, fora do alcance das flechas. Seu objetivo era
capturar a artilharia da jangada.
Alguém lá em cima devia ter percebido o plano. Seu grito de
falcão, seu mergulho idêntico, tiveram fim com uma flecha
Lannacha, mas logo uma linha organizada se destacou da
massa de Drak'honai, mergulhou para o convés do castelo
dianteiro e se colocou diante da bateria principal de lança-
chamas e balestras.
— Então! trovejou van Rijn. — Eles fazer brinquedinhos,
afinal. Nós cuidar disso!
Prorrompeu em trote elefantino, rodopiando o grande
macete sobre a cabeça. Uma pedra pequena bateu-lhe no
abdômen protegido pelo couro, uma flecha passou raspando
por uma das faces, dardos de zarabatana batiam na couraça
dupla. Dois guardas alados lhe deram um empurrão, para que
subisse à antepara sem escadas do castelo dianteiro. E logo
estava lá, em meio dos defensores.
— Je maintiendrai! — berrava, e aplastrou a cabeça do
Drak'ho mais próximo. — God send me right! - berrava,
acertando o cabo de um ancinho que o perseguia. — Fram,
firam, Kristmenn, Krossmonn, Kongsmenn — berrava,
acertando as costelas de três guerreiros que se tinham
aproximado. — Heineken's Bier!
— trombeteava, voltando-se para a luta com uma forma
alada que se prendia às suas costas, e para lhe torcer o
pescoço.
Wace e os Lannachska foram ter com ele. Seguiu-se um
intervalo de marteladas e lanças, os sopapos enormes,
capazes de quebrar osso, dados com cauda e asas. Os
Drak'honai cederam. Van Rijn saltou para o lança-chamas,
bombeou.
— Mirar a mangueira! — berrava, ofegante. — Tirar todos
eles daqui, seus cabeças de morcego!
Um Lannacha deliciado apoderou-se do bico de cerâmica,
apertou o pistão de ignição, feito de madeira rija, e espirrou
óleo em chamas para cima.
Nos conveses inferiores, as balestras começavam a bater,
catapultas cantavam e outros lança-chamas estendiam as
línguas ardentes. Um grupo vindo do navio de gelo
remontou uma das metralhadoras de madeira, despejando
dardos, enquanto os Drakho empreendiam seu último
contra-ataque.
Uma forma feminina veio, correndo, do castelo dianteiro.
— São nossos maridos que eles matam! — berrava. —
Destruam-nos!
Van Rijn saltou do convés superior, em tombo de três
metros. As pranchas, por baixo, gemeram e estron-dearam
quando as alcançou. Arquejante, sacudindo os braços, pôs-se
à frente da criatura frenética.
— Para trás! — berrou-lhe, em sua própria língua. — Para
dentro! Chô! Dar o fora! Querer deixar os filhotes sem
proteção? Eu devorar Drak'honais novinhos! Com molho de
cebola!
Ela gritou, afobou-se na carreira de volta ao abrigo. Wace
teve um arquejo. A pele estava encharcada de suor. O perigo
não fora muito grande. Em teoria, talvez, uma multidão de
mulheres poderia ter sido massacrada, aos olhos dos filhotes,
mas quem poderia chegar a esse ponto? Não seria Eric
Wace, com certeza. Era melhor desistir, aceitar que uma
lança lhe trespassasse o corpo, como autêntico cavalheiro.
Compreendeu, então, que haviam tomado a jangada.
A fumaça continuava espessa no ar, e não lhe possibilitava
ver muito bem o que se passava alhures. De vez em quando,
em meio a uma brecha na fumaça, surgia alguma visão, uma
jangada posta inteiramente no fogo, abandonada; um navio
de gelo rachado, sem mastro, varrido de flechas, e que ainda
se movia vagarosamente; outra embarcação Lannacha
encostada a uma jangada, outra turma de abordagem; a
bandeira de um clã Lannacha desfraldada no triunfo
repentino, no mastro inimigo. Wace não fazia idéia de como
marchava a luta no mar, em seu conjunto, quantas naves de
gelo haviam sido limpas, abandonadas pelas tripulações
desanimadas, tomadas pelo contra-ataque Drak'ho, deixadas
a vagar sem qualquer uso, distantes do inimigo.
Tornara-se perfeitamente claro — pensava — van Rijn o
dissera com clareza suficiente a Trolwen e ao Conselho —
que a marinha Lannacha menor, menos equipada,
virtualmente sem preparo, não teria qualquer espécie de
possibilidade de derrotar a Frota de madeira decisiva. A fase
crucial dessa batalha não teria a ver com pedras ou chamas.
Ergueu o olhar. Além das vergas e cabos, onde a neblina não
alcançava, o céu se mostrava inacreditavelmente fresco. As
formações de guerra, movimentando-se de um a outro lado,
estavam tão acima dele que se pareciam a andorinhas.
Só após alguns minutos é que a visão pode abarcar o quadro.
Com a maioria de suas forças embaixo, no meio das jangadas,
Trolwen estava ridiculamente inferiorizado em número no
ar, assim que Delp chegara. Por outro lado, a gente de Delp
estivera voando por horas seguidas, e fim de chegar ali;
individualmente, não podiam competir com os Lannachska,
bem repousados. Compreendendo isso, cada comandante
usava sua vantagem particular: Delp ordenara ataques em
massa cerrada; Trolwen utilizava pequenos esquadrões que
entravam, atacavam feito lobos e retiravam-se novamente.
Os Lannachska retiravam-se por todo o tempo, a não ser
quando Delp tentou enviar um grande número de guerreiros
para aliviar as jangadas. Foi quando toda a força aérea,
soberbamente integrada e à disposição de Trolwen atacou
essa massa. Ela se dispersava, quando Delp trouxe reforços,
mas alcançara o objetivo, o de romper a formação e impedir
o movimento rumo ao mar.
Assim a coisa transcorreu, por período infinito, ao vento,
sob o sol do Verão Pleno. Wace perdeu conta de si próprio,
fitando a beleza terrível da morte alada e disciplinada. A voz
de van Rijn o trouxe de volta, com relutância, à humanidade
que não tinha sorte, porque não sabia voar com asas
próprias.
— Acorda! Você está sonhando, talvez, em pé aí, os dentes
para fora, batendo asas na brisa! Relâmpagos e Lúcifer! Se a
gente quer ficar com essa jangada, tem de dar alguma
utilidade a ela, com os diabos! Você governa a bateria aqui e
eu falo com o timoneiro o que fazer. Então! — e ele partiu
bufando, parecido a uma antiga locomotiva a vapor em peso,
ruído e fuligem.
Haviam repelido todas as tentativas de recaptura, até que a
tripulação expulsa engrossasse, cheia de fúria, as legiões de
Delp, Agora, manejando desajeitadamente as velas enormes,
ou indo sob protestos para baixo, a turma de van Rijn pôs
sua nova embarcação em movimento. Ela gemeu, abrindo
caminho por esteira fumacenta de água, até que uma nave
Drak'ho se apresentasse à frente. E então, com os lados
soltos, as flechas partiram como granizo, uma tripulação se
engalfinhou com outra, no ar agitado entre as jangadas
estrale jantes.
Wace ficou onde estava, no convés dianteiro, dirigindo o
fogo das armas de lado. Pedras, flechas, bombas, torrentes de
óleo, lançavam-se por alguns metros, fazendo derramar
fragmentos e madeira queimada quando batiam. Em certo
momento, organizou uma brigada de baldes para apagar o
incêndio desencadeado por projétil inimigo. Viu, depois,
uma de suas catapultas novas, e os encarregados da mesma,
esmagados por rocha de duas toneladas e obrigou os
sobreviventes a porem a pedra no mar, mediante alavancas,
voltando à luta. Viu como as velas se tornavam farrapos, as
vergas se dobravam, os corpos se amontoavam em ambas as
naves, após cada um dos encontros. E ficou imaginando, em
parte remota do cérebro, por que motivo a vida não tinha
mais sentido, em qualquer parte do universo conhecido,
senão o de estar para sempre a se retalhar.
Van Rijn não era possuidor do dom de vencer pelo
bombardeio, como um Nelson neolítico. Tampouco queria
experimentar a abordagem em outra embarcação inimiga;
era tudo quanto sua pequena força de novatos podia fazer,
tripular e lutar naquela. Mas continuava obstinadamente ali,
obrigando o timoneiro a manter o rumo de colisão, indo
pessoalmente para o convés inferior a fim de manter os
Lannachska esgotados a manejarem os remos pesados. E sua
jangada abriu caminho em meio à tempestade de fogo,
pedras, a tempestade de corpos vivos, até estar quase em
cima da nave inimiga.
Quando buzinas soaram em meio aos Drak'honais seus
remos bateram na água e eles largaram o lugar na formação
da Frota, para se livrarem.
Van Rijn deixou que se fossem, desaparecendo nos mastros
nublados e na cordoalha que se estendia por quilômetros em
volta. Cambaleou até o postigo mais próximo, desceu,
passando pelas cabines no convés da popa, saindo assim no
convés principal. Esfregando as mãos, ria alto.
— Aha! Nós demos um sustinho neles, hem? O que diz?
Aquele não volta para perto de nossos barcos tão cedo, ele!
— Não compreendo, Conselheiro — disse Angrek, com
respeito imenso. — Tínhamos tripulação menor, com muito
menos habilidade. Ele devia ter ficado ali, ou vindo sobre
nós. Podia ter-nos varrido, se não abandonássemos por
completo este navio.
— Ah! — exclamou van Rijn, balançando o dedo que se
parecia a uma salsinha. — Mas a questão, meu jovem e
inocente amigo, ser que ele estar levando mulheres e
filhotes, bem como muitas ferramentas e coisas de valor. Ele
ter toda a vida dele naquela jangada. Não se arriscar a
destruir a jangada; a gente poder pôr fogo nela, mesmo se
não capturar. Aha, ser manhã gelada no inferno, quando eles
saber pensar melhor do que Nicholas van Rijn, com os
diabos!
— Mulheres... — e nos olhos de Angrek, uma luz de
desejo se acendia, voltando-se para o castelo dianteiro. —
Afinal de contas — murmurou —, não é como se fossem
nossas mulheres. ..
Cerca de vinte Lannachska, ou mais, já vinham naquela
mesma direção, de modo que parecia casual, mas as asas
estavam rígidas, as caudas sacudiam. Dava para observar o
número maior, dos remadores de pouco antes naquele
grupo, do que qualquer outra classe.
Wace veio correndo para a beira do castelo dianteiro.
Inclinou-se sobre ele, fez concha com as mãos e gritou:
— Libero van Rijn! Olhe para cima!
— Então — e o mercador ergueu os olhinhos-pequenos e
papudos e piscou, espirrou, assoou o nariz embolotado. Um
por um, os Lannachska descansando nos conveses batidos e
ensangüentados ergueram o olhar para cima. E todos
pararam.
Lá em cima, a luta terminava.
Delp finalmente reunira as forças em uma só massa
irresistível, e as levara para baixo, como unidade, ao nível do
mar. Ali, haviam-se juntado às tripulações das jangadas em
batalha — uma jangada por vez. Um grupo de abordagem
Lannachska, que se via assim inferiorizado em número de
modo repentino e vasto, nada tinha a fazer senão fugir,
abandonar o próprio navio de gelo, subir e juntar-se a
Trolwen.
Os Drak'honai fizeram apenas uma tentativa para recapturar
uma jangada que se encontrava inteiramente em posse dos
Lannacha. A tentativa custou-lhes muito. Continuava em pé
a afirmação clássica de que forças puramente aéreas eram
relativamente impotentes, contra uma unidade bem
defendida da Frota.
Tendo determinado desse modo decisivo, com exatidão,
quem era dono de cada jangada, Delp reorganizou e
encabeçou uma parte avantajada da tropa no ar, para
empenhar-se novamente com os esquadrões aéreos
aumentados de Trolwen. Se pudesse dissolvê-los, então,
tendo em vista as naves que continuavam com os Drak'ho, e
obtendo também o domínio completo do céu, Delp
reconquistaria as jangadas perdidas.
Mas Trolwen não se afastou com tanta facilidade, e embora
as lutas navais como a que van Rijn estivera fazendo
prosseguissem lá embaixo, um combate ferrenho se travava
em meio às nuvens. Ambas as lutas não chegavam a uma
decisão.
Era esse o quadro geral dos acontecimentos, como Tolk os
narrou aos seres humanos, cerca de uma hora mais tarde.
Tudo que podia ser visto da água era que os exércitos
celestes se separavam. Pairavam, rodopiavam, muitíssimo
alto, duas massas misturadas de pontos negros contra nuvens
tingidas de vermelho. Sem dúvida as ameaças, maldições e
jactâncias eram trocadas no vento entre eles, mas não havia
mais flechas.
— O que é? — e Angrek arquejava. — O que está
acontecendo lá em cima?
— Uma trégua, ser claro — explicou van Rijn, que limpava
os dentes com a unha do dedo, batia no abdômen satisfeito.
— Eles não conseguir resultado, de modo que Tolk
finalmente mandar alguém a Delp, dizendo que ser melhor
conversar, e Delp concordar.
— Mas... não podemos... não se pode negociar com um
Draka! Ele não é um... ele é outro tipo de gente!
Um rosnado de abominação, a pele arrepiada, percorreu os
grupos cansados de Lannachska.
— Não se pode raciocinar com um animal selvagem e
imundo como aquele — insistiu Angrek. — Só se pode
matá-lo. Ou ele nos matará!
Van Rijn piscou o olho para Wace, que estava no convés
acima e disse, em ânglico:
— Achei que talvez pudéssemos dizer a eles, agora, que essa
trégua é o único objetivo de toda a luta, mas talvez ainda não
seja a hora, nie?
— Será que nós teremos a coragem de reconhecê-lo? —
contrapôs o jovem.
— Temos que reconhecer, hoje mesmo, e contar que eles
não nos empalhem vivos, com pimenta, pelo que dissermos.
Afinal de contas, nós fizemos Trolwen e o conselho
concordarem. Mas eles são criaturas muito teimosas, aqueles
lá — afirmou van Rijn, dando de ombros. — Agora vem a
falação. Até aqui, a coisa foi mole. Chegou a hora de fritar a
alma dos homens. Ah! Você tem coragem de assistir a tudo?
Aproximadamente um décimo das jangadas saía devagar da
confusão geral, reunia-se a alguns quilômetros de distância.
Ali foram ter os navios de gelo que ainda continuavam
funcionando. Os conveses de todos estavam lotados de
guerreiros cheios de tensão, à espera. Eram as naves de
Lannach.
Outro décimo, mais ou menos, ardia, ou fora destruído e
batido por pedra e fogo, até se desfazer sobre as ondas
suaves de Achan. Eram os destroços, abandonados por
ambas as nações. Entre eles encontravam-se muitas canoas,
partidas, rachadas, incendiadas ou tripuladas apenas por
Drak'honai mortos.
O restante formou uma massa em torno do castelo do
Almirante. Não era um grupo de jangadas e canoas
inteiramente tripulados e equipados. Tripulação alguma
escapara de sofrer baixas e bom número de naves sofrera
tanto que chegara à inutilidade. Se a Frota conseguisse, de
volta, metade de sua força naval de luta, estaria com sorte.
Mesmo assim, isso seria quase três vezes mais unidades do
que os Lannachska retinham, no total. Os números de
guerreiros em ambos os lados eram aproximadamente iguais,
mas dispondo de mais espaço para a carga, os Drakhonai
dispunham de mais munição. E suas naves, além disso, eram
superiores, mais bem construídas do que os navios de gelo,
mais bem tripuladas do que uma jangada capturada.
Em suma, Drak'ho continuava com a força maior. Ao ajudar
van Rijn a descer para uma canoa capturada, Tolk disse,
secamente:
— Eu continuaria com a armadura, se estivesse em seu lugar,
Terreno. Você vai ter de vestir tudo aquilo, quando a trégua
terminar.
— Ah — e o mercador espreguiçou-se de modo
monstruoso, soltou a barriga, acomodou-se em um banco.
— Mas nós supor que o armistício não acabar. Nesse caso,
eu usar aquele espartilho de seiscentos diabos por nada. E
isso ser pior do que um dardo do meu umbigo, São Dismas
servir de testemunha!
— Observo — aduziu Wace — que nem você, nem
Trolwen, estão de couraça.
O Comandante alisou o pelo de mogno com a mão nervosa.
— Isto é pela dignidade da Revoada — murmurou. —
Aqueles comedores de lama não vão pensar que tenho
medo.
A canoa partiu, a tripulação esforçando-se nos remos. Seguiu
com rapidez por cima de águas enrugadas e escuras. Por
cima deles, seguia o resto da guarda Lannacha, conforme o
acordo, ostentando sua melhor forma de vôo de desfile, para
a edificação do inimigo. Havia cerca de cem, ao todo. Era
número incomodamente pequeno, para levar à Frota
enraivecida.
— Não espero alcançar acordo algum — afiançou Trolwen.
— Ninguém pode... com gente tão estranha quanto eles.
— As gente da Frota ser iguaizinhas a vocês — disse van
Rijn. — Vocês precisar de mais fraternidade, com os diabos.
Você dever amassar cabeças deles, sem esse preconceito de
raça. . .
— Exatamente como nós? — e Trolwen se eriçava, os olhos
de tornavam vítreos, amarelados. — Olhe aqui, Terreno...
— Deixar para lá — atalhou van Rijn — Eles, então, não ter
uma estação de cria. Você achar que isso ser uma grande
coisa. Muito bem. Eu ter uns pensamentos por conta
própria. Calar a boca.
O vento levantava onda, fazia zunir as cordas. O sol lançava
raios compridos, cor de cobre, por nuvens que se
apressavam, parecendo caminhar no mar, deixando pegadas
fortes. O ar estava fresco, úmido, cheirando um pouco a
marecia. Não seria uma hora fácil para morrer — pensava
Wace. O mais difícil de tudo, entretanto, era esquecer
Sandra, que ficara sobre os penhascos gelados de Dawrnach.
Peça por minha alma, amada, enquanto espera para me acompanhar.
Peça por minha alma.
— Deixando de lado os sentimentos pessoais — observou
Tolk —, há grande peso nas observações do Comandante.
Isto é, um povo que leva vida tão diferente da nossa quanto
os Drakska terá pensamentos também diferentes. Não vou
dizer que acompanho os pensamentos de você, Terra'ska.
Considero vocês meus amigos, mas vamos reconhecer,
temos pouquíssimo em comum. Só confio em vocês, porque
a razão imediata que os move. .. a sobrevivência... foi
tornada tão clara a meus olhos. Quando não acompanho
todo o seu raciocínio, dá para supor, com segurança, que,
pelo menos, é bem intencionado.
Ele prosseguia:
— Mas os Drakska... como se pode confiar neles? Digamos
que seja feito um acordo de paz. Como vamos saber se eles o
manterão? Podem não ter qualquer conceito de honra, em
absoluto, assim como lhes falta qualquer conceito de
decência sexual. Ou, ainda que pretendam respeitar o
juramento, teremos certeza de que as palavras do tratado
significarão a mesma coisa para eles, como para nós? Em
minha capacidade de Arauto, vi muitas incompreensões
semânticas entre tribos de línguas diferentes. Que dizer,
então, de tribos com instintos diferentes?
Nova pausa, ele prosseguiu:
— Ou, estou pensando... podemos, sequer, confiar em que
nós mesmos mantenhamos o penhor? Não odiamos alguém
apenas por ter lutado contra nós. Mas odiamos a desonra, a
perversão, a imundície. Como podemos viver com nós
mesmos, se fizermos paz com criaturas a quem os deuses
devem detestar?
Suspirou, olhou para as jangadas que se aproximavam, o ar
sombrio.
Wace deu de ombros.
— Já ocorreu a você que eles estão pensando coisas muito
parecidas, a seu respeito? — retorquiu.
— Claro que estou — concordou Tolk. — É mais uma
dificuldade no caminho das negociações.
Pessoalmente, pensava Wace, ficaria satisfeito com um acordo
temporário... Que eles acertem suas diferenças o tempo bastante
para que a mensagem chegue ao Pouso de Quinta-Feira. Depois,
podem cortar-se mutuamente as goelas, no que me diz respeito.
Olhou em volta, via aquelas formas esguias e aladas, pensou
no trabalho, na guerra, na tortura e no triunfo; sim e de vez
em quando alguma gargalhada ou fragmento de canção se
fazia ouvir. Pensou em Trolwen, criatura cheia de vida e
ânimo, no filosófico Tolk, no jovem Angrek; pensou em
Delp, criatura corajosa e com bondade, e sua esposa
Rodonis, que era muito mais uma dama do que muitas
mulheres humanas que ele conhecera. E pensou nos
pequenos filhotes peludos, que rolavam na poeira ou subiam
a seu colo. Não, disse a si próprio, estou errado. Para mim, afinal
de contas, tem grande importância que esta guerra termine de modo
permanente.
A canoa deslizou, entre muralhas enormes de jangadas.
Faces de Drak'ho a fitavam, a expressão pétrea. De vez em
quando, alguém cuspia na esteira da canoa. Estavam todos
muito calados.
O amontoado pesadão do capitanea se apresentava à frente,
crescia. Havia estandartes e bandeiras nos mastros, uma
guarda em uniforme de gala formava círculo em torno do
convés principal. Pouco antes do castelo de madeira,
estendido em peles e almofadas, o Almirante T'heonax e seu
conselho de assessores aguardavam. A um lado achava-se o
Capitão Delp, com alguns guardas pessoais, em equipamento
de guerra, suado e desalinhado ainda.
Reinava silêncio total sobre eles, enquanto a canoa parava e
era amarrada a um cabeço. Trolwen, Tolk e a maioria dos
guerreiros Lannacha voaram diretamente para o convés.
Minutos depois, após muito empurrão, resfolegar e pragas, é
que os seres humanos chegaram àquela elevação
montanhosa.
Van Rijn relanceou o olhar em volta, parecendo furioso.
— Que hospitalidade! — exclamou, na língua dos Drak'ho.
— Não mandar nem uma cordinha para mim, que ter de
tocar os ossos velhos e cansados para uma sepultura, por
culpa de vocês. Perante o Céu, isto ser duro! Ser muito duro!
Às vezes eu pensar em desistir de tudo e sair. Nesse caso,
onde ficar a Galáxia? E então, vocês todos ficar com pena,
quando ser tarde demais.
T'heonax dedicou-lhe olhar sardônico.
— Você não foi o hóspede de melhor comportamento que
a Frota já teve, terreno — respondeu. — Tenho muita coisa
a acertar, em seu caso. Sim, não esqueci.
Van Rijn resfolegou, seguindo pelas pranchas até Delp,
estendendo-lhe a mão.
— Nossos agentes de informações, então, estar certos, ser
você fazendo tudo aquilo — disse, em voz bem alta. — Eu
ter certeza. Ninguém mais nessa Frota ter tanto miolo. Eu,
Nicholas van Rijn, cumprimentar você, com saudações.
Theonax enrijecia o corpo e seus conselheiros, rígidos em
tranças e faixas coloridas pelo corpo, pareceram
devidamente chocados pelo modo como o recém--chegado
ignorava a presença do Almirante. Delp recuou por um
instante, depois aceitou a mão de van Rijn e a apertou, de
modo inteiramente terrestre.
— Que a Estrela Polar me ajude, acho formidável rever seu
rosto gordo e feio — declarou. — Sabe que andou muito
perto de me custar. .. tudo? Não fosse por minha senhora...
— Negócios e amizade não misturar — declarou van Rijn,
sem se dar por achado. — Ah, sim, Vrouw Rodonis. Como
estar ela, como estar os pequeninos? Ainda lembrar do
Velho Tio Nicholas e das estórias para dormir que ele
contar, como aquela do...
— Se fizer o favor — disse Theonax, a voz forçada —, nós
prosseguiremos, com sua permissão. Quem servirá de
intérprete? Sim, lembro-me agora de você, Arauto.
E dedicou a Tolk um olhar dos piores.
— Preste atenção, portanto — prosseguiu. — Diga a seu
chefe que este encontro foi providenciado por meu oficial
de campo, Delp hyr Orikan, sem que enviasse um
mensageiro para me consultar. Eu não aceitaria, se tivesse
sabido. Não foi prudente, nem necessário. Mandarei limpar
esses conveses, onde bárbaros puseram os pés. No entanto,
como a Frota está presa, por sua honra.. . vocês têm uma
palavra, em sua língua, não?... ouvirei o que seu chefe tem a
dizer.
Tolk assentiu brevemente e traduziu para o Lan-nachamael.
Trolwen permaneceu sentado, os olhos acendendo-se. Seus
guardas resmungaram, as mãos apertaram mais as armas.
Delp esfregou os pés, insatisfeito, e alguns dos Capitães de
Theonax desviaram o olhar, embaraçados.
— Diga a ele — principiou Trolwen, após momentos, com
precisão cheia de amargura —, que deixaremos a Frota partir
de Achan, imediatamente. Está claro que queremos reféns.
Tolk traduziu. Theonax ergueu os lábios, exibiu os dentes,
riu.
— Eles vêm sentar aqui, com esse punhado miserável de
jangadas, para dizer-nos isso? — e seus cortesãos emitiram
um eco sem grande vigor.
Os conselheiros, todavia, que chefiavam a flotilha,
continuavam sérios. Foi Delp quem deu um passo à frente e
declarou:
— O Almirante sabe que tive minha parte nesta guerra.
Com estas mãos, asas, cauda, matei guerreiros inimigos; com
estes dentes, tirei sangue inimigo. Mesmo assim, digo agora,
é melhor que, ao menos, os escutemos.
— O quê? — e Theonax arregalou os olhos. — Espero que
esteja brincando.
Van Rijn adiantou-se.
— Não ter tempo para baboseiras — declarou, a voz
possante. — Vocês escutar, e eu falar em palavras
simplinhas, até um filhote com dois anos poder explicar
depois a vocês. Nós pegamos vocês da Frota no lugar mais
sensível, e se não ficar muito bonzinhos, nós começar a
apertar, com os diabos. Olhar só para lá! — e seu braço
acenava amplamente para o mar. — Nós ter jangadas. Não
ser muitas, talvez, mas o bastante. Vocês chagar a
entendimento com a gente, ou a gente continuar a luta.
Logo ser vocês que não ficar com jangadas bastante. Pois é!
Botar isso no cachimbo e fumar!
Wace assentiu. Ótimo. Ótimo, sem dúvida. Por que motivo
aquela jangada dos Drak'ho fugira da unidade que ele
tomara, pilotada por marinheiros de água doce? Estava
pronta a trocar tiros à distância, ou a que os marujos se
agarrassem no ar. Mas não queria ser abordada, destruída ou
incendiada pelos demônios desesperados de Lannach.
Por que era um lar, uma fortaleza, um meio de subsistência
— o único meio de vida conhecido por aquela cultura. Se
um número suficiente de jangadas fosse destruído, não
haveria pesca bastante, nem capacidade para guardar peixes,
nem mesmo lugares para pousar, para manter vivas aquelas
criaturas. A coisa era simples.
— Nós os afundaremos! — gritou T'heonax, pondo-se em
pé, batendo as asas, a crista alta, a cauda erguida como se
fosse uma barra de ferro. — Afundaremos todos vocês!
— Ser possível — concordou van Rijn. — Achar que isso
fazer medo em nós? Se a gente desistir agora, estar liquidado
de qualquer jeito. Por isso, levar vocês para o inferno, junto,
para engraxar os sapatos e apanhar bebidas frescas na
geladeira, nie?
Delp disse, e seu olhar espelhava a preocupação interna:
— Não viemos a Achan trazidos pelo amor à destruição,
mas porque a fome nos arrastou. Foram vocês que nos
negaram o direito de apanhar peixes que vocês próprios
nunca apanhavam. Oh, sim, tomamos também um pouco de
sua terra, mas precisamos de água. Não podemos desistir
dela.
Van Rijn deu de ombros.
— Existir outros mares. Talvez nós deixar vocês lançar mais
algumas redes de peixe, antes de ir embora, embora.
Um capitão da Frota disse, com palavras vagarosas:
— Meu senhor Delp tocou no ponto crítico da questão. E
daí surge uma solução. Afinal de contas, o Mar de Achan
tem valor pequeno ou nenhum pára vocês, Lannach'honai.
Nós queríamos, é claro, guarnecer suas costas e ocupar
algumas ilhas, que são fontes de madeira, pedra e coisas
assim. E, de modo natural, queríamos um porto próprio na
Baía de Sagna, para emergências e consertos. São questões
de defesa e autosuficiência, e não de sobrevivência imediata,
como a água. Assim sendo, talvez...
— Não! — gritou Theonax.
Fora quase um berro e, diante dele, o choque os fez
silenciar. O Almirante acocorou-se, ofegando por
momentos, e depois rosnou para Tolk:
— Diga a seu chefe... eu, autoridade suprema... recuso. Digo
que podemos esmagar essa imitação de marinha, de vocês,
com pequena perda para nosso lado. Não temos motivo para
ceder coisa alguma a vocês. Podemos deixar que fiquem
com as terras altas de Lannach. É a maior concessão com
que podem contar.
— Impossível! — cuspiu o Arauto e depois traduziu
rapidamente para Trolwen, que arqueou as costas e mordeu
o ar.
— As montanhas não nos sustentam — explicou Tolk com
mais calma. — Nós já comemos tudo que havia por lá, e isso
não é segredo. Precisamos das terras baixas. E que é certo
que não vamos deixar que ocupem qualquer terra, seja qual
for, para basear ali um ataque contra nós, um ano depois.
— Se pensa que pode tirar-nos do mar agora, sem uma perda
que também o deixará aleijado, pode tentar
— aduziu Wace.
— Eu digo que podemos! — berrava T'heonax.
— E o faremos!
— Meu senhor... — Delp interveio, hesitante. Fechou os
olhos por um segundo. Em seguida, falou de modo
inteiramente desapaixonado: — Meu senhor
Almirante, uma luta até o fim, agora, deverá acarretar o fim
de nossa nação. As poucas jangadas que sobreviveram
seriam presa dos primeiros ilhéus bárbaros que passassem
por perto.
— E uma retirada para O Oceano com certeza acabaria
conosco — retorquiu Theonax, o dedo enristado. — A
menos que você saiba conjurar o trech e as frutas para fora
de Achan, para as águas abertas.
— É verdade, naturalmente, meu senhor — concordou
Delp.
Voltou-se, então, procurando o olhar de Trolwen. Eles se
fitaram com firmeza e respeito.
— Arauto — disse Delp — diga o seguinte a seu chefe: nós
não vamos deixar o Mar de Achan. Não podemos sair. Se
insistir em que saiamos, lutaremos e contamos destruí-los,.
sem que percamos muito. Não temos escolha, nesta questão.
Leve pausa, e ele prosseguia:
— Mas acho que talvez possamos desistir de qualquer
ocupação de Lanach ou Holmenach. Vocês podem ficar
com toda a terra firme. Nós podemos trocar nosso peixe, sal,
produtos do mar, artesanato, por sua carne, pedra, madeira,
tecido e óleo. Com o tempo, seria um intercâmbio
proveitoso para ambos os lados.
— E por falar no assunto — interveio van Rijn. — Vocês
poder também pensar numa coisa: se Drak'ho não ter terra e
Lannach não ter navios, ficar um pouco difícil para um fazer
guerra contra outro, nie? Depois de alguns anos,
comerciando e enriquecendo um ao outro, vocês ficar tão
dependentes mútuos que a guerra passar a ser impossível.
Por isso, se concordar agora, logo os problemas acabar, e
então vem Nicholas van Rijn, com mercadorias da Terra
para todos. Como Papai Natal, meus preços ser muito
razoáveis, não?
— Cale-se! — gritou Theonax.
Ele agarrou o chefe dos guardas pela asa, e apontou para
Delp.
— Prenda aquele traidor!
— Meu senhor... — e Delp recuava. O guarda hesitou. Os
guerreiros de Delp cerraram fileiras em volta do capitão,
com atitude ameaçadora. Dos conveses inferiores, que
ouviam, veio um gemido.
— Que me ouça a Estrela Polar — gaguejou Delp. — Eu
apenas sugeri... eu sei que o Almirante tem a palavra final...
— E minha palavra é "não" — declarou Theonax,
abandonando tacitamente a questão de prisão do
subordinado. — Como Almirante e Oráculo, eu o proíbo.
Não existe acordo possível entre a Frota e estes... vis...
esses animais imundos, sujos... — e ele babava, as mãos
tornavam-se garras, postas acima da cabeça.
Um rugido e murmúrio percorreu as fileiras dos Drak'honai.
Os capitães pareciam-se a leopardos alados, ainda cobertos
de dignidade, mas em seu olhar transparecia o terror. Os
Lannachska, ignorando as palavras pronunciadas, mas
sensíveis aos tons em que tinham sido ditas, juntaram-se e
agarraram com mais força as armas que haviam trazido.
Tolk traduziu rapidamente, em voz baixa. Tendo terminado,
Trolwen suspirou.
— Detesto reconhecer — disse —, mas se você inverter as
palavras desse marswa, são verdadeiras. Acha realmente, e
pensa a sério que duas raças tão diferentes quanto as nossas
poderiam viver lado a lado? Seria tentador demais, romper o
empenho. Eles poderiam devastar nossa terra, quando
partíssemos em migração, retomar todas as nossas cidades...
ou poderíamos vir do norte mais uma vez, com aliados
bárbaros, comprados com a promessa do saque dos Drak'ho.
Estaríamos na goela do outro, deste ou de outro jeito, em
cinco anos. É melhor resolver tudo agora. Que os deuses
decidam quem tem razão, quem é depravado demais para
continuar vivendo.
Quase cansado, retesou os músculos, para cair lutando, se
Theonax encerrasse o armistício naquele instante.
Van Rijn ergueu as mãos e a voz. Parecia um tambor surdo,
do comprimento, largura e profundidade da jangada-castelo.
E flechas entalhadas foram lentamente repostas nos
carcazes.
— Parar! Esperar um minuto dos infernos, com os diabos.
Eu ainda não acabar de falar.
Assentiu rapidamente na direção de Delp.
— Você ter alguma cabeça, você. Talvez a gente achar
alguns outros com cabeça parecida com o chá bolorento que
meus competidores vender. Eu vou dizer uma coisa agora.
Vou usar a língua Drak'ho. Tolk, você fazer uma tradução
sem parar. Esta, ninguém no planeta saber antes. Eu dizer
que vocês Drak'ho e os Lannach não ser diferente! Ser a
mesma raça estúpida e idêntica!
Wace arquejou.
— O quê? — cochichou, em ânglico. — Mas os ciclos de
reprodução. ..
— Matem aquele verme gordo! — gritou Theonax.
Van Rijn acenou para ele a mão, com impaciência.
— Calar a boca, você. Eu falar, aqui. Pois é! Sentar, ambas as
nações, e escutar Nicholas van Rijn!
A evolução da vida inteligente em Diomedes, ainda é, em
grande parte, questão de conjecturas; não decorreu tempo
suficiente para encontrar fósseis. Na base da biologia
existente e dos princípios gerais, entretanto, é possível
encontrar pelo raciocínio o transcurso dos acontecimentos
milenares.
Em certa época, nas zonas tropicais do planeta, havia um
continente ou ilha de grande dimensão, densamente coberta
de florestas. As regiões equatoriais jamais conhecem os dias
e noites compridos das latitudes elevadas: no equinócio o sol
sobe por seis horas, cruza o céu, e se põe por outras seis; no
solstício, há um crepúsculo, o sol fica pouco acima ou abaixo
do horizonte. Pelos padrões diomedanos, são condições
ideais, sustentando uma abundância de vida. Entre as
espécies, nesta época passada, havia um carnívoro arbóreo
pequeno e de olhos vivos. Como o esquilo voador da Terra,
ele formara uma membrana, graças à qual planava de um
ramo a outro.
O planeta de baixa densidade, entretanto, tem estrutura
incerta. Continentes se erguem e afundam com velocidade
imoral, em questão de apenas centenas de milhares de anos.
As correntes oceânicas e aéreas se vêem
correspondentemente desviadas; e, por causa da grande
inclinação axial e as massas fluidas maiores em jogo, as
correntes diomedanas transportam consideravelmente mais
calor ou frio do que as da Terra. Desse modo, mesmo no
equador, havia transformações climatéricas radicais.
Um período de seca fez escolher as florestas antigas,
transformando-as em bosques disseminados, separados por
grandes pampas ressequidos. O pseudo-esquilo voador
desenvolveu asas verdadeiras, para ir de uma copa à outra.
Mas, sendo animal adaptável, começou também a agir como
animal de rapina contra os novos animais comedores de
grama, que formavam manadas nas planícies. A fim de lidar
com os ungulados, cresceu em dimensão. Nessa altura,
entretanto, precisando de mais alimento para abastecer o
corpo maior, foi forçado a uma variedade de ambientes, as
praias, as montanhas, os pântanos; ainda assim, graças à
mobilidade, continuou a intercruzar-se, em vez de dividir-se
em espécies novas. Um indivíduo isolado podia, destarte,
fazer frente a muitos tipos de terreno, durante a vida, o que
levava a aumentar a necessidade da inteligência.
Nessa altura, por algum motivo desconhecido, a espécie (ou
parte dela — a parte destinada a tornar-se importante) foi
obrigada a sair da terra natal. Possivelmente o diastrofismo
rompeu o continente inicial e pequenas ilhas, que não
sustentavam uma população animal tão grande; ou o
ressecamento pode ter avançado ainda mais. Qualquer que
fosse a causa, as famílias e manadas seguiram vagarosamente
para o norte e sul, no decurso de centenas de gerações.
Ali encontraram territórios novos e caça excelente, mas
também o inverno, ao qual não podiam sobreviver. Quando
a longa escuridão chegou, foram obrigados a regressar às
zonas tropicais, a fim de aguardarem a primavera. Não era a
reação inata e automática das aves migratórias terrestres.
Aqui animal já era inteligente demais para ser máquina de
instintos; seus hábitos eram aprendidos. A seleção natural
brutal dos vôos a cada ano estimulava ainda mais essa
inteligência.
Ora, o preço da inteligência é uma infância muito
prolongada, em proporção à extensão de vida total. Como
não existe qualquer padrão de ações incorporados nos genes
do pensador, cada geração tem de aprender tudo de novo, o
que leva tempo. Dessa maneira, nenhuma espécie pode
tornar-se inteligente, a menos que ela ou seu ambiente
produza, em primeiro lugar, algum mecanismo para manter
juntos os pais, de modo que possam proteger os filhotes,
durante o período prolongado de infância indefesa e
criancice ignorante. O amor materno não basta; a mãe terá
bastante o que fazer, cuidando dos filhotes cuja curiosidade á
suicida, sem ter de cuidar de toda a caça e guarda da alimen-
tação. O pai precisa ajudar. Mas, o que manterá o pai por
perto, uma vez que seu impulso sexual tenha sido satisfeito?
O instinto pode fazê-lo. Algumas aves, por exemplo, usam
ambos os pais para criarem os filhotes. Mas os impulsos
instintivos complexos são incompatíveis com a inteligência.
O pai precisa ter um bom motivo egoísta para ficar, se tiver
miolos bastante para ser egoísta.
No caso do homem, o mecanismo é simples: há sexualidade
permanente. O ser humano nunca está satisfeito em
qualquer época do ano. Com base neste fato, derivou-se a
família e, daí, a possibilidade de imaturidade prolongada e,
graças à mesma, nosso córtice cerebral.
No caso dos Diomedanos, havia a migração. Cada revoada
tinha um caminho prolongado e perigoso a percorrer, todos
os anos. Era melhor ir em companhia, sob alguma forma de
organização. Ao final da jornada, nas zonas tropicais, havia a
entrega da estação de cria; mas logo ocorria a viagem
inevitável, de volta à casa, pois as ilhas equatoriais não
sustentavam muitos visitantes por período extenso.
Desse agrupamento anual primitivo (já que não era
cegamente instintivo, porém o fruto da experiência em um
animal dotado) surgiram associações permanentes e frouxas.
Grupos defensivos tornaram-se grupos cooperativos. Já as
exigências da viagem haviam levado homem e mulher a
especializarem os tipos corpóreos, um para lutar, o outro
para transporte de carga. Assim, fora vantajoso que os sexos
mantivessem sua parceria por todo o ano.
O animal de família permanente (em Diomedes, via de
regra, uma família muito grande, todo um chã matrilinear),
com a gestação prolongada, o extenso período de infância, a
mudança e o desafio constantes do ambiente, a competição
para obter companheiros a cado meio-inverno, com grupos
alienígenas que tinham modos também alienígenas — esse
animal tinha todos os motivos evolutivos para começar a
pensar. Dessa matriz surgiu a língua, surgiram as
ferramentas, o fogo, as nações organizadas e aqueles anseios
inatingíveis e vagos a que chamamos "cultura".
Ora, embora o diomedano não dispusesse de padrão
irrevogável de comportamento inato, tendia por toda parte a
seguir certos modos de vida. Eram os mais fáceis. De
maneira análoga, a humanidade não é impelida pelo instinto
a formalizar e regulamentar suas uniões como casamento,
mas as sociedades humanas de modo quase invariável o
fizeram. É mais reconfortante, para todos os interessados. É
assim que o diomedano migrava rumo ao sul, para repro-
duzir.
Mas não precisava fazê-lo!
Quando existem os ciclos de reprodução, eles são
controlados por algum mecanimo simples e à prova de erros.
Desse modo, para muitas aves na Terra, é o comprimento
crescente do dia, na Primavera, o que leva à união; o
estímulo ótico desencadeia processos hormonais, que
reativam as gônadas adormecidas. Em Diomedes, isso não
funcionaria. O ciclo de luz variava demasiadamente,
conforme a latitude. Mas uma vez que o Diomedano proto-
inteligente ingressara em hábitos migratórios (e, portanto,
tinha de procriar apenas em certa época do ano, para que os
filhotes pudessem sobreviver) a evolução adotou o rumo
óbvio de fazer com que essa própria migração fosse o
elemento governante.
Sendo comumente caçador, com refeições ocasionais de
nozes, frutas ou cereais silvestres, o diomedano exercitava-
se a jatos. A migração requeria esforço prolongado; devia ter
levado centenas ou milhares de gerações para aperfeiçoar, só
os músculos para o vôo, tempo suficiente para aperfeiçoar
também outras adaptações. Assim, esse esforço estimulou
certas glândulas que funcionavam por meio de um sistema
hormonal complexo, para despertar as gônadas. (Uma
exceção era a mulher lactante, cujas mamárias secretavam
um agente inibidor). Durante o grande vôo, a concentração
hormonal de sexo se formava; não havia tempo ou energia
para sua dissipação. Uma vez na zona tropical, descansado e
nutrido, o diomedano aproveitava as oportunidades
perdidas. E o fazia de modo tão completo que a viagem de
regresso não tinha efeito significativo em suas glândulas
esgotadas.
De vez em quando, na terra natal, efemeramente, após
algum esforço invulgar, alguém podia sentir impulsos na
direção do sexo oposto. Aquilo era suprimido, com tanto
rigor quanto o ser humano reprime os impulsos ao incesto, e
por motivo ainda mais prático: o filhote nascido fora da
estação significava a morte durante a migração, para si
próprio e a mãe. Não que o diomedano comum
compreendesse isso abertamente; ele apenas aceitava o tabu,
e fundamentava as religiões e sistemas éticos e neuroses na
mesma. Entretanto, a atração vaga e por todo o ano, que
permanecia, sem dúvida, com relação ao sexo oposto, fora
um motivo insconsciente para a formação inicial dos clãs e
revoadas.
Quando o diomedano migratório encontrava uma tribo que
não observasse sua lei moral mais fundamental, sentia horror
físico.
A Frota dos Drak'ho era uma, em meio a diversas
descobertas pelos comerciantes. Podem ter-se todas ori-
ginado como grupos vivendo perto do equador, não
sofrendo assim a necessidade de viajar; mas esta parte
continua a ser adivinhação. O fato claro é que começaram a
viver mais do mar do que da terra. Ao correr de muitos
séculos, aperfeiçoaram a aparelhagem física das embarcações
e equipamento, até que os mesmos se tornassem todo o seu
meio de subsistência.
Isso proporcionava mais segurança do que a caça, oferecia
também um lar, no qual se podia morar de maneira
contínua. Criava a possibilidade de construir e utilizar
dispositivos complexos, acumulando grandes bibliotecas,
sentando-se e pensando ou debatendo um problema; em
suma, a liberdade de sobrecarregar-se com uma civilização
verdadeira, coisa que nenhum elemento migratório possuía,
a não ser no grau mais limitado. Pelo lado negativo,
significava trabalho pesado, esfalfante, e o predomínio dos
aristocratas.
Tal trabalho mantinha o marinheiro sexualmente
estimulado; mas os abrigos quentes e a comida marítima
guardada haviam tornado sua época de nascer independente
de estações. Desse modo, as nações marinheiras chegaram a
um padrão muito parecido ao humano, de casamento e
criação de filhos: existia até um conceito de amor
romântico.
Aos que migravam e o julgavam depravado, o marinheiro
considerava imundos. Na verdade, nenhuma cultura podia
imaginar como a outra poderia, sequer, ser da mesma
espécie.
E como pode alguém confiar no alienígena total?
— Ser estas bobagens ideológicas o que fazer as guerras de
verdade — asseverou van Rijn. — Mas eu agora tirar a
ideologia, e a gente poder passar amistosamente a tapear um
o outro, nie?
Ele, naturalmente, não apresentara a hipótese com tantos
detalhes. Os filósofos de Lannach tinham idéia vaga da
evolução, mas eram fracos em astronomia; a ciência de
Drak'ho era quase o oposto. Van Rijn se contentara com
palavras simples e repetitivas, esboçando o que devia ser a
única explicação razoável para as diferenças reprodutivas
conhecidas.
Esfregou as mãos, deu uma risada, que foi terminando, até se
extinguir em silêncio retesado.
— Então! Eu não falar só doçuras. Mesmo eu não conseguir
isso, da noite pro dia. Por muitos tempos ainda, vocês pensar
que os outros se comportar de modo nojento. E fazer piadas
pesadas uns sobre os outros. (Eu conhecer algumas muito
boas, que vocês poder adaptar.) Mas vocês saber, pelo
menos, que ser todos da mesma raça. Qualquer um de vocês
poder ser membro da outra nação, nie? Talvez, quando o
tempo passar mais, vocês começar a mudar os modos de
vida. Por que não experimentar um pouquinho, nem? Não,
não, eu ver que a idéia ainda não agrada, não falar mais.
Cruzou os braços e ficou à espera, volumoso, esfarrapado,
peludo e coberto pela sujeira de semanas seguidas. Sobre
pranchas que rangiam, por baixo do sol vermelho e
recebendo o vento do mar, todos aqueles numerosos
guerreiros alados bem como os capitães, estremeciam, aos
pensamentos já ocorridos e aqueles que não tardariam.
Delp manifestou-se afinal, tão devagar e dificultosamente
que não rompeu aquele silêncio pavoroso:
— Sim. Isso faz sentido. Eu acredito. Transcorreu outro
minuto, e ele disse, baixando
a cabeça para T'heonax, que se apresentava pétreamente
rígido:
— Meu senhor, isso modifica a situação. É o que creio. Não
será tanto quanto nós contávamos, porém melhor do que eu
receava. Acho que podemos chegar a um acordo: eles ficam
com toda a terra, e nós com o Mar de Achan. Agora que sei
que eles não são. . . demônios. . . animais, bem, as garantias
normais, os juramentos e a troca de reféns, e tudo o mais,
pode dar solidez bastante ao tratado.
Tolk estivera cochichando no ouvido de Trolwen. O
Comandante de Lannach assentiu.
— É o que penso, em grande parte — declarou.
— Poderemos persuadir o Conselho e os clãs, Chefe da
Revoada? — murmurou Tolk.
— Arauto, se levarmos conosco uma paz honrosa, o
Conselho votará a divinização de nossos fantasmas, após
morrermos.
O olhar de Tolk voltou para T'heonax, que permanecia sem
se mover, entre os cortesãos. E o pelo grisalho eriçou-se, nas
costas do Arauto.
— Antes, vamos regressar vivos ao Conselho, Chefe da
Revoada — observou.
T'heonax ergueu-se. Suas asas batiam no ar, estalos como os
causados por um machado percorriam os ossos. O focinho
enrugou-se, em máscara de leão, as presas compridas
brilhavam, postas à vista, e ele rugia:
— Não! Já ouvi o bastante. Esta farsa acabou!
Trolwen e seus acompanhantes Lannacha não precisavam
de intérprete para compreender aquilo. Agarraram com
firmeza as armas, formaram um círculo defensivo. Suas
mandíbulas fechavam-se de modo eutomá-tico, mordendo o
vento.
— Meu senhor! — e Delp se pôs em pé, empertigado, com
um salto.
— Fique quieto! — gritou Theonax. — Você falou demais
— declarou, e a cabeça voltou-se de um para outro lado. —
Capitães da Frota, ouviram como Delp hyr Orikan
recomenda que façamos a paz com criaturas inferiores aos
animais. Lembrem-se disso!
— Mas, meu senhor... — um oficial mais idoso levantou-
se, as mãos erguidas em protesto. — Meu senhor Almirante,
acabamos de ficar sabendo que eles não são animais... é
apenas um ciclo diferente. ..
— Mesmo aceitando que o Terreno tenha dito a verdade, o
que não é garantido, em absoluto, e daí? — retorquiu
Theonax, zombando de van Rijn. — Serve, apenas, para
piorar a questão. Animais não sabem o que fazem. Estes
Lannach'honai são sujos porque querem ser. E vocês os
deixariam viver? Vocês... comerciariam com eles...
entrariam em suas cidades... deixariam os filhos serem
seduzidos pelos... Não!
Os Capitães entreolhavam-se. Era como um gemido audível.
Apenas Delp pareceu ter a coragem de voltar a falar.
— Eu suplico humildemente ao Almirante relembrar que
não temos outra escolha. Se lutarmos contra eles, até o fim,
pode ser o nosso fim, também.
— Ridículo! — rosnou Theonax. — Você está com medo,
ou foi subornado por eles.
Tolk estivera traduzindo sotto voce para Trolwen. Agora,
com náuseas, Wace ouvia a resposta sombria do
Comandante a seu Arauto:
— Se ele adota essa atitude, não é possível tratado algum.
Mesmo que fizesse o tratado, ele sacrificaria os reféns a
nós... para não falar dos nossos com ele... só para renovar
a guerra, quando estivessem em condições. Vamos voltar,
antes que eu próprio viole esta trégua!
E aqui, pensava Wace, vem o fim do mundo. Vou morrer
apedrejado, Sandra morrerá na Terra da Geleira. Bem... nós
tentamos.
Preparou-se. O Almirante talvez não deixasse aquela
embaixada partir.
Delp olhava em volta, fitando os rostos dos presentes.
— Capitães da Frota! — gritou. — Peço sua opinião.
Imploro a que convençam meu senhor Almirante de que...
— A próxima palavra de traição, pronunciada por qualquer
um de vocês, haverá de custar-lhe as asas! — gritou
T'heonax. — Ou põem em dúvida minha autoridade?
Era um golpe audacioso, pensou Wace, em recanto do
cérebro que ondulava, apostar tudo que tinha naquele
desafio. Mas T'heonax, naturalmente, ia obter êxito;
ninguém, naquela sociedade governada por castas, negaria
seu poder absoluto, nem mesmo o corajoso Delp. Podiam
estar relutantes, mas os Capitães obedeciam.
O silêncio tornou-se estraçalhador.
Nicholas van Rijn o rompeu, com uma vaia prolongada e
cheia de calor.
Todos eles se sobressaltaram. T'heonax deu um salto para
trás. Por momentos, parecia-se a um gato bravo, com asas de
morcego.
— O que foi isso? — explicou.
— Você ser surdo? — respondeu van Rijn, com suavidade.
— Eu dizer.. . — e repetiu a vaia, com ondulações na voz.
— O que quer dizer?
— Ser um termo terrestre — explicou van Rijn. — O
melhor que eu poder traduzir... deixar ver... bem, querer
dizer que você ser um... — e as palavras que usou em
seguida foram o repertório de palavrões mais obscenos que
Wace ouvira em toda a sua vida.
Os Capitães arquejavam. Alguns sacaram as armas. Os
guardas Drak'ho, nos conveses de cima, agarravam-se às
lanças e arcos.
— Matem-no! — gritou Theonax.
— Não! — a voz de baixo de van Rijn explodiu em suas
orelhas. Bastou o volume, tremendo, para que ficassem
paralisados. — Eu ser uma embaixada, com os diabos! Vocês
atacar uma embaixada e a Estrela Polar ir mergulhar todos
nos mares ferventes do inferno!
Isso os deteve. Theonax não repetiu a ordem, os guardas
voltaram à imobilidade; os oficiais continuavam em pose
digna, afrontados, incapazes de falar.
— Eu ter algumas coisas para dizer — prosseguiu van Rijn,
em voz duas vezes mais alta do que uma grande buzina
marítima de neblina. — Eu falar para toda a Frota, e pedir
para vocês perguntar a si mesmos por que esse bostinha ser
tão estúpido. Ele fazer vocês continuar com uma guerra em
que os dois lados sair perdendo; ele fazer vocês arriscar as
vidas, as mulheres e os filhotes, talvez até a sobrevivência da
própria Frota: Por quê? Ele estar com medo. Ele saber, com
alguns anos de andar lado a lado com os Lannach'honai, e
ainda mais por comerciar com minha companhia, nos meus
preços que são fantasticamente baixos, então as coisas
começar a mudar. Vocês começar a pensar mais em si
mesmos. Vocês sentir o gosto da liberdade. Pouco a pouco,
o poder escapar das mãos dele. E ele ser covarde demais para
ganhar a vida de outra maneira. Nie, ele precisar de guardas,
de escravos, de vocês todos para ser o chefe, para provar a si
mesmo que não ser um camaradinha de bunda mole, mas
um Chefe verdadeiro. Ele preferir a ruína da Frota, até
morrer ele mesmo, a perder tudo isso! Estremecendo,
Theonax rosnou:
— Saia de minha jangada, antes que eu esqueça o armistício.
— Oh, eu sair, eu sair — disse van Rijn, adiantando-se na
direção do Almirante. Os passos reverberando no convés. —
Eu voltar e fazer a guerra de novo, se você insistir. Mas fazer
agora só uma perguntinha.
Dito isso, deteve-se diante da presença real e enristando o
nariz do soberano com o indicador peludo, indagou:
— Por que você criar tanto barulho por causa da vida
doméstica dos Lannacha? Poder ser que, por baixo, estar
querendo experimentar, também?
Dito isso, voltou-lhe as costas e, só então, fez mesura.
Wace não viu o que aconteceu em seguida. Havia guardas e
capitães entre eles. Ouviu o berro de raiva, o grito de van
Rijn, e logo se seguiu um furacão de asas à frente.
Atirou-se naquela confusão de corpos. Uma cauda bateu-lhe
nas costelas, quase não a sentiu. Seu punho trabalhava,
apenas para tirar o guerreiro da frente, e poder ver.
Nicholas van Rijn permanecia em pé, as duas mãos erguidas
no ar, enquanto um sem-número de lanças o ameaçava.
— O Almirante me morder! — gemia. — Eu estar aqui
como embaixada, e esse porco me morder! Que espécie de
relações entre países ser essa, quando o chefe de estado
morder embaixadores estrangeiros, hem? Um presidente na
Terra morder diplomatas? Isso não ser civilizado!
T'heonax recuava, cuspindo, limpando o sangue das
mandíbulas.
— Saia daqui! — berrava, a voz estrangulada. — Vá embora
agora mesmo!
Van Rijn assentiu.
— Vir comigo, amigos — disse. — Nós descobrir lugares
com gente mais educada.
— Libero... Libero, onde foi que ele... — e Wace se
aproximava.
— Deixe prá lá onde foi — respondeu van Rijn, azedo, em
ânglico.
Trolwen e Tolk vieram ter com eles. Os acompanhantes
Lannacha logo os seguiam, em formação. Caminhavam com
passos medidos, pelo convés, afastando-se da confusão de
Drak'honai, sob a muralha do castelo.
— Você devia saber — reclamara Wace, sentindo-se
exausto, esgotado de tudo, a não ser uma leve raiva pela
loucura inacreditável que o chefe cometera. — Essa raça é
carnívora. Você não viu quando eles mordiam o ar, ao
ficarem com raiva? É um... um reflexo... Você devia ter
sabido!
— Pois bem — disse van Rijn, em tom dos mais virtuosos,
ambas as mãos encobriam o ferimento. — Ele não precisava
morder. Não sou responsável por essa falta de controle ou
qualquer conseqüência da mesma.
— Mas, a confusão.. . podíamos ter morrido, todos nós!
Van Rijn não se deu ao trabalho de tecer comentários sobre
aquilo.
Delp veio ter com eles na amurada, a crista baixa.
— Lamento muito que tenha de terminar assim — disse. —
Poderíamos ter sido amigos.
— Talvez não terminar muito cedo — disse van Rijn.
— De que está falando? — e o olhar cansado de Delp o
fitava, sem esperanças.
— Talvez você ver muito depressa. Delp, escutar aqui — e
van Rijn pôs a mão paternal no ombro do Drak'ho. — Você
ser um rapazinho bom. — Eu poder usar alguém como você,
como agente para algumas transações de comércio por aqui,
em tempo parcial. E você receber boas comissões, natural.
Mas agora, lembrar que você é aquele de que todos gostar, e
que eles respeitar você. Se alguma coisa acontecer ao
Almirante, haver pânico e incerteza, mas eles procurar você
para orientação. Se você agir depressa em momento assim,
poder ser Almirante, você mesmo! E então, talvez a gente
fazer negócios, hem?
Deixou Delp boquiaberto, e desceu com velocidade simiesca
para a canoa.
— Agora, garotos — ordenou —, é remar feito o diabo.
Estavam quase de volta à própria frota quando Wace viu asas
enchendo o céu, erguendo-se na jangada real. Ele engoliu
em seco.
— O ataque... já começou? — e logo se amaldiçoava, pois a
voz lhe saíra igual a um gritinho imbecil.
— Bem, é ótimo não estarmos perto deles — afirmou van
Rijn, ainda em pé, como ficara por toda a viagem, e
assentindo de modo satisfeito. — Mas eu acho que não é a
guerra. Acho que eles estão perturbados, só isso. E logo o
Delp vai tomar o comando e acalmar aquele povo.
— Mas... o Delp? Van Rijn deu de ombros.
— Se as proteínas diomedanas são de morte para nós —
explicou —, as nossas não devem ser muito boas para eles,
hem? E nosso finado amigo Theonax tirou um bom bocado
de mim, encheu a boca. Isso serve para mostrar que gente
de mau gênio sempre acaba mal. É melhor você seguir meu
exemplo. Quando sou atacado, ofereço a outra face. Pois é,
uma boa piada, não?
O Pouso de Quinta-feira possuía poucas instalações
hospitalares: Um auto-diagnosticador, alguns robôs
cirúrgicos e terapêuticos, remédios comuns e o xenobiólogo
da estação, para agir também como médico. Mas o jejum de
seis semanas não apresentava conseqüências maiores, para
quem fosse forte e houvesse sido tratado de maneira
principesca por duas nações aflitas, em um planeta do qual
nenhuma doença podia afetar o paciente. O tratamento
marchava com rapidez, com auxílio de bio-acelerina, desde
a glicose intra-venosa a bifes grossos e mal passados. Ao
sexto dia diomedano, Wace já recuperara boa parte do corpo
e estava fraco, mas andando furiosamente no quarto que
ocupava.
— Quer fumar, senhor? — perguntou o jovem Benegal.
Estivera no circuito de comércio, quando a turma de socorro
chegara; só agora se punha a par de tudo quanto acontecera.
Oferecia cigarros com ar dos mais respeitosos.
Wace se fez alto, o roupão girando em torno dos joelhos.
Estendeu a mão, hesitou, sorriu e disse, então:
— Depois de todo aquele tempo sem fumo, acho que perdi
o hábito. A questão é saber se devo me dar ao trabalho e
despesa de voltar a contraí-lo.
— Bem, não, senhor...
— Ei! Dê-me isso! — e Wace sentou-se na cama, tirou uma
baforada cautelosa. — Eu, com toda a certeza, vou mesmo
retomar todos os meus vícios onde os deixei, e sem dúvida
adquirir mais alguns.
— O senhor, bem o senhor ia contar... como informar à
estação aqui. . .
— Oh, sim. Isso. Foi de uma simplicidade infantil. Eu
calculei em dez minutos, depois de podermos descansar. Era
uma simples questão de mandar um grupo diomedano de
boas proporções, com recado escrito, e um dos intérpretes
profissionais de Tolk, naturalmente, para ajudá-los a
procurar o rumo, neste lado de O Oceano. Era fazer uma
jangada grande, só a estrutura de troncos leves, que podiam
ser emendados por encaixe. Cada Diomedano carregava uma
das peças, eles montavam aquilo no ar e a punham na água,
descansando em cima, quando fosse necessário... e também
pescavam, em cima dela; bom número de peritos da Frota
foi com eles, para se encarregar dessa pesca. A chuva era
bastante para que a apanhassem em pequenos baldes e
pudessem beber a água. Eu sabia que haveria chuva, porque
os Drak'honai permanecem no mar por períodos
indefinidos, e também porque este planeta é muito chuvoso.
Faz uma pausa, prosseguiu:
— Digo de passagem, e por motivos que agora são evidentes
a você, o grupo teve que incluir algumas mulheres
Lannacha. Quero dizer que os mensageiros de ambas as
nacionalidades tiveram que abandonar alguns preconceitos
antiquíssimos. No decurso da coisa, isso vai mudar a história
deles e mudar mais do que qualquer impressão que nós,
Terrestres, possamos ter feito, mediante proezas como levá-
los de aeronave, de volta à casa, atravessando O Oceano em
um só dia. A partir de agora, por bem ou por mal, aqueles
que participaram nas viagens serão elementos subversivos
em ambas as culturas; serão a sementeira do
internacionalismo diomedano. Mas isso cabe à Liga, e não a
mim. Wace deu de ombros.
— Tendo despachado o grupo — concluiu —, só podíamos
cair na cama e ficar esperando. Depois dos primeiros dias, a
coisa não foi tão ruim assim, o apetite desaparece.
Esmagou o cigarro, fazendo careta. Aquilo o pusera tonto.
— Quando vou ver os outros? — interpelou. — Já estou
forte o bastante para sentir-me chateado. Quero companhia,
com os diabos!
— A bem da verdade, senhor — disse Benegal —, acredito
que o Libero van Rijn disse alguma coisa sobre... — e um
trovejante "Tripa de gato!" ecoou no corredor lá fora —
acerca de visitá-lo hoje.
— Vá dando o fora, então — disse Wace, sardônico. —
Você é novo demais para escutar o que vamos dizer. Nós,
irmãos de sangue, que desafiamos juntos a morte, camaradas
juramentados, coisas assim, estamos a ponto de efetuar uma
reunião.
Pôs-se em pé, enquanto o rapaz saía pela porta de trás. Van
Rijn entrou pela porta dianteira.
O volume joviano de seu corpo estava encolhido; ostentava
apenas um queixo, apoiava-se em bengala com castão de
ouro. Mas os cabelos estavam em madeixas caprichadas,
oleadas e negras, e bigode e barbicha eriçavam-se,
parecendo pontas de agulha; a camisa rendada e o colete de
tecido de ouro já exibiam manchas de rapé; as pernas eram
troncos peludos, por baixo de um sarong malaio; usava
verdadeira mina de diamantes em cada mão, e do pescoço
pendia uma corrente de prata que serviria para a âncora de
um encouraçado. Balançava um belo charuto Trichinopoly,
acima do sanduíche de quatro fatias, e a voz travejava:
— Você, então, já está andando. Bom sujeito! O único
modo de ficar bom é não beber essa água rala de batata e
ficar à toa, como aquele doutor de cavalos dos infernos teve
a coragem de me dizer para fazer.
Tornara-se purpúreo de indignação, prosseguia:
— Será que algum pensamento passa por aquela areia que
ele tem nas sinapses, que está me custando cada hora que
espero aqui? Que fortuna eu posso ganhar, se voltar para casa
e me enfiar no meio daqueles chacais sujos, os meus
competidores, antes que saibam da notícia de que Nicholas
van Rijn está vivo, afinal de contas? Acabei de dar bordoadas
no engenheiro da estação, em cima daquele cogumelo que
ele tem no lugar da cabeça, para dizer que se minha
espaçonave não estiver pronta para partir amanhã, ao meio-
dia, eu o amarro nela e solto os foguetes. Você então, volta
para a Terra com a gente, nie?
Wace não teve resposta imediata. Sandra acompanhara o
mercador, na visita que lhe faziam.
Ela vinha em cadeira de rodas, parecia tão descorada e magra
que o coração de Wace quase parou. Tinha os cabelos em
nuvem pálida e gelada sobre o travesseiro. Dava a impressão
que estariam frios, se os tocasse. Mas os olhos eram vivos,
imensos, com o verde caloroso e infinito dos mares mais
mansos da Terra; e sorria para ele.
— Minha senhora... — ele murmurou.
— Oh, ele vai também — explicou van Rijn, escolhendo
uma maçã na cesta de frutas, ao lado da cama de Wace. —
Nós todos continuamos a viagem interrompida, talvez sem
muita alegria e brincadeiras a bordo — e baixou um olhar
cinzento de granizo para ela, de modo lascivo. — Isso, a
gente deixa para depois, na Terra, quando estiver tudo
normal outra vez, hem?
— Se minha senhora tem forças para viajar... — gaguejava
Wace, sentando-se, pois os joelhos já não mais o
agüentavam.
— Oh, sim — murmurou ela. — É apenas uma questão de
obedecer à dieta que foi prescrita, descansar bastante.
— A pior coisa que pode fazer, com os diabos — resmungou
van Rijn, acabando com a maçã e apanhando uma laranja.
— Não é adequado — contestou Wace. — Perdemos tantos
criados quando o cruzador caiu... ela só teria...
— Uma criada para me ajudar? — e a risada de Sandra era
fantasmagórica, mas continha verdadeiro divertimento. —
Depois de tudo por que passei, devo esquecer o que fizemos
e agüentamos, e mostrar-me correta e formal com você,
Eric? Isso seria uma bobagem, depois de termos subido
juntos a elevação em Salmenbrok, não?
O coração de Wace disparava. Van Rijn, jogando cascas de
laranja no chão, afirmou:
— Dos golpes de azar, o Bom Senhor pode tirar muito
dinheiro, se Ele quiser. E eu não posso conhecer todos os
homens na Companhia, de modo que moços bons como
você às vezes vão ficar perdidos em estações pequenas,
como aqui. Agora, vou levar você para a Terra, dar-lhe um
bom emprego, que pague bem.
Se ela pudesse lembrar-se da manhã fria, sob o Monte
Oborch, pensava Wace, ele, pelo bem de sua virilidade,
podia lembrar-se de coisas menos agradáveis, e enumerá-las
em palavras claras. Chegara a ocasião.
Ainda estava fraco demais para se levantar — tremia um
pouco — mas chamou o olhar de van Rijn e disse, com a
voz cheia de raiva.
— É o meio mais fácil de voltar ao seu amor próprio,
naturalmente. Comprar! Subornar-se com uma sinecura,
para esquecer como Sandra esteve sentada, de pincel, em
um saco de carvão que era aquela sala, até desmaiar de
esgotamento, e como nos deu a última comida que tinha...
como eu trabalhei, de cérebro e com o coração, para nos
tirar daquela terra que era uma cadeia e ganhar uma guerra,
ainda por cima. Não, não me interrompa. Eu sei que você
teve alguma participação naquilo. Lutou naquela batalha
naval, porque não tinha outra coisa para fazer, não tinha
onde esconder-se. Achou um modo pavoroso e bom para
acabar com um obstáculo inconveniente às negociações de
paz. Você tem talento para esse tipo de coisas. E fez algumas
sugestões, reconheço tudo isso.
Uma pausa para respirar, e ele aduzia:
— Mas, em que deu aquilo tudo? Deu em você dizer a mim:
"Faça isto! Construa aquilo!" E eu tinha de fazer, com
ajudantes que não eram humanos, com ferramentas da idade
da pedra. Tinha até de desenhar! Qualquer imbecil podia ter
dito: "Leve-me à Lua". Era preciso cérebro, para imaginar
como!
Nova pausa e ele prosseguia:
— O seu papel, a sua "liderança", consistia em passear, jogar
e bater papo, fazer política barata, comer como um
hipopótamo, enquanto Sandra morria de fome em
Dawrnach, e chamar a si a autoria de tudo! E agora, quer que
eu vá para a Terra, fique sentado em uma pocilga dourada de
gabinete, passando o resto da vida a girar os polegares e ficar
calado, enquanto você se vangloria. Não é assim?
Ele encerrava:
— Para mim, chega! Não posso impedir que você continue
sugando a sociedade, mas posso arrancá-lo de mim. Pegue a
sua sinecura e enfie...
Wace notou que Sandra cravava os olhos nele, em expressão
séria, singularmente compadecida e parou no que dizia.
— Peço demissão — declarou.
Van Rijn engolira a laranja e voltara ao sanduíche, enquanto
Wace falava. Agora soltava um arroto, lambia os lábios,
tirava nova baforada do charuto e prosseguia, em tom muito
suave:
— Se você pensa que eu dou sinecuras, está sendo otimista
demais. Estou oferecendo um emprego importante, e o
motivo é que acho você melhor do que alguns bestalhões na
Terra. Vou pagar o que o emprego vale. E, com os diabos,
você vai trabalhar feito cão.
Wace respirava com dificuldade.
— Vá em frente, e me xingue, até em público, se quiser —
disse van Rijn. — Mas não xingue, em tempo da companhia.
Agora, vou descobrir quem pôs a bomba naquele cruzador, e
cuidar do miserável. E quem sabe se o cozinheiro pode me
preparar um bom sanduíche italiano, de herói? Dinamite e
mortandade, eles querem me matar de fome, essa gente!
Acenou com a pata cabeluda e se retirou, como se fosse um
afável terremoto.
Sandra fez a cadeira rodar, pôs a mão na de Wace. Era um
toque frio, leve como folha caindo em outubro, no
Setentrião, mas ainda assim o queimava. E de muito longe,
ele ouviu as palavras:
— Esperei que isto acontecesse, Eric. É melhor você
compreender agora. Eu, que nasci para governar... toda a
minha vida foi uma governança prolongada, não? Sei do que
estou falando. Existem os dirigentes falsos, os balões de ar,
que só têm talento para atrapalhar os outros. Sei que
existem. Mas ele não é um desses. Sem ele, você e eu
estaríamos mortos, sob as águas de Achan.
— Mas...
— Você se queixa de que ele o obrigou a fazer as coisas
difíceis e pesadas, onde usou seu talento, e não o dele? Claro
que foi assim. Não cabe ao dirigente fazer tudo
pessoalmente. O que cabe a ele é dar ordens, persuadir,
empurrar, subornar... exatamente isso! Para que as pessoas
façam o que deve ser feito, achando ou não possível... aí
está o trabalho de um chefe.
Ela se deteve, tomou fôlego, prosseguia:
— Você diz que ele passou tempo vagabundando, em
conversa, fazendo piada e ostentando uma fachada falsa,
para impressionar os nativos? É claro! Alguém tinha de fazê-
lo. Éramos monstros, criaturas estranhas, mendigos também.
Você podia, podia eu, ter começado como mendigo
deformado, e terminar como um rei?
Nova pausa, e ela seguiu:
— Você diz que ele subornou... com coisas que ganhou
em jogo de dados viciados. . . e mentiu, tapeou, embrulhou,
fez política, matou aberta e disfarçadamente. Sim. Não
afirmo que fosse certo. Não digo que ele, também, não
tenha gostado de fazê-lo. Mas você sabe de algum outro jeito
pelo qual pudéssemos recuperar as vidas? Ou mesmo de
levar a paz àqueles pobres demônios em guerra?
— Bem... bem... — ele arredou o olhar, fitando a
paisagem escarpada pela janela. Seria bom, morar bem,
morar dentro do horizonte mais estreito da Terra.
— Talvez — prosseguiu ele, afinal, e dizia cada palavra com
relutância. — Eu... acho que fui apressado demais. Ainda
assim, nós também desempenhamos nosso papel, como
sabe. Sem nós, ele.. .
— Acho que, sem nós, ele teria descoberto algum outro
jeito de voltar para casa — interrompeu Sandra. — Mas nós,
sem ele, não.
Wace sacudiu a cabeça. O rosto dele exibia vermelhidão
mais profunda do que a luz do sol em braseiro, lá fora,
poderia conferir-lhe.
E Wace pensava, tomado de cansaço repentino: Afinal de
contas, ela é uma mulher, e as mulheres vivem mais para a geração
seguinte do que os homens o podem fazer. De modo especial
acontece com ela, pois a vida de um planeta pode depender de seu
filho, e ela é uma aristocrata, na expressão antiga e pura da palavra. O
pai do próximo Duque de Hermes pode ser velhusco, gordo,
grosseiro, insensível e sem consciência, incapaz de vê-la como outra
coisa senão um acontecimento animado. Não importa, se a mulher o
vê como homem.
Pois bem, tenho muito que agradecer a ambos.
— Eu... — Sandra parecia confusa, como se houvesse
caído em uma armadilha. O olhar emitia uma súplica
silenciosa. — Eu acho melhor sair daqui, deixar que você
descanse.
E após momentos, em que Wace ficou silencioso, aduziu:
— Ele ainda não está tão forte quanto afirma. Pode
necessitar de mim.
— Não — disse Wace, com ternura imensa. — A
necessidade é toda sua. Adeus, minha senhora.
| Lançamento Gênesis do Conhecimento A Guerra dos Homens Alados - Poul Anderson links ao final da mensagem digitalização - Vitório formatação e revisão - Lucia Garcia O Grande Almirante Syranax hyr Urnan, Comandante-em-Chefe hereditário da Frota de Drak'ho, Pescador do Mares Ocidentais, Chefe do Sacrificio do Oráculo da Estrela Polar, abriu as asas e voltou a fechá-las, em um trovão de espanto. Por momentos aquilo fez os papéis na escrivaninha revoar. Não! Impossível! Houve algum engano. Como quiser o meu Almirante disse o Oficial Executivo Delp hyr Orikan, com mesura sarcástica. Os batedores nada viram. A expressão de raiva perpassou o rosto do Capitão T'heonax hyr Urnan, filho do Grande Almirante e seu herdeiro. Seu lábio superior ergueu-se, fazendo os colmilhos caninos aparecer em relance branco contra o focinho escuro. Não dispomos de tempo para gastar com sua insolência, Executivo Delp disse, friamente. Eu aconselharia meu pai a dispensar o oficial que não demonstrar mais respeito. Sob as correias bordadas que lhe indicavam o cargo, o corpanzil de Delp retesou-se. O Capitão T'heonax deu um passo em sua direção. As caudas se curvaram e as asas se abriram, em presteza para a luta, até que o aposento estivesse cheio de seus corpos e seu ódio. Em movimento calculado, que parecia ocasional, T'heonax baixou a mão para o ancinho de obsidiana que trazia à cinta. Os olhos amarelos de Delp reluziam, os dedos se fechavam em sua própria machadinha. A cauda do Almirante Syranax bateu no chão. Era como uma bomba explodindo ali mesmo. Os dois jovens nobres sobressaltaram-se, lembraram-se de onde estavam e devagar, músculo após músculo voltando ao repouso, por baixo da pelagem castanha luzidia, afrouxaram os corpos.
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